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AS PEREGRINAS / Jeanne Bourin
AS PEREGRINAS / Jeanne Bourin

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

AS PEREGRINAS

 

Garin o Pergaminheiro balançou com convicção várias vezes a cabeleira frisada onde, em alguns pontos, os cabelos ruivos se tornavam brancos.

— Dou-lhe minha palavra — garantiu ele — pude ver com meus próprios olhos e muitos outros também puderam constatar. Sobre os ombros das vítimas deste naufrágio infeliz podia se ver, como que gravadas em sua carne, marcas representando a cruz! Sim, por minha alma, a Cruz de Cristo!

—Também eu posso testemunhar — confirmou Foucherde Chartres, sentado sobre o cascalho da praia ao lado do mestre pergaminheiro. — Sem dúvida, quis o Senhor que estes afogados, mortos a Seu serviço neste dia da santa festa da Páscoa, conservassem junto ao corpo, como a marca da sua fé, a cruz costurada sobre suas roupas. Desde o juramento dos votos de compromisso, no momento da partida, oito meses antes, nunca haviam se separado.

Tomada pela emoção, a voz do beneditino ligado ao séquito do conde de Blois fez estremecer os que o ouviam.

Um vento de abril leve, fresco, novamente inocente, soprava no porto e na orla de Bríndisi. Havia alguns dias estavam ali armadas as barracas dos dois exércitos do duque de Normandia e do conde de Blois, cercados, um , e outro, pelos acampamentos dos peregrinos. Naquela manhã haviam sido desmontadas. O momento de embarcar havia chegado.

A multidão de cruzados, reunida desde o fim da grande missa pascal celebrada na praia antes da aparelhagem das naves, havia-se agrupado por família, rua, paróquia ou povoado.

Depois que, sob olhares consternados, uma das primeiras naves saídas do porto fora arrastada sem razão aparente para os rochedos, onde se partiu, os peregrinos viviam momentos de angústia. Haviam acendido fogueiras onde procuravam esquentar-se em silêncio. Eles, geralmente tão barulhentos, sempre prontos a comentar o menor acontecimento, calavam-se. Sozinhas, algumas crianças pequenas corriam por entre as fogueiras até chegarem às pequenas ondas do mar junto às quais brincavam ou catavam conchinhas. Numa mistura de esperança e medo, os mais velhos aguardavam para saber se o embarque recomeçaria. Tremiam, rezavam em voz baixa. . .

— Desde que deixamos Chartres e o reino da França, ai de nós!, já vimos tantos mortos e moribundos — retomou em voz baixa o pergaminheiro — mas Deus me assista, nunca ainda em tal número e em tal estado! Sem mentir, o mar rejeitou várias centenas deles. . . e não estou contando os cavalos e mulas!

— Que tristeza! — suspirou Berta a Atrevida, colocando uma das mãos sobre o ombro de seu filho. — Não somente esta desgraça nos enluta a todos, mas também assustou os mais medrosos. Muitos decidiram nos deixar, apesar do seu engajamento e do juramento prestado no momento de receber a cruz. Eles serão colocados para sempre fora da lei, como anunciou solenemente o nosso Santo Padre, o papa!

— Renunciar após uma viagem tão longa, uma tal caminhada! — bradou Flamínia, cujas trancas brilhavam como cobre vermelho ao sol. — É loucura! Será que se esqueceram que os que partiram para esta guerra santa terão todos os pecados perdoados se morrerem no caminho? Estamos em marcha para a libertação do Santo Sepulcro. O que não combater pela espada combaterá pela oração! Nada deve nos desencorajar.

— Sim, Deus nos espera em Jerusalém — afirmou Brunissen com sua voz cantante, os olhos presos no horizonte.

— Se o povo de Nosso Senhor se desespera e desanima a cada provação, quantos seremos ao chegar aos portões da Cidade Santa? — perguntou Foucher de Chartres passando várias vezes, num gesto que lhe era habitual, a mão sobre a tonsura que santificava seus cabelos castanhos e indisciplinados. Muitos já venderam suas armas e retomaram seu bastão para voltar para casa. Eles não tiveram a coragem de continuar a viagem depois da luta fratricida que tivemos que enfrentar em Roma contra os homens do antipapa Guiberto! Contudo, apenas o nosso número faz a nossa força!

— Não seria, mais que isso, a nossa fé? — indagou Alaís, enquanto lançava sobre o monge um olhar gázeo, cheio de malícia.

As três filhas do pergaminheiro conjugavam em suas cabeças todas as nuances selvagens que coroavam seu pai. A mais velha, Brunissen, cujos dezoito anos e um temperamento discreto deixavam transparecer um bom comportamento, deixava entrever, sob o seu véu, bandos cor de pão queimado que se harmonizavam com os olhos castanhos e doces como as asas de algumas borboletas noturnas. Flamínia, dois anos mais nova, possuía uma cabeleira de fogo, frisada, tão violentamente ruiva que não seria de se espantar se as suas trancas flamejantes crepitassem como chamas sobre brasas. Ao vê-la aproximar-se, só o abrasamento se notava. Quanto à mais jovem, Alaís, quinze anos apenas completados, tinha a cabeça recoberta por um louro ardente onde o ouro encontrava o sol.

Sentado junto a ela, seu irmão gêmeo, Landry, ostentava o mesmo tosão dourado. Com grandes ossos e musculoso como um potro que ainda não atingiu a estatura definitiva, prometia tornar-se um belo colosso! Por enquanto, estava abatido com o trabalho cruel que o naufrágio lhe havia imposto. Em companhia de seu pai e de todos os homens disponíveis, soldados, clérigos e peregrinos, precisara ajudar a recolher os corpos que as ondas jogavam na costa. Como se fossem algas monstruosas e pungentes, a cada respiração do mar, novos cadáveres, com as cabeleiras esparramadas, os membros flutuando, vinham encalhar em meio aos restos do barco perdido, pranchas, cofres, barris e alforjes esfacelados. Os parentes, os amigos, os companheiros, que haviam se separado daqueles infelizes pouco tempo antes, reconheciam-nos agora com pavor. Só havia choro, gritos, desolação. . .

Foi preciso pegar um a um esses despojos pelos ombros e pelos pés, arrancá-los dos que não queriam se separar deles e transportá-los para diversas igrejas de Bríndisi, onde seus corpos azulados e suas vestes encharcadas cobriam a laje de pedra. O ofício pelos mortos e o enterro seriam feitos, mais tarde, pelo clero da cidade.

Um pavor sem fim havia tomado conta de alguns cruzados. Eles esperavam assustados o momento de embarcarem também nas naves que os conduziriam ao outro lado do Adriático, em território bizantino. Teriam depois que alcançar Constantinopla, onde haveria um encontro dos diversos exércitos de Deus, vindos de toda parte com a multidão que os seguia para libertar o Santo Sepulcro.

Esta primeira descoberta do mar, das suas perfídias, suas violências, tinha tudo para apavorar e desencorajar aquela gente do interior, já que a maioria jamais havia visto uma tal extensão de água antes de chegar à costa italiana.

— Alguém sabe a que horas recomeçará o embarque? — perguntou Berta a Atrevida, que não tinha medo de nada, gostava de demonstrar que aos cinqüenta e cinco anos continuava valente e conhecia, pela própria experiência, o poder do exemplo.

Apesar de algumas dores no ventre, causadas certamente pelas comidas diferentes da viagem, ela fizera questão de ajudar no transporte dos afogados, acomodando-os cuidadosamente e às suas túnicas,, camisas, malhas, calções, capas marcados com cruzes de tecido vermelho ou branco, rasgados pelos rochedos, maltratados pelas ondas. Sua coragem natural não a havia impedido de chorar como os outros sobre os corpos miúdos das crianças de lábios desbotados, ainda embrulhados em seus cueiros presos por pedaços de pano que a água salgada havia encolhido e deixado ainda mais apertados em seus corpinhos.

No momento, enquanto desfiava seu rosário feito de grãos grossos de buxo, Berta a Atrevida só queria pensar na partida. — Segundo o que se dizia, deveríamos subir a bordo sem mais tardar — anunciou com ar de entendido Herberto Chauffecire, um jovem vizinho da rua da Catedral em Chartres. Fabricante de círios do seu estado, fazia parte daqueles que havia algum tempo giravam em torno de Garin e de suas filhas. — Nossas montadas já nos precederam. Enquanto prestávamos nossos últimos socorros esta manhã, a todos esses pobres afogados, os marinheiros embarcaram cavalos e mulas.

— Por São Tibério, padroeiro dos pergaminheiros — disse Garin — lamento não ter podido assistir a essa operação!

— Parece-me que saiu tudo bem — garantiu o cirieiro. — Informei-me junto a um dos chefes das naves da esquadra que nos esperam no porto. Elas possuem largas portas abertas nas laterais, logo acima da linha de flutuação. Foram colocadas enormes pranchas em plano inclinado, permitindo que passassem os cavalos diretamente do cais ao interior do porão.

— E engenhoso, mas bastante audacioso! 

— Realmente. Além disso, durante a travessia, as portas serão lacradas e calafetadas.

— De qualquer modo, vou ver como está. Ficarei mais tranqüilo — decidiu o pergaminheiro.

Ao se dirigir com a família para os navios da esquadra, ele encontrou repentinamente seu cunhado, padre Ascelino. Notário episcopal enviado pelo bispo de Chartres para acompanhar os peregrinos da sua diocese à Terra Santa e mantê-lo a par dos acontecimentos, o falecido Haumette Ia Parcheminière era um homem de estatura mediana. Seus olhos vivos, escondidos por sobrancelhas hirtas, seu grande nariz carnudo, traduziam uma inteligência e uma curiosidade de espírito sempre despertas. Garin confiava plenamente naquele que considerava como seu irmão de sangue e que nunca deixara de zelar pelo lar de sua irmã. Fora também padre Ascelino quem ensinara a ler e a escrever ao seu sobrinho e às suas sobrinhas, e era graças a ele que sabiam latim.

Desde a partida dos peregrinos chartrenses no mês de agosto anterior no séquito de seu suserano, o conde de Blois e Chartres, o padre Ascelino tivera a ocasião de provar a sua habilidade. Em Roma soubera manobrar os partidários do antipapa Guiberto e os fiéis do verdadeiro pontífice Urbano II. O seu pequeno rebanho de ovelhas não sofrera nenhuma espécie de provocação de uns nem represálias de outros, e graças às suas qualidades de persuasão, houve bem menos defecções que o esperado depois desse contato tão decepcionante com a Cidade Eterna.

Cerca de dez anos antes, padre Ascelino já havia partido para a Terra Santa, sem poder contudo alcançá-la. Interceptado no caminho pelos muçulmanos que proibiam aos cristãos chegarem ao túmulo de Cristo, tivera que ficar em Constantinopla na esperança, sempre adiada, de uma mudança de situação. Durante os meses de permanência na capital do Império Romano do Oriente, foi capaz de estabelecer relações de grande utilidade. Travou mesmo uma verdadeira amizade com um homem de fé e qualidade, perfumista da corte imperial. Depois de sua volta à França, conseguiu manter alguns contatos episódicos com ele, graças a mensagens entregues a monges itinerantes. Agora que voltava a Constantinopla, contava poder recorrer ainda ao amigo para alojar Garin e os seus.

Os dois homens conversaram durante um momento sobre o naufrágio que os havia abalado.

— Estou indo ver como nossos cavalos foram instalados no porão — Garin explicou. — Preocupa-me muito o seu transporte!

Um ar divertido atravessou os pequenos olhos escuros do notário episcopal.

— Meu irmão, você não é o primeiro — ele disse — a fazer com que cavalos atravessem o mar. De uma maneira geral, eles parecem não sofrer muito com a viagem. Mas é verdade que se deve ter pena desses pobres animais. Ficam suspensos durante dias por cintas que os mantêm entravados a meia altura. Eles oscilam de acordo com a arfagem, vêem-se próximos ou distantes de suas manjedouras e suas grades de acordo com o balanço, debatem-se, machucam-se às vezes, apesar da palha que lhes é colocada onde a cinta roça sua pele frágil. O que você quer, Garin, eles são feitos para correr e galopar na terra, não para serem sacudidos pelas ondas. Mas o serviço do Senhor requer coragem e abnegação de todos, até mesmo dos cavalos que são suas criaturas. . . O mais surpreendente é que um bom número dentre eles sobrevive!

— Seus cavalos e nossas mulas não são tudo, meu filho — disse Berta a Atrevida. — Há também nossas malas e tudo o que elas contêm: nossos pertences, nossas esteiras de palha para dormir e os víveres que pude comprar aqui mesmo, ontem à noite, pois já não nos restava nada das nossas provisões de viagem ao chegar a Bríndisi.

—Mas teremos o que comer no navio, ou melhor, na nave, como se diz neste país — Landry observou. Já me informei junto ao escriba que nos inscreveu no registro de bordo. Temos alimentação garantida para saciar nossa fome durante a travessia.

— A sua fome, você quer dizer! — Bradou Flamínia aos risos — que é a de um ogre!

— Tudo é alimento! — lançou com segurança seu irmão. Preciso me

fortificar se quero lutar um dia contra algum exército de Judas!

— Paz! — ordenou Berta a Atrevida. — Vocês dois, paz! Não se pode confiar num escriba. No caso em que não nos seja suficiente, mandei encher uma grande cesta com carne salgada, queijos, biscoitos e peixes secos.

— Por todos os santos, pode-se perguntar o que seria de nós sem a sua presença! — Brunissen observou, com uma ponta de impaciência.

Todos sabiam que ela tinha dificuldades para suportar o temperamento autoritário de sua avó que, de sua parte, se vangloriava de nunca ter obedecido a ninguém.

A perda da mãe, morta de parto no nascimento dos gêmeos, sempre tocara a mais velha dos órfãos. A ascendência da avó sobre Garin dava-lhe algumas vezes a sensação de ter sido destituída de seu direito de primogênita, das responsabilidades que ela se sentia perfeitamente capaz de cumprir e que, normalmente, lhe caberiam.

— Sem dúvida, sem dúvida — Berta respondeu, insensível à ironia e completamente persuadida da exatidão daquele comentário para colocar em dúvida, nem que fosse por um momento, a sua sinceridade. — Você sabe muito bem, minha filha, que na nossa família sou considerada a cabeça forte!

Enquanto pronunciava esta frase que adorava repetir, a pergaminheira levantou com desdém um queixo voluntarioso, enquanto seus olhos, de um azul forte, brilhavam de satisfação.

— De minha parte, trouxe um pequeno frasco com xarope de violetas e rosas — cochichou a criada de Garin nos ouvidos de Alaís.

Rosto, nariz e olhos arredondados, era uma criatura plácida que vivia na casa de seu patrão desde a idade de doze anos. Naquela ocasião entrara para o serviço dos jovens esposos que acabavam de se casar. Filha de um pobre operário que não tinha nada além dos braços para oferecer como trabalho, seu nome era Alberade.

— Pode ser que alguém se sinta feliz em tê-lo — retomou, ao ver que a ouviam. — Poderá ajudar a recompor os estômagos, se o barco balançar muito!

— Deus nos livre! — Flamínia gritou. — Uma tempestade estragaria uma travessia que está me causando tanta alegria!

— Rezemos para que Aquele que nos indicou o caminho da Cruz nos proteja durante nossa caminhada! — interveio o padre Ascelino enquanto se benzia. Não esqueçamos jamais que esta peregrinação, tão distinta das que a precederam desde as origens da cristandade e que uniu barões e padres, valentes cavaleiros e vilões, clérigos e leigos, é antes de tudo uma guerra santa!

— Se Deus assim o quiser, ela será também a última! — declarou Foucher de Chartres com veemência. — Que ela nos traga a paz! Que ela nos devolva Jerusalém, a nossa Jerusalém, imagem da Cidade Celeste onde deve acontecer, no final dos tempos, o retorno glorioso do Cristo!

Seus ouvintes também se benzeram. As fervorosas palavras do monge traduziam o imenso sonho que os impulsionava à frente e que os havia lançado há meses nas estradas, com o coração em chamas e uma fé capaz de mover montanhas. . .

Enquanto conversava, o pequeno grupo havia chegado, seguindo Garin, até o porto. Vários navios grandes esperavam, pintados em cores vivas, com cascos arredondados, cada um munido de uma vela quadrada de tecido cru, amarelada pelo uso.

— Olhem, vocês, a enormidade do mastro que a sustenta! — exclamou Landry.— Um só tronco não foi suficiente! Foi preciso juntar várias peças de madeira sustentadas por não sei quantos anéis de ferro!

Enquanto seu jovem irmão permanecia maravilhado, Flamínia sorvia encantada o odor marinho que acabara de descobrir, apesar da estação ruim, alguns meses antes. Era no início de dezembro, quando as tropas do duque de Normandia, dos condes de Blois e de Flandres, haviam chegado a Bári na esperança de embarcar em seguida. Infelizmente, o estado do mar era tão adverso que nenhum chefe, nenhuma galera, nenhum navio quisera se aventurar. Um vento de tempestade soprava furiosamente, sacudindo nuvens cheias de chuva e de ameaças que acabavam sempre por se arrebentar. Certamente não era assim que haviam imaginado o mar da Itália! Fora necessário hibernar no interior das terras, num país desconhecido e bem pouco acolhedor. Agora mais uma vez, um certo número entre os menos corajosos, temendo intempéries e miséria no futuro, haviam retomado seus bordões, seus alforjes e voltado para os lugares de onde haviam saído com tanta dificuldade. . . Os que cercavam o pergaminheiro censuraram e deploraram essas deserções. O conde de Flandres estava obstinado. Ele finalmente havia encontrado a maneira de atravessar as ondas, assumindo todas as conseqüências à força de dinheiro e promessas. Roberto Courteheuse, duque de Normandia, bem como Estêvão de Blois, não saíram dali. Preferiram esperar a volta do tempo bom, na companhia do exército.

Com o início da primavera, finalmente o momento pareceu apropriado para uma nova partida, e os peregrinos haviam se reencontrado em Bríndisi com os dois exércitos e seus chefes.

Flamínia, que já gostara do mar invernal, ficou encantada com sua beleza primaveril. Uma certa embriaguez tomou conta dela quando se sentiu acariciada pela brisa marítima e respirou os odores vindos de alto-mar. Parecera-lhe que, sob sua túnica de tecido verde, envelhecida, surrada, com a qual nem se importava, seu corpo jovem, forte e novo, estava revigorado, limpo dos suores do caminho e como que purificado por esse vento tão vivo, tão alegre, que cobria de espuma as ondas brincalhonas. . . Era como respirar o hálito suave de Deus. . . Esse banho vivificante dava-lhe a impressão de participar por inteiro do esplendor da Criação.

"Agora compreendo melhor o sentido sagrado da nossa viagem — ela pensou, no dia em que se viu pela primeira vez sobre o cascalho da praia de Bríndisi.—Esta imensidão dá uma idéia admirável da obra do Criador. É mais vasta, mais bela, mais impressionante que a nossa planície da Beauce, que as terríveis montanhas que atravessamos no último outono para passar da França à Itália, que Roma e tudo o que me foi permitido ver desde que deixamos Chartres. . . É a própria imagem da Eternidade!"

A este pensamento de completo fervor, logo veio se juntar uma sensação de prazer sensual. Flamínia amava o gosto salgado que impregnava seus lábios e sua pele, o violento odor que desprendiam, ao mesmo tempo, a areia úmida, as ondas levemente agitadas e os pinheiros na orla ensolarada. Sol do qual se resguardava baixando o véu sobre o rosto para proteger a tez, apesar da sensação de langor que a invadia.

— As mulheres e o mar têm em comum o mesmo odor salino — Herberto Chauffecire murmurou-lhe repentinamente no ouvido, surgindo ao seu lado com seu ar de gato sempre à caça de uma presa. — Seu aroma natural será ainda mais perturbador. . .

Algumas das mulheres do grupo o achavam interessante e ele parecia já ter cortejado mais de uma com sucesso, desde o início da viagem. Flamínia devia reconhecer que era um bonito jovem, louro, magro, um belo corpo, mas ela não gostava do seu olhar garço, sua boca de espessos lábios luzidios.

Naquele dia ela se contentara em sacudir os ombros e em se afastar sem ao menos lhe dirigir um olhar, mas a partir daí conseguira uma maneira de evitar sua presença nas horas em que ia até a praia. Não pretendia renunciar por causa dele às longas paradas embevecidas, às alegrias puras e fortes que lhe proporcionava a proximidade da água viva e seus aromas amargos.

No porto, os perfumes marinhos misturavam-se desencontradamente ao cheiro de alcatrão, de lona, de salmoura, de restos de todos os tipos que atenuavam em muito seus atrativos. Muitas pessoas haviam se aproximado dos navios para verde mais perto esse instável amontoado de pranchas, nas quais seria preciso atirar-se sobre abismos habitados, segundo algumas narrativas, por monstros horrorosos e cruéis. . .

Também Brunissen as contemplava. Não exatamente com apreensão, mas com alguma melancolia. Fora necessário que, contra a sua vontade, deixasse em Chartres seu noivo Anselmo o Belo, que não pudera fazer a viagem com todos eles. Filho único de uma viúva com cinco filhas de pouca idade, o jovem pergaminheiro, que trabalhava com Garin, viu-se escolhido por seu mestre para cuidar do pequeno negócio e aceitou o encargo durante a ausência dos peregrinos que partiram com aquela que amava. Será que sofrerá tanto quanto dissera? Tanto quanto deveria? Saberia permanecer fiel durante uma ausência cuja duração ninguém poderia prever? Brunissen sabia que, entre os cruzados, os que haviam se recusado a partir para a Terra Santa, atendendo ao chamado do papa, recebiam o apelido de "fole", "engole-tudo" e "esponja".

Anselmo não era nada disso. Seu dever de filho primogênito não lhe deixara escolha. Enquanto ele fosse o único sustento de sua família e precisasse velar por suas irmãs, não seria dono de si mesmo.

Ao longo dos dias e das etapas, Brunissen tinha caminhado com as multidões reunidas atrás das bandeiras de seus senhores, sem parar de pensar em Anselmo. Entre os caminhantes, os cavaleiros, as mulas, os cavalos de carga puxando charretes inverossímeis, carroças sobre as quais se amontoavam malas, sacos, barris e pacotes; no meio dessa tropa, onde homens e mulheres, pobres e ricos, crianças e velhos, comerciantes e guerreiros, moças comportadas e ensandecidas, camponeses e citadinos, doentes e sãos, ladrões e artesãos honestos se acotovelavam, Brunissen avançava, deixando o coração para trás. Ela rezava, cantava cânticos ou canções de viagem, distraía-se com sua família ou com seus vizinhos, sempre pensando naquele que amava. Quando iria revê-lo, se é que Deus permitiria que o revisse um dia? O trajeto já lhe parecera tão longo e, há oito meses, cada passo, cada volta das rodas a distanciavam ainda mais de seu amado. . . Atravessar o mar seria uma separação ainda mais dilacerante.

Do outro lado da costa, o desconhecido mostrava-se terrível: a imensa multidão de cruzados não se encontraria mais em solo cristão, depois de ter atingido e atravessado Constantinopla para cruzar o Bósforo, mas em território ocupado pelos pagãos, os sarracenos, esses inimigos de Deus! Os mesmos que há cerca de cinqüenta anos impediram o acesso da gente do Ocidente ao Santo Sepulcro, torturaram e expulsaram os cristãos de Jerusalém, oprimiram as populações sírias e armênias que permaneceram fiéis ao Cristo e entregues à perseguição dos muçulmanos, esses incrédulos que destruíram um número tão grande de abadias, de igrejas, de santuários que causava pena! Quando do concilio de Clermont, o papa havia invocado os sofrimentos dos cristãos nas terras longínquas, os suplícios infligidos aos pobres peregrinos que, desafiando todos os perigos, tentaram chegar aos Lugares Santos, com a ameaça sempre crescente que a raça ímpia dos devastadores fazia pesar até as portas de Constantinopla. . . Estas palavras, levadas pelo vento da fé vilipendiada, da indignação, tinham voado do campanário à torre, da cidade à cabana, da boca ao ouvido, como labaredas de um incêndio, propagando-o por toda a redondeza, ativando-o sem parar.

Os corações da cristandade haviam se inflamado. As inúmeras dificuldades, os sofrimentos, as separações e os possíveis males não eram obstáculo ao embrasamento irreprimível que o apelo de Urbano II, verdadeiro estopim, havia acendido à sua passagem.

Assim, como tantos sinais ardentes, foi possível ver incandescer sobre o peito ou os ombros daqueles a quem nada mais poderia deter, uma quantidade de cruzes em tecido de lã, seda, fustão, em metal. Símbolo da escolha que haviam feito de seguir o Cristo usando a sua Cruz, era também um sinal de congraçamento, o sinal sagrado da obediência ao Deus-Senhor, a cujo serviço devotavam sua existência na esperança de receber sua proteção. Estas cruzes eram santificação, viático, poder encantado. . .

Garin o Pergaminheiro e todos os seus as haviam adotado com entusiasmo. Desde que haviam chegado até eles os ecos das palavras do papa, haviam decidido, de comum acordo, se juntar às tropas armadas e aos peregrinos que partiam para libertar Jerusalém cativa, Jerusalém enlameada pelas práticas demoníacas dos seguidores de Satã!

— Em que pensa, minha irmã? — perguntou uma voz cristalina a Brunissen. — Não está impaciente para deixar esta costa? Você me parece muito triste para uma cristã pronta a velejar em direção à terra onde Jesus sofreu e ressuscitou por nós!

— Alaís, você é um anjo. O que posso fazer, eu não sou!

— Não sei se sou um anjo, mas sei que nenhum belo pergaminheiro me espera na nossa cidade de Chartres—respondeu sorrindo a mais jovem das três irmãs. — Confesse, sua melancolia não tem outra origem que não esta.

Brunissen inclinou em sinal de assentimento seu rosto de traços finos, fronte alta e lisa como um seixo, rosto recatado, emoldurado pelo véu mole de linho branco que lhe cobria a cabeça e os ombros.

— É duro viver longe daquele que conservou meu coração perto do seu — reconheceu com sinceridade. —Não que esteja arrependida, Deus me livre disso!, de ter partido com vocês, mas os caminhos se sucedem, o tempo passa, e não sei mais nada de Anselmo. . . Talvez até já tenha me esquecido. . .

—Você não é uma donzela de quem alguém se esqueça com facilidade, como parece acreditar! — interrompeu Landry, que nunca ficava longe de sua irmã gêmea. — Desde que iniciamos nossa caminhada, já houve muitos, conforme teve conhecimento, que não se zangariam caso se interessasse um pouco mais por eles!

Mais uma vez Brunissen pensou que seu irmão tinha algo de solar. Um calor, uma força, um brilho insolente davam ao seu comportamento animado um charme desconcertante.

Passando um braço sobre os ombros de Alaís, ele se inclinou para roçar seu rosto contra o de sua irmã.

— Sabem o que acabaram de me contar? — ele retomou, dirigindo-se tanto à irmã mais velha quanto à mais nova. — Há diversos lugares onde se pode dormir neste navio. Primeiro no castelo de proa, onde se instalam o proprietário, o navegador e o piloto costeiro, além de alguns passageiros, mas parece que aí se fica extremamente sensível ao balanço e, portanto, cuidado com o enjôo! O segundo lugar, situado sob o tombadilho, fica na popa. É mais agradável e, conseqüentemente, mais procurado. É lá que se instalam os governantes, os que dirigem o barco, os homens do comando, os cônsules de mar e alguns outros. Enfim resta ainda, no meio do navio, a céu aberto, na cobertura, lugares onde se amontoam, ai de nós! quase todos os peregrinos. Podem se colocar aí as esteiras de palha ou de junco ao cair da noite. . .

— Com toda essa gente! Estaremos espremidos como carneiros no redil!

— Por favor, minha irmã, você não sabe o que está dizendo! Foram previstos estrados de madeira com esta finalidade, onde cada um poderá arrumar sua esteira, ajeitando a cabeça junto aos pés do outro, e ninguém poderá sair dela. Ora, eles não são nada grandes! Meus pés certamente ficarão para fora, posso lhe garantir! Não será preciso que o meu vizinho tenha o olfato muito aguçado!

— As pessoas do Sul são menores que nós. Eles não previram gigantes da sua espécie! — disse rindo Alaís.

— De qualquer maneira, não teremos escolha. Fora os lugares de que já falei, só se pode dormir no porão ou nas cavalariças, entre os pés dos cavalos e das mulas!

— Teremos então que dormir vestidos e metidos nos nossos agasalhos — Flamínia disse. — Felizmente a travessia deve ser curta.

— Podemos levar coberturas se quisermos — retomou o irmão — mas há o risco de se molharem com os borrifos das ondas, da água do mar ou da chuva, se por acaso houver uma tempestade.

— Nesse caso as nossas roupas e os nossos pertences também se molhariam. . .

— Tudo dependerá dos ventos.

— Rezemos a Nossa Senhora para que soprem do lado certo!

— Do lado certo, sem dúvida, mas também moderadamente, por favor. Só de pensar, o coração me vem até à boca.

— Como foi que se informou tão bem? — Brunissen perguntou. — Você parece saber tudo sobre este navio.

Landry sorriu balançando sobre um pé e outro, o corpo desengonçado.

— Pois bem! Pensei que talvez fosse útil manter uma boa relação com o escriba. E ele o homem de confiança do proprietário. Guarda o registro de bordo e seus escritos são confiáveis. Não há nada que se passe no navio que possa lhe escapar. Encarrega-se das entradas, dos carregamentos e descarregamentos que acontecem no porto, é ele enfim que regula as compras. É claro que ele mantém a guarda do famoso registro e conserva junto a si noite e dia as chaves do cofre onde o guardou. Ninguém mais pode aspirar possuí-lo, pois o cofre nunca deve permanecer aberto fora de sua presença. É um personagem e tanto!

— E ele tomou-lhe amizade?

— Ofereci-lhe alguns pequenos presentes aos quais não se mostrou insensível. . .

— No entanto, pelo que nos contou, ele colocou-nos junto a todos os outros!

— Não se pode fazer diferente. Mas ele aconselhou-me a escolher lugares o mais perto possível do castelo da popa, pois haveria uma pequena chance de encontrarmos uma sombra. Nesta região e neste país, o sol já é quente pela manhã. Já falei sobre isso com nosso pai. Ele foi procurá-lo na tentativa de se entender com ele e para molhar-lhe novamente a mão, se necessário.

— Graças a Deus, tudo está acertado! — exclamou Alaís. — Poderemos subir a bordo!

Seus olhos brilharam de excitamento, e podia-se senti-la quase batendo palmas, como a meninazinha que fora até bem pouco tempo.

— Vamos juntar-nos a nossa avó — Landry disse.

Encontraram-na em companhia de Flamínia e de Alberade, a criada, falando com o proprietário do navio, um homem de baixa estatura, gordo, vestido com uma túnica bastante curta e desbotada, ceroulas vermelhas e um boné de lã. Enquanto ouvia com um ar impaciente a mulher que tinha um palmo a mais que ele, fiscalizava com o canto do olho o embarque dos barris de vinho, de água ou cerveja, dos sacos de farinha, das cestas de frutas e de legumes frescos que seus homens traziam formando uma longa fila afobada, sob a direção de um contramestre.

Berta a Atrevida voltou-se na direção dos seus netos.

— Já me certifiquei de que não nos faltarão nem galinhas nem capões, e que haverá bastante toucinho. Este barco possui também um moinho manual para fazer um bom pão e não apenas mingaus — disse ela com autoridade. — Recebi todas as garantias possíveis. Não se preocupe, Landry, poderemos sobreviver à travessia mesmo se, Deus nos livre, ela se mostrar mais longa do que o previsto!

O grito de algumas ordens e o som estridente das buzinas anunciaram a chegada dos exércitos do duque e do conde. Eles passavam na frente e embarcavam antes dos peregrinos. Barões, cavaleiros, escudeiros, arqueiros, simples soldados, criados desfilaram sob os olhos dos chartrenses, abrindo lugar na multidão que não se afastava com a rapidez desejada, atrás do duque de Normandia, Roberto Courteheuse, e de Estêvão de Blois, conde de Champanha, Brie e Chartres.

"Não se pode imaginar dois seres tão diferentes como estes dois grandes senhores!" Brunissen pensou.

Desde que o exército do conde havia-se reunido ao do duque em Pontarlier, os peregrinos não paravam de se divertir com os feitos e gestos de seus chefes, tão diferentes um do outro e no entanto tão bons amigos. Todos concordavam em reconhecer que Roberto Courteheuse merecia o sobrenome, pelas pernas curtas e pesadas a sustentar o tronco potente. Entretanto não era sua falta de atrativos físicos que o distanciava das pessoas, mas sua personalidade. Filho mais velho de Guilherme o Conquistador, herdara do pai um temperamento violento e dominador, o que não o teria prejudicado se não fosse seu gosto pelas intrigas, pelos complôs; sua vida indisciplinada e turbulenta não o teria desconsiderado aos olhos não só do autor dos seus dias, mas também aos de tantos outros. Já se perdera a conta das suas renegações. Quando esteve no acampamento do rei de França, então inimigo do Conquistador, chegou a ter um combate pessoal com seu próprio pai, feriu-o e ainda matou seu cavalo! Maldito, renegado durante um tempo, depois perdoado, pôde enfim se reconciliar com Guilherme para marchar em sua companhia até o rei da Escócia, seu adversário comum. Em seu leito de morte, Guilherme, mais uma vez traído por esse filho transformado num arruaceiro insuportável, afastou-o do trono que sempre lhe parecera garantido por seu direito de primogenitura. O mais jovem, Guilherme o Ruivo, também nada recomendável, tornara-se rei do reino da Inglaterra recentemente conquistado, enquanto Roberto recebeu, como herança, apenas a Normandia. Este era um presente difícil de ser carregado. Mal gerido, abandonado em proveito da Inglaterra, o ducado normando estava periclitante e não longe de sucumbir, devido às constantes guerras feudais que o despedaçavam.

— Foi necessária a intervenção pessoal do papa para que os irmãos inimigos finalmente se decidissem a assinar um tratado de paz — garantiu Berta a Atrevida a uma mulher baixa e magrela que estava ao seu lado na multidão e que testemunhou sua indignação. — Saiba que, graças à garantia da Igreja, o duque de Normandia recebeu um empréstimo de dez mil marcos de prata do novo rei da Inglaterra, com a condição de deixar o seu ducado como penhora por cinco anos! Eis como os nossos senhores entregam as suas terras depois de deixá-las perecer!

— Eu, particularmente, acho o séquito do duque muito bonito — murmurou timidamente a interpelada, que parecia uma formiga, e cujos olhos salientes observavam detalhadamente o cortejo com um ar encantado. —Eis agora o duque de Bretanha seguido de seus melhores barões... os bispos de Evreux e de Bayeux, tão bonitos, tão dignos, muitos outros mais. . . Fala-se de mil cavaleiros e de sete ou oito mil homens a pé. Não é uma contribuição pequena para o exército de Cristo!

Berta a Atrevida sacudiu os ombros.

— Realmente é muita gente — ela concordou, mas os outros chefes de tropa que partiram de todos os cantos do reino, pelo que se diz, têm a mesma quantidade e às vezes até mais, sem precisar penhorar seus domínios!

—Eis o conde de Blois! — exclamou Flamínia, que se divertia muito. — Ele é magnífico! Vale cem vezes seu cunhado Courteheuse! Adélia, sua mulher, tem sorte em possuir tal esposo! Dizem que é pacífico, piedoso, tão bom quanto influente, apreciador de poesia e música, bem como da caça e das lutas! Enfim, quase perfeito!

Brunissen pôs-se a rir.

— Por todos os santos, como você se entusiasma com facilidade, minha irmã! — Você me faz pensar na nossa potra que, ao menor barulho, à mais leve sombra, se lançava a galope pelos prados!

— Aos dezesseis, não se pode querer ponderação e reserva — retrucou a avó, que não escondia sua predileção pela segunda das suas netas, cujo temperamento fogoso lhe lembrava o próprio arrebatamento da juventude.

Antes de desaparecer, os estandartes das diferentes tropas tremularam uns após outros sobre as pontes dos navios que lhes eram reservados. Os sons guerreiros das tropas e das buzinas também se distanciaram. Sozinhos, os criados carregando as vestimentas de malha, as armaduras de couro cobertas de lâminas de ferro e as armas dos cavaleiros, continuaram a desfilar diante da multidão de peregrinos amontoados.

— Agora nós também poderemos atravessar as pranchas que conduzem ao nosso barco — garantiu Berta a Atrevida, encaminhando os seus na direção de um navio cujo nome era Maria-Virgine.

— Espero que não balancem muito — Alaís suspirou.

— Moças bonitas como estas encontram sempre algumas mãos vigorosas e prestativas para ampará-las e guiá-las — disse um rapaz alto de olhos claros, vestido como um marinheiro, que acabara de descer do navio.

— Obrigado, amigo, obrigado! Não precisamos mesmo de você! — disse Landry afastando o homem, que se pôs a rir.

— Pelos chifres de Satã! Eu não queria ofender estas belas donzelas — ele respondeu, bem-humorado. — Como vocês, também venho da França. Eu fazia parte do séquito do irmão de nosso rei, monsenhor Hugo de Vermandois, conhecido como Hugo o Bastardo. Por minha salvação, é verdade! Eu era até mesmo o seu barbeiro!

— Então, o que está fazendo aqui? — perguntou Berta a Atrevida. — Segundo os rumores que circulam, o irmão do rei, que caminhou conosco no começo de nossa jornada, deve agora estar há algum tempo em Constantinopla. Ele nos deixou exatamente para chegar lá primeiro.

— Está bem informada, minha comadre. É verdade que entre os peregrinos tudo se sabe. . . Tem razão. Nós embarcamos em Bári no começo do mês das vindimas do ano passado. Mas Deus certamente não estava conosco. Apenas alcançamos alto-mar e caiu uma forte tempestade espalhando nossos barcos. O que me levava naufragou com corpos e carga. Felizmente eu usava uma medalha milagrosa que me salvou a vida. Pude alcançar a costa meio morto. . . mas apenas meio!

Novamente soltou uma gargalhada alegre, que deixou ver grandes dentes brancos e gulosos. Flamínia reparou que ele tinha uma cicatriz no lado esquerdo da face.

— Estava ferido — continuou o barbeiro — e bastante mal. Graças aos céus, um honesto comerciante de legumes me recolheu, cuidou de mim, me curou e, como eu havia perdido tudo, me deu abrigo, se tornou meu amigo e me ensinou a língua que se fala aqui, o que sempre pode ser útil.

— O que aconteceu com o irmão do rei? — perguntou Brunissen.

— Segundo o que me foi dito, sua embarcação foi jogada sobre a costa oposta, entre os bizantinos, onde afundou. Recolhido por vigilantes aí colocados por seu imperador, foi conduzido ao duque de Dyrrachium, o próprio sobrinho do imperador bizantino, por ele encarregado de vir ao seu encontro para apresentar as honras devidas à sua pessoa. No fundo, tudo terminou bem. . . salvo que foi na condição de náufrago e em estado lastimável, que Hugo o Bastardo, tão orgulhoso e tão imbuído de seu nascimento, foi conduzido ao representante do imperador de Constantinopla! Pobre senhor! Ele que considerava a sua condição como merecedora e digna de uma grandiosa recepção!

Mais uma vez eclodiu uma gargalhada sonora.

— Eu diria que não gosta nada do seu antigo mestre — retrucou Landry que observava o recém-chegado com um olhar crítico.

— Ele nem sempre é muito terno com seus servos — respondeu o barbeiro fazendo uma careta — se bem que, eu bem sei, tem a reputação de ser afável e boa companhia. . . Mas tudo isso acabou para mim. Como agora falo a língua do país, consegui me empregar como barbeiro no navio onde, justamente, faltava um. Pensava ter a oportunidade de encontrar gente do nosso país, já que não param de chegar de todos os cantos da França!

— Nós viemos de Chartres — disse Berta a Atrevida — de Chartres, onde meu filho é pergaminheiro do senhor bispo.

— É uma bela profissão. Mas me dei conta de que ainda não lhes disse meu nome. Chamo-me Mateus e nasci em Nanterre, perto de Paris.

— E se embarcássemos? — sugeriu Alaís, que se entediava.

— Não está mais com medo das pranchas oscilantes, senhorita?

A adolescente lançou sobre o rapaz louro e grande um olhar perplexo e contentou-se em balançar a cabeça sem responder, antes de tomar o braço de seu irmão gêmeo para subir a bordo do Maria-Virgine.

Todos se acotovelavam na entrada da passarela feita de longos pedaços de madeira mal cortados e colocados em plano inclinado entre o cais e a nave. Dentre os que aí esperavam, um homem barbudo, de idade indefinida, sujo, vestido com uma capa esverdeada pelo uso, dirigiu-lhe um sorriso lúbrico horrível.

— Você aí, vai ter que ser violada. . . — resmungou com uma voz embriagada, rouca o bastante para que Landry não o ouvisse.

Alaís estremeceu e se agarrou a seu irmão que, sem desconfiar de nada, tomou este movimento por conta do primeiro contato com o balanço do barco.

A adolescente sabia que, entre os que haviam tomado a cruz com tanto fervor, entre os jograis, cantadores, músicos ambulantes que os acompanhavam, haviam se infiltrado elementos duvidosos, aventureiros de todos os tipos, sem falar dos ladrões levados pela esperança de uma presa fácil, sempre possível numa tal aventura. Havia também peregrinos penitentes que tinham se misturado aos outros com a única intenção de remir pesados pecados, ou que haviam recebido a incumbência de seus bispos ou confessores para expiar uma falta particularmente grave. Sem falar dos caçadores de perdão, esses profissionais da peregrinação que o faziam por conta de outros e contra remuneração. Esses mercenários da penitência acumulavam muitas vezes seus serviços com o comércio de relíquias, que era dos mais frutuosos. . . O pai de Alaís e sua avó já haviam-na advertido várias vezes, bem como às suas irmãs, do perigo que representavam estes falsos mercadores de Deus. Felizmente Landry a arrastou com seu vigor habitual e, com algumas passadas, ela se viu no navio.

Do outro lado da passarela de pranchas, Garin esperava por sua família.

— Já está tudo acertado com o escriba — ele disse enquanto acariciava sua barba ruiva com um ar de satisfação. — Nossas malas estão sob o tombadilho, onde dormiremos. Lá estaremos abrigados do sol e da chuva, o que já é muito bom. Como nesta época o tempo é firme por aqui, não deveremos ficar muito mal. Resta a estreiteza dos estrados de madeira previstos para nossas esteiras. Quando os vi, protestei, mas não há nada diferente, então teremos que nos contentar com o que há.

— Se Deus quiser, não nos demoraremos muito neste navio — disse Landry.

— O único que importa é o objetivo de nossa viagem! Vamos navegar em direção a Jerusalém! Que importa o resto? O vento nos lavará de nossos suores noturnos e a companhia dessa imensa extensão de água elevará nossas almas além de nossas pequenas misérias! — declarou Flamínia, que respirava o ar marinho a plenos pulmões.

— Estou vendo que a boa vontade reina entre os habitantes da Beauce — constatou Mateus o Barbeiro, que se juntara ao grupo. — Nem sempre é assim! Há muita gente que não pára de reclamar.

— É preciso saber o que se quer — declarou Berta a Atrevida. — Quando se escolheu atravessar a metade das terras conhecidas para ir ajudar na libertação do Santo Sepulcro, não se vai gemer porque está um pouco apertado no barco!

— Bem falado! — aprovou seu filho. — Já que os vejo a todos em tão boa disposição, finalmente poderei ir até onde estão os meus cavalos, pois até agora não tive tempo de ir examiná-los.

 

O navio ia se enchendo lentamente. Depois dos soldados vestidos com suas armaduras vinham os peregrinos. Vestindo túnicas curtas presas com um cinto de couro na cintura, enrolados em longos mantos com capuz ou usando chapéus de abas largas para preservá-los das intempéries, quase todos os homens, por comodidade, usavam barba. Apenas os clérigos e os mais jovens, como Landry, a dispensavam. As mulheres tinham a cabeça coberta por véus de linho protegendo os cabelos trançados, o pescoço e os ombros. Para caminhar, levantavam a aba de seus casacos, permitindo ver as cores vivas e alegres de suas túnicas longas, ornadas algumas vezes de galões ou bordados na beira da bainha. Todos os peregrinos ostentavam com orgulho a cruz de tecido costurada sobre o ombro, o bordão e o alforje em couro ou lona, abençoados por um padre antes da partida. O mau tempo, a lama, o uso haviam enegrecido, deformado, polido o bastão de caminhada bem como o alforje levado a tiracolo, mas esses objetos bentos ficavam cada vez mais caros aos olhos de seus proprietários, que viam nessa metamorfose o testemunho de uma fidelidade comparada à sua.

Crianças, velhos, enfermos misturavam-se à multidão que se instalava ao redor da família do pergaminheiro. Com a determinação daqueles cuja meta está distante, daqueles para quem o tempo não conta, cada um procurava o seu lugar, apoderava-se dele, dispunha seus pertences.

A coberta não tardou a estar completamente ocupada. Ágeis, marinheiros corriam à direita e à esquerda antes da partida, saltando sobre os corpos deitados, evitando as malas, os pacotes, os peregrinos sentados ou de pé.

Algumas ordens espocaram. Vários homens da tripulação viram-se na obrigação de levantar a pesada vela, outros levantavam a âncora. No cais, em meio à fumaça dos incensos, padres vindos em procissão abençoavam cada navio. Em seguida, de uma só voz, gente do mar e gente da terra entoaram o cântico reservado à viagem à Terra Santa que todos conheciam de cor.

Flamínia cantava com entusiasmo, Brunissen com fervor, Alaís sorria enquanto olhava seu irmão.

 

           Que o tão Santo Sepulcro

           Seja a nossa salvaguarda!

           E em nome do Senhor

           Que estamos sobre as águas!

           Que Ele nos conceda Sua graça,

           Que Ele nos dê Sua força!

 

Todos se benzeram com recolhimento, recomeçou a atividade e, repentinamente, ouviu-se a voz do proprietário:

— Soltem as velas, pelo amor de Deus!

Na popa do navio, estandartes multicolores estalavam na brisa. . . Foi então que, de repente, com muita força, explodiu a fanfarra das trombetas. Seus sons roucos e estridentes desfizeram a suavidade do ar, como o teria feito o grito de um animal marinho desconhecido.

— Que algazarra! — exclamou Berta a Atrevida, que tinha horror de qualquer tipo de música. — É pior que a gritaria das gaivotas! Estou com a cabeça explodindo!

— Realmente estas trombetas são pavorosas — Flamínia admitiu. — Parece que estamos num campo de batalha!

O navio deixava lentamente o cais, afastando-se majestosamente do porto, onde os que não haviam partido ainda e esperavam a sua vez lançavam sinais de adeus. Na sua rota, o vento que inchava a pesada vela quadrada levava também as palavras.

Nos pequenos barcos que passavam bem perto do navio, os ocupantes saudavam a partida dos cruzados, agitando nas mãos bonés e xales.

Sob os pés dos passageiros, a ponte do barco sacudia com um pouco mais de força.

— Eu não gosto do mar, mesmo com bom tempo — disse Berta a Atrevida, mordiscando os lábios. — Não, juro que não gosto! Se não fosse para o serviço do Todo-Poderoso, jamais poria os pés num barco!

Toda a família, com exceção de Garin, encontrava-se reunida no tombadilho.

— Enquanto esperamos a hora do jantar, sentemo-nos sobre as nossas malas — propôs Landry. — São os únicos assentos disponíveis.

Habituada a nunca ficar parada, Alberade, a criada, verificava o estado das esteiras de palha, inspecionava a limpeza dos estrados de madeira que os abrigaria durante a noite.

— Tudo foi lavado ao amanhecer, da proa à popa e até os porões — completou Landry. — Soube isso pelo providencial escriba que fala a nossa língua. É preciso que o apresente a vocês. Esperem! Aqui está ele! É ele, ali, correndo deste lado.

— Diria até que vem em nossa direção — Alaís disse espantada.

Pequeno, magro, mas robusto, o homem que abria caminho através da multidão dava a impressão de uma força nervosa contida. Um nariz aquilino, os maxilares sempre crispados e as pupilas sombrias criavam-lhe uma máscara que dava a Brunissen a impressão de que ele tinha algo de trágico. Ele não parecia destinado a sorrir com freqüência. O escriba aproximou-se de Landry.

— Venha — disse com um forte acento italiano — pela Cruz de Cristo, venha, venha depressa!

— Será que aconteceu alguma coisa com Garin? — perguntou Berta a Atrevida, franzindo as sobrancelhas.

O homem lhe dirigiu um olhar perturbado, pareceu hesitar e em seguida, sem esperar mais, agarrou o adolescente pelo braço para arrastá-lo com ele.

— Seu pai — resfolegou quando já estavam bastante distantes da família estupefata. — Seu pai. . .

Ele parou por um instante, ao ver a expressão perturbada do jovem, e depois sacudiu a cabeça num gesto de impotência.

— O que lhe dizer? — recomeçou. — Como lhe dizer?

— Por Deus, fale!

— Seu pai está ferido. Gravemente. . . Quando as trombetas eclodiram, ele estava pendurado sobre o jarrete de um de seus cavalos que parecia esfolado pela cilha traseira. Você sabe, é aquele magnífico baio da Noruega que ele prefere, mais do que todos os outros, segundo ele mesmo me confidenciou. . . Assustado com o barulho das buzinas, escoiceou brutalmente. Seu pai não teve tempo de proteger-se. Recebeu um coice na têmpora direita, tão forte que desmaiou imediatamente. . . Com a ajuda de um palafreneiro que se encontrava ali, deitei-o sobre dois montes de palha. Ele perdeu a consciência. Está sem cor e sem pulso. . . A impressão do ferro marcou a sua têmpora, que está começando a inchar de maneira horrível. . . E ele não volta a si. . .

 

Desde a manhã, o Maria-Virgine estava imóvel, com mais cinco outros navios no mar calmo, sem vagalhões, que se espelhava infinitamente ao redor dos pesados cascos arredondados de cores fortes. Depois de uma noite de navegação tranqüila, o vento havia parado e as naves, com suas velas frouxas, pareciam grandes gaivotas de asas quebradas. Três dentre elas levavam a bordo os homens de armas, cavaleiros, barões e serviçais do conde de Blois e do duque de Normandia. Toda essa gente fervia de impaciência. Os padres e os monges que os acompanhavam, entre eles Foucher de Chartres, tinham muito trabalho para acalmar tanta irritação. . .

O proprietário do Maria-Virgine mandara montar uma cama de cam­panha para o ferido cuja família parecia tão abastada, que tinha, entre seus membros, um notário episcopal. Garin havia mergulhado num sono profundo. O dono do navio havia sido gentil ao ponto de ceder, ao pergaminheiro, o recanto mais protegido da coberta sob o tombadilho. Cortinas feitas de uma lona rude para velas o separavam das outras camas e permitiam que os seus permanecessem perto dele, evitando a curiosidade compassiva, muitas vezes inoportuna, dos companheiros de viagem.

Consternados, sua mãe, seus filhos, sua criada e padre Ascelino cercavam Garin desde que o tinham trazido, ainda inconsciente, do porão onde havia sido ferido. Assim que voltou a si, depois do desfalecimento, queixou-se de dores na cabeça, cujo lado direito, na altura da têmpora, estava muito inchado.

Mateus o Barbeiro lavara a ferida intumescida com azeite de oliva e vinho, antes de aplicar um ungüento de composição sua e do qual muito se vangloriava. Uma faixa de pano segurava este emplastro no rosto, que apresentava uma palidez de cera.

— Vou fazer-lhe também uma sangria— dissera o barbeiro. — É uma boa maneira de desafogar o cérebro, liberando o sangue nocivo e outros problemas.

Após haver massageado o braço direito do ferido com uma pomada composta, segundo suas próprias explicações, de bagas de choupo, ele amarrara um garrote acima do cotovelo e, de uma só lancetada, abrira a veia. Um sangue negro escorrera na bacia segura por Alberade. Quando a emissão sangüínea parecera suficiente, com a celeridade de quem é acostumado a fazê-lo, Mateus desamarrou o garrote e o guardou no alforje, junto com a lanceta, enfaixando em seguida o pequeno corte ensangüentado.

Recebidos os cuidados, Garin conversou com a família. Apesar de cruelmente torturado pela dor, ele tentava tranqüilizá-los. No entanto, não fora capaz de manter-se de pé. Não conseguia mais manter o equilíbrio e era traído pelas próprias pernas. Os que o cercavam ficaram também impressionados ao ver, por alguns momentos, seus olhos se revirarem e se esconderem, como que perdidos, sob as pálpebras. Ele precisou renunciar à luta contra esses males e voltou a se deitar na cama emprestada pelo proprietário do navio. Então começou a vomitar. . .

Sentada à cabeceira de seu filho, Berta a Atrevida cuidava dele com uma mistura de decisão e ternura inquieta que lembravam, a Garin, sua infância. Ajudada pela criada que chorava sem parar, ela molhava seu rosto com um pano impregnado de água-de-cheiro, oferecia-lhe uma bacia quando voltavam as náuseas, enxugava o suor que escorria pelo rosto até a barba ruiva, suja, falando-lhe a meia voz quando abria os olhos. Como todas as vezes em que a doença havia imobilizado um dos que viviam sob sua responsabilidade, Berta abandonara momentaneamente sua autoridade soberana para transformar-se na mais atenciosa, a mais dedicada das enfermeiras. . .

De pé ao redor do leito onde seu pai finalmente conseguira adormecer, os filhos traduziam em alternativas de esperança e apreensão os traços profundos daquele cuja presença continuava sendo sua mais segura proteção. Precisavam dele e se davam conta disso quando sua vida corria perigo. Porque ele realmente corria perigo. . . Para aprender a viver, sempre haviam contado com ele. Junto ao leito de infortúnio onde estava o pai, puderam medir até que ponto sua juventude podia ainda se sentir frágil, despojada. . .

— Ele vai ficar bom — garantira o barbeiro, e cada um deles não desejava outra coisa senão acreditar nele.

Divididos entre a angústia e a confiança, as filhas e o filho de Garin recusavam-se a imaginar uma eventualidade que os privasse do calor paterno para deixá-los à mercê do frio, indefesos, diante de um futuro sem rosto, já que não haveria mais o do pai. . . Vê-lo, pela primeira vez na vida, submetido a tão dura prova física, à mercê de tudo, era para os filhos insuportável. De qualquer maneira, era preciso que acreditassem na sua cura. . .

Quando paravam de zelar pelo ferido a quem abanavam sem parar, um por vez, para espantar as moscas que zumbiam em torno do ferimento, era para constatar, espantados, que a vida dos passageiros a bordo não havia sido perturbada pelo que acabavam de passar.

Se a emoção despertada pelo acidente sofrido por um dos peregrinos mais estimados por sua fé e sua atividade fraternal fora grande, não chegara a impedir que o curso dos acontecimentos a bordo continuasse com suas descobertas, suas dificuldades, suas acomodações. . . Ao ritmo dos "cla­mores", estas orações salmodiadas do alto da gávea pelo grumete, um jovem marinheiro requisitado para uma série de tarefas as mais variadas, o tempo corria. Ele se dividia entre as refeições feitas em grupo, os pequenos serviços, as conversas, a diversão garantida pelos músicos ambulantes, os cantores improvisados, sem contar os cuidados com as crianças, os doentes, as idas e vindas, enfim as recitações das preces ao amanhecer e à noite.

Sentindo que era preciso, de maneira imperativa, obter do Senhor uma ajuda toda especial, confiando talvez num milagre, a família de Garin retomava, com surda insistência, as palavras de invocação pronunciadas nos diferentes momentos do dia pelo proprietário, por seus passageiros, por sua tripulação, por todos juntos, ajoelhados na coberta. Era mais do que um pedido que dirigiam então ao céu, mas um insistente pedido de socorro.

Durante todo esse tempo, ninguém da família abandonava o recanto protegido pelas cortinas de lona onde Garin dormia um sono de chumbo, a não ser para dar notícias aos amigos mais próximos: um tintureiro de Chartres viúvo e suas duas filhas, cuja primogênita, Gauthier, tinha a mesma idade de Landry, e um casal de seleiros cuja mulher, estéril, adorava os filhos dos outros. Ela havia ajudado a cuidar daqueles cuja morte prematura da mãe havia tornado órfãos muito cedo. Gorda, sempre esbaforida, chamava-se Guibourg. Não chegava a ter um espírito brilhante, mas em diversas circunstâncias havia se mostrado bondosa e dedicada. Além disso, era alegre. Portanto, era junto a ela que iam buscar um pouco de força.

— Por Deus Todo-Poderoso, sinto vontade de gritar quando vejo toda essa gente jogar dados, xadrez, tocar música ou se divertir, olhando pular monstros marinhos na esteira do barco, enquanto nosso pai sofre tanto! — gritou, ao final do dia, Landry, levando uma moringa d'água para sua avó, enquanto Alberade o seguia com uma cesta de pão e queijos.

Berta realmente se recusara a abandonar a cabeceira de seu filho para ir se juntar aos outros, em torno das mesas instaladas não muito longe dali, na popa. Eram apenas cavaletes, fixados ao chão para evitar que deslizassem com o balanço do navio, encimados de longas pranchas recobertas de toalhas. O barulho das conversas que chegavam até Berta a deixavam exasperada Ela temia que esses ruídos intempestivos o tirassem de seu repouso e, ficando bem perto dele, tinha a impressão de protegê-lo melhor. Desviou por um momento a atenção do ferido para considerar seu neto, que acabara de se exprimir com tal virulência. Como suas irmãs, o adolescente tinha os traços repuxados, as pálpebras vermelhas e inchadas, e ela via, na sua expressão, uma gravidade que lhe conferia certa madureza, inimaginável algumas horas antes.

— Não podemos pedir àqueles que não são dos nossos, que partilhem

a nossa inquietude — observou Brunissen. — Para eles, nada mudou. Tudo continua como antes. . . antes. . .

Ela abanava seu pai com uma folha de pergaminho que tirara de sua mala. Sua voz, com inflexões normalmente carinhosas, quebrou-se com as últimas palavras que acabara de pronunciar. Esta manifestação de fraqueza gerou imediatamente um protesto de sua irmã caçula. Ajoelhada ao lado de sua avó, a quem ajudava quando necessário, Flamínia retomava em seguida o fio de sua oração com uma sorte de violência íntima que seu olhar traía. Semeados de um mosaico de pontos cinza, verdes, azuis, dourados, encarnados, seus olhos, geralmente luminosos, podiam variar também de acordo com a hora, a luz, os reflexos da água, a cor do tempo. Mutantes como o céu imenso da sua Beauce natal, aqueles olhos nunca eram os mesmos, e Garin gostava de dizer que nenhum iluminador, mesmo o mais hábil, conseguiria captar a diversidade mutante. . . Perturbada em suas orações pelas considerações de Brunissen, Flamínia lhe dirigiu um olhar excitado onde começavam a secar alguns traços de lágrimas.

— Nunca se esqueça de que a desesperança é um terrível pecado! — exclamou. — Não temos o direito de duvidar de Deus, nem de Sua misericórdia. Reze para Ele! Reze para Ele!

— Pelos Santos Evangelhos, não tenho feito outra coisa e você não tem razão para duvidar, minha irmã! — respondeu Brunissen, cuja calma habitual fora fortemente quebrada pelo choque vivido momentos antes. — Quem poderia, aqui embaixo, julgar a predominância de uma súplica sobre outra?

— Calem-se ambas! — ordenou Berta a Atrevida. — É preciso não perturbar o sono de seu pai!

Este sono, tão imóvel, tão pesado que nada parecia ser capaz de movê-lo, atormentava-os cada vez mais. Na noite da véspera, quando adormecera após ter vomitado as tripas, haviam se regozijado por ver o ferido enfim em paz depois de tanto esforço. Um bom repouso, pensavam, permitiria que Garin se restabelecesse ao fim de algumas horas. . . Pouco a pouco, cada um fora tocado pelo sentimento de que era mais num estado de entorpecimento, de embotamento que ele mergulhava. O alívio dava lugar então a uma retomada das preocupações.

Ao entardecer, logo antes do Angelus da noite, seu amigo, o escriba, havia subido à popa para salmodiar uma longa oração em italiano, seguida de ladainhas em latim. Sua voz grave e um pouco anasalada passava por sobre as cabeças inclinadas dos passageiros, reunidos ao pé do mastro, para chegar até o leito de Garin, cercado por todos os membros da sua família. Ajoelhados como todos, nessa hora lancinante de adeus ao dia, a mãe e as crianças do pergaminheiro viveram, com emoção maior do que em qualquer outro lugar, as palavras encantadas das ladainhas que acompanhavam esse primeiro crepúsculo vivido por eles no mar. Tanta nostalgia era transmitida naqueles apelos insistentes, repetidos, tantas esperanças, mas também tanto temor!

Em seguida, todos juntos entoaram num só coro, numa só voz, com uma confiança estremecedora, as palavras da Salve-rainha.

Nem bem as palavras destinadas à Virgem Maria acabavam de tremer na leveza do ar e um apito quebrou o recolhimento dos peregrinos. O criado do mestre do navio brandira então, na ponta dos braços estendidos, a imagem sagrada da santa padroeira do navio, aos pés da qual se recitaram três ave-marias. Em seguida, em nome de seu mestre, desejou a todos uma noite agradável e se retirou.

Na escuridão que invadia.o céu, o mar e as naves, as pessoas, reunidas em grupos, ainda não haviam se decidido a romper a magia dessa hora vesperal vivida entre o céu e o mar, com um tempo tão bonito que mais parecia um batismo, ao mesmo tempo marinho e noturno. Luzes celestes distantes, as estrelas brilhavam no infinito e as lanternas que todos haviam trazido, também iluminadas umas junto às outras, brilharam um momento, frágeis luzinhas humanas, respondendo com seu modesto fulgor ao cintilar dos astros.

Então todos começaram a se dispersar para dormir. Ouviram-se gargalhadas agudas ou abafadas, o estardalhaço de alguma briga de bêbados, cochichos, ruídos de palha remexida. . .

— Se nosso pai não tivesse sofrido este horrível ferimento, esta noite poderia ser mais feliz — sussurrou Alaís aos ouvidos de Landry, apoiando suas duas mãos cruzadas sobre o ombro fraterno. — Nunca vi nada tão belo como o mar, tão suave. Ele parece embalar nossos imensos navios como se fossem ovos de Páscoa gigantescos. . .

Como precisava, a cada noite, escrever um relatório sobre um rolo de pergaminho que estava encarregado de enviar a seu bispo na etapa seguinte, padre Ascelino se isolara por um longo tempo em uma das mesas já desembaraçadas do jantar. Terminado seu trabalho, voltou para junto de Garin, observou-o um momento, propondo em seguida a Berta a Atrevida que, quando necessário, requisitasse a presença de alguém que pudesse ajudá-la nessa vigília penosa.

Lábios contraídos, rosto altivo, a mãe do pergaminheiro sacudiu a cabeça.

— Esta noite os meninos dormirão junto a seu pai — disse com ar decidido. — Se fosse necessário, eu os acordaria para me ajudar, mas tenho comigo Alberade que dormirá aqui e não me deixará só. Eu não dormirei. Velarei meu filho como em outros tempos, durante suas doenças de menino.

Padre Ascelino inclinou-se, antes de pousar uma das mãos sobre o ombro de Berta.

— Nossas orações, nossas intenções serão as mesmas — garantiu ele, antes de se afastar para ir ao lugar onde seu criado desenrolara sua esteira de junco trançado.

E a noite transcorreu sob os cuidados dos homens de vigília, dos homens do leme, pontuada de roncos, de relinchos distantes, do vai e vem daqueles que sofriam com enjôos e males do mar. No deque, na proa do barco, onde o balanço era mais sensível, ficavam as jardines, assentos construídos em lugar descoberto, bem à frente, onde acabava o navio. Para chegar lá, era preciso tropeçar nos que dormiam, nas malas, nas cordas, nos alforjes que escondiam seus pequenos segredos. Esse percurso não se completava sem que, quase sempre, houvesse tombos, reclamações, praguejamentos, exclamações. . .

Entretanto, o canto alternado que os marinheiros de plantão entoavam para lutar contra a sonolência acalmava os espíritos e, por sua harmonia tão suave, conduzia pouco a pouco os peregrinos ao sono.

No meio da noite, a voz do grumete: "Tudo calmo, fiquem em paz", seguida do rebuliço da troca da guarda, acordou alguns que só conseguiram adormecer resmungando. . .

O sono não parecia trazer nenhuma alteração ao estado do ferido. Ele não se queixava, jazia sem o menor movimento e sua respiração era apenas perceptível. Inclinada sobre ele, a mãe escutava aquele sopro de vida. . . Enrolados em suas mantas, seus filhos, arrasados pela emoção, haviam se deitado fora dos estrados que lhes haviam sido reservados mais longe dali. Preferiram abrir mão deles para ficar mais perto do pai, dispensando um conforto de que sua juventude não se ressentia e cochilando na cobertura que balançava cada vez menos. . . O vento estava parando. . .

Quando acordaram, o navio quase não avançava mais. Apenas um movimento suave das ondas ainda o embalava. A vela pendia e, na direção do Oriente, a aurora clareava o céu.

Foi então que um apito soou, como na noite da véspera, e a voz do grumete ecoou mais uma vez, clara e vibrante:

 

         Bendita seja a luz

         E a Santa Cruz,

         O Senhor da Verdade

         E a Santíssima Trindade.

 

         Benditas sejam nossas almas

         E o Senhor que no-las deu

         Bendito seja o dia

         E o Senhor que no-lo envia.

 

De todos os cantos do barco elevaram-se respostas roucas da gente que mal acordava: — Pater Noster, Ave Maria.

Foi preciso então que todos se levantassem, retomassem a surpreendente realidade e se pusessem em movimento. Todos se espreguiçavam, sacudiam as roupas amassadas, se cocavam, alguns penteavam a barba, outras alisavam as trancas que a noite havia tirado de ordem. . .

O criado do proprietário do navio reapareceu, apitou mais uma vez, ergueu a imagem pintada da Virgem, e todos se puseram fraternalmente de joelhos para recitar as orações da manhã. Nem bem as últimas palavras de invocação foram pronunciadas e todos se precipitaram até as jardines, onde alguns já esperavam. . .

Munidos de vassouras feitas de giestas e de baldes d'água cheios até a borda, os marinheiros começaram a lavar vigorosamente a coberta, forçando os retardatários a enrolar e arrumar rapidamente suas esteiras e pertences para que não se molhassem.

— Vejam! — exclamou Landry. — Estão hasteando o estandarte no alto do mastro!

Suas irmãs dirigiram o olhar na direção indicada, mas sua atenção estava em outro lugar. Com a luz do dia que voltava, a ansiedade ao redor do leito de Garin aumentava. Berta, que observava seu filho desde os primeiros sinais da aurora, depois de ter cochilado por um breve momento por volta do final da noite, apesar do desejo de se manter acordada, pôs-se a falar com ele com uma voz contida, sem obter a menor resposta.

Padre Ascelino, que desde o seu despertar voltara para perto do cunhado, tentava também se fazer ouvir. Em vão.

— Sua respiração continua perceptível — constatou ele — mas seu sono está tão pesado! Parece que não consegue mais voltar a si!

Flamínia se inclinara sobre o rosto pálido e suas trancas flamejantes, como dois elos de fogo, emolduravam a cabeça ferida do pergaminheiro.

— Pai — suplicou com voz insistente — pai, pelo amor de Deus, pelo nosso amor, fale! Diga uma palavra, uma só palavra! Não nos deixe nesta espera insuportável!

Com os olhos cheios de lágrimas, Brunissen esfregava uma de suas faces contra a mão direita de Garin, cujos dedos permaneciam inertes sobre a coberta de fustão emprestada pelo proprietário.

— Ele parece ter partido para tão longe. . . — gemeu Alaís. — Será que um dia poderá voltar para nós?

Do outro lado das cortinas, podia-se ouvir os marinheiros distribuindo a refeição matinal composta de pão, queijo, biscoitos, peixes defumado, figos secos, nozes, amêndoas. . .

Mas no interior do espaço protegido ninguém tinha fome. As tímidas propostas de Alberade de ir buscar algo para comer foram recusadas por todos.

Repentinamente, uma das partes da lona foi levantada:

— Como está o nosso amigo esta manhã? — perguntou Mateus o Barbeiro enquanto entrava. — Ele dormiu?

— Não fez nada além disso — suspirou Berta, lançando um olhar severo ao jovem que surgia no auge de seus tormentos com um ar lépido e um sorriso que julgou inconveniente.

— Vejamos — retomou o barbeiro sem perder seu ar seguro, enquanto segurava o pulso de Garin. — Vamos ver como está esta pulsação.

Rapidamente sua expressão mudou.

— E a urina?—perguntou, enquanto deixava o braço do paciente, cujas pulsações estavam imperceptíveis. — Guardaram-na no vidro que recomendei ontem à noite?

— Aqui está.

Mateus levantou na altura dos olhos o frasco cheio até a metade com um líquido bastante escuro, fez uma careta e o devolveu à mãe do ferido.

— Vou refazer seu curativo — decidiu. — É preciso acordá-lo. É evidente que não podemos deixá-lo dormir assim durante todo o dia!

Ele desfez as bandagens que mantinham o emplastro, sem que Garin esboçasse a menor reação. Em seguida levantou a compressa colada aos cabelos e à pele intumescida, soltou-a com cuidado, deixando à mostra a têmpora violácea e inchada na qual se podia ver, sob a forma de uma impressão enegrecida, a marca do casco que o ferira.

Foi então que, sem que ninguém lhe abrisse os olhos, sem que nenhum calor reanimasse seus traços exangues, repentinamente, com uma voz embaralhada e distante, apenas audível e após algumas palavras balbuciadas, ouviu-se Garin murmurar:

— Jerusalém. . . Ó Jerusalém. . .

Ao redor da cama de campanha, todos prenderam a respiração.

Brunissen soltou uma espécie de grito abafado onde a emoção tomava as cores da esperança. Aquelas palavras tão esperadas devolviam a todos a confiança.

Mateus lavou mais uma vez o ferimento com a mesma mistura de azeite e vinho, deitou uma outra camada de ungüento, refez o curativo trocando-o por outro limpo e colocou suavemente sobre o travesseiro a cabeça que parecia cansada, tão cansada como se o esforço despendido para se expressar a tivesse aniquilado. . .

— Seu estado me deixa desconcertado — confessou o barbeiro com um ar preocupado. — Eu poderia lhe ter feito uma outra sangria, mas acho mais prudente evitá-lo, tal a sua prostração. Tirar sangue sempre enfraquece, pois se evacuam, ao mesmo tempo, os espíritos e o calor do doente. . . É pena que não tenhamos um médico a bordo, já que estamos tão longe de Salerno. Um dos doutos personagens formados por essa escola certamente saberia cuidar melhor do que eu do vosso parente.

Aquela humildade repentina alertou padre Ascelino. Ele fez um sinal a Mateus e o levou para mais longe da família de Garin, além das cortinas, que nenhuma brisa levantava mais.

— É realmente grave? — perguntou ele sem levantar a voz.

— Por Cosme e Damião, padroeiros da medicina, não tenho a menor idéia! — respondeu o barbeiro, fazendo uma careta de ignorância. — Seu pulso está tão fraco que nem se pode sentir e sua urina bastante turva; entretanto ele acabou de falar, coisa que eu não esperava mais acontecer. Talvez seja um bom sinal.

— Não há mais nada que possa tentar?

— Nada além do que fiz. Já salvei muita gente com sangrias e meu ungüento geralmente é soberano contra as pancadas. Estou aplicando coisas que ninguém se deu ao trabalho de me ensinar! O que aconteceu ao seu cunhado? Não é impossível que tenha rompido uma veia no seu crânio. Se for isto, não posso fazer nada. Um trepanador poderia certamente abrir a têmpora para tirar o sangue morto, mas esse tipo de operação não é da minha competência. . . Tentei tudo que estava ao meu alcance. . .

Padre Ascelino pagou o barbeiro por seu trabalho e lhe agradeceu os cuidados, voltando em seguida para perto de Garin.

 

O vento estava completamente parado. Não havia mais nem um sopro de ar sobre a extensão de água, onde nenhuma onda se agitava. Era a calmaria total.

Já que era preciso esperar o bel-prazer de um elemento dos mais caprichosos, todos começaram a se organizar. Os jogos recomeçaram, puseram-se a contar histórias, a cantar, a dançar ao som das flautas, flautas pastoris, gaitas de fole ou tamborins surgidos de uma só vez das malas e alforjes. Outros peregrinos preferiram as adivinhações, as charadas, beber ou provocar as moças.

Alguns rezavam para que o vento levantasse.

Rezava-se também na cabeceira de Garin, não pelo vento mas por aquele filho, aquele pai, aquele irmão amado que, como os sopros do céu, parecia privado de movimento, tocado por uma imobilidade petrificante... Brunissen, Flamínia, Alaís, Alberade e Landry, todos de joelhos ao redor do leito onde o ferido estava sem estar, juntavam as suas súplicas às da avó, sempre sentada no mesmo lugar. Todos desfiavam, sem parar, seus pesados rosários enquanto recitavam as ladainhas da Virgem.

Eles se recusavam a reconhecer, no fundo de seus corações, que a estranha ausência do vento era como um sinal de mau agouro. . .

Repentinamente, Landry se levantou. Não agüentava mais. Sem mais explicações, saiu pelo barco e atravessou os grupos de peregrinos ocupados em se divertir. Trocou algumas palavras com seu amigo Gualtério, um rapaz alto, magro e louro como a palha, filho mais velho do tintureiro de Chartres, que fazia o jogo dos ossinhos* com seu irmãozinho, deu uma resposta evasiva gorda a Guibourg, que se informou do estado de Garin e retomou seu caminho em direção à proa.

Havia um homem de guarda ali. Em tempos normais, quando se estava navegando, era ele quem gritava as indicações de que necessitava o navegador, que por sua vez as transmitia, por um orifício aberto no chão do tombadilho, ao responsável pelo leme.

Nesse lugar elevado reinava um silêncio relativo. Podia-se ouvir o ruído leve, comparado a uma peça de seda amassada, produzido pela respiração do mar, bem como os gritos dos pássaros que sobrevoavam o navio. Da coberta também subiam alguns acordes musicais. No ar excessivamente calmo ressoavam notas, como que se espreguiçando, parecendo demorar, como se hesitassem em se fundir a um céu tão indiferente. . .

Landry permaneceu um longo momento de pé, não muito distante do marinheiro que vigiava o horizonte. Os cinco outros navios, que partiram um pouco antes ou um pouco depois do Maria-Virgine e que dividiam o seu infortúnio, haviam fundeado a algumas amarras uns dos outros, paralisados. Com a ajuda de pavilhões coloridos, sinais eram trocados de bordo a bordo mas, evidentemente, nenhum deles podia transmitir aos seus vizinhos mais do que as mesmas novas da imobilização desoladora. . .

Mergulhado numa meditação ansiosa, Landry tentava pôr um pouco de ordem no caos que tomava conta dos seus pensamentos. Nem a beleza da luz de um mar primaveril, nem a visão de uma jovem que amamentava seu filho, bem debaixo dos seus olhos, ao pé da escada usada para atingir o posto de observação onde ele se instalara, conseguiam tirá-lo de sua obsessão. . .

Como uma quimera perdida, havia uma pergunta rondando a sua cabeça, impondo-se, sem abandoná-lo: se seu pai permanecesse no estado presente, se nele afundasse ou, pior ainda, se morresse, se os deixasse para ir ao encontro de sua esposa na morada celeste, o que seria de todos eles, sua mãe, suas filhas, seu filho? Único homem na descendência do pergaminheiro, caberia a ele guiá-los, protegê-los. Mas a sua juventude e a sua inexperiência o assustavam. Havia também o tio, padre Ascelino, homem de bom senso e decisão, mas apesar de todas as suas qualidades, como poderia substituir o ausente? E a peregrinação? A exemplo de tantas outras, seria necessário interrompê-la no meio do caminho, renunciar ao termo sagrado a que ele e sua família haviam se proposto como única tarefa a cumprir cá em baixo, sem jamais perder a coragem?

Landry meneou a cabeça com energia. Sua avó jamais aceitaria essa demissão, nem renegar o voto solene com o qual todos haviam se comprometido a prosseguir numa estrada, num combate, cujo único objetivo era a libertação do santo sepulcro. . .

Uma bolha de angústia subia do peito à garganta de Landry, sufocando-o. . . Não! Seu pai não os deixaria assim, abandonando-os na estrada, longe, tão longe ainda de Jerusalém!

Jerusalém, última palavra pronunciada pelo ferido! Apesar da dificuldade que tivera para exalá-la, seu filho pôde perceber aí o eco de uma esperança intacta, maravilhada, junto ao vestígio de uma consternação lancinante.

As lágrimas corriam pela face do adolescente, seguindo o contorno do seu queixo ainda arredondado pelo resto de infância, caindo sobre o tecido lanoso de sua túnica vermelha.

"E se ele falasse novamente, se melhorasse enquanto estou aqui me lamentando. . . ou, ao contrário, se viesse a morrer sem que eu esteja perto dele!"

Este pensamento atravessou-o repentinamente como uma lâmina. Landry se precipitou até a escada, desceu-a como um louco, cruzou com o olhar espantado da jovem mãe cujo seio inchado, azulado pelas veias, pareceu-lhe a própria imagem da felicidade, e afastou-se, os olhos marejados de lágrimas.

Diante das lonas que isolavam Garin, foi tomado por uma apreensão incontrolável que lhe remexeu o ventre. Respirou fundo e levantou a cortina.

Nada parecia ter mudado desde a sua partida. As mulheres rezavam desfiando seus rosários. Junto à cabeceira da cama, de pé, o padre Ascelino estava mergulhado num recolhimento profundo.

Antes da hora das sestas, os peregrinos das redondezas instalaram-se mais uma vez para uma refeição feita, como na véspera, sobre as malas ou mesas da coberta, não muito longe do leito onde o tempo parecia ter suspendido a respiração do ferido. . .

— Vocês precisam se alimentar, meus filhos — disse Berta a Atrevida. — Vamos, vamos. Eu ficarei com ele.

Ninguém protestou. Na expectativa sempre adiada de um acontecimento imprevisível, tão cheia de incógnitas, havia tanta tensão escondida e uma incerteza tão insuportável, que um alívio evidente, onde havia um pouco de covardia e muito de prostração, levou os mais jovens a fugir por um instante daquele local de pesadelos.

E o vento não voltava. . .

A refeição se desenrolou sem incidentes. Retomaram a guarda junto a Garin, que dava a impressão de distanciar-se de maneira insensível mas, infelizmente!, certa.

O dia passou, imóvel. . .

O sol ia ainda alto, no horizonte. Uma suavidade insidiosa anunciava, entretanto, que não tardaria a baixar quando Brunissen, que voltara a ajoelhar-se perto do ferido, o rosto pousado sobre uma das mãos de seu pai, sentiu que o pouco de vida ainda subsistente nele havia partido. Ela não entendeu o que a advertira, mas soube de maneira indiscutível pela sensação aflitiva de uma ausência, de um súbito vazio. . .

— Pai! — gritou ela, levantando-se assustada. — Pai! — Todos olharam para ela, perdidos. . .

O cunhado do pergaminheiro ajoelhou-se perto de Brunissen. Pousou o seu ouvido contra a boca entreaberta por onde a alma acabara de fugir.

— Que Deus seja misericordioso para com ele! — disse, enquanto se levantava e fazia o sinal-da-cruz. Acabou.

Os gritos das mulheres explodiram. Landry pôs-se a soluçar com a violência de uma criança perdida. . . Berta se projetou sobre o corpo do filho e falava com ele. . . Alberade, a criada, deslizou no chão, desmaiada. . .

Rapidamente, a bordo do navio, choros e lamentações se espalharam entre os companheiros de jornada do pergaminheiro e mesmo entre aqueles que o conheciam menos. Gualtério, seu pai, seu irmão, batiam no peito, gemendo e chamando o amigo defunto. Guibourg, que já não sorria mais, se debruçou sobre o ombro do marido, inundando-o de lágrimas.

Brunissen, Flamínia e Alaís continuavam a gritar sua tristeza, batendo com o rosto na borda do leito mortuário. . .

O proprietário do navio chegou logo. Depois das palavras de consolo dirigidas à família que nem mesmo o escutava, ele chamou à parte padre Ascelino:

— Nós não poderemos conservá-lo a bordo por muito tempo — disse ele suspirando. — Se estivéssemos para acostar, preferiria enterrá-lo ao chegar ao porto, mas estamos longe da costa e o vento pode demorar a voltar. . . Com o calor, em pouco tempo seria insustentável. . . E ainda há os ratos. . .

Padre Ascelino fechou os olhos.

— O que se costuma fazer em casos semelhantes? — perguntou com voz sofrida.

— Só existe uma maneira: costurá-lo num saco, colocar dentro um pouco de terra benta e jogá-lo ao mar!

— Senhor Deus!, a senhora Berta jamais aceitará um tal fim para seu filho!

— Mas ela será obrigada — declarou o proprietário, sacudindo os ombros com fatalismo. — É uma obrigação que tanto os marinheiros quanto os passageiros devem obedecer. Seu parente não será o primeiro nem o último a ser enterrado no mar e não na terra. Além do mais, qual é a diferença? Não é apenas a alma que importa?

— Vou tentar convencer sua família — murmurou o notário episcopal com o coração despedaçado.

 

Os filhos do pergaminheiro jamais esqueceriam aquela horrível cerimônia, acontecida na quietude da noite. A absolvição feita pelo padre Ascelino que, apesar do autodomínio e do hábito, não pôde se abster de chorar a perda de um cunhado tão querido; a higiene do morto, que Berta a Atrevida, muito firme, fez questão de presidir pessoalmente com ajuda de Guibourg e Alberade, enquanto seus familiares, mantidos à distância, recebiam o consolo dos peregrinos compadecidos. . . O mais difícil continuava sendo ainda a visão daquela forma mole, costurada num enorme saco de lona crua, aquela forma longa e pesada, levada de solo cristão, carregada por dois marinheiros até a gávea, agarrada, jogada, caindo finalmente numa água muito calma onde afundou lentamente, no meio de um círculo de espuma. . . enquanto os passageiros e a tripulação, de joelhos, recitava o Libera Me. . .

A mãe de Garin não assistiu a essa abominável imersão. Suas pernas, como que petrificadas, se recusaram a levá-la quando foi necessário abandonar o espaço protegido de onde haviam acabado de retirar o corpo de seu filho único. Foi Brunissen, na qualidade de primogênita que, usando luto, acompanhou na frente o cortejo que iria depositar os restos de seu pai naquele túmulo líquido laqueado de reflexos vermelho-vivos pelos raios do sol poente. Quando o mar se fechou sobre o sinistro saco e os círculos concêntricos se apagaram na superfície da água, a jovem desmontou por inteiro no chão do navio. . .

A bonança permaneceu ainda por dois longos dias, e o bom tempo resplandecia. Da hora terceira até as completas o calor subia, culminava e se esbatia aos poucos. A vida do resto do mundo parecia também ter sido interrompida com a do chefe de família. . .

Exaustos de tantas lágrimas, os filhos de Garin cercavam a avó, cujo comportamento os deixava pasmos. Depois de ter guardado um silêncio total, pusera-se então a falar, a falar sem parar, do seu filho desaparecido. Não só aos seus, é claro, mas também ao tintureiro de Chartres, Rogério, aos seus filhos, à cara Guibourg, ao seu marido, a Herberto Chauffecire, ao escriba, ao proprietário, a Mateus o Barbeiro, a todos ela falava sobre a coragem, a bondade, a habilidade, a ousadia, a caridade inesgotável do pergaminheiro. Todos a escutavam com maior ou menor deferência, alguns aprovando, alguns se afastando. Herberto, o galante cirieiro, aproveitava para ficar perto das adolescentes de quem enxugava as lágrimas com muita compunção, tentando consolá-las bem junto delas.

Todas as manhãs, a bordo, peregrinos e marinheiros assistiam a uma missa seca, celebrada sem que houvesse consagração. Temendo que os movimentos do barco provocassem enjôo nos comungantes, e as santas espécies fossem jogadas ou espalhadas por toda parte, a Igreja proibia a comunhão no mar.

Na manhã do terceiro dia, após o ofício, padre Ascelino solicitou um encontro privado com Berta a Atrevida.

Como o proprietário da nave já tivesse retomado o seu lugar habitual, a família do pergaminheiro estava agora na coberta, junto aos outros peregrinos que continuavam a tratá-los com benevolência e respeito. Por simpatia verdadeira, sem dúvida, mas também porque, para muitos, faz bem à consciência oferecer ajuda àqueles que foram recentemente visitados pelo infortúnio. . . Pelo menos era o que pensava Brunissen, que se achava muito lúcida.

Berta concordou em caminhar um momento ao lado do notário episcopal. Ela o respeitava e o admirava por sua inteligência, seu conhecimento do latim e das Santas Escrituras. E também Garin o considerara sempre como um irmão.

— Se fiz questão de lhe falar em particular — disse ele — foi porque imagino quanto tormento esconde sob a aparente valentia que demonstrou desde que assumiu o luto. Não me deixo enganar pela torrente de palavras com que tenta dissimular o vazio aberto em seu coração pelo fim inesperado de seu filho. Gostaria de ajudá-la.

Ele conseguiu prendê-la num momento de submissão e prudência. Com afronte escondida por longas rugas recém-formadas, Berta escutava-o em silêncio. Eles cruzavam com grupos ou indivíduos isolados que se dedicavam a atividades já costumeiras e os cumprimentavam. Foi assim que passaram perto da cozinha onde a fumaça, que escondia o odor marinho presente em cada instante de suas vidas, os obrigou a se afastar. A lareira de terra e tijolos, construída num canto da coberta, estava protegida das eventuais correntes de vento, inexistentes naquele dia, em três de seus lados, por panos móveis que também ajudavam a interceptar a fumaça. Mas a lenha de que o cozinheiro se utilizava devia ser verde, pois o fogo demorava a pegar e lançava espirais de fumaça sufocante na direção do céu azul.

No fim de um momento, Berta e padre Ascelino debruçaram-se numa das amuradas do barco, frente ao mar. Depois de jogar um olhar doloroso, rancoroso, às ondas que haviam tragado o seu filho, Berta lhes deu as costas para se apoiar na madeira, cuja pintura branca estava já descascando.

— Por que o Senhor quis chamar tão cedo o meu pobre filho para junto de Si? — perguntou, abandonando o tom digno das canções de gesta que adotara há dois dias.—Tão cedo e tão longe da Terra Santa, quando Garin fizera esta viagem apenas para beijar a pedra do túmulo de Cristo e oferecer sua alma ao Salvador. . . não para morrer no mar e ser engolido por ele!

Um soluço seco, o primeiro, rasgou a sua garganta.

— Eu sei, senhora Berta, eu sei — respondeu o padre — mas será que conhecemos os desígnios de Deus? No Antigo Testamento está escrito: "Meus pensamentos não são os vossos pensamentos, meus projetos não são os vossos projetos. . ." Nós não sabemos nada de nada. Nós julgamos na escuridão.

— Não que algum dia eu tenha questionado a morte de alguém, sobretudo a de Garin. Ele era bom cristão, bom filho, bom pai. Nunca deixou de ter uma conduta leal, mesmo que em algum momento se mostrasse, a meu ver, fraco. . . Ele pôde se apresentar sem temores diante Daquele que indaga corações e entranhas. . .

— E verdade. Não se esqueça também de que o papa concedeu previamente, aos cruzados, a remissão de seus pecados. Além disso, Garin acabara de se confessar e comungar. Era a manhã de Páscoa. Havíamos recolhido da praia os corpos de nossos companheiros que ele agora foi encontrar no paraíso. As cruzes gravadas em seus pobres corpos haviam-no deixado transtornado. Seus pensamentos estavam inteiramente voltados para os sinais que nos são freqüentemente enviados sem que saibamos decifrá-los. A morte o levou num momento de reflexão, de volta a si mesmo.

— Ele partira com tanto arrojo, tanto entusiasmo para a Palestina!

— Pense em Moisés, senhora Berta. Também ele morreu antes de ter chegado à Terra Prometida. Trespassar quer dizer passar para outro lugar. Ora, não existe lugar mais desejável para ir do que o céu!

Ambos se calaram. Os gritos dos pássaros que sobrevoavam a nave quebravam a calma do céu de abril.

A capa preta do notário episcopal parecia esmagar seus ombros de clérigo, mais habituados a se debruçar sobre manuscritos do que a praticar exercícios físicos. Perto dele, grande, forte na sua túnica roxa sobre o manto de lã cinza, segurando com uma mão a corrente prateada que o prendia ao pescoço, Berta a Atrevida lembrava a mulher forte do evangelho.

— Mas eu queria lhe fazer uma pergunta — retomou padre Ascelino. — Agora que o chefe da nossa família se foi, pensa em continuar esta peregrinação? Muitos dos nossos já renunciaram, sem razões tão fortes quanto as suas. Se nos deixasse agora, ninguém ousaria censurá-la por isso, e tenho certeza de que o próprio papa. . .

A mãe de Garin ergueu seu queixo de lutadora.

— O senhor está enganado! Tenho certeza de que alguém me censuraria: meu filho! Meu filho, do alto do céu, de onde está nos vendo!

Seus olhos tinham o brilho corajoso que os seus próximos conheciam bem.

— Ele queria mais do que tudo na vida chegar ao fim do caminho que nos leva ao Santo Sepulcro — continuou com firmeza. — Ele ia conosco, iluminado interiormente por uma luz que não é daqui. Eu não tenho o direito de esconder esta claridade. Farei com que seja como uma tocha e vou empunhá-la para que ilumine o meu caminho e o das crianças que me foram confiadas. Todos juntos, continuaremos a marcha em direção a Jerusalém! As últimas palavras daquele que nos precedeu no céu não foram neste sentido?

Ela passou sobre as pálpebras os dedos que não paravam de tremer, mordeu os lábios e, depois de um instante de silêncio, continuou:

— Quando arrumei a mala onde Garin guardava as suas coisas, encontrei aí um rolo de fino velino, preparado por ele com enorme cuidado, tingido de púrpura e escrito por sua própria mão em letras de ouro, onde transcrevera o texto do voto pronunciado no momento da partida. Seus filhos assinaram depois dele. Como não sei escrever, tracei uma cruz. Com este compromisso sagrado em minhas mãos, compreendi que aquilo era a mais preciosa das heranças: a vontade inquebrantável de um peregrino de Deus, o testemunho de sua promessa, de sua fé. . . Eu não falharei!

Padre Ascelino aquiesceu.

— Esperava por esta resposta—reconheceu ele. —Se a senhora quiser, ficarei por perto e tentarei assisti-la, sem muitas ilusões do que poderei fazer para substituir junto a vocês aquele que já partiu.

— Nós precisaremos de sua ajuda— respondeu Berta com convicção.

— Não que a minha condição de mulher me cause algum embaraço. O senhor sabe que muitas dentre nós partimos, como os homens, com o coração na certeza de atender ao clamor de "Deus quer assim!" Elas geralmente estão com a família, mas algumas estão sozinhas. Falou-se mesmo em criar tropas femininas. Ouvi dizer que foram os bispos, assustados com este projeto, que o vetaram.

— A senhora tem razão, pelo menos no que se refere a um caso: o do condado de Toulouse. Lembro-me que Isarno, bispo daquela cidade, realmente o proibiu.

— Pelo Senhor, ele errou em fazer isto! Se bem que no final das contas, essa decisão não mudou grande coisa no desenrolar dos acontecimentos... Mas obrigada por seu oferecimento. Sua experiência, sua afetuosa solicitude, e suas relações em Constantinopla poderão nos ajudar muito.

— Estou contente que confie em mim, senhora Berta. Agirei no sentido de não decepcioná-la. Ao chegarmos a Constantinopla veremos como poderemos nos instalar. Caso se trate, como imagino, de um acampamento precário, eu os conduzirei à casa do meu amigo Teófano Danielis. Ele e seu filho Andrônico são perfumistas da corte imperial.

Conversaram ainda por muito tempo. Pela primeira vez desde a morte de seu filho, Berta, transformada em chefe de família contra a sua vontade, emergia de sua dor. A necessidade que sentia de fazer planos deixava aparecer novamente o temperamento que desprezava a fraqueza e buscava sua força na estima que sentia por sua própria coragem. A partir de então, ela aceitava um futuro cujas vicissitudes enfrentaria empunhando a cruz.

De sua parte, os netos entraram em acordo e resolveram também reagir, não se deixando esmagar por seu enorme sofrimento.

— Se queremos continuar a obra de nosso pai, devemos superar nossa tristeza — explicou Brunissen às suas irmãs e a seu irmão naquele final de manhã. — Ele não gostaria de nos ver abatidos e teria se oposto com todas as suas forças a que renunciássemos à nossa peregrinação.

Sentados sobre as suas próprias malas, os quatro filhos do pergaminheiro traziam no rosto as marcas do luto que os deixara órfãos pela segunda vez.

Após um suspiro, Landry levantou a cabeça que mantinha até então tombada, olhando o chão recém-lavado da cobertura.

— Esta noite — disse ele — pensei exatamente que desde a manhã do nosso embarque nenhum de nós teve o cuidado de ir ver os cavalos com os quais nosso pai se preocupava tanto!

— Malditos! — gritou Flamínia. — Eles são a causa da nossa infelicidade!

— Podemos transformar simples animais em responsáveis pelo que aconteceu com o nosso pai? — perguntou Brunissen.

Landry se levantou agilmente, levando no seu movimento Alaís, que acariciava com um ar triste um dos gatos do navio. Ela raramente vira um antes de embarcar, mas sabia que aquele, como todos os seus congêneres, devia vir do Egito. Também não ignorava a desconfiança que despertavam em muita gente por sua origem paga, portanto maléfica. Encarregados de perseguir os ratos e camundongos que devoravam as provisões e grãos a bordo, pouco a pouco iam substituindo as doninhas, até então empregadas nesse serviço. O animal de pêlo lustroso escorregou com agilidade para o chão, miou com um ar tristonho e afastou-se após ter manifestado o seu descontentamento, sem com isso perder a sua elegante dignidade.

— Vamos, vamos — interrompeu Landry — não adianta discutir! Tudo o que sei é que nosso pai fazia questão de cuidar pessoalmente das nossas montarias. Pretendo fazer o mesmo que ele.

— Então vá sem mim. Não suporto a visão daqueles cavalos! — disse Flamínia, sacudindo energicamente suas tranças cor de cobre.

— Também não irei — anunciou Alaís, num tom zangado. — Sua brusquidão fez fugir meu belo amigo, o gato. Você é um desajeitado!

— Também vou ficar aqui — disse Brunissen. — Prefiro o cheiro do mar às pestilências do porão.

Elas permaneceram sentadas sobre suas malas, junto a Alberade que fiava lã manejando a sua roca com um ar desolado.

Fora da sombra fornecida pelo tombadilho ou pelo castelo da proa, a multidão de peregrinos se protegia do sol como podia. Foram estendidas lonas de barracas, penduradas mantas em bastões entrecruzados, abaixadas as abas dos chapéus sobre os rostos. Muitos dormitavam enquanto esperavam a hora da refeição. Da cozinha vinham os eflúvios de alho e suor, flutuando sobre as cabeças de toda aquela gente que não tinha nenhuma aragem do mar para abaná-los. Os marinheiros trabalhavam sob uma indiferença total. Suas ocupações já não interessavam mais os passageiros do navio, que olhavam sem nenhuma curiosidade suas tarefas de cuidar das velas, limpar as ampulhetas — aqueles vidrinhos cheios de cascas de ovos moídas que serviam para medir o tempo — ou subir no cordame. . .

Quando se chegava a meia altura da escada que levava à cavalariça, o cheiro dos cavalos e mulas, já forte em tempos normais, subia à garganta. Havia um bafo de estéreo, de urina, de abafamento, que sufocava. . .

Landry fez um movimento de recuo, sobretudo porque era ali, sobre a palha emporcalhada da cama dos animais, onde ficavam relegados os passageiros de última categoria, os indesejáveis, aqueles que formavam a ralé sempre inquietante das tropas em movimento: mendigos, trapaceiros, vagabundos, penitentes condenados, histriões, falsos peregrinos, bêbados. . .

A entrada do recém-chegado, limpo e bem alimentado, foi saudada por xingamentos, assovios insultantes e observações obscenas. Imóvel nos últimos degraus, Landry hesitava sobre a conduta a adotar, quando um dos homens esparramados sobre os montes de palha se levantou titubeante. Era como uma grande estaca, com as costas curvadas, barba suja, o rosto inchado e congestionado. Pegou alguma coisa no chão, aproximou-se de Landry com andar cambaleante e, com um riso ébrio acompanhado de uma seqüência de injúrias, lhe atirou um punhado de esterco na cara.

— Isto fará com que se pareça com os pobres de Deus! — disse, caçoando. — Aqui nós não gostamos daqueles que tomam ar fresco na cobertura!

Landry limpou o rosto com sangue-frio. O outro, irritado, lhe deu uma cusparada que foi estalar sobre seu ombro. Com um empurrão brusco, o filho do pergaminheiro projetou ao chão seu agressor. Assim que caiu, o mendigo pôs-se a resmungar, a fim de alertar seus companheiros, que esperavam apenas um sinal seu para intervir. Com ameaças, eles se aproximaram de Landry cujo coração batia até a boca, cercaram-no e atiraram-se sobre ele.

Na semi-obscuridade da cavalariça, fracamente iluminada por lanternas feitas de chifre e penduradas em postes, em meio ao mofo fedorento, ficaram alguns murros perdidos no ar. Inquietos, mantidos pelas cilhas, os cavalos relinchavam e davam coices. . .

Apitos e a aparição de vários marinheiros despencando pelas escadas sob as ordens do contramestre, puseram fim rapidamente à arruaça. Separaram os combatentes, segurando-os com força.

Landry viu-se fora do alcance de seus agressores, com um lábio cortado, um ombro dolorido, arranhões e marcas de socos que já ficavam azuladas. O causador de toda a confusão também se levantou com o queixo em mau estado, se sacudiu, cuspiu um dente, resmungou e voltou mancando em direção à palha que lhe servia de cama. Lançou um olhar enraivecido ao seu adversário e recomeçou a praguejar novas injúrias. Exaltado, Landry talvez tivesse se precipitado sobre ele uma segunda vez, apesar de suas contusões, se uma mão firme não o tivesse detido.

— Acredite-me, amigo — disse o escriba que viera junto com os marinheiros — acredite-me, não se esfregue mais a esses bandidos. Não há apenas peregrinos piedosos neste barco. Alguns dos que estão aqui podem ser perigosos. Sobretudo se tiverem bebido. Venha. Vamos cuidar de você lá em cima.

Quando emergiram na coberta, foram logo cercados por uma enorme platéia. O barulho da agressão e da briga havia atraído muitos passageiros.

— Por todos os santos, é preciso ser mesmo um ateu para atacar assim, como um maldito traidor, um rapaz honesto e ainda enlutado pela morte de seu pai! — dizia Herberto Chauffecire, que se mantinha ao lado de Flamínia como se já fizesse parte da família.

Avisada quando voltava acompanhada do padre Ascelino, Berta a Atrevida interrogou com o olhar seu neto sujo e ferido, depois sacudiu a cabeça.

— Decididamente — disse ela — decididamente, o Mal está conosco! Está nos atacando sem perdão. Pois bem! o Senhor está me vendo! Não nos deixaremos abater. Nós o combateremos sempre que for necessário!

Antes de se virar para o barbeiro que se aproximava para cuidar de seu ombro dolorido, Landry sorriu com ar de cumplicidade para sua avó.

— Certamente não é o Mal que nos impedirá de marchar sobre Jerusalém — disse com um tom que lembrava o de seu pai. — Por Deus Todo-Poderoso, nós continuaremos o nosso caminho, aconteça o que acontecer!

— Comecemos por alcançar Constantinopla — corrigiu calmamente padre Ascelino. — O nosso primeiro grande encontro está marcado aí, aos pés das muralhas da Nova Roma. Os outros exércitos de Cristo já devem estar lá à nossa espera. Uma vez todos reunidos sob as ordens do chefe supremo que nos foi designado pelo papa, Ademar de Montelo, bispo de Puy, seremos o maior conjunto de forças cristãs nunca visto a serviço de Deus! Então tudo começará realmente!

Pouco depois, o homem de plantão gritou. O vento estava se levantando!

Poderíamos partir. As ordens começaram a ser disparadas. Com uma alegria infantil, os peregrinos viram a vela inflar-se progressivamente. O Maria-Virgine pôs-se em movimento, estalou todas as suas madeiras e em seguida, em companhia dos outros barcos levando soldados da Cruz, deixou finalmente o lugar onde Garin repousava sob as águas profundas, em algum abismo azulado onde acabara de morrer a luz do dia. . .

Instintivamente, através da multidão de peregrinos comprimidos e excitados pelo acontecimento, Berta e as suas duas netas alcançaram o lado do navio onde o corpo do pergaminheiro fora submerso. Com os olhos embaçados, elas se apoiaram na borda do navio para contemplar o mar encapelado de espuma. . .

Repentinamente, Berta a Atrevida cerrou os lábios e levou as mãos ao ventre. Mais uma vez, as dores que havia sofrido intermitentemente nas últimas semanas lhe atravessavam as entranhas. Ela ficou pálida e o suor começou a correr da raiz dos cabelos à sua fronte obstinada. Ela o enxugou com a manga.

— Não é nada — disse às suas duas companheiras. — Não é nada. Já estou acostumada. São os aborrecimentos da idade, aliados aos da viagem. Cada vez suporto menos as mudanças contínuas de alimentação.

O navio ganhava agora velocidade. A inclinação se acentuou.

— Voltemos para as nossas malas — propôs Flamínia. — A senhora poderá assim se sentar.

— Não há de ser uma dorzinha de barriga que vai me deixar abater! — exclamou a avó empertigando-se completamente. Deus sabe que tenho energia para vender! Saberei me acostumar a este problema, como foi com todos os outros que o precederam.

Brunissen mantinha os olhos pregados no mar, perdida. Seu coração estava invadido por uma dupla tristeza: o adeus a Garin e o sentimento da enorme vala que a separava a partir de agora de Anselmo o Belo, seu distante noivo. . . Parecia-lhe que neste lugar maldito havia perdido, ao mesmo tempo, os dois amores da sua juventude. Assim, num gesto de oferenda espontânea, antes de se afastar sustentando sua avó, jogou entre as ondas o pequeno terço de marfim esculpido, que seu pai outrora lhe oferecera.

Ela o viu boiar um momento sobre as ondas ensolaradas, antes que a distância e a sua tristeza o fizessem perder de vista.

 

                                                             14 a 24 de maio de 1097

 

Com seu andar alongado que lembrava as passadas de um galgo, Gabriel Attaliate atravessou ou triclínios arejados e frescos, vazios no momento. A bela morada onde viviam sua irmã e seu cunhado, na casa do pai dele, Teófano Danielis, comportava, como todas as casas opulentas de Constantinopla, precedida de um vestíbulo recoberto de mármore e decorado com motivos religiosos, uma imensa sala de recepções reservada aos homens. Possuindo a mesma altura do imóvel e abrangendo todo o andar térreo, notável pelos afrescos que decoravam suas paredes com cenas do hipódromo, por suas proporções, seu teto em cedro de agradável odor e seu chão recoberto de mosaicos com motivos de caça, a fantástica sala comandava o coração da casa. Inúmeros quartos, a sala de jantar, a biblioteca, as saletas particulares, todos os outros cantos e recantos ordenavam-se ao redor dela, sobre dois andares sustentados por colunas de mármore amarelo.

Gabriel aspirou com satisfação o perfume de incenso que exalava em espirais acinzentadas dos incensadores pendurados às paredes, e regozijou-se por não encontrar ninguém naquele meio de tarde. Sobretudo estava contente de não encontrar em sua casa Andrônico Danielis, seu cunhado. Na verdade era para ver sua irmã Icácia, e só ela, que havia deixado o Palácio do Imperador. Seu ofício de prefeito de Canicléia*, juntando-se ao de conselheiro e mesmo confidente do basileu Alexis I Comeno, tomava quase todo seu tempo. Era preciso que aproveitasse as ausências do soberano para encontrar tempo de visitar Icásia, cujo estado o preocupava.

Sem demorar-se em admirar a arquitetura "à romana" da fachada interior ornada de estuque azul e ocre, subiu a passos largos a escada externa, com degraus de pedra ensolarados, que levava ao primeiro andar, o andar do gineceu. Seguiu um corredor, afastou uma porta, atravessou uma peça reservada à música, ficou atrás de uma segunda tapeçaria suspensa e levantou-a com circunspecção.

Grande e muito claro, o quarto de Icásia possuía várias janelas que davam para o jardim. Duas delas estavam abertas. As outras, com pequenos vidros sustentados por armações de gesso, permaneciam fechadas.

A irmã de Gabriel se balançava com ar melancólico num grande leito de madeira de lei incrustado de prata e marfim. Sentada no espesso colchão bordado de fios de ouro, sustentado por cordas de seda azulada e trançada que permitiam o balanço, estava ocupada em fazer passar, de uma mão para a outra, num movimento maquinai e lento, um ovo de porcelana cujo interior continha arômatas com exalações tão acentuadas, que podia se respirar a sua suavidade desde a soleira. Não era em vão que os Danielis eram os perfumistas oficiais da corte imperial!

Gabriel cerrou os lábios, e depois se decidiu a entrar.

— A última onda da imensa maré humana que o Ocidente não pára de descarregar sobre nós há uma dezena de meses não vai demorar a chegar às nossas muralhas — disse num rasgo, enquanto atravessava o aposento mobiliado com arcas de madeiras raras, com algumas cadeiras sem encosto, de pés cruzados, e uma mesa em mármore policromado. — Como diz a nossa princesa Ana, esses bárbaros parecem tão numerosos quanto os grãos de areia ou as estrelas! Pelos Santos Querubins, dir-se-ia que tudo o que existe de francos, celtas ou latinos nos países situados entre a outra margem do Adriático e as Colunas de Hércules, emigra em massa, por exércitos, aldeias, famílias inteiras, para caminhar em direção à Ásia!

Mais uma vez, a ênfase natural do prefeito de Canicléia caía como uma luva para seu objetivo e suas intenções. Ele queria distrair Icásia, arrancá-la da tristeza que em alguns momentos tomava conta dela, há anos, para em seguida dar lugar a uma atividade quase febril. Mas havia também acontecimentos importantes a lhe comunicar. A fim de ajudá-la durante as crises de abatimento e conhecendo o gosto natural de sua irmã pelos rumores, ele decidira tornar-se seu informante oficial. Cada vez que a sabia atormentada, vinha distraí-la com as últimas notícias que chegavam ao palácio. Sua dicção perfeita, ligeiramente afetada, esbarrava com distinção nos dentes muito bem tratados, dando a seus relatos um tom precioso e confidencial que alegrava Icásia.

Antes de ir se sentar perto de sua irmã, o eunuco saudou com veneração o ícone pintado sobre um fundo de ouro e colocado num ângulo do aposento, diante do qual queimava uma lâmpada de óleo perfumada. Ele se benzeu e ergueu-se após beijar o polegar e se dirigiu a Icásia.

Ela se virou, mostrando um rosto cuja expressão tristonha indicava que não se encontrava num belo dia. Sem sorrir para o recém-chegado, mostrou-lhe com um simples gesto um lugar ao seu lado no colchão recoberto por um tapete da Alexandria, cuja lã, de extrema maciez, aliava todos os tons do azul ao verde. Gabriel instalou-se com prazer e inclinou-se para beijar a irmã no rosto.

— A princesa Ana encarregou-me de transmitir-lhe as suas saudações — retomou ele. — Mas em palácio não se fala em outra coisa, senão na chegada de mais uma leva de cruzados que teremos que enfrentar mais uma vez. Anuncia-se como iminente a vinda dos exércitos do duque de Normandia e do conde de Blois. Decididamente, é o Ocidente por inteiro que se movimenta e nos invade!

—Depois da passagem no ano passado daquele louco do Pedro, que se dizia eremita e arrastava atrás de si uma multidão heteróclita — observou Icásia com uma mistura de lassidão e desprezo — podíamos esperar receber apenas exércitos. É de combatentes que necessitamos para nos ajudar a lutar contra os infiéis, não famílias, doentes, crianças e até mesmo estropiados!

A irmã de Gabriel era bonita. Parecia uma dríade. Cabelos de mel, tez clara, boca fina mas, sobretudo, longos olhos que tinham o tom exato da folha da oliveira. Desta coréia fizera o seu emblema. Sempre vestida com túnicas de seda verde-acinzentada realçadas com prata, ela gostava dos bordados reproduzindo os galhos da sua árvore preferida, ou os do salgueiro, e chegava a aceitar algas ou plantas aquáticas. Mesmo antes de passar a ter as suas angústias, ela deixava transparecer uma impressão de estranheza vegetal que a sua reserva e os seus freqüentes silêncios só faziam acentuar. Como uma árvore que algum procedimento mágico teria transformado em mulher. . .

— Ninguém poderia prever o que está nos acontecendo — afirmou Gabriel, dispondo com cuidado ao seu redor as longas e largas mangas do seu traje.

Aquele gesto levou Icásia a pensar que a elegância do seu irmão mais velho ficava ainda mais nobre quando estava vestido com aquela túnica. O rico tecido sedoso, incrustado de faixas púrpura, descendo até os pés, esculpia o corpo elegante. . . Em seguida voltou a ouvi-lo.

— O próprio basileu não o previra. Ele o reconheceu diante de mim — disse o eunuco. — E Deus sabe o quanto ele é provido de experiência e sutileza! Os celtas que esperávamos realmente chegam com um grande arrojo guerreiro, com tropas, armas e cavalaria, mas acham normal serem seguidos por uma multidão de gente desarmada que usa uma cruz de tecido à guisa de espada e de escudo! Quem poderia imaginar? Gente das armas escoltada por peregrinos, que caminham como nós rezamos e que só têm um pensamento, um objetivo supremo: ir venerar o sepulcro do Senhor em Jerusalém e adorá-Lo nos Lugares Santos!

— Não podemos censurá-los, é claro, e dentre esses caminhantes de Deus, como são às vezes chamados, certamente há muitos que são sinceros. Mas que não venham se interpor entre defensores e inimigos da verdadeira fé! Eles deveriam compreendê-lo! Apesar das dissensões ocorridas entre a Igreja grega e a Igreja latina, esses cruzados são cristãos como nós. Eles sabem que o Império está ameaçado em todas as suas fronteiras, que nós somos o último bastião da cristandade face aos infiéis. Por sua desordem, sua inaptidão ao combate, essas multidões correm o risco de comprometer tudo, de fazer tudo fracassar. Este temor me desespera.

— Se alguns conselheiros do basileu acham que, graças ao seu número, essas multidões, disciplinadas ou não, serão suficientes para tirar do caminho os sarracenos, muitos outros, coma você, desconfiam dos francos por sua instabilidade, seu excessivo ardor, a cobiça e a ambição de seus chefes, e o que se pode muito bem chamar de sua selvageria! Sem falar dos maus presságios que a cada vez anunciam à sua chegada. Não se pára de repetir na cidade: quando uma de suas tropas chega até nós, é precedida por nuvens de gafanhotos que devoram, dizimam, acabam com os vinhedos que estão no seu caminho. Seja lá o que se diga, não é um sinal favorável!

A jovem deixou seu irmão falar, enquanto continuava a manipular o ovo aromático que os banhava de perfume. Com o olhar perdido além de uma das janelas abertas sobre o jardim florido de rosas, murtas, jasmins, ela prosseguia nas suas reflexões amargas, sem prestar atenção aos escravos com enormes chapéus de palha que trabalhavam sob a supervisão de um jardineiro grego.

— Eu sei que os gafanhotos estranhamente abstêm-se das monções para se dedicarem apenas aos vinhedos — retomou o eunuco. Ele mostrou com um gesto solene a cruz tutelar contendo as santas relíquias que levava no pescoço, pendurada numa pesada corrente de ouro. — Alguns adivinhos deduziram daí que esse enorme exército celta não interviria nos negócios do Império, mas acabaria com os sarracenos que são servos do paganismo e portanto da embriaguez. Eles dizem também que o trigo é considerado em toda parte como o símbolo do cristianismo porque ele representa o alimento por excelência e não pode desviar os espíritos como o suco da uva. Assim como, no passado, o maná no deserto prefigurava na terra o alimento celeste que sacia, ao mesmo tempo, o corpo e a alma. . . Poderíamos nos sentir reconfortados pelas interpretações tranqüilizadoras dos nossos magos. No entanto apesar de se mostrar extremamente acolhedor com seus hóspedes francos, o imperador não tem se mostrado menos reticente em relação a esses exaltados. Quanto à princesa Ana, que os vê como falastrões e aborrecidos, confessou-me duvidar das pretensões que esses bárbaros, vindos do Oeste, têm em relação à nossa cidade. Ela acha que a expedição a Jerusalém é apenas um pretexto e que alguns chefes cruzados querem na verdade destronar o basileu e se apoderar de sua capital!

— Como poderiam pensar nisso? — perguntou Icásia. — A maioria deles prestou juramento de obediência ao nosso soberano.

— Mas não foi tão fácil assim! Lembre-se daquele Godofredo de Bouillon, um nome impronunciável como tantos deles, o senhor que chegou a Constantinopla em dezembro último. Ele esperou as calendas de abril para se decidir a aceitar as legítimas exigências do nosso imperador e para lhe render homenagem. Fomos obrigados a cortar o fornecimento de víveres às suas tropas! E também não pudemos evitar um sério confronto entre nossos homens e aqueles cruzados malucos que não respeitavam nem mesmo a trégua da quinta-feira santa! Entre os príncipes bárbaros, havia-os em número suficiente para demonstrar notória má vontade quando foram colocados diante da obrigação de obedecer às injunções do autocrata. Não, definitivamente não se pode confiar nesses celtas. Eles são brutais e estranhos!

— Andrônico não pensa como nós. Ele confia neles.

— Seu marido é demasiadamente entusiasta. Ele acredita nesses estrangeiros porque seu pai há algum tempo nutre uma sólida amizade com um certo padre franco de quem gosta muito. Tudo bem. Mas um caso isolado não prova nada. Pode-se encontrar pessoas honestas em qualquer lugar e este é sem dúvida um homem honesto. Por outro lado, existem indivíduos de todas as procedências e de todos os tipos entre as suas tropas e os seus peregrinos!

— O mais perigoso continua sendo Boemundo de Tarento — frisou Icásia, que seu irmão conseguira distrair um momento de suas amarguras. — Aqueles normandos da Sicília sempre foram nossos inimigos, e que inimigos! Ele e seu pai não pararam de nos atacar para tomar nossas possessões italianas. Boemundo dispõe de grande poder sobre as massas... ele seduz até mesmo pessoas prevenidas contra ele, como nossa princesa Ana! Ele é temido na corte, mas ao mesmo tempo exerce um certo fascínio.

Gabriel teve um gesto de irritação.

— Um aventureiro normando da pior espécie, eis o que é esse maldito Boemundo! Jamais compreenderei o feitiço que ele parece exercer. E você tem razão quando diz que a princesa Ana, apesar de nutrir a mesma desconfiança que seu pai em relação aos normandos da Sicília, e em particular ao seu chefe, não consegue falar dele sem demonstrar um certo embevecimento.

— A docilidade, para não dizer o zelo demonstrado no famoso juramento de vassalagem, tão mal recebido pelo orgulho dos outros chefes francos, me levaria quase a ver nessa atitude, tão original naquele que foi outrora nosso adversário, mais uma artimanha desse homem indomável e turbulento!

Com um gesto elegante, Icásia escondeu a boca com a mão coberta de anéis.

— Agora somos nós que ficamos falando de Boemundo — disse com tom irônico. — Decididamente este homem possui um poder singular. Pode-se dizer que ele ocupa sozinho uma boa parte das conversas da corte e da cidade!

— Seu aspecto físico ajuda muito. Com o pretexto de que é grande, bonito, louro e forte como Aquiles, todas as mulheres ficam loucas por ele!

— Não eu, senhor! Não eu! — protestou Icásia.

— Claro que você não, minha irmãzinha. . .

Ambos se calaram. A enorme mansão de pedra e mármore permanecia silenciosa nessa hora da tarde quando os servos, respeitando o repouso de sua senhora, dedicavam-se às atividades na cozinha ou em outras partes da casa, sem abordar o gineceu.

— A ama não está aqui? — perguntou Gabriel depois de um momento. — Onde é que pode ter se escondido? Realmente é inacreditável não vê-la surgir de um dos cantos dos seus apartamentos! Sua irmã de leite também não aparece. Não posso acreditar nos meus olhos!

— Mórfia sofre das pernas. Você sabe que ela já passou dos cinqüenta anos; cada vez mais tem sido atormentada pela gota. Ela e Janice foram consultar um curandeiro árabe que conhece os segredos das plantas e fabrica bálsamos que só ele conhece.

— Mas é o sal de São Gregório que cura a gota! Todos sabem disso e os ingredientes que o compõem não são mistério para ninguém: gengibre, amônia, nardo, pimenta, silphium, salsa. . .

— Ora! Pelo visto vão muito bem as suas relações com o doutor Kaliklés, o médico pessoal do imperador! Ele até mesmo lhe confia, como se diz por aí, fórmulas que não ousa divulgar para mais ninguém! Nossa pobre ama não pode saciar a sede em fonte tão sábia.

— Mórfia certamente não pode, é verdade, mas também você não quer vê-lo. Prefere se aconselhar com seu astrólogo egípcio, esse Alexandreus que está tão em moda junto à juventude. Ouvi dizer que o basileu está pensando em exilá-lo para impedi-lo de continuar perturbando espíritos bons como o seu! Infelizmente, sei que as minhas repreensões não servirão de nada! Teimosa como é, você se apaixonou por este personagem e não vai desistir dele!

Irmão e irmã trocaram um meio sorriso. No passado, eles freqüentemente riam juntos a respeito de coisas que eram os únicos a achar engraçadas. O riso desaparecera, mas não a conivência. Entre o eunuco e sua irmã menor permanecia uma cumplicidade que vinha desde a infância. O casamento de Icásia não a apagara. Nascida de uma família de altos funcionários possuidores de um título nobiliárquico, já que em Constantinopla as funções públicas de certa importância levam ao enobrecimento, Icásia, casando-se com Andrônico Danielis, realmente , um rico perfumista mas apesar de tudo, plebeu, tivera a sensação de fazer um casamento desigual. Como estivesse apaixonada na ocasião das bodas, preferira ignorar esta diferença. Os hábitos de seu país levavam-na a isso. Os romanos — era assim que os herdeiros da antiga Roma se autodesignavam, por desprezo aos gregos cuja língua entretanto falavam — os romanos, portanto, vangloriavam-se por não ter preconceitos de classe. Com exceção dos escravos e dos prisioneiros estrangeiros, eles pretendiam ter abolido qualquer arrogância nas relações sociais. Os homens não seriam irmãos perante Deus? O evangelho garantira que os últimos seriam os primeiros. Tal afirmação dava margem à reflexão. Gabriel e Icásia haviam sido habituados a considerar que, sendo os seres humanos iguais aos olhos do Eterno, os habitantes de Bizâncio seriam iguais perante a lei. Eles constatavam que as dignidades não eram transmissíveis e, ao redor deles, não se viam linhas hereditárias. Essas crianças haviam sido educadas na idéia de que nenhuma consideração sobre classe, ancestrais ou fortuna deveria ser importante. Apenas o mérito pessoal contava. Vários imperadores, inclusive, haviam saído das camadas mais humildes e populares e, para tornarem-se basileus, bastava serem eleitos pelo exército, o senado e o povo. . . Eram anunciados, proclamados, registrados e codificados. . . mas isso era negligenciar os movimentos de vaidade da natureza humana: quem poderia impedir, por exemplo, uma jovem de quinze anos, bonita, rica, cortejada, uma jovem cujo pai era mestre de cerimônias imperiais, de considerar que com o dom da sua pessoa havia concedido uma grande graça a um homem que, apesar de tudo, não passava de um comerciante?

Era bem verdade que Andrônico possuía um charme que despertava a sensibilidade de muitos, e, apesar da sua juventude, podia pretender ser um dos melhores partidos da cidade, de tal maneira a fortuna de seu pai e a sua, juntas, tinham peso forte, mas afinal, ele não era nobre e possuía uma loja! Uma bela e elegante loja, é claro, onde vendia âmbar, nardo, almíscar, incenso, mirra, aloés e mil outros perfumes raros ou preciosos para a corte e para os romanos mais refinados. . . No entanto fora necessária uma profunda felicidade conjugal para conseguir esquecer, ao longo de toda uma vida, diferença tão essencial.

— Como estão suas relações com o seu marido? — perguntou o eunuco.

— Você sabe muito bem. Certamente sou a mulher mais incompreendida de toda a cidade. . .

Depois do nascimento de seu filho Marianos, que tinha agora dezessete anos, as relações dos esposos não cessaram de se deteriorar. Um parto atroz, que quase a levara à morte, a deixara desgostosa para sempre — também já não estava mais tão apaixonada — dos jogos do amor carnal. Durante anos se submetera como a um suplício aos assaltos de um marido cujo temperamento ardente não se contentava com uma casta ternura. Pouco a pouco, a jovem foi se tornando melancólica, fechada, silenciosa e, a cada noite, mais crispada, mais distante. . . Algumas manhãs, sem querer dar explicações, ela chorava durante horas, apesar das crianças e mulheres ocupadas em banhá-la, depilá-la, maquiá-la, vesti-la. . .

Na esperança de reforçar sua união com a inclusão de um novo membro, quando Icásia já se sabia impossibilitada de procriar, o casal, segundo um costume bastante difundido em todo o Império, acreditou estar fazendo bem em adotar, aproximadamente há uma década, um segundo filho, Pascoal, que tinha agora doze anos. Educados como baluartes de proteção ao redor da união frágil de seus pais, os dois filhos não foram o suficiente para impedir a desagregação de um entendimento já tão comprometido.

Gabriel, que não ignorava o quanto sua irmã gostava de se lamentar, passou um braço ao redor dos ombros de Icásia.

— Minha pobre querida — disse ele — sabe o quanto me preocupo com você. . . na verdade, com vocês dois. Ambos são ao mesmo tempo vítimas e carrascos. . . Seu marido se comporta com lealdade. Apesar das divergências, ele se mantém fiel.

— Só me faltaria que me traísse!

— Ele não o faz. Os eunucos estão a par de tudo que se passa na corte como na cidade. Andrônico tem uma conduta de esposo respeitoso dos seus compromissos. Ele é, aliás, fervoroso cristão.

Icásia não respondeu. Ela olhava fixamente o chão pavimentado de mosaicos representando uma sementeira de flores. Seu irmão conhecia bem a tepidez de suas convicções religiosas. Absolutamente convencionais, elas não trariam uma grande ajuda.

— Felizmente Marianos está coberto de glória no hipódromo e Pascoal se mostra cada vez mais dotado para os estudos — disse, ao fim de um momento. — Eles são o meu conforto.

O eunuco balançou um rosto sombrio sob espessos cabelos negros, semilongos, cuidadosamente anelados e cortados logo acima das sobrancelhas.

— Seus filhos não lhe bastarão para sempre — observou suspirando. — Nem a seu marido, nem a você.

— O que você quer, é preciso que eu me console com o que me resta. Minhas ilusões de outrora agora estão distantes. . . — declarou Icásia, abaixando a cabeça com um ar desolado. — Andrônico mostra-se cada vez mais exigente consigo mesmo, com os meninos, a quem quis educar com severidade, e comigo. Ele já não nos passa nada e não me permite nem mesmo protestar contra tal rigor. Fico me perguntando se não é por obrigação, apenas por obrigação, que continua a garantir as suas responsabilidades familiares.

— Está enganada, Icásia, está enganada! Tenho certeza. Andrônico continua muito ligado a vocês. Ele se preocupa muito com o futuro de seus filhos. Não se pode absolutamente dizer que é um pai indiferente!

— Certamente seria o contrário! Mas compreenda-me: este excesso de disciplina ao qual ele nos submete e a si próprio em primeiro lugar, é um exercício desprovido de sentido. Perdeu toda a espontaneidade. Andrônico, outrora tão alegre, se tornou austero. Não ri mais comigo e parece aborrecer-se em minha companhia. É sem nenhum prazer que mantém o seu papel de esposo, de pai, de dono da casa. Faz o que deve fazer como se eu não existisse. Às vezes tenho a impressão de que não me vê mais. Se eu fosse de vidro, seu olhar não me atravessaria de maneira diferente. . . Chego a me sentir uma estranha em minha casa! Quando fala comigo, é com indiferença ou ironia. Escute, ele não me ama mais!

A alma de Gabriel estava num estado lastimável.

— É claro que a erosão do tempo aliada aos seus aborrecimentos íntimos não resolvem nada. Não é uma razão para capitular — disse ele. — De minha parte, continuo a pensar que Andrônico guarda ainda por você ternura e respeito.

— Aos trinta e cinco anos, ele chega a uma idade onde muitos homens fazem uma volta sobre si mesmos, questionando tudo: mulher, compromissos, até mesmo a sua fé em Deus!

— Deste lado não há nada a temer. Andrônico é um verdadeiro cristão.

— É certo que ele cuida sempre de socorrer os pobres, de ajudar os deserdados. . . A tal ponto que chego a me perguntar se não há um excesso nessa preocupação constante, obcecada, pelos outros. No passado ele não se preocupava tanto com o destino dos infelizes e pensava mais em nós, na felicidade do nosso casamento. . . Suas obras de caridade não seriam um pretexto cômodo para afastar-se do seu lar, de mim? Uma maneira egoísta de se persuadir que, praticando o bem para os indigentes, os doentes, os órfãos, estaria dispensado de me dedicar atenção e carinho?

— Você também mudou, Icásia! Como está dura para com um esposo outrora tão querido!

Ela não respondeu. Vinda do Bósforo próximo, uma brisa leve ondulava os reposteiros em tapeçaria persa, que separavam o quarto das outras peças do gineceu.

— Entendo cada vez menos o temperamento de Andrônico — retomou a jovem após um curto instante. — Ele decide, interrompe, impõe-me seus projetos, seus gostos, faz prova de uma autoridade quase tirânica.

— Agora está exagerando!

— Não estou, não, e vou dar um exemplo: aconselhado por seu pai, cuja influência sobre ele não pára de crescer, e que não gosta nada de mim, você sabe, porque reprova em mim o que ele chama de minha arrogância de aristocrata, aconselhado por ele, portanto, Andrônico informou-me ontem que deveria hospedar aqui alguns desses celtas que tanto me desagradam! Sem ter me consultado, ele aceitou receber sob nosso teto, durante sua estadia em Constantinopla, a família do padre Ascelino, o notário episcopal de que falávamos há instantes.

— Serão muitos?

— Não sei ao certo. Meu sogro, que recebeu uma carta pelo correio, falou de cinco ou seis pessoas, parece-me.

— A casa é grande. Não terá problema algum para alojá-los. Você poderá até ignorá-los, se fizer muita questão.

— Mas eu não tenho a menor vontade de ver se instalarem sob nosso teto, na nossa intimidade, elementos dessas hordas bárbaras que todos os nossos amigos desprezam! Essa gente é grosseira, sem cerimônia e cheira a alho!

— Vocês não serão os únicos a acolher hóspedes deste tipo! Você sabe que os cruzados foram proibidos de penetrar na nossa cidade. O imperador deu ordens para que não os deixem se instalar dentro da cidade. Eles estão acampados nas áreas junto à porta de Blachernes e até as cercanias do Chifre de Ouro, sob as muralhas do Norte. Mas alguns privilegiados, que já possuem amigos ou relações entre os habitantes, receberam a permissão para se hospedar na casa daqueles que consentirem em recebê-los. Nos campos, as condições de vida não são nada boas. Segundo os rumores, muitos peregrinos se queixam e buscam uma maneira de se fazerem convidar do lado de cá dos muros.

— Não me surpreende que protestem. Não apenas eles são grosseiros, mas também briguentos!

O eunuco levantou-se.

— Vamos, minha cara, arme-se de paciência. Esses francos não vão se demorar por aqui.

— Quem sabe? Constantinopla os deixa deslumbrados. Eles entenderam por que é chamada de Nova Roma. Eles nem mesmo imaginavam, em meio às suas brumas frias do Oeste, que poderia existir um tal esplendor!

— Sem dúvida. É certo que o seu único desejo é passar à margem oriental do Império para marchar em seguida na direção de Jerusalém!

— Que seja como tanto desejam! Que vão, então, o mais rápido possível! Que nos deixem livres de suas tropas de bêbados e mendigos!

Gabriel meneou a cabeça.

— Você me entristece, Icásia, quando fala assim. Não gosto de vê-la com tão pouca disposição para com pessoas que, é bom lembrar, estão se preparando para nos ajudar a combater os sarracenos.

— Seus soldados nos serão úteis, é verdade. Mas não é com eles que vou me defrontar. Esta casa será invadida por peregrinos desconhecidos, sujos e grosseiros. . .

Gabriel pôs-se a rir, jogando com elegância a cabeça para trás. Ele sabia que este gesto valorizava o modelo puro de seu queixo bem barbeado, como era o hábito dos eunucos.

Foi então que o reposteiro foi levantado e a esperada ama penetrou no quarto, acompanhada de sua filha.

— Ei-la, Mórfia! Quanto tempo levou seu tratamento! — exclamou Gabriel alegremente. — Pensei que partiria sem poder abraçá-la.

— Pelo ventre da Virgem, estou me tornando uma pobre velha cuja carcaça começa a estalar por toda parte! — suspirou a ama com uma careta fatalista. — Agora minhas pernas não estão mais conseguindo me carregar.

— Não é preciso exagerar — corrigiu a filha Janice, deixando cair de volta o reposteiro. — Graças aos bálsamos e elixires do curandeiro que acaba de tratá-la, pode-se esperar que esta crise de gota brevemente vai deixá-la em paz. Nada a impedirá de voltar a dirigir tudo no gineceu.

O eunuco aprovou.

— Como sempre — observou com ar satisfeito — como sempre o bom senso se exprime pela tua boca, Janice. Deus te guarde e conserve assim por muito tempo perto de Icásia! Na tua companhia, nunca lhe faltarão ajuda e bons conselhos.

— Se ela consentir em escutá-los e a levá-los em conta — disse a jovem morena e magra cujos traços, desenhados com grande nitidez, evocavam alguns retratos de arte cretense. . .

Enquanto falava, ela se dirigia a uma das arcas em madeira de cedro esculpido, onde estavam guardadas as roupas de vestir, de dormir, e os objetos pessoais de sua irmã de leite. Ela a abriu e tirou de dentro uma caixa de maquiagem que levou para Icásia.

— Para começar, convém não se esquecer de cuidar da sua beleza retomou ela com segurança. — Estou achando-a muito pálida hoje. Vamos resolver isto imediatamente.

Gabriel admirava em silêncio a naturalidade do procedimento, a segurança dos gestos de Janice. Apesar de não ser bonita, era interessante. Seus traços agudos, quase afiados, demonstravam uma inteligência lúcida. Sua pele morena, suas pesadas pálpebras arredondadas, seu nariz aquilino, seu maxilar sem um grama de gordura acusavam um caráter bastante temperado. Só não chegava à discrição desejada em suas atitudes, em seus hábitos, traindo uma forte personalidade que entretanto acabava não aparecendo.

Gabriel suspirou.

Se lhe fosse permitido, certamente não teria recusado provar desta cabrita negra. . . Existem alguns arranjos com a natureza, mesmo quando ela está impedida por uma certa ablação. . . Benzeu-se rapidamente. Que Deus o proteja de tal tentação, de semelhante pensamento, mesmo que se tratasse apenas de um simples afloramento do espírito! Tendo a honra de fazer parte dos jovens escolhidos para integrar a corte encarregada de evocar, junto ao basileu, os anjos que rodeiam o trono do Senhor, ele não podia se deixar levar por nenhuma estripulia. Se seu pai decidira no passado emasculá-lo, fora com o único objetivo de lhe garantir uma carreira brilhante. E isso o deixara imensamente feliz. Todos sabiam em Constantinopla que era preciso proceder primeiramente a essa operação para preparar o filho a um futuro promissor na corte. . . Aquele era um rito que os bárbaros desconheciam e do qual escarneciam. Mas a zombaria dos estrangeiros não importava nada para os eleitos, que representavam aqui embaixo a elite celeste. Os "oficiais sem barba", como eram às vezes chamados no Império, tinham uma posição privilegiada em toda a extensão das possessões romanas. Alguns dos ofícios mais notáveis eram-lhes reservados e o imperador era cercado quase que exclusivamente de eunucos, como Deus o é por legiões angélicas. Sob as asas dos querubins, se escondia o poder. . .

Novamente sereno, Gabriel se inclinou na direção de sua irmã, aquém Janice maquiava com muita arte.

— Vou deixá-la, Icásia. Você sabe que a minha função vai muito além da manutenção do tinteiro no qual o nosso basileu molha sua pena para escrever com tinta púrpura. Não posso demorar mais. Voltarei para vê-la assim que for possível.

— Não demore muito. Preciso de você. . .

Tomando o sentido inverso do caminho que percorrera momentos antes, o eunuco pensava que uma casa tão bonita mereceria abrigar apenas gente feliz, e que existem infortúnios secretos de que ninguém se apieda porque nem desconfia deles.

Ao se aproximar do pórtico de entrada, cujos batentes duplos de ferro eram enfeitados de grandes pregos arredondados, Gabriel viu surgir repentinamente seu sobrinho, Marianos, cocheiro no hipódromo na facção dos Azuis. O jovem montava um magnífico garanhão preto da Tessália e vinha acompanhado de vários amigos da sua idade. Ao ver Gabriel, saltou imediatamente do cavalo, para se lançar na direção do seu tio.

"Se não fosse cocheiro, que eunuco não teria saído!", pensou pela centésima vez ao ver se aproximar o atleta sorridente que evocava de maneira irresistível um jovem deus pagão.

"Um deus que tiraria melhor partido de seus músculos que dos traços de seu rosto de Apoio!", completou furtivamente o irmão de Icásia. Ele respondeu à saudação de seu sobrinho, cuja túnica semicurta, ornada de bordados suntuosos, e cujos cabelos ondulados, tão negros que chegavam a ser azulados, descendo em camadas até os ombros como mandava a moda, mostravam grande preocupação com a aparência. Como era alegre e animado, Marianos tinha muitos amigos. Era muito admirado pelos chefes dos Azuis e não tinha muitos inimigos entre os Verdes, o que era notável.

Deu um abraço caloroso em Gabriel.

— As corridas previstas para a próxima semana prometem ser fantásticas! — anunciou com ar alegre. — Vamos nos divertir muito! Seremos impiedosos. Precisamos de qualquer maneira ganhar dos Verdes!

— Deus o ouça! O basileu quer seduzir os chefes dos exércitos das cruzadas que estão acampados sob as nossas muralhas, e quanto mais as corridas forem disputadas com ardor, melhor será para o seu prestígio!

— Fique tranqüilo! Nós o satisfaremos. Mostraremos a todos esses bárbaros do que são capazes os sucessores da antiga Roma!

Ao terminar sua frase, Marianos virou-se para ouvir o testemunho dos companheiros que o aclamaram vigorosamente. A ingênua vaidade dos rapazes divertiu o eunuco.

— Confio na sua facção — disse, pousando a mão amiga sobre o ombro musculoso do jovem cocheiro — mas especialmente em você, cujas proezas no hipódromo tanto honram a nossa família!

Apressados em retomar cada um suas atividades, Gabriel e o sobrinho separaram-se rapidamente.

 

Na rua, diante do portal, a liteira de Gabriel esperava. Conduzida por duas mulas brancas com crinas trançadas por fitas de seda multicor e terminadas por pompons e arreios de couro azul tacheados de cobre, a parelha, pintada de dourado, era guardada por valetes. Vestiam libré amarela e violeta, cores do seu patrão. Ajudado por dois deles, Gabriel se instalou sobre as almofadas que cobriam o assento.

A artéria por onde seguiu a liteira estava calma, com pouco movimento. Era margeada de galerias cobertas e ricas mansões onde, ao passar, podiam ser percebidas, pelos portões entreabertos, por trás dos muros caiados, as fachadas em tijolo e pedra ou todas em pedra, decoradas com estuque e mármore e encimadas por cúpulas douradas, vermelhas ou verdes.

Os passantes circulavam sem atropelos, apesar da proximidade da maior e mais bela praça de Constantinopla, onde a rua desembocava: a Praça do Augusteon. Centro do mundo para os habitantes da cidade das cem maravilhas, esta praça era inigualável.

Era por isso que, como um de seus concidadãos, Gabriel Attaliate a considerava como o mais perfeito conjunto arquitetônico realizado por mãos humanas. Mesmo em Roma não se construíra nada tão grandioso! Assim, apesar do hábito constante e da multidão que circulava por ali, ele nunca passava pela praça sem experimentar um sentimento de admiração que sempre o levava à mesma evidência: a supremacia, em tudo, dos novos romanos!

Agora da antiga Bizâncio, construída em mármore e bordeada de pórticos, a praça havia mudado de nome por ordem do imperador Constantino (Deus conserve sua alma!). Na verdade, era em memória da augusta Helena, sua mãe, morta antes da inauguração da cidade nova elevada por ele à categoria de capital do Império romano do Oriente, que ele a chamara Augusteon. Do alto de uma colina de pórfiro, a estátua de Helena ficava frente a outra que, esta sim, ocupava o centro da praça. Bem maior ainda, podia ser admirada, coroada pela cabeça emplumada dos reis da antiga Pérsia, com uma das mãos erguida e aberta, a outra sustentando um globo encimado por uma cruz, um personagem jovem e imperioso montando um corcel de crina ondulada. Era Justiniano, esposo da famosa Teodora, o soberano que proporcionara à cidade, muitos séculos antes, uma idade de ouro com que todos ainda sonhavam. . .

Gabriel nunca deixava de saudar as estátuas com um discreto sinal de cabeça. Naquele dia, enchendo mais uma vez os olhos com a beleza harmoniosa daquele lugar privilegiado, ele pensou no estupor que tomaria conta dos chefes dos exércitos cruzados, aqueles celtas incultos, quando chegassem, um de cada vez, ao coração da admirável praça cuja graça poderiam admirar. . .

— Mais depressa, mais depressa agora! — gritou para os valetes, que usavam bastões para afastar a multidão cosmopolita onde se acotovelavam, em seus trajes tão diversos, gregos, húngaros, venezianos, turcos, russos, germânicos, árabes e etíopes.

Babel declarada, mistura de raças e línguas, Bizâncio era o próprio centro do mundo!

— Espaço! Mais espaço! — gritavam os servos de Gabriel, agitando o bastão ao redor de si mesmos para desimpedir o caminho à frente das mulas brancas, assustadas com tanta gente.

— Mais depressa! mais depressa! — impacientou-se o eunuco, ao decidir que ainda teria tempo de passar na loja de seu cunhado, Andrônico Danielis, para lhe falar da repugnância que Icásia sentia com a idéia de receber a família do padre Ascelino.

A praça do Augusteon era enfeitada por monumentos, como uma mulher se enfeita de jóias: ao norte, Santa Sofia, obra-prima das obras-primas, a igreja-mãe! Santa Sofia da cúpula vertiginosa, suspensa a céu aberto como por milagre e encimada por uma cruz de ouro, cujo brilho ofuscava sob os raios do sol.

"O imperador Justiniano desejou que fosse de tal maneira que, desde Adão, não houvera nem haveria outra igual, pensou Gabriel. E conseguiu. Temos aqui a Grande Igreja Cristã que se ergue, em seu vestido de pedra, de mármore, de mosaicos e de ouro, como um hino a Deus, à Virgem, aos santos! É o templo da luz terrestre, ofertado em homenagem à Luz de todos os tempos!"

Mais uma vez o eunuco sentiu que uma profunda exaltação tomava conta dele, diante de tanto esplendor aí reunido por seus ancestrais.

Ao sul, em frente à igreja, Gabriel viu com alegria o palácio onde ele mesmo vivia com os outros oficiais sem barba. Ele conhecia tanto quanto possível os seus inúmeros desvios, ou seja, muito superficialmente. Cidade dentro da cidade, com seus trinta mil servos e militares, era, dentro de um enorme imóvel do século X, um conjunto monumental construído ao longo dos anos, segundo os humores e as vontades dos diversos imperadores. Eles acumularam aí um número incrível de edificações: salas de recepção, entre elas a do trono, onde o único material empregado fora o ouro; igrejas e capelas cintilantes de mosaicos de vidro, escurecidos pelo incenso; oratórios secretos, cheios de relíquias santas e ícones inestimáveis; bibliotecas, galerias, colunatas de mármore policromado; pátios cobertos ou descobertos, fontes de prata de onde jorravam águas de rosas, finos pórticos, terraços que davam para os jardins de flores raras e arbustos aromáticos. Podiam ser vistas ainda várias outras construções freqüentadas por Gabriel: um picadeiro, um jogo de pela para cavalos, uma piscina, um estádio. Alamedas de areia branca conduziam ao promontório rochoso que dominava uma das mais belas paisagens do mundo: o Corno de Ouro, o Ponto Euxino, o Bósforo e a Propôntida, banhando com suas águas claras, reconciliadas, o promontório sobre o qual se erguia, entre suas muralhas tríplices de tijolo e pedra branca, a mais grandiosa cidade do universo!

Gabriel olhou na direção do senado, erguido a leste do Augusteon, projetando-se sobre o mar. Os senadores estavam estremecidos com Alexis Comeno, que reduzira a tal ponto seu poder, que talvez fosse possível afirmar que reinava um clima de guerra velada entre eles. O eunuco também apreciava menos do que os outros monumentos da praça, aquele imponente casarão ornado de um pórtico de mármore guarnecido de estátuas cujos rostos estavam polidos pelos anos, e o domo majestoso que protegia — como uma galinha faria com seus pintinhos, ironizava ele — a assembléia inimiga do basileu.

A liteira estava chegando a oeste do Augusteon, onde se erguia o arco do Milhão de Ouro, não muito longe do hipódromo e dos banhos de Zêuxis. Gabriel lembrou-se com orgulho que era a partir daquele arco de mármore monumental que se contavam todas as distâncias que levavam às fronteiras do Império e, mais longe ainda, às do mundo conhecido. . .

— Abram lugar! Abram lugar!

Conduzindo as dóceis mulas, os servos abriam caminho até as lojas dos perfumistas sempre bem abastecidas e de onde exalava um ar perfumado. Os perfumistas, únicos comerciantes a serem admitidos pela administração da cidade a se instalarem no Augusteon com os tinturistas, vendedores de círios, livreiros, difusores do pensamento escrito, e os comerciantes que vendiam peças de seda preciosa, gozavam do privilégio exorbitante de estar sob os pórticos, bem perto do Palácio Imperial, cujas portas eram guardadas por soldados armados com arcos de ouro.

"Eles acham, pensou o eunuco, que esta insigne honra foi-lhes concedida pelos suaves aromas de seus perfumes que se elevam, como o incenso diante dos altares sagrados, na direção do Cristo, dominando o pórtico monumental do palácio. Se for verdade, vejo aí um refinamento digno de Bizâncio e que muito me agrada, mas sem dúvida é mais justo pensar que a proximidade dos banhos de Zêuxis não é coincidência!"

Dentre aquelas lojas, e apesar das obrigações bastante severas impostas pela lei ao desenvolvimento de cada uma delas, a dos Danielis era a mais importante, a mais abastecida, a mais em moda e o ponto alto da elegância.

Erguido pelos valetes, o eunuco deixou a liteira e entrou na loja do cunhado. Mas Andrôniço não estava. Apenas, em meio a um aroma obssessivo de perfumes, de fragrâncias, exalações tão potentes que se impunham como uma presença, Teófano Danielis vigiava seus empregados, ao mesmo tempo em que atendia os seus inúmeros clientes.

Uma ciranda abstrata de eflúvios perfumados escapava dos diferentes recipientes colocados sobre as prateleiras, mesas e tripés de bronze. Frascos em pasta de vidro com nuances opalescentes lacrados com cera virgem, delicadas garrafinhas abrigando os preciosos âmbares do Oriente, cântaros onde repousavam as águas de lírios, de rosas, de violetas, de narcisos, de nenúfares; maçãs de âmbar cinza, bastões de incenso originário da Arábia Feliz, saquinhos contendo certos pós perfumados com raízes de íris ou com canela do Ceilão, galhetas de óleo de jasmim, vasos de pórfiro, de ágata ou de terra esmaltada, decorados com um gosto especial e cheios de essências aromáticas de cedro, de sândalo, de óleos de palma perfumada ou de mirra, pequenos potes de alabastro contendo o precioso nardo indiano, o mais apreciado pelos hebreus que cantaram-no nos Cânticos dos Cânticos e que M séculos eram trazidos a Bizâncio, encomendados pelos homens elegantes, zelosos em perfumar barba e cabelos. Com olhar curioso, Gabriel procurou as novidades chegadas depois da sua última passagem pela loja e que sempre o tentavam: caixas de talco proveniente de Creta, pequenos barris de marfim redondos como odres cheios de cebolinha miúda, de folhas perfumadas ou de flores de açafrão, cujos estames vermelhos exalavam um perfume acre e quente, braçadas de ervas aromatizantes expostas em caixas de junco finamente trançado, caixinhas de arômatas e até o mástique de Chio, que ele gostava de mastigar seguindo a moda, para perfumar o hálito. . .

Sem partilhar dos rancores de Icásia, o eunuco era bastante refinado para gostar loucamente dessa loja que lhe permitia, pelo olfato, suaves orgias.

Por outro lado, ele conservava toda a sua estima por um homem que era capaz de fazer vir às vezes de tão longe, e em seguida escolher e impor à caprichosa capital Bizâncio, tão deliciosas harmonias olfativas. Ele também sentia prazer em reconhecer a fineza de espírito, o gosto, a medida e o senso artístico daquele rico comerciante que poderia muito bem ter se contentado em ganhar muito dinheiro, enquanto que o que realmente gostava era de empregá-lo com inteligência. Teófano Danielis possuía em sua casa uma biblioteca de obras, em língua grega e latina, que poderia ser cobiçada por um bom número de nobres. Ele se cercava de objetos raros comprados com discernimento entre os inúmeros tesouros recolhidos, conquistados, acumulados e depois negociados pelos novos romanos.

Graças à sua inigualável situação entre o Oriente e o Ocidente, Bizâncio não seria então o ponto centralizador das rotas vindas das índias, da China, da Rússia, da Pérsia, da Arábia e da Europa? Países próximos ou países no outro lado do mundo, todos derramavam nos seus entrepostos seda, especiarias, pedras, peles, pérolas, tapetes, cera, caviar, mel, madeiras de lei, metais de todas as espécies e de todos os valores. Do deserto ao Grande Norte, tudo que se podia vender ou comprar passava pela capital do Império!

Abandonando seus clientes para ir ter com seu nobre visitante, o mestre-perfumista dirigiu-se para Gabriel. Os dois homens sé saudaram amigavelmente.

— Pelo que vejo, Andrônico não está — observou o eunuco.

— Ele foi ao palácio, onde foi chamado pela basilessa. Ela queria consultá-lo sobre as novas pastilhas perfumadas de almíscar do Tibete que mandamos para ela.

— Tal prova de confiança por parte da imperatriz é realmente uma grande honra para a sua casa — disse Gabriel inclinando-se. — Todos sabem da grande estima que Suas Majestades Imperiais nutrem pelos senhores!

Eles conversaram um momento sobre as novidades que circulavam na corte. Teófano Danielis contou ao seu interlocutor que Andrônico cuidava cada vez mais do hospital fundado pelo soberano no Corno de Ouro.

— Atualmente ele vai lá quase todos os dias e se sente muito bem em socorrer diretamente os indigentes e os doentes — disse com satisfação. — Infelizmente, somos forçados a reconhecer que, ao lado de seus esplendores, nossa cidade abriga também inúmeras misérias!

Gabriel concordou e passou desse assunto ao dos cruzados que não paravam de afluir aos muros de Constantinopla.

— Vinha justamente conversar com seu filho — emendou ele — sobre a apreensão que tomou conta de Icásia com a idéia de ver instalarem-se sob o seu teto alguns desses francos, cuja reputação a inquieta, possivelmente até com razão. . .

Teófano Danielis deu um meio sorriso. Sob os poucos cabelos brancos, tinha um rosto fino, um longo nariz carnudo de epicurista e olhos amendoados que sabiam tão bem rir quanto refletir seus movimentos de humor ou suas cóleras.

— É evidente que minha nora é a dona de nossa casa — disse, sem tentar dissimular uma certa irritação. — Minha viuvez levou-me naturalmente a confiar-lhe a condução e a organização do nosso lar. Portanto, tenha certeza de que não gostaria de aborrecê-la em nada. Mas, neste caso, trata-se da família de um amigo que, apesar de estrangeiro, me é muito caro. Sem dúvida deve lembrar-se de ter encontrado, há alguns anos, quando passou uma temporada num mosteiro em nossa cidade, o reverendo padre Ascelino?

Uma ponta de ironia atravessou o olhar de Teófano Danielis, onde se podia ler uma determinação bastante sólida.

— É um homem notável — retomou o mestre-perfumista. — Doutor em direito e em teologia, não deixou por isso a sua simplicidade, nem esmaga ninguém com a sua ciência. Conversar com ele é profundamente enriquecedor para o espírito. . . Realmente não vejo em que a sua presença e a de sua família poderia incomodar Icásia. Com hóspedes desta qualidade, não precisaremos temer a grosseria celta de que tanto se queixam aqui, acentuando as aparências, a fim de justificar as zombarias com que cobrimos os nossos aliados assim que nos viram as costas!

Gabriel sabia bem que Teófano Danielis não compartilhava o desprezo que estava em voga em Constantinopla contra os cruzados. Ele fazia parte dos poucos bizantinos que respeitavam os cristãos latinos enviados pelo papa.

— O próprio basileu deu exemplo da mais extrema benevolência em relação a eles — continuou o perfumista. — Ele não hesitou em enviar à frente dos francos os melhores oficiais de seu exército com suas tropas para acolher os que chegavam, guiá-los e garantir-lhes víveres suficientes durante sua travessia pelo Império. Político esperto, Alexis mediu a extensão da importância de sua ajuda para nós. Além disso, desde que alguns de seus chefes estão entre nós, o imperador não cessou de cobri-los com presentes magníficos. O que leva muitos de nós a escarnecer da avidez dos "bárbaros", é claro! Quanto a mim, vejo as coisas de outra maneira e não me parece absolutamente correto adotar um comportamento diferente do basileu. . . Aliás, o dever de hospitalidade não deve ser sagrado entre os cristãos?

— Sem dúvida alguma — concordou Gabriel, sentindo-se então bastante incomodado. — É verdade que o basileu trata os francos da melhor maneira possível. Mas ele vê apenas os chefes e os principais nobres. Os exércitos compósitos que os seguem nem sempre parecem cheios de sentimentos fraternais para conosco.

— As coisas começaram mal de uma parte e de outra, admito, mas não se pode negar que, apesar das reconciliações anunciadas, continua havendo entre nós uma série de preconceitos em relação aos latinos. Nós os criticamos sem trégua e esta falta de caridade para com estrangeiros tão providenciais vem infelizmente de muito alto!

Como havia ainda muita gente na loja e era impossível falar sem ser ouvido pelos curiosos, os dois homens preferiram se calar a continuar evocando um assunto tão polêmico.

— De qualquer maneira, prometi minha hospitalidade ao padre Ascelino e à sua família — concluiu Teófano Danielis. — Eu não saberia pôr em questão a minha palavra por um capricho de minha nora.

Sob a urbanidade de seu tom, era fácil perceber uma ponta de reprovação matizada de impaciência em relação a Icásia.

— Sabe o quanto minha irmã é frágil. . .

A expressão do mestre-perfumista endureceu.

— Permita-me não compartilhar de seu ponto de vista em relação à minha nora — interrompeu o pai de Andrônico. — Ambos conhecemos nossas posições sobre esta triste história. Seria necessário voltar ao assunto mais um vez?

Gabriel suspirou. Ele tinha horror das discussões que representavam uma prova de força e apreciava apenas as formas mais sutis da diplomacia. Pôs-se a lamentar que Icásia o houvesse incitado a afrontar um homem cujo julgamento e lealdade tanto estimava, arriscando-se a azedar relações até então cordiais.

— Veja! — exclamou Teófano Danielis — Veja! Meu filho está chegando! Diga, então, diretamente a ele as recriminações de sua esposa!

Assim que Andrônico entrou, todos repararam nele. Sua altura ultrapassava em uma cabeça todos os que o cercavam e era impossível não vê-lo, independente do tamanho da multidão. Entre os mediterrâneos, de estatura mediana ou baixa, ele era um dos poucos habitantes.de Constantinopla com a compleição dos germânicos, eslavos ou celtas. Com sua grande estatura, sua barba fina e escura cortada rente ao queixo, seus cabelos pretos, espessos e frisados, que começavam a pratear nas têmporas, sua tez bronzeada e o olhar que mostrava olhos azuis como a água do Bósforo, Andrônico Danielis não era o tipo de homem que passava desapercebido, mesmo numa cidade tão cosmopolita como Bizâncio!

— Os exércitos do duque de Normandia e do conde de Blois começam a chegar aos nossos muros! — disse Andrônico ao abordar seu pai e Gabriel. — Parece que há uma balbúrdia indescritível além das muralhas, pelos lados da porta de Blacherne! Já não se sabe onde pôr tanta gente. O mosteiro de São Cosme e Damião, onde estão sendo hospedados, vai explodir de tanta gente!

— Por Santa Teótokas, meu filho, precisamos ir sem demora à procura de nossos amigos — decidiu o mestre-perfumista. — Eles podem se sentir perdidos nessa imensa confusão.

— Já pensei nisso, meu pai. Já passei em casa para agilizar os preparativos para sua recepção. Também já resolvi levar comigo os mais robustos dos nossos servos para ajudá-los e protegê-los, caso se faça necessário.

— Você tem um carro para as mulheres?

— Mandei atrelar uma liteira cheia de almofadas e uma charrete onde possam colocar suas malas e pertences. Há também cavalos selados para os homens. Em suma, preparei uma escolta completa. Só nos resta agora ir ao encontro dos viajantes!

Andrônico parecia resplandecente sob o efeito do interesse que demonstrava pelos cruzados, e da excitação que provocava nele a sua chegada. Suas pupilas tinham um tal brilho, que lembraram ao eunuco os reflexos das lâminas das espadas ao sol. . .

— Agora devo deixá-los — disse aos Danielis. — Minhas ocupações chamam-me ao palácio.

Sobre uma pequena mesa que precisaria contornar, Gabriel vislumbrou repentinamente uma longa caixa de marfim que escapara à sua atenção. Continha palitos em madeira perfumada: ciprestre, alecrim, murta, aroeira-brava ou pistacheira.

— Eis do que preciso — disse ele, virando-se para o pai e o filho. — Quase não tenho mais. Fico esperando que me mandem entregar um sortimento.

—Assim que voltarmos lhe mandaremos várias remessas — garantiu Andrônico, nitidamente preocupado com outra coisa.

O eunuco voltou à sua liteira. Uma reflexão inquieta tomou conta dele: "Se Icásia visse seu esposo agora, não o reconheceria. Ele parece tão alegre em participar destes acontecimentos que vêm alterar os nossos hábitos. . . Nele existem dois homens: o marido insatisfeito, moroso, autoritário, e o ser ainda jovem, ávido de modificações e novas atividades. Quanto tempo o primeiro resistirá à explosão vinda do Ocidente? Será que também não se sentirá tentado a se juntar aos caminhantes de Deus? A deixar tudo para ir libertar, ao mesmo tempo que a si próprio, a Jerusalém aprisionada?"

 

Flamínia estava deitada sobre a relva de um jardim.

Não longe dali passavam valentes cavaleiros montando corcéis negros e brilhantes, pateando. Levavam lanças rígidas, escudos oblongos pintados com coloridos fortes, espadas luzidias e vestiam elmos claros e cintilantes, cotas brancas, calções de malha apertados. . .

Repentinamente Flamínia sentiu alguma coisa mexer sobre seu peito. Ergueu-se ligeiramente e viu uma serpente enrolada entre seus seios nus. Movimentava-se preguiçosamente. A cabeça achatada, em forma de V, se erguia e se virava na direção do rosto da jovem. Ela podia ver bem de perto os olhos amarelos e apertados, fixos, cintilantes, inexpressivos. . .

Petrificada pelo pavor, Flamínia quis gritar, pedir ajuda, mas pensou que gritando assustaria o réptil, que poderia então atacá-la. . . Passou-se um tempo que parecia fora do tempo. . . Foi então que a serpente desenrolou-se calmamente, com cuidado, escorregou pelo quadril trêmulo de susto, embrenhou-se pela grama e desapareceu num buraco. . . Ela levou a mão ao coração, que batia furiosamente, tentando acalmá-lo. Foi então que sentiu, sob os dedos, no lugar onde estivera o animal imundo, um corte. Novamente olhou o peito e viu, gravada em sua carne, uma cruz bastante profunda de onde brotavam gotas de sangue. . . Flamínia deu um grito que a despertou.

Apavorada, desorientada, não sabendo mais o que era sonho e o que era realidade, ficou perdida por um momento. . .

— O que está acontecendo com você, minha irmã? Por que está gritando? Está doente?

Brunissen, que estava deitada à direita de sua irmã mais nova, ergueu-se sobre o cotovelo e inclinou-se sobre ela.

— Não sei. . . por Deus, não é nada. . . um terrível pesadelo. . .

Do outro lado de Flamínia, como que arrancada de seu sono, Alaís se agitava, suspirava e voltava a dormir, enroscando-se toda.

As três filhas do pergaminheiro dividiam um enorme leito num dos quartos da pequena casa que os Danielis lhes haviam emprestado. Após tantos dias passados sob tendas precárias, em acampamentos aventureiros, elas haviam reencontrado, encantadas, a maciez dos lençóis de linho, de um colchão recheado de lã crua.

— Tem certeza de que não está com febre? — perguntou Brunissen em voz baixa, inquieta com a perturbação da irmã.

— Não, não. . . estou bem. Apenas tive um sonho tão horrível que' não consigo nem mesmo esquecê-lo.

A irmã mais velha encostou nela a cabeça ruiva, apoiada ao seu pescoço, no lugar onde corria o sangue fraterno, deixou-se ficar ali por um momento, beijando em seguida a irmã na testa.

— Tudo bem. . . tudo bem. . . acalme-se, irmãzinha amiga. A noite está tranqüila. Tudo dorme ao nosso redor. Até mesmo nossa avó, no quarto ao lado, parece repousar como nunca o fez. A mistura de leite com mel e suco de papoula preparado pela ama de nossa anfitriã felizmente parece ter surtido efeito.

Tanta calma finalmente fez com que a adolescente se tranqüilizasse, diminuindo o ritmo dos batimentos de seu coração.

— Eu sou boba — murmurou ela — muito boba de levar a sério um simples sonho. . . mas ele era abominável.

— Se acha que ficará mais confortada em contá-lo, conte-o para mim.

— Não vale a pena. Nem sei por que fiquei tão impressionada. Estou com raiva de mim mesma por tê-la acordado! Trate de tentar dormir novamente, o mais rápido possível.

Logo a respiração regular da irmã mais velha provou à adolescente que apenas ela continuava com os olhos abertos na casa estrangeira. Ao contrário do que afirmara, a sensação de nojo que o sonho lhe causara não se dissolvia totalmente com a serenidade da noite. Ela ainda podia sentir sobre si o peso escamoso, frio, perfidamente leve do réptil.

"Cruzei com o seu olhar, pensou ela, seu olhar amarelo, maléfico. E o olhar de Satã!"

Ao mesmo tempo que tentava ser razoável, tremia de pavor. Aquela cruz na sua carne viva, aquela cruz tingida com seu sangue, o que significaria? Prova ou redenção? As duas coisas, sem dúvida. . . Todos sabiam que os meses por vir seriam feitos de lutas, vicissitudes, que a terra dos infiéis, brevemente alcançada, deixava prever um tipo de inferno antes da proximidade; e depois a conquista e posse de Jerusalém, imagem do paraíso. . . Que futuro a esperava naqueles lugares desconhecidos, hostis? Em que combates deveria se lançar? E contra quem?

Por que, também, aquele sonho, naquele exato momento, na primeira noite de sua estadia em Constantinopla? Estavam tão contentes de ter enfim encontrado os outros exércitos de Cristo após o desembarque na costa oeste dos Bálcãs, de ter atravessado a pé, em pouco mais de um mês, a península até Constantinopla. Dias de caminhada exaustiva através de um país montanhoso ou desértico, habitado por animais ferozes e por demônios, sulcado por torrentes borbulhantes que deviam ser atravessadas pelos vaus, sob pena de afogar-se ou ser levado pelas águas caudalosas. Dias de provação e sofrimento que os peregrinos agora só pensavam em esquecer.

A partir de Salônica, fora possível prosseguir, seguindo por vales menos selvagens e, pouco a pouco, a proximidade de Constantinopla deixara de ser para eles apenas imaginação, passando a iminente realidade.

Na véspera, a vista havia finalmente alcançado as altas muralhas que cercavam a cidade com seus cinturões triplos de pedra branca e tijolo rosa. Muitos cruzados caíram então de joelhos. Ter chegado até aí já lhes parecia miraculoso e provava a ajuda sem falha do Senhor. . . Mais uma vez, aos gritos de "Deus quer assim!", lançaram-se em direção àquela cidade da qual lhes falavam há tanto tempo como sendo a primeira verdadeira etapa de sua busca. O legado do papa. Ademar de Monteil, bispo de Puy, os esperava diante da porta fortificada de Blanchernes. O pontífice confiara a esse grande prelado a prodigiosa missão de reagruparem Constantinopla e em seguida guiar aquele enxame de almas em direção à colméia divina que era Jerusalém.

Depois, tudo correra bem para Flamínia e os seus. Os amigos do padre Ascelino se ocuparam deles com carinho e os levaram até a sua casa. Durante o trajeto que os levava do mosteiro onde aconteceram os encontros até a casa dos Danielis, os cruzados caminharam através da cidade prodigiosa, da cidade incomparável, ao longo de uma avenida larga e suntuosa, superpovoada, pavimentada com mármore, margeada de pórticos, de palácios, de igrejas, conhecida por Mesê. . .

Flamínia acabou adormecendo e, num novo sonho, viu brilharem as inúmeras cúpulas de Bizâncio como bolhas de ouro dançando na luz, acima das casas. . .

No dia seguinte, ao amanhecer, uma chuva morna regava os jardins dos Danielis junto às muralhas que dominavam o Bósforo. A família do pergaminheiro estava hospedada num lugar afastado, ao fundo de canteiros floridos e bosques de laranjeiras ou limoeiros. O mestre-perfumista e seu filho haviam-nos acompanhado na véspera até um casarão em tijolo e pedra, com um terraço de balaustrada como tantos na cidade. Compunha-se de um grande salão e três quartos, separados uns dos outros por reposteiros de tapeçaria. Perto dali ficavam as termas privadas dos seus anfitriões. A pequena habitação, que servira anteriormente como acomodação das amas-de-leite e das crianças de que se encarregavam, fora abandonada desde a mudança de seus ocupantes para a casa grande e abrigava agora, por algum tempo, aqueles francos tão indesejados por Icásia.

Todos os quartos estavam simplesmente decorados. Por outro lado, em lugar das braçadas de ervas frescas, junco ou feno de que se utilizavam em suas casas, os chartrenses descobriram maravilhados os inúmeros tapetes persas, suaves e macios, que cobriam as lajes da pequena casa. Os do grande salão eram especialmente coloridos e enfeitavam muito a peça de paredes caiadas, onde reinava uma grande mesa cercada de bancos recobertos de tapeçaria em cores vivas. Além disso, havia apenas um louceiro e uma grande lareira. Destinada à cozinha das amas e às suas crianças de peito, essa peça não servia agora para mais nada. Na verdade os Danielis haviam decidido que seus amigos francos não cozinhariam durante sua estada. À hora das refeições lhes seriam enviadas alcofas ou bandejas transbordando de pratos com sabores fortemente temperados, aos quais a família do pergaminheiro certamente estaria acostumada, já que também utilizava em sua terra especiarias, sem dúvida menos variadas, mas sempre utilizadas nos pratos preparados na França. Havia poucas que lhes eram desconhecidas.

Varridas por uma brisa vinda do mar, as nuvens logo se dispersaram. A chuva parou, e a volta do sol secou as gotas de água que faziam brilhar as flores e folhas. O cheiro da terra molhada, da vegetação primaveril, das rosas e do jasmim, se espalhou e se misturou ao odor salgado que o vento trazia de alto-mar.

— Por minha saúde — observou Landry naquela manhã — fomos tão bem recebidos por seus amigos, padre Ascelino, que precisamos agradecer-lhe. E uma grande graça de Deus permitir-nos uma hospedagem deste tipo. Sem sua recomendação, jamais teríamos conseguido.

Sob a sombra de uma pimenteira, os dois homens esperavam pelas mulheres que acabavam de se arrumar para a missa cotidiana.

— Sabia que poderia contar com os Danielis. Mesmo que nossa estadia aqui seja breve, e sei que será, esta etapa nos permitirá refazer as forças. Elas nos serão necessárias na costa oriental que alcançaremos em breve. Pelo que ouvi ontem no campo de chegada, nossos chefes temem os gregos e não pretendem se demorar sob as suas muralhas.

— A desconfiança deve ser recíproca, pois no seu conjunto, os francos não receberam autorização para ficar no interior da cidade. São admitidos apenas em pequenos grupos, fortemente protegidos. . . Esperávamos uma acolhida bem diferente dos nossos irmãos do Oriente. E uma decepção para muitos.

— O que você esperava, os novos romanos nos consideram como bárbaros! De nossa parte, achamos que são afeminados e seus hábitos nos parecem degenerados quando os comparamos àqueles que faziam a grandeza da antiga Roma!

Landry aprovou.

— Pois bem, azar! — retomou ele. — Não é para libertar Constantinopla que partimos, mas Jerusalém, e este desapontamento não muda em nada as nossas intenções. Enquanto esperamos retomar a caminhada, estou muito contente com a nossa hospedagem. Quando penso na maneira como os nossos companheiros estão instalados em simples barracas, no claustro ou nas redondezas do mosteiro cheio que nos estava destinado como asilo, acho que devemos acender uma vela fervorosa! O que, aliás, não é nada caridoso, eu reconheço!

Seu sorriso, sua inocência, sua satisfação mostravam o lado de garotinho que ainda guardava.

— Meu único pesar é que meu pai não possa ver tudo isso — disse, assumindo um ar sombrio.

Com um gesto largo ele mostrou o jardim, a casa grande que se podia ver por trás das flores e das árvores sempre verdes, com sua fachada de mármore frisado, suas cornijas com folhas de acanto ornamentando os dois andares até a cúpula dourada, mas sobretudo, mais longe, a cidade, a cidade inteira. . .

Na véspera à noite, durante a travessia de Constantinopla, que ele fizera montado no baio Noruega, tão caro a Garin — os outros cavalos permaneceram nas cocheiras do mosteiro — Landry não se cansava de admirar tudo, maravilhado. Se a acolhida dos habitantes da resplandecente cidade lhe parecera um pouco fria, os esplendores arquitetônicos ultrapassavam tudo o que seus sonhos de quimera haviam deixado supor.

— Jamais, meu tio, jamais poderia supor que pudesse existir semelhante lugar sobre a terra. No céu, é claro, há moradas celestes de beleza ainda mais deslumbrante. . . mas aqui embaixo, não pensei que fosse possível. Uma cidade tão grande, tão bela, tão poderosa, tão populosa, tão rica. . .

— Você não é o primeiro a ficar tão entusiasmado com Bizâncio, meu rapaz! Ela nunca deixou de seduzir, encantar os que a freqüentaram. . . pelo menos numa primeira visita. Pois esta cidade admirável é tão cruel quanto fascinante. É o lugar de todos os contrastes. As riquezas mais incríveis aqui se amontoam, provenientes do mundo inteiro, enquanto nos pardieiros das ruas fétidas do porto, criaturas miseráveis morrem de fome sobre montes de palha podre. Fala-se de teologia em todas as esquinas, mas os criminosos abundam. O imperador se diz representante de Cristo e governa em Seu nome, mas muitos de seus predecessores foram atrozmente assassinados. Todos se dizem piedosos e respeitadores das coisas sagradas até à superstição, mas para ganhar um lugar no Hipódromo são capazes de lutar durante as corridas de carros com uma violência absurda. . . e não há lugar no mundo onde se encontrem mais prostitutas! Veja, Landry, a própria Bizâncio é uma cortesã! Sob seus véus de púrpura e ouro, sob suas pérolas e pedrarias, ela dissimula fraquezas, taras, vícios, tragédias, furores imensos.

— Mas ela é santa! Ontem não me disse que aqui existem mais igrejas do que dias do ano, das quais cerca de sessenta dedicadas à Virgem Maria?

— Você é uma criança mesmo! As igrejas, as capelas, os mosteiros que são tantos aqui, é verdade, muitas vezes foram construídos para o perdão de uma falta ou um crime, ou para dirigir ao céu uma súplica permanente, geralmente tentando conseguir assim a sua salvação, mas na realidade, não seria também por orgulho? Sim, um orgulho dissimulado pela piedade!

Landry apanhou um galho da pimenteira e se abanou, sem dizer mais nada. Não gostava que destruíssem os seus sonhos. . . Apesar dos argumentos de seu tio, não cessava de comparar, em espírito, Chartres, cidade tão pequena, raquítica, com a metrópole radiosa cujo prestígio não poderia nunca se abalado aos seus olhos.

A porta da pequena casa se abriu. Berta a Atrevida, seguida de suas netas e de Alberade, apareceu na soleira. Preocupadas em honrar seus hospedeiros, que deveriam acompanhá-las à missa, e também para não decepcionar os bizantinos sabidamente tão elegantes, as cinco mulheres estavam vestidas com as suas melhores túnicas. Enfeitadas de bordados de cores vivas na gola, nos punhos, na bainha, eram brancas para as adolescentes, jacinto para a anciã e verde para a serva. As longas trancas de Brunissen e Alaís estavam entremeadas de fitas combinando com as suas vestimentas. A cabeleira de Flamínia, solta sobre os ombros, brilhava como cobre. Um leve véu cobria suas cabeças.

O sol matinal acentuava o brilho dós rostos juvenis, mas também a recente alteração nos traços da anciã, mostrando as olheiras arroxeadas que afundavam seu olhar. Berta emagrecera, mas não estava menos ereta do que antes, empertigada em sua altura.

— Uma liteira está nos esperando — disse o padre Ascelino, após saudar as recém-chegadas.

— Não podemos ir a igreja a pé? — perguntou Flamínia que, desde o seu despertar, tentava não pensar mais no seu pesadelo e sentia necessidade de caminhar um pouco.

— Não, penso que não. Não é conveniente para uma mulher sair sem carro nesta cidade ou, ao menos, sem estar envolta por um espesso véu. Sozinhas, algumas servas se aventuram quando devem fazer compras para sua senhora — respondeu o padre Ascelino. — Os novos romanos, já que desejam ser chamados assim, acham que o olhar dos homens não deve pousar sobre aquelas que não são nem sua mãe, nem sua esposa, nem sua filha.

— Mas não se chega ao ponto de prendê-las! — exclamou Alaís, vermelha de indignação.

— Claro que não! Os apartamentos femininos, aqui chamados de gineceu, não são absolutamente clausuras como entre os muçulmanos. As mulheres também não ficam reclusas. Em Bizâncio elas são livres. A lei, muito mais suave para elas a partir de Justiniano do que na Roma antiga, as considera como iguais aos homens. Elas têm direitos importantes e podem gerir seus bens da maneira que desejarem.

— Por que, então, não deixá-las sair como quiserem? — perguntou Brunissen. — Ontem, ao levantar ligeiramente a cortina da nossa liteira, reparei que as janelas que dão para as ruas são todas gradeadas, e a multidão era quase que exclusivamente composta de homens. Isto me intrigou.

— É uma mera questão de convenção e de decoro, minha filha, nada mais — respondeu o padre. — A própria imperatriz se submete a isso. No Hipódromo, por exemplo, ela assiste às corridas de carros através de uma grade de trama apertada. É preciso um acontecimento extraordinário, como a sua coroação ou o seu parto, para que ela se mostre em público.

— A imperatriz ainda vá lá—admitiu Berta a Atrevida. — Mas impedir que simples comadres saiam ou passeiem livremente, é revoltante!

— Os costumes estrangeiros sempre nos parecem surpreendentes — disse rindo padre Ascelino. — No entanto, se pretendemos ter uma conduta conveniente, é preciso acatá-los. Saibam entretanto, que neste país as mulheres não vão para a prisão. O que não vem a ser uma grande vantagem! Em caso de falta, eles se contentam em metê-las no convento. . . Quanto às senhoras, saibam que logo mais, na igreja para onde estamos indo, estarão separadas de nós. Uma galeria lhes estará reservada.

— Decididamente, essa gente de Bizâncio, por mais que se ache romana, são na verdade gregos cismáticos — disse Brunissen. — Felizmente Deus continua sendo o mesmo para todos!

— Sua maneira de rezar, certamente vai deixá-los desconcertados, mas os cristãos são sempre cristãos — concluiu o notário episcopal. — Definitivamente, frente aos infiéis, é isto que importa.

O pequeno grupo se dirigiu à alameda de palmeiras, no fim da qual se encontrava a porta que o mestre-perfumista havia lhes indicado na véspera, como sendo a que dava para a rua mais próxima.

— Por minha santa padroeira, vocês não me impedirão de achar curioso que a nora de mestre Danielis não tenha vindo pessoalmente nos cumprimentar à nossa chegada, como fizeram os outros membros da sua família — disse Berta com a sua franqueza habitual. — Nós conhecemos seus filhos, sua ama, sua irmã-de-leite, mas não a dona da casa, pessoalmente. É estranho, vocês não acham?

— Pelo que me disse Teófano Danielis, a senhora Icásia está doente, e deve permanecer em seu quarto.

— Eu também não ando me sentindo muito bem, mas isso não impediria o meu dever de anfitriã se estivesse no seu lugar — resmungou a pergaminheira, sacudindo os ombros. — Se fosse para cuidar bem da saúde, passaríamos a vida dormitando na cama! Esses gregos são moles e não possuem a verdadeira coragem. É exatamente como me disseram!

— Não julgue tão rapidamente, senhora Berta. Está falando de gente a quem não conhece ainda. Espere para formar uma opinião pessoal. A senhora não é mulher de se deixar influenciar por mexericos, que eu saiba! Posso lhe garantir que os habitantes deste país não deixam de ser valentes, quando necessário. E verdade que eles não possuem, como nós, o cultivo das virtudes guerreiras. Sempre preferem um tratado a um combate arriscado, ou uma negociação direta a uma batalha incerta.

A mãe de Garin não respondeu. Ela sentia reacender dentro de si o sofrimento que, agora, freqüentemente tomava conta dela. Cerrou os lábios com raiva. Fazia questão de ir a Santa Irene, a igreja mais próxima, mas antes mesmo de chegar à rua, envergada pela dor, precisou se sentar sobre um banco de pedra, perto da porta.

Foi cercada por suas netas e pela serva. Brunissen fez com que respirasse um frasco de essência que trazia sempre na escarcela. Flamínia enxugou-lhe o rosto com um pano do qual nunca se separava. Alaís e Alberade a seguraram.

Foi nesse momento que Teófano e Andrônico Danielis saíram das termas onde acabavam de fazer as suas abluções, seguidas de uma sábia massagem executada por servos especialmente formados para estes fins. Os cabelos e a barba perfumados, vestidos com túnicas de seda tingidas em tons delicados e rebordadas com motivos simétricos e moldurados por círculos ornamentais representando plantas e animais que se defrontavam, os dois homens transmitiam a imagem de um mundo que alcançara o refinamento extremo. Percebendo o grupo formado por seus convidados, dirigiram-se até eles. Padre Ascelino foi ao seu encontro.

— A senhora Berta acaba de ser acometida de um novo mal-estar — disse em latim aos seus hospedeiros. — Temo que não possa nos acompanhar à missa.

— Vamos lhe enviar algumas servas — respondeu o mestre-perfumista, na mesma língua usada por seu interlocutor.

Flamínia, que nunca se felicitara tanto por ter aprendido o latim graças a seu tio, se misturou à conversa.

— Não precisam ter este cuidado! — exclamou. — Ficarei aqui com minha avó. Sei cuidar dela. Vocês outros, vão à igreja sem nós. Deus, que está nos vendo, perdoará a nossa ausência forçada.

Sua voz vibrava de emoção. Emoldurada por seus cabelos de ouro avermelhado, seu rosto resplandecia. Suas pupilas lembravam os olhos dos mosaicos da Virgem Teótokos em Santa Sofia. . .

— Às vezes temos acesso aos cuidados de um curandeiro árabe que a ama de minha nora tem em alta estima — disse Teófano Danielis. — Poderia mandar buscá-lo.

Assim que o padre Ascelino traduziu para Berta a Atrevida, a proposta que lhe era feita, ela gritou.

— Um árabe! Um ateu! Um futuro condenado! Jamais. Fazemos parte da gente de Nosso Senhor, que partiu para libertar o Santo Sepulcro desses malfeitores. Por nada no mundo eu aceitaria me aproximar de um representante dessa espécie maldita!

Ao escutar a tradução das palavras da doente, o mestre-perfumista as levou em consideração, sem contudo conter o espanto.

— Nós, cristãos da Igreja do Oriente, somos menos parciais que vocês, pelo que posso ver — observou. — A situação do Império, entre o Oriente e o Ocidente, nos habituou à convivência com tantas raças e populações, que a maioria de nós já não tem nenhum preconceito em relação aos estrangeiros, de onde quer que venham. Basta que se convertam ao cristianismo para que sejam imediatamente admitidos como cidadãos romanos. Uma vez batizados, passam a fazer parte do nosso Estado como se aqui tivessem nascido.

— Existem então sarracenos que se converteram?—perguntou Brunissen surpresa.

— Existem poucos, admito, mas mesmo assim há alguns. O curandeiro de que lhes falei há pouco é um deles — explicou Teófano Danielis.

— Nestas condições, talvez pudéssemos pedir-lhe que viesse cuidar da senhora Berta — retomou o padre Ascelino.

Assim que soube do projeto que se organizava em relação a ela, a mãe de Garin meneou a cabeça.

— Haverá sempre tempo de recorrer a ele se a boa natureza, com a ajuda de Deus, não agir em meu favor — emendou ela. — Enquanto esperam, vão vocês rezar por mim. Você também, Alberade. Eu voltarei para casa com Flamínia. A ama de sua nora, monsenhor Danielis, deu-me ontem uma bebida que me fez dormir em paz. Se ela pudesse passar para me ver de novo. . .

— Vou procurá-la — interveio logo Andrônico, quando entendeu as últimas palavras de Berta a Atrevida. — Partam sem mim para a missa em Santa Irene. Irei encontrá-los assim que possível.

A pergaminheira e sua neta voltaram pelo mesmo caminho através do jardim. Em uma alameda, viram uma fonte em mármore branco, de onde jorrava água aos borbotões pelos lotos que Andrônico havia lhes mostrado quando aí passaram, na véspera. Elas nunca tinham visto aquelas misteriosas flores carnudas importadas por altos preços do Egito e pararam um instante para admirá-las, enquanto proporcionavam um pequeno descanso a Berta. Da mesma cor do creme do leite, com tonalidades de rosa carminado, os botões turgescentes, inchados de sumo, e copelas grandes com pétalas cerosas, sobre as quais estames dourados balançavam-se languidamente pouco acima da superfície transparente. Suas folhas espessas, de um verde esmeralda, brilhantes, acabavam dando àquele viçoso buquê aquático alguma coisa de carnal que perturbou Flamínia. . .

Um pouco adiante, o odor de jasmim as atingiu tão violentamente, que as duas mulheres tiveram a estranha sensação de terem sido tocadas ao passar por uma criatura invisível, divinamente perfumada.

— Que país sedutor, que perfume exala! — suspirou a adolescente. — Não temos, em nosso país, aromas que se comparem!

— Sim, minha pequena, temos sim. . . Lembre-se dos pilriteiros e das giestas de maio, das tflias em junho. . . Espero que o encantamento da novidade não a faça renegar a doçura do nosso cantinho de terra. . . Mesmo aqui, nem tudo é tão agradável quanto este jardim. Ontem à noite, aos pés das muralhas, não eram os odores de flores que dominavam.

Berta a Atrevida se esforçava para falar com naturalidade, mas suas entranhas a torturavam e ela pôs-se a apressar o passo.

Quando chegou à casa, precipitou-se sobre a selha que se encontrava no quarto onde estava instalada com Alberade. Foi então que, pela primeira vez, reparou no sangue que manchava sua roupa.

— Meu mal é mais grave que uma simples cólica — reconheceu ela, sentando-se na cama perto de Flamínia. Devo estar com aquele fluxo de sangue que tantos companheiros nossos já tiveram desde a nossa partida. Se quiser chegar a Jerusalém, preciso pedir ajuda e socorro ao Senhor para que me tenha em sua santa guarda.

Imediatamente começou a desfiar o seu rosário de madeira com um fervor ao mesmo tempo tão violento e confiante, que fez com que Flamínia pensasse que sua avó pretendia, com o ardor de suas orações, forçar Deus a ouvi-la e atendê-la. . . Com o coração apertado, a jovem seguiu o exemplo que lhe era dado e começou a recitar as jaculatórias.

Pela janela aberta, que não tinha grades já que dava sobre o jardim, as duas mulheres viram logo aproximar-se Andrônico Danielis na companhia de Mórfia, cujo passo era mais lento devido à gota.  

— Como este homem é bonito — observou Berta, com certa nostalgia mesclada de lembranças. — Bonito e afável. Mas que ar nervoso esconde sob as aparências de boa companhia! Eu diria que é como um cavalo de rédea curta!

Flamínia levantou os olhos, mas permaneceu calada.

A ama entrou primeiro no quarto. Como ela falava grego e não entendia nada de latim, Andrônico serviu de intérprete. Ela se expressava perfeitamente numa língua clássica, muito próxima daquela que os filhos do pergaminheiro também haviam aprendido.

Quando Mórfia tomou conhecimento do que se passara, esboçou uma careta, murmurou algumas palavras que não foram traduzidas e fez uma pergunta.

— Ela gostaria de ver a urina da doente — explicou Andrônico.

— Minha avó não a guardou—respondeu Flamínia. — Mas em pouco tempo eu poderia levá-la à casa grande. . .

Enquanto falava, a adolescente pensava ser bastante estranho manter uma tal conversação com um desconhecido que parecia tão incomodado quanto ela.

— Nos meus momentos de folga eu me ocupo de um hospital fundado por Alexis Comeno, nosso basileu — retomou seu interlocutor, tentando dar sentido à sua conversa. — É um estabelecimento muito importante, situado perto do Corno de Ouro. Ele pode receber até sete mil pacientes. Lá cuidamos não apenas dos doentes, mas também dos soldados feridos, dos cegos e dos órfãos. Poderia transportar para lá sua avó. Ela estaria melhor cuidada do que nós seríamos capazes de fazê-lo, apesar de todos os nossos esforços.

— Deus e Senhor! Ela jamais consentiria! Só poderíamos levá-la para lá em caso extremo! — respondeu Flamínia, inflamada. — Apesar de não ser mais jovem, ela continua altiva e corajosa. Seria capaz de dar uma lição de força a mulheres de vinte ou trinta anos! Por minha salvação, é a criatura mais valente que conheço!

— Estou convencido disto.

— Eu a amo muito. Entre nós duas há sempre um entendimento instintivo. Nós nos compreendemos sem dizer uma palavra. Somos da mesma espécie: a das lutadoras!

A ama interveio com algumas frases de um grego rapidíssimo, cumprimentou, virou sobre os tornozelos e saiu. O reposteiro voltou a cair atrás dela com um ruído seco.

— Mórfia vai pedir sal de Jamblique diluído em caldo de galinha, traduziu Andrônico, mas ela acha que só um médico poderá cuidar convenientemente da doente.

— Seu pai havia falado de um curandeiro árabe. . .

— Não creio que seja suficiente. Conheço no hospital um reputado professor armênio. Posso ir procurá-lo e pedir-lhe que venha visitar sua avó. Normalmente não sai de lá para nada, mas ele conhece bem a meu pai e a mim. Faz parte dos nossos clientes. Nós lhe vendemos orégano, pimenta das índias, anis, mirra e bálsamo da Arábia, cânfora da Ásia, babosa da China e muitas outras substâncias que entram na composição dos seus remédios.

— Como são bonitos estes nomes: poderia dizer que está recitando uma ladainha benfazeja. . . Mas então quer dizer que aqui os perfumistas vendem também especiarias?

— Claro. Não é assim no seu país?

— Não. Em Chartres são os merceeiros que vendem perfumes.

Esquecendo por alguns instantes a verdadeira razão de sua conversa, ambos estouraram no mesmo riso divertido. Mas sua alegria foi breve. A expressão dolorosa e surpresa que logo puderam ler no rosto crispado de Berta os trouxe de volta à realidade. Ela conseguira calar os seus sofrimentos durante aquela conversa em latim, incompreensível para ela, mas finalmente deixara escapar um gemido.

Flamínia se precipitou sobre ela.

— A ama foi buscar um remédio que vai confortá-la — disse, colocando a mão carinhosa sobre o rosto coberto de suor. — Entretanto, se essa bebida não for suficiente para acalmar as suas dores, monsenhor Andrônico Danielis propõe ir ver um douto mestre em medicina a quem conhece bem e cuja ciência, pelo que diz, é das mais reputadas. . .

Ela virou-se para ouvir o testemunho de seu anfitrião, mas percebeu que ele saíra enquanto se dirigia à sua avó.

Pouco tempo depois, Mórfia voltou. Trazia um pequeno pote em arenito cheio de um líquido cor de âmbar e uma tigela em cerâmica.

As duas mulheres ajudaram Berta a beber o preparo que ainda fumegava. Uma vez terminado o seu serviço, sem uma palavra, a ama partiu outra vez.

— Precisamos agradecer ao Senhor por estarmos aqui — observou Flamínia. — Estará sob cuidados mil vezes melhores do que se estivesse nos acampamentos, à beira das estradas.

— Não sei que ruindade fui apanhar — disse a anciã — mas o que sei é que não tenho nenhuma intenção de me deixar ficar à mercê, por causa de um mero fluxo no ventre! Vou me comportar de maneira que o Senhor se veja obrigado a juntar Seu próprio socorro aos meus esforços. Nada resistirá a nós dois juntos! Faço questão de ser um daqueles que verão Jerusalém!

Berta foi interrompida na sua declaração de guerra à doença pela volta da sua família. A missa acabara e cada um comentava as diferenças constatadas entre o culto oriental e o do Ocidente. Mas, quando todos já estavam reunidos à cabeceira da doente, foi sobre a sua saúde que perguntaram. Com a ajuda do remédio da ama, Berta garantiu se sentir um pouco melhor e sofrer bem menos com as dores.

Uma vez tranqüilo com o estado da avó, Landry quis levar aos seus as notícias que certos companheiros, depois da missa, haviam lhe contado.

— Parece que os exércitos cruzados que chegaram antes de nós a Constantinopla, e alguns estão aqui há meses, não nos esperaram para atravessar o braço de mar que nos separa da costa oriental — disse. — Estão acampados num lugar chamado Pelecano. Está lá uma força considerável. Esperam apenas por nós para marcharem sobre os sarracenos e alcançarem a Terra Santa! Por minha alma, apesar de todas as maravilhas desta cidade inigualável, me recuso a permanecer mais tempo entre seus muros!

— Pelo Deus da Verdade, vamos nos dar ao menos o tempo de respirar um pouco antes de partir novamente! — exclamou Flamínia, irritada. — Nossa avó precisa de cuidados que só podemos lhe dar numa cidade provida de médicos e de hospitais. Digamos ainda que, depois da cura, precisará de repouso.

— Não vamos falar sem conhecimento — aconselhou Brunissen com sua voz cadenciada. — Circulam por aí os rumores mais contraditórios. Não sabemos o que decidiram aqueles que nos dirigem. Para conhecer as suas intenções, vamos aguardar a volta do padre Ascelino que saiu, ao final do ofício, a fim de obter informações no mosteiro onde está acampada uma parte dos nossos. Ele espera encontrar lá o legado do papa, monsenhor de Monteil, bispo de Puy. Dizem que esse prelado veio da outra margem para se encontrar pessoalmente com o duque de Normandia e o conde de Blois. Os três deveriam ser recebidos hoje por Alexis Comeno. O imperador guarda um grande respeito pelo legado pontifical, chefe dos exércitos cruzados. Ao menos é o que parece. Mas o que sabemos das verdadeiras intenções deste autocrata grego? A sabedoria está em ser paciente, sem tentar influir nem adivinhar o futuro.

— Você é sensata demais, minha irmã! Também eu tenho vontade de retomar o caminho! — confessou, Alaís, sorrindo para seu irmão.

Ele fora o único a quem ela ousara confessar a incrível admiração que sentira por Boemundo de Tarento. Após um encontro fortuito durante uma das etapas, no penoso trajeto que os levara a Bizâncio, a mais jovem das filhas de Garin o Pergaminheiro não sonhava com outra coisa senão com aquele aventureiro de quarenta anos. Como tantas outras mulheres de todas as idades e de todas as condições de quem povoava os sonhos, ele subjugara Alaís sem nem mesmo querer, nem saber. . . Ele partira bem antes dos exércitos francos, ele, o Normando da Sicília, que guiava o seu destino à sua própria guisa, mas continuava galopando na cabeça daquela criança loura. . . Ela o vira passar, na aurora de alguma manhã de caminhada, no caminho tortuoso de uma montanha selvagem. A maneira como ele levantara o seu cavalo para atravessar uma torrente, o riso solto daquele colosso louro e soberbo deixaram-na fascinada. Muito depois do brilho da sua alegria ter repercutido e de ter vindo à tona de eco em eco através dos vales, a adolescente já ficara encantada, enfeitiçada. . . Num instante Boemundo se tornara para ela o cavaleiro exemplar, como Rolando, o sobrinho de Carlos Magno, cuja canção estava em todos os lábios, em todos os corações.

Padre Ascelino só voltou bem tarde, no fim do dia.

— É grande a efervescência no nosso campo — disse, após ter se informado do estado de saúde de Berta a Atrevida. — Apesar do excelente entendimento entre nossos chefes e o imperador, exércitos e peregrinos pateiam como cavalos antes de partir para a caça. Não adianta Estêvão de Blois se extasiar com os méritos do basileu, com a maneira principesca com que foi por ele recebido em palácio, ele não é capaz de convencer ninguém. Nem os esplendores de Constantinopla, nem suas riquezas, nem suas santíssimas relíquias são suficientes para diminuir o zelo de nossos companheiros ou quebrar seu ânimo. Eles continuam sonhando apenas com Jerusalém e só falam do atraso que já temos em relação às outras tropas cruzadas. Dizem que algumas delas até já atacaram a cidade de Nicéia.

— Pela Cruz, eles têm razão! — concordou Landry. Estou com eles!

— Vocês todos ficaram loucos! — bradou Flamínia. — A mais elementar das prudências não recomenda que devemos ficar aqui algum tempo para nos recuperarmos das atribulações da viagem antes de irmos nos defrontar com os sarracenos? Por que tanta precipitação?

— Porque não abandonamos o nosso lar e o nosso país para dormir nas delícias da nova Cápua! — respondeu Brunissen, com aquela mistura de ardor secreto e de sensatez que lhe eram característicos. — Nós a achávamos mais ardente, minha irmã, querendo prosseguir em direção ao Santo Sepulcro o caminho que empreendeu com tanto ardor. Estou de acordo com os outros peregrinos e desejosa de partir, assim que a saúde de nossa avó nos permitir.

— Graças a Deus pude encontrar no meio da multidão o nosso amigo Foucher de Chartres — continuou padre Ascelino, após ter escutado seu sobrinho e suas sobrinhas. — Ele está sempre bem informado e não fala levianamente. Segundo ele, não iremos nos demorar muito neste lugar.

— Quer dizer que não teve a oportunidade de abordar, como gostaria, o legado do papa? — perguntou Brunissen.

— Ele já havia partido para o Pelecano. Felizmente Foucher conversou durante um bom tempo com ele. Segundo monsenhor de Puy, apenas as cerimônias de prestação de homenagem e o tempo necessário ao aparelhamento das tropas gregas que acompanharão as nossas, sob o comando de um tal general Tatiquios, nos obrigam a esperar ainda um pouco.

— Quer dizer que soldados gregos vão se juntar aos cruzados? — perguntou Landry, desconfiado. — Será que precisamos de reforços, e de reforços de tão pouco valor? Não seríamos já suficientemente numerosos e valentes para lutar contra aqueles ateus cachorros? Por minha fé, eu não vejo o que esses gregos podem trazerem nossa ajuda que já não tenhamos!

— Subestimando a coragem dos nossos aliados que combatem há qüinqüênios em todas as suas fronteiras, contra tantos e sempre novos inimigos, está dando uma demonstração de ignorância e de injustiça, Landry—retomou o padre Ascelino com firmeza.—Talvez você ignore, mas os soldados gregos sofreram tantas perdas desde o início deste século, que os sucessivos imperadores, na impossibilidade de continuar alistando seus próprios súditos, precisaram aceitar sob os seus estandartes cada vez mais mercenários. Até os seus piores inimigos do passado tiveram que pagar a preço de ouro para que pudessem obter seus serviços. Esses guerreiros estipendiados se tornaram uma das chagas do Império, mas o basileu não pode abrir mão deles.

— Se são mercenários que defendem os gregos, não me espanta que tenham sido esmagados pelos sarracenos há mais de vinte anos! Aquela derrota de nome impronunciável forçou-os a abandonar a România e levou os infiéis a alguns dias de caminhada para além do Bósforo. Realmente não há do que se vangloriar!

— Não julgue assim de maneira tão categórica fatos e costumes que não conhece bem, meu sobrinho. Você corre o risco de cometer um grande engano. Contrariamente ao que se diz entre os nossos, os gregos são bons soldados e o seu exército, por mais compósito que seja, mantêm os bárbaros fora das fronteiras e ao longo das costas. As contínuas batalhas que precisaram empreender em terra e por mar, levou-os a construir as mais seguras fortificações de que se tem notícia. Sua frota de guerra ficou conhecida como a mais numerosa e melhor equipada de todo o Mediterrâneo. Vendo-os operar, você poderá se dar conta de que suas armas e as inúmeras máquinas que inventaram para combater e sitiar os seus adversários, são muitas vezes muito mais engenhosas do que as nossas. Enfim, é preciso não esquecer que eles detêm o famoso fogo grego, cuja composição, cuidadosamente guardada, é a sua defesa mais segura!

— Tudo isso é bom e bonito — retomou ele, obstinado — mas os seus gregos deixam que estrangeiros, pior ainda, antigos inimigos, combatam no seu lugar e em seu território! E, Deus me perdoe, por dinheiro sonante e pesado! Não, não, meu tio, jamais me convencerá, apesar da possível superioridade dos seus armamentos, que o valor guerreiro desses novos romanos se iguala ao valor que nos anima! Nós, os francos, somos os soldados de Cristo! Por Ele deixamos tudo: terra, bens, amigos, amores, casas, lembranças. . . Sem outra recompensa senão a honra de servi-Lo! Desprezamos o dinheiro e as seduções. Não desejamos ter outro interesse senão a causa de Deus!

Inflamado por aquela glória que reivindicava com tanto ardor, Landry pareceu aos seus como resplandecente de luz. Ele se virou para a avó, que se erguera sobre os cotovelos e o escutava com orgulho, em silêncio. Dirigiu-se para ela e dobrou um dos joelhos no chão diante do seu leito.

— Eu pensava lhe dizer mais tarde — retomou — mas já agora sinto necessidade de falar. Acho que morreria se precisasse esperar muito mais. Tenciono deixar a tropa de peregrinos para pedir que me deixem portar armas junto ao conde de Blois, nosso suserano. Já que meu pai morreu e meu tio é padre, eu sou o único homem da família a poder se bater em combate. Eu o faria por Deus e pela salvação de todos nós!

Berta fechou por um momento os olhos, suspirou, mas abriu-os rapidamente, mostrando um olhar azul e brilhante.

— Seja abençoado — disse ela. — Você é o digno filho do meu Garin. Ele teria falado da mesma forma. Ambos possuem o mesmo ardor!

Foi interrompida por soluços. Pálida, apoiada à parede do quarto como se temesse cair, Alaís entregou-se a uma tristeza que comoveu a todos. Landry se levantou num pulo, correu na direção de sua irmã gêmea, tomou-a entre os braços e embalou-a como a uma criancinha enquanto ela chorava no seu ombro, ruidosamente, sem conseguir se acalmar.

— Minha bela e doce irmã, amiga, doce amiga, peço-lhe por Nossa Senhora, não se aflija. . . Você não sabia que mais cedo ou mais tarde o serviço de Cristo me ocuparia por completo? Que eu não poderia me recusar a isto sem que falhasse? Todos os rapazes da minha idade devem ir combater os infiéis para libertar Jerusalém enlameada. . . a nossa Jerusalém que precisamos reconquistar!

— O que será de mim sem você? — murmurou Alaís, sem dar ouvidos ao discurso de seu irmão. — Nunca me afastei de você. Preciso de você. . .

Padre Ascelino se sentara sobre uma das malas que os seguira ao longo de toda a viagem e que Teófano Danielis mandara transportar para a pequena casa. Com o polegar e o indicador, ele esfregava a base do nariz, sinal de emoção ou de perplexidade.

— Se a enfermidade da senhora Berta se prolongar — disse ao fim de um momento — sem dúvida seremos levados a aceitar uma separação provisória. Ela nos custará muito, é claro, mas não vejo como evitá-la. Graças a Deus, não chegamos ainda a isso! A sólida natureza e a determinação da senhora Berta nos fazem crer que a cura está próxima. Basta esperar um pouco. De qualquer maneira, Roberto Courteheuse e Estêvão de Blois não pensam em levantar acampamento imediatamente. Temos ainda alguns dias pela frente.

— Vou me curar — afirmou a enferma. — Não nos separaremos!

Alaís, que havia parado de chorar, subiu na ponta dos pés para alcançar a orelha de seu irmão.

— Aconteça o que acontecer, não o deixarei — cochichou ela. —Acabo de ter uma idéia que nos poupará de uma insuportável separação.

O olhar interrogador de Landry foi de encontro a uma expressão enigmática. Enquanto enxugava com as costas das mãos as lágrimas que ainda não haviam tido tempo de secar em seu rosto, Alaís sacudiu a cabeça com ar entendido e pôs um dos dedos sobre os lábios.

— Falaremos disso mais tarde — murmurou. — No momento certo.

O reposteiro que fechava a peça se levantou e, na tapeçaria entreaberta, apareceu uma cabeça loura, frisada e espantada. Era Pascoal, o segundo filho de Andrônico Danielis, que hesitava em entrar.

— Entre, jovem, entre — disse-lhe padre Ascelino em latim. — Não tenha medo.

O menino sorriu e penetrou no quarto.

— Meu pai me mandou lhe dizer que ele se encontrou com o médico armênio de quem lhe falou há pouco — respondeu, também em latim. — Ele virá amanhã pela manhã.

— Vocês estão vendo, Deus olha por suas criaturas em dificuldades — concluiu o padre após traduzir a notícia. — Em tão boas mãos, logo a senhora Berta estará bem!

— Gostaria também de lhes perguntar se aceitariam assistir, dentro de três dias, às corridas de carros que Marianos, meu irmão mais velho, ganhará com seu talento habitual — retomou o jovem num tom que deixava transparecer certo ciúme admirativo.

— Com prazer — respondeu o notário episcopal. — Ainda estaremos aqui por alguns dias, e vossas corridas são célebres e festejadas bem além das fronteiras do Império. Penso que todos ficarão felizes em assisti-las.

Foi a opinião geral. Quem não gostaria de ir ver um espetáculo do qual realmente se falava em todo o mundo conhecido, cuja importância, adquirida há séculos em Bizâncio, era notória?

Padre Ascelino agradeceu em nome dos seus.

Flamínia se aproximou então de Pascoal. Ela gostaria de, pessoalmente, lhe pedir que transmitisse a seu pai sua gratidão, mas não soube como dizê-lo. Então, num movimento espontâneo, inclinou-se e beijou o menino no rosto.

 

A cidade, geralmente tão animada, parecia silenciosa naquela manhã, despovoada da maior parte de seus habitantes. Canteiros de obras, oficinas, lojas, tendas, tudo estava fechado. Em dias de corridas não se trabalhava em Constantinopla. Era no Hipódromo que batia o coração da cidade.

Uma algazarra composta de clamores, vociferações, zombarias, interpelações, vaias, tagarelice, aclamações, se elevava sobre as muralhas do imenso anfiteatro, em direção ao céu sereno.

— Por minha salvação, pode-se dizer que toda a população se encontra aqui! — observou Brunissen dirigindo-se ao seu vizinho, padre Ascelino.

Sua voz se perdeu no tumulto da multidão multicor, cosmopolita e impaciente, que tomara lugar no recinto monumental e cercava os convidados dos Danielis.

Se os francos não soubessem que tinham vindo assistir aos jogos, poderiam mesmo se sentir inquietos. Nada no Ocidente os havia preparado para o frenesi dos espectadores bizantinos. Nem as justas, nem a quintana, nem os concursos de tiro ao arco, nem as lutas, nem mesmo a caça. . .

Padre Ascelino pensava que os novos romanos, regidos por leis severas na sua vida de comerciantes, de funcionários ou de cidadãos, liberavam no circo todos os seus aborrecimentos. Em torno dele comia-se, bebia-se, gritava-se, agitava-se, alguns suplicavam a Deus em voz alta que desse a vitória ao seu cocheiro preferido, outros injuriavam seus rivais; trocava-se todo tipo de provocação, gracinhas, sarcasmos, piadas, impertinências. . . Transportados pela brisa morna do Bósforo, pairavam sobre a arena odores de corpos quentes, perfumes baratos, comida defumada, salgada, assada ou frita no azeite, misturando-se ao forte cheiro das cocheiras. . . Era um espetáculo de loucura!

Sobre os degraus de mármore branco, acotovelados nas barras de apoio que os sustentavam, ou sentados em almofadas recheadas de folhas de junco, os assistentes se interpelavam, se desafiavam, de tal forma estavam excitados e encalorados.

O sol de maio já ardia em Constantinopla. Seus raios caíam sobre as cabeças, os véus ou as pequenas sombrinhas de dezenas de milhares de pessoas que, desde a véspera, haviam disputado avidamente o lugar a que tinham direito mediante a apresentação da téssera. Haviam dormido ali, comido ali e agora se protegiam como podiam dos ardores do sol.

Apenas o lado nobre, situado a leste do Hipódromo e fazendo limite com os imóveis da residência imperial, recebia a proteção de uma ampla cobertura de seda que balançava com o sopro da brisa vinda do mar. No seu centro, o camarote do basileu, o Catisma. Prolongamento arquitetônico do Palácio Sagrado, ao qual era ligado por uma escada interna em caracol, dissimulado aos olhos de todos, ele dominava a arena em vários andares. Sustentado por colunas altas, cercado por muralhas fortificadas, isolado, precedido de uma plataforma onde se colocaria a guarda imperial, o Catisma parecia mais um torreão do que uma tribuna de corridas, mesmo oficial.

Uma galeria cheia de estátuas antigas encimava toda a volta do anfiteatro, sobre os degraus onde se comprimiam os espectadores.

— Se tivermos tempo entre as corridas — propôs Teófano Danielis a seus amigos — vou levá-los para admirar, do alto dessa galeria, a vista que se tem da nossa cidade: telhados prateados, palácios enterrados em jardins dignos do Éden, cúpulas rutilantes, ruas secretas, a Mesê, decorada com inúmeros pórticos, os arcos de triunfo, as estátuas de mármore ou de bronze e, dominando todas essas maravilhas, Santa Sofia. Santa Sofia e seus domos celestes que coroam Bizâncio com diademas de ouro! É uma visão deslumbrante!

Mesmo sem subir até aquele lugar privilegiado, o espetáculo oferecido pelo Hipódromo já era impressionante. De cada lado do Catisma, apro­veitando também da sombra' proporcionada pela cobertura, as facções se alinhavam. Os Azuis à direita, os Verdes à esquerda. Também sob o abrigo, já que a festa era oferecida em sua homenagem, haviam tomado lugar o duque de Normandia, carmesim e transpirante, o conde de Blois, digno e sorridente, os barões e os principais dignitários da corte de Alexis Comeno. A eles juntavam-se alguns convidados favorecidos, entre os quais os Danielis e seus amigos francos. Seus lugares haviam sido reservados, o que lhes permitira evitar o aborrecimento de uma longa espera. Os príncipes e seus séquitos, a diversidade tão surpreendente de trajes provenientes de todas as províncias do Império, a multidão de cidadãos com roupas multicores, a riqueza dos bordados usados pelos cortesãos, os dourados, o brilho das pesadas jóias de ouro cobertas de pedras, o cair quebradiço e ao mesmo tempo doce dos tecidos de seda, todos aqueles reflexos, onde tesouros do Oriente confundiam-se com o fausto do Ocidente, compunham um quadro dos mais radiosos.

As filhas e o filho do pergaminheiro arregalavam os olhos sobre um mundo que, algumas semanas antes, seria inimaginável. Apesar de sua altivez, eles não conseguiam dissimular nem sua admiração nem seu espanto.

— Eu imaginava este Hipódromo redondo como o Coliseu que vimos durante a nossa passagem por Roma — cochichou Alaís, sentada entre seu irmão e o mestre-perfumista.

— Não, minha filha! — O imperador Sétimo Severo, que mandou construí-lo, foi obrigado a levar em conta a conformação do terreno — respondeu Teófano Danielis. — Nossa cidade foi construída sobre um esporão rochoso de solo acidentado. Foi graças à mão do homem que pudemos criar uma superfície plana para aí construir este anfiteatro. Foi preciso elevar pilares e prever abóbadas sólidas para suportar o peso da terra transportada até aqui, e depois inventar uma nova configuração para este circo fora do comum. Imprensado entre o espaço reservado ao Palácio Imperial e o relevo pontudo do nosso promontório, o arquiteto adotou a única forma possível: um grande oval cuja fachada dá, como já pode ver, sobre a praça do Augusteon. Do outro lado, nosso Hipódromo é contíguo à capela palatina de Santo Estêvão de Dafne onde fica, durante as corridas, para não ser vista em público, a basilissa.

— Mas as outras mulheres e mesmo as nobres são admitidas aqui — observou Brunissen — e não estão todas usando o véu. Há mesmo muitas que não o usam!

— Como este lugar é fechado, nossos costumes permitem que reine aqui uma certa liberdade de atitude para aquelas que assistem às corridas — explicou Teófano Danielis rindo. —É claro que isto é pura hipocrisia!

Os sons da citara interromperam o mestre-perfumista. Sua harmonia foi capaz de acalmar a algazarra dos que lotavam o anfiteatro.

— Aí estão as equipes — retomou Teófano Danielis depois de um momento. — Aqueles que vocês estão vendo nos bancos das arquibancadas são os organizadores dos jogos e os chefes das duas facções rivais. Originalmente eram quatro: os Azuis, os Brancos, os Verdes e os Vermelhos. Mas os Brancos e os Vermelhos, mais fracos, aos poucos foram sendo incorporados aos outros dois.

As equipes saíam de Cárceres, edificação que fechava o circo ao norte. Era um longo casarão onde, sobre cada extremidade, havia uma torre. No meio, uma terceira torre se elevava acima da abóbada que permitia que se passasse do pátio que precedia as cocheiras, até a arena. O conjunto era coroado por uma quadriga de bronze, cujos corcéis solares erguiam sua beleza perfeita na direção do azul vibrante do céu. Por trás dos muros de pedra clara, os carros atrelados por quatro cavalos, as verdadeiras quadrigas, estas sim bem vivas, esperavam o sinal de partida.

— Em homenagem aos senhores francos que estamos recebendo hoje — disse ainda o mestre-perfumista — verão apenas corridas de carros puxados por quatro cavalos. Normalmente começa-se pelas bigas, que usam apenas dois.

Todas as cabeças haviam se voltado na direção dos dois homens de cabelos curtos, a barba cortada com o maior cuidado, que acabavam de aparecer. De estatura mediana, muito morenos, ambos possuíam uma aparência grega bastante acentuada. Sobre suas túnicas de linho branco, usavam faixas com as cores das suas respectivas facções. Cada um deles se dirigiu ao seu lugar e saudou os seus com um triplo sinal-da-cruz. Logo brotaram aclamações, louvores entoados a plenos pulmões pelos cantores, sustentados pelos acordes dos órgãos prateados, dos címbalos e das flautas da orquestra.

Foi então que, bruscamente, fez-se um imenso silêncio nas arquibancadas.

Um outro personagem, vestido de seda branca decorada com faixas cor de púrpura, penetrou no camarote imperial.

— Aí está agora o atuário — murmurou Teófano Danielis. — É ele quem rege o circo.

Com um grande gesto protocolar, determinado pelo cerimonial da festa, o recém-chegado dirigiu à platéia a saudação chamada de "auspiciosa". Logo as facções retomaram a recitação dos louvores dirigidos à San­tíssima Trindade, a Deus, ao Cristo, à Virgem de Teótokos, ao imperador Alexis, bem como à imperatriz Irene, sua esposa, ambos abençoados pelo Senhor.

Sucedendo às glorificações, o rufar brutal dos tambores, o ritmo irregular dos címbalos e dos tamborins, o soar agudo dos tímbalos e das trompas de cavalaria estourou sobre as cabeças agitadas.

Soldados da guarda-imperial, vestindo túnicas curtas multicoloridas, com couraças de ouro, apareceram então na arena. Estavam armados com machados de duas faces, arcos em madeira de oliveira munidos de cordas de seda, longas lanças com pontas triangulares e escudos redondos. Alguns faziam tremular na ponta dos braços, com ar marcial, pendões, flâmulas, bandeiras de cores variadas. Eles alcançaram os degraus que conduziam à plataforma, elevada por pilares de mármore que protegiam a tribuna imperial e os galgaram com um passo cadenciado a fim de aí se instalarem.

Houve um momento como que suspenso pela emoção de toda aquela gente que, agora, esperava por seu imperador.

A grande porta do Catisma finalmente se abriu.

Com majestade imponente, Alexis Comeno, o tão respeitado basileu, atravessou o espaço de sombra que o separava ainda do céu aberto. Vinha seguido pelos mais altos dignitários da corte. Coroado por um diadema de ouro cheio de berloques e de uma cruz resplandecente, vestido com a chlamyde tecida e bordada em amarelo, púrpura, roxo e ouro, presa ao ombro por uma fíbula de pedrarias, segurando na mão esquerda o cetro, tinha a mão direita envolvida pela aba de sua roupa de festa.

Aquele homem, que não era grande mas parrudo e mesmo um pouco pesado, tinha um rosto inteligente, com olhos vivos acentuados por espessas sobrancelhas pretas, uma barba cheia, cabelos que, sob o penteado que o coroava, podia se imaginar serem abundantes. Deste homem, cujos traços refletiam a destreza e a determinação, a pompa bizantina fazia a própria encarnação viva da divindade de Cristo!

— Por minha fé, ele está longe de ser tão bonito quanto nosso conde de Blois! — murmurou Landry aos ouvidos de sua irmã gêmea, que concordou com a cabeça sem dizer nada.

Vestidos com longas túnicas de linho imaculado, dois eunucos sustentavam com graça o basileu pelos braços para dar a impressão de um ser imaterial, que não tocasse o solo.

Padre Ascelino reconheceu em um deles o irmão de sua anfitriã, Gabriel Attaliate, a quem já havia encontrado uma ou duas vezes quando de sua estadia anterior em Constantinopla. Era ele quem segurava o pesado e suntuoso tecido da chlamyde ao redor da mão do imperador, durante o gesto de bênção que o autocrata desenhava amplamente sobre as cabeças inclinadas de seus súditos.

Um novo silêncio, absoluto, se abateu sobre a assembléia como se um vôo de anjos, num bater de asas, houvesse atravessado o espaço. Todos, jovens e velhos, homens e mulheres, pobres e ricos, do último estivador do porto aos patrícios e nobilíssimos, todos, de pé, imóveis, se mantinham em posição de adoração, as mãos juntas à altura do peito.

Por três vezes, com sua mão direita sustentada por Gabriel, Alexis Comeno abençoou a assistência começando pelos Azuis, à sua direita; continuando pelos Verdes, à sua esquerda; terminando pela multidão à sua frente, deslumbrada, do outro lado da arena.

"Finalmente as corridas poderão ter início!", pensou Landry a quem todo aquele cerimonial aborrecia um pouco.

Foi preciso que esperasse ainda um pouco mais. . .

Enfeitados por magníficas vestimentas da corte que acabavam de vestir num dos vestiários do Palácio Sagrado onde eram preciosamente conservadas, os grandes dignitários do Império avançaram em fila para saudar o basileu. Fizeram uma grande inclinação diante dele, antes de chegar aos camarotes a que tinham direito, por títulos e serviços.

Os francos acharam aquele desfile muito longo, desacostumados que estavam a ver tantos maneirismos antes de proceder às justas oferecidas por seus senhores.

Após novas aclamações e outros louvores cantados, entoados pelas facções, o imperador, sempre sustentado por seus eunucos, tomou enfim lugar no trono e em seguida, com um gesto solene, fez o sinal tão esperado.

Um pano branco caiu sobre a mistura de areia fina e serragem de cedro que cobria a pista.

Era chegado o momento tão esperado!

Flamínia pensou em sua avó. Pouco segura de si para se misturar à multidão naquele dia de festa, Berta a Atrevida decidira ficarem seu quarto na companhia de Alberade. O professor armênio viera visitá-la dois dias antes e prescrevera um elixir, purgantes feitos de plantas e banhos de assento. Esse tratamento havia acalmado os seus males. Por isso haviam-na deixado por algumas horas, sem excessivos remorsos nem preocupações.

Se Flamínia conseguia um apaziguamento que, normalmente, não seria sem dúvida suficiente para acalmar os escrúpulos de sua consciência apaixonada, era porque uma outra pessoa atraía toda a sua atenção.

A jovem estava sentada entre seu irmão Landry e Pascoal, o segundo filho dos Danielis. Do outro lado do menino, Icásia, ao lado de Andrônico, se mantinha ereta, atenta na arena, crispada de angústia. Marianos, seu filho mais velho, apareceria a qualquer momento para tomar parte em uma corrida onde, mais uma vez, sua vida correria perigo. A visível apreensão daquela mulher, que momentos antes se mostrara tão fria para com seus hóspedes ao encontrá-los no Hipódromo, fascinava Flamínia. Ela jamais tivera a ocasião de encontrar, no vasto jardim de sua casa, a senhora de uma habitação onde os francos não haviam sido convidados a entrar. Eles se acantonavam na pequena casa, reunidos ao redor de Berta e das oscilações de sua saúde. Se Landry saía com o padre Ascelino para visitar a cidade, as filhas do pergaminheiro preferiam ficar perto de sua avó, a quem só deixavam para ir à missa na igreja vizinha.

Para as três irmãs, excitadas com essa perspectiva, as corridas se apresentavam como a segunda oportunidade, desde a sua chegada, de um passeio por Constantinopla. Também elas se prepararam com esmero e usavam bonitas túnicas em tecido fino, com galões dourados na gola, nos punhos e na barra. Mas o que eram essas vestimentas, perto da riqueza esmagadora de algumas túnicas usadas pelas jovens da corte!

Os jogos, que duravam todo o dia, começavam cedo. Um carro viera buscá-los no começo da manhã. Teófano Danielis estava sozinho esperando o pequeno grupo, perto da porta que atravessava todos os dias para chegar ao trabalho.

— Andrônico, Icásia e Pascoal virão ter conosco mais tarde, com seus próprios carros — explicou rapidamente o mestre-perfumista.

Então, aquela mulher misteriosa, que nenhum dos membros da família do pergaminheiro conseguira ainda conhecer, finalmente iria honrá-los com a sua presença. Sua pretensa indisposição não parecia mais que um mero pretexto aos adolescentes que haviam acompanhado as idas e vindas de liteiras freqüentes, os ruídos de uma recepção e os ecos de incessantes atividades variadas. Naturalmente sua curiosidade fora aguçada quando, momentos antes, viram chegar ao Hipódromo o trio anunciado.

Andrônico mostrava um rosto fechado. Suas grandes mãos se crispavam nervosamente sobre a fivela de prata do seu cinto de seda trançada. Seu olhar estava duro. Pascoal parecia pouco à vontade, bem menos espontâneo do que quando passou para ver os habitantes da pequena casa. Mas não era o menino que atraía os olhares. Era Icásia. Esguia, quase magra, com formas andróginas, pernas curtas, ela vestia uma preciosa túnica verde-pálida, bordada de flores e folhas que aliavam todos os tons da sua cor preferida, do mais claro ao mais escuro. Seus cabelos louros, trançados, estavam penteados segundo a moda grega, de maneira complicada, misturando fitas e pérolas às mechas cuidadosamente arranjadas e erguidas em forma de torre. Quando ela se sentou, o olhar atento de Alaís percebeu que usava correias entrecruzadas que, em Constantinopla, faziam as vezes de meias.

"Ela tem muito pó vermelho nas faces, disse para si mesma Flamínia, mas seus olhos verdes são belos, apesar de não serem alegres. Sua expressão é de quem está vigiando um horizonte pouco seguro."

Com uma simples inclinação de cabeça, a esposa de Andrônico saudara os francos que Teófano Danielís apresentara, um após o outro. Após algumas palavras banais trocadas com padre Ascelino, ela se sentara sem testemunhar mais o interesse de seu sogro pelos amigos. Desde então, sua atenção se voltara para as pessoas das suas relações que se encontravam perto dela. Repentinamente animara-se. Bem-humorada e conversando muito, ela falava sem parar, parecendo se divertir com as conversas mantidas em grego, língua que os filhos de Garin ignoravam.

— Talvez ela seja tímida com estrangeiros como nós — sussurrou Landry no ouvido de Alaís.

— Talvez saiba falar mal o latim — respondeu a outra.

As duas suposições eram possíveis. No entanto, Flamínia parecia sentir uma nítida prevenção pelo comportamento adotado por Icásia em relação aos seus hóspedes. Por quê? Intrigada, a adolescente não parava de observar Icásia.

Quando, em meio a um silêncio ofegante, o pano branco caiu sobre o solo arenoso da arena, Flamínia percebeu o súbito estremecimento da mulher de Andrônico. Acompanhando seu olhar, ela viu as grades dos Cárceres se abrirem de uma só vez, as barreiras descerem e quatro carros surgirem desenfreados sob um halo de sol e de poeira fina. Quatro cavalos de crinas trançadas, rabos erguidos, enrolados e presos por sólidos nós de fita a fim de não se prenderem às rodas, estavam atrelados aos carros leves.

O silêncio rapidamente desapareceu. Clamores, encorajamentos, conselhos gritados por milhares de bocas berrantes cobriram com seu arrebatamento o estrondo da corrida.

Vestindo túnicas curtas com as cores das suas facções, apertados num cinto alto que mantinha firmes a cintura e o busto, calçando botas, usando um gorro barrado de prata e seguro no queixo por uma tira, levando na cintura um punhal, as rédeas enroladas ao redor do corpo e o chicote entre os dentes, os quatro cocheiros de pé, inclinados para a frente, eram apenas olhares afiados e mãos de ferro.

Cada um, dentro do anfiteatro, sabia que antes da largada, os condutores dos carros haviam depositado, no oratório situado à entrada do Hipódromo, diante do ícone da Virgem, um círio que queimaria até a extinção para pedir ajuda e proteção. Os quatro cocheiros tinham necessidade daquela chama ardente como a oração que representava. A vida dependia de tão pouco: uma roda quebrada, um desvio do cavalo da esquerda, o que apertava mais nas curvas, um esbarrão num outro carro ou numa das duas balizas que marcavam o lugar onde era preciso virar, a perda de uma ferradura, a de um chicote. . .

O extenso oval da arena era dividido em dois por uma estreita mureta de pedra, a espina, ela mesma cortada em diversos segmentos. Era ornamentado por dois.obeliscos tomados ao Egito e, no centro, por uma coluna de bronze formada por três serpentes entrelaçadas, com as cabeças voltadas para os espectadores. Famosa em todo o Império, era a Coluna Serpentina, que os novos romanos olhavam com medo e repugnância. Eles desconfiavam que aquele vestígio do paganismo era um objeto maléfico, dissimuladamente utilizado por alguns demônios para reinar sobre os espíritos.

— Apesar do hidromel, do leite e do vinho que derramam nas goelas escancaradas durante os dias de festa, nossos contemporâneos têm medo da Coluna Serpentina. Eles têm mesmo horror—dissera Teófano Danielis ao padre Ascelino. — Em Constantinopla todos são muito supersticiosos!

— Por todos os santos, por que então conservá-la?

— Porque ao mesmo tempo somos respeitadores das tradições! Esta ilustre coluna em forma de dragão foi feita com o bronze derretido das armas tomadas aos soldados de Xerxes após a vitória de Platéias — respondeu sorrindo o mestre-perfumista, cujos conhecimentos eram múltiplos.

Ele explicou aos francos que os carros deviam completar sete vezes a volta da espina antes de terminar a corrida. Marcada a giz diante do camarote do basileu, a linha de chegada representava, para cada cocheiro, a glória e a fortuna. . . Apenas, para chegar em primeiro, era preciso ultrapassar rivais também desejosos de vencer, dirigir seus cavalos com destreza, firmeza, coragem e, sobretudo, prestar atenção nas curvas! Lançados como os cocheiros, a uma velocidade infernal, em meio a uma nuvem de poeira, sob um calor que fazia escorrer o suor nos seus olhos, parecia muito difícil dirigir quatro corcéis galopando ao mesmo tempo. Se a linha reta oferecia já tantas dificuldades, o que dizer das curvas! Quantas vezes a multidão, sempre atraída por acidentes, vira tombarem, serem atropelados, desaparecer sob as rodas impiedosas dos que vinham atrás que também quebravam, uma parelha desequilibrada! Nesses casos, uma vertigem onde se confundiam terror e prazer doentio tomava conta dos espectadores, ao mesmo tempo horrorizados e fascinados. . .

Também Flamínia se interessou pelo jogo. Entre os cocheiros, ela rapidamente distinguira o filho de Andrônico. Ele certamente era o mais jovem de todos, mas nem por isso demonstrava uma energia menos temerária. Inclinado sobre a dianteira do seu carro, as pernas imprensadas contra a borda em forma de escudo, agitando o chicote, os traços contraídos, maxilares trincados sob o capacete de prata, Marianos conduzia a sua parelha com uma maestria, uma habilidade e um desprezo pelo perigo impressionantes. Era possível sentir que a sua inteligência, a sua força, o seu orgulho o empurravam para a frente, mais depressa, sempre mais depressa, com o único objetivo de ganhar, de garantir um triunfo que naquele momento lhe parecia mais importante do que tudo.

"Poderia se dizer que está possuído", disse consigo mesma Flamínia.

— Ele está louco! Ele está louco! — repetia Icásia com voz trêmula.

Andrônico se mantinha calado, mas seu rosto, crispado repentinamente, se parecia com o de seu filho.

Os carros corriam pela pista numa tal velocidade, que os próprios árbitros e o diretor dos jogos, do alto de seus camarotes, temiam confundir-se. Da mesma forma, para evitar as contestações, fora determinado que um auxiliar do Hipódromo, instalado no alto de uma escada, retirasse a cada passagem, um dos sete delfins dê bronze colocados sobre uma pequena edificação próxima aos Cárceres e visível para todos.

Durante esse tempo, as facções incentivavam o seu candidato com aclamações, gritos, estranhos cânticos entoados, onde o nome do basileu e da basilissa estavam estreitamente associados às orações dirigidas aDeus e à Virgem Maria, conjurados a se manifestarem em favor dos Azuis, para uns, dos Verdes, para os outros.

— Como se pode suplicar desta maneira ao Senhor para que venha ajudar um ou outro cocheiro? — perguntou a meia voz Brunissen, dirigindo-se a padre Ascelino e se sentindo ferida em sua fé por tal prática. — Não seria profanatório implorar o socorro divino para uma simples corrida?                                                                     .

O notário episcopal deu um sorriso ao mesmo tempo cheio de sagacidade e malícia.

— Nós não abençoamos os nossos cães antes de algumas caçadas, e também os barcos dos nossos pescadores? — respondeu tranqüilamente. — Sem contar que o que estamos vendo aqui ultrapassa muito em importância uma simples brincadeira de justa ou de quintana. Os gregos têm uma tradição secular de grandes Jogos Olímpicos. Em Roma, os jogos capitolinos e palatinos excitavam a população até à loucura. Aqui em Constantinopla, onde o imperador reina como monarca absoluto sobre indivíduos afastados de qualquer consultação pública, esta arena é o único lugar onde a população pode se entregar, com completa liberdade, aos seus momentos de entusiasmo ou de raiva. Preste atenção! Eles se entregam por inteiro à torcida pelo condutor que escolheram. Adotam a sua facção. Escolheram-na por razões obscuras, incompreensíveis aos nossos olhos ocidentais, mas decisivas para eles. A vitória ou a derrota de uma facção, será a vitória ou a derrota do mais reles carregador, do menor sapateiro da cidade. Não estamos diante de um público comum, mas de partidários, de partidários inflamados! Nestas arquibancadas, a partir do momento em que tem início a corrida, uma sorte de vertigem se apodera deles, de todos eles, e os lança nesta espécie de transe que estamos vendo. Não se poderia dizer que estão enfeitiçados?

Como só faltavam mais duas voltas para o final, a multidão estava fora de si. Vociferando, aclamando loucamente a habilidade de um cocheiro, vaiando um outro com a mesma fúria, os espectadores gesticulavam, se levantavam, imitavam os gestos dos condutores, a marcha dos cavalos, acompanhavam com lágrimas, gritos, torções de mãos ou urros de alegria, esta ou aquela ação bem ou mal conduzida. . .

— Um ditado, muito popular entre nós, diz que Santa Sofia pertence a Deus, o Palácio ao imperador e o Hipódromo ao povo — disse Teófano Danielis, a quem a algazarra não impedira de recolher alguns trechos de conversas ao redor de si. — É assim que se sentem os que participam das corridas. No anfiteatro, estão em sua própria casa. É o lugar de reunião preferido. Quanta coisa já não aconteceu ao redor desta arena! A troco de nada — um capacete que cai no chão, uma curva fechada demais, um cavalo cuja marcha desagrada — e podem ser vistos assistentes furiosos tirando de suas botas os punhais que trouxeram às escondidas! Algumas discussões às vezes degeneraram em brigas, em rixas, em disputas sangrentas, e até mesmo em verdadeiras tragédias. Os guardas que circulam ao redor da pista estão lá para intervir em caso de necessidade. Munidos de sabres, chicotes, bastões, eles têm muita dificuldade em manter a ordem ou em restabelecê-la! Já aconteceu do trono de nossos soberanos ser abalado, algumas vezes gravemente, em conseqüência de um incidente nascido numa corrida. . . incidente esse, muitas vezes, insignificante e ridiculamente desproporcional às suas conseqüências. Mas para a nossa gente, o Hipódromo faz as vezes de foro ou de agora, como queiram. Eles aqui vêm para se liberar apaixonadamente das restrições, muitas vezes enormes, da ordem imperial. . .

Para pronunciar esta última frase, o mestre-perfumista baixara o tom de voz. Foi uma precaução inútil. Ao mesmo tempo, um clamor horrorizado, brotando de dezenas de milhares de bocas, se elevou por sobre as arquibancadas.

O carro que levava vantagem, Verde, acabara de ir de encontro a uma das balizas colocadas na curva fatal. O cavalo da esquerda caiu de joelhos. Enfurecido pelas chicotadas de seu dono, ele tentou se erguer, não conseguiu, tornou a cair, levando na queda os seus companheiros de parelha. O carro, que encabeçava a corrida há duas voltas, virou. O cocheiro, um belo homem moreno, foi lançado fora do veículo enquanto ainda estava no ar e caiu na espina. Ele precisou se esquivar de seus concorrentes que se aproximavam em nuvens de poeira amarela, o estalar dos chicotes turbilhonando, a fumaça projetada ao redor pelos corredores em pleno galope. O primeiro a se apresentar era Marianos.

"Senhor Deus! Ajude-o!"

Nascida de um medo tão violento como se o rapaz fizesse parte da sua própria família, a oração invadira como um grito o coração de Flamínia. Com uma destreza e uma coragem impressionantes, ele aproveitou que o carro estava ao norte da pista, do lado dos Cárceres, e não ao sul, onde havia menos espaço; inclinando-se ligeiramente para a direita, conseguiu desviar a sua quadriga sem que virasse e passar ao largo da imensa confusão que se formara em torno da baliza. A segurança e a leveza com que manejava as rédeas causaram enorme admiração na multidão petrificada.

Uma espécie de imenso suspiro coletivo se elevou de onde estavam os espectadores quando o viram passar bem junto à parelha virada e aos cavalos caídos, sem no entanto tocá-los. Tendo alargado a sua curva, nem a mais nem a menos, ele passou como uma flecha do outro lado da espina. Uma exclamação louca saudou a sua façanha.

Os dois carros que seguiam o de Marianos, imitando o seu exemplo, conseguiram também contornar o obstáculo.

Foi um delírio! Os espectadores lançavam sobre a pista seus gorros, seus lenços, suas fitas, seus pentes. . . Eles pulavam, gritavam, davam-se tapinhas nas costas, beijavam-se, tomavam a Deus como testemunha da habilidade dos Azuis e agradeciam-Lhe por isso.

No meio daquele tumulto, Flamínia percebera um grito abafado, bem próximo. Tomada pelo espetáculo, ela deixara há algum tempo de observar o comportamento de Icásia. Desviando o olhar da arena, viu Andrônico inclinado sobre sua mulher, que desmaiara. Ele segurava sua cabeça enquanto Pascoal apanhava na escarcela de sua mãe um pequeno frasco que destampou antes de entregar a seu pai. Este passou várias vezes a garrafinha, talhada em precioso cristal de rocha, diante das narinas de Icásia. Ela abriu os olhos no momento em que Marianos cruzava como vencedor a linha branca de chegada.

— Ele está salvo e foi vitorioso! — exclamou Andrônico erguendo-se e benzendo-se. — Deus seja louvado!

Ele se expressara em grego, mas não era preciso compreender aquela língua para adivinhar o sentido das suas palavras. Flamínia sorriu para ele. Ela tivera tempo de surpreender o olhar trocado pelos esposos no momento em que Icásia retomara a consciência. Desconfiança matizada de medo nela, atenção polida e distante nele, desconforto comum. . .

Ao redor deles, a efervescência era indescritível. Os Azuis, de pé, agradeciam à Santíssima Trindade e entoavam hinos triunfantes.

Marianos parara os seus cavalos cobertos de espuma diante do camarote do diretor dos jogos que lhe entregou, inclinando-se para fora da sua tribuna, a palma de ouro da vitória.

O jovem acenou, desceu do seu carro de que logo se apoderaram os palafreneiros e retomou a pé o caminho do Catisma. Sob o olhar do imperador que sorria com benevolência, três enviados entregaram ao vencedor três medalhas de ouro, um pesado colar do mesmo metal, um manto de seda listrado de púrpura e a coroa de louros a que tinha direito.

Como testemunho da sua gratidão, Marianos se prosternou no chão diante do seu soberano, com o rosto na areia e na poeira de cedro.

— É assim que se deve saudar o basileu — explicou Teófano Danielis ao padre Ascelino, que parecia surpreso. — É uma obrigação protocolar.

Reerguido, Marianos fez com a mão, onde brilhavam as finas pedras de vários anéis recebidos em outras ocasiões por outros sucessos, três sinais-da-cruz na direção do imperador. Em seguida, voltou-se para o seu carro, subiu, passou novamente diante da tribuna de honra antes de completar três voltas na pista sob as ovações, os gritos de alegria, as ações de graças cantadas pelos Azuis triunfantes.

Enquanto isso, haviam retirado os cavalos ainda embaraçados nos escombros de suas parelhas, e em seguida desimpedido a pista. O cocheiro dos Verdes acidentado, coberto de poeira, saíra com algumas escoriações sem importância.

Os árbitros continuavam a conversar. O público estava feliz: sentira medo e agora poderia comentar à vontade um acidente que, apesar de não ter sido mortal, fora bastante fértil em emoções.

Os mexericos se espalhavam ao redor dos francos, a quem todas aquelas conversas mantidas em grego acabavam por deixar com a cabeça tonta.

A arena começava a ser preparada para a segunda corrida. O mestre-perfumista explicou que havia quatro em cada manhã, e que uma sucedia logo a outra. Haveria em seguida um intervalo dedicado a apresentações cômicas, a exibições de animais amestrados, e em seguida uma refeição. O povo das arquibancadas permaneceria em seus lugares enquanto os Azuis e os Verdes se dirigiriam, cada qual de seu lado, às salas de banquete que lhes eram reservadas. A tarde era dedicada a outras corridas.

— E o imperador? — perguntou Landry. — O que faz ele durante a pausa?

—Ele é servido numa sala de refeições privada situada no Catisma. Os personagens mais importantes da corte vão juntar-se a ele. O irmão de minha nora, o eunuco Gabriel Attaliate, divide esta grande honra com um certo número de dignitários.

No momento em que Teófano Danielis terminava as suas explicações, um rumor chamou a sua atenção.

— Por Santa Teótokos, eis o nosso Marianos! — exclamou, com um ar satisfeito.

O rosto cingido pela coroa de louros, salpicado de areia e serragem até mesmo nos cabelos e na barba, o vencedor da primeira corrida parecia coberto de ouro em pó. Estava cercado pelos amigos da facção Azul, cuja alegria ainda se manifestava por uma exuberância ruidosa e demonstrativa.

"Com este traje de auriga e estes louros sobre a fronte, Marianos parece mais um deus pagão do que um dos nossos piedosos cavaleiros — pensou Brunissen. — Num país em que procuram se mostrar tão preocupados com a pura doutrina cristã, parece-me que ao contrário, e que Deus me perdoe, é o paganismo que aflora em cada ocasião."

Alaís murmurou para seu irmão que achava o jovem bonito, sim, mas muito seguro de si e de seu prestígio. Para ela, ele mais parecia um vaidoso galo de capoeira. No fundo da sua memória, um normando da Sicília, louro e magnífico, cavalgava seu corcel para fazê-lo atravessar uma torrente. . . O sorriso conquistador que acompanhara o salto ressoava ainda em seus ouvidos, com aquele acento tão másculo, que fazia com que estremecesse deliciosamente ao senti-lo ainda intacto na sua lembrança.

Marianos se lançou nos braços de sua mãe, de seu pai, de seu avô. Pascoal o abraçou, não sem uma certa reserva que tentava fazer parecer como sangue-frio. Os espectadores da vizinhança, todos conhecidos da família, cobriram o herói de cumprimentos cada vez mais exagerados.

Entre o grupo de jovens aurigas que cercavam o vencedor, um cocheiro se distinguia dos outros: ele usava a cor verde do clã rival. Flamínia o reconheceu. Era o infeliz condutor do carro que havia tombado. Magro, esbelto, muito moreno; apesar de alguns arranhões e da sua túnica maculada de suor e de poeira, guardava ainda toda a sua imponência.

— Meu primo, Cirilo Akritas que, graças a Deus, saiu são e salvo daquele estúpido acidente — disse em latim Marianos. — Ele manifestou o desejo de vir cumprimentar nossos hóspedes francos.

Os dois jovens trocaram um olhar cúmplice. O recém-chegado se inclinou diante de Flamínia. Suas pupilas eram tão negras que tinham reflexos azulados, mas ao lado dessa doçura, o adolescente demonstrava um tal ardor que ela enrubesceu. Sua fina pele de ruiva sempre a traía.

O companheiro dos Verdes pronunciou algumas palavras em grego.

— Cirilo acha que a senhorita se parece com a filha do sol. Conseguiu seduzi-lo, traduziu Marianos. — Ele lamenta não poder dizê-lo diretamente, mas ignora o latim.

— Diga-lhe da minha parte que, no meu país, não se considera que o sol possa ter filhas! — disse Flamínia, furiosa por ter enrubescido sob o olhar de um desconhecido.

Marianos deu uma gargalhada. Sem lhe dar tempo de falar, a filha do pergaminheiro continuou:

— Como é que consegue se relacionar com o cocheiro da facção adversa? Pensei que os Azuis e os Verdes se detestassem, quando não se desprezassem.

— Pela Santíssima Trindade, a senhorita não está de todo enganada — respondeu o interpelado. — Cirilo e eu somos primos distantes e, sobretudo, somos verdadeiros amigos. Fomos criados juntos. Se fazemos parte de facções inimigas, fazemos também questão de preservar a nossa amizade. E ela provou ser mais sólida do que as nossas rivalidades.

Dirigindo-se então a Cirilo Akritas, que parecia muito infeliz em não compreender nada do que se dizia diante dele, Marianos pôs-se a falar em grego com desenvoltura.

Flamínia deu as costas ostensivamente aos dois rapazes. Por mais insignificante que fosse, o incidente que acabara de acontecer a deixara profundamente irritada. O que ela tinha a ver com as intenções daquele cocheiro dos Verdes? Se ele achava que as moças vindas do Oeste, de países que desconhecia completamente e pelos quais não devia sentir mais do que condescendência, estavam prontas a cair em seus braços, estava muito enganado! Absolutamente enganado! Iria mostrar a ele, ela, a bárbara, o que era a virtude de uma jovem franca!

Ao levantar o queixo com um movimento em que se podia ler desafio e determinação, ela cruzou o olhar atento de Andrônico Danielis. Enquanto Icásia falava apaixonadamente, em companhia dos Azuis, da corrida ganha por seu filho, agora era ele quem observava Flamínia. Eles permaneceram se olhando por um momento e, em seguida, Andrônico sorriu. Todo seu rosto se mostrava rejuvenescido, suave, radiante como se um raio de sol, introduzido sorrateiramente entre dois lados de um tecido, tivesse vindo iluminá-lo.

A adolescente enrubesceu mais uma vez, censurou-se por isso e, com um gesto instintivo, virou-se do lado oposto.

Não longe dali, o duque de Normandia e o conde de Blois, cercados por seus séquitos e por alguns dignitários da corte que falavam latim, conversavam animadamente. Eles pareciam encantados com o espetáculo que lhes era oferecido. Por suas expressões de alegria, era fácil adivinhar que se desdobravam em testemunhos de gratidão e cumprimentos.

Esta constatação completou a exasperação de Flamínia.

— Eu me pergunto o que exatamente viemos fazer aqui! — disse ela a seu irmão. — Não partimos de nossa casa há meses, não fizemos toda essa dura caminhada e nosso pai não morreu para que nos víssemos num circo vendo correrem quadrigas Azuis ou Verdes!

Landry sacudiu os ombros.

— Ora! Ora! Que bicho a mordeu? Ninguém jamais pretendeu que tivéssemos já alcançado o objetivo do caminho, chegando a Constantinopla. Todos sabemos que nos restam ainda centenas de léguas a percorrer. Ninguém tampouco ignora que o nosso único pensamento é a libertação do santo sepulcro. Mas já que devemos esperar alguns dias nesta bonita cidade, por que não aproveitar do que ela pode nos oferecer: a suavidade de viver num lugar admirável e os mais célebres jogos do mundo? Quando partirmos novamente, só estaremos mais ardentes e mais decididos.

Alaís, que tudo ouvia, inclinou-se para Flamínia.

— Felizmente os Danielis não compreendem a nossa língua—sussurrou com ar reprobatório. — Ficariam magoados com sua ingratidão, minha irmã. Então já se esqueceu que estão nos concedendo um grande favor permitindo-nos assistir a este espetáculo?

Flamínia foi dispensada de responder. Numa só voz, sustentada pelo órgão de prata, a facção vitoriosa retomava seus cânticos: "Glória à Trindade, ao Cristo nascido da Virgem, glória ao imperador, à imperatriz, eleitos do Senhor! Glória aos aurigas vencedores! Glória aos Azuis! Que a sorte do Império e dos Azuis triunfe!"

Marianos, seus amigos e Cirilo Akritas, que não obtiveram sequer mais um olhar de Flamínia, voltaram para os bancos que lhes eram destinados. Ao fazê-lo, cruzaram com uma mulher coberta por um véu que se insinuava nas arquibancadas com extrema celeridade.

A leveza elegante do seu andar, seu porte eram facilmente reconhecíveis.

— Mas vejam só Janice vindo em nossa direção! — observou Andrônico.

A jovem chegou com razoável rapidez até o grupo que procurava encontrar. Inclinou-se perto de Icásia e lhe falou em voz baixa Seu véu escorregou e Flamínia pôde ver os olhos negros, brilhantes e preocupados, que olhavam na sua direção e na dos seus. As explicações que ela fornecia pareciam contrariar a sua irmã-de-leite e emocionar Andrônico. Quando terminou, o filho do mestre-perfumista se levantou para ir avisar o padre Ascelino.

— Após a nossa partida — disse-lhe ele em latim — a senhora Berta foi acometida de novas dores particularmente violentas. A ama de minha mulher, avisada por sua serva, pediu a Janice que avisasse o professor Armênio que já havia cuidado de sua enferma. Ele estava ausente. Sem dúvida deve estar aqui assistindo às corridas. Não é possível encontrá-lo no meio da multidão. Janice pensou no curandeiro com quem sua mãe normalmente se consulta. O homem veio, constatou a intensidade do sofrimento da senhora Berta e prescreveu uma poção de composição sua sem que, contudo, obtivesse resultados satisfatórios. Diante do estado da paciente, Janice decidiu vir ao nosso encontro para colocar-nos a par dos acontecimentos. Acho que ela fez bem.

Brunissen levantou-se.

— Vamos embora — disse — imediatamente! Vamos ao encontro de nossa avó. Não deveríamos tê-la deixado sem nenhum de nós perto dela!

Padre Ascelino, Flamínia, Alaís e Landry seguiram-na incontinenti.

— Vou acompanhá-los — disse Andrônico. — Nossos servos podem conduzir muito lentamente o carro. Devo estar lá para ativá-los.

— Posso fazer isto em seu lugar — disse Janice.

— Obrigado. Fique junto de sua senhora. Ela teve um desmaio durante a primeira corrida e pode ainda precisar dos seus serviços.

— Quer dizer que vai me deixar para se precipitar em socorro desses celtas? — exclamou em grego Icásia, com veemência. Prefere cuidar de estrangeiros do que de sua própria mulher!

Algumas cabeças se viraram na sua direção.

— Obedeça-me, Janice — retomou Andrônico, cuja expressão estava novamente endurecida. — Voltarei quando tiver cumprido as obrigações que me são impostas pelos deveres mais elementares da hospitalidade.

Sem intervir na curta discussão, Teófano Danielis mostrou a sua aprovação ao que o filho acabara de dizer, através de um pequeno gesto. Os chartrenses iam já no caminho dos Cárceres, em direção à saída. Andrônico os seguiu.

 

Varas de olíbano consumiam-se em volutas sobre o pote de terracota onde estavam colocadas. Pousadas sobre um cofre apoiado a uma das paredes do quarto, elas exalavam eflúvios tão potentes, que mesmo os relentos da doença os respeitavam. Uma vela de cera virgem, pintada de açafrão, queimava sobre um tripé instalado à cabeceira de Berta a Atrevida, que dormia. A luz, apenas tremulando, desenhando sombras, acentuava as olheiras, a ruga que marcava a testa entre as sobrancelhas e as que emolduravam a boca, conferindo-lhe uma expressão de lassidão enfim desnudada. Os tições da lareira e a lâmpada a óleo, que animava com o seu clarão avermelhado o ícone que ocupava o canto mais visível da peça, forneciam, junto com a vela, a única iluminação noturna.

Em respeito aos hábitos piedosos dos Danielis, a família do pergaminheiro adotara o ícone cujo rosto misterioso, em dourado e pátina, presidia os destinos dos que se abrigavam sob aquele teto. A cada noite os servos vinham renovar o combustível.

O silêncio reinava na pequena casa envolta pela noite. O padre Ascelino e Landry ainda não haviam voltado da sua visita cotidiana ao acampamento dos cruzados, reunidos, esperava-se que por pouco tempo, além das trezentas torres de mil ameias das muralhas bizantinas. Ao voltarem dariam notícias dos amigos que ficaram afastados, dos cavalos, dos rumores que corriam, da efervescência que agitava o povo de Deus. Talvez se pudesse saber se era verdade que a cidade de Nicéia, da qual tanto se falava sem nada conhecer, havia realmente sido atacada pelos exércitos francos já sobre a margem oriental. Certamente se saberia, enfim, que data fora fixada para a partida dos soldados e peregrinos, que esperavam com tanta impaciência a ordem de arrumar a bagagem e atravessar também o braço de mar que os separava de um outro mundo tão sonhado. . .

"Aí é que tudo se tornará difícil para nós", pensou a Alaís,sentada sobre uma almofada contra a cama de sua avó adormecida. "Com a doença de nossa avó, o que poderemos fazer? Quem vai partir? Quem vai ficar com ela já que certamente teremos que nos separar? De minha parte, sei bem o que quero. Será que conseguirei? Que Deus nos proteja em momentos tão difíceis!"

Ela suspirou e pôs-se a desfiar o rosário em madeira de oliveira que seu irmão havia lhe trazido de uma das suas idas à cidade.

As três irmãs e Alberade, que fiava à luz da lareira, cercavam a cama onde Berta repousava, como um soldado ferido num campo de batalha.

Desde o retorno precipitado da véspera, quando haviam-na encontrado encolhida sobre o colchão, emporcalhada por dejetos sangrentos, os lábios em carne viva de tanto que os mordera para não gritar, sua família não a deixara mais sozinha. Durante a noite, que lhe trouxera momentos alternados de crise e enfraquecimento, seus netos e sua serva haviam se revezado, dois a dois, para trocá-la, lavá-la, cuidá-la. . .

Logo antes da aurora, Andrônico viera para ter notícias da enferma. Já inteirado, imediatamente fizera meia-volta para ir mais uma vez buscar o professor armênio. Foi quando a calma noturna começou a ser interrompida pelos ruídos do despertar da enorme aglomeração, que os dois reapareceram.

O tilintar particular das simandras, placas de metal e madeira reunidas entre si numa espécie de carapaça que faziam o ofício de sinos nas igrejas de Constantinopla, quebrava repentinamente a paz matinal para chamar os fiéis à missa.

O professor armênio prescrevera um medicamento, recomendara a dieta e ordenara a aplicação de compressas mornas, molhadas num recipiente que ele mesmo trouxera. Continha uma mistura escura, que deveria permanecer no calor perto das brasas de um fogão instalado, ali, apenas para as necessidades da enferma.

— É preciso não esquecer de trocar as compressas assim que percam a temperatura ideal — traduzira Andrônico antes de sair com o professor, alvo das atenções; de quem se via apenas, sob o chapéu de abas largas, brilhar os pequenos olhos pretos, vivos, observadores, e espalhar-se uma enorme barba sal e pimenta.

Retomada por fortes dores no final da manhã, Berta só adormecera após ter bebido um caldo cozido de papoulas mais fortes que os anteriores, que a ama de Icásia, ao vir buscar notícias, acabara por lhe preparar. Era perto da hora nona.

Desde então, reinava o silêncio.

Ajoelhada sobre um almofada, Brunissen rezava à cabeceira de sua avó. Sua oração era entremeada de reflexões. Ela perguntava ao Senhor qual seria o seu dever, quando ficasse claro para todos que a doente não poderia partir com os seus. Seu mal parecia no momento bastante grave, excessivamente doloroso para que lhe fosse ainda possível seguir caminho. Até atingir uma cura, cuja eventualidade parecia cada dia mais longe, seria preciso que permanecesse em Constantinopla.

"Onde? Onde, Deus de bondade? Os Danielis aceitariam manterem sua casa, mesmo numa casa dissimulada num canto longínquo do seu jardim, uma velha tão duramente atingida? E se, por solicitude, eles continuassem a hospedá-la aqui, quem olharia por ela? Qual de nós, encarregado desta tarefa, seria forçado a renunciar à peregrinação sagrada de Jerusalém? Quem ficaria nesta cidade estrangeira, tão diferente dos nossos burgos, tão inquietante sob o véu dos seus esplendores? Eu? Seria eu? Ser-me-ia imposta uma tal renúncia? Ó meu Senhor, vós me conheceis: apesar do seu gênio indomável, sabeis que amo a minha avó. Mas sinto um tal desejo de continuar o meu caminho em direção ao Vosso Santo Sepulcro! Para ir ao Vosso encontro, não abandonei o homem ao qual estava destinada, a quem amava e a quem sem dúvida amo ainda?. . . Ainda que o tempo e a distância esfumacem sem cessar, cada vez mais, a imagem de meu noivo no fundo do meu coração. . . e até a lembrança de sua imagem. E como se uma mão invisível, uma mão obstinada, apagasse um desenho traçado na areia. . . Ó Deus de amor, esta mão não seria a Vossa? Não estaríeis tentando ocupar em mim todo o espaço disponível? Vossa presença não acabaria com qualquer outra presença? Não estou eu quase esquecendo, em Vosso favor, aquele de quem não me lembro mais ter ou não verdadeiramente amado?"

Já quando o navio se afastou do abismo onde jazia o corpo de seu pai, Brunissen pressentira que a sua ligação com Anselmo o Belo poderia bem se desgastar, como um tecido usado por muito tempo, pelas horas, os dias, os meses de peregrinação que a levavam mais longe, cada vez mais longe dele. . . A distância, os encontros, os inúmeros países, tão novos, a navegação e o acidente de Garin, enfim, que haviam-na abalado até o âmago de si mesma, tudo concorrera para modificar os seus sentimentos.

Durante esta longa e lenta peregrinação, seu espírito mudara, amadurecera. Reflexões e ponderações, exames de consciência, tudo levara a jovem a se desligar da atração que até recentemente o noivo exercia sobre ela. A partir daí seus sentimentos lhe pareciam pueris, superficiais. Ela se perguntava também sobre as chances de sobrevivência do sentimento que Anselmo dissera lhe dedicar. Não era nada agradável para um jovem e bonito rapaz como ele, permanecer fiel a uma amiga que partira por tanto tempo, para regiões incertas, sem nem ao menos saber quando poderia voltar. . . se, ainda, voltasse um dia! Frases, atitudes lhe voltavam à memória. Seu prometido não seria mais egoísta que generoso, mais preocupado com ele mesmo do que com ela? Sem contar as moças bonitas que ficaram em Chartres, que deviam girar ao redor do belo solitário, na esperança de consolá-lo sem mais demora! Parecia agora a Brunissen que uma separação tão longa só poderia aniquilar um compromisso de tenra juventude, como era o seu.

Ela suspirou, mudou de posição, transferindo o peso de seu corpo de um joelho a outro e puxou um pouco o tecido de sua túnica azul-forte. As ligeiras pregas do tecido a incomodavam quando ajoelhava. Ela levantou a cabeça para olhar a sua avó adormecida. Apesar do sofrimento e do seu emagrecimento, os traços de Berta conservavam o aspecto voluntarioso, atrevido que lhe valera o apelido.

"Com este queixo acentuado, estes maxilares um pouco pesados, estas maçãs do rosto fortes e o nariz que parece mais pontiagudo depois que emagreceu, pensou a jovem, vovó parece ser realmente o que ela é. . . uma mulher corajosa, decidida, sem excessiva mansidão em relação às fraquezas alheias nem às suas próprias. Uma pessoa às vezes tirânica e muito dura, mas com um coração capaz de uma violenta ternura. Este sentimento se inspirou sempre numa só pessoa. . . seu filho único, nosso querido pai. . . Do céu, no momento, ele deve estar olhando por ela. A morte transformou o filho em protetor da mãe. . . O que ele pode pedir ao Senhor por ela? Que a deixe completar até o fim a sua peregrinação, cuja santidade não se pode negar, mas cujo sucesso decuplicará o seu orgulho e o seu espírito dominador, ou então retomá-la durante o caminho, desprovida de sua força, reduzida ao essencial, isto é, à fé completamente despida, que é a renúncia?"

Com um ligeiro movimento, o reposteiro que fechava o quarto foi levantado. Flamínia, que estava voltada para a entrada do aposento, ergueu o rosto até então enfiado entre as mãos juntas. Seus olhos, tão parecidos com os cintilantes mosaicos de esmalte, ficaram fixos. Seu olhar, inteiramente voltado para seu próprio interior, parecia nada enxergar. Foi preciso um breve instante para que voltasse à realidade. . .

Janice estava de pé à soleira.

— Deus esteja convosco — disse ela a meia voz, afavelmente, em latim.

Em seguida deixou cair o reposteiro atrás dela, antes de avançar alguns passos.

— Entre, senhora, entre — propôs Brunissen com um pouco de atraso, já que também ela fora arrancada das suas meditações com a chegada inesperada de uma pessoa que nunca viera à casa dos francos desde que aí haviam se instalado.

A irmã-de-leite de Icásia agradeceu com um sorriso e um cumprimento de cabeça antes de ir se inclinar diante do ícone, benzer-se e beijar seu polegar.

— Espero não incomodá-las — retomou em seguida, empregando com facilidade o latim. — Mas até agora não tivera a ocasião de vir vê-las.  

A um sinal de Brunissen, Alberade retirou alguns novelos de lã que empilhara sobre uma cadeira sem encosto, com os pés cruzados. Ao lado da pequena mesa, da cama e do tripé sobre o qual estava colocada a vela, era ela um dos poucos móveis encontrados pelos viajantes. Suas malas certamente se tornaram o que havia de mais claro na mobília.

— Queria ter notícias de sua enferma — disse Janice, sentando-se. Seus gestos eram medidos, elegantes, sua voz doce e seus olhos de gazela observavam com um interesse que só podia ser amistoso, as três irmãs que a cercavam.

— Deus sabe o quanto estamos agradecidos por nos receber como se fizéssemos parte de sua família — retomou Brunissen. — Nossos pobres companheiros de estrada estão instalados, na sua maioria, em condições tão precárias! Que o Senhor vos abençoe e proteja a vossa casa!

Ágil como o gato egípcio que ela vira-se obrigada, contra a sua vontade, a deixar a bordo do navio, Alaís inclinou-se, tomou a mão da visitante e beijou-a. A jovem rapidamente retirou os dedos da pequena pressão que ainda os mantinha presos.

— Assim como disse Andrônico no Hipódromo, apenas estamos obedecendo às sagradas leis da hospitalidade — disse ela observando, uma por uma, as adolescentes sentadas a seu redor sobre almofadas espalhadas.

Alaís sorriu, Brunissen inclinou a testa em sinal de assentimento, Flamínia desviou a cabeça.

— Icásia ainda não se manifestou desde que nos concederam a amizade de instalarem-se aqui — retomou Janice — mas é preciso que a perdoem: ela leva uma vida das mais ocupadas. Na corte, ela está entre as pessoas mais favorecidas pela basilissa e por sua filha mais velha, a princesa Ana. Certamente já devem ter ouvido falar de nossa princesa que, apesar de sua pouca idade (ela tem quatorze anos), demonstra um conhecimento excepcional, devido a uma instrução especialmente cuidada. Está casada com um homem também notável, Nicéforo Brieno, que é ao mesmo tempo um ilustre guerreiro, um grande diplomata e um fino literato. Eles se adoram. Os outros filhos do casal imperial são ainda muito pequenos para serem comparados com a sua ilustre irmã! Eles não têm nenhuma influência na corte, onde a princesa Ana reina sobre os espíritos e os corações. Muito dedicada à imperatriz, Icásia também o é à sua filha. Muitas vezes vê-se chamada a Palácio para ser recebida, com os poucos privilegiados a quem se admite participar das recepções ou das festas oferecidas por nossa soberana, na intimidade do gineceu imperial. Graças à profissão dos Danielis, ela ocupa um lugar todo especial junto à basilissa, que se dirige a ela usando da mais completa confiança quando se trata da sua maquiagem, ungüentos, óleos e outros perfumes.

A estas explicações, seguiu-se um breve silêncio.

— Para nós que viemos de tão longe, por caminhos muitas vezes difíceis e perigosos, levados por uma fé que é o nosso único viático — lembrou Brenissen com um ar pensativo — esta existência de faustos e refinamentos que está nos descrevendo fica tão distante dos nossos pensamentos, que nos parece quase irreal. Por Deus Todo-Poderoso abandonamos tudo e ouvimos o apelo do papa para que fôssemos com nossos exércitos libertar o túmulo de Cristo! Como quer que compreendamos a importância de tudo o que acaba de evocar diante de nós?

— Não censure minha irmã por isto — murmurou Alaís inclinando a

cabeça, como num gesto de agradecimento. — Ela absolutamente não deseja magoá-la, mas é verdade que Constantinopla certamente é muito sedutora, brilhante, excessivamente rica para simples peregrinos como nós. . .

Janice sorriu, balançou a cabeça morena e mudou de assunto.

— E minha bela amiga — disse ela, dirigindo-se pela primeira vez diretamente a Flamínia, que pensa de tudo isso? Ainda não ouvi o som de sua voz.

— Realmente é espantoso este silêncio! — exclamou Alaís, satisfeita com a diversão que lhe era oferecida. — Em nossa família, minha irmã Flamínia sempre foi considerada a mais ardente, a mais apaixonada entre nós!

— Mas não a mais faladeira! Esta pecha cabe mais a você — corrigiu rapidamente Brunissen. — E sabe também o quanto ela é ligada a nossa avó, o quanto está atormentada por sua doença. . .

Flamínia enrubesceu.

— Por minha alma, parem de falar de mim como se eu não estivesse presente! — protestou com voz velada. — Se me calo, é certamente porque não tenho nada a dizer!

Como todas tinham elevado um pouco a voz, deixando-se levar por conversas que, curiosamente, sucediam o silêncio precedente, Berta a Atrevida, perturbada em seu sono, gemeu várias vezes seguidas.

Flamínia se levantou num salto para se dirigir à cabeceira da cama onde Berta estava deitada. Inclinada sobre ela, a adolescente permaneceu um momento escutando seus lamentos inarticulados e as contrações de sua fisionomia.

— O caldo de papoulas que sua avó bebeu é suficientemente forte para não tirá-la de seu sono — garantiu Janice com um ar tranqüilo. — Também eu conheço um pouco as propriedades das plantas e os seu efeitos. Sua avó vai dormir por muito tempo e nada poderá incomodá-la durante várias horas, acredite-me!

Ela virou-se então na direção de Alaís,

— Já que suas irmãs e sua serva estão olhando tão bem por sua avó, por que não vem comigo visitar a casa dos Danielis, que ainda não conhece? — perguntou. — Icásia não está e não voltará antes das matinas. Esta noite haverá uma festa no Palácio em homenagem a Mabille, uma das irmãs do senhor Boemundo de Tarento, que a trouxe consigo em campanha. Será uma bela recepção. Deve durar pelo menos até o meio da noite. O caminho está livre. . . Não está tentada a descobrir o modo de viver dos bizantinos que os estão recebendo?

Alaís ainda hesitava quando se fez ouvir, na sala vizinha que se devia atravessar para chegar ao quarto de Berta a Atrevida, o ruído de vozes masculinas.

O reposteiro se levantou de novo. Padre Ascelino, Teófano Danielis, que freqüentemente vinha visitar seus convidados, e Landry penetraram no aposento onde pairava um obsessivo cheiro de incenso. O mestre-perfumista pareceu surpreso quando descobriu a presença de Janice junto às três irmãs. Mas não teve tempo de fazer nenhuma observação. Brunissen se virará rapidamente. Mostrando com um gesto a doente adormecida, pousou o dedo indicador sobre os lábios e encaminhou todos para fora do quarto.

Flamínia e Alberade ficaram sozinhas com a anciã.

No vasto aposento iluminado por um grande lustre de bronze em forma de coroa, onde queimavam duas dúzias de velas, o ar estava mais leve.

— Que notícias nos trazem? — perguntou Brunissen assim que todos tomaram os seus lugares nas banquetas de tapeçaria multicor que cercavam a mesa.

O padre Ascelino jogou sobre o encosto de sua poltrona sua capa preta litúrgica, antes de tomar a palavra.

— Está tudo mudando no acampamento — disse em seguida. — Tudo entrando nos seus devidos lugares. Conversei longamente com o conde de Blois. É um senhor sábio e prudente. Pois bem, Deus é testemunha de que ele não pretende mais esperar! Apesar da forte impressão que lhe causou o imperador, a quem não pára de louvar a benevolência e a solicitude para com a sua pessoa, ele quer partir. Nossa travessia é iminente.

— Aleluia! Aleluia! — exclamou Landry, que não se cansava de ouvir aquelas palavras. — Já não é sem tempo! Que o diabo me estripe se todos os meus pensamentos não se dirigem sempre ao momento da partida! Ao longo de todo o caminho, não parei de render graças ao Senhor por uma notícia tão boa!

— Acalme-se, jovem estourado — ordenou o padre. — O que terá início na margem oriental do Império não será um momento de prazer, muito pelo contrário! Será a mais importante aventura que a cristandade já conheceu desde que escapou, há séculos, das perseguições romanas e desde as grandes invasões. Os sarracenos são inimigos temíveis. É preciso que se saiba. Eles detêm, por tê-los tomado dos novos romanos, todos os pontos fortes que nos separam de Jerusalém. Precisaremos conquistá-los um após o outro. Eles ocupam o conjunto do território e conhecem perfeitamente uma região que desconhecemos por completo. . . Eles são também mais numerosos do que jamais conseguiríamos ser, apesar de nossos cinco exércitos. . .

— No entanto, todos concordam em reconhecer que em lugar algum, em país algum, se conseguiu fazer um recenseamento de tal número de homens de armas! — cortou Landry. — Pense bem. Além dos nossos francos, há flamengos, lorenos, normandos, provençais e os normandos da Sicília! À frente dessas tropas não estariam tantos senhores de valor, piedosos entre os piedosos? Monsenhor de Monteil, a quem o papa nos confiou a todos, claro, mas também Hugo o Bastardo, irmão do nosso rei Felipe, Godofredo de Bouillon, seus irmãos Eustáquio e Balduíno de Bolonha, seu primo Balduíno do Burgo. . . Roberto de Flandres, Raimundo de Saint-Gilles, o famoso conde de Toulouse de quem tanto se elogia a tenacidade e a prudência, sem falar de Boemundo de Tarento, que ninguém ignora ser audacioso até a temeridade, e seu sobrinho Tancredo, o mais novo, mas não o menos corajoso dos nossos chefes. . . É preciso não omitir também a quantidade de bons cavaleiros, também fortes nas batalhas. Solidamente enquadrados, treinados por estes altos barões, bem como por senhores de menor importância, nossos soldados vão se lançar ao combate, que enfrentarão sob o olhar de Deus!

Teófano Danielis suspirou.

— Todos esses valentes guerreiros não serão demais para ir ao encontro dos nossos adversários comuns — disse. — Como o Mal, os sarracenos são uma legião! Eles se tornaram donos do conjunto de nossas antigas possessões na Ásia Menor. Controlam estradas, montanhas, pontos de água, reabastecimento e vão até o mar! Não nos esqueçamos também que os turcos vivem há qüinqüênios em território conquistado, o que os levou a permanecer sempre de prontidão! São, antes de mais nada, invasores e conquistadores!

— Graças a Deus, eles absolutamente não se entendem — observou Janice, intervindo na conversa. — Os príncipes Seldjukidas vivem às turras. Após o desaparecimento do sultão Malik chah, seus herdeiros não pararam de se entregar a lutas intestinas. Não existe um só que não deseje o poder. Parece-me que vocês tiveram sorte, ou melhor, o Senhor os guiou. Chegam agora no momento oportuno, em que provavelmente é possível uma expedição determinada como a vossa jogar por terra o poderio odioso dos incrédulos!

Todos a ouviram com espanto. Como é que aquela jovem tão refinada, que nunca saía de casa e do seu gineceu, estava a par de tantas coisas? Consciente do efeito que produzira, pôs-se a rir.

— O que não aprendemos com os eunucos? — explicou, com seu ar meio engraçado, meio provocador. — Basta ouvir as conversas de Gabriel Attaliate para não ignorar o que se passa em toda a extensão do Império.

— É verdade que Gabriel é extremamente bem informado—reconheceu o mestre-perfumista. — Desta vez sua tagarelice teve um objetivo útil e você tem razão quando diz, Janice, que a mão de Deus dirige este empreendimento colossal. Meus amigos, a vossa vinda é a testemunha de um conjunto de circunstâncias tão felizes que só pode mesmo ser de inspiração divina.

— Então, quando partimos? — retomou Landry. — Por minha salvação, já perdemos tempo demais!

— Nossa partida está fixada para os primeiros dias da próxima semana. Encontraremos, em Pelecano, o grosso dos cinco exércitos, apesar de Boemundo de Tarento e os seus terem se posto em marcha ao final das calendas de abril. Parece mesmo — e eu me havia calado sobre isto até então, meu caro sobrinho — que são justificados os rumores de que eles teriam atacado Nicéia.

— Sem esperar por nós! Sem esperar por nós! — repetiu, com indignação, Landry. — Mas é uma traição. . . uma verdadeira traição!

— Fique tranqüilo — garantiu com gravidade padre Ascelino:— eles ainda não tomaram Nicéia! Haverá sofrimento e sangue para todos. Não lhe faltarão golpes a dar e nem mesmo, infelizmente, a receber. . .

— Deus queira que sejam apenas golpes sem gravidade — suspirou Brunissen. — Sim, Deus queira, Ele que disse: "não matarás".

Houve um silêncio. Janice levantou-se.

— Vou voltar para casa. Preciso ir supervisionar as servas.

Alaís percebeu que ela não renovara o convite para ir visitar a grande residência. Colocou aquela omissão por conta da presença de Teófano Danielis, opinião confirmada pela observação do mestre-perfumista, quando o ruído dos passos da jovem foi diminuindo.

— Acho que nunca saberei o que pensar de Janice — confessou ele com um movimento de sobrancelhas cheio de fatalismo. — Como não me entendo bem com minha nora, de quem é irmã-de-leite, por muito tempo desconfiei dela. Durante os primeiros anos do casamento de Andrônico e Icásia, achava mesmo que me espionava e espionava tudo que acontecia em minha casa. Agora me pergunto se não estaria enganado. . . a não ser que ela tenha mudado muito. . . Depois de algum tempo comecei a fazer, sobre a sua pessoa, observações que me levariam a provar que ela tem mais consideração por Icásia que por sua mãe, a ama a quem já conhecem. Janice é inteligente e esclarecida, mas ignoro seus sentimentos, tanto para conosco, meu filho e eu, quanto para com minha nora. Ela me parece muito misteriosa.

— Eu gostaria muito de saber por que ela veio nos visitar — disse Brunissen. —Jamais, até o dia de hoje, pusera os pés aqui. Tive a impressão de que tentava obter informações. Mas não vejo bem sobre quem, nem o quê.

Flamínia saiu do quarto onde estivera junto à sua avó.

— Estou sufocada — disse ela. — Depois de tantos meses passados em estradas ou sob barracas, em plena natureza, não consigo ficar, por muito tempo, num ambiente fechado e cheio de fumaça de incenso!

Sorriu para seu anfitrião, com um ar de desculpas.

— Não que não goste do perfume, de jeito nenhum — retomou — até gosto muito porque me faz lembrar nossa igreja. . . mas torna o ar tão pesado, que tenho a impressão de ficar com o peito tomado pela bruma.

— E se fôssemos um pouco para o jardim? — propôs Alaís. — Eu também gostaria de caminhar um pouco ao ar livre.

— Meus filhos, já é noite. . . — lamentou padre Ascelino — e logo iremos cear.

— Por Deus! Vamos cear primeiro — decidiu Landry. — Depois iremos caminhar. . .

O mestre-perfumista deixou os amigos para voltar a casa.

Trazida por seus servos, logo a ceia estava terminada.

— Agora vamos até o jardim — propôs a adolescente. — Está tão fresco e a lua tão magnífica esta noite!. . . Vamos, minhas irmãs, eu as levo. Não se preocupe conosco, meu tio. Já conhecemos a propriedade como a palma de nossas mãos.

Como a avó continuasse dormindo, as filhas do pergaminheiro a deixaram sob a guarda de Alberade e aceitaram sair.

Do lado de fora, uma brisa leve roçava as folhas, transportando o perfume das flores e trazendo com ele os ruídos surdos da cidade onde, era sabido, havia algumas ruas em que a noite era especialmente barulhenta, perigosa e dedicada às festa mais licenciosas. Ao longe se podia ouvir o grito dos sentinelas que faziam a guarda das muralhas.

Os quatro caminhantes respiraram deliciados o ar noturno, tingido pelo reflexo cinza-azulado da lua cheia.

— Neste país, o céu parece sempre mais próximo, os astros mais numerosos, maiores, mais brilhantes que em nossa terra — observou Flamínia. — As noites de Constantinopla são mais bonitas que as nossas!

— Não sei — murmurou Alaís. — No verão temos noites bem bonitas...

— Alaís tem razão — disse Landry. — Eu acho, minha irmã, que tem demonstrado uma admiração excessiva por esta cidade. É verdade que ela é magnífica, mas chega a lhe dedicar um tipo de fervor que, vindo de você, me surpreende. Antes, só sonhava com Jerusalém. Parece-me que, agora, permaneceria satisfeita entre estas muralhas. . .

— O que posso fazer? Gosto das costas que margeiam o mar Mediterrâneo — respondeu a jovem, com uma certa aceitação sonhadora, muito estranha aos seus hábitos.

Brunissen parou no final de uma alameda.

— Vou voltar para junto de nossa avó, vocês continuem a passear, a aproveitar desta tranqüilidade de que em breve seremos privados.

Alaís pendurou-se no braço de seu irmão.

— Preciso lhe falar de uma idéia em que venho pensando — cochichou ela. — Trata-se de Boemundo. Preciso dos seus conselhos e da sua ajuda...

Flamínia se afastou deles. Sozinha, ela se dirigiu para a fonte enfeitada com os lotos, lugar de que mais gostava no jardim. Para alcançá-la, foi preciso seguir por uma alameda de ciprestes, fresca, escura, protetora durante o dia, mas bastante sombria à noite. Os grandes resinosos formavam ali uma cerca gigante, intransponível, cujas folhas vestiam os troncos que se erguiam em longos capitéis verde-escuros. Sob os galhos, que unindo-se em seu topo, formavam um santuário de vegetação, o ar estava de tal forma impregnado do cheiro da resina, que se tornava mais suave do que se alguém tivesse ali espalhado os mais preciosos aromas... Entretanto, como a luz frágil da lua não conseguia penetrar, Flamínia costeou as árvores andando sobre a relva, macia sob seus pés como os tapetes persas da sua nova moradia. A fim de aproveitar melhor, ela tirou os sapatos de couro polido, comprados em sua passagem pela Itália. Descalça sobre a grama baixa que pisava voluptuosamente, ela avançava em silêncio, como a sombra projetada atrás dela pela claridade lunar.

Ruídos de vozes, ecos de uma violenta altercação subitamente a imobilizaram. Na alameda que preferira evitar, dissimulados pela espessa muralha vegetal levantada pelos ciprestes, dois homens discutiam. Eles falavam em grego. Flamínia não conseguia entender nem saber do que se tratava, mas ela reconheceu a voz de Andrônico, vibrante de fúria e amargura.

Petrificada pela emoção, seu coração batendo tão forte no peito que abafava em parte os sons encarniçados da discussão, Flamínia permaneceu imóvel por um momento, incapaz de fazer um gesto sequer. . . No entanto ela queria entender. Lentamente, retomou seu caminho e deslizou sem ruído algum para a extremidade do gramado. Ela sabia como chegar à fonte onde floriam os lotos.

Alcançou sem dificuldade a rotunda enfeitada pelas flores, e em seguida se escondeu atrás da bacia de mármore encimada pelas longas hastes carnosas, pululantes, que se moviam, balançadas por um fraco vento do sul que vinha do mar. . . Acocorada sob a proteção do alto parapeito coroado de flores e de botões opalescentes pelos reflexos da lua, Flamínia esperou. . . Empurrado por bruscas incursões de baforadas resinosas, um odor insípido de água estagnada a envolveu, evocando os longínquos pântanos da Chartres da sua infância. . .

Ao final de um momento, correndo, pulando da mesma forma que os seus corcéis, Marianos apareceu. Ele parecia no limite da ira e atravessou, em poucas passadas enfurecidas, o claro espaço dominado pela fonte, desaparecendo em seguida.

Após longo silêncio, a adolescente percebeu o ruído de outro passo que vinha em sua direção. Andrônico saiu, por sua vez, da abóbada perfumada onde estivera protegido até então. Avançou lentamente, a cabeça inclinada sobre o peito. Sua postura demonstrava grande aflição. Permaneceu por alguns instantes diante dos lotos, sem nem ao menos olhar para eles, os braços caídos, sua grande silhueta curvada por um tormento que inclinava sua nuca e seus ombros.

Quando levantou a cabeça, Flamínia, de seu esconderijo, viu que Andrônico chorava. Antes de se perderem na barba morena e ondulada que parecia ser tão suave, as lágrimas que corriam pelo seu rosto deixavam traços prateados pelos raios da lua. Sem barulho, num silêncio que tornava ainda mais pungente aquela tristeza masculina, Andrônico se abandonou numa espécie de desespero convulsivo. Ele assustou e afligiu aquela que, alheia à sua vontade, assistia a uma crise íntima que não lhe era destinada. Perturbada pelo embaraço, pela emoção, pela curiosidade, mas sobretudo por uma espécie de embriaguez que lhe subia do coração à garganta, ela permaneceu imóvel atrás das leves e cúmplices hastes.

Foi então que do fundo do seu coração nasceu, cresceu, explodiu uma onda amorosa que a sufocou como se estivesse realmente sendo engolida por um mar vertiginoso, com água de verdade. . . Ela pensou no seu pai imerso, submerso, tragado pelas ondas. . . Ela achou que, por tê-lo perdido, a partir daí seu futuro não teria mais um rosto. Eis que, de uma só vez, compreendendo enfim o que a afligia desde que chegara a Constantinopla, ela descobria que doravante seu destino assumiria outra aparência, adquiriria novos traços.

Levantou os olhos e viu os lotos, cujos botões, cheios de seiva, se erguiam na direção do céu noturno. Estremeceu. Um instinto visceral, sem piedade, fez com que adivinhasse que, da adolescente que acabara de ser destruída nas águas violentas do amor, nascera uma mulher a quem nada seria poupado, mas a quem nada também faltaria. . . Um grito a atravessou: "Senhor! Deixe que ele seja meu! Mesmo que passe o resto de minha vida expiando este pecado!"

Sentiu um desejo incontrolável de se levantar, de caminhar até aquele homem que sofria, de envolver com seus braços aqueles ombros cujo frêmito lhe lembravam os cavalos de Garin quando estremeciam pelos golpes do chicote. . . No entanto não o fez e desprezou o impulso que tivera. Mesmo que pressentisse que não seria rejeitada por Andrônico num momento como aquele, sabia também que o orgulho nos impede de revelar nossos mais amargos segredos, e que o orgulho viril deve sempre ser respeitado. . . Mais tarde, Andrônico poderia lhe querer mal por ter sido ela a única testemunha de um momento de prostração voluntariamente secreto.

O tempo passava sem q ue Flamínia se desse conta. . . Estava petrificada, a cabeça zumbindo como um colméia, fora de si. . .

Foram as chamadas dos gêmeos que romperam o charme que unia de maneira furtiva, por vozes subterrâneas e à revelia de um dos interessados, dois seres ainda estranhos um ao outro até poucos dias antes.

Ao ouvir os gritos, Andrônico se ergueu, olhou ao seu redor, enxugou desajeitada e rapidamente seus olhos claros, como uma criança pega em flagrante, e se afastou a passos largos. . .

Flamínia esperou um pouco antes de sair do seu esconderijo, e pôs-se então a correr na direção de seus irmãos, cujas vozes se aproximavam.

— Estou aqui! — disse, juntando-se a eles. — Estou aqui. Mas pela Santa Mãe de Deus, calem a boca! Se continuarem, vão chamar a atenção de todos os servos dos Danielis!

Landry e Alaís ficaram surpresos com seu ar especial e com o brilho de seu olhar.

— Mas que diabos estava fazendo, no fim desta alameda escura? — perguntou o rapaz espantado.

— Simplesmente fui visitar os lotos — respondeu ela com um sorriso. — São flores encantadas, flores fadas, capazes de metamorfoses, e que possuem poderes surpreendentes. . .

 

Na manhã seguinte, Berta a Atrevida estava melhor. O longo sono do qual saíra a deixara mais calma; suas dores também pareciam adormecidas.

Suas netas e sua serva procederam então à sua higiene. Elas ficavam encantadas em ter água corrente até naquela casa de amas. Assim como todas as outras ricas propriedades da cidade, a do mestre-perfumista era equipada com canalizações de louça, através das quais circulavam as águas captadas nas montanhas ao longe. Teófano Danielis havia explicado aos seus amigos que diversos aquedutos forneciam água à cidade imperial, que possuía, também, inúmeras fontes e nascentes. Os estabelecimentos de banho eram numerosos e muito freqüentados. Além disso, ele havia convidado insistentemente seus hóspedes para que fossem, quantas vezes desejassem, às termas privadas, situadas não muito longe dos seus aposentos. Landry e padre Ascelino haviam ido uma hora antes de partir em visita ao bairro do porto, que ainda não conheciam.

Uma vez terminada sua higiene, Berta a Atrevida, feliz por se sentir limpa e descansada, decidiu retomar imediatamente a condução dos acontecimentos.

— Por minha salvação, se os remédios deste professor armênio conseguirem me colocar novamente de pé — disse — logo estarei partindo com vocês para continuar nossa peregrinação!

Flamínia, que enrolava as bandagens num movimento maquinal, suspendeu o gesto.

— Deus sabe o quanto estamos contentes por constatar esta manhã a melhora do seu estado — disse, aproximando-se da cama onde sua avó, bem recostada em vários travesseiros, estava instalada em lençóis limpos e frescos. — Mas tudo é ainda muito recente. Pensar em se lançar tão rapidamente nas estradas me parece um pouco aventureiro.

— E não estamos nós comprometidos exatamente com a maior aventura possível? — interrogou a anciã. — E, exatamente você que se parece tanto comigo, não sabe que nunca se deve renunciar a um projeto que não nos sai do pensamento?

Brunissen, que vinha do quarto das moças, onde ela mesma tinha ido se lavar e se vestir, interveio.

— Por que querer de qualquer maneira tomar decisões precipitadas? — perguntou calmamente. — Se, dentro de um dia ou dois, se sentir restabelecida, virá conosco, e todos ficaremos muito felizes. Caso contrário, tomaremos as providências necessárias.

— Tenho refletido muito desde que chegamos a esta etapa — retomou Berta. — Já me aborreci muito com a idéia do incômodo que estou lhes causando. Se, por infelicidade, e Deus me livre, o mal que me atormenta me retiver ainda neste lugar, deverão partir sem mim. Permanecerei aqui com Alberade como acompanhante. Ela bastará para cuidar de mim. Todos vocês poderão continuar a peregrinação. Assim que estiver curada, irei ter com vocês.

— Que o Senhor me maldiga se eu abandoná-la nesta cidade estranha, tendo como único apoio uma serva! — exclamou Flamínia. — É impossível! Eu a amo muito para consentir numa tal covardia!

Brunissen, que acabava de ajeitar o véu ao redor do pescoço, interrompeu o que fazia para concordar com a irmã.

Alaís, por sua vez, correu para abraçar Flamínia.

— Como a admiro! — disse, maravilhada. — Você é a melhor de todas nós. . . É preciso ter tanta coragem para renunciar à nossa marcha para Jerusalém, que eu não sei se seria capaz!

Berta a Atrevida opinou.

— Posso compreendê-la perfeitamente, filha, e desta vez sinto-me mais perto de você que de sua irmã. Em seu lugar, também estaria ardendo de desejo de partir!

Brunissen acabava de amarrar as duas extremidades do longo cinto de couro tacheado de prata, que enrolara ao redor da cintura muito fina, depois em redor dos quadris, antes de puxá-lo novamente para a frente de sua túnica, de onde caía até os pés.

— Estou contente, minha avó, em vê-la com tal disposição — afirmou ela. — Falando como acaba de fazê-lo, nos presta um grande serviço. De minha parte, sinto-me impelida por uma força divina em direção à Cidade Santa. . . em direção a esta única Esperança. . .

Flamínia cerrou os lábios. Suas pupilas adquiriram um brilho conturbado que repentinamente as escureceu.

— Vamos parar de falar sem conhecimento — cortou ela, num tom que lembrava o de sua avó nos seus momentos de raiva. — Veremos o que o professor armênio dirá sobre sua saúde, quando voltar hoje após o jantar. Daqui até lá, só podemos especular!

Pareceu que Brunissen queria fazer alguma observação, mas passou lentamente uma das mãos sobre os lábios e calou-se.

— Por todos   os santos! — exclamou então Berta a Atrevida —, poderíamos pensar que não deseja realmente a minha cura! Flamínia! Por que parece preferir me ver padecendo deste maldito mal, ao invés de pensar alegremente na nossa partida comum depois que me restabelecer?

Com uma subitaneidade que surpreendeu a todos os seus, aliás, já acostumados ao seu ardor, a adolescente explodiu em soluços. Ela se lançou com violência sobre a cama de sua avó, tomou-a em seus braços e apertou-a contra si.

— Não diga coisas tão horríveis! — gritou. — Eu lhe suplico em nome de Cristo! Sabe o quanto eu a quero, como rezo de todo o meu coração para que o Senhor a mantenha sob a Sua santa guarda! Nunca duvide do meu carinho! Eu a proíbo!

Ela cobria de beijos as mãos magras sobre as quais se salientavam as veias arroxeadas.

Berta sorriu e reteve entre a palma das mãos o rosto transtornado, ao redor do qual a cabeleira ruiva espalhava várias tonalidades de cobre.

— Lembra-me tanto o meu Garin — disse ela, sacudindo a cabeça enfiada numa touca branca —, parece-se tanto com ele, que não poderia nunca ficar muito tempo aborrecida com você! Possui o mesmo ardor no coração e o mesmo tosão de fogo. Vamos, está perdoada. Mas não recomece a querer me reter aqui contra a minha vontade, ou me verei forçada a obrigá-la a ter juízo!

Os filhos do pergaminheiro guardavam todos a lembrança das sólidas palmadas que no passado ganhavam de sua avó. A frase que acabara de pronunciar geralmente precedia as correções do gênero. Isto trouxe um sorriso aos lábios das três irmãs.

Foi assim que Pascoal as surpreendeu, vindo fazer uma visita como gostava, às vezes. O menino se sentia bem com os francos. Contava-lhes tudo o que lhe passava pela cabeça e mesmo alguns acontecimentos ocorridos em sua casa.

— Sinto-me bem aqui — disse, depois de algum tempo de conversa num latim já bem seguro. — Sabem por quê? Porque ninguém briga na minha frente, meus pais brigam com freqüência.

— Todos os casais discutem — garantiu Berta a Atrevida, depois que Flamínia traduziu-lhe a observação da criança. — Alguns acham até que não há nada melhor que as reconciliações após as brigas conjugais.

— Mas eu tenho medo — retomou Pascoal ingenuamente. — Tenho medo quando eles fazem cenas e gritam como fizeram esta manhã. . . Saí de casa porque não gosto de vê-los assim!

Brunissen teve um sorriso cheio de compreensão.

— Você mesmo, às vezes, não briga com seus amigos? — perguntou. — Não existe família, nem grupo, por mais unidos que sejam, que não tenham as suas tempestades.

— Eu não sei — respondeu a criança —, meus pais nunca estão de acordo sobre a maneira de nos educar, a Marianos e a mim. Meu pai é severo. Pelo que pude compreender, ele se zangou com meu irmão. Minha mãe, como sempre, defende Marianos contra meu pai. . .

Flamínia tomou Pascoal pela mão.

— Venha, vamos esquecer toda esta história — disse com um súbito entusiasmo. — Juntos, vamos preparar bandagens. . . Depois, para consolá-lo, eu lhe darei um doce de flor de farinha, perfumado com anis. . . Estou certa de que nunca comeu nada igual. Foi feito no acampamento dos cruzados por uma amiga nossa que encarregou Landry de nos trazer alguns. Eles são muito bons.

E saiu com a criança.

 

Quando Landry e seu tio voltaram de sua visita ao porto, que quiseram conhecer, pensando na próxima partida para Cízico, mostraram-se profundamente tocados pela extrema pobreza do lugar e pela sujeira de algumas ruas por onde tiveram que passar para chegar ao cais.

— Senhor Deus! Que cidade curiosa — exclamou Landry. — Vemos palácios maravilhosos e, não longe deles, quase ao alcance da mão, pardieiros beirando ruelas sórdidas cheias de lixo! Ao longo de sua famosa avenida, a Mesê, as casas são em mármore, bem como os pórticos que as decoram e há apenas fachadas esculpidas e enfeitadas; mas nas proximidades do porto, as moradias são de madeira apodrecida e algumas se mantêm de pé por mero hábito. Parece que, à noite, as ruas ficam cheias de ladrões e se transformam em lugares extremamente suspeitos.

— O que está dizendo, meu sobrinho, é válido para todas as grandes cidades — corrigiu o padre Ascelino. — Você se recusava a acreditar quando eu lhe falava das contradições de Bizâncio. Agora está obrigado a reconhecer que eu tinha razão, mas não caia no extremo oposto e não fique indignado com o que viu. Acontece a mesma coisa em Roma e em outros lugares.

— Certamente tem razão — admitiu Landry, com seu sorriso maroto. — Mas esta manhã deixou-me um pouco desgostoso com Constantinopla. Agora tenho vontade de partir ainda mais rápido!

— Por minha salvação, você tem toda razão — aprovou sua avó. — Não vamos mais perder tempo nesta cidade. Nossa coragem e nossa fé correm também o risco de esmorecer. Já que estou em vias de me curar, estou pronta, como vocês, a retomar o caminho em sua companhia.

Alguém, querendo assinalar sua presença, bateu palmas atrás do reposteiro que separava a sala do quarto de Berta. Alaís, que se encontrava com Landry perto da passagem que ligava os dois aposentos, levantou a tapeçaria. O que viu a surpreendeu tanto, que deu um leve grito, recuando contra a parede.

Um homem apareceu na soleira. Alto e magro, o rosto imberbe, a cabeleira negra anelada com cuidado, vestia uma túnica justa e longa em seda cintilante, onde se viam todos os tons de rosa, malva e violeta, bordada de plumas e de flores estilizadas. Na ponta de uma corrente longa e pesada, brilhava em seu peito, como um olho de ciclope, uma grossa medalha de ouro na qual estava engastado um vidro talhado de cor vermelha, lançando reflexos incandescentes.

Padre Ascelino foi o primeiro a recuperar a presença de espírito. Ele se dirigiu ao recém-chegado e imediatamente o saudou.

— Estamos muito honrados, senhor prefeito da Canicléia, que tenha vindo visitar pobres peregrinos como nós. . . — disse ele.

Gabriel Attaliate levantou uma das mãos, cheia de anéis.

— Do alto da Cruz, as cabeças não têm a mesma altura? — disse com um sorriso amável. — Sem contar que o caminho para a libertação do Santo Sepulcro os torna certamente mais santos que muitos de nós.

Ele se inclinou diante de Berta a Atrevida, que reinava em seu leito como se estivesse sob um dossel, e dirigiu um cumprimento elegante a cada uma das três irmãs. Em seguida pôs-se a falar do Palácio Imperial, onde morava, e de suas incontáveis maravilhas. Sentado numa das cadeiras de pés cruzados, expressava-se num latim perfeito, com uma afetação tão distinta, que seria preciso muita grosseria para ofuscá-lo.

Padre Ascelino e ele conduziam a conversa. Berta não compreendia uma palavra do que se dizia e os outros escutavam. Ao final de alguns instantes, o eunuco levantou-se.

— A hora da refeição não deve tardar — disse. — Devo partir. Entretanto antes de deixá-los, muito a contragosto, acreditem, devo lhes apresentar, da parte de minha irmã, um pedido que só venho transmitir devido à sua insistência. Seu filho Pascoal, que ainda é uma criança, prefere, às vezes, vir vê-los a estudar com o preceptor encarregado de dirigir sua instrução a domicílio, fora do horário da escola. Ele acha mais divertido estar em vossa companhia do que decorar Homero. É claro que há muito para aprender com pessoas que já viajaram e viram tanto, mas Icásia quer que seu segundo filho seja preparado para a grande carreira que ela ambiciona para ele. Ela pede, portanto, que não o recebam mais aqui.

Um embaraço, apenas comparável a uma rede de caça caindo sobre uma perdiz em pleno vôo, tomou conta de todos os ocupantes do aposento.

— Nunca mais? — perguntou Flamínia.

— Infelizmente não.

— De qualquer maneira, partiremos dentro de alguns dias — disse Berta a Atrevida levantando um queixo agressivo quando, a pedido seu, Brunissen lhe traduziu as palavras do visitante. — Nossos preparativos de viagem serão suficientes para nos ocupar. Tranqüilize sua irmã: de hoje em diante, os estudos de seu filho não serão mais interrompidos por bisbilhotices intempestivas!

Padre Ascelino reconduziu Gabriel Attaliate até a porta da grande sala.

— Minhas sobrinhas haviam se apegado ao menino — murmurou, ao chegar à soleira da pequena casa. — Encontrando-se afastadas dos seus hábitos, da sua vizinhança e da maior parte de seus amigos, buscam afeto onde quer que ele se apresente. . .

— Justamente! — respondeu o eunuco, olhando seu interlocutor diretamente nos olhos. — justamente! Eis aí toda a questão!

E partiu a passos largos.

Os empregados, que traziam as cestas e as bandejas com a refeição do meio-dia, passaram por ele quando já virava a primeira curva da longa alameda que conduzia à morada proibida aos francos.

Estes comeram, sem entusiasmo algum, a comida mandada por Icásia.

— Não posso imaginar o que essa mulher tem contra nós — observou Brunissen, ao final de um longo tempo em silêncio — mas nada parece ser capaz de cativá-la. Que Deus me perdoe, mas ela nos trata como pestilentos!

— Certamente devemos sê-lo a seus olhos — admitiu Landry, o único a quem a cena não cortara o apetite. — Pestilentos, talvez, bárbaros, certamente! Pois bem, azar! Não precisamos dela, nem de seus preconceitos!

— Ela é a única da família a se comportar desta maneira — corrigiu rapidamente Flamínia. — Não seria justo esquecer a bondade dos outros.

— Ninguém pensa em negá-lo — respondeu Brunissen. — Mas também é verdade que, a partir de agora, me sinto desconfortável sob este teto. Graças a Deus partiremos em breve.

— É preciso não contar esta maldade a Teófano Danielis—disse padre Ascelino. — Ele ficaria muito zangado com sua nora. . .

 

Dois dias mais tarde, Berta foi novamente acometida de dores. Foi acordada ao amanhecer por uma congestão sangrenta e um sofrimento cruel.

A pedido de Andrônico, o professor armênio voltou e prescreveu uma dieta mais rigorosa. Durante seis dias, a paciente só poderia beber água de bagaço de uva doce.

A ansiedade e a prostração tomaram conta da família do pergaminheiro: a partida dos cruzados se tornava iminente.

Na véspera do dia fixado para o embarque das tropas e dos peregrinos, foi preciso tomar uma decisão.

Reuniu-se um conselho, ao redor da cama da doente, a fim de resolver o futuro. Cada um expôs, por sua vez, sua maneira de pensar. Quando chegou a vez de Flamínia, que encontrara um jeito de falar por último, ela dirigiu à avó um olhar endurecido por uma determinação feroz.

— Todos aqui — constatou ela com uma voz surda — desejam perseverar, continuar a peregrinação até a Terra Santa. Nossa avó sabe e compreende bem isto. Também eu. Mas o meu coração me retém aqui, perto dela. Eu ficarei em Constantinopla. Eu cuidarei dela com Alberade. Estou persuadida de que Teófano Danielis não se oporá a que nós três permaneçamos aqui. Por Deus Todo-Poderoso, estamos em sua casa e é ele quem decide! Só partiremos quando nossa avó estiver completamente recuperada, capaz de retomar o caminho para Jerusalém.

 

                                             25 de junho a 30 de outubro de 1097

 

Sob a barraca onde se cuidava dos feridos, o calor de junho era insuportável. Pairava um cheiro de sangue, de febre, de pus, de dejeções por detrás das lonas de cores vivas. Era preciso espantar ininterruptamente as moscas que teimavam em voar ao redor dos homens deitados. Este ofício fora destinado às crianças, com a ajuda de caça-moscas emprestados aos gregos ou tomados aos inimigos.

Sob a direção de três nobres senhoras, religiosas, freiras-médicas e diversas mulheres trabalhavam ali.

Brunissen e Guibourg, a fiel e gorda amiga reencontrada com todos os outros companheiros na partida de Constantinopla também participavam. Alaís, que conseguira ser admitida no círculo das relações de Boemundo de Tarento, também estava lá, mas com um objetivo bem menos desinteressado que o de sua irmã mais velha. Graças à interferência de Landry, que entendia melhor do que ninguém de negociações desse tipo, ela conseguira ser nomeada leitora de Mabille, a meia-irmã trazida pelo chefe dos normandos da Sicília.

— Veja, minha querida — disse Brunissen à irmã mais nova, enquanto caminhavam juntas, os braços carregados de curativos —, veja bem o que está acontecendo agora. Não é maravilhoso ver mulheres tão nobres e poderosas, vindas de regiões tão diversas, se darem as mãos para nos aconselhar e ajudar num lugar como este? Não é a melhor prova da solidariedade dos cruzados? Não é um espetáculo raro este acordo feito pela dedicação e pelo amor ao próximo?

Alaís sorriu e baixou os olhos. Mais do que Brunissen, ela conhecia as rivalidades que existiam entre alguns dos peregrinos, mas preferia se calar. Também era verdade que, frente aos turcos e às suas crueldades, havia uma união contra o inimigo no acampamento dos cristãos. Com um simples gesto de assentimento, ela se dirigiu a um pobre rapaz que sofria muito por causa de uma flecha recebida no peito.

Apesar dos lamentos, dos gemidos, o sangue que se espalhava com uma abundância assustadora e manchava roupas, lençóis, mãos e até os rostos dos que cuidavam dos feridos, apesar da apreensão lancinante sentida por Landry, servindo na corporação dos besteiros, apesar das amargas lembranças da separação da avó que, com Flamínia, ficara em Constantinopla, apesar da imensa piedade que sentia pelas vítimas de um cerco sem perdão, Brunissen não estava infeliz. Dos primeiros combates vitoriosos do exército de Cristo contra Nicéia, ela tirava uma alegria velada, uma gratidão, que a ajudavam, nesse início de vida guerreira, a suportar os tormentos e as aflições.

Na passagem, ela saudou a condessa de Toulouse, morena, jovem e bonita esposa de Raimundo de Saint-Gilles. Filha de uma concubina de Afonso VI, rei de Leão e Castela, esta Elvira era a terceira mulher do conde, que já passara há muito dos cinqüenta anos, mas seduzia ainda por seu porte patrício e seu enorme garbo. Dizia-se entretanto que esta mais nova conquista seria certamente a última, tal a paixão do conde pela moça.

Não longe dela, Godvera de Toeni, cunhada de Godofredo de Bouillon, o bom duque da Baixa-Lotaríngia, inclinava seu rosto pálido, emoldurado por trancas de um louro-acinzentado, amarradas com fitas azuis. Ela seguira o marido Balduíno de Bolonha com seus filhos pequenos, mas não parecia absolutamente feliz junto a um homem duro e ambicioso que chamava a sua atenção, às vezes em público, por não saber se mostrar, como ele, tão paciente com as dificuldades. De uma bravura tenaz, tão obstinado no campo de batalha quanto inteligente e ávido, este irmão mais novo de Godofredo, que não possuía porém o seu brilho, fora primeiramente destinado ao sacerdócio, antes de abandonar o estado eclesiástico para se consagrar às armas. Dizia-se no acampamento que, se trouxera consigo mulher e filhos, era porque tinha em vista alguma aliança frutuosa na Terra Santa. Mas talvez fosse pura maledicência. . .

A terceira dama, Mabille, a meia-irmã de Boemundo, grande e forte, vendia saúde. Alaís acompanhava com recente docilidade aquela normanda da Sicília, bela e atrevida, cujas longas trancas, de um louro tão claro que tinha até mesmo reflexos prateados, traíam as suas origens vikings ainda próximas. Era uma criatura de paixões, de violências, de impulsos, de raivas tão devastadoras quanto seus caprichos amorosos eram atrevidos. Servi-la não seria, certamente, uma missão repousante, pensou Alaís, mas por outro lado, estar em sua companhia nunca será entediante, e além do mais ela possibilitava a aproximação com seu querido Boemundo!

Aquelas três nobres damas, todas jovens, fizeram questão de partir com seus maridos ou irmãos. Como muitas outras, das mais diversas condições, participavam tanto quanto possível das ações e das provações dos homens.

Até então, na companhia das freiras-médicas, eram pródigas em cuidados e dedicação aos feridos e doentes. Munidas de longas agulhas de ouro que utilizavam para cuidar das feridas, eram acompanhadas de ajudantes que carregavam bandejas, cheias até a borda. Aí era possível encontrar rolos de curativos, pacotes de fios, pinças, jarros de água quente, caixas de ungüentos, elixires, ervas medicinais, esponjas impregnadas de suco de plantas com propriedades narcóticas, destinadas a fazer dormir os pacientes antes das operações, e frascos de vinagre aquecido, utilizado para acordá-los depois.

Os padres circulavam igualmente por entre as esteiras penduradas em ganchos, suspensas entre duas peças de madeira. Eles não estavam ali pelos corpos mortificados, mas pelas almas aflitas. Conversavam com alguns feridos, rezavam com outros, confessavam os que desejavam. Foucher de Chartres estava entre eles. Sentado sobre um escabelo, perto de um leito onde jaziam três feridos lado a lado, escutava-os contar, sob a excitação provocada pela febre, as horas e agruras do cerco de Nicéia, que já durava cinco semanas.

As tropas de Roberto Courteheuse, de Hugo o Bastardo, irmão do rei de França, e as de Estêvão de Blois haviam chegado por último ao acampamento que os cruzados haviam montado junto às muralhas da cidade, chamada pelos bizantinos de "a pérola da Bitínia". Após terem se juntado aos outros exércitos, eles haviam ocupado a leste de Nicéia o lugar que lhes fora destinado, entre os soldados de Roberto de Flandres e os de Raimundo de Saint-Gilles, conde de Toulouse e esposo de Elvira, que comandava mais de dez mil homens a pé e mais de mil cavaleiros. O basileu ficara para trás, em Pelecano.

Vindos do Norte ou do Sul, das brumas flamengas ou das terras ensolaradas do Rouergue, todos os cruzados estavam agora acotovelados para sitiar "sua" primeira cidadela inimiga. Era com um único olhar decidido e vingador que eles contemplavam as duzentas e quarenta torres pontuando as muralhas de pedra ocre e tijolo rosado artisticamente enfileiradas, refletidas nas águas límpidas do lago Ascânio. Situado ao este da cidade, do lado onde o crepúsculo incendiava cada noite as ondas tranqüilas que protegiam a cidade turca, este lago tinha impedido, no começo, que os sitiadores concluíssem o seu cerco, como necessário.

— Sou forçado a reconhecer, meu pai — disse a Foucher de Chartres um dos feridos, de trinta anos, que estava cabisbaixo e tinha um curativo ao redor da testa — que sem os gregos não teríamos nunca conseguido investir sobre Nicéia! Foram os seus barcos que nos ajudaram!

— Imagine só, meu pai — continuou seu vizinho um moleiro gordo de tez muito clara, como se a farinha de seu moinho tivesse, com o tempo, se infiltrado em sua pele, e que tinha um ferimento de espada abaixo do ombro —, imagine que astúcia! Certa noite, foi decidido de comum acordo que fosse mandado até o porto mais próximo, o de Cízico, um bom número de cavaleiros e de soldados a pé. Eles estavam encarregados de trazer, por terra, em charretes atreladas umas às outras em grupos de três ou quatro, segundo as necessidades, os barcos cedidos pelo basileu às tropas. Foi uma verdadeira proeza arrastar por sete milhas de estradas, por meio de cabos, de cordas de cânhamo, de correias de couro, aqueles barcos enormes que podiam carregar até cem guerreiros cada! Homens, bois e cavalos despenderam um esforço difícil de imaginar!.

— Navios que andam! Seria preciso assisti-lo para acreditar! — disse o terceiro ferido, um belo rapaz com um corte que descia da têmpora até o maxilar, devido a uma cimitarra turca que o desfigurara da maneira mais hedionda. — Ao amanhecer, quando viram aquelas naves flutuando sobre as águas do lago, nossos cruzados transbordaram de alegria! Os sarracenos, por sua vez, ficaram estupefatos!

— Após esta façanha — continuou febrilmente o homem moreno que parecia falastrão — nossos senhores decidiram se aparelhar para o cerco, construindo torres de madeira muito altas, tortas, abrigos feitos com armações de vime, recobertos de peles de animais tiradas recentemente para que não se queimassem, balistas e instrumentos que serviam para lançar pedras sobre as muralhas. Todos os meios foram empregados.

Foucher de Chartres soube logo que o homem que lhe falava se chamava Pedro Bartolomeu. Era criado de um tanoeiro de Narbona que, segundo ele, lhe pagava mal, o que justificaria a sua inclinação para os dados e as mesas de jogo. . .

— Também nós começamos a minar as muralhas, mas muitas das tentativas visando a tomada da cidade já fracassaram — reconheceu o jovem com o rosto lanhado, cujo ferimento, horroroso, apenas começava a cicatrizar.

— Se os gregos nos ajudaram no transporte dos barcos — retomou o moleiro com ar rancoroso — no ano passado, no entanto, foram capazes de abandonar à própria sorte os companheiros de Pedro o Eremita e de Gualtério Sem Ter! Para vir até aqui precisamos seguir, para além de Nicomédia, a estrada que eles tomaram no outono. Que horror! Uma quantidade de ossadas esbranquiçadas balizava o nosso caminho. Só havia membros descarnados, cabeças cortadas, esqueletos esquartejados pelos animais selvagens! Tantos cristãos massacrados pelos turcos e deixados ali, sem sepultura, como cachorros!

— Deus nosso, tende piedade de suas almas e leve-as ao Vosso paraíso! — implorou o lanhado. — Não resta quase nada desta multidão de pés-descalços, de pobres-diabos, que o Pequeno Pedro, tendo ele mesmo escapado da matança, arrastava atrás de si desde o reino de França! Inocentes, pessoas simples, vindas sem qualquer preparo, ignorando a arte de usar bem uma espada ou uma sólida besta. Foram mortos como cordeiros indefesos, com selvageria, pelos inimigos do Cristo. . . Quando, mais tarde, por ordem do seu imperador, os navios gregos encarregados de expulsar os turcos chegaram a Cízico, à beira-mar, encontraram apenas alguns sobreviventes. Entre milhares e milhares de peregrinos, bem poucos, veja só, bem poucos escaparam da matança. . . Algumas raparigas bonitas ou belos rapazes foram poupados e levados para longe. Não é preciso nem mesmo perguntar com que finalidade!

O ferido cuspiu no chão com fúria e repugnância.

— É lastimável! — suspirou Foucher de Chartres. — Eu soube que algumas religiosas também foram raptadas pelos infiéis! Aqui mesmo, em Nicéia, aprisionadas e submetidas a tratamentos inimagináveis. Deve haver ainda algumas destas tristes vítimas, que os turcos acharam melhor não levar para mais longe.

— Nós as libertaremos junto com nossos outros irmãos, os cristãos do Oriente, aqueles cristãos indígenas recentemente conquistados pelos sarracenos e que os detestam tanto quanto nós. Eles estão pedindo a nossa ajuda e nos receberão como libertadores! — gritou o soldado desfigurado, levado por um enorme ardor.

— Nicéia só foi perdida pelos bizantinos há pouco — retomou o moleiro. — Há cerca de quinze anos, me disseram. Mas, para os gregos, esta derrota permanece como um dia de luto e desolação!

Foucher de Chartres ergueu veementemente a mão:

— Nicéia é bem diferente de uma cidade comum, derrotada ou conquistada! — exclamou, inflamado. — Nicéia é uma cidade sagrada! Já abrigou vários concílios no passado. Especialmente, há oito séculos, durante os idos de junho de 325, o concilio em que foi confirmada a Santíssima Trindade!

Ele fez o sinal-da-cruz e seus auditores o imitaram com devoção.

— Na mesma ocasião — continuou — os pais da Igreja definiam o nosso Credo e o imperador Constantino o proclamava como lei do Império! É o resumo de toda nossa fé, chamada presentemente de Símbolo de Nicéia, que nasceu neste lugar. Nós o conhecemos de cor. Todos. Pois bem, meus irmãos, meus amigos, proponho que o recitemos juntos, soldados e peregrinos, quando for dado o sinal para o assalto final!

Sua voz vibrante se elevara, dominando os ruídos que o cercavam. Ao ouvi-la, todos sob a barraca ficaram imobilizados, como se tocados pela passagem do Espírito.

— Nicéia ocupada pelos turcos é uma ferida na alma de todo cristão digno deste nome! — garantiu, de sua parte, Mabille, a irmã de Boemundo de Tarento. — Tanto pior para os gregos que aceitaram vê-la submissa ao Islã! Aos nossos olhos, deve ser um escândalo. Um tal escândalo que apenas o sangue, um sangue impuro derramado por nós, conseguirá lavar a sua marca na terra e nos céus!

Ela tinha um olhar verde-água que, nos seus momentos de indignação, adquiria uma dureza glacial.

— Por meu santo padroeiro, não desejo a ninguém cair nas garras desta tigresa — murmurou o moleiro ao ouvido de Foucher de Chartres, que sorriu mas nada respondeu.

— Seu irmão e todos os membros da sua família são da mesma espécie — murmurou Pedro Bartolomeu com voz prudente.—Nós, os provençais, não gostamos nada destes normandos da Sicília. Nada é capaz de satisfazer a sua cobiça. Além disso, são guerreiros terríveis que não temem a ninguém. O basileu os teme tanto ou mais que os turcos e os árabes juntos! Mas agora que se tornaram aliados, foi obrigado a compor com eles e deixar suas tropas combaterem lado a lado. Na verdade é um milagre bastante curioso esta homenagem que Boemundo prestou ao imperador. Existe aí alguma coisa suspeita, talvez até mesmo diabólica... Ora, afinal caímos todos na mesma armadilha. . . Agora que essa gente tomou a cruz como nós, não nos resta mais que aceitá-los como são. . .

— Conta-se no acampamento que o senhor Boemundo, antes de ser cruzado, estava decidido a levar mais longe as conquistas de seu pai, aquele Roberto Guiscard vindo da Normandia sem eira nem beira para estabelecer um reinado na Sicília, em Pouilles e na Calábria — retomou a meia voz o lanhado. — Segundo alguns mexericos, Boemundo pensaria em destruir a pujança bizantina para fundar em seu lugar um império normando, englobando boa parte da costa e das ilhas do Mediterrâneo. Para mim, que venho de Calais, onde esta família é desconhecida, estas histórias me parecem inverossímeis.

— Talvez não sejam tanto quanto imagina — disse Foucher de Chartres. — Quem conhece Boemundo de perto, sabe que é capaz de muitas coisas. . . Ele é inteligente, ambicioso, bravo e ardiloso. . . Por outro lado, tem várias desforras a tirar. . . Um de seus meio-irmãos e seu tio já reinaram na Sicília e no sul da Itália. Ele é o único filho de uma primeira mulher, modesta normanda que não era nobre, enquanto os outros filhos de Roberto Guiscard nasceram de uma princesa lombarda casada em segundas núpcias, muito mais lisonjeiras que as primeiras! Um ciúme feroz levou Boemundo a lutar contra seu irmão mais novo, a quem seu pai, ao morrer, deixara o ducado de Apúlia. Ele o venceu e tomou Tarento, donde seu nome, e mais um pedaço nada desprezível do salto da bota italiana. Seu tio Rogério teve muita dificuldade em conseguir uma trégua entre os dois irmãos. Eles já estavam reconciliados, quando Boemundo tomou conhecimento do enorme movimento que levava para as estradas nossos soldados de Cristo. Imediatamente decidiu se alistar e se juntar, com os lombardos, às nossas tropas.

— Ele é um bom cristão? — cochichou o moleiro. — Permito-me dizer que, se era aliado do papa na Itália, poderia muito bem negociar também com os turcos aqui, se tivesse interesse.

Foucher de Chartres colocou um dedo sobre os lábios para recomendar silêncio ao sujeito. Depois de algum tempo, ele observou que Alaís demorava um pouco para dar de beber a um ferido, não longe do grupo em que se encontrava. A recente incorporação da jovem chartrense ao séquito de Mabille, irmã deste mesmo Boemundo de quem tanto se bisbilhotava sob as barracas de lona, o havia rapidamente intrigado. Ele observava a artimanha da moça, perguntando-se se Mabille não a engajara com a finalidade de obter informações sobre as diversas correntes de opinião que poderiam se manifestar durante a ocupação de Nicéia, a favor ou contra seu irmão. Ele conhecia a estreita ligação que existia entre Mabille e Boemundo mas, por outro lado, não compreendia as razões que pudessem ter tornado Alaís favorável a esta casa de Sicília, da qual ele mesmo desconfiava por ter tanto ouvido falar através do conde de Blois e do duque de Normandia, em termos que nem sempre eram confiáveis, muito pelo contrário!

Alaís se ergueu, sorriu para o monge com toda a inocência possível e se afastou com passo ligeiro. No fundo do seu coração, ela zombava das criticas que porventura chegava a ouvir sobre seu herói. O mal que se pudesse dizer dele, revelava apenas a inveja que um homem tão excepcional certamente suscitaria ao seu redor.

Depois de alguns dias junto à casa de Mabille, já tivera diversas ocasiões de encontrar aquele que preenchia os seus pensamentos. Ele não parecia se interessar por ela, mas esta constatação não fazia a menor diferença para a adolescente e, ao contrário, a tranqüilizava. Para estar contente, bastava que o visse de longe, cruzasse com ele, ouvisse sua voz que lhe tocava no íntimo. . . O que importava se ele reparasse nela ou não, desde que pudesse se alimentar da sua presença. . .

Algumas pessoas, homens invejosos ou mulheres desdenhosas, pensava Alaís, espalhavam, é verdade, histórias curiosas sobre Boemundo, o que era neutralizado pela admiração que muitas outras lhe dedicavam. Elogiava-se sua coragem, sua força, seu ardor, tanto no combate quanto na cama, sua habilidade, suas qualidades de chefe, sua ascendência sobre as tropas, sua experiência sempre presente, sua audácia às vezes um pouco exagerada, quase sempre justificada, seus dons de estrategista e de organizador. . . Não fora ele quem encontrara uma maneira de reabastecer o exército dos cruzados quando os víveres, no começo do cerco, faltavam de maneira tão cruel?

Se seu sobrinho, Tancredo, que também agradava às mulheres, era mais jovem, como parecia menos poderoso, menos viril, menos protetor aos olhos de Alaís! Cada encontro com Boemundo despertava em seu corpo jovem ondas de prazer e de medo confundidos. . .

— E então, minha criança, estamos sonhando?

Mabille, rindo, apostrofava sua nova leitora que estremeceu, se desculpou e se precipitou para apanhar a água que lhe fora pedida.

Subitamente, os panos de lona que fechavam as barracas se abriram.

— Os combates recomeçaram nas portas de Nicéia! — gritou um homem que, em seguida, partiu novamente correndo.

— Que tristeza! — suspirou Godvera de Toeni, a esposa de Balduíno de Bolonha — que tristeza! Durante quantos dias ainda precisaremos ouvir este chamado!

Doce e tranqüila, a cunhada de Godofredo de Bouillon parecia sofrer mais do que muitos outros com as violências geradas pelo sitiamento.

— Rezemos a Nossa Senhora para que os arqueiros turcos não tenham sucesso, desta vez, em ferir muitos dos nossos — disse com gravidade a condessa de Toulouse, juntando as mãos. — Resguardados de seus assassinos, se lançam em tiros cruzados sobre nossos soldados que, por sua vez, não podem atingi-los, e eis a felonia! Quando é que aceitarão um novo combate a descoberto, como no dia em que meu esposo e senhor se entregou à batalha, na companhia de Roberto de Flandre e de Godofredo de Bouillon, contra o exército do sultão, levando-o à derrota!

Era um estranho espetáculo, aquela jovem e bela mulher, de traços puros como os de um ícone, de longas trancas brilhantes escapando do leve véu branco que lhe cobria a cabeça, de pé em atitude de oração, entre os leitos de campanha onde jaziam homens ensangüentados.

Devido ao calor que reinava sob a barraca, a condessa Elvira usava, como todas as suas companheiras, uma simples túnica de baixo, em linho, com mangas compridas e removíveis, costuradas todas as manhãs para que fosse possível retirá-las segundo as necessidades. Durante algum tempo as túnicas tradicionais foram substituídas por aquela espécie de camisola de baixo, da qual geralmente se viam apenas a barra e os punhos. Amarradas por cordões ao redor das cinturas esbeltas ou grossas, as túnicas eram protegidas na frente por longos aventais de lona rústica, respingados de manchas marrons e vermelhas. Elas também desenhavam, de maneira mais precisa que as túnicas tradicionais, as formas daquelas que as usavam.

Esse detalhe não escapara a Pedro Bartolomeu, que se interessava muito pela espécie feminina. No momento em que Alaís passava novamente perto dele, estendeu a mão e agarrou uma ponta do seu avental.

— Ei, doce amiga — disse ele, olhando com desejo aqueles belos seios revelados pelo tecido que o suor colara ao corpo adolescente — doce amiga, tenho sede. Será que poderia me servir um pouco de água?

— Eu nunca recusei água a quem me pediu! — respondeu a jovem, sorridente. — Vou buscar.

Ela já reparara naquele ferido do Linguadoque, de pele escura, com um nariz longo de cão de caça, olhos pequenos e sombrios mas galhofeiros, cujo curativo ao redor do crânio não parecia impedir de reparar em todas as jovens graciosas que passassem ao seu alcance. Logo incumbiu um dos filhos de Godvera, que rodopiavam por entre os baldes, de apanhar a água e levá-la num copo para o sedento. Depois voltou para junto de Mabille, que ajudava um monge-médico a extrair a ponta de uma flecha presa à coxa de um ferido.

Alaís, como todas as suas companheiras, precisou se habituar à guerra, à visão e ao contato diário com o sofrimento, as feridas, os corpos mortificados,esfolados, retalhados, escaldados, esmagados. . . No começo, sentira-se mal várias vezes. Agora, quando era tomada pelo horror, rezava à Santa Mãe de Deus para que lhe desse força e coragem para ajudar aqueles que trabalhavam para o Cristo, enfrentando sem descanso os inimigos da Verdadeira Fé.

No momento em que se reerguia, após ter aplicado uma compressa de pétalas de lírios conservadas no vinho, encarregada que fora de prensar as carnes dilaceradas por uma ponta de ferro aguda que acabara de ser extraída de um ferido, gritos vindos da entrada lhe causaram um sobressalto. Alaís virou-se.

De pé sobre a soleira, tendo na mão esquerda um pedaço de lona levantada, Boemundo brandia, com a direita, uma cabeça de sarraceno, cortada rente ao pescoço.

— Por todos os diabos que são seus amigos, eis aqui mais um subordinado de Satã que não nos gritará mais insultos nem blasfêmias dentro de suas muralhas! — gritou, às gargalhadas. — Esses cachorros não param de insultar o nosso Cristo!

Todos o olhavam, petrificados. Sabia-se que, durante a primeira batalha vitoriosa que tivera lugar alguns dias antes contra os turcos pelo conde de Tolosa e os outros barões cruzados, alguns soldados haviam cortado as cabeças dos mortos e certamente também de alguns feridos. Em seguida prenderam-nas às correias de suas selas para levá-las ao acampamento. Haviam pendurado algumas na ponta de suas lanças, enquanto catapultavam as outras além das muralhas de Nicéia, em território inimigo, para impressioná-los e fazê-los pagar pelos massacres de cristãos cometidos no passado. Um dos chefes, não se sabia exatamente qual, tivera até a idéia de mandar ao imperador Alexis, como oferta e em testemunho da vitória, sacos de couro contendo mil outras cabeças de seus adversários comuns, cuidadosamente degoladas. . . Esse macabro presente fora mandado em charretes e depois em barcos até chegar ao basileu. Não se sabia ainda o que ele achara disso...

— Deus me perdoe, mas fez muito bem, meu irmão! — exclamou Mabille, cujos olhos verdes se arregalaram como os de uma gata. — É preciso vingar nossos mártires! Ontem pela manhã, vi um dos nossos que se aproximara imprudentemente das malditas muralhas, lutando contra um cavaleiro turco. Assim que desabou no chão, ferido pelos golpes do seu agressor, foi atingido por aqueles abomináveis ganchos de ferro que são obra do demônio. Do alto das fortificações, os sarracenos içaram-no com cordas até onde estavam, tiraram toda a sua roupa, para jogar depois no fosso o seu pobre corpo dilacerado e nu que ainda palpitava!

Boemundo cuspiu e jogou no chão coberto de palha suja a cabeça esgazeada, que rolou na direção de uma das camas, cujos pés pararam o seu movimento. . .

— E preciso entregá-la aos nossos molossos para que se divirtam — disse ele, quebrando o enorme silêncio que se estabelecera.

Brunissen se benzeu, pedindo a Deus que perdoasse o descrente por sua teimosia e Boemundo pela fúria de seu comportamento. . . Assombrada, Alaís contemplava seu herói. Se sua sensibilidade fosse mobilizada como a de sua irmã diante de tão grande crueldade, a certeza que tinha de estar ao lado dos justiceiros, no campo em que a causa sagrada era a do próprio Cristo Senhor, a inclinava para uma aceitação matizada de indulgência. No entanto uma outra parte dela, a mais instintiva, fraquejava, perturbada por uma profunda atração carnal que a empurrava para Boemundo de maneira irresistível, além das fronteiras do Bem e do Mal...

Aquele homem exercia sobre ela um fascínio contra o qual não conseguia se defender. Ele a cativava. . .

Com os olhos dilatados, ela se deleitava em vê-lo. Ele era tão alto que ultrapassava de quase meio braço os seus companheiros maiores. Magro, com o pescoço, os ombros, o peito e os braços soberbamente musculosos, sob a cota de malha que lhe caía até os joelhos e sob o escudo de couro enfeitado de placas de metal, anéis e tachas, ele aparentava, para Alaís, ser forte como um carvalho e leve como um pinheiro silvestre. A espada embainhada, um punhal enfiado no cinto largo, um manto curto escarlate preso por um fecho de ouro ao ombro esquerdo, era a própria imagem da valentia. De pele clara, lábios vermelhos, bem desenhados, ele usava os cabelos curtos, cortados acima das orelhas, de um louro-branco semelhante aos de sua meia-irmã. Como havia retirado o seu elmo de aço escurecido, suas mechas claras como palha após a colheita brilhavam sob os raios do sol que se introduziam através das lonas mal-arrumadas. Bem barbeado, ao contrário dos guerreiros francos que usavam barba, ele adquiria, apesar dos seus quarenta anos, um certo ar de juventude graças às faces lisas e luzidias como o mármore das estátuas antigas. Seu nariz reto, suas narinas móveis, seu queixo voluntarioso compunham um rosto digno dos mais célebres escultores gregos. Mas esta harmonia de traços era iluminada por um olhar azul ou verde, segundo o momento, que podia se mostrar sedutor como o de um rapazola, ou duro como um pedaço de vidro. Selvageria e charme, sensualidade e inteligência, coragem e habilidade iam, por sua vez aparecendo. Boemundo era assim, corpo e alma, fazendo de suas contradições as suas melhores armas.

Repentinamente, ele partiu, com uma gargalhada sonora que fez estremecer Alaís, arrancando-a da estranha ascendência que aquele homem, desde o primeiro instante que o vira, exercia sobre ela.

— Estou faminto — disse. O combate de há pouco me abriu o apetite. — Vamos, Mabille, venha gentil dama, deixemos esta pobre gente. Venha cear comigo.

Não se podia discutir uma ordem de Boemundo. Sua meia-irmã não sabia lhe recusar obediência e submissão — e só a ele — ao menos no que não se referia a seus caprichos amorosos. Na maior parte das vezes ela aceitava se dobrar às suas decisões.

Alaís, cujas funções a mantinham no séquito de Mabille, aproximou-se de Brunissen para lhe desejar boa noite. Ela a encontrou perto do leito de uma criança que recebera uma saraivada de pedras do alto das muralhas. Toda esfolada, com o braço quebrado em dois lugares, era de fazer pena.

— Devo ir com a senhora Mabille — disse a adolescente enquanto retirava seu avental, sujo de manchas escuras. — Gostaria de ajudá-la a cuidar deste pequeno, mas não posso. . .

— Guibourg está livre—respondeu Brunissen. — Ser precisar, pedirei que me assista.

Ela esboçou um sorriso um pouco triste.

— Toda a nossa família está dispersada — retomou com melancolia. — Você está aqui junto aos normandos da Sicília, Landry se juntou ao exército, Flamínia e a avó ficaram em Constantinopla, tão longe de nós... Graças a Deus, resta-nos o nosso tão caro tio para nos reunir ao seu redor sempre que possível e para escrever aos ausentes.

Ela suspirou, e depois se forçou a mudar de tom.

— Vamos, vamos, minha querida. Não se deve deixar que uma tão nobre dama espere tanto. . .

Alaís beijou-a e deixou-a fixando ao redor do braço quebrado tiras de lona molhadas na clara de ovo que endureceriam ao secar, mantendo assim no lugar os ossos quebrados, consolidados por talas de madeira.

Do lado de fora, o calor diminuía. Com a proximidade da noite, uma suavidade de leite fresco descia do céu sem nuvens, cujo azul começava a mudar de cor. Isto aliviava soldados e peregrinos, que durante todo o dia ardiam sob o sol de junho, dele se defendendo como podiam.

O gigantesco acampamento dos cristãos, composto de centenas de milhares de indivíduos, estava armado em formato de ferradura na margem leste do lago Ascânio e formava um círculo ao redor de Nicéia. Circundada por fossos profundos, a cidade ficava assim isolada dos agressores, mas o acampamento, também para a sua própria defesa, era cercado por um fosso cheio de água.

Com o fim do dia, os combates cessavam. Por toda parte, todos se ocupavam em preparar a refeição da noite. A fumaça subia das cozinhas volantes armadas a céu aberto. Odores de carne grelhada, de temperos, de assados, de azeite quente, de pastéis impregnavam o ar. . . Sobre o fogo de lenha, suspensos por bastões apoiados por estacas entrecruzadas, tachos e marmitas cozinhavam lentamente. Entre as brasas, estavam colocados morilhos ou tripés, sobre os quais as panelas e frigideiras de barro permaneciam no calor. Ali se assavam porcos e cordeiros inteiros, frangos e pequenos gansos, enfiados em espetos acionados com lentidão e precaução por crianças encarregadas de deixá-los dourar.

Ao redor das barracas de cores vivas e misturados à multidão, cachorros, galinhas com seus pintinhos, porcos pretos, carneiros e cabras seguidos por seus carneirinhos e cabritas se deleitavam com tudo o que podiam encontrar: tufos de capim, grãos, ossos, cascas, migalhas, qualquer tipo de detrito que valesse a pena pegar e disputar. Boemundo, Mabille e seus séquitos abriam caminho no meio daquela confusão, afastando impacientemente animais e mendigos que buscavam possíveis víveres.

Os carros de provisões, carregados de sacos de trigo, cevada, farinha, barris de azeite, peixes defumados, carnes-secas, tonéis de vinho, toucinho, cestas com legumes frescos ou secos e frutas, pequenas pipas cheias de mel, de vinagre, de agraço, formavam uma muralha alimentícia entre os peregrinos, o exército e os rebanhos de cavalos, mulas e asnos. Separados uns dos outros, corcéis de raça e animais humildes partilhavam diversos recintos cercados de cordas, com capim amarelo e pisoteado, marcando os limites do acampamento. Limites imensos, entre os quais se acotovelavam, se interpelavam, brigavam crianças que corriam entre as estacas das tendas, carregadores de água que voltavam do lago carregando nos ombros longas varas com cordas que sustentavam baldes em suas extremidades, homens bêbados que gritavam e cantavam, ferreiros que faziam sair faísca de suas bigornas, jogadores de dados ou de outros tipos de jogos de azar, proibidos mas impossíveis de controlar, moças fogosas com olhos pesados de tanta maquilagem, arrastando-se nos cantos mais sombrios e que ofereciam furtivamente aos passantes seus seios seminus, com olhares ávidos e provocantes. . . Limites imensos, acampamento imenso, confusão imensa. Ao redor de Nicéia, a perder de vista, o exército de Cristo e seus peregrinos faziam lembrar o êxodo do povo hebreu através do deserto. Ambos se lançaram, em meio à desordem, à obediência, à fé e à esperança, no caminho da Terra Prometida que, através dos tempos, continuava a mesma para todos, eternamente cobiçada e infinitamente disputada. . .

— Alaís! — gritou uma voz juvenil.

Perdida no enorme séquito que cercava Mabille e Boemundo, Alaís se virou. Ela viu Landry, com uma besta no ombro, voltando de uma de suas sessões de treinamento diário impostas aos novatos. A sua direita estava, irônico, Mateus de Nanterre, o barbeiro do navio que cuidara de Garin, e à sua esquerda, Herberto Chauffecire que, desde que Flamínia ficara em Constantinopla, parecia ter perdido o interesse pela família do pergaminheiro.

— Meu Deus! Você está em companhia muito estranha, meu irmão! — disse ela, rindo.

— Neste acampamento, por maior que seja, acabamos sempre por encontrar conhecidos — disse o barbeiro, com um ar satisfeito.

— Pensei que ainda estivesse no navio italiano onde o deixamos. Parecia tão contente em poder novamente exercitar sua arte!

— Por meu santo padroeiro, eu me cansei rapidamente! A vida a bordo não me agrada nem um pouco. Preferi vir ao encontro do meu antigo patrão, Hugo de Vermandois, o Malnascido.

— E ele o quis de volta depois de tê-lo abandonado?

— Penso que sentia falta dos meus cuidados! — disse o barbeiro, com uma boa gargalhada.

Boemundo havia parado para conversar com o general chefe do exército grego, que o imperador colocara à disposição dos barões francos. O general Tatikios era irmão-de-leite do basileu, que sabia poder contar com sua dedicação e sagacidade.

Todos, nos exércitos cruzados, desconfiavam dele. Era chamado de Homem do Nariz de Ouro. Na verdade, durante uma batalha no passado, ele sofrera um ferimento grave que o deixara desfigurado. Sua posição e sua fortuna permitiram-lhe confeccionar um novo apêndice nasal em metal precioso preso ao rosto mutilado com tiras de couro dourado. No meio do dia, quando o sol dardejava no zênite, o esplendor daquele nariz brilhante ofuscava seus interlocutores. Alguns chegavam mesmo a achar que tudo isso influenciava de alguma maneira seu sucesso.

O chefe dos normandos da Sicília e o homem moreno, seco, secreto, que mal alcançava seu ombro, conversaram durante algum tempo antes que o general se afastasse na direção do seu próprio acampamento.

Boemundo o seguiu com os olhos durante alguns instantes, a fisionomia dura e concentrada, sacudindo depois os ombros e dirigindo-se ao grupo formado por Alaís e os três besteiros.

— Gosto muito de risos ao meu redor — disse — mas prefiro conhecer o motivo deles. De que estava rindo, vassalo?

Ele se dirigira a Landry, de quem Alaís se aproximara instintivamente.

— De um encontro, senhor — respondeu o filho de Garin. — De um encontro duplo: o de um amigo que encontramos não faz muito tempo, no navio que nos levava da Itália à Grécia, e o de minha irmã gêmea a quem eu procurava há algum tempo.

Boemundo observou Alaís com um pouco mais de atenção.

— Por Santa Sofia — como diria Tatikios — por Santa Sofia, então você não é a nova leitora de minha irmã, linda donzela?

— É verdade, meu senhor — balbuciou a adolescente, cujo sangue parecia ter corrido todo para o rosto.

Boemundo sorriu. Ele conhecia bem o poder dos seus sorrisos e não costumava desprezá-lo.

— Decididamente o Senhor sabe arranjar as coisas — disse com ar divertido. — Hoje cedo matei uma boa dezena de incrédulos, e agora eis que cruzo com a mais graciosa das donzelas do acampamento! Louvado seja Deus por tanta benevolência!

Seu riso ficou mais forte, ecoou e dominou por alguns instantes os fortes ruídos que vinham da multidão agitada, cansada e, àquela altura, já irritada com a chegada da noite.

— Vamos! — retomou ele em seguida. — Vamos! Por todos os diabos, estou com fome e o meu cozinheiro, tanto quanto eu, não gosta de esperar!

Alaís fez uma careta de impotência para seu irmão e foi ao encontro das outras damas de companhia de Mabille.

Os três rapazes viram-na afastar-se na direção do acampamento dos normandos da Sicília.

— Quero ser enforcado se sua irmã não for devorada viva por este minotauro — disse o barbeiro com ar de despeito. — Uma só mordida lhe bastaria!

— Flamínia em Constantinopla, Alaís em Nicéia. . . está semeando suas irmãs em cada etapa do caminho, Landry, como se fossem contas de um rosário partido! — disse Herberto Chauffecire com amargura. — O caminho até Jerusalém ainda é longo e só lhe resta agora Brunissen. Veja bem se não vai perdê-la também!

— Flamínia e Alaís sabem se defender melhor do que possam imaginar, meus amigos — respondeu ele, cheio de segurança. — Não duvido das suas virtudes!

Diante das tendas maiores, enfeitadas com insígnias, estavam sendo arrumadas as mesas para os nobres e senhores poderosos, que não demorariam muito a cear. Nos outros lugares, sentados sobre montes de palha, sobre sacolas empilhadas, sobre pedras, ou mesmo sobre o capim que ficava mais chamuscado a cada dia, a massa de peregrinos e soldados mergulhava enormes pedaços de pão em escudelas onde fumegavam guisados, sopas ou caldos. . .

— Vou cear com meu tio, padre Ascelino, Brunissen, Guibourg e seu

marido Liébault, que eram vizinhos e amigos de nossa família em Chartres. Eles se juntaram a nós desde que saímos de Constantinopla — disse Landry que, fora dos horários dedicados ao serviço armado, ficava livre. — Se quiserem vir. . .

Mateus o Barbeiro e Herberto Chauffecire aquiesceram.

Em frente à tenda listrada de verde e vermelho ocupada pela família do pergaminheiro, uma jovem criada, trazida de Constantinopla para substituir Alberade, arrumava sobre dois cavaletes três pranchas de madeira utilizadas como mesa. Logo foi recoberta por uma toalha branca. Bietrix colocou então as escudelas, tábua para o pão, facas, uma jarra de vinho e outra de água fresca.

Os três rapazes se acomodavam sobre os montes de palha empilhados à guisa de cadeiras, quando o padre Ascelino, seguido por Brunissen, Guibourg e Liébault, chegou. Todos sentiram um grande prazer em estarem juntos, mas não houve espanto algum. Separações, encontros, perdas e reencontros faziam parte do cotidiano dos peregrinos.

— Esta é a melhor hora do dia — disse padre Ascelino, quando todos estavam sentados após o Benedictus. — A suave hora em que o furor dos combates é esquecido, em que se pode contemplar o céu sem temer vê-lo cheio de flechas ou bestas se cruzando, e quando finalmente cessam os gritos dos soldados que matam e são mortos. . . A hora da remissão. . .

— Enquanto não chegarmos a Jerusalém, só conheceremos remissões temporárias — observou Brunissen. — A verdadeira paz interior, é lá que encontraremos.

— Sem dúvida, sem dúvida — respondeu Mateus o Barbeiro — a senhorita falou a verdade, mas existem momentos de graça como este que estamos vivendo agora, quando estamos entre bons amigos, que não podem ser desprezados. Veja bem, eu faço parte daqueles que procuram sempre tirar o melhor daquilo que nos é dado e, por todos os santos, sempre agradeço por isso!

— Deus lhe concedeu um temperamento feliz — constatou Guibourg com um sorriso. — Também eu sou assim, acomodo-me naturalmente às coisas e às pessoas. Já meu marido é bem mais nervoso que eu. Estamos casados há vinte anos e eu sempre tento lhe mostrar o lado bom das coisas. Mas nem sempre é fácil!

Ela pôs-se a rir. Suas bochechas gordas, o queixo duplo e o peito opulento faziam-na parecer um macio edredão de plumas, suave e aconchegante.

Liébault o Seleiro teve um riso amargo.

— Se pensam que eu também não o desejaria, estão enganados. Mas vendo o que se vê todos os dias, é difícil não se deixar levar pela angústia. A guerra não é bonita de se ver. Pela Cruz de Deus, eu temo que o que nos espera seja ainda pior do que aquilo que conhecemos até agora.

— Entre nós está alguém que já pagou um pesado tributo às agruras do tempo — observou padre Ascelino. — É Bietrix. Pois bem, posso lhes garantir que nem assim ela perdeu a fé no futuro. Não é verdade, minha criança?

A pequena criada, que não completara ainda dezesseis anos, inclinou a cabeça loura em sinal de assentimento.

— Nada me fará renunciar à marcha pela libertação empreendida por meus pais — afirmou com convicção. — Nós partimos juntos para alcançar o Santo Sepulcro. Aconteça o que acontecer agora, irei de qualquer maneira. Mesmo sozinha. Sabendo que suas almas estão por perto...

Seu queixo tremia e a voz fraquejava, mas ela prendia as lágrimas que subiam aos seus olhos cinza e cerrava os lábios para se manter digna daqueles que perdera.

Padre Ascelino a encontrara no momento em que a maioria dos peregrinos deixava Constantinopla sem nenhuma pena. No meio da multidão agitada, Bietrix, solitária e triste, lembrava um cordeiro perdido, longe do seu curral. Esta comparação se impusera com tal força ao padre, que ele hesitara em abordá-la: "era preciso que ela não me tomasse por alguém que quisesse devorá-la. . ." Mas a aflição da jovem era tal, que ele não demorou muito em superar os seus escrúpulos. Foi ao falar com ela, que descobriu que seus pais haviam morrido durante a travessia da Hungria pelo exército de Godofredo de Bouillon. Tecelões em Cambrai, eles haviam partido fervorosamente no séquito de seu soberano, o duque de Baixa-Lotaríngia, a quem todos respeitavam e admiravam. Atacados por uma corja de bandidos quando atravessavam uma região montanhosa, os peregrinos viram ser massacrada a fraca escolta encarregada de conduzi-los a um país considerado neutro, antes de caírem também nas mãos de salteadores. Despojados, destroçados, abatidos ao tentar defender seus bens, quase nenhum deles escapara. . . Escondida sob o corpo de seus pais, Bietrix se viu, então, órfã. Recusando-se terminantemente a voltar ou a interromper a sua peregrinação, decidira continuar o caminho começado pelos três. Ela se empregava, segundo as necessidades, na guarda de crianças pequenas ou no cuidado de velhos impotentes.

Quando padre Ascelino a encontrou em Constantinopla, estava sem recursos e não sabia como retomar o caminho. Aceitou então, sem hesitar, substituir Alberade nos cuidados para com a família do padre. . .

Ela trouxe peixe do lago assado na brasa, frutas compradas num comerciante da região, um pedaço de porco com ameixas, queijos de cabra e nozes. Depois sentou-se junto de Brunissen. Enquanto comiam, cada um dava o seu parecer sobre o futuro do cerco.

— Por Deus, Nicéia não deveria tardar a capitular — disse Landry. — Arqueiros e besteiros atiram em tudo o que se mexe além das ameias. As atiradeiras e catapultas aos poucos vão destruindo as muralhas. As torres facilitam a proteção dos nossos homens que minam os pés das fortificações, e os pesados aríetes ouriçados de ferro que batem sem trégua nas partes já destruídas, deveriam logo acabar com o resto.

— Graças a Deus, mais dia menos dia tomaremos a cidade — observou Brunissen — mas enquanto isto não acontece, nossos soldados recebem pedras, flechas, óleo fervente e tochas de estopa embebidas em pez, que caem sobre eles como fogo do céu, ferindo-os horrivelmente. Eu, que os vejo chegando a qualquer hora do dia em estado lastimável, sinto o coração partido!

Padre Ascelino balançou a cabeça.

— Este cerco — reconheceu dolorosamente — terá custado caro em vidas humanas ao exército de Cristo. Mas, no momento, as coisas deveriam andar rápido. Eu soube hoje cedo que a mulher, a irmã e os dois filhos do sultão Qilidj-Arslan, que ele deixara na cidade por desprezar as nossas forças e os nossos meios, embarcaram na noite de ontem. Queriam fugir pelo lago. Quando foram vistos por um barco grego, foram capturados. Parece que foram conduzidos ao acampamento do imperador, em Pelecano.

— Quando os ratos abandonam o navio, é sinal de que não tardará a afundar! —exclamou Mateus o Barbeiro. Por todos os santos, aí está uma boa notícia! Logo poderemos ficar à vontade, atrás destas malditas muralhas!

— Ouvi dizer que o homem de confiança do imperador Alexis, um certo Boutoumites, se encontra por aqui — disse Herberto Chauffecire, que até então não abrira a boca. — Parece que ele teria sido mandado pelo basileu visando algumas alianças secretas com os turcos.

— O imperador é exímio diplomata — garantiu padre Ascelino. — Ele sabe usar de astúcia onde a força não obtém resultado. Dele pode se esperar as maiores surpresas. . .

Ao mesmo tempo, um pouco mais longe no acampamento, Boemundo e Mabille, cercados por seus séquitos, também terminavam de cear.

De bom humor, tendo comido e bebido à vontade, o normando da Sicília levantou-se da mesa onde ocupava a cabeceira e dirigiu-se, com negligência, ao lugar onde Alaís estava modestamente sentada. Pousou uma mão firme sobre o ombro da adolescente, que estremeceu. Virando a cabeça na direção dos dedos que a seguravam, ela não ousou levantar os olhos para o homem de pé, atrás dela. Foi ele que, inclinando-se, levantou-lhe o queixo com um indicador imperioso e a forçou a cruzar o seu olhar. Durante um momento eles permaneceram assim, se encarando. Boemundo leu tanta candura, tanto pavor, mas ao mesmo tempo tanta perturbação no olhar assustado da jovem, que teve um momento de hesitação. . .

— Vamos, minha filha, vamos, não banque a medrosa — sussurrou então Mabille, sorridente e cúmplice, que também já se levantara da mesa para se aproximar de um jovem escudeiro, cuja nuca acariciava tranqüilamente. — Vamos! Afinal, não está na hora de ir se deitar?

Boemundo já estendia o punho para que Alaís pousasse aí a mão e saísse em sua companhia, na direção que ele escolhera para levá-la. Ela se levantava, quando um cavaleiro precipitou-se correndo na sua direção:

— Está sendo convocado com urgência, meu senhor, ao grande pavilhão do conselho dos barões onde todos devem se apresentar com a maior presteza, gritou ele, já sem fôlego. — Monsenhor Ademar de Monteil tem uma mensagem de extrema importância para lhes comunicar.

— Pelo sangue de Cristo! Que urgência poderia ser maior do que a de acariciar uma bela jovem? — perguntou, rindo, Boemundo.

— Meu senhor! Não convém fazer esperar vossos pares! — protestou o cavaleiro indignado.

— Muito bem, meu amigo. Estou indo. . . estou indo. . .

Voltou-se para Alaís. Ela tornara a sentar-se com um leve sorriso nos lábios. Ele franziu as sobrancelhas, hesitou e em seguida, com um gesto de impaciência, se afastou sem dizer mais nada. Com um passo nervoso, seguiu atrás do mensageiro.

Mabille acompanhou o irmão com o olhar, teve um pequeno riso mudo e tomou o braço do escudeiro, levando-o na direção de uma tenda, cujos panos de tela caíram sobre eles assim que entraram.

Alaís deixou escapar um suspiro fraco, cujas razões ignorava, já que eram demasiadamente confusas para serem desvendadas.

 

No dia seguinte pela manhã, os cruzados se lançaram à tomada de Nicéia. Fora decidido, durante o conselho da noite, que deslanchariam um ataque decisivo. Com grandes clamores guerreiros, acompanhados do ressoar das trombetas e das trompas, e aos gritos veementes de: "Deus quer assim! Santo Sepulcro! Santo Sepulcro!", os francos investiram contra as muralhas, atravessando os fossos que haviam enchido de feixes de lenha empilhados. . .

Estavam tomados por uma efervescência alegre e libertadora. Terminara a espera, as escaramuças, o alistamento sem conseqüências. Desta vez era preciso vencer o inimigo maldito!

O fracasso acompanhou de perto a gloriosa investida vingadora.

O que descobriram, já quando instalavam suas escadas para escalar as muralhas e milhares de flechas assoviavam nos seus ouvidos como enxames desencadeados, foi Boutoumites, o enviado do imperador, de pé sobre as ameias, plantando, em sinal de vitória, o estandarte imperial!

— Traição! Traição! — gritaram os cruzados.

Mas o que poderiam fazer? Diante do mundo, os gregos acabavam de retomar e ocupar Nicéia.

Era o dia 26 de junho de 1097. Naquela noite, noite de amarga vitória, quando o padre Ascelino tomou sua pena de ganso para enviar ao seu bispo o relatório habitual, ele escreveu que os bizantinos, desprezando a palavra empenhada, haviam negociado secretamente com os sitiados. Eles haviam prometido, dizem, uma anistia geral, dinheiro e trabalho para os habitantes turcos da cidade que aceitassem colocar-se a serviço do imperador. Quanto à mulher e aos filhos do sultão, que o basileu prudentemente mantinha perto de si, tinham a garantia de serem tratados com atenção especial. Por outro lado, e o cúmulo da duplicidade, Boutoumites, que armara toda a questão, incitando os francos a se lançarem sobre uma cidade já conquistada pelos artifícios da sua diplomacia, Boutoumites, o homem de Alexis, acabava de anunciar que não permitiria a entrada de cruzados em Nicéia. Eles que, por sua coragem, sua resistência e sua fé na promessa de Deus, eram os verdadeiros vencedores, viam-se mantidos à distância das casas brancas vistas de longe, protegidas pelas muralhas a cujos pés tantos deles haviam perecido. . . Os gregos os mantinham fora dos muros, em seu acampamento. A autorização para visitar os santuários sagrados que haviam arrancado das mãos dos incrédulos, só lhes era outorgada da maneira mais parcimoniosa. Só lhes era permitido penetrar naquele lugar onde soprara o Espírito Santo em grupos de dez, observados pelos aliados que contavam o tempo. . .

 

"A ira das nossas tropas está na dimensão da sua decepção, escrevia o notário episcopal. Hostilidade e fúria correm livremente. Temo que esta felonia gere entre os nossos o sentimento de terem sido traídos pelos mesmos homens a quem vieram socorrer. Uma tal desconfiança pode comprometer gravemente o entendimento desejado entre os gregos e nós mesmos, bem como a colusão de nossos exércitos. Como desculpa, os bizantinos dizem que, como os nossos senhores homenagearam o imperador, seria natural, em reconhecimento aos compromissos assumidos, que Nicéia, primeira cidade reconquistada aos turcos, fosse recolocada em suas mãos. Por outro lado, com sua habilidade costumeira, Alexis convidou os nossos chefes a comparecerem a Pelecano, onde continua acampado. Ele quer festejarem sua companhia esta vitória e lhes agradecer pela ajuda. O mais surpreendente é que quase todos responderam que aceitavam com prazer o convite. Atraídos por promessas de dividir, de acordo com o posto e a qualificação, ouro, dinheiro, pedras, magníficos cavalos, ricas vestimentas ou outros objetos preciosos tomados durante o suntuoso saque de Nicéia, todos se precipitaram sem nenhum pudor.

Enquanto isso, os oficiais gregos, em toda a extensão do acampamento, distribuíam com muita benevolência, devo reconhecer, moedas de cobre cunhadas com a efígie de Alexis. O povo sempre foi guloso. Víveres de toda espécie também foram repartidos entre os peregrinos e os soldados. Em suma, estamos diante de uma manobra de grande envergadura para compensar os nossos francos da humilhação sofrida. Parece-me um tanto grosseiro. Poucos se enganam. Compreender que lutaram apenas para enriquecer o Império Bizantino, permitindo que recuperasse uma cidade outrora perdida por sua própria culpa, só faz reforçar entre os nossos a desconfiança já viva em relação aos gregos. Seus ricos presentes não mudarão nada. Além disso, é de se prever que o imperador vá aproveitar seu encontro com os barões para fazer com que renovem seu juramento de alijamento, que tentará transformar em embargo quanto às nossas vitórias futuras. Tudo isso me inquieta enormemente. E eu não sou o único. Na verdade, hoje cedo tive a ocasião de conversar com o conde de Toulouse, prudente entre os prudentes. Ele se recusou a ir ao Pelecano com os outros senhores, como havia afastado em Constantinopla a eventualidade de prestar homenagem ao basileu, dizendo que "não viera para reconhecer um outro senhor, nem a fim de combater por outro que não Aquele por quem havia renunciado ao seu país e aos seus bens". Antes de deixar suas terras, como bem sabe, ele fez o voto de partir sem esperar voltar. . . Estêvão de Blois e ele preferiram permanecer no acampamento. Eles permanecem ali e prevêem as surpresas sempre possíveis por parte dos turcos. . . Ora, o conde de Toulouse partilha dos meus temores. Apenas Estêvão de Blois conserva a admiração e a confiança para com o imperador. Nosso suserano possui uma inesgotável boa fé, misturada a uma tendência em transformar em dinheiro à vista, as garantias de amizade de que Alexis não é nem um pouco avarento. Seria possível vislumbrar neste comportamento mais ingenuidade do que verdadeiramente existe? Eu não sei. Seja o que for, Monsenhor, ore, eu lhe peço, ore por nós e por nossos mortos, sem esquecer de pedir às suas ovelhas para que também orem com as mesmas intenções. Ore sem descanso. Atingimos agora o trecho mais difícil da viagem. Vai começar a mais dura prova. Precisaremos atravessar a România e depois a Capadócia, no coração das terras inimigas, num país desconhecido, onde o perigo surgirá de toda parte. . . Ore, Monsenhor, ore para que Deus olhe de perto por nós. . ."

 

Padre Ascelino suspirou. Ele refletiu por um momento, a cabeça baixa, considerando com ar ausente as suas unhas, enrolou em seguida o pergaminho, selou-o com cuidado, esperou um segundo, tomou uma outra pena, mergulhou-a no tinteiro de viagem que levava preso à cintura e pôs-­se a escrever um segunda missiva.

Desta vez, escreveu a Berta a Atrevida. Aproveitando a correspondência destinada ao bispo de Chartres e dos monges que se encarregavam de garantir a troca de mensageiros de convento em convento, para além das planícies e montanhas, mares e regiões estrangeiras, o padre enviava de tempos em tempos, àquela que continuava a ser, para ele, o chefe da família dispersada, notícias da sua viagem. Não importava que ela não soubesse ler uma palavra: Flamínia decifraria a carta que os manteria ligados uns aos outros numa corrente de fidelicidade que não poderia ser rompida.

 

Os homens de armas não sabiam quais as que os faziam sofrer mais: se as flechas pungentes do sol, ou as flechas dos sarracenos. Sob as cotas de malhas laçadas e o elmo de ferro abrasador, o calor era um suplício sem fim. Quanto às flechas aceradas lançadas, uma após a outra, pelos arqueiros turcos, causavam ferimentos dolentes e centenas de vítimas.

A poeira, os gritos, o relinchar furioso dos cavalos, o sangue, as invocações a Deus, lançadas pelos padres e pelos monges, o brilho das espadas ferindo a torto e a direito, o estalar dos ossos quebrados, o choque das lanças nos escudos, todo aquele ruído de guerra e morte ressoava no fundo do vale estreito de onde subia, misturado aos dos corpos destroçados, um cheiro forte de mato e de caniços esmagados pelos cascos dos corcéis ou pelo passo dos soldados.

"Desde a primeira hora do dia até agora, quando já devemos estar próximos da sexta, os ateus não pararam de nos atormentar", pensava Brunissen. Mais uma vez ela se dirigia à fonte onde, com as outras mulheres, enchia bilhas, moringas, potes e jarros que eram reunidos rapidamente e às escondidas, para dar de beber e fazer os curativos nos combatentes. Eles precisavam de ajuda e podiam contar com suas filhas, esposas, irmãs ou amigas. Sem descanso, elas se aproximavam deles com exclamações de encorajamento, pedindo a ajuda de Deus, sustentando-os com todas as suas forças, desafiando o perigo, trazendo, com sua presença, conforto e socorro.

Na noite da véspera, Boemundo se separara de uma parte do exército. Ele resolvera vasculhar melhor a região em busca de víveres e instalara seu acampamento num vale campestre, parcialmente protegido por pântanos, onde se viam tufos de junco. A água ali chegava por riachos, ribeiras e fontes.

Tendo deixado Nicéia há dois dias, os cruzados estavam temporariamente divididos em dois grupos. Sob o comando de Boemundo, ajudado por seu sobrinho Tancredo, estavam reunidos os normandos de Roberto Courteheuse, as tropas de Estêvão de Blois, as de Roberto de Flandres e o destacamento grego do general Tatikios. Estavam próximos da Doriléia. O resto do rebanho de Nosso Senhor caminhava um pouco mais ao sul, sob o comando de Ademar de Monteil.

Ninguém ignorava que os inimigos permaneciam nas proximidades. Seu sultão queria uma desforra sobre aqueles guerreiros francos e gregos que haviam capturado sua mulher e seus filhos antes de conquistar Nicéia, sua capital. Sabia-se que os turcos estavam próximos, mas ninguém os vira ainda até que, repentinamente, numa explosão de trompas ressoantes e tambores, sob um sol já radiante que fazia brilhar as armas e os arreios dos infiéis, seu exército apareceu nos montes que dominavam o vale. Acima de dezenas de milhares de guerreiros que o invocavam com uma voz rouca, surgiu o estandarte verde do Profeta, assinalado pelo quarto crescente, tremulando ao vento.

Galopando à frente dos valentes e dos homens de armas que iam lutar, Boemundo fizera um discurso breve: "Senhores e valentes cavaleiros de Cristo, eis que, de todos os lados, uma difícil batalha nos espera. Ide em frente, portanto, com coragem!"

Num só olhar, ele se assegurou da organização de suas tropas: reunidas ao redor dos carros que formavam o acampamento dos peregrinos, no qual palpitava uma multidão fascinada e piedosa, distinguiam-se três tipos de guerreiros. Primeiro, os cavaleiros. Já transpirando sob as cotas com capuz, cujas malhas finas e apertadas cobriam as vestes acolchoadas, levando na cabeça elmos pintados, munidos de um nasal cinzelado ou engastado em vidro colorido, mais pareciam estátuas eqüestres de ferro e aço. Armados de sólidas espadas cujos punhos continham relíquias, eles levavam sob o braço lanças em madeira de freixo, de extremidade triangular e cortante. Seus corcéis negros e brilhantes, cinza e brancos ou brancos como a neve, ricamente adornados, eram diferenciados por tapetes de sela decorados com motivos heráldicos de cores vivas. Flâmulas multicoloridas, presas à haste das lanças, tremulavam, cheias de franjas, ao menor movimento dos animais já enervados com a espera. Protegidos por escudos ovais levados à altura do antebraço e cortados de maneira a cobrir seus corpos do pescoço aos pés, calçando longas esporas pontiagudas, os cavaleiros pesados e rígidos se apoiavam sobre os estribos, formando com as pernas um semicírculo que garantia o seu equilíbrio.

Atrás deles, os sargentos a cavalo usavam cotas de malhas mais curtas, escudos redondos, chapéus de ferro, machados dinamarqueses ou chuços, arcos em madeira de teixo, chifre ou metal, bestas e aljavas.

Os que iam a pé, enfim, vestindo couraças reforçadas por escamas de ferro e um barrete de couro, estavam equipados com as mais variadas armas: arcos, bestas, fundas, clavas ouriçadas com pontas de ferro, facas chamadas de misericórdia porque serviam para liquidar os inimigos já abatidos, lanças, bastões ferrados e ganchos medonhos que serviam para derrubar a montaria do adversário ou atirar ao chão os cavaleiros montados. . . Landry e seus companheiros faziam parte desse corpo, onde serviam como besteiros.

Inúmeros estandartes de matizes variados, alguns com bordados representando a Cruz do Cristo ou o rosto da Virgem, tremulavam acima das cabeças encapuzadas de ferro.

Com um grande estrondo e levantando nuvens de poeira, o galope dos cavalos turcos avançou como uma rajada sobre os francos.

Eram tantas as flechas se cruzando que obscureciam o céu, dardos atravessavam o ar com um assovio de morte, a torrente humana se esboroava e se escondia após cada assalto, com uma rapidez e uma agilidade diabólicas; rapidamente o conflito levou vantagem aos agressores. Aos gritos infinitamente repetidos de: "Allah akbar! Allah akbar!", repentinamente parecia que o inferno, tendo aberto as suas portas, enviava os seus melhores emissários na direção dos cristãos.

Os arqueiros turcos, arqueiros de elite, disparavam suas flechas sobre a massa compacta, semelhante a uma fortaleza viva, que avançava numa progressão pesada e confusa. Eles iam e vinham, atiravam novamente, tornavam a ir, voltavam, recomeçavam, parecendo nunca se cansar.

O ataque impetuoso dos cruzados, atrapalhado, se atirava desajeitado contra essas contínuas investidas em turbilhão.

Durante toda a manhã, o futuro permaneceu em suspenso. Houve um momento em que os sarracenos pensavam ter triunfado sobre os adversários. As tropas francas se curvavam diante deles. . . O calor, que se acentuava com a proximidade do meio-dia, os inúmeros ferimentos, a tormenta das flechas que caíam como uma espessa chuva semeando a morte, os gritos de angústia daqueles cuja carne estava trespassada, o pavor dos peregrinos ameaçados, eles também, no centro do crisol onde fervia a carnificina, tudo parecia favorecer os agressores.

Tendo conseguido contornar os pântanos, alguns turcos se insinuaram até as margens do acampamento, onde os carros formavam uma barreira. Começaram então a massacrar, à beira daquele último obstáculo, tudo o que encontravam pela frente: mulheres levando água ou curativos, feridos, doentes, monges, crianças, velhos. . .

Os que estavam agrupados no centro do dispositivo de defesa, melhor abrigados ainda por algum tempo, se mantinham imóveis, congelados pelo pavor, imprensados uns contra os outros como carneiros num rebanho. E rezavam. O sentimento de ter ofendido a Deus por sua conduta luxuriosa, orgulhosa ou venal, os deixava arrasados. Vários bispos e padres que, naquela situação extrema, queriam morrer ajudando seus irmãos, haviam vestido seus paramentos brancos. Eles cantavam salmos com força e rezavam ardorosamente, apesar das lágrimas que, às vezes, embargavam suas vozes. Um grande número de peregrinos pedindo confissão e absolvição se jogavam aos seus pés, implorando para serem ouvidos. . .

Num canto, protegido por uma pilha de lonas de tendas desmontadas, Foucher de Chartres confessava Mabille, que lhe falava demoradamente.

Brunissen, Guibourg, Alaís, e várias outras mulheres vendo-se na impossibilidade de continuar a dar de beber e ajudar os combatentes que se envolviam na luta arrasadora, recomendavam suas almas ao padre Ascelino. Essas confissões, esses arrependimentos, essas contrições, esses apelos, brotando naquele momento do mais profundo dos seres, comportava tal gravidade, tal intensidade, que levava cada um deles a examinar sem complacência sua própria consciência, a aprofundar uma busca que ultrapassava muito as suas preocupações cotidianas. A morte iminente os conduzia a uma necessidade da verdade absoluta. Reconhecendo-se pecador, cada um implorava a graça divina e se aproximava dela. . .

Foi nesse momento em que ninguém poderia mais mentir para si mesmo, que Brunissen viu nascer e se afirmar nela uma evidência deslumbrante: ela sobreviveria a tantos horrores, mas a partir daí, a sua vida não lhe pertenceria mais. Seria toda dedicada Àquele que se manifestava com tanta força à sua serva no seio de todos os perigos. Ela soube que seria preservada de um fim cuja hora não chegara ainda, mas que faria com que estivesse para sempre ligada ao Salvador. . . A luz da Esperança atravessou-a como uma lâmina, para brilhar naquele inferno de medo e violência no exato momento em que tudo parecia perdido. . .

Como uma resposta à sua espera, um fato imprevisível aconteceu então, tomando a todos de surpresa: um grupo de peregrinos, perseguidos por outros turcos, refluiu aos gritos para o centro ainda intacto dos seus companheiros. Imaginando que estivessem diante de um contra-ataque ousado dos francos, os agressores, subitamente inquietos, fizeram meia-volta, tão bruscamente como tinham chegado.

No mesmo instante, surgindo a rédeas soltas por trás dos sarracenos, Godofredo de Bouillon, alertado no início da manhã por uma mensagem de Boemundo, se lançou à batalha. Junto dele estava seu filho menor, Balduíno de Bolonha e Hugo de Vermandois, o irmão do rei de França. Os cavaleiros de seus séquitos atacaram com eles.

Surpresos com aquele reforço súbito, os turcos se ensimesmaram em torno de seu sultão. Esta manobra devolveu coragem e combatividade às tropas em campo. Conhecido por sua resistência, sua força e sua valentia, o duque de Bouillon investiu sobre seus adversários num desdobramento de escudos de ouro, elmos de prata, auriflamas, insígnias brilhantes presas às lanças, pintadas de púrpura e adornadas de metais preciosos que cintilavam na luz forte do sol de julho.

Aquela chegada maravilhou e devolveu a confiança aos francos maltratados.

Logo surgiram também Ademar de Monteil e Raimundo de Saint-Gilles, conde de Toulouse, que se juntaram às tropas recém-chegadas para cercar os turcos.

Reconstituído, o rebanho de Nosso Senhor investiu finalmente com fúria contra o inimigo pego pelas costas por aquelas temíveis tenazes de ferro.

O estrondo dos tiros desferidos com raiva renovada, os gritos de "Deus quer assim! Deus quer assim! Santo Sepulcro! Toulouse! Toulouse!", em resposta aos "Allah akba!" dos muçulmanos, o galope enlouquecido dos cavalos, o assovio das bestas, o das flechas, mais agudo, o choque das lanças e dos chuços nos escudos tomou uma dimensão terrível. Os francos se batiam exaltadamente: precisavam vencer ou seria a sua vez de conhecer o horrível destino dos companheiros de Pedro o Ermitão. . .

Landry, que já lutava há horas e começava a ser vencido pelo cansaço, sentiu-se repentinamente provido de nova coragem. Ele retomou o seu lugar no combate com uma raiva surda que o sustentava melhor que a simples esperança de salvar a própria vida.

As túnicas coloridas das mulheres reapareceram de toda parte, às margens do campo de batalha. Elas recomeçaram a cuidar dos doentes, a consolar os moribundos, a distribuir água e palavras de esperança a cada um. Decididas a continuar sua missão de ajuda mútua, deixaram os seus abrigos para dar aos homens, com o apoio de sua presença, o sentimento de que eles só poderiam sair vitoriosos de um compromisso que colocava em risco, além da sua própria existência, o destino de famílias inteiras.

Apavorados com a violência do ataque ajudado por reforços que não haviam previsto, os turcos, agora dominados por aqueles inimigos vestidos de ferro, que manejavam a espada como lenhadores usavam seus machados, e a quem nada mais fazia recuar, só encontraram salvação na fuga. Uma fuga desvairada, irreprimível. . .

— É a debandada! — gritou uma voz. — Eia! Eia! Não deixemos que escapem!

Com gritos de vitória, os francos se lançaram atrás dos infiéis, perseguindo-os através dos montes e vales até o seu próprio acampamento. Os fugitivos não perderam tempo. Continuaram na sua louca corrida. . .

Soube-se depois que os turcos, tomados de pânico e totalmente dispersados, continuaram a fugir por dois dias inteiros. Sentindo o terror que a sua energia envolta em ferro causara aos muçulmanos, tendo também a possibilidade de liquidá-los de uma vez por todas, os cruzados quiseram levar sua perseguição até o fim. Foram os cavalos, exaustos, sem fôlego, com os flancos fumegantes e as patas trêmulas que os forçaram a interrompê-la. Após uma noite de caçada humana, foi preciso parar e voltar para o lugar de onde haviam partido.

 

— Deus nos proporcionou com isto uma grande graça — proclamou Foucher de Chartres na manhã seguinte, ao amanhecer, quando os combatentes já haviam voltado aos seus acampamentos. — Acabamos de participar da primeira verdadeira vitória dos soldados de Cristo sobre os ateus. Desta vez, os gregos nada podem reivindicar. É uma vitória total, num momento em que éramos menos numerosos que os agressores e divididos em dois exércitos bastante distantes um do outro. Sim, verdadeiramente, Deus estava conosco!

Os peregrinos que ouviram as palavras do monge entoaram cânticos de reconhecimento e de alegria que logo se espalharam por todo o acampamento. Todos se abraçavam, se benziam, se interpelavam com explosões de felicidade. Mas na verdade não estavam surpresos. Viviam todos na espera constante do milagre, do sinal sobrenatural, da ajuda do Senhor. Se, no momento do perigo maior, os cruzados chegaram a sentir medo, alguma coisa no fundo de suas almas jamais cessara de esperar e acreditar na intervenção divina. . .

Nesse meio tempo, Boemundo também voltou com seu séquito, da busca frenética a que se lançara durante horas.

— Amigos! irmãos! — gritou. — Alegrem-se! Nosso triunfo foi completo! Em todo o universo se falará dele! Nós destroçamos os inimigos de Cristo. Nós os aniquilamos como animais de caça, e estão fugindo ainda!

— Por todos os santos, há muito com que se regozijar! — garantiu Mateus o Barbeiro, que acompanhara até o final a tropa dos normandos da Sicília. — O sultão e seus aliados bateram em retirada, abandonando ali mesmo todas as riquezas que possuíam. Qilidj-Arslan não teve tempo nem mesmo de apanhar o seu tesouro pessoal, cofres, armas, jóias, peças em ouro, que sempre leva consigo nos seus deslocamentos. Conseguimos um saque considerável. Os carros cheios até a boca vieram atrás de nós e não devem tardar a chegar!

Landry, Herberto Chauffecire e Pedro Bartolomeu, que desde a partida de Nicéia se dividiam entre seu mestre tanoeiro e o tiro de besta, trocaram um sorriso. Também eles emergiam da luta com uma certa embriaguez exaurida.

Agora que se encontravam entre os seus, sentados na relva, protegidos da morte e do sol, cercados de mulheres que cuidavam deles, dando-lhes de beber, lavando-os, divertindo-os, tudo parecia maravilhoso. Em primeiro lugar, ter recebido apenas alguns ferimentos sem importância, quando muitos companheiros haviam perdido a vida, um braço ou alguma parte dos seus pobres corpos talhados sem piedade como carne de açougue.

Brunissen e Alaís, absorvidas por tantos cuidados a oferecer, não deixaram por isso de vir abraçar o irmão antes de voltarem correndo para a multidão de coxos dos quais era preciso cuidar enquanto as feridas estavam ainda recentes.

Os quatro amigos bebiam cerveja e água, contando alegremente seus feitos de armas e recapitulando com benevolência as vantagens materiais da vitória.

— Vocês não ficaram, como eu, tocados com a opulência das barracas turcas? — perguntou Landry, enquanto massageava seu pulso dolorido de tanto lançar bestas. — São verdadeiras casas de pano, de um trabalho e decoração admiráveis. Elas possuem várias peças separadas umas das outras por painéis móveis, como nos quartos dos nossos melhores torreões.

— Tudo isso agora é nosso! — alegrou-se Herberto, que tinha os pés ensangüentados e os tratava com folhas e capim mergulhados num balde d'água. — Que presa, meus amigos: ouro, prata, sedas, cavalos, camelos, mulas, ovelhas, bois e muitas outras coisas que desconheço! Nossos chefes as tomaram como captura de guerra e distribuirão a seu bel-prazer. Ninguém conhece ainda a quantidade e a importância exatas deste tesouro, mas certamente deve ser maior do que poderíamos esperar esta manhã!

— Havia também víveres em abundância — observou Pedro Bartolomeu, que não usava mais curativo, mas mostrava na raiz dos cabelos uma grande cicatriz em forma de estrela. — Certamente é desses alimentos que mais precisaremos nos dias que virão.

Foi interrompido por clamores. No centro do acampamento, perto das fontes, os nobres vitoriosos saíam das tendas onde estavam reunidos os despojos tomados ao inimigo. Cobertos de poeira, de restos de sangue, amassados e arranhados, seus elmos e cotas mostravam a valentia com que haviam lutado. Godofredo de Bouillon, cuja intervenção providencial arrancava exclamações de reconhecimento, seu irmão Balduíno de Bolonha, verdadeiro colosso de ferro visto por todos em ação, Roberto de Normandia que, também ele, se batera com uma audácia digna de seu ilustre pai Guilherme o Conquistador, Raimundo de Saint-Gilles, a quem a idade não atrapalhara durante a batalha, Estevão de Blois, calmo e sorridente apesar da coragem empreendida e dos golpes recebidos, Hugo de Vermandois, o Malnascido, que representara dignamente o rei de França, Boemundo de Tarento, o mais popular dos valentes, e seu sobrinho Tancredo, também intrépido, Roberto de Flandres, enfim, todos os outros senhores, unidos na mesma auréola de glória, eram festejados por suas tropas e por todos os peregrinos.

— Por Deus e Nossa Senhora, Sua tão Santa Mãe, eu, Godofredo, vos anuncio, amigos, irmãos, que trouxemos uma vitória decisiva para o futuro de nossas armas — exclamou o duque de Bouillon, depois que as trompas soaram três vezes para pedir o silêncio da multidão. — A raça de excomungados, que combatemos na esperança de libertar com as nossas próprias mãos o túmulo de Nosso Senhor, terá enormes dificuldades em se recompor. Após a queda de Nicéia, esta segunda derrota que impusemos às suas melhores tropas será para eles um duro golpe. Nosso prestígio crescerá muito junto à população e aos soldados turcos. Podem contar com seus chefes que saberão sempre, se Deus assim o quiser, mostrar-se dignos da vossa confiança e conduzi-los sem esmorecimento ao Santo Sepulcro!

— É preciso celebrar este triunfo! — exclamou Boemundo imediatamente. — para começar, vamos nos banhar nos inúmeros riachos que existem por aqui. Assim nos veremos livres da poeira, do suor, da sujeira e do sangue de que estamos cobertos. Em seguida, sepultaremos contritamente nossos mortos e rezaremos pela salvação de suas almas que já devem estar gozando dos êxtases celestes no paraíso. . . Somente depois disso teremos direito ao grande festim que deve concluir condignamente uma tal vitória e refazer as nossas forças. Enfim, dançaremos e nos divertiremos durante toda a noite que virá.

— Poderemos contar com você, meu irmão — exclamou Mabille rindo muito. — Saberá trazer a estas festividades o brilho que merecem tantas ações gloriosas!

Cercada por suas damas e abandonando por um momento os feridos de que estava incumbida, Mabille viera para a frente dos vencedores na companhia de Godvera de Toeni, rodeada por seus filhos, e da condessa de Tolosa, a bela Elvira, a quem o marido apertava carinhosamente contra o peito ainda coberto de ferro ensangüentado. . .

— Nosso duque Godofredo tem razão — disse o conde. — A derrota que acabamos de impor aos infiéis terá uma enorme repercussão no Islã. O lamentável fim dos pobres-diabos que, no ano passado, seguiam Pedro o Ermitão neste mesmo caminho, dera aos turcos e aos árabes uma idéia errada do nosso valor e das nossas forças guerreiras. A vitória dos exércitos de Cristo, obtida contra as forças do sultão Qilidj-Arslan associadas às do seu outrora inimigo, o emir Ghazi, com o qual se reconciliara precocemente, aquela vitória estrondosa, contra tropas superiores em número às nossas, tocará os espíritos. O fato dos dois primeiros príncipes turcos deste país, unidos para nos arrasar, terem sofrido juntos um tal revés, devolverá a nosso favor a opinião dos povos por eles escravizados e fará com que os muçulmanos passem a temer e respeitar as nossas armas.

— Em primeiro lugar, é preciso agradecer a Deus por Sua ajuda e proteção! — proclamou o bispo de Puy com voz forte. — Este triunfo é o Seu. Meus filhos, todos de joelhos!

Depois de sepultados os mortos, sob um outeiro onde foi colocada uma grande cruz, foi rezado um Te Deum a céu aberto.

Em seguida, como desejava Boemundo, todos se desviaram dos caminhos do céu e se abandonaram aos prazeres da terra.

 

O festim teve lugar na noite seguinte, no centro do vale coberto de relva, onde a água fresca corria por todos os lados.

Os senhores nobres e seus séquitos estavam reunidos ao ar livre, sob enormes toldos tomados ao inimigo e armados com cuidado para proteger do sol a pele das mulheres que não podiam suportar o bronzeado. . .

Todos comeram, beberam, dançaram. . .

Foi com alguma inquietude que Brunissen viu Alaís convidada à mesa de Boemundo e Mabille. Ela aceitara um lugar junto ao Normando da Sicília e demonstrava para com ele uma docilidade encantadora.

— Meu tio — cochichou Brunissen ao padre Ascelino ao fim da ceia — meu caro tio, não acha que deveríamos ir buscar nossa ovelha desgarrada para trazê-la de volta ao rebanho familiar?

— Por Deus-Todo-Poderoso, quem cometeria a temeridade de ir tirar uma presa das garras da águia das montanhas? Você? Eu? Ninguém, você sabe muito bem que ninguém ousaria. Boemundo de Tarento não é homem de renunciar aos seus caprichos. Esse homem é uma força em marcha. Atravessar-se em seu caminho é condenar-se a perecer esmagado. . . Por outro lado, quem sabe Alaís é uma vítima concordante? Preste atenção nela: está contemplando esse normando como se ele fosse o grande imperador Carlos Magno em pessoa! Se cometermos a imprudência de pedir-lhe que venha se juntar a nós, certamente recusaria até mesmo nos escutar. Nosso único recurso é uma prece fervorosa a Nossa Senhora, suplicando-lhe que tenha piedade desta criança e de seu louco entusiasmo. . .

Uma tristeza surda, como uma névoa envolvendo a bruma do entardecer, repentinamente tomou conta da felicidade de Brunissen e da euforia causada pela vitória. Em outra mesa, Landry ria e bebia com seus amigos arqueiros. Ele parecia indiferente à sorte de sua irmã gêmea ou, ao menos, não parecia disposto a intervir impedindo-a de seguir os seus demônios. . . Uma dupla embriaguez, a do vinho e a da glória partilhada com todos aqueles que haviam combatido, desarmava o irmão, exatamente quando chegara o momento de tentar tudo para salvar a imprudente. . . Seu tio também capitulava e renunciava ao papel de mentor, por medo confesso de Boemundo. Ela mesma não se sentia forte para lutar contra um homem como aquele. . . além disso, a noite se mostrava cúmplice, a natureza pactuava com a carne. Uma brisa invisível e suave, transportando nada além dos odores da relva, das águas tranqüilas, das flores, brincava com os toldos e os véus das mulheres, cujas faces, inflamadas pelas libações e comida farta, avivavam os olhares. . . Após o terror, após as lágrimas e o sangue derramado, uma necessidade profunda de gozo nascia na multidão liberada de seus temores. Estômagos fartos, satisfação proporcionada por uma noite gloriosa, suavidade pela proximidade da noite, tudo estava de acordo, tudo era conivente. . . A vida, animal mas disfarçada pela tolerância, brutal mas sedutora, despertava instintivamente nos corpos, no momento em que os corações e os espíritos vinham, ao mesmo tempo, descansar o seu fardo.

Se fosse totalmente sincera consigo mesma, Brunissen, que aceitara escolher a porta mais estreita seguindo o caminho tortuoso da felicidade espiritual, não estaria se sentindo, também ela, apesar das suas reprovações, enfraquecida pelo banquete, pela hora vesperal, pela descontração ambiente?

Presente como uma auriflama real sobre tantas cabeças felizes, não estaria a beatitude dos momentos de apoteose flutuando, soberba, sobre o acampamento dos vencedores? Quem poderia opor-se a tais tentações?

Quando Brunissen emergiu de seu sonho, percebeu que muitos cruzados haviam se levantado para se espalharem pelas redondezas. Havia os que dançavam, os que organizavam jogos. . . Boemundo e Alaís haviam desaparecido.

Guibourg, que estava entre seu marido e Brunissen, inclinou-se na sua direção.

— Numa noite como esta, Deus será indulgente — cochichou ela, após interceptar o olhar perdido da irmã mais velha na direção dos lugares vazios. — Ele perdoará. . . De qualquer maneira, conheço algumas ervas que podem impedir as conseqüências desagradáveis de um momento de loucura. . .

Brunissen sentiu um arrepio e pousou a mão sobre o braço de sua vizinha.

— Pelo amor dos céus, cale-se! — disse ela, com tanta autoridade na voz que Guibourg se mostrou desconcertada. — Cale-se! Eu lhe rogo!

Ela se levantou. Os sons das flautas, das rotas, das avenas, ritmados pelos tambores e os tímbalos, se apoderavam do vale iluminado por tochas e archotes. Virou-se para o padre Ascelino, que a observava com preocupação, e dirigiu-lhe um sorriso cheio de melancolia.

— A noite está tão bonita — retomou ela — tão bonita. . . O tio não gostaria de me acompanhar num passeio até as colinas?. . .

 

Na manhã seguinte, quando Alaís acordou sob a tenda púrpura de Boemundo, estava sozinha sobre o monte de almofadas emaranhadas. De pé junto à cama de campanha, uma jovem criada esperava que ela abrisse os olhos.

— Aqui está uma bacia com água quente perfumada — disse. — Tenho ordem para banhá-la, penteá-la, vesti-la e reconduzi-la à sua tenda.

— Não devo permanecer aqui à espera do meu senhor?

— Não. Ele prefere que vá se juntar à sua família e retome a sua vida habitual. Quando desejar sua presença, mandará preveni-la.

Alaís pulou do colchão de folhas secas recoberto por diversas peles de leopardo reunidas com arte. Estava tomada por uma raiva impotente. Na véspera, levada pelo arrebatamento do desejo e da festa, ela seguira Boemundo sem que ele precisasse insistir muito. Entregando-se a ele, era a um herói, a um piedoso, à vitória encarnada, a seu sonho enfim realizado que entregara o seu corpo suave e branco, novo como uma lâmina virgem. Ele a deflorara com arrebatamento, ensinando-lhe depois alguns jogos, pelos quais deixara-se rapidamente envolver. . . Seu parceiro era tão belo, tão ardente, tão habilidoso. . . Ela não ousara falar de amor, mas a maneira como ele a acariciava parecia traduzir uma paixão partilhada, um engajamento mútuo. . .

Alaís repentinamente se deu conta de que estava nua e que a criada a observava com inveja.

Em meio a uma profusão de água perfumada, ela se lançou na bacia, envolta por um pano espesso e esfregou furiosamente a pele onde se podia ver marcas que testemunhavam o furor noturno. . .

Quando estava seca e vestida, enxugou raivosamente as lágrimas que não conseguia conter, trincou os dentes, ergueu o queixo à maneira de Berta a Atrevida, e saiu altiva da grande tenda senhorial sob a suave luz da manhã.

Boemundo a tomara como mais uma femeazinha qualquer passando ao seu alcance, partindo depois, sem uma palavra, sem um gesto. Ele se lembraria dela quando o desejo voltasse, da mesma forma como assoviava para a matilha quando queria caçar. . . Como fora louca! O que poderia esperar daquele grande senhor de quem as mulheres, dia após dia, aguardavam um sinal apenas para precipitar-se obedecendo-lhe às ordens, proporcionando-lhe um prazer que experimentava quando bem queria? Ela fora apenas mais uma presa naquela caça ininterrupta que seria a existência conquistadora de Boemundo. . .

"Nunca mais irei com ele — prometeu Alaís a si mesma, enquanto se dirigia a passos precipitados à pequena tenda vermelha e verde de sua família. — Cumprirei uma dura penitência após ter confessado este pecado. . . Pedirei ao Senhor e a Nossa Senhora que me perdoem esta falta de que já estou arrependida, e da qual pedirei a remissão. . ."

Não encontrou ninguém no aposento. Tornando a sair, um pouco desorientada pela decepção, encontrou Pedro Bartolomeu que sorriu-lhe animadamente.

— Deus a abençoe, bela Alaís — disse ao abordá-la. — Graças aos seus cuidados aqui estou, de pé e, além disso, tendo a fronte enfeitada por uma estrela! Por um sinal, pois trata-se de um sinal!

— Sabe onde está minha irmã? — perguntou a adolescente demonstrando um nervosismo que surpreendeu o novo besteiro.

— Sinceramente, não. Deve estar cuidando dos feridos com as outras mulheres. Permita-me dizer-lhe, em meu nome e no de meus companheiros, que foi maravilhoso, ontem, durante a batalha, vê-las, todas, correndo de todos os lados para dar-nos de beber, encorajar-nos, passar-nos armas novas quando necessário e cuidar de nossos ferimentos ali mesmo, como santas monjas.

— Não devemos oferecer sempre aos homens a melhor parte de nós mesmas? — respondeu Alaís, num tom amargo que o seu interlocutor não compreendeu, vindo de tão suave e afável pessoa.

Sem mais explicações, ela fez meia-volta e dirigiu-se ao lugar onde as vítimas do combate vitorioso recebiam os cuidados necessários. . .

 

Durante dois dias os cruzados permaneceram no vale feliz, cuidaram de seus ferimentos, repousando numa quietude da qual Alaís não partilhava mais, inteiramente entregue a uma tristeza tão profunda quanto silenciosa. Ela não dissera nada a Brunissen, cujo olhar moreno, doce e pensativo pousava sobre a irmã com a mais atenta afeição, sem nenhuma pergunta embaraços a que pudesse forçar uma confissão indesejada. Landry, o padre Ascelino e Guibourg adotaram a mesma discrição. . . Todos podiam constatar que a jovem se esquivava sempre de Boemundo, que não parecia mais se preocupar nem um pouco com ela. Ele se divertia como sempre com as outras moças, e as suas gargalhadas ressoavam de um canto ao outro do acampamento, como uma constante provocação. Alaís mantinha a boca fechada sobre a noite da festa passada longe dos seus, enquanto estes a cercavam, como a uma convalescente, de cuidados e solicitude. . .

No dia seguinte à vitória de Doriléia, ao amanhecer do dia de São Martinho, os peregrinos, o exército e os nobres abandonaram o vale abençoado por Deus e retomaram o caminho. Era preciso deixar os campos acolhedores onde haviam descansado e repartir rumo ao desconhecido. Jerusalém os esperava.

As filas intermináveis compostas por soldados, homens, mulheres, crianças, algumas ainda sendo amamentadas, velhos, feridos, carros utilizados como enfermarias, guarda-comidas, transporte de tendas e materiais, carroças que traziam a carga tomada ao inimigo ou que levavam os cofres, as armas, as roupas, seguidas pelos rebanhos, os burros de carga trazendo as selas, toda aquela multidão em marcha ainda uma vez se estendeu infinitamente sobre as pistas de areia ou cascalho. Entoavam o Veni Creator, retomavam em coro as melopéias, os cantos de peregrinação que todos conheciam, as preces e salmos que os ajudavam a prosseguir numa caminhada perseverante, obstinada, tenaz, em direção à Cidade Sagrada, ao Santo Sepulcro, tão longínquos, mas ao mesmo tempo tão próximos dos seus corações, situados nos confins de um horizonte do qual não conheciam nada, a não ser que além do deserto vermelho e cinza esperava-os o Cristo-Rei, que os guiaria até Ele. . .

Mais adiante, as colunas de peregrinos precisariam avançar numa ordem rigorosa, sob a proteção das armas. Nômades e ameaçadores, bandos desconhecidos por vezes apareciam sem que se pudesse identificar exatamente de onde.

Tal como as nuvens do Antigo Testamento, uma cortina de poeira se elevava sob os milhares de passos, de rodas, de cascos que remexiam a terra inóspita e rochosa do planalto anatoliano devastado. Rapidamente se deram conta de que os turcos haviam devastado as regiões situadas aos pés das Montanhas Negras, por onde os cristãos eram obrigados a passar. Poços destruídos ou envenenados, colheitas incendiadas, cidades pilhadas e desertas juntavam a sua marca de desolação à dureza do lugar, de clima já tão árido. Os cursos d'água estavam secos. O sol devorava, ressecava, queimava tudo o que se lhe oferecia sem proteção. Sobre os corpos torturados pela sede, as roupas encharcadas de suor se colavam à pele como sudários. Sob as armaduras, superaquecidos, os cavaleiros e homens de armas sofriam um constante suplício.

Passaram-se semanas de miséria e calamidade. Pouco a pouco, os víveres se acabaram. Podia-se ver, com angústia, as carroças de provisões cada vez mais leves. Começava a faltar água. Os fantásticos corcéis dos cavaleiros, vindos do oeste ou do norte, habituados a beber até saciar a sede, resistiram mal ao calor tórrido do deserto, ao racionamento e depois à falta d'água que se seguiu. Com a boca espumando, os flancos ofegantes, ruidosos como foles forjados, eles desabavam uns após os outros, deixando os cascos voltados para o ar abrasado. Vendo morrer assim seus cavalos de combate, seus companheiros dos piores, mas também dos mais belos momentos de suas vidas, alguns cavaleiros choravam junto com as mulheres. . .

Quando Landry viu cair o baio da Noruega de quem Garin tanto gostava, pareceu-lhe relembrar a agonia de seu pai. Ele se deitou na areia ardente junto ao corcel extenuado, passou-lhe o braço ao redor do pescoço e soluçou como uma criança. Após ter arriscado a sua própria vida sem muito pavor e ter visto perecer, ao seu lado, no campo de batalha, alguns dos seus vizinhos, trespassados por flechas turcas ou atravessados por alfanjes, o fim do corcel, que representava a última herança paterna, deixou-o arrasado. Ele fez questão de enterrá-lo com suas próprias mãos sob a areia assassina. Quando terminou, uma tempestade seca e ardente se levantou. Em poucos instantes ela apagou o pobre outeiro sob o qual jazia o belo garanhão.

Os burros de carga, as mulas, os asnos, mais resistentes e mais sóbrios, suportaram melhor as privações, mas muitos acabaram por abandonar também os seus donos desolados. . .

Desmontados, muitos dos cavaleiros viram-se obrigados a seguir a pé, juntando-se à multidão a quem, normalmente, olhavam do alto de suas montarias.

Começaram a dividir o pouco de comida que lhes restava, ficando depois reduzidos a despojar as figueiras da Barbaria e os aloés de seus frutos espinhosos e de suas folhas que esfolavam as mãos. Mastigavam demoradamente as resinas amargas de uns e a polpa gosmenta e insípida dos outros. Os enjôos se multiplicavam até os mais resistentes. As pessoas idosas, os doentes, as crianças frágeis sucumbiam uns após outros.

A perder de vista, o deserto, as pedras, alguns pântanos fétidos e pequenos lagos de água não potável, saturada de sal. . .

— O inferno deve se parecer com esta região — disse um dia padre Ascelino, magro, pálido, mas sempre determinado. — Estamos atravessando um dos caldeirões de Satã!

Brunissen, Alaís, Guibourg e a pequena Bietrix, que não se separara mais deles, concordaram. Todas juntas, aos solavancos, dentro da carroça coberta por uma lona verde que o padre conseguira para a sua família e os seus amigos, se sentiam aproximadas pela infelicidade. E o que era verdade para o pequeno grupo de chartrenses o era também para o conjunto dos cruzados. Tantas provações passadas lado a lado, tantos horrores partilhados deixaram-nos muito mais ligados do que os momentos menos difíceis vividos anteriormente. Apesar dos diferentes idiomas, dos hábitos, dos costumes, das comidas, das roupas tão diversas, nascera e se desenvolvera uma enorme fraternidade entre eles. Uma mesma fé, um objetivo comum, um único ideal, a aceitação de todos os sacrifícios para alcançar seus fins os reunia mais do que se fossem membros de um só corpo.

Desde a vitória de Doriléia e o orgulho intenso que se seguira, uma solidariedade itinerante, composta de meditações cadenciadas pelo passo de marcha, de renúncia forçada aos bens deste mundo, de desprendimento em relação às vicissitudes de uma missão sagrada, os conduzia para uma forma de exercício evangélico do qual muito poucos fugiam. Dentre os elementos duvidosos misturados aos peregrinos desde a partida, um grande número já renunciara. Eles haviam ficado, na sua maioria, em Nicéia, com alguns doentes ou enfermos muito fracos que não poderiam seguir caminho numa peregrinação que já se anunciava mais difícil do que haviam imaginado. Os que assim mesmo quiserem acompanhar o exército, já não se faziam mais ver. Apenas os gregos e seu general do nariz de ouro eram mantidos à distância, sendo tratados com frieza por terem engajado a gente de Nosso Senhor por uma via tão desumana e desértica. Estimava-se que, conhecendo bem os inconvenientes de tal itinerário, eles deveriam ter poupado seus aliados. . . sem muito se perguntar se uma tropa tão numerosa e tão heterogênea poderia abrir um outro caminho que não aquele.

Apesar desses rancores surdos, a consciência de um acordo fraterno, profundo, duradouro, reinava sobre o espírito dos francos e os sustentava. Sem ela, eles certamente não teriam tido a coragem de atravessar, nem aquelas semanas abomináveis que deixaram tanta coisa repousando sob a areia, nem aqueles caminhos cobertos de pedras enegrecidas que deveriam atravessar.

Com uma grande parte dos cavalos mortos, foi preciso utilizar, à guisa de montaria, os bois, bem mais duros e difíceis. Podiam ser vistos, às vezes, cavaleiros demasiadamente cansados para seguir a pé, montando desajeitadamente alguns bovinos de passo pesado. . . As cabras, os carneiros e até os cães de caça foram usados para o carregamento das bagagens. Alguns gordos porcos pretos, grunhindo, se arrastavam protestando contra o peso que lhes machucava o lombo.

— Tentemos rir — disse um dia Landry, contemplando aquele penoso espetáculo. — As piores desventuras acabam por ser cômicas.

— É verdade que poderíamos rir — admitiu Foucher de Chartres, magro e ressecado como todos. — Poderíamos rir. . . mas talvez também chorar. . .

Os sapatos estavam aos pedaços, as roupas reduzidas a farrapos que vestiam mais para cobrir o pudor que por necessidade. Mas sempre se encontrava uma maneira de fazer com que as cruzes costuradas no ombro ou no peito permanecessem visíveis: era o sinal da dependência a Cristo, sinal também da proteção trazida por Ele a todos os seus. . . e de que tanto necessitavam.

O principal inimigo continuava sendo o sol. Da manhã à noite, não parava de queimar, rachando os corpos indefesos, que só podiam evitá-lo sob os toldos e as tendas. A sede, mais do que a fome, tornava-se uma obsessão, uma idéia fixa, uma necessidade lancinante e nunca saciada. Bebia-se o sangue dos cavalos mortos antes de comê-los. . .

— O mais terrível — disse uma noite Brunissen, cujos cabelos cor de pão queimado haviam clareado, apesar dos véus, e cuja pele adquirira um tom dourado dos pães bem passados, devorados anteriormente com tanto apetite — o mais terrível é o destino das mulheres grávidas. Quem dentre nós não as viu, enlouquecidas pela falta de água e comida, pelo cansaço e este sol infernal que nada, nada mesmo pode esconder, quem não as viu dando à luz ao longo do caminho, como se fossem animais? Esta manhã mesmo, à beira da estrada, assisti uma pobre criatura que deu à luz antes do tempo, como quase todas agora, um miserável pequenino. Ela em seguida o abandonou sem ao menos um olhar, na poeira. Eu tentei salvá-lo mas ele morreu quase que imediatamente. . .

— Este calor infernal resseca ao mesmo tempo as entranhas e o coração — disse padre Ascelino com ar grave. — Até pouco tempo atrás, essas mães teriam cuidado com amor de seus pequenos. Elas não são culpadas e não cabe a nós julgá-las. Estou certo de que Deus as perdoará.

— Há outras que ainda têm mais razões de se queixar — suspirou Guibourg que já emagrecera tanto que parecia até rejuvenescida. — Sim, pela minha alma, são aquelas que não têm mais leite para alimentar os seus filhos. Elas espremem em vão os seios secos e são obrigadas a deixar morrer de fome a sua cria. É horrível. Para essas, que tiveram tempo de se apegar à criança, o desespero é sem limites. Já vi algumas que rolavam pelo chão aos gritos, num sofrimento indescritível, ao lado dos corpos miúdos privados de vida, aos quais não eram mais capazes de garantir a subsistência. Para uma mãe, existe algo pior do que ver morrer entre os braços uma criança faminta? Sinto-me tão impotente diante de tal sofrimento. . .

Sentados sobre os cascalhos, num crepúsculo rosa que delineava cada pedra, cada duna, cada topo com uma sombra azulada, os peregrinos se preparavam, mais uma vez, para dormir sob as estrelas. As noites permaneciam seus únicos momentos de descanso. Já não se montavam as barracas à noite, a fim de se beneficiarem ao máximo do frescor noturno. Satisfaziam-se em desenrolar as esteiras de junco ao redor das fogueiras que precisavam acender e manter com gravetos para cozinhar os pobres restos dos animais de carga sacrificados, algumas serpentes, lagartos, aves ou gafanhotos capturados e mortos ao longo do caminho. As chamas serviam também para afastar os animais selvagens atraídos pelo cheiro de morte.

Nada, no entanto, era suficiente para abater a coragem dos peregrinos e levá-los a renunciar à missão que se impuseram. Precisavam continuar a sua jornada, independente das dificuldades e das misérias que encontrassem. Do outro lado das sombras da infelicidade, uma luz resplandecente os iluminava, traçando o seu caminho, sustentando-os. . .

Eles cantavam cânticos, salmos, mas também valentes cantos de marcha e cantilenas épicas ou sentimentais, de acordo com a ocasião e o humor do momento.

Nada tampouco parecia capaz de impedir alguns homens, algumas mulheres, por mais cansados, por mais extenuados que pudessem ser vistos durante o dia, de buscarem se encontrar assim que a lua substituísse com a sua doçura leitosa o ardor do sol. Protegidos por uma grande rocha, por uma moita espinhosa, por um tronco deitado, por charretes desatreladas, eles se acasalavam desesperadamente.

— Pode-se dizer que o cansaço faz com que vos entregueis ainda mais às necessidades amorosas — observou uma noite Mateus de Nanterre a Herberto Chauffecire, exatamente quando este voltava de um encontro nas dunas.

O chartrense sorriu contrito.

— O desejo carnal é tão imperioso quanto a fome ou o sono — cochichou ele, para não incomodar os que dormiam. — Já pude observar várias vezes que me sinto bem mais disposto para o amor depois de um trabalho duro ou uma longa cavalgada. . . Você mesmo, pelo que vejo, não está descansando. O que o aflige e não o deixa dormir?

— Um mal que vem do coração, é verdade — suspirou o barbeiro com ar melancólico que o seu rosto magro e a sua barba empoeirada só faziam acentuar. — Eu amo uma mulher, mas não é qualquer uma!

Herberto esboçou um riso de quem compreendera tudo.

— Por todos os santos, esta mulher por quem tanto se atormenta nem sabe que você existe! Ela prefere os senhores grandes e poderosos aos pequenos da nossa espécie — disse entre os dentes. — No seu lugar, eu procuraria outra.

— E eu consigo, meu Deus, eu consigo? — suspirou Mateus que parecia, por um momento, ter perdido a alegria. — Quando me vê assim, é que estou sonhando com ela, enquanto espero que volte do sétimo céu e caia sobre o nosso solo ingrato. Talvez então os seus olhos se abram, e perceba que estou aqui, de braços abertos, pronto para abraçá-la.

— Está sonhando, meu amigo, está sonhando, e que Deus o escute — retomou Herberto com ceticismo. — Mas Boemundo de Tarento é um dos mais temíveis rivais. Não deve ser fácil substituí-lo. . .

Alaís, da mesma forma que o cão da Sagrada Escritura, realmente voltara à dissipação. . . Uma noite, quando dormia junto aos seus, sob as estrelas, uma sombra imensa aproximou-se de sua esteira, inclinou-se sobre ela, ergueu-a ainda adormecida e levou-a a algum lugar, colocando-lhe uma mão autoritária sobre os lábios para impedi-la de gritar. Em seguida Boemundo deitara-a sobre uma cama de palha arranjada no fundo de uma charrete esvaziada do seu conteúdo. Rondavam por ali, vagamente, odores de especiarias, azeites, carnes defumadas. . .

— Escolhi a de melhor cheiro, uma das raras ainda não ocupadas pelos doentes e enfermos. Guardo-a para mim — murmurou o normando, buscando palavras de ternura. — Vamos, depressa! Por todos os diabos, estou com um violento desejo de você!

Os rancores, as contrições, a raiva dissimulada, o orgulho ferido, tudo se evaporara com o simples contato daquele corpo de homem quente e exigente. Pela segunda vez, Alaís se entregou de corpo e alma àquele a quem nenhuma traição, nenhum abandono, faria com que o odiasse. No entanto, ela já o vira cortejando, beijando, acariciando outras mulheres, debaixo mesmo dos seus olhos; mas bastava que ele viesse, a tocasse, para levá-la ao perdão, ao consentimento infinito. Não existia nada mais do que ele, ele sobre ela, ele dentro dela, e o imenso céu do Oriente cintilando sobre os seus corpos ofegantes. . .

Ele voltara sempre que a fantasia assim o conduzisse. Sempre de repente, sem aviso. Sem nunca tentar ao menos dissimular amor ou ternura. Com seu enorme apetite de vida, ele consumia Alaís da mesma forma que devorava os pedaços de cavalos mortos, cozidos na brasa, ou os restos cortados e enfiados em espetos antes de serem assados.

Nas manhãs que se seguiam a essas noites delirantes, quando a adolescente voltava para a sua família, Brunissen retirava, em silêncio, os pedaços de palha que ficavam presos aos cabelos de sua irmã menor, refazendo em seguida as espessas trancas louras, sem nenhuma censura, nenhum comentário. Ela apenas a beijava no rosto, como que mostrando a força inabalável da sua ligação. Alaís retomava então, como se nada tivesse acontecido, o seu trabalho junto a Mabille, em quem algumas vezes notava um ar de malícia ou cumplicidade, segundo a ocasião. A ascendência de Boemundo sobre os seus era tal que ninguém, nem mesmo a sua irmã, permitia-se fazer a menor observação sobre aquela que ele escolhera por uma noite. . . Landry, por sua vez, se calava.

 

Após dias e dias de uma seca infernal, uma chuva torrencial abateu-se repentinamente sobre os peregrinos. Recebida primeiramente com um grande alívio, as nuvens negras que tomaram o lugar do céu branco se mostraram logo tão cruéis quanto o calor. Quando todos acabaram de dançar sob a tempestade, de voltar para ela um rosto cozido e mãos ressecadas, de beber com a boca escancarada aquela água tão esperada, de se lavar sob a ducha celeste e de encher baldes, tonéis, jarras, ânforas, moringas, taças e copos de todos os tamanhos, começaram a tiritar. A chuva gelada não parava de cair.

Os víveres substanciais continuavam faltando e o frio acentuava a necessidade que todos sentiam de se alimentar para se aquecer. Isso fez com que começassem a matar para cozinhar os burros, os camelos que os gregos haviam conservado até então, e até mesmo as cabras de carne fíbrosa. . . Há muito já não havia mais porcos nem carneiros para mastigar.

Alguns peregrinos descobriram então, caminhando ao acaso, alguns vilarejos desertos. Nos campos cultivados cresciam algumas plantas curiosas, um tipo de cana cujas hastes continham uma seiva semelhante a mel líquido. Eles espalharam a notícia e todos se precipitaram sobre aquelas cannae mellis, que arrancavam e devoravam deliciados pelo seu sabor melado. Infelizmente havia poucas culturas e esse expediente serviu apenas como um socorro fraco.

As torrentes de chuva criavam poças de lama onde era preciso chafurdar, escorregando, caindo e tremendo de frio. . .

Durante quase cinco longos dias, as cataratas do céu jorraram continuamente sobre as fileiras de soldados e peregrinos, molhados, transidos, sem nenhuma outra defesa diante daquele novo flagelo a não ser as charretes, cujos toldos, já tão usados, deixavam passar por todo lado gotas, filetes gelados, correntes de ar ou vazamentos repentinos em alguns pontos furados. Muitos cruzados, já enfraquecidos, não resistiram e sucumbiram aí.

— Depois de tudo o que o sol nos fez padecer, agora temos que sepultar, ao longo do caminho, aqueles que esta chuva diluviana levou também à morte — observou com tristeza Foucher de Chartres, enquanto ajudava uma família a abrir uma nova fossa. — O que estamos passando agora faz lembrar o dilúvio. Nossos pecados devem ser bastante graves para que o Senhor nos imponha tais castigos!

— Se nosso coração nos acusa, Deus é maior que o nosso coração — murmurou Brunissen que viera rezar com a viúva do morto, enquanto sacudia a cabeça encapuzada, de onde caía uma cortina de chuva. — Não compartilho de vossa opinião, padre, e não vejo a mão de Deus, mas do Adversário, em todos os nossos infortúnios. O Senhor não está na origem dos nossos sofrimentos e das nossas penas. Ele está do lado dos que sofrem e penam. Ele é sofrimento e pena.

O monge dirigiu um olhar interessado à jovem envolta em sua capa de chuva e refletiu um momento. Como o lugar não se prestava absolutamente a uma conversa, ele conduziu Brunissen a uma tenda improvisada entre várias charretes agrupadas. Havia muita gente que se refugiara ali, à espera de partir novamente depois do sepultamento de seus companheiros. Os dois recém-chegados encontraram, entretanto, um lugar onde havia um pouco de palha seca espalhada pelo chão, e aí se sentaram.

— Enquanto a criatura humana é feliz, como saber se ela está desinteressadamente a serviço de Deus? — perguntou o monge, que gostava muito de conversar. — É a provação que revela o fundo do coração. Lembre-se do Livro de Jó. Deus dá a Satã poder total sobre os bens daquele justo, com a condição de que evite influenciá-lo. Jó viu-se destituído de todos os seus bens e até mesmo de seus filhos. Foi conduzido à mais completa abjeção. Foi então, e apenas então, que a sua renúncia levou-o a contemplar a Deus, a conversar com Ele sobre esse eterno motivo de escândalo, que é para nós a aflição do justo e do inocente.

— No Livro de Jó, perto do final, se me lembro bem—disse Brunissen, o Senhor pergunta ao homem a quem concedera um estranho favor, um longo e fecundo diálogo com o seu Criador: "Onde estavas quando eu criava a terra? Tu comandaste à manhã?" Jó reconhece então a sua ignorância e a sua pequenez frente às maravilhas suscitadas por Deus. Por nossa própria incapacidade em poder compreender o inacessível mistério da Criação, os segredos do mundo permanecerão para sempre afastados de nós durante a nossa passagem pela terra. Só nos aproximamos do Eterno pela fé e pelo amor. . . É por eles que seremos salvos. Apesar de nossos pequenos cérebros e nossas grandes faltas, Deus, que é Amor, nos enviou um Mensageiro de nossos males e aflições. . . Eis aí, padre, porque protestei contra as vossas palavras: eu desconfio das interpretações que os homens fazem da vontade do Todo-Poderoso!

Foram interrompidos pela chegada do notário episcopal, de suas sobrinhas e de outros chartrenses que os procuravam.

— Os gregos, que conhecem bem esta região, acham que não deveríamos demorar muito para chegar a Antióquia de Psídia, cidade que não tem nada a ver com Antióquia a Bela, nossa última etapa importante antes de Jerusalém — disse padre Ascelino. — Parece que as montanhas que se projetam no horizonte assinalam o lugar. Regozijemo-nos. A chuva, que parece se acalmar, talvez nos faça uma trégua nessa antiga cidade onde São Paulo e São Barnabé outrora pregaram o Evangelho. Vejam que estamos seguindo trilhas veneráveis. Elas estão nos mostrando o caminho. Coragem, meus filhos, coragem! A luz sucederá o negro túnel!

— Já não era sem tempo — resmungou Herberto Chauffecire, que há vários dias sofria de um forte enjôo. —Já estamos ficando cansados, e nem todos têm o perfil de um santo!

— Cale-se, infeliz! — exclamou Pedro Bartolomeu, benzendo-se precipitadamente. — Cale-se! O diabo o espreita. Se ouvi-lo, não tardará a devorar a sua alma!

Brunissen levantou-se da palha onde estava sentada.

— Está vendo, padre! — observou, sorridente, a Foucher de Chartres — está vendo! Não somos os únicos a nos preocupar com tais questões. Cada um as resolve à sua maneira!

O monge passou várias vezes a mão indecisa sobre a tonsura, mas não respondeu.

 

Na manhã seguinte, o sol reapareceu. Depois das terríveis quedas d'água que os havia trespassado, os cruzados o receberam com tanto alívio que subiram os flancos da montanha da qual falara na véspera o padre Ascelino. Foram atraídos até lá por alguns resinosos. Foi decidido que parariam ali para a refeição do meio-dia e para.um pouco de repouso à sombra. Um odor salubre de resina e de terra molhada varria o céu acima das cabeças já desembaraçadas de seus capuzes e capas de chuva.

Alguns nobres decidiram então tentar uma expedição na floresta. Encontrar uma caça diferente das serpentes, lagartos e roedores com os quais haviam sido obrigados a se contentar ultimamente, não saía da cabeça de todos. Mais do que uma diversão, a caça era para eles uma necessidade.

Se muitos dos galgos e falcões haviam morrido de calor ou de frio desde a partida de Nicéia, restavam ainda alguns para acompanhar os seus donos. Foram mortos vários animais selvagens e naquela noite os cruzados puderam saciar a sua fome.

Após uma rápida parada em Antioquia de Psídia, onde não encontraram recurso algum, o exército e os peregrinos partiram mais uma vez. . .

 

Foi no dia da Assunção da Virgem, no coração do mês de agosto, que a multidão extenuada dos vagabundos de Cristo adentrou a cidade de Icônio. Situada no centro das extensas planícies férteis que os turcos não tiveram tempo de devastar completamente, a cidade acolheu-os como jamais haviam sido recebidos desde que revolviam o solo áspero das antigas províncias bizantinas da Anatólia.

— Cristãos e, na sua maioria, armênios, os habitantes de Icônio vão nos receber como irmãos — previra padre Ascelino, cuja coragem confiante nunca fora desmentida.

Os acontecimentos lhe deram razão.

Recebidos nas casas brancas com terraços nos telhados, os cruzados puderam aí descansar, se lavar e se alimentar com toda a tranqüilidade. Os turcos, com a aproximação dos cristãos, haviam desertado.

— Parece que nossas vitórias e nossa teimosia fazem tremer as populações mais distantes — constatou Godofredo de Bouillon na primeira reunião do conselho de nobres na cidade. —Nós passamos por invencíveis. Peçamos ao Senhor que conserve a nossa fama.

Foi em Icônio que a primeira carta de Berta a Atrevida, ditada a Flamínia, chegou enfim à sua família. Por meio do revezamento dos monges através de todo o percurso, o rolo de pergaminho selado de cera virgem pôde finalmente chegar aos seus destinatários.

"Meus bem-amados, dizia a escrita aplicada de Flamínia, minhas queridas crianças e irmão, não há dia nem hora que o nosso pensamento não voe até vocês. Onde estarão agora, na caminhada sagrada para Jerusalém? Talvez já tenham chegado quando receberem esta mensagem. Pelos Danielis, que continuam cuidando de nós como verdadeiros parentes, soubemos da conquista de Nicéia e suas importantes conseqüências. Uma missiva do nosso caro padre Ascelino, em seguida, nos deu conhecimento da gloriosa vitória de Doriléia sobre os infiéis. Glória a Deus que nos sustenta e nos protege de maneira tão brilhante!

Quanto a mim, não estou ainda refeita da minha saúde que passa por altos e baixos, deixando-me num grande cansaço. O mal que me assola parece não querer me deixar. O professor armênio continua a me tratar mas, infelizmente, sem resultados sensíveis. Meu ventre ora está ressecado, ora mostra-se demasiadamente frouxo. Não sinto fome alguma e já emagreci muito. Não consigo tampouco me desvencilhar de uma pequena febre que vem minando-me aos poucos. Ela certamente é fruto das dores e dos inchaços de minhas entranhas, sujeitas a um tipo de cãibra muito dolorosa. Encontro algumas vezes sangue vivo nos meus lençóis e não gosto nada disso. Que Deus tenha piedade de mim! Eu mudei muito e não sei se me reconheceriam ao me encontrar numa esquina. Da vaca que era, estou me transformando em cabra!

Certamente me submeteria a esta provação com o coração submisso, se ela não retardasse o momento de ir ao vosso encontro. Desejo tanto chegar também ao Santo Sepulcro para que possamos ter todos juntos a visão celeste do lugar onde morreu e foi sepultado Nosso Senhor!

Flamínia vai bem e cuida de mim com toda a devoção possível, mas tenho grandes escrúpulos em mantê-la junto a mim em Constantinopla quando ela deseja tão ardentemente ira Jerusalém! Por delicadeza ela evita se queixar, mas eu posso adivinhá-lo.

Quando nos veremos novamente? Que Deus e a Sua Santa Mãe os guardem, meus bem-amados, protegendo-os a cada instante.

Sua avó, cujo pensamento não os abandona nunca."

 

A mensagem vinha assinada por uma cruz, e Flamínia acrescentara em baixo: "Seu estado me preocupa muito. Rezem por ela."

Brunissen, Landry e Alaís choraram depois que padre Ascelino se calou.

— Por todos os santos, é preciso que ela fique boa! — exclamou Landry.

— Quero crer que quando menos esperarmos as veremos chegar — murmurou Alaís.

— Se rezarmos com todas as nossas forças, sem dúvida obteremos a graça de ver curado o mal que tanto aflige nossa avó — disse Brunissen.

— Estou surpreso com a duração desta doença — declarou o notário episcopal. — Normalmente os problemas abdominais matam o paciente ou desaparecem como vieram. Há muito tempo Berta deveria estar curada. Eu esperava que pudesse encontrar-nos aqui, nesta boa cidade onde encontramos uma acolhida tão franca.

Icônio não foi apenas uma etapa agradável. O conde de Tolosa foi aí beneficiado por um milagre que tocou a todos os espíritos. . .

Exausto pelas dificuldades do trajeto e certamente também por sua idade, Raimundo de Saint-Gilles caiu gravemente enfermo na casa do habitante que o hospedava, bem como à sua esposa, a bela Elvira, seus jovens filhos e algumas pessoas de seu séquito. Uma febre terrível tomou conta dele no dia de sua chegada. Era tão forte que queimava como ferro em brasa. Era assolado por dores de cabeça constantes. As notícias dadas à sua mulher e aos nobres davam conta de um estado tão alarmante, que o bispo de Orange decidiu lhe ministrar os últimos sacramentos.

Quando o conde acabara de receber a extrema-unção, um senhor alemão, que ninguém conhecia, pediu para conversar com o doente.

— Hoje cedo tive uma visão — disse o estrangeiro quando entrou no quarto. — Vi São Gilles, o santo padroeiro de vossa família. Ele me encarregou de vos anunciar que está velando pelo conde, e que não vos abandonará neste momento crítico. Ele obteve do Senhor um prazo de graça. Vai se restabelecer. Deus o consentiu.

Todos sabiam, entre os cruzados, de que maneira o conde de Tolosa entregara a sua vida à causa de Cristo. Ele fora o primeiro a tomar a cruz e anunciar a disposição de morrer na Terra Santa, deixando todos os seus bens para o seu filho mais velho. Por isso ninguém se espantou com tal intervenção divina. . . Elvira e seus filhos caíram de joelhos agradecendo ao mesmo tempo ao mensageiro do santo, ao próprio São Gilles e Àquele que se deixara tocar. . .

O conde se restabeleceu quase que imediatamente e, já no dia seguinte, pôde retomar as suas atividades.

Durante os dois dias em que a tropa de Nosso Senhor permaneceu em Icônio, refrescando-se em suas fontes, nos seus pomares e jardins, muito se falou sobre o milagre que acabara de acontecer aos olhos de todos, e os corações sentiram-se fortalecidos. . .

Brunissen fizera amizade com a armênia que hospedava a família de Garin. Era uma mulher pequena e doce, cujo marido fora levado como escravo pelos turcos. Alguns dias após o rapto de seu esposo, ela adotara duas crianças que ficaram órfãs em conseqüência de um massacre em que seus pais foram mortos.

— Antes da sua chegada, nós vivíamos aterrorizados — confessou ela na manhã da partida, quando as duas novas amigas estavam no terraço, à sombra de uma videira farta, cujos ramos espessos formavam um teto de folhas e de cachos quase maduros. — Não tínhamos descanso e tremíamos todo o tempo. Mas agora tudo mudou. Vocês nos salvaram dos nossos opressores!

Como muitos cristãos fervorosos, ela sabia um pouco de latim. O suficiente para fazer se entender.

Os habitantes de Icônio foram pródigos em muitos outros testemunhos de reconhecimento para com os cruzados. Entre outras coisas, os aconselharam a se munir, antes da partida, do maior número possível de odres em pele de cabra cheios de água.

— Já que se dirigem a Heracléia — explicou a armênia aos chartrenses — precisarão de muita água. O caminho é dos mais áridos, e não é fácil encontrar boas nascentes.

Munidos de novas provisões e de uma quantidade impressionante de odres cheios, o exército e os peregrinos retomaram a sua peregrinação pelos caminhos da estepe anatoliana. Confiantes Naquele que os guiava, eles seguiam, os pés na poeira e o rosário entre os dedos. . .

Os turcos fugiam à sua passagem. No caminho, os francos se apoderavam de pequenas cidades encontradas, de fortalezas, cidadelas, e deixavam aí pequenas guarnições. Por toda parte, os cristãos gregos ou armênios, aliviados, felizes, os acolhiam como amigos e libertadores.

Eles realmente precisavam daquelas breves paradas que, a cada vez, permitiam que se recuperassem um pouco à sombra de um teto.

O sol voltara a ser um inimigo. Margeando a interminável cadeia dos montes Taurus, no centro de uma paisagem de fim do mundo, de uma pobreza absoluta, onde se abriam, aqui e ali, como olhos esgazeados do deserto, pântanos de águas salobras, cercados de hastes de cana ou de areias ponteados de rochedos negros, as filas obstinadas lentamente abriam caminho no seio do calor tórrido. Algumas vezes tinham a respiração cortada por borrascas de vento que mais pareciam bofetadas de um gigante. Em outros momentos, nuvens de poeira se levantavam e embaralhavam o horizonte sem limites. Algumas pequenas torrentes nascidas nas montanhas traziam, de tempos em tempos, uma ilusão de frescor.

Nada, no entanto, parecia ser capaz de detê-los. Nada. Eles caminhavam, cantavam, rezavam, passavam. . .

O próprio exército turco, reorganizado sob o comando do sultão e do emir desejosos de reparar, no espírito de seu povo, o desastre de Doriléia, fracassou. Nas redondezas imediatas de Heracléia, as tropas muçulmanas tentaram barrar a passagem aos cristãos. Em vão. Os francos os assaltaram com tanto ímpeto e temeridade que, apavorados com aquele arrebatamento que ninguém conseguia quebrar, os deixaram passar. Nessa ocasião, Boemundo se distinguiu mais uma vez por sua bravura perseguindo o sultão a quem desejava matar com as próprias mãos. . . A nova derrota dos infiéis logo se espalhou. Foi mais uma vez como vencedores que entraram em Heracléia de Capadócia.

Já era meado de setembro quando a tropa adentrou a cidade. O calor já diminuíra um pouco. A proximidade das montanhas proporcionava um ar suave, re vigorante. Os habitantes, cristãos na sua maioria, ofereceram uma hospitalidade generosa aos soldados vitoriosos e aos milhares de peregrinos que os acompanhavam. Esta etapa era decisiva. Heracléia estava situada no cruzamento dos caminhos. Cidade encruzilhada, ela impunha uma escolha entre dois itinerários que possuíam, cada um, os seus partidários.

Para alcançar a Síria, deveria tomar-se a rota do sul, antiga via dos conquistadores da Antigüidade, mais rápida, mas tão perigosa com seus despenhadeiros vertiginosos e seus picos eternamente cobertos de neve? Ou seria preferível a rota do nordeste, mais longa, é verdade, mas menos traiçoeira? Ela subia na direção de Cesaréia e Marasch, contornando a cadeia montanhosa e seguindo um caminho outrora muito conhecido, que ligava Bizâncio a Antióquia a Bela. A partir dali, este segundo trajeto permitia a liberação da passagem para a Capadócia, onde tantos cristãos haviam se refugiado há séculos para fugir do Islã e de suas perseguições. Ela não evitaria a travessia do Anti-Taurus, mas oferecia passagens menos perigosas para atravessar as montanhas.

— Nossos nobres estão reunidos em conselho — anunciou Herberto Chauffecire, vindo ao encontro dos chartrenses sob a tenda vermelha e verde onde se preparavam para cear. — Se forem verdadeiros os rumores que ouvi através das lonas das barracas, eles estão longe de chegar a um acordo!

O acampamento fora montado às portas de Heracléia, onde estavam reunidos os cruzados mais sólidos. Apesar da enorme boa vontade, a cidade não era suficientemente vasta para receber o conjunto, ainda impressionante apesar de tantas baixas, do formigueiro cristão em marcha para Jerusalém.

— Os mais jovens devem estar inclinados pelo caminho do sul — disse o padre Ascelino. — Eles são sempre os mais ágeis e os mais apressados. Os homens experientes escolherão certamente o caminho que vai na direção de Cesaréia, por todas as razões. . . Pouco importa, no fundo. O essencial é que não nos separemos.

Foucher de Chartres opinou como um chefe:

— Esses montes Taurus são uma gigantesca barreira natural erguida pelo Maligno para desencorajar os peregrinos. De qualquer lado que sejam abordados, apresentam sempre dificuldades — garantiu. — Mas será que não estamos já habituados? Já não atravessamos tantas provações que se poderia mesmo dizer que foi um milagre?

— Eu não imaginava a Terra Santa tão longínqua — confessou Landry, que preferia cear com os seus do que com os soldados. — Faz já um ano que deixamos nossas terras, um ano de marcha quase ininterrupta, e parece que estamos ainda tão distantes de Jerusalém! Quanto tempo nos falta ainda para chegar lá?

— Só Deus conhece o tempo e a hora — respondeu padre Ascelino. — Devemos aceitar nos submeter à Sua sabedoria.

Nem bem o padre terminou de falar quando um imenso clamor, vindo de milhares de peitos, os arrancou da conversa e fez com que se precipitassem para fora da tenda.

— Olhem! Pela Cruz de Deus, olhem! — gritava a multidão.

No céu noturno onde pontilhavam as primeiras estrelas, um clarão brilhante, de uma brancura resplandecente, um clarão que tinha a forma de uma espada acabara de aparecer e irradiava. A ponta da espada celeste estava voltada para o Oriente, como um sinal, como uma resposta, como um guia fiel enviado aos cruzados.

Todos caíram de joelhos e o adoraram.

Quando o gládio de chamas brancas começou a se apagar progressivamente, todos se levantaram e ouviu-se a voz de Foucher de Chartres se elevar na penumbra:

— Nós ignoramos o que este sinal anuncia — disse com um tom de veneração. — Ninguém ousaria se arriscar a interpretá-lo. Vamos recolocar o nosso destino entre as mãos de Deus!

Alaís estava próxima ao monge. Como não se sentisse bem naquela noite, pedira para ser dispensada de seus serviços junto a Mabille. Subitamente, no silêncio que se seguiu à aparição, ela perdeu a consciência e caiu no chão como uma flor cortada. Todos se precipitaram, ergueram-na e seu irmão levou-a ao interior da tenda. Ele a deitou sobre uma esteira de palha trançada onde a família veio imediatamente ter com ela.

— O que está acontecendo com você, minha querida? — perguntou assim que ela abriu os olhos. — Terá sido aquela espada de luz que a assustou?

Alaís meneou suavemente a cabeça loura envolta por um véu de linho muito fino.

— Não — disse, levando uma das mãos ao ventre num gesto de proteção e embevecimento. — Não, Landry, não é um sinal vindo do céu que me fez desfalecer. Estou esperando um filho. Um filho de Boemundo!

 

Não muito longe da pequena casa outrora ocupada pelas amas da família Danielis, encontrava-se uma velha figueira. Seu tronco espesso, cinza-prateado, recortado por inúmeras cicatrizes, estava cercado por um banco de mármore em frente do qual havia outras três banquetas, dispostas para conversação, em forma de meia-lua. Sua copa frondosa cobria toda a área vizinha com grandes folhas carnudas, como se fossem mãos verdes, cujo sangue seria uma seiva leitosa frutificando em figo fresco.

Durante o verão, Berta a Atrevida, Flamínia e Alberade vinham se sentar ali pela manhã e à noite, aproveitando os momentos de melhora da doença da anciã. O calor estival não chegava a atravessar completamente a abóbada protetora da árvore, onde grandes frutos verde-amarelados, e não roxos como em outras espécies menores, amadureciam, inchados de suco, na sombra da folhagem. As três mulheres amavam aquele lugar tranqüilo, onde a calma só era interrompida pelo canto dos pássaros azulados cujo nome ignoravam. . .

Em setembro, o estado da doente se agravou. Ela caminhava com mais dificuldade e por mais que cerrasse os lábios sobre o seu sofrimento, não conseguia impedir que seus traços se contraíssem cada dia mais. Apesar do ventre inchado, a sua magreza se acentuava. Também o seu cansaço aumentava. Os vômitos biliares, que se repetiam de forma inquietante, a deixavam sem forças, mas não sem coragem. Ela lutava. Contra aquele mal humilhante, contra a traição de seu próprio corpo que a enfurecia, contra o tempo perdido, contra o risco de desesperança.

Apesar da insistência de sua neta para que permanecesse dentro de casa onde era mais fácil cuidá-la, Berta a Atrevida fazia questão de vir todas as tardes para baixo da figueira. Com pequenos passos dolorosos, agarrada mais do que apoiada no braço de Flamínia ou de Alberade, ela chegava, à força de sua obstinação, ao seu lugar predileto. Nem sempre conseguindo controlar uma contração de dor, ela se sentava, apoiava a cabeça no tronco, fechava os olhos e sorvia, com a respiração ofegante, o odor de figo, permanecendo um longo tempo imóvel até se refazer de seu esforço.

Felizmente o calor se atenuara. Tornara-se suportável durante o dia e as noites se mostravam de uma suavidade pungente. . .

Era também sob a sombra tutelar que alguns familiares recebidos pelas solitárias ficavam durante as suas visitas. Teófano Danielis era um deles. Ele chegava da sua loja antes da hora da ceia, trazendo quase sempre um novo presente para suas amigas: doces de mel, bexigas repletas de almíscar para expulsar os miasmas da doença, cortes de seda para cortar túnicas novas e véus para a cabeça. Ele se sentava numa das banquetas em frente ao banco circular e, para distrair as suas interlocutoras, falava um pouco de tudo. Flamínia traduzia. Começavam sempre por falar sobre os avanços do exército cruzado e das suas vitórias. Tentavam evocar a vida de cada um dos membros da família de Garin, ao longo de um caminho que tinham dificuldades em imaginar. As cartas do padre Ascelino se tornavam mais raras e faltavam notícias recentes. A correspondência que chegava à corte do basileu só era lida por alguns privilegiados e geralmente era preciso se contentar com boatos de difícil verificação. O próprio perfumista desconfiava dos rumores que corriam na cidade: complôs tramados contra o imperador, intrigas sem fim na corte e no gineceu imperial, manobras ou especulações dos eunucos, mas também histórias de ameaças jamais conjuradas na fronteira do Leste. Ele geralmente concluía as suas visitas pela descrição das dificuldades que encontrava no exercício do seu comércio. Queixava-se das regulamentações, a seu ver excessivamente rigorosas, que regiam a profissão de perfumista: proibição de constituir reservas de especiarias prevendo uma escassez futura, proibição de usar outros pesos e medidas que não os carimbados pelos agentes do todo-poderoso prefeito da cidade, o eparca; presença obsessiva de logotetas, aqueles inspetores que podiam surgir a qualquer hora do dia ou da noite para controlar as mercadorias armazenadas na sua loja ou nos seus diversos entrepostos; impossibilidade de se abastecer com as matérias-primas de que necessitava para a composição de seus perfumes e de seus pós, sem falar de mil outras preocupações. . . Aquele prefeito era a sua sombra negra. Era ele, na verdade, quem fixava as quantidades máximas de produtos a comprar, indicava os fornecedores, estabelecia os limites de benefícios a realizar. Ele tinha poder até mesmo para impor multas pesadíssimas e o direito de banimento!

— Por Cristo Nosso Salvador! Esse homem exerce uma autoridade exorbitante! — exclamou Teófano. — Tudo o que se vende e se compra em Constantinopla deve ter a sua marca afixada. A marca do eparca é a idéia fixa de todos os nossos comerciantes! Nós, os perfumistas, estamos obcecados! Além do mais, ele pode mandar qualquer um de nós para o exílio se vendermos produtos proibidos ou não aceitarmos nos instalarmos onde o seu verdugo decidir! Ele também pode mandar nos açoitar em praça pública, nos raspar a cabeça ou ainda nos fazer passear pelas ruas, praças e encruzilhadas da cidade sobre o lombo de um burro ou camelo, com o rosto virado para o rabo do animal, para alegria da multidão exaltada!

Suas ouvintes riam ou sorriam, e Teófano Danielis tirava daí uma satisfação melancólica. Ele teria preferido continuar as longas conversas que mantivera, enquanto foi possível, com o padre Ascelino sobre temas teológicos como o famoso Filioque· que dividira a Igreja do Oriente e a Igreja do Ocidente, mas a partida do seu amigo deixara-lhe a incumbência de cuidar daquelas almas. Ele tentava cumprir o seu dever, de acordo com a idéia que fazia da amizade.

Ele não era o único a vir ver Berta e Flamínia. Desde o mês de julho Janice reaparecera. A cabrita negra, como Gabriel Attaliate a chamava, parecia ter se afeiçoado à jovem celta de temperamento apaixonado. Sozinha ou na companhia de Teófano, ela chegava, em diferentes momentos do dia, quando conseguia ser liberada dos serviços junto a Icásia, quando esta era chamada ao Palácio imperial. Ela se preocupava com a saúde da anciã, trazia-lhe plantas medicinais para o preparo de novas infusões, recomendava-lhe ungüentos fabricados por sua mãe, a ama de Icásia, que se deslocava cada vez menos durante o calor devido ao inchaço das pernas.

A ocasião lhe era favorável: fez questão de supervisionar pessoalmente os escravos encarregados da colheita dos figos maduros, quando chegou a época, e depois ficou mais algum tempo para fazer com que Flamínia provasse os pesados frutos frágeis, em forma de cabeças flexíveis, com pescoços rosados de onde brotava um suco adocicado e claro como o mel. Ela explicou como se procedia para conservá-los para o inverno: primeiro eram colocados ao sol para secar, antes de mergulhá-los num banho de água fervente salgada que os amolecia, deixando-os em melhores condições para o consumo.

— O figo — disse ela sentando-se finalmente sobre um dos bancos de mármore depois que os escravos se foram —, o figo possui uma particularidade: é uma flor que, uma vez fecundada, pára de se abrir para o exterior. Fecha-se sobre si mesma, dobrando-se novamente sobre a sua polpa tenra. É uma flor-fruta! Por isso é dotada de um significado duplo. Obsceno, é claro, devido ao seu formato, mas também honroso. Por todo o Oriente é elevado ao patamar de símbolo religioso. O mistério das suas sementes enfiadas no coração da sua polpa é comparado à fé que germina na alma daquele que crê. E não é tudo! O figo possui propriedades fortificantes que fazem dele um alimento aconselhado aos atletas e aos convalescentes. E as mulheres grávidas comem o máximo possível quando vão chegando ao termo, por estarem persuadidas de que a fruta propícia partos mais rápidos e mais fáceis. . .

Ela pôs-se a rir, e seus pequenos dentes afiados pareciam querer morder aqueles frutos que possuíam tantas virtudes.

— Platão recomendava aos filósofos à sua volta uma alimentação que ele acreditava beneficiar a inteligência — terminou com uma careta divertida.—Se fosse verdade, há muitas pessoas a quem se poderia sugerir que comessem figos!

Flamínia a observou com uma nova benevolência.

— Você sabe muita coisa! — observou amistosamente. — Meu pai era como você, gostava de nos ensinar o que sabia.

Berta a Atrevida, a quem a neta precisava traduzir cada frase, estava cansada de todas aquelas palavras zumbindo nos seus ouvidos e pediu logo à serva que a reconduzisse ao seu quarto. No entanto insistiu para que a adolescente ficasse ainda mais um pouco com Janice, cujas visitas certamente a distraíam muito. Crispando as mãos até enterrar as unhas nas palmas, tentando superar os espasmos que lhe consumiam as entranhas, ela voltava ao pequeno domicílio de seu exílio.

— Sua avó não parece se recuperar da doença — disse Janice a Flamínia um dia, próximo às calendas de setembro. Flamínia acompanhava com olhar desolado o passo doloroso de sua avó. — O médico armênio que Andrônico lhes trouxe é, no entanto, um mestre reputado, e sei que cuida bem de seus pacientes no hospital. Pode ser que, desta vez, não seja o caso de medicina humana, mas sobretudo de intervenção divina. Por que não tentar um dos métodos mais venerados aqui? Diz-se por aqui, que para curar um doente por quem a medicina não pode fazer mais nada, basta que lhe seja permitido tocar as chaves da grande porta de Santa Sofia. Para acalmar algumas dores, temos também o costume de apoiar o membro infectado em uma das colunas da nossa Grande Igreja. Poderiam, talvez, tentar este apelo à ajuda de Deus. Afinal, não é a fé que salva?

— É verdade — admitiu Flamínia — mas a avó estaria em condições de sair, subir numa liteira, seguir aos solavancos pelas ruas atravancadas que levam ao santuário e ainda subir os degraus? Tenho minhas dúvidas.

— Poderíamos conseguir que fosse carregada por um ou mais escravos.

— Falarei com ela. Sabe que ela só obedece à sua própria cabeça. . .

— Parece que nossa cidade as assusta.

— Talvez. . . Afinal ela não é imensa, com seus quatorze bairros, suas centenas de milhares de habitantes que, para mim, são todos estrangeiros? Deus me perdoe, mas aqui me sinto perdida! Os rumores só chegam aqui abafados, mas sei que fora dos muros desta propriedade todos os pecados capitais acontecem livremente pelas ruas e ruelas. . . Aventurar-se sozinha seria bastante perigoso para uma mulher. . . Venho de uma pequena cidade tranqüila, de importância bem inferior a Constantinopla, não posso negar, mas também bem mais segura que esta rainha das cidades com múltiplas faces!

— É verdade — reconheceu Janice sorrindo. — É verdade. Eu não imaginava que estivesse tão desorientada. . .

Um ruído de passos sobre a areia a interrompeu. Flamínia não voltou a cabeça. Já se decepcionara muitas vezes. . . Mais uma vez, era apenas um criado que passava.

Andrônico vinha muito raramente visitar as protegidas de seu pai. Se algumas vezes ele as acompanhava até a casa, era cada vez mais difícil vê-lo passar sozinho para saber notícias do estado da doente e ficar por algum tempo conversando com Flamínia. Quando se via obrigado a fazê-lo por gentileza, parecia sempre apressado, tenso, preocupado. Seus olhos azuis como as águas do Bósforo se desviavam sem cessar, suas mãos grandes apertavam nervosamente o cinto de couro e ele não se demorava sob a figueira.

Sempre fiel à sua atitude, Icásia permanecia distante. Podia-se perceber, às vezes, por entre as árvores, a dona da casa e algumas de suas amigas, com túnicas esvoaçantes e coloridas, sentadas no centro do jardim sobre almofadas, tapetes amontoados ou cadeiras dobráveis em couro e cercadas por uma nuvem de criadas. Instaladas diante de mesas baixas cobertas de doces de mel, pastas de frutas, tâmaras ou figos, elas bebiam leite de amêndoas ou vinhos resinados. Conversavam enquanto bordavam ricos estofos em seda, fiavam em teares, preparados pelos escravos ou enrolavam fios multicoloridos nos fusos. O riso e a conversa ligeira brotavam, ressoando sob os galhos. A trama adivinhada daquelas existências suntuosas e fúteis só tornavam ainda mais amargo o isolamento de Flamínia, sua incerteza e a angústia do amanhã. . .

Pascoal obedecia à proibição que lhe fora imposta para que não se aproximasse dos estrangeiros. Nunca mais o tinham visto. Como sua mãe, também Marianos não pensava em se manifestar. Pelo que dizia seu avô, a vida no Circo o ocupava totalmente. Por outro lado, seu amigo Cirilo Akritas já insistira duas vezes em se encontrar com Flamínia. A atitude reservada da jovem franca não o incitara a voltar.

— Seu admirador, o cocheiro dos Verdes, está ardendo pelo desejo de revê-la — disse um dia Janice, rindo. — Sua frieza não foi suficiente para o desencorajar, mas certamente preferiu esperar para não aborrecê-la. Você o impressionou muito, minha cara, e posso apostar que ele a tem em sua mira.

— O problema é todo dele! — respondera Flamínia despreocupada. — Se eu o agrado, ele não me agrada.

— Mas é um belo rapaz, que faz enorme sucesso.

— Já que é você quem o diz, deve ser verdade. Mas ele perde o seu tempo pensando em mim. . . no momento tenho um único objetivo: ver a avó curada. As histórias sentimentais me importam bem pouco!

"O Maligno me ensinou também a mentir, pensou ela quando já estava sozinha. Estou habitada pelo pecado porque a idéia do pecado já é o pecado. . . Mas não consigo esquecer Andrônico e o encantamento que me provoca. . ."

Quanto tempo mais, aquilo que não era uma vida, duraria ainda? Só lhe restavam a sua fé em Deus, o seu amor por um homem casado e a doença de sua avó, e havia também a sua juventude. . .

Da pequena casa podia se ouvir, algumas noites, o eco das festas dadas por Marianos na casa de seus pais. Os acordes da lira, da citara, da flauta, do sistre, dos címbalos, gritos, risos, perseguições pelas moitas dos jardins perturbavam a calma habitual da morada até tarde da noite. Por vezes alguns companheiros levavam até algum canto escondido do jardim algumas jovens com o rosto exageradamente maquilado, penteados rebuscados e adornos de cabeça que não deviam resistir muito tempo aos arroubos amorosos cujos ecos chegavam até Flamínia sob a forma de suspiros, de gemidos, de sussurros, de gargalhadas. . . Em seguida, com um pisotear de cavalos, em meio a um rumor confuso de cantos báquicos, os convivas do jovem auriga partiam.

Após a sua partida, era necessário um certo tempo para que a paz noturna renascesse sob as árvores, entre os muros e as flores desfolhadas... Pelas ruas então silenciosas, ouvia-se apenas os gritos dos guardiães da noite, cuja regularidade compassava o sono dos novos romanos até o amanhecer. Os pássaros matinais faziam então o seu revezamento e entoavam novos trinados, frescos e alegres como os primeiros raios do sol sobre o mar espelhado. . .

Sozinha em seu leito, Flamínia chorava. Ela pensava na bacia dos lotos onde nunca mais quisera voltar, nem à alameda dos ciprestes com odor de resina onde vira surgir Andrônico numa noite de verão.

"Estou sofrendo uma punição secreta para expiar uma falta secreta, pensou a adolescente revirando-se entre os lençóis. Desejei permanecer nesta cidade com o pretexto de cuidar de minha avó. Fingi sacrificar-me, mas Deus, que conhece as almas, sabe a verdadeira razão que me fez desejar tanto continuar em Constantinopla. Ele não se deixa enganar por nossas mentiras e, menos ainda, por aquelas que se escondem sob o manto branco da abnegação. Quando todos me felicitavam por meu sacrifício, o Senhor fechava o coração de Andrônico e o afastava de mim. Isto é a justiça. Não estaria eu maculando minha alma com um projeto de adultério? Não corria o perigo do pecado mortal?"

Ela apenas ousava formular aquelas palavras terríveis, portadoras da perdição. . . Assim que elas afloravam, Flamínia pulava da cama onde, desde a partida das irmãs, dormia sozinha, e se punha de joelhos frente ao ícone onde passava horas rezando para pedir à Santa Mãe de Cristo que afastasse dela as evocações que tanto a perturbavam.

Mas bastava, no dia seguinte, que os passos ou a voz de Andrônico ressoassem no jardim para que o coração extraviado enlouquecesse. Daquele coração imprudente, o sangue chegava até as extremidades de todo o corpo alerta, rígido, à espera de um gesto, uma palavra, um sinal ao mesmo tempo esperado e temido. Apesar da sua vontade impotente, Flamínia se punha então a tremer como as folhas dos choupos, no seu país, quando soprava o vento. . . Uma necessidade de amor que a mantinha como prisioneira.

Com exceção de Berta a Atrevida, ela não tinha perto de si ninguém em quem despejar aquele sentimento exagerado. E não se conformava com isso. Durante o verão sufocante e depois nos primeiros langores do outono, todo o seu ser gritava por socorro. Pedia qualquer um a quem se entregar, de corpo e alma. No entanto continuava muito correta, muito honesta consigo mesma para que fingisse ignorar o nome desse qualquer: Andrônico!

Flamínia se repetia aquelas quatro sílabas ao ritmo do seu caminhar, das suas ocupações mais costumeiras, do movimento da sua roca, de sua agulha de bordar, do enrolar das faixas de gaze que era preciso renovar constantemente, da preparação dos diferentes caldos, infusões ou tisanas que o professor armênio, que não as abandonara, empenhava-se em prescrever durante as suas visitas. Flamínia ouvia aquele nome no estalar das folhas da figueira que já caíam pesadas ao chão, onde logo se enrugavam ressecadas e até no canto dos pássaros desconhecidos que ainda pousavam na árvore, cada dia mais desfolhada.

Ela aprendera que Andros, em grego, significava "homem" e realmente, Deus era testemunha, para ela só existia um homem, um único, para interessá-la, ocupá-la, habitá-la, atrair cada pensamento e cada sonho seu. . . Mas o eleito parecia não reparar na ruiva jovem franca cujo olhar, tão semelhante aos olhos de mosaico da Virgem Teótokos, raramente cruzava o seu.

Não tendo mais nem irmãs nem amigas a quem se dirigir, nenhum padre que falasse a sua língua para se confessar, não confiando em Janice cuja afeição ainda não desvendara claramente, a adolescente só podia contar com ela mesma. Quanto a Berta a Atrevida, com quem, normalmente, teria desabafado, não era possível lhe trazer mais um aborrecimento, mais uma preocupação, uma vez que o seu estado, com o passar dos meses, só fazia piorar.

As confidencias proibidas não impediam as longas conversas cotidianas que avó e neta continuavam mantendo. Apenas foi estabelecido um acordo tácito entre elas: Berta recusava-se a falar de sua doença, salvo em caso de absoluta necessidade, e Flamínia não pronunciava o nome de Andrônico. Com Alberade, elas conversavam sobre os ausentes, sobre a peregrinação, sobre Garin, Jerusalém. . . e sobre Constantinopla onde viviam como reclusas, contentando-se apenas em imaginar os esplendores e as sombras descritos por Landry ou pelo padre Ascelino. Parecidas mais uma vez, as duas mulheres, que se encontravam nas duas extremidades da vida, estavam de acordo em se calar sobre sentimentos demasiadamente íntimos, que as conduziriam a atritos que nem uma nem outra desejava. . .

Quando estava sozinha, Flamínia se perguntava como era capaz de calar assim sobre o seu segredo àquela que a criara e a quem tanto amava. Evitar perturbações na doença não lhe parecia uma explicação suficiente. Ela via aí o dom de uma graça que lhe fora concedida para fortalecer sua alma e amansar seu temperamento. A atenção que o Senhor parecia lhe dedicar a perturbava mais do que tudo. Ter afastado dela o objeto de um desejo que só poderia levar ambos à perdição era, no seu entender, a prova de uma preocupação divina com a sua salvação, e agradecia a Deus por isso. Mas por outro lado, não conseguia sufocar no fundo de si mesma a tristeza de um remorso cujos prelúdios teriam sido tão suaves. . .

Já que o caminho a seguir estava claramente designado, restava-lhe garantir da melhor maneira possível a sua própria salvaguarda. Foi por isso que decidiu se dedicar a uma obrigação que lhe ocuparia não só as mãos mas também o espírito. Durante as longas noites de inverno, agora já próximas, recopiaria os Evangelhos que seu pai lhe oferecera num manuscrito caligrafado com o maior zelo por um monge bastante conhecido de Foucher de Chartres, já que pertencia como ele à abadia de Saint-Père-en-Vallée. Num velino de grão muito fino, devido a uma pele de vitelo morto logo ao nascer, de qualidade excepcional, o copista traçara com tinta letras escurecidas de aspecto ao mesmo tempo transparente e laqueado.

Flamínia não dispunha de ramos novos de abrunheiro para fabricar uma tinta semelhante, nem de velinos tão belos quanto aqueles, polidos, repolidos, esfregados em seguida com uma pele lanosa de cordeiro por Garin, que exercia a profissão com paixão e refinamento. Com medo de gastá-los, ela não queria tampouco utilizar os poucos rolos de pergaminho virgem trazidos por seu pai no seu cofre pessoal, que Berta havia guardado.

Foi mais uma vez sob a figueira, agora desfolhada e nua, depois que sua avó entrara por julgar já muito frio o vento de outono, que a adolescente falou de sua resolução a Janice, que sempre soubera livrar-se habilmente das dificuldades cotidianas.

— É possível encontrar em Constantinopla inúmeros pergamenos. É assim que chamamos aqui os pergaminhos que foram inventados em Pérgamo e são de diversas procedências — disse a irmã-de-leite de Icásia.

— Não será difícil consegui-los. São utilizadas várias peles diferentes: carneiro, porco, cabra e mesmo bode, para os mais grosseiros. Quando se trata de livros de valor, são utilizadas peles de antílope ou de gazela. Dispomos também de tintas de todas as cores. Por exemplo, o basileu confirma e assina apenas com tinta de púrpura os documentos oficiais de grande importância, chamados crísóbulas. O ofício de Gabriel Attaliate, prefeito da Canicléia, é apenas esse: ele deve limpar, encher, vigiar o augusto tinteiro contendo o cinábrio imperial. . .

Janice foi interrompida pela chegada de Teófano. O mestre-perfumista perguntou sobre a saúde da enferma e em seguida ouviu com interesse a exposição do projeto de Flamínia, aprovando-o imediatamente.

— Não é bom para alguém tão inteligente manter o espírito desocupado — reconheceu com a simpatia que nunca deixara de testemunhar a seus amigos francos. —Nós lhe forneceremos tudo o que possa precisar, fique certa. . .

Ele sorriu para as suas interlocutoras. Há algum tempo ele parecia depositar mais confiança em Janice, a quem tratava agora com uma cordialidade que devia estar ligada às numerosas visitas que ela, apesar dos laços de subordinação que a ligavam a Icásia, fazia aos ocupantes da pequena casa das amas.

— Será que sabia — retomou — que alguns eruditos árabes escrevem em livros feitos com peles das mais raras e belas gazelas do deserto, com a ajuda de canas talhadas a que se dá o nome de calamos? As melhores vêm da Mesopotâmia e são duras como o aço. Elas são mergulhadas na casca verde de noz, à guisa de tinta.

— Em nosso país também empregamos algumas vezes hastes de cana para escrever — respondeu Flamínia. — Eu prefiro ainda as penas de aves: patos, corvos, cisnes, abutres, mas as minhas preferidas são ainda as de ganso. Não sei se sabem que, por dormirem com a cabeça enfiada sob a asa direita, os remígios do lado esquerdo permanecem curvados, o que proporciona uma inclinação perfeita para a escrita. Meu pai não se cansava de dizer isso! Eu gostaria também, já que teve a bondade de deixar-me escolher, de uma boa tinta com carbono e de mica pulverizada para proporcionar bastante brilho. . .

Teófano e Janice trocaram um olhar conivente.

— Vê-se bem que é filha de um pergaminheiro! — exclamou o mestre-perfumista. — Ninguém conheceria melhor os segredos da confecção de livros!

O passo que subitamente fez ranger a areia da alameda, desta vez, era de Andrônico.

— Senti-me no dever de trazer-lhes a carta que um monge de passagem acaba de deixar em nossa loja — disse, após ter saudado Flamínia. — Sei com que impaciência esperam as notícias de vossa família.

Ele estendeu então um rolo com o selo do padre Ascelino. Teófano Danielis se enganou sobre as razões da palidez da jovem e sobre o tremor que agitava as suas mãos.

— Leia! Leia sem demora — aconselhou ele. — É tão raro que possa ler uma mensagem como esta!

Na verdade aquela era apenas a terceira missiva recebida pelos hóspedes do mestre-perfumista desde a partida dos cruzados no início do verão, e já estavam chegando ao fim das calendas de outubro.

Flamínia agradeceu com um sorriso apagado e rompeu o lacre. . .

Quando acabou de decifrar o longo pergaminho onde corria a escrita cuidada do tio, levantou a cabeça. Teófano, Janice e Andrônico a observavam. Flamínia enrubesceu. Suas trancas cor de cobre e sua pele tinham a mesma cor.

— Perdoem-me — disse — mas Deus bem sabe que estas cartas representam o único elo que ainda nos liga à nossa família dispersa. Parece que já faz tanto tempo que se foram. . .

Ela suspirou, cerrou os lábios como sua avó, e se levantou.

— Dentro do possível, vão todos bem — retomou. — Landry não teve nenhum ferimento grave durante os combates contra os sarracenos. Como todos os seus companheiros, minhas irmãs sofreram muito com a sede e a fome no deserto. Graças a Deus, no momento em que esta carta era escrita, na Cesaréia, os nossos já podiam novamente comer o suficiente. Deveriam partir no dia seguinte e se preparavam para atravessar uma montanha alta, os montes do Taurus pelo que diz nosso tio, antes de tornar a descer em direção a Antióquia passando por Marasch. Segundo as suas informações, esta travessia não deveria ser das mais fáceis. . .

Tantos dias já haviam se passado desde o instante em que o padre Ascelino escrevera a sua epístola e o instante em que era lida. . . Flamínia se ressentia muito da escassez e da insuficiência das cartas, que sempre lhe chegavam às mãos muito tempo depois que os acontecimentos nela descritos já haviam se transformado em peripécias ultrapassadas. . .

— Boas e más notícias se dividem nesta carta. O exército separou-se em dois durante a sua passagem numa cidade chamada Heracléia. Balduíno de Bolonha e Tancredo, o sobrinho de Boemundo de Tarento, escolheram a Síria, com um pequeno grupo de homens armados e sem peregrinos, seguindo o caminho mais curto mas também mais difícil. O grosso da tropa preferiu alcançar Cesaréia de Capadócia por um antigo caminho que parecia mais seguro. Entretanto no dia seguinte, o duque Godofredo de Bouillon quase perdeu ali a sua vida. . .

Janice e Teófano fizeram o sinal-da-cruz. Andrônico juntou as mãos num gesto de oração.

— Quando a tropa de Nosso Senhor fazia uma parada aos pés das grandes montanhas de que já lhes falei — continuou a narradora — muitos peregrinos deixaram o acampamento nos campos para tentar conseguir, na floresta próxima, lenha para acender o fogo. O duque Godofredo, que por sua vez saíra em busca de uma caça para a ceia, subitamente ouviu alguém que pedia ajuda. Ao se aproximar, viu um urso enorme atacando um pobre homem que carregava um feixe de lenha. Desembainhando a espada, o duque se precipitou para ajudar o pobre coitado. O urso então virou-se brutalmente para ele e jogou ao chão cavaleiro e cavalo, tal a sua força monstruosa. Ele mordeu selvagemente a coxa do duque, tentando matá-lo. Mesmo machucado, este lutou com toda a sua coragem contra a fera e conseguiu acabar com ela, enfiando até o fim a espada em seu corpo. Mas ficou em estado lastimável, perdendo muito sangue. . . Alertados pelo peregrino a quem arrancara das garras do urso, os nobres e outros guerreiros, que já haviam voltado ao acampamento após uma caça frutífera, se dirigiram com toda a velocidade para o lugar onde estava o duque, a quem encontraram caído no chão, pálido e sem forças. Eles o colocaram numa maça improvisada com galhos e o levaram para a sua tenda onde chamaram os trepanadores para que cuidassem dele. Meu tio disse que o duque escapou por pouco de uma morte horrível. No entanto ele não pode mais cavalgar nem caminhar, e durante um certo tempo foi preciso carregá-lo.

— Deus fará com que fique curado — afirmou Andrônico, que acompanhara o rei ato apaixonadamente. — O exército não pode ficar sem um senhor tão leal e corajoso.

Flamínia observou durante alguns instantes, em silêncio, aquele que acabara de se expressar com tanto arrebatamento, retomando em seguida a sua crônica.

— Depois disso, os nossos cruzados libertaram várias praças-fortes, onde os habitantes, armênios e cristãos, agradeceram-lhes efusivamente — disse ela com uma entoação de quem está pensando unicamente nas palavras que pronuncia.

— Que a Virgem Teótokos vos abençoe a todos por tão boas notícias!

— exclamou Janice. — Graças aos francos vamos recuperar as nossas províncias perdidas da România!

Teófano sorriu indulgentemente mas não fez comentário algum. —Uma notícia, desta vez triste, é que a doce Godvera de Toeni, esposa do senhor Balduíno de Bolonha, que partira, como eu já disse, por um outro caminho, parece estar muito doente — continuou Flamínia. — Não sei de que sofre, mas acharam melhor enviar um mensageiro até seu marido para lhe dizer que volte o mais rápido possível para junto dela e de seus filhos. . . Eu a conheci ligeiramente: é uma mulher cheia de bondade. . .

— Quantas provações, quantos males, quanto luto ao longo desse caminho de Jerusalém! — suspirou Teófano. — É muito triste toda essa hecatombe. . . Nosso consolo deve ser a certeza de que essas almas devotadas ao serviço do Senhor já foram recebidas por Ele em Seu paraíso.

— Como foi o caso de meu pai — murmurou Flamínia. — Sei que ele agora faz parte dos bem-aventurados!

Ela levantou o rosto mostrando um olhar onde brilhavam, através das mesmas lágrimas, tristeza e esperança.

— Enfim os cruzados não cessam de tomar e ocupar novas cidades e fortalezas — acrescentou depois de um momento. — Os turcos fogem sem reclamar seus pertences, a cada vez que vêem se aproximar o exército.

— Esses turcos, que eram considerados os melhores guerreiros de todo o Oriente, estão agora retalhados e dizimados — constatou Andrônico com um entusiasmo que, por algum tempo, dissipou seu nervosismo. — Ao abandonarem as suas casas, os cruzados tinham razão em proclamar: Deus está conosco!

Flamínia lhe dirigiu um sorriso reconhecido, ao que respondeu, e terminou em seguida a sua leitura com os agradecimentos de praxe:

—In fine, meu tio me pede que transmita, junto aos agradecimentos pela hospitalidade que tão generosamente continuam a nos oferecer, seus sentimentos da mais fiel amizade em Nosso Senhor Jesus Cristo.

— Deus esteja com ele! — afirmou calorosamente Teófano Danielis. — Seu tio é um santo homem.

Naquela noite, durante a vigília, diante do fogo que agora era mantido aceso todo o dia, e ao redor do qual era agradável estar quando as noites já se tornavam mais frescas, as três solitárias comentaram até bem tarde as notícias trazidas pela longa epístola do padre Ascelino. Ao clarão das chamas, dos tições, aliado à luz dourada da lâmpada a óleo que ardia no ícone, elas falaram dos que lhes eram próximos, perdidos lá, tão longe, num vapor místico de calor e furacões de areia onde vagavam os seus pensamentos. . .

— Por culpa deste mal que o diabo certamente foi autorizado a me impingir pelos meus pecados, estou lhe impedindo de participar da mais santa e mais admirável peregrinação jamais empreendida pelos cristãos! — exclamou Berta a Atrevida com um furor surdo, sentindo-se um pouco melhor desde aquela manhã. — Não me perdôo por isto!

— Minha avó, fui em quem quis permanecer aqui ao seu lado — respondeu Flamínia. — Não é culpa sua. Pare de se atormentar sem razão.

Alberade, que costurava perto da lareira, levantou bruscamente a cabeça e fez um sinal para que as duas mulheres se calassem. Pôde-se então ouvir o ruído do vento sob os reposteiros de tapeçaria e, talvez, de passos esmagando cuidadosamente a areia da alameda que contornava o pequeno imóvel.

— Há várias noites tenho a impressão de ouvir passos perto de nossa casa — disse a criada. — Estou com medo. . .

Berta sacudiu os ombros magros, com o que ainda lhe restava de forças.

— Quer me dizer quem viria até este canto afastado do jardim quando já é noite? — perguntou, com o desprezo pelo perigo que sempre a caracterizara. — Deus sabe que não há nada para roubar aqui dentro! Em todo caso, os inúmeros criados dos Danielis montam guarda às portas da propriedade e fazem rondas até o amanhecer. Certamente não seriam humildes viajantes como nós que atrairiam os malfeitores, mas sim a rica mansão dos nossos anfitriões! Vamos, pare de revirar esses olhos assustados. Não há nenhuma razão para se inquietar por tão pouco.

— Se por acaso alguém viesse até aqui — retomou Flamínia, esforçando-se para dissimular uma perturbação que não conseguia deixar de sentir — só poderia ser um servo ou um escravo. Como eles são severamente vigiados, não há o que temer.

— Que a Virgem Maria as escute! — murmurou Alberade virando-se na direção do ícone, com uma saudação fervorosa. — Só os ladrões saem depois da meia-noite. Há também alguns demônios que rondam à cata de almas para levar. . .

— Cale-se! — ordenou Berta, de mau humor. — Você é medrosa como uma lebre e conta histórias de amas-de-leite! Vá se deitar perto da minha cama e prepare os meus remédios. Logo irei também.

Era impressionante constatar como Berta a Atrevida recuperava imediatamente a sua energia e o seu ar de comando quando o sofrimento deixava de incomodá-la! Flamínia sorriu-lhe e ofereceu-lhe o braço para conduzir até o quarto aquela mulher de ferro a quem a doença atingia, sem contudo conseguir derrubá-la. . .

Permanecendo depois sozinha perto do fogo que se apagava, a adolescente tornou a se sentar e ficou um bom tempo imóvel. Também ela percebera há dias, depois que caía a noite, o ruído da areia sob passos que deslocavam-se silenciosamente ao redor da casa.

"Será ele? Será que reparou em mim, apesar de seu ar distante? Senhor Deus, será que lhe agrado? Não. . . estou ficando louca. Não pode ser ele. O que significam, então, todas essas voltas?"

Flamínia também tinha medo, mas por razões bem diferentes de Alberade. Ela não temia nem ladrões nem demônios, mas uma artimanha de amor tramada pelo Adversário, sempre empenhado em destruir a virtude onde quer que estivesse. . . sobretudo quando se defendia mal, assolada por tentações, com algum consentimento ainda por cima. . .

Flamínia passou os dedos hesitantes sobre as pálpebras, ajoelhou-se sobre a almofada colocada diante do ícone e rezou furiosamente. Foi uma longa oração. . .

Não ouvindo mais ruídos, devorada pela curiosidade e decidida a dissipar toda a incerteza, ela se levantou, prendeu o véu ao redor dos ombros e se cobriu com seu manto, abrindo em seguida suavemente a porta da grande sala.

O ar estava um pouco frio lá fora, mas nem de longe se assemelhava ao frio agudo que fazia em Chartres naqueles primeiros dias de novembro. . .

Flamínia deu alguns passos na direção da figueira. Seu nome, pronunciado quase num sussurro, nem fez com que estremecesse. Por que sairia de casa se não fosse para ouvi-lo?

Subitamente, sem que o tivesse visto aproximar-se, estava nos braços de Andrônico. Apertada, esmagada contra ele.

Durante algum tempo permaneceram assim, tão estreitamente enlaçados quanto a madressilva ao tronco das árvores. Sem uma palavra. Sem um gesto. Estar finalmente juntos já era suficiente. Seus sangues partilhavam do mesmo pavor maravilhado. . . O rosto de Flamínia, apoiado à barba escura e bem cuidada do homem agitado por um tremor semelhante ao seu, conhecia uma suavidade que até então era apenas pressentida. . .

Quando Andrônico se inclinou para beijá-la, ela pôs os dedos assustados sobre os belos lábios que se ofereciam.

— Não! — disse ela, suspirando —, não!

Não era uma súplica, mas uma resolução.

— Por quê? — murmurou Andrônico.

— Você sabe. Sempre soube. Sou uma cruzada e tenho apenas um senhor!

— No entanto Deus a colocou em meu caminho. . .

— Deus ou o Outro? De qualquer maneira, estamos sendo postos à prova. Não vamos cair como animais nesta armadilha. . .

— Eu a amo!

— Eu também o amo! No entanto só posso ser sua pelo coração. Não cometeremos o pecado do adultério.

— Posso me divorciar! Há muitos anos que entre Icásia e mim só existem incompreensão e brigas.

— O divórcio não existe para nós.

— Mas existe para mim! — exclamou Andrônico, com uma violência súbita. — Você não imagina como sou infeliz!

Com um gesto firme, Flamínia afastou os braços que a seguravam.

— Aceitaria condenar-me ao fogo eterno?

— Tenha piedade de mim!

— O Senhor disse à mulher adúltera: "Vai e não peques mais!" Não posso ceder.

Perdida, destroçada, ela deu um passo para trás.

—Meu Deus, como o amor está forte em mim—gemeu ela.—É como um cavalo enlouquecido. . . Preciso ir embora. . .

— Quando a verei novamente?

— Não sei. Não sairei mais à noite.

— Estarei esperando todas as noites sob a figueira.

— O inverno não permitirá!

— Meu amor é mais quente que o inverno!

Flamínia cobriu com as mãos os ouvidos e fugiu correndo, como uma fera desorientada, em direção à casa.

 

Passaram-se dois dias e duas noites, vividos em meio ao tormento. A agitação dos seus pensamentos a consumia e zunia como um ninho de víboras. Ela se lembrou do sonho que tivera na primeira noite em casa dos Danielis.

"Aí estão as serpentes, pensou. Moram na minha carne, no meu coração. . ."

Algumas vezes acontecia-lhe encarar o seu sofrimento como alguma coisa que vinha do exterior e não como se fizesse parte inerente dela mesma. Tomava para si seu peso e seu julgamento.

"Como pude resistir a Andrônico quando precisava tanto dele? perguntava-se transtornada. Onde encontrei coragem? Não foi a minha força que se manifestou, mas uma outra força, muito mais segura do que a que eu poderia ter tido. . ."

No terceiro dia, começou a chover pela manhã, depois que Flamínia voltou da missa cotidiana.

Berta a Atrevida, que passara novamente uma noite ruim, estava sentada no seu quarto, no fundo de uma poltrona de encosto alto que Teófano Danielis trouxera de casa especialmente para ela. Enfiada no meio de inúmeras almofadas que a enfeitavam, ela parecia incrivelmente encolhida com seu corpo magro, ressecado, as têmporas afundadas, semelhantes às dos velhos cavalos destinados ao esfolamento, as olheiras bistres onde seus olhos brilhavam de febre como duas poças d'água cheias de lama argilosa, refletindo entretanto o céu. . . E havia ainda o cheiro. Apesar das lavagens, dos cuidados constantes, ele pairava ao redor da doente como agoureiros irredutíveis e obcecados da morte, relentos de urina, vômito, dejetos. Era impossível não senti-lo ao entrar no quarto onde nem o odor de incenso, almíscar, âmbar, oferecidos pelos Danielis, ou as braçadas de flores secas aromatizantes espalhadas prodigamente pelo aposento, conseguiam mais combater uma presença já instalada.

Apesar da coragem da anciã e do imenso desejo de sua neta em vê-la viva, quem ainda acreditaria na cura de Berta a Atrevida?

Era o que pensava Flamínia, que acabara de acompanhar até a porta o professor armênio, fiel às suas consultas que não traziam nenhum progresso. Ele praticara uma sangria, prescrevera um novo banho de assento e supositórios compostos de mel e bílis de touro. Além disso, aconselhara uma dieta em que deveria tomar apenas mercurial, misturado a uma cocção de cevada e muito vinho doce diluído em água.

— Talvez consigamos eliminar as náuseas que a fazem vomitar — dissera o médico. — Se conseguirmos, aplique-lhe em seguida uma lavagem cuja fórmula, totalmente nova, aqui está. Talvez melhore com isso. Se não, restará sempre a possibilidade de conduzi-la a Santa Sofia para que toque as chaves milagrosas. Já vi doentes que se curaram graças a elas. . .

E partira sacudindo a longa barba.

"Então só nos resta o milagre, pensou Flamínia. Mas o milagre existe! Nós iremos a Santa Sofia!"

Ela se recusava com todas as suas forças a encarar a eventualidade de um futuro sem a presença de Berta. Um futuro que a forçaria a assumir uma posição: partir, continuar o caminho já começado, deixar Andrônico, as loucas alegrias esperadas. . . ou permanecer ali, no pecado. . .

A chuva parou. Pouco tempo depois, bateram à porta.

Alberade foi abrir e se viu diante de Gabriel Attaliate. Elegante como sempre, ele usava uma túnica justa de seda grega, presa à cintura por um cinto em malha de ouro e bordada de medalhões representando a família imperial. Por causa do tempo instável, vestira por cima uma longa chlamyde enfeitada, também, por bordados suntuosos de folhagens verdes e roxas. Pela rica vestimenta entreaberta, podia-se ver a corrente de ouro da qual pendia a medalha tendo ao centro o olho de cristal vermelho. Nos dedos, vários anéis brilhavam.

Embevecida, a criada se esquecia de fazer entrar aquele visitante que a cada vez lhe produzia uma tão forte impressão.

— Quem é? — perguntou de longe Flamínia.

Com um gesto decidido, o eunuco afastou Alberade e penetrou na sala.

— Em nome de Cristo, saudações — começou ele inclinando-se ligeiramente diante da jovem. — Estou feliz por encontrá-la aqui. Foi exatamente para vê-la que vim até aqui.

Ele parecia agitado e menos amável que de costume.

— O que pode fazer uma jovem como eu, estrangeira e isolada, pelo prefeito da Canicléia, confidente do imperador?—perguntou a adolescente após uma breve reverência de recepção, indicando ao recém-chegado um assento próximo ao fogo.

Com um gesto simples ele recusou.

— Vim buscá-la — disse bruscamente. — Pegue seu abrigo e siga-me.

Flamínia ergueu o queixo e franziu as sobrancelhas.

— Poderia fazer-me o favor de explicar por quê? — perguntou, cruzando os braços sobre o peito.

Com um gesto que traduzia uma certa irritação, o eunuco coçou com o polegar o queixo imberbe onde se podiam ver reflexos preto-azulados, não obstante o cuidado com que fora barbeado algumas horas antes.

— Minha irmã está à sua espera na liteira, à porta do jardim — respondeu. — Ela faz questão de lhe falar.

— Posso saber por quê? — indagou Flamínia, percebendo que estava diante de um fraco, levado ali por uma vontade que não era a sua e descontente por ter cedido.

— Segundo um hábito detestável, Icásia foi esta manhã bem cedo visitar o seu astrólogo — suspirou Gabriel, — E voltou transtornada. Esse impostor previu que uma virgem solar, vinda do país onde o sol se põe, poderia incendiar a sua casa. Ela logo pensou na sua cabeleira cor de fogo. . .

— Por todos os santos, não vejo como poderia incendiar uma casa onde jamais tive a oportunidade nem mesmo de entrar! — exclamou a adolescente com um aparente desprendimento, mas com o coração batendo violentamente contra os braços ainda cruzados. — Realmente, esta é uma história fantástica!

— Histórias de mulheres! — Deixou escapar, com desprezo, o irmão de Icásia. — Puras histórias de mulheres! Apesar de tudo o que já lhe disse para que voltasse à razão, Icásia não se convenceu. Ela quer vê-la imediatamente.

— Mas eu não estou às suas ordens!

Contrariado, o eunuco sacudiu a cabeça agitadamente, o que fez com que balançassem, quase se desmanchando, os espessos cachos negros cortados artisticamente à altura dos ombros que não chegavam a tocar.

— Nem se trata de obrigá-la a coisa alguma — retomou ele tentando demonstrar uma civilidade natural. — Apenas estou lhe pedindo que faça a gentileza de me acompanhar.

— Se quer me ver com tanta rapidez, por que sua irmã não veio até aqui, em pessoa, para se encontrar comigo?

— Porque suas funções de conselheira em maquilagem e perfumes junto à imperatriz chamam-na a palácio. Trata-se de um dever absoluto para ela. Se faltasse sem uma razão muito grave, poderia ser banida e até mesmo ficar cega. . .

Flamínia sabia que aquele suplício era aplicado com bastante freqüência em Constantinopla. . .

— Ela deveria ter ido diretamente para lá quando saiu do seu maldito astrólogo — continuou Gabriel —, mas eis que mudou de idéia. . . Pelos santos querubins, aquele maluco virou-lhe a cabeça! Ela fez questão de voltar aqui para buscá-la e assim conversarem na liteira, no trajeto até o palácio. Talvez ela até a faça entrar. Lá Icásia dispõe de uma sala especialmente arrumada, onde são colocados os inúmeros produtos de beleza utilizados pela basilissa e por sua filha, a princesa Ana.

— Eu, em palácio!

— No palácio de Blacheraes, que o nosso imperador prefere aos outros maravilhosos construídos anteriormente por seus predecessores. Ao invés de estar situada no coração de nossa cidade, essa residência, transformada pelo imperador numa fortaleza impenetrável, ergue-se ao norte de Constantinopla, onde a muralha construída por Teodósio faz ângulo com o Corno de Ouro. Um lado da construção dá sobre as vastas planícies reservadas à caça, o que certamente explica por que as temporadas da família imperial se multiplicam. . . a menos que seja por razões de segurança.

Enquanto ouvia essas explicações, Flamínia puxava nervosamente as tranças ruivas.

— O que eu faria em palácio? — repetiu ela. — Seja o palácio de que meu irmão tanto falou, seja o do norte? Meu lugar não é nem num, nem no outro. Devo permanecer aqui, cuidando de minha avó.

— Uma vez que tenham conversado e ela esteja convencida de que é incapaz de incomodá-la, Icásia poderá mandar trazê-la até aqui na sua própria liteira. . .

Subitamente, Flamínia se decidiu. Fora atraída por uma curiosidade tripla: saber o que a esposa de Andrônico queria com ela; compreender quem era aquela mulher de quem tinha tanto medo e a quem vira tão raramente até então; enfim, sair de seu confinamento, ver as ruas, os monumentos, os palácios daquela cidade que se proclamava inigualável!

— A avó está repousando — disse ela então, dirigindo-se à criada. — Deixe-a dormir. Se ela acordar antes que eu volte e perguntar por mim, diga-lhe que estou no jardim e que não tardarei a voltar.

Um ligeiro cheiro de folhas murchas e humo molhado pairava no ar, subindo do chão arenoso que Gabriel Attaliate e Flamínia remexiam com o passo apressado. Era como uma lembrança discreta do outono chartrense, apesar de tão diferente daquele, tão mais frio. . .

"Em nosso país as estações são bem marcadas, pensou a adolescente. Em Constantinopla o tempo é tão bonito, tão suave. . . já não se sabe em que época se está. . ."

Não eram apenas as diferenças climáticas que lhe provocavam confusão e desordem; havia também a consciência. . . Um súbito medo lhe mordeu o ventre, apertando-lhe a garganta como um garrote. . .

A liteira, pintada de verde e ouro, esperava no lugar indicado. Nela, duas mulas cinza e pérola, enfeitadas como ídolos, estavam atreladas.

Assim que os recém-chegados atravessaram a porta do jardim, as cortinas de seda se abriram. Uma criada as afastara, enquanto subiam no elegante veículo.

No interior, qualquer um se sentiria numa gruta morna, macia e perfumada. Tudo tinha a cor glauca que Icásia tanto amava. Almofadas, tapeçarias, tapetes, couros e até a túnica que ela usava. Seus cabelos, frisados na fronte, separados por um repartido e seguros por pentes de jade trabalhado, caíam em cachos apertados sobre as orelhas enfeitadas por longas lágrimas de jade que sacudiam a cada movimento da cabecinha loura. Coberta de jóias, maquilada com arte, Icásia estava exageradamente impregnada de aromas misturando murta, nardo, lis, jasmim, açafrão, rosa, narciso, produzindo no pequeno espaço fechado da liteira, um cheiro sufocante.

Foi o que salvou Flamínia. Passar do ar livre para aquela caixa abafada foi-lhe insuportável. Subitamente sentiu a cabeça rodando e caiu, inconsciente.

— Agora sim! — exclamou Icásia irritada, vendo a jovem desfalecida sobre as suas almofadas. — E eu que pensava serem os francos sólidos como rocha!

— Certamente são os perfumes que está usando que a invadiram violentamente — respondeu Gabriel mal-humorado. — Um abafamento exagerado reina nesta liteira.

— Façam com que respire alguns sais — ordenou Icásia às duas mulheres que a acompanhavam — É preciso que acorde. Preciso lhe falar.

Voltando a si, Flamínia esquecera seus temores. Restava-lhe o desejo de saber.

Através das leves cortinas de seda semitransparentes que fechavam a cabine, percebia-se a agitação da rua, muito larga e pavimentada de mármore, na qual acabavam de entrar. Carruagens douradas e pintadas, cavaleiros de vestimentas brilhantes, carregados de bordados, atravessavam a multidão. Alguns servos de libré, semelhantes aos de Icásia, abriam caminho para seus senhores empurrando com bastões os passantes. A multidão, ppr sua vez, invadia tudo. Jamais Flamínia vira tanta gente junta. Além dos gregos, vestidos sem muita ostentação, ela descobria uma população estranha e matizada, vinda de todos os horizontes: germânicos de alta estatura, demonstrando um ar arisco sob os mantos de pele, sírios de barbas aneladas, ricos comerciantes venezianos usando longos casacos em brocado, turcos com turbantes, que não se sentiam absolutamente intimidados em fazer comércio apesar das hostilidades com os cruzados, húngaros, cujas peliças cobertas por guizos tilintavam como os adornos das mulas, mercenários escandinavos, conhecidos por sua bravura selvagem, russos usando botas às avessas e bigodes flutuantes, búlgaros de cabeça raspada, brilhando como bolas de marfim amarelado, etíopes de silhueta esbelta, trajados com tecidos de cores flamejantes. . .

Misturados a esses estrangeiros, mascates, mendigos, jovens empoleirados em pernas de pau, vendedores de leitelho, bebida comum em Bizâncio, carregadores de água equilibrando nos ombros baldes transbordantes e pesados, prostitutas pintadas com túnicas abertas até a virilha, monges de hábito preto, grupos de padres, prelados cercados por guardas armados e protegidos das intempéries por pálios de seda branca. . .

— Agora estamos seguindo pela via real; é a parte mais bela da famosa Mesê, de que já ouviu falar — explicou Gabriel Attaliate, para romper o silêncio constrangedor que se estabelecera na liteira. — Ela faz parte, junto com a praça do Augusteon e os quatro foros imperiais, dos pontos nobres da nossa capital.

Ao longo da avenida suntuosa, harmoniosos pórticos de mármore, encimados por terraços onde se viam estátuas e vasos antigos protegiam as lojas cintilantes dos ourives, os balcões dos prateiros onde se empilhavam diferentes moedas de tamanho, peso, metal, procedências as mais diversas, vigiadas por cérberos armados em alerta constante. Mais modestas, mas tidas também como preciosas, as pequenas lojas dos redatores públicos ficavam contíguas a toda aquela ostentação de riquezas. Os cambistas preferiam instalar seus bancos e suas mesas ambulantes nas esquinas e nas praças.

— Eis o palácio do eparca, prefeito da nossa cidade, temido e detestado pelos comerciantes a quem aterroriza — retomou o eunuco, mostrando um monumento, imponente por sua importância e pelas estátuas de rosto severo que o decoravam.

Flamínia inclinou a cabeça sem dizer uma palavra. Ela esperava as explicações de Icásia.

— Deve ter entendido que não a trouxe aqui para passear — começou logo depois, em latim, a mulher de Andrônico, cujo olhar verde-água, petrificado, parecia repentinamente opaco. — Foi porque meu astrólogo, um sábio da ciência em quem tenho toda confiança, deixou-me perturbada e até mesmo sobressaltada esta manhã, quando previu catástrofes ligadas à sua presença sob nosso teto.

— Seu irmão já me adiantou qualquer coisa — respondeu Flamínia num tom neutro. — Confesso-lhe que sou uma cristã muito devota para dar importância às previsões dos astrólogos, que sempre me parecem arriscadas. Quanto ao seu, que certamente deve ser um grande sábio, eu me pergunto onde teria ido buscar a idéia de que posso vir a incendiar sua casa. Jamais entrei lá e mantenho-me prudentemente no meu lugar, em nosso alojamento.

— Acontece que Seth, eminente astrólogo egípcio, vindo especialmente da Alexandria para que aproveitemos de suas admiráveis descobertas, conhece muito bem os astros e seus efeitos sobre nossa existência. Portanto, repito, suas afirmações são exatas!

— Como poderia lhe querer mal quando está nos hospedando, junto com os seus, tão atenciosamente, durante a doença de nossa avó?

Icásia levantou as sobrancelhas, que havia depilado e redesenhado finamente com preto de antimônio.

— Todos sabem que a gratidão é um fardo pesado a carregar — disse com a ponta dos lábios. — Mesmo admitindo sua sinceridade, como interpretar as profecias que acabo de ouvir?

— Deus é testemunha de que desejo todo o bem possível à sua família! — exclamou Flamínia, enquanto pedia baixinho ao Senhor que a perdoasse por uma fórmula tão ambígua.

— Eu sei, eu sei. . . — disse Icásia, que continuava pensativa.

"Ela não sabe nada, pensou a adolescente. Senão teria compreendido imediatamente o que significava essa história de incêndio. . ."

O silêncio voltou ao interior do veículo.

Após o foro de Constantino, imenso, chegava-se ao que o sucedia. Gabriel explicou que seu nome era Amastrianum, e que era ali que a Mesê se dividia em dois ramos. Ao sul, o que ia dar na famosa Porta Dourada, sob a qual haviam passado todos os imperadores triunfantes quando voltavam de suas vitórias e, ao norte, o que conduzia à porta de Andrinópolis, de onde se chegava ao palácio dos Blachernes.

— Não percamos um tempo que já é contado — retomou Icásia. — Não gosto de volteios, mas sim de ir direto ao ponto. Se não dá importância às previsões dos astrólogos, o mesmo não acontece comigo. Confio plenamente no meu.

Gabriel olhou disfarçadamente o teto da liteira, forrado por um camafeu de seda verde, e suspirou com reprovação.

— Portanto acho que sua presença em nossa casa representa um enorme perigo para todos os membros da nossa família — continuou sua irmã sem se deixar influenciar. — E vejo-me na obrigação de pedir-lhe que deixe a casa das amas o mais depressa possível.

— Icásia! — exclamou o eunuco. — Você enlouqueceu! Como pode pensar em expulsar uma doente em estado grave, como é o caso da avó desta jovem, baseada apenas nos vaticínios de seu impostor egípcio!

— E claro que encontrarei outro lugar para elas. Certamente haverá entre minhas amigas uma que possa hospedar com facilidade três pessoas.

— Teófano Danielis, seu sogro, está a par desta decisão? — perguntou calmamente Flamínia. — Foi ele quem nos convidou quando chegamos a Constantinopla. Foi ele também quem insistiu para que ficássemos ali quando os nossos partiram para a Terra Santa, e soubemos que nossa avó não poderia seguir caminho. Não é ele o senhor da casa onde mora?

Icásia esfregou irritada as correntes de ouro trabalhadas que levava no pescoço. Sacudiu a cabeça como se uma mosca a importunasse. Tinha um ar determinado, inacessível aos argumentos que contrariavam seus projetos.

— Estou convencida de que meu sogro partilhará do meu ponto de vista quando souber o que me foi revelado esta manhã — disse secamente.

— Não tenho tanta certeza, senhora. Creio que Teófano Danielis nutre por nós uma amizade sincera, além de respeitar nossa condição de cruzados em busca da libertação do túmulo de Nosso Senhor.

—Isto é uma bobagem! — exclamou a esposa de Andrônico, batendo uma das mãos contra a outra num gesto irritado. — Eu tinha certeza de que usaria este argumento! Saiba que os verdadeiros cruzados, os que poderão, talvez, se Deus os ajudar, retomar o sepulcro aos infiéis, são os seus soldados, os nobres e as tropas que compõem o exército franco! De forma nenhuma são os pobres peregrinos, as mulheres, crianças, doentes, velhos, aleijados, que só servem para atravancar com a sua multidão disforme e inútil os acampamentos superlotados!

— Realmente, há os que combatem, os que trabalham na manutenção das tropas, mas há também os que oram. Ao contrário do que parece imaginar, estes não são menos importantes, longe disso — respondeu Flamínia com firmeza. —- As três categorias são indispensáveis à condução do nosso empreendimento. Como pode ver, minha senhora, a oração também pode se tornar uma arma. Uma arma poderosa. Meu pai dizia que ela conseguia, algumas vezes, forçar a mão de Deus!

Enquanto Icásia refletia, fez-se um profundo silêncio na liteira. Nada conseguiria impedir sua obstinação mas, sem que pudesse prever, estava diante de um temperamento mais preparado do que imaginara. Era preciso, portanto, buscar outras formas de ataque.

A liteira passava então diante de uma basílica majestosa, construída na forma de uma cruz grega. Era coroada por cinco cúpulas de ouro turvadas pelos raios do sol outonal.

— Eis uma das mais belas igrejas de Bizâncio — disse Gabriel, satisfeito por encontrar uma diversão e sempre disposto a enaltecer as maravilhas de sua cidade querida. É a dos Santos Apóstolos. Desde Constantino, nossos imperadores dormem aí o seu último sono, antes da ressurreição final que nos é prometida. Sob estas preciosas cúpulas repousam, vestidos de púrpura e mármore, todos os soberanos que pre­sidiram, no seu tempo, os destinos da Cidade das Quinhentas Maravilhas!

A enorme quantidade de mosteiros nas cercanias da necrópole mais parecia um rebanho de carneiros ao redor de seu pastor. Aliás, Flamínia ficara impressionada com a quantidade de igrejas, conventos, capelas, edifícios religiosos de todos os tipos que se alinhavam no entroncamento norte da famosa Mesê, por onde passava a liteira.

Já alcançavam então as antigas fortificações criadas no passado pelo imperador Constantino..

— Estão abandonadas desde que Teodósio II, no século V, decidiu construir outras, que englobam no arco prodigioso de suas muralhas triplas e gigantescas o promontório dominando todo o Heiesponto — retomou o eunuco que, definitivamente, adorava pontificar. —Protegida dos imprevis­tos, a cidade é inatacável. Muitos já foram ali destruídos. Resta a costa, com picos que têm se revelado, ao longo dos anos, excelentes defesas naturais. Ela também possui uma carreira de muralhas pontilhada de enormes torres quadradas. Quanto ao Corno de Ouro, que poderia realmente ter se transformado em nosso ponto fraco já que facilita as infiltrações, conseguimos contê-lo com nossa famosa corrente que, ao que parece, é célebre no mundo inteiro!

Desprezando os olhares aborrecidos de sua irmã, ele pôs-se a rir, escondendo com a mão direita a boca aberta que os hábitos elegantes não permitiam deixar à vista.

— É verdade que desde a Itália ouço falar desta corrente. Dizem que é enorme — reconheceu Flamínia, também satisfeita por escapar durante algum tempo às perguntas de Icásia.

— Realmente é! Imagine um rosário de gigantes, composto de grãos colossais de madeira, mantidos juntos com a ajuda de elos e ganchos de ferro ciclópicos, fixados por anéis monumentais às muralhas junto à cidade e, na outra margem, a uma torre do cinturão chamada Gaiata. Graças à corrente, o Corno de Ouro, fenda aberta no flanco de Constantinopla, está protegido de qualquer invasão pelo mar. Esta corrente abençoada tem se mostrado a nossa mais segura guardiã!

Icásia fez um sinal com a mão para que seu irmão se calasse.

— Por que faz tanta questão de permanecer em nossa casa? — perguntou ela, sem levar em conta as interrupções de Gabriel e inclinando-se para frente a fim de observar melhoro rosto da jovem, emoldurado pelas trancas ruivas.

— Não deve existir sob o céu de Deus criatura mais teimosa que você! — protestou o eunuco, sacudindo com irritação os dedos cobertos de anéis.

— Pela simples razão que já lhe expliquei. A doença de nossa avó é muito grave, e sua família é a única que conhecemos aqui — disse Flamínia, que voltava a se mostrar irritada. — Sempre imaginamos que nossa condição de cruzados nos colocaria acima de qualquer suspeita por parte de cristãos como a senhora!

A liteira parou.

— Chegamos ao palácio de Blachernes — anunciou Icásia aborrecida. — E não acrescentei nada ao que já sabia quando saímos de casa. Mas preciso obter mais informações. . . Poderia me seguir para que possamos continuar a conversar? Posso introduzi-la sem dificuldades na sala reservada às pinturas e perfumes. É como se estivesse em minha própria casa.

— A princesa Ana, que até hoje não teve a oportunidade de encontrar simples cruzados, certamente ficará curiosa em conhecê-la — completou Gabriel, enquanto soltava as dobras de sua túnica pregueada para desamassá-la. Ela se interessa por todos aqueles que têm a sorte de abordá-la.

— Justamente esta manhã deverei pintá-la e perfumá-la — observou Icásia que, ajudada por suas criadas, descia da liteira. — Posso apresentá-la à princesa. Mas, pelo amor de Deus, fale pouco! Ela costuma se queixar da tagarelice incontrolável de seus francos!

Flamínia corou violentamente e quis rejeitar imediatamente o oferecimento tão pouco gentil que lhe fora feito. Pensou também em sua avó... mas Berta devia dormir ainda, e encontrar a princesa Ana Comeno era um privilégio raro. Penetrar num palácio excitava muito a sua curiosidade. . .

 

O lugar onde entrou, em companhia de Icásia e Gabriel, mais parecia uma fortaleza. Uma vez atravessada a ponte levadiça protegida pela guarda imperial, e em seguida a porta dupla com dobradiças invertidas, precedida de uma grade de onde se podia ver, no alto, um cubículo para o guardião da defesa, chegava-se à praça. Era um vasto pátio ajardinado, florido apesar da estação tardia e cuidadosamente mantido, cercando edifícios de todos os tipos, no centro dos quais se erguia o palácio propriamente dito. Maciço, imponente, mais austero que o Palácio Sagrado, bem menos vasto, parecia também ser mais seguro.

Por uma pequena porta lateral de que Icásia possuía uma chave, era possível evitar a sala onde a guarda pessoal de Alexis mantinha vigilância. Penetrava-se então diretamente numa bela ante-sala pavimentada de mármore preto. Colunas de pórfiro verde sustentavam um teto pintado com cenas da vida do imperador Teodósio e decorado por correntes de prata cinzelada. Nas paredes, mosaicos evocavam passagens das Escrituras.

Um corredor todo em placas de mármore policromado conduzia aos apartamentos imperiais.

Numa grande vinheta de alabastro emoldurada por ouro fino, Flamínia avistou, gravada em letras latinas, uma inscrição monumental: Christo Basileus. Seu tio lhe explicara que o imperador de Bizâncio era tido como uma encarnação do próprio Cristo, que viera pessoalmente governar o Império através de um homem escolhido por Ele. Sua aparência carnal evidentemente mudava a cada monarca escolhido, mas seu poder de rei e de sacerdote lhe dava a possibilidade de transformar em objeto sagrado tudo o que se relacionasse com sua função imperial. Essa sacralização de um soberano chocara muito os cruzados. . . Mais uma vez, Flamínia sentia-se invadida por uma indizível indignação. . .

Após uma série de salas majestosas, onde circulava uma multidão de cortesãos, sacerdotes, eunucos, oficiais e servos que se locomoviam como num santuário, o trio subiu os dois lances de uma escada de mármore rosa que levava ao gineceu.

Icásia subiu na frente, com passo vivo, cadenciado, levantando com gesto preciso sua túnica verde-nilo, o rosto inclinado sobre o peito, numa atitude ao mesmo tempo meditativa e nervosa. Da sua pessoa miúda, nervosa, desprendia-se uma impressão que Flamínia não sabia como qualificar. Parecia atormentada, mas ao mesmo tempo determinada, obstinada, incapaz de se desarmar, dar ou receber. Era possível perceber em Icásia uma porta fechada, trancada, atrás da qual se mantinha prisioneira, recusando-se a abri-la. . .

"Se eu quisesse poderia mergulhar esta mulher no fundo de uma tempestade cuja violência ela nem imagina, pensou Flamínia que, atrás da perfumista, subia os degraus com seu passo ágil, longo, de caminhante calejada. Deus permita que eu jamais o faça, que ela nunca tenha nada a temer de minha parte, apesar do seu astrólogo e da cor dos meus cabelos!"

Gabriel seguia suas duas companheiras, cumprimentando algumas pessoas aqui e ali, com seu habitual desembaraço e desenvoltura. Ele conhecia todos, mas escolhia suas relações. No gineceu imperial sentia-se à vontade: apenas os eunucos e as mulheres tinham, em princípio, o direito de circular ali. Mas algumas exceções eram abertas. Monges e peregrinos haviam recebido a autorização de eventualmente entrar. . .

Uma porta de marfim, dissimulada sob um cortinado de seda que deslizava em trilhos de prata, abriu-se repentinamente na junção dos dois corredores. Um sopro de ar, repleto de suavidade, envolveu os recém-chegados.

— Este é o meu refúgio — disse Icásia.

— Já que chegaram ao seu destino, vou deixá-las para ir ao encontro do basileu — disse o prefeito de Canicléia. — Até mais tarde!

Gabriel afastou-se com um ar atarefado.

Numa rápida vistoria, Flamínia observou o aposento de esquina, quadrado, bastante espaçoso, cujas paredes eram revestidas de mármore da Tessália, verde como o mar, com ondulações semelhantes às das ondas e que davam a impressão de estar em movimento. Iluminado por quatro janelas que se abriam para o jardim avermelhado pelo outono, recebia a luz lânguida dos últimos dias bonitos da estação. Um brilho embaçado, uma suavidade clara enevoavam as folhas persistentes das árvores, os bosques enfeitados com as últimas sementes amarelas ou vermelhas, e os canteiros tardios atrás dos quais se elevavam as grandes muralhas palatinas, onde pedras e tijolos estavam colocados com tal arte que chegavam a dissimular sua vocação guerreira.

Ainda não havia ninguém no aposento dedicado à beleza Grandes lampadários de ouro suspensos no teto azulado, tapeçarias bordadas em ouro e sedas nas cores mais delicadas, mosaicos representando prados pontilhados de flores, um piso de mármore branco coberto por tapetes vindos da Pérsia, compunham um verdadeiro porta-jóias para uma princesa de contos de fadas.

Mesas de diferentes formatos, alturas, tamanhos, estavam ali espalhadas. Mas era quase impossível vê-las, de tal maneira estavam cheias, atravancadas, invadidas, recobertas, tomadas por uma infinidade de caixas, cofres, vasos, frascos, recipientes com aspectos dos mais conhecidos aos mais inesperados, em ouro, prata, ágata, nácar, tartaruga, marfim, ébano, chifre, jade, vidro colorido, cristal de rocha ou malaquita. . . Armários muito altos pintados com motivos florais ficavam junto às paredes. Por algumas de suas portas entreabertas, era possível ver que também eles estavam transbordando de produtos de beleza.

Quando Icásia se preparava para retomar sua conversa com Flamínia, entraram com toda pompa duas damas incumbidas da toalete da princesa.

— Sua Alteza porfirogêneta, a princesa Ana — anunciaram em uníssono. Icásia segurou Flamínia pelo pulso.

— Ajoelhe-se — ordenou, puxando a adolescente em sua própria genuflexão.

Seguida por um enxame de damas de honra, a filha do basileu adentrou o aposento, sorriu para Icásia e para sua companheira e fez-lhes sinal que se levantassem.

— Eis aqui então a jovem franca de quem já me falou várias vezes — disse ela num latim perfeito à sua perfumista. — Que a bem-aventurada Mãe de Deus a mantenha sob Sua santa proteção, a ela e aos seus — completou, enquanto fazia o sinal-da-cruz.

Todos a imitaram.

Em seguida foi se inclinar diante do ícone envolvido por volutas de incenso e iluminado por três lâmpadas de alabastro e veio tomar lugar diante de uma mesa em forma de meia-lua, toda incrustada em nácar e que estava, esta sim, disponível.

— Acabo de sair do meu banho e preciso muito dos seus serviços — continuou a princesa, cujo corpo massageado e perfumado vestia apenas uma túnica de espessa seda branca.

Flamínia sabia que apenas os membros da família imperial tinham o privilégio de usar o sabonete gaulês, fabricado em Marselha, e cujo uso era proibido a qualquer outra pessoa. Icásia, que a levara até o fundo da sala onde poderia, sem risco de atrapalhar, sentar-se sobre um tripé recoberto por peles de leopardo, posara um dedo sobre os lábios e voltara para dar início aos cuidados dedicados à princesa.

De estatura mediana, esbelta, a aparência cuidada, com um pescoço longo e ágil que parecia curvar-se subitamente sob o peso da espessa cabeleira negra e lustrosa que uma das damas de honra acabara de desenrolar sobre seus ombros, Ana Comeno se parecia demais com seu pai para ser realmente bonita. Seus traços mostravam um espírito vivo, inteligência, temperamento forte, uma ponta de formalismo e, sem dúvida, uma inclinação para a susceptibilidade, mas nenhuma beleza real. Um nariz excessivamente arqueado, olhos pequenos e encovados, uma testa estreita engolida pela raiz dos cabelos não a deixavam ser bela. No entanto uma autoridade amável, a graciosidade, o fogo de um olhar atento davam à filha do imperador, que não tinha ainda quinze anos, uma maturidade e um domínio de mulher já feita.

Com todo o cuidado, Icásia envolveu a princesa com uma espécie de lençol franzido ao redor do pescoço. Em seguida, tomando com uma espátula uma porção de creme à base de cerusa e talco, cobriu o rosto moreno a fim de clareá-lo.

As ajudantes depilaram então, com pinças de ouro, as sobrancelhas demasiadamente grossas, antes que Icásia voltasse para redesenhá-la com um longo traço tão fino quanto possível, com a ajuda de uma varinha de marfim ungida de preto de antimônio. Com um pequeno pincel de pêlo de camelo, uma outra assistente pôs-se a alisar os cílios, ungindo-os logo depois, com ar grave e compenetrado, de khôl originário da Arábia Feliz. A própria Icásia traçou, sobre as frágeis têmporas, um entrelaçado de veias azuis muito apreciadas na corte. Uma outra dama, que devia ser especialista, tal seu ar de importante, fez ao redor do olho um traço escuro para arredondá-lo. Todas as mulheres ali presentes sabiam que aquela moda fazia furor. . .

Icásia pintou então os lábios de carmim com a ajuda de um pincel, depois de terem sido sublinhados com um traço cor de sangue. Cinco outras pinceladas de carmim foram sucessivamente colocadas nos lóbulos das orelhas, no canto da pálpebra esquerda e no bico dos seios miúdos, descobertos por um instante.

— O caldo dos cascos de touros jovens, cozido durante quarenta dias e quarenta noites, depois purificado, é um excelente produto contra as rugas — disse Icásia, desmanchando-se em sorrisos. — Mas a princesa não precisa disso! Por outro lado, para esconder a pele morena de que tanto tem horror, e com razão, achei melhor trazer uma nova pasta, composta de gordura de vitela, moela de cervo e folhas de estrepeiro, trazidas pelos francos em sua bagagem.

— Deixe-me esta caixa; eu a utilizarei quando meu marido estiver em missão. . .

Todos aqueles que eram próximos à família imperial não ignoravam o terno amor que unia a filha do basileu e seu marido, o césar Nicéforo Briena. Mesmo as damas de honra sorriram atrás das mãos, com ar de cumplicidade.

Para completar a maquilagem, Icásia espalhou com a ponta dos dedos, sobre as faces esbranquiçadas, um ungüento extremamente fino, composto de pó de sândalo vermelho, de gordura extraída da moela de um carneiro e de óleo de nardo.

Flamínia contemplava aquele desenrolar de cuidados e de refinamento com um sentimento misto de divertimento e reprovação. Aquelas mulheres, cuja futilidade em tempos normais a teria divertido, pareciam quase criminosas quando ela pensava nas provações sofridas pelos cruzados, durante os meses de escassez que haviam passado atravessando um deserto sem misericórdia. Como seus aliados podiam continuar a viver mergulhados no luxo e no desperdício, enquanto seus irmãos cristãos passavam fome, sede, sofriam carnificinas, doenças e morte?

A princesa, que pouco falara durante aquela minuciosa maquilagem, voltou-se subitamente para Flamínia, como se seu silêncio tivesse sido eloqüente.

— Agora vão me pentear — disse ela. — Meu penteado, que aqui chamamos de propoloma, é tão complicado, tão elaborado, que é preciso uma hora para que fique pronto. Durante este tempo, venha para perto de mim. Tenho inúmeras perguntas a lhe fazer.

Flamínia aproximou-se e, com um gesto de Icásia, ajoelhou-se aos pés de Ana Comeno.

Sob o olhar crítico da perfumista que fazia pequenas observações secas sobre o trabalho de suas assistentes, as mulheres escovavam, penteavam, frisavam, erguiam a famosa torre de mechas aneladas e trançadas.

A princesa interrogava atentamente Flamínia, que se esforçava em responder da maneira mais clara e concisa possível, Como era aquele longínquo país do oeste de onde vinham os francos (que ela chamava, aliás, de celtas ou latinos, indiferentemente)? Com que se parecia? Clima, vegetação, hábitos, casas, religião, costumes e mesmo culinária iam passando, cada um à sua vez. . .

A princesa parecia presa a algumas idéias falsas: acreditava, por exemplo, que Pedro o Errnitão era o instigador e principal condutor da peregrinação a Jerusalém. Os desmentidos de sua interlocutora não foram suficientes para dissuadi-la.

— Nós o vimos chegar às nossas muralhas no ano passado, acompanhado por uma multidão considerável que o tratava como um santo! Quase todos os seus companheiros foram aniquilados pelos turcos, nos lados de Cízico, mas ele pôde chegar a Constantinopla, encontrar-se com os outros celtas que aqui chegavam e novamente juntar-se a eles. Isto prova seu imenso prestígio e sua influência!

Flamínia não ousou contestá-la. O que importavam, aliás, os seus enganos e todas as aberrações de uma corte que não compreendera as razões profundas, essenciais, e tão sinceras para a maioria, de uma viagem para a qual os gregos buscavam, sem confessar abertamente, causas venais, quando a fé e apenas a fé levara multidões para as estradas. . .

— Eu aprendi muito — disse a filha do basileu quando seu penteado ficou pronto. — As mulheres francas falam mais sobriamente e mais claramente que os homens de sua raça! Precisa voltar aqui!

E levantou-se. Todos se prostraram e ela desapareceu num turbilhão de perfumes.

— Agora vamos voltar para casa — declarou Icásia. — Venha comigo.

Quando estavam novamente na liteira, a mulher de Andrônico inclinou na direção de Flamínia seu pequeno rosto obstinado.

— Já que parece estar gostando de Constantinopla a ponto de não querer deixar a nossa casa, por que não se casa com Cirilo Akritas, o cocheiro dos Verdes, que é também o melhor amigo de Marianos? —perguntou. — Ele a ama e os casamentos entre francos e novos romanos são vistos com bons olhos pelo imperador. Ganharia um bom marido, uma bela casa, um protetor e um sustento quando sua avó não estivesse mais aqui.

Ela se benzeu e esperou a resposta da adolescente.

— Graças ao céu, minha avó ainda está bem viva! — exclamou Flamínia, agitada. — Se Deus assim o quiser, ela poderá ficar curada. . . Se não, não permanecerei mais nesta cidade. Deixarei Constantinopla com um desses pequenos grupos que não param de passar por aqui. . . Por terra ou por mar, encontrarei um meio de juntar-me aos cruzados. Quero muito rever a minha família. Quero estar com eles quando chegarem a Jerusalém!

 

                               28 de dezembro de 1097 a 28 de junho de 1098

 

Chovia no acampamento dos cruzados. Chovia sobre Antióquia a Bela. Chovia sobre as montanhas, a planície, o rio Orontes que ameaçava transbordar, chovia há dias. . . Só era possível distinguir, então, de maneira difusa, através da água que jorrava, as muralhas colossais de Antióquia e as suas torres, mais numerosas que os dias do ano. . . Trazida por borrascas glaciais, uma chuva impiedosa caía obstinadamente sobre as barracas de lona, fazendo-as desmontar ou rasgando as mais frágeis.

Cansados de chafurdar em tal cloaca, os peregrinos mais pobres e os simples combatentes haviam construído cabanas com tábuas e galhos, cobertas com peles de animais selvagens recentemente abatidos. Tremendo de frio, famílias inteiras apertavam-se diante de um fogo fraco e triste, espremidas como arenques num barril. A lenha molhada custava a acender, fazendo muita fumaça e irritando os olhos que não paravam de lacrimejar.

Sob a força violenta do vento que mais parecia uma manada de javalis, os pedaços de madeira soltavam-se um a um, descobrindo os abrigos miseráveis. Alguns telhados caíam ao fim de algum tempo sobre seus habitantes, que eram então conduzidos às grandes tendas transformadas em hospitais.

Os nobres e os padres viam-se na necessidade de multiplicar seus lugares de atendimento. Naqueles últimos dias de dezembro, com o frio que se tornava um inimigo duas vezes maior que a chuva, havia seis grandes tendas armadas e arrimadas com segurança, protegidas das intempéries pela espessura de suas lonas e isoladas do lamaçal por um acúmulo de esteiras em corda e junco que atapetavam o solo.

Alaís, grávida de cinco meses mas ainda ágil, cuidava dos feridos na primeira tenda. Ela e Brunissen fizeram questão de permanecer juntas. Com grande dificuldade elas cuidavam dos homens quebrados, ensangüentados e dolentes que as flechas e cimitarras dos turcos retalhavam a cada dia durante os combates. . . Na terceira tenda, Guibourg, a amiga chartrense, se ocupava dos doentes com males de pulmão ou ventre, enquanto Bietrix, a pequena criada recolhida em Constantinopla, vira-se encarregada, na quinta tenda, das famílias sem teto e sem fogo.

Mabille, sempre impetuosa, e a condessa de Toulouse, a bela Elvira, tinham então, sozinhas, o controle sobre a organização dos socorros, com a ajuda dos monges-médicos e dos enfermeiros. A pobre Godvera, esposa de Balduíno de Bolonha, não resistira à terrível travessia das montanhas do Diabo. . .

Durante a passagem dos pontos mais elevados, muitos soldados e peregrinos pereceram. Uns porque rolaram com suas montarias pelos precipícios, outros porque foram esmagados por avalanches. Suportando as vertigens, fora preciso atravessar as profundas gargantas que, algumas vezes, tiveram que margear. . . Mesmo os mais fortes sentiam-se como que atraídos pela força de um poder maléfico para aqueles abismos dos quais não se podia nem mesmo ver o fundo. . . O tanoeiro da Narbônia, patrão sovina de Pedro Bartolomeu, desaparecera assim com a sua mula e o cavalo de carga preso a ela, sem que seu criado, horrorizado, pudesse fazer nada para segurá-lo.

Godvera, por sua vez, tivera uma perna quebrada. Malcuidada durante o resto do terrível trajeto, conseguira chegar à etapa de Marasch com febre alta e tomada pelo delírio. Apesar de todos os cuidados dispensados, fora impossível salvá-la. O afastamento de seu marido e a morte de seus filhos durante a travessia das montanhas deixaram-na completamente abatida. Ela não defendera a sua vida. Balduíno de Bolonha chegara nos momentos finais para receber o último olhar de sua esposa. Quase imediatamente depois teve que partir mais uma vez, levando consigo Foucher de Chartres, que se tornara seu capelão desde que havia se separado do séquito de Estêvão de Blois. Seus amigos chartrenses viram com tristeza a partida do monge, mas nada fora capaz de fazê-lo mudar de idéia. Estava muito ligado ao novo mestre, cuja autoridade, gravidade e cultura eclesiástica outrora recebida, no tempo em que pretendiam para ele um alto posto na Igreja, haviam conquistado o monge. Na companhia de alguns cavaleiros e homens de armas aguerridos, Balduíno de Bolonha e o beneditino partiram então em direção a um destino certamente garantido por alianças, promessas e uma ambição obstinada e violenta. Dirigiam-se para o leste. O condado de Édessa, rico objetivo já semiconquistado, estava no final de seu caminho. . . Sendo assim, qual seria o peso da lembrança discreta da triste morte de Godvera no coração do viúvo, já consolado por esperanças tão brilhantes?

—Tenho fome — murmurou Alaís ao ouvido de sua irmã mais velha, durante um dos poucos intervalos em que se encontravam para beber um pouco de vinho quente aromatizado.

— Deus sabe que eu seria capaz de vender minha cruz de batismo para comprar-lhe algo para comer se necessário fosse — disse Brunissen com firmeza, erguendo com um gesto de ternura uma mecha de cabelos louros saída do véu que envolvia a cabeça e o pescoço de sua irmã caçula. — Mas hoje não vimos aparecer no acampamento nem armênios nem sírios para nos vender, a preço de ouro como habitualmente fazem, alguns víveres que recolhem no vale ou na montanha mais próxima. Estas chuvas, dignas de um novo dilúvio, devem tê-los desencorajado.

— Há mais de oito semanas que o exército está sitiando Antióquia — murmurou com tristeza Alaís — e o nosso estado é cada vez mais degradante. Deus me perdoe, mas estamos todos apodrecendo aos pés destes montes diabólicos!

Brunissen colocou as duas mãos sobre os ombros da jovem e sorriu.

— Amiga, irmã, coragem! Coragem por você, mas também pela criança que está carregando. Com o pai que tem, só poderá ser valente e cheio de ousadia. Não deixe que sua herança materna seja a aflição!

Alaís aquiesceu e colocou os dedos manchados de sangue sobre seu ventre.

— Já está me dando alguns chutes no estômago — disse, reencontrando a altivez e a segurança graças àquele consolo. — Tomara que seja um menino! Se Deus me mandar um menino, tenho certeza de que Boemundo se apegará a ele!

— Sem dúvida alguma — admitiu Brunissen, esforçando-se por mostrar um ar convencido. — Sem dúvida. . . mas, menino ou menina, será sempre um presente de Nosso Senhor. Com ou sem pai, esta criança será nossa. . .

— Eu sei, minha irmã, eu sei — garantiu a jovem. — É por isso que a carrego sem apreensão.

Ela se inclinou para tomar a mão de sua irmã mais velha, manchada como as suas por traços de sangue, mas como estavam ambas habituadas ao tratamento aos feridos, não deu importância e apoiou o rosto contra os dedos finos e quentes.

— Já que Deus está dando a ocasião, vou dizer-lhe algo que há muito vinha tentando falar. Tenho-lhe enorme gratidão pela maneira como recebeu a notícia de minha gravidez. Será que devo lhe confessar? Sua virtude me assusta um pouco. . . mas há meses tem me dedicado tanta atenção, tanta amizade, que tornou-se como uma mãe para mim. Portanto, minha doce irmã, saiba que meu filho será também seu filho!

Brunissen puxou para si Alaís e a beijou com ternura.

— Nenhuma outra palavra no mundo poderia me tocar mais — murmurou emocionada. — Obrigada por tê-las pronunciado. Este recém-nascido terá então duas mães para amá-lo e defendê-lo, se necessário for!

Como todos os peregrinos da vizinhança, também ela pudera constatar, desde que a silhueta de Alaís se mostrara mais pesada e que seu frescor, sua agilidade, ficaram comprometidos, com que desenvoltura Boemundo tratava aquela que fora sua parceira. . .

— Não gosto de mulheres gordas — proclamou ele uma manhã, em público, ao sair de uma noite passada com Alaís sob sua tenda. Decididamente, elas são menos excitantes ao divertimento! Vamos aguardar algum tempo até que nos reencontremos, minha cara. Quando tiver se desembaraçado de seu fardo, retomaremos nossas brincadeiras. Até lá, cuide-se bem e faça-me um belo pequeno macho, bem constituído, que saiba, no futuro, bater-se ao meu lado!

Ele batera então alegremente nas suas nádegas e partira para outras aventuras, amorosas sem dúvida, mas também guerreiras. Havia algum tempo que alvos territoriais muito precisos excitavam o seu apetite. Já uma primeira vez, durante o caminho, ele se separara do exército com a finalidade de apoderar-se de cidades fortificadas que sua audácia sem limites submetera à sua lei. No acampamento, todos sabiam que agora ele almejava ir bem mais alto e bem mais longe!

"Para alguns de nós, e não são poucos, pensou Brunissen, o tempo do arrebatamento puro em busca da libertação do Santo Sepulcro está terminado. O diabo juntou-se a eles no deserto e, do alto das montanhas, como havia feito com o próprio Cristo, mostrou-lhes o mundo e sussurrou-lhes:

'Tudo isso pode ser vosso, se, prostrados, me adorardes!"

E benzeu-se num gesto rápido.

"Não posso imaginar que nossos cruzados consintam um dia em adorar Satã, mas há alguns que julgam possível aliar fé e poder, autoridade e serviço a Deus. Desgraça, desgraça para nós se não soubermos fugir a um dos piores comprometimentos do demônio: o que pretende conciliar Deus e Mammon!"

Ela passou, inquieta, a mão sobre as pálpebras, como se quisesse apagar uma visão dolorosa, reergueu-se e sorriu para sua irmã.

— Estamos atrasadas — disse. — Precisam de nós nas barracas!

Elas se separaram para voltar, cada uma, aos cuidados dos feridos que estavam sob sua responsabilidade. Com o frio e a umidade aumentando o seu sofrimento, os soldados e os peregrinos vítimas de cortes, de pedradas e das armas brancas dos sarracenos mostravam-se ainda mais dolorosamente exigentes.

Ao redor das tendas-hospitais, o exército se dispusera segundo uma ordem longamente amadurecida durante os preparativos do cerco: Boemundo e seus homens ao pé das fortificações, a leste, diante de uma das portas de Antióquia; Roberto de Normandia, o conde de Flandres, Estêvão de Blois e Hugo de Vermandois, chamado o Bastardo, agrupados segundo seu costume nas forças francesas, estavam postados mais a oeste, entre duas outras portas por eles controladas; o legado do papa e o conde de Toulouse, cornos provençais, numerosos e bem armados, vinham em seguida; o general grego Tatikios e seu discreto corpo auxiliar os secundavam; por fim, fechando um círculo parcial, já que a cidade possuía tantas defesas naturais, montanhas, rio e pântanos, estava Godofredo de Bouillon. O duque de Baixa-Lotaríngea havia estabelecido o seu próprio acampamento até o ponto que atravessava o Orontes e conduzia diretamente à porta norte da cidade, tão bem guardada por suas enormes muralhas e pelo próprio lugar onde fora construída. . .

Apesar de recuperado do ferimento infligido pelo urso furioso que combatera na floresta, o duque sofria de terríveis febres, que o submetiam a enormes provações. Necessitando repouso absoluto, não era de grande ajuda, e isso inquietava os cruzados. . .

No acampamento dos francos, Landry, Herberto Chauffecire, Mateus o Barbeiro e Pedro Bartolomeu haviam se juntado naquele mesmo dia sob uma barraca tomada ao inimigo num combate anterior. Tecida em pele de camelo, ela resistia melhor à chuva e aos humores do vento, que as trazidas pelo exército dos francos. Os quatro companheiros enchiam seu tempo tirando a ferrugem e as manchas de bolor das armas e dos arreios estragados pela umidade.

— O inverno sírio, que nos foi descrito como clemente, tem se mostrado tão rude e desagradável quanto o nosso — constatou Mateus o Barbeiro soprando os dedos. — Continuando esta situação, terei dificuldades em barbear meus fregueses!

— Você já tem tão poucos! — lançou Landry com ar irônico, cocando vigorosamente a cabeça que o frio impedia lavar tanto quanto seria necessário para destruir os piolhos que o assaltavam. — À parte Boemundo e alguns de seus normandos da Sicília, quem mais se privaria de uma boa barba que mantém o calor e protege o peito do vento gelado?

Com certo ar de melancolia, ele passou então os dedos sobre seu queixo, apenas enfeitado por alguns raros pêlos ruivos. . . e retomou a limpeza de seu facão.

Sentados ao redor de um fogo que sobrevivia a duras penas entre algumas pedras reunidas no centro da tenda para fazer vez de lareira, os quatro amigos esperavam, assim como tantos outros, que alguém encontrasse uma maneira de se apoderar de Antióquia. Cidade chave, porta de acesso à Palestina, não seria possível levantar o cerco e continuar o caminho em direção a Jerusalém deixando para trás aquele antro de infiéis, aquele ninho de abutres presos às suas rochas, inexpugnável e ameaçador.

— Quantas ilusões nós tínhamos ao chegar aqui! — observou Herberto Chauffecire, cujo temperamento estava a cada dia mais sombrio e mais distante do alegre companheiro que cortejava Flamínia a bordo do navio. . . — Estão lembrados, amigos, quando chegamos a este lugar, na estação das vindimas, como a planície fértil nos pareceu acolhedora? Saíamos do inferno, daqueles despenhadeiros onde tantos dos nossos companheiros tiveram fim abominável. Nós havíamos escapado dos abismos, das vertigens, das quedas, e nos imaginávamos salvos porque não havíamos perecido naquelas regiões execráveis. . . Na passagem, libertamos cidades e aldeias. Confraternizamos com os armênios e os sírios cristãos, que nos trataram como libertadores. . . Tudo parecia finalmente se arranjar.

— Por minha salvação, você falou a verdade — disse Landry com aprovação. — Eu imaginava Jerusalém a alguns dias de caminhada! Quando os senhores Balduíno de Bolonha e Tancredo se juntaram a nós em Marasch após a sua aventura, todos nós pensamos que o pior já havia passado. Que engano!

— No entanto, nossa alegria foi grande no início da estadia neste mesmo vale onde estamos agora retidos — disse Pedro Bartolomeu. —É preciso que sejamos sinceros: ficamos maravilhados com Antióquia! Uma cidade tão bela, como não há outra no mundo, com suas duas linhas de fortificações cobrindo quarenta e oito léguas e erguendo suas quatrocentas e cinqüenta torres e o mesmo número de pilares para sustentar o céu! Seus palácios, suas igrejas, seus jardins, seus mosteiros, seus aquedutos, seus pomares. . .

— E a cidadela — cortou Landry. — A cidadela, construída acima da cidade, sobre o monte que se chama, parece, Silpius, como o ninho de uma águia dominando o conjunto para protegê-lo.

— Paz, amigo, paz com sua cidadela! — exclamou Herberto Chauf­fecire. — Ou eu muito me engano, ou é ela que nos dará mais trabalho!

— Devemos ser confiantes e não pensar sempre no pior como você! — disse Pedro Bartolomeu, cujos olhinhos pretos brilhavam de excitação piedosa. — Confiar Naquele que nos guia. Eu sou apenas um pobre-diabo que nem tenho mais senhor, muito poltrão para ter ficado no corpo dos arqueiros como vocês, mas acredito em nossa vitória!

Ele interrompeu por um instante seu discurso. O vento soprava uivando, e seu ar glacial se insinuava por sob as lonas, fazendo tremer as magras chamas que mal conseguiam lamber a lenha verde.

— Antióquia voltará a ser nossa — retomou o homenzinho, apertando em volta de si a pele de carneiro que já não tirava há dias. — São Pedro foi seu primeiro bispo. São Lucas nasceu aqui antes de ocupar, também ele, o trono episcopal. Foi também em Antióquia que os primeiros discípulos de Jesus outorgaram-se o belo nome de cristãos! Com um tal passado, esta cidade não pode nos escapar!

— Deus o ouça! — disse Landry. — Por enquanto ela é turca e muito bem defendida! Ninguém jamais viu fortificações tão espessas, com pedras de tamanho tão grande e ainda ligadas por um cimento desconhecido e indestrutível como aquele! É o mais gigantesco cinturão jamais construído pela mão do homem! Os mestres-de-obras do imperador Justiniano, que o construíram no passado, deviam ser companheiros dedicados! Segundo a opinião geral, só poderemos alcançar nosso objetivo pela surpresa ou pela astúcia. Aliás, foi assim que os turcos a tomaram dos gregos.

— No início não nos incomodava vê-la assim tão isolada — observou Mateus o Barbeiro. — Lembrem-se de nossa instalação no seio deste belo campo à margem do Orontes. Levávamos uma vida tranqüila, sem nada mais a fazer além de caçar e fortificar as nossas posições com a ajuda de chuços bem pontiagudos. Atrás daquelas muralhas imponentes, ninguém se manifestava. Íamos de descoberta em descoberta naquele vale fértil: vinhas, trigo, figueiras, laranjeiras, palmeiras, que sei eu?. . . As mais belas árvores frutíferas pareciam ter sido reunidas nessas paragens, como uma amostra do paraíso! Passamos assim duas semanas felizes.

— Porque o emir de Antióquia estava apavorado e temia que tomássemos a cidade de assalto, sem esperar mais! — respondeu Landry, enquanto lustrava vigorosamente a besta, cuja eficácia dependia de uma boa manutenção. — Por São Tibúrcio, era isso que deveríamos ter feito! Preparados como estávamos e com a repercussão de nossas vitórias anteriores, nosso exército seria vitorioso. Estou certo disso.

— Só Deus sabe — resmungou Herberto Chauffecire, que engraxava cuidadosamente seu cinto de couro. — Pelo que se diz, parece que alguns de nossos senhores também pensavam assim. Teria sido Boemundo de Tarento que se opusera, alegando que as tropas estavam exaustas e precisavam de repouso. Pelos chifres do Malvado, que belo repouso este, enterrados na lama e no frio!

Tendo constatado o abandono do acampamento cristão e compreendido que os francos se instalariam por um longo cerco e não para uma ação breve e brutal como costumavam fazer, os turcos finalmente haviam decidido passar da inércia à agressão. E começaram a atormentar seus sitiantes. Ciladas, emboscadas, ataques súbitos, combates, a temeridade substituíra então a tranqüilidade das duas primeiras semanas. Desde então os cruzados passaram a viver sobressaltados, prontos para se lançarem à batalha.

— Eu esperava que o Senhor se manifestasse no dia de Natal, que acabamos de celebrar tão dignamente e até mesmo com certa pompa apesar de nossas misérias — murmurou Pedro Bartolomeu. — Mas parece-me que nenhum sinal de melhora na nossa situação lastimável tenha sido enviado.

— Não podemos desafiar Deus! — disse o barbeiro com ar fatalista. — Sejamos pacientes.

—Este não é meu temperamento e as coisas só fazem se deteriorar — resmungou Herberto Chauffecire. — Quando penso nas cabeças decapitadas de nossos irmãos cristãos que o emir de Antióquia ousou mandar seus bandos de excomungados jogar em nossas fileiras, sinto-me explodir de raiva!

Landry ergueu a mão roxa de frio e escurecida pelo pó de limpar as pontas de ferro com quatro lados afiados de sua besta.

— Estava ao lado de Boemundo quando ele conduziu sua expedição punitiva contra a fortaleza muçulmana de Harenc — disse. — Posso lhe garantir que os mortos cristãos foram bem vingados. O que aconteceu ali foi uma verdadeira matança, mas certamente não foi sem razão!

Com uma centena de cavaleiros e besteiros, Boemundo realmente partira a fim de apoderar-se de um castelo vizinho que pertencia aos turcos. Mais uma vez vitorioso após um duro combate, ele trouxera prisioneiros em número suficiente para arrancar tantas cabeças quantas o emir enviara antes aos francos. Em seguida, num ato contínuo, mandara-as para além das muralhas por meio de catapultas. . .

— Esta terrível troca pôs fim às nossas ligações com os cristãos de Antióquia que acompanhavam os emissários turcos cada vez que eles vinham nos ver — retomou Mateus o Barbeiro. — Eles nos davam todo tipo de informações sobre a cidade e seus habitantes e nos vendiam muitas coisas que nos faltavam durante o outono. . .

— Foram suas idas e vindas, exatamente, que despertaram a atenção de Yaghi-Siyan (que o diabo carregue esse emir!) — observou Herberto. — E foram eles, os pobres-diabos, que pagaram com sua vida a desforra de Boemundo. Tiveram seu chefe degolado pelos infiéis!

— Esses cachorros não caem em cima apenas de homens que podem se defender — disse o barbeiro. — Eles também se lançam sobre os cavalos. Se muitas de nossas montarias estão perecendo pelo frio, outras tantas foram capturadas ou mortas por esses subordinados a Satã!

— Felizmente conseguimos construir dois bastiões para vigiar suas saídas e a famosa ponte de navios que dá acesso à margem direita do Orontes — completou Landry. — Graças a ela mantemos o controle de todos os barcos turcos que levam reforços e víveres a Antióquia. . .

— E interceptamos alguns. . . — murmurou o barbeiro, satisfeito.

— Devemos também agradecer ao Senhor por ter permitido que a frota genovesa chegasse a Porto São Simeão — continuou Pedro Bartolomeu com seu habitual ardor. — Desde sua chegada, pouco depois da festa de São Martinho, a embocadura do Orontes permanece aberta e abordável para nós. O que faríamos sem esses marinheiros corajosos que ouviram o chamado do papa e tomaram a cruz? Não apenas eles vigiam o porto, mas muitas vezes fazem chegar até nós armas e alimentos, nas barbas do emir, que não pode fazer nada. . .

— Esse emir é um monstro! — declarou Herberto. — Após ter decapitado nossos informantes, ele expulsou de Antióquia todos os homens cristãos que aí se encontravam. Separou-os de suas mulheres e de seus filhos, a quem manteve como reféns na cidade, atrás das muralhas intransponíveis.

— Esse emir também é um esperto! — disse Landry. — Ele se aproveitou dessa ocasião para misturar aos expulsos alguns espiões que circulam encobertos por falsas aparências, bem à vontade, no nosso acampamento. Quando cai a noite, eles voltam às escondidas para o informar de nossos atos.

— A cachorrada, cachorrada e meia! — resmungou Herberto! — Jamais compreenderei por que os espiões turcos aprisionados não são enforcados imediatamente à vista de todos!

— Já houve várias execuções. . .

— Enquanto restar um deles entre os refugiados, estaremos à mercê desse maldito emir — admitiu Mateus. — Seria preciso que nos desvencilhássemos deles. Mas como? Como reconhecê-los no meio dos outros? Toda essa gente daqui tem cabelos pretos e pele bronzeada. . .

Um grito lancinante atravessou subitamente o ruído da chuva forte. Logo outros gritos ressoaram, seguidos de uma agitação incomum nos lados do acampamento de Boemundo.

Os quatro amigos precipitaram-se para fora enfiando na cabeça os capuzes.

Não muito longe das tendas dos normandos da Sicília, todos corriam, choravam, se agitavam.

Ao se aproximar, Landry viu uma multidão que cercava um corpo estendido na lama.

— Meus Deus! — exclamou. — É Guibourg!

— Ela recebeu uma flecha bem no peito! — disse alguém. — Estava saindo da barraca dos enfermos para ir buscar não sei que bálsamo com a senhora Mabille. . .

— Um arqueiro inimigo, que certamente se infiltrou no acampamento, aproveitando-se da chuva e da escuridão, acertou-a como se fosse um animal de caça — gemeu uma mulher, acocorada junto ao corpo inanimado de Guibourg.

Landry levantou, entre as mãos, a cabeça de sua amiga. Ela tinha os olhos fechados e de seus lábios entreabertos saía um estertor deixando escorrer uma espuma ensangüentada.

Dois homens chegaram com uma maca e transportaram a ferida para a tenda-hospital.

— Levem-na para a primeira — pediu Landry. — Ela é nossa amiga e minhas irmãs estão lá.

Açoitados pelo vento, encharcados d'água, escorregando no barro mole, assim mesmo conseguiram chegar à barraca indicada.

Assim que depositaram a maça sobre as esteiras, foi possível ver que o pobre corpo trespassado pela flecha não respirava mais. De suas roupas encharcadas escorria uma mistura de sangue ainda vivo e lama.

— Brunissen! — chamou Landry. — Brunissen!

O monge-médico, acorrendo em primeiro lugar, inclinou-se para escutar o coração, reergueu-se, fez o sinal-da-cruz e começou a retirar a flecha enterrada na ferida, que se podia ver através da parte rasgada em sua túnica de lã verde.

Brunissen chegava com os curativos. De sua parte, a senhora Mabille também se dirigia ao agrupamento. A condessa de Toulouse estava entre os doentes de uma tenda vizinha. . .

— Rezemos, meus irmãos, rezemos disse o monge-médico. — Nossa irmã que aqui está partiu ao encontro dos nossos outros mártires. Que Deus recompense sua alma e a conduza ao paraíso.

Todas as pessoas válidas caíram de joelhos ao redor da pesada forma respingada de lama e sangue. . . Brunissen chorava. Landry apertava os lábios, mas alguns sobressaltos faziam estremecer os seus ombros. Ao perceber Alaís, até então retida no outro lado da tenda por estar se ocupando de um ferido, ele levantou-se e lançou-se na sua direção.

— Em nome dos céus, minha doce irmã, não se aproxime! Não olhe! Não seria bom para a criança que está carregando!

Alaís não precisava ver para compreender. Os murmúrios dos que jaziam nas camas ao seu redor, moídos pelo sofrimento, haviam-na prevenido do que acontecera. Ela deixou-se levar, pesada e soluçante, entre os braços de seu irmão. . .

— Devemos avisar seu marido — disse Mabille que retomava, após uma curta oração, o curso dos acontecimentos. — Landry, eu o encarrego desta missão. Você conhece bem o pobre homem. Ele não é também um chartrense?

Ela tinha um especial interesse pelo grupo formado pelos gêmeos, e desviou os olhos para que ninguém pudesse ler neles o surgimento de um novo desejo. . .

Naquela mesma noite, na tenda dos chartrenses, a tristeza de Liébault fazia pena. O seleiro tivera que se submeter à lei implacável que ordenava que se enterrassem os mortos sem demora. Após uma breve cerimônia, uma bênção e a presença contrita de seus amigos, o corpo de Guibourg fora inumado sob seus olhos. Na verdade era preciso cobrir de terra o mais rápido possível os cadáveres dos que eram assassinados e daqueles que, desde o começo do inverno, eram levados todos os dias pelas mais diversas doenças. Todos temiam as epidemias. Do outro lado do rio, na margem direita do Orontes, fora aberta uma vala com essa finalidade, para que os mortos fossem mantidos à distância dos vivos.

Sentado junto ao fogo aceso no centro do pequeno espaço, o seleiro, o marido de Guibourg, o companheiro de Garin, mantinha os olhos fixos sobre a panela que fervia em fogo baixo. Ele não chorava mais, mas permanecia embrutecido, como um estranho entre os fiéis vizinhos que o cercavam.

— É muita infelicidade — disse, ao fim de um longo tempo. — Primeiro, seu pai que partiu na frente, Berta a Atrevida presa em Constantinopla, a senhora Godvera e todos aqueles, todas aquelas que levamos ao túmulo durante esta estrada interminável. . .

Seus ombros se curvaram.

— Vou voltar para casa, se é que consigo chegar lá — continuou ele num timbre átono.—Eu renuncio. Cheguei ao meu limite. Certamente nos enganamos. Deus não estava conosco. . . Ele não queria esta miséria e este luto. . . ou então, nós não tomamos o caminho certo. . . o caminho da libertação. . .

— Não conseguirá alcançar Porto São Simeão — disse Brunissen, com extrema doçura. — Os turcos massacraram os últimos peregrinos que tentaram chegar à embocadura do Orontes para embarcar nos navios genoveses. Não há nenhuma possibilidade de passar daquele lado.

Padre Ascelino levantou-se de seu banquinho e veio colocar-se atrás de Liébault, pousando uma das mãos sobre o ombro do amigo.

— Amanhã, dia dos Santos Inocentes — disse com sua voz surda —, Boemundo de Tarento e Roberto de Flandres devem partir em expedição com cavaleiros e homens de armas para tentar encontrar víveres que muito necessitamos, armas igualmente e, se possível, cavalos de que tanto precisamos. Eles pensam em subir o curso do rio a fim de enganar os inimigos. Talvez pudesse juntar-se a eles.

— Eu os atrapalharia. . .

— Não seria o único. Muitos dos nossos, demasiadamente fracos, infelizes, partirão em sua companhia. Eles pensam em fazer um longo desvio e alcançar, mais ao sul, o porto de Laudicéia, de onde embarcariam para o reino de França. . .

— Conheço um meio mais seguro — explicou Landry, tomando então a palavra. — O duque de Normandia, Roberto Courteheuse, que não gosta nem do frio nem da lama a que nos submetemos por nossos pecados neste maldito vale, vai sair em campo. Já no ano passado, lembrem-se, ele fixara seus quartéis de inverno na Itália do Sul, esperando que o mar se acalmasse. . . Desta vez ele encontrou um bom pretexto: um pedido de ajuda que lhe foi lançado por uma tropa inglesa que desembarcou, justamente em Laudicéia. Ele vai nos deixar para ir ao seu encontro. Doze mil homens teriam chegado nesse porto. Ingleses, normandos, gente do Norte, sob o comando, pelo que me foi dito, de Edgar Aetheling, rei sem coroa, exilado por seus próprios súditos. . . Eles vieram lutar contra os sarracenos e encontraram em Laudicéia um pirata de Bolonha que já nos auxiliou.

— Sem dúvida deve ser o famoso Guinemar — completou padre Ascelino. —Já ouvi falar dele várias vezes. Ele pertencia à tropa do conde Eustáquio de Bolonha, irmão mais velho de Godofredo e de Balduíno. É um célebre pirata do mar do Norte. Ele ofereceu a ajuda dos seus navios e dos seus marinheiros ao senhor Balduíno quando este se encontrava em Tarsa, após ter se separado pela primeira vez do exército. Dizem que é corajoso, até mesmo temerário. Conseguiu tornar Laudicéia, mas os gregos não entenderam assim. Eles reocuparam a cidade não se sabe bem como e aprisionaram Guinemar. Apenas os turcos, por sua vez, se manifestaram e fazem pesar sobre este porto uma tal ameaça que os ingleses ficaram preocupados.

— Daí o pedido de ajuda apresentado a Roberto Courteheuse — completou Landry. — Radiante com esta chance inesperada, o duque partirá sem tristeza deixando-nos aqui, marinando neste nosso lodaçal! Conheço alguns de seus soldados e sei que ele não tardará em tomar o caminho, com bastante arrojo, como é de seu feitio. Ele descerá o curso do Orontes para alcançar a costa e seguir em direção ao sul. Por ali o caminho é menos perigoso. Se desejar, posso apresentá-lo a um companheiro meu que poderá escoltá-lo.

— Eu partirei. Fiquem certos disso — disse o seleiro. — Perdoem-me, amigos, a fraqueza que demonstro neste triste momento, mas sem Guibourg não tenho interesse por mais nada. . . Além do mais, Deus olhe por mim, mas Jerusalém é tão longe!

Brunissen tranqüilizou-o, dizendo que todos o compreendiam e Landry encarregou-se de conduzi-lo a um dos homens do duque de Normandia, de quem havia falado.

No dia dos Santos Inocentes, Boemundo e Roberto de Flandres deixaram o acampamento com suas tropas.

Alaís estava entre os que olhavam desfilar os barões, os cavaleiros, acompanhados de escudeiros a pé levando pela mão direita seus corcéis, e os soldados, marchando atrás do estandarte com as cores escarlates de Boemundo. . . A chuva estava um pouco mais fraca, mas o tecido vermelho e ouro não tremulava. Ele pendia tristemente acima das cabeças protegidas por elmos que a ferrugem, em alguns pontos, começava a roer. . .

Vendo se afastar para uma nova expedição incerta aquele a quem não cessara de amar e admirar apesar das suas traições e da sua leviandade, Alaís pensou que, sem a criança que levava, não teria mais coragem alguma. Sob a capa que a protegia da chuva, acariciou carinhosamente o ventre arredondado. Como lhe acontecia então com alguma freqüência, pôs-se a falar baixinho àquele cujos traços ainda desconhecidos representavam para ela a própria face da esperança. . .

 

Na manhã seguinte, os turcos atacaram o acampamento. Por seus espiões, ficaram sabendo da partida de um grande número de seus defensores, e resolveram aproveitar. Eles combateram os provençais, que lutaram bravamente sob as ordens do conde de Toulouse, mesmo doente, e do legado do papa, o bispo de Puy. Este não manejava a espada, mas consolava os que estavam ao seu redor. Inicialmente vitoriosos, os cristãos sofreram no final do dia uma reversão pungente, conseqüência de uma falsa manobra provocada por um cavalo enlouquecido que perdera seu cavaleiro. Ao tentarem retomar suas posições, muitos homens de armas pereceram afogados nas águas do Orontes, cujo volume aumentara muito com as chuvas.

Mais do que uma derrota parcial, este desastrado enfrentamento aumentou ainda mais a já tão longa lista de mortos e feridos. Entre outros, o porta-estandarte do bispo perdeu a vida no campo de batalha. Ao cair, deixou por terra o estandarte que representava a Virgem de Puy. Encontrado e recolhido pelos turcos, esse precioso troféu, pelo qual nutriam total desprezo, foi logo plantado sobre as muralhas de cabeça para baixo, em meio a vaias e sarcasmos, de maneira que fosse visto em todo o acampamento cristão.

Os cruzados ficaram transtornados. Sua veneração à Mãe de Cristo era terna, confiante, infinita.

Ajoelhado na mistura de lama, palha e restos do combate, frente à indescritível profanação, Landry chorava da mesma forma que muitos outros guerreiros. Ele batia no peito, acusando-se em voz alta por não ter sabido defender a imagem da Virgem tão pura a quem todos deviam o Salvador. . .

— Isto não lhes trará felicidade! — profetizou Pedro Bartolomeu na noite daquele triste dia. — Nossa Senhora será vingada!

No dia seguinte, ao crepúsculo, os peregrinos viram no céu, por um instante limpo, uma grande cruz branca que apontava na direção do Oriente. Com o espírito cheio de presságios, de prodígios, de temor e de esperança, foram se deitar sobre as esteiras ou camas úmidas, onde era tão difícil esquentar-se por não ter alimento suficiente para saciar a fome.

Durante a noite, um tremor de terra arrancou-os do sono inquieto que não os deixava repousar. Sob as tendas ricas ou nas cabanas mais pobres, o solo tremeu, os objetos caíram e se quebraram com estardalhaço, as peças de sustentação oscilaram em suas bases, as lonas se rasgaram e as armações estalaram sinistramente. As crianças puseram-se a chorar, os cachorros que ainda não tinham sido comidos uivaram sem parar e todos, até o mais fundo de suas almas, ficaram apavorados.

Amarrados, os raros cavalos, mulas, burros que ainda estavam ali depois da partida das tropas, começaram a relinchar, a zurrar, a empinar, apavorados.

Sob a tenda de listras verdes e vermelhas desbotadas, o padre Ascelino acendera uma vela e convidara todos os seus a rezarem com ele. Envoltos em espessas capas compradas aos pastores anatólios encontrados durante a viagem, ajoelhados sobre as esteiras, eles suplicaram ao Senhor que tivesse piedade deles e fizesse parar o mais rápido possível aquele fenômeno desconhecido que tanto os aterrorizava.

O tremor de terra durou algum tempo, sem provocar movimentos graves, antes de se acalmar. Após uma espera angustiante e vendo que nada de anormal estava acontecendo, todos deram graças a Deus e puseram-se a recolher os objetos espalhados por toda parte.

Foi então que a lona que fechava a tenda se abriu, e surgiu Pedro Bartolomeu. Ele dormia a uma distância razoável dos chartrenses, com os provençais, numa cabana de tábuas e de peles que ele mesmo fabricara. Vivia ali sozinho para evitar, segundo dizia, a promiscuidade noturna que tanto o incomodava. Alguns desconfiavam que aquele gosto pela solidão disfarçava atividades inconfessáveis. . . Na verdade, havia algum tempo, sob o efeito do desencorajamento, e também da falta de atividade, os cruzados, levados pelos comerciantes armênios, gregos ou sírios que vinham das redondezas, se entregavam novamente à bebida, aos jogos de dados e a fornicar sem nenhuma vergonha assim que caía a noite: Apesar dos avisos, das severas repreensões feitas pelos monges, padres e bispos, o povo de Nosso Senhor permitira, mais uma vez, que os membros mais suspeitos, mais famintos de sua ralé, tivessem um momento de relaxamento.

Alguns diziam portanto que Pedro Bartolomeu, sem senhor, sem eira nem beira, sem muita força de caráter, caíra também em escusos e antigos hábitos, entre eles o jogo de dados. . .

Entretanto, no momento em que seu rosto magro apontou na abertura da tenda, todos compreenderam que naquele momento ele estava a mil léguas de todas aquelas operações clandestinas. Uma espécie de admiração tímida iluminava seus traços morenos e ingratos. Era como um reflexo de céu num lago cercado de bosques sombrios. . . Segurando com as duas mãos os montantes que sustentavam as lonas, ele tinha um olhar deslumbrado.

— O que está acontecendo, Pedro? — perguntou padre Ascelino. Ele era o único homem presente desde que Landry, por ordem de seus chefes, se juntara ao corpo de besteiros a fim de montar guarda no acampamento durante a ausência dos principais nobres.

— Está me acontecendo. . . está me acontecendo. . . — balbuciou o provençal — está me acontecendo uma aventura extraordinária, espantosa, milagrosa! Vocês não me acreditarão, eu que sou apenas um pobre pecador, eu que, por medo, abandonei os besteiros, eu que de tempos em tempos jogo os dados para ganhar alguns trocados. . .

Cabeça baixa, ombros prostrados, seu aspecto era lastimável.

— Entre e feche a lona — disse o padre. — Venha se sentar e nos conte o que lhe aconteceu.

Como Pedro Bartolomeu vestia apenas uma simples camisa e tiritava de frio, Brunissen o envolveu numa cobertura de lã forrada de pele de lobo. Ele se sentou numa armação de madeira e franziu as sobrancelhas.

— É difícil dizer e também difícil admitir — começou suspirando. — Mas preciso contar. Como guardar comigo tal coisa? Em quem confiar senão em vocês? Os soldados zombariam de mim sem piedade e, entre os peregrinos, eu só tenho verdadeiros amigos aqui. . .

Havia qualquer coisa de patético na confusão daquele homenzinho, e tudo o que aconteceu depois teve a marca da estranheza. Após o pânico causado pelo tremor da terra, as almas mantiveram-se alertas, os espíritos permaneceram abalados. . . Com as esteiras dispostas em círculo ao redor das pedras da lareira onde as brasas ainda resistiam entre as cinzas, com o clarão trêmulo da vela colocada no chão junto ao leito do padre Ascelino, o interior da tenda se transformara num círculo de calor, de luz e de sombra, uma espécie de asilo, de retiro secreto onde deveria acontecer um acontecimento misterioso.

Inclinados sobre seu visitante, o padre, Brunissen, Alaís e Bietrix, a pequena criada, o observavam com atenção aguçada e um pouco reticente. Os reflexos difusos dos tições e da fraca chama amarelada tiravam da obscuridade, sem com isso iluminá-las realmente, mas sobretudo delineando-as, as silhuetas magras e escurecidas que se inclinavam em sua direção.

— Fazia noite na minha cabana, eu estava deitado, a terra tremia e eu sentia um medo enorme — retomou Pedro Bartolomeu. — Dois homens com roupas brilhantes surgiram repentinamente à minha frente. Um, o mais velho, os cabelos louros e ruivos, os olhos pretos, o rosto simpático, a barba branca, longa e abundante, pareceu-me de estatura média. O outro era mais jovem, fascinante. . . o mais belo dos filhos dos homens... O primeiro perguntou-me: "O que você faz?" Eu estava sobressaltado, porque sabia que não havia ninguém comigo. E respondi: "Quem é você?" Ele me disse: "Levante-se e não tenha medo. Escute o que tenho para lhe dizer. Sou o apóstolo André. Vá ao encontro do bispo de Puy e do conde de Saint-Gilles e diga-lhes: "Por que o bispo negligencia pregar, exortar e abençoar a cada dia o povo que carrega a cruz? Isto lhe faria muito bem. . ." Depois pediu-me que os seguisse. Levantei-me, então, e de camisa, como estou agora, vi-me transportado ao interior de Antióquia, na igreja do Apóstolo São Pedro. Havia no santuário duas lâmpadas que geravam uma luz como se fosse meio-dia. O apóstolo André continuou: "Espere aqui." Fez-me sentar junto à coluna mais próxima dos degraus que levam ao altar do lado sul. Seu companheiro mantinha-se não muito longe, diante desses mesmos degraus. Santo André entrou sob a terra, retirou de lá uma lança e colocou-a em minhas mãos. Ele me disse: "Eis aqui a lança que abriu o lado de onde saiu a salvação do mundo." Enquanto a segurava, chorando de alegria, eu lhe disse: "Senhor, se quiser, eu a levarei e entregarei ao conde." Ele me respondeu: "Mais tarde, em breve, pois a cidade será conquistada. Você irá então com doze homens e a procurará aqui, de onde a tirei e onde novamente a esconderei." E recolocou a lança no mesmo lugar. Feito isto, reconduziu-me ao meu alojamento, ainda por sobre as muralhas da cidade. Ambos então se retiraram, e fiquei só. . . Como não podia suportar aquela solidão, corri até aqui.

Um longo silêncio seguiu-se à narrativa. Podia-se ouvir, nas cercanias do acampamento, os passos e as vozes dos homens de guarda.

—Tem certeza de que não sonhou tudo isso? — perguntou com ar grave o padre Ascelino, depois de algum tempo.

— Como poderia dormir com o tremor de terra que fazia com que meus objetos se chocassem sem parar, e o medo que sentia de ser engolido por alguma greta que repentinamente se abrisse sob minha cabana? Eu só rezava e suplicava ao Senhor que viesse em meu auxílio. . . Era isto o que eu fazia!

— E verdade — admitiu o padre —, é verdade que ninguém podia dormir com tantos sobressaltos da terra agitada.

— E preciso ir contar tudo ao bispo de Puy! — exclamou Alaís, cujos olhos brilhavam de excitação. — É preciso ir imediatamente!

— Nunca! De jeito nenhum! — protestou Pedro Bartolomeu. — Podem imaginar alguém como eu, pobre e sem reputação, apresentar-me junto ao monsenhor de Monteil para lhe contar que conversei com Santo André? Como poderia eu ordenar-lhe que pregasse, exortasse e abençoasse o povo com a cruz que carrega? Ele me tomaria por um louco ou por um farsante e mandaria me açoitar!

— Realmente, receio que o legado do papa se recuse a ouvi-lo — observou Brunissen com sua voz cadenciada. — Como acreditaria na sua história, meu bom Pedro, se nosso tio que aí está hesita em fazê-lo? Não tenho razão, meu tio?

Padre Ascelino inclinou a cabeça com um meio sorriso.

— Você está certa, minha filha. Não estou totalmente convencido da veracidade desta história. . .

— Por Nossa Senhora, eu estava certa! Ninguém lhe dará ouvidos, meu amigo! Ninguém. Apenas eu.

O homenzinho voltou-se para a jovem, mostrando uma expressão onde pouco a pouco se apagava o espanto que a iluminava há um momento atrás. Era como se alguém fechasse uma cortina sobre um reflexo de sol que entrava pela janela. Ele parecia embaraçado e decepcionado.

— Então acredita no que lhe contei? — perguntou, espantado.

— Acho que para Deus tudo é possível. Tudo. Inclusive enviar até você Santo André e o mais belo dos filhos dos homens para levá-lo a agir segundo a Sua vontade. Não terá sido sempre aos mais humildes, aos mais fracos, que Ele se manifestou? — disse Brunissen com firmeza.

Um novo silêncio se abateu sobre todos os que estavam ali reunidos. Padre Ascelino esfregava o nariz. Pedro Bartolomeu cocava a bochecha...

— Penso que seria prudente deixar passar a noite depois de revelações tão espantosas — retomou finalmente o padre. — Amanhã consideraremos melhor o assunto. De qualquer maneira, o essencial desta profecia é o anúncio sobre o lugar onde se encontra esta santa lança. Segundo as suas explicações, é preciso esperar que Antióquia seja conquistada para ir buscá-la. Mas entende-se também, pelo seu relato, que tomaremos a cidade. Esta não é uma afirmação qualquer! Mas parece-me que você não foi encarregado de avisar nem os senhores, nem os monges, nem os soldados. . .

— Que Santo André me perdoe, mas não me sinto à altura de divulgar nem esta notícia, nem a outra. . . Quem me levaria a sério?

— Seria preciso que pudesse apresentar uma prova — sugeriu padre Ascelino. — Mas você não tem nenhuma.

— A santa lança — murmurou Bietrix que até então se mantivera calada. — Ele sabe onde se encontra a santa lança!

— Sem dúvida — suspirou o padre —, sem dúvida. . . Mas como ter certeza? Nós, que não passamos através das muralhas fortificadas, só poderemos chegar à igreja do Apóstolo São Pedro depois da tomada de Antióquia. . . E infelizmente ainda não o conseguimos! Por enquanto, repito o que já propus: só podemos esperar. . . Ainda mais que em Constantinopla o patriarca detém uma outra lança que é tida como a verdadeira, com a qual os soldados romanos teriam atravessado o flanco do Cristo!

Esta observação não pareceu alterar em nada a certeza do provençal, mas causou uma forte impressão nas três jovens, que permaneceram caladas por algum tempo.

Brunissen foi a primeira a reagir e declarou que o tio certamente tinha razão, e que a prudência certamente seria mais forte. . .

Pedro Bartolomeu resolveu então partir. Ele voltou à sua cabana com o sentimento de que levava nos ombros um peso demasiadamente grande. . .

 

No dia seguinte, festa de São Silvestre, os nobres, Boemundo, Tancredo e os outros senhores que partiram com alguns elementos do exército, voltaram de sua expedição, mais vencedores que vencidos.

Ao atravessarem o vale do Orontes, tomaram conhecimento que um importante exército sarraceno, ao qual haviam se juntado elementos enviados de Damasco, Alepo, e até mesmo Jerusalém, dirigia-se para Antióquia para socorrer os sitiados que lhes tinham pedido ajuda. Sem hesitar, Boemundo logo decidiu fechar o caminho a esse novo perigo. Roberto de Flandres partira na frente para atacar os inimigos, enquanto os outros cruzados, na retaguarda, preparavam uma carga com todas as suas forças aglutinadas, segundo o costume franco tão temido pelos turcos. . .

Após terem tentado, em vão, combater aquele muro de ferro que se apresentava como uma massa compacta e ameaçadora, os infiéis novamente debandaram e fugiram, deixando para trás um grande número de mortos. Temendo vê-los se prepararem para um outro confronto e considerando que eles próprios também eram pouco numerosos e estavam distantes de seu acampamento, os cristãos haviam decidido regressar com os cavalos dos derrotados e uma modesta captura.

Apesar de terem preservado a própria vida, bem como a segurança dos francos através daquela ação defensiva, Boemundo e suas tropas não receberam nenhuma manifestação de reconhecimento. Os estômagos vazios mostraram-se mais sensíveis à falta de comida do que à valentia empreendida para a sua salvaguarda. O último dia das calendas de dezembro foi um triste dia.

— Por minha salvação, confesso que nesta noite de São Silvestre o que mais me falta aqui é a boa e farta refeição a que tínhamos direito na casa de nosso pai, mesmo no inverno extremo—disse Alaís a Brunissen, suspirando.

Elas estavam sentadas com Bietrix sob sua tenda e cozinhavam na panela, colocada sobre as pedras da pequena lareira, uma espécie de caldo de grãos-de-bico. Dentro flutuavam alguns pouco pedaços de carneiro, vendidos às escondidas a preços exorbitantes por alguns sírios que haviam passado ali pela manhã.

— Onde estão os cordeiros macios do passado? — lamentou-se mais tarde Landry, que recebera uma licença para ir se juntar aos seus na ceia em comemoração à vitória obtida, apesar de tudo, sobre os turcos.

Suas irmãs fizeram o mesmo gesto de impotência pungente. Puseram-se então a lembrar os ausentes. Aquilo se tornara uma espécie de ritual. A cada vez que os membros da família do pergaminheiro se reuniam, começavam falando de Berta a Atrevida e de Flamínia, de quem não tinham notícias fazia muito tempo. Uma única carta escrita pela jovem fora-lhes entregue por um monge que chegara com um pequeno grupo, ainda no início do cerco. Desde então, mais nada. Os perigos do caminho explicavam em parte tal silêncio, mas não serviam de consolo. A organização das correspondências eclesiásticas, criada pelos bispos e executada pelos mosteiros situados ao longo do percurso, não funcionava mais, já que estavam em país muçulmano. Apenas alguns homens a cavalo conseguiam alcançar os portos costeiros, onde navios genoveses garantiam o transporte da correspondência levada ao papa. Padre Ascelino obtinha algumas vezes a permissão de juntar a ela suas próprias missivas para o seu bispo.

No entanto, apesar ou mesmo por causa dessa falta de informações, era impossível deixar de pensar incessantemente nos que estavam isolados. A menor alusão, a mais ínfima reminiscência despertava lembranças, saudades, inquietação. A única carta recebida de Constantinopla informava que a saúde da anciã não melhorava. Apesar das precauções tomadas por Berta para não alarmar demasiadamente os seus, todos perceberam a gravidade do seu estado e a possibilidade, cada vez mais remota, de vê-la surgir entre os peregrinos para continuar o caminho em sua companhia. . . e até mesmo de revê-la com vida. . .

— Com um tempo tão ruim, um caminho que sabemos cheio de traição e crueldades, tantos perigos e tantos riscos, como poderia uma mulher idosa e apenas convalescente, admitindo que isso fosse possível um dia, alcançar Antióquia?—perguntou o padre Ascelino. — Deus é testemunha do quanto desejo a sua vinda aqui, bem como a de Flamínia e Alberade; mas, quanto mais o tempo passa, mais me parece impossível que elas possam atravessadas inúmeras léguas que no momento as separam de nós!

— Nossa avó é indomável — observou Brunissen.

— A doença e a morte já domaram muitos outros—murmurou Landry.

Infinitamente retomado, esse assunto traía, por sua própria repetição, a incapacidade de ajudar as ausentes. Os que haviam continuado a peregrinação, deixando para trás as três mulheres, não podiam fazer nada por elas. . . Era como uma ferida no coração de todos. . .

Era preciso falar de outra coisa. Todos se perguntavam por que Pedro Bartolomeu recusara a ceia que lhe fora oferecida, e por que era tão raro vê-lo desde a noite do tremor de terra e suas famosas revelações.

— Ele está se escondendo — disse Landry. — Fui visitá-lo depois do meu horário de serviço e pareceu-me estranho. Está abatido devido ao seu segredo e incapaz de se decidir pela obediência às ordens que lhe exigiam ação. E verdade que eu não estava presente quando ele lhes contou suas visões. Talvez prefira não se abrir comigo. A não ser que ele mesmo duvide da sua veracidade. . .

— Pois parece-me ser a miséria o que realmente o afasta de nós — declarou Brunissen. — E a vergonha de fazer parte do bando de pobres-diabos acuados, que se entregam ao jogo e a toda sorte de negócios escusos para conseguir sobreviver.   Deus sabe que eles são cada vez mais numerosos, e podem ser vistos ao redor das tendas de socorro onde não ousam nem mesmo penetrar!

— Sua miséria é de fazer pena, mas resta ainda o orgulho para se recusar a mendigar — confirmou Alaís. — Nós distribuímos sopa quente, pão e queijo a todos os que necessitam. É tudo o que podemos fazer. Mais do que isso seria humilhá-los, feri-los no que têm de mais sensível: a consciência de pertencerem ao exército dos filhos livres de Deus!

Padre Ascelino mostrou uma expressão preocupada.

— A nossa ração não é das maiores, mas também não podemos nos queixar — retomou ele. — Há, ao nosso redor, muitos peregrinos que só têm detritos para mastigar. Dizem que há alguns que comem ervas, hastes de favas que chegam a conseguir nos campos das redondezas, cardos que lhes espetam a língua porque não têm lenha suficiente para cozinhá-los o tempo necessário. . . Cavalos, camelos, mulas, burros e até mesmo cachorros ou ratos são mortos furtivamente e em seguida despedaçados, divididos, devorados às escondidas, quando é possível fazê-lo sem ser visto nem apanhado.

— Ouvi dizer, entre os besteiros, que os mais pobres de nossos companheiros estavam reduzidos a mastigar as peles dos animais abatidos pelos outros e deixadas de lado à espera de serem curtidas — completou Landry. — Enfim, mais horrível ainda, a fome fez com que alguns deles fossem remexer os excrementos para tentar encontrar aí alguma coisa para roer!

— Uma das conseqüências mais detestáveis desta penúria é a importância que se passou a dar ao dinheiro — constatou Brunissen inquieta. — A quem não tem tostão, nem besante grego, só resta o estômago vazio! É revoltante!

— Os bispos, os padres, os nobres repartem entre os mais miseráveis tudo o que eles próprios ainda podem adquirir. Seus soldados partem em pequenos grupos armados pelos campos. . . mas infelizmente a cada dia voltam com menos provisões — completou Landry. — Pelo ventre da Virgem, se as coisas continuarem a se agravar, em breve não terão mais nada a distribuir! E como observou bem, minha irmã, mais uma vez triunfante, o demônio conseguirá impor o ouro sobre a caridade!

— Deus permita que meu filhinho que está por nascer jamais padeça de tal miséria — murmurou Alaís, colocando as mãos sobre a saliência que já lhe inchava a túnica. — Gostaria tanto que fosse forte e feliz como é seu pai, apesar de tudo!

— Ele será, minha sobrinha — afirmou padre Ascelino solenemente. — Nós estaremos velando, pode ter certeza!

No entanto os primeiros dias de janeiro não trouxeram melhora alguma. A chuva, o frio, a fome, as febres, as doenças atacavam continuamente o acampamento.

Nas barracas de socorro, as mulheres já não sabiam mais como atender a tanta necessidade, a tantos males. . . Para escapar à angústia tão profunda que tomava conta dos corações e almas, mais uma vez alguns peregrinos recorreram à eterna panacéia humana: a luxúria. Poder-se-ia dizer que a fome e a morte aguçavam seus sentidos, deixando-os nervosos. . .

Uma noite, um escudeiro veio com todo o cuidado buscar Landry em sua barraca e conduzi-lo até a tenda de Mabille, entreabrindo rapidamente as cortinas para fazer entrar o jovem chartrense. Para não despertar a atenção dos que passavam por ali, apenas duas velas iluminavam o interior do aposento aconchegante onde ele penetrou. Era o suficiente para perceber os tapetes suntuosos, o acúmulo de almofadas e as peles espessas que cobriam a cama onde a irmã de Boemundo, enfiada sob suas cobertas forradas de peles de esquilos do Norte ou de zibelinas, esperava aquele a quem escolhera. . . De um pesado defumador de bronze subiam volutas de aloés, incenso e mirra. . . Mabille, que afastara suas damas de companhia dando-lhes folga por uma noite, estava sozinha com Landry. Sorriu para ele e fez um sinal para que se aproximasse.

— Está agasalhado demais. Dispa-se, meu caro amigo — disse com um ar absolutamente natural — e venha se aquecer aqui dentro.

Enquanto falava, ela entreabria seus lençóis de seda da Tessália, deixando aparecer seu corpo perfumado em sua maturidade desnudada. Seu único adorno eram os cabelos soltos que, sob o pálido clarão das velas, tinham reflexos prateados e deixaram maravilhado o rapaz.

— Bela dama — começou ele. . .

Ela pousou um dedo sobre seus lábios, acentuou o sorriso, inclinou-se e atraiu para si Landry entre seus braços, no seu odor de mulher pronta para o amor.

— Não temos mais muita coisa para comer, nenhum de nós, mas graças a Deus restam-nos ainda apetites que podemos saciar — murmurou ela mostrando seus dentes de fera. . .

 

Dois dias mais tarde, Ademar de Monteil, bispo de Puy, chefe espiritual do exército, tomou uma grande decisão. Ele reuniu os membros do clero, os nobres e senhores para avisá-los que se o Senhor estava permitindo que tantos males chegassem aos cristãos, era certamente porque os maus costumes se espalhavam entre eles há meses.

— O vício, o banditismo, o roubo, a desordem, o jogo, o gosto pelo dinheiro, o orgulho substituíram o empenho desinteressado, o despojamento, o desprendimento, a devoção de que a nossa peregrinação tanto precisa. Façam um retorno sobre si mesmos! Recuperem-se! Reformem-se! Pensem no sagrado objetivo de nossa expedição! Soldados e peregrinos de Cristo, arranquem definitivamente de suas vidas as impurezas, as injustiças e as máculas! Decreto que, a partir de hoje, cada um de vós deverá fazer penitência e resgatar-se. Vamos unir nossas almas fazendo a Deus Nosso Senhor as nossas preces públicas, suplicando-Lhe que nos perdoe e nos livre de nossos males!

Ficou então decidido que haveria uma punição severa para os ladrões, os que se aproveitavam da fome torturando os seus irmãos para conseguir os famosos besantes gregos tão procurados no Império e os que se faziam de intermediários para alimentos e provisões, entendendo-se com os mercadores gregos, sírios ou armênios nas montanhas vizinhas. Foram expulsas do exército as mulheres levianas. Foram ameaçados de desligamento os homens ou mulheres surpreendidos cometendo adultério ou copulação. . . Mabille mandou um aviso a Landry para que suspendesse temporariamente suas visitas noturnas. . . Por uma salvação comum, era preferível fazer penitências e esperar. . . Os bêbados, os blasfemadores, os jogadores também viram-se ameaçados.

— Cuidado, Pedro Bartolomeu! Cuidado! Seus dados o levarão para o inferno! — exclamou Herberto Chauffecire uma manhã, ao cruzar com o homenzinho que vagava pelo acampamento.

Para completar suas decisões, o bispo de Puy decretou um jejum de três dias, acompanhado de procissões e orações. Era preciso cuidar daqueles corpos que tanto preocupavam os cruzados e permitir que as almas se elevassem com mais vigor na direção da oração, recurso supremo. . .

Alguns encontraram um novo ânimo nesse pedido de ajuda acompanhado de tantas manifestações oferecidas a Deus. Outros entregaram-se ao completo desencorajamento.

Rumores corriam por entre as tendas e cabanas:

— Pedro o Ermitão e Guilherme o Carpinteiro, companheiros do irmão do rei de França, Hugo de Vermandois, tentaram escapar esta noite! Tancredo, cujo sangue jovem está em total ebulição, lançou-se em seu encalço. Encontrou-os e trouxe-os de volta ao acampamento, sob uma chuva de injúrias tão abundante quanto a que cai do céu!

— Pedro o Ermitão não é mais ninguém, depois da matança de seus companheiros em Cízico. Ele perdeu a esperança!

— Boemundo lançou toda sua fúria sobre Guilherme o Carpinteiro e obrigou-o a passar a noite inteira sob sua tenda, deitado no chão, aos pés da sua cama, como um derrotado!

De sua parte, padre Ascelino se esforçava por manter intacta sua tranqüila valentia. Ele velava sobre os seus sobrinhos como o teria feito com filhos nascidos da sua própria carne. . . Tentava preservar a sua vida de cristãos engajados num combate sem trégua contra as tentações, sem contudo deixar de se preocupar com sua subsistência. Graças aos fundos deixados por Garin e que lhe tinham sido confiados por Berta a Atrevida, graças também às suas próprias economias, ele conseguia garantir dentro do possível a sua alimentação. . . Comia-se mediocremente, mas comia-se, sob a tenda de cores desbotadas dos chartrenses.

Numa manhã gelada, após a missa cotidiana celebrada na capela de lona que ia onde quer que fossem os cruzados, o padre Ascelino conseguiu comprar, a preço de ouro, um quarto de javali. E levou-o para Alaís.

— Minha filha — disse ele — pensei no seu estado. Não quero ver nascer uma criancinha definhada. Afinal, você não está comendo por dois?

— Muito obrigada, meu tio — respondeu a jovem. — Que sua bondade seja abençoada! Se meu filhinho tiver a sorte de vir ao mundo sem ter passado fome dentro de mim, certamente terá sido graças ao tio, sem o qual...

E suspirou.

— Eu gostaria tanto de contar com a presença de minha avó ao meu lado no momento do parto. . . Tenho-o desejado tanto. . . No momento, sei que devo me contentar com uma das parteiras que conheço. . . Elas são habilidosas e têm muita prática, Deus é testemunha disso, mas dar à luz longe de casa, longe de qualquer socorro materno. . .

— Espere, minha sobrinha querida, continue esperando. Nesta terra tudo é possível. Berta a Atrevida talvez esteja curada quando chegar a sua hora. Em todo caso, faço questão de que chegue até lá sem ter definhado, nem passado fome. . .

Mateus o Barbeiro também não parecia sentir falta do essencial. Na falta de dinheiro, ele possuía a arte de tornar-se útil e sabia trocar os seus serviços por pão, peixe seco, favas ou farinha. Ele conseguia sempre uma maneira de obter o estrito necessário sem precisar vender sua alma ao demônio. . . Dos três amigos de Landry, era o mais habilidoso e o mais estimado.

Pedro Bartolomeu, que não ousava mais jogar dados, certamente teria morrido de inanição se os chartrenses, perturbados com a visão que ele havia contado, não tivessem se esforçado para alimentar, sem fazer com que se sentisse pedinte, o eleito de santo André.

Herberto Chauffecire vangloriava-se com amargura de emagrecer sem queixas e de consumir apenas o que era distribuído às tropas dos besteiros, para que não ficassem em estado demasiadamente lastimável. No entanto, havia já algum tempo que o seu mau humor se amenizara.

— Pelos Santos Evangelhos, acho que Herberto está se apaixonando por você! — observou Alaís rindo, uma noite, dirigindo-se a Bietrix.

A jovem serva costurava perto dela, durante a vigília, algumas peles brancas de cabra a fim de confeccionar uma peliça para Brunissen. Realmente, a mais velha das irmãs esgotava-se cuidando dos feridos e doentes sem parar, o que fazia com que muitas vezes voltasse muito tarde e tremendo de frio.

— É bem possível, mas ele não me agrada — respondeu calmamente Bietrix.

— Coitado! Se rejeitá-lo, vai fazer com que mergulhe novamente na sombria aflição em que se encontrava desde que fora obrigado a separar-se de minha irmã Flamínia, a quem estava ligado. Voltará a ficar irritado como tem estado nestes últimos meses.

— Azar dele! Tem um aspecto tão infeliz!

E puseram-se a rir. Era preciso de alguma forma combater a prostração que pesava sobre tantos companheiros. Era preciso tentar esquecer o relato do novo massacre dos turcos sobre uma tropa armada de dinamarqueses, vindos de Constantinopla sob as ordens do próprio filho do rei da Dinamarca. Quando iam ao encontro dos francos, os soldados e seu chefe foram interceptados, atacados, massacrados até o último sobrevivente. . . Esquecer também o grupo de clérigos e fiéis que havia tentado chegar à montanha, para aí tentar sobreviver longe do acampamento e das epidemias. Traídos por espiões, foram exterminados pelos arqueiros do emir de Antióquia. . . Esquecer Balduíno de Bolonha, que se tornara conde de Édessa, cidade que conquistara e da qual se apoderara, e onde já havia desposado, em segundas núpcias, uma certa Arda, filha de um rico armênio, sem preocupar-se com a sua viuvez recente nem com a lembrança tão próxima da pobre Godvera. . . Esquecer a enfermidade de Godofredo de Bouillon, a do conde de Toulouse, por cuja vida sua esposa ainda tremia. . . Esquecer a partida do general Tatikios, que na verdade ninguém lamentava, mas que, também ele, desertara à frente das forças gregas que comandava. Ele partira de forma tão precipitada que abandonara suas tendas e tudo o que continham para alcançar Porto São Simeão, com o pretexto de ir ao encontro do basileu, que decidira repentinamente juntar-se ao exército dos cruzados. Na verdade, o general partira sem pensar em voltar.

—Diz-se que foi Boemundo, sempre ele, que teria esperado o momento propício para livrar-se desse grego — disse um dia Landry a seu tio. — Ele não o queria, de jeito nenhum, entre nós.

— Para muitos ele se tornara o responsável por todos os nossos males — admitiu padre Ascelino apertando os olhinhos, vivos como os de um esquilo. — Nossos cavaleiros fulminam, falam de traição, mas felicitam-se por uma fuga tão pouco gloriosa. O grande primaz, representante do imperador, decepcionou-os muito desde a partida de Constantinopla. Acusam-no de não ter feito nada para incitar o basileu a interceder em nosso favor durante este cerco que se eterniza. É verdade que Alexis Comeno é bastante ingrato. Nós conquistamos e lhe devolvemos um bom número de cidades que seus predecessores haviam perdido, sem que ele nos demonstrasse a menor gratidão. . . É como se todas aquelas cidades lhe fossem devidas, graças à doação que extorquiu tão habilmente da maior parte de nossos senhores. . .

Padre Ascelino interrompeu sua fala, apertando a ponta do nariz.

— Pensando bem — retomou ele — não é de todo impossível que Boemundo esteja à frente da deserção de Tatikios. Quando tomarmos Antióquia, se é que a tomaremos um dia, será sem a ajuda dos gregos. Portanto, não precisaremos devolvê-la ao imperador. Então, Boemundo...

Ele sacudiu a cabeça com ar divertido.

— Decididamente, esse normando da Sicília é tão ardiloso quanto ambicioso!

Ouviu-se então um ruído de passos precipitados, e Alaís entrou quase correndo na tenda. Tinha entre as mãos uma pequena bola de pão que trazia apertada contra o ventre arredondado.

— Acabo de comprá-lo de um comerciante sírio — disse ofegante. — Uma mulher quis arrancar-me das mãos. Eis a que ponto chegamos: é preciso brigar por um pedaço do pão de cada dia que diariamente pedimos ao Senhor!

— Você não pensou em dividi-lo com essa senhora? — perguntou padre Ascelino, com uma ponta de repreensão na voz.

— Somos cinco para comê-lo, e já é tão pequeno — suspirou Alaís abaixando um rosto contrito. . . — Além do mais, sempre me recomenda que eu coma por dois.

— É verdade, minha sobrinha, é verdade. . . No entanto não posso deixar de pensar que, entre a necessidade animal e a caridade cristã, há momentos em que a fé não é o mais importante.

Landry passou um braço ao redor dos ombros de sua irmã gêmea que se pôs a chorar baixinho, mergulhando o rosto no ombro fraternal.

— Já seria chegado o tempo para que Deus nos enviasse o maná, como fez outrora com os hebreus! — murmurou o rapaz.

E pôs-se a acariciar cautelosamente a cabeleira loura coberta por um espesso véu de lã que a protegia da chuva, oferecido há pouco tempo pela armênia de Icônio, em testemunho de sua amizade.

— Sua intervenção se dará quando o momento por Ele fixado tiver chegado — respondeu padre Ascelino. — Portanto, só Ele conhece o dia e a hora.

Landry concordou.

— Que o Senhor me perdoe este movimento de humor. Mas tudo o que acontece a Alaís toca-me de muito perto. . .

Esta levantou então um olhar banhado em lágrimas.

— Eu errei em não ter oferecido um pedaço de meu pão àquela infeliz — reconheceu ela, com firmeza. — Estou muito envergonhada. Devo acusar-me de não ter nem mesmo pensado nisso. A obsessão pela fome, a miséria de todos, o frio, a chuva, a lama que nos engole, todos esses infortúnios endurecem a alma e a tornam egoísta. . .

— Não falemos mais nisso, meus filhos, e mantenhamos a esperança!

Para Alaís, a esperança tinha um nome certo: chamava-se Boemundo. O imenso prestígio que seu herói adquirira desde o início do cerco a enchia de orgulho. Devido às falhas de uns, e às doenças de outros, o chefe dos normandos da Sicília aparecia agora como um verdadeiro salvador. Seus próprios pares consideravam-no implicitamente como o melhor defensor do exército cristão.

— Com sua costumeira habilidade, ele trabalha sem esquecer a própria glória. Todas as ocasiões lhe parecem boas — murmurou um dia Brunissen à irmã caçula. . .

Mais uma vez ambas se encontravam na tenda dos feridos e a uma certa distância de Mabille, que esticava as orelhas para tentar surpreender uma palavra que fosse sobre seu irmão.

As ligações amorosas que a senhora mantivera, durante algumas noites, com Landry, e que as ameaças do bispo de Puy haviam conseguido interromper apenas por algum tempo, deixavam-na extremamente sensível à opinião dos chartrenses sobre os últimos movimentos de Boemundo. Mas, apesar da sua atenção, a conversa entre as duas irmãs, murmurada, não chegou até ela.

— Devo lhe confessar que a maneira como seu amigo acabou de nos livrar dos espiões que, é verdade, infestavam o acampamento, causa-me náuseas, só em pensar! — continuou Brunissen.

Alaís não ignorava que na sua família, bem como em muitos outros lugares, a manobra cruel de Boemundo fora muito criticada, mas ela sabia que um certo número de cruzados a aprovava.

Realmente, algum tempo antes, o conselho dos nobres reunira-se com o objetivo de encontrar uma maneira de se desvencilhar dos inúmeros traidores que se encarregavam de manter informado o emir de Antióquia sobre tudo o que se passava no acampamento.

— Deixem que eu resolvo — disse então o normando da Sicília. — Acho que conheço uma maneira de conseguir. . .

Naquele mesmo dia, ao cair da noite, enquanto todos estavam ocupados em preparar os parcos restos da ceia, Boemundo ordenou que tirassem da prisão os prisioneiros turcos que ele detinha. Entregou-os então ao carrasco, mandou que os degolassem e em seguida ordenou que se acendesse uma grande fogueira. Exigiu então que fossem colocados em espetos que foram cuidadosamente pendurados como se fossem destinados a serem comidos. Finalmente, disse aos seus que, caso fossem indagados sobre o porquê de tantos preparativos, deveriam responder: "Os príncipes decidiram que no futuro todos os inimigos e espiões capturados seriam tratados assim e serviriam de alimento aos senhores e ao povo faminto. . ."

Nas horas que se seguiram, a maioria dos falsos cruzados, entre eles, por exemplo, os que haviam feito uma tatuagem de cruz na fronte, no braço ou no peito com ajuda do sumo de algumas plantas, desapareceram sem deixar vestígio.

— Ele purgou o acampamento de todos aqueles traidores que são responsáveis pelo fim atroz de tantos de nossos companheiros mortos por prevaricação — murmurou Alaís. — Podemos recriminá-lo por isso?

— Senhor Deus! Será que já pensou, minha irmã, na reputação cristã junto aos infiéis após semelhantes atos? Vamos passar por monstros piores que animais selvagens!

— Eu não penso absolutamente da mesma forma que você. Armênios, sírios, gregos nos conhecem bem e sabem por que cometemos tais crimes. Eles tomarão esta. . . medida pelo que é: um severo aviso, nada mais.

Brunissen suspirou.

— Por Deus, você sempre perdoará tudo nele! Não sei o que ele precisará fazer para obrigá-la a condená-lo!

— Seria preciso que, de uma hora para outra, se tornasse menos belo, menos forte e menos valente! — disse Alaís, com um arzinho de desafio. — O que seria muito mau para todos nós! Acredite-me, precisamos muito de homens como ele! Temo, minha irmã, que permaneçamos neste maldito lugar ainda por muito tempo. . .

 

Teófano Danielis era o fornecedor de incenso e ervas aromáticas do patriarca de Constantinopla, Nicolas Grammatikos. O mestre-perfumista acompanhava sempre ao Patriarcado, vasto palácio que fazia ângulo com Santa Sofia, os serviçais encarregados da entrega dos preciosos produtos da árvore de incenso, bem como os círios impregnados do suco perfumado das maçãs de mandrágora. Estes se destinavam a proporcionar um sono reparador ao patriarca, sujeito a inúmeras insônias.

Reconhecido pelo repouso assim conseguido, Nicolas Grammatikos aceitara que um escravo dos Danielis levasse em seus braços Berta a Atrevida até a Grande Igreja, a fim de fazê-la tocar nas chaves milagrosas do santuário.

O fato deu-se em meados das calendas de fevereiro. Um frio seco e luminoso enchia de luz clara a mais alta cúpula de ouro do mundo e a sua cruz colossal. Teófano, Andrônico, Janice e Flamínia entraram no santuário cercando o corpo enfraquecido, encarquilhado, dolorosamente frágil da anciã que já não podia mais andar. Trazida numa liteira, era carregada como uma criança por um eslavônio de pele avermelhada, olhos cor de água, que nem mesmo precisava de força para levantar e sustentar tanta fraqueza.

Janice pensou consigo mesma como o que restava de Berta a Atrevida parecia-se com os esqueletos de pássaros mortos durante a estação do frio, encontrados na primavera em meio a uma quantidade de folhas secas levadas pelo vento, em algum lugar esquecido. . .

Os esplendores que subitamente a cercavam, sob a cúpula fantástica, tão alta que lembrava a própria abóbada celeste, teriam sido vistos pela doente? Flamínia sentia-se esmagada pela admiração, pelo respeito sagrado, por tanta beleza. Ela vislumbrava a imensa nave cujo lustre gigantesco iluminava, com o reflexo de suas lâmpadas de cristal, as colunas de pórfiro vermelho ou de brecha verde, os painéis de mármore emoldurados por barras peroladas, as tribunas esculpidas reservadas às mulheres durante os ofícios. . .

Teófano Danielis mostrou-lhe discretamente o Onfalo, círculo de pórfiro contendo um mosaico de mármores policromados, sobre o qual se colocava o trono imperial durante as coroações. Ele designou-lhe em seguida o trono do patriarca, todo em prata dourada, e a balaustrada de metal precioso cinzelado, que impedia o acesso à iconóstase, um tabique alto recoberto de ícones pintados nas mais ricas e delicadas tonalidades, representando o Cristo, a Virgem, os arcanjos, os profetas, os apóstolos. Pesadas cortinas rebordadas em ouro escondiam as três portas que separavam a nave do santuário, fechando dentro de si os mistérios radiantes na sombra sagrada. . .

Flamínia não pôde ver a santa mesa em ouro maciço, salpicada de pedrarias e esmaltes, repousando sobre uma pilha de puro ouro e da qual se dizia que irradiava fogo de suas gemas como a sarça de onde o Senhor dirigiu-se a Moisés. . . Por outro lado, ela teve tempo de admirar os harmoniosos mosaicos de esmalte cujos fundos de ouro resplandeciam, os inúmeros ícones e as cruzes, cintilantes na claridade branca daquele dia de inverno que caía das quarenta janelas da cúpula ou dos outros vãos; os candelabros, os lustres irradiando uma luz infinita no interior das galerias, das tribunas, dos menores recantos. . .

O brilho de tanta magnificência, deslumbrante tanto aos olhos quanto ao espírito, fazia acreditar que a origem daquele esplendor, irreal já que provinha de tantas fontes, jorrava no seio do Templo da Sabedoria divina, espontaneamente, e não apenas da genialidade de seus arquitetos. . .

Berta a Atrevida nem mesmo se dava conta daquelas maravilhas. Ela só foi capaz de ver as enormes chaves de bronze verde que lhe foram apresentadas. Na ausência do patriarca, um diácono recebera a incumbência de trazê-las até a doente, sobre uma almofada de seda branca. Num despertar daquilo que um dia fora uma vontade sempre ativa, a anciã estendeu a mão esquelética na direção da almofada. Percebendo que ela não conseguiria alcançar sem ajuda as chaves, Flamínia sustentou o braço descarnado a fim de ajudar a avó a colocar os dedos sem força sobre o objeto de sua fé.

Naquele instante, apesar da multidão de fiéis, de sacerdotes com longas túnicas pretas e barbas abundantes, de altos funcionários que serviam o patriarca, de dignitários de todos os graus, de membros do clero ligados a Santa Sofia, de bispos de passagem e de outros grandes personagens ali presentes para completarem sua devoção acompanhados de seus séquitos, apesar de toda aquela gente indo e vindo, houve, entre o pequeno grupo do qual Berta era o centro, um sentimento de fé intensa, de violenta emoção, de esperança estremecedora. . . Num gesto em que se confundiam esgotamento e êxtase, ela tocou as chaves milagrosas. Como um raio de sol, um sorriso iluminou seu rosto plúmbeo onde a pele afundava em rugas sombrias por entre os ossos salientes. Enquanto o diácono abençoava a velha senhora a quem a morte desenhava já a sua máscara de além-túmulo, ao redor dela todos tinham o coração oprimido. . .

Cabeças inclinadas sobre o peito, eles rezaram com fervor insistente para obter a cura daquela que, vinda de tão longe, não aceitava ver-se retirada em sua caminhada e pedia nada mais que retomar o passo na direção do Santo Sepulcro. . .

Quando, ao final da sua súplica feroz, Flamínia ergueu a cabeça, foi para cruzar com o olhar de Andrônico. O choque foi tão forte que ela pensou que cairia sobre a laje de mármore que decorava o chão. Tanto amor naquele olhar cristalino, tanta veneração desviada Daquele a quem, e apenas a Ele, ela deveria se dirigir num momento como aquele, foi como uma espada em brasa que lhe enterravam no peito. . .

Ela deixou a Grande Igreja junto com os seus, num estado de confusão e tormenta indizível, assustada com seus próprios pensamentos. . . Quando se preparava para subir na liteira onde sua avó acabava de ser instalada pelo escravo, Andrônico estendeu-lhe a mão para ajudá-la. Novamente, enquanto suas mãos trêmulas se tocavam, eles mais uma vez se encararam por um breve momento, e em seguida o marido de Icásia escondeu-se atrás de Janice, a quem Teófano sustentava pelo cotovelo para facilitar-lhe a subida dos três degraus que haviam sido baixados. Os criados trouxeram então ao mestre-perfumista e a seu filho os cavalos que montariam para acompanhar a liteira, e o cortejo afastou-se de Santa Sofia, de onde Deus certamente desviara a Sua face. . .

Durante a noite, Berta a Atrevida foi, acometida de novas dores. Distendido como um odre, assolado por eólicas cujasfisgadas, segundo ela mesma dizia, eram comparáveis a dentes de lobo remexendo as entranhas de suas presas, o ventre da doente era só sofrimento. Ela se contorcia na cama, sem conseguir reter os gritos que em vão tentava abafar, mordendo os lábios raivosamente.

Durante longas horas de angústia, Flamínia e Alberade esforçaram-se em cuidar dela sem conseguir acalmá-la. Inicialmente gelada, ela não tardou a ser sacudida por terríveis arrepios. Em seguida a febre apareceu, subiu, incendiou-a. Depois, ela vomitou matérias infectas e malcheirosas. . .

Ao mesmo tempo que lhe sustentava a cabeça para ajudá-la, que lhe trocava constantemente a roupa ou ungindo-lhe a face com a ajuda de um pano embebido em água-de-cheiro, Flamínia pensava consigo mesma, horrorizada, que o milagre tão esperado não acontecera. Ele fora recusado àquela cuja neta, num lugar santo, deixara-se levar imaginando o adultério em seu coração. . .

"O fim se aproxima. Nossa avó não verá Jerusalém!"

Mais tarde, com o coração mergulhado em lágrimas, ela fez para Berta esgotada uma infusão de plantas calmantes, onde colocara um pouco de leite de dormideira. Não era mais possível curar o mal que a devorava. Podia-se apenas acalmar por algum tempo as crises que a atormentavam.

A adolescente sentiu apenas uma certeza implacável: sua avó estava perdida. . . Até então ela tentara não enxergar a verdade, mandando para bem longe a eventualidade de um fim que não desejava. Uma tristeza imensa tomou conta dela, que amava a avó moribunda e detestava o futuro que estava por vir. Sem poder mais se esquivar, ela se veria condenada a uma escolha que, de antemão, já a assustava. . . Ela revia Andrônico, de pé à sua frente, no coração da luz imaterial que emanava de Santa Sofia. . . A maneira como ele a encarara revelava o sacrilégio. . . A fuga ou o pecado do adultério, eram estes os dois termos da decisão que deveria tomar.

Se Andrônico não fosse casado, tudo seria simples. Ela teria se refugiado em seus braços para chorar, e depois partiriam juntos ao encontro dos peregrinos de Cristo em Antióquia. Mas Andrônico era casado!

Ela caiu de joelhos à cabeceira de sua avó que, graças à bebida narcótica, mergulhara num sono agitado, perturbado pelos gemidos.

Como uma bolsa amarga cheia de água salobra e fel, seu sofrimento explodiu de repente. Depois de seu pai, agora sua avó ia morrer! Aquela que sempre representara a força e a energia entre os seus, aquela criatura justa, valente, cortante como uma espada, em breve não estaria mais ali... Levando como um viático a bênção recebida em Santa Sofia, ela alcançaria o reino de Deus onde a esperava o seu filho tão amado. E aí conheceria as alegrias celestes e suas maravilhas. . . Mas, sem a tutela que sempre os havia sustentado, o que aconteceria com seus netos? 0 que aconteceria a ela, sua neta preferida, com a alma dividida entre um amor culpado e a necessidade, desencadeada por aquela horrível perda, de colocar um fim à sua hesitação? Durante muito tempo Flamínia chorou, rezou. . .

Aos pés da cama de sua senhora, Alberade deitara-se sobre a esteira onde costumava dormir todas as noites. Fora rapidamente tomada pelo cansaço e roncava um pouco. . .

Repentinamente, seu nome, quase inaudível, pronunciado pela moribunda, alertou a adolescente e interrompeu sua sombria meditação. —

— Flamínia. . .

Ela levantou-se rapidamente, inclinou-se sobre o pobre corpo endurecido, macilento, irreconhecível, que se mantinha deitado do lado direito, retorcido pelas cãibras, retesado pelas dores. . . Onde estava a mulher que partira de Chartres na época das monções, vibrando de entusiasmo, tão forte e tão segura de chegar aos Lugares Santos?   A mulher que desafiava as intempéries, os golpes do destino, as fraquezas de cada um e até as ondas do mar que devoravam os homens? A doença roera a carne, crispara os músculos, ressecara a pele agora colada a uma ossatura outrora tão imponente, hoje tão lastimável. . . Daquele miserável pacote de ossos malcheirosos, a voz fraca elevou-se mais uma vez:

—Minha neta. . .

— Estou aqui vovó, perto de você.

— Eu sei.

Tempo. Um lamento arrancado à força das entranhas martirizadas. . . Mais um tempo.

— Estou sofrendo tanto. . . ninguém pode imaginar. . . fui vencida, minha filha, fui vencida. . . No passado eu era invencível. . . Somente a morte seria capaz de derrubar a minha força. . .

— Pela Cruz de Deus! Eu suplico, não fale assim! Mesmo que o milagre que esperamos não se tenha realizado, é preciso não abandonar a luta. É preciso lutar!

— Cale-se, Flamínia, não me embale com palavras e ilusões. Ao invés disso, escute-me: quero que me dê um pouco de suco de dormideira.

— Já lhe dei mais cedo, misturado à tisana, antes que adormecesse. É o suficiente. A dormideira por ser perigosa.

— Justamente! Não suporto mais esse animal selvagem que me rói as entranhas. . . Dê-me um pouco do leite da remissão para que eu não o sinta mais me devorar viva. . . Para que eu não seja mais a sua vítima. . . para que eu possa encontrar o repouso. . .

— Vovó!

Inclinada sobre o terrível olhar azul que, novamente, exigia, ordenava pela última vez, Flamínia foi tomada por uma vertigem. Sua avó, uma cristã irretocável, pedia-lhe que adiantasse seu próprio fim! Queria precipitar a seqüência natural dos males que sofria para encurtar sua duração. . . tentava escapar da provação final!

A adolescente jogou-se para trás e sacudiu a cabeça.

— Não — disse ela, sacudida por soluços roucos. — Não. Nunca. Jamais eu faria uma coisa dessas!

— Sou eu quem está lhe pedindo. . .

— Mas sou eu quem deverei fazê-lo! Sou eu quem levarei a culpa, responsável diante do Senhor!

— Eu tomarei a culpa para mim. . .

— Então, Deus me perdoe, estaríamos ambas perdidas! Você por ter exigido; eu, por ter obedecido!

Flamínia caiu de joelhos ao lado da cama, colocou o rosto sobre os lençóis que já cheiravam a decomposição, apoiou sua face contra a cabeça patética onde apenas o olhar continuava reconhecível. Suas tranças ruivas, como dois elos de fogo, acariciavam a face exangue, agitada por um tremor. . .                                                  .

— Vovó! Vovó! Eu a amo e os seus sofrimentos são os meus, mas não posso fazer o que está me pedindo agora. Entenda-me: sempre me disse que somos muito parecidas. Será que teria consentido, antes da sua doença, que se tomasse tal atitude? Teria feito isso por meu pai? Tenho certeza que não. Conseguiria superar o seu sofrimento para forçar o outro a superar suas próprias fraquezas. . . O que está lhe acontecendo agora é a tentação suprema, a que o Adversário nos propõe quando já tentou tudo, e só lhe resta esta baixa felonia para levar-nos à perdição e roubar de Deus a alma que tanto nos esforçamos em salvar ao longo de nossos dias! Não lhe darei mais dormideira porque desejo, com todas as minhas forças, com toda a minha ternura, que, quando chegar o momento, alcance o céu e não os dias do inferno!

Houve um último brilho nos olhos da anciã. Raiva ou orgulho? Em seguida fechou as pálpebras e calou-se.

"Amanhã pela manhã mandarei buscar um padre, pensou a adolescente. Após um pedido como este, a bênção recebida em Santa Sofia já não é suficiente. Vovó precisa se confessar."

Flamínia deixou cair a cabeça entre as mãos. Então, tudo estava feito! Sua avó tinha apenas mais algumas horas de vida! Ela partiria, deixando-a só com a sua tristeza, suas interrogações e a horrível mistura de seus sofrimentos legítimos e os que eram inconfessáveis. . . Não queria pensar em Andrônico. Enquanto se levantava, observou cuidadosamente a forma definhada, dobrada sobre si mesma com seu sofrimento indizível, virada contra a parede como se pedisse que a deixassem tranqüila. Passou perto de Alberade adormecida, tomou uma espessa capa de lã e saiu. Precisava, durante um breve momento, respirar um ar diferente daquele do quarto onde Berta a Atrevida estava se apagando. Tinha vontade de encher o peito com o cheiro vivo do inverno, repelir os miasmas da doença, da agonia insustentável. . .

Um estreito quarto de lua iluminava com seu frio clarão o espaço limpo e arenoso fronteiro à soleira da pequena casa.

Flamínia avançou alguns passos. Sentia-se prostrada como se tivesse enfrentado duramente um inimigo invisível. Parecia flutuar como uma sombra naquele lugar que se tornara tão querido.

Assim como da primeira vez, ouviu seu nome antes que percebesse Andrônico. Bem que ele afirmara que viria todas as noites sob a figueira, mas ela escolhera não confirmar, preferindo sonhar e deixar correrem as horas.

Eis que, desta vez, saíra sem nem mesmo pensar nele, levada para longe do quarto pela mão hedionda da morte, e lá estava ele novamente, diante dela, envolvido num longo manto preso no ombro esquerdo por uma fíbula, cujo ouro brilhava ao luar.

— Minha avó está morrendo — murmurou, antes que ele se aproximasse muito.

— Ouvi seus gemidos.

— É abominável. . . Está sofrendo, e não posso fazer nada por ela.

— Sua peregrinação terminará em Santa Sofia. É verdade que não atingirá Jerusalém, mas antes de ir ao Seu encontro no céu, terá penetrado na mais bela morada que o Senhor tem na terra.

— Isto não é consolo. . .

Eles se olharam com desespero e embriaguez.

— Estou sofrendo. . . — começou Flamínia, sem procurar esconder as lágrimas que lhe cortavam as palavras.

Deixou-as correr livremente. Não seria esta a sua única defesa?

— Estou ao seu lado — suspirou Andrônico. — O que pretende fazer agora?

— Não sei. . .

— Icásia me disse que tenciona ir ao encontro dos cruzados em Antióquia.

— Foi o que lhe respondi quando propôs que me casasse com Cirilo Akritas.

— Ela está louca!

—Após ter ouvido as previsões de seu astrólogo, teve medo de me ver incendiar sua casa. Quando me levou até o Palácio de Blachernes, pediu-me que a deixasse o mais rápido possível. Felizmente, a pedido meu, você deve saber, seu pai interveio para que ficássemos aqui. Desde então, Icásia tem me considerado como uma perigosa incendiaria!

Andrônico sacudiu os ombros, irritado.

— O incêndio começou no dia em que a vi, sabe muito bem disso!

— Icásia não pensou um minuto em você, mas sim na sua bela mansão.

Ele teve um riso abafado.

— Claro! Ela nunca pensou no que eu sentia. Nem sentimentos, nem desejos. . .

Num gesto terno, suave, quase que implorando, ele puxou Flamínia para si.

— Se partir, deixo tudo para segui-la — disse ao seu ouvido. — Não posso suportar a idéia de perdê-la.

Ela jogou a cabeça para trás.

— Minha avó está morrendo — repetiu soltando-se dos braços que tentavam prendê-la. — É a única coisa que deve me preocupar. . .

— As portas da morte pertencem a Deus! A vida nos pertence!

A adolescente escorregou para fora do abraço excessivamente ardente que fazia com que partilhasse do fogo que queimava o seu companheiro...

Correndo, ela afastou-se na luz azulada que projetava diante de si a sua própria sombra. . .

O padre, enviado na manha seguinte bem cedo, teve apenas tempo de recolher num murmúrio exaurido a confissão de Berta a Atrevida. Ela morreu por volta da sexta hora, durante um momento de remissão. Foi chamando por Garin que ela entregou ao Senhor a sua alma intrépida, deixando do corpo apenas pobres despojos apergaminhados. . .

Teófano Danielis fez questão que a enterrassem no túmulo de sua família, entre os seus. . .

 

Durante dois dias Flamínia viveu sem saber o que fazia. O fim, o sepultamento, o desaparecimento de sua avó abriram nela um vazio tão insuportável que atravessou aquelas horas de luto mergulhada numa espécie de embotamento. Afogada em lágrimas, ela assistiu à cerimônia na igreja vizinha, onde costumava acompanhar o ofício todas as manhãs. Mas não viu nada: nem a compaixão afetuosa de Teófano, de Janice, de Pascoal, de Cirilo Akritas que fizera questão de vir também, nem o discreto alívio de Icásia, nem a indiferença de Marianos, nem a perturbação que agitava Andrônico. Sustentada por Alberade que se lamentava em voz alta como uma carpideira, Flamínia só guardava da missa uma imagem confusa. Música dos órgãos, balanço obsessivo dos incensórios mergulhando a nave em espessas fumaças perfumadas, presença de sacerdotes com longas barbas flutuantes, cintilar de ouros generosamente espalhados, cujo brilho produzia reflexos dourados através das suas lágrimas. . .

O caminho até o cemitério, com um frio seco e ensolarado, o sepultamento. . . "Ó mãe, amiga, deixo-a em terra estrangeira, longe de nossos defuntos, longe de nosso país, para sempre exilada como seu filho, longe também de Jerusalém. . ." O retorno na liteira entre Alberade desabada e Janice quase afetuosa demais, todas aquelas etapas lúgubres pareciam a Flamínia um sonho cheio de horror e medo.

Ela só retomou verdadeiramente a consciência quando viu-se novamente na pequena casa onde cada objeto representava para ela uma lembrança...

— Quero ir embora — disse então. — Partir. Ir para junto do que resta da minha família. Continuar com eles a peregrinação. . .

Enquanto falava, ela pensava que aquelas afirmações vinham-lhe à boca como uma ordem que parecia ser-lhe ditada do exterior. Era como se uma vontade toda-poderosa a obrigasse, com implacável suavidade, a se expressar de maneira diferente de seus pensamentos. Com todo o seu amor, desejava permanecer nos Danielis, perto de Andrônico, mas ela afirmava que só pensava em deixá-los, que decidira assim. . .

O mestre-perfumista, Janice, Pascoal, Marianos, Cirilo e Andrônico a cercavam. Icásia voltara a Palácio, onde a basilissa e a princesa Ana requisitavam os seus cuidados. Ela se desculpara, sem conseguir dissimular uma indiferença mesclada de desenvoltura. Seu irmão, Gabriel Attaliate, retido junto ao imperador, não pudera assistir à missa celebrada pelo repouso da alma de Berta.

— Não seria preferível para você, minha filha, esperar um pouco antes de empreender uma viagem tão longa? — perguntou Teófano Danielis gentilmente.

— De maneira alguma. Preciso continuar o caminho, o nosso caminho. . . Não pense que é ingratidão de minha parte. Que Deus os abençoe por tanta bondade, pela amizade, os cuidados, a atenção com que sempre me cercaram, todos três. Saibam que saberei medir a vossa generosidade e que não a esquecerei jamais. Entretanto não posso me demorar mais aqui.

Enquanto respondia num tom firme a Teófano, Flamínia não pôde impedir que seu olhar escorregasse por um instante na direção de Andrônico.

— A coragem que minha avó sempre demonstrou durante esses meses de sofrimento deve me servir de exemplo — completou, experimentando ainda a sensação desconcertante de dizer o contrário do que gostaria. Não posso mais escapar do dever sagrado de nossa peregrinação, nem mais um dia!

Foi o tempo de uma aspiração e ela fechou os olhos avermelhados pelas lágrimas, reabriu-os, para finalmente se decidir a pronunciar as palavras que a feriam sensivelmente:

— Sei que marinheiros genoveses aceitam levar a bordo grupos de peregrinos atrasados. Eles os embarcam para conduzi-los, margeando a costa do Império Turco, até um porto situado não longe de Antióquia onde alguns de seus compatriotas já ancoraram há meses. Desta enseada, ao que parece, pode-se alcançar nosso acampamento.

— Vejo que está bem informada — disse Cirilo Akritas em tom de reprovação, num latim desajeitado que aprendera recentemente.

Flamínia se voltou para o jovem auriga.

— Preciso partir. Reconheça que jamais encorajei sentimentos de que não poderia partilhar—disse com benevolência. — Não fiz mais do que rejeitar suas investidas. Não veja nisto nem aversão, nem inimizade. Apenas, não sou dona de mim. . .

— É verdade — reconheceu Cirilo. — Sempre foi leal para comigo, e sabemos o voto que a prende aos passos de Nosso Senhor. . . Mas não pode me impedir de sonhar: acho que a teria feito feliz com o meu apego, mas também fazendo-a conhecer esta cidade, tão rica em prazeres de todos os tipos: corridas, é claro, mas também banquetes, teatros, festas, danças. . .

— Em vez de ficar tentando seduzir Flamínia em vão, já que ela não se interessa por você, venha comigo ao Hipódromo! — exclamou Marianos. Que eu saiba, não há mal de amor que uma boa quadriga não possa curar!

Quando os dois cocheiros dos Azuis e dos Verdes partiram, seguidos de Pascoal que beijou Flamínia com ternura, e talvez um pouco de pena, o mestre-perfumista propôs que se sentassem no salão para que falassem sobre o futuro imediato. Como um amigo verdadeiro, ele não tentou desviar a adolescente de seus planos. Pôs-se até mesmo a ajudá-la. Como mantinha boas relações no porto, ele sabia da existência dos marinheiros genoveses e ofereceu sua intermediação para que encontrassem um patrão honesto, com quem pudesse tratar do transporte de sua protegida.

— E partirei com você — declarou subitamente Alberade a Flamínia, mergulhada em lágrimas e fungando sem parar. —Não pretendo abandoná-la nem renunciar à peregrinação.

— Não prefere voltar para casa, em Chartres, agora que minha avó não está mais aqui?

— De jeito nenhum! É muito longe, eu me perderia no caminho! Além disso, prometi à minha patroa que iria colocar meus lábios na beira do Santo Sepulcro, em lugar do beijo que ela não poderá dar pessoalmente.

Ela recomeçou a chorar baixinho, enxugando os olhos com seu avental. Num ímpeto, Flamínia levantou-se para abraçá-la, e ficou de pé perto da criada, a mão apoiada sobre seu ombro.

— Se Deus quer assim, vamos juntas a Antióquia — declarou a neta de Berta a Atrevida, mal disfarçando sua emoção. — Alugaremos dois lugares no navio que puder nos levar—traduziu ela para Teófano Danielis, que não compreendera as palavras de Alberade.

— Para ser aceito pelos genoveses basta pagar! — observou ele com realismo. — São comerciantes. Apesar das depreciações a que o basileu submeteu, sem cessar, nossa moeda desde o início de seu reinado, os estrangeiros continuam muito ligados ao nosso ouro!

— Eu posso pagar! — afirmou a jovem com um orgulho em que se pôde ver a herança da avó. — E, além de nós, será preciso embarcar também nossas malas.

— Não se preocupe com esses detalhes — disse o mestre-perfumista, fazendo com a mão um gesto que afastava qualquer inquietação. — Cuidarei de tudo.

Flamínia, que até então conseguira desviar o olhar da poltrona onde estava sentado Andrônico desde que entraram na sala, não pôde mais se impedir de olhar na sua direção. A cabeça inclinada, a fisionomia endurecida, ele brincava com um anel que levava no dedo. Era a sua aliança... Sentindo as pernas tremerem, a adolescente voltou ao seu assento de espaldar alto e deixou-se cair. Inclinando a cabeça para trás para apoiar a nuca, ela fechou os olhos com um ar cansado.

— Você está exausta, minha amiga — disse Janice. — Vamos deixá-la. Descanse. De qualquer modo, seu embarque só poderá acontecer dentro de alguns dias.   Até lá, cuide-se bem. Durante a travessia, e também para acompanhar a peregrinação até Jerusalém, precisará de todas as suas forças.

Ela se levantara para se aproximar de sua amiga e se inclinou para beijá-la suavemente na testa, emoldurada pelos cabelos ruivos recobertos por um véu branco.

— Janice fala com sabedoria — reconheceu Teófano Danielis, observando com satisfação, e até mesmo, talvez com ternura, a irmã-de-leite de Icásia. — Conte comigo. Vou fazer o que estiver ao meu alcance. Em pouco tempo as coisas estarão resolvidas convenientemente. Que Deus a proteja, minha filha!

Andrônico, seu pai e Janice também se afastaram. . .

—Vou sentir falta dessa gente! — suspirou Alberade abandonando seu lugar perto do fogo para ir até o quarto que fora da doente. — Tenho roupa para lavar e limpeza a fazer, se quisermos partir daqui deixando tudo em ordem.

Flamínia não se mexera. Permanecendo em seu lugar, ela contentara-se em abrir novamente os olhos para acompanhar, através dos pequenos vidros da janela, os que estavam voltando para casa. . . E não se surpreendeu ao ver, no final da alameda, Andrônico fazer meia-volta e voltar a passos largos na direção do aposento que acabara de deixar.

Ele entrou rapidamente e veio até perto dela.

— Preciso lhe falar. A sós. Sem o entrave de outras presenças — disse, inclinando sua grande silhueta na direção daquela forma enfiada no fundo da poltrona. — Tenho tanta coisa para lhe dizer!

— Acha mesmo?—murmurou Flamínia com voz cansada. — Já sei de antemão as palavras que vai pronunciar.

— Eu não penso assim. Você precisa tanto de mim quanto eu de você, mas parece que insiste em ignorá-lo!

— O que não ignoro é que há um sacramento nos separando — disse ela, erguendo-se.

Ele a segurou pelos ombros, apoiou seu rosto contra o dela e ficou por um momento assim, em silêncio. O calor de suas mãos atravessou o tecido de lã da túnica e da camisa de linho que usava por baixo. Uma onda de desejo tomou conta de ambos, tão violenta que fez com que estremecessem juntos.

— Esta noite estarei sob a figueira — disse Andrônico.

— Não! Não à noite! Não aqui! Esta casa onde minha avó morreu é sagrada!

— Viu só! Finalmente está consentindo em imaginar. . .

Ela afastou as mãos que a estreitavam, deu um passo para o lado e depois recuou lentamente.

— Está enganado. Não quero imaginar uma traição que nos deixaria perdidos a ambos, lançando-nos na condenação eterna.

— Meu amor. . .

— Cale-se, eu lhe suplico!

Ela caminhou até a lareira, ficou imobilizada diante do fogo, jogou ali um pedaço de lenha que a cercou de faíscas crepitantes.

— Já que faz questão de que nos encontremos a sós antes de minha partida, eu consinto — retomou ela, após ter fixado o olhar por um momento nas chamas que se contorciam como braços desesperados. — Mas de maneira nenhuma sob este teto, eu repito. Em outro lugar, e sob a luz do dia.

Virou-se para ele, violentamente enrubescida.

— Amanhã, pela hora das nonas, na alameda dos ciprestes.

Ele quis voltar até ela, certamente tomá-la nos braços. . . mas ela estendeu os seus para afastar a tentação.

— Precisa ir embora. O que pensará seu pai se ficar mais tempo aqui comigo? Que lhe disse para justificar sua meia-volta?

— Que eu perdera aqui minha aliança. . .

Ele se manteve à distância, mas estendeu suas grandes e belas mãos para que ela pudesse constatá-lo: ele não usava mais o anel no dedo anelar.

— O que fez com ela?

— O que importa isso? Ela não representa mais nada para mim agora.

—Por minha alma. Andrônico! Este anel é o símbolo de uma corrente que ninguém na terra pode quebrar!

— Ninguém, salvo o divórcio, que é reconhecido aqui pela Igreja, minha doce amiga. . . e, acredite-me, vou me divorciar!

Com um movimento brusco, desviou-se dele para contemplar novamente o fogo. Ele pareceu hesitar e, em seguida, se foi. Com um ruído de abas amassadas, o reposteiro voltou ao lugar depois que ele passou.

No dia seguinte, após uma noite de pesadelos, Flamínia envolveu-se numa espessa capa de lã, abaixou o capuz sobre o véu da cabeça e saiu na nona hora.

Nevava um pouco. Era uma queda de flocos, bem leves ao lado das neves espessas que acompanhavam algumas vezes os invernos chartrenses. O céu estava cor de pérola, o chão apenas salpicado, o ar vivo.

Ao aproximar-se da alameda dos ciprestes, pretos, pontuados de branco, a jovem se perguntava ainda se não fizera mal em conceder este último encontro a Andrônico. Não estaria tudo dito entre eles?

Ela penetrou sob a abóbada sombria e estremeceu. O ar frio de fevereiro atenuava o perfume familiar de incenso e ervas aromáticas que exalava das belas árvores esguias. Ela não reconhecia o odor insinuante, suave, penetrante que freqüentemente respirara, sozinha, durante os dias claros. . . As plumas nevadas que caíam do céu com suavidade não haviam atravessado o ninho de galhos entrelaçados. Sob o dossel imutável de sua folhagem, o chão permanecia fulvo, coberto de cascalho e de raminhos secos que se mexiam sob os saltos de suas botas curtas.

Andrônico a esperava e dirigiu-se até ela com um ar agitado.

— Meu pai fez uma maravilha! — exclamou ele, em um tom dolorosamente sarcástico, assim que ficaram suficientemente perto para que pudesse ouvi-lo. — Ele conseguiu um patrão genovês que pode levá-la a bordo, mais as malas e Alberade, na próxima segunda-feira! Só temos mais dois dias!

— Dois dias para sofrer um pelo outro — murmurou Flamínia. — Quanto menos tempo, melhor será.

Contrariamente à sua habitual deferência em relação à jovem franca, Andrônico parecia decidido a não levar em conta as defesas que ela apresentava. Tomou-a em seus braços com toda sua força e beijou-a nos lábios com arrebatamento. Ela quis afastá-lo ou, pelo menos, assim pensou, mas seus sentidos a venceram. . . Enlouquecido, ele sentiu repentinamente o sangue lhe esquentando as veias, o ventre, todo seu ser. . .

Quando Andrônico retomou a respiração, não abandonou seu abraço. De bem perto, ele podia ver a íris azulada brilhando de desejo. . .

— Eu a prenderei com meu amor numa cadeia tão sólida como a que encerra o Corno de Ouro! — disse ele com voz rouca. —Jamais, entende? Jamais aceitarei me separar de você!

— Eu parto depois de amanhã — respondeu ela num suspiro.

— Partirei com você! Sabe disso. Eu já avisei antes. Nada nem ninguém fará com que eu mude de idéia. Eu a amo. Tenho sede da sua presença, do teu amor, do seu coração, do seu corpo. . .

Ele recomeçou a beijá-la como um louco no rosto, no pescoço, sob o capuz e, através do grosso pano de lã, nos seios eretos que levantavam-se ao ritmo de um coração que galopava como um cavalo desenfreado...

— Você não partirá sem que tenha sido minha! Não, esteja certa disso, não deixarei que suba naquele maldito navio sem que a tenha possuído! Em seguida, me agarrarei aos seus pés e a levarei para dividir o meu amor! E não nos separaremos mais. Irei com você até Jerusalém!

Envolvida num turbilhão desconhecido, Flamínia sentiu que perdia o pé, era levada, engolida. . .

Foi a súbita imagem de sua avó agonizante, também entregue à tentação, seduzida por uma última vertigem, pedindo o suco de dormideira para apressar o seu fim, que lhe deu, no auge da deliciosa tempestade que a sacudia, a força necessária à sua salvaguarda. . . Ela não se entregaria sobre os ramos secos dos ciprestes que teriam formado uma cama tão macia, não se entregaria ao amor ali, como um despudorada sobre um talude!

No quarto da agonizante, ela se perguntara o que significava o brilho azul, a última faísca que atravessara o olhar de Berta a Atrevida. Raiva ou orgulho? Teve certeza de que era o orgulho que, então, se manifestara. A satisfação última, apesar do seu sofrimento, de ter salvo o essencial, de não ter renegado a própria fé no instante supremo e, fiel ao seu passado, de não ter capitulado diante do Inimigo disfarçado em algumas gotas de narcótico que ele pensava ser a sua melhor arma. . .

Num movimento brusco, Flamínia afastou os braços que a enlaçavam. Com um salto, distanciou-se de Andrônico. Precisava também acalmar os movimentos desordenados de seu sangue, os tremores que a percorriam. . .

— Já pensou naqueles que o amam aqui — gritou ela com tanta veemência, que o fundo de sua alma até tiritava. — Já imaginou o desgosto que causaria a seu pai, a seus filhos, abandonando-os como se fosse um ladrão? Já pensou naquela a quem esposou diante de Deus?

— Marianos não precisa mais de mim há anos, e ele sempre preferiu Icásia. . . Meu pai está disposto a se casar com Janice, que fez tudo para chegar a isso, inclusive criando laços de amizade com você e os seus. O que, aliás, conseguiu. Acho que ela e meu pai ainda podem ser felizes juntos: eles se estimam muito um ao outro, e esta união permitirá que "a cabrita negra", como a chama Gabriel, reine finalmente numa casa onde, até hoje, seu lugar foi dos mais limitados. . . Sem dúvida será o meu pequeno Pascoal, o mais atingido por minha ausência. Não tenho ilusões quanto a isso e já prometi a mim mesmo sempre cuidar dele, mesmo à distância. . . Quem sabe até não mandarei buscá-lo para viver conosco, caso isso me seja possível. . . Ele sabe da ternura que lhe tenho. . . Quanto a Icásia, há anos que não é mais feliz ao meu lado e não cansa de me censurar pelo que sou: um homem ao mesmo tempo excessivamente sensual para seu gosto e, sobretudo, um comerciante! Deve saber que seu pai recebeu um título de nobreza. Apesar desta honra aqui não ser hereditária, os filhos tiram proveito dela. Na verdade, sempre pensou que eu não era digno dela e não cessou de lembrar-me seus títulos. . . Ela considera ter-me feito um enorme presente, consentindo em se tornar minha mulher. Ela acha que o seu ofício no palácio vem apenas da sua ascendência, quando na verdade é a nós que o deve. Se meu pai não gosta nada de Icásia, é porque desde o primeiro dia, ficou exasperado com a atitude de superioridade que seus pais, quando vivos, e depois ela própria e Gabriel, sempre fizeram questão de demonstrar para conosco... Enfim, ao partir eu estarei apenas seguindo o exemplo de tantos homens que partiram para a Terra Santa, deixando para trás mulher, filhos, família e toda a gente de casa.

— Em nome de Cristo! Cale-se! Está blasfemando! As razões dos cruzados são as mais puras, mas não as suas!

— O amor vem de Deus!

— Não o amor adúltero!

Ofegante como se tivesse corrido, ela apertava contra o peito os punhos cerrados que seguravam a capa.

— Eu imaginava os gregos mais refinados, mais civilizados que nós, francos, de cujas maneiras deselegantes tanto se zomba aqui — observou ela, para criar entre os dois uma barreira de palavras. — Estou vendo que não são, e que também você tem o mesmo comportamento inadequado dos homens de meu país quando o desejo por uma mulher os assola!

— Flamínia!

De pé, face a face, eles tremiam pelo mesmo desejo doloroso, pelo mesmo ímpeto quebrado.

— Não é possível que desconheça assim a força do meu amor, sua sinceridade, sua determinação, mas também o respeito infinito que ele me inspira — retomou Andrônico, sem contudo tentar se reaproximar dela. Não desconhece porque também me ama e sabe que digo a verdade!

Flamínia abaixou a cabeça.

— Eu sempre o amarei — confessou ela, com voz entrecortada. — Sempre. Mas partirei sozinha para Antióquia onde me esperam meus irmãos cruzados. Sua presença ao meu lado, na minha cama, mancharia uma inocência que continua sendo a nossa verdadeira força. Não são os nossos exércitos, menos numerosos que os dos sarracenos, mas sim as nossas orações, saídas de nossas almas invioladas, que nos garantirão a vitória. Se quisermos libertar o túmulo de Cristo, cada um de nós deve se preservar do Mal.

— Sua multidão de soldados e peregrinos está infiltrada de prostitutas, gente de todo o tipo se mistura aos fiéis sinceros e, desde o início, o estupro tem feito um verdadeiro estrago em suas fileiras! Não me fará acreditar que, cedendo, concedendo-me enfim esta prova de amor que espero como um mendigo há meses, em silêncio, devorado por uma febre cuja intensidade não é capaz de imaginar, você que é virgem, não, não fará com que eu acredite que estaria comprometendo de alguma forma o sucesso dessa caminhada pela libertação!

Andrônico, ao falar, se inclinara sobre Flamínia, como se tentasse persuadi-la, tanto pelo poder de convicção que emanava de todo o seu ser, quanto por seus argumentos.

— Não posso aceitar que venha comigo à Síria — repetiu ela sacudindo a cabeça. — Também não posso lhe pertencer.

Tinha a sensação de que, tendo recusado a abreviar o tempo de sofrimento de Berta a Atrevida, ela mesmo se engajara em não fraquejar.

Era como um pacto solene e secreto, a renovação do voto de peregrinação pronunciado por todos eles, transcrito por seu pai em letras de ouro sobre um velino púrpura, que conservava piedosamente em seu cofre e que fora assinado por cada um dos seus. Não se podia trair um tal acordo sem cometer um pesado pecado e perder para sempre a sua auto-estima. . .

Subitamente ela caiu de joelhos diante de Andrônico, cobrindo o rosto com as mãos. Esmagada, destroçada, sentia-se sem forças para desligar-se do amor que sentia por ele, mas também incapaz de ceder. Num movimento repetido, de que nem mesmo ela tinha consciência, balançava-se lentamente, de um lado ao outro, como uma canção de ninar embala uma criança. . .

Tocado, Andrônico inclinou-se, ergueu-a com cuidado, apoiou-a contra si mesmo, sem contudo ousar abraçá-la novamente.

— Apesar de tudo, é-me impossível vê-la afastar-se para sempre de mim — recomeçou ele a meia voz, tomando nas mãos e beijando uma de suas trancas acobreadas, antes de envolvê-la com seu punho esquerdo. — Embarcarei então, como já disse antes. Mas já que faz tanta questão, não a tocarei. Eu a manterei sagrada para mim pelo tempo que desejar. Eu a protegerei de mim mesmo e dos outros como a uma irmã. Permanecerei à sua sombra e me saciarei com sua presença até que se decida ao contrário. . .

Flamínia levantou a cabeça. De seu olhar, semelhante ao dos mosaicos esmaltados, ela observou durante um momento, sem dizer nada, com uma intensidade que colocava em risco seu coração, aquele que acabara de dizer palavras tão belas. . . Depois soltou a trança, ainda enrolada ao redor do pulso de seu amigo, separou-se dele e afastou-se.

— Não devemos mais nos ver de agora até o momento em que subirmos no navio — disse em seguida. — Seria uma provação inútil. Ambos seremos informados, por seu pai, da hora exata do embarque. Que Deus nos proteja!

Com um movimento brusco, ela se desviou do homem a quem amava, ofendendo a lei divina, e fugiu correndo. . .

À noite, mandou Alberade perguntar se Janice poderia passar para vê-la.

Abrigadas pelas paredes da pequena casa silenciosa, que agora já não era mais perturbada por lamentações, nem pela agitação que a presença de uma doente causara durante meses, Janice e Flamínia conversaram durante um longo tempo.

 

Dois dias depois, no início do amanhecer, a nave genovesa deixou o porto, junto com várias outras embarcações.

Quando Andrônico, orientado por seu pai, a quem Janice havia habilmente distraído na noite da véspera, chegou ao cais, após o raiar do dia, para subir a bordo, disseram-lhe que o Santa Maria Madalena já levantara âncora. Não se podia mais nem mesmo distinguir no horizonte as velas quadradas que o vento favorável não parava de inchar. . .

Vendo se afastarem os pontilhões onde estavam os sacerdotes, vindos para benzer e ungir com incenso os navios que estavam de partida, Flamínia explodira em soluços. Ela deixara sua alma na admirável cidade da qual precisara ser arrancada. . . O porto, as cúpulas douradas, os telhados prateados, os frontões dos palácios, as casas de fachadas coloridas, as muralhas de tijolo e pedra dominando o mar, as cúpulas altivas e protetoras de Santa Sofia que brilhavam na fria luz matinal, tudo lhe era querido e tudo estava perdido! No seu corpo, no seu coração, ela sentia se produzir uma lenta, longa, irreparável dilaceração. A trama de sua vida estava entabulada, lacerada, cortada por garras impiedosas que se encarniçavam. . . Sobre o mais belo promontório do mundo ela deixava os despojos daquela que a criara, que se tornara sua verdadeira mãe desde o desaparecimento, tragada pela noite imemorial, da mulher sem rosto que um dia lhe dera à luz. Ali abandonava também o homem cuja simples lembrança desencadeava nela as loucas rajadas de um amor deslumbrante. . .

Envolta no último presente de Teófano Danielis, um manto de lã branca forrado de pele de carneiro cinza, ela cobriu o rosto com o véu para que pudesse chorar com toda a intensidade. Perto dela, atenta, silenciosa, impotente, Alberade não procurava dissimular suas lágrimas dos outros peregrinos embarcados com elas no navio.

Era um grupo de carpinteiros catalães que haviam partido com atraso de seu país, levando sua contribuição para a libertação de Jerusalém. Embaraçados com suas famílias numerosas, haviam errado e sofrido inúmeras desventuras até alcançarem Constantinopla. Entretanto, nada fora capaz de quebrar sua determinação. Eles queriam encontrar os outros peregrinos, os que haviam conseguido chegar primeiro na Síria. Mostravam suas mãos e as ferramentas que haviam trazido, tentando explicar numa língua rude e incompreensível que sua habilidade e conhecimento do trabalho em madeira seria de grande utilidade na construção de máquinas de guerra e de fortalezas. Suas mulheres, seus filhos olhavam com curiosidade e interesse as duas viajantes francas, tão tristes, que haviam se juntado ao seu grupo e que se exprimiam de uma maneira que não conseguiam entender. . .

Passaram-se os dias, as noites, os dias, as noites. . .

O tempo não estava nada mau, o frio suportável, o mar calmo, a lua favorável. . .

Os cinco barcos que formavam o comboio navegavam sem muito balanço. O canto dos marinheiros, as horas clamadas do alto da gávea, as corvéias, os jogos, as refeições, as orações feitas por todos num mau latim, os cardápios magros dos dias de quaresma e as inevitáveis necessidades da vida cotidiana eram suficientes para ocupar o tempo.

Se Flamínia cessara de chorar, sua aflição não havia no entanto diminuído. As lágrimas que já não corriam no seu rosto continuavam a se espalhar no interior de sua alma. Era como um jato secreto que afogava em luto seus pensamentos. . .

Uma noite, em sonho, ela viu Berta a Atrevida. Não doente, mas forte e imperiosa como no tempo da maturidade. A anciã inclinou sobre a neta um rosto que se poderia dizer de mármore, de tal forma era liso e firme. Nele corriam veias azuladas, semelhantes às que a adolescente vira serem desenhadas nas têmporas da princesa Ana Comeno.

— O tempo da tristeza passou — disse a voz imutável da aparição. — Aproxima-se o tempo dos combates. Recobre as forças, minha filha! Não é mais o momento de se enternecer, mas de agir. Fortifique a sua fé! Coragem! Lembre-se que, ao longo do caminho que está seguindo, é mais necessária a energia que o pesar. Reze! Nunca é demais rezar! Peça ajuda e socorro e seu pedido será atendido.

A silhueta alta se inclinou e sua mão desenhou uma cruz sobre o peito de Flamínia, no lugar do coração. Em seguida o rosto sem rugas, sereno, apagou-se aos poucos, dissipou-se e desapareceu na sombra.

A adolescente acordou, sentou-se sobre a esteira desenrolada perto daquela onde Alberade dormia, não muito longe da proa. O convés estava tranqüilo, sem movimento. No entanto sua avó estivera ali alguns momentos antes. . . Flamínia levantou os olhos em direção ao céu muito limpo, que cobria com sua abóbada estrelada o viveiro de ilhas ao longo das quais os navios genoveses faziam cabotagem. Ela sorriu então para a noite, sem se dar conta imediatamente de que ela também chorava. Quando sentiu rolarem as lágrimas pelas faces, enxugou-as com raiva.

— Eu lhe prometo mãe, amiga, não mais me deixar comover bobamente por minhas tristezas. Seguirei seus conselhos. Rezarei ao Senhor e pedirei que venha me assistir neste meu tormento. E me esforçarei também para controlar meu coração. . .

 

Março estava começando quando as embarcações alcançaram Porto São Simeão certa manhã.

Reinava uma grande animação no pequeno porto que por sua proximidade do acampamento dos cruzados, adquirira uma importância que antes jamais tivera. Barcos ingleses e genoveses acabavam de acostar um pouco antes. Uma multidão de homens de armas e peregrinos, falando diferentes línguas, se acotovelava por ali. Entretanto conseguiam se fazer entender empregando palavras em latim misturadas com italiano, grego, turco e outros idiomas estrangeiros. O todo formava uma espécie de linguagem universalmente aceita nas costas do Mediterrâneo.

Foi em meio a esse tumulto extraordinário que Flamínia, Alberade e suas malas viram-se sobre um cais entupido e exíguo. Os cheiros de alho, de alcatrão, de água salobra, de fritura, de cordas, lembraram-lhes o embarque em Bríndisi. Tentada a deixar-se emocionar por aquela evocação, a adolescente procurou afastar suas lembranças.

Ela consagrara os últimos dias passados no mar a se policiar, a fim de seguir sem fraquejar as recomendações recebidas ao longo do sonho ainda inapagado.

— Santa Maria, valorosa Senhora! — gemeu Alberade. — Quanta gente! Que desordem! O que será de nós?

— Deus nos guiará — respondeu Flamínia com autoridade. — Ele não nos abandonará numa terra tão próxima de Jerusalém! Teófano Danielis garantiu-me que os francos vêm freqüentemente aqui buscar víveres ou armas. Basta que esperemos. Certamente veremos chegar algum.

— E onde ficaremos durante esse tempo?

— Em casa dos habitantes do lugar. Deve haver neste porto gente acostumada a hospedar viajantes. . .

— Pelos chifres do diabo, eis aqui mulheres cujo idioma compreendo! — exclamou perto delas um soldado vestido de ferro, que avançara até a fila de recém-chegados.

— Por Deus, de onde está vindo, minha bela? — perguntou um outro homem de armas, que surgiu ao lado do primeiro.

— Estamos chegando de Constantinopla — respondeu Flamínia, cedendo instintivamente ao prazer de falar sua língua. — Ficamos retidas pela doença e morte de minha avó, mas fazemos parte dos peregrinos que acompanham o exército do Senhor Estêvão de Blois. Tudo o que resta de nossa família se encontra ainda em sua companhia.

— Pois bem! Podem agradecer à sua santa padroeira! — continuou o primeiro, um rapaz magro e louro que parecia rir facilmente. — Como podem ver, fazemos parte da formação de Hugo de Vermandois, irmão do rei da França, e estamos ligados como os dedos da mão às tropas do conde de Flandres e do seu conde de Blois!

— Deus seja louvado! Estamos salvas! &mda