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Series & Trilogias Literarias
Estas oito aventuras me foram contadas há tempos por Arsène Lupin, que as atribuiu a um de seus amigos, o príncipe Rénine.
A meu ver, ante a maneira com que foram conduzidos, os processos, os gestos, o próprio caráter do personagem, é impossível deixar de confundir os dois amigos um com o outro Arsène Lupin é um imaginoso, tão capaz de renegar algumas de suas aventuras quanto de se atribuir outras em que não foi o herói.
O leitor que julgue.
No Alto da Torre
Hortense Daniel entreabriu sua janela enquanto sussurrou:
- Está aí, Rossigny?
- Estou - fez uma voz que subia da espessa vegetação junto ao castelo.
Inclinando-se um pouco, viu um homem bastante gordo que erguia para ela um rosto pesado, vermelho, emoldurado num colar de barba muito loura.
- E aí? - disse ele.
- Aí, ontem de noite, grande discussão com meu tio e minha tia. Recusam com firmeza assinar a transação, de que o meu notário lhes enviou a minuta, e me entregar o dote que meu marido dilapidou antes
do seu internamento.
- Seu tio, que quis esse casamento, é no entanto responsável, de acordo com os termos do contrato.
- Não importa. Estou lhe dizendo que recusa.
- Então?
- Então, continua decidido a me raptar? - perguntou ela rindo.
- Mais do que nunca.
- Com intenções honestas, não esqueça!
- Tudo o que quiser. Sabe bem que estou louco por você.
- Acontece que, infelizmente, não estou louca por você.
- Não peço que esteja, mas simplesmente que me ame um pouco.
- Um pouco? Você é exigente demais.
- Nesse caso, por que me escolheu?
- Por acaso. Andava chateada, faltava imprevisto à minha vida. Resolvi me arriscar. Olhe, estão aqui minhas bagagens.
Fez descer enormes sacos de couro que Rossigny recebeu nos braços.
- O passo está dado - murmurou. - Me espere com seu auto no cruzamento do If. Irei a cavalo.
- Oh! mas não vou poder raptar o seu cavalo.
- Ele volta sozinho.
- Perfeito!... Ah! a propósito...
- Quê?
- Quem é esse príncipe Rénine que está aí há três dias e que ninguém conhece?
- Não sei. Meu tio o encontrou numa caçada em casa de amigos, e o convidou.
- Ele gosta muito de você. Ontem deu um grande passeio com ele. É um homem que não me entra.
- Dentro de duas horas, terei deixado o castelo em sua companhia. Um escândalo que provavelmente esfriará Serge Rénine. E chega de conversa. Não temos tempo a perder.
Por uns minutos, olhou o gordo Rossigny que, curvado ao peso dos sacos, se afastava cauteloso por uma aléia deserta, e voltou a fechar a janela.
Fora, no parque ao longe, um toque de trompa marcava o despertar. A matilha irrompeu em latidos furiosos. Nesta manhã começava a temporada da caça no castelo de La Marèze, onde todos os anos, no início
de setembro, o conde d'Aigleroche, grande caçador diante do Eterno, reunia alguns amigos e os castelões das redondezas.
Hortense acabou de se arrumar lentamente. Vestiu seu costume de montar, que desenhava seu flexível porte, pôs o boné de feltro, cuja aba comprida emoldurava seu belo rosto de cabelos ruivos, e se sentou
na secretária para escrever ao seu tio, o Sr. d'Aigleroche, uma carta de adeus que devia ser enviada à noite. Carta difícil, de que fez vários começos e finalmente desistiu.
Mais tarde eu lhe escrevo - pensou -, quando sua cólera tiver passado.
E foi para a sala de refeições.
Grandes achas flamejavam no cavado do átrio. Panóplias de fuzis e carabinas ornavam as paredes. Os convidados chegavam de todas as partes e vinham apertar a mão do conde d'Aigleroche, um desses tipos
de cavalheiros do campo, pesados de aspecto, dando impressão de força, e que vivem apenas para a caça. De pé diante da lareira, com um grande copo de bom champanha na mão, batia-o no dos outros, bebendo.
Hortense beijou-o distraidamente.
- Como! o senhor que é em geral tão sóbrio, meu tio. . .
- Ora - disse ele - uma vez por ano. . . bem que a gente pode fazer algum excesso...
- A tia vai repreendê-lo.
- Tua tia está com a sua dor de cabeça e não vai descer. Mas isto - acrescentou em tom mal-humorado - não tem nada a ver com ela. . . e contigo menos, pequena.
O príncipe Rénine se acercou de Hortense. Era um jovem de grande elegância, o rosto fino e um pouco pálido, e cujos olhos tinham alternadamente a expressão mais doce e a mais dura, a mais amável e
a mais irônica.
Inclinou-se diante da moça, beijou-lhe a mão e lhe disse:
- Recordo-lhe sua boa promessa, cara senhora?
- Minha promessa?
- Sim, combinamos continuar o belo passeio de ontem e que tentaríamos visitar aquela casa tão defendida e cujo aspecto nos intrigou... a que chamam, me parece, o domínio de Halingre.
Ela replicou com certa secura:
- Peço mil desculpas, senhor, mas a excursão seria longa e estou um pouco cansada. Dou uma volta no parque e volto para casa.
Houve um silêncio entre os dois, e Serge Rénine pronunciou sorrindo, fitando-a nos olhos e de modo que só ela ouvisse:
- Estou certo de que manterá a palavra e me aceitará como companheiro. É preferível.
- Para quem? Para você, não é?
- Para você também, lhe afirmo.
Ela enrubesceu levemente e contestou:
- Não entendo, senhor.
- Não lhe proponho, no entanto, nenhuma adivinhação. A estrada é encantadora, o domínio de Halingre interessante. Nenhum outro passeio lhe daria o mesmo prazer.
- Fatuidade não lhe falta.
- Nem teimosia, senhora.
Teve ela um gesto irritado, mas desdenhou responder. Virando-lhe as costas, deu apertos de mão à sua volta e saiu da peça.
Ao pé do patamar, um criado menino segurava seu cavalo pela rédea. Pôs-se na sela e seguiu para o bosque que continuava o parque.
O tempo estava fresco e calmo. Entre as folhas, que apenas tremiam, surgia um céu de cristal azul. Hortense seguia a passo por sinuosas aléias que a levaram, ao fim de uma meia hora, a uma região de
barrancos e escarpados atravessada pela estrada principal.
Parou. Nenhum ruído. Rossigny deveria ter desligado o motor e escondido o carro entre os arvoredos que cercam a encruzilhada do If.
No máximo quinhentos metros a separavam desse cruzamento. Após instantes de hesitação, apeou, amarrou negligentemente o cavalo, a fim de que ao menor esforço pudesse se livrar e voltar ao castelo,
envolveu o rosto num comprido veu marrom que flutuava sobre seus ombros, e avançou.
Não se enganara. Na primeira volta, notou Rossigny. Ele correu a ela e a levou ao arvoredo.
- Depressa, depressa. Ah! receava tanto um atraso. . . ou mesmo uma mudança de decisão. . . E está aí! Será possível?
Ela sorria.
- Como fica feliz fazendo uma asneira!
- Se sou feliz! E você será também, juro!
- Talvez, mas eu não farei uma asneira.
- Fará o que quiser, Hortense. Sua vida será um conto de fadas.
- E você, o príncipe encantado!
- Terá todo o luxo, todas as riquezas. . .
- Não quero nem luxo nem riquezas.
- O que, então?
- A felicidade.
- Respondo por sua felicidade.
Ela brincou:
- Duvido um pouco do tipo de felicidade que terei por seu intermédio.
- Vai ver. . . Vai ver. . .
Tinham chegado junto ao automóvel. Rossigny, gaguejando palavras de júbilo, pôs em movimento o motor. Hortense entrou e se cobriu com um casacão. O carro seguiu no campo a estreita senda que levava
ao cruzamento, e Rossigny acelerou quando devia frear.
Um tiro fora detonado no bosque próximo e o carro ia para um lado e outro.
- Estourou um pneu da frente - disse Rossigny, parando e descendo.
- Que nada! - exclamou Hortense. - Deram um tiro.
- Impossível, minha amiga. O que está dizendo!
No mesmo instante houve dois leves choques e duas
outras detonações ressoaram, uma em cima da outra, longe, ainda no bosque.
Rossigny rangeu os dentes:
- Os pneus de trás. . . rebentados.. . Diabo de azar! Mas quem será o bandido?. . . Ah, se o pegasse!
Escalou a elevação que marginava a estrada. Ninguém. Mas a ramagem das árvores impedia a visão.
- Raios te partam! - berrou. - Você tinha razão, atiravam no auto! Essa é demais! Estamos bloqueados por horas! Três pneus para consertar!... Mas o que está fazendo, minha amiga?
A jovem descia do carro e corria para ele, agitada.
- Vou me embora.
- Mas por quê?
- Quero saber. Atiraram. Quem? Quero saber...
- Não nos separemos, lhe peço.
- Está pensando que vou lhe esperar durante horas?
- Mas e a nossa partida?., nossos planos?...
- Amanhã se fala nisso. Volte ao castelo. . . Traga a bagagem.
- Suplico, suplico. . . Não foi culpa minha. Parece que está me odiando.
- Não estou. Mas, por favor, quando se rapta uma mulher, não se estouram os pneus, meu caro. Até loguinho.
Afastou-se às pressas, teve a sorte de achar o cavalo e partiu a galope na direção oposta a La Marèze.
Para ela não havia a menor dúvida: os três tiros tinham sido dados pelo príncipe Rénine.
- Foi ele - murmurou com cólera -, foi ele. Só ele seria capaz de agir assim.
De resto, não a tinha prevenido, com uma sorridente autoridade?
- Você virá, estou certo... Espero-a.
Ela chorava de raiva e humilhação. Se neste momento estivesse diante do príncipe, o chicotearia.
À sua frente se estendia a áspera e pitoresca região, que coroa, ao norte, o município da Sarthe, cognominada a pequena Suíça. Íngremes elevações a obrigavam não raro a andar devagar, tanto mais que
lhe faltava percorrer uma dezena de quilômetros para atingir o objetivo que se propunha. Mas se seu ímpeto diminuía e o esforço físico se acalmava pos poucos, persistia na revolta contra o príncipe Rénine.
Detestava-o, não só pelo ato inqualificável que cometera, mas também por sua conduta em relação a ela há três dias, suas solicitudes, sua segurança, seu ar de gentileza excessiva.
Aproximava-se. No fundo de um vale, um velho muro periférico, cheio de fendas, enfeitado de musgo e verdes disparatados, deixava ver o pequeno campanário de um castelo e algumas janelas fechadas com
batentes. Era o domínio de Halingre.
Seguiu o muro e virou. Ao centro da meia lua que se arredondava diante da porta da entrada, Serge Rénine esperava, de pé, junto a seu cavalo.
Ela desmontou e, como ele se adiantasse de chapéu na mão, lhe agradecendo por ter vindo, bradou:
- Antes de tudo, senhor, me diga uma coisa. Agora mesmo ocorreu um fato inexplicável. Atiraram três vezes num automóvel em que eu estava. Esses tiros foram dados pelo senhor?
- Sim.
Ela ficou atônita.
- Confessa?
- Me faz uma pergunta, senhora, respondo.
- Mas como teve o atrevimento? com que direito?
- Não exerci um direito, senhora, obedeci a um dever.
- Realmente! E que dever?
- O dever de protegê-la contra um homem que procura explorar a aflição da sua vida.
- Proíbo-o de falar assim. Sou responsável por meus atos e foi em plena liberdade que tomei uma decisão.
- Senhora, ouvi esta manhã a conversa que teve da sua janela com o Sr. Rossigny, e não me pareceu que o seguia com alegria de coração. Reconheço a brutalidade e o mau gosto da minha intervenção e
me desculpo humildemente, mas quis, com o risco de passar por ordinário, lhe conceder algumas horas de reflexão.
- Está tudo resolvido, senhor. Quando decido uma coisa, não mudo de opinião.
- Sim, senhora, às vezes, já que está aqui em vez de estar lá.
A moça teve um momento contrafeito. Sua cólera tinha passado. Olhava Rénine com o pasmo que se tem diante de certos seres diferentes dos outros, mais capazes de atos fora do comum, mais generosos
e desinteressados. Percebia perfeitamente que ele agira sem segunda intenção ou cálculo, apenas, como dizia, por dever de homem galante ante uma mulher que se engana de caminho.
Com doçura, ele lhe disse:
- Sei muito pouca coisa sobre a senhora, o bastante no entanto para que tenha o desejo de lhe ser útil. Tem vinte e seis anos e é órfã. Há sete anos, casou com o sobrinho afim do conde d'Aigleroche,
sobrinho de espírito esquisito, meio louco, que teve de ser encerrado. Daí sua impossibilidade de se divorciar e a obrigação, já que seu dote foi dissipado, de viver às custas do seu tio e com ele. O ambiente
é triste, pois o conde e a condessa não se acertam. Há tempos, foi o conde deixado pela primeira mulher, que fugiu com o primeiro marido da condessa. Os dois cônjuges abandonados uniram, por despeito,
seus destinos, mas só acharam nesse matrimônio decepções e rancores. Você sofre o contragolpe. Existência monótona, mesquinha, solitária durante mais de onze meses em doze. Um dia encontrou o Sr. de Rossigny,
que se apaixonou por você e lhe propôs a fuga. Não o ama, mas o tédio, sua juventude a se perder, a necessidade de imprevisto, o desejo de aventura. . . e aceita, mas com a intenção bem clara de se desembaraçar
do seu apaixonado e a esperança, um tanto ingênua, de que o escândalo forçasse seu tio a acertar as contas com você, de modo a assegurar-se uma existência independente. Eis onde está. No momento, é preciso
escolher: ou meter-se nas mãos do Sr. Rossigny, ou se confiar a mim.
Ergueu os olhos para ele. Que queria dizer? Que significava aquela oferta feita a sério, como por um amigo que só deseja se mostrar solícito.
Uma pausa e ele pegou os dois cavalos pelas rédeas e as amarrou. Depois examinou a pesada porta, em que cada lado estava reforçado por duas tábuas pregadas em forma de cruz. Um cartaz eleitoral, com
data de vinte anos atrás, mostrava que ninguém desde essa épdca atravessara o umbral do domínio.
Rénine arrancou um dos barrotes de ferro que sustinha a grade em torno da meia lua e o usou como alavanca. As tábuas, apodrecidas, cederam. Uma delas descobriu a fechadura, que acometeu com uma faca
grossa, munida de numerosas lâminas e ferramentas. Um minuto e a porta se abria sobre um campo de plantas a se estender até um alto prédio em ruínas, encimado, entre quatro campanariozinhos de canto, por
uma espécie de belvedere construído sobre uma torrinha.
O príncipe se virou para Hortense.
- Nada a apresse - disse. - Esta noite tomará sua decisão e, se o Sr. Rossigny conseguir convencê-la pela segunda vez, dou-lhe a palavra de que não me atravessarei de novo em seu caminho. Até lá,
me conceda a sua presença. Tínhamos decidido ontem visitar o castelo; visitemos, quer? É um modo como outro de passar o tempo e tenho a idéia de que será interessante.
Possuía uma maneira de falar que obrigava à obediência. Parecia ordenar e implorar ao mesmo tempo. A moça não tentou mesmo sacudir o entorpecimento em que sua vontade aos poucos caía. Seguiu-o a um
patamar semidemolido, que tinha ao alto uma porta igualmente reforçada por tábuas em cruz.
Rénine agiu do mesmo modo e entraram num amplo vestíbulo, lajeado de preto e branco, mobiliado com aparadores antigos e cadeiras de coro de igreja, e ornado com um brasão de armas em madeira, em que
se viam traços de pinturas armoriais representando uma águia empoleirada num bloco de pedra, tudo isso sob um enramado de teias de aranha a pender de uma porta.
- A porta do salão, claro - firmou Rénine.
Abri-la foi mais difícil e só sacudindo-a com arremessos de ombro pôde empurrar um de seus lados.
Hortense não dizia nada. Assistia, não sem assombro, a essa série de arrombamentos executados com verdadeira técnica. Ele adivinhou sua idéia e, virando-sei disse-lhe em tom sério:
- É um brinquedo de criança para mim. Fui serralheiro.
Ela lhe pegou no braço murmurando:
- Ouça.
- O quê?
Ela cerrou mais a mão, exigindo silêncio. Quase na hora, ele assentiu baixinho:
- De fato, é estranho.
- Ouça... ouça... - repetiu Hortense estupefata. - Oh, será possível?
Ouviam, não longe, um ruído seco, de um pequeno choque voltando a intervalos regulares, e lhes bastou escutar com atenção para reconhecer o tique-taque de um relógio. Realmente, era isso o que compassava
o grande silêncio do salão escuro, era bem o tique-taque lento, ritmado como a batida de um metrônomo, produzido por um pesado balancim de cobre. Isso. E nada podia lhes parecer mais impressionante que
a pulsação medida desse pequeno mecanismo, que continuara a viver na morte do castelo. . . por que milagre? por que inexplicável fenômeno?
- No entanto - balbuciou Hortense, que não ousava erguer a voz -, ninguém entrou, não é?
- Ninguém.
- É inadmissível que esse relógio tenha podido andar durante vinte anos sem lhe darem corda, não é?
- Inadmissível.
- Então?
Serge Rénine abriu as três janelas e forçou os batentes pregados.
Estavam enfim no salão e esse não oferecia o menor traço de desordem. As cadeiras estavam no lugar e não faltava um móvel sequer. As pessoas que residiam no castelo e dessa fizeram sua peça mais íntima
tinham ido embora sem levar nada, nem os livros que liam, nem os objetos colocados sobre mesas e consolos.
Rénine examinou o velho relógio de campo, fechado em sua alta caixa esculpida e que deixava ver, por um vidro oval, o disco do balancim. Abriu: os pesos, nas cordas, estavam no fim do percurso.
Neste momento houve um clique e o relógio bateu oito vezes, num tom grave que a moça não devia nunca esquecer.
- Que prodígio! - murmurou.
- Um prodígio, de fato - ele confirmou -, pois o mecanismo, muito simples, só permite o movimento por uma semana.
- E não observa nada de diferente?
- Não, nada. . . ou pelo menos.. .
Abaixou-se e, do fundo da caixa, tirou um tubo
de metal que os pesos escondiam e o pôs contra a luz.
- Um óculo de alcance - disse pensativo. - Por que o esconderiam aí? E o deixaram aberto em todo o comprimento. Estranho. Que significará?
Pela segunda vez, como é costume, o relógio voltou a bater. Oito pancadas ao todo ressoaram. Rénine fechou a caixa e, sem largar a longamira, prosseguiu em sua inspeção. Uma ampla abertura comunicava
o salão com uma peça menor, com jeito de reservada aos fumantes e também mobiliada, mas onde, porém, havia uma vidraça para fuzis cujos cabides estavam vazios. Preso num lugar perto da parede, um calendário
ostentava uma data, 5 de setembro.
- Ah! - bradou Hortense confundida - a mesma data de hoje! Foram tirando as folhas do calendário até 5 de setembro, e estamos num aniversário desse dia. Que coincidência nunca vista!
- Nunca vista - pronunciou ele. - É o aniversário da partida deles, faz hoje vinte anos. . .
- Reconheça que tudo isso é incompreensível.
- Sim, claro. . . mas assim mesmo. . .
- Tem alguma idéia?
Ele respondeu ao fim de uns segundos:
- O que me deixa curioso é esta longamira escondida. . . jogada ali, no último momento. Para que servia? Das janelas da parte térrea, vêem-se apenas as árvores do jardim. . . e sem dúvida ocorre o
mesmo de todas as janelas. Estamos num vale, sem o mínimo horizonte. Para se servir desse instrumento, tinha-se de subir lá em cima. Vamos subir?
Ela não hesitou. O mistério que nascia da aventura toda excitava tão vivamente sua curiosidade que desejava apenas seguir Rénine e o secundar em suas buscas.
Subiram a escada principal e chegaram ao segundo andar, a uma plataforma que ia dar à escada em espiral do belvedere.
O terraço era ao ar livre, mas cercado por um parapeito que se erguia a mais de dois metros.
- Isto devia ter antes seteiras, que depois taparam - observou o príncipe. - Olhe, são essas. Foram fechadas.
- De qualquer modo, aqui também o óculo de alcance seria inútil, e só nos resta descer de novo.
- Não sou do seu parecer - disse ele. - Logicamente devia haver aqui um mirador para a campanha e logicamente era aqui que o óculo era empregado.
À força dos braços, alçou-se ao cimo do parapeito e pôde ver que dali se descortinava todo o vale, o parque, onde as árvores grandes limitavam o horizonte, e, longe, no extremo de um corte no mato
de uma colina, uma outra torre em ruínas, bem baixa, cingida de heras, e que estava talvez a setecentos ou oitocentos metros de distância.
Rénine seguia no exame, parecendo que para ele todo o problema se resumia no uso da luneta, e que o problema estaria resolvido se pudesse descobrir o modo como era empregada.
Estudou uma a uma as seteiras. Uma delas, ou antes, sua localização, atraiu seus cuidados. Existia, em meio à camada de reboco que servira para tapá-la, um vazio cheio de terra e onde plantas cresciam.
Arrancou-as e tirou a terra, o que desimpediu um orifício de vinte centímetros de diâmetro, que atravessava a parede de lado a lado. Olhando por ele, Rénine constatou que dirigia fatalmente a visão,
por cima do amontoado de árvores e seguindo o corte da colina, até a torre de hera.
No fundo desse conduto, numa espécie de ranhura que corria como um rego, a luneta achou seu lugar, e tão exatamente que seria impossível mexê-la, por pouco que fosse, para a direita ou a esquerda.
. .
Rénine, que limpara a parte exterior das lentes, tomando cuidado em não alterar de uma fração o ponto de mira. pôs o olho na ponta fina do instrumento.
Ficou trinta ou quarenta segundos atento e silencioso. Depois se ergueu e pronunciou com voz turbada:
- É espantoso. . . espantoso. . .
- Que é que há? - perguntou ela ansiosa.
. - Olhe.
Curvou-se, mas, para ela, a imagem não estando nítida, foi preciso adequar o instrumento à sua vista. Quase imediatamente disse com um arrepio:
- São dois espantalhos, não é? Os dois encarapi- tados lá em cima. . . Por quê?
- Olhe - ele repetiu -, olhe com mais atenção. Sob os chapéus... os rostos.
- Oh! - fez ela, desfalecendo - que horror!
O campo da luneta oferecia, recortado em círculo como uma projeção luminosa, este espetáculo: a plataforma de uma torre truncada, cuja parede, mais alta na parte mais afastada, formava como uma tela
de fundo de onde partiam vagas de hera. Adiante, em meio a um amontoado de arbustos, dois seres, um homem e uma mulher, apoiados, jogados contra um desabamento de pedraç.
M'as se podia chamar homem e mulher a essas duas formas, esses dois manequins sinistros, com bastante roupa ainda e restos de chapéus, mas que não tinham mais olhos, faces, queixo, mais uma parcela
de carne, e eram estrita e realmente dois esqueletos?. . .
- Dois esqueletos - balbuciou Hortense -, dois esqueletos vestidos. . . Quem os levou para ali?
- Ninguém.
- Mas. . .
- Esse homem e essa mulher devem ter morrido no alto daquela torre, há anos e anos. E, sob as roupas, as carnes apodreceram, os corvos os devoraram.
- Mas é horrível, horrível! - Hortense estava pálida e seu rosto se crispava de desgosto.
Meia hora mais tarde, Hortense Daniel e Serge Rénine deixavam o castelo de Halingre. Antes de regressar, tinham ido até a torre de hera, resto de um torreão fortificado, três quartos demolidos. O interior
estava vazio. Para subir, em data relativamente recente, se devia usar escadas de madeira, cujos destroços jaziam no solo. A torre se arrimava ao muro que marcava o fim do parque.
Coisa estranha, e que surpreendeu Hortense, o príncipe Rénine desistira de fazer uma investigação mais minuciosa, como se o assunto tivesse perdido para ele todo interesse. Não falou mais a respeito,
e na Hospedaria da aldeia mais próxima, em que comeram alguma coisa, foi ela quem perguntou ao estalajadeiro sobre o castelo abandonado. Inutilmente por sinal, pois o homem, novo na região, não pôde fornecer
indicação alguma. Ignorava mesmo o nome do proprietário.
Retomaram a estrada de La Marèze. Várias vezes Hortense recordou a ignóbil visão contemplada. Mas Rénine, muito alegre, cheio de gentilezas para sua companheira, parecia de todo indiferente a essas
questões.
- Enfim, é impossível ficarmos só nisso! Uma solução se impõe.
- Realmente - disse ele - é preciso uma solução. O Sr. Rossigny tem de ficar sabendo com o que contar e você de tomar uma decisão a seu respeito.
Ela deu de ombros.
- Ora, se trata por hoje. . .
- Por hoje?
- Trata-se de saber o que são aqueles dois cadáveres.
- No entanto, Rossigny. . .
- Rossigny esperará. Mas eu não posso esperar.
- Vá. Ainda mais que talvez ele ainda não tenha acabado de reparar os pneus. Mas o que vai lhe dizer? Isso é o essencial.
- O essencial é o que nós vimos. Você me colocou diante dum mistério fora do qual nada mais conta. Vamos, quais são suas intenções?
- Minhas intenções?
- Sim, são dois cadáveres. . . Vai avisar a polícia, não é?
- Bondade celeste! - disse ele rindo - para quê?
- Mas há aí um enigma que se deve resolver a qualquer preço... um drama assustador...
- Não temos necessidade de ninguém para isso.
- Como? que está dizendo? Entende algo do caso?
- Meu Deus, quase tão claramente como se tivesse lido num livro uma história longamente narrada com ilustrações de apoio. Tudo é duma tal simplicidade!
Examinou-o com o canto do olho, a se perguntar sé -brincava com ela. Mas ele tinha ar sério.
- E então? - disse ela a fremir.
A luz começava a baixar. Tinham andado rápido e, quando se aproximavam de La Marèze, os caçadores regressavam.
- Então - disse ele - vamos completar nossas informações junto a pessoas que residam na região. Conhece alguém qualificado?
- Meu tio. Nunca saiu daqui.
- Bom. Interrogaremos o Sr. d'Aigleroche e verá com que rigorosa lógica todos esses fatos se ligam uns aos outros. Quando se dá o primeiro passo, se é obrigado, queira-se ou não, a dar o último. Não
conheço nada de mais divertido.
No castelo, se separaram. Hortense encontrou as bagagens e uma carta furiosa de Rossigny, em que se despedia e anunciava sua partida.
- Bendito seja - pensou Hortense -, esta ridícula figura descobriu a melhor solução.
Seu namoro com ele, a escapada, os planos, tinha esquecido tudo. Rossigny lhe parecia muito mais alheio à sua vida que esse desconcertante Rénine, que poucas horas antes lhe inspirava tão pouca simpatia.
Rénine vem bater à sua porta.
- Seu tio está na biblioteca. Quer vir junto? Já avisei que ia vê-lo.
Ela o seguiu.
Ele acrescentou:
- Uma palavra ainda. Esta manhã, contrariando seus planos e lhe suplicando que confiasse em mim, assumi assim, a seu respeito, um compromisso que não quero demorar em cumprir; vai ter a prova formal.
- Não assumiu senão um compromisso - disse ela rindo -, o de satisfazer à minha curiosidade.
- Será satisfeita - afirmou sério -, e bem além de tudo o que possa calcular, se o Sr. d'Aigleroche confirmar meus raciocínios.
O castelão estava sozinho, como fora pedido. Fumava seu cachimbo e bebia sherry. Ofereceu um cálice a Rénine, que recusou.
- E tu, Hortense? - falou com voz meio pastosa. -- Sabes que aqui a gente só se diverte um pouco é nestes dias de setembro. Aproveite. Fizeste um bom passeio com Rénine?
- Ê precisamente sobre esse assunto que queria lhe falar, caro senhor - interrompeu o príncipe.
- Vai me desculpar, mas dentro de dez minutos tenho de ir à estação buscar uma amiga de minha mulher.
- Oh! dez minutos me bastam com sobra.
- Só o tempo de fumar um cigarro, sim?
- Nada mais.
Pegou um cigarro na caixa que lhe ofereceu o Sr. d'Aigleroche, acendeu e disse:
- Imagine que neste passeio fomos dar por acaso num velho domínio que sem dúvida conhece, o de Halingre.
- Sem dúvida, mas está fechado, barricado, desde um quarto de século, creio. Pôde entrar?
- Sim.
- Ah! Uma visita interessante?
- Muito. Descobrimos as coisas mais estranhas.
- Que coisas? - perguntou o conde que olhava seu relógio de bolso.
Rénine contou:
- Peças entrincheiradas, um salão que deixaram na ordem da vida quotidiana, uma pêndula que, por milagre, soou à nossa chegada...
- Pequenos detalhes - murmurou o Sr. d'Aigle- roche.
- Mas há mais. Subimos no alto do belvedere e daí pudemos ver, numa torre, bem longe do castelo, dois cadáveres, antes dois esqueletos... um homem e uma mulher ainda com as roupas que vestiam quando
foram assassinados...
-i Oh! oh! assassinados! Simples suposição.
- Certeza; e é a esse respeito que viemos importuná-lo. Esse drama, que justamente deve se reportar a uma vintena de anos, não chegou a ser conhecido na época?
- Palavra, não - declarou o conde d'Aiglero- che -, nunca ouvi falar de nenhum crime, de nenhum desaparecimento,
- Ah! - fez Rénine, que parecia um pouco perturbado - esperava ter algumas informações. . .
' - Lamento.
- Nesse caso, me desculpe.
Consultou Hortense com o olhar e andou para a porta Mas reconsiderando:
- Não poderia ao menos, caro senhor, pôr-me em contato com pessoas de seu meio, de sua família... que provavelmente estariam a par?
- De minha família? por quê?
- Porque o domínio de Halingre pertencia, sem dúvida pertence ainda, aos d'Aigleroche. Os escudos mostram uma águia num bloco de pedra. . . numa rocha. 1 Fiz a relação na hora.
Dessa vez o conde pareceu surpreendido. Afastou a garrafa e o cálice:
- Que está me dizendo? Ignorava essa vizinhança.
Rénine sacudiu a cabeça sorrindo:
- Estaria antes disposto a crer, senhor, que não se apressa muito em admitir um grau de parentesco qualquer entre sua pessoa... e esse proprietário desconhecido.
- É então alguém menos recomendável?
- É alguém que matou, simplesmente.
- Como?
O conde se levantara. Hortense, comovida, articulou:
- Tem certeza de que houve crime e que esse crime foi cometido por alguém do castelo?
- Absoluta.
- Mas em que se baseia?
- É que sei quem foram as duas vítimas e a causa do homicídio.
O príncipe Rénine não fazia mais que afirmações, mas se julgaria, ao ouvi-lo, que se apoiava em provas mais sólidas.
O conde ia e vinha na peça, com as mãos nas costas. Terminou por dizer:
- Sempre tive a idéia de que havia ocorrido algo, mas não procurei saber. . . Com efeito, há vinte anos, um de meus parentes, um primo afastado, residia no domínio de Halingre. Esperava, por causa
do nome que levo, que essa história, de que não tive conhecimento, repito, mas suspeitei, ficasse na sombra para sempre.
- Assim, pois, esse primo matou?...
- Sim, foi obrigado a matar.
Rénine oscilou a cabeça.
- Sou forçado a retificar essa frase. A verdade é contrária, seu primo matou fria, covardemente. Não conheço crime que tenha sido concebido com tanto sangue-frio e astúcia.
- Que vai saber!
Tinha chegado o instante de Rénine se explicar, instante grave, angustioso, de que Hortense entendia a solenidade, embora nada ainda tivesse adivinhado do drama em que o príncipe se metia passo a passo.
- A aventura é bem simples - disse. - Tudo levava a crer que esse Sr. d'Aigleroche era casado e que, perto do domínio de Halingre, morava um outro casal com que os dois castelões tinham relações de
amizade. Que se passa um dia? Qual dessas quatro pessoas foi a primeira a perturbar as relações dos dois lares? Não poderia dizer. Mas há uma versão que se apresenta imediatamente ao espírito: que a mulher
de seu primo, a Sra. d'Aigleroche, se encontrava com o outro marido na torre de hera, que tinha uma saída direta para o campo. A par da intriga, seu primo d'Aigleroche decidiu se vingar, mas de tal modo
que não houvesse escândalo e que ninguém soubesse nunca que os culpados tinham sido mortos. Ora, tinha verificado - o que eu também fiz, hoje - que havia um lugar do castelo, o belvedere, de que se podia
ver, por cima das árvores e valados do parque, a torre que se achava a oitocentos metros dali, e que só desse ponto se dominava o topo da torre- Fez um buraco através do parapeito, no local duma antiga
seteira tapada, e daí, por meio dum óculo de alcance que descansava exatamente no fundo do buraco aberto, assistia aos encontros dos dois culpados. E foi por aí igualmente que, tendo tomado todas as medidas,
tendo calculado as distâncias, foi por aí que num domingo, a 5 de setembro, estando o castelo vazio, matou os amantes com dois tiros de fuzil.
A verdade se ostentava. A luz do dia lutava contra as trevas. O conde murmurou:
- Sim. . . é bem isso o que deve ter-se passado. . . Foi assim que o meu primo d'Aigleroche. . .
- O assassino - continuou Rénine - entupiu com cuidado a seteira com terra. Quem jamais descobriria que dois cadáveres apodreciam no alto dessa torre, onde ninguém ia nunca e de que teve a cautela
de destruir as escadas de madeira? Restava-lhe apenas explicar a desaparição de sua mulher e do amigo. Mas era fácil. Acusou-os de terem fugido juntos.
Hortense estremeceu. De golpe, como se essa última frase constituísse uma revelação completa e, para ela, absolutamente inesperada, compreendeu aonde Rénine queria chegar.
- Que está dizendo?
- Digo que o Sr. d'Aigleroche acusou a mulher e o amigo de terem fugido juntos.
- Não, não - bradou ela -, não posso admitir. . . Trata-se dum primo do meu tio. . . Por que misturar as duas histórias?. . .
- Por que juntar essa a uma outra história muito discutida na época? - replicou o príncipe. - Mas não junto, senhora, não existe senão uma história, e a conto tal como se deu.
Hortense se virou para o tio. Ele estava calado, com os braços cruzados, e sua cabeça permanecia na penumbra formada pelo abajur da lâmpada. Por que não protestava?
Rénine continuou com firmeza:
- Só há uma história. Na noite mesma de 5 de setembro, às oito horas, o Sr. d'Aigleroche, pretextando sem dúvida ir em busca dos fugitivos, deixou o seu castelo, depois de o ter barricado. Foi embora,
deixando as peças tal como estavam, levando apenas seus fuzis. No último minuto, teve o pressentimento, hoje justificado, de que a descoberta do óculo de alcance, que tinha representado tão grande papel
na preparação de seu crime, poderia servir de ponto de partida a uma investigação, e o jogou na caixa do relógio, onde o azar quis que interrompesse o andamento do balancim. Esse ato maquinal, como todos
os criminosos cometem inevitavelmente, devia traí-lo vinte anos mais tarde. Há pouco, os empurrões que dei sacudindo a porta do salão livraram o balancim. O relógio voltou a funcionar e as oito horas bateram
e. . . peguei o fio de Ariadne que devia me conduzir pelo labirinto.
Hortense balbuciou:
- Provas!. . . provas!. . .
- Provas? - replicou Rénine com energia. - Mas abundam e as conhece como eu. Quem teria podido matar nessa distância de oitocentos metros, a não ser um hábil atirador, um entusiasta da caça, não é,
Sr. d'Aigleroche? Provas? Por que nada foi levado do castelo, a não ser os fuzis, esses fuzis de que um caçador não pode prescindir, não é, Sr. d'Aigleroche? Esses fuzis que encontramos aqui, dispostos
em panóplia. . . Provas? E essa data de 5 de setembro que foi a do crime e deixou na alma do assassino uma tal lembrança de horror que, cada ano, nessa época, apenas nessa época, se enche de distrações
e, cada ano, a 5 de setembro, esquece seus hábitos de temperança? Ora, estamos a 5 de setembro, hoje. Provas? Mesmo que não houvesse outras, esta não lhe bastaria?
E Rénine estendeu o braço apontando o conde que, diante da evocação aterradora do passado, tinha se afundado numa poltrona e escondia a cabeça com as mãos.
Hortense não opôs qualquer objeção. Nunca tinha gostado do tio, ou antes, do tio de seu marido. Admitiu imediatamente a acusação contra ele.
Transcorreu um minuto.
O Sr. d'Aigleroche não parava de se servir de sherry, e duas vezes esvaziou seu cálice. Enfim, se ergueu e acercou de Rénine.
- Seja ou não verídica a história, senhor, não se pode chamar de criminoso o marido que vinga sua honra e suprime a esposa infiel.
- Não - replicou Rénine -, mas dei apenas a primeira versão da história. Há uma outra incomparavelmente mais grave. . . e mais verossímil, a que uma investigação mais minuciosa certamente levará.
- Que quer dizer?
. - Isto. Não se trata talvez dum marido justiceiro, como supus caridosamente. Trata-se talvez dum homem falido que cobiça a fortuna e a mulher de seu amigo e que, para isso, para se desembaraçar do
marido dela e da própria mulher, os atrai a uma armadilha, aconselhando que visitem a torre abandonada, e de longe, bem ao abrigo, os mata a tiros de fuzil.
- Não, não - protestou o conde -, não, tudo isso- é falso.
- Não afirmo apenas. Apóio minha acusação em provas, mas também em intuições e raciocínios que, até aqui, têm se mostrado exatos. De qualquer forma, se concebo que essa segunda versão não seja real,
por que os remorsos? Não se tem remorsos quando se castigam culpados.
- Tem-se quando se mata. É um peso esmagador a levar.
- Terá sido para se dar mais força que o senhor d'Aigleroche casou depois com a viúva de sua vítima? Pois tudo está aí, senhor. Por que esse casamento? O Sr. d'Aigleroche estava falido? Era rica a
que esposou em segundas núpcias? Ou então, ainda, os dois se amavam e foi de acordo com ela que o Sr. d'Aigleroche matou sua primeira mulher e o marido da segunda? São questões que desconheço e não têm
de momento interesse, mas que a justiça, com todos os meios de que dispõe, não terá dificuldade em esclarecer.
O Sr. d'Aigleroche titubeou. Teve de se apoiar nas costas duma cadeira e gaguejou, lívido:
- Vai avisar a polícia?
- Não, não - declarou Rénine. - A punição deve estar prescrita e, após vinte anos de remorsos e susto, uma lembrança que perseguirá o culpado até sua última hora, a discórdia sem dúvida em seu lar,
o ódio, o inferno de cada dia. . . e, para acabar, a obrigação de voltar lá e apagar os traços do duplo crime, o espantoso castigo de subir àquela torre, tocar nos esqueletos, despi-los, enterrá-los. .
. é suficiente. Não peçamos demais, nem lancemos tudo isso na boca do público, para um escândalo que repercutirá na sobrinha do Sr. d'Aigleroche. Não. Deixemos todas essas ignomínias.
O conde retomou sua postura diante da mesa, com as mãos crispadas na testa. Murmurou:
- Então por quê?...
- Porque intervem? Se falei, é para atingir uma meta qualquer, não é? Com efeito. Por mínima que seja, é preciso uma sanção, além de um sentido prático à nossa conversa. Mas não tenha nenhum receio.
O Sr. d'Aigleroche ficará quieto por um preço ínfimo.
A luta terminara. O conde sentiu que havia apenas uma pequena formalidade a cumprir, um sacrifício a aceitar e, retomando alguma segurança, disse com certa ironia:
- Quanto?
Rénine riu.
- Perfeito. Compreende a situação. Apenas se engana me metendo no assunto. Eu trabalho pela glória.
- Nesse caso?. . .
- Trata-se quando muito de uma restituição.
- Uma restituição?
Rénine se inclinou sobre a escrivaninha, e disse:
- Há, numa gaveta dessas, um ato que foi submetido à sua assinatura. É a minuta de uma transação entre o senhor e sua sobrinha, Hortense Daniel, relativamente à sua fortuna, que foi dissipada por
responsabilidade sua. Assine esse papel.
O Sr. d'Aigleroche teve uma crispação
- Sabe qual é a soma?. . .
- Não quero saber.
- E se recusar?
- Peço uma conferência com a condessa d'Aigle- roche.
Sem hesitar mais, o conde abriu a gaveta, tirou um documento em papel timbrado e assinou num impulso.
- Está aqui - disse -, espero. . .
- Espera como eu que não haja mais nada de comum entre nós dois? Estou convencido que sim. Vou embora esta noite, e sua sobrinha, amanhã, sem dúvida. Adeus, senhor.
No salão, a que nenhum dos convidados descera ainda, Rénine entregou o ato a Hortense. Ela parecia estupefata com tudo o que ouvira, e algo a confundia mais ainda que a luz implacável projetada sobre
o passado do seu tio: a clarividência prodigiosa e a extraordinária lucidez do homem que, há algumas horas, dirigia os acontecimentos e fazia surgir a seus olhos as cenas mesmas do drama que ninguém tinha
assistido.
- Está satisfeita comigo? - ele perguntou. Ela lhe estendeu as duas mãos.
- Me salvou de Rossigny, me deu a liberdade e a independência. Lhe agradeço do fundo do coração.
- Oh! não é o que lhe peço. O que quis, de início, foi distraí-la. Sua vida era monótona e sem imprevisto. Hoje também foi assim?
- Como pode me perguntar isso? Vivi os minutos mais fortes e mais estranhos.
- Pois isto é a vida, quando se sabe olhar e procurar. A aventura está em toda parte, no fundo da mais pobre choupana, atrás da máscara do homem mais prudente. Em toda parte, se se deseja, há motivos
para nos comovermos, fazer o bem, salvar uma vítima, pôr fim a uma injustiça.
Tocada pelo que havia nele de poder e autoridade, perguntou:
- Quem afinal é você?
- Um aventureiro, não outra coisa. Um amador de aventuras. A vida só merece ser vivida nas horas de aventura, alheia ou pessoal. A de hoje a transtornou por tocar no mais profundo de seu ser. Mas as
aventuras dos outros não são menos apaixonantes. Quer fazer a prova?
- Como?
- Seja .minha companheira de aventura. Se alguém me pedir socorro, socorra-o comigo. Se o acaso ou meu instinto me puser na pista de um crime, ou no rastro de uma dor, sigamos os dois juntos. Quer?
- Sim - disse. - Mas. ..
Hesitou. Procurava o objetivo oculto de Rénine.
- Mas - terminou ele sorrindo - desconfia um pouco: "Aonde este amador de aventuras pretende me levar? É claro que lhe agrado como mulher e que um dia ou outro não deixará de pôr a mão em seus honorários."
Tem razão. Convém haver entre nós um trato preciso.
- Bem preciso - disse Hortense -, que preferia levar a conversa num tom de brincadeira. - Faça a sua proposta.
Ele pensou um instante e continuou:
- Bem, vá. Hoje, dia da primeira aventura, o relógio de Halingre deu oito pancadas. Quer que aceitemos o desafio que nos fez, e sete vezes ainda, num prazo de três meses, por exemplo, continuemos juntos
em belas empresas? E quer na oitava vez me conceder?. . .
- O quê?
Ele demorou a resposta.
- Note que terá sempre a liberdade de me abandonar no meio do caminho, se eu não conseguir lhe interessar. Mas se me seguir até o fim, se me permitir começar e acabar com você a oitava empresa, dentro
de três meses, a 5 de dezembro, no mesmo instante em que a oitava batida daquele relógio soar - e soará, esteja certa, porque o velho balancim de cobre não deterá mais o seu curso - há de me conceder..
.
- O quê? - repetiu ela, já nervosa pela expectativa.
Ele calou, fitando os bonitos lábios que queria pedir como recompensa, mas estava tão certo de que a jovem entendera, que julgou inútil falar de modo mais claro.
- Só a alegria de vê-la me bastará. . . Não cabe a mim, mas a você estabelecer condições. Quais são? O que exige?
Ela lhe foi grata pelo respeito e respondeu rindo:
- O que exijo?
- Sim.
- Posso exigir seja o que for de difícil?
- Tudo é fácil a quem deseja conquistá-la.
- E se meu pedido for impossível?
- Só o impossível me interessa. . .
Então ela disse:
- Exijo que me devolva uma presilha de corpete antiga, com uma cornalina num engaste de filigrana. Veio de minha mãe, que a recebeu da sua, e todo mundo sabia que tinha dado sorte a ela e dava a mim.
Desde que sumiu do cofre em que estava fechada, sou infeliz. Me traga ela de volta, gênio bom.
__- Quando lhe foi roubada, essa presilha?
Ela teve um acesso de alegria: '
- Há sete anos. . . ou oito. . . ou nove, não sei mais... Não sei mais onde... Não sei como... Não sei nada. . .
- Hei de achá-la - afirmou Rénine - e será feliz.
A Garrafa D'Água
Quatro dias depois de se instalar em Paris, Hortense Daniel aceitou um encontro, no Bois, com o príncipe Rénine. Numa radiosa manhã, sentaram-se na esplanada do restaurante Imperial, num lugar apartado.
Ela estava feliz por viver, jovial, cheia de graça e sedução. Com receio de espantá-la, Rénine se reteve de aludir ao pacto que lhe propusera. Ela contou sua saída de La Marèze e afirmou que não tinha
ouvido mais falar de Rossigny.
- Eu - disse Rénine - ouvi falar dele.
- Ah!
- Sim, me enviou suas testemunhas. O duelo foi hoje de manhã cedo. Picada no ombro de Rossigny. Assunto encerrado.
- Falemos de outra coisa.
Não se tratou mais de Rossigny. Rénine, a seguir, expôs a Hortense o plano de duas expedições que tinha em vista e nas quais lhe ofereceu, sem entusiasmo, participação.
- A melhor aventura - disse - é a que não se prevê. Surge de improviso, sem que nada a anuncie e sem que ninguém, fora os experimentados, note essa oportunidade de agir e se dar que passa ao alcance
da mão. Convém aproveitá-la de imediato. Um segundo de hesitação e é tarde demais. Um sentido especial nos adverte, um faro de cão de caça que seleciona o cheiro certo entre todos os que se entrecruzam.
Em volta deles, a parte ao ar livre do restaurante começava a se encher. Na inesa ao lado, um jovem, de que notaram o perfil insignificante e o longo bigode escuro, lia um jornal. De trás, por uma
das janelas do restaurante, vinha um longínquo rumor de orquestra; num dos salões, algumas pessoas dançavam.
Hortense observava cada indivíduo, como se esperasse descobrir num deles o pequeno sinal revelador do drama íntimo, do destino infeliz ou da vocação criminosa.
Quando Rénine ia pagar a conta, o jovem de bigode longo abafou um grito e chamou um dos garçons com voz estrangulada.
- Quanto lhe devo?. . . Não tem troco? Ah, meu Deus, ande depressa!. . .
Sem hesitar, Rénine pegou o jornal dele, deu uma olhada rápida e leu à meia voz;
- O advogado Dourdens, defensor de Jacques Aubrieux, foi recebido no Palácio do Eliseu.2 Acreditamos saber que o presidente da República recusou o indulto ao condenado e a execução terá lugar amanhã
de manhã.
Tendo o jovem atravessado a esplanada, se achou, sob o pórtico do jardim, ante um senhor e uma dama que lhe interrompiam a passagem, tendo o senhor lhe ditô:
- Desculpe-me, mas surpreendi sua emoção. Trata- se de Jacques Aubrieux, não é?
- Sim. . . sim. . . Jacques Aubrieux - balbuciou o rapaz. - Jacques, o meu amigo de infância. Corro à casa de sua mulher. Deve estar louca de dor.
- Posso lhe oferecer minha ajuda? Sou o príncipe Rénine. A senhora e eu ficaríamos contentes em ver a Sra. Aubrieux e nos pôr à sua disposição.
O rapaz, transtornado pela notícia que lera, parecia não entender. Sem jeito se apresentou:
- Dutreuil. . . Gaston Dutreuil...
Rénine fez um sinal a Clément, seu chofer, que esperava a alguma distância, e levou Gaston Dutreuil ao auto, perguntando:
- O endereço? o endereço da Sra. Aubrieux?
- É avenida do Roule, 23 bis. . .
Tendo Hortense entrado, repetiu o endereço ao chofer e, a caminho, quis interrogar Gaston Dutreuil.
- Mal conheço o caso. Explique-o em duas palavras. )acques Aubrieux matou um parente próximo, não é?
- É inocente, senhor - contestou o jovem, que parecia incapaz de dar a menor explicação. - Inocente, juro. Há vinte anos que sou amigo de Jacques. É inocente. . . e seria monstruoso...
Não se pôde tirar nada dele. Aliás o trajeto foi rápido. Entraram em Neuilly pela porta dos Sablons c, dois minutos depois, paravam diante duma estreita e longa aléia, marginada por muros e que os
conduziu a um per-eno pavilhão de um só andar.
Gaston Dutreuil bateu.
- A senhora está no salão com a mãe - declarou a criada que abriu.
- Vou ter com elas - disse, levando Rénine e Hortense.
Era um salão grande e belamente decorado que, em tempos normais, devia servir de gabinete de trabalho. As duas mulheres estavam chorando e a mais idosa, de cabelos grisalhos, veio ao encontro de Gaston
Dutreuil. Este explicou a presença do príncipe Rénine e, em seguida, ela exclamou soluçando:
- O marido de minha filha está inocente, |acques é o melhor dos homens... um grande coração. Ele, assassinar seu primo!... Mas adorava o primo! juro-lhe que é inocente, senhor! E vão cometer a infâmia
de matá-lo? Ah! é a morte da minha filha.
Rénine compreendeu que estas pessoas viviam, há meses, na obsessão dessa inocência, e na certeza de que um inocente não podia ser executado. A notícia da execução, agora inevitável, os enlouquecia.
Foi até a pobre e curvada criatura cujo rosto jovem, contornado por belos cabelos louros, estava crispado de desespero, fá Hortense se sentara a seu lado e docemente a atraíra contra si. Rénine lhe
disse:
- Senhora, ainda não sei o que possa fazer, mas lhe afirmo sob palavra que, se há alguém no mundo que pode lhe ser útil, sou eu. Peço-lhe, pois, que me responda como se a clareza e a nitidez de suas
respostas pudessem mudar a face das coisas, e como se quiBesse me fazer partilhar sua opinião sobre facques Aubrieux. Porque ele está inocente, não?
- Oh, senhor! - fez ela, num impulso de todo o ser.
- Pois bem, essa certeza, que não pôde comunicar à justiça, cumpre que a imponha a mim. Não lhe peço que entre em detalhes e reviva o seu calvário, mas simplesmente que conteste a algumas perguntas.
Fará isso?
- Fale, senhor.
Estava dominada. Com algumas frases, conseguira submetê-la e lhe insuflar a vontade de obedecer. E, mais uma vez, Hortense observou tudo o que havia em Rénine de força, autoridade e persuasão.
- Que fazia o seu marido? - perguntou ele, depois de ter solicitado à mãe e a Gaston que conservasse completo silêncio.
- Corretor de seguros.
. - Bem de negócios?
- Até o ano passado, sim.
- Portanto, há alguns meses, dificuldades de dinheiro?
- Sim.
- E o crime foi cometido?
- Em março último, um domingo.
- A vítima?
- Um primo afastado, Guillaume, que morava em Suresnes.
- O montante do roubo?
Sessenta notas de mil francos que esse primo tinha recebido na véspera, em pagamento de uma velha dívida.
- Seu marido sabia?
- Sim. Domingo, o primo lhe tinha dito durante uma conversa telefônica, e Jacques insistiu para que clc não conservasse em casa uma tal soma e a depositasse no dia seguinte num banco.
- Era de manhã?
- A uma da tarde. Jacques deveria justamente ir à casa do Sr. Guillaume em sua motocicleta. Mas, muito cansado, lhe avisou que não sairia. E ficou todo o dia aqui.
-• Sozinho?
- Sim, só, As duas empregadas estavam de folga. Eu fui a um cinema de Ternes com mamãe e nosso amigo Dutreuil. À noite, soubemos do assassinato do Sr, Guillaume. No dia seguinte de manhã, prenderam
lacques.
- Com que acusações?
A infeliz hesitou. As acusações deveriam ser esmagadoras. Logo, a um gesto de Rénine, contestou num fôlego:
- O assassino foi a Saint-Cloud numa motocicleta e as marcas deixadas são as da motocicleta de meu marido. Encontrou-se um lenço com as Iniciais de meu marido, e o revólver utilizado lhe pertencia.
Enfim, um de nossos vizinhos afirma que às três horas viu meu marido sair de moto, e um outro o viu voltar às quatro e meia. Ora, o crime se deu às quatro.
- E como se defende Jacques Aubrieux?
- Afirma que dormiu toda a tarde. Durante esse tempo, veio alguém, conseguiu abrir a casinha onde estava a moto, e foi nela até Suresnes. Quanto ao lenço e ao revólver, estavam na sacola da moto e
não admira que o assassino os usasse.
- Essa explicação é plausível.
- Sim, mas a justiça faz duas objeções. Primeiro, ninguém, absolutamente ninguém, sabia que meu marido ia ficar em casa todo o dia, já que, ao contrário, sala de moto todos os domingos à tarde.
- Depois?
A jovem enrubesceu e murmurou:
- No escritório do Sr. Guillaume, o assassino bebeu a metade de uma garrafa de vinho. Nessa garrafa, estavam as impressões digitais de meu marido,
Parecia ter dado todo o esforço e, ao mesmo tempo, que a esperança inconsciente que suscitara nela a inter
venção de Rénine se anulava ante a acumulação das provas. Recaiu sobre si mesma, absorta numa espécie de cisma silenciosa, de que as afetuosas atenções de Hortense não a distraíram.
A mãe balbuciou:
- É inocente, não é, senhor? E não se pune um inocente, não há direito. Não há direito de matarem minha filha. Oh! meu Deus, meu Deus! que fizemos para que nos persigam assim? Minha pobre pequena Madeleine.
. .
- Ela vai se matar - dizia Dutrcuil com uma voz espantada. - Não suportará a idéia de Jacques guilhotinado. Logo. . . esta noite. . . ela vai se matar.
Rénine ia e vinha na peça.
- Não pode fazer nada por ela, não é? - indagou Hortense.
- São onze e meia - replicou com um ar preocupado -, e é amanhã de manhã.
- }ulga-o culpado?
- Não sei... não sei... A convicção da infeliz impressiona e não deve ser desdenhada. Quando dois seres viveram lado a lado durante anos, não podem se enganar um sobre o outro a tal ponto. E no entanto!
.. .
Estendeu-se num canapé e acendeu um cigarro. Fumou três a seguir sem que ninguém interrompesse sua meditação. Às vezes, olhava o relógio. Os minutos tinham tanta importância!
Enfim voltou a Madeleine Aubrieux, segurou-lhe as mãos e lhe disse docemente:
- Não se mate. Até o último minuto nada está perdido e lhe prometo que, de minha parte, até esse último minuto não desanimarei. Mas preciso da sua calma e da sua confiança.
- Estarei calma - afirmou, com um ar lastimoso.
- E terá confiança?
- Terei confiança.
- Bem, me espere. Dentro de duas horas estarei de volta. Vem conosco, Sr. Dutreuil?
No momento de entrar no carro, perguntou ao rapaz:
- Conhece um pequeno restaurante, pouco frequentado, não muito longe?
- A cervejaria Lutetia, no térreo da casa em que moro, na praça de Ternes.
- Ótimo, nos será cômodo.
A caminho, quase não falaram. Rénine, porém, indagou de Dutreuil:
- Pelo que me lembro, tem os números das notas, não é?
- Sim, o primo Guillaume tinha registrado os sessenta números num caderninho.
Rénine murmurou, ao fim dum instante:
- Todo o problema está aí. Onde estão essas notas? Quem puser a mão nelas, está marcado.
Na cervejaria Lutetia o telefone estava numa sala privativa; Rénine pediu que servissem ali o almoço. Só com Hortense e Dutreuil, pegou o fone num gesto decidido.
- Alô. . . A polícia, por favor, senhorita. Alô. . . alô... alô... da polícia? Queria falar com o serviço da Süreté. Um assunto da maior importância. É da parte do príncipe Rénine.
Com o fone na mão, virou-se para Gaston Dutreuil.
- Posso chamar alguém aqui, não é? Estaremos inteiramente tranquilos?
- Por certo.
Escutou de novo.
- O secretário do chefe da Süreté? Ah! bem, Sr. secretário, tive oportunidade de falar com o Sr. Dudouis, e lhe fornecer sobre diversos assuntos informações que lhe foram úteis. Não há dúvida de que
ele há de se lembrar do príncipe Rénine. Hoje poderia lhe indicar o lugar em que estão as sessenta notas de mil francos roibadas pelo assassino Aubrieux ao seu primo. Se minha proposta lhe interessa, que
tenha a bondade de me mandar um inspetor na cervejaria Lutetia, na praça de Ternes. Estarei lá com uma senhora e com o Sr. Dutreuil, o amigo de Aubrieux. Até logo, Sr. secretário.
Ao desligar o aparelho, viu diante de si os rostos estupefatos de Hortense e Dutreuil.
Ela falou:
- Você sabe? então descobriu?
- Ainda nada - disse rindo.
- Mas como?
- Vou agir como se soubesse. É um meio como outro qualquer. Almocemos... o que querem?
A pêndula marcava meio-dia e três quartos.
-. No máximo em vinte minutos - disse Rénine - o inspetor deve estar aqui.
- E se náo vier ninguém? - opôs Hortense.
- Vou me admirar. Se fosse dizer ao Sr. Dudouis: "Aubrieux está inocente", náo conseguiria nada. Na véspera de uma execuçáo, vá convencer esses senhores da polícia ou da justiça que um condenado à
morte está inocente! Não. Jacques Aubrieux pertence desde já ao carrasco. Mas a perspectiva de sessenta mil é um negócio que justifica o incômodo. Pensem ainda que esse é o ponto fraco da acusação, as
notas que não foram achadas.
- Mas se você não sabe nada.. .
- Querida amiga.., permite que a chame assim? ... quando não se pode explicar um fenômeno físico, adota-se uma hipótese qualquer em que todas as manifestações desse fenômeno achem sua explicação e
diz-se que tudo se passa como se fosse assim. É o que faço.
- Quer dizer que tem uma hipótese?
Rénine não redargüiu. Só muito depois, no fim da refeição, continuou:
- Claro que alguma coisa eu suponho. Se tivesse vários dias pela frente, me daria ao trabalho de verificar antes essa hipótese, que se apóia tanto em minha intuição quanto na observação de alguns fatos
esparsos. Mas tenho apenas duas horas e entro na estrada desconhecida como se estivesse certo de que me levará à verdade.
- E se se engana?
- Não tenho escolha. E já é tarde demais, estão batendo. Ah! um aviso ainda, Sejam quais forem minhas palavras, não me desminta. Nem você, Dutreuil,
Abriu a porta. Um homem magro, de barba ruiva, entrou.
- O príncipe Rénine?
-- Eu, senhor. Da parte do Sr. Dudouis, sem dúvida?
¦- Sim.
-• E o recém-chegado se apresentou:
- Inspetor principal Morisseau.
¦- Agradeço sua diligência, inspetor principal - disse o príncipe -, e me contenta mais que o Sr. Du- douis o tenha enviado, por conhecer sua folha de serviço e ter seguido com admiração algumas de
suas campanhas .
O inspetor se curvou, lisonjeado.
- O Sr. Dudouis me pôs à sua inteira disposição, assim como dois inspetores que deixei aí na praça, tendo os dois se ocupado do assunto comigo desde o início.
- Não há de demorar - declarou Rénine - e nem peço que se sente. Convém que isso seja resolvido em alguns minutos. Sabe do que se trata?
- Das sessenta notas de mil francos roubadas ao Sr. Guillaume, cujos números estão aqui.
Rénine examinou a lista e afirmou:
- Isso mesmo. Estamos de acordo.
O inspetor Morisseau pareceu comovido.
- 0 chefe atribui à sua descoberta a maior importância. Assim, poderá me indicar?...
Renine silenciou um instante e declarou:
¦- Sr. inspetor, minha busca pessoal, rigorosa, de que o porei a par em seguida, me revelou que, ao voltar de Suresnes, o assassino, depois de levar a moto à sua casinha na avenida do Roule, veio correndo
até Temes e entrou nesse prédio. •
- Neste prédio?
-- Sim.
- Mas que vinha fazer?
- Esconder aqui o produto do roubo, as sessenta notas de mil.
- Como? aqui?
- Num apartamento de que tinha a chave, no quinto andar.
Gaston Dutreui) bradou, assombrado:
- Mas no quinto andar só há um apartamenlo, e sou eu que moro nele.
- Isso, e como estava no cinema com a Sra. Au- brieux e a mãe, se aproveitaram de sua ausência...
- Impossível, só eu tenho a chave.
- Também se entra sem chave.
- Mas não notei nenhum sinal.
Morisseau se interpôs:
- Vamos, nos expliquemos. Diz que as cédulas teriam sido escondidas em casa do Sr. Dutreuil?
- Sim.
- E como Jacques Aubrieux foi preso no dia seguinte de manhã, elas ainda ali estariam?
- É o que penso.
Gaston Dutreuil não pôde deixar de rir.
- Mas é absurdo, eu as teria descoberto.
- Procurou?
- Não. Mas passaria por elas a cada instante. O apartamento tem o tamanho da minha mão. Querem ver?
- Por pequeno que seja, há de bastar para conter sessenta pedacinhos de papel.
- Claro. Evidentemente tudo é possível. No entanto, devo lhe repetir que ninguém, a meu ver, entrou em minha casa, que eu mesmo arrumo, e que não entendo muito bem.. .
Nem Hortense entendia. Com os olhos fitos nos do príncipe Rénine, tentava penetrar ao fundo de seu pensamento. Que jogo ele estaria fazendo? Devia apoiá- lo em suas afirmações? Terminou por dizer:
- Inspetor principal, já que o príncipe Rénine acha-que as cédulas foram postas lá em cima, o mais simples não é procurar? O Sr. Çutreuil nos conduzirá, não é?
- Em seguida - disse o jovem - é com efeito o que há de mais simples.
Os quatro escalaram os cinco andares do imóvel e, tendo Dutreuil aberto, penetraram num exíguo apartamento, com dois quartos e dois gabinetes, tudo arrumado com meticulosa ordem. Adivinhava-se que
cada uma das poltronas e cada uma das cadeiras da peça que servia de sala ocupavam um lugar definitivo. Os cachimbos tinham seu pequeno aparador, os fósforos, o seu. Penduradas em três pregos, se alinhavam
em fila, pelo comprimento, três bengalas. Num velador à frente da janela, uma caixa com papel de seda esperava o chapéu que Dutreuil aí colocou com cuidado. . . Ao lado, sobre a tampa, estendeu suas luvas.
Agia pausada e maquinalmente, como quem gosta de ver as coisas na posição que escolheu para elas. Assim, quando Rénine deslocou um objeto, ele esboçou um gesto de protesto; pegou o chapéu, pôs na cabeça,
e dando as costas se debruçou no parapeito, como se fosse incapaz de suportar o espetáculo de semelhantes sacrilégios.
- Afirma, não é? - perguntou o inspetor a Rénine.
- Sim, sim, afirmo que depois o crime as sessenta notas foram trazidas para aqui.
- Procuremos.
Era fácil e foi rapidamente feito. No fim de meia hora, não restava um canto que não tivesse sido explorado, um objeto sem examinar.
- Nada - disse o inspetor Morisseau. - Devemos continuar?
- Não - replicou Rénine. - As notas não estão mais aqui.
- Que quer dizer?
- Que as levaram.
- Quem? Torne precisa sua acusação.
Rénine não respondeu. Mas Gaston Dutreuil deu meia-volta. Sufocava.
- Sr. inspetor, quer que precise, eu, a acusação, tal como se manifesta nas opiniõões deste senhor? Tudo isso quer dizer que há um desonesto aqui, que as notas escondidas pelo assassino foram descobertas,
roubadas por esse desonesto e levadas a lugar mais seguro. É essa bem a sua idéia, não é, senhor? E sou eu que acusa desse roubo, não é?
Adiantou-se batendo no peito com força.
- Eu! eu! teria achado as notas e guardado para mim! Ousa presumir. . .
Rénine seguia não respondendo. Dutreuil se arrebatava e, tomando o inspetor Morisseau à parte, bradou:
- Inspetor, protesto energicamente contra toda esta comédia, e contra o papel que interpreta nela sem saber. Antes de sua chegada, o príncipe Rénine nos disse, à senhora e a mim, que não sabia nada,
que se metia no assunto ao acaso e seguiria a primeira pista, confiando na sorte. Não é verdade, senhor?
Rénine não se alterou.
- Mas fale! Explique-se, pois alega, sem dar qualquer prova, os fatos mais inverossímeis. É bem fácil dizer que roubei as notas. Mas falta saber se estavam aqui, quem as trouxe, por que o assassino
teria escolhido meu apartamento para escondê-las. Tudo isso é absurdo, ilógico e estúpido.. . Provas, senhor, uma só que seja!...
O inspetor Morisseau parecia perplexo e interrogava Rénine com o olhar.
Esse pronunciou, impassível:
- Já que quer precisões, é a própria Sra. Aubrieux que as dará. Ela tem telefone, vamos descer e num minuto assentaremos a coisa.
Dutreuil deu de ombros.
- Como queira, mas quanto tempo perdido!
Parecia muito irritado. Sua demora à janela, a um
sol ardente, o deixara suando. Foi a seu quarto e voltou com uma garrafa d'água, de que bebeu uns sorvos e pôs na borda da janela.
- Vamos - disse.
O príncipe riu:
- Dir-se-ia que tem pressa de deixar este apartamento.
- Tenho pressa de o desmascarar - contestou Dutreuil batendo a porta.
Desceram e foram à sala privativa onde estava o telefone. Não tinha ninguém e Rénine pediu o número dos Aubrieux a Gaston Dutreuil e fez a ligação.
Foi a empregada que veio atender. Informou que a Sra. Aubrieux, depois de uma crise de desespero, desmaiara e agora estava dormindo.
- Chame a mãe dela. Fala aqui o príncipe Rénine. É urgente.
Passou o fone a Morisseau. Mas as vozes eram tão claras que Dutreuil e Hortense podiam ouvir todas as palavras ditas.
- Ê a senhora?
- Sim. O príncipe Rénine, não é? Ah, que tem a nos dizer, há alguma esperança? - implorou a dama.
¦- As buscas prosseguem de modo satisfatório e estão no direito de esperar. De momento, quero que me dê uma informação importante. No dia do crime, Gas- ton Dutreuil foi aí?
- Sím, depois do almoço, veio nos buscar, minha filha e eu.
- Soube, então, que o primo Guillaume tinha sessenta mil francos em casa?
¦- Sim, eu lhe disse.
- E que Jaçques Aubrieux, um pouco adoentado, não faria o costumeiro passeio de moto e ia ficar dormindo?
- Sim.
- Tem certeza?
- Absoluta,
- E foram juntos ao cinema os três?
- Sim.
- E viram o filme sentados juntos?
- Não, não havia lugar para os três e ele foi se sentar mais longe.
¦- Numa cadeira em que o podiam ver?
- Não, só voltamos a vê-lo na saída.
- Nenhuma dúvida a esse respeito?
- Nenhuma.
- Está bem; dentro de uma hora, a informo sobre os meus esforços. Mas não me acorde a Sra. Aubrieux .
- E se acordar por si?
- Busque tranqüilizá-la e lhe dar confiança. Tudo vai cada vez melhor, bem melhor do que esperava.
Largou o fone e se virou para Dutreuil rindo:
- Eh! eh! meu jovem, isso começa a tomar porte. Gue tem a dizer a propósito?
Qual o sentido dessas palavras e que conclusões Rénine tirara do telefonema? O silêncio pesou penosamente .
- Inspetor, tem gente na praça, não é?
-- Dois guardas.
' - Há interesse em que estejam aqui. Queira tam
bém pedir ao dono do restaurante que não nos estorvem sob nenhum pretexto.
Quando Morisseau voltou, Rénine fechou a porta, pôs-se à frente de Dutreuil e escandiu num tom de hom humor:
- Em suma, jovem, das três às cinco horas daquele domingo as senhoras não o viram. Ê um fato bastante curioso.
- Um fato bem natural - ripostou Dutreuil - e que afinal não prova nada.
- Prova sim, que teve à sua disposição duas boas horas.
- Claro, duas horas em que estive no cinema.
- Ou noutra parte.
Dutreuil o observou.
- Noutra parte?
- Sim, já que estava livre, tinha tempo de ir passear à vontade. . . Em Suresnes, por exemplo.
- Oh! oh! - brincou o rapaz por sua vez - Su- resnes é longe.
- Perto! Não tinha a moto do seu amigo Jacques Aubrieux?
Um novo silêncio se seguiu a essas palavras. Dutreuil franziu as sobrancelhas como se tentasse entender. Por fim, cochichou:
- Eis aonde ele queria chegar. . . Ah! o miserável...
A mão de Rénine caiu sobre seu ombro.
- Nada de conversas, fatos! Gaston Dutreuil, você era a única pessoa que estava a par naquele dia de duas coisas essenciais: primeiro, que o primo Guillaume tinha sessenta mil francos em casa; segundo,
que Jacques Aubrieux não devia sair. Imediatamente lhe ocorreu dar o golpe. A moto estava à sua disposição. Esquivou-se durante a sessão do cinema e foi até Suresnes. Matou o primo Guillaume, pegou os
sessenta mil, levou para casa, e às cinco horas reencontrou as damas.
Dutreuil tinha escutado com um ar ao mesmo tempo assustado e folgazão, olhando às vezes para o inspetor Morisseau como para tomá-lo por testemunha e significar:
- É um louco, não adianta lhe querer mal.
Quando Rénine terminou, riu.
- Engraçado. . . uma boa farsa. . . Então fui eu que os vizinhos viram ir e voltar de moto?
- Foi você, disfarçado com roupas do seu amigo.
- E foram as marcas dos meus dedos que constataram na varrafa do escritório do primo Guillaume?
-- Essa garrafa foi destampada por Jacques Au- brieux, no almoço em sua casa, e foi você que a levou até lá como elemento de prova.
- Cada vez mais engraçado - bradou Dutreuil,
- que dava a impressão de se divertir francamenle.
- Então arranjei tudo para que Jacques Aubrieux fosse acusado do crime?
- Era o meio mais certo de você não ser acusado.
- Sim, mas Jacques é meu amigo de infância.
- Você gosta da mulher dele.
O rapaz saltou, subitamente furioso.
- Tem a audácia!... Quê! uma tal infâmia!
- Tenho a prova disso.
- Mentira, sempre tive pela Sra. Aubrieux um respeito, uma veneração. . .
- Na aparência. Mas gosta dela e a deseja. Não diga que não, que tenho todas as provas.
- Mentira! Me conheceu agora.
- Vamos, há dias que o observo na sombra e espero o momento de lhe saltar em cima.
Agarrou o rapaz pelos ombros c o sacudiu com violência.
- Vamos, Dutreuil, confesse. Tenho todas as provas. Tenho testemunhas que veremos em seguida diante do chefe da Sûreté. Confesse! Apesar de tudo, está atormentado por remorsos. Recorde o seu espanto
no restaurante quando leu o jornal. Hem! Jacques Aubrieux condenado à morte!... Não queria tanto. A cadeia para ele, bastava a você. Mas o cadafalso. . . Jacques Aubrieux executado amanhã, ele que está
inocente! Confesse, para salvar a sua cabeça. Confesse!
Curvado sobre ele, com todas as forças, tentava lhe arrancar a confissão. Mas o outro se empertigou e. friamente, com uma espécie de desdém, disse:
- Você está louco. Nenhuma palavra do que disse tem "-senso comum. Todas as suas acusações são falsas. E as cédulas, por acaso as achou no meu apartamento, como afirmava?
Exasperado, Rénine lhe mostrou o punho.
- Ah! canalha, vou te tirar a pele!
Puxou a si o inspetor:
- Bem, o que acha? Um safado consumado, não é?
O inspetor moveu a cabeça.
- Talvez. . . Mas, enfim, até aqui, nenhuma acusação real. ..
- Aguarde, Sr. Morisseau, aguarde nossa entrevista com o Sr. Dudouis. Pois o encontraremos na repartição, não é?
- Sim, lá estará às três horas.
- Bem, há de ficar satisfeito, inspetor principal! Antecipo que ficará satisfeito.
Rénine sorriu como alguém seguro dos acontecimentos. Hortense, que estava perto dele e podia lhe falar sem ser ouvida pelos outros, disse em voz baixa:
- Agarrou-o, não é?
Aquiesceu de cabeça.
- Se agarrei! Isto é, não estou mais adiantado que no primeiro minuto.
- Que horror! E as suas provas?
- Nem sombra de uma prova. . . Esperava desmontá-lo, mas o safado se refez.
- E tem certeza de que foi ele?
- Só podia ser ele. Tive a intuição de saída, e desde aí o mantenho à vista. Vi aumentar sua preocupação, na medida em que minhas buscas giravam em volta dele e apertavam o cerco. Agora, eu sei.
- E ama mesmo a Sra. Aubrieux ?
- Logicamente, sim. Mas tudo isso são suposições teóricas, ou antes certezas que me são pessoais. Não com isso se deterá o cutelo da guilhotina. Ah, se achássemos as cédulas, o Sr. Dudouis iria por
nós. Caso contrário, nos rirá na cara.
- E aí? - murmurou Hortense. com o coração confrangido.
Ele não contestou. Andava pela peça, ostentando contentamento e esfregando as mãos. Tudo ia às maravilhas. Era agradável tratar de assuntos que, por assim dizer, se resolviam sozinhos.
- E se fossemos para a polícia, Sr. Morisseau? O chefe já deve estar lá e. no ponto em que estamos, o certo é acabar logo. O Sr. Dutreull quer nos acompanhar?
¦- Por que não? - disse este com arrogância.
Mas no momento em que Rénine abria a porta, houve um barulho no corredor e o dono do restaurante acorreu gesticulando.
- O Sr, Dutreuil ainda está aí? Fogo no seu apartamento, senhor? Um passante nos avisou. . . viu da praça.
Os olhos do rapaz fulguraram. Por meio segundo talvez, sua boca careteou um sorriso que Rénine percebeu.
- Ah, bandido - bradou -, te traíste! Foste tu que puseste fogo lá em cima e agora as notas estão queimando .
Barrou-lhe a passagem.
- Me deixe - berrava Dutreuil. - Há um incêndio e ninguém pode entrar, ninguém tem a chave. Olhe, é esta aqui. . . Me deixe passar, inferno!
Rénine lhe arrancou a chave da mão e o segurou pela gola:
- Não te movas, menino. Agora a partida está ganha. Ah! tratante... Sr. Morisseau, quer dar ordem ao seu auxiliar de não o perder de vista e lhe estourar os miolos se tentar fugir? Contamos com o senhor,
Sr. policial. Uma bala na cabeça...
Subiu correndo a escada, seguido por Hortense e o inspetor principal, que, mal-humorado, protestava:
- Ora, não foi ele que pôs o fogo, não saiu de perto de nós.
- Ele o preparou de antemão.
- Como, insisto, como?
- Vou eu saber! Mas um incêndio não acontece por acontecer, sem razão, bem no momento em que se precisa queimar papéis comprometedores.
Ouviu-se barulho lá em cima. Eram os garçons da cervejaria que tentavam arrombar a porta. Um cheiro acre enchia o patamar da escada.
Rénine chegdti ao último andar.
- Um momento, amigos, tenho a chave!
Meteu-a na fechadura e abriu.
Uma onda de fumaça lhe veio ao encontro com tal violência que se acreditaria que o andar inteiro estava queimando. Mas Rénine reparou em seguida que o incêndio se extinguira por si, na falta de alimento,
e que não havia mais chamas.
- Sr. Morisseau, que ninguém entre conosco, combinado? O menor importuno poderia estragar tudo. Feche a porta com o ferrolho, será melhor.
Passou à peça da frente, onde era visível que o incêndio tivera o foco principal. Mas móveis, paredes e forro, embora enegrecidos pelo fumo, não tinham sido atingidos. Na realidade, tudo se reduzia
a uma chama- rada de papéis que ainda se consumiam em meio à peça, ante a janela.
Rénine bateu na testa.
- Triplo imbecil! Como fui bobo!
- Quê? - fez o inspetor.
- A caixa de chapéu em cima da mesinha. Foi ali que escondeu as notas. E ali estavam ainda há pouco, durante a nossa busca.
- Impossível!
- Oh, se esquece sempre o esconderijo mais em vista, ao alcance da mão! Como imaginar que um ladrão deixe sessenta mil francos numa caixa de chapéu aberta, onde ponha o chapéu ao entrar, num gesto
automático. Nem se olha para ela... Belo truque, Sr. Du- treuH!
O inspetor, que permanecia incrédulo, repetiu:
- Não, não, impossível. Estávamos com ele e não poderia atear o fogo.
- Tudo estava arrumado previamente na hipótese dum alarme. A caixa. . . os papéis de seda, as cédulas deviam estar impregnadas com alguma substância inflamável. No momento de sair, jogou um fósforo
ou um produto químico, não sei.
- Mas teríamos visto, diabo. E é admissível que um homem que matou para roubar sessenta mil francos as destruísse desse modo? Se o esconderijo era tão bom - e era, já que não descobrimos -, por que
essa destruição inútil?
- Teve medo, Sr. Morisseau. Não esqueçamos de que está em jogo a sua cabeça. Tudo menos a guilhotina, e isso, as notas, era a única prova que se podia ter contra ele. Não a iria conservar.
Morisseau ficou perplexo.
- Como, a única prova?. . .
- É evidente!
- Mas suas testemunhas, suas acusações? tudo o que devia contar ao chefe?
- Blefe.
¦- Puxa! o senhor tem peito!
- Teriam vocês se mexido sem isso?
- Não.
- Então, por que se queixa?
Rénine se abaixou para remexer as cinzas. Mas não sobrava nem mesmo esses restos de papel enrijecidos que ainda guardam a forma original.
- Nada. Mas não deixa de ser engraçado. Como, diabo, fez para acender o fogo?
Ergueu-se e refletiu, com os olhos atentos. Hortense teve a impressão de que fazia um supremo esforço e que, depois desse último combate no escuro, teria seu plano de vitória ou se reconheceria vencido.
Desanimada, inquiriu ansiosa:
- Tudo está perdido, não é?
- Não... não... - disse, pensativo, - nem tudo. Há uns segundos, sim. Mas um clarão que surge me dá esperança.
- Oh! meu Deus, se isso pudesse ser verdade!
- Mais devagar - disse. - É apenas uma tentativa... uma bela tentativa... e que pode ter êxito.
Calou-se um momento, teve um sorriso divertido e disse, com um estalo de língua:
- Dureza, o Dutreuil! Esse modo de queimar as notas... que invenção!... E que sangue-frio! O animal está me dando um osso duro de roer. É um mestre.
Procurou uma vassoura e varreu parte das cinzas para a peça ao lado. Daí trouxe também uma caixa de chapéu do mesmo tamanho e aparência da que fora queimada e pôs no velador, depois de ter revolvido
e queimado os papéis de seda que a enchiam, com um fósforo.
Chamas se alteram e as extinguiu quando tinham consumido a metade da caixa e quase todos os papéis. Dum bolso de dentro do colete, tirou um maço de cédulas, pegou seis que queimou quase inteiramente,
arrumou os restos e escondeu no fundo da caixa, entre as cinzas e os papéis enegrecidos.
- Sr. Morisseau - disse enfim -, peço pela última vez a sua ajuda. Vá buscar Dutreuil. Diga-lhe simplesmente estas palavras: "Está desmascarado, as notas não pegaram fogo. Me siga", e o traga aqui.
Apesar de suas hesitações e do receio de ultrapassar a missão que lhe havia conferido o chefe da Sûreté, o inspetor principal não pôde se furtar à ascendência que Rénine ganhara sobre ele. Saiu.
Rénine se virou para a moça.
- Entende meu plano de luta?
- Sim, mas a prova é arriscada. Julga que Dutreuil cairá no laço?
- Tudo depende do estado de seus nervos e até que ponto está desmoralizado; um ataque brusco pode perfeitamente destruí-lo.
- E se reconhecer, por algum sinal, a troca da caixa?
- Ah, por certo nem todas as possibilidades estão contra ele. O malandro é bem mais sabido do que eu pensava e muito capaz de se safar. De outro lado, como deve estar preocupado! Como o sangue deve
lhe zumbir nos ouvidos e lhe empanar os olhos! Não, não acredito que agüente o golpe. Vai desabar.
Não falaram mais. Rénine não se movia. Hortense estava perturbada até o fundo. Tratava-se da vida de um homem inocente. Um erro de tática, uma falta de sorte, e doze horas mais tarde (acques Aubrieux
seria executado. E ao mesmo tempo que uma horrível angústia, sentia, apesar de tudo, uma sensação de curiosidade ardente. Que ia fazer o príncipe? Que resultaria da experiência tentada? Como resistiria
Gaston Dutreuil? Vivia um desses momentos de tensão sobre-humana, em que a vida se intensifica e ganha todo o valor.
Perceberam-se passos na escada. Passos de homens com pressa. O ruído se aproximava. Chegavam ao último andar.
Hortense fitou o companheiro. Tinha levantado. Escutava, com o rosto já transformado pela ação. No corredor, passos soaram. Súbito, ele se distendeu como uma mola, correu para a porta e gritou:
- Rápido!. . . terminemos!
Os inspetores e dois rapazes da cervejaria entraram. No grupo dos inspetores, agarrou Dutreuil e o puxou pelo braço, dizendo com alegria:
- Bravos, meu velho! O truque do velador e da garrafa, admirável! Uma obra-prima! Acontece que acabou falhando.
- Que é que houve? - resmungou o jovem, cambaleando.
- Por Deus, sim, o fogo não consumiu senão a metade dos papéis de seda e da caixa, e, se houve cédulas queimadas junto com os papéis, as outras estão ali no fundo. .. Ouviste? as famosas cédulas...
a grande prova do crime. . . estão ali, onde as tinhas escondido. Por acaso não queimaram. Anda, olha. . . eis os números.. . podes conferir. . . Ah! estás perdido, sabidão.
O rapaz se contraiu. Seus olhos piscavam. Não olhava, como lhe sugerira Rénine, não examinava nem a caixa nem as notas. Num primeiro impulso, sem se dar tempo de pensar e sem que seu instinto o advertisse,
acreditou e, brutalmente, caiu numa cadeira chorando.
O ataque brusco, segundo a expressão de Rénine, tivera êxito. Vendo seus planos desmascarados e o inimigo senhor dos seus segredos, o miserável não teve mais a força nem a lucidez necessárias para
se defender. Desistiu da partida.
Rénine não o deixou respirar.
- Em boa hora! Salva tua cabeça, simplesmente, menino. Escreve tua confissão para te livrares do pior. Olha, uma caneta. . . Ah, te falta o ânimo, vá. Foi no entanto bem bolado o teu truque do último
momento. Não é? Possui 'umas cédulas que incomodam e que quer destruir. Nada mais fácil. Coloca na borda da janela uma garrafa bojuda. O cristal servirá de lente, concentrando os raios do sol sobre a caixa
e as tiras de seda convenientemente arrumadas. Dez minutos depois, isso arde. Invenção maravilhosa! E tal como todas
as grandes descobertas, essa também surgiu por acaso, não é? A maçã de Newton?... Um dia o sol, ao passar pela água dessa garrafa, terá feito arder algum trapinho fino ou a cabeça de um fósforo e,
como tinhas há pouco o sol a teu dispor, disseste contigo "vamos em frente" e colocaste a garrafa no lugar certo. Parabéns, Gaston. Olha, uma folha de papel. Escreve: "Sou eu o assassino do Sr. Guillaume."
Escreve, arre!
Curvado sobre o rapaz, com toda sua implacável vontade, constrangeu-o a escrever, guiando-lhe a mão e lhe ditando a frase. Sem energia, esgotado, Dutreuil escreveu.
- Sr. inspetor principal, está aqui a confissão - disse Rénine. - Leve-a, por favor, ao Sr. Dudouis. Estes senhores, estou certo - dirigiu-se aos garçons da cervejaria -, consentirão em servir de testemunhas.
Como Dutreuil, acabrunhado, não se mexesse, o empurrou.
- Ô camarada, acorda, fá que foste bastante tolo para confessar, vai ao fim da tua obrigação, idiota.
O outro o observou, de pé diante dele.
- Claro - continuou Rénine. - Não passas de um crédulo. A caixa ficou inteiramente queimada, e as notas também. Esta caixa aí é uma outra, meu velho, e estas notas são minhas. Queimei mesmo seis para
te fazer engolir melhor a coisa. E não desconfiaste de nada. Estavas apatetado. No último momento me dar uma prova, quando eu não tinha nenhuma! E que prova! Tua confissão escrita! e escrita diante de
testemunhas! Escuta, menino, se te cortarem a cabeça, como de fato espero, estará bem merecido. Adeus, Dutreuil.
Na rua, o príncipe Rénine pediu a Hortense Daniel que tomasse o automóvel e fosse à casa de Madeleine Aubrieux pô-la ao corrente. -
- E você? - perguntou Hortense.
- Tenho muito que fazer. . . Encontros urgentes.
- Como, nega-se à alegria de anunciar a notícia?...
- É uma alegria que acaba cansando. A única alegria que se renova sempre é a do combate. Depois, o resto perde interesse.
Ela lhe pegou a mão e a reteve nas suas um instante. Teria querido exprimir toda a sua admiração por este homem estranho que parecia praticar o bem como um esporte, e o fazia com uma espécie de gênio.
Mas não pôde falar. Aqueles acontecimentos todos a transtornavam. A emoção lhe apertava a garganta e molhava os olhos.
Ele se inclinou, afirmando:
- Obrigado. Está me dando a recompensa.
Therese e Germaine
O fim da temporada estava tão ameno que, a 2 de outubro, de manhã, várias famílias, que retardaram a volta de suas casas de veraneio em Etretat, tinham descido à praia. Entre as falésias e nuvens do
horizonte, o mar se diria um lago de montanha dormindo no côncavo de rochas que o retém, não houvesse no ar aquela leveza e no céu as cores pálidas, ternas, indefinidas que dão a certos dias da região
um encanto tão particular.
- Que delícia! - murmurou Hortense.
E acrescentou, após um momento:
- Mas, de qualquer modo, não viemos gozar os espetáculos da natureza, ou para questionar se esta enorme agulha de pedra, erguida à nossa esquerda, foi de fato a residência de Arsène Lupin.
- Não - declarou o príncipe Rénine -, e devo reconhecer, com efeito, que é tempo de satisfazer a sua legítima curiosidade. . . ao menos em parte, pois dois dias de observações e buscas ainda nada me
adiantaram no que esperava achar aqui.
- Estou ouvindo.
- Não defriorará, mas é preciso uma palavra de preâmbulo. Admitirá, cara amiga, que, se me esforço por ser útil a meus semelhantes, sou obrigado a ter, de um lado e outro, amigos que me assinalem oportunidades
para agir. Não raro os avisos que me dão me parecem fúteis ou pouco interessantes, e eu passo. Mas, na semana passada, recebi a informação de um telefo-
nema surpreendido por um de meus correspondentes e cuja importância não há de lhe escapar. Do seu apartamento em Paris, uma dama falava com um senhor em trânsito num hotel duma grande cidade próxima. O
nome da cidade, o do senhor, o da dama - mistérios. Os dois falavam em espanhol, mas usando essa gíria que se chama de javanês, e suprimindo mesmo muitas sílabas. Apesar das dificuldades acumuladas por
eles, se toda sua conversa não foi anotada, se conseguiu, porém, pegar o essencial das coisas bem graves que se diziam e punham tanto zelo em dissimular. E o essencial pode ser resumido em três pontos:
primeiro, esse senhor e essa senhora, que são irmãos, aguardavam um encontro com uma terceira pessoa, casada, e desejosa de recuperar a qualquer preço sua liberdade; segundo, esse encontro, destinado a
acertar os relógios e em princípio marcado para 2 de outubro, devia ser confirmado por um anúncio discreto num jornal; terceiro, a entrevista de 2 de outubro seria seguida, no fim do dia, de um passeio
nos rochedos, ao qual a terceira pessoa levaria aquele ou aquela de que procurava se desembaraçar. Eis as bases do caso. É dispensável que lhe diga com que atenção vigiei e fiz vigiar os pequenos anúncios
da imprensa parisiense. Ora, anteontem de manhã, li num deles esta linha:
"Ectro, 2 out. m.-dia, 3-Mathildes."
"Como se falava em rochedos, deduzi que o crime seria cometido numa praia, e como conheço em Etretat um lugar chamado de Três Mathildes, um nome inco- mum, partímos no mesmo dia para obstar o projeto
desses torpes personagens.
- Que projeto? - indagou Hortense. - Fala em crime. Simples hipótese, sem dúvida?
- De modo algum. A conversa ouvida aludia a um casamento, do irmão ou da irmã com a mulher ou o marido da terceira pessoa, o que implica a possibilidade de um crime, isto é, no caso, que a vítima
referida, mulher ou marido da terceira pessoa, será atirada de um precipício nesta tarde de 2 de outubro. Tudo isso é perfeitamente lógico e não deixa nenhum lugai a dúvidas.
Estavam sentados na varanda do cassino, diante da escada que desce para a praia. Dominavam assim algumas cabinas particulares instaladas no chão de seixos, e diante das quais quatro senhores jogavam
bridge, enquanto um grupo de senhoras conversava fazendo bordados.
Mais distante e mais à frente, havia outra cabina, isolada e fechada.
Uma meia dúzia de crianças, de pernas nuas, brincavam na água.
- Bem - disse Hortense -, toda esta doçura e encanto outonal não me prendem. Atribuo, de qualquer forma, tal crédito a todas as suas hipóteses que não posso me afastar do temível problema.
- Temível, minha amiga, a palavra é adequada, e creia que desde anteontem o estudo sob todas as facetas. Infelizmente, em vão!
- Em vão - ela repetiu. Então, que sucederá?
E quase para si mesma, continuou:
- Entre estes aí, quem está ameaçado? A morte já escolheu sua vítima. Qual? esta jovem loura que se embala rindo? o respeitável senhor que está fumando? E quais são os que escondem no íntimo a idéia
do crime? Estas pessoas estão tranqüilas e se divertem. Porém a morte evolui em volta delas.
- Graças a Deus - disse Rénine -, se apaixona, você também. Não lhe tinha dito? Tudo é aventura e só aventura conta. Ao sopro do que pode acontecer, já está fremindo. Participa em todos os dramas que
palpitam a seu redor, e o sentido do mistério desperta no fundo do seu ser. Repare, com que olhar agudo observa este casal que chega! Nunca se sabe. Talvez seja este o homem que quer suprimir a esposa.
. . Ou esta mulher que sonha em terminar com o marido. . .
- Os dTmbreval? Nunca na vida. Um casal excelente. Ontem, ho hotel, conversei bastante com a mulher e você mesmo. ..
- Ah, eu joguei golfe com Jacques d'Imbreval, que banca um pouco o atleta, e brinquei de boneca com suas duas filhinhas que são encantadoras.
Os d'Imbreval se acercaram, foram trocadas umas palavras. A mulher contou que as duas filhas tinham regressado a Paris de manhã, com a governanta. Seu marido, tipo grande e saudável de barba loura,
que levava no braço o casaco de flanela e enchia o peito sob uma camisa de malha aberta, se queixou do calor.
- Thérèse, tens a chave da cabina? - perguntou à mulher, ao deixarem Rénine e Hortense e parando no topo da escada, a uns dez passos.
- Está aqui - disse a mulher. - Vais ler os jornais?
- Sim. A menos que se dê um passeio juntos.
- De tarde, queres? Hoje de manhã, tenho dez cartas a escrever.
- Combinado. Subiremos aos rochedos.
Hortense e Rénine se fitaram com surpresa. O anúncio desse passeio seria ocasional, ou estavam, contrariando a expectativa, na presença do próprio par que procuravam?
Hortense tentou rir.
- Meu coração bate com força - disse baixo. - No entanto, me recuso a crer numa coisa tão inverossímil. "Meu marido e eu nunca tivemos uma única discussão" - ela me disse. Não, está claro que são pessoas
que se entendem às maravilhas.
- Veremos daqui a pouco, em Três Mathildes, se um dos dois vai se encontrar com o irmão ou a irmã.
-O Sr. dTmbreval desceu a escada, enquanto a mulher permanecia apoiada na balaustrada do patamar. Tinha uma bonita silhueta, fina e ágil. Seu perfil se destacava com nitidez, acentuado por um queixo
que avançava um pouco demais. Tranqüilo, não sorrindo, o rosto dava uma impressão de tristeza e sofrimento.
- Jacques, perdeste alguma coisa? - gritou a seu marido, que tinha se abaixado nos seixos.
- Sim, a chave - disse ele - me escapou da mao.
Ela foi lá procurar também. Durante dois ou três
minutos, desviando-se para direita e ficando contra o declive, eles sumiram aos olhos de Hortense e Rénine. O barulho duma disputa que irrompera mais longe, entre os jogadores de bridge, cobria as vozes
dos dois.
Levantaram-se quase ao mesmo tempo. A Sra. dTmbreval subiu lenta alguns degraus da escada e parou, virada para o lado do mar. Ele levava *o casaco no ombro e ia para a cabina isolada. Em caminho, os
jogadores de bridge o tomaram como testemunha, mostrando-lhe as cartas abertas na mesa. Com um gesto, recusou dar seü parecer e se afastou; transpôs os quarenta passos que o afastavam de sua cabina, abriu
e entrou.
Thérèse d'lmbreval voltou ao patamar e ficou durante dez minutos sentada num banco. A seguir, saiu do cassino, lnelinando-se, Hortense a viu penetrar num dos chalés que formam o anexo do hotel Hauville
e voltou a vê-la um instante mais tarde na varanda do chalé.
- Onze horas - notou Rénine. - Que seja ela ou ele, ou um dos jogadores, ou uma das companheiras dos jogadores, seja quem for, não passará mais muito tempo antes de que se dirija ao encontro.
Passaram assim mesmo vinte minutos, logo vinte e cinco e ninguém se mexia.
- A Sra. d'Imbreval talvez tenha ido para lá - insinuou Hortense, que já estava se enervando. - Não está mais na varanda.
- Se estiver no Três Mathildes - disse Rénine -, vamos surpreendê-la ali.
Levantou-se, enquanto nova briga excitava os jogadores e um deles exclamava:
- Consultemos dTmbreval.
- Seja - disse um outro - aceito, se ele quiser servir de juiz. Não estava muito disposto há pouco.
Chamaram:
- DTmbreval! DTmbreval!
Notaram então que dTmbreval devia ter fechado a porta, o que o manteria em semi-obscuridade, pois essas cabinas não têm janela.
- Dorme - bradaram. - Vamos acordá-lo.
- DTmbreval! DTmbreval!
Os quatro foram até lá, insistiram nos chamados e, não tendo resposta, bateram na porta.
- Que é que há, dTmbreval. está dormindo? Hortense se admirou. Ele teve um sussurro:
- Contanto que não seja tarde demais!
Hortense ia interrogá-lo, mas ele se precipitou pela
escada e correu até a cabina. Os jogadores tentavam arrombar a porta.
- Alto! - ordenou. - As coisas devem ser feitas regularmente.
- Que coisas? - lhe indagaram.
Examinou as persianas acima de cada lado da porta e, reparando que uma das tabuinhas de cima estava quebrada pelo meio, se suspendeu por ali como pôde ao teto da cabina e deu uma olhadela no interior.
Vivamente lhe inquiriam:
- Que houve? Pode ver?
Virou-se e disse aos quatro senhores:
- Bem achei que, se o Sr. d'Imbreval não contestava, era porque algo grave impedia.
- Algo grave?
- Sim, há todo motivo para pensar que está ferido ... ou morto.
- Como, morto! - bradaram. - Acaba de nos deixar.
Rénine puxou a faca, fez a fechadura trabalhar e abriu os dois lados da porta.
Houve gritos de terror. O Sr. d'Imbreval jazia no soalho, de barriga para baixo, com as mãos crispadas agarrando o casaco e o jornal. Sangue corria de suas costas e avermelhava a camisa.
- Ah! - alguém disse - se matou.
Como se matou? - corrigiu Rénine. - O ferimento é no meio das costas, num lugar em que a mão não alcança. E ademais não há armas na cabina.
Os jogadores protestaram.
- Um crime, então? Mas é impossível. Ninguém veio cá. Teríamos visto. Ninguém podia passar sem que nós víssemos. . .
'Outros senhores, as damas e as crianças que brincavam à beira d'água, tinham acorrido. Rénine proibiu a aproximação à cabina. Havia ali um doutor; só ele entrou. Mas pôde apenas constatar a morte
do Sr. dTmbre- val, morte provocada por uma punhalada.
Neste momento, o prefeito e o guarda campestre chegavam com pessoas do local. As verificações de praxe foram feitas e transportaram o cadáver.
Algumas pessoas tinham ido prevenir Thérèse dTm- breval, que se via de novo em sua varanda.
Assim o drama se consumará sem que nenhuma indicação permitisse compreender como um homem, encerrado numa cabina, protegido por uma porta fechada, com a fechadura intata, tinha podido ser assassinado
em alguns minutos e diante de vinte testemunhas, o que é dizer vinte espectadores. Ninguém tinha entrado na cabina. Ninguém saído. O punhal, que lhe espetaram entre os ombros, não chegou a ser descoberto.
E tudo isso traria a idéia de um passo feito por um hábil mágico, não se tratasse de um horrível crime, realizado nas condições mais misteriosas.
Hortense não pôde seguir, como Rénine teria desejado, o grupinho de gente que foi ter com a Sra. dTmbre- val. A emoção a paralisava. Era a primeira vez que suas aventuras com Rénine a levavam ao coração
dos acontecimentos e que, em vez de lidar com as conse- qüências de um crime ou participar da busca dos culpados, se achava ante o próprio crime.
Persistia arrepiada e balbuciou:
- Que horror!... O pobre!. . . Ah, Rénine, este não pôde salvar. E é isso o que acima de tudo me perturba, que teríamos podido. . . podido salvá-lo, já que sabíamos do conluio. . .
Rénine a fez respirar um vidrinho de sais, e quando ela recuperou seu sangue-frio, ele lhe disse, observando-a com atenção:
- Julga então que há relação entre este assassinato e o conluio que queríamos impedir?
- Certamente - assentiu, surpreendida com a pergunta.
- Logo, como a trama era urdida por um marido contra a mulher ou por uma mulher contra o marido, e como foi o marido que foi morto, admite que a Sra. d'Imbreval?. . .
- Oh, não, impossível - objetou. - Para começar, a Sra. d'Imbreval não deixou seu alojamento. E logo não posso crer que esta bonita mulher seja capaz... Não, não, é evidente que há outra coisa.
- Que outra coisa?
- Não sei. Talvez tenham entendido mal o que foi dito entre o irmão e a irmã. Vê bem que o crime foi cometido em condições diferentes. . . em outra hora e outro lugar.
- E em conseqüência - terminou Rénine - os dois casos não têm qualquer relação?
- Ah, é de não se entender nada! Tudo soa tão estranho!
Rénine teve uma tirada irônica.
- Meu discípulo não está me fazendo honra hoje.
- Em quê?
- Ora! Eis uma história bem simples, que se consumou a nossos olhos, que viu se desenrolar como a cena de um filme, e tudo isso permanece para você tão obscuro como se ouvisse falar dum caso passado
num subterrâneo a trinta léguas daqui!
Hortense ficou consternada.
- Que está dizendo? Como! entendeu? Na base de que indicações?
Ele fitou o relógio.
- Não entendi tudo - disse. - O crime em si, na sua brutalidade, sim, mas para o essencial, a psicologia do crime, não há qualquer indicação. Mas é meio- dia. O irmão e a irmã, vendo que ninguém vem
ao encontro de Três Mathildes, descerão até a praia. Não julga que então seremos informados sobre o cúmplice que os acuso de ter, e sobre a relação que há entre os dois casos?
Ganharam a esplanada que margina os chalés Hou- ville, e onde os pescadores puxam seus barcos com a ajuda de cabrestantes. Havia muitos curiosos na porta de um dos chalés. Dois funcionários de guarda
proibiam a entrada.
O prefeito atravessou o grupo com energia. Voltava do correio, onde fora telefonar ao Havre. No ministério público, responderam que o procurador da República e um juiz de instrução iriam a Etretat
de tarde.
- Isso nos dá o tempo de almoçar - comentou Rénine. - A tragédia não se encenará antes das duas ou três horas. E tenho idéia de que será longa.
Andaram, porém, depressa. Hortense, superexcitada pelo cansaço e o desejo de saber, não parava de fazer perguntas a Rénine que respondia evasivamente, com os olhos postos na esplanada que se via pelas
vidraças da sala de refeições.
- São eles que está espreitando?
- Sim, o irmão e a irmã.
•- Atenção! chegaram.
Ele se retirou com rapidez.
No fim da rua principal, um senhor e uma senhora avançavam com indecisão, como se não conhecessem o lugar. O irmão era um homenzinho descarnado, de tez morena, com um boné de automobilista. A irmã,
também pequena, forte, com um longo casacão, lhes pareceu uma mulher já madura, mas bonita ainda, sob o veuzinho que lhe cobria o rosto.
Notando os grupos que se aproximavam e detinham, o andar de ambos traía uma vacilação preocupada.
A irmã abordou um marinheiro. Desde as primeiras palavras, sem dúvida ao lhe anunciarem a morte de d'Imbreval, soltou um grito e procurou abrir passagem. O irmão, por sua vez, informado, afastava as
pessoas com os cotovelos e bradou aos funcionários:
- Sou um amigo de ImbrevaH... Meu cartão, Frédéric Astaing. . . Minha irmã, Germaine Astaing, é íntima da Sra. dTmbreval!. . . Nos esperavam. . . Tínhamos um encontro!...
Deixaram os dois passar. Sem dizer nada, Rénine, que ficara atrás deles, os seguiu, junto com Hortense.
No segundo andar, os ddmbreval ocupavam quatro quartos e um salão. A irmã correu a um dos quartos e se ajoelhou diante do leito em que tinham estendido o cadáver. Thérèse ddmbreval estava no salão
e soluçava no meio de algumas pessoas silenciosas. O irmão se sentou perto dela, lhe agarrou as mãos ardentemente e pronunciou numa voz que tremia:
- Minha pobre amiga... minha pobre amiga...
Rénine e Hortense examinaram demoradamente o
par que formavam, e Hortfcnse cochichou:
- Por este indivíduo ela teria matado? Impossível.
- Porém - notou Rénine - se conhecem e sabemos que Frédéric Astaing e sua irmã conhecem uma terceira pessoa, com eles acumpliciada. De modo que.. .
- Impossível - repetiu Hortense.
Apesar das presunções, sentia pela moça uma tal simpatia que, quando Frédéric Astaing se ergueu, foi se sentar junto à Sra. d'Imbreval e a consolou com voz doce. As lágrimas da infeliz a comoviam
profundamente.
Quanto a Rénine, se concentrou desde a saída à espreita do irmão e da irmã, como se isso tivesse importância, e não perdia de vista Frédéric Astaing que, com ar indiferente, fazia uma minuciosa inspeção
do apartamento, visitou o salão, entrou em todos os quartos, místurou-se aos grupos e fez perguntas sobre o modo como o crime tinha sido cometido. Por duas vezes sua irmã veio lhe falar. Logo ele voltou
à Sra. d'Imbreval e sentou de novo a seu lado, cheio de compaixão e solicitude. Enfim teve com a irmã, no vestíbulo, um demorado acerto, separando-se a seguir, como quem se pôs de acordo sobre todos os
pontos. Frédéric foi embora. A manobra durara bem de trinta a quarenta minutos.
Nesse momento surgiu diante dos chalés o auto que trazia o juiz de instrução e o procurador. Rénine, que esperava essa chegada para mais tarde, falou a Hortense:
- Temos de nos mexer. Não se afaste a nenhum preço da Sra. dTmbreval.
Preveniram as pessoas, cujo depoimento podia ter alguma utilidade, que fossem se reunir na praia, onde o juiz de instrução começava um inquérito preliminar. Devia, a seguir, falar com a Sra. dTmbreval.
Assim, todas as pessoas presentes saíram. Só ficaram os dois guardas e Germaine Astaing.
Esta se ajoelhou uma última vez ao pé do morto e, curvada diante dele, com a cabeça nas mãos, rezou longamente. Em seguida se levantou e abriu a porta da escada, quando Rénine se antecipou.
- Tenho umas palavras a lhe dizer, senhor.
Pareceu surpreendida e replicou:
- Diga. Estou ouvindo.
- Não aqui.
- Onde?
- Ao lado, no salão.
- Não - recusou vivazmente.
- Por quê? Embora não tenha sequer lhe apertado a mão, suponho que a Sra. dTmbreval seja sua amiga?
Não lhe deu tempo a pensar e a levou à outra peça, fechando a porta, e correndo de imediato à Sra. dTmbreval, que queria sair para seu quarto, disse:
- Não, senhora, ouça, lhe peço. A presença da Sra. Astaing não deve afastá-la. Temos de falar sobre coisas muito graves e sem a perda de um minuto.
Diante uma da outra, as duas mulheres se fitaram com recíproca expressão de ódio implacável, adi- vinhando-se em ambas um fundo transtorno e uma raiva contida semelhantes. Hortense, que as julgava
amigas, que até certo ponto podia considerá-las cúmplices, receou o choque que previa e fatalmente ia se produzir. Forçou Thérèse dTmbreval a sentar de novo, enquanto Rénine se punha no meio da peça e
articulava com firmeza:
- O acaso, pondo-me a par da verdade, me permitirá salvar as duas, se quiserem me ajudar por uma explicação franca, que me dará os dados de que necessito. O perigo cada uma conhece, pois no fundo cada
uma sabe o mal de que é responsável. Mas o ódio as enfurece e incumbe a mim ver claro e agir. Em meia hora, o juiz de instrução estará aqui. Até lá é preciso que o acordo esteja feito.
As duas estremeceram, como chocadas pela palavra.
- Sim, o acordo - repetiu mais imperiosamente. - Voluntário ou não, será feito. Não estão em causa sozinhas. Existem suas duas filhinhas, Sra. d'lmbreval. Já que as circunstâncias me puseram no caminho
delas, é por sua defesa e salvação que intervenho. Um erro, uma palavra demais e estão perdidas. Isso não ocorrerá.
À lembrança das filhas, a Sra. dTmbreval se descompôs, soluçando. Germaine Astaing deu de ombros e se moveu para a porta, ao' que Rénine de novo se opôs.
- Aonde vai?
- Fui chamada pelo juiz de instrução.
- Não.
- Sim, junto com todos os que devem depor.
- Você não estava lá. Nada sabe do que se passou. Ninguém sabe nada desse crime.
- Eu sei quem o cometeu.
- Impossível!
- Thérèse d'Imbreval.
A acusação foi lançada num fulgor de cólera e com um gesto furioso de ameaça.
- Miserável! - bradou a Sra. d'Imbreval, atirando-se a ele. - Vai-te embora! vai! Ah! que mulher miserável!
Hortense tentou contê-la, mas Rénine lhe disse baixo:
- Deixe-as, foi o que quis. Jogar uma contra a outra e assim provocar a luz plena.
Ante o insulto, a Sra. Astaing fizera, para rir, um esforço que lhe crispou os lábios:
- Miserável por quê? Por que te acuso?
- Por tudo! por tudo! És uma miserável, ouves, Germaine, uma miserável!
Thérèse dTmbreval repetiu a ofensa, como se se aliviasse com ela. Sua cólera se acalmava. Talvez não tivesse bastante força para sustentar a luta, e foi a Sra. Astaing que retomou o ataque, de punhos
estendidos e o rosto desfigurado e envelhecido de vinte anos.
- Tu! tu ousas me ofender, tu! depois do teu crime! Ousas levantar a cabeça quando o homem que mataste está aí, no seu leito de morte! Ah, se uma de nós é uma miserável, sabes que és tu, Thérèse!
Mataste o teu marido! Mataste o teu marido!
Saltou, inflamada pelas palavras horríveis que dizia, e suas unhas quase tocaram o rosto da amiga.
- Ah, não digas que não mataste - bradou. - Não digas que não, te proíbo. Não digas! O punhal está aí na tua bolsa. Meu irmão tocou nele quando te falava, e sua mão saiu com sinais de sangue. O sangue
do teu marido, Thérèse. E mesmo que eu não tivesse descoberto nada, julgas que não adivinhei desde o primeiro instante? Soube imediatamente a verdade. Quando um marinheiro me respondeu na praia: "O Sr.
dTmbreval? Eoi assassinado." Eu me disse na hora: "Foi ela, foi Thérèse, ela o matou."
Thérèse não respondia. Não tinha mais um impulso de protesto. Hortense, que a observava com angústia, julgou ver nela o acabrunhamento dos que se sabem perdidos. As faces se escavavam e o rosto tinha
tal expressão de desespero que Hortense, apiedada, a instou a defender-se.
- Explique-se, lhe peço. Durante o crime, estava aqui na varanda... Este punhal, como pôde... como explicar?.. .
- Explicações! - escarneceu Germaine Astaing. - Será possível dar? Pouco importa as aparências do crime, o que foi visto e o que não foi. O essencial é a prova. O fato de que o punhal está aí, na
tua bolsa, Thérèse. Sim, sim, foste tu! Mataste! Acabaste matando-o! Ah, quantas vezes disse ao meu irmão: "Ela o matará!" Frédéric procurava te defender, sempre teve um fraco por ti. Mas, no fundo, ele
sabia o que ia ocorrer. E agora a coisa atroz foi feita. Uma punhalada nas costas. Covarde! Covarde!... E não direi nada? Mas não hesitei um segundo! nem Frédéric. De imediato buscamos provas. E é com
toda a minha razão e toda a minha vontade que vou te denunciar. Acabou, Thérèse. Estás perdida. Nada mais pode te salvar. O punhal está nesta bolsa que tua mão aperta. O juiz virá e vai achá-lo manchado
com o sangue do teu marido. E vai achar também a carteira dele aí. Estão aí. Hão de ser encontrados. . .
Uma tal raiva a exasperava que não pôde continuar e ficou com o braço estendido e o queixo agitado por contrações nervosas.
Rénine pegou gentilmente a bolsa de Thérèse dTm- breval. A moça a prendeu, mas ele insistiu e lhe disse:
- Deixe eu agir, senhora. Sua amiga Germaine tem razão. O juiz de instrução vai vir, e o fato de o punhal estar em suas mãos provocará sua prisão imediata. Não precisa ser assim. Deixe eu agir.
Sua voz insinuante amoleceu a resistência de Thérèse. Seus dedos foram se abrindo. Pegou a bolsa e tirou dela um pequeno punhal com cabo de ébano e uma carteira em marroquim cinza e pôs tranqüilamente
os dois objetos no bolso de dentro do seu casaco.
Germaine Astaing o olhava com estupor.
- Você está louco! Com que direito!. ..
- São coisas que não se devem deixar por aí. Assim, fico em paz. O juiz não vai procurar no meu bolso.
- Mas eu o denunciarei, senhor! - afirmou, indignada. - Vou avisar a justiça.
- Mas não, não - sorriu ele -, não dirá nada. A justiça não tem nada que ver com isso. O conflito que as separa deve ser resolvido entre as duas. Que idéia de meter a justiça em qualquer ocorrência
da vida!
A Sra. Astaing sufocava.
- Mas não tem nenhum título para falar assim! Quem é o senhor? Um amigo desta mulher?
- Desde que a ataca, sim.
- Mas se ataco, é por ser culpada. Pois não pode negar. . . matou o marido.
- Não nego - declarou Rénine, com ar calmo. - Estamos todos de acordo nesse ponto. lacques dTmbre- val foi morto por sua mulher. Mas, repito, a justiça não deve saber a verdade.
- Saberá por mim, senhor, lhe juro. Esta mulher tem de ser punida. Matou.
Rénine se acercou dela e, tocando-lhe o ombro:
- Me perguntou há pouco a que título intervenho. E a senhora?
. - Era amiga de lacques d'Imbreval.
- Amiga apenas.
Ela perdeu um pouco o prumo, mas se refez logo:
- Era sua amiga e meu dever é vingá-lo.
- Guardará silêncio, no entanto, como ele guardou.
- Ele não soube, antes de morrer.
- É onde se engana. Teria podido acusar a mulher, teve tempo de acusá-la, e não disse nada.
- Por quê?
- Pelas filhas.
A Sra. Astaing não se acalmava, e sua atitude mostrava a mesma vontade de vingança e a mesma execração. Mas, apesar de tudo, sofria a influência de Rénine. Na pequena peça fechada em que tanto ódio
se entrechocava, ele se tornava pouco a pouco senhor, e Germaine Astaing compreendia que a Sra. ddmbreval sentia todo o reconforto desse apoio inesperado que se oferecia à beira do abismo.
- Obrigado, senhor - falou Thérèse. - Já que vê tudo isso com clareza, sabe também que foi por minhas filhas que não me entreguei à justiça. Sem isso, estou tão cansada!. . .
Assim a cena mudava e as coisas tomavam outro aspecto. Graças a algumas palavras lançadas na discussão, ele conseguia que a culpada erguesse a cabeça e se animasse, ao passo que a acusadora hesitava
e parecia inquieta. E aconteceu que esta não ousou mais falar e que a outra chegava a esse instante em que se tem necessidade de sair do silêncio para pronunciar, com naturalidade, as palavras de confissão
que aliviam.
- Agora - lhe disse Rénine com a mesma gentileza -, creio que pode e deve se explicar.
- Sim... sim... Também acho. Devo responder a esta mulher. . . A simples verdade, não é?
Chorava de novo, prostrada numa poltrona, mostrando também ela um rosto envelhecido e devastado pela dor, e, baixo, sem cólera, em pequenas frases cortadas, falou:
- Há quatro anos ela era sua amante... O que eu sofri... Foi ela mesma que me contou o caso... por maldade. Me detestava ainda mais do que amava Jacques... e cada dia eram novas estocadas... telefonemas
em que me falava de seus encontros. . . Esperava que eu me matasse, à força de me fazer sofrer. Pensei nisso algumas vezes, mas reagi, pelas crianças. Jacques no entanto fraquejava. Ela exigia dele o divórcio
e ele se deixava ir pouco a pouco. . . dominado por ela e por seu irmão, que é mais dissimulado que ela, mas igualmente perigoso. Sentia tudo isso. . . Jacques se tornava duro comigo. . . Não tinha coragem
de ir embora, mas era eu o obstáculo e me queria mal. . . Meu Deus, que tortura!
- Devia lhe ter dado a liberdade - bradou Ger- maine Astaing. - Não se mata um homem porque quer se divorciar.
Thérèse sacudiu a cabeça e respondeu:
- Não matei porque queria se divorciar. Se realmente tivesse querido, teria ido embora e que poderia eu fazer? Mas teus planos tinham mudado, Germaine, o divórcio não te bastava, e era outra coisa
que tinhas obtido dele, outra coisa bem mais grave que tu e teu irmão exigiam... e a que ele tinha consentido... por covardia. . . a contragosto. . .
- Que queres dizer? - balbuciou Germaine. - Que outra coisa?
¦- Minha morte.
- Mentes! - bradou a Sra. Astaing.
Thérèse não alçou a voz, nem fez qualquer gesto de ódio ou indignação; simplesmente repetiu:
- Minha morte, Germaine. Li tuas últimas cartas, seis cartas tuas que teve a loucura de esquecer na carteira, seis cartas em que a palavra terrível não está escrita, mas em que cada linha a deixa
entrever. Tremia ao ler isso. Jacques chegar àquele ponto! Mas não me veio nenhuma intenção de feri-lo. Uma mulher como eu, Germaine, não mata voluntariamente. Se perdi a cabeça. . . foi mais tarde. .
. por culpa tua.
Virou-se para Rénine, como a lhe perguntar se não havia perigo em que falasse a verdade.
- Não tenha medo - disse -, respondo por tudo.
Ela passou a mão na testa. A horrível cena revivia
nela e a torturava. Germaine Astaing não se mexia, com os braços cruzados, os olhos turvos, enquanto Hor- tense Daniel esperava apaixonadamente a confissão do crime, e a explicação do impenetrável mistério.
• - Foi mais tarde - continuou -, e por tua culpa, Germaine. Tinha posto a carteira na gaveta, onde estava escondida, e esta manhã nada disse a Jacques. Não queria lhe dizer que sabia. Era horrível demais!
Mas era preciso apressar-se. . . tuas cartas anunciavam que chegarias em segredo hoje. Pensei primeiro em fugir, correr ao trem. . . Maquinalmente, tinha pegado este punhal para me defender. Mas quando
Jacques e eu fomos à praia, tinha me resignado. Sim, aceitava morrer. Que eu morra, pensava, e todo esse pesadelo acabe! Somente, por causa das crianças, desejava que a minha morte parecesse acidental
e que Jacques não fosse acusado dela. Por isso o teu plano de um passeio pelos rochedos me convinha. . . Uma queda do alto duma rocha parece natural. Jacques se afastou para ir à cabina, de onde devia
depois se unir a ti em Três Mathildes.
A caminho, abaixo do patamar, deixou cair a chave da cabina; desci e procurei com ele. E foi aí... por tua culpa... sim, Germaine, por tua culpa. A carteira de Jacques caíra do bolso do seu casaco sem
que ele notasse, e junto com ela uma fotografia deste ano em que estou eu e as duas crianças. Apanhei-a e vi. . . sabes bem o que vi, Germaine. Em vez de mim, no retrato, estavas tu. Tinhas substituído
a minha imagem pela tua, Germaine! Era o teu rosto! Um de teus braços enlaçava minha filha mais velha pelos ombros e o outro descansava em teus joelhos. .. Eras tu, Gemaine, a mulher do meu marido. . .
tu, a futura mãe de minhas filhas... tu que ias criá-las... tu... tu!... Perdi a cabeça. Tinha o punhal. . . Jacques estava agachado. . . Finquei. . .
Não havia uma palavra de sua confissão que não fosse rigorosamente verdadeira. Os que a escutavam tiveram disso uma impressão profunda, e para Hortense e Rénine, nada era mais pungente e trágico.
Tinha tornado a sentar, no fim das forças. No entanto continuava a pronunciar palavras ininteligíveis e só pouco a pouco, inclinando-se para ela, se pôde ouvir:
- Julguei que gritariam em volta de nós e seria presa. Nada. Aquilo ocorrera de tal modo e em tal condição que ninguém tinha visto. Mais: Jacques se erguera ao mesmo tempo que eu, e não caía! Não,
não caía! Ele, que eu tinha ferido, permanecia de pé! Do patamar, a que subi, o observei. Punha o casaco nos ombros, evidentemente para esconder o ferimento, e se
afastava sem vacilar ou tão pouco que só eu
podia me dar conta. Falou até com amigos que jogavam cartas, se dirigiu para a cabina e desapareceu. Eu, no fim de algum tempo, voltei para o chalé. Estava certa de que tudo não passara de um sonho mau.
. . que não tinha matado... ou pelo iríenos que o ferimento era leve. Jacques ia sair, tinha a certeza. Espreitava de minha varanda... Se por um momento acreditasse que tinha necessidade 4e assistência,
teria corrido até lá. Mas de fato não soube, não adivinhei... Fala-se de pressentimento... é falso. Estava perfeitamente calma, como depois de um pesadelo cuja lembrança vai se apagando. Não, lhe juro,
nada soube... até o instante...
Interrompeu-se. Os soluços a afogavam.
Rénine acabou:
- Até o instante em que vieram lhe avisar, não foi?
Thérèse balbuciou:
- Sim... Só então tive consciência do meu ato... e senti que enlouquecia e ia gritar a todos: "Mas fui eu! Não procurem. Está aqui o punhal... Fui eu a culpada." Sim, ia gritar isso, quando de repente
o vi, meu pobre Jacques. . . Vinha trazido. . . o rosto muito calmo, muito doce... E diante dele, compreendi meu dever... como ele compreendeu o seu... Pelas crianças, tinha se calado. Eu me calaria também.
Culpados ambos de homicídio, tendo a vítima sido ele, um e outro devíamos tudo fazer para que o crime não recaísse sobre os inocentes... Em sua agonia, ele teve a clara visão disso. . . tivera a coragem
inaudita de caminhar, de responder aos que o interrogaram e se encerrar para morrer. Tinha feito isso, apagando de um golpe todos os seus erros e ao mesmo tempo me dando o seu perdão, já que não me denunciou.
. . e ordenando que me calasse. . . me defendesse. . . contra todos, sobretudo contra ti, Germaine.
Pronunciou essas últimas palavras com mais firmeza. Transtornada de início pelo ato inconsciente que cometera matando o marido, achava forças pensando no que ele tinha feito, ele, e armando a si mesma
de semelhante energia. Diante da intrigante, cujo ódio conduzira os dois ao crime e à mòrte, cerrava os punhos, pronta para a luta, a fremir de vontade.
Germaine Astaing não cedia. Escutara sem uma palavra, com um rosto implacável, cuja expressão ficava mais dura à medida que as confissões de Thérèse se tornavam mais precisas. Nenhuma emoção parecia
enternecê-la, nenhum remorso penetrá-la. No máximo, ao final, seus lábios finos tiveram um sorriso, como se a alegrasse o modo com que os acontecimentos se desenvolveram. Mantinha sua presa.
Devagar, levantando os olhos a um espelho, ajustou o chapéu e pôs pó-de-arroz. Em seguida andou parav a porta. Thérèse acorreu.
- Aonde vais?
- Onde me agradar.
- Ver o juiz de instrução?
- Provavelmente.
- Não passas por esta porta!
- Vá, o espero aqui.
- E lhe dirás?. . .
- Ora.. . tudo o que me disseste, tudo o que tiveste a ingenuidade de me dizer. Não poderá ter dúvidas. Me deste todas as explicações.
Thérèse a pegou pelos ombros.
- Sim, mas eu lhe darei ao mesmo tempo outras, Germaine, e que dizem respeito a ti. Se estou perdida, também estás.
- Nada podes contra mim.
- Posso te denunciar, mostrar as cartas.
- Que cartas?
- Essas em que decidem a minha morte.
- Mentiras! Thérèse. Sabes bem que essa famosa trama contra ti só existe em tua imaginação. Nem Jacques nem eu queríamos a tua morte.
- Tu querias, tu. Tuas cartas te condenam.
- Mentiras! Eram cartas de uma amiga a um amigo.
- Cartas de amante e cúmplice.
- Prova.
- Estão aí, na carteira de (acques.
- Não.
- Que estás dizendo?
- Digo que essas cartas me pertenciam. Retomei-as... Ou antes meu irmão retomou-as.
- Roubaste, miserável! Mas vai devolver - bradou Thérèse empurrando-a.
- Há de me entregar.
- Foi embora.
t
- Será encontrado.
- Ele certamente, não as cartas. Cartas como essas se rasgam.
Thérèse cambaleou e estendeu em desespero as mãos a Rénine.
Este pronunciou:
- O que ela diz é verdade. Segui a manobra do irmão mexendo na sua bolsa. Ele pegou a carteira também, examinou com a irmã, pôs de volta no lugar e foi embora com as cartas.
Fez uma pausa e acrescentou:
- Pelo menos com cinco das cartas.
A frase foi dita sem ênfase, mas todos entenderam sua importância. As duas mulheres se acercaram dele. Que queria dizer? Se Frédéric Astaing só levara cinco cartas, onde estava a sexta?
- Creio - disse Rénine - que quando a carteira caiu nos seixos, essa carta caiu junto com a foto que a Sra. d'Imbreval agarrou.
- Que sabe você? Que sabe? - inquiriu a Sra. Astaing num tom sôfrego.
- Achei-a no bolso do casaco de flanela que deixaram junto à cama. Ei-la. Está assinada por Germaine Astaing, e basta plenamente para mostrar as intenções de quem a escreveu e os conselhos de homicídio
que dava a seu amante. Estou até admirado que uma tal imprudência pudesse ser cometida por uma mulher tão hábil.
Germaine estava lívida e tão fora de si que nem tratava de se defender. Rénine continuou, se dirigindo a ela:
- Para mim, a senhora é responsável por tudo o que se passou. Arruinada, já quase sem recursos, quis se aproveitar da paixão que inspirava ao Sr. d'Im- breval para casar com ele, apesar de todos os
obstáculos, e dispor de sua fortuna. Dessa cobiça, desses cálculos abomináveis, tenho a prova e poderei fornecê-la. Minutos depois de mim, remexeu no bolso do casaco de flanela. Eu tinha tirado a sexta
carta, mas deixei ali um pedacinho de papel que você buscava ardentemente e que também devia ter caído da carteira. Era um cheque ao portador de cem mil francos, assinado pelo Sr. d'Imbre- val para o seu
irmão.. . Um presentinho de núpcias... uma gratificação, como se diz. Segundo suas instruções, seu irmão correu de auto para o Havre e, sem nenhuma dúvida, se apresentou antes das quatro horas no banco
em que essa soma estava depositada. Devo, de passagem, adverti-la de que não a receberá, pois fiz telefonarem a esse banco anunciando o assassinato do Sr. d'Imbreval, o que suspende qualquer pagamento.
De tudo isso se conclui que a justiça terá em mãos, se persistir em seus planos de vingança, todas as provas necessárias contra você e seu irmão. Poderia acrescentar, como edificante testemunho, a narrativa
da conversa telefônica entre você e seu irmão surpreendida na semana passada, conversa em que falavam em espanhol misturado com javanês. Mas estou certo de que não me obrigará a essas medidas extremas
e estamos de acordo, não é?
Rénine se exprimia com uma calma impressionante e a desenvoltura de quem sabe que ninguém fará a menor objeção às suas palavras. Parecia de fato não poder se enganar. Lembrava os acontecimentos como
tinham se dado e tirava as conclusões que em boa lógica comportavam. Conclusões inevitáveis, a que era forçoso submeter-se.
A Sra. Astaing entendeu isso. Naturezas como a sua, violentas, escarnecidas enquanto a luta é possível e resta alguma esperança, deixam-se facilmente dominar na derrota. Ela era inteligente demais
para não sentir que a mínima tentativa de revolta seria posta abaixo por um tal adversário. Estava em suas mãos. Em casos assim, há que se dobrar.
Não interpertou, pois, nenhuma cena, nem se entregou a demonstrações, ameaças, explosões de raiva, crises de nervos. . . Dobrou-se.
- Estamos de acordo - disse. - Que exige?
- Vá embora.
- Se me chamarem a depor?
- Não chamarão.
- No entanto.. .
- Responda que não sabe nada.
Foi embora. Na porta, hesitou e disse entre dentes:
- E o cheque?
Rénine olhou à Sra. d'Imbreval, que declarou:
- Que fique com ele. Não quero este dinheiro.
Rénine deu instruções precisas a Thérèse d'Imbre-
val sobre o modo como devia se comportar e responder às perguntas que lhe fariam e deixou o chalé, em companhia de Hortense Daniel.
Lá fora, na praia, o juiz e o procurador continuavam o inquérito, tomavam medidas, interrogavam testemunhas e deliberavam entre si.
- Quando penso - disse Hortense - que tem consigo o punhal e a carteira do Sr. d'Imbreval!
- Isso lhe parece muito perigoso - riu. - Pois a mim parece muito cômico.
- Não tem medo?
- De quê?
- Que desconfiem de alguma coisa?
- Por Deus, não desconfiarão de nada! Contaremos a essas bravas pessoas o que vimos, um testemunho que só aumentará o enleio deles, pois nada vimos do conjunto. Por cautela, ficaremos aqui um ou dois
dias velando pelo que acontece. Mas o assunto está concluído e nunca o entenderão.
- Mas você adivinhou, e desde o primeiro instante. Por quê?
- Porque, em lugar de procurar o meio-dia nas quatorze horas, como em geral se faz, me coloco sempre à questão como deve ser colocada e a solução vem naturalmente. Um senhor entra em sua cabina e aí
se encerra. Meia hora depois é encontrado morto. Ninguém entrou. Que se teria passado? Para mim, a resposta é imediata, não há sequer necessidade de pensar. Se o crime não foi cometido na cabina, é que
foi antes, e o senhor, ao entrar nela, já estava ferido de morte, ímediatamente a verdade do caso me surgiu. A Sra. dTmbreval, que devia ser morta à tarde, se adiantou e, enquanto o seu marido se agachava,
num segundo de extravio, matou-o. Não havia mais que procurar os motivos de seu ato. Ao conhecê-los, fiz o possível por ela. Eis a história toda.
A noite começava a cair. O azul do céu se fazia mais sombrio, o mar ainda mais calmo.
- Em que está pensando? - indagou Rénine ao fim de um momento.
- Penso que, se vier a ser alvo de uma maquinação, manterei minha confiança em você, aconteça o que acontecer, a despeito de tudo e contra todos. Sei, como sei que existo, que me salvaria, fossem quais
fossem os obstáculos. Não há limite à sua vontade.
Ele disse, baixo:
- Não há limite é ao meu desejo de comprazê-la.
O Filme Revelador
- Observe o ator que faz o mordomo - disse Serge Rénine.
- Que é que tem de especial? - perguntou Hor- tense.
Estavam na matinê de um cinema das principais avenidas, a que a jovem arrastara Rénine para ver uma atriz que a tocava de perto. Rose-Andrée, que os cartazes punham em destaque, era sua meia-irmã -
o pai casara duas vezes. Tinham brigado e há anos nem mesmo se escreviam. Bela criatura, de gestos brandos e rosto sorridente, Rosé-Andrée, depois de ter feito teatro sem maior sucesso, acabava de se revelar
no cinema como intérprete de grande futuro. Esta tarde animava com sua vibração e cálida beleza um filme em si bem medíocre, A Princesa Feliz.
Num intervalo da sessão, Rénine continuou, sem responder diretamente:
- Me consolo dos filmes ruins observando os personagens secundários. Como esses pobres diabos, a que fazem repetir dez ou vinte vezes certas cenas, não pensariam seguido, na tomada definitiva, em coisa
diversa da que interpretam? Essas pequenas distrações, que mostram um pouco da alma ou do instinto deles, são divertidas de notar. Por exemplo, este mordomo. . .
A tela mostrava agora uma mesa luxuosamente servida, a que a Princesa Feliz presidia cercada por todos os seus namorados. Uma meia dúzia de criados iam e vinham, dirigidos pelo mordomo, um tipo deci-
dido, grosseiro, de cara comum, mas com umas sobrancelhas enormes, unidas numa só linha.
- A cabeça de um bronco - disse Hortense. - Que está vendo nele?
- Repare no modo com que olha a sua irmã, e se não a fita mais vezes do que devia...
- Palavra, até aqui não me pareceu.
- Mas sim - afirmou Rénine -, é evidente que tem na vida por Rose-Andrée sentimentos pessoais, sem qualquer relação com seu papel de criado anônimo. Talvez na realidade ninguém desconfie, mas na tela,
quando não se cuida, ou julga que seus colegas de certa não podem vê-lo, seu segredo lhe escapa. Repare. . .
O homem não se movia. Era o filme da refeição. A princesa bebia uma taça de champanha e ele a contemplava com dois olhos brilhantes, meio velados por suas pesadas pálpebras.
Duas vezes ainda, nele surpreenderam expressões desse tipo, a que Rénine atribuía um sentido de paixão que Hortense punha em dúvida.
- É o seu modo característico de olhar - dizia ela.
Finda a primeira seqüência muda, veio a segunda.
O programa anunciava "que tinha decorrido um ano e a Princesa Feliz vivia numa bonita cabana da Nor- mandia, engrinaldada de trepadeiras, com o músico pobre que escolhera como esposo".
Sempre feliz, aliás, tal como se podia ver na tela, a princesa seguia também sempre sedutora e cercada pelos pretendentes mais diversos. Burgueses e nobres, financistas e camponeses, todos os homens
caíam em delíquio diante dela e, mais que todos, um rústico solitário, um lenhador cabeludo e meio selvagem que ela encontrava em todos os passeios. Armado com o seu machado, temível e sorrateiro, circulava
em torno da cabana e se sentia com receio que um perigo ameaçava a Princesa Feliz.
- Veja, veja - cochichou Rénine -, sabe quem é o homem do mato?
- Não.
- O mordomo, simplesmente. Pegaram o mesmo ator para os dois papéis.
Realmente, apesar da deformação da figura, sob o olhar pesado e os ombros curvados do lenhador, estavam as atitudes e gestos do mordomo, tanto quanto sob a barba descuidada e os longos cabelos espessos,
se reconhecia a cara há pouco barbeada, o focinho de animal e a linha grossa das sobrancelhas.
Ao longe, a princesa saía da cabana. O homem se escondeu atrás dumas árvores. De tempos em tempos, surgia na tela, em desmedida proporção, seus olhos ferozes ou as mãos de assassino de enormes polegares.
- Ele me dá medo - disse Hortense -; é duma realidade arrepiante.
- Porque interpreta a si mesmo - ponderou Ré- nine. - Entenda que, no prazo de três ou quatro meses que deve ter havido entre a execução dos dois filmes, seu amor progrediu e, para ele, não é a princesa
que surge, mas Rose-Andrée.
O homem se agachou. A vítima se acercava, alegre e sem desconfianças. Passou, ouviu ruído, deteve-se e olhou de modo a princípio sorridente e logo atento, inquieto e cada vez mais ansioso. O lenhador
afastava os galhos e atravessava o arvoredo.
Estavam um diante do outro. Ele abriu os braços como para agarrá-la. Ela quis gritar, chamar por socorro, mas sufocava e os braços se cerraram em torno dela sem que pudesse opor a menor resistência.
Ele a pôs nos ombros e saiu a trote.
- Está convencida? - murmurou Rénine. - Julga que este ator de vigésima categoria teria tido essa força e essa energia se fosse outra mulher que não Rose-Andrée?
O lenhador chegava à beira de um largo rio, junto a um velho barco metido na lama. Nele deitou o corpo inerte de Rose-Andrée, desfez a amarra e foi subindo o rio perto da margem.
Depois, aportou, transpôs a orla de uma floresta e se internou por entre as grandes árvores e montes de pedra. Tendo largado a princesa no solo, desentulhou a entrada duma caverna, onde a luz entrava
por uma fenda oblíqua.
Uma série de cenas mostrou o enlouquecimento do marido, as buscas, a descoberta de raminhos que- brados pela Princesa Feliz e que indicava o caminho seguido.
Depois foi o desenlace, a luta horrível entre o homem e a mulher, e, no momento em que essa, vencida, exausta, era derrubada, a brusca irrupção do marido e o tiro que abate o animal selvagem. . .
Eram quatro horas quando saíram do cinema. Réni- ne, que tinha o auto à espera, fez sinal ao chofer para segui-los. Andaram os dois pelas avenidas e a rua da Paix, e Rénine, após um longo silêncio,
que preocupava a jovem mesmo ela não querendo, lhe perguntou:
- Gosta da tua irmã?
- Sim, muito.
- Mas brigaram?
- Foi no tempo do meu marido. Rose era uma mulher muito coquete com os homens. Fiquei com ciúmes, e na verdade sem motivo. Mas por que essa pergunta?
- Não sei... o filme me persegue, a expressão do homem era tão estranha!
Ela lhe pegou o braço e foi vivaz:
- Fale, que é que há? Que imagina?
- O que imagino? Tudo e nada. Mas não posso me impedir de crer que sua irmã esteja em perigo.
- Mera hipótese.
- Sim, mas fundada em fatos que me impressionam. A meu ver, a cena do rapto representa, não a agressão do homem do mato contra a Princesa Feliz, mas um ataque violento e arrebatado do ator contra a
mulher que cobiça. Sem dúvida, isso ocorre nos limites impostos pelo papel, e ninguém entendeu nada, ninguém, fora talvez de Rose-Andrée. Mas surpreendi fulgores de paixão que não deixam qualquer dúvida,
olhares onde havia desejo e mesmo vontade de homicídio, mãos contraídas prontas a estrangular, vinte detalhes enfim que me provam que naquele período o instinto desse homem o impelia a matar essa mulher
que não podia lhe pertencer.
- Sim, talvez na época. Mas a ameaça foi conjurada já que meses se passaram.
- Claro.. . claro... mas assim mesmo, quero me informar.
- Com quem?
- Com a Sociedade Mundial que rodou o filme. Olhe, são aqui os escritórios da Sociedade. Quer entrar no auto e esperar uns minutos?
Chamou Clément, o chofer, e afastou-se.
No fundo, Hortense continuava cética. Aquelas manifestações de amor, de que não negava nem o ardor nem a selvageria, pareceram-lhe a composição racional de um bom intérprete. Nada tinha pegado do temível
drama que Rénine pretendia adivinhar, e se indagava se ele não estaria pecando por excesso de imaginação.
- Bem - lhe disse, não sem ironia, quando ele voltou -, que conseguiu apurar? Mistério? golpes de teatro?
- Bastante - fez, preocupado.
Ela de imediato se perturbou:
- Que está dizendo?
Ele narrou, num fôlego:
- O homem se chama Dalbrèque. Ê um ser bem estranho, fechado, taciturno, e que se mantinha sempre afastado dos colegas. Nunca ninguém notou que fosse especialmente solícito em relação à sua irmã. Sua
interpretação, porém, no fim do segundo episódio, pareceu tão notável que o contrataram para um novo filme. Esteve assim filmando ultimamente, nos arredores de Paris. Estavam contentes com ele, quando
houve de súbito uma ocorrência inesperada. Sexta de manhã, 18 de setembro, forçou a porta da garagem da Sociedade Mundial e sumiu numa soberba limusine, depois de furtar a soma de vinte e cinco mil francos.
Fizeram a queixa, e a limusine foi achada domingo, perto de Dreux.
Hortense, que escutava, um pouco pálida, insinuou:
- Até aqui nenhuma relação. . .
- Sim. Perguntei o que acontecera a Rose-Andrée. Sua irmã viajou este verão, depois ficou uma quinzena na circunscrição do Eure, onde possui uma propriedade, justamente A cabana onde rodaram A Princesa
Feliz. Chamada à América por um compromisso, voltou a Paris, depositou as bagagens na estação Saint-Lazare e partiu na sexta-feira, 18 de setembro, com a intenção de dormir no Havre e de pegar o navio
de sábado.
- Sexta, dia 18... - balbuciou Hortense -, no mesmo dia em que esse homem. . . Será que a raptou?
- Vamos saber. Clément, à Companhia Transatlântica.
Desta vez Hortense entrou com ele e ela própria se informou junto à direção.
A busca foi logo resolvida.
Rose-Andrée tinha reservado um camarote no paquete La Provence. Mas o navio partira sem que a passageira tivesse se apresentado. Só no dia seguinte, receberam no Havre um telegrama, assinado por Rose-
Andrée, anunciando um atraso e pedindo que guardassem as bagagens no depósito. O telegrama vinha de Dreux.
Hortense saiu titubeando. Não era possível explicar todas essas coincidências sem ser por um atentado. Os acontecimentos se ordenavam segundo a íntima intuição de Rénine.
Prostrada no auto, o ouviu dar como endereço a central de polícia. Atravessaram o centro de Paris e depois ela ficou sozinha uns instantes.
- Vem - disse ele lhe abrindo a porta.
- De novo? Receberam você? - inquiriu ansiosa.
- Não procurei ser recebido. Queria apenas me pôr em contato com o inspetor Morisseau, o que me mandaram outro dia, no caso Dutreuil. Se descobrirem alguma coisa, ficaremos sabendo por ele.
- E então?
- Neste momento ele está no café que vê ali na praça.
Entraram e sentaram numa mesa isolada, onde o inspetor principal lia o jornal. Imediatamente os reconheceu. Rénine lhe apertou a mão e, sem preâmbulo:
- Trago-lhe um caso interessante, inspetor, e que pode pô-lo em destaque. Talvez já esteja a par...
- Que caso?
- Dalbrèque.
Morriseau pareceu surpreso. Hesitou e usou um tom prudente:.
- Sim, sei... os jornais falaram disso... roubo de carro. . . vinte e cinco mil francos surripiados. . . Amanhã os jornais também devem falar duma descoberta que acabamos de fazer na Sûreté: Dalbrèque
seria o autor de um assassinato que fez muito barulho no ano passado, o do ourives Bourguet.
- Trata-se de outra coisa - afirmou Rénine.
- De que então?
- De um rapto cometido por ele, no sábado, 19 de setembro.
- Ah, sabe?
- Sei.
- Nesse caso - o inspetor se decidiu -, vamos lá. Nesse sábado, com efeito, em plena rua, em pleno dia, uma dama que fazia compras foi raptada por três bandidos, cujo auto fugiu a toda velocidade.
Os jornais relataram o incidente, mas sem dar o nome da vítima nem dos agressores, e por este bom motivo, não se sabia. Somente ontem, enviado ao Havre com alguns homens, consegui identificar um dos bandidos.
O roubo dos vinte e cinco mil, o do auto, o rapto da jovem tinham a mesma origem. Um único culpado, Dalbrèque. Quanto à jovem, nenhuma informação. Todas as nossas buscas foram vãs.
Hortense não tinha interrompido a narrativa do inspetor. Estava atordoada. Quando ele terminou, deu um suspiro:
- É espantoso... a infeliz está perdida. . . não há esperança. . .
Rénine explicou ao inspetor:
- A vítima é a irmã, ou mais exatamente, a meia- irmã da senhora. Uma atriz de cinema muito conhecida, Rose-Andrée.
E contou em poucas palavras as suspeitas que tivera vendo o filme A Princesa Feliz e a pesquisa que pessoalmente fizera.
Houve um demorado silêncio em torno da mesinha. O inspetor principal, desta vez também, impressionado com o engenho de Rénine, aguardava uma palavra sua. Hortense lhe suplicava com os olhos, como se
pudesse ir à primeira vista ao fundo do enigma.
Ele indagou de Morisseau:
- Eram mesmo três homens que estavam no carro?
- Sim.
- Três também em Dreux?
- Não, em Dreux só obtivemos a pista de dois.
- Um deles Dalbrèque.
- Não creio. Nenhuma das características corresponde às suas.
Rénine refletiu ainda uns instantes e logo desdobrou na mesa um grande mapa rodoviário.
Novo silêncio, e disse ao inspetor:
- Deixou seus colegas no Havre?
- Sim, dois inspetores.
- Pode lhes telefonar esta noite?
- Sim.
- E pedir dois outros inspetores à Súreté?
- Sim.
- Bem, nos encontramos amanhã ao meio-dia.
- Onde?
- Aqui - e com o dedo apontou um ponto do mapa, com a indicação Carvalho do Tonel, em plena floresta de Brotonne, na circunscrição do Eure.
- Aqui. Foi aqui que na noite do rapto Dalbrèque procurou um refúgio. Até manhã, Sr. Morisseau, seja pontual no encontro. Cinco homens não é demais para capjurar um animal desse porte.
O inspetor não recuou. O demônio deste sujeito o deixava perplexo. Pagou sua despesa, ergueu-se, fez maquinalmente uma continência e saiu murmurando:
- Lá estaremos, senhor.
No outro dia, às oito horas, Hortense e Rénine deixavam Paris numa vasta limusine guiada por Clément. A viagem foi silenciosa. Apesar de sua fé no extraordinário poder do amigo, Hortense tinha passado
mal a noite e pensava com angústia no desfecho da aventura.
Perto de chegar, ela lhe disse:
- Que prova tem de que ele a levou para esta fiuresta?
Rénine desdobrou de novo o mapa nos joelhos e fez ver a Hortense que, se tirasse uma linha do Havre, ou antes de Quillebeuf (onde se atravessa o Sena) até Dreux (onde o auto foi encontrado), essa linha
passaria pela orla ocidental da floresta de Brotonne.
- Ora - acrescentou - foi na floresta de Bro- tonne, segundo me disseram na Sociedade Mundial, que rodaram A Princesa Feliz. E a questão que se coloca é esta: senhor de Rose-Andrée, Dalbrèque, passando
no sábado perto da floresta, não teria a idéia de esconder aí sua presa, enquanto os dois cúmplices seguiam para Dreux e voltavam a Paris? A gruta estava ali, próxima; como não ir? Não era correndo para
a gruta, meses atrás, que tinha nos braços, contra seu corpo, ao alcance dos lábios, a mulher que amava e de que se apoderara? Para ele, lógica, fatalmente, se reiniciaria a aventura. Mas desta vez em
plena realidade. Rose-Andrée cativa e sem possível ajuda. A floresta imensa e deserta. Naquela noite, ou numa das noites seguintes, ela iria ceder.. .
Hortense se arrepiou.
- Ou morrer. Ah! Rénine, vamos chegar tarde!
- Por quê?
- Pense, faz três semanas. .. Não pode crer que ele a mantenha aí encerrada há tanto tempo.
- Certamente não, o lugar que me indicaram se acha num cruzamento de estradas e o refúgio não é seguro. Mas nele sem dúvida descobriremos algum indício.
Almoçaram na estrada pouco antes do meio-dia e penetraram pelas altas árvores de Brotonne, antiga e vasta floresta cheia de lembranças romanas e vestígios da Idade Média. Rénine, que não raro a percorrera,
dirigiu o auto para um conhecido carvalho a dez léguas de distância, cujos ramos, se abrindo, formavam um vasto tonel. O carro parou na volta mais próxima e foram a pé até a árvore. Morisseau os esperava
junto com quatro sólidos tipos.
- Venham - disse Rénine -, a caverna é ao lado, entre as brenhas.
Facilmente a acharam. Enormes pedras pendiam sobre uma entrada baixa, por onde se passa por uma estreita senda entre densas vegetações.
Ele entrou e examinou com a lanterna elétrica os recantos da pequena caverna com as paredes cheias de assinaturas e desenhos.
- No interior nada - disse a Hortense e a Morisseau. - Mas eis a prova que eu buscava. Se a lembrança do filme realmente levou Dalbrèque à gruta da Princesa Feliz, devíamos pensar na mesma lembrança
em Rose-Andrée. Ora, no filme, a Princesa Feliz ia quebrando pedacinhos de galho durante todo o trajeto. E vejam justamente, à direita deste buraco, galhos recentemente quebrados.
- Vá - disse Hortense -, concordo em que haja uma possível prova da passagem deles, mas data de três semanas, e desde aí. . .
- Desde aí sua irmã está encerrada em algum buraco mais isolado.
- Ou então morta e enterrada sob um monte de folhas. . .
- Não, não - afirmou ele, batendo com o pé -, não é crível que este homem tenha feito tudo o que fez para chegar a um homicídio estúpido. Há de ter tido paciência, tentando se apossar da vítima por
ameaças, pela fome. . .
- Então?
- Procuremos.
- Como?
- Para sair deste labirinto, temos um fio condutor que é o próprio enredo de A Princesa Feliz. Vamos segui-lo, parte a parte, até o início. No drama, o homem dos bosques, para trazer a princesa aqui,
atravessou a floresta depois de ter remado ao longo do rio. O Sena está a um quilômetro de distância. Desçamos até ele.
Tornou a caminhar. Ia sem hesitações, de olhar vigilante, como um bom cão de caça guiado com segurança pelo faro. Seguidos de longe pelo carro, atingiram um grupo de casas à beira d'água. Rénine foi
direto à casa do barqueiro e o interrogou.
Diálogo rápido. Três semanas antes, numa segunda de manhã, esse homem tinha dado falta de um de seus barcos. Encontrou-o mais tarde, na lama, uma meia légua abaixo.
- Não longe de uma cabana onde fizeram um filme este verão? - inquiriu Rénine.
- Sim.
- E é aqui onde estamos que tinham desembarcado uma mulher raptada?
- Sim, a Princesa Feliz ou antes a Sra. Rose-An- drée, a quem pertence a casa que se chama de Clos-Joli
- A casa está aberta atualmente?
- Não. A dama partiu há um mês, depois de fechar tudo.
- Tem guardião?
- Ninguém.
Rénine se virou para Hortense:
- Não há dúvida. É a prisão que ele escolheu.
A caça recomeçou. Seguiram pelo caminho de reboque, ao longo do Sena. Andavam sem ruído na grama do plano baixo. O caminho passava pela estrada principal; havia ali um arvoredo cuidado, saindo do
qual notaram, do cimo dum outeiro, o Clos-Joli, todo envolvido em heras. Hortense e Rénine reconheceram a cabana da Princesa Feliz. As janelas estavam protegidas com batentes e os caminhos já atapetados
de capim.
Ali ficaram mais de uma hora, se ocultando atrás de árvores. O inspetor se impacientava e a jovem perdia confiança e não acreditava que o Clos-Joli pudesse servir de cárcere à irmã. Rénine, porém,
teimava.
- Ela está aí, lhes digo. É matemático. Impossível que Dalbrèque não tenha escolhido este lugar para conservá-la cativa. Espera torná-la mais dócil num meio que ela conhece.
Enfim, à frente deles, do outro lado do Cios, ouviu- se um andar lento e abafado. Um vulto saiu pela estrada. Àquela distância não se podia ver o rosto. Mas o caminhar pesado e o porte eram bem os
do homem que Rénine e Hortense tinham visto no filme.
Assim, em vinte e quatro horas, sobre as vagas indicações que pode dar a atitude dum ator, Serge Rénine chegara, por uma simples dedução psicológica, ao coração do drama. O que o filme sugeria, o
filme tinha imposto a Dalbrèque. Agira na vida real como na imaginária do cinema, e Rénine, remontando passo a passo o caminho que o próprio Dalbrèque fizera sob a influên- 3 cia do filme, chegava ao lugar
em que o homem dos bosques tinha aprisionado a Princesa Feliz.
Dalbrèque parecia vestido como um mendigo, com roupas remendadas e farrapos. Levava uma sacola de cuja boca saíam o gargalo de uma garrafa e a ponta de um pão. No ombro, um machado de lenhador.
Achando aberto o cadeado da barreira, entrou no jardim e foi escondido por uma linha de arbustos que o conduziu ao outro lado da fachada da casa.
Rénine prendeu o braço de Morisseau que queria arremeter.
- Mas por quê? - indagou Hortense. - Não se deve deixar esse bandido entrar. De outro modo.. .
- E se tem cúmplices e dá o alarme?
- Tanto pior. Antes de tudo, salvemos minha irmã.
- E se chegarmos tarde para defendê-la? Na raiva, pode matá-la com uma machadada.
Aguardaram. Transcorreu ainda uma hora. A inação os irritava. Hortense às vezes chorava. Mas Rénine foi firme e ninguém ousou desobedecê-lo.
A luz diminuía. Já as primeiras sombras do crepúsculo se estendiam pelas árvores, quando a porta da fachada que observavam foi aberta e clamores de espanto e triunfo soaram; saltou um par, enlaçado,
vendo-se as •pernas do homem e o corpo da mulher que levava nos braços, contra o peito.
- Ele! ele e Rose!... - falou baixo Hortense fora de si. - Ah, Rénine, salve-a!
Dalbrèque se pôs a correr entre as árvores, como um louco, rindo e gritando. Apesar do peso que levava, dava enormes pulos, parecendo um animal fantástico, ébrio de alegria e carnificina. Uma de suas
mãos, liberada, brandiu o machado, cuja lâmina cintilou. Rose uivava de terror. Ele atravessou o jardim em todos os sentidos, galopou ao longo da sebe, parou de repente diante de um poço, estendendo os
braços com o tronco inclinado como se fosse jogá-la no abismo.
O minuto foi horrível. Ia decidir-se a realizar o espantoso ato? Mas isso sem dúvida não passava de uma ameaça, cujo terror devia induzir a moça à obediência, pois súbito voltou em linha reta para
a porta principal e foi tragado pelo vestíbulo. Um ruído de ferrolho e a porta estava fechada.
Coisa inexplicável, Rénine não tinha se mexido. Com os braços abertos, impedia que os inspetores avançassem, enquanto Hortense, agarrada às suas roupas, lhe suplicava:
- Salve-a... É um louco... Vai matá-la... Por favor!
Mas nesse momento, houve nova ofensiva do homem contra sua vítima. Surgiu numa clarabóia aberta na parede entre as asas de colmo do teto grande e recomeçou sua manobra atroz, suspendendo Rose-Andrée
no vazio e balançando-a como uma presa que se vai lançar no espaço.
Não se decidia, ou era apenas de fato uma ameaça? Julgou Rose suficientemente domada? Voltou para dentro.
Desta vez Hortense teve ganho de causa. Suas mãos geladas apertavam a de Rénine, e ele a sentiu tremer desesperadamente .
- Oh! por favor. .. lhe peço. .. que espera?
Ele cedeu:
- Sim - disse -, vamos. Mas sem pressa. É preciso refletir.
- Refletir! Mas Rose... Rose que ele vai matar! ... Viu o machado?. .. É um louco... Vai matar.
- Temos tempo - disse ele -, respondo nor tudo.
Hortense teve de se apoiar nele, pois não tinha força de caminhar. Desceram assim do outeiro e, procurando passar por onde a ramagem das árvores os ocultasse, ajudou a jovem a transpor a sebe. A escuridão
nascente, aliás, não teria permitido que fossem vistos.
Sem uma palavra, ele fez a volta do jardim e chegaram assim atrás da casa. Por ali Dalbrèque entrara pela primeira vez. Viram uma portinha de serviço que devia ser a cozinha.
- Um golpe de ombros - disse aos inspetores - e poderão entrar quando o momento for oportuno.
- O momento é oportuno - resmungou Moris- seau, que deplorava todos esses atrasos.
- Ainda não. Quero primeiro saber o que se passa do outro lado. Quando apitar, arrombem esta porta de imediato e em cima do homem, de revólver na mão. Não antes, está? Senão vamos correr um grande
risco. . .
- E se se defende? É um animal furioso.
- Atirem nas pernas. Temos de agarrá-lo vivo. Vocês são cinco, que diabo!
Levou consigo Hortense, que reanimou com algumas palavras:
- Ligeiro!... Há justo o tempo de agir. Tenha plena confiança em mim.
Ela suspirou:
- Não entendo. . . não entendo.
- Nem eu - disse Rénine. - Há em tudo isso algo que me embaraça. Mas entendo bastante para recear o irreparável.
- O irreparável - disse ela - é a morte de Rose.
- Não, é a ação da justiça. E por isso quero tomar a dianteira.
Contornaram a casa, unidos à massa de arbustos. Rénine se deteve ante uma das janelas do térreo:
- Ouça, falam. Vem desta peça.
O ruído de vozes fazia supor que devia haver ali alguma luz para iluminar aquele ou aqueles que falavam. Procurou saber, afastou as plantas que cobriam os batentes fechados, e viu que uma claridade
passava entre dois deles que estavam mal unidos.
Pôde passar a lâmina de sua faca, docemente, e com ela ergueu uma tranqueta interna. Os batentes se abriram. Pesadas cortinas de fazenda pendiam junto à janela, mas se afastando no alto.
- Vai subir no parapeito? - cochichou Hortense.
- Sim, e cortar um vidro. Se houver urgência, aponto meu revólver sobre o sujeito e você apita para que o ataque venha lá debaixo. Tome este apito.
Subiu com muita cautela e se empertigou aos poucos contra a janela até o ponto em que as cortinas estavam afastadas. Com uma mão meteu o revólver no decote do seu colete, com a outra segurança uma
ponta de diamante.
- Está vendo-a? - assoprou Hortense.
Ele colou a testa no vidro e imediatamente lhe escapou uma exclamação abafada.
- Ah, será possível?
- Atire! Atire! - exigiu Hortense.
- Mas não. . .
- Devo apitar?
- Não. . . não. . . ao contrário.
A tremer, pôs um joelho no parapeito. Rénine a içou contra si e deu espaço para que ela também pudesse ver.
- Olhe.
Ela acercou o rosto.
- Ah! - fez com estupor.
- Hem! que acha? Suspeitava de alguma coisa, mas não disso!
Duas lâmpadas sem abajur e vinte velas talvez iluminavam um salão luxuoso, circundado de divãs e com tapetes orientais. Num desses divãs, Rose-Andrée estava semideitada, num vestido em tecido de metal
que usara no filme A Princesa Feliz, com as bonitas espáduas nuas, a cabeleira trançada de jóias e de pérolas.
Dalbrèque estava a seus pés, de joelhos sobre um coxim. Vestido com um culote e uma malha, contem- plava-a com êxtase. Rose sorria, feliz, e acariciava os cabelos do homem. Duas vezes se inclinou sobre
ele e o beijou, primeiro na testa, depois longamente na boca, e os olhos dela, ardentes de volúpia, palpitavam.
Cena apaixonada! Unidos pelo olhar, pelos lábios, pelas mãos férvidas, pelo mútuo desejo jovem, estes dois seres se queriam evidentemente com um amor exclusivo e violento. Sentia-se que, no isolamento
e na paz desta cabana, nada contava para eles além de seus beijos e carícias.
Hortense não podia tirar os olhos deste espetáculo inesperado. Estavam ali aquele homem e aquela mulher que, minutos antes, ele a carregando, dançavam uma espécie de baile macabro que parecia girar
em torno da morte? Era de fato sua irmã? Não a reconhecia. Via uma outra mulher, animada por uma beleza nova e transfigurada por um sentimento de que Hortense adivinhava, a fremir, toda a força e todo
o ardor.
- Meu Deus - murmurou -, como ela o ama! E um tal indivíduo, será possível?
- Temos de preveni-la - disse Rénine - e combinar com ela...
- Sim, sim - fez Hortense -, a nenhum preço deve ser metida no escândalo, na prisão. . . Que se vá! Que nada se saiba disso tudo. ..
Infelizmente, Hortense estava em tal estado de excitação que agiu de modo precipitado. Em vez de bater levemente no vidro, sacudiu a janela dando punhadas na madeira. Assustados, os dois amantes se
ergueram, de olhos fixos e ouvidos à espreita. Imediatamente Rénine quis cortar um vidro para lhes lançar algumas palavras de explicação. Não teve tempo. Ro- se-Andrée, que sem dúvida sabia o amante em
perigo e procurado pela polícia, o empurrou para a porta num esforço desesperado.
Dalbrèque obedeceu. A intenção de Rose era certamente o obrigar a fugir usando a saída da cozinha Desapareceram.
Rénine viu claro o que ia se passar. O fugitivo cairia na emboscada que ele mesmo, Rénine. tinha preparado. Haveria luta, talvez morte. ..
Pulou no chão e fez correndo a volta da casa. Mas o- percurso era longo, cheio de estorvos e estava escuro. Do outro lado os acontecimentos correram mais ligeiro do que supunha. Quando chegou à outra
fachada, um tiro soou, seguido do grito de dor.
No umbral da cozinha, à luz de duas lanternas de bolso, Rénine foi encontrar Dalbrèque estendido, agarrado por três policiais e gemendo. Tinha a perna quebrada.
Na peça, Rose-Andrée, titubeando, com as mãos para a frente e o rosto convulso, gaguejava palavras que não se entendiam. Hortense a atraiu contra si e lhe disse ao ouvido:
- Sou eu. .. tua irmã. . . Queria te salvar. . . me reconheces?
Rose não parecia compreender. Seus olhos estavam desvairados.
Andou trôpega em direção aos policiais:
- Que infâmia. . . O homem que está aí não fez nada que...
Rénine não vacilou. Tratando-a como uma enferma que perdesse a razão, pegou-a no colo e, seguido de Hortense, que fechava as portas, a levou ao salão.
Ela se debatia furiosamente e protestava ofegante:
- É um crime. . . Não se tem o direito. . . Por que prendê-lo? Sim, li. . . o assassinato do joalheiro Bourguet... li isso esta manhã nos jornais, mas é uma mentira. Ele pode provar.
Rénine a pôs num divã e com firmeza:
- Por favor, calma. Nada diga que possa comprometê-la . . . Que quer! este homem de qualquer forma roubou... o automóvel... e vinte e cinco mil francos. . .
- Sabendo que eu pretendia ir para a América, enlouqueceu. Mas o auto foi encontrado... O dinheiro será devolvido... não tocou nele. Não, não, não têm o direito. . . Eu estava aqui de plena vontade.
Amo-o. . . mais do que a tudo. . . como não se ama senão uma vez na vida. . . Amo-o. . . Amo.
A infeliz não tinha mais força. Falava como num sonho, afirmava seu amor numa voz que se extinguia. Por fim, esgotada, teve um brusco sobressalto e tombou, num desmaio.
Uma hora mais tarde, no leito de um quarto, Dal- brèque, com os punhos solidamente atados, revolvia uns olhos ferózes. Um médico das cercanias, trazido pelo auto de Rénine, tinha feito um curativo
na perna e prescrito o mais completo repouso até o dia seguinte. Morisseau é seus homens montavam guarda.
Quanto a Rénine, ia e vinha pela peça com as mãos nas costas. Tinha um ar alegre e, de tempos em tempos, fitava as duas irmãs sorrindo, como se achasse encantador o quadro que ofereciam a seus olhos
de artista.
- Que é que há? - lhe perguntou Hortense, quando notou sua insólita alegria e pôde em parte se virar para ele.
Ele esfregou as mãos e pronunciou:
- É engraçado.
- Que é que lhe parece engraçado? - recriminou Hortense.
- Ó, meu Deus, a situação. Rose-Andrée livre, vivendo o perfeito amor, e com quem, Senhor? Com o homem do mato, domesticado, vá, arrumado, modelado por uma malha, e que ela beija na boca desejada,
enquanto a procuramos no fundo de uma gruta ou de um sepulcro.
"Ah, sem dúvida conheceu os horrores de cair cativa, e afirmo que, na primeira noite, foi jogada meio morta na caverna. Apenas, veja, no dia seguinte, vivia! Só uma noite bastou para que se tornasse
sociável, a marota, e para que Dalbrèque lhe parecesse tão belo quanto o Príncipe Encantado. Uma só noite!. . . e que deu aos dois a impressão nítida de terem sido feitos um para o outro, que decidam não
se deixar mais e, de comum acordo, procurem um refúgio ao abrigo do mundo. Onde? Aqui, claro! Quem iria buscar Rose- Andrée até o Clos-Joli? Mas não é bastante. Os dois amantes querem mais. Uma lua-de-mel
de algumas semanas? Ora! É toda a vida deles que consagrarão um ao outro. Como? Seguindo a estrada cativante e pitoresca que já tinham tomado, isto é, rodando novas criações! Dalbrèque não tinha tido êxito
n'A Princesa Feliz, além de toda expectativa! O futuro estava aí! Los Angeles! Os Estados Unidos, fortuna e liberdade... Nem um minuto a perder. Vamos ao trabalho! E foi assim que nós, espectadores assombrados,
os surpreendemos há pouco em pleno ensaio, interpretando um drama de loucura e assassinato. Para ser franco, lhe confesso que naquele momento desconfiei da verdade. Cena de cinema, concluí. Mas quanto
a adivinhar a história de amor do Clos-Joli, ah! disse estava a cem léguas. Que quer? Na tela, como no teatro, as princesas felizes resistem ou se matam. Como imaginar que esta tinha preferido o impudor
em vez da morte?"
A aventura por certo divertia Rénine. Continuou:
- Não, não, diabo, não desse modo as coisas se passam nos filmes. E foi isso o que me desencaminhou. Desde o início, projetava o filme A Princesa Feliz, e andava pondo os pés nas pegadas por ele deixadas.
A Princesa se comportara desse modo; o homem do mato, desse outro. . . Assim, como tudo recomeça, sigamos por aí. Pois bem, nada disso. Contra toda regra, Rose-Andrée toma o mau caminho e, em algumas horas,
a vítima se transforma na mais amorosa das princesas! Ah, danado Dalbrèque! nos passaste para trás. Pois enfim, quando nos mostram no cinema um bruto, um selvagem peludo e com cara de gorila, tendemos
a imaginar que na vida é também um bruto assustador. Epa! era um don ]uan. Que farsante!
Rénine esfregou as mãos de novo, mas não continuou, pois viu que Hortense não o escutava. Rose saía de seu torpor. A moça a envolveu com os braços:
- Rose... Rose... sou eu. Não temas nada.
Começou a lhe falar baixinho e embalar afetuosamente contra si. Mas Rose aos poucos, ouvindo a irmã, voltava à sua expressão de sofrimento e permanecia imóvel e distante, sentada no divã, com o tronco
rígido e os lábios apertados.
Rénine teve a impressão de que não convinha contrariar essa dor e que nenhum raciocínio prevaleceria contra a pensada decisão de Rose-Andrée.
Acercou-se e lhe disse suave:
- Aprovo-a, senhora. Seu dever, venha o que vier, é defender a quem ama e demonstrar sua inocência. Mas não há pressa de nada e julgo que, no seu interesse, seria melhor adiar essa defesa por umas
horas, deixando crer por ora que fosse sua vítima. Amanhã de manhã, se não mudar de parecer, eu mesmo lhe direi como agir. Até lá, suba a seu quarto com sua irmã, prepare-se para ir embora e arrume seus
papéis para que o inquérito nada possa revelar contra você. Acredite em mim. Tenha confiança.
Rénine insistiu ainda durante algum tempo e conseguiu convencer a mulher. Prometeu esperar.
Instalaram-se para passar a noite no Clos-Joli. Havia provisões suficientes. Um dos inspetores preparou o jantar.
De noite, Hortense ficou no quarto de Rose. Rénine, Morisseau e dois inspetores dormiram nos divãs do salão, enquanto dois outros policiais vigiavam o ferido .
A noite passou sem incidente.
De manhã, a guarda local, avisada na véspera por Clément, chegou cedo. Decidiu-se que Dalbrèque seria transferido para a enfermaria da prisão distrital. Ré- nine ofereceu o seu carro que Clément estacionou
diante da cabana.
As duas irmãs, tendo notado as idas e vindas, desceram . Rose-Andrée tinha a expressão dura dos dispostos a agir. Hortense a fitava ansiosa e observava o ar plácido de Rpnine.
Tudo estava pronto; só faltava despertar Dalbrèque e seus vigias.
O próprio Morisseau foi lá. Para ver os dois homens profundamente adormecidos e ninguém no leito. .. Dalbrèque tinha fugido.
O golpe de teatro não causou, no momento, maior perturbação entre os policiais e os guardas, tão seguros estavam de que o fugitivo, com a perna quebrada, seria logo agarrado de novo. O enigma dessa
fuga, realizada sem que os vigias ouvissem o menor ruído, não intrigou ninguém. Dalbrèque inevitavelmente estaria escondido no jardim.
A batida se organizou de imediato. E o resultado inspirava tão poucas dúvidas que Rose-Andrée, transtornada outra vez, se dirigiu ao inspetor principal.
- Cale-se - murmurou Serge Rénine que a espreitava .
Ela balbuciou:
- Vão achá-lo... suprimir a tiros.
- Não vão achá-lo - afirmou Rénine.
- Como sabe?
- Fui eu, com a ajuda do meu chofer, que o fiz fugir esta noite. Um pouco de pó no çafé dos inspetores e não ouviram nada.
Ela ficou perplexa e objetou:
- Mas está ferido, agonizando nalgum canto.
- Não.
Hortense escutava, sem compreender melhor, mas tranqüilizada e confiante em Rénine.
Ele prosseguiu baixinho:
- Jure que, dentro de dois meses, quando ele estiver curado e a senhora tenha esclarecido a justiça em seu lugar, jure que partirá com ele para a América.
- Juro.
- E que casará com ele?
- Juro.
- Então venha e nem uma palavra ou um gesto de surpresa. Um segundo de negligência e pode perder tudo.
Chamou Morisseau, que começava a desesperar, e lhe disse:
- Sr. inspetor, devemos levar a senhora para Paris e providenciar em que receba os cuidados necessários. De qualquer modo, seja qual for o resultado de suas buscas - e não duvido que tenham êxito -,
esteja certo de não se aborrecer por causa deste assunto. Esta noite mesmo irei à sua repartição, onde tenho boas relações.
Ofereceu o braço a Rose-Andrée e a levou para o carro. Caminhando, sentiu que ela tropeçava e se agarrava a ele:
- Ah, meu Deus! ele está salvo. . . Já o vi - murmurou.
No assento da frente, em vez de Clément, tinha reconhecido o seu amante, muito compenetrado em seu uniforme de chofer, com a viseira descida e os olhos escondidos pelos óculos grossos.
- Entre - disse Rénine.
Sentou ao lado de Dalbrèque. Rénine e Hortense ficaram atrás. O inspetor principal, de chapéu na mão, se despedia solícito ao lado do auto.
Partiram. Mas dois quilômetros depois, em plena floresta, tiveram de parar. Dalbrèque que, num esforço sobre-humano, vinha arrostando com a dor, teve um desmaio. Foi estendido atrás no carro e Rénine
pegou a direção, com Hortense a seu lado. Nova parada antes de Louviers para recolher de passagem o chofer Clément, que esperava na estrada vestido com as roupas de Dalbrèque.
Houve depois horas de silêncio. O auto corria rápido. Hortense nada dizia e nem mesmo tinha a idéia de indagar de Rénine o que ocorrera na noite anterior.
Que importavam os detalhes e o modo exato com que procedera para livrar Dalbrèque! Isso não a punha curiosa, pois só pensava em sua irmã e estava comovida por tanto amor e tanto fervor passional.
Rénine disse simplesmente, ao se acercarem de Paris:
- Falei esta noite com Dalbrèque. Não resta dúvida de que é inocente do assassinato do joalheiro. É corajoso e razoável, bem diferente do que parece; um terno, um dedicado, e pronto a tudo por Rose-Andrée.
E acrescentou:
- Tem razão. Deve-se fazer tudo por aquela que se ama. Sacrificar-se por ela, oferecer-lhe o que há de belo no mundo, alegria, felicidade e, se se aborrece, belas aventuras que a distraiam, comovam,
façam sorrir. . . ou mesmo chorar.
Hortense fremiu, de olhos úmidos. Pela primeira vez aludia à aventura sentimental que os prendia por um elo, até aqui frágil, mas a que cada uma das tarefas que empreendiam juntos, na angústia e na
febre, dava mais força e mais resistência. Ao lado deste homem extraordinário, que submetia os acontecimentos à sua vontade e parecia jogar com o destino dos que combatia ou protegia, se sentia fraca e
inquieta. Ao mesmo tempo, ele a atemorizava e atraía. Pensava nele como num senhor que tivesse às vezes um inimigo de que devia se defender, mas muito mais vezes um amigo perturbador, cheio de encanto
e sedução...
O Caso de Jean-Louis
Aquilo se passou como a mais banal das ocorrências e com tal rapidez que confundiu Hortense. Passeando, atravessavam o Sena quando um vulto de mulher pulou sobre a amurada da ponte e se precipitou
no vazio. Houve gritos e clamores de vários lados e Hortense agarrou brusca o braço de Rénine:
- Quê? Não vai se atirar!... lhe proíbo.
O casaco do companheiro lhe ficou nas mãos. Rénine saltou num pulo e logo. . . logo ela não viu mais nada. Três minutos depois, arrastada na onda de pessoas que corriam, se achava à beira do rio. Rénine
subia os degraus da escada, carregando uma jovem cujos cabelos pretos se colavam no rosto lívido.
- Não está morta - afirmou. - Ligeiro, à farmácia. . . trações da língua. . . nenhum perigo a temer. . .
Entregou a moça a dois guardas, afastou os basbaques e os que se davam por jornalistas e lhe perguntavam o nome, e empurrou Hortense, sacudida de emoção, para um táxi.
- Ufa - bradou no fim de um instante -, ainda outro banho! Que quer, minha amiga, é mais forte do que eu. Quando vejo um dos meus semelhantes mergulhar, tenho de mergulhar também. Devo ter entre meus
ancestrais um terra-nova.
Voltou a casa e trocou de roupa. Hortense o esperou no carro. Retornando, ordenou ao chofer:
- Rua de Tilsitt.
- Aonde vamos? - perguntou Hortense.
- Saber notícias da moça.
- Tem o seu endereço?
- Sim, tive tempo de ler no seu bracelete, junto com o nome. Geneviève Aymard. Assim, vou lá. Oh, não para receber a recompensa devida ao terra-nova! Não. Simples curiosidade. Salvei uma dúzia de
jovens afogadas. Sempre o mesmo motivo: tristezas de amor, e do amor mais vulgar. Vai ver isso, minha amiga.
Ao chegarem na casa da rua de Tilsitt, o médico ia saindo do apartamento em que a Srta. Aymard morava com o pai. A moça, lhes disse o criado, passava o melhor possível e estava dormindo. Rénine se
apresentou como aquele que a tinha salvo e fez entregar seu cartão ao pai. Este acorreu de mãos estendidas e lágrimas nos olhos.
Era um homem idoso, débil de aspecto, e que, em seguida, sem esperar que o interrogassem, começou a falar num tom de irresistível angústia:
- É a segunda vez, senhor! Na semana passada, quis se envenenar, a infeliz menina! Eu daria o sangue por ela! "Não quero viver! Não quero viver!" É tudo o que acha como resposta. Ah, tenho muito medo
que tente de novo. Que horror! Matar-se, ela, a minha pobre Geneviève! E por que, meu Deus!...
- Sim, por quê? - insinuou Rénine. - Um casamento desfeito, sem dúvida.
- Sim, isso... É uma criança tão sensível. . .
Rénine o interrompeu. Já que o homem entrava
no caminho das confidências, convinha não perder tempo a escutar palavras inúteis. E claramente, com toda sua autoridade, exigiu:
- Vamos com método, senhor, quer? A Sra. Geneviève estava noiva?
O Sr. Aymard não se furtou e respondeu:
- Sim.
- Desde quando?
- Desde a primavera. Conhecemos Jean-Louis d'Ormival em Nice, onde passamos os feriados da Páscoa. Ao voltarmos para Paris, o jovem, que normalmente mora no campo ccm a mãe e uma tia, veio se instalar
em nosso quarteirão, e os dois noivos se viam todos os dias. Quanto a mim, confesso que não achava Jean-Louis Vaubois muito simpático.
- Perdão - observou Rénine -, há um instante o chamou de Jean-Louis d'Ormival.
- É igualmente o seu nome.
- Então tem dois?
- Não sei. Há um problema aí.
- Sob que nome se apresentou ao senhor?
- Jean-Louis d'Ormival.
- E Jean-Louis Vaubois?
- Assim um senhor que o conhecia o apresentou à minha filha. Vaubois ou d'Ormival, aliás, não importa. Minha filha o adorou, e ele parecia gostar muito dela. Este verão, na praia, não a largou. Agora
no mês passado, quando Jean-Louis regressou à sua casa para se entender com a mãe e a tia, minha filha recebeu esta carta:
"Geneviève, obstáculos demais se opõem à nossa felicidade.
Renunciou a ela num desespero louco. Amo-te mais do que nunca. Adeus! Me perdoa."
Dias mais tarde, minha filha tentava pela primeira vez se suicidar.
- E por que esse rompimento? Um outro amor? Uma ligação antiga?
- Não, senhor, não creio. Mas há na vida de Jean-Louis - é a convicção profunda de Geneviève - um mistério, ou antes uma série de mistérios que o entravam e perseguem. Nunca vi rosto tão atormentado
como o seu e, desde a primeira hora, senti nele um pesar e uma tristeza que persistiram sempre, mesmo nos momentos em que se abandonava a seu amor com mais confiança.
- Sua impressão, no entanto, foi confirmada por pequenos detalhes, coisas que precisamente pela anomalia o chocaram? Tal como esse nome duplo... Não o interrogou a propósito?
- Sim, duas vezes. Na primeira me respondeu que era a sua tia que se chamava Vaubouis e a mãe d'Ormival.
- E na segunda?
- O inverso: falou de sua mãe Vaubouis e da tia d'Ormival. Observei isso a ele. Enrubesceu e não insisti.
- Mora longe de Paris?
- No fundo da Bretanha... O solar de Elseven, a oito quilômetros de Carhaix.
Rénine meditou uns minutos. Depois, se decidindo, disse ao velho:
- Não quero incomodar a Srta. Geneviève, mas lhe repita isto exatamente: "Geneviève, o senhor que te salvou se compromete sob palavra a trazer de volta o teu noivo dentro de três dias. Escreve um bilhete
a Jean-Louis que esse senhor entregará."
O velho parecia estupefato. Balbuciou:
- O senhor poderia?. . . Minha pobre filha vai escapar da morte?. . . Será feliz?. ..
E acresceu com voz apenas audível e uma atitude em que havia como que vergonha:
- O senhor, ande depressa, pois o comportamento de minha filha me faz supor que esqueceu todos os seus deveres, e não quer sobreviver a uma desonra, que em breve se tornará pública.
- Silêncio, senhor - ordenou Rénine. - Há frases que não se devem pronunciar.
Na mesma noite, Rénine tomava com Hortense o trem da Bretanha.
Às dez da manhã, chegaram a Carhaix e, à meia hora depois do meio-dia, tendo almoçado, entraram num auto emprestado por alguém de relevo local.
- Está um pouco pálida, minha amiga - disse Rénine rindo, ao descerem diante do jardim de Elseven.
- Confesso que esta história me comove muito. Uma jovem que afronta duas vezes a morte. . . Que coragem é preciso! Tenho medo...
- De quê?
- De que não obtenha sucesso. Não está preocupado?
- Querida amiga, vou surpreendê-la: sinto antes uma certa alegria.
- E por quê?
- Não sei. A história que, com justiça, a comove, parece a mim conter um certo fundo cômico. D'Or- mival... Vaubois... issô cheira a extrato velho e um tanto mofado. . . Acredite em mim, amiga, e
recupere a calma. Vem junto?
Passou pela barreira central. Era ladeada por dois portilhões marcados, um com o nome de Sra. d'Ormi- val, o outro com o da Sr. Vaubois. Cada um desses portilhões abria sobre caminhos que, entre maciços
de folhagens e buxos, prosseguiam à direita e à esquerda da avenida principal.
Esta conduzia a um velho solar comprido e baixo, pitoresco, mas com duas alas sem graça, pesadas, diversas uma da outra, indo os dois caminhos laterais dar ao lado de cada uma delas. À esquerda, residia
evidentemente a Sra. d'Ormival, à direita a Sra. Vaubois.
Um ruído de vozes deteve Hortense e Rénine. Escutaram. Eram vozes agudas e precipitadas que discutiam, vindo os sons de uma das janelas do térreo, que era sem escada, e tapado em toda a extensão por
vinha vermelha e rosas brancas.
- Não podemos seguir adiante - disse Hortense. - É indiscreto.
- Um motivo a mais - murmurou Rénine. - A indiscrição, nesse caso, é um dever, já que viemos para nos informar. Olhe, indo reto à frente, os que discutem não nos verão.
De fato, o barulho da briga não decresceu e, ao chegarem junto à janela aberta, que vizinhava com a porta de entrada, lhes bastou olhar e escutar para ver e ouvir, através das rosas e das folhas,
duas velhas que berravam e se ameaçavam com os punhos.
Estavam no primeiro plano de uma ampla sala de jantar, com a mesa ainda posta e, atrás dessa mesa, um jovem, cetramente Jean-Louis, fumava cachimbo e lia um jornal sem se preocupar com as duas megeras
.
Uma, magra e alta, estava vestida de seda roxa e carregava uma cabeleira com cachos demasiado louros para o rosto murcho, em tomo do qual eles turbilho- navam. A outra, mais magra ainda, mas baixinha,
saracoteava num chambre de percal e ostentava uma cara ruiva e pintada, inflamada pela cólera.
- Você é uma sarna - guspia. - Malvada como não conheço outra, e ladrona ainda por cima.
- Eu, ladrona! - uivava a outra.
- E o golpe dos patos a dez francos cada, não é roubo isso?
- Cala a boca, tratante! A nota de cinqüenta na minha cômoda, quem surripiou? Ah! Senhor Deus, viver com uma sujeira dessas!
A outra saltou sobre o insulto e apostrofou o moço:
- Tu aí, Jean, deixas que ela me ofenda, esta égua da d'Ormival?
E a maior tornou a arremeter, furiosa:
- Égua! estás ouvindo, Louis? Eis a tua Vaubois com seus ares de velha marafona! Faz com que cale a boca!
Bruscamente Jean-Louis deu um murro na mesa que fez saltar os talheres e proferiu:
- As duas, me deixem em paz, velhas loucas!
Na hora, se viraram contra ele e o cobriram de
nomes:
- Covarde!. . . Hipócrita!. . . Mentiroso!. . . Mau filho!... Filho da mãe e grande safado...
Os insultos choviam sobre ele. Tapou as orelhas e se agitou diante da mesa como um homem já sem paciência e que se contém para não cair, de pau sobre o inimigo.
Rénine falou baixo:
- Que é que lhe dizia? Em Paris, o drama. Aqui, a comédia. Entremos.
- Em meio a esta gente desenfreada? - protestou a jovem.
- Exatamente.
- Contudo. . .
- Amiga, não viemos aqui para espionar, mas para agir. Sem subterfúgios, os veremos melhor.
Em passo resoluto, foi à porta, abriu-a e entrou na sala, seguido de Hortense.
Seu aparecimento provocou estupor. As duas mulheres se interromperam, vermelhas e fremindo de ira. Jean-Louis se ergueu, muito pálido.
Aproveitando o desconcerto geral, Rénine tomou a palavra com vivacidade:
- Permitam que me apresente: o príncipe Rénine... A Sra. Daniel... Somos amigos da Srta. Gene- viève Aymard e viemos em nome dela. Eis uma carta escrita por ela e que está endereçada ao senhor.
Jean-Louis, já meio sem jeito pela irrupção dos recém-chegados, perdeu-o por inteiro ao ouvir o nome de Geneviève. Sem saber muito o que dizia, e para responder ao procedimento cortês de Rénine, quis
por sua vez fazer as apresentações e deixou escapar esta frase perturbadora:
- A Sra. d'Ormival, minha mãe... A Sra. Vau- bois, minha mãe...
Houve um silêncio demorado, Rénine cumprimentou. Hortense não sabia a quem estender primeiro a mão, à mãe d'Ormival ou à mãe Vaubois. Mas o que aconteceu é que tanto uma senhora como a outra, e ao
mesmo tempo, tentaram agarrar a carta que Rénine estendia a Jean-Louis, resmungando em conjunto:
- A Srta. Aymard! Ela tem peito, hem! Que ousadia! . ..
Então Jean-Louis, recuperando algum sangue-frio, empunhou a mãe d'Ormival e a fez sair pela esquerda, depois a outra, que fez sair pela direita. E retornando aos dois visitantes, abriu o envelope
e leu a meia voz:
"Jean-Louis, peço-lhe que receba o portador desta carta. Tenha confiança nele. Te amo. Geneviève."
Era um homem um pouco pesado de aspecto, cujo rosto muito moreno, magro e ossudo, tinha mesmo a expressão de melancolia e de angústia que o pai de Geneviève indicara. De fato, o sofrimento era visível
em cada um de seus atormentados traços, como nos olhos doridos e inquietos.
Repetiu várias vezes o nome de Geneviève, olhando à volta, distraidamente. Parecia buscar uma linha de conduta. Parecia à beira de dar explicações. Mas não achou nada. Esta intervenção o deixara desamparado,
feito um ataque imprevisto a que não sabia como responder.
Rénine sentiu que o adversário capitularia à primeira intimativa. Vinha lutando tanto há uns meses, e tanto sofrera na retirada e no silêncio obstinado em que se refugiara, que não pensava em se defender.
Aliás, poderia agora que tinham penetrado na intimidade de sua horrível existência?
Rénine o atacou de repente.
- Senhor, duas vezes já, desde o rompimento, Ge- neviève Aymard quis se matar. Venho lhe perguntar se sua morte inevitável e próxima deve ser o desfecho de seu amor?
Jean-Louis desabou numa cadeira e escondeu o rosto entre as mãos.
- Oh, ela quis se matar. . . Será possível!. . .
Rénine não lhe deu descanso. Bateu-lhe no ombro
c, se curvando:
- Esteja certo de que tem interesse em confiar em nós. Somos amigos de Geneviève Aymard. Prometemos a ela nossa assistência. Não hesite, por favor. . .
O jovem ergueu a cabeça.
- Posso hesitar - disse com lassidão - depois do que me revelou? depois do que acaba de ouvir aqui? Minha existência, o senhor adivinha. Que devo ainda lhe dizer para que a conheça toda e leve o seu
segredo a Geneviève. . . este segredo ridículo e temível que lhe fará entender por que não voltei para ela. . . e por que não tenho o direito de voltar.
Rénine teve um rápido olhar a Hortense. Vinte e quatro horas após as confidências do pai de Geneviève, obtinha, pelos mesmos processos, as de Jean-Louis. A aventura inteira se manifestava, confessada
pelos dois homens.
Jean-Louis avançou uma poltrona para Hortense. Rénine e ele se sentaram e contou, sem que houvesse necessidade de seguir lhe pedindo e como se sentisse até alívio em se confessar:
- Não se admire muito, senhor, se lhe narro a minha história com certa ironia, pois, em verdade, é uma história francamente cômica e que não pode deixar de fazer rir. O destino às vezes se diverte
com estas brincadeiras imbecis, estas farsas enormes que se diriam imaginadas por um cérebro de louco ou bêbado. Julgue por si.
"Há vinte e sete anos, no solar de Elseven, que na época só tinha o prédio principal, residia um velho médico que, para reforçar seus poucos recursos, recebia às vezes um ou dois pensionistas. Foi
assim que um ano a Sra. d'Ormival passou aqui o verão, e no ano seguinte a Sra. Vaubois. Ora, essas duas damas que aliás não se conheciam, sendo uma casada com um capitão de longo curso da Bretanha e a
outra com um caixeiro-viajante da Vendéia, perderam os maridos ao mesmo tempo, isso num período em que ambas estavam grávidas. Como moravam no campo, em lugares afastados da cidade, escreveram ao doutor
que viriam ter a criança aqui.
"Aceitou. Elas chegaram quase ao mesmo tempo, no outono. Dois quartinhos, que ficam atrás desta sala, esperavam por elas. O doutor contratou uma acompanhante que dormia aqui mesmo. Tudo ia bem. As
mulheres terminavam os enxovais dos bebês e se entendiam perfeitamente. Resolvidas a só ter filho homem, tinham escolhido estes nomes: Jean e Louis.
"Ora, uma noite, o doutor, chamado para atendei um paciente, foi em seu cabriolé com o criado, avisando que só poderia voltar no dia seguinte. Com o patrão ausente, uma mocinha que servia de doméstica
saiu atrás do seu namorado. E o destino se aproveitou desses acasos com diabólica maldade. Pela meia-noite, a Sra. d'Ormival sentiu as primeiras dores. A acompanhante, Srta. Boussignol, que era um pouco
parteira, não perdeu a cabeça. Mas uma hora depois foi a vez da Sra. Vaubois e o drama, digamos antes a tragicomé- dia, se desenrolou entre os gritos e gemidos das duas pacientes, a agitação assustada
da acompanhante que corria de uma para a outra, se queixava, abria a janela para chamar o doutor, ou se ajoelhava para implorar à Providência.
"A primeira, Sra. Vaubois, pôs no mundo um menino que a Srta. Boussignol trouxe depressa a esta sala, cuidou, lavou e deixou no berço que lhe estava reservado.
"Mas a Sra. cTOrmival dava uivos de dor e a acompanhante teve de correr a ela, enquanto o recém- nascido dava urros de animalzinho degolado e a mãe, aterrada, presa ao leito do quarto, desmaiava.
"Junte a isso todas as misérias da desordem e da escuridão - no único lampião a essência acaba, as velas se apagam, o vento ruge, as corujas piam - c entenderá como a Srta. Boussignol ficou louca
de susto. Enfim, às cinco horas, depois de trágicos incidentes, trouxe para aqui o pequeno d'Ormival, outro menino, o cuidou, lavou, estendeu no berço e correu a atender a Sra. Vaubois que, voltando a
si, vociferava, e em seguida a Sra. d'Ormival que, por sua vez, perdia o conhecimento.
"E quando a Srta. Boussignol se livrou das duas mães, morta de cansaço e com a cabeça fervendo, voltou aos recém-nascidos, viu com horror que tinha posto neles roupas iguais, sapatinhos de lã idênticos
e deitado os dois, lado a lado, no mesmo berço! De modo que não se podia saber quem era Louis d'Ormival e quem Jean Vaubois.
"Além disso, quando soergueu um deles, notou que tinha as mãos geladas e não respirava mais. Tinha morrido. Este, como se chamava? E, como, o que estava vivo?
• "Três horas depois, o doutor veio encontrar as duas mulheres consternadas e delirantes, com a acompanhante vagando diante de suas camas a pedir perdão. Alternadamente me oferecia ao afago das duas,
a mim, o sobrevivente. E elas me beijavam e repeliam, pois, enfim, quem era eu, o filho da viúva d'Ormival e do falecido capitão de alto mar? ou o filho da Sra. Vaubois e do falecido caixeiro-viajante?
Nenhum indício permitia a definição.
"O doutor suplicou a cada uma das mães que sacrificasse seus direitos, pelo menos do ponto de vista legal, a fim de que eu pudesse me chamar Louis d'Ormi- val, ou então Jean Vaubois. Recusaram energicamente.
"- Por que Jean Vaubois, se é um d'Ormival?
- protestou uma.
"- Por que Louis d'Ormival, se é Jean Vaubois?
- ripostou a outra.
"Fui registrado com o nome de Jean-Louis, filho de pai e mãe desconhecidos."
O príncipe Rénine tinha escutado silenciosamente. Mas Hortense, à medida que o desenlace se acercava, se deixou vencer por uma hilaridade que penosamente continha e que o jovem tinha de perceber.
- Me desculpe - gaguejou, com lágrimas nos olhos -, me desculpe, são nervos.
Ele respondeu suave, sem amargura:
- Não precisa se desculpar; lhe avisei que a minha história é das que fazem rir, e conheço melhor que ninguém sua tolice e absurdo. Sim, tudo isso é burlesco. Mas me creia se lhe disser que, na realidade,
não foi engraçado. Na aparência é uma situação cômica, que, pela força das coisas, persiste cômica, mas também é uma situação horrível. Vê isso daqui de dentro, não é? As duas mães, nenhuma tendo certeza
de ser a mãe, mas também não tendo de não ser, se agarrando no fean-Louis. É talvez um estranho, mas talvez o filho de sua carne e seu sangue. Gostaram dele em excesso e o disputaram com raiva. Sobretudo
chegaram as duas ao ponto de se detestarem com ódio mortal. Diferentes no caráter e na educação, obrigadas a viver juntas, já que nenhuma queria renunciar ao benefício de sua possível maternidade, viveram
como inimigas que nada consegue acalmar.
"Em meio a esse ódio, me criei e foi ele o que uma e outra me ensinaram. Se meu coração de criança ávida por ternura, me levasse a uma delas, a outra me insinuava desprezo e execração. Neste solar
que compraram quando morreu o velho médico, construindo os dois pavilhões laterais, fui o carrasco involuntário de ambas e sua vítima de cada dia. Infância torturada, adolescência terrível, não acredito
que alguém tenha sofrido mais que eu.
- Tinha de deixá-las! - exclamou Hortense que não ria mais.
- Não se abandona a mãe - disse - e uma delas é minha mãe. Nem se abandona um filho, e cada uma pode crer que sou seu filho. Estamos presos os três uns aos outros, como forçados, presos pela dor,
a compaixão, a dúvida e também pela esperança de que a verdade surja talvez um dia. E seguimos aí, os três, a nos insultar e recriminar nossa vida perdida. Ah, que inferno! Como fugir? Várias vezes tentei,
inutilmente. Os laços rompidos se reatam. Ainda este verão, no ímpeto de meu amor por Geneviève, quis me livrar e procurei convencer as duas mulheres que chamo de mamãe. E então. . . me defrontei com suas
queixas... com seu ódio imediato à futura esposa, à estranha que lhes impunha. Cedi. . . Que teria feito Geneviève se viesse para cá, entre a Sra. d'Ormival e a Sra. Vau- bois? Tinha o direito de sacrificá-la?
lean-Louis, que tinha se animado aos poucos, pronunciou as últimas palavras em voz firme, como se quisesse que atribuíssem sua conduta a razões de consciência e ao sentimento de seus deveres. Na realidade
- e Rénine e Hortense não se enganavam - era um fraco, incapaz de reagir contra uma situação absurda, de que havia sofrido desde a infância e que se impusera a ele como irremediável e definitiva. Suportava-a
como a uma pesada cruz que não se pode rejeitar e tinha, ao mesmo tempo, vergonha dela. Diante de Geneviève, calara por receio ao ridículo e, de volta ^ sua prisão, aí permanecia por hábito e fraqueza.
Sentou a uma escrivaninha e rapidamente escreveu uma carta que deu a Rénine.
•- Quer me fazer o favor de entregar estas palavras à Srta. Aymard - disse, - pedindo-lhe ainda uma vez que me perdoe?
Rénine não se moveu e, como o outro insistisse, pegou a carta e rasgou.
- Que significa?... - inquiriu o jovem.
- Que não vou entregar nenhuma carta.
- Por que não?
- Porque você vai vir conosco.
- Eu?
- E estará amanhã com a Srta. Aymard para a pedir em casamento.
Jean-Louis fitou Rénine com um ar em que havia certo desdém, como se pensasse: "Eis alguém que não entendeu nada dos acontecimentos que lhe expus."
Hortense se acercou de Rénine:
- Diga-lhe que Geneviève quis se matar, que fatalmente se matará. . .
- Não precisa. As coisas ocorrerão como eu disse. Dentro de uma hora ou duas, partiremos os três. O pedido de casamento terá lugar amanhã.
O jovem deu de ombros e riu:
- Fala com uma segurança!. . .
- Tenho motivos para falar assim. Lança-se mão de um deles.
- Qual?
- Direi apenas um, um único, mas que bastará, se quiser me ajudar em minhas buscas.
- Buscas... Com que objetivo? - falou Jean- Louis.
- Com o de estabelecer que a sua história não é de todo exata.
Jean-Louis se encrespou:
- Peço-lhe que creia, senhor, que não disse uma palavra que não seja a exata verdade.
- Me expresso mal - continuou Rénine, com muita gentileza. - Por certo não disse uma palavra que não esteja conforme com o que julga ser a verdade. Mas essa verdade não é, não pode ser o que julga.
O moço cruzou os braços.
- Há probabilidades, em todo caso, de que a conheça melhor que o senhor.
- Por que melhor? O que aconteceu durante aquela noite trágica só pôde forçosamente conhecer de segunda mão. Não tem nenhuma prova. E tampouco as duas damas.
- Nenhuma prova de quê? - impacientou-se lean.
- Nenhuma prova da confusão que teria havido.
- Como! Mas é uma certeza absoluta! As duas crianças foram postas no mesmo berço, sem que nenhum sinal as distinguisse uma da outra. A acompanhante não pôde saber. . .
- A versão que ela dá é o de menos.
- Que está dizendo? A versão que dá? Mas é acusar essa mulher.
- Não estou acusando.
- Mas, sim, de que mentiu. Mentir por quê? Não tinha nenhum interesse e suas lágrimas, seu desespero... tantas testemunhas que confirma sua boa fé? Pois enfim as duas mães estavam ali; viram essa
mulher chorar, a interrogaram. E, repito, que interesse ela podia ter?
Jean-Louis estava muito excitado. Junto a ele, a Sra. d'Ormival e a Sra. Vaubois, que sem dúvida escutavam atrás da porta e que tinham entrado sorrateiramente, balbuciavam, perplexas:
- Não... não... é impossível... Desde então lhe perguntamos cem vezes. Por que iria mentir?
- Fále, senhor, fale - ordenou Jean-Louis, - cxplique-se. Diga as razões por que tenta pôr em dúvida a verdade certa.
- Por essa verdade não ser admissível - declarou Rénine, que alçou a voz e, por sua vez, se animou ao ponto de sublinhar suas frases com batidas na mesa. - Não, as coisas não acontecem assim. Não,
o destino não tem refinamentos de crueldade, e os acasos, não se somam uns aos outros com tanta extravagância. Já seria um acaso inaudito que, na mesma noite em que o doutor, seu criado e a empregada tivessem
deixado a casa, as duas damas sentissem justamente na mesma hora as dores do parto e dessem à luz ao mesmo tempo dois meninos. Não acrescentemos a isso um fato ainda mais excepcional! Chega de malefícios.
Chega de lampiões que se apagam e velas que não ardem. Não, mil vezes não, não se admite que uma parteira se atrapalhe no que é essencial à sua tarefa. Por enlouquecida que estivesse com o imprevisto das
circunstâncias, haveria nela um resto de instinto desperto e que lhe obrigaria a dar a cada uma das crianças seu lugar marcado e distinto do outro. Mesmo que os tivesse deitado lado a lado, um estaria
à direita, outro à esquerda. Mesmo que lhe tivesse posto roupas parecidas, haveria um de- talhezinho a diferir, algo que a memória arquivaria e fatalmente reconhecível sem necessidade de pensar. Nego que
tenha havido confusão. A impossibilidade de saber? Mentira. No terreno da ficção sim, se podem imaginar todas as fantasias e acumular as contradições.
Na realidade, no centro da realidade, há sempre um ponto fixo, um nó sólido em torno do qual os fatos vêm se agrupar por si, seguindo uma ordem lógica. Afirmo, pois, da maneira mais formal, que a acompanhante
Boussignol não podia confundir as duas crianças.
Dizia isso com tal nitidez como se tivesse assistido às ocorrências daquela noite. Seu poder de persuasão era tal que, de saída, abalou a certeza daqueles que por um quarto de século nunca tinham
duvidado.
As duas mulheres e o filho o instavam com ofegante angústia:
- Nesse caso, lhe parece que ela saberia. . . poderia revelar?
Retificou:
- Não tomo posição sobre isso. Digo apenas que houve em sua conduta, durante aquelas horas, algo que não está de acordo nem com as suas palavras nem com a realidade. Todo o enorme e intolerável mistério
que pesou sobre vocês três provém, não de um minuto de desatenção, mas desse algo que ignoramos mas ela não. É o que defendo.
Jean-Louis teve um estremecimento de revolta. Queria escapar ao aperto deste homem.
- Sim, o que defende - disse.
- Bem, o que ocorreu! - acentuou Rénine com energia. - Não há necessidade de assistir a um espetáculo para vê-lo, nem de escutar palavras para ouvi-las. A razão e a intuição nos dão provas tão rigorosas
quanto os próprios fatos. A acompanhante Boussignol detém, no segredo de sua consciência, um elemento de verdade que nos é negado.
Com uma voz surda, Jean-Louis articulou:
- Ela está viva!... Mora em Carhaix. Podemos trazê-la aqui.
Imediatamente uma das mães bradou:
- Vou lá e a busco.
- Não - disse Rénine. - A senhora não, nenhum de vocês três.
Hortense propôs:
- Quer que eu vá? Pego o auto e decido essa mulher a me acompanhar. Onde ela mora.
- No centro de Carhaix - informou Jean-Louis,
- uma pequena mercearia. O chofer lhe indicará... A Srta. Boussignol. . . todo mundo conhece.
- Sobretudo, cara amiga - acrescentou Rénine,
- não a previna de nada. Se se preocupar, melhor. Mas que não saiba o que se deseja dela; é uma cautela indispensável, se quisermos ter êxito.
Trinta minutos transcorreram no silêncio mais profundo. Rénine passeava pela peça, onde bonitos móveis antigos, lindas tapeçarias, encadernações e graciosos objetos mostravam em Jean-Louis um sendo
de arte e de estilo. Esta peça era realmente a sua. Ao lado, pelas portas entreabertas para os alojamentos contíguos, se podia constatar o mau gosto das duas mães. Rénine se acercou ao jovem e perguntou:
- Elas são ricas?
- Sim.
- E você?
- Desejaram que este solar com toda as terras à volta me pertença, o que assegura amplamente minha independência.
- Elas têm família?
- Irmãs, uma e outra.
- Poderiam ir morar com elas?
.- Sim, e às vezes pensam nisso. Mas. .. não está em causa e temo muito que sua intervenção não chegue a nada. Ainda uma vez, lhe afirmo. . .
Chegou o auto e as duas mulheres se ergueram rápido, já prontas para falar.
- Deixem a coisa comigo - disse Rénine - e não se admirem da minha maneira de proceder. Não se trata de interrogá-la, mas de lhe fazer medo, atordoar. Em desconcerto, falará.
O auto contornou o gramado e parou diante das janelas. Hortense desceu e estendeu a mão a uma velha, com um barrete branco em canudo, um corpete de veludo negro e uma pesada saia pregueada.
Ela entrou meio assustada. Tinha um rosto de doninha, pontudo, a terminar numa queixada armada de dentinhos para a frente.
- Que é que há, Sra. d'Ormival? - disse, ao penetrar receosa na peça de que o doutor a expulsara antigamente. - Muito bom dia, Sra. Vaubois.
As senhoras não responderam. Rénine avançou e disse em tom severo:
- O que há, Srta. Boussignol? Vou lhe comunicar. E insisto vivamente para que pese bem cada uma de minhas palavras.
Tinha o ar de um juiz de instrução para quem a culpa do interrogado não fosse contestável.
- Srta. Boussignol, fui enviado pela polícia de Paris para esclarecer um drama que ocorreu aqui há vinte e sete anos. Ora, nesse drama, em que teve um papel considerável, acabo de obter a prova de
que alterou a verdade, e por causa de suas falsas declarações o estado civil de um dos meninos nascidos durante aquela noite não é exato. Em matéria de estado civil, declarações falsas constituem crimes
punidos pela lei. Sou assim forçado a levá-la a Paris para submetê-la, na presença do seu advogado, ao interrogatório de praxe.
- Paris?. . . meu advogado?... - gemeu a mulher.
- Vai ser preciso, senhorita, já que está na iminência de receber um mandado de prisão. A menos que... - insinuou Rénine, - a menos que esteja disposta, desde agora, a fazer todas as confissões suscetíveis
de reparar as conseqüências da sua falta.
Todos os membros da solteirona tremiam, seus dentes batiam. Estava manifestamente incapaz de opor a Rénine a menor resistência.
- Está resolvida a confessar tudo? - indagou ele.
Ela arriscou:
- Nada tenho a confessar, porque nada fiz.
- Então vamos embora.
- Não, não - ela implorou. - Ah, meu bom senhor, eu lhe suplico. . .
- Está decidida?
- Sim - fez num sopro.
- Imediatamente, não é? O horário do trem não nos dá tempo. Este assunto tem de ficar resolvido agora
mesmo, À menor hesitação de sua parte, levo-a comigo.
Estamos combinados?
- Sim.
- Vamos direto ao' ponto. Nada de subterfúgios nem escapatórias.
Apontou Jean-Louis. i
- De quem este homem é filho? Da Sra. d'Or- mival?
- Não.
- Da Sra. Vaubois então?
- Não.
Um silêncio de estupor acolheu esta dupla resposta. *
- Explique-se - ordenou Rénine, olhando seu relógio.
A Srta. Boussignol caiu de joelhos e contou, num tom tão baixo e uma voz tão alterada que tiveram de se inclinar sobre ela para perceber mais ou menos o sentido do seu tartamudear:
- Alguém veio de noite... um senhor que trazia em cobertores um recém-nascido que queria confiar ao doutor. . . Como o doutor não estava, ficou toda a noite a esperá-lo, e foi ele que fez tudo.
- Quê? Que é que ele fez? - exigiu Rénine. -
Que se passou?
Tinha agarrado a velha pelas duas mãos e a mantinha sob seu olhar imperativo. Jean-Louis e as duas mães curvavam-se sobre ela, ofegantes e ansiosas. A vida deles dependia das palavras que iam ser pronun- ",
ciadas.
Ela as articulou juntando as mãos como se faz na confissão de um crime.
- Bem, se passou que não foi um menino que morreu, mas os dois, o da Sra. d'Ormival e o da Sra.
Vaubois, os dois com convulsões. Então o senhor, ven- 4
do aquilo, me disse. . . Me lembro de todas as suas frases, do som da sua voz, tudo... Me disse:
"As circunstâncias me indicam meu dever. Devo aproveitar esta ocasião para que o meu filho seja feliz e bem cuidado. Ponha-o no lugar dos que morreram."
Me ofereceu uma grande quantia, dizendo que isso o livraria de uma série de gastos a fazer todos os meses com o seu garoto, e aceitei. Mas em lugar de qual,
pôr o dele? O menino devia se chamar Louis d'Ormi- val ou Jean Vaubois? Ele pensou um instante e respondeu: "Nem um nem outro." E então me explicou como devia fazer e o que devia contar quando ele tivesse
ido embora. E enquanto vestia o menino dele com roupa branca e lãs iguais a um dos pequenos mortos, ele enrolou o outro com os cobertores que trouxera e partiu na noite.
A Srta. Boussignol baixou a cabeça e chorou. Após um instante Rénine lhe disse numa entonação mais simpática:
- Não lhe oculto que o seu depoimento concorda com a investigação que eu estava fazendo. Isso será levado em conta a seu favor.
- Não vou ter de ir a Paris?
- Não.
- Não vai me levar? Posso ir embora?
- Pode. De momento, é só isso.
- E não vão falar de tudo isso por aí?
- Não. Ah, ainda uma palavra. Sabe o nome daquele homem?
- Ele não me disse.
- Voltou a encontrá-lo?
- Nunca.
- Não tem uma outra coisa a declarar?
- Nada.
- Está pronta a assinar o texto escrito da sua confissão?
- Sim.
- Está bem. Dentro de uma semana ou duas vai ser chamada. Até lá, nenhuma palavra a ninguém.
Ela se levantou e fez um sinal da cruz. Mas suas forças a traíram e teve de se apoiar em Rénine. Levou-a até a saída e fechou a porta atrás dela.
Quando voltou, Jean-Louis estava entre as duas velhas e os três se davam as mãos. O elo de ódio e de miséria que os unia foi de repente partido, e isso pôs imediatamente entre eles, sem que tivessem
necessidade de refletir, uma doçura e uma paz de que não tinham consciência, mas que os fazia graves e recolhidos.
- Forcemos as coisas - disse Rénine a Hortense. - É o momento decisivo da batalha. Temos de fazer Jean-Louis embarcar.
Hortense parecia distraída. Murmurou:
- Por que deixou essa mulher ir embora? Ficou satisfeito com a sua história?
- Não fiquei satisfeito. Ela disse o que se passou. Que queria mais?
- Nada. .. Não sei.
- Voltaremos a falar nisso, cara amiga. De momento, repito, temos de embarcar Jean-Louis. E em se- guidinha. Senão. . .
Dirigindo-se ao jovem, disse:
- Julga como eu, não é?, que os acontecimentos lhe impõem, tanto quanto à Sra. Vaubois e a Sra. d'Or- mival, uma separação que permitirá aos três verem claro e se decidirem em plena liberdade de espírito.
Venha conosco, senhor. O que há de mais urgente é salvar Geneviève Aymard, sua noiva.
Jean-Louis ficou perplexo. Rénine se virou para as duas mulheres:
- É o que julgam, não tenho dúvidas, não é, senhoras?
Assentiram com a cabeça.
. - Está vendo? - disse a Jean-Louis. - Estamos todos de acordo. Nas grandes crises, é preciso o recuo da separação. Oh, não muito tempo, talvez; alguns dias de pausa, depois da qual poderá abandonar
Geneviève e retomar sua existência. Mas esses dias são indispensáveis. Depressa, senhor.
E sem lhe deixar tempo a refletir, atordoando-o com palavras, persuasivo e obstinado, o impeliu a seu apartamento.
Meia hora depois, Jean-Louis deixava o solar.
- E não há de regressar senão casado - disse Rénine a Hortense, enquanto atravessavam a estação de Guingamp a que o auto os levara e Jean-Louis se ocupava de sua mala. - Tudo deu certo. Está contente?
- Sim, a pobre Geneviève ficará feliz - respondeu distraidamente.
No trem, se instalaram, e foram os dois ao vagão- restaurante. Ao fim do jantar, Rénine, que fizera a Hortense várias perguntas a que ela replicou apenas por monossílabos, protestou:
- Mas o que é que há, cara amiga? Está preocupada?
- Eu? Não.
- Sim, sim, conheço você. Vamos, nada de reticências.
Ela sorriu.
- Já que quer tanto saber se estou contente, digo-lhe que. .. evidentemente. . . estou por Geneviève Aymard... mas que, em outra perspectiva... a da própria aventura vivida desta vez... conservo uma
certa insatisfação. . .
- Para falar franco, não a "impressionei" desta
vez?
- Não muito.
- Meu papel lhe parece secundário? Enfim, em que consistiu? Viemos. Escutamos as dolências de Jean- Louis. Fez-se comparecer uma velha parteira e, fim.
- Justamente, me pergunto se é o fim e não tenho certeza. Na verdade nossas outras aventuras me deixaram uma impressão mais. .. como explicar? Mais franca, mais clara.
- E esta lhe parece obscura?
- Obscura, sim, inacabada.
- Mas em quê?
- Não sei. Talvez em relação às confissões dessa mulher.. . Sim, provavelmente. Foi tão imprevisto e tão breve!
- Claro! - riu Rénine, - acerta se pensa que as interrompi. Não queria explicações demais.
- Como?
- Sim, se desse explicações muito detalhadas, se açabaria desconfiando do que contasse.
- Desconfiando?
- Puxa, a história era super-rebuscada. Esse senhor que chega de noite, com um filho no bolso, e que vai embora com um cadáver, isso não fica de pé. Que quer, cara amiga, não tive tempo de assoprar
o papel a essa infeliz.
Hortense o fitou, aturdida.
- Que quer dizer?
- Sim, não é?, estas mulheres do campo têm a cabeça dura. Estávamos apressados, ela e eu. Então construímos correndo o nosso ato. . . que ela não recitou demasiado mal aliás. O tom ela pegou bem. .
. susto. . . falsetes... lágrimas...
- Será possível! Será possível! Tinha a visto antes?
-- Era necessário.
- Mas quando?
- De manhã, quando chegamos. Enquanto você refazia a maquilagem no hotel de Carhaix, corri a me informar. Calcula como seja conhecido o drama d'Or- mival-Vaubois na região. Em seguida me indicaram
a velha parteira. Com a Srta. Boussignol não demorou. Três minutos para estabelecer a nova versão do que se passou e dez mil francos para que consentisse em repetir diante do pessoal do solar essa versão.
. . mais ou menos inverossímil.
- Completamente inverossímil!
- Não tanto, minha amiga, já que acreditou nela e os outros também. Era o essencial. Cumpria demolir num tapa uma verdade de vinte e sete anos, uma verdade tanto mais sólida quanto construída pelos
próprios fatos. Por isso os solapei com todas as forças e ataquei a golpes de eloquência. A impossibilidade de identificar os dois meninos? Nego. A confusão? Mentira. São os três vítimas de algo que ignoro,
mas que devem esclarecer. "Fácil - brada fean-Louis, de imediato abalado, - façamos vir a Srta. Boussignol". "Façam ela vir". A Srta. chega e recita em surdina o dis- cursinho que lhe ensinei. Golpe de
teatro. Estupor. Aproveito para raptar o jovem.
Hortense sacudiu a cabeça:
- Mas voltarão a si os três! Refletirão.
- Nunca na vida! Que tenham dúvidas talvez. Mas nunca consentirão em ter certeza. Nunca aceitarão refletir. Como! pessoas que tiro do inferno em que se debatem há um quarto de século, desejariam voltar
a ele? São desses que, por debilidade, por um falso sentimento do dever, não tinham a coragem de escapar, e não se agarrariam na liberdade que lhes dou? Vamos!
Teriam engolido patranhas ainda mais intragáveis do que as que servi a eles por meio da Srta. Boussignol. Afinal a minha versão não é mais idiota que a verdadeira. Ao contrário, e a paparam cruinha! Olhe,
antes de nossa partida, ouvi a Sra. d'Ormival e a Sra. Vau- bois falando em se mudar imediatamente. Estavam já cheias de mútuo afeto com a idéia de não se verem mais.
- Mas Jean-Louis?
- Jean-Louis! Tinha agüentado o que não podia com suas duas mães! Por Deus, não se tem duas mães na vida! É demais para um filho só. Quando surge a chance de poder escolher entre possuir duas mães
ou nenhuma, puxa, não se hesita. Ademais Jean-Louis ama Geneviève, e o suficiente, quero crer, para não lhe infligir duas sogras! Vá, pode estar tranqüila. A felicidade dessa moça está garantida, e não
era isso o que desejava? O importante é o fim que se atinge e não a natureza mais ou menos estranha dos meios que se empregam. E se há aventuras que se desenojam e mistérios que se elucidem, graças à busca
e à descoberta de pontas de cigarro, de garrafas incendiárias e caixas de chapéu que se inflamam, há outras que exigem psicologia e cuja solução é puramente psicológica.
Hortense calou e prosseguiu depois:
- Então, de fato, você está convencido que Jean- Louis . . .
Rénine pareceu surpreendido.
- Como, ainda pensa nessa velha história? Mas tudo isso terminou! Bem, lhe confesso que não me interesso mais em nada pelo homem de dupla mãe.
E isso foi dito de modo tão engraçado, com tão divertida sinceridade, que Hortense caiu na risada.
- Enfim! Ria, cara amiga, Vêem-se as coisas bem mais claramente através do riso que através das lágrimas. Depois, há um outro motivo para que seu dever seja rir cada vez que se apresente uma oportunidade.
- Qual?
- Tem belos dentes.
A Mulher do Machado
Um dos acontecimentos mais incompreensíveis do período antes da guerra foi o que se chamou o caso da Mulher do Machado. A solução não foi conhecida, nem seria nunca se as circunstâncias não tivessem
obrigado da maneira mais cruel o príncipe Rénine - ou devemos dizer Arsènc Lupin? - a se ocupar dele, e se não pudéssemos dar hoje do caso, segundo suas confidências, a narrativa autêntica.
Lembremos os fatos. No espaço de dezoito meses, cinco mulheres desapareceram, cinco mulheres de condições diversas, com vinte a trinta anos, morando em Paris ou perto.
Eis seus nomes: Sra. Ladoue, esposa de um médico; Srta. Ardant, filha dum banqueiro; Srla. Covereau, lavadeira em Courbevoie; Srta. Honorine Vernisset, costureira, e Sra. Grollinger, pintora. Essas
cinco mulheres sumiram sem que fosse possível obter um só detalhe que explicasse por que saíram de casa, por que não voltaram, quem as atraiu à rua e como foram retidas .
Oito dias após desaparecerem, foram encontradas num lugar qualquer do subúrbio oeste de Paris, e cada vez foi um cadáver que se achou, ferido na cabeça com uma machadada. E cada vez, perto da mulher
solidamente atada, com o rosto inundado de sangue, o corpo emagrecido pela falta de alimento, marcas de rodas provavam que o cadáver fora ali levado por um carro.
A semelhança dos cinco crimes era tal que houve apenas uma investigação, englobando as cinco ocorrências, sem chegar aliás a nenhum resultado. Desaparição de uma mulher, achado de seu cadáver exatamente
oito dias depois. Eis tudo.
O modo de atar era o mesmo, e também as marcas deixadas pelas rodas do carro. Iguais eram as machadadas, desferidas verticalmente no alto da testa e meio da cabeça.
O motivo? As cinco mulheres tinham sido inteiramente despojadas de suas jóias, carteiras e objetos de valor. Mas se podia também atribuir o roubo a gatunos e passantes, já que os cadáveres jaziam
em lugares sem ninguém. Devia se imaginar a execução de um plano de vingança, ou de um plano para destruir uma série de indivíduos ligados uns aos outros, por exemplo beneficiários de uma futura herança?
Ainda aí, a mesma obscuridade. Construíam-se hipóteses que o exame dos fatos desmentia na prática. Seguiam-se pistas logo abandonadas por inúteis.
Houve um súbito golpe teatral. Uma varredora de ruas juntou numa calçada uma cadernetinha que levou ao comissariado mais perto.
Todas as folhas da cadernetinha estavam em branco, fora* uma, onde havia a lista das mulheres assassinadas, feita pela ordem cronológica e cujos nomes eram seguidos de três números. Ladoue, 132; Vernisset,
118, etc.
Não se teria por certo dado importância a essas linhas, que qualquer um podia ter escrito, pois todo mundo conhecia a lista fúnebre, se, em lugar de cinco nomes, ::ela não constassem seis! Sim, abaixo
da palavra Grol- linger, 128, lia-se: Williamson, 114. Estava-se diante do sexto assassinato?
A proveniência evidentemente inglesa do nome restringia o campo das pesquisas que, de fato, foram rápidas. Estabeleceu-se que, quinze dias antes, uma Srta. Herbette Williamson, ama-seca numa família
de Auteuil, deixara o emprego para regressar à Inglaterra, e que, desde aí, suas irmãs, embora avisadas por carta de sua chegada, não ouviram falar dela.
Novas buscas. Um agente do correio encontrou o cadáver nos bosques de Meudon. Miss Williamson tinha o crânio rachado ao meio.
Dispensável recordar a emoção do público nesse momento e que arrepio de horror o sacudiu ao ler essa lista, sem dúvida escrita pela própria mão do assassino. Nada de mais assombroso que essa contabilidade
mantida em dia, como o livro de um comerciante. Nesta data matei esta, nesta outra, aquela... E como resultado da soma - seis cadáveres.
Contra toda expectativa, os peritos e grafólogos não tiveram dificuldade em ficar de acordo e unanimemente declararam que a escrita era de uma mulher "cultivada, com gosto artístico, imaginação e
extrema sensibilidade". A Mulher do Machado, como os jornais a chamaram, não era certamente uma qualquer e centenas de artigos estudaram seu caso, expuseram sua psicologia e se perderam em explicações
rebuscadas.
Foi, porém, o autor de um desses artigos, um jovem jornalista posto em relevo por seu achado, que trouxe o único elemento de verdade e lançou nas trevas o único clarão capaz de atravessá-las. Procurando
um sentido às cifras colocadas à direita dos seis nomes, foi levado a se perguntar se não representavam simplesmente o número de dias que separavam os crimes uns dos outros. Bastava verificar as datas.
Imedia- tamente comprovou a exatidão de sua hipótese. O rapto da Srta. Vernisset tinha ocorrido 132 dias depois do da Sra. Ladoue; o de Hermine Covereau 118 dias depois do da Srta. Vernisset, etc.
Assim, não houve possibilidade de hesitar e a justiça aceitou uma solução que se adaptava tão precisamente às circunstâncias: as cifras correspondiam aos intervalos. A contabilidade da Mulher do Machado
não tinha lapsos.
Então se impôs uma observação. Miss Williamson, a última vítima, tendo sido seqüestrada em 26 de junho passado e estando seu nome acompanhado do número 114, não se devia admitir que uma outra agressão
se produziria 114 dias depois, isto é, a 18 de outubro? Não era para crer que o horrível fato se repetiria segundo a vontade secreta do assassino? Não se tinha de ir até o fim no argumento que atribuía
às cifras, a todas elas, às últimas como às primeiras, um valor de datas dos delitos?
Ora, essa polêmica se acirrou nos dias anteriores àquele 18 de outubro, em que a lógica queria que se desse um novo ato do drama abominável. Por isso era natural que, na manhã desse dia, o príncipe
Rénine e Hortense, marcando por telefone um encontro para a noite, fizessem alusão às notícias que ambos acabavam de ler.
- Cuidado! - disse Rénine rindo. - Se encontrar a Mulher do Machado, mude de calçada.
- E se essa senhora me seqüestrar, que é que eu devo fazer?
- Semeie o caminho de pedrinhas brancas, e repita até o instante de luzir o relâmpago do machado: "Nada tenho a temer, ele me livrará." Ele sou eu.. . e lhe beijo as mãos. Até à noite, amiga.
Nas primeiras horas da tarde, Rénine tratou de seus negócios e, das quatro às sete, comprou as diversas edições dos jornais. Nenhuma falava de rapto.
Às nove, foi para o Gymnase onde reservara uma
frisa.
Às nove e meia, não tendo Hortense chegado, ligou'para sua casa, sem maior preocupação. A empregada respondeu que a patroa ainda não tinha voltado.
Presa de um súbito susto, Rénine correu ao apartamento que Hortense ocupava provisoriamente perto do parque Monceau, e interrogou a servente, que ele próprio escolhera e lhe era dedicadíssima. A mulher
contou que a senhora saíra às duas horas, com uma carta lacrada na mão, dizendo que ia ao correio e voltaria para se vestir. Depois, nenhuma novidade.
- Esta carta estava dirigida a quem?
- Ao senhor. Vi o sobrescrito: Príncipe Rénine.
Ele esperou até a meiá-noite. Em vão. Hortense
não voltou, e nem no dia seguinte.
- Nenhuma palavra sobre isso - ordenou Rénine à empregada. - Dirá que a patroa está no campo c que vai ter com ela.
Por ele, não duvidava. O desaparecimento de Hor- tense se explicava pela própria data de 18 de outubro. Hortense era a sétima vítima da Mulher do Machado.
- O seqüestro - pensou Rénine - precede a machadada em oito dias. Disponho nesse momento de sete dias inteiros à minha frente. Digamos seis, para evitar qualquer surpresa. Estamos hoje num sábado;
sexta-feira que vem, ao meio-dia, Hortense deve estar livre e para isso tenho de saber onde está, o mais tardar na quinta às nove horas.
Grafou em letras grandes QUINTA ÀS NOVE HORAS num cartaz que pregou em cima da lareira do seu gabinete de trabalho. Depois, ao meio-dia deste sábado, dia seguinte ao da desaparição, se fechou nessa
peça, ordenando ao criado que só o perturbasse nas horas de refeições e do correio.
Lá ficou quatro dias, quase sem se mexer. De saída, mandara vir uma coleção de todos os jornais importantes que noticiaram com detalhes os seis primeiros crimes. Tendo-os lido e relido, fechou janelas
e cortinas e, sem luz, com a porta aferrolhada, deitado no divã, refletiu.
Terça à noite, não estava mais adiantado que na primeira hora. As trevas seguiam igualmente densas. Não tinha dado com o menor fio capaz de conduzi-lo, nem entrevisto a menor razão de esperança.
Às vezes, apesar de seu imenso poder de autodomínio e de sua ilimitada confiança nos recursos de que dispunha, estremecia de angústia. Chegaria a tempo? Faltava um motivo para que nos últimos dias
visse mais claro que durante os transcorridos. E seria o assassinato inevitável da moça.
Essa idéia o torturava. Estava ligado a Hortense por um sentimento muito mais forte e profundo que a aparência de suas relações deixava supor. A curiosidade e o desejo do início, a incumbência de
proteger a jovem, distraí-la e lhe dar o gosto da existência tinham se transformado simplesmente em amor. Nem um nem outro se apercebiam disso, por pouco se verem fora das horas de crise, em que a aventura
dos outros e não a sua os preocupava. Mas, ao primeiro impacto do perigo, Rénine viu o lugar que Hortense tomara em sua vida, desesperando por sabê-la cativa e martirizada e não poder salvá-la.
Passou uma noite agitada e férvida, examinando o caso em todos os aspetos. A manhã de quarta-feira foi igualmente terrível para ele. Perdia o pé. Desistindo de se encerrar, tinha aberto as janelas,
ia e vinha em seu apartamento, saía à avenida e voltava como se tivesse à frente a idéia que o obcecava!
Hortense sofre.. . Está no fundo do abismo.. . Está vendo o machado... Me chama... suplica... e não posso nada...
Foi às cinco da tarde, ao reexaminar a lista dos seis nomes que teve o pequeno choque íntimo que é como o sinal da verdade que se busca. Fez-se uma claridade em sua mente. Não por certo a grande claridade
em que todos os aspetos se manifestam, mas bastava para saber que diretriz tomar.
Em seguida estabeleceu seu plano de campanha. Por seu chofer Clément, enviou aos principais jornais uma notinha que devia sair em letra grande nos anúncios do dia seguinte. Além disso, Clément também
devia ir à lavanderia de Courbevoie, onde esteve empregada a Srta. Covereau, a segunda das seis vítimas.
Na quinta, Rénine não se mexeu. À tarde, várias cartas provocadas por seu anúncio lhe chegaram. Recebeu depois dois telegramas. Mas não parecia que essas cartas e telegramas respondessem ao que aguardava.
Enfim, às três horas, chegou, carimbada do Tro- cadéro, uma cartinha pneumática que pareceu satisfazê-lo. Virou-a e revirou, estudou a letra, folheou sua coleção <de jornais e concluiu à meia voz:
- Acho que se pode andar nessa direção.
Consultou um guia e anotou este endereço: Sr. de
Lourtíer-Vaneau, ex-governador colonial, avenida Klé- ber, 47 bis, e correu para o seu auto.
- Clément, avenida Kléber, 47 bis.
Foi introduzido num grande gabinete de trabalho, guarnecido por magníficas estantes com velhos livros de encadernações requintadas. O Sr. de Lourtier-Vaneau era um homem ainda jovem, de barba, um
pouco grisalha, e que, por suas maneiras afáveis, sua distinção
verdadeira, sua sorridente gravidade, inspirava confiança e simpatia.
- Governador - disse-lhe Rénine, - vim lhe falar porque li num dos jornais do ano passado que conheceu uma das vítimas da Mulher do Machado, Ho- norine Vernisset.
- Se a conhecemos! - exclamou de Lourtier, - minha mulher a empregava como costureira por dia. Pobre mulher!
- Sr. governador, uma senhora amiga minha acaba de desaparecer, como as seis outras vítimas.
- Como! - teve um brusco recuo. - Mas acompanhei atentamente os jornais. Não houve nada a 18 de outubro.
- Houve, uma jovem que amo, Sra. Daniel, foi raptada nesse dia.
- E hoje é 24!. . .
- De fato, e é depois de amanhã que o crime deve ser cometido.
- É horrível! Cumpre impedir a qualquer custo...
- Talvez eu consiga com o seu auxílio, governador .
- Mas deu queixa?
- Não, nos achamos diante de segredos por assim dizer absolutos, compactos, que não oferecem brechas por onde se esgueire o olhar mais agudo, sendo inütil esperar alguma revelação pelos meios comuns,
estudo dos locais, inquéritos, impressões digitais etc. Se nenhum desses processos adiantou nos casos anteriores, seria perder tempo empregá-los num sétimo caso semelhante. Um inimigo que mostra tanta
destreza e finura não deixa atrás de si nenhum desses rastros grosseiros em que se prende o primeiro esforço de um detetive profissional.
- Que fez então?
- Antes de agir, pensei durante quatro dias.
Lourtier-Vaneau observou o interlocutor e disse
com uma margem de ironia:
- O resultado desse pensamento?...
- Primeiro - contestou Rénine sem se desarmar, - tirei de todos os casos uma visão de conjunto que ninguém tinha tido até aqui, o que me permitiu lhes descobrir o sentido geral, afastando a palha das
hipóteses turvas. Já que é impossível concluir sobre os móveis de toda essa história, tive de atribuí-la à única espécie de indivíduos capaz de levá-la a efeito.
- Ou seja?
- A categoria dos loucos, governador.
Lourtier-Vaneau estremeceu.
- Dos loucos? Que idéia!
- Governador, a pessoa chamada Mulher do Machado é uma louca.
- Mas estaria internada!
- Sabemos se não está? Sabemos se não se conta no número desses semiloucos, na aparência inofensivos e tão pouco vigiados que têm plena franquia para se abandonar às suas pequenas manias e instintos
de animais ferozes? Nada de mais falso que essas criaturas, nada de mais sorrateiro, mais paciente, mais obstinado, mais perigoso, de mais absurdo e ao mesmo tempo de mais lógico, de mais desordenado e
mais metódico. Todos esses epítetos, governador, podem se aplicar à obra da Mulher do Machado. A obsessão de uma idéia e a repetição de um ato são a característica do louco. Não conheço ainda a idéia que
obceca a Mulher do Machado, mas conheço o ato que dela resulta e é sempre o mesmo. A vítima é atada por cordas idênticas; morta depois de um mesmo número de dias; abatida pelo mesmo golpe, com o mesmo
instrumento, no mesmo lugar, no meio da testa, e com um ferimento exatamente perpendicular. Um assassino de outra espécie variaria. Sua mão, que treme, se desvia e equivoca. A Mulher do Machado não treme.
Deve tomar medidas para que o gume de sua arma não se desloque de um centímetro. Preciso lhe dar outras provas e examinar com o senhor todos os demais fatos? Não, não é? Conhece agora a palavra da charada
e há de pensar como eu que só um louco agiria desse modo, estúpida, selvagem, mecanicamente, feito um relógio que bate ou um cutelo que cai.
Lourtier-Vaneau sacudiu a cabeça:
- Com efeito... sim, todo o caso pode ser visto desse ângulo. . . e começo a crer que dever ser visto assim. Mas se admitimos nessa louca uma lógica matemática, não percebo nenhuma correlação entre
as vítimas. Atacou ao acaso. Por que esta e não aquela?
- Ah, governador - bradou Rénine, - me faz a pergunta que me fiz desde o primeiro minuto, que resume todo o problema e tive tanta dificuldade em resolver! Por que Hortense Daniel em vez de uma outra?
Entre dois milhões de mulheres possíveis, por que Hortense? por que a jovem Vernisset? por que Miss Williamson? Se o caso é como o imaginei em seu conjunto, isto é, baseado na lógica cega e irregular de
uma louca, fatalmente haveria uma escolha. Ora, em que consistiria essa escolha? Qual seria a qualidade, ou o defeito, ou o sinal necessário para que a Mulher do Machado arremetesse? Em suma, se escolhe
- e não poderia deixar de escolher -, o que nortearia sua escolha?
- E descobriu?
Rénine fez uma pausa e foi avante:
- Sim, governador, descobri, e poderia ter descoberto desde o primeiro minuto, já que bastava examinar com atenção a lista das vítimas. Mas esses relâmpagos de verdade só se acendem num cérebro superaquecido
pelo esforço e a reflexão. Vinte vezes olhei a lista sem que esse pormenor tomasse forma a meus olhos.
- Não entendo - disse Courtier-Vaneau.
- Governador, é de se observar que, se várias pessoas são reunidas num caso, crime, escândalo público etc., o modo de designá-las fica praticamente imutável. Nesse caso, os jornais nunca empregaram
em relação à Sra. Ladoue e às Srtas. Ardant e Covereau senão seus nomes de família. Ao contrário, a Srta. Vernisset e Miss Williamson, além desses sobrenomes, eram sempre designadas pelos nome, Honorine
e Her- bette. Se tivesse ocorrido o mesmo com as seis vítimas, nem haveria o problema.
- Por quê?
- Porque à primeira vista se saberia da correlação existente entre as seis infelizes, como soube na hora ao aproximar os últimos dois nomes ao de Hortense Daniel. Agora entende, não é? Tem, como eu,
diante dos olhos três nomes. ..
Lourtier-Vaneau pareceu perturbado. Um pouco pálido pronunciou:
- Que está dizendo?. .. Que está dizendo?
- Digo - continuou Rénine com voz clara, destacando as sílabas -, que tem diante dos olhos três nomes que começam com a mesma inicial e estão compostos - coincidência a notar - pelo mesmo número de
letras, como pode fazer a comprovação. De outro lado, se for se informar na lavandaria de Courbevoie, onde esteve trabalhando a Srta. Covereau, saberá que se chamava Hilairie. Ainda aí a mesma inicial
e o mesmo número de letras. Inútil procurar mais. Estamos certos, não é?, que os nomes de todas as vítimas apresentam as memas particularidades. E essa verificação nos dá de maneira inteiramente segura
a solução do problema que nos colocávamos. A escolha da louca se explica. Conhecemos o elo que ligava as infelizes. Não há erro possível. Ê isso e não outra coisa. E que confirmação de minha idéia esse
modo de escolher! Que prova de loucura! Por que matar estas mulheres e não outras? Porque seus nomes começam com um H e têm oito letras! Está me ouvindo, governador? O número de letras é oito. A inicial
é a oitava letra do alfabeto, e huit (oito) começa por um H. E é um hache (agá ou machado) o instrumento da morte. Me diga se a Mulher do Hache, (Machado) não é uma louca?
Rénine se deteve e aproximou do Sr. Lourtier-Vaneau.
- Que está sentindo, governador? Parece doente.
- Não, não - fez o outro, cuja testa escorria suor. - Não. . . mas toda essa história é tão tocante! Pense que conheci uma das vítimas... E então. . .
Rénine foi buscar sobre um velador uma garrafa e um copo que encheu d'água e estendeu a de Lourtier. Este bebeu uns sorvos e, se aprumando, prosseguiu numa voz que tentava firmar:
- Esta, admitamos a sua hipótese. Falta ainda chegar a resultados palpáveis. O que é que fez?
- Publiquei esta manhã em todos os jornais um anúncio assim redigido: "Excelente cozinheira solicita emprego. Escrever antes das cinco horas a Herminie, avenida Haussmann. . . etc. Segue entendendo,
não é, governador? Os nomes de oito letras começando por um H são raros e fora de moda. Herminie, Hilairie, Herbette... Ora, esses nomes, por motvios que ignoro, são indispensáveis à louca. Não passa sem
eles. Para achar mulheres desses nomes, e apenas para isso, junta o que lhe resta de razão, discernimento, reflexão, inteligência. Busca, interroga, fica à espreita. Lê os jornais que mal entende, mas
onde seus olhos se prendem a detalhes, a certas maiusculas. De modo que não duvidei um segundo de que o nome de Herminie, impresso em letra grande, lhe atrairía a atenção e cairia hoje na armadilha do
meu anúncio. ..
- Ela escreveu? - perguntou o outro, ansioso.
- Para dar suas condições à suposta Herminie - continuou Rénine, - muitas senhoras escreveram as cartas costumeiras num caso desses. Mas recebi uma pneumática que me pareceu de certo interesse.
- De quem?
- Leia, governador.
Lourtier-Vaneau arrancou o papel das mãos de Rénine e deu uma olhada na assinatura. Teve de início um gesto de surpresa, como se esperasse outra coisa. A seguir deu uma comprida risada, onde havia
júbilo e liberação.
- Por que está rindo, governador? Parece contente .
- Contente, não. Mas esta carta está assinada por minha mulher.
- E receava outra coisa?
- Oh! não, mas já que é a minha mulher. . .
Não acabou a frase e disse a Rénine:
- O senhor me desculpe, mas me falou que recebeu várias respostas. Por que, entre todas elas, pensou que precisamente esta poderia lhe fornecer algum indício?
- Por ser assinada pela Sra. de Lourtier-Vaneau, a mesma que empregara como costureira uma das vítimas, Honorine Vernisset.
- Quem lhe disse isso?
- Os jornais da época.
- E sua escolha não foi determinada por nenhuma outra coisa?
- Nenhuma. Mas tenho a impressão, desde que estou aqui, governador, que não me enganei de caminho.
- Por que essa impressão?
- Não sei muito. Certos sinais, detalhes. . . Posso ver a Sra. de Lourtier?
- Ia lhe propor isso. Tenha a bondade de vir comigo.
Levou-o por um corredor a um pequeno salão, onde uma dama de cabelos louros e bonito rosto, feliz e doce, estava sentada entre três crianças que fazia estudar.
Ela se ergueu e o dono da casa fez as apresentações e disse à sua mulher:
- Suzanne, é tua essa pneumática?
- Endereçada à Srta. Herminie, avenida Haus- smann? - disse. - Sim, é minha. Sabes que nossa criada de dentro vai embora e trato de achar alguém.
Rénine a interrompeu:
- Desculpe, senhora, só uma coisa. Como soube o endereço dessa mulher?
Ela enrubesceu. O marido insistiu:
- Responde, Suzanne. Quem te deu esse endereço?
- Me telefonaram.
- Quem?
Após hesitar, pronunciou:
- Tua velha ama de leite. . .
- - Félicienne?...
- Sim.
Lourtier cortou a conversa e, sem permitir a Rénine fazer novas perguntas, o trouxe de volta a seu escritório.
- Como vê, esta pneumática tem uma origem bem natural. Félicienne, minha velha ama, a quem dou uma pensão e que mora nos arredores de Paris, leu o seu anúncio e foi ela quem preveniu à Sra. de Lourtier.
Pois enfim - acrescentou, esforçando-se por rir -, não creio que desconfie que a minha esposa seja a Mulher do Machado. . .
- Não. . .
- De modo que o incidente está encerrado. . . ao menos do meu lado. Fiz o que podia. . . Acompanhei seus raciocínios e lamento muito não poder lhe ser útil...
Tinha pressa em se livrar do visitante indiscreto. Fez o gesto de lhe mostrar a porta, mas teve uma espécie
de atordoamento, bebeu um segundo copo d'água e se sentou. Seu rosto estava desfeito.
Rénine o fitou alguns segundos, como se fita um adversário desfalecente que só falta terminar, e, sentando- se a seu lado, o agarrou de repente pelo braço.
- Governador, se não falar, Hortense Daniel será a sétima vítima.
- Não tenho nada a dizer. Que quer que eu saiba?
- A verdade. Minhas explicações fizeram com que a descobrisse. Sua angústia, seu espanto são para mim provas certas. Vim buscando um colaborador e, por uma sorte imprevista, é um guia que encontro.
Não percamos tempo.
- Mas, enfim, senhor, se eu soubesse, por que me calaria?
- Por medo do escândalo. Há em sua vida, tenho a intuição, algo que está constrangido a esconder. A verdade que lhe surgiu de súbito sobre o drama monstruoso, se se tornar conhecida, seria para o
senhor a desonra, a vergonha, e recua ante o seu dever.
Ele não respondia mais. Rénine, de pertinho, com os olhos nos seus, murmurou:
- Não haverá escândalo. Apenas eu no mundo saberei o que ocorreu. Tenho tanto interesse quanto o senhor em não chamar a atenção, já que amo Hortense Daniel e não quero seu nome metido nessa horrível
história.
Ficaram um ou dois minutos um diante do outro. Rénine endureceu o rosto, e o outro sentiu que nada o dobraria antes das palavras serem pronunciadas, mas não podia falar.
- O senhor se engana. . . Julgou ver coisas que não existem.
Rénine teve a certeza imediata e aterradora de que se esse homem se fechasse estupidamente em seu silêncio, era o fim de Hortense Daniel, e sua raiva foi tanta em pensar que a solução estava ali,
como um objeto ao alcance da mão, que agarrou de Lourtier pela garganta e o derrubou.
- Basta de mentiras! A vida duma mulher está em jogo! Fale, e fale duma vez.. . senão.. .
Lourtier estava exausto. Qualquer resistência era impossível. Não que a agressão de Rénine o atemorizasse e cedesse a esse ato de violência, mas se sentia esmagado por essa vontade indomável que parecia
não admitir nenhum obstáculo, e balbuciou:
- Tem razão. Meu dever é dizer tudo, aconteça o que acontecer.
- Não acontecerá nada, assumo o compromisso, mas com a condição de que salve Hortense Daniel. Um segundo de hesitação pode pôr tudo a perder. Fale. Não aparência, fatos.
Com os cotovelos apoiados na sua escrivaninha, as mãos na testa, de Lourtier pronunciou no tom de uma confidência que buscasse fazer o mais curta possível:
- A Sra. de Lourtier não é minha mulher. A única que tem o direito de usar meu nome esposei quando era jovem funcionário nas colônias. Era uma mulher estranha, de cérebro algo fraco, submissa até o
inverossímil a suas manias e impulsos. Tivemos duas crianças, dois gêmeos que ela adorou e em cuja convivência sem dúvida teria achado o equilíbrio e a saúde mental, quando, por um acidente estúpido, um
carro que passava, foram esmagados à sua vista. A infeliz enlouqueceu. . . com essa loucura silenciosa e discreta que o senhor lembrou. Tempos depois, nomeado para uma cidade da Algéria, a trouxe para
França e confiei à excelente criatura que me criou. Dois anos mais tarde, conheci a que faz a alegria da minha vida. Viu-a há pouco. É a mãe de meus filhos e passa por minha mulher. Devo sacrificá-la?
Toda nossa existência deve se abismar no horror e nosso nome ser associado a esse drama de loucura e sangue?
Rénine refletiu e perguntou:
- Como se chama a outra?
- Hermance.
- Hermance. .. Sempre a inicial, as oito letras. . .
- Foi isso o que me esclareceu há pouco - disse de Lourtier. - Quando ligou os nomes uns aos outros, em seguida pensei que a infeliz se chamava Hermance, que era louca... e todas as provas me vieram
ao espírito.
- Mas se entendemos a escolha das vítimas, como explicar o assassinato? Em que consiste a sua loucura? Sofre muito?
- Não muito atualmente. Mas sofreu da pior dor que existe: desde o momento em que os filhos foram esmagados diante dela, a terrível imagem dessa morte permaneceu consigo noite e dia, sem um segundo
de interrupção, pois não dormia um segundo. Pense neste suplício: ver os filhos morrer durante todas as horas dos longos dias e todas as horas das noites intermináveis.
Rénine contrapôs:
- Mas não há de ser para expulsar essa imagem que mata?
- Sim.. . talvez... - articulou de Lourtier pensativo -, para expulsá-la pelo sono.
- Não compreendo.
- Não compreende por se tratar de uma louca. O que se passa nesse cérebro desconjuntado é forçosamente incoerente e anormal.
- Claro. . . mas, de qualquer forma, sua suposição se prende a fatos que a justifiquem?
- Sim... fatos que não tinha notado por assim dizer, mas que hoje encaro sob nova luz. O primeiro deles remonta a alguns anos, uma manhã em que minha velha ama encontrou, pela primeira vez, Hermance
adormecida. Tinha suas mãos crispadas no pescoço de um cão que estrangulara. E a cena se repetiu depois mais três vezes.
- E dormia.
- Sim, dormia, de um sono que, cada vez, durava várias noites.
- E concluiu daí?
- Que a distensão nervosa provocada pelo assassinato a esgotava e predispunha ao sono.
Rénine se impressionou.
- É isso! Não há dúvida! Matar, o esforço de matar a faz dormir. O que deu resultado com animais, repetiu com mulheres. Toda sua loucura se concentrou em volta deste ponto: mata-as para se apoderar
do sono delas! O sono lhe falta: rouba o das outras! É bem isso, não é? Ela dorme há dois anos?
- Há dois anos - balbuciou de Lourtier.
Rénine lhe apertou o ombro.
- E não pensou que sua loucura podia aumentar e que nada a deteria na conquista do benefício do sono? Temos de nos apurar, tudo isso é. terrível!
Os dois se dirigiam para a porta quando de Lourtier vacilou. O telefone batia.
- É de lá - disse.
- De lá?
- Cada dia, a esta hora, minha velha ama me dá notícias.
Pegou os fones e estendeu um a Rénine, que lhe assoprava as perguntas que devia fazer.
- És tu, Félicienne? Como vai ela?
- Vai indo, senhor.
- Dorme bem?
- Não muito bem há alguns dias. Na noite passada até, não fechou os olhos. Anda muito triste.
- Neste momento o que está fazendo?
- Está no quarto.
- Vai lá, Félicienne. Não a deixes só.
- Não posso; se fechou à chave.
- É preciso, Félicienne. Arromba a porta. Já voa para aí... Alô... Alô. Ah..! droga, cortaram a ligação!
Sem falar, os dois saíram do apartamento e correram à avenida. Rénine levou de Lourtier ao auto.
- - O endereço?
- Ville-d'Avray.
- Puxa, no centro de suas operações... como a aranha no meio da sua teia. A infâmia!
Estava alterado. Toda a aventura lhe aparecia, enfim, em sua realidade monstruosa.
- Sim, as mata para ficar com o sono delas, como fazia com os animais. Ê a mesma idéia obsessiva, mas que se complicou com toda uma série de práticas e superstições incompreensíveis. Por certo lhe
parece que a analogia dos nomes com o seu é indispensável, e que não dormiria se sua vítima não fosse uma Hortense ou uma Honorine. Raciocínio de louca, cuja lógica nos escapa e cuja origem ignoramos,
mas ao qual lhe é impossível subtrair-se. Tem de procurar e achar. E acha, e leva a sua presa, a vigia e observa durante um número de dias fatídico, até o momento em que, estupidamente, pelo buraco que
abre com uma machadada na cabeça, absorve o sono que a entorpece e lhe dá o esquecimento durante um período determinado. Ainda aí, absurdo e loucura. Por que fixa esse período em tantos dias? Por que uma
vítima deve lhe assegurar 120 dias de sono e outra 125? Demência. Cálculo misterioso e certamente imbecil. Sempre ao fim de 120 ou 125 dias uma nova vítima é sacrificada; já houve seis e a sétima espera
a sua vez. Ah! senhor, que responsabilidade a sua! Um monstro semelhante não se perde de vista!
Lourtier-Vaneau não protestou. Seu acabrunhamen- to, sua palidez, as mãos que tremiam, tudo demonstrava seus remorsos e seu desespero.
- Ela me enganou. . . - disse baixo. - Estava tão calma aparentemente, tão dócil! Além disso, vive numa casa de saúde.
- Então como pode?
- Essa casa - explicou - é composta de pavilhões disseminados em meio a um grande jardim. O pavilhão em que Hermance mora é bem isolado. Tem primeiro uma peça ocupada por Félicienne, depois o quarto
de Hermance, e duas peças separadas, a última com janelas para o campo. Suponho que é aí que encerra suas vítimas.
- E o carro em que leva os cadáveres?
- As cavalariças da casa de saúde estão perto do pavilhão. Há um cavalo e um carro para as saídas. Hermance se levanta sem dúvida de noite, atrela o carro e faz passar a morta pela janela.
- E a ama que cuida dela?
- Félicienne é um pouco surda, muito velha.
- Mas de dia vê a patroa ir e vir, agir. Não seria o caso de admitir alguma cumplicidade?
- Ah! nunca. Félicienne também foi enganada pela hipocrisia de Hermance.
- No entanto foi ela que telefonou há pouco à Sra. de Lourtier sobre o anúncio. . .
- Com toda candidez. Hermance, que fala com propósito, raciocina, lê os jornais, que não compreende, como o senhor dizia, mas que percorre atenta, deve ter visto o anúncio e, tendo ouvido dizer que
eu procurava empregada, pediu a Félicienne que telefonasse.
- Sim. . . sim, é o que eu estava pressentindo - disse devagar Rénine -, ela prepara vítimas para si. . . Morta Hortense e esgotada sua quantidade de sono, saberia onde achar uma oitava vítima. .
. Mas como atrairá essas mulheres? Por que processo conseguiu pegar Hortense Daniel?
O auto corria, mas não bastante ligeiro para o gosto de Rénine que censurava o chofer.
- Anda, anda, Clément... parecemos recuar, amigo.
O medo de chegar tarde demais de repente o supliciava. A lógica dos loucos depende de uma mudança de humor, de uma idéia perigosa e esquisita que lhes atravesse a mente. A louca podia se enganar de
dia e antecipar o desenlace, como um relógio desregulado que bate uma hora mais cedo.
E seu sono estando de novo difícil, não estaria tentada a agir sem esperar o momento fixado? Não era por essa razão que permanecia fechada em seu quarto? Meu Deus, por que agonia devia estar passando
a prisioneira! Que arrepios de terror ao menor gesto do algoz!
- Mais rápido, Clément, ou pego a direção! Mais rápido, que diabo!
Chegaram enfim a Ville-d'Avray. Uma estrada íngreme à direita, muros, um amplo portão de ferro. . .
- Dá a volta na propriedade, Clément. Não vamos alertar ninguém, não é, governador? Onde fica o pavilhão?
- Bem atrás - declarou de Lourtier.
Desceram um pouco mais longe.
Rénine saiu correndo pela encosta, à beira dum caminho vazio e mal conservado. Era quase noite. Lourtier apontou:
- Ali. . . aquele prédio retirado. . . Olhe, aquela janela, no térreo, é um dos dois quartos separados.. . e ela sai evidentemente por ali.
- Mas daqui se diria que tem grades.
- Sim, tem, e por isso ninguém desconfiava, mas deve ter aberto uma passagem.
O térreo era construído acima de caves altas. Rénine trepou ligeiro e pôs o pé numa saliência de pedra.
Uma das grades faltava.
Juntou a cabeça ao vidro e olhou.
O interior da peça estava escuro. Pôde no entanto distinguir, ao fundo, uma mulher sentada ao lado de outra estendida num colchão. A primeira sustinha a cabeça nas mãos e observava a outra deitada.
- É ela - cochichou de Lourtier que escalara também a parede. - A outra está amarrada.
Rénine tirou do bolso um diamante de vidraceiro e cortou um dos vidros, sem que o ruído despertasse a atenção da doida.
Deslizou em seguida a mão direita até o fecho e o virou suavemente, enquanto com a esquerda assestava um revólver.
- Não vai atirar! - suplicou de Lourtier.
- Se for preciso, sim.
A janela foi empurrada devagarinho, mas surgiu um obstáculo que Rénine não notara - uma cadeira que oscilou e caiu.
Num pulo, saltou para o interior e largou a arma para agarrar a doida. Mas ela não o esperou. Prontamente abriu a porta e fugiu, dando um grito rouco.
Lourtier queria ir atrás.
- Para quê? - disse Rénine se ajoelhando. - Salvemos a vítima primeiro.
Acalmou-se de imediato: Hortense vivia.
Seu cuidado inicial foi cortar as cordas e tirar a mordaça que a sufocava. Atraída pelo barulho, a ama acorrera com um lampião, que Rénine pegou para iluminar Hortense.
Ficou perplexo: lívida, extenuada, com o rosto emagrecido e os olhos a brilhar de febre, Hortense Daniel procurou no entanto sorrir.
- Eu o aguardava - murmurou. - Não desesperei um minuto. . . tinha confiança em você. . .
E desmaiou.
Uma hora mais tarde, depois de inúteis procuras em volta do pavilhão, foram encontrar a doida fechada num grande armário do celeiro. Tinha se enforcado.
Hortense não quis descansar ali mais uma hora. Era aliás preferível que o pavilhão estivesse vazio quando a ama fosse comunicar o suicídio da louca. Rénine explicou com minúcia a Félicienne a conduta
que devia ter; logo, ajudado pelo chofer e por Lourtier, transportou a jovem ao automóvel e a levou para casa dela.
A convalescença foi rápida. Dois dias depois Réni- ne interrogava Hortense com muita cautela, querendo saber como conhecera a louca.
- Simplesmente - disse. - Meu marido, que sofre um pouco das faculdades, como lhe contei, é tratado em Ville-d'Avray e às vezes vou visitá-lo, sem que ninguém saiba, confesso. Foi assim que falei com
essa infeliz e que naquele dia me fez sinal para ir vê-la. Estávamos sozinhas. Entrei no pavilhão. Ela se jogou sobre mim e me reduziu à impotência sem que eu pudesse mesmo gritar por socorro. Julguei
que fosse uma brincadeira.. . e de fato era, não é?. . . uma brincadeira de demente. Foi muito doce comigo, mas assim mesmo ia me deixando morrer de fome.
- E não tinha medo?
- De morrer de fome? Não, aliás ela me dava de comer de tempos em tempos, quando lhe palpitava. E afinal estava tão certa de você!
- Sim, mas havia outra coisa. . . outra ameaça. . .
- Ameaça, qual? - disse ingênuamente.
Rénine estremeceu. Via de repente que Hortense - coisa estranha à primeira vista, mas bem natural - não tinlia nunca desconfiado, nem desconfiava ainda, do espantoso perigo que correra. Nunca aproximara
no espírito os crimes da Mulher do Machado e sua própria aventura.
Ele julgou que sempre haveria tempo para escla- recê-la. De resto, dias mais tarde, Hortense, a quem o médico recomendara um pouco de repouso e isolamento, partiu para a casa de uns parentes perto
da vila de Bassicourt, no centro da França.
Passos na Neve
La Roncière, por Bassicourt, 14 de novembro.
Príncipe Rénine Avenida Haussmann, Paris.
Meu caro amigo:
Deve me achar uma ingrata. Há três semanas que estou aqui e nem uma carta minha! Nem um obrigado! E no entanto terminei entendendo de que morte horrível você me arrancou e o segredo daquela história
tétrica! Mas, que quer? Saí de tudo isso nu
tal estado de abatimento! Tinha tanta necessidade de repouso e solidão! Ficar em Paris? Continuar em nossas ündanças? Não, mil vezes não. Chega de aventuras.
As do próximo são muito interessantes. Mas aquelas em que somos vítimas, com o risco de morrer. . . Ah, caro amigo, que horror! Como esquecer isso nunca?...
Ao passo que aqui, em La Roncière, é a grande calma. Minha velha prima Ermelin me cuida e mima como uma enferma. Ganho cores e tudo vai bem dessa maneira. Tudo vai tão bem que não penso mais em absoluto
em me interessar pelos negócios alheios, de modo algum. Assim, imagine - lhe conto isso por ser você incorrigível, curioso como uma zeladora e sempre disposto a se ocupar do que não lhe concerne - imagine
que ontem assisti a um encontro bem estranho. Antoi-
nette me tinha levado à hospedaria de Bassicourt, onde tomávamos chá na sala grande, entre campónios, pois era dia de feira, quando a chegada de três pessoas, dois homens e uma mulher, pôs de repente fim
às conversas.
Um dos homens era um fazendeiro gordo com um blusão comprido, uma cara rubicunda e alegre, enquadrada por suíças brancas. O outro, mais jovem, com roupa de veludo cotelê, tinha um rosto amarelo, seco
e rabugento. Os dois levavam em bandoleira um fuzil de caça. Entre eles, uma jovem delgada, pequena, envolta num manto escuro e com um gorro de pele, o rosto um pouco magro e excessivamente pálido, surpreendia
por sua distinção e sua delicadeza.
- O pai, o filho e a nora - murmurou minha prima Ermelin.
- Como? Esta encantadora criatura é a mulher deste labrego?
- Ê a nora do barão de Gorne.
- Barão, este velhote aí?
- Descendente duma família muito nobre que residia outrora no castelo. Viveu sempre como um camponês; grande caçador, grande bebedor, grande chicanista, sempre com um processo em andamento, mais ou
menos arruinado. O filho, Mathias, mais ambicioso e menos agarrado à terra, cursou Direito, foi para a América e, de volta à vila, por falta de dinheiro, se apaixonou por uma moça da vila próxima. A infeliz,
não se sabe bem por que, consentiu no casamento. E há cinco anos que vive como uma reclusa, ou antes, como uma prisioneira, num pequeno sítio pertinho daqui, o Solar do Poço.
- Entre o pai e o filho? - perguntei.
- Não, o pai mora no fim da vila, numa granja isolada.
- E o Sr. Mathias é ciumento?
- Um tigre.
- Sem motivo?
- Sem, pois não por culpa de Natalie de Gorne, que é a mulher mais honesta, um bonito cavaleiro vagueia, há uns meses, em torno do solar. Porém os de Gorne não deixam de estar furiosos.
- Como, o pai também?
- O bonito cavaleiro é o último descendente dos que outrora compraram o castelo. Daí o ódio do velho de Gorne. Jérôme Vignal, que conheço e gosto muito, é bonito, muito rico e jurou - é o velho que
conta isso quando fica alto - raptar Natalie de Gorne. Olhe, fique escutando. . .
Em meio a um grupo que se divertia em fazê-lo beber e enchia de perguntas, o velhote, já meio alegre, bradava com um tom de indignação e um sorriso malandro, num contraste que ficava cômico.
- Ele vai pagar, lhes digo, o boa-pinta! Que venha furtar pro nosso lado e cobiçar a pequena. . . Peixe no anzol! No que se aproxime demais, um tiro de fuzil, não é, Mathias?
Agarrou a mão da nora.
- E a pequena também sabe se defender - riu. - Hem, Natalie? Nada de galãs, não é?
Perturbada por se dirigirem assim a ela, a moça enrubesceu, enquanto seu marido rezingava:
- Ê melhor que prenda a língua, meu pai. Há coisas que não se falam alto.
- Coisas que dizem respeito à honra se resolvem em público - ripostou o velho. - Para mim, a honra dos de Gorne está antes de tudo, e não será este namorador, com seus ares de parisiense. . .
Parou em seco. Diante dele, alguém que acabava de entrar parecia esperar o fim da frase. Era um rapaz grande e sólido, com roupa de andar a cavalo e chicote na mão, a fisionomia enérgica, um pouco
dura, animada por belos olhos que sorriam ironicamente.
- jérôme Vignal - assoprou minha prima.
O jovem não parecia de forma alguma embaraçado. Notando Natalie, cumprimentou-a gravemente e, como Mathias de Gorne desse um passo em sua direção, o encarou como a dizer:
- E daí?
A atitude era tão insolente que os de Gorne despegaram os fuzis, ficando com eles nas mãos como caçadores à espreita. O filho tinha um olhar feroz.
Jérôme ficou impassível sob a ameaça. Ao fim de uns segundos, falou ao hospedeiro:
- Me diga, vim ver o seu Vasseur. Mas sua barraca está fechada. Vai me fazer o favor de lhe entregar a bainha do meu revólver que descoseu, não é?
Entregou a bainha ao homem e acrescentou rindo:
- Fico com o revólver para o caso de precisar. Nunca se sabe. . .
Sempre impassível, tirou um cigarro duma cigarreira de prata, acendeu com seu isqueiro e saiu. Pela janela, se viu ele montar e seguir em trote curto.
- Pelo sangue de Deus! - blasfemou o velho de Gome, engolindo um copo de conhaque.
Seu filho lhe pôs a mão sobre a boca e o obrigou a sentar. Junto deles, Natalie de Gorne chorava. . .
Eis, caro amigo, a minha história. Como vê, não é palpitante e não merece a sua atenção. Nada de enigmático nela. Nenhum papel a ser desempenhado por você. E insisto especialmente em que não busque
aí o pretexto para uma intervenção, que seria inteiramente inoportuna. Claro, teria prazer em que essa infeliz mulher' que, parece, é uma mártir, fosse protegida. Mas, lhe repito, deixemos os outros se
safarem e fiquemos com nossas passadas experiências..."
Rénine acabou a carta, releu-a e concluiu:
- Vamos, tudo está pronto para o melhor. Não se deseja mais continuar nossas pequenas experiências porque estamos na sétima e se receia a oitava que, de acordo com nosso pacto, tem um significado todo
especial. Não se quer mais. . . querendo. . . sem dar a impressão de querer.
Esfregou as mãos. A carta lhe trazia um testemunho precioso da influência que, aos poucos, doce e pacientemente, adquirira sobre a moça. Era o dela um sentimento complexo, onde havia admiração, uma
confiança sem limites, preocupação às vezes, receio e quase espanto, mas amor também, tinha a certeza. Companheira de aventuras em que tomava parte com uma camaradagem que excluía todo embaraço entre os
dois, tinha agora um medo súbito, e uma espécie de pudor misturado com coquetismo a levava a subtrair-se.
Era um domingo e na mesma noite Rénine tomou o trem.
De manhãzinha, após ter percorrido em diligência, por um caminho branco de neve, as duas léguas que separavam a vilazinha de Pompignat, onde desceu, da vila de Bassicourt, soube que sua viagem poderia
ter alguma utilidade: de noite, tinham-se ouvido três tiros para os lados do Solar do Poço.
- O deus do amor e da sorte me favorece - pensou. - Se houve conflito entre o marido e o amor, chego a tempo.
- Três tiros, chefe da guarda, escutei como estou lhe vendo - declarou um camponês que os guardas interrogavam na sala da hospedaria, em que Rénine entrara.
- Eu também - disse o garçom da casa. - Três tiros. . . Era talvez meia-noite. A neve, que caía desde as nove, tinha parado; e aquilo ressoou na planície um depois do outro... pã, pã, pã.
Cinco outros camponeses ainda testemunharam. O cabo da guarda e seus homens não tinham ouvido nada; seu posto ficava de costas para a planície. Mas chegaram um peão e uma mulher dizendo-se empregados
de Ma- thias de Gome e que, de folga desde a antevéspera, por causa do domingo, vinham do Solar por não terem podido entrar.
- A porta do muro está fechada, seu Cabo - disse um dos dois -, pela primeira vez. Todas as manhãs, seu Mathias vai abrir ele mesmo quando batem seis horas, no inverno como no verão. E já são mais
de oito horas. Chamei, chamei; ninguém. Então viemos falar com o senhor.
- Podiam se informar com o pai de Gorne - disse o cabo. - Mora no caminho.
- Ah, palavra que sim, mas não pensamos nisso.
- Vamos lá - decidiu o guarda.
Dois de seus homens o acompanharam, além de camponeses e um serralheiro que foi chamado. Rénine se juntou ao grupo.
Em seguida, no fim da vila, se passou diante do pátio do velho de Gorne, e Rénine o reconheceu pela descrição que Hortense tinha feito.
O velhote atrelava seu carro. Posto a par do assunto, caiu na risada.
- Três tiros? Pã, pã, pã? Mas, meu caro cabo, o fuzil de Mathias só tem dois cartuchos.
- E esta porta fechada?
- O rebento está dormindo, é tudo. Ontem de noite veio esvaziar uma garrafa comigo, duas talvez. . . ou mesmo três. . . e esta manhã dorme até tarde com a Natalie.
Subiu ao banco de sua velha carreta, com o toldo de gado todo remendado, e estalou o chicote.
- Até já, turma. Não vão ser os três tiros de vocês que me impedirão de ir à feira de Pompignat, como segunda-feira. Tenho dois bezerros sob o toldo que não podem mais esperar a faca. Bom dia, camaradas.
Voltaram à estrada.
Rénine se acercou do cabo e disse seu nome.
- Sou um amigo da Srta. Ermelin, do sítio de La Rondière, e, como é cedo demais para me apresentar em sua casa, peço licença para dar com você esta volta pelo Solar. A Srta. Ermelin se dá com a Sra.
de Gorne, e ficarei satisfeito em tranqüilizá-la, pois espero que nada tenha acontecido no Solar, não é?
- Se houve qualquer coisa - respondeu o cabo -, vamos lê-la como sobre um mapa, em vista da neve.
Era um homem jovem, simpático, que parecia inteligente e furão. Desde o início, tinha registrado com clarividência as marcas dos passos que Mathias deixara na noite anterior, ao voltar para casa,
marcas que logo se misturaram às formadas nos dois sentidos pelo criado e a criada da fazenda. Chegaram assim ante os muros do sítio e o serralheiro abriu facilmente a porta.
Dela em diante, só uma pista se oferecia na neve imaculada, a de Mathias, e foi fácil notar que o filho devia ter participado amplamente nas libações do pai; a linha dos passos apresentava curvas
bruscas que a faziam desviar até as árvores da avenida.
Duzentos metros à frente, as construções gretadas e deterioradas do Solar do Poço. A porta principal estava aberta.
- Entremos - disse o cabo.
E mal atravessaram o umbral, murmurou:
- Oh! oh! O velho de Gorne se enganou não vindo. Andaram lutando aqui.
A sala grande estava em desordem. Duas cadeiras quebradas, a mesa derrubada, cacos de porcelana e vidro mostravam a violência da briga. O grande relógio que jazia no chão marcava onze e meia.
Guiados pela empregada, subimos depressa ao primeiro andar. Nem Mathias nem sua mulher estavam ali. Mas a porta do quarto deles tinha sido arrombada com um martelo que foi encontrado em cima da cama.
Rénine e o cabo tornaram a descer. A sala se comunicava por um corredor com a cozinha atrás, que possuía uma saída direta para um patiozinho cercado, tomado ao jardim. No fim desse pátio, havia o
poço, perto do qual era forçoso passar.
Ora, da porta da cozinha ao poço, a neve, que não era muito espessa, tinha sido varrida de modo irregular, como se tivessem arrastado um corpo. E em volta do poço, marcas de pés se confundiam, mostrando
que a luta devia ter recomeçado neste lugar. O cabo encontrou as pegadas de Mathias e outras, novas, mais elegantes e finas.
Essas continuavam sozinhas em direção ao jardim. E trinta metros adiante, perto delas, se recolheu um browning, que um dos camponeses reconheceu como semelhante ao que, na antevéspera, Jérôme Vignal
tinha mostrado na hospedaria.
O cabo examinou o pente de balas: três das sete tinham sido disparadas.
Assim o drama era reconstituído aos poucos em suas grandes linhas, e o cabo, que ordenara que se mantivessem afastados e respeitassem a localização de todas as coisas, regressou ao poço, se inclinou,
fez algumas perguntas à criada, e murmurou se aproximando de. Rénine:
- Isso me parece bem claro.
Rénine lhe tomou o braço.
- Falertios franco, cabo. ConheçO bastante o assunto, me dando, como lhe disse, com a Srta. Ermelin, que é amiga de Jérôme Vignal e conhece também a Sra. de Gorne. Será que supõe?...
- Não quero supor nada. Verifico apenas que alguém esteve aqui ontem de noite. . .
- Por onde entrou? As únicas marcas de uma pessoa vindo para o Solar são as do Sr. de Gorne.
- É que a outra pessoa, cujas pegadas mostram botinas mais elegantes, chegou antes de cair a neve, isto é, antes das nove horas.
- Teria então se escondido num canto da sala, espreitando a volta do Sr. de Gorne, que chegou depois da neve?
- Precisamente. Logo que Mathias entrou, o indivíduo saltou sobre ele. Houve luta. Mathias escapou pela cozinha. O indivíduo o perseguiu até o poço e deu três tiros.
- E o cadáver?
- No poço.
Rénine protestou.
- Oh! oh! como vai depressa!
- Ora, senhor, aí está a neve a nos contar a história. E nos diz claramente: depois da briga e dos três tiros, um único homem se afastou e abandonou a fazenda, um único, e os traços de seus passos
não são os de Mathias de Gorne. Então onde pode estar Mathias de Gorne?
- Mas este poço.. . Não se pode dar uma busca?
- Não, é um poço sem fundo acessível. É conhecido na região, tanto que deu o nome ao Solar.
Assim julga realmente?...
- Repito, Depois de cair a neve, uma chegada só, Mathias. Uma partida, o estranho.
- E a Sra. de Gorne? Morta também e jogada no poço como o marido?
- Não, raptada.
- Raptada?
- Recorde a porta do seu quarto, arrombada a marteladas. . .
- Vamos, vamos, cabo, acaha de afirmar que houve apenas uma partida, a do estranho.
- Incline-se. Examine os passos desse homem. Olhe como se afundam na neve, ao ponto de chegar ao solo. São passos de um homem levando um fardo pesado. O estranho levava a Sra. de Gorne nos ombros.
- Há então uma saída nessa diretriz?
- Sim, uma portinha cuja chave Mathias de Gorne não largava. Ele deve lhe ter tirado essa chave.
- É uma saída para o campo?
- Sim, um caminho que a mil e duzentos metros leva à estrada municipal. . . E sabe aonde?
- Não.
- Ao lado do castelo.
- O castelo de Jérôme Vignal!
Rénine disse entre dentes:
- Ah, isso está ficando preto. Se a pista continuar até o castelo, estamos feitos. . .
A pista continuava até o castelo. Puderam se dar conta depois de ter seguido pelos campos, onde a neve aqui e ali se amontoava. As cercanias do grande portão de ferro estavam varridas, mas observaram
que uma outra pista, formada pelas duas rodas de um carro, seguia, num sentido oposto, para a vila.
O cabo bateu. O porteiro, que tinha igualmente desentulhado a aléia principal, veio com uma vassoura na mão. Interrogado, respondeu que Jérôme Vignal tinha partido de manhã antes de que alguém se levantasse
e tendo atrelado ele mesmo o seu carro.
- Nesse caso - disse Rénine quando se afastaram - só temos de seguir a marca das rodas.
- Inútil - declarou o cabo. - Pegaram o trem.
- Na estação de Pompignat, de onde vim? Mas então teriam passado pela vila. . .
- Claro, escolheram o outro caminho, porque leva à capital do distrito onde param os rápidos. É aí que estão os responsáveis pela justiça. Vou telefonar e, como nenhum trem deixa a capitai antes das
onze horas, só vão ter de vigiar a estação.
- Creio que está na estrada certa, cabo - disse Rénine -, e o felicito pela maneira com que conduziu sua investigação.
Separaram-se.
Rénine esteve quase indo ter com Hortense Daniel no sítio La Roncière, mas, pensando bem, preferiu deixar para vê-la depois que as coisas tomassem um aspeto mais favorável e, voltando à hospedaria,
mandou entregar a ela estas linhas:
Muito querida amiga:
Acreditei entender ao ler a sua carta que, sempre tocada pelas coisas do coração, desejava proteger os amores de ]érôme e de Natalie. Ora, tudo faz supor que esse senhor e essa dama, sem pedir conselho
à sua protetora, fugiram depois de ter jogado Mathias de Gorne no fundo dum poço.
Desculpe por não visitá-la. Esse caso é endiabrada- mente obscuro e a seu lado não teria a liberdade de espírito necessária para nele pensar. . .
Eram dez e meia. Rénine foi passear no campo, com as mãos nas costas, e sem olhar o belo espetáculo das campinas brancas. Voltou para almoçar, sempre pensativo, indiferente à parolice dos clientes
da casa, que à sua volta comentavam os acontecimentos.
Subiu em seguida a seu quarto e estava dormindo há um bom tempo quando batidas na porta o despertaram. Abriu.
- Você!.. . você. . . - murmurou.
Hortense e ele se fitaram uns segundos silenciosamente, dando as mãos, como se nada, nenhum pensamento diverso e nenhuma palavra pudessem se mesclar à alegria de se encontrarem. Por fim, ele falou:
- Tive razão em vir?
- Sim - disse ela com doçura -, sim, eu o esperava .. .
- Talvez tivesse sido preferível que me fizesse vir mais cedo, em lugar de esperar... Os acontecimentos não esperaram e não sei muito o que aguarda Jérôme Vignal e Natalie de Gorne.
- Como! não está a par? - disse com vivacidade.
- A par de quê?
- Foram presos. Iam tomar o rápido.
Rénine objetou:
- Presos. . . não. Não se prende assim. Têm de interrogá-los primeiro.
- É o que estão fazendo nesse momento. A justiça investiga.
- Onde?
- No castelo. E como estão inocentes. . . Porque estão, não é? Não admite mais que eu que sejam culpados?
Ele respondeu:
- Não admito nada e não quero admitir nada, cara amiga. No entanto devo lhe dizer que tudo está contra eles. . . Salvo um ponto, é que tudo está demasiado contra eles. Não é normal que tantas provas
sejam acumuladas e que quem mate conte sua história com essa candidez. Fora disso, nada mais que trevas e contradições.
- Então?
- Estou meio tolhido.
- Mas tem um plano?
- Nenhum, até o momento. Ah! se eu pudesse ver Jérôme Vignal... ver Natalie de Gorne, e ouvi-los e saber o que dizem em sua defesa! Mas compreende bem que não me permitirão lhes fazer perguntas nem
assistir ao interrogatório oficial, demais, deve ter terminado.
- No castelo sim, mas vai continuar no Solar.
- Vão levá-los ao Solar? - fez ele vivaz.
- Sim... ao menos pelo que disse um dos motoristas dos autos dos funcionários.
- Oh! nesse caso tudo se arruma! O Solar! Mas aí estaremos na primeira frisa. Veremos e ouviremos tudo, e como me basta uma palavra, uma entonação, um piscar de olhos para descobrir o pequeno indício
que me falta, podemos ter alguma esperança. Venha, cara amiga.
Levou-a pela estrada direta que tinha seguido de manhã e que ia dar na porta que o serralheiro abrira. Os guardas, deixados de vigilância no Solar, tinham feito uma passagem na neve, ao longo da linha
das pegadas e em volta da casa. A sorte permitiu que Hortense e Rénine se aproximassem sem ser vistos e entraram, por uma janela lateral, num corredor onde havia uma escada de serviço. No fim dos degraus,
havia uma pecinha que só tinha luz através de uma espécie de clarabóia sobre a sala grande do térreo. De manhã, Rénine tinha notado esta clarabóia, coberta com um pano pelo lado de cima. Ele afastou a
fazenda e cortou um dos vidros.
Minutos depois, um barulho de vozes veio do outro lado da casa, à beira do poço, sem dúvida. O ruído se tornou mais nítido e várias pessoas entraram no prédio. Umas subiram ao primeiro andar, ao passo
que o cabo vinha para a sala com um jovem de que só viam a alta estatura.
- Jérôme Vignal! - fez Hortense.
- Sim - disse Rénine. - Interrogam primeiro a Sra. de Gorne lá em cima, em seu quarto.
Um quarto de hora passou. As pessoas do primeiro andar tornaram a descer e entraram. Eram o substituto do procurador, seu escrivão, um comissário de polícia e dois agentes.
A Sra. de Gorne foi introduzida e o substituto solicitou a Jérôme Vignal que se adiantasse.
O rosto de Jérôme era bem o do homem enérgico que Hortense pintara em sua carta. Não demonstrava nenhuma inquietude, mas antes decisão e uma vontade firme. Natalie, baixa e miudinha de aparência, com
olhos febris, dava no entanto uma mesma impressão de calma e segurança.
O substituto, que examinava os móveis em desordem e os vestígios do combate, a fez sentar-se e disse a Jérôme:
- Senhor, até aqui lhe fiz poucas perguntas, desejando antes de tudo, no curso da sindicância sumária que fiz em sua presença e que será retomada pelo juiz de instrução, lhe mostrar as razões graves
por que lhe solicitei que interrompesse sua viagem e voltassem aqui com a Sra. de Gorne. Está agora em condições de refutar os agravos de fato perturbadores que pesam sobre o senhor. Peço-lhe, pois, que
me diga a exata verdade.
- O que se abate sobre mim mal me comove - respondeu Jérôme. - A verdade que pede há de ser mais forte que todas as mentiras somadas contra mim pela má sorte.
- Estamos aqui para chegar â verdade - afirmou o substituto.
- Ê esta.
Recolheu-se um instante e narrou, com voz clara e franca:
- Amo profundamente a Sra. de Gorne. Desde a primeira hora em que a encontrei, tive por ela verdadeiro amor, mas, por grande e violento que fosse, sempre se viu dominado pelo cuidado com sua honra.
Amo-a, mas a respeito ainda mais. Ela deve ter-lhe dito, mas torno a lhe dizer: a Sra. de Gorne e eu nos falamos pela primeira vez esta noite.
Prosseguiu com voz surda:
- Respeito-a tanto mais quanto não é feliz. Como todo mundo vê e sabe, sua vida é um suplício de cada minuto. Seu marido a perseguia com um ódio feroz e um ciúme exasperado. Perguntem aos criados.
Eles lhes dirão o calvário de Natalie de Gorne, as sevícias que recebia e as ofensas que devia suportar. Foi a esse calvário que desejei pôr termo usando do direito de socorro que qualquer um possui quando
há um excesso de desgraça e injustiça. Três vezes adverti o velho de Gorne, pedindo que interviesse, mas encontrei nele, em relação à nora, um ódio quase idêntico ao do filho, o ódio que muitos seres sentem
pelo que é belo e nobre. Foi então que resolvi agir diretamente e tentei ontem à noite, com Mathias de Gorne, uma saída um pouco insólita, mas que podia, devia ter êxito, tendo em vista o tipo que era.
Turo-lhe, senhor substituto, que tinha apenas a intenção de falar com Mathias de Gorne. Sabendo de detalhes de sua vida que me permitiam agir sobre ele eficazmente, quis aproveitar essa vantagem para atingir
meu objetivo. Se as coisas se desenvolveram de outro modo, não sou inteiíamente responsável. Vim, pois, um pouco antes das nove. Os criados, sabia, estavam ausentes. Ele próprio me abriu a porta, estava
sozinho.
- O senhor afirma - interrompeu o substituto -, como a Sra. de Gome aliás o fez há pouco, uma coisa que é manifestamente contrária à verdade. Mathias de Gorne não voltou ontem para casa senão às onze
horas. Há duas provas precisas disso: o testemunho de seu pai e a marca de seus passos na neve, que caiu das nove e quinze às onze.
- Sr. substituto - declarou Jérôme Vignal, sem reparar no mau efeito produzido por sua obstinação -, conto as coisas tais como aconteceram e não como podem ser interpretadas. Prossigo. Este relógio
marcava nove menos dez, exatamente, quando entrei nesta sala. Pensando num ataque, o Sr. de Gorne tinha pegado seu fuzil. Pus meu revólver em cima da mesa, fora do meu alcance, e me sentei.
"- Quero lhe falar, senhor - lhe disse. - Tenha a bondade de me escutar.
"Não se mexeu nem articulou uma sílaba. Falei. E cruamente, sem nenhuma dessas explicações prévias que teriam podido atenuar a brutalidade de minha proposta, pronunciei estas frases que preparara:
"- Há vários meses, senhor, fiz uma sindicância minuciosa sobre a sua situação financeira. Todas as suas terras estão hipotecadas. Assinou papéis cujo vencimento se aproxima e que é materialmente
impossível que honre. Do lado de seu pai, nada a esperar, pois ele próprio está bem mal. De modo que está perdido. Venho salvá-lo.
"Observou-me, sempre taciturno; sentou, o que significava - não é? - que minha ação não o desagradava muito. Então tirei do bolso um maço de cédulas que depus diante dele, e prossegui:
"- Eis sessenta mil francos. Compro-lhe o Solar do Poço e as terras adjuntas, ficando as hipotecas a meu cargo. E exatamente o dobro do que isso vale.
"Vi seus olhos brilharem.
"Murmurou:
"- As condições?
"- Uma só, sua paHida para a América.
"Sr. substituto, discutimos durante duas horas. Não que minha oferta o indignasse; não me teria arriscado, se não conhecesse meu adversário; mas queria mais e discutia asperamente, evitando pronunciar
o nome da Sra. de Gorne, a quem eu próprio não fiz uma única alusão. Dávamos a impressão de dois indivíduos que, a propósito dum litígio qualquer, procuram um meio- termo, um ponto em que se entendam,
enquanto de fato se tratava do destino e da felicidade de uma mulher. Enfim, cansado do debate, aceitei um compromisso, e chegamos a um acordo, que quis tornar definitivo imediatamente. Duas cartas foram
trocadas entre nós, uma em que me cedia o Solar do Poço contra a quantia entregue, outra, que guardou imediatamente no bolso, pela qual lhe devia enviar para a América uma quantia igual no dia em que o
divórcio fosse homologado.
"O assunto estava assim concluído. Estou certo de que neste momento ele aceitava de boa fé. Considerava- me menos um inimigo e um rival que alguém que lhe prestasse um serviço. Foi mesmo ao ponto,
para que eu pudesse voltar para casa diretamente, de me dar a chave que abre a portinha para o campo. Infelizmente, enquanto eu punha o boné e o sobretudo, cometi o erro de deixar em cima da mesa a carta
de venda assinada por ele. Num segundo, Mathias de Gorne viu o partido que poderia tirar de meu desleixo. Conservar sua propriedade, sua mulher. . . e o dinheiro. Com presteza, escondeu a folha, me assentou
na cabeça uma coronha- da, largou o fuzil e me apertou a garganta com as mãos. Cálculo errado. . . Mais forte que ele, depois de uma luta viva mas que durou pouco, o dominei e atei com uma corda caída
a um canto.
"Senhor substituto, se a decisão de meu adversário tinha sido brusca, a minha não foi menos rápida. Já que afinal ele tinha aceito a transação, eu o obrigaria a manter seus compromissos, ao menos
na medida em que estava interessado. Numas passadas, subi ao primeiro andar.
"A Sra. de Gorne devia estar lá e decerto teria ouvido o ruído de nossas discussões. À luz duma lanterna de bolso, entrei em três quartos. O último estava fechado a chave. Bati. Nenhuma resposta.
Mas me achava num desses momentos em que nenhum obstáculo detém a gente. Num dos quartos, tinha visto um martelo. Fui buscá-lo e arrombei a porta.
"Natalie de Gorne lá estava, realmente, caída no chão, desmaiada. Tomei-a nos braços, desci e passei pela cozinha. Fora, vendo a neve, pensei que minhas pegadas seriam fáceis de seguir, mas que importava?
Devia despistar Mathias de Gorne? Em absoluto. Com os sessenta mil francos, com o papel em que me comprometia a lhe mandar uma soma igual no dia do divórcio, com o seu sítio, devia ir-se embora, me deixando
Natalie. Nada havia mudado entre nós, fora uma coisa: em vez de esperar por sua vontade, tinha me apoderado de repente da prenda preciosa que almejava. Não era, pois, um retorno ofensivo de Mathias de
Gorne que eu temia, mas antes a censura e a indignação de Natalie de Gorne. Que diria, ao se ver levada?
"As razões por que não fui censurado, creio que a Sra. de Gorne teve a franqueza de lhe dizer. O amor chama o amor. Em minha casa, esta noite, quebrada pela emoção, me confessou seus sentimentos. Amava-me
como eu a amava. Nossos destinos se confundiam. E os dois partimos esta manhã às cinco horas, sem prever por um instante que a justiça pudesse nos pedir contas."
A narrativa de Jérôme Vignal acabara. Tinha dito tudo de uma vez, como um texto aprendido de cor e em que nada pode ser mudado.
Houve um instante de pausa.
No reduto em que se ocultavam, Hortense e Rénine não tinham perdido uma só das palavras ditas. A jovem murmurou:
- Tudo isso é bem possível e, em todo caso, muito lógico.
- Mas há as objeções - disse Rénine. - Escute-as. são temíveis. Há sobretudo uma. . .
Esta, o substituto do procurador formulou de saída:
- E o Sr. de Gorne em tudo isso?. . .
- Mathias de Gorne? - perguntou Jérôme.
• - Sim. Contou, com forte cunho de sinceridade, uma seqüência de fatos que estou disposto a admitir. Infelizmente, esquece um ponto de importância capital: que aconteceu com Mathias de Gorne? Deixou-o
atado nesta peça. Ora, esta manhã não estava aqui.
- Naturalmente, aceitando afinal o negócio, deve ter ido embora.
- Por onde?
- Sem dúvida pelo caminho que conduz à casa de seu pai.
- Onde estão as marcas de seus passos? Este lençol de neve que nos envolve é uma testemunha imparcial. Depois de sua luta com ele, se vê, na neve, o senhor se afastar. Mas a ele não, por quê? Veio
para cá e não regressou; onde se acha? Nenhum vestígio. Ou antes.. .
O substituto baixou a voz:
- Ou antes, sim, alguns vestígios no caminho e em volta do poço. . . vestígios que mostram que a maior luta teve lugar ali.. . E depois, nada.. . mais nada...
lérôme deu de ombros.
- Já me falou nisso e isso é uma acusação de assassinato contra mim. Não respondo a ela.
- Me responderá sobre o fato de terem apanhado o seu revólver a vinte metros do poço?
- Tampouco.
- E sobre a estranha coincidência desses três tiros ouvidos na noite e dessas três balas que faltam no seu revólver?
- Não, senhor. Não houve, como julga, luta suprema junto ao poço, já que deixei o Sr. de Gorne atado nessa peça, onde também deixei o meu revólver. E, de outro lado, se ouviram tiros, não foram dados
por mim.
- Fortuitas coincidências então?
- Cabe à justiça explicá-las. Meu único dever é dizer a verdade e não tem o direito de me pedir mais que isso.
- Mas se essa verdade contraria os fatos observados?
- É que os fatos estão errados, senhor.
- Seja. Mas até o dia em que a justiça os possa pôr de acordo com as suas afirmativas, compreende a obrigação em que estou de o manter à disposição dos juízes.
- E a Sra. de Gorne? - inquiriu Jérôme ansioso.
O substituto não respondeu. Falou com o comissário, e logo com um dos agentes a quem ordenou que fizesse vir um dos dois automóveis. A seguir, se virou para Natalie.
- Senhora, ouviu o depoimento do Sr. Vignal. Concorda absolutamente com o seu. O Sr. Vignal afirma que estava desmaiada quando a transportou. Mas esse desmaio persistiu durante o trajeto?
Dir-se-ia que o sangue-frio de Jérôme tinha reafirmado a segurança da moça. Replicou:
- Não despertei senão no castelo, senhor.
- É extraordinário. Não ouviu as três detonações que quase toda a vila ouviu?
- Não ouvi.
- E não viu nada do que se passou perto do poço?
- Nada se passou ali, já que Jérôme Vignal o afirma.
- Então o que foi feito do seu marido?
- Ignoro.
- Deveria no entanto ajudar a justiça e nos comunicar ao menos as suas hipóteses. Julga que houve um acidente e que o Sr. de Gorne, que se avistara com o pai, tendo bebido mais que o costume, possa
ter falseado o equilíbrio e caído no poço?
- Quando meu marido voltou da casa do pai, não estava de modo algum em estado de embriaguez.
- Mas o pai declarou que beberam duas ou três garrafas de vinho.
- Seu pai se engana.
- Porém a neve não se engana, senhora - irritou- se o substituto. - Ora, os desenhos dos passos são todos sinuosos.
- Meu marido voltou às oito e meia, antes de cair a neve.
Ele deu uma punhada na mesa.
- Mas está falando contra a própria evidência!.. . Essa camada de neve é imparcial!. . . Que entre em contradição com o que não pode ser controlado, admito. Mas isso. passos na neve. . . na neve. .
.
Conteve-se.
O auto parou diante das janelas. Tomando uma brusca decisão, disse a Natalie:
- Esteja à disposição da justiça, senhora, e aguarde neste Solar. . .
E fez sinal ao cabo para levar Jérôme Vignal ao auto.
A partida estava perdida para os dois amantes. Mal reunidos, deviam se separar e debater, longe um do outro, contra as acusações mais inquietantes.
Jérôme avançou um passo para Natalie. Trocaram um longo e dorido olhar. Inclinou-se diante dela e foi para a porta, seguindo o chefe da guarda.
- Alto! - gritou uma voz. - Meia volta, cabo! Jérôme Vignal, nem um movimento!
Perplexo, o substituto ergueu a cabeça, como os outros figurantes. A voz vinha do alto da sala. A clarabóia tinha sido aberta e Rénine gesticulava por ali:
- Desejo que me ouçam!. . . Tenho diversas observações a fazer; especialmente uma, a propósito da sinuosidade das pegadas. Tudo está aí! Mathias não tinha bebido. - Virou-se e passou as pernas pela
abertura, dizendo a Hortense que, espantada, tratava de retê-lo:
- Não se mexa, amiga. Não há nenhuma razão para que venham nos incomodar.
E, largando as mãos, saltou na sala.
O substituto parecia assombrado:
- Mas enfim, senhor, de onde vem? Quem é?
Rénine limpou o pó da roupa e respondeu:
- Me desculpe, senhor substituto, devia ter vindo pelo caminho de todos, mas estava com pressa. E, além disso, se entrasse pela porta em vez de cair do teto, minhas palavras produziriam menos efeito.
O substituto se acercou, furioso.
- Quem é você?
- O príncipe Rénine. Acompanhei a sindicância da guarda, esta manhã; não é, cabo? Desde então, busco e me informo. E foi assim que, desejando assistir ao interrogatório, me refugiei numa pecinha isolada.
- Estava ali! Teve a audácia!. ..
- Devem-se ter todas as audácias quando se trata de achar a verdade. Se não tivesse estado ali, não teria recebido precisamente a pequena indicação que me faltava. Não teria sabido que Mathias de Gorne
não estava absolutamente bêbado. Ora, essa é a solução da charada. Quando se sabe disso, se sabe a verdade.
O substituto se achava numa situação irrisória. Não tendo tomado as cautelas necessárias para que o sigilo de seu inquérito fosse observado, lhe era difícil agir contra esse intruso. Resmungou:
- Terminemos. O que quer?
- Uns minutos de atenção.
- E por quê?
- Para estabelecer a inocêneia do Sr. Vignal e da Sra. de Gorne.
Tinha o ar calmo, a despreocupação que lhe era característica nos momentos de agir quando o desfecho do drama não dependia senão de si.
Hortense estremeceu, cheia de uma fé imediata.
- Estão salvos - pensou com emoção. - Tinha lhe pedido que protegesse essa jovem e a salvasse da prisão, do desespero.
Jérôme e Natalie deviam experimentar essa mesma impressão de esperança súbita, pois tinham avançado um para o outro, como se este desconhecido, baixado do céu, lhes desse o direito de unir as mãos.
O substituto deu de ombros
- Essa inocência, a instrução terá todos os meios de estabelecer quando o momento chegar. O senhor será chamado.
- Seria preferível estabelecê-la imediatamente. Uma demora poderá ter conseqüências incômodas.
- Mas é que tenho pressa...
- Dois ou três minutos bastarão.
- Dois ou três minutos para explicar um caso semelhante!. . .
- Não mais.
- Conhece-o tanto assim?
- Agora conheço. Tenho pensado muito desde a manhã.
O substituto compreendeu que o homem era dos que não afrouxam e devia se resignar. Em tom algo zombeteiro, lhe disse:
- Seus pensamentos lhe permitiram fixar o lugar em que está o Sr. Mathias de Gorne atualmente?
Rénine tirou o relógio e replicou:
- Em Paris, senhor.
- Em Paris? Vivo então?
- Vivo e em excelente saúde.
- Me alegro. Mas então o que significa os passos em torno do poço, a presença do revólver, os três tiros?
- Encenação, simplesmente.
- Ah! ah! Encenação feita por quem?
- Pelo próprio Mathias de Gorne. ,
- Estranho! E com que fim?
- Com o fim de passar por morto e arrumar as coisas de tal modo que, fatalmente, o Sr. Vignal fosse acusado dessa morte, desse assassinato.
- A hipótese é engenhosa - aprovou o substi tuto, sempre irônico. - Que acha, Sr. Vignal?
Jérôme respondeu:
- Ê uma hipótese que eu mesmo entrevi, senhor. É bem admissível que depois de nossa luta e minha partida, Mathias de Gorne tenha feito um novo plano em que seu ódio, desta vez, vencesse. Amava e detestava
a sua mulher; me execrava; se veria vingado.
- Vingança que lhe custaria caro, pois, segundo afirmou, devia receber do senhor uma nova soma de sessenta mil francos.
- Essa soma, senhor substituto, a recuperaria por outro lado. No exame da situação financeira da família, fiquei sabendo que o pai e o filho fizeram um seguro de vida mútuo. Morto o filho, ou passando
por morto, o pai receberia o seguro e indenizaria o filho.
- De modo - disse o substituto sorrindo - que, em toda essa encenação, o Sr. de Gorne pai seria cúmplice do filho.
Foi Rénine quem respondeu:
- Justamente, sr. substituto. Pai e filho estão de acordo.
- Então o filho pode ser achado na casa do pai?
- Esta noite estava lá.
- Que lhe aconteceu?
- Tomou o trem para Pompignat.
- São tudo suposições!
- Certeza.
- Certeza moral, mas sem a menor prova, admita.
O substituto não esperou resposta ao problema levantado. Julgando ter sido de excessiva boa vontade e que a paciência tem limites, pôs fim ao depoimento.
- Nem a menor prova - repetiu, pegando o chapéu. - Sobretudo, sobretudo não há em suas palavras nada que contrarie, por pouco que seja, as afirmações desta testemunha implacável, a neve. Para ir à
casa do pai, era preciso que Mathias de Gorne saísse daqui. Por onde?
- Meu Deus, o Sr. Vignal lhe disse, pelo caminho que vai daqui à casa do pai.
- Não há marcas na neve.
- Há.
- Mas o mostram vindo para cá e não indo.
- Ê a mesma coisa.
- Como assim?
- Certamente. Há mais de um modo de caminhar. Nem sempre se avança caminhando para a frente.
- De que outro modo se pode avançar?
- Recuando, senhor.
Essa palavra, dita simplesmente, mas com uma nitidez que destacava as sílabas umas das outras, provocou um grande silêncio. Cada um compreendeu na hora o sentido profundo dela e, adaptando à realidade,
percebeu num relâmpago a verdade antes impenetrável e que parecia de repente a coisa mais natural do mundo.
Rénine insistiu e, andando para trás em direção à janela, dizia:
- Se quero chegar a esta janela, posso evidentemente caminhar direto a ela, mas também posso andar de costas. Nos dois casos, chego ao objetivo.
Em seguida, continuou com força:
- Resumo. Às oito e meia, antes da neve, o Sr. de Qorne veio da casa do pai. Nenhuma marca, pois a neve não caíra ainda. Às nove menos dez o Sr. Vignal se apresenta, sem deixar o menor vestígio de
sua vinda. Os dois homens se explicam e fecham negócio. Lutam. Mathias de Gorne é derrubado. Passaram-se assim três horas. O Sr. Vignal pega a Sra. de Gome e fogem. Mathias de Gorne, pisado, furioso, mas
entrevendo de imediato a mais terrível das vinganças, concebe a engenhosa idéia de explorar contra seu inimigo esta neve de que agora se invoca o testemunho e que cobriu o solo durante um período de três
horas. Organiza o seu próprio assassinato, ou antes a aparência de seu assassinato e de sua queda no fundo do poço; afasta-se andando para trás, passo a passo, gravando sobre a página em branco sua chegada
no lugar de sua saída. Me explico com clareza, hão é, senhor substituto? Gravando sobre a página em branco sua chegada no lugar de sua saída.
O substituiu cessara de sorrir. Este importuno, este original, parecia-lhe agora uma figura digna de atenção e de que não convinha rir.
Perguntou:
- E como saiu da casa do pai?
- De carro, simplesmente.
- Quem o levou?
- O pai.
- Como sabe?
- Esta manhã, o cabo e eu, vimos o carro e falamos com o pai quando esse ia, como de costume, à feira. O filho estava deitado sob o toldo e pegou o trem em Pompignat. Está em Paris.
As explicações de Rénine tinham, como prometera, durado poucos minutos. Estavam apoiadas apenas na lógica e na verossimilhança. Porém, nada mais restava do mistério angustiante em que tantos se debatiam.
As trevas tinham sido dissolvidas. Surgia a verdade inteira. A Sra. de Gorne chorava de alegria. Jérôme Vignal agradecia efusivamente ao gênio bom que, com uma batida de varinha, mudou o curso dos acontecimentos.
- Olhemos juntos essas marcas, quer, senhor substituto? - continuou Rénine. - O erro que cometemos esta manhã, o cabo e eu, foi o de nos ocupar com as marcas deixadas pelo suposto assassino e descuidar
as de Mathias de Gorne. Por que haviam de chamar nossa atenção? E justamente o nó do assunto estava aí.
Saíram para o jardim e se aproximaram das pegadas. Não foi preciso um exame demorado para verificar que muitas eram desajeitadas, hesitantes, demasiado afundadas na ponta ou no salto, diversas umas
das outras pela abertura dos pés.
- Inevitável inépcia - disse Rénine. - Mathias de Gorne precisaria de um verdadeiro aprendizado para igualar sua marcha à ré com sua marcha para frente; seu pai e ele devem ter pressentido isso, ao
menos no que diz respeito aos ziguezagues que se podem ver, já que o pai teve o cuidado de avisar ao cabo que o filho tinha bebido demais.
E acrescentou:
- Aliás, foi a revelação dessa mentira que subitamente me esclareceu. Quando a Sra. de Gorne assegurou que seu marido não estava bêbado, pensei nas pegadas e adivinhei.
O substituto tomou francamente o partido de Réni- ne e riu.
- Só resta pôr agentes no encalço do pseudomorto.
- Por que motivo, senhor substituto? - disse Ré- nine. - Matinas de Gorne não cometeu nenhum delito. Calcar ao redor de um poço, colocar mais longe um revólver que não lhe pertence, dar três tiros,
ir de marcha à ré à casa do pai, não tem nada de repreensível. Que se poderia reclamar? Os sessenta mil francos? Acredito que não seja a intenção do Sr. Vignal e que ele não fará nenhuma queixa.
- Por certo que não - declarou Jérôme.
- Então o que o seguro em benefício do sobrevivente? Mas só existirá o delito, se o pai reclamar o pagamento. E isso muito me admiraria. Olhe, está aí o velho. Sem demora, saberemos.
O pai, com efeito, estava chegando. Seu rosto simplório se enrugava querendo exprimir pesar e cólera:
- Meu filho? Parece que ele o matou. . . Meu pobre Mathias morto! Ah! este bandido do Vignal!
O substituto lhe disse brusco:
- Uma palavra, Sr. de Gorne. Tem a intenção de fazer valer seus direitos sobre um certo seguro?
' - Puxa - disse o velho -, apesar dele. . .
- É que o seu filho não está morto. Dizem mesmo que, cúmplice de suas malandragens, o senhor o escondeu sob o seu toldo e o levou à estação.
O velho cuspiu no chão, estendeu a mão como se fosse proferir um sermão solene, ficou um instante imóvel e a seguir, reconsiderando, virando a cara com um cinismo ingênuo, descontraindo-a numa atitude
conciliadora, caiu na risada:
- O safado do Mathias! Então queria se fazer passar por morto? Que malandro! E contava comigo talvez para receber o seguro e mandar a ele? Como se eu fosse capaz duma sujeira dessas!. . . Não me conheces,
meu garoto. . .
E sem querer saber mais nada, sacudido por uma hilaridade de gozador que uma anedota diverte, afastou- se, tendo no entanto o cuidado de colocar suas grossas botas com cravos nas pegadas acusadoras
deixadas pelo filho.
Depois, ao retornar Rénine ao Solar para encontrar- se com Hortense, a jovem tinha sumido.
Apresentou-se em casa da prima Ermelin. Hortense mandou lhe responder que pedia desculpas, mas que, um pouco cansada, estava fazendo um necessário repouso.
- Muito bem, tudo perfeito - pensou Rénine. - Foge de mim, portanto me ama. O desfecho se aproxima.
"Ao Deus Mercúrio"
À Sra. Daniel,
em La Roncière, por Bassicourt,
30 de novembro.
Amiga querida:
Mais duas semanas sem carta sua. Não espero mais receber uma antes desta importuna data de 5 de dezembro, em que fixamos o termo de nossa associação e tenho pressa em que chegue, já que estará então
livre de um trato que não parece mais comprazê-la. Para mim, as sete batalhas que lutamos juntos e ganhamos foram um período de grande alegria e exaltação. Vivia perto de você. Sentia todo o bem que lhe
fazia essa existência mais ativa e mais emocionante. Minha felicidade era tal que não ousava dela lhe falar e lhe deixar ver de meus sentimentos íntimos mais que o meu desejo de agradá-la e minha dedicação
apaixonada. Hoje, cara amiga, não quer mais saber do seu companheiro de armas. Seja feita a sua vontade!
Mas se me inclino diante dessa sentença, permite que lhe recorde no que sempre pensei ia consistir nossa última aventura, e que objetivo se proporia ao ntosso esforço final? Permite que repita as suas
palavras, que não se apagaram, uma sequer, de minha memória?
"- Exijo - você falou - que me devolva uma presilha de corpete antiga, com uma cornalina num engaste de filigrana. Veio de minha mãe. E ninguém ignorava
que dava sorte a ela e também a mim. Desde que sumiu do cofre em que estava fechada, sou infeliz. Traga-a de volta, gênio bom."
E como lhe perguntasse sobre a época em que essa presilha tinha desaparecido, replicou rindo:
"- Há seis ou sete anos, ou oito. . . não sei mais... não sei como. . . não sei nada. . . "
Era antes - não? - um desafio que me lançava e estabelecia essa condição por me ser impossível cumpri-la. Porém prometi, e queria honrar minha promessa. O que tentei para lhe mostrar a vida sob uma
luz mais favorável me pareceria inútil, se faltasse à sua segurança esse talismã que valoriza. Não ê de rir dessas pequenas superstições, por serem não raro o princípio de nossos melhores atos.
Cara amiga, se tivesse me ajudado, mais uma vez seria a vitória. Sozinho e premido pela aproximação da data, fracassei, não todavia sem pôr as coisas num estado em que a empresa, se você quiser continuá-la,
tem grande possibilidade de êxito.
Continuará, não é? Assumimos diante de nós mesmos um compromisso que devemos cumprir. Num prazo determinado, tínhamos de gravar no livro de nossa existência oito belas histórias, onde puséssemos energia,
lógica, perseverança, alguma sutileza e às vezes até um pouco de heroísmo. Eis a oitava. A você incumbe agir para que ocorra a 5 de dezembro, antes que soe a oitava hora da tarde no relógio.
Nesse dia, vai se comportar do modo que direi.
De saída - e sobretudo, amiga, não tache minhas instruções de fantasiosas, pois cada uma é condição indispensável ao sucesso - cotrará no jardim de sua prima, onde vi que havia, três talos de junco
bem finos, que trançará ligando nas pontas, de modo a formar um chicote rústico, como os de criança.
Em Paris comprará um colar de bolas de jade facetadas, diminuindo-o de modo a que tenha setenta e cinco bolas, mais ou menos iguais.
Sob seu casacão de inverno, usará um vestido de lã azul. Como chapéu, uma gorra com um ornato em forma de folhas amarelas. No pescoço, um boá de plumas de gelo, mais ou menos iguais. Nada de luvas
nem anéis.
De tarde se fará conduzir, pela margem esquerda, até a igreja Saint-Êtienne-du-Mont, Às quatro horas, exatamente, estará, diante da pia de água benta dessa igreja, uma velha vestida de preto desfiando
um rosário de prata. Vai lhe oferecer água benta e você dará a ela o colar, de que contará as bolas e lhe devolverá. Depois, seguirá atrás dela, atravessarão um braço do Sena e ela a levará a uma rua deserta
da ilha Saint- Louis, até uma casa onde você entrará sozinha.
No térreo dessa casa, topará com um homem ainda jovem, de tez baça, a quem dirá, depois de ter tirado o casacão:
- Venho buscar minha presilha de corpete.
Não se admire de sua confusão nem de seu espanto. Permaneça calma em sua presença. Se a interrogar, se quiser saber por que razão se dirige a ele, o que a leva a fazer tal pedido, não dê nenhuma explicação.
Todas as suas respostas devem se resumir nestas fórmulas: "Cenho buscar o que me pertence. Não o conheço, Ignoro o seu nome, mas me é impossível deixar de ter essa conduta em relação ao senhor. Ê preciso
que entre na posse de minha presilha de corpete. Ê preciso."
Creio sinceramente que, se tiver a firmeza necessária para não se afastar dessa atitude, seja qual for a comédia que esse homem venha a interpretar, há de ter pleno êxito. Mas a luta deve ser breve
e o resultado vai depender unicamente da sua confiança em si mesma e de sua certeza do sucesso. Ê uma espécie de luta de boxe em que deve abater o adversário no primeiro round. Impassível, o levará por
diante. Hesitante, inquieta, nada poderá contra ele. Vai lhe escapar, ficar por cima depois de um primeiro instante de ânsia, e a partida estará perdida no espaço de uns minutos. Não há meio termo: a vitória
imediata ou a derrota.
No último caso, precisará, e eu peço desculpas, aceitar de novo a minha colaboração. Ofereço-a desde já, minha amiga, sem qualquer condição, e deixando bem especificado que tudo o que pude fazer por
você e tudo o que possa jazer, não me dá outro direito que o de lhe agradecer e me devotar ainda mais à que é toda a minha alegria e toda a minha vida.
Essa carta, Hortense, depois de ter lido, atirou ao fundo duma gaveta, dizendo resoluta:
- Não irei.
Primeiro, se dera no passado alguma importância a essa jóia, que lhe parecia dar sorte, mal se interessava nela hoje que o período das provas parecia encerrado. Em seguida, não podia esquecer este
oito que era o número de ordem da nova aventura. Lançar-se a ela, era retomar a cadeia interrompida, se reaproxi- mar de Rénine e lhe dar um penhor que, com seu insinuante aprumo, ele bem saberia explorar.
Na antevéspera do dia fixado, seguia na mesma disposição. Na véspera de manhã, igualmente. Mas de repente, sem que tivesse nem que lutar contra prévias tergiversações, correu ao jardim, cortou três
juncos, que trançou como costumava no tempo de sua infância, e ao meio-dia se fez conduzir ao trem. Uma ardente curiosidade a animava. Não podia resistir ao que a aventura oferecida por Rénine prometia
de sensações divertidas e novas. Era de fato tentador. O colar de jade, a gorra com folhas de outono, a velha do rosário de 'prata. . . como resistir a esses apelos do mistério e como perder a ocasião
de mostrar a Rénine do que era capaz?
- Afinal - se dizia, rindo - é a Paris que me chama, e a oitava hora só pode ser perigosa para mim a cem léguas de Paris, ao fundo do velho castelo abandonado de Halingre. O único relógio que pode
soar a hora ameaçadora está ali, encerrado, cativo!
À noite, desembarcou em Paris. Na manhã de 5 de dezembro, comprou um colar de jade, que reduziu a setenta e cinco esferas; vestiu um vestido azul, pôs uma gorra com folhagem parda e, às quatro horas
justas, entrava na igreja de Saint-Etienne-du-Mont.
Seu coração batia violentamente. Desta vez estava só, e como sentia agora a força daquele apoio a que, por receio irrefletido antes que raciocínio, tinha renunciado! Procurava em torno de si, chegando
quase a vê-lo. Mas não havia ninguém. . . a não ser uma velha dama de preto, de pé, diante da água benta.
Hortense caminhou para ela. A dama, que acertava entre os dedos um rosário de grãos de prata, lhe ofereceu água benta e depois contou uma a uma as esferas do colar que Hortense lhe estendeu.
Murmurou:
- Setenta e cinco. Está bem. Venha.
Sem mais dizer, apurou-se sob a luz dos faróis, atravessou a ponte das Tournelles, entrou na ilha Saint- Louis, seguindo por uma rua deserta que a levou a um cruzamento, onde parou diante de uma velha
casa com varandas de ferro.
- Entre - disse a velha, e foi embora.
Hortense viu então uma loja de bonita aparência,
a ocupar quase todo o térreo e cujos vidros faiscantes de luz elétrica deixavam perceber um amontoado em desordem de objetos e de móveis antigos. Ficou ali uns segundos, olhando distraída. A tabuleta trazia
estas palavras: "Ao deus Mercúrio" e o nome do comerciante: "Pancardi". Mais acima, numa saliência à altura da base do primeiro andar, um pequeno nicho abrigava um Mercúrio em terracota apoiado numa perna,
com asas nos pés, o caduceu 4 na mão, e que, observou Hortense, muito inclinado para a frente, levado por sua corrida, deveria logicamente perder o equilíbrio e dar de cabeça na rua.
- Vamos - disse ela à meia voz.
Agarrou o trinco e entrou.
Apesar do ruído de sininhos e guizos que a porta fez, ninguém veio ao seu encontro. A loja parecia vazia. Mas, ao fundo, havia uma segunda lojinha, e uma outra a seguir, as duas cheias de quinquilharias
e móveis, muitos ao certo de grande valor. Hortense seguiu uma passagem estreita que serpenteava entre duas paredes de armários, consolos e cômodas, subiu dois degraus e se achou na última peça.
Um homem estava sentado diante de uma escri vaninha e consultava registros. Sem voltar a cabeç'a, disse:
- Às suas ordens... A senhora pode ir olhan do
Está última peça não continha senão objetos dum tipo especial, que a assemelhavam a um laboratório de alquimista da Idade Média, corujas empalhadas, esqueletos, crânios, alambiques de cobre, astrolábios,
e em toda parte, pendurados nas paredes, amuletos de todas as origens, em que sobressaíam as figas, em mãos de marfim ou coral com os polegares apontando para conjurar a má sorte.
- Deseja alguma coisa em especial, senhora? - disse enfim o Sr. Pancardi, fechando a escrivaninha e se levantando.
- Certo que é ele - pensou Hortense.
Tinha, de fato, a tez invulgarmente baça. Uma
barbicha grisalha com duas pontas alongava o seu rosto, encimado por uma testa calva e embaciada, sob a qual luziam, à flor da pele, dosi olhinhos inquietos e fugidios.
Hortense, que não tinha tirado o veuzinho nem o casacão, respondeu:
. - Procuro uma presilha de corpete.
- Este é o mostruário -: disse ele, levando-a à loja intermediária.
Depois de dar uma olhada, ela falou:
- Não. . . não. . . não está aí o que eu quero. Quero não esta ou aquela presilha, mas uma que desapareceu há tempos duma caixa de jóias e que venho procurar aqui.
Espantou-se ao ver a alteração no aspeto do homem. Seus olhos ficaram perdidos.
- Aqui? Não creio que tenha qualquer possibilidade. . . Como é ela?
- Com uma cornalina cravada em filigrana de ouro... e da época 1830...
- Não entendo - balbuciou ele. - Por que me pede isso?
Ela tirou o véu e o casacão.
Ele recuou, como diante dum espetáculo que o assombrasse e murmurou:
- O vestido azul... a gorra... Ah! será possível? O colar de jade!...
Mas o chicote de três juncos foi talvez o que lhe deu a mais forte comoção. Estendeu o dedo para ela. pôs-se a vacilar sobre si mesmo e, por fim, batendo o ar com os braços como um nadador que se afoga,
caiu sobre uma cadeira, desfalecido.
Hortense não se moveu. "Seja qual for a comédia que ele possa encenar - tinha escrito Rénine, - lenha a coragem de permanecer impassível." Embora ele decerto não estivesse interpretando, ela se forçou
à calma e à indiferença.
Isso durou um ou dois minutos, após o que Pan- cardi saiu de seu torpor, enxugou o suor que lhe banhava a testa e, procurando se dominar, prosseguiu em voz trêmula:
- Por que se dirigiu a mim?
- Porque essa presilha está na sua posse.
- Quem lhe disse? - fez ele sem protestar contra a acusação. - Como sabe?
- Sei porque é assim. Ninguém me disse nada. Vim com a certeza de achar minha presilha aqui e a decidida vontade de levá-la.
- Mas me conhece? sabe o meu nome?
- Não conheço. Ignorava o seu nome antes de vê-lo na sua loja. Para mim, o senhor é simplesmente o que me devolverá o que me pertence.
Ele estava agitado. Ia e vinha num pequeno espaço deixado por um círculo de móveis empilhados, nos quais batia estupidamente com o risco de fazer desabar.
Hortense sentiu que o dominava e, se aproveitando de seu desconcerto, ordenou brusca, num tom de ameaça:
- Onde está esse objeto? Precisa me entregar. Exijo.
Pancardi teve um momento de desespero. Juntou as mãos e sussurrou palavras de súplica. A seguir, vencido, resignado, articulou:
- Exige?
- Quero. . . isso deve estar. . .
- Sim, sim... deve estar... admito.
- Fale! - ordenou ela, ainda mais duramente.
- Falar não, escrever. . . Vou escrever o meu segredo. . . e tudo acabará para mim.
Voltou à escrivaninha e traçou febrilmente algumas linhas numa folha que lacrou.
- Pegue - disse, - eis o meu segredo. . . Era toda a minha vida.
E ao mesmo tempo levou à têmpora um revólver, que tinha sob o monte de papéis, e atirou.
Com um gesto rápido, Hortense lhe bateu no braço. A bala furou o vidro de uma Psique. Mas Pan- cardi caiu e começou a gemer como se estivesse ferido.
Hortense fez grande esforço sobre si mesma para não perder o sangue-frio.
- Rénine me preveniu - pensou. - Ê um comediante. Tinha reservado o envelope. Tinha reservado o revólver. Não me deixarei fazer de boba.
Porém notava que, se na aparência continuava calma, a tentativa de suicídio e o disparo a tinham desmantelado. Suas forças se desuniam como um feixe de que se corta a laçada, e lhe vinha a penosa impressão
de que o homem, que se arrastava a seus pés, na realidade retomava aos poucos a superioridade sobre ela.
Sentou, esgotada. Como Rénine previra, o duelo não durara mais que uns minutos, mas fora ela quem sucumbira, por culpa de seus nervos de mulher, e no próprio instante em que podia crer em seu triunfo.
Pancardi não se enganou e, sem se dar ao trabalho de uma transição, cessou suas jeremiadas, se ergueu num pulo, esboçando mesmo um passo de balé, a mostrar toda sua agilidade, e bradou em tom irônico:
- Para a pequena conversa que devemos ter, creio incômodo ficar à mercê do primeiro cliente que passe, não é?
Correu à porta de entrada e, abrindo-a, baixou a cortina de ferro que protegia a loja. Sempre saltitando, voltou a Hortense.
- Ufa! cheguei a me crer perdido. Um esforço a mais, senhora, e teria ganho a partida. Mas também sou um ingênuo, eu! Me pareceu vê-la chegar do fundo do passado, como uma emissária da Providência
para me pedir contas, e tolamente ia restituir. . . Ah! Srta. Hortense - deixe-me lhe chamar assim, sob esse nome a conheci - Srta. Hortense, falta-lhe tutano, como se diz.
Sentou-se a seu lado e com má cara lhe lançou brutalmente:
- Trate agora de ser sincera. Quem maquinou essa história? Não você, hem? não é o seu gênero. Então, quem? Fui sempre honesto na vida, escrupulosamente honesto... a não ser uma vez... esta presilha.
E quando julgava o assunto acabado, enterrado, eis que volta à tona. Como? Quero saber.
Hortense nem tentava mais combater. Ele pesava sobre ela com toda sua força de homem, todo seu rancor, todo seu medo, com toda a ameaça que exprimia pelos gestos furiosos e a fisionomia ao mesmo tempo
ridícula e malvada.
- Fale! Quero saber. Se tenho um inimigo secreto, que possa me defender! Quem é esse inimigo? Quem a impeliu? Quem a fez agir? Um rival que minha sorte incomoda e que quer por sua vez lucrar com a
presilha? Mas fale, pelos demônios! ou lhe juro que. . .
Ela imaginou que ele ia pegar o revólver de novo e recuou estendendo os braços na esperança de escapar.
Debateram-se assim um contra o outro e Hortense, que tinha cada vez mais medo, não tanto do ataque provável quanto da cara convulsa de seu agressor, começou a gritar, quando Pancardi ficou subitamente
imóvel, de braços para a frente, dedos abertos e os olhos fitando acima da cabeça de Hortense.
- Quem é que está ai? Como entrou? - fez numa voz sufocada.
Hortense nem teve necessidade de se virar para estar segura de que Rénine vinha em seu auxílio, e que era a aparição inexplicável desse intruso que assustava a tal ponto o antiquário. Com efeito,
um vulto delgado deslizou para fora de um monte de poltronas e canapés; Rénine se adiantava calmamente.
- Quem é você? - repetiu Pancardi. - De onde vem?
- Lá de cima - disse, amável, indicando o forro.
- Lá de cima?
- Sim, do primeiro andar. Sou inquilino, há três meses do andar superior. Há pouco ouvi barulho. Chamavam por socorro. Então vim.
- Mas como entrou aqui?
- Pela escada.
- Que escada?
- A escada de ferro no fundo da loja. Seu predecessor alugava também o meu andar e tinha uma comunicação direta por esta escada interna. Você pregou a porta. Eu despreguei.
- Mas com que direito, senhor? É um arrombamento.
- O arrombamento é permitido quando se trata de socorrer um semelhante.
- Ainda uma vez, quem é?
- O príncipe Rénine. . . um amigo da senhora contestou, curvando-se para Hortense e lhe beijando a mão.
Pancardi pareceu sufocar e sussurrou:
- Ah! compreendo... É você o instigador dessa trama. . . você que mandou a senhora. . .
- Eu mesmo, Sr. Pancardi, eu mesmo.
• - E quais são suas intenções?
- Bem puras. Nada de violência. Simplesmente um pequeno diálogo, depois do qual me devolverá o que por minha vez venho buscar.
- O quê?
- A presilha de corpete.
- Isso nunca - fez o antiquário com força.
- Não diga que não. Desde já é certo.
- Não há poder no mundo, senhor, que me obrigue a esse ato.
- Quer que chamemos a sua mulher? A Sra. Pancardi se dará conta melhor que você talvez da situação.
A idéia de não ficar sozinho na presença deste adversário inesperado pareceu agradar a Pancardi. Havia pertinho dele uma campainha. Apertou três vezes.
- Perfeito! - bradou Rénine. - Está vendo, minha amiga, que o Sr. Pancardi é inteiramente amável.
Nada mais do demônio desenfreado que a aterrorizava há pouco. Não. . . basta que esteja diante de um homem para reencontrar suas qualidades de cortesia e gentileza. Um verdadeiro carneiro! O que não quer
dizer que as coisas andem sozinhas. Longe disso. Nada de mais cabeçudo que um carneiro.. .
Na extremidade da loja, entre a escrivaninha do antiquário e a escada giratória, uma tapeçaria foi soerguida, dando passagem a uma mulher que pegava o ferrolho duma porta Tinha talvez uns trinta anos.
Vestida simplesmente, parecia, com seu avental, antes uma cozinheira que uma patroa. Mas o rosto era simpático e o porte gracioso.
Hortense, que seguira Rénine, ficou admirada em reconhecer nela uma empregada de dentro que tinha estado a seu serviço quando adolescente:
- Como! É você, Lucienne? Você, a Sra. Pan- cardi?
A recém-chegada a fitou, reconheceu também e pareceu embaraçada. Rénine lhe disse:
- Seu marido e eu temos necessidade da senhora para encerrar um assunto bem complicado.. . um assunto em que a senhora teve um papel importante. . .
Ela se adiantou, sem falar, visivelmente preocupada, e disse ao marido cujo olhar não a largava:
- Que é que há? Que querem de mim? Que assunto é esse?
Em voz baixa, Pancardi articulou:
- A presilha. . . a presilha de corpete. . .
Não era preciso mais para que a Sra. Pancardi entrevisse a situação em toda a sua gravidade. Assim não buscou fazer boa cara ou opor inúteis protestos. Deixou-se cair numa cadeira, suspirando:
- Ah! isso... entendo... A Srta. Hortense encontrou a pista... Ah! estamos perdidos!...
Houve uma pausa. A luta mal começara entre os adversários e marido e mulher tomavam a atitude de vencidos que não esperam mais que a clemência do vencedor. Imóvel e de olhos fixos, principiou a chorar.
Curvado sobre ela, Rénine pronunciou:
- Vamos ao ponto, quer, senhora? Veremos claro a coisa e estou certo de que nossa entrevista achará sua solução natural. O fato é que, há nove anos, quando trabalhava na província, em casa da Srta.
Hor- tense, você conheceu o Sr. Pancardi, que logo se fez seu amante. Eram corsos os dois, isto é, de um país em que as superstições são violentas, onde a questão de sorte ou má sorte, a jetatura, o azar
influem profundamente sobre a vida de cada um. Ora, era sabido que a presilha de corpete de sua patroa tinha sempre trazido sorte aos que a possuíam. É o motivo por que, num instante de fraqueza, estimulada
pelo Sr. Pancardi, furtou essa jóia. Seis meses depois, abandonou o emprego e se tornou a Sra. Pancardi. Eis, resumida em algumas frases, toda a sua aventura, não é?, toda a aventura de duas pessoas que
teriam permanecido honestas, se tivessem podido resistir a essa passageira tentação.
"Inútil lhe dizer a que ponto os dois tiveram êxito e como, senhores do talismã, crendo no seu poder e confiantes em vocês mesmos, chegaram ao primeiro piano dos comerciantes de antigüidades. Hoje,
ricos, proprietários da loja Ao Deus Mercúrio, atribuem o sucesso de suas empresas a essa presilha de corpete. Per- dê-la, para vocês, seria a ruína e a miséria. Toda sua vida está concentrada nela. Ê
o feitiche. Ê o pequeno deus doméstico que protege e aconselha. Está aí, nalguma parte, oculto na confusão, e ninguém evidentemente teria nada suspeitado - pois repito, salvo esse erro, são excelentes
pessoas - se o acaso não me tivesse levado a me ocupar de seus assuntos."
Rénine deu-se um tempo e prosseguiu:
- Fazem dois meses. Dois meses de investigações minuciosas, que me eram fáceis porque, tendo dado com a pista de vocês, aluguei o andar de cima e podia usar essa escada.. . Contudo, até certo ponto,
foram dois meses perdidos, pois ainda não tive êxito. E Deus sabe o que revirei na loja de vocês! Não há um móvel em que não tenha procurado, uma tábua de soalho que não pesquisei. Sem resultado. Oh, algum,
uma descoberta acessória. Numa repartição secreta da sua escrivaninha, Pancardi, desencantei um pequeno diário em que conta seus remorsos, preocupações, medo do castigo, receio da cólera divina.
"Que imprudência, Pancardi! Essas confissões nâo se escrevem e muito menos se deixam por aí. De qualquer forma, li-as e destaquei esta frase, cuja importância não me escapou e que serviu para preparar
meu plano de ataque:
"- Que venha a mim a que furtei, que venha tal como a via no jardim da sua casa, enquanto Lucienne pegava a jóia. Que me surja com o vestido azul, com a gorra de folhagem parda, com o colar de jade
e o chicote de três varas de junco trançadas que tinha aquele dia na mão! Que me surja assim e me diga: "Venho reclamar o que me pertence." Então saberei que é Deus que lhe inspira essa atitude e que devo
obedecer às ordens da Providência."
"É o que está escrito no seu diário, Pancardi, e o que explica a atitude da que chama Srta. Hortense. Esta, segundo minhas instruções, e de acordo com a cena que você mesmo imaginou, veio ao seu encontro
do fundo do passado - a expressão é sua. Um pouco mais de sangue-frio e sabe que ela teria ganho a partida. Infeliz- mente, como é um excelente ator, a sua tentativa de suicídio a desorientou, e você viu
que não havia ali uma ordem da Providência, mas uma simples ofensiva de sua antiga vítima. Me restava intervir. Aqui estou e, agora, concluamos: que dê a presilha, Pancardi?"
- Não - recusou-se o homem, a quem a idéia de se desfazer do objeto devolvia toda a energia.
- E a Sra. Pancardi?
- Não sei onde está - afirmou a mulher.
- Bem, passemos então aos atos. Tem um filho, senhora, de sete anos que ama de todo coração. Hoje, quinta-feira, como todas as quintas aliás, ele deve voltar sozinho da casa de sua tia. Dois amigos
meus estão postados em seu caminho e, a não ser que eu dê contra- ordem, o raptarão ao passar.
A mulher se acendeu de imediato.
- Meu filho! oh! lhe suplico. . . não, isso não,. .. lhe juro que não sei nada. Meu marido nunca quis me dizer.
Rénine continuou:
- Segundo ponto: a partir desta noite, será dada queixa na polícia. Como prova, as confidências do diário. Conseqüências: ação judicial, buscas etc.
Pancardi calava. Tinha-se a impressão de que todas essas ameaças não o atingiam e que, protegido por seu fetiche, se julgava invulnerável. Mas sua esposa se lançou aos pés de Rénine gaguejando:
- Não. . . não. . . lhe imploro, seria a prisão, não quero. . . E o meu filho. . . oh! lhe imploro. ..
Hortense, apiedada, chamou Rénine à parte.
- A pobre mulher! intercedo por ela.
- Esteja tranqüila - disse ele rindo, - não acontecerá nada a seu filho.
- Mas seus amigos estão à espera...
- Pura invenção.
- E a queixa?
- Mera ameaça.
- Que está tentando?. . .
- Assustá-los, deixar fora de si, na esperança de que uma palavra lhes escape, uma palavra que me esclareça. Tentamos todos os meios. Só esse nos sobra e, lembre-se de nossas aventuras, dá em geral
resultado.
- E se a palavra que espera não for pronunciada?
- Tem de ser - disse Rénine em voz surda. - Precisamos acabar. A hora se aproxima.
Seus olhos fitaram os da jovem e ela enrubesceu, pensando que a hora a que ele aludia era a oitava e que não havia outro objetivo além do de terminar antes de que essa oitava hora soasse.
- Eis de um lado o que estão arriscando - disse ele ao casal, - o desaparecimento de seu filho e a prisão; prisão certa, pois há uma confissão escrita. E agora, do outro lado, a minha oferta. Vinte
mil francos pela restituição imediata, instantânea da presilha, que não vale sessenta.
Nenhuma resposta. A Sra. Pancardi chorava.
Rénine prosseguiu, espaçando as propostas:
- Dobro... triplico... Puxa, é exigente, Pancardi... Então quê? uma cifra redonda? Seja. Cem mil.
Estendeu a mão como se não tivesse mais dúvida de que lhe dariam a jóia.
Foi a Sra. Pancardi que se dobrou primeiro e com uma raiva súbita contra o marido:
- Mas diz, vai!. . . Fala! onde a escondeste? Não pretendes ficar aí teimando... vai ser a falência, a miséria. . . E o nosso filho?! Vamos, fala.
Hortense sussurrou:
- Rénine, isto é loucura, a coisa não tem nenhum valor.
- Nada a temer - disse Rénine, - ele não vai aceitar... Mas, olhe em que estado de agitação está! Ê justamente o que eu queria. . . Ah, observe, é apai- xonante. Pôr as pessoas fora de si! Tirar-lhes
todo o controle sobre o que pensam e o que dizem! E nessa desordem, na tempestade que os sacode, perceber a fais- quinha que de algum lado há de saltar. . . Olhe-o, olhe! Cem mil francos por uma pedra
sem valor... ou a cadeia ... É de virar a cabeça!. . .
De fato, o homem estava lívido, seus lábios tremiam e deixavam escorrer um pouco de saliva. Adivi- nhava-se a ebulição e o tumulto de todo o seu ser, sacudido por sentimentos contraditórios, por medos
e cobiças que se chocavam. Estalou de repente e era fácil ver que suas palavras jorravam ao acaso, sem que tivesse consciência do que dizia:
- Cem mil! Duzentos mil! Quinhentos mil! Um milhão! Estou pouco ligando! Milhões? para que servem os milhões? Perdem-se, desaparecem, são furtados. .. Só uma coisa conta, a sorte, que está a seu lado
ou contra. E está do meu há nove anos. Nunca me traiu, e deseja que eu a traia? Por quê? Por medo? A cadeia? Meu filho?. . . Tolices!. . . Nada de ruim vai me acontecer enquanto obrigar a sorte a trabalhar
para mim. É minha criada, minha amiga... A presilha a atrai. Não sei como. Decerto é a cornalina. .. Há pedras milagrosas que contêm a felicidade, como outras o fogo, o enxofre, o ouro. ..
Rénine não o desfitava, atento às menores palavras e entonações. O antiquário ria agora com um riso nervoso, retomando o aprumo do homem que se sente seguro de si, e andava diante de Rénine com movimentos
bruscos, em que se sentia uma crescente resolução.
- Milhões? Não os quero, caro senhor. O pedacinho de pedra que possuo vale muito mais que isso. E a prova é todo o trabalho que se dá para reavê-la. Ah! ah! meses de buscas como confessou. Meses em
que virou tudo pelo avesso, enquanto eu, que de nada desconfiava, nem sequer me defendia! O pequeno objeto se defendia sozinho!.. . Não quer ser descoberto e não será... Está bem aqui. Preside a negócios
bons e leais que o satisfazem. . . A sorte de Pancardi? Mas é conhecida pelo bairro inteiro, por todos os antiquários. Anuncio a todos os ventos: "Tenho sorte." Tive mesmo o topete de tomar como patrono
o deus da sorte, Mercúrio! Ele também me protege. Repare, espalhei Mercúrios por toda a loja! Veja lá em cima, naquela tábua, toda uma série de estatuetas como a da fachada, provas assinadas por um grande
escultor, que, precisando de dinheiro, me vendeu. Deseja uma, caro senhor? Há de lhe trazer também a felicidade. Escolha! Um presente de Pancardi para compensá-lo pelo seu insucesso! Combinado?
Pôs um banquinho contra a parede, sob a tábua, pegou uma estatueta e veio deixá-la nos braços de Ré- nine., E rindo à vontade, ainda mais animado porque o inimigo parecia desistir e recuar ante seu
fogoso ataque, exclamou:
- Bravos! aceita! E se aceita, é que todo mundo está de acordo! Não fique azeda, Sra. Pancardi. Seu filho vai voltar e não haverá prisão! Até logo, Srta. Hor- tense! Até logo, senhor. Quando quiser
falar comigo, bata três vezes no soalho. Até logo... leve o seu presente . . . e que Mercúrio o favoreça! Até logo, querido príncipe. .. Até logo, Srta. Hortense. ..
Impelia-os para a escada de ferro, pegando, ora um, ora outro, no braço e os levando à porta baixa que se ocultava no alto daquela escada.
E o mais estranho era que Rénine não protestava. Não teve um gesto de resistência. Deixava-se levar como uma criança que se pune e põe porta fora.
Entre o instante em que fizera sua oferta a Pancardi e aquele em que este, triunfante, o expulsava com uma estatueta nos braços, não tinham decorrido cinco minutos.
A sala de jantar e o salão da sobreloja que Rénine alugara davam para a rua. Na sala, estavam postos os pratos para duas pessoas.
- Vá desculpando estes preparativos - disse Rénine a Hortense, lhe abrindo o salão. - Pensei que, saísse a coisa como saísse, os acontecimentos me permitiriam recebê-la neste fim de dia, e poderíamos
jantar juntos. Não me recuse esse obséquio, que será o último de nossa última aventura.
Hortense não recusou; o modo com que terminara a luta, tão diverso de tudo o que tinha visto até aqui, a desconcertava. Nem havia risco em aceitar, pois as condições do pacto não tinham sido preenchidas.
Rénine saiu para dar ordens ao criado. Dois minutos depois, voltou a Hortense e a levou para a sala. Eram, no momento, sete horas passadas.
Havia flores na mesa e, ao meio, se erguia a estatueta de Mercúrio, presente do Sr. Pancardi.
- Que o deus da sorte presida ao nosso jantar! - falou Rénine.
Mostrou-se alegre e disse toda a alegria que tinha em se achar diante dela.
- Ah! foi por má vontade sua! Me fechava a porta... Não escrevia mais... Realmente, cara amiga, foi cruel e sofri muito. Assim tive de empregar os grandes meios e a atrair com a isca das mais fabulosas
empresas. Confesse que a minha carta era hábil! As três varinhas... o vestido azul. . . Como resistir a tudo isso? Por acréscimo, fiz mais umas complicações que inventei, as setenta e cinco bolas do colar,
a velha do rosário de prata. . . Em suma, o suficiente para tornar a tentação irresistível. Não me queira mal. Queria vê-la, e que fosse hoje. Você veio. Obrigado.
A seguir narrou como encontrara a pista da jóia roubada.
- Aguardava - não é? - ao me impor essa condição, que não poderia cumpri-la? Erro, cara amiga. A prova, ao menos de início, era fácil, pois se baseava num dado certo - o cunho de talismã atribuído
à presilha. Bastava procurar se, em torno a você, entre os criados, não havia alguém sobre quem tal cunho pudesse exercer alguma atração. Ora, imediatamente, na lista das pessoas que cheguei a estabelecer,
notei o nome da Srta. Lucienne, vinda da Córsega. Foi o meu ponto de partida. Depois daí, tudo se encadeava.
Hortense o encarava com surpresa. Como era possível que aceitasse sua derrota com um ar tão despreocupado e falasse mesmo como vitorioso quando, na realidade, tinha sido claramente vencido pelo antiquário
e até um pouco ridicularizado?
Não pôde se impedir de notar isso a ele, e o tom em que o fez tinha um certo desapontamento, uma certa humilhação.
- Tudo se encadeava, vá. Mas a cadeia se partiu, já que, no fim das contas, se ficou conhecendo o ladrão, não conseguiu pôr a mão no objeto roubado.
A censura era manifesta. Rénine não a acostumara ao insucesso. E ela se irritava mais ainda em ver com que despreocupação ele se resignava a um fracasso que, afinal, trazia a ruína das esperanças
que teria tido.
Ele não respondeu. Enchera duas taças de champanha e bebia de uma lentamente, com os olhos na estatueta do deus Mercúrio. Fê-la girar sobre o pedestal, com o gozo de um turista.
- Que coisa admirável uma linha harmoniosa! A cor me exalta menos do que a linha, a proporção, a simetria, e tudo o que há de maravilhoso na forma. Assim, cara amiga, gosto muito da cor de seus olhos
azuis e da de seus cabelos fulvos; mas o que me emociona é o oval do seu rosto, a curva da sua nuca e de seus ombros. Repare nesta estatueta. Pancardi tem razão: é obra de um grande artista. As pernas
são ao mesmo tempo finas e solidamente musculosas, todo o contorno dá a impressão de impulso e rapidez. Está muito bem... Só uma falta porém, tão leve que talvez não tenha notado.
- Sim, sim - afirmou Hortense. - Me chocou desde que vi a insígnia lá fora. Está se referindo a uma espécie de desequilíbrio, não é? O deus está inclinado demais em relação à perna em que se apóia.
Dir-se-ia que vai cair para a frente.
- Meus cumprimentos - disse Rénine. - A falta é mínima e é preciso um olhar experiente para percebê- la. Mas, de fato, logicamente o peso do corpo deveria prevalecer e, logicamente, segundo as leis
da matéria, o pequeno deus teria de cair de cabeça.
Após um silêncio, continuou:
- Notei este defeito desde o primeiro dia. Como não tirei, então, conclusões? Estava chocado por se ter pecado contra uma lei estética, ao passo que deveria estar por ter-se faltado a uma lei física.
Como se a arte e a natureza não se confundissem! E como se as leis da gravidade pudessem ser alteradas, sem que houvesse aí uma razão fundamental. . .
- Que quer dizer? - indagou Hortense, intrigada por considerações que pareciam tão alheias a seus pensamentos secretos.
- Oh! nada. Me admiro apenas de não ter compreendido mais cedo por que Mercúrio não dava uma cambota, como seria seu dever.
- E o motivo?
- Calculo que Pancardi, mexendo na estátua para servir a seus desígnios, lhe alterou o equilíbrio, mas que esse se mantém graças a uma coisa que freie o deusinho para trás, compensando sua posição
tão arriscada.
- Uma coisa?
- Sim. A estátua poderia estar colada na base, mas não está, e sei por ter visto Pancardi, no alto duma escada, a erguer e limpar cada dois ou três dias. Sobra assim só uma hipótese, o contrapeso.
Hortense estremeceu. Alguma luz agora a esclarecia. Murmurou:
- Um contrapeso!... Acha que seria... no pedestal? .. .
- Por que não?
- Será possível? Mas, nesse caso, como Pancardi lhe deu esta estátua?
- Não me deu esta - declarou Rénine. - Esta fui eu que peguei.
- Mas onde? Quando?
- Há pouquinho, quando estava no salão. Pulei esta janela, que fica em cima da insígnia e ao lado do nicho do pequeno deus. E fiz a troca. Quer dizer, peguei a estátua que estava lá fora e tinha interesse
para mim, e pus no lugar a que Pancardi me deu e não tinha nenhum interesse.
- Mas essa estava inclinada para a frente?
- Não, nem as que estão na estante da sua loja. Mas Pancardi não é um artista. Um defeito de prumo não o choca, não notará e seguirá se crendo favorecido pela sorte, o que é o mesmo que dizer que a
sorte continuará a favorecê-lo. Entretanto, eis a estatueta, a da insígnia. Devo quebrar o pedestal e tirar a sua presilha da bainha de chumbo soldada atrás dele, e que assegura o equilíbrio do deus Mercúrio?
- Não!... não!... é inútil... - contestou em voz baixa Hortense com vivacidade.
A intuição, a sutileza de Rénine, a elegância com que levara todo o assunto, tudo isso para ela ficava na sombra naquele minuto. Mas pensou de repente que, terminada a oitava aventura, com as experiências
redundando em seu proveito, a última dilação fixada para a experiência final ainda não tinha sido alcançada.
Teve ele, aliás, a crueldade de notar:
- Oito menos um quarto - falou.
Um pesado silêncio caiu entre os dois, e ambos lhe sofriam o embaraço, ao ponto de hesitar em fazer o menor movimento. Para quebrá-lo, Rénine brincou:
- O valente Sr. Pancardi, como foi bom em me informar! Sabia, enfim, que o exasperando terminaria por. colher em suas frases a pequena indicação que me faltava. Tal como se se pusesse um isqueiro nas
mãos de alguém, dando ordem a que se servisse dele. No fim um faísca se produz. Em mim o que produziu essa faísca foi a aproximação inconsciente, mas inevitável, que fez entre a presilha de cornalina,
princípio da sorte, e o Mercúrio, deus da sorte. Isso bastava. Compreendi que essa associação de idéias provinha de que, na realidade, ele associara as duas sortes incorporando-as uma à outra; para ser
claro, escondendo a jóia no próprio bloco da estatueta. Instantaneamente me lembrei do Mercúrio lá fora e do defeito de equilíbrio...
Rénine se interrompeu. Parecia-lhe que suas palavras caíam no vazio. A moça apoiara a mão na testa e, escondendo assim os olhos, permanecia imóvel, distante .
Na verdade, não 'escutava. O esclarecimento da aventura e a maneira como Rénine tinha nela se com- portado não mais a interessavam. No que pensava era no conjunto de aventuras vividas há três meses
e na conduta prodigiosa do homem que lhe oferecera consagrar-se a ela. Enxergava, como num quadro mágico, os atos fabulosos realizados por ele, todo o bem que tinha feito, as existências salvas, as dores
pacificadas, os crimes punidos, a ordem restabelecida em toda parte em que se exercera sua vontade de chefe. Nada lhe era impossível. O que almejava, executava. Cada um dos objetivos que se propunha estava
de antemão atingido. E tudo isso sem um esforço excessivo, com a calma de quem conhece o seu poder e sabe que nada lhe resistirá.
Que podia então ela contra ele? Por que e como se defender? Se exigisse que se submetesse, não saberia constrangê-la e essa suprema aventura seria acaso para ela mais difícil que as outras? Admitindo
que ela se escapasse, haveria no universo um refúgio em que estivesse ao abrigo da sua perseguição? Desde o instante inicial do primeiro encontro deles, o desenlace era certo, já que Rénine decretara qual
seria.
Contudo, ele buscava ainda armas, uma proteção, e se dizia que, se ele preenchera as oito condições, e lhe devolvera a presilha de cornalina antes que a oitava hora soasse, ainda a resguardava o fato
de que essa hora devia bater no relógio do castelo de Halingre, não noutra parte. O pacto era formal. Rénine tinha dito naquele dia, fitando os lábios que almejava: "O velho balancim de cobre retomará
seu movimento e quando, na data estabelecida, bater de novo oito horas, então. . . "
Ela ergueu a cabeça. Também ele não se mexia, grave, tranqüilo em sua expectativa.
Esteve à beira de lhe dizer, tendo preparado mesmo as frases: - Sabe... nosso trato estipula que seja o relógio de Halingre. Todas as condições estão cumpridas, menos essa. De modo que estou livre,
não é? Tenho o direito de não manter uma promessa que, aliás, não fiz; mas, mesmo tácita, teria o direito... E estou livre... imune de qualquer escrúpulo?...
Não teve o tempo de falar. No instante exato,
atrás dela, houve um clique, parecido ao de um relógio
que vai bater.
Uma primeira pancada soou, depois uma segunda, depois uma terceira.
Hortense soltou um gemido. Tinha reconhecido o timbre do velho relógio de Halingre que, três meses
antes, quebrando de modo sobrenatural o silêncio do
castelo abandonado, os lançara um e outro no caminho das aventuras.
Foi contando as batidas do relógio.
- Ah! - sussurrou desfalecente e escondendo o rosto entre as mãos - o relógio... o relógio que está aqui. . . aquele lá. . . reconheço a sua voz. . .
Não disse mais. Adivinhava que Rénine tinha os olhos sobre si esse olhar lhe roubava todas as forças. Teria podido recobrá-las, mas isso não a faria mais valente, e não procurou lhe opor
a menor resistência pela
simples razão de que não queria resistir. As aventuras
tinham terminado, mas restava uma a enfrentar, cuja expectativa apagava a lembrança de todas as outras. Era a do amor, a mais deliciosa, a mais perturbadora, a mais adorável das aventuras. Aceitou a
ordem do
destino, contente com tudo o que pudesse vir, já que o amava. Sorriu, sem querer, pensando que a alegria voltava à sua vida no próprio instante em que seu
bem-amado lhe trazia a presilha de cornalina.
Voltou a ouvir o relógio, bater. Levantou os olhos para Rénine. Um segundo ainda vacilou. Mas estava, como um pássaro fascinado, incapaz de um gesto de revolta, e, como soasse a oitava batida, abandonou-se contra cie, lhe estendendo os lábios...
1 "Un aigle. . sur une roche." (As notas de pé de página são do tradutor.)
2 Prédio famoso, construído em 1718 e, desde 1873, residência dos presidentes da República.
3 Quintal-Bonito.
4 A insígnia de Mercúrio, deus dá eloqüência, do comércio, da sorte e dos ladrões: um bastão com duas serpentes trançadas e asas nas pontas.
Maurice Leblanc
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