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Poesia & Contos Infantis

 

 

 


AS MULHERES DA CASA DO TIGRE/Marion Zimmer Bradley
AS MULHERES DA CASA DO TIGRE/Marion Zimmer Bradley

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

AS MULHERES DA CASA DO TIGRE

 

ADELE

               A religiosa Elfrida ajoelhou no chão de pedra fria no seu lugar no templo, rodeada pelos outros Hábitos Cinzentos, entoando cânticos à Deusa e contemplando o Coração do Poder, a  representação física da Deusa Brilhante e o centro vital de todos os cultos no templo. Sentia-se mais em casa no Grande Templo de Merina do que em qualquer outro local da Terra, e não tinha nenhuma dificuldade em entrar em transe quando ali se ajoelhava para rezar.

               Dizia-se do Coração, suspenso do tecto a meio do templo, que era um pedaço do sol, o corpo da Deusa caído do Paraíso e que tinha aterrado naquele local ainda em chamas. O templo fora construído com o objectivo específico de o acolher e, com o passar dos anos, artesãos do templo tinham-no decorado sumptuosamente.  De acordo com a lenda, este fora originalmente uma estranha rocha resplandecente, mas depois de ter descido à Terra tinha sido revestido com ouro e engastado com tantos rubis, que o ouro era inteiramente invisível. Este não era o único templo do mundo a ter em sua posse uma relíquia Daquela que Habita Para Lá das Estrelas, mas esta relíquia era uma das mais sagradas. Outras poderiam ser maiores, estar mais bem decoradas ou serem conhecidas por mais milagrosas, mas a religiosa Elfrida preferia estar ali a estar em qualquer outro lugar.

               O Coração estava dependurado precisamente ao centro do tecto abobadado, tecto esse desprovido de qualquer outra decoração para além dos arcos da própria abóbada, o que fazia com que o olhar se dirigisse inexoravelmente para o Coração, qualquer que fosse a direcção inicial. Ele resplandecia sempre com qualquer luminosidade, até mesmo à luz fraca das velas do primeiro dos rituais nocturnos, atraindo para o céu a atenção dos que ali oravam, para o céu onde a Deusa se encontrava. Isso era, aliás, o mais indicado, visto que a maioria dos que ali vinham rezar, contrariamente ao que acontecia nos templos das paróquias, eram membros das Quatro Ordens, fossem eles noviços ou religiosos com votos, e não os vulgares cidadãos de Merina.

               O Grande Templo de Merina não era um local de encontros românticos, coscuvilhice, ou quaisquer outras intromissões da vida mundana; intromissões que ocorriam com demasiada frequência noutros templos.

               Dado que a maioria da comunidade do templo, qualquer que fosse a cor dos seus hábitos, sabia entoar os cânticos à Deusa sem ter que os ler, havia com freqüência mais gente a contemplar o Coração do que a olhar para os livros de cânticos. Era, aliás, possível distinguir os verdadeiramente devotos dos outros pela forma como enterravam, ou não, os narizes nos livros de cânticos.

               A religiosa Elfrida despertou subitamente do semi-transe em que os cânticos a induziam e apercebeu-se de que alguém a olhava; teve uma sensação de presença e de que alguém estava a tentar despertar-lhe a atenção. Quem poderá ser a esta hora? Ou, talvez melhor dito, o que poderá ser...?

               Desviando os olhos fatigados para mais perto do local onde estava ajoelhada (não sem alguma dificuldade, pois os seus olhos, tal como aliás toda ela, já não eram tão jovens e flexíveis como tinham sido) viu um anjo, um dos mais pequenos que serviam de mensageiros da Deusa. Por instantes sentiu o assomo de excitação e exaltação que sempre sentia quando tinha o privilégio de ver um visitante divino; um sentimento de exaltação que nunca abrandava, independentemente do número de anjos que já vira e, naquela altura, com o passar dos anos, já lhes tinha perdido a conta.

               Como é evidente, isso pode dever-se à perda da minha frágil memória de mortal!

               O anjo estava de pé junto ao altar, mais perto das filas de devotos ajoelhados do que do próprio altar. Poder-se-ia confundi-lo com um dos acólitos, se não fosse a sua aparência não ter nada de vulgar. Como acontecia com todos os da sua espécie, o seu rosto era assexuado e belo para lá de tudo o que é humano; e o poder nele contido transmitia a ilusão de brilhar numa luz emanada de dentro de si. O seu poder estendia-se para além da sua cabeça e dos seus ombros, criando a ilusão de um imenso par de asas erguidas a partir das omoplatas, e uma auréola luminosa em torno da cabeça acentuava a impressão de Luz. Não havia qualquer possibilidade de o confundir com qualquer outra coisa que não aquilo que, de facto, era e Elfrida sentiu por instantes piedade da sua filha e da sua neta, que não conseguiam ver aqueles mensageiros em toda a sua terrível beleza.

               Assim que se apercebeu de que dispunha da sua atenção, o anjo ergueu um dos braços num gesto tão gracioso quanto a beleza do seu rosto e apontou na direcção do Palácio Real. A religiosa Elfrida susteve um suspiro de cansaço e curvou a cabeça, num assentimento para o anjo e num gesto de exaustão ou devoção para qualquer outro observador. Estava bastante certa de que mais ninguém via aquele anjo, embora muitos dos membros do templo conseguissem ver a maior parte dos anjos. Este fora-lhe enviado só a si para lhe comunicar que agora, em vez de retornar ao seu quarto no templo e dormir entre o fim deste ritual e o início do seguinte, teria que reassumir a sua identidade mundana e ir até aos seus aposentos no palácio. Alguém a procuraria ali nessa noite.

               Normalmente uma pessoa não tem anjos atrás de si como se fossem jovens pajens ansiosos por transmitir mensagens. Algo de muito grave se deve estar a passar. Sabia do que certamente se trataria; o imperador Balthasar e o seu Exército Imperial caminhavam ameaçadoramente na direcção de Merina já há algum tempo, mas durante as últimas semanas o perigo tornara-se muito mais imediato. Existira a vaga esperança, havia ainda apenas alguns dias, de que ele se pudesse sentir atraído por outro fruto mais apetitoso; as terras de Sarcen com as suas sedas e pérolas, talvez. Houvera mesmo uma esperança de que ele pudesse ser atraído para longe de Merina ou mesmo que pudesse ser comprado. Esta noite, muito provavelmente, todos os planos e esperanças teriam falhado e a ameaça tornara-se realidade.

               O que queria dizer que Balthasar, comandando o maior exército de conquista que o mundo alguma vez vira, marchava para conquistar o seu pequeno refúgio.

               E nós não estamos em condições de resistir a um exército.

               Felizmente os religiosos não falavam uns com os outros durante a noite e ninguém daria pela sua falta, a não ser que não voltasse a tempo do ritual seguinte. E mesmo que nessa altura não estivesse no seu lugar, ninguém a procuraria antes da manhã. Não era assim tão pouco usual que um religioso dormisse durante alguns dos rituais das horas de escuridão; toda a gente o fazia ocasionalmente. Ninguém podia tomar votos até ter pelo menos trinta e cinco anos, o que queria dizer que uma larga percentagem dos religiosos era, na realidade, bastante idosa, e como Elfrida poderia facilmente testemunhar, os mais idosos tinham mais necessidade de descansar do que os jovens e vigorosos.

               E eu sinto mais os meus anos a cada dia que passa.

               Um pesado, ainda que invisível, manto de exaustão caiu-lhe sobre os ombros. Esta vida dupla que levava não estava a ajudar nada. Ter-se-ia sentido imensamente satisfeita se pudesse arrastar os joelhos doloridos e os tornozelos ancilosados de volta à sua pequena cela para um merecido descanso, mas parecia que não iria ter essa oportunidade. Assim, uma vez terminado o serviço religioso, em vez de voltar ao seu quarto, a religiosa Elfrida desviou-se discretamente para um dos corredores secundários, desceu-o até ao nível mais baixo do templo e entrou numa passagem secreta só conhecida por ela própria e pela grande sacerdotisa Verit.

               A passagem ligava o templo ao palácio, ramificando-se de forma cuidadosamente oculta para outros locais na cidade e reino de Merina. O corredor de pedra era escuro, fresco e mesmo um pouco húmido. Um truque de construção fazia com que os passos soassem abafados e fossem inaudíveis a poucos metros de distância.

               Perto da entrada do palácio havia uma pequena alcova contendo uma arca, um banco, uma pequena mesa com um espelho e um candeeiro dependurado de um suporte de ferro preso à

parede de pedra. A religiosa Elfrida acendeu o candeeiro, abriu a arca, de onde retirou um roupão de brocado trabalhado e uma caixa de cosméticos; trocou o hábito cinzento e sem forma pelo roupão, e maquiou cuidadosamente o rosto. O roupão era um pouco mais quente do que o hábito, mas também era mais pesado... e os deveres que representava pesavam-lhe mais nos ombros do que o peso de qualquer tecido.

               Quando ficou pronta ninguém teria reconhecido nela a religiosa  Elfrida, que passara os últimos dois anos sob os votos do templo. Mas qualquer um dos habitantes da cidade teria reconhecido Adele, a rainha-mãe de Merina, a reverendíssima, a chefe secular do templo, tal como a grande sacerdotisa Verit era a sua chefe espiritual.

               Adele apagou o candeeiro com um sopro, espreitou através de uma fresta na parede para se certificar de que o seu quarto estava livre e abriu o painel secreto ao lado da sua cama. O painel era mais pesado do que parecia, embora fosse mais fácil de deslocar do que se poderia pensar. Quem quer que tivesse sido o construtor daquela entrada tivera em conta o facto de aqueles que a iriam usar já não estarem provavelmente no auge da vida.

               O painel era de madeira do lado do quarto, madeira entalhada que escondia as dobradiças, mas era revestido a pedra no lado interior, para que não emitisse um som “cavo” se alguém andasse à procura de passagens secretas. A maioria das portas que davam acesso às passagens secretas estavam construídas dessa forma.

               A porta girava sobre um ponto de equilíbrio judiciosamente encontrado, o que permitia a uma mulher idosa, com articulações perras e músculos cansados, abri-la e fechá-la de novo. Não estavam presentes quaisquer criados, se bem que alguém da sua posição devesse ter pelo menos uma camareira; simulando uma atitude piedosa, ela dispensara todos os criados quando iniciara esta vida dupla, sabendo que uma criada se aperceberia se ela não tivesse dormido em casa.

               Depois de ter fechado a porta oculta atrás de si e de a ter trancado, deitou-se pesadamente na cama decidida a dormir o tempo que pudesse antes que a procurassem. Tinha a sensação que nos dias que se avizinhavam iria necessitar de todo o descanso de que agora conseguisse desfrutar.

               No entanto, não conseguiu adormecer imediatamente. Dominou o impulso de ir à procura de um criado para tentar saber o que tinha acontecido. A paciência era uma virtude e não era provável que, neste caso, a impaciência lhe trouxesse qualquer benefício. Era muito provável que ninguém, nem mesmo a princesa Shelyra, agora a responsável pelo corpo de espiões e investigadores, soubesse ainda “o que estava a correr mal.” O anjo fora enviado para lhe comunicar que ela seria necessária; não que era necessária naquele momento exacto. Quando ela lhe fizera sinal de que percebera, ele tinha, evidentemente, desaparecido. Era esse o problema dos visitantes do outro mundo. Nunca se davam ao trabalho de se explicar.

               Os lençóis frios aqueceram com o seu corpo e ela começou a relaxar. Este era um conforto mundano de que sentiria falta quando chegasse o momento de se tornar verdadeiramente Elfrida. As camas nos claustros do templo não eram particularmente confortáveis, visto os pensamentos dos religiosos serem supostamente dirigidos para a Deusa e não para os seus próprios corpos... Embora talvez fosse mais fácil uma pessoa concentrar-se na Deusa se não estivesse cheia de dores nos ossos.

               Compreendo a necessidade de esquecer os confortos e indulgências do mundo, mas se temos bancos para aqueles que não conseguem ajoelhar-se, não deveríamos também condescender com aqueles cujas articulações doem durante a noite?

               Talvez quando chegasse a altura de ela própria substituir Verit pudesse levar a cabo essa pequena reforma. Isto desde que conseguissem sobreviver aos planos que o imperador tinha para Merina, evidentemente. E com esse pensamento animador, o sono que procurara finalmente condescendeu e desceu sobre si.

 

LYDANA

               A mulher deitada na grande cama fechada pelo dossel acordou, mas não se moveu nem abriu os olhos, embora estivesse tão alerta como um dos bem treinados membros da guarda avançada do imperador. Ao longo dos anos, os seus cinco sentidos tinham sido deliberadamente apurados, até ficarem aguçados como um punhal bem estimado e, para além deles, dispunha também de um sexto sentido que despertava lentamente: o dom da sua casa e da sua linhagem.

               Utilizou-o naquele momento, explorando o espaço como uma aranha que lança a teia. Sim, o quarto fora invadido. A sua mão moveu-se cautelosamente sob os cobertores pesados. Ousou entreabrir ligeiramente as pálpebras. Não havia qualquer luz; mesmo assim, procurou uma sombra que se movesse no escuro. A sua mão estava agora por cima da cabeça, os dedos sob a grande almofada, perto daquilo que procurava: o punho de um delicado mas mortífero punhal, concebido para ser oculto entre as pregas de um vestido durante o dia e que não produzia qualquer protuberância reveladora num leito durante a noite. Uma arma cuja eficácia provara duas vezes em anos anteriores e que estava pronta a testar de novo, ali naquele preciso momento.

               A sua mão esquerda deslizou, em direcção ao outro lado da cama, tão silenciosamente como se de uma cobra de água se tratasse até tocar pele quente e firme. O seu dedo bateu-lhe de leve por duas vezes antes de falar. O olfacto viera em sua ajuda; havia no ar um levíssimo odor a sabonete de ervas.

               - Então, Shelyra, andaste outra vez a explorar as passagens interiores e encontraste um novo caminho para nos surpreenderes?

               Ouviu-se uma exclamação na escuridão, meio irritada, meio pesarosa.

               - E a minha querida tia tem agora visão nocturna, é? - A voz era suave, mas grave para uma mulher.

               - Tenho os olhos com que nasci, mas tu és menos eficiente nessas actividades furtivas do que pensas, minha querida sobrinha. Um dia  destes, quando  tentares  uma brincadeira  desse gênero, ainda encontras a Skita à tua espera e pronta a dedicar a sua atenção a alguma parte da tua anatomia que não tens vontade nenhuma de ver molestada, o que seria um acidente que todos nós lamentaríamos muito.

               Lydana, da Casa do Tigre, soberana do grande porto de Merina, do Estado e da cidade, sentou-se na cama. Embora não tivesse proferido qualquer ordem, um candeeiro acendeu-se espalhando a sua luz reveladora.

               Aquela que o segurava não era mais alta do que uma criança. Contudo, o seu corpo elegante e a sua bela estrutura óssea, bem como a pele cor de marfim, eram os de uma mulher plenamente desenvolvida e os seus olhos amendoados não poderiam pertencer ao rosto de uma criança.

               A intrusa avançou para o círculo de luz que o candeeiro projectava. Também ela era uma mulher, ou antes, uma jovem que ainda não atingira totalmente a idade adulta por que tanto ansiava. Tinha as mesmas feições ligeiramente imperiosas da rainha, se bem que suavizadas pela juventude. O seu cabelo escuro fora entrançado e preso à cabeça, mantido no lugar por um pequeno travessão de metal. Ao lado da mulher que segurava o candeeiro, parecia enorme, coberta por um fato negro de uma só peça que se colava ao corpo e sobre o qual trazia apenas um cinto; dele pendiam, embainhados, um punhal fino e estreito e a lâmina mais longa de um punhal de caça.

               A pouca pele visível estava bronzeada pela exposição aos elementos e, não fora a pequena protuberância dos seus seios, poderia ser um rapaz. Fez uma careta à mulher que segurava o candeeiro e, sem esperar por um convite, sentou-se aos pés da cama.

               Uma vez sentada virou-se para enfrentar a rainha e estendeu uma das mãos. Na palma da mão tinha uma caixa oval não maior do que uma noz, totalmente coberta por uma tinta negra que a fazia parecer tão pouco interessante como qualquer pedra que se pudesse encontrar num dos caminhos fora das muralhas.

               Lydana ficou a olhá-la durante algum tempo. Não havia qualquer alteração na impassividade cuidada do seu rosto, mas aquilo que via, ali, naquele momento, constituía um choque.

               - Quem? - perguntou secamente.

               - Suponho... - Shelyra hesitou e a sua boca fez um esgar como se tivesse mordido algo de amargo. - Rosthen.

               - Supões...

               A rapariga mexeu-se na cama e uma sombra de medo misturado com repugnância espalhou-se-lhe no rosto.

               - Os bichos já o tinham atacado. Ele estava mesmo junto à quarta entrada. Ele... Ele tinha uma ferida entre os ombros... e deixou um rasto de sangue. Não foi atingido no sítio onde morreu.

               Mantinha a voz controlada, notou Lydana, apesar do facto de estar provavelmente muito perturbada. Sim, esta filha do irmão era mesmo de sangue legítimo.

               Movendo-se com rapidez, a rainha inclinou-se para a frente e pegou na pequena caixa. A unha do seu indicador pressionou a mola dissimulada e a tampa abriu-se com força, pela razão óbvia de a caixa estar tão cheia que a pressão sobre as dobradiças minúsculas era enorme. Sem que fosse necessário ordenar-lho, a pequena mulher chegou o candeeiro para mais perto, por forma que a sua luz incidisse directamente sobre a folha que Lydana alisava. Lydana leu as primeiras linhas e pela primeira vez a voz embargou-se-lhe.

               - Vamos ter com a reverendíssima - disse, apertando a mensagem contra si enquanto deslizava para fora da cama.

               Skita trotou na dianteira, de candeeiro na mão, Lydana e Shelyra logo atrás. Foi a mulher mais nova que afastou um painel de bordados brilhantes, abrindo espaço para que Lydana pudesse pressionar os pequenos fechos. No interior daquele palácio enorme e antigo existiam muitas passagens subterrâneas e os descendentes da Casa do Tigre aprendiam a utilizá-las desde a infância, sendo cuidadosamente instruídos na abertura de estranhas fechaduras, pressões, torções e nas voltas dos caminhos e escadas secretas.

               Não andaram muito. Skita afastou-se para que a rainha batesse quatro vezes num painel macio encastoado na parede. Após uma pausa, este abriu-se. Na sua frente estava a mãe de Lydana e avó de Shelyra, a rainha-mãe Adele, que se encontrava no processo de passar da vida cheia da corte, para uma outra vida menos brilhante na aparência, mas com muito mais brilho interior, no Templo do Coração do Poder.

               - Algum problema?

               Na voz de Adele transparecia uma nota ofegante e Lydana questionou-se se teria razão para as suas apreensões. Os anos de Adele eram já muitos e os dois últimos anos de transição pareciam tê-la deixado exausta. Lydana sabia que Adele passava muito do seu tempo no templo e perguntava-se freqüentemente por que razão a sua mãe ainda continuava a ir à corte. Ao olhar para a pequena figura que se apoiava na moldura da porta para se manter erecta e para o rosto sombreado pela luz do quarto atrás de si, Lydana podia antever o seu próprio destino. Aqueles que não tinham conhecimento das suas vidas chamavam-lhes abençoadas; ela pelo contrário sentia muitas vezes que carregavam uma praga. Embora Adele parecesse ter acolhido a transição com uma alegria tranquila, continuava a agarrar-se à vida da corte e aquela vida repartida estava a esgotá-la.

               Até à menopausa, todas as verdadeiras filhas do Tigre eram como as outras mulheres. Sim, tinham pequenos dons que exercitavam, se fossem sensatas. Mas quando a menopausa as atingia, iniciava-se a grande mudança: certos talentos adormecidos durante anos despertavam, forçando a sua detentora a usá-los.

               Era então que aquela que governava a Casa e a própria Merina devia abdicar do poder temporal e trocá-lo pelo poder espiritual e ainda, segundo os rumores, tomar sobre si o fardo mais pesado de congregar as forças do outro mundo para a protecção comum.

               Bem que precisariam dessas forças, pensou Lydana lugubremente, ao ver virar-se contra si todo o poderio da pior ameaça do seu mundo e do seu tempo. O que lhe trouxe a mensagem novamente à idéia.

               - A Shelyra encontrou... Rosthen...

               Viu as mãos da mãe erguerem-se no sinal da Bênção-aos-Mortos.

               - Ele conseguiu, apesar das feridas, chegar ao quarto caminho. Trazia isto. - Deu-lhe o papel.

               - Rosthen era o melhor dos nossos Olhos e Ouvidos – disse Adele. - Lê a mensagem pela qual, e para que a pudéssemos ler, ele deu a vida.

               - Balthasar avança - não existe defesa contra as suas forças. Por trás dele está Apolon - um grande servo das Trevas. Apolon quer o Coração e todo o seu poder.

               Adele inspirou profundamente, quase num suspiro. As suas mãos ergueram-se num gesto que lhes era familiar e os olhos da velha senhora cerraram-se. Procurava entrar em transe para melhor poder invocar os poderes em sua ajuda. Passou um minuto que lhes pareceu muito longo até que os olhos de Adele se voltassem a abrir e ela suspirou de novo.

               - Assim seja - disse ela calmamente. - Merina viverá ou morrerá, dependendo da nossa decisão. Pensemos no que tem que ser feito e voltemos a encontrar-nos à terceira hora.

               Lydana inclinou a cabeça, notando como a mãe usara distraidamente os horários do templo. Aqui os dias eram divididos em horas, começando a contagem na madrugada. Um encontro à terceira hora permitir-lhes-ia tomar o pequeno-almoço antes de chegar àquela que seria certamente uma decisão difícil. Shelyra pareceu querer falar, mas a tia franziu-lhe o sobrolho e ela manteve-se silenciosa. Regressaram aos aposentos da rainha pela mesma passagem secreta.

               - Temos que mobilizar a guarda... as Guildas... – exclamou a rapariga, ainda o painel não se tinha fechado completamente nas suas costas. Lydana abanou a cabeça.

               - Este imperador Balthasar é impiedoso. E neste momento tem o nosso mundo praticamente todo debaixo do seu punho de ferro. Filha, tu nunca viste uma cidade saqueada... o sangue de todos,  até de crianças,  correndo nas sarjetas,  tortura, mortos aos milhares. É isso que queres para Merina? No ultramar assisti à conquista de uma cidade... - Os olhos da rainha fecharam-se por momentos e os seus lábios cerraram-se. - Era uma visão comparável à que poderá ter um condenado aos Infernos. Pensas que os nossos pequenos regimentos, cuja função é sobretudo o patrulhamento das nossas ruas, que os membros das nossas Guildas, sem qualquer treino, poderão fazer frente a um exército que não deixou senão vitórias no seu rastro?

                Mas... - protestou a rapariga.

               Lidana continuou impiedosamente.  O melhor era a rapariga ouvir a verdade nua e crua e sem rodeios.

                Balthasar cobiça Merina e o seu comércio próspero; isso já o sabemos há anos. Não pode ser comprado, pois quer ser o poder supremo em todos os locais onde se projecte a sua sombra. É essa a sua natureza. Agora, Rosthen (que os Anjos dos Guerreiros o levem, velozes, para o Local da Paz) trouxe-nos notícias bem piores. Já ouvi falar desse Apolon, mas muito pouco. Ele mantém-se nas sombras a coberto do trono do imperador e, talvez por isso mesmo, seja ainda mais mortífero.  Se ele é detentor de poderes malignos, então pode mesmo influenciar de forma muito decisiva o homem que julga ser o seu senhor. Apolon quer o Coração... creio que Rosthen nos trouxe o pior dos avisos.

               - Mas - a rapariga mexia agora no punho da sua faca mais longa - o Coração está para além de qualquer feitiço...

               - O Coração tem agora as suas raízes na grande sacerdotisa Verit. Ela é poderosa... e tem como seus guardas os que se encontram nos claustros. Mas podemos muito bem estar perante a circunstância de uma única vida estar entre Apolon e aquilo que ele cobiça.

               - Então, que havemos de fazer? Vamos carregar-nos com as correntes dos escravos e vamos saudar Balthasar deitados de rosto no pó?

               - Fazemos o que a reverendíssima sugeriu: pensamos. Agora vai descansar, criança. Os problemas da manhã não tardarão a chegar.

               Shelyra foi-se embora com visível relutância. Mas Lydana não voltou para a cama. Skita pousara o candeeiro numa pequena mesa e dirigira-se a um roupeiro alto, de onde tirou um fato muito semelhante ao de Shelyra. Atirou-o para cima da cama juntando-lhe uma capa e um par de botas. Lydana sorriu.

               - Tens razão, minha fada guerreira, devemos também nós procurar conselho. Quando se procura aprender alguma coisa sobre armas deve-se ir ter com aquele que melhor as conhece. Que assim seja.

               Vestiu rapidamente as roupas pretas, puxando o capucho da capa bem por sobre a cabeça. Skita tirara roupas semelhantes para si própria de uma caixa junto à porta. Não agarrou no candeeiro, pois não precisavam de luz para percorrer um caminho tão familiar e que tantas vezes as duas já tinham percorrido. Uma entrada estreita, degraus, uma porta baixa da qual se soltavam bagas de humidade. Chegaram então a um pequeno cais e entraram numa embarcação castanha e discreta, sem quaisquer insígnias; um barco igual a qualquer outro usado pelo mais comum dos mortais.

               Os canais recortavam Merina. Embora a cidade não se debruçasse directamente sobre o mar, era um porto de primeira grandeza devido aos seus canais. Por outro lado, tornavam a cidade difícil de ser patrulhada de uma forma idêntica à que seria conseguida numa cidade inteiramente assente em terra. Lydana estava perfeitamente consciente de que contrabandistas e indivíduos com ocupações ainda mais obscuras conheciam bem os caminhos das águas. Assim como também tinha consciência da integridade da sua polícia e da sua lealdade ao Tigre.

               Balthasar nunca tentara antes dominar uma cidade cruzada pelas águas. Era bem capaz de vir a descobrir que essa tarefa era mais difícil do que supunha. Pôs cuidadosamente de parte todas aquelas idéias na esperança de que amadurecessem bem e dessem os seus frutos.

 

SHELYRA

               - Vai para a cama, criança - diz ela. Como se eu não comandasse todos os nossos espiões há mais de três anos! Como se a avó não tivesse posto o seu comando directamente na minha mão! Como se eu não tivesse sido aceite pelos Senhores dos Cavalos como uma chefe sua igual! Eles não me chamam “criança” e não me mandam para a cama!

               Shelyra fervia de ressentimento, refugiando-se naquela emoção e evitando assim outros sentimentos...

               Em primeiro lugar, o medo: um medo que lhe gelava a alma e a deprimia profundamente. A tia pensava que ela não compreendia a situação; e talvez até algumas horas atrás não compreendesse, de facto. Mas agora, o imperador Balthasar e os seus exércitos, que tudo conquistavam, tinham deixado de ser uma ameaça longínqua para passar a ser uma realidade.

               Agora ele matara, não um estranho qualquer numa terra distante, mas alguém que ela conhecia, alguém com quem trabalhara, alguém que confiara nela; e fizera-o às portas da sua cidade.

               Se o conseguira com tanta facilidade, que mais conseguiria?

               Ou antes, o que não conseguiria ele?

               Caminhava silenciosamente na sala grande e antiga, enquanto as poucas velas acesas àquela hora da noite projectavam manchas de luz cor de mel nas paredes e nos soalhos de madeira polida. A força do hábito fazia-a percorrer o salão para trás e para a frente de uma forma muito peculiar. Se alguém a observasse poderia pensar que estava embriagada com alguma bebida muito forte, não fossem os seus passos tão seguros.

               Não estava nem embriagada nem cansada; limitava-se a evitar as tábuas que rangiam. Todo aquele átrio era em si próprio uma ratoeira para o ladrão, o assassino, o estranho; ninguém que não estivesse inteiramente familiarizado com o “átrio cantante” poderia evitar aquelas tábuas dispostas ao acaso. Ela conhecia cada uma dessas tábuas dos soalhos do palácio e também do Palácio de Verão, do outro lado do rio. Na verdade, não havia muita coisa que ela não soubesse acerca desses dois edifícios. Estava certa de que há muito extraíra todos os segredos dessas duas estruturas antigas e misteriosas.

               Nem mesmo a avó ou a tia Lydana conhecem todos os segredos, as passagens, as frestas, as portas secretas...

               Era uma criança pequena quando se lhe deparara a primeira das passagens secretas, descobrindo uma forma de sair do quarto das crianças que mais ninguém parecia conhecer. Uma via de fuga para quando ela devia estar a dormir, ou quando a fechavam ali, afastando-a das actividades fascinantes dos adultos; a descoberta ganhara para ela mais importância do que brinquedos ou rebuçados e decidira descobrir mais segredos daqueles.

               Por fim, a sua avó Adele mostrara-lhe todas as passagens secretas que ela conhecia, mas as explorações da própria Shelyra mais do que duplicaram esse conhecimento. Utilizou um dos seus segredos quando ia a meio do átrio, esgueirando-se para um canto repleto de sombras; ela própria uma sombra entre as restantes. Introduzindo três dos dedos da mão direita no centro de três flores entalhadas na madeira, empurrou ligeiramente, enquanto puxava com a mão esquerda uma outra secção do painel. Este, inteiro, girou silenciosamente em torno de uma coluna, permitindo-lhe passar para dentro da parede oca.

               Com um ligeiríssimo clic o painel fechou-se de novo, deixando-a envolta na escuridão profunda e aveludada da passagem secreta. Uma vez na segurança do interior da parede, descontraiu-se ligeiramente. Mesmo que o imperador tivesse conseguido introduzir espiões na Casa do Tigre, eles nunca conseguiriam seguir os seus movimentos ali dentro.

               Sou um rato dentro das paredes. Ou, talvez, uma serpente, com dentes muito afiados.

               A mão direita acariciou o punho da sua faca mais comprida, um presente dos Senhores dos Cavalos, e estendeu a mão esquerda até tocar na parede da passagem antes de avançar com confiança na escuridão. Ali o soalho não rangia, evidentemente. Não havia quaisquer frestas por onde pudesse espreitar naquela passagem que conduzia até ao seu quarto, dando voltas e reviravoltas por forma a contornar as salas que se encontravam no caminho. Sorriu para si própria, ainda que sem qualquer traço de humor. Nem a tia nem aquela estranha miniatura de mulher, que era a sua criada, tinham ainda descoberto como é que ela conseguia entrar e sair quando queria dos aposentos da rainha sem ser descoberta.

               Não sou um rato nem uma serpente. Sou um espírito da escuridão, um sonho, uma visão que assombra  o palácio, vou para onde quero, envolta e protegida pelas sombras.

               Um orgulho sedutor; mas aquela não era altura para orgulhos nem caprichos. A sua mão deslizou pela superfície polida da parede interior, deixando-a antever as curvas, mesmo que tivesse perdido a conta dos passos que as mediavam. Ocasionalmente a passagem parecia não ter saída; essa era uma impressão ilusória e certamente enganaria qualquer um não familiarizado com as passagens secretas. Aqueles becos sem saída constituíam os únicos locais onde a parede era trespassada por uma porta; as suas mãos procuraram as reentrâncias escavadas para pôr os pés e as mãos e trepou, rastejando depois ao longo do topo da moldura da porta e voltando a descer sem sequer pensar no que fazia.

               Na verdade, sentia-se ferver de ansiedade e frustração. Mentalmente estivera pronta para a batalha; parecia-lhe que a sua tia se preparava para entregar mansamente todo o seu reino.

               Temos que lutar. Certamente que teremos que lutar! Mas como?

               Como a tia dissera, Merina não tinha exército, nem nunca tivera. Os reis e rainhas do passado tinham confiado em alianças sagazes, subornos, chantagens e, ocasionalmente, no aluguer de forças mercenárias para manter o reino a salvo das traições de outrem. Quando os governantes de Merina não conseguiam comprar a segurança da sua cidade, conseguiam assegurar essa segurança através da utilização judiciosa das informações reunidas por uma rede de espiões que podiam muito bem causar inveja aos monarcas de reinos muito maiores.

               Mas como a sua tia Lydana fizera notar com muito acerto naquela noite, nada nem ninguém se conseguiria opor com sucesso à ameaça que o imperador Balthasar tinha suspensa sobre eles naquele momento. A contra-informação não resultara, assim como não resultara a chantagem, e Shelyra instruíra os seus agentes para tentar ambas. Não que Balthasar tivesse levado uma vida imaculada, mas o poder que detinha sobre as suas terras e o seu povo era tão absoluto, que era pura e simplesmente impossível fazer chantagem com ele, pois ele não se importava com quaisquer informações que pudessem ser reveladas sobre a sua vida. Na verdade, quanto piores eram os factos revelados, mais ele parecia achar a situação... divertida.

               Sobravam apenas o suborno e as alianças. Mas os aliados já tinham sido vencidos, ou tremiam de medo, esperando a sua vez. Quanto aos subornos, bem, porque haveria o imperador de aceitar o pagamento de um suborno quando podia ficar facilmente com tudo o que cobiçava?

               A rainha fizera tudo ao seu alcance para evitar esta situação, quer aberta quer dissimuladamente. Só não se tentara o assassínio e essa não era uma possibilidade a ter em conta. Não importava o sangue que o imperador tivesse a sujar as suas mãos, assassiná-lo ou planear assassiná-lo mancharia as suas almas. O assassínio era um pecado terrível e não devia ser seriamente contemplado como solução. As três tinham concordado sobre essa questão.

               Apesar de parecer que eu e a tia não conseguimos concordar sobre muito mais.

               Lydana insistia em ver Shelyra como uma criança exaltada, descontrolada e impulsiva. Bem, ela fora tudo isso, mas um ano com os Senhores dos Cavalos modificara-a. Continuava a ter o sangue quente, mas embora pudesse dar largas à sua fúria em privado, já não agia sob o seu impulso, nem sequer a revelava em público. Conseguia planear as suas acções com o mesmo calculismo de Adele e com tanta perícia como Lydana; sim, e realizar os seus planos também!

               Mas a rainha continuava a não ver como ela mudara; continuava a ver nela apenas a criança cujas travessuras tinham repetidamente levado o caos ao palácio. E também não via como a sua atitude imutável exasperava a sobrinha e fazia vir ao de cima o seu famoso temperamento exaltado, levando-o ao paroxismo, uma e outra vez.

               É estranho como as pessoas podem gostar tanto umas das outras e compreender-se tão pouco!

               Shelyra sabia que ela certamente não entendia a sua tia; o misticismo da avó era fácil de

entender, embora não o partilhasse, mas a atitude da rainha relativamente ao Coração e a tudo aquilo que este representava era intrigante. Por vezes agia como se fosse crente e, no entanto, não admitia a sua fé. Como se a própria idéia a embaraçasse. Quanto à própria Shelyra... bem, nunca vira um anjo e já não esperava ver. Existiam explicações perfeitamente racionais para tudo aquilo que acontecia nos claustros e quanto ao resto... isso não lhe interessava. Coisas práticas, isso sim... isso interessava-lhe. Coisas como... como defender a sua cidade! E como assegurar a sua própria segurança no processo. Que a avó invocasse anjos e ministros da Graça em sua defesa... Selyra confiaria nos Senhores dos Cavalos e na sabedoria cigana.

               As mãos tacteantes de Shelyra tocaram naquilo que era, de facto, o fim da passagem: o fim daquela passagem, a porta oculta que dava para os seus próprios aposentos. Mas fez uma pausa antes de soltar o fecho e abrir a porta escondida no espaldar da cabeceira da sua cama.

               Tem que haver alguma coisa que eu possa fazer agora.

               Iria ser uma noite longa e insone. De qualquer forma, não iria conseguir adormecer.

               Cada vez que fecho os olhos, vejo... o corpo...

               Estremecimentos convulsivos abalaram-na por instantes e a náusea provocou-lhe espasmos, tirando-lhe a respiração. Engoliu com dificuldade e encostou-se à parede procurando amparo, os joelhos ameaçando ceder sob o seu peso.

               Esta não é a primeira vez que vejo alguém morto – recordou novamente a si própria.

               Já tinha visto o pobre Taz, que foi espezinhado por uma manada espantada... a criada que caiu repentinamente morta no meio do átrio... Finalmente, recuperou o domínio sobre si própria, endireitou-se e pensou nas horas à sua frente.

               Pensar no futuro: como se poderia lutar numa cidade que se tivesse rendido? Lutar na sombra? Utilizar estratégias de ataque e fuga?

               Qualquer guerra travada em Merina teria que ser travada secretamente. Entre os guardas e os membros das Guildas que pudessem ser persuadidos a mostrar alguma coragem, uma guerra de contínuo atrito poderia ser bem sucedida nas ruas e nos canais. Shelyra tinha que partir do princípio que o Grande Palácio seria invadido, evidentemente... mas o Palácio de Verão não era uma estrutura tão atraente para os conquistadores e situava-se  do outro lado do rio. Uma vez tomadas as pontes, o Palácio de Verão ficaria, teoricamente, inatingível a partir da cidade. Sorriu sem alegria.

               Isso era o que eles pensavam!

               Mesmo a sua tia não sabia muita coisa, embora suspeitasse que Adele tivesse conhecimento da passagem por baixo do rio, entre uma certa ponte de pedra e o Palácio de Verão.

               Certamente que a avó sabe da existência da passagem gémea dessa e que leva do palácio ao templo.

                Shelyra não fazia a mínima idéia como fora a passagem construída através da rocha sólida do leito do rio e por que razão; a passagem era mais antiga do que a ponte e certamente tão antiga como o Palácio de Verão.

               Partiria, então, do princípio que haveria uma guerrilha clandestina entre os invasores e os nativos. Nessas circunstâncias haveriam coisas que ela quereria, não, de que precisaria, que  estavam ali e no Palácio de Verão, e tinha de as conseguir esconder em segurança para o caso de os invasores acabarem por tomar o Palácio de Verão. E qual seria o esconderijo mais seguro? O próprio Palácio de Verão! Mesmo que o palácio fosse ocupado, existia um palácio no interior do palácio...

               Ou antes, existiam certas câmaras secretas, onde se chegava apenas através das passagens secretas; câmaras que não tinham sido perturbadas durante uma dúzia de gerações até se terem deparado a Shelyra. Porque razão alguém a procuraria, a si ou aos seus segredos, no interior do Palácio de Verão quando este fosse capturado?

               Muito bem. Tinha um objectivo, pelo menos para essa noite, e provavelmente para as poucas noites que se seguiriam até que o exército do imperador chegasse finalmente. Estabeleceria esconderijos e vias de fuga para si própria, recheá-las-ia de dinheiro e outras coisas necessárias, deixaria ali os seus disfarces. E teria que trabalhar com rapidez.

               Felizmente, a maior parte das coisas de que necessitava já estavam no seu armeiro no Palácio de Verão. Aquilo de que precisava dali, podia ser transportado numa só mochila.

               Soltou o fecho, e o painel central do espaldar da cama deslizou para um lado, permitindo-lhe rastejar para fora da passagem por cima das almofadas até ao colchão. A cama de penas não a tentou minimamente. Uma luz de presença estava acesa ao lado da cama, alumiando o quarto com uma luz que parecia tão brilhante como o dia a quem, como ela, acaba de passar tanto tempo na escuridão de breu das passagens secretas. Saiu da cama e dirigiu-se imediatamente ao enorme armário que ocupava uma parede inteira. Abriu a porta situada mais perto da parede, tirou uma mochila de pele do seu equipamento de caça e, abrindo um compartimento dentro do armário, ignorou o guarda-jóias e a colecção de vestidos sumptuosos que ali estava pendurada.

               Mais tarde levarei algumas das jóias... mas só aquelas que possa trocar facilmente.

               Os vestidos brilhavam suavemente à luz quente da vela, numa exibição de luxo que, em circunstâncias normais, seria suficiente para fazer bater o coração feminino mais empedernido. Shelyra correu a mão, por instantes, pela manga aveludada de um vestido cor de safira, com alguma pena. Provavelmente passar-se-ia muito tempo até ter oportunidade de voltar a vestir um fato daqueles, se é que alguma vez a teria.

               Depois, concentrou-se no compartimento de madeira de castanho. Aquele compartimento deveria ficar vazio se os invasores ocupassem o palácio, pois ali estavam os segredos que duvidava alguém suspeitasse estarem na sua posse, a não ser aqueles que lhos tinham confiado.

               Os segredos que o curandeiro dos Senhores dos Cavalos e os ciganos da cidade lhe tinham ensinado alinhavam-se no interior do compartimento, cada um na sua pequena ampola própria ou na sua bainha de pele. As ampolas faziam lembrar perfumes; inócuos... e, no entanto, mortíferos. Pelo menos, alguns deles.

               E perto deles estavam os meios necessários para os utilizar e ainda outras estranhas armas  e o restante equipamento de que as suas incursões nocturnas necessitariam. Movia-se com rapidez e segurança, enchendo a mochila até esta quase transbordar e fechando finalmente a tampa com esforço. Recuou e examinou o compartimento com satisfação. Não havia ali qualquer sinal de que a princesa Shelyra, herdeira da Casa do Tigre, fosse outra coisa que não uma jovem aristocrata perfeitamente vulgar, com um vago interesse pela caça.

               Muito bem. Mas são capazes de desconfiar de um compartimento vazio...

               Agarrou em todos os frascos e potes que estavam no toucador e alinhou-os nas prateleiras.

               Pronto. Assim está melhor. Não existe nenhuma razão que me impedisse de manter os cosméticos e perfumes valiosos longe do alcance dos criados. Afinal são produtos muito caros, e eu não quereria que os criados da casa lhes tivessem acesso.

               Olhou mais uma vez em torno do quarto, assegurando-se de que não deixara vestígios da sua “verdadeira” personalidade.

               Fora rápida e eficiente. Não havia nada ali, nem mesmo nos muitos esconderijos existentes no quarto e na mobília que o recheava, que pudesse fornecer uma pista relativamente à verdadeira natureza de Shelyra. Que Balthasar e os seus agentes procurassem uma princesa mimada quando ela desaparecesse; procurariam em vão.

               Está na hora de ir.

               Pendurou a mochila num dos ombros e dirigiu-se a uma outra secção da parede, junto à lareira. Uma parte do grande painel de azulejos deslizou e ela curvou-se e desapareceu no seu interior. Tinha muito que fazer... e dispunha de pouco tempo até amanhecer.

 

ADELE

               Depois das outras terem saído, Adele voltou para a cama, deslizando para baixo dos cobertores quentes e dos lençóis macios com sentimentos muito contraditórios.

               Sentia o amargo do medo pelo que lhe pudesse acontecer; a dor aguda da ansiedade em relação à filha e à neta... mas, por detrás de tudo isso, sentia um certo alívio, e não apenas por o tempo de espera estar a chegar ao fim.

               Desejara inúmeras vezes poder deixar a vida na corte e devotar-se inteiramente à sua vida no templo e agora o seu desejo realizar-se-ia. Dentro de poucos dias, no máximo uma semana, poderia tornar-se verdadeiramente na religiosa Elfrida. Adele desapareceria para sempre, e com ela todos os problemas e a exaustão provocada pela identidade dupla. Mas os custos eram terríveis. Nada voltará a ser como dantes.

               Virou-se de lado e aninhou a cabeça num braço. Queria chorar, chorar pela sua cidade, bem como por si própria e pela sua família. Fosse o que fosse que viesse a acontecer, algo se perderia. Vidas, bens... Privados da sua batalha, os homens de Balthasar arranjariam problemas. A única certeza que tinha era que os custos seriam menores do que os resultantes de uma batalha, quer em termos de vidas, quer em termos de dor.

               Mas havia um problema, agora relativamente menor à luz da ameaça que pesava sobre as suas cabeças, que tinha sido resolvido, e essa era a causa do sentimento de alívio que começava a desaparecer.

               Sabia que Lydana se tinha interrogado quanto às razões que levariam a sua mãe a levar uma vida dupla, porque não se teria limitado a entrar para o templo há dois anos atrás. Lydana não percebia, e Adele não queria elucidá-la, que a rainha que agora governava não era adequada para o templo, nem sequer para sua chefe secular. E, como se isso não fosse suficientemente mau, Shelyra era ainda pior no que dizia respeito a questões espirituais.

               A minha querida família... como poderiam elas entender? Mas como poderia eu deixá-las assumir o comando de algo que não poderiam controlar? Aquele par está tão preparado para lidar com questões espirituais, como as ovelhas estão preparadas para voar.

               Como sempre, o facto de pensar nisso fez com que um nó se lhe formasse na garganta e descesse sobre si a sensação de que, de alguma forma, fora enganada. Depois sacudiu esses sentimentos. Não fora enganada; Lydana e Shelyra tinham personalidades próprias e ninguém tinha o direito de partir do princípio que seriam cópias mais jovens da própria Adele. E, no entanto... desde que havia registro, as mulheres do Tigre tinham tido sempre aquele algo interior que fazia delas verdadeiras filhas da Deusa, e era muito difícil aceitar como justo que essa tradição inquebrantável  fosse quebrada justamente agora.

               E, não obstante, fora-o. Nem a princesa nem a rainha eram indicadas para ocupar a cadeira junto ao altar. Isso tornara-se absolutamente claro para Adele cerca de cinco anos antes, quando tinham saído juntas da cidade numa caçada. Iam as três um pouco na dianteira dos seus acompanhantes quando um anjo apareceu na sua frente. Adele viu e ouviu-o claramente, mas Shelyra comentou que o veado branco era demasiado belo para ser morto e tentou assustá-lo antes que os restantes caçadores se aproximassem.

               O anjo desapareceu, com um ar divertido, e Adele perguntou-se se o facto de Shelyra ser filha do seu filho, e não da sua filha, seria o que a impedia de ter reconhecido no anjo aquilo que de facto ele era. Mas quando interrogou Lydana, percebeu que tudo o que a sua filha vira fora uma luz brilhante! Foi muito perturbador para Adele descobrir que as suas herdeiras eram cegas e surdas no que respeitava às mensagens da Deusa. Como poderia qualquer delas sentar-se no trono junto ao altar, ao lado da grande sacerdotisa, quando não dispunham da visão que lhes permitiria ver o que acontecia mesmo à frente dos seus olhos?

               Virou-se, contraindo-se quando as suas costas a avisaram de que aquele movimento fora demasiado abrupto. Se eu fosse a responsável por uma carruagem poderia passar as rédeas a alguém incapaz de ver os cavalos, perceber os cavalos, e que nem sequer estivesse certo da sua existência?

               Lydana aceitou com relutância o governo secular de Merina quando o irmão morreu, mas o seu desconforto, sempre que o assunto era mencionado, fizera Adele perceber que haveria rebanhos de ovelhas a voar por cima da torre do templo antes dela aceitar com alegria as tarefas não seculares. Assim, embora tivesse entregue o reino a Lydana, Adele mantivera a posição de chefe secular do templo. Esperava que o tempo melhorasse a situação para Lydana, ou que a sua filha descobrisse subitamente ter vocação. Nada disso ocorrera. Quando chegava a altura de uma qualquer cerimónia no templo, Lydana agia como um rapazinho obrigado a ficar em casa a brincar com as irmãs mais novas: contraída, ressentida, e desejando do fundo do coração estar noutro sítio qualquer.

               Agora nenhuma delas manteria a sua posição; a chegada de Balthasar fizera com que isso acontecesse. Uma pontada de pena atravessou-a, tão forte como uma dor, e os olhos arderam-lhe cheios das lágrimas que não verteu.

               Perda, perda e mais perda. As coisas estavam à beira de sofrer alterações drásticas e não conseguia prever qual a direcção que essas mudanças tomariam, nem qual seria o resultado dessas

transformações.

               Por momentos, sentiu a garra gélida do medo cerrar-se em torno da garganta. As certezas da sua vida, que tinha progredido exactamente como ela planeara, estavam a ser-lhe roubadas. O imperador Balthasar era como as marés: nada o poderia deter pelo menos no presente. As mudanças não lhe eram estranhas, mas sempre mudanças que ela própria orquestrara. Agora estava tudo fora das suas mãos. Não as conseguia controlar, nem prever os seus resultados.

               Suportou o frio do medo durante mais alguns momentos e depois, resolutamente, sacudiu-o. Certamente Lydana planeava naquele exacto momento uma fuga a coberto de um qualquer disfarce... e quanto a Shelyra, as suas incursões por entre os clãs dos ciganos providenciavam-lhe inúmeros aliados a quem poderia recorrer. Provavelmente ambas já se teriam esgueirado para fora do palácio, planeando as suas vias de fuga e providenciando locais que servissem de esconderijo. Teria sido exactamente o que ela teria feito se fosse mais nova. Na realidade, a sua dupla identidade serviria agora um objectivo muito maior do que aquele que ela antecipara.

               Quando ela desaparecesse, o imperador poderia muito bem procurar uma nova religiosa entre todas as outras e, caso esta existisse, partir do princípio que seria ela. Mas a religiosa Elfrida servia no templo há já dois anos; ela não era nova no templo e era familiar a todos os outros religiosos. Mesmo que o imperador tivesse espiões no templo, não teria qualquer razão para pensar que a religiosa Elfrida e Adele fossem uma só. Poderia mesmo encenar a sua própria morte... na verdade, essa não era uma má idéia. O imperador não teria razões para procurar uma mulher que supusesse morta.

               Esperava que os planos de Lydana e Shelyra fossem igualmente seguros. Certamente que Shelyra já estabelecera uma identidade nos clãs ciganos há muito tempo; uma identidade que Lydana não conhecia de todo. Se a rainha tivesse conhecimento disso, era bem capaz de ficar totalmente horrorizada só com a idéia.

               Mas se Shelyra e Lydana tivessem disfarces tão perfeitos como o de Adele, e formas de sair do palácio tão eficazes como uma morte simulada, talvez as coisas não fossem tão negras.

               E, provavelmente, nenhuma delas pensa por um momento sequer que eu posso adivinhar quais os seus planos.

               Que seria que dava nos mais jovens, que os fazia ter a certeza de que podiam esconder as suas actividades dos mais velhos? Ela conhecia o brilho que vira nos olhos de Shelyra, o brilho que pressagiava uma noite em branco. E conhecia também a expressão correspondente nos olhos de Lydana, a opacidade súbita, que lhe anunciava que a sua filha estava a planear qualquer coisa que pensava poder não merecer a aprovação da mãe. Conheço-as desde que nasceram e elas conhecem-me há menos de metade desse tempo; será que não lhes ocorre, a nenhuma delas, que

eu tenho mais prática a decifrar as suas intenções, visto que as conheci quando ainda não eram capazes de as ocultar?

               Bem, sem dúvida que a sua mãe pensara o mesmo a seu respeito.

               Planearemos, conspiraremos e nós, as mulheres do Tigre, encontraremos uma forma de derrotar este imperador a partir do interior das suas próprias conquistas.

               Ainda não tinham sido derrotadas. Esta era, como é que dizia um dos chefes dos mercenários?: uma “retirada estratégica.”

               Havia outras formas de derrotar um exército para além de o defrontar cara a cara. Uma guerra travada em pequenas escaramuças, a partir do território que se pensava estar conquistado,

era sempre mais desgastante do que uma confrontação directa. Se arranjassem problemas suficientes a Balthasar aqui nesta cidade, talvez os distúrbios alastrassem às suas outras conquistas e estas começassem a resistir-lhe de forma semelhante. Era impossível travar batalhas em cem pequenas frentes; até ela sabia isso.

               As pernas contraíram-se-lhe e depois ficaram em repouso, quando finalmente conseguiu descontrair os músculos. Enquanto uma delas fosse viva, haveria a esperança de que algo pudesse

ser feito. Tinha que manter isso presente no espírito. Sim, Balthasar era tão inexorável como a maré. Mas as marés vazavam tantas vezes quantas enchiam. As mulheres do Tigre desapareceriam e quando a maré de Balthasar entrasse na vazante, estariam prontas. E, por agora, Adele iria dormir.

 

LYDANA

               Tinham-se mantido afastadas dos caminhos mais bem iluminados, mas foram forçadas a aproximar-se da luz quando chegaram perto do seu objectivo: A Estalagem do Dragão Marinho. Havia um guarda no cais junto à estalagem. Enquanto Lydana erguia os remos com perícia, deixando o barco deslizar, Skita atirou uma corda ao guarda. Este agarrou-a mecanicamente com uma das mãos, mas manteve a outra junto ao punho da espada.

               As mãos de Lydana eram muito brancas em contraste com o negro da sua capa e os seus dedos entrelaçaram-se num determinado gesto. Ele assentiu e ajudou-as a desembarcar, desviando-se para um dos lados enquanto elas entravam na estalagem. Esta estava iluminada por um candeeiro, mas elas mantiveram as capas bem chegadas ao rosto enquanto Lydana abria a porta.

               Embora já fosse tarde, ainda havia clientes sentados às mesas, os cornos de beber na mão. E o refrão de uma canção obscena, cantado por vozes muito pouco afinadas, assaltou-lhes os ouvidos. As recém-chegadas não fizeram sequer menção de entrar na sala maior, esgueirando-se até à escada que levava ao andar de cima. O átrio do andar superior estava iluminado por um único candeeiro colocado bem ao fundo, mas Lydana não teve dificuldade em encontrar a porta que pretendia. Bateu ao de leve e segundo um padrão específico. As paredes eram suficientemente robustas para que não se ouvissem os movimentos do interior, mas a porta abriu-se e a luz de um candeeiro bem levantado revelou o homem de pé no interior do quarto. Lançando-lhes apenas um olhar de relance, fez-lhes sinal para que avançassem, e elas entraram para o quarto decentemente mobilado de uma das melhores estalagens de Merina.

               - Vossa Alteza... - Curvou-se. - Senhora Skita... – Com um movimento da mão indicou uma cadeira junto à lareira e um banco ao seu lado.

               Aparentemente não o tinham apanhado a dormir o sono dos justos, pois embora a sua camisa estivesse aberta no peito, estava cuidadosamente entalada  no  cós  dos calções.  Contudo, tinha trocado as botas por uns sapatos de quarto mais macios.

               Era um homem alto, de cintura estreita, mas ombros largos, de movimentos rápidos e seguros. Os seus cabelos ondulados eram curtos pelos padrões da cidade e tinham um tom entre o castanho-claro e o louro-escuro, que ao sol ficava cor de ouro, como Lydana muito bem sabia.

               Uma cicatriz desenhava uma linha fina que ia da sobrancelha à raiz do cabelo no lado esquerdo do rosto, mas isso não desviava a atenção das linhas fortes do maxilar, da linha resoluta dos seus lábios, nem da firmeza do olhar de um verde marinho.

               No conjunto era um homem bem parecido, quase a atingir a meia-idade, que se comportava com a segurança de alguém habituado a dar ordens e... a ser prontamente obedecido.

               Lydana desapertou a capa e deixou-a cair sobre o espaldar da cadeira atrás de si. Quando ele fez menção de encher um copo com um jarro que estava em cima de uma pequena mesa, ela abanou a cabeça numa recusa.

               - Há problemas. - Disse-o mais em tom afirmativo do que interrogativo.

               O arreganhar de lábio com que Lydana respondeu dificilmente poderia passar por um sorriso.

               - Quando é que não tem havido nestes últimos anos? - respondeu. - Mas agora... não, capitão Saxon, agora parece que aquilo com que nos defrontamos é uma escolha amarga... ou Merina passa para as mãos de Balthasar sem desferir um único golpe, ou será entregue às suas tropas para que dela desfrutem a seu bel-prazer.

               O homem assentiu.

               - É uma escolha que sempre esteve perante nós, nestes últimos anos. Lutar por uma causa perdida desde o início não nos trará qualquer vantagem. Mas... não existirá outra saída, Vossa Alteza? Posso levar-vos a vós e àqueles em quem confiais para fora da cidade e atravessar o mar até um local onde talvez possais pedir ajuda...

               Agora o sorriso dela era aberto e amargo.

               - Que ajuda? Mesmo as gentes de além-mar tremem um pouco quando lhes parece ouvir as trompas de guerra de Balthasar. Para além disso nós, os da Casa do Tigre, juramos manter-nos nos nossos postos nos bons e nos maus momentos há mais de cem gerações. Vós mesmo, capitão, vencestes os piratas de Rapparian que rondavam as nossas rotas para sul... mas Balthasar não comanda uma colecção desirmanada de capitães bons para a forca, suficientemente gananciosos para se juntarem e tentarem  atacar-nos. Não estou a minimizar a Batalha de Ourse, capitão... é um dos nossos mais brilhantes triunfos dos últimos anos. Mas...

               Ele encostara-se ao tampo da mesa com os braços cruzados sobre o peito. O seu rosto espelhava uma concentração profunda.

               - Mas... - incitou-a ele. - Não, não vos incitarei a nenhuma fuga, rainha Lydana, pois não está na natureza dos da vossa linhagem fugir ao sinal de perigo. Se não podeis lutar, e não quereis  fugir... então que tendes em mente?

               Ela já não o olhava nos olhos, mantendo o olhar colado ao pesado anel de sinete que adornava o indicador da sua mão direita, fazendo-o girar com a mão esquerda.

               - De manhã reuniremos o Conselho. Contudo, esta noite soubemos de mais uma coisa. Esse mago Apolon, que murmura ao ouvido de  Balthasar,  também tem um  objectivo  aqui  em Merina.  O Grande Trono do Coração, nem mais nem menos. E a sua lealdade é para com as Trevas. A reverendíssima está à beira de se retirar. Os seus poderes são crescentes, mas desenvolvem-se lentamente. Resto eu e a herdeira.

               - A quem Balthasar terá sob a sua mira! - O seu queixo lançava-se agora para a frente, como se estivesse pronto a defender a sua senhora.

               - Se...  nos conseguir encontrar.  Bem - inclinou-se um pouco para a frente,  continuando a acariciar o anel – como sabeis eu sou artesã, dei provas da minha arte na Guilda dos Joalheiros. Tenho, portanto, um mister com a ajuda do qual me posso esconder...

               - Podeis esconder-vos! - Ele quase soltou uma gargalhada.  - Seríeis apanhada no momento em que aparecesses ao balcão de qualquer comerciante de pedras preciosas!

               Ela ria-se agora abertamente.

               - Manhas de mulheres, artes femininas, capitão. Tenho as minhas próprias formas de tratar desse assunto. Mas há Shelyra, que tem que sair da cidade. Ela é jovem, tem a cabeça e o coração quentes, e ainda não prestou provas em nenhuma arte.

               - Gostaríeis que eu a levasse... - começou ele a dizer.

               Lydana abanou a cabeça.

               - Ambos sabemos muito bem que Balthasar não é estúpido. Ele terá vigias no mar para apresar qualquer navio que saia do porto nas próximas semanas. Não, tenho outros planos para ela. Agora - ergueu mais uma vez os olhos, mirando-o de alto a baixo - apelamos a vós, capitão Saxon. As Guildas fizeram de vós capitão do porto, e muito justamente, depois da Batalha de Ourse. O selo do meu pai, foi praticamente a última vez que ele o usou, está no decreto que vos concede o título que não quisestes aceitar. Mas conheceis os caminhos fluviais da cidade, do rio e do mar. Balthasar desloca-se com o seu exército. Um exército tem que ser alimentado, vestido, armado. Essas provisões estarão em constante movimento. Provavelmente, ele pensará que esses aprovisionamentos chegarão mais rapidamente por via marítima do que por terra, ainda mais quando tiver conquistado a nossa frota. Mas o mar esconde muitos perigos... como vós muito bem sabeis, capitão Saxon.

               Agora o sorriso dele abrira-se totalmente.

               - Absolutamente correcto, Vossa Alteza.

               - Alguém que lidou com piratas,sabe certamente muitos dos seus truques, ou nunca teria conseguido vencê-los.

               - É verdade, Vossa Alteza.

               - Bem, o nosso tempo escasseia, capitão.  Devo deixar-vos com os meus melhores desejos...

                Estendeu-lhe a mão e ele, com a elegância de um cortesão, beijou a mão que ela acariciara durante todo o encontro.

               - Se eu tiver que vos enviar uma mensagem - pegara na capa, mas segurou-a por instantes antes de se voltar a cobrir com ela - bem, há confessionários no Grande Templo e... - Hesitou. - Aquele ou aquela que procurarem a confissão podem muito bem fazê-lo no terceiro confessionário à direita do Supremo Coração.

               Ele assentiu.

               - Muito bem. - Mas quando ela fez menção de se dirigir à porta, ergueu a mão como se erigisse uma tênue barreira. - Rainha minha, aqueles que fazem um jogo tortuoso é como se caminhassem pelo fio de uma navalha à beira de um precipício. Tomai todas as cautelas que puderdes; conheço o temperamento dos membros da vossa casa e a força dessa linhagem.  Tende cautela...

               Mais uma vez os seus olhares cruzaram-se e ela dirigiu-lhe um sorriso de boa vontade.

               - Podeis estar certo, capitão, que assim farei. E no que vos respeita a vós, tomai também vós todos os cuidados... não podemos perder alguém como vós, por azar ou má sorte.

               Estavam de volta à embarcação e dirigiram-se novamente para o canal, quando Skita quebrou o silêncio.

               - Senhora, se ficardes em Merina, esse imperador filho de uma porca virará a cidade de pernas para o ar à vossa procura.

               - Sim, é o que ele fará, talvez, mas procurará Lydana, a rainha. E essa, não a encontrará. Skita, estou certa ao dizer que o Thom Talesmith está neste momento nas masmorras da Torre da Água?

               - Que quereis com alguém da laia dele, senhora? Ele é tão escorregadio e tortuoso como uma cobra.

               - É verdade. Mas mesmo as cobras têm o seu lugar no mundo. Ele é o mais engenhoso dos ladrões, o mais ardiloso dos espiões, e... foi aceite pelos Senhores dos Cavalos. Ouvi mesmo dizer que ele fez um pacto de sangue com um dos seus chefes menores. Está a chegar a época em que eles vêm a Merina para negociar. São bem capazes de se manter afastados quando souberem dos planos de Balthasar. Por outro lado, os exércitos precisam de montadas frescas em grande número e por isso eles são capazes de ter outras idéias a esse respeito. Esta noite, Skita, vais levar uma mensagem minha à Torre da Água.

               Lydana começara a sentir a mesma excitação que a atingia quando planeava um negócio vantajoso com um dos seus pares da Guilda. Os seus planos, não totalmente elaborados, começavam a aprofundar-se e a encaixar uns nos outros, num padrão intrincado. Impulsionou a embarcação por forma a que esta se movesse com maior rapidez.

 

SHELYRA

               Tinham-se passado dois dias desde que as más notícias lhes tinham chegado e Shelyra não tivera um momento de descanso desde que isso acontecera. Felizmente para Shelyra, o cargo de herdeira consistia praticamente no título e não tinha muitas tarefas atribuídas; e aquelas que lhe pertenciam eram sobretudo de natureza protocolar. Precisava de cada momento de que podia dispor para levar a cabo os seus preparativos. Quando Balthasar chegasse, não a encontraria desprevenida.

               Escondera roupas, mantimentos e pequenas quantias de dinheiro junto a cada uma das saídas secretas do palácio. A sua tia também tinha algumas saídas preferidas e ela deixou essas em paz. Não queria que a rainha soubesse quão bem preparada para a fuga a sua sobrinha estava. Não tinha quaisquer dúvidas de que ela estaria a preparar a sua própria fuga e locais onde se esconder

               Lydana não era tão idiota que ficasse à espera na sala do trono do palácio até que Balthasar viesse ocupá-lo! Não, a sua tia tinha plena consciência da sorte que a esperaria como a todfos os governantes, mesmo que estes tivessem abdicado voluntariamente. Se Balthasar estivesse a sentir-se generoso, limitar-se-ia a colocá-la sob uma forma qualquer de prisão domiciliária, tornando-a num ornamento da sua corte; sempre vigiada com suspeição e mantida apenas a um passo da mais total indigência. A tia nunca conseguiria tolerar tal situação. Enlouqueceria.

               Quanto a Shelyra... bem, não iria permitir que ninguém, nem mesmo a rainha, decidisse a sua sorte. Havia sempre a hipótese de Lydana a tentar enviar para o templo. Se tal acontecesse, Shelyra seria provavelmente forçada a ir, mas não contava ficar por lá muito tempo. Já preparara tantas vias de fuga que, a não ser que a acorrentassem numa cela do templo, se poria em fuga no primeiro momento de desatenção daqueles que a vigiassem.

               O esconderijo no Palácio de Verão também já estava bem guarnecido com água e comida, bem como roupas, armas e as suas “reservas especiais”. Poderia ficar ali escondida durante uma semana ou mais em caso de necessidade.

               Mas agora tinha mais uma tarefa a desempenhar, e de acordo com todos os relatórios, o enviado de Balthasar chegaria no dia seguinte com o seu ultimato. Não tinha tempo a perder nos preparativos finais. Ela poderia viver permanentemente escondida nas passagens secretas, mas não queria fazê-lo. Queria lutar contra Balthasar e, para o fazer, teria que poder andar pela cidade.

               Desta vez foi até aos estábulos sem fazer qualquer esforço para se ocultar, vestida com um bonito fato de montar de um belo veludo verde. Mas, uma vez ali chegada, dirigiu-se a um pequeno compartimento escondido por debaixo do soalho da sala dos arreios, trocando o fato de montar pelas roupas de uma criada de categoria intermédia. Escolhera o fato com todo o cuidado, decidindo encarnar uma personagem que não fosse impedida de sair dali e a quem não fizessem perguntas. Foi a criada quem saiu dos terrenos do palácio, montando um pequeno pónei

de pelo comprido, presumivelmente para ir fazer um qualquer recado, pois o pónei levava dois alforjes dependurados por trás da sela.

               O seu “recado” fez com que se dirigisse abertamente ao Bairro Cigano e ao recinto murado de um negociante de cavalos, Gordo Kaldash. A vedação em torno da sua propriedade era constituída por paliçadas construídas com toros descascados e aguçados, abundantemente caiados de branco. O recinto parecia-se muito com uma fortaleza e a comparação não era de todo

despropositada. Gordo poderia agüentar um cerco ali dentro, se a isso fosse obrigado. Só essa já era razão suficiente para cultivar a sua amizade e conquistar a sua ajuda.

              Ela passou os portões abertos montada no pónei, ignorando os gritos e o rebuliço em torno de si, limitando-se a registrar a razão de toda aquela actividade. Gordo não estava disposto a correr quaisquer riscos; os seus melhores animais partiam naquele dia, presumivelmente para as suas manadas de reprodução na planície, onde tanto os cavalos como os seus tratadores seriam difíceis de encontrar.

               Provavelmente, ele pensa que o imperador vai querer confiscar tantos cavalos bons para a guerra quantos lhe for possível.Os póneis e os palafréns de senhora estarão bastante seguros,mas ele está a ver-se livre de todos os pesados cavalos de tiro, dos cavalos que possam ser usados pela cavalaria e das mulas.

               Os seus olhos, treinados pelo trabalho que fizera com os Senhores dos Cavalos, encontraram cada animal que poderia ser de alguma utilidade para Balthasar e as suas suspeitas confirmaram-se à medida que esses animais foram sendo reunidos aos grupos que estavam de saída.

               Reparou também que as vedações e os portões tinham sido cuidadosamente reparados e que alguém os reforçara nos últimos dias.

               Então, o Gordo sabia o que se aproximava, provavelmente antes mesmo de o seu espião lhe ter trazido a notícia. Interessante.

               - Rapariga!

               Aquele grito na linguagem  comum  fê-la parar o cavalo. Quem assim a abordava era um rapaz cigano de bom aspecto, com cerca de vinte anos; conduzia um cavalo com cada mão, ambos garanhões muito bem comportados, visto não estarem a tentar morder-se, nem escoicear-se mutuamente ou ao seu condutor. Os cavalos não estavam, no entanto, contentes com o que estava a acontecer e ela aprestou-se a explicar a sua presença.

               - Estou à procura de Gordo Kaldash - disse ela, metendo a mão por dentro do decote e mostrando brevemente um certo medalhão de bronze.

               Ele olhou para o medalhão, ergueu uma sobrancelha com alguma surpresa e assentiu.

               - Está no estábulo - limitou-se a dizer e seguiu o seu caminho para juntar os dois garanhões aos cavalos que estavam a ser aprontados para partir.

               Naquele preciso momento dois outros grupos estavam a sair pelos portões com os seus condutores.

               Ela desmontou e conduziu o pónei até aos estábulos enormes que ocupavam a maior parte do centro do recinto. E ali estava Gordo, mesmo à entrada, gritando ordens no tom de um sargento de recruta. Era um homem grande, tão peludo como os ursos que costumava ter como animais de estimação, com um peito enorme, que a camisa vermelha, tipicamente cigana, tinha dificuldade em cobrir. As pernas ligeiramente arqueadas denunciavam uma vida inteira ligada aos cavalos e Shelyra sabia que as enormes mãos, que agora agitava, eram igualmente hábeis a fazer uma cirurgia delicada num potro doente ou a dominar um garanhão espantado.

               - Não é esse, seu parvo, esse fica. A égua, a égua cinzenta! Não sabes distinguir uma égua de uma mula?

               Virou-se para a enfrentar quando a sentiu aproximar-se, preparando-se para a pôr a andar. Depois reparou no seu rosto e ficou calado. Um sorriso falso e afável espalhou-se-lhe nos lábios.

               - Ah... Borboleta! - disse afectuosamente, e ela estremeceu ao ouvir o nome que ele decidira chamar-lhe no impulso do momento. - A tua senhora precisa de um pónei novo? Agora estou um tanto ocupado...

               - A minha senhora precisa de um cavalo especial para a caça ao tigre - disse Shelyra secamente. - Preciso de discutir o negócio contigo.

               Gordo empalideceu ligeiramente, depois virou-se e gritou uma catadupa de ordens aos guardadores que ainda escolhiam os cavalos nas cocheiras.

               - Tratem disso! - terminou. - Já volto para ver o que fizeram! Não deixem esses cavalos irem-se embora antes de eu os inspeccionar novamente!

               Depois virou-se rapidamente para Shelyra, agarrou as rédeas do pónei com uma mão e o seu cotovelo com a outra.

                - Estás louca vindo aqui? - Disse-lhe na língua cigana, enquanto entregava o pónei a um moço de estrebaria. - Tens alguma idéia do que está prestes a abater-se sobre nós? Achas que é altura para brincadeiras idiotas?

              - Tenho uma ideia bastante precisa do que se vai abater sobre nós - respondeu ela bruscamente. - E é por isso que aqui estou.

               Rapidamente explicou-lhe a posição da sua tia: que seria um suicídio para Merina resistir, que a rainha tencionava abdicar e entregar a cidade ao imperador. Gordo ouvia e assentia com uma expressão preocupada, enquanto a levava até um pequeno gabinete junto aos estábulos.

               Fechou a porta e encostou-se-lhe com os braços cruzados sobre o peito.

               - Essa é uma atitude simultaneamente sensata e estúpida - disse por fim - mas não consigo pensar noutra saída para a cidade que tenha uma hipótese de a salvar. E a Casa do Tigre? Vão fugir? Estás à procura de cavalos rápidos e de uma escolta para vos levar aos Senhores dos Cavalos? Posso tratar disso.

               - A minha tia pensa que devíamos fugir... ou antes, creio que ela pensa que eu devia fugir. - Deixou que aquela afirmação ficasse suspensa no ar, entre os dois.

               Lentamente, o cenho franzido de Gordo transformou-se num sorriso.

               - Ah! E tu não estás de acordo. Na realidade estás a pensar...  o quê? Que mais tarde ou mais cedo ou gordos comerciantes de Merina se cansarão do tipo de governo que Balthasar tem fama de impor? Eles aguentarão e voltarão a aguentar até que o imperador os esprema completamente e não lhes deixe nada? Que mais cedo ou mais tarde eles agarrarão os seus mantos, que nessa altura já estarão no fio, e farão qualquer coisa para sacudir o jugo que pesará sobre os seus ombros?

               - Sim, qualquer coisa desse género - admitiu ela. - É por isso que estou aqui. A minha tia é capaz de estar a planear enviar-me para fora da cidade, mas eu tenho outros planos. E tu tens uma prima afastada que já veio uma vez lá do norte para aprender a arte de curar cavalos.

               - Sim, recordo-me da pequena Raymonda e, o que é mais importante, outros membros do meu clã também se lembram dela. E muito poucos de entre nós sabem que os pais de Raymonda não eram ciganos por nascimento, mas sim por pacto de sangue. - A cabeça de Gordo moveu-se para cima e para baixo duas vezes, lentamente, e a sua postura relaxou ainda que apenas ligeiramente. - Serão ainda menos aqueles que saberão que o pai dela era o rei de Merina. Mas...

               - Mas eu não quero que o clã de Kaldash sofra qualquer perda de oportunidades de negócio que venham a proporcionar-se quando o imperador tomar a cidade - continuou ela suavemente. - Há outra razão que me traz aqui. Por isso, antes de continuarmos com esta conversa, manda buscar os alforjes que eu trouxe no pónei.

               A expressão de Gordo manteve-se neutra enquanto entreabria a porta e gritava uma ordem nesse sentido. Passados instantes os dois alforjes estavam no chão do gabinete entre os dois e a porta voltou a fechar-se com segurança.

               Shelyra procurou por entre os rolos de tecido até as suas mãos encontrarem os pesados pacotes que escondera no meio das roupas. Tirou-os para fora e largou-os no chão onde caíram com um som cavo.

               - Vê - disse ela, fazendo um gesto. - O imperador confiscará tantos dos teus animais quantos for capaz e fará com que seja difícil vender os restantes. A Casa do Tigre deseja proteger os seus amigos e aliados de uma tal ruína financeira.

               Gordo dobrou-se para pegar num dos dois pacotes, aquele que ela pusera mais perto dele e que Shelyra tivera alguma dificuldade em segurar, mesmo com ambas as mãos. Aliviou o nó que o mantinha fechado e o tecido pesadamente acolchoado caiu para os lados, revelando ouro e pedras preciosas que brilharam à luz da lanterna. O seu brilho não era mais forte do que o que revestia o olhar de Gordo naquele momento.

               - Esse embrulho é inteiramente para o clã Kaldash – disse Shelyra. - Se fosse a ti desmontava as jóias e derretia o ouro. Tudo isso foram presentes de candidatos a pretendentes; não é provável que dêem pela sua falta, se Balthasar mandar fazer um inventário. Tenho que deixar jóias num número suficientemente plausível para uma jovem donzela, mas não tenho a intenção de lhe deixar um saque maior do que o estritamente necessário.

               - E o outro? - perguntou Gordo, indicando com a cabeça o outro pacote no chão.

               - É a mesma coisa - respondeu ela. - Com um pouco menos de valor. Gostaria que o convertesses numa forma mais utilizável e que o guardasses para mim... isto é, se o clã Kaldash estiver disposto a receber novamente a Raymonda.

               Não era exactamente um suborno e era inteiramente possível que Gordo e a sua gente a tivessem recebido na mesma e mantido secreta a sua identidade sem aquele incentivo extra. Mas Shelyra sabia que o pagamento, ou antes, o “presente” faria com que eles ficassem em dívida para com ela, tornando mais provável que a recebessem sem ressentimentos ou arrependimentos. E uma vez aceite o presente, nada nem ninguém os faria revelar o seu segredo. Como o seu pai dissera certa ocasião, “O que eu gosto nos ciganos é que uma vez comprados, mantêm-se comprados”.

               - Raymonda seria, como sempre, muito bem-vinda – disse Gordo rapidamente, enquanto se dobrava para agarrar o segundo embrulho, enfiando ambos nos grandes bolsos do seu casaco. - Então ela não é do nosso sangue?

               - Vou deixar o pónei e o resto das coisas aqui contigo - replicou Shelyra com alívio.

               Havia evidentemente a hipótese de Gordo ter recusado. Mas ele dissera que ela era “do nosso sangue”, atribuindo-lhe os mesmos direitos de clã de qualquer cigano. Agora que o fizera, teria tanta vontade de a trair como a um dos seus filhos.

               - Os alforjes contêm o resto da minha roupa cigana e parafernália para tratar cavalos doentes.

               - E voltas num barco alugado? - Quando ela assentiu, ele soltou um grunhido de aprovação. - Isso é sensato. Se alguém estivesse à espreita, nunca acreditaria que fosses deixar um animal valioso aqui, com ciganos ladrões como nós. Esperará em vão por uma criada com um pónei.

               Abriu a porta do gabinete e fez-lhe sinal para que saísse.

               - Eu posso não chegar a vir para aqui - avisou-o ela. - Refugiar-me junto de ti não é o meu único plano; é unicamente aquele que eu prefiro. Isso dependerá de muita coisa. Se eu não vier imediatamente, deverás esperar o tempo que te parecer razoável e aí o segundo embrulho ficará também para o clã.

               Ele resmungou.

               - Ou espero até que esse imperador tente expulsar-nos ou matar-nos. Os ciganos não são amigos dele e ele só nos tolera porque se nos ofendesse, os nossos primos, os Senhores dos Cavalos, não lhes venderiam cavalos.

               Ela fez uma careta.

               - Se isso acontecer, ninguém estará a salvo em Merina.

               Não aprofundou o assunto, mas perguntou-se se, no caso de as coisas chegarem a esse ponto, não teria de pôr a hipótese da fuga e salvar pelo menos a vida.

               Não. Enquanto eu viver, lutarei por esta cidade, quer ela queira, quer não!

               Despediu-se de Gordo, virou o xaile do avesso, o que lhe mudou a cor de castanho para verde, e saiu com um cesto debaixo do braço. Uma vez chegada ao extremo do Bairro Cigano, chamou um barqueiro e deu-lhe a quantia necessária para que a levasse à Praça do Templo. Entrou no pequeno barco, pôs o xaile por cima da cabeça e fingiu dormitar. Nos canais não havia sinal de alguém já se ter apercebido de que algo de errado se estava a passar. Na realidade, havia até muita gente a vender flores e produtos agrícolas nos seus barcos, como de costume. O barqueiro deixou-a ao fundo da escada que conduzia ao Grande Templo; ela saiu do barco para chão firme com o à-vontade de alguém habituada toda a sua vida a andar em pequenas embarcações e nem sequer precisou do auxílio da mão dele para se equilibrar.

               O templo e o palácio estavam implantados nos mesmos terrenos e os jardins que se estendiam de um ao outro eram cuidados pelos religiosos e pelos jardineiros do palácio. Quando

entrou no templo fez uma pausa, sentando-se num banco logo à entrada, para que os seus olhos tivessem tempo de se ajustar à luminosidade do interior. Estava quase na hora de um dos serviços religiosos e como habitualmente, havia no templo um número suficiente de pessoas para que a sua presença passasse despercebida. Sem grande esforço, esgueirou-se ao longo do templo até aos jardins, deixando o xaile e o cesto no banco onde estivera sentada, e depois, caminhando com ar determinado como se tivesse algo de importante a fazer, atravessou os jardins até aos estábulos do palácio. Como esperava, ninguém a interpelou. Usava as roupas adequadas para ali estar e parecia saber muito bem onde se dirigia. O que só tornava evidente como seria fácil para o imperador ter um número indeterminado de espiões entre a criadagem do palácio.

               Uma vez no interior dos estábulos, voltou a trocar de roupa. Pensou por instantes no palácio e nos deveres que ali a esperavam. Os seus únicos “deveres” de momento consistiam numa aula de línguas. E não vou aprender num único dia o suficiente de “O Lar das Ilhas” para fazer a mínima diferença. A tia e a avó persistiam em fingir que aquele era um dia como qualquer outro, mas não havia razão nenhuma para que ela fizesse o mesmo.

               Voltando para trás, regressou à escuridão dos estábulos em busca de um moço de estrebaria. Aquela era a altura ideal para atravessar para o Palácio de Verão e assegurar-se de certos preparativos que ali queria fazer. Talvez lhe ocorresse mais alguma coisa no caminho.

 

ADELE

               Os últimos três dias tinham sido mais extenuantes que o habitual, pois Adele vira-se forçada a fazer tantas vezes o percurso do templo para o palácio e vice-versa, que temia que os seus sapatos se estivessem a gastar a um ritmo alarmante. Tinha que passar as noites no palácio, não fosse surgir outra emergência e não a encontrassem na cama. Uma pessoa não podia confiar complacentemente em mensageiros angélicos para nos virem acordar, como se estes não passassem de criados de quarto!

               Mas, na realidade, ficava com muito pouco tempo para dormir e isso fazia com que as suas parcas reservas se estivessem a esgotar rapidamente.

               Bem, pelo menos terei um aspecto mais condizente com o meu papel quando “cair para o lado”.

               Informara Verit de tanto quanto se atrevera e tinham passado quase tantas horas a trocar idéias quantas as que passavam a rezar. Tinham tentado gizar um plano para proteger o templo e o Coração, mas até que vissem de facto o rosto do inimigo e as armas de que este dispunha, não havia muito de concreto que pudessem fazer.

               O ambiente geral do templo, à excepção do vivido entre as Chamas, parecia-lhe cada vez mais irreal. Os religiosos comuns agiam como se aqueles dias em nada fossem diferentes dos restantes.

               Não sentiriam, ao menos, a tensão crescente na cidade? Ou sentir-se-iam tão a salvo na sua suposta segurança e no refúgio que a presença do Coração oferecia, que tinham a ilusão de que ali nada jamais se alteraria?

               Tal atitude era incompreensível para ela, embora Verit parecesse entendê-la bastante bem.

Continuou assim a fazer aquelas viagens entre o templo e o palácio, sentindo as forças esgotarem-se-lhe a cada viagem. Já planeara a forma como desapareceria no interior do templo.  Isso era, aliás, lógico, visto os curandeiros mais próximos do palácio serem os Hábitos Castanhos. Adele entraria no templo num estado de saúde dos mais terríveis e nunca mais de lá sairia. A noite anterior não constituíra excepção ao padrão habitual, a não ser pelos seus sonhos, tão cheios de avisos e presságios, tão repletos de imagens de exércitos em marcha e armas ameaçadoras, que soube que o destino se abateria sobre si assim que acordasse. Obedecendo a um hábito já antigo, Adele acordou uma hora antes do amanhecer. Assegurando-se de que a porta do quarto estava trancada, entrou no túnel que conduzia ao templo, desmaquiou-se vestiu o hábito cinzento e apressou-se a chegar ao seu destino.

               Tomou o seu lugar para o primeiro serviço da manhã, como se nada de extraordinário estivesse prestes a acontece, e entoou os cânticos com os outros religiosos. O serviço terminou com uma alegre saudação à aurora, embora naquela manhã a saudação soasse um tanto insípida.

               A sensação podia ser produto da sua imaginação, mas não lhe parecia.

               Ah, então os outros tinham-se apercebido, finalmente, de que algo estava errado!

               Terríveis presságios pairavam no ar e, finalmente, todos os religiosos do templo tinham consciência deles sob a forma de uma atmosfera ameaçadora, mesmo que não tivessem consciência de qual a verdadeira natureza da ameaça.

               As Chamas, como é evidente, já se tinham apercebido de que algo estava terrivelmente errado. Mesmo aqueles de entre as Chamas que não tinham acesso aos segredos de Verit, sentiam

algo no ar. Mas agora o alarme já alastrara à populaça em geral e o que faltava ver era se Verit os conseguiria controlar caso entrassem em pânico.

               Mais do que uma vez, Elfrida pressentira alguém vacilar nos cânticos e erguer o olhar para o Coração em busca de força e consolo. À medida que os religiosos saíam do templo e se dirigiam à sala comum para tomar a primeira refeição do dia, muitos foram os que olharam em torno de si, como se procurassem alguém que pudesse saber qual a razão daquele ambiente ominoso.

               O silêncio terminava oficialmente naquela altura, embora não fosse costume conversar durante as refeições, por isso Elfrida pôde falar com a grande sacerdotisa Verit imediatamente após o pequeno-almoço e obter autorização para passar o dia em meditação solitária no seu quarto. Não era nada de extraordinário; cada um dos religiosos passava um dia de retiro em jejum

e silêncio uma vez em poucos meses, o que fez com que Verit concedesse a sua permissão à religiosa Elfrida sem questões. Pela expressão dos seus olhos era, contudo, evidente que ela sabia que algo estava para acontecer e que se preparava para assegurar que o papel da religiosa Elfrida nos acontecimentos não fosse descoberto. Separaram-se junto da porta da Sala do Capítulo, a grande sacerdotisa entrando para anunciar que a religiosa Elfrida passaria o dia em retiro e a religiosa Elfrida desaparecendo nas sombras de regresso ao palácio e à sua outra vida só por mais algum tempo.

               Pois aquele dia seria a última vez que Adele, a rainha-mãe, apareceria em público. Vira a imagem de si própria em câmara-ardente e rodeada por gente que a chorava. Se aquele era um presságio da sua “morte” para o exterior, ou da sua verdadeira morte, ou mesmo de uma outra morte que ela tinha de reserva, como recurso, não estava certa. Tudo o que sabia com toda a certeza era que Adele estava prestes a morrer e que a religiosa Elfrida estava prestes a nascer para a vida atarefada que era a vida das Chamas.

 

LYDANA

               Os três últimos dias tinham sido muito duros e as três últimas noites cheias de tarefas executadas em segredo. Uma vez de volta ao seu quarto, Lydana pôs três candeeiros em cima da mesa do quarto, por forma a ter o máximo de luz possível a incidir sobre um bloco de madeira polida; da sua mesa de trabalho trouxe o estojo de ferramentas, bem como uma pequena caixa. Depois, escreveu rapidamente uma nota e selou-a com o selo real, dando-a a Skita, que esperava impacientemente.

               Quando a mulher-criança se foi embora, Lydana colocou o anel em cima do bloco de madeira e abriu a pequena caixa. A sua mão moveu-se rapidamente num movimento de recuo, quando os dedos passaram sobre as pedras não engastadas, cada uma delas aninhada no seu compartimento no interior da caixa. Lydana sabia muito de pedras preciosas; nalguns aspectos talvez soubesse mais do que qualquer outro elemento da sua Guilda. Aquelas que ali estavam eram jóias que ela não utilizaria de livre vontade com outro objectivo que não fosse aquele que agora a movia. Pois aquelas eram verdadeiramente pedras de mau augúrio; pedras amaldiçoadas e que traziam consigo a má sorte, até mesmo evocações de morte. Aquela colecção era o resultado de anos de investigação. Suspirou e depois abanou a cabeça perante aqueles pensamentos carregados de remorso. Não era altura para melindres.

               Extraiu uma pedra vermelha e brilhante do seu compartimento; era em tudo semelhante, na cor e nas gravações, à que estava engastada no anel real. Era o selo de Tartus, de má memória.  Aquela pedra fora simbolicamente banhada pelo sangue das muitas sentenças de morte que selara, até o rei meio-louco que a usara ter sido massacrado pela sua própria guarda.

               Lydana trabalhou com rapidez, com a perícia adquirida ao longo de muitos anos, soltando a pedra que era sua e inserindo no mesmo engaste a pedra de Tartus. Por fim, quando acabou, esfregou as mãos uma na outra, levantou-se e lavou-as no lavatório, como se quisesse livrar os dedos de algo maléfico.

               Engastou a pedra que soltara num alfinete de peito, que se encontrava no meio das suas ferramentas e depois prendeu-o por dentro do vestido. Embora não lhe quisesse sequer pegar, voltou a enfiar o anel no indicador.

               O trabalho fora bem feito, podia reconhecê-lo. Mais uma vez agradeceu de todo o coração ao seu pai pela sua sensatez. Ele reparou bastante cedo nas suas aptidões e quis ter a certeza de que ela teria meios para se sustentar. O irmão era o herdeiro. Mas, apesar disso, era instável e já pai de uma filha, embora esta fosse de uma geração mais nova e não pudesse herdar directamente o trono. Nessa altura, Lydana não previu o seu próprio reinado; como poderia qualquer um deles tê-lo feito?

               Depois, quando Shelyra era pouco mais do que um bebé, o irmão e a mulher morreram de uma estranha febre que chegara a Merina trazida por um barco infestado pela peste. Nessa altura o seu pai mandou-a chamar. Ela era muito jovem, ainda mais nova do que Shelyra era agora, e tudo o que realmente lhe interessava nessa altura era a sua arte.

               Recordava agora o interrogatório cuidadoso de seu pai, a que se seguira o de sua mãe, que já nessa altura conseguia ler melhor os espíritos do que a maioria das pessoas. Não, não tinha qualquer desejo de encontrar um companheiro e arranjar uma família. Mas por lei teria que se casar. Assim, o seu pai seleccionou um dos seus amigos mais íntimos, um capitão muito parecido

 com Saxon, que tinha idade suficiente para ser seu pai e que passava muito tempo no mar.

               Tinham casado com grande pompa para agradar à cidade e as coisas tinham ficado por ali. Compreendia agora que o seu pai tinha deliberadamente escolhido um marido a quem estava certo de que ela sobreviveria, ficando, assim, livre para tomar posse da Guilda e do trono sem ser questionada. E assim fora. Ela recordava o senhor capitão Gorganius com uma afeição tranquila, e ficou triste quando recebeu a notícia da sua morte no mar, mas ele não fizera realmente parte da sua vida.

               E, no entanto, fora ele quem primeiro lhe chamou a atenção para aquelas pedras amaldiçoadas e especulou se elas realmente poderiam influenciar a vida dos homens.

               Ouviu-se uma pancada na porta, o que a fez apressar-se a fechar o estojo de pedras maléficas antes de autorizar a entrada. Ficou surpreendida ao ver a sua criada com um tabuleiro de pequeno-almoço com biscoitos e vinho quente com especiarias. A noite já devia ter chegado ao fim.

               - Vossa Majestade, a reverendíssima requer a Vossa atenção quando acabardes de comer... e...

               Lydana seguiu o olhar que a rapariga lhe lançava. Não, teria que ir mais respeitavelmente vestida para um Conselho. Mas Esma, parecendo ler-lhe os pensamentos, já afastava as cortinas dirigindo-se para o roupeiro. Lydana comeu com apetite até à última migalha e depois vestiu-se adequadamente para uma ocasião  formal.

               Não se apressou, para disfarçar a urgência que sentia, mas conseguiu despachar-se a tempo, embora Adele já estivesse sentada na cadeira almofadada com um aspecto, pensou Lydana com alguma preocupação, ainda mais fantasmagórico do que o habitual.

               Shelyra estava de pé junto à mesa, as faces macias afogueadas, em resultado daquilo que supôs ser ira.

               - Não irei... - dizia ela quando a tia entrou, mas o resto das palavras foram abafadas pelo som forte do gongo de bronze.

               Com relutância, a rapariga sentou-se no seu lugar à esquerda de Lydana quando as grandes portas se escancararam para deixar entrar os membros das Guildas. Não entraram de acordo com o protocolo habitual, mas antes lançando-se para a frente em conjunto e apressando-se a ocupar os seus lugares depois de fazerem uma vénia às três mulheres.

               - Está um embaixador junto ao portão, Vossa Majestade. - Quem falou foi Totas, mestre da Guilda dos Mercadores de Seda, a sua pequena pêra cinzenta saltando para cima e para baixo à

medida que falava.

               Tão... tão pouco tempo!

               Lydana não olhou para Adele, mas sentiu um fluxo de energia que se desprendia dela em sua direcção.

               - Deverá ser recebido com todas as honras que se concedem a um hóspede... e deverá aguardar - disse Lydana calmamente.

               Observou o grupo reunido diante de si, enquanto um oficial saía da sala para se apressar a cumprir as suas ordens. Nalguns dos mais jovens conseguia sentir a ira, mas esta era abafada pelo desespero. Nenhum homem no seu perfeito juízo sugeriria que Merina tentasse resistir ao poder dos exércitos do imperador. E, nalguns dos mais velhos... bem, perguntou-se se não haveria ali um toque de satisfação dissimulada, a crença de que sob a alçada do imperador teriam oportunidade de prosperar mais depressa; que loucos eram!

               - Escutem - Lydana ergueu a voz num tom imperativo. - Todos nós sabemos o que cobiçam os nossos inimigos... Somos ricos, estamos maduros para ser colhidos e temos duas alternativas. Balthasar pode muito bem hesitar em assaltar Merina... ele quer o que nós temos e não os destroços de uma cidade saqueada. Se lhe abrirmos os nossos portões, isso significará que não haverá massacre. Falaremos com o seu enviado e isto é o que lhe diremos: Esta é a cidade do Coração, aqui está situado o santuário mais sagrado do templo. Balthasar ainda pertence ao templo... pelo menos segue os seus rituais quando isso lhe convém. Então, ele que jure, através do seu embaixador e junto ao altar, que não trará dano onde não encontrar oposição, e Merina será sua.

               As vozes de todos eles ergueram-se. Lydana deixou cair a mão mais uma vez sobre a mesa, com força suficiente para ser ouvida por cima do ruído das suas vozes.

               - Vós sois o povo de Merina, a decisão será vossa. Deixamo-vos agora para que a tomem.

               Pôs-se de pé, estendendo o braço para apoiar Adele e ficou com Shelyra a seu lado. Juntas passaram para o pequeno gabinete dos soberanos. Uma vez lá dentro, a rapariga voltou a erguer a voz.

               - Entregas assim tudo. Nós somos da Casa do Tigre... onde estão agora as tuas presas e as tuas garras, tia?

               - Escuta... - foi Adele quem ergueu a mão -... disse-lhes que pensassem, que planeassem, que têm agora para me propor?

               - O seguinte - disse rapidamente Lydana. - Vós, reverendíssima, entrareis no claustro, embora mais cedo do que planeado. Visto termos sabido que parte das forças que se viram contra nós são das Trevas, vós sereis quem melhor poderá decidir o que lá poderá ser feito. E, além disso, escutai: embora possamos desaparecer todas, poderemos manter-nos em contacto...

               Adele antecipou-se-lhe.

               - Os confessionários! - Os seus olhos estavam brilhantes, talvez até demais. - Poderemos passar palavra umas às outras através dos confessionários.

               - No terceiro confessionário a contar do Coração – respondeu Lydana.

               Adele assentiu.

               - Arranjarei forma de ali ter sempre alguém de confiança durante as horas de confissão, se eu própria não puder lá estar.

               - E então eu? - O rubor de Shelyra tornou-se mais forte. - Eu não irei para o templo... não irei! - Ergueu um punho no ar e abanou-o ameaçadoramente.

               - Não - concordou Lydana - tu tens o teu lugar e poderá ajudar-nos nesta batalha a que somos forçadas - esta batalha de caminhos secretos e ataques furtivos. Shelyra, noutros tempos estiveste de visita ao Povo dos Cavalos... está quase na altura de eles voltarem à cidade. Lembra-te, nenhum exército pode mover-se sem provisões. Talvez os chefes negociem com Balthasar, talvez não. Mas nunca lhe serão leais. Tu conhece-los, podes falar com os seus chefes guerreiros... sugerir estratagemas... – Tentava encontrar as palavras certas.

               O rubor de Shelyra começava a desaparecer. Tinha a mão pousada no punho de uma espada longa que trazia à cintura. Desembainhou-a e voltou a embainhá-la, com força.

               - Sim... - parecia uma criança  prestes a receber uma prenda.

               - E tu, filha? - perguntou Adele.

               - Balthasar procurará uma rainha. Não a encontrará. Se houver uma pequena comerciante de pedras e coisas do gênero num dos mercados mais pobres, não suponho que ele lhe preste grande atenção.

               Adele abanou a cabeça.

               - Não estejas demasiado certa disso, filha. Mas compreendo que tenhas que jogar segundo as tuas próprias regras.

               - Shelyra, assim que este Conselho acabar, dirige-te aos meus aposentos.  Encontrarás lá Skita com mais outra pessoa. Ninguém parte para a batalha sem levar consigo um homem bem treinado que lhe cubra as costas. Vou agora providenciar-te um que é algo estranho, mas que tem as qualidades necessárias. E estas são as ordens que tenho para te dar, deixa-te guiar por ele... ele saberá o que fazer e tem um pacto de sangue com um chefe do Povo dos Cavalos.

               Ao mesmo tempo que a rapariga assentia, ouviu-se uma voz por trás das cortinas.

               Lydana olhou para a sobrinha e para a mãe:

               - Estamos de acordo? - perguntou baixinho.

               Ficaram uma vez mais de pé junto à mesa do Conselho. Lentamente, Lydana retirou o anel de Estado do dedo, pousando-o na sua frente. Era evidente que os membros das Guildas tinham chegado a um acordo, pois a simbólica chave de ouro também estava sobre a mesa. Adele inclinou-se subitamente e observou o anel; poderia muito bem estar também ela a despedir-se de um cargo que já fora seu.

               O seu sussurro soou quase inaudível:

               - Tem cuidado, minha filha, com os jogos que te propões jogar.

               O embaixador, nas suas vestes cerimoniais, foi mandado entrar e levado à presença da rainha. Não sorria, mas tinha um certo ar de complacência, como se estivesse certo daquilo que iria encontrar.

               - Já te informaram das exigências de Merina? – perguntou Lydana.

               O homem assentiu com a cabeça fazendo abanar as penas do chapéu.

               - Sua Majestade Imperial tem sempre em consideração os interesses do povo. Não deseja fazer a guerra quando disso não há necessidade. Como seu embaixador, prestarei juramento e será como se fosse Sua Majestade Imperial a proferir os votos.

               - Ouvistes estas palavras, homens de Merina? – perguntou Lydana. - Sereis vós testemunhas, perante o Coração, destas promessas e deste juramento?

               Ouviu-se um murmúrio de assentimento. Lydana indicou o anel e a chave.

               - Eis aqui o selo e a chave. Leva-os ao teu senhor depois de prestares juramento...

               Não pôde dizer mais nada, pois Adele caiu subitamente para a frente, tentando respirar. Teria batido na mesa se Lydana e Shelyra não tivessem saltado para a agarrar.

              - A minha mãe está doente, embaixador... - Lydana quase rosnou as palavras. - Faze o teu dever, que eu farei o meu.

 

LYDANA

               Embora Adele se conseguisse manter de pé, apoiou-se pesadamente em Lydana; mas os seus murmúrios muito fracos dirigiam-se também a Shelyra.

               - Deixem-nos acreditar que eu estou muito doente.  É a melhor maneira de isto resultar.

               Contudo, Lydana não conseguia ter a certeza se a sua mãe estava a empregar um truque que ela própria tivesse planeado, ou se queria poupar o fardo da preocupação àquelas que tinha junto de si. Quando iam a caminho dos aposentos da mãe, vieram ao seu encontro vários Hábitos Castanhos, membros da Ordem dos Curandeiros do Templo.

               - A grande sacerdotisa sabe do que se passa – explicou uma delas, enquanto pegavam no corpo frágil de Adele e a deitavam na padiola que tinham trazido consigo. - Ela enviou-nos para que levássemos a reverendíssima para o templo. Descansai os vossos espíritos, pois aqueles que  pertencem  ao  Coração cuidam bem dos seus irmãos.  Cuidai agora de Vós...  e desta esperança do futuro. - Indicou Shelyra com a cabeça.

               Mas Adele não estava ainda preparada para as deixar partir; virou a cabeça na direcção delas e disse, numa voz que revelava agora muito do seu antigo vigor:

               - Não fiquem certas de nenhuma morte até terem visto a sepultura. Se mostrarem dor por eu ter passado o Portão Interior, desta vez esse luto será apenas um disfarce. Visto sabermos quais as ambições desse Apolon, mas desconhecermos a dimensão da sua força, tomem cuidados redobrados. Tu, filha do meu filho - dirigiu-se directamente a Shelyra - deves tentar aprender a ser mais humilde que o mais humilde e usar essa couraça em tua defesa e deves controlar o teu temperamento. Esta será uma prova por que muito poucos passaram, pois exigirá mais da força do espírito e da vontade do que da força física.

               Shelyra assentiu, com os lábios comprimidos formando uma linha estreita.

               - Quanto a ti, filha... - olhava agora para Lydana. – Tiveste o teu próprio treino. Uma coisa, contudo, te vou dizer: aquelas fontes do mal que guardaste, talvez não sejas imune ao que podem trazer-te de volta. Tem muita cautela quando as usares. A lei do Coração é uma só e é verdadeira: pratica o mal, mesmo que com um bom objectivo, e esse mal regressará duas vezes mais forte! Agora, vós as duas, é hora de partir. Se tivermos necessidade de nos falarmos no futuro, fá-lo-emos através do confessionário do Grande Templo. E que o Coração vos envolva e guarde até ao dia em que estas trevas maléficas possam ser expulsas.

               Não voltou a olhar para trás, para nenhuma delas, quando os Hábitos Castanhos a levaram na padiola. Adele tinha razão: elas tinham os seus próprios caminhos a percorrer e para que o pudessem fazer... Lydana agarrou Shelyra por um braço.

               - Vem!

               Não havia guardas nos corredores; os governantes de Merina tinham-nos mantido com fins meramente protocolares e Lydana estava certa de que tinham sido convocados pelo seu comandante para que escoltassem o embaixador do imperador até ao Grande Templo. Contudo, não podia estar certa de que os seus movimentos não fossem observados e aquilo que tinham a fazer tinha que ser feito com rapidez. Com Shelyra atrás de si, entrou no seu quarto. Eles estavam

 à espera. Ela não tinha quaisquer dúvidas de que estariam.

               A mensagem que Skita entregara de madrugada não era de natureza a ser questionada. Não lançando um olhar sequer à pequena criada que balançava um dos pés, sentada na sua cadeirinha, a atenção de Lydana concentrou-se inteiramente no outro ocupante do quarto.

               Era então este o herói de tantas baladas e histórias de embuste que provocavam o riso naqueles que não tinham sido as vítimas do seu espírito e língua manhosos. Estava ali, de pé, como se já tivesse inventariado todo o recheio do quarto, decidido quais as peças mais valiosas e de transporte mais fácil para referência futura, quando a oportunidade se lhe apresentasse. E a sua atitude deixava transparecer que essa oportunidade parecia estar, de facto, próxima.

               - Thom Talesmith.

               Lydana olhou-o de cima a baixo. Ele tinha o ar ingénuo de um jovem que pouco conhecesse do mundo e que se sentisse um tanto intimidado com as riquezas que este tinha para lhe oferecer. Nada podia estar mais afastado da sua reputação.

               - Eu mesmo, Vossa Majestade. - Fez uma vénia tão elegante como a melhor vénia de qualquer cortesão.

               - Ladrão, patife, condenado a uma sentença de morte – replicou ela no tom prático de quem sintetiza um problema.

               - E, no entanto, estou aqui...

               Continuava a sorrir com o mesmo ar agaiatado; tão inocente como os primeiros raios da aurora. Mas os olhos por cima dos lábios... a esses não os conseguia controlar tão bem. Mantinha-se alerta, como um animal encurralado e, tal como ele, tinha a intenção de se libertar ou, pelo menos, de fazer pagar um tributo de sangue aos seus captores.

               - Foi o supremo juiz quem te condenou - fez ela notar.

               - Por que razão estou então aqui por ordem real? – ripostou ele. O sorriso desaparecera e tinha o queixo lançado para a frente.

               - Porque, para além de ladrão, patife e tudo o mais que dizem de ti, há também muitas outras coisas que os homens podem dizer com sinceridade a respeito de Thom Talesmith. Que tem o tipo de coragem que não vem de uma longa familiaridade com o aço, ou com os bastões, ou com o punhal do assassino furtivo.

               Ele fez novamente uma vénia enquanto ela continuava:

               - Sim, coragem e esperteza - também ouvi dizer isso de Thom Talesmith. Quando se compromete com qualquer empreendimento, mantém a sua palavra, não importa aquilo que possa acontecer.

               Shelyra sentara-se aos pés da cama, observando-o com olhar de águia. A última afirmação da tia fizera-a morder o lábio inferior e franzir o sobrolho.

               - Merina cairá - continuou Lydana.

               Ele encolheu os ombros.

               - Como poderia ser de outra maneira? É impossível opormo-nos a todo o poderio do imperador. E morrer inutilmente é a escolha dos estúpidos.

               Foi a vez de Lydana sorrir.

               - Coisa que Thom Talesmith não é! Merina pode cair, mas não morreu, nem poderá ser tranquilamente enterrada enquanto o nosso novo e ilustre amo continuar na senda das conquistas.

               Estendeu a mão para a mesa mais próxima. Esta tinha em cima do tampo um pequeno punhal achatado, destinado a abrir documentos. Ele observava-a com atenção, mas sem qualquer traço de medo, apenas curiosidade e excitação.

               - Que deseja a nossa graciosa rainha?

               Havia um ligeiro traço de ironia naquela frase, mas Lydana continuou a sorrir.

               - Os teus serviços, sob a forma de um pacto de sangue...

               Ergueu o punhal, fazendo-o brilhar à luz. Ele já não sorria; Lydana viu a sua mão mover-se em direcção à faixa que tinha à cintura, como se procurasse uma arma que já lá não estava.

               - Estou a dar-te uma oportunidade, Thom Talesmith; a ti que enganaste e roubaste e te tornaste o herói dos que vivem nos becos. Estou a dar-te a oportunidade de te tornares num herói de verdade.

               Os olhos dele viraram-se para o punhal.

               - Assassínio? De... do todo-poderoso Balthasar, o próprio?

               - Nós não te pedimos o impossível. Não, o que queremos de ti é o seguinte. É ela... a próxima herdeira de Merina. – Indicou a rapariga com um aceno de cabeça. - Ela será uma das que Balthasar quererá ter ao seu alcance... ou talvez morta.

               Thom desviou os olhos da faca pela primeira vez para olhar directamente para a rapariga. Olharam-se fixamente como dois gatos prontos a disputar o mesmo território.

               - Diz-se que tens um pacto de sangue com um dos Senhores dos Cavalos...

               Ele assentiu sem desviar os olhos dos de Shelyra.

               - Então, poderás arranjar maneira de esconder Shelyra até que eles cheguem e depois até poderás falar com eles a nosso favor. Farei um pacto de sangue contigo para me assegurar de que a protegerás, protegendo através dela o futuro desta cidade.

               Ele franziu o sobrolho.

               - Ela é uma princesa, uma senhora muito importante. Reconhecê-la-iam imediatamente nos buracos que eu conheço.

               - Então, assegura-te de que isso não acontecerá.

               Antes que ele pudesse mexer-se, Lydana moveu subitamente a mão direita e agarrou-o pelo pulso, onde ainda se podiam ver as marcas das grilhetas. Ele soltou um pequeno grito e ficou a olhar para a gota de sangue que se espalhava sobre a pele encardida. Lydana manteve a lâmina firmemente agarrada para que a outra gota de sangue que ali se via não caísse e, com a outra mão, indicou a Shelyra que se aproximasse e, felizmente, a rapariga obedeceu sem quaisquer protestos. Lydana agarrou na sua mão, desta vez com a palma virada para cima e no côncavo da mão deixou cair a gota de sangue que escorria do punhal.

               - Pelo Coração, pelos Grandes Poderes, por tudo aquilo que está acima de nós e que destrói as Trevas profundas, que seja testemunhado que Thom, aqui presente, tem um pacto connosco, mas também ela, da Casa do Tigre, deverá recordar que ele lutará a seu favor e não deverá quebrar os laços que a ele a unem.

               Lentamente ambos murmuraram as frases do pacto de sangue, tão antigas como o mundo. Lydana lançou o punhal a Thom, que o apanhou no ar com destreza e o enfiou, desembainhado, na faixa que trazia à cintura.

               - Skita conduzir-vos-á até lá fora. Está um barco à espera... levem-no e procurem o vosso esconderijo. - E de repente soltou uma gargalhada – se conseguires fazer alguma coisa que embarace o nosso novo governante... tens a minha permissão para agir, desde que Shelyra esteja a salvo.

               Ele estava de novo a sorrir. Depois, ergueu a mão ligeiramente ensanguentada numa saudação, como um soldado faria a um oficial.

               - Que assim seja, minha rainha.

               Ela ficou a ver os três desaparecerem pôr trás de uma das cortinas. Aquele palácio era, de facto, um labirinto de caminhos invisíveis. Talvez que, se Balthasar tencionasse instalar ali o seu Governo, isso também pudesse ter as suas vantagens para elas. Fizera o que pudera por Shelyra, agora devia preparar o seu próprio desaparecimento.  E, afortunadamente, ela preparara-se durante  anos,  sem saber por quê,  para  esse  mesmo  objectivo. Tanto quanto sabia, Skita era a única pessoa que partilhava inteiramente esse segredo. Tudo começara cerca de seis estações atrás, pouco depois de Ourse, quando se sentira inquieta e desejosa de saber mais de Merina do que a mulher que vivia rodeada do poder da Casa do Tigre e que teria eventualmente dentro de si o talento precioso, poderia alguma vez saber. Skita fora, de facto, parte disso.

               Quando o capitão Saxon destruiu a frota dos piratas, fez uma grande limpeza nos seus refúgios nojentos ao longo da costa e das ilhas do sul. Foram descobertas algumas coisas muito estranhas.  Se os piratas faziam escravos, estes não sobreviviam muito tempo, isso era do conhecimento geral. Mas numa gaiola, como se fosse um pássaro gigante, foi encontrada Skita. Foi o próprio Saxon quem a libertou, mas ela recusou-se a falar com qualquer dos homens e ele apercebeu-se de que ela não pertencia a nenhuma raça sua conhecida. Trouxe-a de volta a Merina quando se tornou evidente que não podia fazer mais nada para assegurar a sua protecção e apresentou-a ao rei, mas nesse dia de apresentação pública na corte, Skita limitou-se a atravessar a sala até ao estrado mais baixo onde, nesse dia, estava sentada Lydana e ergueu as mãos para a filha do rei.

               Inicialmente sobressaltada, Lydana limitara-se a ficar a olhar para ela. Depois algo despertou dentro de si; uma emoção que não conseguia definir. Não tinha nada de semelhante com os sentimentos que alguma vez sentira, mas naquele momento preencheu-se um vazio dentro de si. Skita não era bem a filha que nunca tivera, mas era-lhe tão próxima como qualquer parente de sangue e, embora nunca tivesse ficado a saber mais da história da sua pequena companheira para além do facto de que ela vivera numa ilha atacada por um barco pirata que saíra da sua rota, Skita nunca exprimiu o desejo de voltar para o seu povo. Nem foi capaz, ou talvez não o quisesse fazer, de fornecer coordenadas ou o nome da sua terra natal aos escribas de mapas que Lydana consultou.

               Era muito esperta e tinha certos talentos muito próprios. Frequentemente parecia ser capaz de lhe ler o pensamento, quando Lydana estava profundamente concentrada num problema qualquer e tinha uma grande capacidade de se aperceber da aproximação do perigo. Lydana ensinou-lhe alguma coisa de joalharia e ela tinha a capacidade de recordar com toda a exactidão, palavra por palavra, tudo o que ouvia ou lia. Para além disso, e  Lydana nunca tentara traduzir isto em palavras, a sua companhia parecia ser encorajante e calmante. Uma pessoa até podia imaginar, se fosse dada a fantasias, que ela era um dos anjos da guarda tantas vezes referidos nos missais dos claustros e na biblioteca do Grande Templo.

               Foi depois de Skita se ter integrado na sua casa, que Lydana conseguiu reunir finalmente a determinação necessária para um projecto que andava na sua cabeça desde a morte do marido. Não teria tido a liberdade de que precisava para levar a cabo os seus planos se ele continuasse a ser, tecnicamente, o chefe da sua família.

               Mais uma vez, como tantas vezes antes, Lydana usou as passagens secretas do palácio. Encontrara uma pequena câmara muito adequada aos seus planos ainda inacabados e fora ali que avaliara quais as suas necessidades para a experiência de se transformar, já não numa senhora aristocrata, mas numa qualquer comerciante da cidade de Merina.

               Estava lá colocada uma arca, laboriosamente transportada para ali por si própria e por Skita, um espelho na parede, e algo que nunca tivera lugar no toucador pouco fornecido dos seus aposentos oficiais: uma caixa de cosméticos vários.

               Foi assim que Matild nasceu. As roupas simples e de cores escuras, que eram as preferidas de Lydana, foram ali trocadas por roupas de cores brilhantes, que a simples idéia de usar, quando encarnando a sua verdadeira identidade, a teria feito estremecer. O seu cabelo castanho-claro foi solto da sua tiara apertada e entrançada e cuidadosamente penteado uma e outra vez com uma das escovas vendidas no mercado para aquelas que, tendo já passado o auge da sua vida, não se rendiam aos cabelos brancos, escurecendo-os e dando-lhes um brilho estranhamente vermelho.

               E não voltou a entrançar novamente o cabelo. Este foi antes torcido e enrolado, Lydana necessitara de fazer algumas experiências impacientes para conseguir o seu objectivo, em caracóis por cima das orelhas. Por cima dos caracóis colocou redes de prata escurecida, cujos fechos se encontravam no topo da cabeça e deixavam cair fiadas de contas de vidro brilhante sobre a sua testa.

               Aprendera a apertar o espartilho de modo a realçar tanto a curva das ancas como a empurrar para cima, de forma quase indecorosa, os seios. Por cima, vestiu uma saia de seda esfiapada junto à bainha e depois um corpete justo, deixando ver, de forma questionável, o pescoço e os ombros. Antes de ajustar o corpete seleccionou, de entre os muitos cosméticos guardados na arca, um frasco do qual verteu um líquido cor de canela. Utilizou um pincel macio e um pedaço de seda suja e a sua pele cor de marfim desapareceu, dando lugar à pele tisnada de uma mulher que passava muito tempo ao ar livre e que abusara dos cosméticos durante toda a sua vida. Depois, escureceu e redesenhou as sobrancelhas e cobriu as faces com vermelhão. De uma pequena caixa tirou um sinal preto, que ficou colado à ponta do seu indicador, e colocou-o no lábio superior por cima do baton vermelho abundantemente aplicado.

               Depois de se observar criticamente ao espelho, Lydana enfiou vários colares feitos de pedras semipreciosas e cristais entremeados com pedaços de prata não polida e contas de cobre.  Em cada pulso enfiou uma série de pulseiras.

               Enquanto Lydana se ocupava dessa forma, Skita, que acabara de regressar, tinha também assumido a sua outra identidade: a de alguém que conhecia bem os locais mais duvidosos da vida

da cidade. Utilizou uma loção semelhante à de Lydana, não apenas no pescoço, no rosto e nos braços, mas tirando a roupa toda, assegurou-se de que todo o seu pequeno corpo estava agora coberto por uma película que sugeria a necessidade de um banho, ou de uma série de banhos, antes de voltar a ficar num estado próprio à confraternização com companhias decentes.

               Depois, deitou o cabelo numa taça onde despejara o resto da loção, enfiando em seguida os dedos num pote com um unguento gorduroso e passando-os repetidamente pelos caracóis até estes ficarem escorridos e emaranhados.

               Com o corpo já seco, pegou numa tira de tecido cinzento grosseiro e apertou-a firmemente por cima da curva dos seios. Podia muito bem ser um rapaz, um dos membros dos grupos de jovens que frequentavam os canais. E as calças demasiado largas que vestiu, atadas com um pedaço de corda, a camisa largueirona e comprida e o cinto remendado, completavam o disfarce.

               Skita deixara de existir, tal como Lydana não existia mais. No seu lugar apareciam, enquanto fechavam as arcas e se observavam cuidadosamente uma à outra, Matild, que negociava

em contas e outras bugigangas baratas e que tinha uma loja num buraco escuro junto ao canal mais a sul, e Eel 2, o malandro do seu sobrinho, cuja habilidade para separar os cidadãos das suas bolsas era motivo de comentários de admiração entre os companheiros da rua.

               Matild suscitara uma tal reputação de inconstância, que as poucas esposas decentes da sua rua murmuravam à sua passagem. De acordo com os rumores, ela tinha um fraco por marujos, embora nunca ninguém a tivesse visto com um. Mas quando ela desaparecia dias seguidos, pensava-se que estaria ocupada com algum marinheiro de mãos largas de regresso de uma viagem

lucrativa. Por outro lado, embora proferissem comentários desdenhosos e dessem à língua a respeito das suas supostas actividades, as mulheres do Páteo de Stingray tinham um respeito relutante e mesmo alguma reverência, pela sua vizinha. Já provara por várias vezes ter um sexto sentido, sendo capaz de obter notícias de homens desaparecidos, ou filhas desaparecidas e dera-lhes alguns conselhos que tinham conseguido livrar parentes das garras da polícia.

               Embora as suas mercadorias não passassem de bugigangas vistosas, eram suficientemente bonitas para atrair a atenção das mulheres e o seu negócio prosperava junto dos jovens aprendizes que queriam impressionar uma qualquer criada de servir.

               Ainda era dia. Matild bocejou e apercebeu-se de que tinha fome. O que é que tinha comido? Tinha comido de manhã muito cedo e foram unicamente biscoitos e um copo de vinho. Mas parecia que Skita pensara nisso, pois apareceu com um cesto e partilhou com ela queijo, pão e alguma carne seca, bem como dois bolos escorrendo açúcar.

                               Tinham que esperar até que a cidade ficasse totalmente consciente da presença dos invasores. Agora que já se transformara, Matild sentou-se de pernas cruzadas no chão de pedra e começou a examinar detalhadamente tudo o que Lydana, a rainha, fizera nesse dia, tentando descobrir quais os pontos fracos dos seus planos improvisados.

               - Thom manter-se-á fiel à palavra dada. - Skita baixara o candeeiro até este dar apenas uma luz muito fraca. - Ele é um homem de muitas facetas.

               Matild suspirou.

               - Uma pessoa pode ouvir dizer muita coisa, mas tudo o que é dito é distorcido elos próprios pensamentos e sentimentos daqueles que contam a história. Só espero que ele seja suficientemente engenhoso para lidar com Shelyra. De momento, ela faz o que lhe dizem por não ter tido tempo para pensar ou imaginar a sua própria forma de lidar com os acontecimentos. Mas - Matild ergueu as mãos num gesto de alguma impotência - que mais poderíamos nós ter feito em

tão pouco tempo?

               - Nós tivemos o tempo necessário. - A sua boca torceu-se e o vermelho dos lábios sujou-lhe os dentes, enquanto se corrigia a si própria. - Mas era como se estivéssemos cegas... até há meio ano atrás. Vimos Balthasar e os seus exércitos activos lá no norte... uma cidade-estado... não valíamos a sua atenção até ele ter dominado os barões do Shlad. Embora, mesmo que tivéssemos decidido defender-nos, que poderíamos nós ter feito? Os homens da cidade estão dispostos a lutar pelas suas casas e pelas suas famílias, é um facto, mas não são veteranos bem treinados.  Não temos muralhas capazes de aguentar um armamento igual ao usado no cerco que derrotou Hardclaw. Não, só nos resta escondermo-nos e aguardar... e usar da paciência do bicho da madeira que, através do seu labor, consegue deitar abaixo uma casa velha de um século.

               Agarrou no cesto da comida, agora quase vazio, e começou a arrumá-lo com precisão. Estranhas armas, mas as melhores de que dispunha. No fundo do cesto ficou a caixa com as pedras de mau augúrio. Sobre elas, monte após monte de contas, algumas enfiadas, outras em saquetas. Era-lhe difícil controlar a sua impaciência... queria sair dali e pôr-se a caminho, mas precisavam de um disfarce para os seus movimentos.

               - Deverá o Eel ir cheirar lá fora? - Skita chegou-se para mais perto dela. Talvez também ela tivesse dificuldade em agüentar a pressão que a necessidade de cautela punha sobre elas.

               Matild pensou e depois assentiu e a pequena criatura moveu-se com velocidade e entusiasmo, perdendo-se de vista por trás das paredes.

               Matild ficara com uma fiada de contas entre os dedos; de jade, sim, mas com falhas e de uma cor pouco bonita. Deliberadamente concentrou-se noutra pessoa, Adele, enquanto fazia correr as contas por entre os dedos, seguindo o padrão da prece silenciosa. Acreditava no templo, fora educada nessa crença e sabia que as pessoas como a reverendíssima tinham capacidades que pareciam miraculosas ao comum dos mortais. No entanto, no seu coração, lidava melhor com a acção e acreditava de alguma forma que o Coração e tudo aquilo que este representava, favoreciam aqueles que lutavam para se ajudarem a si próprios se a sua causa fosse justa.

               Adele estava a salvo. Não acreditava que nem mesmo Balthasar, ou aquele mago dele que tinha poderes das Trevas, se atrevessem a entrar nos claustros. O templo fazia parte da vida do imperador de uma forma muito importante e os seus próprios chefes se virariam contra ele se fizesse tal coisa. Mas havia outras formas de entrar no templo para além de derrubar uma porta desprotegida com um grupo de homens armados. Desprotegida? Passou mais uma conta por entre os dedos sujos. Havia protecções mais subtis, e mais poderosas, do que quaisquer portões feitos pelo Homem.

               A grande sacerdotisa Verit era velha. Já detinha o Grande Trono há cerca de quarenta estações, embora não parecesse ter perdido nada da sua sagacidade nem do seu poder com o passar do tempo. Teria Apolon alguma forma de provocar malefícios desconhecidos mesmo àqueles que estivessem ligados ao próprio Coração? Não valia a pena estar a preocupar-se com aquele tipo de considerações. Era melhor que pensasse naquilo que teriam de enfrentar de imediato.

               Saxon, sim, o capitão do porto faria parte integrante dos planos que viesse a congeminar. Mas Saxon era uma figura tão pública como o fora Lydana quando sentada à mesa do Conselho.

 Podia confiar nele para que se pusesse a salvo. De momento devia confiar nisso mesmo.

 

SHELYRA

               Saíram os três da passagem secreta para os corredores do terceiro andar. Skita começou a descer o corredor em frente às claras. Thom Talesmith começou a seguir a pequena mulher, mas quando viu que Shelyra não se mexia, parou. Assim que ele parou, Skita virou-se para ver o que se passava. Shelyra franziu-lhes o sobrolho, mas foi a Thom que dirigiu a expressão mais reprovadora, como que dizendo, ainda que sem palavras, “Tu, pelo menos, devias ter mais juízo”.

               - Volta para junto da rainha - disse a Skita com um aceno de mão. - Ela precisa mais de ti do que nós.

               - Mas o barco... - protestou Skita.

               Shelyra abanou a cabeça.

               - Pode ser que eu leve o barco, pode ser que não. Quanto menos pessoas souberem como é que nós vamos sair daqui, tanto melhor. Mesmo tu podes ser apanhada e engaiolada para seres interrogada, Skita.

               Escolhera as palavras com inteligência e, conhecendo a história de Skita como conhecia, viu a pequena mulher estremecer um pouco.

               Sem mais objecções, Skita voltou para trás e apressou-se a regressar aos aposentos da rainha. Shelyra esperou até ela não os poder ver nem ouvir e depois fez sinal a Thom que a seguisse; viu pelo seu apertar de lábios que não lhe agradava nada encontrar-se na posição de ter que receber ordens e reprimiu um sorriso de cruel satisfação.

               Não fora ela quem pedira para ficar amarrada àquele tipo insolente e não estava disposta  a  aturar-lhe  quaisquer veleidades.

                Não gosto da reputação deste homem e a atitude dele só confirma essa reputação. Corre riscos estúpidos só por uma questão de notoriedade; se lhe derem a escolher entre uma acção eficiente que não tenha a correspondente admiração pública e uma outra ineficaz que engrandeça a sua lenda, ele preferirá a segunda.

               Soubera desde o instante em que ele a olhara, que ele contava com o seu encanto e a sua beleza e a presumível sensibilidade de Shelyra a ambas, para conseguir que ela fizesse o que ele queria. Ele esperava que ela não passasse de uma princesa mimada e aristocrata, fácil de adular, fácil de conduzir; e dissera isso mesmo. Bem, esse era o seu erro, pensar que lá por que ela tinha sido criada num palácio, não tinha qualquer experiência do mundo real.

               Não levara em conta o facto de ela ter crescido num ambiente em que estivera constantemente rodeada de jovens bem parecidos, com muita ambição, mas pouca inteligência, sem nada onde empregar o tempo a não ser a cortejá-la, na esperança de que ela pudesse contribuir para a satisfação das suas ambições. Para ser honesta, muitos desses rapazes eram mais bonitos que Thom e ela sempre conseguira ver para lá das suas lisonjas.

               A tia Lydana nunca soube de metade das coisas que eu fiz enquanto vivi com os Senhores dos Cavalos e não tem qualquer conhecimento da minha amizade com os ciganos. Bem, se calhar assim é melhor. Tal como Skita pode ser apanhada e interrogada, também isso pode acontecer à minha tia.

               Aquela idéia fez com que os braços se lhe arrepiassem.

               O melhor é eu manter-me fiel aos meus próprios planos. Os dela podem não ser seguros por muito tempo. De qualquer forma, eu não vou virar as costas e fugir, não enquanto sentir que tenho hipóteses de fazer qualquer coisa de positivo.

               Entrou para o gabinete da governanta do palácio, que não chegaria antes da tarde. Thom seguiu-a, ainda de sobrolho franzido.

               - O que... - começou a dizer assim que a porta se fechou por trás deles.

               - Chiu - interrompeu-o ela, ainda antes dele conseguir terminar a pergunta. - As paredes têm ouvidos.

               Ela dirigiu-se para o fundo do corredor, enquanto ele suspirava melodramaticamente e erguia os olhos para o céu, como que implorando aos anjos que lhe dessem paciência. Era evidente que pensava que ela estava a ser ridiculamente cautelosa.  O que só fez aumentar o desdém que Shelyra sentia por ele.

               Idiota! Como será que sobreviveu tanto tempo?

               O fecho daquela passagem secreta estava tão bem dissimulado que nem a governanta, que usava diariamente os livros que estavam na estante ao fundo do gabinete, tinha dado por ele. Tal como a porta que Shelyra utilizara no átrio na noite anterior, aquela também girava sobre um pilar central. Tomou a precaução de interpor o corpo entre as suas mãos e os olhos de Thom, enquanto soltava a fechadura. Tencionava vencer este conflito com o imperador, o que significava que a Casa do Tigre recuperaria a posse deste palácio e não tencionava fazer com que Thom conhecesse mais dos seus segredos do que o estritamente necessário.

               Não viu a expressão dele quando a estante girou sobre si própria, mas quando se voltou para lhe indicar que entrasse, o seu rosto perdera a expressão de ligeira troça.

               Uma vez a salvo no interior da passagem secreta, ali, naquela passagem, as paredes eram suficientemente espessas para abafar o som, até mesmo de um grito, e num local onde não havia quaisquer frestas que pudessem deixar passar luz para o exterior, tacteou à procura dos fósforos e da lanterna que tinha sempre preparados numa prateleira junto à porta. Acendeu o fósforo e chegou fogo à lanterna, trancou a porta secreta por trás de si, por forma a que só pudesse ser aberta do interior e só então se virou para o homem que supostamente tinha um pacto consigo.

               Observou-o criticamente, como ainda não tivera oportunidade de fazer. A princípio ele sorriu e posou, mas como a sua expressão não se alterasse e não houvesse qualquer relaxamento na sua atitude, o sorriso complacente desvaneceu-se e começou a aparentar desconforto perante o escrutínio implacável.

               Era um homem bastante bem parecido; isto se se lavasse com mais frequência e mais cuidado. Era mais alto do que ela uma cabeça e meia, usava o cabelo louro escuro cortado abaixo

das orelhas e afastado dos olhos, surpreendentemente azuis, por uma faixa de seda vermelha. O seu rosto barbeado tinha uma expressão arrapazada, aparentemente inocente, e fazia-o parecer mais novo do que a soma dos seus anos. Vestia um casaco de cabedal castanho largo e muito usado, por cima de uma camisa de seda já no fio e que desbotara da sua cor original, qualquer que esta tivesse sido, até ficar de um bege indeterminado.

               A camisa estava entalada numas calças de linho castanho, que por sua vez estavam enfiadas no cano de umas botas de cabedal até aos joelhos atadas de lado; botas do tipo das usadas pelos Senhores dos Cavalos. Ela própria tinha um par de botas daquelas, que levara para um esconderijo seguro. Um cinto de seda vermelha desbotada completava o fato, todo ele a necessitar de uma boa barrela.

               Ele passou o peso de um pé para o outro, desconfortável sob aquele escrutínio continuado, enquanto ela avaliava o homem por baixo da roupa. Estava obviamente em boa forma; bem musculado, mas não em demasia; e não do seu “tipo”, seco e resistente, mas com músculos fortes e salientes. Ela soltou a respiração num suspiro.

               - Não tenhamos ilusões entre nós - disse ela com um olhar sobranceiro e desafiante. - Não importa o que a rainha te tenha dito, quem manda sou eu e obedecerás às minhas ordens. Ou poderás ir-te embora assim que chegarmos à rua, deixando de me aborrecer com a tua presença não desejada e mal-vinda.

               Com aquelas palavras, agarrou na lanterna e virou-se abruptamente, descendo a passagem com passadas largas, fazendo-o correr para a alcançar.

               - Não, esperai um momento, Toda Poderosa - disse ele com sarcasmo, enquanto ela continuava a impor uma passada que o fazia quase correr. - Eu sou...

               - Tu és um ladrão com uma reputação exagerada – respondeu ela rispidamente. - Não tens quaisquer recursos para além dessa faca que trazes no cinto e aquilo que tiveres conseguido esconder na cidade, e que os teus queridos colegas e amigos são capazes de já ter saqueado. Dentro em breve, Merina estará repleta de homens do imperador, se é que não o está já. Se quiseres partilhar dos recursos que eu escondi, eu, que não confiei esses segredos a ninguém, cumprirás as minhas ordens. Se não o quiseres fazer, podes correr os teus riscos com os homens do imperador.

               A passagem fazia uma viragem brusca; ela sabia da sua existência, mas ele não. Não esbarrou com a parede, mas a súbita mudança de direcção fez com que cambaleasse e perdesse momentaneamente o equilíbrio e teve que correr para a apanhar de novo.

               - Que recursos? - perguntou ele, quando já estava de novo perto dela.

               Ela não lhe respondeu. Ele poderia ser útil, nem que fosse para fazer recados, mas apenas se dobrasse o seu orgulho desmedido à sua mão.

               - Era suposto que tomássemos o barco...  - disse ele; depois a suspeita transpareceu na sua voz. - Somos supostos ir ter com os Senhores dos Cavalos. Vós não tencionais sair da cidade, pois não?

               - A tua decisão - recordou-lhe ela. - Quero saber qual é, antes de te dizer o que quer que seja. Não confio a ninguém os meus segredos, muito menos a um patife que acabou de escapar da forca e que é capaz de decidir tentar fugir da cidade pelos seus próprios meios. E de ser apanhado em resultado dos seus esforços.

               Ele está nas minhas mãos e sabe disso. Deu a sua palavra e fez comigo um pacto de sangue. As minhas ordens revogam as da minha tia. Será que ela teve isso em consideração? Que ele não pensou nisso já percebi; tenho a sensação de que as suas fugas arrojadas e ardilosas foram conseguidas mais à custa da sorte do que de planeamento.

               Ele grunhiu de forma exagerada.

               - Que escolha é que eu tenho? - exclamou. - A rainha tem os meus votos em sangue!

               - E eu tenho o poder necessário para te desligar deles - recordou-lhe ela calmamente, mantendo o passo rápido. - Ponho-te apenas a condição de deixares Merina imediatamente e de nunca mais voltares.

               Pelo seu silêncio, interrompido apenas pela respiração, ela percebeu que ele se sentia dividido quanto à decisão a tomar. Com cinismo ela pensou saber qual a razão da sua indecisão.

               Com os homens do imperador a tomarem a cidade haverá grande confusão e onde há confusão, existe a oportunidade de saquear e roubar. O seu rosto e o seu nome não são conhecidos dos homens do imperador e, se ele ficar comigo, tem a hipótese de conseguir algumas pilhagens de primeira escolha. Mas, se se for embora... conseguirá salvar a vida, o que não tinha qualquer esperança de conseguir ontem por esta hora. É uma escolha difícil.

               Ocorreu-lhe outra idéia, outra razão pela qual ele estaria hesitante em cumprir a sua promessa de a levar a refugiar-se junto dos Senhores dos Cavalos. O rumor de que ele era irmão de um dos seus chefes por pacto de sangue podia muito bem não passar disso mesmo, de um rumor que ele próprio tivesse lançado para aumentar a sua fama e o mito que rodeava a sua vida. Não era por acaso que lhe chamavam Talesmith 3.

               Naquele momento estava pronta a classificar de mentira ou de distorção da verdade até ao limite, tudo o que o homem lhe pudesse dizer. Ele que provasse a sua valia aos seus olhos; não acreditaria em nenhuma das histórias que se contavam a seu respeito. Os contadores de histórias e os baladeiros mentiam frequentemente.

               E disso são testemunho todas aquelas canções idiotas que louvam as minhas maneiras delicadas e a minha pele branca como os lírios

               Se na história daquele pacto de sangue não houvesse nada de mais sólido do que um par de botas, que ele próprio poderia ter comprado em segunda mão num mercado de roupa, ela tinha todas as razões para duvidar dele. É provável que ele não esperasse ser apanhado por ninguém nesta sua invenção e está a tentar pensar numa saída para esta situação. Os Senhores dos Cavalos perdem rapidamente a paciência e não recebem bem estranhos que, para além de falidos, lhes arranjam sarilhos.

               Ele não tem qualquer hipótese de saber que eu tenho, por direito próprio, estatuto entre os Senhores dos Cavalos e teme o que possa acontecer se entrar nas suas terras comigo atrás, correndo o risco de ser recebido com hostilidade!

               Também não se sentia particularmente inclinada para o informar dos seus próprios planos. Ele que arranjasse forma de se libertar da teia que ele próprio tecera. Seria um bom divertimento, caso ela não tivesse preocupações bem mais urgentes.

               Também ela se sentia dividida entre a vontade de se ver livre dele e a vontade de o ter à sua disposição. Para os seus planos seria útil ter um homem ao seu lado, quanto mais não fosse como um meio de evitar as confrontações desagradáveis que, inevitavelmente, aguardariam qualquer pessoa do sexo feminino.

               De momento, os seus planos limitavam-se a levá-lo até ao Bairro Cigano, a um certo comerciante de cavalos, junto de quem o talismã de bronze que trazia, escondido por baixo da gola do vestido, serviria para lhe dar acesso a uma posição entre os tratadores e domadores. A partir daí teria que esperar para ver o que o imperador faria... e que passos a sua avó daria.

               Fervia interiormente com a vontade de fazer qualquer coisa, mas de momento não havia nada que pudesse fazer, e sabia disso.

               - Fico convosco. - Ela sobressaltou-se; estivera tão concentrada nos seus próprios pensamentos que quase esquecera Thom. - Fiz os votos; não quero que se diga que Thom Talesmith voltou com a palavra atrás quando as coisas começaram a dar para o torto.

               - Muito bem - replicou ela. Ele que pintasse a decisão da forma que mais lhe aprouvesse, desde que se decidisse e mantivesse essa decisão.  - Por agora, vamos para o  Bairro Cigano.

               Ele riu-se, soltando pequenas gargalhadas.

                - Ah, realmente? E ser-vos-á tão fácil passardes despercebida nesse bairro, imperatriz!

               Ela ignorou o comentário mordaz, agarrando nas saias de veludo do seu vestido para poder correr e obrigando-o a fazer o mesmo. A passagem descia abruptamente, transformando-se num lance de escadas perigosamente estreitas. Ao fundo das escadas havia uma sala toda em pedra ao nível do andar térreo, embora aquela sala já não estivesse propriamente dentro do palácio.

               Shelyra colocou o candeeiro em cima de uma pequena prateleira que ali estava para esse efeito e abriu o saco que ali deixara na noite anterior. Em circunstâncias normais teria necessitado dos cuidados e esforços de uma criada para desapertar as costas do vestido apertado, mas não planeava voltar a usar aquele vestido, por isso não havia realmente necessidade de perder tempo a desapertá-lo.

               Levantou a saia pesada e tirou uma pequena faca de uma bainha presa ao tornozelo e depois cortou o lado esquerdo do vestido desde o sovaco até por cima da anca, ao longo da costura.

               Enquanto Thom olhava para ela de boca aberta, cortou a manga esquerda, que era muito justa ao braço, e soltou-a, deixando-a cair no chão. Depois cortou o ombro e a gola subida e contorceu-se, saindo dos restos do vestido.

               - Não quereis que... que eu vire as costas, ou coisa assim? - Gaguejou ele.

               Ela olhou-o friamente, enquanto cortava os cordões para despir o espartilho sofisticado e retirava o pesado corpete de seda, ficando apenas com os sapatos e uma pequena camisola interior. Os sapatos eram muitíssimo mais simples e práticos do que o vestido; ela correra esse risco, esperando que o embaixador não lhe olhasse para os pés com muita atenção.

               - Não – respondeu secamente. - Para quê? Eu não tenho qualquer interesse em ti e se tu tentasses qualquer coisa, ficarias sem a mão com que me tocasses.

               Com aquelas palavras, virou-se para o saco. Os ciganos, que eram parentes de sangue e tinham, para além disso, pactos com os Senhores dos Cavalos, reconheciam quatro castas: Latoeiros, Artistas, Curandeiros e Domadores de Cavalos.

               Na sua língua eram Caldesh, Getan, Dukke e Romer. Alguns acrescentavam “ladrões de cavalos”, mas esses só em parte tinham razão. Cada casta tinha uma forma própria de se vestir. O fato que ela tirou do saco não era o dos Domadores de Cavalos, pois alguém poderia recordar-se de que ela tinha laços com os Senhores dos Cavalos e procurá-la entre aqueles que trabalhavam com os animais, ou antes, entre aqueles que os treinavam e domavam. Era uma pena, pois a sua indumentária consistia num casaco e calças de cabedal por cima de uma camisa de linho escuro; fato muito adequado a alguém que tivesse que fugir à pressa. Também não vestiu a túnica e saia longas e castanhas dos Curandeiros, pois os seus conhecimentos no que respeitava a tratamentos não iam além de fazer pensos em feridas e àquelas doenças que atingiam os cavalos e não os humanos.

               Não, ela escolhera deliberadamente a única casta com a qual não seria provável que a relacionassem: a dos Artistas. Primeiro, enquanto Thom Talesmith a observava em estado de choque, ela envergou uma túnica de um vermelho desbotado com mangas justas que terminavam em folhos largos, mesmo acima do cotovelo; sobre esta vestiu três saias rodadas: uma preta, outra amarela e ainda uma vermelha, esta última com uma cintura subida que lhe chegava às costelas. Meteu as mãos no cabelo, soltou-o dos alfinetes que o mantinham seguro e retirou o travessão de prata; abanou a cabeça até o cabelo lhe cair solto sobre os ombros, chegando-lhe quase à cintura. Como era evidente, nenhuma donzela bem nascida usava o cabelo solto e ela sabia, por experiência própria, que aquela mudança de penteado lhe transformava completamente o aspecto do rosto.

               Do saco retirou um cinto enfeitado com pequenos sinos e moedas de cobre, que colocou em torno da cintura. Seguiu-se um lenço vermelho, que atou em volta da cabeça, a que juntou uma fita em torno da testa, enfeitada com mais moedas de cobre e correntes de bronze. Finas braceletes de cobre enfeitaram-lhe os braços e uns enormes discos de bronze substituíram os brincos de safiras preciosas que lhe enfeitavam as orelhas, safiras essas que atirou a Thom. Ele não estava tão espantado que não fosse capaz de as apanhar e meter no bolso.

               - Uma segurança - disse ela e continuou com a sua transformação.

               A última coisa a sair do saco foi um xaile que pôs pelas costas, caído por sobre os braços, um par de castanholas e as suas armas: um punhal achatado, que escondeu numa bainha entre os

seios; um outro punhal numa bainha presa à perna, seguiu o exemplo do primeiro; o seu punhal de guerra dos Senhores dos Cavalos pendia da ilharga, às claras e muito apropriadamente, do cinto de correntes e moedas. Tirou mais dois estiletes elegantes que prendeu no cabelo segurando, na nuca, o lenço e a fita.

               Prendeu as castanholas ao cinto, no lado oposto ao do punhal. A bolsa que continha os seus valores, prendeu-a por baixo da primeira saia, num local a que podia aceder através de uma abertura feita de lado. Por fim, limpou a cara de todos os vestígios de cosméticos. Nenhum cigano tinha dinheiro para esse género de coisa. O seu rosto, pálido à custa de muitas camadas de pó de pérola, ficou da sua verdadeira cor.

               O talismã de bronze, um disco com o Sol numa das faces e a Mão dos Curandeiros na outra, pendia agora abertamente da sua garganta, suspenso por um cordão de cabedal. Virou-se para o enfrentar, compondo uma expressão de ironia divertida.

               - Creio - disse ela no meio de um silêncio tão espesso que as suas palavras soaram como pedras caindo na água - que não provocarei grande tumulto no Bairro Cigano.

               Ele limitou-se a abanar a cabeça com espanto.

               - Os sapatos não são do tipo indicado para as danças do Sul - foi tudo o que conseguiu dizer. - Não têm tacão para os passos de sapateado...

               - Eu não sou bailarina profissional - replicou ela. - Desembaraçar-me-ei, se for forçada a dançar em público, com os passos do estilo nortenho. Os sapatos macios são adequados a esse estilo.

               Ele ergueu as mãos num reconhecimento de derrota.

               - E não é provável que algum dos homens do imperador já tenha estado nas planícies e visto dançar o estilo nortenho e não saberá se és uma bailarina ou uma amadora. Muito bem.

               Ela fez uma vénia irônica, como o faria uma bailarina, exagerada e cheia de arrogância. Sentia-se mais livre com aquelas roupas; já não era a herdeira, mas alguém com mais opções e sujeita a menos restrições.

               - Esta porta conduzir-nos-á a um canto abandonado do jardim, junto de um portão para qual só eu tenho a chave – disse ela, pondo a mão na parede branca. - Por aí poderemos aceder à rua. Veremos o que fazer com o tal barco; é capaz de acabar por nos ser útil. Estás pronto?

               Ele assentiu, o seu rosto inocente vazio de qualquer expressão enquanto tentava assimilar tudo o que acabara de lhe acontecer.

               Ela desorientara-o. E era assim que o tencionava manter. Sem mais uma palavra, ela correu o fecho escondido da porta que dava para o jardim e escapuliram-se juntos.

 

LEOPOLD

               No exterior das quatro paredes de lona que rodeavam o príncipe Leopold zumbia o sussurro soporífero das vozes de muitos homens. Não havia naquele som monótono qualquer sinal de que aquela era a frente de batalha alcançada ao cabo de uma campanha muito, muito longa; o murmúrio constante era até relaxante. Leopold estava recostado numa cadeira de lona e madeira na parte de trás da tenda espartana que o seu pai usava em campanha, aguardando que o imperador Balthasar pensasse em qualquer coisa de útil para ele fazer. Endurecera os nervos para uma batalha iminente assim que o embaixador regressara, e agora... agora estava envolto na lassitude que invariavelmente se seguia quando não tinha oportunidade de dar largas à sua energia nervosa.

               Sentia-se grato por não ter envergado naquela manhã a armadura completa, embora o fizesse sempre que antecipava um cerco ou uma batalha renhida às portas de qualquer cidade que

tivessem ido conquistar. Algo o fizera mandar o escudeiro embora quando o rapaz lhe trouxe a armadura e pedira em seu lugar a cota de malha preta e a túnica de cabedal da mesma cor; a que tinha placas de metal a revestir o interior. Sobre esta usava o manto com as insígnias do Império do seu pai, um Sol flamejante em ouro brilhante sobre um fundo negro, rodeado por estrelas também brilhantes.

               Agora sentia-se satisfeito por ter recusado a armadura; a cota já era dificilmente tolerável quando usada durante um dia inteiro; a armadura completa de combate, essa era impossível.

               A capitulação de Merina apanhou Balthasar completamente desprevenido; o imperador esperara um longo cerco, pois até mesmo Apolon declarara que nada faria os soberanos da cidade

do Coração render-se sem luta. Tudo indicava que a rainha Lydana, apesar de mulher, juntaria teimosamente a sua gente para defender as riquezas de Merina até ao mais amargo dos finais.

               Mas o embaixador do imperador regressara com as chaves do palácio e o sinete da Casa do Tigre nas mãos, e a capitulação e abdicação num documento enfiado num tubo preso ao cinto. Jurara, em nome de Balthasar, que os habitantes da cidade não seriam molestados, o que não foi muito do agrado de Apolon, mas satisfez o imperador o suficiente para que o mandasse embora com uma corrente de ouro em volta do pescoço. Balthasar agarrou no anel e enfiou-o imediatamente no dedo, embora Apolon fizesse um gesto inacabado, como se o quisesse examinar primeiro.

               Apolon, aquela serpente insidiosa; que é que ele queria, afinal? Arranjar maneira de se apoderar do sinete? Não que isso me espantasse!

               Apolon estava furioso por a vitória ter sido tão fácil. Isso, na verdade, despertava a curiosidade de Leopold...

               - E então, a rainha? - cuspiu o feiticeiro quando o embaixador acabou a recitação dos votos que jurara pelo imperador. - E a rainha-mãe, Adele? E a princesa Shelyra? Ela, pelo menos, devias ter insistido que ta dessem como refém do bom comportamento da sua cidade!

               Aquilo também pareceu muito estranho a Leopold... Por quê? Por que haveria o povo de Merina de se interessar com o que acontecesse à princesa?

               Apenas a sua própria família seria inibida de agir pelo facto de a termos como refém e esses abdicaram!  Não há mais nada que possam fazer contra nós, mesmo que quisessem!

               Muito estranho, de facto. Apolon deveria estar rejubilante com aquela vitória sem sangue; Leopold certamente que estava.

               Vi demasiado sangue nestes últimos anos. Há quanto tempo ando a combater?

               Desde que completara os seus catorze anos, certamente, e já passara dos vinte e seis. Uma vitória sem derramamento de sangue é preferível a uma que seja comprada com mortes. Apolon, que afirmava ter sempre em mente os melhores interesses do imperador e do Império, deveria ter-se sentido ainda mais contente com as notícias trazidas pelo embaixador do que o próprio Leopold. Em vez disso, parecia estar zangado, como se lhe tivessem negado algo de muito especial que lhe tivesse sido prometido.

               - Eu não apostaria que a rainha-mãe sobreviva para lá da meia-noite - disse o embaixador, com um encolher de ombros indiferente. - Caiu para o lado quando eu me vinha embora e foi levada para o templo pelos curandeiros para cuidarem dela. Estou certo de que não sobreviverá até ao fim da semana. O rumor que corria no templo era de que ela estava a morrer. Eles culpam-nos disso, evidentemente, mas pouco importa.

               - E quanto às outras duas, para onde poderiam ir? Usa a cabeça, Apolon - disse o imperador em tom conciliador. – São duas mulheres nobres e sozinhas; talvez acompanhadas de uns quantos criados fiéis, mas não mais do que isso. O mais provável é que estejam a tremer de medo no palácio, à espera que marchemos para tomar a cidade. Mesmo que tenham a coragem necessária para tentar uma fuga, para onde poderiam ir e como poderiam ter qualquer possibilidade de nos escapar? Controlamos as estradas e o rio, controlamos o mar; não conseguirão escapulir-se por entre os nossos dedos e se se esconderem na cidade, a sua natureza traí-las-á. Tê-las-emos na mão muito em breve.

               Apolon calou-se, mas continuava furioso; Leopold podia vê-lo pela forma como cerrava os maxilares, a posição dos seus ombros e a tensão das suas costas. Era bastante estranho ver o feiticeiro do imperador excitado; geralmente, ele era o homem mais cinzento e desprovido de emoções que Leopold alguma vez vira.

               Cinzento... da mesma forma que um escorpião é cinzento, para se poder esconder entre as ervas até estar pronto para atacar.

               Leopold não gostava de Apolon nem confiava nele, embora o seu pai quase não desse um passo sem ouvir os conselhos do feiticeiro-sábio.

               Se fosse como eu queria, mandava-o expulsar da tenda e correr com ele do Império como a um charlatão. Como eu gostava que ele fosse mesmo um charlatão! Infelizmente é bastante genuíno.

               Apolon podia fazer, e fazia, maravilhas e as suas mágicas eram genuínas. Os seus poderes já tinham virado a sorte das batalhas por mais do que uma vez; e quando adivinhava, em vez de tratar simplesmente a informação que os seus espiões lhe traziam, nunca se enganava sobre o que o futuro próximo reservava.

               Como é evidente, as pessoas temiam-no e evitavam a sua companhia a todo o custo. Apolon parecia nunca se importar com isso; na verdade, Leopold suspeitava mesmo de que ele se rejubilava da sua reputação sinistra. Apolon nunca fizera mal a Leopold directamente; nem nunca

lhe dirigira sequer uma única palavra desrespeitosa. Mas Leopold escutava os rumores que corriam no acampamento, rumores que diziam que Apolon fazia coisas inenarráveis na escuridão da noite; que enviava os seus servos às tendas dos cirurgiões para levarem os inimigos feridos, homens que nunca mais ninguém via. Nada daquilo podia ser provado, mas Leopold era soldado há tempo suficiente para saber discernir quando havia algo de verdadeiro por detrás das histórias do acampamento. Quanto mais extravagante fosse o rumor, com mais gozo este era contado e menos probabilidade havia de ser verdadeiro. Mas quando uma história era repetida com relutância, com olhares por cima do ombro, assegurando-se assim quem falava de que não o estavam a escutar...

               - Eu... nós precisamos de ter essas mulheres sob custódia,  Vossa Majestade - disse Apolon secamente. - Assim que seja possível. Se permitirmos que elas nos escapem por entre os dedos, poderão facilmente organizar uma rebelião contra Vós. Acabaríamos a travar uma guerra de atrito nas próprias ruas e becos desta cidade.

               Balthasar acenou-lhe com uma mão.

               - Descansa, que em breve as terei em meu poder. Se conseguirem reunir a coragem suficiente para tentar a fuga, do que eu duvido seriamente, as suas descrições e hábitos serão postos a circular; os seus amigos e aliados serão vigiados. Apolon, elas são nobres. Como poderiam alguma vez disfarçar aquilo que são? Se não saírem do palácio... assim que os meus homens ocuparem a cidade, tomo-as sob custódia. Para as proteger, evidentemente. Para seu próprio bem. Não passam de duas mulheres fracas e sozinhas, precisarão da mão forte de um homem que as guie e proteja das suas naturezas histéricas.

               - Naturalmente.

               Apolon assentiu, mas os seus olhos cinzentos estavam mais frios do que o aço e Leopold reprimiu um arrepio. Tudo no homem o revoltava, do cinzento da sua túnica de veludo e da suas calças, de uma cor demasiado semelhante à de uma mortalha, à sua pêra cinzenta meticulosamente tratada e aparada; à própria forma do seu rosto, magro e demasiado anguloso. Os lábios finos eram, de alguma forma, ávidos em vez de ascéticos; a testa larga sugeria malícia e não o estudo. Não havia nada em Apolon que evidenciasse outra coisa que não o estudioso formado pelo templo que afirmava ser, mas Leopold estava tão certo de que ele nunca pusera os pés nas escolas do templo, como estava do seu próprio nome.

               Leopold estremeceu novamente e daquela vez o arrepio deve ter sido visível, pois os olhos do seu pai caíram subitamente sobre si: avaliadores, observadores, expectantes. Mas à espera de quê?

               Leopold tinha as suas suspeitas. Durante os últimos seis anos, Balthasar vigiara o seu filho em busca de sinais de rebelião ou ambição, presumindo provavelmente que Leopold aproveitaria alegremente qualquer oportunidade para se apoderar da coroa imperial. Balthasar não confiava em ninguém, nem mesmo no seu próprio filho.

               Já houve uma época em que ele confiava em mim, mas isso foi antes de Apolon ter aparecido.

               Os olhos cinzentos de Apolon juntaram-se aos olhos escuros de Balthasar, ambos os olhares observando-o com um calculismo frio.

               - Parece que não precisaremos de ti hoje, príncipe - disse o imperador sem qualquer inflexão na voz. - Talvez devas procurar ocupar-te noutro local, por agora. Trataremos desse juramento e depois deixaremos a cidade em paz por um dia para reflectir sobre as virtudes da obediência, enquanto enviamos os homens para a controlar. Pode ser que precise dos teus serviços mais tarde.

               Era uma despedida muito explícita e Leopold não ficou desagradado por lhe obedecer. Ergueu-se da cadeira com a elegância que lhe era possível sob o peso da armadura e curvou-se profundamente a partir da cintura.

               - Obrigado, Vossa Majestade - respondeu formalmente. - Inspeccionarei o acampamento, com Vossa permissão.

               Balthasar acenou com a cabeça num gesto simultaneamente de assentimento e despedida e Leopold saiu da tenda, aproveitando a sua posição e estatuto apenas no facto de sair com as costas voltadas para o seu pai. Quando a porta da tenda caiu atrás de si, sentiu um alívio palpável assim que os dois pares de olhos deixaram de estar centrados sobre si.

               “Inspeccionar o acampamento” era um mero pretexto para vaguear. Sem qualquer batalha no horizonte, os homens descontraíam-se, relaxavam, aproveitando a vitória fácil para comer as rações de festa. Enquanto atravessava o acampamento em direcção à sua própria tenda, comandantes e subcomandantes abordaram-no, pedindo permissão para que os homens celebrassem.

               Leopold concedeu permissão, sabendo que as únicas tropas que Balthasar permitiria que entrassem na cidade naquele dia seriam a sua própria Guarda de Elite e as Forças Especiais.

               Que os homens bebam o seu vinho; muitos deles não esperariam viver para o beber. Balthasar controlaria a cidade, mas não inundando-a de homens armados e assustando a gente vulgar que, sendo a mais numerosa, era a mais perigosa. Não, ele controlá-la-ia enviando a sua Guarda de Elite para atacar no topo. Não fora esta a primeira cidade que capitulara sem lutar, embora conquistas fáceis como essas constituíssem a excepção e não a regra.

               Balthasar sabia como colocar uma cidade destas sob o seu controlo no mais curto espaço de tempo possível; atacando o verdadeiro coração da cidade, prendendo os seus chefes e privando-os da única arma de que dispunham para resistir: o ouro. Mercadores gordos e complacentes nunca esperariam que tal acontecesse. Uma vez guardados e controlados os cidadãos mais influentes e neutralizados os chefes potenciais, a cidade ficaria domesticada e deitar-se-ia mansamente no chão.

               Entre aqueles que seriam presos estariam a rainha, a princesa  e,  partindo do princípio de que ainda fosse viva, a rainha-mãe. Por uma qualquer razão essa idéia deixava um gosto amargo na boca de Leopold.

               Uma pessoa não faz guerra contra mulheres...

               Leopold entrelaçou as mãos atrás das costas e vagueou através do acampamento, reparando que não havia sinais de desleixo nem de desordem em parte alguma; e era exactamente assim que devia ser. As pequenas tendas de dois homens, partilhadas pelos soldados rasos, estavam montadas em filas certas e direitas, com o equipamento à prova de água arrumado de forma ordenada à entrada de cada uma. Cada unidade tinha uma fogueira ao pé da tenda do seu sargento; cada companhia, uma tenda-cozinha e uma fogueira maior, em torno da qual os homens se reuniam naquele momento, à medida que ia sendo passada palavra da “permissão para celebrar”.

               Tudo estava em ordem. O que significava que, como sempre que não estava a decorrer nenhuma batalha, Leopold não tinha nada para fazer.

               Aos cinquenta anos, Balthasar tinha o aspecto e o comportamento saudável e vigoroso de qualquer guerreiro com metade da sua idade. Era perfeitamente possível que ele vivesse até aos cem anos, continuando lúcido e controlando tudo até ao fim. E em que posição é que isso deixava Leopold? Na do costume. Sem nada para fazer. A fazer recados ao imperador, mas sem qualquer autoridade real. A certa altura tinha-se falado num casamento por causa de uma aliança, mas agora já não. Balthasar não queria arriscar-se ao nascimento de mais um pretendente ao seu trono e assim foi negado a Leopold até o pequeno conforto que seria ter mulher, filhos, uma vida de família. Balthasar não se arriscaria a perder o seu filho de vista, não fosse ele começar a conspirar.

               Leopold apertou as mãos com força atrás das costas para evitar deixar transparecer quaisquer sinais da sua frustração. Tinha que manter a sua fachada passiva a todo o custo. Não era nenhum idiota; sabia que era constantemente vigiado. Devia aparentar aquilo que sempre aparentava: ser um homem simples, um guerreiro sem ambições de reinar, um soldado que não tinha quaisquer interesses fora do campo de batalha.

               Essa era a única forma de sobreviver, pois apesar de ser o único herdeiro do seu pai, Balthasar não precisava de o ter ali. Podia mandá-lo embora, sob uma guarda polida, mas inflexível, Para passar a vida num cativeiro de inactividade. Essa era a única alternativa possível para além de ter Leopold sob a supervisão directa de Balthasar.

               E se eu penso que estou aborrecido agora...

               Mas Leopold era demasiado sensato para que isso acontecesse. E, apesar de tudo, admirava o pai e ansiava pela aprovação de Balthasar com um desespero que, por vezes, parecia absurdo mesmo a si próprio. Antes de Apolon...

               O pai era um verdadeiro pai para mim. Acredito... acredito que ele se preocupasse comigo, que me amasse, à sua maneira. Era um mestre severo... mas não era como é agora.

               As vezes que Balthasar sorrira ao seu filho, ou até o elogiara, faziam com que tudo o resto valesse a pena. Algures, no íntimo do imperador, estava o homem que roubara tempo a importantes banquetes de Estado para contar ao filho histórias de embalar e para avisar os demónios que se escondiam debaixo da cama e no roupeiro, que teriam de defrontar a espada do imperador se se atrevessem a perturbar sequer os sonhos do seu filho.

               Um dia, talvez ele se recorde disso. Um dia poderá chegar à conclusão de que não mudei.

               Leopold ansiava por esse dia como ansiava por poucas outras coisas. E, entretanto, tentava provar ser digno de confiança, sendo leal e competente, esperando pelo dia em que o seu pai se apercebesse finalmente de quanto o seu filho gostava dele...

 

LYDANA

               Um ligeiro som fê-la olhar por cima do ombro, a mão dirigindo-se para a única arma que se permitira trazer, a faca escondida na saia.

               A pequena sombra de Skita, de Eel (tinha que pensar na sua companheira usando o nome que as ruas lhe tinham dado) entrou aos trambolhões.

               - Vem aí o embaixador - vai para o Coração. As pessoas da cidade estão a juntar-se...

               Matild mordeu o lábio e deixou que a fiada de contas de oração escorregasse para dentro do cesto. Depois, quase imediatamente, tomou uma decisão. Poderia ser arriscado, mas sentia que era algo que tinha que ser feito. Fechou o cesto com uma pancada seca.

               - Também nós iremos assistir a esse juramento.

               Dirigiu-se à porta escondida com o cesto enfiado no braço. Eel assentiu rapidamente com a cabeça. Encontraram o caminho por entre as passagens subterrâneas até chegarem mais uma vez à entrada secreta que dava para o canal. O barco desaparecera, portanto Thom e Shelyra tinham obedecido às suas ordens. Contudo, havia um caminho muito estreito e escorregadio, que seguiram com cuidado até chegarem a um lance de degraus ascendentes já gastos pela água.

               Matild teve consciência, desde que tinham saído para o ar livre, do rugido pulsante da cidade. Parecia que todos aqueles que viviam no interior das muralhas de Merina e ao longo dos seus canais se comprimiam na direcção do Grande Templo. A multidão era tão compacta, que ela não acreditou que fosse possível conseguirem sequer aproximar-se.

               Havia ira nas vozes que se erguiam e o odor ácido do medo pairava sobre a multidão. Podia ver mulheres com os filhos apertados ao peito e algumas choravam enquanto caminhavam aos tropeções. Já havia homens prontos a dirigir a multidão, mas não eram os soldados que vira frequentemente representados em pinturas como sendo os homens do imperador. Estes vestiam-se de negro, distinguindo-se pelo contraste com a multidão multicolorida. E tinham bastões, que usavam para incentivar e guiar os habitantes da cidade, como um pastor faria com o seu gado.

               - Vá tu, avança!

               Matild sentiu a pancada de um daqueles bastões e olhou em volta, cheia de ira. Sentindo o olhar frio do pastor, baixou os olhos e continuou, apertando o cesto contra si, não fosse a pressão da multidão à sua volta arrancá-lo das suas mãos. Eel desaparecera e devia deixá-lo à sua própria sorte.

               Apesar do Grande Templo ser enorme, não conseguia conter nem uma pequena fracção da multidão que se comprimia contra ele na altura em que Matild lá chegou. Não havia qualquer esperança de conseguir ver o que se passava para lá daquelas portas. Mas a multidão não se acalmava. Palavras, bocados de frases, passavam de boca em boca uma e outra vez.

               - Ela deve estar morta... a reverendíssima!

               Um homem forte, membro de uma Guilda, gritou aquela frase ao ouvido daquela que era, evidentemente, a sua mulher.

               - Mataram-na...! - foi o grito agudo da mulher e Matild viu como a mão do seu marido se cerrou cruelmente no seu braço.

               - Cala a boca, idiota!

               Olhava febrilmente por cima do ombro para o homem de negro que estava mais perto de si. Aparentemente o indivíduo não deu por nada, pois estava a olhar na direcção oposta.

               A multidão por trás de Matild foi forçada a afastar-se, já não pelos homens dos bastões, mas por soldados armados, montados em cavalos nervosos e difíceis de dominar no meio de tanta gente. Atrás desta escolta vinha um outro cavaleiro. Este não era, pelas roupas que trazia, um oficial, talvez nem fosse sequer um nobre. Usava as vestes largas do templo, mas estas não ostentavam qualquer símbolo sagrado no peito ou nas costas e eram de um veludo baço cor de terra. O manto tinha um capuz que ele puxara por cima da cabeça por forma a ocultar o rosto.

               Apolon! Como se o nome tivesse sido gritado em voz alta, Matild soube que era ele. Queria vê-lo para além do monte irregular de roupas anónimas, encavalitado deselegantemente no dorso de um cavalo de olhar espantado, mas não teve qualquer oportunidade. A pequena procissão já passara por si em direcção ao Grande Templo.

               A passagem do homem e da sua pequena escolta parecia silenciar a multidão. Esta afastava-se espontaneamente, deixando tanto espaço livre quanto lhe era possível. Passado pouco tempo, o pequeno grupo de cavaleiros chegou ao fundo da escadaria do Grande Templo. Para surpresa de Matild, o homem não fez menção de desmontar. A cabeça encapuzada ergueu-se e girou de um lado para o outro, como se registrasse cada pormenor do edifício e o memorizasse.

               Continuava absorto naquela observação quando soou um grande estrépito no interior do edifício. Aqueles que se encontravam em torno de Matild recuperaram as suas vozes. “O juramento foi prestado”, diziam uns aos outros. Havia uma expressão de alívio nos seus rostos, mas esta não conseguia apagar totalmente o medo. Contudo, a multidão começou a destroçar, e os homens dos bastões reagruparam-se até formarem um grupo próprio.

               Matild içou o cesto mais para cima da anca. Bem, pelo menos de momento, Merina estava a salvo dos saques que normalmente se impunham aos países conquistados. Adele, ter-se-ia a sua

mãe enganado no diagnóstico que fizera da sua condição? Estaria de facto morta?

               Não, Matild respirou fundo; nisso teria que fundar a sua esperança: quando uma das mulheres do Tigre passava o Grande Portão, todos os do sangue o sabiam imediatamente.

                Adele estava viva, sem dúvida desempenhando o seu próprio papel. Como Matild tinha que começar a desempenhar o seu. Abrindo caminho por entre a multidão naquele que lhe pareceu ser o seu ponto mais fraco, Matild dirigiu-se ao seu próprio esconderijo.

 

ADELE

               A rainha-mãe Adele estava deitada na enfermaria do templo, ouvindo os curandeiros descrever a sua condição à grande sacerdotisa Verit apressadamente convocada. Embora tentassem falar em voz baixa, a velha mulher conseguiu ouvir umas quantas palavras.

               - ...o coração dela está a falhar e tem os pulmões cheios de líquido. Talvez se a sangrássemos...

               - Não! - interrompeu-os Adele bruscamente. Raios! Tenho que me lembrar que, supostamente, estou a morrer. Esta exclamação foi demasiado forte. Continuou a falar, lembrando-se de ofegar a intervalos apropriados. - Se a minha hora tiver chegado,  não lutarei contra a vontade da Deusa.

               Ignorando os olhares horrorizados que os curandeiros lhe lançavam, fixou os olhos em Verit.

               - Reverendíssima, quererás ouvir a minha confissão?

               Aquela era uma indicação clara a Verit de que desejava falar com ela e a grande sacerdotisa entendeu-a como tal. Verit acenou e mandou sair toda a gente do quarto, incluindo o responsável pela enfermaria, a quem foi ordenado que assegurasse a sua privacidade ficando de guarda ao fundo do átrio.

               Adele deu graças em silêncio pela regra do secretismo absoluto do confessionário. Essa regra era bem capaz de vir a salvar tantas vidas quantas almas, nos dias que se aproximavam. Quando ficaram sozinhas, Verit puxou um banco para junto da cama, sentou-se e olhou-a com atenção.

               - Muito bem, já chega de fazeres de múmia. Presumo que não estejas a morrer. Quão doente estás realmente?

               - Não muito -  admitiu   Adele,   sentindo-se   como   uma criança marota que fingisse uma doença para evitar a professora. - Comi algumas bagas esta manhã, umas bagas que nunca costumo comer porque me fazem sempre sentir assim. Basta-me descansar e já estarei suficientemente bem a tempo de assistir ao primeiro dos rituais da noite. E, de qualquer forma, sou suposta estar em retiro no meu quarto até essa altura.

               - A religiosa Elfrida, é suposta estar em retiro – concordou Verit. - E quanto à rainha-mãe Adele?

               - Morrerá de ataque cardíaco dentro de algumas horas, se for necessário - disse Adele calmamente. - Podes arranjar uma efígie para o velório?

               - Facilmente - replicou Verit. - Não é só contigo que os anjos falam, minha filha. A efígie já está pronta há uma semana. E cuidarei de que todos os envolvidos na organização do velório pensem que foi um outro qualquer que tratou do corpo. - Depois franziu o sobrolho. - Mas acho que é melhor esperarmos um ou dois dias, no mínimo.

               - Por quê? - perguntou Adele com mais brusquidão do que desejava.

               Ela já não queria ser mais ninguém senão a religiosa Elfrida! Queria que a sua vida dupla acabasse!

               Verit encolheu os ombros.

               - É só um pressentimento. Ou antes, é mais como se fosse uma premonição, embora nada de tão concreto como uma visão ou uma visitação. Uma vez que te tenhamos morto, não será muito fácil trazer-te de volta à vida; por isso é melhor aguardarmos até estarmos certas de que já não fazes falta viva.

               Adele franziu o sobrolho, ainda não muito certa de querer continuar “viva” e, possivelmente, ao alcance do imperador. E se ele decidisse enviar soldados ao templo à sua procura, sob o pretexto de a levarem “aos curandeiros do próprio imperador”? Tecnicamente, ela não pedira asilo; ele poderia fazê-lo se assim o desejasse.

               - Não consigo recordar-me de nada que tivesse deixado por fazer, mas suponho que não fará muito mal arrastar a minha última doença...

               - Óptimo. - Verit pôs-se de pé, atravessou o quarto até junto de um armário que estava contra a parede e tirou um par de hábitos cinzentos. - Vamos então tratar dos nossos assuntos.  Podes pôr-te de pé?

               Adele sentou-se, lançou as pernas para fora da cama, esperou que o ataque de tosse que a acometeu acalmasse e pôs-se de pé. Vestiu um dos hábitos, com a ajuda de Verit e depois sentou-se enquanto esta enchia as roupas que despira com roupas de cama e enrolava um lençol numa bola para que parecesse uma cabeça. Como se já tivesse feito aquele género de coisa inúmeras vezes, Verit arranjou o             “corpo” pondo-o de lado virado para a parede e cobriu-o quase completamente com o cobertor.

               Adele observava-a totalmente estupefacta. E esta! É caso para pensar se Verit não terá tido uma juventude dissoluta! E qual a razão que a terá levado a adquirir este tipo de talento? Será que ela gostava de ir vadiar de noite sem o consentimento dos pais?

               As duas mulheres examinaram criticamente os resultados do trabalho de Verit. À luz tremeluzente da única vela, parecia bastante genuíno. O movimento da luz criava a ilusão de respiração.

               - Tem que servir - decidiu Verit. - A enfermeira arranjará forma de ninguém se aproximar. Que mais temos que fazer agora?

               - O imperador tem com ele um mago das Trevas, um homem que se chama Apolon - informou-a a religiosa Elfrida. – Temos razões para acreditar que ele quer o Coração, ou pelo menos quer ter acesso ao poder que Este contém.

               Enquanto pronunciava aquelas palavras, voltou a sentir o arrepio de medo que a acometera quando se apercebera pela primeira vez da ameaça que Apolon constituía. As mãos cruzadas de Verit ergueram-se rapidamente para junto do seu próprio coração e Elfrida imitou-lhe o gesto automaticamente.

               - É verdade - concordou Elfrida, ao ver o horror que tal sugestão provocara na grande sacerdotisa.  - Não creio que Balthasar ataque o templo abertamente... o  embaixador dele fez mesmo o juramento, não fez?

               Verit assentiu.

               - Testemunhei a cerimônia imediatamente antes de vir ter contigo.

               - Óptimo - respondeu Elfrida. - Prevejo que Balthasar e Apolon procurem Lydana e Shelyra, mas não conto que consigam encontrar o que procuram. As mulheres da nossa casa têm aptidões que o imperador não espera encontrar em mulheres aristocratas.

               - Que podemos nós fazer para as ajudar? - perguntou Verit hesitante, como se se encontrasse totalmente fora do seu elemento. - Poderemos fazer alguma coisa?

               - Em primeiro lugar, rezar por elas - disse a religiosa Elfrida com firmeza. Apesar de todas as capacidades que Verit tinha como grande sacerdotisa, às vezes parecia sentir-se um tanto perdida quando forçada a lidar com as coisas do mundo. - Elas escolheram caminhos muito mais árduos do que o meu.

               - Não estejas demasiado certa disso - aconselhou-a Verit. - Tu começarás a trabalhar como Chama dentro de três dias.

               Elfrida ergueu as sobrancelhas, surpreendida, depois sorriu com um certo sentimento de antecipação.

               - Já é certamente tempo de o fazer - concordou, sentindo um toque de alegria penetrar os pensamentos ominosos que aquele dia horrível lhe provocara.

               As Chamas eram um pequeno grupo de homens e mulheres recrutados de entre os religiosos das quatro ordens: Hábitos Cinzentos, Hábitos Castanhos, Hábitos Vermelhos e Hábitos Amarelos. Eram aqueles que tinham capacidades mágicas de alto nível; os que executavam os rituais mais difíceis e secretos do templo. Elfrida já seria uma Chama há mais de um ano se não fosse a sua vida dupla. Agora, a sua vida seria uma só; e seria aquela que teria escolhido há já muito tempo, não a tivessem os seus deveres e o seu coração forçado em direcção oposta.

               - Há duas outras coisas que temos que fazer por elas e duas coisas que temos que fazer por nós e para protecção do Coração - continuou.

               - E quais são? - perguntou Verit, como se as posições de ambas se tivessem invertido.

               Bem, e de certa maneira inverteram-se. Verit sabe tudo o que há para saber dos Caminhos Interiores... mas eu é que tenho vivido no mundo. Suponho que ela entrou como noviça no templo assim que lho permitiram, e nunca mais pensou no mundo lá fora.

               - Lydana quer usar o terceiro confessionário à direita do Coração para passar mensagens, por isso temos que ter sempre lá alguém de absoluta confiança durante as horas da confissão. Pensou durante alguns momentos. - Eu estarei lá sempre que puder, mas não posso lá estar sempre. Preciso de alguém que me substitua se eu tiver que estar noutro sítio. A capela de meditação, que dá para a passagem do meio, terá também que ter sempre alguém de confiança, de dia e de noite. Lydana é capaz de saber da existência dessa passagem e tenho a certeza de que Shelyra a conhece. Podem precisar de a usar. Sugiro que estejam lá sempre pelo menos duas pessoas e se pudessem ser três era ainda melhor.

              - Precisamos de ter sempre hábitos das cores das várias ordens de reserva na passagem, assim, se alguém da tua família vier por ali, poderemos disfarçá-la por forma a que se confunda com os outros religiosos - acrescentou Verit com um aceno de cabeça. - Tratarei disso. E que recomendas para protecção do Coração?

               Ela pensara na possibilidade de Apolon ter infiltrado espiões entre os noviços.

               - Divide as ordens em quatro grupos e muda as horas dos rituais por forma a que estes tenham lugar dia e noite, assim o Coração estará sempre muito bem guardado.

               Verit assentiu e Elfrida continuou:

               - Se Apolon vai infiltrar espiões - e tenho a certeza de que o fará - terá que o fazer entre os nossos membros mais recentes. Eu não teria certezas em relação a ninguém no Noviciado...

               - Senhora de Luz!  - exclamou Verit chocada.  - Mas alguns deles estão cá quase há um ano!

              - E há quanto tempo é que tu achas que o imperador tem espiões em Merina? - contrapôs Elfrida. - Eu diria que, pelo menos, desde essa altura. Duvido que tenha conseguido infiltrar qualquer uma das ordens, mas os noviços? - Encolheu os ombros.  - Temos sempre uns quantos  cujas vocações  parecem pouco firmes. Podem ser esses os espiões.

               Verit assentiu com tristeza.

               - Podemos usar a vigília e depois o funeral e o luto pela rainha-mãe Adele, como pretexto

para adiar os votos finais... pelo menos durante algum tempo. Depois... bem, teremos que ver o que acontece e o que poderemos fazer. Mas sinto pena dos noviços que são genuínos. É uma pena ter que os punir juntamente com os falsos.

               - Muito bem. - A religiosa Elfrida assentiu bruscamente. - Se me é permitido fazer uma sugestão, mãe reverendíssima, os membros do Noviciado deveriam ser mantidos juntos e ser bem vigiados.

               - Sim - concordou a grande sacerdotisa. - E os que estão nas casas dos Curandeiros? Esses estão espalhados pela cidade toda.

               Ela também tinha pensado nisso.

               - Tragam todos os noviços para o templo por uma questão de segurança.

               - A deles - perguntou Verit secamente - ou a nossa?

               - Ambas - replicou Elfrida, sentindo dissipar-se a alegria que há pouco sentira.

               Começava a sentir-se numa posição muito semelhante à de um general que organizasse as suas tropas para uma batalha longa e dispendiosa... e era uma sensação um tanto deprimente.

               - Apolon e quaisquer outros servos das Trevas que estejam com ele, procurarão as suas presas entre os nossos mais jovens e mais frágeis. E não queremos que ele consiga levar-nos nenhum deles para as suas perversões.

               Verit estremeceu quando pensou nisso.

               - Ordenarei que os noviços recolham ao templo imediatamente - disse. - E enviarei uma carta a todas as Casas, relembrando-lhes a necessidade de nos mantermos especialmente vigilantes nas nossas orações nestes tempos de mudança.

               - Não podia ser dito com mais tacto. - A religiosa Elfrida sorriu amargamente. - Acho que é praticamente tudo o que temos que fazer de momento. É melhor eu voltar para o meu quarto antes que me vejam cá fora.

               - Consegues ir sozinha? - perguntou Verit preocupada.

               Elfrida pôs-se de pé lentamente e ajeitou o véu.

               - Sim. Já me sinto muito melhor. E estes hábitos foram concebidos para que um Hábito Cinzento seja igual a qualquer outro Hábito Cinzento.

               - É verdade - concordou Verit - é por isso que todos nós olhamos para os rostos e não para as roupas.

               - Eu assegurar-me-ei de que ninguém me vê a cara - prometeu Elfrida.

 

LYDANA

              A multidão formava uma barreira difícil de transpor, mas ela usou o cesto como escudo. Contudo, à medida que se aproximava dos bairros mais mal afamados da cidade, o número de pessoas ia diminuindo. Aqueles que eram os predadores das multidões, os carteiristas e seus pares, estavam convenientemente ocupados, supunha, junto ao Grande Templo. Mas o que a perturbava era o facto de não ter visto um único elemento das forças de manutenção da ordem, com os seus característicos casacos verdes e cinzentos. Os que se ocupavam da protecção de Merina e dos seus cidadãos pareciam ter desaparecido nas últimas horas em que ela própria estivera tão ocupada.

               Já a tarde estava a acabar quando atravessou a última das pontes sobre os canais e chegou àquela parte da cidade que Matild tão bem conhecia. De vez em quando era cumprimentada por pessoas que a negociante de contas reconhecia: uma mulher à porta de sua casa, um lojista que fechava, horas mais cedo do que o habitual, os taipais que protegiam a sua pequena loja. Existia pobreza em Merina, como em todas as cidades, embora houvesse também trabalho, ainda que duro e exigente, para qualquer homem ou mulher forte. E o número de pedintes era, segundo ela sempre acreditara, menor do que em muitas outras grandes cidades como, por exemplo, Arkanade, a famosa capital do imperador.

               Às perguntas que lhe faziam, limitou-se a responder com uma mera repetição dos rumores que tinham crescido rapidamente entre a multidão. Mas havia um ambiente estranho na rua tortuosa que conduzia ao pequeno beco da sua loja. À medida que ia avançando, apercebia-se de portas a serem fechadas rapidamente e do desaparecimento dos que, ainda há momentos, se viam na rua. Sentiu um arrepio nas costas. Era evidente que atrás de si estava alguma coisa, ou alguém, para quem era melhor não olhar. Todas as lojas estavam fechadas, mesmo aquelas que vendiam azeite para as lamparinas e as poucas coisas que poderiam ser necessárias para a noite que se aproximava, e que habitualmente ficavam abertas até depois do nascer da Lua.

               Pôs-se à escuta. O silêncio era tal que ouvia o ruído dos seus próprios passos, mas agora conseguia ouvir mais qualquer coisa: uns passos mais resolutos, o ritmo bem treinado da marcha de um soldado. Contudo, ela agarrou-se à inocência do seu disfarce e não olhou para trás, embora uma vaga preocupação por Eel se começasse a intensificar.

               Matild chegou ao recanto escuro do pequeno beco para onde se dirigia e tirou de dentro da roupa a grande chave que introduziu na fechadura da porta, agora quase invisível à luz do crepúsculo que descia rapidamente.

               Esta parte de Merina era muito antiga. Embora as Guildas se esforçassem por manter a cidade em bom estado, emitindo resoluções que obrigavam cada proprietário a manter a sua casa em condições, a marca dos anos era bem visível ali.

               Enquanto dava a volta à chave e empurrava com um ombro a porta renitente (que resistia sempre ao primeiro empurrão), Matild atreveu-se finalmente a olhar para trás. Já não conseguia ouvir a cadência dos passos, mas de facto, estavam dois homens na rua parados mesmo à entrada do seu beco, com os olhos postos nela. Mesmo que não estivessem vestidos de negro, não haveria qualquer hipótese de confundir a sua origem. Eram forças da ordem, um tipo qualquer de forças da ordem, embora a bondade  das leis que impunham pudesse ser questionada. Balthasar não enviara pelotões de soldados para patrulhar a cidade recém-conquistada.  Aqueles homens não eram do exército. E, no entanto, ele tivera-os a postos, prontos a agir assim que Merina se rendesse. E Matild não gostou mesmo nada do seu aspecto.

               - Mulher... - Um deles ergueu a voz enquanto caminhava na sua direcção. - Esta casa é tua? - O olhar que lançou à porta e à única janela entaipada ao seu lado não era aprovador.

               - Eu cá sou a Matild, filha de Ranskin, vendedora de contas autorizada.

               Matild permitiu-se uma fungadela de desprezo. Acobardar-se não estava na sua natureza, e já aprendera há muito tempo que uma língua viperina era, frequentemente, a melhor forma de responder à insolência. Ele estava suficientemente perto para lhe poder bater, o que ela pensou que talvez fizesse, provando assim a sua importância a todos aqueles que agora espreitavam por detrás dos taipais e que poderiam necessitar de ser impressionados pelo seu domínio.

               - E onde é que estiveste, mulher?

               A sua voz mantinha-se controlada e olhava-a com atenção.  Ela sentiu aquele olhar como se fossem as mãos dele que lhe percorressem o corpo e, de alguma forma, pudessem entrar na sua cabeça e espiar os seus pensamentos.

               - Estive com o resto da cidade... a ver o que o homem do imperador fazia no juramento.

               - Quantos é que vivem contigo? - mudou ele de assunto.

               Matild pousou o cesto e pôs as mãos nas ancas olhando-o de frente.

               - Quem faz perguntas tem que ter uma razão para precisar das respostas. Qual é a tua razão, homem de preto?

               - Cuidado com a língua, mulher! Nós somos os novos patrulhas das ruas e verás que não somos fáceis de enganar. Cada uma das casas tem que ser identificada e haverá regras a respeitar. Se não as respeitares terás tantos problemas, que nem imaginas. Agora... quem é que vive aqui? - Fez um gesto em direcção à porta parcialmente aberta.

               - Eu e o pobre do filho da minha irmã, o rapaz, o Eel. Procurem vocês mesmos, se quiserem; não vão encontrar mais ninguém...

               Quase suspendeu a respiração; e se aquele bisbilhoteiro entrasse mesmo? Via-se perfeitamente que os quartos apertados não tinham sido usados recentemente, e isso desmascará-la-ia de imediato. Contudo, parecia que a sorte lhe iria sorrir. Ele encolheu ligeiramente os ombros e virou as costas. Mas ela tinha consciência de que, como qualquer agente da ordem, ele a tinha marcado e que teria que ter muito cuidado nas suas idas e vindas. Pegou no cesto e fez girar as saias enquanto entrava fechando, no entanto, a porta com cuidado e sem a bater. Estava muito escuro, mas a sua mão dirigiu-se à prateleira onde estava uma vela empoeirada e chegou fogo ao pavio.

               A sala na sua frente era comprida e estreita. À sua direita, junto à janela fechada, estava dobrada a banca onde dispunha as mercadorias quando a loja estava aberta. Havia um fogão, um armário, uma mesa e três bancos. E ainda um candeeiro que acendeu com a vela. Matild cheirou o ar. Ratos, eram certamente ratos... e o odor de uma casa fechada. Que precisava de uma boa limpeza.

               Encostado à parede estava o que parecia ser outro armário comprido. Matild abriu-o com um puxão suficientemente forte para abrir a porta empenada e inspeccionou os cobertores no seu interior. Teriam que ser aquecidos ao pé do fogo e batidos e defumados antes de alguém poder dormir neles.

               A comida também era importante. Tinha planeado ir à loja da Berta Padeira e à loja da Lanny que vendia queijos. Mas se aquele pássaro preto de mau augúrio ainda estivesse a vigiar a rua, não o poderia fazer. Ele perguntar-se-ia, e com razão, porque é que uma dona de casa não tinha os armários mais bem abastecidos. Meteu as fiadas e a caixa de madeira dentro da gaveta comprida ao lado da banca das mercadorias e voltou a pegar no cesto. Tinham comido com apetite os provimentos do cesto antes de saírem do palácio. Pôs o que tinha sobrado em cima da mesa, com um suspiro. Naquela noite teriam que se remediar com o que ali estava.

               De momento, mais importante que a comida, era a sua companheira de fuga. Sabia que Eel/Skita era dotada de uma boa dose de prudência, mas se os casacos negros já tinham chegado até àquele canto remoto da cidade antiga, era capaz de ser necessária mais do que a astúcia da rapariga para passar despercebida. Havia também, evidentemente, a entrada alternativa.

               Matild empurrou a mesa e puxou um banco para o local onde esta estivera. Equilibrada em cima do banco, ergueu as mãos para a escuridão, que caía espessa como uma cortina, tacteando o vazio com os dedos estendidos até encontrar uma corda pendurada. Agarrando-a bem, puxou-a para baixo como se tocasse um sino. Tal como acontecera com a porta, a madeira velha resistiu. Depois caiu uma camada de pó, que fez com que Matild soltasse uma ou duas pragas; e um pequeno rectângulo de luz tênue apareceu por cima da sua cabeça. Tinha razão e ia mesmo a tempo, pois agora conseguia ouvir o raspar de pés por cima da sua cabeça e logo a seguir um corpo magro e jovem escorregou pelo buraco. Matild apanhou-o à altura das ancas e baixou-o até ao chão antes de puxar novamente a corrente; desta vez deu um puxão de lado, que fez com que a abertura por cima das suas cabeças se fechasse com um rangido. Eel estava de cócoras no local onde caíra no chão, respirando pesadamente. Do rosto sujo dois olhos redondos erguiam-se para a mulher.

               - Guardas. - A voz soou rouca.

               Matild descera do banco. Ficou subitamente tensa.

               - Aqui? - perguntou.

               Eel fez um gesto rápido indicando tudo o que estava para lá das quatro paredes. Matild deitou algum do vinho aguado numa pequena chávena de corno. O rapaz bebeu e engasgou-se antes de voltar a beber com mais cuidado.

               - Apareceram... não se sabe de onde... do chão, talvez. - Fez uma careta por trás da chávena. - Já... já deviam estar no interior das muralhas mesmo antes de o embaixador ter chegado.

              Matild mordeu o lábio. Sim, eles tinham sabido da presença de espiões do imperador em Merina. Isso era mais do que lógico. Mas tinham esperado a chegada de tropas que seriam aquarteladas em locais estratégicos, como era costume... não aqueles homens de casacos negros. Já lá deviam estar há tempo suficiente para conhecer a cidade. Deixou-se cair sentada no banco onde ainda há pouco tinha subido. Há quanto tempo... e quão bem conheceriam a cidade? Os planos, os planos incompletos que fizera, os vários estratagemas que tivera em mente quando deixara  o palácio... estariam todos eles em perigo ainda antes de poder começar a pô-los em prática?

               Eel tacteou entre as pregas do casaco velho que tinha vestido e estendeu a Matild o que poderia ser uma noz velha. A mulher agarrou-a rapidamente e usou a unha para abrir a tampa invisível. O que lá estava dentro era um pequeno brinco, com uma figura mítica finamente trabalhada, com um olho azul feito de safira. Era da Shelyra!

               Então, pelo menos Thom cumprira o seu dever. De momento, a rapariga estava a salvo. Embora com aqueles homens de negro por perto... Teria que confiar em Thom. As suas gatunagens famosas tinham sempre sugerido que ele teria poderes quase invencíveis. Se esses poderes jogassem a favor dos dois até as coisas acalmarem um pouco, talvez ela pudesse compreender este novo problema e encontrar uma forma de contra-atacar!

               Continuava a pensar, enquanto fazia sinal a Eel para que este comesse e deixava que o seu companheiro acabasse, antes de lhe perguntar tudo o que vira depois de terem sido separados pela multidão.

               Os homens de negro não tinham sido vistos unicamente nas ruas da cidade, mas também em barcos nos canais. Eel vira-os tomarem posição à porta dos principais mestres das Guildas, mas nenhum dos homens de Balthasar tinha entrado ainda na cidade. Os boatos que corriam diziam que o novo senhor de Merina continuava acampado com o seu exército para lá das muralhas.

               Agora, Matild respirou fundo naquilo que era quase um suspiro, era esperar para ver, até poderem perceber melhor o que se passava, embora sentisse os nervos à flor da pele enquanto se coibia de agir. Entretanto, levaria aqui a vida que planeara. Pensava que estava demasiado excitada, a cabeça demasiado cheia de preocupações para conseguir dormir. Contudo, mal ela e Eel se deitaram na cama dentro do armário, o sono chegou, profundo e sem sonhos.

 

SHELYRA

               Se Thom esperava que ela se sentasse à popa do barco e se deixasse levar ao longo do canal, como uma mulher rica no seu barco particular, ficou provavelmente muito surpreendido quando Shelyra não fez nada disso. Saltou para o barco atracado, tão agilmente como ele e agarrou na segunda vara um segundo apenas após ele ter agarrado na sua. Foi ela quem deu a partida e foi ela também que os impeliu para longe da margem do canal e para fora do pequeno cais escondido, onde o barco estivera oculto. Era muito conveniente o facto de esta parte dos canais estar o dia inteiro a coberto da sombra e não haver nenhuma rua que corresse ao seu lado; assim não havia ninguém que se pudesse assustar com o seu aparecimento súbito.

               - Para onde é que vamos? - perguntou ele por fim e com visível relutância.

               - Como já te tinha dito, vamos para o Bairro Cigano – replicou ela imediatamente e depois, com  marcada  ironia: - Suponho que saberás como lá chegar?

               A sua única resposta foi um grunhido enquanto firmava a vara. Ela fez o mesmo, mas desejou ter tido tempo de atar as saias por cima dos joelhos; isso teria tornado a sua tarefa muito mais fácil.

               Foi então, subitamente, enquanto entravam num canal ladeado por um caminho, que sentiu um frio na nuca, como se alguma coisa ou alguém a observasse com más intenções. Não se virou imediatamente para ver o que era. Em vez disso, pondo todo o seu peso na vara e concentrando-se na sensação da madeira macia nas suas mãos, fez coincidir os seus movimentos com os de Thom, até que os seus movimentos provocassem uma torção natural do corpo que lhe permitisse estudar com naturalidade ambas as margens do canal, a seu lado e à retaguarda.

               Havia muita gente apressada ao longo da rua, o que era pouco usual, visto que as pessoas normalmente passeavam ao longo dos canais, levando o seu tempo gozando o sol a brilhar sobre a água, ainda que esta não fosse das mais limpas. Havia uma atmosfera de medo nas pessoas, que fazia com que o cabelo de Shelyra se lhe eriçasse na nuca. Mas havia um homem totalmente imóvel e foi ele que a fez morder o lábio e virar-se antes que pudesse encontrar o seu olhar.

               Estava ao lado de um poste de atracagem e envergava uma espécie de uniforme, todo negro, sem qualquer insígnia ou brasão, e na mão tinha um bastão. De alguma forma soube que era um dos homens de Balthasar... e percebeu que ele reparara em si e no seu companheiro, embora não os tivesse interpelado.

               Naquele momento sentiu-se bastante satisfeita por ter tido tantos cuidados com a sua aparência, pois não havia nada em Raymonda, a bailarina cigana, que sugerisse Shelyra, a herdeira da Casa do Tigre. Mas causava algum choque ver os homens de Balthasar nas ruas da cidade, quando a tinta dos documentos de capitulação ainda não tinha tido tempo de secar.

               - Faze força - murmurou para Thom. - E põe um ar determinado, como se fosses fazer um recado. Estamos a ser observados.

               Mais uma vez ele soltou um grunhido.

              - Olha que novidade! - retorquiu Thom. - Espero que tenhais o vosso esconderijo bem preparado. Não gosto destes pássaros esquisitos de penas negras. Sinto-me como se fosse um verme a ser observado por corvos esfomeados. Quero esgueirar-me para o vosso esconderijo e fechar a porta atrás de mim.

               Depois de ter sentido aqueles olhos a observá-la, Shelyra Raymonda sentia o mesmo. Mudou rapidamente de assunto para evitar que ele se apercebesse do seu medo.

               - Temos que combinar bem a nossa história antes de lá chegarmos. Eu sou Raymonda e tu és o meu... quê? O que é o Thom a Raymonda?

               - O vosso amante?

               A confiança e insolência do seu tom implicavam que ela receberia a sua sugestão de braços abertos e essa presunção irritou-a.

               - Meu primo. Um parentesco suficientemente próximo para que não possas ser meu amante, mas menos suspeito do que irmão, visto que não somos nada parecidos. - Falou com firmeza enquanto acentuava as frases com os impulsos que dava com a vara. - E mesmo assim será normal que queiras proteger a minha...ahn... virtude.

               O grunhido que obteve em resposta sugeria que Thom não estava nada satisfeito com aquele cenário, mas que, de momento, o aceitaria. E que esperava que ela se atirasse nos seus braços... mal voltasse a recuperar a razão.

               Não chegas a ter os padrões morais de um gato dos telhados, Thom Talesmith, e não te deixaria aproximar da minha cama nem que fosses o único homem solteiro em toda Merina.

               Entre as lendas que rodeavam o seu companheiro, estava a litania das suas muitas amantes. Ela não contava dar-lhe nem a mais pequena oportunidade de acrescentar o seu nome a essa lista.

               Navegavam na direcção oposta à do Grande Templo; a maioria das pessoas parecia vir dessa direcção. O que queria dizer que o embaixador do imperador já devia ter prestado juramento. A maioria dos que se deslocavam a pé mantinha a cabeça baixa e o rosto escondido, mas as expressões que Shelyra conseguiu ver não eram de felicidade. Sentiu vontade de saber quais os boatos que corriam nas ruas.

               Havia mais homens de bastão e vestidos de negro ao longo dos canais e ela sentiu-se terrivelmente satisfeita quando apareceram mais barcos à sua volta, desde embarcações muito pequenas até pesadas barcas de carga. No meio de todas elas já não eram tão conspícuos.

               Dirigir o barco era um trabalho árduo, mesmo para alguém habituado a controlar um garanhão irrequieto ou a partilhar o trabalho de dirigir barcos semelhantes àquele ao longo dos rios que rodeavam o Palácio de Verão. Mas Thom estava menos habituado àquele gênero de trabalho e ela sentiu um sorriso de divertimento assomar-lhe por instantes aos lábios, quando se apercebeu de que ele abrandava o ritmo. Descansava mais do que usava a vara. Sentindo pena dele, ela abrandou o seu próprio ritmo e deixou que a corrente indolente do canal fizesse parte do trabalho.

               Já não te sentes tão confiante, hem, Thom Talesmith? Claro que não, não há notoriedade nenhuma a ganhar em trabalho duro e honesto.

               O tráfego que cruzava os canais parecia agora dirigir-se rapidamente em busca de segurança, o que era, de facto, estranho àquela hora do dia. Aquele não era um bom sinal; os instintos das pessoas faziam-nas buscar abrigo, e ela confiava nesses instintos.

               Devíamos ter lutado! Pensou ela com rebeldia. Nada, a não ser a honra, fará o imperador cumprir a sua promessa... e que tipo de honra tem um carniceiro? Saquear-nos-á ao ritmo que desejar, em vez de o fazer de uma só vez, e matará a cidade aos poucos. Seria melhor que Merina morresse no meio das chamas!

               Ela sentia-se exposta a cada minuto que estavam a descoberto. Muitíssimo, horrivelmente exposta e muito vulnerável. O tempo que levou a alcançar o bairro pareceu-lhe uma eternidade nervosa e sentia-se bastante certa de que parte do suor que encharcava a camisa de Thom não se devia unicamente ao esforço. Os canais tinham a largura de duas ruas vulgares lado a lado, para que as embarcações mais rápidas pudessem ultrapassar as restantes. Para lá das margens e dos pontões de atracagem, estendiam-se os caminhos pavimentados e por trás destes, as lojas e os lares, em prédios de dois e três andares, e tão juntos uns aos outros que um gato não passaria entre eles. Pontes arqueavam-se a espaços por sobre o canal e em cada ponte parecia estar um guarda de uniforme negro.

               Tenho que pensar em mim própria como Raymonda, agir e reagir como Raymonda, recordou-se a si própria. Shelyra é uma senhora da realeza; eu sou apenas uma bailarina, sem qualquer importância para quem quer que seja, insignificante. Não posso, não me atrevo, a desafiar as autoridades; sou o tipo de mulher que poderia “desaparecer” facilmente sem que ninguém desse por isso e Raymonda está consciente disso, sente-o nos ossos.

               Por fim, ao cabo do que pareceu uma eternidade, chegaram ao Bairro Cigano. A rua que se estendia ao lado do canal era ali muito mais larga, e havia cavalos por toda a parte; cavalos sendo conduzidos, levados, montados; cavalos de todos os tamanhos, cores e feitios. Havia também muitas mulheres vestidas como Raymonda e esta começou a sentir-se menos conspícua, embora não menos vulnerável.

               Infelizmente, também ali havia um homem de bastão. E havia um único cais que servia para embarcações pequenas como a deles. Previsivelmente, havia ali um homem de bastão inspeccionando toda a gente que atracava um barco ao cais, interrogando as pessoas antes de as deixar passar.

               Raymonda sentiu o suor correr-lhe na testa e debaixo dos braços. Empurraram a proa do barco para cima da pedra do cais e Thom saiu para o atracar sob o olhar desconfiado do guarda de negro. Ela guardou cuidadosamente as varas dentro do barco, tentando a todo o custo não encontrar o olhar do homem.

               - Tu, aí! Tu...  tu e a mulher! - Com ar beligerante o homem avançou  três  passos  na  sua  direcção, enquanto eles saíam do barco e barrou-lhes a passagem com o bastão. – Que é que vêm aqui fazer? Onde vão? Que tencionam fazer aqui? Vivem neste bairro?

               Ela sentiu-se satisfeita por ter deixado os restos do vestido no quarto secreto e mais satisfeita ainda por já ter levado para os vários esconderijos aquilo de que supunha vir a necessitar. Não trazia consigo nada mais incriminatório do que umas quantas moedas na bolsa presa ao cinto, embora tivesse gostado de ter tido uma forma de pintar o cabelo antes de sair do esconderijo. Havia alguns ciganos de cabelo claro, mas não muitos. Estariam os agentes do imperador já à sua procura? Já teriam dado pela sua falta?

               Thom enfiou as mãos nos bolsos e olhou para o homem com um ar ligeiramente confundido.

               - Isso são uma data de perguntas, amigo - disse ele com a fala arrastada. - Um homem nem sabe por onde começar. - Thom coçou a testa e ostentou uma expressão amigavelmente perplexa. - A verdade é que essas perguntas baralharam-se todas na minha cabeça! Não me lembro nem de uma só!

               - Podes começar pelo sítio para onde vais e o que é que lá vais fazer.

               Os olhos duros e frios do homem não deixavam transparecer qualquer divertimento perante a atitude descontraída de Thom, nem da sua imitação convincente de um tolo apalermado.

               - Vamos ter com um negociante de cavalos chamado Gordo Kaldash; é para aí que vamos - disse-lhe Thom, continuando a ostentar um sorriso simpático e alegre. - É lá que vivemos, eu e a minha prima.

               - Aí é tua prima, é? - Os olhos do homem percorreram Raymonda da cabeça aos pés e ela reprimiu a vontade de lhe puxar as orelhas pela sua insolência. - Vocês não são nada parecidos.

               - O mesmo se pode dizer de  alguns  irmãos  e  irmãs, amigo - foi a resposta pronta de Thom. Depois a sua voz endureceu. - É minha parente o suficiente para que eu não deixe ninguém meter-se com ela.

               A risada cruel do homem fez com que arrepios percorressem a coluna de Raymonda e fê-la tactear as suas facas por entre as dobras das saias, já sem vontade nenhuma de puxar as orelhas

ao guarda. Iria ele arranjar problemas? Quantos mais da sua laia poderia ele chamar se chegasse à conclusão de que eles eram suficientemente insignificantes e indefesos para que o seu desaparecimento não fizesse ondas?

               Mas Thom assobiou estridentemente por entre dentes, um sinal que Raymonda reconheceu com surpresa, e num piscar de olhos havia uns trinta homens, todos eles da raça esguia e resistente dos Senhores dos Cavalos, aglomerados por detrás do homem do bastão.

               - Eh, aí, algum problema? - perguntou um deles em voz alta. - Este gajo 4 acha que vocês não são daqui, ou quê?

               O homem do bastão sobressaltou-se; era evidente que não ouvira os homens do Clã do Cavalo saírem das ruas e dos becos atrás de si. A sua expressão tornou-se gelada e virou-se rapidamente.  Os seus olhos abriram-se momentaneamente de espanto ao perceber que estava em inferioridade numérica. A gente dos Senhores dos Cavalos não usava em geral quaisquer armas para além dos seus punhais de lâmina comprida, mas na generalidade não precisavam de mais do que isso. Aqueles longos punhais, em combinação com a experiência que os Senhores dos Cavalos tinham na luta corpo a corpo, tornavam uma faca tão temível como uma espada.

               Os Senhores dos Cavalos distinguiam-se dos ciganos, com quem partilhavam aquele bairro, pela forma como se vestiam: era de cabedal cada peça de roupa, desde as botas atacadas de lado, às calças de combate coladas ao corpo, às túnicas de mangas compridas atadas na gola e nos punhos. Os atacadores da gola eram geralmente deixados lassos para que se vissem os medalhões do clã. As mulheres dos Senhores dos Cavalos vestiam-se como os homens, trocando ocasionalmente as calças por saias até ao joelho e abertas dos lados.

               Os homens do Clã do Cavalo rodearam o estranho vestido de negro, com as mãos pousadas ao de leve nos punhos dos punhais. Ainda assim, o homem do bastão resistiu.

               - Conhecem esta gente? - perguntou. - Estão registrados aqui?

               Raymonda observou o grupo ali reunido e, com um alívio que lhe fez o coração bater mais depressa, viu um rosto que lhe era familiar.

               - Laika! - chamou. - Dize a este... homem... que nós vivemos aqui! Ele acha que a gente do cavalo e os ciganos não conseguem dirigir um barco sem cair ao canal!

               Uma gargalhada forte e desdenhosa ecoou nas gargantas dos que ali se encontravam e Laika destacou-se do grupo dos seus amigos.

               - Eu conheço estes dois; eles vivem nos estábulos do Gordo - disse com arrogância, olhando sobranceiramente para o homem do bastão e como que desafiando-o a contradizê-lo. - A rapariga às vezes trata dos cavalos doentes e também dança; o primo dela faz o menos que pode.

               Outra gargalhada ecoou no grupo quando Thom ergueu a cabeça com indignação. Mas o homem de negro ergueu relutantemente o bastão para os deixar passar. Raymonda passou rapidamente por ele; Thom seguiu-a num ritmo mais lento.

               - Vocês digam a esse Gordo que é melhor que entregue às autoridades os nomes de todos os que vivem na sua propriedade! - gritou o homem, frustrado, nas suas costas, enquanto o grupo se fechava protectoramente em torno dos dois. - É essa a lei! A partir de agora os únicos que podem entrar neste bairro depois do pôr do sol são os que estão aqui registrados!

               - E nós somos o Povo do Cavalo e vamos para onde o vento sopra! - gritou-lhe alguém em resposta.  – Por que é que não vais pedir o nome ao vento e a todas as pequenas brisas já que estás com a mão na massa?

               Deixando rapidamente para trás o guarda furioso, o grupo empurrou Thom e Raymonda para o labirinto das ruas que constituíam o Bairro Cigano, pondo-os assim fora da vista do homem. Uma vez a salvo, aqueles que tinham vindo em seu socorro desapareceram nas ruas, tão rapidamente como se tinham juntado, deixando para trás apenas Laika e um homem que Raymonda não reconheceu.

               Mas Thom conhecia-o. Isso era evidente, quando os dois se olharam e sorrisos começaram a espalhar-se-lhes nos rostos. O estranho falou em primeiro lugar.

               - Eu bem disse às raparigas para não porem cinzas nos cabelos até terem visto o corpo, seu filho da mãe! - grasnou o homem. - Thom, sua serpente escorregadia, sua raposa, conseguiste

 safar-te da própria prisão da rainha!

               Lançou-se nos braços de Thom, que suportou os seus abraços e palmadas nas costas com um certo embaraço.

               - Não te disse que tinha mais foles do que um gato e mais sorte do que o Evan, o Rápido? - ripostou Thom, dando-lhe também algumas palmadas nas costas. - Será que nenhum de vocês ainda acredita em mim?

               - Oh, eu acredito, mas... - O estranho afastou-se. - Então, quem é a bailarina? Outra das tuas...

               - Não me parece, Pouli - disse Laika calmamente. - Eu conheço-a e parece-me que não foram, nem a esperteza nem a sorte de Thom Talesmith que o salvaram da forca desta vez. - Olhou em volta para a rua aparentemente vazia e franziu o sobrolho. - Mas este local não é o mais indicado. Vamos até ao Gordo e depois falamos. - Olhou para Raymonda em busca de assentimento e esta assentiu. - Deixamos os nossos irmãos a vigiar os cais em busca de mais tresmalhados, enquanto levamos estes dois para um estábulo seguro, hem?

               - Muito bem - respondeu Pouli com simpatia.

               Apressaram-se os quatro pelas ruas estreitas, tortuosas e escuras, tão depressa quanto lhes era possível sem correr. De uma forma geral, Raymonda estava satisfeita por ver Laika, embora ele fosse uma das únicas três pessoas da cidade que sabiam que Raymonda, a tratadora de cavalos e bailarina, e Shelyra, a princesa, eram uma só e mesma pessoa. Os outros dois eram Gordo e o senhor do seu clã, que foi o padrinho de Raymonda quando os clãs a adoptaram. O que não era o mesmo que ter um pacto de sangue, como Thom aparentemente tinha, apesar das suas dúvidas quanto à veracidade dessa história.

               Ela era agora do sangue do Cavalo, tal como seriam os seus filhos e os filhos dos seus filhos. Ele continuava a ser estrangeiro, embora um aliado. Ela era um membro de pleno direito do clã, com direito à protecção e ajuda de todos os membros dos clãs. E se a rainha tivesse sabido disso, ter-lhe-ia dado uma coisa má. Thom só poderia pedir ajuda àqueles com quem tinha firmado o pacto.

               Gordo Kaldash tinha aumentado as fortificações da sua propriedade, cercada pelo muro alto que englobava o pátio dos cavalos e os restantes edifícios. Havia quatro homens fortes do Clã do Cavalo a montar guarda ao portão da frente que, pela primeira vez desde que Raymonda tinha memória, estava fechado.

               Algo me diz que os Senhores dos Cavalos não planeiam ter grandes negócios com o imperador. Ele deve ter feito qualquer coisa que os ofendeu. Óptimo! Isso só torna mais fácil a minha tarefa.

               Um dos homens, reconhecendo aqueles que os escoltavam, bateu no portão enquanto se aproximavam, caminhando apressadamente sobre o chão empedrado. Raymonda ouviu os barulhos que indicavam uma tranca a ser tirada dos suportes do outro lado do portão; depois as portadas abriram-se ligeiramente, apenas o suficiente para dar passagem aos quatro.

               Raymonda esgueirou-se para dentro em primeiro lugar, seguida pelos restantes. Assim que se encontraram no interior, as duas mulheres que estavam do lado de dentro voltaram a pôr a tranca no seu lugar, fechando o portão com firmeza.

               - Muito bem - disse Laika assim que se encontraram no pátio onde, em dias mais felizes, Gordo tinha em exposição os seus cavalos à espera dos potenciais compradores. – Sabemos que a rainha abdicou. O embaixador de Balthasar fez um juramento que compromete o imperador a deixar a cidade em paz, mas nada o impede de a espremer totalmente e de pôr o pé em cima da cabeça de cada homem, mulher e criança que aqui viva; e é isso que ele está a fazer. Impôs uma taxa no valor de metade do preço de cada cavalo que o Gordo tem e tentou enviar um grupo daqueles lacaios vestidos de negro para prenderem o Gordo.

               Raymonda sentiu formar-se nos lábios o primeiro sorriso verdadeiro daquele dia.

               - Presumo que, visto o Gordo ainda aqui estar, os seus cachorrinhos pretos e amorosos tenham objectado a que o seu amo fosse levado - disse ela alegremente.

               - Os pequenos cachorros são capazes de ter mordiscado um ou dois dos lacaios e são também capazes de ter rosnado um pouco - admitiu Laika.

               Raymonda deu uma gargalhada. Os “cachorrinhos amorosos” de Gordo eram uma matilha de mastins, cada um do tamanho de um pequeno pónei. Seria necessário matar aqueles cães para conseguir tirar de casa, sem o seu consentimento, o negociante de cavalos cigano, e aparentemente os homens do imperador ainda não estavam preparados para o fazer. Mas parou de rir abruptamente quando considerou o resto do que o amigo lhe tinha dito.

               - E o Gordo tem esse dinheiro para pagar os impostos? Achas que o imperador lhe confiscará cavalos para repor a diferença?

               Laika encolheu os ombros.

               - Não... mas nós estamos prestes a ter aqui um surto de tumores, inflamações e aguamento nos cascos. Quando os tratadores acabarem o seu serviço, aqueles cavalos não valerão o tempo que leva a matá-los. Isso fará com que o valor dos cavalos que lhe restam fique em nada, o que significa que a taxa não será mais do que uns quantos cobres, agora que ele já mandou para fora da cidade os melhores animais. - Ele observou-a especulativamente. - Podias ser útil nos estábulos, se é que conheces os truques da arte.

               Ela olhou-o nos olhos.

                - Conheço - respondeu corajosamente. - E talvez ainda tenha de reserva alguns truques só meus. Mas que mais novidades é que há da cidade? Estás a esconder-me qualquer coisa.

               A boca de Laika contorceu-se.

               - Segundo os boatos, a rainha-mãe morreu... e foram eles que a mataram.

               - Ela é como uma gata dos telhados... não ponhas cinzas nos cabelos até teres visto o caixão e eu te jurar que é ela quem lá está dentro - disse Raymonda com firmeza, embora o coração lhe tivesse parado momentaneamente no peito. - Mas de momento... põe fitas pretas nos póneis para salvaguardar as aparências e ramos secos no portão da frente. Seria estranho que não puséssemos luto por ela, mesmo que não passe de um boato.

               Laika acenou energicamente.

               - Farei isso mesmo – disse ele - E tu vai indo para os estábulos com o teu “primo” enquanto vou dizer ao Gordo que estás cá.

               Antes que ela tivesse oportunidade de responder, foi-se embora. Ela encolheu filosoficamente os ombros e virou-se para Thom e para o amigo dele, que tinham estado a ouvir a conversa com muito interesse.

               - Então, quem é a tua amiga, irmão? - perguntou Pouli. - Já que Laika não se deu ao trabalho de nos apresentar.

               - O nome dela é Raymonda - respondeu Thom cheio de à vontade, e Raymonda soltou um suspiro de alívio, pois não estivera certa de que ele não se descaísse e não dissesse o seu verdadeiro nome. - E do que nós estamos a precisar é de um sítio para ficar até ver quais são as intenções do imperador e depois vamos precisar...

               - De uma razão para  continuar  aqui -  interrompeu-o ela, antes que ele pudesse dizer que procuravam uma forma de sair da cidade e das terras que estavam nas mãos de Balthasar. - Mas, se vamos manter os cavalos “doentes”, isso já é suficiente para justificar a presença de uma tratadora de cavalos.

               Pouli assentiu.

               - Isso deve dar-vos cobertura aos dois. Qualquer idiota pode limpar esterco de cavalo; mesmo um tipo da qualidade do Thom pode fazê-lo, e cavalos doentes fazem mais esterco do que cavalos saudáveis.

               Thom olhou-o com animosidade, mas não disse nada. Mais uma vez, e apesar da tremenda seriedade da situação, Raymonda sentiu vontade de rir. Talvez Thom lamentasse agora a parte que lhe cabia naquele negócio; certamente que não levara em conta a possibilidade de lhe ser exigido trabalho físico e árduo quando concordara com as condições de Lydana!

               Pobrezinho, primeiro é o varejo do barco, agora é limpar esterco à pazada! E ele que pensava que se limitaria a ter que nos fazer passar despercebidamente pelo portão quando ninguém estivesse a olhar!

               Laika apareceu então com uma trouxa nas mãos e um ar muito preocupado no rosto.

               - Toma - disse ele, atirando-lhe o embrulho pesado e que era já seu conhecido. - O Gordo diz que lhe deixaste isto a guardar. Ele quer saber se alguém irá dar pela tua falta. Se esse for o caso, talvez devas transformar “Raymonda” em “Raymond”.

               Ela abanou a cabeça.

               - Ainda não, não creio... e de qualquer maneira saímos do nosso esconderijo para a rua sem que ninguém percebesse de onde vínhamos.

               Segurou na trouxa com ambas as mãos, sentindo voltar a si um pouco de confiança, agora que tinha mais recursos à sua disposição. Bastante apropriados, de facto. Qualquer comerciante daquela cidade sabia que, com ouro suficiente se podia comprar o que quer que fosse, menos a suspensão da sentença do Anjo da Morte. Tinha ali naquele embrulho o suficiente para, possivelmente, conseguir até mesmo isso. Era certamente o bastante para comprar uma quantidade muito grande de coisas desagradáveis para o imperador.

               Ouro era poder, como sabia qualquer descendente da Casa do Tigre, e ela detinha agora poder suficiente para fazer muitas coisas, boas ou más. Fora essa, na realidade, a razão porque trouxera para ali na noite anterior todas as suas jóias de Estado e as jóias pessoais, bem como o dinheiro em que conseguira pôr as mãos, dando a Gordo instruções para que as reduzisse aos seus componentes. Nada daquilo era agora reconhecível, pois Gordo trocara as moedas grandes por outras mais pequenas e agora estava tudo numa forma mais fácil de usar. Enquanto Shelyra, ela fechara os olhos ao facto de Gordo ser um conhecido receptador de bens roubados; como Raymonda, sentira-se orgulhosa desse facto. E ninguém ao serviço do imperador vai ser capaz de reconhecer nenhuma destas jóias, mesmo que por qualquer razão conseguissem um inventário completo do meu cofre.

               - Há lugar no estábulo para ti, se quiseres, ou então há muita gente disposta a dar-te um lugar nas tendas – continuou Laika.

               - Fico no estábulo - disse ela com firmeza. – Tenho que dar uma ajuda à vossa gente com os cavalos antes que os homens de Balthasar arranjem maneira de lhes pôr a vista em cima. Se pelo menos um dos vossos tratadores de cavalos estiver a dormir no estábulo, isso tornará mais plausível a doença dos animais. Indica-me o caminho.

               Se eu tiver qualquer coisa para fazer, qualquer coisa que me distraia de tudo isto até estar tão cansada que caia para o lado...

               Não completou o pensamento. Havia sempre a hipótese de Adele não ter simulado a sua própria morte e de Lydana não ter fugido a tempo.

               Havia sempre a hipótese de nada daquilo resultar. Se tivesse oportunidade de pensar, era bem capaz de perder o controlo sobre si própria. Não se atrevia a deixar-se ir abaixo, não naquele

momento. Laika assentiu com compreensão, como se tivesse ouvido os seus pensamentos.

               - Anda, então - disse ele e levou-os a todos até aos estábulos.

               Assim que lá chegou, Raymonda ficou rodeada por um turbilhão de actividade, a partir do momento em que ela própria e dois dos domadores se dispuseram a dar a cada um dos cavalos da propriedade o aspecto de quem ia morrer nas horas mais próximas. Uns foram encharcados em remédios que os faziam suar e tremer como se estivessem com febre; outros levaram pensos nos joelhos ou ferraduras com formas estranhas num dos cascos, por forma a fazê-los manquejar temporariamente. A todos foram aplicados tratamentos no pêlo e na pele, que lhes deixavam o pêlo áspero e com uma cor estranha, as crinas e as caudas rígidas e crespas, e eram-lhes aplicadas falsas feridas e cicatrizes.

               Quando a madrugada estava prestes a chegar, Raymonda estava quase a dormir em pé e não havia um único cavalo na propriedade que alguém aceitasse como presente. Levantou-se e sentiu uma tontura de fadiga. Thom estava mesmo a seu lado e agarrou-a, e ela dirigiu-lhe um sorriso de agradecimento. Nem dera pela sua presença.

               - A pequena amiga da vossa tia apareceu aqui logo a seguir a terdes começado a tratar dos cavalos - disse ele enquanto a guiava até ao lugar onde ia dormir. - Não me soube dizer grande coisa, mas suponho que a tua tia esteja segura por agora. Dei-lhe um dos vossos brincos para ela levar, para que a vossa tia saiba que estais bem.

               Raymonda assentiu manifestando a sua concordância, de uma forma que denunciava a sua exaustão.

               - Isso terá que servir, mas a partir de agora... não teremos mais contactos. Não podemos

saber... - interrompeu-se para soltar um enorme bocejo.

               - ... Não podemos saber se estamos a falar com alguém que tenha sido subvertido - acabou Thom por ela.

               - Foi isso mesmo que eu lhe disse.

               Conduziu Raymonda até uma das baias onde tinham sido colocados cobertores limpos em cima de uma cama de palha nova e espessa que, naquele momento, parecia tão convidativa como uma cama de penas. Raymonda caiu-lhe em cima assim que Thom lhe largou o braço, o corpo todo sentindo desesperadamente a necessidade de dormir. Pareceu-lhe que ele dissera mais qualquer coisa, uma pergunta talvez, mas era demasiado tarde. Ela já estava profundamente  adormecida.

 

ADELE

               - Oh Tu, que estás nos céus, tem piedade de nós – entoou a grande sacerdotisa. A religiosa Elfrida ajoelhou no seu lugar para o segundo ritual desde que saíra do “retiro”. Estava-se agora a meio da noite e ao serviço religioso normal àquela hora, a grande sacerdotisa juntara a litania pelos moribundos. Por isso, Elfrida rezava agora, juntamente com os outros religiosos, por Adele, que estava supostamente a morrer na enfermaria. E se as suas orações eram mais pelos vivos, pela filha e pela neta da que em breve seria a falecida Adele, bem, a Deusa sabia e compreendia.

               Talvez devêssemos rezar também pela cidade, pensou sombriamente. Já me começo a arrepender da nossa decisão.

               Elfrida olhou à sua volta, usando o livro de cânticos como um escudo para disfarçar o seu olhar. A secção junto ao coro do templo estava mais cheia do que era costume em muitos anos. Elfrida não tinha a noção da quantidade de noviços que as várias ordens tinham, mas agora estes enchiam as primeiras filas de cada uma das ordens, sujeitos ao escrutínio dos mais velhos. Procurou encontrar expressões de culpa, embora não estivesse bem certa de qual seria o aspecto de um espião. Alguns deles pareciam nervosos, mas a maioria parecia desejar unicamente poder voltar para a cama, com excepção dos Hábitos Castanhos, a maior parte dos quais se sentia abalada pelos acontecimentos do dia e parecia satisfeita por estar no templo principal.

               Os curandeiros... já correm boatos de que os homens do imperador estão a arranjar problemas nas rua e os curandeiros são os primeiros a ver os resultados desses problemas.

               Elfrida esperava que os noviços estivessem a salvo ali. Não era como se estes fossem crianças; o templo não recebia noviços menores de trinta anos e a idade em que mais vulgarmente se entrava para o templo era entre os quarenta e os cinquenta. A Deusa não aceitava servos que encaravam o seu serviço como uma forma de fugir à vida. Exigia que estes vivessem uma vida útil fora da Sua casa antes que lhes fosse permitido entrar. Mas aos olhos de Elfrida, os noviços pareciam muito infantis e pouco preparados para aquilo que ela temia ser o futuro próximo. Rezou também por eles e por todos os religiosos, para que estes pudessem ter a força e a pureza de coração necessária aos tempos que se avizinhavam.

               Mas somos todos mortais, com os sentimentos dos mortais... quando chegar a hora do teste alguns falharão, outros procurarão fugir-lhe e alguns negarão mesmo a existência de qualquer teste.

               Quando a litania terminou, Verit deu as ordens que tinham acordado na tarde anterior na enfermaria, garantindo assim a oração constante em torno do Coração.

               É inteligente da parte dela, pensou Elfrida. Dando as ordens à noite, durante o Grande Silêncio, ninguém as vai discutir... pelo menos até à reunião do Capítulo após o pequeno-almoço. E não estaremos todos na reunião do Capítulo, visto termos que nos dividir para orar junto ao Coração.

               Elfrida ficou satisfeita por descobrir que não fazia parte do grupo que tinha que ali ficar naquele momento; teria tempo para dormir algumas horas antes de ter que voltar para o serviço seguinte. Tencionava aproveitá-las bem.

               Estranho, como no meio de uma crise, no início daquilo que ela suspeitava se revelaria um perigo terrível, o corpo insistia em fazer valer a sua vontade. Abafou um bocejo, enquanto se apressava de volta ao quarto; naquele momento, a tarimba dura e pouco hospitaleira parecia-lhe tão convidativa e desejável como a sua cama confortável do palácio...

               A cama do palácio! Ficou imóvel por alguns instantes. E se Apolon lá fosse e retirasse a roupa da sua cama? Ele era um mago, certamente saberia como usar a roupa para descobrir onde ela se encontrava! E os acontecimentos dos últimos três dias não só a tinham obrigado a usar a cama, como a tensão que tinham provocado a fizera ter sonhos e pesadelos que a tinham feito transpirar e ensopar os lençóis durante o sono!

               Os criados certamente que mudaram a cama, disse a si própria com firmeza, forçando-se a caminhar calma e normalmente até à sua cela.

               Mesmo que não tenham mudado... porque haveria ele de se incomodar a descobrir o meu paradeiro? Ele sabe onde eu estou. E uma vez Adele morta... para quê procurar encontrar uma mulher morta?

               Mas isso deixava em aberto a questão das camas de Lydana e de Shelyra... E já que pensava nisso, teriam elas levado em consideração o facto de Apolon poder usar os seus objectos pessoais para as encontrar? Alguém teria pensado nisso?

               Elas não são crianças, conhecem as leis da magia, repetiu novamente para consigo. E os criados ainda lá estão. As nossas coisas têm algum valor, até mesmo a mais insignificante camisa de noite ou corpete; Balthasar certamente juntará tudo para enviar ao seu Tesouro antes que Apolon tenha possibilidade de lhe pôr as mãos.

               “Provavelmentes” não constituíam, no entanto, grande conforto. Abriu a porta da cela e voltou a fechá-la atrás de si, desejando poder falar com alguém, nem que fosse com o criado mais

insignificante do palácio.

               Disse a Verit que não conseguia pensar em nada que tivesse deixado por fazer, e agora lembro-me duma coisa destas, pensou ela com desconsolo, enquanto se preparava para dormir o sono que já não desejava.

               De que mais me lembrarei que tenha deixado por fazer? E quão fatais serão essas falhas para nós e para os nossos planos?

 

LEOPOLD

               Leopold acordou ao romper da madrugada, como acontecia todas as manhãs desde o início da sua adolescência. Não conseguia recordar-se de ter alguma vez ficado a dormir depois do sol nascer, nem mesmo quando ficara acordado até tarde numa das reuniões do seu pai. Só a doença conseguia mantê-lo na cama depois da hora a que os pássaros acordavam.

               Dispunha somente de um escudeiro e um pajem para satisfazer as suas poucas necessidades, não era como alguns dos outros que tinham autênticos séquitos de criados, nomeadamente Apolon, para prover ao seu conforto. Os seus aposentos também não eram muito mais luxuosos do que os de qualquer um dos seus oficiais; tal como eles, tinha uma tenda suficientemente alta para se poder pôr de pé e dividida em dois compartimentos: um quarto para dormir e um outro para trabalhar. A mobília era igualmente simples: uma arca para os seus pertences pessoais, uma cama de campanha, um braseiro para cortar o ar frio, um armário para a armadura e as armas, uma mesinha e uma cadeira de dobrar. Os poucos luxos que possuía tinham sido presentes de aniversário dos seus amigos e dos poucos cortesãos que se sentiam suficientemente seguros para serem seus amigos. Carpetes evitavam que o frio e a humidade do solo penetrassem através do tecido do chão e candeeiros proporcionavam uma luz quente; alguns enfeites pendurados nas paredes da tenda amenizavam a lona das paredes. A cama tinha várias cobertas de peles, bem como algumas de boa lã. Estes eram os únicos luxos que tinha entre todos aqueles que a sua posição poderia proporcionar.

               A noção de que era permanentemente observado estava sempre presente e sabia que, se incorresse em excessos, estes poderiam suscitar suspeitas. Comia com os seus homens, não mantendo cozinheiro próprio, como faziam mesmo alguns dos seus subordinados.

               No momento em que se mexeu, o seu pajem já estava pronto com uma bacia de água quente e a roupa para o dia. A criança loura e com aspecto de querubim era a sua favorita, embora ele tivesse sempre o cuidado de não demonstrar a preferência. Tanto para seu bem, como para bem da criança; o favoritismo não lhe faria bem nenhum e se a preferência fosse notada, o rapaz seria transferido para outro sítio, talvez para um amo mais cruel do que Leopold. No entanto, quando estavam em privado, corrigia a criança com gentileza, quando esta necessitava de ser corrigida, e quando não necessitava, beneficiava-a com um sorriso, certificando-se de ter sempre para ela uma palavra simpática.

               No entanto, ergueu uma sobrancelha quando viu a roupa que o pajem escolhera; era um fato próprio para a corte, ou o que ele entendia ser um fato de corte, bastante mais simples do que os usados pela maioria dos cortesãos. Uma túnica severa em seda crua de uma bela cor de vinho, enfeitada a ouro e adornada pelo brasão do seu pai sobre o peito e nas costas, calças a condizer e botas altas polidas até ficarem de um preto brilhante; não havia nada que marcasse a sua posição para além de uma coroa discreta bordada por cima do brasão. Qualquer dos oficiais de alta patente usava um fato semelhante.

               - O vosso imperial  pai  requer a vossa presença assim que estiverdes vestido, meu Senhor - gorjeou a criança num soprano tremido. - Esteve cá um mensageiro ainda antes do romper da aurora.

               Aquilo fez com que erguesse a outra sobrancelha. Geralmente o imperador não requeria a presença do seu filho tão cedo, nem que se vestisse tão formalmente.

              - Obrigado, Peter - disse ele calmamente. - Fizeste tudo muito bem, tão bem quanto o Klaus faria. Eu visto-me sozinho; por que não vais à procura do sargento Athold para ele te dar o

Pequeno-almoço?

               O pajem fez uma vénia e retirou-se, tentando não parecer demasiado apressado, mas era uma criança em crescimento e a comida tinha um papel primordial na sua vida. Leopold sorriu para as costas do pajem que se retirava e entregou-se aos seus preparativos matinais, tão depressa quanto possível. O seu escudeiro, Klaus, apareceu quando estava a terminar; ordenou ao adolescente que limpasse os arreios de parada do seu cavalo e depois, pensando melhor, ordenou que lhe trouxessem o cavalo até à tenda para o caso de este ser necessário.

               Saiu da tenda para a luz ténue da manhã cheio de energia. À sua volta viam-se e ouviam-se os homens a acordarem, a alimentarem-se e a vestirem-se para o dia. Ali estava rodeado das duas tropas pessoais e cumprimentou individualmente cada homem à medida que os ia reconhecendo. Eles correspondiam à sua saudação; era um comandante popular, reconhecidamente imparcial, justo e um bom chefe. Só neste caso ele não subvertera os seus talentos naturais para evitar levantar suspeitas; não negaria aos seus homens um comando decente, mesmo que isso significasse o imperador franzir o sobrolho ao vê-lo ser vitoriado depois das batalhas.

               Já havia maus comandantes em número suficiente naquele exército; não tencionava fazer com que os seus homens sofressem às ordens de mais um. Refez os passos que dera na última noite, ouvindo as vozes que vinham do interior da tenda à medida que se aproximava.

               Um guarda mantinha a porta da tenda aberta para que ele entrasse e ele curvou-se um pouco para o fazer, transformando o gesto numa vénia formal quando viu que o pai tinha a corte reunida no interior.

               Com o imperador estavam o general Cathal, o actual comandante do Exército Imperial, e o chanceler Adelphus, para além do sempre presente Apolon. Cathal estava com o seu aspecto de

sempre: o de uma estátua de mármore inflexível, de expressão severa, que tivesse sido trazida à vida e envolta na couraça que nunca tirava, nem mesmo para as cerimónias de Estado. Acenou num breve cumprimento e virou-se novamente para o imperador.

               Adelphus, a ficar careca e um tanto curvado, envergando o fato escarlate da sua posição, dirigiu a Leopold um meio-sorriso e uma meia-vénia. Leopold sempre se dera razoavelmente bem com ele; não tinha maiores ambições do que as do próprio príncipe, sentindo-se perfeitamente satisfeito com as suas tarefas administrativas (nas quais era excelente) e deixando as intrigas para os outros. Reconhecia no príncipe uma alma gémea, pelo menos no que respeitava à falta de ambição, e fazia o seu melhor para suavizar a atitude do imperador para com o seu filho. O único defeito de Adelphus era a cupidez; adorava coisas preciosas e geralmente encontrava forma de se apropriar dos objectos que suscitavam a sua cobiça.

               O imperador grunhiu um cumprimento ao filho, mas não lhe fez sinal para que se sentasse.

               - Temos uma tarefa para ti, príncipe - disse ele bruscamente. - Queremos que tu e as tuas tropas pessoais assumam o comando da cidade. Ocupa o palácio; examina os seus terrenos, encontra um local adequado para instalarmos uma caserna e dá conhecimento disso a Cathal assim que tiveres encontrado um sítio bom, para que ele possa enviar as suas tropas. Prepara o caminho para a nossa ocupação. Precisamos ter uma presença imperial na cidade para que esses mercadores gordos saibam qual é a mão que empunha as rédeas. Segundo os relatórios de Apolon, demasiados entre eles parecem pensar que ainda é a sua rainha que tem a última palavra em termos de autoridade.

               Elimina qualquer possível subversão, é o que ele quer dizer, pensou Leopold enquanto assentia a sua compreensão. Mas o seu estado de espírito melhorou um pouco. Uma pequena tarefa era melhor do que tarefa nenhuma.

               - Apolon já enviou os seus homens para que detectassem qualquer possível subversão e tomar as medidas adequadas e para assegurar a posse da própria cidade - continuou o imperador.   - Dei-lhes mão livre  para  que  executassem  algumas ordens específicas minhas; quero que os deixes em paz e que não interfiras em quaisquer das suas acções. Eles estão a resolver os problemas que surgiram com os mercadores e a registrar os cidadãos; e já têm colocados os seus próprios agentes da ordem. Limita-te a preparar o caminho para mim, pessoalmente.

               A disposição de Leopold caiu a pique. Então, este era mais um encargo para não fazer nada; não passaria do ocupante de um lugar, um símbolo da atenção do imperador, até que Balthasar estivesse pronto a deixar que a cidade conquistada visse o seu novo amo.

               - Procura quaisquer vestígios da rainha e da princesa – acrescentou Apolon acrimoniosamente.   O sábio-mago parecia estar particularmente maldisposto naquela manhã, como se tivesse sofrido um grave desapontamento. - Conseguiram, não se sabe como, escapar-se-nos por entre os dedos na noite passada. Não podem ter ido longe, mas se as encontrares antes dos meus homens, deves enviá-las directamente a mim.

               Como Balthasar não dissesse nada que contradissesse aquelas ordens, Leopold abafou uma objecção e limitou-se a assentir novamente. Mas a ordem provocou um arrepio na nuca do príncipe. Havia ali algo de muito errado. Porque insistirá ele tanto em pôr as mãos naquelas mulheres? Não pode ser para boa coisa!

              - Vai... - Balthasar acenou ao filho. - Prepara as tuas tropas e faz uma entrada com toda a pompa. Assegura-te de que chegarás a tempo de assistir, sentado no lugar da rainha, ao serviço do Coração. É importante mostrar a essa gente quem é que manda e essa será a melhor forma de começar. Esta gente é muito sentimental em relação ao seu templo e todos aqueles que conseguirem estar disponíveis, vão com certeza estar no serviço.

               - Ouço e obedeço, Vossa Alteza - respondeu Leopold formalmente, fazendo uma vénia e retirando-se.

               Tinha a cabeça a zumbir com perguntas que não fizera e com especulações desagradáveis. Começou a dar ordens aos seus homens assim que estes ficaram ao alcance dos seus gritos. Como sempre, estes obedeceram com uma precisão louvável, não lhe deixando nada para fazer senão esperar que lhe trouxessem o cavalo e reflectir nas possíveis implicações da reunião que decorria na tenda imperial.

               O pai pode estar à espera de ver se eu tento tomar a cidade para mim ou se lhe obedeço ao pé da letra. Mas... esta história das mulheres reais desaparecidas... Não gosto mesmo nada disto! O Apolon deve ter um motivo qualquer para além dos que são óbvios; uma qualquer razão para as querer ter pessoalmente sob custódia.

               O escudeiro trouxe-lhe o cavalo ao mesmo tempo que os homens terminavam de empacotar as suas coisas e entravam para a formatura. Montou com facilidade, sem pensar sequer no que fazia, e sentou-se na sela numa pose aparentemente descontraída, esperando que eles formassem as colunas.

               O Apolon não está a preparar boa coisa. O Cathal... bem, o Cathal está sempre do seu lado. Até se podia pensar que o Cathal era uma espécie de autómato que o Apolon tivesse animado, não fora o facto de Cathal ser um bom estratega e Apolon ser tão terrível que chega a ser patético. O chanceler não quer saber do que Apolon faz desde que não impeça as coisas de correrem sobre eixos. Tudo isso, compreendo. Mas o que não compreendo é... por que é que o pai concorda com isto? Parece-me o tipo de coisa que lhe poderá causar muitos problemas com as gentes de Merina. Um punho demasiado cerrado no seu pescoço e, se acrescentarmos a isso o extermínio da família real... O pai esquece-se de algo muito perigoso. Quando as pessoas já não têm nada a perder, têm todas as razões para arriscar totalmente em prol da mudança, não importa quão desfavoráveis as circunstâncias.

               Se Apolon estivesse realmente a planear uma maldade qualquer... se ele queria realmente fazer mal às mulheres... Mas Balthasar diria que isso não faria qualquer diferença. Nessa altura, era seguramente o que ele pensava, Merina estaria totalmente debaixo do pé do imperador e o povo nada poderia fazer.

               Isso é um erro. Gente desesperada faz gestos desesperados.

               O cavalo de Leopold relinchou e mexeu-se impacientemente, reflectindo o nervosismo do seu cavaleiro.

               Não gosto nada disto. E não tomarei parte nisso.

               E eis que aparecia: o seu primeiro acto de rebelião efectiva. Mas não era rebelião contra o seu pai, pois não? Não. É contra aquele cão do Apolon. Embora tenha persuadido o pai a fazer isto, o pai nunca concordaria com tal coisa se tivesse pensado no assunto. Não, o pai é impiedoso, mas não é... mau,

              E Apolon só quer mal a estas mulheres. Tenho tanta certeza disso como de me chamar Leopold.

               Agarrou firmemente nas rédeas e acalmou a montada, sentindo-se um pouco melhor, pelo menos no que respeitava ao seu papel em tudo aquilo. O que quer que fosse que Apolon planeava, ele contrariaria por todos os meios ao seu alcance. Que era o que faria qualquer homem honrado.

 

LYDANA

               Matild e Eel foram acordados pelo sino da manhã, que era tocado em cada uma das paróquias da cidade.

               Matild dormira com a camisa de baixo vestida e sentiu-se ansiosa pela grande bacia de água quente que teria à sua espera no palácio. Água! Tinham que pôr o barril lá fora para encher, pois a carroça passava muito cedo. Eel já saíra da cama, aparentemente com o mesmo pensamento, pois estava a deslocar o grande casco que estava no canto mais distante do quarto, empurrando-o em direcção à porta.

               Matild apressou-se a ajudá-lo. Juntos puseram-no do lado de fora da porta. Deitou um olhar à rua, para cima e para baixo. Sim, pelo menos nisto a rua apresentava o seu aspecto habitual; as barricas estavam no exterior, à espera e sentiu, o que lhe provocou uma dor ténue no estômago, o odor vindo dos fornos de pão de Berta, situados à esquina. Procurou algumas moedas de cobre na bolsa e atirou-as a Eel.

               - Dois pães escuros - ordenou-lhe. - E se ela tiver um pedaço de queijo para barrar, traze também.

               Ele assentiu e foi-se embora. Matild voltou para dentro e pôs-se à frente de um pedaço de espelho observando, tanto quanto lhe era possível, a sua pessoa. As pessoas como ela não costumavam relacionar-se muito de perto com a água do banho e tinha baton suficiente, bem como a sua escova, para se preparar para o dia.

               Quando Eel regressou, já ela estava a abrir as grandes persianas  verdes e ele deixou cair o que trazia em cima da mesa para se apressar a ajudá-la a abrir a mesa de dobrar que se prójectava ligeiramente para o beco e sobre a qual ela expunha as suas mercadorias. Dando um pontapé determinado em cada uma das pernas da mesa, com o pé calçado com sandálias de madeira, fixou-os firmemente no lugar.

               Já se ouviam outros ruídos para além do enorme barulho da carroça da água. Parecia que os seus vizinhos se estavam a recompor da timidez do dia anterior. Max, o sapateiro, estava quase pronto para abrir a loja, tal como Lottie, que negociava em roupas usadas.

               Trocaram os cumprimentos da manhã, embora parecesse a Matild que as suas vozes estavam mais sombrias do que o habitual e apercebeu-se de que as suas cabeças se viravam frequentemente  na direcção da rua principal, mas não com a ansiedade própria de quem espera por fregueses.

               O vendedor de água trazia o seu próprio fornecimento de notícia; na verdade, estava tão inchado com esse facto, que mais parecia um sapo. Não, nem o imperador nem a maior parte do seu exército tinham feito qualquer menção de entrar pelos portões escancarados da cidade. Mas o filho do imperador, esse tinha cavalgado pela cidade dentro ainda não passava uma hora da aurora, mas comandava apenas homens de armas que usavam as suas cores pessoais e apossara-se do palácio. Pensava-se que o seu pai decidira que Leopold deveria manter a cidade sob controlo enquanto o imperador se ocupava de assuntos mais importantes. Embora que assuntos seriam esses, ninguém conseguisse adivinhar.

               Leopold, pensou Matild, enquanto ela e Eel empurravam cuidadosamente a barrica transbordante para o seu canto. Que sabia ela desse rebento único da casa imperial? Embora os homens se fartassem de falar, desde há anos, das conquistas de Balthasar e até mencionassem os seus mais altos conselheiros, muito pouco fora dito do príncipe. Até mesmo alguns dos oficiais eram mais conhecidos.

               - Saio? - Eel acabara de comer, dera uma arrumadela rápida e impaciente à cama e estava agora junto ao cotovelo de Matild. Ela sabia muito bem que ele tinha que sair, pois conseguiria  descobrir muito mais coisas do que ela. No entanto, a imagem dos homens de negro pesava-lhe no espírito.

               - Tem cuidado - deu por si a dizer, embora soubesse que Eel não precisava de tais conselhos.

               - As casas das Guildas? - sugeriu o rapaz.

               Matild assentiu. As Guildas controlavam a riqueza de Merina, Se a cidade estivesse prestes a ser saqueada, seriam elas a atrair as atenções em primeiro lugar. E Eel foi-se embora.

               Matild ocupou-se em várias tarefas como se aquele fosse um dia normal, desempacotando os colares de contas, arranjando-os na banca e prendendo os fechos que, permitindo que fossem vistos, impediam que fossem roubados. Naquela manhã tomou especiais precauções para que nenhuns dos objectos expostos valessem mais do que o preço médio, evitando bijouterias de qualidade superior.

               Tendo acabado de arranjar o expositor, sentou-se num banco alto, equilibrando sobre os joelhos o tabuleiro dividido em compartimentos e que continha uma quantidade bastante grande de contas de todas as cores e feitios. Enfiou uma das suas agulhas preparando-se para trabalhar enquanto esperava por clientes.

               - Ah, Matild...! que beleza! - Kassie, a caminho de uma visita tardia à padeira, olhava esperançadamente para os colares. - Aquele - espetou um dedo calejado pelo trabalho na direcção de um colar no meio do expositor - aquele... aquele era o que eu escolhia... as borboletas... parecem mesmo verdadeiras!

               Matild falou bruscamente:

               - Deram muito trabalho a fazer, rapariga. Custam-te cinco moedas de cobre ou uma de prata

               Kassie suspirou.

               - Não me parece que arranje esse dinheiro, não com aquela nariguda da segunda mulher do meu pai a vigiar a bolsa.

               - Traze cá o Hughes. - Matild sorriu.

               Kassie corou e depois abanou lentamente a cabeça. Pela primeira vez olhou por cima do ombro antes de responder.

               - O Hughes... já não o vejo faz agora... três dias. Foi chamado quando o Conselho se reuniu, mas não voltou para casa. Bem, a esta hora ela já não deve ter nada para mim. Bons negócios, Matild.

               Apressou-se a ir embora. Hughes era membro, desde há um ano, da polícia dos canais. Matild enfiou uma conta vermelha e depois uma de cobre. Que teria acontecido aos guardiães normais da cidade? Estremeceu ligeiramente. Isto tudo parecia ligeiramente irreal... Balthasar mantendo-se fora da cidade, os homens de negro...

               - Olá, mulher!

               Sobressaltou-se quando uma outra sombra  obscureceu a parte da banca que dava para a rua. Erguendo o olhar, encontrou os olhos de um dos casacos negros. Não estava sozinho e o seu companheiro trazia um rolo de papel amarelo e espesso que mantinha aberto com uma mão, segurando um lápis com a outra.

               - Contas, senhor. Encontrará aqui as melhores...

               - És vendedeira licenciada?

               O homem não estava de sobrolho franzido, mas a sua atitude também não se assemelhava nada à de um freguês.

               Matild apontou para o pergaminho emoldurado e um tanto torto, pendurado de um gancho preso à portada de madeira. Permitiu-se uma certa brusquidão na voz quando respondeu:

               - Use os olhos... ali “tão os meus negócios, assinados como deve ser pelo mestre Garmage, ele mesmo, e pela nossa graciosa rainha...”

               Ele aproximou-se e inspeccionou a licença. Depois disse em voz fria:

               - Não há rainha nenhuma em Merina, mulher, ainda não ouviste dizer? Precisarás de uma nova licença para trabalhar e terás que pagar uma taxa por ela no Sinal das Três Canecas antes de terem passado dois dias. O teu nome? – ladrou por fim.

               - Sou a Matild filha de Ranskin e negocio em contas.

               Atreveu-se a imprimir alguma brusquidão à resposta. Estabelecera uma personagem e agora era altura de se comportar de acordo com a personalidade estabelecida.

               - Matild. - Um dos casacos negros acenou para o seu companheiro, que fez um risco no papel que tinha na mão. - São seis moedas de prata por meio ano da tua licença, mulher. E não aceitamos promessas, só metal sonante.

               Já se virara e encaminhava para Max. Matild sabia que não deveria estar surpreendida. Afinal de contas, sempre tinham sabido que Balthasar estava decidido a extorquir tudo quanto pudesse da rica cidade portuária. Mas uma soma daquelas era impossível de reunir em dois dias por um comerciante do tipo que ela aparentava ser. Teria o imperador decidido saquear a cidade impondo taxas que nenhum dos comerciantes mais pequenos poderia pagar?

               Ouviu vozes erguerem-se na loja de Max. O sapateiro era um homem com um temperamento irascível. Era também do tipo de comerciante que mordia cada moeda de cobre antes de a guardar. Um dos casacos negros moveu-se com rapidez e ela viu-o agarrar o sapateiro pela frente da camisa e abaná-lo.

‘               - Dá-te por feliz por eu estar bem-disposto - disse o agressor - ou irias parar à prisão por falar nesse tom com um dos homens do imperador. Ou pagas, ou não trabalhas, idiota.

               Matild continuou a reflectir. Shelyra estava a salvo, por enquanto, mas aqueles casacos negros pareciam estar em toda a parte. E Saxon... que lhe teria acontecido? Fora sua intenção contactá-lo tão depressa quanto possível. Agora estava certa de que tinha que o fazer, se pudesse, da forma mais secreta.

               Em condições normais, esperaria que os seus colegas comerciantes explodissem na rua, assim que os casacos negros se fossem embora, com gritos e invocações aos vários santos e anjos para que os ajudassem contra tal exploração. Mas o beco continuou silencioso, demasiado silencioso e ela apercebeu-se de que da rua principal também quase não chegava qualquer ruído.

               Se aquelas aves agoirentas tinham vindo ao ninho dos pobres, qual seria o destino das Guildas? Descobri-lo-ia antes do virar da ampulheta, quando do regresso de Eel. Este não caminhava com a passada larga que estava de acordo com o seu papel, mas mantendo-se junto às paredes e correndo de uma ombreira de porta para outra como se esperasse ser atacado.

               Contudo não trazia a respiração alterada quando entrou na loja de bijouterias, embora os olhos continuassem a mover-se de um lado para o outro, como se esperasse que algum mal estivesse pronto a saltar de trás do ombro de Matild.

               - Atacaram... as Guildas - começou abruptamente. – Os casacos negros levaram todos os mestres para o palácio esta manhã. Puseram um dos homens deles em cada casa das Guildas e trouxeram escribas de negócio também deles, exigindo todos os livros. Nem sequer deixam os assalariados, homens ou mulheres, continuar a trabalhar. Fecharam as oficinas e não os deixam entrar e estão a interrogá-los sobre os negócios de cada casa.

               Então não se limitavam a caçar apenas os ratos do mundo dos negócios de Merina, agora tinham atacado o topo. Sentiu uma necessidade muito forte de ir até à casa da sua própria Guilda,

para ver o que se passava.

               - Levaram ainda mais homens para a Guilda do Tigre - continuou Eel. - O mestre Sameson e o mestre Kird foram levados. Estão a fazer perguntas sobre a rainha...

               Sim, essa poderia ser a primeira jogada de Balthasar para tentar fazer com que ela saísse do seu esconderijo na cidade. Mas nem sequer os trabalhadores da sua maior confiança sabiam do buraco onde Matild se escondia.

               O imperador daria por bem empregue o seu investimento na casa dela! Esta tinha controlado, durante séculos, o comércio das melhores pedras preciosas, e o passatempo favorito de muitos dos mestres fora pôr de lado jóias especialmente belas ou pouco habituais, quer para a colecção da casa, quer para satisfazer encomendas muito especiais. Havia, naquele preciso momento, uma dessas pedras sobre a sua mesa de trabalho no átrio da casa, a não ser que alguém tivesse tido o bom senso de a esconder. Era uma encomenda para uma coroa de casamento de além-mar; uma encomenda que desafiara os seus talentos criativos. Encolheu os ombros; o que agora estava em risco era bem mais do que uma bela peça de joalharia.

               - Estão a planear uma cerimónia solene para o Grande Templo - continuou Eel.  - Talvez o imperador esteja presente. Correm rumores de que fará um discurso no fim.

               Aquela parecia ser a última do seu fornecimento de notícias, pois sentou-se  num banco a olhar para ela.

               - Saxon? - ela quase sussurrou a palavra.

               A ajuda do capitão era tudo com que ela tinha contado. Já não estaria na estalagem. Talvez ele próprio tivesse ido para o porto. Acabou de encher com contas soltas os potes da sua banca de trabalho, enquanto pensava no que faria a seguir.

               - Há o Jonas... - Como de costume, Eel acompanhava os seus pensamentos.

               Jonas... sim! Embora Saxon fosse um homem prudente e costumasse seguir as suas próprias ideias, confiava no entanto no estalajadeiro perneta... não no dono da Dragão Marinho, mas no proprietário de uma taberna muito menos pretensiosa, frequentada  por marujos vulgares. Jonas estivera vários anos ao serviço do capitão, até ter perdido a perna em Ourse, e Matild sabia que ele era a fonte de Saxon no que respeitava às informações relacionadas com os tráficos ilegais no porto e nos canais.

               Mas não poderia procurá-lo em pleno dia. Matild não tinha qualquer pretexto para fechar a loja e sair para as ruas e tinha agora a firme convicção de que qualquer acontecimento fora do vulgar atrairia a atenção dos casacos negros. Mas havia uma coisa que...

               - Quando é a cerimónia? - Perguntou a Eel.

               - Ao meio-dia... hoje.

               Bom. Muito bem, ninguém poderia questionar uma mulher que procurasse o consolo do templo depois do choque que tivera naquela manhã.

               - Ficas de guarda à loja - disse ela. - Eu vou à cerimónia. Se alguém perguntar por mim, dize a verdade. Vou... vou perguntar à Berta se quer ir comigo.

               Parou na padaria e encontrou a padeira gorducha lá dentro, com as faces redondas manchadas pelo choro.

               - Dez moedas de prata! - Acolheu Matild com um grito de desespero. - Eu ganho aí umas cinco moedas de prata por semana... quando os outros têm dinheiro suficiente para  me comprar pão. Mas tenho a minha filha Ella, e o mais novo dela está doente. Ela esta manhã foi ao dispensário da cidade e estava fechado, com uma daquelas aves agoirentas à porta a dizer que os doentes que cuidassem de si...  a  não ser que pagassem. Matild... este mal é...

               - É pior do que temíamos - assentiu a vendedora de contas. - Hoje ao meio-dia há uma Cerimónia Solene do Alto Coração. Eu vou lá pedir misericórdia à Vontade Superior... vem comigo.

               Berta bateu as palmas e a sua segunda filha espreitou da casa do forno.

               - Vamos ao Coração - disse a padeira. - Olha pela loja. Nem mesmo os casacos negros me podem afastar da Misericórdia Divina...

               Matild pensou, enquanto saíam juntas, se isso seria mesmo assim. A sua ideia parecia ter alguns seguidores. Havia uma corrente de gente, especialmente de mulheres. Matild perguntou-se

qual seria a razão de se verem tão poucos homens. Havia alguns de gerações mais velhas, mas os mais jovens, certamente que os homens do imperador não poderiam ter arrebanhado todos os homens de Merina! Não teriam locais onde os manter. Mais uma vez se apercebeu de que a grande praça junto ao Grande Templo se enchia rapidamente. Mas esgueirou-se em direcção ao templo, com Berta nos seus calcanhares e daquela vez conseguiu chegar aos degraus da grande nave, embora uma vez lá chegadas tivessem sido empurradas para um canto.

               A lamparina do santuário estava acesa e o coro ocupava os seus lugares. Os religiosos entraram, um vulto de hábito e capuz semelhante ao que se lhe seguia. Já não havia muitos, notou Matild com uma ponta de medo, sobretudo entre os Hábitos Cinzentos. Embora outras famílias, para além das do Tigre, tivessem o dom inato, este não tinha passado para muitas das filhas durante a última geração. E visto o talento não se manifestar antes da meia-idade e as suas possuidoras frequentemente não viverem durante muitos anos, tinha havido uma erosão constante ao longo dos anos. Apenas cerca de um quarto dos bancos que lhes eram destinados estavam ocupados.

               Aqueles pensamentos sombrios foram sacudidos pela procissão que saía do santuário: a grande sacerdotisa, nos seus trajes cerimoniais, mas em vez dos habituais mantos escarlates e brilhantes, envergava a púrpura do luto; luto por uma cidade já perdida.

               Aqueles que se encontravam em redor de Matild ajoelharam. Ela apressou-se a imitá-los, enquanto a Chama Eterna era cuidadosamente levada até ao altar. Havia ainda as duas cadeiras de Estado, uma de cada lado do altar. A cadeira da rainha, até ao dia anterior pertença de Adele, era ocupada por um homem novo, com vinte e muitos ou trinta e poucos anos; seria o príncipe Leopold? Não havia sinal do imperador.

              Nem sequer chegou depois, como os boatos diziam que faria. O serviço foi um serviço completo, mas a grande sacerdotisa não fez nenhum sermão. Limitou-se a sair da sua cadeira e a ajoelhar perante o altar, apoiada num dos religiosos, em oração silenciosa. E Matild, notando um desvio ao ritual habitual para aquele serviço, como só vira acontecer quando da morte de seu pai, temeu por Adele. Só podia ter esperança nos laços fortes que as uniam, às três; se Adele tivesse partido, ela certamente que o saberia, talvez no preciso momento da morte da mãe.

               Quando o serviço terminou, agarrou Berta por um braço.

               - Vou procurar conselho. - Indicou os confessionários com a cabeça.

               A padeira assentiu.

               - Também eu, vizinha.

               Matild teve que esperar até o templo estar parcialmente desimpedido antes de se conseguir aproximar do seu compartimento especial. Ajoelhou-se reverentemente por momentos em frente do Coração e depois ergueu a cortina e sentou-se num banco baixo dentro do compartimento; o rosto enquadrado pela rede espessa da divisória que ocultava de forma eficiente a figura de quem entrava, deixando ver apenas a silhueta. Proferiu as palavras rituais com que começavam as confissões.

               - Reverendíssima, o meu coração não está em paz.

               - Fala filha - respondeu-lhe o murmúrio ritual – pois a tua mãe escuta-te.

               Seria Adele? Não podia ter a certeza.

               - Há problemas na cidade, reverendíssima... – começou ela.

               Era difícil falar nos seus problemas reais quando não sabia com quem estava a falar.

               - Há de facto problemas, filha.

               Matild sorriu com contentamento.

               - Mãe! - murmurou.

               - Vigia as tuas palavras... não sabemos se estamos a ser observadas.

               Não ouvia um tom tão severo na voz da mãe há já muitos anos. Rapidamente Matild comunicou-lhe tudo o que sabia. Depois perguntou:

               - Tens notícias de Shelyra posteriores às que eu tive?

               - Ouvi aos ciganos que por agora está a salvo. Mas aquela criança é impulsiva e o que se está a passar com aqueles casacos negros servidores de Apolon...

               - Apolon? - interrompeu Matild.

              - Sim, os casacos negros são fungos venenosos que ele plantou. Têm-no servido e, através dele, têm servido o imperador; tão bem que Balthasar lhes entregou o policiamento da cidade. Apolon - pela primeira vez a sua voz tremeu um pouco - é mais do que um mago, filha. Tal como Verit é mais do que uma religiosa, também ele tem uma posição de comando. Embora até ao momento não tenha tomado qualquer posição para além daquelas que servem ao seu amo, acreditamos que os seus planos ultrapassam em muito os do imperador. Levaram os mestres das Guildas e pedem um resgate: levam dois terços das suas mercadorias em troca daquilo a que chamam liberdade. As nossas forças da ordem foram para o cativeiro e estão a levar todo e qualquer rapaz novo que encontrem e enviam-no para o acampamento do imperador, a trabalhos forçados. Corre mesmo o boato de que os enviarão para as outras conquistas de Balthasar como escravos. Aqueles que de entre nós têm o dom, já começaram a espiá-los, mas não nos atrevemos a usar demasiado do nosso poder temendo atrair a atenção de Apolon... o poder atrai o poder, como tu bem sabes.

               - Quem usa o anel? - perguntou Matild suavemente.

               - Foi levado pelo embaixador... talvez esteja agora na mão do imperador. Lembra-te, filha, estás a brincar com o fogo quando usas essas tuas jóias amaldiçoadas.

               Não podia demorar-se demasiado. Curvando a cabeça, repetiu as palavras apropriadas:

               - Concede-me a bênção do Coração, reverendíssima, pois quero fazer o trabalho do Grande Poder.

               - Que assim seja - ouviu a sua mãe suspirar. – Faremos o que tiver de ser feito.

 

ADELE

               A religiosa Elfrida acabou o período que lhe estava destinado a ouvir confissões, com o espírito profundamente perturbado; uma perturbação que nem mesmo os cânticos rituais que lhe eram tão familiares conseguiam amenizar, embora lhe recordassem a presença da Deusa e os cuidados que Ela dispensava aos Seus filhos. Mas quando comparada com o desespero que testemunhara no confessionário, a compaixão da Deusa parecia-lhe ténue e distante.

               Pais, irmãos e filhos tinham desaparecido, ou como que por encanto ou nas mãos dos casacos negros de Apolon. Impostos e taxas muito excessivas, quando comparadas com os lucros de qualquer negócio, tinham sido impostas tanto aos pequenos como aos grandes comerciantes, com o aviso de que a falha no pagamento corresponderia ao encerramento do negócio. Estaria Balthasar a tentar estrangular a cidade? Estaria a tentar provocar a rebelião para ter um pretexto para a esmagar? Ou estaria apenas à procura de uma forma de saque a coberto de uma legalidade

 duvidosa?

               Mais do que nunca, lamentou terem deixado a cidade nas mãos de Balthasar. Mas que outra coisa poderiam ter feito? Resistir teria significado uma morte rápida às mãos das suas tropas... E agora, seriam confrontados em vez disso com uma morte lenta, por estrangulamento? Tanta miséria, tantas lágrimas, e a mesma pergunta feita por todos quantos procuravam os confessionários: Por quê? Por que razão lhes tinha acontecido uma coisa daquelas a eles? Porque os tinha a Deusa abandonado? Porque os tinha a rainha abandonado? Esta última questão tinha-lhe provocado um choque e tinha-a magoado profundamente.

               Só lhes podia dizer aquilo que lhe tinham dito a si: às vezes coisas horríveis acontecem a pessoas boas, não porque a Deusa lhes fosse indiferente ou os estivesse a submeter a quaisquer testes, mas unicamente porque essa era a forma como as coisas aconteciam na terra. Se a Deusa respondesse a cada oração que lhe faziam, embora fosse Omnipotente, as contradições daí decorrentes causariam mais problemas do que aqueles que inicialmente existiam. Usou um exemplo simples: se uma mulher rezasse para que a árvore nas traseiras da sua casa crescesse e lhe fizesse sombra no alpendre abrigando-a do calor do verão e a mulher da porta ao lado rezasse para que a peste matasse a mesma árvore porque as suas raízes estavam a atacar as fundações da sua casa, a que prece deveria atender a Deusa? Ou ainda, se uma tempestade destruísse um barco de pesca cheio de homens honestos, seria a Deusa responsável, ou estaria a puni-los por qualquer razão? Não havia qualquer malícia divina envolvida no que estava a acontecer a Merina...

                Embora houvesse certamente malícia terrena.

               Tem fé! Disse a si própria com firmeza, enquanto se encaminhava para o refeitório para ir almoçar. Talvez a comida a ajudasse a sentir-se um pouco melhor. E talvez caísse no seu estômago como um pedaço de chumbo, como acontecia ultimamente com todas as refeições que tomava.

                As coisas não estavam a resultar da forma como planeara. Tudo parecera relativamente simples, há apenas três dias... “A ameaça do Maligno está na divisão e no desespero.” As palavras ecoaram na cabeça de Elfrida como que ditas por uma voz de mulher, uma voz que não conseguia situar. Aquele pensamento era certamente oportuno, mas onde teria ouvido tais        palavras?

                A meio da refeição, que era, como habitualmente, tomada em silêncio, lembrou-se. Fora num sermão feito há vários meses por um dos Hábitos Castanhos, uma mulher que, para além dos seus dotes de curandeira, tinha o dom natural da palavra. Tinha sido numa das Grandes Festas da Senhora e a rainha-mãe Adele assistira ao serviço. Verit tinha-lhe apresentado a religiosa depois do serviço e Adele perguntara-lhe como tinha tido tempo para preparar um tal sermão com todos os seus afazeres. Verit rira-se, dizendo à rainha-mãe que a religiosa fora informada de que iria pregar uma hora apenas antes do início da cerimónia.

               Talvez eu devesse pedir à Verit que a deixasse pregar de novo, pensou Adele. Ela é verdadeiramente inspirada e as suas palavras revelam sabedoria e sensatez. O que Apolon está a tentar fazer é exactamente induzir-nos em divisão e desespero e temos que combater ambos com todas as armas ao nosso alcance.

               O almoço decorreu de uma forma desusadamente pesada; Elfrida não fora a única dos religiosos a ter estado de serviço nos confessionários e parecia que toda a gente ouvira histórias de angústia semelhantes.

               E tenho que voltar para os confessionários depois do almoço, pensou com relutância. Ainda vai haver confissões durante mais três horas e mais alguém pode tentar contactar-me.

               Como temera, a comida ficou a pesar-lhe desconfortavelmente no estômago quando voltou a sentar-se no terceiro confessionário. Podia dizer, pela silhueta recortada contra a divisória escura, que o primeiro postulante era um homem, embora não conseguisse ver mais nada.

               - Reverendíssima, o meu coração não está em paz - disse uma voz grave e agradável, mas antes que pudesse dar a resposta ritual, a voz continuou. - A raiz é profunda, a árvore ergue-se bem alto, a pantera segue o seu caminho.

               Enquanto proferia aquelas palavras, a sombra de uma mão ergueu-se e empurrou qualquer coisa através de um dos cantos da divisória que estava solta. O objecto caiu no chão com um pequeno tinido e ela apanhou-o. Era um brinco, um brinco de safira, a pedra azul brilhando no olho do animal mítico. Conhecia-o, pertencia a Shelyra e ela usara-o no Conselho antes de terem desaparecido todas, separadas pelas suas vias de fuga.

               - Fala, filho, pois a tua mãe escuta-te - replicou ela automaticamente, sentindo-se um pouco abalada, e depois acrescentou  rapidamente - embora, a não ser que tenhas sofrido alguma transformação súbita, tu não sejas meu filho!

               - Nem eu vossa avó, embora uma certa jovem senhora queira assegurar-se de que a avó dela continua entre o número dos vivos - disse o homem alegremente. - Há quem me chame Thom Talesmith, reverendíssima.

               - Thom Talesmith - o patife que Lydana incumbira de cuidar de Shelyra! - Podes dizer-lhe que as notícias do meu falecimento são certamente exageradas. E podes dizer-me a mim o que está a acontecer na minha cidade!

               - Os tipos emplumados de negro estão por toda a parte – disse o homem bruscamente. - Não tenho dúvidas de que já ouvistes as histórias dos seus actos. Reverendíssima... há qualquer coisa de monstruoso nalguns desses homens... - A voz faltou-lhe momentaneamente. - É difícil de explicar, mas alguns deles... não batem certo.  Não parecem homens verdadeiros. Parecem... parecem ter uma ideia fixa, mas qual o seu objectivo não sei, nem quero saber.

               Ela franziu o sobrolho.

               - São homens de Apolon e ele é um mago das Trevas... mais do que isso, não sei. Mas eu teria cuidado com eles. Ele pode ter-lhes dado poderes com os quais não estás habituado a lidar.

               A sombra assentiu com a cabeça.

               - Tenho uma notícia nova para vós... o grande general, o tal a que chamam Cathal, trouxe para a cidade o seu batalhão especial de mercenários e não tenho a certeza de que o príncipe, que é suposto governar a cidade, já saiba da sua presença. Cathal aquartelou-os nos armazéns velhos e no antigo quartel junto às docas. Já vi alguns deles... conheço os da sua laia. Vão arranjar problemas, reverendíssima.  Não tiveram a sua batalha, não tiveram o seu saque e andam à procura de conseguir ter as duas coisas. - A sua voz tornou-se implorante. - Podereis passar palavra entre o povo para que não os provoquem? Para que falem humildemente, sim senhor, não senhor e que mantenham os olhos no chão? Senão... eles querem sangue.

               E tê-lo-iam, mais cedo ou mais tarde... Elfrida assentiu.

                - Posso passar palavra nos confessionários e pedir aos outros religiosos que façam o mesmo.

               Pelo menos havia alguma coisa que podia fazer, qualquer coisa que faria uma pequena diferença.

               - Quanto à rapariga... - Ele hesitou, e tossiu. - Reverendíssima, eu estava encarregado de a fazer sair daqui.

               - E ela recusa-se. Já esperava isso.

               Apesar da angústia que sentia no peito, não conseguiu deixar de se rir um pouco com a confusão estampada na sua voz.   Calculou que aquele homem devia estar habituado a levar a sua avante com as mulheres, devia estar habituado a que elas o cortejassem. Não estava acostumado a raparigas como a sua neta.

               - Penso que descobrirás que conseguirás mais dela se a tentares persuadir, do que se insistires em fazer as coisas à tua maneira. No entanto, não acredito que a consigas fazer arredar pé desta cidade. Ela é da Casa do Tigre e os ossos de Merina são os nossos ossos; a água dos seus canais está no nosso sangue. Manter-nos-emos firmes a seu lado até que não haja pedra sobre pedra.

               - Fiz um juramento, um pacto de sangue...

               Estranho. Ele soava suplicante. Como se se sentisse envergonhado por não poder cumprir a sua promessa.

               - Tenta durante uma semana; se não a conseguires demover nessa altura, eu absolvo-te - replicou ela rapidamente.

               - Obrigado. - Ele suspirou. - Ela disse-me para vos dizer que não descobriu grande coisa. O príncipe ainda não está a viver no palácio; está com as suas tropas no que ela chamou de “pequeno quartel”.

               - Devem ser as casernas nos terrenos do palácio, onde viviam os guardas reais - disse-lhe ela. - Isso é interessante. Será que ele anda a revistar o palácio à procura de armadilhas e outros truques antes de se decidir a mudar-se?

               - Era o que eu faria, no seu lugar - disse-lhe Thom. - Vós rendestes-vos sem lutar...  e se eu estivesse habituado ao embuste como estes imperiais estão, calcularia que tivésseis decidido deixar ao palácio a tarefa de travar a vossa batalha.

               Humm... Só aqueles factos já lhe diziam muito acerca do príncipe e da forma como ele pensava. E no entanto, apesar do facto de ele ser seu inimigo, a sua primeira impressão tinha sido cautelosamente favorável. Se fosse ele quem estivesse realmente no comando, pensava que não teria nada a temer pela segurança da cidade. Mas não era; ele era apenas uma marioneta do pai e de Apolon.

               - É tudo o que eu tenho para dizer, reverendíssima – disse Thom, quando se fez silêncio. - E visto já me ter posto em paz na Torre da Água, só o que tenho para confessar é que tive vontade de estrangular aquela rapariga uma dúzia de vezes por dia.

               - Nisso não estás só - disse-lhe Elfrida, reprimindo um sorriso. - E se conseguiste dominar-te, isso já é penitência bastante. Que a paz e a bênção do Coração desçam sobre ti, meu filho - terminou com as frases rituais. - Caminha na Sua sombra e crê que Ela te ouve.

               Ao ouvir aquilo, Thom Talesmith curvou a cabeça, murmurou um agradecimento e saiu do confessionário.

               Elfrida concentrou-se no postulante seguinte, mas parte dela continuava cheia de espanto. Quem haveria de pensar tal coisa! Thom Talesmith, ladrão, patife, malfeitor, contrabandista, bêbado, e mulherengo afamado, era crente! Ele fora sincero, de coração, ao confessar os seus impulsos violentos em relação à rapariga! Ela reconhecia sinceridade quando a ouvia, e sentira-a na voz dele!

               Não tinha qualquer dúvida de que ele fizera uma confissão completa na prisão, e de que, também então, fora sincero. E por qualquer razão, aquela revelação relativamente insignificante fê-la sentir uma pontinha de esperança e fez com que o seu estado de espírito melhorasse. Pois se Thom Talesmith se podia revelar como um verdadeiro filho da Deusa... então talvez qualquer outra coisa se tornasse também possível. Até mesmo salvar a cidade.

 

LYDANA

               Se Berta recebera algum conforto na sua visita ao confessionário, não o deixou transparecer; as duas mulheres pagaram contrariadas os bilhetes de barco, pois estavam com muita pressa de chegar às suas casas.

               Matild foi ao encontro de mais problemas. Um dos casacos negros segurava Eel e esbofeteava-o, primeiro de um dos lados da cara e depois do outro, com uma força brutal, enquanto o outro casaco negro observava de perto.

               - Que é que se passa? - perguntou Matild. - Que foi que o rapaz fez?

               O homem de olhar frio que já a interrogara antes olhou-a avaliadoramente.

               - Está a fazer negócio sem ter licença. É um patife e será melhor empregue num trabalho honesto...

               Uma das mãos de Matild escorregou por baixo do corpete, como se apertasse angustiadamente o coração. Os dedos tocaram na pedra do sinete do Estado e esta aqueceu-lhe os dedos.

               - Ele é filho da minha própria irmã. - Enfrentou determinadamente o casaco negro. - E como tal, é aos olhos da lei, meu aprendiz. Não é patife nenhum, e se estava a guardar a loja é porque eu lhe disse para o fazer.

               - Enquanto tu andas na vadiagem, vendedeira de contas?

               - Enquanto eu vou ao serviço no templo, como está certo e é de direito. Ou será que agora nós, os de Merina, já não podemos ir ao templo? Acho que o imperador não ia querer uma coisa dessas... dizem que ele é um filho leal do templo.

               O homem pestanejou, os seus lábios moveram-se como se fosse dizer qualquer coisa mas tivesse resolvido engolir as palavras. Soltando Eel, lançou-o contra a parede.

               - É melhor ficares na tua loja... enquanto ainda a tens. Cuspiu e uma mancha de saliva caiu na licença debotada, mesmo por cima do selo real.

               Foram-se embora e Matild, com os olhos semicerrados, viu-os saírem do beco. Depois olhou para Eel; tinha ambas as faces escarlates das pancadas que levara. Mais tarde ficaria com a cara negra. Toda a raiva que se tinha vindo a acumular explodiu dentro dela. Ficar calmamente sentada a sofrer humilhações, não era para o Tigre; o seu brasão, tão temido, sempre fora o símbolo da coragem e da fúria. Chegara a hora de fazer algo mais do que ficar a ouvir os rumores e a tentar perceber todo aquele caos.

               Conduziu Eel para as traseiras da loja e procurou no armário da parede, um pote de pasta de ervas que não fosse demasiado velho e ainda pudesse ser usado. Tão ao de leve quanto lhe foi possível, consciente dos espasmos de dor que o rapaz não conseguia evitar, untou a carne inflamada.

               - Que foi que os trouxe aqui? - perguntou enquanto dava a tarefa por finda.

               Tinha os braços em torno do corpo do jovem, abraçando-o como se assim conseguisse preservá-lo  de  toda a dor.

               - Vieram como se viessem comprar. - As palavras soavam abafadas pelos lábios inchados. - Primeiro perguntaram os preços...  mas fizeram outras perguntas sobre ti e sobre a loja... viram os colares com amuletos um a um, como se procurassem qualquer coisa. Depois começaram a ameaçar-me... e tu apareceste.

               - Os amuletos.

               Matild, conservando o braço por cima dos ombros de Eel, foi até à banca onde estava o expositor. Era evidente que muitos dos colares tinham sido mexidos e que apenas os fechos de segurança que ela tinha inventado tinham feito com que se mantivessem no lugar. Um deles estava partido e as contas tinham rolado para a rua.

               Nunca trabalhara com amuletos com uma crença real nos seus poderes. De tempos a tempos seleccionara algumas das várias peças por terem uma forma original ou por se enquadrarem bem nos padrões que tinha em mente. Ali estava um Coração Duplo em prata não polida, um Olho do Mar em cobre, uma representação da Chama formada por pequenas contas vermelhas coladas umas às outras e várias coisas exóticas trazidas por viajantes que as tinham trocado pelas suas mercadorias.

               O templo não favorecia o uso de amuletos, embora alguns, cujo desenho era aprovado, fossem usados com frequência para enfeitar uma fiada de contas de oração. Aqueles que se apegavam sobretudo à crença no poder de tais peças não eram fervorosos seguidores do Coração. E havia muita gente que os usava com objectivos semelhantes aos de um mago...

               Mago!

               Apolon era um mago; os casacos negros eram verdadeiramente os seus homens. Matild tinha um espírito suficientemente aberto para saber que certos objectos, quando uma pessoa se concentrava fortemente neles, podiam suscitar emoções... se aqueles que o faziam tinham um certo tipo de talento. Que temeria Apolon tanto, que o fazia enviar os seus casacos negros à caça de amuletos, até numa pequena banca como a sua? Era outra peça que teria que ser, de alguma forma, encaixada no quebra-cabeças.

               - Não prestaram atenção às peças do templo.

               Eel escapara-se ao abraço de Matild e saíra para apanhar as contas espalhadas na calçada, a sua cabeça e ombros aparecendo subitamente por cima da banca.

               Matild olhou para tudo o que estava exposto. Havia cinco desses colares: três tinham desenhos aprovados pelo templo e o quarto era o colar com borboletas, mantidas juntas por contas de cristal que Kassie admirara e tanto desejara possuir.

               No primeiro via-se o Olho do Mar, mas isso era bastante vulgar numa cidade portuária. A maioria dos marinheiros usava um, talvez não acreditando totalmente no seu poder, mas sentindo

mesmo assim que necessitavam de toda a sorte extra que conseguissem obter.

               Visto os casacos negros só terem quebrado a corrente do colar com o Olho do Mar, tinha que acreditar que a atenção deles se centrara nele por qualquer razão.

               Seria o Olho do Mar um sinal? Como governante de Merina, tivera plena consciência das actividades dos contrabandistas; nunca se conseguia que esse género de actividades fosse totalmente erradicado e não esperara que Saxon o conseguisse. Essa era a arraia-miúda. Só quando algum chefe ardiloso e competente conseguia organizar uma quadrilha e começava a trabalhar numa escala maior, é que o governo actuava. Podia muito bem dar-se o caso de certos amuletos constituírem uma espécie de senha entre esses traficantes.

               Visto os casacos negros parecerem estar muito bem informados, também já deviam ter ouvido dizer que muitos dos seus clientes eram homens do mar e a reputação que construíra ao longo do tempo de grande amizade com marujos, podia muito bem ter-se tornado um factor negativo em vez de ser um factor positivo.

               Reuniu as contas soltas e o amuleto e meteu-os numa caixa, pondo no seu lugar um colar muito simples feito de âmbar e cristal.

               Tinha que se encontrar com Saxon!

               Embora tivessem a loja aberta durante toda a tarde, não apareceram clientes. Matild permitiu a Eel que fosse comprar comida suficiente para vários dias. Nesse espaço de tempo, manteve as mãos ocupadas a enfiar contas, enquanto divagava, avaliando e tentando colocar no seu lugar tudo o que descobrira.

               Agora já não havia qualquer possibilidade de apelar aos recursos das Guildas. Mas ainda tinha, não só as suas pedras de mau augúrio, como uma caixa cheia de suportes onde as poderia engastar. Contudo, enquanto a loja estivesse aberta, não se podia lançar a um tal trabalho.

               A tarde já estava quase no fim quando viu alguém a atravessar o beco. A loja de Max tinha estado aberta, e ela ouvira o ritmo constante do seu martelo, interrompendo-se aqui e além, embora ele não se tivesse deixado ver. Era como se uma grande e terrível sombra tivesse descido sobre todos eles. Depois Kassie saiu a correr da casa do fundo do beco. O seu rosto redondo e acriançado estava húmido de lágrimas e ela passava as mãos nas faces para a frente e para trás enquanto corria às cegas. Matild pôs-se imediatamente de pé e saiu a porta mesmo a tempo de interceptar a rapariga quando esta passava a correr. Kassie agarrou-se a ela, atirando a cabeça para trás e soltando aquilo que era quase um uivo.

               - Kassie. - Matild segurou-a e depois deu-lhe um pequeno abanão para a fazer prestar atenção. - Que se passa?

               Os olhos da rapariga, por entre as pálpebras inchadas, estavam tresloucados; parecia um animal acoçado. Kassie era frequentemente vítima do ciúme e mau feitio da sua madrasta, mas Matild nunca a vira num tal estado.

               - Que se passa? - repetiu em voz mais alta.

               - Hughes... - engasgou-se no nome ao tentar pronunciá-lo.

               - Que se passa com Hughes? - perguntou Matild, dando um tom brusco à sua voz por forma a atrair a atenção da rapariga.

               - Eles... aquelas aves agoirentas, foram ao ferreiro... disseram ao pai dele... ao Hanz... que o levaram... para ser um dos escravos deles! Levaram todos os agentes da ordem.

              Matild sentiu um arrepio de medo. Sentira-se tão certa de que, de alguma forma, poderiam lutar... mesmo na sombra. Mas parecia que o inimigo se movia agora com tanta rapidez, que não conseguia prever de onde viria o ataque seguinte.

               - Eles... eles trouxeram um ferreiro deles... vai tomar conta da forja e o Hanz não vai ser mais do que um servo deles... na sua própria casa! - Kassie acalmara-se um pouco, mas continuava com um olhar desvairado. - Por favor, senhora, por que é que eles fazem estas coisas...? nós não lutámos. Talvez... - De repente, a sua cabeça endireitou-se e esfregou os olhos com a mão uma última vez. - Talvez devêssemos ter lutado. Agora levam os nossos homens como animais para o matadouro e... e eles... enforcaram um homem mesmo em frente ao templo...

               - Enforcaram um homem... por que razão? - Matild sentia-se agora completamente gelada.

               - Foi o mestre Linos da Guilda do Metal... eles... eles dizem que ele não lhes obedeceu.

               Um mestre de uma Guilda enforcado! Não, ela já perdera demasiado tempo sem qualquer plano de acção concreta. O Tigre, a sua cabeça ergueu-se orgulhosamente, o Tigre caçava no seu próprio território e ninguém lhe disputava a passagem. Assim tinha sido... e assim seria!

               Confortou Kassie o melhor que pôde e depois voltou para a loja onde Eel estava sentado num banco, à espera, com as compras feitas. Rapidamente Matild começou a contar o que a rapariga lhe dissera, mas ele antecipou-se-lhe, juntando pormenores: de rapazes acorrentados marchando para fora dos portões; de lojas destruídas por os seus proprietários terem, de alguma forma, contrariado os casacos negros.

 

ADELE

               A grande sacerdotisa Verit entrou, estavam eles a acabar de jantar, e chamou a religiosa Elfrida à parte. O átrio que antecedia o refeitório era suficientemente largo para que os outros religiosos pudessem passar sem perturbar a conversa murmurada.

               - O príncipe Leopold deseja apresentar cumprimentos à rainha-mãe Adele - disse em voz baixa. - Consegues fingir que estás doente ou precisas de ficar mesmo doente outra vez?

               Elfrida suspirou, sentindo o peso da responsabilidade inerente a Adele abater-se novamente sobre si.

               - Terei que fingir - respondeu. - Não trouxe comigo nenhumas das bagas lá do palácio.  Mas não penso que ele perceba que é uma farsa.

               - Muito bem - disse Verit. - De quanto tempo precisas para estares pronta? Eu empatei-o ao jantar... comi e conversei com ele na minha sala... mas não o posso fazer esperar durante muito mais tempo.

               Parecia preocupada e um tanto perturbada. Os seus muitos anos como grande sacerdotisa, apesar de sobrecarregados com todas as situações problemáticas com que, numa ocasião ou noutra, tem que se confrontar qualquer pessoa investida de autoridade, não a tinham apesar de tudo preparado para aquele género de situação.

               Bem, também não me prepararam a mim.

               Elfrida franziu o sobrolho enquanto tentava calcular o tempo de que necessitaria para a transformação.

               - Empata-o o tempo que puderes. Tenho que ir buscar os cosméticos que estão na extremidade do túnel que dá para o palácio. Lembra-te que manter Adele viva foi ideia tua... eu não tinha nada preparado para essa eventualidade. Mas devo estar pronta em meia marca de vela, o mais tardar.

               Verit assentiu; parte da preocupação parecia tê-la deixado, mas não estava, de forma alguma, tranquila.

               - Não é tão mau como eu temia. Vou avisar a responsável da enfermaria para que esteja à tua espera. Podes ir para lá passando pela câmara de meditação; os que lá estão são de confiança. - Apressou-se em direcção à enfermaria para preparar a sua responsável para o embuste e Elfrida dirigiu-se para o túnel inferior, sentindo os músculos dos ombros contraírem-se de tensão.

               Foi até ao palácio tão depressa quanto lhe foi possível. Quando lá chegou acendeu o candeeiro, agarrou na caixa de cosméticos e na sua camisa de dormir mais sofisticada e embrulhou tudo num xaile escuro.

               Acho que começo a odiar a Adele.

               Levando o candeeiro na mão e pensando que teria que levar o toucador para a entrada da câmara de meditação assim que tivesse oportunidade, regressou ao templo, apagando o candeeiro na extremidade do túmulo mesmo junto à câmara de meditação. A trouxa parecia-lhe inusitadamente pesada; ou seria apenas o peso da responsabilidade? A entrada da câmara dava para o lado do altar, por trás de uma das colunas gémeas que ladeavam o altar junto à parede. Havia quatro hábitos pendurados junto à entrada, um para cada uma das cores das Ordens. Estavam duas pessoas na câmara, ostensivamente em meditação; um homem envergando um hábito vermelho e uma mulher de castanho. Elfrida reconheceu os dois. O homem era o religioso Fidelis, com quem a religiosa Elfrida trabalhara já umas quantas vezes, e a mulher era aquela cujo sermão a religiosa Elfrida se recordara umas horas atrás. Infelizmente continuava sem se conseguir lembrar do nome da mulher. Isso, por qualquer razão obscura, perturbava-a. Fazia-a temer que a sua mente se estivesse a deteriorar... o que, numa altura daquelas, significaria um desastre para todos.

              Não, isto é só resultado da tensão, e o facto de eu ter ouvido o nome dela apenas uma única vez. De certeza que é isso.

               Ambos ergueram os olhos momentaneamente, interrompendo as suas orações o tempo suficiente para a reconhecerem, quando a religiosa Elfrida saiu de trás do pilar. O religioso Fidelis fez-lhe um pequeno aceno com a cabeça e ambos voltaram às suas orações, não lhe prestando mais atenção. Era como se ela tivesse entrado por uma porta vulgar, em vez de se ter materializado ao pé da parede. Verit sabia mesmo escolher as pessoas da sua confiança.

               Elfrida foi até à enfermaria sem que ninguém desse por ela; sem dúvida por mercê da Deusa, pensou. Na verdade, não havia ninguém nos grandes átrios de pedra, apesar de ser costume haver sempre algumas pessoas por ali a qualquer hora do dia ou da noite. A responsável da enfermaria ficou de guarda à porta enquanto ela despia o hábito e o enfiava no armário, juntamente com as roupas que tinham ocupado o lugar de Adele na cama. Aplicou rapidamente uma quantidade suficiente de cosméticos para alterar a aparência do rosto, fazendo-a parecer realmente às portas da morte. Prendeu o cabelo em duas tranças e vestiu a camisa de dormir por cima da camisola interior. Ouvindo vozes no átrio, meteu-se apressadamente na cama e concentrou-se em fazer a respiração soar difícil e ofegante. Depois da sua recente viagem de ida e volta ao palácio, ofegar não representava grande dificuldade. Havia tantas coisas que podiam correr mal naquela farsa...

               Esperava que o rosto estivesse correctamente maquiado, mas recordou a si própria que já fizera isto muitas vezes nos últimos dois anos.

               A minha transformação em Adele deveria ser automática; e foi-o, até ontem, e não posso acreditar que tenha esquecido como se faz de um dia para o outro. Esta atrapalhação é só por não ter esperado ter que o fazer novamente.

               A situação, se não fosse tão perigosa, poderia ter sido engraçada. A responsável pela enfermaria entrou, seguida pela grande sacerdotisa Verit e pelo príncipe Leopold.

               - Não podeis ficar muito tempo - disse a enfermeira com firmeza e com uma autoridade  que intimidaria até mesmo um general. - A reverendíssima cansa-se muito depressa.

               Adele não ouviu naquela frase nada que não fosse verdade. De repente, sentiu-se completamente exausta.

               Mantém-te atenta, presta atenção; não te atrevas a cometer um erro agora. Ele não pode notar nada de errado!

               Esticou a mão e ela tremeu sem que fosse preciso fazer qualquer esforço nesse sentido. À luz da vela parecia particularmente translúcida e frágil. O príncipe Leopold curvou-se sobre a sua mão, comportando-se como um cortesão bem educado. Adele observou-o, não se incomodando em disfarçar o seu escrutínio. Afinal de contas, era velha e estava a morrer... que tinha ela a temer dos invasores?

               Sou uma mulher velha que está prestes a passar o Véu e não é um mero mortal que me pode ameaçar. E sou uma velha intrometida que nunca hesitou em dizer aquilo que pensava.

               A primeira das afirmações era uma farsa, mas a segunda era genuína e ambas lhe deram coragem para o olhar sem medo. O príncipe Leopold era um homem normal, de cabelo escuro, olhos escuros e um rosto ossudo e bastante despretensioso.

               Não tinha herdado a beleza que diziam que o seu pai possuía. Tinha uma pequena ruga entre as sobrancelhas, como se estivesse sempre preocupado com qualquer coisa. O seu corpo era, no entanto, o corpo de um guerreiro e não o de um cortesão, mas não tão musculoso como se dizia que Balthasar era. Estava também vestido com simplicidade, sem qualquer insígnia que indicasse o seu nascimento ou alta patente.

               Embora o tecido do seu uniforme fosse de boa qualidade, era um uniforme, sem quaisquer das fitas ou condecorações usadas pela maior parte dos “guerreiros” de sangue real, fossem ou não delas merecedores. Dizia-se que o uniforme de gala de Balthasar era tão pesado, de tanta prata e ouro nos galões e enfeites, que eram precisos dois escudeiros para lhe vestir a túnica. Aparentemente ele não saía muito ao pai.

               E a sua expressão era bondosa, o que surpreendeu Adele. Não esperara encontrar um homem assim no séquito do imperador.

               Mas, como era evidente, o filho único do imperador não poderia ter muitas alternativas; o seu pai tomaria as decisões no que respeitava ao seu paradeiro e às suas actividades. Presumivelmente o pai destinara-o ao exército; talvez para o poder ter debaixo de olho.

               Terá sido o imperador que lhe ordenou que viesse ver como eu estava?

               - Vossa Alteza, lamento imenso a Vossa doença.

               Ele disse as palavras da praxe com cortesia, mas Adele percebeu que ele estava a ser sincero. Quer estivesse ali por vontade própria ou de outrem, era sincero na sua preocupação. Quando se curvara sobre a sua mão, segurara-a com gentileza e pousara-a sobre a coberta da cama com igual suavidade.

               Gosto dele, pensou ela ligeiramente surpreendida. Gosto mesmo dele. É um bom homem. Quem me dera que tivesse havido alguém como ele na nossa própria corte, em vez de todos aqueles cachorrinhos ambiciosos, ignorantes e egocêntricos. Este é o tipo de homem por quem Shelyra poderia ter sentido respeito. Dirigiu-lhe um breve sorriso.

               - A morte vem, para todos nós, quando é chegada a nossa hora, Vossa Alteza - murmurou.

               Depois de umas quantas respirações cuidadosamente ofegantes continuou:

               - Não temo por mim... mas pelo meu povo... e pela minha família. Pela minha família, sobretudo. Não tive notícias... de Lydana nem de Shelyra.

               E essa é a verdade, pensou triunfante.

               De quem eu tive notícias foi de Matild e de Raymonda.

               - Encontrarei a rainha e a princesa - disse ele firmemente. - Cuidarei de que sejam tratadas com as honras devidas à sua posição. Cuidarei de que sejam protegidas, como é de direito, pois a rainha ofereceu, com honradez, a rendição da cidade.

               Adele inclinou a cabeça. Havia algo na voz dele que lhe causou preocupação. Não estava a falar só com ela, e também não era consigo próprio que falava... era como se se estivesse a preparar para tomar posição numa discussão acesa. Quem é que quererá Lydana e Shelyra e com que objectivo as quererá? A julgar pela forma obstinada como o príncipe Leopold cerrava os maxilares, temeu que fosse Apolon. Depois, olhou-o nos olhos e soube que era Apolon; tinha tanta certeza disso como o próprio Leopold. Se o Apolon as quer... não é para boa coisa.

               De repente não precisou de continuar a fingir que se sentia doente. Caiu sobre as almofadas, quase não conseguindo respirar. Mal ouviu a enfermeira escoltar com firmeza os visitantes até à porta. Não tinha a certeza de ter desmaiado ou de ter adormecido repentinamente, mas aquilo de que teve consciência a seguir foi da mão quente de Verit no seu ombro. A sua voz estava cheia de preocupação.

               - Consegues levantar-te, religiosa? Perdeste o serviço da nona hora; se também faltares às Vésperas, o facto pode ser notado. Embora só tenhamos dividido as ordens na noite passada, as pessoas já sabem quem faz parte do seu grupo.

               A religiosa Elfrida sentou-se, sentindo as forças voltarem-lhe.

               - Apolon procura as mulheres do Tigre - disse. Como eu temia... como eu temia.

               Verit franziu o sobrolho e mordeu o lábio.

               - Sim, eu também percebi isso. O príncipe Leopold não está contente com esse facto.

               - Ele pareceu-me um rapaz bastante decente – observou Elfrida, pondo-se de pé com cuidado e dirigindo-se ao lavatório para limpar os cosméticos do rosto. - Não é o que eu esperava

do filho do imperador. Penso que sei o que ele estava a pensar. Ele sente que as mulheres do Tigre deveriam ser protegidas, mas teme não ter o poder suficiente para o fazer.

               Verit assentiu o seu acordo.

               - Penso que a rainha-mãe Adele pode morrer muito em breve, o mais depressa possível. Na realidade, acho que é o melhor que ela tem a fazer, antes que Apolon descubra que pode fazer com que Lydana e Shelyra saiam dos seus esconderijos se fizer Adele prisioneira. Não te quero perto da enfermaria quando isso acontecer; tratarei disso quando estiveres a assistir a um serviço religioso.

A religiosa Elfrida voltou a vestir o hábito cinzento, sentindo um peso sair-lhe de cima no momento em que despiu a camisa de noite. Não mais uma vida dividida nem um coração dividido. Por fim.

               - Muito bem - disse. - É melhor ir assistir às Vésperas. Queres que ouça confissões amanhã?

               Verit abanou a cabeça.

               - Acho que deverias estar tão visível quanto possível. Não quero que ninguém estabeleça a ligação entre ti e a religiosa Elfrida.

               - Nem eu quero - disse Elfrida com fervor. - Na verdade... nada me fará mais feliz do que ver Adele morta e em segurança.

 

LYDANA

               Matild, com os lábios firmemente cerrados, tratou de fechar a loja, embora ainda faltasse muito para o pôr do sol. Não perderia mais tempo; tinha que agir naquela noite. E fazer uma visita a Jonas seria a sua primeira acção.

               Comeram apressadamente pão e queijo, acompanhados pela cerveja amarga que era a bebida do bairro. Depois Matild abriu a gaveta mais alta das duas que ficavam por baixo da cama. Lá dentro havia um monte de roupas, mas já sabia qual a que iria escolher.

               A troca de roupa levou o seu tempo e ela estava tão impaciente que os dedos se embaraçaram com os fechos e os atilhos, mas por fim lá se despiram completamente e voltaram a vestir-se. Envergavam mais uma vez os fatos colados ao corpo, de um cinzento tão escuro que parecia preto. Por cima vestiram as capas escuras de capuz. Matild transferiu o punhal achatado para a bainha que tinha à cintura e depois enrolou à volta do corpo uma faixa de seda preta à qual prendeu as pedras de mau augúrio.

               Eel abriu uma caixa e tirou dela uns quantos anéis de metal. Com uma precisão delicada enfiou-os nos dedos das duas mãos. De cada dedo saía agora uma lâmina mais espessa que uma agulha grande e tão mortal como as garras de um animal.

               Matild fechou a porta, depois de ter cerrado firmemente os taipais e trancou-a. Tudo levava a crer que a loja estava simplesmente fechada para a noite. Colocou o candeeiro num local onde a sua luz ténue poderia ser vista por qualquer um que se desseao trabalho de espreitar por entre as tábuas cerradas dos taipais.

               Com a ajuda de Eel, a mesa foi deslocada e o mais alto dos bancos colocado no seu lugar. Matild procurou mais uma vez, acima da cabeça, a corda que abria o alçapão. Eel tinha pendurado no ombro um rolo de corda que terminava num gancho. Quando o alçapão se abriu, Eel tomou o lugar de Matild e lançou o gancho, com a corda agarrada, para cima e para fora. Com um forte puxão assegurou-se de que o gancho estava bem seguro e trepou, desaparecendo na escuridão exterior. A corda voltou a balançar e Matild seguiu-o pelo mesmo caminho. Embora tivesse praticado aquela saída muitas vezes no passado, sem outro objectivo que não fosse a utilidade que poderia ter numa ocasião como aquela, foi com grande dificuldade que se conseguiu içar até poder lançar uma mão sobre a beira da abertura. As mãos de Eel cerraram-se sobre os seus ombros e ele esforçou-se ao limite para a conseguir trazer para cima. Aquela era uma saída estreita através da qual nunca conseguiria ter passado com roupas normais.

               Eel já estava às voltas com uma segunda corda, à qual estavam atadas as duas capas que içou e Matild pôs-se de cócoras, virando a cabeça lentamente para um lado e para o outro, observando pormenorizadamente tudo ao seu redor.

               A pequena loja de contas estava apertada entre dois dos seus vizinhos do beco e tinha apenas um andar. Contudo, as casas de um e do outro lado, erguiam-se mais alto. Eel não tentou trepar pelas paredes de nenhuma delas, dirigindo-se antes para o muro das traseiras. Este chegava apenas ao ombro de Matild. Ela seguiu-o passado uns momentos, escondendo-se por trás da superfície irregular da parede. Por baixo deles situava-se um campo baldio que os habitantes usavam para despejar o entulho das obras que faziam, desde há já muitos anos. O terreno tinha uma inclinação suave que descia até ao último dos canais da cidade.

               - O barco... - o sussurro de Eel quase não se ouviu.

               Ela conseguia ver bastante bem, apesar da luz muito fraca, o pequeno barco já com muito uso. Infelizmente, ao lado do barco estavam duas figuras meio ocultas pelas sombras e uma delas puxava já pelas amarras.

               Eel soltou um rosnido muito semelhante ao de um gato prestes a saltar sobre a sua presa. Lançou-se para baixo e para a frente, aterrando junto às costas do homem que estava mais próximo. Matild não hesitou em segui-lo. Munira-se de uma pedra solta que estava em cima do muro e, aterrando um tanto desajeitadamente no monte de entulho, deixou-se escorregar na direcção do barco. O homem que estivera a mexer nas amarras virou-se rapidamente e foi apanhado pela sua tosca arma em pleno rosto. Soltou um pequeno grito e caiu.

              Eel ergueu-se junto do homem que abatera e deu um pontapé no corpo, por forma a fazê-lo rolar. Matild vislumbrou um rosto muito branco do qual dois olhos espantados e vidrados

a fixavam. Não precisou ver o sangue que corria em crescendo da garganta dilacerada, para perceber que o homem estava à morte.

               - Não podemos deixá-los... - Conseguiu, com um enorme esforço de vontade, continuar a pensar logicamente no que era preciso fazer.

               - Barco. - Eel estava de joelhos à beira de água, lavando as extremidades das suas garras na água corrente. - Agarra-os... depois... para cima. - Fez o gesto de quem efectua um lançamento.

               Matild sentiu um enjôo, contra o qual lutou com todas as suas forças. Isto era a guerra e a visão dos corpos dos inimigos não a iria derrotar tão facilmente. Nunca matara antes, mas também nunca tivera razão para o fazer.

               Em conjunto com Eel, puxou os dois corpos até ao barco, que ficou perigosamente pesado quando ela e o seu companheiro ocuparam os seus lugares. Procurou sentir o pulso no pescoço do homem que atingira. Não sentiu nada. E os dois eram casacos negros. Se fossem encontrados naquele local, todos os habitantes do beco, e mesmo da rua por trás, ficariam sob suspeita. Eel tinha razão: teriam que ser levados para tão longe quanto possível. Não tinham qualquer lastro para atar aos corpos; contudo um corpo encontrado a flutuar no canal poderia ter sido lançado à água em qualquer ponto do seu curso.

               Pegou nos remos e dirigiu-se para mais perto da margem esquerda. Não muito distante ficava uma das pontes e perto dela seria um bom local para se verem livres da sua perigosa carga. Os edifícios ali à volta eram armazéns e não sabia da existência de quaisquer residentes que pudessem tornar-se suspeitos.

               Lutou contra a corrente até a ponte estar quase por cima das suas cabeças. O crepúsculo tornara-se noite. Viam-se os reflexos das lanternas sobre o canal, a montante e a jusante, mas esses podiam ser evitados. Conseguiram, com esforço, lançar os corpos à água, embora Matild temesse por duas vezes que o barco se fosse virar e também eles acabassem no canal. Agora o barco, muito mais leve, navegava à tona de água. Um qualquer efeito da corrente arrastou os dois cadáveres quase submersos para o meio do canal e para... montante! Ela esquecera as marés, a força das quais se reflectia nos canais. Mas agora já não havia nada que pudesse fazer, a não ser esperar que os corpos não dessem à costa num local onde pudessem arranjar problemas a pessoas inocentes.

               O seu próprio desejo era sair dali tão rapidamente quanto possível e concentrou as forças que lhe restavam nos remos, fazendo com que o pequeno barco deslizasse em direcção do mar.

               Se aqueles fossem tempos vulgares, haveria uma grande lanterna acesa a intervalos regulares em cada pontão. Matild agradeceu à sorte o facto de alguns dos atributos de um mundo virado do avesso jogarem a seu favor.

               - Barco - sussurrou Eel.

               Instantaneamente ela esforçou-se por se aproximar da margem esquerda. O seu companheiro inclinou-se por sobre a borda e agarrou uma pernada de vinha que se estendera para além dos muros de um jardim pouco cuidado. Apesar daquela ser uma âncora muito frágil, conseguiram acostar o barco. E aquele era um recanto escuro, exactamente o que ela desejara; a sorte estava de facto com eles naquela noite!

               Sorte, essa teria sido a resposta imediata, mas havia outra influência mais forte que os favorecia. Não podia ver Adele e os outros possuidores de Talento nas suas orações e “visões”, mas de alguma forma sentia-se muito certa de que sobre eles havia, naquela noite, um manto protector.

               O barco que tinham iludido com aquele estratagema era muito maior que o deles, quase do tamanho de uma barcaça, sem mais luzes a bordo do que aquelas que eles próprios tinham; o que significava que os seus tripulantes desejavam passar tão despercebidos quanto possível. Contrabandistas, escumalha do rio, esgueirando-se dos seus buracos por as patrulhas habituais dos canais terem sido retiradas? Ou seriam mais casacos negros prestes a fazer das suas? Não havia forma de o poder dizer.

               Ela e Eel esperaram até que eles estivessem bastante longe. Ainda assim Matild não voltou a pegar imediatamente nos remos. Em vez disso, fez o que Eel já estava a fazer, agarrou-se às vinhas que revestiam o muro e puxou. Avançavam lentamente, mas tinham a vantagem de o fazerem sem ruído. A cortina de vinha não durou muito mais tempo e teve que voltar a utilizar os remos. Os ombros começavam a doer-lhe, em consequência do esforço pouco habitual que lhes era pedido, mas recusou-se a permitir que esse desconforto menor lhe causasse qualquer atraso.

               Chegaram por fim a uma grande manilha destinada a escoar o excesso das águas provenientes das torrenciais chuvas de verão, tirando-as assim das ruas da cidade. Sabia agora muito bem onde se encontravam; já tinham feito dois terços do caminho. Lançou o barco desajeitadamente naquela abertura: até mesmo Eel teve que se curvar quando a cobertura arredondada ficou sobre eles.

               Percorreram apenas uma curta distância até sentirem o fundo do barco raspar no chão de pedra. Felizmente não havia água suficiente para arrastar o barco de volta para o canal e podiam deixá-lo ali com a esperança de que não fosse descoberto. Matild curvou-se enquanto saltava para a água tingida pela imundície. Agarrou a capa à altura da cintura para evitar que esta se molhasse no líquido nauseabundo. Via-se um pequeno ponto de luz lá ao fundo; Eel tacteava o fundo com o pau para que pudessem avançar com alguma segurança. Conhecia aquele caminho ainda melhor do que Matild e ela sabia que não corriam o perigo de virar na direcção errada.

               Passaram por duas aberturas mais pequenas por onde os líquidos mal cheirosos dos esgotos entravam no aqueduto. Depois chegaram a uma escada que se erguia da água até àquilo que era, manifestamente, uma das aberturas pelas quais os trabalhadores da manutenção e limpeza desciam quando necessário.

               Eel ergueu-se e empurrou, meio curvado sobre si próprio, usando os ombros como alavanca. Matild sentiu uma ponta de alarme. E se o alçapão estivesse, por uma qualquer razão, bloqueado do lado de fora? Depois ouviu-se um raspar metálico e a tampa voltou a cair no mesmo lugar. Puxou pela perna de Eel.

               - Deixa-me tentar! - ordenou.

               Ele saltou da escada para que ela pudesse tomar o seu lugar e instantes depois Matild esforçava-se por abrir o alçapão, assumindo uma posição semelhante à que Eel mantivera. Qualquer coisa se soltou por cima de si e depois cedeu totalmente. A grade de ferro soltou-se com um estrondo que ressoou no aqueduto. O barulho pareceu a Matild tão alto como o tocar de um sino. Agarrou-se à escada e tentou ouvir para lá da reverberação, procurando detectar qualquer outro ruído. Mas não ouviu nada.

               - Eu... primeiro... - Eel puxava por ela.

               Embora quisesse recusar, Matild sabia que ele tinha razão e cedeu. Ele era mais pequeno e estava mais habituado do que ela às escapadas nocturnas. Depois, passados instantes, já ele a olhava de lá de cima.

               - Está livre.

               Mais uma vez Matild sentiu que estavam a ser protegidos; que  estavam a fazer algo que o Grande Poder aprovava e que os Talentos estavam a ser entretecidos em torno de si. Saiu para uma viela estreita. Não muito longe estava dependurada uma lanterna, suspensa de uma corda torcida de forma elaborada. Era o sinal do Jonas! Tinham chegado ao seu objectivo, ou pelo menos até à porta do seu objectivo.

               Matild virou a capa por forma a que esta ficasse do avesso e deixasse ver nódoas e remendos. Eel imitou-a e ficaram à mostra vários rasgões mal remendados. Envoltos nas capas, esgueiraram-se até à entrada da ruela e espreitaram. Mais uma vez Matild se sentiu espantada com o silêncio que ali reinava. Habitualmente era à noite que aquela parte da cidade acordava para as suas actividades características. No entanto, viam-se apenas luzes fracas numas quantas janelas e apenas uma ou duas silhuetas se abrigavam nas sombras, movendo-se rapidamente, apressando-se a cumprir as tarefas que as tinham obrigado a deixar os seus buracos.

               Até mesmo a porta da frente da taberna de Jonas estava fechada, algo que só costumava ocorrer no auge das grandes tempestades. E os taipais estavam colocados. Matild ficou tão espantada por aquela falta de hospitalidade, que estacou de repente e quase se desequilibrou. Depois, pela fresta de um dos taipais vislumbrou o brilho da luz de um candeeiro e percebeu que o local não estava totalmente deserto.

               A porta robusta não tinha qualquer batente, mas atreveu-se a bater-lhe com o punho fechado, duas vezes. Depois fez uma pausa e bateu quatro vezes em rápida sucessão. Ela e Eel tinham-se aproximado um do outro e chegado para a sombra da ombreira da porta tanto quanto lhes era possível. Quando já quase perdera toda a esperança, viu à luz fraca que a porta começava a abrir-se, movendo-se sem ruído, como se os grandes gonzos de ferro tivessem sido oleados recentemente. Contudo, não se abriu mais do que ligeiramente e uma voz rouca perguntou do lado de dentro:

               - Quem vem lá?

               - Doze setas e um escudo.

               Matild pronunciou cuidadosamente as palavras. Aquela fora a senha que Saxon mencionara recentemente, e esperava que fosse suficiente.

               A abertura da porta alargou-se e pôde esgueirar-se para o interior. Eel foi ainda mais rápido a entrar. Atingiu-os o cheiro a cerveja retardada, falta de limpeza e roupa a precisar de uma boa barrela.

               - Ah... és tu!           

               O homem que lhes abrira a porta ergueu bem alto o candeeiro até então oculto atrás das costas. O seu tom dificilmente parecia sugerir que a sua visita era bem-vinda.

               - Sim - replicou Matild.  - Precisamos da tua ajuda...

               - Como seria de esperar - ripostou ele, a nota amarga ainda presente na voz.

               Jonas era habitualmente uma alma filosófica, que não procurava sarilhos, mantendo-se em paz a não ser que se sentisse muito ameaçado.

               - Venham, então...

               Seguiram-no, afastando-se da porta e entrando na grande sala que servia o estabelecimento. Matild ouviu uma restolhada e depois o murmúrio à sua volta. Viu então que estavam ali reunidas, pelo menos, uma meia dúzia de pessoas: alguns homens e um par de mulheres ostentando as meias-máscaras que estavam na moda naquela parte da cidade. Como estavam todos sentados em torno de uma mesa comprida, Matild supôs que tivesse interrompido uma reunião.

               Mas Jonas não os conduziu até à mesa; em vez disso coxeou na sua perna de madeira até ao canto mais escuro, distante do conforto da lareira, e indicou-lhes dois bancos. Virando-lhes as costas, voltou até junto do grande casco e encheu três vasilhas ao mesmo tempo, equilibrando-as com cuidado por forma a que pudessem ser cheias uma após a outra. Voltando com os refrescos, sentou-se num banco baixo e esticou a perna postiça.

               - Apanharam o capitão... foi isso, que te trouxe aqui?

               Matild  ficou  tensa.

                - Quando foi que  o apanharam... como?

               A sensação de estar presa numa rede perigosa que se estendia cada vez mais, abateu-se sobre si. Saxon certamente que previra o que poderia acontecer aos oficiais do governo quando Merina caísse... certamente que tinha preparado um esconderijo, tal como tinham feito as três mulheres do Tigre.

               - Uma boa pergunta... - disse Jonas num tom de irritação. - Dimity? - Ergueu a voz e uma das mulheres que estava sentada à mesa comprida virou a cabeça.

               Jonas ergueu o polegar, fazendo-lhe sinal para que se aproximasse, e ela levantou-se do banco e aproximou-se.

               - O capitão... - disse Jonas e bateu com a mão enorme na mesa.

               - Mensagem. - A mulher foi tão irónica como o estalajadeiro. - Selada com o selo da rainha... ele recebeu-a quando partia para o porto. Desviou-se do caminho para a ler e aquelas aves agoirentas apanharam-no; usaram laços de corda e já o tinham tolhido antes que pudesse sacar da arma.

               O selo dela... o selo da rainha! Levou a mão ao peito para sentir o sinete que tinha preso junto ao coração. Tinham usado o selo falso. Através da sua suposta esperteza, fizera com que Saxon caísse nas mãos do inimigo; bem que aquela jóia podia ser considerada azarenta!

               A mão deslizou em direcção a uma das pedras que tinha presa à cinta. Mau augúrio... parecia que aqueles que queria ajudar se tornavam em alvos. E no entanto, devido ao que estudara, sentia-se certa de que aquelas pedras ainda poderiam ser usadas como armas, desde que usadas com segurança. Vazou o copo nervosamente e Eel fez o mesmo.

               - Para onde o levaram? - perguntou.

               A mulher encolheu os ombros.  

               - Tinham uma barcaça e enrolaram-no em carpetes, ou coisa do género. O Simpkin, ele também viu, estava à espera do capitão para o levar quando aqueles corvos negros o apanharam... o Simpkin é arraçado em foca, não chegaram a pôr-lhe a vista em cima. Acho que ele seguiu a barcaça. Seria mesmo ao jeito dele agarrar-se a qualquer coisa e deixar-se arrastar atrás. Pelo menos ainda não voltou.

               - A Torre da Água... - pensou Matild em voz alta. Se eles tinham o Saxon lá preso... Mas essa era apenas uma hipótese.

               - Houve outra pessoa que perguntou por ti - o hálito a cerveja de Jonas atingiu-a no rosto quando ele se inclinou para a frente, como se tivesse medo de ser ouvido.

               A mulher que estivera de pé ao seu lado virou-se rapidamente e voltou para o grupo que estava sentado à mesa comprida.

               - Quem? - incitou-o Matild, quando viu que ele parecia não ter vontade de completar a frase.

               - Dá-nos uma marca de vela - indicou uma das velas, com as marcas das horas,  que ardia lentamente - e vê-lo-ás cara a cara.

               - Muito bem - assentiu ela. - Mas Jonas, e o capitão?

               Ele mostrou os dentes amarelados num esgar semelhante ao de um cão.

               - Era disso mesmo que estávamos a tratar quando tu apareceste. - Indicou com um gesto o grupo reunido em torno da mesa. - Esperamos... mais duas marcas de vela. Se o Simpkin tiver notícias para nos dar, virá aqui ter, e garanto-te que não será nenhum corvo agoirento que cheirará o rasto dele. Lakin? - Voltou a erguer a voz, e daquela vez foi um homem que se levantou da mesa. - Passa palavra a quem  tu-bem-sabes-quem que tem que aqui vir... e depressa.

               O homem de pele acinzentada e barba por fazer olhou com curiosidade para Eel e Matild, depois lançou-se em direcção à porta.

               - O capitão - Jonas adoptou subitamente um tom confidencial, como se tivesse concluído, de alguma forma, que Matild era uma aliada - mandou uma mensagem à Irmandade... esperava  ir ter com eles esta noite; era o que ele esperava. Ele sempre foi justo com eles e sabem que se o seguirem, isso será bom para eles. Aqueles diabos pretos levaram a guarda do porto e puseram lá a gente deles. Mas não conhecem lá muito bem os caminhos das águas. Muitos deles - agora o seu sorriso era aberto, já foram nadar aqui e ali... mas nunca voltaram. Nadar nestas águas não é para a laia deles; não têm as marés nos ossos.

               Por qualquer razão e sem pensar, impelida por algo que não compreendia, Matild falou

               - Jonas, esta noite matámos dois desses guardas.

               Ele ficou a olhar para ela, e depois sorriu novamente.

               - Ora, essa é que é uma notícia que um homem gosta de ouvir. Vamos fazer um brinde a isso mesmo.

               Foi-se embora antes que ela o pudesse impedir, regressando com as canecas cheias a transbordar e cobertas de espuma. Embora até então não tivesse dado sinais de reconhecer o seu estatuto, naquele momento inclinou-se sobre a mesa chegando o rosto até perto do dela e perguntou suavemente:

               - Livrastes-vos dos corpos, segundo espero, senhora minha?

               A sua atitude casual fez com que os pensamentos lúgubres que Matild tinha, relativamente ao que fizera, ainda se tornassem mais pesados. Foi Eel quem respondeu, numa voz sem qualquer emoção.

               - Atirá-mo-los ao canal.

               Jonas estava novamente a sorrir.

               - Bom trabalho, meu rapaz. Os afogados não contam a história de onde e como foram nadar sem querer.

               - Haverá vingança.

               Por agora, os acontecimentos e o tempo passavam suficientemente devagar, permitindo a Matild pensar com acerto.

               - Sim. Esses corvos de má raça tratarão disso. Os tempos são difíceis, senhora.

               - Não tão difíceis como os que estão para vir.

               O recém-chegado aproximara-se silenciosamente e sem ser visto, como se fora uma sombra, surgindo agora nas costas de Eel. Era evidente que não entrara pela porta. E ela conhecia-o bem.

               - Thom!

               Ele franziu-lhe o sobrolho.

               - Nada de nomes, nada de cordas penduradas nos nossos pescoços. É uma bela tarefa, aquela de que me incumbistes, senhora.

               - Shelyra? - Ela percebeu imediatamente a insinuação dele.

               - Shelyra... - Ele acentuou pesadamente o nome. - Tigresa, é o que ela é. A não ser que lhe dê um murro na cara e a deite ao chão para a amarrar, não há homem nenhum que controle aquela rapariga. Está de volta a casa, senhora minha. Escapou-se-me duas vezes e de cada uma delas foi direita ao palácio; garante que sabe de caminhos que aquelas ratazanas nunca descobrirão. Está a divertir-se imenso, segundo diz, a observar aquele príncipe mimado a governar. Juro que ela tem orelhas em toda a volta da cabeça, a julgar por aquilo que tem conseguido ouvir, pondo-se à escuta em locais onde eles pensam não haver ouvidos a não ser os deles.

               Não valia a pena, apercebeu-se Matild, admoestar Thom. Ela conhecia a sobrinha muitíssimo bem e as explorações que Shelyra fizera das passagens secretas do palácio levá-la-iam naturalmente àquela forma de reunir informações.

               - Que é que ela conseguiu descobrir? - perguntou com firmeza, consciente de que Thom devia estar preparado para ouvir um sermão em relação à sua incapacidade de controlar a princesa.

               Ele respirou fundo.

               - Bem, ela ouviu uma quantidade de coisas soltas. Temos tentado encaixar o que sabemos, quando finalmente consigo trazê-la de volta para local seguro. Corre entre os guardas que o Leopold não passa de uma figura de proa, que o mantêm afastado de tudo o que é importante. Parece que o galo velho não quer deixar o mais novo cantar no poleiro.

               Matild assentiu; aquilo coincidia com o que ela vira; os casacos negros a fazerem o que lhes apetecia, apesar das promessas feitas pelo príncipe.

               - Mandaram para cá o velho chanceler para garantir que ele não passa das marcas. O velho Adelphus não é nenhum guerreiro; o trabalho dele é gerir os territórios, à medida que o imperador os agarra, e assegurar-se de que nenhum cortesão ambicioso lhe espeta a faca. Nunca aparece sem ser acompanhado de dois guarda-costas, e são dois guerreiros duros, do outro lado do mar. O Leopold ainda não o confrontou, pelo menos não o fez enquanto Shelyra o tinha debaixo de olho.

               O chanceler... tinha uma ideia para ele...

               - O general Cathal, esse é que é uma má peça. Só veio ao palácio duas vezes, isto que se saiba... está sempre com o exército. Esse é todo soldado e um comandante cruel. A maioria das atrocidades do passado foram da invenção dele. Balthasar, até ao momento, tem-no mantido controlado. Acho que ele vai estar a postos para servir de ameaça, para o caso de Merina não se conformar completamente com todas as leis que lhe forem impostas. Então o general sentar-se-á no lugar do príncipe, lá no palácio.

               Parou para puxar para si a cerveja em que Matild não tocara e deu um grande golo.

               - E Apolon, o Mago? - perguntou Matild, como ele não continuasse após vários goles.

               Thom não encarou de frente o seu olhar, olhando para o interior da caneca. Por longos instantes manteve-se em silêncio e depois perguntou lentamente:

               - Senhora, já alguma vez sentistes a pele arrepiada como se um verme lhe rastejasse por cima? Eu espiei Apolon e senti isso mesmo. Esse... esse homem, pelo menos aparenta ser um homem, pertence totalmente às Trevas Profundas.

               Thom ergueu então os olhos, encarando-a de frente.

               - É evidente que eu não sou nenhum filho santo do templo, como muito bem sabeis, senhora. E já tive nas mãos sangue que não tinha saído das minhas próprias veias; mas nunca foi o sangue dos inocentes ou dos desprevenidos. Sou ladrão e fostes vós mesma quem me salvou de ser enforcado, para que pudesse fazer o que queríeis que fosse feito. Conheço a escumalha de Merina e até os piratas da costa e tenho visto e ouvido coisas tremendas. Não ouvi esse Apolon dizer nada a não ser trivialidades, nem o vi erguer a mão contra ninguém;  ele deixa que sejam os seus lacaios a fazê-lo em nome das novas leis. Mas há nele uma tal escuridão, de tal forma maligna, que um homem sente a garganta presa quando olha para ele. Isso sou capaz de jurar. O mal que entrou nesta cidade está centrado nesse Apolon e ainda não vimos nada! - O seu discurso apressado tinha a força da convicção.

               - E ele é mago... - Matild estremeceu, chegando a capa mais ao corpo. Sentia-se como se subitamente estivesse no mar; como se ventos tempestuosos a atingissem.

               Ambos os homens a olhavam e, apesar da luz fraca, pensou ver algum desconforto nos seus olhares.

               - Senhora - foi Thom quem primeiro recuperou a voz - tudo o que sei é que a força do Tigre é grande e que passa de geração em geração.  Que outros poderes poderá um mago invocar?

               Ela abriu a mão sobre a mesa. Sentia o polegar direito leve e vazio sem o anel. Devia-lhes a sua franqueza; usar agora de subterfúgios enfraqueceria todas as forças que tentava congregar.

               - Um mago é, pelos nossos padrões, em primeiro lugar um estudioso, um investigador do saber antigo. Em segundo lugar, ele atinge um ponto em que procura testar o seu saber adquirido. Mas, como sempre neste mundo, há o caminho do Coração e o caminho das Trevas Malditas. O conhecimento usado para aumentar o bem-estar dos outros, esse é tão abençoado e verdadeiro como o Sangue do Coração. O saber usado para engendrar poder, para controlar, para matar, esse é o das Trevas. A Casa do Dragão produziu, no passado, três magos. Todos eles entraram no templo quando o seu Talento surgiu e se desenvolveu. Mas há duas gerações que não surgiram mais desses magos e não conheço mais nenhum caso em Merina.

               Excepto... talvez Adele? E a grande sacerdotisa? O templo mantinha secreto quem tinha poder e quem não tinha, e guardava ciosamente esses segredos. Agora sentia-se feliz por assim ser.

               - É o seguinte... até que o ponhamos à prova, não saberemos o que é esse Apolon, a não ser que escolheu o Caminho das Trevas. E não nos atreveremos a testá-lo até estarmos seguros de que dispomos de tantas forças quantas poderemos reunir.

               - Entretanto - lançou-lhe Thom - ele pode ir corroendo as poucas oportunidades que nos restam.

               Matild assentiu.

               - Contudo... - As suas mãos procuraram as pedras que trazia no cinto. Os avisos da sua mãe cruzaram-lhe o espírito, mas tempos desesperados pediam medidas desesperadas e não podia esperar mais tempo.

               - Contudo - recomeçou mais uma vez - há uma coisa em que o podemos pôr à prova. Quem usa o anel de Estado... Balthasar?

               - Shelyra não o viu na mão de Leopold. Parece que Balthasar não o considera uma bugiganga para ser dada ao seu substituto.

               - Então não é Leopold quem o usa. Agora, o chanceler que tem tanto amor à pele, ele também tem amor à riqueza?

               - Guardou para si um quarto do dinheiro do resgate das Guildas - respondeu-lhe Thom.

               - E o general...

               Thom abanou a cabeça.

               - Não vos posso dizer. Os olhos e ouvidos de que ainda dispomos não o conseguem alcançar.

               Ela mudou de assunto.

               - Para onde levaram Saxon? Para a Torre da Água?

               Thom fez uma careta.

               - Transformaram a Casa do Javali na sua nova prisão. - Acentuou a última palavra. - Desde que enforcaram lá o mestre da Guilda, levaram os homens dele para os trabalhos forçados e lançaram a Senhora Fortuna na rua com as crianças, transformaram a casa numa prisão para aqueles que consideram prisioneiros importantes. Entretanto, saqueiam as mercadorias do mestre Unois e levam-nas.

               - Sim - Jonas esfregou o queixo por barbear. - O capitão... os homens conhecem-no; ele sabe mais acerca de navegação do que três quartos da frota do imperador junta. Se eles o conseguissem fazer passar para o lado deles, então... por isso talvez estejam a tratá-lo com falinhas mansas e a tentar conquistá-lo.

               Matild fez um som que era quase um resmungo. E o homem rude sentado na sua frente assentiu com a cabeça.

               - Sim, mas o capitão é sabido. Acho que não vai dizer que sim nem que não de um momento para o outro; vai antes ouvir o que eles têm para lhe oferecer, ou as ameaças que lhe fazem, para ver que esperanças terá de içar novamente as velas.

               Ela não conhecia muito bem a Casa do Javali; era o centro dos negócios de metais da cidade e ela só estivera no seu interior nos dias de grande festa, em que era necessário visitar todas as Guildas. No entanto, havia uma coisa de que estava certa: tal como o palácio estava cheio de passagens secretas, também as Guildas tinham segredos só conhecidos dos seus mestres e respectivas famílias, que talvez os usurpadores ainda não tivessem descoberto.

               Eel mexeu-se. As garras presas aos seus dedos bateram na mesa.

               - A Senhora Fortuna - disse ele.

               - Se a conseguirmos encontrar...

               Eel sorriu.

               - E eu não pertenço às sombras? Isso descubro eu num instante.

               - Se conseguirmos libertar o capitão - Matild virou-se novamente para Jonas - onde estarão aqueles que obedecerão ao seu comando?

               O estalajadeiro ergueu um polegar rechonchudo na direcção do grupo sentado em torno da mesa.

               - Todos e cada um deles... eles fizeram um juramento ao capitão, e cada um deles pode comandar outros. O capitão estava a delinear um bom plano e tinha passado palavra mesmo antes de ser preso.

               Mais uma vez Matild remexeu no cinto repleto de pedras.

               - Thom - virou-se para o rapaz - tu orgulhas-te das tuas ladroagens. Conseguirás ainda tirar da Casa do Tigre uma certa coisa...

               Os olhos dele estavam a brilhar.

               - Eles mantêm lá uma guarda reforçada, mas isso não quer dizer que eu não consiga entrar e sair; esta noite mesmo, se é isso que desejas.

               Matild mergulhou o dedo na cerveja em que Eel mal tocara e começou a desenhar no tampo da mesa.

               - Aqui fica o jardim murado – explicou, ao mesmo tempo que desenhava e depois fez um pequeno sorriso - embora eu esteja certa de que tu conheces muito bem todos os pormenores das instalações dessa Guilda.

               Ele respondeu-lhe com um sorriso.

               - Muito bem, há um banco ao pé da fonte do jardim. Está gravado com um brasão muito trabalhado da nossa casa. Mete o dedo bem fundo no olho direito do Tigre, o direito, estando de frente para ele. Isso fará com que uma passagem se abra. Agora...  - rapidamente foi desenhando mais linhas, para a esquerda e para a direita, algumas que se intersectavam e outras que se cruzavam.

               Ele seguia a sua explicação com a atenção de quem já vira mapas, desenhados da mesma forma grosseira, que lhe tivessem trazido lucros.

               - Dessa forma chegarás à minha sala de trabalho - disse-lhe ela por fim. - Lá dentro está uma mesa e na gaveta da mesa está um estojo, a não ser que eles já tenham limpo tudo. Só podemos esperar que isso não tenha acontecido. O estojo é mais ou menos deste tamanho. - Fez um desenho rápido no ar. - É disso que eu preciso.

               Ele pôs-se de pé e levou a mão à testa numa saudação elegante.

               - Tê-lo-eis.

               Parecia não pôr sequer a hipótese de ser mal sucedido. Depois desapareceu. Matild fez sinal a Eel e também ele se levantou da mesa.

               - Vou precisar de um sítio para trabalhar - disse Matild secamente. - Penso que a loja das contas me pode ser vedada.

               - Podeis ficar com o meu armazém, senhora. E agora, que lhes hei-de eu dizer a respeito do capitão? - Mais uma vez indicou o grupo reunido em torno da mesa.

               - Que ele voltará para junto deles assim que conseguirmos mexer alguns cordelinhos - respondeu ela.

               Não havia nada a fazer para além de esperar e o seu corpo dizia-lhe que precisava de descansar. Seguindo a sugestão de Jonas, foi descansar para o armazém que ele já mencionara e deitou-se em cima de um monte de sacas malcheirosas. Tosca como era, era apesar de tudo uma espécie de cama e ela estava pronta a dar-lhe bom uso. Descansaria uma hora, duas no máximo, e estaria de volta à loja antes do raiar da aurora. E depois... depois veria o que poderia ser feito para minar o caminho que os invasores percorriam, pensando que não tinham qualquer oposição.

 

SHELYRA

               Shelyra via e ouvia com total conforto tudo o que se passava na sala que Leopold usava como sala de reuniões, através do buraco junto ao tecto. Era a sala de baile mais pequena, que os jovens da corte costumavam usar para receber lições de dança. Leopold levara para lá uma pequena mesa, em torno da qual se podiam sentar seis pessoas e usava-a para receber relatórios e consultar os conselheiros de Estado do imperador. Era evidente que Leopold ainda não confiava na sala de audiências do palácio; pela forma como os seus homens inspeccionavam cada sala, ela percebeu que ele suspeitava da existência de armadilhas para apanhar os incautos.

               Aquela era uma das passagens mais desconfortáveis, pois corria apenas a meia altura: tivera que rastejar durante todo o percurso, já que a passagem fora feita por cima das ombreiras das portas. Por outro lado, assim era muito menos provável que alguém a descobrisse.

               Estava deitada com a cabeça em cima de um dos braços, o olho colado ao buraco e deu por si a sentir uma certa pena do atormentado príncipe, enquanto este ouvia os relatórios de dois dos seus oficiais.

               Que estupidez! Eu devia sentir-me contente por as coisas serem difíceis para ele! E deveria ficar satisfeita por ele não encontrar forma de resolver os seus problemas.

               - Os homens de Apolon estão em toda a parte, senhor - concluiu apologeticamente um dos capitães. - E em todos os locais onde se encontram impedem-nos de nos aproximarmos. Eu diria que aquele Apolon substituiu todos os agentes da ordem locais por homens seus, o que, na melhor das hipóteses, nos torna supérfluos.

               O príncipe tamborilou com os dedos na mesa no silêncio que se seguiu. Do sítio onde estava deitada, Shelyra não podia ver o seu rosto, mas não era preciso ser-se nenhum mago para saber que ele estaria provavelmente a franzir o sobrolho.

               - Não há nada que eu possa fazer se eles decidirem deixar-te de fora, Kastor - disse ele por fim. - E não quero que tentes forçar a questão. O melhor que posso fazer é avisar o imperador e fazer-lhe notar que nos será muito difícil cumprir as nossas ordens quando até somos impedidos de entrar nalgumas partes da cidade pelos homens de Apolon.

               O capitão suspirou com cansaço.

               - Nesse caso, senhor, talvez devêssemos ser transferidos para o palácio. Pelo menos aqui poderemos ser úteis, procurando quaisquer armadilhas que tenham sido montadas.

               Ele parecia tão enojado com a situação como o próprio Leopold. Pela forma como falava, Shelyra apercebeu-se, com interesse, que os casacos negros eram quase tão impopulares entre as tropas regulares do imperador como o eram entre os cidadãos de Merina.

               Leopold assentiu.

               - Faze isso mesmo - ordenou. – Estamos a controlar bastante bem as estradas; ninguém poderá entrar ou sair da cidade sem passar por um dos nossos postos de controlo. Pelo menos, essa parte da nossa tarefa está cumprida.

               O capitão fez continência, no que foi imitado pelo outro oficial; viraram-se energicamente e saíram.

               O príncipe virou-se para a pessoa à sua direita, um homem gorducho vestido de belas roupas de um roxo escuro.

               - Vês agora o que eu quero dizer, Adelphus? - disse ele com desagrado. - Decida eu o que decidir, não vou ser bem sucedido. Se ordenar aos meus homens que cumpram o seu dever e que mandem para o diabo os homens de Apolon, violo a ordem do imperador de deixar os homens de Apolon fazerem o que querem. Se der mais ordens como a que agora dei, violo as ordens do imperador de pacificar a cidade. - Ergueu as mãos num gesto de desespero. - Então, que estou eu a fazer aqui?

               - Sempre fostes ver a rainha-mãe? - perguntou Adelphus a despropósito.

               A mudar de assunto? perguntou-se Shelyra. Mas por quê? Talvez porque não possa responder à questão.

               - Sim. - Leopold entendeu provavelmente a mudança abrupta de assunto da mesma forma que Shelyra. - Se ela não morrer dentro de um ou dois dias, não só ficarei muito surpreendido, como requisitarei os serviços do enfermeiro deles para as tropas, pois sem dúvida que nesse caso o homem seria um milagreiro.  Seja lá o que for que Apolon pensa que se está a passar... bem, só posso dizer que os seus tão celebrados poderes o devem estar a abandonar. A pobre da velha mulher quase não conseguia respirar; se ele pensa que ela vai organizar uma qualquer insurreição do seu leito de morte, é porque perdeu o juízo. - O tom da sua voz transformou-se, deixando transparecer uma ira profunda, mas contida. - E vou dizer-te mais uma coisa. Também não vou mandar os meus homens à procura da rainha e da princesa só porque ele quer. Se ele as quer encontrar, que mande os seus próprios homens. Parece tê-los em número suficiente. Tanto quanto posso imaginar, elas são capazes de se ter lançado aos canais em desespero, depois da abdicação. Era o que eu teria feito no lugar delas.

               - Talvez o tenham mesmo feito - disse o chanceler suavemente. - Não consigo imaginar de maneira nenhuma como duas mulheres insignificantes conseguiriam  esconder-se   com tanta eficiência de uma caça ao homem tão bem orquestrada. Ou foi isso, ou deixaram a cidade e estão a atravessar o mar e não têm qualquer importância para nós.

               Mulheres insignificantes? Olha a lata do idiota pomposo, o parvalhão do cabeça de vento! Shelyra fumegava.

               Esperem só até que ele se mude para o palácio e eu lhe consiga chegar! Eu lhe direi quem é insignificante!

               - A realidade é que o único local onde consigo cumprir as ordens que aqui me trouxeram é aqui, no palácio – disse Leopold, mudando habilmente a conversa novamente para a questão que ele queria discutir. - Que devo fazer? Se me queixo ao imperador, vou parecer ineficiente; se não me queixo, não vou conseguir fazer nada!

               O chanceler suspirou.

               - Suponho que terei que falar desta questão ao imperador - disse com relutância. - Eu vim aqui para observar como vos estão a correr as coisas. Bem, essa é uma observação, e muito válida!

               Leopold resmungou e saltou da cadeira, começando a percorrer a sala de um lado para o outro.

               Ele anda tanto de um lado para o outro, que já deve ter aberto um buraco, pensou Shelyra. Quem não queria estar na posição dele era eu. Não pode ganhar de maneira nenhuma, faça ele o que fizer, e sabe disso. Ou não é lá muito esperto, ou então não percebe nada de política; não consigo perceber como é que se deixou apanhar numa situação destas.

               Deveria ter-se sentido satisfeita, mas por uma qualquer razão, não sentia. De tudo o que observara, o pobre Leopold era um belo oficial, consciente quanto ao bem-estar dos seus homens; e absolutamente ineficaz. Não porque não tivesse capacidade para levar a cabo tudo o que lhe fora ordenado e muito mais do que isso, mas porque ninguém lhe permitia que o fizesse.

               Deu por si a desejar, mais do que uma vez, que Leopold estivesse do seu lado. Com alguém como ele para sublevar e inspirar a populaça, Merina era bem capaz de ter podido defender-se até mesmo do imperador.

               Evidentemente que, se Leopold estivesse estado do seu lado, não teria permitido que as defesas da cidade se baseassem em nada mais do que os velhos estratagemas do suborno, da diplomacia e das alianças. Teria reconhecido a ameaça que Balthasar constituía, muito antes do imperador estar em posição de pensar em tomar Merina, e teria organizado um exército permanente...

               Raios! Parece-me que começo a gostar deste homem, pensou contrariada.  Vale uns duzentos Thom Talesmith. O pai dele é um idiota. Mas... ele até pode ser honrado, pode até ser corajoso, mas inteligente é que não pode ser. Até um idiota seria capaz de ver que esta posição era uma armadilha.

               - Bem - disse o chanceler depois de ficar durante alguns minutos a ver Leopold andar para trás e para diante - o melhor é eu voltar para o acampamento. O imperador está à espera do

meu relatório.

               - Eu... - começou Leopold, mas depois abanou a cabeça. - Não interessa. Como vês, pelo menos o Grande Palácio estará pronto a ser ocupado muito em breve. Avisa-me só com a antecedência necessária para eu mandar embora os criados e trazer do acampamento os do imperador.

               - Assim farei. - O chanceler ergueu-se com esforço da cadeira e bamboleou-se até à porta. - Parai de dar cabo de Vós com essas idas e vindas infernais, Leopold. Vede se descansais. Tenho a certeza de que amanhã as coisas parecerão mais risonhas.

               Os dois guarda-costas do chanceler juntaram-se-lhe à porta; um par de loiros musculosos que pareciam o tipo de homem que lança vacas ao ar só para exercitar os músculos. O que tinham em força, faltava-lhes, no entanto, em miolos. Shelyra já reparara várias vezes que o dispositivo mais simples, até uma pederneira, os deixava completamente confusos. Quando lhes diziam que acendessem a luz, invariavelmente agarravam num candelabro inteiro de cima de uma mesa e chegavam-no ao fogo, o que provocava danos incríveis às velas. Fortes como toiros, burros como bois atrelados à charrua quando o cavalo morre. Se alguém atacasse realmente o chanceler, digamos que fazendo qualquer coisa de verdadeiramente inteligente, como um assassino faria, era muito provável que aquelas duas pedras não dessem por nada de errado até ele estar morto e o perpetrador fora do seu alcance.

               Leopold ficou de pé ao lado da mesa durante mais algum tempo, mas Shelyra sabia o que ele faria em seguida. Ele ia ali todas as noites, imediatamente antes de sair do palácio e se dirigir para o aquartelamento, onde ficava com os seus homens. Só os criados do palácio ali ficavam durante a noite. Leopold não confiava a sua segurança, nem a dos seus homens, a um terreno de que não se sentia seguro.

               Ela içou-se pela passagem secreta e dirigiu-se até à capela do palácio pelo caminho alternativo. Também ali havia um buraco-espia e Leopold tinha o hábito de falar alto quando estava no isolamento da capela. Às vezes ela descobria assim coisas que lhe eram úteis.

               A capela era uma sala bastante simples; não era muito usada devido à proximidade do templo. Nem sequer tinha uma representação do Coração; apenas uma lanterna com várias saídas de luz sobre o altar, uma versão estilizada da Luz Eterna. A sua tia ordenara que a lanterna fosse colocada no lugar do Coração e a rainha era provavelmente o único membro da Família Real que utilizava a pequena capela em vez de ir até ao templo.

               Contudo, Leopold parecia encontrar ali alguma paz transitória. Nunca deixava de passar por ali no final do dia, por mais cansado que pudesse parecer estar. Ele chegou lá antes dela e ficou de pé com as mãos entrelaçadas atrás das costas, olhando para a Luz, em silêncio. Por fim, quebrou o silêncio.

               - Não quero realmente saber o que me poderá acontecer se cair em desgraça - disse em voz alta. - Mas os meus homens... não há outro comandante sob cujas ordens eu gostasse  de os ver. Especialmente Cathal. O homem é uma besta. Contam-se histórias dele... histórias  que  nem  consigo  repetir sem me sentir enjoado. Eu vi-o quando ocupámos a cidade; sabias que as suas tropas pessoais são compostas por mercenários, pois as tropas imperiais não se sujeitam ao comando de um homem tão depravado? Que estou eu a pensar... é evidente que sabes. - Suspirou e levou uma mão à têmpora, friccionando-a. - E há mais... temo pelo que possa acontecer a esta cidade se Cathal ficar com o seu controlo. Ou Apolon, mas não me parece que o meu pai vá pôr um mago, que nunca comandou mais do que uns quantos criados, à frente da cidade. Se for Adelphus... o Adelphus não faria mal. Ele compreende o dinheiro, sabe que não se pode mungir uma vaca até ela cair para o lado, se quisermos que ela nos continue a dar leite. Ele provavelmente tornaria a vida das pessoas difícil, mas não impossível.  Mas Cathal... ele não teve o seu cerco, não teve a sua batalha, não conseguiu o seu saque. Está furioso com isso. Certamente que Tu sabes disso. - A sua voz adoptou um tom um pouco mais duro. - Sempre pensei que esta cidade era especial para Ti... não podes fazer nada? Não tens que me ajudar a mim, mas devias ajudar a Tua cidade!

               A voz dele soava verdadeiramente implorante; um tom que fez com que Shelyra suspendesse a respiração, tal foi a sua surpresa.

               - E há mais uma coisa... podes não conseguir ler um coração tão negro como o de Apolon... descobri o suficiente para saber que, se a rainha e a princesa foram apanhadas, ele fica com elas. Está tudo decidido. Será ele que ficará encarregue delas. Há qualquer coisa que ele quer obter delas; não sei o que é, mas terá que ser algo de mau, de muito mau para elas. Ele está mesmo pronto a invadir o templo e a raptar a velha mulher, se conseguir permissão do meu pai. Penso que planeia utilizá-la para fazer com que as outras apareçam. Ora, isso é invadir o Teu santuário, para além de ser repugnante e repreensível... Quando vi a rainha-mãe, tentei avisá-la. Espero que ela tenha compreendido.

               Aquela revelação fez com que Shelyra se sentisse gelar. Leopold mudava o peso de um pé para o outro, como se lhe apetecesse caminhar para a frente e para trás, mas não se atrevesse a fazê-lo, ali.

               - Eu fiz o que pude sem trair a minha lealdade para com o imperador - disse ele por fim. - Terá que ficar nas Tuas mãos.

               E com aquelas palavras virou-se e saiu da capela, deixando Shelyra de pé junto ao buraco-espia, completamente estonteada. Quando por fim se conseguiu mexer novamente, foi pelas passagens até aos aposentos dos criados. Se Leopold dissera que tentara avisar Adele, então fora exactamente isso que fizera. E Adele certamente que entendera o aviso. Ela não era estúpida e não estava certamente tão fraca de espírito nem de corpo como fazia crer estar.

               Mas, seja como for, amanhã à noite vou ao templo, prometeu a si própria. Aviso-a nessa altura.

               De qualquer maneira, nem mesmo Apolon seria capaz de entrar nos claustros sem ter de enfrentar inúmeros problemas. Não seria capaz de raptar simplesmente Adele; não saberia em que cela ela estava. Isso deixava apenas a hipótese de um ataque frontal e para um tal ataque seria necessário um batalhão dos seus homens. E um batalhão de casacos negros a marchar em direcção ao templo seria imediatamente descoberto, mesmo que saísse do palácio e não viesse da cidade.

               Enquanto assim pensava, percorreu o labirinto das passagens secretas até chegar à área reservada aos pequenos quartos dos criados mais importantes e aos dormitórios dos criados de posição mais baixa.

               Tentara deixar ali mensagens subtis nas noites em que vagueara pelo palácio. Murmurava os nomes dos governantes de Merina no silêncio dos dormitórios, recitando as linhagens que a tinham obrigado a memorizar quando era criança. Deixou pequenas pedras de olho de tigre no chão, em locais onde seriam encontradas pelos criados nas limpezas matinais. Por vezes deixava cair água por um dos buracos-espia situados nos olhos do retrato oficial de um rei há muito desaparecido, fazendo com que o retrato parecesse chorar. Doutras vezes murmurava frases num tom lamentoso e lúgubre... “Como podeis dormir, quando Merina jaz gemendo sob a bota do conquistador?” “Chorai, chorai, oh cidade minha! Junto às águas do rio, deitai-vos e chorai!” “Danação e agonia, danações e agonias sem fim para os cobardes que não quebrarem as correntes!” “O Tigre jaz acorrentado e a sua caverna é saqueada por gorilas gananciosos!”

               Gostava particularmente daquela frase. A ideia era fazer crer que os reis e rainhas da cidade, há muito desaparecidos, percorriam incansavelmente os corredores do palácio, acordados pelos intrusos conquistadores. Não sabia dizer se estaria a resultar ou não; de dia estava demasiado ocupada a cuidar dos cavalos; a mantê-los saudáveis por dentro e à beira da morte por fora. Os casacos negros já tinham ido uma vez ao recinto do Gordo para avaliar o seu gado e tinham-se ido embora rosnando de desagrado, mas incapazes de negar aquilo que era uma evidência aos seus olhos. Visto já terem fixado a taxa da sua licença para o negócio, também não podiam compensar inflacionando essa taxa.

               A taxa fizera Gordo praguejar e dar pontapés nos palheiros durante a maior parte do dia. Era um escândalo: cem vezes o que pagara sob o governo de Lydana. Como vingança, Gordo disse aos casacos negros que fossem eles próprios buscar o dinheiro, declarando que não se atrevia a deixar o seu gado doente nem por um só instante e pagou-lhes com as moedas de cobre mais pequenas que pôde encontrar. Eles tinham-se visto forçados a ir-se embora cambaleando sob dois sacos enormes e pesadíssimos, cheios de moedas. Gordo arranjara também as coisas por forma a que os sacos tivessem sido enfraquecidos nas costuras.

               Segundo constava, os guardas já tinham percorrido metade do caminho até aos portões da cidade quando as costuras cederam.

               Shelyra gostaria de ter visto. Thom vira, e a sua descrição dos casacos negros, de gatas a apanhar as moedas no meio do pó, fizera sorrir até o próprio Gordo. Tinham tido que despir os seus belos casacos e usá-los como sacos para levar as moedas para o tesouro do imperador.

               Finalmente deu por terminados os sussurros e deixou os últimos dos seus sinais e portentos. Já era tempo de voltar para a casa de Gordo, dormir um pouco e depois tratar outra vez dos pobres cavalos.

               Bocejou e percorreu o caminho até aos túneis de saída; havia ali coisas guardadas que não tinham sido deixadas por si, o que queria dizer que aquele túnel era provavelmente o que tinha sido usado pela sua tia e por Skita. Isso fez com que se lembrasse de Thom, que se tornara notado pela sua ausência, a pretexto de ir fazer observações na cidade.

               Puff! Ele não quer é ser recrutado para limpar os estábulos. Os cavalos doentes fazem muito mais porcarias do que os cavalos saudáveis.

               Isso até lhe convinha. Se ele não estivesse no recinto do Gordo, não a aborreceria com a história de a levar aos Senhores dos Cavalos.

               Ainda há coisas que eu posso fazer aqui, pensou ela com teimosia. E até que isso mude... é aqui que eu fico.

 

APOLON

               Na sua frente chamavam-lhe “O Mago Cinzento.” Nas costas, chamavam-lhe outras coisas. “O cão infernal de Balthasar” era um dos epítetos mais amistosos; havia outros muito mais rudes. Mas o que quer que lhe chamassem, nas suas vozes transparecia sempre um tom de receio e olhavam por cima do ombro quando se lhe referiam, temendo que ele estivesse por perto, à escuta.

               O Mago Cinzento sentou-se, descontraído, na cadeira de campanha estofada, enquanto o chefe dos seus servos lhe recitava os relatórios de todos os seus espiões. Nem tudo o que Apolon fazia era através de magia; considerava alguns ouvidos e olhos mortais igualmente úteis. Tinham sido esses ouvidos e olhos mortais que lhe tinham trazido informações suficientemente encorajadoras para poder convencer Balthasar a atacar Merina.

               As histórias das suas riquezas e da sua falta de defesas, tinham-na tornado um alvo irresistível para o imperador. O facto de ali se encontrar algo que Apolon desejava, e que desejava

desesperadamente, fizera com que tivesse chamado a atenção de Balthasar para a cidade.

               - E Leopold tem feito perguntas acerca de vós - disse por fim o servo num murmúrio rouco. - Muitas perguntas.

               Apolon franziu o sobrolho, pois não esperara essa atitude daquele príncipe insípido.

               - Perguntas? - repetiu. - Que tipo de perguntas?

               Que poderia querer aquele cachorrinho? Não queria certamente fazer chantagem com ele... era demasiado honrado e correcto para descer tão baixo. Que queria ele descobrir? E que tencionaria fazer das informações que obtivesse?

               - Descobriu que já assegurastes a custódia das mulheres do Tigre quando forem capturadas - murmurou o servo. - E tem feito perguntas quanto ao que tencionais fazer com elas... que tipo de planos é que fizestes e por aí adiante. Tem falado com os vossos criados e tenho também a impressão de que ele está a tentar perceber como é que fazeis as vossas magias.

               Apolon reprimiu uma onda de fúria e uma outra de apreensão. De todos os membros da corte, Leopold era o único suficientemente esperto para deduzir alguma coisa acerca da fonte dos seus poderes através das descrições obtidas dos criados. Ele podia ser insípido, mas não era parvo; por trás de toda aquela honra e sentimentalismo estava uma mente rápida. E Leopold era o único suficientemente inteligente para perceber que os preparativos que Apolon fizera para as duas mulheres eram, na melhor das hipóteses, de curto prazo, embora fossem, sem sombra de dúvida, preparativos muito seguros.

               Juntasse ele dois mais dois, e as suas suspeitas seriam inevitáveis. Se Leopold conseguira juntar uma quantidade suficiente de informação, então conseguiria provavelmente recolher provas que consubstanciassem as suas suspeitas.

               Por exemplo... poderia enviar uns quantos homens a uns quantos dos territórios conquistados pelo imperador e fazer listas dos homens desaparecidos. Nem todos os recrutas de Apolon tinham sido obtidos nas fileiras dos conquistados. Por vezes não tivera grande liberdade de escolha relativamente aos seus recrutas.

               - Como é evidente não descobriu nada - continuou o servo, acalmando-o. - Aqueles que interrogou têm mais juízo do que ir contar histórias acerca do seu amo.

               Apolon grunhiu. Não se sentia inclinado a dar tão pouca importância ao assunto, mas agora que fora avisado, havia medidas que podia tomar.

               - E que novidades há relativamente a um local onde eu possa trabalhar livremente?

               O servo curvou a cabeça.

               - Lamento dizer, meu senhor, que o local mais apropriado já está ocupado. Ainda não encontramos nada que se lhe assemelhasse.

               - Ocupado? - perguntou, espantado, Apolon. - Tomado? Que local é esse? Não foi certamente o Leopold quem... se um daqueles idiotas de Merina deixasse cair um pedaço de  cobre, Leopold apanhá-lo-ia e devolver-lho-ia.

               - Não foi Leopold, senhor - confirmou o servo. - Foi Cathal. O general Cathal. O imperador concedeu-lhe o direito de tomar os mestres das Guildas como reféns e exigir um resgate. Alguns resistiram... um recusou-se a divulgar os segredos da sua casa e Cathal ordenou que fosse enforcado e depois mudou os seus homens para a casa dele. É essa a casa mais adequada às vossas necessidades: a Casa do Javali. Tem todas as características que especificastes; nenhum outro local que tenhamos examinado até agora reúne todas essas características.

               - Realmente? - Apolon considerou a questão. - E por que razão ficou Cathal com a casa?

               Não esperava que o servo o soubesse, mas, surpreendentemente, o homem sabia.

               - A casa tem caves, construídas para o armazenamento de armas dispendiosas, que têm boas condições para manter prisioneiros. Mas, sobretudo, existe naquela casa uma espada que se diz ter poderes místicos e Cathal a quer.

               Apolon fez um gesto desdenhoso com a mão.

               - Cathal pode ficar com todos os brinquedos que desejar. Eu quero a casa! Será que ele sai de lá quando conseguir o brinquedo?

               O servo hesitou e depois disse:

               - Creio que sim. Há sítios melhores para guardar prisioneiros e, de qualquer forma, tratando-se de Cathal, ele é capaz de não os conservar por muito tempo. Causam-lhe demasiados problemas.

               Isso era suficientemente bom. Apolon mandou o eunuco embora com um gesto da mão e recostou-se na cadeira. Muito bem, então Cathal já tinha a sua parte de Merina e, previsivelmente, estava a regredir para os seus velhos hábitos. Não conseguia pura e simplesmente resistir a tomar prisioneiros e a exigir o seu resgate!

               Mas também, com todos aqueles mercenários a levar em consideração, Cathal precisava de uma fonte de dinheiro mais acessível que a bolsa de pagamentos do imperador. O festim de saques tinha sido negado aos seus mercenários e ele tinha que encontrar forma de os compensar de outra maneira. Sim, isto era bastante previsível.

               Isso iria irritar Leopold e de que maneira! Os seus próprios casacos negros já tinham virtualmente asfixiado a gente comum. E agora os homens de Cathal estavam a sangrar os ricos, que próvavelmente até àquele momento se tinham considerado a salvo de qualquer incómodo.

               O que deixava de fora apenas o templo. Ora isso é que era um espinho cravado na sua carne!

               De momento, não poderia fazer os seus casacos negros entrarem no templo sem pagar um preço muito alto. Nem ele próprio passaria a ombreira da porta, ainda não. As suas primeiras observações do local tinham-lhe demonstrado isso mesmo. Inicialmente tivera a esperança de que o templo fosse tão corrupto, e estivesse tão enfraquecido, como o de Wolderkan... aí ele fora capaz de passar a porta abertamente, com o seu exército de servos e reclamar para si os artefactos que estavam no seu interior.

               Mas este templo era dirigido por gente de fé pura e verdadeira, que talvez se mantivesse assim devido à presença do Coração do Poder... o que tornava as coisas um pouco mais difíceis para si. Pelo menos até que conseguisse um local de trabalho seguro e impenetrável. Nessa altura conseguiria reunir tanto poder, que tudo estaria ao seu alcance, incluindo passar a porta do templo. Uma vez que pudesse alimentar convenientemente o seu bastão, não haveria barreira capaz de o deter.

              Fechou os olhos para pensar durante alguns instantes... apenas alguns instantes... Rapidamente, sacudiu-se, obrigando-se a acordar; sentira-se adormecer. Foi percorrido por um arrepio de frio, ao aperceber-se de quão perto estivera da inconsciência indefesa.

               Nenhum mago do seu tipo se atrevia a deixar-se dormir um sono desprotegido. Para dormir, tinha que estar na sua cama, rodeado pelos seus talismãs e guardiães, devidamente drogado para impedir que os sonhos perturbassem o seu descanso e a sua mente. Os magos que se tinham deixado adormecer num sono natural tinham acordado loucos; ou nem sequer tinham chegado a acordar. O seu próprio mestre fora um deles e Apolon tivera parte activa nesse facto.

               Cada Mago das Trevas tinha cem inimigos ou mais, alguns deles não-humanos, à espera que um deslize lhes permitisse destruí-lo e apropriar-se do seu poder. Apolon não se conseguia recordar da última vez que lhe fora possível adormecer simplesmente, sem sequer pensar nisso.

               Devia estar muito cansado para quase ter adormecido. Não voltaria a acontecer. Não agora, quando estava tão perto do seu objectivo supremo.

               Haveria mais alguma coisa que tivesse de ser feita?

               De momento não. Percorreu mentalmente a lista de tarefas a realizar e não encontrou nada que lhe tivesse escapado. No dia seguinte teria que falar com Balthasar acerca da forma como o rapaz estava a subverter a autoridade dos seus casacos negros. Com alguma sorte, Balthasar começaria a pensar quanto tempo levaria até que Leopold começasse a subverter a autoridade do imperador. E Apolon estaria presente para encorajar essas dúvidas.

               No dia seguinte consideraria também a melhor forma de conseguir tirar a casa a Cathal. A primeira coisa a fazer seria descobrir que brinquedo era aquele que o general queria. Se ele ainda não se conseguira apropriar dele, então o objecto devia estar protegido magicamente, de uma maneira qualquer. Se fosse esse o caso, talvez ele pudesse oferecer os seus serviços.

               Depois teria de descobrir uma forma de persuadir o general a abandonar a casa, deixando-a livre para si. Uma vez isso assegurado, poderia enviar alguém ao palácio para revistar os quartos das duas mulheres e procurar objectos através dos quais pudesse encontrá-las; mas primeiro tinha que arranjar maneira de reforçar as fileiras dos seus homens.

               Tinha um barco no porto carregado com algumas selecções de luxo para recrutar, retiradas das ruas, mas as leis da mágica impediam-no de trabalhar ali, num barco, com água corrente em toda a volta. Não, teria que ter um local na cidade, construído em terra e quanto mais dentro do solo melhor.

               Mas a Casa do Javali... essa soava prometedora. Ergueu-se da cadeira e chamou outro servo.

               No dia seguinte. Sim. No dia seguinte muitas coisas seriam postas em marcha.

 

THOM

               Thom Talesmith não era um homem feliz.

               Não que se sentisse infeliz por estar entre as paredes daquela casa; se tinha que estar em Merina, então preferia estar entre os ciganos e os seus primos e aliados, os Senhores dos Cavalos. Aquele era provavelmente o local mais seguro de Merina para alguém com a sua reputação, pois até ao momento os homens do imperador não se tinham atrevido a forçar a entrada no complexo.

               No entanto, continuava ali; e era isso que o fazia sentir-se assim, infeliz. Estava prestes a arrancar os seus próprios cabelos e fumegava de ira ali, de pé junto à princesa. A questão consistia no facto de eles não deverem estar ali, em hipótese alguma, fosse qual fosse a razão. E no entanto, ali estavam, numa pequena sala sem janelas e com duas portas, uma à vista e outra oculta. Já deveriam estar bem longe de Merina, a caminho das planícies infindáveis que eram a fortaleza dos Senhores dos Cavalos.

               Determinada, Shelyra ignorava a sua irritação, como ignorara praticamente tudo o que ele dissera e fizera desde que os dois tinham sido acorrentados um ao outro pela sua tia. Estava sentada no único banco existente na sala, à frente de uma pequena mesa e de um pedaço de espelho, colocado por baixo de uma pequena lamparina de azeite presa à parede. Visto não haver janelas naquela sala, a lamparina tinha que estar acesa dia e noite.

               Raios partam a mulher! Será que alguma coisa é capaz de incutir juízo naquela cabeça? Já é suficientemente mau ela ter voltado uma vez ao palácio... mas fazê-lo uma e outra vez, noite sim, noite não? Não terá juízo nenhum?

               Era evidente que não. A princesa acabou de atacar as botas macias de sola de pele de tubarão, atou o cabelo num carrapito apertado no alto da cabeça e puxou o capuz da túnica preta e colada ao corpo por forma a cobri-lo, não deixando ver uma única madeixa. Agarrou em duas mãos cheias de carvão e esfregou  a testa e as faces com o ar de quem no passado já fizera aquilo tantas vezes, que se tinha tornado como uma segunda natureza. Depois observou os resultados no espelho e assentiu com a cabeça.

               - Nós devíamos ter-nos ido embora daqui. Devíamos sair da cidade enquanto ainda é possível, Vossa Grandiosidade - disse ele pela vigésima vez. - Devíamos ter partido assim que aquela criada minúscula e estranha da tua tia lhe levou o teu brinco. Os Senhores dos Cavalos estão mais do que dispostos a esconder-te e os ciganos conseguirão fazer-te sair, mas não sabemos por quanto tempo as condições se manterão assim. Prometemos à rainha...

               - Tu prometeste à rainha. Eu, não fiz promessa nenhuma. - A criatura enlouquecedora completou os seus preparativos num estado de calma sombria. - Eu posso cá ficar. Há trabalho a fazer, se é que Merina quer realmente rebentar a coleira que a prende a esses cães imperiais.

               - Então, pelo menos mantende-vos afastada do palácio! - implorou Thom sem qualquer esperança. - Aquilo está infestado de homens do príncipe Leopold; se eles vos apanham...

               - Eles não me apanham. - Shelyra ergueu uma sobrancelha num desdém cuidadosamente estudado. - Não podem. Não existe qualquer possibilidade de aquelas passagens serem abertas por acidente, agora já não. Eu tranquei a sua grande maioria antes de deixarmos o palácio e tranquei também aquelas por onde saímos. Agora só podem ser abertas do interior. Só se lhes pode aceder através das entradas no exterior dos jardins do palácio e duvido que até mesmo os casacos negros procurem entradas nesses locais.

               - Mesmo assim, ainda podem ser abertas com um machado - retorquiu Thom, sentindo o calor subir-lhe pelo pescoço em reacção ao desdém que a rapariga evidenciava. - As paredes são muito grossas; é só uma questão de tempo até que alguém do séquito de Leopold repare quão grossas são e chegue à conclusão óbvia! Sois uma tonta, rapariga. O imperador conhece muito bem todos os truques e aquele cão dele, o Apolon, ainda os conhece melhor...

               - E nenhum deles está cá. - Seria a rapariga incapaz de o deixar acabar uma frase? - Só cá está o príncipe, que não me parece especialmente inteligente. - Sorriu com cinismo. - Creio bem que me conseguirei proteger dele.

               - Pelo menos, deixai-me ir convosco desta vez - implorou ele.

               Ela limitou-se a soltar um grunhido. Não confiava nele; já o tinha tornado abundantemente claro. Pensava que ele só queria aprender os segredos do palácio para se poder servir, posteriormente, dos tesouros ali guardados.  Não que não fosse exactamente isso o que ele teria feito, em circunstâncias normais... Mas não agora. Foi percorrido por um arrepio de frio. Considerava-se um homem corajoso, mas naquele momento não tinha quaisquer intenções de entrar no palácio. Não enquanto o Império controlasse a cidade. Havia coisas que, pura e simplesmente, não valiam o risco.

               Shelyra pôs-se de pé e virou-se para a porta oculta. A porta dava para uma passagem, aparentemente sem saída, na parte do edifício reservada ao armazenamento. Dali conseguiria chegar, sem ser vista, a um portão nas traseiras do complexo que dava para um beco infecto, que nem mesmo os casacos negros se davam ao trabalho de vigiar. E dali conseguiria alcançar, de uma maneira ou de outra, o palácio. Parecia muito segura da sua capacidade de não ser descoberta. Dizia que era caçadora, embora de que forma as caçadas podiam contribuir para tornar alguém capaz de passar despercebido nas ruas, lhe escapasse totalmente. Aquele género de disparates seria suficiente para eriçar os cabelos até de um santo. A Thom fazia já arrancar os seus aos punhados.

               Ela tocou num fecho escondido e o painel da parede girou, abrindo-se. Ele estendeu a mão para a deter e ela virou-se para o encarar, com uma expressão de profundo desprezo. Ela pensava que ele era um cobarde. Ele! Baixou a mão num gesto automático e ela esgueirou-se por trás do painel e fechou-o atrás de si.

               À falta de coisa melhor para fazer, Thom foi até ao pátio onde havia uma fogueira acesa com gente reunida à sua volta. Habitualmente reuniam-se ali bailarinos e músicos, tanto das famílias ciganas, como do Clã dos Senhores dos Cavalos. Não porque tivesse havido alguma razão para celebrar nos últimos dias, mas os músicos precisavam de praticar fossem quais fossem as circunstâncias, e muitas das danças não eram mais do que exercícios de combate elaboradamente disfarçados. Como seria de esperar, já havia editais proibindo a prática de qualquer arte marcial, mas evidentemente que não havia nada que proibisse um bailarino ou uma bailarina de praticar a sua arte.

               Naquele momento os músicos eram todos homens, bem como os bailarinos, e praticavam a dança do pau dos Senhores dos Cavalos.

               Muito impressionante, muito excitante, especialmente à luz das chamas. E ninguém que não conhecesse bem os Senhores dos Cavalos adivinharia que aquela era uma forma sofisticada da luta do pau, tão mortífera quanto impressionante. Levava anos a dominar; Thom nem sequer se dera ao trabalho de tentar. Havia um número finito de coisas que um homem conseguia aprender no tempo da sua vida.

               Estava Thom ali, entre os ciganos, com as palmas ritmadas e o som dos tambores a marcar o ritmo do seu coração, observando as varas brancas e finas vibrar contra o fundo vermelho da luz do fogo, quando sentiu que estava a ser observado. Alguém o olhava atentamente.

               Virou-se de repente e viu que era a estranha criaturinha que a rainha usava como mensageira, que estava de pé por detrás de si e o olhava; vestida como um rapaz e tão convincente no seu disfarce como da última vez que a vira. Observava-o com olhos perspicazes que não deixavam entrever nenhum dos seus pensamentos e Thom pensou que seria preciso uma pessoa muito esperta para reconhecer os pequenos sinais que revelavam que o rapaz era, na verdade, uma mulher muito esbelta e muito pequena. Quando o viu virar-se, ela fez-lhe um sinal com a cabeça indicando os estábulos e desapareceu nas sombras do pátio.

               Ele abafou um suspiro e meteu as mãos nos bolsos, virando-se e caminhando na direcção que ela lhe indicara. Havia apenas uma lanterna com um quebra-luz no interior da porta dos estábulos, que lançava uma nesga de luz para o pátio. Era aí que estava a estranha mulherzinha, insolentemente recostada na ombreira da porta, parecendo, a quem a pudesse ver, um adolescente atrevidote.

               Foi ela quem falou primeiro.

               - Tu continuas aqui, mas a minha caixa não. - Uma afirmação seca, mas com um tom de

insinuação acusatória.

               Ele sentiu-se um tanto irritado.

               -- No que respeita à caixa, a noite passada não tive tempo suficiente antes do romper da madrugada. Quanto ao facto de eu aqui estar, isso dificilmente é por culpa minha - respondeu ele. - Não consigo convencer a rapariga a partir! Na verdade... - as palavras jorraram da sua boca antes que as conseguisse conter, cheias de ressentimento - na verdade, ela decidiu que ia espiar o palácio todas as noites e nada que eu diga ou faça consegue fazê-la mudar de ideias!

               -- Então não a consegues controlar, hem? - Um divertimento sardónico apareceu nos olhos da pequena mulher e Thom controlou o impulso de a estrangular. - Estranho. A julgar pela tua reputação, pensaria que não terias qualquer problema em consegui-la convencer a fazer o que tu quisesses.

               - Ninguém me disse que eu tinha que a controlar – disse ele amuado. - Isso não fazia parte do acordo e duvido que conseguisses convencer a rainha a concordar com o que eu teria que fazer para a “controlar”.

               - Leva-a para fora da cidade - disse ela - leva-a para os Senhores dos Cavalos.

               - Bem, ela está com os Senhores dos Cavalos, por isso metade da minha promessa está cumprida e se ela não quer sair daqui, apesar de  todos  os  meus  argumentos  e  tentativas  de persuasão, considero o resto do acordo nulo e sem efeito.

               A criatura deu uma risada.

               - Podias, evidentemente, dar-lhe uma pancada na cabeça, enfiá-la dentro de um saco e levá-la à força, quer ela quisesse, quer não. Não terias de dizer à rainha como a tinhas levado.

               A ideia tinha os seus atractivos; atractivos esses que eram contrabalançados pela certeza que ele tinha do que ela lhe faria se ele o tentasse ou, pior ainda, se fosse bem sucedido.

               O soprano não é o meu tom de voz favorito, e qualquer um que tenha sido aceite no Clã dos Senhores dos Cavalos sabe como usar aquela ferramenta que eles lá têm para capar gado, com tanta destreza como a maior parte das pessoas usa um garfo.

               - Isso não fazia parte do acordo - repetiu ele teimosamente. - Limita-te a dizer à tua senhora que irei esta noite buscar a caixa dela e que lavo as minhas mãos no que respeita à rapariga. Protegê-la-ei sempre que puder, mas se ela recusar a minha companhia e não me permitir que a siga, não há nada que eu possa fazer.

               A mulherzinha deu uma sonora gargalhada.

               - Nesse caso ainda deves à minha senhora metade da tua vida. Por isso, como forma de te redimires vai buscar a caixa que ela te pediu e faze ainda uma outra coisa, um pouco mais fácil do que a primeira.

               - O quê? - perguntou ele desconfiado.

               - Vem comigo e descobrirás - disse a irritante criatura em tom de troça. - A não ser que, evidentemente, sejas tão cobarde como és incompetente. Ainda não tens a tal caixa, o que para mim só pode significar que uma das duas coisas és.

               Magoado, seguiu a criaturinha enquanto ela atravessava rapidamente o pátio em direcção ao portão das traseiras que Shelyra acabara de usar. O fedor que vinha do beco na escuridão da noite era suficiente para fazer desmaiar um camelo e os pés escorregaram-lhe ao pisar poças e dejectos cuja natureza ele preferiu ignorar. Por outro lado, também não queria correr o risco de encontrar casacos negros.

               A criatura tinha um dom sobrenatural para evitar os casacos negros, fazendo-o parar ou acenando-lhe para que avançasse, com tal eficiência que o mais que ele viu dessas aves agoirentas foi a aba de um casaco a virar uma esquina ou a ponta de um bastão a espreitar por cima de um muro. Rapidamente recuperou o sentido de orientação; se ela estava a dirigir-se para onde ele pensava, então ia para o Pátio de Stingray, um local de pequeno comércio, de trabalhadores menores das Guildas e onde toda essa gente tinha as suas casas e os estabelecimentos que eram o seu sustento. Por fim, ela conduziu-o até um quarteirão de lojas decentes, mas em não muito bom estado; todas elas fechadas e com os taipais cerrados, como defesa contra a escuridão da noite e daqueles que nela se moviam.

               Depois de olhar furtivamente em volta, a criatura correu, atravessando a rua e dirigindo-se a uma das lojas. Bateu uma vez e fez a Thom um gesto para que avançasse. Desapareceu nas sombras atrás da porta enquanto Thom lhe seguia o exemplo, correndo pela rua como se fosse também ele uma sombra.

               Quando chegou ao pé da loja, a porta estava apenas entreaberta e a criatura desaparecera de vista, mas uma mão agarrou-o, puxando-o violentamente para dentro. Ele não tentou resistir e ficou parado, a piscar os olhos à luz da lanterna, enquanto a mulher o empurrava um pouco para o lado para fechar a porta.

               A sala era como o exterior da loja, decente, mas em não muito bom estado. A pouca mobília denotava muito uso, mas era de uma qualidade decente, e aparentemente a janela podia ser aberta formando um expositor para o que quer que fosse que ali se vendia. Reconheceu a rainha na mulher que lhe agarrava o braço, mas apenas porque ele próprio tinha alguma experiência de disfarces. Tinha sérias dúvidas de que houvesse muita gente na cidade capaz de dizer que aquela morena, gasta pelo trabalho e com tendência para a obesidade, tinha uma ligeira semelhança com a rainha desaparecida. Bem, isso pelo menos respondia a uma questão, que era a do paradeiro da rainha. Ele não pensara que ela se tivesse mudado para a sala das traseiras do Jonas e, o que era bastante interessante, ela não parecia mais desejosa de deixar Merina do que a sua sobrinha.

               O que só prova que ambas são umas idiotas!

               A pequena criada da senhora acabou um monólogo sussurrado enquanto esta fechava a porta e a rainha lançou a Thom um olhar de desaprovação enquanto a pequena mulher acabava de falar. Ele limitou-se a encolher os ombros.

               - Se vós não a conseguis controlar, o que vos levou a pensar que eu conseguiria? - respondeu ele àquela reprovação silenciosa. - Ela faz o que quer e, neste momento, não há nada que qualquer um de nós possa fazer para a contrariar. – Acrescentou uma outra coisa que lhe ocorrera. - Os amigos dela, entre os ciganos e os Senhores dos Cavalos, provavelmente entenderão qualquer tentativa minha de me impor pela força como um acto hostil. O pacto de sangue que eu tenho com eles não é tão poderoso como o dela e eles dão muito valor a coragem individual. Se me vêem a tentar pará-la, posso ficar numa situação muito complicada em relação a eles. Podem expulsar-me e depois ela ficaria sem ninguém a tentar proteger a sua retaguarda ou a persuadi-la a ser cautelosa.

               A rainha fez uma careta e assentiu contrariada, como se reconhecesse a justeza simples da sua afirmação.

               - Não penses que te safas sem ter que fazer nada para merecer a tua vida e a tua liberdade - disse então a rainha. - Continuo a precisar daquela caixa e tenho uma outra tarefa para ti. - A sua boca contorceu-se ligeiramente. - É algo que te será familiar, suponho. Preciso que roubes mais uma coisa para além do estojo.

               - Não do palácio... - interrompeu-a ele.

               Mas a rainha abanou a cabeça.

               - Não, não é do palácio. Nem sequer é de um sítio muito complicado para alguém com a tua fama conseguir lá entrar. É nas oficinas comuns da Casa do Tigre. Está lá uma certa caixa de madeira deste comprimento - indicou o tamanho com as mãos - desta altura e desta profundidade. Deve estar entre as ferramentas, na terceira bancada a contar da porta na oficina grande. Preciso dela. Contém mais ferramentas do que aquelas que tenho comigo. Suponho que, na mesma altura, poderás trazer também o estojo que te pedi.

               Ele não lhe perguntou para que precisava daquelas coisas. Sem dúvida teria as suas razões.

               - E trago tudo para aqui?

               Mas ela abanou a cabeça.

               - Estarei... noutro sítio. Eel estará à tua espera, do lado de fora da casa; poderá levar-te até mim, ou receber as coisas de ti, se tiveres guardas a perseguirem-te. Assim, mesmo que te apanhem e revistem, não encontrarão nada na tua posse.

               Ele ergueu uma sobrancelha. Eel? É esse o nome que a anã chama a si própria? Bem, é um nome bastante adequado. Fez uma espécie de continência.

               - O estojo e a caixa já são vossas, senhora - replicou com um toque da sua velha segurança.  -- Vou tirá-las de lá antes da madrugada. De qualquer maneira, já planeava ir lá esta noite buscar o estojo. Ontem, quando finalmente cheguei à rua, já era quase de madrugada e o risco era demasiado. Não pensei que quisésseis que eu fosse preso antes de conseguir recuperar as vossas coisas.

               - Se não o conseguires nas próximas horas, melhor seria que fosses preso.

               Não havia na sua voz qualquer vestígio de admiração, nada a não ser a aceitação fria do pequeno milagre que ele estava prestes a realizar. Nem sequer o reconhecimento de que se tratava de um milagre. Ele cerrou os dentes, contrariado, mas não deixou transparecer a sua irritação. Em vez disso virou-se e, quando estava prestes a sair, lançou ele também uma ferroada por cima do ombro.

               - Enquanto esperas, melhor seria que pensasses numa maneira qualquer para eu poder “controlar” a tua rapariga - disse secamente. - Senão ela ainda é capaz de arranjar maneira de sermos todos mortos.

               E com aquele aparte reconfortante, desapareceu nas sombras da escuridão.

 

SHELYRA

               Preferiria morrer a admiti-lo àquele fanfarrão do Thom Talesmith, mas Shelyra sentira-se aterrorizada durante todo o percurso que a levou através da cidade. Na verdade, sentia-se aterrorizada todas as noites; não tinha tanta confiança na sua capacidade de evitar os casacos negros como afirmava. Só voltou a respirar melhor quando entrou pela porta que dava acesso ao túnel que passava por baixo do jardim. Na realidade, fez uma pausa na sala secreta, que usara quando da sua transformação em Raymonda para respirar fundo por várias vezes até o seu coração se acalmar. Não estava nada ansiosa pela viagem de regresso. Tinha havido demasiados daqueles corvos de penas negras lá fora, demasiados para o seu gosto, e pareciam ver tão bem no escuro como qualquer mocho.

               Mas de momento estava ali e chegara mais uma vez a altura de avaliar os conquistadores. Tinham-se mudado finalmente para o palácio naquele dia e ela tinha que ver se havia transformações dignas de nota.

               Primeiro vou ver as salas públicas e depois as áreas de trabalho, como a cozinha. Quero ver se estão a ter reuniões e quero ver como estão a tratar os criados. Isto é, se é que não mandaram os criados todos embora hoje. Duvido que os mantenham aqui durante muito mais tempo.

               Deslizou silenciosamente pelas passagens secretas, dirigindo-se em primeiro lugar à sala do trono. O palácio estava silencioso; estranhamente silencioso, mesmo tendo em consideração o tardio da hora. Podia muito bem ser ela o único ser vivo em todo o palácio.

               Pensara encontrar o príncipe sentado no trono da sua tia com a corte reunida, mas a sala do trono estava vazia, apenas com umas quantas velas acesas, e pelo aspecto não tinha sido usada desde a abdicação.

               Isso era muito estranho, considerando estar a cidade já nas mãos do imperador já havia mais de uma semana e o príncipe residir ali havia já um dia. Mais estranho ainda era a completa ausência de ruído; também esperara encontrar soldados embriagados à solta pelos salões, apanhando tudo aquilo que estivesse à mão. Por aquela altura, a disciplina imposta pelo facto de se encontrarem em território estranho e pouco seguro já deveria ter abrandado.

               Mas enquanto atravessava o labirinto de passagens secretas, a única coisa que viu foram soldados aos pares, de sentinela em cada corredor. Os seus oficiais dormiam calmamente, instalados em grupos nos aposentos que noutros tempos tinham sido destinados aos convidados e suas comitivas. Procurando os soldados rasos, encontrou-os aboletados nos quartos antigamente destinados aos criados.

               Por toda a parte só encontrou disciplina e ordem. Não havia qualquer sinal de abusos ou de saque, e nem um único vaso sequer estava fora do lugar. A porta da adega estava fechada a cadeado, mas as portas da despensa não estavam trancadas, o que deixava perceber que um homem que tivesse fome poderia servir-se de comida, mas que Leopold achava melhor não criar demasiadas tentações aos seus homens.

               Por fim acabou por sentir, mais uma vez, uma admiração relutante. Leopold parecia ter o respeito e a obediência das suas tropas, mesmo que não tivesse mais nada. Tinha de facto mandado embora os antigos criados naquele dia, mas isso seria de esperar. Afinal, dificilmente poderia confiar neles, especialmente depois de alguns dos truques que ela ali fizera. Como era evidente, isso significava que nada fora convenientemente limpo desde que o imperador tomara a cidade, mas ela duvidava que um pouco de pó causasse qualquer perturbação a soldados profissionais.

               Infelizmente aquilo também significava que não havia ali grande coisa para descobrir naquela noite. Homens sóbrios e calmos não deixam segredos escaparem-se-lhes dos lábios. Mas a ordem que ali reinava provocava uma sensação estranha e inquietante; era como se a pessoa que comandava os casacos negros e a pessoa que comandava os soldados aboletados no palácio fossem entidades completamente distintas. Corriam boatos entre os ciganos que os casacos negros eram unicamente de Apolon e que não só não eram tropas regulares do imperador, como não tinham que lhe prestar contas pelos seus actos. Seria possível que Leopold comandasse unicamente o palácio e não a cidade, e que os casacos negros, que respondiam unicamente perante Apolon, não tivessem apenas mão livre, mas também o comando efectivo da cidade? Poderia o inimigo estar assim tão dividido? Se era esse o caso... talvez ela pudesse aumentar as divisões no seu seio.

               Os lábios curvaram-se-lhe num sorriso, enquanto observava um par de soldados andar para trás e para diante num dos átrios.

               Será que eles acham o silêncio e o vazio tão estranho como eu o acharia? Nunca conheci um soldado que não fosse tão supersticioso como uma criada velha. Será que os posso encorajar a acreditar que o palácio está ainda mais assombrado do que diziam os criados? Talvez eu devesse ser menos subtil nas minhas “assombrações.”              E já agora, devia assombrar também o Palácio de Verão.

               A ideia tinha os seus encantos, lá isso tinha! Se os palácios ganhassem fama de serem habitados por espíritos zangados, os soldados eram bem capazes de exigir ser aboletados noutro sítio! E isso separaria o príncipe dos seus guerreiros, para além de lhe proporcionar a ela um acesso mais fácil ao palácio. Originalmente o seu objectivo fora enervar os criados, fazer com que

sentissem relutância em servir os seus novos amos e espalhar a história das “assombrações” do palácio na cidade, na esperança de que isso causasse inquietação aos seus habitantes. Mas se conseguisse causar a perturbação dos soldados imperiais... isso seria ainda melhor!

               Nesse caso... chega de pequenos sinais, de meros murmúrios e barulhos no escuro; chega de pequenas mudanças que ninguém  a não ser um criado verá. Chegou a hora de fazer com que os “espíritos” se manifestem de uma forma muito mais óbvia.

               Passou a hora seguinte saindo rapidamente de portas escondidas para salas vazias, de preferência salas que ela sabia estarem fechadas, a semear o caos. Numa das salas, deixou todas as cadeiras de pernas para o ar. Numa outra, virou todos os retratos de membros da Casa do Tigre para a parede. Empilhou ornamentos no centro de uma mesa formando uma pirâmide, despejou feijões a todo o comprimento do chão da cozinha e do quarto da sua tia tirou a roupa de cama e levou-a para o túnel, deixando apenas a coberta bordada e encharcou o colchão de penas com água. Tudo pareceria estar normal ali, até que quem usurpasse aquele quarto tentasse deitar-se!

               Não conseguia ir aos seus aposentos; não naquele momento, sabendo que os usurpadores teriam revistado todos os seus haveres pelo menos uma vez. Apesar de não ter lá deixado nada de valor, excepto as jóias de Estado e os objectos demasiado valiosos para Gordo conseguir trocar, a simples ideia de um qualquer oficial imperial com as patas nas suas coisas fazia-a sentir-se  ligeiramente mal. Pensar nisso já a fazia sentir-se como que violada, e não queria ter que enfrentar o facto.

               O último acto de vandalismo acabou por esgotar as últimas das suas energias e voltou a desaparecer pelas passagens secretas, pensando mais uma vez no efeito que o seu trabalho teria em Leopold e na sua gente. Tomara todas as precauções para não fazer barulho durante as sabotagens, presumindo que o silêncio seria mais assustador quando os estragos fossem descobertos, do que o som de alguém a destruir as salas.

               O resto do seu trabalho ainda não estava feito, mas decidiu deixar a excursão ao Palácio de Verão para a noite seguinte. Havia, no entanto, mais uma coisa que tinha que fazer antes de voltar para o Bairro Cigano. Tinha que ir ao templo; mais especificamente, tinha que entrar nos claustros.

               Felizmente, essa era a tarefa mais fácil de quantas tinha desempenhado naquela noite. Adele já lhe mostrara a passagem secreta que levava dos aposentos da rainha até ao interior do templo. A grande sacerdotisa exigia, tradicionalmente, ter essa forma especial de acesso à rainha, que a seu tempo se tornaria ela própria na grande sacerdotisa.

               E exigirá o imperador ser entronado como chefe secular do templo para além de ser o chefe da cidade, pergunto-me eu?

 Reflectia enquanto procurava o caminho na parte menos familiar do labirinto secreto.

               Pergunto-me qual será a sua reacção quando lhe disserem que nenhum homem pode ser chefe do templo. A não ser, evidentemente, que ele esteja disposto a fazer um determinado pequeno sacrifício pessoal.

               Para aceder àquela última passagem, teve que esgueirar o seu corpo magro através de um pequeno túnel por cima do armário no quarto da rainha e deixar-se cair de uma passagem superior.

               Só alguém tão jovem e em tão boa forma física o conseguiria; a maioria das pessoas teria entrado pela porta secreta que dava para o próprio quarto em vez de se submeter a tais contorções.

               A passagem terminava numa porta de madeira espessa e pesada, que abriu cautelosamente, entrando numa pequena sala onde havia apenas uma lanterna e quatro ganchos, cada um deles com um manto disforme pendurado, das quatro cores das ordens, cinzento, castanho ferrugento, amarelo e vermelho. Espreitou através de um buraco-espia para a sala ao lado, que tinha no seu interior uma imagem do Coração, um genuflexório e uma única figura coberta por um hábito castanho ajoelhada no genuflexório.

               A religiosa ergueu-se rapidamente quando a parede da sala se abriu. A religiosa acenou com a mão para que esperasse um pouco.

               - Sei quem sois e a razão porque aqui viestes - disse suavemente.  - Fui mandada aqui para vos levar à vossa avó.

               Sorriu envergonhada; Shelyra pensou que ela devia ter cerca de quarenta anos, mais coisa menos coisa.  Usava o cabelo grisalho cortado curto como o de todos os membros das ordens e tinha postos uns óculos através dos  quais  a  olhava  intensamente.

               - Esta sala é supostamente dedicada à meditação. Há quatro de nós que conhecemos o vosso segredo, um por cada turno de vigia, noite e dia; só quatro e não mais, e morreremos antes de revelar tal segredo.

               Shelyra entrou na sala, deixando que a porta se fechasse silenciosamente atrás de si e desejando sombriamente que a religiosa nunca se encontrasse na posição de ter que provar tal afirmação.

               Shelyra puxou a prega do manto por cima da cabeça, escondendo o rosto sujo de carvão. Instantes depois percorriam as duas, pausadamente, um dos corredores de pedra dos claustros do templo, frescos e ecoantes.

               Shelyra pensou que nunca teria conseguido fixar quem vivia por trás de cada uma da miríade de pequenas portas ao longo do corredor, mas a religiosa parecia não ter esse tipo de dificuldade. Bateu ao de leve numa das portas e murmurou uma frase em tom demasiado baixo para que Shelyra pudesse compreender o que dizia e a porta abriu-se. A religiosa não entrou.

               - Esperarei por vós na sala - disse. - Deixarei a porta aberta para que a consigais encontrar. Vinde quando estiverdes pronta para partir e, se quiserdes sair por outro caminho, ajudar-vos-ei.

               Apressou-se a regressar pelo corredor, deixando Shelyra entrar sozinha no quarto.

               Se tivera quaisquer dúvidas acerca da sensatez daquela visita, estas foram dissipadas no momento em que viu a avó à sua espera, com um aspecto melhor e mais forte do que o que tivera nos últimos meses. De repente, todos os medos e incertezas que se esforçara por ignorar abateram-se sobre si e ela lançou-se nos braços de Adele com um pequeno gemido, como uma pequena criatura da floresta que procurasse abrigo.

               Contudo não ficou nos braços de Adele mais do que um instante. Aquela não era altura para fraquezas e sem dúvida que Adele teria os seus próprios problemas para resolver. Depois de um abraço breve, afastou-se com um sorriso falsamente alegre estampado no rosto.

               - Na cidade não paramos de ouvir rumores de que estais doente, ou até morta - disse para disfarçar a sua fraqueza. - E embora o Thom tivesse dito que falara convosco e eu soubesse que os rumores eram falsos...

               - Apesar de saberes tudo isso, deve ter sido um alívio tão grande para ti veres que eu estou bem, como é para mim ver-te a ti - respondeu Adele calorosamente. - Aqui correm rumores de que os homens de Apolon te apanharam quando fugias e que te afogaram num canal, e que Lydana está presa sob a custódia do imperador. Apesar de eu saber que não era verdade, esses boatos criam sempre as mais terríveis dúvidas.

               Shelyra assentiu.

               - Vim cá para saber se haveria alguma coisa de que precisásseis do exterior do templo - disse. - E para vos dizer que fico na cidade. No Bairro Cigano estou tão a salvo quanto possível e não posso deixar a nossa cidade nas mãos destas bestas; não enquanto existir a possibilidade de fazer qualquer coisa de útil aqui. Tenho acesso totalmente livre ao palácio e ao Palácio de Verão, e tenciono usar esse acesso para os espiar sempre que possível.

               Descreveu pormenorizadamente a Adele a situação no interior do palácio e a avó ouviu-a atentamente. Adele abanou a cabeça quando ela acabou o seu relatório.

               - Parece que Leopold não comanda nada para além dos seus próprios homens, visto que os casacos negros respondem separadamente a Apolon. Que situação horrorosa para ele! Torna-o duplamente ineficaz.

               Shelyra assentiu energicamente, ao ouvir como que o eco perfeito dos seus próprios pensamentos.

               - Achais que eu posso aumentar a divisão? Quanto mais dividido o inimigo, melhor para nós!

               Mas para seu desapontamento, Adele abanou a cabeça.

               - Espera até que eu pense bem nas implicações desse plano. Se Leopold tem de facto o comando de tão pouco, a divisão é provavelmente já tão grande que estaríamos a desperdiçar energias e tempo melhor empregues noutras coisas. E se tens acesso ao Palácio de Verão, há de facto umas coisas que lá estão e de que eu preciso. Não tive tempo para trazer todos os meus livros, embora os tenha protegido magicamente no ano passado, antes de os exércitos do imperador se terem aproximado tanto. Ninguém que não seja do nosso sangue conseguirá reconhecer os livros por aquilo que eles são, e muito menos levá-los. - Sorriu fatigadamente. - Tive um aviso; talvez devesse ter-lhe prestado mais atenção.

               Shelyra encolheu os ombros.

               - Se a premonição fosse previsão, nunca cometeríamos quaisquer erros. Onde é que estão esses livros e como é que lhes posso aceder?

               - Estão nos meus aposentos, na biblioteca mais pequena - disse-lhe  Adele. - E se não quiseres transportá-los através dos túneis, trá-los para o confessionário; o terceiro confessionário à direita do Coração, como sabes. Esforçar-me-ei por lá estar todos os dias. Um em cada dois dos livros que estão nos meus aposentos é sobre magia, mas aos olhos de qualquer pessoa que não pertença à Casa do Tigre parecem simples livros de história e questões religiosas. Leitura muito maçadora, típica de uma velha tonta que pensa estar às portas da morte, e não é provável que tentem ninguém a examiná-los mais de perto.

               Shelyra riu-se.

               - Começo amanhã a mudá-los para uma sala secreta que descobri - prometeu. - E de lá começarei a trazê--los para aqui, alguns de cada vez. Ou mandarei alguém levar-vo-los ao confessionário, se forem demasiados para ser eu a trazê-los.  Duvido que alguém suspeite das mulheres que vêm ao templo com livros de cânticos nas mãos. Até os ciganos precisam de rezar.

               - Espero que sim - disse Adele secamente. - Embora por vezes tenha as minhas dúvidas. E que é feito daquele ladrão que te deveria ter feito sair de Merina?

               Shelyra fungou com desdém.

               - Isso foi ideia da tia Lydana, não foi minha - e, segundo suspeito, também não foi vossa. Suponho que podemos confiar nele dentro de certos limites, mas ele é muita parra e pouca uva, e eu não confio nele nem para fazer sair uma carroça de nabos da cidade. Ele não quer saber de nada a não ser de si próprio, dos seus lucros e da sua fama; não se preocupa nem com Merina nem com o Tigre.

               A avó suspirou.

               - Pode ser que o estejas a subestimar, mas ele é um ramo demasiado fino para que apoiemos nele todo o nosso peso; penso que és sensata em não depender demasiado dele. - Apertou os lábios, e Shelyra percebeu que ela queria dizer mais qualquer coisa mas que hesitava. - Sei que és uma criança com sentido prático... - começou com precaução.

               - Ides dizer-me que puseste anjos a guardar-me? – perguntou Shelyra, só meio a brincar.

               Adele via anjos e outros espíritos, ou dizia que via. Shelyra nunca vira nada fora do normal quando a sua avó tentara mostrar-lhe essas aparições espirituais, nem mesmo quando era muito pequena e supostamente mais aberta a esse tipo de coisa. Essas afirmações de Adele faziam com que, frequentemente, a rainha se sentisse muitíssimo desconfortável, embora Shelyra nunca se tivesse sentido incomodada. Se a sua avó estava iludida, não havia qualquer mal nessas ilusões e se não estava... bem, naquele momento Shelyra aceitaria alegremente a protecção de qualquer criatura, fosse ela anjo, fantasma, duende, gnomo, ou fada de asas de gaze saída de uma qualquer história de embalar.

               - Não... exactamente - disse Adele com sobriedade. – A Luz não envia os seus mensageiros para agir, mas para avisar ou aconselhar.  Não, queria simplesmente recordar-te o facto de que anda muita magia à solta; e grande parte dela é magia negra, muito negra mesmo. Farei o que puder, mas eu não passo de uma pobre mulher. Protege-te; não deixes para trás nada de que uma mão inimiga se possa apoderar. Sei que te defendes bem de um punhal na noite, ou de um malfeitor que encontres nalgum beco... mas tenho razões para crer que és o objectivo de uma caçada e os cães que te farejam não são deste mundo.

               Shelyra mordeu pensativamente o lábio.

               - Farei o melhor que puder, avó - disse por fim - mas... essas não são as minhas armas preferidas.

               - Então encontra alguém de quem sejam...   talvez  um dos teus ciganos - insistiu Adele. - Não posso estar lá e cá ao mesmo tempo.  Sentir-me-ia mais descansada se soubesse que

tinhas a protecção de alguém que fosse um mestre das artes do espírito.

               Agora era a vez de Shelyra hesitar, pois os ciganos que ela conhecia e que eram competentes nas práticas da magia, não partilhavam a fé dos que adoravam no Templo do Coração e os Senhores dos Cavalos não podiam ser convencidos a entrar no templo em circunstância alguma e preferiam adorar a sua própria deusa equestre, Ekina. E embora isso não a perturbasse particularmente, Adele poderia não ficar satisfeita...

               - Verei se algum deles está disposto a fazê-lo e dar-lhe-ei conhecimento de alguns dos meus segredos - contemporizou. - Nunca pediria uma coisa dessas a ninguém sem lhe dar a conhecer os perigos em que incorre.

               Adele assentiu relutantemente.

               - Outra coisa... não importa o que ouças dizer de mim no templo, não acredites a não ser que um dos religiosos te leve isto - estendeu a mão onde se via ainda o anel de casamento, uma aliança de ouro branco com pequenos olhos de tigre engastados - ou o ouças da boca de alguém no tal terceiro confessionário quando eu lá não estiver.

               - Assim farei, e agora tenho que ir - disse Shelyra, rapidamente, antes que Adele pensasse em levantar objecções. – A aurora está prestes a romper e eu não posso ser apanhada por ela.

               A avó pôs-se de pé e abraçou-a.

               - É claro; perco a noção do tempo aqui entre estas paredes; aqui no Coração tudo parece intemporal. Vai depressa; regressa em segurança.

               Shelyra retribuiu o abraço e saiu, desejando não deixar transparecer a vontade que tinha de sair dali. A religiosa de óculos estava à sua espera na sala de meditação, tal como prometera, e fechou cuidadosamente a porta do túnel atrás de si. Daquele túnel era fácil passar para um dos outros túneis que levavam ao exterior; aquele que ela escolheu partia do quarto da rainha-mãe.

               Ainda bem que não entro e saio pelo mesmo caminho. Se alguém me estivesse a vigiar e me tivesse visto desaparecer, nunca encontraria a entrada a não ser que me visse voltar a sair.

               Bocejou; fora uma noite muito longa, e a energia provocada pela excitação estava a desaparecer. Mas enquanto saía para o exterior através de uma pequena porta que dava para um canal escuro e pouco utilizado, ocorreu-lhe uma outra coisa. Em toda a noite e durante todas as suas idas e vindas no palácio, não vira nem sinais do próprio Leopold. Se ele não ocupara os aposentos da rainha-mãe nem os da rainha, onde estaria? Porque não o vira? E que estaria ele a fazer?

 

LEOPOLD

               Leopold completou a sua inspecção ao palácio quando o sol se punha; tendo uma ideia das várias instalações, pôde destinar os alojamentos e as tarefas de forma mais eficiente e rápida. Mandara embora todos os criados naquele dia, evidentemente, assim que souberam quais eram exactamente os seus deveres e onde eram guardados todos os mantimentos; não se podia confiar neles. Na melhor das hipóteses, cumpririam relutantemente e a contragosto as suas obrigações; na pior seriam potenciais agentes de sabotagem. Não lhe pareceram, aliás, especialmente contrariados por se irem embora; os seus sargentos já lhe tinham comunicado que havia rumores entre os criados de que o palácio estava assombrado.

               Deixou aos sargentos a tarefa de destinar a alguns dos homens os trabalhos que eram normalmente assegurados pelos criados. Isso seria, como era evidente, uma medida temporária; quando o imperador finalmente instalasse ali a sua residência, traria com ele todo o seu pessoal.

               Quando acabou de dar as suas ordens aos oficiais, ficou parado no átrio junto aos aposentos reais, olhando para o retrato de um qualquer antepassado da anterior família real. Um homem de rosto severo, que apesar de tudo parecia ter no olhar uma sugestão de humor e nos lábios um sorriso contido. Não tinha qualquer semelhança com os retratos oficiais do imperador Balthasar. Esses eram todos muitíssimo formais, tão rígidos que poderiam ser os retratos de uma qualquer estátua inanimada...

               Gostava de ter por pai um homem assim, pensou impulsivamente, sentindo-se imediatamente culpado. Que estava ele a pensar? Ele era filho de Balthasar, um filho leal. Nenhum reizinho-mercador poderia alguma vez comparar-se ao seu pai...

               - Para onde devemos levar as vossas bagagens, meu senhor? - perguntou o seu escudeiro, fazendo com que saísse, com um sobressalto, do sonho em que caíra sem se aperceber. - Para os aposentos da rainha... quero dizer, de Lydana?

               Ele considerou a hipótese, de sobrolho franzido, voltando a sentir o já tão familiar aperto no estômago. Até àquele dia estivera alojado com os seus homens no exterior do palácio, numa caserna velha desactivada, mas agora tinha que se instalar convenientemente no palácio. Ali estava mais uma armadilha, mais um escolho no seu caminho. Seria que nunca se conseguiria livrar delas, destas maquinações e manobras?

               Se eu fico com os aposentos da rainha, isso poderá ser interpretado como uma usurpação dos privilégios do pai. Se fico com os aposentos da rainha-mãe, Apolon envidará todos os esforços para me tirar de lá. E, não sei por quê, não me apetece ficar nos aposentos da princesa. Parece... pouco cavalheiresco.

               - Leva as minhas coisas para os aposentos ao fundo do corredor - disse por fim. - Sei que não foram usados nos últimos tempos, mas estou certo de que ficarão bons se forem arejados.

               Aqueles quartos tinham sido ocupados em último lugar por um homem; sentir-se-ia muito melhor ali. Talvez até tivessem sido ocupados pelo homem do retrato.

               O escudeiro fez uma vénia e foi-se embora sem fazer comentários.

               Depois de ele se ter ido embora para ir buscar as coisas do príncipe e, presumivelmente, para ir recrutar ajuda para uma grande sessão de arejamento e limpeza, o príncipe ficou onde estava, ainda de cenho franzido. Havia alguma coisa que o estava a preocupar, embora não conseguisse perceber o que era. Seria alguma coisa relacionada com a princesa Shelyra? Alguma coisa relacionada com a forma como Apolon tencionava apanhá-la? Sim. E tem que ver com os seus aposentos.

               Voltou para trás, pensativo, tentando situar o que quer que o tinha perturbado. Tinha ordenado que todas as salas fossem iluminadas por pelo menos uma vela ou candeeiro, embora isso pudesse parecer um desperdício. Queria que os guardas que patrulhavam os átrios e os corredores pudessem ver para dentro das salas se ouvissem qualquer barulho no seu interior. Não

toleraria qualquer saque e os seus homens sabiam-no. Agora tudo aquilo era propriedade do imperador e roubar qualquer coisa ali seria o mesmo que roubar o próprio Balthasar; logo, um crime capital.

               Não pensava realmente que qualquer um dos seus homens se sentisse inclinado sequer a pensar em roubar... mas os seus homens não eram os únicos na cidade. Se Cathal ainda não tinha mudado os seus mercenários para o quartel, fá-lo-ia no dia seguinte e os mercenários roubavam tudo o que fosse deixado sem guarda.

               E havia ainda aqueles cães vestidos de negro, de Apolon. Não confiava neles e não queria encontrar-se na situação de faltar qualquer objecto importante ou valioso enquanto fosse ele o responsável pelo palácio. Poderiam ter sido eles, aliás, os iniciadores dos boatos acerca das assombrações, tentando que o caminho ficasse livre.

               Seria mesmo coisa do Apolon, tentar planear um roubo, pensou com irritação, enquanto entrava pela porta que dava acesso aos aposentos da princesa. Ou... talvez aquilo que ele mandasse os seus homens roubar não tivesse qualquer valor excepto para si próprio!

               Aquela ideia ocorreu-lhe enquanto passava os olhos pelo quarto confortável da princesa, tendo mais uma vez a estranha sensação de que a sua proprietária acabara de sair e voltaria em breve. A uma investigação preliminar, parecia que Shelyra não levara nada quando desaparecera, nem mesmo os ganchos de cabelo ou quaisquer das outras bugigangas femininas que estavam em cima do seu toucador.

               E fora isso que lhe provocara a sensação de “algo de errado”. Não o facto de o quarto ter ficado praticamente intocado, mas sim a hipótese de Apolon ser capaz de usar as coisas que ali estavam, exactamente por estarem virtualmente intocadas.

               Leopold não era nenhum mago, mas conhecia alguns dos princípios segundo os quais a magia operava. Qualquer idiota sabia que não deveria deixar um objecto pessoal cair nas mãos de um mago. Se o mago não conseguisse usar esse objecto para controlar o seu possuidor, conseguiria pelo menos utilizá-lo por forma a encontrar o seu paradeiro e a espiar-lhe os movimentos. Mas talvez as mulheres da família real não conhecessem a forma como os objectos pessoais podiam ser usados. Talvez fosse melhor ele próprio remediar essa questão.

               O Apolon quer a princesa e tenho a certeza absoluta de que ele utilizaria quaisquer meios ao seu alcance para conseguir tê-la. Deve haver aqui um sem número de coisas que ele poderá usar para a localizar!

               Bem, isso Leopold poderia remediar e já que o fazia; podia encarregar-se de fazer com que os aposentos da rainha e os da rainha-mãe sofressem igual tratamento. E podia fazê-lo legitimamente, com o pretexto de “aprontar os quartos para o imperador”. Sentiu um sorriso fino formar-se-lhe nos lábios e o calor da satisfação espalhar-se-lhe pelo corpo. Não era com freqüência que tinha a oportunidade de frustrar o Mago Cinzento.

               Chamou homens para que o ajudassem e começou pela cama, tirando toda a roupa, mas deixando no mesmo sítio a coberta preciosamente decorada a ouro. Isto arruma a questão dos lençóis que estiveram em contacto com o seu corpo. Seguiram-se a mesa e o armário dos cosméticos: mandou juntar todos os potes e frascos dentro de lençóis para que fossem levados, cuidadosamente esvaziados e lavados, e devolvidos aos armazéns do palácio. A escova da princesa, o seu espelho e o pente, levou-os ele quando os homens saíram; algumas coisas teria que ser ele a fazê-las pessoalmente.

               Quando os homens regressaram, já ele despejara todas as gavetas e atirara para a lareira as peças mais íntimas. O linho e as rendas delicadas ardiam facilmente; finos fantasmas brilhantes, as rendas subiam pela chaminé com o calor das chamas.

               O restante mandou que fosse enviado, não para os armazéns da casa, mas para os armazéns das tropas e usado como trapos. Os soldados precisavam sempre de ter à mão panos de limpeza e ele anunciou que na manhã seguinte faria uma inspecção formal. Quando a tarde seguinte chegasse, qualquer daqueles tecidos, até ao último pedaço, não teria qualquer valor para um mago, contaminados como estariam por graxa das botas e a gordura protectora do ferro das lâminas.

               Embora isso fosse estranho, não recebia qualquer sensação da “pessoa” do guarda-roupa e dos belos e luxuosos vestidos que este continha. Nem qualquer das jóias invocava qualquer sinal de personalidade; e jóias era o que ali não faltava, como era aliás adequado a uma herdeira da Casa do Tigre, afamada em todo o mundo pelas suas pedras preciosas e pelas suas jóias. Os vestidos mandou que fossem armazenados no sótão; as jóias fechou-as numa arca com as suas próprias mãos e colocou-a em cima de uma mesa, em local de evidência, ao lado da cama. Balthasar reclamaria as jóias para si, ou então fá-lo-ia o chanceler; Apolon não poria as mãos em nenhuma delas. E duvidava que Apolon conseguisse distinguir os vestidos da princesa dos outros que se encontravam no sótão. Como conseguiria um simples homem distinguir o que estava na moda hoje ou tinha estado na moda cem anos atrás? Ele próprio já fora apanhado muitas vezes nessa armadilha ao cumprimentar uma rapariga pelo seu vestido, vendo-a ficar calada e tensa, e descobrir mais tarde que o fato era uma antiguidade recuperada e que a rapariga fora obrigada a usá-lo por uma madrasta ciumenta que queria fazê-la parecer ridícula.

               Mandou embora os homens com o resto das roupas e ele próprio fez uma última inspecção aos quartos. Estava prestes a ir-se embora quando teve subitamente a sensação de que alguém o observava. A nuca arrepiou-se-lhe, e ficou com os braços cobertos de pele de galinha.

               Girou sobre si próprio, pois aquele instinto nunca falhara. Quem poderia ter ali entrado sem o seu conhecimento? Estava alguém de pé junto ao roupeiro. Não era um dos seus homens; mesmo no escuro conseguia ver isso. Na verdade, não conseguia dizer se era macho ou fêmea, embora o rosto sem barba fosse suficientemente belo para lhe fazer doer o coração e suficientemente terrível para o fazer bater mais depressa, com medo. Não conseguia desviar o olhar daqueles olhos, daquele rosto; tinha o olhar preso e os pés colados ao chão. Não se podia mover, embora todos os seus instintos lhe gritassem que nenhum ser humano vivo deveria estar de pé na presença de algo como aquilo. Reprimiu a vontade de ajoelhar e curvar a cabeça, mas unicamente porque não teve a certeza de se conseguir erguer de novo se o fizesse.

               Não teria sabido dizer o que aquela pessoa trazia vestido; tudo o que conseguia ver era o rosto, os olhos... e as mãos, compridas; mãos finas que apontavam para o roupeiro, para um compartimento que ele pensava estar vazio. O rosto da criatura era brilhante, mais brilhante do que seria natural, pois um tal brilho não podia ser o reflexo da luz que vinha da lareira e das duas velas que estavam na chaminé.

               Ficou ainda mais brilhante enquanto o olhava, até ficar de tal forma ofuscante que era doloroso e ele pestanejou para afastar lágrimas que repentinamente lhe assomaram aos olhos. Desapareceu enquanto pestanejava; de um momento para o outro desapareceu completamente, como se nunca lá tivesse estado.

               O único testemunho da sua presença era o facto de os seus olhos continuarem marejados e reterem uma mancha negra e brilhante com forma humana.

               Começou a tremer, em reacção, e estendeu a mão para a parede em busca de apoio, pois os joelhos pareciam não querer aguentar o seu peso.

               O que seria aquilo...? Os céus sejam louvados. Não admira que a primeira coisa que Eles digam aos mortais quando aparecem seja “não temas”! Mas ele era um soldado; passado pouco tempo já conseguira recuperar novamente o controlo. Esperou apenas o tempo suficiente para que a visão ficasse outra vez nítida e voltou para junto do roupeiro, abrindo as portas do compartimento que o anjo apontara e espreitou lá para dentro. Quando não viu nada, foi buscar uma das velas que estavam junto à lareira e trouxe-a para lhe facilitar a busca.

               Foi então que o encontrou. Como valor, não era grande coisa; não valia praticamente nada. Mas Apolon, se ali estivesse, tê-lo-ia agarrado e levado com uma satisfação mal dissimulada. Leopold pegou no pequeno objecto metálico com um arrepio de satisfação. Era um pequeno cavalo de prata, gasto pelo muito manuseamento, como se o seu proprietário o acariciasse para dar sorte ou para se acalmar. Só havia uns ourives no mundo que faziam cavalos-amuleto como aqueles, destinados a ser presos aos arreios de uma montada favorita para lhe proporcionar as bênçãos de Ekina, a deusa do cavalo.

               Os Senhores dos Cavalos. Leopold soube-o no momento em que viu o amuleto. Como pista para o possível paradeiro da princesa, era de um valor inestimável. Até àquele momento ele não fizera ideia de que ela pudesse sequer saber quem eram e o que eram os Senhores dos Cavalos e duvidava que mais alguém soubesse. Para Apolon, como uma relíquia sua, muito manuseada, seria quase tão bom como ter a própria princesa em seu poder.

               Coisa que ele seria capaz de conseguir e em muito pouco tempo, com isto ao seu alcance. Leopold atirou o pequeno amuleto ao ar e voltou a apanhá-lo com a mesma mão, depois enfiou-o num bolso franzindo o sobrolho.

               Bem, agora já não terá essa oportunidade! Não enquanto eu aqui estiver.

               Mas quem, ou antes, o quê tinha sido a aparição? Duvidava da sua primeira identificação impulsiva, pois que quereria um anjo de alguém como ele? Seria então um fantasma? O espírito de um soberano de Merina há muito falecido? Ou algo... algo de muito menos “pessoal” e muito mais perigoso? Um demônio não, certamente quaisquer demónios estariam sempre do lado de Apolon. Isso deixava uma única possibilidade a que todos os parâmetros se ajustavam... e mais uma vez, tremeu ao recordar-se da imagem.

               Não vou pensar mais nisso, decidiu resolutamente. O que quer que fosse queria que eu ajudasse Shelyra a escapar às garras de Apolon. Se era um anjo...

               Abanou bruscamente a cabeça como que para sacudir aquela ideia. Não interessava. O que interessava era que ele tinha mais dois quartos para limpar. Os objectos muito pessoais, como a escova de cabelo ou o amuleto de prata, ele próprio os levaria e esconderia numa mala cheia de abafos que raramente usava e que estava no fundo do seu próprio roupeiro. Acabaria por arranjar uma forma de os “perder” num canal ou coisa do género.

               O restante seria transformado, através da utilização de água e sabão, em algo que Apolon já não poderia utilizar para encontrar as mulheres. Se Leopold tivesse oportunidade, arranjaria mesmo uma costureira para desfazer os vestidos e reduzi-los a um monte de tecido, jóias, fio de ouro e rendas. Tudo o que as três mulheres que tinham vivido no palácio tinham usado ou vestido, ele desfaria, removendo cada vestígio até não haver nem um rasto frio que aquele mago pudesse cheirar.

               E seria tudo na defesa dos melhores interesses do seu pai, o imperador, livrando-o de bugigangas femininas e inúteis e transformando-as em algo com valor no mercado.

               Com passadas determinadas, foi até ao quarto da rainha, confiante de que quando fosse para a cama, já teria atingido completamente os seus objectivos. Afinal de contas... parecia que alguém viera em seu auxílio, ou não era verdade? Qualquer que fosse a fonte desse auxílio, ele não o iria recusar nem ignorar.

               Havia mais uma coisa que iria fazer. Ia começar a fazer ainda mais perguntas acerca de Apolon; perguntas precisas. Certamente que, nalgum ponto, o Mago Cinzento cometera um erro.

Nalguma ocasião teria com certeza deixado alguém ver ou saber demasiado. Até àquele momento, Leopold só suspeitava das origens do poder de Apolon.

               Agora procurarei factos, provas que possa apresentar ao meu pai e que Apolon não possa refutar. Há aqui uma podridão e a origem dessa podridão está no Mago Cinzento, e eu prová-lo-ei.  Tenho que o provar. A presença do mensageiro prova isso mesmo. Tenho que pôr a nu os segredos de Apolon.

               Pois se ele não fosse bem sucedido nisso, algo lhe dizia que Apolon não toleraria as suas acções e interferências por muito mais tempo...

 

APOLON

               Apolon sorriu, um pequeno sorriso onde não havia vestígios de felicidade. A felicidade era para os idiotas que davam valor a esses prazeres efémeros. Sorria meramente como reflexo da satisfação que sentia no progresso dos seus planos até ao momento.

               Leopold estava agora numa situação em que poderia ser eliminado. Não havia ninguém a supervisioná-lo directamente e uma liberdade tão pouco habitual certamente que o empurraria tentadoramente para comportamentos impulsivos e idealistas. Com um pouco de sorte, desafiaria Cathal e se Balthasar tivesse que escolher entre apoiar o general que arquitectara tantas vitórias ou o seu sentimentalão (e um tanto inconveniente) filho... bem, não havia qualquer dúvida no espírito de Apolon para que lado o imperador penderia. No mínimo, Leopold seria banido para um local inóspito e longínquo, onde Apolon poderia eliminar o príncipe quando fosse mais conveniente. Na melhor das hipóteses, o próprio imperador mataria o idiota, partindo do princípio que Leopold estava a tentar apoderar-se do trono. Havia sempre a possibilidade de aquelas muitas suspeitas que ele plantara, sobre os rapazes e a sua impaciência por governar, tivessem finalmente ganho raízes na mente do imperador.

               Pelo menos isso era satisfatório. A busca das três mulheres da família real, contudo, não estava a correr bem.

               O sorriso de Apolon desapareceu. Das três, a mais nova, a princesa Shelyra, era a mais importante para os seus planos, pois era ela que tinha aquilo de que ele precisava. Poder potencial, não poder secular, mas mágico; todas as mulheres possuidoras do Talento o tinham, numa espécie de reserva, até a mudança de idade, mas as da Casa do Tigre tinham-no mais abundantemente do que quaisquer outras que ele tivesse encontrado.

               Um homem podia fazer magia em qualquer idade, desde que se mantivesse casto, mas o poder de uma mulher nunca era mais do que um potencial até ao fim da sua fertilidade. Então, como que recompensando-a por ter sido mantido durante tanto tempo em suspenso, este florescia, tornando-se mais forte com o avanço da idade; tão forte que, muitas vezes, as mulheres que desabrochavam tão tardiamente, se tornavam mais poderosas do que os magos masculinos que tinham praticado durante toda a sua vida.

               Adele, a rainha-mãe... já deveria ser uma maga em todo o seu potencial, provavelmente já o era há alguns anos, visto ter abdicado em favor da sua filha. Felizmente para Apolon, dizia-se que a sua saúde estava em muito mau estado; na verdade, tivera um colapso depois de a cidade ter sido entregue a Balthasar. Ainda estava, provavelmente, escondida nos claustros do templo, prestes a morrer. Isto de acordo com o relatório feito por Leopold. Como todos aqueles cujos poderes nasciam das Trevas, Apolon tinha dificuldade em olhar para a Luz e não conseguia determinar números nem força quando estavam juntos mais do que dois magos da Luz. Mas se a sua sorte não o abandonasse, ela morreria; poderia ser considerada fora do jogo.

               A antiga rainha, Lydana... se não conseguisse apanhar Shelyra, teria que servir. Devia estar muito próxima de ficar na posse dos seus poderes; no entanto e por isso mesmo, a energia do potencial seria muito, muito mais pequena. Todos aqueles anos que ela já vivera e que Shelyra ainda não gozara, esses anos tornariam as vantagens a tirar dela muito menores do que a tirar da mulher mais nova. E tinha sido casada, por isso já não era com certeza virgem, o que era mais um defeito, no que lhe tocava a ele. Se não conseguisse obter a princesa, procuraria mais seriamente a rainha, mas por agora concentrar-se-ia na rapariga.

               Sim, na donzela. Lambeu os lábios, saboreando a ideia, mas não por quaisquer razões carnais. Apolon não atribuía qualquer utilidade aos prazeres carnais; esses eram efémeros e não tinham qualquer significado, eram fachadas ocas para tentar os imbecis. O único prazer real e eterno era cerebral e temporal: saber e poder. A utilidade de Shelyra não era servir a libido de ninguém; certamente não a de Apolon.

               Primeiro, o enorme potencial de Talento contido dentro dela. Segundo, a energia dos seus anos por viver, sessenta, ou coisa parecida, se se tivesse como referência as longas vidas dos seus antepassados. Terceiro, a energia da virgindade, que era a razão por que rapazes e raparigas virgens eram tão preferidos como ofertas pelas Trevas. Se ele pudesse oferecer ao Senhor das Trevas a tenra e intocada Shelyra...

               Quando ele oferecesse a princesa ao Senhor das Trevas, não haveria nada que pudesse pedir que não lhe fosse concedido. Tudo o que conseguira até àquele momento não passaria então de um punhado de berlindes comparados com a coroa imperial. Pois desde o momento em que tivera aquela ideia, a Sombra murmurara-lhe continuamente no espírito promessas que o faziam sentir-se desfalecer de antecipação. Em breve essas promessas se tornariam realidade!

               Apolon recostou-se na sua cadeira de campanha e pensou no dia em que aquela cadeira se transformaria num trono e ele reinaria sobre o Império em nome do seu amo. Seria um bom dia quando os seus servos lhe trouxessem todos aqueles que alguma vez o tivessem contrariado ou insultado, lançando os corpos decapitados no chão a seus pés, até a carpete estar tingida de vermelho com os rubis do seu sangue.

               Penso que manterei Cathal. Ele diverte-me. E não se rala com quem é que segura a trela, desde que as suas extravagâncias lhe sejam permitidas.

              Bem, já chegava daqueles pensamentos. Havia trabalho a fazer. Fez sinal a um dos seus servos, um dos lacaios de casaco negro que agora infestavam a cidade, procurando as três mulheres de Merina e recolhendo todo o tipo de informações que pudesse ser útil ao seu amo. Este, que esperara durante uma hora que o seu amo tivesse tempo para ouvir o seu relatório, estava vivo; metade dos seus servos viviam. Os mortos não eram tão espertos como os vivos.

               - Encontraste aquilo de que preciso? - perguntou. - Localizaste as mulheres?

               O homem abanou a cabeça, prostrando-se na carpete aos pés de Apolon.

               - Não amo. Elas podiam nunca ter vivido; não há sinais delas. Mas encontrámos as outras pessoas que queríeis e cumprimos a outra tarefa que nos destinastes: colocámos as Flores de Fogo nas casas, como dissestes. Podeis fazer deles exemplos quando assim o desejardes. Esta gente em breve perceberá como é idiota opor-se ao vosso poder e ao imperador.

               Apolon inclinou-se para a frente e abriu um mapa da cidade de Merina, com cada rua e canal marcados de forma clara. Colocou-o na carpete em frente do seu servo.

               - Mostra-me - exigiu. - Dize-me os seus nomes, o que fizeram, e descreve-os para mim.

               Havia sempre a hipótese de um daqueles que ele decidira tornar em exemplos fosse uma das três mulheres desaparecidas. Elas não se conseguiriam esconder eficazmente. Estava certo disso. Não conseguiriam ser humildes e suportar os abusos dos seus servos com o adequado medo servil. Não tinham sido educadas para ser servis; atacariam, pelo menos verbalmente. Não o poderiam evitar.

               Quando o criado começou a sua recitação (todos os seus servos tinham boas memórias, ou não eram seus servos durante muito tempo) ele ouviu-o atentamente. Mas a maioria dos cidadãos rebeldes eram homens; só havia um punhado de mulheres que demonstravam ter alguma coluna vertebral.

               - ... Matild, filha de Ranskin,  uma vendedeira de contas no Pátio de Stingray; é de meia-idade mas elegante e forte, e é conhecida por manter frequentemente relações com marinheiros.  Os rumores dizem que ela contou o capitão Saxon entre os seus amantes. Respondeu mal aos homens que foram fazer a colecta da taxa e é insolente na postura quando o não é nas palavras.  Todos os outros no Pátio de Stingray têm medo dos vossos servos, mas ela não evidencia qualquer medo e pode muito bem, a qualquer altura, organizar uma rebelião. É conhecida por freqüentar tabernas de marujos, onde a agitação é grande. Os carneiros do bairro dela estão claramente dispostos a aceitar as suas ordens e ela parece disposta a dizer-lhes o que fazer.

               - Essa Matild... - Apolon debruçou-se novamente, as sobrancelhas juntas num franzir de sobrolho. - Poderia ser a Lydana disfarçada?

               Mas o homem abanou a cabeça.

               - Não. Tem cabelo preto e o aspecto de uma mulher que concede muito facilmente os seus favores. A tonta daquela rainha tímida desmaiaria se alguma vez encontrasse alguém como essa Matild. E é demasiado velha para ser Shelyra e muito mais nova do que Adele.

              - Então não passa de mais uma bruxa intrometida. Muito bem. - Apolon fez um gesto com a mão, despedindo o criado. - Não te portaste bem, visto ainda não teres localizado nenhuma das mulheres do Tigre, mas também não mereces castigo. Vai... e vê se és mais enérgico nas tuas buscas. Para a próxima, espero um relatório mais satisfatório.

               O homem saiu, transpirando de alívio. Apolon permitiu-se mais um pequeno sorriso. Os seus castigos eram na verdade muito pouco frequentes e muito menos frequentes e brutais do que os de Cathal, por exemplo. Há muito que aprendera que o medo do castigo era mais eficaz do que o próprio castigo.

               Um vento frio entrou pela porta da tenda, o que transformou o seu sorriso num franzir de sobrolho. Não apreciava nada aquele modo de vida e era difícil praticar as suas magias sem qualquer tipo de segurança, que era o que acontecia ali onde qualquer um podia entrar a meio de um dos rituais. Mesmo que já tivesse conseguido ter acesso ao quarto da princesa, não teria podido usar o que quer que ali encontrasse; os seus rituais pertenciam muito obviamente  às Trevas, pois todos eles exigiam o derramamento de sangue. Teria de arranjar maneira de fazer com que Balthasar se mudasse para a cidade no dia seguinte ou no outro. Podia então requisitar a tal casa, a do Javali; embora, se isso não fosse possível, fosse divertido ficar com a do Tigre: despejá-la de tudo e todos e equipá-la com os seus criados e as suas ferramentas. Poderia então trabalhar; encontrar um objecto qualquer que tivesse pertencido às mulheres e usá-lo para as localizar; isso se elas não se tivessem já protegido contra esse tipo de coisa. Não usara imediatamente a sua magia para as encontrar, simplesmente porque partira do princípio que elas tinham esse tipo de protecção. Mas do que necessitava realmente era de instalar novamente o seu “centro de recrutamento”; estava a perder servos, numa sangria lenta mas constante, à medida que estes eram emboscados por uns quantos rebeldes que tornavam alguns em inúteis para o seu serviço e faziam desaparecer totalmente outros, provavelmente lançando-os aos canais. Precisava de reforçar o seu fornecimento e para isso necessitava de um local seguro e com uma privacidade que lhe permitisse transformar idiotas mortos em servos mortos-vivos.

               Balthasar era tolerante, mas havia coisas que nem mesmo ele toleraria, e a necromancia 5 era uma delas. Ele poderia talvez adivinhar o que o seu Mago Cinzento fazia, mas nunca perguntaria, para poder afirmar não ter qualquer conhecimento. Mas se se tornasse do domínio comum que Apolon não era Cinzento, mas Negro... bem, o imperador não toleraria, não se atreveria a tolerar,

 um necromante ao seu serviço. O que Apolon fazia numa base regular era contrário a todas as leis do império e Balthasar mandaria chamar, ainda que contrariado, o carrasco.

               Na realidade, se conseguisse encontrar uma das duas mulheres que procurava, precisaria de uma casa que tivesse uma sala à prova de som onde pudesse invocar o seu amo. Esse gênero de coisa não se fazia ao ar livre! Os riscos que corria ao executar os ritos em segredo já eram suficientemente aterradores!

               Seria esse, portanto, o seu objectivo imediato. Despoletar as Flores de Fogo para amedrontar aqueles carneiros com o seu poder. Fazer com que Balthasar se mudasse para a cidade e encontrar uma casa para si próprio. Tirar Leopold do caminho. Recrutar mais casacos negros. Encontrar as mulheres.

               Na verdade, caso os seus lacaios conseguissem localizar Shelyra ou Lydana, devia deixar as mulheres onde estavam até ter conseguido arranjar uma casa. Não valia a pena apanhá-las até ter um sítio para as guardar; correria o risco, nessas circunstâncias,  de Balthasar descobrir que as tinha em seu poder.

               Assentiu para consigo próprio, convencido de que tinha os melhores planos possíveis de momento. E convencido de que tudo correria conforme os seus planos. Afinal de contas, ele não estava a fazer tudo isto sozinho.

               Tinha ajuda, não tinha? Era do maior interesse do Senhor das Trevas assegurar-se de que o seu servo não falharia. Apolon não lhe pediria ajuda, pois isso faria com que a sua dívida aumentasse para com o seu amo, mas quando essa ajuda viesse, certamente que não a recusaria.

 

LYDANA

               Estava dentro de água, mas não nadava; parecia antes flutuar atabalhoadamente. Virando um pouco a cabeça, olhou para uma cara de horror, em que todas as feições tinham sido esmagadas e destituídas de qualquer forma humana. Matild gritou e deu aos braços, tentando com todas as suas forças afastar-se daquilo.

               - Senhora! - Alguém a abanava fortemente e ela agarrou-se às mãos que a seguravam, na esperança de assim se poder afastar daquela coisa flutuante.

               - Senhora! - Pestanejou e olhou para a cara da mulher a quem Jonas chamara Dimity, abafando um soluço. - Ele estava morto... - disse ela com a voz entrecortada - estava morto e fui eu quem o matou.

               Apesar de na altura o seu acto ter parecido o mais lógico e, mesmo quando tinham enviado os corpos para o canal, não ter sentido que estava a abandonar um homem à maré que enchia... agora tudo aquilo descia sobre si.

               Dimity já não tinha posta a meia-máscara que usara na noite anterior, não, duas noites antes. Ou teria sido há mais tempo... era difícil distinguir os dias das noites. Pareciam fundir-se todos num único pesadelo, num ciclo infinito de trabalho e conspiração, no qual ela não dormia o suficiente. Aquela vida dupla que levava era imensamente extenuante: a tensão de se esgueirar, sem ser descoberta, de volta à sua loja todos os dias; de ver os casacos negros a observá-la... tudo isso estava a esgotar as suas forças.

               Dimity tinha um rosto jovem e agradável, mas os seus olhos perspicazes e vividos e as suas mãos calorosas, continuaram a envolver Matild.

               - O teu primeiro, hem? - perguntou. - Bem, afecta-nos a todos da mesma maneira. Mas era capaz de jurar que não tiveste outra escolha, pois não?

               Até que ponto teria ela sofrido uma transformação? Por duas vezes na sua vida assinara sentenças de morte e sentira apenas que cumpria o seu dever, mas isto era diferente. Passou uma mão pela boca que tremia.

               Dimity já a largara e apontava um tabuleiro pousado numa mesa, um tanto periclitante, no santuário de Jonas.

               - É melhor comeres, senhora. Thom e Eel trouxeram-te o que querias e o Thom já se foi embora outra vez. Todos temos trabalho a fazer.

               Matild lavou-se numa bacia de água fria que, aparentemente, a mulher também trouxera e depois, sentindo-se ainda a tremer por dentro, lutando com todas as suas forças para varrer a recordação do seu sonho, sentou-se obedientemente para comer.

               Era comida grosseira, mas descobriu que a fome era um bom condimento para o mais primitivo dos pratos e esvaziou totalmente uma malga de papas um tanto encaroçadas e comeu uma salsicha com um cheiro muito forte, entalada entre duas fatias de pão seco.

               Dimity fez um aceno em resposta aos seus agradecimentos e voltou a desaparecer, mas Matild reparou então que, ao lado do tabuleiro, estavam a caixa e a pequena arca que descrevera  a Thom.

               Embora o edifício da taberna fosse velho e estivesse certamente  a precisar das reparações impostas pela lei, não conseguia ouvir qualquer movimento na sala exterior. Não havia qualquer cadeado ou fechadura na porta; teria que se arriscar a ser interrompida.

               Passando o tabuleiro para o chão, Matild chegou-se mais para a mesa, tanto quanto o banco lho permitia. Tinha tirado o cinto e remexia nos seus compartimentos, recordando o local exacto onde cada pedra estava guardada.

               O chanceler era um homem ganancioso, logo o que mais o tentaria seria uma descoberta espectacular: o diamante de Asusars. Retirou essa jóia do seu esconderijo.

               Durante todos os seus anos de profissão, Matild trabalhara com muitos diamantes, mas nunca gostara dessas pedras, preferindo as pedras coloridas, mesmo aquelas que não eram tão valiosas, como as opalas, com um centro de fogo e de um azul gelado; ou até as pedras de lua com as cores do arco-íris, sobre cuja superfície as cores brincavam, da mesma forma como estavam encerradas na estrutura da opala. Havia ainda o jade, que escorregava tão suavemente por entre os dedos, os rubis, as safiras...

               De alguma forma conseguiu, por uns instantes, ver espalhadas na sua frente todas as suas favoritas, em vez da única pedra brilhante que parecia emitir um frio quase palpável. Mas aquela era, ao valor do mercado, uma pedra pela qual os homens combateriam sempre. Se tivesse o aspecto que, merecidamente, deveria ser o seu, estaria vermelha do sangue de vários séculos de mortes pela sua posse.

               A um homem ganancioso como aquele, destinaria uma pedra que, devido à lenda, simbolizava a própria cobiça, cobiça das vidas que pela sua posse tinham sido trocadas.

               Matild abriu o seu estojo de trabalho e a caixa de ferramentas. Um dos compartimentos continha uma série de bases velhas, algumas antigas mesmo, para anéis e alfinetes de peito. Muitas vezes aquelas peças eram vendidas pelo preço do metal, mas ela sempre inspeccionara aquele género de mercadorias, ficando frequentemente com um ou outro cujo desenho achava curioso.

               Um anel, visto ser para um homem. Escolheu de entre a meia dúzia de anéis velhos. Prata não, embora para ela, aqueles que ali tinha fossem valiosos devido ao seu padrão. Só o brilho do ouro poderia adequar-se àquilo, àquela pedra espalhafatosa de gelo amaldiçoado.

               Agora dependia do tamanho, de quão bem se poderia adaptar à base. Escolheu uma aliança grossa de ouro verde, sem qualquer enfeite, excepto em torno do engaste onde ficaria a pedra. Aí tinham sido gravados, com uma perícia minuciosa e esmerada, uma fina rede de pequenos ramos. Matild pegou numa ferramenta e iniciou a tarefa delicada de formar um leito para receber o diamante no seu ninho. Colocara o diamante de parte, agora já preparado e pronto, quando um rangido no soalho a fez virar a cabeça.

               Eel, com um grande pedaço de pão e uma salsicha na mão, os quais comia vorazmente, irrompeu pela sala. Os seus olhos pousaram na mesa e quando se juntou a Matild, sentou-se do lado oposto, tão longe do anel agora acabado quanto lhe foi possível. Nos primeiros tempos, quando Eel se tornara no seu aliado de mais confiança, descobrira que ele era ainda mais sensível a jóias malignas do que ela própria e que por vezes as descobria mais rapidamente em qualquer carregamento que tivesse a infelicidade de as incluir.

               - Vais ser generosa? - Comeu mais um pouco da salsicha. - Quem é o infeliz contemplado?

               Matild sorriu.

               - Eel, pensei que seria adequado ao chanceler. Diz-se que ele gosta deste género de coisas.

               Eel sorriu.

               - Não se tiver algum juízo, mas quem é que alguma vez disse que ele tinha? Mas... tenho uma história para te contar...

               Encostou-se à mesa e levou algum tempo a engolir a última dentada, tendo comido muito mais do que alguém jamais pensaria ser possível.

               - O capitão e alguns outros, estão mesmo na Casa do Javali. E não são os casacos negros quem os vigia. São mercenários: homens de Lakqua, acho eu. Assim como os homens da guarda do general são de Lakqua. Mantiveram alguns dos criados para maltratar, mas a senhora e as filhas foram postas na rua ao mesmo tempo que levaram o mestre para o enforcar. Não é nenhum boato; eles são muito directos a esse respeito: ele foi enforcado porque não quis entregar-lhes a espada de Gideon. Dizem que um mago fez um feitiço que a colou àquele sítio para sempre, por isso tentaram arrancar-lhe o segredo. Mas não conseguiram. Provavelmente ele não o sabia.

               Qualquer cidade tão antiga como Merina tinha os seus heróis e heroínas e as suas preciosas relíquias de tempos passados. As acções podiam ser distorcidas para lá da verdade dos factos, transformadas em milagres por anos de serem contadas e recontadas.

               - A espada de Gideon... - repetiu ela baixinho.

               Merina tivera uma vez um inimigo que, à sua maneira, fora bem mais devastador do que o imperador se revelara até ao momento. Um estudioso do conhecimento que fora mais do que um mago, e do que um iniciado, e que profanara todas as fontes da Luz. Existira um homem (ou um ser angélico que assumira a forma de um homem) que travara uma portentosa batalha com esse homem, Iktcar. O das Trevas fora morto apesar de todas as suas artes, mas o salvador desaparecera também; ficara apenas a sua espada. Alguns quiseram levá-la para o templo. Mas as opiniões tinham-se dividido a esse respeito: uma arma (não importava quão bem os tivesse servido a todos) não era, na opinião da grande sacerdotisa da época, para ser pendurada num local de paz e serenidade.

               Visto que o homem que se autodenominara Gideon fora um trabalhador da Casa do Javali até ao dia em que forjara a sua espada e partira para a sua última batalha, aqueles que trabalhavam o metal tinham-no declarado santo e pendurado a espada, protegida por todos os meios que conseguiram arranjar, na casa da sua Guilda.

               - O general. Ele já foi duas vezes assistir às tentativas dos trabalhadores do acampamento para a desalojar. Agora eles pensam que ele vai tentar novamente, destruindo a vitrina.

               Matild olhou para as pedras da danação. E se Cathal, para além da espada, levasse também algo de mais potente? Havia uma possibilidade de que... Depois lembrou-se da viúva do mestre.

               - E a Senhora Fortuna? - Talvez, se o seu marido tivesse estado na posse do segredo, ela estivesse disposta a revelá-lo para aniquilar os seus assassinos...

               -- Pediu asilo aos Servos dos Pobres - respondeu Eel prontamente. - Tem que se manter no interior dos portões, pois teme ser presa... ou que uma das suas filhas...

               Muito bem... talvez ela soubesse mais do que aquilo que tinham suposto. Quanto tempo levaria a Cathal, famoso pelas suas atrocidades, a desafiar até o templo para a apanhar? Tinha a certeza de que o general não era nenhum respeitador do Coração como, pelo menos fingia ser, o imperador.

               Eel foi mais uma vez ao encontro das suas ideias.

               - Têm um guarda no claustro, lá isso têm, mas não é um casaco negro. Por agora ela está a salvo.

               Matild assentiu. A sua mente estava já ocupada com uma segunda tarefa. Outro anel? Não, a pedra que tinha em mente era demasiado grande para os anéis que tinha consigo. Mas reparara que os oficiais da coroa imperial usavam todos uma espécie de guarda de metal no punho esquerdo; uma banda metálica larga, que podia ser utilizada como escudo em alguns tipos de combate corpo a corpo.

               Tinha um protector do arco de um archeiro entre os vários objectos que guardara; um bafo de sorte que dificilmente se atreveria a esperar. Guardara-o por as suas arestas serem finamente decoradas com um desenho que nunca vira. Pegou no objecto e tirou do cinto mais uma jóia. Ouviu Eel suspender a respiração.

               - Essa! Tinhas também essa, senhora!

               - O capitão tirou-a a Frisai quando o derrotou no convés do seu navio em Graise. Sim, eu sei o que é... embora não saiba como foi parar às patas de Frisai. Esta é a Boca de Vor.

               A pedra negra e brilhante estava cinzelada de uma forma estranha. Numa das faces tinha umas linhas gravadas que sugeriam lábios; a imagem de uma boca cerrada. A outra face era uma oval muito suave. Trabalhou rapidamente, mas era um trabalho moroso que requeria toda a sua perícia. Quando o deu por terminado, era a face suave que se mostrava ao mundo; a Boca estava oculta. Não podia saber qual a amplitude dos conhecimentos existentes entre os oficiais do imperador, mas não pensava que o seu estratagema fosse facilmente detectado.

 

SHELYRA

               Shelyra, ou antes, Raymonda, pois era esse novamente o seu disfarce, estava de pé junto a um candeeiro, um pouco afastada do grupo de ciganos e via uma bailarina actuar para um grupo de trabalhadores pouco entusiasmados. Bocejou; fora uma noite muito longa e apesar de ter dormido um pouco mais do que o costume, não descansara o suficiente. Naquele momento tentava avaliar o estado de espírito da cidade. Não era inteiramente satisfatório. Esperara que, por aquela altura, já tivesse havido uma rebelião qualquer, mas Merina parecia acobardar-se, resignar-se, estar disposta a suportar tudo o que o imperador decidisse impor-lhe. A cidade absorvia cada nova agressão, cada novo fardo nas suas costas, limitando-se a baixar mais a cabeça sob o jugo. Não só havia os casacos negros de Apolon espalhados pelas ruas, como também os mercenários imperiais dos pelotões do general Cathal, que impunham nalguns quarteirões os caprichos específicos do seu chefe. Viam-se alguns homens de Leopold, mas não em força; não faziam qualquer tentativa nem para impor mais restrições, nem para controlar os abusos, quer dos mercenários, quer dos casacos negros. Merina não estava sob um punho, mas sob três e a confusão começara a instalar-se à medida que cada um deles impunha as suas próprias leis.

               - Tu aí!

               Uma mão, vinda das suas costas, agarrou subitamente no braço de Raymonda e não foi preciso fingir muito para transformar a sua reacção automática de ataque numa de recuo e medo. O homem que lhe segurava no braço não era um casaco negro, mas sim um dos mercenários. Os primeiros eram mortíferos, mas os segundos eram cães raivosos, totalmente imprevisíveis. Este tinha uma expressão cruel, a boca cheia de dentes podres e um hálito horrível.

               - Que queres tu com a minha prima, hem?

               Um dos seus amigos ciganos interpôs o seu corpo entre Raymonda e o mercenário, forçando-o a largá-la.  Bruno era um homem grande, que conseguia controlar o mais bravo dos cavalos, até mesmo um garanhão espantado, com uma certa facilidade. Até um dos mercenários de Cathal cederia a Bruno, ainda que fosse temporariamente.

               - Ela está por aqui, está vestida como bailarina, mas não dança - rosnou o mercenário. - Então para que está ela aqui? Nós temos leis imperiais para este tipo de mulher... têm que ir para casas imperiais, pagar as suas taxas, estarem onde possam ser vigiadas...

               - Ela não é esse tipo de mulher, gajo - cuspiu Bruno. - Fica com as tuas ideias porcas só para ti! Ela ainda não dançou porque ainda não tocámos música do norte, não é, queridinha?

               Bruno fez-lhe cócegas por baixo do queixo como se faz com as crianças; ela bateu as pestanas, baixou timidamente os olhos e assentiu com a cabeça.

               - Ela dança ao estilo do norte, não faz sapateado... – continuou Bruno. - A música para isso é diferente do estilo flamank.

               O mercenário interrompeu-o.

               - Então, toca música do norte, homem, ou mando-a prender como prostituta! Se ela é mesmo bailarina, é melhor que saiba dançar!

               Raymonda sentiu uma ponta de medo e ficou satisfeita por não ter saído sozinha do Bairro Cigano. Este grupo era suficientemente grande para a proteger, de momento, mas se se tivesse aventurado sozinha pelas ruas...

               Bruno avaliou a disposição do mercenário, concluiu que tinha ido um pouco longe demais e fez sinal aos músicos.

               - Zigan do norte, rapazes! E isso bem alegre!

               E isso bem alegre; quanto mais depressa eu me mexer, menos óbvios serão os erros que fizer e se este bruto conhecer o estilo do norte, não reparará que não faço todos os passos, se me virar com rapidez suficiente e fizer muitos gestos. Pelo menos assim espero.

               Raymonda pôs-se em posição no centro do grupo e manteve-a durante as frases introdutórias. Ao contrário do estilo da dança do sul, que também começava com uma pose estilizada, mas com uma postura orgulhosa, ela ergueu os braços por cima da cabeça, curvados e entrelaçados, com as costas ligeiramente arqueadas. Depois a melodia começou muito vivamente e ela seguiu-a. Dobrava-se e dançava como um salgueiro ao vento; girava como um turbilhão, as saias volteando ao redor dos seus pés num permanente cambiante de cor e movimento. A música sulista era composta sobretudo pela guitarra e pelas palmas que a acompanhavam; a nortenha era tocada com violinos e tamborins.

               Os bailarinos de flamank desafiavam-se mutuamente e às suas audiências com uma pose orgulhosa e passos rápidos de sapateado; os zigan do norte dançavam com sedução e cativavam, imploravam, dobrando-se e ondulando agilmente, afastando-se e girando sobre si. Onde o flamank era todo ele fogo, o zigan era água e ar.

               Um dos outros, um homem que ela mal conhecia, saltou para junto de si no interior do círculo. Agora já era mais fácil dançar; ele podia estabelecer um padrão para ela se guiar e ajudava-a nas voltas e nos saltos mais ousados. Ela entregou a dança nas suas mãos, agradecida, e seguiu os comandos subtis que o corpo dele lhe dirigia.

               O ritmo aumentou, cada vez mais rápido, e os dois giraram e curvaram-se, rodando em torno de um centro invisível que os mantinha unidos. Ela começou a ficar cansada; a respiração saía-lhe em assobios pela boca; uma dor crescendo no seu flanco; os pulmões ardendo-lhe de cansaço. O suor corria-lhe pelo rosto e mesmo assim a música continuava, empurrando-a a si e ao seu companheiro cada vez mais, e mais...

               Até que por fim parou, e as suas forças esgotaram-se com o fim da música. Caiu aos pés do parceiro no tradicional final das danças zigan. Ficou deitada no empedrado, o rosto escondido pelos cabelos, esgotada e a arquejar.

               Não se ouviram aplausos, mas ela também não os esperara. Limitara-se a sentir-se grata por ter chegado ao fim sem quaisquer erros graves. Deixou-se ficar ali, onde estava, enquanto recuperava a respiração e a dor no flanco abrandava. Quando se sentiu pronta a erguer-se de novo, uma mão tocou-lhe no ombro e ela olhou para o rosto do parceiro, vendo-o sorrir e oferecer-lhe a mão. Ela aceitou-a.

               - Danças bem, irmã de pacto - murmurou ele na língua cigana. - Quase tão bem como a minha mulher. Lembra-me de lhe pedir que te ensine alguns passos quando voltarmos para o acampamento. - Lançou um olhar para os mercenários mal humorados e para a multidão sombria. - Penso que isso está para breve, não temos nada a ganhar aqui.

               - Vês? - retumbou a voz de Bruno no silêncio. - Ela dança. Estás satisfeito?

               Contrariado, o feio mercenário arreganhou os lábios num rosnido.

               - E então? Se calhar, levo-a na mesma. A tal da rapariga, a Shelyra, desapareceu... se calhar ela é a Shelyra...

               Raymonda sentiu-se gelar e a sua mão dirigiu-se à faca que tinha escondida. A mão do parceiro apertou-lhe o braço num aviso.

               Mas antes que alguém pudesse levar a sério tal sugestão, os próprios companheiros do mercenário rebentaram em gargalhadas divertidas.

               - Ah, Guntur, apanhaste sol, ou febre dos pântanos, ou coisa assim! - riu-se um. - Ela? A princesa? Onde é que uma senhora ia aprender a dançar assim? Como é que uma senhora vinha parar ao meio desta escumalha? Roubavam-na de tudo e atiravam-na ao canal e não se falava mais nisso!

               Foi então a vez de Raymonda devolver o apertão de aviso no braço do seu companheiro, quando a expressão dele se toldou perante o insulto e tentou dar um passo em frente. Pela ira estampada nos rostos dos outros membros do grupo, estes controlavam a sua fúria com alguma dificuldade.

               Eles só querem provocar uma briga para terem uma desculpa para nos meter na prisão a todos; querem entrar nos nossos acampamentos e neste momento não têm uma desculpa para arrombar os portões e entrar.

               Não deve ter sido ela a única a pensar assim, pois mais uma vez, Bruno deu um passo em frente e cuspiu nas pedras com desprezo, mas não perto dos mercenários.

               - Bah! Só há aqui idiotas que não sabem distinguir um bom artista de um urso dançante.

 Vamos para casa, pelo menos lá somos apreciados. Vamos embora, irmãos!

               Caminhou na direcção do acampamento e sem qualquer hesitação, os restantes arrumaram as suas coisas e seguiram-no, com Raymonda escondida no meio das outras mulheres; o seu par agarrando-lhe o braço bem no meio do grupo. Ela agora transpirava, já não de cansaço mas de medo e sentia-se quase desfalecer de alívio. Tinha sido por pouco, muito pouco! Só o raciocínio rápido de Bruno e dos outros homens a salvara; isso e também a sorte.

               Mas com as garras da armadilha a fecharem-se sobre si, durante quanto tempo poderia esperar que a sorte durasse?

 

LYDANA

               Não tinha a noção de quanto tempo estivera a trabalhar. Eel desaparecera havia já algum tempo e ela registou esse facto apenas vagamente. Durante a maior parte do tempo o trabalho exigira uma concentração total, mas os seus pensamentos não paravam de voltar a Saxon e à espada de Gideon. Saxon teria que ser liberto e a espada... a espada teria que ser transformada numa arma, ou pelo menos assim o esperava, que pudesse ser de novo usada na salvação da gente de Merina. Recostou-se, distendeu os dedos doridos e endireitou os ombros, sentindo a rigidez e a dor que a posição que assumira ao trabalhar tinham provocado.

               A sua mãe avisara-a contra os riscos que corria ao utilizar aquelas pedras de mau augúrio. Mas não as estava a utilizar de forma activa, como um mago faria, usando feitiços e outros meios

semelhantes na tentativa de aumentar o seu poder maligno. Ela estava meramente a colocá-las no caminho de homens para quem podiam muito bem ser atraentes, deixando o resto aos desígnios do Poder Eterno, esperando que o estratagema resultasse.

               - Já acabaste? - era novamente Eel, fechando cuidadosamente a porta atrás de si.

               - Sim. - Matild espreguiçou-se e voltou a distender os dedos.

               - Então é melhor vires cá fora para ouvir isto.

               Abriu a porta e fez-lhe um gesto para que o seguisse. Matild enrolou a faixa em torno de si e fez uma trouxa com o punho metálico e o anel. Deparou-se-lhe uma cena buliçosa na taberna. Homens e mulheres estavam sentados a conversar, mas um após outro iam-se levantando e aproximando de Jonas, que estava sozinho sentado a uma mesa mais pequena. Tinha na sua frente, em cima da mesa, uma corda com vários nós e Matild reconheceu a forma de registo utilizada pelos marinheiros que, muitas vezes, não tinham nada com que escrever.

               Quando viu Matild, fez-lhe um sinal. O homem que estava a acabar de falar com o taberneiro lançou-lhe um olhar de soslaio, mas não foram feitas quaisquer apresentações.

               - Há tantos problemas que dava para usar um rolo de corda inteiro. - Jonas abanou as cordas na sua frente. - Aqueles tipos dos casacos negros têm a cidade a suar as estopinhas. Escuta, senhora,  sabes mais dos conhecimentos antigos do que qualquer um de nós -- já alguma vez ouviste falar de mortos-vivos?

               O rosto de Jonas estava muito tenso, e ela viu ali mais qualquer coisa, um brilho qualquer (seria medo?) nos olhos encobertos pelas sobrancelhas hirsutas.

               - Mortos-vivos?

               Um arrepio gelado percorreu-a da cabeça aos pés; os conhecimentos antigos, sim. O que seria lenda e o que seria verdade após o passar dos séculos?

               - Ali o Raster - continuou Jonas, como se tivesse que passar aquela informação horrorosa tão depressa quanto possível - é um homem esperto e não é tipo para ver fantasmas a cada esquina. Viu ontem um casaco negro que jura ser um companheiro dele que foi morto à facada há um ano, em Ulpar, numa briga com uns arruaceiros de um dos barcos do imperador. O Raster jura que esse tal Guloper morreu; ninguém se levanta e anda com a garganta cortada de um lado ao outro. E, no entanto, o Raster chegou aqui a bater os dentes de medo, porque viu esse Guloper a patrulhar a praça do templo. O Raster não está bêbado, e não é doido; embora possa ficar uma das duas coisas dentro de pouco tempo. Dois dos amigos dele tiveram que o levar para ali - indicou uma mesa no canto oposto da sala - e dar-lhe de beber antes que o homem enlouquecesse à nossa frente.

               - Necromancia... - a voz de Matild era pouco mais do que um sussurro. - Mas... essas imundícies foram expulsas do mundo há muitos anos, quando Iktcar morreu sob a espada da Luz.

               - Não sei o que lhe chamas, senhora... nós dizemos que é trabalho do diabo. Os rapazes - rolava as cordas cheias de nós entre as palmas das mãos - têm dado cabo de um ou outro casaco negro aqui e ali, discretamente e quando as culpas não podem ser deitadas para cima de quem não sabe nada do assunto. Mas não se pode voltar a matar um homem se ele já está morto, ou pode?

               Matild tentou clarificar as suas ideias.

               - Isso tem que ser levado ao conhecimento da grande sacerdotisa. Pensou durante alguns instantes e depois falou com maior firmeza: - A Dimity... ela está por aí?

               Jonas ergueu a voz, fazendo-a soar como um sino das docas.

               - Dimity, rapariga!

               A mulher levantou-se de um dos bancos e aproximou-se. Matild estudou-a com olhar crítico. Aquilo que ela era, era evidente: uma mulher das docas, mas o Grande Poder não recusava ninguém quando buscava o bem geral. Ninguém ficaria surpreendido por alguém como ela ir ao confessionário do templo.

               A mulher olhava-a com perspicácia, como se tivesse percebido imediatamente quem queria falar com ela.

               - Então? - incitou-a.

               - Vem comigo.

               Matild pôs-se de pé abruptamente e dirigiu-se para a sala escura que Jonas lhe emprestara. Uma vez a porta fechada, falou rapidamente.

                - Já ouviste falar nesse morto-vivo?

               A mulher piscou os olhos escuros. A sua mão direita ergueu-se e fez rapidamente o sinal do Coração.

                - Já todos ouvimos.

               - Mas outros há que têm que saber disso - disse Matild. - Há quem esteja melhor equipado do que nós contra as coisas horríveis que isso pressagia. Vai ao templo e dirige-te ao terceiro confessionário à direita a contar do altar. Quando a reverendíssima te chamar, dizes-lhe o seguinte: “A raiz é profunda, a árvore ergue-se bem alta, o grande felino segue o seu caminho”.

               Dimity repetiu rapidamente a frase e Matild assentiu. Achara logo, assim que a vira, que a mulher das docas era esperta e merecedora de confiança.

               - Quando a reverendíssima te reconhecer, conta-lhe a história do Raster. Os protectores têm que saber disto.

               Dimity acenou o seu assentimento.

               - Isso é fácil, senhora. Os corvos agoirentos andam para aí à solta, mas até agora ainda não tentaram afastar ninguém do templo. - Hesitou e depois prosseguiu: - Agora vai lá muita gente, mulheres a quem levaram os maridos e outros que têm medo. A Promessa do Coração... é talvez a única coisa que nos resta. Mas manter-nos-emos fiéis ao Coração e à Luz, aconteça o que acontecer.

               Foi-se embora no meio do turbilhão das suas saias. O melhor era deixar Dimity entregue à sua tarefa. Matild tinha que enfrentar um problema bem mais delicado. Olhou para o fato que tinha vestido desde que saíra da loja de contas. Torná-la-ia demasiado conspícua. Voltou a ir ter com Jonas...

               Encontrou-o mergulhado numa grande conversa com Thom, que tinha as mãos pousadas na mesa e se inclinava para a frente para que os seus murmúrios pudessem ser ouvidos. Jonas viu-a e fez-lhe sinal para que se lhes juntasse.

               Thom estava com um ar contrariado quando ergueu o rosto para a encarar.

               - Uma miúda terrível, aquela com que me deixaste - quase explodiu, mas manteve baixo o tom de voz. - Bem te avisei que ela se ia meter em trabalhos. Não aceita os avisos de ninguém. E já começam a espalhar-se os rumores de que o palácio está assombrado e tudo graças a ela.

               Matild suspirou. Pensara que Thom seria o tipo de companheiro que a sua voluntariosa sobrinha aceitaria, devido ao seu espírito aventureiro. Mas parecia que ambos viam aquela associação forçada como um empecilho. Fosse como fosse, ela tinha trabalho para ele. Do cinto tirou o anel de diamante. Thom susteve a respiração e Jonas soltou um pequeno soluço de admiração.

               - Isso é o resgate de um general. - A mão de Thom ergueu-se como que pronta a aliviá-la de tal fardo.

               - Ou um presente digno  de  um  chanceler - replicou ela calmamente. - Não tenhas orgulho nele, Thom Talesmith; alguém tão versado em jóias como tu deve saber que algumas trazem a má sorte e a tragédia a quem as usa.

               Os olhos dele semicerraram-se.

               - E a Casa do Tigre - disse muito baixinho - tem uma reserva delas. Não, eu não quereria uma pedra como essa.

               - Só tens que a levar a Shelyra - ordenou-lhe ela. - Dize-lhe para fazer com que vá parar às mãos do chanceler. Se ela anda a assombrar o palácio, então que tire disso todas as vantagens possíveis.

               Ele não agarrou o anel, usando uma das cordas de Jonas para o segurar.

               - Passa-se qualquer coisa que não é resultado das nossas acções - disse ele enquanto enfiava o anel na bolsa. - Os homens das Guildas estão a começar a pensar como homens e não como comerciantes tímidos; há armas que desapareceram. Alguma coisa se está a preparar em Merina, muito pior do que qualquer saque.

               Jonas sorriu.

               - Bem - bateu com as cordas no tampo da mesa - baralharemos as coisas o mais que pudermos. Senhora, precisamos do capitão!

               - Sim. E vou dar o primeiro passo nessa direcção. Jonas, arranja-me roupas que uma pobre viúva pudesse usar. Vou ao Convento dos Servos dos Pobres. A Senhora Fortuna refugiou-se lá. Parece que esse santuário tem sido respeitado.

               - E o capitão está na Casa do Javali - concordou Jonas com vivacidade. - Sim, é melhor preparar bem o barco antes de içar ferro. Quanto à roupa... Ei, Wanda!

               A rapariga gorducha, que transportava tabuleiros de malgas com sopa fumegante, pousou o seu fardo e aproximou-se.

               - Dá à senhora o que ela precisar - foi-lhe ordenado.

               Passou-se algum tempo antes de Matild se aventurar a sair da taberna. Estava envolta numa saia comprida e suja de terra e num xaile encardido puxado por cima da cabeça. Felizmente

que os claustros estavam situados no local onde os religiosos eram mais necessários, numa das ruas mais pobres que ficava próxima da taberna.

               Quando avistou o edifício, viu um grupo de crianças da rua, entre elas o Eel, e uma ou duas mulheres junto da porta, e percebeu que era àquela hora que havia distribuição de pão. Visto os Servos dos Pobres terem sido uma das instituições de caridade que ela mais favorecera quando habitava o palácio, conhecia bem os seus membros e tinha boas relações com a reverendíssima, a religiosa Zenia.

               Também se viam casacos negros de vigia, mas do outro lado da rua. Adoptou um passo incerto e aproximou-se da orla do grupo dos pedintes que aguardavam. A porta mais pequena abriu-se e a religiosa Papania saiu com um cesto enorme na sua frente. Matild reparou que os guardas se aproximaram um pouco e que mantinham a atenção fixa na porta aberta.

               - Em Nome do Grande Poder, a paz seja convosco. Ela dá aos seus filhos alimento para o corpo e paz aos corações. - A religiosa Papania recitou a bênção formal.

               Houve um movimento generalizado em direcção ao cesto, mas o seu conteúdo não foi alvo de disputa violenta; uma tal conduta, de tão imprópria, teria feito aparecer a reverendíssima e ninguém queria ter que se defrontar com a sua ira. Passados alguns instantes Matild juntou-se ao grupo.

               A religiosa virou rapidamente a cabeça; as grandes abas do capuz engomado evitaram que os guardas vissem o olhar que lançou a Matild. Depois agarrou a vendedeira de contas por um dos braços.

               - Fazes bem em vir ter com aqueles que A servem, pobre criatura e o teu rapaz também é bem-vindo. Lá dentro estarás em bom porto, como sempre foi prometido por Ela e por quem cuida dos Seus altares.

               Matild foi imediatamente conduzida à pequena cela que era pertença da reverendíssima, a religiosa Zenia, e quando deixou cair o xaile, a reverendíssima ergueu-se abruptamente.

               - Senhora - foi suficientemente cautelosa para usar o título mais comum - procurais asilo? Até ao momento eles ainda não forçaram a entrada, mas vigiam-nos noite e dia e não podemos ter a esperança de iludir os seus espiões para sempre. Um vento funesto sopra sobre esta cidade.

               - É bem verdade, reverendíssima. Não, não vim arranjar-vos ainda mais problemas.   Procuro a Senhora Fortuna,  pois preciso de falar com ela.

               Zenia assentiu e pegou numa matraca de madeira, ao som da qual a religiosa Papania voltou a entrar.

               - Esta senhora deseja falar, em privado, com a Senhora Fortuna.

               - A senhora tem estado retirada a orar, mas se lhe puderdes trazer alguma esperança, senhora, isso já será resposta às suas orações. Vamos à capela.

               Era uma capela pequena e muito simples. Por cima do altar, que não exibia quaisquer tecidos preciosos nem vasos decorados com jóias, via-se um Coração. Mas este fora talhado em madeira há já tanto tempo, que o carmim da sua pintura estava a desaparecer e mesmo os seus contornos já eram pouco definidos.

               Na frente do altar estava, de joelhos, a mulher que Matild procurava. Conhecera Fortuna em dias mais felizes, quando ela era a dona de casa bochechuda de uma família numerosa, uma mulher que governava a família com firmeza e o fazia para o bem de todos. Mas o rosto que se virou bruscamente quando a religiosa Papania parou a seu lado, era quase o de uma estranha. Tinha os olhos vermelhos e inchados de muito chorar e a sua boca estava marcada por linhas provocadas por um envelhecimento súbito. As suas faces estavam cavadas, como se jejuasse há muitas semanas.

               - Eles vêem aí? - perguntou numa voz resignada. – Eu vou. Dize à reverendíssima que não desejo qualquer mal aos que aqui se abrigam... mas... Lys e Rommy, têm que as entregar também?

               - Não houve qualquer violação do santuário – respondeu a religiosa rapidamente. - Mas está aqui alguém com quem é melhor falardes, senhora. Pode ser que vos faça mais bem do que mal.

               Fortuna olhou para lá da religiosa e viu Matild, que atirara o xaile para trás e juntara as madeixas soltas dos cabelos, afastando-as do rosto para que este ficasse bem à vista.

               A senhora semicerrou um pouco os olhos, como se ao fechá-los pudesse ver melhor e depois a sua boca abriu-se e ergueu-se com esforço e esboçou uma vénia, mas Matild impediu-a de completar o gesto.

               - Somos irmãs de infortúnio, senhora; aqui não há hierarquias. Mas o fardo maior foi o vosso, pois perdestes o vosso companheiro. Ficai certa de que ele está seguro, no Coração, e que o seu nome não será esquecido por aqueles por quem ele manteve a sua fé, impedindo que um tesouro caísse em mãos malignas.

               A Senhora Fortuna inclinou a cabeça e uma única lágrima tombou no chão de pedra.

               - Mas o nosso tempo esgota-se rapidamente e é esse mesmo tesouro que agora nos poderá servir de uma forma diferente - continuou Matild.

               - Senhora... - Pareceu ser-lhe difícil pronunciar a palavra. - Se existe alguma coisa que nós, os do Javali, possamos fazer... então deixai-me que o ouça depressa.

               Sentaram-se juntas no pequeno banco ao fundo da capela, ali colocado para os que não se podiam ajoelhar. Matild usou de toda a franqueza, mais do que desejaria; no entanto as circunstâncias eram tais que não tinha alternativa. Viu a expressão de Fortuna modificar-se de uma de grande interesse para uma de recusa total e grande determinação, mas sem que ela verbalizasse as suas objecções.

               Pacientemente, Matild repetiu certas partes do seu plano, salientando que já corriam rumores de que o inimigo estava pronto a tomar passos bem mais decisivos para obter o que queria. Desembrulhou também aquilo que tinha no cinto, virando a guarda metálica na mão para que Fortuna, mesmo àquela luz fraca, pudesse ver a boca ominosa. A mulher estremeceu, os olhos presos à pedra.

               - A espada... a espada repudiará essa... imundície!

               - Não entrou já a espada numa batalha com uma imundície igual e não a venceu? Não é contra a relíquia que agimos, mas contra aqueles que a querem reclamar para si. Que a espada decida, se assim quiserdes.

               A Senhora Fortuna baixou os olhos para as mãos, os dedos entrelaçados em torno de um dos joelhos.

               - Existem votos que não podem ser quebrados...

               - Nem mesmo para salvar o que de mais precioso existe? - perguntou  Matild  no  mesmo  tom paciente. 

               Voltara a embrulhar o punho metálico e a guardá-lo. Agora tudo dependia da Senhora Fortuna.  Concordaria ela que para ganhar teriam que perder?

               - Os feitiços do mago são fortes... o general já descobriu que assim é.

               - Sim.   Mas será que resistirão  aos  martelos  que  podem partir os vidros de uma vitrina à primeira ou segunda pancadas?

               - Então... - a outra falou baixinho como se medisse o peso da ideia expressa pelas suas palavras - ... a força pode quebrar  um feitiço. É isso o que afirmais, senhora?

               - É isso o que afirmo e aquilo em que acredito.

               Houve um longo silêncio entre as duas e depois Fortuna suspirou.

               - Ele morreu para o manter... e vós quereis que eu o revele.

               - Fortuna, o vosso homem manteve-se fiel ao que jurou. Mas, no passado, a espada foi uma luz que nos guiou à esperança e à vitória; deixai que o volte a ser de novo.

               - Deixai-me ver outra vez essa... essa coisa...

               Fortuna falou com brusquidão. Matild desembrulhou obedientemente o punho metálico. Embora não lhe tocasse, a senhora inclinou-se sobre ele, estudando-o como um artesão estuda uma mercadoria, procurando qualquer falha.

               - Pode ser encaixado mesmo por baixo do punho, onde a lâmina entra na bainha - disse.

Matild sentiu a exaltação de uma vitória conseguida com esforço.

               - Assim será! - prometeu. - E esta, Fortuna, juro-vos pela honra do Tigre, é uma arma que ainda não foi usada, mas que creio atingirá o seu objectivo.

               - Então...

               A senhora aproximou-se mais ficando com a boca quase colada à orelha de Matild. Repetiu palavras que a outra memorizou, assegurando-se de que a própria entoação que a outra mulher lhes dava se fixava na sua memória. Mais uma vez embrulhou bem o punho metálico. A Senhora Fortuna ergueu-se com dificuldade, como faria alguém cujas articulações idosas protestassem perante qualquer mudança de posição.

               - Rezarei... - Indicou o altar.

               Mas se ia acrescentar alguma coisa não teve tempo, pois a badalada de um sino ecoou na sala. Badalada... não, era um dobrar de sinos, pois seguiu-se nova badalada. Matild ficou rígida. A morte de uma reverendíssima; contava as badaladas em voz alta, mas a sua voz não se ouvia sobre o lamento dos sinos. Aquela era a grande voz do templo e só era tocada quando...

               Não! Matild abanou a cabeça numa recusa. Adele não estava morta! Ela tê-lo-ia sabido, os laços que as uniam eram demasiado fortes. E, no entanto, aquelas badaladas contavam os anos da sua mãe e o facto de ser utilizado o Grande Sino, assinalava a sua posição. Adele, rainha-mãe de Merina durante algum tempo, encontrara a paz.

 

ADELE

               A religiosa Elfrida ocupava o seu lugar no templo quando soou o toque a finados, coincidindo com o cântico final do serviço da terceira hora. Embora já esperasse ouvi-lo havia mais de um dia, o som sobressaltou-a, pois Verit não lhe dissera com exactidão a hora em que Adele “morreria”. Não foi a única a erguer subitamente a cabeça à primeira badalada do sino; por todo o templo, religiosos e pessoas da cidade viravam o rosto na direcção do sino da torre, com os olhos muito abertos, denotando sobressalto.

               O sino dobrava a finados, ecoando no silêncio, vibrando no peito de cada um dos presentes. No santuário, toda a gente se mantinha em silêncio, os lábios movendo-se, contando as badaladas; como se não soubessem perfeitamente quem morrera.

               Ou quem supostamente morreu. Não, Adele está morta, verdadeiramente morta. Agora, só a religiosa Elfrida vive.

               Quando o eco da última badalada se desvaneceu, todos os religiosos ajoelharam como se obedecessem a um sinal invisível. Elfrida ajoelhou-se juntamente com os restantes para rezar por Adele, cuja alma necessitava certamente de mais orações do que as almas daqueles que estavam verdadeiramente mortos. Os mortos já tinham acabado os seus trabalhos; não podiam cometer mais erros. A religiosa Elfrida estava muito consciente do facto de que podia cometê-los e talvez já tivesse cometido. Estava tudo a acontecer demasiado depressa, sem deixar tempo à reflexão ou

planeamento cuidadoso.

               Quantas das coisas que já fiz, ou justifiquei, custarão vidas ou mesmo almas? Lydana não é a única de entre nós que está a brincar com o fogo.

               O grupo de religiosos que estava escalonado para entoar os cânticos do serviço seguinte entrou, ajoelhando-se silenciosamente nos seus lugares, mas ninguém do grupo anterior se mexeu. O que quer que fosse que tivessem planeado fazer ficara esquecido, engolido pela necessidade que sentiam de rezar.

               De certa forma, Elfrida sentiu-se surpreendida com aquela demonstração de devoção; aquilo não era uma questão de “aparências”, era uma demonstração do que as pessoas sentiam em relação à rainha-mãe, tanto os religiosos como os cidadãos de Merina.

               Talvez que ela represente para eles, nestes tempos de trevas, a última réstia de luz de um passado mais feliz. Ao chorá-la, choram também a perda das vidas que dantes tinham. Os rostos dos que, sentados ou ajoelhados, rezavam de olhos fechados, denotavam mais do que uma sombra de desespero. Elfrida curvou a cabeça e sentiu os olhos arderem-lhe, cheios de lágrimas. Era horrível ser tão impotente perante uma tal angústia...

               Pareceu à religiosa Elfrida ter passado muito pouco tempo até a grande sacerdotisa Verit fazer a sua entrada, mais uma vez vestida de púrpura, seguida por quatro religiosos fortes, um de cada uma das ordens, transportando a urna aberta que depositaram em frente ao altar, por baixo do Coração. Verit decidira então tornar aquela uma ocasião de grande visibilidade, não fosse alguém duvidar da morte de Adele.

               Alguém fizera um belíssimo trabalho na efígie; estava muitíssimo parecida com a rainha-mãe Adele. Na verdade, parecia-se mais com Adele, tal como ela fora, do que qualquer semelhança que Elfrida pudesse ter com ela naquele momento. Elfrida pensou, inconsequentemente, se teriam usado os seus próprios cosméticos no rosto da efígie.

               Certamente que não irei necessitar deles.

               Alguns dos homens mais fortes de entre os religiosos entraram em seguida com o biombo fúnebre, que colocaram entre a urna e a congregação. Seguiam-nos mais religiosos transportando velas enormes, que colocaram cuidadosamente junto ao topo e aos pés da urna.

               A grande sacerdotisa Verit acendeu as velas com um gesto da mão, numa exibição de magia que normalmente evitava em público. Depois de alguns instantes de silêncio apropriado, anunciou que a Deusa decidira chamar à Sua Luz a Sua serva Adele. Fez na realidade um pequeno discurso muito impressionante, citando a piedade de Adele, a sua caridade e devoção ao povo que a Deusa a chamara a conduzir e como se sentira destroçada pelo facto de não poder continuar a ajudar o seu povo.

               Antes de Verit acabar, já Elfrida se sentia bastante impressionada com a enumeração dos seus próprios actos. E não lhe passou despercebida a subtileza com que Verit sugeriu que o facto de ter sido forçada a entregar a sua própria cidade nas mãos pouco caridosas do imperador, fora o que realmente matara Adele. Não pronunciou uma única palavra que pudesse ser invocada como traição, mas... oh, o que ela insinuou!

               Será que o imperador tem espiões entre a congregação? Se assim for, pergunto-me o que estarão a pensar. Não penso que vão levantar objecções a uma oração fúnebre, mas pode acontecer. Será que Verit pensou nisso?

               Tivesse pensado ou não, quando acabou, a grande sacerdotisa ordenou que o grupo de Elfrida regressasse aos seus deveres de rotina, e solicitou aos restantes religiosos que iniciassem os cânticos e as orações que celebravam a vigília pela passagem de uma reverendíssima para as mãos da Deusa.

               A religiosa Elfrida abandonou o coro como lhe fora ordenado e, recordando as ordens de Verit no sentido de se manter visível, seguiu um grupo de Hábitos Cinzentos até ao escritório onde lhe tinha sido atribuída uma secretária. Agarrou no manuscrito que andava a copiar e iniciou o trabalho, não o interrompendo até ter chegado a hora de voltar ao seu lugar em frente ao Coração para o serviço seguinte.

               Quando ouviu a sineta chamando o seu grupo apressou-se, por forma a chegar ao templo um pouco antes dos restantes e efectuou uma ligeira alteração relativamente ao local onde habitualmente se ajoelhava. Colocou-se num sítio onde fosse visível para o maior número de pessoas possível, depois curvou a cabeça numa oração silenciosa enquanto os restantes membros do seu grupo iam entrando.

               Havia no templo mais gente da cidade do que nunca; se o seu número continuasse a aumentar, o templo não seria suficientemente grande para os conter.

               Porque não irão às capelas locais? Será que os homens do imperador os impedem? Ou será que têm que ver o corpo da rainha-mãe para acreditarem que está realmente morta? Ou será que é mais simples do que isso? Quererão todos eles fazer as suas despedidas?

               A meio do serviço houve um rebuliço junto da entrada. Elfrida manteve a cabeça curvada, mas olhou cautelosamente por baixo das pestanas. Quem quer que fosse o retardatário, estava a causar grande perturbação. Depois, com um choque que quase a fez parar de cantar, viu quem entrara.

               Era o príncipe Leopold, com uma escolta simbólica constituída por dois dos seus oficiais. E trazia uma banda negra em sinal de luto no braço direito. Não fez qualquer menção de subir ao altar ou de aceder à área por trás do biombo, onde estava a urna com o “corpo” jacente, que fora o que temera quando o vira aparecer, Leopold era um homem observador e Elfrida não se sentia segura de que a farsa de Verit sobrevivesse ao seu escrutínio.

               Limitou-se a ocupar, juntamente com os seus oficiais, um lugar no banco da frente e a ficar ali, de pé, com a cabeça baixa e descoberta durante o resto do serviço.

               No fim da cerimónia, um dos dois oficiais aproximou-se do religioso que estava de pé em frente ao biombo, no local do celebrante, e murmurou algo. As suas mãos tocaram-se, passando para as mãos do religioso qualquer coisa pequena e preta.

               Uma bolsa! Elfrida estava suficientemente perto para ouvir o som das moedas. O seu espanto não teria sido maior se tivessem nascido asas ao oficial.

               Um presente fúnebre! O príncipe trouxe a Adele um presente fúnebre! Em teoria, visto não existirem familiares que se encarregassem das despesas do funeral, tudo teria que ser suportado pelo templo, o que poderia significar que as cerimônias fúnebres poderiam ser menos impressionantes do que as devidas à posição de Adele. Leopold acabara de se certificar de que Adele teria umas exéquias dignas de uma rainha-mãe.

               E essa não foi a última das surpresas. O oficial voltou para o seu lugar ao lado do príncipe

e os três saíram para a coxia, mas não se foram embora. Não imediatamente.

               Em vez disso, lenta e gravemente, viraram-se para o biombo que ocultava a urna. Deliberadamente e com absoluta formalidade, num uníssono gracioso, colocaram os punhos sobre o coração, na saudação cerimonial geralmente só concedida ao próprio imperador.

               Depois, e só então, se viraram e saíram.

               A multidão abriu alas para os deixar passar. As expressões nos rostos que Elfrida conseguia ver eram uma mistura de choque, surpresa e incredulidade. Compreendeu-os; sentia-se da mesma forma. Que quereria aquilo dizer? Porque fizera Leopold um gesto tão espantoso? Significaria alguma acção mais ousada da sua parte, ou limitar-se-ia a ser a reacção de um jovem galante para com uma velha mulher que conhecera apenas o bastante para ter admirado? Ou estaria a enviar uma mensagem a alguém, a Apolon, por exemplo, de quais eram os seus sentimentos?

               Qualquer que fosse a razão, de uma coisa ela estava certa: O jogo voltara a mudar.

 

SHELYRA

               Raymonda não voltou a respirar normalmente até estarem a salvo no interior dos muros do complexo. O seu parceiro de dança não lhe largara o braço nem por um instante e ela sentia-se bastante satisfeita pelo seu apoio. Na sua atitude não havia nada de romântico; a sua solicitude parecia antes fraternal, como se a conhecesse e estivesse à espera que ela o reconhecesse também.

               Ele parecia-lhe de facto familiar; era um homem muito magro, de músculos muito esguios, com um enorme nariz adunco e uma cabeleira negra e encaracolada. Não estava muito certa quanto à sua idade; tinha o tipo de rosto que poucas alterações sofreria entre os vinte e os cinquenta anos. À luz fraca do dia nublado, os seus olhos continuavam a brilhar, divertidos.

               - Então, pequena rabina, voltamos a casa sãos e salvos e mesmo assim não tens uma palavra amável para o teu velho companheiro? - provocou-a ele enquanto os portões se cerravam nas suas costas. - Começo a pensar que não me reconheces! Estou devastado! Pensei que era muito mais memorável do que isso!

               Pequena rabina? Esse fora o seu diminutivo na época em que era o seu pai quem a levava a visitar os Clãs dos Ciganos e dos Senhores dos Cavalos. Não podia haver mais de meia dúzia de pessoas que conhecessem aquele diminutivo. Quem era aquele homem? Abanou a cabeça cheia de dúvidas. Ele suspirou.

               - E pensar que durante todo este tempo me tenho arrependido da forma como te maltratei, pensando ter-te causado grande dor e tu nunca mais pensaste nisso sequer!

               A forma como te maltratei... Isso fazia-a lembrar-se de qualquer  coisa! Existia apenas uma pessoa que lhe poderia dizer aquilo!

               - Ilya? - disse ela, incrédula. - Que fazes tu aqui? Pensei que vivesses em Belrus! Foi para lá que o teu clã foi...

               - E eu também fui, mas um cigano não consegue ficar por muito tempo no mesmo sítio, sabe-lo bem - replicou Ilya com um sorriso. Os seus dentes brancos brilhavam em contraste com a pele morena. - Então afinal sempre te lembras de mim!

               - Como poderia eu esquecer-te? Foste tão cruel comigo! – replicou ela, sentindo-se inundar por memórias agridoces.

               Não, não se esquecera, apesar de Ilya ter mudado imenso.  O que não era surpreendente... visto ele ter apenas oito ou nove anos na altura em que o conhecera e ela apenas uns sete. Fora ideia do seu pai que ela deveria aprender as danças e os costumes dos seus hóspedes e Ilya fora indicado para seu parceiro e professor. Ele não ficara mesmo nada satisfeito por se ver a braços com a criança gajo e fora muito loquaz nas suas objecções frequentes e tonitruantes. Ela era estrangeira e não prestava para nada; porque haveria de desperdiçar o seu precioso tempo a ensiná-la a cantar e a dançar como uma cigana? Para que é que isso serviria? Ela esqueceria tudo o que aprendera assim que voltasse para casa. Ou faria troça dos seus costumes, parodiando as suas danças, para fazer rir os seus amigos ricos gajos.

               Chegara mesmo a recorrer aos beliscões e pisadelas, quando ninguém estava a ver, tentando que ela desistisse da ideia. Se Ilya esperara que ela se desfizesse em lágrimas perante a chuva de abusos, tivera uma amarga surpresa. Em vez disso, ela gritara de fúria e lançara-se a ele ao murro, pontapé e à dentada.

               Rindo, os pais de ambos tinham-nos separado e Ilya ensinara mesmo a jovem Shelyra como lhe fora ordenado, mas desta vez com um olho negro, canelas doridas e um respeito um tanto desconfiado pela rapariga estrangeira.

               - Casaste com a tua namorada de infância? - perguntou ela, provocando-o um pouco. - Era com ela que tu querias dançar, se estou bem lembrada, razão pela qual lutaste com todas as tuas forças contra teres que passar o tempo a ensinar-me a mim.

               - É claro que casei! - disse ele com orgulho. - Ela não me conseguiu resistir! Mas... - A sua expressão ensombrou-se. - Não devia esquecer a nossa situação e ficar para aqui a contar histórias. As coisas estão a ficar muito negras, pequena rabina, e para ti especialmente. A minha adorada Maya mandou-me vir à tua procura porque quer falar contigo e não é acerca de bailados.

               - Que... - começou ela a perguntar, mas ele fez um gesto para a silenciar e lançou um olhar desconfiado por cima do ombro.

               - Aqui não - disse. - Há por aí olhos e ouvidos invisíveis, mesmo quando pensamos estar seguros. Estes são assuntos de drukor. Vens comigo? Há uma pessoa que tens que conhecer e com quem deves falar.

               Um pequeno calafrio percorreu-lhe o corpo quando percebeu o que ele estava a tentar dizer. Drukor era a palavra cigana para magia. Tentou recordar-se de Maya, mas não conseguiu lembrar-se de mais nada a não ser de uma vaga memória de uns enormes olhos tímidos e uma grande cabeleira. Ter-se-ia Maya tornado uma maga cigana? Mas como poderia isso ser possível? Nenhuma mulher se tornava maga tão jovem como Maya deveria ser!

               - A avó de Maya tem muita coisa para te dizer – continuou Ilya. - Foi ela quem nos disse para te encontrarmos. Mais do que isso não te posso dizer aqui.

               - Vou contigo - disse ela, decidindo-se rapidamente.

               Thom não estava à vista em sítio nenhum, mas isso não importava. Ele não era o seu guardião. Ilya voltou a mostrar os dentes brancos num sorriso.

               - Óptimo. Vivemos na nossa carroça, por trás dos estábulos. Não é longe.

               Na verdade, era muito mais perto do que muitos dos edifícios e chegaram às carroças em não mais do que alguns minutos, atravessando o pátio e depois dando a volta para chegar às traseiras dos estábulos. Havia ali uma boa dúzia de carroças, cada uma delas alojando uma família. A mulher de Ilya, Maya, reconhecível pois continuava a ter uns enormes olhos pretos e uma cabeleira negra e encaracolada, estava sentada no assento do condutor da terceira carroça, a bordar à luz fraca, franzindo a testa cheia de concentração. Viu-os quando eles viravam a esquina dos estábulos e saltou para o chão, correndo na direcção de Ilya com um pequeno grito de satisfação.

               Maya tornara-se numa mulher elegante e era uma bailarina nata; a afirmação de Ilya de que Raymonda dançava quase tão bem como a sua mulher, não era mais do que uma lisonja descarada. Raymonda, a cigana de imitação, sabia que nunca se poderia comparar com a graciosidade fluida de alguém cujas acções mais vulgares já eram, em si, um bailado em miniatura. No entanto, fora simpático da parte de Ilya tê-lo dito.

               Maya beijou o marido sem qualquer embaraço e depois virou-se para a sua convidada com um sorriso tímido.

               - Sei quem és e a minha avó quer falar contigo urgentemente. Ela está na carroça; aceitas a nossa hospitalidade?

               - Fico muito grata - respondeu Shelyra. - Nos assuntos do... pouco usual... sou tão ignorante como um bebé. E não sou inimiga de ninguém que ame a liberdade. Ficarei muito satisfeita por ouvir o que ela tem para me dizer.

               Com um assentimento cheio de gravidade, Maya conduziu-a pelos degraus que levavam à carroça, até à presença de uma mulher verdadeiramente velha; uma anciã de tal forma envolta em xailes que era impossível distinguir a sua forma. Mas quando a velha mulher ergueu o rosto, uns olhos exactamente iguais aos belos olhos negros de Maya encontraram os de Shelyra e a princesa descontraiu-se sem dar por isso. Sentou-se num banco junto a uma pequena mesa presa a uma das paredes da carroça em frente da velha mulher. A luz cinzenta do exterior entrava pela janela ao lado da mulher e iluminava-lhe suavemente o rosto.

               Mas, evidentemente, nada poderia ser dito ou feito sem a aceitação ritual da hospitalidade sob a forma de um chá quente e doce e de uns biscoitos de tal forma cobertos de mel que faziam doer os dentes. Terminadas as formalidades, Maya apresentou a sua avó.

               - Esta é a Mãe Bayan; no nosso clã é conhecida como uma drukorin muito poderosa - disse Maya com orgulho, enquanto a anciã sorria com desaprovação.

               - Eu sou o que sou e aquilo em que o pequeno Talento que os Dois me concederam me tornaram - disse a Mãe Bayan baixinho, numa voz surpreendentemente doce e aguda. - Mas tu, pequena rabina - não, não diremos o teu nome, pois não sou tão orgulhosa que confie nos meus feitiços e protecções para nos manterem em segurança, tu corres um grave perigo relativamente às forças das Trevas.

               Shelyra assentiu, reflectiu alguns instantes e decidiu arriscar tudo numa só cartada.

               --Já fui avisada e aconselhada a encontrar alguém que possa guardar os meus caminhos. Será um grande atrevimento pedir-te que o faças? É um enorme favor e eu não to pediria se soubesse de mais alguém a quem me dirigir para pedir ajuda.

               - Não só podes pedir, como te posso dizer que fui convocada para te assegurar essa ajuda, pequena rabina - disse a velha mulher firmemente e...  surpreendentemente. - Os Dois nunca me tinham feito  grandes  exigências  até  agora...  talvez tencionassem esperar até surgir uma ocasião de grande necessidade.

               Fez uma pequena pausa e depois olhou para qualquer coisa que tinha entre as mãos; Shelyra viu qualquer coisa que brilhava entre as mãos da anciã, um reflexo, talvez um pedaço de espelho.

               - O perigo que corres já não é tão grande como o era ontem à noite... ah! Vejo agora. - Ergueu novamente o rosto, os olhos muito abertos, mas ainda cheios de apreensão. - Tens um amigo num local inesperado. Tal como ele te serviu, também tu podes ser chamada a servi-lo para o salvar dos Poderes das Trevas que vos tentam devorar a ambos. - Os seus lábios formaram um sorriso por entre as muitas rugas do seu rosto. -Poderia dizer-te quem e o que ele é, mas não me acreditarias. Por isso limitar-me-ei a dizer-te que procures um amigo entre os mais mortais dos teus inimigos e encontrá-lo-ás quando ele estiver necessitado de ti.  Se esse futuro vier na realidade a acontecer, claro.

               - Se? - Shelyra estava confusa. – Por que dizes isso?

               - Porque o futuro é mutável; o que nós fazemos aqui e agora pode mudar aquilo que vi - replicou prontamente a velha. - Vejo apenas o futuro mais provável e mesmo esse pode ser alterado. O teu amigo-inimigo, não o tinha visto agir na noite passada, e o perigo imediato que corrias então era muito maior do que o que corres agora, e o teu futuro mais provável está repleto de perigos terríveis que requererão uma grande coragem e muita protecção. Mas - ergueu um dedo admoestador - também posso ver o passado e esse está para lá de qualquer alteração. E nesse passado, no teu passado, está o cão infernal do imperador, Apolon.

               - Apolon! - exclamou Shelyra com choque e consternação. - Que tem esse corvo agoirento a ver comigo?

               - Ele procura-te para obter o poder que trazes adormecido dentro de ti - disse a Mãe Bayan, enquanto uma fria onda de medo assolava Shelyra e esta pôs os braços em torno do corpo

para se impedir de tremer. - É ele e não o imperador ou o seu general, quem te quer encontrar. E se caíres nas suas mãos - abanou a cabeça -, o teu fim será não só pior do que qualquer mortal possa imaginar, mas dará ao Cão Negro um poder de tal ordem que deveríamos todos tremer de terror só com essa ideia. O poder nas mãos dele significará o fim da liberdade para todos quantos vivem para cá das fronteiras do Império e muito para lá delas. Foi por isso que os Dois me chamaram em tua ajuda, pois todo o nosso povo sofrerá se Apolon conseguir aquilo que deseja.

               Mas que confortante!, pensou Shelyra com algum desespero.

               - Agora as coisas mudaram, embora a ameaça que Apolon representa para ti continue a ser grande - continuou a Mãe Bayan. - A ameaça mais imediata foi eliminada pelo teu aliado. O espelho não me mostra mais nada, o que significa que, de momento, nenhum futuro é mais provável do que qualquer outro.

               Pegou num pedaço de seda e cobriu aquilo que tinha nas mãos antes que Shelyra pudesse ver do que se tratava.

               - E o que é que isso significa em relação a mim? - perguntou Shelyra em voz baixa.

               - Que tens que ter muito cuidado e que eu tenho que te salvaguardar o melhor que puder para que Apolon não te consiga localizar pelos sinais do teu poder potencial. - A Mãe Bayan fechou os olhos por alguns instantes. - Agora terei que te pedir que confies em mim completamente, pequena rabina - continuou. - Pois tenho que te pedir um cabelo da tua cabeça. Sem ele, não poderei tecer protecções em torno de ti, pois a magia que pratico é feita dessas teias.

               Reabriu os olhos e ficou à espera, expectante, com as mãos sobre o objecto embrulhado em seda que estava em cima da mesa. Shelyra hesitou, recordando-se dos avisos da sua avó quanto ao perigo de deixar cair qualquer coisa do género daquilo que lhe era pedido nas mãos de terceiros. Mas... que poderia ela fazer? Não sabia nada de magia, nem tinha a mínima ideia de como encontrar um outro mago que a ajudasse. E mesmo que conseguisse encontrar alguém, o que lhe garantiria que esse mago mereceria mais confiança do que a Mãe Bayan? As probabilidades eram de que assim não fosse.

               Ilya era seu amigo de infância; os ciganos tinham-lhe dado abrigo e protecção física. Certamente que, se a quisessem trair, havia formas mais fáceis e mais lucrativas de o fazer. Resolutamente, ergueu a mão direita, agarrou um cabelo e, com um puxão forte, arrancou-o pela raiz, fazendo um pequeno esgar de dor.

               Estendeu-o à Mãe Bayan que o agarrou com muito cuidado com as mãos manchadas pela idade, como se aquele fosse o maior tesouro do mundo.

               - Guardá-lo-ei como se fosse meu, pequena rabina - disse ela gravemente. - E cuidarei de o destruir se correr perigo de cair em mãos malignas. Juro pelos Dois que nenhum mal te advirá daqui ou das minhas acções.

               - Isso é tudo o que eu posso pedir - replicou Shelyra com igual gravidade. - E estás a conceder-me um favor que nunca poderei pagar. Fica certa de que tenho consciência disso.

               - Chiu - replicou a anciã, erguendo a mão. - Faço um favor a todos nós, protegendo-te a ti. O mundo será muito negro para o meu povo se aquele Cão do Inferno te cravar as suas presas. Este é apenas o meu dever; é a retribuição que devo aos Dois pelo poder que me concederam.

               Shelyra curvou a cabeça, num gesto de aceitação daquela afirmação. Os ciganos adoravam a Luz sob a forma de dois deuses e não de um único; deuses gémeos, um masculino e outro feminino. Não sabia muito mais do que isso, pois nem os Senhores dos Cavalos nem os seus parentes ciganos faziam qualquer tentativa para converter ninguém em seus irmãos de religião, nem mesmo aqueles que recebiam nos seus clãs. Embora os Caminhos dos Dois não fossem secretos, a religião não era discutida abertamente na presença de estranhos.

               - Então, Mãe Bayan, agradeço-te em nome de todos nós - disse suavemente. - E se ganharmos esta batalha... o teu trabalho não será esquecido.

               Parecia não haver mais nada a dizer; Shelyra levantou-se do seu lugar e, com uma desculpa murmurada, despediu-se. Sentia que a mulher não faria mais nada até ela se ter ido embora, portanto quanto mais depressa o fizesse, mais depressa a “protecção”, fosse ela qual fosse, seria activada.

               Não viu Maya nem Ilya em sítio nenhum quando saiu da carroça, por isso foi-lhe poupado ter que fazer conversa de circunstância com eles. Depois de tudo o que acontecera naquela manhã, sentia-se assolada pela lassitude da exaustão e o que sentia mesmo vontade de fazer era voltar para a sua cama nos estábulos e passar o resto do dia a dormir.

               Naquela noite teria que começar o seu trabalho no Palácio de Verão, um exercício menos arriscado, mas mais exigente em termos físicos, do que as suas deambulações no Grande Palácio.

               Se pudesse, tencionava levar todos os livros da sua avó para o esconderijo numa só noite; tanto quanto se recordava, a estante do quarto de Adele não tinha assim tantos volumes. Se metade deles eram sobre magia, isso significaria uns vinte, talvez trinta livros para serem transportados. Não era um número muito grande, comparado com a enorme biblioteca de que Adele já dispunha no templo. A parte mais difícil seria encontrar no Palácio de Verão outros livros para colocar nos sítios dos livros roubados, para que não se tornasse evidente que deveriam estar ali mais volumes do que os que estavam.

               Terei que retirar um ou dois livros de cada prateleira no palácio, decidiu por fim. Essa será a única forma de me assegurar que não torno evidente que falta qualquer coisa. Isso levará a noite toda, entre evitar os soldados e andar às voltas com as prateleiras e as trocas de livros...

               Mas os seus pensamentos foram interrompidos nesse momento. À primeira badalada do Sino Grande do templo, a cabeça de Shelyra endireitou-se sobressaltada. Ficou com o olhar fixo na pequena porção do campanário mais alto que era visível por cima dos muros e dos edifícios que a rodeavam. O Grande Sino só era tocado por ocasião da morte de alguém muito importante. Mas quem? Certamente que não fora a grande sacerdotisa...

               Contou as badaladas que marcavam os anos e depois aquelas que marcavam o estatuto do falecido; estas ultrapassaram em número todas as possibilidades até restar uma única pessoa a quem ambas as séries de badaladas se aplicavam.

               Adele. O Grande Sino dobrava a finados pela morte da rainha-mãe de Merina, anunciando a passagem de Adele para lá do alcance de qualquer inimigo.

 

LYDANA

               A reverendíssima Zenia estava de joelhos, passando as contas de oração por entre os dedos e entoando o Adeus, quando Matild entrou no seu pequeno escritório. Ao vê-la, Zenia estendeu uma mão como se a quisesse abraçar e reconfortar.

               - Minha querida senhora... - começou ela a dizer, mas Matild interrompeu-a.

               - Reverendíssima, poderias por caridade dar-me um dos hábitos da tua casa? Tenho que ir ao templo.

               A reverendíssima olhou-a demoradamente e depois pôs-se rapidamente de pé.

               - Sim, isso também terá que ser feito. Dar-vos-ei o meu próprio hábito.

               Havia um pequeno armário encostado à parede e ela abriu-o revelando um dos hábitos de um castanho cor de ferrugem da sua ordem que ali estava pendurado. Já tinha muito uso, com a saia cuidadosamente remendada com pedaços de pano de um castanho ligeiramente diferente do pano original. Numa prateleira na parte de cima do armário via-se uma touca de abas largas muito

branca e cuidadosamente dobrada.

               O sino parara de ressoar com as suas badaladas perturbantes. Matild arrancara já a saia que trazia vestida e deixou cair o xaile para o chão. O fato justo que usava para as incursões nocturnas caberia perfeitamente por baixo do hábito que Zenia lhe estendia. Mas foi necessária a ajuda da reverendíssima para ajustar as pregas da touca e das suas abas protuberantes, embora estas pudessem vir a ser, em caso de necessidade, um disfarce ainda mais eficiente.

               Zenia fez o sinal do Coração no espaço que as separava.

               - Filha - a sua voz tinha agora o calor daqueles que partilham um objectivo comum - que a Sua mão se estenda sobre ti. Esta é na verdade uma hora em que deves procurar o manto da Sua infinita misericórdia.

               Matild curvou a cabeça.

               - Intercede por mim, oh Escolhida, percorro caminhos tortuosos, talvez mesmo caminhos de destruição e, no entanto, acredito, pelo Coração que acredito, que tenho que o fazer!

               - Assim é - replicou Zenia calmamente. - Movemo-nos na Sua trama à medida das necessidades que Ela vai tendo ao tecê-la.

               Voltou a fazer soar a sua matraca e a religiosa Papania materializou-se, como se o som conseguisse por si próprio fazê-la voar dos cantos mais remotos do convento.

               - Ela vai, visto que a reverendíssima acabada de falecer é sua parente de sangue, rezar no altar do templo.

               Já não havia pedintes à porta, mas Eel estava à sua espera, mantendo-se atento. Matild pousou a mão por alguns instantes no seu cabelo emaranhado.

               - Filha do meu coração - sentiu-se pela primeira vez livre para pronunciar aquelas palavras que se tinham vindo a desenvolver dentro de si nos últimos dias - isto, tenho que o fazer... sozinha. Mas poderás continuar a ser útil, com os teus olhos e ouvidos, como tão bem fizeste no passado.

               O olhar inexpressivo de Eel encontrou o seu e, por longos instantes, não se desviou. Depois assentiu rapidamente e, esgueirando-se na sua frente pela porta que a religiosa Papania entreabria, desapareceu.

               Houve alguma agitação na rua. O guarda de casaco negro que vigiava o convento avançou um ou dois passos quando Matild saiu, mas depois cuspiu ruidosamente para a sarjeta e desviou o olhar.

               Enquanto se deslocava para o outro lado da cidade, escolhendo um percurso que a levava a passar pelas pontes, Matild tomou consciência de uma estranha sensação. Era como se Merina tivesse tomado subitamente a forma do grande animal que era o seu símbolo e tivesse feito uma pausa no seu passeio para erguer a cabeça, cheirar o ar e avaliar as suas hipóteses de travar uma batalha.

               Juntou-se à multidão crescente que se dirigia ao templo. Chegavam à praça em grupos; as mulheres chorando e as crianças caladas e assombradas; os poucos homens visíveis ostentando expressões sombrias.

               Pela primeira vez havia uma fila de soldados, não de casacos negros, mas mercenários, a todo o comprimento da escadaria, fazendo afunilar a multidão que entrava. Matild viu que havia um mar de cores, enquanto abria caminho, esforçando-se por manter a cabeça baixa, a touca de abas largas encobrindo-lhe o rosto. As ordens dogmáticas, tão diferentes da mais humilde, cujo hábito trazia vestido, enchiam tudo de cor: via-se o cinzento selecto dos escolásticos, que deviam ter abandonado as suas secretárias para virem prestar esta última homenagem; os Hábitos Vermelhos, os Hábitos Amarelos e os Hábitos Castanhos, os quais, para além de ser quem ajudava os pobres da cidade, eram também os responsáveis pela manutenção dos seus famosos jardins e das casas dos animais, nas quais podia buscar socorro qualquer animal abandonado ou doente.

               O biombo funerário já fora instalado. Através da sua rede Matild via a urna no seu pedestal, junto ao próprio altar, com velas acesas à cabeça e aos pés e, por cima, o Coração carmim que parecia pulsar como um órgão vivo. Os religiosos estavam de um dos lados, mas a própria Verit estava junto aos pés da urna como se fosse uma sentinela de vigia. Como de costume, o seu rosto estava impassível, mas tinha os olhos inchados, como se tivessem vertido lágrimas recentemente.

               Os religiosos dos claustros estavam nos seus bancos por trás do biombo e deles partia um cântico aflautado, não de lamento, mas de exaltação. Esta era uma das suas, que passava para as mãos da Grande Mãe onde conheceria paz e repouso para além de todo o entendimento. O cântico enervou Matild. Não, não acreditaria que Adele estivesse verdadeiramente morta, nem mesmo ao ouvir cantar assim as palavras sagradas.

               Ultrapassara o biombo. A urna não estava fechada... e no seu interior estava um corpo! Tinha que saber!

               Um dos Hábitos Cinzentos interpôs-se na sua frente. Era evidente que encarava a sua presença como uma intromissão. Mas, sentindo o movimento brusco, Verit ergueu a cabeça e, desafiadoramente, Matild fez o mesmo, fazendo com que os seus olhares se cruzassem. A grande sacerdotisa falou, as suas palavras perfeitamente audíveis apesar dos cânticos.

               - Esta religiosa era uma das mais favorecidas pela caridade da reverendíssima... deixa que avance e faça as suas despedidas.

               Recuando de novo, o Hábito Cinzento deixou-a passar, e todos os outros que ali estavam agrupados fizeram espaço para ela, visto que assim fora ordenado por Verit. Chegou então junto da urna e olhou para... Adele? Não, este era o seu rosto, calmo e em paz, aparentando ter morrido na paz do Coração. Mas era... os pensamentos de Matild deram um salto em frente, numa suposição arriscada. Foi então que, dentro de si, soube a verdade. O que ali estava era uma efígie. Por uma qualquer razão, Adele deveria ter planeado aquela fuga final. Mas isso significava que estivera sob uma ameaça extraordinária e fora forçada a usar rituais que era quase uma blasfémia usar com tais objectivos. O perigo deveria ter sido enorme.

               Saberia Verit ... estaria ela a tentar ultrapassar o que Matild agora temia, que as Trevas estivessem a descer rapidamente sobre Merina? Ajoelhou em frente ao caixão, a cabeça curvada em oração, os dedos passando as contas cosidas à corda do seu velho hábito.

               - Filha...

               Não, não fora a máscara na sua frente quem falara. Mas sentia agora percorrê-la todo o amor e confiança que tinham sido sempre características da sua mãe. Não estava segura da amplitude do Talento de Adele, nem, na verdade, do de qualquer um dos recolhidos nos claustros. Talvez que a telepatia fosse um dos dons que a meia-idade lhes trazia.

               - Olhem!

               Soou quase como um grito... Sobressaltada, Matild ergueu a cabeça, olhou de relance para o hábito cinzento ajoelhado ao seu lado esquerdo e para o idoso hábito castanho ao seu lado Direito. Continuavam imersos em oração, de olhos fechados.

               - Olhem!

               A ordem soou de novo. Matild levantou a cabeça. Precisava de a lançar bem para trás para que as abas da sua touca não a impedissem de ver algo que estivesse muito perto de si.

               O fulgor do Coração aumentava de brilho, como se no seu interior pulsasse não apenas vida, mas chamas vivas. O brilho vermelho tingiu o caixão e, alargando-se, incluiu também os que

se ajoelhavam à sua volta. Quando soou a doce nota final do Adeus, pareceu a Matild que o coração tremeu.

               Depois, surgiram gotas da sua ponta, sangrentas, parecendo serem feitas de sangue. Os rubis ali embutidos há tanto tempo estavam a soltar-se. Caíam sobre o altar, ressaltavam na urna e um caiu na mão aberta que Matild estendera. Soltou um pequeno grito abafado, pois este queimou-lhe a pele como se fosse um carvão em brasa. No entanto, ela fechou os dedos firmemente e aguentou.

               - O Coração... sangra... chora... - gritou alguém e outros na multidão repetiram o mesmo grito. - Um milagre! Abençoados os olhos que vêem... um milagre!

               Matild encostou o punho fechado contra o peito. Continuava quente, e agora, por baixo das camadas de roupa vinha uma resposta firme; uma centelha de vida brilhou também na pedra que adornara em tempos o seu anel de Estado.

               Houve uma comoção em torno de si quando aqueles que estavam mais próximos apanharam os rubis caídos juntando-os para os colocarem sobre o altar. A chuva de pedras acabara; não caíram mais para se irem juntar àquelas ali empilhadas. Matild continuou a segurar aquela que parecera vir ter consigo. Não sabia exactamente a natureza daquilo que tinha na mão, excepto que era um foco de poder; e como tal poderia bem ser a arma de que mais necessitava para fazer o que tinha que ser feito.

               Ouviram-se novos sons vindos do outro lado do biombo. Ouviu vozes alteradas, perguntas gritadas de forma pouco apropriada para aqueles que se encontravam entre aquelas paredes. O biombo estremeceu sob o efeito de corpos que, aparentemente, o empurravam.

               A um sinal de Verit, aqueles que se encontravam à sua volta puseram-se de pé e dirigiram-se para a congregação, agora desordeira, para lá do biombo. A palavra “milagre” era gritada de uns para outros, repetida por muitos lábios.

               Matild manteve-se onde estava. Depois Verit veio até junto dela e falou rapidamente:

               - Vossa Majestade, temos pouco tempo... o que aqui acabou de acontecer não é evidentemente obra nossa, mas sim um Sinal Dela. A reverendíssima está viva, tal como vós pensastes. - (Ela também deve ter o dom de ler as mentes, pensou Matild nessa altura.) - Mas era necessário que ele, que nos ameaça com coisas muito piores do que aquelas que o imperador possa alguma vez imaginar, acreditasse que ela partira.

               Ele? Referir-se-ia ela a Apolon?

               - Vós, as do sangue do Tigre, haveis-vos tornado subitamente numa preocupação sua, como se o tivessem avisado de que, de entre todos nós, os que temos poder, fôsseis vós, as do sangue, as que ele mais deveria temer. Sabemos que ele procura diligentemente a princesa... e a vós. Protegei-vos ambas.

               Ela soubera que Apolon estava à sua procura... e à procura de Shelyra. Mas não pensara que fosse por nenhuma outra razão que o valor que tinham como reféns, como garante do bom comportamento da cidade!

               - Mas ainda não atingimos o tempo do Talento... - protestou  Matild.

               Verit encolheu ligeiramente os ombros.

               - Quem sabe o que um iniciado pode fazer com alguém que utilize como instrumento?  Temos que agir rapidamente...

               Foi interrompida por um grito mais alto do outro lado do biombo. Uma mulher gritou e depois uma outra imitou-a. Em dois passos Verit atingiu o extremo do biombo de rede e olhou para o outro lado.

               - Soldados!   - A sua voz estava gelada com aquele ultraje. - Soldados, armados a atacar a nossa gente... dentro do próprio santuário.

               Lançou-se para o outro lado do biombo, imediatamente seguida por Matild, tão indignada como a grande sacerdotisa.

               O que ali estava a acontecer infringia todas as leis; não só as humanas, mas também as Daquela que Reina para Lá dos Céus. Eram soldados. Não eram casacos negros como Matild esperara. Ainda não tinham desembainhado as espadas, mas rodeavam a congregação empunhando lanças curtas e atingindo mulheres e homens indiscriminadamente e viam-se corpos ensangüentados jazendo no chão.

               A grande sacerdotisa lançou-se para a frente para enfrentar os invasores. Aquela que Habita para Lá dos Céus estava cheia de uma justa ira e esta era bem visível na Sua serva na terra. Sem pensar no que fazia, Matild seguiu-a de muito perto e sentiu a deslocação do ar no momento em que uma lança passou rente ao seu ombro.

               -- Para trás!

               A voz da grande sacerdotisa era como uma trombeta, retumbando como um trovão e parecendo ser reflectida e duplicada pelas paredes que os cercavam. Aqueles que acabavam de ser empurrados como gado, viraram-se para os soldados. Matild viu o ódio estampado nos seus rostos. Embora desarmados, estavam prontos a derrubar aqueles inimigos.

               - Parem! - O grito soou tão alto como o de Verit e tinha em si o tom do comando. Um oficial liderando uma pequena companhia de soldados abriu caminho no meio da confusão por forma a poder encarar de frente os atacantes. Era jovem e pelo seu uniforme via-se que era de alta patente e a ira que o tomava era tão forte e exaltada quanto a que fervia dentro de Verit.

               - Fora daqui... - Agitou o bastão de comando com uma das mãos, primeiro num gesto vago e depois apontando cada um dos soldados. - Este é solo sagrado... Quem vos ordenou uma coisa destas? Saiam, apresentem-se na caserna e lá terão um tal castigo que não o esquecerão para o resto das vossas vidas. Vão! - baixou o bastão com enorme fúria e empurrou um dos soldados, fazendo-o cair para trás aos tropeções.

               Um outro homem, com uma expressão dura, contornou o soldado caído para enfrentar o jovem oficial.

               - Nós temos as nossas ordens, senhor.

               - Ordens! - explodiu o oficial mais novo. - De quem?  Eu sou o comandante em Merina, por ordem do próprio imperador! Não dei uma tal ordem, e podem agradecer aos vossos deuses o facto de o meu pajem me ter comunicado o vosso ataque antes de terem aqui ferido gravemente alguém,  ou eu daria ordens para vos enforcarem!

               - Foram ordens do general Cathal - replicou estoicamente o outro.

               - Não quero saber se foi o Demónio dos Países Baixos quem vos deu as ordens; estas são as minhas ordens e é melhor que lhes obedeçam. Saiam imediatamente, ou providenciarei para que sejam levados pela minha guarda e isso será bem pior para todos vós!

               Os maxilares do oficial de patente mais baixa estavam teimosamente cerrados, mas era evidente que não se sentia preparado para continuar a enfrentar o homem mais novo. Depois sorriu, um sorriso muito desagradável, semelhante ao sorriso dos monstros marinhos comedores de homens e ergueu o seu bastão numa continência meio jocosa.

               - Muito bem, Vossa Alteza. Vós e o general podeis resolver isto um com o outro; não falo em nome do meu superior. Formem fileiras. - Deu a ordem por cima do ombro e o esquadrão disperso cerrou fileiras. - Marche...

               Retiraram-se, deixando atrás de si o caos que o seu ataque provocara. Os Hábitos Castanhos das ordens dos curandeiros já se espalhavam a socorrer os feridos atingidos pelas lanças.

               O príncipe virou-se para enfrentar directamente a grande sacerdotisa e inclinou cortesmente a cabeça.

               - Reverendíssima, nós não somos bárbaros... pelo menos nem todos nós. Não sei o que estará por trás desta bestialidade, mas podeis ficar certa de que o descobrirei e de que sereis indemnizada.

               Ela ficou a olhar para ele como alguém que estuda um difícil quebra-cabeças.

               - Príncipe Leopold... como sabeis, o general Cathal tem uma das piores reputações. Agora os homens dele obedeceram ao vosso comando, mas será que as vossas ordens continuarão a ser obedecidas? Estaremos nós - fez um gesto que incluía todos à sua volta - que somos o próprio Coração do Mundo, destinados a esta violação? Aviso-vos de que Aquela que Está por Trás do Sol pode trazer a ira tal como traz a paz e a esperança. Se A provocais demasiado tereis que sofrer as consequências.

               O seu rosto era magro e estava em grande parte oculto pelo elmo e pelas protecções do rosto. No entanto, mantinha-se firmemente erecto e os seus lábios formavam uma linha estreita e firme.

               - As ordens do imperador revogam quaisquer outras... ele terá conhecimento disto...

               Verit aproximou-se dele um passo e pegou-lhe na mão.

               - Príncipe, pelo menos neste aspecto Ela protege-vos, pois envia-vos palavras de aviso através de mim, que sou Sua serva. Pode muito bem acontecer que existam armadilhas habilmente disfarçadas nos caminhos que percorreis. Confiar é muitas vezes abrir as portas ao mais terrível dos medos.

               Por longos instantes os seus olhares mantiveram-se presos um no outro. Depois os lábios dele contorceram-se naquilo que tanto poderia ser um esgar como um sorriso sombrio.

               - Dou crédito total às vossas palavras, reverendíssima. Ficai certa de que os vossos avisos não cairão em orelhas moucas. Mas esta é a promessa que vos faço e que manterei: enquanto for eu o comandante de Merina, este local estará seguro e aqueles que A servem - ergueu a mão em continência - não terão necessidade de temer as tropas imperiais.

               - Falais a verdade... tal como a vedes... - replicou Verit. - Ela reconhece isso...

               A grande sacerdotisa fez o sinal do coração no ar, concedendo-lhe a bênção devida a todos quantos vinham até ao altar sem maus pensamentos.

               Matild, a mão ainda firmemente fechada sobre o rubi do Coração, conseguiu abrir caminho até ao exterior do templo. Não havia sinais dos soldados que tinham levado a cabo o ataque arbitrário; talvez tivessem mesmo regressado às casernas, obedecendo às ordens de Leopold. Mas ela estava a tentar formar a sua própria opinião acerca do príncipe.

               No passado já ouvira boatos de que ele não era um dos favoritos de Balthasar. Sabia-se que argumentara, pelo menos por duas vezes, contra o saque de cidades costeiras do norte. Mas também se dizia que o imperador lhe concedia muito pouca autoridade real, que parte do exército escarnecia dele e que o seu pai não o considerava um verdadeiro filho. Talvez tivesse sido nomeado governador da cidade para que Balthasar, esperando que ele cometesse erros, tivesse um pretexto para o rebaixar, o degradar para uma posição de cortesão inútil. Ainda que Leopold fosse um inimigo, ela sentia apesar disso preocupação com o rapaz. As cortes eram frequentemente labirintos malignos da intriga mais perversa. Um homem podia ser envolvido e destruído antes mesmo de se dar conta do perigo que corria. Embora Balthasar não mantivesse uma verdadeira corte, devido ao seu insaciável desejo de conquistar todas as terras que pudesse invadir com facilidade, tinha certamente um círculo íntimo mesmo nos seus inúmeros acampamentos de campanha, repleto de gente capaz de destruir os outros para conseguir um pouco mais de poder.

               Por outro lado, uma querela entre o príncipe e o imperador, não obstante estivesse claramente a ser ganha por este, talvez pudesse contribuir para afrouxar o apertado cerco feito à cidade. A não ser no que dizia respeito aos corvos agoirentos, pois não vira nenhum deles envolvido no confronto. Esses eram homens de Apolon e o mago era bem capaz de ter a sua própria receita para o príncipe e para o imperador, com resultados que só ele poderia prever.

 

LEOPOLD

               Leopold não confiou minimamente na palavra do oficial; não depois de o homem ter ordenado aos seus soldados que atacassem pessoas desarmadas em solo sagrado. Assegurou-se pessoalmente de que os homens de Cathal tinham regressado às casernas, enviando os seus oficiais para que os seguissem e garantissem que faziam exactamente o que lhes fora ordenado.  Só quando ficou seguro de que os mercenários estavam devidamente aquartelados, é que mandou chamar um dos seus escudeiros e entrou de rompante nos seus aposentos, numa raiva dificilmente controlada.

               Os mercenários eram supostos agir como uma força local de polícia, garantindo o cumprimento da lei imperial. Mas nos últimos dois ou três dias recebera relatórios de abusos cometidos contra os cidadãos de Merina por esses mesmos mercenários. Quando tentou investigar os relatórios, os oficiais dos mercenários tinham sempre a “prova” de que as suas acções tinham sido justificadas e, como era evidente, não havia ninguém que pudesse testemunhar o contrário. Desta vez, contudo, era diferente. Tinham agido contra cidadãos desarmados, reunidos em adoração em solo sagrado e não houvera nenhuma acção que provocasse um ataque tão escandaloso. A ele não tinham sido dadas quaisquer ordens no sentido de dar rédea solta na cidade a Cathal, ou à escumalha que eram as suas queridas tropas! E mesmo que tivessem sido... Atacar civis desarmados no interior do próprio templo! O homem deve estar louco! Estará a tentar provocar uma rebelião?

              Ao reflectir mais calmamente na questão, poderia ser exactamente isso o que Cathal procurava... pois uma rebelião dar-lhe-ia o pretexto necessário para saquear a cidade, conforme provavelmente esperara. Cathal não ficara satisfeito com a mansa rendição de Merina; a resistência ter-lhe-ia dado uma oportunidade para exercer toda a selvajaria que lhe ia naquela alma de besta. Em mais do que uma ocasião Leopold argumentara contra serem as tropas do general a entrar primeiro numa cidade, por saber que os resultados de uma tal política seriam um banho de sangue. Os homens de Cathal, tal como o seu amo, eram bestas que se deleitavam com o saque e as violações. Também eles tinham sido privados da oportunidade de dar largas aos seus apetites sórdidos.

               Aqui ele não terá essa oportunidade!

               Quando os seus escudeiros apareceram, Leopold ordenou-lhes que lhe trouxessem o seu uniforme de gala e que o seu cavalo fosse selado e trazido para a porta da frente. Antes que o oficial em questão tivesse oportunidade de informar Cathal do que ocorrera, Leopold levaria a situação ao próprio imperador.

               Vestiu o uniforme formal enquanto o escudeiro mais velho ia buscar o cavalo e correu durante o caminho todo até aos estábulos, ainda a abotoar o colarinho. Lançou-se para fora da porta e desceu os degraus a correr, depois saltou para o cavalo sem se dar ao trabalho de usar os estribos, espantando o pobre animal de tal forma que este arrancou as rédeas das mãos do escudeiro ao recuar, assustado.

               Não teve importância. Conseguiu controlá-lo novamente com as pernas e palavras adequadas, pois aquele era um cavalo treinado para a guerra e nada o espantava durante muito tempo.

               Curvou-se e agarrou nas rédeas, virou o cavalo e partiu a galope, saindo os portões do palácio e dirigindo-se para o acampamento do imperador.

               Por esta altura já os cidadãos de Merina tinham aprendido a afastar-se do caminho quando ouviam um cavalo à desfilada, galopando pelas suas ruas. Enquanto passava ficaram a olhá-lo, do abrigo proporcionado por portas ou ruas. transversais, mas ninguém fez qualquer gesto para impedir a sua passagem. Os cascos da sua montada de guerra, cobertos por ferraduras de ferro, faziam saltar faúlhas das pedras da calçada à medida que as pessoas se afastavam num silêncio profundo e enervante.

               As sentinelas gritaram-lhe quando passou o perímetro exterior do acampamento; ele respondeu-lhes, gritando as senhas por cima do ombro, mas não parou nem por um momento. O som das pancadas dos cascos do cavalo transformou-se, de um ruído rápido e agreste, em pancadas abafadas quando a estrada deixou de ser empedrada e passou a ser de terra batida. Ele estava cheio de uma certeza sombria de que, se fosse qualquer outra que não a sua versão a chegar primeiro aos ouvidos do imperador, seria ele e não Cathal a sofrer as consequências.  Sentia o estômago apertado com a tensão e foi com esforço que manteve pendurado o pingalim preso ao pulso e não o usou. O pobre cavalo já estava a dar o seu melhor; nenhum chicote o faria andar mais depressa, por mais que Leopold o desejasse.

               Galopou até à tenda do imperador e refreou de forma tão súbita o pobre cavalo que espumava, que este escorregou ao tentar parar, provocando uma nuvem de pó e erguendo-se nas patas traseiras. Lançou as rédeas a um dos sobressaltados guardas, ao mesmo tempo que saltava da sela. Quando avançava a passos largos para a tenda, teve um momento de má consciência por ter tratado tão mal um cavalo tão nobre; ele não merecia tal tratamento.

               Compensar-te-ei, prometeu silenciosamente; depois afastou a cobertura da porta da tenda e já não teve tempo para pensar em mais nada.

               O imperador estava a sós com o chanceler, o que era de causar espanto. Nem Cathal nem Apolon estavam à vista. Os dois homens ergueram a cabeça, sobressaltados com a entrada abrupta de Leopold.

               Este caiu imediatamente sobre um joelho, a cabeça curvada, para que não houvesse dúvidas quanto aos seus motivos, a sua lealdade ou a sua obediência. Esperou que o imperador lhe dirigisse primeiro a palavra e lhe desse permissão para falar, apesar de os seus nervos estarem de tal forma à flor da pele que os músculos do seu pescoço quase rebentavam com o esforço que fazia para reprimir as palavras iradas. Tinha que fazer todos os gestos de subserviência; só assim o imperador o ouviria.

               - Presumo que deva haver uma razão para irromperes por aqui dentro, interrompendo-nos de forma tão pouco apropriada, príncipe Leopold - disse calmamente o imperador. - Talvez te dignes esclarecer-nos.

               Aquela era permissão suficiente para soltar a torrente. Leopold começou pelo último dos actos escandalosos de Cathal e acrescentou tudo o resto: os assassínios injustificáveis de cidadãos notáveis de Merina e da permissão que ele dera aos seus homens para provocar desacatos nas ruas. O arrebanhamento das mulheres para criar bordéis imperiais; os espancamentos de qualquer um suspeito de “deslealdade”. Recitou tudo aquilo com uma raiva gelada, mas controlou cuidadosamente tanto as palavras como o tom em que as proferia, pois era dessa forma que o imperador preferia ouvir os relatos: sem paixão, pelo menos à superfície.

               Mas quando acabou o relato dos excessos de Cathal, a sua raiva escapou ao seu controlo e continuou relatando as acções odiosas dos casacos negros de Apolon. Percebeu imediatamente que cometera um erro quando se instalou um silêncio total. Mas nessa altura já era demasiado tarde. As palavras já tinham sido ditas. Tentou compor a situação regressando à questão de Cathal, mas o seu pai interrompeu-o antes que conseguisse dizer mais do que umas quantas palavras.

               - Creio - disse lentamente Balthasar - que já é tempo de eu fazer uma entrada formal em Merina. Hoje mesmo; dentro de uma hora. Que a cidade saiba qual é a mão que segura as rédeas e em breve se aquietará. Já é tempo de eu tornar claro quem é o senhor do Império. Penso que uma vez eu lá instalado, já não voltem a acontecer mais supostos “milagres” nem lamentações por causa de velhas que há muito excederam o seu tempo na terra.

               Por momentos Leopold teve razões para crer que Balthasar levara a peito as suas palavras. Que chamaria à pedra tanto o Cão Raivoso como o Cão do Inferno, que lhes mostraria, também a eles, o chicote, forçando-os a recuar para os seus devidos lugares.

               - Parece-me bem que o governo da cidade foi um esforço demasiado grande para ti, príncipe Leopold - continuou o imperador suavemente, esmagando as esperanças de Leopold. -uma cidade não é, afinal, um pelotão de soldados. Pura e simplesmente não se pode dar uma ordem e partir do princípio que um civil lhe obedecerá. Tem que se mostrar a essa gente que a nossa mão é feita de ferro, dar-lhes uma boa razão para obedecerem, provar-lhes que não admitimos que nos desobedeçam.

               Eu disse coisas demais, levantei demasiadas questões, ele está a tirar-me a cidade...

               - Sim, assumirei eu próprio o comando de Merina. Quanto ao meu leal comandante Leopold - continuou o imperador num tom calmo e sedoso, enquanto Leopold mantinha os olhos baixos e fixos nos desenhos geométricos da carpete vermelha e negra onde estava ajoelhado - é óbvio que mais oficiais deveriam ter a compreensão que ele demonstra. E é também óbvio que os seus deveres foram para ele um fardo demasiado pesado. Creio que poderemos aliviá-lo desse fardo e, simultaneamente, contribuir para que os oficiais mais novos ganhem alguma da sua compreensão.

               O desespero de Leopold aumentou.

               Não...  ele não vai... Mas ia.

               - Assumirei eu próprio o comando das tuas tropas - continuou calmamente o imperador -e tu, príncipe Leopold, retirar-te-ás para o outro lado do rio, para o Palácio de Verão e treinarás os oficiais mais novos que lá colocarei. Enviar-te-ei aqueles que sentir necessitarem de instrução.

               Leopold não se conseguiria pôr de pé mesmo que o imperador lho ordenasse. Sentia-se dormente, como que colado ao sítio onde estava. De uma só vez fora privado do comando, exilado, retirado de uma posição que lhe permitiria desacreditar Apolon ou Cathal e privado de qualquer possibilidade de cumprir a promessa que fizera à grande sacerdotisa.

               Tenho que arranjar uma forma de avisar a grande sacerdotisa do que se passa! Talvez ela consiga convencer o povo de Merina a manter-se calmo sob a mão do imperador.

               - Vou mandar chamar os vossos escudeiros para que possais partir imediatamente, príncipe - disse o chanceler, destruindo as suas esperanças de conseguir avisar a grande sacerdotisa antes de Balthasar assumir de facto o controlo. - Segundo creio, as vossas coisas ainda aqui estão no acampamento?

               Estonteado ele assentiu, ainda com os olhos baixos.

               - Óptimo - disse calorosamente o chanceler. - Por que não ides buscá-las e depois não atravessais o rio?

               Ouviu-se o ruído do atrito de panos e o chanceler avançou até ficar ao lado de Leopold, tocando-lhe no ombro e fazendo-lhe sinal para que se levantasse. Ele assim fez, ainda de tal forma chocado que se movia como num sonho, mal tendo consciência dos seus movimentos.

               - Vai com ele, sim? - disse o imperador; Leopold não conseguia olhar para ele. - Cuida de que lhe dêem tudo aquilo de que precisar. Não queremos que ele parta sem os aprovisionamentos

 necessários.

               Sem saber como, Leopold deu por si a sair da tenda com o chanceler a seu lado. Seguramente terá feito uma vénia a Balthasar, mas não se recordava; certamente que o fizera, pois o chanceler não lhe permitiria que omitisse um gesto tão importante...

               - Recomponde-vos, meu rapaz, isto não é assim tão mau - disse Adelphus assim que saíram da tenda. - Parai de agir como se tivésseis sido exilado para o fim do mundo! O Apolon goza de grande popularidade junto de Balthasar neste momento; cometestes um erro ao atacá-lo, é tudo. Ele há-de cometer um erro; os da sua laia cometem sempre, e voltareis a gozar dos favores do imperador. Agora ide, mas é para o Palácio de Verão, fazei o que o imperador vos diz e tudo ficará bem de novo.

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