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AS SANDÁLIAS DO PESCADOR / Morris West
AS SANDÁLIAS DO PESCADOR / Morris West

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

AS SANDÁLIAS DO PESCADOR

 

O papa morrera. O camerlengo anunciara-o. Fora remetido à eternidade sob a assinatura do mestre-de-cerimónias, dos notários e dos médicos, O seu anel fora inutilizado e os selos quebrados. Os sinos tinham tocado por toda a cidade. O corpo pontifício fora entregue às mãos dos embalsamadores, para que estes o transformassem num objecto digno da veneração dos fiéis. Jazia agora na Capela Siistina rodeado por círios brancos e pela Guarda Nobre que velava O’ corpo, sob os frescos do Juízo Final de Miguel Angelo.

O papa morrera. No dia seguinte, os clérigos da basílica iriam reclamá-lo e expô-lo ao público na Capela do Santíssimo Sacramento. Ao terceiro dia enterrá-lo-iam envolto nas vestes pontificais, uma mitra na cabeça, um véu púrpura sobre o rosto e uma capa de arminho vermelho para o aquecer na cripta. As medalhas e moedas que cunhara seriam enterradas junto dele para servirem de identificação a alguém que o viesse a desenterrar mil anos mais tarde. Encerrá-lo-iam em três caixões: um de cipreste, um de chumbo, para o proteger da humidade e para conter o seu escudo- de armas e a certidão de óbito, e um último de olmo, para que, pelo menos, se parecesse com os outros homens que são sepultados dentro de um caixão de madeira.

O papa morrera. Por isso rezariam por ele como por qualquer outro: «Senhor, não sujeiteis este Vosso servo a julgamento... Libertai-o da morte ’eterna.» A seguir colocá-lo-iam na câmara mortuária por debaixo do altar principal, onde talvez -mas apenas talvez se transformaria em pó, pó que se misturaria com o de Pedro. Um pedreiro emparedaria a câmara e colocar-lhe-ia uma placa de mármore com o nome, o título, a data de nascimento e a do óbito’.

O papa morrera. Iriam lamentá-lo com nove dias de missas e iriam conceder-lhe nove absolvições, das quais poderia vir a ter mais necessidade depois da morte, porque em vida fora mais importante do que os outros homens.

A seguir iriam esquecê-lo, porque o trono de Pedro se encontrava vago, a vida da Igreja se encontrava em síncope e o Todo-Poderoso não dispunha de um vigário neste conturbado’ planeta.

 

 

O trono de Pedro estava vago. portanto, os cardeais do Sacro Colégio, assumiriam a procuradoria da autoridade do Pescador, apesar

De lhes faltar o poder para a exercerem. O poder não residia neles, mas em Cristo, e ninguém o podia assumir,   excepto por transmissão legal e eleição. portanto, cunharam duas medalhas, uma das quais para o carmelengo, ostentando um enorme pálio por cima de chaves cruzadas.   Ninguém se encontrava debaixo do pálio, e até para os mais ignorantes isto era um sinal de que não existia nenhum titular para ocupar a cadeira dos Apóstolos e de que tudo o que fosse feito era apenas com carácter interino. A ’segunda medalha era para o governador do conclave, aquele que deveria reunir os cardeais da igreja, encerrá-los nas câmaras do conclave e mantê-los aí até que elegessem um novo papa.

Todas as moedas cunhadas de novo na Cidade do Vaticano, todos os selos que fossem agora emitidos, ostentavam as palavras sede vacanti, cmesmo os que não sabiam latim compreendiam que aquilo queria dizer «enquanto a cadeira está vaga». O jornal do Vaticano teria a mesma indicação na primeira página, e exibiria uma faixa negra, de luto, até ser indicado o novo pontífice. Todos os serviços noticiosos do mundo tinham; um seu representante acampado à soleira da porta do gabinete de imprensa do> Vaticano. De todos os pontos cardeais chegavam homens idosos, encurvados pelos anos ou pela enfermidade, a fim de envergarem o escarlate dos príncipes, para se reunirem em conclave e participarem na eleição de um novo papa.

Ali estava Carlin, o americano, Rahamani, o sírio, Hsien, o chinês, e Hanna, o irlandês da Austrália. Lá estava também Gouncha, do Brasil, e Da Costa, de Portugal, Morand, de Paris, Lavigne, de Bruxelas, Lambertini, de Veneza, e Brandem, de Londres. Havia um Polaco e dois alemães, e um ucraniano que ninguém conhecia porque o seu nome se mantivera guardado no coração do último papa: e só fora proclamado apenas alguns dias antes da sua morte. No total encontravam-se ali oitenta e cinco homens, dos quais o mais velho tinha noventa e dois anos e o mais novo, o ucraniano, tinha cinquenta. Quando cada um deles chegava à cidade, apresentava-se, bem como às credenciais, ao urbano e benévoloi Vaterio Rinaldi, que era o cardeal camerlengo.

Rinaldi dava as boas-vindas a cada um deles com a mão delgada e seca e com um sorriso de ligeira ironia. Fazia com que cada um deles proferisse o juramento do conclavista: que compreenderia e observaria com rigor todas as regras da eleição, tal como definidas pela Constituição Apostólica de 1945; que preservaria o segredo da eleição’, sob pena de excomunhão especial; que não utilizaria o seu voto para servir os interesses de qualquer poder secular, e que, se fosse eleito papa, não cederia quaisquer direitos temporais da Santa Sé que pudessem ser considerados necessários para a sua independência.

Nenhum se recusou a prestar o juramento, mas Rinaldi, que tinha um certo sentido de humor, perguntava a si mesmo muitas vezes porque é que seria necessário proferi-lo... a não ser que a Igreja tivesse um saudável desrespeito pelas virtudes dos seus príncipes. Os mais velhos podiam melindrar-se com demasiada facilidade.

Assim, quando resumia os termos do juramento, Valerio Rinaldi dava uma ligeira ênfase ao conselho da Constituição Apostólica que dizia que todos os trâmites da eleição deveriam ser conduzidos com «prudência, caridade e uma calma singular».

As precauções não. eram injustificadas. A história das eleições papais era tempestuosa, por vezes verdadeiramente turbulenta, Quando no século IV fora eleito Dâmaso, o- espanhol, tinham-se dado massacres nas igrejas da cidade. Leão V fora aprisionado, torturado é assassinado pelos Teofilaotas, o que fizera que durante quase um século a Igreja fosse governada por fantoches sob a direcção das mulheres teofilactas, Teodora e Marozia. Durante o conclave de 1623 haviam morrido de malária oito cardeais e quarenta dos seus assistentes e tinham-se verificado cenas de violência e escutado palavras duras durante a eleição de Pio X, o Santo.

Bem vistas as coisas, concluiu Rinaldi - que era suficientemente esperto para guardar a conclusão para si próprio-, era melhor não confiar demasiado no áspero comportamento e nas vaidades frustradas de homens de idade avançada. Isto levou-o mais uma vez ao problema do alojar e alimentar oitenta e cinco desses velhos, bem como aos seus criados e assistentes, até ao fim da eleição. Alguns deles, ao que parecia, teriam de ficar instalados nos aposentos da Guarda Suíça. Nenhum poderia ficar demasiado longe de uma casa de banho, e a todos eles seria necessário fornecer um serviço mínimo, sob a forma de cozinheiras, barbeiros, cirurgiões, médicos, criados, mensageiros, secretárias, camareiros, carpinteiros, canalizadores e bombeiros (não fosse dar-se o caso de um qualquer prelado cansado adormecer com o charuto na mão!) Se ( que Deus não o permitisse!) qualquer cardeal se encontrasse na prisão ou sob acusação, teria de ser levado para o conclave para desempenhar as suas funções sob guarda militar.

Contudo, desta vez não havia ninguém na prisão, excepto Krizanie, na Jugoslávia, que se encontrava detido por causa da Fé, o que era uma coisa completamente diferente; por outro lado, o último papa dirigira uma administração eficiente, o que permitia que o cardeal Valerio Rinaldi tivesse algum tempo livre para se encontrar com o seu colega Leone, da Cúria Romana, que era também reitor do Sacro Colégio. Lione tinha um carácter de acordo com o nome, pois ostentava uma branca juba de leão e possuía um temperamento resingão, além de que era um romano até à medula.     Roma era para ele o centro DO MUNDO, e o centralismo uma teoria quase tão imutável como a da trindade ou a da prossição do Espírito Santo. Com o seu enorme nariz de águia e as faces bochechudas, parecia um senador arrancado aos tempos de Augusto, enquanto os seus pálidos olhos miravam o mundo, com uma desaprovação gelada.

Para ele, a inovação era um primeiro passo para a heresia, e permanecia na cúria romana como um encanecido cão de guarda, cujos pêlos se eriçavam ao menor som pouco familiar, tanto na interpretação da doutrina, como na prática. Uma vez, um dos seus colegas franceses dissera com mais astúcia do que caridade: Lione, cheira a fogueira. No entanto, a convicção geral era que mais facilmente poria as suas próprias mãos no fogo, do que poria a sua assinatura no mais pequeno desvio da ortodoxia. Rinaldi respeitava-o, apesar de nunca ter conseguido gostar dele, pelo que as relações entre ambos se limitavam às cortesias dos negócios comuns. Naquela noite, contudo, o velho leão aparentava uma disposição mais suave e estava disposto a conversar. Os seus olhos pálidos vigilantes iluminaram-se com um momentâneo divertimento.

- Tenho oitenta e dois anos, meu amigo, e enterrei três papas. Começo a sentir-me solitário.

- Se desta vez não arranjarmos um homem mais novo - disse Rinaldi, com brandura-, ainda poderás vir a enterrar um quarto:

Leone lançou-lhe um prolongado olhar por debaixo das desgrenhadas sobrancelhas.

- Que quer isso dizer?

Rinaldi encolheu os ombros e afastou as suas belas mãos;, num gesto muito romano.

- Exactamente o que disse. Somos todos demasiado velhos. Entre nós não há mais do que meia dúzia que possam dar à Igreja aquilo que ela necessita neste momento: personalidade, uma política resoluta, tempo e continuidade para que essa política resulte.

- Pensas ser um deles, entre essa meia dúzia? Rinaldi sorriu-se com fina ironia.

- Sei que não sou. Quando o novo homem for escolhido- seja ele quem for - proponho-me oferecer-lhe a minha resignação e pedir-lhe autorização para ir para casa, para o campo. Levei quinze anos para criar um jardim naquele meu cantinho. Gostaria de ter ainda algum tempo para gozá-lo.

- Achas que tenho alguma oportunidade de ser eleito? -perguntou Leone de repente.

- Espero que não - retorquiu Rinaldi.

Leone atirou para trás a enorme cabeça e riu-se.

- Não te preocupes! sei que não tenho. Precisam de alguém muito diferente. Alguém... - hesitou um pouco em busca da frase - alguém que tenha compaixão pelas multidões, que as encare como Cristo as encarou... um rebanho sem pastor. Não sou desse tipo de homem. Quem me dera sê-lo!

Leone ergueu o pesado corpo da cadeira e caminhou para a enorme mesa, onde se via um globo antigo entre uma confusão- de livros. Fez o globo girar lentamente sobre o eixo, para que um país, logo seguido por outro, surgisse à luz.

- Olha para ele, meu amigo! O mundo, a nossa vinha! Outrora colonizámo-lo em nome de Cristo. Nem sempre de modo correcto, nem sempre com justiça ou sabedoria, mas a Cruz lá estava, os Sacramentos lá estavam, e onde quer que um homem vivesse -vestido de púrpura ou coberto de cadeias - tinha sempre a oportunidade de morrer como um filho de Deus. Agora... Agora batemos em retirada de todo o lado. Perdemos a China, perdemos a Ásia e todos os russos. Perderemos a África em breve, e a seguir será a vez das Americas do Sul. Sabes isso e eu também. A medida do nosso falhanço é termos permanecido em Roma durante todos estes anos vendo as coisas acontecerem.

Fez parar o globo giratório com uma mão pouco firme e depois virou o rosto para o visitante, com uma nova pergunta:

- Se pudesses recomeçar a tua vida de novo, Rinaldi, que farias?

Rinaldi olhou para cima ostentando o sorriso desaprovador que lhe emprestava um tão grande encanto.

- Creio que provavelmente voltaria a fazer as mesmas coisas outra vez. Não que tenha grande orgulho nelas, mas eram as únicas que podia fazer bem feitas. Dou-me bem com as pessoas porque nunca fui capaz de nutrir por elas profundos sentimentos. Suponho que isso faz de mim um diplomata inato. Não gosto de discutir... e gosto ainda menos de me envolver emocionalmente. Gosto da privacidade e aprecio os estudos. Sou, por isso, um bom canonista, um razoável historiador e um linguista competente. Nunca tive paixões muito fortes. Poderás, se te sentires um pouco malicioso, dizer que sou uma pessoa sem sentimentos. Mas assim consegui uma reputação de bom comportamento sem ter de me esforçar para a conseguir... No fim de contas, tive uma vida satisfatória... satisfatória para mim mesmo, claro. O modo como o anjo dos registos a vê, isso é outro assunto.

- Não te menosprezes, homem - disse Leone, com azedume.

- Fizeste muito mais e melhor do que queren admitir.

- Preciso de tempo e reflexão para pôr a minha alma em ordem respondeu Rinaldi, calmamente. - Posso contar contigo para me ajudares a resignar?  julgo que sim.

- Obrigado. Agora, supõe que o inquisidor responde às suas próprias perguntas. Que farias, se tivesses de começar de novo?

- Tenho pensado muitas vezes nisso - retorquiu Leoni, muito sério. -Se não me casasse -não tenho a certeza, mas talvez fosse o que me faz falta para me tornar meio humano, seria um padre do campo, apenas com a teologia suficiente para escutar as confissões e o latim que bastasse para me conseguir desenvencilhar na missa e nas fórmulas sacramentais. No entanto, queria ter o coração suficiente para compreender o que aperta as entranhas dos outros homens e os faz chorar à noite nas almofadas. Sentar-me-ia em frente da minha igreja durante as tardes de Verão, leria o breviário, falaria do tempo e das colheitas, aprenderia a ser bondoso com os pobres e humilde com os infelizes... Sabes o que sou agora? Uma enciclopédia ambulante de dogmas e controvérsias teológicas. Consigo cheirar um erro mais depressa do que um dominicano. E que quer isso- dizer? Nada! Quem se rala com a teologia, excepto os teólogos? Somos necessários, mas menos importantes do que pensamos. A Igreja é Cristo... Cristo e as pessoas. E tudo o que estas querem saber é se existe ou não um Deus, e qual a Sua relação com elas, e como é que podem voltar para junto d’Ele quando se desencaminham.

- Grandes perguntas - declarou Rinaldi, com gentileza - que não podem ser respondidas nem pelas pequenas nem pelas grandes mentes.

Leone abanou a juba de leão com um ar teimoso.

- Para as pessoas, descem ao nível das coisas simples! Porque é que não devo cobiçar a mulher do próximo? Quem tira a vingança que me é proibida? Quem se preocupa, quando- eu estiver doente, cansado e a morrer num dos quartos lá de cima? Posso dar-lhes a resposta de um teólogo. Mas em quem acreditam? Só no homem que sente as respostas no coração e ostenta na própria pele as cicatrizes das suas consequências. Onde -estão esses homens? Haverá um único entre todos nós, os que usamos o’ chapéu vermelho cardinalício? Eh...!-A sua boca severa contorceu-se num esgar de embaraço e levantou os braços no ar, num desespero fingido. - Somos o que somos e -Deus terá de aceitar metade da responsabilidade, mesmo em relação aos teólogos...! Agora, diz-me... onde é que vamos buscar o nosso papa?

- Desta vez - declarou Rinaldi, num tom enérgico - iremos escolhê-lo para as pessoas e não para nós próprios.

- Seremos oitenta e cinco no conclave. Quantos concordarão no que é melhor para as pessoas?

Rinaldi Olhou para baixo, para as costas dos seus dedos de unhas cuidadosamente tratadas. Respondeu baixinho:

- Se em primeiro lugar lhes mostrássemos o homem, talvez conseguíssemos levá-los a concordar.

A réplica de Leone foi rápida e enfática.

-Primeiro terás de mostrá-lo a mim.

-”E se concordares?

- Então levantar-se-á uma outra questão - retorquiu Leone, numa voz sem tonalidades. - Quantos dos nossos confrades pensarão como nós?

A questão era mais subtil do que parecia e ambos o sabiam. Era aíi, de facto, que assentava todo o peso de uma eleição papal, todo o paradoxo do papado. O homem que usasse o anel do Pescador era o vigário de Cristo, vice-rei do Todo-Poderoso. O seu domínio era espiritual e universal. Era o servo de todos os servos de Deus, mesmo dos que não o reconheciam.

Por outro lado, era também bispo de Roma, metropolita da igreja italiana. Por tradição histórica, os Romanos reclamavam uma compreenção sobre a sua presença e os seus serviços. Confiavam nele para a obtenção de empregos, para a indústria turística, para O’ impulsionamento da sua economia através de investimentos do Vaticano, para a preservação dos seus monumentos históricos e privilégios nacionais. A sua corte tinha um carácter italiano, e a maior parte do seu pessoal doméstico e dos administradores era italiano. Se não conseguisse lidar com eles de um modo familiar, na sua própria língua, ficava como que nu, exposto às intrigas palacianas e a toda a espécie de interesses particulares e conflituosos.

Outrora, o ponto de vista romano tivera um aspecto peculiarmente universal. O nome do antigo Império continuava a pairar à sua volta e a memória da Pax Romana não se desvanecera da consciência da Europa. Mas o nume enfraquecia, A Roma imperial nunca subjugara a Rússia ou a Ásia, e os Latinos que haviam conquistado a América do Sul não tinham levado consigo a paz, mas sim a espada. Havia muito que a Inglaterra se revoltara, tal como anteriormente se revoltara contra as legiões de ocupação romana. Portanto, existiam sólidos argumentos a favor de uma nova sucessão, não italiana, ao trono papal... tal como existiam sólidas razões para acreditar que um não italiano poderia vir a tornar-se num fantoche dos seus ministros, ou numa vítima do seu talento para a intriga.

A perpetuidade da Igreja era um artigo de fé, más os seus desfalecimentos e corrupções, bem como os prejuízos causados pelas loucuras dos seus membros, faziam parte dos cânones da história. Havia muito espaço para o cinismo. Porém, os cínicos ficavam uma e outra vez confundidos pela espantosa capacidade de auto-renovação dentro da Igreja e do papado. Os cínicos tinham as suas próprias explicações, os fiéis consideravam que se tratava de intervenções do Espírito Santo. De qualquer modo, existia um inquietante mistério: como é que ó caos da história podia resultar numa autoridade tão consistente sobre os dogmas, e por que motivo um Deus omnisciente escolhia um método tão confuso para preservar a posição que detinha no espírito das suas criaturas?

Assim, todos os conclaves começavam com a invocação do> Parar clito. No dia em que iriam ficar encerrados. Rinaldi conduziu os velhos e os respectivos assistentes para a Basílica de São Pedro. A seguir apareceu Leone, vestido com uma casula escarlate e acompanhado pelos seus diáconos e subdiáconos, para dar início à missa do Espírito Santo. Enquanto observava o celebrante, vergado sob o peso das elaboradas vestes, movendo-se com dificuldade durante todo o ritual do sacrifício, Rinaldi sentiu por ele uma súbita onda de piedade e uma repentina vaga de compreensão’.

Seguiam todos na mesma galé, aqueles ’líderes da Igreja... e ele acompanhava-os. Eram homens sem descendentes que se tinham «feito eunucos pelo amor de Deus». Já se passara muito tempo desde o momento em quê se haviam dedicado, com maior ou menor sinceridade, ao serviço de um Deus oculto e à propagação de um mistério para o qual não existiam provas. Tinham ascendido às honrarias por intermédio da temporalidade da Igreja, talvez mais honrarias do que as que qualquer deles poderia vir a atingir no estado secular, mas todos jaziam agora sob um fardo comum, o peso da idade, com as faculdades em declínio, a solidão da grandeza e o receio de que um ajuste de contas final viesse a revelá-los falidos e em débito.

Pensou também no estratagema que planeara com Leone para apresentar um candidato, que era ainda um estranho para a maior parte dos eleitores, e para promover a sua causa sem infringir a Constituição Apostólica, que haviam jurado respeitar. Interrogou-se sobre se tal não seria uma presunção e uma tentativa para lograr a Providência, a quem invocavam naquele preciso momento. No entanto, se, e tal como a Fé ensinava, escolhera servir-se do homem como livre instrumento para a execução do plano divino, de que modo se poderia actuar? Não se podia permitir que uma ocasião tão importante como uma eleição papal se desenrolasse como um jogo de azar. Fora-lhes imposta prudência, uma piedosa preparação e acções meditadas, que deveriam ser seguidas pela resignação e submissão. Contudo, por muito prudentes que fossem os planos, não se podia deixar de sentir a estranha sensação de que se caminhava sobre terreno sagrado com passos imprudentes e impuros.

O calor, o tremeluzir das velas, os cânticos do coro e o hipnótico decorrer do ritual deixavam-no sonolento. Lançou um olhar sub-reptício para os seus colegas, a fim de verificar se algum deles notara o seu cabecear.

Sentavam-se de cada lado do santuário como coros gémeos de antigos arcanjos, cruzes de ouro sobre os peitos, selos principescos brilhando nas suas mãos dobradas, rostos marcados pela idade e pela experiência do poder.

Ali estava Rahamani, de Antioquia, com a sua barba em forma de pá, sobrancelhas espessas e olhos brilhantes e meio místicos. Ali estava Benedetti, redondo e rechonchudo, de faces rosadas e cabelos suaves e sedosos, que dirigia o Banco’ do Vaticano. A seu lado encontrava-se Potocki, da Polónia, de fronte alta e calva, uma boca sofredora, olhos calculistas e experientes. Tatsue, do Japão-, a quem só faltavam ais vestes cor de açafrão para constituir uma verdadeira imagem budista, e Hsien, o chinês exilado, sentado entre Ragambwe, o negro do Quénia, e Pallenberg, o descarnado ascético de Munique.

Os astutos olhos de Rinaldi correram ao longo dos cadeirões do coro, designado cada um deles pelas suas virtudes ou pela ausência delas, tentando colar a cada um deles a clássica etiqueta de papabile, o-que-tem-as-qualidades-de-um-papa. Em teoria, cada um dos membros do conclave poderia usar a etiqueta; na prática, eram muito poucos os elegíveis.

Para alguns, a idade era o obstáculo. Para outros, o impedimento era os ”talentos, ou temperamentos, ou reputações. A nacionalidade era um problema vital. Não era possível eleger um americano sem parecer querer afastar ainda mais o Leste do Ocidente, Um papa negro poderia ser um espectacular símbolo das novas nações revolucionárias, tal como um japonês talvez viesse a revelar-se como um útil elo de ligação entre a Ásia e a Europa... mas os príncipes da Igreja eram homens idosos, precavidos contra os gestos espectaculares e conscientes dos remanescentes históricos. Um papa alemão poderia alienar as simpatias dos que haviam sofrido durante a Segunda Guerra Mundial. Um francês faria despertar velhas memorias de Avinhão e rebeliões transalpinas. Enquanto continuassem a existir ditaduras em Espanha e em Portugal, um papa ibérico poderia constituir uma indiscrição diplomática. Gonfalone, o milanês, gozava da reputação de ser um santo’, mas tornava-se cada vez mais num recluso e levantava-se a questão da sua aptidão para um cargo tão público. Leone era um autocrata que poderia muito bem vir a confundir o fogo do zelo excessivo pelas chamas da compaixão.O leitor citava uma passagem dos Actos dos Apóstolos:

- Naqueles dias, Pedro tomou a palavra e disse: «O Senhor mandou-nos pregar ao povo e confirmar que Ele é que foi constituído por Deus dos vivos e dos mortos...»

O coro entoo: Vimde, Espírito Santo, encher o coração dos teus fiéis. Lion, começou então a ler, na a sua voz forte e teimosa, os Evangelhos para o dia do conclave.-aquele que não entra no redil pela porta, mas que trepa por um outro caminho, é um ladrão e um mal feitor, mas o que entra pela porta é o pastor do rebanho. Rinaldi apoiou a cabeça nas mãos e rezou para que o homem de que fazia a oferenda fosse na verdade um pastor, e que o conclave lhe pudesse entregar o báculo e o anel.

Quando a missa terminou, o celebrante retirou-se para a sacristia para despir as vestes e os cardeais descontraíram-se nos cadeirões. Alguns, sussurravam uns aos outros,   -um par deles ainda cabeceava, ensonado, e um outro foi visto a tomar uma sub-reptícia pitada de rapé. A continuação da cerimónia era apenas uma formalidade, mas prometia ser muito aborrecida. Um prelado ler-lhes-ia uma homilia em latim, salientando uma vez mais a importância da eleição e a obrigação moral de que todos a levassem a cabo de modo ordeiro e honesto. De acordo com antigos costumes, o prelado era escolhido pela pureza do seu latim, mas desta vez o camerlengo preparava as coisas de outro modo.

Um sussurro de surpresa correu ao longo da assembleia quando viram Rinaldi abandonar o seu lugar e caminhar até ao fim da fila de cadeirões do lado do altar onde se encontravam os Evangelhos. Estendeu a mão a um cardeal alto e magro e conduziu-o até ao púlpito. Quando surgiu destacado sob o clarão das luzes, verificaram que era o mais novo deles todos. Tinha um cabelo preto, uma barba quadrada e também preta, e ao comprimento da face esquerda corria-lhe uma cicatriz longa e lívida. No peito, além da cruz, ostentava um ícone representando uma Virgem e um Menino bizantinos. Ao persignar-se, fez o sinal da Cruz da direita para a esquerda, à maneira eslava, e quando começou a falar não o fez em latim, mas sim num puro e melodioso toscano.

Do outro lado da nave, Leone lançou um severo sorriso de aprovação para Rinaldi. A seguir, tal como os seus colegas, ambos se renderam à eloquência simples do estrangeiro.

- Chamo-me Kiril Lakota e sou o último e o mais humilde nomeado para ’este Sacro Colégio. Dirijo-me hoje a todos vós por convite do nosso irmão, o cardeal camerlengo. Sou um estranho para a maior parte de vós, porque o meu povo se dispersou e porque passei os últimos dezassete anos na prisão. Se tenho alguns direitos entre vós, até mesmo algum crédito, pois que seja esta a sua base: falo em nome dos perdidos, falo em nome daqueles que caminham na escuridão e no vale das sombras da morte. É por eles, e não por nós próprios, que entramos em conclave. É por eles, e não por nós próprios, que devemos eleger um pontífice. o primeiro homem que desempenhou esse cargo foi um dos que caminhou ao lado de Cristo, e foi crucificado tal como o Mestre. Os que melhor têm servido a Igreja e os fiéis, são os que se encontraram mais perto de Cristo e dos homens, são a imagem de Cristo. Temos poder nas nossas mãos, meus irmãos. Colocaremos um poder ainda maior nas mãos do homem que elegermos, mas devemos usar esse poder como servos e não como senhores. Devemos ter em consideração que somos aquilo que somos - sacerdotes, bispos, pastores - por virtude de um acto de dedicação aos homens que constituem o rebanho de Cristo. O que possuímos, até as vestes que nos pendem dos ombros, tudo provém da sua caridade. Todo o tecido material da Igreja foi erguido pedra a pedra, de oferendas de moeda a moeda, do suor dos fiéis, que as entregaram nas nossas mãos para que ficassem sob a nossa custódia. São eles que se humilham ante o nosso ministério, tal como ante o divino ministério de Cristo. É por eles que exercemos os poderes sacramentais e do sacrifício que nos são concedidos pela unção e pela imposição das mãos. Se nas nossas deliberações servirmos outra causa que não esta, então seremos traidores. Não nos é pedido que cheguemos a um acordo sobre o que é melhor para a Igreja, mas apenas que deliberemos com caridade e humildade, e que no fim entreguemos a nossa obediência ao homem que será escolhido pela maioria. Pedem-nos que actuemos depressa para que a Igreja não permaneça sem um dirigente. E em tudo isto deveremos ser o que, no fim, o nosso pontífice se proclamará... servo dos servos de Deus. Resignemo-nos, pois, nestes momentos finais, a sermos instrumentos de boa vontade das Suas mãos. Ámen.

Fora tudo dito com uma tal simplicidade que aquela poderia ter sido considerada como a formalidade habitual se aquele homem de rosto cortado por uma cicatriz, voz forte e mãos retorcidas mas eloquentes não tivesse dado às palavras uma inesperada pungência. Fez-se um longo silêncio enquanto abandonava o púlpito e regressava ao seu lugar. Leone acenou com a cabeça leonina, num sinal de aprovação, e Rinaldi sussurrou uma silenciosa oração de gratidão. A seguir, o mestre-de-cerimónias tomou o comando e conduziu, para fora da basílica e em direcção aos confins do Vaticano, os cardeais e os seus assistentes, o confessor, o médico e o cirurgião, o arquitecto do conclave e os trabalhadores.

Na Capela Sistina repetiram o juramento. A seguir, Leone deu ordem para que tocassem os sinos, sinal para os que não pertenciam ao conclave abandonarem imediatamente a área que iria ser selada. Os criados conduziram cada um dos cardeais ao respectivo apartamento.

Depois, foi a vez do prefeito do mestre de cerimónias acompanhado pelo arquitecto do conclave, iniciar o rito da busca de toda a área a enserrar. Andaram de sala em sala, puxando os reposteiros para o lado, iluminando os cantos escuros, abrindo armários, até todo o espaço serdeclarado livre de intrusos. Detiveram-se a entrada da grande escadaria de Pio IX. A Guarda

nobre marchou para fora da área do conclave, seguida pelo marechal e dos seus ajudantes.

A grande porta foi fechada. Do exterior, o marechal do conclave fez girar uma chave. No interior, o mestre de cerimónias fez girar a sua própria chave. o marechal ordenou que a sua bandeira fosse içada no alto do Vaticano e a partir daquele momento ninguém podia entrar ou sair, ou passar uma memsagem, até que o novo papa fosse eleito e proclamado. Isolado nos seus aposentos, o cardeal Kíril Lakota iniciava o seu porgatório privado. Era um estado que se repetia e cujos sintomas já lhe eram familiares: suores frios que lhe escorriam do rosto e das palmas das mãos,     uma tremura dos membros, um tremelicar dos nervos cortados no rosto e um medo terrível de que o quarto se estivesse a comprimir para esmagá-lo. Durante a sua vida fora duas vezes emparedado nas casamatas de uma prisão subterrânea. Durante um total de quatro meses resistira aos temores da escuridão, do frio, da solidão, da fome, que quase o matara, pelo que os pilares da sua razão haviam oscilado sob a tensão. Nenhuma outra coisa, durante todos esses anos de exílio siberiano oafligira tanto, ou deixara tão profundas cicatrizes na memória. Nada o levara tão perto da abjuração e da apostasia.

Havia sido frequentemente espancado, mas os tecidos magoados tinham-se recomposto com o tempo. Fora interrogado até que cada um dos seus nervos gritasse e a mente mergulhasse numa misericordiosa confusão. Emergira também dessas provações mais forte na fé e na razão, mas o horror da solitária ficaria com ele até à hora da morte. Kamenev mantivera a sua promessa, «Nunca me poderás esquecer. Para onde quer que vás, eu estarei. O que quer que venhas a ser, eu serei parte de ti.» Mesmo ali, nos neutrais confins da Cidade do Vaticano, na principesca sala por debaixo dos frascos de Rafael, Kamenev, o seu insidioso atormentador, estava com ele. Só tinha uma maneira de lhe escapar, uma que aprendera na casamata subterrânea, projectar o seu espírito atormentado para os braços do Todo-Poderoso.

Deixou-se cair de joelhos, enterrou o rosto nas mãos e tentou concentrar todas as suas faculdades mentais e corporais naquele simples acto de abandono.

Os seus lábios não pronunciaram palavras, mas a sua vontade fixou-se na prece de Cristo no Jardim das Oliveiras. «Pai, se tal é possível, permite que este Cálice passe.»

No fim sabia que tudo passaria, mas primeiro teria de sofrer a agonia. As paredes apertavam-no sem descanso’. O tecto pesava-lhe sobre o corpo como vestes de chumbo. A escuridão comprimia-lhe os olhos e acumulava-se no interior do seu crânio. Todos os músculos do seu corpo se contorciam com dores e os dentes batiam como se estivesse atacado pelos rigores da febre. A seguir sentiu-se mortalmente frio e mortalmente calmo, e esperou, passivo, pela luz, que era o começo da paz e da comunhão.

A luz era como uma madrugada vista do cimo de uma alta colina, inundando rapidamente todas as pregas da paisagem, pelo que todo o padrão da sua história era revelado num só relance. A estrada da sua peregrinação ’ali estava, como uma fita escarlate que se estendia por milhares de quilómetros, desde vov, na Ucrânia, a Nikolayevsky, no mar de Okhotsk.

Apesar da sua juventude, depois do fim da guerra com os alemães fora nomeado metropolita de Lvov, sucessor do grande e santo Andre Szepticky, líder de todos os católicos da Ruténia. Pouco depois fora preso com seis outros bispos e deportado para os limites orientais da Sibéria. Os outros seis tinham morrido e ficara só, pastor de um rebanho perdido, para carregar a cruz sobre os seus próprios ombros.

Permanecera na prisão, ou nos campos de trabalho, dezassete anos. Durante todo aquele tempo só uma vez pudera dizer missa, com um dedal de vinho e uma côdea de pão branco. Tudo a que se podia agarrar, em questões de doutrina, orações e fórmulas sacramentais, encontrava-se encerrado no .interior do seu cérebro. Tudo o que tentara compartilhar das suas forças e compaixão, com os companheiros de prisão, tivera de arrancar de si mesmo e da fonte da Divina Misericórdia. No entanto, o seu corpo enfraquecido pela tortura tornara-se de novo miraculosamente forte no trabalho escravo, nas minas e nos grupos de construção de estradas, de tal modo que até Kamenev deixara de troçar dele e se maravilhara com a sua sobrevivência.

Kamenev, o seu atormentador durante os primeiros interrogatórios, voltava sempre. Cada vez que aparecia subira já um pouco mais na ordem marxista. De cada vez que aparecera mostrara-se sempre um pouco mais amigável, como se se rendesse lentamente ao respeito pela sua vítima, continuava a ver Kamenev, mesmo do alto da montanha da contemplação, frio, sardónico, sondando-o em busca do menor sinal de fraqueza, do menor indício de rendição. Ao princípio tivera de se forçar a rezar pelo seu carcereiro. Passado algum tempo haviam atingido uma espécie de árida irmandade, mesmo apesar de um subir cada vez mais alto e outro parecer afundar-se cada vez mais na camaradagem dos escravos da Sibéria.

Por fim, fora Kamenev que organizara a sua fuga, atribuindo-lhe, como ironia final, a identidad de um homem morto. Partirás em liberdade, dissera Kamenev, porque preciso de ti

Livre, mas ficarás em dívida comigo, porque matei um homem para te dar um nome. Um dia procurar-te-ei, para reclamar o pagamento. Pagarás, seja qual for o preço.

Fora como se o seu carcereiro se tivesse apoderado do manto da profecia, porque Kirilacota conseguira escapar e chegar a Roma, para descobrir que o papa moribundo o fizera cardeal no coração, um homem do destino, uma das charneiras da Santa Madre Igreja. em retrospectiva, a estrada era clara. Nas suas tragédias poderia assinalar promessas de futuras mercês. por cada um dos bispos mortos pelas suas crenças, morrera um homem nos seus braços, no campo de trabalho, abençoando o Todo-Poderoso e pedindo a absolvição final. O rebanho disperso não perderia toda a sua fé, pela qual tanto haviam sofrido. Continuariam a existir alguns para fazerem passar o credo e para manterem acesa uma pequena luz, luz essa que umdia poderia vir a acender milhares de tochas. Na degradação de grupos de construção de estradas vira como os homens mais estranhos eram capazes de erguer bem alto a dignidade humana. Baptizara crianças com uma mão cheia de água suja e vira-as morrer não maculadas pelas misérias do mundo. Ele próprio   necessitara de aprender humildade, gratidão e coragem, para acreditar numa Omnipotência a trabalhar por uma poderosa evolução apontada para o supremo bem. Aprendera compaixão e ternura, e o significado dos gritos na noite. Aprendera a ter esperança de que. um dia pudesse vir a ser um instrumento para o próprio Kamenev, se não da iluminação total, então pelo menos da absolvição final. Porém, tudo aquilo fora no passado, e os padrões ainda tinham de se definir para lá de Roma, num futuro insondável. Mesmo a luz da contemplação não iluminava mais do que Roma. Havia ali um véu, um véu que era um limite imposto à presciência por um Deus misericordioso.

A luz alterava-se; a paisagem das estepes transformara-se num mar ondulante, do outro lado do qual uma figura vestida com trajes antigos avançava para ele, de rosto brilhante, mãos trespassadas estendidas para a frente, como que numa saudação. O cardeal Kiril Lakota encolheu-se e tentou enterrar-se no mar iluminado, mas não havia fuga possível. Quando as mãos o tocaram e o rosto luminoso se inclinou para a frente para o beijar, sentiu-se trespassado por uma intolerável alegria e por uma intolerável dor. Entrou então no seu momento de paz.

O criado que fora designado para cuidar dele entrou na sala e viu-o ajoelhado, rígido como um cataléptico, com os braços abertos numa atitude de crucificação. Rinaldi, que fazia a ronda pelos conclavistais, descobriu-o e tentou em vão acordá-lo. Também Rinaldi se afastou, abalado e humilde para se ir aconselhar junto de Leone e dos seus colegas.

George Faber, o decano de cabelos cinzentos dos correspondentes de imprensa instalados em Roma, correspondente em Itália durante quinze anos para o Monitor de Nova Iorque, escrevia a sua história sobre a eleição papal, instalado no desordenado e pouco elegante gabinete.

«No exterior do pequeno enclave medieval do Vaticano, o mundo vive um clima de crise. Sopram os ventos de mudança e soam os avisos de tempestade, ora num lugar, ora noutro. A corrida aos armamentos entre a América e a Rússia continua no> mesmo ritmo. Todos os meses surgem novas e hostis sondagens nas altas órbitas do ’espaço. Há fome na índia e guerrilheiros a combater nas penínsulas a sul da Ásia. Troveja sobre a África e içam-se esfarrapadas bandeiras da revolução sobre as ’capitais da América do Sul. Há sangue nas areias do Norte de África, enquanto na Europa a batalha para a sobrevivência económica se desenrola por detrás das portas fechadas dos bancos e dos conselhos de administração, fiquem altos, sobre as águas do Pacífico, voam os aviões de combate recolhendo amostras de poluição do ar, em busca das letais partículas atómicas. Na China, os novos dinastas lutam para encherem as barrigas dos milhões de esfomeados, enquanto mantêm as suas mentes presas à rígida ortodoxia da filosofia marxista. Nos enevoados vales do Himalaia, onde flutuam as bandeiras de orações e onde os apanhadores de chá avançam ao longo dos terraços, há ataques e incursões do Tibete e de Sinquião. Nas fronteiras da Mongólia Exterior, a incerta harmonia entre a Rússia e a China aproximam-se do ponto de ruptura. Os barcos de patrulha exploram os pântanos dos manguais e das baías da Nova Guiné, enquanto as tribos das terras altas se tentam projectar no século XX, dando um único salto desde os tempos da idade da pedra, em que ainda vivem.

Em todo o lado o homem tomou consciência de si mesmo como um animal efémero e leva a cabo uma desesperada batalha para garantir os seus direitos ao que de melhor existe no mundo durante o pouco tempo que nele permanece. Os Nepaileses ’perseguidos pelos demónios das suas montanhas, os coolies que levam os músculos do coração à exaustão arrastando-se entre os varais do riquexó, os Israelitas assediados em todas as fronteiras, todos alegam, ao mesmo tempo, o direito a uma identidade. Toda a gente tem um ouvido- à escuta, à espera do profeta que lha possa prometer.

Parou de escrever, acendeu um cigarro e recostou-se na cadeira, analisando o pensamento que acabara de passar ao papel - «o direito a uma identidade». Era estranho como toda a gente acabava por fazê-lo, mais cedo ou mais tarde. Era estranho'... Aceitava-se durante tanto tempo e com aparente serenidade o tipo de pessoa que se parecia ser e a situação que aparentemente a vida nos destinara, e depois, de repente, a identidade era posta em questão. Como a dele, por exemplo. George Faber, solteirão desde há muito, considerado' como um especialista dos assuntos italianos e da política do Vaticano. Porque é que só agora, tão avançado na vida, era levado a pôr em questão aquilo que era, o que o 'satisfizera durante tanto' tempo? Porquê aquela inquieta insatisfação a respeito da sua própria imagem pública? Porque lhe surgira a ideia de que não poderia sobreviver muito mais tempo sem um suplemento permanente da sua pessoa? Uma mulher, Chiara». Tinham sempre existido mulheres na sua vida, mas Chiara era algo de novo e especial. O pensamento incomodou-o-. Tentou pô-lo de lado e debruçou-se de novo sobre a máquina de escrever.

«Em todo o lado se grita pela sobrevivência, mas uma vez que a suprema ironia da criação é a de que o homem deve inevitavelmente morrer, os que querem apoderar-se da sua mente e músculos têm de prometer-lhe uma prorrogação do curto tempo de vida, com alguma parecença com a imortalidade. Os marxistas prometem-lhe a unidade com todos os operários do mundo'. Os nacionalistas entregam-lhe! uma bandeira e uma fronteira, um alargamento local de si próprio-. Os democratas oferecem-lhe liberdade através da urna dos votos;, mas avisam-no que pode ter de morrer para a preserverar. Mas para o homem, e para todos os profetas que ele ergue para si mesmo, o último inimigo é o tempo, e o tempo é uma dimensão relativa, limitada directamente pela capacidade do homem para se servir dele. As comunicações modernas, rápidas como a luz, diminuíram para zero o tempo que decorre entre um acto humano e as suas consequências. Um tiro disparado em Berlim pode fazer detonar o mundo em poucos minutos. Uma peste nas Filipinas pode contagiar a Austrália dentro de um: dia. Um homem que caia de um arame num circo de Moscovo pode ser observado em plena agonia da morte em Londres e em Nova Iorque. «Portanto, e em todos os momentos, cada homem é assediado pelas consequências dos seus próprios pecados e dos de todos os seus iguais. O mesmo acontece com todos os profetas e todos os pânditas, acossados pela rápida passagem do tempo e pela consciência de que o acerto de contas pelas falsas predições e pelas promessas quebradas é agora mais rápido do que jamais foi em toda a história. É precisamente aqui que está a crise. É aqui que nascem os ventos e as vagas, que se forjam os raios que podem, numa das próximas semanas ou num dos próximos meses, começar a rugir em volta do mundo sobre um céu negro de nuvens em forma de cogumelo.

Os homens do Vaticano -estão conscientes do tempo-, apesar de muitos deles terem deixado de o estar tanto quanto- deveriam...»

Tempo...! Tornara-se vividamente consciente dessa cada vez menor dimensão da existência. Ia no meio da casa dos quarenta. Havia mais de um ano que tentava abrir caminho através do Santo Tribunal da Rota Romana com o pedido de anulação do casamento de Chiara, para que esta se pudesse libertar de Corrado Calitri para casar com ele, mas o caso avançava com desesperada lentidão, e Faber, apesar de católico- por nascimento, acabara por se sentir cheio de amargo ressentimento pelo sistema impessoal das congregações romanas e pela atitude dos velhos que aí imperavam.

Continuou a escrever à máquina de um modo vívido-, preciso, profissional:

«Tal como a maior parte dos velhos, estão acostumados a encarar o tempo como um clarão entre duas eternidades, em vez de o verem como um quantum de extensão concedido a cada homem individualmente, -para lhe permitir amadurecer no sentido da visão do seu Deus.

Estão também preocupados com a identidade do homem, que são obrigados a afirmar tratasse da identidade de um filho de Deus. No entanto, aqui correm o perigo de cair noutra armadilha, pois, por vezes, afirmam a sua identidade sem compreenderem nem a individualidade nem que o homem tem de crescer no jardim em que foi plantado, seja ele qual for, quer o sol-o seja doce ou amargo-, quer o ar seja ameno ou tempestuoso. Tal como as árvores, os homens erguem-se sob diferentes formas, contorcidos ou direitos, de -acordo com o clima que os sustenta. Porém, enquanto a seiva e as folhas brotarem, não deveriam existir querelas quanto à forma do homem ou da árvore.

»Os homens do Vaticano- preocupam-se também com a imortalidade e a eternidade. Também eles compreendem a necessidade que o homem sente de uma extensão de si próprio, para lá do limite dos fugidios -anos. Proclamam, como artigo de fé, a persistência da alma numa eternidade de união com o seu Criador, ou num exílio onde não poderão ver a Sua face. Mas vão mais -longe. Prometem ao homem a preservação da identidade e uma vitória final até sobre o terror da morte física. O que muitas vezes não compreendem é o facto de que a imortalidade deve começar no tempo, e que devem ser dados ao homem os recursos físicos para a sua sobrevivência, antes que o espírito amadureça para algo mais do que a sobrevivência física...»

Chiara tornara-se-lhe tão necessária como o ar que respirava. Parecia-lhe que sem a sua juventude e paixão seria obrigado a deslizar demasiado depressa para a velhice e desilusão. Era sua amante há quase seis meses:, mas Faber era assaltado pelo medo de vir a perdê-la de um momento para o outro a favor de um homem mais novo, e de nunca chegar a concretizar a promessa de crianças e de continuidade...

Tinha amigos no Vaticano e um acesso fácil a homens que eram grandes nomes da Igreja, mas que se encontravam submetidos à lei e ao sistema e não podiam àjudá-lo.

Prosseguiu a escrita, agora com maior emoção: «Estes homens idosos e ponderados foram apanhados pelo paradoxo de todo o poder: quanto mais se sobe, mais se vê do mundo, mas menos nos apercebemos dos pequenos factores que determinam a existência humana: um homem sem sapatos pode vir a morrer à fome por não lhe ser possível caminhar até um lugar de trabalho', um cobrador de impostos de maus fígados pode provocar uma revolução local, uma tensão sanguínea elevada pode mergulhar um homem nobre na melancolia e no desespero, uma mulher pode vender-se por dinheiro por não ter a hipótese de se oferecer a um só homem por amor. O perigo a que estão sujeitos todos os governantes é o de começarem a acreditar que a história é o resultado de vastas generalidades em vez da soma de milhões de pequenos factores, tais como maus esgotos, obsessões sexuais ou o mosquito anófele...»

Não era aquela a história que pretendera escrever, mas sim um registo dos seus sentimentos pessoais a respeito do acontecimento próximo. Pois que ficasse assim! Os editores de Nova Iorque que decidissem se gostavam ou se a rasgavam...! Abriu-se a porta e entrou Chiara. Tomou-a nos braços e beijou-a, Amaldiçoou a Igreja, o marido dela e o artigo que escrevia, enviando-os a todos para uma espécie de inferno muito especial, e levou-a a almoçar na Via Veneto.

No primeiro dia do conclave, os cardeais eleitores eram deixados à vontade. Podiam levar a cabo encontros informais, conversas discretas, sondagens de preconceitos, incompreensões e motivações de interesses particulares. Era por esse motivo que Rinaldi e Leone se deslocavam entre eles, a fim de prepará-los, com todo o cuidado, para a proposta final. Depois de iniciada a votação, depois de alinharem a favor deste ou daquele candidato, seria muito mais difícil conseguir que chegassem a um acordo.

Nem toda a conversa se desenrolava ao nível das verdades eternas. Na sua maioria eram conversas simples e corriqueiras, tal como a de Rinaldi com o americano, enquanto bebiam uma chávena de café americano (preparado pelo criado pessoal de Sua Eminência, porque o café italiano lhe provocava indigestões).

Sua Eminência Charles Corbet Carlin, cardeal-arcebispo de Nova Iorque, era um homem alto e rosado com maneiras expansivas e olhos astutos e pragmáticos. Expôs o seu problema de um modo tão rude como se fosse um banqueiro a recusar um saque a descoberto':

- Não queremos um diplomata e não queremos um funcionário' da Cúria que olhe para o mundo com olhos de romano. Um homem que tenha viajado, sim, mas alguém que tenha sido pastor e compreenda quais são os nossos problemas neste momento.

- Estaria muito interessado em ouvir Vossa Eminência a defini-los- disse Rinaldi, no seu tom mais urbano'.

- Estamos a perder o domínio sobre o povo - declarou Carlin, categórico. - Estão a alhear-se da lealdade para connosco. Creio que a responsabilidade é quase toda nossa.

Rinaldi ficou chocado. Carlin gozava da reputação' de ser um brilhante banqueiro para a Santa Madre Igreja e de acarinhar a convicção de que todos os males do mundo poderiam ser resolvidos por um sistema escolar bem dotado e por um vibrante sermão todos os domingos. Ouvi-lo falar de modo tão abrupto das insuficiências da sua própria província tinha tanto de refrescante como de inquietante.

- Porque é que perdemos o domínio? - inquiriu Rinaldi.

- Na América? Por duas razões: prosperidade e respeitabilidade. Já não somos perseguidos. Pagamos a nossa parte. Podemos usar a Fé como um emblema dos rotários e com as mesmas consequências sociais. Cobramos quotas como se fôssemos um clube, gritamos «abaixo os comunistas» e damos a maior contribuição de todo o mundo para os cofres de São Pedro. Mas isso não chega. Não há dedicação, de coração e alma, em muitos católicos. Os jovens escapam à nossa influência. Não precisam de nós como deveriam. Não confiam em nós como dantes. Quanto' a isso - acrescentou, muito sério-, creio que, em parte, a culpa é minha .

- Nenhum de nós tem grandes motivos para orgulhos - disse Rinaldi, baixinho -• Olhe para a França, olhe para as coisas sangrentas que ocorreram na Argélia. No entanto, trata-se de um país meio católico, com uma liderança católica. Onde está a nossa autoridade nessa situação monstruosa? Um terço da população católica do mundo encontra-se na América do Sul, e qual é aí a nossa influência? Qual a impressão que causamos entre os ricos indiferentes e os pobres oprimidos, que não vêem esperança em Deus, e ainda menos naqueles que O representam? Quando é que começamos a mudar?

-Cometi erros - afirmou Carlin, soturno. -Erros grandes. Nen sequer posso começar a corrigi-los a todos. O meu pai era jardineiro, um bom jardineiro. Costumava dizer que o melhor que podíamos fazer por uma árvore era cobri-la com palha no Inverno e podá-la uma vez por ano e deixar o resto aos cuidados de Deus. Sempre me orgulhei de ser um indivíduo prático, tal como ele... sabe? Construir a igreja e depois a escola. Chamar as freiras e depois os frades. Construir o seminário e preparar os padres e fazer que o dinheiro' continuasse a aparecer. Depois disso, era com o Todo-Poderoso. - Sorriu pela primeira vez, e Rinaldi, que não gostara dele durante muitos anos, começou a sentir-se mais caloroso a seu respeito. Carlin continuou de modo extravagante: - Os Romanos e os Irlandeses! Éramos grandes intriguistas e grandes construtores, mas perdemos o sentido íntimo das coisas mais depressa do que qualquer outro. Conservemo-nos agarrados ao livro! Nada de carne à sexta-feira, nada de dormir com a mulher do vizinho', e deixem os mistérios para os teólogos! Isto não chega. Deus nos ajude, mas isto' não chega!

- está a pedir-nos um santo. Duvido imenso- que tenhamos muitos inscritos no livro, neste momento.

- Não, nada de santos! - Carlin voltava a ser enfático. - Um homem para o povo e do povo-, tal como foi Santo. Um homem que sofra por eles, que seja capaz de os censurar e de lhes ralhar e que lhes faça sentir sempre que os ama. Um homem capaz de se libertar dos carreiros deste jardim dourado' e de se transformar num novo Pedro.

- Seria também crucificado, claro - disse Rinaldi, mordaz.

- Talvez seja isso- mesmo o que nos faz falta - retorquiu Sua Eminência de Nova Iorque.

Foi nesse momento que Rinaldi, o diplomata, julgou oportuno falar no barbudo ucraniano, Kiril Lakota, como sendo o homem-com-as-qualidades-de-um-papa.

Numa outra suite do conclave, algo mais pequena, Leone discutia o mesmo candidato com o cardeal Hugh Brandon, de Westminster. Brandon, sendo inglês, era um homem sem ilusões e com poucos entusiasmos. Curvou os finos lábios cinzentos e brincou com a cruz episcopal que trazia ao peito, declarando a seguir qual a sua política, num italiano preciso, mas afectado:

- Do nosso ponto de vista, um italiano é ainda a melhor escolha, Dá-nos espaço para nos movimentarmos, se entende o que quero dizer. No fim está em causa uma nova atitude ou um alinhamento político diferente. Não há perturbações nas relações entre o Vaticano e a República da Itália. O papado continuará a ser uma eficiente barreira contra o crescimento do comunismo.-Permitiu-se proferir uma seca brincadeira: -Podemos contar sempre com a simpatia dos metais românticos para com a romântica Itália ao Leone, veterano de muitas discussões subtis, acenou o seu acordo e acrescentou de modo casual:

- Então não teria em consideração o nosso recém-chegado, o que nos falou esta manhã?

- Duvido. Achei-o, como toda a gente, muito impressionante no púlpito. Mas a eloquência não é qualificação que baste, pois não? Para além disso, há a questão dos ritos. Segundo julgo- saber, o homem é ucraniano e pertence ao rito ruteno.

- Se fosse eleito, praticaria automaticamente o romano. Sua Eminência de Westminster esboçou um sorriso fino.

- A barba poderia preocupar muita gente. Dá-lhe um ar demasiado bizantino, não acha? Há muito tempo que não temos um papa com barba.

- Sem dúvida que a raparia.

- E continuaria a usar o ícone?

- Pode ser persuadido a dispensá-lo também.

- Então ficaríamos com um modelo romano. Então porque não escolher logo, em primeiro lugar, um italiano? Custa-me a crer que deseje algo de diferente.

- Desejo-o, acredite. Estou preparado para lhe dizer, agora mesmo, que o meu voto irá para o ucraniano.

- Receio que não lhe possa prometer o meu. Os Ingleses e os Russos, sabe? Historicamente, nunca nos demos muito bem. Nunca.

-'É preciso procurar sempre - disse Rahamani, o sírio, com os seus modos dóceis e corteses-, procurar sempre o homem com o dom necessário, o dom da cooperação com Deus, Um dom muito raro mesmo entre os homens bons. A maior parte de nós passou toda a sua vida tentando curvar-se à vontade de Deus, mas mesmo assim, por vezes, é necessária uma graça violenta que nos leve a curvarmo-nos. Os outros, os muitos raros, esses entregam-se a si mesmos como que por um acto de instinto, para serem ferramentas nas mãos doCriador. Se o novo homem é um desses, então é a pessoa de que necessitamos.

- E como o poderemos saber? - perguntou Leone de um modo seco.

- Submetemo-lo a Deus - declarou o sírio. - Pedimos a Deus que o julgue e ficamos descansados quanto ao- resultado.

- Só nos é possível votar nele. Não há alternativa.

- Há uma alternativa, prevista na Constituição Apostólica, A da inspiração. Qualquer membro do conclave pode fazer uma proclamação pública do homem que ore que deve ser escolhido, confiante em que se esse for um candidato aceitável para Deus, então Deus inspirará os outros conclavistas a aprovarem-no publicamente. É um método válido de eleição.

- Que necessita de muita coragem... e muita fé.

- Se a nós, dignitários da Igreja, nos faltar a fé... que esperanças restam ao povo?

- Sinto-me repreendido - disse o cardeal-secretário do Santo Ofício. - Chegou a altura de parar com a angariação de votos e de começar a rezar.

No princípio da manhã seguinte todos os cardeais se reuniram na Capela Sistina para a primeira eleição. Havia um trono para cada um deles, e um dossel de seda por cima de cada trono. Os tronos encontravam-se dispostos ao longo das paredes da capela, e -em frente de cada um via-se uma pequena mesa que ostentava as armas do cardeal e o seu nome inscrito em latim. O altar da capela fora coberto por uma tapeçaria, bordada com uma representação do Espírito Santo descendo sobre os primeiros Apóstolos. Em frente do altar encontrava-se uma grande mesa onde se via um cálice em ouro e uma pequena travessa do mesmo material. Perto da mesa havia um simples fogão bojudo cuja chaminé se projectava através de uma pequena janela virada para a Praça de São Pedro.

Quando a votação tivesse lugar, cada cardeal escreveria o nome do seu candidato num boletim de voto, primeiro pousá-lo-ia sobre a travessa de ouro e depois colocá-lo-ia no cálice, para significar que completara um acto sagrado. Depois de os votos serem contados, seriam queimados no fogão e o fumo sairia pela chaminé para a Praça de São Pedro. Para eleger um papa, é necessária uma maioria de dois terços.

Se a maioria não fosse concludente, os boletins seriam queimados juntamente com palha molhada, e o fumo sairia negro e espesso. Só quando a eleição tivesse êxito seriam os papéis queimados sem palha, para que um fumo branco informasse as multidões à espera no exterior de que já tinham um novo papa. Era uma cerimónia arcaica e um estorvo para a idade da rádio e da televisão, mas servia para sublinhar o drama do momento e a continuidade de dois mil anos de história papal.

Depois de todos estarem sentados, o mestre-de-cerimónias fez a ronda pelos tronos, entregando a cada votante um único boletim de voto. A seguir abandonou a capela e a porta fechou-se, deixando no interior apenas os príncipes da Igreja, para elegerem o sucessor de Pedro.

Chegara o momento aguardado por Leone e Rinaldi. Leone levantou-se do seu lugar, agitou a cabeleira branca e dirigiu-se ao conclave:

- Meus irmãos, ergo-me para reclamar um direito previsto pela Constituição Apostólica. Proclamo-vos a minha crença de que se encontra entre nós um homem já escolhido por Deus para se sentar na cadeira de Pedro. Sofreu a prisão e as chicotadas em defesa da Fé, tal como o Primeiro dos Apóstolos. A mão de Deus guiouo e libertou-o da servidão para se poder juntar a nós neste conclave. Anuncio-o como meu candidato e dedico-lhe o meu voto e a minha obediência... cardeal Kiril Lakota.

Houve um momento de silêncio mortal, apenas quebrado por uma exclamação abafada de Lakota. Foi então que Rahamani, o sírio, se levantou do seu lugar e pronunciou com firmeza:

- Também eu o proclamo!

- E eu! -disse Caríin, o americano.

- E eu!-'acrescentou Valerio Rinaldi.

A seguir, aos dois e aos três, os anciãos puseram-se de pé com dificuldade para emitirem proclamações semelhantes, até restarem apenas nove sentados debaixo dos dosséis, enquanto o cardeal Kiril Lakota permanecia no seu trono, rígido e de rosto vazio. Rinaldi deu uns passos em frente e desafiou os eleitores: -Alguém contesta que esta é uma eleição válida e que uma maioria de mais de dois terços elegeu o nosso irmão Kiril? : Ninguém respondeu ao desafio.

- Sentem-se, por favor - pediu Valerio Rinaldi.

Cada um dos cardeais que se sentou puxou pelo cordão preso ao seu dossel para que este se abatesse por cima da sua cabeça. O único que ficou aberto foi o que se encontrava no alto do trono do cardeal Kiril Lakota.

O camerlengo tocou uma pequena sineta de mão e atravessou a sala para abrir a porta da capela. Entraram imediatamente o- secretário do conclave, o mestre-de-cerimónias e o sacristão do Vaticano. Estes três prelados, com Leone e Rinaldi, avançaram com toda a cerimónia para o trono do ucraniano. Em voz alta, Leone perguntou-lhe:

- Acceptasne electionem? (Aceita a eleição?)

Todos os olhos estavam postos no alto e magro estrangeiro', com o seu rosto cortado pela cicatriz, a barba escura e os olhos distantes e assombrados. Os segundos passaram lentamente e a seguir ouviram-no responder numa voz mortiça e sem entoação:

- Accepto... Miserere mei Deus! (Aceito... Que Deus tenha piedade de mim!)

Nenhum governante pode escapar ao veredicto da história, mas um governante que mantém um diário arrisca-se a ser muito maltratado pelo que o julgarem... deveria ser como Pio II, que fez atribuir as suas memórias ao seu secretário, as mandou expurgar pelos seus familiares e depois, quinhentos anos mais tarde, viu todas as suas indiscrições restauradas por um par de intelectuais americanos. No entanto, compreendo o seu dilema, que deve ser o dilema de todo o homem que se senta na cadeira de Pedro. Um papa nunca pode falar livremente, a não ser que fale com Deus ou consigo próprio... e um pontífice que fale consigo mesmo está pronto para se tornar num excêntrico, tal como demonstraram as histórias de alguns dos meus predecessores.

Tenho medo da solidão e do isolamento, é uma enfermidade de que sofro. Portanto, necessitarei de algumas válvulas de segurança, como este diário, por exemplo, que é um compromisso entre mentir a mim próprio no papel e contar para a posteridade os factos que têm de ser ocultos da minha própria geração. Surge um problema, claro. Que fazer com um diário papal? Deixá-lo para a biblioteca do Vaticano? Mandar que seja 'enterrado connosco no triplo caixão? Ou leiloá-lo antecipadamente, para a Propagação da Fé? Talvez o melhor seja nem sequer começá-lo, mas que outro modo existe de garantir vestígios de privacidade, humor e talvez até de sanidade, nesta nobre casa-prisão a que estou condenado?

Vinte e quatro horas atrás, a minha eleição ter-me-ia parecido uma fantasia. Mesmo agora não consigo compreender por que a aceitei. Podia ter recusado, mas não o fiz. Porquê...?

Considerem o que sou: Kiril I, Bispo de Roma, Vigário de Jesus Cristo, sucessor do Príncipe dos Apóstolos, Supremo Pontífice da Igreja Universal, Patriarca do Ocidente, Primaz de Itália, Arcebispo

 

1 Pont. Max: (latim): Forma abreviada de Pontifex Maximus, que significa Sumo Pontífice. CM do E.)

 

e Metropolita da Província Romana, Soberano da Cidade-Estado do Vaticano... gloriosamente reinante, claro!

Mas isto é apenas o princípio. O Anuário Pontifical imprimirá uma lista de, pelo menos, duas páginas do que me está reservado de abadias e prefeituras, e as ordens, congregações, confraternidades e irmandades sagradas que tenho de «proteger». O resto das suas duas mil páginas será um verdadeiro livro de -cadastro dos meus ministros e súbditos, dos meus instrumentos de governo, educação e correcção'.

Devo ser, pela verdadeira natureza das minhas funções, um conhecedor de línguas, isto apesar de o Espírito Santo ter sido menos generoso comigo, no que toca ao dom das línguas, do que para com o primeiro homem que se encontrou na minha situação. A minha língua materna é o russo; a minha língua oficial é o latim dos escolásticos, uma espécie de mandarim que deve supostamente preserverar, de um modo mágico, a mais subtil definição da verdade, como uma abelha incrustada no âmbar. Devo falar em italiano com os meus associados e conversar com toda a gente utilizando o bombástico «nós», o qual sugere uma conversa secreta entre eu próprio e Deus, mesmo em assuntos tão mundanos como o café que «nós» beberemos ao pequeno-almoço e marca de gasolina que «nós» usaremos nos carros da Cidade do Vaticano'.

No entanto, trata-se de um modo de falar tradicional ,de que não me devo ressentir muito. O velho Valerio fez-me um aviso honesto quando, uma hora depois da eleição desta manhã, me ofereceu tanto a sua resignação como a sua lealdade. «Santidade, não tente modificar os Romanos. Não tente lutar com eles ou convertê-los, Há dezanove séculos que lidam com papas e serão capazes de lhe partir o pescoço antes que consiga vergar o deles. Caminhe devagar, fale com gentileza, mantenha-se reservado... e no fim acabará por torcê-los, como à erva entre os dedos.

É ainda demasiado cedo, o Céu bem o sabe, para saber quais as relações que Roma e eu teremos um com o outro, mas Roma já não é o mundo e não estou demasiado preocupado, desde que possa pedir emprestada a experiência daqueles que me prestaram juramento como cardeais príncipes da Igreja. Há alguns em que tenho grande confiança. Há outros... Mas não devo apressar-me nos julgamentos. Não podem ser todos como Rinaldi, um homem sábio e gentil, com um bom sentido de humor e conhecedor das suas próprias limitações. Entretanto, devo tentar sorrir e manter-me bem disposto enquanto descubro o caminho no labirinto deste Vaticano. E devo entregar os meus pensamentos a um diário antes de os expor ante a Cúria ou o Consistório.

Tenho uma vantagem, claro, a de que ninguém na verdade sabe para que lado vou saltar... nem sequer eu sei. Sou o primeiro eslavo de sempre a sentar-se na cadeira de Pedro, o primeiro não italiano em quatro séculos e meio. A Cúria será cautelosa comigo. Podem ter-se sentido inspirados para me elegerem, mas já devem perguntar a si mesmos que espécie de tártaro foram arranjar. Devem interrogar-se sobre como irei embaralhar de novo as suas funções e esferas de influência. como é que podem saber até que ponto tenho medo e duvido de mim próprio? Espero que alguns deles se lembrem de rezar por mim. O papado é a mais paradoxal função do mundo; a mais absoluta e no entanto a mais limitada; a mais rica em rendimentos, mas a mais pobre em benefícios pessoais. Foi fundada por um carpinteiro da Nazaré que nem tinha onde pousar a Sua cabeça, no entanto, está rodeada por mais pompa e circunstância do que seria decente neste mundo esfomeado. Não tem fronteiras, mas está sempre sujeita às intrigas nacionais e às pressões partidárias. O homem que a aceita reivindica possuir uma garantia divina contra os erros, mas, no entanto, está menos certo da salvação do que o mais insignificante dos seus súbditos. Traz as Chaves do Reino pendentes do cinto', no entanto, pode vir a descobrir-se impedido para sempre de entrar na Paz dos Eleitos e na Comunhão dos Santos. Se disser que não se sente tentado pela autocracia e ambição, é um mentiroso. Se às vezes não se sentir aterrorizado e se não orar frequentemente na escuridão, então é um idiota.

Sei-o, ou pelo menos começo a sabê-lo. Fui eleito esta manhã e esta noite estou só, na Montanha da Desolação. Aquele de quem sou o vigário esconde o Seu rosto de mim. Aqueles de quem terei de ser o pastor não me conhecem. O mundo espraia-se por debaixo de mim como um mapa de campanha, e avisto fogueiras em todas as fronteiras. Há olhos cegos virados para o alto e uma babel de vozes invocando um desconhecido...

Ó Deus, dá-me luz para ver, força para saber, coragem para suportar a servidão dos servos de Deus...!

O meu criado pessoal esteve aqui há pouco a preparar o quarto de dormir. É um sujeito melancólico que se parece muito com um guarda da Sibéria que à noite me chamava cão ucraniano e que todas as manhãs se apelidava de sacerdote adúltero. Este, contudo, pergunta humildemente se a minha Santidade precisa de mais alguma coisa. A seguir ajoelha-se e implora a minha bênção, para ele e para a família. Embaraçado, aventura-se a sugerir que eu, se não me sentir muito fatigado, poderia dignar-me a mostrar-me de novo ao povo que ainda aguarda na Praça de São Pedro. i; Aclamaram-me esta manhã quando fui conduzido ao exterior

pára dar a minha primeira bênção à cidade e ao mundo. No entanto, suponho que enquanto tiver a luz acesa haverá sempre alguém à espera sabe Deus de que sinais de poder ou benignidade provenientes do quarto de dormir do papa. Como é que lhes posso dizer que não devem nunca esperar grande coisa de um homem de meia-idade envergando um pijama de algodão às riscas? Mas esta noite é diferente. Há toda uma afluência de romanos e de turistas, na Plazza, e seria uma cortesia -perdoe-me Santidade, uma grande condescendência! - aparecer para uma pequena bênção...

Condescendo e mais uma vez me exalto com vaga após vaga de aplausos e apitos. Sou o seu papa, o seu pai e incitam-me a viver muito tempo. Abençou-os e abro-lhes os braços, o que os leva de novo a soltar um clamor. Sinto-me preso num estranho momento em que parece que o meu coração pára e em que os meus braços rodeiam o mundo, e que este é demasiado pesado para que o possa segurar. É nesse momento que o meu criado pessoal, ou será o meu carcereiro?, me puxa para trás, fecha a janela e corre os reposteiros para que, pelo menos oficialmente, Sua Santidade Kiril I esteja na cama e a dormir.

O criado chama-se Gelasio, que é também o nome de um papa. É uma boa pessoa e alegro-me com um minuto da sua companhia. Falamos durante alguns momentos e a seguir interroga-me, corando e gaguejando, acerca do meu nome. É o primeiro com coragem para levantar a questão, excepto o velho Rinaldi, Quando lhe anunciei que desejava manter o nome de baptismo, acenou e sorriu com ironia e disse: «Um nobre estilo, Santidade, mas também um pouco provocador. Mas, por amor de Deus, não deixe que o passem para o italiano.»

Aceitei o conselho e expliquei aos cardeais, tal como agora expliquei ao meu criado, que mantive o nome porque este pertenceu ao Apóstolo dos Eslavos, que se diz ter inventado o moderno alfabeto cirílico e que foi um teimoso defensor do direito das pessoas professarem a Fé no seu próprio idioma. Expliquei-lhes também que preferia o nome usado na sua forma eslava, como testemunho da universalidade da Igreja. Nem todos aprovam, uma vez que compreendem com facilidade como os primeiros actos de um homem estabelecem o padrão dos actos posteriores.

Contudo ninguém levantou objecções, excepto Leone, que dirige o Santo Ofício e tem a reputação de ser um moderno S. Jerónimo, tanto pelo seu amor à tradição e a uma vida espartana, como por possuir um notório temperamento insolente que ainda vou ter de descobrir. Leone inquiriu de um modo severo se um nome eslavo não pareceria deslocado no meio do puro latim das encíclicas papais. Apesar de ter sido quem primeiro me proclamou no conclave, tive de lhe dizer com gentileza que estava mais interessado em que as pessoas lessem as minhas encíclicas do que em mimar os latinistas, nenhum deles deu qualquer sugestão a esse respeito, antes de entrarem no conclave. É uma arma maravilhosa tanto para a direita como para a esquerda. No momento em que o papa se referir aos negócios italianos, poderão dizer que se trata de um estrangeiro a interferir nas políticas locais. Foi o- que aconteceu ao holandês, como é que se chamava? Adriano VI? As provas históricas demonstram que se tratava de um homem sensato e um bom administrador, mas quando morreu a Igreja encontrava-se numa confusão ainda maior do que antes dele. Nunca gostei do tipo de catolicismo 'barroco que os Italianos impingem ao mundo, mas nos assuntos de Estado têm um grande valor político, tal como os Irlandeses, se compreende o que quero dizer.

-> Para um livro de historietas ilustradas, a barba é formidável ouviu-se sair da boca esfomeada de uma morena que se encontrava na outra ponta do bar. - Pode ser divertido ter umas quantas cerimónias gregas e russas no Vaticano. Todas aquelas vestes esquisitas, e os ícones tão engraçados, pendurados no peito! Esses ícones podem originar uma nova loucura, Pingentes para a nova moda de Inverno-! Podiam fazer furor, não achas? - concluiu, soltando uma gargalhada gritada e esganiçada.

- Há aqui um mistério qualquer! - disse Boucher, o> francês de cara de raposa.-Um estranho completo... depois do mais curto conclave da história! Falei com o Morand e com alguma da nossa gente. A impressão era de desespero, como se estivessem a ver o fim do mundo e quisessem alguém especial para nos conduzir até lá. Podem ter razão. Os chineses foram a Moscovo e consta que querem uma guerra já, ou então que dividem ao meio o mundo marxista. Talvez também o consigam, e então surgirá o fim de todas as políticas e é melhor que comecemos todos a orar...

- Ouvi uma coisa estranha esta manhã - Feuchtwanger, o suíço, beberricava um café e falava em sussurros com Erikson, o sueco. Chegou ontem a Roma um correio vindo de Moscovo, com escalas em Praga e Varsóvia. Hoje de manhã uma certa personagem da embaixada russa telefonou ao cardeal Potocki. Claro que ninguém abre a boca, mas pergunto a mim mesmo se a Rússia espera qualquer coisa deste homem. Kamenev tem problemas com os Chineses e sempre viu um pouco mais longe do que a ponta do nariz...

- Estranho -disse Feodorov, baixinho, o homem da Tass. - É estranho. Para onde quer que hoje nos viremos, vemos o dedo de Kamenev. Até nesse, não sei se valerá a pena citá-lo, vemos o seu «toque».

Beron, o checo, acenou de modo prudente, mas não disse nada. O grande Kamenev estava para lá do alcance da sua pena humilde, depois de vinte anos de sobrevivência já aprendera que era melhor não dizer nada durante um ano do que permitir-se a si próprio um momento de indiscrição.

O russo continuou a falar com o tranquilo zelo dos ortodoxos.

- Há meses atrás ouvi um boato, e na altura era apenas um boato, de que Kamenev organizara a fuga deste homem, e de que o Presidium queria a sua cabeça por causa disso. Agora, apesar de nos terem dito para não falarmos no assunto, o segredo é público. Foi Kamenev. Deve estar a rir-se como um perdido, ao ver um homem em quem deixou as suas marcas a sentar-se no trono apostólico.

- E que pensa o Presidium do assunto? - perguntou o checo, com todo o cuidado.

Fedorov encolheu os ombros e pousou os grossos dedos sobre a mesa.

-Aprovam, claro... e por que não? A marca de Kamenev também está neles todos. Além disso, o homem é um génio. Quem mais poderia ter conseguido o que todos os planos quinquenais não conseguiram!? Fazer florescer a Sibéria? Do Báltico à Bulgária, olha para o que ele fez! Pela primeira vez temos paz nas zonas fronteiriças ocidentais. Até os Polacos já não nos odeiam tanto como dantes. Exportamos cereais. Pensa só nisso! Sou eu que to digo, faça este homem o que fizer, o Presidium e o povo não poderão deixar de aprovar!

O checo acenou com moderação e depois fez outra pergunta: - essa... Essa marca de Kamenev... que é?

Pensativo, o homem da Tass tomou mais um golinho da bebida e depois respondeu:

- Kamenev falou disso uma vez, penso. Não estava lá, mas ouvi qualquer coisa. Afirmou: «Depois de se desfazer um homem em bocados, sob interrogatório, e depois de juntarmos todos esses bocados outra vez, acontece uma coisa estranha. Ou o amamos, ou o odiamos para o resto da vida. Ele, ou nos amará, ou nos devolverá o ódio. Não se pode conduzir um homem ou um povo através do inferno, sem desejar partilhar um céu com ele!» É por isso que a nossa gente o adora. Manteve-se na grade de tortura durante três anos, e depois de repente mostrou-lhe um mundo novo! - Tomou o resto da bebida num só golo e bateu com o copo em cima da mesa. - Um grande homem! O maior que tivemos, desde os tempos de Pedro, o imperador!

- E este papa... este Kiril... que espécie de homem será?

- Não sei - disse o russo, pensativo. - Se Kamenev gosta dele, poderão acontecer estranhas coisas. Poderão acontecer estranhas coisas aos dois.

Ainda não fora coroado, mas o papa Kiril já sentira o impact» do poder. O choque do poder era muito maior do que jamais sonhara.

Tinham-lhe colocado nas mãos dois mil anos de tempo e mais toda a eternidade. Quinhentos milhões de pessoas eram seus súbditos e os seus tributos surgiam sob a forma de moedas de todo o mundo. Podia passear, como passeava agora todos os dias nos jardins do Vaticano, e medir os confins do seu reino num único dia de marcha; mas esse estreito domínio era apenas uma cabeça de ponte a partir da qual o seu poder se espalhava para abarcar todo o planeta.

Aos homens que o tinham feito, podia desfazê-los com uma palavra. Os tesouros de séculos, que lhe tinham entregue com as Chaves, podia gastá-los à vontade ou dissipá-los num gesto de louco. A sua burocracia era mais complexa, mas no entanto menos dispendiosa do que qualquer outra do mundo. Os soldados de brinquedo que guardavam a sua sagrada presença eram apoiados por milhares de alistados ligados a ele pelo voto de o servirem com os seus talentos, os seus corações, as suas vontades e toda a sua vida de celibatários. Outros homens detinham o poder por intermédio da volúvel voz dos eleitores sob a pressão dos alinhamentos partidários ou pela tirania das juntas militares. Em todo o mundo, só ele o detinha por delegação divina e nenhum dos seus súbditos ousaria contestá-lo.

Mas o conhecimento do poder era uma coisa e o seu uso de outra inteiramente diferente. Fossem quais fossem os seus planos para a Igreja, fossem quais fossem as alterações que fizesse no futuro, de momento teria de se servir dos instrumentos à sua disposição e da organização que os seus predecessores lhe haviam transmitido. Tinha de aprender tanta coisa tão depressa, mas naqueles dias antes da coroação quase parecia existir uma conspiração para lhe roubar o tempo para pensar ou planear. Havia momentos em que se sentia um fantoche a ser vestido e ensaiado para o teatro.

Os sapateiros apareciam para lhe tirarem medidas para novas chinelas, os alfaiates para coserem as sotainas brancas. Os joalheiros ofereciam-lhe desenhos para o anel e para a cruz peitoral. Os heráldicos apresentavam-lhe desenhos para o escudo de armas: chaves cruzadas para o cargo de Pedro, um urso- de patas dianteiras levantadas sobre um campo branco, por cima a pomba dos Paracletos e por baixo a divisa: Ex oriente lux. (Uma luz vinda do Oriente.)

Aprovara-o ao primeiro relance, satisfazia-lhe a imaginação e o sentido de humor. Era preciso muito tempo para dar forma a um urso, mas quando adulto era uma figura formidável. Com a ajuda do Espírito Santo para guiá-lo, tinha a esperança de poder fazer muito pela Igreja. E talvez o Leste se mantivesse nas sombras há demasiado tempo porque o Ocidente dera uma forma demasiado local à universalidade dos Evangelhos.

Os camareiros guiavam-no de audiência para audiência: com a imprensa, com o corpo diplomático, com as nobres famílias que reclamavam um lugar perto do trono papal, com prefeitos e secretários de congregações, tribunais e comissões. A Chancelaria dos Breves e o Secretariado dos Breves para os Príncipes mantinham-lhe a secretária repleta de respostas, em impecável latim, a todas as cartas e telegramas de felicitações. A Secretaria de Estado recordava-o todos os dias de crises e revoluções e das intrigas das embaixadas.

A cada passo que dava o seu pontifical pé tropeçava na história, no ritual, no protocolo e na incomodativa metodologia da burocracia do Vaticano. Para onde quer que se virasse, tinha sempre um funcionário a seu lado, chamando a atenção de Sua Santidade para isto ou aquilo: um cargo a ser preenchido, uma cortesia a prestar ou. um talento a recompensar.

O cenário era grandioso, a gestão do palco era diligente, mas necessitou de quase uma semana para descobrir o título da peça. Era uma velha comédia romana, outrora popular, mas agora um

pouco caída em descrédito, denominada Como Manejar os Príncipes. O tema era simples; como dar a um homem o poder absoluto e depois limitar-lhe o seu uso. A técnica era fazê-lo sentir-se tão importante e mantê-lo tão ocupado com ninharias pomposas que mal tivesse tempo para planear uma política ou para a pôr em execução. Quando se apercebeu da brincadeira, Kiril, o ucraniano, riu-se em privado e decidiu pregar uma partida das suas.

Assim, dois dias antes da coroação convocou sem aviso prévio uma reunião privada de todos os cardeais, na Sala dos Bórgias, no Vaticano. A rudeza da convocação era propositada e o risco calculado.

No dia a seguir à coroação todos os cardeais, excepto os da Cúria, abandonariam Roma e regressariam, aos seus países. Cada um deles poderia vir a ser um auxiliar cheio de boa vontade ou um discreto empecilho à política papal. Ninguém se tornava num príncipe da Igreja sem alguma ambição e gosto pelo poder. Ninguém envelhecia num cargo sem algum endurecimento do coração e da vontade.

Aqueles homens eram mais do que súbditos, eram charneiras, pontos de articulação, e eram também conselheiros, ciosos da sua própria sucessão apostólica e da autonomia que ela conferia. Até um papa tinha de lidar delicadamente com deus e não abusar muito da sua sabedoria, lealdade, ou orgulho nacional.

Quando Kiril os viu sentados na sua frente, velhos, sábios e numa expectativa astuta, sentiu o coração cair-lhe aos pés e perguntou a si próprio pela centésima vez o que teria para lhes oferecer, e à Igreja. Depois, mais uma vez teve a sensação de que o poder se renovava nele próprio. Fez o sinal da Cruz, uma invocação ao Espírito' Santo e mergulhou no assunto que o levara a reunir o Consistório. Não se serviu do «nós» de autoridade, mas falou, sim, de um modo íntimo.

e pessoal como se se encontrasse ansioso por estabelecer uma relação de amizade:

- Meus irmãos, meus coadjuvantes na causa de Cristo... - Tinha uma voz forte, mas estranhamente terna como se lhes implorasse fraternidade e compreensão. - Vós fizestes aquiio que sou hoje. No entanto, se aquilo em que acreditamos é verdade, não- fostes vós, mas sim Deus que me calçou as sandálias do Pescador. Dia e noite tenho perguntado a mim próprio o que tenho para oferecer a Ele ou à Sua Igreja. Tenho tão pouco, sabem. Sou um homem que foi arrancado à vida como Lázaro e depois lançado de novo nela pela mão de Deus. Todos vós sois homens da vossa época. Crescestes com ela, fostes moldados por ela, contribuístes para transformá-la, para melhor ou para pior. É natural que cada um de vós guarde ciosamente esse lugar e esse conhecimento, assim como a autoridade que obtivestes com o tempo. Agora, contudo, devo pedir-vos que sejais generosos comigo e me empresteis o que tendes de conhecimento e de experiência, em nome de Deus. - A voz falhou-lhe um pouco- e para todos aqueles anciães por momentos pareceu-lhes que iria chorar. Depois recompôs-se e como que se tornou maior, enquanto a voz ganhava um tom mais forte. - Contrariamente ao que acontece convosco, não sou um homem do meu tempo; porque passei dezassete anos numa prisão e o tempo me ultrapassou. Muitas das coisas deste mundo são para mim uma novidade. A única que não mudou foi o homem, e a este eu conheço e amo porque vivi com ele na simples intimidade da sobrevivência. Mesmo a Igreja é-me estranha, porque durante muito- tempo dela tíve de dispensar o não necessário e agarrar-me com desespero ao que é da sua natureza e da sua essência... a Base da Fé, o Sacrifício e os Actos Sacramentais.

Sorriu-lhes pela primeira vez, sentindo a sua inquietação e procurando acalmá-los.

-Sei qual o pensamento que tendes na vossa mente: o de que talvez tenham um papa inovador, um homem ávido de mudançasi Não é assim. Apesar de serem necessárias muitas mudanças, deveremos realizá-las em conjunto: Tento somente explicar-me, para que me possais compreender e ajudar. Não é possível manter-me agarrado, tão zelosamente como alguns, ao ritual e às formas tradicionais de devoção, isto porque durante anos nada mais tive do que as mais simples formas de oração e o mínimo essencial para os Sacramentos. Sei, creiam-me, sei que existem aqueles para quem a estrada mais direita é a mais segura, Quero que sejam tão livres quanto possível, dentro dos limites da Fé. Não' desejo alterar a longa tradição do- celibato clerical. Sou tão celibatário quanto vós. No entanto, vi a Fé ser preservada, sob perseguição, por padres casados, que a depuseram nas mãos dos seus filhos como uma jóia envolta em seda. Não posso levar demasiado a sério as legalidade dos canonistas ou as rivalidades das congregações religiosas, porque vi mulheres violadas pelos seus carcereiros e ajudei-as a dar à luz as suas crianças; com estas mãos consagradas.

Sorriu de novo e levantou na sua direcção as mãos torcidas num resto implorador.

-Sou talvez o homem errado para vós, irmãos, mas foi Deus que me entregou a vós, pelo que deveis conseguir de mim o melhor.

Houve uma longa pausa e a seguir prosseguiu, num tom ainda mais forte, sem súplicas, sem explicações, mas sim exigindo com toda a autoridade que lhe brotava no íntimo:

-Perguntais-me para onde vos quero guiar, para onde quero conduzir a Igreja. Vou mostrar-vos. Quero conduzir-vos de regresso a Deus, através dos homens. Compreendam-no, compreendam-no nas vossas mentes, nos vossos corações e nas vossas obedientes vontades. Somos o que somos, para o serviço de Deus, através do serviço do homem. Se perdermos o contacto com o homem -com os homens sofredores, pecadores, perdidos e confusos, chorando na noite, com as mulheres agonizantes, as crianças que choram -, então também nós estaremos perdidos, porque seremos pastores negligentes que fizemos tudo menos a única coisa necessária, fez uma pausa e encarou-os, alto-, pálido e estranho, rosto cortado pela cicatriz e mãos contorcidas, e a grande barba negra e bizantina. A seguir lançou-lhes, como um desafio, a formal pergunta em latim:

- Quid vobis videtur? (Que tal vos parece?)

Havia um ritual para aquele momento, tal como há rituais para todos os momentos da vida do Vaticano. Os cardeais deveriam remover os seus solidéus vermelhos e curvar as cabeças em submissão e a seguir aguardar que os autorizassem a sair, para cumprirem ou não aquilo que lhes fora aconselhado. Uma alocução papal raramente era um diálogo, mas desta vez havia uma sensação de urgência, e até de conflito, na assembleia.

O cardeal Leone ergueu da cadeira o corpanzil de leão, agitou a juba branca e dirigiu-se ao pontífice:

- Todos nós dedicámos as nossas vidas ao serviço de Vossa Santidade e da Igreja. Não cumpriríamos o nosso dever se não prestássemos os nossos conselhos quando pensássemos que tais conselhos eram necessários.

- Foi isso o que de vós pedi - respondeu Kiril, em tom suave.

- Por favor, falai com toda a liberdade.

Leone confirmou com um ar grave e depois prosseguiu com firmeza:

Ainda é cedo para medir os efeitos da eleição de Vossa Santidade sobre o mundo- em geral e especialmente sobre a igreja romana e italiana. Não pretendo ser desrespeitoso quando digo que até sabermos quais as reacções deverá existir prudência nas declarações e aparições públicas.

-Não levanto objecções-'disse Kiril, no mesmo tom suave-, mas vós também não deveis levantar objecções quando vos digo que quero que todos os homens ouçam a voz de Kiril, não- outra voz, com outro sotaque ou outros modos, mas sim a minha voz. Um pai não fala para o filho através da máscara de um actor. Fala de um modo simples, livre e do coração, e é o que me proponho fazer. O velho leão não recuou e prosseguiu, teimoso: - Há realidades que precisam de ser encaradas, Santidade. A voz mudará independentemente do que fizerdes. Sairá das bocas de um camponês mexicano, de um académico inglês e de um missionário alemão no Pacífico. Será interpretada por uma imprensa hostil ou por um teatral correspondente da televisão. O máximo que Vossa Santidade pode esperar é que a primeira voz seja a vossa e que o seu primeiro registo seja o autêntico'. - Permitiu-se um sorriso severo.

- Também nós somos as vossas vozes, Santidade, e mesmo nós poderemos achar difícil transmiti-la com perfeição. - Sentou-se, no meio de pequenos murmúrios de aprovação.

A seguir foi Pallenberg, o alemão delgado e frio, que se levantou e expôs o seu próprio problema:

- Vossa Santidade falou de mudanças;. O meu ponto de vista e o dos meus irmãos bispos é o de que certas mudanças deviam há muito ter sido feitas. Somos um país dividido'. Temos uma prosperidade   imensa e um futuro dúbio. Há uma tendência na população Católica    para se afastar da Igreja, porque as nossas mulheres têm de casar fora dela, uma vez que os homens foram dizimados pela guerra. Neste campo os nossos problemas constituem legiões. Só os podemos resolver ao nível humano, mas no entanto aqui, em Roma, são tratados por Monsenhores que nem sequer conseguem compreender a nossa língua, que trabalham apenas de acordo com os cânones e que não têm qualquer sentido da nossa história ou dos nossos problemas presentes.   Atrasam, temporizam, centralizam. Tratam as questões das almas como se fossem entradas num livro de contabilidade. O nosso fardo já é suficientemente grande, não podemos também carregar Roma sobre os nossos dorsos... em meu nome e dos meus irmãos, Appel Io ad P et rum! (Apelo a Pedro!)

Houve um audível ofegar, por causa de tanta rudeza e ousadia. Leone corou, zangado, e Rinaldi sorriu com o rosto escondido atrás de um lenço de seda.

Kiril, o papa, voltou a falar passados momentos. O seu tom era o suave como sempre fora até aí, mas desta vez notaram que servia do plural da realeza.

-Prometemos aos nossos irmãos alemães que daremos uma atenção imediata e total aos seus problemas especiais. Conferenciamos com eles em privado antes do seu regresso à pátria. Incitá-los-emos, contudo, a demonstrarem paciência e caridade para com os seus colegas em Roma, Deverão também recordar-se de que as coisas ficam por fazer por hábito e por tradição, e não por falta de boa vontade. - Parou por momentos, para que se apercebessem bem da repreensão. A seguir riu-se baixinho: - Tive os meus próprios problemas com uma outra burocracia. Mesmo os homens que me atormentaram não tinham falta de boa vontade. Queriam construir um mundo novo numa geração, mas a burocracia derrotou-os sempre. Vejamos se conseguimos arranjar mais padres e menos burocratas; menos funcionários e mais almas simples que compreendam os corações humanos.

Agora era a voz do francês, que não foi menos rude do que Pallenberg.

- Seja o que for que façamos em França, seja O que for que proponhamos, tudo chega a Roma ensombrado' pela história antiga. Cada um dos nossos projectos, desde os padres operários aos estudos para o desenvolvimento do dogma e para a criação de uma imprensa católica inteligente, é sempre saudado como' se se tratasse de uma nova rebelião transalpina, Neste clima não nos é possível trabalhar em liberdade e continuidade. Não' nos podemos sentir auxiliados pela fraternidade da Igreja se a nuvem da censura paira sobre tudo- o que planeamos ou propomos. - Virou-se, zangado, e lançou um desafio aos italianos: - Também aqui, em Roma, há heresias e esta é uma delas: que a unidade e a uniformidade são a mesma coisa e que a maneira de ver romana é a melhor para todos, desde Hong-Kong ao Peru. Vossa Santidade expressou o desejo de que a sua voz seja ouvida nos seus verdadeiros tons. Também nós desejamos ver a vossa voz ouvida sem distorções, pelo trono de Pedro, Devem ser feitas nomeações de homens que nos possam representar e ao clima em que vivemos com verdade e com compreensão.

- Tocais num problema - respondeu Kiril, com cautela - que também a nós nos preocupa. Nós próprios lidamos com a simplicidade de um assunto, mas devemos ter em consideração a complexidade das colorações e das associações históricas. - Levou a mão à barba e sorriu, - Compreendo que até isto é uma fonte de escândalo para alguns, apesar de tanto o nosso Mestre como os primeiros Apóstolos

serem todos homens barbudos. Odiaria ter de pensar que a rocha de Pedro se pudesse vir a quebrar por falta de uma navalha de barba. Quid vobis videtur? (Que tal vos parece?)

Naquele momento todos se riram e o amaram. As zangas entre eles acalmaram-se e levaram-nos a escutar de um modo mais humilde, enquanto os homens da América do Sul falaram dos seus problemas: populações empobrecidas, escassez de clérigos devidamente preparados, a histórica associação da Igreja com os ricos e os exploradores, falta de fundos, a força das ideias marxistas erguida como uma tocha para arregimentar os despojados.

Seguiram-se os homens do Leste, explicando como as fronteiras se fechavam uma a uma às ideias cristãs e como uma a uma eram destruídas as velhas fundações missionárias, enquanto a ideia do paraíso terrestre se apoderava das mentes de homens que dela necessitavam tão desesperadamente, porque tinham tão pouco tempo para gozá-la. Para homens que teriam de prestar contas ante o Todo-Poderoso, era uma brutal folha de falhanço. Quando finalmente tudo fora dito, fez-se um silêncio sobre a assembleia e aguardaram que Kiril, o pontífice, fizesse a súmula final.

Levantou-se do seu lugar e enfrentou-os - uma figura estranhamente jovem e solitária, como um Cristo de um críptico bizantino. -Existem aqueles que - disse-lhes com solenidade-crêem que atingimos a última época do mundo, porque o homem tem agora o poder de se eliminar a si próprio da face da Terra, e todos os dias aumenta o perigo de que o venha a fazer. Contudo nós, meus irmãos, não temos nem mais nem menos para oferecer pela salvação do mundo do que tínhamos no princípio. Pregamos Cristo e pregamo-Lo crucificado, o que para os Judeus é na verdade uma pedra no caminho e para os Gentios é uma loucura. Mas esta é a loucura da Fé, e se não nos entregarmos a ela, então entregamo-nos a uma ilusão. Portanto, que fazemos? A partir deste ponto, para onde vamos? Creio que existe um único caminho. Tomamos a verdade como uma lâmpada e partimos como os primeiros Apóstolos, para dar as boas novas a quem as quiser ouvir. Se a história se intrometer no nosso caminho, ignoramo-la. Se os sistemas nos inibirem, dispensamo-los. Se as dignidades nos pesarem, pomo-las de parte. Agora, tenho uma tarefa para todos vós! Para os que vão partir de Roma e para os que aqui permanecem é   sombra dos nossos triunfos e dos nossos pecados: procurai-me homens! Procurai-me homens bons que saibam o que é amar Deus e amar os Seus filhos. Procurai-me homens com fogo no coração e asas nos pés. Enviem-mos, que eu os enviarei para que levem amor aos sem amor e esperança aos que permanecem na escuridão... Ide agora, em nome de Deus!

Imediatamente após o Consistório, Potocki, o cardeal da Polónia, Apresentou um pedido para uma audiência com o papa, urgente e privada. Para sua surpresa, responderam-lhe uma hora depois, com um convite para jantar. Quando chegou aos alojamentos papais, encontrou o novo pontífice sozinho, sentado num cadeirão, lendo um pequeno volume encadernado a couro muito gasto. Quando sie ajoelhou em sinal de obediência, Kiril estendeu um braço e, com um sorriso, fê-lo levantar-se.

- Esta noite seremos como irmãos. A cozinha é má, mas ainda não tive tempo para reformar as cozinhas papais. Espero que a tua companhia me dê um jantar mais agradável do que o normal. - Apontou para as páginas amareladas do livro e riu-se: - Ó nosso amigo Rinaldi tem um certo sentido de humor. Deu-me um presente, para celebrar a minha eleição. Um relato do reinado do holandês, Adriano VI. Sabes o que chamaram aos cardeais que o elegeram? «Traidores do sangue de Cristo, que entregaram o Vaticano às fúrias estrangeiras e lançaram a Igreja e a Itália na escravidão, -sob os bárbaros.» Pergunto o que estarão a dizer a teu respeito e meu, neste momento? Fechou o livro com um estalo e voltou a descontrair-se no cadeirão.

- É apenas o princípio, mas vou tão mal e sinto-me tão só... Em que te posso ser útil, meu amigo?

Potocki sentiu-se tocado pelo encanto do seu novo mestre, mas o hábito da cautela era mais forte e contentou-se com a formalidade.

- Entregaram-me uma carta esta manhã, Santidade. Disseram-me que vem de Moscovo. Pediram-me que a depusesse directamente nas vossas mãos. - Puxou por um volumoso sobrescrito selado com cera cinzenta e entregou-o a Kiril, que o segurou por momentos e depois o pousou sobre a mesa.

- Lê-la-ei mais tarde, e se também te disser respeito, mandar-te-ei chamar. Agora, diz-me... - Inclinou-se para a frente no cadeirão, pedindo sinceridade para uma confidência. - Não falaste no Consistório, hoje, mas no entanto tens tantos problemas como os outros. Quero ouvi-los.

As linhas do rosto de Potocki endureceram e os olhos turvaram-se-lhe.

- Primeiro, tenho um medo muito pessoal, Santidade.

- Partilha-o comigo - disse Kiril, com doçura. - Tenho tantos meus, que talvez me passe a sentir melhor.

- A história lança armadilhas a todos nós - declarou o polaco num tom grave. - Vossa Santidade sabe-o. A história da igreja rutena na Polónia é amarga. Nem sempre actuámos como irmãos na Fé, mas sim como inimigos uns dos outros. O tempo das dissensões passou,

se Vossa Santidade se lembrasse dele com demasiada severidade, poderia ser mau para todos nós. Nós, Polacos, somos latinos por temperamento e por lealdade. Tempos houve em que a igreja polaca se entregou à perseguição dos seus irmãos do rito ruteno. Então éramos ambos jovens, mas é possível - e ambos o sabemos - que muitos dos que já morreram pudessem agora estar vivos, se tivéssemos mantido a unidade do Espírito nos laços da Fé. - Hesitou, e depois avançou, de modo atabalhoado, para a pergunta seguinte. - Não pretendo dar mostras de desrespeito, Santidade, mas devo-lhe perguntar com lealdade o que outros lhe perguntarão com falsas intenções: que sente Vossa Santidade a nosso respeito, na Polónia? Como encara o que tentamos fazer?

Houve uma longa pausa. Kiril, o pontífice, olhou para baixo para as mãos contorcidas. a seguir, num movimento abrupto, levantou-se do cadeirão e pousou as mãos nos ombros do seu irmão bispo, dizendo baixinho:

- Estivemos ambos na prisão, tu e eu. Ambos sabemos que quando tentaram quebrar-nos não o fizeram por intermédio do amor que tínhamos, mas sim servindo-se dos ressentimentos enterrados bem no fundo do nosso íntimo. Quando te sentaste na escuridão, tremendo e aguardando a nova sessão com as luzes, a dor e as perguntas, o que te tentou mais?

- Roma - declarou Potocki, com rudeza -, onde sabiam tanto e se incomodavam tão pouco.

Kiril, o pontífice, sorriu e acenou com gravidade.

- A mim, foi a memória do grande Andrew Szepticky, metropolita da Galícia. Amava-o como a um pai. Odiei, com amargura, o que lhe tinham feito. Recordei-me dele antes da sua morte, os restos de um homem, paralisado, torcendo-se com dores, vendo a destruição de tudo o que construíra, as casas de educação, os seminários, a velha cultura que tanto procurara preservar. Senti-me oprimido pela futilidade daquilo tudo e interroguei-me sobre se valeria a pena desperdiçar tantas vidas, tantos espíritos nobres, para tentar de novo.

Esses eram os dias maus e as ainda piores noites.

Potocki corou até às raízes dos poucos cabelos.

- Sente-se envergonhado, Santidade. Não devia ter duvidado.

Kiríl encolheu os ombros e esboçou um sorriso tímido: - por que não? Somos todos humanos. Caminhas numa corda bamba na Polónia, eu caminho noutra em Roma. Qualquer de nós pode escorregar e precisaremos de uma rede para nos apanhar.

Peço-te que creias que, se por vezes me falta a compreensão, nunca me falta o amor.

     -O que fazemos em Varsóvia - disse Potocki - nem sempre é bem compreendido em Roma.

   - Se precisares de um intérprete, envia-me um - respondeu Kiril, num tom vivo.-Prometo ouvi-lo sempre que necessário.

- Haverá tantos, Santidade, e falarão em tantas línguas. Como poderá atendê-los a todos?

- Eu sei. - A frágil estrutura de Kiril pareceu encolher-se mais, como sob o peso de um fardo. - Estranho. Professamos e ensinamos que o pontífice está impedido de cometer erros fundamentais por intervenção do Espírito Santo. Rezo, mas não ouço trovões na montanha. Encontro-me entre o homem e Deus, mas escuto apenas o homem e a voz do meu coração. Os meus olhos não avistam esplendores nos montes.

Pela primeira vez, o rosto duro do polaco descontraiu-se um pouco. Abriu as mãos num gesto de rendição voluntária.

- Escute, Santidade. Cor ad cor loquitur. O coração fala ao coração e pode muito bem acontecer que seja esse o diálogo de Deus com os homens.

- Vamos jantar - disse Kiril, o pontífice -, e perdoa às minhas freiras o terem a mão pesada para os molhos. São criaturas dignas de estima, mas preciso de lhes arranjar um bom livro de cozinha.

Não comeram melhor do que havia sido prometido, e beberam um leve vinho novo das colinas de Alban, mas falaram com maior liberdade. Surgiu entre eles uma calorosa compreensão e quando chegaram à fruta e ao queijo, Kiril, o pontífice, abriu o coração sobre um outro assunto:

- Dentro de dois dias serei coroado. É talvez coisa de pouco significado, mas estou preocupado com   tantas cerimónias.   O Mestre chegou a Jerusalém montado num burro. Serei transportado aos ombros de nobres, entre os leques emplumados de um imperador romano. Por todo o lado-, no mundo, há homens descalços e de barrigas vazias. Serei coroado com ouro e o meu triunfo será iluminado por um milhão de luzes.. Envergonha-me que o sucessor do Carpinteiro seja tratado como um rei. Gostaria de modificar este estado de coisas.

Potocki lançou-lhe um sorriso ligeiro e abanou a cabeça: -Não permitirão que o façais, Santidade.

- Bem sei. - Os dedos de Kiril brincaram com as migalhas que tinha no prato. - Também pertenço aos romanos, que não dispensam

o seu feriado. Não posso caminhar a pé ao longo da nave de São Pedro porque não me conseguiriam ver, e mesmo que os visitantes não venham para rezar, vêm para ver o pontífice. Sou um príncipe por tratado, não se esquecem de mo dizer, e um príncipe tem de usar uma coroa.

Usai-a, Santidade - declarou Potocki, com um humor severo. Usai-a por um dia e não vos preocupeis. Muito em breve vos coroarão com espinhos.

A uma hora de distância na sua vila nas colinas de Alban, o cardeal Valerio Rinaldi oferecia o seu próprio jantar. Os hóspedes constituíam um grupo estranho e poderoso, mas lidava com eles com a maestria de um homem que acabara de provar ser um fazedor de reis.

Lá estava Leone e Semmering, o geral dos Jesuítas, a quem o vulgo denominava de «o Papa Negro». Lá estava Goldoni, da Secretaria de Estado, e Benedeftí, o príncipe das finanças do Vaticano, e Orlando Campeggio, o indivíduo moreno e astuto que era o editor do Osservatore Romano. Na ponta da mesa, como que numa concessão aos místicos, sentava-se Rahamani, o sírio, agradável, complacente e sempre inesperado. A   refeição era servida num terraço com vista para um jardim clássico, outrora sítio de um templo oficioso, e para lá dele para as quintas e para o distante clarão de Roma. O ar estava agradável, a noite cheia de estrelas, e os diligentes criados de Rinaldi tinham conseguido criar um ambiente de conforto entre eles. Campeggio, o laico, fumava o seu charuto e falava livremente, um príncipe entre os príncipes:

-Primeiro, parece-me que temos de apresentar o pontífice sob a mais favorável das luzes. Tenho pensado muito nisto e já todos lemos o que conseguimos pôr na imprensa. O tema, até ao momento, tem sido o de «na prisão pela Fé.» A reacção até agora foi boa - uma onda de simpatia, uma expressão de viva afeição e lealdade. Claro que estamos apenas no princípio e não resolvemos todos os nossos problemas. O nosso pensamento seguinte era o de apresentar «um papa do povo». Neste aspecto podemos vir a precisar de alguma assistência, em particular sob o ponto de vista italiano. Felizmente, o homem fala um bom italiano e portanto pode comunicar sozinho nas funções públicas e nos contactos com a populaça... Aqui necessitaremos tanto da direcção como da assistência da Cúria...

Era um homem hábil, que se interrompeu naquele ponto, deixando a proposta para os clérigos.

Foi Leone que lhe pegou, agarrando-a com os seus modos teimosos enquanto descascava uma maçã e a cortava com uma faca de prata.

- Nada é tão simples como parece. Temos de o apresentar, sim, também temos de o editar e de o comentar. Sabem o que se passa hoje no Consistório. - Apontou a lâmina da faca para Rinaldi e Kahamani. - Se imprimirmos o que ele disse sem acrescentarmos qualquer espécie de explicação, soará como se estivesse pronto para deitar pela janela dois mil anos de tradições. Compreendi o que fez pela índia. Todos o fizemos, mas também compreendi de que'temos de o proteger.

- De quê? - perguntou Semmering, o reservado e louro jesuíta, inclinando-se para a frente.

- Mostrou-nos o seu próprio calcanhar de Aquiles - disse Leone, com firmeza. - Disse que era um homem fora do seu tempo. Necessitará, creio, que o recordemos constantemente como é o nosso tempo e quais os instrumentos de trabalho de que dispomos.

- Achas que não tem consciência deles? - perguntou outra vez o jesuíta.

Leone franziu a testa.

- Não tenho a certeza, ainda não o entendo muito bem. Tudo o que sei é que nos pede algo de novo ainda antes de ter tido tempo para examinar o que é antigo e permanente na Igreja.

- Se bem me lembro - interveio o sírio com delicadeza -,pediu-nos que lhe arranjássemos homens. Isto nada tem de novo. Os homens são os fundamentos de todos os trabalhos apostólicos. Como foi que o disse? «Homens com fogo nos corações e asas nos pés.»

- Temos quarenta mil homens - disse o jesuíta, com secura - e todos ligados a ele por votos solenes. Estamos, todos nós, prontos para a sua chamada.

- Nem todos-'afirmou Rimaldi, com rancor - e devemos ser suficientemente honestos para o confessar. Movemo-nos de um modo familiar onde ele se sentirá estranho e desejeitado durante algum tempo, na sede da Igreja. Aceitamos a inércia e a ambição, e a burocracia, porque estamos habituados a ela e em parte porque ajudámos a construí-la. Sabem o que me disse ontem? - Fez uma pausa como um actor, aguardando que a atenção dos outros se focasse nele. - Disse: «Celebrei missa uma vez em dezassete anos. Vivi onde centenas de milhões morreram sem terem visto um padre ou escutado a palavra de Deus, no entanto vejo aqui centenas de sacerdotes carimbando documentos e marcando o ponto nos relógios como vulgares funcionários...» Compreendo o seu ponto de vista.

- Mas que espera ele de nós? - perguntou Benedetti, num tom ácido. - Que façamos funcionar o Vaticano com máquinas da IBM e mandemos todos os padres para as missões no campo?" Nenhum homem pode ser tão ingénuo como isso!

-Não creio que seja um ingénuo - continuou Leone. - Longe disso. No entanto penso que pode vir a pôr de lado com demasiada

pressa o significado de Roma para a Igreja; para a ordem e disciplina e como guia da Fé.

Goldoni, o homem corpulento e de cabelos cinzentos da Secretaria de Estado, entrou pela primeira vez na discussão. A sua áspera voz romana estava como raminhos ao vento' quando deu a sua própria versão sobre o novo pontífice:

- Já foi visitar-me várias vezes. Não- me convoca, aparece calmamente e faz-nos perguntas, a mim e ao meu pessoal. Tenho a impressão de que compreende muito bem a política, em especial a política marxista, mas que está pouco interessado em pormenores e personalidades. Há uma palavra que utiliza muitas vezes, pressão. Pergunta onde começam as pressões em cada país e como actuam sobre o povo e naqueles que o governam. Quando lhe pedi para se explicar, disse-me que a Fé havia sido implantada no homem por Deus, mas que a Igreja tinha de ser construída com os recursos humanos e materiais de cada país e que para sobreviver necessita de resistir às pressões sofridas pelas massas do povo. Disse também mais Qualquer coisa: que nos centralizámos demasiado e que levamos muito tempo a preparar aqueles que podem manter a universalidade da Igreja na autonomia de uma cultura nacional. Falou de vácuos criados por Romã, vácuos nas classes e nos países, e nos clérigos locais. Não sei até que ponto as suas políticas podem ser esclarecidas, mas não está cego para os defeitos das que já existem. A nossa vassoura! - disse Benedetti, acerbo. - Quer varrer todos os quartos ao mesmo tempo! E também consegue ler uma folha de balanço! Levanta objecções a termos tantos valores em crédito, enquanto existe tanta pobreza no Uruguai ou entre os curdus. Pergunto a mim mesmo se compreenderá que há quarenta anos atrás o Vaticano esteve perto da bancarrota e que Gasparri teve de pedir emprestadas dez mil libras esterlinas para financiar a eleição papal. Agora pelo menos podemos pagar o que é necessário, e avançar com alguma força, para o bem da Igreja.

- Quando nos falou - interveio Rahamani, mais uma vez - não o ouvi falar em dinheiro. Fez-me recordar de como os primeiros Apóstolos foram enviados sem directivas, sem bastões nem dinheiro para o caminho. Segundo ouvi dizer, foi assim que Kiril veio da Sibéria até Roma.

- É possível -disse Benedetti, irritado. - Mas já alguma vez olharam para as despesas de viagem de um par de missionários, ou calcularam quanto custa preparar um professor' de seminário?

Leone atirou para trás a sua juba branca, num gesto abrupto, e soltou uma gargalhada tão forte que as aves nocturnas se agitaram nos ciprestes e os ocos rolaram pelo vale iluminado pelas estrelas.

- Aí está! Elegemo-lo em nome de Deus e agora temos medo dele. Não nos ameaçou, não alterou qualquer nomeação, pediu-nos apenas o que afirmamos oferecer. No entanto aqui estamos analisando-o, como conspiradores e preparando-nos para o combater. Mas que nos fez ele?

- Talvez nos tenha compreendido melhor do que desejaríamos disse Semmering, o jesuíta.

- Talvez - respondeu Valerio Rinaldi -, talvez confie em nós mais do que merecemos...

 

EXTRACTO DAS MEMÓRIAS SECRETAS DE KIRIL I, PONT. MAX.

... É tarde e a Lua vai bem alta. A Praça de São Pedro está vazia, mas o vento nocturno continua a trazer-me o rumor da cidade: passos que soam a oco nas pedras, o ranger dos pneus dos carros, o silvo de um apito, farrapos de uma canção distante e o lento clipe-clope de um cavalo cansado. Esta noite estou com insónias e ressinto-me da solidão. Quero caminhar através do Portão Angélico e procurar o meu povo, nos sítios onde passeiam ou se sentam juntos, nas ruazinhas de Trastevero ou amontoados em pequenos quartos, com os seus medos e amores. Preciso deles, muito mais do que eles precisam de mim.

Um dia tenho de o fazer. Devo libertar-me das peias com que o protocolo e as precauções me prendem e enfrentar esta minha cidade para que a possa ver e ela me possa ver tal como na verdade somos... Lembro-me das histórias da minha infância, como o califa Haroun se disfarçava e saía com o seu vizinho à noite, para sondar os corações da sua gente. Lembro-me como Jesus, o Mestre, se sentava para comer com cobradores de impostos e mulheres públicas, e interrogo-me como os seus sucessores se mostraram tão ansiosos por assumir o castigo dos príncipes, que é o de governar de um quarto secreto e só se mostrarem, como semideuses, por ocasião das festividades públicas... Tive um dia muito comprido-, mas aprendi qualquer coisa acerca de mim mesmo e também dos outros. Creio que cometi um erro no Consistório. Quando os homens são velhos e poderosos, precisam de ser seduzidos pela razão e pelo cálculo’, porque a seiva do coração seca com a idade...

Quando se está numa posição de poder, não- nos devemos mostrar publicamente humildes, porque o governante deve ”tranquilizar os outros com a sua força e com uma amostra de decisão. Se alguém desvenda o coração, deve fazê-lo em privado, para que o homem que o vir acredite que acabaram de lhe fazer uma confidência...

Estou a escrever como um cínico e tenho vergonha. Porquê? Talvez porque me senti enfrentado por homens fortes, decididos a vergarem-me às suas opiniões...

Leone, entre todos, foi o que mais me irritou. Esperara encontrar nele um aliado e afinal encontrei um crítico. Sinto-me tentado em nomeá-lo para outra função e retirar-lhe a posição- de influência que detém agora. No entanto, creio que isto seria um erro, e o princípio de outros ainda maiores. Se me rodear de homens submissos e fracos, privaria a Igreja de pobres servidores e no fim ficaria sem conselheiros. Leone é uma personagem formidável e creio que acabaremos por nos virar um contra o outro em muitos assuntos. Porém, não o vejo como um intriguista, Gostaria de o ter como amigo porque sou um homem que necessita de amizades, mas no entanto não creio que se renda até esse ponto...

Gostava de manter o Rinaldi junto de mim, mas penso que devo consentir na sua resignação. Não é, julgo um homem profundo, mas é subtil e capaz. Creio que entrou em conflito com Deus já muito tarde na sua vida e que necessita de liberdade para pôr em dia as contas da alma. Esta é fundamentalmente a razão por que estou aqui, para mostrar aos homens a escadaria que conduz à união com Deus. Se alguém tropeçar por minha causa, sou eu que terei de responder por ele...

Tenho a carta de Kamenev aberta na minha frente, e ao> lado dela o seu presente para a minha coroação... alguns grãos de solo russo e um pacote de sementes de girassol.

«Não sei», escreve, «se as sementes germinarão em Roma, mas talvez floresçam para o Verão se lhes misturares um pouco da terra russa. Recordo-me de te ter perguntado, durante um interrogatório’, de que sentias mais a falta. Sorriste e disseste que das flores de girassol da Ucrânia. Odiei-te nesse momento, porque também eu tinha saudades delas e por estarmos ambos exilados nas terras geladas. Agora continuas a ser um exilado, enquanto’ eu sou o primeiro homem da Rússia.

»Lamentas-nos? Interrogo-me quanto a isso. Gostaria de pensar que sim, porque te lamento’. Podíamos ter feito grandes coisas juntos, tu e eu, mas tu estavas ligado a esse louco1 sonho da vida além-túmulo, enquanto eu acreditava, e continuo a acreditar, que o melhor que o homem pode fazer é tornar frutuosa a terra estéril e sábios os homens ignorantes e ver os filhos de pais franzinos crescerem altos e direitos por entre os girassóis.

»Suponho que seria cortês congratular-te pela tua eleição. Aceita os meus cumprimentos, por aquilo que valem. Tenho grande curiosidade em saber o que essa função fará de ti. Deixei-te partir porque não conseguia modificar-te, nem forçar-me a degradar-te mais. Ficaria envergonhado se te deixasses corromper pela eminência.

»Podemos ainda vir a precisar um do outro, tu e eu. Não viste nem metade, mas digo-te, com toda a verdade, que levámos este país a uma prosperidade que ele não conheceu em todos os seus séculos de existência. Estamos rodeados de espadas. Os Americanos têm medo de nós; os Chineses invejam-nos e querem fazer-nos recuar cinquenta anos. Temos fanáticos dentro das nossas fronteiras que não estão satisfeitos com o pão, paz e trabalho para todos, mas querem transformar-nos em místicos barbudos como os do Dostoievski. »Para ti, talvez eu seja um Anticristo. Aquilo em que creio, tu rejeitas, mas de momento sou a Rússia e sou o guardião deste povo. Tens armas nas tuas mãos e sei, apesar de não ousar admiti-lo em público, quão poderosas são. Resta-me, ter a esperança de que não as virarás contra a tua pátria nem as empenharás numa aliança a Leste ou a Ocidente.

«Quando as sementes começarem a crescer, recorda-te da Mãe Rússia e recorda-te que me deves a vida. Quando chegar o momento de reclamar o pagamento, enviar-te-ei um homem que te falará de girassóis. Acredita no que ele disser, mas não trates com outros, agora ou mais tarde. Contrariamente ao que se passa contigo, não tenho o Espírito Santo para me proteger e continuo a precisar de ter cuidado com os amigos. Desejaria poder dizer seres um deles. Saudações. Kamenev.

... Li esta carta uma dúzia de vezes e não consigo concluir se a mesma me coloca à beira de uma revelação ou de um precipício. Conheço Kamenev tão intimamente como ele me conhece, no entanto não atingi o mais profundo da sua alma. Sei qual a ambição que o impele, o desejo fanático de extrair algum bem da vida, para compensar a degradação que infligiu a si próprio e a outros durante tantos anos...

Vi camponesas pegarem numa mão-cheia de terra de uma nova courela e provarem-na para saberem se era doce ou amarga. Imagino Kameneve a fazer o mesmo com o solo da Rússia.

Sei como os fantasmas da história o ameaçam e ao seu povo, porque compreendo como me ameaçaram a mim. Não o vejo como o Anticristo, nem sequer como um arqui-herético. Compreendeu e aceitou o dogma marxista como sendo o mais rápido e aguçado instrumento para desencadear uma revolução social. Creio que o deitaria fora no momento em que o visse falhar as suas finalidades. Penso, apesar de não poder ter a certeza, que está a pedir a minha ajuda para preservar o que já conseguiu de bom para o povo e para lhe dar a oportunidade de crescer pacificamente em direcção a outras mutações.

Creio que depois de ter conseguido subir tão alto começou a respirar um ar mais livre e a desejar a mesma boa sorte para o povo que aprendeu a amar. Se isto é verdade, então devo ajudá-lo...

No entanto, há acontecimentos que o desmentem a todo o momento. Há invasões e pilhagens em todas as fronteiras, sob a bandeira da foice e da estrela. Continua a haver homens que são espancados e obrigados a morrer à fome, mantidos longe do comércio livre dos pensamentos e dos canais da graça.

A grande heresia do paraíso terrestre continua a rastejar pela terra como um cancro, e Kamenev ainda usa as vestes do seu mais alto sacerdote. Comprometi-me a lutar contra isso, e já lhe resisti com o meu próprio sangue...

No entanto, não posso ignorar as estranhas obras de Deus nas almas dos homens mais improváveis, e creio que vejo a sua obra na alma de Kamenev... Vejo, mas apenas de um modo indistinto, como os nossos destinos podem estar ligados nos desígnios divinos... O que não vejo é como comportar-me na situação que existe entre nós...

(Pede a minha amizade e dar-lhe-ia o meu coração com toda a satisfação. Pede, penso, uma espécie de tréguas, mas no entanto não posso firmar tréguas com o erro, apesar de poder atribuir os mais nobres motivos àqueles que o propagam. Não ouso no entanto colocar em risco a Igreja e os fiéis por causa de uma ilusão, porque sei que Kamenev ainda me pode trair, tal como eu me posso atraiçoar a mim próprio e à Igreja.

Que fazer?

Talvez a resposta esteja nos girassóis• a semente deve morrer antes de saírem os rebentos verdes, a flor deve crescer enquanto os homens passam por ela, inconscientes de que ocorre um milagre mesmo debaixo dos seus narizes.

Talvez isto seja o que se quer dizer com «aguardando a misericórdia de Deus». Mas não podemos apenas ficar à espera, porque a natureza com que Ele nos dotou nos empurra para a acção. Temos também de rezar, na escuridão e na aridez, sob um céu cego...

Amanhã rezarei missa por Kamenev, e esta noite devo rezar por Kiril, o pontífice, cujo coração continua inquieto e cuja alma vagabunda continua a ansiar pela sua pátria, para que seja abençoado pela luz...

 

Para George Faiber, a coroação de Kiril I era um longo e? complicado aborrecimento. As ovações ensurdeciam-no, as luzes provocavam-lhe dores de cabeça, as sonoridade-» do- coro deprimiam-lhe o espírito e a pomposa procissão’ de prelados, sacerdote, monges, camareiros e soldados de ’brinquedo era uma cavalgada operística que lhe provocava ferroadas de ressentimento e não o entretinha. As exalações de oitenta mil corpos, amontoados como sardinhas em todos os cantos da basílica, faziam-no sentir-se enfraquecido e nauseado.

O seu texto já estava escrito e pronto para a transmissão: três mil brilhantes palavras sobre a ostentação, o simbolismo e o esplendor religioso daquele festivo dia romano. Já antes vira tudo aquilo e não havia razão nenhuma para repetir o tédio, excepto talvez a presunção por se encontrar sentado no lugar da tribuna da imprensa, resplandecendo numa sobrecasaca nova, com a fitinha da última condecoração italiana a brilhar-lhe no peito.

Estava agora a pagar por esse prazer. Tinha as nádegas bem entaladas entre as largas ancas de um alemão e as coxas angulosas de Campeggio, e não se poderia escapar pelo menos nas próximas duas heras até que a distinta congregação saísse para a praça para receber as bênçãos do papa recém Kroroado, ao lado dos humildes cidadãos e turistas de Roma.

Exasperado, ergueu-se para frente no assento e tentou procurar um pouco de consolação no que aquele Kiril podia significar para ele e para a Chiara, Até ali a Cúria tinha-o mantido bem guardado. As aparições públicas haviam sido muito poucas e não fizera quaisquer declarações. Mas à boca fechada corria já o rumor de que se tratava de um inovador, de um homem suficientemente jovem e estranho para ter ideias próprias, além do vigor para as pôr em acção. Corriam boatos de uma dura troca de palavras durante o- Consistório, e mais de um funcionário do Vaticano falava em mudanças, não apenas no pessoal, mas também em -toda a organização central.

Se surgissem mudanças, algumas poderiam afectar a Santa Rota Romana, onde o pedido- de anulação do casamento de Chiara jazia numa qualquer gaveta havia quase dois anos. Os Italianos tinham um gracejo ácido para se referirem às actividades da augusta corporação: «Nan c’e divorzio in Italia... Não há divórcio em Itália - e só os católicos o podem conseguir!» Tal como a maior parte dos gracejos italianos, este lançava mais de uma farpa. Nem a Igreja nem o Estado admitiam a possibilidade do divórcio, mas ambos encaravam com aparente equanimidade o concubinato em larga escala entre os ricos e um crescente número de uniões irregulares entre os pobres.

A Rota era, por constituição, um corpo’ clerical, mas muitos dos seus assuntos encontravam-se na mão de advogados laicos, especialistas em lei canónica, e que formavam, para benefício mútuo, um corpo tão rígido e exclusivo como nenhum outro- no mundo, para que os processos de causas maritais se fossem amontoando, independentemente das tragédias humanas que quase todos implicavam.

Em teoria, a Rota devia decidir com imparcialidade, tanto para os que podiam pagar como para os que não podiam. Na prática, os peticionários pagantes, ou os peticionários com influência em Roma ou com amigos em Roma, podiam contar com decisões muito mais rápidas do que os seus mais pobres irmãos de Fé. A lei era a mesma para todos, mas as decisões eram mais rápidas para aqueles que podiam contratar os serviços dos melhores advogados.

A moral daquele gracejo salientava ainda um outro ponto. O decreto de nulidade era muito mais fácil de obter se os dois cônjuges estavam de acordo logo na primeira petiçãoi. Se tinha de ser provado que no contrato houvera erro, ou conditio, ou crime, era mais fácil consegui-lo a duas vozes. Mas se apenas um dos cônjuges fizesse a petição e o outro- apresentasse provas contraditórias, o caso estava condenado a lentos progressos e a um muito provável falhanço.

Em tais casos, a Rota fazia uma clara, mas pouco satisfatória distinção: a de que no foro privado das consciências- e portanto de facto- o contrato podia ser nulo ou destituído de valor, mas até que pudesse ser provado no foro público, com provas documentadas, as duas partes deviam’ ser consideradas como casadas mesmo que não vivessem juntas. Se a parte gravosa obtinha um divórcio- e se casava fora do país, ele ou ela, seria excomungado pela Igreja e processado por bigamia por parte do Estado.

Na prática, portanto, a concubinagem era na Itália a situação mais fácil, porque era mais confortável estar amaldiçoado dentro da Igreja do que fora dela e porque todos se sentiam muito mais felizes amando em pecado do que cumprindo uma pena de prisão na Regina Coeli.

O que era precisamente a situação de George Faber e Chiara Calitri.

Enquanto observava o novo pontífice a envergar os paramentos em frente ao altar-mor, com a ajuda dos seus assistentes, Faber interrogava-se com alguma amargura sobre o que ele sabia ou poderia vir a saber das tragédias íntimas dos seus; súbditos, ou dos fardos lançados nos seus ombros pelas crenças e lealdades. Perguntava também a si mesmo se não teria chegado a altura de se libertar de todas as cautelas de uma vida e quebrar uma lança - ou a cabeça - a favor do mais contencioso caso de Roma, a reforma da Santa Rota Romana. Não era um homem brilhante e muito menos um corajoso. Tinha uma boa capacidade para observar as coisas de perto e para as reportagens corteses e uma maneira ligeiramente teatral de se insinuar junto das pessoas de boas famílias. Em Roma tais dotes eram um valioso talento para um correspondente. Agora, contudo, com a mudança de idade a pairar no horizonte e anos de solidão à visitá-lo não era suficiente. George Faber estava apaixonado e, como era um nórdico puritano e não um latino, queria à viva força casar-se.

Também a Igreja o queria casado, preocupada com a salvação da sua alma, mas preferia vê-lo amaldiçoado por defeito ou rebelião do que parecer pôr em causa os laços sacramentais que considerava, por revelação divina, como indissolúveis.

Portanto, quer gostasse quer não, o seu destino e o de Chiara encontravam-se nas rígidas mãos dos canonistas e nas suaves e efeminadas mãos de Corrado Calitri, ministro da República. A não ser que Calitri as abrisse um pouco -e não dava mostras de o querer fazer, poderiam ficar suspensos no limbo dos que se encontram à margem da lei até ao Juízo Final.

No outro lado da nave, no recinto reservado para os dignatários da República Italiana, Faber avistava a delgada e patrícia figura do seu inimigo, com o peito resplandecente de condecorações e o rosto pálido como uma máscara de mármore.

Cinco anos atrás fora um espectacular jovem deputado com o dinheiro de Milão por detrás e uma carreira governamental já prometida. As suas únicas desvantagens eram o estado de celibatário e um certo gosto por alegres rapazinhos e por estetas de passagem. O casamento com uma herdeira romana acabada de sair de uma escola conventual colocara-lhe o lugar de ministro no bolso e levara os a mexeriqueiros romanos a rirem-se às escondidas por detrás das mãos. Dezoito meses mais tarde, Chiara, a mulher, encontrava-se num hospital com uma depressão nervosa. Quando recuperava, a separação era um facto consumado. O passo seguinte fora um pedido- de declaração de nulidade do casamento junto da Santa Rota Romana, e a partir desse momento’ começara o aborrecido diálogo da tragicomédia: «A requerente, Chiara Calitri, alega em primeiro lugar falsas intenções», assim afirmaram os advogados a seu favor, «pelo facto de o marido aceitar os laços do matrimónio sem a total intenção de cumprir todos os termos do contrato, no que respeita à coabitação, procriação e normais relações sexuais.»

«Tinha todas as intenções de cumprir os termos do contrato...» fora a resposta de Corrado Calitri, «mas à minha esposa faltava tanto a vontade como a experiência para colaborar comigo no seu cumprimento. O estado de casados implica apoio mútuo. Não obtive nem apoio nem assistência moral por parte da minha esposa.»

«A requerente alega também que era condição do contrato’ que o marido fosse um homem de hábitos sexuais normais.»

«Ela sabia o que eu era», respondera Corrado Calitri. «Não fiz qualquer tentativa para esconder o meu passado. Grande parte dele era do conhecimento comum. Casou comigo apesar de o conhecer.»

«Belo!», tinham exclamado os auditores da Rota. «Qualquer dos apelos seria suficiente para uma declaração de nulidade, mas uma simples declaração não é prova. Como é que a requerente se propõe provar as suas razões? Terá o esposo expressado as suas falsas intenções, para ela ou para outro? As condições tinham sido tornadas explicitais antes do contrato? Em que ocasião? Sob a forma verbal ou escrita? Quem pode confirmar essas condições?»

Assim e inevitavelmente, as rodas da justiça canónica detiveram-se, enquanto os advogados avisavam Chiara discretamente de que era melhor suspender o caso enquanto se procuravam novas provas, em vez de o forçar a uma conclusão desfavorável. Os homens da Rota mantinham-se firmes, apoiados nos princípios dogmáticos e nos textos da lei; Corrado Calitri estava bem casado e alegremente livre, enquanto ela própria caía, como um rato, na armadilha que ele lhe montara. Toda a cidade previra o próximo passo ainda antes de ela o dar. Tinha vinte e seis anos de idade, e seis meses depois ela e George Faber eram amantes. Roma, às sua maneira clínica, sorrira ante aquela união e virara-se para escândalos mais interessantes e divertidos, da Cinecittà .

Mas George Faber não era um amante satisfeito. Sentia uma comichão na consciência e odiava o homem que o obrigava a coçá-la todos os dias...

De súbito, sentiu-se tonto. O suor começou a escorrer-lhe pelo rosto enquanto o papa subia os degraus do altar, apoiado pelos seus auxiliares.

Campeggio lançou um olhar astuto para o seu contrafeito colega e depois inclinou-se para a frente e bateu-lhe no ombro.

- Também não gosto do Calitri - declarou -, mas nunca conseguirás ganhar se continuares nesse caminho.

Faber endireitou-se de repente e mirou-o com olhos hostis.

-Que diabo queres dizer com isso?

Campeggio encolheu os ombros e sorriu.

- Não te zangues, meu amigo... é um segredo de todos conhecido. E mesmo que não o fosse... está estampado na tua cara... Claro que o odeias e não te censuro por isso... mas há muitas maneiras de caçar ratos...

- Gostaria de as escutar - disse Faber, irritado.

-Convida-me para almoçar um dia destes, que eu digo-tas.

De momento Faber tinha de se satisfazer com aquilo, mas a esperança zuinbia-lhe na cabeça como um moscardo, enquanto Kiril, o pontífice, cantava a missa da coroação e as vozes do coro ressoavam no domo da basílica, Rudolf Semmering, geral da Companhia de Jesus, mantinha-se no seu lugar na nave, rígido como uma sentinela, entregue a uma meditação sobre a ocasião e o seu significado. Uma vida inteira de disciplina nos exercícios de Santo Inácio dera-lhe a possibilidade de se projectar para fora de si mesmo, em termos de tempo e de espaço, para se lançar na solidão da contemplação. Não ouvia a música nem os murmúrios da multidão, ou o sonoro latim da cerimónia. Subjugara os sentidos, que se mantinham fechados contra todas as intrusões, Rodeava-o uma vasta tranquilidade, enquanto as faculdades do espírito se concentravam na essência do momento: as relações entre o Criador e as Suas criaturas, afirmadas e renovadas pela entronização do Seu vigário.

Ali, em símbolo, cerimónia e acto sacrificial, manifestava-se a natureza do Corpo Místico; Cristo, a Divindade Homem, como Senhor Supremo, com o pontífice como Seu vigário, vivificando todo o corpo com a Sua presença permanente e por intermédio da presença do Paracleto. Ali estava toda a ordem física que Cristo< estabelecera como símbolo visível e como instrumento visível da sua obra junto da humanidade-a Ecclesia, a hierarquia de papas, bispos, sacerdotes e pessoas comuns, unidades numa só fé, com um único sacrifício e um único sistema sacramental. Ali estava resumida toda a missão da redenção, o regresso do homem para junto do seu Criador, por intermédio da graça e da pregação do Novo Testamento.

Ali estava também a escuridão de um monstruoso mistério: porque é que um Deus omnipotente fizera instrumentos humanos capazes de rejeitar os divinos desígnios, de os desfigurar ou de lhes inibir o progresso? Porque é que o Omnisciente permitia que aqueles que fizera à Sua própria imagem procurassem o caminho da união- com Ele às apalpadelas, sobre um trilho estreito como o gume de uma faca, sempre em perigo de virem a perder para sempre a visão do Seu

 

1 Ecclesia (latim): palavra de índole teológica que à letra significa Igreja, entendendo-se este termo como a comunidade global de todos os crentes, sejam eles.’leigos ou consagrados. (N. do E.)

 

rosto. Ali estava finalmente o mistério do ministerium, o serviço para que certos homens - entre os quais ele próprio - eram chamados, para assumirem uma maior responsabilidade e um maior risco, e para daí em diante mostrarem neles próprios a imagem do Senhor Deus, para a salvação dos seus iguais.

Isto levou-o, numa reviravolta completa, à finalidade de toda aquela meditação: o que ele próprio deveria fazer para servir o pontífice, a Igreja e Cristo, a quem se encontrava ligado> por votos perpétuos. Era o dirigente, por eleição, de quarenta mil homens celibatários, prontos para obedecerem ao pontífice e cumprirem todas as missões que ele pudesse confiar-lhes. Alguns dos melhores cérebros do mundo estavam sob o seu comando, alguns dos espíritos mais nobres, os melhores organizadores, os mais inspirados professores, os mais ousados ’especuladores. A sua função era não apenas usá-los como instrumentos passivos, mas sim ajudar cada um deles a crescer de acordo com a sua própria natureza e talentos, sempre com o espírito de Deus a guiá-lo.

De qualquer modo não era suficiente limitar-se a apresentar ao pontífice a maciça rede da Companhia e aguardar uma ordem para a pôr em movimento. A Companhia, tal como todas as outras organizações e todos os indivíduos da Igreja, tinha de buscar e propor novas maneiras e novos esforços para o aprofundamento da divina missão. Também não se podia render nem ao medo da inovação nem ao conforto dos métodos tradicionais. A igreja não era um corpo estático. Era, de acordo com a parábola dos Evangelhos, uma árvore cuja vida se encontrava implícita numa minúscula semente, mas que todos os anos devia crescer e ganhar novas formas e ser mais frutífera, enquanto cada vez mais aves faziam o ninho nos seus ramos.

Mas mesmo uma árvore nem sempre crescia à mesma velocidade ou com a mesma profusão de folhas e flores. Havia alturas em que parecia que a seiva era escassa, ou o solo menos nutritivo, e então tinha de aparecer o jardineiro para cavar o solo e injectar novo alimento nas raízes.

Havia muito tempo que Rudolf Semmering se preocupava com os relatórios que lhe surgiam de todo o mundo, referentes a um enfraquecimento da influência da sua Companhia e da Igreja. Eram cada vez em maior número os estudantes que se afastavam da prática religiosa nos primeiros anos depois dos estudos. Havia cada vez menos candidatos ao sacerdócio ou às ordens religiosas. Parecia faltar ímpeto aos esforços dos missionários, As pregações do púlpito declinavam e transformavam-se numa formalidade, e isto numa época em que todo o mundo vivia sob a sombra da destruição atómica e quando os homens perguntavam, com mais angústia do que nunca, qual a finalidade das suas existências e por que razão deveriam criar filhos, para os quais se apresentava um futuro tão dúbio.

Nos seus tempos na Companhia fora preparado para historiador, e toda a sua experiência posterior confirmara a sua visão de uma história cíclica e climática. Todos os seus anos na Igreja lhe haviam demonstrado que ela crescia e se alterava com os padrões humanos, apesar ou talvez por causa - da sua perene conformidade com o Divino. Havia épocas de mediocridade e tempos de decadência. Havia séculos de brilho, quando Os génios pareciam surgir de todo o lado. Havia tempos em que o espírito humano, carregado durante demasiado tempo sob o fardo da existência material, se libertava das suas prisões e gritava, livre e orgulhoso, por cima dos telhados do mundo’, e então os homens ouviam os trovões de um Paraíso esquecido e viam mais uma vez o esplendor da divindade.

Quando olhou para cima para o altar-mor e viu o celebrante movendo-se com dificuldade sob trinta quilos de vestes douradas, perguntou a si mesmo se aquele não poderia ser o precursor de tais tempos. Recordando-se do apelo do papa por homens com asas nos pés e corações ardentes, interrogou-se sobre se, de todos os recursos da Companhia, essa não deveria ser a sua primeira oferenda: um homem que fosse capaz de dizer as velhas verdades de uma nova maneira e que caminhasse como um apóstolo no estranho mundo que nascera do cogumelo atómico.

Tinha o homem, estava certo disso. Era pouco conhecido mesmo dentro da Companhia porque passara a maior parte da sua vida em lugares estranhos e em projectos que aparentemente tinham muito poucas relações com os assuntos do espírito. No entanto, agora era visível, pelos seus escritos e pela correspondência, que estava pronto para ser utilizado de outro modo.

Terminada a meditação, Rudolf Semmering, o homem’ austero e metódico, puxou pelo livro de apontamentos e fez uma anotação para se lembrar de enviar um telegrama para Jaearta. Então, do domo da basílica, as trompas irromperam numa longa e melodiosa fanfarra. Levantou os olhos para ver Kiril, o pontífice, a erguer por cima da cabeça o corpo’ do Deus que representava na Terra.

Na noite da sua coroação, Kiril Lakota vestiu-se com a sotaina negra e o largo chapéu de um sacerdote romano e atravessou sozinho o Portão Angélico para ir investigar o seu novo bispado. Os guardas; do portão mal lhe lançaram um olhar, acostumados à procissão diária dos Monsignari entrando e saindo do Vaticano. Sorriu para si mesmo e escondeu a cicatriz do rosto por detrás de um lenço enquanto se apressava ao longo do Bocgo Angélico em direcção ao Castelo de Santo Angelo.

Passavam alguns minutos das dez. O ar continuava quente e poeirento e as ruas estavam bem vivas do trânsito e da passagem dos peões. Caminhava à vontade, enchendo os pulmões com aquele novo ar de liberdade, excitado como um rapazinho da escola que tivesse acabado de se escapar das aulas.

Na Ponte de Santo Angelo parou e inclinou-se no parapeito, mirando as águas cinzentas do Tibre que durante cinco mil anos haviam espelhado as loucuras de imperadores, as cavalgadas de papas e príncipes e as dúzias de nascimentos e mortes da Cidade Eterna.

Agora era a sua cidade. Pertencia-lhe tal como nunca pudera pertencer a ninguém, excepto ao sucessor de Pedro. Sem o papado poderia morrer de novo e desmoronar-se, transformando-se numa relíquia provincial, porque os seus recursos se encontravam todos na sua história, e a história da Igreja era metade da história de Roma. Mas, para além de lhe pertencer, Kiril, o russo, era agora o bispo dos romanos, o seu pastor, o seu professor, o seu guia nas questões do espírito.

Há muito, muito tempo, eram os romanos que elegiam o papa, Mesmo agora afirmavam que ele lhes pertencia, o que em certo sentido era verdade. Estava ancorado ao seu solo e encerrado atrás das suas muralhas até ao dia em que morresse. Podiam amá-lo e tinha esperanças de que assim fosse. Podiam odiá-lo, tal como acontecera com muitos dos seus predecessores. Contariam anedotas a seu respeito, tal como faziam há muitos séculos, chamando aos arruaceiros figli di papa (filhos do papa), e acusando-o das imperfeições dos seus cardeais e clérigos. Suficientemente provocados até eram capazes de tentar assassiná-lo e de atirarem o corpo ao Tibre. Mas era deles, e eles eram seus, apesar de metade dos romanos nunca pôr os pés numa igreja, e de muitos trazerem cartões de identificação que os davam como homens de Kamenev e não do papa. A sua missão era para o mundo, mas a sua casa era ali. Tal como qualquer outro residente, devia dar-se com os vizinhos o melhor que pudesse.

Atravessou a ponte e mergulhou na rede de ruelas e becos entre a Rua do Espírito Santo e a Via Zanardelli. Cinco minutos depois a cidade engolira-o. Os edifícios erguiam-se dos dois lados, cinzentos, corroídos e manchados pelo tempo. Uma fraca luz brilhava no sacrário de uma empoeirada Madona. Um gato vadio, revolvendo um monte de restos, virou-se e assanhou-se para ele. Uma mulher grávida apoiava-se numa parte por debaixo do escudo de armas de um qualquer príncipe esquecido. Um jovem montado numa chocaIhante Vespa gritou qualquer coisa ao passar. Um par de prostitutas, contando mexericos por debaixo de um candeeiro da rua, riram-se quando o viram e fizeram um sinal contra o mau-olhado. Era um incidente trivial, mas que lhe provocou uma profunda impressão.

Já lhe tinham falado desse costume romano, mas era a primeira vez que o via, Um padre usava saias, não era nem homem nem mulher, mas sim uma estranha criatura que provavelmente tinha medocchio. Mais valia prevenir que remediar, portanto mostravam-lhe os cornos. Momentos depois entrou numa estreita praça a cuja esquina existia um bar com mesas instaladas no passeio. Uma das mesas encontrava-se ocupada por uma família a mastigar bolos e a conversar num cerrado dialecto romano. A outra estava livre, portanto sentou-se e pediu um expresso. O serviço era descuidado e os outros clientes ignoraram-no. Roma estava cheia de clérigos, mais um, menos um, não fazia diferença.

Enquanto beberricava o café amargo surgiu um tipo enrugado e de sapatos esburacados que tentou vender-lhe um jornal. Remexeu na sotaina em busca de trocos e só então se recordou, com um sobressalto, que se esquecera de levar dinheiro. Nem sequer podia pagar o café. Por momentos sentiu-se humilhado e embaraçado, mas depois viu o humor da situação e decidiu aproveitá-la o melhor que pudesse. Fez sinal ao empregado e explicou-lhe o caso, virando os bolsos do avesso como prova de boa-fé. O homem fez uma careta contrariada e virou-lhe as costas, murmurando uma imprecação contra os padres que sugavam o sangue dos pobres.

Kiril agarrou-o pela manga e fê-lo voltar para trás:

- Não, não! Compreendeu-me mal. Eu quero pagar e pagarei! O vendedor de jornais e a família sentada na mesa aguardaram em silêncio o início de mais uma comédia romana.

-Bah!-disse o empregado, fazendo um gesto de desprezo.- Então quer pagar? Mas quando e com quê? Como é que eu sei quem é é e de onde veio?

- Se quiser - disse Kiril, com um sorriso -, deixo-lhe o meu   nome e endereço.

- Para que eu tenha de palmilhar meia Roma por causa de cinquenta liras?

- Mando-lhas... ou venho eu próprio trazê-las.

-Entretanto, quem fica sem o dinheiro? Eu! Pensa que tenho tanto que posso pagar cafés a todos os padres de Roma!

Riram-se todos e ficaram satisfeitos. O pai da família meteu a mão no bolso e atirou algumas moedas para cima da mesa.

- Pronto! Deixe-me pagar-lhe o café, padre. E o jornal também.

- Obrigado... estou-lhe muito grato, mas gostaria de lho devolver. ..

- Não é nada, não é nada! - O Pater famílias fez um gesto de tolerância com a mão. - E tem de desculpar aqui o Giorgio, anda com problemas com a mulher.

Giorgio soltou um resmungo infeliz e meteu as moedas no bolso.    - A minha mãe queria que eu fosse padre. Se calhar tinha razão. - Os padres também têm problemas - disse Kiril, com suavidade. - Até o papa tem alguns, segundo ouvi dizer.

- O papa! Essa tem graça! -exclamou o vendedor de jornais que, sendo um vendedor de notícias, reclamava o direito de também as comentar. - Desta vez é que nos tramaram bem tramados! Um russo no Vaticano! Aqui tem uma bela história para si. - Abriu o jornal em cima da mesa e apontou, num gesto dramático, para a fotografia do papa que enchia -quase metade da primeira página. - Ora digam lá se desta   vez não nos impingiram, a nós, romanos, um tipo estranho! Olhem para esta cara e... -Calou-se e olhou para o rosto barbudo do recén-chegado. A voz transformou-se num sussurro: - Dio Parece-se mesmo com ele!

Os outros amontoaram-se por cima do ombro do vendedor de jornais olhando para a fotografia.

- É esquisito - comentou Giorgio. - Muito esquisito! Parece um irmão gémeo.

- Eu sou o papa - disse-lhe, e todos o miraram como se se tratasse de um fantasma.

- Não acredito! - exclamou Giorgio. - Parece-se com ele, sim! Mas... está aqui sentado, sem uma lira no bolso, bebendo café... e ainda por cima é um mau café!

-É melhor do que o que tenho no Vaticano.

Vendo-lhes a confusão e as preocupações espelhadas nos rostos, pediu um lápis e tomou nota dos nomes e moradas nas costas de uma conta do café.

- Olhem, vou dizer-lhes o que farei. Escreverei uma carta a cada um de vós, convidando-os a virem almoçar comigo ao Vaticano. Nessa altura pagarei o que vos devo.

- Padre... não está a brincar connosco? -’perguntou o vendedor de jornais, com um ar ansioso.

- Não. Nunca o faria. Receberão notícias minhas. Levantou-se, dobrou o jornal e meteu-o no bolso da sotaina.

A seguir pousou as mãos nos ombros do velho e murmurou uma bênção.

- Pronto. Podem dizer ao mundo que receberam uma bênção do papa. - Fez o sinal da Cruz sobre o pequeno grupo.

 

Pater famílias (latim): Chefe de família. (N. do E.)

« Dio! (it.): Santo Deus! (N. do E.)

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podem todos contar aos amigos que me viram e que eu não tinha dinheiro para pagar o café.

Ficaram a olhá-lo estupefactos, vendo-o afastar-se, uma figura lúgubre, mas estranhamente triunfante após aquele seu primeiro encontro com o seu povo.

Era um pequeno triunfo, mas rezava com desespero’ para que fosse o presságio para outros maiores. Se Criação e Redenção tinham algum significado real, então referiam-se a um caso de amor entre o Criador e as Suas criaturas. Se assim não era, então toda a existência constituía uma terrível ironia, não merecedora da Omnipotência. O amor era um caso de coração. A sua linguagem era a linguagem do coração. Os gestos de amor eram as simplicidades das inter-relações vulgares e não os rituais barrocos do teatro eclesiástico. As tragédias do amor eram as tragédias de um empregado de café com os pés magoados e uma mulher que não o compreendia. O terror do amor era o facto de o rosto do Amado estar sempre oculto por detrás de um véu, pelo que quando se levantava os olhos em busca da esperança se deparava sempre com o rosto oficial de um sacerdote, papa ou político.

Outrora, durante muito pouco tempo e numa terra que era uma estreita faixa, Deus mostrara o Seu rosto aos homens na pessoa do Seu Filho. Haviam-no reconhecido como um bom pastor, um que sarava os doentes e dava de comer aos que tinham fome. A seguir escondera-se de novo, deixando a Sua Igreja como uma extensão de Si próprio para durar através dos séculos, mas deixara também os Seus vigários e sacerdotes para se mostrarem à multidão como outros Cristos, Se desdenhassem o contacto com os homens simples e esquecessem a linguagem do coração, então muito em breve só conseguiriam falar uns com os outros...

As ruelas fechavam-se de novo à sua volta e descobriu-se a desejar poder espreitar para lá daquelas portas fechadas e janelas cerradas, para ver a vida dos seus habitantes. Sentiu uma estranha e momentânea nostalgia pelos campos e prisões onde respirara o mesmo ar que os seus companheiros de infortúnio e acordara à noite ouvindo os murmúrios dos seus sonhos.

Ia a meio de uma rua enegrecida e malcheirosa quando se encontrou preso entre uma porta fechada e um automóvel estacionado. No mesmo instante abriu-se a porta e saiu um homem, que o atirou para cima das chapas do carro.

O homem murmurou uma desculpa, mas depois apercebeu-se da sotaina e parou. Declarou de um modo abrupto:

- Está um homem a morrer lá em cima. Talvez possa fazer mais por ele do que eu...

- Quem é o senhor?

-Um médico. Só nos chamam quando é demasiado tarde.

- Onde o posso encontrar?

- No segundo andar... mas tenha cuidado, é muito contagioso. Tem tuberculose, pneumonia secundária e hemotórax...

-Há alguém a tomar conta dele?

-Oh, sim, uma jovem. É muito competente... melhor do que nós dois, num momento como este. Apresse-se, não lhe dou mais de uma hora de vida.

Sem mais uma palavra, virou-se e caminhou ao longo da rua, com os calcanhares a martelarem as pedras.

Kiril, o pontífice, abriu a porta e entrou. O edifício era um daqueles palácios em ruínas, com um pátio cheio de lixo e uma escada que cheirava a couves e a cozinhados sediços. As tábuas estalavam-lhe por debaixo dos pés e o corrimão era gordurento ao toque.

No segundo patamar deparou com um pequeno grupo de pessoas amontoadas em cima de uma mulher que chorava. Lançaram-lhe olhares de esguelha, prolongados e inseguros, e quando os interrogou um dos homens apontou com o polegar na direcção de uma porta aberta.

- Está ali.

-Já viu um padre?

O homem encolheu os ombros e afastou-se, enquanto a mulher continuava a lamentar-se ininterruptamente.

O apartamento era uma larga sala sem ar, tão cheia de coisas como a loja de um vendedor de sucata e onde pairava um mórbido cheiro a doença. A um canto avistou uma grande cama matrimonial onde jazia um homem, descarnado e encolhido, debaixo de uma colcha manchada. Tinha o rosto por barbear, o cabelo escasso e húmido pegado à testa, e rolava a cabeça para um lado e para o outro em cima das almofadas. A respiração era curta e ofegante, dolorosa e num estertor. Do canto da boca escorria-lhe um pouco de espuma sangrenta.

Havia uma rapariga sentada ao lado da cama, com um aspecto incrongruente para um tal lugar por estar muito bem vestida e arranjada. Limpava-lhe o suor da testa e os lábios com um farrapo de linho.

Olhou para cima quando Kiril entrou, e este viu um rosto jovem e estranhamente sereno, com um par de inquisidores olhos castanhos.

- Encontrei o médico lá em baixo explicou, desajeitado. -

Pensou que eu pudesse fazer qualquer coisa.

- Receio que não - respondeu a rapariga, abanando a cabeça. Está em estado de choque. Não creio que dure muito.

A voz educada e as maneiras profissionais intrigavam-no.

- É da família? - perguntou.

- Não. As pessoas daqui conhecem-me. Chamam-me quando têm problemas.

- Então é enfermeira?

- Era-o, antigamente.

--Ele já teve um padre?

A rapariga sorriu-se pela primeira vez.

- Duvido. A mulher é judia e o doente é membro do Partido Comunista. Os padres não são muito populares neste bairro.

Mais uma vez Kiril foi forçado a recordar-se de que estava muito longe de ser um simples pastor. Em geral, os sacerdotes traziam consigo uma pequena cápsula dos Santos óleos para a administração dos Últimos Sacramentos. Não a tinha, e na sua frente morria um homem. Aproximou-se da cama e a jovem deu-lhe espaço, enquanto repetia o aviso do médico:

- Tenha cuidado, é muito contagioso.

Kiril, o pontífice, pegou na mão mole e húmida e depois dobrou-se para que os seus lábios tocassem na orelha do homem. Começou a repetir, clara e distintamente, as palavras do Acto de Contrição. Quando terminou, incitou o doente:

- Se me podes ouvir, carrega na minha mão. Se não o podes fazer, diz a Deus, do fundo do coração, que estás arrependido. Está à tua espera com todo o Seu amor. Basta-lhe um pensamento para que te leve para junto d’Ele.

Repetiu a exortação uma e outra vez, enquanto a cabeça do homem rolava sem parar e a respiração lhe gorgolejava na garganta,

- Não vale a pena, padre - disse finalmente a rapariga. - Já está demasiado longe para poder ouvi-lo.

Kiril, o pontífice, levantou a mão e pronunciou a absolvição:

- Deinde ego te absolvo a peccatis tuis... Absolvo-te dos teus pecados em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ámen.

A seguir ajoelhou-se junto da cama e começou a rezar apaixonadamente pela alma daquele miserável viajante que iniciara a sua última e solitária peregrinação, enquanto ele próprio era coroado na Basílica de São Pedro.

A pequena tragédia acabou em dez minutos. Disse as orações pelo espírito que partia, enquanto a rapariga fechava os olhos do morto e lhe compunha o corpo numa posição decente. A seguir declarou com firmeza:

-Devemos ir, padre. Agora, nenhum de nós será bem recebido.

- Gostaria de ajudar a família - declarou Kiril, o pontífice. -Temos de ir- repetiu a rapariga com decisão.-Sabem como é o rular da morte. A vida é que os derrota.

Quando saíram da sala, a jovem comunicou a notícia ao pequeno pó de um modo abrupto:

- Está morto. Se precisarem de ajuda, chamem-me. A seguir virou-se e desceu as escadas, com Kiril agarrado aos Calcanhares. Um agudo grito de lamento de uma mulher seguiu-os como uma maldição.

Momentos depois encontravam-se sozinhos na rua vazia. A rapariga remexeu na mala em busca de um cigarro e acendeu-o com mãos pouco firmes. Encostou-se a um carro e fumou em silêncio durante alguns momentos. A seguir declarou de repente:

- Tento lutar contra as minhas emoções, mas fico sempre abalada. Estas pessoas são tão indefesas... - Quando chega o fim, todos nós estamos indefesos - respondeu Kiril, com sensatez. - Porque é que faz este tipo de coisas?

-É uma longa história e prefiro não falar nela neste momento. Vou para casa... posso deixá-lo em qualquer lado?

 

Kiril sentiu a recusa na ponta da língua, mas depois dominou-se e perguntou:

- Onde é que vive?

- Tenho um apartamento perto do Palatino, por detrás do Fórum Romano.

- Então vou consigo até ao Fórum. Nunca O vi à noite.., e pelo seu aspecto, parece-me que precisa de companhia,

A jovem lançou-lhe um olhar estranho e depois abriu a porta do carro, sem uma palavra.

- Vamos. Já tive mais do que o suficiente para uma noite. foi depressa e de maneira descuidada até entrarem no largo

espaço onde se encontrava o Fórum, triste e fantasmagórico sob a Lua que se erguia nos céus. A rapariga deteve o carro. Saíram juntos e encaminharam-se para o parapeito, para lá do qual os pilares do Templo de Vénus se erguiam de encontro às estrelas. Com os modos concisos que lhe pareciam habituais, interrogou-o:

-Não é italiano, pois não?

->Não, sou russo.

- E já o vi em qualquer lado, não é verdade?

- É provável.   Ultimamente têm publicado muitas fotografias minhas.

- Então que está aqui a fazer, na velha Roma?

-Sou o bispo da cidade. Achei que, pelo menos, devia tentar saber qual o seu aspecto.

- Então somos os dois estrangeiros - retorquiu a rapariga de um modo misterioso.

-De onde vem?

- Nasci na Alemanha, sou cidadã americana e vivo em Roma.

- É católica?

- Não sei o que sou, estou a tentar descobrir. --Desta maneira? - perguntou Kiril, baixinho.

- É a única que conheço. Já tentei todas as outras. - A seguir soltou uma gargalhada e pareceu descontrair-se pela primeira vez desde que se tinham encontrado. - Perdoe-me, estou a comportar-me muito mal. Chamo-me Ruth Lewin.

- Sou Kiril Lakota.

- Eu sei. O papa das estepes;.

- É assim que me chamam?

- Entre outras coisas...-retorquiu, num desafio.-Estas histórias que publicaram a seu respeito, os tempos de prisão, a fuga... são verdadeiras?

- Sim.

--Agora está outra vez numa prisão.

-De certo modo, sim, mas espero escapar-me.

-Estamos todos numa prisão, de uma maneira ou de outra.

- É verdade... e aqueles que o compreendem -são os que sofrem mais.

Manteve-se silenciosa durante longos momentos, olhando para baixo, para as pedras caídas do Fórum. A seguir perguntou-lhe:

- Acredita realmente ter calçado as sandálias de Deus?

- Acredito.

- Que tal a sensação?

- Aterrorizadora.

- Ele fala consigo? OuveO?

Pensou no assunto por instantes e depois respondeu com um ar grave:

-Em certo sentido, sim. O conhecimento d’Ele próprio, que nos revelou tanto no Antigo como no Novo Testamento, impregna toda a Igreja. Está nas Escrituras e na tradição que nos foi legada desde o tempo dos Apóstolos e a que chamamos Base da Fé. Esta é a luz para os meus pés... Noutro sentido, não. Oro pela luz divina, mas devo trabalhar baseando-me na razão humana. Não posso exigir milagres. Neste momento, por exemplo, pergunto a mim mesmo ••; o que tenho de fazer pelo povo desta cidade... e o que poderei fazer por si. Não disponho de respostas já preparadas. Não tenho um diálogo privado com Deus. Caminho no escuro e espero que a Sua mão se estenda para me guiar.

- O senhor é um homem estranho.

-Todos nós somos estranhos - retorquiu com um sorriso•, e porque não, se cada um de nós é uma faísca liberta pelo ardente mistério da Divindade?

As palavras que a jovem murmurou a seguir saíram-lhe com uma Pungente simplicidade que o tocou quase até às lágrimas: -Preciso de ajuda, mas não sei como e nem onde obtê-la.    Kiril hesitou durante alguns momentos, dividido entre a prudência e as incitações de um coração vulnerável. Então sentiu mais uma vez, no seu íntimo, a subtil agitação do poder. O pastor era ele e mais ninguém. Naquela noite já uma alma se lhe escapara por ’entre os dedos, não ousava correr o mesmo risco com outra.

- Leve-me a sua casa - disse-lhe. - Faça-me um café e desabafe comigo. A seguir poderá levar-me de volta ao Vaticano.

Num pequeno apartamento encolhido sobre a sombra da colina do Palatino, a jovem contou-lhe a sua história. Contou-a de uma maneira calma e grave, sem nenhum traço daquela histeria que todos os confessores temem nas suas relações com as mulheres.

- «Nasci na Alemanha, há trinta e cinco anos. A minha família era judia e estava-se na época das perseguições. Fomos corridos de país para país, até que por fim nos surgiu a possibilidade de entrarmos em Espanha. Antes de pedirmos os vistos, informaram-nos de que poderia ser de grande ajuda se nos tornássemos católicos... Assim, os meus pais passaram pelas formalidades necessárias e tornámo-nos em convertidos... «mouriscos», seria um nome mais apropriado! Tomámos as novas identidades e fomos admitidos.

»Na altura eu não passava de uma criança, mas tive a sensação de que o novo país e a nova religião abriam os braços para me darem as boas-vindas. Lembro-me da música, das cores, das procissões da Semana Santa percorrendo as ruas de Barcelona, com rapariguinhas como eu de véus brancos e coroas de flores na cabeça, lançando pétalas de rosas na frente do sacerdote que transportava a Custódia. Vivera durante tanto tempo no medo e na incerteza que me sentia como que transportada para uma terra de contos de fadas.

»Então, no princípio de 1941, obtivemos vistos para a América. Os serviços da Caridade Católica tomaram conta de nós, e fui colocada, com a sua ajuda, numa escola de um convento. Sentia-me pela primeira vez completamente a salvo e, por estranho que pareça, completamente católica.

»Os meus pais pareciam não se importar. Também eles haviam chegado a um porto seguro e necessitavam de reconstruir as suas vidas. Durante alguns anos conservei-me numa serena felicidade, mas a seguir, como explicar?, tanto eu como o meu mundo ;se começaram a despedaçar. Era ainda uma criança, mas as mentes das crianças abrem-se mais depressa do que os adultos imaginam.

»Na Europa, morriam milhões de judeus. Eu era judia e sentia-me oprimida pela ideia de ser uma renegada que comprara a segurança repudiando a minha raça e a minha religião. Era também uma católica e essas crenças identificavam-se com os tempos mais livres e felizes da minha vida. No entanto não podia aceitar a liberdade ou a felicidade porque me pareciam adquiridas com... dinheiro sangrento. »Comecei a revoltar-me contra os ensinamentos e a disciplina do convento mesmo apesar de saber que me revoltava comigo própria. Quando comecei a sair com rapazes, fazia-o sempre com os rebeldes, os que rejeitavam qualquer espécie de crença. Era mais seguro, pois no fim talvez fosse melhor não acreditar em coisa nenhuma do que sentir-me destruída por uma dupla lealdade.

»Então, passado algum tempo, apaixonei-me por um rapaz judeu. Era ainda uma católica, pelo que fui discutir o assunto com o sacerdote da paróquia. Pedi-lhe a usual autorização para casar com alguém de fora da minha fé. Para minha grande surpresa e vergonha, pregou-me um amargo sermão. Escutei-o, saí da reitoria e desde aí nunca mais pus os pés numa igreja. Era um homem estúpido, cego e cheio de preconceitos. Odiei-o durante algum tempo, mas por fim compreendi que me estava a odiar a mim própria.

»O meu casamento foi feliz. O meu marido não tinha crenças definidas, e ao que parecia eu também não, mas possuíamos uma raça comum e uma herança comum e conseguimos viver em paz um com o outro. Ganhámos dinheiro, fizemos amigos. Era como se tivesse alcançado a continuidade que faltava na minha vida desde o princípio. Pertencia a alguém, numa ordem estabelecida, e a mim própria, finalmente.

»De súbito e sem qualquer razão aparente, aconteceu uma coisa estranha. Tornei-me mórbida e deprimida. Vagueava desconsolada pela casa, com as lágrimas a correrem-me pelas faces, mergulhada num desespero total. Por vezes estourava em violentas fúrias, à mínima provocação. Houve alturas em que pensei no suicídio, convicta de que seria melhor estar morta do que inflingir tanta infelicidade a mim mesma e ao meu marido.

»Por fim, foi o meu marido que me forçou a tomar uma posição. Exigiu que fosse a um psiquiatra. Ao princípio recusei, zangada, mas depois declarou-me, com toda a franqueza, que me estava a destruir a mim própria e ao casamento. Portanto, concordei em iniciar um tratamento e participei numa sessão de análises.

«Trata-se de um caminho estranho e assustador, mas uma vez que começamos a percorrê-lo já não podemos voltar para trás. Viver a vida já é suficientemente difícil. Revivê-la, retraçar todos os passos por meio de símbolos, fantasias ou simples recordações, é uma fantástica experiência. A pessoa que faz essa viagem connosco, o< analista, assume várias identidades: pai, mãe, amante, marido, professor... , até Deus.

»Quanto mais longa é a jornada, mais difícil é o caminho’, porque cada passo nos leva mais perto da revelação, onde teremos de encarar de uma vez para sempre a coisa de que andámos a fugir. Tentamos uma e outra vez fugir dessa estrada ou voltar para trás, mas somos sempre forçados a prosseguir. Tentamos adiar, tentamos contemporizar. Criamos novas mentiras para nos enganarmos a nós próprios e ao nosso guia, mas as mentiras acabam por ser demolidas uma a uma.

»No meio das minhas análises, o meu marido morreu num acidente de automóvel. Para mim tratou-se de mais uma culpa a acrescentar a todas as outras. Agora nunca lhe poderia devolver a felicidade que lhe roubara. Sob o choque, toda a minha personalidade pareceu desintegrar-se. Fui levada para um estabelecimento hospitalar e a terapia recomeçou. Muito devagar, a natureza dos meus medos ocultos tornou-se clara. Quando atingi o fulcro de mim mesma, sabia que o iria encontrar vazio. Não iria encontrar-me apenas sozinha, mas também esvaziada, porque construíra um Deus à minha própria imagem e O destruíra, e não existia ninguém para ocupar O seu lugar. Tenho> de viver num deserto, sem identidade, sem finalidade, pois mesmo que existisse um Deus, não podia aceitá-Lo, porque não pagara pela Sua presença.

»Isto parece-lhe estranho? Para mim era um terror, mas quando me encontrei no deserto, vazia e solitária, fiquei calma. Até já estava inteira, completa. Recordo-me da manhã depois da crise, quando olhei pela janela do quarto e vi o sol a brilhar na relva verde. Disse para mim própria: «Vi o que de pior me poderia acontecer e ainda aqui estou. O resto, seja ele o que for, poderei suportá-lo.»

»Um mês mais tarde recebi alta, Desfiz-me dos bens do meu marido e vim para Roma. Tinha dinheiro, estava livre, podia planear uma nova vida. Até poderia vir a apaixonar-me de novo... Tentei-o também... mas no amor temos de nos dar e eu não tinha nada para dar.

»Então comecei a compreender uma coisa: se vivesse só para mim e comigo, estaria sempre vazia, sempre na solidão. As minhas dívidas para com o meu povo e o meu passado continuavam por pagar. Não poderia aceitar nada da vida enquanto não as pagasse.

»Esta noite perguntou-me por que motivo eu fazia este tipo de serviços, É simples. Há muitos judeus em Roma, as velhas famílias sefárdicas que vieram de Espanha no tempo da Inquisição, imigrantes de Bolonha e das cidades da Lombardia, São ainda uma gente à parte. Muitos são pobres, como os que viu esta noite... Posso dar-lhes qualquer coisa. Sei que posso. Mas que é que dou? Para onde vou? Não tenho um Deus, não obstante necessitar desesperadamente de um. Disse-me que calçou as Suas sandálias. Será capaz de me ajudar?

 

Extracto das memórias de KIRIL I, PONT. MAX.

... Esta noite estou perturbado. Estou solitário e perplexo. A minha instalação no trono de Pedro já está completa. Fui coroado com a tripla tiara. O anel do Pescador encontra-se no meu dedo. Dei a minha bênção à cidade e ao mundo. Apesar de tudo -e talvez por causa de tudo isso-, nunca me senti tão vazio e inadequado. Sou como o bode expiatório enxotado para o deserto, carregando com os pecados de todo’ o povo...

Preciso de pedir ao Rinaldi que me procure um sacerdote sensato a quem me possa confessar todos os dias, não apenas pela absolvição e pela graça sacramental, mas também para purgar este meu espírito enclausurado & reprimido. Pergunto a mim próprio se os fiéis compreenderão que o vigário de Cristo tem muitas vezes mais necessidade da confissão do que eles próprios...

Já assisti à morte de muitos homens, mas a triste e solitária morte a que assisti esta noite num prédio de Roma aflige-me de um modo estranho. Ainda ouço as palavras da mulher que assistiu comigo a essa morte: «Sabem tratar com a morte. A vida é que os derrota.» Parece-me que esta derrota é a medida do nosso falhanço no ministério da Palavra.

Aqueles que de nós mais necessitam são os que mais baixo se vergam ante o peso da existência, cuja vida é uma luta diária pelo simples sustento, que não dispõem nem de talentos nem de oportunidades, que vivem num permanente receio dos funcionários, cobradores de impostos e cobradores de dívidas, pelo que não têm tempo e quase não possuem as forças necessárias para cuidarem das almas. Toda a sua vida se torna num desespero rastejante... Se não fosse a infinita sabedoria e a infinita piedade de Deus, também eu poderia facilmente cair no desespero.

O caso da mulher, Ruth Lewin, dá-me mais esperança. Enquanto

permaneci na prisão e sujeito às longas provações dos interrogatórios,

comprendi muita coisa acerca do intrincado funcionamento da mente humana. istou convencido de que aqueles que se dedicam ao estudo ao funcionamento das suas enfermidades podem prestar um   grande serviço ao homem e à causa da sua salvação... Não devemos, como pastores de almas, tratar com suspeitas ou apressadas censuras esta ciência que ainda vai na infância. Tal como qualquer outra ciência, pode ser aplicada a fins ignóbeis. É inevitável que muitos dos que exploram as nebulosas residências das almas venham a cometer erros e juízos falsos, mas toda a pesquisa honesta sobre a natureza do homem é também uma exploração das intenções divinas a seu respeito.

A psique humana é o ponto de encontro entre Deus e o homem. Creio ser possível que alguns dos significados do Mistério da Graça Divina nos possam ser revelados quando compreendermos melhor o funcionamento da mente subconsciente, onde germinam durante anos memórias e culpas enterradas, bem como impulsos reprimidos que de repente surgem à superfície num estranho florescimento... Devo encorajar homens competentes, dentro da Igreja, a prosseguirem estes estudos e a cooperarem com os do exterior para conseguirmos o melhor uso possível para as suas descobertas...

A mente doente é um instrumento deficiente na grande sinfonia que é o diálogo de Deus com os homens. Talvez possamos aqui encontrar uma mais completa revelação do significado da responsabilidade humana e da compaixão de Deus pelas Suas criaturas. Talvez possamos aqui iluminar a diferença entre a culpa formal e o verdadeiro estatuto da alma perante Deus...

Poderei escandalizar muita gente se declarar de um modo aberto que vejo numa mulher como esta Ruth - ou penso que vejo - um espírito escolhido. A chave para tais espíritos é o reconhecimento por parte deles de que a sua luta com a vida não passa, na realidade, de uma luta com Deus...

A mais estranha história do Antigo Testamento é a história de Jacob, que lutou com o anjo, o venceu e o forçou a dizer o nome... Mas Jacob saiu coxo dessa luta.

Também eu sou um espírito coxo. Na escura casamata e sob as luzes e os infatigáveis interrogatórios de Kamenev senti abalarem-se-me a razão e as fundações da minha fé.

No entanto continuo a crer. Estou mais inteiramente do que nunca entregue à Base da Fé, mas já não me contento em dizer, «assim é Deus, assim é o homem», para considerar que tudo foi dito. Neste alto pináculo e para onde quer que me vire, enfrento o mistério. Acredito na harmonia divina que é o resultado do eterno acto da criação... mas nem sempre ouço essa harmonia. Tenho de combater a cacofonia e as aparentes discordâncias da pauta, sabendo que não escutarei a grande resolução final até ao dia da minha morte, dia em que, espero, me reunirei a Deus...

Foi isto o que tentei explicar a Ruth, mas não tenho a certeza de o ter feito muito bem. Não consegui levar-me a presenteá-la com obtusas proposições teológicas. O seu espírito perturbado’ não estava preparado para recebê-las.

Tentei mostrar-lhe que a crise do quase desespero que aflige muitas pessoas inteligentes e de espírito nobre é frequentemente um acto providencial, destinado a levá-las a uma aceitação da sua própria natureza, com todas as suas inadequações e limitações, e à conformidade dessa natureza com um desígnio divino, cuja configuração e cujo fim não podemos apreender na totalidade.

Compreendo os seus terrores porque eu mesmo- os sofri. Estou seguro de que entendeu isso. Aconselhei-a a ser paciente consigo própria e com Deus que, mesmo que não seja capaz de acreditar n’Ele, continua a trabalhar à Sua maneira e com a Sua própria cadência secreta.

Disse-lhe para continuar o bom trabalho que estava a fazer, mas para não o considerar sempre como um pagamento das dívidas. Nenhum de nós poderia pagar as suas dívidas se não fosse pelo acto redentor consumado por Cristo na Cruz.

Tentei demonstrar-lhe que rejeitar a alegria de viver é insultar Aquele que lha concedeu e nos deu o dom da gargalhada, bem como o dom das lágrimas...

Penso que deveria escrever estas coisas para outros, porque as doenças das mentes são um dos sintomas dos nossos tempos, e todos devemos tentar curar-nos uns aos outros. O homem não foi feito para viver sozinho. Foi o próprio Criador que o disse. Somos membros de um corpo. Curar um membro doente é a função de todo o organismo...

Pedi a Ruth que me escrevesse e que me viesse ver de vez em quando. Não posso permitir que as funções me separem do contacto com o meu povo... É por esse motivo que penso dever sentar-me no confessionário uma hora por semana, para administrar o Sacramento aos que forem a São Pedro.

O mais perto que estive de perder a minha alma e a fé foi quando jazia, nu e solitário, numa casamata subterrânea... Quando me levaram de novo para as barracas - mesmo ao som da ira, das obscenidades e das blasfémias - foi com o uma nova promessa de salvação...

Pergunto a mim próprio se não será deste modo que o acto criativo se renova a si próprio diariamente: o espírito de Deus respirando sobre as escuras águas dos espíritos humanos, infundindo-lhes uma vida cuja intensidade e diversidade só de longe podemos imaginar.

In manus tuas, Domine. Nas tuas mãos, Senhor, encomendo todas as almas perturbadas.

 

Passaram-se quase seis semanas depois da coroação antes de George Faber combinar o seu almoço com Campeggio-. Poderia tê-lo adiado ainda por mais tempo se Chiara não o houvesse convencido com lágrimas de fúria. Era por natureza um homem expedito, mas vivia em Roma há tempo suficiente para ter aprendido a suspeitar de todos os gestos gratuitos. Campeggio era sem dúvida um distintocolega, mas não o poderia considerar um amigo e não havia razões claras para que se preocupasse com a vida matrimonial de Chiara Calitri.

Portanto, pairava no ar uma combinazione -- um acordo - com a etiqueta do preço cuidadosamente escondida até ao último momento. Quando se almoçava com romanos era necessário ter uma colher muito comprida e a mão muito firme, e George Faber encontrava-se ainda um pouco abalado por causa da sua discussão com Chiara.

A Primavera amadurecia lentamente e transformava-se em Verão. As azaleas eram um tumulto de cor no Passeio de Espanha e as vendedoras de flores faziam bom negócio com as rosas novas de Rapallo. Turistas de pés inchados encontravam refúgio na Casa de Chá Inglesa e o tráfico agitava-se, irritante, em volta do barco de mármore de Bernini, na Piazza.

Para espevitar a sua pouca coragem, George Faber comprou um cravo vermelho e enfiou-o, muito elegante, na Japela, antes de( atravessar a praça e de entrar na Via Condotti. O restaurante que Campeggio escolhera para o encontro era um local pequeno e discreto, : muito longe dos antros normalmente frequentados por políticos e jornalistas... Num assunto tão delicado, afirmara, não se podiam arriscar a encontrar um bisbilhoteiro. Faber não compreendia muito bem a necessidade de tanto segredo, uma vez que a história dos Calitri era conhecida por toda a Roma. -Contudo, aquilo fazia parte do jogo. Cada combinazione, cada progetto tinha de ser levado a cabo com um pouco de teatralidade. Por isso submetera-se com tão boa vontade quanta lhe fora possível conseguir.

Campeggio entreteve-o durante meia hora com uma vívida e divertida crónica do Vaticano, descrevendo-lhe como as asas se agitavam.

nos pombais clericais, enquanto o novo papa se afirmava nos seus direitos. A seguir, e com as cautelas de um diplomata, desviou a conversa para o próprio Faber:

- ... Talvez te agrade saber, meu caro, que os teus artigos foram vistos por Sua Santidade sob uma luz muito favorável. Disseram-me que se mostra ansioso por um contacto mais directo com a imprensa. Fala-se de almoços regulares com os correspondentes mais ’antigos e o teu nome é, claro, o primeiro da lista.

- Sinto-me lisonjeado - respondeu Faber, num tom seco. - Tentamos sempre escrever com honestidade, mas este homem é um tema interessante, por direito próprio.

- Leone também te vê com bons olhos e estás bem considerado junto da Secretaria de Estado... Como sabes, trata-se de fontes importantes e de vozes importantes.

- Estou bem consciente do facto.

- Bom - disse Campeggio, com vivacidade. - Então compreendes a importância da manutenção de boas relações sem, digamos... incidentes embaraçosos...

- Sempre o compreendi. Gostaria de saber a que propósito vem esse assunto, agora.

Campeggio contraiu os finos lábios e olhou para as costas das suas mãos, compridas e de unhas muito bem arranjadas. Declarou com cuidado:

- Tratou-se apenas da introdução para a minha próxima pergunta. Estás a preparar-te para montar casa com Chiara Calitri?

Faber corou e respondeu de mau humor:

- Discutimos o assunto, mas ainda não chegámos a nenhuma conclusão.

- Então deixa-me aconselhar-te, com grande insistência, em que não o faças neste momento... Não me interpretes mal. A tua vida privada só a ti diz respeito.

- Não lhe chamaria privada, Em Roma, toda a gente tem conhecimento da situação existente entre mim e a Chiara. Suponho que já há muito tempo esses boatos chegaram ao Vaticano.

Campeggio lançou-lhe um ligeiro sorriso.

- Enquanto continuarem a ser boatos, preferem não fazer juízos precipitados e deixarem-te entregue nas mãos de Deus. Não está em questão uma infâmia pública, que poderia prejudicar o teu caso junto da Rota,

- Neste momento - retorquiu Faber, com rudeza -, não existe qualquer caso. O assunto está suspenso até Chiara conseguir obter novas provas. Até agora não conseguiu nenhumas.

Campeggio acenou lentamente com a cabeça e começou a desenhar complicados riscos na branca toalha da mesa.

-Fui informado, por aqueles que compreendem o modo de pensar da Rota, de que as tuas esperanças num veredicto favorável se baseiam no argumento das falsas intenções. Por outras palavras, se puderem provar que Calitri fez um contrato de casamento sem a intenção de cumprir todos os seus termos - e essa intenção inclui a fidelidade, então terás boas hipóteses de uma decisão favorável.

Faber encolheu os ombros com um ar infeliz.

-Como é que se pode provar o que se passa na cabeça de um homem?

-De duas maneiras: pelas suas próprias declarações ajuramentadas, ou pelas provas apresentadas por aqueles que o ouviram expressar as falsas intenções.

- Procurámos essas pessoas. Não descobrimos nenhuma e estou seguro de que Calitri não nos fornecerá provas que o incriminem.

- Exerce sobre ele a pressão suficiente... e penso que será capaz de o fazer.

- Que espécie de pressão?

Pela primeira vez, Campeggio mostrou-se um pouco inseguro de si mesmo. Ficou silencioso durante um bocado, traçando linhas compridas e fluidas com a ponta do garfo. Por fim, declarou de um modo deliberado:

- Um homem como o Calitri, que detém uma alta posição e leva um tipo de vida pouco usual, chamemos-lhe assim, é muito vulnerável. É vulnerável perante o partido e perante os ataques públicos. É vulnerável para aqueles que deixaram de merecer os seus favores... Não preciso de te dizer como é exótico o mundo onde ele vive... Um mundo de estranhos amores e curiosos ódios, onde nada é muito permanente. O favorito de hoje é rejeitado amanhã. Há sempre corações despedaçados prontos a contar a sua história a um bom ouvinte. Eu próprio ouvi algumas dessas histórias. Quando tiveres histórias suficientes, vais ter com o Calitri.

- Vou ter com o Calitri?

-Quem mais? Divulgas notícias, não é verdade?

- Mas não esse tipo de notícias.

- Mas não conheces muitos que o fazem?

- Sim.

- Então não preciso de te explicar mais nada.

- É chantagem - declarou Faber, sem entoação.

- Ou justiça - disse Orlando Campeggio. - Depende do ponto de vista,

- Mesmo que conseguisse assustá-lo e obrigá-lo a testemunhar, poderia depois alegar que o fizera sob pressão indevida e o tribunal poria o caso de lado para sempre.

--É um risco que terás de correr. Se o que está em jogo valer a pena, acho que seria bom que o corresses... Já agora, acrescento que poderei dar-te uma pequena ajuda ao teu inquérito.

- Porquê? - perguntou Faber, de súbito. - Por que é que estás interessado no que se passa entre mim e a Chiara?

- Tornaste-te num romano... - comentou Campeggio, com fria ironia -... mas a pergunta é válida. Simpatizo contigo. Não gosto do Calitri. Nada me daria mais satisfação do que vê-lo destruído, o que é quase impossível, mas se tu e Chiara ganharem o processo, isso irá prejudicá-lo muito.

-Por que é que o odeias assim tanto?

-Preferia não ter de responder a essa pergunta,

-Temos interesses comuns. Ao menos podíamos ser honestos um com o outro.

O romano hesitou um -momento e depois abriu as mãos num gesto de derrota.

-Que diferença faz, no fim de contas? Não há segredos em Roma. Tenho três filhos. Um deles trabalha no departamento de Calitri e... digamos que caiu sob a sua influência. Não culpo o rapaz. Calitri tem um grande encanto e não tem escrúpulos quando se serve dele,

- Um negócio sujo’!

- É uma cidade suja - disse Orlando Campeggio. - Sou a última pessoa de quem se poderia esperar uma tal afirmação, mas muitas vezes interrogo-me porque lhe chamam a Cidade dos Santos.

Enquanto George Faber matutava, infeliz, a respeito do diálogo do almoço, Chiara Calitri banhava-se ao sol na praia, em Fregene.

Era uma jovem morena e pequena, graciosa como um gato. Os rapazes que preguiçavam na praia e passavam por ela assobiavam e exibiam-se nuse procurando chamar-lhe a atenção. A salvo por detrás dos óculos escuros, via-os a andar de um lado para o outro e estendia-se de uma maneira ainda mais decorativa em cima da colorida toalha.

Invadia-a uma sensação de conforto e bem-estar. Era jovem e a admiração dos rapazes dizia-lhe que era bela. Era amada. Faber, à sua maneira constrangida, decidira-se a empreender as suas próprias batalhas. Sentia-se mais livre do que jamais se sentira em toda a sua vida.

O que acima de tudo mais a intrigava era essa liberdade de que dia a dia se tornava mais consciente, mais curiosa e mais ansiosa por agarrar. Naquela manhã chorara e gritara com o pobre George, como se fosse uma regateira do mercado, porque este lhe parecera com pouca vontade de se arriscar a uma conversa com Campeggio. Se o sentisse de novo indeciso, voltaria a discutir com ele porque a partir de agora não seria capaz de amar sem ter a liberdade de ser ela própria,

Com Corrado Calitri sentira-se despedaçada, atirada para aqui e para ali, como bocados de papel rasgados e levados pelo vento. Durante algum tempo - um tempo assustador - fora como se deixasse de existir como mulher. Agora conseguira finalmente recompor-se... Já não era a mesma Chiara, mas sim uma outra, nova, e nunca mais ninguém teria poder para a destruir.

Fora de propósito que escolhera um homem mais velho, porque esses eram mais tolerantes e menos exigentes. Procuravam uma vida mais plácida. Ofereciam tanto o afecto como a paixão. Moviam-se com autoridade num mundo mais vasto. Faziam que uma mulher se sentisse menos vulnerável...

Sentou-se e começou a brincar com a areia quente, filtrando-a através dos dedos, de modo que escorresse e formasse um pequeno monte a seus pés. Sem querer, pensou numa ampulheta onde o tempo se media a si próprio, inexorável, num escorrer de grãos dourados. Sentira-se obcecada pelo tempo mesmo ainda quando criança, procurando-o como agora procurava a liberdade, gastando-o de modo descuidado como se desse modo pudesse trazer o futuro para o dia de hoje. Quando se encontrara em casa, chorara para ir para a escola. Na escola, quisera sempre crescer. Quando crescera, quisera casar-se. Durante o casamento - o amargo fiasco do seu casamento com Corrado Calitri, o tempo como que se detivera de um modo súbito e assustador, e parecera-lhe que teria de ficar ancorada eternamente àquela união com um homem que desprezava a sua feminilidade e a envilhecia sempre que tinha Oportunidade.

Fora do terror desse tempo parado que finalmente fugira, histérica e doente, O futuro, que tão ansiosa se mostrara por alcançar, era-lhe agora intolerável. Já não queria avançar, mas apenas recuar para o escuro útero da dependência.

Mas, mesmo nessa situação, o tempo continuara a ser um inimigo. A vida era tempo; um insuportável período de anos sem amor. A única maneira de acabar com ele era morrer ou manter-se sempre em retirada- Mas no hospital as vigilantes enfermeiras haviam mantido a morte bem afastada dela enquanto os médicos a puxavam, lenta e pacientemente, para um novo encontro com a vida. Combatera-os, mas também eles eram inexoráveis. Arrancaram-lhe as ilusões uma a uma, como quem arrancara camadas de pele até os nervos ficarem expostos. Gritara de protesto contra uma tal crueldade.

A seguir haviam começado a mostrar-lhe uma estranha alquimia: como a dor se pode transmutar em misericórdia. Se a aguentasse durante o tempo suficiente, começaria a diminuir. Se fugisse dela, pois então a dor persegui-la-ia, cada vez mais monstruosa como o vulto que nos persegue num pesadelo. Se a combatesse, acabaria por chegar a um compromisso com ela... nem sempre nas melhores condições, nem sempre nas mais sensatas, mas no mínimo- conseguiria um tratado de paz que pelo menos seria suportável.

Fizera agora o seu próprio tratado com a vida e vivia melhor do que esperara se tivesse em consideração os seus termos. A família não aprovava o negócio, mas era suficientemente generosa para lhe dar amor e uma certa medida de afeição. A Igreja condenava-a, mas enquanto se mantivesse discreta em público eximir-se-ia de uma censura pública.

A sociedade, à sua maneira paradoxal, esboçara um suave protesto e depois aceitara-a com as suficientes boas graças... Não se encontrava inteiramente livre, não era suficientemente amada ou protegida, mas tinha o bastante de cada uma dessas coisas para que a vida fosse suportável e o tempo tolerável, porque ambos lhe faziam agora promessas de melhoria,

No entanto, aquela não era a resposta final, e sabia-o. O acordo não era tão favorável como parecia. Havia nele um inconveniente, uma cláusula perigosa, que quando fosse invocada poderia cancelar tudo o resto.

Olhou para as águas vazias do mar Tirreno e recordou-se das histórias que o pai lhe contara sobre todas as estranhas formas de vida que habitavam nas suas profundezas: corais como árvores, baleias grandes como navios, peixes que batiam as asas como os pássaros, jóias que cresciam no muco das ostras e algas como cabelos de princesas afogadas. Por debaixo da superfície iluminada pelo Sol existia todo um mundo ’misterioso, e por vezes as águas abriam-nuse e engoliam os viajantes que as enfrentavam com demasiada ousadia. Por vezes, mas nem sempre... Os navegantes mais improváveis sobreviviam e atingiam portos seguros.

Era precisamente aqui que se encontrava o risco do seu próprio contrato com a vida. Acreditava em Deus. Acreditava nos ensinamentos da Igreja a Seu respeito. Tinha conhecimento do castigo, da ruína eterna suspensa sobre as cabeças daqueles que desafiavam com demasiada ousadia o desagrado divino. Cada passo, cada hora, era mais um risco corrido na corda bamba da condenação’. De um momento para o outro, o contrato poderia ser cancelado. E então...?

Mas não era só nisso que se encontrava todo o mistério. Havia outros, e ainda mais profundos. Porque é que fora ela e não outra qualquer que havia sido submetida à primeira injustiça de um falso contrato de casamento?

Porque é que fora ela e não outra que se vira forçada à suicida confusão de uma depressão? Agora, para sobreviver, agarrava-se precipitadamente à primeira palha que encontrava. Porquê? Porquê?

Não bastava dizer, tal como o seu confessor paroquial, que eram esses os desígnios de Deus para com ela, Em primeiro lugar, haviam surgido os desígnios de Corrado. Então era Deus que transigia com a injustiça, para depois manter uma maldição suspensa sobre as cabeças daqueles que vacilavam sob o peso dessa injustiça? Era como se o mar se erguesse e a lançasse de novo>, num remoinho, para a confusão da doença.

Não havia cura para os inoportunos pensamentos que lhe surgiam durante a noite ou durante o dia, dando-lhe ferroadas nas carnes como um vento gelado. Não se podia deixar submeter por eles, com receio de uma nova loucura. Não os podia apagar, excepto através do exercício do amor e da paixão, que de um modo algo estranho pareciam confirmar o que os pregadores diziam que eles negavam: a realidade do amor e da misericórdia, e da mão que ajudava o mais desafortunado marinheiro afastando-o da maldição das profundezas...

Estremeceu no ar quente e levantou-se, enrolando a toalha à sua volta. Um jovem moreno com a figura de um deus grego assobiou-lhe e chamou-a, mas ignorou-o e apressou-se a subir a praia em direcção ao carro. Que sabia ele da vida que alardeava como um símbolo fálico ao Sol? O George sabia um pouco mais... o querido e tímido George, que partilhava os seus riscos e que pelo menos fazia qualquer coisa para a libertar deles. Ansiava pelo conforto dos seus braços e pelo sono que surgia depois do acto do amor...

Rudolf Semmering, geral da Companhia de Jesus, encontrava-se sentado no aeroporto de Fiumicino e esperava o seu homem proveniente de Jacarta. Para os que o conheciam bem, aquela vigília tinha um significado singular. Rudolf Semmering era um homem eficiente, adaptado por natureza e pelos exercícios ascéticos ao espírito militar de Inácio de Loiola. Para ele o tempo era um bem precioso, porque só com tempo poderia uma pessoa preparar-se para a eternidade. Um desperdício de tempo era portanto um desperdício da moeda corrente da salvação. Os assuntos da sua Ordem eram complexos e prementes, pelo que podia muito bem ter enviado um ajudante para se encontrar com aquele obscuro membro já com trinta minutos de atraso.

No entanto a ocasião parecia-lhe merecedora de algo mais do que a cortesia normal. O recém-chegado era um francês, um estranho em Roma. Passara mais de vinte anos no exílio, na China, em África, na Índia e nas dispersas ilhas da Indonésia. Era um simples sacerdote e um distinto erudito que Rudolf Semmering mantivera em silêncio sob os votos de obediência.

Para um erudito, o silêncio era pior do que o exílio. Tinha a liberdade de trabalhar, de se corresponder com os seus colegas de todo o mundo, mas era impedido, por obediência formal, de publicar os resultados das suas pesquisas ou de ensinar em público.

Na última década foram muitas as vezes que Rudolf Semmering questionara a sua própria consciência a respeito da proibição lançada sobre uma mente tão brilhante, mas acabara sempre por regressar à sua primeira convicção de que se tratava de um espírito escolhido, que a disciplina só serviria para o refinar e que as suas ousadas especulações necessitavam de um período de silêncio para se desenvolverem sobre bases mais firmes.

Sendo um homem com o sentido da história, Semmering estava convicto de que a eificiência de uma ideia dependia da índole da época em que fosse pela primeira vez apresentada. Em termos históricos era demasiado tarde para se arriscarem a outro caso Galileu ou à morte na fogueira de um novo Giordano Bruno. A Igreja ainda sofria os resultados dos tristes debates sobre os ritos chineses. Tinha menos receio da heresia do que de um clima de pensamento que pudesse extrair heresia de um novo aspecto- da verdade. Não lhe faltava nem a compreensão nem a compaixão pelos sacrifícios que exigia a uma mente nobre como aquela, mas Jean Télémond, tal como todos OS outros membros da Companhia, prestara votos de obediência e submetera-se quando esta lhe havia sido exigida.

Para Semmering tratava-se do teste final sobre o metal de um homem religioso, a prova final da sua capacidade para um trabalho piedoso numa posição de confiança. Todo- o resto terminara e queria explicar-se a Télérnond e oferecer-lhe a afeição que todos os filhos tinham o direito’ a esperar do pai espiritual. Em breve pediria a Télémond que encetasse um novo caminho, já não solidário, já não inibido, mas sim exposto, como- nunca antes estivera, às tentações da influência e aos ataques de interesses ciumentos. esta vez precisaria mais de apoio do que de disciplina, apoio que Semmering lhe queria oferecer com calor e generosidade.

A diplomacia também estava envolvida. Desde os tempos de Pacelli que os cardeais da Cúria e os bispos da Igreja receavam qualquer   tentativa de introdução de uma Eminência Parda nos conselhos do pontífice. Pretendiam, e até ali haviam-no obtido, um regresso à ordem natural da Igreja onde os membros da Cúria eram os conselheiros do pontífice, e os bispos os seus colaboradores, respeitando o Seu primado como sucessor de Pedro, mas mantendo-se firmes no que respeitava à sua própria autonomia apostólica. Se a Companhia de Jesus desse a entender que tentava forçar a entrada de um favorito na corte papal, provocaria inevitavelmente a suspeita e a hostilidade. no entanto o pontífice pedira homens. A questão estava agora   como lhe oferecer aquele sem deixar transparecer uma cabala e   ao colocar... A voz que dava as informações respeitantes aos  

voos estalou nos amplificadores, anunciando a chegada do voo proveniente de Jacarta, Rangum, Nova-Deli, Carachi e Beirute. Rudolf Semmering levantou-se, alisou a sotaina e caminhou para a entrada da alfândega para ir receber o exilado.

Jean Télémond era um homem que daria nas vistas em qualquer lado. Com um metro e oitenta de altura, direito como um fuso, rosto magro, cabelos cinzentos e uns olhos azuis calmos e bem-humorados, usava o negro dos clérigos como quem usa um uniforme militar, enquanto o tom amarelado da pele, o amarelado da malária, e as rugas em volta da boca encurvada para cima revelavam a história das suas campanhas em lugares exóticos. Saudou o superior com uma respeitosa reserva e depois virou-se para o bagageiro que se debatia com três pesadas malas:

- Cuidado com essas malas. Aí dentro está o trabalho de metade de uma vida.

Virou-se para Semmering e prosseguiu, encolhendo os ombros:

-Parti do princípio de que estava a ser transferido. Trouxe comigo todos os meus papéis.

O geral lançou-lhe um dos seus raros sorrisos.

- Fez bem, padre. Esteve longe durante demasiado Tempo. Agora precisamos de si aqui.

Um clarão de malícia tremeluziu nos olhos azuis de Télémond.

- Estava com medo de ir ser atirado para a Inquisição.

Semmerling soltou uma gargalhada.

- Ainda não... É muito, muito bem-vindo, padre.

- Sinto-me satisfeito- respondeu Télémond, com uma curiosa simplicidade, - Foram anos muito difíceis para mim.

Rudolf Semmering ficou espantado. Não esperara um homem tão brusco e consciente, mas ao mesmo tempo sentiu uma pequena vaga de satisfação. Aquele homem não era um vago sábio, mas sim um homem com a mente clara e um coração forte. O silêncio não o quebrara, o exílio não o submetera. Um espírito obediente era uma coisa, mas um homem com a vontade destruída não serviria de nada, nem para ele nem para a Igreja.

Semmering respondeu-lhe com gravidade:

-Sei o que fez. Sei o que sofreu. Talvez lhe tenha feito a vida mais difícil do que o necessário. Peço-lhe apenas que acredite que agi de boa-fé,

Nunca tive dúvidas - retorquiu Jean Télémond, com um ar ausente. - Mas vinte anos é muito tempo. - Manteve-se silencioso durante um bocado, mirando os campos verdes de Óstia salpicados por antigas ruínas e novas escavações, onde as papoilas vermelhas nasciam entre as fendas das velhas pedras. De súbito, perguntou: - Ainda estou sob suspeita, padre?

- Suspeita de quê? Télémond encolheu os ombros.

- Heresia, rebelião, modernismo secreto... não sei. Nunca foi muito explícito comigo.

- Tentei sê-lo - disse Semmering, num tom moderado. - Tentei explicar que se tratava de uma questão de prudência e não de ortodoxia. Alguns dos seus primeiros documentos e comunicações chamaram a atenção do Santo Ofício. Não foram nem condenados nem censurados. Pensaram, e eu concordei, que precisava de mais tempo e mais estudo. Tem uma grande autoridade, sabe? Queríamo-la usada nos melhores interesses da Fé.

- Acredito - declarou Télémond. - Se assim não fosse, creio que teria abandonado o meu trabalho. - Hesitou um momento e depois perguntou: - Qual é a minha posição actual?

- Trouxemo-lo para casa - respondeu Semmering com gentileza-’, porque lhe damos o devido valor e necessitamos de si. Há aqui trabalho para si, e urgente.

-Nunca pus condições, como sabe. Nunca tentei regatear com Deus ou com a Companhia. Trabalhei o melhor que me foi possível dentro dos limites impostos. Agora... agora gostaria de perguntar uma coisa.

- Pergunte-’disse Rudolf Semmering.

-Penso...-’afirmou Télémond, com todo o cuidado.-Penso que fui tão longe quanto possível nesta estrada solitária. Penso que o que fiz precisa de ser testado pela discussão e pelo debate. Gostaria de começar a publicar o meu trabalho, de submter as minhas teses a críticas abertas. É a única maneira de aumentar os conhecimentos, a única maneira de alargar os horizontes do espírito... Nunca antes pedi nada, mas imploro-lhe agora o seu apoio e o apoio da Companhia.

- Tê-lo-á -• declarou Rudolf Semmering.

Os dois homens encaravam-se, instalados nos exíguos assenfos do automóvel que se deslocava a toda a velocidade. Superior e súbdito, o homem que obedecia e o que exigia o cumprimento dos votos.

A face de Télémond descompôs-se um pouco e enevoaram-se-lhe os olhos azuis. Constrangido, declarou:

- Não... não esperava tanto. São na verdade umas belas boas-vindas.

- Melhores do que pensa - disse o geral, baixinho. - Mas continuam a existir riscos.

- Sempre soube que existiriam. Que quer que faça?

- Primeiro terá de passar num teste. Será um teste difícil e tem menos de um mês para se preparar para ele.

- Que espécie de teste?

- O trinta e um de Julho é o dia da festa de Santo Inácio de Loiola.

- Fui ordenado nesse dia.

- É um bom presságio, porque é nesse mesmo dia que Sua Santidade irá visitar a Universidade Gregoriana, que como sabe, deve a sua criação ao nosso fundador e a S. Francisco Bórgia... Quero que faça o discurso comemorativo na presença de Sua Santidade, do professorado e dos estudantes.

- Deus me ajude! - exclamou Jean Télémond. - Que Deus ajude a minha balbuciante língua!

Quando entraram no clamor da cidade pela porta de San Paolo, enterrou o rosto nas mãos e chorou.

Ruth Lewin, sentada sob um toldo às riscas na Via Veneta, beberricava uma aranciata e observava as multidões do almoço a dispersarem para a sesta. A branda atmosfera de Verão alegrara-lhe o espírito e sentia-se capaz de se livrar de todas as preocupações do mundo apenas com um longo e confortável bocejo. Até a cidade lhe parecia haver tomado um novo aspecto. O barulho do tráfego era um som amigável. As pessoas andavam mais bem vestidas do que era habitual. Os empregados eram mais corteses. As miradas dos homens eram um cumprimento.

Nada se modificara na sua situação. Nenhuma das suas dúvidas ou dilemas se resolvera por si só, mas agora pesavam-lhe menos e suportava-as com melhor humor. Era como se a sua longa convalescença tivesse terminado e pudesse de novo retomar o seu lugar normal nas relações do mundo.

Não se tratava apenas de uma ilusão. Sofrera durante demasiado tempo as perigosas alternâncias de exaltação e depressão para se deixar enganar pela cura. Porém, as oscilações eram agora mais curtas... os altos eram menos entontecedores e os baixos menos aterrorizadores. A pulsação da vida recuperava a batida regular. A febre acabara por desaparecer e o momento de crise fora o seu encontro com Kiril, o pontífice, numa ruela de Roma.

Mesmo agora aquela recordação ainda ostentava um certo brilho de maravilha. O seu tão estranho aspecto, a cicatriz, a barba, o contraste entre as funções e o modesto vestuário... No entanto quando se vira confrontada com ele na sua própria casa, por cima da banalidade do café e dos biscoitos, a impressão não fora de estranheza, mas sim de simplicidade.

Desde que cortara os laços com a Igreja que mantivera um oculto desprezo pela conversa dos clérigos e pelas formas das convenções clericais. Este homem não tinha nada disso. Usava a sua crença como uma pele, e as convicções eram expressas com a mansidão de quem as adquirira por um preço que não pediria a outros que pagassem. As palavras saíam-lhe da boca como moedas recém-cunhadas e tilintavam de sinceridade:

«Toda a vida é um mistério, mas a resposta para esse mistério está no exterior de nós próprios e não no interior. Não podemos pelar-nos como quem péla uma cebola, na esperança de, quando atingirmos a última camada, descobrirmos finalmente o que é uma cebola. No fim, ficamos sem nada. O mistério de uma cebola continua por explicar porque, tal como o homem, é o resultado de um permanente acto criador... Calço as sandálias de Deus, mas não lhe ; posso dizer muito mais. Não’ está a ver? É isto o que estou aqui para ensinar... um mistério! As pessoas que exigem a Criação explicada do principio ao fim, exigem o impossível. Já alguma vez pensou que ao exigir a explicação de tudo está a cometer um acto de orgulho? Somos criaturas limitadas. Como é que um de nós pode abranger a infinidade?»

Na boca de outro, aquelas palavras teriam soado de um modo seco e empolado, mas da boca de Kiril vinham dotadas com o dom de sarar, porque não eram lidas num livro, mas sim nos palimpsestos do seu próprio coração. Não a repreendera por ter abandonado a fé baptismal, mas falara-lhe dela com amabilidade, como se fosse, por si só, uma espécie de misericórdia.

«No mundo não há duas pessoas que cheguem a Deus pelo mesmo caminho. São poucos, muito poucos, os que chegam até Ele sem cambalearem nem caírem. Há sementes que crescem durante muito tempo na escuridão antes de lançarem os seus rebentos ao sol... Há outras   ( que surgem à luz do dia num só impulso, num único dia... Encontra-se agora na escuridão, mas se deseja a luz, com o tempo acabará por descobri-la... A alma humana, sabe, encontra barreiras que é obrigada a atravessar, o que nem sempre consegue fazer com uma só passada. A direcção em que a alma viaja é a coisa mais importante. Se viaja afastando-se de si mesma, então no fim acabará por se encontrar com Deus. Se arde dentro de si própria, esse é o caminho do suicídio, porque sem Deus não somos nada... Portanto, tudo aquilo que a impulsiona para um crescimento exterior - serviços, amor, ou o simples interesse pelo mundo- pode ser um passo na Sua direcção...»!

Perturbada como estivera naquela noite, não absorvera toda a importância do que ele lhe dissera, mas as palavras haviam-lhe ficado impressas na memória e em cada dia que passava descobria-lhes novos significados e novas aplicações. Se agora era capaz de permanecer calmamente sentada ao sol do Verão, observando a loucura e a agitação da cidade, então isso era por causa de Kiril, que se sentava no trono dos julgamentos, mas no entanto não preferia veredictos. Se o amor era   mais uma vez possível, então seria-o por causa dele, que vivia solitário na celibatária Cidade do Vaticano.

Amor...! Era uma palavra camaleónica, e já vira mais dos seus aspectos e colorações do que seria capaz de admitir sem corar.

Todas as grandes cidades possuem os seus enclaves de estropiados, de estranhesas e excentricidades, que suportam a vida da melhor maneira que lhes é possível e se sentem gratos pelo mais temporário abrandamento da sua solitária miséria. Ali, em Roma, o reino dos pedintes do amor era um domínio estranho e poliglota. No seu tempo, vagueara pela maior parte dele.

Era uma traiçoeira jornada para uma viúva de trinta e cinco anos com dinheiro no banco e um coração vazio de recursos. Rapazinhos infelizes tinham chorado as mães sobre o seu peito. Maridos extraviados e turistas folgazões haviam aparecido a baterem-lhe à porta. Homens de nomes aristocráticos tinham-na feito confidente das suas exóticas ligações. A irmandade secreta oferecera-lhe a entrada nos mistérios sáficos. No fim emergira de tudo aquilo, insatisfeita e abalada, sabendo que não existia lugar para ela nem sequer no submundo da estranheza.

Amor...! Ali, na Via Veneto, bonitas raparigas com cãezinhos à trela vendiam-no pelo preço do aluguer por uma noite. Nos clubes e bares qualquer mulher com uma pronúncia estrangeira podia adquiri-lo com um sorriso e com o manejo de um lenço de renda... Mas onde e como encontrar a pessoa em quem gastar aquele seu novo eu, recém-descoberto... tão frágil e subitamente tão precioso?

Por milagre, o Humpty-Dumpty fora apanhado e colado de novo. Estava sentado em cima do muro, sorridente e batendo palmas à multidão. Mas se voltasse a cair e a cola se despegasse... quem iria remendar a casca do ovo? Oh, meu pequeno espírito branco e vagabundo, por favor mantém-te inteiro!

No meio do clamor do tráfego ouviu que a chamavam pelo nome:

- Ruth Lewin! Onde é que tens estado escondida?

Olhou para cima e viu George Faber, de cabelos cinzentos e esmerado como um qualquer dandy romano, que a mirava.

Kiril, o pontífice, encerrara-se no seu gabinete privado com dois dos seus principais ministros: o cardeal Goldoni, secretário de Estado, e o cardeal Clemente Platino, prefeito da Congregação para a Propagação da Fé. A finalidade da reunião era um dia inteiro de análise

 

1 Humpty-Dumpty, personagem do conto Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carrol. (N. do T.)


dos assuntos da Igreja, Santa, Universal e Apostólica. O gabinete era uma ampla sala despida de ornamentos, excepto1 quanto a um crucifixo esculpido em madeira colocado por detrás da secretária do pontífice, e na parede oposta uma placa cheia de mapas mostrando a distribuição das comunidades católicas através do mundo.

Noutro ambiente e com outras roupas poderiam passar por um trio de homens de negócios internacionais: o pontífice, moreno, barbudo e exótico; o secretário de Estado, de cabelos cinzentos, volumoso e asperamente eloquente; Platino-, alto, de um moreno muito carregado, urbano, com um grande nariz semelhante a um bico de águia, herança de um qualquer antepassado espanhol.

Mas naquele lugar e naquele momento todos se dedicavam, e cada um deles até ao limite dos seus talentos, a uma extravagância que prometia fracos lucros em qualquer negócio: a preparação de todos os homens para a morte e para a união com um Deus invisível. A conversa abrangia diversos assuntos: dinheiro, política, tratados militares, acordos económicos, personalidades em altos lugares em todo o mundo; mas no entanto o fulcro da discussão era sempre o mesmo: como espalhar através do mundo o conhecimento de Cristo, os Seus ensinamentos e a sociedade que Ele fundara para os preservar e disseminar.

Para aqueles homens todas as questões -como se casava um homem, como era educado, quanto lhe pagavam, as suas lealdades nacionais- eram a base para uma proposta teológica. Tinha a ver com o Criador e com as criaturas e com a eterna relação de um com o outro. Tudo o que era feito no tempo, considerado como dimensão, tinha as suas raízes e a sua continuidade na eternidade.

Quando o secretário de Estado nomeava um embaixador para a Áustria ou um legado para o Uruguai, a sua função era a manutenção de um relacionamento oficial com o governo para que num clima de acordo entre a Igreja e o Estado as almas humanas pudessem mais facilmente ser levadas ao conhecimento e à prática de uma verdade salvadora.

Quando Platino encarregava esta ou aquela congregação missionária de se internar nas selvas do Amazonas, fazia-o com plena convicção de que obedecia a uma clara ordem de Cristo, para levar os Evangelhos da esperança àqueles que permaneciam na escuridão sob as sombras da morte.

Era no entanto um ponto de vista que, por si só, dava origem a problemas especiais. Os homens que faziam o trabalho religioso mostravam-se propícios a tornarem-se descuidados quanto aos aspectos humanos desse mesmo trabalho. Homens que lidavam com a moeda corrente da eternidade tendiam a depor demasiadas esperanças no futuro e a deixar que o presente escapasse ao seu controlo. Aquelês que eram apoiados pela estrutura da Igreja, velha de dois mil anos, estavam pouco protegidos das consequências dos seus próprios erros. Com tantas tradições em que se apoiarem, mostravam-se frequentemente sensíveis e suspeitosos com os novos modos de acção cristã.

Mesmo assim e apesar de tudo isso, homens como Platino e Goldoni tinham uma aguda consciência do mundo em que viviam e dofacto de que, para levarem a cabo o trabalho de Deus, tinham de agir de acordo com o que o homem fizera por si ou a si. Platino salientava esse ponto. O longo dedo moreno apontou para um local do Sudeste da Ásia.

- ... Aqui, por exemplo, Santidade, é a Tailândia. Do ponto de vista constitucional é uma monarquia, mas na realidade é uma ditadura militar. A religião do Estado é o budismo. Num qualquer período da sua vida todos os membros masculinos da família real e todos os funcionários superiores envergam as vestes cor de açafrão e passam algum tempo num mosteiro. Temos aí escolas que são dirigidas por freiras e por sacerdotes professores. Têm liberdade para dar instrução religiosa, mas não durante as horas normais de funcionamento das escolas. Os que querem ser instruídos na Fé devem lá dirigir-se fora dessas horas. Esta é a nossa primeira dificuldade, ”mas há outra. Os funcionários nomeados pelo Governo, e todas as funções com alguma importância são preenchidas por nomeação governamental, são apenas budistas. Oficialmente, é claro que isto não é admitido como verdadeiro, mas na realidade é assim. O país está subdesenvolvido. A maior parte do comércio encontra-se nas mãos dos chineses, pelo que, para todos os fins práticos, um homem que se torne cristão tem de se resignar a perder toda a esperança de desenvolvimento económico ou social... O temperamento do povo, também condicionado pelas crenças budistas, é resistente às mudanças e suspeita de todas as influências externas,...

»Por outro lado, é evidente que entre os jovens há um crescente conflito íntimo’. Dia-a-dia são postos em contacto com a civilização ocidental por intermédio das ajudas militares e económicas dos americanos, mas têm muito poucas oportunidades de trabalho. Forneceram-me o que creio ser uma estatística de confiança, que diz que vinte e cinco por cento dos estudantes mais velhos, do sexo masculino, já estão viciados na heroína antes de saírem da escola. Está a ver o problema... Que fazer para conseguirmos uma penetração real nas mentes e corações do povo?

- Como resume o trabalho que lá fazemos agora? - perguntou o pontífice, com uma expressão séria.

- Basicamente como um trabalho de educação e caridade. Ao nível humano estamos a ajudar a aumentar a taxa da alfabetização.

Dirigimos hospitais, que são usados como centros de aprendizagem. Há uma casa para a reabilitação das raparigas que foram tiradas dos bordéis... Servimos a comunidade. Mostramos a Fé aos que passam pelas nossas mãos. Contudo-, o número de conversões é muito pequeno e ainda não conseguimos entrar efectivamente nos corações e nas mentes do país.

- A nossa posição no Japão é ainda pior - afirmou Goldoni, com os seus modos bruscos. - Temos uma concordata que nos dá condições de trabalho muito mais eficientes do que na Tailândia, mas também não conseguimos aí uma penetração real.

- No entanto, outrora conseguimos lá penetrar - disse Kiril, com um sorriso. - Tudo começou com um só homem, S. Francisco Xavier. Os descendentes dos que ele converteu ainda existem... os Velhos Cristãos de Nagasaqui e Nara. Por que é que falhamos agora? Temos a mesma mensagem, Concedemos as mesmas graças que a Igreja das Catacumbas concedia. Por que falhamos?--Levantou-se da cadeira e parou junto do mapa, apontando para país atrás de país e analisando os falhanços e os recuos da Igreja. - Olhem para África. Os meus predecessores proclamaram constantemente a necessidade da rápida preparação de clérigos nativos, homens identificados com o seu próprio povo, falando a língua, compreendendo os seus símbolos e necessidades especiais. Fez-se muito pouco e demasiado devagar. Agora o continente avança para uma federação de nações africanas independentes e puxaram-nos o tapete de debaixo dos pés... Aqui, no Brasil, temos uma imensa expansão industrial e uma enorme população de camponeses na mais esmagadora das pobrezas. Para quem é que se estão a virar, para que lhes defendam a causa? Para os comunistas. Não pregamos a justiça? Não estaremos preparados para morrer por ela, como por qualquer outro artigo da Fé? Volto a perguntar-vos: onde é que estamos a falhar?

Goldoni soltou um silencioso suspiro de alívio e deixou a resposta para o colega, No fim de contas, era a Secretaria de Estado que tinha de lidar com aquela situação e com os diplomatas e políticos que existiam, bons ou maus, pagãos ou cristãos, Plantino, por outro lado, era o homem directamente responsável pela divulgação da crença cristã através do mundo. A sua autoridade era enorme e dentro da Igreja chamavam-lhe o «Papa Vermelho», tal como chamavam ao geral dos Jesuítas o «Papa Negro».

Platino não respondeu de modo directo. Pegou em duas fotografias que se encontravam em cima da secretária e entregou-as ao pontífice, Uma delas mostrava um índio papua de cabelo encarapinhado, de camisa e calções brancos, com um pequeno crucifixo pendurado ao pescoço. A outra era um retrato de um nativo das terras altas da Nova Guiné, com um toucado de aves-do-paraíso e uma presa de javali enfiada no nariz.

Quando o pontífice examinou as fotografias, Platino explicou-as com todo o cuidado:

- Talvez estes dois homens respondam à pergunta de Vossa Santidade. São ambos da mesma ilha, a Nova Guiné. É um lugar pequeno, economicamente pouco importante, mas que do ponto de vista político se pode vir a transformar no centro de uma federação de ilhas do Pacífico. Dentro de dois anos, no máximo cinco, a Nova Guiné será um país independente... Este homem... - e apontou para a fotografia do homem que usava um crucifixo - ... é de uma das nossas missões, professor de uma escola católica na costa. Viveu toda a sua vida numa colónia da missão. Fala inglês, pidgin e matu. Ensina o catecismo e foi proposto a candidato ao sacerdócio... O outro é um chefe tribal das montanhas e dirige vinte mil homens. Não fala inglês, compreende o pidgin, mas fala apenas o dialecto das terras altas. Vemo-lo aí com vestes cerimoniais. Mantém-se agarrado às velhas crenças pagãs... No entanto, quando o país obtiver a independência, é ele o dirigente mais provável, enquanto o rapaz da missão não terá qualquer influência.

- Diga-me porquê - pediu Kiril, o pontífice.

- Pensei muito tempo nisso, Santidade - disse Platino, num tom deliberado. - Rezei muito. Ainda não tenho a certeza de ter razão, mas aqui está o que penso. Com o rapaz da missão obtivemos, em certo sentido, um admirável êxito. Educámos um bom ser humano. Guiámo-lo para o caminho da salvação. Vive em castidade, é justo e é um exemplo de uma vida piedosa. Se se tornar num sacerdote, ensinará a Palavra e dispensará as graças dos Sacramentos àqueles com quem entrar em contacto. É através dele e de outros como ele que a Igreja realiza a sua missão primária... a santificação de almas humanas individuais... Noutro sentido poderemos dizer que falhámos, porque neste rapaz - como o poderei explicar? - limitámos a relevância da Fé. Na missão criámos-lhe um pequeno mundo muito seguro. Um mundo cristão, sim, mas de qualquer modo um mundo que se afastou do outro, mais amplo, que é ainda a vinha de Deus. Fizemo-lo um indivíduo apolítico, e o homem é, por natureza, um animal social e político com uma alma imortal. Em grande parte deixámo-lo pouco preparado para o diálogo que terá de sustentar durante toda a vida com o resto dos seus semelhantes na carne... Olhem aqui para este nosso amigo, o do dente atravessado no nariz. É um homem de poder porque pratica a poligamia e porque cada uma das suas mulheres leva com ela um pedaço de terra que depois cultiva para ele. Mantém-se agarrado às velhas crenças porque estas são a base de comunicação com a tribo. É o seu mediador ante os espíritos tal como o- é para com os homens de outras línguas. Compreende as leis tribais e a justiça tribal. Nas dificuldades e confusões que se seguirão à concessão da independência, falará com mais; autoridade e mais importância do que o rapaz da nossa missão porque não se manteve divorciado das realidades da existência social... Vossa Santidade falou do Brasil e da América do Sul. Há uma analogia entre as duas; situações. A Igreja tem de lidar com os homens tendo em conta as circunstâncias em que eles vivem. Se têm fome, temos de os alimentar; se são oprimidos, temos de os defender para que tenham, pelo menos, o mínimo de liberdade necessária para porem as suas almas em ordem. Não podemos pregar do púlpito «não roubarás» para depois permanecermos inactivos enquanto se cometem injustiças sociais e políticas para com aqueles que se sentem para escutar as nossas pregações... Vemos um estranho- exemplo na Polónia, onde a Igreja foi obrigada, para a sua própria sobrevivência, a iniciar um diálogo com elementos que lhe são hostis. Teve de provar que era importante, e fê-lo. Vive agora mais forte por esse mesmo motivo, apesar de viver de um modo mais doloroso... - Fez uma pausa e limpou a testa com um lenço. - Perdoe-me, Santidade, se passar a falar ainda com mais violência. Todos vimos os progressos feitos sob o vosso predecessor, para um crescimento da unidade entre as comunidades cristãs separadas. O nosso trabalho nesse campo ainda mal começou, mas sim parece-me que nos campos em que nos mantivemos em posições defensivas, em que recuámos, guardando a Fé para nós próprios como se esta pudesse ficar maculada ao contacto com o mundo, aí falhámos. Onde nos mantivemos como testemunhas, onde afirmámos de uma maneira mais ousada que os Evangelhos são importantes para todos os actos humanos e para todas as situações, aí procedemos bem.

- Vós afirmai-lo - disse Kiril, com rudeza - e eu afirmo-o, tal como o fazem os nossos irmãos bispos espalhados por todo o mundo, mas a afirmação não chega até ao povo com a mesma clareza e os mesmos frutíferos resultantes... Nem sequer chega aos meus romanos, aqui mesmo-. Porquê?

- Penso - declarou o secretário de Estado, com brusquidão que o mundo se está a educar a si próprio mais depressa do que a Igreja. Vou dizê-lo de outro modo: o conhecimento que é necessário para fazer um Acto de Fé e um Acto de Arrependimento não é o suficiente para fundar uma sociedade cristã ou para criar um clima religioso. -Nos últimos vinte anos os homens foram projectados para uma nova e aterrorizadora dimensão de existência... A curva da ciência humana desde a invenção da roda até à do motor de combustão interna é uma curva longa e gradual. Cobre -quanto? cinco, dequinze mil anos. A partir do motor de combustão interna

até este momento, a linha dá um salto quase vertical, apontando para a Lua... Têmpora mutantur - citou, num aparte.-Os tempos mudam e o homem muda com eles. Se a nossa missão tem algum significado, então isso quer dizer que cada novo alargamento da mente humana deveria originar um alargamento da sua capacidade para conhecer, amar e servir a Deus.

- Penso-disse Kiril, o pontífice, com um sorriso-que deveria enviar-vos aos dois numa jornada missionária. - Atravessou a sala em direcção à secretária e sentou-se, encarando-os. Pareceu recolher-se por um momento e a seguir, muito depressa é de uma maneira quase humilde, explicou-se: - Sou, como sabeis, um homem impaciente. Desde que me sentei na cadeira de Pedro que um dos meus medos tem sido o de vir a actuar com demasiada pressa e prejudicar assim a Igreja que me foi posta nas mãos... Tenho tentado ser prudente e dominar-me. Ao mesmo tempo compreendi que um homem, em toda a sua vida, não pode transformar o mundo. O símbolo da Cruz é o símbolo do aparente falhanço e da loucura do próprio Deus... Mas a minha função é ensinar e dirigir, e decidi agora mesmo por onde quero começar... O que me disseram confirma a minha decisão. Estou grato a ambos. Quero que rezem por mim.

Os dois cardeais permaneceram sentados e silenciosos, à espera que continuasse. Para uma surpresa, viram-no- abanar a cabeça:

- Sejam pacientes comigo. Preciso de tempo e de orações, antes de me declarar. Vão, em nome de Deus.

-Suponho- disse George Faber, com os seus modos inseguros - que perguntas a ti mesma porque é que te contei tudo isto acerca de Chiara e de mim.

Ruth Lewin soltou uma gargalhada e encolheu os ombros.

- É assim que as coisas se passam em Roma... toda a gente tem uma história, e em geral um estranho é o melhor dos ouvintes.

- No entanto não somos completamente estranhos. Quantas vezes nos encontrámos? Meia dúzia, pelo menos. Nos Antonelli, no Herman Seidler e no...

-- Pronto, já me convenceste de que não somos estranhos. Continua. ..

- Sentia-me em baixo-... e fiquei muito satisfeito por te ver.

- Obrigada, amável cavalheiro.

--No fim de contas, não sou pessoa para contar a história da minha vida a todas as raparigas que encontro pelas esquinas.

- Não me parece que em Roma faça diferença contares ou não a tua história. De qualquer modo, as pessoas conhecem-na... em diferentes versões, claro!

Faber sorriu-se e por momentos pareceu-se com um rapazinho muito consciente de si mesmo.

- Nunca ouvi a tua história, Ruth. Defendeu-se daquela sondagem com um sorriso.

-Nunca a contei. Além disso não faço parte da sociedade... dos cocktails.

-’’Então de que é que fazes parte?

- Tenho perguntado isso a mim mesma, muitas vezes.

- Tens alguns amigos aqui?

- Alguns. Por vezes convidam-me para jantar. Visito-os quando me sinto para aí inclinada. Trabalho um pouco entre os patos coxos da velha Roma. Quanto ao resto... Mi arrangio. Vou-me governando, de uma maneira ou de outra.

Procurou mais uma vez evitar a resposta.

- És feliz?

- Há alguém feliz? Tu és?

-Eu? Eu estou num sarilho - retorquiu George Faber, com dureza.

-Não é isso que consta.

Faber olhou para cima de repente, perguntando a si mesmo se a jovem estaria a gozá-lo. Não era um homem com um grande sentido de humor e as graças deixavam-no sempre desconfiado.

- Então que é que consta?

-Que tens a vida mais limpa de toda a Roma... e uma bela amante para a completar.

- Não é assim que eu a vejo. Quero casar-me. Parece que a única maneira de o conseguir é metendo-me em chantagens e políticas de bastidores e juntando-me a um bando de maricas e lésbicas.

- Achas que o risco compensa?

A sua face pesada e simpática ensombrou-se, e passou a mão pelo cabelo cinzento, num gesto nervoso.

- Suponho que sim, mas na verdade ainda não tive tempo para pensar nisso.

- O que quer dizer que não tens a certeza.

-Não, não’ tenho.

Como se pretendesse desviar-lhe a atenção, Faber fez sinal ao empregado para lhe levar mais uma chávena de café. A seguir acendeu um cigarro e olhou pensativo para a montra da loja que se encontrava do outro lado da rua. Apesar de todo o seu desprendimento, Ruth   Lewin sentiu-se tocada por uma vaga de piedade pelo homem. não era um jovem, apesar de a maior parte das mulheres ainda pudessem considerá-lo atraente. Construíra para si mesmo uma confortável carreira e um nome respeitável dentro do seu ambiente. Agora pediam-lhe que os arriscasse a ambos por causa de uma rapariga que, uma vez livre, se poderia vir a cansar dele e ir em busca de amores mais jovens. Abandonou o tom trocista e interrogou-o de uma maneira mais gentil.

- Que quer a Chiara?

- Liberdade a todo o preço.

- Mesmo ao preço da tua carreira?

-Também não- tenho’ a certeza disso.

- Não achas que lhe devias perguntar?

-É isso que me preocupa... Nem eu mesmo sei muito bem os riscos que corro. Tudo o que sei é que, por um lado, há umas facetas de chantagem... e que deverei ser o chantagista. Não me interpretes mal. Ando metido neste jogo há muito tempo. Sei que todos os jornalistas de vez em quando se sentem tentados a servirem-se da sua profissão para conseguirem lucros pessoais. A experiência diz-me que a maior parte daqueles que o fazem acaba sempre por perder. Nunca me interessei pela denúncia de corrupções... e orgulho-me disso... Por outro lado, luto por algo e por alguém de grande valor para mim.

-Se desafiares o Corrado Calitri para uma luta - disse Ruth Lewin, com moderação -, posso garantir-te que vai ser muito dura.

Faber olhou-a, surpreendido.

- Ah, então conheces o Calitri?

- Conheço algumas das pessoas que ele conhece. Fazem um jogo muito sujo quando se sentem atingidas.

O homem hesitou um instante e depois enfrentou-a com uma pergunta:

-”Podes ajudar-me a encontrar-me com algum deles?

- Não. - A resposta teve um tom de decisão. -E porque não?

- Vivi nessa pequena Arcádia durante algum tempo. Não gostei dela. Não quero lá voltar. Além disso, és um jornalista. Tens os teus próprios contactos.

-Não muitos em quem possa confiar. Serias capaz de me dar nomes... e informações?

Para sua surpresa, a jovem rebentou em gargalhadas. Depois, vendo o seu ar descomposto, pousou-lhe no pulso uma apologética mão.

- Pobre George! Não devia rir-me de ti. Mas pergunto a mim própria... Sim, na verdade, pergunto a mim própria...

- O quê?

-Interrogo-me a teu respeito e da Chiara. Estão os dois assim tão certos de que podem empreender essa luta... de perder ou ganhar? Se perderem, sabes, irão cortar-vos aos bocadinhos e dar-vos a comer aos leões, como aconteceu com os primeiros cristãos. A Igreja não quererá nada convosco. Nunca mais serás bem recebido nem no Vaticano nem no Quirinal. Estão preparados para isso? O teu amor por Chiara é assim tão grande? E o dela por ti?

Faber encolheu os ombros e abriu as mãos sobre a mesa num gesto muito romano, de alguém que estava intrigado.

-Bah! Em Roma, toda a gente fala de amor. Todos brincam com ele à sua própria maneira. Também eu o fiz, mas agora já é tarde para mim. Não quero cometer um erro.

- Gostaria de te ajudar, mas trata-se da tua vida e da tua rapariga... Agora tenho de ir, está a fazer-se tarde.

- Importas-te que te leve a casa?

- É melhor não... Apanho um táxi. --Podemos voltar a encontrar-nos?

- Porquê, George?

Faber corou de infelicidade.

-”Gostei de conversar contigo. Espero que te decidas a ajudar-me. Além disso, se for em frente com este assunto do Calitri, preciso de falar com alguém em quem possa confiar.

-Que é que te faz pensar que podes confiar em mim?

-Tu própria disseste que não pertences ao círculo das más-línguas. Além disso, gostaria de acrescentar que és uma rapariga muito crescida.

-São essas as melhores recomendações que me podes dar?        

Mais uma vez o seu estranho humor veio à’Superfície.

- Dá-me tempo e poderei pensar noutras. Separaram-se depois daquela nota de indecisão. Enquanto seguia :

para casa no táxi, no meio do ruído do trânsito da tarde, recordou-se de que para ela era também demasiado tarde e mais uma vez sentiu uma vaga de traiçoeira piedade por George Faber e pelo seu confuso coração de meia-idade.

 

EXTRACTO DAS MEMÓRIAS SECRETAS DE KIRIL I, PONT. MAX.

... Passa uma hora da meia-noite... o começo de um novo dia, Um dia importante para mim, porque pela primeira vez me irei dirigir a toda a Igreja. Ao fim da tarde de ontem pedi ao meu confessor que viesse ter comigo para purgar-me dos pecados do dia e purificar-me para a tarefa que vou iniciar.

A seguir implorei-lhe que ficasse comigo um bocado e que servisse à missa que quis celebrar imediatamente após a meia-noite... É curioso como um mesmo sacerdote pode ser tão diferente ao celebrar o Sacrifício. Por vezes sente-se seco e indiferente e tem de fazer um esforço de vontade para se concentrar no ritual familiar e no espantoso significado do Acto da Consagração. Outras vezes é como se se encontrasse fora de si mesmo e no espírito, tal como disse S. João. Tem-se a consciência de Deus. Sentimo-nos simultaneamente humildes e exaltados, receosos e tremendamente felizes...

Esta noite também foi diferente. Comecei por compreender, de maneira nova, a natureza das minhas funções. Quando no momento da elevação ergui a Hóstia por cima da minha cabeça, senti todo o verdadeiro significado do «nós» com que os pontífices em geral se dirigem ao mundo. iNão sou eu que falo ou escrevo’, é a Igreja através de mim e Cristo através de mim e da Igreja,

Sou eu próprio, sim... mas se falar apenas de mim e para mim, não sou nada. Sou como os sinos de vento, cujo som se modifica a cada brisa... Mas a Palavra não pode mudar. A Palavra é imutável... «No princípio era a Palavra, e a Palavra estava com Deus, e a Palavra era Deus.» No entanto e noutro sentido, a Palavra deve renovar-se em mim, tal como o redentor Acto da Crucificação se renova nas mãos de cada sacerdote quando este diz a missa. Sou o junco através do qual deve soprar a voz do espírito, para que os homens a ouçam à maneira dos seus próprios tempos...

O papel mantém-se branco na minha frente, as penas estão prontas. E Kiril, estará pronto? Rezo para que assim seja. Que devemos escrever? E como e a quem?

O meu tema é a educação, a preparação do homem para que ocupe o seu lugar neste mundo e no próximo. A minha ”carta será uma discussão das funções educativas da Igreja... a sua função de «conduzir» a alma do homem para fora da escuridão da ignorância e dos laços da carne, para a luz e a liberdade dos filhos de Deus...

Como deverei escrever? Tão simplesmente quanto< possa, porque as verdades mais profundas são as declaradas de um modo mais simples. Devo escrever do fundo do coração... cor ad cor loquitur. E devo escrever na minha própria língua, porque essa é a melhor maneira de um homem falar de Deus e com Ele. Mais tarde os latinistas pegarão nas minhas palavras e fixá-las-ão sob a forma antiga, o que as preservará para um registo permanente na Igreja, A seguir surgirão os tradutores, que as transporão para uma centena de outras línguas em que a Palavra de Deus tem de ser pregada.

...O mundo é uma Torre de Babel de vozes conflituosas, mas dentro da Igreja existe e deverá sempre existir «a unidade do espírito nos laços da fé.

Fora da Igreja também existe uma unidade que muitas vezes negli- ; genciamos. É a unidade dos homens que sofrem juntos uma existência comum, se deliciam com alegrias comuns, partilham das mesmas confusões;, tristezas e tentações...

Sou recordado de algo frequentemente esquecido por nós, pastores; o Testemunho da Alma, de Tertuliano... «Homem é uma das palavras que pertence a todas as nações da Terra. Em todos eles há uma alma, mas muitas línguas. Cada país tem a sua própria linguagem, mas no entanto os assuntos de que falam as almas incultas são os mesmos em todo o lado.»

Há outra razão por que quero escrever em russo. Quero que Kamenev veja a minha carta tal e qual saiu da minha mão. Quero que por seu intermédio ouça os tons da minha voz, para que saiba que o amo e ao povo entre o qual nasci, Se tal fosse possível gostaria que recebesse o meu manuscrito, mas pode ser difícil colocar-lho nas mãos e não quero correr o risco de o comprometer.

A quem deverei escrever...? A toda a Igreja... aos meus irmãos bispos, a todos os sacerdotes, e frades, e freiras, a todos os fiéis, sem os quais a nossa função não teria significado’. Tenho de lhes mostrar que a sua missão não’ é apenas de ensinar, mas também de se educarem uns aos outros, com amor e indulgência, de emprestarem a sua força aos mais fracos, os seus próprios conhecimentos aos ignorantes, e muita caridade a todos... quando o tiver escrito, que se passará? Devo começar por actuar «dentro da administração da Igreja para me certificar de que são feitas mudanças onde estas forem necessárias e de que a inércia de uma enorme e dispersa organização não se intrometa no caminho das intenções de Deus. Também terei de ter paciência, e tolerância, compreendendo que não tenho o direito de exigir de Deus êxitos visíveis em tudo o que eu tentar. Sou o jardineiro. Planto a semente e rego-a, sabendo que a morte me pode levar antes de conseguir ver o rebento ou a flor. É tarde e preciso de começar...

«Kiril, o servo dos servos de Deus, aos bispos e irmãos de todas as igrejas, paz e bênçãos apostólicas...»

 

O regresso a casa de Jean Télémond, S. J., era um pequeno e enfadonho assunto que não correspondia ao calor das boas-vindas do seu superior.

A sede da Companhia, no n.° 5 do Borgo Santo Spirito, era um grande edifício cinzento, sombrio como um quartel, aninhado por debaixo do domo de São Pedro. Os móveis eram escassos, funcionais e sem qualquer beleza discernível. O único homem que o saudou foi o irmão porteiro, um veterano calejado e de cabelos cinzentos que já vira muitos membros entrarem e saírem, pelo que mais um, menos um, não fazia diferença,

Todo aquele lugar tinha um aspecto triste e temporário, um abrigo para homens preparados para se despojarem dos confortos e dos laços humanos e para fazerem de si mesmos soldados de Cristo. Até os símbolos religiosos eram feios e produzidos em massa, servindo apenas para recordar uma vida íntima que nenhum símbolo seria capaz de representar devidamente.

Depois de rezarem juntos, o geral levou-o ao seu quarto, um cubículo pequeno e caiado de branco, mobilado com uma cama, um prie-dieu, um crucifixo, uma secretária e um conjunto de prateleiras. As janelas empoeiradas davam para um pátio, frio e deserto mesmo sob o sol do Verão. Jean Télémond vivera com mais rudeza do que a maioria e em lugares menos amigáveis, mas aquela primeira olhadela para a Casa Mãe mergulhou-o numa profunda depressão de espírito. Sentiu-se solitário, nu e estranhamente receoso. O geral deu-lhe o horário da Casa, prometeu apresentá-lo aos novos colegas durante a hora do jantar e partiu, deixando-o entregue a si próprio.

Levou apenas alguns momentos para desemalar as suas magras posses pessoais, e a seguir lançou-se à tarefa de arrumar o monte de apontamentos, manuscritos e volumosas pastas que representavam o trabalho da sua vida. Agora que chegara a altura de fazer o seu registo e de o apresentar ao mundo, parecia-lhe pequeno e insignificante.

Durante vinte anos trabalhara como paleootólogo na China, em África, na América e nas distantes Índias Orientais, traçando a geografia das mudanças, a história da vida registada na crosta da Terra. Os seus colegas e companheiros de trabalho haviam sido as melhores; mentes científicas. Sobrevivera a guerras e revoluções, à doença e à solidão. Resistira à perigosa dicotomia entre as suas funções como cientista e a sua vida como sacerdote religioso. E com que fim?

Durante anos crescera dentro dele a convicção de que a única finalidade inteligível para tanto esforço e sacrifício era demonstrar a vasta concordância da Criação, a convergência final do espiritual e do físico que marcariam a eterna conclusão de um eterno impulso criador. Meditara muitas vezes sobre o significado do velho provérbio «Deus escreve a direito por linhas tortas», e estava convencido, até ao tutano dos seus próprios ossos, de que o vector final de todas as forças da Criação era uma seta apontando a direito para uma divindade pessoal. Muitos outros antes dele haviam deste modo tentado justificar Deus aos homens. Os seus êxitos e falhanços eram marcos miliares do pensamento humano... Platão, Santo Agostinho, Alberto Magno, Tomás de Aquino... Cada um deles servira-se dos conhecimentos do seu tempo para construir uma teologia, uma filosofia ou uma cosmologia. Cada um deles acrescentara um novo estádio à jornada da desamparada razão; cada um deles elevara o homem muito acima da selva que o procriara.

Para Télémond, o projecto apresentava-se também sob uma outra forma: traçar, a partir do texto da Terra viva, a jornada da não- vida para a vida, da vida para a consciência e da consciência para a unidade final da Criação com o Criador.

Accreditava que o estudo do passado era a chave para os padrões do futuro. A justificação do passado e do presente jazia no amanhã que deles surgiria. Não era capaz de acreditar num Criador perdulário ou numa Criação difusa e acidental, sem finalidade. Na base de todo o seu pensamento - e também, assim o cria -, na base de todas as aspirações humanas, encontrava-se um instintivo desejo por uma unidade e uma harmonia do cosmo. Uma vez que os homens abandonassem essa esperança, condenavam-se ao suicídio ou à loucura.

Estava convencido, sem qualquer espécie de dúvida, de que essa harmonia existia. Também acreditava que podia ser demonstrada, apesar de sob uma outra forma de crença. O padrão estava à vista, mas ainda incompleto. Julgava ter-se apercebido das suas linhas principais, mas agora o seu problema era explicá-las em termos inteligíveis e aceitáveis. Uma exposição tão vasta necessitava de novas palavras, de novos níveis de pensamento, de novas analogias e de uma nova ousadia na especulação.

Havia demasiado tempo que o pensamento ocidental deixara de se inclinar para um conhecimento unificado do mundo. Mesmo na Igreja a espiral de pensamento dos sacerdotes orientais, a tradicional gnosis cristã, fora ensombrada pela tradição nominalista e racionalista dos teólogos ocidentais. Agora, como nunca, a esperança de sobrevivência do mundo parecia depender de um salto da mera lógica para um reconhecimento de novos e mais ousados modos de comunicação.

No entanto, o terror daqueles primeiros momentos em Roma era o de, sob o primeiro impacte daquela barulhenta e agitada cidade onde o passado e o presente se acotovelavam a cada esquina, as suas convicções parecerem enfraquecer. Roma era tão segura de si, tão sofisticada, tão céptica, tão certa de que tudo o que acontecera ou poderia acontecer havia já sido pesado e analisado para lá de qualquer disputa... que a sua própria voz deveria soar de um modo fraco e sem significado.

Muito tempo antes, de uma cabana à beira do deserto de Gobi, escrevera: «Compreendo agora o pouco que o simples facto de viajar dá ao homem. A não ser que o» seu espírito se expanda com a explosão’ do espaço à sua volta, o homem que regressa é igual ao homem que partiu.» Ali, na Casa Mãe da Companhia, onde os quartos tinham todos o mesmo aspecto, onde toda a gente vestia as mesmas sotainas pretas, participava nos mesmos exercícios de devoção e comia na mesma mesa, interrogava-se sobre se na verdade se teria modificado e se o alargamento mental que julgava haver obtido não passaria de uma mera ilusão.

Com um gesto de impaciência, amontoou os últimos manuscritos em cima da secretária, fechou a porta atrás de si e saiu para ir ver a cidade que o ameaçava de um modo tão vívido.

Alguns momentos de caminhada conduziram-no à larga entrada da Rua da Conciliação, permitindo-lhe uma visão total da Praça de São Pedro. O delgado dedo do obelisco apontava para o céu, e do’S dois lados as colunatas de Berlin descreviam um arco em direcção ao domo da basílica, iluminado pelo sol. A súbita majestade de tudo aquilo, a alta cúpula, as gigantescas figuras de pedra lá em cima, as massas de colunas e pilastras erguidas para o alto... oprimiram-no e sentiu-se bêbado com a Subitaneidade do sol e do espaço.

Instintivamente baixou os olhos para o aspecto humano: o vaguear dos turistas da tarde, os cocheiros dando à língua junto das cabeças dos cavalos, os pedintes com as pequenas caixas de rosários, os autocarros e automóveis, os finos esguichos das fontes. As rodas dentadas da memória entraram mais uma vez em funcionamento e recordou-se do que escrevera depois do seu primeiro olhar para o Grand Canyon do Colorado... «Não estou nem impassível nem tremendamente perturbado pela visão da grandeza natural, ou até por um espectacular refluxo abandonado pelos que o fizeram. Logo que o homem surge, fico de novo reconfortado, porque o homem é o único elo significativo entre a ordem física e a ordem espiritual. Sem o homem, o universo um deserto uivante contemplado por uma Divindade invisível...» Se o homem abandonasse até aquele esplendor sem idade que era São Pedro, este decompor-se-ia e apodreceria, transformando-se num lugar para o pasto de cabras, onde as raízes das árvores cresceriam por entre as pedras e onde os animais beberiam dos enlameados tanques das fontes.

Encorajado, caminhou através da praça em direcção à entrada da basílica, parando para olhar para os apartamentos papais e perguntando a si mesmo que espécie de homem habitaria agora neles. Em breve se encontrariam cara a cara e Jean Télémond teria de justificar o trabalho da sua vida ao homem encarregado de perpetuar a vida de toda a Igreja. Eram já vulgares os boatos a respeito do novo pontífice e do seu desafio aos reaccionários e aos extremos tradicionalistas do Vaticano. Havia quem visse nele o primeiro impulsionador de uma nova renascença dentro da Igreja, um novo e inesperado laço entre o lógico Ocidente e o iluminado Oriente.

Se os boatos fossem verdadeiros, então talvez houvesse alguma esperança de que Jean Télémond pudesse finalmente ver-se livre do exílio. Se não fossem...

Do outro lado da praça erguia-se o edifício do Santo Ofício, onde os Cães-de-guarda de Deus se mantinham vigilantes sobre a Base da Fé. Jean Télémond já era conhecido desses homens. Uma vez que um sacerdote caísse sob o seu minucioso exame nunca mais o esqueciam e tudo o que escrevia tinha de passar pelas suas mãos antes de poder ser impresso. O cardeal Leone ainda lá se encontrava, o homem da juba branca, olhos frios e temperamento incerto. Era um segredo de todos conhecido que Leone não gostava muito do geral dos Jesuítas, e que favorecia mais as opiniões e costumes das ordens que, na Igreja, eram mais antigas. Télémond interrogava-se sobre o que teria levado Semmering a correr o risco de desagradar ao velho leão, ao ordenar o regresso a Roma de um homem com opiniões suspeitas.

Havia políticas no interior da Igreja, tal como fora dela. Havia mentes curiosas e mentes relutantes. Havia tradicionalistas cegos e inovadores demasiado ansiosos. Havia homens que sacrificavam a ordem ao crescimento e outros que exigiam mudanças com tanta ousadia que acabavam por refreá-las durante séculos. Havia os vulgares beatos fanáticos e os ferozes ascéticos. Havia administradores e apóstolos... e que Deus ajudasse o infeliz que fosse apanhado entre as mós do moinho...

Existia apenas um refúgio; um compromisso, o que fizera havia muito tempo. Um homem só podia percorrer o caminho que via junto dos seus próprios pés, ou então o que lhe era apontado pelo seu superior. Depois disso ficava nas mãos de Deus... mãos que o rodeavam de um modo mais generoso, o seguravam de modo mais tranquilizador do que as mãos de qualquer homem.

Estremeceu de frio apesar do calor e apressou o passo em direcção ao interior da basílica, Avançou ao longo da nave cheia de ecos sem olhar nem para a direita nem para a esquerda em direcção ao santuário onde se ajoelhou durante muito tempo, orando ante o túmulo de Pedro.

Durante as primeiras horas da madrugada, aquelas horas frias entre a meia-noite e a manhã, George Faber permaneceu acordado, debatendo-se com a sua nova situação. A seu lado Chiara dormia como uma criança, saciada e tranquila. Nunca, durante todos aqueles meses de amor, passara por uma paixão tão tumultuosa, um acasalamento tão cheio de abandono como naquela noite. Todos os seus sentidos haviam despertado, todas as emoções haviam surgido ao de cima, e esgotara-se num clímax de união tão intenso que a própria morte lhe parecera apenas a um sussurro de distância. Nunca se sentira tão homem. Nunca as palavras haviam sido abafadas de modo tão total pelas torrentes de ternura e os transportes do desejo... E nunca, em toda a sua vida, se sentira tão subitamente dominado pela tristeza que se seguira.

Terminado o acto amoroso, Chiara soltara um pequeno suspiro de contentamento, enterrara o rosto na almofada e mergulhara logo no sono. Era como se o houvesse abandonado sem aviso e sem lhe dizer um adeus, para embarcar numa viagem só dela... como se, depois de ter tocado os limites do amor, o deixasse solitário para que enfrentasse a escuridão e os terrores de uma noite infindável.

Os terrores eram mais reais do que haviam sido antes. Um dia e de algum modo iriam ter de pagar por um prazer tão intenso’. Sabia, sem quaisquer sombras de dúvida, que iria ser ele a pagá-lo. O que sentira naquela noite fora um reviver da primavera que poderia nunca mais vir a repetir-se, porque ele já se encontrava no fim do Verão, no fim das colheitas, e o homem dos impostos aguardava ao portão para cobrar o que lhe era devido.

Para Chiara, a vida ainda se encontrava em débito. O pagamento fora deferido durante demasiado tempo e o seu corpo era avaro de atributos. Para ele próprio, um homem no lado errado dos quarenta, o caso era outro. Sabia onde se encontravam ocultas as etiquetas, os preços a pagar. Sabia quais as necessidades que se seguiriam à breve satisfação do acto de união: a necessidade de continuidade, a necessidade de que nascessem crianças de uma semente tão esbanjada com luxúria ou amor, a necessidade de um calmo porto de abrigo e de uma manhã de Sol, depois das tempestades da noite.

No momento em que pensou naquilo, Chiara agitou-se e aproximou-se dele em busca de calor. Era um gesto feito em sonhos, mas mais eloquente do que palavras. Até ao seu casamento com Calitri todos os seus passos haviam sido protegidos: por pais ricos que a enchiam de mimos, por freiras que a acarinhavam, pelas tradições da sua classe. Quando o casamento falhou, encontrou um outro refúgio, e agora descansava nos seus braços cheios de experiência à procura do esquecimento. Enquanto a agarrasse com força e lhe desse segurança, Chiara ficaria, mas no momento em que o aperto abrandasse e lhe faltasse a coragem, escorregar-lhe-ia por entre os dedos.

O mais estranho estava no facto de ela não ver nada de unilateral naquele negócio. Dera-lhe o corpo, dera-lhe a reputação, que mais lhe podiam exigir? Se lho dissesse, nunca o compreenderia. Casada e mãe de crianças acabaria por crescer para a maturidade, mas naquela situação intermédia seria sempre a criança-mulher, meio deliciada pela aventura, meio receosa das suas consequências, mas sem nunca compreender inteiramente que a dívida de amor não era de maneira nenhuma paga pela moeda da carne.

Para ela, até o encontro daquela noite, rico, ruinoso e maravilhoso, era uma espécie de fuga, e Faber era demasiado velho, demasiado experiente e talvez demasiado calculista para a acompanhar na fuga. Virou-se instintivamente, passou-lhe os braços em volta do corpo e puxou-a para si, interrogando-se, enquanto o fazia, por que motivo a miraculosa unidade da carne teria de durar tão pouco tempo e por que razão, no fim, os dois amantes tinham de jazer durante tanto tempo e tão frequentemente como ilhas num mar de escuridão. Sentia-lhe a mão frouxa sobre o corpo, o cabelo tocava-lhe nos lábios e rodeava-o o seu perfume. Mas o sono não vinha, pelo que revia e voltava a rever a conversa à mesa do jantar, quando lhe falara no conselho de Campeggio e onde isso os poderia levar...

Escutara-o atentamente, de queixo apoiado nas mãos, os olhos escuros brilhando de ansiedade, entusiasmada com a perspectiva de uma conjura.

- Claro, querido’! Mas é tão simples! Porque é que não pensámos nisso antes? Devem existir pelo menos vinte pessoas em Roma que se sentirão felizes por fornecerem provas contra o Corrado. Tudo o que temos a fazer é encontrá-las.

-Conheces alguma, Chiara?

- Na verdade, não. Corrado foi sempre muito discreto comigo. No entanto, tenho a certeza de que se falarmos por aí arranjaremos uma lista de nomes.

- Falar por aí - dissera-lhe com firmeza - é exactamente o que não devemos fazer. Se começa a constar o que queremos fazer, estamos arrumados. Não compreendes? Isto é uma conspiração.

- George, querido, não sejas tão melodramático. Tudo o que queremos é que me seja feita justiça. Não lhe podemos chamar conspiração, pela certa.

- Tem toda a aparência de o ser. Ante os olhos da Igreja e da lei civil, o resultado é o mesmo, trata-se de uma conspiração. Só podemos fazer duas coisas... ou contratamos um investigador profissional ou faço eu próprio as investigações. Se utilizarmos um investigador isso irá custar-nos dinheiro, mais do que aquele que posso pagar, e no fim o homem poderá vender-me ao teu marido’. Se eu próprio fizer o trabalho... fico metido nele até ao pescoço.

Chiara olhou-o, de olhos muito abertos e inocentes:

- Estás com medo, George?

-Sim, estou.

-Do meu marido?

-Sim, da sua influência.

-Queres casar comigo, querido?

- Sabes bem que sim. Mas depois de nos casarmos, teremos de viver. Se perder a minha reputação em Roma, não poderei continuar a trabalhar aqui. Teríamos de voltar para a América.

- Não me importava de o fazer... Além disso, e então a minha reputação? Não te atirei isso à cara, pois não?

- Por favor, Chiara! Tenta compreender que não se trata de um assunto de moralidades, mas sim de um assunto de autoridade, de estatuto profissional... o crédito de que vivo. Se vier a ser considerado como um vulgar chantagista... onde é que poderei começar tudo outra vez? Há sempre duas medidas para as coisas, querida. Podes passar toda a tua vida a vadiar que ninguém dirá nada. Podes ganhar um milhão a explorar os pobres. Mas se passares um cheque de dez dólares sem cobertura, ou quebrares o código da ética profissional, estás morta e enterrada e nunca mais poderás fazer nada. É assim que o mundo funciona, duro como o diabo. Faz o que queres. Tira o que te apetece... Mas se tropeças... que Deus te ajude! É isso o que vamos ter de enfrentar... juntos.

-Se eu não tenho medo, George, por que é que tu tens?

- Preciso de ter a certeza de que compreendes no que nos vamos meter.

-Pergunto a mim mesma se compreendes o que isso significa para mim. Uma mulher necessita de se casar, George. Precisa de ter uma casa e crianças, e um homem que lhe pertença. O que temos é maravilhoso, mas não chega. Se não quiseres lutar, George, que posso eu fazer?

... Ali estava, o desafio que o levara, num passo só, a cair-lhe nos braços, um desafio à sua virilidade, o desafio para que cometesse a única loucura a que nunca cedera, arriscar-se a perder o mundo, por amor. Conhecia-se suficientemente bem para poder acreditar que lhe era possível viver sem ele. Fizera o gesto, claro. Lançara o chapéu aos rodopiantes moinhos de vento, mas quando chegasse a altura de os assaltar de espada e lança, qual seria o seu aspecto? O de um cavaleiro de brilhante armadura, com o penhor da sua dama no elmo? Ou um Quixote envelhecido numa pileca escanzelada, motivo de risota para homens e anjos?

O cardeal Valerio Rinaldi sentava-se no terraço da sua vila e via o dia declinar em direcção ao mar. As dobras da Terra mostravam-se repletas de sombras púrpuras, as colinas salpicadas de ouro e bronze, e os telhados das aldeias e quintas brilhavam num tom castanho-avermelhado. Circulava uma pequena brisa pelas terras, trazendo consigo o cheiro a lilases e rosas, e a relva cortada. Lá de baixo, do jardim, chegava-lhe o som de gargalhadas infantis, onde a filha da sua sobrinha brincava por entre os mármores órficos.

Aquela era uma boa hora, a hora entre o dia e a noite, quando os olhos podiam descansar da dureza do Sol e o espírito não fora ainda tocado pela melancolia do crepúsculo. As cigarras já se tinham calado, mas os grilos ainda não haviam iniciado os seus lamentosos cricris. Pegou no livro que lhe jazia no colo e começou a ler os contorcidos caracteres gregos que escondiam as mágicas palavras de Eurípedes.

E oh! pelo tranquilo jardim

junto ao mar Ocidental onde sob a macieira dourada cantam as filhas da noite!

Onde o ousado marinheiro vagabundo vê que o deus dos oceanos lhe proíbe por sobre a púrpura imensidão o caminho do Ocidente! Onde vive o grande Atlas para guardar as solenes fronteiras do céu! Onde no palácio de Zeus escorrem fontes, junto ao festivo leito divino, de vinho de ambrósia!

Onde a Terra sagrada amontoa seus frutos de mais raro sabor abençoando o festim imortal com a generosidade da abundância!

       Era um homem de sorte e sabia-o. Poucos eram os que atingiam a eminência e a ela sobreviviam com um coração forte e uma boa digestão para poderem gozar o tranquilo jardim onde cantavam as «filhas da noite». Na sua profissão a poucos era dada a oportunidade de ouvir vozes de crianças no seu próprio pomar, de as ter amontoadas em volta dos joelhos à espera de uma história, de lhes dar un beijo e a bênção de um velho sacerdote à hora de deitar.

Sabia de outros que haviam morrido antes de tempo. Sabia tambem de outros que sobreviviam dolorosamente, com olhos doentes ou membros paralisados, ou pernas ulceradas, dependentes da caridade da Igreja. Alguns mergulhavam na senilidade, ou numa pobreza de posses e de espírito... Mas ele ali estava sentado sob o esplendor de um dia que se apagava, próspero e independente, o último dos principescos cardeais da Igreja. Tinha pouco que lamentar, porque os lamentos sempre lhe haviam parecido uma espécie de vaidade e eram contrários à sua natureza. Estava pronto para a reforma e também preparado para a aceitar, graças a uma mente curiosa e estudiosa e a uma grande diversidade de amizades e interesses. Não receava a morte, porque se as coisas corressem normalmente esta encontrava-se ainda a grande distância e porque vivera uma vida ordeira durante a qual investira os seus talentos, o melhor que fora capaz, para o serviço da Igreja.

Mesmo assim e por vezes - nas horas do crepúscculo, nas noites sem sono dos velhos, ou quando via os camponeses debruçados no amanho da sua propriedade- surgia-lhe a pungente pergunta: porque é que disponho de tanto? Por que é que sou tão ricamente dotado de bens, enquanto a outros lhos distribuíram de um modo tão sovina? Ou tratar-se-á apenas de uma ironia divina, cuja finalidade só na eternidade será revelada?

O velho Eurípedes levantara a mesma questão e não lhe conseguira dar uma resposta melhor:

Vagueiam sobre as ondas, visitam estranhas cidades, procurando um mundo de riqueza.

No entanto, enquanto um homem perde o momento da sorte, outro encontra a fortuna no seu colo.

Mas havia ainda uma outra questão. Que fazer com todos aqueles frutos da vida? Deitá-los fora, como o Irmão Francisco, e caminhar pelo mundo cantando louvores à Dona Pobreza? Era já demasiado turtle para o fazer. A graça do abandono dos bens terrenos já passara por ele... se é que alguma vez lhe fora oferecida.. Para o melhor ou para o pior, estava ligado à carreira que construíra.

Não era nem glutão nem esbanjador. Educava as filhas da sua irmã, bem como um par de estudantes necessitados que se preparavam para o sacerdócio. Quando morresse, metade da sua fortuna iria para a família e a outra metade iria para a Igreja. O próprio pontífice aprovara essa disposição. Então por que motivo haveria de se repreender? Por nada, parecia, excepto talvez por uma certa mediocridade de espírito, por uma necessidade, implícita na sua natureza, de possuir o melhor de ambos os mundos. No entanto, fora o Deus Todo-Poderoso que os fizera aos dois, o visível e o invisível, para habitação e benefício do homem. Fizera também o próprio homem, e era da natureza da Sua misericórdia não pedir mais do que a justa retribuição pelos talentos que concedera a cada um.

Valerio Rinaldi era suficientemente sensato para não se alegrar demasiado com a sua boa sorte, mas também não a podia lamentar, porque nada havia para lamentar. Assim, soltou um pequeno suspiro quando as sombras se cerraram mais sobre a Terra e continuou a ler a história de Hipólito, o filho de Teseu:

Mergulhar nas trevas! Agora, deixem que morra e parta para o mundo subterrâneo, para a escuridão triste! Se já a meu lado não estais, amada entre as amadas, e é pior a morte que me destes do que a morte que a vós levou!

Quando o crepúsculo acabou por surgir, fechou o livro e voltou para casa para dizer as orações da tarde com os habitantes da casa, e depois preparou-se para jantar com o cardeal Leone.

O inquisidor de cabelos brancos mostrava-se resmungão e azedo como de costume, mas amoleceu logo que viu entrar as crianças. Quando as três rapariguinhas de cabelos escuros se juntaram à sua frente para lhe receberem a bênção, os olhos turvaram-se-lhe e as mãos tremeram-lhe quando lhas pousou nas testas. Quando as crianças recuaram com grandes mostras de respeito, puxou-as para si e falou-lhes gravemente, como um qualquer avô, a respeito das lições e das bonecas e do grande acontecimento do dia, a visita ao jardim zoológico. Rinaldi ocultou um sorriso ao ver o velho leão domado com tanta facilidade. Ficou ainda mais surpreendido quando viu o homem que era o guardião de tantos mistérios a entreter-se com um puzzle e a implorar que concedessem tempo às crianças para o terminarem com a sua ajuda.

Quando finalmente as crianças foram mandadas retirar e foi anunciado o jantar, Leone mostrava-se estranhamente suavizado. Afirmou, num tom sóbrio:

- És um homem de sorte, Rinaldi, e só por isso deverias estar grato a Deus, durante todos os dias da tua vida.

- Estou-Lhe grato - respondeu Rinaldi -, mas preocupa-me ter feito tão pouco para merecer a minha felicidade.

- Goza-a, meu amigo. É a mais pura que jamais conhecerás. - A seguir acrescentou, como se lhe houvesse ocorrido um pensamento ] comovente: - Quando me encontrava no seminário, um dos meus velhos mestres disse que todos os sacerdotes deveriam ser encarregues de educar uma criança durante cinco anos. Na altura não compreendi o que queria dizer, mas agora sim.

- Tens alguns familiares? - perguntou Rinaldi.

- Nenhum. Costumava pensar que, como sacerdote, não necessitávamos deles. Uma ilusão, claro... Sentimo-nos tão solitários dentro destas vestes como fora delas. - Resmungou e esboçou um sorriso gelado. - Eh! Todos nos tornamos sentimentais com a idade,

Jantaram sozinhos como convinha a um par de príncipes, homens carregados com os mais importantes segredos da Igreja. Um velho servo assistia-os, e retirava-se depois de servir cada um dos pratos para que pudessem falar à vontade. Leone mostrava-se estranhamente comovido com o seu encontro com as crianças. Debicava o peixe com um ar ausente, regressando mais uma vez aos problemas de uma vida de celibato:

-... todos os anos, como sabes, surgem-nos alguns casos no Santo Ofício: sacerdotes que se metem em problemas com mulheres, casos desagradáveis entre professores e alunos, e alegações de aliciação no confessionário. São inevitáveis, claro. Há maçãs estragadas em todos os cestos, mas quanto mais velho fico, menos certezas tenho quanto a como lidar com eles.

Rinaldi acenou o seu acordo. Ele próprio servira como membro ” do Santo Ofício e estava bem a par das suas múltiplas deliberações, das mais diversas, Leone prosseguiu:

- Temos agora na nossa frente um caso muito mau, que diz respeito a um sacerdote de Roma e a uma jovem da sua congregação. As provas não deixam lugar para dúvidas. A rapariga engravidou e há possibilidades de um escândalo público. Senti-me obrigado a levar o caso à atenção pessoal do Santo Padre.

--Como é que o aceitou?

- Com mais calma do que eu esperava. Claro que o sacerdote em (litígio foi suspenso das suas obrigações, mas Sua Santidade ordenou que lhe pedissem para se submeter a um exame médicopsiquiátrico antes de o caso ser finalmente decidido... Um passo muito pouco usual...

- E não estás de acordo?

Não.

- Foi-me posto de uma tal maneira...-retorquiu Leone, pensativo - ... que não fiquei em posição de discordar. Sua Santidade salientou que, faça um sacerdote o que fizer, continua a ser uma alma transviada que necessita de auxílio, que o castigo não era o suficiente e que devíamos ajudar o homem a corrigir os seus erros e a sua vida. Prosseguiu dizendo que as modernas investigações demonstraram que muitas aberrações sexuais têm as suas raízes numa verdadeira doença da mente, e que a vida de celibatário levantava problemas especiais para os que demonstram disposições psicóticas... Os cânones são comedidos quanto a estes assuntos, mas claro que não são proibitivos... Um sacerdote pode pedir, ou ser mandado fazer um tratamento psiquiátrico, mas apenas em casos muito graves e só com a autorização do bispo. Neste assunto, a autoridade do Santo Padre é suprema,

- Ainda não me disseste se concordas com a decisão- declarou Rinaldi, com os seus modos suaves e irónicos,

-Eu sei, eu sei!-retorquiu Leone, com uma risada. - Tenho má reputação. Para a maioria da Igreja sou ainda o Grande Inquisidor, sempre pronto para purgar os erros pelo cavalete da tortura e pelo fogo... mas não é verdade. Em casos desses, debato-me sempre com um dilema. Tenho de ter muito cuidado com a disciplina. Travo sempre uma batalha entre a compaixão e a obrigação de impor a lei... Encontrei-me com esse homem. É uma criatura entristecida e perturbada. Podemos dar cabo dele com uma simples palavra e lançá-lo no caminho da perdição com essa mesma palavra, Por outro lado... e então a mulher, e a criança que irá nascer?

--Que disse Sua Santidade a esse respeito?

- Quer que a criança fique à guarda da Igreja. Quer que a mulher obtenha um emprego e um dote. Sabes, temos aqui, mais uma vez, a questão da abertura de um precedente, no entanto admiro a sua atitude, apesar de não ter a certeza de concordar com ela. Tem um coração mole... e o perigo está em que possa ser demasiado mole para o bem da Igreja.

-Sofreu mais do que nós. Talvez tenha mais direito a confiar no coração do que nós temos.

-Sei disso, mas só desejava que confiasse um pouco mais em mim.

- Sei que confia em ti - declarou Rinaldi, com firmeza. - Sei que tem um grande respeito por ti. Tomou alguns passos contra ti?

- Ainda não. Creio que o verdadeiro teste acontecerá em breve.

- Que queres dizer?

Leone lançou um olhar astuto para o seu hospedeiro.

- Não me digas que ainda não ouviste falar no assunto! O geral dos Jesuítas mandou regressar a Roma aquele seu Télémond e arranjou maneira de o pôr a falar na presença do papa durante as festividades de Santo Inácio de Loiola.

-Ouvi falar nisso, convidaram-me para estar presente. Não creio que tenha um grande significado. Télémond é um distinto estudioso, Penso que é natural que Semmering o queira reintegrar e lhe queira dar um mais amplo campo de acção na Igreja.

- É um passo calculado - respondeu Leone, teimosamente. - Semmering e eu não nos conseguimos entender. Sabe muito bem que as opiniões de Télémond continuam a ser suspeitas.

- Ora vamos, meu velho amigo! Teve vinte anos para rever essas opiniões, e de qualquer modo não o podes acusar de ser um espírito rebelde. Submeteu-se, não é assim, quando lhe impuseram o silêncio? Nem sequer o Santo Ofício lhe pode recusar a oportunidade de voltar a expor a sua posição.

- A ocasião é demasiado pública. Demasiado simbólica, se assim o queres. Creio que Semmering cometeu uma indiscrição.

- Mas de que é que na verdade tens medo, meu amigo? De uma vitória dos Jesuítas?

Leone resmungou e agitou a juba branca.

- Sabes que isso não é verdade. Fazem o trabalho de Deus, tal como nós o tentamos fazer, à nossa própria maneira.

- Então? -Já encontraste esse Jean Télémond?                                          

- Não.

- Pois, eu já. É um homem de grande encanto, e penso também que de uma respeitabilidade singular. Creio que poderá causar uma impressão muito favorável junto de Sua Santidade. Creio também que é disso que Semmering está à espera.

- Será assim uma coisa tão má?

- Poderá ser. Se tiver o patrocínio do pontífice, sentir-se-á muito mais livre para promulgar as suas opiniões,

- Mas o Santo Ofício continua a existir para controlá-las.

-Será muito mais difícil proceder contra um homem sob o patrocínio do papa.

- Creio que estás a partir de dois princípios sem fundamentos... o de que conseguirá o patrocínio papal e o de que terás de vir a actuar contra ele.

- Temos de estar preparados para tudo o que possa acontecer.

- Não haverá uma maneira mais fácil? Porque não expor o assunto ao Santo Padre, agora mesmo?

- E que lhe poderei dizer? Que desconfio da sua discrição... ou que ele não confia o suficiente em mim?

- Sim, estou a ver que a coisa pode ser difícil... -Rinaldi riu-se e tocou a sineta, para pedir o prato seguinte. - Vou dar-te um conselho. Descontrai-te. Saboreia o jantar e deixa que o caso se desenrole por si. Nem o Santo Ofício pode fazer tanto pela Igreja como o Espírito Santo...

Leone fez um sorriso carrancudo e falou para o assado.

- Estou a ficar velho, meu amigo... Velho e casmurro. Não consigo habituar-me à ideia de ver um jovem de cinquenta a usar a tripla coroa.

Rinaldi encolheu os ombros como um verdadeiro romano.

-Creio que a tiara lhe assenta muito bem. Além disso, não há nada, na Fé, que prescreva que a Igreja tem de ser uma gerontocracia... um governo de velhos. Agora tenho muito tempo para pensar... e estou seguro de que a idade nem sempre nos faz mais sábios.

-Não me interpretes mal. Compreendo todo o bem que este homem nos pode trazer. Caminha como um verdadeiro pastor no meio do rebanho. Visita os hospitais e as prisões. No domingo passado, quer acredites quer não, assistiu a três sermões, em três diferentes igrejas de Roma... só para ver que espécie de sermões se fazem dos nossos púlpitos.

- Espero que tenha ficado bem impressionado.

- Não ficou - retorquiu Leone, com um humor ácido. - Não fez segredo do facto. Falou em «túrgida retórica» e em «vaga devoção». Creio que vamos ouvir dizer qualquer coisa sobre isso na encíclica que está a preparar.

-Já está pronta?

- Ainda não. Ouvi dizer que continua a trabalhar na primeira versão, em russo... Talvez nos aguardem algumas surpresas... - Soltou uma gargalhada alegre e ruidosa. - Eu próprio já tive algumas. Sua Santidade discorda do tom de certas proclamações do Santo Ofício, acha que são demasiado severas, demasiado duras. Pretende que nos refreemos quanto a condenações definitivas, em especial de pessoas, e que adoptemos um tom que seja mais de admoestação e aviso.

- Disse porquê?

-Com toda a clareza. Afirmou que devemos deixar espaço de manobra aos homens de boa vontade, mesmo quando se encontram em erro, que devemos apontar esses erros, mas que não devemos cometer injustiças sobre as intenções dos que os cometeram.

Rinaldi permitiu-se um ligeiro sorriso.

- Começo a compreender porque te sentes preocupado com esse Jean Télémond.

Leon ignorou o comentário e resmungou.

- Sinto-me inclinado a concordar com o Benedetti. Este homem é um reformador. Quer varrer todos os quartos ao mesmo tempo.

Fala, creio, numa reforma da Rota, de mudanças no ensino- dado nos seminários e até de comissões separadas para a representação, em Roma, das várias igrejas nacionais.

- Podia ser uma boa ideia - afirmou Rinaldi, pensativo. - Penso que toda a gente, excepto nós, romanos, está de acordo em que centralizámos demasiado. Vivemos em tempos perturbados e se surgir uma nova guerra então as igrejas do mundo estarão muito- mais isoladas do que jamais o estiveram. Quanto mais depressa conseguirem desenvolver uma vigorosa vida local, melhor será para a -Fé.

- Se surgir uma nova guerra, meu amigo... pode muito bem ser o fim ’do mundo.

- Graças a Deus, as coisas parecem estar um pouco mais calmas neste momento.

Leone abanou a cabeça.

- Penso que esta calma é enganadora. A pressão< está a aumentar e poderemos ver um renovar da crise em menos de um ano. Ainda ontem Goldoni me falou no assunto. Está a fazer um relatório especial para o pontífice.

- Pergunto a minm mesmo... - murmurou Rinaldi, baixinho - ... pergunto a mim mesmo o que pensará da crise um homem que passou dezassete anos sob a sombra da morte.

Para Kiril, o pontífice, a crise apresentava-se-lhe sob uma variedade de aspectos.

Em primeiro lugar, via-a no microcosmos, no campo de batalha da sua própria alma. Ao nível mais baixo - ao nível em que vivera na prisão da casamata- havia o simples impulso da sobrevivência, o desesperado esforço para se agarrar à pequena fagulha da vida que uma vez extinta nunca mais poderia ser acesa. Só havia uma infusão de vida no frágil vaso do corpo. Quebrado o vaso, este nunca mais poderia ser consertado, pelo menos até ao dia da restauração final. Portanto, com a infusão da vida vinha também o instinto para a ; preservar a todo o custo contra tudo o que a ameaçasse, ou aparentasse ameaçá-la, de dentro ou de fora.

Todo o animal contém dentro de si mesmo o mecanismo da sobrevivência. Só o homem, o último e mais nobre membro do reino animal, era capaz de compreender, mesmo que apenas um pouco, que esse mecanismo tem um dia de deixar de funcionar e que mais tarde ou mais cedo terá de levar a cabo um consciente abandono do dom da vida nas mãos do Criador que lha deu. Toda a sua vida era uma preparação para esse acto; recusá-lo seria como cometer uma rebelião final, para a qual não haveria retratação.

No entanto todos os dias da vida de todos os homens eram uma série de pequenas rebeliões contra o medo da morte, ou de esporádicas vitórias de esperança num invisível. Nem o próprio Kiril, vigário de Deus na Terra, podia escapar a essa guerra diária. O impulso de sobrevivência tomava muitas formas: a delícia do poder, que dava ao homem a ilusão da imortalidade; o receio da oposição, capaz de limitar essa ilusão; o desejo de amizade, para escorar a fraqueza do corpo e o espírito vacilante; o impulso para a acção que afirmasse o poder de um homem contra circunstâncias ameaçadoras; o desejo de possuir aquilo que, no fim, teria de ser deixado; a cobardia que o impelia para o isolamento como se pudesse assim vir a vedar todas as fendas para impedir a invasão final por parte da morte. Mesmo para um pontífice, que se presumia estar mais perto de Deus, não existia uma garantia de vitória sobre si mesmo. Cada dia trazia consigo um rol de derrotas de que se teria de arrepender e de purgar no tribunal da penitência.

Mas então e os outros homens, tão menos iluminados, tão mais vulneráveis, tão mais oprimidos pelo terror da extinção corporal? Sobre eles, todos os dias, as pressões da existência aumentavam até ao ponto de ruptura. Era por eles que tinha de encontrar dentro de si a força que lhes pudesse emprestar, e caridade para gastar, antes que se fossem abaixo sob o pesado- fardo ou se virassem para fazer a guerra uns aos outros, uma guerra furiosa que os obliteraria mais depressa do que a morte piedosa de que fugiam.

Esse era outro aspecto da crise que lia em todos os relatórios que lhe deixavam na secretária, em todos os jornais e boletins a que dava atenção.

Quando um homem numa cápsula era lançado numa nova dimensão de espaço e de tempo, o mundo exultava como se ele regressasse com uma promessa de eternidade na algibeira.

Quando era anunciado um novo programa de armamento, parecia que aqueles que o promoviam inscreviam com uma das mãos um novo lucro no mercado de acções, enquanto escreviam o seu próprio epitáfio com a outra.

Cada tratado económico trazia vantagens para aqueles que o assinavam, e um certo grau de injustiça para os excluídos.

As populações do oriente e das Áfricas passavam por uma explosão de nova magnitude, mas no entanto- os homens continuavam a pôr a sua confiança em ilhas de cor ou raça, como se estivessem dotados de um divino direito de eleição para um paraíso terrestre.

Cada nova vitória sobre a doença provocava o correspondente esgotamento dos cada vez menores recursos do planeta. Cada avanço da ciência era um novo remendo na miserável capa em que o homem se envolvia para se proteger do vento frio da dissolução.

Não obstante... não obstante, era essa a natureza do homem. Era o método histórico do seu progresso... um caminhar na corda bamba em direcção a um destino muito vagamente apercebido, mas profundamente sentido. A Igreja estava no mundo, mas não era dele... e as suas funções eram as de erguer a verdade como quem ergue uma luz capaz de iluminar a longínqua margem, meta final para o homem. Era assim que Kiril, o pontífice, aprisionado no dilema humano tal como todos os seus semelhantes, se sentava à secretária e se apercebia, nas palavras formais do seu secretário de Estado, das sombras lançadas pela tempestade que se aproximava.

«O ponto fulcral da presente situação encontra-se na China. Os relatórios mais merecedores de confiança indicam-nos que o programa agrícola foi mais uma vez um falhanço e que no fim do Verão as colheitas serão diminutas. Quase inevitavelmente isto significará um avanço militar em direcção às áreas de produção de arroz do Sudeste da Ásia, logo após as próximas monções. Os treinos militares estão já a ser acelerados e todos os dias nos chegam notícias de medidas repressivas contra os elementos desafectos ao regime. A nossa própria gente está sujeita a novas campanhas de vigilância e de declarada perseguição.

Na América, a recessão económica abrandou, mas isso foi em grande parte devido a um aumento do programa militar de armamento. As nossas fontes nos Estados Unidos informam-nos de que qualquer nova expansão chinesa em direcção a Burma, à Indochina ou ao Sião criará um imediato perigo de guerra...

iEm Bona e Paris fala-se mais uma vez em a França e a Alemanha participarem num programa conjunto para o desenvolvimento de armas atómicas. Trata-se da conclusão lógica do seu estatuto de membros mais importantes do bloco europeu, mas é claro que um tal programa será encarado como uma clara ameaça para a Alemanha Oriental e para Moscovo...

Tínhamos esperanças, já há algum tempo, de que o medo da Rússia em relação aos Chineses pudesse levar a uma melhoria das suas relações com o Ocidente, mas esta situação introduz agora um elemento contrário e perigoso.

Parece a altura apropriada para Vossa Santidade fazer uma declaração pública e clara sobre os perigos desta nova corrida aos armamentos, que está a ser justificada como um reforço da aliança ocidental contra o comunismo.

»É difícil de ver como tal poderia ser feito, mas se nos fosse possível estabelecer um qualquer contacto com o Presidium, no Kremelin, para nos apresentarmos como elemento medianeiro nas relações Leste-Oeste, não existiria momento mais conveniente do que o presente. Infelizmente, a nossa oposição às doutrinas do comunismo é demasiado facilmente interpretada como uma aliança política com o Ocidente. Demos instruções aos nossos legados e anúncios, em toda a parte, para que ponham em destaque, tanto em público como durante conversas particulares com personalidades políticas, os perigos da presente situação.

»Tal como Vossa Santidade tem conhecimento, temos agora relações amigáveis com os representantes da igreja ortodoxa e com membros importantes de outras organizações cristãs. Podemos olhar com confiança para a sua cooperação neste assunto. Contudo, a criação de um clima moral atrasa-se sempre em relação à criação de um clima político, e temos de enfrentar o facto de que os próximos seis ou doze meses podem muito bem levar o mundo à beira de uma nova guerra...

»Em África...»

Kiril, o pontífice, pousou o relatório dactilografado e cobriu os olhos cansados com as palmas das mãos. Também ali, no macrocosmo, se desenrolava a luta pela sobrevivência do homem. Os chineses queriam uma malga de arroz. Os Russos queriam manter os confortos da civilização que só agora se haviam tornado familiares. Era preciso dar trabalho constante a cento e oitenta milhões de americanos, pois caso contrário a precária economia de consumo entraria em colapso. A França e a Alemanha, despojadas das suas colónias, precisavam de conservar o poder negocial entre a comunidade europeia de nações.

«O que temos, conservamos porque é nosso, porque o ganhámos. Tudo o que servir para aumentar a nossa riqueza, é bom. Tudo o que a diminuir, é uma ameaça... A lei da selva... A sobrevivência do mais apto... Na política não há moral...»

No entanto, bem vistas as coisas, a sobrevivência nunca fora uma equação simples, nem sequer para o indivíduo. A definição de direitos e deveres ocupara teólogos e legisladores durante os dois mil anos de revelação cristã, e durante muitos milhares de anos antes disso. Uma coisa era definir os termos da lei... mas aplicá-la, fazer que os muitos milhões de indivíduos que compunham a humanidade a vissem com os mesmos olhos, a reconhecessem como um decreto divino, era outra coisa diferente, uma clara impossibilidade. Mas a promessa existia. «Eu, se subir aos céus, levarei todas as coisas para junto de mim.» Sem aquela promessa, deixava de existir uma base para a razão em todo o universo. Se não se acreditasse que a rodopiante órbitra da Terra era mantida segura pela continuidade de um acto criativo, então poderíamos muito bem cair no desespero e desejá-la dissolvida em fogo para dar lugar a uma melhor.

Mais uma vez as recordações voltaram a tocar-lhe na mente, numa tangente, fazendo-o regressar a uma conversa que tivera com Kamenev quase dez anos antes:

«A diferença entre ti e mim, Kiril, está em que me dedico ao possível enquanto tu te dedicas ao insensato... Deus deseja que todos os homens sejam salvos e tomem conhecimento da verdade’. É O que tu pregas, não é verdade? No entanto sabes que é uma loucura. Uma loucura sublime, admito-o, mas continua a ser uma loucura, É uma coisa que não acontece, não acontecerá e não pode acontecer. Que mais ~é o teu Paraíso, senão uma cenoura para fazer trotar o burro? Que mais é o teu Inferno, senão um montão de lixo para todos os vossos falhanços... os falhanços de Deus, meu amigo! E dizes que Ele é omnipotente. E agora, que vais fazer? Vens comigo, para conseguirmos o pouco que é possível, ou continuarás a perseguir a grande impossibilidade...? Sei o que me queres dizer: Deus torna tudo possível. Mas não vês? Sou Deus para ti, neste momento’, porque nem sequer podes sair dessa cadeira até que eu dê a ordem... Toma! Deus manda-te um pequeno presente! Um cigarro...»

Lembrava-se que aceitara o cigarro e que o fumara com gratidão enquanto a sua mente cansada revolvia o paradoxo que Kamenev lhe apresentara... O pequeno lucro ou a grande perda? Qual escolher? A limitada visão ou a monstruosa loucura? Escolhera a loucura e fora mais uma vez enviado para o chicote, para a fome e solidão,... para se purgar dela.

E, agora, o paradoxo invertera-se. Kamenev enfrentava uma situação impossível de resolver, enquanto Kiril o prisioneiro abjecto, calçava as sandálias de Deus, para quem tudo era possível.

Deixou-se ficar sentado muito tempo, meditando no gigantesco humor da situação. A seguir levantou o auscultador e chamou Goldoni, da Secretaria de Estado.

-Estou a ler o seu relatório. Sinto-me impressionado e grato, mas também muito preocupado. Diga-me uma coisa... Se quisesse enviar uma mensagem ao primeiro-ministro da Rússia, uma mensagem particular, como é que faria?

 

 

EXTRACTO DÁS MEMÓRIAS SECRETAS DE KIRIL I, PONT. MAX.

... Ainda bem que conservei o senso de humor, pois de outro modo ficaria atormentado até à loucura com as consequências das minhas acções mais triviais. Quando um homem na minha posição faz uma simples pergunta, todo o Vaticano esvoaça como um bando de pássaros. Se executo o mais pequeno movimento, é como se estivesse a tentar abalar as fundações do mundo. Só posso fazer aquilo que penso estar certo, mas aparecem sempre vinte pessoas com outras tantas razões para que não faça nada... Serei um louco se, pelo menos, não escutar as suas opiniões.

Quando propus a Goldoni que eu deveria fazer uma visita pastoral a toda a Itália, para verificar in loco quais os problemas dos clérigos locais, ficou aterrorizado. Uma coisa como essa não se fazia havia séculos. Criaria problemas com o Governo da Itália. Levantaria sabe Deus que questões de protocolo, logística e cerimoniais locais. Apontou-me o facto de eu ser um príncipe e quê a prestação de honras principescas imporia dificuldades às áreas mais pobres e deprimidas. Tive de ser muito firme com ele neste assunto e afirmar-lhe que em primeiro lugar e acima de tudo sou um pastor, sucessor do pescador que foi executado como um criminoso vulgar na Cidade dos Imperadores. Mesmo assim ainda não conseguimos chegar a acordo sobre como e quando farei a viagem, mas estou decidido a empreendê-la muito em breve.

Também quero fazer outras viagens. Quero atravessar as fronteiras da Europa e os oceanos do mundo para ver o meu povo... onde e como vive, e quais os fardos que carrega na sua viagem para a eternidade... Sei que este é um projecto difícil de concretizar. Envolverá oposições por parte dos governos, um risco para mim mesmo e para a administração da Santa Sé... Creio no entanto que tal poderia restaurar, melhor do que qualquer outra coisa, a missão apostólica do pontífice... De momento, contudo, tenho uma mais premente preocupação: estabelecer e manter um contacto pessoal com Kamenev.

Imediatamente após o meu telefonema, Goldoni apareceu a correr, vindo da Secretaria de Estado, para falar comigo. É um homem astuto, com grande prática da diplomacia, e tenho um grande respeito pelas suas opiniões. O seu primeiro conselho foi negativo. Não conseguia ver um possível campo de comunicação com os que pregam uma heresia ateística e que estão envolvidos numa activa perseguição aos fiéis... Esclareceu também que todos os membros do Partido Comunista são automaticamente excomungados pela Igreja.   Não consegui deixar de lhe chamar a atenção para o facto de que, no século XX, a excomunhão é uma arma sem gume e talvez até já fora de moda... Deu-me então o conselho, muito válido, de que até um diálogo privado com o Kremlin pode constituir uma afronta diplomática para os governos ocidentais.

Não pude discordar, mas estou obcecado com a crença de que a principal missão da Igreja é pastoral e não diplomática. Mostrei a Goldoni a carta que Kamenev me escreveu, o que fez compreender! a minha ansiedade por iniciar um qualquer tipo de conversação. Contudo, Goldoni fez-me outro aviso: qualquer passo que eu dê pode ser interpretado como um sinal de fraqueza e poderá ser utilizado como arma de propaganda por parte dos comunistas.

Goldoni tem razão, mas não creio que tenha toda a razão. A verdade tem uma virtude própria; a boa acção tem uma virtude própria, e não podemos deixar de ter em conta o poder frutificante do Todo-Poderoso...

Nunca acreditei em que todos os que vêm a Roma têm de o fazer passando por Canossa. Este, creio, foi um dos nossos erros históricos. O bom pastor procura as ovelhas perdidas e leva-as para casa sobre os ombros. Não lhes exige que regressem a rastejar, de cauda encolhida e cheias de remorsos, com a corda dos penitentes em volta do pescoço... Foi Santo Agostinho que disse: «É preciso um grande espírito para fazer uma heresia.» E há nobres mentes e nobres espíritos a quem é negado o dom da fé, e para quem a salvação só chega por intermédio de uma inconvencional misericórdia de Deus, Com esses teremos de lidar com paciência, tolerância e caridade fraternal, sempre humildes ante a gratuita misericórdia de Deus para connosco. É para esses que o ministerium da Fé deve ser exercido de uma maneira especial, sem insistirmos com demasiada força na sua magistratura.

Assim, Goldoni e eu acabámos por chegar a um compromisso. Vamos tentar enviar uma mensagem a Kamenev, dizer-lhe que recebi a sua carta, e que em relação a ele e ao meu povo nada mais tenho do que a mais amigável das disposições. Claro que o problema está em como entregar a mensagem, mas Goldoni, com as suas maneiras subtis, propôs uma solução divertida. Um diplomata da América do Sul que tem contactos sociais no Kremlin procurará uma oportunidade para falar com o primeiro-ministro durante um cocktail, e dir-lhe-á que um seu amigo gostaria de conversar mais a respeito da cultura dos girassóis... Deste modo nenhum de nós ficará comprometido e o próximo passo terá de ser dado por Kamenev. Só Deus sabe qual será esse passo... mas devo orar e conservar a esperança...

É curioso, mas sinto-me muito mais perturbado com o caso que Leone me transmitiu do Santo Ofício: um padre acusado de aliciação no confessionário, agora correndo o risco de ser convocado por uma acção civil de paternidade... É evidente que este tipo de escândalo é esporádico na Igreja, mas preocupa-me o espectáculo de uma alma com uma doença mortal.

Há homens que nunca deveriam ser sacerdotes. O sistema de ensino dos seminários foi estudado para filtrar os candidatos não apropriados, mas há sempre alguns corpos estranhos que se escapam por entre as malhas da rede. Esses são aqueles para quem a única esperança de uma vida normal e frutífera é o estado do casamento, mas a disciplina da igreja ocidental impõe um celibato perpétuo a todos os sacerdotes.

Faz parte dos meus poderes de pontífice dispensar este infeliz dos seus votos e permitir-lhe que se case. O coração incita-me a que o faça, mas não ouso fazê-lo. Seria criar um precedente capaz de provocar danos irreparáveis à disciplina clerical e a uma tradição que tem as suas raízes nos ensinamentos de Cristo sobre o estado de dedicada virgindade.

Tenho o poder, sim, mas devo utilizá-lo para construir e não para demolir o que foi confiado à minha guarda. Estou consciente de que posso estar a aumentar o perigo de perdição para esta alma infeliz. Quero tratá-la tão misericordiosamente quanto me for possível, mas não me atrevo a pôr dez mil outras almas em perigo apenas por causa de uma...

As Chaves do Reino foram-me depostas nas mãos, mas não tenho um poder absoluto sobre elas, foram-me apenas confiadas... Há alturas, e esta é uma delas, em que gostaria de poder assumir os pecados de todo o mundo e oferecer a minha vida para os expiar. Sei no entanto que sou apenas um homem e que a expiação foi feita no Calvário de uma vez por todas. Através da Igreja, administro os frutos da redenção. Não posso alterar o acordo de Deus com os homens, que governa a sua distribuição...

É tarde e a minha carta à Igreja ainda está por acabar. Esta noite estou a trabalhar no texto «Uma geração eleita, um sacerdócio régio». Um sacerdote é apenas um homem e temos muito poucos anos para o preparar para o fardo da realeza... Para os que cambalearem sob o seu peso, devemos cobri-los com o maternal amor da Igreja, devemos invocar o auxílio da Virgem Mãe de todos os homens...

Está uma noite quente. O Verão está a chegar, mas há também] aqueles que caminham num Inverno de toda uma vida, perdidos e sós. Eu, que senti o Inverno nos meus próprios ossos, que gritei! durante a noite por amor, numa prisão sem amor, espero não os decepcionar...

 

A princesa Maria Caterina Daria Poliziano era uma mulher pequena de cabelos cinzentos que admitia ter setenta e cinco anos e estava preparada para processar fosse quem fosse que tivesse a ousadia de discordar da sua contagem.

Tinha um cabelo ralo e uma pele encarquilhada. O nariz afiado e os olhos negros de ágata davam-lhe o ar de uma águia mumificada escavada de algum antigo túmulo... mas a princesa Maria-catarina estava muito longe de estar morta e era, pelo contrário, uma temível velha senhora.

Mantinha um apartamento em Roma -’de que raramente se servia porque «os Romanos começam todos a parecer-se com caixeiros-viajantes» -, uma vila em Fiesole, onde conservava a sua corte habitual, propriedades na Sicília, quintas nos Abruzzi, e terras que produziam beterraba e arroz na Alimanha e ao longo do vale do rio Pó. A sua carteira de acções, começada pelo pai e aumentada pela afortunada morte de dois maridos, incluía alguns dos melhores valores de Itália, que negociava tão astuciosamente como um latoeiro cigano.

A sua mão ossuda encontrava-se sempre metida em todos os acontecimentos políticos ocorridos para norte de Lazio, enquanto os boatos sobre o poder que não tinham origem no seu salão começavam inevitavelmente por circular aí antes de serem soprados pelo vento. Ser chamado junto da sua mesa ou era uma garantia de execução ou uma promessa de promoção. Mais de um político demasiado ousado desafiara a sua fúria, para depois se vir a descobrir sem fundos, favores e votos nas próximas eleições.

As suas roupas eram antiquadas e as suas maneiras eram mais tirânicas do que principescas. Bebia uísque escocês e fumava cigarros egípcios na ponta de uma longa boquilha de ouro. Tinha uma língua escandalosa, uma memória perigosa... e uma inesperada discrição. Desprezava os velhos e cortejava os novos como um extravagante mas bem-humorado vampiro que podia pagar bem por sangue jovem. No jardim da sua vila, por entre as fontes e os ciprestes” e as avenidas de mármores marcados pelo tempo, parecia que na verdade o tempo parara, detido pela sua idosa, mas imperiosa vontade.

O seu recanto favorito era um caramanchão de onde pendiam cachos de uvas a amadurecer, em frente de uma pequena fonte onde uma antiga Leda era cortejada por lânguidos cisnes ao som da música da água. Nos tempos em que fora jovem também a princesa Maria-Rita fora ali cortejada... mas agora, em vez disso, jogava com; os legados da sua juventude: poder, dinheiro e prestígio. O arcebispo de Florença ia uma vez por mês beber café na sua companhia. Uma vez por semana aparecia alguém do Quirinal para almoçar e para transmitir um relatório privado do primeiro-ministro. Onde os elegantes de outras eras se haviam dourado ante a sua pequena mão, eram agora os banqueiros e corretores que lhe iam prestar homenagens relutantes e pagar um tributo de confidências secretas.

Encontrava-se ali sentada naquela manhã de Verão, pregando’ um valente sermão a um ministro da República, o seu sobrinho Cerrado Calibri:

- És um parvo, rapaz! Chegas até certo ponto e pensas que chegaste ao fim da viagem. Queres sentar-te e brincar com as flores. Poderá ser delicioso, estou certa, mas não é boa política.

O pálido e clássico rosto de Calitri ficou avermelhado. Pousou a chávena do café com uma forte pancada.

- Escute, tia, sabe que isso não é verdade. Faço o meu trabalho.; Faço-o bem.   Ainda ontem o primeiro-ministro foi suficientemente amável para dizer que...

- Foi suficientemente amável! - A voz envelhecida casquinhou; de desprezo. - Por que é que te preocupas com o que ele diz? Que é um louvor, para além de um pequeno-almoço para o prisioneiro antes de lhe cortarem a garganta? Desapontas-me, Corrado. És uma; criança. Não vez nada para lá do teu nariz.

- Que querias que eu visse, tia?

- O ’futuro! - declarou a princesa com secura, - Daqui a doze meses, quando chegarem as eleições. Estás preparado para elas?

- Claro que estou. Os fundos estão prontos. As minhas comissões:, trabalham dia e noite, mesmo agora. Não creio que haja qualquer dúvida quanto à minha reeleição... Creio que o partido terá uma maioria diminuída. Teremos de abrir um pouco mais a coligação com a esquerda, mas mesmo assim estou certo de conseguir um lugar no Governo.

- E esse é o fim da história? - Os escuros olhos de ágata cravaram-se nele, os lábios secos torceram-se num sorriso de piedade. Incomodado, Calitri agitou-se na cadeira.

- Vê algum final diferente, tia?

- Sim!-As velhas mãos estenderam-se para o outro lado da mesa e prenderam-lhe o pulso como garras. -Tens doze meses para  planear, mas se o fizeres como deve de ser, poderás dirigir o país.

Calitri ficou a olhar para ela, de boca aberta, o que a fez soltar uma gargalhada aguda e cacarejante. - Nunca subestimes a tua velha tia, meu rapaz. Quando se é tão velha como eu, já se aprendeu a ver para lá das esquinas. Afirmo-te, sem qualquer dúvida, que podes vir a chefiar a República...

-Acredita mesmo nisso?->A voz de Calitri era quase um murmúrio.

- Nunca conto histórias de fadas, meu rapaz... e já há muito que deixei de lhes dar ouvidos. Hoje, ao almoço, vou encontrar-me com algumas pessoas que te mostrarão como o poderás conseguir. Haverá uma certa quantidade de... - esfregou as pontas do polegar e do indicador, no gesto que significava dinheiro - mas podemos tratar dessa parte. Preciso de falar contigo a respeito de outra coisa. Há um outro preço a pagar, e só tu o podes fazer.

Corrado Calitri lançou um olhar astuto para a sua parente.

- Que preço vem a ser esse, tia?

A mulher mirou-o com os olhos como contas de vidro e predatórios, e respondeu:

- Tens de limpar a tua vida e de o fazer bem depressa. Livra-te desse banho de alcoviteiros e playboys com quem andas metido. Faz andar para a frente, nos tribunais, o problema do teu casamento. Livra-te de Chiara, não serve para ti. Casa-te outra vez, depressa e sem dar nas vistas. Tratarei de arranjar uma mulher que saiba lidar contigo. Precisas de uma mulher forte... e não de uma menina de escola de olhos húmidos.

- Não o farei! - explodiu Corrado Calitri, numa súbita ira. Não serei vendido e comprado como uma mercadoria qualquer!

Levantou-se da cadeira e começou a caminhar de um lado para o outro, agitado, ao longo do pavimento lajeado entre o caramanchão e a fonte, enquanto a velha princesa o observava com um olhar calmo e calculista.

Quando a fúria abrandou um pouco, aproximou-se dele, meteu o braço no do sobrinho e conduziu-o lentamente pelo circuito que dava a volta às plantações da vila. Era agora uma mulher diferente, não fazia qualquer esforço para troçar dele ou provocá-lo. Falava de um modo moderado e calmo, como se falasse com um filho:

- ...Já te disse que deixei de estudar as histórias de fadas... mesmo quando são a meu respeito. Sei o que sou, Corrado... uma velha ressequida com a cara pintada e com o passado a um milhão de anos de distância... Mas vivi muito, meu rapaz, vivi todos os minutos de todas as horas. Chupei a laranja até ao fim e cuspi os caroços. Portanto, escuta o que te digo, por favor... Sei que não és como os outros homens. Foste sempre diferente, mesmo quando eras pequeno... Quando te via costumava pensar em alguém que procurava apagar o mundo para o voltar a pintar, novo e limpo. Creio que poderia ter feito que as coisas fossem diferentes para ti, mas o teu pai nem sequer me deixava aproximar da vossa casa...-Soltou uma gargalhada amarga, curta e baixa.-Pensava que a minha influência tal poderia corromper. Era um bota-de-elástico sem qualquer sentido de humor. Nunca consegui perceber o que a tua mãe encontrou nele...

-Miséria- retorquiu Corrado Calitri, com aspereza.-Miséria, solidão e nenhum amor. Odiava aquele homem do mais profundo do coração...

- Mas agora já não podes fugir dele - disse a velha senhora baixinho. - Está morto e os malmequeres crescem-lhe nas orelhas. Sei o que andas à procura... o amor que não obtiveste dele. Sei que por vezes o encontras, mas que nunca é duradouro. Sei quais são os perigos quando se faz uma procura desesperada e sem cautelas. - As magras mãos apertaram-lhe o braço. - Tens inimigos, não tens?

-Quem os não tem, num trabalho como o meu?

-Já alguma vez foste chantageado?

-Já tentaram, um par de vezes.

- Então compreendes do que estou a falar. Os inimigos tornam-se mais numerosos e mais fortes... mais fortes do que pensas, O Campeggio, por exemplo... É

- Campeggio! - Virou-se para a encarar, genuinamente espantado. - Campeggio! Mas nunca lhe fiz mal nenhum!

-Tens o filho dele - explicou Maria-Rita, muito séria.

- Ah, então é isso! -Calitri inclinou para trás a cabeça de patrício e riu-se, espantando as aves das oliveiras. - O rapaz trabalha para mim. Gosto dele. Tem talento, encanto e...

- Beleza

-Sim, também a tem, se assim o quer. Mas não para mim. Acha que quero meter-me em problemas com o Campeggio e o Vaticano?

- Já o fizeste - disse a princesa Maria-Rita - ... e sem o Vaticano não poderás dirigir o país, depois das próximas eleições, E agora... já percebes do que estou a falar?

Não lhe respondeu durante um longo momento e pareceu encolher-se sobre ele próprio. O rosto juvenil contraiu-se. Os olhos humedeceram-se-lhe de súbita emoção. Por fim, acabou por dizer, muito baixo:

- A vida é muito comprida, tia. Por vezes também é triste e solitária.

Achas que não sei disso, rapaz? Pensas que quando o Louis morreu não me senti triste e solitária? Pensas que não soube o que é ser livre e rica, podendo comprar tudo o que não conseguia

obter por amor? Também o tentei durante algum tempo. Isso choca-te?

- Não, compreendo-o’ muito bem.

-Depois acordei, como tu terás de acordar. Não é possível sair da cama todas as manhãs com medo de perder o que de qualquer modo não nos pertence, Não podes ficar à espera, para teres de vir a suportar os riscos do chantagista. Não podes governar a tua vida pelos estalos dos dedos de um bonito rapaz. Não! Um dia terás de dizer a ti mesmo: «Que tenho eu que seja realmente meu? Como é que o posso aproveitar da melhor maneira?» Quando fizeres bem as contas, descobrirás que tens muito... e que até poderá haver um pouco- de amor.

- No casamento? - perguntou Calitri, num tom de pesada ironia,

- Nele ou fora dele, É um problema sem importância, Mas para ti...- espetou o dedo esquelético como um adaga-...para ti, o casamento é necessário. Muito necessário’.

--Tentei-o, como sabe.

-Com um bebé que ainda brincava com bonecas.

--E desta vez?

- Em primeiro lugar... - disse a velha senhora com brusquidão-... temos de te tirar do sarilho em que te meteste... e é aí que efectuarás o primeiro’ pagamento’.

- Quanto? - perguntou Corrado Calitri.

-Em dinheiro... nada. Em orgulho... talvez muito. Terás de te dirigir à Rota para voltares atrás com todos os testemunhos anteriores.

-E como’ é que faço para que me acreditem?

A princesa Maria-Rita voltou a rir-se.

- Arrependes-te, Haverá uma grande alegria nos Céus do Vaticano quando fores reparar as graves injustiças que cometeste com uma jovem inocente. Irás também modificar as tuas maneiras, claro, pelo que ficarão todos muito satisfeitos por te terem de volta no redil.

- Não posso fazer tal coisa - afirmou Corrado Calitri. - É uma hipocrisia monstruosa.

- Não precisa de o ser - retorquiu a princesa. -E mesmo que o seja... o Quirinal vale bem uma missa, não vale?

Apesar de si mesmo-, Calitri foi o-brigado a sorrir, pousando uma mão afectuosa na face da idosa senhora.

- Por vezes, tia, penso que a senhora descende directamente dosBórgias.

- E   descendo... - respondeu   a   velha   princesa - ... mas... do lado errado do cobertor! Então?... Farás o que te peço? --Vou ter de pensar no- assunto.

- Tens trinta minutos, rapaz. Ao almoço vão querer saber qual é a tua resposta, e a minha.

No terceiro andar de um prédio a uma pedrada de distância do; Panteão, Ruth Lewin viu-se envolvida em mais um dos dramas diários da velha Roma. Desde as ave-marias da tarde até quase à meia -noite, ajudara uma esposa de vinte anos de idade a dar à luz a sua; primeira criança. O médico estivera junto dela durante as duas últimas horas, um jovem de ar abatido que aparentava estar demasiado envolvido no drama, tanto para seu próprio bem como para o bem da paciente.

Quando finalmente conseguiram trazer a criança à luz com a ajuda do fórceps, esta era um monstro, uma deformidade pequenina; e choramingas com cabeça humana e corpo de pinguim, cujos pés e; mãos estavam directamente ligados ao tronco.

Ruth Lewin ficou a olhá-la horrorizada enquanto o jovem médico; praguejava com fúria:

- Doce Jesus! Meu Deus, olhem para isto!

Ruth Lewin descobriu-se a gaguejar, impotente.

- Mas porquê? Que foi que fez isso? Que... - Cale-se! -gritou-lhe o médico com dureza. -Cale-se e arranje-me água e uma toalha.

Fez o que lhe pediam com gestos mecânicos e observou-o com um horror fascinado enquanto o médico enfaixava o corpo deformado e depois lhe lançava sobre a cabeça alguns pingos de água,murmurando as palavras rituais:

->Eu te baptizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, Ámen.

-> Que lhe vai acontecer agora? - perguntou Ruth Lewin, que recuperara a voz. ;

-Isso é comigo. Trate de limpar a mão.

Zangada e quase em lágrimas, encetou aquela servil tarefa, banhando o jovem corpo rasgado, confortando a rapariga quando ela se debateu, gemendo, de regresso ao estado consciente.   Quando finalmente terminou e a jovem mãe já jazia, composta e decente, sobre as almofadas. Ruth Lewin levantou os olhos.

-E agora, doutor?

O médico estava de pé junto da mesa, de costas para ela, remexendo nos panos que cobriam a criança. Virou um rosto de pedra para Ruth e respondeu:

- Está morta, Chame o pai.

Ruth abriu a boca para fazer a pergunta, mas não emitiu nenhum som. estudou-lhe o rosto em busca de uma resposta, mas os jovens olhos do médico estavam vazios como berlindes. Repetiu a ordem:

-Por favor, chame o pai.

Ruth Lewin dirigiu-se para a porta e fez sinal a um rapaz alto e musculoso que bebia um copo de vinho e falava com um grupo de vizinhos que se reunira no patamar.

-Entre, faça favor--pediu-lhe.

Intrigado, o jovem aproximou-se dela seguido pelos vizinhos. Puxou-o para dentro e fechou a porta sobre os outros rostos curiosos.

O doutor enfrentou-o, segurando nos braços o corpo enfaixado.

- Tenho más notícias para si, meu amigo. O bebé nasceu morto.

- Morto? - repetiu o rapaz, olhando-o com um ar estupidificado.

-Por vezes acontece. Não sabemos porquê, na verdade. A sua mulher está bem, poderá ainda ter outras crianças.

Desajeitado, o rapaz avançou para junto da cama e debruçou-se murmurando por sobre a rapariga pálida e apenas meio consciente.

- Vamos - disse o médico de um modo abrupto. - Quero entregar isto no hospital geral. A seguir virou-se para o rapaz. - Tenho de levar o corpo. É a lei. Regressarei de manhã para ver a sua mulher e para lhe entregar a certidão de óbito.

Nem o rapaz nem a mulher pareceram ouvi-lo, pelo que saiu levando consigo o pequeno e patético embrulho, com Ruth Lewin a segui-lo como uma carpideira profissional. A multidão que se encontrava no patamar ficou a vê-los passar, em silêncio, e depois amontoou-se à porta do quarto, sussurrando excitada.

Quando atingiram a rua, o médico pousou o corpo> da criança no assento traseiro do automóvel e bateu a porta com força. A seguir encarou Ruth Lewin e disse-lhe com brusquidão:

- Não faça perguntas. Entregarei o cadáver no hospital geral e farei um relatório.

--Não haverá autópsia?

- Não. Mesmo que houvesse, não revelaria nada. A criança morreu de asfixia...

Por instantes todo o seu autodomínio pareceu desvanecer-se. O corpo tremia-lhe e a jovem face contorcia-se como que submetida a dores intoleráveis. De súbito, numa fúria de desespero, implorava-lhe:

- Não me abandone agora. Por amor de Deus, não me abandone. Venha comigo ao hospital e depois... e depois vamos a qualquer lado. A qualquer lado... onde exista sanidade. Se ficar sozinho esta noite... creio que enlouquecerei.

- Claro que irei consigo, mas não deve considerar-se responsável por isto. É um médico, sabe que estas coisas acontecem todos os dias.

Eu sei! Oh, sim, eu sei! -tentou sorrir, mas o sorriso foi mais parecido com um rito- de agonia.-Vou dizer-lhe uma coisa que desconhece. Aguardo o nascimento’ de vinte outros bebés durante a próxima semana e pelo menos metade irão ser como esse.

- Oh, Deus... -exclamou Ruth Lewin, baixinho.-Oh, Deus Todo-Poderoso, porquê...?

Foi na tranquila casa de Ruth, sob a fantasmagórica sombra do Palatino, que ele lhe disse porquê. Disse-lho com fúria e brusquidão, como se todo o paradoxo da arte da cura -a sua melhor promessa de perpetuidade e a sua rendição final à mortalidade - se houvessem demonstrado’ demasiado fortes para as suas forças.

-... É um pensamento louco... mas a farmácia médica parece surgir sempre com o elixir da vida numa das mãos e um frasco de; veneno na outra... Há antibióticos que curam algumas pessoas e matam outras. Havia aquele remédio francês que fervia os miolos dos homens. Havia a talidomida, que fazia dormir e depois provocava,; monstros no útero. Agora há outro. Apareceu no mercado há cerca de doze meses... uma fórmula combinada, para evitar as náuseas da gravidez e diminuir os perigos de toxicemias... Há três meses começámos a receber os primeiros avisos, vindos da Alemanha, sobre deformidades induzidas pelo medicamento... É outra vez a história da talidomida, só que agora toda a gente está a tentar abafá-la... -Recostou-se na cadeira, uma imagem de desalento, fadiga e pura miséria. - Costumava pensar que era uma espécie de apóstolo médico. ; Pagava do meu próprio bolso os remédios para os doentes mais pobres. Fui eu que comprei aquela porcaria para a rapariga desta noite e para todas as outras do bairro...

-Não há esperança de que os outros nascimentos sejam diferentes?

- Alguns deles serão normais, mas os outros... - Lançou as mãos para a frente, num apelo cheio de paixão. - E que fazer? Não os posso assassinar a todos.

- Primeiro, nunca mais deve usar essa palavra outra vez. Não; vi nem ouvi nada esta noite...

-Mas sabe, não sabe?

- Não sei de nada... excepto isto: não se deve culpar a si próprio e não deve voltar a desempenhar o papel de Deus, Há nisso uma espécie de loucura.

- Sim, loucura, é o termo apropriado.-Passou a mão tremente pelos cabelos,-Foi uma loucura, esta noite, mas... De que dispõe essa gente, para lidar com uma tal situação? Sabe o que diriam se tivessem assistido àquele nascimento? Mau-olhado. Alguém olhou para a mãe e lançou-lhe uma maldição quando a criança ainda se encontrava no útero. Não faz uma ideia do poder da superstição nas mentes daquela pobre gente. Que fariam com a criança? Alguns, muito poucos, talvez cuidassem dela. Outros tentariam asfixiá-la ou atirá-la para o rio. Alguns poderiam vendê-la a mendigos profissionais, que obteriam lucros das suas deformidades... Então e todas as outras que ainda estão para aparecer? Que faço com elas? Jesus, que posso eu fazer?

Sem qualquer espécie de aviso, o médico foi abalado por profundos e exaustos soluços que levaram Ruth Lewin a correr para ele e a colocar-lhe os braços em volta para o confortar e acalmar com palavras suaves e impotentes. Quando finalmente se acalmou, obrigou-o a deitar-se na sua própria cama, cobriu-o com um cobertor e depois sentou-se a seu lado, segurando-lhe na mão até o ver mergulhar num sono misericordioso. Depois ficou só... isolada naquelas horas de pesar, confrontada com o grande mistério da vida, da morte e da dor, e com a amaldiçoada e terrível confusão do mundo.

Vira nascer um monstro como resultado de um acto de cura e de simpatia. Vira matar em nome da piedade, acto que o seu coração aprovava quase inteiramente. Estava ali resumida toda a poderosa tragédia do homem, todo o enorme mistério da sua existência e destino.

Confrontado com um tal embrião, tão digno de piedade, como podia alguém dizer que as engrenagens da criação não se avariavam, moendo-se e provocando uma monstruosa confusão? Como é que se podia falar de Omnipotência e do Omnisciência, e de uma Divindade sempre presente? Como é que era possível encontrar um espírito ou alma naquela criatura fraca, choramingas, parecida com um peixe, nadando às cegas para fora do fluido do útero, para enfrentar a luz do dia?

Onde estavam agora as fundações da fé, da esperança e do amor? Onde existiria um vestígio de sanidade naquele manicómio de doentes, deficientes e impotentes vítimas da civilização? Se não existia nenhum, então era tempo de desistir e desaparecer. A saída era bastante fácil e já uma vez quase passara por ela. Não era possível continuar a vaguear às cegas, de uma maneira selvagem, no interior de uma casa de espelhos, confusa, desordenada, sem finalidade e cheia de medo. Se não havia solução para a desarmonia, então- o melhor era que a orquestra fizesse as malas e fosse mandada para casa. Mas se houvesse... então teria de ser rápida, antes que os nervos esfrangalhados se acabassem por romper, e se lançassem num horror uivante. A fadiga da vigília penetrou-a até aos ossos e deitou-se na cama ao lado do homem adormecido. No entanto o contacto daquele corpo perturbou-a, e quando o médico murmurou e se virou para ela, a dormir, bateu em retirada e dirigiu-se para a cozinha para preparar uma chávena de café.

Recordou-se de uma outra noite com outro homem, naquela mesma casa, e em como por instantes tivera um relance de um começo de luz. Perguntou a si mesma o que teria ele concluído do caso daquela noite e qual seria a sua resposta para os horrores que estavam para vir. De súbito atingiu-a um pensamento, frio e revivificante. Aquela era a sua cidade. Afirmara que era sua. Declara-se a si mesmo como pastor e servo do seu povo...

Ruth Lewin ainda estava acordada quando o cinzento da falsa madrugada rastejou sobre a colina do Palatino. Escrevera a sua carta ainda antes de a cidade esfregar o sono dos olhos, pedindo audiência privada com Kiril, o pontífice.

A carta para a Igreja encontrava-se pronta e o rascunho em russo estava nas mãos dos tradutores. Agora que a terminara sentia-se estranhamente vazio, oprimido por um sentido de futilidade e frustração.

Enquanto a escrevera sentira-se preso, como nunca antes, pelo poder da Palavra e pela convicção da sua inevitável frutificação nos corações dos homens bons. No entanto agora encarava o frio facto de que sem a graça de Deus ->e dos homens que cooperavam com a graça de Deus - a semente poderia vir a jazer, fértil mas improdutiva, durante uma centena de anos. Entre os milhões de crentes que professavam uma obediência à Palavra e à sua autoridade como Supremo Pregador, quantos seriam aqueles de quem se poderia esperar um cumprimento cabal?

Via com toda a clareza, o que iria acontecer à sua carta. Num espaço de poucos meses seria lida em todos os púlpitos católicos do mundo. Receberia confirmações por parte dos bispos, que jurariam lealdade ante os seus conselhos e prometeriam levá-los a cabo o melhor que lhes fosse possível. Porém, entre as promessas e as realizações levantavam-se centenas de obstáculos: falta de homens, falta de dinheiro, por vezes falta de visão e de coragem bem como o ressentimento do homem que se encontra no local de acção e que se interroga por que motivo lhe pedem para fazer tantos tijolos com tão poucas palhas.

O melhor que podia esperar era que aqui e ali a Palavra despertasse o fogo na alma de um homem, lhe fizesse brilhar os olhos com as visões e o fizesse meter-se a caminho para realizar uma divina impossibilidade. Sabia por si mesmo que não tinha outra escolha que não fosse a de continuar a pregar, ensinar, incitar à acção, e depois esperar, vazio de tudo, excepto de esperança, pelas promessas de cumprimento.

Houve uma batida na porta e o mestre-camareiro entrou para perguntar se Sua Santidade estava pronto para dar início às audiências da manhã. Kiril lançou um breve olhar à lista e verificou que o primeiro nome era o de Ruth Lewin.

A carta perturbara-o profundamente porque lhe chegara às mãos num momento de tentação, tentação de mergulhar nos aspectos políticos da Igreja e desafiar, numa exibição de poder, os homens como Leone que não escondiam o seu desacordo com ele. Sabia que havia quem considerasse a sua encíclica como uma novidade. Achavam que era demasiado pessoal, demasiado específica. Criticava políticas passadas de um modo demasiado declarado. Exigia novos modos de acção no ensino dos clérigos e na direcção da educação missionária. Para ele, o homem no cimo, era fácil enfiar a sua autoridade pela garganta abaixo dos subordinados e abafar os seus criticismos com um apelo à obediência religiosa.

A carta de Ruth Lewin recordara-lhe que a verdadeira batalha era noutro lado... em quartos solitários e corações solitários, entre as pessoas que não tinham uma teologia, mas apenas uma íntima e assustadora familiaridade com os problemas da vida e da morte. Ruth Lewin representava um contacto com essa gente. Se conseguisse que a Fé fosse eficaz sobre ela, então, e fosse qual fosse o futuro do seu pontificado, não teria falhado inteiramente.

Quando a conduziram à sua presença saudou-a calorosamente e entrou no assunto sem qualquer preâmbulo:

- Ordenei que a chamassem tão depressa quanto possível porque sei que deve andar a sofrer muito.

- Fico muito grata a Vossa Santidade - retorquiu, com as suas maneiras secas. - Não tenho o direito de o incomodar, mas trata-se de um assunto terrível.

- Para si? - perguntou Kiril.

- Para mim, volta a pôr tudo em questão. No entanto quero falar primeiro dos outros.

- Quais outros?

- As mulheres que vão dar à luz aquelas crianças. Penso que na sua maioria não estão preparadas para o que irá acontecer.

O rosto de Kiril ensombrou-se e sentiu um nervo começar a pulsar por debaixo da cicatriz do rosto.

- E que quer que eu faça?

-Nós... Isto é, as mães necessitam de ajuda. Precisam de um lugar onde possam deixar essas crianças, se não forem capazes de tomar conta delas. As crianças têm de ser cuidadas. Disseram-me que a sua esperança de vida é curta, mas necessitarão de cuidados especiais... e de um tipo de amor muito especial.

-Pensa que a Igreja lhos pode dar?

- Tem do o dar... - declarou Ruth Lewin, numa voz sem entoação- ... se é que acredita no que ensina.-Corou, compreendendo que cometera uma indiscrição, mas a seguir apressou-se a dar uma explicação:-Sou uma mulher, Vossa Santidade. Na outra noite perguntei a mim mesma o que faria, como se sentiria, se fosse mãe de uma daquelas crianças. Não sei. Não creio que me comportasse muito bem...

Kiril, o papa, esboçou um breve e frio sorriso de aprovação!

- Creio que se está a subestimar. Tem mais coragem do que julga. Diga-me, quantos desses nascimentos se prevêem para Roma.

- Esperamos cerca de vinte nos próximos dois meses. Podem não ser muitos! mas...

Continuou sentado durante alguns momentos, silencioso e pensativo. A seguir ostentou um sorriso retorcido e agarotado e disse:

- Muito bem! Vamos verificar que espécie de autoridade detenho na Igreja! - Pegou no telefone e marcou o número do secretário da Sagrada Congregação das Religiosas.

Explicou a situação com modos secos e perguntou:

- Quais as freiras enfermeiras de Roma melhor equipadas para se ocuparem destas crianças?

Ouviu-se um indistinto palavreado vindo do outro lado da linha e Ruth Lewin verificou que a boca do pontífice se comprimia de ira, Retorquiu com rispidez:

- Sei que é difícil. Tudo é difícil, mas este é um trabalho de caridade urgente e que tem de ser feito. Se for necessário dinheiro, fornecê-lo-emos. A vocês caberá a tarefa de encontrar acomodações e assistência de enfermagem. Quero tudo arranjado dentro das próximas vinte e quatro horas.

Pousou o telefone com uma forte pancada e exclamou, irritado:

-Esta gente vive num pequeno mundo só deles. É preciso força para os fazer saírem dele para os trazermos para a realidade... De qualquer modo, pode considerar como garantido’ que forneceremos os   cuidados e as acomodações hospitalares para os que delas necessitarem.

Será informada dos pormenores por carta e pelo telefone. A seguir mandarei publicar um comunicado no Observatore e fá-lo-ei circular

pela imprensa de Roma. :

- Fico muito grata a Vossa Santidade.

- Sou eu que lhe fico grato, jovem. Agora... que posso- fazer   por si?

- Não sei - declarou Ruth, infeliz. - Fiz a mim própria essa pergunta durante todo o caminho para o Vaticano. Porque é que estas anomalias acontecem? Porque é que Deus deixa que elas aconteçam?

- Se pudesse responder a isso... - respondeu o pontífice, com moderação eu próprio seria Deus. Não sei, mas por vezes gostaria de saber. Não deve pensar que os mistérios da Fé são mais simples para mim do que para si. O Acto de Fé é um acto de aceitação. Vou contar-lhe uma história a meu respeito... Quando fui preso pela primeira vez, foi nos maus tempos da Rússia. Havia muita tortura, muita crueldade. Uma noite levaram para a minha barraca um homem que havia sido tratado de um modo mais brutal do que qualquer outro dos que eu vira até ali. Estava em agonia e gritava repetidamente para que alguém o matasse e lhe acabasse com o sofrimento. Para lhe dizer a verdade, senti-me tentado a fazê-lo. É uma coisa terrível assistir a um tal sofrimento. Degrada e aterroriza aqueles que o vêem, mas que não’ o podem aliviar. É por isso que compreendo a acção desse seu amigo médico, apesar de não poder concordar com ela... pois é como se alguém estivesse a conceder uma mercê divina... através da dádiva da morte. Mas nós não somos divinos, não podemos outorgar nem a vida nem a morte.

Por momentos pareceu mergulhar em contemplações íntimas. Ruth Lewin incitou-o com delicadeza.

-Qual foi a história, Santidade?

-O homem morreu-me nos braços. Gostaria de lhe poder dizer que morreu em paz com Deus, mas não tenho maneira de o saber. Não consegui atravessar as barreiras da dor para lhe tocar o- espírito. Morreu e tive de o recomendar a Deus... É a única resposta que lhe posso dar.

- Não será mais fácil do’ que continuar onde está?

-Penso que é mais difícil.

-No entanto, já deu um passo no escuro.

-Não compreendo.

- Não foi capaz de concordar com esse crime, mesmo tratando-se de uma monstruosidade,

-Não-, não inteiramente.

- E veio ter comigo em busca de ajuda, não para si, mas para as crianças.

- Senti-me... incapaz. Precisava de alguém que pudesse actuar...

- Talvez... - retorquiu Kiril,   o pontífice,   com suavidade - ... talvez isso faça parte do significado da dor. Desafia a nossa arrogante visão da vida, confronta-nos com a nossa própria fragilidade e torna-nos conscientes, por pouco que seja, do constante poder do Criador.

- Gostava de poder acreditar no que me diz. Mas como é possível ver Deus numa criança humana que parece um peixe?

-Não se trata de um novo mistério, Ruth. É já muito antigo. Como podemos ver Deus num criminoso moribundo pregado no cadafalso?

-Dizer isso não basta--retorquiu Ruth Lewin, com brusquidão. - Tem de haver amor em qualquer lado. Tem de haver!

- É verdade... tem de haver algum amor. Se o mistério da dor’ não é um mistério de amor, então tudo o que nos rodeia...-As suas mãos contorcidas abarcaram a ornamentada sala e toda a Cidade Santa que ficava para lá dela -... então tudo o que nos rodeia é apenas um contra-senso histórico... e a minha função não passa do papel de um charlatão.

A franqueza tomou-a de surpresa. Ficou durante algum tempo a olhá-lo, chocada com o contraste entre as mãos retorcidas e a formalidade das vestes religiosas. A seguir perguntou:

- Vossa Santidade acredita realmente no que me diz?

- Sim,

- Então por que é que eu não sou capaz de acreditar?

- Penso que acredita - respondeu-lhe Kiril, o pontífice, com gentileza. - Foi por essa razão que veio ter comigo e é também por causa dela que actua dentro de um contexto de crença, apesar de andar a debater-se com Deus.

- Se ao menos pudesse saber que sou amada... que mereço ser amada...

- Se não se pede tal coisa à pessoa que amamos... então para quê pedi-la a nós mesmos?

- Sua Santidade é demasiado inteligente para mim.

- Não! Não sou um homem inteligente. Compreendera, Ruth Lewin. Compreendo-a melhor do que pensa porque caminhei pela mesma estrada onde caminha agora. Vou contar-lhe outra história e depois vou mandá-la embora porque há muitas outras pessoas à espera de me verem... A minha fuga da Rússia foi combinada, como sabe. Fui libertado da prisão e mandado para o hospital porque estava muito doente já há algum tempo. Os médicos trataram-me bem & as enfermeiras foram solícitas. Depois de dezassete anos de sofrimento, tratou-se de uma estranha experiência. Já não precisava de; lutar mais. Era como se me houvesse transformado noutro ser humano da noite para o dia. Estava limpo e bem alimentado. Tinha livros para ler, tempo disponível e até uma certa liberdade. Apreciei tudo isso, estava orgulhoso de ser decente. Levei algum tempo- até compreender que estava a ser submetido a uma nova tentação. Sentia-me outra vez amado. Queria ser amado. Habituei-me a aguardar a chegada da enfermeira, o seu sorriso e a sua assistência. Depois surgiu o momento em que entendi que o que Kamenev, o meu atormentador, não me conseguira fazer... estava eu a fazer a mim mesmo. Estava a exigir uma experiência de amor. Apesar do sacerdócio do bispado, era tentado por esta atracção da simples comunhão humana... Compreende o que estou a tentar dizer-lhe?

   -Sim, compreendo. É o que sinto todos os dias.     - Então compreenderá também outra coisa. Que tomar e exigir é apenas uma das faces da medalha do amor. A dádiva é a face que prova aquilo de que somos forjados. Se recebia, não teria nada para dar. Se desse, a dádiva renovava os recursos, e foi isso o que me manteve inteiro durante dezassete anos de prisão...

- E a reciprocidade desse amor?

- Faz parte dela - declarou Kiril, o pontífice, num tom suave. A senhora, e essas crianças a que amaremos, e aqueles a quem eu conseguir chegar, aqui e acolá, na Igreja, porque a minha voz ressoa nos seus corações... Continuo frequentemente solitário, tal como a senhora... mas estar solidário não significa não ser amado, é apenas aprender o valor do amor e também que este toma muitas formas por vezes difíceis de reconhecer. - Levantou-se e estendeu-lhe a mão. - Agora tenho de a mandar embora, mas ver-nos-emos mais vezes.

Há muito que Ruth rejeitara a autoridade que aquele homem representava, no entanto pousou o joelho no chão e levou os lábios ao anel do Pescador que se encontrava no seu dedo, e escutou com gratidão as palavras da bênção:

- Benedictio Dei omnipotentis descendat, Patris et Fill et Spirítus Sancti, super te et maneat semper...

Para Kiril, o pontífice, constituiu uma espantosa ironia O facto de a sua encíclica sobre a educação cristã provocar muito menos agitação do que o comunicado no Observatore Romano sobre as vítimas do novo medicamento. Todos os correspondentes em Roma telegrafaram o texto completo extraído do Observatore, que foi interpertado na Europa e na América como uma clara ordem papal para colocar os recursos; médicos e sociais da Igreja à disposição das mães e das crianças afectadas pelo mortal medicamento.

Durante a semana seguinte a sua secretária manteve-se coberta por cartas e telegramas de bispos e dirigentes laicos, considerando a sua acção como uma oportuna demonstração da caridade da Igreja. O cardeal Platino escreveu, exuberante:

«...Penso que Sua Santidade revelou de um modo- muito especial a relevância da missão da Igreja em todos os actos e circunstâncias da vida humana. Pode muito bem ser que o comunicado de Sua Santidade aponte o caminho para um método missionário de grande importância, a reintrodução da Igreja na vida privada e pública, através de obras de caridade prática. Historicamente falando, este método constituiu o começo da mais permanente actividade evangélica e é, de facto-, uma verdadeira cópia da obra do Mestre, que nas palavras dos Evangelhos ’sarava os doentes e fazia o bem...

Qualquer outro homem poderia ter-se sentido lisonjeado por uma resposta tão espontânea a um acto executivo, mas Kiril Lakotál estava preocupado com os aspectos do problema que a imprensa oul ignorava ou transformava num drama fictício.

Dia e noite via-se perseguido pela imagem de uma mulher a passar por nove meses de medo e incerteza para depois dar à luz uma deformidade, ou de um médico incitado a intervir antes do momento trágico, ou da própria criança e do que lhe poderia acontecer quando atingisse a maturidade. Para todos eles a caridade da Igreja era, na melhor das hipóteses, um pós-escrito, e, na pior, um indesejável prolongamento da tristeza e do desespero.

A missão da Igreja para toda essa gente era muito diferente da simples demonstração de simpatia, era a de a confrontar com a verdade crua da sua existência, com todos os seus riscos e terrores, e também com um outro facto, o de que a sua existência os colocava numa relação precisa com o Criador que lhes dera o ser. A Igreja não podia modificar essa relação Não podia eliminar uma única das suas consequências. A sua única função era a de as interpretar à luz da razão e da revelação, e dispensar a graça, a única coisa que tornava possível essa relação.

Em teoria, cada um dos milhares de sacerdotes que palmilhavam as ruas de Roma com os seus chapéus achatados e sotainas negras era uma intérprete oficial da doutrina, um dispensado oficial da graça e um pastor repleto de compaixão para com o seu rebanho. Na realidade, eram muito poucos os que tinham o talento ou a compreensão para participar verdadeiramente naquelas íntimas tragédias da humanidade.

Era como se a simbiose da Igreja falhasse em certo ponto e as vidas dos seus povos divergissem, a partir daí, das vidas dos clérigos. Era como se a interpretação de Deus ao homem se tornasse num exercício didáctico e as realidades das graças de Deus fossem apagadas pelas realidades da dor e da perda.

Na metodologia da Igreja, o sacerdote estava sempre à disposição dos membros da sua paróquia. Se estes não fossem ter com ele, isso

era devido à sua própria negligência e falta de fé. Este era pelo menos o texto de muitos sermões de domingo, mas na verdade o

mundo surgia porque o clérigo deixara de compartilhar a tragédia do povo e estava até protegido dela pelas vestes e pela educação. Voltava de novo a ela depois de uma volta completa, tendo em mente que o fruto da sua missão nunca devia ser apreciado pelo espectáculo, mas apenas pelo seu florescimento’ no mais secreto.

Enterradas no meio daquela pilha de congratulações encontravam-se outras cartas mais inquietantes, como a que viera do> cardeal Pallenberg, da Alemanha:

«... É portanto com o maior respeito que imploro a Vossa Santidade que leve a cabo um exame da presente constituição e métodos de trabalho da Santa Rota Romana. Vossa Santidade está bem consciente de que, por causa das circunstâncias especiais que temos na Alemanha, há um certo número de casos maritais que são todos os anos enviados para Roma. Muitos deles atrasaram-se durante três e quatro anos, com as consequentes dificuldades e graves perigos espirituais para as partes envolvidas. A mim e aos meus irmãos bispos parece-nos que existe a necessidade de uma rápida reforma quanto a este assunto’, ou através de maiores poderes para os tribunais provinciais ou de um aumento’ do’ número de funcionários da Rota e da instituição de mais rápidos métodos de exame dos problemas. Sugere-se que em vez de se traduzirem todos os documentos para o latim - um processo demorado e dispendioso’ -, estes possam ser apresentados e examinados no vernáculo original...»

À primeira vista, a Santa Rota Romana nada tinha a ver com um acto de infanticídio ocorrido num miserável terceiro andar, mas no entanto as causas que acabavam o seu caminho nos lentos processos daquele augusto corpo continuavam a ser dramas de amor e paixão. A Santa Rota Romana era o último tribunal de apelação para os casos maritais, dentro da Igreja, e cada caso marital era uma história de amor ou de falta dele, e também de uma relação humana - deficiente ou não - que tinha de ser analisada por comparação com a relação divina.

Para o teólogo e para o canonista a função da Rota era muito simples. Tinha de decidir se um casamento era ou não válido de acordo com a lei moral e as prescrições dos cânones. Dentro da Igreja havia muitos que pensavam que este ponto de vista era até demasiado simples. A Rota velava com uma cuidadosa meticulosidade para que fosse feita justiça. Não se preocupava nada com o facto de que esta devia dar a impressão de ser feita. Os seus métodos eram antiquados e frequentemente dilatórios. Todos os documentos e todas as declarações tinham de ser traduzidos para o latim. O pessoal, tanto clerical como leigo, era um número inadequado para tratar, com a devida presteza, da grande quantidade de casos. O menos compreensivo dos homens não poderia deixar de imaginar as dificuldades que uma tal lentidão infligia nos que haviam apelado para o tribunal... Kiril, o pontífice, compreendia o problema com mais clareza do que outros, mas já aprendera que para levar a cabo uma reforma em Roma teria de a preparar lentamente e actuar com força no devido momento, pois de outro modo acabaria a lutar com a burocracia, o que era o mesmo que lutar contra si mesmo.

Tomou uma nota na agenda para discutir a questão com Valerio Rinaldi que, tendo-se retirado das políticas da Igreja, poderia dar-lhe alguns conselhos sobre como vencer os burocratas.

De Regambwe, o cardeal negro do Quénia, recebera uma missiva de ainda maior urgência:

«...Os acontecimentos em África ’estão a desenrolar-se muito mais depressa do que parecia possível ainda há dois anos. Creio que poderemos vir a assistir, dentro dos próximos doze meses, a uma sangrenta revolta dos negros contra os brancos no Sul da África. Trata-se da consequência quase inevitável das brutais medidas de repressão exercidas pelo Governo’ sul-africano sob a ”bandeira do apartheid, e dos métodos feudais, arcaicos e por vezes brutais dos portugueses. Se esta revolução tiver êxito - e com o apoio das outras nações africanas há todas as razões para crer que o terá, então poderá muito bem vir a ser o fim do cristianismo, por uma centena de anos, na extremidade sul do continente africano’. Estamos a preparar catequistas tão depressa quanto podemos, mas não temos esperanças de conseguir preparar o número mínimo de sacerdotes nativos durante o tempo à nossa disposição. Sei que isto pode muito bem parecer uma sugestão revolucionária, mas pergunto a mim mesmo se não seria melhor considerarmos muito a sério um programa de preparação em que a base da instrução fosse a língua local e não o latim, e em que toda a liturgia seria celebrada no vernáculo. Se uma tal acção fosse aprovada, então seria possível preparar clérigos locais em cerca de metade do tempo necessário para o fazer de acordo com o sistema estabelecido pelo Concílio de Trento.

»Compreendo muito bem que isto significaria um clérigo muito menos educado do que noutras terras, mas a questão está em saber se queremos ter tais clérigos, pregando a Palavra e dispensando os Sacramentos de maneira válida e religiosa, ou se preferirmos não vir a ter qualquer espécie de clérigos. Sua Santidade compreenderá que falo de medidas desesperadas para tempos desesperados, e que [...]»

Mais uma vez o conduziam de volta ao assunto da sua carta, a educação dos ministros da Palavra. Mais uma vez enfrentava o intangível X que dominava todo o pensamento da Igreja... a infusão do Espírito Santo, compensando as deficiências do homem, para que o Corpo Místico fosse mantido sempre vivo. Até onde poderia ir, ao confiar a Igreja àquela dominadora influência do Espírito? Até que ponto era legal arriscar a Palavra e os Sacramentos com homens apenas parcialmente instruídos, confiando que o clero faria o resto? Além disso, quem se não ele podia dizer o que era parcial e o que era uma educação suficiente? Trabalharia agora o Espírito Santo, no século XX, de uma maneira menos eficiente do que com a Igreja primitiva, quando a doze pescadores havia sido confiada a Base da Fé e a missão de a pregarem a todas as nações? Lá fora, o dia de Verão chegava ao fim. Os sinos da cidade dobravam o seu vão grito apelando à contemplação e ao retiro-. Mas a cidade estava também cheia de outros sons, e restava a Kiril, o pontífice, reunir à sua volta o pessoal da sua casa para as vésperas e para recordar o Deus oculto.

- Fez um trabalho muito completo, meu amigo. - Campeggio pousou o texto dactilografado e olhou para George Faber com um novo respeito. - É o mais completo dossier que jamais vi sobre Calitri e os seus amigos,

Faber encolheu os ombros com um ar infeliz.

- Comecei a minha carreira como jornalista criminal. Tenho um certo talento para este tipo de coisas... mas não posso dizer que me sinta muito orgulhoso dele.

- O amor é um negócio dispendioso, não é? - Campeggio sorriu ao proferir a frase, mas não havia qualquer espécie de humor nos seus olhos sagazes e negros.

- Ia falar-lhe disso mesmo. As informações que se encontram neste documento custaram-me mil dólares. Talvez tenha de vir a gastar bastante mais,

- Em quê?

- Para conseguir uma declaração assinada de uma ou mais das pessoas mencionadas no dossier.

- Tem alguma ideia de quanto isso irá custar?

- Não, mas pelo que soube até agora concluí que são vários os que andam com falta de dinheiro.   O máximo que posso gastar serão outros mil dólares. Gostaria de saber se está preparado para contribuir com mais dinheiro.

Campeggio permaneceu silencioso durante um bocado, olhando para a confusão da secretária de Faber. Por fim disse, num tom deliberado:

- Não tenho bem a certeza de poder discutir a proposta nesses termos,

- Que quer dizer?

- Do ponto de vista da Rota e da lei civil, tal pode ser considerado como suborno de testemunhas.

- Também me lembrei disso.

- Sei que o fez. É um homem honesto... demasiado honesto para o seu próprio bem, ou para o meu. Vejamos a coisa de outro ângulo. Como é que se propõe abordar as suas possíveis testemunhas?

- Assinalei três nomes no documento. Qualquer deles demonstra aberta animosidade para com o Galitri. Um é um actor que há doze meses não consegue um bom papel. Outro é um pintor. Calitri financiou-lhe uma exposição e depois abandonou-o à sua sorte. O terceiro é uma mulher. Disseram-me que é escritora, mas nunca vi nada que ela tivesse publicado. Os dois homens passam o Verão em Positano. A mulher tem uma casa em Ischia. Proponho-me seguir para o sul durante as férias de Verão e tentar contactar com todos eles.

- Vai levar a Chiara consigo?

- Não. Queria ir mas não me parece que seja boa diplomacia. Além disso, eu... preciso de me testar a mim mesmo, longe dela.

- Sim, pode ser uma boa ideia. - Os astutos olhos de Campeggio estudaram-lhe o rosto.-Pergunto a mim mesmo se algum de nós se conhece a si próprio antes da meia-idade? Agora, diga-me outra coisa. Por que é que pensa que as suas testemunhas lhe irão pedir dinheiro-?

- Ora, porque é o costume - respondeu George Faber, de esgalha, - Ninguém quer ir a tribunal apenas pelo bem da justiça. Todos aproveitam para ganhar qualquer coisa.

--O senhor é católico, Faber. Que diz a sua consciência a respeito desta transacção?

Faber corou e respondeu:

-’A minha consciência já está comprometida. Estou ligado à Chiara, não me posso dar ao luxo de ter escrúpulos. Acido, Campeggio concordou,:

--É um ponto’ de vista muito nórdico, provavelmente mais honesto do que o meu.

-E qual é o seu ponto de vista?

- Em relação ao dinheiro? Estou pronto para lhe entregar mais mil dólares, mas não> quero- saber o que irá fazer com eles.

Faber teve um dos seus raros momentos de humor.

- E fica assim com a consciência mais limpa?

- Sou um casuísta - respondeu Campeggio, com um fino sorriso. - Posso discutir minúcias sem importância tão bem como um jesuíta.   Dá-me jeito ficar na dúvida. Mas se quer saber a verdade... – Levantou-se e começou a andar de um lado- para o- outro no gabinete de Faber. - Se quer saber a verdade, estou mergulhado muma profunda confusão. Penso que Chiara tem a justiça do seu lado. só que tem o direito de procurar obter-lha. Creio que também ha justiça do meu lado’, quando pretendo tirar o meu filho da a influência de Calitri, Estou com dúvidas quanto aos meios, portanto não os quero analisar de muito perto. É por isso que colaboro consigo... mas deixando-o carregar com o fardo das decisões morais e legais... É um truque muito latino...

- Pelo menos é franco comigo - respondeu Faber, com estranha simplicidade. - Fico-lhe grato por isso.

Campeggio deixou de passear para um lado e para o outro e olhou para baixo, para Faber, sentado por detrás da secretária com um ar pesado e vagamente encolhido.

-O senhor é demasiado fraco, meu amigo. Precisava de um amor mais simples.

- A culpa é mais minha do que da Chiara... Tenho de trabalhar o dobro do tempo para conseguir ficar livre durante as férias. Estou preocupado com questões de dinheiro. Tenho medo de não vir a ser capaz de controlar as consequências do que estamos a fazer.

-E Chiara?

- É jovem e foi magoada. Como mulher, encontra-se numa situação desconfortável... Portanto, quer divertir-se. Não a censuro, mas não tenho a resistência para passar cinco noites por semana no Cabala ou no Papagallo.

-De que se ocupa ela enquanto o senhor está no trabalho?

Faber exibiu um pequeno sorriso divertido.

-”Ora, que é que fazem as jovens matronas da sociedade em Roma? Festas, desfiles de modas, cocktails...

- Eu sei, eu sei - retorquiu Campeggio-, rindo-se. - As nossas mulheres dão boas amantes e boas mães. Como esposas, mesmo que oficialmente não o sejam, falta-lhes qualquer coisa. Melindram-se com os maridos e estragam os filhos com mimos.

Por instantes Faber pareceu mergulhado em contemplações íntimas, mas depois: respondeu com um ar distraído:

-O amor ainda é bom... mas tenho a sensação de que os dois começámos a ser calculistas. Quando Chiara veio pela primeira vez ter comigo, estava quase desfeita. Julguei que seria capaz de lhe dar tudo o que necessitava. Agora voltou ao normal e sou eu que tenho necessidades...

-E ela compreende esse facto?

-Eis a grande pergunta... Por natureza, é impulsiva e generosa, mas a vida com Calitri transformou-a. Como se... - calou-se, procurando as palavras. - Como se pensasse que os homens têm para com ela um débito especial.

- E não tem a certeza de conseguir pagar? --Não, não tenho a certeza.

-- Então, se fosse a si - declarou Campeggio-, enfático, cortava todos os laços agora mesmo. Dizia adeus, chorava na almofada e esquecia-me de todo o assunto.

- Estou apaixonado pela Chiara-’respondeu Faber, com toda a simplicidade - e pronto a pagar qualquer preço para a conservar.

- Então estamos os dois no mesmo barco, não é? - Que quer dizer?

CampeggiO’ hesitou por instantes e depois explicou-se num tom deliberado.

- No começo, a posse parece sempre o triunfo final do amor,! O senhor tem agora a sua Chiara, mas não consegue ser inteiramente feliz enquanto não a possuir por intermédio de um contrato legal.; Nesse momento pensará que está seguro. Colhe a rosa e coloca-a numa jarra, na sala, mas passado algum tempo a flor murcha e deixa de lhe parecer importante possuir uma flor definhada. Quando surgem os filhos, trata-se de uma nova espécie de posse. Dependem inteiramente de si. Conserva-os junto de si porque necessitam de sustento e segurança. Quando crescem descobre que os laços enfraquecem, e que já não os possui como dantes... Quero o meu filho. Quero que seja a imagem e a continuidade de mim mesmo. Digo a mim próprio que o que faço é para bem dele, mas sei, bem do- fundo do meu coração, que é também para minha satisfação. Não posso suportar a ideia de que se venha a afastar de mim e a dedicar-se a outro -homem ou mulher- a quem considero de menor valia... Mas no fim ele partirá, para o melhor ou para o pior. Olhe para mim agora. Sou um homem de confiança do Vaticano. Como editor do Observatore sou o porta-voz da Igreja. Tenho uma reputação de integridade e creio que a mereci. No entanto agora começo a comprometer-me. Não por sua causa! Não pense que estou a lançar as culpas para cima de si! É por causa do meu filho, que de qualquer modo acabarei por perder, e por minha causa, porque ainda não consegui resignar-me à idade e à solidão...

George Faber ergueu-se da cadeira e encarou o colega. Pela primeira vez pareceu ostentar uma força e uma dignidade pouco habituais. Declarou, numa voz sem entoação:

- Não tenho o direito de o forçar a um acordo. Está numa posição muito mais delicada do que eu. É livre de retirar a sua oferta.

-Obrigado - respondeu Orlando Campeggio, com simplicidade-, mas não posso retirá-la. Estou comprometido... por causa do que quero e do que sou.

- E o que é o senhor? Que sou eu?

- Devíamos ter sido amigos - disse Campeggio, com uma ironia seca. -Conhecemo-nos há muito tempo, mas perdemos essa oportunidade. Portanto... receio que sejamos apenas conspiradores, e nem sequer muito bons!

Dez dias antes da festa de Santo Inácio de Loiola, Jean Télémond recebeu uma carta de Sua Eminência o Cardeal Rinaldi:

Meu reverendo Padre:

Esta não é uma comunicação oficial, mas sim pessoal. Um pouco antes da sua chegada a Roma, o Santo Padre autorizou que me retirasse das minhas funções e vivo agora a minha vida particular no campo. Fui contudo convidado para estar presente na próxima semana quando se dirigir aos estudantes e às faculdades da Universidade Gregoriana. Antes desse dia gostaria muito de ter a oportunidade de me encontrar consigo para conversarmos.

Sei já muita coisa -talvez mais do que imagina- a respeito de si e do seu trabalho. Considero-o como um homem favorecido por Deus com aquilo a que possa apenas chamar de graça do empenho.

Esta graça é um dom raro. Eu próprio não a recebi, e talvez por esse mesmo motivo tenha mais consciência dela quando a vejo nos outros. Tenho também a consciência de que constitui, para o que a possui, mais uma cruz do que uma consolação.

Creio que o terem-no mandado regressar a Roma pode vir a ser um acontecimento da maior importância para a Igreja. Sei que é decisiva para si. Gostaria portanto de lhe oferecer a minha amizade, o meu apoio e talvez o meu conselho para futuras actividades.

Se isso lhe for conveniente, talvez possa ser suficientemente amável para me visitar na próxima segunda-feira, para passar a tarde comigo. Estará a fazer-me um favor e espero, com toda a sinceridade, vir a poder ser-lhe útil.

Fraternalmente vosso em Jesus Cristo

Valerio Rinaldi Cardeal-Presbítero

Para um homem que se sentia em crise tratava-se de um principesco encorajamento, que comoveu Télémond profundamente. Fê-lo recordar-se - quando mais falta lhe fazia recordar-se - de que, apesar de toda a sua fé monolítica, a Igreja era habitação dos espíritos mais diversos, entre os quais ainda existia a virtude da fraternidade e da compaixão.

Sentia-se como um estranho no meio da ruidosa e gregária sociedade clerical de Roma. As suas convenções aborreciam-no. A brusquidão da ortodoxia perturbava-o como se estivesse a ser repreendido pelos vinte anos de solidão passados entre os mistérios da Criação. A melancolia do clima provocava-lhe um peso na ’alma. Por um lado, descobrira-se a recear o momento em que deveria apresentar à vista do público as especulações de toda uma vida, por outro lado, via-se a si mesmo a aproximar-se desse momento com uma espécie de culpa que fazia que os riscos que correra, na carne e no espírito, lhe parecessem fúteis e até culpados.

Agora e de repente surgia-lhe uma mão estendida para lhe dar as boas-vindas e uma voz que falava com um acento de rara compreensão e gentileza. Não lhe haviam faltado as amizades durante a vida O trabalho não necessitara de patrocínio ou encorajamento... mas nunca ninguém se apercebera, com tanta clareza, do que ele na verdade era. Um jogo, uma entrega à vida, ao conhecimento e à crença, com a total convicção de que cada momento da existência, cada extensão dos conhecimentos, cada acto de fé, eram mais um passo na mesma direcção; a de um Deus-feito-homem e de um homem feito à imagem de Deus.

O que mais o perturbara em Roma fora a sensação de que certas pessoas da Igreja consideravam o seu trabalho como uma arrogância. No entanto um homem arrogante nunca embarcaria numa tal jornada, nunca arriscaria tanto no único propósito de procurar a verdade.

Nunca receara os erros uma vez que toda a sua experiência lhe mostrara que o conhecimento se corrigia a si próprio e que uma procura feita com honestidade deveria levar o homem para mais perto das margens da revelação, mesmo que os seus contornos se mantivessem para sempre ocultos aos seus olhos.

Havia uma atitude de ortodoxia que era, em si mesma, uma heresia: a de que declarar a verdade, tal como fora declarada e redeclarada ao longo de todos os séculos de existência da Igreja, era apresentá-la para sempre em toda a sua grandeza. No entanto, a « história da Igreja era uma história de uma imutável revelação que se desdobrava em complexidades cada vez maiores à medida que as mentes dos homens se abriam para a poderem aperceber mais completamente. Para um indivíduo, a história do progresso espiritual era a história da sua própria preparação para cooperar com melhor boa vontade, mais conscientemente e mais grato para com as graças de   Deus.

Para Jean Télémond a carta do cardeal Valerio Rinaldi ostentava o aspecto de uma dessas graças. Aceitou-a com toda a gratidão e marcou uma visita ao cardeal no seu retiro campestre.

Ficaram instantaneamente à vontade um com o outro. Rinaldi acompanhou o seu hóspede num passeio pelas zonas mais acolhedoras da sua vila, e esboçou a sua história, desde o primeiro túmulo etrusco, no pomar, até ao templo órfico, cujo pavimento jazia a descoberto num local onde o jardim fora rebaixado. Télémond ficou encantado com a urbanidade e simpatia do seu hospedeiro, e falou muito mais livremente do que era costume já há muito tempo, pelo que o ancião pôde ver, através dos olhos do seu visitante, todo um panorama de paisagens exóticas e uma cavalgada de histórias para ele novas e estranhas.

Quando terminaram a volta à propriedade sentaram-se ao lado de um lago em mármore e beberam chá inglês, vendo as gordas carpas a mordiscarem languidamente por entre os pés dos lírios aquáticos. A seguir, com tons amáveis, mas sagazes, Rinaldi começou a sondar a mente de Jean Télémond.

- A cidade de Roma é como um camaleão, ostenta uma cor diferente para cada visitante. Que tal lhe parece a si, padre?

Jean Télémond brincou com a pergunta durante momentos e depois respondeu com toda a sua franqueza:

- Sinto-me pouco à vontade. O idioma é-me estranho, sou como um gaulês entre os Romanos, um provinciano na grande cidade. Regressei convicto de que tinha aprendido muito em vinte anos, mas agora sinto-me como se me tivesse esquecido de qualquer coisa... talvez um modo essencial de expressão. Não sei o que é, mas a sua falta incomoda-me.

Rinaldi pousou a chávena do chá e limpou as meticulosas mãos a um guardanapo de linho. O rosto de linhas patrícias suavizou-se-lhe um pouco.

- Penso que está a colocar-se numa posição de demasiada humildade, padre. Há muito que a Gália deixou de ser uma província de Roma, e creio que fomos nós que perdemos a arte da comunicação... Não nego que tem um problema, mas estou inclinado a vê-lo de uma maneira diferente.

As feições magras e disciplinadas de Télémond distenderam-se num sorriso.

- Ficaria muito grato por poder escutar a interpretação de Vossa Eminência.

O velho cardeal agitou uma das eloquentes mãos e o sol brilhou no anel de esmeralda das suas funções.

- Meu amigo, há pessoas que usam a Igreja como se fosse uma luva. Eu mesmo, por exemplo. Sou um homem que fui feito para crescer confortavelmente dentro de uma ordem estabelecida. Compreendo a organização. Sei onde é rígida e onde pode ser tornada flexível. Não há qualquer mérito neste facto, nenhuma virtude especial. No fundo, é uma questão de temperamento e aptidões. Não- tem nada a ver com fé, esperança ou caridade. Há aqueles que nasceram para serem bons servos do Estado. Há os que têm uma aptidão para o governo da Igreja... É um talento, se assim lhe quiser chamar, mas um talento com as suas próprias tentações, e sucumbi a algumas delas durante a minha vida...

Pousou os olhos no lago dos lírios, onde os peixes nadavam, dourados e púrpura, e as flores abriam as pétalas cremosas sob o sol da tarde. Télémond aguardou enquanto o velho príncipe ordenava o resto dos pensamentos.

-Há outros, meu amigo, que usam a Igreja como se fosse uma camisa de cilícios. Não são menos crentes. Amam-na talvez com maior riqueza e ousadia, mas deslocam-se, tal como o senhor pouco à vontade dentro da disciplina. Para eles a obediência é um sacrifício diário, enquanto para mim e para outros como eu é uma acomodação - por vezes muito compensadora- às circunstâncias. Entende o que quero dizer?

- Entendo-o, mas penso que Vossa Eminência se está a subestimar apenas para ser simpático comigo.

- Não! Não!-A resposta de Rinaldi foi pronta e enfática. Sou demasiado velho para perder tempo com cumprimentos vãos. Fiz o meu próprio julgamento e sei quais os meus defeitos... Neste momento, o senhor é um homem perturbado...

- Muito perturbado, Eminência - respondeu Télémond, baixinho.->Vim para Roma por obediência, mas aqui não há paz para mim, sei-o bem.

- Não nasceu para a paz, meu amigo. Esta é a primeira coisa que terá de aceitar. Talvez nunca consiga atingi-la, até ao dia da sua morte. Sabe, cada um de nós carrega a sua própria cruz, à medida dos seus relutantes ombros. Sabe qual é a minha?

- Não.

- Ser rico, sentir-me satisfeito e realizado, e saber, neste ocaso da vida, que não mereci nada disso e que quando for chamado a julgamento dependo inteiramente da misericórdia de Deus e dos méritos de outros com maior valia.

Télémond ficou silencioso durante muito tempo, emocionado e humilde ante aquele relance de uma agonia íntima e privada. Por fim, perguntou:

- E a minha cruz, Eminência?

- A sua cruz, meu filho... - A voz do velho tomou um novo tom caloroso e de compaixão. - A sua cruz é a de estar para sempre dividido entre a fé que possui, a obediência que jurou e a sua busca de um mais profundo conhecimento de Deus por intermédio do universo que Ele criou. Acredita que não existe conflito entre as duas coisas e no entanto vê-se envolvido em conflitos todos os dias. Não pode abjurar o Acto de Fé sem uma catástrofe pessoal. Não pode abandonar a busca sem uma ruinosa deslealdade para consigo próprio e para com a sua própria integridade. Tenho razão, padre?

- Sim, Eminência, tem razãoi... mas não é o suficiente. Mostrou-me a cruz, mas não me disse como a devo carregar.

- Já a carregou durante vinte anos sem a minha ajuda.

-E agora cambaleio sob o seu peso. Acredite-me, cambaleio... E surgiu-me um novo peso’... Roma!

- Quer afastar-se de novo?

--Sim... mas deveria ficar envergonhado de o fazer.

- Porquê.

- Porque tenho a esperança de que, para mim, seja este o momento da resolução. Sinto que já permaneci silencioso durante tempo bastante para que os meus pensamentos tomassem forma. Sinto que tenho o dever de os expor ao debate e à dialéctica. Uma tal exposição parece-me um dever tão grande como todos os anos de estudo e exploração.

- Então deverá cumprir o seu dever - disse Rinaldi, com suavidade.

- Isso constitui outro problema, Eminência - respondeu Télémond, com um clarão de humor. - Não sou um publicista. Não sei apresentar-me bem. Não sei como acomodar-me ao ambiente deste lugar...

- Então ignore-o - retorquiu Rinaldi, com secura. - Veio armado com um coração cheio de honestidade e uma visão particular da verdade. É a armadura suficiente para qualquer homem.

Télémond franziu a testa e abanou a cabeça.

- Desconfio muito da minha coragem, Eminência.

- Posso dizer-lhe para confiar em Deus.

- Confio, mas... - Calou-se e ficou a olhar, sem ver, para lá  dos limites do jardim clássico.

Rinaldi incitou-o com gentileza.

- Continue, meu filho.

- Tenho medo... Um medo desesperado! -Medo de quê?

-De que possa chegar o momento em que o conflito dentro de mim me rasgue ao meio e me destrua. Não o sei dizer de outra maneira, faltam-me as palavras. Só me resta a esperança de que Vossa Eminência me compreenda.

O cardeal Valerio Rinaldi levantou-se e pousou as mãos nos

ombros curvados do jesuíta.

- Compreendo, meu filho, pode crer em mim! Sinto por si o que senti por muito poucos homens em toda a minha vida. Seja o que for que acontecer depois do seu discurso da próxima semana, quero que me considere como um amigo.

 

EXTRACTOS DAS MEMÓRIAS SECRETAS DE KIRIL l, PONT. MAX.

... Toda esta semana me senti sitiado por aquilo a que posso apenas chamar de tentação da escuridão. Nunca, desde os tempos que passei na casamata da prisão, me senti tão oprimido pela absurda loucura do mundo, pelo desperdício que é a luta do homem pela sobrevivência, pela aparente idiotice de qualquer tentativa para modificar a natureza humana, ou para conseguir uma melhoria colectiva da condição humana.

Argumentar com a tentação é pura e simplesmente criar outroabsurdo. Argumentar comigo mesmo é um convite para uma nova confusão. Dentro de mim parecia habitar um. eispírito escarninho. Sempre que olhava para mim próprio via um bobo com um chapéu de guizos, empoleirado no topo de uma montanha, ameaçando os furacões com a sua ridícula vara. Quando orava, o meu espírito mantinha-se árido. As palavras eram como um encantamento oriundo de um qualquer antigo rito de bruxaria, sem virtude e sem resultados. Uma espécie de agonia que pensava nunca mais ter de enfrentar, e que desta vez me feriu muito mais profundamente do que em qualquer ocasião anterior.

Confuso, dediquei-me a uma meditação sobre a paixão e morte do Mestre. De um modo vago, comecei a compreender a agonia no jardim de Getsemane, quando os problemas do Seu espírito humano se transmitiram de modo tão pungente ao Seu corpo e o mecanismo começou a falhar e Ele sofreu, tal como acontece com os pacientes de leucemia, os suores de sangue que são um prognóstico de morte.

Por momentos também consegui um relance do significado do Seu grito desolado e final, do alto da cruz: Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?» Nesse momento creio que deve ter visto -como eu a vejo agora - a feroz loucura de um mundo enlouquecido, desfazendo-se em pedaços num voo tangencial a partir do seu centro.

Nesse momento a Sua própria vida e morte deve ter parecido uma enorme futilidade, tal como me parece toda a minha vida e todos os meus esforços como Seu vigário. No entanto, Ele resistiu e tambem eu terei de o fazer. Se Ele - Deus-Homem - pôde sofrer sém

o conforto do Pai, poderei eu recusar a taça que me oferece?      

Agarrei-me a esse pensamento com uma espécie de terror, receoso de que viesse a perdê-lo, deixando-me para sempre presa da escuridão e do medo. Depois, devagar, a escuridão dissipou-se e descobri-me abalado, quase fisicamente doente, mas mais uma vez confirmado na essencial sanidade da crença. No entanto, apercebi-me de uma coisa com toda a clareza: a luta daqueles que não têm Deus para conseguirem dar um significado ao monstruoso absurdo de todos os esforços humanos.

Para o crente a vida é, pelo menos, um mistério doloroso tornado aceitável pela revelação parcial de um desígnio divino. Para um não crente - e são centenas de milhões aqueles a quem a graça da crença não foi concedida, esta deve apresentar-se por vezes como uma espécie de loucura, sempre ameaçadora, por vezes insuportável. Talvez seja esse o significado daquilo que sou e do> que me aconteceu: sendo pobre em todas as outras coisas, posso oferecer ao mundo o amor de um coração compreensivo...

Hoje chegou-me uma segunda carta de Kamenev. Foi entregue em Paris ao cardeal-arcebispo, que ma enviou por mensageiro especial. É mais críptica do que a primeira, mas sinto nela uma muito maior urgência:

«Recebi a tua mensagem, pela qual te fico muito grato. Os girassóis estão agora em flor na Mãe Rússia, mas é provável que venhamos a necessitar um do outro antes de virem a florir de novo.

»Dizes-me na tua mensagem que confias em mim. Tenho de ser honesto e dizer-te que não deves confiar no que faço ou no que afirmam que declaro. Vivemos em climas diferentes, como sabes. As tuas ordens são acatadas com uma obediência e uma lealdade impossíveis na minha esfera de acção. Só consigo sobreviver através da compreensão do que me é possível, agarrando-me a uma pressão para evitar outra maior.

»Dentro de doze meses, ou talvez antes, poderemos estar à beira de uma guerra. Quero a paz. Sei que não a poderemos ter se isso depender apenas,do nosso lado. Por outro lado, não posso ditar os seus termos nem sequer ao meu próprio povo. Fui apanhado pela corrente da história. Posso tentar atravessá-la, mas não me é possível dominar a direcção em que ela corre.

»Creio que compreendes o que estou a tentar dizer-te. Peço-te, se tal for possível, que o interpretes do modo mais claro possível junto do presidente dos Estados Unidos. Já me encontrei com ele e respeito-o. Num encontro particular seria capaz de confiar nele, mas no domínio da política está tão sujeito a pressões como eu, ou talvez ainda mais, porque o seu domínio é mais fraco e a influência da opinião pública é mais forte. Se puderes comunicar com ele, peço-te que o faças, mas em segredo e com a maior das discrições. Como sabes terei de repudiar violentamente qualquer sugestão sobre a existência de um canal privado de conversações entre nós.

»Não te posso por enquanto sugerir uma maneira segura de me escreveres. Contudo, de tempos a tempos receberás um pedido de audiência particular por parte de um homem chamado Georg Wilhelm Forster. Poderás falar-lhe com toda a liberdade, mas não lhe entregues nada por escrito. Se conseguires falar com o presidente dos Estados Unidos, deves referi-lo por Robert. é estúpido, não é? Para discutirmos a sobrevivência da raça humana temos de recorrer a truques tão infantis.

»Tens sorte de poder rezar. Eu estou limitado à acção, e se conseguir ter metade da razão durante metade das vezes, já me posso considerar afortunado.

»Repito os avisos de cautela. Acreditas ter calçado as sandálias de Deus, enquanto eu sou forçado a usar as minhas e o terreno é muito escorregadio. Não confies em mim mais do que eu confio em ti. O martírio já está fora de moda no meu mundo. Saudações. Kamenev.»

Nenhum homem se mantém inalterado depois da experiência do poder. Alguns pervertem-se e mergulham na tirania. Outros deixam-se corromper pelas lisonjas e pela auto-indulgência, Alguns, muito poucos, ganham a têmpera dos sábios pela sua compreensão das consequências das acções executivas. Creio que foi isto o que aconteceu com Kamenev.

Nunca foi um homem vulgar. Quando o conheci tinha-se rendido ao cinismo, mas a rendição nunca foi completa. Provou-o com a sua acção para comigo. Diria que no seu pensamento não existe nenhum domínio verdadeiramente espiritual ou religioso. Aceitou, de um modo exagerado, uma concepção materialista do homem e do universo. Contudo, acredito que dentro dos limites da sua própria lógica atingiu uma compreensão da dignidade do homem e um certo sentido da obrigação de os preservar até onde lhe for possível. Não posso pensar que seja governado por sanções morais, tal como as entendemos no sentido espiritual, mas compreende que é essencial uma certa moralidade prática para a ordem social, e até para a sobre- vivência da civilização tal como a conhecemos.

Creio que está a tentar dizer-me o seguinte: que posso confiar em que proceda logicamente dentro do seu próprio sistema de pensamento, mas que nunca poderei vir a esperar que trabalhe dentro do meu. Pela minha parte não me posso esquecer de que, enquanto o homem está limitado pelos prometidos canais da graça a que tem acesso através do acto redentor de Cristo, Deus não tem tantas limitações e de que no fim a lógica de Kamenev pode vir a tornar-se numa lógica divina. Mesmo na ordem humana a carta de Kamenev tem uma importância histórica. O homem que encarna, nas suas funções, a heresia marxista, que tentou extirpar violentamente a Fé das terras da Rússia, vira-se agora para o papado para que este lhe consiga um canal de comunicação com o resto do mundo, um canal livre e secreto.

Vejo, com toda a clareza, que Kamenev não me oferece nada nem a entrada da Fé na Rússia, nenhum abrandamento da opressão ou da perseguição. O cardeal Goldoni salientou-me que neste mesmo momento as nossas escolas e seminários na Polónia, Hungria e Alemanha Oriental correm o risco de serem encerradas por imposição» de novos e violentos impostos. Pergunta-me o que se propõe Kamenev oferecer à Igreja ou aos Estados Unidos como primeiro pagamento para a paz...

Na verdade não oferece nada, e podemos até chegar à conclusão de que está a tentar servir-se de mim para sua própria vantagem. Tenho de -estudar esta opinião com todo o cuidado, mas no entanto continuo a manter a profunda convicção de que existe um desígnio divino nesta relação entre nós dois e que não podemos permitir que« se transforme numa jogada política...

É um facto histórico que quando o poder temporal da Igreja atingiu o auge, a sua vida espiritual encontrava-se muito em baixo. É perigoso tentar ler as revelações divinas em todos os parágrafos da história, mas não posso deixar de ter a sensação de que quando somos como o Mestre, pobres em temporalidade, então poderemos ser riquíssimos em vida divina.

Para mim, a ocasião exige orações e prudência... Nos casos normais deveríamos comunicar com o Governo dos Estados Unidos por intermédio da nossa própria Secretaria de Estado. Neste caso não ousamos fazê-lo, pelo que tenho portanto de enviar um telegrama ao cardeal-arcebispo de Nova Iorque, pedindo-lhe que venha a Roma o mais depressa possível para que possa informá-lo da situação, pedir-lhe que entre em contacto directo com o presidente dos Estados Unidos. Logo que fale com o cardeal Carlin, estaremos a caminhar sobre ovos. Se a imprensa americana ouvir o menor boato a este respeito, esta pequena esperança de paz poderá ficar perdida para sempre... De manhã deverei dizer missa, pedindo um resultado favorável...   realizei a primeira de uma série de conferências com a Congregação das Religiosas e com os dirigentes das maiores ordens religiosas. A finalidade das conferências é a de determinar qual a melhor maneira de se adaptarem à alteração das condições do mundo e de o participarem de um modo mais activo e flexível na missão da Igreja junto das almas dos homens.

Estão aqui envolvidos muitos problemas e não os iremos resolver todos de uma só vez. Todas as ordens se agarram com fúria às suas tradições e esferas de influência na Igreja. Na maior parte das vezes a tradição é um empecilho para o esforço apostólico. Os sistemas de ensino diferem. O «espírito da ordem» -o modo de pensar e de actuar que lhe dá um carácter especial - tende frequentemente a transformar-se no «método da ordem», o que leva esta a reagir de um modo demasiado lento e teimoso às exigências dos tempos.

-Há também um outro problema. O ritmo de recrutamento de novos membros tornou-se perigosamente lento porque muitos espíritos de boa vontade se sentem demasiado limitados e constrangidos pela constituição arcaica e também pela maneira de vestir e viver que os separa demasiado dos tempos em que vivemos.

Mais uma vez encaro o problema fundamental das minhas funções... como traduzir a Palavra em acção cristã; como ver-me livre do excesso de peso da história para que o filão da primitiva fé possa. ser revelado em toda a sua riqueza. Quando os homens estão na verdade unos com Deus pouco importa as roupas! que usam, os exercícios piedosos que executam, ou sob que constituição vivem. A obediência religiosa deveria libertar o homem, na liberdade dos filhos de Deus. A tradição deveria ser uma lâmpada junto dos seus pés, iluminando-lhes o caminho para o futuro. A renúncia ao mundo não é abandonar o mundo, mas sim restaurá-lo em Cristo, devolvendo-lhe a beleza do desígnio original... Herdámos o passado, mas estamos comprometidos com o presente e o futuro.

É tempo, penso, de uma mais profunda exploração e uma mais clara definição da função dos laicosna vida da Igreja, O anticlericalismo é um sintoma de insatisfação entre os fiéis. É um facto que a rebelião contra a doutrina da Igreja é muito menos comum do que a gradual deserção de um clima religioso que aparenta ser irreconciliável com o mundo em que os homens têm de viver. Aqueles cujas aspirações excedem as dimensões da mentalidade do pastor local, afastam-se gradualmente dos bancos da igreja em busca de substitutos, de verdades parciais que em geral não lhes dão nem paz nem alegria, mas que lhes dão um sentido de dedicada integridade. O número destes casos tornou-se suficientemente grande para conseguir uma espécie de estatuto reconhecido dentro da Igreja, estatuto que, apesar de ambíguo, é radicalmente diferente da categoria daqueles cuja militância da escuridão tenta erradicar da consciência humana a própria noção de que a existência do homem é dependente de Deus...

Neste nosso mundo, quando o homem se estende rapidamente em direcção à Lua, as dimensões do tempo parecem estreitar-se dia a dia, e perturba-me não nos podermos ajustar mais depressa a ’essas mudanças...

Dentro de um par de semanas iniciar-se-á a época das férias em toda a Europa, É habitual que o pontífice deixe o Vaticano e passe umas férias em Castel Gandolfo. Apesar de toda a minha impaciência, estou ansioso por essa mudança. Dar-me-á tempo para pensar, para fazer para mim mesmo uma súmula dos milhares de inpressões diferentes destes primeiros meses em funções.

Não ousei mencionar o assunto ao secretário de Estado, mas penso que vou aproveitar a oportunidade para fazer uma pequena viagem particular pelo campo... Vou precisar de um bom motorista. Seria embaraçoso para mim e para o Governo italiano- se tivéssemos qualquer acidente na estrada. Seria uma bela fotografia se o pontífice fosse descoberto no meio de uma auto-estrada discutindo com um italiano condutor de um camião... Descubro-me a desejar uma companhia agradável para passar as férias comigo, mas ainda não tive tempo para cultivar uma amizade real. O meu isolamento é ainda maior porque sou muito mais novo do que os membros da Cúria e

- Deus me ajude - não quero tornar-me num velho antes de tempo.

Compreendo agora o que levou alguns dos meus predecessores a descaírem para o nepotismo e a rodearem-se de familiares, e como outros cultivaram favoritos, no Vaticano. Para um homem, não é nada bom estar inteiramente sozinho...

Kamenev é casado e tem um filho e uma filha. Gostaria de pensar que fez um casamento feliz... pois caso contrário ainda estará muito mais isolado do que eu. Nunca lamentei o meu próprio celibato, mas invejo aqueles que, na Igreja, trabalham com crianças...

Um súbito pensamento negro. Se houver uma nova guerra, quê acontecerá aos pequeninos? São os herdeiros das nossas iniquidades... e como se alimentarão no disseminado horror de um Armagedão atómico?

Não pode ser! Não pode!

 

No seu apartamento de solteiro, em Parioli, Corrado Calitri, ministro da República, conferenciava com os seus advogados. O advogado mais velho, Perosi, era um homem alto e comedido, com maneiras secas e académicas. O mais novo tinha uma cara redonda e rechonchuda e um sorriso depreceativo. No canto mais afastado sentava-se a princesa Maria-Rita, calada e atenta, observando-os com olhos semicerrados e predadores.

Perosi juntou as pontas dos dedos como um bispo prestes a entoar um salmo e resumiu a situação:

- Segundo entendi, desde há algum tempo que sente problemas de consciência. Aconselhou-se junto de um confessor e este afirmou-lhe que o seu dever era o de alterar o testemunho respeitante ao seu casamento...

O rosto pálido de Calitri manteve-se inexpressivo e a voz despida de entoação.

- Sim, é essa a posição.

- Temos de deixar muito clara toda esta situação. O pedido de decreto de nulidade apresentado pela sua mulher baseia-se nos termos do Cânone 1086, que declara duas coisas: primeiro, presume-se que o consentimento íntimo da mente está de acordo com as palavras ou sinais usados na celebração do casamento; segundo, se uma ou ambas as partes, através de um acto positivo da vontade, excluir o casamento propriamente dito ou todo o direito ao acto conjugal, ou a qualquer propriedade essencial do casamento, o contrato de casamento não é válido. - Agitou os papéis e prosseguiu com os seus modos profissionais. - A primeira parte do cânone não nos diz respeito. Expressa apenas uma presunção da lei, que pode ser ultrapassada por provas em contrário. O apelo da sua mulher baseia-se na segunda parte. Afirma que o senhor excluiu deliberadamente do seu consentimento o direito dela ao acto conjugal e que o senhor não aceitou o contrato como infrangível, mas como uma forma de terapia para ser posta de parte se viesse a falhar. Se o apelo pudesse ser comprovado, é claro que o casamento seria declarado inválido. Compreendeu isto?

- Sempre o compreendi.

- Mas negou, numa declaração escrita e sob juramento, que as suas intenções fossem faltosas.

- E verdade.

- Agora, contudo, está preparado para admitir que a declaração foi falsa e que na verdade cometeu um perjúrio.

- Sim. Compreendo que cometi uma grave injustiça e quero repará-la. Quero que a Chiara seja livre.

- Está pronto para prestar novas declarações sob juramento, admitindo o perjúrio e a intenção faltosa?

- Estou.

- Até aqui, tudo bem. Isto dar-nos-á a possibilidade de reabrir o caso junto da Rota - Perosi contraiu os lábios pálidos e franziu a cara. - Infelizmente, não será o suficiente para um decreto de nulidade.

- Então por que não?

--É uma questão de procedimentos, prevista pelo Cânone 1971 e por aditamentos ao código datados de Março de 1929, Julho de

1933 e Julho de 1942. Num casamento, a parte culpada de um caso de nulidade não tem o direito de impugnar o contrato. Não o pode apresentar em tribunal.

-Onde é que isso nos leva?

- Leva-nos a que precisamos de uma ou mais testemunhas que afirmem que o senhor lhes declarou, de modo claro e explícito e antes do casamento, as suas intenções falsas.

A voz da velha princesa, ainda cheia de vivacidade, intrometeu-se na conversa:

- Creio que pode considerar como garantido que esses testemunhos serão produzidos.

- Então - disse o advogado - penso que temos um caso sólido e que poderemos encarar uma resolução favorável com toda a confiança.

Recostou-se na cadeira e começou a arrumar outra vez os papéis Como se se tratasse de um sinal pré-combinado, o homem gorducho acrescentou um comentário à discussão:

-Com todo o respeito pelo meu colega mais velho, gostaria de fazer duas sugestões. Seria uma vantagem se tivesse uma carta do seu confessor indicando que actua de acordo com os seus conselhos, para reparar a injustiça cometida. Também poderia ajudar se escrevesse uma carta amigável à sua esposa, admitindo a falta e pedindo-lhe perdão... Nenhum desses dois documentos teria qualquer valor como prova, mas podem... como dizer... aliviar a atmosfera.

- Farei conforme sugere - respondeu Calitri, com o mesmo tom mincolor. - Agora gostaria de fazer um par de perguntas. Admito a falsidade de intenções, admito o perjúrio, mas, por outro lado, detenho uma posição pública e uma reputação a proteger.

- Todas as deliberações da Rota e todas as declarações a ela prestadas estão protegidas por um rígido segredo. Por esse lado, nada tem a recear.

- Belo! Quanto tempo acha que o assunto irá demorar? Perosi -considerou a pergunta durante algum tempo.

- Não muito. claro que não poderemos fazer nada durante o período de férias, mas se todas as declarações se encontrarem nas nossas mãos em finais de Agosto, poderemos ter a tradução feita em duas semanas. Depois, tendo em conta a sua posição e o,já longo período de suspensão do caso, creio que conseguiremos uma audição rápida... Talvez dois meses. Ou talvez até antes.

- Fico-lhe grato - respondeu Corrado Calitri. - Terei os papéisprontos em finais de Agosto.

Perosi e o colega despediram-se com vénias.

-Estamos sempre à disposição do Sr. Ministro.

Quando a porta se fechou atrás deles, a princesa atirou para trás a sua cabeça de pássaro e soltou uma gargalhada.

-Pronto, aí tens! Eu não te disse? É tão simples como isto! claro que teremos de te procurar um confessor. Há um Monsenhor simpático e compreensivo que me atende em Florença. Sim, penso que é esse o indicado. É inteligente, culto e muito zeloso, à sua própria maneira, Creio que vou falar com ele e marcar um encontro... Vamos, sorri! Dentro de dois meses estarás livre. Dentro de um ano dirigirás o país.

- Eu sei, tia, eu sei.

-Oh, mais uma coisa... A tua carta para a Chiara. Não há nenhuma necessidade de te humilhares demasiado. Dignidade, moderação, um desejo de perdão, tudo isso estará muito bem, mas nada de comprometedor. Não confio nessa mulher. Nunca confiei.

Indiferente, Calitri encolheu os ombros.

- A Chiara é uma criança, tia, sem vestígios de malícia.

-As crianças crescem... e existe malícia em todas as mulheres, quando não conseguem obter o que querem.

-Pelo que tenho ouvido dizer, está a obtê-lo.

- Com o decano da imprensa estrangeira. Como é que ele se chama?

- George Faber, que representa um dos diários de Nova Iorque.

- O mais importante - declarou a princesa, com ênfase. - Não podes ver-te livre dele como se tratasse de uma constipação. Agora estás demasiado vulnerável, meu rapaz. Tens o Observatore contra ti e a Chiara na cama com a imprensa americana. Não te podes permitir uma tal situação.

- Não a posso modificar.

- Então porquê?

- O filho de Campeggio trabalha para mim. Gosta de mim e não gosta do pai. A Chiara provavelmente casará com esse Faber logo que receba o decreto de nulidade. Não posso fazer nada em qualquer dos casos.

- Creio que podes - mirou-o com olhos sagazes e lacrimosos.

- Em primeiro lugar trata do jovem Campeggio. Sabes o que eu faria?

- Não, mas gostaria de saber.

- Promovia-o. Empurra-o para cima o> mais depressa que puderes. Promete-lhe qualquer coisa ainda melhor para depois das eleições. Prende-o a ti através da confiança e da amizade, O pai ficará a odiar-te, mas o rapaz adorar-te-á e não creio que Campeggio lute contra o próprio filho... Quanto à Chiara e ao seu amigo americano, deixa-os comigo...

-Que se propõe fazer?

A velha princesa soltou um risinho agudo e abanou a cabeça.

- Não tens talento para lidar com as mulheres, Corrado. Deixa-te estar sossegado que eu me ocupo da Chiara.

Calitri abriu as eloquentes mãos num gesto de resignação.

- Como quiser, tia, deixarei o caso consigo. - Não te arrependerás.

- Aceitarei os seus conselhos, tia.

-Sei que o farás. Agora, dá-me um beijo e alegra-te. Irás jantar comigo amanhã à noite, quero que te encontres com umas pessoas do Vaticano. Agora que voltaste ao seio da Igreja, poderão começar a ser-te úteis.

Beijou-lhe a face enrugada e viu-a partir, interrogando-se sobre como era possível existir tanta vitalidade num corpo tão frágil, e se ele-.-.próprio teria a suficiente para cumprir o acordo que fizera com os seus apoiantes.

Passara toda a vida a fazer acordos como aquele. O preço era sempre pago na mesma moeda... mais um fragmento de si próprio. Cada cedência tornava-o menos seguro da sua identidade e sabia que no fim ficaria vazio e que as aranhas teceriam teias no oco do seu coração.

A depressão pairou sobre ele como uma nuvem negra. Serviu-se de uma bebida e levou-a para o assento junto à janela, de onde podia olhar para baixo para a cidade e para o voo dos pombos por cima dos telhados. O cargo de primeiro-ministro podia valer uma missa,   -absolutamente nada valia a vida de condenação que lhe era exigida.

Claro, fizera um acordo. Seria o cavaleiro andante sem medo e sem mácula, e os democratas-cristãos deixariam que os conduzisse ao poder. No entanto havia ainda lugar para mais qualquer coisa e fora a princesa Maria-Rita que o salientara... Confiança e amizade... Talvez até mais do que isso! No amargo acordo que acabara de fazer surgia um súbito travo a doçura...

Pegou no telefone, marcou o número do seu gabinete e pediu ao jovem Campeggio para que levasse ao seu apartamento a correspondência da tarde.

Às dez e meia de uma manhã sem nuvens, Charles Corbet Carlin, cardeal-arcebispo de Nova Iorque, aterrava no aeroporto de Fiumicino.

Um funcionário da Secretaria de Estado- foi ao seu encontro junto dos degraus da escada do avião e fê-lo passar rapidamente pela alfândega _ e serviços de imigração numa viatura do Vaticano. Hora e meia depois encontrava-se reunido à porta fechada com Kiril, o pontífice, e com Goldoni, o secretário de Estado.

Carlin era um homem autoritário por natureza e compreendia as aplicações do poder. Depressa se apercebeu das modificações que alguns meses de funções haviam provocado no papa. Este não perdera nada do seu encanto nem do feitio caloroso, rápido e intuitivo, mas no entanto parecia ter alcançado uma nova dimensão’ de autoridade. O rosto coberto de cicatrizes mostrava-se mais magro, a fala era mais vigorosa, e todos os seus gestos eram mais urgentes e preocupados. No entanto’, como era sua característica, iniciou a conversa com um sorriso e um pedido de desculpas:

- Estou grato a Vossa Eminência por ter vindo tão depressa. Sei como deve andar atarefado. Queria explicar-me com maior pormenor, mas não podia confiar as informações nem sequer a um telegrama codificado.

Depois, em frases secas e enfáticas, explicou os motivos para aquela chamada e mostrou a Carlin os textos das duas cartas de Kamenev.

O americano leu-as com olhos vivos e calculistas e depois devolveu-as ao pontífice.

- Compreendo a preocupação de Vossa Santidade. Confesso que, por outro lado, não percebo muito bem o que espera Kamenev ganhar com esta manobra.

Goldoni permitiu-se um fraco sorriso.

-A reacção de Vossa Eminência foi igual à minha... uma manobra! Contudo, Sua Santidade tem um ponto de vista diferente, Kadril pousou as mãos retorcidas sobre o tampo da secretária e explicou-se com simplicidade:

Em primeiro lugar gostaria que compreendesse que conheço este homem. Conheço-o de maneira mais íntima do que a qualquer de vocês. Foi o meu interrogador na prisão, durante muito tempo. Cada um de nós teve uma grande influência sobre o outro. Foi ele que preparou a minha fuga da Rússia. Estou profundamente convicto de que não se trata de uma manobra política, mas sim de um genuíno| pedido de ajuda em relação à crise que em breve cairá sobre nós.       fez um aceno pensativo.

- Vossa Santidade pode ter razão. Seria uma estupidez não tomar em conta a sua experiência com este homem e o seu íntimo. Conheci-o aquando da situação russa. Por outro lado - digo-o com todo o respeito, já tivemos outro tipo de experiências com Kamenev e com os Soviéticos.

- Quando diz nós, refere-se à Igreja ou aos Estados Unidos da América?

- A ambos - respondeu Carlin, com secura. - No que diz respeito à Igreja, a Secretaria de Estado poderá confirmá-lo. Continua a existir uma perseguição activa nos países satélites. Na Rússia, a Fé foi extinta. Os nossos irmãos bispos que foram para a prisão com Sua Santidade estão todos mortos. As fronteiras soviéticas estão seladas

para a Fé. Não vejo quaisquer perspectivas de que se venham a abrir no nosso tempo.

Goldoni confirmou aquela opinião.

-Já expus esse ponto de vista a Sua Santidade, com toda a clareza.

-E eu - respondeu Kiril, o pontífice - ... não discordei. Agora fale-me do ponto de vista americano.

- À primeira vista - disse Carlin -, isto parece-me mais outra versão das velhas reuniões cimeiras. Todos nos lembramos dos argumentos... «vamos ultrapassar os escalões intermédios e deixemos que os dirigentes conversem familiar e livremente a respeito dos nossos problemas. Deixemos os pormenores e vamos aos pontos fundamentais que nos dividem... Pois bem, tivemos as reuniões. Davam sempre un resultado. No fim, as discussões eram sempre destruídas: pelos pormenores. Toda a boa vontade que pudesse existir antes das reuniões acabava diminuída ou inteiramente anulada. No fim de contas, sabem, os escalões mais baixos do governo que detêm mais poder de   decidir do que os superiores, porque sob o nosso sistema, e sob o   russo, os dirigentes estão sempre sujeitos às pressões dos conselhos políticos e administrativos, vindos de baixo. Não há nenhum homem   que consiga aguentar sozinho o peso da decisão dos grandes problemas. - Sorriu-se, expansivo, para o pontífice. - Até na Igreja se   verifica a mesma situação. Vossa Santidade é o vigário de Cristo, mas no entanto a eficiência das suas decisões é limitada pela cooperação e obediência dos sacerdotes locais.

Kiril, o pontífice, pegou nas cartas que tinha em cima da secretária e estendeu-as aos dois conselheiros.

- Então que acham que devo fazer a isto? Ignoro-as? Carlin rodeou a questão.

- Que pede Kamenev que Vossa Santidade faça?

- Penso que é claro. Pede-me para comunicar as cartas ao presidente dos Estados Unidos, e que lhe comunique também a minha interpretação das suas ideias e intenções.

- E que ideias são essas, Santidade? Que intenções?

- Permita-me que cite de novo o que ele escreveu: «Dentro de doze meses, ou talvez antes, poderemos estar à beira de uma guerra. Quero a paz. Sei que não a poderemos ter se isso depender apenas do nosso lado. Por outro lado, não posso ditar os seus termos nem sequer ao meu próprio povo. Fui apanhado pela corrente da história. Posso tentar atravessá-la, mas não me é possível dominar a direcção em que ela corre. Creio que compreendes que estou a tentar dizer-ta Peço-te, se tal for possível, que o interpretes do modo mais claro possível junto do presidente dos Estados Unidos[...]» Para mim, e do conhecimento que tenho do homem, a mensagem é bem clara. Quer estabelecer um campo- de negociação antes de a crise se tornar irreversível, para que a paz seja preservada.

- Mas que espécie de campo? - perguntou Goldoni. - Vossa Santidade tem de admitir que é muito pouco preciso quanto a isso.

- Ponhamos a coisa de outra maneira - disse Carlin, à sua maneira pragmática. - Volto para casa. Contacto Washington e peço um encontro particular com o presidente dos Estados Unidos. Mostro-lhe essas cartas. Depois digo-lhe: «O ponto de vista da Santa Sé é o de que Kamenev quer iniciar conversações secretas para evitar a crise que todos nós sabemos que se aproxima. O papa será o intermediário nas conversações...» Que pensam que o presidente dirá ou fará? Que faria Vossa Santidade, se estivesse no lugar dele?

O rosto cheio de cicatrizes de Kiril contorceu-se num sorriso de genuíno divertimento.

- Diria: «Falar não custa nada. Enquanto os homens puderem comunicar, mesmo que hesitantes, então há uma esperança de paz. Mas se fecharmos todas as portas, cortaremos todos os fios e construiremos muralhas ainda mais altas... então cada nação é uma ilha preparando-se em segredo para uma destruição comum.»

Carlin desafiou o argumento de um modo- abrupto:

--Há uma falha nessa lógica, Santidade. Perdoe-me, mas tenho ;de lha mostrar. Falar custa sempre qualquer coisa, em especial quando se trata deste tipo de conversas. As conversações secretas são perigosas porque quando aparecem à luz - o que é inevitável - podem ser negadas pelos que nelas tomaram parte. Podem ser utilizadas como armas para acordos políticos.

-’É preciso não esquecer...-’acrescentou Goldoni, com muita ênfase -... que no mundo já não existem apenas duas grandes potências. Há a Rússia e os Estados Unidos. Há o bloco europeu. Há a China e há as nações não alinhadas da Ásia, África e América do Sul. Também não existe apenas a corrida aos armamentos. Temos fome a corrida para alimentar os esfomeados e a corrida para alinhar vastos números da humanidade atrás. de uma ou outra ideologia. Não podemos encarar de um modo tão simplista este mundo tão complexo. -Hesito em dizê-lo, Santidade - afirmou Carlin, com gravidade , mas não gostaria de ver a Santa Sé comprometida ao oferecer-se como intermediária em discussões bilaterais provavelmente sem resultados... Pessoalmente, desconfio de umas tréguas com o urso russo, por muito bem que ele saiba dançar.

- Temos no escudo de armas papel - disse Kiril, mordaz.

- Também desconfia desse?

- Deixe-me responder à pergunta com outra pergunta. Poderá Vossa Santidade envolver-se totalmente neste assunto? Não se trata de um caso de doutrina ou dogma, mas de um assunto de Estado. Vossa Santidade está tão sujeito a erros como qualquer de nós.

Fora perigosamente sincero e sabia-o. Ser cardeal-arcebispo de Nova Iorque era estar sentado num lugar muito alto dentro da Igreja, dispor de grande influência, dominar dinheiro e recursos vitais para a economia do Vaticano. No entanto, na constituição da Fé o- sucessor de Pedro era senhor supremo, e na história da Igreja mais de um príncipe cardeal fora despojado do cargo por uma simples palavra de um pontífice ultrajado. Charles Corbet Carlin recostou-se na cadeira e esperou, não sem alguma ansiedade, pela resposta papal.   Para sua surpresa, esta surgiu com um tom de moderação e de verdadeira humildade.

- Tudo o que me diz é verdade. De facto, até se trata de um reflexo dos meus próprios pensamentos a respeito do assunto. Estou-lhe grato por ter decidido mostrar-se franco comigo, de não ter tentado convencer-me com palavras diplomáticas. Também não vos pretendo convencer a todo o custo. Não quero forçá-los a agir contra a vossa própria prudência, Não se trata de um caso de fé ou moral, trata-se de convicções particulares, e gostaria de partilhar as minhas convosco... Em primeiro lugar almocemos, porque depois quero mostrar-vos uma coisa, Já antes a viram, mas espero que hoje possa ganhar um novo significado para ambos.

A seguir, vendo-lhes a dúvida e a surpresa estampada nos rostos, soltou uma gargalhada quase de adolescente.

-Não, descansem, não há conjuras, nem subtilezas à Bórgias. Aprendi uma coisa em Itália, Nunca devemos discutir assuntos importantes com o estômago vazio. Creio que Goldoni concordará que consegui uma reforma nas cozinhas do Vaticano, pelo menos. Vamos, podemos descontrair-nos durante um bocado.

A refeição, nos apartamentos particulares de Kiril, foi simples, mas boa. Discorreram sobre homens e assuntos e sobre os muitos pequenos problemas da sociedade hierárquica a que pertenciam. Eram como elementos de um muito exclusivo clube internacional cujos membros se encontravam espalhados por todos os pontos da rosa-dos-ventos, mas cujos negócios eram do conhecimento comum, em todas as línguas.

Quando a refeição terminou e o Vaticano mergulhou na sonolência da sesta, Kiril envergou uma sotaina preta e conduziu os seus dois hóspedes para a Basílica de São Pedro.

Os turistas eram agora escassos e ninguém prestou atenção aos três clérigos de meia-idade parados junto dos confessionários, perto da sacristia. Kiril apontou para um dos confessionários, que na porta ostentava a lacónica indicação de «Polaco e Russo».

-Venho aqui uma vez por semana e sento-me aí durante duas horas, para escutar a confissão de alguém que por acaso apareça. Gostaria de também as ouvir em italiano, mas não compreendo alguns dos dialectos... Ambos sabem como é o ministério deste tribunal. Os bons comparecem, os maus conservam-se afastados. De vez em quando aparece uma alma perturbada, uma que necessita de cooperação especial por parte do confessor, para a reconduzir a Deus... É sempre uma lotaria, uma aposta no momento e no homem, e na eficiência das palavras que buscamos no coração. No entanto é aqui, naquela pequena caixa abafada, que se encontra todo o significado da Fé... a conversa particular de um homem com o seu Criador, comigo, servo do homem e servo de Deus, a servir de intermediário. Ali, acompanhado pelo cheiro a salsichas e couves e pelo do suor de um homem assustado, sou aquilo para que fui ordenado: um sublime oportunista, um pescador de homens, sem saber o que vou apanhar na rede, ou até se apanharei qualquer coisa... Agora, venham comigo.

Fez sinal a um sacristão para que os acompanhasse. A seguir pegou nos braços dos dois cardeais e conduziu-os para os degraus que davam para a Confissão de São Pedro, em frente do grande altar de Bernini. Desceram os degraus. O sacristão abriu a grelha de bronze em frente da estátua ajoelhada do papa Pio VI. Quando entraram no recesso, o sacristão fechou a porta e retirou-se para uma distância respeitável. Kiril conduziu os seus dois conselheiros para o espaço onde um negro buraco mergulhava em direcção às catacumbas do Vaticano. A seguir virou-se para encará-los. A voz tornou-se-lhe num murmúrio que ecoava suavemente no recinto.

-” Lá em baixo, dizem, está o túmulo de Pedro, o Pescador. Sempre que sinto medo ou mergulho na escuridão, venho aqui para rezar, para lhe perguntar o que eu, seu herdeiro, devo fazer. Também ele era um oportunista, sabem? O Mestre entregou-lhe as Chaves do Reino. O Espírito Santo deu-lhe o dom da sabedoria e o dom das línguas. A seguir deixaram-no, ainda pescador, estrangeiro no Império de Roma, para semear a semente dos Evangelhos onde quer que houvesse terra para a receber... Não tinha um método. Não tinha um templo. Não tinha outro livro, excepto o Evangelho vivo. Estava condicionado pelo templo em que vivia, mas não podia deixar-se prender pelas condições... Eu também não posso. Lembram-se da história de Paulo, entrando na cidade de Atenas, entre os filósofos e os retóricos e vendo o altar do Deus Desconhecido? Lembram-se do que fez? instou em voz alta: «Homens, meus irmãos! O que vocês adoram ser o conhecerem, ando eu a pregá-lo!» Não será também um oportunista? Paulo não> discute o momento, não faz apelo a um sistema ou a uma história. Aposta-se a si mesmo e à sua missão, numa palavra atirada para o meio de uma trituradora multidão. Não estão a ver? é este o significado da Fé. È este o risco da crença.

Virou um rosto luminoso para Carlin, não exigindo, mas implorando, e prosseguiu:

- Antes de Vossa Eminência vir ter comigo, encontrava-me na escuridão. Via-me como um idiota gritando uma loucura a um mundo desatento. Assim seja! É isso o que pregamos: uma transcendental insensatez, confiando que, no fim, esta se revelará uma lógica divina... Descontraiu-se de repente e lançou-lhes um sorriso malandro. - Foi na prisão que aprendi a jogar e onde acabei por descobrir que o homem que ganha sempre é o que não se esquiva às apostas. Sei em que estão a pensar... que estou a querer conduzir a barca de Pedro às cegas... Mas se o vento é soprado pelo bafo de Deus e as águas são agitadas pelas Suas mãos... que mais posso fazer? Digam-me! Que mais posso fazer?

Naquele estreito espaço, Goldoni, pouco à vontade, assentava o peso do corpo ora num ora noutro pé.

Carlin continuava tão obstinado e inamovível como a rocha de Plymouth. Declarou numa voz sem entoações:

- Talvez seja essa a Fé capaz de remover montanhas, Santidade. Lamento que não me tenha sido concedida em tão grande escala, o que me força a trabalhar com a habitual prudência. Não posso concordar em que os assuntos da Igreja sejam administrados por inspirações particulares.

Kiril, o pontífice, ainda sorria quando lhe respondeu:

- Elegeu-me por inspiração, Eminência. Pensa que o Espírito

Santo me abandonou?

Carlin não iria desistir com tanta facilidade. Teimoso, insistiu no seu argumento.

- Não disse isso, Santidade. O que lhe digo, é isto: ninguém é suficientemente grande para se transformar no homem universal. Vossa Santidade quer ser todas as coisas para todos os homens, mas nunca o conseguirá. É um russo, eu sou um americano. Pede-me para que arrisque mais neste Kamenev do que arriscaria com o meu próprio irmão, se ele fosse presidente dos Estados Unidos. Não o posso fazer.

- Então... - retorquiu Kiril, com inesperada suavidade -... não lhe pedirei que o faça. Não lhe pedirei que arrisque seja o que for. Vou dar-lhe uma simples ordem. Irá apresentar-se ao presidente dos Estados Unidos. Entregar-lhe-á estas cartas e mais uma que eu próprio escreverei. Se lhe pedirem a sua opinião’, fica livre de dizer o que quiser, como sacerdote ou como americano, mas não fará qualquer tentativa para interpretar os meus pensamentos ou os de Kamenev. Deste modo espero que se sinta livre para cumprir o- seu dever para com a Igreja e para com o seu país.

Carlin corou e respondeu, embaraçado:

- Vossa Santidade é muito generoso comigo.

--Não se trata de generosidade, mas sim de lógica. Se creio que o Espírito Santo pode trabalhar por meu intermédio e por intermédio de Kamenev, então porque não o poderá fazer com o presidente dos Estados Unidos? Não é sensato não tomar em conta a Omnipotência. Além disso... - acrescentou com gentileza - ... a sua oposição poderá ser-me útil. Pelo menos servirá como garantia da boa-fé da Santa Sé para com os Estados Unidos da América... Agora creio que talvez devêssemos rezar juntos. Não se espera que concordemos com o que é prudente, mas apenas que as nossas vontades se ponham ao serviço de um mesmo Deus.

Quando o mês de Julho se aproximou do fim e se iniciou em Roma o êxodo do Verão, Ruth Lewin descobriu-se mais uma vez atingida pelo cíclico drama das inquietações mentais.

Os prelúdios da acção eram sempre os mesmos: uma profunda melancolia, uma sensação de solidão e um sentimento de falta de raízes como se houvesse sido atirada de repente para um planeta pouco familiar, onde o seu passado não tinha significado, o futuro era um ponto de interrogação e a comunicação se transformava em oco palavreado.

 

A melancolia era a pior de todas as sensações. Como sintoma já lhe era familiar, mas não era capaz nem de raciocinar contra ela nem de a pôr de lado. Levava-a a ataques de choro. Quando as lágrimas cessavam, sentia-se vazia e incapaz de apreciar o mais simples dos prazeres. Quando se olhava num espelho, via-se velha e estragada. Quando saía e caminhava na cidade, era como uma estranha, objecto da troça dos transeuntes.

As deficiências da sua personalidade deviam ser evidentes para toda a gente. Era alemã por nascimento, judia por raça, americana por adopção e exilada no país do Sol. Exigia e recusava a crença com um só gesto. Necessitava de amor e sabia-se impotente para o exprimir. Desejava desesperadamente viver, mas era perseguida pela insidiosa atracção da morte. Era tudo e nada. Havia alturas em que se acoitava, indefesa, no seu apartamento-, como um animal doente receoso da clamorosa saúde dos seus semelhantes.

Os conhecidos pareciam abandoná-la todos ao mesmo tempo. Movia-se como uma estranha por entre os seus protegidos da velha Roma. Fazia dispendiosos telefonemas para amigos na América. Quando não lhe respondiam, ficava desolada. Quando lhe respondiam com agradecimentos casuais, ficava convencida de ter feito um papel de parva. Era oprimida pelas perspectivas do Verão, quando Roma ficava deserta e o calor descia, como uma mortalha de chumbo, sobre» as avenidas e a preguiçosa vida das piazzas.

Durante a noite jazia acordada, os seios a doerem-lhe, atormentada por um fogo da carne. Quando adormecida à custa de drogas sonhava com o marido morto e acordava a soluçar numa cama vazia. O jovem médico com quem trabalhava ia visitá-la, mas também ele andava demasiado mergulhado nos seus próprios problemas, e o orgulho não permitia que Ruth lhe revelasse os dela. Estava apaixonado por ela, afirmava, mas as suas exigências eram abruptas de mais e quando Ruth se afastou o jovem aborreceu-se depressa e deixou de aparecer. Culpou-se a si própria pela negligência do médico.

Houve um par de vezes em que tentou a velha receita para as viúvas infelizes de Roma. Sentou-se num bar e tentou animar-se à custa da bebida. Porém, bastavam três bebidas para se sentir mal, e   quando era abordada mostrava-se brusca e irracionalmente zangada. A experiência foi salutar. Levou-a a agarrar-se, numa espécie de desespero, aos últimos vestígios de razão. Deu-lhe um pouco mais de paciência para suportar a doença que sabia que acabaria por passar, apesar de não ousar esperar muito tempo pela cura, Cada pequena crise esgotava-lhe as reservas e levava-a a avançar mais um passo em direcção ao armário dos remédios, onde o frasco dos barbitúricos troçava dela com a ilusão do esquecimento.

Então, num dia pesado e ameaçador, a esperança entrou de novo na sua vida. Acordara tarde e vestia-se com apatia quando o telefone tocou. Era George Faber. Disse-lhe que Chiara se encontrava fora da cidade, que se sentia solitário e deprimido e que gostaria de a levar a jantar fora. Hesitou um momento- e depois aceitou.

O incidente durara apenas dois minutos, mas arrancou-a à depressão e atirou-a para um mundo quase normal. Fez uma apressada marcação na cabeleireira. Comprou um novo- vestido de cocktail pelo dobro do dinheiro que podia gastar. Comprou flores para o apartamento e uma garrafa de uísque escocês para Faber. Quando ele lhe bateu à porta às oito horas, estava nervosa como uma debutante antes do primeiro encontro.

Faber pareceu-lhe mais velho, mais encurvado e um pouco mais encanecido do que quando o vira pela última vez. No entanto, continuava a ser um elegante, com um cravo na lapela, um sorriso encantador e um ramo de violetas de Nemi para o toucador de Ruth. Beijou-a na mão à maneira romana e explicou-se com um ar pesaroso enquanto ela lhe misturava uma bebida.

-- Tenho de ir para o sul por causa do assunto do Calitri. Chiara odeia Roma no Verão e os Antonelli convidaram-na para ir passar um mês a Veneza, Alugaram uma casa no Lido... Espero ir ter com eles mais tarde. Entretanto... - soltou uma pequena gargalhada, pouco à vontade. - Desacostumei-me de viver sozinho... e disseste que te podia telefonar...

- Ainda bem que o fizeste, George. Também não- gosto de viver sozinha.

--Não ficas ofendida?

-- E por que razão? Uma noite passada na cidade com o decano da imprensa estrangeira é um grande acontecimento- para a maioria das mulheres. Aqui tens a bebida,

Fizeram saúdes um ao outro e abriram caminho por entre as jogadas iniciais de uma conversação.

-- Onde é que gostarias de ir jantar, Ruth? Tens alguma preferência?

- Entrego-me nas suas mãos, meu bom senhor.

- Preferes um sítio tranquilo... ou alegre?

- Alegre, por favor. A minha vida tem sido demasiado tranquila ultimamente,

-Estou de acordo. Bom, e queres ser uma romana ou uma ; turista?     -Romana, penso.

Belo! Conheço um pequeno restaurante em Trastevero. Está sempre cheio de gente e é barulhento, mas a comida é boa. Há lá um tocador de guitarra, um ou dois poetas esquisitos e um tipo que faz desenhos nas toalhas das mesas.

- Parece interessante.

- Costumava gostar do sítio, mas já lá não vou há muito tempo. Chiara não gosta desse tipo de coisas.-Corou e brincou nervosamente com o copo da bebida. - Desculpa, comecei mal...

- Vamos fazer um acordo, George.

Lançou-lhe um olhar rápido e envergonhado e perguntou:

- Que espécie de acordo?

-Esta noite, nada fica mal. Diremos o que sentirmos, faremos o que nos apetecer e depois esquecemos-nos de tudo. Nada de compromissos, nada de promessas, nada de desculpas... Preciso de uma noite assim...

- Também eu, Ruth. Achas que poderá ser uma deslealdade? Ruth inclinou-se para Faber e pousou-lhe um dedo nos lábios, num aviso:

- Nada de segundos pensamentos, lembra-te!

- Vou tentar... Fala-me de ti. Que tens andado a fazer?

- A trabalhar. A trabalhar com os meus Judeeus e a perguntar a mim mesma por que o faço.

- E não sabes porquê?

-Às vezes. Outras vezes, tudo me parece sem significado.

Levantou-se e Jigou o gira-discos, enchendo a sala com os tons

açucarados de um cantor napolitano. Ruth Lewin riu-se:

-Muito schmaltz, não é? - perguntou.

Faber sorriu e recostou-se na cadeira, sentindo-se descontraído

pela primeira vez.

- Quem é que agora está a ter segundos pensamentos? Gosto de schmaltz... e não devo ter escutado essa palavra três vezes, desde que saí de Nova Iorque.

- È a minha parte judia. Vem ao de cima quando me distraio,

- Isso preocupa-te? -Às vezes.                                                                                        

- Mas porquê?

- É uma longa história, mas não para agora. Acaba a tua bebida, George. A seguir leva-me para a rua e faz de mim uma romana, apenas por esta noite.

 

1 Palavra da gíria americana que se aplica para designar uma música num tom sentimental, num tom um pouco depreciativo (Do yiddish shmalts, que A lei significa «encorpar, tornar gordo».) (N. do T.)

 

À entrada do apartamento, Faber beijou-a ao de leve nos lábios e caminharam de braço dado, para lá dos fantasmagóricos mármores do Fórum. A seguir, numa rendição final para com a extravagância, fizeram sinal a uma carrossa e sentaram-se de mãos dadas enquanto o cansado cavalo os levava, ao som do seu clipe-clope, a atravessar a Ponte Palatina em direcção às vielas populares de Trastevero.

O restaurante chamava-se «O Cavallucio». A entrada era uma velha porta de carvalho ornamentada com pregos ferrugentos. Como símbolo ostentava um cavalo empinado, grosseiramente esculpido na pedra da verga da porta, muito escalavrada pelo tempo, e realçado a cal. O interior era uma vasta cave abobadada. Do tecto pendiam candeeiros empoeirados e estava mobilado com pesadas mesas de madeira de refeitório. A clientela era na sua maior parte constituída por famílias do bairro e o ambiente tinha um espírito de amigável tirania.

O proprietário, um indivíduo atarracado, de avental branco, instalou-os num recanto escuro, pousou na frente deles, com uma certa violência, uma garrafa de vinho tinto e outra de vinho branco e anunciou a sua política com um brilhante sorriso:

- Todo o vinho que conseguirem beber! É bom vinho, mas não tem etiquetas finas! Só há dois tipos de pasta. Dois pratos do dia: frango assado e um guisado de vitela em Marsala. Depois disso... estão nas mãos de Deus!

Tal como Faber prometera, havia um tocador de guitarra, um jovem trigueiro com um grande lenço vermelho em volta do pescoço e uma caneca de estanho presa ao cinto a servir de caixa de esmolas. Havia um poeta barbudo, vestido de blue jeans, sandálias de fabrico caseiro e uma camisa de serapilheira, que ganhava honestamente algumas moedas troçando dos clientes com versos improvisados no dialecto romano. Quanto ao resto, os entretenimentos eram fornecidos pelas palhaçadas dos próprios clientes e por uma ocasional e rouca cantoria em coro, a que o guitarrista os incitava. A pasta era servida em enormes malgas de madeira e um imprudente criado amarrou-lhes um enorme guardanapo ao pescoço, para lhes proteger os nobres peitos dos salpicos do molho.

Ruth Lewin estava deliciada com a novidade de tudo aquilo e Faber, arrancado ao seu ambiente habitual, parecia dez anos mais novo e dotado de um insuspeito espírito.

Encantou-a com a sua conversa sobre as intrigas romanas e má-língua a respeito do Vaticano, e Ruth descobriu-se a contar, muito à vontade, toda a longa e tortuosa jornada que acabara por levá-la para a Cidade Imperial. Encorajada pela simpatia de Faber, expôs os seus problemas muito mais livremente do que jamais fizera, excepto ao psiquiatra, e para sua surpresa reconheceu que já não se sentia envergonhada de os ter. Pelo contrário, pareciam definir-se com maior clareza, e o terror que dantes haviam constituído diminuía de um modo mágico.

- ... Para mim, tudo se resume a uma questão de segurança e à necessidade de ganhar raízes, qualquer tipo de raízes, num mundo que se modificou de uma maneira demasiado rápida para a minha infantil capacidade de compreensão. Nunca o consegui fazer. Tudo na minha vida, as pessoas, a Igreja, a felicidade de que gozei - e na verdade tive momentos de grande felicidade - pareciam-me ter o ar de «hoje estou aqui e amanhã vou-me embora». Descobri que não era capaz de acreditar na permanência dos mais simples relacionamentos, Os piores momentos eram quando me punha a duvidar da realidade de tudo o que me acontecera. Como se estivesse a viver num sonho e como se eu, a sonhadora, fosse também um sonho. Deves achar que tudo isto é muito estranho, não é, George?

- Não, não acho estranho. É triste, mas ao mesmo tempo é também... agradável.

- Por que é que dizes isso?

Pensativo, beberricou um pouco do vinho e depois lançou-lhe um longo olhar perscrutador, por cima do rebordo do copo.

- Suponho que o digo porque Chiara é completamente diferente de ti. Apesar de tudo o que lhe aconteceu, parece saber muito bem o que deseja da vida e como o vai conseguir. Só há uma maneira de se ser feliz... a dela. Só há uma maneira de se estar divertido ou contente. .. a que lhe ensinaram. O casamento com Calitri provocou-lhe um choque terrível, mas, no fundo, não lhe modificou a sua visão da vida... Sabes, penso que és capaz de ter mais sorte do que ela.

- Gostaria de poder acreditar.

- Pois acho que o deves fazer. Podes ainda não ser feliz. Podes nunca vir a sentir-te verdadeiramente segura. No entanto, és mais flexível, mais capaz de compreender as mil maneiras diferentes em que as pessoas vivem, mais capaz de pensar e de sofrer.

-Pergunto muitas vezes a mim mesma se isso será bom... ou se não se trata de mais uma ilusão da minha parte. Sabes, tenho constantemente o mesmo sonho. Falo com alguém, e esse alguém não me ouve. Vou à procura de outra pessoa, e essa pessoa nem sequer me vê. Estou à espera de me encontrar com alguém, que passa por mim e segue em frente. Fico convencida de que nem sequer existo.

- Oh, existes, podes crer no que te digo! - exclamou George, com um sorriso alegre.-Existes e acho-te muito perturbante.

- Perturbante porquê?

Antes que lhe pudesse responder, o poeta barbudo aproximou-se, parou junto da mesa e declamou uma longa tirada que levou os outros convivas a explodirem em gargalhadas ruidosas. George Faber também se riu e entregou-lhe uma nota de banco, como recompensa. O poeta acrescentou mais uns versos que originaram nova explosão de gargalhadas e depois recuou, fazendo vénias como um cortesão.

- Que disse ele, George? Não consegui perceber a maior parte do dialecto.

- Disse que já não somos suficientemente jovens para sermos solteiros, mas que ainda não somos tão velhos que tenhamos o ar de amantes. Interrogou-se sobre se o teu marido saberá o que andas a fazer e se o bebé seria parecido com ele ou comigo. Quando lhe dei o dinheiro, afirmou que sou suficientemente rico para não me ralar, mas se quiser ficar contigo o melhor é irmos casar ao México.

Ruth Lewin corou.

- Um poeta muito inconveniente, mas gosto dele, George.

- Também eu. Gostaria de lhe poder servir de mecenas. Ficaram silenciosos durante algum tempo, escutando o ruído das

conversas e a abafada e melancólica música da guitarra. Depois e num tom muito casual, Faber perguntou:

- Que vais fazer durante O Verão?

- Não sei e até tenho medo de pensar nisso. No fim, se calhar meto-me numa dessas excursões turísticas. Sei que a maior parte das vezes são aborrecidas, mas pelo menos não estamos sozinhos.

-Não quererás acompanhar-me durante alguns dias? Primeiro em Positano e depois em Ischia.

Ruth não fugiu à questão e encarou-o com os modos directos que lhe eram habituais.

- Em que condições, George?

- As mesmas desta noite. Nenhumas obrigações, nenhumas promessas, nenhumas desculpas.

- Então e a Chiara?

Respondeu-lhe encolhendo os ombros, um pouco inseguro.

- Não lhe vou perguntar o que faz em Veneza. Penso que também não me fará perguntas, Além disso, onde é que está o mal? Estarei a trabalhar para a Chiara. Tu e eu somos dois adultos. Gostava que pensasses no assunto.

Ruth sorriu e recusou com gentileza:

- Não tenho de pensar no assunto, George. Para ti já é difícil lidar com a mulher que tens. Duvido que conseguisses também lidar comigo. - Inclinou-se e segurou-lhe a mão entre as suas. - Tens uma dura luta pela frente e não a conseguirás ganhar se te dividires ao meio. Também eu não sou capaz de me dividir... Por favor, não te zangues comigo. Conheço-me demasiado bem.

Faber ficou instantaneamente arrependido.

- Desculpa. Creio que o que disse soou de um modo um pouco rude. Não era o que pretendia.

- Sei que não. Se tentasse dizer-te como te estou grata, penso que choraria. Agora, importas-te de me levar a casa?

O cocheiro ainda os aguardava na escura ruela, paciente e expertente. Acordou o cavalo que dormitava e levou-o a encetar o longo percurso para casa: a Ponte Margherita, a Villa Borghese, a praça do Quirinal e depois pelo Coliseu para a Rua de São Gregório. Ruth Lewin pousou a cabeça no ombro de Faber e mergulhou na sonolência, escutando o clipe-clope da velha pileca e estudando o seu coração perturbado.

Quando chegaram ao apartamento de Ruth, Faber ajudou-a a descer e segurou-a por instantes na sombra da entrada.

-Posso subir por um bocadinho?

- Se quiseres.

Estava demasiado ensonada para protestar e demasiado ansiosa pelo pouco que lhe restava daquela noite. Fez-lhe café e sentaram-se juntas ouvindo música, cada um deles à espera que o outro quebrasse o perigoso feitiço. Num impulso, George Faber tomou-a nos braços e beijou-a. Ruth agarrou-se a ele num prolongado e apaixonado abraço. Depois Faber afastou-a de si, sempre a segurá-la, e implorou sem reservas:

- Quero ficar contigo, Ruth. Por favor, deixa-me ficar.      

- Também eu quero que fiques, George, mais do que qualquer outra coisa no mundo... Mas vou mandar-te para casa.

->Não troces de mim, Ruth, não és desse tipo de mulher. Por amor de Deus, não troces de mim!

Todas as necessidades acumuladas dentro dela ao longo de tantos anos incitavam-na à rendição, mas Ruth afastou-se e foi a sua vez de implorar:

- Vai para casa, George. Não te posso ter desta maneira. Não sou suficientemente forte para isso. De manhã irias acordar e sentir-te culpado para com a Chiara. Agradecias-me e desaparecias. Não voltaria a ver-te, por te sentires desleal. Quero voltar a ver-te. Podia apaixonar-me por ti se mo permitisse a mim mesma, mas não quero metade de um coração e metade de um homem... Por favor, vai!

Faber estremeceu como um homem que acorda de um sonho.

- Voltarei, sabes disso...

- Sim, sei.

- Não me odeias?

- Como é que te posso odiar? O que não quero é que te venhas a odiar a ti próprio por minha causa.

- Se a coisa não resultar com a Chiara...

Ruth fechou-lhe os lábios com um último e leve beijo.

- Não digas isso, George! Em breve o saberás... talvez demasiado cedo para nós dois.

Acompanhou-o até à porta, viu-o trepar para a carrozza e esperou até que o ruído dos cascos que se afastavam morresse no meio do murmúrio da cidade. A seguir foi para a cama. Pela primeira vez em muitos meses, teve um sono sem sonhos.

No grande salão da Universidade Gregoriana, Jean Télémond enfrentava a sua audiência.

O discurso jazia na sua frente, pousado no púlpito, traduzido para um impecável latim por um colega da Companhia. Tinha as costasdireitas e as mãos firmes. Tinha a mente clara. Agora que chegara o momento da crise, sentia-se estranhamente calmo e até exultante ante a apresentação, final e resoluta, do trabalho de toda uma vida, expondo-o ao’ risco de um julgamento em público.

Encontrava-se ali toda a autoridade da Igreja, resumida na pessoa do pontífice, que permanecia sentado, magro, moreno e curiosamente jovem, com o geral da Companhia de um lado e o cardeal Leone do outro. Estavam ali as melhores mentes da Igreja: seis cardeais da Cúria; os teólogos e filósofos, vestidos com os hábitos mais diversos -jesuítas, dominicanos, franciscanos, e os homens da antiga Ordem de S. Benedito--, e estava ali o futuro da Igreja, os estudantes de rostos escorreitos e ansiosos, escolhidos em todos os países do mundo para irem estudar na sede da cristandade. Também ali se encontrava a diversidade da Igreja, expressa por ele própria, o exilado, o da busca solitária, o exótico, que no entanto usava a túnica negra da irmandade e partilhava do ministério dos servos da Palavra.

Aguardou um momento, concentrando-se. A seguir fez o sinal da Cruz, pronunciou a alocução de abertura para o pontífice e para a Cúria e iniciou o seu discurso

-Foi-me necessária uma jornada de vinte anos para me trazer a este local. Tenho, portanto, de implorar a vossa paciência enquanto me explico a mim próprio e aos motivos que originaram esta longa e por vezes dolorosa peregrinação. Sou um homem e um sacerdote. Fiz-me sacerdote porque acreditava que a principal e única relação coerente é a relação entre o Criador e a criatura e porque desejava confirmar essa relação de um modo especial, por intermédio de uma vida a ela dedicada. Porém, nunca deixei de ser um homem, e como homem descobri-me irrefutavelmente comprometido’ com o mundo em que vivo.

»Como homem, a minha mais profunda convicção - apoiada por toda a minha experiência- é a de que sou uma pessoa. Eu, que penso, que sinto receio, que sei e creio, sou uma unidade. Mas esta unidade faz parte de uma unidade muito maior. Estou fora do mundo, mas pertenço-lhe, porque nasci do seu nascimento como o mundo nasceu da unidade de Deus, como resultado de um único acto criador.

mas eu, o único, estou destinado a participar na unicidade de Deus. Não posso isolar-me da Criação, tal como também não posso, me destruir a mim mesmo, isolar-me do Criador.

»A partir do momento em que esta convicção se tornou bem clara para mim, seguiu-se uma outra, uma sua consequência inevitável. Se Deus um e o mundo é o resultado do Seu acto eterno, e se eu sou uma pessoa única nascida desta unidade complexa, então todo o conhecimento -de mim próprio, da Criação e do Criador- é um só conhecimento. O facto de eu não dispor de todo o conhecimento, de este se me apresentar apenas por fragmentos e em diversidade, nada significa, excepto que sou finito, limitado pelo tempo, pelo espaço e pela capacidade do meu cérebro.

»Todas as descobertas que faço apontam na mesma direcção. Por muito contraditórios que possam parecer os fragmentos do meu conhecimento, nunca se conseguem na verdade contradizer uns aos outros. Passei toda uma vida dedicada apenas a um pequeno ramo das ciências, a paleontologia, mas estou empenhado em todas as ciências, a biologia, a física, a química da matéria inorgânica, a filosofia e a teologia, porque são tudo ramos da mesma árvore, e a árvore cresce para o alto em direcção ao mesmo Sol. Portanto, quando procuramos o conhecimento nunca nos podemos arriscar de mais ou ousar de mais, uma vez que cada passo em frente é um passo em direcção à unidade... do homem com o homem, do homem com o universo’, do universo com Deus...

Olhou para cima, tentando ler uma reacção às suas palavras no rosto da audiência, mas não havia lá nada para ler. Queriam escutâ-lo até ao fim antes de se comprometerem com um veredicto. Regressou ao texto dactilografado e continuou a ler:

- Hoje quero partilhar convosco uma parte da jornada que efectuei nos últimos vinte anos. Contudo, antes de a começarmos, queria dizer duas coisas. Eis a primeira: uma exploração é um tipo muito especial de jornada. Não se faz como quem faz uma viagem de Roma a Paris. Nunca podemos exigir chegar a tempo e com a me nte intacta. Caminhamos devagar, de olhos e mentes abertos. Quando as montanhas são demasiado altas para serem trepadas, rodeamo-las e tentamos medi-las a partir da planície. Quando a selva é excessivva, temos de abrir o nosso caminho através dela sem grandes problemas para com o trabalho ou com a frustração.

»A segunda coisa é esta: quando pretendemos registar a jornada, com novos contornos, as novas plantas, a estranheza e o mistério, descobrimos muitas vezes que o vocabulário é inadequado. È inevitável que a nossa narrativa não consiga exprimir toda a realidade. Se descobrirem um tal defeito nos meus registos, então imploro-lhes que o tolerem e que isso não vos impeça de contemplar estranhas paisagens que, apesar de tudo, trazem em si as marcas do dedo criador de Deus.

»Agora, para começar...»

Fez uma pausa, torceu a sotaina sobre os ombros magros e levantou o rosto marcado para os enfrentar numa espécie de desafio.

- Quero que venham comigo não como teólogos ou filósofos, mas sim como cientistas, homens cujo conhecimento começa no que vêem. Quero que vejam o homem, um ser muito especial que existe num ambiente visível num ponto determinado do espaço e do tempo.

»Em primeiro lugar, olhemos para ele no espaço. é universo em que habita é imenso, galáctico. Estende-se para lá da Lua e do Sol numa enormidade de dimensões que os nossos matemáticos só conseguem exprimir por uma indefinida extensão de zeros.

»Olhem para o homem no tempo. Existe agora, neste momento, mas o seu passado recua até um ponto em que o perdemos num nevoeiro. O seu futuro prolonga-se para lá da nossa concepção de quaisquer circunstâncias possíveis.

»Olhem para o homem pelos números, e encontrar-se-ão a tentar contar os grãos de areia de uma costa sem limites.

»Olhem para ele pela escala e proporção, e descobirão que, por um lado, é um minúsculo anão, num universo sem limites aparentes, mas, por outro lado, noutra escala, detém um controlo parcial sobre a enormidade em que vive...»

os mais cépticos dos seus ouvintes - e na audiência havia muitos dispostos a duvidar dele- sentiram-se cativados e arrastados pela forte corrente da sua eloquência. A paixão das convicções exprimia-se em todas as linhas do rosto marcado pelas intempéries, em todos os gestos das mãos magras e expressivas.

Rudolf Semmering, o homem implacável e severo como um soldado, viujse a acenar a sua aprovação ao nobre temperamento do seu súbdito. O cardeal Rinaldi sorria, um sorriso fino e irónico, e perguntava de si para si o que fariam os pedantes daquele valente intruso que lhes invadia os domínios privados. Até Leone, o velho e severo cão-de-guarda da Fé pousou o queixo ossundo na mão e prestou um relutante tributo à indomável coragem daquele espírito suspeito.

Em Kiril, o pontífice, crescia rapidamente a convicção de que aquele era o homem de que necessitava: um homem totalmente entregue aos perigos da vida e do conhecimento, no entanto tão firmemente ancorado, como uma rocha batida pelo mar, na crença de que é uma unidade planeada pelo Divino. As ondas podiam lançar-se sobre cie, os ventos podiam assaltar-lhe o espírito, mas permaneceria inabalável sob o assalto. Apercebeu-se de que murmurava uma mensagem de apoio: «Continua! Não tenhas medo! O teu coração tem razão e bate em uníssino com o meu. Não interessa que as palavras sejam insuficientes e o registo tenha falhas. A visão é dará vontade aponta a direito e com toda a verdade em direcção ao Centro. Continua!»

Télémond estava agora lançado no assunto, expondo-lhes a sua visão da matéria, o material do universo, que se exprimia sob tantas aparências diferentes, finalmente, sob a aparência do homem.

- ...«Deus fez o homem do pó da Terra!» A imagem bíblica expressa com aptidão a mais primitiva convicção do Homem - uma convicção confirmada pelas experiências científicas mais avançadas - a de que o material de que é formado é capaz de uma indefinida gradação, até às partículas infinitamente pequenas... A um certo ponto desta gradação, a visão do homem a respeito de si próprio torna-se indistinta. Primeiro precisa de óculos, depois, de um microscópio e, a seguir, de toda uma série de instrumentos que lhe aumentem a vista que lhe falha. Por momentos fica perdido na diversidade: moléculas, átomos, electrões, protões, neutrões... tantos e tão diferentes! A seguir, de súbito, tudo se junta de novo. O universo, da nebulosa mais afastada até à mais simples estrutura atómica, é um todo, um sistema, um quantum de energia... Por outras palavras, uma unidade. Mas - e agora tenho de lhes pedir para que se debrucem sobre este muito importante «mas» - este universo não é um todo estático, está num constante estado de mudança e transformação. É um estado de géneses, um estado de vir-a-ser, um estado de evolução. E eis agora a pergunta que lhes peço que encarem a meu lado. O universo está em evolução e o homem está em evolução... em direcção a quê?

Agora, estavam todos com Críticos ou cativados pela ideia, estavam com ele. Podia vê-los a inclinarem-se para a frente nos assentos, atentos a todas as frases e a todas as inflexões. Sentia-lhes o interesse a projectar-se para ele como uma vaga. Concentrou-se de novo   e começou a esboçar, com pinceladas rápidas e decisivas, a imagemde um cosmo em movimento, rearranjando-se a si próprio, diversificando-se, preparando-se para o aparecimento da vida, para o nascimento da consciência, para a chegada das primeiras espécies sub-humanas e para o aparecimento final do homem.

Estava agora no seu próprio terreno e obrigou-os a avançarem para ele. para fora do enevoado passado de um mundo a cristalizar-se, ao momento em que teve lugar a mudança da não-vida para vida, quando a megamolécula se tornou no microrganismo e as primeiras formas bióticas surgiram sobre o planeta.

Mostrou-lhes como as primitivas formas de vida se espalharam, formando uma vasta rede em volta do globo- giratório como se uniram e se separaram num grande número de combinações; como algumas dessas combinações eram suprimidas porque se encontravam, demasiado especificamente adaptadas a uma determinada época e apenas a determinadas condições da marcha evolutiva; mostrou-lhes como outras sobreviveram, modificando-se, tornando-se mais complexas, de modo a garantirem a sua própria sobrevivência.

Mostrou-lhes os primeiros contornos de uma lei fundamental da natureza: a de que as formas de vida demasiado especializadas são as primeiras a perecer. A mudança era o preço da sobrevivência.

Não temeu as consequências daquele seu pensamento. Agarrou bem na audiência e forçou-a a encarar as suas consequências.

- Mesmo tão cedo na cadeia evolutiva, somos obrigados a encarar o brutal facto da competição biológica. A luta pela vida não tem fim, É sempre acompanhada pela morte e pela destribuição e por uma ou outra espécie de violência... Perguntarão a vós próprios, tal como perguntei a mim mesmo milhares de vezes, se esta luta se transfere necessariamente, num posterior estágio da história, ao domínio do homem. À primeira vista a resposta é positiva, mas oponho-me a uma tão rude e total aplicação do padrão- biológico. O homem não vive agora ao mesmo nível que viveu quando apareceu pela primeira vez sobre este planeta. Passou por sucessivos níveis de existência e é minha convicção - apoiada por um número considerável de provas- que a evolução do homem está marcada por um esforço para encontrar outros modos de competição pela vida, menos brutais e destrutivos...

Inclinou-se para a frente por cima do púlpito e desafiou-os com a ideia de que já sabia o que lhes passava pelas mentes.

- Perguntam-me porque é que não invoco neste momento uma intervenção divina no padrão da evolução do homem. Não- a invoco porque temos de continuar a avançar pela trilha exploratória que definimos a nós mesmos. Limitamo-nos apenas ao que vemos, e tudo o que estamos agora a ver é o homem a emergir como um fenómeno, num universo em mutação. Se estamos incomodados com o que vemos, temos de suportar esse incómodo e não procurar uma resposta demasiado simplista. Saliento este ponto, apesar de o homem não ter ainda aparecido ante os nossos olhos exploradores. Demos um salto em frente para o encontrar. Agora, temos de voltar para trás. ; Quando conseguiu sentir a tensão a abrandar. Lançou um rápido olhar à primeira fila da audiência. Leone abanava a cabeça branca e murmurava um comentário para o cardeal à sua esquerda. Rínaldi sorria e levantou a mão num quase imperceptível sinal de encorajamento. Kiril, o pontífice, permanecia erecto na cadeira, sem um movimento no rosto coberto de cicatrizes, os olhos escuros a brilharem de interesse.

Com suavidade, Télémond levou-os de regresso ao fluxo principal da sua história. Mostrou-lhes as primitivas formas de vida a reproduzirem-se, multiplicando-se, juntando-se e ,separando-se, agrupando-se de um modo engenhoso, mas indiferente, em direcção à estabilidade e permanência. Desenhou-lhes a árvore da vida e mostrou-lhes como ela se dividira e continuara a crescer, como certos ramos morriam e caíam, como se detinha o crescimento de alguns outros, mas como e sempre o principal impulso era para cima, na direcção do grande cérebro e do organismo complexo, e de um mais flexível mecanismo de sobrevivência. Mostrou-lhes as primeiras espécies sub-humanas - os hominóides, que foram o prelúdio do homem e, finalmente, mostrou-lhes o homem.

Então, bruscamente, apresentou-lhes um enigma. - No ponto onde agora nos encontramos, podemos ver uma continuidade e «uma unidade no processo evolutivo. Mas se olharmos mais de perto, verificamos que a linha de avanço nem sempre se faz por traços firmes e definidos. É uma linha tracejada, por vezes quebrada. Não podemos dizer em que momento do tempo se iniciou a vida, mas sabemos que se iniciou. Sabemos que o pterodáctilo existiu. Escavámos e encontrámos os seus ossos na terra. Já não é inteiramente claro quando e quais as mutações que lhe deram origem. Vemo-lo logo no plural... muitos pterodáctiios. Mas... terá existido um primeiro casal, ou sempre existiram muitos? Não o sabemos... O mesmo se passa com o homem. Quando pela primeira vez o encontramos na Terra, já há muitos. Falando como cientistas, não temos qualquer registo do aparecimento do homem sob a forma de um único casal. Nos registos históricos inscritos nos barros primitivos, o homem aparece subitamente. Não estou a dizer que tenha aparecido de repente, tal como o pterodáctilo não apareceu de repente. Todas as provas apontam para uma lenta emergência das espécies, mas a um certo ponto da história surge o homem, e com o homem veio mais alguma coisa... A consciência... O homem é um fenómeno muito especial. É um ser que sabe e é também um ser que sabe que sabe. digámos, como vêem, a um muito particular ponto da história. existe uma criatura que sabe que sabe...

»Agora, meus amigos, quero que se debrucem sobre a minha

próxima pergunta apenas como cientistas, apenas como testemunhas

da evidência visível. Como é que apareceu este fenómeno especial?

» Vamos afastar-nos dele por momentos. Consideremos todos os fenómenos que o precederam, muitos dos quais ainda coexistem com ele, desde os microrganismos aos macacos hominídeos. Todos eles têm algo em comum, um impulso, uma procura, um incitamento a que se adaptem para sobreviver. Para usar uma palavra demasiado gasta e imprecisa, um instinto para fazerem determinadas coisas, para entrarem em tais combinações e associações que lhes permitam prosseguir ao longo da sua própria linha de continuidade. Prefiro não utilizar a palavra «instinto» e escolher uma outra. Prefiro dizer que esse impulso ou capacidade é uma forma primitiva, mas evolutiva daquilo que atinge o auge no homem... a consciência...

Levara-os de novo a um ponto de crise e sabia-o. Pela primeira vez sentia-se na verdade inadequado para lhes demonstrar todo o alcance e subtileza do pensamento. O tempo estava contra ele e contra a simples limitação semântica e poder retórico necessários para os persuadir de um novo, mas ainda harmonioso ponto de vista sobre a natureza e origem da humanidade. Mesmo assim, continuou resolutamente, desenvolvendo ante eles o seu próprio ponto de vista do padrão cósmico, energias primitivas, vida primitiva, consciência primitiva, tudo evoluindo e convergindo para o primeiro ponto focal da história, o do homem pensante. Levou-os ainda mais longe, dando um ousado salto para o que eram os seus próprios campos de conhecimentos, mostrando-lhes todas as linhas do desenvolvimento humano a convergirem para uma unidade final, a unidade do homem com o seu Criador.

Sentiu, com mais força do que nunca, que se modificava a disposição da sua audiência. Alguns estavam aterrorizados, outros duvidosos e outros ainda mostravam-se completamente hostis ao seu pensamento.

No entanto, quando prosseguiu a sua peroração, sabia que fizera o melhor que pudera e que, apesar de as suas ideias por vezes terem sido vagas e por vezes não passarem de especulações arriscadas, o que dissera fora o verdadeiro reflexo da sua posição intelectual. Nada mais podia fazer do que sujeitar-se ao julgamento e aguardar corajosamente pelos resultados. Humilde, mas com profunda convicção, fez uma súmula:

- Não lhes peço que concordem comigo. Não considero que nenhuma das minhas conclusões não possa estar sujeita a reconsiderações ou a novos desenvolvimentos, mas há uma coisa de que estou inteiramente convencido: o primeiro acto criador de Deus foi apontado para a realização e não para a destruição. Se o universo não está centrado no homem, se o homem, como centro do universo, não está centrado no Criador, então o cosmo é uma blasfémia sem significado. Não vem longe o dia em que o homem compreenderá que, até em termos biológicos, só tem uma escolha: o suicídio ou um acto de adoração.

Tremiam-lhe as mãos e tinha a voz abalada quando lhes leu as palavras de Paulo aos colossenses:

- «Porque n’Ele foram criadas todas as coisas, nos Céus e na Terra as visíveis e as invisíveis, tudo foi criado por Ele e para Ele Ele existe antes de todas as coisas e todas têm n’Ele a sua subsistência Porque agradou a Deus que residisse n’Ele toda a plenitude e por ele fossem reconciliadas Consigo todas as coisas, pacificando pelo sangue da Sua Cruz, tanto as da Terra como as dos Céus »

Não ouviu a trovoada de aplausos quando desceu do púlpito Mas quando se ajoelhou para prestar as suas honras ao pontífice e lhe depor nas mãos o texto do discurso, ouviu apenas as palavras da bênnçao e o convite -ou seria uma ordem?- que se segue-

- É um homem ousado, Jean Télémond. O tempo nos’ dirá se tem ou não razão, mas neste momento necessito de si. Todos nós necessitamos de si.

 

EXTRACTOS DAS MEMÓRIAS SECRETAS DE KIRIL I, PONT. MAX.

... Ontem encontrei um homem completo. É uma experiência rara, mas que nos ilumina e enobrece. É tão difícil ser um ser humano completo que há muito poucos que tenham o conhecimento, ou a coragem, para pagar o preço... Para isso é preciso abandonar inteiramente toda a procura da segurança e correr o risco de agarrar a vida com os dois braços. Tem de se abraçar o mundo como a uma amante, sem lhe exigirmos a reciprocidade do amor. Tem de se aceitar a dor como uma condição da existência. Tem de se mergulhar na dúvida e na escuridão, pois é esse o preço do conhecimento. É preciso dispor de uma teimosa força de vontade na luta, mas sempre apta à total aceitação de todas as consequências da vida e da morte.

É assim que vejo Jean Télémond. Foi por isso que decidi trazê-lo para junto de mim, pedir-lhe a sua amizade, servir-me dele o melhor que puder para o trabalho da Igreja... Leone está inseguro a seu respeito, disse-o muito claramente. Salienta, e com toda a razão, as ambiguidades e obscuridades do seu sistema de pensamento e aquilo que denomina de perigosas temeridades em algumas das suas especulações. Exige que o Santo Ofício execute um novo exame completo de todos os seus escritos, antes de lhe ser permitido ensinar em público ou publicar os seus trabalhos.

Não estou em desacordo com Leone. Não sou tão temerário que me sinta preparado para jogar com a Base da Fé, a qual, no fim de contas, é o testamento da nova aliança de Cristo com o homem. Mantê-la intacta é a principal finalidade das minhas funções, tarefa que foi delegada em Leone.

Por outro lado, não tenho medo de Jean Télémond. Um homem tão dedicado a Deus que aceitou vinte anos de silêncio, aceitou já todos os riscos, incluindo o risco de estar errado. Disse-o hoje em muitas das suas palavras e acredito-o... Também não tenho medo do seu trabalho, pois não tenho nem a preparação nem o tempo para fazer uma apreciação do seu verdadeiro valor. É para isso que disponho de conselheiros e especialistas conhecedores de ciências, teologia e filosofia. É para me assistirem... alem do mais, estou convencido de que um erro honesto um passo para um melhor esclarecimento da verdade, uma vez que expõe ao debate e leva a definições mais claras sobre assuntos que de outro modo poderiam permanecer obscuros e indefinidos nos ensinamentos da Igreja. Num sentido muito especial, também a Igreja evolui para uma mais completa compreensão, uma mais profunda consciência da vida divina nela contida.

A Igreja é uma família. Tal como todas as famílias, tem quem goste de ficar em casa e quem seja aventureiro. Tem críticos e tem conformistas. Tem os que se mantêm agarrados às pouco importantes tradições e os que querem lançá-la em frente, lanterna brilhante nunr glorioso futuro. Sou o pai comum a todos eles... Quando os aventureiros regressam a casa, cobertos de cicatrizes e cansados, vindos de novas fronteiras, de novas incursões, com ou sem êxito, contra as muralhas da ignorância, devo recebê-los com a caridade de Cristo e protegê-los com gentileza contra aqueles que conseguiram fazer melhor apenas porque ousaram muito menos. Pedi ao geral dos Jesuítas que me enviasse Jean Télémond para me fazer companhia em Castel Gandolfo durante o Verão. Espero, e oro por isso, que possamos aprender a ser amigos. Creio que este homem me poderia enriquecer o espírito. Eu, pela minha parte, talvez seja capaz de lhe oferecer coragem e uma pausa na sua longa e solitária peregrinação...

Também ele me deu coragem, de um modo algo estranho. Há já algum tempo que estou envolvido num permanente debate com o cardeal secretário da Congregação dos Ritos sobre o problema daintrodução da liturgia vernacular e de um sistema vernacular de ensino nos seminários e igrejas dos países missionários. Como é inevitável, isto significaria um declínio da liturgia em língua latina em muitas áreas do mundo. Significaria também uma imensa tarefa de tradução e anotação, para que as obras dos padres da Igreja a pudessem ser acessíveis aos estudantes clericais nas suas próprias línguas.

A Congregação dos Ritos é da opinião de que uma tal mudança traria muito mais desvantagem do que méritos. Salienta que tal iria contra as decisões do Concílio de Trento e contra as decisões de concílios e pontífices posteriores. Afirmam que a estabilidade e uniformidade da nossa organização depende muito do uso de uma língua liVre comum para a definição da doutrina, a preparação de professia a celebração da liturgia.

quanto a mim, sou da opinião de que o nosso principal dever é próclamar a palavra de Deus e dispensar a graça dos Sacramentos, e de que tudo o que prejudique essa missão deve ser posto de lado.

Contudo, sei que a situação não é assim tão simples. Por exemplo, existe uma curiosa divisão das opiniões na pequena comunidade cristã no Japão. Os bispos japoneses querem a preservação do sistema latino. Por causa da sua posição, única e isolada, têm a tendência para se mostrarem tímidos com todas as mudanças. Por outro lado, os padres missionários que trabalham no país informam-nos que a sua missão fica prejudicada quando não usam o vernáculo.

Em África, o nativo cardeal Ragambwe é muito explícito: quer experimentar o sistema vernacular. Está consciente dos riscos e dos problemas, mas mesmo assim pensa que se deve experimentar. É um homem santo e iluminado, e tenho um grande respeito pelas suas opiniões.

A decisão final depende de mim, mas protelei-a porque tenho uma vívida consciência da complexidade do problema e do perigo histórico de que grupos pequenos e isolados de cristãos possam, por falta de um meio de comunicação comum, virem a separar-se do desenvolvimento diário da vida da Igreja. Não construímos apenas para o dia de hoje, mas para o amanhã e para a eternidade.

Contudo, ao escutar Jean Télémond, senti-me encorajado a dar um passo decisivo. Decidi escrever aos bispos que querem introduzir o sistema vernacular e pedir-lhes que me proponham um plano bem definido para o seu uso. Se esses planos parecerem realizáveis e se ao mesmo tempo pudermos ensinar da maneira tradicional um certo número de clérigos seleccionados, estou disposto a permitir que se experimente o novo sistema... Espero uma forte oposição por parte da Congregação dos Ritos e de muitos dos bispos da Igreja, mas é preciso fazer alguma coisa para acabar com o beco sem saída que inibe o nosso trabalho apostólico e para que a Fé possa começar a crescer em maior liberdade nas novas nações.

São todas muito ciosas da sua nova identidade, e devemos levá-las a ver que podem crescer na Fé e com a Fé, em direcção a um legítimo desenvolvimento social e económico. Ainda não constituímos um único mundo, e não o seremos durante muito tempo, mas Deus é uno e o Evangelho é uno, e deveria ser falado em todas as línguas existentes debaixo dos céus... Era assim com a Igreja primitiva. Foi esta a visão que Jean Télémond renovou em mim: a unidade do espírito nos laços da Fé, na diversidade de todos os conhecimentos e de todas as línguas...

Concedi hoje a última série de audiências antes das férias do Verão. Entre aqueles que recebi em particular encontrava-se um certo Corrado Calitri, ministro da República. Já anteriormente recebera a maior parte do gabinete italiano, mas nunca encontrara este homem. As circunstâncias foram suficientemente pouco usuais para que as comentasse com o mestre-camareiro.

luilo disse-me que Calitri era um homem de invulgares talentos, com uma carreira meteórica no (Partido Democrata Cristão- e que alese dixiu que poderia vir a dirigir o país depois das próximas eleições.

disse-me também que a vida privada de Calitri fora algo notória. durante muito tempo e que estava envolvido num caso matrimonial temente em estudo pela Santa Rota Romana, Agora, contudo, sabia que Calitri fazia sérios esforços para se emendar e que colocara, os seus assuntos espirituais, nas mãos de um confessor. Claro que não houve qualquer discussão destes assuntos entre mim e Calitri. Uma audiência é um negócio de Estado e nada tem a ver com a relação espiritual entre o pastor e o seu povo.

De qualquer modo, o homem despertou-me a curiosidade e por momentos senti-me tentado a pedir o processo do seu caso. No fim decidi-me contra a ideia. Se subir ao poder teremos ligações diplomáticas, e será melhor que estas não se compliquem por conhecimentos especiais da minha parte. É também preferível que não interfira demasiado nas variadas funções dos tribunais e congregações. O meu tempo é muito limitado. Também as minhas energias o são e neste momento estão tão esgotadas que vou ficar muito satisfeito por poder fazer as malas e abandonar este lugar, para me mudar para a comparativa serenidade do campo.

Vejo com toda a clareza os contornos de um grande problema pessoal para todos os homens que ocupam estas funções, vejo como; a pressão dos afazeres e os pedidos de tanta gente os podem esgotar: de tal modo que não têm tempo nem vontade para regularizar os assuntos da sua própria alma. Anseio pela solidão e pelo lazer, para a contemplação... «Vejam os lírios do campo... Não trabalham e não fiam!... Afortunados os que têm tempo para cheirar as flores e dormitar ao meio-dia por debaixo das laranjeiras...!

 

George Faber saiu de Roma muito cedo, numa manhã de sábado. Dirigiu-se para a Porta Lateral e meteu pela nova Via ápia em direcção à auto-estrada. Tinha cinco horas de condução à sua frente, Terracina, Formia, Nápoles e depois ao longo da serpenteante ’estrada peninsular para Castellammare, Sorrento, Amalfi e Positano. Não estava com pressa. O ar da manhã ainda se mostrava fresco, o trânsito era intenso e não tinha a intenção de perder também o pescoço, além da reputação.

Em Terracina parou por causa de um par de raparigas inglesas que pediam boleia para a costa. Durante uma hora ficou satisfeito com a sua companhia, mas quando chegaram a Nápoles sentiu-se feliz por se ver livre deles. As suas alegres certezas a respeito’ do mundo e de tudo o que nele se passava faziam-no sentir-se um avozinho.

O calor do dia atacava-o agora com toda a força... um calor opressivo, seco e empoeirado, que fazia vibrar o ar e lhe enchia as narinas com o cheiro a amoníaco de uma cidade antiga e cheia de gente. Virou para a Via Caracciolo e sentou-se durante algum tempo num café junto ao mar, beberricando café gelado e ponderando no que teria de fazer quando chegasse a Positano. Precisava de se encontrar com duas pessoas: Sylvio Pellico, artista, e Theo Respighi, por vezes actor. De acordo com as suas investigações, ambos haviam sido infelizes associados de Corrado Calitri.

Havia muitas semanas que se interrogava sobre qual seria o melhor método para os abordar. Vivia há tempo suficiente em Itália para saber do amor dos Italianos pelo drama e pela intriga, mas o seu temperamento nórdico revoltava-se contra o espectáculo de um correspondente americano brincando aos detectives latinos, de gabardina e chapéu de feltro preto. Por fim, decidira-se por uma abordagem simples e franca:

«Sei que conheceu Corrado Calitri... Estou apaixonado pela mulher dele e quero casar com ela. Creio que me poderá fornecer algumas provas contra Calitri. Estou pronto a pagar bem para as obter...

Durante muito tempo recusara-se a imaginar as coisas a partir deste ponto, mas agora, a três horas de Roma e muito longe de Chiara, sentia-se preparado para enfrentar todos os ses... Se tudo falhasse, ter-se-ia testado a si próprio e provado a Chiara que estava disposto a arriscar a carreira por causa dela. Poderia exigir a reciprocidade do amor. E se isso também falhasse...? Começava a com penetrar-se de que poderia sobreviver a uma tal hipótese. A melhor cura para o amor era esfriá-lo um pouco e deixar um homem comparar mulher com mulher, o tormento de um amor não retribuído com a triste paz da ausência total de amor.

Um coração de meia-idade não podia saltar, como uma bola de borracha, de um caso amoroso para outro, mas havia uma migalha de conforto na recordação de Ruth Lewin e na sua recusa a deixar comprometer tanto o seu coração como o dela, lançando-os numa nova aflição sem qualquer promessa de segurança.

Era mais inteligente do que a Chiara, sabia-o bem. Fora testada mais vezes e sobrevivera melhor. Mas amor era uma palavra semelhante a um arco-íris, que podia ou não apontar para um pote de ouro. Pagou a bebida, avançou para o violento sol e iniciou a última etapa da sua viagem para a incerteza.

A baía de Nápoles era um espelho liso e oleoso, quebrado apenas pelas esteiras dos vapores turísticos e pela espuma dos aliscafi que transportavam os seus carregamentos de turistas a noventa quilómetros por hora em direcção às ilhas das sereias, Capri e Ischia.

O cume do Vesúvio era uma vaga mancha numa neblina de calor; e poeira. O gesso pintado das casas das aldeias pelava-se ao sol.

cinzento solo calcário das hortas estava ressequido e os camponeses

arrastavam-se penosamente para cima e para baixo ao longo das filas de tomateiros, como figuras de uma paisagem medieval. Cheirava a pó e a esterco, a tomates podres e a laranjas frescas. As buzinas tocavam em todas as curvas, as carroças de madeira rolavam ruidosamente sobre as pedras da calçada. De vez em quando ouviam-se fragmentos de música misturados com gritos de crianças com a ocasional praga de um camponês apanhado no fluxo do trânsito de Verão.

George Faber descobriu-se a guiar depressa e à vontade, entoando uma canção desafinada. Na íngreme espiral da entrada para Amalfiase foi atirado para fora da estrada por um carro de desporto em alta velocidade, o que o levou a soltar altas e alegres pragas em dia romano. Quando chegou a Positano, a cidadezinha miserável e espectacular que se erguia nos inclinados flancos da colina, desde a água até ao cimo, sentia-se perfeitamente satisfeito consigo mêsmo, e a experiência era tão entontecedora como o forte vinho das moninhas de Sorrentino.

 

Deixou o carro numa garagem, carregou com a mala e caminhou por uma íngreme e estreita ruela em direcção à praça da cidade. Meia hora mais tarde, depois de tomar um banho e de enfiar umas calças de algodão e uma camisola às riscas, de marinheiro, encontrava-se sentada sob um toldo, bebendo um Carpano e preparando-se para o encontro com Sylvio Pellico.

A galeria do artista era um longo e fresco túnel que principiava na rua e seguia até um pátio cheio de lixo e de fragmentos de velhos mármores. Os quadros encontravam-se pendurados ao longo das paredes do túnel, berrantes abstracções, alguns retratos à maneira de Modigliani e umas quantas paisagens vistosas, mas sem valor, destinadas a engodar os turistas sentimentais. Era fácil de ver por que motivo Cerrado Calitri o largara tão depressa, e muito mais difícil de compreender o que o levava a querer auxiliá-lo.

Era um homem alto, de cara estreita e barba desgrenhada, vestido com uma camisola de algodão, blue jeans muito ruços e sapatos de lona coçada. Estava apoiado entre duas cadeiras à entrada do túnel, dormitando ao sol, com um chapéu de palha atirado para cima dos olhos.

Quando George Faber parou para examinar os quadros, o jovem despertou imediatamente e apresentou-se, a si e ao seu trabalho, com um floreado:

- Sylvio Pellico, senhor, ao seu serviço. Gosta dos meus quadros? Alguns já foram exibidos em Roma.

- Eu sei - respondeu George Faber. - Estive na exposição.

-Ah! Então é um conhecedor. Não vou tentar vender-lhe essa porcaria! - declarou, pondo as paisagens de parte com um aceno da mão magrizela. - Esses não são importantes, são apenas para arranjar dinheiro para comer.

- Eu sei, eu sei. Todos nós temos de comer. A época tem sido boa para si?

-Eh!... Sabe como são as coisas. Toda a gente olha, mas ninguém quer comprar. Ontem vendi duas coisinhas pequeninas a uma americana. Anteontem... nada. No dia anterior...-calou-se e mirou Faber com olhos de quem se prepara para regatear. - Não é italiano, pois não, senhor?

- Não, sou americano.

- Mas fala muito bem o italiano.

- Obrigado... Diga-me, quem patrocinou a sua exposição em Roma?

- Um homem eminente. Um ministro da República, que é também um bom crítico. Talvez tenha ouvido falar nele, chama-se Corrado Calitri.

- Claro que ouvi -disse George Faber.-Queria falar consigo a respeito dele.

--Porque? - inclinou a cabeça desgrenhada para um lado, como

un amigável papagaio.- Foi ele que o mandou vir ter comigo?

- Não. Trata-se de um assunto particular. Pensei que talvez me quisesse ajudar. Terei muito prazer em pagar a ajuda. Isso interessa-lhe?

- Quem é que não está interessado em dinheiro? Sente-se e deixe que eu lhe ofereça uma chávena de café.

- Não, obrigado, não será coisa demorada.

Pellico limpou a poeira de uma das cadeiras e sentaram-se virados um para o outro por debaixo do estreito arco.

Com vivacidade, Faber explicou quem era e o que fora ali fazer, e depois apresentou a sua proposta:

- Quinhentos dólares, dinheiro americano, por uma declaração ajuramentada acerca do casamento de Calitri, de acordo com os termos que lhe ditarei.

Recostou-se na cadeira, acendeu ’um cigarro e esperou, enquanto o artista encaixava o rosto moreno entre as mãos e pensava durante bastante tempo. Depois levantou a cabeça e pediu:

-Agradecia um cigarro americano.

Faber passou-lhe o maço e inclinou-se para a frente com um fosforo aceso.

Pellico fumou por alguns instantes e a seguir começou a falar:

- Senhor, sou um homem pobre. Por outro lado, também não sou um grande pintor, pelo que provavelmente continuarei pobre ainda por muito tempo. Para alguém como eu, quinhentos dólares é uma fortuna, mas receio que não possa fazer o que me pede.

- Então porquê?

- Por várias razões. -Tem medo do Calitri?                                                                  

- Um pouco. O senhor tem vivido neste país, sabe como as coisas são. Quando se é pobre, anda-se sempre um pouco à margem da lei e não compensa misturarmo-nos com gente importante. Mas essa não e a única razão.

- Dê-me outra. O rosto enrugou-se-lhe e a cabeça pareceu encolher-se ainda mais

para dentro dos ombros. Explicou-se com estranha simplicidade:

- Sei o que o assunto significa para si. Quando um homem está apaixonado, eh!... É como gelo no coração e fogo nas tripas... Pérola do o orgulho. Quando não temos um amor, o orgulho regressa muitas vezes é a única coisa que nos resta... Não sou como o senhor... Sou, se assim o deseja, mais parecido com o Calitri. Foi amável para comigo... e eu gostava muito dele. Não me parece que o pudesse trair por dinheiro.

- Mas ele traiu-o, não é verdade? Montou-lhe uma exposição e depois abandonou-o.

- Não! - As mãos magras tornaram-se de repente muito eloquentes. - Não não deve ver as coisas desse modo. Pelo contrário, foi muito honesto comigo. Afirmou que todos os homens têm o direito, pelo menos uma vez, a tentarem demonstrar o seu talento. Se não houvesse talento, o melhor era esquecer tudo... Pois bem, deu-me uma hipótese e eu falhei. Não o culpo por isso.

-Quanto quereria para o culpar? Mil dólares?

Pellico levantou-se e sacudiu o pó das mãos. Apesar do seu ar miserável, parecia agora vestido com uma curiosa espécie de dignidade. Apontou para as paredes cinzentas do túnel.

- Senhor, por vinte dólares pode comprar uma das minhas visões. Sei que não são grandes visões, mas são as melhores que tenho. Eu, não me vendo. Nem por mil dólares, nem por dez mil. Lamento muito.

Enquanto se afastava ao longo do empedrado da rua, George Faber, o puritano nórdico, teve o mérito de se envergonhar de si mesmo. O rosto ardia-lhe, as palmas das mãos transpiravam. Sentiu um súbito e pouco razoável ressentimento para com Chiara, a banhar-se ao sol em Veneza, a novecentos quilómetros de distância. Enfiou-se num ”bar, encomendou um uísque duplo e começou a ler o dossier do próximo contacto, Theo Respighi.

Era um ítalo-americano, nascido em Nápoles e levado para Nova Iorque quando criança. Actor entre o medíocre e o mau, desempenhara pequenos papéis na televisão e em Hollywood e depois regressara a Itália para desempenhar pequenos papéis em épicos bíblicos e disparates pseudoclássicos. Em Hollywood passara por alguns escândalos menores: guiara embriagado, passara por um par de divórcios e por um breve e turbulento romance com uma estrela em ascensão. Em Roma juntara-se ao grupo dos agitados e barulhentos que viviam de esperança, de ocasionais produções e do patrocínio dado por playboys romanos. Bem vistas as coisas, Faber classificou-o como um vadio que ficaria muito receptivo logo que ouvisse o ranger de uma nota de dólar.

Deparou com Respighi nessa mesma noite, num bar empoleirado na falésia, onde bebia na companhia de três jovens folgazões e de uma francesa já gasta que falava italiano com a pronúncia genovesa. Precisou de uma hora para o arrancar aos companheiros e de uma outra para o pôr sóbrio, com um jantar e muito café forte. Mesmo depois de o conseguir, pouco- mais lhe restava do que um brutamontes musculado que, quando não penteava os longos cabelos louros, estendia as mãos nervosas para a garrafa do brande. Faber abafou a vacilante voz da consciência e apresentou mais uma vez a sua proposta: Mil dólares por uma declaração assinada, sem condições’ nem problemas. Tudo o que é apresentado à Santa Rota Romana é mantido em segredo. Ninguém, e muito menos Calitri, virá jamais a saber do seu testemunho.

- Nos tomates! - exclamou o louro categoricamente. - Não tente enganar-me, Faber. Em Roma não existem segredos, e não me interessa se se trata da Igreja ou da visita. Mais tarde ou mais cedo Calitri acabará por saber. E que será de mim nessa ocasião?

- Estará mil dólares mais rico e ele não lhe poderá tocar.

- Acha que sim? Olhe, meu menino, sabe como são feitos os filmes neste país, O dinheiro vem de todo o lado. A lista dos anjinhos estende-se de Nápoles a Milão e volta. Também aqui há uma lista negra, como em Hollywood. Quando se vai lá parar, está-se morto. Não quero morrer pela porcaria de mil dólares.

- Não ganhou nada que se pareça com mil dólares nos últimos seis meses. Sei, porque verifiquei - disse-lhe Faber.

- E então? É assim que se vive neste negócio-. Passa-se fome durante algum tempo; mas depois come-se, e come-se bem. Se medo falasse em dezenho, talvez ainda pensasse no assunto. Com essa massa si podia voltar para os Estados Unidos e esperar o tempo suficiente por uma nova oportunidade... Ora vamos, menino! Em que é que estás a apostar? Num grande amor ou num saco- de pipocas?

- Dois mil - retorquiu Faber.

- Nada feito.

- É o máximo que posso dar.   Posso conseguir o mesmo pegando- num telefone e avisando o Calitri do que andam a tramar... Olga, dá-me mil e eu não telefonarei.

- Vá para o diabo! - Faber puxou a cadeira para trás e retirou-se. A gargalhada do louro acompanhou-o como uma zombaria até à rua • obscurecida.

- Quanto mais vivo - disse Jean Téíémond, pensativo, mais claramente me apercebo da profunda vaga de pessimismo que invade l tanto do pensamento moderno, incluindo o pensamento de muitos dos da Igreja... Nascimento, crescimento e morte. O padrão cíclico da vida é tão aparente que obscurece o padrão subjacente, o do crescimento constante e -deixe que lho diga francamente- o padrão do progresso humano. Para muita gente, a roda da vida limita-se a girar sobre o próprio eixo, sem parecer dirigir-se para lado nenhum.

- E tu, acreditas que ela avança para qualquer lado?

- Mais do que isso, Santidade. Acredito que tem de ir para qualquer lado.

Tinham despido as sotainas e estavam sentados, descansando à sombra de um pequeno bosque, com um matagal de morangueiros bravos por detrás das costas., virados para as brilhantes e calmas águas do lago Nemi. Jean Télémond, satisfeito, chupava o cachimbo, enquanto Kiril atirava pedrinhas para a água. O ar vibrava com o estridente grito das cigarras, e pequenos lagartos acastanhados banhavam-se ao sol sobre as rochas e sobre os troncos das arvores.

Havia muito que se tinham rendido àquela bucólica tranquilidade e ao conforto da companhia um do outro. De manhã trabalhavam em privado, Kiril à secretária, mantendo-se a par das informações diárias chegadas de Roma, e Télémond no- jardim, pondo’ os papéis em ordem para o vaticínio do Santo Ofício. À tarde davam um passe de carro polo campo, com Jean Télémond ao volante, explorando os vales e as terras altas, bem como as minúsculas aldeias agarradas ao topo das serras havia mais de quinhentos anos. Ao fim da tarde jantavam juntos, depois liam, ou conversavam, ou jogavam às cartas até à hora das completas e da última oração do dia.

Eram bons momentos para ambos. Para Kiril tratava-se de um descanso das fadigas da função e para Télémond era um autêntico regresso do exílio- na companhia de um espírito verdadeiramente compreensivo e benevolente. Não precisava de medir as palavras, não se sentia sujeito a riscos quando expunha os pensamentos mais profundos. Por sua parte, Kiril abria-se sem reservas com o jesuíta e descobria um consolo peculiar naquela partilha do peso que sentia na alma.

Atirou outra pedrinha para a água e ficou a ver as pequenas ondulações a alargarem-se, afastando-se em direcção à margem oposta, até se perderem no tremeluzir da luz. A seguir fez outra pergunta:

- Nunca foste um pessimista, Jean? Nunca te sentiste apanhado por esse infindável girar da roda da vida?

--Às vezes, Santidade. Quando estive na China, por exemplo, muito para o nordeste, no árido vale dos grandes rios. Havia aí mosteiros, lugares enormes que só podiam ter sido construídos por grandes homens. - homens com uma grande visão - num desafio à solidão em que viviam... Pensei que, de uma maneira ou de outra, Deus deveria estar com eles. No entanto, quando entrei e vi os homens que agora lá vivem, apáticos, sem inspiração e por vezes apatetados, senti-me afligido por uma grande melancolia... Quando regressei ao Ocidente, mao-mais e conversei com os meus irmãos cientistas, fiquei espantado com a cegueira com que parecemos provocar a nossa própria destruição. Por vezes parecia-me impossível acreditar que o homem estava na realidade a emergir do lodo para subir em direcção a um destino divino...

Pensativo, Kiril acenou uma confirmação. Pegou num pau e convocou um lagarto adormecido, fazendo-o fugir por entre as folhas.

- tenho essa sensação, Jean. Por vezes tenho-a, mesmo na Igreja. Espero e oro pelo grande movimento, pelo grande homem, que nos desperte de súbito e nos faça reviver...

Jean Télémond não disse nada. Chupou placidamente o fumo do seu cachimbo, esperando que o pontífice terminasse o pensamento.

- Um homem como S. Francisco de Assis, por exemplo. Qual foi o seu significado?... Uma total quebra do padrão da história... Um homem nascido fora do seu tempo. Um súbito e inexplicado renascimento do primitivo espírito da cristandade. O trabalho que iniciou ainda prossegue... mas já não é o mesmo. A revolução terminou. Os revolucionários tornaram-se conformistas. Os irmãozinhos dos pobres agitam as caixas das esmolas na praça, à entrada das estações dos comboios, ou então negoceiam em propriedades em proveito da sua Ordem. - Soltou uma gargalhada baixa. - Claro que não fazem só isso. Ensinam, pregam, fazem o trabalho de Deus o melhor que podem, mas já não se trata de uma revolução e penso que agora precisávamos de uma.

- Talvez... - disse Jean Télémond, com um piscar dos olhos sagazes -... talvez Vossa Santidade seja o revolucionário.

- Já pensei nisso, Jean. Acredita-me, pensei nisso, mas não creio que mesmo tu sejas capaz de compreender como me encontro limitado pela própria maquinaria que herdei e pelas atitudes históricas em que estou encerrado. É-me difícil trabalhar directamente, preciso de encontrar instrumentos adaptados à minha mão. Sou ainda bastante jovem, é verdade, para poder ver grandes mudanças no meu tempo... mas terão de ser os outros a fazê-las por mim. Tu, por exemplo...

- Eu, Santidade? - Télémond virou uma cara espantada para o pontífice. -O meu campo de acção é muito mais limitado do que o Seu.

- Mas será mesmo? - perguntou Kiril, irónico. - Já alguma vez pensaste que a Revolução Russa e o presente poderio da Rússia Soviética foram construídos sobre o trabalho de Karl Marx, que passou uma grande parte da sua vida no Museu Britânico e está agora sepultado em Inglaterra? A coisa mais explosiva do mundo será... uma ideia.

Jean Télémond riu-se e bateu com o cachimbo num tronco de árvore.

- Isso não estará muito dependente do Santo Ofício? Ainda terei de me submeter ao seu exame.

 

Kiril lançou-lhe um longo e ponderado olhar e depois fez nova pergunta:

-Se não o conseguires passar, Jean, que irás fazer? Télémond encolheu os ombros.

- Reexaminar todas as minhas posições, suponho. Espero vir a ter as energias para o poder fazer.

--Porque é que dizes isso?

-Em parte porque tenho medo, e em parte porque... porque não sou um homem saudável. Tive uma vida dura durante demasiado tempo. Disseram-me que o meu coração não está tão bom como deveria.

- Lamento muito ouvir isso, Jean. Deves ter cuidado contigo. Certificar-me-ei de que o fazes.

-Posso fazer uma pergunta, Santidade?

- Claro!

- Honrou-me com a sua amizade. Aos olhos de muitos - mas não para os meus- pode vir a parecer que concedeu o seu patrocínio ao meu trabalho. Que fará se o Santo Ofício concluir que o trabalho não é... aceitável?

Para sua surpresa, Kiril lançou a cabeça para trás e riu-se com vontade:

- Jean, Jean! Falaste como um perfeito jesuíta! Que farei? Serei sempre teu amigo e orarei para que tenhas a saúde e a coragem para prosseguires com os teus estudos.

-E se morrer antes de os terminar?

-Isso preocupa-te?

- Às vezes...   Creia-me, Santidade, seja qual for o resultado, tentei preparar-me para o receber. No entanto, estou convencido de que há uma verdade nas minhas pesquisas... Não a queria ver perdida ou suprimida.

- Não será suprimida, Jean, prometo-te.

- Perdoe-me, Santidade, Falei mais do que devia.

- Porque é que pedes desculpa, Jean? Abriste-me o teu coração. Para um solitário como eu, é um privilégio... Agora, coragem! Quem sabe? Talvez ainda te vejamos transformado num Doutor da Igreja. Agora, se isso não ofender os teus olhos de jesuíta, o papa de Roma vai nadar um bocado:

Quando Kiril despiu a camisa e se preparou para mergulhar, Jean Télémond viu-lhe as marcas do chicote nas costas e envergonhou-se da sua própria cobardia.

Dois dias mais tarde, um correio proveniente de Washington entregava ao pontífice uma carta particular do presidente dos Estados Unidos:

«... Foi com vivo interesse que li a carta de Sua Santidade e as

cópias das duas cartas do primeiro-ministro da URSS, que me foram

entregues por Sua Eminência o Cardeal Carlin. Concordo que deve manter o mais rígido segredo em torno de toda esta situação

»Em primeiro lugar deixe-me afirmar-lhe que estou profundamente grato pelas informações que me deu sobre a sua ligação particular com Kamenev e sobre o seu ponto de vista pessoal a respeito do carácter e intenções desse homem. Fiquei também muito impressionado com a franca discordância do cardeal Carlin. Sei que ele

não falaria com tanta liberdade sem autorização de Vossa Santidade o que me encoraja a ser igualmente franco convosco.

»Tenho de afirmar que me sinto muito duvidoso quanto ao valor de conversações particulares a este nível. Por outro lado, terei muito prazer em prossegui-las enquanto existir a mais pequena esperança de evitar uma crise explosiva, que agora parece inevitável para os próximos seis ou doze meses.

»O problema, tal como o vejo, é simultaneamente simples e complexo. Kamenev exprimiu-o muito bem. Fomos apanhados pela corrente da história. Podemos atravessá-la, mas não podemos mudar o sentido em que ela corre. A única coisa capaz de o conseguir seria uma acção de tal magnitude e tal risco que nenhum de nós se permitiria empreendê-lo.

»Não poderia, por exemplo, comprometer o meu país com um desarmamento unilateral. Não poderia abandonar as nossas exigências de uma reunificação da Alemanha. Gostaria muito de me desembaraçar de Quemoy e Matsu, mas não as posso abandonar sem uma séria perda de face e de influência no Sudeste da Ásia. Compreendo que Kamenev tenha medo dos Chineses, mas que ao mesmo tempo não possa abandonar uma aliança-mesmo tão preocupante e perigosa como essa - que lhe garante um sólido bloco comunista desde a Alemanha Oriental até às ilhas Curilas.

»O máximo que podemos esperar é a manutenção de uma situação elástica que nos dê espaço para a negociação e para a evolução histórica. Devemos evitar a todo o custo um choque frontal, que causará inevitavelmente uma cataclísmica guerra atómica.

»Se uma correspondência secreta com Kamenev ajudar a conseguir esse fim, então estou pronto para correr o risco e muito feliz por aceitar Vossa Santidade como intermediário. Pode comunicar meus pensamentos a Kamenev e transmitir-lhe o conteúdo desta carta. Kamenev sabe bem que não posso agir sozinho, tal como ele não pode. Vivemos ambos sob a sombra do mesmo perigo.

»Não pertenço à fé de Vossa Santidade, mas encomendo-me às suas orações e às de toda a cristandade. Carregamos o destino do mundo sobre os nossos ombros, e se Deus não nos auxiliar, então acabaremos por ceder sob esse peso...»

Quando terminou a leitura da carta, Kiril soltou um suspiro de alívio. Não era mais do que aquilo que esperara... mas também não era menos. As nuvens de tempestade ainda se amontoavam sobre o mundo, maciças e ameaçadoras, mas existia entre elas uma pequena abertura por onde se começava a adivinhar a luz do Sol. O problema agora estava em alargar essa abertura. Perguntava a si próprio qual seria a melhor maneira de cooperar para o conseguir.

De uma coisa estava certo: para o Vaticano seria um erro assumir a atitude de un negociador, propondo bases para um acordo. Também a Igreja carregava o peso da história sobre os ombros. Politicamente era suspeita, mas era essa própria suspeição que lhe apontava o caminho... afirmar não os métodos, mas sim os princípios de uma sociedade humana capaz da sobrevivência, capaz de se ordenar a si mesma segundo os termos de um plano divino. A Igreja fora encarregue de servir de professora e não para fazer tratados. A sua tarefa não era a de governar os homens na ordem material, mas treiná-los para se governarem a si próprios de acordo com os princípios da lei natural. A Igreja tinha de aceitar o facto de que o produto final - se na verdade fosse possível falar, sem cinismo, de uma final fosse sempre uma aproximação, um estágio do crescimento evolutivo.

Foi este pensamento que o levou de regresso ao jardim de Castel Gandolfo, onde Jean Télémond, estudioso e absorvido, anotava os seus documentos sob a sombra de um velho carvalho.

- Aqui estás tu, meu Jean, escrevendo as tuas visões de um mundo a aperfeiçoar-se, enquanto eu pareço um telefonista a fazer ligações entre dois homens, cada um deles capaz de nos desmanchar em mil bocadinhos carregando apenas num botão... Aqui tens um dilema para resolveres. A tua ciência diz como o solucionar? Que farias, se estivesses no meu lugar?

- Rezava - respondeu Jean Télémond, com um sorriso travesso.

- É o que faço, Jean. Todos os dias... e na verdade durante todo o dia. Mas as orações não são suficientes, tenho também de agir. Tiveste de ser um explorador antes de poderes descansar neste lugar. Agora, diz-me, como devo actuar?

-Nesta situação creio que não deve actuar. Será melhor ficar quieto e aguardar o momento apropriado.

- Pensas que é o suficiente?

- Vendo as coisas sob um ponto de vista amplo... não. Penso que a Igreja perdeu a iniciativa que deveria ter no mundo de hoje.

- Também penso assim e gostaria de acreditar que durante o meu pontificado conseguiremos recuperar um pouco dessa iniciativa; mas não sei como fazer. Tens alguma ideia?

- Algumas-disse Jean Télémond, com vivacidade.-Fui um viajante durante toda a vida. Uma das primeiras coisas que um viajante deve fazer é acomodar-se ao lugar e ao1 tempo em que vive. Tem de comer comidas estranhas, servir-se de moedas pouco familiares, aprender a não corar entre gente sem pudores, procurar o que houver de bom nas mais grosseiras e primitivas sociedades. Todo o indivíduo, todas as organizações, têm de manter uma conversação com o resto do mundo: Não podem falar sempre em negativas e contradições,

- Achas que foi o que fizemos?

- Nem sempre, Santidade... mas fizemo-lo com demasiada frequência nos últimos tempos. Vivemos só para nós e virados apenas para nós próprios. Quando digo vivemos, refiro-me a toda a Igreja, tanto pastores como fiéis. Escondemos a lâmpada da crença por debaixo de uma cobertura, em vez de a levantarmos para iluminar o mundo.

- Continua, Jean. Diz-me como a levantarias.

- Este é um mundo plural, Santidade. Podemos desejar que haja uma única fé, esperança e caridade, mas não é assim. Há muitas esperanças e estranhas variedades de amor. Mas é este o mundo em que vivemos. Se desejamos participar no drama da acção de Deus junto do mundo, então> temos de começar com as palavras que todos compreendemos. Justiça, por exemplo. É uma das que compreendemos. Mas quando os negros da América procuram a justiça e a cidadania total, somos nós que os lideramos? Ou somos nós que mais fortemente apoiamos as suas legítimas exigências? Sabe bem que não. Na Austrália há uma proibição de entrada de imigrantes de cor. São muitos os australianos que pensam que se trata de uma afronta à dignidade humana. Apoiamos esses protestos? Os registos dizem-nos que não. Em princípios, sim, mas em actos concretos... não. Proclamámos que os trabalhadores braçais chineses tinham o direito - trabalho e à subsistência, mas não fomos nós que os dirigimos por esse caminho. Foi o homem que levou a cabo a Longa Marcha. e «agora pomos objecções ao preço que têm de pagar pela malga de , temos de concordar que a responsabilidade é tanto deles... nossa... Se queremos entrar mais uma vez no diálogo humano, temos de procurar os possíveis campos de entendimento comum como suponho que Vossa Santidade está a fazer em relação a ticv -, o campo da irmandade humana e das legítimas espesas de toda a humanidade... Tenho pensado frequentemente naquilo V.vang dho em que Cristo levantou a moeda do tributo e proclamou: «Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.» Mas a que César? Vossa Santidade alguma vez pensou nisso? A um assassino, a um adúltero, a um pederasta... Mas Cristo não proibiu o diálogo da Igreja com um tal homem, pelo contrário, considerou-o como um dever...

--Mas o que me estás a mostrar, Jean, não é incumbência para um só homem. É uma incumbência para toda a Igreja... Papa, pastores e quinhentos milhões de fiéis.

- É verdade, Santidade... mas que aconteceu? Os fiéis não se comprometem porque lhes falta esclarecimento e uma liderança corajosa. Compreendem os riscos melhor do que nós... porque estamos protegidos pela organização. Têm apenas a capa de Deus para os proteger. Enfrentam diariamente todos os dilemas humanos... nascimento, paixão, morte e acto de amor... Mas se não ouvem as trombetas, se não vêem a cruz dos cruzados erguida ao alto... - Encolheu os ombros e calou-se. - Perdoe-me, Vossa Santidade, estou a ser demasiado tagarela, creio.

- Pelo contrário, Jean. Estou a achar-te muito útil e sinto-me satisfeito por estares aqui.

Nesse momento aproximou-se um criado com café e água gelada, e uma carta que fora recebida naquele momento no portão. Kiril abriu-a e leu a mensagem, breve e nada cerimoniosa:

«Sou um homem que cultiva girassóis. Gostaria de poder visitá-lo amanhã, às dez e trinta da manhã.»

Estava assinada: «Georg Wilhelm Forster.»

O homem provou ser uma surpresa em mais de um aspecto. Tinha o aspecto de um bávaro vestido de modo incongruente por um alfaiate italiano. Usava grossas botas alemãs e espessos óculos, mas o fato, camisa e gravata eram de Brioni, e na mão pequena e rechonchuda ostentava um anel com uma pedra facetada quase tão grande como uma noz. Tinha maneiras deferentes, mas vagamente irónicas, como se se risse de si mesmo e de tudo o que representava. Apesar do nome alemão, falava russo com um forte sotaque da Georgia.

Quando Kiril o recebeu no gabinete, pousou um joelho no> chão e beijou o anel papal. A seguir sentou-se, muito direito, balançando o chapéu panamá sobre os joelhos e tomando um ar muito parecido com o de um jovem funcionário a ser entrevistado para conseguir um emprego. As palavras de abertura também constituíram uma surpresa,

- Segundo sei, Vossa Santidade recebeu uma carta de Robert.

Kiril levantou os olhos com prontidão, apercebendo-se de uma sugestão de sorriso nos lábios gorduchos.

- Não há nisso qualquer mistério, Vossa Santidade. Trata-se de uma questão de cálculo de tempos, uma coisa muito importante do meu trabalho. Sabia quando a carta de Kamenev chegaria ao Vau cano. Soube quando o cardeal Carlin regressou a Nova Iorque. Tomei conhecimento da data e da hora da sua entrevista com Robert. À partir desse momento foi fácil deduzir que a carta de Robert vos iria encontrar em Castel Gandolfo.

Foi a vez de Kiril sorrir. Acenou uma aprovação e perguntou-lhe:

- Vive em Roma? - Tenho aqui alojamentos, mas como deve calcular, viajo muito

O negócio das sementes de girassol é muito vasto...

- Calculo que sim.

- Posso ver a carta de Robert?

- Claro.

Kiril passou-lhe o papel por cima da secretária. Forster leu-o cui dadosamente durante algum tempo e devolveu-o.

- Pode ficar com uma cópia, se quiser- disse Kiril. -Como vê o presidente deseja que Kamenev veja a carta.

-Não será precisa uma cópia. Tenho uma memória fotográfica... que me tem valido muito dinheiro. Verei Kamenev dentro de uma semana e transmitir-lhe-ei uma perfeita transcrição da carta e da nossa conversa. .

-Tem poderes para falar por Kamenev?

- Sim, até certo ponto. Para espanto de Kiril, recitou ver batim, uma passagem da segunda

carta de Kamenev:

- [...] de tempos a tempos receberá um pedido de audiência particular de um homem chamado Georg Wilhelm Forster. Poderá falar-lhe com toda a liberdade, mas não lhe entregue nada por escrito, Se conseguir falar com o presidente dos Estados Unidos, deve referi-lo por «Robert. estúpido, não é? Para discutirmos a sobrevivência da raça humana temos de recorrer a truques tão infantis.

Kiril soltou uma gargalhada.

- Uma demonstração impressionante. Mas diga-me, se sabe de quem estamos a falar, por que é que temos de tratar o presidente por Robert?

Georg Wilhelm Forster ficou muito satisfeito por se poder explicar:

- Podemos chamar-lhe um truque demóníaco. Nenhum homem pode evitar falar durante o sono, ou evitar escorregadelas verbais »imcluindo sob interrogatório... Portanto, treinamo-nos neste tipo de refúgio. Funciona, até agora nunca fui apanhado.

- espero que desta vez também não seja.

- também espero, Santidade. Esta troca de cartas pode vir a ter profundas consequências.

-Gostaria de poder adivinhar quais.

- Robert já as salientou na sua carta. - Recitou mais uma vez: [...] uma acção de tal magnitude e de tal risco que nenhum de nós se permitiria empreendê-la.

- As posições contradizem-se - declarou Kiril, com suavidade. -Tanto Kamenev como o presidente -perdão, como Robert apontam para a necessidade de uma tal acção, mas ao mesmo tempo ambos dizem que não são a pessoa indicada para a iniciar.

- Talvez andem à procura de um terceiro homem, Santidade?

- Quem?

- O senhor.

- Se pudesse prometer-lhe isso, meu amigo, acredito que me consideraria o homem mais feliz deste mundo. Mas como o nosso compatriota Estaline perguntou uma vez: «Quantas divisões tem o papa?»

- Não se trata de uma questão de divisões, Santidade, e o senhor sabe-o. No fundo é uma questão de influência e de autoridade moral. Kamenev pensa que o senhor tem, ou virá a ter, uma tal autoridade. .. - Sorriu-se   e  acrescentou   um   pensamento pessoal. - Do pouco que já soube, diria que Vossa Santidade possui, no mundo, uma estatura muito maior do que imagina.

Kiril analisou aquela ideia durante alguns instantes e depois decidiu-se por uma declaração firme:

- Compreenda uma coisa, meu amigo. Transmita-a com clareza a Kamenev, tal como eu já a transmiti para o outro lado do Atlântico. Sei como são pequenas as esperanças de paz. Estou pronto para fazer tudo o que seja moralmente correcto e humanamente possível para a preservar, mas não permitirei que eu, ou a Igreja, seja utilizado para vantagem de qualquer dos lados. Percebeu isto?

- Sem dúvida. Só estava à espera que Vossa Santidade o dissesse!. Agora, posso fazer uma pergunta?

- Faça favor.

- Se isso fosse possível e parecesse desejável, estaria Vossa Santidade disposto a deslocar-se a outro local que não Roma? Estaria preparado para se servir de um outro canal de comunicações que não o da Rádio Vaticano e o da imprensa do Vaticano, ou os púlpitos das igrejas católicas?

- Que lugar?

- Não me cabe a mim sugeri-lo. Levantei a questão num sentido amplo.

- Então responderei também num sentido amplo. Se puder falar livremente e for citado com honestidade, irei a qualquer lado e farei aquilo o que for possível para que o mundo respire em liberdade. dentro de pouco tempo.

- Comunicarei essa resposta, Santidade, e fá-lo-ei com toda a satisfação. Agora, uma questão prática. Suponho saber que o vosso mestre-camareiro possui uma lista de todos os que podem ser admitidos sem demora para uma audiência com Vossa Santidade. Gostaria de que o meu nome fosse acrescentado à lista.

- Já lá se encontra. Será bem-vindo a qualquer hora. Agora, eu tenho uma mensagem para Kamenev. Em primeiro lugar, diga-lhe que não estou a querer negociar, nem a implorar, nem a impor quaisquer condições para uma livre transmissão de conversações por meu intermédio. Sou um realista. Sei até que ponto- se vê limitado por aquilo em que acredita e pelo sistema a que está sujeito, tal como estou sujeito ao meu. Depois de lhe dizer isso, diga-lhe da minha parte que o meu povo sofre na Hungria, na Polónia, na Alemanha Oriental e no Báltico. O que quer que possa fazer para lhe diminuir o sofrimento -por pouco que seja- considerarei como algo feito a mim mesmo e recordá-lo-ei com gratidão, e nas minhas orações.

- Dir-lho-ei - concordou Georg Wilhelm Forster. - Vossa Santidade permite que me retire?

- Vá com Deus-respondeu Kiril, o pontífice. Acompanhou o homem pequenino e estranho até ao portão do jardim e viu-o afastar-se de carro em direcção ao brilhante e hostil mundo que se encontrava para lá dos muros.

A princesa Maria-Rita era um velho e corajoso general que planeara a campanha do sobrinho com mais cuidados do que lhe era habitual. Em primeiro lugar, colocara-o a bem com a Igreja, sem a qual nunca poderia chegar ao poder nem começar a governar com tranquilidade. A seguir, isolara Chiara, durante um mês, do seu amante americano. Instalara-a num ambiente alegre, rodeada por jovens, entre os quais pelo menos um poderia ser suficientemente ardoroso para a seduzir, levando-a a uma nova ligação amorosa. Agora estava pronta para a jogada seguinte.

Acompanhada por Perosi e com a carta de Calitri na mala de fio, dirigiu-se a Veneza, arrancou Chiara da praia e levou-a apressadamente consigo para um almoço num tranquilo restaurante de Murano. A seguir acrescentou à carta de Calitri um brusco comentário pessoal:

- ... Como vês, minha filha, de repente as coisas tornam-se todas muito simples. Corrado resolveu ganhar juízo. Pôs a sua consciência en ordem e dentro de um par de meses estarás livre.

 

Chiara estava ainda chocada e deliciada com aquelas novidades. Sentia-se capaz de confiar em todo o mundo.

-Não compreendo. Porquê? Que o levou a fazê-lo?

A velha senhora pôs a pergunta de parte com um gesto da mão.

- Está a crescer. Havia muito que se sentia magoado e amargo. Agora está mais animado... Quanto ao resto, não tens de te preocupar.

-’’E se muda outra vez de opinião?

- Não mudará, descansa. Prometo-te. As novas declarações já se encontram aqui nas mãos de Perosi. Os documentos finais estarão prontos para apresentação à Rota logo depois das férias. A seguir trata-se apenas de uma formalidade... Como poderás ver pela carta que te enviou, Corrado está disposto a ser generoso. Quer pagar-te uma larga soma como compensação... partindo do princípio, claro, de que não apresentarás mais reivindicações contra ele.

- Não quero reivindicar nada. Tudo o que quero é ser livre.

-Eu sei, eu sei. És uma rapariga sensata. No entanto, há mais uns pequenos pormenores. Perosi vai explicar-te...

Foi tudo feito com tanta limpeza que Chiara ficou totalmente desarmada. Limitou-se a deixar-se ficar sentada, olhando de um para o outro, enquanto Perosi se explicava com suave formalidade:

-Compreende, signora, que o seu marido é uma figura pública. Creio que concordará comigo que depois de uma oferta tão generosa seria muito injusto expô-lo a comentários e à notoriedade.

-Claro. Também não o farei.

- Belo. Então entendemo-nos perfeitamente. Logo que o assunto esteja resolvido, deixá-lo-emos em sossego. Nada de publicidade. Nem uma palavra nos jornais, nenhuma acção apressada da sua parte.

- Que espécie de acção? Não compreendo.

- Ele quer dizer casamento, minha filha - disse a princesa Maria-Rita, com delicadeza. - Seria muito indesejável tanto para ti como para o Corrado se te decidisses por uma união apressada logo após o decreto de nulidade.

-Sim, percebo.

- O que nos leva ao ponto seguinte - continuou Perosi, com elaborada cautela. - A sua presente associação com um correspondente americano. Chama-se, creio, George Faber.

Chiara corou e manifestou uma súbita ira.

-Isso só a mim diz respeito, e a mais ninguém.

- Pelo contrário, minha querida senhora. Espero conseguir convencê-la de que diz respeito a toda a gente. Por exemplo, a compensação não seria paga se se viesse a casar com o Faber, ou com qualquer outra pessoa, dentro dos próximos seis meses.

- Então não quero a compensação.

- Se fosse a ti, minha filha, não me precipitaria tanto. É muito dinheiro. Além disso... - a princesa estendeu uma garra ossuda e aprisionou a mão de Chiara-... além disso, não vais querer cometer um novo erro, não gostaria nada de te ver magoada outra vez. Não te apresses, minha filha. Diverte-te, ainda és jovem. O mundo está cheio de homens atraentes. Aproveita enquanto podes, não te comprometas enquanto não olhares três vezes para o que o mercado do casamento te pode oferecer. Além disso, há outra coisa... Mesmo que venhas a querer casar com o Faber, podem surgir certas dificuldades...

-Que espécie de dificuldades?

Estava agora assustada e podiam ver-lhe o medo nos olhos. Perosi aproveitou-se com astúcia daquela vantagem.

-Vocês são ambos católicos, pelo que é natural, presumo, que queiram casar pela Igreja. -Claro, mas...

- Nesse caso entrarão- logo em conflito com a lei canónica. Andam, se me permite que o diga com franqueza, a viver em pecado. É uma questão delicada saber se, em termos de lei canónica, a vossa posição constitui «concubinato público e notório». O meu ponto de vista é o de que assim é. Nesse caso aplica-se um princípio: o de que uma pessoa culpada não será autorizada a gozar os frutos da culpa. Nas leis canónicas chama-se a isso crimen, e é suficiente para impedir o casamento. Seria necessário dirigirem-se à Igreja para requererem uma dispensa. Sou forçado a dizer-lhe que não há a certeza de que a obtenham...

A velha princesa acrescentou um comentário final:

- Não queres este tipo de complicações, pois não? Mereces melhor sorte. Uma confusão deste tipo é suficiente na vida de qualquer pessoa... Estás a ver, não estás?

Estava a ver tudo com muita clareza.Via que a tinham feito cair numa armadilha, onde se encontrava como que cercada e de onde não a deixariam sair sem luta. Via também outra coisa. Algo que simultaneamente a envergonhava e excitava... mas que desejava assim. Queria ver-se livre de uma ligação já sem interesse para ela. Queria estar livre para andar de mãos dadas e jogar os jogos de amor com o jovem Pietro Antonelli, enquanto a Lua brilhava e os mandolins tocavam música suave a bordo de uma gôndola, no Grande Canal.

No dia a seguir ao seu encontro com Theo Respighi, George Faber conduziu de regresso a Nápoles. O seu amor próprio ficara muito diminuído... por um homem com honra a mais e por outro que tinha muito pouca. Sentia-se abalado e sórdido. Mal conseguia suportar ;i sua própria imagem no espelho de barbear. Ainda lá se encontrava a imagem do grande correspondente, mas por detrás dela de um homem vazio que nem sequer dispunha de coragem i de ousadia.

Desesperava por se sentir tranquilizado e pelo esquecimemto que o amor provoca. Tentou telefonar para Chiara, em Veneza, nunca a encontrava em casa e quando verificou que a jovem não devolvia as chamadas ficou cheio de uma ira amarga. A sua irritação amotinou-se quando a imaginou descuidada e namoriscando, enquanto ele, por sua causa, fazia aquela enfadonha e desconfortável viagem ao vazio interior de si mesmo.

Tinha de procurar mais uma pessoa, Alicia de Nogara, uma tutora de schia, mas precisava de se recompor antes de a enfrentar. Passou um dia em Nápoles, à caça de exemplares dos seus livros, acabou por descobrir um delgado e dispendioso volume de A Ilha Secreta. Sentou-se nos jardins tentando lê-lo, mas depois desistiu desencorajado pela prosa florida e pelas pudicas referências a amores perversos entre as criadas. No fim, limitou-se a dar-lhe uma vista de olhos para obter as informações suficientes para um bocado de conversa e deu-o a um garoto esfarrapado que o empenharia pelo preço de uma bolacha.

Regressou ao hotel e fez uma chamada para Ruth Lewin. A criada disse-lhe que ela estava de férias e que não regressaria antes de vários dias. Desistiu, aborrecido, mas depois passou por uma reacção súbita e decidiu divertir-se um pouco. Se a Chiara o podia fazer, então também tinha esse direito. Partiu para uma excursão de solteiro, de três dias, a Capri. Nadou durante o dia, namoriscou à noite, bebeu o dobro do que necessitava e terminou com uma noite fracassada, na cama com uma viúva alemã. Mais do que nunca desgostoso consigo mesmo, na manhã seguinte fez as malas e partiu para Ischia.

A vila de Alicia de Nogara era uma desconexa estrutura pseudomourisca erguida na vertente oriental do Epomeo, com uma vista espectacular sobre terraços de vinhas e águas azuis. Abriu-lhe a porta uma rapariga pálida e de peito chato, vestida com uma camisa cigana e umas calças de seda. Conduziu-o até ao jardim onde a grande escritora trabalhava, por debaixo de um caramanchão de videiras. Sofreu um choque quando a viu pela primeira vez. Estava vestida como uma sibila, envolta em tecidos flutuantes e finos, mas o rosto era o de uma mulher gasta de olhos azuis brilhantes de humor. Escrevia com uma pena de pato num papel espesso e dispendioso. Quando se aproximou, a mulher levantou-se e estendeu-lhe a mão delgada e fria, para que a beijasse.

Era tudo tão estilizado e com características tão teatrais que Faber quase soltou uma gargalhada, mas quando olhou de novo para aqueles olhos brilhantes e inteligentes, reconsiderou. Apresentou-se com toda a formalidade, sentou-se na cadeira que lhe ofereceram e tentou pôr os pensamentos em ordem. A rapariga pálida pairava, protectora, ao lado da patroa.

Faber começou, desajeitado:

- Vim vê-la por causa de um assunto muito delicado.

Alicia de Nogara fez um gesto imperioso com a mão.

- Vai-te embora, Paula. Podes trazer-nos café dentro de meia hora.

A jovem pálida afastou-se desconsolada, e a sibila começou a interrogar o visitante:

- Está muito preocupado, não está? Sinto-o. Sou muito sensível às emanações. Primeiro, acalmè-se. Olhe para a paisagem e para o mar. Olhe para mim, se quiser. Sou muito calma porque aprendi a flutuar com o ar, à medida que este se move. Era assim que devíamos viver e era também assim que devíamos amar. Flutuando no ar, para onde quer que ele soprasse. Já se apaixonou, não é verdade?... Diria que muitas vezes, mas nem sempre com felicidade.

- Estou apaixonado agora - disse George Faber. - É por isso que a vim visitar.

-Ora aí está uma coisa estranha! Ainda ontem disse à Paula que apesar dos meus livros não serem muito lidos, ainda conseguem atingir os corações compreensivos. Creio que tem um coração compreensivo, não tem?

- Espero que sim. Sim. Suponho que conhece um homem chamado Corrado Calitri.

-Corrado? Oh, sim, conheço-o muito bem. Um rapaz brilhante. Receio que um pouco pervertido, mas brilhante. As pessoas dizem que também eu sou pervertido. Leu os meus livros, presumo. Acha que o sou?

- Estou certo de que não - disse George Faber.

- Pronto, aí está. Tem um coração compreensivo. A perversão , é uma coisa diferente. A perversão é um impulso para destruirmos ; as coisas que amamos. Eu quero preservar, quero acalentar. É por isso que o Corrado está perdido. Nunca conseguirá ser feliz, disse-lho muitas vezes... Antes de se casar, antes de o casamento falhar...

- Era desse assunto que queria falar consigo, do casamento de Culitri.

- Claro, já sabia. Era o que as emanações me diziam. Está apaixonado pela mulher dele.

- Como é que sabe?

- Sou uma mulher, mas de modo nenhum uma mulher vulgar. Sou «Afifa, dizem, mas prefiro dizer que sou a mulher total, a guardiã dos profundos mistérios do nosso sexo... Portanto, está apaixonado pela mulher do Corrado?

 

- Quero casar com ela.

A sibila inclinou-se para a frente, apoiando o pequeno rosto nas mãos e fixando-o com aqueles olhos azuis muito brilhantes.

-Casamento. Em geral é um erro terrível. O ar, recorda-se? Devemos ser livres, flutuar, subir e descer, sermos agarrados ou libertados. É estranho que os homens nunca compreendam estas coisas. Casei-me uma vez, há muito, muito tempo. Foi um grande erro. Por vezes penso que os homens nasceram deficientes. Falta-lhes intuição. Nasceram para serem escravos dos seus próprios apetites!

- Receio bem que sim - concordou George Faber, com um sorriso. - Posso explicar-lhe o que pretendo?

- Sim, por favor, faça-o!

-quero provas para entregar à Santa Rota Romana. Para que Chiara fique livre, temos de provar que Corrado Calitri se casou com falsas intenções. Temos de provar que exprimiu essas mesmas intenções a uma terceira pessoa antes de o casamento ter lugar. - Meteu a mão no bolso e tirou de lá uma declaração escrita à máquina, que preparara naquela manhã. - Isto é mais ou menos o que queremos. Seria capaz de a assinar?

Alicia de Nogara pegou no papel com dedos fastidiosos, leu-o e pousou-o na mesa.

-Que rude! Que rudeza, por parte da Igreja, exigir esta espécie de indignidade! Mais uma vez a liberdade, como vê! Se as pessoas se apaixonam, deixemo-las livres para começarem tudo de novo. A Igreja tenta encerrar a alma numa garrafa, como se fosse um feto preservado em formol... Que vulgar e que medieval... Diga-me, Corrado sabe que veio ter comigo?

-Não, não sabe. Por razões que não consigo compreender, quer manter-se preso a Chiara... Não para viver com ela, claro, mas para a ter como quem tem um bocado de terra ou um apartamento.

-Eu sei, eu sei. Disse-lhe que ele era perverso, não disse? Percebe-se por coisas dessas. Gosta de atormentar as pessoas. Tentou atormentar-me, apesar de eu não querer nada dele. Tudo o que pretendia era ensiná-lo a receber e a retribuir o amor. Pensei ter conseguido, parecia muito feliz comigo. Depois afastou-se, de volta aos seus rapazes, de volta ao seu joguinho de promessas e recusas. Pergunto a mim mesma se será agora tão feliz quanto foi comigo...

- Duvido.

-Quer magoá-lo?

- Não. Só quero que Chiara fique livre e que eu tenha a possibilidade de a fazer feliz.

- Mas se eu assinar isto, será magoado, não é assim?

-Sim, mas provavelmente apenas no orgulho. -belo! precisamente aí que precisa de ser magoado. Quando amamos, temos de ser humildes. Quando nos entregamos ao ar, temos de ser humildes. Faber, o senhor é humilde?

- Suponho que tenho de o ser - respondeu Faber, pesaroso. - Já não me resta muito orgulho. Está preparada para assinar esse documento? Não o queria dizer, mas estou pronto para pagar...

-Pagar?!- A mulher mostrou-se dramaticamente insultada.

- Meu caro senhor, está desesperado, não está? No amor nunca devemos pagar. Temos de dar, dar, dar! Livremente e do fundo do coração. Diga-me uma coisa: acha que era capaz de me amar?

Faber foi obrigado a engolir em seco para aceitar a ideia, mas conseguiu-o. Contorceu a boca no que esperava que fosse um sorriso, e respondeu, de modo elaborado:

- Seria uma sorte para mim se pudesse, mas receio bem não a merecer.

A mulher estendeu o braço e tocou-lhe na face com a mão fria e seca.

- Pronto, pronto, não vou tentar seduzi-lo, apesar de pensar que seria capaz de o fazer com muita facilidade. Não tenho a certeza de dever permitir que deite fora a sua vida por causa de um casamento, mas suponho que terá de aprender à sua própria custa... Muito bem, vou assinar.

Pegou na pena de pato e assinou o documento com um floreado.

- Aí tem, já está. Era tudo? - Creio que deveríamos ter uma testemunha.

- Paula! . A rapariga pálida apareceu a correr logo que ouviu o grito. Colocou a sua assinatura no fundo do papel e George Faber dobrou-o e meteu-o no bolso. A coisa estava feita. Sujara-se ao fazê-lo, mas, estava feita. Deixou que o guiassem através do ritual do café e de uma conversação que nunca mais acabava. Fez o possível para ser gentil com as duas mulheres. Riu-se ante as patéticas piadas e dobrou-se, como um cortesão, sobre a mão da sibila, para se despedir.

Quando um táxi o levou de volta ao porto cheio de gente, quando se inclinou sobre a amurada do vapor que o transportou de regresso a Nápoles, sentiu o documento a estalar e a queimar de encontro ao peito. Finita la commèdia A miserável farsa terminara e podia começar de novo a ser um homem.

Quando chegou a Roma, encontrou a carta de Chiara a dizer-lhe que o narido concordara em colaborar com a petição de nulidade e que se apaixonara por outro homem. Finita la commedia. Rasgou o documento em mil bocadinhos & depois tratou, de um modo selvagem e sistemático, de se embebedar.

 

EXTRACTOS DAS MEMÓRIAS SECRETAS DE KIRIL PONT. MAX.

Passei umas férias maravilhosas, as primeiras em mais de vinte anos. Sinto-me descansado e renovado. Sinto-me reconfortado por uma amizade que aumenta de profundidade e calor de dia para dia. Nunca tive um irmão e a minha única irmã morreu ainda criança. Assim, os sentimentos fraternos para com Jean Télémond tornam-se ainda mais preciosos. As nossas vidas estão cheias de contrastes. Sento-me no topo da Igreja e ele jaz sob a rígida obediência da sua Ordem. Passei dezassete anos na prisão, enquanto Jean vagabundeou durante vinte anos por todos os mais distantes cantos da Terra. No entanto, compreendemo-nos perfeitamente. Comunicamos de uma maneira rápida e intuitiva. Somos ambos presa desta resplandecente esperança de unidade e de crescimento comum em direcção a Deus, o Princípio, o Centro e o Fim...

Nestes últimos dias falámos muito dos grãos de verdade que sublinham mesmo os erros, mais divergentes. Para o Islão só existe um Deus único, o que já é um salto em frente do paganismo para a ideia de um único Criador espiritual. É o princípio- de um universo centrado em Deus. O budismo degenerou numa série de fórmulas estéreis, mas o código budista, não obstante fazer poucas exigências morais, leva à cooperação, à não violência, e a uma relação cortês entre muitos povos. O comunismo proibiu um Deus pessoal, mas nas suas teses está implícita a ideia da irmandade dos homens...

O meu predecessor imediato encorajou o crescimento do espírito ecuménico na cristandade, a exploração e a confirmação’ de campos comuns na crença e na acção. Jean Télémond e eu falámos muito a respeito da possibilidade de a ideia cristã começar a difundir-se nas grandes religiões não cristãs. Ser-nos-á possível, por exemplo, conseguir uma qualquer penetração no Islão, que se espalha tão depressa pelas novas nações de África e pela Indonésia? Talvez seja apenas um sonho, mas pode também ser uma oportunidade para outra experiência ousada, como aquela dos Padres Brancos.

O grande gesto! A acção que modifica o curso da história! Pergunto a mim próprio se alguma vez terei a oportunidade de o fazer... com Gregório Grande, ou um Pio V. Quem sabe? é uma questão de circunstâncias históricas e da prontidão de um homem em colaborar com Deus e com O momento...

Desde a visita de George que tenho andado a tentar ver-me na visão mental de Kamenov do presidente dos Estados Unidos. Creio ser verdade que todos os homens que atingem posições de autoridade tomam certas atitudes comuns. Nem sempre são as atitudes correctas, mas pelo menos fornecem-nos uma base de compreensão. O homem que está no poder começa por ter uma visão mais ampla. Se não foi corrompido, as suas paixões particulares tenderam a diminuir com a idade e com a responsabilidade. Procura, se não de permanência, pelo menos um pacífico desenvolvimento do sistema que ajudou a criar. Por outro lado, é vulnerável às tentações de orgulho, mas não pode deixar de se sentir humilde ante a magnitude e a complexidade dos problemas humanos... Compreende o significado da contingência e da dependência mútua...

Penso que foi um bem que o papado tenha perdido lentamente o seu poder temporal. Dá à Igreja a oportunidade de falar com mais liberdade e deixa-a mais livre do que em outras épocas da suspeita de estar a defender interesses materiais. Tenho de continuar a construir essa autoridade moral, que tem as suas analogias na influência política de pequenas nações como a Suécia, ou a Suíça, ou até Israel. Dei instruções à Secretaria de Estado para encorajar a visita ao Vaticano de representantes de todas as nações e fés. No mínimo, constituem uma útil cortesia diplomática, no máximo, poderão vir a ser o começo de uma frutuosa amizade e compreensão...

Esta semana tive o cardeal Rinaldi a acompanhar-me ao almoço. Gosto deste homem. Falei com ele acerca da possível reforma da Santa Rota Romana, e forneceu-me valiosas informações a respeito dos seus métodos e personalidades. Com Os seus modos tranquilos, também me ministrou uma repreensão. Disse-me que o cardeal Leone sentia que eu não depunha suficiente confiança nele. Salientou o facto de, apesar de todo o seu vigor, se tratar de um homem idoso, merecedor da consideração da Igreja, e que eu talvez devesse conceder-lhe um qualquer sinal de favor e reconhecimento. É-me difícil gostar de L. cone, acho-o demasiado romano, mas concordo com Rinaldi. Escrevi uma carta a Leone, agradecendo-lhe todo o seu trabalho e pedindo-lhe para me fazer uma visita logo que eu regressasse a Roma.   Pedi-lhe também que me aconselhasse, em privado, sobre a questão de um novo cardeal para tomar o lugar do inglês, que morreu há dois dias. Brandon foi um dos que votou em mim no conclave, as nossas relações foram sempre muito distantes. No entanto era um homem apostólico, e lamenta sempre muito a partida de um dos que trabalham nas nossas vinhas... Ontem de manhã celebrei missa especial pelo repouso da sua alma...

As notícias vindas da Hungria e da Polónia, são más. As novas leis dos impostos já obrigaram ao encerramento de várias outras escolas e seminários. Potocki continua doente, em Varsóvia. As informações de que disponho dizem-me que recuperará, mas a doença é séria e teremos de pensar na nomeação de um novo homem, para o ajudar e para mais tarde ocupar as suas funções de primaz da Polónia. Potocki é um homem de grande génio político e profunda vida espiritual. Não encontraremos com facilidade quem o iguale...

O primeiro volume de Jean Télémond, O Progresso do Homem, está agora pronto para publicação. Esta é a parte crucial do seu trabalho, de que depende todo o resto. Está ansioso por vê-lo examinado pelo Santo Ofício o mais depressa possível. Na verdade, e por causa dele, também sofro da mesma ansiedade. Pedi ao cardeal Leone que nomeie comissários para o examinarem e para me informarem dos resultados o mais rápido que conseguirem. Sugeri que esses comissários não fossem os mesmos que fizeram o primeiro exame, Teríamos assim dois conjuntos de opiniões e não se levantará a hipótese de que o resultado do exame de obras mais antigas é menos completas influencie o actual. Fico contente por poder dizer que Jean está muito calmo. Aparentemente está bom de saúde, mas reparei que se cansa com facilidade e que por vezes fica sem fôlego depois de um pequeno esforço. Ordenei-lhe que se submeta a um exame pelo médico do Vaticano, logo que regressemos a Roma...

Quero mantê-lo junto de mim, mas receia que a sua presença seja contraproducente. A hierarquia e a Cúria sentem suspeitas e temem uma Eminência Parda no Vaticano. O cardeal Rinaldi repetiu o seu convite para que Jean vá trabalhar para a sua vila. Jean gosta da ideia, pelo que suponho que terei de o deixar ir. Pelo menos não estaremos muito longe um do outro e terei o prazer da sua companhia para jantar, aos domingos. Agora que o encontrei, custa-me deixá-lo partir...

Aprendi muito com ele durante os nossos passeios pelos campos de Itália. O que me impressionou mais vivamente foi o contraste entre a riqueza entrincheirada e a aflitiva pobreza em que tanta gente ainda vive. É esta a causa da força e da atracção do comunismo, na Itália. Vai ser preciso muito tempo - muito mais do que o que tenho à minha disposição -para a recuperação do equilíbrio. No entanto pensei num gesto que pode tornar-se num símbolo do que é necessário.

A Congregação dos Ritos informou-me de que estão prontos para proceder à beatificação de dois servos de Deus. A beatificação é um processo demorado e dispendioso, e as cerimónias que a concluem têm sido dispendiosas. Fui informado de que o custo total pode rondar tanto como cinquenta mil dólares americanos. Posso vir a ser acusado de diminuir o esplendor da vida litúrgica da Igreja, mas decidi reduzir a cerimónia a uma simples formalidade e devotar os fundos disponíveis para obras de caridade locais. Tomarei os devidos passos para me certificar de que as minhas razões sejam divulgadas o mais amplamente possível, para que as pessoas compreendam que o serviço dos servos de Deus é muito mais importante do que a sua glorificação.

Por estranho que pareça, recordei-me neste momento de Ruth Lê win e do trabalho que ela e outras como ela andam a fazer, sem encorajamento e sem aparente ajuda espiritual, em vários locais do mundo. Recordo-me também das palavras do Mestre, quando disse que um copo de água dado em Seu nome é uma oferenda feita a ele. Um milhar de velas em São Pedro nada significam ao lado de um pobre grato a Deus, por estar grato a um dos seus semelhantes... Para onde quer que me vire, vejo-me sempre a ser arrastado de um modo irresistível em direcção ao primitivo pensamento da Igreja, e não posso acreditar que esteja a ser arrastado para um erro. Não tenho inspirações privadas. Sou na Igreja e da Igreja, e se o coração bate em sincronia com o seu pulso, não posso estar muito errado. «Julga-me, oh, Deus, e separa a minha causa da dos ímpios.»

 

O Verão estava em declínio, a terra começava a mostrar as primeiras cores do Outono- Havia uma frescura no ar e em breve os ventos frios começariam a soprar das estepes, descendo- ao- longo das cristas alpinas, mas na Villa Borghese as multidões de domingo ainda gozavam o calor e desfilavam alegremente por entre os vendedores de doces e os bufarinheiros que apregoavam novidades, enquanto as crianças ficavam de boca aberta ante as cabriolas de Pulcinella,

Ruth Lewin encontrava-se entre elas, servindo de enfermeira a uma criança - uma criatura minúscula com os espasmos da paralisia cerebral, uma cabeça balouçante e uma boca sempre babada que fora buscar a um bairro miserável para apanhar um pouco de ar. Estavam sentadas num banco, observando um tocador de rabeca com um macaco que dançava, enquanto a criança se enchia de doces-e agitava um grotesco balão, numa feliz ignorância da sua infelicidade.

Não obstante o patético da sua missão, Ruth Lewin sentia-se calma e satisfeita. A doença passara-lhe. Regressara revigorada das férias. Conseguira finalmente uma certa estabilidade. Depois de tantos anos de confusão, tinha a mente clara. Sabia o que era e o que tinha o direito de ser. Não se tratava de uma conversão, mas sim de uma chegada. Podia não se sentir realizada, mas pelo menos já não fugia. Podia não estar satisfeita, mas pelo menos mantinha a esperança numa melhoria.

Era judia. Herdara uma raça e uma história. Estava pronta para aceitar as duas, não como um fardo, mas como um enriquecimento. Compreendia agora que na verdade nunca as rejeitara, mas que fora obrigada a fugir-lhes pelas circunstâncias da juventude. A fuga não era uma culpa, mas uma aflição a que sobrevivera, tal como os seus antepassados haviam sobrevivido aos cativeiros e opressões e à ignomínia dos guetos europeus. Pelo simples facto de ter sobrevivido, pelo semiconsciente facto da aceitação, ganhara o direito de ser o que quisesse ser, de acreditar no que necessitava de acreditar e de crescer para tomar a forma que a sua natureza lhe ditasse, fosse ela qual fosse.

Compreendia também outra coisa: que a alegria era uma dádiva que se aceitava com gratidão e que não se devia tentar pagar, tal como não se tentava pagar a luz do dia ou o canto de uma ave. Tinham-se duas mãos gratas para receber a dádiva, mãos que depois se abriam para partilhá-la. Pagamento era uma palavra demasiado grosseira para descrever um tal desembolso. As flores cresciam nos olhos dos mortos, mas lá porque se apanhava uma flor não se deveria transportar um cadáver às costas durante todos os dias da vida. Crianças nasciam estropiadas e disformes, mas negar-lhes a beleza e o amor à guisa de penitência era um monstruoso paradoxo. A vida era um fardo para todos os espíritos inquisidores, mas quando as dúvidas ficavam resolvidas não se devia ficar agarrado a elas numa luxúria de auto-atormentação.

Agora não tinha dúvidas. Entrara na fé cristã em criança. Transformara-a num refúgio e depois precipitara-se para fora dele em terror e confusão. Agora já não se tratava de um refúgio, mas de um ambiente em que queria viver e crescer. Era grátis, tal como a luz do Sol, o canto dos pássaros e a flor. Não tinha direito a ele, mas também não havia razões para o recusar. Toda a gente tinha o direito de dormir na sua própria almofada, fosse ela dura ou macia, porque sem sono morria-se... e morrer não paga as dívidas, apenas as anula.

Assim, naquela manhã de domingo e com toda a simplicidade, sentia-se em casa.

Para o viajante atirado de um lado para o outro num ventoso oceano, a chegada a casa apresentava-se sempre como um drama, um momento de revelação ou de conquista... mas quando esse momento chegava era em geral muito banal. Não havia nem bandeiras nem trombetas. Estava-se apenas lá, caminhando numa rua familiar, vendo caras familiares a espreitar às portas, interrogando-nos sobre se a passagem do tempo, a cavalgada dos acontecimentos, não seriam no fim de contas uma ilusão.

A criança agarrou-a por um braço, com dedos pegajosos, pedindo-lhe para ir à casa de banho. Ante aquela ironia, soltou uma alta gargalhada. Ali estava, finalmente, a verdadeira forma da vida... toda uma sucessão de simplicidades: narizes ranhosos e roupas sujas, presunto e ovos para o pequeno-almoço, umas quantas gargalhadas, algumas lágrimas... e a majestade da mera existência pairando por cima de tudo aquilo. Pegou na mão da criança e conduziu-a, tropeçando e balbuciando, por cima do relvado, para depois lhe abrir os calções...

Quando chegou a casa já o dia escurecera e o frio do Outono instalava-se na cidade. Tomou um banho e mudou de roupa. A seguir fez o seu próprio jantar, porque a criada se encontrava fora, pôs uma pilha de discos no gira-discos e preparou-se para passar uma noite confortável.

 

Tivera alturas, ainda não há muito tempo, em que a perspectiva de uma noite de solidão a levara ao desespero. Agora, em paz consigo própria, essa perspectiva agradava-lhe. Não se bastava a si mesma, mas a vida, com todos os seus pequenos serviços e os ocasionais encontros picantes, podia já ser o suficiente. Já não era uma estranha. Tinha um domínio, um domínio de oferenda, e mais tarde ou mais cedo poderia vir a surgir um tempo em que também receberia. Suportava a companhia de si mesma porque se descobrira. Era una, era real. Era Ruth Lewin, viúva, judia pelo nascimento, cristã por adopção, suficientemente velha para compreender, mas ainda bastante jovem para amar se lhe oferecessem amor. Era mais do que o bastante para um dia e para uma mulher.

Foi então que tocou a campainha, e quando abriu a porta deparou com George Faber, bêbado e murmurando, parado no alto das escadas. Tinha a camisa toda amarrotada, as roupas cheias de nódoas;, o cabelo numa desordem e não se barbeava há vários dias.

Precisou de quase uma hora para o pôr sóbrio à força de café forte e para conseguir tirar algum sentido da história que Faber contava. Bebera sem parar desde que Chiara o abandonara. Não trabalhara. O seu escritório continuava a funcionar, com a porta aberta e segura por uma tranca, e por simpatia dos colegas que enviavam artigos em seu nome, respondiam aos telegramas e lhe evitavam problemas com Nova Iorque.

Para um homem tão urbano e escrupuloso, era uma triste queda. Para alguém tão proeminente em Roma, aquela tragédia podia agravar-se sem remédio, mas no entanto George Faber parecia já não ter a vontade necessária para se ajudar a si mesmo. Desprezava-se profundamente. Despejou a história da sua masculinidade afrontada. Abandonou-se a lágrimas piegas. A ambição abandonara-o e aparentemente já não tinha onde se agarrar para recuperar a dignidade perdida.

Submeteu-se como uma criança quando Ruth lhe ordenou que tomasse um banho e depois o enfiou na cama para curtir os restos do álcool. Enquanto dormia, agitado e resmungando, Ruth esvaziou-lhe os bolsos, fez um molho com as roupas sujas e depois saiu para ir em busca de um fato novo, de roupa interior limpa e de uma navalha de barba. Faber ainda dormia quando regressou, pelo que se preparou para mais uma vigília e para um exame crítico do seu papel no drama de George Faber.

Seria muito fácil apresentar-se agora como Nossa Senhora do Socorro, equipada com bálsamos e gessos para lhe remendar o orgulho ferido. Seria perigoso embrulhar o seu amor numa caixa de chocolates e oferecê-lo como alívio por um amor perdido. Para o seu próprio bem, e para o dele, não o podia fazer. Ó amor não chegava a ser metade da resposta, quando eram abalados os pilares do auto-respeito de um homem e a viga mestra lhe caía sobre a cabeça. Mais tarde ou mais cedo teria de sair do meio dos destroços pelos seus próprios pés, e a verdadeira receita do amor era deixar que ele o quiizesse.

Quando Faber apareceu para o pequeno-almoço, abatido, mas limpo, Ruth usou de toda a franqueza:

- Isto tem de acabar, George, aqui e agora! Tens andado a fazer um papel de parvo, por causa de uma mulher. Não és o primeiro e nem serás o último... mas não te podes destruir por causa da Chiara ou por causa seja de quem for.

- Destruir-me!-Faber fez um gesto de derrota.-Não compreendes? Foi o que eu descobri! Não há nada para destruir! Já nada resta de mim. Apenas um molho de boas maneiras e hábitos de jornalista... Chiara foi suficientemente esperta para o ver e por isso se foi embora.

- Quanto a mim, a Chiara não passa de uma pequena cadela egoísta. Tens sorte em te ver livre dela.

Faber continuava teimoso na sua autocomiseração. Abanou a cabeça:

- Campeggio tinha razão. Sou demasiado mole. Um empurrão e desfaço-me em bocados.

- Há momentos em que todos nós nos desfazemos, George. O verdadeiro teste surge quando é preciso recompormo-nos de novo.

- E que esperas que faça? Sacudo o pó da roupa, espeto uma flor na botoeira & volto para o meu trabalho como se nada tivesse acontecido?

- Isso mesmo, George!

- Schamaltz! - Lançou-lhe a palavra com uma ira escarninha. Schamaltz judaico, saído directamente de Brooklyn e da Marjorie Morningstarí Roma rebenta de riso por causa de Chiara e de mim. Julgas que posso deixar-me ficar sentado à espera que me atirem amendoins como a qualquer macaco, só para se rirem de mim?

- Penso que tens de o fazer.

- Não o farei.

- Belo! Então qual é a alternativa? Embebedares-te como um Halarvo, todos os dias? Com dinheiro que outros terão de ganhar para ti?

- Mas por que diabo te ralas com o que eu fizer? Tinha na ponta da língua as palavras «amo-te», mas engoliu-as

saiU-lhe uma resposta brutal:

- Não me rala, George Faber! Foste tu que vieste ter comigo, eu não te procurei! Limpei-te e fiz que te parecesses de novo com um um homem Mas se não queres ser um homem... então’ o problema é teu!

 

-Mas eu não sou um homem, minha querida! Chiara provou-me. Só esteve fora duas semanas e já anda aos beijinhos no Lido, com outro qualquer. Arrisquei tudo por causa dela, e pôs-me os cornos. Então, ainda sou um homem?

-Passas a ser mais homem só por beberes como um porco?

Conseguira finalmente silenciá-lo e passou então a implorar:

- Olha, George, a vida de um homem só a ele diz respeito. Gostaria que a tua também me dissesse respeito, mas não o farei enquanto não me disseres de modo claro e sóbrio que o desejas. Não vou apiedar-me de ti, porque não o posso fazer. Fizeste papel de parvo. Admite-o! Pelo menos será algo que poderás suportar com mais dignidade do que os cornos. Julgas que não senti já o que sentes? Senti-O, e durante muito mais tempo. No fim... acordei. Agora sou uma adulta, George, cresci. Talvez tarde de mais, mas cresci. Também terás de o fazer.

- Estou tão sozinho... - queixou-se Faber, patético.

- Também eu. Também andei pelos bares, George. Se não tivesse um estômago tão fraco, seria uma bêbada crónica. Não é solução, acredita-me, George.

- Então qual é a solução?

- Uma camisa lavada e uma flor na botoeira.

- Nada mais?

- Oh, sim! Mas o resto é para depois. Por favor, experimenta,

- Ajudas-me?

- Como?

- Não sei... Talvez... -esboçou um sorriso alegre pela primeira vez -... talvez me deixes usar a ti na minha botoeira.

-Se for para te orgulhares, sim, George

- Que queres dizer?

-Como sabes, sou também meio romana. Quando se perde uma mulher, tem de se arranjar outra. É a única maneira de nos vermos livres dos cornos.

- Não sei o que eu quis dizer..,

- Sei que não foi, querido... mas é o que eu quero dizer. No momento em que disseres a ti próprio que estou a ser uma espécie de mãe, ou a transformar-me noutra Chiara, então deixarei de servir. Podes ir agarrar-te outra vez à garrafa. Portanto, arranja-me uma botoeira. Usa-me para mostrar à cidade que George Faber está de volta. Estamos de acordo?

- Estamos... Obrigado, Ruth.

- Prego, signore. - Serviu-lhe nova chávena de café e depois perguntou-lhe: - Que mais te preocupa, George?

Este hesitou um momento, mas a seguir respondeu: -”Estou com medo do Calitri.

- Achas que sabe o que fizeste?

-Talvez saiba. Havia um homem em Positano que me ameaçou de lhe ir contar. Se lhe cheirou a dinheiro, pode já tê-lo feito.

- Mas não tiveste notícias do Calitri.

- Não. Pode estar à espera da oportunidade.

- Para quê?

- Vingança.

- Que espécie de vingança?

-”Não sei, mas estou numa posição delicada. Cometi um acto criminoso. Se Calitri o quiser fazer, pode levar-me a tribunal.

- Se isso vier a acontecer, George, terás de o enfrentar - afirmou Ruth, resoluta.

-Pois terei... Entretanto, penso que é melhor avisar o Campeggio.

-Está envolvido no assunto?

-Não abertamente, mas foi quem me emprestou o dinheiro. Não faz segredo da inimizade que tem pelo Calitri... e este poderá facilmente aperceber-se da ligação entre nós. Como servidor do Vaticano, Campeggio encontra-se numa posição ainda mais vulnerável do que a minha.

- Então tens de avisá-lo... Mas, George...

- Sim?

- Aconteça o que acontecer, lembra-te da camisa lavada e da flor na botoeira!

Faber lançou-lhe um longo e inquisidor olhar e depois perguntou baixinho:

- Preocupas-te, não é verdade?

- Muito.

- Porquê?

Pergunta-me dentro de um mês, e eu dir-te-ei... Agora, trata de ir para o escritório e de começares a trabalhar... Deixa-me a chave e arrumarei o teu apartamento. Aquilo parece um estábulo.

Quando se separaram, Faber beijou-a na face e Ruth ficou a vê-lo caminhar pela rua fora para o seu primeiro encontro com a realidade. Era demasiado cedo para poder dizer se seria capaz de restaurar a dignidade, mas Ruth conservara a sua, o que lhe dava forças. Subiu as escadas, enfiou um vestido novo e meia hora depois encontrava-se ajoelhada no confessionário da nave da Basílica de São Pedro.

- Venceu-nos... - afirmou orlando Campeggio - no nosso próprio proveito com proveitos apenas para ele.

- Continuo sem compreender o que o levou a fazê-lo - disse George Faber.

Encontravam-se sentados no mesmo restaurante onde haviam iniciado a conspiração. Campeggio fazia os mesmos rabiscos na toalha da mesa e George Faber, sombrio e perplexo, tentava encaixar as peças do puzzle.

Campeggio deixou de rabiscar e olhou para cima, dizendo numa voz sem expressão:

-Ouvi dizer que andaste fora da circulação por uns tempos...

-Andei numa farra.

- Então perdeste o princípio de uma boa história. Calitri está a ser preparado para dirigir o país depois das próximas eleições. A princesa Maria Póliziano manobra a campanha nos bastidores...

- Meu Deus! - exclamou George Faber. - Tão simples como isso!

- Tão simples... e tão complicado. Calitri necessita dos favores da Igreja. O seu regresso ao confessionário foi discretamente divulgado. O passo seguinte e o mais óbvio é a regularização do casamento.

- Achas que o conseguirá?

- Tenho a certeza. A Rota, tal como qualquer outro tribunal, só pode basear-se nas provas que lhe são apresentadas. Não pode fazer julgamentos do foro interno das consciências.

- Um patife esperto! - exclamou George Faber, com emoção.

- É como dizes, é um patife esperto. Também foi mais esperto do que eu. O meu filho foi promovido. Está convencido de que o Sol, a Lua e as estrelas brilham todas do lado de Calitri.

- Lamento muito.

- Tens os teus próprios problemas - retorquiu Campeggio, encolhendo os ombros.

-Sobreviverei... Pelo menos assim o espero! Calitri pode lançar-se contra mim de um momento para o outro. Estou a tentar imaginar o que me poderá fazer.

-Na pior das hipóteses-’disse Campeggio, pensativo-, pode levar-te a tribunal e depois fazer que te expulsem do país. Pessoalmente creio que não- o fará. Tem demasiado a perder com um escândalo público a respeito do casamento... Na melhor das hipóteses - o que também não será agradável, admito-o-, poderá tornar-te a vida tão difícil que sejas obrigado a ires-te embora. Não podes trabalhar como correspondente se não tiveres relações normais com os homens que fazem as notícias. Também te pode vir a embaraçar com uma série de pequenas minúcias legais...

- É o que penso, mas há sempre a hipótese de Calitri não’ ter ouvido falar das minhas actividades. O nosso amigo bêbado, de Positano, pode não ter falado a sério...

 

- É verdade. Não o saberás, claro, enquanto a Santa Rota Romana não publicar o veredicto. Quer o Calitri saiba ou não, nunca actuará antes de esse caso estar arrumado.

- Então... limito-me a esperar.

- Isso mesmo. Mencionaste a minha ligação contigo a mais alguém?

- Bom, sim... à Chiara e a outra amiga. Por que perguntas?

- Porque nesse caso não posso ficar à espera. Tenho de tomar uma atitude.

- Por amor de Deus! Que espécie de atitude?

- Tenho de pedir a demissão do Observatore. Disse-te que era um homem de confiança do Vaticano. Não posso comprometer-me, ou aos meus superiores, continuando a trabalhar sob uma constante ameaça de ser denunciado.

-Mas pode não surgir nenhuma denúncia. Campeggio sorriu e abanou a cabeça.

- Mesmo assim. Sei que não serei capaz de continuar, tendo problemas de consciência. Já não sou um homem de confiança porque já não posso confiar em mim próprio. O único problema está em como demitir-me... Ou na base de uma complexa confissão ao pontífice, ou argumentando que estou velho e doente...

- Se revelares tudo, arruinas-me mais depressa do que o Calitri disse George Faber. - O Vaticano- faz tanto parte do meu campo de acção como o Quirinal.

- Sei disso... e já tens problemas suficientes sem a minha ajuda. Portanto, eis o que me proponho fazer. Aguardarei até que a Rota chegue a uma decisão final no caso do Calitri. Se este não agir contra ele, então irei ter com o Santo Padre para lhe apresentar a demissão, dizendo-lhe que o faço por instruções do médico. Por outro lado, se o Calitri actuar contra ti, revelarei toda a história. Assim talvez possamos salvar qualquer coisa do meio dos destroços. -Ficou silencioso por um momento e acrescentou num tom mais amigável: - Lamento, Faber, mais do que podes imaginar. Perdeste a tua Chiara e eu perdi o meu filho. Ambos perdemos algo ainda mais importante.

- Eu sei - respondeu Faber, abatido.- Devia fazer o mesmo que vais fazer. Arrumar as malas e partir para casa... mas estou aqui há quinze anos. Odeio a ideia de ser obrigado a partir por causa de um filho da puta como o Calitri.

impeggio agitou uma expressiva mão e citou:

he como U suo desíin fugge di raro...» É raro o homem decidir seu destino! Tu e eu nascemos para destinos atribulados, mas durante demasiado tempo. Precisamos de guardar um pouco de dignidade para a partida...

 

No seu gabinete no n. 5 do Borgo Santo Spirito, Rudolf Semmeríng, geral dos Jesuítas, conversava com o seu súbdito Jean Télémond. Por debaixo da mão tinha as cartas com os relatórios dos médicos do Vaticano. Estendeu-as a Télémond.

- Sabe o que aqui diz, padre?

- Sei.

- Os Seus cardiogramas mostram que já sofreu um, ou possivelmente dois ataques de coração.

--’É verdade. Tive um pequeno ataque na índia há dois anos e outro quando estava nas Celebes, em Janeiro último. Sei que posso aguardar outro- de um momento para o outro.

- Porque é que não me escreveu a dizer-me que estava tão doente?

-Pareceu-me de pouca importância. Ninguém podia fazer nada a esse respeito.

- Podíamos dar-lhe uma vida mais fácil.

- Sentia-me feliz com o meu trabalho. Queria continuá-lo. O geral franziu a testa e declarou com firmeza:

- Era uma questão de regra e obediência, padre. Devia ter-me dito.

- Desculpe, não vi a coisa por esse lado-. A culpa foi minha.

As severas feições do geral adoçaram-se um pouco. Prosseguiu num tom mais suave:

- Sabe o que isto quer dizer, padre? Que o senhor é um homem sob a sombra da morte. Pode ser chamado, sem aviso, em qualquer momento.

- Já o sei há meses.

-Sente-se pronto para a receber?

Jean Télémond não respondeu e o geral continuou, num tom mais baixo:

- Compreenda, padre, que é esse o significado essencial do meu cargo... ocupar-me das almas que me são confiadas pela Companhia e pela Igreja. Mal ou bem, sobrecarreguei-o com fardos muito pesados. Agora quero ajudá-lo tanto quanto me for possível.

- Fico-lhe muito grato, padre - disse Jean Télémond -, mas não sei como poderei responder à sua pergunta. Alguma vez o homem se sentirá preparado para a morte? Duvido. O melhor que posso dizer é o seguinte: tentei viver uma vida lógica, como homem e como sacerdote. Tentei desenvolver os meus talentos, para que fossem úteis ao mundo e a Deus. Tentei ser um bom ministro da Palavra e da graça dos Sacramentos. Nem sempre o consegui, mas penso que as minhas falhas foram honestas. Não tenho medo de ir... Não creio que Deus deseje que qualquer um de nós caia das suas mãos.


 

O rosto marcado de Semmering abriu-se num sorriso de genuína afeição.

- Bom. Sinto-me feliz por si, padre... e espero que continue connosco ainda durante muito tempo. Quero dizer-lhe que fiquei profundamente impressionado Com o seu discurso na Gregoriana. Não tenho a certeza de poder concordar com tudo o que disse. Apresentou certas propostas que me confundiram e que o continuam a fazer. Mas do senhor... tenho certezas. Diga-me outra coisa: até que ponto vai a sua firmeza na defesa do que nos propôs e do que escreveu nas outras obras?

Télémond examinou a pergunta com cuidado e depois respondeu:

- Padre, de um ponto de vista científico, só o posso explicar de uma maneira. A experimentação e a descoberta conduzem-nos por uma certa linha e até um certo ponto de chegada... Até esse ponto estamos cientificamente certos, porque as descobertas foram documentadas e a lógica foi comprovada pela experiência... Para lá do ponto de chegada, a linha projecta-se infinitamente mais para diante. Seguimo-la por hipóteses e por passos especulativos... Pensamos que a lógica continuará a comprovar-se, como o fez antes... Não podemos ter certezas, claro, até que a lógica da especulação fique comprovada ante a lógica da descoberta... Portanto - e mais uma vez como cientista-, temos de manter uma mente aberta. Creio que o consegui. Como filósofo, talvez não me encontre tão bem equipado, mas creio que o conhecimento não se contradiz a si próprio. Desenvolve-se em planos sucessivos, pelo que aquilo que em primeiro lugar vemos como um símbolo pode alargar-se num outro plano, transformando-se numa realidade que, para os nossos olhos pouco familiarizados com ela, é diferente. Mais uma vez tentamos conservar a mente aberta aos novos modos de pensamento e de conhecimento... Compreendemos que a linguagem é, quanto muito, um instrumento limitado para exprimir os nossos conceitos em expansão. Como teólogo, estou comprometido com a validade da razão como um instrumento para se alcançar um conhecimento limitado do Criador. Por um Acto de Fé, estou também comprometido com a validade da revelação divina expressa na Base da Fé... De uma coisa tenho a certeza... de que não é possível qualquer conflito de conhecimento, seja em que plano for, depois de o conhecimento ser apreendido no seu todo... Recordo-me de um velho provérbio espanhol: «Deus escreve a direito por linhas tortas», mas o vector final é uma seta que aponta a direito para o Todo-Poderoso. Foi por esta razão que tentei viver inteiramente no mundo e com o mundo, e não me separar dele. O acto redentor é improdutivo sem a cooperação do homem... Mas homem como ele é, no mundo em quevive... - Interrompeu-se e esboçou um pequeno encolher de ombros de desdém. - Perdoe-me, padre, não pretendia fazer um sermão...

 

- Foi um bom sermão, padre - respondeu Rudolf Semmering. Mas gostaria que lhe acrescentasse mais alguma coisa. Pelos seus votos, tem de obedecer como uma criança, de executar um acto formal de obediência, de vontade submissa e de inteligência humilde. Manteve os termos da sua procura de acordo com os termos desse voto?

- Não sei-respondeu Jean Télémond, baixinho. - E não tenho a certeza de vir a saber até ao momento de enfrentar o teste final. O cardeal Rinaldi expressou-o com grande clareza quando afirmou que nasci para carregar esta cruz. Admito que o seu peso me oprime muitas vezes. No entanto, tenho a certeza de que nunca poderá haver um conflito entre o que procuro e aquilo em que acredito. Gostaria de me poder explicar com maior clareza.

-Poderei agora ajudá-lo de alguma maneira, padre? Télémond abanou a cabeça.

-Não me parece. Se houvesse, acredite que lho pediria. Creio que neste momento estou mais receoso deste dilema do que de estar a morrer.

- Não pensa ter sido imprudente?

-Não, não penso. Tive de me arriscar muito porque todas as explorações são um risco. Mas imprudente? Não. Confrontado com o mistério de um universo ordenado, não se pode ser mais do que humilde. Confrontado com a morte, como é o meu caso, não se pode ser mais do que verdadeiro... - Pareceu ocorrer-lhe um pensamento novo. Calou-se por instantes para analisá-lo e depois continuou: - Há no entanto um problema nas relações com a Igreja... Compreenda que não se trata de um problema de Fé, mas sim com o corpo humano da Igreja. O problema é este: há alguns crentes tão ignorantes do mundo real como certos descrentes estão ignorantes do mundo da fé. «Deus é grande e terrível», dizem. Mas o mundo também é grande e terrível, e maravilhoso, e seremos heréticos se o ignorarmos ou negarmos. Somos como os velhos Maniqueus, que afirmam que a matéria é diabólica e a carne é corrupta. Isto não é verdade. O que é corrupto não é nem O’ mundo nem a carne. É a vontade do homem, dividida entre Deus e o eu. É este todo o significado da Queda.

- Uma das coisas que me preocupou no seu discurso foi não ter-se referido à Queda. Sei que tal irá também preocupar o Santo Ofício.

-Não a mencionei... - disse Jean Télémond, com decisão-... porque creio que não há lugar para ela na ordem dos fenómenos, mas apenas na ordem espiritual e moral.

- Dirão... - insistiu Rudolf Semmering - que confundiu as duas

coisas.

-Na minha mente nunca houve qualquer confusão desse género.

Poderá havê-lo na maneira como me exprimo... é por essa que o irão julgar...

- Nesse campo, sou receptivo ao julgamento.

- Será julgado, e muito em breve. Espero que descubra em si paciência para suportar o veredicto.

- Também espero -respondeu Jean Télémond, com fervor. Por vezes estou tão cansado...

- Da sua parte, nada receio...-declarou Rudolf Semmering, com um sorriso. - E Sua Santidade diz muito bem de si. Como sabe, queria conservá-lo no Vaticano.

- Sei e gostaria de estar com ele. É um grande homem, com um grande coração, mas não quero comprometê-lo enquanto a minha obra não for apreciada. O cardeal Rinaldi convidou-me para trabalhar na sua vila enquanto o Santo Ofício examina a minha obra. Tenho a sua autorização para o fazer?

- Claro que sim. Quero que se sinta o mais livre e confortável que for possível. Creio que o merece.

Jean Télémond tinha os olhos enevoados. Juntou as mãos, para as impedir de tremer.

-Estou-lhe muito grato, padre... a si e à Companhia.

- E nós estamos-lhe gratos - Semmering levantou-se, deu a volta à secretária e pousou uma amigável mão no ombro do seu súbdito. -é uma estranha irmandade, a da Fé e a da Companhia. Temos muitas mentes e muitos temperamentos, mas seguimos todos pela mesma estrada e temos muita necessidade de uma caridade comum. Jean Télémond parecia ter-se retirado de repente para um mundo privado, só dele. Afirmou com um ar ausente:

- Vivemos num mundo novo, mas não o sabemos. Na massa humana fermentam ideias profundas. O homem, apesar da sua fragilidade, está a ser sujeito a tensões monstruosas, políticas, económicas e mecânicas. O conhecimento avança como um foguete em direcção às galáxias. as máquinas capazes de fazer cálculos muito para lá da mente de Einstein... Alguns receiam que estejamos a explodir em direcção a um novo caos. Não ouso aceitar uma tal hipótese, não creio nela. Penso, sei, que se trata apenas de uma época de preparação para algo de infinitamente maravilhoso nos desígnios de Deus para com as suas Criaturas, Desejava...-oh, quanto desejava! cá ficar para o ver...

Para quê esperar? perguntou Rudolf Semmering, com rara firmeza.-Quando partir, partirá para junto de Deus.

neleverá a concretização dos Seus desígnios. Espere em pox, pudre.

- Por Deus - retorquiu Rudolf Semmering. -Não o deixará cair das Suas mãos.

 

Imediatamente após o regresso de Castel Gandolfo, Kiril, o pontifice, viu-se apanhado pela pressão de novos e variados assuntos.

O Instituto para as Obras da Religião preparara o seu reluto’ anual sobre os recursos financeiros do papado. Era um documento longo e complicado que Kiril teve de estudar com cuidado e concentração, e que lhe provocou reacções diversas.

Por um lado, tinha de louvar o zelo e a sagacidade dos que huviam construído o Estado Papal e o Banco do Vaticano, fazendo deles instituições estáveis e solventes, com operações que se estendiam por todo o mundo. Era essa a natureza das suas funções. Cinco cardeais e um grupo de financeiros de alta competência administravam os bens temporais da Igreja. Compravam e vendiam nos mercados de acções do mundo. Investiam em propriedades, hotéis e serviços públicos, e dos seus esforços dependia a estabilidade da Santa Sé como instituição temporal, cujos membros tinham de ser alimentados, vestidos, abrigados e hospitalizados, para que pudessem estar livres para se ocuparem do que se relacionava com a eternidade.

No entanto, Kiril tinha demasiado sentido de humor para não se aperceber da disparidade entre a eficiência de uma operação financeira e as dúvidas que pairavam sobre tantos trabalhos destinados à salvação das almas humanas. Preparar um padre e manter uma irmã enfermeira eram coisas que custavam dinheiro. Construir escolas, orfanatos e lares para os velhos eram coisas que custavam dinheiro... Mas nem todo o dinheiro do mundo conseguia comprar um espírito cheio de boa vontade, ou servia para incutir, no espírito de um preguiçoso, o amor por Deus.

Quando terminou a leitura do documento e as reuniões financeiras, chegara a uma conclusão. Os responsáveis por aqueles assuntos haviam procedido bem. Iria deixá-los continuar, mas ele próprio dedicaria todo o seu tempo e toda a sua energia na função primária da Igreja: levar os homens ao conhecimento da sua relação com o Criador. Um homem dedicado a Deus poderia sentar-se descalço debaixo de uma árvore e inflamar o mundo. Um negociante possuidor de um milhão em ouro e acções empilhadas até ao tecto deixaria o planeta sem que ninguém o lamentasse ou o recordasse.

Havia problemas em Espanha. Os clérigos mais jovens revoltavam-se contra o que consideravam como atitudes arcaicas e obscurantistas por parte de certos prelados mais idosos. O problema apresentava duas facetas. Por um lado, tinha de se manter a autoridade pastoral, por outro lado, era preciso preservar a vivacidade e o espírito apostólico dos espanhóis mais jovens. Alguns dos mais idosos tinham-se identificado de mais com o sistema ditatorial. Os novos, identificados com o povo e com as suas esperanças de reformas, sentiam-se reprimidos no seu trabalho. Começava a fazer-se sentir uma violenta reacção contra as actividades semi-secretas da Opus Dei

que em princípio era uma organização para a acção laica dentro da igreja espanhola, mas que muitos afirmavam ser controlada por elementos reaccionários da Igreja e do Estado. Era em climas assim que surgiam os cismas e as rebeliões, mas um tal clima não podia ser invertido da noite para o dia.

Depois de uma semana de discussões com os seus conselheiros, decidiu-se dar um duplo passo: uma carta secreta para o primaz para os bispos de Espanha, incitando-os a acomodarem-se, com maior liberalidade e maior caridade nà mudança dos tempos, e uma carta aberta aos clérigos e aos laicos, aprovando o bom trabalho que levavam a cabo, mas recordando-lhes o dever de obediência para com os ordinários locais. Era quanto muito um compromisso e Kiril sabia-o, mas a Igreja era uma sociedade tanto humana como divina, e o seu desenvolvimento dependia de oscilações e equilíbrios, de conflitos e retiradas, de desacordos e de um lento esclarecimento.

Em Inglaterra havia,a questão de nomear um novo cardeal para substituir Brandon. A nomeação apresentava uma clara alternativa!

Um político ou um missionário? Um homem de estatuída reputação que defendesse a dignidade da Igreja... e o lugar que esta reconquistara na ordem estabelecida? Ou um severo evangelista que compreendesse o fermento de um país sobrepovoado e industrial e a desilusão de uma sociedade outrora imperial, cuja confiança numa religião social e humanitária começava a falhar?

À primeira vista a escolha era simples. No entanto, dado o temperamento dos Ingleses e a sua histórica desconfiança para com Roma, as suas estranhas reacções em relação ao revivalismo, não era tão simples como parecia.

O cardeal Leone resumiu-lhe a situação com clareza:

- Parker, em Liverpul, é um verdadeiro bispo missionário. O seu trabalho entre as classes trabalhadoras e os imigrantes irlandeses tem sido espectacular. Por outro lado, fala sem rodeios e tem sido acusado de ser um agitador político. Não acredito. É um homem com pressa, talvez com demasiada pressa para os fleumáticos ingleses. Ellison, em Gales, está em boas relações com o sistema. É educado, inteligente e compreende a arte do possível. A vantagem que representa para nós é poder preparar uma situação em que homens mais apostolistas possam trabalhar com alguma liberdade.

- De quanto tempo dispomos? - perguntou Kiril. - Quero dizer, antes de sermos obrigados a fazer uma nomeação?

- Dois meses, diria... talvez três, no máximo. A Inglaterra précisa de um chapéu cardinalício.

 

- Eminência, se estivesse no meu lugar, qual escolheria ou Elisson?

   -Escolheria Ellison.

- Sinto-me inclinado a concordar consigo. Façamos. Vamos adiar a decisão por um mês. Durante esse período que fizesse uma nova recolha de opiniões entre a Cúria e a hicia inglesa. Decidiremos a seguir.

A seguir vinham os relatórios da Polónia. O cardeal Potocki tinlin pneumonia e estava em estado crítico. Se morresse, surgiriam dois problemas imediatos. Era profundamente amado pelo povo e receado pelo governo, contra o qual resistira com teimosia durante dezasseis anos. O funeral poderia muito bem vir a ser ocasião para manifestações espontâneas, que o governo poderia utilizar para acções de provocação contra a população católica. A questão do sucessor era também muito importante. Tinha de estar nomeado e pronto para as funções logo após a morte do velho lutador. Precisava de ter conhecimento da nomeação, mas esta teria de se conservar secreta, não fosse dar-se o caso de as autoridades agirem contra ele antes da morte de Potocki. Era preciso enviar um emissário secreto do Vaticano para Varsóvia com o édito papal de sucessão...

Assim, um a um, foram passados em revista os problemas de todos os países do mundo, e as recordações de umas férias de Verão esbateram-se cada vez mais no passado. Por fim, cerca de finais de Setembro, surgiu uma carta do cardeal Morand, de Paris.

«[...] foi feita a sugestão, ao Ilustre Predecessor de Vossa Santidade, de que uma visita papal ao Santuário de Nossa Senhora de Lurdes poderia ter um efeito espectacular na vida da Igreja em França. Na altura existiam vários obstáculos à concretização do projecto, a doença do Santo Padre, a guerra na Argélia e o clima político na França metropolitana.

»Nenhum desses obstáculos existe agora. Fui informado de que o Governo francês veria com bons olhos uma visita papal, e que teria muito prazer em receber Vossa Santidade em Paris, depois da visita a Lurdes.

»Escusado será dizer como ficariam satisfeitos os clérigos e os fiéis com a presença do vigário de Cristo no solo de França, depois de tanto tempo.

»Se Vossa Santidade estiver preparado para estudar a ideia, gostaria de sugerir que a altura mais apropriada seria a da festa de Nossa Senhora de Lurdes, em 11 de Fevereiro do próximo ano. O Governo francês está de acordo> com essa data.

»Permita-me pedir a Vossa Santidade, com toda a humildade, que tome em consideração este pedido, e o bem que dessa visita pode vir a resultar, não apenas para a França católica como para todo o mumdo. Seria uma ocasião histórica, a primeira deslocação de um papa a esta terra, em mais de cem anos. Os olhos do mundo ficariam todos postos na pessoa de Vossa Santidade, e durante algum tempo estaria disponível um púlpito público e universal [...]»

A carta entusiasmou-o. Ali estava um gesto histórico, pronto] para ser feito. Depois da sua primeira saída de Roma, seguir-se-iam inevitavelmente outras. No convergente mundo do século XX, a missão apostólica do pontífice poderia vir a ser reafirmada em grande estilo.

Escreveu imediatamente uma carta a Morand, pela própria mão e sem fazer quaisquer consultas:

«f...] ficámos deliciados com a sugestão de Vossa Eminência de uma visita a França em Fevereiro do próximo ano. Não temos dúvidas de que na Igreja se levantarão algumas vozes de oposição, mas estamos favoravelmente dispostos a empreendê-la. Discutiremos o assunto na primeira oportunidade com o cardeal Goldoni, e mais tarde com os membros da Cúria.

«Entretanto, Vossa Eminência pode aceitar esta carta com a nossa autorização pessoal para o início das necessárias conversações preliminares com as autoridades francesas envolvidas. Sugerimos que não seja feito um anúncio público da visita antes de concluídas todas as formalidades.

»Para Vossa Eminência e para os nossos irmãos bispos, para o clero e para o povo de França, e com o coração cheio de amor, enviamos-vos as nossas bênçãos apostólicas [...]»

Sorriu quando fechou a carta e enviou-a para seguir para o correio. Goldoni e a Cúria ficariam cheios de dúvidas e dos consequentes receios, mas Kiril, o pontífice, era o homem eleito para governar em nome de Deus, e seria em nome de Deus que governaria. Iriam invocar a história e o protocolo, a logística e os efeitos políticos secundários. Mas se lhe abriam portas... estava disposto a atravessá-las sem esperar que o conduzissem pela mão como- a um príncipe fútil...

Com a passagem do tempo, a ideia de um papa peripatético tornar«-«o estranha à Igreja. Havia os que viam nisso uma sucessão de perigos: para a dignidade, uma vez que um homem que fazia as malas e começava a voar em volta do mundo podia vir a parecer demasiado humano; para a autoridade, porque teria de falar extemporaneamente muitos assuntos, sem estudo prévio e sem conselhos; para a     disciplina, uma vez que a Corte do Vaticano precisava   iNediatanemte de uma mão firme para se manter coesa; para a estabilidade, porque as modernas viagens aéreas traziam consigo um risco constante, e perder um pontífice e eleger outro era um assunto dispendioso, isto para não dizer também perigoso... Além disso, o mundo estava cheio de fanáticos que poderiam enfrentar a augusta personagem do vigário de Cristo e até ameaçar-lhe a vida.

Porém, a história não era feita pelos que temiam os riscos. O Evangelho fora sempre pregado por homens que tinham a morte como companheira diária... e, além do mais, Kiril Lakota era um oportunista com um coração impetuoso. Se era possível uma viagem, pois fá-la-ia, esquecendo-se de tudo, excepto do lucro em almas...

De Kamenev, a passar férias no mar Negro, surgiu uma carta entregue pelo ublíquo Georg Wilhelm Forster. Era mais comprida e mais descontraída do que as anteriores, e trazia a primeira expressão clara dos pensamentos do homem sobre a crise que se aproximava:

«[...] finalmente mantenho uma conversação particular com o outro lado do Atlântico. Estou mais grato pela tua intervenção do que me é possível exprimir.

»Estou a descansar há algum tempo, pensando no programa para o próximo ano e interrogando-me ao mesmo tempo sobre qual a posição actual da minha vida, tanto pública como privada. A minha carreira atingiu o apogeu, não posso subir mais alto. Tenho talvez mais cinco anos de total autoridade e actividade. Depois disso começará o inevitável declínio, e devo estar preparado para o aceitar.

»Sei que fiz boas coisas por este país. Gostaria de poder fazer ainda melhor. Para isso, a paz é necessária. Estou pronto para ir muito longe para a conservar, mas no entanto terás de compreender que não poderei ir mais longe do que me será permitido pelo Partido e pelo Presidium.

»Portanto, em primeiro lugar, deixa-me explicar qual a actual posição, tal como a vejo. Podes acompanhar a minha tese em qualquer mapa-mundo infantil. A China vai mal, o que quer dizer, que seiscentos milhões de pessoas vão mal. As colheitas deste ano foram perigosamente escassas. Há uma verdadeira fome em muitas zonas. Surgiram informações, difíceis de confirmar por causa da censura, de ter aparecido a peste bubónica em algumas cidades costeiras. Tomámos isto muito a sério e impusemos um cordão sanitário em todos os postos fronteiriços que dão passagem para a China.

»O seu desenvolvimento industrial é lento. Tornámo-lo deliberadamente ainda mais lento retirando de lá muitas das nossas equipas de construção e de especialistas, porque não queremos que a China cresça demasiado sob o presente regime.

»Os actuais líderes estão velhos e sujeitos a cada vez maiores pressões por parte dos elementos mais novos. Se a crise económica se agravar, serão forçados a entrar em acção e será inevitável que organizem movimentações militares em direcção à Coreia do Sul, à Birmânia e ao Nordeste da índia. Ao mesmo tempo irão pedir-nos para que criemos uma frente de diversão, renovando- as pressões sobre Merlim para uma solução da questão da Alemanha Oriental, até ao ponto de uma intervenção armada.

»Logo que estes movimentos se iniciem, a América dispor-se-á em ordem de batalha contra nós.

»Haverá algum remédio para esta situação, presa por um cabelo? Creio que há, mas não devemos ser ingénuos no que respeita à sua eficácia. Em primeiro lugar precisamos de algum espaço para respirar, para que possamos avançar com um pouco mais de confiança em direcção a uma solução a longo prazo.

»O primeiro e mais óbvio remédio é o desarmamento nuclear. Há anos que debatemos este assunto e continuamos a não estar mais perto de um acordo. Creio que é um problema que ainda está fora de questão, porque tanto a opinião pública como a do Partido se excitam facilmente quando ouvem falar nele. Sei que não me posso arriscar a um movimento decisivo’, tal como acontece com o meu oposto. Portanto, teremos de pôr esse assunto de parte durante algum tempo. »O segundo remédio parece ser a admissão- da China às Nações Unidas. Isto, mais uma vez, é complicado pela ficção das duas Chinas e pela existência de um pseudogoverno, de armas na mão, na Formosa. Mais uma vez nos vemos envolvidos numa situação que é principalmente política, demasiado complicada por slogans e por atitudes estudadas.

»Sou da opinião que, com alguma preparação e um mínimo de boa vontade, será possível encontrar um remédio noutro lado. Se as misérias da China fossem reveladas ao mundo, não como um espectáculo político, mas sim como um problema humano, e se a América e as outras nações ocidentais fizessem uma proposta de reatamento das relações comerciais com os Chineses, permitindo-lhes importar comida e deixando passar bens de importância vital, então poderiamos pelo menos adiar a crise. Claro, a China teria de ser preparada para aceitar esse gesto... e consegui-lo é um problema delicado. Nós, por nosso lado, teríamos de colocar todo o nosso peso por detrás da proposta ocidental e teríamos também de levar a cabo uma proposta própria.

»A onde poderemos ir? Mais propriamente, até onde poderei eu ir, na esperança de obter o apoio do Partido e do país? Tenho de ser honesto contigo. Não posso prometer mais do que aquilo que poderei realizar.

creio que este é o meu limite: não faríamos mais pressões sobre Berlim e deixaríamos em suspenso a questão da Alemanha do Leste, enquanto procuramos uma forma de acordo que seja menos rígida,

Acabaríamos com os testes nucleares, em troca da garantia de que os Estados Unidos procederiam do mesmo modo’. Reabriríamos imediatamente e com uma forma de compromisso mais prática- a questão do desarmamento nuclear, e colocaria toda a minha autoridade pessoal num esforço para se conseguir um acordo num espaço de tempo razoável

»Não sei se os Americanos acharão tudo> isto suficiente, mas é o melhor que posso garantir, em quaisquer negociações. Mesmo- assim, tanto nós como os Estados Unidos necessitaremos de um clima muito favorável para chegarmos a acordo. Não nos resta muito tempo para o prepararmos.

»Quase que consigo ouvir-te a perguntar a ti mesmo até que ponto poderás confiar em mim. Não posso fazer um juramento, porque não tenho nada por que jurar, mas o que aqui escrevi é a verdade. Como me comporto aos olhos do público, como me comporto durante as negociações, isso são coisas diferentes. Como sabes, a política é em grande parte teatro. É este o acordo que proponho, e mesmo- que os Americanos o regateiem um bocado, poderemos fazer negócio- e dar ao mundo o que ele necessita mais desesperadamente neste momento, um espaço para respirar e para poder medir o valor da paz em relação ao que poderá acontecer se a perdermos.

»Espero que a tua saúde seja boa. A minha está bastante boa, mas de vez em quando leva-me a recordar a passagem dos anos. O meu filho terminou o período de instrução e foi agora admitido como pilotobombardeiro na nossa força aérea. Se a guerra surgir, será uma das primeiras vítimas. É um pensamento terrível que me persegue mesmo quando durmo. Isso, penso, é o que me salva da corrupção final do poder. Que quero eu para ele? Nos velhos tempos os reis assassinavam os filhos, não fossem estes transformar-se em rivais... e quando se sentiam solitários podiam sempre criar outros. Agora, as coisas são diferentes. Há quem diga que nos tornámos mais moles... mas eu prefiro pensar que nos tornámos mais sábios. «Não me -esqueci do teu pedido- para aliviar um pouco os fardos dos teus rebanhos na Hungria, na Polónia e nos Estados Bálticos. Mais uma vez terei de ser honesto, pois não quero prometer-te mais do que me é possível realizar. Não posso emitir uma ordem directa, nem posso inverter bruscamente uma política tradicional do Partido, com a qual estou pessoalmente comprometido. Contudo, na próxima semana terá lugar uma reunião em Moscovo, entre primeiros-ministros dos países limítrofes, Apresentar-lhes-ei o problema como uma proposta para preparar a atmosfera para o que espero venha a ser uma discussão do problema chinês entre nós e os Americanos.

 

»Tenho esperanças de que o vosso cardeal Potocki recupere. É um perigo para nós, mas do modo como as coisas estão prefiro-o muito mais vivo do que morto. Admiro-o quase tanto quanto te admiro. »Um ponto mais, talvez o de maior importância. Se negociarmos de acordo com as linhas que sugeri, necessitaremos de chegar a um acordo antes de meados de Março do próximo ano. Se os Chineses iniciarem movimentos militares, será nos princípios de Abril. Uma vez que os iniciem, estaremos metidos num grande sarilho.

»Li uma cópia da tua carta à Igreja sobre a educação. Àchei-a excelente e até comovedora nalguns pontos, mas há quarenta anos que trabalhamos muito melhor do que a Igreja. Poderíamos até pensar que têm menos a perder do que nós. Perdoa-me a ironia. É difícil perder os velhos hábitos. Ajuda-nos, se puderes. Saudações. Kamenev.»

Kiril, o pontífice, deixou-se ficar sentado durante muito tempo, meditando sobre aquela carta. A seguir dirigiu-se para a sua capela privada e ajoelhou-se para rezar durante quase uma hora. Nessa mesma noite, depois do jantar, chamou Goldoni, da Secretaria de Estado, e fecharam-se os dois até depois da meia-noite.

-Para mím, o senhor é um embaraço, Mr. Faber- disse Corrado Calitri, com suavidade. - Suponho que é também um embaraço para a Chiara. É muito jovem. Agora que a Santa Rota a declarou livre para se voltar a casar, creio que encontrará rapidamente um novo marido. A presença de um amante idoso só servirá para lhe tornar as coisas muito difíceis.

Calitri encontrava-se sentado numa cadeira alta e esculpida, por detrás de uma secretária marchetada, delgado, pálido e tão perigoso como um príncipe medieval. Os lábios sorriam, mas os olhos estavam frios. Aguardava que George Faber dissesse qualquer coisa, mas como este não o fez, continuou no mesmo tom sedoso

- Compreende, Mr. Faber, que, de acordo com os termos da Concordata, a decisão da Santa Rota tem efeito também sobre a lei civil?

- Sim, compreendo.

- Legalmente, portanto, a sua tentativa para subornar uma testemunha é uma ofensa criminal ante as leis da República.

Seria muito difícil provar o suborno. Não foi entregue nenhum dinheiro. Não houve testemunhas. Theo Respighi é uma personagem de caracter duvidoso acha que o seu testemunho também o transformaria numa personagem duvidosa, Mr. Faber?

Kalitri Disse com altivez. Mas também o senhor não sairia muito limpo do caso.

Por isso. Mr. Faber.

-Então... estamos empatados. Eu não lhe posso tocar... e o senhor não me pode tocar.

Calitri escolheu um cigarro de uma caixa de alabastro, acendeu-o e recostou-se na cadeira, olhando para os anéis’de fumo que subiam para o tecto apainelado. Tinha os olhos iluminados por uma malícia divertida.

- Empatados? A mim parece-me que se trata de um xeque-mate. Tenho de ganhar, sabe? Nenhum governo, nenhum partido político pode permitir-se uma situação em que um correspondente da imprensa estrangeira possa vir a determinar a carreira de um dos seusministros.

Contra a sua vontade, Faber soltou uma gargalhada seca.

- Acha que isso possa vir a acontecer?

- Depois do que o senhor fez, Mr. Faber, tudo pode vir a acontecer. Não confio em si. Duvido mesmo que o senhor consiga voltar a confiar em si próprio. Uma situação pouco edificante, não é verdade? O deão da imprensa estrangeira oferecendo um suborno a um actor falido, para perverter a lei... e tudo porque queria ir legalmente para a cama com uma rapariga! Está desacreditado, meu amigo! Basta-me dizer uma palavra e nunca mais será recebido em nenhum gabinete governamental, ou em nenhuma congregação do Vaticano. O seu nome desaparecerá de todas as listas de convidados da Itália. Sabe, nunca neguei aquilo que sou. As pessoas aceitaram-me, de acordo com as minhas próprias condições, tal como o país voltará a aceitar-me nas próximas eleições... Portanto, é um xeque-mate. O jogo acabou. Deveria fazer as malas e ir-se embora.

- Quer dizer que estou a ser expulso do país?

- Não é bem isso... A expulsão é um acto oficial da administração. Por enquanto estamos a falar... não oficialmente. Estou apenas a aconselhá-lo a que parta.

- De quanto tempo disponho?

- De quanto tempo necessita para chegar a um novo acordo com o seu jornal?

- Não sei. Um mês, dois meses...

- Sejam dois meses - respondeu Calitri, com um sorriso - Sessenta dias a partir desta data. - Soltou uma ligeira gargalhada.- Note, Mr. Faber, que estou a ser muito mais generoso consigo do que o senhor seria comigo.

-Posso ir-me embora?

- Só um momento. O senhor interessa-me muito. Diga-me, estava apaixonado pela Chiara?

- Sim.

- Ficou infeliz quando ela o deixou?

- Sim.

- Estranho - disse Calitri, com um humor sardónico.-Sempre pensei que Chiara daria uma melhor amante do que esposa. O senhor era demasiado idoso para ela, claro. Talvez não fosse suficientemente potente. Ou era demasiado puritano? É essa a resposta, creio. Temos de ser ousados no amor, Faber. Seja qual for a espécie de amor quÉ escolhamos... A propósito, Campeggio é um dos seus amigos?

- É um colega - respondeu Faber, numa voz sem entoação. - Nada mais.

- Alguma vez lhe emprestou dinheiro?

- Não.

- Pediu-lho emprestado?

- Não.

- Curioso. Um cheque de seiscentas mil liras - são mil dólares saiu da conta de Campeggio para ir para a sua.

- Isso foi uma transacção de negócios. Mas como diabo o soube?

-Sou um dos directores do banco, Mr. Faber, e gosto de fazer bem o meu trabalho... Tem dois meses. Por que não tira umas boas férias e aproveita o nosso belo país? Pode sair, agora.

Doente de ira e de humilhação; George Faber saiu para o fraco sol de Outono. Dirigiu-se a uma cabina telefónica e ligou para Orlando Campeggio. A seguir chamou um táxi e fez^se conduzir para o apartamento de Ruth Lewin.

Esta ofereceu-lhe café e brande e escutou-o sem fazer comentários enquanto Faber resumia a sua curta e humilhante entrevista com Corrado Calitri. Quando terminou, deixou-se ficar silenciosa por instantes e depois perguntou-lhe baixinho:

-E agora, George? Que vais fazer?

- Volto para casa, suponho... apesar de depois de quinze anos em Itália ser difícil considerar Nova Iorque como sendo a minha casa.

- Terás algum problema com o jornal? --Não creio. Aceitarão qualquer explicação que lhes dê. Dar-me-ão um bom lugar na redacção.

- Portanto a tua carreira não está liquidada, pois não?

- A carreira... não. Apenas um tipo de vida de que gostava e que queria ter.

- Mas não é o fim do mundo. Faber lançou-lhe um olhar estranho e inquisidor.

- Não... mas é o fim de George Faber.

- Porquê?

- Porque ele já não existe. é apenas um nome e um monte de roupa».

- é assim que te sentes, George?

- Ô o que sou, minha querida. Soube-o logo que me sentei no funeral de Calitri, esta manhã. Soube que não era nada... apenas um homem de palha. Não acreditava em nada, não queria nada, não tinha com que lutar, não tinha porque lutar. O maravilhoso foi ter-me sentido tão calmo a esse respeito.

- Conheço essa calma, George - respondeu-lhe, num tom sério. É um sinal de perigo, a calmaria antes da tempestade. A seguir começamos a odiar-nos a nós próprios, a desprezar-nos, sentindo-nos vazios, sós e inadequados. Depois começamos a correr e continuamos a correr até batermos numa parede de tijolos, ou cairmos num precipício, ou terminarmos na sarjeta com a cabeça entre as mãos. Sei. Também já lá estive.

- Então não deves ficar perto de mim quando isso acontecer. -Não pode acontecer, George, Não deixarei que aconteça.

- Não te metas, rapariga! - disse-lhe, com uma súbita dureza Não te metas e conserva-te longe! Já passaste pelas tuas tempestades. Agora mereces coisa melhor. Fui eu que fiz o papel de parvo, sou eu que terei de pagar!

- Não, George. - Estendeu as mãos para ele num gesto cheio de urgência e forçou-o a encará-la. - Essa foi outra das coisas que aprendi. Nunca se consegue pagar aquilo que se fez, porque não é possível alterar as consequências. Estas permanecem para sempre. A conta continua a subir com juros acrescidos, e no fim estás desfeito e falido. O que é necessário não é um pagamento, George. É o perdão... e temos também de perdoar a nós próprios. Dizes que és um homem de palha. Pois que sejas; podes queimar o homem de palha e destruí-lo... ou podes aprender a viver com ele. Quem sabe? No fim até podes vir a gostar dele. Sempre gostei dele, George. Na verdade, até aprendi a amá-lo.

- Gostaria muito de poder fazê-lo - retorquiu George Faber, melancólico. - Penso que se trata de um tipo pomposo, oco e cobarde, um pedante!

- Continuo a amá-lo.

- Mas não poderás viver com ele durante os próximos vinte anos, pois acabarás por desprezá-lo tanto quanto ele se despreza a si mesmo.

- Ainda não me pediu para ir viver com ele.

- E não pedirá.

- Então vou eu pedir-lhe. É um homem de palha, sou uma mulher de palha. Não tenho qualquer orgulho, George. Também não tenho piedade. Limito-me a estar muito contente por continuar viva... Não é ano bissexto, mas mesmo assim peço-te para casares comigo. Como viúva, não sou das piores. Não tenho filhos. Ainda conservo um certo aspecto. Tenho dinheiro... Que me dizes, George?

- Gostava de dizer que sim, mas não ouso fazê-lo.

-Que quer isso dizer, George? Lutas ou rendes-te?

Por instantes voltou a ser o velho e incerto Faber, passando as mãos pelos cabelos cinzentos, meio troçando, meio lamentando-se a ele mesmo. A seguir disse, num tom sóbrio:

- Um homem não devia dizer uma coisa destas, mas importas-te de esperar algum tempo? Dás-me tempo para que me treine para a luta?

- Como, George?

Não lhe respondeu directamente, mas explicou-se, hesitante.

- É difícil de explicar... Não quero perder-te... mas também não quero apoiar-me demasiado em ti. Com a Chiara tentava manter-me agarrado à juventude, mas já não me restava a bastante. Não quero aproximar-me de ti tão vazio como estou neste momento. Quero também poder dar-te qualquer coisa... Se pudéssemos ser amigos por uns tempos... dar as mãos... Passear na Villa Borghese. Beber e dançar um pouco, e regressar aqui quando estivermos cansados. Contigo não quero ser aquilo que não sou, mas ainda não tenho a certeza do que sou. Estes dois próximos meses vão ser estranhos. Toda a cidade se rirá até mais não. Vou ter de juntar o que me resta de dignidade.

->E depois, George?

- Depois... talvez possamos ir para casa juntos. Concedes-me esse tempo?

- Pode demorar muito mais do que isso, George - avisou-o Ruth, com gentileza. - Não te mostres demasiado ansioso.

--Que queres dizer?

Mesmo depois de lho ter explicado, não ficou com a certeza de que Faber a tivesse compreendido.

 

EXTRACTOS DAS MEMÓRIAS SECRETAS DE KIRIL I, PONT. MAX.

... O dia de hoje foi longo e cheio de problemas. Logo de manhã, Orlando Campeggio, editor do Osservatore, apresentou-se ante mim para me pedir a resignação do cargo. Contou-me uma complicada e sórdida história de conspiração para a apresentação de provas por meio de suborno referentes ao caso matrimonial de Corrado Calitri, que foi recentemente decidido pela Santa Rota Romana. Campeggio disse-me que ele próprio participara nessa conspiração.

A tentativa não deu resultado, mas fiquei profundamente chocado por esta revelação das confusas vidas de pessoas que são já suficientemente velhas e cultas para agirem de outro modo. Não tive alternativa a não ser a de aceitar a resignação. Contudo, tive de lhe louvar a honestidade e disse-lhe que a sua pensão não seria afectada. Compreendo muito bem os motivos que o levaram a esta quebra da confiança, mas isso não é razão suficiente para que lhe perdoe o acto.

Quando Campeggio me deixou, pedi imediatamente o processo do caso Calitri e estudei-o com todo o cuidado, com um funcionário da Rota. Não tenho dúvidas de que, ante as provas apresentadas, a Rota procedeu bem ao emitir o decreto de nulidade. Porém, a medalha tem um reverso: Corrado Calitri, um homem de grande poder e influência em Itália, vive há muito em perigo mortal para a sua alma. Tenho poucas dúvidas quanto à sua sinceridade, neste caso, ser suspeita, mas a Santa Rota Romana só pode julgar o foro externo. A alma de um homem só pode ser julgada no tribunal do confessionário. Portanto, fiquei numa curiosa posição. Como ministro da República, Corrado Calitri não está dependente da minha autoridade. A nossa relação na ordem temporal é definida por tratados e limitada pela diplomacia. Se discutirmos, posso provocar grandes males à Igreja e à Itália, especialmente porque não sou italiano. Não obstante, sou o seu pastor, e não estou apenas autorizado, como sou também na ordem espiritual Calitri é um meu súbdito. Como bispo de Roma, obrigado, se tal for possível, a intervir nos assuntos da sua alma. Pedi-lhe, portanto, que me viesse visitar quando tal lhe for conveniente, e espero poder oferecer-lhe um serviço pastoral para a regularização da sua consciência há tantos factores limitativos que é já suficientemente difícil conservar a paciência e a moderação, sem provocações calculadas.

»em linhas gerais, concordo com a estimativa de KampBel quanto a situação política e militar, amplamente confirmada pelos meus próprios conselheiros. Estes também concordam que se a situação não se encontrar resolvida nos finais de Março, então ela cairnos-á em cima

»Notei, com vivo interesse, o facto de Vossa Santidade estar a considerar uma visita a França em princípios de Fevereiro próximo é um acontecimento notável e pergunto a mim próprio -e a ao mundo se não Será possível utilizá-lo Para o bem de todos

«Compreendo perfeitamente que a Santa Sé não possa -e não queira - entrar directa ou indirectamente numa negociação política entre as grandes potências. Mas se por essa ocasião Vossa Santidade pudesse expor as esperanças de todos os homens, pela paz e por uma resolução negociada das nossas divergências, então seria possível de uma penada só, conseguirmos o ambiente de que necessitamos  

»Sei que tal não será fácil de fazer. A Santa Sé poderá ter de velar por aqueles países onde tem sofrido as maiores injustiças mas se uma ocasião histórica exige uma magnanimidade histórica. Pergunto a mim mesmo se não era algo assim que Kamenev tinha em mente quando vos escreveu pela primeira vez. Sei que é no entanto o que agora tenho em mente.

»Com todo o respeito, gostaria de fazer uma sugestão. Infelizmente, as igrejas da cristandade ainda estão divididas, mas há muito tempo que se verificam sinais de um crescente desejo de reunião Se fosse possível associar outros corpos cristãos ao apelo à paz de Vossa santidade, então a vantagem seria muito maior.

_   «Compreendo que ainda não foi tomada uma decisão quanto à sua vantagem e compreendo as ponderosas e prudentes razões para a demora -o posso dizer que desejo e espero que Vossa Santidade acabe por se decidir a ir a Lurdes...»

Goldoni viu a carta e sei que ficou dividido entre a excitação -o projecto e um prudente desejo de considerar todas as possíveis consequencias antes de se tomar uma decisão.

Sugeriu, como um desafio, que talvez fosse melhor eu discutir o assunto com os membros da Cúria. Sinto-me inclinado a concordar com ele. A minha autoridade é absoluta, mas o senso comum diz-me que um assunto tão vasto e de tantas consequências devo procurar os melhores conselhos que me for possível obter. Penso também que devia chamar o cardeal Pallenberg, da Alemanha, e Morand, de Paris para tomarem parte na discussão. Finalmente, decidimos nomear arcebispo Ellison para cardeal-arcebispo de Westminster. Pode ser o momento oportuno para o chamar também a Roma para lhe oferecer o chapéu cardinalício...

Jean Telemond veio ontem jantar comigo. Parece mais magro e muito cansado. Contudo disse-me que se sente bem e que trabalha regularmente. Está muito satisfeito com o cardeal Rinaldi, e os dois tornaram-se bons amigos. Sinto-me um pouco ciumento da boa sorte do Rinaldi, porque sinto a falta do Jean e no meio de toda esta pressão de assuntos para resolver podia servir-me um pouco da sua ampla visão do mundo. Rinaldi enviou-me um curto bilhete, escrito pela própria mão, agradecendo a minha simpatia pelo Leone. Tenho de admitir que foi mais um gesto calculado do que de simpatia, mas mesmo assim não deixou de ser notado, o que me satisfaz.

Sei que Jean continua preocupado a respeito do veredicto do Santo Ofício sobre o seu primeiro volume. No entanto é impossível’ apressar um exame como este, e incitei-o a ser paciente. O cardeal Leone prometeu dar-me uma opinião lá para finais de Outubro. Reparei que trata do assunto com extrema moderação e que, pessoalmente, mostra boa vontade para com Jean Télémond. no entanto é muito enfático quando afirma que não devemos nomeá-lo para funções de pregação ou ensino até serem conhecidas as conclusões do Santo Ofício.

Não posso deixar de concordar, mas continuo a pensar que gostaria de aprender a gostar dele. Tenho relações livres e fáceis com outros membros da Cúria, mas entre Leone e mim há sempre uma espécie de inibição e de falta de vontade. O defeito é tanto meu como dele. Ainda me ressinto da sua rigidez romana...

Georg Wilhelm Forster veio visitar-me e passei-lhe a resposta do presidente dos Estados Unidos. Forster é um homenzinho pequeno e estranho que vive uma vida perigosa, sempre com um bom humor permanentemente inalterado. Quando lhe fiz perguntas a seu respeito, disse-me que a mãe era lituana e o pai era georgiano. Estudou em Lcip/ig e Moscovo, e arranjou o nome alemão por motivos profissionais. É ainda membro praticante da igreja ortodoxa russa. Quando o interroguei como conciliava a sua consciência com os serviços prestados a um país sem Deus desviou a questão de uma maneira muito subtil.

- o que Vossa Santidade também está a fazer? A servir a

a Rússia do melhor modo que lhe é possível? Os sistemas passam, a guerra fica lá sempre, e estamos ligados a ela como que por um cordão umbilical. Kamenev compreende-me... e eu compreendo-o, cada um de nós exige demasiado do outro... e Deus compreende-nos melhor do que nós próprios.

Este pensamento acompanhou-me durante todo o dia, mesmo com outros sobre a crise que se aproxima, sobre Jean Téleman e a peregrinação a Lurdes, o estranho acordo de Corrado Calitri. Por vezes a minha compreensão oscila, não consegue abarcar tudo.

se Deus compreende, então ainda é caso para ter esperanças... Que o poeta escreve, a pena não necessita de compreender os versos. Quer o vaso esteja inteiro ou partido, continua a ser um testemunho da habilidade do oleiro...

Na última semana de Outubro, o cardeal Leone, durante uma audiência privada com o pontífice, apresentou a opinião do Santo Ofício sobre o livro de Jean Télémond. Na ocasião, Leone pareceu embaraçado, teve grande dificuldade em explicar a natureza e forma do documento:

- Houve um problema de tempo, Santidade, e questão das circunstâncias especiais da vida do padre Jean Télémond, bem como a das relações particulares entre ele e Vossa Santidade. Tendo em conta o factor tempo, os padres da Sagrada Congregação do Santo Ofício preferiram emitir uma opinião provisória sobre o trabalho em quesrtão, em vez de um julgamento formal. A sua opinião é breve, mas está acompanhada por um comentário esclarecendo certas propostas que são básicas para toda a tese. No que se refere à pessoa de Jean Télémond, os membros da comissão fazem uma especial chamada de atenção para a evidente espiritualidade do homem e para o seu espírito submisso como filho da Igreja e como clérigo regular. Não lhe fazem qualquer censura e não aconselham qualquer processo canónico.

Kiril acenou e respondeu, tranquilo:

- Ficaria muito grato se Vossa Eminência me lesse essa opinião na íntegra.

Leone levantou os olhos de repente, mas o pontífice baixou os> dele, mantendo impassível como uma máscara a face coberta de cicatrizes.

Leone leu com cuidado o texto latino:

- Os mais Eminentes e mais Reverendos Padres da Suprema e Sagrada Congregação do Santo Ofício, actuando sob instruções de Sua Santidade, Kiril I, Pontífice Supremo, transmitidas através do cartório da dita Congregação, levaram a cabo um diligente exame um manuscrito, obra do Reverendo Padre Jean Télémond, da ”vida de Jesus, intitulado O Programa do Homem. Tomam em atenção o facto de esta obra ser apresentada voluntariamente pelo autor, num espírito de obediência religiosa, e recomendam

qui, se mantiver esse espírito não fique sujeito a qualquer multa e que não seja aberto qualquer processo contra ele, sob a lei canónica. Reconhecem as honestas intenções do autor e a sua contribuição para a investigação científica, em particular no campo da palenteologia. Contudo, são da opinião de que a obra acima mencionada apresenta ambiguidades e até erros graves em assuntos filosóficos e teológicos, que ofendem a doutrina católica. Juntamos a esta opinião uma lista completa de propostas sujeitas a objecções, sob a forma de extractos do trabalho do autor e comentários dos mais Eminentes e Reverendos Padres da Sagrada Congregação do Santo Ofício. Os principais campos de objecção são os seguintes:

»Um: a tentativa do autor para aplicação de termos e conceitos da teoria da evolução aos campos da metafísica e da teologia é imprópria;

»Dois: o conceito de união criadora expresso no dito trabalho levaria a criação divina a tomar o aspecto de ser a finalidade do ser absoluto, em vez de ser um efeito de eficiente causalidade. Algumas das expressões usadas pelo autor levam o leitor a supor que ele pensa que a criação foi de certo modo uma acção necessária, em contraste com o clássico conceito teológico da criação como um acto de perfeita e absoluta liberdade de Deus;

»Três: o conceito de unidade, ou de acção unificadora, estritamente ligado à teoria evolucionista de Télémond, é mais de uma vez ampliado e aplicado até à ordem sobrenatural. Como consequência, Cristo aparenta ser dotado de uma terceira natureza, nem humana nem divina, mas cósmica;

»Quatro: na tese do autor, a distinção e diferença entre as ordens natural e sobrenatural não é clara, e é difícil de ver como consegue preservar de modo lógico a natureza gratuita da ordem sobrenatural, e portanto da graça.

»Os mais Reverendos Padres não pretenderam aceitar, palavra por palavra, o que o autor escreveu sobre estes pontos, pois caso contrário seriam forçados a considerar algumas das conclusões do autor como verdadeiras e reais heresias. Estão bem conscientes das dificuldades semânticas envolvidas na tentativa de expressão de um pensamento novo e original e querem admitir que o pensamento do autor permaneça ainda numa fase problemática.

»A sua considerada opinião é, contudo, a de que seja pedido ao Reverendo Padre Télémond que volte a examinar esta obra e todas as posteriores que dela possam estar dependentes, para as colocar em conformidade com a doutrina tradicional da Igreja. Entretanto deverá ser proibido de pregar, ensinar, publicar ou disseminar sob qualquer outra forma as dúbias opiniões assinaladas pelos padres da Sagrada Congregação.

»Passado em Roma, neste vigésimo dia de Outubro, no primeiro ano do pontificado de Sua Santidade Kiril I, Gloriosamente Reinante.

quando terminou a leitura, pousou o documento na secretária de Kiril e aguardou em silêncio.

- Vinte anos - disse Kiril, baixinho. - Vinte anos demolidos de uma penada. Pergunto a mim mesmo como o irá ele aceitar.

- Lamento, Santidade. Entretanto,   como comunicaremos esta notícia ao padre Télémond?

- Dar-lha-emos nós próprios. Vossa Eminência tem a nossa autorização para se retirar.

O velho leão conservou-se onde estava, teimoso e sem medo.

- Sei que se trata de um desgosto para Vossa Santidade, e desejaria poder partilhá-lo convosco:. Mas nem os meus colegas nem eu poderíamos ter chegado a um veredicto diferente. Vossa Santidade deve sabê-lo.

- Sabemo-lo. O nosso desgosto é particular. Agora, gostaríamos de ficar sozinhos.

Sabia que estava a ser brutal, mas não o conseguia evitar. Observou o velho cardeal a afastar-se, erecto e orgulhoso, até sair da sala, A seguir sentou-se pesadamente à secretária, olhando para o documento.

Estavam apanhados, tanto ele como Jean Télémond. De um só golpe, haviam chegado ao ponto decisivo. Para ele próprio, o resultado era claro. Como guardião da Base da Fé não podia aceitar erros nem correr o risco da sua disseminação. Se Jean Télémond se   deixasse abater pelo peso daquele veredicto, tinha de se manter à ; parte e vê-lo destruído, pois não podia permitir um único desvio da verdade transmitida por Cristo aos Seus Apóstolos, e dos Apóstolos à Igreja viva.

Para Jean Télémond, sabia-o, o problema era muito maior. Submeter-se-ia ao julgamento, sim. Obedientemente, dobraria a sua vontade à Fé. Mas que aconteceria ao seu intelecto, aquela ferramenta tão vasta e de tão boa têmpera, que se debatera durante tanto tempo com um mistério cósmico? E à sua residência, um corpo enfraquecido, com um coração irregular e incerto? Como aguentaria a batalha que em breve estaria a desenrolar-se no seu íntimo?

Kiril, o pontífice, dobrou a cabeça sobre as mãos e rezou durante uns instantes, desesperado, por ele e pelo homem que se tornara num irmão. A seguir pegou no telefone e pediu para que o ligassem à casa do cardeal Rinaldi.

O cardeal atendeu-o quase imediatamente. Kiril perguntou-lhe

Onde está o padre Télémond? no jardim, Santidade. Deseja falar com ele? Não. Convosco, Eminência... Como está ele hoje?

-Não muito bem, julgo. Passou uma noite má e tem um ar cansado. Passa-se alguma coisa?

- Acabei de receber o veredicto do Santo Ofício.

- Oh!... Bom ou mau?  

--Nada bom. Foram o mais longe que puderam numa tentativa para minimizarem as objecções, mas estas continuam a existir.

- São válidas, Santidade?

- Penso que sim, na sua maioria.

- Vossa Santidade deseja que o comunique ao Jean?

- Não gostaria de lho dizer eu mesmo. Pode metê-lo num carro e enviá-lo para o Vaticano?

-Claro que sim... Creio que talvez seja melhor preparado um pouco...

- Se lhe for possível, ficarei muito grato.

-Como se sente, Santidade?

- Preocupado por causa do Jean.

- Tente não se preocupar muito. Jean está melhor preparado do que ele próprio pensa.

- Espero que sim. Quando regressar aí, dê-lhe o seu apoio.

- Assim farei, Santidade, tenho por ele um grande afecto.

-Sei disso e estou muito agradecido a Vossa Eminência.

- Quem entregou o veredicto, Santidade?

- Leone.

- Estava perturbado?

- Sim, julgo que um pouco. Nunca fui capaz de o interpretar muito bem.

- Quer que lhe telefone?

- Se assim o desejar... Quanto tempo levará o Jean para chegar aqui?

- Cerca de uma hora, mais ou menos.

- Mande-o dirigir-se ao Portão Angélico. Darei ordens para que o conduzam imediatamente à minha presença.

-Assim farei, Santidade... Creia-me, lamento muito...

Quando Jean Télémond entrou, de rosto pálido mas direito e corajoso, Kiril avançou de mãos estendidas para o receber. Quando Télémond se preparava para beijar o anel do Pescador, Kiril endireitou-o e conduziu-o para a cadeira junto da sua secretária e declarou-lhe com afeição:

-Receio ter más notícias para ti, Jean.

-O veredicto?

- Sim.

- Era o que eu pensava. Posso vê-lo, por favor?

Kiril estendeu-lhe o papel por cima da secretária e estudou Télémond atentamente enquanto este o lia. O seu belo rosto pareceu enrugar-se sob o choque e surgiram-lhe pequenas gotas de suor na testa e nos lábios. Quando terminou pousou o documento sobre a secretária e olhou para o pontífice com olhos repletos de dor e perplexidade. Afirmou, numa voz pouco firme:

- é pior do que eu pensava... Tentaram ser amáveis, mas o veredicto é muito mau.

- não é definitivo, Jean, sabes bem disso. Parte do problema parece encontrar-se em questões de semântica. Quanto ao resto, não há censuras. Limitam-se a pedir que voltes a examiná-lo.

Télémond pareceu encolher-se para dentro de si mesmo. Tinha as mãos a tremer. Abanou a cabeça.

-Não há tempo... Desse volume dependem vinte anos< de trabalho. É a peça chave de toda a estrutura. Sem ela, o resto desmorona-se.

Kiril dirigiu-se rapidamente para ele e pousou as mãos nos trementes ombros de Télémond.

- Nem tudo está errado, Jean. Não é o que dizem. Levantam apenas objecções a algumas propostas e estas são a única coisa que pretendem que clarifiques...

-Não há tempo... À noite, sinto bater à minha porta. Estou a ser chamado, Santidade... e de repente o meu trabalho ficou desfeito. Que posso eu fazer?

- Sabes o que tens de fazer, Jean. Este era o momento que receavas. Estou aqui, a teu lado. Sou teu amigo... teu irmão. Mas o momento é teu e de mais ninguém...

-Quer que me submeta?

-Tens de o fazer, Jean, sabe-lo bem.

Através das pontas dos dedos, Kiril sentia a luta que agitava Télémond, em corpo e em espírito. Sentia o estremecimento dos nervos e dos músculos e a humidade do suor. Cheirava o odor de um homem au passar por um tormento mortal. A seguir, o tremor desapareceu.  

Muito devagar, Jean Télémond levantou um rosto desfigurado    pela dor. Numa voz que parecia arrancada à força, acabou por dizer:

-Muito bem, submeto-me... E agora? Submeto-me, mas não vejo a luz. Estou surdo para toda a harmonia que costumava escutar. Para onde foi ela? Estou perdido, abandonado... Submeto-me, mas ; para onde ir agora?

-   fica aqui comigo, Jean. Deixa-me partilhar essa tua escuridão. Somos amigos...   Chegou a hora do fel e do vinagre. Deixa-me

sofrê-los contigo.

por instantes pareceu que o homem iria consentir. Depois, com um enorme esforço, recuperou de novo o domínio sobre si mesmo. «levantou-se da cadeira com esforço e ficou de pé, enfrentando o papa, abalado, mas ainda um homem.

- Não, Santidade! Estou-lhe grato... mas não! Todos têm de beber, por si sós, o fel e o vinagre. Agora, gostaria de me retirar.

- Irei ver-te amanhã, Jean.

- Posso precisar de mais tempo, Santidade.

- Telefonas-me?

- Só quando me sentir pronto, Santidade... Só quando vir a luz.

; De momento e para mim, tudo é escuridão. Sinto-me abandonado no deserto. Vinte anos de trabalho lançados ao esgoto!    

-Mas não todo ele, Jean, lembras-te disso, pensa. Não todo.

- Talvez isso não tenha qualquer importância.

-Tudo tem a sua importância, Jean. Tanto o certo como o errado. Tudo é importante. Ganha coragem.

- Coragem? Sabe o que tenho neste momento, tudo o que tenho? Um pulso fraco que oscila e bate e me diz que amanhã posso estar morto... Já o disse, Santidade... submeto-me. Por favor, deixe-me partir.

- Jean, tenho um grande amor por ti - disse Kiril, o- pontífice. Uma amizade como nunca tive por qualquer outra pessoa, em toda a minha vida. Se pudesse sofrer por ti esse desgosto, essa dor, faria-o com grande satisfação.

- Eu sei - respondeu Jean Télémond, com toda a simplicidade. Estou-lhe muito mais agradecido do que sou capaz de exprimir. Mas mesmo com toda a amizade a rodeá-lo, um homem tem de morrer sozinho. E isto, sempre o soube, é dez vezes pior do que morrer.

Quando a porta se fechou por detrás dele, Kiril, o pontífice, esmagou os punhos em cima da mesa e chorou alto, de ira por causa da sua própria impotência.

No dia seguinte, e no outro, e no que se seguiu, não teve notícias de Jean Télémond. Imaginava o que o homem deveria sofrer. Apesar de toda a sua autoridade de Pastor Supremo, aquele era um drama, um muito íntimo diálogo, em que não ousava intervir.

Além disso, ele próprio estava afundado em trabalho, da Secretaria de Estado, da Congregação para os Assuntos da Igreja Oriental, da Congregação dos Ritos... Todos os tribunais e comissões de Roma pareciam exigir a sua imediata atenção. Tinha de viver o dia-a-dia com uma disciplina rígida e à noite continuava com a secretária coberta por pilhas de papéis, enquanto a sua alma gritava pela tranquilidade da oração e da solidão.

     Mesmo assim não conseguia deixar de pensar em Télémond. Na manhã do quarto dia - um dia preenchido por audiências privadas e |semiprivadas - telefonou ao cardeal Rinaldi. As informações de Rinaldi foram menos do que reconfortantes:

-Está a sofrer muito, Santidade. Não tenho dúvidas quanto à sua submissão, mas faço ideia o que lhe está a custar.

- E como vai a sua saúde?

- Na mesma. O médico veio vê-lo duas vezes. A pressão sanguínea está perigosamente alta, mas é claro que isso é o resultado da tensão e da fadiga. Não se pode fazer nada.

- Ainda está satisfeito por se encontrar aí consigo?

- Creio que está mais satisfeito aqui do que em qualquer outro lado. Compreendemo-nos um ao outro. Tem toda a privacidade de que necessita, e por estranho que possa parecer creio que a presença das crianças lhe faz bem.

- Que faz ele?

- De manhã diz missa e depois passeia um bocado pelos campos. Ao meio-dia vai à Igreja da nossa paróquia e lê os ofícios sozinho. Descansa depois do almoço, mas não creio que durma. À tarde passeia no jardim. Fala com as crianças quando estas chegam a casa. À noite jogamos uma partida de xadrez.

- Não está a trabalhar?

-Não. Está profundamente perplexo... Ontem, Semmering veio cá vê-lo. Falaram durante muito tempo e a seguir o Jean pareceu-me um pouco mais calmo.

- Será que ele gostaria que eu o fosse visitar? Rinaldi hesitou durante um instante.

- Não creio, Santidade. Tem uma profunda afeição por si, e fala de si muitas vezes, com gentileza e gratidão. Mas sente, penso, que não lhe pode pedir que o senhor se debruce, ou às suas funções, sobre o seu problema pessoal. É muito corajoso, sabe, muito nobre.

--O Jean sabe que tenho uma grande amizade por ele?

- Sabe, já mo disse. Mas a única maneira que tem de retribuir essa amizade é mantendo a sua própria dignidade. Vossa Santidade deve compreender uma tal posição.

- Compreendo. E, Valerio... - Era a primeira vez que tratava o cardeal pelo primeiro nome- ... estou-lhe muito grato.

- E eu a si, Santidade. Deu-me paz e a oportunidade de partilhar a minha vida com um grande homem.

- Se ele adoecer com gravidade, telefona-me imediatamente?

- Imediatamente, prometo-lhe.

- Deus o abençoe, Valerio.

Pousou o auscultador do telefone e deixou-me ficar sentado durante     um bocado, reunindo forças para as formalidades da manhã.

Não era senhor de si mesmo. Não podia desperdiçar mais do que uma parte de si próprio, mesmo com Jean Télémond.

     Cria em Deus, e à Igreja através de Deus. Nenhum homem era tão resistente para suportar um tal desbaratar dos recursos do corpo e do espírito, mas no entanto tinha de continuar a   gastá-los, confiando no Todo-Poderoso para uma renovação desses recursos.

A lista de audiências encontrava-se em cima da secretária. Quando’ lhe pegou verificou que o primeiro nome era o de Corrado Calitri. Carregou na campainha. Abriu-se a porta da sala de audiências e o mestre-camareiro conduziu o ministro da República à sua presença.

Depois de terminadas as primeiras formalidades, Kiril mandou embora o mestre-camareiro e pediu a Calitri que se sentasse. Notou a contenção do homem, os olhos inteligentes, o à-vontade com que se movia num ambiente de autoridade. Aquele homem nascera para ser eminente, era preciso lidar com ele com honestidade. Era preciso respeitar-lhe o orgulho e também a inteligência. Kiril sentou-se e dirigiu-se calmamente ao visitante:

- Estou amarrado a este lugar, meu amigo. Não sou tão livre para me deslocar como os outros, pelo que tive de lhe pedir que me viesse visitar.

- Sinto-me honrado, Santidade - respondeu Calitri, com formalidade.

- Terei de lhe pedir que seja paciente comigo e que não fique muito ressentido. Creio que maitarde sei que o teremos sentado na colina do Quirinal, enquanto eu permanecerei aqui sentado no Vaticano. Entre nós dois, governaremos Roma.

- Ainda há um longo caminho a percorrer, Santidade - disse Calitri, com um ligeiro sorriso. -- A política é um negócio arriscado.

-Então, esta manhã... - continuou Kiril, com suavidade ... vamos ignorar a política. Sou um sacerdote e o seu bispo. Quero falar-lhe de si próprio.

Viu que o choque deixava Calitri rígido e notou o súbito rubor que lhe subiu às faces pálidas. Apressou-se:

- O editor do Osservatore Romano apresentou-me a resignação do cargo há alguns dias. Creio que sabe porquê.

- Sei.

- Fiquei suficientemente preocupado para pedir o processo do seu caso à Santa Rota Romana. Examinei-o com muito cuidado’. Tenho de lhe dizer que o registo de todo o processo está em ordem e que o decreto de nulidade foi inteiramente justificado pelas provas apresentadas.

O alívio de Calitri foi visível.

-Fico satisfeito por saber, Santidade. Cometi um grande erro ao tentar o casamento. Não me sinto muito orgulhoso de mim mesmo, mas alegra-me que, no fim, fosse feita justiça.

Num tom tranquilo, Kiril, o pontífice, continuou:

Havia nesses registos uma coisa que me interessou mais do que o processo legal... provas de um profundo dilema espiritual na vossa alma. - Calitri abriu a boca para falar, mas o pontífice deteve-o, levantando a mão. -Não, por favor! Deixe-me terminar. Não lhe pedi que viesse aqui para o acusar. É meu filho em Cristo, quero ajudá-lo. Debate-se com um problema especial e muito difícil. Gostaria de o ajudar a resolvê-lo. Calitri voltou a corar e depois esboçou um irónico encolher de ’ ombros.                                                                                                      

- Somos aquilo que somos, Santidade... Temos de conseguir o melhor pacto possível com a vida. Creio que os registos mostram também que procurei melhorar as condições do pacto...

- Mas o problema continua, não é verdade? -Sim. Tentamos fazer substituições, sublimações. Algumas dão resultado, outras não. Nem todos nos sentimos prontos para uma vida inteira de crucificação, Santidade. Talvez assim devesse ser, mas não é. - Soltou uma gargalhada baixa e seca. - Ainda bem, talvez, porque caso contrário encontraríamos metade do mundo encerrado nos mosteiros e a outra metade a saltar do alto de um precipício...

Para sua surpresa, Kiril aceitou a ironia com um ”orriso de bom humor.

- Pode parecer-lhe estranho, mas não estou em desacordo consigo. De uma maneira ou de outra, todos temos de acabar por nos aceitar tal como somos e de aceitar o mundo tal como ele é. Nunca fui da opinião de que temos de o fazer destruindo-nos a nós próprios... ou até, o que é mais importante, destruindo os outros. Posso fazer-lhe uma pergunta, meu filho?

- Poderei não ser capaz de responder, Santidade.

-Esse seu problema... Aquilo que o arrasta... Como é que o define para si mesmo?

Foi a vez de Calitri surpreender o pontífice, não fugindo à questão. - respondeu com toda a franqueza.

- Já o defini há muito tempo, Santidade. É uma questão de amor. há muitas variedades de amor e eu -não tenho vergonha de odizer. - sou susceptível e capaz de uma variedade especial.-Continuou, num tom urgente. -Algumas pessoas adoram crianças, outras acham que não passam de monstrozinhos. Não as censuramos, aceitemo-lus por aquilo que são. A maior parte dos homens é capaz de amar as mulheres... mas mesmo nesse caso, nem a todas as mulheres, Eu sou atraído pelos homens. Por que razão me deveria envergonhar desse facto?

- Se deve envergonhar - declarou Kiril, o pontífice - quando esse amor se torna destruidor, como já aconteceu no passado e como pode acontecer com o filho de Campeggio. Um homem promíscuo não é um amante verdadeiro, está demasiado centrado em :   si próprio. Tem ainda um grande caminho a percorrer para atingir a maturidade. Compreende o que estou a tentar dizer-lhe?

-Compreendo. Compreendo também que não se atinge a maturidade num único salto. Creio que começo agora a chegar a esse ponto...

- Sinceramente?

-Quem, entre nós, é totalmente sincero consigo mesmo, Santidade? Também a sinceridade necessita de uma vida inteira de prática. Digamos que talvez eu comece agora a ser sincero... mas a política não é o melhor dos campos de treino, e o mesmo se passa com o mundo.

- Fica zangado comigo, meu filho? - perguntou Kiril, o pontífice, com um sorriso.

-Não, Santidade, não fico... mas também não fique à. espera que me renda a si como uma menina da escola na primeira confissão.

- Não o espero, mas mais cedo ou mais tarde terá de se render. Não ante mim, mas ante Deus.

- Isso também leva o seu tempo.

- Qual de nós pode garantir a si próprio que tem tempo? O seu tempo de vida é assim tão certo? Ou o meu?

Calitri ficou silencioso.

- Pensará no que eu lhe disse? -Pensarei, Santidade.

- Sem ressentimentos a meu respeito?

- Tentarei não os ter, Santidade.

- Obrigado. Antes de ir gostaria de lhe dizer que aqui, neste lugar e há três noites, permaneci e sofri com um homem que me é tão caro como a vida. Um homem que amo. Amo-o no- espírito e na carne. Não tenho vergonha do facto porque o amor é a mais nobre emoção da humanidade... Costuma ler o Novo Testamento!

- Há muito tempo que não o leio.

- Então deverá ler a descrição da Última Ceia, onde João, o Apóstolo, se sentou à mão direita do Mestre e pousou a cabeça sobre o Seu peito, para que todos os outros vissem, se interrogassem e dissessem: Vejam como ele O ama.» - Levantou-se e declarou, com brusquidão: - O senhor é um homem muito ocupado. Já lhe tomei demasiado tempo. Por favor, perdoe-me.        Calitri levantou-se também e sentiu-se um anão junto da alta e imponente figura do pontífice. Afirmou, não sem humor: - Vossa Santidade correu um grande risco ao chamar-me aqui. - O meu cargo é arriscado- respondeu Kiril, tranquilamente. No entanto são muito poucas as pessoas que o compreendem... além disso, o vosso risco é muito maior. Por favor, peço--lhe, não o subestime.

Tocou a campainha e entregou o seu visitante às mãos experientes do mestre-camareiro.

Quando Corrado Calitri atravessou o portão de ’bronze para o pálido sol da Praça de São Pedro, a princesa Maria-Rita aguardava-o no automóvel. Interrogou-o, astuta e ansiosa.

- Então, rapaz, que tal correu? Nenhum problema, espero? Deram-se bem? Falou a respeito do veredicto? De política? Estas coisas são muito importantes, sabes? Vais ter de viver com esse homem durante muito tempo.

- Pelo amor de Deus, tia - disse Calitri, irritado-, cale-se e deixe-me pensar!

Às onze horas dessa mesma noite, o telefone tocou nos apartamentos privados de Kiril. O cardeal Rinaldi encontrava-se na linha, profundamente preocupado. Jean Télémond sofrera um ataque de coração e os médicos aguardavam outro a qualquer momento. Não havia esperanças de lhe salvar a vida. Rinaldi já lhe administrara os últimos sacramentos e mandara chamar o geral dos Jesuítas. Kiril pousou o telefone com violência e ordenou que o seu carro estivesse pronto dentro de cinco minutos, com uma escolta da polícia italiana,     Enquanto se vestia à pressa para se meter à estrada, saltaram-lhe aos lábios orações simples e infantis. Não deve acontecer. Não pode     ser. Deus deve ser melhor para Jean Télémond, que arriscou muito durante tanto tempo. «Por favor, por favor, deixai-o viver um pouco mais! Deixai-o viver até que eu lá chegue e lhe dê a paz... Amo-O’! Preciso dele! Não o leves tão de repente!»

Enquanto o grande carro rugia através das horas nocturnas da cidade, com a flâmula do Vaticano a flutuar e as sirenes da polícia a abrir caminho por entre o trânsito, Kiril, o pontífice, fechou os olhos e dedilhou as contas do seu rosário, concentrando todas as energias do seu espírito numa simples petição pela vida e pela alma de     Jean Télémond.

Ofereceu-se a si próprio como refém -como vítima, se necessário - em seu lugar. Mesmo enquanto orava, debatia-se com um ressentimento por, com tanta falta de moderação, lhe ser ia arrancado o homem que amava. A escuridão que Jean Telenomd sofrera parecia agora precipitar-se sobre ele, pelo que, enquanto punha       a sua mente à submissão, o coração gritava amargamente por por fim a sentença.

quando Rinaldi o recebeu à porta da vila, de rosto cinzento e calado, soube que a sua petição fora recusada. Jean Télémond, insatisfeito, embarcara para a sua última viagem.

 

- Está a apagar-se, Santidade - disse Valerio Rinaldi. - O médico está junto dele. Não passará desta noite.

Conduziu o pontífice para a antiga sala onde se encontrava o médico, com o geral dos Jesuítas, ambos olhando para baixo, para Télémond, e onde as velas ardiam dando uma última luz àquele espírito que partia. Télémond jazia, inconsciente e inerte, as mãos pousadas sobre a colcha branca, de rosto emagrecido, olhos fechados profundamente enterrados nas órbitas.

Kiril ajoelhou-se ao lado da cama e tentou chamá-lo de volta à consciência.

- Jean! Consegues ouvir-me? Sou eu, Kiril, vim logo que me foi possível. Estou aqui contigo, a segurar-te na mão. Jean, meu irmão, se puderes, por favor