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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


ASSASSINATO / Alv Cortroa
ASSASSINATO / Alv Cortroa

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

        Paul Linden afirmava que iria dominar Nova Iorque com os seus assaltos e mortes. “aprendeu” a arte de pistoleiro numa cidade pequena, mas sua ambição por N.I. Era superior a tudo e a todos. Foi apresentado a Bill framer, um pistoleiro completamente estabelecido na cidade, por Santos, seu melhor amigo. Santos era até então o homem de confiança de Framer, e chefe dos bandidos que para eles trabalhavam, vendendo proteção... a quem dela precisava!! Contudo Framer, não admitia aos seus subordinados o assassinato, tudo teria de ser feito sem sangue, Para Linden, o ser profissional do gatilho, era isso mesmo, após várias mortes Linden tomba na cidade que queria dominar, dominado por ela mesma.

 

 

 

 

 

 

        Bill Framer era um homem de sorte. Além de ser dono de um suntuoso clube noturno, possuía ainda uma estupenda organização que "vendia proteção", bancava apostas, traficava com drogas e explorava máquinas caça-níqueis.

        Para que tudo marchasse às mil maravilhas, dispunha de um grupo de rapazes escolhidos a dedo, a fina-flor dos “bas-fonds", pistoleiros com ampla liberdade de ação.

        Naturalmente Framer reservava para si uma percentagem bastante elevada, pois nada tinha de altruísta ou sentimental.

        Seus rapazes recebiam um salário convencionado e também parte dos lucros da casa.

        Framer era produto dos tempos da "lei-seca", quando aprendera a viver e fazer-se respeitado.

        Quando essa época dourada terminou, Bill Framer ficou um tanto desorientado, pois não sabia fazer outra coisa além de ganhar dinheiro fácil e abundante.

        Assim, enveredou por aqueles ramos de negócio afins, tendo a satisfação de verificar que em Nova Iorque ainda havia muito campo de ação a explorar.

        Reunindo um grupo de indivíduos fiéis, profissionais do gatilho e sem qualquer sombra de escrúpulos, ficou rico, ou pelo menos conservou o que amealhara nos áureos tempos da "lei-seca".

        Sua casa, o "Queen", fora montada com requinte e oferecia constantes atrações internacionais, um verdadeiro chamariz para todas as noites, com os consequentes lucros avolumando-se na caixa.

        Contudo, não dispunha apenas de instalações próprias de um clube noturno, possuía três aposentos muito bem mobilados, com saída de emergência para uma ruela dos fundos. Apenas ele e seus rapazes podiam usá-los.

        Um deles ficara sendo o gabinete do patrão. Outro fora aproveitado como sala-de-estar, onde os pistoleiros matavam o tempo jogando cartas, conversando ou bebendo. O terceiro aposento destinava-se aos mais variados usos, como pronto-socorro para algum ferido ou refúgio para um membro que não tivesse interesse em sair à rua por certo tempo, caso seu rosto fosse demasiado familiar à Polícia.

        Framer vivia satisfeito, recordando os tempos distantes em que era obrigado a agir pessoalmente.

        Agora, quem entrava no fogo eram seus homens chefiados pelo mexicano Santos, enquanto ele permanecia calmamente no gabinete ou passeava por entre as mesas repletas do "Queen".

        Tudo corria como roda bem lubrificada e Framer tinha um sorriso beatífico nos lábios, refestelado na poltrona de seu gabinete, ouvindo os rumores distantes da orquestra no salão e as vozes de seus homens que jogavam cartas na sala contígua.

        Tinha nas mãos os fios do destino da organização e sabia como usá-los para que seus desejos se transformassem em dinheiro, poder e tranquilidade.

        Seu sorriso ampliou-se. Era um homem poderoso e nada poderia atingi-lo no alto de seu pedestal.

        Nesse momento, a porta do corredor para o salão principal foi aberta e Santos assomou a cabeça, fitando o patrão com olhinhos brilhantes.

        - Entre, rapaz - disse Framer, com o ar de superioridade benevolente que usava com todos. - Alguma novidade?

        Santos entrou, mas não sozinho. Vinha acompanhado por um homem que Framer nunca vira antes.

        Era um indivíduo baixo, de rosto sério e pálido, olhos apertados, que se cravaram insistentemente no dono da casa.

        - Quero apresentar-lhe um amigo, patrão - começou o mexicano, deixando-se cair numa cadeira em frente à mesa de Framer. - Um amigo do peito.

        Bill Framer contemplou o desconhecido, como se examinasse um verme. Disse afinal:

        - Fale.

        Santos sorriu, antegozando o efeito de suas palavras.

        - Este aqui é Linden, patrão. O formidável Linden!

        Framer continuou na mesma e Santos esclareceu:

        - Fomos companheiros em Dixon, onde trabalhamos até que fui obrigado a desaparecer de lá.

        - Linden é o melhor gatilho do país, o homem mais capaz, o amigo mais valente e sincero.

        Interrompeu-se e olhou para Framer fixamente, como procurando transmitir-lhe alguma mensagem silenciosa.

        - Quero que ele fique conosco – continuou. - Linden será nossa melhor aquisição nos últimos anos.

        Framer deu de ombros.

        - Está bem, rapaz. Se você acha que ele vale... pode ficar, embora já tenhamos gente suficiente.

        - Espere - Linden falou pela primeira vez.

        - Acho que não entendeu bem, ou meu amigo Celso Santos não se explicou devidamente.

        Framer franziu as sobrancelhas.

        - Na verdade, não falei tudo que devia - afirmou Santos.

        - Pois então fale de uma vez - replicou o patrão.

        - Meu amigo Paul Linden deseja... — começou Santos, interrompendo-se a um gesto de Linden.

        Santos parecia completamente subjugado pela vontade do homenzinho de olhar frio.

        - Eu mesmo posso dizer o que quero - declarou Linden. - Celso e eu não temos segredos um para o outro, e é por isso que estou a par do que se faz nesta casa.

        Framer tornou a franzir as sobrancelhas, mas ficou calado.

        - O que desejo - continuou Linden muito calmo - é ocupar o lugar de meu amigo Santos, mas com melhores lucros, naturalmente.

        Framer agitou-se na cadeira e levantou o rosto para examinar melhor o audacioso intruso.

        Houve um silêncio pesado.

        Santos sorria, Linden parecia uma esfinge e Framer continuava assombrado.

        - Que diz a isto, Santos? - perguntou este finalmente, olhando para seu homem de confiança.

        Santos limitou-se a mover a cabeça afirmativamente.

        Framer pareceu meditar por alguns segundos, contemplando as mãos que pousara sobre a mesa. Decidiu-se, subitamente, com um tapa na pasta à sua frente.

        - Está bem - declarou. - Contudo, não vou dar um cargo de confiança a qualquer recém-chegado. Primeiro, preciso que ele me prove certas coisas.

        - Já esperávamos por isso, patrão - disse Santos.

        - Exato - confirmou Linden. - Seria demais esperar que o senhor concordasse à primeira vista.

        - Desejo comprovar pessoalmente se é mesmo o homem capaz que Santos afiança.

        - Muito bem - apoiou Santos, com ar triunfal. - Linden tem algumas ideias na cabeça e mostrará o que vale dentro de dois ou três dias.

        - Talvez amanhã mesmo - corrigiu Linden, impassível.

        Framer encolheu os ombros:

        - Você já me conhece, Celso. Faça como achar melhor.

        Levantou-se, deu volta à mesa e pousou a mão no ombro do mexicano.

        - E você - perguntou - concorda que outro lhe tire o lugar?

        Santos deu uma gargalhada.

        - Mas Linden não me tira coisa alguma! - foi a surpreendente resposta. - Estou felicíssimo em ser dirigido por ele! É um homem como poucos!

        Os cinco reuniam-se na sala vizinha ao gabinete do patrão. Havia garrafas e copos espalhados sobre as mesas.

        Santos ocupava uma poltrona e Linden fumava um cigarro atrás do outro, de costas na parede.

        Os outros três conversavam, mas percebia-se o nervosismo com que falavam.

        Ao entrar, Framer encarou seus homens em silêncio.

        - E então, Paul, que tem a dizer? - indagou a Linden.

        - Está tudo preparado - foi a resposta.

        - Podemos saber alguma coisa, antes que comece?

        - Não gosto de guiar meus amigos às cegas - replicou o pistoleiro. - Sempre lhes digo antes o que vão fazer.

        - Pois então, fale.

        Aos passos lentos, Linden foi até à mesa e estendeu sobre ela um papel que puxou do bolso. As cabeças de todos curvaram-se na direção do papel.

        - Em frente. Estou ouvindo - disse Framer.

        Linden pigarreou e começou:

        - Já ouviram falar no "Roberts Club"?

        - Claro - afirmou Framer. - Um estabelecimento de primeira.

        - É lá que vamos agir - declarou Linden, lacônico.

        - Será um osso duro de roer - comentou Hoffman, com um trejeito que lhe tornou ainda mais feias as feições. - Mas isso não vem ao caso. Será uma bela fatia...

        - Nada má, concordo - disse Linden. - Já estudei o local há dias. O dinheiro é guardado lá mesmo, na caixa-forte, e só vão ao Banco uma vez por mês. Além do mais, como nunca houve incidentes, estão inteiramente despreocupados.

        Santos esfregou as mãos.

        - Vamos, vamos, Paul, estou gostando do negócio.

        - Até uma criança abriria a caixa-forte, mas isso é o de menos. O interessante é que ela contém muito dinheiro.

        - Não gosto desses negócios que parecem muito fáceis à primeira vista - discordou Burton, um jovem louro e pálido.

        Linden encarou-o fixamente, sem um piscar de olhos.

        - É pegar ou largar - disse, falando lentamente. - Se você não gosta, muitos outros estão doidos para irem comigo.

        - Não é isso - emendou-se Burton. - Se os outros concordam, pode contar comigo.

        - Perfeito - disse Linden. - Agora ouçam: chegaremos lá por volta de meia-noite, quando a freguesia estará dançando no salão de baixo. Enquanto alguns homens vigiam a escada e a porta, eu e Santos vamos atrás do dinheiro. E então?

        - Daqui, parece tão simples! - comentou Burton.

        - E é simples. Se fosse difícil, eu preferiria ir acompanhado de homens, em vez de mulherzinhas.

        Burton levantou-se, ofendido.

        - Escute aqui...

        Um olhar gélido de Linden obrigou-o a engolir o que ia dizer. Tornou a sentar-se, sem vontade de fazer novos comentários.

        - Acho que tudo está muito bem - interveio Bill Framer. Por outro lado, estou gostando da ideia de ser precisamente o "Roberts" que assaltarão. Pertence à cadeia de Wellington, e tudo o que for feito contra ela terá meu beneplácito.

        Interrompeu-se por alguns segundos e prosseguiu:

        - Quero apenas avisá-los de uma coisa: nada de tiros. Não desejo encrencas, agora que tudo corre bem.

        - Isso depende das circunstâncias - começou Linden.

           Se já estão com ideia de dar ao gatilho - interrompeu Framer, em tom enérgico - é melhor desistir. Será preferível para todos nós.

        Celso Santos sorriu. Sendo o único a conhecer bem Paul Linden, sabia o quanto era difícil dissuadi-lo de usar sua arma durante algum assalto.

        Linden tinha duas paixões na vida: a cobiça por dinheiro, luxo e glória entre seus iguais, e sua pistola "Parabellum".

        - Se alguém pretende cometer homicídio, fique sabendo desde já que não terá minha ajuda - insistiu Framer.

        - Isso é impossível de prever - declarou Linden. - Se tudo correr como imaginamos, ninguém morrerá, mas se for preciso para que não me coloquem as algemas, hei de lutar e levar alguém na minha frente.

        - Pois evite que isso aconteça - finalizou Framer. - Sem sangue, tudo pode ser arranjado. Com mortes, nada feito.

        - Não precisa bater tanto na mesma tecla - interveio Santos, enérgico. - Linden sempre sabe o que tem a fazer. Prossiga, Paul.

        - Primeiro, ficaremos com o dinheiro da caixa registradora, depois, apanharemos o da caixa-forte, que sempre permanece aberta. Todos deverão cumprir sua tarefa ao pé da letra. Que ninguém perca tempo "aliviando" os frequentadores, porque isso prende muito a atenção e pode provocar complicações.

        Inclinou-se para o "croquis" e indicou um ponto.

        - O carro pode ficar aqui, com o motor ligado e o motorista fingindo que conserta algum defeito, com olhos e ouvidos virados para a entrada do "Roberts".

        - Entraremos no saguão por aqui - continuou, mostrando outros pontos. - Um homem ficará aí, enquanto outros seguirão para este lugar, onde ficam a registradora e a portaria. Enquanto passamos a "gaita" para nossos bolsos, outro irá para o começo da escada, atento a todos os que vierem do salão. Logo em seguida, nós dois - e olhou para Santos – entraremos por este corredor até o gabinete onde fica a caixa-forte.

        Levantou o corpo e passeou os olhos pelos ouvintes.

        - Será nesse momento que vocês deverão redobrar a vigilância, porque estarei fora de vista - continuou friamente. - Finda a tarefa, voltaremos e sairemos da casa de arma em punho. Entraremos no carro e... pernas pra que te quero!

        Comentaram, discutiram e finalmente todos concordaram.

        - Quem dirigirá o carro? - perguntou Linden.

        - Qualquer um - replicou Hoffman.

        - Prefiro um profissional - insistiu Linden.

        - Clifton pode ir - indicou Framer. - É chofer de táxi e nunca desprezou um trabalhinho extra.

        - Prefiro um carro particular - disse Linden.

        - Isso fica por conta dele - respondeu Framer. - Poderá até trocar a matrícula.

        - Se o rapaz é de confiança, está bem.

        - Tudo acertado então - interveio Santos.

        - Telefonarei para ele... Quando e a que horas, Paul?

        - Amanhã. Que ele venha cá - foi a resposta.

        Guardou o desenho e olhou para cada um dos homens que tomariam parte no assalto, como se quisesse radiografar-lhes escrupulosamente todos os recantos do cérebro.

        - Sei que todos são homens duros e profissionais competentes. Portanto, creio ser inútil dizer-lhes que não podem comentar por aí nada do que foi conversado aqui dentro.

        - Escute, você também! Quem pensa que somos? - protestou o turbulento Burton.

        - Em assuntos como este, nunca é demais repisarmos as obrigações que temos pela frente - replicou Linden. - Guardem sempre isso na cachola: enfio vinte gramas de chumbo no corpo do mais bonitinho, se souber que deu com a língua nos dentes.

        Celso Santos apressou-se a garantir:

        - Conheço todos eles, Paul. Esses rapazes têm muita coisa a guardar em segredo, de modo que não precisa ficar preocupado.

        - Mesmo assim, é melhor ficarem sabendo.

        Linden deu meia volta e caminhou para a porta, seguido por Santos que agora se transformara em sua sombra.

        Bill Framer foi para o gabinete e sentou-se na poltrona, eufórico com a nova aquisição do bando.

        Saltava aos olhos que Linden era um homem duro que sabia onde tinha o nariz. Quanto aos outros, eram todos peritos no assunto e podia confiar neles sem vacilar.

        Só estranhava a verdadeira idolatria que Santos parecia nutrir por seu velho amigo, Linden.

        Era um bom sinal, pois os membros de um grupo devem viver em harmonia para que tudo marche sem tropeços.

        Quando o patrão é um veterano em certos assuntos e consegue levar o barco com pulso firme, precisa apenas de um homem de confiança e bons elementos que o sigam sem hesitações. Dentro em pouco o dinheiro entraria aos jorros em suas contas-correntes...

        Franziu o cenho, ao pensar que isso só aconteceria se Linden não passasse dos limites.

        No entanto, o recém-chegado parecia gostar bastante de apertar o gatilho de sua arma, o que poderia causar reais aborrecimentos aos seus negócios, que ultimamente marchavam à perfeição.

        O tempo poria sua marca indelével entre o caminho já trilhado e o que trilhariam a seguir.

        Enquanto isso, Paul Linden e seu fiel companheiro caminhavam pela rua, açoitados pelas rajadas de vento gélido.

        Num café da Quinta Avenida, Santos pediu um martini seco com gim e Linden uma laranjada.

 

        O carro freou, balançando maciamente, e Clifton sorriu para os que o esperavam na porta dos fundos do "Queen".

        - O cara sabe escolher! - exclamou Burton, com um assobio de admiração para o automóvel que Clifton "providenciara".

        - Subam, rapazes! - apressou Linden. - O tempo voa.

        Acomodaram-se todos e Linden ordenou a partida, assim que a porta traseira foi fechada atrás do último homem.

        Olhou para trás e sorriu, satisfeito com os companheiros.

        Eram frios e determinados como ele. Para certificar-se, bastava observar a calma com que se portavam.

        De repente, os olhos do mentor do bando depararam com uma metralhadora no chão do carro, as pés dos que iam no banco traseiro.

        - Enfie isso debaixo da capa - ordenou a Hoffman, mudando de expressão em menos de meio segundo.

        - Acha que poderiam vê-la da rua?

        - Meta isso debaixo da capa! - repetiu Linden, num tom que não admitia discussões.

        O carro deslizou suavemente por várias ruas de Nova Iorque, iluminando-se fugazmente ao passar sob os letreiros luminosos e os postes de luz.

        Clifton demonstrou ser exímio no volante e dentro em pouco estacionava em frente ao enorme e ofuscante letreiro vertical que anunciava o "Roberts".

        - Vamos - disse Linden secamente, como se convidasse alguns amigos para um baile onde realmente dançariam.

        Celso Santos pulou alegremente para a calçada, com as mãos enfiadas até o fundo nos bolsos da capa.

        Hoffman e Burton foram os seguintes e os quatro formaram um grupo unido, cuja única intenção parecia ser a de passarem uma noite divertida, bebendo e dançando num clube noturno.

        Paul Linden voltou-se para o jovem Clifton:

        - Leve o carro para o estacionamento e volte correndo.

        Clifton não podia esconder seu nervosismo, a julgar pela maneira como o automóvel saltou para a frente, quando obedeceu à ordem do chefe.

        Estacionou junto a um maciço de plantas que enfeitava a entrada do clube e perscrutou os arredores cautelosamente.

        Os outros entraram no clube a passos firmes, certos de que sua conduta não despertava qualquer suspeita.

        Burton montou guarda ao pé da escadaria que levava ao subsolo onde ficava o salão de danças, enquanto Hoffman ajeitava-se ao lado da porta, atento a qualquer alarme que Clifton manifestasse no exterior.

        Santos e Linden caminharam com naturalidade para o balcãozinho da moça da caixa, separada da encarregada do guarda-roupa por um pequeno tabique de madeira.

        A mão da jovem já se movia para o talão de entradas, a fim de despachar os recém-chegados.

        Não terminou o movimento, abriu os olhos e a boca desmedidamente, ao reparar na pistola empunhada pelo homem que se aproximava.

        Vendo que ela não conseguiria reunir forças para gritar, Linden pediu, no mesmo tom em que pediria quatro entradas:

        - Vá entregando o dinheiro, boneca, e nada de histerismos!

        Àquela voz, a moça criou ânimo, e seu grito já ia sair da garganta, quando Linden agiu sem perda de tempo, esbofeteando-a várias vezes com a mão esquerda.

        Os tapas soaram como chicotadas, deixando um vergão rubro na face lisa da jovem.

        Segundos depois, os maços ordenados de notas existentes em seu poder foram transferidos para os bolsos de Santos com a maior velocidade.

        Tudo corria a contento para os pistoleiros, quando de repente abriu-se uma porta vizinha à caixa e saiu um homem vestido de negro.

        O homem só percebeu a situação quando Linden praticamente enfiou-lhe a pistola debaixo do nariz.

        - Oh! - exclamou apenas, levantando as mãos para cima, sem opor a menor resistência.

        - Fique atento! - disse Linden, virando-se para Burton. Em seguida empurrou o homem de negro pela mesma portinhola em que aparecera.

        Burton redobrou de atenção no topo da escadaria, ouvindo o rumor da orquestra e o vozerio dos frequentadores da casa no salão do subsolo.

        Hoffman observava Clifton, postado à entrada do clube, sem que o menor incidente perturbasse o desenrolar dos planos.

        Contudo, era uma calma aparente, que podia ser quebrada a qualquer instante. De súbito, Hoffman percebeu que Clifton lhe fazia um sinal.

        - Vem vindo, gente! - anunciou o motorista, excitado.

        Hoffman caminhou apressadamente para a portinhola em que Linden sumira pouco antes e alertou:

        - Paul! Ande depressa!

        Ouviu o som abafado de um golpe, seguido por um gemido. Logo depois, Linden surgia à vista, ainda enfiando maços de notas nos bolsos da capa.

        - Vem gente aí, Paul. Que faremos?

        - Deixem isso comigo...

        No momento em que Linden pisava o vestíbulo do "Roberts" um grupo de três casais aparecia na entrada do clube.

        As damas usavam elegantes trajes de noite e abrigos de peles, escoltadas por três cavalheiros de "smoking".

        Santos virou sua pistola para os recém-chegados.

        - Encostem-se à parede, depressa! - ordenou.

        As mulheres gritaram histericamente.

        Os homens empalideceram e dois deles levantaram as mãos, trêmulos, virando-se prontamente para a parede.

        O terceiro, entretanto, parecia não ter ouvido a ordem do mexicano, pois em vez de imitar os companheiros, levou a mão direita ao bolso traseiro das calças.

        Linden não o deixou terminar o movimento e apertou o gatilho da arma três vezes seguidas fazendo o homem encolher-se mais e mais, à medida que seu corpo ia recebendo os impactos fatais.

        Quando caiu de cabeça contra o chão, as mulheres prorromperam em gritos agudos e a orquestra ainda executou alguns compassos desafinados, para finalmente emudecer.

        Pouco depois ouviam-se passos precipitados pela escadaria, em direção ao local dos acontecimentos.

        - Contenha-os, Burton! - ordenou Linden.

        O pistoleiro correu para a escadaria e olhou para baixo. Os que subiam viram estupefatos o cano de uma metralhadora virado ameaçadoramente em sua direção e, logo em seguida, o fogo que ela cuspia, numa rajada infernal.

        Novos gritos. Vozes de homens e a encarregada da caixa perdendo os sentidos em seu cubículo.

        Ao virar a cabeça, Burton viu que seus companheiros já corriam "para a saída do clube. Correu também, não sem antes enviar mais algumas balas para o fim da escadaria, arrematando as rajadas iniciais.

        Alcançou em duas passadas os companheiros que já entravam no carro.

        Após duas tentativas, Clifton conseguiu dar partida ao motor, arrancando com uma sacudida tão forte, que seria reprovado sem apelação em qualquer exame para motorista.

        A seu lado, Linden encarou-o em sinal de censura.

        - É melhor não perder a calma. Quando está nervoso, um homem comete muitas tolices - disse.

        Clifton pareceu serenar-se, concentrando toda a sua atenção no veículo que dirigia como uma bólide pelas ruas.

        Hoffman olhou para trás e tranquilizou-os:

        - Estamos sozinhos, meninos. Não há ninguém pelas costas.

        Momentos depois, o carro perdia-se num labirinto de ruas, dobrando várias vezes para a direita e esquerda, para despistar algum possível perseguidor.

        Com um suspiro de alívio, os ocupantes do automóvel acenderam os cigarros, sentindo a tensão afrouxar.

        Mais alguns minutos e o carro parava diante da porta traseira do "Queen".

        Linden foi o último a entrar no clube. Parou junto ao carro e ordenou a Clifton:

        - Abandone-o em qualquer rua e depois venha buscar o seu.

        - Está bem.

        Com um arranco, o automóvel dentro em pouco sumia na distância.

        Ao chegar ao salãozinho contíguo ao gabinete de Framer, Linden já encontrou os companheiros refestelados nas poltronas, todos satisfeitos com a façanha que acabavam de praticar.

        Todos, menos Bill Framer.

        Ao observá-lo, Linden adivinhou que o patrão já soubera dos acontecimentos, mas ficou calado, limitou-se a tirar os maços de notas que lhe enchiam os bolsos.

        Faziam um monte apreciável sobre a superfície nua da mesa.

        Santos pôs-se também a esvaziar os bolsos, e Hoffman assobiou, admirado à vista da quantidade de dinheiro.

        Os olhinhos de Burton falsearam ao pensar na parte que lhe corresponderia. Todos sorriam, antegozando a próxima divisão. Sentiam-se felizes. Todos, menos Bill Framer.

        Olhou para o monte de dinheiro exposto na mesa e em seguida contemplou Paul Linden.

        O pistoleiro percebeu que era observado e virou-se para o patrão, sustentando-lhe o olhar, como dois adversários em duelo.

        - Parece ter algo a dizer - começou Linden, quebrando o gélido silêncio que repentinamente pairara na sala.

        - Sim, Paul - disse Framer. - Tenho mesmo algo a dizer.

        - Pois então diga de uma vez e pare com esse jeito de advogado de acusação. Não é muito dinheiro? Penso que isso aí é bem mais do que você já ganhou em muitos assaltos.

        - Para mim é pouco... - começou Framer.

        - Ora, patrão, deixe de piadas - interrompeu Santos. - Nessa mesa há uma bolada e tanto.

        - Mas vocês mataram um homem - soltou Framer finalmente.

        As palavras de Bill Framer foram como uma ducha gelada no ânimo dos pistoleiros. Já se tinham esquecido do homem que tombara crivado de balas e agora só se interessavam pelo dinheiro que parecia acenar-lhes tentadoramente.

        - Bem, e daí? - replicou Linden, com a mais absoluta tranquilidade. - Foi preciso matá-lo. Azar...

        - Eu recomendei que não usassem armas. Hoje em dia, assassinato não tem jeito neste país.

        As palavras de Framer saíam trêmulas, indicando o quanto ficara impressionado com o fato.

        - Repito que foi preciso - finalizou Linden.

        - Talvez você preferisse que o morto fosse um dos nossos, não? Diga isso, e cuspo-lhe na cara.

        Linden falava em tom desafiante, com os olhos brilhando, excitado. Sua baixa estatura parecia ter desaparecido para dar lugar a um gigante que crescia diante do patrão.

        Framer não conseguiu sustentar aquele olhar zombeteiro e arrogante. Abaixou a cabeça, querendo voltar atrás.

        - Não estou fazendo acusações - murmurou.

        - Digo apenas que essa história não me agrada... É perigoso, muito perigoso!

        - Vamos mudar de assunto, tá? - disse Linden. - Quem matou o sujeito fui eu, mas poderia ter sido qualquer um dos rapazes. O cara ia puxar uma arma.

        - Bem... Oxalá não nos aconteça nada! - suspirou Framer.

        - Deixe de tanto medo, homem!

        Framer caminhou para a porta, mas virou-se antes de sair.

        - Façam a divisão - disse em voz cansada. Quando fechava a porta, ainda teve tempo de ouvir algumas palavras que lhe atingiram o coração como setas envenenadas:

        - Quando vão ficando velhos, certos homens começam a acovardar-se...

        Teve vontade de entrar de novo. Chegou a segurar a maçaneta, mas pensou melhor e desistiu.

        Nos tempos da proibição, ele fora um dos melhores pistoleiros, ganhava rios de dinheiro, era temido e poderoso, agora, porém, a situação se modificara.

        Hoover era uma força ameaçadora e temível, comandando o FBI com pulso de ferro, dirigindo um grupo de jovens que não se deixavam corromper.

        Pôs-se a meditar tristemente em sua poltrona. Estaria mesmo acabado para aquela vida? Teria ficado covarde? Chegara a um impasse em sua existência, impasse que precisaria ser medido e analisado detidamente, pois a presença de Linden agigantava-se e nada prenunciava de bom.

        Enquanto isso, os pistoleiros davam início à contagem do dinheiro obtido no assalto.

        Seus cálculos mais otimistas ainda distavam bastante da realidade, uma vez que cada um deles receberia vários milhares de dólares, quantia suficiente para deixá-los fora de si.

        Os montinhos de notas avolumavam-se diante deles, inclusive o que tocava a Clifton, colocado em frente a uma cadeira vazia.

        Ao terminar a divisão, Santos comentou:

        - Não acham que Clifton está demorando muito?

        - Certamente distraiu-se por aí... - lembrou Hoffman.

        Santos levou a Framer a parte que lhe correspondia e o montinho de Clifton continuou sobre a mesa, fazendo aumentar a impressão de sua ausência.

        Os pistoleiros beberam do melhor uísque trazido do salão, fumaram um cigarro após outro e até jogaram cartas, mas seus olhares pareciam atraídos fatalmente para o dinheiro de Clifton, como se as notas clamassem pela estranha demora do motorista.

        Santos levantou-se.

        - Vou à casa dele - disse. - Talvez tenha ido para lá...

        - Está bem - autorizou Linden. - Traga um jornal, quando voltar.

        A reunião continuou. Como sempre, eles ficariam por ali até à hora do estabelecimento fechar, quando então sairiam confundidos com os frequentadores.

        Santos chegou meia hora antes de cerrarem as portas, procurando aparentar uma tranquilidade que todos adivinharam forçada.

        Deixou-se cair numa poltrona junto a Linden e estendeu-lhe um jornal, sob o olhar inquisitivo do resto do bando.

        Linden apanhou o jornal em meio ao mais absoluto silêncio, mas não o desdobrou.

        - Foi à casa do rapaz? - perguntou a Santos. O mexicano afirmou com a cabeça.

        - E então?

        Nem entrei. Sua mãe disse-me que ele está na cama - respondeu Santos.

        Linden apertou os olhos e assim ficou por vários segundos, sem que ninguém falasse.

        - Na cama? - repetiu finalmente. - Doente? Santos fez um trejeito com a boca.

        - Pelo visto...

        - Compreendo - retrucou Linden, passando a língua pelos lábios. - Já sei o que há com ele.

        - Eu estava certo de que você perceberia - disse Santos.

        - Hum! Terei de fazer-lhe uma visitinha - murmurou Linden. - Isso é perigoso... para todos nós.

        Piscou para Santos e levantou-se com ar decidido. Naquele momento fora assinada uma sentença de morte.

        - Espere, Paul - pediu Santos, vendo-o andar para a porta.

        - Ainda há mais?

        - É melhor você ler o jornal - insinuou o mexicano. - É a primeira edição de amanhã.

        Linden ainda vacilou, mas por fim apanhou o jornal e procurou por algumas páginas, até encontrar o que desejava.

        Após ler a noticia, amarfanhou a folha furiosamente e atirou-a a um canto, virando-se para Santos com um muxoxo:

        - Para mim, tanto se me dá! - exclamou, dando de ombros. - Um homem é sempre um homem! São todos iguais, seja estivador ou o presidente da República... Bolas!

        Saiu do aposento.

        Santos recolheu o jornal, alisou cuidadosamente a página que interessava a todos e, juntos, puderam ler as manchetes que anunciavam o assalto ao "Roberts", no qual perdera a vida um agente especial do FBI.

 

        Ouvindo sua mãe bater à porta logo que amanheceu, Clifton fez um esforço e saiu da cama, sentindo o corpo moldo e trêmulo sem razão aparente.

        Passara uma noite infernal, não conseguira pregar olhos por um minuto sequer. Estava lívido, de olhar mortiço, com profundas e escuras olheiras que lhe davam um aspecto doentio. Seria impossível ir trabalhar naquele estado. Não se sentia com forças para ficar ao volante de um táxi durante horas e horas, percorrendo Nova Iorque em todos os sentidos à procura de passageiros e a transportá-los.

        Tinha medo de enfrentar a rua e a luz do sol. Já participara de muitos assaltos e roubos da quadrilha, mas nunca presenciara o assassinato de um homem, como desta vez.

        Ficara profundamente afetado com a visão e não podia afastá-la do pensamento, vendo-a repetidas vezes, numa reprodução exata da cena que assistira.

        Como uma insinuação velada, adivinhava por trás de tudo a forma tétrica da cadeira elétrica, num convite fatal para que a usasse.

        Sentou-se molemente numa poltrona ao lado da janela e arriscou um olhar para a rua, temendo descobrir algum policial de pé à sua porta.

        Quando a mãe comentou que chegaria tarde ao trabalho não lhe deu ouvidos, achando que já tinha preocupações suficientes com o terror sempre crescente que lhe dominava o cérebro.

        Com aquela ideia a martelar-lhe a mente, refletiu que só teria sossego depois que aliviasse a consciência, desabafando o tormento que não o deixava em paz.

        Afinal de contas, ele não apertara o gatilho da arma homicida e nem colaborara com o assassino na execução do crime.

        Sua função resumira-se em dirigir um automóvel roubado e ficar vigiando a porta de entrada do "Roberts".

        Estremeceu quando chegou a esse ponto, pois se isso era verdade, também era certo que fora ele quem denunciara a chegada de um grupo de pessoas, entre as quais estava o homem que pouco depois seria assassinado.

        Estava perdido, sem a menor "chance" de escapar.

        Lembrou-se em tempo de que por vezes uma declaração espontânea às autoridades amenizava a sentença. Talvez não fosse tão responsável como imaginava.

        Animado a esse pensamento que cada vez tomava mais lugar em seu cérebro, levantou-se e fez a barba, achando que devia apresentar-se com a melhor aparência possível.

        A campainha da porta soou pouco depois e Clifton ouviu sua mãe acolher o visitante. Era Santos.

        Quando os dois homens ficaram a sós, Clifton foi incapaz de sustentar o olhar do pistoleiro, adivinhando que ele perceberia imediatamente suas intenções.

        - Pensávamos que estivesse doente - comentou Santos.

        - Bem... Eu... Quem disse que estou doente? Isto é... não me sinto muito bem, compreende?

        Sabia que suas palavras não soavam com convicção e que Santos logo veria que estava mentindo.

        Confirmando suas suspeitas, Santos perguntou rispidamente:

        - Por que não voltou ao "Queen" depois que largou o carro?

        Já esperava a pergunta, mas mesmo assim gaguejou:

        - Sentia-me nauseado. Talvez tenha comido qualquer coisa que não me fez bem e...

        - Está com medo?

        A pergunta direta de Santos foi a gota que fez o copo transbordar. Fingiu espantar-se, procurando desesperadamente aparentar uma naturalidade que estava muito longe de sentir.

        - Medo? - A voz saiu trêmula e balbuciante. - Medo...

        - Já sei o que há com você, rapaz - sorriu Santos. - Todos sentem a mesma coisa da primeira vez.

        Levantou-se e puxou o chapéu até as sobrancelhas.

        - Fique em casa por uns dois dias - aconselhou o mexicano, com as mãos enfiadas nos bolsos e contemplando o aterrado jovem com ar superior e paternal. — Isso que você tem passará pouco a pouco.

        Clifton levantou-se também. Sentia os membros flácidos e um delgado fio de baba escorria-lhe, pelo canto da boca.

        - Ouça isto, rapaz - finalizou Santos. - Fique em casa durante uma temporada e não saia para nada, ouviu? Para nada!

        Clifton estava tão perturbado que nem o viu sair. Seria um aviso ou uma ameaça? Era só o que faltava, seus companheiros suspeitarem dele! Pensando bem, Santos tinha razão, um olhar lhe fora suficiente para saber que ele estava amedrontado, e isso poderia ser perigoso para o resto do bando.

        Sim. Clifton estava prestes a estourar, com os nervos tensos e os pensamentos confusos, ansioso por recuperar a calma interior. E só havia uma maneira.

        O dia escorreu lento e pesado, cheio de ameaças e sobressaltos. Mesmo assim, já noite alta Clifton decidiu saúde casa.

        Camuflou o rosto com um cachecol e enfiou o chapéu até as orelhas, sentindo-se renovado ao abrir a porta e descer os primeiros degraus.

        Ao dar início à decisão que tomara, todo o seu ser pareceu invadido por uma onda de limpeza e vitalidade.

        Olhou para ambos os lados da rua e notando-a deserta começou a caminhar cautelosamente, quase grudado às paredes.

        A Delegacia Polícia não ficava longe, e alegrava-se ao pensar que daí a pouco descarregaria de sua cabeça aquela lousa que parecia pesar toneladas.

        De repente, seu coração fez uma pausa para depois começar a pulsar desordenadamente.

        Percebeu que alguém caminhava junto a ele, quase pisando seus calcanhares. Teve medo de virar a cabeça é sentiu vontade de correr, de livrar-se da sombra que o perseguia, deixar tudo aquilo para trás... Ao tentar apressar o passo, teve a sensação de que algo lhe entorpecia os movimentos para impedir que consumasse o ato que pretendia praticar.

        Queria correr e não podia, ansiava por gritar, mas nenhum som lhe saía da garganta... Se pelo menos conseguisse chegar à delegacia... Não o conseguiu.

        Alguém pousou a mão em seu ombro, forçando-o a dar meia volta: era Paul Linden.

        Um pouco para trás, entre as sombras da noite, o apavorado jovem divisou o vulto de Celso Santos.

        Quis abrir a boca para dizer alguma coisa, talvez para cumprimentar o chefe do bando, mas foi-lhe impossível.

        - Você ia à Polícia - afirmou Linden.

        A resposta de Clifton foi um som rouco e ininteligível, deformado pelo medo. Pelo canto dos olhos, verificou que Linden tinha a mão direita enfiada bem fundo no bolso da capa.

        Como num filme de câmara lenta, percebeu que ele retirava vagarosamente a mão e pôde ver o brilho metálico de uma pistola.

        Então gritou, gritou com todas as forcas, mas os estampidos da arma foram mais fortes.

        Quatro tiros. As casas, as luzes da rua, as calçadas e o rosto de Linden, tudo começou a rodar cada vez mais depressa diante dele, transformando-se num torvelinho enlouquecedor, cortado abruptamente pelo negrume da morte.

        O apito de um guarda soou ao longe, logo seguido por outros, juntamente com gritos e tronei de passos apressados.

        Não tardou muito e o corpo inanimado do jovem era cercado por um grupo de curiosos e policiais.

        Enquanto isso, Paul Linden e Celso Santos chegavam ao "Queen" e iam diretamente para os aposentos reservados do primeiro andar.

        A cidade acabava de devorar um homem que quisera conquistá-la.

        A noite seguinte parecia igual a todas as outras, com os pistoleiros reunidos na sala-de-estar, lendo jornais e revistas ou jogando cartas. Linden preferia ouvir o rádio.

        Burton chegou da rua com um jornal debaixo do braço. Cumprimentou os outros com ar sorridente e atirou-se numa poltrona. Desdobrando o jornal, começou a lê-lo.

        De repente, deu um salto e encarou os companheiros:

        - Mataram Clifton!

        - Sim? - exclamou Linden com indiferença, percebendo que o outro olhava para ele.

        - Alguém o fritou a tiros ontem à noite.

        - Briguinhas de bairro, sem dúvida - comentou Santos, deitando um olhar enviesado para Linden.

        - E nem apareceu para receber a sua parte! - exclamou o chefe do bando, pondo-se de pé.

        - Comprem-lhe uma coroa - sugeriu, tornando a sentar-se. - Bem bonita e com uma inscrição mais ou menos assim: - "Saudades eternas de seus amigos." Podemos dividir o resto do dinheiro em partes iguais: metade para a mãe dele e metade para nós. Que me dizem?

        Girou preguiçosamente o botão do rádio até encontrar uma estação irradiando uma musiquinha doce e envolvente.

        Acendeu um cigarro turco, ajeitou-se bem na poltrona e fechou os olhos, só faltando ronronar para que o quadro de placidez fosse perfeito.

        Contudo, a tranquilidade do ambiente não durou muito, pois Bill Framer apareceu como um torvelinho, batendo à porta com estrondo e parando de pé no meio da sala.

        Fixou o olhar furioso em Linden, mas este, após contemplá-lo fugazmente, tornou a baixar as pálpebras, deixando-se acalentar pela lânguida melodia que parecia escorrer pelos ouvidos.

        - Vocês despacharam Clifton! - berrou Framer.

        Nenhuma resposta.

        - Por quê? - vociferou, exasperado. - Porque mataram o rapaz?

        Silêncio absoluto.

        - Parecem animais ferozes! - continuou, fora de si. - Pensam que ainda vivemos nos tempos de Al Capone, quando isso podia ser feito impunemente? Estão muito enganados: não permitirei que continuem por esse caminho!

        Linden dignou-se abrir os olhos e fitar o exaltado patrão.

        - Não permitirá, hem? - disse, levantando-se e aproximando-se dele. - Repita isso!

        - Claro que repito! Quem manda aqui sou eu! E não pensem que tenho vontade de deitar tudo a perder, apenas porque um bando de desmiolados só pensa em apertar o gatilho. Estávamos indo muito bem, até que de repente lhes deu esse acesso de derramar sangue e...

        - Cale-se! - bradou Linden. - Você não tem direito de falar assim.

        - Quê? Ordenando que eu cale a boca? - Framer estava atônito.

        - Justamente - replicou Linden com inesperada suavidade.

        - Era só o que me faltava! Eu, que tirei todos vocês da miséria...

        - Cale-se! - repetiu Linden. - E não venha dizer que tirou da miséria estes homens que nem ganham para os cigarros.

        - Pago mais a eles que qualquer outro na cidade! - arremeteu Framer:

        - Nem para os cigarros - repisou Linden. - Paga uma ninharia a "seus" homens e ainda por cima os proíbe de ganhar mais alguns dólares à sua maneira.

        - Não proíbo coisa nenhuma! - esbravejou Framer, vermelho até a raiz dos cabelos. - Só não quero que cometam atrocidades para que mais tarde a Polícia nos caia por cima!

        - Fica a seu cargo ludibriá-la. Ou será que ainda pretende arrebanhar boa parte do que ganhamos sem correr nenhum risco? - replicou Linden, em tom desafiante.

        Framer apertou os lábios, sentindo-se em posição inferior. Seu forte não eram os argumentos contundentes como alfinetadas, como os de Linden que o deixavam inteiramente confuso.

        - Dispensarei todos vocês - afirmou. - Não vou perder agora a tranquilidade que me assegurei. Tenho necessidade de enfrentar riscos e sobressaltos?

        Linden sorriu ambiguamente.

        - Quer dizer que estamos livres? - perguntou.

        - Foi exatamente isto que eu quis dizer.

        - Mas... pretende contratar outros homens?

        - Farei o que achar melhor. Linden coçou a cabeça, pensativo.

        - Bem - disse, após alguns segundos de silêncio. - Creio que podemos prescindir de seus miseráveis salários e também de sua proteção, que como todos veem é nula. Concordamos com a ideia, mas primeiro vamos estabelecer as condições...

        Framer arregalou os olhos, abismando-se ao constatar com que facilidade o assunto fora resolvido. Pensava ser mais difícil livrar-se de homens que já se tornavam perigosos e que ansiava perder de vista antes que o envolvessem em complicações de difícil solução.

        - Darei uma indenização de três meses e... - começou.

        - Uma proposta decente - assegurou Linden. Framer engoliu em seco, adivinhando que o outro guardava algum trunfo na manga.

        - Todos concordamos - continuou Linden, receberemos esses três meses de salário e mais dois mil dólares mensais que você pagará, a título de "proteção" a seu estabelecimento.

        Framer empalideceu.

        - Pretende agora sujeitar-me a uma chantagem? - indagou, já sem o ímpeto inicial.

        - Para que usar palavra tão feia? - conciliou Linden. - Isso não pode existir entre amigos, Bill. Acontece apenas que você tem uma bela casa, bem montada, com os negócios marchando de vento em popa, e pode auxiliar-nos de várias maneiras. Seu dinheiro é uma delas, e o estabelecimento, outra.

        - Quê?

        - Quero dizer que continuaremos aqui, usufruindo os encantos deste salãozinho e suas duas preciosas portas para ruas diferentes. Não se assuste, pagaremos aluguel...

        - Nem pensem nisso! Se julga que me assusta, está muito enganado...

        Aquelas palavras tiveram o dom de transformar radicalmente a expressão do rosto de Linden. Seu sorriso zombeteiro deu lugar a uma expressão de maldade, visivelmente ameaçadora.

        Tudo era silêncio na sala, exceto a musiquinha que se filtrava do rádio.

        Framer procurou aguentar de pé firme a insubordinação do pistoleiro, mas de repente Linden levantou a mão esquerda e segurou rudemente sua gravata, puxando-a com força e aproximando o rosto para fita-lo de perto.

        - Seria muito confortável para você dar o fora agora - disse. - Confortável demais.

        Puxou com mais força e o botão do colarinho de Framer saltou, rasgando o tecido.

        Linden largou-o, deu alguns passos e tornou a virar-se para ele inesperadamente.

        - Quem está enganado aqui é você, Bill - atirou. - Estamos no mesmo barco e você não vai sair assim que lhe der na telha.

        Interrompeu-se e pouco depois continuou:

        - Clifton morreu porque era covarde. E você?

        - Mas... Linden... Vocês estão agindo perigosamente - protestou Framer, desalentado. - Não estamos mais na década de vinte e...

        - Não sou desse tempo. Sou da época presente e sei como comportar-me - disse Linden, com inflexão feroz. - Tenho homens que me acompanham dispostos a tudo... Pois bem: seremos os donos do negócio.

        - Você ficou louco? - espantou-se Framer.

        - Talvez você pense assim porque não me rebaixo diante de nada - afirmou o pistoleiro. - O tempo dirá quem tem razão.

        - É um engano de sua parte...

        - Eu não diria isso com tanta certeza, Bill. Você ficou milionário em sua época e conservou a fortuna. Pois pretendo fazer o mesmo na minha.

        Framer percebeu que jamais poderia vencê-lo pelos meios comuns. Precisava de tempo para pensar, encontrar uma saída que o livrasse daquele homem antes que q arrastasse em sua queda.

        - Está bem - disse. - Por enquanto, é melhor que tudo fique como está.

        Linden sorriu, triunfante.

        - Pense bem, Bill, escolha o caminho que mais lhe convém.

        Framer grunhiu uma resposta ininteligível e já tinha a mão na maçaneta quando a voz de Linden o fez virar-se de novo:

        - Tome cuidado de hoje em diante, Bill. Conheço sujeitos como você num só olhar...

        Framer saiu sem dar resposta, indo diretamente para sua poltrona no gabinete.

        Mal se tinha sentado, um porteiro do salão apareceu, anunciando:

        - Há dois homens lá embaixo perguntando pelo senhor, patrão.

        - Quem são?

        - Mostraram distintivos de policiais... Após meditar por alguns segundos, Framer ordenou:

        - Faça-os subir, Joe. Veremos o que desejam.

 

        Dois homens jovens e fortes, mas sem qualquer semelhança com o aspecto geralmente imaginado de policiais, foram introduzidos no gabinete do proprietário do "Queen".

        Framer sempre se gabara de conhecer todos os policiais e guardas da cidade, mas ficou desconcertado ao ver que aqueles lhe eram totalmente desconhecidos.

        O motivo foi logo esclarecido, quando um deles mostrou na palma da mão o distintivo que o credenciava como agente especial do FBI.

        Framer sabia como lidar com os outros policiais e era amigo de vários deles, mas agora o caso era diferente, já que os homens do FBI tinham fama de incorruptíveis e rígidos, astutos e bem treinados. Teria trabalho para livrar-se deles.

        - Desejamos fazer-lhe algumas perguntas, senhor Framer - começou o que se apresentara.

        - Posso acrescentar desde já que têm relação ao assassinato de um colega nosso, no saguão de um clube noturno.

        - Li nos jornais - afirmou Framer. - Em que posso servi-los?

        - Alegro-me por sua boa vontade. Acontece que nos chegou às mãos uma informação sobre um indivíduo que foi usado pelo senhor em várias ocasiões.

        Framer abriu os braços e sorriu.

        - Costumo empregar tanta gente... - disse.

        - Esse a que me refiro trabalhava como chofer de táxi: Teo Clifton. Lembra-se dele?

        O cérebro de Framer começou a trabalhar a todo vapor. Esperava que lhe fizessem perguntas sobre o "Roberts", mas em troca as primeiras saltavam para Clifton.

        - Teo Clifton? - Framer olhou para o teto.

        - Deixe-me ver... Suponho quem seja, mas não tenho certeza...

        - Posso ajudá-lo - disse o agente, com a maior calma. - Uma das últimas vezes em que o senhor utilizou seus serviços, foi para transportar estupefacientes do cais do porto até o local em que foi surpreendido pela Polícia. O tal Clifton conseguiu safar-se ao provar que era um mero empregado.

        - Oh! Certamente os senhores me confundem com outra pessoa - disse Framer, com ar benevolente. - Jamais tive nada a ver com estupefacientes ou contrabandos dessa espécie.

        - O senhor "provou" que nada tinha a ver e a Policia conformou-se com isso. Contudo, "nós", os agentes federais, estamos atrás do senhor desde aquela época e pode crer que algum dia cairá em nossas mãos.

        Framer enrugou as sobrancelhas. Era uma acusação em toda a linha, que embora feita sem provas, nem por isso deixava de preocupá-lo.

        - Temo que tenha havido algum mal entendido, senhores - disse, mostrando seu melhor sorriso. - Sempre procurei ficar à margem de negócios escusos, mas talvez algum cliente desta casa não seja tão... Como direi? Tão limpo como seria de desejar. Contudo, afirmo que não tenho a menor responsabilidade a respeito.

        - Concordo. O senhor tem experiência demais para que o agarrem com facilidade - declarou o agente especial. - Entretanto, é bom lembrar-se de que está sob vigilância.

        - Obrigado pelo aviso. Posso ser-lhes útil em mais alguma coisa?

        Os agentes levantaram-se, percebendo a astúcia de Framer.

        - Poderia, mas não o fará. E aí está o seu erro, senhor Framer - disse o agente especial, sorrindo. - Por enquanto é só.

        Quando ficou a sós, Framer afundou em sua poltrona, enxugando o suor que lhe escorria pelas faces e penetrava no colarinho.

        - Pareciam muito seguros de si. Pelo visto, devem ter sempre a última palavra...

        Virou a cabeça, quando a porta de comunicação com o salãozinho dos pistoleiros foi aberta e Linden passou para o gabinete.

        - Caramba! - exclamou o pistoleiro, sentando-se numa poltrona em frente à mesa. - Parece que você ainda tem um restinho de decência, Framer.

        - Você ouviu o que disseram? Ouviu? Pois então já percebeu que bisbilhotam por aqui. Linden, é preciso dar um fim...

        - Cale essa boca e pare de choradeiras! - interrompeu o pistoleiro. - Pensa que sou algum idiota?

        - Não rapaz, mas também eles nada têm de idiotas.

        - Escute uma coisa Framer, uma coisa que você já devia saber, a julgar pelas horas de voo que possui em certo tipo de negócios.

        - Que sabe você? - debochou Framer.

        - Muita coisa, meu velho. Por exemplo: que todos os homens têm um preço. Uns são pagos em dinheiro, em somas que variam conforme o homem, mas a verdade é que todos podem ser comprados.

        - Não tenho tanta certeza...

        - Pois saberá como. Os que não compramos com dinheiro, são atraídos pelas drogas, promessas de poder, amor... até mesmo sob ameaças ou chantagens. No fim, sempre vencemos.

        - Você já viu alguma vez um agente federal de perto?

        - Que têm eles de particular?

        - Eu gostaria de vê-lo repetir essa teoria, após conversar com um deles.

        - Farei isso quando você quiser. E provarei o que digo.

        - Como?

        - Limpando o caminho dos obstáculos que o infestam.

        Framer roeu as pontas dos dedos. Linden parecia muito consciente de seu próprio valor, e a vaidade que o dominava atingia limites incomuns.

        Poderia usar sua gabolice para comprometê-lo e ao mesmo tempo livrar-se de sua presença importuna.

        - Está certo - disse. - Ainda não acenderam a luz indicativa de que os agentes já deixaram a casa. Certamente estão vistoriando o salão. Desça e fale com eles, faça o que quiser, mas tome muito cuidado...

        Com um sorriso de superioridade, Linden levantou-se e saiu. Pouco depois, postava-se junto a uma coluna de mármore falso, de onde descortinava quase todo o salão.

        Não teve dificuldade em identificar os agentes do FBI, uma vez que quase todas as outras pessoas presentes eram frequentadores habituais da casa.

        Com as mãos enfiadas nos bolsos das calças, abriu caminho lentamente para o balcão e sentou-se num tamborete vago ao lado dos agentes.

        - Bastante aborrecido isto aqui - comentou, após deitar uma olhadela em torno.

        Um dos agentes virou-se para olhá-lo e comentou:

        - Como em todos os lugares do gênero. - Um trago? - convidou Linden. Aceitaram, e segundos mais tarde enfrentavam os copos de bebida.

        - Já viram lugar mais triste que um cabaré? - indagou o pistoleiro com vivacidade,

        - Tem razão... - suspirou um agente.

        - São lugares que só ficam divertidos quando chegam alguns sujeitos e fazem barulho, como aquela noite no "Roberts".

        A atenção dos federais pareceu despertar subitamente àquelas palavras.

        - O senhor estava lá? - perguntou o mais jovem dos dois, de feições simpáticas e expressão um tanto ingênua.

        Linden assentiu.

        Se Framer pudesse ouvir a conversa, veria confirmadas suas suspeitas de que aquele pistoleiro não passava de um louco, em seu desmedido convencimento.

        - Vi tudo - afirmou Linden, muito seguro de si. - Foi um trabalho limpo...

        - O senhor diz que é limpo, o assassinato de um homem? - espantou-se o jovem agente especial.

        - Bem... O morto quis envolver-se no que não lhe dizia respeito. Reflitam que quando os assaltantes "trabalham", arriscam o pescoço e estão com os nervos à flor da pele.

        - E viu realmente tudo o que aconteceu lá? - interessou-se o outro agente.

        - Do começo ao fim —- insistiu Linden.

        - Conte-nos como foi...

        - Bolas! Para quê? Os jornais já disseram tudo.

        - Mas o melhor é sempre o relato de alguém que presenciou o acontecimento. Tem certeza de que viu tudo direitinho?

        - Como estou vendo o senhor na minha frente.

        Os dois agentes apertaram os olhos, dedicando a máxima atenção ao homem que os convidara a beber.

        - E onde estava? - perguntou um deles.

        - Lá mesmo, conforme já disse.

        - Engraçado - disse lentamente o polícia mais novo.

        - O que é engraçado? - quis saber Linden. Os agentes piscaram um olho significativamente e um deles respondeu:

        - Que o senhor é um refinado mentiroso. - Linden irritou-se.

        - Bem poucos homens já me chamaram de mentiroso - disse, levantando-se.

        O agente mais moço pousou a mão no braço do companheiro, querendo com isso fazê-lo perceber que devia silenciar.

        Virou-se então para Linden e explicou:

        - Se o senhor não é um mentiroso, como diz o meu amigo, deve ser um desses homens que adoram ser o centro de uma reunião, deslumbrando os ouvintes de qualquer maneira. Se não é isso, só pode ser um...

        - Sim? - incitou Linden, em tom feroz.

        - Nada - disse o jovem agente.

        - Ora, vamos! - insistiu o pistoleiro, julgando-se o dono da situação a partir daquele momento.

        Framer exagerara em seu julgamento sobre os agentes federais. Pois ele não enfrentava dois naquele instante, provocando-os e levando a melhor?

        Contudo, se pensava que já podia bater em retirada calmamente, enganara-se de ponta a ponta. O agente mais jovem segurou-o pelo braço, quando já se preparava para afastar-se do balcão.

        - Espere um pouco, amiguinho. Queremos fazer-lhe umas perguntas.

        Linden levantou uma sobrancelha acima do nível normal e dardejou um olhar de desprezo na direção do agente.

        - Para que me chamem novamente de mentiroso? Bolas!

        Fez menção de prosseguir, mas aquela mão de aço não o largava.

        - Já lhe disse para esperar...

        Linden encarou o agente mais novo e viu que ele não gracejava. Seus olhos eram frios, apesar de calmos.

        - Que deseja agora? - perguntou, sem intimidar-se.

        - Apenas esclarecer certas coisas - declarou o federal.

        - Verdade? - perguntou em tom zombeteiro.

        - Verdade - repetiu o federal. - E abandone esse ar de superioridade, antes que eu o apague com uma bofetada.

        Por muito menos, Linden já teria empunhado a arma, mas o caso agora era diferente. Puxou o corpo, procurando livrar-se da mão que lhe segurava o braço.

        Foi inútil. Parecia preso numa armadilha de aço especial para lobos.

        Arreganhou os dentes.

        - Solte-me! - disse, furioso, embora sem alterar a voz.

        - Soltarei, quando responder ao que desejo - replicou o agente, sem a mínima intenção de libertá-lo.

        Linden decidiu mostrar quem era e levantou o braço a fim de amassar o crânio do federal.

        Mais uma tentativa inútil, que só lhe piorou a situação. Um novo aro de aço agarrou-lhe o outro braço, deixando-o inteiramente imobilizado, além da dor que sentia devido à má posição.

        - Não podem prender-me - disse o pistoleiro.

        - Não têm mandado e não provoquei desordens na casa.

        - Veja só! Também pretende entender de leis - comentou o agente especial.

        - Todos os descarados usam o mesmo palavrório - afirmou o outro. - Como sabe que não temos poder para detê-lo?

        - Não podem! - protestou Linden.

           Está bem, não podemos. Mesmo assim, você vai responder a algumas perguntinhas.

        - Façam-nas de uma vez e depois vão para o inferno! - vociferou Linden, refletindo que talvez tivesse ido longe demais.

        Começava a compreender que agira como um principiante, em vez de um "gangster" de categoria.

        Afrouxou os músculos e percebeu com alívio que a pressão dos agentes também cedia.

        - Vamos, conte-nos o que sucedeu no "Roberts" - pediu o federal mais jovem.

        - Vocês já sabem de sobra. Apareceram uns sujeitos armados e apontaram as armas para a moça da caixa. Levaram tudo.

        - Correto. E você, onde estava? - A pergunta foi direta e repentina.

        - Lá mesmo, no "Roberts" - foi a resposta hesitante.

        - Vamos ser mais detalhados - acossou o agente federal. - Em que ponto do "Roberts"? Só podia ser no vestíbulo, pois nada veria de outro lugar.

        - Claro, eu estava no vestíbulo...

        Linden lamentava Intimamente sua gabolice de pouco antes.

        - Muito bem. Não imagina como me alegro por encontrar uma testemunha ocular dos fatos. Até agora, tivemos apenas as declarações da moça da caixa, da encarregada do guarda-roupa e do gerente. Pensamos que fossem os únicos que presenciaram o assalto, mas você poderá acrescentar novos informes. Venha conosco.

        - Não. Não irei! Vocês não têm mandado judicial.

        Tinha razão, mas os federais poderiam levá-lo sob qualquer pretexto, o que provocaria um escândalo no estabelecimento.

        Não era o que queriam, resolveram contemporizar.

        - Está bem. Diga-nos como se chama. Linden respirou aliviado, vendo-se livre das mãos que o seguravam, e ajeitou o paletó em movimentos afetados.

        - Paul Linden, ao seu inteiro dispor.

        - Muito bem, Linden - sorriu o agente. - Logo terá notícias nossas.

        O pistoleiro afastou-se devagar, enquanto os dois agentes, dirigiam-se para a saída e tomavam um carro.

        Ao passar diante da porta do gabinete de Framer, Linden avistou o patrão que o espiava.

        Fez-lhe um aceno triunfal, passou a mão pelo cabelo e apalpou instintivamente o coldre de ombros. Empalideceu: sua arma desaparecera, a inseparável pistola, sem a qual tinha plena consciência de sua estatura de quase anão. Como é que aquilo fora acontecer logo a ele?

        No carro do agente especial Henry Bell, os dois companheiros fumavam, comentando o incidente do "Queen".

        - Devíamos tê-lo trazido conosco de qualquer maneira - dizia o mais velho.

        - Não era preciso - declarou Bell. - Veja só: isto poderá revelar-nos muitas coisas sobre aquele indivíduo.

        Mostrou ao outro a "Parabellum" que subtraíra de Linden.

 

        O departamento de Balística do FBI examinou a pistola entregue pelo agente especial Henry Bell, submetendo-a aos testes mais modernos e eficientes.

        Dentro em pouco, podia-se afirmar com a máxima segurança que os tiros que liquidaram o agente especial Sidney no vestíbulo do "Roberts" e também o motorista de táxi Teo Clifton haviam partido daquela arma.

        Henry Bell assobiou entusiasmado ao receber o relatório das provas efetuadas. Estendeu a folha e os clichês a seu companheiro, o agente especial Leo Field.

        Field examinou-os detidamente e olhou para Bell.

        - Está no papo - comentou.

        - Só nos falta digeri-lo - sorriu Bell.

        - Já percorremos boa parte do caminho.

        - Certo, mas também precisamos levar em conta que o sujeito não deve ser tão imbecil como nos pareceu à primeira vista.

        - Você acha? - duvidou Field.

        - É o que veremos - replicou o jovem, indeciso.

        Ficou pensativo por alguns instantes e depois comentou, como se estivesse pensando em voz alta:

        - O juiz não expediria ordem de prisão sem provas mais concludentes do que as que podemos apresentar. Os advogados geralmente contratados por essa gente conseguiriam "habeas corpus". diante de provas tão frágeis.

        - Para ser franco, também eu não estou convencido de que aquele sujeito do "Queen" seja o criminoso, só porque possui a arma dos dois crimes - disse Field. - Ter a arma em seu poder não significa que seja ele o autor.

        - Se não é ele, o homem que procuramos não deve andar por muito longe.

        - E se lhe perguntássemos diretamente? - sugeriu Field.

        Bell sorriu, compreendendo a ideia do companheiro. Era uma boa proposta: agarrarem Linden, submetendo-o a um interrogatório a fundo, até que soltasse tudo o que soubesse. Levantou-se e consultou o relógio.

        - Vamos dar uma volta pelo "Queen" - disse.

        - Nunca pensei que você fosse tão ingênuo, rapaz! Agora está perdido! - vociferava Framer, passeando por seu gabinete como um leão enjaulado, enquanto Linden conservava os olhos pregados no chão, afundado numa poltrona.

        - Pensei que fosse um veterano e soubesse onde pisava, mas não: portou-se como o mais inexperiente calouro! - continuou Framer, sem cessar o agitado passeio.

        - Sabe o que eu deveria fazer com você? - perguntou em seguida, esmagando-o sob o peso de um olhar acusador. - Com você, que não hesitou em liquidar um rapaz apenas por suspeitar de sua lealdade?

        Linden sacudiu a cabeça com raiva e cravou os olhos no patrão.

        - Está bem, Framer! - resmungou, com os maxilares apertados. - Se me meti sozinho nessa embrulhada, farei o possível para livrar-me dela sem ajuda de ninguém. Poupe seus sermões.

        Framer apertou os lábios, controlando-se para não desabafar todo o ódio que lhe ia na alma injuriando aquele idiota como merecia.

        Era um idiota, sem dúvida, mas um idiota temível, dado a apertar o gatilho de uma arma de fogo sem grandes motivos.

        - Bem - disse por fim. - Faça como achar melhor, mas afaste-se desta casa, evitando comprometer-me. Afaste-se dos rapazes, também; estávamos muito bem, antes de você surgir com seus grandes métodos de enriquecer...

        - Expulsa-me? - perguntou Linden, muito pálido.

        - Se quiser, posso falar mais claro ainda - acentuou Framer ironicamente.

        - Está certo - murmurou Linden, levantando-se. - Gostaria de pedir-lhe um último favor.

        Num movimento maquinal, Framer levou a mão direita ao bolso, imaginando que lhe fosse pedir dinheiro.

        - Não é nada disso - declarou Linden, suspendendo-lhe o movimento com um gesto. - Preciso de uma arma. Uma boa automática.

        Framer suspirou, refletindo que quanto mais depressa fizesse a vontade ao pistoleiro, menos teria de aturá-lo.

        De uma gaveta de fundo secreto em sua escrivaninha retirou uma "Mauser" com o carregador intacto e uma caixa de munições.

        - Ai está. Procure conservá-la melhor que a outra - zombou.

        Linden aproximou-se lentamente, guardou a caixa de balas e sopesou a arma na palma da mão.

        - Excelente canhão - comentou, com um sorriso leve nos lábios finos. - Sentia-me desamparado, sem minha pistola.

        Contemplou a arma amorosamente por vários segundos e em seguida levantou os olhos para fitar o patrão.

        Framer ficou repentinamente rígido, incapaz de desligar-se daqueles olhos gélidos que o atraíam como um imã.

        Linden continuava a olhá-lo sem pestanejar, as pupilas imóveis como as de um peixe.

        Fazendo um esforço, Bill Framer conseguiu desviar-se daquele olhar maligno e reparou então que o pistoleiro acabara de mover a mão que sustinha a arma.

        Não foi um movimento suave como os anteriores: num gesto brusco, Linden levantara a pistola, mantendo-a em posição de atirar.

        - Que vai fazer, Linden? - perguntou Framer, em voz trêmula.

        - Você é um maldito covarde! - rosnou o pistoleiro, com a boca quase fechada. - Um miserável ordinário que abandona um companheiro ao menor sinal de perigo!

        - Não é verdade, Linden! - choramingou Framer, com as feições alteradas pelo pânico. - Eu não queria prejudicá-lo! Falava por falar... Eu o protegerei contra todos e compartilharemos dos lucros e dos perigos... Você não precisará mover um dedo para nada...

        - Você me enoja! - cuspiu Linden. - Tão covarde que se torna perigoso, pois nunca se sabe o que realmente pensa...

        - Não, Linden! Não!

        Súplicas e lágrimas não tinham significado para Paul Linden.

        Apertou o gatilho por três vezes seguidas. Seu rosto endureceu-se ainda mais ao contemplar a queda do homem que fora seu chefe, agora apenas um monte de carne ensanguentada.

        Correu para a porta de comunicação com a sala-de-estar e por pouco não atropelou Santos, que acudia alarmado ao ouvir os tiros.

        - Que aconteceu?

        Linden apontou o corpo de Framer, e os olhos de Santos expressaram a mais completa indiferença.

        - Você ganhou a partida, não? - era mais uma afirmativa que uma pergunta.

        Linden assentiu.

        - Ande. Vá até lá fora e veja se alguém ouviu os tiros.

        Em duas passadas, Santos chegou à porta que dava para o salão de danças.

        Entreabriu-a e verificou que tudo continuava como antes. A orquestra enchia o ambiente com suas notas de "jazz" e os frequentadores do "Queen" dançavam despreocupadamente na pista, alheios ao drama que se desenrolava a poucos passos dali.

        Quando Santos fechou a porta, Linden moveu a cabeça na direção da sala-de-estar.

        - Quem está aqui? - perguntou.

        - Saíram todos, há poucos momentos. - Ouviram alguma coisa?

        - Nada...

        - Ótimo. Vamos dar um jeito... nisso - e esticou o pé, apontando para o cadáver.

        Santos correu para fora, voltando em poucos minutos.

        - Deixei o carro na porta - anunciou. - Não há o que temer.

        Transportaram o corpo de Framer pela escada dos fundos. O mexicano perscrutou a rua antes de pisarem a calçada.

        Mais um minuto e colocavam o morto sentado no assento traseiro do carro, como se nada tivesse acontecido.

        Santos tomou o volante e com Linden a seu lado percorreu as avenidas inundadas de luzes e anúncios, desembocando na ponte de Brooklyn.

        Atravessaram-na e dobraram à direita por uma avenida deserta, parando finalmente num recanto solitário.

        As luzes de Nova Iorque estavam próximas mas davam uma sensação de distância, vistas daquele ponto.

        Nenhum rumor perturbava a paz da noite. Os dois homens retiraram o corpo de Framer do interior do carro e arrastaram-no para a margem do rio.

        Levantaram-no acima da balaustrada, balançaram-no duas vezes, aproveitando o impulso para que caísse o mais longe possível da margem.

        As águas mansas receberam o corpo com um estalido semelhante a uma chicotada. Um leve chapinhar e por fim uma série de ondas concêntricas que se atenuavam e vinham morrer no paredão de pedra.

        Linden e Santos sacudiram as mãos, como quem encerra satisfatoriamente um caso e voltaram calmamente para o carro.

        Cada um acendeu seu cigarro e retornaram à cidade em absoluto silêncio. Nova Iorque acabava de devorar mais um homem.

        No dia seguinte, à hora do trabalho começar no "Queen", ninguém sabia do paradeiro do patrão.

        O "maítre", o chefe dos garçons, o diretor da orquestra, o chefe de cozinha e o do espetáculo de variedades, todos em suma precisavam pedir alguma orientação a Framer, mas ele não estava em seu gabinete, como costumava, foi procurado pessoalmente, telefonaram para sua casa. Bül Framer parecia ter-se evaporado.

        Devido a isso, Linden e Celso Santos viram-se forçados a substituí-lo "provisoriamente", para que a sessão tivesse início no horário habitual.

        Como todos sabiam o que tinham a fazer, as engrenagens entraram em funcionamento e tudo correu bem.

        Sempre em companhia do mexicano, Linden desceu as escadas, passeou um olhar protetor e triunfante pelo vasto salão repleto de gente, e acomodou-se na balaustrada junto à fileira de mesas reservadas.

        Esfregou as mãos suavemente, compenetrado do excelente negócio que era o "Queen".

        Entre o público, havia indivíduos que vendiam drogas aos clientes viciados, bêbados que gastavam dinheiro a rodo para satisfazer o capricho de eventuais companheiras...

        Os garçons apresentavam contas astronômicas, movimentando um rio de dinheiro que se iniciava com a abertura das portas do estabelecimento e terminava na caixa-forte de Framer.

        Linden enviou um olhar de cumplicidade ao companheiro, e este também não pôde deixar de esfregar as mãos.

        A noite anterior apresentara um bom movimento. Como empregados - quase sócios de Framer - tinham a obrigação de substituí-lo e conservar o dinheiro até que ele o reclamasse. Contudo, apenas eles sabiam que Framer jamais reclamaria coisa alguma. Enquanto o caso não fosse esclarecido, encheriam os bolsos comodamente, sem arriscar-se em assaltos de resultado duvidoso.

        Dariam um giro pelo salão, vigiariam um pouco os chefes de serviço, e pela madrugada guardariam os lucros.

        Juntos, observavam aquela gente a gastar dinheiro, um dinheiro que viria para seus bolsos.

        Os pares que rodopiavam na pista já tinham pago para isso, e os dançarinos renovavam-se constantemente, aos acordes da orquestra.

        Ao relancear mais uma vez os olhos sorridentes pelo salão, Linden sobressaltou-se ao deparar com dois rostos que já conhecia.

        Os dois federais acabavam de entrar no "Queen" e caminhavam para o balcão, esgueirando-se por entre as mesas e os pares.

        Linden cutucou o amigo com o cotovelo e levantou o queixo na direção dos visitantes.

        - Ai estão eles... - murmurou, mais pálido que de costume.

        Santos compreendeu imediatamente, pois Linden já lhe contara o que vinha sucedendo.

        - Precisamos fazer alguma coisa, eles nunca nos deixarão em paz - comentou.

        - Você acha? - perguntou Linden, fitando-o de soslaio.

        - Nem tenha dúvida - afirmou Santos com plena convicção. - Seremos perseguidos até o fim.

        A orquestra continuava enchendo o ar, os pares dançavam entusiasmados e os garçons iam e vinham entre as mesas, realizando prodígios de equilíbrio com as bandejas repletas.

        Os policiais chegaram ao balcão e encarapitaram-se em dois tamboretes. Pedindo uma bebida, giraram os assentos, postando-se de frente para o salão.

        Linden olhava para eles sem pestanejar, com expressão pensativa.

        Seu rosto transfigurou-se pouco a pouco. Levantou-se, com os olhos brilhantes e o queixo projetado para diante, sinal de que tomara alguma decisão inabalável.

        - Vamos, Celso. Vamos conversar com esses sujeitos.

        Os dois adiantaram-se a passos largos na direção dos agentes especiais do FBI, que tinham ido até ao "Queen" justamente para uma entrevista com os homens que se aproximavam.

        Dois pares de inimigos mortais defrontaram-se, cada um ansiando sobrepujar e liquidar o outro.

 

        Os dois agentes mantinham-se impassíveis. Ninguém poderia diferençá-los dos demais frequentadores do "Queen".

        Os pistoleiros, pelo contrário, manifestavam no rosto as emoções que sentiam pela presença dos indesejáveis visitantes. Tinham medo, mas um ódio concentrado impelia-os à ação, ao extermínio daqueles homens que vinham perturbar o equilíbrio da posição conseguida.

        Entreolharam-se em meio a um profundo silêncio de parte a parte, que finalmente foi rompido por Linden ao perguntar à maneira de cumprimento:

        - Por aqui novamente? Henry Bell sorriu de leve.

        - Viremos sempre que for necessário. Conte com nossa presença, até conseguirmos o que queremos.

        Seus olhos cravaram-se fixamente no pistoleiro, mas Linden apenas deu de ombros.

        - Por mim... - comentou, afetando uma indiferença totalmente falsa.

        - Você era muito amigo de William Framer, não? - disparou Bell à queima-roupa, observando a reação do pistoleiro.

        - Sou - respondeu Linden, tentando disfarçar o abalo que sentira ao ouvir a pergunta. - Sou seu secretário particular. Bill está ausente no momento...

        - Não sabe onde posso encontrá-lo? - continuou Bell.

        - Ele não costuma dizer a ninguém aonde vai - retrucou Linden, encolhendo os ombros outra vez. - Bem, tenho a impressão de que ele me oculta algo - disse, procurando adotar uma atitude teatral de dúvida.

        Bell assentiu com a cabeça.

        - Acertou, neste momento, seu amigo Framer está no necrotério.

        Ao dizer isso, concentrou a atenção no rosto dos dois cúmplices, procurando captar qualquer reação suspeita, mas Linden demonstrou o mais absoluto domínio dos nervos.

        O mexicano, entretanto, estremeceu visivelmente, com o semblante transtornado.

        - Quem o matou? - desfechou Bell, decidido a impedir que os suspeitos tivessem tempo de pensar em alguma resposta satisfatória.

        - Só agora estou sabendo disso - replicou Linden, tornando a dar de ombros e afetando pesar. - Como foi?

        - Alguém teve o capricho de enfiar-lhe três balas no corpo, antes de atirá-lo ao Hudson - disse o agente federal. - Foi encontrado há pouco e resolvemos vir até aqui, esperando que nos esclareçam melhor.

        - Pois não sei de nada - afirmou Linden. Virou-se para Santos: - E você?

        O mexicano pareceu despertar subitamente dum estado letárgico e meneou a cabeça com energia, em confirmação às palavras do amigo.

        Os dois pareciam bem instruídos quanto ao caso e Bell resolveu atacar de frente, usando seu método direto.

        - Levei sua pistola - disse a Linden.

        - Minha pistola? - O "gangster" parecia realmente perplexo, sua atitude de inocência convenceria qualquer um. - Nunca uso essa... artilharia.

        Sentia-se crescer, sabendo que o perigo o espreitava. Essa sensação tinha o poder de enchê-lo de orgulho, torná-lo mais poderoso, superior ao inimigo.

        Bell irritou-se com a petulância do homenzinho. Apertou os olhos até transformá-los em duas frestas.

        - Eu disse "sua" pistola, Linden - acentuou. - Precisamente a arma usada para assassinar um companheiro meu no "Roberts".

        Linden ergueu-se em atitude desdenhosa.

        - Não sei de que está falando.

        Era demais para Bell. Num assomo de cólera, agarrou o pistoleiro pela gola, apertando-o como se lhe pusesse um torniquete.

        Linden julgou que fosse morrer, enquanto aquela terrível pressão o fazia ajoelhar-se pouco a pouco, o rosto vermelho como um carvão aceso.

        Santos já ia intervir em favor do amigo, quando sentiu algo duro espetar-se em suas costelas e uma voz dizer-lhe ao ouvido:

        - Quieto, se não quiser morrer aqui mesmo! Estacou, rígido, enquanto seus olhos dilatados contemplavam o amigo que era arrastado pelo chão, ante os olhares perplexos dos curiosos que observavam a cena.

        A orquestra continuava tocando, como se nada acontecesse. Mesmo assim, todos os olhares convergiam para o balcão, onde Linden se ajoelhara aos pés de Bell, incapaz de livrar-se sozinho do aperto fatal que o sufocava.

        O "maítre" correu para os dois homens que promoviam o escândalo e deu algumas pancadinhas no ombro de Bell:

        - Por favor, senhor... Não faça isso, ou serei forçado a chamar a Polícia...

        Bell não deu o menor sinal de tê-lo ouvido, inteiramente absorto na tarefa de esmagar Linden contra o chão.

        Abaixou a cabeça, até quase encostar o nariz no do pistoleiro, e disse, por entre os dentes cerrados:

        - Se pensa que faz de mim o que bem entende, engana-se redondamente!

        Sacudiu-o com violência, fazendo a cabeça de Linden balançar de um lado para outro, como se não tivesse ligação com o corpo.

        - Vou pisotear essa cara de suíno até deixá-la como um cataplasma! Só que antes disso você estará tremendo de medo. Suará vermelho, farei com que se arrependa de ter nascido e amaldiçoe o dia em que veio para Nova Iorque assassinar homens, há de morder esse dedo asqueroso que aperta o gatilho, até deixá-lo em carne viva... Tudo isso, antes de sentar-se na cadeira elétrica, pela qual vai suspirar como por uma bênção dos céus...

        Interrompeu-se para dar um puxão na gola de Linden, pondo-o de pé.

        - Vá andando - ordenou, empurrando-o para a porta. - Vou levá-lo a um certo lugar, onde dará muitas explicações. Vai despejar tudo o que guarda nas tripas...

        Linden esperneou, resistindo, sem nada conseguir, porque Bell praticamente o levava pelo ar.

        Ao passarem perto de uma coluna, o pistoleiro agarrou-se a ela como numa tábua de salvação, e não houve poder humano capaz de separá-los.

        Aquilo lhe devolveu um pouco de coragem. Gritou, cego de raiva:

        - Não tem o direito de prender-me!

        - Você verá se tenho ou não esse direito! - afirmou Bell.

        Quando ia aplicar uma chave para afastá-lo da coluna, Santos decidiu intervir, certo de que seu amigo não o pouparia, mais tarde, se permanecesse na atitude de mero espectador.

        - Não pode detê-lo - disse, sempre com a pistola de Field enfiada em suas costelas. - Onde está o mandado judicial?

        - Não tem ordem do juiz, nem provas contra mim - guinchou Linden, subitamente animado com o reforço do amigo. - Não estamos num país selvagem. Não pode levar-me... Recuso-me...

        Os curiosos rodeavam os quatro, alguns manifestando desagrado pela atitude do policial.

        Bell procurou controlar-se, compreendendo que não devia exorbitar diante de toda aquela gente, principalmente sem uma ordem de prisão e com várias testemunhas dispostas a declarar que Linden não provocara nenhuma alteração na casa...

        Largou a presa com raiva.

        - Lembre-se do que lhe disse, Linden. Você já está na câmara ardente.

        O pistoleiro disfarçava sua emoção procurando ajeitar a roupa em movimentos pausados.

        - Estamos num país livre - replicou em voz alta, para que todos o ouvissem. - Suas ameaças não me assustam. Apresente provas... Provas!

        Sacudiu uma poeirinha inexistente na lapela e deu as costas aos agentes do FBI.

        Bell mordeu os lábios, sentindo-se impotente para agir naquele momento. As ordens recebidas ultimamente eram severas: deviam manter a calma em qualquer situação, a fim de que os agentes do FBI não fossem encarados como sanguinários ou carrascos, mas como homens perfeitamente adestrados, dispondo de todos os avanços científicos na luta contra o crime.

        Após lançar ao pistoleiro um olhar carregado de ódio, deu meia volta e caminhou para a saída, seguido pelo colega.

        Dirigiram-se para o carro em silêncio, cônscios de que Linden conseguira livrar-se do "knock out" no primeiro "round", embora isso não significasse que a luta terminara.

        Bell tomou o volante e Field sentou-se a seu lado.

        Ligou o motor, mas não chegou a embrear. Alguém pousara a mão na porta, bem junto a seu ombro esquerdo.

        Virou a cabeça e encontrou o rosto sarcástico de Paul Linden, surpreendendo-se ao ver que ele não empunhava nenhuma arma.

        O pistoleiro endereçou-lhe um olhar que julgava conter a mais infinita e desdenhosa superioridade, antes de falar:

        - Alguém está sobrando em Nova Iorque, rapaz...

        - Não me fale nesse tom, Linden - ordenou Bell. - Jamais dormimos juntos debaixo de qualquer ponte.

        - Alguém está sobrando nesta cidade - continuou o pistoleiro, com os olhinhos reluzindo malevolamente. - E esse alguém é você: fez exatamente o que se deve fazer para ganhar uma passagem para... o inferno.

        Cravou os olhos nos do agente especial, pretendendo acentuar ainda mais o tom de intimidação, e prosseguiu:

        - Sou mais generoso que você, em vez de ameaçar, como fez comigo, apenas o intimo a deixar-me em paz, a nunca mais atravessar meu caminho. É meu último aviso!

        Henry Bell jamais vira tamanho descaramento, em todos os seus anos de permanência no FBI. Convenceu-se de que Linden só podia estar louco para dar-se ao luxo de agir daquela maneira.

        Seu limite de tolerância chegara ao fim. Abriu a boca para responder à altura, considerando a ideia de descer do carro e dar uma merecida surra naquele sujeitinho arrogante.

        Era o que ia fazer, quando o orifício do cano de uma pistola surgiu inopinadamente diante de seus olhos, apontando para um ponto situado entre as sobrancelhas.

        Linden empunhava-a firmemente com um olho fechado e a expressão do homem que está disposto a matar, mas admirado pelo fato de ainda não ter apertado o gatilho para liquidar de vez com um inimigo irritante.

        Bell percebeu que seria morto ao menor movimento, e procurou imobilizar-se, evitando até piscar, se com isso impedisse o tiro assassino.

        Do outro lado, também Field era ameaçado pela pistola que Santos segurava com pulso tão firme como o do cúmplice.

        Estavam à mercê dos pistoleiros, que poderiam atirar impunemente e safar-se, sem que nenhum socorro aparecesse dos carros mais próximos.

        Quando alguém chegasse, encontraria apenas os dois cadáveres e nenhum indício dos autores do homicídio.

        Os agentes do FBI sabiam perfeitamente que, ao ingressarem na corporação, passariam a arriscar a vida a todos os momentos, quando não a perdessem nas mãos de algum malfeitor.

        No entanto, não era isso o que preocupava Bell. Se morressem, Linden e os outros continuariam em sua trilha de crimes e negócios escusos, a salvo de suspeitas. Era o que precisava evitar a todo custo.

        - Está bem - murmurou, o mais humildemente que a raiva lhe permitiu.

        - Não se esqueça, rapaz! - tornou a avisar Paul Linden. - Você ainda é jovem, e pode muito bem começar a vida nova em qualquer parte do país.

        Dando um passo para trás, fez um movimento com a mão armada e Bell obedeceu, levantando o pé esquerdo da embreagem.

        O carro deu um pequeno salto para a frente e dentro em pouco suas luzes sumiam na distância.

        Os agentes mergulharam em seus próprios pensamentos, ambos perplexos com o que acabava de suceder.

        Não compreendiam como um vulgar pistoleiro, com tão pouco tempo de Nova Iorque, conseguisse provocar tamanha confusão.

        Em que país do mundo um criminoso comum, um asqueroso assassino e assaltante, imporia condições à Polícia, dando-se ainda ao desplante de ameaçá-la?

        Aquilo devia ser algum sonho absurdo - pensou Bell - provocado por uma ceia copiosa e sua ideia fixa de solucionar o assassinato de um colega.

        Aproveitando uma parada que o volumoso tráfego na Quinta Avenida o forçou a fazer, virou-se para o silencioso Field.

        - E então, que achou da história?

        - O sujeitinho tem topete! - foi a resposta. - E é um bocado perigoso!

        Bell assentiu com a cabeça.

        Realmente, Linden era perigoso. Talvez fosse ele próprio o autor dos vários crimes que Bell catalogara, esperando esmagar o assassino sob uma montanha de provas.

        O agente do FBI, o motorista de táxi, Framer...

        O denominador comum dos três chamava-se Linden, com os dois primeiros mortos pela mesma arma.

        Ainda por cima, como uma inacreditável pilhéria, o criminoso entrincheirava-se em seu poderio, sentia-se onipotente, a ponto de fazer ameaças aos agentes do FBI.

        - Sim, é mesmo perigoso - disse, ao cabo de suas reflexões.

        - Que pretende fazer? - perguntou Field, olhando-o de relance.

        Bell girou o volante, passou roçando num ônibus e replicou:

        - Este caso é o mais apaixonante de todos em que tomei parte. A primeira vista, naturalmente...

        - Concordo - declarou Field, com ar desolado. - Apaixonadamente, absorvente, tudo o que você quiser, mas o menos indicado para um homem que está de casamento marcado para dentro de algumas semanas.

        - Eu disse "à primeira vista", Leo - replicou Bell com um sorriso. - No entanto, na realidade é o mais vulgar.

        - Não me diga! - exclamou Field, atônito. - Há bem poucos escroques como esse Linden.

        - Nem tão poucos. Ele é apenas um ídolo de barro...

        - Não sei como pode dizer isso com tanta calma - discordou Field, com má vontade. - Em seu gênero, Linden é um tipo excepcional.

        - Engana-se, meu caro, é tudo fachada - argumentou Bell. - Precisava observar, quando o agarrei pela gravata: sentiu-se desmoralizado, e tremia como um cordeirinho no matadouro. Depois de uma boa surra, perderá todo aquele ar de superioridade e toda a bravata.

        - Talvez você tenha razão - disse Field - mas o "cordeirinho" passará à história como o "gangster" que ameaçou os agentes especiais do FBI frente a frente...

        Bill apertou os lábios, concordando Intimamente com o companheiro.

        Quando o inspetor-chefe da Divisão de Nova Iorque soubesse do caso, sem dúvida olharia de viés para as vítimas da façanha de Linden.

        Aquela passagem humilhante não seria uma mancha em suas folhas de serviço?

        Algum outro agente desobedeceria às ordens de um maníaco, sabendo-o capaz de apertar o gatilho sem a menor vacilação?

        - Que pretende fazer, Henry?

        A pergunta arrancou Bell de suas meditações. Franziu o cenho ao responder:

        - Amanhã deteremos Celso Santos.

 

        Linden tamborilava nervosamente no braço da poltrona, e seu ar preocupado e distante parecia contagiar os homens reunidos no salãozinho do "Queen".

        Parou repentinamente de executar o movimento mecânico dos dedos e levantou a cabeça, ao ouvir a pergunta de Hoffman:

        - O que há com você, Paul?

        - Preciso liquidá-los - respondeu Linden, ainda com expressão ausente. - Principalmente o mais jovem.

        O murmúrio das conversas aquietou-se como por encanto e os membros do bando voltaram a cabeça para seu mentor.

        - A quem se refere? - perguntou Hoffman, novamente.

        - Aquele federal, é claro! - interveio Santos.

        Linden mal balançou a cabeça, assentindo.

        - Pois amadureça um bom plano, e estaremos todos do seu lado - ofereceu Hoffman, generosamente.

        Os outros confirmaram a oferta com protestos de lealdade do pistoleiro que parecia estar no comando da situação, ignorando que dentro de bem pouco tempo sua boa vontade seria posta à prova.

        Era um dia de sábado e o salão de festas regurgitava de gente ansiosa por diversão. A orquestra atacava freneticamente os ritmos da moda, os pares dançavam sem cessar, e os garçons não tinham mãos a medir com os pedidos que choviam de todas as mesas.

        Apesar da misteriosa ausência do dono do estabelecimento, o serviço não tinha falhas. Tudo marchava na mais completa normalidade, porque Linden estava à altura da situação.

        Naquele momento, um automóvel parou diante da entrada do clube, dele desceram dois homens em companhia de uma jovem muito bonita que trajava elegante vestido de noite e uma suntuosa capa de pele atirada descuidadamente nos ombros nus.

        O porteiro não identificou logo os cavalheiros, limitando-se a abrir a porta do carro para que o motorista em seguida o conduzisse ao estacionamento privativo da casa.

        Contudo, ao reparar melhor em suas feições, sobressaltou-se, identificando os dois policiais que por pouco não ocasionavam um belo escândalo no cabaré, na noite anterior.

        Vacilou, sem saber o que fazer, mas enquanto pensava, os dois agentes já pisavam o vestíbulo e desciam a escadaria atapetada da sala de baile, escoltando a dama.

        O "maitre" também os reconheceu, mas assumiu um ar impassível enquanto conduzia os recém-chegados a uma mesa vazia junto à balaustrada e anotava o seu pedido.

        Sempre empertigado, foi até o balcão da cozinha, entregou-o e virou-se para um rapazinho de cara sardenta parado a um canto:

        - Jimmy, vá ao escritório e diga ao senhor Linden que os dois indivíduos de ontem à noite estão aqui. Voando!

        O rapazinho obedeceu ao pé da letra e bateu à porta do gabinete ante de entrar, repetiu o recado do "maitre" e desapareceu, fechando a porta,

        Linden remexeu-se na poltrona, inquieto.

        Passeou os olhos pelos rostos à sua volta, em meio ao profundo silêncio que descera subitamente no aposento.

        O momento era de suma gravidade. A presença dos dois agentes do FBI, vinte e quatro horas depois de Linden ameaça-los ostensivamente, representava um desafio.

        O pistoleiro empalideceu, reconhecendo que devia recolher pessoalmente a luva que os federais lhe atiravam.

        De pálido passou a vermelho, e suas mãos trêmulas apalparam o coldre de ombro, a fim de verificar se a pistola continuava ali, a infundir-lhe segurança.

        Depois, dominado por uma repentina decisão, levantou-se e deu alguns passos para a porta. Santos parou à sua frente, cortando-lhe o caminho.

        - Fique aqui, Paul - disse o mexicano. - Deixe-me descer e verificar pessoalmente que diabo querem esses idiotas.

        - Nada disso, Celso. Vou acabar com eles agora mesmo!

        - Não permitirei que cometa semelhante loucura, Paul - insistiu Santos, embora Linden continuasse andando para a porta. - Seria arriscar-se tolamente, comprometendo todos nós. É preciso agir com diplomacia, rapaz, muita diplomacia...

        As palavras do mexicano pareceram convencê-lo com estranha rapidez. Linden recuou e encheu um copo de uísque até as bordas.

        Por seu turno, Santos compreendeu que não havia tempo a perder. Fazendo um sinal para que os companheiros contivessem Linden, dirigiu-se para a porta.

        Desceu as escadas aparentemente calmo, e parou junto à pista a fim de acender um cigarro. Na realidade, pretendia observar os dois policiais.

        O "maítre" tinha razão: eram os mesmos da véspera, agora acompanhando uma formosa jovem.

        Decidiu enfrentá-los, julgando preferível que os policiais manifestassem logo sua intenção. Vagueou preguiçosamente por entre as mesas e passou roçando pela que o trio ocupava. Olhou para os três alternadamente, sorrindo de leve, mas nenhum deles fez qualquer movimento.

        Desconcertado, Santos continuou seu passeio. De repente, quando não sabia mais o que pensar sobre o motivo da presença dos agentes no estabelecimento, um grito agudo soou às suas costas.

        Virou-se rapidamente, e viu que a acompanhante dos agentes punha-se de pé, com as feições transtornadas, os olhos e a boca muito abertos e o braço direito levantado, apontando em sua direção.

        Santos ficou imóvel, intrigado com a atitude da jovem.

        - Foi ele!... - exclamou a moça, fora de si.

        Os dois policiais levantaram-se vivamente e caminharam para Santos, chegando ao seu lado, empurraram-no para a mesa.

        - Não será engano, senhorita? - perguntou Bell.

        A jovem tremia visivelmente.

        Estava tão abalada que, sem forças para falar, apenas afirmou com á cabeça, soltando um gemido sufocado.

        - Santos, somos forçados a detê-lo. Faça o favor de acompanhar-nos sem escândalo.

        A voz de Bell era um sussurro ao ouvido do mexicano, ainda perplexo com o desenrolar dos acontecimentos.

        Sentiu-se empurrado com energia até o vestíbulo, percebendo os olhares curiosos de que eram objeto ao caminharem para a saída com tanta precipitação.

        Já no vestíbulo, o mexicano conseguiu dominar-se melhor, e reclamou em tom furioso:

        - Um momento! Não podem deter-me. Mostrem-me o mandado judicial...

        - Não o detemos, rapaz - disse Bell, retirando-lhe a pistola que levava no coldre de ombro. - Apenas vamos levá-lo para um lugar onde possamos conversar tranquilamente. Aqui há muita gente e barulho demais...

        - Não é hora de piadas - disse Santos, procurando soltar-se das mãos que lhe prendiam os braços.

        - Vamos, seja bonzinho e venha por bem - aconselhou Bell.

        - Não irei com vocês a lugar nenhum - bradou Santos. - Chamem Linden!

        - Ora, Celso, é apenas uma voltinha de carro, só isso - dizia Bell, em tom suave.

        - Se nada o preocupa, nada tem a temer, Santos - interveio Field.

        Celso Santos era um pistoleiro experimentado, veterano em lidar com a Polícia, e conhecia a fundo as artimanhas dos agentes.

        Preferiria ter ficado no "Queen", mas como Linden não aparecia para socorrê-lo, decidiu submeter-se. Afinal, nada tinha a temer, o mais comprometido era Linden. Sentou-se no banco traseiro ao lado de Bell, enquanto Field e a jovem ocuparam o dianteiro.

        Field deu partida velozmente, arrancando no momento exato em que os companheiros do detido surgiam, um atrás do outro, pela porta do cabaré.

        - Levaram-no! - bradou Linden. - Mas isso há de custar caro a alguém!

        Voltou para seu gabinete, com a cabeça fervilhando de planos para arrancar seu melhor amigo das mãos dos federais.

        No carro, Santos teve vontade de fumar. Levou a mão direita ao bolso do paletó, movimento imediatamente cortado. Bell, que não o perdia de vista, imediatamente interrompeu seu movimento.

        - Será que não posso fumar? - espantou-se o mexicano.

        - Não. Pensa que está em alguma festa? Santos percebeu que a situação começava a modificar-se, e que a amabilidade inicial dos agentes era substituída pela rudeza característica com que tratavam os detidos. Mordeu os lábios, irritado.

        - Há dias, um amigo garantiu-me que você não viveria muito tempo - disse, esperando exasperar o policial.

        Bell começou tranquilamente a expelir a fumaça do cigarro no rosto do detido.

        - Sei a quem se refere, rapaz - disse. - Contudo, talvez não tenha reparado que esse seu amigo anda com um péssimo aspecto, indício de que não está gozando de boa saúde. Agora percebo que você vai pelo mesmo caminho...

        Santos abriu a boca para responder, mas Bell tornou a falar:

        - Agora feche o bico! Se tornar a arriscar outra piadinha, amasso-lhe as fuças com uma bofetada.

        Rodaram mais algum tempo em silêncio, e finalmente o carro parou.

        Bell fez o detido sair. Pouco depois, entravam num gabinete ocupado por um homem de meia-idade, grisalho e bem vestido.

        - Muito bem - disse o homem. - Vejo que trouxeram alguém. Por quê?

        - É isto o que eu também gostaria de saber - explodiu Santos. - Por que fui detido?

        Field esmurrou-lhe as costelas sem contemplação e o mexicano emudeceu, com um trejeito de dor no rosto.

        - Eis aí o sujeito que assassinou nosso companheiro, e autor da morte de Clifton e Framer, entre outras.

        O inspetor da Divisão assobiou baixinho.

        - Grande serviço, rapazes! Levantando-se, ordenou:

        - Providenciem um bom quarto para nosso hóspede, e que seja metido incomunicável até segunda ordem.

        Santos estremeceu, sem saber se o teto caíra. em sua cabeça ou o mundo girava fora de prumo. Não tinha graça nenhuma ser acusado de mortes que não cometera. Procurou falar, mas, quando chegou a articular o primeiro som, já estava dentro de uma cela escura, enquanto a porta se fechava às suas costas com um sinistro tinir de gonzos e chaves.

        Mediu o pequeno aposento a passos trôpegos e atirou-se ao enxergão. Naturalmente, logo seria posto em liberdade, porque não cometera nenhum dos crimes de que o acusavam e sua detenção fora um deslize dos policiais.

        Passou o resto da noite presa de estranha inquietação, aumentada pela falta de cigarros, pois fora despojado de tudo o que levava nos bolsos antes de o meterem ali.

        Portara-se como o mais rematado idiota, deixando-se prender com tanta facilidade. Se resistisse mais um pouco, teria dado tempo a Linden de aparecer com os companheiros, e tudo terminaria de modo muito diferente: o mundo teria dois policiais a menos, e ele estaria livre.

        A luz do novo dia penetrou difusamente por um orifício de ventilação localizado junto ao teto.

        Santos sentia um cansaço infinito, ansiando por alguns cigarros e uma garrafa de uísque, mas parecia que todos o haviam abandonado naquele buraco escuro, inclusive os policiais.

        As horas foram passando lentamente, sem que ouvisse o menor ruído de passos no corredor.

        Finalmente, por volta do meio-dia, ouviu um tilintar de chaves e um policial à paisana parou diante da porta gradeada.

        - Levante-se! - ordenou, abrindo-a.

        Havia mais três agentes no corredor. Entre eles, Bell.

        - É este o sujeito que matou Sidney - anunciou Bell para os outros.

        Os federais entreolharam-se em silêncio e Santos sentiu algo esquisito revirar-lhe o estômago.

        - Não lhe invejo a sorte - comentou um dos agentes.

        - Ninguém invejaria - confirmou Bell.

        Em seu terror, Santos não conseguiu despregar os lábios, e deixou que o empurrassem pelo corredor, por escadas e outros corredores, até chegarem a uma sala mergulhada na mais profunda escuridão.

        Ao entrar, acenderam-se alguns focos, dirigidos contra uma parede onde havia uma espécie de passarela.

        Foi colocado ali, e pouco depois outros indivíduos foram introduzidos formando fileira, uns ao lado dos outros.

        Santos ficou numa ponta. Nada conseguia ver, deslumbrado pela claridade dos focos em sua direção. Ouvia apenas um rumor confuso de vozes, de trás da parede luminosa. Dentro de alguns minutos, começou a sentir que o suor escorria por suas costas, provocando-lhe uma incômoda sensação.

        Sentia-se abatido, doente. Linden e os outros fariam alguma coisa para tirá-lo daquela situação?

        Bell apareceu na zona iluminada, conduzindo a jovem que o acompanhara ao "Queen" na véspera. Havia outros dois policiais à vista.

        Caminharam lentamente diante do estrado, observando com atenção o rosto de todos os detidos, até chegarem a Santos.

        A jovem parou, contemplando-o fixamente.

        - É este! Foi ele quem matou Sidney! - exclamou, tão alto que devia ter sido ouvida nas salas vizinhas.

        Os detidos em peso voltaram os olhos para ele e Santos remexeu-se desconfortavelmente. Ouviu o comentário do mais próximo:

        - Tenho a impressão de estar assistindo seu enterro...

        - Eu não o matei! - gritou Santos, fora de si, dominado pelo pânico ao compreender a gravidade da acusação que pesava sobre ele. - Não fui eu!

        - Silêncio! - ordenou Bell. - Levem-nos de volta para as celas...

        Os detidos foram empurrados para a porta, caminhando num grupo confuso.

        O que vinha atrás de Santos fez um último comentário:

        - As coisas vão ficar pretas para você, rapaz. Foi identificado como o sujeito que matou um policial.

        - Silêncio! - ordenou um agente. Momentos depois, Santos atirava-se em seu enxergão da cela e tapava os olhos com as mãos, ainda sentindo ressoarem nos ouvidos as palavras fatídicas: "É este! Foi ele quem matou Sidney! “Assistindo seu enterro”!" "As coisas vão ficar pretas para você!"

        Aquilo era para enlouquecer qualquer homem, embora fosse um absurdo.

        Não matava ninguém há muito tempo, e não poderiam acusá-lo do assassinato do tal Sidney sem provas concretas...

        No entanto, dariam ouvidos à mulher que o reconhecera. Estava perdido. Não poderia pedir que a enviassem a exame médico? Sim, porque ela devia sofrer dos nervos ou da vista, ser vítima de alucinações: chegar ao cúmulo de dizer que fora ele quem matara o agente Sidney!...

        Tais pensamentos não eram nada animadores. Santos estava à beira de um colapso nervoso. Sua última esperança era Linden, que não poderia abandoná-lo em tão crítica situação. Seu amigo haveria de mover céus e terra para libertá-lo. Mas... e se estivesse enganado, se Linden não o ajudasse? Ergueu-se, assustado com a ideia. Compreendeu que estaria irremediavelmente perdido. Sentaria na cadeira elétrica, pagando por um crime que não cometera.

 

        Ao saber que seu melhor amigo estava preso, Paul Linden começou a agir sem perda, de tempo. Contratou o melhor criminalista que encontrou, sem fazer questão de preço.

        Após ser informado do caso, o advogado procurou extrair-lhe a verdade.

        - Por que sabe que seu amigo é inocente? - perguntou, fitando o cliente por cima dos óculos.

        - Porque tenho certeza de que não foi ele - replicou o pistoleiro, evasivamente.

        - É uma opinião particular, ou é baseada no perfeito conhecimento dos fatos? - insistiu o jurista, provocando-lhe um certo mal-estar.

        - Eu... sei que ele é inocente - afirmou.

        - Provas. Preciso de provas para apresentar no julgamento - pediu o advogado. - Não podemos chegar lá e simplesmente garantir que nosso cliente não cometeu o crime. Ninguém acreditaria nisso.

        - Mas, eles podem apresentar provas de sua culpabilidade? - argumentou Linden.

        - Se foi detido, é porque têm essas provas - replicou o advogado. - Talvez não sejam concludentes, mas bastantes para condená-lo se não apresentarmos outras mais concretas que as anulem sem sombra de dúvida, entende?

        Linden entendia, como entendia também que somente ele poderia provar a inocência de Santos.

        Seria impossível. Queria salvar o amigo, mas não em troca de sua própria perdição.

        No entanto, a única maneira de evitar que Celso Santos fosse enviado à cadeira elétrica, seria a de confessar-se autor do crime.

        Mordeu os lábios, meditando, sem encontrar uma ideia salvadora. Desanimado, levantou-se, encarando o criminalista.

        - Isso é com o senhor - disse. - Encontre um meio legal de tirar Santos da prisão. Pagarei o que pedir.

        O advogado entrou em ação, mas os agentes do FBI não só conservaram a presa, como não o deixaram visitar o cliente na cela, alegando alguns dispositivos legais.

        Nesse ínterim, as horas iam passando. Nasceu um novo dia. Santos começou a desintegrar-se moralmente, sozinho com seus pensamentos, tendo tempo de sobra para refletir na situação.

        De vez em quando apareciam alguns homens, que paravam diante da porta gradeada até que um deles deixava escapar:

        - Então foi este o homem que matou Sidney? - Ou então:

        - Aí está o sujeito que matou nosso amigo... ou:

        - Não sabe o que o espera!...

        Das primeiras vezes, Santos conseguiu fingir indiferença, mas pouco a pouco foi ficando com os nervos abalados, e gritava, aferrado às barras da cela:

        - Não fui eu! Não matei ninguém!

        Não lhe davam ouvidos ou recebia olhares de desprezo e ódio, culminando com algum outro comentário que só servia para exasperá-lo ainda mais.

        Na solidão do cárcere, as horas pareciam crescer em tamanho, e Santos não conseguia extrair a menor informação do homem que lhe levava as refeições, pois este cumpria silenciosamente sua função, fechava a porta e desaparecia em seguida, seguido pelo tilintar das chaves que lhe pendiam da cintura.

        Havia momentos em que criava esperanças, pensando em seu amigo Linden, imaginando um assalto a mão armada, quando invadiriam o prédio do FBI para deixá-lo em liberdade.

        Teria advogados às dúzias, capazes de esmagar com seus conhecimentos legais os homens que o haviam detido, graças ao dinheiro que Linden gastaria sem pena.

        Via-se saindo dali, ereto, desafiante, poderoso, deixando o prédio pela porta principal.

        Em outros momentos, tudo parecia negro, e refletia que Linden o abandonara à própria sorte ou que seu amigo nada podia fazer.

        Com o passar do tempo, a ideia de que ele permitiria que o executassem foi ganhando corpo em seu cérebro.

        Afinal de contas, se morresse na cadeira elétrica como assassino do agente federal, Linden estaria livre de qualquer acusação embora fosse o verdadeiro criminoso.

        Talvez seu amigo até estivesse satisfeito, esfregando as mãos de contentamento e torcendo para que isso acontecesse.

        Aquela ideia foi como uma faísca brilhante em seu espírito. Pareceu-lhe ver claro pela primeira vez, enquanto sentia o coração pulsar com mais força. Sim, era o que ia acontecer: pagar pelo crime de outro homem!

        Levantou-se, subitamente, possuído por uma firme resolução, e caminhou até a porta de grades.

        - Guarda! - gritou.

        De um ponto distante, ouviu que o mandavam calar-se.

        - Guarda! Por favor! - insistiu.

        Alguns passos lentos, lentos demais para a impaciência de Santos, aproximaram-se pelo comprido corredor. Finalmente, o guarda uniformizado apareceu diante do detido.

        - Pode-se saber que bicho o mordeu para esgoelar-se dessa maneira? - perguntou, com o cenho franzido.

        - Leve-me ao senhor Bell - suplicou Santos, com os olhos fora das órbitas e a voz trêmula e arquejante. - Diga-lhe que tenho algo muito importante a dizer!

        - Pensa que vou incomodar o agente especial Bell apenas porque você quer? Engana-se, meu caro. Vai ficar aí, muito sossegadinho e sem gritar, para que eu não lhe quebre os dentes...

        O guarda deu meia volta para ir embora, mas Santos teimou:

        - Diga ao senhor Bell que quero contar tudo! Tudo, ouviu?

        O guarda encolheu os ombros com indiferença e o mexicano ficou na dúvida se iria transmitir o recado. Desistiu de chamá-lo novamente, receando que o guarda cumprisse a ameaça de agredi-lo.

        Assim passou o resto da tarde e toda a noite, torcendo as mãos em desespero, insone e pensando continuamente no perigo que corria.

        Na manhã seguinte retiraram-no da cela. Foi conduzido a um gabinete, onde encontrou vários membros do FBI.

        Colocaram-no no meio do aposento, servindo de alvo para os olhares de todos os presentes.

        Como que vindo de muito longe, ouviu o comentário que alguém sussurrava, mas as palavras que em outros tempos seriam o bastante para que ele empunhasse a arma, agora não lhe produziam qualquer sensação:

        - Muito mais mole e covarde do que pensávamos...

        - Que tem a dizer-me?

        A voz de Bell suplantou tudo à sua volta, e Celso Santos via apenas a figura do jovem federal, ignorando os outros que certamente acudiam para ouvir e anotar o que seria dito ali dentro.

        - Eu não matei seu colega, senhor - disse Santos formalmente, em voz trêmula.

        - Temos provas de que não diz a verdade - afirmou Bell. - Foi para dizer essa tolice que me chamou?

        - Não fui eu que o matei, senhor! - havia uma profunda angustia na voz do mexicano.

        - Se não foi você, quem foi então? - desta vez era uma pergunta direta, que não admitia evasivas.

        - Paul Linden - declarou Santos, abaixando a cabeça.

        - Como posso saber se não está mentindo?

        - Pergunte a Burton e Hoffman, pois testemunharam o que aconteceu. Os outros rapazes também sabem, embora não tenham visto.

        A mão do taquígrafo parecia voar sobre o papel. Com aquele homem, não precisariam recorrer a perguntas traiçoeiras ou métodos violentos. Celso Santos contou tudo o que sabia, sem omitir um só detalhe, acrescentando datas, circunstâncias, testemunhas, e tudo o que pudesse interessar aos federais.

        Por seu depoimento, Bell ficou sabendo exatamente como ocorreram os assassinatos do agente Sidney, de Clifton, o motorista de táxi, e também de William Framer, o proprietário do "Queen".

        Quando Celso Santos voltou para a cela, os companheiros de Bell felicitaram-no por seu trabalho:

        - O homenzinho cantou que foi uma beleza!

        - Você já tem o tal Linden sentado na cadeira...

        - Podemos ir atrás dele assim que quiser.

        - Não - Bell moveu a cabeça. - Não quero prendê-lo agora.

        Os outros estranharam sua atitude.

        - Mas já o tem nas mãos!

        - Pagará caro pelo que fez com Sidney...

        - Não - repetiu Bell. - Linden é poderoso. Contratará os melhores advogados, comprará testemunhas e "álibis". Temendo Linden, Santos poderá voltar atrás em seu depoimento.

        Passeou alguns momentos pelo gabinete, com o cenho franzido.

        - Precisamos conseguir o máximo de provas contra ele, de modo a cortar-lhe qualquer saída - disse, com energia. - Eu jamais me perdoaria, se isto fracassasse por precipitação ou imprudência minha. A lembrança de um colega assassinado exige que eu proceda com calma e firmeza, a fim de que seu assassino não possa escapar ao castigo que merece.

        Quatro da madrugada. Os últimos tresnoitados cruzavam-se com os primeiros operários que seguiam para o trabalho.

        Um tanto embriagado devido à quantidade exagerada de uísque que ingerira durante a noite, Burton saiu do "Queen" pela porta da frente, vacilando sobre as pernas.

        Contemplou um grupo de farristas que caminhavam para o estacionamento privado do clube.

        Os homens cambaleavam e suas acompanhantes procuravam ampará-los pelos braços. Uma delas cantarolava, deixando ouvir uma voz bem timbrada, mas insegura pelos vapores do álcool.

        Burton deu de ombros, murmurando qualquer coisa para si mesmo, e caminhou a passos tropegos para seu carro.

        Estava contente, porque ganhara um bom punhado de dinheiro jogando com Hoffman e mais dois amigos.

        Ultimamente, a sala-de-estar do "Queen" vivia mergulhada num ambiente de preocupação e incerteza, de modo que tentava alhear-se daquilo, procurando o jogo e a bebida.

        Linden andava aborrecido, sempre pensativo em sua poltrona, sem dar atenção a ninguém.

        Não ligava nem para uma boa partida de cartas. Burton pensava de outra maneira, e ganhara muitos dólares para gastar nos dias seguintes.

        Chegou a seu carro, girou a maçaneta e, após algumas tentativas, conseguiu acomodar-se ao volante.

        Puxou a porta com a mão esquerda e bateu-a com força, mas a do lado direito bateu, também, quase no mesmo momento.

        Ao virar a cabeça, Burton deparou com o rosto sério do agente Bell, que lhe apontava o cano de uma arma.

        Ficou sem respiração por alguns segundos. Não esperava por aquilo. Sua mente de ébrio começou a pesar a conveniência de oferecer resistência. Primeiro daria um tapa na mão que empunhava a pistola e depois, com um bom soco direto no queixo...

        A porta esquerda do veículo foi aberta, e Burton sentiu que alguém o empurrava para o meio do assento. Com o cérebro enevoado, custou a reconhecer o agente Leo Field, que tomava o volante, deixando-o sentado entre os dois.

        Alguém enfiou a mão em seu paletó e arrebatou-lhe a pistola que carregava no coldre de ombro.

        - Vamos, Leo. Podemos ir.

        - Para onde me levam? - conseguiu perguntar finalmente. - Que querem de mim? Não têm o direito...

        - Cale-se - ordenou Bell, secamente.

        - Mas é que...

        - Já disse para ficar calado!

        Ouviu-se um "clique" e, antes de dar pela coisa, Burton foi algemado num abrir e fechar de olhos. O carro começou a rodar, com as ruas quase desertas desfilando rapidamente pelas janelinhas. A bebedeira de Burton pareceu evaporar-se como por encanto e ele começou a meditar no que lhe sucedia.

        Por que o detinham? Talvez algum dos assaltos...

        Empalideceu ao lembrar-se de Santos, alarmando-se à ideia de que ele pudesse ter dado com a língua nos dentes.

        Gostaria de saber o que o mexicano teria dito. A viagem foi curta. Suas dúvidas dissiparam-se ao ser introduzido numa sala onde o colocaram sob um potente foco de luz e um jato de perguntas:

        - Foi Linden quem matou Sidney no vestíbulo do "Roberts"?

        - Não! - negou com firmeza.

        Isso, contudo, foi apenas o começo, pois as horas e as perguntas sucederam-se numa série interminável.

        Burton não tinha descanso, deslumbrado sob a claridade estonteante, mal percebendo que os agentes se revezavam na tarefa de interrogá-lo.

        Desejou fumar e colocaram-lhe um cigarro na boca.

        Aproximaram um isqueiro. Quando já ia aspirar a fumaça que lhe acalmaria os nervos, uns dedos surgiram da escuridão e arrancaram-lhe o cigarro dos lábios.

        Depois sentiu sede e calor. O suor escorria-lhe profusamente pelo rosto, e sentia a humidade deslizar no peito e nas costas como se estivesse debaixo dum chuveiro.

        E aquelas perguntas que não tinham fim...

        Perdeu por completo a noção de tempo, confundido pelas vozes incansáveis, sempre querendo saber, pela luz fulgurante sobre os olhos, pela mesma posição...

        Começou a falar. Afinal de contas, não estava envolvido no caso e, afirmando que fora realmente Linden quem matara o agente federal, Clifton e Framer, segundo ouvira dizer, não ficaria comprometido.

        Só depois que falou concederam-lhe a suprema graça de descansar numa cela escura, que para ele assemelhava-se ao paraíso, imersa em silêncio e sem aquelas luzes infernais.

        Era só isso o que queria, desde que o deixassem em paz e pudesse dormir tranquilamente.

        A notícia da detenção de Burton explodiu como uma bomba no meio dos remanescentes do bando. Todos começaram a temer as consequências, meando no circulo que se fechava pouco a pouco em torno deles.

        Linden era o mais preocupado, sabendo que aquelas prisões visavam encurralá-lo, mas procurava acalmar-se, refletindo que, se não fora ele o preso, certamente os federais não dispunham de provas para acusá-lo.

        A verdade é que a situação ia tornando-se delicada, e tudo prenunciava o desmoronamento total.

        Precisava agir enquanto havia tempo, e a ideia de largar tudo de mão foi tomando forma em sua mente.

        Começava a pisar em terreno escorregadio! Parecia-lhe estar no interior de uma boca monstruosa, preparada para triturá-lo a qualquer momento.

        Precisava fugir de Nova Iorque, antes que a cidade também o devorasse. Tinha bastante dinheiro, e poderia recomeçar! a vida com qualquer tipo de negócio, bem longe dali. Afundado na poltrona, virou o rosto para observar os homens em volta da mesa, jogando pôquer.

        Desapareceria sem qualquer explicação, e eles que se arranjassem sozinhos.

        Decidido a executar o plano, levantou-se e anunciou:

        - Vou dar um giro pelo salão.

        Ninguém disse nada. Saiu. Assim que a porta se fechou, os homens largaram as cartas e entreolharam-se.

        - O homem está assustado - disse um deles.

        - Anda revirando os miolos...

        - E agora pergunto: que vem ele fazendo para auxiliar os companheiros detidos?

        - Acho que pretende dar o fora, deixando-nos a ver navios.

        Hoffman deu de ombros.

        - Esperemos mais um pouco. Ainda confia nele, mesmo assim. É um homem de coragem, talvez planeje alguma coisa para que tudo volte ao normal.

        Voltando às cartas, continuaram a jogar.

        Enquanto isso, Linden chegava até a caixa do clube, arrecadava o lucro da noite. Em seguida, tomou o carro, indo direto para o seu apartamento, onde guardava o resto do dinheiro.

        Escondera-o no estofamento de uma poltrona. Enfiou os dedos até sentir que roçavam no pacote.

        Puxou-o para fora e deixou-o sobre uma mesinha, a fim de recontá-lo e saber exatamente de quanto disporia para os gastos futuros.

        O lucro do "Queen" subia a três mil dólares e, com o conteúdo do pacote, produto de assaltos e percentagens, daria um total de...

        Empalideceu intensamente ao desatar o pacote.

        Em vez de notas de Banco encontrou apenas recortes de jornal. Recortes e mais recortes...

 

        Henry Bell, e Leo Field entraram no salão de festas do "Queen", ajeitaram-se em dois tamboretes diante do balcão e pediram dois mar-tinis.

        Beberam calmamente e depois voltaram-se para um empregado:

        - Queremos ver um tal Melvin Hoffman. Pode dizer se ele está por aqui?

        O homem vagueou os olhos pelo salão e respondeu:

        - Não, não está.

        Os dois agentes perceberam a hostilidade velada na resposta, mas aparentaram naturalidade.

        - Está bem, amigo - disse Bell. - Vamos dar uma espiada nos aposentos reservados.

        Subiram a escadaria e bateram à porta do gabinete de Framer, sendo atendidos precisamente pelo homem que desejavam.

        - Queremos falar com Melvin Hoffman - anunciou Bell.

        - Hum! Sou eu mesmo - apresentou-se, já sabendo de antemão que a visita dos policiais nada prognosticava de bom.

        - Considere-se detido...

        Os dois agentes colocaram-se estrategicamente dos dois lados do pistoleiro e revistaram-no com rapidez, encontrando uma enorme navalha num bolso e uma automática japonesa no coldre de ombro.

        - Em frente, rapaz - ordenou Bell. — Queremos saber certas coisinhas que você nos pode contar.

        Hoffman só então caiu em si.

        - Ei! Um momento! - reclamou. - Não podem prender-me...

        - Deixe-se de tolices, rapaz. Claro que podemos - afirmou Bell.

        - Precisam de uma ordem do juiz - declarou o pistoleiro, em tom de triunfo.

        - E isto aqui, que pensa que seja?

        Hoffman leu velozmente o papel que lhe colocavam diante dos olhos, constatando que se tratava de um mandado em ordem, autorizando a detenção de Melvin Hoffman, suspeito de latrocínio.

        Vacilou, perplexo e sem saber o que fazer.

        Era realmente muito duro acompanhar os policiais, sem ao menos tentar rebelar-se de alguma forma.

        Sempre se portara com valentia em vários assaltos, embora a situação agora fosse diferente, não custava nada tentar.

        Sua expressão de surpresa confundiu os policiais que o empurravam para a porta.

        Deu um rápido pulo para trás e, embora os federais se voltassem depressa, desapareceu pela porta da sala-de-estar, fechando-a a chave.

        Imaginando que ele pretendesse fugir pela porta dos fundos, Bell atirou todo o peso do corpo contra a porta, derrubando-a à primeira tentativa.

        Caiu ao chão em meio às farpas da madeira, enquanto Field pulava por cima dele e corria em frente, empunhando a arma.

        A sala estava vazia, mas um rumor de passos precipitados, descendo a escada, dizia que Hoffman não fugia sozinho.

        Bell levantou-se de um salto e correu para outra porta, felicitando-se por encontrá-la apenas encostada.

        A seus pés projetava-se uma escada em caracol, ainda vibrando sob os efeitos das pisadas dos fugitivos.

        Seguido por Field, atirou-se por ela abaixo. Logo chegaram a um pequeno corredor, iluminado por uma diminuta lâmpada acima da porta que dava saída para a rua lateral.

        Bell abriu-a com um puxão e esperou em silêncio, temendo o tiro assassino no momento em que aparecesse.

        O ruído de um motor de automóvel dando partida deu-lhe a entender claramente que os pistoleiros preferiam fugir a perder tempo desembaraçando-se dos agentes que os perseguiam.

        Correram para a esquina, alcançando-a no momento em que um carro passou por eles em alta velocidade.

        Bell refletiu rapidamente que nunca poderia alcançá-los, pois precisaria chegar a seu automóvel, subir, ligar o motor e arrancar atrás dos fugitivos.

        Agindo com a rapidez característica dos agentes do FBI, empunhou sua "Magnum" e atirou, visando uma roda traseira do carro.

        Foram quatro tiros certeiros, e o veículo começou a ziguezaguear pelo meio da rua, desgovernado.

        O homem que ia ao volante perdeu a calma ou foi dominado pelo pânico, de modo que não conseguiu controlar o carro e atirou-o contra a fachada de uma casa, após subir na calçada e derrubar uma banca de jornais.

        Bell e Field correram para o automóvel acidentado e ajudaram os quatro homens machucados a saírem do interior de rostos sujos de sangue e graxa e as roupas em desalinho e rasgadas em diversos pontos. Já algemados de dois em dois, foram conduzidos para o carro de Bell, e pouco depois eram convenientemente interrogados.

        Como resultado disso, o cerco em torno de Paul Linden acabara de fechar-se.

        Talvez Linden não ficasse tão surpreendido se, em vez de papéis velhos, aparecesse um elefante no forro rasgado da poltrona.

        Ficou olhando para aquela inutilidade, com e pressão esgazeada, incapaz de acreditar no que via.

        Fora roubado. O capital amealhado à custa de socos e tiros transformara-se num monte imprestável de recortes de jornal.

        A cruel realidade feria-o justamente quando mais precisava de dinheiro para escapar antes, que o FBI lhe deitasse a garra.

        Agora, só podia contar com os dólares apanhados no cabaré e os poucos que costumava levar nos bolsos.

        Espremeu o cérebro, à procura de uma saída, que o deixasse a salvo da Polícia Federal. Pensou em Dixon.

        Fora lá que terminara seu aprendizado de pistoleiro, após especializar-se como batedor de carteiras, arrombador de apartamentos, traficante de drogas e outras coisas mais.

        Embora conhecido na zona, tinha amigos, gente que poderia ocultá-lo ou arranjar-se meios para desaparecer de circulação por uns tempos.

        Era isso: ganhar tempo para pensar com calma no que deveria fazer mais tarde.

        Uma febre de urgência o invadiu. Sentiu-se dominado por um desejo louco de abandonar tudo e fugir para longe, ocultar-se de todos os olhares, pouco se importando com o dinheiro roubado ou com quem o roubara, embora estivesse certo de que fora obra da Polícia.

        Seu único pensamento era fugir, fugir antes que fosse tarde demais. Desaparecer antes que cidade o devorasse.

        Nada tendo a recolher naquele apartamento guardou o dinheiro que sobrara e verificou se ainda continuava com a pistola. Desceu as escadas com o coração a pulsar desordenadamente.

        Quando chegou à porta, olhou para os lados, apreensivo, mas nada viu de suspeito.

        Sentou-se ao volante do carro, arrancou com um salto que denunciava seu estado nervoso e percorreu várias ruas, em direção à pista Trinta e Oito. Junto à ponte, avistou dois motoristas, de pé, parados junto aos respectivos veículos.

        Percebendo que os agentes não detinham os automóveis que passavam, seguiu em marcha moderada, adotando um ar de indiferença que não enganaria quem o visse de perto.

        Suspirou aliviado e concentrou-se inteiramente na tarefa de dirigir o automóvel, embalado por seu suave ronronar. Um carro ultrapassou o seu, após pedir passagem com o jogo de luzes.

        Outros passavam velozmente em direção contraria. Tudo parecia normal. De repente, numa curva da estrada, avistou a traseira do automóvel que o ultrapassara pouco antes, parado e com as luzes acesas, enquanto alguns homens uniformizados falavam com os ocupantes.

        Linden pisou fundo no freio e parou o carro, preparando-se para manobrar, com os faróis apagados.

        Era ali que detinham o tráfego. Não se sentia com coragem de enfrentar o controle policial, sabendo que terminaria explodindo e denunciando-se.

        Deu a volta completa, mas só então percebeu que outro carro o acompanhara, e que executava idêntica manobra para retornar a Nova Iorque, num movimento suspeito demais para não provocar sua desconfiança.

        A partir de então, praticamente grudou os olhos ao espelhinho retrovisor, verificando com angústia que o outro automóvel conservava a mesma distância do seu, numa perseguição enervante.

        Precisava fazer alguma coisa para livrar-se da vigilância. Pisou no acelerador até o fundo, afastando-se bastante daqueles faróis que lhe vinham atrás como olhos acusadores.

        O outro carro também aumentou a velocidade e recuperava nitidamente terreno.

        Agora estava fora de dúvida que alguém teimava em segui-lo, mas nem por isso perdeu a cabeça. Seus nervos pareceram acalmar-se subitamente e recuperou o sangue-frio.

        Tornou a atravessar a ponte. Os motoristas já não ocupavam o posto de momentos atrás, e a enorme avenida Trinta e Oito desdobrou-se à frente do pistoleiro.

        Com um rápido olhar ao espelho retrovisor, ficou sabendo que o outro carro continuava a segui-lo na mesma distância. Embrenhou-se numa rua lateral, à direita, em velocidade superior à permitida.

        Logo depois, dobrou à esquerda, agora por uma rua estreita e mal iluminada.

        Até então, não premeditara coisa alguma, mas a escuridão da rua que atravessava o levou a pensar em Bughs, o negro.

        Era um amigo que comerciava com drogas no Harlem, e que não se recusaria a auxiliá-lo. Seu estabelecimento fora preparado para iludir a polícia, e sempre o fizera com êxito.

        Tornou a apertar o acelerador, dobrando inúmeras vezes para a direita e a esquerda, e de repente comprovou que seu perseguidor desaparecera.

        Freou bruscamente. O carro parou com um sacolejo, como se o tivessem cravado ao solo.

        Linden pulou para a calçada e correu para um beco escuro e malcheiroso, proibido ao tráfego.

        Apertou o passo, ouvindo um súbito ranger de freios às suas costas, dobrou uma esquina e avistou a porta iluminada.

        Enfiou-se apressadamente num portal escuro e subiu arquejando um trecho de degraus estreitos e rangentes.

        Na escuridão reinante, tropeçou em algo que o Impediu de continuar subindo, mas ao afastar o obstáculo, percebeu que era o corpo de um homem, escorregando molemente escadas abaixo.

        - Algum dopado, pensou. Continuou subindo e parou em frente à porta fracamente iluminada.

        Bateu com impaciência e pouco depois era observado por um olho brilhante através de uma pequena abertura gradeada.

        - Procuro Bughs - disse, ansioso. - Diga a ele que seu amigo Paul deseja vê-lo com urgência.

        A porta abriu-se imediatamente e o próprio Bughs acolheu o pistoleiro em seu antro.

        Sem dizer palavra, conduziu-o por um corredor. Atravessaram uma sala atulhada de homens e mulheres mergulhados no êxtase artificial provocado pelo vicio, e chegaram a um cubículo, de onde Bughs dirigia aquele covil.

        - Posso contar com sua ajuda, Bughs? - disse Linden, à guisa de cumprimento.

        - Alguém o persegue, Paul? Linden assentiu, movendo a cabeça.

        - Está bem, fique aqui o tempo que quiser - ofereceu o negro. - Nada de medo dos policiais. Bughs paga a eles, para que deixem Bughs em paz.

        Linden mordeu os lábios antes de comunicar ao negro que não era perseguido pela polícia metropolitana, mas pelos homens do FBL agentes federais que não se vendiam.

        Abriu a boca, mas desistiu de falar, temendo que o negro o pusesse na rua imediatamente.

        Bughs levou o amigo para um quarto interno e sem janelas, deixando-o sozinho e voltando a cuidar de seu negócio.

        Linden relanceou os olhos pelas paredes nuas, a cama de ferro, a pia colocada num canto e o armário estreito que tomava quase toda a parede.

        Era como uma cela. Desanimou à ideia de permanecer muito tempo ali, mas imediatamente expulsou o pensamento. Embora tivesse melhores instalações, uma cela seria apenas o estágio intermediário para a cadeira elétrica.

        Tirou o paletó e, dominando a repugnância, espichou-se na cama, sentindo-se confortado, porque ao menos conseguira iludir os policiais.

        Talvez seu estado de ânimo fosse outro se pudesse adivinhar que naquele momento um agente especial telefonava de uma taberna próxima, entrando em comunicação com Henry Bell.

        - Nosso pássaro tentou voar de Nova Iorque, Bell, mas quando percebeu que a polícia rodoviária exigia a documentação dos motoristas, depois da ponte, decidiu voltar. Só então notou que nós o perseguíamos e procurou despistar-nos por todos os meios.

        - Conseguiu safar-se? - perguntou Bell, do outro extremo do fio telefônico.

        - Nem pense nisso! Está na toca de Bughs...

        - Uma toca que tem duas portas, Mike - observou Bell.

        - Farewell está diante de uma, e eu tomo conta da outra - replicou Mike.

        - Bom trabalho, rapaz! - felicitou Bell. - Estaremos aí daqui a pouco.

        - Que Deus o ouça! Eu e Farewell já estamos exaustos, depois de vinte horas consecutivas Vigiando o nosso homem.

        - Apenas mais alguns minutos, Mike! Até logo!

 

        Não era nada agradável ficar inativo durante horas, espichado numa cama, de olhos para cima e fumando um cigarro atrás do outro, mas Paul Linden ainda se felicitava por encontrar um refúgio relativamente tranquilo onde permanecer após dar aquela rasteira em seus perseguidores.

        Se Bughs, o negro traficante de drogas, cumprisse a palavra poderia ficar ali por alguns dias, até que os federais o esquecessem ou perdessem sua pista.

        Isso poderia realmente acontecer, desde que surgissem novos casos no mundo do crime, absorvendo a atenção dos policiais e fazendo com que relaxassem a vigilância. Então, sairia furtivamente de Nova Iorque, antes que ela o devorasse.

        Começou a ter pensamentos mais otimistas. Tudo sairia bem, com o dinheiro que ainda possuía, compraria um carro e iria para alguma cidade ignorada e longínqua. O tempo passaria, e depois...

        Identificou os passos pesados de Bughs no corredor e soergueu-se na cama, em atitude de expectativa.

        O negro caminhava mais depressa que de costume, sinal de que alguma coisa o excitara. A porta do quarto abriu-se e a enorme cabeça do negro apareceu à vista, com os olhos muito arregalados e a esclerótica alvacenta sobressaindo num violento contraste com o negror da pele.

        Pigarreou antes de entrar, mas afinal passou e fechou a porta cuidadosamente.

        - Há homens vigiando lá fora, Linden - disse apenas.

        Linden sentou-se na cama rapidamente, os olhos espelhando o medo que sentia.

        - Que está dizendo? - perguntou, num fio de voz.

        - Eu mesmo vi - disse o negro. - Como não os conheço, só podem ser de fora, ou do FBI. Você tem alguma conta com os federais, Linden?

        - Como sabe que são do FBI? - indagou o pistoleiro, fugindo à pergunta.

        - Eu já disse, Paul: não conheço os homens e Bughs conhece todos os policiais metropolitanos de Nova Iorque.

        - Como puderam descobrir meu esconderijo? Não consigo entender, a menos que...

        Vendo-se observado com tanta atenção, Bughs ficou nervoso e desviou os olhos. Sua pele adquiriu uma súbita coloração acinzentada.

        - Sei o que está pensando, Paul - disse em voz rouca. - Engana-se, rapaz. Bughs nunca traiu um amigo.

        Linden saiu da cama lentamente, sem tirar os olhos de cima do negro.

        Bughs recuou até tocar as paredes do quarto com as costas, como hipnotizado pelo olhar do homem que avançava em sua direção.

        Percebia o perigo que, embora absurdo e incompreensível como um pesadelo, estava ali, a dois passos de distância, concentrado no corpo do pistoleiro ereto e imóvel que o contemplava com Maldade, e ódio.

        - Foi você quem "cantou" - acusou Linden. - Foi ao encontro dos federais...

        Bughs meneou a cabeça vagarosamente numa negativa, sentindo-se incapaz de falar, embora ansiasse por dizer a Linden que era leal aos amigos e fiel à sua palavra.

        Seus lábios grossos tremiam. Um fiozinho de baba escorreu-lhe da boca, adelgaçou-se e pingou em seu ventre volumoso.

        A morte estava naquele quarto, junto dele e aproximava-se pouco a pouco, inexorável, em passos firmes e seguros. Como num filme retroativo, toda a sua vida começou a desfilar-lhe pela mente e maravilhou-se ao descobrir de novo pequenos detalhes até então esquecidos, fatos insignificantes ocorridos anos e anos antes.

        Seu começo como engraxate nas ruas da cidade, os passos iniciais no tráfico de drogas, quando ganhava apenas alguns centavos por cápsula vendida...

        Depois, a afluência de clientes, que o procuravam desejando voluntariamente arruinar o corpo e a alma com as drogas fatais. A consequente prosperidade, o momento em que se tornara independente e começara a ganhar dinheiro às mancheias...

        Recordou as contas-correntes em vários bancos, com cifras de muitos zeros. As compras de propriedades e de ações, sem que ninguém desconfiasse que era rico, já que vivia numa casa de tão má aparência. No entanto, era ali que os dólares lhe vinham às mãos.

        Sacudiu a cabeça, procurando clarear a visão.

        Foi quando percebeu a pistola que Linden empunhava com mão firme.

        - Não! Não, Paul! - não reconheceu como sua a voz deformada pelo pânico que lhe saía da garganta.

        - Traidor!...

        A pistola de Linden cuspiu três labaredas rápidas, tão juntas que pareciam uma só.

        Quando os três projéteis incandescentes enterraram-se em sua carne, Bughs sentiu que as pernas fraquejavam e tudo rodava à sua volta.

        Paredes, cama, o armário e a silhueta de Linden, oscilaram de um lado para outro, e finalmente fundiram-se num redemoinho sem fim.

        Depois, a escuridão total.

        Bughs, o abastado traficante de drogas, acabava de encerrar sua carreira.

        Linden lançou um olhar de desprezo ao vulto escuro enrodilhado no chão, as roupas em desalinho e manchadas de sangue.

        - O sujo! Soprou a história para o FBI! - murmurou. - Ah! Com que vontade o pisotearia...

        Contudo, o momento não era propício à profanação de cadáveres, embora fosse o que ele mais desejaria fazer naquele momento.

        Precisava sair dali o mais depressa possível, antes que os federais fechassem o cerco.

        Abriu a porta e começou a tatear pelas paredes do corredor, imerso na mais completa escuridão, procurando a saída que dava para os fundos, que talvez os federais não conhecessem.

        De súbito sentiu o solo faltar-lhe sob os pés. Tateou desesperadamente, até aferrar-se a algo que vibrou suavemente, suportando o seu peso.

        Recuperou o equilíbrio e começou a descer uma escada, arrastando os pés para não cair, a mão direita deslizando no corrimão e os olhos doendo na ânsia de perfurar as trevas.

        Encontrou uma portinhola, tateou em busca da fechadura e começou a abri-la com infinita precaução.

        Uma claridade leitosa que vinha do exterior mostrou-lhe um pequeno pátio cheio de lixo e de caixotes vazios.

        À esquerda havia uma parede de tijolos, alta e sem aberturas, do lado oposto, outra parede, caiada, mas descascada em vários pontos, por onde apareciam os tijolos.

        O pátio estava deserto. Linden atravessou-o rapidamente, na direção de outra portinhola que abriu com facilidade.

        Estava agora num galpão que devia funcionar como depósito, a julgar pelas pilhas de caixotes e embrulhos que continha.

        Mais ao fundo, avistou o automóvel que pertencia a Bughs, sorriu, imaginando como seria fácil abrir a porta do galpão e sair a toda velocidade, surpreendendo os agentes que estivessem nos arredores.

        Contudo, sua alegria foi de pouca duração, ao refletir que não tinha a chave de contato. Seus conhecimentos de mecânica eram insuficientes para fazer o Carro funcionar sem a chave.

        Mordeu os lábios, furioso.

        Teria de continuar fugindo a pé.

        Contemplou a porta larga do galpão, murmurando para seus botões:

        - Em que bela enrascada me meti...

        Entretanto, precisava fazer alguma coisa, em vez de ficar parado, à espera de que os federais revistassem tudo e o encontrassem na ratoeira.

        Poderia esconder-se entre os caixotes e fardos, mas decidiu que só o faria em último caso.

        Aproximou-se silenciosamente da porta e aplicou o ouvido, tentando descobrir se haveria alguém do outro lado.

        Não ouviu nenhum rumor.

        Lembrou-se em tempo de que a ruela além da porta só tinha saída por uma extremidade, justamente onde ficava localizada a casa de Bughs.

        Procurou o enorme ferrolho e começou a puxá-lo lentamente, temendo provocar ruído que alertasse os policiais.

        Suava com o esforço, mas minutos depois já podia dispor de uma pequena fresta, por onde perscrutou o beco escuro, que parecia deserto.

        Saiu cautelosamente para o exterior, imaginando que nem tudo lhe corria tão mal, embora soubesse que o pior ainda estava por vir.

        Estariam realmente os policiais nas ruas próximas, ou fora uma mentira de Bughs para obrigá-lo a deixar sua casa?

        Sim, só podia ser isso: Bughs receara comprometer-se e apelara para um ardil, a fim de fazê-lo sair. Pois pagara bem caro a mentira! Se seu raciocínio estivesse correto, poderia abandonar tranquilamente aquele maldito beco e procurar um táxi que o levasse a qualquer lugar distante, quando fugiria por seus próprios meios.

        Mais animado, pôs-se a caminhar para o fim da ruela.

        Era quase noite fechada, e isso lhe deu uma ideia das horas que permanecera atirado à cama infecta do quartinho.

        Atravessou a rua e passou para a outra calçada, esquivando-se à luz de um lampião.

        Continuou avançando em meio às sombras. Só lhe faltavam vinte passos para chegar à esquina, quando dois homens apareceram por ela.

        Grudou-se à parede, reconhecendo o agente especial Henry Bell e Leo Field, seu inseparável companheiro.

        Os dois homens pararam, olhando na direção de Linden, mas o pistoleiro julgou que não o tivessem visto e continuou imóvel, com o cérebro vazio e o coração galopando, colado à parede, procurando transformar-se em mais uma sombra entre tantas.

        Enfiou a mão direita no bolso do paletó e acariciou a coronha da pistola, sentindo-se reanimar àquele contato que dava tanta confiança em si.

        Refletiu que, em último caso, abriria caminho a tiros, passando por cima dos cadáveres dos federais para em seguida perder-se na confusão da metrópole.

        Nesse momento, ouviu vozes que partiam do lugar em que estivera pouco antes e, com um calafrio, percebeu os vultos de vários homens que saiam para o beco pela enorme porta da garagem de Bughs.

        Fora apanhado na ratoeira!

        Estava perdido, mas nem por isso pensou em entregar-se.

        Não seria um fim digno de Paul Linden, "maioral" do mundo noturno de Nova Iorque! Precisaria executar um golpe de audácia.

        Era o que tinha a fazer, para que não o agarrassem estupidamente.

        Afastou-se um pouco da parede e começou a mover-se furtivamente, na direção da saída do beco.

        Bell e Field continuavam no mesmo lugar, esperando pelos agentes que davam volta à casa, seguindo o mesmo caminho de Linden.

        Ia surpreendê-los à sua maneira. Não fora em vão que tivera êxito nos inúmeros assaltos em que tomara parte, nos quais a coragem e o sangue-frio eram indispensáveis para o êxito.

        Empunhou a pistola e destravou-a. Ainda continha quatro balas que, bem aproveitadas, abririam o seu caminho para a liberdade.

        Andou mais depressa, ouvindo as vozes e os passos dos homens que saíam da garagem de Bughs.

        Chegava à esquina e já podia divisar as feições de Henry Bell e seu companheiro, quando foi descoberto.

        - Alto! - ordenou o jovem federal.

        Linden levantou a pistola no momento em que Field levava um apito à boca, fazendo-o trilar com enervante insistência.

        Fora de si, Linden apertou o gatilho várias vezes, ansiando pela liberdade e sabendo que para fugir dali precisaria matar quantos aparecessem em seu caminho.

        A ruela encheu-se com o estrondo de seus tiros e com os gritos dos homens que corriam em sua direção.

        Finalmente o percussor bateu no vazio, mas isso só serviu para enfurecê-lo ainda mais.

        Num último recurso, atirou a arma imprestável na direção do rosto de Bell, ao vê-lo aproximar-se. O agente desviou o corpo e a pistola rolou no cimento da calçada, com estrondo.

        Outro policial trilou seu apito no fundo do beco, fazendo com que Linden desse dois ou três passos precipitados e se chocasse com Bell, que avançava disposto a impedir-lhe a fuga.

        - Deixe-me fugir! - implorou em voz rouca. - Nunca mais tornarei a...

        - E Sidney? E Clifton? E Framer? E Bughs? O nome daqueles homens que matara foram como outras tantas coronhadas que Linden aparou em pleno peito.

        Deu alguns passos para trás, vacilando, mas de repente recuperou a coragem e atirou-se de frente, resolvido a derrubar Bell, passar-lhe por cima e continuar fugindo.

        Desejava angustiosamente viver, mesmo se para isso tivesse de aumentar o cortejo de suas vítimas.

        Uma língua de fogo surgiu repentinamente diante de seus olhos e uma pancada penetrante apertou-lhe o peito, enquanto algo terrivelmente quente lhe perfurava os pulmões.

        Abriu a boca para respirar e uma golfada de sangue inundou sua garganta, asfixiando-o. Levou as mãos ao pescoço e tombou pesadamente de bruços no chão.

        Ainda ouviu o rumor precipitado de passos no cimento, podia sentir a vibração que se propagava até ele...

        Logo depois divisou muitos pés que rodeavam seu corpo caído.

        - Chegou o fim... - murmurou, sem que ninguém o ouvisse.

        Muito vagamente, sentiu que tudo se diluía à sua volta, perdendo confusamente os contornos. Só então lamentou o mau caminho, que escolhera para viver e arrependeu-se dos crimes que praticara.

        Ainda haveria tempo de pedir perdão?

        Sentia um cansaço infinito. Fechou os olhos e parou de respirar.

        - Sujeito perigoso - comentou alguém.

        - Nem tanto - replicou Bell - Caiu como um pato na rede que lhe estendemos.

        - Sim, mas morreu lutando.

        - Bah! Ficou com medo, quando chegou ao fim, No fundo, todos os criminosos são covardes.

        Era o epitáfio do homem que pretendera dominar Nova Iorque, mas conseguira apenas ser devorado por ela.

 

 

                                                                  Alv Cortroa

 

 

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