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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


ASSASSINOS / Tim LaHaye e Jerry B. Jenkins
ASSASSINOS / Tim LaHaye e Jerry B. Jenkins

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

ASSASSINOS

 

                   Indignação.

Não havia outra palavra para descrever o sentimento de Rayford.

Ele sabia que tinha muitos motivos para ser agradecido. Nem Irene - sua primeira esposa durante 21 anos - nem Amanda - sua segunda esposa durante menos de três meses - teriam de passar por mais sofrimentos neste mundo. Raymie também estava no céu. Chloe e o bebê Kenny gozavam de boa saúde.

Isto deveria ser o suficiente. Mesmo assim, a palavra esgotamento, tão usada atualmente, passara a fazer parte da vida de Rayford. Ele saiu impulsivamente da casa secreta, em uma fria manhã de segunda-feira do mês de maio, sem se importar em pegar um agasalho. Seu mau humor não tinha nada a ver com as pessoas que moravam na casa secreta.

Hattie continuava a agir de maneira egoísta, choramingando por não poder sair dali e, ao mesmo tempo, recuperando as forças.

— Você acha que não vou conseguir - ela lhe dissera durante uma das sessões de exercícios abdominais. - Você tem a mania de me subestimar.

— Não tenho dúvida de que você pode cometer a loucura de tentar.

— Mas você não me levaria até lá de avião por nada deste mundo.

— De jeito nenhum.

Rayford caminhou com dificuldade pelo terreno acidentado até aproximar-se de uma fileira de árvores que separava o que restara da casa secreta dos escombros das casas vizinhas. Ele parou e esquadrinhou o horizonte. Sentir raiva era uma coisa. Ser idiota era outra completamente diferente. Não fazia nenhum sentido revelar o esconderijo deles só para respirar um pouco de ar fresco.

Apesar de não avistar nada nem ninguém, procurou ficar mais perto das árvores do que do terreno descampado. Que diferença de um ano e meio atrás! Aquela área toda havia sido, um dia, um bairro que se estendia por muitos quilômetros. Agora não passava de uma porção de montes de entulho produzidos pelo terremoto, um local abandonado adequado a fugitivos e necessitados. Rayford era um fugitivo havia meses. Em breve, entraria na categoria dos necessitados.

Uma fúria sanguinária ameaçava devorá-lo. Seu raciocínio frio e calculista conflitava com suas emoções. Ele conhecia outras pessoas - sim, Hattie inclusive - que sentiam um impulso igual ao seu, ou até maior. Mesmo assim, Rayford implorava a Deus que lhe concedesse aquela oportunidade. Ele queria ser o autor daquele ato. Acreditava que esse era o seu destino.

Rayford balançou a cabeça de um lado para o outro e encostou-se em uma árvore, cocando as costas em sua grossa casca. Onde estavam o aroma da grama recém-aparada e a algazarra das crianças brincando no quintal? Nada era como antes. Ele fechou os olhos e repassou seu plano mais uma vez. Entrar disfarçado no Oriente Médio. Posicionar-se no lugar certo, no momento certo. Ser a arma de Deus, o instrumento da morte. Matar Nicolae Carpathia.

 

 

David Hassid incumbiu-se de acompanhar o helicóptero da Comunidade Global que pegaria uma carga enorme de computadores destinada ao palácio do potentado. Metade do pessoal da CG que trabalhava no departamento de Hassid estava encarregada de passar as próximas semanas realizando uma minuciosa busca para encontrar o local de onde partiam os ensinamentos diários de Tsion e a revista eletrônica de Buck transmitida via Internet.

O potentado tinha pressa e queria saber em quanto tempo os computadores poderiam ser instalados.

— Podemos calcular meio dia para desembarcarmos a carga, colocá-la no helicóptero e trazê-la para cá diretamente do aeroporto - dissera David a Carpathia. - Depois de desembarcá-la novamente, levaremos mais uns dois dias para acomodação e instalação.

Carpathia começou a estalar os dedos assim que a palavra "meio dia" foi proferida por David.

— Quero que seja mais rápido - ele disse. - Existem condições de reduzir esse tempo?

— O custo seria bem mais alto, mas o senhor poderia...

— Não estou preocupado com custos, Sr. Hassid. Quero rapidez. Rapidez.

— O helicóptero poderia pegar a carga toda e deixá-la do lado de fora do setor de entrada de mercadorias.

— Isso - disse Carpathia. - Sim, é isso.

— Eu gostaria de supervisionar pessoalmente a retirada e a entrega.

Carpathia, que voltara a concentrar-se em outro assunto, dispensou David com um aceno.

— Claro - ele disse. - Faça como quiser.

David ligou para Mac McCullum pelo telefone sigiloso.

— Funcionou - ele disse.

— Quando vamos levantar vôo?

— O mais tarde possível. Temos de deixar transparecer que houve um erro.

Mac deu uma risadinha.

— Você conseguiu um jeito de fazer o material ser entregue na pista errada?

— Claro. Eu disse a eles uma coisa, e nos documentos consta outra. Eles vão fazer o que ouviram. Os documentos vão servir de prova a meu favor perante os dois trapalhões: Abbott e Costello (Carpathia e Fortunato).

— Fortunato continua controlando você?

— Como sempre, mas nem ele nem Nicolae suspeitam de nada. Os dois também adoram você, Mac.

— E eu não sei? Precisamos fazer esta coisa voar até onde ela nos possa levar.

 

Rayford não tinha coragem de discutir seus sentimentos com Tsion. O rabino estava muito atarefado, e Rayford sabia o que ele diria: "Deus tem seus planos. Deixe tudo nas mãos dele."

Porém, que mal haveria se Rayford desse uma ajuda? Ele estava disposto. Tinha condições de fazê-lo. Poderia custar-lhe a vida, mas e daí? Ele se reuniria à sua esposa e filho. Mais tarde, outros se reuniriam a ele.

Rayford sabia que seu plano era uma loucura. Ele nunca se deixara levar por sentimentos. Talvez essa mudança tivesse ocorrido por ele estar fora de circulação, isolado, sem poder agir. O medo e a tensão que sentiu durante os meses em que trabalhou como piloto de Carpathia valeram a pena, porque a aproximação que teve com aquele homem havia sido muito útil ao Comando Tribulação.

O perigo que ele enfrentava agora não era o mesmo, como piloto principal da Cooperativa Internacional de Mercadorias, única entidade capaz de sustentar materialmente os crentes quando a liberdade de compra e venda lhes fosse vetada. Por ora, Rayford estava apenas fazendo contatos, programando roteiros, trabalhando para sua filha. Ele precisava permanecer no anonimato e aprender em quem confiar. A situação não era mais como antes. Ele não se sentia tão necessário à causa de Deus.

Mas poderia ser o autor do assassinato de Carpathia!

Que brincadeira era aquela? O assassino de Carpathia seria sentenciado à morte sem julgamento. E se Carpathia fosse de fato o anticristo - como muitas pessoas acreditavam, com exceção de seus seguidores -, ele não permaneceria morto. O homicídio só serviria para prejudicar Rayford, não Carpathia. Nicolae voltaria à cena mais heróico do que nunca. Porém, o fato de Rayford saber que o assassinato deveria ocorrer de qualquer maneira e que ele próprio tinha condições de cometê-lo, dava-lhe um motivo para viver. E também para morrer.

Seu neto, Kenny Bruce, lhe roubara o coração, mas o nome da criança fazia Rayford lembrar-se das perdas dolorosas que sofrerá. Ken Ritz lhe deu provas de ter sido um amigo de verdade. Rayford aprendeu muito com Bruce Barnes, seu primeiro mentor, após ter recebido das mãos dele o videoteipe que o fez aceitar a Cristo.

Então era isso! Eram aquelas perdas que haviam produzido tanta ira, tanta indignação dentro dele. Rayford sabia que Carpathia não passava de um simples fantoche nas mãos de Satanás, fato este que fazia parte do plano de Deus havia muitos séculos. Mas o homem tinha provocado tantas tragédias, causado tantas destruições, fomentado tanto sofrimento, que Rayford não podia deixar de odiá-lo.

Rayford não queria permanecer insensível às catástrofes, mortes e devastações que passaram a ser fatos comuns. Ele queria continuar vivo, sentindo-se agredido, ofendido. A condição de vida, que já era má, se tornaria cada vez pior, e o caos se multiplicaria dia após dia. Tsion dissera que a situação atingiria o ponto culminante na metade dos sete anos de tribulação, dali a quatro meses. A seguir, viria a Grande Tribulação.

Rayford gostaria muito de sobreviver ao período inteiro dos sete anos para testemunhar o glorioso aparecimento de Cristo, quando Ele estabeleceria seu reino de mil anos na Terra, mas quais eram as probabilidades? Tsion ensinara que, quando muito, apenas um quarto da população deixada para trás no Arrebatamento sobreviveria até o fim, e que aqueles que sobrevivessem desejariam não ter tido essa oportunidade.

Rayford tentou orar. Será que Deus responderia à sua oração, lhe daria permissão, esboçaria o plano em sua mente? Mas ele sabia que sua estratégia era apenas uma forma de sentir-se vivo. Mesmo assim, ela o consumia por dentro, dando-lhe motivo até para respirar.

Ele não tinha outra razão para viver. Amava sua filha, seu genro e seu neto, mas sentia-se responsável por Chloe não ter sido arrebatada. A única família que lhe restara enfrentaria o mesmo mundo que ele. Que futuro os aguardava? Ele não queria pensar nisso. Só queria pensar nas armas às quais ele teria acesso e em como usá-las no momento certo.

 

Pouco antes do anoitecer na Nova Babilônia, David recebeu um telefonema do gerente que controlava as rotas dos aviões.

— O piloto quer saber se ele deve pousar na pista ou no...

— Eu já lhe dei as instruções! Diga a ele para cumprir as ordens recebidas!

— Senhor, no aviso de embarque consta "pista do palácio". Mas ele acha que o senhor lhe disse para pousar no Aeroporto da Nova Babilônia.

David fez uma pausa como se estivesse zangado.

— Você entendeu o que eu disse?

— O senhor disse aeroporto, mas...

— Obrigado! Qual é o horário previsto da chegada?

— Trinta minutos até o aeroporto. Quarenta e cinco até a pista. Só então vou poder...

David bateu o telefone e ligou para Mac. Meia hora depois, eles estavam sentados dentro do helicóptero na pista do palácio. Evidentemente, o avião que transportava os computadores não se encontrava ali. David ligou para o aeroporto.

— Diga ao piloto onde estamos!

— Cara - disse Mac -, você pôs todo mundo a correr de um lado para o outro, sem saber o que fazer.

— Você acha que eu ia colocar os computadores novos na frente dos melhores técnicos de informática do mundo, vasculhando tudo para encontrar a casa secreta?

Mac sintonizou o rádio na freqüência do aeroporto e ouviu a instrução transmitida ao piloto do avião de carga para que ele pousasse na pista do palácio. Ele olhou para David com ar de indagação.

— Para o aeroporto, jóquei voador - disse David.

— Vamos cruzar com ele no ar.

— Espero que sim.

E eles cruzaram. Finalmente, David teve pena do piloto, garantindo-lhe que ele e Mac não sairiam dali, e instruiu-o a voltar.

Um guindaste ajudou a descarregar os computadores, e Mac manobrou o helicóptero na posição correta para erguer a carga. O encarregado da carga engatou as caixas a um cabo de aço, disse a Mac que o helicóptero tinha tamanho e força suficientes para transportar os computadores, e instruiu-o sobre como descarregá-los.

— O senhor tem autorização para livrar-se da carga em caso de emergência - ele disse -, mas não deverá ter problemas.

Mac agradeceu e olhou de relance para David.

— Você não teria coragem de... - ele disse, balançando a cabeça de um lado para o outro.

— Claro que tenho. Esta alavanca aqui? Pode deixar que eu tomo conta dela.

 

Pouco antes do meio-dia, Buck sentou-se diante de seu computador no amplo abrigo localizado debaixo da casa secreta. Ele, seu sogro e o Dr. Charles haviam feito a maior parte dos trabalhos de escavação. O Dr. Ben-Judá se oferecera para ajudar, mas ele era comprovadamente um homem talhado para obras intelectuais e para passar a maior parte dos dias com os olhos grudados diante da tela do computador.

Buck e os outros o incentivaram a se concentrar em seu importante trabalho via Internet, doutrinando grande número de novos crentes e fazendo apelos para que outros se convertessem. Tsion deixara claro que estava se sentindo um folgado por deixá-los fazer o trabalho pesado enquanto ele se ocupava do trabalho suave em um dos cômodos do pavimento superior. Durante dias, insistira para ajudar os outros a cavar, a ensacar a terra e a transportar o entulho do porão para os terrenos vizinhos. Seus companheiros disseram-lhe que poderiam prosseguir sem a ajuda dele, que o local estava atravancado demais para comportar quatro

homens trabalhando, que o ministério de Tsion era muito importante para ser retardado por causa de uma tarefa braçal.

Buck lembrou-se, com um sorriso, do que Rayford dissera a Tsion:

— Você é o mais velho, nosso pastor, nosso mentor, nosso intelectual, mas, com a autoridade que meu cargo me confere por ser o mais antigo desta corporação, sou eu quem comanda a tropa.

Tsion endireitara o corpo no porão abafado, ficando em posição de sentido e fingindo uma expressão de medo.

— Sim, senhor - ele disse. - Qual é minha missão?

— Permanecer longe daqui, meu caro. Você tem as mãos macias de um homem culto. É claro que nós também temos, mas você está sobrando aqui.

— Ora, Rayford - disse Tsion enxugando a testa com a manga da camisa -, pare de caçoar de mim. Só estou querendo ajudar.

Buck e o médico pararam de trabalhar e continuaram a brincadeira que Rayford iniciara com Tsion.

— Dr. Ben-Judá - disse Floyd Charles -, todos nós achamos que o senhor está perdendo tempo, ou melhor, nós estamos gastando seu tempo permitindo que o senhor trabalhe aqui. Por favor, tranqüilize nossas consciências e nos deixe terminar este trabalho sozinhos.

Foi a vez de Rayford fingir-se ofendido.

— Onde fica minha autoridade? - ele disse. - Eu dei uma ordem, e o doutor ainda tem de convencê-lo a obedecer!

— Cavalheiros, percebi que vocês estão falando sério - disse Tsion, acentuando mais ainda seu sotaque israelense.

— Finalmente! - disse Rayford levantando as duas mãos. -Agora ele entendeu.

Tsion subiu a escada, resmungando "continuo a achar que não está certo", porém nunca mais tentara ajudar nas escavações.

Buck ficou impressionado ao ver o entrosamento que havia entre eles três. Rayford era o mais astuto tecnicamente falando; Buck, às vezes, era analítico demais e Floyd - apesar de ter diploma de médico - parecia contentar-se em fazer o que lhe mandavam. Buck brincava com ele por isso, dizendo que sempre imaginou que os médicos sabiam tudo. Floyd não revidava, mas também não achava graça no que Buck dizia. Na verdade, Floyd demonstrava ser aquele que se cansava primeiro, mas nunca fazia corpo mole. Ele apenas parava um pouco para recuperar o fôlego, passava as mãos pelos cabelos e cocava os olhos.

Rayford esquematizava o trabalho diário por meio do esboço de uma planta baseada em informações colhidas de duas fontes. A primeira vinha das anotações em cadernos espirais feitas pelo primeiro proprietário do local, Donny Moore, que morrera esmagado sob os escombros da igreja durante o grande terremoto da ira do Cordeiro ocorrido quase 18 meses antes. Buck e Tsion encontraram o corpo da esposa de Donny na sala que desabara no fundo da casa, onde o casal costumava tomar o café da manhã.

Aparentemente, Donny havia feito planos para o futuro, imaginando que, um dia, ele e sua esposa teriam de viver isolados do mundo. Quer fosse por temer uma precipitação radioativa provocada por explosão nuclear, quer fosse por precisar esconder-se das forças da Comunidade Global, ele havia elaborado um plano muito arrojado. A ampliação do pequeno e úmido porão nos fundos da casa estendia-se até o outro lado da casa geminada, chegando até parte do quintal.

A outra fonte que Rayford consultara foi o plano original de Ken Ritz, morto há alguns meses, para dar um toque mais aperfeiçoado ao local. Ken enganara a todos com sua imagem de piloto simplório e rústico. Na verdade, ele era diplomado pela Escola de Economia de Londres, possuía autorização para pilotar aviões a jato e - conforme mostravam os projetos que desenhou sobre o porão - provou ser um arquiteto autodidata. Ken havia elaborado um plano mais detalhado para o processo de escavação, deslocara as vigas de sustentação projetadas por Donny e idealizara uma central de comunicações. Quando tudo estivesse pronto, o abrigo não seria detectado por ninguém. Os vários comunicadores via satélite, os transmissores e receptores celulares e as conexões entre computadores seriam acessados com facilidade.

Enquanto Buck trabalhava com Rayford e o médico, e Tsion escrevia suas magistrais missivas diárias para sua audiência global, Chloe e Hattie ocupavam-se de seus afazeres. Hattie aproveitava cada momento livre, esforçando-se furiosamente para recuperar a saúde e o peso que perdera. Buck preocupava-se, imaginando que ela estivesse determinada a aprontar alguma coisa. Normalmente, ela estava. Ninguém do grupo sabia ao certo se ela já não havia divulgado o local da casa secreta, com suas tentativas para viajar a qualquer custo para a Europa alguns meses atrás. Até aquele momento, ninguém aparecera para bisbilhotar o local, mas por quanto tempo aquele sossego duraria?

Chloe passava a maior parte do tempo cuidando do bebê Kenny. Quando não estava tirando um cochilo para tentar recuperar as forças, ela usava seus momentos livres para trabalhar via Internet com um número cada vez maior de fornecedores e distribuidores da Cooperativa de Mercadorias. Os crentes já estavam começando a usar esse tipo de comércio entre si, prevendo dias tenebrosos em que seriam proibidos de comprar e vender.

A pressão de viver com outras pessoas, aliada ao trabalho pesado, sem mencionar o medo do futuro, fazia parte constante da vida de Buck. Ele se sentia grato por poder escrever seus artigos, ajudar Rayford e o médico no abrigo e ter um pouco de tempo para passar com Chloe e Kenny, mas seus dias lhe pareciam longos demais. Os únicos momentos que ele e Chloe tinham para passar a sós era no final do dia, quando ambos mal conseguiam ficar de olhos abertos para conversar. O bebê dormia no quarto deles. Apesar de Kenny não perturbar os demais moradores da casa, Buck e Chloe acordavam com freqüência à noite para cuidar dele.

Certa madrugada em que não conseguia pegar no sono, Buck deitou-se de costas na cama, satisfeito por ouvir a respiração regular de Chloe, que dormia profundamente a seu lado. Ele estava imaginando como melhorar a eficiência do Comando Tribulação, desejando dedicar mais de si mesmo como faziam os outros integrantes do grupo. Desde o início, quando o Comando se compunha de apenas quatro membros - Bruce Barnes, Rayford, Chloe e ele próprio -, Buck sentiu que fazia parte de um trabalho fundamental, grandioso. Da mesma forma que os novos crentes que surgiram após o Arrebatamento, o Comando Tribulação assumira o compromisso de ganhar almas para Cristo, fazer oposição ao anticristo e sobreviver até a volta de Jesus, que ocorreria dali a pouco mais de três anos e meio.

Tsion, o homem que Deus colocara no grupo para substituir Bruce, era um bem precioso que necessitava ser protegido acima de tudo. Seu conhecimento e paixão pelas coisas de Deus, aliados à sua habilidade de comunicar-se com pessoas leigas no assunto, transformaram-no em inimigo número um de Nicolae Carpathia, sem contar as duas testemunhas do Muro das Lamentações, que continuavam a atormentar os incrédulos com pragas e julgamentos.

Chloe o surpreendia com sua habilidade para dirigir uma empresa internacional e, ao mesmo tempo, para tomar conta do bebê. O médico provara ser uma dádiva de Deus por ter salvo a vida de Hattie e cuidar da saúde do restante do pessoal. Hattie era a única incrédula. Seu egoísmo a levava a passar a maior parte do tempo cuidando de si mesma.

Mas a maior preocupação de Buck era com Rayford. Ultimamente, seu sogro estava muito mudado. Parecia revoltado, não tinha paciência com Hattie e, geralmente, perdia-se em pensamentos, com o rosto marcado pelo desespero. Rayford também começara a ausentar-se da casa, caminhando a esmo no meio do dia. Buck sabia que seu sogro era um homem sensato, mas gostaria que alguém pudesse ajudá-lo. Ele havia pedido a Tsion que interferisse, mas o rabino lhe disse:

— O capitão Steele costuma recorrer a mim quando deseja revelar alguma coisa. Não me sinto à vontade para puxar assuntos de natureza pessoal com ele.

Buck pedira a opinião de Floyd.

— Ele é meu mentor, e não o contrário - dissera Floyd. -Converso com ele quando tenho problemas; não vou forçá-lo a contar-me os seus.

Chloe também não quis se intrometer.

— Buck, ele é um pai tradicional, à moda antiga. Costuma me dar todos os tipos de conselho, mesmo quando não peço, mas eu não me atreveria a tentar fazê-lo abrir-se comigo.

— Mas você está vendo que ele está com problemas, não é?

— Claro. O que a gente poderia esperar? Estamos todos confusos demais. Isso é maneira de viver? Não podemos sair daqui à luz do dia, a não ser para ir de vez em quando até Palwaukee. Mesmo assim, temos de usar nomes falsos e estar sempre preocupados para que não descubram nosso esconderijo.

Os companheiros de Buck tinham motivos suficientes para não inquirir Rayford. Essa tarefa caberia a Buck. Ah! que alegria..., ele pensou.

 

Sentado no banco de passageiros do Helicóptero Um da CG, David Hassid observava, ao lado de Mac McCullum, o que estava acontecendo. A tripulação de terra do Aeroporto da Nova Babilônia havia engatado um grosso cabo de aço que ia do helicóptero até as três caixas amarradas entre si que continham 144 computadores. O chefe da tripulação fez um sinal para que Mac começasse a subir devagar até que o cabo ficasse completamente esticado. Em seguida, Mac levantou vôo para levar a carga ao palácio da Comunidade Global.

— Não vai acontecer nada com as caixas - disse Mac -, a não ser que você toque naquela alavanca. Você não faria isso, certo?

— Para atrasar meus funcionários de encontrar o local de transmissão de Tsion, Buck e Chloe? Claro que sim, se esta fosse a única maneira.

—Se?

— Vamos, Mac. Já é tempo de você me conhecer melhor. Acha que eu jogaria no lixo aqueles computadores? Posso ter um terço de sua idade, mas...

— Ei! Nem tanto.

— Tudo bem, um pouco menos da metade, mas acredite em mim. Você acha que o número de computadores que encomendamos foi por acaso?

Mac levantou a mão e apertou o botão de seu rádio transmissor.

— Helicóptero Um da CG para a torre do palácio, câmbio.

— Torre falando, Um, prossiga.

— Chegaremos em três minutos, câmbio.

— Positivo, desligo.

Mac virou-se para David.

— Já sei por que você fez um pedido tão grande. Um para cada mil testemunhas.

— Não pensei em reparti-los desta forma, mas não vou jogá-los no deserto.

— Mas também eu não vou descarregá-los no palácio, vou? David sorriu e balançou a cabeça dizendo que não. Da

posição em que estavam, ele avistava o imenso palácio. Edifícios que se espalhavam por quilômetros de extensão cercavam o exuberante castelo - que outro nome poderia ser dado a ele? - construído por Carpathia em homenagem a si mesmo. Ali havia todo tipo de conforto, com milhares de empregados para atender a cada capricho de Carpathia. David tirou seu telefone sigiloso do bolso e discou um número.

— Cabo A. Christopher - ele disse ao telefone. - Diretor Hassid chamando. - David cobriu o fone com a mão e dirigiu-se a Mac. - O novo chefe de cargas no Condor.

— Eu o conheço?

David encolheu os ombros, movimentou a cabeça negativamente e voltou a falar ao telefone.

— Sim, cabo Christopher. O compartimento do Condor está livre?... Excelente. Prepare-se para nos receber... Bem, não posso fazer nada, cabo. Você pode falar com o Departamento de Pessoal, mas entendo que não há nada que você possa fazer.

David afastou o telefone do rosto e desligou-o, dizendo:

— Bateram o telefone na minha cara.

— Ninguém gosta de ser responsável pela carga do 216 -disse Mac. - Quase não há nada para fazer. Você confia nesse sujeito?

— Não tenho escolha - respondeu David.

 

Buck havia transferido temporariamente seu computador para a mesa da cozinha e estava digitando um artigo para sua revista A Verdade quando Rayford retornou de sua caminhada matinal.

— Ei - disse Buck.

Rayford acenou com a cabeça e parou no topo da escada que dava acesso ao porão. Buck quase desistiu de seu intento.

— Qual é a programação para hoje, Ray?

— A mesma de sempre - resmungou Rayford. - Temos de começar a levantar as paredes do abrigo. E depois temos de deixá-lo invisível. Não pode haver nenhuma pista. Onde está Floyd?

— Eu não o vi. Hattie está no...

— No outro lado da casa, claro. Sem dúvida treinando para uma maratona. Ela vai levar todos nós à morte.

— Ei, pai - disse Buck - tente ver as coisas pelo lado positivo.

Rayford não lhe deu atenção.

— Onde está o resto do pessoal? - ele perguntou.

— Tsion está lá em cima. Chloe está trabalhando no computador na sala de visitas, e Kenny está dormindo. Eu já lhe disse onde Hattie está. Floyd ausentou-se sem permissão. Talvez ele esteja no porão, mas eu não o vi descer.

— Não diga que ele se ausentou sem permissão, Buck. Não achei graça.

Rayford não tinha o costume de ser agressivo com ele, e Buck não sabia como reagir.

— Eu só quis dizer que ele não está por aqui, Ray. A verdade é que ultimamente ele parece não estar bem, e ontem seu aspecto era horrível. Talvez ele esteja dormindo.

— Até o meio-dia? O que está havendo com ele?

— Vi que seus olhos estão um pouco amarelados.

— Eu não notei nada.

— Lá embaixo é muito escuro.

— E como você viu?

— Só percebi isso ontem à noite. Cheguei a fazer um comentário com ele.

— E o que ele disse?

— Fez uma brincadeira dizendo que os gansos selvagens sempre acham seus irmãos estranhos. Eu não quis dizer mais nada.

— O médico é ele - disse Rayford. - Deixe que ele cuide de si mesmo.

Aquele, pensou Buck, era o momento ideal. Ele poderia dizer a Rayford que estava estranhando seu modo de ser. Mas o momento passou quando Rayford partiu para a ofensiva.

— Qual é a sua programação, Buck? Trabalhar na revista ou no abrigo?

— Você é quem manda, Ray. O que eu devo fazer?

— Eu diria que é melhor você trabalhar no abrigo, mas faça o que quiser.

Buck levantou-se.

 

Mac pousou delicadamente as caixas no pavimento do lado leste do hangar que abrigava o Condor 216. A porta do hangar estava aberta, de onde se podia avistar o imenso compartimento de carga do Condor. David saltou do helicóptero antes que as hélices parassem de funcionar e apressou-se para desatrelar a carga do cabo de aço. Do lado de fora do hangar, apareceu uma empilhadeira que puxou a carga, inclinando-a levemente em círculo até colocá-la dentro do hangar. Quando Mac aproximou-se de David e ambos fecharam a porta do hangar, o operador da empilhadeira já havia fechado o compartimento de carga do Condor e estava conduzindo a empilhadeira para o canto.

— Cabo Christopher! - gritou David, e o cabo, que estava a uns 30 metros de distância, virou-se. - Para sua sala, já!

— Ele não parecia nada satisfeito - disse Mac enquanto ambos caminhavam em direção ao escritório de paredes de vidro dentro do hangar. - Não cumprimentou, não reagiu. Demonstrou má vontade. Você vai ter problemas pela frente?

— O cabo é meu subordinado. Sou eu quem dá as cartas.

— David, você precisa respeitar para ser respeitado. E não podemos confiar em ninguém. Você não vai querer que um de seus principais funcionários...

— Confie em mim, Mac. Está tudo sob controle. Alguém havia mudado o nome que constava na sala vizinha à de Mac: "CCCCC."

— O que significa isto? - perguntou Mac.

— Cabo Christopher, Chefe de Carga do Condor.

— Ora essa! - disse Mac.

David fez um gesto para que Mac entrasse com ele na sala do cabo. Depois de fechar a porta, ele se sentou atrás da mesa e apontou uma cadeira para Mac. O piloto parecia relutante.

— O que está havendo? - perguntou David.

— E assim que você trata um subordinado?

David colocou os pés em cima da mesa, assentiu com a cabeça e disse:

— Principalmente um novato. Ele precisa saber quem é o chefe.

— Eu aprendi que, quando a gente usa a palavra chefe diante de um subordinado, é sinal de que já perdeu a autoridade.

David encolheu os ombros.

— Isso era no tempo da Idade Média - ele disse. - Em tempos de desespero, medidas desesperadas...

O ruído de passos do lado de fora da sala cessou, e alguém girou a maçaneta da porta. David gritou:

— Espero que você bata na porta da sala onde se encontram seu chefe e seu piloto, cabo.

A porta foi aberta alguns centímetros.

— Feche a porta novamente e bata, cabo! - gritou David, com as mãos atrás da cabeça, sem tirar os pés de cima da mesa.

A porta foi fechada com um pouco de força. Depois de uma longa pausa, eles ouviram três batidas secas na porta. Mac balançou negativamente a cabeça.

— Até as batidas desse sujeito são sarcásticas - ele sussurrou. - Mas você merece isso...

— Entre - disse David.

Mac arrastou a cadeira e levantou-se empertigando o corpo diante da presença de uma jovem trajando uniforme de serviço. Seus cabelos escuros cortados rentes, quase como os de um homem, apareciam por baixo do boné. Ela era elegante, tinha olhos grandes e escuros, dentes perfeitos e pele impecável.

Mac tirou rapidamente o quepe. - Madame.

— Pare com isso, capitão - ela disse, dirigindo-se em seguida a David com ar de reprovação. - Será que sou obrigada a bater para entrar em minha sala?

David permaneceu na mesma posição.

— Sente-se, Mac - ele disse.

— Só depois que a dama se sentar - disse Mac.

— Eu não estou dando permissão para que ela se sente -retrucou David, e a cabo Christopher fez um gesto para que Mac se sentasse. - Capitão Mac McCullum, esta é a cabo Annie Christopher. Annie, este é Mac.

Mac fez menção de levantar-se novamente, mas Annie o impediu, estendendo-lhe a mão.

— Não há necessidade, capitão. Sei quem você é, e seu machismo da Idade da Pedra ficou evidente. Se vamos trabalhar juntos, pare de me tratar como se eu fosse uma dondoca.

Mac olhou para ela e depois para David.

— Talvez você a trate do jeito que ela merece - ele disse. David empinou a cabeça.

— Conforme você disse, Mac, a gente nunca sabe em quem pode confiar. E quanto a esta sala, cabo, saiba que tudo o que é seu também é meu enquanto você estiver sob o meu comando. Este espaço lhe foi destinado para facilitar o que eu vou lhe ordenar. Entendido?

— Com toda clareza.

— Cabo, eu não sou militar, mas sei que um subordinado não pode ficar com a cabeça coberta na presença de seu superior.

Annie Christopher deu um longo suspiro e curvou os ombros enquanto tirava o boné. Ela passou a mão pelos cabelos curtos, caminhou até a parede divisória de vidro entre a sala e o restante do hangar e fechou as persianas.

— O que você está fazendo? - perguntou David. - Não há ninguém lá fora e eu não lhe dei permissão para...

— Ora, vamos, diretor Hassid. Desde quando eu preciso de sua permissão para fazer alguma coisa?

David tirou os pés da mesa e sentou-se firme na cadeira assim que Annie se aproximou dele. - Para dizer a verdade, precisa sim.

Ele abriu os braços, e ela sentou-se em seu colo.

— Como vai, meu amor? - ela disse.

— Eu estou ótimo, meu bem, mas acho que Mac está prestes a ter um ataque cardíaco.

Mac sentou-se na beira da cadeira e inclinou-se para a frente, com os cotovelos apoiados nos joelhos.

— Seus engraçadinhos! - ele disse. - Com licença, Srta. Christopher, mas preciso ver seu selo na testa.

— Às ordens - ela disse, inclinando-se por cima da mesa para que ele pudesse enxergar melhor. - David e eu também fizemos isso no dia em que nos conhecemos.

Mac segurou a cabeça de Annie por trás com uma das mãos e passou o polegar da outra mão no selo da testa dela. Em seguida, segurou o rosto da moça com as duas mãos e beijou-a carinhosamente no topo da cabeça.

— Irmã, você tem idade para ser minha filha - ele disse. Annie sentou-se na outra cadeira.

— Devo dizer-lhe, capitão McCullum, que eu não suportaria trabalhar para nenhum de vocês. O Departamento de Pessoal tem um pedido meu, solicitando que eu seja transferida para outro setor. O diretor de meu departamento é insuportável e metido a importante, e o capitão do Condor é um machista.

— Mas - disse David -, eu informei ao Departamento de Pessoal que ela não deve ser transferida. Annie criou problemas em todos os departamentos nos quais trabalhou, e esta é a recompensa que ela recebeu. Eles adoraram.

Mac olhou de esguelha para ela, e depois para David.

— Mal posso esperar para ouvir as histórias de vocês dois - ele disse.

 

Buck adiou a conversa franca que teria com o sogro quando Rayford abriu as plantas sob a lâmpada do porão e perguntou qual era sua opinião para impedir que alguém descobrisse a entrada.

— Pensei que você nunca me perguntaria - disse Buck. - De fato, eu tenho ruminado algumas idéias.

— Sou todo ouvidos.

— Você conhece aquele freezer da casa geminada a esta?

— Aquele que tem um cheiro forte?

Buck assentiu com a cabeça. Eles haviam jogado fora toda a comida estragada, mas o mau cheiro no interior persistia.

— Minha idéia é trazer o freezer para cá e abastecê-lo com alguma coisa que se pareça com comida estragada. O mau cheiro continuará. Vamos colocar bandejas de alimento no fundo do freezer. Qualquer pessoa que abri-lo sentirá repulsa por causa do mau cheiro e não vai examinar aquela comida estragada. Ninguém vai pensar em levantar as bandejas. Quem fizer isso, encontrará um fundo falso que dará acesso à escada para o abrigo. Nesse meio-tempo, podemos construir uma parede cobrindo a atual entrada para o porão.

Rayford pôs a mão na testa como se buscasse, no fundo da mente, alguma possível falha no plano. Em seguida, encolheu os ombros.

— Gostei. Mas precisamos dar um jeito de esconder isso de Hattie.

Buck olhou ao redor.

— Então, eu estava certo? Floyd não está por aqui?

 

O bip de Mac tocou.

— É Fortunato - ele disse. - Ótimo! Posso usar seu telefone, cabo?

— Esse telefone não é meu, senhor - respondeu Annie. - Ele só foi destinado a mim para...

Mac ligou para o escritório de Fortunato.

— Aqui é Mac McCullum retornando a ligação dele... Sim, madame... Sexta-feira?... Quantos convidados?... Não, madame. Diga a ele que houve uma confusão com aquele embarque. Ele terá de conversar com o diretor de compras... Não, aqueles não estavam disponíveis para ser entregues no palácio... Talvez depois que retornarmos de Botsuana, sim, madame.

 

A porta do quarto do Dr. Floyd Charles estava fechada. Buck avistou Tsion no quarto ao lado, trabalhando no computador, apoiando a cabeça na mão, com o cotovelo na mesa.

— Você está bem, Tsion?

— Cameron! Entre, por favor. Só estava descansando os olhos.

— Orando?

O rabino sorriu com ar de cansaço.

— Incessantemente. Não temos escolha, temos? Como vai, meu amigo? Continua preocupado com seu sogro?

— Sim, mas vou conversar com ele. Você viu o médico hoje?

— Normalmente tomamos o café da manhã juntos, bem cedo, conforme você sabe. Mas hoje tomei o café sozinho. Não ouvi a voz dele no porão, e confesso que não pensei mais nisso. Estou escrevendo sem parar. Cameron, não temos idéia do tempo que durará esta calmaria entre o quinto e o sexto ais. Estou tentando descobrir se a visão que João teve foi real ou simbólica. Como você sabe...

— Desculpe-me, Dr. Ben-Judá. Eu preciso saber se...

— Sim, claro. É melhor você tentar encontrar Floyd. Conversaremos mais tarde.

— Eu não tive a intenção de ser grosseiro.

— Você não precisa se desculpar, Cameron. Vá. Conversaremos depois. Se precisar de mim, me avise.

Buck ainda não se acostumara ao privilégio de morar na mesma casa com o homem cujas mensagens diárias eram como o ar que milhões de pessoas do mundo inteiro respiravam. Apesar de Tsion trabalhar no andar de cima da casa, muito perto do restante do grupo, quando ele estava atarefado ou cansado demais para conversar, os moradores da casa liam suas mensagens pela Internet. A melhor parte de morar com o rabino era que ele se empolgava com suas mensagens tanto quanto seus leitores. Trabalhava a manhã inteira e muitas horas à tarde preparando-se para transmitir as mensagens pouco antes do anoitecer. Tradutores do mundo inteiro convertiam suas palavras para os idiomas de seus respectivos países. Os crentes que conheciam informática mais a fundo trabalhavam duro para catalogar as informações do Dr. Ben-Judá e torná-las acessíveis aos novatos na fé.

Quando Tsion se deparava com alguma revelação estarrecedora em seus estudos, Buck ouvia seu grito de júbilo e sabia que, em seguida, ele apareceria no topo da escada.

— Se alguém estiver me ouvindo - ele gritava -, preste atenção no que vou dizer!

Seus conhecimentos da linguagem bíblica faziam os comentários sobre determinada passagem parecerem novidade, mesmo perante os olhos dos mais astutos estudiosos da Bíblia.

Buck mal podia esperar para saber o que Tsion estava escrevendo sobre a profecia do sexto ai, mas por ora sua preocupação era com o médico. Ele bateu levemente na porta do quarto. Depois com mais força. Girou a maçaneta e entrou. Já estava no meio da tarde, e o sol da primavera brilhava alto no céu. Mas o quarto estava às escuras, com as cortinas fechadas. E o Dr. Charles continuava deitado, sem se movimentar.

 

— Vou partir para a África sexta-feira - disse Mac. - Fortunato concordou com o pedido de Mwangati Ngumo. Claro que Ngumo está pensando que vai ter um encontro pessoal com Carpathia. Aposto que Ngumo está querendo saber quando Carpathia vai cumprir suas promessas.

Annie Christopher semicerrou os olhos.

— Imaginem o que o potentado deve ter prometido só para poder tomar o lugar que ele ocupava como secretário-geral.

— Vamos saber na sexta-feira - disse Mac. - Pelo menos eu vou saber.

Annie virou-se para Mac.

— Eles permitem que você participe deste tipo de reunião?

— ela perguntou.

Mac olhou de relance para David.

— Você não contou a ela?

— Pode contar - disse David.

— Venha comigo, cabo - disse Mac. Ela e David o acompanharam.

— Vou continuar a chamá-lo de Capitão ou Sr. McCullum, mesmo em particular - disse Annie. - Deixei que você visse meu selo e me beijasse na cabeça. Mas, de agora em diante, pode me chamar de Irmã.

— Não sei - disse Mac. - É melhor manter as formalidades para que eu não cometa um deslize na frente de alguém. Ela o acompanhou até a cabina de comando.

 

— Doutor? - disse Buck, aproximando-se da cama. Ele não notou nenhum movimento. Não queria assustá-lo.

Imaginando que a lâmpada produziria menos claridade que a luz do Sol, Buck apertou o interruptor e deu um suspiro de alívio. Pelo menos o médico estava respirando. Talvez ele tivesse demorado a pegar no sono e estava recuperando as horas perdidas. Floyd resmungou e virou-se na cama.

— Você está bem, doutor? - perguntou Buck. Floyd sentou-se, com ar de surpresa.

— Eu receava isso - ele disse.

— Sinto muito - disse Buck. - Eu só...

Floyd saiu de debaixo das cobertas. Sentou-se na beira da cama trajando um roupão de veludo comprido que deixava à mostra suas roupas - camisa de flanela, calça jeans e botas. Ele havia transpirado a noite toda.

— A noite estava assim tão fria? - perguntou Buck.

— Abra as cortinas, por favor.

Floyd cobriu os olhos quando a luz do sol penetrou no quarto.

— Qual é o problema, Floyd?

— O seu carro está em ordem?

— Claro.

— Leve-me ao Young Memorial. Meus olhos continuam amarelados?

Ele olhou para Buck, que se inclinou para ver melhor.

— Oh! Floyd - disse Buck. - Eu preferia que estivessem amarelados.

— Estão injetados?

— Injetados é uma palavra suave.

— Não há nenhuma parte branca? Buck balançou a cabeça negativamente.

— O problema é grave, Buck.

 

David, Mac e Annie Christopher sentaram-se na luxuosa sala de estar do Condor, seis metros atrás da cabina de comando.

— Então - disse Annie -, essa tal coisa reversível...

— Dispositivo de intercomunicação reversível - corrigiu Mac.

— ... permite que você ouça tudo o que passa no avião? Mac assentiu com a cabeça. - Sala de estar, poltronas, aposentos, sanitários, tudo.

— Incrível.

— Demais, você não acha? - disse Mac.

— Incrível você ainda não ter sido pego.

— Você está brincando? Se eles descobrirem, vou negar tudo. Não tenho nada a ver com isso, Rayford não me contou que havia um dispositivo aqui e nunca vi o tal botão. Eles o consideram um traidor. Nem eles nem nós sabemos onde ele está, não é verdade?

Annie caminhou até um sofá atrás de uma mesa de madeira muito brilhante.

— É aqui que o chefão assiste à TV?

David acenou afirmativamente com a cabeça. Ela virou-se para Mac com ar de quem acabara de pensar em alguma coisa.

— Você não se importa em mentir?

Mac balançou a cabeça mostrando que não ligava para isso.

— Para o anticristo, você quer dizer? Minha vida toda e uma mentira para ele. Se ele desconfiasse de alguma coisa, eu seria torturado. Se ele imaginasse que sei onde Rayford está, ou onde sua filha e genro estão, eu seria morto.

— O fim justifica os meios? - perguntou Annie.

Mac deu de ombros. - Só posso lhe dizer que durmo bem à noite.

— E eu vou dormir melhor - ela disse - sabendo que você mantém Carpathia sob vigilância.

— Pelo menos quando ele está a bordo - disse Mac. - Na verdade, Leon me diverte mais. Ele é uma peça rara.

— Eu gostaria de viajar com você - disse Annie.

— Eu também - disse David. - Mas não teríamos condições de ouvir nada, a menos que viajássemos na cabina de comando. E por falar nisso, Mac, você continua preocupado com aquele seu co-piloto que não larga do seu pé?

— Deixei de me preocupar com ele - respondeu Mac. - Eu o promovi. Agora ele vai ser piloto do Pomposo Pontífice.

Annie riu. - Adorei o título! Já tive problema por ter esquecido parte do título dele. É Sua Excelência Sumo Pontífice Peter Segundo, não?

Mac encolheu os ombros. - Para mim ele é Pete.

— Você precisa conhecer o avião que ele encomendou -disse David. - Nicolae e Leon estão loucos de raiva.

— É melhor que este aqui? - perguntou Mac.

— Muito melhor. Cinqüenta por cento maior e custou o dobro. Pertenceu a um xeique. Estou aguardando a entrega para daqui a uma semana.

— Eles aprovaram a compra?

— Eles estão dando corda para ele se enforcar - disse David.

— Será que o tal piloto vai saber pilotar esse avião?

— Ele é capaz de pilotar qualquer coisa - respondeu Mac.

— Gostei dele. É muito habilidoso, mas totalmente leal a Carpathia. Por mais que eu quisesse me aproximar dele para conversar sobre religião, não tive coragem de me abrir. Mas ele já está sendo trabalhado por um crente do setor C.

— O setor de manutenção? - perguntou Annie. - Eu não sabia que havia crentes lá.

— Não há mais. Meu chefe o tirou de lá. Teria feito o mesmo comigo. Deus vai alcançá-lo de outra maneira.

David levantou-se, apertou um botão no painel de um enorme aparelho de TV e ligou-o. Tirou o som e ficou apenas observando as notícias controladas por Carpathia.

— A recepção é excelente, mesmo dentro desta estrutura de metal - ele disse.

— Nada mais me surpreende - disse Mac. - Aumente o som.

O noticiário relatava histórias das grandes realizações de Carpathia. O potentado apareceu na tela, sereno e charmoso como sempre, elogiando um governo qualquer e fingindo humildade ao falar de seu projeto de reconstrução.

"É para mim um privilégio ter a oportunidade de servir a cada membro da Comunidade Global", ele disse.

— Olhe ali, Mac - disse David, apontando para o piloto que se encontrava em segundo plano enquanto Carpathia saudava outro ex-país do Terceiro Mundo que se beneficiara de sua generosidade. - É o novo piloto do Peter. Você vai dar um jeito de arrumar um crente para substituí-lo?

— Se eu conseguir driblar o Departamento de Pessoal.

— Alguém que eu conheço?

— Um jordaniano. Ex-piloto de aviões de caça. Abdullah Smith.

 

O Land Rover de Buck sacolejava rumo a Palatine. Floyd Charles estava deitado no banco traseiro.

— O que houve, doutor? - perguntou Buck.

— Sou um grande idiota - disse Floyd, sentando-se logo atrás de Buck. - Faz meses que percebi o que estava acontecendo, mas disse a mim mesmo que era pura imaginação. Quando a visão começou a piorar, eu deveria ter entrado em contato com o Posto de Saúde. Agora é tarde demais.

— Não estou entendendo.

— Digamos que eu descobri o que quase matou Hattie. Foi ela que me contaminou. Em termos leigos, é como se fosse cianeto que vai sendo liberado com o tempo. Pode se desenvolver durante meses. Quando a gente se dá conta, já foi. Se é isso que tenho, não há nada a fazer para interromper o ciclo. Tratei dos sintomas, mas de nada valeu.

— Não fale assim - disse Buck. - Se Hattie sobreviveu, por que você também não vai sobreviver?

— Porque ela recebeu cuidados diários durante meses.

— Vamos orar. Leah Rose conseguirá o que você necessita.

— Tarde demais - disse o médico. - Sou um tolo. O pior paciente de um médico é ele próprio.

— E quanto ao restante do grupo? Corremos perigo?

— Não. Se vocês não apresentaram sintomas, estão livres. Acho que fui contaminado quando cuidei dela durante o aborto.

— E quanto a Leah?

— Temos de esperar para ver.

O telefone de Buck tocou.

— Onde você está? - perguntou Chloe.

— Prestando um pequeno favor a Floyd. Não quis incomodar você.

— O que me incomoda é saber que você saiu sem me dizer aonde estava indo. Prestando um pequeno favor em plena luz do dia? Papai não está nada feliz. Ele tinha a intenção de visitar T no aeroporto hoje.

— Ele pode usar o carro de Ken.

— O carro dele é muito manjado, mas o problema não é este. Ninguém sabia me dizer aonde vocês foram. Tsion está preocupado.

Buck soltou um longo suspiro. - Floyd não está se sentindo bem e não há tempo a perder. Estamos a caminho do Young Memorial. Mais tarde eu me comunico com você.

— O que houve...

— Mais tarde, querida. Está bem?

Ela hesitou. - Tome cuidado, e diga a Floyd que estaremos orando por ele.

 

— Não devemos ser vistos juntos com freqüência - disse Mac. David e Annie concordaram. - A não ser em situações normais. Alguém sabe que você está aqui agora?

Annie meneou a cabeça negativamente. - Tenho uma reunião às dez da noite.

— Eu estou livre - disse David. - Não há mais nenhum trabalho normal, caso você ainda não tenha percebido.

— Eu gostaria de ouvir as histórias de vocês, David - disse Mac. - Sei que sua família mora em Israel. De onde você é, Annie?

— Canadá. Eu estava voando de Montreal para cá quando aconteceu o terremoto. Perdi toda a minha família.

— Você ainda não era crente?

— Não. Acho que só fui à igreja para assistir a casamentos e enterros. Não nos importávamos que nos chamassem de ateus, mas era assim que vivíamos. Prefiro dizer que éramos agnósticos. Parece mais tolerante, menos dogmático. Éramos pessoas equilibradas. Boa gente. Melhores do que muitos religiosos que eu conhecia.

— E você não sentia curiosidade de conhecer a Deus?

— Comecei a pensar nisso depois dos desaparecimentos, mas logo em seguida nos tornamos admiradores de Carpathia. Ele parecia ser a voz da razão, era um homem de bondade, amor e paz. Candidatei-me a trabalhar para ele assim que fiquei sabendo que o nome da ONU fora mudado e que a sede seria transferida para cá. O dia em que fui aceita foi o mais feliz de minha vida e de minha família.

— O que aconteceu?

— A morte deles mudou tudo. Fiquei arrasada. Eu já tinha levado um susto muito grande antes, é claro. Conhecia algumas pessoas que desapareceram e outras que morreram em conseqüência dos desaparecimentos. Mas nunca havia perdido uma pessoa da família. De repente, perdi minha mãe, meu pai e dois irmãos menores no terremoto. Metade de minha cidade foi destruída enquanto eu voava feliz naquele avião. Aterrissamos nas areias do Aeroporto de Bagdá e vimos outros aviões descerem ali. Fiquei sabendo que a sede da CG desabou. Finalmente fui parar em um abrigo subterrâneo, onde vi as ruínas de meu pequeno bairro pela CNN. Foram dias e dias de desespero. Eu chorava e orava para não sei quem, implorava para que o serviço de comunicações me desse notícias de minha família. Como a busca que eles faziam pela Internet era muito lenta, resolvi procurar por conta própria. Encontrei uma dúzia de nomes de pessoas conhecidas que constavam da lista de mortos. Eu não queria ver os sobrenomes que começavam com a letra C, mas não pude resistir. Annie mordeu o lábio.

— Você não precisa falar deste assunto se...

— Eu quero falar, McCullum. Parece que tudo aconteceu ontem. Tentei voltar para reconhecer os corpos, cuidar dos funerais. Mas não foi possível. Houve cremações em massa por motivos de saúde pública. Não sobrou ninguém para chorar comigo. Eu queria me matar.

David colocou a mão no ombro de Annie.

— Conte a ele o que você descobriu na Internet.

— Você deve imaginar - disse Annie, fitando Mac com os olhos úmidos. Ele assentiu. - Vi todas aquelas mensagens do Dr. Ben-Judá vindas do abrigo. Isso foi antes de eu descobrir o site dele. Quando a CG começou a fazer todo aquele barulho para proibir o acesso àquele site, achei que deveria entrar nele. Eu ainda era uma militante fanática, mas Carpathia pregava a liberdade individual e, ao mesmo tempo, a negava. Aquelas orações me assustaram. Eu nunca havia parado para pensar em Deus. Naquele momento, eu queria que Ele me acudisse. Eu não tinha ninguém mais na vida.

— Foi aí que você encontrou Tsion.

— Encontrei a página inicial do site dele. Eu não podia acreditar. O número que aparecia no canto da tela, que você deve ter visto, mostrava quantas pessoas estavam entrando naquele site a cada segundo. Pensei que fosse um exagero, mas de repente comecei a entender por que a CG estava contra ele. Alguém com capacidade para atrair um número tão grande de pessoas era uma ameaça. Cliquei em alguns lugares do site e li a mensagem do Dr. Ben-Judá para aquele dia. Eu me lembrei de quando ele declarou sua conversão ao mundo inteiro pela TV. Mas não foi isso o que me impressionou. Também não compreendi quase nada do que ele estava comunicando aquele dia pela Internet. Eram coisas da Bíblia que não me diziam respeito, mas o tom de voz dele era muito cordial. Parecia que ele estava sentado a meu lado conversando comigo, contando o que acontecia e o que viria depois. Eu sabia que, se lhe fizesse perguntas, ele as responderia. Foi então que eu vi os arquivos. Já existem arquivos?, pensei. Há quanto tempo existia aquele site?

— Cliquei em algumas listas - prosseguiu Annie -, surpresa ao ver que ele já havia incluído uma mensagem para cada dia das semanas seguintes. Quando vi aquela mensagem intitulada "Para Aqueles Que Choram", quase desmaiei. Senti uma onda de calor percorrer meu corpo, e depois um arrepio. Tranquei a porta e torci para que a CG não tivesse começado a monitorar nossos laptops. Tive uma enorme sensação de bem-estar. Eu sabia que aquele homem tinha alguma coisa para mim. Imprimi a mensagem e carreguei-a comigo durante meses até o dia em que David e eu nos conhecemos. Ele me avisou que eu não deveria ser pega com aquela mensagem. Resolvi memorizá-la antes de destruí-la.

Mac olhou para ela com ar de dúvida.

— Você memorizou uma mensagem inteira de Ben-Judá?

— Quase toda. Você quer ouvir o primeiro parágrafo?

— Claro.

— Ele escreveu: "Meu caro amigo enlutado, talvez você esteja chorando a perda de um ente querido que desapareceu no Arrebatamento ou foi morto no caos que resultou dos desaparecimentos. Estou orando para que a paz de Deus o conforte. Sei o que você está sentindo porque perdi minha família de uma maneira indescritível. Mas quero que estas palavras lhe transmitam esta grande certeza: Se seus queridos estivessem vivos hoje, eles insistiriam para que você tivesse certeza absoluta de que está preparado para morrer. Existe uma única maneira de fazer isso." David percebeu que Mac estava comovido.

— O Dr. Ben-Judá explicou o que significavam Deus, Jesus, o Arrebatamento e a Tribulação de maneira tão clara que senti um desejo enorme de acreditar. Eu precisei ler os ensinamentos anteriores do Dr. Ben-Judá para compreender que ele estava certo sobre as profecias bíblicas. Até então, ele havia predito cada um dos julgamentos.

Mac assentiu, sorrindo.

— É claro que você conhece tudo isso - ela disse. - Retornei a uma mensagem arquivada e aprendi como orar, como dizer a Deus que eu era uma pecadora e que necessitava dele. Ajoelhei-me com o rosto na cama e fiz isso. Eu sabia que havia conhecido a verdade, mas não tinha idéia do que fazer a seguir. Passei o resto do dia e toda a noite lendo tudo o que pude sobre os ensinamentos do Dr. Ben-Judá. Logo ficou claro em minha mente por que a CG fazia oposição àquele homem. Ele tomava o cuidado de não mencionar o nome de Nicolae, mas era evidente que a nova ordem mundial representava um inimigo de Deus. Eu não entendia muito a respeito do anticristo, mas sabia que tinha de ser diferente dos demais funcionários da CG. Lá estava eu, uma crente, no abrigo do inimigo de Deus.

— Foi aí que eu apareci - disse David. - Annie achou que eu estava flertando com ela.

— Não pule uma parte da história - disse Annie. - Quando me misturei com o restante dos funcionários da CG, fiquei com medo de parecer crente. Eu imaginava que todas as pessoas com as quais conversava sabiam que eu tinha um segredo. Eu queria contar a alguém, mas não conhecia ninguém em quem confiar. Cheguei em meio ao caos e me indicaram onde seria meu dormitório. Deram-me um uniforme e disseram-me que eu ia trabalhar no setor de Comunicações. Meu cargo era bem inferior ao de David, mas percebi que ele olhava para mim. A princípio, ele pareceu assustado, mas depois sorriu.

— Ele viu o selo em sua testa - disse Mac.

— É verdade, mas veja, eu não tinha me aprofundado nos ensinamentos de Tsion até esse ponto. David me mandou recados por intermédio de vários supervisores dizendo que queria falar comigo. "Pessoalmente?", perguntei.

— Assim que entrei naquela sala e a porta foi fechada, ele disse: "Você é crente!" Quase morri de medo. Eu disse: "Não, eu... sou crente em quê?" Ele disse: "Não negue! Posso ver em seu rosto!" Achei que ele estava tentando descobrir alguma coisa, e neguei outra vez. Ele disse: "Se você negar a Jesus mais uma vez, vai ser igual a Pedro. Cuidado com o galo."

— Eu não tinha idéia do que ele estava falando - prosseguiu Annie. - Não sabia que Pedro foi um discípulo e muito menos que ele negou a Cristo. Achei que David devia ter adivinhado meu segredo, e mencionando alguém chamado Pedro, falando em galos, só estava querendo me confundir. Mesmo assim, eu não podia fazer nada, e disse: "Não estou negando a Jesus."

— Ele perguntou: "O que você quer dizer com isto?"

— Eu respondi: "Estou temendo por minha vida."

— Ele disse: "Bem-vinda ao clube. Também sou crente."

— Eu perguntei: "Como você ficou sabendo?"

— Ele respondeu: "Está escrito em você."

— Eu perguntei: "Como?"

— E ele respondeu: "Deus escreveu isso literalmente em sua testa." Foi aí que eu quase desmaiei de susto.

 

Assim que Buck e Floyd Charles entraram no Young Memorial, a recepcionista adolescente chamou em voz alta:

— Srta. Rose, seus amigos estão aqui.

— Não precisa gritar! - disse Leah, saindo apressada de sua sala. - Cavalheiros, acho que não há nada que eu possa fazer para ajudá-los hoje. Qual é o problema?

Floyd sussurrou alguma coisa ao ouvido dela.

— Que Deus nos ajude - ela disse. - Por aqui. Segure-se bem.

— Você apresentou algum sintoma? - perguntou Floyd. Ela sacudiu a cabeça negativamente. Buck apoderou-se de uma cadeira de rodas para Floyd e empurrou-a atrás de Leah. Ela os conduziu por uma pequena rampa, passou pelos elevadores principais e chegou ao elevador de serviço. Para abri-lo, ela usou uma chave que fazia parte de um enorme chaveiro.

— Se encontrarmos alguém, vire o rosto - ela disse. - Não deixe ninguém perceber.

— É claro que ninguém vai perceber - respondeu Buck. Leah olhou firme para ele.

— Sei que o senhor conhece a gravidade do caso, Sr. Williams, por isso gostaria que não subestimasse minhas advertências.

— Desculpe-me.

Eles entraram no elevador, e as portas se fecharam. Leah trancou-o novamente e apertou o botão do sexto andar.

— Não sei se vai dar certo - ela disse. - No outro elevador, a gente pode passar pelos outros andares sem parar. Basta girar a chave e manter o botão apertado.

Não deu certo. O elevador parou no segundo andar. Buck ajoelhou-se diante do médico como se estivesse conversando com ele. Naquela posição, ninguém teria condição de ver o rosto deles.

— Sinto muito - disse Leah a quem aguardava o elevador. - Emergência.

— Droga! - disse alguém.

Aconteceu a mesma coisa no quinto andar, e eles ouviram outras reações semelhantes.

— Isso não é bom - disse Leah quando as portas se fecharam novamente. - Preparem-se para encontrar mais pessoas no saguão do sexto andar. Vamos seguir à esquerda.

Felizmente, eles passaram despercebidos enquanto Leah conduzia os dois até um quarto vazio. Ela fechou a porta e trancou-a. Em seguida, cerrou as cortinas.

— Coloque-o na cama - ela disse a Buck -, e tire as roupas molhadas dele. Você dormiu deste jeito, doutor?

Floyd respondeu afirmativamente com a cabeça, com ar de cansaço.

Buck não gostou nada de ver a cor vermelha que tomava conta dos olhos de Floyd ao redor das pupilas escuras.

— O que há de errado com ele, Leah?

Sem dizer nada, ela pegou uma espécie de camisola de um armário e atirou-a em sua direção.

— Se ele precisar usar o banheiro, que seja agora. É provável que ele não possa levantar-se da cama novamente.

— Por quanto tempo? - perguntou Buck.

— Para sempre - balbuciou o médico. - Ela sabe o que está acontecendo comigo.

Leah apertou o botão do telefone instalado na parede e continuou a falar enquanto trabalhava.

— O Posto de Saúde fez uma entrega de antitoxina ontem. Traga dois frascos para o 6204.

— É urgente? - perguntou a recepcionista.

Leah fez uma careta. - Sim, é urgente! É para já.

— Há uma ligação para você.

— Você acha que tenho condições de atender a uma ligação? Urgente foi palavra sua, menina. Por favor, rápido!

— Está bem - disse a garota. - Não me culpe depois por eu não ter avisado sobre a ligação.

Leah segurou Buck pela manga da camisa e puxou-o para perto do leito do médico.

— Eu preciso fazer algumas perguntas a ele. Quando a garota bater na porta, pegue rapidamente o medicamento e feche a porta.

Buck assentiu com a cabeça.

— Vamos lá, doutor - ela disse. - Quando surgiram os primeiros sintomas?

— Há pouco tempo - ele resmungou.

— Pouco tempo não significa nada. Quando?

— Sou um idiota.

— Nós dois sabemos disso. Quanto tempo depois de você ter cuidado daquele aborto aqui?

— Talvez uns seis meses.

— E você não tomou nenhuma providência?

Ele balançou a cabeça negativamente. - Fiquei esperando que nada acontecesse.

— O que tenho aqui não vai funcionar.

— Foi por isso que não fiz nada.

— Você sabe que o único antídoto que o Posto de Saúde tem disponível é a antitoxina, e ninguém...

— De qualquer forma, é tarde demais. Leah olhou para Buck com ar desolado.

— Ele tem razão - ela disse. - A antitoxina não vai servir nem para ele ter uma morte mais tranqüila.

— O que você está dizendo? - perguntou Buck. - Ele não tem nenhuma chance?

O médico balançou a cabeça de um lado para o outro e fechou os olhos.

— A dosagem máxima de antitoxina será como um pingo d'água no oceano - disse Leah. - Você consegue enxergar, doutor?

— Quase nada.

Leah mordeu os lábios.

Alguém bateu na porta. Buck abriu-a e estendeu a mão para pegar o medicamento. A garota não quis entregar-lhe. Com um gesto brusco, ele o tomou das mãos dela.

— Srta. Rose - a garota gritou por cima dos ombros de Buck. - Aquela ligação era da CG!

Buck fechou a porta, mas Leah passou por ele, abriu-a e chamou a moça.

— CG de onde?

— De Wisconsin, acho.

— O que você disse a eles?

— Que você estava ocupada com um paciente.

— Você disse quem era o paciente?

— Eu não sei quem ele é. Só sei que é um médico.

— Mas você não disse nada, disse?

— Eu deveria ter dito?

— Fique esperando ali.

— Sinto muito, não posso.

— É só por alguns instantes.

Leah voltou a entrar no quarto, encheu rapidamente duas seringas com o medicamento e injetou-as nas nádegas de Floyd. Ele não fez nenhum movimento.

— Peça a ela que entre - disse Leah a Buck.

Ele abriu a porta e fez um sinal para a garota. A princípio, ela hesitou, mas depois aproximou-se lentamente.

— Vamos! - ele disse. - Ninguém vai machucar você. Assim que a garota pôs a cabeça no vão da porta, Leah disse:

— Traga minha bolsa aqui o mais rápido que puder, por favor.

— Claro, mas...

— Urgente, meu bem. Urgente! A garota saiu correndo.

— O que está acontecendo? - perguntou Buck.

— Pegue seu carro e estacione-o nos fundos do hospital. Há uma saída pelo porão. Vou me encontrar com você lá.

— Mas, se ele está morrendo, como você...

Leah agarrou-o pelos braços. - Sr. Williams, o Dr. Charles e eu não estamos brincando. Este homem pode morrer antes de conseguirmos levá-lo até o carro. Se o senhor quiser enterrá-lo, cremá-lo ou fazer outra coisa qualquer sem que ele seja visto aqui, me espere na porta dos fundos. A CG de Wisconsin não lhe diz alguma coisa? Era lá que ele trabalhava, o senhor se lembra? Foi de lá que ele saiu sem permissão. Eles estão atrás dele por toda parte, observando tudo, imaginando que ele está nesta região, e poderá aparecer aqui a qualquer momento. Eles não sabem, pelo menos de minha boca, que ele já esteve uma vez aqui. Tenho mentido o tempo todo. Se eles o encontrarem aqui, vivo ou morto, nós todos estaremos perdidos. Agora vá!

— Existe alguma chance de salvar a vida dele?

— Pegue o carro.

— Só me diga se é melhor ele sair daqui ou... Leah sussurrou em tom de desespero.

— Ele vai morrer. É só uma questão de tempo. A palavra onde é irrelevante neste momento. O melhor que eu podia fazer por ele foi feito. O pior de tudo seria alguém encontrá-lo aqui.

 

Mac consultou seu relógio. - Tenho tempo para vocês me contarem como começaram a namorar.

— Acho que você já ouviu detalhes suficientes, capitão.

— Vamos! Eu sou um velho romântico.

— Não foi nada fácil - disse David. - Eu não queria que você e Rayford soubessem.

— Tudo bem, mas por quê?

— Na época, achávamos que quanto menos pessoas soubessem, melhor.

— Precisamos entrar em contato com todos os crentes que pudermos.

— Eu sei - disse David. - Mas tudo era muito novo para nós, e não sabíamos em quem confiar.

— Se vocês querem saber, Ray e eu nunca desconfiamos de nada.

— Foi um bom treinamento, se é que estou usando a palavra certa. O que vai acontecer quando os manda-chuvas começarem a procurar uma marca que não temos?

— Ninguém mais poderá se esconder, crianças.

 

Depois de pegar o elevador principal e chegar ao primeiro andar, Buck se deu conta de que, para sair, precisaria passar pela recepcionista. Ele não queria, por nada deste mundo, que ela visse seu Rover. Buck pensou em distraí-la fingindo um caso de emergência, mas, ao entrar no saguão para dirigir-se à porta principal, ele avistou uma senhora robusta, de meia-idade, ocupando o lugar da garota. Claro! A garota estava levando para Leah a bolsa que ela pedira. Leah havia feito aquilo para afastá-la da recepção.

Buck caminhou apressado até o carro. Enquanto o dirigia, contornando a lateral do edifício rumo à entrada dos fundos, ele avistou a substituta em pé perto da janela, olhando para fora. Ele só esperava que a garota não tivesse pedido à sua substituta que descobrisse aonde seu carro estava indo.

Buck pisou no freio com força, fazendo o carro derrapar na pista asfaltada que dava acesso à saída dos fundos. Ele saltou do Rover e abriu a porta enquanto Leah, com uma sacola sobre os ombros, empurrava uma maça onde Floyd Charles estava deitado com um lençol cobrindo-lhe a cabeça.

— Ele está morto? - perguntou Buck, sem acreditar.

— Não! Mas as pessoas estão longe daqui, e ninguém vai identificá-lo, vai?

— Só a recepcionista.

Buck abaixou o encosto do banco traseiro, e Leah empurrou a maça para dentro do carro.

— Você está surrupiando esta maça? - ele perguntou.

— Eu coloquei algumas coisas na bolsa que valem mais do que esta maça - ela disse. - O senhor quer discutir ética ou prefere lutar com o pessoal da CG?

— Nem uma coisa nem outra - ele disse, enquanto ambos sentavam-se nos bancos da frente. - Mas agora somos cúmplices, não?

— Não sei quanto ao senhor, Sr. Williams, mas estou envolvida nisso até o pescoço. Este hospital está sendo dirigido pela CG há anos. Por quanto tempo eu ia conseguir trabalhar para Carpathia sem estampar a marca da besta? Eu seria a primeira a morrer.

— Sem dúvida - disse Buck.

— Bem, eu só me apropriei de uma maça e de uma

boa quantidade de medicamentos do inimigo. Se o senhor vê problema nisto, sinto muito. Eu não vejo. Estamos em guerra. Vale tudo, conforme se diz.

— Não tenho argumentos para contestar. Mas... para onde estou levando você?

— Para onde o senhor acha? Vire à esquerda, e eu lhe indicarei o caminho. Ninguém da recepção vai ver o senhor passar.

— E depois, para onde vamos?

— Meu apartamento.

— E se o pessoal da CG estiver lá?

— Continuaremos rodando.

— Se eles não estiverem, você vai cuidar de Floyd no...

— O senhor não está pensando...

— Vamos parar com as formalidades, Leah. Já que você pôs um amigo moribundo dentro de meu carro, é melhor contar-me o que tem em mente.

— Ilido bem - ela disse. - Se conseguirmos chegar ao meu apartamento antes da CG, vou pegar minhas coisas e volto em um minuto. Você sabe que eles estão a caminho e virão atrás de mim assim que descobrirem que fugi do Young.

— E para onde vou levá-la depois?

— Onde você mora?

— Onde eu moro?

— Acertou, Buck. Eu preciso me esconder. Você e seu pessoal são os únicos que conheço que têm um lugar para se esconderem.

— Mas não podemos contar a ninguém onde...

— Ah! sim, você pode e vai me contar. Se não puder confiar em mim depois de tudo o que aconteceu, não vai poder confiar em ninguém. Eu o ajudei a tirar Ritz, aquele seu amigo piloto, do hospital. Ajudei o médico a fazer o aborto do bebê não sei de quem. A propósito, como vai aquela moça?

— Está melhorando.

— Que ironia! O médico tratou do envenenamento dela, e esse mesmo veneno vai matá-lo.

— Nós perdemos Ritz.

— Perderam?

— Ele foi morto em Israel. É uma longa história.

De repente, Leah mergulhou em silêncio. Limitou-se a indicar o caminho enquanto Buck segurava firme o volante do carro que rodava por cima de barrancos, mudando de marcha o tempo todo até ficar com o braço quase amortecido.

— Eu gostei daquele sujeito - ela disse finalmente.

— Todos nós gostávamos dele. Detestamos esta situação em que estamos vivendo.

— Mas você vai me levar até sua casa, cowboy. Você sabe disso, não?

— Eu não posso decidir sozinho.

Leah olhou firme para ele. - O que você pretende fazer? Deixar-me na esquina de olhos vendados enquanto você e seus companheiros fazem uma votação? Você me deve este favor e sabe disso. Eu não costumo me convidar para morar na casa dos outros. Arrisquei a vida por vocês e não tenho ninguém mais a quem recorrer.

O médico começou a agonizar. Sua respiração rouca e crepitante comoveu Buck.

— É melhor parar o carro? - ele perguntou.

— Não - ela respondeu. - Não há nada que eu possa fazer agora a não ser aplicar-lhe uma dose de morfina.

— Isso vai ajudar?

— Só vai aliviar o sofrimento e talvez nocauteá-lo antes de morrer.

— Faça alguma coisa! - gritou Floyd com um gemido. -Qualquer coisa!

Leah virou-se para trás, ajoelhou-se no banco e começou a vasculhar sua sacola. Buck reduziu a marcha involuntariamente, tentando ver o que se passava. A cena era terrível. Floyd ia morrer enquanto Buck estivesse dirigindo o carro! Sem despedidas, sem oração, sem nenhuma palavra de conforto. Buck mal conhecia aquele homem, apesar de estar morando na mesma casa que ele por mais de um ano.

— Olhe para a frente - ela disse a Buck. - Isto vai acalmá-lo, mas ele não sairá vivo deste carro.

Soluços subiam à garganta de Buck. Ele queria ligar para Chloe, contar a ela e aos outros o que estava acontecendo. Mas como contar tudo pelo telefone? Que o médico estava morrendo e que ele levava uma enfermeira no carro para morar com eles? Por outro lado, entrar na casa secreta sem que ninguém visse, carregando o corpo de Floyd e levando uma nova moradora também não seria fácil. Mas Buck não tinha alternativa.

As ruas próximas ao apartamento de Leah - e o que restara das casas vizinhas - estavam apinhadas de veículos da CG. A morfina havia acalmado Floyd. Leah escondeu-se debaixo do painel, e Buck desviou da rua em que ela morava. Dirigiu o carro para Monte Prospect, na esperança de que Floyd pudesse, ao menos, ter o privilégio de morrer na própria cama.

 

No final daquela noite, David Hassid acompanhou Mac McCullum até o apartamento do piloto na ala residencial anexa ao palácio da CG.

— Existem coisas que não contei nem mesmo a Annie -disse David.

— Eu sabia que você tinha algo mais a me contar, garoto. Caso contrário, teria acompanhado Annie, não?

— Estamos tentando não ser vistos juntos. Nem sei se a reunião dela já terminou.

— O que está havendo? - perguntou Mac quando ambos chegaram à porta de seu apartamento.

— Você sabe que eu estive trabalhando no palácio ajudando o pessoal a instalar um sistema para detectar escuta clandestina.

— Sei, mas como você conseguiu ser designado para fazer esse tipo de trabalho?

— Conversei diversas vezes com Leon dizendo-lhe quanto eu achava importante que eles tivessem total privacidade nas

comunicações. Eu me fiz passar por um idealista sonhador, e até hoje eles me consideram assim. Você sabe alguma coisa sobre a instalação?

Mac assentiu com a cabeça. - Sei que é o melhor sistema que existe no mundo, essas coisas.

— É verdade, mas ele precisa ser constantemente monitorado.

— Claro.

— Eu me candidatei para essa função, e todos gostaram da idéia - disse David.

— Estou ouvindo.

— É isso que eu sou.

— É o quê?

— Eu monitoro o sistema que detecta escuta clandestina nos escritórios de Carpathia e Fortunato.

— Continue.

— Minha função é descobrir se alguém está na escuta. Eu sou o responsável e posso ouvir qualquer coisa que quiser, quando eu quiser.

Mac balançou a cabeça, admirado.

— Eu não fazia questão nenhuma de saber disso. David, você está sentado em cima de uma bomba.

— E eu não sei? Mas ninguém tem condições de saber que eu ouço as conversas.

— Garantido?

— Por um lado, é simples. Por outro, trata-se de um milagre da tecnologia. A conversa é gravada em um disco em miniatura embutido na unidade de processamento central do computador que comanda todas as atividades na Nova Babilônia.

— Aquele computador que costumam chamar de Besta.

— Sim, porque ele contém informações sobre todas as pessoas deste mundo. Mas nós dois sabemos que a Besta não é uma máquina.

Mac cruzou os braços e encostou-se na parede.

— Uma das coisas que aprendi a respeito desse tipo de monitorização é que a gente nunca deve fazer cópias de nada. Elas podem cair em mãos erradas.

— Eu sei - disse David. - Vou-lhe contar como procedo para me proteger.

— Você acha que estamos seguros aqui? - perguntou Mac olhando ao redor.

— Ei! Sou o responsável pelo sistema. O que estamos conversando pode estar sendo gravado em meu disco, mas ninguém vai ter condições de ouvir. Eu mesmo não ouço nada, a não ser quando é necessário. E quando ouço, tudo fica catalogado por data, hora e local. A fidelidade é impressionante, não existe nada igual.

Mac deu um assobio. - Alguém deve ter fabricado esse aparelho para você.

— Exatamente.

— Alguém em quem você confia de corpo e alma.

— Você está olhando para ele.

— Então, como você tem tanta certeza de que ninguém vai descobrir?

— Não estou garantindo nada. Estou dizendo que eles nunca vão ser capazes de ter acesso a qualquer coisa que seja gravada. O disco tem mais ou menos dois centímetros de diâmetro. E, por causa da tecnologia digital por supercompressão, ele pode armazenar quase dez anos de conversas gravadas 24 horas por dia. É verdade que não vamos precisar de tanto tempo assim, vamos?

— Não. Mas eles devem ter um sistema que controla tudo o que se passa por aqui.

— Eles têm. Mas não vão encontrar nada.

— E se encontrarem?

David encolheu os ombros. - Digamos que alguém desconfie de mim e comece a examinar os dispositivos.

Eles vão localizá-los na Unidade Central de Processamento, esmiuçar tudo e encontrar o disco. O disco é criptografado de uma maneira tão complicada que, se eles tentarem fazer combinações ao acaso a uma média de dez mil dígitos por segundo durante mil anos, mal chegarão ao começo. Você sabe que um número de 15 dígitos tem trilhões de combinações, mas, teoricamente, teria condições de ser decifrado. Como alguém poderia tentar fazer uma combinação de números criptografados contendo 300 milhões de dígitos?

Mac cocou os olhos. - Eu nasci em outra época. Como vocês, jovens, conseguem chegar a esses números malucos? E como você pode ter acesso a seu disco se ele está criptografado?

David falava sobre o assunto cada vez com mais entusiasmo.

— É aí que está a maravilha de tudo. Eu conheço a fórmula. Sei o que o pi da milionésima parte de um dígito tem a ver com ele e sei também que a data e o tempo relacionados àquele exato instante são usados como fator de multiplicação. Sei que esses números oscilam para a frente e para trás, dependendo de vários fatores. O número que serve para decifrar agora é diferente do número que vai ser decifrado no instante seguinte, e ele não progride de maneira lógica. Digamos que alguém conseguisse esmiuçar meu disco a ponto de chegar à última etapa para fazer a combinação de códigos, o que já seria um milagre. Mesmo que ele descobrisse qual é o número, somente um computador com a velocidade da luz, trabalhando durante mais de um ano, conseguiria decifrar.

— E o que você ouviu até agora compensou todo esse trabalho?

— Ele será útil ao Comando Tribulação, você não acha?

— Como você consegue transmitir as informações ao pessoal do Comando sem prejudicar a sua segurança ou a deles?

David sentou-se no chão com as costas apoiadas na parede.

— Tudo aquilo também está criptografado, mas não a ponto de eles levarem a vida inteira para descobrir. Até agora, fomos capazes de nos comunicar por telefone e pela tecnologia celular-solar idealizada por Carpathia, usando faixas de rádio codificadas que ninguém consegue detectar. É claro que ele está constantemente me inquirindo para descobrir maneiras de monitorar todos os cidadãos.

— Para o bem dele, é claro.

— Oh! não. O potentado se preocupa muito com a moral de sua família global.

— Mas, David, uma transmissão qualquer não pode ser interceptada?

David encolheu os ombros. - Gosto de acreditar que sou capaz de grampear tudo. Coloquei meu aparelho à prova e tentei rastreá-lo. Descobri que não há condições, a não ser que eu deixe algumas pistas. A decodificação aleatória e a mudança de canal combinadas com miniaturização e velocidade fazem com que as fibras ópticas pareçam um barco a remo... mas nada agora parece ser impossível.

Mac esticou o corpo.

— Você já parou para pensar nestas coisas? Conforme o Dr. Ben-Judá diz, Satanás vai tornar-se príncipe e dono de todo o espaço aéreo. As transmissões por meio do espaço e todo aquele...

— Eu morro de medo - disse David, ainda sentado. -Significa que estou na linha de frente na batalha contra ele. Quando me converti, eu não sabia qual a missão que me seria designada, mas acabei indo parar no lugar certo, não? É tarde demais para mudar de opinião. Piso o mesmo chão que o anticristo e brinco no espaço com o demônio. Tomo cuidado, mas a marca da besta vai mudar tudo. Não poderá haver nenhum crente trabalhando aqui, a menos que a gente descubra um modo de falsificar a marca. E quem gostaria de fazer isto?

— Eu não - disse Mac, girando a chave na fechadura da porta de seu quarto. - Mais cedo ou mais tarde, vamos todos parar na casa secreta ou em outro lugar parecido. Espero morar no mesmo lugar que você.

David ficou tão comovido com aquele elogio que não conseguiu dizer mais nada.

— Tenho um longo vôo na sexta-feira - complementou Mac. - Preciso descobrir quem está andando com Leon e se posso trazer Abdullah até aqui a tempo de ele nos ajudar.

A tensão do trabalho, por mais excitante que fosse a um jovem, pesava sobre David. Mas ele dirigiu-se a seu quarto com passos ligeiros.

 

Floyd estava calmo. A morfina devia estar produzindo efeito. A uma distância de pouco mais de um quilômetro da casa secreta, Buck reduziu a velocidade e olhou pelo espelho retrovisor. Ninguém o seguia. Seu telefone tocou, assustando-o.

— Aqui é Buck - ele disse.

— Você precisa me contar o que está acontecendo - disse Chloe.

— Já estou chegando. Daqui a alguns minutos.

— Floyd está com você?

— Sim, mas ele não está bem.

— Hattie e eu trocamos as roupas da cama dele e arejamos o quarto.

— Ótimo. Ele vai precisar de ajuda.

— Como ele está, Buck? E você?

— Conversaremos quando eu chegar aí, querida.

— Buck! Está tudo bem?

— Por favor, Chloe. Já estamos chegando.

— Está certo - ela disse em tom de desagrado.

Ele desligou o telefone e colocou-o no bolso. Em seguida, olhou para Leah e perguntou:

— Ele vai atravessar esta noite?

— Sinto muito, Buck. Ele está morto.

Buck pisou com força no freio e ambos quase bateram a cabeça no vidro. O Rover derrapou na terra.

— O quê?

— Sinto muito.

Buck virou-se para trás. Leah cobrira novamente o rosto de Floyd, mas a freada brusca atirara o corpo dele contra o encosto do banco da frente.

— Você sabe quem é este homem? - perguntou Buck, assustado com o tom desesperado de sua voz.

— Sei que ele era um bom médico e um homem corajoso.

— Ele arriscou a vida para me dizer para onde a CG levou Chloe. Ajudou-a a fugir. Cuidou de Hattie durante dias. Salvou a vida dela durante o aborto, quando a criança nasceu morta. Nunca se achou importante demais para fazer trabalhos pesados.

— Sinto muitíssimo, Buck.

Buck afastou o lençol do rosto de Floyd. No escuro, ele quase não conseguiu ver nada. Acendeu a luz interna do carro e teve um sobressalto ao ver a máscara da morte. Os dentes de Floyd estavam à mostra, olhos abertos ainda injetados ao redor das pupilas.

— Oh! doutor! - ele disse.

Leah virou-se para trás e vasculhou sua sacola à procura de luvas de látex. Ela fechou os olhos e a boca de Floyd e massageou suas bochechas, deixando-o com aparência de estar apenas dormindo.

— Ajude-me a colocá-lo em posição mais adequada - ela disse.

Buck puxou Floyd por um dos ombros, e Leah, pelo outro, e ambos arrumaram seu corpo no banco para que ele ficasse em posição de repouso. Buck continuou a dirigir em marcha lenta, desviando de buracos e lombadas.

Quando Buck chegou à casa secreta, a cortina foi entreaberta e ele avistou Chloe espiando pela fresta. Ela estava amamentando Kenny. Buck contornou a lateral da casa e parou no quintal.

— Aguarde um pouco aqui - ele disse a Leah. - Você não se importa de ficar com ele...?

— Vá - disse Leah.

Chloe abriu a porta dos fundos com uma das mãos, segurando Kenny com a outra, aconchegando-o ao ombro.

— Quem está com você? - ela perguntou. - Eu não vi Floyd. Buck sentia-se arrasado. Ele inclinou-se para a frente para beijar Chloe no rosto. Em seguida, fez o mesmo com Kenny, no exato momento em que o bebê arrotou.

— Você pode colocá-lo no berço? - ele pediu.

— Buck...

— Por favor - ele disse. - Preciso conversar com todos da casa. Os outros o aguardavam na cozinha. Chloe foi colocar o bebê no berço e retornou rapidamente. Rayford estava sentado à mesa. Suas roupas demonstravam que ele havia passado horas trabalhando no porão. Hattie estava sentada na ponta da mesa. Tsion, com ar triste de quem já sabia de tudo, estava encostado na geladeira.

Buck sentiu dificuldade para falar. Chloe aproximou-se dele e passou o braço ao redor de sua cintura.

— Temos um novo mártir - ele disse, e contou toda a história, inclusive que Leah estava no carro aguardando ao lado do corpo de Floyd.

Tsion abaixou a cabeça.

— Que Deus o abençoe - ele disse com voz rouca.

Hattie parecia abalada.

— Ele morreu por minha causa? Eu o contaminei? Chloe abraçou Buck e chorou com ele.

— Alguém de nós pode estar contaminado?

— Não - disse Buck. - Já teríamos apresentado algum sintoma. Floyd apresentou os sintomas, mas não nos contou nada.

Buck olhou de relance para Rayford. Todos estavam acostumados a recorrer a ele. Enquanto Tsion encarregava-se de orar, Rayford deveria orientá-los a respeito de Leah, do sepultamento, de tudo enfim. Mas ele não esboçou nenhuma reação. Continuou sentado, sem nenhuma expressão no rosto, com os braços apoiados na mesa. Quando os olhos de Rayford se cruzaram com os seus, Buck notou no semblante de seu sogro um ar de indagação, como se quisesse dizer: "O que vocês esperam que eu faça?"

Onde estava Rayford, o líder, o comandante do grupo?

— Nós... não devemos deixar Leah esperando muito tempo lá fora - disse Buck. - E precisamos tomar providências em relação ao corpo.

Ao ver que Rayford continuava encarando-o, Buck desviou o olhar. Será que ele havia feito alguma coisa errada? Que outra decisão ele poderia ter tomado, a não ser levar Floyd às pressas para o hospital e trazê-lo de volta, acompanhado de Leah?

— Papai? - disse Chloe com delicadeza.

— O que foi? - perguntou Rayford secamente, virando-se para a filha.

— Eu só... Eu estou... querendo saber...

— O quê? O quê? Você está querendo saber o que devemos fazer neste momento? - Rayford levantou-se, empurrando a cadeira bruscamente contra a parede, fazendo-a tombar de lado no chão. - Tudo eu! - Buck nunca o ouvira levantar a voz daquela maneira. - Tudo eu! - berrou Rayford. - Como vamos poder agüentar tudo isso? Até que ponto vamos suportar?

Rayford pegou a cadeira e endireitou-a com tanta força que ela tombou novamente. Ele a chutou de encontro à parede, mas ela voou por cima da mesa. Hattie desviou o corpo para proteger-se e caiu nos braços de Tsion.

— Rayford - disse Tsion em voz baixa.

A cadeira não atingiu Hattie. Bateu na ponta da mesa e girou, indo parar perto de Rayford. Ele sentou-se com raiva na cadeira e bateu com as duas mãos fechadas na mesa.

Tsion soltou Hattie, que tremia de susto.

— Acho que deveríamos... - ele começou a dizer, mas Rayford o interrompeu.

— Perdoem-me - ele disse, ainda furioso, sem conseguir olhar para ninguém. - Traga Leah aqui. Depois vamos enterrar o corpo. Tsion, você poderia dizer algumas...

— Claro. É melhor trazermos Leah para cá a fim de deixá-la mais confortável. Depois do sepultamento, conversaremos com ela.

Rayford concordou. - Perdoem-me - ele disse mais uma vez. Buck foi até o Rover, conduziu Leah para dentro de casa e apresentou-a a todos.

— Lamento muito a perda que vocês sofreram - ela disse. -Eu não conhecia muito bem o Dr. Charles, mas...

— Antes de tudo, vamos orar - disse Tsion. - Mais tarde, você nos conta sua história.

— Claro.

Quando Tsion ajoelhou-se no chão, os outros fizeram o mesmo, menos Hattie, que permaneceu em pé.

Senhor Deus, nosso Pai, disse Tsion, com voz fraca e trêmula. Confessamos que estamos no limite de nossas forças quando nos dirigimos a ti em tempos terríveis como estes, quando perdemos mais um membro de nossa família. É difícil de aceitar isso. Não sabemos até que ponto teremos condições de suportar tanto sofrimento. Tudo o que podemos fazer é confiar em tua promessa de que, um dia, veremos novamente o nosso querido irmão, onde a tristeza se transformará em cânticos de alegria, onde não haverá mais lágrimas.

Quando Tsion terminou a oração, Buck dirigiu-se para a escada do porão.

— Aonde você vai? - perguntou Rayford.

— Pegar as pás.

— Traga uma só.

— É um trabalho pesado, Ray. Duas mãos a mais...

— Traga uma só, Buck - ele disse. Em seguida, dirigiu-se a Leah. - Srta. Rose, quero que você me esclareça uma coisa. Floyd morreu por causa do veneno que Carpathia usou para tentar matar Hattie, estou certo?

— É o que eu acho.

— Quero uma resposta direta, madame.

— Senhor, eu só sei o que o Dr. Charles me contou. Não fiquei sabendo como Hattie foi envenenada, mas tudo me leva a crer que Floyd foi contaminado por ela.

— Então, Nicolae Carpathia é responsável por esta morte. Buck ficou impressionado diante da atitude de Leah, que não se sentiu na obrigação de responder.

— Houve um assassinato, pessoal - complementou Rayford. - Puro e simples.

— Rayford - disse Tsion -, Carpathia nunca ouviu falar do Dr. Charles. Embora possamos dizer com segurança que ele tentou matar a Srta. Durham...

— Eu não estou falando de um tribunal de culpa - disse Rayford, com o rosto vermelho. - Estou falando que o veneno que Carpathia mandou preparar para matar alguém matou Floyd.

Tsion encolheu os ombros de maneira resignada.

— Buck - disse Rayford, dirigindo-se a seu genro -, onde está minha pá?

— Por favor, deixe-me ajudar - disse Buck. Rayford levantou-se com o corpo ereto.

— Poupe-me de dizer alguma coisa da qual eu vá me arrepender amanhã, por favor, Buck. Esta missão é minha. É uma coisa que eu preciso fazer, está bem?

— Mas a cova precisa ter uma profundidade de mais de dois metros, vai ficar muito perto da casa e... - Buck levantou as duas mãos em sinal de rendição ao ver o ar de impaciência no rosto de Rayford. Ele foi até o porão e trouxe a maior pá que encontrou.

Enquanto Rayford trabalhava no quintal, Leah conversou com o pessoal sobre a melhor maneira de preparar o corpo para ser enterrado. Sem ter condições de encontrar cal para revestir o túmulo, ela inventou um substituto feito de produtos usados na cozinha.

— Buck - ela disse -, vamos envolver o corpo com plástico resistente e à prova d'água.

Leah distribuiu luvas a todos os que teriam contato com o corpo e prescreveu uma solução para desinfetar o Rover e a maça.

Buck ficou surpreso diante do que Rayford conseguira realizar, depois de ter trabalhado o dia inteiro no abrigo. Abriu uma cova de dois metros de comprimento, um metro de largura e dois metros e meio de profundidade. Ele precisou de ajuda para sair, com o corpo coberto de lama. Os três homens colocaram na cova o corpo de Floyd envolvido no plástico, e Rayford permitiu que os dois o ajudassem a enchê-la novamente de terra.

O grupo todo, exceto o bebê que dormia, ficou em pé ao redor da sepultura, onde havia apenas uma fraca claridade vinda da casa. Chloe, Hattie e Leah se ajuntaram para proteger-se do ar frio da noite. Os homens, que transpiravam por causa do trabalho pesado, também começaram a tremer de frio.

Buck surpreendia-se cada vez mais com a eloqüência de Tsion.

— Preciosa é aos olhos do Senhor a morte dos seus santos - ele disse. - Floyd Charles era nosso irmão, um membro importante e querido de nossa família. Se alguém desejar falar alguma coisa sobre ele, que o faça agora. Em seguida, vamos orar.

— Quero dizer que ele foi um médico vocacionado e um crente corajoso - disse Leah.

— Todas as vezes que eu pensar nele, vou pensar em nosso bebê e na saúde de Chloe - disse Buck.

— Eu também - complementou Chloe. - Ele nos deixou muitas lembranças em tão pouco tempo.

Hattie tremia, e Buck notou que Rayford a estava fitando, como que esperando que ela dissesse alguma coisa. Ela olhou para ele. Em seguida, desviou o olhar, balançando negativamente a cabeça.

— Nada? - perguntou Rayford. - Você não tem nada a dizer sobre o homem que salvou sua vida?

— Rayford! - disse Tsion.

— Claro que tenho! - disse Hattie, com voz embargada. -Não consigo acreditar que ele morreu por minha causa! Eu não sei o que dizer! Espero que ele seja recompensado.

— Deixe-me dizer-lhe mais uma coisa - prosseguiu Rayford, com raiva na voz. - Floyd a amava, Hattie. Você o tratava como se ele fosse um objeto, mas ele a amava.

— Eu sei - ela disse, em tom de lamento. - Sei que todos vocês me amam à sua manei...

— Eu estou dizendo que ele a amava. Amava você. Preocupava-se com você, queria que você soubesse.

— Você quer dizer que...? Você não podia saber disto.

— Ele me contou! Acho que ele queria que você soubesse.

— Rayford - disse Tsion, colocando a mão no ombro dele -, você tem alguma coisa a mais para dizer sobre Floyd?

— Esta morte precisa ser vingada. Da mesma forma que a de Ken, a de Amanda e a de Bruce.

— A vingança pertence ao Senhor - disse Tsion.

— Se ao menos Ele tivesse me incluído nessa lista - disse Rayford.

Tsion olhou firme para ele. - Tome cuidado ao desejar coisas que realmente você não quer que aconteçam. Vamos encerrar esta cerimônia com uma oração.

Buck não conseguiu ouvir as palavras de Tsion. Rayford havia começado a chorar. Sua respiração foi ficando ofegante, e ele cobriu a boca com a mão. De repente, não conseguindo conter os soluços, ele caiu de joelhos no chão, e seus gemidos ecoaram na noite. Chloe aproximou-se dele e o abraçou.

— Está tudo bem, papai - ela disse, ajudando-o a levantar-se e conduzindo-o para dentro da casa. - Está tudo bem.

Rayford afastou-se dela e subiu correndo a escada. Buck segurou Chloe nos braços, e a lama que havia sido transferida de seu pai para as roupas dela também sujou as suas.

 

Em pé debaixo do chuveiro na casa secreta, Rayford sentia-se agradecido pelo poço e pela água quente que o gerador lhe proporcionava. Seus músculos começaram a relaxar. Que dia! A raiva inexplicável que o fizera caminhar a passos firmes sob o ar fresco da manhã vinha sendo acumulada havia meses. O trabalho no porão não servira para abrandá-la, principalmente por ter trabalhado sozinho o dia todo. A notícia terrível sobre Floyd havia sido a gota d'água para fazê-lo explodir de uma forma que não lhe era comum desde 15 anos atrás, durante suas discussões acaloradas com Irene. E aquelas discussões eram conseqüência de excesso de bebida alcoólica. Embora ele se sentisse mal por ter sido grosseiro com os outros, havia alguma coisa em sua raiva que parecia justa. Seria possível que Deus plantara em seu coração essa intolerância por injustiça com o único propósito de prepará-lo para matar Carpathia? Ou ele estaria enganando a si próprio? Rayford não queria pensar que estava enlouquecendo. Ninguém entenderia um homem como ele tentando justificar um assassinato, mesmo que fosse o assassinato do anticristo.

Rayford girou o controle do chuveiro para esquentar a água até a temperatura máxima suportável e deixou que ela caísse sobre sua cabeça. Suas orações haviam se transformado em súplicas para que Deus lhe permitisse executar um ato impensável. Por quanto tempo um homem teria condições de suportar tanto sofrimento? Ele foi o culpado pela perda de sua esposa e filho. Poderia ter ido para o céu com eles se tivesse sido um homem de fé, e não orgulhoso. E quanto à perda de Bruce, de Amanda, de Ken e do médico? Mas por que ele deveria estar surpreso? A vida agora não passava de um jogo. Será que ele esperava estar entre aqueles que presenciariam o Glorioso Aparecimento? Certamente que não, se acertasse um tiro em Nicolae Carpathia. Mas, provavelmente, ele não sobreviveria até lá de jeito nenhum. Talvez fosse fuzilado.

Rayford saiu do chuveiro, jogou uma toalha sobre os ombros e olhou sua imagem no espelho embaçado. Assim que o vapor se dissipou e seu rosto ficou mais nítido, ele mal se reconheceu. Um ano atrás, ele se sentia muito bem, e Amanda se impressionara com sua boa aparência para um homem maduro. Agora, a palavra maduro seria elogio. Ele parecia e sentia-se muito mais velho do que sua idade. Acontecia o mesmo com todos, evidentemente, mas Rayford acreditava que envelhecera mais depressa do que o resto do pessoal.

Seu rosto estava magro e marcado por rugas, havia bolsas sob os olhos, e sua boca demonstrava tristeza. Ele nunca se preocupara muito em ficar deprimido ao atravessar períodos de tristeza ou abatimento, mas agora havia chegado o momento de parar para pensar. Estaria ele deprimido? Clinicamente deprimido? Este era o tipo de conversa que ele deveria ter tido com Floyd. E, ao pensar no nome dele, sentiu uma punhalada no coração. As pessoas a seu redor estavam morrendo e continuariam a morrer até que Jesus retornasse. Isto seria maravilhoso, mas ele duraria até lá? Se estava reagindo daquela maneira em relação a Floyd, que ele mal conhecera, como seria se... se... Rayford não queria pensar neste assunto. Chloe? O bebê? Buck? Tsion?

E quanto àquela enfermeira do hospital chamada Leah? Valeria a pena conversar com ela? Talvez com uma profissional, uma pessoa totalmente estranha, ele se sentisse mais à vontade para falar de coisas que não diria a ninguém da casa. Por mais esquisito que parecesse, Hattie o conhecia tão bem quanto os outros, mas ela continuava a ser uma estranha, mais desconhecida que a recém-chegada. Ele jamais revelaria seus pensamentos íntimos a Hattie.

Evidentemente, Rayford também não contaria nada a ela sobre seus planos para matar Carpathia, mas talvez pudesse conseguir alguma ajuda. Talvez ela já tivesse lidado com pessoas deprimidas ou conhecesse médicos especializados nesta área.

Enquanto enxugava os cabelos, Rayford admitiu que não reconhecera o homem diante do espelho nem o homem que havia dentro dele. Os pensamentos que rondavam sua mente não faziam parte do Rayford Steele que ele pensava ser. Imagine só o que Chloe diria se soubesse. Mas ela só conhecia metade de seus planos.

Sua agressividade não escapara aos olhos dos demais integrantes do Comando Tribulação. Eles se perdoaram mutuamente um sem-número de vezes por coisas insignificantes. Todos, menos Tsion. Ele nunca ofendia ninguém, nunca precisava ser perdoado. Algumas pessoas tinham o dom de viver em estado de graça, mesmo em condições adversas. Tsion era uma delas.

Rayford, porém, havia exagerado em seu comportamento egoísta dentro de um ambiente tão restrito. Havia ameaçado o status quo, o modo de vida naqueles tempos tão difíceis. Ele devia ser o líder. Sabia que devia ocupar esse posto da maneira como fazia o supervisor de um time de beisebol. Tsion era aquele que vencia todos os jogos. Mas era Rayford quem deveria exercer um papel vital, ter uma posição de autoridade, um espírito de liderança como se fosse um presbítero dentro de uma igreja.

Será que ele ainda era digno dessa posição? Por um lado, ele tinha certeza de que não, mas por outro, se ele realmente tinha sido escolhido por Deus para fazer parte de um assassinato planejado havia muitos séculos, ele era alguém muito especial.

Rayford saiu do banheiro vestido com um enorme roupão. Ou sou um homem ungido pelo Senhor ou sou um megalomaníaco. Ótimo. Quem vai me dizer o que sou? O velho Rayford Steele lutava consigo mesmo para ser racional, enquanto o irado, indignado, sofredor, deprimido, frustrado e enclausurado membro do Comando Tribulação continuava a nutrir pensamentos de grandeza. Ou, pelo menos, de vingança. Sou um homem doente, ele disse a si mesmo. Ele ouviu vozes no pavimento inferior. Eram orações.

 

Mac McCullum fazia sua caminhada matinal com passos firmes enquanto o sol surgia no horizonte, iluminando a radiante cidade da Nova Babilônia! A beleza daquele local e o privilégio de poder contemplá-lo seriam indescritíveis se ele estivesse ali em outras circunstâncias. Supermoderna, majestosa, exuberante - eram adjetivos que vinham à mente quando alguém falava dessa reluzente megalópole.

Porém, por ter a oportunidade de ouvir secretamente as conversas, Mac tornara-se um espião, um subversivo, um rebelde. Os tempos de treinamento militar, autodisciplina, voz de comando e filosofia do "um por todos e todos por um" conflitavam com seus ideais do momento. Depois de ter alcançado o posto mais alto em sua carreira de piloto de aeronaves de grande porte, ele agora fazia uso dos estratagemas e artimanhas que aprendera para servir à causa de Deus.

A satisfação de poder fazer isso era semelhante à que ele sentia por ainda ter fôlego para caminhar dez quilômetros por dia, apesar de sua idade. Para algumas pessoas, suas caminhadas eram impressionantes. Para ele, uma necessidade. Ele estava lutando contra o tempo, contra a força da gravidade e contra uma série de problemas físicos que surgem com o passar dos anos. Era assim que ele se sentia em relação a seu trabalho. Devia sentir-se realizado, mas tinha como patrão o inimigo de Deus. Por mais importante que fosse essa sua posição, ele devia exultar pelo fato de saber, sem sombra de dúvida, que estava do lado certo - do lado vencedor.

Mas o medo encobria qualquer sentimento de júbilo. No minuto em que começava a relaxar e apreciar sua função de piloto, logo percebia o quanto sua posição era vulnerável. O fato de viver na corda bamba, saber que um único deslize poderia ser o último, roubava-lhe toda a alegria de trabalhar. Havia um certo grau de satisfação por saber que ele era bom no que fazia, tanto oficialmente como às escondidas. Mas a tensão constante pela qual passava, imaginando ser descoberto a qualquer momento, não fazia parte do ideal de vida de um ser humano.

Enquanto o sol clareava o horizonte e o suor começava a escorrer pela cabeça e pelo rosto de Mac, imaginava que seu trabalho como espião seria descoberto antes que pudesse perceber. Esse era o preço a ser pago. Ele não sabia nem quando nem se seria descoberto, porém uma coisa era certa: ele seria o último a saber. Por quanto tempo Carpathia, Fortunato ou qualquer um deles lhe permitiria fazer o que bem entendesse e ainda continuasse a ocupar uma função tão importante, depois de conhecerem toda a verdade? Será que eles o forçariam a falar, comprometer os companheiros a quem ele amava e servia, arruinar a precária segurança do grupo que ele tentava proteger?

Talvez até já tivesse sido descoberto. Como saber? O fim de um traidor é como o fim de uma estrela - o resultado só é visto após o evento ter ocorrido. Ele deveria ficar atento aos sinais. Será que algo indicaria o momento certo de correr, fugir para a casa secreta, enviar um SOS para o Comando Tribulação nos Estados Unidos? Ou será que ele já estaria morto quando o pessoal do Comando tomasse conhecimento da situação?

Quando faltava um quilômetro e meio para terminar a caminhada, ele fez a última curva. Agora o sol batia-lhe nas costas. Sua última mensagem criptografada a Abdullah Smith havia colocado o jordaniano no mesmo barco que Mac: "O Departamento de Pessoal fará uma pergunta direta sobre sua lealdade à causa, à Comunidade Global, ao potentado. Lembre-se, você é um guerreiro da linha de frente. Diga o que eles desejam ouvir. Use os meios que quiser para conseguir o emprego. Você estará em posição de ajudar a impedir os esquemas do demônio e verá homens e mulheres aceitarem a Cristo, apesar de tudo.

"Se você não souber o que dizer, como se expressar, finja como eu. Diga, sem hesitar, que tem a mesma opinião de Mac McCullum a respeito da Comunidade Global e que aceita tanto quanto ele as políticas e as orientações do líder. Jamais conte a verdade.

"Não estou dizendo que será fácil. O salário é exorbitante, conforme já é de seu conhecimento, mas você não vai usufruir de nenhum centavo dele. Os valores das gratificações são altos demais, mas você vai sempre sentir que está recebendo um dinheiro sujo, que necessita ser purificado. Você será purificado por Deus porque estamos a serviço do Todo-Poderoso. O trabalho vai ser por pouco tempo, porque Tsion Ben-Judá está certo: quando a marca da besta for exigida para comprar e vender, será necessário ostentá-la para continuar a fazer parte da folha de pagamento daqui. Passaremos de funcionários de alto nível a fugitivos internacionais, do dia para a noite.

"Eu preciso de você, Abdullah, é tudo o que posso dizer. Você, Ray e eu trabalhamos juntos no passado. Não vai ser tão divertido, mas não haverá um só instante de sossego. Aguardo com ansiedade o momento de estar mais uma vez na cabina de comando ao lado de um piloto respeitável e de um irmão em quem confio. Tudo de bom para você. Mac."

 

Buck estava sentado ao lado de Chloe no sofá, perto de Tsion e Leah. Lá estava ela, recém-chegada à casa e já participando de uma reunião de oração pelo líder do grupo. Buck orava com uma certa hesitação, demonstrando sentimento de culpa. Não teria sido melhor enfrentar Rayford? Seria justo estar falando dele pelas costas, mesmo em um momento espiritual como aquele? Certamente Tsion conversaria com Rayford no momento apropriado.

 

Rayford detestava sentir-se isolado dos outros. Com seu sonho de eliminar Carpathia (mesmo que temporariamente), ele passou, ironicamente, a ter mais coisas em comum com Hattie do que com qualquer outra pessoa. A culpa era dele por ter perdido o controle e assustá-los. Mas o que estaria se passando no pavimento inferior à meia-noite? Rayford gostava muito quando eles oravam juntos. Mas estaria havendo uma reunião do Comando Tribulação sem sua presença? Ele deveria sentir-se ofendido?

Evidentemente, eles eram livres para reunir-se com os irmãos e irmãs que desejassem. Comandar aquele grupo não era o mesmo que dirigir uma empresa. O que estava acontecendo com ele? Desde quando ele passara a se importar com coisas insignificantes? Rayford desceu a escada na ponta dos pés para não desviar a atenção deles. Realmente, o grupo estava sentado no sofá e nas cadeiras da sala de visitas, de cabeça baixa, orando. Todos estavam lá, menos Hattie.

Rayford comoveu-se e, de repente, sentiu o desejo de reunir-se a eles. Mas seus motivos não eram puros. Ele queria reconciliar-se com o grupo sem ter de pedir desculpas mais uma vez. O fato de participar de uma reunião de oração ao lado deles já seria uma grande coisa... Ele poderia até orar e pedir perdão por seu acesso de raiva...

Assim que entrou na sala de visitas, Rayford sentiu doer a consciência. Que tolice! Que mesquinharia! Ser tão abençoado por Deus mesmo diante de todo aquele sofrimento e, de repente, querer usar a oração para manipular... Ele quase retrocedeu, mas agora queria reunir-se ao grupo por motivos certos. Não queria orar em voz alta. Só queria estar em comunhão com eles diante de Deus, fazer parte daquele grupo, daquela igreja. Ele sabia que só se sentiria digno de voltar a ser o líder quando compreendesse que não era digno se vivesse afastado da graça de Deus.

O motivo da oração era ele. Primeiro um, depois outro, todos mencionando seu nome. Eles oravam suplicando força, paz e conforto em sua dor. Eles oravam suplicando para que tivesse um contentamento sobrenatural, quando isso era humanamente impossível.

Rayford poderia sentir-se ofendido por estarem falando dele em oração. Mas estava envergonhado. Ele havia sido pior do que imaginava. Rayford ajoelhou-se em silêncio. De repente, a emoção e o fervor das orações o deixaram tão quebrantado e humilhado que ele não teve forças para sufocar os soluços. Ajoelhou-se e inclinou o corpo para a frente, apoiando os cotovelos no chão, e chorou alto. Ele lamentava muito, muito mesmo, e estava agradecido porque eles consideravam que valia a pena o esforço para fazê-lo voltar ao normal.

Chloe foi a primeira a correr na direção de Rayford, mas, em vez de levantá-lo, ela ajoelhou-se ao lado dele e o abraçou. Rayford percebeu que Buck tentou colocar a mão em suas costas. Ele queria dizer a seu genro para não se preocupar, que seu apoio moral significava muita coisa. Tsion colocou afetuosamente a mão na cabeça de Rayford e invocou a presença de Deus para que Ele "ajudasse Rayford a atravessar esse período de sofrimento, o mais difícil que alguém já teve de suportar".

Rayford se deu conta de que estava chorando pela segunda vez naquela noite, só que desta vez seu choro não era de desesperança. Ele sentiu-se envolvido pelo amor de Deus e pelo apoio de sua família. Ainda não desistira da idéia de que Deus poderia usá-lo no merecido castigo a Nicolae Carpathia, mas aquilo não era - pelo menos naquele instante - tão importante quanto a posição que ele ocupava dentro do grupo. Eles entenderiam que ele não podia ser forte sempre. Ficariam a seu lado quando ele agisse como um ser humano. Eles o apoiariam, mesmo quando ele errasse. Como seria possível expressar esse sentimento?

Rayford percebera que Leah, apesar de não conhecê-lo o suficiente para tocá-lo, também orou por ele. Ela não fingiu conhecer o problema. Limitou-se a dar a entender que ele se descontrolara e que necessitava de um toque de Deus.

Quando, finalmente, as orações cessaram, Rayford só conseguiu balbuciar:

— Obrigado, Senhor.

Tsion começou a entoar um cântico conhecido. Primeiro Chloe, depois os outros se juntaram a ele. Abençoados são os laços que unem nossos corações no amor de Cristo. A comunhão com os irmãos que nele crêem é semelhante a isto.

Os quatro levantaram-se e retornaram a seus lugares. Rayford puxou uma cadeira.

— Pensei que vocês estivessem votando para me excluir do clube - ele disse.

Tsion deu uma risadinha.

— Mesmo que você pedisse demissão, nós não a aceitaríamos - ele disse. - Eu gostaria de saber, Leah, se você não se importaria de aguardar até amanhã para nos contar sua história. Acho que todos nós tivemos um dia muito cansativo, e gostaríamos de lhe dar toda a atenção que você merece.

— Eu ia sugerir a mesma coisa - ela disse. - Obrigada.

— Você teria alguma objeção em ocupar o quarto em que Floyd costumava dormir? - perguntou Rayford.

— Não, a menos que alguém se oponha - ela disse. -Sei que meu pedido talvez pareça estranho, mas não vou conseguir dormir sem conhecer o restante da casa. Será que eu poderia dar um rápido giro por aqui, só para saber onde estão as coisas?

— Chloe e eu ficaremos felizes em mostrar-lhe a casa - disse Rayford, na esperança de iniciar um entrosamento entre eles que facilitasse a conversa.

— Vou ver como está o bebê - disse Buck. Tsion levantou-se, exausto. - Boa noite a todos. Rayford ficou impressionado ao ver que Chloe foi esperta

o suficiente para não mostrar o porão a Leah. Ela começou pelos fundos da casa, por onde Leah entrara.

— Não há nada na casa geminada - ela disse. - Sua estrutura foi muito atingida. Você passou por esta saleta aqui. Ela foi reconstruída. Uma árvore tombou neste lugar quando houve o terremoto e esmagou a esposa do proprietário. O marido dela estava em nossa igreja naquele momento e morreu quando o templo desabou.

— A seguir, vem a cozinha - prosseguiu Chloe. - A sala de visitas fica à esquerda. Esta é a sala de jantar, onde nós nunca fizemos as refeições, só trabalhamos. Depois da escada, há um banheiro e o quarto da frente, onde Buck e eu dormimos com o bebê.

No pavimento superior, ela mostrou a Leah o outro banheiro e os quartos de Rayford, Tsion e Floyd.

— Obrigada - ela disse. - E Ritz? Onde ele dormia? Rayford e Chloe entreolharam-se.

— Ah! - ele disse. - Eu não sabia que lhe contaram que Ritz morou aqui.

— Qual é o segredo?

— A casa toda é um segredo.

— Eu não deveria saber que ele morou aqui? Fiquei sabendo que o Dr. Charles, o Sr. Williams e Hattie moravam aqui.

— Eu imaginei que você não soubesse, só isso - disse Rayford. - Desculpe-me se demonstrei alguma desconfiança.

Leah parou. - Desconfiança do quê? Você quer examinar meu selo na testa? Você teve confiança em mim para me envolver em todos os tipos de emergência possíveis. Se eu não fosse digna de confiança, teria arriscado a vida por vocês todos?

— Lamento muito, eu...

— Francamente, Sr. Steele. Se eu estivesse trabalhando para a CG, teria avisado o potentado quando Hattie abortou o filho dele enquanto eu a atendia. Eu poderia ter denunciado o Dr. Charles quando ele incinerou o feto, em vez de seguir os procedimentos legais. Eu poderia ter avisado as autoridades quando seu genro me forçou a liberar Ritz com um ferimento aberto na cabeça. Você acha que eu não sabia quem vocês eram e por que ninguém podia saber onde vocês moravam?

— Srta. Rose...

— Sou Sra. Rose. Imaginei que Ritz morava aqui porque eu sabia que o aeroporto havia desabado completamente. E, caso você não se lembre, vocês e ele estavam juntos quando levaram Hattie ao hospital. Será que eu deveria supor que você saiu de seu esconderijo e ele foi ao seu encontro, partindo de outro lugar?

— Você tem razão. Eu só...

— Haverá gente que se infiltrará aqui, Sr. Steele. Não sei como eles vão fazer, mas acho que a CG é capaz de tudo. Mas, enquanto eles não inventarem uma réplica perfeita do selo que só nós podemos ver uns nos outros, penso que ninguém vai ser tão tolo a ponto de Vir espionar aqui. Pode me submeter ao interrogatório que quiser, mas agradeço se você nunca mais admitir que desconfia de mim só porque conheci um homem que morava aqui, cujo primeiro nome nem sequer me lembro.

Rayford olhou para ela com ar de desculpa.

— Se eu lhe disser que tive um dia terrível, isso serviria de desculpa?

— Eu também tive um dia terrível - ela disse. - Diga que não está com receio de mim, senão irei embora.

— Não estou. Sinto muito.

— Eu também. Perdoe-me se fui grosseira.

Por hoje, chega de entrosamento, pensou Rayford.

— Não vamos mais falar deste assunto - ele disse.

— Quer dizer que você confia em mim?

— Sim! Agora vá dormir. Nós também vamos fazer o mesmo. Sinta-se à vontade para usar o banheiro antes de nós.

— Você disse que confia em mim, não disse? Rayford percebeu que até Chloe já estava perdendo a paciência com Leah.

— Estou exausto, Sra. Rose. Já me desculpei. Já me convenci. OK?

— Não.

— Não? - estranhou Chloe. - Eu preciso dormir.

— Você acha que sou cega, idiota ou coisa parecida? -perguntou Leah.

— Como assim? - perguntou Chloe.

— Onde fica o abrigo?

Rayford teve um sobressalto. - Você me pergunta sobre o abrigo e não quer que eu desconfie de você?

— Não existe um abrigo aqui?

— Por que você está perguntando? Leah balançou a cabeça, aborrecida..

— Isto é pior do que ser considerada subversiva. Vocês acham que sou uma tola.

— Eu não acho - disse Chloe. - Se você me disser como descobriu que há mais um cômodo aqui, eu o mostrarei a você.

— Obrigada. Se eu estivesse escondida em uma casa secreta, imaginaria que, um dia, alguém iria descobri-la. Ou vocês têm um lugar para fugir em caso de emergência, ou este lugar vai virar de cabeça para baixo. E mais: isto é tão óbvio que eu nem deveria ter perguntado. Devo supor que Hattie dorme fora da casa?

— Hattie? - disse Rayford.

— Sim. Você se esqueceu dela? Não vi o selo em sua testa, mas ela anda por aqui enquanto vocês tratam de assuntos espirituais. Onde ela dorme?

Chloe deu um longo suspiro.

— Vá dormir, papai. Vou mostrar o abrigo a ela.

— Obrigada!

As duas caminharam em direção à escada. Rayford não pôde resistir e fez um comentário.

— Você tem o dom de ser irritante, Leah, sabia?

— Papai! - disse Chloe, de costas para ele. - Merecemos tudo isso e você sabe por quê.

Leah parou e encarou-o.

— Eu respeito todos desta casa - ela disse. - Mas seu comentário foi machista. Pode me chamar de feminista, mas você não teria dito a um homem, que estivesse tão ofendido quanto eu, que a reação dele foi irritante.

— Provavelmente teria. Eu disse o que pensava.

— Obrigada por me fazer perceber que agi como uma pessoa estúpida - disse Leah. - Hoje, falei com seu genro de um modo que não costumo falar com ninguém. E agora fui grosseira mais uma vez. Não sei o que está acontecendo comigo.

Rayford sentia-se exatamente da mesma maneira, mas não quis admitir.

— Prometa que amanhã você me dará uma trégua - ele disse.

— Prometido.

As mulheres desceram a escada, e Rayford, finalmente, foi para seu quarto. Depois de pendurar o roupão, ele deitou-se de costas no lençol frio, sentindo os músculos doloridos por causa do trabalho no porão e no quintal. Ele cruzou as mãos atrás da cabeça e já estava começando a adormecer quando ouviu passos na escada e, em seguida, uma batida na porta de seu quarto.

— Eu estava mostrando o porão a Leah - disse Chloe -, onde Hattie dorme. Só que ela não está lá.

— Hattie?

— Onde ela poderia estar? Não está na casa. Nem lá fora, pelo menos até onde eu pude enxergar. E tem mais, papai. As coisas dela não estão aqui. Ela levou tudo.

Rayford levantou-se e vestiu o roupão, imaginando se teria forças para enfrentar mais um problema sem desfalecer.

— Dê uma olhada no abrigo e verifique se o carro de Ken está lá. Veja se o de Buck ainda está no quintal. Ela não pode ter ido muito longe a pé. Buck pegará o carro dele, e eu, o de Ken. Vamos atrás dela.

— Papai, não sabemos quando Hattie saiu. Ela pode ter saído daqui logo depois do enterro. Eu não a vi desde então. E você?

Ele sacudiu a cabeça.

— Não podemos deixá-la ir longe daqui. Ela sabe demais.

— Vamos pensar no pior. Se ela conseguiu alguém para levá-la a algum lugar, você nunca vai encontrá-la.

Eles começaram a andar pelo local que um dia havia sido uma rua diante da casa, à procura de marcas de passos. Agora, a rua não passava de um caminho empoeirado, cheio de crateras enormes no asfalto. Hattie podia ter ido para qualquer direção. Rayford pegou o carro de Ken Ritz e saiu em disparada. Buck pisou fundo no acelerador de seu Land Rover, deixando atrás de si uma nuvem de poeira. Buck seguiu para o norte, e Rayford, para o sul.

Quando ficou evidente que Hattie não se encontrava na vizinhança, Rayford ligou para Buck.

— Ela não está por aqui - disse Buck. - Estou com um mau pressentimento. Não podemos dizer à polícia que ela desapareceu.

— Tive uma idéia - disse Rayford. - Vamos voltar para casa.

Rayford ligou para Palwaukee. Atendeu uma secretária eletrônica.

— T, aqui é Ray. Se você estiver aí, atenda, por favor. -Ele aguardou alguns instantes e, em seguida, ligou para o celular de Delanty.

— Alô - ele atendeu com voz sonolenta.

— Desculpe, T. Eu o acordei?

— Claro que sim. O que houve, Ray? Espero que não seja uma emergência, mas, se não for, por que você está me ligando a esta hora?

Rayford o pôs a par de tudo.

— Eu só queria saber se aqueles dois folgados ainda estão zanzando por aí.

— Ernie e Bo? Faz quase um ano que não vejo Ernie. Sinto falta daquele cara, apesar de ele ser um idiota. Ouvi dizer que ele foi para o oeste. Beauregard Hanson, o Bo, ainda está por aqui tentando conseguir os 5% deste lugar que ele acha que tem direito. Por quê?

— Estou pensando que Hattie pode ter usado Bo para conseguir alguém que a levasse embora daqui de avião.

— Eu parei de trabalhar às seis da tarde. Deixei um funcionário na torre até às nove. Depois disso, ele fechou tudo.

— Existe a possibilidade de um avião de grande porte ter levantado vôo daí esta noite?

— Ray, eu não posso chamar um sujeito a esta hora da madrugada para fazer esta pergunta a ele.

— Por que não? Eu chamei você.

— Ah! sim, mas você tinha certeza de que eu não ficaria com raiva de você.

— Não mesmo?

— É melhor eu não dizer nada. Somos irmãos, você se lembra?

— Por falar nisto, você é o único irmão "irmão" que me restou, se é que entende o que estou dizendo.

— O que houve?

Rayford contou-lhe sobre Floyd.

— Oh! homem! Sinto muito, Ray. Você não está desconfiando que Hattie...?

Rayford contou-lhe como Floyd achava que havia sido contaminado pelo veneno.

— Tenho motivos muito graves para descobrir onde ela está - disse Rayford.

— Vou verificar o livro de registros.

— Você não vai querer sair daí a esta hora.

— Posso verificar daqui mesmo, irmão. Aguarde um minuto. Rayford ouviu o rangido da cama de T e, em seguida, o som do computador sendo ligado. T voltou ao telefone.

— Estou verificando a listagem. Não houve muito tráfego esta noite. Quase todos eram aviões pequenos, de empresas, dois da CG. Humm.

— O quê?

— Há um pouso estranho aqui. Um Quantum de tamanho exagerado, parecido com um enorme Learjet, mas de outro fabricante, chegou às 22h30 só com o piloto. Partiu às 23h30 com o tanque cheio, sem carga, tendo a bordo apenas um passageiro não identificado, destino ignorado.

— É tudo?

— Bem, há uma coluna aqui para indicar se o vôo foi pago, se será cobrado depois ou se está tudo OK. Foi assinalado OK por BH, o Bo.

— Eu não conheço as especificações do Quantum - disse Rayford. - Qual é a velocidade e autonomia de vôo?

— Ah! a velocidade é a mesma de um avião pesado, mas provavelmente vai precisar reabastecer se for atravessar o oceano. Para onde você acha que sua fugitiva está indo?

— Eu não duvido de que ela pode ter pensado em entrar no escritório de Carpathia e fazer o serviço. Mas não existe meio de alcançar ou interceptar aquela aeronave, existe?

— Não. Que horas são? Quase uma da madrugada? Aquela coisa está voando há uma hora e meia, e, pelo que tudo indica, à velocidade máxima. Mesmo que a gente desconte 20 minutos para o avião pousar na costa leste, abastecer e levantar vôo novamente, a esta hora ele já deve estar bem longe.

— Você conseguiu informações suficientes para que eu possa passar uma mensagem via rádio para a aeronave?

— Pense um pouco, Rayford. 0 piloto daquele avião só vai responder se souber quem está chamando.

— Talvez eu consiga inventar uma história, insistir para que ele pouse na Espanha em razão de alguma anormalidade no combustível ou coisa parecida que possa ter acontecido aqui ou em outro lugar onde ele reabasteceu.

— Você está sonhando, Ray. Eu também gostaria de estar sonhando...

— De qualquer forma, obrigado, meu amigo.

— Você vai ter de descobrir o paradeiro dela sozinho ou com a ajuda de algum de seus contatos de lá.

— Eu sei. Muito obrigado, T. Vou tentar ir até aí amanhã para tratar de alguns assuntos da cooperativa.

— Hoje, você quer dizer?

— Isso mesmo - disse Rayford.

— Talvez eu leve comigo duas pessoas daqui. Queremos cuidar desse negócio da melhor maneira possível.

Pelo que Rayford sabia, Hattie também seria capaz de acabar de vez com a cooperativa.

 

Mac McCullum teve uma manhã agitada. Depois de cumprimentar Annie Christopher com um toque de mão na aba do quepe enquanto passava pela sala dela no hangar, ele chegou à sua sala, onde encontrou três recados. O primeiro era uma lista preparada pela secretária de Leon Fortunato, mencionando o nome das pessoas autorizadas a voar para Botsuana dali a três dias. O supremo comandante, seu criado particular, um assistente, um cozinheiro e dois auxiliares comporiam o contingente da CG. Dois assessores acompanhariam o presidente Ngumo, de Botsuana. No recado, havia a seguinte observação: "O Supremo Comandante ordena que a aeronave fique estacionada enquanto o pessoal de Botsuana estiver a bordo."

A lista também incluía o capitão e o co-piloto, com um asterisco logo após o nome deste último. O asterisco no final da página mencionava o seguinte: "O Supremo Comandante acredita que você ficará satisfeito com a resolução tomada a respeito deste assunto."

Mac ficou contente. O segundo recado era do Departamento de Pessoal a respeito da solicitação para que Abdullah Smith ocupasse o posto de co-piloto do Condor 216. Além de ser avaliado como um piloto altamente capacitado em todos os aspectos técnicos, ele também foi considerado "um cidadão digno, leal à Comunidade Global". A única ressalva era quanto à sua habilidade para se expressar ("Um pouco lacônico", dizia a nota).

Fortunato escrevera por seu próprio punho na margem: "Parabéns pela maravilhosa descoberta, Mac. Smith será um homem muito importante à causa! S.C.L.F."

Ele não sabe de nada, pensou Mac.

O terceiro recado para Mac era de David Hassid. "Há uma mensagem importante para o senhor, capitão. Só pode ser transmitida pessoalmente."

Mac e David tinham aprendido a manter uma conduta impessoal e profissional diante dos demais funcionários. A diferença de idade entre eles ajudava. O conjunto de edifícios da CG, embora fosse ostensivamente antimilitar em razão do reconhecido pacifismo de Carpathia, era pseudomilitar em sua estrutura organizacional. Mac sentia-se confortável no posto de comando, pois passara grande parte de sua vida usando farda. E David geralmente acatava os conselhos de Mac por ter trabalhado em empresa particular antes de ser admitido na CG. Agora os dois estavam em pé de igualdade, trabalhando em setores diferentes, e seus encontros ocasionais não atraíam a atenção de ninguém. Mac foi conduzido à sala de David por sua secretária.

— Capitão - disse David, dando-lhe um aperto de mão.

— Diretor - disse Mac, sentando-se. A secretária saiu da sala.

— Veja isto - disse David, virando seu laptop de modo que Mac pudesse ler o que estava escrito na tela.

O capitão semicerrou os olhos e leu o relato de Rayford sobre as atividades do dia anterior na casa secreta em Illinois.

— Oh! não - disse Mac - aquele médico! A moça foi embora, o médico morreu. É o cúmulo!

— A situação está piorando - disse David.

Mac leu os detalhes sobre o desaparecimento de Hattie. Em seguida, recostou-se na cadeira.

— Será que ele está realmente pensando...

David fez um gesto com a mão para interromper Mac.

— Enquanto penso no assunto, vou me livrar disto aqui. - Ele apertou algumas teclas para apagar o arquivo criptografado. - Que ela está vindo para cá? Não acredito. Ela é um tanto idiota, mas até aonde pensa que vai chegar? É um milagre essa moça ainda estar viva depois de tudo o que Carpathia fez para livrar-se dela. Se ela aparecer aqui na Nova Babilônia, já era.

Mac concordou com a cabeça. - Ela deve estar escondida em algum lugar, esperando pegar o homem de surpresa.

— Não acredito que ela consiga chegar tão perto. Mac balançou a cabeça concordando.

— É o que eu também acho. Seu pessoal instalou dois conjuntos de detectores de metal no 216 na semana passada.

— O plano é usá-los até mesmo para dignitários. É claro que o principal motivo é a suspeita que eles têm em relação ao Pete Dois.

— Eu já sabia. Fortunato preparou os dez reis... ou melhor, os subpotentados regionais... ou sei lá como o santo Nick vai chamá-los, nesta semana... para fazer o serviço. Tenho a impressão de que Fortunato os está forçando a tomar essa atitude.

— Até parece que aqueles sujeitos concordam com qualquer coisa - disse David. - Quantos deles você acha que são leais a Carpathia?

Mac encolheu os ombros. - Mais da metade. Talvez uns sete. Conheço três que tomariam o lugar dele se tivessem alguma chance.

— Você acha que eles o derrubariam?

— Em questão de minutos. É claro que Pete também.

— Verdade?

Mac inclinou o corpo para a frente e juntou as palmas das mãos.

— Eu ouvi o próprio Pete dizer isto. Ele enfrenta Carpathia com sua arrogância, mas finge ser prestativo. Carpathia se faz de bonzinho com ele o tempo todo, e um faz mesura para o outro. Mas vou-lhe dizer uma coisa: se Leon não se livrar logo de Mathews, vai ter problemas pela frente. Existe uma ordem clara, como se tivesse sido escrita.

David levantou-se, pegou algumas pastas de uma gaveta atrás dele e espalhou os papéis na mesa.

— É só para disfarçar, caso alguém esteja nos observando - ele disse.

Mac esticou o pescoço para fingir que estava lendo.

— Eles estão de cabeça para baixo, seu bobo - disse Mac, contendo um sorriso.

— Desculpe minha distração - disse David.

— Você sabe o que Rayford andava planejando?

— Não, me conte.

— Provocar um acidente aéreo com Carpathia a bordo. David endireitou o corpo e empinou a cabeça.

— Isto não é bíblico, é? Quero dizer, se ele for quem nós imaginamos, só vai morrer no 42° mês, certo? E, mesmo assim, não vai permanecer morto.

— Mas o que estou lhe contando é a verdade.

— Não parece fazer parte do modo de ser do capitão Steele. Ele sempre me pareceu muito equilibrado e sensível.

— Eu não queria estragar a imagem que você tem dele.

— Pode acreditar em mim, você não estragou. Não posso negar que também já imaginei fazer isso.

Mac levantou-se e dirigiu-se para a porta.

— Eu também.

 

Os problemas emocionais desgastavam Buck tanto quanto o trabalho físico. Geralmente, após ter trabalhado o dia inteiro com Rayford e Floyd no abrigo subterrâneo, ele sentia dificuldade para dormir. Mas, agora, a dificuldade aumentara: ele sofria a perda de Floyd, receava que Hattie pudesse pôr em perigo o Comando Tribulação e estava assustado com o estranho comportamento de seu sogro. A exaustão de Buck havia ultrapassado os limites. Deitado ao lado de sua abatida mas sempre animada esposa, ele lutava para permanecer acordado e ouvir o que ela precisava lhe dizer.

Ele e Chloe quase não tinham mais tempo para conversar, apesar de passarem a maior parte do tempo na mesma casa. Ela lamentava não poder ser tão ativa como antes, em parte por ter de ficar presa em casa por causa do bebê, em parte por causa dos ferimentos sofridos por ocasião do terremoto.

— Ninguém mais seria capaz de fazer o que você está fazendo com a cooperativa, meu bem - ele lhe disse. -Imagine os milhões de pessoas que dependerão de você para viver.

— Mas eu estou à margem de tudo - ela disse. - Passo a maior parte do dia consolando você e papai e tomando conta do bebê.

— Nós precisamos de você.

— Eu também tenho minhas necessidades, Buck.

Ele passou o braço ao redor do corpo dela. - Quer que eu cuide de Kenny para que você possa acompanhar seu pai na visita que ele vai fazer a T amanhã? Eles vão tratar de assuntos da cooperativa.

— Eu adoraria.

Buck imaginou ter resmungado alguma coisa. Mas quando Chloe afastou o braço dele e virou-se para o outro lado, ele entendeu que havia cochilado. Ela havia dito mais alguma coisa; ele sabia. Tentou reunir forças para abrir os olhos '

e desculpar-se, terminar a conversa. Mas quanto mais ele tentava, mais confusos seus pensamentos ficavam. Apesar de estar desesperado por ter perdido uma magnífica oportunidade de dialogar com sua esposa, ele mergulhou em sono profundo.

 

No final da tarde, na Nova Babilônia, David foi chamado às pressas para comparecer ao escritório do supremo comandante da Comunidade Global, Leon Fortunato. A luxuosa ala reservada a Leon compreendia o 17° andar inteiro do novo palácio, apenas um andar abaixo do ocupado por Sua Excelência, o potentado.

Embora David se reportasse diretamente a Fortunato, os encontros entre eles haviam se tornado raros. O organograma da CG, conforme Mac mencionara mais de uma vez, tinha de dar a idéia de uma tigela de espaguete. Aparentemente, Carpathia tinha apenas um subordinado - além de sua secretária e alguns lacaios tagarelas que o rodeavam o tempo todo -, e esse subordinado era Fortunato. Porém, a ala administrativa inteira do palácio estava sempre cheia de bajuladores que se vestiam como o potentado e o supremo comandante, andavam como eles, conversavam como eles, curvando-se e fazendo bajulações na presença dos dois.

David, o funcionário mais jovem do setor administrativo, parecia ter conquistado a simpatia de seus superiores por manter uma conduta respeitosa em relação à chefia, apropriada à sua posição. Mas, naquele momento, ele estava em uma encrenca.

Assim que a porta da sala de Fortunato foi fechada e antes que David pudesse sentar em uma das cadeiras luxuosas, Leon dirigiu-se rispidamente a ele.

— Quero saber onde estão aqueles computadores e por que não foram instalados conforme combinamos.

— O hã... hã... embarque...

— O maior embarque de computadores que fizemos desde que equipamos o castelo... isto é, o palácio - disse Leon, sentando-se em sua cadeira de couro, que se assemelhava a um trono em razão de sua imensa estrutura. - Você sabe do que estou falando. Quanto mais você pigarrear, mais suspeitas...

— É claro que eu sei, senhor. Recebemos a carga ontem e...

— Onde ela está?

— ... os computadores não têm condições de ser levados diretamente para...

— O que há de errado com eles? - vociferou Leon, apontando-lhe finalmente uma cadeira.

David sentou-se. - Trata-se de um problema técnico, senhor.

— Defeito de fabricação?

— E um... problema de localização. Eles não vão funcionar no palácio.

Leon fitou-o de maneira penetrante.

— Eles precisam ser substituídos?

— Sim, é a única solução, senhor.

— Então, substitua-os. Você entendeu o que eu disse, não, diretor Hassid?

— Sim, senhor.

— Entendeu o que eu quero dizer?

— Como assim?

— Quando eu me preocupo com alguma coisa, você entende que a preocupação não é só minha, certo?

— Certo, senhor.

— Sua Excelência está ansioso para que eu... você... para que a gente cuide deste assunto. Sua Excelência está confiante, porque eu lhe garanti que ele podia ficar tranqüilo, que você ia tomar conta de tudo.

— Aquele equipamento será instalado assim que for humanamente possível.

Leon sacudiu a cabeça. - Não estou falando apenas dessa droga de instalação! Estou falando de rastrear nossos opositores.

— Claro.

— Sua Excelência é um pacifista, conforme você sabe. Mas ele também sabe que o poder de um homem de paz está baseado unicamente em informações. É por isso que ele monitora aqueles dois pregadores malucos de Jerusalém.

O dia deles vai chegar. Eles já apareceram demais. Por mais condescendente que Sua Excelência seja em relação a pontos de vistas diferentes dos dele, sabemos que uma facção pequena, porém influente, tem a atenção atraída por aqueles rebeldes à nova ordem mundial. Você não concorda?

— Se eu concordo, senhor? Fortunato parecia frustrado.

— Estou dizendo que Sua Excelência tem motivos para preocupar-se com esse tal de Ben-Judá e com seu ex-editor, que está cuspindo propaganda contra a CG!

— Ah! sim, concordo plenamente. É um perigo. Quero dizer, se houvesse pequenos grupos destes tipos por aí, que mal poderiam fazer? Mas o número deles parece ter crescido sob a bandeira do...

— Exatamente. E eles estão protegendo a mãe do filho de Sua Excelência. Ela deve ser encontrada antes de tentar fazer um aborto, ou pior, revelar informações que poderiam prejudicar... - Leon não completou a frase. - De qualquer forma - ele disse -, substitua aquele pedido, tente encontrar um lugar adequado para os computadores ou coisa parecida, e peça ao pessoal que trabalhe nisso.

 

Buck ficou agradecido por ter despertado antes de Chloe. Ele beijou-a no rosto, ajeitou as cobertas e deixou um bilhete na mesinha de cabeceira: "Peço desculpas por ter dormido enquanto você falava. Acompanhe seu pai. Ficarei aqui cuidando do bebê. Eu a amo."

Dirigiu-se para a cozinha, onde Tsion estava sentado sozinho, ombros caídos, tomando o café da manhã.

— Cameron! - ele murmurou. - Se eu soubesse que você estava acordado, teria lhe preparado alguma coisa.

— Não se preocupe. Vou adiantar meus artigos e, ao mesmo tempo, tomar conta do bebê.

Buck serviu-se de um copo de suco e debruçou-se no balcão da cozinha.

— Chloe vai visitar T com Ray para conversarem sobre a cooperativa.

Tsion movimentou a cabeça afirmativamente, com ar de tristeza.

— Sinto muita falta de Floyd. Eu sabia que havia alguma coisa errada quando ele não se levantou para tomar o café comigo ontem. - Após um suspiro, prosseguiu. - O doutor tinha uma boa cabeça. Muitas perguntas em mente.

— Eu não tenho uma cabeça boa como a dele, mas tenho muitas perguntas. Você me contou que estava trabalhando em seus comentários sobre o segundo ai, o sexto Julgamento das Trombetas.

— E estou atrasado - disse Tsion. - Com tudo o que aconteceu, não tive meios de transmitir meus comentários ontem. Espero poder fazer isto hoje cedo e que o lapso de um dia não tenha criado pânico entre meus leitores.

— Todos estão orando para que você não seja impedido de transmitir suas mensagens pela Internet.

— David Hassid me garantiu que estamos adiante de Carpathia, tecnologicamente falando. Mesmo assim, quando ele me explicou como faz para devolver nosso sinal de satélite para satélite, de celular para celular, eu não entendi nada. Só espero em Deus que ele saiba o que está fazendo.

Buck lavou o copo de suco. - Ontem, você estava se esforçando para entender alguma coisa.

— E ainda estou - disse Tsion. - Ao longo dos séculos, os estudiosos acreditavam que a literatura profética era figurada, aberta a um sem-número de interpretações. Talvez a intenção de Deus não fosse esta. Por que Ele dificultaria tanto o nosso entendimento? Acredito que, quando a Bíblia diz que o escritor teve uma visão, a linguagem é simbólica. Mas, quando o escritor diz que viu certas coisas acontecerem, eu as aceito literalmente. Até agora, tenho provado que estou certo.

— A passagem em que estou trabalhando - prosseguiu Tsion -, na qual João tem uma visão de 200 milhões de cavaleiros com o

poder de exterminar a terça parte da população restante, parece ser figurada. Duvido que esses homens e animais aparecerão literalmente, mas acredito que o resultado será uma verdade incontestável. Eles vão exterminar a terça parte da população. Buck semicerrou os olhos, e Tsion desviou o olhar.

— Isto é novidade para mim - disse Buck. - É verdade que você não sabe?

Tsion meneou a cabeça. - Sinto uma grande responsabilidade perante os leitores que Deus me confiou. Não quero me antecipar a Ele, mas também não quero recuar de medo. Tudo o que posso fazer é ser honesto a respeito do quanto estou me esforçando para compreender. Já é tempo de muitos crentes começarem a interpretar a Bíblia sozinhos.

— Quando esse julgamento está previsto para acontecer?

— Só sabemos ao certo que será o próximo cronologicamente falando, e deve ocorrer antes da metade do período da Tribulação. A menos que Deus tenha planos para apressar esse julgamento, parece que ainda teremos algumas semanas pela frente.

Na véspera, Tsion havia transmitido apenas a passagem bíblica que ele comentaria no dia seguinte. O texto em si atraiu a atenção de um imenso público virtual, o maior da História, aguardando os temíveis comentários do Dr. Ben-Judá sobre Apocalipse 9.15-21.

 

Foram, então, soltos os quatro anjos que se achavam preparados para a hora, o dia, o mês e o ano, para que matassem a terça parte dos homens.

O número dos exércitos da cavalaria era de vinte mil vezes dez milhares; eu ouvi o seu número.

Assim, nesta visão contemplei que os cavalos e os seus cavaleiros tinham couraças cor de fogo, de jacinto e de enxofre. As cabeças dos cavalos eram como cabeças de leões e de suas bocas saía fogo, fumaça e enxofre.

Por meio destes três flagelos, a saber: pelo fogo, pela fumaça e pelo enxofre que saíam das suas bocas, foi morta a terça parte dos homens; pois a força dos cavalos estava nas suas bocas e nas suas caudas, porquanto as suas caudas se pareciam com serpentes, e tinham cabeças, e com elas causavam dano.

Os outros homens, aqueles que não foram mortos por esses flagelos, não se arrependeram das obras das suas mãos, deixando de adorar os demônios e os ídolos de ouro, de prata, de cobre, de pedra e de pau, que nem podem ver, nem ouvir, nem andar, nem ainda se arrependeram dos seus assassínios, nem das suas feitiçarias, nem da sua prostituição, nem dos seus furtos.

 

David retornou à sua sala com os pensamentos em conflito. Temia o que Leon poderia estar engendrando e, ao mesmo tempo, estava emocionado por ter conseguido ludibriar aquele homem mais uma vez. Ele pegou seu laptop e, sem fazer caso do sinal avisando que havia uma mensagem, fez um outro pedido de computadores, ordenando que deveriam ser entregues na pista de pouso do palácio. Não fazia sentido atrair mais suspeitas. Ele poderia despistar qualquer coisa que os técnicos em informática detectassem, simplesmente implantando vírus no equipamento ou confundindo as informações colhidas.

 

Buck sentou-se ao lado dos companheiros para participar de uma reunião do Comando Tribulação às 11 horas de terça-feira. Ele contou ao grupo que David acabara de informar que Abdullah Smith havia sido aceito como co-piloto de Mac.

Rayford levantou a mão fechada em sinal de comemoração e disse:

— Tenho algumas observações a fazer. Estamos pedindo às pessoas em quem confiamos que fiquem de olho em Hattie. Ela pode nos causar mais problemas do que imaginamos. Vou interromper o trabalho no porão por um dia. Chloe e eu vamos ter um encontro com T hoje à tarde. Agora, Sra. Rose, a palavra é sua.

Leah levantou-se para falar, o que causou surpresa ao pessoal, tanto quanto a notícia dada por Buck. Eles empurraram suas cadeiras para trás a fim de ter um ângulo melhor para vê-la falar. Sua voz era macia, e ela parecia mais confiante do que quando conheceu o pessoal na noite anterior. As palavras fluíam em tom monótono, como se ela estivesse tentando ocultar a emoção.

— Entendo que vocês deviam ser pessoas razoavelmente normais antes do Arrebatamento, porém não eram crentes. Eu estava confusa. Cresci em um lar onde meu pai era um alcoólatra e minha mãe, maníaco-depressiva. As brigas de meus pais eram do conhecimento de toda a vizinhança. Eles se divorciaram quando eu tinha 12 anos. Dali a três anos, comecei a fumar, beber, dormir por aí, consumir drogas e, por mais de uma vez, tentei me matar. Fiz um aborto aos 17 anos e, em seguida, tentei afogar na bebida o horror daquele momento. Abandonei a escola e fui morar no apartamento de uma amiga. Eu consumia mais bebidas e drogas do que comida, e cheguei ao fundo do poço quando me vi andando a esmo pelas ruas e evacuando sangue no meio da noite.

— Eu sabia que era uma criatura decaída - prosseguiu Leah. - Se eu não fizesse alguma coisa por mim mesma, logo estaria morta. Eu não queria que isso acontecesse porque não tinha idéia do que viria depois. Eu orava quando estava em alguma encrenca séria, mas, na maior parte do tempo, nem sequer pensava em Deus. Fui parar em um centro de reabilitação municipal e duvidava que meu organismo resistiria sem droga e sem bebida. Quando finalmente comecei a raciocinar com lógica, as pessoas de lá perceberam que eu tinha cérebro e fizeram um teste comigo. Meu QI era alto, bem alto, com inclinação... ou sei lá o que... para ciências.

— Fiquei muito grata àquelas pessoas. Aquela gratidão despertou em mim algum dom latente para cuidar dos necessitados. Voltei para a escola e me diplomei um ano depois com nota dez em quase todas as matérias. Para poder pagar a faculdade, comecei a trabalhar como auxiliar de enfermeira e professora de linguagem de sinais para alunos surdos. Conheci meu marido na faculdade. Ele me conseguiu uma vaga em uma escola do governo e me inscreveu em um programa de enfermagem. Como eu não podia ter filhos, adotamos dois meninos após seis anos de casados.

Assim que tentou dizer o nome das crianças, o rosto de Leah ficou sombrio e ela mal conseguia falar.

— Pedro e Paulo - ela murmurou. - Meu marido havia sido criado em lar religioso. Apesar de não freqüentar igreja durante muitos anos, ele sempre quis dar estes nomes a seus filhos. Queríamos que nossos filhos tivessem uma educação religiosa, portanto começamos a ir à igreja. As pessoas de lá eram bondosas, mas a igreja se assemelhava mais a um clube de campo. Havia muitas atividades sociais, mas não nos sentíamos perto de Deus.

— Um dos capelães do hospital onde eu trabalhava tentou me converter. Embora ele parecesse sincero, eu me senti ofendida. A diretora da creche onde meus filhos ficavam durante o dia me deu um folheto sobre Jesus. Eu disse a ela que éramos freqüentadores assíduos da igreja. Fiquei furiosa quando meus filhos trouxeram para casa livros de histórias da Bíblia. Eu disse à mulher que as crianças freqüentavam a Escola Dominical e que ela deveria limitar-se a cuidar deles. A voz de Leah estava rouca de emoção.

— Encontrei as camas de meus filhos vazias na manhã seguinte ao Arrebatamento. Foi o pior dia de minha vida. Achei que eles haviam sido seqüestrados. A polícia não pôde fazer nada, é claro, porque todas as crianças desapareceram. Eu não tinha ouvido falar do Arrebatamento, mas logo em seguida os noticiários o consideraram como uma das possibilidades. Liguei para o capelão do hospital. Ele havia desaparecido. Liguei para a creche. A diretora também havia desaparecido. Corri até lá, mas ninguém sabia me informar nada. Na sala de espera, encontrei mais folhetos semelhantes aos que a diretora dera a meus filhos. Um deles, cujo título era "Não Seja Deixado para Trás", dizia que, um dia, os crentes verdadeiros desapareceriam para morar no céu com Jesus.

— Aquele folheto estava em minha bolsa quando voltei para casa e encontrei meu marido dentro da garagem com a porta fechada e o motor do carro funcionando. - Leah fez uma pausa para recompor-se. - Ele me deixou um bilhete, dizendo que lamentava muito por ter tomado uma atitude tresloucada, que não conseguia viver sem os meninos e que não podia fazer nada para aliviar meu sofrimento.

Leah parou, com os lábios trêmulos.

— Você quer fazer uma pausa, minha senhora? - perguntou Tsion.

Ela balançou a cabeça negativamente.

— Tentei me matar. Tomei todos os comprimidos que havia no armário e fiquei muito mal. Deus não queria que eu morresse, porque, aparentemente, grande parte dos comprimidos que ingeri contra-atacou o efeito dos outros. Acordei horas mais tarde com uma dor de cabeça muito forte, dor de estômago e um gosto horrível na boca. Arrastei-me até onde estava minha bolsa para pegar algumas balas de hortelã e vi aquele folheto outra vez. Agora, o que estava escrito ali fazia sentido.

— Ele predizia o que aconteceu e advertia o leitor a estar preparado. A solução... bem, todos vocês sabem... era buscar a Deus, dizer a Ele que eu era pecadora e que necessitava dele. Talvez fosse tarde demais para mim, mas orei. Não sei como encontrei forças, mas assim que consegui sair de casa, fui à procura de outras pessoas como eu. Encontrei-as em uma igreja pequena. Apenas alguns crentes haviam sido deixados para trás, e todos sabiam por quê. Agora, há cerca de 60 deles que se reúnem secretamente. Vou sentir falta dessa gente, mas eles não vão se surpreender quando souberem que desapareci. Eu lhes contei o que estava se passando, que cuidei de uma fugitiva da CG.

— Vamos avisá-los de que você está em lugar seguro - disse Rayford, visivelmente emocionado.

— Você disse que eu estou? - perguntou Leah, sentando-se, com um sorriso triste no rosto. - Posso ficar?

— Nós sempre votamos - disse Tsion. - Mas acho que você encontrou um novo lar.

 

No início da noite na Nova Babilônia, David estava sentado em sua sala após o expediente, sentindo a falta de Annie. Ficar a sós com ela seria muito arriscado, portanto eles dialogavam por meio de telefones sigilosos e computadores. David instalou um programa em seu computador que podia apagar a conversa dos dois, caso Annie se esquecesse de apagar a dela. Nenhum dos dois podia deixar evidências nos computadores sobre seu relacionamento e, principalmente, sobre a fé que professavam.

"Talvez fosse melhor revelarmos nosso amor", ela digitou. "Pela política da CG, eu seria forçada a trabalhar em outro departamento fora de sua supervisão, mas pelo menos poderíamos nos ver sem levantar suspeitas."

David digitou em resposta: "Não é má idéia, e poderíamos usar mais um par de olhos em outros departamentos. No entanto, a posição que você ocupa é estratégica, porque ela nos dá condições de contrabandearmos coisas daqui para os crentes de outros países. Vamos continuar pensando no assunto. Não suporto mais ficar longe de você."

De repente, os aparelhos de TV do departamento de David - todos - foram ligados. Isto acontecia apenas quando a chefia da CG achava que havia uma notícia de que todos os empregados deviam tomar conhecimento. Na maioria das vezes, a tela da TV exibia Carpathia ou Fortunato fazendo um pronunciamento ao mundo, independentemente de haver ou não alguém trabalhando naquele setor. Onde houvesse uma TV, ela seria ligada.

David girou sua cadeira e encostou a cabeça no espaldar para ver a notícia. Um apresentador da CNN-CG estava noticiando um acidente aéreo. "Nem o avião, que dizem ser uma aeronave particular de grande porte, nem o piloto, nem o passageiro foram encontrados, mas há notícias de que o mar levou alguns objetos pessoais para uma das praias de Portugal. Ouçam este pedido de socorro, gravado por várias torres de controle daquela região."

Socorro! Socorro! Quantum zero-sete-zero-oito perdendo altitude! Socorro!

 

"O avião desapareceu das telas do radar logo em seguida, e a equipe de resgate vasculhou a área. Foram encontrados objetos pessoais e malas de duas pessoas, um homem e uma mulher. As autoridades calculam que não levará muito tempo para que a fuselagem e os corpos sejam encontrados. Os nomes das vítimas estão sendo resguardados até que sejam notificados aos parentes mais próximos."

David olhava para a tela, perguntando a si mesmo por que a chefia da CG achou que valeria a pena transmitir essa notícia antes de informar o nome das vítimas. Em seguida, apareceu a seguinte legenda na tela:

 

ATENÇÃO! PESSOAL DO PALÁCIO DA CG! AS PROVÁVEIS VÍTIMAS DESTE ACIDENTE, DE ACORDO COM AS AUTORIDADES QUE COMANDAM O RESGATE, SÃO AS SEGUINTES: PILOTO SAMUEL HANSON, DE BATON ROUGE, LOUISIANA, ESTADOS UNIDOS; E HATTIE DURHAM, NATURAL DE DES PLAINES, ILLINOIS, ESTADOS UNIDOS. A SRTA. DURHAM TRABALHOU PARA SUA EXCELÊNCIA, O POTENTADO, COMO SUA ASSISTENTE PESSOAL. NOSSAS CONDOLÊNCIAS A TODOS QUE A CONHECERAM.

 

David ligou para Mac.

— Eu vi - disse Mac. - Está na cara que é uma farsa!

— É verdade - disse David. - O piloto deve ter recebido uma imensa bolada da companhia de seguros, e Hattie deve estar em algum lugar da Europa.

— Talvez estejam querendo encontrar outros trouxas - disse

Mac. - Devemos acreditar que Carpathia e Fortunato caíram nesta?

— Claro que não - disse David. - Eles podem ter engendrado um acidente. Talvez tenham encontrado Hattie e a mataram, e agora estão encobrindo tudo. É melhor que apareçam logo com a fuselagem ou os corpos.

David ouviu um sinal avisando que havia uma nova mensagem.

— Falo com você mais tarde, Mac. - ele disse.

 

Rayford e Chloe estavam sentados no escritório de T localizado na base da torre do Aeroporto de Palwaukee, acompanhados de T e dois homens da igreja que funcionava na casa dele. Chloe descreveu como planejava estabelecer uma ligação entre os principais associados da rede da cooperativa e começar a fazer um teste antes de pôr em prática o sistema de compra e venda.

— Temos de manter tudo em segredo desde o início - ela disse. - Caso contrário, passaremos a fazer parte de todos os outros corretores de mercadorias e ficaremos sob a vigilância da CG.

Os outros concordaram. O telefone de Rayford tocou. Era Buck. Rayford riu alto enquanto Buck lhe contava a estranha notícia que acabara de ouvir.

— Ligue a televisão, T - ele disse.

Os comentaristas da CG falavam da tragédia em tom de tristeza, embora os nomes não tivessem sido revelados fora da Nova Babilônia. Eles diziam que até aquele momento não havia sido encontrado nenhum documento, só objetos pessoais.

— Um dia, Fortunato, ou quem está por trás disto tentando tirar vantagem - disse Rayford -, vai se meter em uma enrascada para o resto da vida. Chloe puxou o pai pela manga da camisa e cochichou:

— Pelo menos, podemos ter certeza de que, por enquanto, Hattie está bem.

— A questão - ele disse assim que a reunião terminou -, é onde ela está. Ela não é tão esperta assim a ponto de fazer alguém acreditar que afundou naquele avião. Será que ela teria capacidade de surpreender Carpathia?

Depois que os dois homens saíram, Rayford, Chloe e T subiram correndo a escada para inquirir o funcionário da torre sobre o vôo das 23h30 da noite anterior. Ele era gordo e calvo, e estava lendo um livro de ficção científica.

— Eu não cheguei a vê-lo, mas, pelo rádio, ele parecia ter sotaque do sul - disse o funcionário. - Bo assinou o formulário liberando a decolagem.

— Ele estava aqui? - perguntou T.

— Não, ele me ligou por volta das 8 horas da noite, aprovando antecipadamente a decolagem.

— Eu não vi o número do avião no computador.

— Eu o anotei. Ainda está aqui. - O funcionário vasculhou uma pilha de papéis. - Zero-sete-zero-oito - ele disse. - Você já deve saber que era um Quantum.

— Há meios de saber em nome de quem o avião está registrado? - perguntou Rayford.

— Claro que sim - respondeu o funcionário. Ele digitou rapidamente alguma coisa no teclado de seu computador e ficou tamborilando com os dedos no joelho enquanto aguardava a informação. - Samuel Hanson - ele disse -, de Baton Rouge. Ele deve ser parente de Bo, não? Bo não é de Louisiana?

 

O encontro com Abdullah Smith foi reconfortante para Mac. Ele conheceu o jordaniano e ex-piloto de aviões de caça nos tempos em que trabalhava como co-piloto do capitão Rayford Steele. Abdullah perdeu o emprego quando Carpathia confiscou todo o armamento internacional e, rapidamente, tornou-se um dos principais fornecedores do mercado negro de Rayford.

A vida de Abdullah sofreu uma reviravolta quando sua esposa se converteu quatro anos antes do Arrebatamento. Ele se divorciou dela e lutou até conseguir a custódia dos dois filhos menores, um menino e uma menina. Quando ele foi obrigado a passar meses viajando a serviço da força aérea jordaniana, a custódia foi suspensa e ele passou a morar na base aérea.

Apesar de ser um homem de poucas palavras, certa ocasião Abdullah revelou a Mac e Rayford que ficou tão deprimido a ponto de querer suicidar-se.

— Eu continuava a amar minha esposa - ele disse com um sotaque acentuado. - Ela e as crianças eram o meu mundo. Imaginem só a esposa de vocês converter-se a uma religião professada em um país misterioso e muito distante. Trocávamos longas cartas, mas nenhum de nós convenceu o outro. Para minha vergonha, eu não era muito dedicado à minha religião e passei a ter uma vida desregrada. Minha esposa dizia que orava por mim todos os dias para que eu aceitasse Jesus Cristo antes que fosse tarde demais. Eu a amaldiçoava em minhas cartas. Em uma dessas cartas, eu implorei para que ela renunciasse à religião e voltasse para o homem que a amava. Na seguinte, eu a acusei de ser traidora e a chamei de nomes horríveis. Ela me respondeu dizendo que ainda me amava e me fez lembrar que fui eu quem deu início ao processo de divórcio. Irado, mais uma vez a agredi moralmente.

— Ainda guardo as cartas nas quais ela me advertia que eu poderia morrer antes de encontrar o único e verdadeiro Deus, ou que Jesus retornaria um dia para buscar aqueles que o amavam e que eu seria deixado para trás. Fiquei furioso. Recusei muitas vezes visitar meus filhos, só para me vingar dela, mas hoje compreendo o quanto magoei as crianças e a mim mesmo. Sinto uma culpa enorme porque eles nunca vão saber quanto eu os amava.

Mac lembrou-se do que Rayford dissera a Abdullah:

— Você poderá dizer isso a eles um dia.

Abdullah limitara-se a concordar com a cabeça, olhando para um ponto distante com seus olhos escuros.

Abdullah converteu-se por ter guardado as cartas da esposa nas quais ela explicava detalhadamente o plano da salvação, escrevia versículos bíblicos e lhe dizia que estava sempre orando para que ele aceitasse a Cristo.

— Por diversas vezes, amassei as cartas e atirei-as contra a parede do quarto - disse Abdullah. - Mas alguma coisa me impedia de rasgá-las, queimá-las ou jogá-las no lixo.

Quando soube que sua esposa e filhos haviam desaparecido, Abdullah caiu prostrado no chão em seu quarto em Amã, com as cartas da esposa espalhadas diante de si.

— Aconteceu conforme ela dizia - ele explicou. - Clamei a Deus. Eu não tinha escolha, a não ser acreditar.

Em razão de ter a aparência de um homem nascido no Oriente Médio e de sua predileção por usar turbante, botas de aviador e um pano amarelado cobrindo desalinhadamente a calça da farda camuflada, aquele jordaniano de compleição miúda jamais poderia levantar suspeitas de que fosse um cristão. Antes da conversão das 144.000 testemunhas judaicas do mundo inteiro e dos milhões de convertidos de todas as nacionalidades, a maioria das pessoas acreditava que poderia identificar um cristão. Agora, evidentemente, apenas os crentes verdadeiros sabiam identificar um ao outro, por causa do selo que era visível só entre eles.

Abdullah, um jordaniano magro, de pele morena, semblante bondoso e expressivo, era homem de poucas palavras, conforme Mac se lembrava. Ele agiu de maneira estritamente formal diante das outras pessoas, sem deixar transparecer que ele e Mac eram irmãos na fé e velhos amigos. Não fingiu que não se conheciam, porque Mac havia forjado um antigo relacionamento militar entre eles. Os dois só se abraçaram quando ficaram sozinhos na sala de Mac.

— Há alguém que eu quero que você conheça - disse Mac, chamando Annie à sua sala. Ela bateu na porta e entrou, com um sorriso no rosto.

— Você deve ser o famoso Abdullah Smith - ela disse. - Tem um selo na testa, típico dos jordanianos.

Abdullah olhou para Mac com ar de indagação. Em seguida, olhou para a testa de Annie.

— Eu não posso ver o meu - ele disse. - Não é igual ao seu?

— Estou brincando com você - ela disse. - É que o seu fica mais visível por causa da cor de sua pele.

— Entendi - ele disse, como se realmente tivesse entendido.

— Não leve a sério o senso de humor dos americanos -disse Mac.

— Senso de humor canadense - corrigiu Annie, abrindo os braços para abraçar Abdullah, o que o deixou constrangido. Ele estendeu a mão e apertou a dela. - Bem-vindo à família - ela disse.

Novamente Abdullah olhou com ar de indagação para Mac.

— Ela é o membro mais novo da família - disse Mac. -Está lhe dando as boas-vindas a esta divisão do Comando Tribulação.

Abdullah deixou uma parte de seus pertences em sua sala atrás da de Mac. Dois funcionários do Departamento de Operações o ajudaram a levar o restante para seus novos aposentos. Enquanto os dois amigos acompanhavam os funcionários, Mac disse:

— Assim que você tiver arrumado suas coisas, arregace as mangas e comece a fazer o roteiro de nossa viagem para Botsuana na sexta-feira. Vamos sair daqui às 8 horas da manhã. Eles estão uma hora na nossa frente, portanto...

— Vamos seguir para Joanesburgo, suponho - disse Abdullah.

— Não, para o norte de lá. Vamos nos encontrar com Mwangati Ngumo em Gaborone, na antiga fronteira de Botsuana com a África do S...

— Perdoe-me, capitão, mas acho que você não esteve lá recentemente. Só helicópteros podem entrar e sair de Gaborone. O aeroporto foi destruído no grande terremoto.

— Mas com certeza a antiga base militar...

— Destruída também - disse Abdullah.

— O programa de reconstrução comandado por Carpathia não chegou a Botsuana?

— Não, mas depois que o... hã... potentado regional dos Estados Unidos da África passou a morar em Joanesburgo, em um palácio quase tão grande quanto este, o novo aeroporto de lá foi reconstruído e ficou espetacular.

Mac agradeceu aos funcionários e abriu a porta do apartamento de Abdullah. O jordaniano arregalou os olhos ao ver os cômodos.

— Tudo isto só para mim? - ele perguntou.

— Você vai detestar estas coisas - disse Mac.

Depois de fechar a porta, Abdullah olhou para as paredes nuas e cochichou:

— Podemos conversar aqui?

— David me garantiu que sim.

— Espero conhecê-lo logo. Oh! capitão, eu quase chamei o potentado africano de rei! Preciso ser muito mais cuidadoso.

— Nós sabemos que ele é um dos reis, mas aqueles dois não sabem de nada. Pensei que o potentado Rehoboth... qual é o primeiro nome dele...?

— Bindura.

— Correto. Pensei que ele ia mudar a capital para um local mais central, mais perto de sua terra natal... Chade, é isto?

— Sudão. Foi o que ele disse, mas parece que preferiu Joanesburgo. Ele vive no meio de tanta riqueza que você nem pode acreditar.

— Todos os reis vivem assim.

— O que você acha disto, capitão? - perguntou Abdullah quase cochichando. - Carpathia conseguiu a cooperação deles?

Mac encolheu os ombros e balançou negativamente a cabeça.

— Não houve uma espécie de controvérsia entre Rehoboth e Ngumo?

— Ah! sim, houve! Quando Ngumo era secretário-geral da ONU, Rehoboth fez uma tremenda pressão sobre ele para conseguir favores para a África, principalmente para o Sudão. E, quando Ngumo foi substituído por Carpathia, Rehoboth elogiou publicamente a troca.

— E agora um é vizinho do outro.

— E Rehoboth é o rei dele - disse Abdullah.

 

No fim da noite de quinta-feira, em Illinois, Rayford ficou a sós com Leah Rose na cozinha. Ela estava sentada à mesa diante de uma xícara de café. Ele despejou café em sua xícara.

— Você está se ajeitando aqui? - ele indagou.

Ela ergueu a cabeça. - Eu nunca sei o que você está querendo dizer. Ele apontou para uma cadeira. - Posso?

— Claro.

— O que eu poderia estar querendo dizer? - ele perguntou depois de sentar-se.

— Que eu não deveria estar me sentindo à vontade.

— Nós votamos a seu favor! Foi unânime. Até o presidente da mesa votou, e ele nem precisaria ter votado.

— Se tivesse havido empate, como será que o presidente votaria?

Rayford endireitou o corpo na cadeira, segurando a xícara com as duas mãos.

— Está havendo um mal-entendido entre nós desde o início - ele disse. - Tenho certeza de que a culpa foi minha.

— Você não respondeu à minha pergunta.

— Pare com isso. A votação para aceitar uma nova irmã jamais empataria. Hattie ficou aqui durante meses, e ela nem sequer é crente.

— Esta é a conversa de trégua que teríamos ou você está apenas sendo educado?

— Você quer uma trégua? - ele perguntou.

— Você quer?

— Eu perguntei primeiro.

Ela sorriu. - A verdade é que eu quero mais do que uma trégua. Não podemos morar na mesma casa sendo apenas cordiais. Temos de ser amigos.

Rayford não tinha tanta certeza, mas disse:

— Estou disposto a correr o risco.

— Então, tudo aquilo que você disse...

— ... mostrou quanto eu sou ranzinza, é isso? - ele disse levantando o queixo.

Ela concordou com a cabeça. - Considero isto um pedido de perdão implícito. Rayford não havia pedido perdão.

— E quanto a mim? - ela perguntou.

— O quê?

— Eu também preciso ser perdoada.

— Não, você não precisa - ele disse, dando a entender que estava sendo mais generoso do que se sentia naquele momento. - Tudo o que você falou foi porque eu...

Leah pousou a mão no braço dele. - Nem eu me reconheci. Não posso jogar toda a culpa em você. Agora, se vamos começar tudo de novo, temos de começar do zero. Esquecer o que aconteceu.

— Da minha parte, tudo bem - ele disse. , - Tenho algum dinheiro - ela disse.

— Você sempre muda de assunto assim tão rápido?

— Em espécie. Precisamos ir buscá-lo. Está no cofre dentro de minha garagem. Não vou emprestar dinheiro de graça. Quero fazer alguma coisa, e quero pagar minha estada aqui.

— Você é especialista em medicina. Que tal você cuidar de nossa saúde em troca de casa e comida?

— Posso cuidar de vocês, mas não sou especialista em medicina. Não tenho condições de substituir Floyd.

— Somos agradecidos por ter você aqui.

— Mas vocês também precisam de dinheiro. Quando podemos buscá-lo?

Rayford apontou para a xícara de Leah. Ela balançou a cabeça negativamente.

— De quanto dinheiro estamos falando? - ele perguntou. Quando ela lhe contou, ele levou um susto.

— Em notas de quanto?

— De vinte.

— Tudo isso em um cofre?

— Está completamente cheio - ela disse.

— Você acha que o dinheiro ainda está lá? A CG deve ter revistado cada centímetro à sua procura.

— O cofre está tão escondido que até nós sempre tínhamos de nos lembrar onde ele estava.

Rayford lavou as xícaras. - Você está com sono?

— Não.

— Quer ir buscar o dinheiro agora?

 

Mac e Abdullah encontraram-se com David na manhã de sexta-feira. Deixando as apresentações de lado, David perguntou se algum deles tinha idéia do local em que os 144 computadores guardados no compartimento de carga do Condor poderiam ser usados em prol da causa.

— Estou pensando em muitos lugares - disse Mac. - Mas nenhum está na rota da África.

— Eu conheço um - disse Abdullah. - Existe um grupo muito grande de crentes clandestinos em Hawalli. Muitos são profissionais, e eles poderiam...

— Hawalli? - perguntou David. - No Kuwait?

— Sim. Tenho um contato no setor de cargas...

— Esse local fica a leste. Vocês estão voando para sudoeste.

— Só um pouco a leste - disse Abdullah. - Precisamos de um motivo para descer lá.

— O local fica relativamente perto do ponto de decolagem -disse Mac. - Isso vai levantar suspeitas. - Depois de alguns instantes de silêncio, ele voltou a falar: - A menos que...

David e Abdullah olharam para ele.

— Qual a distância de nosso vôo? - perguntou Mac.

— Daqui até o Kuwait? - perguntou Abdullah, pegando seu roteiro.

— Não, até a África.

— Mais ou menos 6.500 quilômetros.

— Então vamos precisar de tanque completamente cheio para voar sem escala. Como queremos economizar o dinheiro da CG, vamos fazer um rápido desvio para reabastecer a um bom preço.

— Excelente - disse David. - Vou negociar imediatamente. Se eu conseguir alguns centavos de desconto por litro no preço do combustível, o desvio valerá a pena.

— O que o meu contato vai precisar para receber a carga? - perguntou Abdullah.

— Uma empilhadeira grande. Um caminhão grande.

 

— Por que você precisou deixar um bilhete? - perguntou Leah a Rayford quando eles partiram no Land Rover rumo a Palatine. - Com certeza estaremos de volta antes que alguém acorde.

— Eu não ficaria surpreso - ele disse -, se alguém já andou lendo o bilhete. Ouvimos tudo naquela casa. Na calada da noite, ouvimos sons nas paredes, sons vindos de fora. Tivemos sorte até agora. Esperamos que alguém nos avise para podermos nos esconder antes que nos descubram. Sempre dizemos a todos aonde vamos. Buck não fez isso no dia em que levou Floyd para que você cuidasse dele, mas foi uma emergência. Todos ficaram aborrecidos.

Rayford passou os 40 minutos seguintes desviando o carro dos escombros e procurando um caminho mais suave. Ele gostaria de saber quando o trabalho de reconstrução propagado por Carpathia começaria a ser feito nas cidades menores.

Leah fez muitas perguntas a respeito de cada membro do Comando Tribulação, como eles se conheceram, como se tornaram crentes, como se reuniram.

— Foram muitas perdas em tão pouco tempo - ela disse depois que Rayford respondeu a todas as suas perguntas. -Depois de todo esse sofrimento, não sei como vocês ainda têm forças para trabalhar.

— Estamos tentando não pensar nisso. Sabemos que a situação vai piorar. Parece uma frase muito batida, mas a gente precisa pensar no futuro, e não no passado. Se deixarmos o sofrimento tomar conta de nós, não vamos conseguir nada.

Leah passou a mão pelos cabelos.

— As vezes não sei por que desejo viver até o Glorioso Aparecimento. Aí, meu instinto de sobrevivência prevalece.

— E por falar em... - disse Rayford.

— No quê?

— Nada, não estou acostumado a um trânsito como este. Ela encolheu os ombros. - Esta região não foi tão atingida quanto a sua. Não há ninguém escondido aqui. Todo mundo conhece todo mundo.

Eles concordaram que Rayford deveria estacionar a alguns quarteirões de distância e que caminhariam por entre as sombras até a casa de Leah. Rayford abriu o porta-malas do Rover e pegou uma sacola grande de lona e uma lanterna.

Quando chegaram perto da casa, Leah parou.

— Eles nem sequer tiveram o trabalho de fechar a porta -ela disse. - O local deve ter sido saqueado.

— Se a CG não levou tudo, os saqueadores levaram - disse Rayford. - Assim que eles souberam que você fugiu, sua casa passou a ser de domínio público. Você quer dar uma olhada?

Ela balançou a cabeça negativamente. - É melhor a gente entrar e sair rápido da garagem. Meus vizinhos podem ouvir a porta abrindo.

— Existe uma entrada lateral?

— Sim.

— Você tem a chave?

— Não.

— Eu posso arrombar a porta. Os vizinhos não vão ouvir, a não ser que estejam à sua espera.

 

Quando Mac se encontrou com Abdullah no hangar para lhe falar sobre a velocidade do Condor 216, Annie já estava lá, supervisionando o pessoal encarregado de cuidar das cargas.

— Mais, cabo? - perguntou Mac.

— Sim, capitão. O diretor do Departamento de Compras pediu que transportássemos esta grande quantidade de gêneros alimentícios excedentes para o Kuwait. Ele conseguiu com o pessoal de lá um desconto excelente no preço do combustível. Enquanto vocês estiverem reabastecendo, poderão descarregar esta mercadoria.

Abdullah ficou em silêncio dentro do avião até o momento em que eles entraram na cabina de comando e Mac lhe mostrou o botão secreto.

— Imagine o que eles vão fazer conosco quando descobrirem - disse Mac.

Quando faltavam dez minutos para as oito horas, Mac e Abdullah terminaram a conferência preliminar de todos os itens do vôo e entraram em contato com a torre do palácio. Três pessoas trajando aventais brancos correram em direção ao avião.

— É o pessoal da cozinha - disse Mac. - Eles podem entrar. Abdullah abriu a porta e desceu a escada. O cozinheiro, um homem de meia-idade, com dedos curtos e grossos e rosto molhado de suor, carregava uma panela fumegante coberta com papel-alumínio.

— Saia da frente, saia da frente - ele dizia com

sotaque escandinavo. - Ninguém me avisou que o supremo comandante queria tomar o desjejum a bordo.

Abdullah afastou-se enquanto o cozinheiro e dois ajudantes passaram apressados por ele.

— Como você ficou sabendo? - perguntou Abdullah.

O cozinheiro entrou rapidamente na cozinha e começou a dar ordens aos gritos. Ao perceber que Abdullah estava por perto, ele virou-se.

— Sua pergunta foi retórica, sarcástica ou sincera?

— Não sei o que significam as palavras retórica e sarcástica - disse Abdullah.

O cozinheiro curvou-se sobre o balcão com ar de quem não podia acreditar que estava perdendo tempo por ter de responder a uma pergunta do co-piloto.

— Eu quis dizer - explicou o cozinheiro, como se estivesse conversando com uma criança -, que ninguém me avisou antes, que só fiquei sabendo agora pela boca do próprio supremo comandante. Se ele está querendo comer Ovos Benedict [ovos cozidos com bacon e molho holandês, servidos sobre a metade de um bolinho] logo após o avião levantar vôo, é isto o que vou lhe servir. Mais alguma pergunta?

— Sim, senhor.

O cozinheiro olhou espantado para Abdullah.

— Qual é?

— Você não quer causar uma boa impressão ao supremo comandante?

— Se eu não quisesse, não teria corrido até o avião carregando uma panela quente, você não acha?

— Conheço o comandante Fortunato e sei que, quando ele diz logo após o avião levantar vôo, não é bem assim.

— Sério?

— Veja, vamos fazer uma breve escala no Kuwait pouco depois da decolagem, e ali seria o momento ideal para você servir-lhe o desjejum. Um lugar mais tranqüilo, mais descontraído, sem perigo de alguma coisa espirrar na roupa dele.

— No Kuwait?

— Poucos minutos depois da decolagem.

— Ei, pessoal! - gritou o cozinheiro para seus ajudantes.

— Mantenham as vasilhas quentes. Vamos servir o desjejum no Kuwait.

 

Conforme Rayford esperava, a porta lateral que dava acesso à garagem da casa de Leah pôde ser arrombada sem muito esforço. Porém, quando ele entrou e pediu a ela que lhe apontasse o cofre, percebeu que estava sozinho. Rayford, conteve-se antes de chamá-la, pois não queria complicar a situação caso houvesse algum problema. Ele virou-se lentamente e caminhou na ponta dos pés até a porta.

A princípio, Rayford não enxergou Leah, mas ouviu sua respiração ofegante. Ela estava ajoelhada perto dele na grama úmida, arfando, com dificuldade para respirar.

— Eu... eu... eu... - ela murmurava.

Ele ajoelhou-se ao lado dela. - O que foi? Você está bem? Viu alguém?

Na escuridão, com medo de erguer a cabeça, Leah apontou para um local atrás de Rayford. Ele acendeu a lanterna e iluminou o local para ver se havia alguém se aproximando. Não havia ninguém.

— O que você viu? - ele perguntou.

Leah chorava baixinho, sem conseguir falar.

— Vou levá-la para dentro - ele disse, ajudando-a a > levantar-se e arrastando-a até a garagem como se ela fosse uma criança sonolenta. - Leah! Por favor, coopere comigo. Você está em lugar seguro.

Ela sentou-se no chão, abraçando os joelhos dobrados contra o peito. - Eles ainda estão lá? Tranque a porta, por favor.

— Eu arrombei a porta - ele disse. - Quem está lá fora?

— Você tem certeza de que não os viu?

— Quem? - ele perguntou em um sussurro. Ela estava tremendo. - Você precisa levantar-se deste chão frio.

Rayford estendeu a mão para ajudá-la a levantar-se, mas ela o afastou.

— Não tenho forças para sair daqui - ela disse, cobrindo o rosto com os dedos trêmulos. - Você vai ter de trazer o carro até aqui. Ele não esperava que ela oferecesse tanta resistência.

— É arriscado demais.

— Eu não posso, Rayford! Sinto muito.

— Então, vamos pegar o dinheiro e ir embora.

— Esqueça o dinheiro. Eu não tenho condições de abrir o cofre.

— Por que não?

Ela apontou novamente para fora.

— Leah - disse Rayford da maneira mais suave que podia -, não há ninguém lá fora. Estamos seguros. Vamos pegar o dinheiro, correr para o carro e voltar para casa, está bem?

Ela balançou a cabeça negativamente.

— Nós vamos, sim! - ele disse, segurando-a pelo cotovelo para erguê-la do chão. Leah tinha dificuldade para movimentar-se. Rayford a levou até a parede e endireitou o corpo dela. - Conte-me o que você viu.

— Cavalos - ela disse. - Enormes, escuros, logo atrás da casa, bloqueando todo o horizonte. Não pude distinguir os cavaleiros, porque os cavalos expeliam fogo e fumaça pela boca. Mas havia centenas de cavaleiros, talvez mais, montados nos cavalos. Eram grandes demais, horríveis. As cabeças dos cavalos, Rayford, eram iguais a cabeças de leões, com dentes enormes!

— Espere aqui - disse Rayford.

— Não me deixe sozinha! - gritou Leah, agarrando-o pelos pulsos e fincando-lhe as unhas.

Rayford livrou-se das mãos dela. - Você está protegida aqui.

— Não se aproxime deles! Eles estão flutuando.

— Flutuando?

— Os pés deles não estão apoiados no chão!

— De acordo com Tsion, eles não deviam ser reais - disse Rayford.

— Tsion os viu?

— Você não leu a mensagem dele sobre isto?

— Eu não tenho mais computador.

— Eles devem ser os cavaleiros descritos em Apocalipse 9, Leah! Não vão nos atacar!

— Você tem certeza?

— O que mais poderia ser?

Leah começou a respirar com mais facilidade, mas, mesmo sob a iluminação fraca da lanterna, Rayford viu que ela estava pálida.

— Vou até lá para verificar - ele disse. - Tente lembrar qual é o segredo do cofre.

Ela fez um movimento afirmativo com a cabeça, mas não saiu do lugar. Rayford correu até a porta.

— Olhe para o leste - ela murmurou. - No horizonte. Mesmo sabendo que estava em segurança, ele olhou em direção ao horizonte pela fresta da porta. A noite estava fria e silenciosa. Ele não avistou nada. Abriu a porta, deu alguns passos e subiu em uma pequena elevação de terra para enxergar melhor por entre as casas vizinhas. Seu coração batia com força, mas ele ficou desapontado por não ter visto nada do que Leah lhe contou. Teria sido uma visão? Por que só ela viu?

Rayford voltou para perto de Leah. Ela havia se afastado da parede, mas continuava olhando para o chão.

— Você os viu? - ela perguntou.

— Não.

— Eles estavam lá, Rayford! Eu não estava sonhando!

— Eu acredito em você.

— Acredita mesmo?

— Claro! Mas, de acordo com Tsion, eles não seriam visíveis. Ele vai ficar satisfeito quando souber.

— Para onde eles podem ter ido? Eram muitos para terem se afastado tão depressa.

— Leah - disse Rayford, escolhendo as palavras com cuidado -, estamos falando de um fato sobrenatural, da guerra entre o bem e o mal. Não existem regras, pelo menos do ponto de vista humano. Se você viu os cavaleiros profetizados no livro de Apocalipse, talvez eles tenham poderes para aparecer e desaparecer.

Ela cruzou os braços e começou a balançar o corpo para a frente e para trás.

— Sobrevivi ao terremoto. Vi os gafanhotos. Você viu? Rayford fez que sim com a cabeça.

— Você chegou bem perto dos gafanhotos, Rayford?

— T e eu vimos um bem de perto.

— Então você sabe.

— Claro que sei.

— Foi a coisa mais horrível que já vi. Eu não vi os cavalos tão de perto, mas eles pareciam monstros. Posso dizer que eles estavam perto do horizonte, mas eram tão grandes que consegui enxergar os detalhes. Eles não têm permissão para nos atacar?

— Tsion diz que eles têm poder para matar a terça parte da população.

— Mas não os crentes?

— Não. Eles vão matar aqueles que não se arrependeram de seus pecados.

— Se eu não me arrependi antes, estou me arrependendo agora! - ela disse.

 

Com o cozinheiro, seus ajudantes, Fortunato e dois de seus assessores a bordo, Mac taxiou para fora do hangar rumo à pista de decolagem sul do palácio da Comunidade Global. Assim que o avião levantou vôo, ele cumprimentou os passageiros pelo interfone, informando-lhes sobre a rápida escala no Kuwait e que, em seguida, voariam quase 6.500 quilômetros até Joanesburgo. Após alguns instantes, alguém bateu com força na porta da cabina de comando.

— Deve ser Leon - disse Mac, fazendo um gesto para que Abdullah abrisse a porta. - Já era hora de você conhecê-lo.

Leon passou por Abdullah sem lhe dar atenção e dirigiu-se a Mac.

— Que história é esta de fazer uma escala no Kuwait, capitão? Eu tenho uma agenda a cumprir!

— Bom-dia, Comandante - disse Mac. - Nosso novo co-piloto me garantiu que, mesmo pousando lá, o senhor chegará a tempo para sua reunião. Abdullah Smith, este é o Supremo Co...

— Não quero atrasos - disse Fortunato. - Por que fazer escala no Kuwait?

— Vamos matar dois coelhos com uma só cajadada, senhor - disse Mac. O diretor Hassid conseguiu um ótimo desconto no preço do combustível, e nossa nova chefe de cargas combinou algumas entregas lá, uma vez que íamos voar naquela direção. Com isso, economizamos um bom dinheiro do setor administrativo.

— Não diga!

— É verdade, senhor.

— Qual é mesmo o seu nome, jovem?

— Abdullah Smith, senhor.

— Eu estou faminto. Você aceitaria comer Ovos Benedict esta manhã, co-piloto Smith?

— Não, obrigado, senhor. Já me alimentei.

— Capitão McCullum, eu gostaria de ser informado antecipadamente sobre mudanças de rota.

— Conforme eu lhe disse, senhor, não é bem uma mudança ' de rota. Apenas um pequeno desvio...

A porta foi fechada com força. Abdullah olhou para Mac com a testa franzida.

— Charmoso ele, não? - disse Abdullah.

Mac apertou o botão secreto sob sua poltrona para ouvir o que se passava na cabina de passageiros.

— Karl, quando você vai me servir os ovos? Você preparou o suficiente para todos nós, inclusive você?

— Sim, senhor Supremo Comandante. Vou servi-los em terra... ou melhor... vou servi-los quando estivermos parados temporariamente no Kuwait.

— Eu estou faminto agora, Karl.

— Desculpe-me, senhor. Alguém me disse que o senhor preferia se alimentar durante um momento tranqüilo, sem solavancos, enquanto estivéssemos reabastecendo.

— Quem lhe disse isto?

— O co-piloto, senhor.

— O novo co-piloto? Ele nem sequer me conhece!

— Bem...

— Conversaremos depois sobre este assunto.

Mac desligou o botão, apertou outro botão que lhe permitia conversar com Abdullah por meio dos fones de ouvido e contou-lhe rapidamente o diálogo entre Leon e o cozinheiro.

— Obrigado - disse Abdullah enquanto alguém batia na porta outra vez.

— Qual é o seu nome, co-piloto? - perguntou Leon.

— Smith, senhor.

— Foi você quem disse ao cozinheiro para servir o desjejum no Kuwait e não enquanto estivéssemos voando?

— Eu apenas o informei sobre o pequeno desvio de rota e mencionei que o senhor talvez preferisse...

— Então foi idéia sua. Você lhe disse o que eu preferia, apesar de não me conhecer.

— Eu assumo a responsabilidade, senhor. Se foi uma falha minha, eu...

— Você acertou em cheio, Smith. Só não sei como você sabia que eu detesto comer um prato como este com o avião balançando de um lado para o outro. Eu não quis ofendê-lo, Mac... isto é, capitão.

Mac foi tentado a chamá-lo de Leon e dizer-lhe que não ficara ofendido, mas limitou-se a fazer um gesto de positivo. O Condor voava praticamente sozinho, mas Mac gostava de dar a impressão, conforme Rayford dizia, de "manter os olhos na estrada e as mãos no volante".

— Então, como você sabia disto, co-piloto Smith? - inquiriu Fortunato.

— Eu só imaginei - ele respondeu. - Eu não gostaria de comparecer a uma reunião tão importante com a camisa manchada de gema de ovo e molho holandês.

Após alguns instantes de silêncio, Mac virou-se para ver se Fortunato havia ido embora. Ainda não. Ele parecia atônito. Tombou o tronco para trás, com a boca aberta e os olhos quase fechados. De repente, voltou à posição normal, rindo e tossindo ao mesmo tempo, e deu um tapa tão forte no ombro de Abdullah que o fez afundar no assento da poltrona.

— Essa foi boa! - disse Fortunato em meio a uma gargalhada. - Gostei! - Enquanto saía da cabina de comando, fechando a porta atrás de si, ele repetiu: - Camisa manchada de gema de ovo e molho holandês!

Mac apertou o botão secreto novamente.

— Eu não tive a intenção de complicar a vida do co-piloto - Karl disse.

— Bobagem! Foi uma boa idéia! Sirva o desjejum no Kuwait. Quanto tempo falta?

— Apenas alguns minutos, senhor, pelo que entendi.

— Ótimo. Assim, vou poder participar da reunião com a camisa limpa. Você deveria ter pensado nisto, Karl.

 

O cofre de Leah estava escondido em cima de uma plataforma suspensa, atrás de uma casinha de cachorros embolorada que pertenceu aos filhos dela. Rayford a ajudou a subir em uma escada e aguardou até que ela afastasse a casinha e outras bugigangas. Ele subiu na escada atrás de Leah e ficou apontando a lanterna por cima do ombro dela para iluminar a fechadura do cofre.

— Como você conseguiu trazer esta coisa até aqui? - ele cochichou. - Deve pesar uma tonelada.

— Não queríamos que os vizinhos soubessem - ela disse, com a voz ainda trêmula. - Meu marido, Shannon, pediu que o cofre fosse entregue em uma caixa simples, e ele alugou um andaime hidráulico. Um vizinho perguntou para que serviria o andaime, e Shannon lhe disse que queria substituir algumas telhas da garagem que estavam quebradas. Aparentemente, o vizinho ficou satisfeito com a resposta.

— E daí? Depois que vocês ergueram o cofre, foi difícil colocá-lo no lugar?

— Achamos que a plataforma não ia agüentar.

O cofre tinha cerca de 90 cm de altura por 60 cm de largura, e Leah não estava brincando quando disse que havia muito dinheiro ali. Assim que a porta foi aberta, ela disse:

— Tivemos de guardar os outros objetos de valor no cofre do banco.

O cofre estava abarrotado de maços de notas de 20 dólares.

— Podíamos usar isto na casa secreta - disse Rayford.

— É por isto que estamos aqui.

— Estou falando do cofre. Jamais poderíamos aceitar todo este dinheiro. Não haverá tempo suficiente para gastá-lo.

— Bobagem. Vocês vão precisar de mais veículos, e não sabem quantas pessoas podem passar a morar lá.

Eles encheram rapidamente a sacola com o dinheiro.

— A sacola vai ficar pesada demais para ser carregada - disse Rayford. - Ajude-me a empurrá-la para que ela caia no chão.

Depois de muito esforço, eles conseguiram arrastar a sacola até a beira da plataforma. Os maços de notas se misturaram dentro e ela caiu no chão, com um baque surdo, levantando uma nuvem de poeira. Rayford apagou a lanterna e prendeu a respiração.

— Você está me vendo? - ele cochichou.

— Mais ou menos.

Rayford fez um sinal para que Leah descesse da escada atrás dele. A descida foi tão difícil quanto a subida. Quando ele chegou ao chão, ajudou-a a descer os últimos degraus.

— Você está se achando um cavalheiro por ter-me ajudado a descer - ela cochichou.

— Só se você for uma dama.

Eles viraram a sacola e passaram a mão nela no escuro para ver se tudo estava em ordem. Um feixe de luz brilhou no rosto deles.

— Você é Leah Rose? - inquiriu uma voz.

Leah deu um suspiro e olhou para Rayford. - Sim - ela disse em voz baixa. - Sinto muito, R...

— Não fale meu nome! - ele disse entre os dentes. - E não finja ser outra pessoa.

— Você é ou não é Leah Rose? - soou a voz novamente.

— Eu respondi que era, certo? - ela disse, sem muita segurança, como se estivesse mentindo. Rayford surpreendeu-se diante da rapidez com que ela se recompôs.

— E você, quem é? - perguntou o desconhecido.

— Eu? - perguntou Rayford.

— Seu nome.

— Quem está querendo saber?

— Forças Pacificadoras da CG.

— Ah! que alívio! - disse Rayford. - Nós também somos. O comandante Sullivan pediu-me que eu desse uma olhada aqui. A casa foi saqueada depois que seu pessoal saiu. Ele queria que verificássemos a garagem.

Alguém apertou um interruptor, acendendo uma lâmpada de luz fraca acima da cabeça de Rayford. Ele semicerrou os olhos e viu quatro policiais da CG armados, três homens e uma moça.

— O que você estava fazendo no escuro? - perguntou o líder. Na farda dele, havia a insígnia de tenente.

Rayford olhou para cima. A lâmpada estava à distância de um braço.

— Ouvimos um barulho lá fora e apagamos a luz.

— Humm - disse a policial, aproximando-se. - Preciso ver suas carteiras de identidade.

A policial olhou para Rayford com ar de dúvida. Um dos homens olhou para a plataforma.

— Eu sou Pafko - disse Rayford, tentando desesperadamente lembrar-se em que bolso ele colocara sua carteira de identidade falsa. - Andrew. Aqui está.

— E você, madame?

— Ela se chama Fitzgerald.

— Meus documentos estão no carro - ela disse.

— Tenente! - chamou o outro policial. - Há um cofre aberto ali em cima.

O tenente devolveu a carteira de identidade a Rayford.

— Você não estava planejando levar alguma coisa daqui, estava, Pafko?

— Vou prestar contas de cada centavo.

— Hum - disse o policial virando-se para a moça. - ' Verifique com a Central. Andrew Pafko, da divisão de Des Plaines. E Fitzgerald. Qual é o seu primeiro nome, madame, e a que divisão pertence?

— Pauline - respondeu Leah. - Também de Des Plaines. A moça pegou o telefone que estava preso a uma tira em seu ombro.

Rayford se assustou. O telefonema poria tudo a perder. Eles seriam facilmente identificados, talvez torturados e mortos, se não revelassem os nomes dos outros membros do Comando Tribulação. Ele merecia isso por não ter sido mais cuidadoso, mas Leah não.

— Não há necessidade, tenente - disse Rayford. - Antes que a sede do quartel saiba onde estamos, não seria melhor a gente dar um tempo e esquecer que nós seis estivemos aqui esta noite? Sou tão leal à causa quanto o senhor, mas nós dois sabemos que a Sra. Rose era uma militante rebelde. Se todo este dinheiro era dela, agora é nosso, não?

O tenente hesitou, e a policial afastou a mão do telefone. O tenente ajoelhou-se perto da sacola.

— O senhor está acreditando nisto? - perguntou a policial ao tenente. - Acha mesmo que ele é da CG?

O tenente olhou para ela. - Como ele poderia saber o motivo de estarmos atrás da Sra. Rose?

Ela encolheu os ombros e começou a examinar o cofre. Os outros dois policiais caminharam até a porta, talvez para verificar se havia algum curioso por perto. Rayford passou a mão pelos cabelos. Será que ele havia conseguido quatro cúmplices?

Ele olhou firme para Leah como que pedindo para que ela deixasse o assunto por conta dele. Leah estava tão petrificada quanto no momento em que vira os cavalos. Rayford postou-se de maneira casual entre o tenente e a porta. Leah o acompanhou.

O tenente viu o dinheiro e deu um assobio. Os outros dois policiais e a moça aproximaram-se para ver. Enquanto eles concentravam o olhar na sacola, Rayford e Leah dirigiram-se mais para perto da porta. Leah poderia ter-se esgueirado sem ser vista, mas Rayford não podia fazer nada, portanto ela não saiu do lugar.

— Há uma boa quantia para todos nós - disse um dos policiais. O tenente assentiu com a cabeça, mas Rayford percebeu que a moça olhava firme para Leah. Ela pegou alguns papéis do bolso traseiro e folheou-os. Em seguida, parou e voltou a olhar para Leah.

— Tenente... - disse a moça.

— Deixe-me mostrar-lhes uma coisa - interrompeu Rayford, enfiando a mão dentro da sacola e retirando um maço de notas de 20 dólares. - Calculem que cada maço tenha 50 notas de 20 dólares. - Ele segurou a sacola por um dos lados e deixou que os maços de notas rolassem para o outro. A moça fez um gesto para pegar a arma. Rayford levantou o maço de notas. - Não seria ótimo dividirmos tudo e... sumir daqui? Agora? - Ele deu uma pancada na lâmpada com o dinheiro e a garagem ficou às escuras.

Rayford virou-se rapidamente e correu atrás de Leah, que fugia pela porta lateral. Ele ouviu um tiro e ruído de madeira estalando, e percebeu que o tenente havia acendido uma lanterna possante atrás deles. Enquanto Rayford e

Leah corriam pelo piso escorregadio, ele calculou que as possibilidades de chegarem ao Land Rover antes dos policiais seriam mínimas. Mas Rayford não queria ficar ali e ser preso. Alguém acionou o botão automático da garagem, e Rayford ouviu a porta levantando-se. Ele olhou furtivamente para trás e viu os quatro policiais correndo em sua direção, com as armas engatilhadas.

— Rápido! - Rayford gritou ao virar-se para ver onde Leah estava. Mas ela havia parado. Ele correu na direção dela, e os dois se chocaram violentamente, rolando sobre a grama.

Alguma coisa tinha acontecido. Será que sua perna estava quebrada, ou ele havia esmagado a dela? Por que Leah parará de repente? Ela estava se saindo tão bem! Eles ainda tinham uma chance. O Land Rover estava à vista. Será que a CG atiraria neles? Ou os prenderia? Rayford preferia ir para o céu a pôr em risco a vida de seus queridos.

— Deixe que eles atirem - ele disse com a voz rouca, tentando levantar-se. Mas Leah estava de quatro na grama, olhando para o carro por entre os fios de cabelo que caíam sobre seu rosto.

Rayford olhou para trás. Os policiais tinham desaparecido. Ele olhou para o ponto em que Leah tinha os olhos cravados. Lá estavam os cavalos, a menos de três metros dele -enormes, monstruosos, duas vezes maiores do que qualquer outro que ele já vira. Leah tinha razão, os pés dos cavalos não estavam apoiados no chão, mas, mesmo assim, eles se movimentavam para a frente e para trás e giravam o corpo.

Chamas saíam de suas bocas e narinas, fazendo subir uma espessa fumaça amarela. O fogo iluminava suas cabeças grotescas, iguais a cabeças de leões com enormes dentes caninos, e caudas movimentando-se para cima e para baixo. Rayford levantou-se lenta e penosamente. Agora ele compreendia o comportamento de Leah quando ela os vira pela primeira vez.

— Eles não vão nos atacar - ele disse esperançosamente, com voz fraca e ofegante.

Rayford tremia, tentando gravar a cena na memória. Atrás da primeira fileira de cavalos havia centenas de outros, agitados e movimentando-se sem parar como se estivessem ansiosos para atacar e correr. Os cavaleiros eram enormes, de tamanho proporcional ao dos cavalos. Eles pareciam seres humanos, mas tinham cerca de três metros de altura e deviam pesar mais de 200 quilos.

Rayford engoliu seco, com o peito arfando. Ele queria ver como Leah estava, mas não podia desviar o olhar. O cavalo diante dele, a menos de três passos de distância, começou a rodar em círculos. Rayford viu que sua cauda não tinha pêlos. Era uma serpente se contorcendo, cuja cabeça tinha o dobro do tamanho do pulso dele. Ao virar-se, ela arreganhou as presas.

Os cavaleiros pareciam estar com o olhar fixo a quilômetros de distância, bem acima da cabeça de Rayford. Cada cavaleiro possuía uma couraça que, iluminada pelas chamas, reluzia em tons amarelos, azuis e vermelhos. Apesar de serem fortes e terem braços e bíceps musculosos, os cavaleiros tinham dificuldade para controlar os cavalos.

Rayford não ouvia nenhum ruído das patas dos cavalos, não sentia o cheiro deles, nem do fogo e da fumaça. Ele só sabia que eles gemiam e resfolegavam por causa do fogo e da fumaça. Não havia sons de rédeas, selas e escudos. Mesmo assim, os cavalos-leões e seus cavaleiros eram mais brilhantes do que qualquer outra coisa que ele já vira.

Finalmente, Rayford olhou para Leah. Ela parecia catatônica, olhos arregalados, boca escancarada.

— Respire fundo - ele lhe disse.

Será que Deus havia providenciado aquelas criaturas para protegê-los? Certamente os policiais deviam ter corrido para se salvar. Rayford virou-se novamente e, a princípio, não viu nada entre ele e a garagem. Mas, de repente, ele avistou os quatro policiais estendidos no chão, imóveis.

Ele ouviu sirenes, viu helicópteros vasculhando a área com holofotes, ouviu guardas correndo, gritando.

— Precisamos ir embora, Leah - ele disse. - Podemos caminhar por entre os cavalos. Eles não são cavalos verdadeiros.

— Vocês dois aí!

Rayford virou-se. Dois guardas cutucaram os quatro policiais com suas botas enquanto gritavam para Rayford e Leah.

— Fiquem onde estão!

Eles aproximaram-se com cuidado. Finalmente, Leah desviou o olhar dos cavalos, olhou para trás por cima dos ombros e murmurou:

— Acho que quebrei uma costela. - Ela voltou-se na direção dos guardas com os olhos semicerrados. - Será que eles não estão com medo dos cavalos?

O que havia de errado com os guardas? Assim que se aproximaram - dois homens com pouco mais de 20 anos -, eles apontaram as armas para Rayford e Leah. Rayford sabia que os cavalos estavam atrás dele por causa do reflexo das chamas que brilhavam no rosto dos guardas.

— O que vocês sabem sobre aqueles policiais mortos? -perguntou um deles.

— Nada - respondeu Leah, ainda de quatro sobre a grama. -O que você acha de nosso exército?

— Levante-se, madame.

— Eles não podem vê-los - disse Rayford.

— Não podemos ver quem? - inquiriu o guarda. - Venham conosco.

— Você não está vendo nada - disse Rayford secamente.

— Eu lhe disse para levantar-se, madame! - gritou o outro guarda. Assim que ele caminhou na direção de Leah, Rayford o interceptou.

— Filho, preciso adverti-lo. Se...

— Advertir-me? Posso matar você com um tiro e não vou precisar responder por isto.

— Você está correndo perigo. Nós não matamos aqueles poli... O guarda deu um grito enquanto seu corpo transformava-se em chamas, rodando e iluminando a área como se fosse dia. Um dos cavalos passou por Rayford e deu um giro rápido, atingindo o outro guarda na testa com sua cauda. O guarda foi atirado longe como se fosse uma boneca de pano. Sua cabeça foi esmagada contra uma árvore a três metros de distância.

Aos poucos, Leah conseguiu ficar em pé. O suor corria-lhe pelo rosto até o queixo. Ela foi ao encontro de Rayford como se estivesse caminhando em câmera lenta.

— Nós... vamos... morrer - ela balbuciou.

— Nós não - disse Rayford, recuperando o fôlego. - Onde está doendo? Aperte a palma da mão sobre o local.

Ela segurou firme a caixa torácica do lado direito, e Rayford passou o braço ao redor da cintura dela, ajudando-a a dirigir-se para o carro. Ele semicerrou os olhos por causa das chamas e caminhou através dos corpos dos cavalos como se estivesse atravessando um holograma. Leah enterrou o rosto no ombro dele.

— Eles estão em outra dimensão? O que é isto?

— Uma visão - ele disse, sabendo pela primeira vez que eles não seriam atingidos. - Tsion estava certo. Eles não têm corpos físicos.

Agora eles estavam no meio da tropa, e Rayford não conseguia enxergar onde ela terminava, sentindo-se como uma criança cercada de uma multidão de adultos. Finalmente, eles atravessaram a última fileira de cavalos e avistaram o Rover a 30 metros de distância.

— Você está bem? - ele perguntou.

— Sim, mas parece que estou sonhando - ela respondeu.

— Amanhã, não vou acreditar no que vi. Nem agora estou acreditando.

Rayford apontou para uma distância de quase um quilômetro a oeste onde mais um grande número de cavalos ferozes se agrupava. Leah apontou para o outro lado, onde havia outro grupo. Os de trás pareciam dirigir-se à cidade onde Leah morava.

Eles entraram no carro, e Rayford seguiu pela rua da casa de Leah, coisa que não havia ousado fazer antes. A fumaça preta e amarela que saía das bocas dos cavalos afugentou os guardas da CG. Muitos estavam caídos no chão como se tivessem sido mortos no ato. As pessoas saíam das casas no meio da fumaça que se espalhava pela área, falando, tossindo, caindo ao chão. Em vários lugares, os cavalos expeliam fogo suficiente para incinerar as casas.

Rayford deu marcha a ré e parou diante da garagem de Leah.

— Espere aqui - ele disse.

— Rayford! Não! Vamos embora!

Ele saltou do carro. - Não vou deixar todo aquele dinheiro...

— Por favor! - ela gritou.

Rayford passou por cima dos corpos e entrou na garagem. Fechou a sacola com o zíper e colocou-a em cima do ombro. Mesmo caminhando através da fumaça e das chamas, ele não sentiu nenhum cheiro. Depois de colocar a sacola no porta-malas do Rover, ele sentou-se ao volante. Enquanto saía dali, ele olhou para Leah.

— Bem-vinda ao Comando Tribulação - ele disse. Ela balançou a cabeça, segurando firme as costelas. Rayford acelerou rumo à casa secreta.

— E melhor apertar o cinto de segurança - ele disse, virando-se para Leah.

Mac passou despercebido por Fortunato e seus convidados enquanto eles tomavam o café da manhã e desceu do avião para supervisionar o reabastecimento de combustível. Do local onde se encontrava, podia observar o desembarque da carga. Assim que Abdullah abriu a porta do compartimento de carga, várias empilhadeiras começaram a rodar sobre a pista e entraram no avião, subindo pela rampa de alumínio. Enquanto Fortunato saboreava seu desjejum, 144 computadores e mais de uma tonelada de gêneros alimentícios estavam saindo clandestinamente do Condor 216 e cairiam nas mãos dos inimigos da CG antes do pôr-do-sol. Brilhante, Abdullah, pensou Mac. Nada como uma refeição para distrair a atenção do supremo comandante.

 

Buck despertou no momento em que Chloe atendeu ao telefone.

— Que horas são? - ele perguntou.

Chloe apontou para o relógio que marcava meia-noite e meia.

— Silêncio - ela disse. - É o papai.

— O bilhete diz que ele e Leah... Novamente, Chloe pediu-lhe silêncio.

— Lá fora? - ela estava dizendo. - Por quê?... Tudo bem! Vou fazer isso... Tsion? Você está falando sério? Quer que eu vá acordá-lo?... Está bem, chegue logo!

Ela desligou.

— Levante-se, Buck.

— O quê? Por quê?

— Vamos. Papai quer que você acorde Tsion e olhe pela janela.

— O que é...

— Rápido! Ele e Leah estão voltando para casa.

— O que ele quer que a gente veja?

— Os 200 milhões de cavaleiros.

— Já? Você conseguiu vê-los?

— Vá acordar Tsion.

 

Depois da decolagem, Mac pediu a Abdullah que assumisse o comando da aeronave.

— Quero ver se Leon vai começar a falar sobre estratégia. Ele estendeu a mão para trás para verificar se a porta da cabina de comando estava fechada, desatou o cinto de segurança, recostou-se na poltrona, fechou os olhos e apertou o botão secreto. Um dos assessores de Fortunato estava tentando impressioná-lo.

— Vai ser bom demais quando ele descobrir que Carpathia não veio e que só você está aqui.

— Eu nunca ouvi você referir-se ao potentado pelo sobrenome...

— Desculpe-me, comandante. Eu quis dizer Sua Excelência, o potentado. Será ótimo quando Ngumo descobrir que o potentado Rehoboth, além de ter tomado conhecimento desta reunião, também foi convidado.

O outro assessor intrometeu-se na conversa.

— Então, estamos fazendo esta viagem só para o senhor pôr Ngumo em seu devido lugar?

— A pergunta é válida - disse Leon. - Ingênua, porém válida. Esta vai ser uma maneira muito inteligente de fazer as coisas. Não se trata de um simples insulto; é um insulto para calar fundo. Apesar de nossos sorrisos e atitudes subservientes, ele perceberá claramente que se trata de um tapa na cara. Ele não vai reunir-se com Sua Excelência. Nem sequer vai ficar frente a frente com o supremo comandante em particular. Ele não receberá nada do que pediu e vai ficar sabendo por quê. Eu poderia ter feito isso por telefone, mas a satisfação não seria a mesma. De qualquer forma, trata-se de uma missão para estabelecermos uma coalizão.

— Com Rehoboth?

— Exatamente. É muito importante que Sua Excelência confie em seus potentados regionais. Basta acertar mais alguns pontos com Bindura e conquistaremos de vez sua lealdade. Existem boatos de insurreição, mas temos certeza absoluta de que podemos contar com seis potentados e 90% de certeza quanto a Rehoboth. Os três restantes passarão para o nosso lado quando chegar o momento de resolver o problema de Jerusalém; caso contrário, serão substituídos.

— Problema de Jerusalém?

— Não me decepcione. Você tem trabalhado tão próximo de mim durante todo este tempo e não sabe o que estou querendo dizer quando me refiro ao prob...

— As duas testemunhas.

— Bem, sim... não! É assim que aqueles rebeldes se autodenominam. Eles também se referem a si mesmos como candeeiros, árvores ou coisas do gênero, coisas bíblicas. Não se renda aos termos deles. São dois pregadores malucos, dois turrões, dois...

Estas últimas palavras levaram os assessores a caírem na gargalhada, o que serviu para Leon começar a fazer uma série de comentários que ele considerava engraçados. Para ouvir seus bajuladores, ele tinha subestimado seus dons de comediante. Mac estava balançando a cabeça de um lado para o outro diante dos absurdos que ouvia quando Abdullah o assustou dando-lhe um tapa no peito.

Mac endireitou-se na poltrona como se tivesse sido atingido por uma toalha molhada.

— Desculpe-me - gritou Abdullah - mas olhe! Olhe! Oh! Estava ali!

— O quê? - perguntou Mac.

O sol estava se pondo no horizonte atrás deles, à esquerda, e o céu sem nuvens que havia pela frente estava infinitamente azul. Mac não viu nada. Naquele momento, Abdullah também não via nada.

— Eu vi alguma coisa, capitão. Garanto que vi.

— Não estou duvidando de você. O que foi?

— Você vai duvidar de mim se eu lhe contar. - Os olhos

de Abdullah continuavam arregalados. Ele inclinou-se para a frente e olhou em todas as direções.

— Tente me contar.

— Um exército.

— Como assim?

— Uma cavalaria, quero dizer.

— Abdullah, você nem sequer estava olhando para o solo.

— Eu não teria acordado você se tivesse visto alguma coisa no solo!

— Eu não estava dormindo.

— Seria melhor se eu tivesse visto cavalos no solo!

— Você viu cavalos no céu?

— Cavalos e cavaleiros.

— Não vejo nada no céu, nem nuvens.

— Eu disse que você não acreditaria em mim.

— Eu acredito que você pensa que viu alguma coisa.

— Acho que você também vai me chamar de mentiroso.

— Jamais. Está na cara que você pensa ter visto alguma coisa. Você não estava cochilando. Ou estava?

— Além de ser um mentiroso, também durmo em serviço? Mac riu. - Se você está dizendo que viu alguma coisa, eu acredito.

— Não parecia haver 200 milhões, mas...

— Ah! você anda lendo as mensagens de Tsion...

— Claro. E quem não anda?

Mac empinou a cabeça. - Foi um devaneio, você devia estar meio acordado, meio dormindo. Não me olhe deste jeito. Estou dizendo que foi durante uma fração de segundo enquanto você pensava na mensagem do Dr. Ben-Judá...

— Você vai me ofender se continuar a falar assim, capitão.

— Desculpe-me, irmão - disse Mac dando uma batida de leve no ombro de Abdullah. - Você tem de admitir que existe esta possibilidade.

Abdullah empurrou a mão de Mac. - Você tem de admitir que existe a possibilidade de eu ter visto cavalos e cavaleiros.

Mac sorriu. - O que eles estavam fazendo? Uma apresentação? Preparando-se para o grande desfile?

— Capitão! Você está me ofendendo!

— Vamos, Abdullah! Tsion diz que os cavalos e os cavaleiros vêm do abismo, da mesma forma que os gafanhotos. O que eles estariam fazendo aqui no alto?

Abdullah parecia estar aborrecido e virou-se para o outro lado.

— Você acha que eu tive a intenção de ofendê-lo? -perguntou Mac.

Nenhuma resposta.

— Acha?

Abdullah continuou calado.

— Agora você vai ficar de beiço...

— Não sei o que significa ficar de beiço.

— Apesar de não saber o que significa - disse Mac -, você é muito bom nisto.

— Se isso significa que estou bravo com uma pessoa que eu imaginava ser meu amigo e irmão, então estou de beiço.

Mac riu alto. - Verdade? Posso chamar você de beiço? Este aqui é o meu irmão e amigo beiço!

Antes que Mac tivesse tempo de piscar, cavalos e cavaleiros escureceram o céu. Abdullah puxou bruscamente os controles, e o avião quase empinou, imobilizando Mac na poltrona. Ele ouviu ruídos de batidas e solavancos na cozinha e na sala de descanso. Em seguida, Leon começou a gritar.

Assim que Mac se deu conta de que ia se arrepender por não ter apertado o cinto de segurança, Abdullah fez uma outra manobra, e o avião baixou rapidamente de altitude. Mac bateu a cabeça com força no teto. No exato momento em que virou o rosto, foi ferido no lado esquerdo da cabeça. Os botões do controle quebraram, abrindo um corte e furando sua orelha. O sangue espirrou no pára-brisa e no painel de controle.

Finalmente, Abdullah conseguiu aprumar o avião e ficou olhando firme para a frente.

— Eu não fiz isto para me vingar de você - ele disse, com a voz trêmula. - Sinto muitíssimo se você não viu por que eu precisei desviar o avião daquela maneira tão brusca. Espero que seu ferimento não seja grave.

— Eu vi nitidamente os cavalos e os cavaleiros - disse Mac, com o coração aos pulos. - Nunca mais vou duvidar de você. Preciso fazer alguma coisa para estancar o sangue. Se você os vir novamente, não tente desviar deles. Mantenha a aeronave na posição. Eles estão flutuando no espaço. Você não vai atingi-los.

— Peço mil desculpas. Foi instintivo.

— Eu entendo.

— Você está bem, capitão?

— Mais ou menos. O ferimento foi superficial, tenho certeza.

— Ótimo - disse Abdullah. Em seguida, ele começou a imitar uma comissária de bordo: - Mantenha sempre o cinto apertado quando estiver em sua poltrona, mesmo que a luz de aviso tenha sido apagada.

Mac revirou os olhos.

— Agora é você quem vai ficar de beiço? - perguntou Abdullah.

Mac levantou-se e dirigiu-se para a porta, no exato momento em que alguém a esmurrava do lado de fora.

 

Buck pediu milhões de desculpas a Tsion, explicando o motivo de tê-lo acordado.

— Rayford e Leah foram até a casa dela para pegar alguma coisa. Eles acabaram de ligar pedindo que a gente olhe pela janela.

Tsion, com os cabelos desalinhados, pegou um roupão e desceu a escada atrás de Buck. Chloe, com Kenny no colo, estava em pé diante da janela olhando para o oeste.

— Talvez seja necessário apagar as luzes - ela disse. - Não estou vendo nada.

— O que vocês estão querendo ver? - perguntou Tsion.

— Os 200 milhões de cavaleiros - ela respondeu.

Tsion caminhou apressado até a janela da frente da casa e afastou a cortina.

— Eu não ficaria desapontado se Deus antecipasse o Glorioso Aparecimento em alguns anos - ele disse. - O céu deve estar nublado. Não há estrelas. Onde está a lua?

— Aqui atrás - disse Buck.

— Acho que Rayford não estava falando sério - disse Tsion, aproximando-se de Buck e Chloe.

— Ele estava empolgado demais - disse Chloe. - Assustado. Buck caminhou até a porta dos fundos e olhou para o leste.

No horizonte, havia um clarão vermelho.

— Eu gostaria de saber o que é aquilo - ele disse, chamando o pessoal.

— Deve haver alguma coisa queimando em algum lugar -disse Tsion, com voz cansada. - Mas a casa da Sra. Rose não fica na direção oposta?

— É melhor eu pegar o carro e seguir naquela direção para ver o que é - disse Buck.

Chloe não gostou da idéia. - Vamos esperar para ver. Se for só um incêndio, não vale a pena arriscar-se.

O telefone tocou. Chloe passou o irrequieto Kenny para os braços de Buck e correu para atender.

— Não, papai - ela disse. - Pode ser um incêndio no leste... Você tem certeza de que já começou?... Fale com Tsion.

 

Assim que Mac destravou a porta da cabina de comando, Leon entrou cambaleando, com os cabelos desgrenhados, praguejando.

— Uma pequena turbulência - disse Mac.

— Turbulência? E o que significa esta fumaça, este cheiro? Mandei verificar, e Karl me disse que um dos funcionários dele está inconsciente! Precisamos aterrissar, homem! Vamos morrer sufocados! E você está sangrando!

Mac acompanhou-o até a sala de descanso, onde um dos assessores de Leon massageava freneticamente o peito do outro. Karl gritou da cozinha:

— Vamos todos morrer!

Leon cobriu a boca com um lenço, falando com dificuldade, tossindo.

— Enxofre! De onde está vindo? É venenoso, não? Vai nos matar? Mac não sentia nenhum cheiro. Ele foi verificar o painel de controle. O Condor possuía alarmes supersensíveis contra fogo e fumaça. Nenhum dispositivo havia sido acionado. Mac sabia que poderia levantar suspeitas se não estivesse sentindo nada. Ele cobriu a boca com a mão.

— Vou ligar o sistema de ventilação - ele disse, enquanto Karl arrastava seu funcionário, retirando-o da cozinha. - Leve os dois que estão passando mal para os aposentos de dormir. Temos oxigênio suficiente para todos.

— Não há um lugar por perto para pousarmos? - perguntou Leon.

— Vou verificar - respondeu Mac.

— Rápido!

Mac entrou correndo na cabina de comando e trancou a porta.

— O que está acontecendo? - perguntou Abdullah. - Você está perdendo muito sangue.

— Eu estou bem - disse Mac. - Aqueles cavalos têm poder para entrar aqui, até mesmo dentro da cabina pressurizada. Todos estão sentindo cheiro de enxofre, estão sufocados, usando oxigênio, desmaiando. Leon quer que a gente aterrisse.

— Precisamos seguir direto para Joanesburgo - disse Abdullah, ajudando Mac a verificar cada dispositivo. - O que está acontecendo com eles não vem deste avião. Vai ser pior se eles estiverem em terra.

— Eles poderiam receber tratamento médico. Abdullah olhou para Mac. - Você, sim, mas se eles estão sendo atacados pelos 200 milhões de cavaleiros, não haverá médico que possa salvá-los.

— Qual é o horário previsto de chegada?

— Ainda temos algumas horas pela frente.

Mac sacudiu a cabeça. Seu ferimento o fez estremecer.

— Vamos ter de pousar, senão Leon vai descobrir que somos invulneráveis.

Abdullah fez um gesto para que Mac assumisse o controle do avião e tirou alguns mapas de sua maleta de vôo.

 

— Eles vão chegar dentro de poucos minutos - disse Tsion, desligando o telefone após ter conversado com Rayford. -Os flagelos de fogo, fumaça e enxofre já começaram. Eu não esperava que fosse agora, mas os cavaleiros estão visíveis, pelo menos para algumas pessoas. Rayford e a Sra. Rose os viram. Os incrédulos estão sendo exterminados. Buck ligou a TV.

— Socorro! Socorro! - Mac ouviu pelo rádio.

— Aqui é o Condor, prossiga.

— Socorro! Meu piloto está morto! Estou sufocado! A cabina de comando está repleta de fumaça. Que cheiro horrível! Não consigo ver nada! A aeronave está descontrolada! Caindo!

— Qual é a sua posição?

Mac, porém, só ouviu um gemido fraco. Parecia o dia do Arrebatamento, só que agora eram gritos de pilotos não-crentes cujos aviões se perderiam, talvez a terça parte deles.

Os pedidos de socorro congestionaram a freqüência. Mac não podia fazer nada e estava atordoado. Ele mudou a freqüência do rádio para ouvir as notícias.

"Até o momento, ninguém tem uma resposta para a série de incêndios, fumaça e odor terrível de enxofre que está matando milhares de pessoas no mundo inteiro", dizia o repórter. "As equipes médicas de emergência estão completamente perdidas, tentando de todas as maneiras determinar a causa. Vamos ouvir o que o chefe da Associação de Atendimento Médico de Emergência da Comunidade Global, Dr. Jurgen Haase, tem a nos dizer."

"Se fossem eventos isolados, poderíamos atribuir a um fenômeno da natureza, uma ruptura em alguma fonte de gás natural. Mas o acontecimento parece ser aleatório, e a fumaça é letal. Solicitamos que os cidadãos usem máscaras contra gás e trabalhem em conjunto para apagar os incêndios."

O repórter perguntou: "Qual é a mais perigosa, a fumaça preta ou a amarela?"

Haase respondeu: "Acreditamos que a fumaça preta foi provocada pelo fogo, mas parece não ter nada a ver com ele. Pode ser mortal, mas a fumaça amarela tem odor de enxofre e tem o poder de matar instantaneamente."

O repórter disse que acabara de receber um boletim, e sua voz parecia a de alguém aterrorizado. "Embora existam lugares nos quais não se tem notícia de fogo, fumaça ou enxofre, em outros o número de mortes é alarmante, até agora estimado em centenas de milhares. Nesta próxima meia hora, Sua Excelência, o potentado da Comunidade Global, Nicolae Carpathia, falará ao mundo via rádio, televisão e Internet."

Abdullah colocou um mapa bem na frente de Mac. -Estamos eqüidistantes de dois aeroportos com pistas de pouso para aeronaves de grande porte: Adis-Abeba e Cartum.

— Leon é quem vai decidir - disse Mac. - É ele que deseja aterrissar.

Abdullah assumiu o controle novamente. Mac saiu da cabina de comando e viu Leon falando ao telefone. Pegou um guardanapo de pano na cozinha, molhou-o com água e segurou-o de encontro à orelha. Atirou outro guardanapo umedecido na cabina de comando para que Abdullah limpasse o pára-brisa e o painel.

— Um momento, Excelência - Fortunato disse -, o capitão precisa de mim... Sim, vou perguntar a ele. - Leon cobriu o fone. - Sua Excelência está me perguntando onde estamos.

— Sobrevoando o Mar Vermelho. Podemos seguir para... Leon fez um gesto para que Mac silenciasse e voltou a falar com Carpathia. Em seguida, passou o fone para Mac.

— O potentado quer falar com você.

— Qual é o seu plano, capitão? Mac lhe contou as opções.

— Você tem condições de retornar a Meca ou a algum lugar no Iêmen?

— Esses aeroportos não têm pistas de pouso para uma aeronave deste porte, senhor.

— Adis-Abeba está localizada onde era a Etiópia - disse Carpathia, parecendo conversar consigo mesmo.

— Correto - disse Mac. - Cartum fica no antigo Sudão.

— Siga para lá. Vou entrar em contato com o potentado Rehoboth na África do S..., em Joanesburgo, e pedir a ele que seu pessoal no Sudão faça o melhor que puder por vocês. Se você tiver condições de completar esta viagem, ela será de grande benefício para a causa.

— O senhor poderia me informar como está a situação aí?

— Aqui? Perdemos algumas dezenas de pessoas, e o mau cheiro está insuportável. Estou convencido de que se trata de uma guerra química, mas não me surpreenderei se o pessoal da oposição disser que é um fenômeno sobrenatural.

— Eu também... senhor.

— A Dupla de Jerusalém já está defendendo este último argumento.

— Como?

— É o novo nome que dei a eles. Você gostou?

Mac não respondeu. Enquanto um grande número de pessoas morria no mundo inteiro, Carpathia se divertia com jogo de palavras.

— E claro - prosseguiu Carpathia - que eles estão se responsabilizando pelos acontecimentos. Isto facilita meu trabalho. O dia deles vai chegar, e o mundo me agradecerá.

 

Buck estava sentado diante da TV em companhia de Tsion e Chloe, aguardando a chegada de Rayford e Leah. Dos países onde ainda era dia, chegavam imagens de fogo e de rolos de fumaça subindo, pessoas sufocadas, ofegando, tossindo, caindo ao chão. Pânico total.

O telefone tocou. Era Mac querendo falar com Rayford. Buck lhe contou as novidades e ficou atônito ao ouvir os relatos de Mac e de Abdullah. Mac lhe contou o apelido que Carpathia deu às duas testemunhas.

— Daqui a pouco, ele vai aparecer na TV — disse Buck. -Vou pedir a Rayford que ligue para você.

Rayford e Leah chegaram no momento em que Carpathia estava sendo apresentado. O Comando Tribulação sediado nos Estados Unidos ficou ali, sentado diante da TV, ouvindo uma história cósmica. Tsion levantou-se e começou a andar de um lado para o outro assim que Carpathia olhou solenemente para a câmera. O potentado tinha o ar paternal de sempre, garantindo ao povo aterrorizado que "a situação em breve estará sob controle. Mobilizamos todos os recursos. Nesse ínterim, peço aos cidadãos da Comunidade Global que nos comuniquem qualquer atividade suspeita, em especial a fabricação ou transporte de agentes nocivos. Lamentavelmente, temos motivos para acreditar que esse massacre de vidas inocentes está sendo perpetrado por dissidentes religiosos a quem temos tratado com cortesia. . Apesar de nos afrontar sempre que podem, temos defendido seu direito de divergir de nossas opiniões. Mesmo assim, continuam considerando a Comunidade Global como um inimigo. Acham que têm o direito de manter um grupo de gente intolerante, de mentalidade tacanha, que exclui qualquer pessoa que não concorde com eles.

"Vocês têm o direito a uma vida saudável, pacífica e livre. Embora eu continue a ser um pacifista, apelo para que eliminemos do mundo essa gente, começando com a Dupla de Jerusalém que, mesmo neste momento, não manifesta nenhum remorso sobre a perda de um sem-número de vidas resultante deste ataque."

— Vocês sabem - disse Tsion, sentando-se no braço do sofá perto de Chloe -, que vou ter de pedir perdão pela alegria que sentirei quando chegar o tempo determinado deste homem.

Carpathia apertou um botão, fazendo aparecer na tela as figuras de Eli e Moisés diante do Muro das Lamentações. Eles falavam em uníssono em voz alta e ameaçadora, que ecoava muito além do Monte do Templo, sem ajuda de alto-falantes.

As palavras apareciam na tela. "Ai dos inimigos do Deus Altíssimo!", eles diziam. "Ai dos covardes que levantaram os punhos para ameaçar seu Criador e agora estão sendo obrigados a fugir de sua ira! Suplicamos a vós, serpentes e víboras, que considereis este flagelo mais que um julgamento! Sim, ele é mais uma tentativa de um Deus amoroso que deseja alcançar todos vós, e Ele já está perdendo a paciência. Não há mais tempo para serdes persuadidos. Deveis ouvir atentamente o seu apelo, saber que Ele vos ama. Voltai-vos para o Deus de vossos pais enquanto é tempo. Porque virá o dia em que não haverá mais tempo!"

Carpathia voltou a aparecer na tela com um sorriso condescendente. "Virá o dia, meus amigos, em que estes dois não mais espalharão seu veneno. Eles não mais poderão transformar a água em sangue, nem impedir que chova, nem enviar pragas para a Terra Santa e para o resto do mundo. Eu mantenho minha palavra de barganha, negociada com eles meses atrás, permitindo que determinados dissidentes não sejam punidos. Esta é a recompensa que recebo. É assim que eles retribuem nossa generosidade.

"Mas a série de atos de bondade pára por aqui, leais cidadãos. Sua paciência e perseverança serão recompensadas. Chegará o dia em que viveremos em um mundo unificado, teremos uma só fé, seremos uma só família. Viveremos em paz e harmonia, sem guerras, sem derramamento de sangue, sem mortes. Por ora, peço que aceitem minhas mais sinceras condolências pela perda de seus entes queridos. Eles não morreram em vão. Continuem a confiar nos ideais da Comunidade Global, nos princípios da paz e na força de uma fé universal que acolhe devotos de qualquer religião, mesmo daquelas que se opõem a nós.

"Daqui a quatro meses, faremos uma comemoração na mesma cidade em que esses pregadores estão nos advertindo, zombando de nós. Aplaudiremos a morte deles e festejaremos um futuro sem pragas, sem enfermidades, sem sofrimentos e sem mortes. Mantenham a fé enquanto aguardam a chegada desse dia. Até lá, voltarei a fazer outro pronunciamento. Enquanto isso, agradeço o apoio sincero que todos os senhores têm dado à Comunidade Global".

 

Duas ambulâncias aguardavam na extremidade da pista principal de pouso de Cartum, equipadas com aparelhos da mais alta tecnologia em medicina. Apertando a orelha esquerda com o guardanapo molhado, Mac ajudou Abdullah a abrir a porta e descer a escada. Leon e Karl desceram atordoados, seguidos por um assessor e um funcionário da cozinha, deixando a bordo duas pessoas agonizando. A equipe de emergência, usando luvas e máscaras contra gás, subiu rapidamente a escada, carregando maletas de primeiros -socorros. Mac e Abdullah ficaram em pé na pista, recusando ser atendidos pelos médicos antes daqueles que estavam em estado mais grave. Os outros quatro foram medicados nas ambulâncias. Logo a seguir, os componentes da equipe de emergência desceram do avião e voltaram a subir levando maças. Saíram de lá carregando duas vítimas cobertas da cabeça aos pés com lençol.

Fortunato estava parado fora da ambulância, sem paletó, com a gravata afrouxada e a camisa ensopada de suor. Ele passou a mão na testa, respirando com dificuldade.

— Medida de prevenção? - ele perguntou à equipe de emergência enquanto as vítimas eram transportadas.

Eles balançaram a cabeça negativamente.

— Eles não estão...?

— Sim, estão - respondeu um deles. - Asfixiados. Leon virou-se para Mac. - Vá cuidar de seu ferimento e

verifique minuciosamente a aeronave. Não podemos permitir que aconteça outro episódio como este.

Mac tinha três ferimentos no couro cabeludo e um corte profundo no pescoço, que precisou levar 20 pontos, além de outro corte mais grave na orelha, que precisou levar 40 pontos.

— Vai doer um bocado depois que passar o efeito da anestesia - disseram-lhe.

Dois jovens estavam mortos, quatro, em estado gravíssimo, e o mundo se transformara em um caos. Mac achou que poderia suportar a dor.

 

Nas primeiras horas da madrugada, Rayford sentou-se na sala de visitas da casa secreta. Os outros moradores já haviam se recolhido aos seus quartos. Seguido de Leah, ele tinha entrado na casa molhado, com frio e o corpo todo dolorido. Podia imaginar a dor que ela sentia depois de ter-se chocado violentamente com ele. A preocupação e a atenção demonstradas pelo grupo - inclusive durante o pronunciamento de Carpathia - o comoveram. De fato, eles eram irmãos e irmãs em Cristo e precisavam uns dos outros para sobreviverem. Depois que todos ouviram o relato de Rayford e Leah e oraram agradecendo a Deus o dinheiro recebido, Tsion falou um pouco a respeito da mensagem que seria transmitida no dia seguinte. Ele estava intrigado, querendo saber por que os crentes podiam ver os cavalos e os cavaleiros, e as vítimas não. Até mesmo as imagens da TV mostraram cenas de pessoas tentando escapar das mordidas das serpentes, envoltas em nuvens de fumaça e sendo consumidas, aparentemente por um fogo espontâneo proveniente do ar rarefeito.

— Eu imaginei que haveria um exército monstruoso de cavaleiros cavalgando juntos - disse Tsion. - Talvez eles ainda apareçam desta maneira. Mas, até agora, eles estão surgindo em várias localidades. Não sei até quando isso vai continuar a acontecer. Francamente, estou desapontado por não ter visto os cavaleiros.

Aos poucos, todos foram se dirigindo para os quartos, restando apenas Rayford e Chloe na sala.

— Você não vai dormir, papai? - ela perguntou.

— Daqui a pouco. Preciso dar um tempo para me desligar. Nunca passei um dia como este. Nunca vi nada semelhante. E não faço questão de ver novamente.

Chloe postou-se atrás dele e começou a massagear-lhe o pescoço e ombros.

— Você precisa descansar - ela disse.

— Eu sei. Vou ficar bem - disse Rayford, dando um tapinha na mão da filha. - Vá dormir. Você tem um filho para cuidar.

Agora, sentado sozinho na escuridão, Rayford relembrava os acontecimentos dos últimos dias, querendo saber quanto mais poderia suportar. Aquele era apenas o começo, e ele achava que não agüentaria o sofrimento dos anos seguintes. Perderia outros companheiros, e em ritmo acelerado.

Sua indignação não diminuíra, mas ele havia conseguido escondê-la em um compartimento reservado de seu cérebro. Mesmo desejando ter o privilégio de ser usado para matar Carpathia, ele tinha de admitir que se sentia agradecido pelo que presenciara naquela noite. Não havia meios de negar a presença poderosa de Deus durante aquele período. Mas ficar frente a frente com os cavaleiros do Apocalipse, caminhar no meio deles sem ser molestado...

Será que os cavaleiros também tinham sido impedidos de enxergar os crentes? Da mesma forma que os gafanhotos demoníacos, eles também eram agentes de Satanás, que talvez preferisse matar os crentes e não os inimigos de Deus.

Rayford ainda não tinha uma opinião formada a respeito de Leah. Ela era uma pessoa difícil de conviver, mas parecia jovem e ingênua para sua idade. Ambos haviam passado momentos terríveis juntos, e, mesmo assim, a imagem de homem exigente e teimoso que Leah tinha dele ainda não desaparecera. Rayford se comovera ao ouvir a história da conversão dela e não duvidava de sua sinceridade. Seria uma atitude machista repelir a franqueza dela? Estaria ele simplesmente representando o papel de um homem corajoso? Ele esperava que não.

Rayford avaliou seus ferimentos. Ele precisava de uma ducha longa e quente. Um dos dedos do pé latejava. Talvez estivesse quebrado. O joelho esquerdo doía como daquela vez em que precisou fazer uma cirurgia na faculdade. O cotovelo esquerdo estava sensível. Um dos dedos da mão tinha sofrido uma torção. Rayford sentiu um calombo na parte posterior da cabeça. Também pudera! Ele já estava chegando aos 46 anos. Colidir violentamente com alguém e rolar pelo chão fazia parte de um dia típico de um garoto de nove anos.

Rayford emocionou-se ao pensar em seu filho. Raymie tinha 12 anos quando desapareceu no Arrebatamento. Apesar de ter conseguido muitas vezes conter-se para não repreender o filho, Raymie sempre o deixava irritado. Rayford sentia-se culpado pelo tempo perdido, por não ter-se esforçado para compreender o filho. As lembranças dos momentos em que eles passaram juntos deram-lhe um nó na garganta.

Rayford levantou-se do sofá e ajoelhou-se, agradecendo a Deus a vida de Irene e Raymie, grato por eles terem sido poupados destes tormentos. Ele também agradeceu a Deus ter conhecido Amanda, com quem conviveu por pouco tempo, mas que, sem dúvida, foi uma bênção em sua vida. Chloe, Kenny, Buck, Tsion, Mac, David, Bruce, Ken... todos vieram-lhe à mente, trazendo emoção, arrependimento, gratidão, preocupação, esperança.

Rayford orou para que pudesse ser o líder do Comando Tribulação que Deus desejava. Ele também mantinha a esperança de que isso incluísse, de uma forma ou de outra, a possibilidade de aproximar-se de Nicolae Carpathia três anos e meio após o início da Tribulação, dali a quatro meses. Carpathia acabara de comunicar onde estaria naquele momento.

 

Mac ficou agradecido por Abdullah ter supervisionado a desinfecção e a inspeção da aeronave. Sua cabeça latejava. Ele tinha de prosseguir a viagem, mas deixaria o comando nas mãos de Abdullah.

Todos, inclusive ele próprio, pareciam apreensivos, com os olhos abertos para enfrentar o perigo. Mac estava atento a qualquer movimento a seu redor, na expectativa de ver os cavalos gigantescos e seus cavaleiros. Abdullah parecia inquieto.

Apesar do trauma sofrido, Fortunato demonstrava ansiedade para voar novamente. Karl andava de um lado para o outro, às vezes chorando, às vezes alvoroçado, cuidando para que tudo estivesse em ordem. Enquanto Mac e Abdullah faziam o trabalho de rotina antes de levantar vôo, Fortunato foi conduzido ao deslumbrante terminal do Aeroporto de Cartum. Saiu de lá trajando outras roupas, com ar de quem havia tomado uma ducha. Sua aparência havia melhorado sensivelmente. Porém, seu semblante ainda demonstrava preocupação. Ele parou na porta da cabina de comando para saber se Mac e o avião estavam em condições de seguir viagem.

— Ao primeiro sinal de algum odor estranho, arrumem um jeito de pousar este avião - ele disse.

 

Às 13 horas na Nova Babilônia, David Hassid finalmente conseguiu fazer uma pausa para descansar depois de trabalhar na emergência. Ele ajudara a transportar os corpos para o necrotério e conduzir os feridos para os hospitais. Apesar de não ter visto o que provocara a catástrofe, começou a juntar os fatos quando os noticiários informaram que as mortes haviam sido provocadas por fogo, fumaça e enxofre. Perto de um décimo dos funcionários da CG havia sido atingido, o que representava centenas de pessoas mortas. Ele sabia que seus companheiros nos Estados Unidos, pelo menos Rayford e um novo membro do Comando Tribulação, tinham visto os cavaleiros. Sentiu-se melhor ao saber que não foi o único crente que não viu os cavaleiros.

David estava muito preocupado com Annie. Ele não a via desde o momento em que o primeiro alarme soara, mandando que todo o pessoal assumisse funções de emergência predeterminadas. Ele não tinha condições de conversar com Annie por telefone nem por computador, e ninguém sabia notícias dela. O trabalho dela na emergência era digitar uma série de números criptografados em uma unidade de controle remoto, que controlava o sistema de segurança do hangar. Assim que o serviço estivesse terminado, ela devia prestar contas ao pessoal do departamento de David. O hangar estava em segurança, mas David precisava verificar tudo pessoalmente.

A missão dele foi terrível. Das 140 pessoas sob sua supervisão, dez estavam mortas, duas sendo tratadas por terem inalado fumaça, e faltava uma: Annie. Três das que morreram pareciam ter-se incendiado espontaneamente. Durante o trabalho na emergência, David chegou a uma conclusão. Se Annie tivesse sobrevivido, ele tornaria público o amor que um sentia pelo outro. Tomaria a iniciativa de pedir a transferência dela, de acordo com a política da CG, para que ambos não fossem repreendidos quando a notícia se espalhasse.

Assim que arquivou seu relatório, David passou por dezenas de funcionários que estavam agrupados, chorando, conversando, lamentando-se. Aquele era o momento certo para orar com eles, falar de Deus a eles. Mas David ainda não se sentia preparado para sacrificar sua potencial vantagem em favor da causa.

Em razão da posição que ocupava, David conseguiu a chave dos aposentos de Annie. Ela não estava lá. Desesperado, ele correu até o enorme hangar e digitou os códigos necessários para abrir todas as travas de segurança. As gigantescas portas laterais foram abertas, deixando todo imenso interior do hangar à mostra, que parecia maior ainda porque todas as aeronaves principais estavam fora, a serviço. Os helicópteros e algumas aeronaves de pequeno porte não eram suficientes para preencher o imenso hangar.

David abriu as portas das salas de Annie, de Mac e de Abdullah e acendeu as luzes. Nada. De repente, ouviu uma batida cadenciada abafada. Vinha do depósito de materiais localizado no canto oposto do hangar. Ele reconheceu as batidas do código Morse. Era um pedido de SOS. David correu naquela direção.

O depósito tinha paredes de aço à prova de som para reforçar a segurança. Annie manipulara pela primeira vez o sistema de segurança do hangar. Talvez ela não soubesse que o depósito se trancava automaticamente por fora e era o último lugar em que alguém gostaria de ficar enquanto estivesse trancando o edifício inteiro. Depois de acionadas as travas de segurança, a comunicação de dentro para fora tornava-se impossível. O telefone e até mesmo a unidade de controle remoto não tinham condições de ultrapassar o aço. A pessoa só sairia dali com a ajuda de alguém de fora.

David chegou à porta.

— Quem está aí? - ele gritou.

— David! - soou a voz nervosa de Annie. - Tire-me daqui!

— Graças a Deus! - ele disse, destrancando a porta. Ela saltou em seus braços, segurando-o com tanta força que ele mal podia respirar.

— Hoje você aprendeu mais uma lição sobre o depósito? -ele perguntou.

— Pensei que ficaria aqui para sempre! - ela disse.

— Verifiquei os materiais e comecei a digitar os códigos enquanto saía, sem saber que as portas se fecham por fora. Ainda tenho de prestar contas ao seu pessoal.

— Já foi feito.

— Ótimo. Obrigada por me contar só agora sobre o depósito.

— Peço que me desculpe. Senti um grande alívio quando encontrei você.

— Você sentiu alívio? Eu estava morrendo de medo! Imaginei que levaria dias para você pensar em me procurar aqui.

David percebeu que Annie estava realmente zangada com ele. - Mac é quem tinha a responsabilidade de lhe contar sobre...

Ela olhou de esguelha para ele. - Não jogue a culpa nos outros! Tratava-se de uma coisa importante que você deveria ter-me avisado.

David não tinha como se defender.

— Qual foi a grande emergência? - ela perguntou. - Outro alarme falso?

— Você não está sabendo?

— Como eu poderia saber, David? Quando ouvi o alarme, vi pessoas correndo e tossindo. Vim direto para cá.

— Acompanhe-me - ele disse.

Ambos se sentaram na sala de Annie, e ele lhe contou a história toda.

— Eu poderia ter ajudado - ela disse. - Agi como uma covarde, graças a você.

— Quase morri de preocupação por você - disse David. -Pensei que eu soubesse o que você significa para mim.

— Você pensou?

— Eu estava enganado. O que mais posso dizer? Eu preciso de você. Eu a amo. Quero que todos saibam.

Ela balançou a cabeça negativamente e desviou o olhar. -Você me amava tanto a ponto de deixar que eu me trancasse no depósito...

Agora foi a vez de David ficar zangado. - Você não leu o manual de instruções, conforme era sua obrigação? Está tudo bem claro.

— Acho que vou receber uma advertência.

— Provavelmente. Vai ser difícil esconder que eu fiz o seu trabalho.

— Era o mínimo que você poderia ter feito - ela disse. David atribuiu a grosseria de Annie à claustrofobia e frustração que ela sentira.

— Eu a amo mesmo quando você está de mau humor - ele disse.

— É uma grande cortesia de sua parte.

Ele encolheu os ombros e levantou as mãos em sinal de rendição. - É melhor eu ir embora. Enquanto não tornarmos público o nosso amor, não devemos ser vistos juntos. Além do mais, sou responsável por seu paradeiro.

— Não era bem isso o que eu queria ouvir. Ele sacudiu a cabeça e levantou-se.

— Alguém devia ter-me contado - ela disse.

— Eu já me expliquei - disse David, sem olhar para ela.

— Só estou dizendo que eu podia me afastar desta função e pedir transferência para outro departamento. E você sabe o que isso significaria.

Ele virou-se. - Eu teria adorado ouvir isso dez minutos atrás. Assim poderíamos declarar nosso amor, e eu passaria mais tempo com você.

David percebeu que a ofendera.

— E agora? - ela perguntou.

— Eu já disse que a amo mesmo quando você...

— Você sabe qual é o preço, David. Quero o mesmo que você, mas o que seria melhor para o Comando Tribulação?

— Eu não posso ser muito útil ao Comando, vivendo frustrado sem você.

— Quem mais tem acesso à chefia da CG tanto quanto você?

— Eu sei. Então, estamos apaixonados novamente? Annie aproximou-se de David, e os dois se abraçaram.

— Peço que me desculpe - ela disse.

— Eu também.

 

O último vôo de Mac a Joanesburgo tinha sido antes do grande terremoto da ira do Cordeiro. Do alto, a cidade fazia lembrar a Nova Babilônia. O aeroporto reconstruído era um centro importante para viagens internacionais. No palácio do potentado regional Rehoboth, moravam suas mulheres, filhos e netos, além dos criados e assessores.

Mac sentia que o lado esquerdo de sua cabeça estava duas vezes maior do que o direito. A cada batida do coração, uma dor aguda nos ferimentos o castigava. A dificuldade era grande até mesmo para colocar os fones de ouvido, porque eles comprimiam a gaze que protegia os pontos.

Assim que o avião pousasse, Mac e Abdullah deviam abrir a porta e descer a escada. Eles teriam liberdade para sair do avião, descansar em seus aposentos ou ficar na cabina de comando, desde que não atrapalhassem a reunião. Karl e seu ajudante permaneceriam a bordo para servir a refeição. Mac disse a Leon que ele e Abdullah provavelmente ficariam descansando em seus aposentos, dentro do avião. É claro que eles permaneceriam na cabina, de onde Mac ouviu a conversa entre Fortunato e um de seus assessores.

— Clancy - disse Leon -, eu gostaria que você telefonasse para Ngumo na sala VIP do aeroporto, que fica na extremidade do terminal. O número é este. Provavelmente ele não vai atender, mas, por via das dúvidas, ligue o viva-voz para eu poder ouvir.

Mac queria tomar nota do número do telefone, mas não podia correr o risco de ser encontrado com ele. Teria de memorizá-lo, o que não seria fácil por causa da dor que sentia. Ele ouviu Clancy digitar lentamente cada número. A voz que atendeu era a de uma senhora de meia-idade.

— Aqui fala a secretária de Mwangati Ngumo. Posso ajudá-lo?

— Pode sim, senhora, obrigado. Sou Clancy Tiber, assistente pessoal do supremo comandante da Comunidade Global, Leon Fortunato. Tenho a satisfação de comunicar-lhe que o supremo comandante está pronto para receber o Sr. Ngumo e dois assessores a bordo do Comunidade Global Um.

— Obrigada, Sr. Tiber. Eles estarão aí em cinco minutos. O Sr. Ngumo aguarda ansiosamente o encontro que terá com o potentado Carpathia.

Clancy desligou e disse:

— Adorei esta história. Vai continuar assim tão divertida?

— Você ainda não viu nada, meu filho.

A limusine com a bandeira de Botsuana parou a uns 15 metros do avião. Mac ficou observando, sem muito interesse, a chegada dos três dignitários. Abdullah desatou o cinto de segurança e encostou o nariz no pára-brisa.

— Você acha que aquele ali é o Ngumo, Mac?

— O quê?

— Não é o Ngumo.

— Eu não cheguei a conhecê-lo.

— Nem eu, mas este não é o sujeito que vi na TV, a menos que ele tenha emagrecido mais de 20 quilos. E desde quando um homem tão importante como ele carrega uma maleta?

Mac retirou os fones de ouvido e inclinou-se para a frente, mas os homens já haviam desaparecido de seu campo de visão. Ele deu um pulo quando Fortunato esmurrou a porta da cabina com tanta força que ela se escancarou indo bater na parede.

— Rápido! Rápido! - gritou Fortunato. - Levante vôo imediatamente!

— Os motores estão desligados, Leon.

— Então, ligue-os! Já! Aqueles homens estão armados!

— A porta está aberta, Leon! Não há mais tempo!

— Faça alguma coisa!

— Engate três e quatro - disse Mac, e Abdullah apertou diversos botões. - Acelere o mais que puder! Já!

Os dois motores do lado direito do avião começaram a girar, fazendo um ruído ensurdecedor. Quando Mac acionou os controles fazendo o avião pender para a esquerda, ele viu os três supostos assassinos sendo atirados na pista por causa do jato quente que foi expelido.

— Você é um gênio! - disse Leon. - Vamos dar o fora daqui!

Com muito esforço, os homens se levantaram, pegaram seus rifles poderosos e correram em direção à limusine. Abdullah correu para levantar a escada e fechar a porta do avião.

— Vamos! - gritou Leon. - Vamos embora!

— Estamos com pouco combustível. Vamos ter de voltar para cá a fim de abastecer.

— Eles estão vindo em nossa direção! Vamos embora!

Mac iniciou a seqüência de manobras, sabendo que o avião não estava preparado para fazer uma nova decolagem tão rápida. Os motores do lado esquerdo foram ligados, mas, se os outros dispositivos não entrassem em ação imediatamente, o computador de bordo abortaria a decolagem. Se Mac acionasse o sistema de prevenção contra falhas, correria o risco de provocar um acidente.

Ele virou a lateral traseira do jato na direção dos homens, mas eles contornaram rapidamente o avião, apontando suas armas.

— Não dê atenção a eles! - gritou Leon. - Vamos embora! Os homens saíram do campo de visão de Mac e abriram fogo. Os pneus estouraram, produzindo um ruído quase tão forte quanto o dos tiros. O Condor estava avariado. Com mais da metade dos pneus em frangalhos, a imensa aeronave balançava de um lado para o outro sobre a pista. Mac não tinha condições de rodar, e muito menos de ganhar velocidade para levantar vôo.

Por mais estranho que pudesse parecer, não havia nenhum outro avião à vista. Toda aquela confusão, que deveria ter sido presenciada pelo pessoal responsável pelo tráfego aéreo e de terra, não havia atraído a atenção da equipe de emergência. Mac se deu conta de que não haveria saída. Morreria ali mesmo. Ele e Abdullah estavam nas mãos daquele bando de assassinos. Quem quer que fossem, evidentemente contavam com a cooperação do regime de Rehoboth.

Os projéteis atravessaram a fuselagem. Mac e Abdullah saltaram das poltronas e acompanharam o desvairado Leon, passando pela cozinha e pela sala de descanso, indo parar na cabina de passageiros.

— Vão para o meio da aeronave e deitem-se no chão! -gritou Mac.

Aparentemente, os assassinos haviam decidido não deixar nenhum sobrevivente. Os projéteis atravessavam as janelas e a estrutura do avião. Mac percebeu que havia apenas cinco homens deitados no chão. Abdullah, Leon, Clancy, o ajudante de Karl e ele estavam com o corpo encurvado sob os bancos, protegendo a cabeça com as mãos.

— Onde está Karl? - gritou Mac. Ninguém se mexeu.

Mac ouviu o som de passos. Ao levantar um pouco a cabeça, ele viu o cozinheiro cambaleando pelo corredor, encharcado de sangue.

— Karl! Abaixe-se!

O cozinheiro caiu no chão com os olhos arregalados. Um buraco na testa evidenciava que ele havia sofrido um ferimento mortal.

— Você tem uma arma? - gritou Leon.

— Seu patrão proibiu o uso de armas, Leon! - disse Mac.

— Mas, com certeza, você às vezes desacata as ordens dele! Se você conseguir uma, não será punido! Não temos saída, Mac!

Havia duas pistolas no compartimento de cargas. Sim, pensou Mac, às vezes eu desacato as ordens dele. Mas como ir buscá-las, e o que ele poderia fazer diante de armamento tão pesado?

— Faça alguma coisa! - implorou Leon. - Você tem um telefone?

Mac desatou o celular do cinto e atirou-o na direção de Leon. O supremo comandante começou a digitar freneticamente um código especial, estremecendo a cada rajada de balas que atravessava o avião.

— Megalerta CG, aqui é LF 999, linha sigilosa! Informe Sua Excelência que o CG Um está sendo metralhado no Aeroporto Internacional de Joanesburgo. Ponha-me imediatamente em contato direto com o potentado Rehoboth!

Mac ouviu o telefone da sala de descanso tocando. Será que ele deveria atrever-se a ir atendê-lo? Se fosse um dos atiradores fazendo exigências, talvez valesse a pena. Arrastando-se e passando por cima do corpo de Karl, conseguiu chegar à sala de descanso. Ao agarrar o fone, a base do aparelho caiu no chão.

— Fale! - ele berrou.

Era a voz da mulher que ele ouvira pela escuta clandestina. Ela estava histérica.

— O Sr. Ngumo nada tem a ver com este ataque! Ele foi pego de surpresa pelos... oh, não! Oh... - Uma rajada de tiros ensurdecedora obrigou Mac a afastar o fone do ouvido. Quando ele voltou a ouvir, a mulher estava gritando. - Eles o mataram! Não! Por favor! - Mais tiros, e Mac ouviu o som do telefone dela cair no chão.

Ele arrastou-se de quatro até a cabina de comando e gritou pelo rádio:

— Socorro! Pista de Joanesburgo! CG Um sendo metralhado! Mac ouviu Leon falando aos gritos pelo telefone:

— Foi você, Bindura? Por quê? Carpathia não está aqui neste avião! Estou-lhe dizendo a verdade! Mande seu pessoal parar de atirar! Por favor!

Se Rehoboth estivesse por trás daquele atentado, todos eles morreriam. O homem devia ter pensado em tudo. Mac gritou pelo rádio:

— Socorro! Joanesburgo! Crentes a bordo!

Se, por acaso, houvesse um piloto cristão naquela área, talvez ele ou ela pudesse fazer alguma coisa.

Mac foi atingido no rosto pelos estilhaços de uma bomba, e um cheiro de fumaça tomou conta do avião.

— Fogo! - gritaram Leon e Clancy.

Abdullah correu para a parte da frente do avião e gritou:

— Pode ser que eles nos acertem, Mac, mas precisamos saltar daqui! O avião está em chamas!

Mac e Abdullah abriram a porta da cabina de passageiros evitando ser alvo dos atiradores. Leon arrastou Clancy, cujas pernas estavam rígidas de medo. Ele chorava sem conseguir equilibrar-se. Assim que Abdullah abaixou a escada, Leon colocou o corpo trêmulo de Clancy diante de si, como escudo. O corpo de Clancy foi dilacerado pelas balas, e Leon ficou paralisado no topo da escada. Ele só se deu conta do perigo a que estava exposto quando uma bomba explodiu na sala de descanso. Mac e Abdullah deram um salto e o agarraram, rolando com ele pelos degraus, enquanto estrondos continuavam vindo do interior do avião.

Mac achou que não conseguiria chegar vivo à pista. Ele perdera toda a esperança e só saltara do avião para fugir das chamas. As rajadas de bala ao redor dele e do Condor zuniam de maneira ensurdecedora. Ele apertou os olhos com tanta força que parecia que suas bochechas tocavam a testa. Com uma das mãos agarrada ao pulso de Abdullah e um joelho apoiado nas costas carnudas de Fortunato, Mac teve a certeza de que, quando abrisse os olhos, estaria no céu.

Mas não foi isso o que aconteceu...

Leon caiu de quatro na pista, apoiado nas mãos e nos joelhos. Abdullah foi atirado ao ar, passando por cima dele. Mac desabou sobre as costas de Leon, forçando-o a esticar-se de bruços no asfalto. Um projétil atravessou o ombro direito de Mac e outro atingiu sua mão direita. As rajadas de bala de uma arma a uns cinco metros de distância dele passavam zunindo por sua orelha esquerda.

— Oh! Deus! - gritou Leon, com o corpo sob o de Mac. -Oh, Deus, ajuda-me!

Mac achou que sua cabeça seria o próximo alvo e que seu sofrimento seria misericordiosamente terminado.

Escuridão.

Silêncio.

Nada.

Apenas um cheiro e gosto ruim na boca e muita dor.

Mac não viu nada por ter ficado de olhos fechados. O único som que ele escutava agora era o da respiração ofegante de Leon.

O cheiro que sentia era de pólvora e de material metálico; o gosto, de sangue, e a dor, profunda, lancinante. O buraco aberto pelo tiro no ombro doía muito mais que o ferimento na cabeça. Sua mão estava pior ainda. Ele não queria abrir os olhos. Nada do que visse naqueles ferimentos o surpreenderia. Sua mão devia estar despedaçada.

Leon tentou levantar-se para respirar melhor, mas não conseguiu por causa do peso do corpo de Mac sobre ele. Mac rolou pelo pavimento caindo à esquerda de Leon. Seus olhos continuavam fechados, sua mente girava. Será que tudo havia terminado ou ele veria os assassinos em pé a seu lado quando abrisse os olhos? Fortunato teria sido atingido? E Abdullah?

Decepcionado por não estar no céu, Mac forçou-se a abrir um olho. A fumaça era tão densa e escura que ele não conseguia enxergar um palmo adiante do nariz. Levou a mão machucada para perto do rosto para poder enxergar o que acontecera e sentiu uma dor terrível no ombro. Sua mão tremia tanto que chegava a balançar o corpo todo, e espirrava sangue em seu rosto.

Mac segurou a mão machucada com a outra para fazê-la parar de tremer e viu que não perdera nenhum dedo, mas eles apontavam para direções diferentes. Uma bala havia atravessado a palma da mão. Seu corpo inteiro tremia, e ele receava entrar em estado de choque.

Quando a fumaça começou a se dissipar, ele conseguiu sentar. Leon ofegava a seu lado, com os olhos abertos, dentes à mostra. Um pouco mais adiante, estava o corpo sem vida de Clancy Tiber.

— Abdullah? - Mac chamou com voz fraca.

— Estou aqui - respondeu Abdullah. - Fui atingido por uma bala na coxa. E você?

— Pelo menos duas me atingiram. O que aconteceu com...

— Você viu os cavalos?

— Eu mal estou conseguindo ver você.

— Espero que eles fiquem mais um pouco para que você possa vê-los.

— Eu também...

 

Na manhã de sábado, Rayford despertou na casa secreta pouco depois das nove. Ele poderia ter dormido mais algumas horas, depois de tudo o que acontecera na noite anterior, mas seu sono havia sido interrompido por um ruído estranho. Continuou deitado, com os olhos abertos, na esperança de que seu corpo tivesse tido tempo de recuperar as forças e de que suas dores tivessem passado.

Um som ritmado, como se alguém estivesse esfregando as mãos intermitentemente, o fez sentar-se na cama. Depois de ouvir com mais atenção, ele imaginou que poderia ser alguém fungando ou chorando baixinho. 0 som vinha do quarto ao lado, onde Tsion dormia e trabalhava.

O descanso havia sido bom para a mente e espírito de Rayford, mas também servira para enrijecer suas juntas e músculos doloridos. Ele gemeu alto, vestiu o roupão e espiou no quarto de Tsion pela fresta da porta.

A princípio, Rayford não enxergou Tsion. A cadeira diante da tela do computador estava vazia. A cama também. O som, porém, vinha daquele quarto. Rayford deu uma batida de leve na porta e empurrou-a um pouco mais. Tsion estava estendido no chão, debaixo da janela que ficava perto da cama, cobrindo o rosto com as mãos. Seus ombros arfavam enquanto ele chorava amargamente.

— Você está bem? - perguntou Rayford em voz baixa, mas Tsion não respondeu.

Rayford aproximou-se dele e sentou-se na cama para que Tsion visse que ele estava ali. O rabino orava em voz alta: Senhor, se for Hattie, tem piedade de sua alma. Se for Chaim, quero muito levá-lo à tua presença. Se for alguém desta casa, protege essa pessoa, defende-a, dá-lhe os instrumentos de que ela necessita. Pai, se for um dos irmãos ou irmãs recém-convertidos, alguém que eu ainda não conheço, peço-te que o protejas e tenhas misericórdia dele. Agora, ele chorava mais ainda e gemia. Deus, ensina-me como devo orar.

Rayford pousou a mão no ombro de Tsion, e ele virou-se.

— Rayford, o Senhor incutiu repentinamente em meu coração um desejo profundo de orar por alguém que corre perigo. Eu estava escrevendo a minha mensagem, que também está pesando sobre mim. Provavelmente é a mais difícil que já precisei escrever. Pensei que, como líder, minha missão fosse orar por meus leitores, mas o que senti parecia ser mais específico, mais urgente. Orei para que o Senhor me dissesse quem precisava de oração, mas, de repente, fui dominado por um desejo de orar imediatamente. Quando me ajoelhei, parece que o Espírito de Deus me puxou para o chão e minha alma sentiu um desejo ardente de orar por alguém que estivesse necessitando de minha oração. Eu ainda não sei quem é, mas, mesmo assim, não posso afastar a sensação de que não se tratava apenas de imaginação. Você oraria comigo?

Rayford ajoelhou-se desajeitadamente, com o corpo todo dolorido por causa da noite anterior, sem ter idéia do que acrescentar à oração de Tsion. Senhor, ele orou, concordo com as palavras que meu irmão dirigiu a ti. Nós, seres finitos, não sabemos nos expressar nem pedir coisa alguma que venha a exercer influência sobre aquilo que tu, que és um Deus infinito, desejas fazer, mas confiamos em ti. Tu nos disseste que devemos orar, que devemos nos aproximar de ti sem temor. Se alguém que conhecemos e amamos estiver em perigo, oramos para que tu protejas essa pessoa com o teu admirável poder.

Rayford ficou comovido com a emoção de Tsion e não conseguiu prosseguir.

— Muito obrigado - disse Tsion, apertando-lhe a mão. Eles se levantaram. Tsion sentou-se diante de seu computador e enxugou os olhos.

— Eu não sei do que se tratava - ele disse -, mas parei de questionar de que forma Deus se comunica conosco.

Depois de se recompor, Tsion pediu a Rayford que lesse a sua mensagem do dia.

— Vou melhorá-la antes de enviá-la esta tarde, mas apreciaria ouvir seus comentários.

— Eu adoraria ler a sua mensagem - disse Rayford -, mas não sei o que eu poderia acrescentar a ela.

Tsion levantou-se e ofereceu sua cadeira a Rayford. - Vou procurar alguma coisa para beber. Volto em seguida para o meu posto.

 

Mac sabia que, se permanecesse na pista cheia de fumaça do aeroporto de Joanesburgo, morreria. Os ferimentos na orelha e no couro cabeludo sangravam por baixo dos curativos, e o efeito do anestésico já havia passado. Seu ombro parecia ter sido esmagado por um martelo incandescente. Sua mão jamais seria igual ao que era. O melhor que ele podia esperar era salvar os dedos, que certamente jamais voltariam a movimentar-se como antes.

Depois que a fumaça se dissipou com o vento quente da tarde, Mac avistou Abdullah a uns cinco metros de distância, à sua esquerda. O jordaniano estava ajoelhado, com o turbante desenrolado e uma expressão de medo e fadiga no rosto. Em sua coxa direita havia um corte profundo que sangrava. Ele apontou para um ponto distante e disse:

— Eles ainda estão aqui.

Mac havia tido apenas um vislumbre da cavalaria fantasmagórica de homens e animais assustadores no momento em que Abdullah tentou desviar deles no ar. Agora, havia uma legião reunida a uns 30 metros além da pista, soltando fumaça, fogo e enxofre pela boca e açoitando com suas caudas - verdadeiras serpentes - as vítimas que não podiam vê-los.

Por onde passavam, os cavalos-leões deixavam corpos estendidos no chão. Algumas vítimas apresentavam sintomas de convulsão antes de caírem estateladas no chão. Outras se debatiam em chamas até que a morte lhes trouxesse alívio. Ou assim elas pensavam, disse Mac consigo mesmo. Um dos falsos dignitários fugiu correndo pela pista. Outros dois estavam estirados mortos, perto do avião. Dali, eles poderiam ter matado Mac, se continuassem a atirar.

Apesar da distância em que se encontrava, Mac podia ver que os cavalos e seus cavaleiros eram figuras medonhas.

Apesar de flutuarem alguns centímetros acima do chão, eles galopavam, trotavam, marchavam e empinavam o corpo como se fossem cavalos comuns. Seus cavaleiros os instigavam, espalhando pânico entre as pessoas e destruindo edifícios e veículos.

Leon Fortunato, que parecia completamente atordoado, rolara na direção de Mac, agarrando-lhe o rosto com ambas as mãos. Mac quase gritou de dor.

— Você salvou minha vida, Mac! - gritou Leon.

— Protegeu-me com seu corpo! Você foi atingido?

— Duas vezes - disse Mac, afastando as mãos de Leon e apontando para os cavalos. - O que o senhor está vendo naquela direção?

— Corpos amontoados - disse Leon, com os olhos semicerrados. - Fogo, fumaça. E um cheiro medonho, igual ao que senti no avião. Argh!

— Precisamos nos afastar do avião - disse Mac. As chamas saíam pelas janelas.

— O lindo Condor... - disse Leon. - O orgulho e a alegria de Sua Excelência.

— O senhor gostaria de arrastar o corpo de Clancy para tirá-lo do caminho? - perguntou Mac.

Leon levantou-se com muito esforço, cambaleando, tentando equilibrar-se.

— Não - ele disse, agora com voz mais forte. - Deve estar faltando sepulturas no mundo inteiro. Teríamos de cremá-lo. Vamos deixar que o corpo dele se queime aqui.

Leon virou-se lentamente.

— Pensei que tivéssemos morrido - ele disse. - O que aconteceu?

— O senhor orou.

— Como assim?

— O senhor pediu a Deus que o ajudasse - disse Mac.

— Eu me considero um homem religioso.

— Tenho certeza que sim. Deus deve ter respondido.

— Por que os homens pararam de atirar?

Mac estremeceu, desejando que eles tivessem parado de atirar muito antes.

— Como podemos saber? Um deles correu. Os outros dois estão imóveis até agora.

Leon e Mac seguraram Abdullah, um de cada lado, e caminharam lentamente em direção ao terminal.

 

Para Rayford, foi um privilégio ter a oportunidade de ler uma mensagem antes dos milhões de leitores do mundo inteiro. Tsion havia escrito o seguinte:

Meus queridos irmãos e irmãs em Cristo:

Dirijo-me a vocês hoje com o coração pesaroso, o que não é nenhuma novidade durante este período da História que estamos atravessando. Embora os 144.000 evangelistas escolhidos por Deus estejam vendo milhões de pessoas aceitando a Cristo, a religião mundial unificada continua a tornar-se cada vez mais poderosa e - por que não dizer -mais abominável. Preguem a seguinte mensagem no alto das montanhas e nos vales, meus queridos: Há um só Deus e um só Mediador entre Deus e o homem, o Homem Cristo Jesus.

Os implacáveis gafanhotos demoníacos profetizados em Apocalipse 9 desapareceram há mais de um ano e meio, depois de terem torturado milhões de pessoas. Porém, muitas delas que foram picadas durante o último mês desse flagelo só chegaram ao fim de sua agonia três meses atrás.

Embora grande número de pessoas tenha-se convertido depois daquele terrível julgamento, a maioria tornou-se ainda mais arredia. O líder da Fé Mundial Enigma Babilônia deve ter visto os devotos de sua religião sofrendo no mundo inteiro. Mas nós, os crentes em Cristo, os "dissidentes" - os inimigos da tolerância e da inclusão -fomos poupados.

Nossos amados pregadores em Jerusalém, apesar da ferrenha oposição e da perseguição que enfrentam, continuam a profetizar e ganhar almas para Cristo naquela ex-cidade santa, agora comparável ao Egito e a Sodoma. Em razão disto, temos motivos para ser agradecidos nestes tempos de aflição crescente.

Vocês já estão sabendo que o sexto Julgamento das Trombetas, o segundo ai (Apocalipse 9), começou. Aparentemente, eu tinha razão quando achei que os 200 milhões de cavaleiros eram seres espirituais e não materiais, mas estava errado ao considerar que eles seriam invisíveis. Pessoas que conheço e em quem confio viram esses seres matarem por meio de fogo, fumaça e enxofre, conforme as profecias bíblicas. Mesmo assim, os incrédulos nos acusam de estar mentindo, vendo coisas que eles não conseguem ver.

É importante que vocês saibam que o atual flagelo se desencadeou quando foram soltos os quatro anjos que se encontravam amarrados junto ao Rio Eufrates. Sabemos que eles são anjos caídos, porque não há outro trecho na Bíblia que mencione que os anjos bons foram amarrados. Aparentemente, os quatro foram amarrados porque estavam ansiosos para provocar destruição sobre a Terra. Agora que foram soltos, eles estão livres para fazer o que desejam. Na verdade, a Bíblia nos diz que eles estavam preparados para atacar em hora, dia, mês e ano específicos.

É significativo saber que os quatro anjos, provavelmente amarrados durante séculos, estavam junto ao Rio Eufrates. É o rio de maior destaque na Bíblia. Banhava o Jardim do Éden. Era um marco de delimitação para Israel, Egito e Pérsia, muitas vezes citado na Bíblia como símbolo dos inimigos de Israel. Perto desse rio, o primeiro homem pecou, o primeiro assassinato foi cometido, a primeira guerra eclodiu, foi construída a primeira torre para desafiar a Deus, e foi edificada Babilônia. Foi na Babilônia que se originou a idolatria, que se espalhou pelo mundo inteiro. Os filhos de Israel foram exilados lá como escravos, e é lá que o pecado final do homem culminará.

Apocalipse 18 prediz que Babilônia será o centro do comércio, da religião e do governo mundial, mas que ela cairá em ruínas, porque forte é o Senhor Deus que a julgará.

A Bíblia menciona que o flagelo atual resultará no extermínio da terça parte da população que restou após o Arrebatamento. Um simples cálculo matemático nos leva a um resultado terrível. A quarta parte da população que restou após o Arrebatamento já morreu em razão de pragas, guerra e acidentes naturais. Sobraram, evidentemente, 75%. A terça parte de 75% é 25%, portanto a mortandade atual deixará apenas 50% das pessoas que não foram arrebatadas.

Devo esclarecer que o que vou dizer a seguir não passa de especulação. Depois de estudar os idiomas originais e os inúmeros comentários sobre esta profecia, cheguei à seguinte conclusão: Deus continua tentando persuadir a humanidade a chegar-se a Ele, sim, mas esta destruição de mais uma terça parte dos incrédulos remanescentes pode ter outro propósito. Em sua preparação para a batalha final entre o bem e o mal, é provável que Deus esteja desistindo de vez daqueles incorrigíveis, pertencentes às forças do mal, e que Ele, em sua onisciência, sabe que jamais se converterão.

A Bíblia prediz que os incrédulos sobreviventes se recusarão a abandonar a maldade. Eles insistirão em continuar a adorar ídolos e demônios e a participar de assassinatos, feitiçarias, imoralidades sexuais e roubos. Até mesmo os noticiários de emissoras de propriedade da Comunidade Global mencionam que o número de assassinatos e roubos está em ascensão. A nova sociedade, tolerante em excesso, aplaude a adoração a ídolos e demônios, bruxaria e sexo ilícito.

Lamentavelmente, este último julgamento antes da segunda metade da Tribulação durará mais quatro meses até que o acordo entre a Comunidade Global e a nação de Israel complete três anos e meio, o que coincidirá com o fim do ministério das duas testemunhas. A seguir, virá o período em que os crentes serão martirizados em número muito maior do que aqueles que estão morrendo agora.

Muitos de vocês têm escrito perguntando-me por que um Deus de amor e misericórdia impõe esses terríveis julgamentos sobre a Terra. Deus é mais do que um Deus de amor e misericórdia. A Bíblia diz que Deus é amor, sim, mas também diz que Ele é santo, santo, santo. Diz ainda que Ele é justo e que manifestou seu amor oferecendo seu Filho para a nossa redenção. Mas, se rejeitarmos essa dádiva, seremos submetidos ao julgamento de Deus.

Sei que centenas de milhares de leitores de minhas mensagens diárias visitam este site não como crentes, mas em busca da verdade. Portanto, peço permissão para me dirigir a você, que não se considera meu irmão ou irmã em Cristo. Faço um apelo, como nunca fiz antes, para que você receba Jesus Cristo como o dom de Deus para a salvação. Os pecados dos quais os incrédulos obstinados não se arrependerão (ver acima) se alastrarão de maneira incontrolável durante a última metade da Tribulação, à qual a Bíblia dá o nome de Grande Tribulação.

Imaginem como será este mundo depois que metade de sua população desaparecer. Se vocês acham que a situação atual é triste por termos perdido milhões de pessoas, inclusive as crianças, no Arrebatamento - o que gerou sérios problemas nos serviços públicos -, tentem visualizar a vida depois que metade dos profissionais civis for morta. Bombeiros, policiais, operários, executivos, professores, médicos, enfermeiros, cientistas... a lista é enorme. Estamos caminhando para um período no qual nos ocuparemos o tempo todo lutando para sobreviver.

Eu não gostaria de estar aqui na Terra sem saber que Deus está comigo. Quero estar do lado do bem e não do mal, sabendo que, no final, seremos vencedores. Orem neste momento. Digam a Deus que reconhecem seus pecados e que necessitam de perdão e de um Salvador. Aceitem a Cristo hoje e passem a fazer parte da grande família de Deus.

Cordialmente, Tsion Ben-Judá

 

Mac e Leon ajudaram Abdullah a caminhar até o caótico terminal do Aeroporto de Joanesburgo.

— Rehoboth estava por trás deste atentado - disse Leon. - Ele próprio me contou. Imaginou que Sua Excelência estivesse a bordo. Precisamos buscar ajuda e readquirir a autoridade aqui sem colocar nossas vidas em risco.

— Não é um pouco tarde para isso? - perguntou Mac. - O senhor não poderia ter dito antes a ele que Carpathia não estava no avião?

— Tínhamos motivos para deixar que o Sr. Ngumo acreditasse que Sua Excelência estava a bordo. É assim que você deve referir-se a ele, capitão. O potentado regional Rehoboth foi convidado, mas não sabíamos que ele era um subversivo.

— Acho que o senhor vai encontrar Ngumo e sua secretária mortos - disse Mac, contando a Leon sobre o telefonema que ele atendeu.

— É melhor encontrarmos Rehoboth morto - disse

Abdullah. - Ele não permitiria que saíssemos vivos daqui. Leon parou, com o rosto pálido.

— Quando conversei com Rehoboth, imaginei que ele estivesse no palácio. Ele não viria para cá, viria?

— Precisamos nos apressar - disse Mac, prestes a desmaiar. - Se Rehoboth quiser nos matar, basta dar uma ordem a um destes guardas.

Os guardas, porém, estavam tão assustados quanto qualquer outra pessoa, falando com dificuldade, tossindo, cuidando dos companheiros feridos. Ouviam-se gritos por todo o terminal, onde havia corpos estendidos no chão, malas espalhadas por todos os lados. Os balcões estavam vazios, e os terminais, apagados.

Assim que eles entraram no terminal, Mac ouviu o zumbido de um jato Super J. O modelo aprimorado de um caça da Gulfstream era preto, reluzente e tinha uma aerodinâmica incrível - com grande autonomia de vôo e amplo espaço interno. Foi a primeira aeronave que pousou em Joanesburgo depois do Condor. Acima de seu prefixo, havia o desenho da bandeira australiana e o lema Trabalho Honesto. Assim que o avião pousou na pista, desceram o piloto e uma mulher. Ambos dirigiram-se apressados para o terminal.

— Ei! - gritou o homem em tom agudo, fazendo com que muitas pessoas se virassem. - Alguém pediu socorro com crentes a bordo!

Ele era alto, loiro e sardento. Falava com um sotaque australiano tão acentuado que Mac imaginou que pudesse ser um truque. A mulher era quase tão alta quanto ele. Tinha cabelos escuros, espessos.

Mac e Abdullah entreolharam-se, e Fortunato voltou-se lentamente.

— Fui eu - disse Mac, ao ver os selos na testa de ambos.

O australiano também viu o dele. - Eu estava desesperado. Pensei que meu pedido pudesse persuadir alguém a descer aqui. Valeu?

— Claro que sim, cara - disse o piloto, olhando firme para a testa de Abdullah. - Somos crentes e não nos envergonhamos disso, mesmo que você tenha usado um artifício para nos enganar. Pode me chamar de Dart. O primeiro nome não é importante. Esta é Olivia, minha esposa.

— Liv - ela disse. - E vocês estão precisando de cuidados médicos.

— Quem é você? - perguntou Dart, dirigindo-se a Fortunato.

— Sou o Supremo Comandante Leon For...

— Foi o que imaginei - disse Dart. - Ainda é cedo para seu patrão morrer, portanto não vou perguntar se ele estava a bordo daquela bola de fogo ali.

— Felizmente não - disse Fortunato.

— Então o que aconteceu? Os cavaleiros pegaram vocês?

— Oh, você é um deles? - perguntou Fortunato. - Você também conseguiu vê-los?

— Claro que sim.

— Dart - disse Liv carinhosamente -, precisamos ajudá-los.

— Sim, acho que é melhor - ele disse. - Mas eu não me importo de dizer que me sinto como se estivesse ajudando o inimigo. Por mim, eu deixaria que vocês morressem, mas Deus ainda vai alcançar vocês. Leiam o Livro. Nós vencemos.

Fortunato virou-se para ele.

— Você poderia ser preso por dirigir-se desrespeitosamente a...

— A propósito, Sr. F, sei que você não vai se importar que eu o chame de Sr. F, porque é assim que vou chamá-lo. Qual é o seu problema? Você parece estar andando bem.

— A lei exige que você me chame de Supre...

— Eu vou lhe dizer uma coisa, Sr. F. Eu não estou mais debaixo de suas leis. Eu respondo a Deus. Você não pode me fazer nada sem a permissão dele, por isso aproveite a oportunidade que está tendo. Este homem aqui transmitiu um pedido de socorro fingindo que havia crentes em perigo. Minha esposa e eu ficamos intrigados, querendo saber por que havia crentes a bordo do avião de propriedade do anticristo...

— Anticristo?! Como você pode chamar Sua Excelência, o potentado Nic...

— Você ainda não entendeu, F? Acho que ele é o anticristo, e você sabe o que isso representa para você.

— Não estudo essas bobagens, mas aconselho você a...

— Eu não preciso de seu conselho, cara, mas posso conseguir atendimento médico para vocês. Parece que seu maior problema não passa de alguns rasgos na calça e uns poucos arranhões nas mãos. Estes homens aqui é que estão necessitando de atendimento médico.

— Francamente, eu...

— Há um posto médico naquela ala ali atrás, e, com seu prestígio, você deveria dar ordens para que alguém retirasse os feridos do meio das outras vítimas.

Uma voz soou, vinda do sistema de aviso ao público.

"Atenção! Atenção, por favor! Supremo comandante da Comunidade Global, Leon Fortunato, dirija-se, por favor, aos escritórios das Forças Pacificadoras da CG na Ala B."

Depois que o comunicado foi repetido, Dart disse:

— A Ala B fica à direita, logo depois da enfermaria, Sr. F. Se o senhor quiser ir, vá. Nós podemos levar seus companheiros até o posto médico.

— Eu devia mandar prendê-lo, seu...

— Se esta for sua prioridade neste momento, vá em frente. Mas, se eu fosse você, correria para um lugar seguro e deixaria que eu cuidasse destes dois. Haverá muito tempo para você mandar alguém atrás de nós.

O sangue subiu à cabeça de Fortunato que, vermelho, parecia prestes a explodir de raiva. Ele virou-se para Mac e disse:

— Não há dúvida de que Sua Excelência conseguiu atendimento para nós.

— O senhor deve ir na frente, Supremo Comandante - disse Mac. - Descubra o que houve com Rehoboth, verifique com Carp..., com o potentado.

— Eu não confio nesse homem.

— Ora, vamos, Sr. F - disse Dart. - Sou tão inofensivo quanto uma pomba. Por mais que eu tenha vontade de matar dois funcionários seus, prometo não fazer nada disso. Vou levá-los a um lugar onde possam ser atendidos e seguirei meu caminho.

Dart afastou Fortunato de Abdullah com cuidado e passou a cabeça por baixo do braço do jordaniano. Liv segurou Mac pelo cinto com uma das mãos e seu cotovelo esquerdo com a outra, deixando Fortunato livre para sair dali.

— Você - disse Fortunato, enquanto se afastava com relutância - é uma vergonha para a Comunidade Global.

— Isso para nós é uma honra, não é mesmo, Liv?

— Ora, Dart - ela disse.

— Obrigado por não nos denunciar - disse Mac depois que Leon se afastou.

— Santos infiltrados! - disse Dart, agora com sotaque do sul dos Estados Unidos, parecido com o de Mac. - Eu mal pude acreditar! Quase estraguei tudo. Quando vi o selo na sua testa e na de seu companheiro, pensei que o outro homem também fosse dos nossos. Mas assim que fixei o olhar nele, percebi quem era e tive de fingir.

— Você foi brilhante! - disse Mac apresentando-se e, em seguida, apresentando Abdullah.

— Você gostou dos nomes Dart e Olivia? - perguntou Dart.

— Quase coloquei tudo a perder - disse Liv.

— Você foi perfeita, querida - disse Dart. - O apelido Liv foi genial.

Eles se apresentaram como Dwayne e Trudy Tuttle, de Oklahoma.

— Eu troco a bandeira e o lema naquele avião quase todos os dias. Somos alemães, noruegueses, britânicos, qualquer coisa. Fazemos parte da Cooperativa Internacional de Mercadorias. Já ouviu falar?

— Sua língua comprida ainda vai acabar conosco - disse Trudy.

— Nunca pensei que teria a chance de dizer na cara do Falso Profeta o que eu pensava dele.

— O Falso Profeta? - disse Mac. - Leon?

— Ele diz que Carpathia o ressuscitou, não é mesmo? Ele adora o sujeito, chama-o de Sua Excelência. Espere para ver se ele não vai virar o Falso Profeta. Mas qual é a história de vocês? Vocês se infiltraram na CG ou encontraram Jesus depois que estavam trabalhando lá?

 

Buck olhou-se no espelho. Mesmo depois de um ano, as cicatrizes em seu rosto ainda estavam vermelhas e vivas. O cirurgião que ele encontrou em uma clínica improvisada em Jerusalém talvez tivesse sido melhor do que ele esperava, mas modificou sua fisionomia. Chloe apareceu detrás dele e pôs Kenny em seus braços.

— Pare de pensar nisto - ela disse.

— Pensar no quê?

— Não se faça de bobo. Você está achando que pode tirar vantagem de sua nova aparência.

— Claro! - disse Buck.

Ele se perguntou se esta não seria a maneira que Chloe usava para prendê-lo em casa: pôr Kenny em seus braços. Eles já haviam passado por situações semelhantes. Chloe se conformara com a idéia de que suas viagens extravagantes ao redor do mundo haviam terminado. Por mais que gostasse de aventuras, ela não queria expor um bebê ao perigo. Sua função na Cooperativa de Mercadorias era de suma importância não apenas para o Comando Tribulação, mas também para os milhões de novos crentes que em breve não teriam condições de comprar ou vender.

Chloe dissera a Buck que gostaria que ele se contentasse em trabalhar nos bastidores, contra-atacando os artigos do Semanário Comunidade Global com sua revista virtual, A Verdade. Porém, em razão da nova tecnologia proporcionada por David Hassid, Buck poderia fazer seu trabalho em qualquer lugar do mundo sem ser rastreado. A ampliação do porão estava quase terminada, e Buck sentia que sua presença era necessária em muitos outros lugares.

O casal já havia discutido a responsabilidade que ele tinha em relação ao bebê. Evidentemente, Kenny seria educado de maneira diferente da normal, porque, quando chegasse à fase adulta, Cristo já teria estabelecido seu reino aqui na Terra. Mesmo assim, era importante que a criança contasse com a presença do pai e da mãe a maior parte do tempo possível. Buck havia argumentado que cada ausência sua de duas ou três semanas seria contrabalançada pelas 24 horas que ele passaria em casa quando não estivesse viajando.

— Trata-se de uma compensação - ele dissera. - Eu passaria o mesmo número de horas com Kenny se estivesse trabalhando fora diariamente.

Buck levou o bebê até a cozinha, e Chloe o seguiu.

— Você está novamente com aquele brilho nos olhos - ela disse. - Daqui a alguns dias, ninguém vai conseguir segurá-lo aqui. Para onde você vai?

— Você me conhece muito bem - ele disse. - A verdade é que Tsion quer que um de nós retorne a Israel para ver como Chaim está. Tsion está animado com os e-mails que eles têm trocado, mas acha que alguém precisa conversar pessoalmente com Chaim antes que ele tome uma decisão.

Chloe acenou afirmativamente com a cabeça.

— Eu gostaria de discordar, mas não posso. Papai não pode arriscar-se a fazer essa viagem. Ele pôs na cabeça que precisa descobrir o paradeiro de Hattie antes que ela revele nosso esconderijo ou seja assassinada por alguém. Tsion não pode sair daqui de jeito nenhum. Não sei o que seria do mundo sem suas mensagens. Sei que Deus tem o controle de todas as coisas e acho que Ele poderia escolher outra pessoa para substituí-lo, como fez no caso de Bruce, mas...

— Eu sei. Precisamos contratar seguranças armados para impedir que ele seja visto por alguém.

— Quando você vai partir, Buck?

Chloe tinha um jeito todo especial de provocar uma resposta direta.

— Tsion quer conversar com você sobre isto - disse Buck. Ela sorriu. - Você parece uma criança, querendo que um amigo convença seus pais a lhe dar permissão para fazer alguma coisa. Tsion deve achar que eu não recusaria um pedido dele.

— E você recusaria?

Ela deu um longo suspiro.

— Não consigo recusar nenhum pedido seu. Mas se, por acaso, você morrer, vou odiá-lo pelo resto da vida.

— Pensei em fazer uma visita a Zeke depois de escurecer. Chloe estendeu os braços para pegar Kenny.

— Eu estava pensando nisso. Precisamos fazer algumas compras para o bebê. Vou preparar uma lista também de outras coisas que estão em falta. Fale com Leah. Ela disse que estamos necessitando de alguns mantimentos.

Naquela noite, Buck parou em um posto de gasolina semidestruído, localizado onde um dia havia sido o centro da cidade de Des Plaines. Nesse posto, os crentes abasteciam seus carros e compravam mantimentos e outros gêneros de primeira necessidade. Zeke administrava o local com a ajuda de Zeke Jr. - conhecido como Z -, um rapaz de cerca de 25 anos, cabelos compridos e várias tatuagens no corpo. Antes, ele ganhava a vida fazendo tatuagens, desenhando figuras na lataria dos carros e na carroceria de caminhões, e pintando caras de monstros em camisetas. Chegou a pintar uma paisagem na lateral de um caminhão de 18 rodas! Aquela profissão, é claro, deixara de existir havia muito tempo.

Zeke perdera a esposa e duas filhas adolescentes em um incêndio resultante dos desaparecimentos. Zeke e seu filho foram levados a Cristo por intermédio de um motorista de caminhão. Eles freqüentavam agora uma igreja que se reunia secretamente em Arlington Heights, tomando extremo cuidado para não divulgar sua fé aos incrédulos e, assim, poder fornecer mercadorias e serviços aos irmãos crentes. Z havia sido um jovem drogado, cujo trabalho esporádico de fazer tatuagens e desenhar servia apenas para financiar seu vício. Agora, ele era um artista emotivo e de fala mansa, que falsificava carteiras de identidade para cristãos da localidade, a fim de que pudessem sobreviver.

Zeke estava enchendo o tanque do Rover de Buck e observando atentamente se havia por ali alguma pessoa estranha ou cliente sem o selo de Deus na testa.

— Preciso comprar algumas coisas - disse Buck. - E também utilizar os serviços de Z.

— Tudo bem - disse Zeke. - Ele está ali vendo TV e fazendo os estudos pedidos por Ben-Judá. Deixe sua lista comigo. Eu levo seu carro até a garagem e coloco tudo lá.

Quando Buck desceu para entrar no escritório do posto, um carro parou atrás do dele.

— Dá para encher o tanque? - gritou o homem. - Ou o combustível está racionado hoje?

— Vou ver o que posso fazer - disse Zeke. - Estou terminando um serviço e já vou atender o senhor.

Buck compreendia muito bem a tensão diária de viver uma mentira somente para manter-se vivo. Ele entrou no escritório, que, aos olhos de uma pessoa qualquer, parecia um típico posto de gasolina ensebado, com calendários pendurados na parede, pôsteres de carros, uma lista telefônica manchada de óleo e sujeira por toda parte. Porém, o quadro de força que havia no minúsculo banheiro era, na verdade, uma saída secreta, onde estava escrito: Perigo. Alta Voltagem. Não Toque. Se alguém duvidasse e encostasse o dedo, receberia um leve choque.

O perigo, no entanto, acabava ali. Se a pessoa soubesse o local certo para empurrar, o quadro se abria para uma escada de madeira que conduzia ao abrigo de Zeke, escavado debaixo do posto. Na parte dos fundos do abrigo, Zeke pegaria todas as mercadorias da lista de Buck e as transportaria por uma escada estreita até a garagem. Dali, as mercadorias seriam transferidas para o Rover. Em uma sala úmida e desprovida de janelas, onde havia uma enorme abertura para ventilação, estava o corpulento Z, usando botas pretas estilo cowboy, jeans preto e colete preto, deixando à mostra os braços e o peito. Conforme Zeke dissera, Z estava assistindo ao noticiário enquanto rabiscava alguma coisa em um caderno espiral cheio de "orelhas", com o laptop aberto diante de si.

— Ei, Buck - disse Z, sem entusiasmo. Ele afastou suas coisas e levantou-se lentamente. - E aí? Está precisando de mim?

— Preciso de uma nova identidade.

Z abaixou-se atrás de um sofá verde, velho e embolorado, e abriu com força a porta de um arquivo barulhento de duas gavetas, que estavam fora de alinhamento. Ele percorreu as pastas com os dedos e retirou dez. Ao ver que a porta não fechava direito, Z deu um pontapé nela. Os papéis ficaram presos na gaveta emperrada, e Z sorriu timidamente para Buck.

— Escolha a identidade que quiser - ele disse, espalhando as pastas no sofá.

Buck sentou-se e examinou pasta por pasta sob uma lâmpada. O sistema de arquivo de Z talvez fosse desorganizado, mas ele sabia tudo o que havia lá. Cada pasta continha estatísticas importantes sobre homens brancos, mais ou menos do porte e idade de Buck.

— A quantidade está aumentando - disse Buck.

Z assentiu com a cabeça e voltou a fixar os olhos na TV. - Estes cavalos fumacentos estão deixando corpos por todo canto. Você viu o povo saqueando?

— Ainda não. Deve ser terrível.

— E mesmo. Mas é fácil. Tudo o que eu preciso fazer é pegar a carteira de documentos antes que a CG se mande levando o corpo. Tenho fotografias pra todos os gostos.

— Escolhi este cara aqui - disse Buck, colocando uma pasta aberta em cima da pilha e mostrando-a a Z.

Z atirou as outras pastas para trás do sofá, examinou a que estava diante dele e preparou sua câmara de fotos instantâneas. Buck sentou-se diante de um fundo azul e posou de frente e de perfil.

— Pensei em você quando vi este cara - disse Z. - Carteira de motorista, passaporte, certidão de cidadania, mais alguma coisa?

— Sim, me faça uma identidade de membro da Fé Mundial Enigma Babilônia. E que seja doador de órgãos. Por que não?

— Sem problema. Você tem pressa?

— Pode ser daqui a dois dias?

— Tudo bem.

Quando Buck avistou Zeke e saiu pela garagem, ele sabia que Z já estava trabalhando sob uma luz forte no outro cômodo. Da próxima vez que aparecesse em público, Buck estaria portando velhos documentos de identidade que pareciam autênticos, com sua foto no lugar da do falecido Greg North.

 

Mac nunca recebera um atendimento médico tão eficiente. Embora Joanesburgo estivesse aparentemente destroçada, com milhares de cidadãos mortos ou agonizando, o prestígio de Fortunato abria todas as portas. As Forças Pacificadoras Regionais da CG invadiram e tomaram conta do palácio de Rehoboth a mando de Carpathia. Rehoboth foi encontrado morto em seu escritório ao lado de mais de uma dúzia de funcionários.

Mac e Abdullah foram examinados e cuidados na enfermaria do aeroporto e depois transportados para o palácio, onde seriam operados. Leon lhes disse:

— Vocês também vão ouvir falar que a família de Rehoboth foi morta pela praga da fumaça e fogo, mas o cheiro do tiroteio da CG ainda permanece no ar.

Enquanto Mac e Abdullah eram conduzidos ao palácio em cadeiras de rodas, os corpos das várias famílias de Rehoboth estavam sendo transportados para fora.

— Os noticiários vão dizer que a tentativa de assassinato engendrada por Rehoboth falhou - disse Leon -, mas nós vamos afirmar que a família dele morreu em conseqüência da praga. Nossos inimigos conhecerão a verdade.

— E Ngumo? - perguntou Mac.

— Ora, está morto, claro. E sua secretária também, conforme você me contou. Rehoboth idealizou e pôs seu plano em prática diretamente de seu palácio. Com Ngumo eliminado e os assassinos/impostores de Rehoboth colocados em seus devidos lugares, Rehoboth estava pronto para assumir o lugar de Sua Excelência tão logo ele fosse assassinado.

Mac passou por uma cirurgia que durou horas, feita por um médico especialista em mãos. Seu ombro foi reconstituído, e os médicos também prenderam o couro cabeludo no lugar e cuidaram dos ferimentos na orelha. Depois de várias horas sob efeito de anestesia, ele despertou, deitado do lado esquerdo, de frente para o leito de Abdullah. O co-piloto estava com a perna enfaixada e elevada. Abdullah apontou para uma vasilha de vidro na mesinha de cabeceira de Mac, onde havia uma bala estilhaçada retirada de seu ombro.

— Causou um estrago enorme - disse Abdullah. - Mas não chegou a ameaçar sua vida.

O ombro de Mac, muito bem enfaixado, ainda estava anestesiado. Sua mão direita, enfaixada com uma gaze grossa, parecia um revólver apontando para algum lugar.

Um médico da CG, nascido na índia, entrou na sala de recuperação.

— Disseram que você estava acordado - ele falou. - As cirurgias nos três lugares foram um sucesso. Os ferimentos em sua cabeça foram cuidados por último, mas vão sarar primeiro. O ombro vai ficar com uma cicatriz grande. Sobraram alguns fragmentos da bala que ainda precisam ser retirados, mas não houve danos na estrutura do ombro. Alguns nervos ficarão insensíveis, e sua mobilidade talvez fique um pouco restrita. Sua mão foi salva, e os dedos também. Mas você sentirá dores durante várias semanas, e talvez sejam necessárias algumas sessões de fisioterapia para reaprender a usar a mão. Os dedos anular e médio perderam os movimentos. Nós os curvamos e eles vão ficar nessa posição definitivamente. O dedo mínimo não terá nenhuma serventia. É provável que você só possa usar o indicador, mas ainda é cedo para fazer alguma promessa. O polegar não poderá ser dobrado.

— Se eu puder segurar os controles só com um dedo, apertar botões e mudar as chaves, vou voar novamente - disse Mac.

— Concordo - disse o médico. - Você teve muita sorte. Fortunato chegou para visitá-los.

— Vocês dois vão ficar satisfeitos em saber que receberão a mais alta condecoração como heróis concedida pela Comunidade Global - ele disse. - O Círculo Dourado, prêmio pelo qual o potentado tem muito apreço, será concedido a vocês por Sua Excelência como agradecimento por terem salvo a minha vida. Mac e Abdullah não disseram nada.

— Bem, sei que vocês estão satisfeitos e que, por modéstia, não se sentem dignos dessa condecoração. Agora descansem. Vocês ficarão aqui para se recuperarem o tempo que for necessário. Depois serão transportados para a Nova Babilônia pelo seu ex-co-piloto no novo Global Um.

— Quanto tempo levará para que ele fique pronto? -perguntou Mac, sabendo que Fortunato não tinha idéia do tempo necessário para construir um avião.

— Ele será pintado amanhã - respondeu Fortunato. -Peter Segundo concordou em oferecê-lo a Sua Excelência. Os assuntos de interesse do governo não serão interrompidos por este episódio lamentável. O novo potentado regional dos Estados Unidos da África - um homem leal escolhido a dedo por Sua Excelência - será empossado dentro de uma semana.

 

Buck seguiu de volta para casa com o carro lotado de mantimentos, o tanque abastecido de combustível e preocupado com Mac e Abdullah. O rádio não parava de dar notícias sobre a rebelião e morte de Bindura Rehoboth. A lista da CG mencionava a morte de um cozinheiro e de dois ajudantes, mas os relatos sobre a destruição do Comunidade Global Um deixaram Buck apreensivo. Ele ligou para casa e ficou satisfeito quando Rayford lhe contou que havia sido informado por David que seus companheiros sofreram graves ferimentos, mas estavam vivos.

 

Uma semana depois, David e Annie estavam no Departamento de Pessoal que funcionava no palácio da Comunidade Global. O diretor tinha em mãos o memorando de David.

— Pelo que estou entendendo, Sr. Hassid, o ponto principal é que a Srta. Christopher transgrediu uma das regras da CG e o senhor assume a responsabilidade, é isso?

David assentiu com a cabeça.

— Eu devia ter mencionado a ela alguns procedimentos básicos.

— Talvez sim. Talvez não. Por que o chefe do departamento precisa assumir a responsabilidade se o subordinado recebeu um manual de procedimentos?

David se mexeu na cadeira.

— Annie... isto é, a Srta. Christopher teve a atenção desviada porque um de seus colegas de trabalho se apaixonou por ela.

O diretor olhou para ele por cima dos óculos.

— É verdade - ele disse, mais afirmando que perguntando. - Mas isso não é desculpa para o descumprimento de uma regra. Você está interessada em levar adiante esse relacionamento, Srta. Christopher?

— Muito.

— E esse colega trabalha em seu departamento?

— O senhor está olhando para ele - disse David.

— Brilhante. Bem, vejamos... Na ficha da Srta. Christopher, constam alguns atos de desobediência insignificantes, insubordinação e coisas do gênero. Mas não vou rebaixá-la de cargo por causa desse tipo de transgressão, desde que ela concorde em ser transferida para outro setor onde possa ser mais útil.

Annie hesitou.

— Para onde eu iria?

— Para o setor administrativo. Perdemos mais de uma dúzia de analistas nesta catástrofe. Seu perfil mostra que você faria um excelente trabalho ali.

— Quais seriam minhas responsabilidades?

O diretor virou uma página e leu rapidamente:

— Organograma do setor administrativo: Potentado, Supremo Comandante, Diretor do Serviço de Inteligência, Diretor do Departamento de Análise, Funcionário. Principais deveres e responsabilidades: examinar e interpretar dados provenientes de fontes contrárias à Comunidade Global, blá, blá, blá. Analista do Serviço de Inteligência, aceita ou não?

— Aceito.

— E tome cuidado para não se trancar em sua sala.

Assim que eles saíram do Departamento de Pessoal, David segurou a mão de Annie. A liberdade que ele sentia era enorme! Em seguida, ele avistou Leon Fortunato caminhando em direção ao elevador. Peter Segundo seguia atrás dele falando em voz alta.

— Eu não quero ter uma reunião pessoal com você, Leon. Fortunato apertou o botão e virou-se para ele.

— Para você, eu sou Supremo Comandante, Peter.

— Então faça-me o favor de usar o meu...

— Só se você me chamar pelo meu título - disse Leon.

— Está bem, Comandante! Mas não vou permitir que Carpathia se aproprie de meu...

— Sua Excel...

— Está bem! Mas ele precisa me dar uma explicação antes de se apropriar de meu avião e...

Quando eles estavam entrando no elevador, Leon disse:

— Se você pensa que o potentado da Comunidade Global vai lhe dar explicações...

— Quero ouvir esta conversa - disse David. - Depois eu ligo para você, Annie.

— Tome cuidado - ela disse.

David dirigiu-se apressado para seus aposentos, trancou a porta, ligou seu computador e acionou o sistema de escuta clandestina instalado no escritório de Fortunato. Peter Segundo estava no meio da frase:

— ... e não vou me sentar, porque não é com você que eu quero falar.

— É o máximo que você vai conseguir.

— Por que Sua Excelência se esquiva de falar comigo, Comandante? Você proclamou ao mundo inteiro que ofereci meu avião, o que eu gostaria muito de ter feito. Mas não fui consultado, não tive a oportunidade de...

— Tudo o que você tem veio das mãos do potentado. Você acha que a Fé Mundial Enigma Babilônia é independente da Comunidade Global? Acha que deve satisfações a alguém que não seja Sua Excelência?

— Eu exijo vê-lo neste instante!

— Você exige? Você está me fazendo uma exigência? Sou um cão de guarda, Sumo Pontífice. Seu acesso está vetado, não pode ter uma audiência com Sua Excelência. Entendeu?

— Eu juro, Leon, que você vai se arrepender de ter-me insultado desta maneira.

— Eu já lhe disse para não me chamar de...

— Vou chamar você do jeito que eu quiser. Você tem esta autoridade artificial não por ter feito algum ato louvável, mas porque domina a arte de bajular o patrão. Eu não bajulo ninguém, e quero que ele me ouça.

Houve um longo silêncio.

— Talvez você consiga - disse Leon. - Mas não hoje. David ouviu sons de passos e a porta sendo batida com força. Em seguida, a voz de Leon.

— Margaret?

— Sim, senhor - foi a resposta pelo interfone.

— Veja se o potentado tem um minuto para conversar comigo. Você pode dizer a ele o nome da pessoa que saiu intempestivamente daqui.

— Pois não, senhor.

David acionou o sistema de escuta clandestina instalado no escritório de Carpathia e ouviu a conversa. Sua secretária transmitiu o recado de Fortunato.

— O que ele deseja? - perguntou Carpathia.

— A secretária dele disse que ele acaba de ter uma reunião com o sumo pontífice.

— Diga a ele que pode vir.

 

Mac teve condições de levantar-se e caminhar muito antes de Abdullah e estava ansioso para retornar a Nova Babilônia. Por mais esforço que tivesse feito, a fisioterapia não servira para aliviar suas dores. Ele deveria sentir-se satisfeito por estar sendo mimado no palácio de Joanesburgo, mas seus ferimentos não lhe davam trégua. Entre um analgésico e outro, seu corpo parecia estar em chamas. As doses ministradas serviam apenas para aliviar um pouco a dor. Ele não queria, de jeito nenhum, ficar dependente de drogas.

Mac ficou aborrecido consigo mesmo por causa de duas gafes que ele cometera. Avisara pelo ar que havia crentes a bordo do Global Um. Felizmente, Dwayne Tuttle, de codinome "Dart", havia conseguido consertar a situação. Mas, no avião, Mac havia passado seu celular a Leon, a última pessoa no mundo que poderia ficar com seu telefone sigiloso.

Ele era quase duas vezes mais pesado do que um celular comum por incluir muitos dispositivos de avançada tecnologia de segurança. Aparentemente, Leon não dera atenção a esse fato, mas, e se alguém ligasse para Mac enquanto o celular estivesse nas mãos daquele homem? Se essa pessoa não reconhecesse a voz de Leon ou se a conexão não estivesse perfeita, ela poderia comprometer o Comando Tribulação inteiro.

O que mais preocupava Mac era que nenhuma das duas gafes havia sido provocada por pânico ou desespero, e sim por falta de fé. Ele acreditou sinceramente que ninguém do avião sobreviveria ao atentado, mas que diferença isso fazia?

Felizmente, ele havia sido prudente ao escolher seu novo co-piloto. Abdullah o livrara das preocupações a respeito do telefone. Na primeira noite que passou na sala de recuperação, Mac despertou assustado e acordou Abdullah.

— Leon está com o meu telefone - ele disse. - Se um dos nossos ligar para mim, estamos perdidos.

— Durma em paz, meu amigo - disse Abdullah. - Este seu companheiro é um batedor de carteiras.

— Como assim?

— Enquanto você e Leon estavam me ajudando a entrar no terminal, enfiei a mão no bolso dele e peguei seu telefone.

— O telefone é pesado. Como ele não percebeu?

— Ele estava assustado demais. Aproveitei a oportunidade. O telefone está comigo.

— Que horas são?

Abdullah consultou seu relógio.

— Duas horas da madrugada.

— Que horas são nos Estados Unidos?

— Na Nova Babilônia, a diferença é de nove horas a mais. Aqui a diferença deve ser de oito horas.

— Dê-me o telefone.

Mac ligou para Rayford e lhe contou sobre os Tuttles, que partiram logo após terem levado Mac e Abdullah até a enfermaria.

— Eu não tive a chance de falar a eles sobre a nossa ligação com a cooperativa - disse Mac -, mas, com certeza, sua filha já ouviu falar deles.

 

Rayford descobriu que Chloe conhecia as atividades dos Tuttles.

— Eles estão cuidando de uma área enorme nos Mares do Sul para nós - ela disse. - Talvez tenha sido um milagre eles estarem tão perto para ouvir o pedido de socorro de Mac.

— Foi Deus quem os enviou - disse Rayford. - Se você puder abrir mão do trabalho dos dois, eu gostaria que eles me levassem à Europa.

— Por que você não quer viajar pilotando o avião, papai?

— Eu não quero voar sozinho e depois ter de me virar para passar incógnito. Quero dividir o comando do avião com Dwayne. Podemos voar com o Super J dele ou com o Gulfstream.

— Você já sabe para onde vai?

— Beauregard Hanson vai me dar a dica da próxima vez que aparecer em Palwaukee. T vai usar um pretexto para segurá-lo lá, e eu vou ter de esfregar algum dinheiro no nariz de Bo para ele começar a falar. Mas ele ainda não sabe de nada...

 

Sentado diante de seu computador e com o fone de ouvido ligado, David escutava, petrificado, a conversa entre Carpathia e Fortunato. - Leon, você não precisa sentir-se obrigado a fazer mesuras todas as vezes que estiver diante de mim. Em público, tudo bem, mas...

— Peço mil perdões, Excelência, mas...

— E, quando estamos a sós, você também tem a liberdade de dirigir-se a mim de maneira informal. Temos um relacionamento de longa data e...

— Oh, mas eu não poderia. Não agora. Não depois de tudo o que presenciei e senti. O senhor deve entender, potentado, que eu não faço estas coisas a não ser por sincera devoção. Apesar de me sentir extremamente honrado pelo senhor me considerar um amigo a ponto de me chamar pelo nome, perdoe-me mas não posso fazer o mesmo.

— Está bem, Leon. Agora me fale sobre seu encontro com o homem que seria nomeado rei.

David ouviu Fortunato relatar os fatos. Após ter ficado alguns momentos em silêncio, Carpathia disse:

— O Peter não sabe de nada, certo? Ele não faz idéia de que eu sabia de sua aliança com Rehoboth. Ele acredita que pode separar-me de meus potentados regionais e me vencer.

— Tenho certeza de que ele pensa desta maneira, Excelência.

— Que idiota! - disse Carpathia.

— Devemos permitir que ele nos faça cair nas mãos de mais um ou dois subversivos ou a hora dele já chegou?

David ouviu um movimento, como se Carpathia tivesse se levantado. Sua voz estava mais longe, e David imaginou que ele estivesse andando de um lado para o outro.

— Meses atrás, eu quase perdi a paciência com você por ele não ter sido eliminado - disse Carpathia. - Mas, no final das contas, foi melhor assim. Além de ter-nos levado até Rehoboth, ele emitiu um recente comunicado que foi muito esclarecedor e talvez possa ter relação com aqueles nossos dois amigos.

— A Dupla de Jerusalém?

— Exatamente. Você gostou do nome, não?

— Foi genial, senhor. Só que...

— Eu pedi a ele que ordenasse a seus teólogos que vasculhassem todos aqueles misteriosos manuscritos do passado, desde Nostradamus até os escritos sagrados antigos, para saber se existe alguma menção a respeito da vulnerabilidade daqueles dois. Sei que os seguidores de Ben-Judá acreditam que eles são as duas testemunhas profetizadas nas Escrituras cristãs. Se, por acaso, eles forem, Mathews me disse que ficarão vulneráveis daqui a quatro meses. Eles próprios já disseram várias vezes que estão protegidos do perigo até o tempo determinado.

— Mas, senhor - choramingou Fortunato -, as mesmas pessoas que dizem que esses homens são as duas testemunhas dizem também que o senhor é o anticristo.

— Eu sei, Leon. Nós dois sabemos que eu estou simplesmente cumprindo minha missão.

— Mas se existe um tempo determinado para eles, deve também existir para o inimigo deles!

— Leon! Pare e pense. Eu ajo como um anticristo?

— Claro que não, Excelência!

— Então, quem você acha que eu sou?

— O senhor sabe muito bem que acredito, no fundo do coração, que o senhor deve ser o próprio Cristo.

— Eu não faria tal afirmação, meu fiel amigo. Pelo menos por enquanto. Só quando ficar evidenciado ao mundo que tenho poderes divinos é que poderei fazer essa afirmação.

— Já divulguei amplamente a história de que o senhor me ressuscitou...

— Fiquei agradecido e tenho certeza de que muitas pessoas acreditaram. Mas sua ressurreição não foi testemunhada por ninguém, portanto a dúvida persiste. Não fui capaz de conter os dois pregadores, e isso afetou minha credibilidade. Porém, eu adoro uma divindade que será o deus acima de todos os deuses, que se sentará acima dos céus, que se transformará em um ser perfeito e eterno. Como posso falhar, se estou comprometido com ele?

— Da mesma forma que eu estou comprometido com o senhor, Excelência.

Pelo som, David imaginou que Carpathia havia voltado a sentar-se a sua mesa, onde a fidelidade do microfone era melhor.

— Vamos dar um tempo a Peter - ele disse. - Você não acha que a maioria dos potentados já está perdendo a paciência com ele?

— Sim, acho, senhor. Embora o potentado Rehoboth tenha me enganado, acredito que quase todos os outros estão sendo sinceros. Além de me garantirem que apóiam a eliminação de Peter, eles também manifestaram o desejo de participar pessoalmente do atentado.

— Leon, já trabalhei muito tempo com governadores para saber que a palavra deles não vale nada, a menos que sejam confirmadas por ação. Devemos permitir que Peter acredite que existem mais potentados regionais desleais a mim. É claro que o objetivo dele é tomar o meu lugar. Rehoboth teria sido o Fortunato dele, caso a tentativa de assassinato tivesse logrado êxito. Certamente, Peter deve acreditar que conta com a confiança dos outros. Vamos usar isso a nosso favor.

— Darei minha total atenção a esse assunto, senhor. E mais uma vez obrigado por ter-me cercado de proteção em Joanesburgo.

— Não pense mais nisto. Quando os pilotos vão retornar para que possamos condecorá-los?

— Brevemente, senhor.

— O povo adora ostentação, não?

Leon concordou em voz alta, mas Carpathia prosseguiu:

— Em razão das recentes tragédias, não tivemos muitas oportunidades de homenagear os cidadãos exemplares, os heróis.

— Nossa força-tarefa está exaurida, Excelência, mas com criatividade podemos aproveitar a oportunidade e transformar o retorno deles a Nova Babilônia em um evento inigualável. David imaginou Carpathia falando como se estivesse visualizando a cena.

— Sim, sim - ele disse. - Gostei da idéia. Gostei muito! E veja se alguém consegue descobrir qual é o tempo determinado da Dupla de Jerusalém. Os seguidores de Ben-Judá dizem que o tempo determinado ocorrerá na metade do período de nosso acordo com Israel. Quero saber a data exata.

O coração de David deu um salto quando ele ouviu o tom empolgado de Carpathia. O potentado levantou a voz e começou a falar com mais rapidez.

— Vamos caprichar, meu amigo! Vamos promover um evento inigualável! Engane os dois. Pegue-os de surpresa. Dê uma trégua a eles até o dia do evento. Deixe que tenham o número de admiradores que eles acham que merecem. Tire da frente todos os empecilhos, Leon. Quero cobertura mundial pela TV. Planeje um grande acontecimento. Diga que estarei presente.

— Sim - prosseguiu Carpathia -, estarei em Jerusalém, o coração do país com o qual assinei um pacto solene. Comemoraremos o fato de estarmos no meio do tratado de paz que foi assinado lá. Apresente os dignitários. Peter deve estar presente com todos os seus trajes ridículos. Meu velho amigo Rosenzweig deve ser um convidado de honra. Agiremos da mesma forma que esses tais santos e renovaremos nossos compromissos. Vou dedicar-me mais uma vez a proteger Israel! Os olhos do mundo inteiro estarão cravados lá, e eu me responsabilizarei pessoalmente pelo fim dos pregadores. Os cidadãos de Jerusalém vão adorar o fim das pragas, dos discursos bombásticos, da seca, da fome, da água transformada em sangue! Tome nota do que estou falando, Leon. Instigue os potentados para estimular Peter em seu esquema contra mim. Faça com que os potentados o levem a acreditar que estão do lado dele, que são unânimes na antipatia que sentem por mim. Que eles querem Peter como chefe. Ele deve ir a Jerusalém acreditando que pode contar com a lealdade de cada um dos potentados.

— Farei o melhor que puder, senhor.

— Temos apenas alguns meses pela frente. Este assunto deve merecer prioridade. Reuniões confidenciais, de alto nível, sempre e onde quer que sejam necessárias. Use todos os recursos. Aquele momento deverá ser o nosso maior orgulho, uma apresentação perfeita. Será o fim da insurreição, o fim da oposição, o fim da Fé Mundial Enigma Babilônia tentando usurpar minha autoridade, o fim dos seguidores de Ben-Judá, sem pregadores em Jerusalém para adorar.

— Mas Ben-Judá ainda conta com uma enorme audiência...

— Até ele desanimará quando ficar claro que existe um só poder na Terra e que esse poder reside na Nova Babilônia. Convide-o! Convide seus seguidores! Eles ficaram muito entusiasmados quando me constrangeram e tentaram me matar lá, no ano passado. Convide-os a voltar e observe a reação deles!

— O senhor é brilhante, Excelência.

— Se você gostou do que falei, Leon, pense nisto. Vai exigir o melhor que você tem a oferecer. Comece fazendo confidencias a Peter de que as coisas não andam bem entre nós.

— Mas, Excelência, eu gosto muito...

— Eu sei, Leon.

— O sumo pontífice sabe disto. Não sei como poderei convencê-lo de que minha lealdade absoluta de repente...

— Claro! Não pode ser assim tão de repente. Deixe que ele lhe dê a idéia! Com certeza, ele sempre encontra coisas negativas a meu respeito para meter em sua cabeça, não é mesmo? Ele já me criticou?

— Certamente, mas eu sempre defendo o senhor e...

— Da próxima vez, hesite, Leon. Deixe que ele faça você ficar pensativo pelo menos uma vez. Eu conheço Peter. Ele vai agarrar essa oportunidade. Acredita que é capaz de convencer alguém sobre qualquer coisa. Que petulância acreditar que dez potentados o admiram, quando sabemos, sem sombra de dúvida, que a maioria deles quer matá-lo com as próprias mãos! Você faria isso por mim, Leon?

— Vou tentar.

— Tenho muita confiança em você. Dentro de quatro meses, consolidaremos todo o poder e autoridade e deixaremos a oposição completamente confusa. Sinto uma grande energia só em pensar nisto! Agora vá, meu amigo. Não hesite em pedir o que for necessário. Todos os meus... nossos... recursos estão à sua disposição.

— Obrigado, Excelência. Obrigado pelo privilégio de poder servi-lo.

— Que bom ouvir isso de você - disse Carpathia. David sentiu dor de cabeça por ter ficado ouvindo atentamente a conversa por muito tempo. Ele estava prestes a desligar o computador quando escutou alguém entrar no escritório de Carpathia. A secretária conversou com ele por alguns instantes. Em seguida, ele pediu a ela para segurar todas as ligações e não permitir a entrada de ninguém até segunda ordem. David ouviu a porta sendo fechada e, logo a seguir, um clique, como se Carpathia a estivesse trancando. Ele aguardou para saber se Carpathia faria uma ligação telefônica importante.

David ouviu um rangido da cadeira de Nicolae e, depois, um ruído como se ela estivesse rodando no chão. Finalmente, o potentado começou a falar em voz baixa:

— Ó Lúcifer, filho da manhã! Eu tenho te adorado desde a infância. - David estremeceu, com o coração aos pulos. Carpathia prosseguiu: - Como sou grato pela criatividade que me inspiras, ó leão de glória, anjo de luz. Eu te louvo por tuas idéias criativas que não param de me causar espanto. Tu me deste as nações! Prometeste que subirei ao céu contigo, que exaltaremos nossos tronos acima das estrelas de Deus. Confio em tua promessa de que subirei acima das nuvens. Serei igual ao Altíssimo. Farei tudo o que me propuseste para que eu possa reivindicar tuas promessas de que reinarei sobre o universo a teu lado. Tu me escolheste e permitiste que eu fizesse a terra tremer e enfraquecesse os reinos. Tua glória será a minha glória, e, como tu, jamais morrerei. Aguardo ansiosamente o dia em que poderei manifestar o teu poder e a tua majestade.

 

Rayford recebeu um telefonema na noite de sexta-feira.

— Ele está aqui - disse T. - Contei a ele que alguém estava vindo para cá a fim de fazer uma proposta interessante e muito lucrativa. Ele mordeu a isca, pelo menos por enquanto, mas eu não o via desde que sua amiga sumiu. Tenho quase certeza de que ele está esperando que eu toque no assunto.

— Vou até aí. Não deixe que ele perca o interesse. Rayford sentou-se ao lado de Leah e perguntou se ele podia esfregar um pouco do dinheiro dela do nariz de Bo Hanson para ver se o rapaz concordava em passar-lhe algumas informações sobre o paradeiro de Hattie Durham.

— Bem - ela disse, com certo ar de superioridade -, faz dias que você mal me dirige a palavra, não pergunta como estou, nem mesmo quer saber se a lesão em minhas costelas melhorou. Agora vem atrás de mim, só porque está precisando de alguma coisa...

Rayford não sabia o que dizer. Ele não gostou nada do tom de voz nem da atitude dela, mas sentia-se culpado.

— Tenho sido omisso - ele disse.

— Arrisquei minha vida com você e doei o dinheiro de meu marido e minhas economias de uma vida inteira ao Comando Tributação, e você me trata como se eu fosse uma intrusa. É isso o que você chama de omissão?

— Parece que cometi um ato imperdoável - ele disse.

— Parece? Você diz isso como se eu estivesse achando que você não tem uma desculpa para dar.

Rayford levantou-se.

— Por favor - disse Leah -, não seja tão grosseiro a ponto de me deixar aqui falando sozinha.

— Existem maneiras mais fáceis de dizer não. Você não teria outra?

— Eu não me neguei a lhe dar o dinheiro.

— Você está me fazendo de bobo.

— Eu adoro deixar você nervoso.

— Que bom saber que você gosta de fazer isto.

— Por favor, Rayford. Eu fiquei magoada por você me evitar, mas entendo seu sofrimento. Você perdeu muitas pessoas queridas, inclusive duas esposas no período de três anos. Não espero que se sinta confortável a meu lado. Mas pensei que já havíamos esquecido nossas desavenças iniciais. E o que passamos juntos, não conta?

Rayford voltou a sentar-se.

— Eu não sei muita coisa sobre sua vida, Leah, mas esse assunto que você abordou mexe muito comigo, inclusive quando me lembro do momento em que encontrei o corpo de minha esposa no fundo do rio Tigre. Não quero pensar e muito menos continuar a falar dessas coisas. Isto não é desculpa, mas talvez você tenha levantado o assunto para me fazer lembrar do meu mau comportamento.

— Exatamente. Mas você é o responsável por esta casa, e eu preciso fazer alguma coisa. Passe uma tarefa para mim, chefe. Estou pronta a oferecer meus serviços como enfermeira, mas não quero trabalhar apenas quando alguém está machucado ou doente. Tenho tentado ajudar Chloe a cuidar do bebê e da cooperativa, mas ela é escrupulosa demais para me pedir. Sou forçada a insistir com ela. Se você me encarregar disso, ela vai se sentir mais à vontade.

— Está bem, vou pensar no assunto.

— Converse com ela.

— Vou conversar.

— O pessoal desta casa é tão politicamente correto que ninguém sequer insinua que eu devo fazer alguma tarefa doméstica. Sou boa cozinheira e gosto de tudo o que se refere a culinária. Planejar o cardápio, cozinhar e até mesmo lavar a louça. Será que eu poderia cuidar da cozinha para que vocês se concentrem naquilo que estão empenhados em fazer?

— Você faria isso? Ajudaria muito.

— Eu me sentiria útil. Esqueça o assunto do dinheiro. Você não precisava me pedir. Eu lhe disse, desde o início, que ele estava sendo doado à causa, e falei sério. Se as circunstâncias mudarem e eu for embora daqui amanhã, não vou reivindicar um só centavo. Podemos esquecer o assunto?

— Isso está muito além e acima...

— Não precisa me agradecer. Colocamos em cima da mesa o que possuímos, e nenhum de nós é mais importante que o outro. Talvez Tsion seja.

— Quer dizer que você tem sido ríspida comigo só porque...?

— Você mereceu. Devia ter demonstrado mais interesse por meus ferimentos. Eu não perguntei sobre o seu joelho?

— Várias vezes.

— Não foi por cortesia. Fui responsável pelo machucado em seu joelho. Eu não sabia que você não estava me vendo, mas, de qualquer maneira, eu não devia ter parado na sua frente. Você é um homem extraordinário. Estava machucado. Eu me preocupei. Perguntei. Você me deu uma resposta machista e encerrou a conversa. Eu também estava machucada, e você foi o responsável. Estava me seguindo perto demais, correndo mais rápido do que devia.

Rayford sacudiu a cabeça.

— Suas costelas estão melhorando?

— Para dizer a verdade, estão melhorando muito lentamente. Devo ter quebrado mais de uma costela. Sinto dores o tempo todo e, quando faço um movimento brusco, tenho vontade de gritar.

— Sinto muito. Espero que você melhore logo. Ela limitou-se a olhar para ele.

— Estou falando sério - ele disse.

— Eu sei. Com tantos problemas para resolver, você não tem tempo para preocupar-se com meus problemas.

— Você está sendo bem tratada aqui?

— Muito. Não tenho do que me queixar.

— Sou a única ovelha negra?

— Agora que consegui atrair sua atenção, você pensaria em algo para eu fazer quando me recuperar totalmente? Sou ágil. Sou esperta. Corro riscos, como fiz com vocês mais de uma vez no hospital. Não tenho família, não tenho nada a perder. Se você precisar que eu vá a algum lugar, faça entregas, retire mercadorias, me comunique com alguém, conte comigo para essas tarefas corriqueiras. Concordo que quase coloquei tudo a perder diante da CG naquela noite...

— Você estava desistindo cedo demais, foi tudo. Mas se recuperou a tempo e disfarçou muito bem.

— Não se esqueça de tudo o que eu disse. As mulheres têm mais facilidade que os homens de não ser reconhecidas. Basta tingir os cabelos e mudar a maquiagem. A CG não vai deixar minha fotografia circulando por muito tempo. Providencie uma carteira de identidade falsa para mim e me arrume um trabalho.

— Tudo tem sua hora certa. Por enquanto, estou muito animado por você se prontificar a tomar conta da cozinha.

— Eu achei que ia me arrepender de ter feito aquela proposta.

Rayford levantou-se. O dedo do pé e o joelho ainda estavam doloridos. Chloe aproximou-se deles, vindo do quarto da frente.

— Más notícias, papai. Tenho tentado falar com Nancy, a irmã de Hattie. Eu queria que ela soubesse que temos certeza de que Hattie está viva. Pois bem, eu a encontrei. O nome de Hattie apareceu em uma lista de pessoas mortas por inalação de fumaça.

Rayford olhou para o chão.

— Bem - ele disse, com ar de tristeza -, mais um motivo para eu descobrir o paradeiro de Hattie.

 

Mac e Abdullah estavam programados para retornar a Nova Babilônia na manhã de sexta-feira a bordo do novo Comunidade Global Um, conduzido pelo ex-co-piloto de Mac. O nome do avião tomado de Peter II foi mudado de II Um para Fênix 216. Leon Fortunato viria de Nova Babilônia para levar os heróis feridos. Mac mal podia esperar para falar com David e Annie. Seria

necessário instalar um aparelho de escuta clandestina no novo avião, e David tinha um assunto a tratar com ele que não podia ser mencionado por telefone. E, quando o técnico de segurança em comunicações do líder mundial não podia mencionar alguma coisa por telefone, era sinal de que se tratava de assunto muito sério.

Pouco depois das 16 horas, enquanto arrumava sua mala, Mac recebeu um telefonema de Rayford.

— Estou seguindo para Palwaukee. Quero pressionar aquele sujeito de quem já lhe falei, o tal de Bo. Em seguida, vou para a Europa e preciso de algumas coisas. Albie ainda pode cooperar conosco?

— Claro que sim. Do que você está precisando?

— Oh!... ah!... prefiro falar diretamente com ele. Você tem o número do telefone dele?

— Não aqui comigo. Espero estar em casa hoje à noite. Você pode esperar até lá?

— Talvez. Você não pode pedir a David que localize o número para mim?

— Está em meu computador. Algumas horas a mais vão fazer muita diferença?

— Acho que não.

 

Com sua nova aparência e documentos que pareciam autênticos, Buck pegou um vôo comercial para Tel-Aviv. Ele espantou-se com o número reduzido de vôos que havia. O flagelo do fogo, fumaça e enxofre continuava a devastar a Terra, e tudo o que se referia à vida tinha sido afetado. O Arrebatamento mudara a face da sociedade, e a vida jamais voltara a ser a mesma desde o grande terremoto, mas Buck sabia que a situação iria piorar. Praticamente não havia ninguém que não tivesse perdido um ente querido.

Foi difícil partir sem Chloe e o bebê. Ele estava vivendo com a família havia mais de dez meses, desde o momento do nascimento de Kenny. Buck não podia imaginar que ficaria tão ligado a seu filho e que sentiria tanta saudade de segurá-lo no colo. Ele sabia o que significava estar longe de Chloe, e esse sofrimento quase chegava a enlouquecê-lo. Parecia que com Kenny a saudade seria maior ainda.

No avião, havia uma mulher asiática sentada algumas fileiras atrás dele carregando um bebê no colo, talvez poucos meses mais novo que Kenny. Buck lutou para não sair do lugar quando o menino começou a chorar durante a decolagem. Assim que foi possível, ele dirigiu-se à mulher e perguntou se ela falava inglês.

— Um pouco - ela disse.

— Qual é o nome do bebê?

— Li - ela respondeu.

— Oi, Li - ele disse. O bebê cravou os olhos nele. - Tem quantos meses?

— Sete.

— É um belo garoto.

— Muito obrigada, senhor.

— Será que eu poderia carregá-lo um pouco?

— Como assim?

Buck estendeu os braços para pegar o bebê. - Posso? A mulher hesitou. - Eu carrego.

— Tudo bem - ele disse. - Compreendo. Eu não permitiria que um estranho carregasse meu filho.

— Você tem um filho pequeno?

Buck mostrou-lhe uma fotografia de Kenny. Ela murmurou alguma coisa e mostrou-a a seu filho, que tentou segurá-la.

— E um belo menino. Sente saudade dele?

— Muita.

Ela fez um gesto para que Buck pegasse Li. Buck estendeu os braços, e Li inclinou o corpo para a frente. Mas, assim que Buck o segurou, Li fez uma careta e manteve os olhos fixos na mãe.

— Ela não vai fugir - disse Buck ao bebê. - Mamãe está aqui.

Li, porém, começou a chorar, e a mãe voltou a segurá-lo. Buck estendeu a mão à mulher, e ela a apertou timidamente.

— Meu nome é Greg North - ele disse.

— Muito prazer, Sr. Greg - ela disse, sem mencionar seu nome.

Mais tarde, depois de ter terminado sua refeição, Buck ficou emocionado quando a jovem mãe lhe pediu ajuda. Ele a vira caminhando pelo corredor, com Li no colo, até o bebê adormecer.

— O senhor poderia carregá-lo enquanto eu como? - ela perguntou.

O bebê continuou dormindo nos braços de Buck durante quase 20 minutos, até a mãe voltar. Ele detestou ter de devolvê-lo.

Depois de descer em Tel-Aviv, Buck tentou localizar alguém que tivesse o selo na testa. A única pessoa que ele viu foi um homem que estava sendo interrogado. Buck resolveu não abordá-lo para não se complicar.

O relógio marcava nove horas da manhã em Israel quando Buck jogou a sacola por cima dos ombros e saiu do terminal do Aeroporto Ben-Gurion, a fim de ligar para a casa de Chaim Rosenzweig. A voz de uma jovem atendeu em hebraico. Buck refletiu por alguns instantes.

— Inglês, por favor - ele disse.

— Residência do Dr. Rosenzweig - ela disse. - Posso ajudar?

— Hannelore?

— Sim - ela respondeu. - Por favor, quem é?

— Eu vou dizer quem sou, mas você não pode pronunciar meu nome em voz alta, entendeu?

— Quem é, por favor?

— Quero fazer uma surpresa a Chaim, tudo bem?

— Quem?

— Hannelore, é Buck Williams.

— Buck! - ela murmurou entusiasmada. - Não há ninguém por perto. Onde você está?

— No Ben-Gurion.

— Você pode vir até aqui? O doutor e Jacov vão ficar muito contentes!

— Quero rever todos vocês.

— Espere aí. Vou mandar Jacov buscar você.

— Ele não pode dizer o meu nome, Hannelore. Se ele precisar falar comigo, estou usando o nome de Greg North.

— Greg North. Ele vai chegar aí logo, Buck... isto é, Greg. Não vou contar nada ao Dr. Rosenzweig. Ele vai ficar tão...

— Como vai Jonas?

— Oh! Buck, sinto muito. Ele faleceu. Esperamos em Deus que esteja no céu. Vamos lhe contar tudo depois.

 

Rayford pegou a sacola com o dinheiro e subiu apressado a escada da torre do Aeroporto de Palwaukee. Ao ver dois carros no estacionamento, ele teve a certeza de que T conseguira ganhar tempo para que Bo Hanson não saísse dali. Quando faltavam alguns degraus para chegar ao fim da escada, o joelho de Rayford protestou, e ele terminou a subida mancando até a porta.

Rayford já havia estado várias vezes naquela torre e sabia que qualquer pessoa que estivesse ali teria ouvido o som de seus passos. T estava sentado a sua mesa e acenou-lhe para que entrasse. Bo, sentado em uma cadeira ao lado da mesa, ergueu os olhos ao perceber que alguém estava entrando na sala. Rayford nunca considerara Bo um rapaz muito inteligente, apesar de ter tido uma criação privilegiada. Seus cabelos eram descoloridos, cortados à escovinha e penteados com gel, e ele deu um longo suspiro, prendendo um pouco a respiração. Rayford imaginou que ele quisesse exibir seus músculos. A pose, porém, não serviu para disfarçar seu medo.

— Faz um bocado de tempo que não nos vemos, Bo.

— É verdade, Sr. Steeles.

— Steele - corrigiu Rayford.

— Sinto muito.

— O que você anda fazendo, Bo?

— Nada de muito importante. E você?

— Recentemente perdi um amigo de quem eu gostava muito. Aliás, perdi dois.

Rayford sentou-se, colocando a sacola perto dos pés.

— Dois? - perguntou Bo.

— Um deles era meu médico. Você o conheceu.

— Ah! sim. Do que ele morreu?

— De alguma coisa que ele pegou de Hattie.

— Oh! Eu soube o que aconteceu com ela. Que pena.

— O que você ouviu falar?

— Saiu em todos os noticiários - disse Bo. - Desastre de avião. Acho que foi na Espanha. Eu também perdi um amigo. Ernie morreu queimado um dia desses na Califórnia.

— Sinto muito.

— Obrigado. Eu também sinto muito a perda de... Hattie.

— Quanto ela lhe pagou, Bo? - inquiriu Rayford.

— Pagou?

— Para você ajudá-la a fugir daqui de avião, inventar uma história, simular a morte dela.

— Eu não sei do que você está falando.

— Você aprovou o vôo. Suas iniciais estão na ficha. Você não pensou em mudar o prefixo do avião. Embora o piloto não se tenha identificado, o avião levou as autoridades até irmão Sam, em Baton Rouge.

— Ele... eu... eu continuo sem saber do que você está falando.

— Você se julga um homem de negócios, Bo?

Bo olhou para T. - Eu tenho uma parte neste aeroporto. Faço tudo direitinho.

— Cinco por cento - esclareceu T.

Bo parecia aflito.

— Tenho outros negócios, outros interesses, outras preocupações.

— O quê! - disse Rayford. - Suas palavras me impressionaram. Algumas dessas outras coisas têm nome?

— Têm - disse Bo. - Uma delas chama-se Não É da Sua Conta. Rayford olhou de relance para T e voltou a concentrar-se em Bo, cujo peito estava arfante. A pulsação em seu pescoço era visível.

— Vou fingir que acredito, Bo. Não É da Sua Conta?

— É isso mesmo, meu negócio é esse. Chama-se Não É da Sua Conta. Entendeu? Ah! Não É da Sua Conta!

— Entendi, Bo. Boa escolha. Seria por causa disso que você precisa receber dinheiro de uma jovem que deseja desaparecer?

— Eu já disse que não sei do que você está falando.

— Não sabe mas negou.

— Neguei o quê?

— Que você pôs Hattie Durham no Quantum de seu irmão para ela fugir daqui.

— Eu nego isso.

— Você nega?

— Claro que sim. Não tive nada a ver com esse assunto.

— Aconteceu, mas você não participou de nada?

— Correto.

— Então, agora você sabe do que estou falando.

— Não sei. Só imagino. Eu nem sequer estava aqui.

— Por que suas iniciais estão na ficha?

— O cara da torre ligou para mim. Disse que um sujeito queria reabastecer um Quantum. Eu concordei. Se era meu irmão, eu não sabia. Se a passageira era Hattie, eu também não sabia. Eu já lhe disse. Eu não estava aqui. Não coloquei ninguém dentro de nenhum avião.

— Mas você tem uma excelente memória. Lembra-se de todos os detalhes do vôo que aprovou na noite em que não esteve aqui.

— Então, prove.

— Provar o quê?

— Prove o que você acabou de dizer. Rayford sacudiu a cabeça.

— Você quer que eu prove que você tem boa memória?

— Não sei. Você está zombando de mim ou coisa parecida, e até agora eu não entendi.

Rayford inclinou-se para a frente e deu um tapa de leve na perna de Bo.

— Vou dizer-lhe uma coisa, Bo. Também sou um homem de negócios. Que tal se eu lhe disser que não tenho nada contra Hattie fugir para a Europa ou se fingir de morta?

Bo encolheu os ombros.

— Tudo bem.

— Ela é uma mulher adulta, tem dinheiro, não precisa da autorização de ninguém. Ela não me deve satisfações. É que eu me preocupo com ela. Hattie não está bem. Não anda tomando decisões certas ultimamente, mas a vida é dela, não é mesmo?

Bo assentiu solenemente com a cabeça.

— Mas, entenda, eu preciso encontrá-la.

— Não posso ajudar você.

— Não fale assim. Preciso conversar com ela, dar uma notícia que ela precisa ouvir pessoalmente. O que posso fazer, Bo? Como posso encontrá-la?

— Sei lá! Eu já lhe disse.

— Você me contou que é um homem de negócios e que faz tudo direitinho. Quanto custa para você ser um homem de negócios, Bo? Isto é suficiente? - perguntou Rayford, curvando-se e abrindo o zíper da sacola.

Bo inclinou-se para a frente e olhou dentro da sacola. Em seguida, olhou para Rayford e, depois, para T.

— Vamos - disse Rayford. - Pegue um dos maços. É dinheiro verdadeiro. Pode pegar.

Bo pegou uma pilha amarrada de cédulas de 20 dólares e folheou-as com o polegar.

— Gostou? - perguntou Rayford.

— Claro que gostei. Quanto você tem aqui?

— Veja você mesmo.

Bo pegou a sacola e a escancarou, sem nenhum constrangimento.

— Eu gostaria de ter um pouco deste dinheiro.

— Uma quantia suficiente para você me contar o que preciso saber?

Bo continuava mexendo a sacola.

— Não há nada melhor do que cheiro de dinheiro. O que você precisa saber?

— Quero voar para a Europa amanhã. Uma hora depois de pisar no chão de lá, quero constatar que Hattie Durham está viva e com saúde. Você conhece alguém que possa me ajudar a fazer isso?

— Talvez.

Rayford pegou alguns maços da sacola e começou a colocá-los na mesa, um de cada vez. Depois de colocar o terceiro maço, ele disse:

— Isto é suficiente para você me passar as informações de que preciso?

— Algumas.

— Por exemplo?

— França.

— Cidade?

— Mais um.

Rayford colocou outro maço na mesa.

— Litoral.

— Você é difícil de ser convencido. Norte ou sul?

— Sim.

A cada pergunta, Rayford colocava mais um maço de dinheiro na mesa.

Finalmente, Bo mencionou o nome de uma cidade no Canal da Mancha:

— Le Havre.

— Você conseguiu ganhar um monte de dinheiro sem sair daqui - disse Rayford -, mas as notas vão voltar para a sacola se eu não ficar sabendo qual é o endereço exato, com quem ela está e o que poderia me causar surpresa. Anote tudo. Vou deixar o dinheiro com T...

— Ei, você está me passando para trás!

— ... e, quando eu encontrar Hattie, vou dizer a ele, e você receberá a bolada. Mas você precisa me informar por escrito.

— Já está escrito - disse Bo, tirando um papel da carteira. Tudo o que Rayford precisava estava escrito à mão com letras miúdas. - Você vai me deixar fora disso, não vai me complicar, certo?

— Prometo - disse Rayford. - Agora vamos tratar da questão do silêncio.

— Silêncio?

— Você provou que não é muito bom nisto, certo?

— Acho que não.

— Eu também não sou.

— Você disse que me deixaria fora disso.

— Suponho que você não queira dizer o nome de quem está com Hattie ou falar dela.

— Exatamente.

— Mas meu silêncio completo pode ser comprado por alguém.

— Comprado por quem?

— Pela CG, claro. De acordo com as leis da Comunidade Global, fraudar uma companhia de seguros por ter simulado uma morte ou forçar uma equipe de salvamento a fazer buscas sob falsas alegações é um delito internacional Classe

X, considerado muito grave, punível com prisão perpétua. Como cidadão, tenho o dever de relatar qualquer tipo de delito de meu conhecimento.

— Eu vou negar.

— Tenho uma testemunha. - Rayford olhou para T, que tinha os olhos fixos na mesa.

— Você está do lado dele, Delanty? Você é um canalha. T disse: - Este assunto é entre você e...

— Esqueça - disse Bo. - Vou tomar minhas providências. Isto é uma ex... extor..., uma chantagem.

— Bo - disse Rayford -, pegue aquele telefone. É melhor você relatar esta extorsão. Deixe bem claro qual é a chantagem que estou fazendo. Você cometeu um delito grave e sabe disto.

Bo bufou e cruzou os braços.

— Ah, você já fez a ligação? - perguntou Rayford. - Eu preciso relatar um crime.

— Você não teria coragem. Vive escondido.

— Eles aceitam denúncias anônimas, não aceitam, T? - T não respondeu. - Vamos descobrir. - Rayford pegou o fone e começou a apertar os botões.

— Tudo bem! Desligue!

— Quer dizer que voltamos a ser homens de negócios, Bo? Prontos para negociar?

—Sim!

— Que tal facilitar as coisas para você? Que tal eu não cobrar de você um dinheiro que você ainda não tem? Que tal?

Bo encolheu os ombros.

— Por exemplo, você ainda não tem este dinheiro - disse Rayford, colocando todo o dinheiro de volta na sacola de uma só vez.

— Ótimo! Vou contar essa história a quem acho que devo contar, e você jamais vai encontrar Hattie Durham.

— Veja, Bo, já pensei nisto. Você não está raciocinando bem. Agora quem dá as cartas sou eu. Seja lá qual for o motivo que levou Hattie a ir embora daqui, você é um fugitivo internacional. Pode acreditar em mim. Tenho vivido nessa situação, e você não vai querer passar por isso. - Rayford estendeu a mão para Bo. -Foi um prazer negociar com você, Bo.

E Beauregard Hanson, de inteligência tacanha, apertou a mão de Rayford.

— Ei - ele disse, recolhendo a mão. - Não foi prazer nenhum negociar com você, seu... seu idiota!

Bo saiu batendo a porta com força, desceu a escada com passos firmes, bateu a porta da torre, bateu a porta do carro e saiu do estacionamento queimando os pneus, atirando poeira e cascalho por todos os lados. Assim que ele passou pelo portão, o carro parou por falta de combustível. Rayford viu, do alto da torre, Bo acenando para pedir uma carona.

 

Jacov estacionou no meio-fio do Aeroporto Ben-Gurion e saltou do Mercedes.

— Greg! - ele exclamou exultante, abraçando Buck. Assim que eles entraram no carro, ele disse: - Como você está, meu irmão?

— Preocupado com Chaim. E ansioso para saber de todos vocês.

— Hannelore lhe contou sobre Jonas?

— Sim. O que aconteceu?

— Antes, me conte uma coisa. Você viu os cavaleiros?

— Não.

— Ainda bem que você não os viu, pode acreditar em mim. Criaturas medonhas. Eles andaram provocando estragos em nossa vizinhança enquanto Jonas estava de guarda na cabina de vigia. Você conhece o local.

— Claro.

— Uma casa do outro lado da rua foi queimada e um homem que passava de carro por lá ficou sufocado pela fumaça. Ele morreu ao volante, e o carro colidiu com a cabina. Foi um choque muito grande para Chaim. Ele não queria acreditar que a gente podia ver as criaturas. Ainda acha que estamos mentindo, mas lamenta a morte de Jonas. Meu patrão não pára de dizer: "Pensei que ele fosse um de vocês. Pensei que ele estaria protegido." Agora, ele passou a estudar as mensagens do Dr. Ben-Judá diariamente, chora o tempo todo, de dia e de noite, dizendo: "Nada disso é verdade. É tudo mentira, não é? Tudo mentira." E tem mais, Buck. Ele tem feito coisas estranhas. Sabemos que ele é idoso e excêntrico, apesar de continuar a ser um homem muito inteligente. Ele comprou uma cadeira de rodas. Motorizada. Muito cara.

— Ele está precisando de uma cadeira de rodas?

— Não! Ele já se recuperou das ferroadas dos gafanhotos. Agora, sente muito medo das pragas atuais e parece estar possuído por um espírito maligno. Fica sentado perto da janela, olhando a fumaça. Não sai mais de casa. Passa a maior parte do tempo em sua oficina. Você se lembra do local?

— Sim. E a cadeira? Para que serve?

— Ele anda pela casa toda de cadeira de rodas. Quando se cansa de ficar no pavimento inferior, ele pede a minha ajuda e a de um criado, e temos de transportá-lo para o pavimento superior, e vice-versa. É muito pesado.

— Qual é o motivo de tudo isso?

— Parece que ele está treinando a andar nela, Buck. A princípio, ele teve um pouco de dificuldade, estava sempre dando trombada nos móveis. Não sabia como rodar para trás, virar. Quando a cadeira enrascava em algum lugar, ficava zangado e nos chamava para ajudá-lo a sair dali. Agora ele já está craque em lidar com a cadeira. Sabe ir para a frente e para trás. Passa por espaços estreitos, dá meia-volta em lugares apertados. Aprendeu a se virar sozinho em qualquer pavimento da casa. Acho que ele se diverte com isso.

— O que ele faz na oficina, Jacov?

— Ninguém sabe. Ele se tranca lá durante horas, e nós ouvimos o som de lima desbastando alguma coisa.

— Metal?

— Isso mesmo! Nós vemos minúsculas peças limadas, mas não chegamos a ver o objeto inteiro. Ele nunca teve habilidade com as mãos. É um homem inteligente, criativo, analítico, mas não costumava passar horas fazendo trabalhos manuais. Ele ainda lê assuntos sobre botânica e escreve para periódicos especializados. E está estudando a Bíblia.

Eles já estavam chegando à rua onde Chaim morava, e Buck olhou para Jacov com ar de incredulidade.

— Você está falando sério?

— Claro! Ele compara os textos da Bíblia com os ensinamentos de Tsion. Ele e Tsion têm trocado correspondência.

— Eu sei. É por isso que estou aqui. Tsion está muito preocupado com Chaim. Acredita que ele está perto de aceitar a verdade.

— Eu também pensei, Buck. Nós ficamos ao lado dele depois que vocês partiram. Sempre que ele vê os telejornais, fica muito desapontado com Carpathia. Acha que foi traído, que Israel foi traído. Ele não consegue falar com Nicolae, é sempre barrado pelo comandante.

— Fortunato.

— Sim. É um problema sério. Você vai se surpreender ao ver como ele envelheceu, Buck, mas sua visita vai melhorar seu estado de ânimo.

— Há mais alguma coisa que você queira me contar?

— Que eu me lembre, não. Ah! sim. Não mencione a ele a palavra derrame.

— Derrame?

— Você sabe, quando o corpo...

— Eu sei o que é, Jacov. Por que não posso mencionar essa palavra diante dele?

— Parece que ele está obcecado por esse assunto.

— Derrame... - Buck deixou a frase no ar. - E por quê?

— Não sabemos, Buck. Nós desistimos de tentar compreendê-lo. Um parente dele sofreu um derrame, e agora ele fica olhando para as fotografias desse homem. Meu patrão mudou muito. É uma pena. Ele deve estar com medo de sofrer um derrame também. Ele nunca foi assim. Você sabe.

 

Os edifícios que compunham o palácio da Comunidade Global passaram a ser um local deprimente. Cerca de 15% dos funcionários tinham sido mortos por fumaça, fogo ou enxofre. Carpathia lançou publicamente a culpa em Tsion Ben-Judá. Os noticiários transmitiam as alfinetadas proferidas pelo potentado:

"Aquele homem tentou me matar diante de milhares de testemunhas em Jerusalém, no Estádio Teddy Kollek, há mais de um ano. Ele está mancomunado com aqueles dois sujeitos radicais que vomitam seu ódio diante do Muro das Lamentações e se vangloriam de ter envenenado a água potável. Seria um despropósito acreditar que essa seita poderia provocar uma guerra bacteriológica no restante do mundo? Certamente, essa gente já desenvolveu algum antídoto, porque até agora ninguém ouviu falar que algum deles tenha sido vítima. Ao contrário, inventaram uma história que nenhum homem ou mulher com o mínimo de raciocínio pode engolir. Querem nos fazer acreditar que nossos parentes e amigos estão sendo mortos por um bando de cavaleiros gigantescos montados em cavalos flutuantes, cuja metade do corpo é cavalo e a outra leão, que expelem fogo pela boca como se fossem dragões. É claro que os crentes, os santos, os que se consideram melhores do que todos nós, podem enxergar essas criaturas monstruosas. Dizem que nós, os mal-informados - na verdade, os não-vacinados -, é que somos cegos e vulneráveis. Os seguidores de Ben-Judá não têm condições de nos persuadir com seu exclusivismo, intolerância, críticas exacerbadas e odiosas. É por isso que optaram por nos matar!"

O número de funcionários do departamento de David estava sendo lentamente reduzido. Os sobreviventes, assustados demais para sair à rua, apesar de não terem segurança nem mesmo dentro de casa, trabalhavam em turnos dobrados e andavam aterrorizados.

A alegria que David e Annie sentiam por viver essa nova fase de seu relacionamento foi ofuscada pelo sofrimento de tantas pessoas. Aqueles que os conheciam, que poderiam ter ficado felizes com a nova situação deles, passaram a considerar o namoro como um fato trivial. Por maior que fosse o amor entre David e Annie, eles não podiam contestar esse ponto. As pessoas estavam morrendo e indo para o inferno. David sentia-se tão triste que pensou seriamente na possibilidade de fugir do palácio com Annie para evangelizar o povo antes que fosse tarde demais.

Annie ajudou-o a refletir mais uma vez sobre a posição privilegiada que ele ocupava. Certa noite, eles se sentaram de mãos dadas diante do computador na sala de David. Um simples toque na letra Y permitiu-lhes ouvir a conversa entre Leon e Peter II no escritório do sumo pontífice localizado no Palácio da Fé.

— A era de Carpathia já terminou, Leon. Você deve parar de reagir todas as vezes que deixo de usar um desses títulos ridículos que vocês dois inventaram.

— Mas você insiste em ser chamado de...

— Eu conquistei meu título, Leon. Sou um homem de Deus. Dirijo a maior igreja que já existiu na História. Milhões de pessoas ao redor do mundo prestam homenagem à minha • liderança espiritual. Quanto tempo ainda demorará para que eu também passe a liderá-los politicamente? Os judeus religiosos e os fundamentalistas cristãos são apenas facções que não aceitam a Fé Mundial Enigma Babilônia.

— Facções? Pontífice, pelos nossos cálculos, um bilhão de pessoas está acessando o site de Ben-Judá todos os dias.

— Isso não significa nada. Sou uma delas. Quantas, porém, são seguidoras dele? Eu não sou, mas preciso me manter atualizado a respeito dessas bobagens. Tenho sido paciente com eles, aceitando suas excentricidades e dissidências em nome da tolerância, mas esse período está chegando ao fim. Pedi a Carpathia que torne ilegal a prática de qualquer religião que não se enquadre na Fé Mundial Única. Em breve, vou conversar com Carpathia a esse respeito e pedir que ele tome uma providência. Você não acha que ele deseja passar para a História por ter-se oposto à figura religiosa mais amada de todos os tempos? Meu pessoal espera que eu me manifeste rapidamente, tome uma atitude definitiva contra esses apóstatas intolerantes. Mas você acredita que Carpathia é um deus.

— Sim, acredito.

— Digno de ser adorado.

— Claro, pontífice.

— Por que, então, esse tal de homem-deus não pode fazer nada contra esses dois pregadores? Eles o estão expondo ao ridículo.

— Sua Excelência negociou com eles e...

— E tudo ficou por isso mesmo. Ele disse que defendeu o fim da barganha, recusando-se a perseguir os crentes se essas tais testemunhas permitissem que os israelenses bebessem água em vez de sangue! Bem, talvez eles estejam bebendo água pura, mas estão morrendo sufocados! Quem passou por bobo, Leon? Nenhuma resposta.

— Você não pode responder a esta pergunta, não, Leon? Não pode admitir que seu patrão-deus é incapaz de fazer a coisa certa. Você mesmo não toleraria uma insolência dessas partindo de um de seus subordinados. Mas fique tranqüilo. Não sei quem são esses dois malucos, nem de onde vêm ou se têm poderes mágicos. Mas eles não estão acima da lei. Estão sujeitos às leis da Comunidade Global, e, se Leon Fortunato fosse potentado, esse problema já teria sido resolvido há muito tempo. Estou certo? Hein, Leon? Você faria o mesmo que eu, não faria? Já teria eliminado aqueles dois.

Nenhuma resposta.

— Assim que eu fizer isso, Leon, você vai ficar do meu lado, vai me ouvir? Se desde agora sou amado e reverenciado pelo povo, imagine só como ficará minha imagem depois que eu acabar com esses traficantes de pragas! Admita, Leon. Nicolae está perdendo tempo. Ele está esperando o quê? É preciso ter coragem. É preciso agir com diplomacia. Ele não pode fazer nada. Defenda-o, Leon! Você não pode, não é verdade? Não pode.

— Tenho de me apressar para atender a um outro compromisso, pontífice, mas devo dizer que, quando o ouço falar com tanta veemência, chego a desejar o retorno daquele tipo de liderança.

— Há potentados regionais que concordam com você, Leon.

— Bem, para ser sincero, pontífice, um homem em minha posição teria de ser cego e surdo para não ver quanto os potentados o veneram.

— Eu também não sou cego, Leon. Gostei de saber que você reconhece minhas qualidades. Chego até a pensar que eles apoiariam minha liderança em outras áreas fora do âmbito espiritual.

 

Os novos computadores foram instalados, e os funcionários de David Hassid, agora em número reduzido, estavam trabalhando arduamente. Cérebros jovens e inteligentes combinados com a mais moderna tecnologia, gerada e analisada pelos computadores, tentavam descobrir a origem das transmissões de Tsion Ben-Judá e Cameron Williams.

Ben-Judá tornara-se o nome mais conhecido do mundo, com exceção de Carpathia. Ele transmitia ânimo, exortação, sermões, ensinamentos bíblicos e até mesmo explicações sobre idiomas e palavras, baseado em seus estudos de uma vida inteira.

Buck, por outro lado, transmitia uma revista virtual semanal chamada A Verdade. Ele também tinha um grande número de admiradores que se lembravam do tempo em que ele recebeu o prêmio de articulista mais jovem do Semanário Global. Tornou-se editor da revista depois que Carpathia se apoderou de todos os meios de comunicação - impressos e eletrônicos - e o nome do Semanário Global foi mudado para Semanário Comunidade Global. Quando os seus verdadeiros motivos passaram a ser conhecidos e Buck se converteu a Cristo, ele tornou-se um fugitivo. Por ter uma ligação com Hattie Durham, ex-amante de Carpathia, e com Ben-Judá, ele teve de viver escondido e viajar incógnito.

Buck insistia com seus leitores: "Tenham sempre em mãos um exemplar do Semanário Comunidade Global, o mais moderno periódico de notícias já criado. No dia anterior de cada edição, visitem a página de A Verdade e conheçam a verdadeira história que existe por trás da propaganda que o governo nos tem impingido."

David Hassid adorava ouvir a reação do pessoal do palácio diante dos ataques semanais de Buck ao Semanário Comunidade Global. A revista A Verdade fazia jus a seu nome, e todos sabiam disso. David desenvolvera um programa que lhe permitia monitorar todos os computadores do gigantesco palácio. Suas estatísticas revelavam que mais de 90% dos funcionários da CG visitavam semanalmente a revista virtual de Buck, a segunda mais popular, perdendo apenas para os sites que abordavam assuntos pornográficos e psíquicos.

O uso de enormes antenas parabólicas conectadas a satélites e de tecnologia de microondas tornava teoricamente possível rastrear a origem de qualquer transmissão cibernética. A maioria dos operadores clandestinos mudava constantemente de lugar ou instalava programas de proteção contra rastreamentos, o que dificultava muito a localização. Além de ter ajudado a montar o protocolo de transmissão para o Comando Tribulação sediado nos Estados Unidos, David tomou uma dupla precaução, instalando um dispositivo para provocar falhas nos computadores de seu departamento.

O complicador era puramente matemático. O segredo para traçar coordenadas é medir os ângulos e calcular as distâncias entre vários pontos. No papel, esses cálculos levariam horas para ser feitos. Em uma calculadora, menos tempo. Mas, em um computador, os resultados eram praticamente instantâneos. David implantou aquilo que ele chamava de multiplicador flutuante. Em termos leigos, todas as vezes que o computador fosse acionado para fazer um cálculo, um componente escolhido ao acaso invertia os dígitos na terceira, quarta ou quinta etapa. Nem mesmo David sabia que etapa seria selecionada, e muito menos que dígitos. Quando o cálculo fosse repetido, o erro seria duplicado três vezes seguidas; portanto, de nada adiantaria checar o computador sem ter outra fonte de comparação.

Se alguém levantasse alguma suspeita e eles resolvessem checar o computador usando uma calculadora não-contaminada, o computador ocultaria a falha e forneceria uma leitura correta. Assim que o técnico se convencesse de que poderia ter havido um erro humano ou um defeito temporário na operação anterior, ele passaria para o cálculo seguinte e, provavelmente, só perceberia horas, ou dias depois, que o computador havia voltado a cometer o mesmo erro de antes.

David imaginava que na época em que as discrepâncias apresentadas nos computadores fossem descobertas e se tornassem um problema sério, o projeto estaria tão obsoleto que seria descartado como sucata. Enquanto esse dia não chegasse, os computadores usados para transmitir os ensinamentos de Tsion e a revista de Buck continuariam programados para mudar seus sinais aleatoriamente, modificando, entre um segundo e outro, 9 trilhões de combinações separadas de atalhos.

Sob o pretexto de localizar a origem das transmissões de Buck, os técnicos do departamento de David passavam grande parte do tempo lendo atentamente a revista virtual de Buck. Ficou claro para todos que Williams obtinha informações de dentro do palácio, mas ninguém sabia de onde elas partiam. David tinha conhecimento de que Buck usava dezenas de contatos, inclusive o próprio David, mas Buck era muito esperto e sempre dava um jeito para proteger seus informantes.

A última edição do Semanário Comunidade Global relatou a história do fracassado atentado a Carpathia, promovida pelo potentado regional Rehoboth. Os redatores da revista fingiram ser totalmente imparciais, revelando que o atentado havia sido um choque ao regime de Carpathia. "Homem de caráter, honesto e sincero tenta discutir diplomaticamente as diferenças entre ele e seus comandados", iniciava o editorial.

 

Mwangati Ngumo, de Botsuana, demonstrou ser um homem honrado quando insistiu há mais de três anos que Nicolae Carpathia o substituísse como secretário-geral da Organização das Nações Unidas. Aquele gesto altruísta e de grande visão resultou na enorme Comunidade Global que desfrutamos hoje, um mundo dividido em dez regiões iguais, cada uma governada por um subpotentado.

Sua Excelência pediu ao supremo comandante Leon Fortunato que visitasse o ilustre Sr. Ngumo para tentar persuadi-lo a permitir que o potentado reconstruísse Botsuana. Ngumo, o grande estadista africano, havia insistido em que sua nação aguardasse até que todos os países mais pobres recebessem ajuda. O Sr. Ngumo foi tão generoso a ponto de permitir que a reunião, programada para realizar-se em Gaborone, fosse transferida para Joanesburgo, porque o aeroporto da capital de Botsuana ainda não tinha condições de acomodar a enorme aeronave da CG.

Quando tomou conhecimento dessa reunião, o potentado Rehoboth, dos Estados Unidos da África, proporcionou todas as condições para a reunião, oferecendo-se, inclusive, para participar dela em prol da diplomacia. A Comunidade Global recusou polidamente essa oferta, uma vez que o assunto a ser tratado era mais de natureza pessoal que política. O potentado Rehoboth recebeu a promessa de que teria um encontro pessoal com Sua Excelência.

Deve ter havido um mal-entendido da parte de Rehoboth, porque ele supôs que o potentado Carpathia participaria da reunião com o Sr. Ngumo. Embora a CG desconhecesse qualquer reação de inveja ou raiva pelo fato de Rehoboth ter sido excluído da reunião, o potentado regional zangou-se a ponto de responder de maneira sanguinária. Deu ordens para assassinar Ngumo e seus assessores, substituiu-os por impostores e entrou no Comunidade Global Um (o Condor 216) para assassinar Sua Excelência.

Apesar de seus capangas terem conseguido destruir a aeronave e matar quatro funcionários nossos, os gestos heróicos do piloto e do co-piloto - Capitão Montgomery (Mac) McCullum e Sr. Abdullah Smith - salvaram a vida do supremo comandante. As Forças Pacificadoras da Comunidade Global reagiram de imediato, o que resultou na morte dos assassinos.

 

Fotografias da imponente comemoração em honra ao piloto e co-piloto ilustravam o artigo. Seis dias depois, A Verdade esmiuçou a história. Buck descreveu os fatos dentro de seu estilo jovial:

A Comunidade Global não quer que os cidadãos tomem conhecimento de que o relacionamento entre Carpathia e Ngumo tinha fracassado havia muito tempo. Ngumo não foi assim tão magnânimo como eles nos levam a crer. Ele deixou seu cargo na ONU sob forte pressão, acreditando que seria nomeado um dos dez potentados regionais e que Botsuana receberia autorização para usar a fórmula fertilizante descoberta em Israel, da qual Carpathia tem se aproveitado para negociar com muitos outros países.

Ngumo, que quase chegou a ser endeusado, tornou-se um pária em seu país por ter sido vergonhosamente passado para trás pela Comunidade Global. A fórmula nunca lhe foi entregue. A reconstrução de Botsuana foi esquecida. Ngumo viu sua tão sonhada posição de potentado ser concedida a seu arqui-rival, o déspota Rehoboth - que saqueou a própria terra natal, o Sudão, para favorecer suas inúmeras mulheres e descendentes, transformando-os em multimilionários. Esse homem tornou-se tão impopular no Sudão que desistiu de instalar o opulento palácio regional da CG em Cartum, instalando-o em Joanesburgo, um local impróprio por ser tão descentralizado quanto a Cidade do Cabo.

Sabendo que Rehoboth e Ngumo eram inimigos ferrenhos, a CG programou deliberadamente uma reunião de alto nível no território de Rehoboth, a bordo do CG Um. Rehoboth imaginou que Carpathia estivesse a bordo e vulnerável ao ataque, porque Ngumo também achava que ele estivesse a bordo. Essa armação para insultar Ngumo também enganou Rehoboth, que havia sido convidado para a reunião, o que seria mais uma surpreendente afronta a Ngumo.

O pessoal que escapou com vida foi mais afortunado que heróico. As Forças Pacificadoras da CG, dominadas por Rehoboth, não reagiram durante vários minutos após o avião ter-se incendiado. Os assassinos não foram alvejados. Um deles fugiu, dois morreram por causa da praga da fumaça, fogo e enxofre, conforme aconteceu com muitas outras pessoas naquele dia.

Rehoboth sabia de tudo e permaneceu em seu palácio durante os momentos em que ele achava que Carpathia estava sendo executado. Depois que as coisas desandaram e que Rehoboth foi eliminado, as forças pacificadoras entraram novamente em ação e conseguiram dominar a área. A morte da família inteira de Rehoboth, atribuída pela CG à praga, foi visivelmente uma execução. Até agora, a praga matou cerca de 10% da população da Terra. Qual a explicação que alguém daria para o fato de todos os membros de uma família tão numerosa terem sido atacados em um só dia?

A revista virtual de Buck comentou todos os disparates do regime de Carpathia, mencionando a "predileção por maquiar uma tragédia internacional, imaginando que vocês se preocupam com os desfiles em homenagem ao potentado enquanto a morte ronda o mundo".

David gostava de ouvir clandestinamente as conversas nos escritórios de Carpathia e Fortunato sempre que a revista semanal de Buck era publicada na Internet.

— O que fizemos até agora para rastrear essa revista? -inquiriu Carpathia a Leon naquela manhã.

— Temos um departamento inteiro trabalhando em tempo integral, senhor.

— Quantos?

— Escalamos 70, mas, em razão dos recentes problemas, eu diria que temos uns 60.

— Deveria ser um número suficiente, não?

— Deveria, senhor.

— Onde ele está conseguindo as informações? Parece que ele está acampado do lado de fora de nossa porta.

— O senhor mesmo disse que ele era o melhor jornalista do mundo.

— Isso não tem nada a ver com habilidade para escrever, Leon! Eu poderia acusar esse sujeito de estar inventando coisas, mas nós sabemos que ele não está.

Naquela tarde, David recebeu um memorando de Leon, pedindo-lhe que os detectores de metal destruídos no incêndio do avião fossem substituídos "antes que Sua Excelência apareça em público novamente". Aquele pedido deu uma idéia a David. Talvez ele pudesse ter uma participação na morte de Carpathia. Que tal se ele conseguisse provocar um defeito nos detectores de metal nos pontos estratégicos? Se ele podia montar computadores cheios de truques, será que não seria capaz de provocar um defeito nos detectores de metal?

David respondeu o seguinte a Leon: "Supremo comandante Fortunato, providenciarei para que os novos detectores de metal sejam entregues e instalados no Fênix 216 daqui a dez dias. Nesse meio-tempo, pedirei à tripulação que examine cada detalhe do avião para que tudo esteja dentro dos padrões exigidos pelo potentado. Supervisionarei tudo pessoalmente com a ajuda da tripulação da cabina de comando."

David e Annie, em conjunto com Mac e Abdullah, que aos poucos iam se recuperando, passaram suas horas de folga instalando no Fênix um dispositivo de escuta clandestina de tecnologia tão avançada que o som recebido nos fones de ouvido do piloto e do co-piloto tinham quase a mesma qualidade do som produzido em estúdios de gravação.

Quando tudo estava terminado, David pediu a seus técnicos de primeira linha que examinassem o avião à procura de "grampos". Uma equipe de quatro especialistas vasculhou a fuselagem durante seis horas e não encontrou nada.

 

Rayford divertiu-se ao ver Bo Hanson tentando conseguir uma carona, do lado de fora dos portões do Aeroporto de Palwaukee.

— Que bobalhão! - ele disse.

T, que continuava sentado diante de sua mesa na torre, perguntou:

— O que ele está fazendo?

— Pedindo carona. Falta de combustível. - Em seguida, Rayford virou-se para pegar o telefone. - Acho que preciso dizer a Dwayne Tuttle como chegar até aqui. - T começou a levantar-se. - Fique aí. A ligação vai ser rápida.

— Tenho um assunto para resolver - disse T. - Podemos conversar depois?

Rayford consultou seu relógio enquanto o telefone de Tuttle tocava. - Posso ficar mais um pouco.

A Sra. Tuttle atendeu. Enquanto se apresentava e lhe falava sobre os e-mails de sua filha e como conseguira o número, Rayford caminhou até a janela. Trudy chamou Dwayne ao telefone, e Rayford ficou satisfeito por não precisar falar durante esse pequeno intervalo de espera, por causa do susto que levou. T dirigira-se até o carro de Bo e estava despejando gasolina no tanque com uma lata. Será que os dois eram coniventes? Será que T o enganara esse tempo todo?

Alguma coisa lhe dizia que, se ele tivesse mais alguns instantes para refletir, encontraria uma outra explicação. T não havia sido mordido pelos gafanhotos. Tinha o selo de Deus na testa. Conhecia as pessoas da igreja, dizia coisas coerentes, parecia sincero. Mas estaria agora a serviço do inimigo? Ajudando o homem responsável pela fuga de Hattie?

— Sr. Steele! - disse Dwayne.

— Sr. Tuttle, ou posso chamá-lo de Dart?

T retornou, subindo lentamente a escada enquanto Rayford terminava seus acertos para a viagem à França. Depois de desligar, ele olhou para T com ar de interrogação. Ambos estavam sentados frente a frente. O semblante de T era tão sombrio quanto o de Rayford.

— Você pensa que eu não vi? - perguntou Rayford.

— Viu o quê?

— O que você acabou de fazer. Aquele assunto que você precisava resolver.

— O que foi que eu fiz? Rayford revirou os olhos.

— Eu vi você, T. Estava fornecendo gasolina a Bo. T lançou-lhe um olhar como que dizendo: "E daí?"

— O sujeito que...

— Eu sei quem Bo é, Ray. Estou começando a querer saber quem você é.

— Eu? Eu não sou... T levantou-se.

— Você quer ver novamente meu selo, não quer? Vamos, pode ver.

Rayford estava atônito. Como a situação poderia ter chegado a este ponto? Eles eram amigos, irmãos.

— Eu não preciso ver seu selo, T. Só quero saber o que você tinha em mente quando fez aquilo.

— Eu pedi para falar com você, Ray. Lembra-se?

— Sim, e daí?

— Eu queria saber o que você tinha em mente quando falou com Bo.

— Qual é o mistério, T? Eu consegui dele a informação de que precisava. Não o ajudei nem o acobertei.

— Como eu fiz.

— Como você fez.

— É isso o que você acha que eu fiz?

— Que outro nome eu poderia dar ao que você fez, T? Vocês dois estão trabalhando contra mim, pelas minhas costas, é isso?

T sacudiu a cabeça tristemente.

— É isso mesmo, Ray. Estou agindo de comum acordo com um rapaz que não tem nada a perder, só para trair meu irmão cristão.

— É o que parece. O que mais eu deveria pensar?

T levantou-se e caminhou até a janela. Rayford não encontrava explicação para a atitude do amigo.

— Você deveria pensar, Ray, que Bo Hanson não vai durar muito neste mundo. Ele vai morrer e vai para o inferno como aconteceu outro dia com seu amigo Ernie. Ele é nosso inimigo, claro, mas não é alguém que devemos tratar como um canalha, só para que ele não descubra quem somos. Ele já sabe quem somos, irmão. Somos seguidores de Ben-Judá e acreditamos em Jesus. Não fazemos barganhas com sujeitos como Bo, Rayford. Não nos divertimos com eles, não mentimos para eles, não roubamos deles nem fazemos chantagem com eles. Nós amamos essa gente. Suplicamos por eles.

— Bo é tão ingênuo - prosseguiu T -, que lhe passou todas as informações de que você necessitava sem pensar nas conseqüências que ele teria. Não estou dizendo que tenho todas as respostas, Ray. Não sei qual seria a outra maneira de conseguirmos as informações, mas sua atitude não me pareceu ser a de um cristão. Eu preferia que você tivesse comprado a informação. Que ele fosse o vilão. Você foi tão vilão quanto ele. Bem, já falei demais. Entenda como quiser, mas, de agora em diante, me deixe fora desse assunto.

 

Buck imaginou que encontraria Chaim Rosenzweig na cadeira de rodas, mas o israelense estava do mesmo jeito que ele o vira na última vez. Pequeno, magro, um pouco mais velho, cabelos brancos esvoaçantes. E um sorriso sincero no rosto. Ele abriu os braços para receber um abraço.

— Cameron! Cameron, meu amigo! Como vai? Que bom ver você. É uma felicidade para meus olhos cansados! O que o trouxe a Israel?

— Você, meu amigo - disse Buck enquanto Chaim o conduzia pelo braço até a sala de visitas. - Estamos todos preocupados com você.

— Ora! - disse Chaim, fazendo um gesto de pouco caso. -Tsion está preocupado pensando que não vai me converter antes que os cavalos me pisoteiem.

— Ele não deveria estar preocupado? Posso dar a ele a notícia de sua conversão?

— Talvez, Cameron. Mas você não precisaria perguntar, certo? Vocês, que podem ver os cavalos, também podem ver os selos uns dos outros. E então? O meu selo está visível?

A maneira como Chaim disse a palavra meu fez o coração de Buck dar um salto. Ele inclinou-se para a frente, mas não viu nada.

— Nós podemos ver o selo na testa de nossos companheiros - disse Buck.

— E podem ver também os homens poderosos montados em cavalos-leões, eu sei.

— Você não acredita nisso.

— Você acreditaria se estivesse em meu lugar, Cameron?

— Ora, Dr. Rosenzweig, eu já estive em seu lugar. Lembra-se? Fui jornalista, fui um homem pragmático, racional. Ninguém conseguia me convencer enquanto eu não me convencesse.

Os olhos de Chaim brilhavam, e Buck se lembrou do quanto aquele homem gostava de um bom debate.

— Quer dizer que eu não desejo ser convencido, certo? -perguntou Chaim.

— Talvez.

— E isso não faz sentido para você, faz? Por que eu não haveria de querer? Eu quero que seja verdade! Que maravilha! Assim eu teria uma resposta para essa loucura, um alívio para tanto sofrimento. Ah! Cameron, estou perto de acreditar, mais do que você imagina.

— Foi o que você me disse na última vez. Receio que você demore muito tempo.

— Todo o pessoal que trabalha para mim se converteu, você sabe. Jacov, sua esposa, a mãe dela, Stefan. Jonas também, mas nós o perdemos. Você ficou sabendo?

— Fiquei. Foi uma pena.

De repente, Chaim perdeu o senso de humor.

— Veja, Cameron, eu não entendo essas coisas. Se Deus é tão bom quanto você diz, preocupa-se com seus filhos e é todo-poderoso, não haveria uma maneira melhor? Por que enviar julgamentos, pragas, destruição, morte? Tsion diz que já tivemos a nossa oportunidade. Então, agora não há mais ninguém bonzinho? Existe uma crueldade tão grande em tudo isso que obscurece o amor que eu deveria enxergar. Buck inclinou-se para a frente.

— Tsion também diz que até mesmo este período de sete anos de tribulação é mais do que merecemos de Deus. Nós não acreditávamos porque não podíamos ver. Agora, não há mais dúvida. Estamos vendo, e, mesmo assim, o povo continua resistente e rebelde.

Chaim mergulhou em silêncio. Em seguida, bateu com as mãos nos joelhos.

— Bem - ele disse finalmente -, não se preocupe comigo. Confesso que estou sentindo minha idade. Estou com medo, assustado, preso em casa. Não posso mais me aventurar a sair. Carpathia, em quem eu acreditava como acreditaria em um filho, provou ser um enganador.

Buck queria aprofundar o assunto, mas não se atreveu. Qualquer decisão tinha de partir do próprio Chaim, e não de uma idéia plantada por Buck ou outra pessoa qualquer.

— Estou estudando - disse Chaim. - Estou orando para que Tsion esteja enganado, que as pragas e as tormentas não continuem a piorar. Procuro me manter ocupado.

— Com o quê?

— Projetos.

— Ciência e leitura?

— E outras coisas.

— Por exemplo?

— Ora, Cameron, hoje você está agindo como um jornalista. Tudo bem, eu vou lhe contar. Meus empregados acham que fiquei maluco. Talvez. Comprei uma cadeira de rodas. Você quer vê-la?

— Você precisa de uma cadeira de rodas?

— Ainda não, mas logo vou precisar. O sofrimento causado pelos gafanhotos me enfraqueceu. A contagem de glóbulos no sangue e outros testes revelaram que estou ameaçado de sofrer um derrame.

— Você está tão saudável quanto um cava... um touro. Rosenzweig endireitou-se na cadeira e riu alto.

— Gostei. Ninguém mais quer ser saudável como um cavalo. Mas não é o meu caso. Corro um sério risco e quero estar preparado.

— Parecem palavras de um homem derrotado, doutor. Com uma dieta bem dosada, exercícios, ar puro...

— Eu sabia que você diria isso. Quero estar preparado.

— 0 que mais você está preparando?

— Como assim?

— No que você está trabalhando? Em sua oficina?

— Quem lhe contou?

— Quem me contou não sabe de nada. Jacov simplesmente mencionou que você passa muito tempo lá.

— É verdade.

— O que é? O que você está fazendo?

— Projetos.

— Eu nunca soube que você tivesse habilidade para isso.

— Há muitas coisas que você não sabe sobre mim, Cameron.

— Posso considerá-lo um amigo querido, Dr. Rosenzweig?

— Eu gostaria muito. Mas será que um amigo querido deve se referir ao outro de maneira tão formal?

— É difícil para mim chamá-lo de Chaim.

— Chame-me do que você quiser, mas você é um amigo querido e me sinto muito feliz por ser seu amigo também.

— Então, quero saber mais sobre você. Se houver muita coisa sobre você que eu não saiba, não vou me sentir seu amigo.

Chaim afastou a cortina e olhou para fora. - Hoje não há fumaça. Mas ela vai voltar. Tsion diz que os cavaleiros não nos deixarão em paz enquanto não for exterminada a terça parte da humanidade. Você pode imaginar como ficará o mundo, Cameron?

— Sobrará apenas metade da população que restou dos desaparecimentos.

— Estamos presenciando o fim da civilização. Talvez não seja como Tsion pensa, mas está acontecendo alguma coisa.

Buck não disse nada. Chaim não havia feito caso de seus argumentos, mas talvez se ele não pressionasse tanto...

 

Rayford abaixou a cabeça. Sua voz estava trêmula e rouca.

— T, eu não sei o que dizer.

— Você soube o que dizer a Bo. Fez dele um...

Rayford levantou uma das mãos. - Por favor, T. Você tem razão. Eu não sei o que estava pensando naquele momento.

— Você parecia estar gostando.

Rayford queria sumir dali. - Que Deus me perdoe, mas eu gostei. O que está acontecendo comigo? Parece que enlouqueci. Em casa, eu perco as estribeiras. Leah, a pessoa de quem já lhe falei, conseguiu tirar o que havia de pior em mim... Não posso culpá-la por isso. Tenho sido muito grosseiro com ela. Eu não estou me entendendo.

— Se você se entendesse, já estaria longe daqui. Não seja tão duro consigo mesmo, irmão. Você está estressado.

— Todos nós estamos, T. Até Bo. Você sabe que minha bronca não é de hoje. Sempre achei que Bo não passa de um salafrário.

— Ele é um salafrário, Ray. Mas é também...

— Eu sei. É o que estou dizendo. No dia em que eu conheci aquele rapaz, ele estava falando mal dos crentes, e, desde então, criei uma antipatia por ele. Eu queria colocá-lo em seu devido lugar e fiquei feliz quando a oportunidade chegou. Santinho eu, hein?

T não argumentou. Rayford entendeu a atitude dele.

— O que eu devo fazer agora? Correr atrás de Bo e começar a agir como um cristão com ele?

T sacudiu a cabeça e encolheu os ombros.

— Sei lá. Acho que o melhor que você tem a fazer é sumir da vida dele. Se você mudar seu comportamento radicalmente, ele vai desconfiar.

— Eu deveria ao menos me desculpar.

— Não, a menos que você esteja pronto para provar, pagando pela informação que ele lhe deu.

— Agora ele passou a ser o bom e eu o mau?

— Jamais vou dizer que Bo é um bom sujeito, Ray. Eu também não disse que você é mau. Foi você quem disse.

Rayford sentou-se com os ombros curvados durante alguns minutos enquanto T mexia em sua papelada.

— Você é um bom amigo - disse Rayford, finalmente. - Tenho de ser sincero. Outras pessoas não teriam se preocupado comigo.

T contornou sua mesa e sentou-se em uma das pontas.

— Acho que você faria o mesmo por mim.

— Como se você estivesse precisando.

— Por que não? Também achei que você não estivesse precisando.

— Bem, de qualquer forma, obrigado. T cutucou-lhe no ombro.

— E então? O que você acertou com os Tuttles? Vai pilotar um Super J?

— Você acha que eu saberia?

— Depois de todos os aviões que você pilotou? Dizem que quem sabe pilotar um Gulfstream, que é grande, sabe também pilotar o Super J, um modelo mais rápido. Talvez um Porsche em relação a um Chevy.

— Vou pilotar esse avião como se fosse um adolescente.

— Acho que você está ansioso por isso.

 

A princípio, David ficou entusiasmado, e, logo a seguir, alarmado quando recebeu um e-mail pessoal de Tsion Ben-

Judá no início da noite do dia seguinte. Depois de afirmar a David que gostaria de conhecê-lo antes do Glorioso Aparecimento, Tsion passou para o assunto principal.

 

Eu não consigo entender tudo aquilo que você é capaz de fazer milagrosamente por nós com essa sua tecnologia genial. Normalmente, não me intrometo nos aspectos políticos de nosso trabalho e nem sequer questiono o que está se passando. Fui chamado para transmitir ensinamentos bíblicos, e quero permanecer concentrado nessa minha missão. O Dr. Rosenzweig, de quem tenho certeza você já ouviu falar, ensinou-me muita coisa quando eu lutava para entender botânica nos meus tempos de faculdade. Minha especialidade está voltada para história, literatura e línguas; ciência não faz meu gênero. Depois de esforços constantes, resolvi recorrer ao Dr. Rosenzweig. Ele me disse: "A coisa principal é manter a coisa principal como sendo principal." Em outras palavras, há necessidade de concentração!

Portanto, eu estou aqui concentrando-me e deixando para o capitão Steele e sua filha a tarefa de organizarem a cooperativa, deixando para Buck a missão de transmitir furtivamente sua revista, e assim por diante. Mas, Sr. Hassid, temos um problema. Permiti que o capitão Steele levasse adiante sua idéia de encontrar Hattie (sei que você está a par deste assunto) sem perguntar-lhe se ele já havia descoberto o que Carpathia sabe a respeito do paradeiro daquela moça.

Ninguém, a não ser as pessoas menos avisadas, acredita que ela afundou no mar dentro de um avião. Se a CG permitiu que aquele boato circulasse, é sinal de que eles têm as cartas na mão. Meu receio, evidentemente, é que eles agora se sintam livres para descobrir o paradeiro dela e matá-la, porque, aos olhos do público, ela já está morta.

A única vantagem que ela leva em fingir que está morta é pôr Carpathia em situação constrangedora ou até mesmo perigosa.

Só posso dizer o seguinte: tenho a impressão de que ninguém que trabalha com você na escuta clandestina ouviu falar que Carpathia tem conhecimento de onde ela se encontra. Acho que, para Rayford, teria sido mais prudente esperar um pouco e procurá-la apenas depois de ter a certeza de que não estaria caindo em uma armadilha da CG.

Posso ser um intelectual paranóico que deveria ater-se unicamente a seu trabalho, mas, se você conhecesse a história de minha vida, saberia que já fui vítima de violência por parte desse sistema mundial demoníaco. Eu gostaria de saber, Sr. Hassid, se existe alguma possibilidade de descobrir uma pista, por mais remota que seja, que pudesse ser transmitida rapidamente ao capitão Steele antes que ele mergulhe cegamente em uma situação de perigo. Se você pudesse ter a gentileza de me confirmar o recebimento deste e-mail e me dizer se acredita que existe uma informação qualquer que nos possa ser útil, eu lhe ficaria imensamente grato.

No nome imaculado de Cristo,

Tsion Ben-Judá.

David digitou rapidamente uma resposta:

Estou em dúvida sobre as probabilidades de sucesso (uma vez que tenho monitorado todas as conversas telefônicas e transmissões por computador do pessoal do alto escalão e até agora não ouvi nada a respeito de Hattie), mas darei total e imediata atenção a este assunto. Compreendo sua preocupação e transmitirei ao capitão Steele, por meio de seu telefone sigiloso, todas as informações pertinentes. Eu poderia me estender mais, porém não posso perder um minuto sequer.

 

David vasculhou freneticamente seu laptop, acessando o compacto disco rígido, entrando no possante computador do palácio e decodificando cada arquivo criptografado. Procurou referências a Hattie, Darham, HD, assistente pessoal, amante, gravidez, filho, fugitiva, acidente aéreo, e outras palavras que conseguiu lembrar. Evidentemente, tudo o que havia sido falado nos escritórios administrativos durante semanas estava gravado em seu minidisco de alta tecnologia, mas os únicos subtítulos que se encontravam ali eram datas e locais. Não havia tempo para ouvir tudo o que Fortunato e Carpathia disseram desde que Hattie foi dada como morta.

David ligou para Annie, que se dirigiu apressada ao escritório de seu noivo. Ele fechou as persianas e trancou a porta para que ninguém do turno da noite pudesse vê-lo andando de um lado para o outro, passando a mão nos cabelos.

— O que devo fazer, Annie? Tsion tem razão. Rayford está cometendo um grave erro, mesmo que seja bem-sucedido. Você sabe que a CG está mantendo Hattie confinada em algum lugar ou a matou. Com certeza, há guardas vigiando o local onde ela deve estar escondida. Qualquer pessoa que se atreva a ir atrás dela, vai ter de enfrentar a CG. Ela não passa de uma isca. Rayford deveria saber disto.

— Pense em alguma coisa - ela disse.

— Quero que você me ajude.

— Eu gostaria de ajudá-lo, David, mas concordo que você está procurando uma agulha no...

— O que o pessoal do Comando Tribulação dos Estados Unidos estava pensando? Que a CG caiu no conto do acidente aéreo? Eles deviam ser mais espertos! Só fiquei sabendo que Rayford estava atrás dela depois que ele já havia partido. Por que ele não recorreu a mim, em última instância, para vasculhar o serviço de inteligência da CG?

Annie sacudiu a cabeça.

— Você acha que está muito seguro, David?

— O quê?

— Você tem acesso aos computadores deles, aos escritórios deles, ao avião deles, aos telefones deles. Será que ninguém ainda desconfiou de você?

— Não. A demora na instalação dos computadores poderia ter levantado suspeitas, mas não percebi nenhuma reação em Leon. Se eu tivesse de adivinhar, diria que ele confia muito em mim. Tenho muitos dedos no fogo de uma só vez e posso me queimar, mas por enquanto estou na lista dos homens de ouro.

— Aí está a resposta, super-homem!

— Não me venha com enigmas. Rayford já embarcou e está em pleno vôo.

— Pergunte a eles.

— Como assim?

— Fale diretamente com Leon. Diga a ele que o assunto não é da sua conta, mas que você tem pensado muito sobre estas notícias do acidente aéreo, que você sempre admirou sua perspicácia, sua sabedoria, sua esperteza... Você conhece as manhas. Insinue que talvez o acidente não tenha acontecido conforme foi divulgado, e diga que gostaria de saber a opinião dele.

—Annie, você é um gênio!

 

— Você gostaria de ver meus projetos, Cameron? - perguntou Chaim Rosenzweig. - Será que, depois de vê-los, você ficaria mais satisfeito, se sentiria mais meu amigo?

— Com certeza!

— Prometa que não vai me achar um maluco, um velho excêntrico, como meus empregados pensam.

Buck o acompanhou. Apesar da opinião que os irmãos e irmãs que trabalhavam na casa tinham a respeito de Chaim, ele estava muito lúcido.

 

Rayford conheceu os Tuttles, um casal de norte-americanos cujos quatro filhos adultos foram arrebatados.

— E nós perdemos a chance... - disse Dwayne no Super J. cruzando os céus do leste dos Estados Unidos. - O mais velho foi para a faculdade, e achamos que ali se envolveu com religião. Até aí tudo bem, só que ele começou a pregar aos outros três irmãos. De repente, o mais novo passou a freqüentar a igreja também. Foi bom, mas achamos que ele só estava seguindo o exemplo do irmão maior, seu herói.

— Em seguida - prosseguiu Dwayne -, os dois do meio foram convidados para uma atividade da igreja. Acho que eles jamais teriam ido ali se os irmãos não tivessem se convertido. Eles começaram a jogar no time de basquete da igreja, passaram uma semana num acampamento e voltaram salvos. Homem, eu detestava essa palavra, e eles a usavam o tempo todo. "Eu fui salva, ele foi salva, ela foi salvo, você precisa ser salvo..." Eu amava aqueles rapazes mais do que tudo na vida, mas...

Dwayne, que falava muito rápido, foi tomado subitamente pela emoção, e Rayford demorou alguns instantes para perceber como ele estava comovido. Agora aquele homenzarrão falava com voz embargada, esforçando-se para não chorar. Trudy, sentada no banco atrás dele, pousou a mão em seu ombro.

— Eu amava aqueles garotos - ele disse, com voz entrecortada por soluços -, e nunca tive nenhum problema com eles, mesmo depois que se tornaram religiosos. Nunca tive mesmo, não é verdade, Tru?

— Eles amavam você, Dwayne - ela disse, pronunciando lentamente as palavras. - Você nunca precisou fazer marcação com eles.

— Mas eles fizeram marcação comigo. Não era por mal, mas como insistiam! Eu dizia que tudo estava bem, desde que eles não ficassem pedindo que eu fosse à igreja com eles. Nunca gostei disso desde criança, me trazia más recordações. Eles diziam que aquela igreja era melhor. Eu também achava, mas pedia que eles me deixassem em paz. Eles me diziam que eu era responsável pela salvação da alma da mãe

deles. Aquilo me deixava furioso, mas como a gente pode ficar furioso com os próprios filhos quando, mesmo estando errados, eles se preocupam com a alma de sua mãe e de seu pai? Rayford concordou, balançando a cabeça.

— A gente não pode mesmo...

— Claro que não. Eles continuaram a insistir comigo. Queriam me vencer pelo cansaço. Mas eu também era bom nisso. Eu nunca caí na lábia deles. Tru quase caiu, não foi mesmo, meu bem?

— Eu gostaria de ter caído.

— Eu também, querida. Nós só íamos conhecer o Sr. Steele no céu, e eu bem que gostaria de ir logo para lá, depois de tudo o que está acontecendo. Você também, capitão?

— Eu também, Dwayne.

— Acho que você já adivinhou o resto da história. Antes de resolvermos ir para a igreja, aconteceu a coisa que eles nos disseram que ia acontecer. Eles sumiram. Nós sobramos. Para onde a gente foi logo em seguida?

— Para a igreja.

— Igreja! Deixamos de ser tão teimosos, não? Ser salvo não era mais uma bobagem. Não sobrou quase ninguém daquela igreja, mas a gente só queria encontrar alguém que soubesse o que era preciso fazer para ser salvo. Sr. Steele, eu sou um artista. Bem, na verdade sou um vendedor e demonstrador de aeronaves, mas sempre gostei de teatro, desde a faculdade. Eu me especializei em imitar vozes.

— Mac me contou que você imita bem o sotaque australiano.

— Isso mesmo. Ele gostou, não?

— Não sei se naquele momento Mac estava em condições de gostar, mas ele tem certeza de que você conseguiu enganar Fortunato.

— Até uma tartaruga surda poderia enganar aquele sujeito, Rafe. Você não se importa de ser chamado de Rafe, não? Gosto de encurtar as palavras para ter tempo de falar mais. É só uma brincadeira, mas você não se importa, não é mesmo?

— Era assim que minha primeira mulher me chamava. Ela foi arrebatada.

— Então, acho que você não gostaria que eu...

— Não se preocupe, pode prosseguir.

— Quero dizer, Rafe, que sou um sujeito comunicativo. Acho que você já percebeu. Um vendedor tem de ser assim. Mas eu nunca deixo de acrescentar um pouco de minha veia artística. Diziam que eu era sincero, determinado, e todos gostavam muito de mim. Só os esnobes não gostavam. Quando encontrava pessoas desse tipo, eu usava a palavra sou quando deveria usar somos, só para provocá-las. Enfim, sou um cara amigo, arrojado, um cara...

— Espalhafatoso é a palavra que você está tentando se lembrar, querido - disse Trudy.

Dwayne deu uma gargalhada como se tivesse ouvido uma piada pela primeira vez.

— Está bem, Tru, concordo, sou um cara espalhafatoso. Mas você tem de admitir que eu era uma pessoa que fascinava todo mundo. Só que eu não ia à igreja, é verdade. De repente, passei a ir. Estou salvo. Perdi muito tempo e tenho pouco dinheiro, mas estou aprendendo, e é isso o que conta. Ainda vamos sofrer, vamos nos arrepender de não ter sido salvos antes, mas, tudo bem, agora estamos salvos. Continuo sendo este cara comuni...

— Espalhafatoso.

— ... espalhafatoso, mas agora passei a ser também um cara insistente. Não paro de falar sobre a salvação. Até o nosso pastor diz que não entende como eu não afugento as pessoas de tanto paparicá-las... o termo é dele, não meu... paparicá-las para aceitarem a Jesus. Aprendi essa lição quando era vendedor, mas agora é diferente. Não se trata de atingir minha meta, de ganhar uma bonificação ou de ver se posso comprar ou não um belo avião. As pessoas precisam saber, irmão, que não estou vendendo nada. Agora estou falando de salvação de almas. Bem, sempre me empolgo quando falo disso. Gostaria de saber o que eu faria se encontrasse o anticristo. Vou lhe dizer uma coisa, meu amigo, ou ele me mata ou ele se salva, uma coisa ou outra. Sacou? Bem, fiquei animado por não ter deixado de ser um brave... brava...

— Bravateador - ajudou Trudy.

— Certo, fui um bravateador quando vi o ajudante número um do anticristo naquele dia. Meu coração parecia que ia explodir, não posso negar, mas e daí? Sei que, mais cedo ou mais tarde, eu vou morrer. Gostaria de estar aqui quando Jesus voltar, mas, se eu partir antes, tudo bem. No dia

em que aceitei a salvação, decidi que nunca mais ia me envergonhar de falar de Jesus. Já perdi tempo demais. Vou ver meus meninos novamente, e...

De repente, o intrépido Dwayne voltou a emocionar-se. Desta vez, ele não conseguiu prosseguir. Trudy pousou novamente a mão no ombro do marido. Ele olhou para Rayford como se estivesse se desculpando. Rayford assumiu os controles, e o Super J disparou como um foguete na noite escura, em direção ao leste.

 

— Que coisa estranha é esta? - perguntou Buck, olhando para uma tira de metal superpolida.

Chaim caminhou pé ante pé até a porta e fechou-a. Buck compreendeu que estava tomando conhecimento de alguma coisa que Rosenzweig ainda não revelara a ninguém.

— Digamos que seja um passatempo que se tornou uma obsessão. Não tem nada a ver com meu trabalho, e não me pergunte o motivo dessa obsessão. Estou tentando afiar manualmente um objeto de metal de uma forma que ninguém conseguiu até hoje. Sei que existem máquinas grandes com micrômetros, computadores e raio laser que fazem este trabalho quase com perfeição. Não estou interessado em mecanismos artificiais. Estou interessado em fazer o melhor que posso. Minha habilidade manual ultrapassou minha capacidade de enxergar. Com uma lâmina presa em uma simples braçadeira instalada em ângulo, sou capaz de deixá-la tão afiada que não consigo enxergar o fio a olho nu. Nem mesmo meus excelentes óculos bifocais podem me ajudar. Preciso colocar a lâmina sob uma luz muito forte e usar uma lupa. Acredite em mim, isto é muito mais interessante do que aquelas criaturas que você e eu analisamos sob a lupa um ano e meio atrás. Aqui está, veja. Chaim entregou a lupa a Buck e apontou para uma lâmina brilhante, de cerca de um metro de comprimento, presa entre dois torninhos.

— Tome muito cuidado, Cameron, para não tocar no fio da lâmina. Digo isto porque é muito perigoso. Antes de sentir o fio da lâmina encostar em sua pele e começar a doer, você já terá perdido um dedo.

Depois desta advertência, Buck olhou a lâmina através da lupa e ficou atônito. O fio parecia muitas vezes mais fino do que o de qualquer lâmina de barbear que ele já vira.

— Puxa! - ele disse.

— A parte mais interessante é esta aqui, Cameron. Afaste-se um pouco, por favor. O material é aço-carbono super-resistente. Parece flexível como uma lâmina de barbear porque é afiado microscopicamente, mas é rígido e forte. Você sabe por que uma faca comum perde o fio com o uso? E por que quanto mais ela é afiada mais rápida se deteriora? -Buck assentiu com a cabeça. - Observe isso.

Rosenzweig tirou uma tâmara seca do bolso.

— Um petisco para mais tarde - ele explicou. - Mas esta aqui ainda não foi limpa e não quero lavá-la. Tenho outras, portanto esta vai servir para você entender melhor o que estou dizendo. Observe.

Ele segurou a tâmara delicadamente pela pontinha, entre o polegar e o dedo médio. Em seguida, levou-a lentamente e com extremo cuidado até o fio da lâmina, colocando a palma da outra mão por baixo. A metade inferior da tâmara caiu na mão dele, dando a impressão de que a fruta não havia sequer encostado no fio da lâmina.

— Agora vou lhe mostrar mais uma coisa. Rosenzweig olhou ao redor do cômodo apinhado de bugigangas e avistou uma bola de pano, seca e dura, esquecida por ali. Ele segurou a bola de cerca de sete centímetros de diâmetro acima da lâmina e soltou-a. Buck levou um susto, não querendo acreditar no que acabara de ver. A bola havia se partido ao meio sem produzir nenhum som e, aparentemente, sem oferecer nenhuma resistência.

— Você também viu o que aconteceu com a fruta - disse Rosenzweig, com um brilho nos olhos.

— É espantoso, doutor - disse Buck. - Mas, por quê? Chaim sacudiu a cabeça.

— Não me pergunte. Não se trata de um segredo de Estado. Nem eu mesmo sei explicar o que se passa comigo.

 

No final daquela tarde, David apareceu na sala de espera do escritório de Leon sem avisar.

— Eu gostaria de falar um minuto com o comandante, se for possível - ele disse a Margaret, que estava se aprontando para ir embora depois de um longo dia de trabalho.

— David Hassid? - disse Leon em voz alta pelo interfone. -Claro! Mande-o entrar.

Quando David entrou na sala, Leon levantou-se.

— Quero saber se você já conseguiu alguma coisa sobre a operação rastreamento.

— Infelizmente não - disse David. - Aquela gente deve estar usando algum tipo de tecnologia da qual ninguém ainda ouviu falar. Voltamos ao ponto de partida.

— Sente-se - disse Fortunato.

— Não, obrigado - disse David. - Serei rápido. O senhor sabe que não tenho o hábito de aborrecê-lo com...

— Por favor! Sou todo ouvidos!

— ... assuntos que não dizem respeito a meu departamento. A receptividade de Fortunato terminou ali.

— É claro que, em minha posição, tomo conhecimento de muitos assuntos confidenciais que não posso...

— Tenho uma sugestão a fazer, embora o assunto não me diga respeito.

— Prossiga.

— Bem... a morte recente da ex-assistente pessoal de Sua Excelência...

Fortunato semicerrou os olhos. -Sim?

— Foi uma tragédia, é claro...

— Sim...

— Bem, senhor, não era segredo para ninguém que aquela mulher, a Srta. Dunst...

— Durham. Hattie Durham. Prossiga.

— ... estava grávida e não se sentia feliz com isso.

— A verdade, Hassid, é que ela estava tentando extorquir dinheiro de nós para manter segredo da gravidez. Sua Excelência achou que devia recompensá-la pelo tempo que eles... que eles passaram juntos e pagou-lhe uma quantia generosa. A Srta. Durham deve ter entendido que aquele dinheiro lhe foi oferecido em troca de seu silêncio, mas não foi. Veja, ela nunca se preocupou em guardar segredo de coisas que pudessem ameaçar a segurança internacional, nunca ocultou histórias, verdadeiras é claro, que pudessem constranger o potentado. Portanto, quando ela exigiu mais dinheiro, nós recusamos. Sou forçado a dizer que ela não ficou nem um pouco feliz.

— Obrigado, senhor. O senhor me contou muitas coisas que eu não precisava tomar conhecimento, mas fique descansado. Vou guardar segredo. Eu só queria perguntar sobre o acidente com o avião, mas agora isso deixou de ser relevante. Agradeço o tempo que o senhor gastou comigo.

— Não, por favor. Posso lhe contar tudo o que você deseja saber.

— Sinto-me um pouco constrangido, porque, conforme eu disse, sei que o assunto não me diz respeito... não é da minha conta. Pensando melhor, acho que não devo insistir.

— Por favor, David. Quero conhecer seus pontos de vista.

— Está bem. Sei que, tendo alguém aqui com sua competência e perspicácia, não haveria necessidade de que eu me preocupasse com segurança ou relações-públicas...

— Todos nós devemos nos preocupar o tempo todo com essas coisas.

— Tive a impressão de que o relatório sobre a morte dela foi meio suspeito. Quero dizer, talvez eu tenha lido muitos romances de mistério, mas a história não foi um pouco inconsistente? Alguém encontrou os destroços do avião, os corpos? Alguns poucos objetos pertencentes a ela seriam suficientes para provar que ela morreu?

— Sente-se, David. Eu insisto. Seu raciocínio tem lógica. A verdade é que o tal acidente com o avião em que a Srta. Durham viajava nunca aconteceu. Assim que recebemos

a notícia, pedi ao chefe do serviço de inteligência que investigasse os fatos. A Srta. Durham, seu piloto amador e o avião foram rapidamente localizados. O piloto agiu de modo imprudente, fugindo quando nosso pessoal pediu para interrogar a Srta. Durham. Infelizmente, ele foi morto em uma troca de tiros. Você entende que, por motivos de segurança e princípios morais, nem todos os incidentes são divulgados à imprensa.

— Claro.

— A Srta. Durham está sob custódia.

— Custódia?

— Ela se encontra em um local confortável e seguro em Bruxelas, protegida pela falsa notícia de sua morte. Essa moça não representa uma ameaça à Comunidade Global, mas estamos preparando uma armadilha que nos leve até o local onde os companheiros dela a esconderam. Ela será solta assim que conseguirmos pegá-los.

— Companheiros dela?

— Antigos funcionários da CG e simpatizantes de Ben-Judá proporcionaram-lhe asilo quando a presença dela foi exigida em Nova Babilônia. Eles representam uma ameaça muito maior do que ela.

— Quer dizer que ela se tornou uma isca sem querer e é responsável pelo que lhe aconteceu.

— Exatamente.

— E essa armadilha, foi idéia do senhor?

— Aqui nós trabalhamos em equipe, David.

— Mas a idéia foi sua, não? Parece coisa de uma pessoa inteligente como o senhor.

Fortunato ergueu a cabeça.

— Nós nos cercamos de gente muito boa, e, quando ninguém se importa de receber o mérito, se consegue muita coisa.

— Mas a idéia de preparar uma armadilha para os companheiros dela foi sua.

— Acredito que pode ter sido.

— E deu certo?

— Ainda não. Ninguém sabe da morte do piloto. Mandamos avisar o irmão dele, cúmplice nessa história, dizendo que ele estava escondido e que não daria notícias por vários meses.

— Brilhante!

Fortunato assentiu com a cabeça, dando a entender que não podia contestar.

— Não vou mais tomar seu tempo, comandante. De agora em diante, vou tirar esse tipo de preocupação da cabeça, porque sei que o senhor e seu pessoal estão tomando conta de tudo.

— Não se sinta constrangido. Sempre que você tiver alguma dúvida, não hesite em perguntar. Depositamos muita confiança em uma pessoa de seu nível e com alto grau de responsabilidade. Poucas pessoas têm acesso a essas informações, é claro, portanto...

— Não precisa dizer nada, senhor - disse David, levantando-se. - Não tenho palavras para expressar minha gratidão.

 

Rayford pilotou um grande trecho sobre o Atlântico, o que não serviu para diminuir a verborragia de Dwayne. Embora gostasse de ouvi-lo papaguear, Rayford queria conhecer Trudy um pouco mais. Quando chegou o momento de devolver os controles a Dwayne, Rayford resolveu ligar para Albie (abreviação de Al B., nome que, por sua vez, havia sido abreviado de Al Basrah). Albie era o chefe do controle do tráfego aéreo de Al Basrah, uma cidade localizada no extremo sul do rio Tigre, perto do Golfo Pérsico. Ele era conhecido por muita gente como o melhor elemento no mercado clandestino. Mac o apresentara a Rayford, e foi Albie quem forneceu o equipamento de mergulho para Rayford explorar o fundo do rio Tigre à procura dos destroços de um avião.

Albie, um muçulmano devoto, detestava o regime de Carpathia e era um dos poucos gentios não-cristãos que resistiam bravamente à Fé Mundial Enigma Babilônia. Seus negócios eram simples. Para as pessoas em quem confiava, ele fornecia qualquer coisa, desde que recebesse dinheiro em troca. O dinheiro servia para cobrir o preço da mercadoria e das despesas, e, se alguém fosse pego com o contrabando, ele afirmava que nunca ouvira falar dessa pessoa.

Naquele momento, Dwayne estava surpreendentemente quieto enquanto Trudy cochilava. Rayford vasculhou sua sacola e pegou seu celular fenomenal - termo que Mac usava para descrever o telefone montado por David, porque o celular fazia de tudo e transmitia de qualquer lugar.

Dwayne só notou o celular quando ouviu o telefone de Albie tocando.

— Isto é o que eu chamo de telefone! Que maravilha! Sim, é um telefone e tanto! Aposto que ele é capaz de captar ruídos que nunca ouvi e...

Rayford levantou a mão pedindo silêncio e disse:

— Daqui a pouco eu deixo você examiná-lo.

— Não vejo a hora, parceiro. Com certeza, vou dar uma olhada nele.

— Torre de Al Basrah, Albie falando.

— Albie, é Rayford Steele. Podemos conversar?

— A quatro nós do leste. Qual é sua posição?

— Quero me encontrar com você para tratar de uma compra.

— Positivo. Sinto pelo fracasso da missão anterior. E o co-piloto?

— Mac está se recuperando. Tenho certeza de que você já ouviu falar sobre...

— Positivo. Aguarde um minuto, por favor. - Albie cobriu o fone com a mão, e Rayford ouviu-o conversando em sua língua. Em seguida, ele retornou. - Agora estou sozinho, Sr. Steele. Lamento muito o que aconteceu com sua esposa.

— Obrigado.

— Tenho andado muito preocupado com Mac. Fiquei sem notícias dele por uns tempos. Agora que ele passou a capitão, não está mais precisando muito de meus serviços. O que posso fazer pelo senhor?

— Preciso de uma arma, pequena para ser escondida, mas poderosa.

— Em outras palavras, o senhor quer uma coisa que faça aquilo que ela precisa fazer.

— Você entendeu em alto e bom som, Albie.

— Muito difícil. O potentado é um pacifista...

— O que significa que você é o único fornecedor de confiança.

— Muito difícil.

— Mas não impossível para você, certo?

— Muito difícil - disse Albie.

— Caro demais, é o que você quer dizer?

— Agora você está me entendendo em alto e bom som.

— Se o dinheiro não for problema, você teria alguma coisa em mente?

— Quando o senhor diz que ela precisa ser escondida, o que isso significa? Que possa passar por detectores de metal sem ser notada?

— É possível?

— Só se for feita de madeira e plástico. Duas seqüências de disparos, três violentos, aí ela se desintegra. Alcance limitado, é claro, até seis metros.

— Preciso de uma que alcance mais ou menos 30 metros. Um só disparo.

— Sr. Steele, eu posso conseguir-lhe uma. É mais ou menos do tamanho de sua mão. Pesada, mas certeira. O peso é por causa do mecanismo de disparo, que normalmente é usado em rifles de tamanho grande.

— Que tipo de ação?

— Exclusiva. Usa injeção por combustível e vácuo hidráulico.

— Parece mais um motor. Nunca ouvi falar de coisa semelhante.

— E quem já ouviu? Ela dispara um projétil a duas mil milhas por hora.

— Munição?

— Calibre 48, alta velocidade... ponta macia, cônica.

— Em uma pistola?

— Sr. Steele, o deslocamento de ar causado pela rotação da bala é suficiente para causar um grave ferimento no tecido do corpo humano de mais ou menos cinco centímetros.

— Não estou entendendo.

— Um homem foi alvejado com uma dessas pistolas a uma distância aproximada de dez metros. O tiro rasgou a pele dele e feriu o tecido subcutâneo do braço. Os médicos não encontraram nenhum resíduo de metal no tecido. O ferimento foi causado pelo deslocamento de ar provocado pela rotação da bala.

— Que coisa! Você falou o que eu queria ouvir. Vale quanto? Muito mais de cem?

— Milhares.

— Mil?

— Eu disse milhares, no plural, meu amigo.

— Quanto?

— Depende do local de entrega ou se você vem buscar o material... o que eu prefiro.

 

David estava frustrado. Ele havia corrido até seu quarto para ligar para Rayford, mas o telefone estava ocupado. Aquele telefone emitia um sinal quando havia outra pessoa tentando completar uma ligação. David também instalara um dispositivo que fazia o telefone tocar mesmo quando estivesse desligado, desde que o usuário o deixasse na posição de "inativo". Rayford sempre fazia isso. Ele fez nova ligação. Continuava ocupado.

 

— Eu não tinha a intenção de escutar sua conversa, capitão, mas entendi que você estava encomendando uma arma. Gostei de ver que você não se importa, mesmo sabendo que isso é ilegal. Não estamos debaixo das leis do anticristo.

— É assim que eu penso. Você queria ver o telefone, não?

— Ah, sim, obrigado. Quero dar uma olhada.

Dwayne examinou minuciosamente o telefone e colocou-o na palma da mão.

— É bem pesado. Deve fazer de tudo, até preparar seu desjejum, estou certo?

— Até isso, só não faz ovos mexidos.

— Ahá! Você ouviu o que ele disse, Tru? Oh! - Ele colocou a mão na boca quando viu que sua esposa estava dormindo. Em seguida, cochichou. - Este modelo aqui é daqueles que enviam e recebem ligações de qualquer lugar, não é mesmo?

— É isso aí. O melhor de tudo é que ele é sigiloso. Usa quatro canais diferentes por segundo, por isso não pode ser rastreado nem grampeado. É a maravilha das maravilhas.

— Você costuma guardá-lo na sacola? - perguntou Dwayne.

— Sim.

Dwayne fechou o aparelho e esticou o braço para trás a fim de colocá-lo de volta na sacola de Rayford. Depois de refletir por alguns instantes, ele resolveu desligar também o botão que desativava todas as funções do telefone.

— Daqui em diante, pode deixar por minha conta - disse Dwayne, assumindo o controle do avião. - Sei que estou metendo o nariz onde não devo, mas você poderia me dizer o que vai fazer com uma pistola tão poderosa?

Rayford pensou por alguns momentos. Ele havia se acostumado a abrir-se com qualquer companheiro crente, até mesmo para falar de assuntos do Comando Tribulação. Ele apenas tomava o cuidado de não revelar o local da casa secreta ou contar o nome falso de um dos membros do Comando para que o interlocutor não viesse a sofrer por causa de uma informação que não necessitava saber. A arma, porém, era um assunto pessoal que causava muito sofrimento a Rayford, porque ele sabia muito bem de onde ia tirar aquele dinheiro todo para comprá-la. Naquele momento, ele não podia imaginar se conseguiria levar seu plano até o fim.

— A Comunidade Global talvez seja pacifista e esteja desarmada por força de uma lei - ele disse. - Mas perdemos um piloto em um tiroteio, e quase todos nós já estivemos na linha de fogo, pelo menos uma vez, e alguns foram alvejados. Atiraram em Buck e Tsion quando eles estavam fugindo de Israel pelo Egito. Buck foi atingido. Buck também foi perseguido quando ajudava Hattie a fugir de um hospital da CG no Colorado. Nossa mais nova companheira e eu escapamos de um tiroteio recentemente. E você sabe o que aconteceu com Mac e Abdullah.

— Estou entendendo, irmão. Não tenho argumentos para contestar. No entanto, acho que ficaria muito caro equipar cada um de vocês com armas desse tipo.

— Eu vou testá-la em primeiro lugar - disse Rayford.

— Boa idéia. É claro que os dois últimos que você mencionou nunca vão poder portar armas em serviço. Seria bom se cada um deles tivesse uma arma escondida no avião.

— Fizemos isso quando eu era capitão do Comunidade Global Um. Tínhamos duas pistolas guardadas no compartimento de cargas. O acesso a elas era muito difícil, mas teríamos de usá-las como último recurso. Agora elas não existem mais.

— A propósito, Rafe - disse Dwayne, apontando para o horizonte -, aquilo ali é o que chamamos de sol no ramo da aviação. Nossa chegada está prevista para daqui a 40 minutos. A alfândega de Le Havre é muito exigente quando alguém chega lá pela primeira vez. Você tem o carimbo de visto britânico no passaporte?

Rayford assentiu com a cabeça.

— Eu já perguntei quem você é hoje e por que o ajudei a atravessar o Canal da Mancha?

Rayford pegou seu passaporte e abriu-o.

— Thomas Agee. Importação/Exportação. E você, quem é? Dwayne sorriu e mostrou dois passaportes da União das

Nações Britânicas, dizendo com um sotaque inglês arcaico. - As suas ordens, senhor. Rayford leu em voz alta.

— Ian Hill. O nome da esposa é... Eiva. Muito prazer em conhecê-los.

 

David não ouvia mais o sinal de ocupado. Ele discou novamente, desta vez com muito cuidado, para ter a certeza de que não havia errado. O número estava correto. Ou Rayford não podia ouvir o toque ou o telefone tinha sido totalmente desativado. David ligou para Tsion e o despertou. Alguém teria de entrar em contato com aquele avião em uma freqüência livre. E rápido.

 

Buck estava cansado por causa da longa viagem e por ter ficado acordado até tarde conversando com o Dr. Rosenzweig. Ele havia passado grande parte da noite tentando convencer Chaim a aceitar a Cristo.

— É por este motivo que estou aqui - disse Buck a seu amigo. - Você não deve adiar sua decisão. Já não é mais criança. Os julgamentos e os ais vão piorar cada vez mais até o fim. Talvez você não sobreviva até lá.

Chaim, deitado no sofá em frente a Buck, quase adormecera por várias vezes.

— Estou em uma encruzilhada, Cameron. Só posso dizer-lhe uma coisa: deixei de ser agnóstico. Qualquer pessoa que se considere agnóstica é mentirosa. Reconheço a grande batalha sobrenatural entre o bem e o mal.

Buck inclinou-se para a frente.

— E então, doutor? Você continua neutro? Neutralidade significa morte. Neutralidade não leva a nada. Você finge deixar o assunto para os outros resolverem, mas vai acabar perdendo.

— Existem muitas coisas que eu não entendo.

— Quem, além de Tsion, entende grande parte do que está acontecendo? Somos todos novatos no assunto, tateando para descobrir o caminho. Você não precisa ser um teólogo. Precisa apenas conhecer os elementos básicos, e isso você conhece. A pergunta é a seguinte: o que você faz com tudo o que sabe? O que você faz com Jesus? Ele é o dono de sua alma. Ele quer você, e tem tentado de tudo para convencê-lo. O que mais é necessário, Chaim? Você precisa ser pisoteado pelos cavalos? Precisa ser sufocado com enxofre, ser queimado? Você quer viver aterrorizado pelo resto da vida? Chaim sentou-se no sofá e sacudiu a cabeça tristemente.

— Doutor, vou ser bem claro. A vida não vai ficar mais fácil. Nós perdemos a primeira oportunidade. A situação vai piorar para todos nós. E os crentes vão sofrer mais do que os incrédulos porque está chegando o dia...

— Eu já conheço essa parte, Cameron. Sei o que Tsion diz a respeito da marca necessária para comprar ou vender. E você ainda vem me dizer que minha vida vai ser pior do que já está.

— Estou lhe dizendo a verdade. Sua vida vai piorar, mas morrer será a melhor coisa que lhe poderá acontecer! Não importa como será a sua morte, você acordará no céu! E se sobreviver até o dia do Glorioso Aparecimento... imagine só! Estas são as opções dos crentes, doutor. Morrer e estar com Cristo, só retornando quando Ele retornar. Ou sobreviver até seu aparecimento.

— Chaim - prosseguiu Buck -, queremos que você passe para o nosso lado. Queremos que seja nosso irmão, agora e para sempre. Não podemos imaginar perdê-lo, sabendo que você estará separado para sempre do Deus que o ama. - Buck não conseguiu conter as lágrimas. - Chaim, se eu pudesse, trocaria de lugar com você! Você não sabe o que sentimos por você, o que Deus sente por você? Jesus assumiu o seu lugar para que você não tivesse de pagar o preço.

Chaim ergueu os-olhos e surpreendeu-se ao notar lágrimas nos olhos de Buck. O aviso alarmante parecia ter aberto caminho para que Chaim começasse a compreender. Talvez ele não conhecesse a profundidade do amor que o Comando Tribulação lhe dedicava. Buck sentia como se estivesse defendendo a causa de Deus sem a presença de Deus. Deus estava ali, é claro, mas, aparentemente, muito distante de Chaim.

— Vou garantir a você o mesmo que garanti certa vez a Tsion - disse Chaim. - Não vou ter a marca de Nicolae Carpathia. Mesmo que eu tenha de morrer de fome por assumir essa posição, ninguém me forçará a estampar uma marca, só para viver como um homem livre nesta sociedade.

Buck achou que aquilo já era um bom começo, mas não o suficiente. Ele chorou no quarto de hóspedes até adormecer, orando por Chaim. Às 9 horas, ele continuava exausto. Esperava poder dar uma olhada nas duas testemunhas, mas prometera a Chloe que, na viagem de volta, visitaria Lukas Miklos na Grécia. O novo amigo, a quem eles chamavam de Laslos, seria o contato principal que a cooperativa teria naquela parte do mundo.

 

O relógio marcava 7 horas em Le Havre quando Rayford e os Tuttles passaram pela alfândega como Thomas Agee e lan e Eiva Hill. Trudy foi encarregada de alugar um carro e apresentar-se no Le Petit Hotel, localizado no sul da cidade, onde eles haviam reservado dois quartos. O hotel era caro, mas sua localização não atraía olhares curiosos.

Dwayne usaria outro carro alugado para deixar Rayford a dois quarteirões de distância da Rua Marguerite, onde Bo Hanson dissera que Hattie e o irmão dele estavam escondidos sob nomes falsos. Rayford planejava simplesmente bater no apartamento e dizer, pela fresta da porta, que a CG estava atrás dos dois e que eles deveriam sair dali. Rayford acreditava que Hattie deduziria que Bo lhe fornecera o endereço e, portanto, a história sobre a CG devia ser verdadeira. Se eles estivessem preparados para fugir imediatamente, Rayford lhes ofereceria uma carona para instalá-los em um hotel discreto.

Os três se encontrariam com Dwayne e improvisariam alguma coisa. No momento em que entrassem no carro ou no meio do caminho, Rayford e Dwayne se livrariam de Samuel Hanson, deixando-o à própria sorte. Ele tinha um avião. Depois que retornassem aos Estados Unidos, eles se explicariam.

Rayford queria surpreender Hattie e Samuel logo ao amanhecer, portanto ele e Dwayne alugaram o primeiro carro que encontraram. Depois de um rápido adeus a Trudy, que se encarregou de colocar todas as sacolas no carro que ela alugara, eles partiram. Dwayne apresentava uma idéia atrás de outra sobre como ludibriar Samuel.

— Você tem certeza de que deseja ir fundo nesta operação do Comando Tribulação? - perguntou Rayford.

— Você está querendo brincar comigo? Estou sempre atrás de um pouco de aventura desde que fui salvo. Preste atenção, podemos nos livrar desse rapaz assim que entrarmos no carro. Você pede a ele que desça por alguns minutos porque tem um assunto particular a tratar com ele. O assunto pode ser o irmão dele. Você se afasta com ele do carro e, em seguida, diz que esqueceu um papel lá dentro. Você entra correndo no carro, eu acelero e vamos embora.

— Talvez dê certo - disse Rayford.

— Que tal esta outra idéia? - disse Dwayne, enquanto seguia as instruções de Rayford sobre o trajeto a ser feito. - Assim que você conseguir trazê-los até o carro, eu faço algumas mesuras e você me apresenta os dois. Eu abro a porta para a moça e peço a ela que entre. Em seguida, dou um safanão nesse tal de Hanson. Ele rola uns seis metros pelo chão, sem se machucar. Assim que ele se der conta do que aconteceu, já estaremos longe.

Rayford analisou o mapa da cidade e o bilhete de Bo. - Eles estão usando os nomes de James Dykes e Mae Willie. Às vezes agente...

— Tenho uma outra idéia - disse Dwayne, mas Rayford o interrompeu.

— Não quero ofendê-lo, Dwayne, mas a maneira como vamos agir não me preocupa, desde que a gente consiga o que deseja.

— Você deve ter um plano.

— Tenho muitos. Se eu achar que não devo convidá-lo a sair do carro, você saberá o que fazer.

— É isso aí, parceiro.

 

O desespero tomara conta de David. Já se encontrava no meio da manhã em Nova Babilônia. Ele e Mac estavam reunidos secretamente no escritório do piloto. David programara seu telefone sigiloso para discar o número de Rayford a cada 60 segundos e deixar uma mensagem digital que dizia simplesmente ABORTE, acompanhada do número do celular de David.

— Se eu soubesse que a coisa seria assim - disse Mac -, eu teria voado até a França para impedir Rayford de levar seu plano adiante.

David, sem saber o que fazer, ligou seu computador para ouvir as conversas telefônicas gravadas entre Leon e o chefe do serviço de inteligência, Walter Moon, no dia anterior, no próprio dia e no dia seguinte ao comunicado sobre a morte de Hattie. Quando ele conseguiu ouvir alguma coisa útil que poderia ajudar Rayford, sua sensação de mal-estar aumentou.

— Isto vai servir para piorar o seu dia, Mac - Preste atenção. É uma conversa entre Leon e Moon.

 

— O que você pretende fazer no caso Durham, Wally?

— Já está feito, comandante. Ela facilitou as coisas. Faz tempo que estamos tentando...

— Faz muito tempo. O que está feito? O que você fez?

— Conforme eu disse, já nos livramos do piloto. Ele estava usando o nome falso de Dykes, mas rastreamos o avião e localizamos Sam Hanson, em Louisiana.

— Quando você diz que já se livraram do...

— Você quer saber ou não? Digamos que Sam já virou picadinho. A boneca está em cana em Bruxelas. Ela estava usando o nome de Mae Willie, e decidimos manter esse nome na prisão para que ela possa ficar no anonimato lá dentro, se quiser. Sei que o chefão... desculpe, Excel... Sua Excelência não quer barulho a respeito disto.

— Correto. Mas, quem acreditaria que ela é Hattie Durham? Ela foi dada como morta.

— E foi ela quem fez isso. A gente podia deixá-la na Bélgica para sempre.

— Que vantagem levamos nessa história?

— Mandamos ao único parente vivo do piloto, o irmão dele, um bilhete que parece ter sido escrito por Sam, dizendo que ficaria na França por uns tempos e que o irmão não deveria se preocupar se não recebesse notícias dele. Imaginamos que, com o passar do tempo, o irmão vai desconfiar de alguma coisa ou perder a paciência e sair à procura dele. Só esperamos que os amiguinhos da moça saibam do paradeiro dela pelo irmão, porque temos uma surpresa para eles.

— Estou ouvindo.

— Pusemos um cara no apartamento que vai se identificar como Dykes. No início, ele vai criar caso, mas depois

vai prometer informar qualquer coisa que souber sobre Hattie. Eles vão cair como patinhos, se é que você está me entendendo.

— Excelente, Wally.

 

Mac abanou a cabeça, aborrecido.

— Você está mantendo Tsion informado? Rayford está se metendo em um vespeiro, e aquela gente de lá, principalmente a filha dele, deve estar preparada, caso ele nunca mais volte.

David assentiu e pegou o telefone, que começou a tocar. Ele apertou a tecla de identificação de chamadas.

— É ele!

Mac inclinou o corpo para ouvir, e David apertou a tecla para conversar com Rayford.

— Capitão Steele, onde o senhor está? Estou tentando ligar para o senhor...

— Sinto muito, senhor. Aqui fala a Sra. Dwayne Tuttle. Pode me chamar de Trudy. Meu marido e o capitão Steele me incumbiram de dar entrada no hotel e tomar conta da bagagem. Vi este telefone na sacola do capitão e liguei-o apenas por curiosidade. Sinto muito. Há dezenas e dezenas de mensagens para ele, todas vindas do mesmo número com o seguinte recado: ABORTE. Achei que devia ligar.

— Muito obrigado, madame. Onde está Rayf... o capitão Steele neste momento?

— Ele e meu marido estão a caminho para tentar encontrar a Srta. Durham.

— Seu marido tem celular?

— Não, senhor, ele não...

— Existe um meio de entrarmos em contato com eles?

— Tenho o endereço do local para onde eles estão indo. Talvez vocês queiram ligar para a moça.

Mac pegou o telefone.

— Madame, meu nome é Mac McCullum. A senhora se lembra de mim na África?

— Sim, senhor, como vai...

— Trudy, preste atenção e faça exatamente o que vou dizer. Trata-se de um assunto de vida ou morte. Você conhece a cidade onde está?

— Só do aeroporto até aqui.

— Pegue um mapa na recepção e peça que alguém lhe informe qual o caminho mais rápido até o endereço de Hattie. Dirija-se para lá imediatamente. Não deixe que ninguém tente impedi-la, diga que explicará mais tarde. Você precisa pedir ao capitão Steele que aborte. Ele vai entender.

— Que aborte, sim, senhor.

— Alguma pergunta?

— Não, senhor.

— Faça isto agora mesmo, Trudy! E ligue para nós informando o que aconteceu.

 

Dwayne passou de carro diante do endereço da rua Marguerite e parou um quarteirão e meio adiante.

— Lugarzinho sujo este, não? - comentou Dwayne.

— É perfeito para o que eles querem - disse Rayford. - Estou impressionado. Talvez seja o que eles conseguiram de melhor nesta história desastrosa. Vamos aguardar um pouco para ver se ela chega ou sai.

Após dez minutos, Rayford começou a ficar aflito ao ver que apenas duas pessoas haviam saído do prédio, e nenhuma delas era Hattie.

— Se eu não voltar em cinco minutos, vá atrás de mim -ele disse a Dwayne.

— E se eles estiverem armados?

— Duvido. Se Sam for tão inteligente quanto o irmão, ele não sabe de que lado deve apontar a arma. E Hattie ficaria preocupada em quebrar as unhas.

Rayford, porém, gostaria de estar portando a arma que Albie descrevera. Ele jamais atiraria em Hattie, e não se arriscaria a sofrer as conseqüências por ter acertado um sujeito tão bobalhão como o irmão de Bo Hanson. A missão não seria tão perigosa, ele imaginou. Hattie o deixaria entrar. Se não deixasse, ele tinha forjado uma história sobre Sam Hanson para convencê-la.

No prédio de três andares, havia três conjuntos de dez caixas de correio embutidas na parede do saguão, onde não havia nenhum porteiro ou vigia. Rayford ficou surpreso por eles não terem escolhido um edifício com sistema de interfones. Ele leu "J. Dykes" na caixa número 323 e subiu.

A escada entre um andar e outro era composta de quatro lances de degraus. Quando chegou ao último andar, Rayford estava ofegante e com dor no joelho. O apartamento 323 ficava na frente do prédio, à esquerda. Talvez alguém o tivesse visto quando ele entrou no prédio. Sam e Hattie poderiam ter visto o carro passando na rua.

Rayford se recompôs e avistou o botão da campainha em uma caixa de metal no meio da porta do apartamento. Ao apertá-lo, ouviu um forte toque de dois sons, que se poderia escutar também nos outros apartamentos do andar. Rayford percebeu um movimento do outro lado da porta, mas ela não foi aberta. Quando ele fez menção de apertar novamente o botão, teve a certeza de que havia alguém lá dentro. Talvez a pessoa estivesse se vestindo.

— Não se apresse - ele gritou. - Posso aguardar.

Ele imaginou que alguém tivesse andando pé ante pé até a porta para ouvir. Não havia olho mágico. Quem quer que estivesse ali, deveria estar prestando atenção para saber se ele havia desistido. Ele apertou o botão rapidamente.

— Quem é? - A voz era a de um homem.

— Tom Agee.

— Quem?

— Thomas Agee.

— Não sei quem é.

— Sou amigo da mulher que mora aí.

— Aqui não mora nenhuma mulher. Só eu.

— Mae Willie não mora aí? Silêncio.

— Por favor, posso falar com Mae? Diga a ela que é um amigo.

Rayford ouviu o som inconfundível de uma pistola semi-automática sendo destravada. Ele virou-se. Talvez tivesse vindo da escada, mas a porta abriu-se abruptamente e um jovem musculoso apareceu, colocando uma das mãos em suas costas. Ele estava descalço e sem camisa, usando apenas calça jeans.

Rayford decidiu enfrentá-lo.

— Posso entrar?

— Quem você disse que estava procurando?

— Você ouviu, senão não teria aberto a porta. Onde ela está?

— Eu já lhe disse, moro sozinho aqui. O que você quer com ela?

— Com quem? Com a mulher que não mora aqui?

— Desembuche logo ou suma daqui.

— Você é Samuel Hanson?

O rapaz olhou firme para ele.

— Meu nome é Jimmy Dykes.

— Então você é Samuel Hanson. Onde está Hattie Durham? O rapaz começou a fechar a porta.

— Você bateu em porta errada, cara. Não há ninguém aqui com esse...

Rayford avançou e colocou um dos pés entre a porta e o batente.

— Se eu bati em porta errada, como eu sabia o seu nome verdadeiro e o de Hattie? Vamos, quero falar com ela.

"Dykes" parecia estar refletindo.

— Você não é da CG, é?

— Sou amigo de Hattie - disse Rayford bem alto para que ela pudesse ouvi-lo.

— Você também não se chama Tommy Agee, acertei?

— Temos de ser muito cautelosos, Samuel. Sou Rayford Steele. Estou trazendo notícias de seu irmão Bo.

Samuel continuava sem se mexer.

— Hattie não está aqui, mas eu posso levá-lo até ela. Entre enquanto eu troco de roupa.

Samuel escancarou a porta, e Rayford entrou. Enquanto a porta estava sendo fechada, ele ouviu passos de alguém subindo as escadas correndo. Samuel dirigiu-se para um outro cômodo, e Rayford o viu pegar uma arma no bolso traseiro da calça e segurá-la.

Samuel colocou a arma em cima de uma mesa, bloqueando a visão de Rayford com seu corpo. Ele pegou uma camisa e, quando começou a vesti-la, alguém bateu com força na porta e apertou a campainha ao mesmo tempo, fazendo com que os dois se assustassem.

Rayford esperava que fosse Hattie. Sem fazer caso de Samuel, ele abriu a porta. Trudy?! Os pensamentos rodavam em sua cabeça em câmara lenta enquanto ele tentava desesperadamente lembrar-se do nome fictício de Trudy. Ao olhar para Samuel, ele viu o rapaz tirando a camisa com tanta força a ponto de rasgá-la e esticando o braço para pegar a arma.

— Aborte! - gritou Trudy, tentando tirar Rayford do apartamento, mas ele percebeu que nenhum dos dois poderia fugir daquela arma. O fato de Trudy aparecer ali com uma mensagem pedindo-lhe para abortar o fez entender que aquele rapaz, fosse quem fosse, ia matá-los.

Trudy disparou escada abaixo, e Rayford imaginou que ele receberia uma bala calibre 45 nas costas e outra no alto da cabeça. Trudy seria morta antes de chegar ao primeiro andar. Rayford não poderia deixar aquele rapaz sair do apartamento.

Ele virou-se enquanto a porta se fechava lentamente e correu na direção do moço, que havia se livrado da camisa rasgada e segurava a arma. Em seguida, Rayford viu que ele engatilhou a arma e colocou o dedo indicador no gatilho.

Rayford não queria cometer a loucura de lutar com um homem que portava uma arma. Ele conseguiria facilmente cobrir a mão do rapaz com as suas, mas as probabilidades de levar vantagem não lhe pareciam favoráveis. Resolveu, então, investir contra ele com as mãos fechadas, de encontro ao peito, cotovelos para fora, como um jogador de futebol americano indo de encontro ao adversário que acabou de agarrara a bola.

O rapaz não se intimidou, mas voou para longe. Rayford o atingiu no pescoço com o cotovelo, atirando o corpo dele para trás com a cabeça para a frente. Com o impulso da pancada, os pés descalços do rapaz escorregaram no piso e ele tropeçou em uma mesinha, caindo com os pés para cima e batendo a parte posterior da cabeça com força na janela. Ainda tonto, com a arma na mão e o dedo no gatilho, o rapaz viu Rayford correr em direção à porta, tão rápido que os pés dele mal tocavam o chão. Rayford tinha a impressão de que estava tendo um pesadelo, sendo perseguido por um monstro e correndo na lama.

Ele abriu a porta com força e olhou para trás enquanto corria. A cabeça do rapaz continuava presa no vidro quebrado da janela. Ele estava na posição horizontal, com o tronco abaixo do nível dos pés. Por mais que se esforçasse e se contorcesse, não conseguia sair dali.

No entanto, isso não o impediu de atirar. Dois estrondos ensurdecedores, quase simultâneos, fizeram desabar a parede divisória de madeira.

Rayford desceu as escadas, pulando três ou quatro degraus por vez, quase passando por cima de Trudy, que tentava fugir o mais rápido que podia, descendo um degrau por vez. Quando chegou ao segundo andar, Rayford agarrou o corrimão e rodopiou no meio da escada, o que serviu para piorar a dor no joelho. Ele só conseguiu equilibrar-se no momento em que Trudy chegava ao último degrau.

Ela gemia enquanto corria como se estivesse certa de que receberia um tiro. Rayford também tinha a sensação de que uma bala atravessaria suas costas.

Trudy havia deixado o carro, com o motor ligado e a porta aberta, bem em frente ao prédio. Dwayne a vira chegar e encostara o carro atrás do dela, sem saber que outra atitude tomar. Quando avistou Rayford e Trudy correndo em sua direção, ele gritou:

— O que...?

— Acelere! - disse Rayford, fazendo um gesto para que ele desaparecesse dali. - Vamos dar um jeito de alcançar você!

Rayford sentou-se rapidamente ao volante, e Trudy abriu a porta do lado do passageiro sob uma saraivada de balas, vindas do terceiro andar. Assim que ouviu a porta ser fechada, Rayford pisou fundo no acelerador, deixando atrás de si um rasto de poeira e cascalho.

Seus instintos o salvaram, ele sabia disso, mas, enquanto seu coração bombeava sangue para todo o corpo, Rayford não conseguia sentir-se agradecido por aquela presença de espírito. Ele sabia que Deus estivera a seu lado, protegendo-o, poupando sua vida. Mas, naquele momento, Rayford sentia ficar mais forte a raiva que o atormentava havia meses.

Aquele sentimento iniciava e terminava em Nicolae Carpathia. Rayford queria assassinar o homem e decidiu que levaria seu plano adiante, mesmo que fosse a última coisa que ele fizesse neste mundo. E ele pouco se importava com isso. Faria o possível para comprar a arma de Albie e estaria no lugar certo e no momento certo, custasse o que custasse.

Trudy, ofegante, esforçava-se para atar o cinto de segurança. Enquanto Rayford seguia Dwayne pelas ruas estreitas da cidade, ela pegou o telefone dele no chão do carro e perguntou:

— Qual... é.... o número... de discagem rápida para Mac...?

— Dois.

Ela apertou o botão, e Rayford ouviu a voz de Mac atendendo.

— Sra. Tuttle?

— Mi... mi... missão cumprida! - exclamou Trudy, passando o telefone a Rayford e irrompendo num choro convulsivo.

 

David estava exausto.

Ele e Mac tinham ouvido o relato de Rayford enquanto os dois carros atravessavam, em alta velocidade, as ruas de Le Havre em direção ao hotel. Todos concordavam que, se eles não estivessem sendo seguidos, chegariam rapidamente ao hotel onde estavam registrados sob nomes falsos. Porém, teriam de sair do país o mais rápido possível. Rayford dissera seu nome falso e o verdadeiro a "Samuel", que, evidentemente, era um espião da CG. Se ele não estivesse gravemente ferido, já teria informado o pessoal de lá que Rayford estava na França.

Aquilo poderia ter dificultado a passagem de Rayford pela alfândega. Felizmente, ele separou-se dos "Hills", que passaram antes pela alfândega. O nome falso de Rayford não foi relacionado com o deles.

— Não podemos ajudá-lo daqui - disse David.

— Manterei contato - disse Rayford. - Só que não vou voltar direto para casa.

 

Buck partiu de Israel sem visitar o Muro das Lamentações e sem relatar a Tsion os detalhes de seu encontro com Chaim Rosenzweig. Queria fazer isso pessoalmente, porque sabia que Tsion se sentiria tão pesaroso quanto ele. Todos eles haviam aprendido a amar Chaim. Não bastava dizer que não foi possível fazer o israelense tomar uma decisão. Os crentes que amavam Chaim queriam que ele se convertesse.

Buck ficou satisfeito com o caloroso encontro que teve com Lukas Miklos e sua esposa. Em seu inglês arrastado, a Sra. Miklos contou a Buck com orgulho:

— Laslos adora uma conspiração. Ele me lembra dia e noite que o nome do amigo é Greg North, e não o outro que eu sei.

Laslos cumprira sua parte no acordo. O comércio de linhito prosperou tanto que ele obteve grandes lucros. Seu plano era vender a empresa à Comunidade Global pouco antes do início das restrições de compra e venda, que estavam prestes a ser postas em prática.

Laslos mostrou a Buck uma área enorme, instalada em um novo local, onde ele abrigaria os caminhões e empilhadeiras para poder embarcar mercadorias aos diversos pontos onde funcionava a cooperativa. Esse novo empreendimento seria semelhante a um negócio aprovado pela CG, só que dez vezes maior do que aparentava. Seria o centro das atividades da cooperativa naquela parte do mundo.

Buck também visitou a igreja secreta de Laslos, composta de um grande número de crentes liderados por um judeu convertido, cuja preocupação principal era conseguir acomodar tanta gente no local. Buck retornou aos Estados Unidos animado pelo que viu na Grécia, mas triste pela indecisão espiritual de Chaim Rosenzweig.

Ao chegar à casa secreta, ele encontrou Tsion e Chloe nervosos por causa de uma atitude que tiveram de tomar com relação a Leah. Buck aprovou, mas Tsion e Chloe estavam preocupados, sem saber se deviam ir adiante sem consultar Rayford. Em razão da quase tragédia com Rayford e da dificuldade de comunicação entre os membros do Comando Tribulação com o resto do mundo, Tsion sugerira designar uma pessoa para centralizar todas as informações. Leah se prontificou imediatamente, dizendo que tinha tempo disponível entre o preparo de uma refeição e outra. Chloe passara horas com ela, ensinando-a a lidar com o computador, e Leah disse que nunca se sentira tão realizada.

Os quatro reuniram-se ao redor do computador, e Leah contou que havia encontrado um programa que a ajudava a incorporar todas as mensagens recebidas e transmitidas. Com um pouco de atenção e a ajuda de algumas teclas, ela transmitia a todos da casa as mensagens que saíam e chegavam.

— Assim, nunca vamos ter dúvidas se alguém está ou não por dentro do assunto, se já tomou conhecimento ou não. Se Mac ou David relatarem um incidente que todos necessitem saber, vou providenciar para que todos tomem conhecimento.

A medida que a metade do período da Tribulação se aproximava, Buck tinha a sensação de que eles estavam convenientemente preparados.

 

Rayford tinha de ser justo com Dwayne. Talvez ele fosse um homem espalhafatoso, mas havia engendrado o melhor plano para tirar Rayford de Le Havre.

— Não precisamos usar minhas idéias para nos livrar do amiguinho de Hattie - disse Dwayne -, portanto estamos quites.

Evidentemente, Trudy ficou orgulhosa de sua façanha aquela manhã, mas continuava abalada e não queria assumir responsabilidade por outra aventura no momento em que estivessem saindo do país.

Trudy e Dwayne chegaram ao aeroporto 15 minutos antes de Rayford para entregar o carro alugado e preparar o avião para a decolagem. Rayford deveria chegar logo depois e entregar o outro carro. Em seguida, ele se dirigiria normalmente para os fundos do terreno do estacionamento, onde havia uma cerca que separava os carros do terminal. Dwayne notara que o local atrás da cerca dava acesso à extremidade do terminal do aeroporto e à pista.

— Você pode pular a cerca e correr até o avião - dissera Dwayne -, assim que ouvir os motores funcionando, ou eu conduzo o avião até perto da cerca para facilitar as coisas para você.

— Quais são os prós e os contras?

— Você vai ter de correr um bocado até o avião com esse joelho dolorido. Por outro lado, se eu conduzir o Super J até a cerca, vou atrair a atenção de muita gente e pode ser que alguma autoridade não permita que eu me aproxime daquela área.

Ficou decidido que Dwayne deixaria o Super J na posição de decolagem e, em seguida, pediria permissão para taxiar até perto do terminal a fim de verificar um problema na parte inferior do avião. Com isso, ele ficaria perto do local onde Rayford pularia a cerca.

— Vou dizer que ouvi um rangido em uma das rodas e tentar levá-los comigo para examinarmos a roda juntos. Enquanto isso, você entra no avião.

Deu tudo certo até o momento em que Rayford parou o carro no estacionamento. O Super J estava na pista, com os motores funcionando. O funcionário da locadora de carros perguntou-lhe alguma coisa em francês e, em seguida, traduziu para o inglês.

— O senhor vai pagar com cartão de crédito?

Rayford assentiu com a cabeça. O funcionário começou a imprimir o recibo, olhando ora para Rayford ora para a impressora.

— Com licença - ele disse, dando as costas a Rayford e falando em seu walkie-talkie. Rayford entendia pouco de francês, mas teve a certeza de que o funcionário estava fazendo algumas perguntas a um colega sobre "Thomas Agee".

Enquanto isso, o recibo foi impresso, mas o funcionário não o entregou a Rayford.

— Não deu certo - ele disse.

— O que você está dizendo? - perguntou Rayford. - O cartão está aí.

— Por favor, aguarde. Vou tentar novamente.

— Estou atrasado - disse Rayford, recuando ao perceber movimento perto do terminal. - Mande a conta para mim.

— Não, o senhor precisa aguardar. Precisamos de um novo cartão.

— Mande a conta para mim - insistiu Rayford.

Ele olhou por cima dos ombros e viu o Super J taxiando lentamente em sua direção. Três homens saíram apressados do terminal rumo ao estacionamento. Rayford correu para a cerca, e um dos homens gritou pedindo ajuda. Pelos cálculos de Rayford, a cerca devia ter mais ou menos 1,40m de altura. O Super J estava a uns 100 metros de distância, rodando lentamente. Os três homens que corriam atrás de Rayford estavam a aproximadamente 30 metros dele. Todos pareciam jovens e de porte atlético.

Rayford tentou dar um impulso e saltar por cima da cerca, mas o salto do sapato do pé dianteiro enroscou-se nela. Com a parada brusca, ele perdeu o equilíbrio e ficou com o corpo tombado para o outro lado da cerca. Ele agarrou-se na parte superior da cerca para não se estatelar no chão, mas, enquanto tentava se soltar, ficou de cabeça para baixo por alguns instantes. Finalmente, ao conseguir se desenroscar, caiu, batendo o ombro com força no chão, levantou-se rapidamente e correu em direção ao avião.

Ao olhar de relance para trás, ele viu que seus perseguidores tinham conseguido pular a cerca com facilidade. Se Dwayne não aumentasse a velocidade, eles alcançariam Rayford. Ele ouviu o ronco dos motores e viu um homem com uma prancheta na mão acenando para que Dwayne reduzisse a velocidade. Felizmente, ele não obedeceu. Trudy abaixou a escada, e Rayford tentou subir.

Os homens gritavam para que ele parasse. Enquanto Trudy inclinava o corpo para fora tentando segurar a mão dele, Rayford ouviu passos atrás de si. No momento em que ele deu um impulso para agarrar-se à escada, um dos homens, o mais rápido deles, mergulhou no chão e segurou-o pelo calcanhar. Rayford desequilibrou-se e quase caiu da escada pela lateral, mas Trudy provou ser mais forte do que aparentava. Rayford agarrou o pulso dela e receou arrastá-la para fora, mas o peso dele a fez cair no piso do avião. Ela ficou atravessada na porta, com os ombros presos em um dos lados e os joelhos no outro. Ele saltou sobre ela. Dwayne acelerou, e Rayford ajudou Trudy a fechar a porta.

— É a segunda vez que você salva minha vida hoje - ele disse. Trudy sorriu, desabando trêmula no banco.

— E também foi a última. Estou muito cansada. Dwayne gritava como se estivesse em um rodeio enquanto o Super J disparava rumo ao céu.

— Que maravilha! Ela não é fenomenal? Segura, peão!

— É uma bela máquina - disse Rayford, imaginando a dor que sentiria no corpo na manhã seguinte.

Dwayne lançou-lhe um olhar desconcertado.

— Eu não estava falando da aeronave, parceiro. Estava falando desta mulherzinha.

Trudy inclinou-se para a frente e passou os dois braços ao redor do pescoço do marido.

— É melhor você parar de me chamar assim - ela protestou.

— Querida, vou chamar você da maneira como este meu velho coração mandar. Segura, peão!

— Você está indo para o oeste? - perguntou Rayford repentinamente.

— Vou na direção que você quiser, Rafe. É só dizer.

— Leste.

— Entendido, e vou ficar abaixo da linha do radar por uns tempos até que eles se esqueçam de tentar nos localizar. Apertem os cintos e se segurem!

Dwayne não estava brincando. Ele fez uma manobra tão rápida para mudar a rota do Super J que a cabeça de Rayford ficou grudada no encosto do banco.

— Igual a uma montanha-russa, não? Você vai adorar esta viagem!

Rayford resmungou alguma coisa para si mesmo.

— Que tal esta outra manobra, capitão? - perguntou Dwayne.

— Eu disse que você precisa ser um pouco mais entusiasmado. Dwayne riu tanto que chegou a chorar.

 

No final do dia, David recebeu um e-mail pessoal de Annie, comunicando que o chefe do departamento dela e dois outros funcionários do alto escalão haviam-se reunido rapidamente no escritório de Fortunato. David respondeu o seguinte: "Eu adoraria de todo o coração estar a seu lado mesmo que você não fosse o dedo-duro mais importante da organização." Enquanto ele vasculhava o disco rígido do computador tentando localizar o áudio da referida reunião, a tela exibiu outro sinal de mensagem recebida. Era outra de Annie. "Nunca imaginei receber um elogio tão lisonjeiro do amor de minha vida. O dedo-duro lhe agradece do fundo do coração. Beijos, AC."

Quando encontrou o que procurava, David reconheceu a voz de seu colega, o chefe do departamento de Annie. Depois de fazer os rapapés obrigatórios, ele passou a palavra ao chefe de análise do serviço de inteligência. Jim Hickman era muito inteligente, senhor de si e parecia gostar do som de sua voz.

— Esses beatos - Hickman começou a dizer - são aquilo que eu chamo de fundamentalistas. Eles acreditam em escritos antigos, principalmente na Tora judaica e no Novo Testamento cristão, e não fazem distinção entre registros históricos, muitos deles corretos, e registros figurativos, com linguagem simbólica, das tais passagens proféticas. Por exemplo, qualquer pessoa, inclusive eu, que tenha estudado superficialmente a história das antigas civilizações sabe que muitos dos chamados livros proféticos da Bíblia não são nada proféticos. Depois da ocorrência de alguns fenômenos sobrenaturais, alguém poderia fazer essa descrição cheia de imaginação encaixar-se ao evento. Por exemplo, essa onda atual de morte por fogo, fumaça e enxofre, talvez provocada por essa gente, passou a ser o cumprimento daquilo que eles acreditam ser uma profecia, que inclui cavalos monstruosos com cabeça de leão, montados por 200 milhões de cavaleiros.

— Aonde você quer chegar, Jim? - perguntou Fortunato. -Sua Excelência está à procura de fatos específicos.

— Ah! sim, comandante. Só posso dizer o seguinte: como esses beatos levam as palavras ao pé da letra, eles atribuem a esses dois pregadores malucos...

— O potentado os chama de Dupla de Jerusalém! - disse Fortunato.

— Sim! - exclamou Hickman. - Adorei o termo! Os seguidores de Ben-Judá acreditam que esses velhos caducos são as tais testemunhas mencionadas no capítulo 11 do livro de Apocalipse. Um dos versículos deste capítulo diz: "Darei às minhas duas testemunhas que profetizem por mil duzentos e sessenta dias, vestidas de pano de saco."

— Então, é por isso que aqueles dois se vestem com roupas de aniagem - disse Fortunato. - Eles estão tentando nos fazer acreditar que são essas tais testemunhas.

Hickman aquiesceu.

— Exatamente, comandante. E Ben-Judá sempre garantiu que esse período começou no dia em que o governo mundial assinou um tratado de paz com Israel. Se contarmos 1.260 dias a partir daquela data, chegaremos ao que os pregadores chamam de "tempo determinado".

Fortunato pediu licença aos outros para ficar a sós com Hickman por alguns instantes. David ouviu o som de cadeiras sendo arrastadas e de pessoas saindo. Em seguida, Fortunato disse:

— Jim, preciso confidenciar-lhe uma coisa que está me incomodando. Você é um sujeito esperto...

— Obrigado, senhor.

— Nós dois sabemos que existem coisas nesses escritos antigos que são difíceis de ser falsificados.

— Não sei, não. A transformação da água em sangue está sendo feita pelas mesmas pessoas que estão nos matando com a guerra biológica. Trata-se de um truque, alguma coisa que eles puseram nas estações de tratamento de água.

— Mas no Estádio Teddy Kollek a água transformou-se em sangue depois de engarrafada.

— Tenho visto mágicos fazerem a mesma coisa. Eles colocam alguma substância que reage de acordo com a temperatura, talvez quando ela cai em determinado período da noite. Se soubéssemos quando isso ocorre, poderíamos fazer o mesmo e provocar o fenômeno.

— E por que está demorando tanto tempo para chover?

— Coincidência! Já vi Israel passar meses sem chuva. Qual é a novidade? É fácil alguém afirmar que está impedindo que chova quando não há chuva. O que eles vão dizer quando a chuva começar a cair? Que nos deram uma trégua?

— As pessoas que tentaram matá-los foram incineradas...

— Alguém disse que os dois têm um lança-chamas escondido, que usam quando a multidão se distrai. Francamente, comandante, o senhor não está querendo dizer que aqueles dois expelem fogo pela boca!

Fortunato permaneceu em silêncio por alguns instantes. Em seguida, disse:

— Bem, se eles não são quem dizem ser, como poderemos saber que ficarão vulneráveis no momento determinado?

— Não vamos saber. Mas ou eles são vulneráveis, ou não são quem dizem ser. De qualquer maneira, nós venceremos. Eles sairão perdendo.

David deveria transmitir a informação a Tsion, mas precisava antes ouvir o relato de Fortunato a Carpathia. Ele verificou os telefones de Fortunato e Margaret. Nada. O escritório de Fortunato estava silencioso. Ele resolveu dar uma vasculhada no escritório de Carpathia. Fortunato tinha acabado de relatar sua conversa com Hickman.

— Mil duzentos e sessenta dias desde o tratado -repetiu Carpathia. - Já decidimos fazer uma grande festa. Agora sabemos exatamente quando devemos encená-la. Você precisa elaborar um plano de trabalho, Leon. Precisa fazer com que os potentados regionais fiquem contra Peter Segundo. É verdade que já estão contra ele, mas o tal homem precisa ser eliminado. Vou deixar o assunto sob sua responsabilidade. Eu tomarei conta das tais testemunhas. O mundo, principalmente Israel, aguarda ansiosamente o fim daqueles dois. Durante meses, acreditei que não caberia a mim a tarefa de livrar o mundo dos dois. Pensei em dar uma ordem para que as tropas da CG os matassem. Mas eles serão tão malvistos até mesmo por seus seguidores que resolvi eliminá-los pessoalmente, transformando esse ato na façanha mais importante de minha vida até agora.

— O senhor está certo disso?

— Você não concorda?

— Seria fácil demais, Excelência. Melhor fazer isso sem comprometê-lo. O senhor poderia até deplorar o ato publicamente, reafirmando que incentiva a liberdade de expressão e de idéias.

— Mas não a liberdade para atormentar o mundo com pragas e julgamentos, Leon!

— Essas pragas e julgamentos não sugerem que eles são quem dizem ser?

— Isso não faz nenhuma diferença, você não entende? Quero responsabilidade e votos de confiança, ganhar pontos por me levantar contra esses impostores.

— Claro. Como sempre, Excelência, o senhor é insuperável.

 

O Super J pousou no final da pista em Al Basrah. Assim que eles chegaram, vários funcionários do aeroporto correram descalços até o avião, olhando curiosos para suas linhas arrojadas e a bandeira britânica. No local em que "Dart", o alter ego australiano de Dwayne colocara o emblema "Trabalho Honesto", havia agora um decalque que dizia "Angus Negro".

Rayford ficou impressionado com o sotaque britânico carregado de Dwayne e até mesmo com o volume de sua voz.

— Muito bem, cavalheiros - ele disse. - Sou Ian Hill, proprietário da aeronave, e esta é minha esposa, Eiva. Obrigado por cuidarem do reabastecimento.

Rayford apresentou-se como Jesse Gonder, e um dos funcionários entregou-lhe um envelope contendo chaves e um bilhete que dizia: "Você se lembra do caminhão. Vá com ele até este endereço. Sigo atrás de você. Al B."

Rayford encontrou o velho caminhão de Albie, e eles se dirigiram até um local de comércio muito movimentado no centro da cidade. Ele, Dwayne e Trudy aguardaram Albie sentados sob o toldo de um agitado café encravado numa construção de pedra.

Aparentemente, Dwayne sabia manter um tom de voz baixo em público, principalmente quando precisava acentuar seu sotaque britânico. Os três bebericavam refrigerantes enquanto Rayford e Dwayne conversavam reservadamente sobre o Comando Tribulação. Trudy cochilava entre um gole e outro.

— Sinto muito - ela disse. - Foi aventura demais para um dia só.

— Ela é um verdadeiro soldado - cochichou Dwayne, olhando para os fregueses sentados por perto, que, provavelmente, não entendiam o que ele dizia. - Mas acho que ela nunca ficou tão assustada na vida.

Trudy concordou com a cabeça e em seguida continuou a cochilar.

— Sua filha é um azougue, e não me importo de dizer isso a você, Rafe. Sei que vocês todos têm muitas idéias, mas ela conseguiu organizar essa cooperativa como ninguém. Você sabe que tenho sido exageradamente arrojado a respeito de minhas crenças.

— Ouvi dizer.

— Vou ter de pôr um fim nisso assim que exigirem que a gente tenha uma marca para comprar e vender. A posição que defendo vai ficar clara, e, pelo que entendo, posso perder a cabeça. Todos nós podemos perder a cabeça. Pelo menos é isso o que dizem as mensagens do pastor Ben-Judá.

Rayford deu um sorriso cansado. Ele estava pensando em Hattie e na tolice que ela cometera para ser presa. Mas ele nunca vira ninguém referir-se a Tsion como pastor Ben-Judá, e gostou disso. Era um título perfeito. Ele era mais que um pastor do Comando Tribulação. Era o pastor de qualquer pessoa que desejasse ouvir suas pregações cibernéticas diárias.

Enquanto Dwayne falava sobre a honra que ele e Trudy sentiam por ser os elementos principais da região sudoeste na condução dos negócios da cooperativa de mercadorias, Rayford pensava na sugestão de Leah. Ela estava certa; não tinha mais obrigações familiares. Talvez pudesse deslocar-se de um lugar para outro. Era uma fugitiva recente em comparação aos outros que moravam na casa secreta. Sua fisionomia só seria reconhecida pelo pessoal da CG de sua cidade. Com um pouco de maquiagem, lentes de contato, tintura no cabelo, ela poderia viajar para qualquer lugar.

Até mesmo para Bruxelas.

Ela poderia passar por parente de Hattie. Alguém teria de dar a ela a triste notícia sobre sua irmã. Rayford esperava que a CG mantivesse Hattie viva até que ela se convertesse, mas não se importaria se ela ficasse presa até que eles ultrapassassem a metade do período da Tribulação. Se ela fosse libertada, tentaria assassinar Nicolae. Rayford tinha de admitir que aquela façanha lhe pertencia. Embora soubesse que agiria de modo ridículo, ele teria mais condições que Hattie de perpetrar o ato. Fosse quem fosse o autor do crime, não sairia ileso. Ele orou silenciosamente: Senhor, peço-te que entendas meus motivos. Eu desejo o que tu desejas. Desejo que Hattie seja salva antes que cometa um ato que possa pôr um fim à vida dela.

— Eu gostaria de conhecer aquele grego do qual você me falou - Dwayne estava dizendo. - Explorar o oceano a partir do Estreito de Bering, despachar grãos do sudoeste e comercializar produtos da Grécia são coisas que fazem parte daquilo que a Sra. Williams já pôs em prática. Tudo vai dar certo, Rafe.

Uma charanga mais velha que o caminhão emprestado por Albie freou com grande estardalhaço na rua estreita. Albie saltou, deu um tapa na lataria da charanga e ela continuou a rodar, sacolejando. Rayford levantou-se para cumprimentá-lo, mas Albie, carregando um saco de papel pardo, fez um gesto para que ele se sentasse. Albie curvou-se para cumprimentar Trudy, mas ela ainda cochilava, apoiando o queixo com a mão.

— Um de meus funcionários me disse que viu pessoas estranhas - ele cochichou, puxando uma cadeira.

— Pode confiar em nós, Albie - disse Dwayne.

— Eu confio porque alguém já me falou do senhor - disse Albie. - O senhor está com ele. Eu confio nele, confio no senhor.

— Pessoas estranhas onde? - perguntou Rayford, não querendo se envolver novamente com a CG. - Elas estão aqui?

— Você nunca vai vê-las aqui - disse Albie. - Isso não significa que não estejam aqui. Elas aprenderam a se misturar no meio do povo.

— Então, onde elas estão?

— No aeroporto.

— Precisamos voltar para aquele avião, Albie.

— Não se preocupe. Pedi a alguém que colasse um aviso de quarentena na porta, igual ao da CG, alertando que há vapores de enxofre a bordo. Ninguém vai ousar aproximar-se. E, até onde sei, não há ninguém da CG na pista. Se vocês conseguirem levantar vôo e permanecer abaixo da linha do radar por alguns instantes, poderão fugir.

— Mas eles estão à nossa procura? Albie encolheu os ombros.

— Sou um empresário, e não um espião. Vocês conhecem essas coisas melhor do que eu. Vamos, deixe-me mostrar a sua mercadoria. Você não se importa que seus amigos a vejam?

— De jeito nenhum.

— Vamos nos afastar daqui para testá-la.

— Prefiro ficar aqui com Trudy - disse Dwayne. Ela parecia estar dormindo profundamente, com a cabeça sobre os braços apoiados na mesa. - Não se esqueça de nós aqui, ouviu?

— Fique atento - cochichou Rayford, levantando-se.

— Não se preocupe comigo, parceiro. Não vou cochilar. Não me divirto tanto desde que minha irmã foi devorada pelos porcos.

Rayford lançou um olhar perplexo para Dwayne.

— Estou brincando, Rafe. É uma expressão que usamos no interior.

 

— É verdade? - Leon perguntou.

— Não entendi, senhor - disse David, sentando-se no escritório de Fortunato.

— É verdade que você não viu o relatório de auditoria interna sobre seu departamento?

David lutou para manter a calma.

— Eu sabia que eles estavam fazendo uma auditoria, mas achei que não ficaram lá o tempo suficiente para fazer um relatório.

— Eles chegaram a algumas conclusões, e eu não gostei nem um pouco.

— Ninguém conversou comigo.

— Desde quando o pessoal da auditoria interna conversa com alguém? Eles fazem o que precisa ser feito, mas nunca trocam idéias com ninguém. Você também não vai gostar do que eles encontraram, mas continuo insistindo para que você responda à minha pergunta.

David sabia que sua pulsação estava rápida demais e tentou controlar a respiração.

— Eu gostaria muito de analisar o que eles encontraram e me explicar da melhor maneira que puder.

— Eles lhe deram notas altas. Disseram que a culpa não é sua.

— Culpa?

— Pelo fiasco, pelo fracasso, mas que isso não tem nada a ver com sua liderança, que eles consideram excelente.

— O que eles estão chamando de fracasso?

— É claro que o fracasso não tem relação com o estado de espírito de seus funcionários. Nem com sua ética de trabalho, David. Com exceção do potentado e de mim, você trabalha muito mais do que qualquer outra pessoa.

— Bem, eu não sabia disso...

— O ponto principal, Hassid, é que eles estão recomendando cancelar o projeto para detectar as transmissões via Internet.

— Oh! não! Eu gostaria de continuar tentando.

— Sei que esse trabalho é a menina de seus olhos e que você pôs a alma e o coração nele. O fato é que o custo do projeto não é compensador.

— Mas não valeria a pena investir um pouco mais de tempo para ver se conseguimos descobrir alguma coisa?

— Você não está nem perto de descobrir alguma coisa, está, David? Seja honesto. A auditoria interna diz que você não obteve nenhum sucesso desde o dia em que o equipamento foi instalado e que, em razão do número de horas trabalhadas e do dinheiro que foi gasto, não faz sentido dar prosseguimento ao projeto. David simulou uma expressão de grande desapontamento.

— Vou voltar à minha pergunta inicial - disse Leon. - É verdade? É verdade que esse projeto está nos trazendo mais dores de cabeça do que esperávamos? Devemos cancelá-lo?

— O que o potentado vai dizer?

— Esta é a minha preocupação. Vou usar o argumento de que não temos tanta necessidade de saber de onde partem aqueles e-mails e que os seguidores de Ben-Judá estão nos fazendo de tolos. Ele vai concordar. E você?

— Quem sou eu para discordar do potentado e do supremo comandante?

— É assim que se fala, garoto.

— Sem mencionar a auditoria interna.

— Você entendeu o espírito da coisa. Tenho uma idéia para aproveitar aquelas horas de trabalho e os computadores.

— Que bom! Detesto desperdiçar tempo e dinheiro.

— Agora que a tripulação da cabina de comando voltou ao trabalho e que o Fênix 216 está totalmente equipado, Sua Excelência incumbiu-me de fazer uma viagem para visitar as dez regiões nas próximas semanas. Como preparativo para a celebração de gala por termos chegado ao ponto intermediário do acordo de paz de sete anos, assinado entre a Comunidade Global e Israel, ele gostaria que eu me reunisse com cada um dos potentados regionais, inclusive com o novo líder africano. Eu gostaria de poder contar com seus funcionários, aqueles que estarão com o tempo ocioso em razão do cancelamento do outro projeto...

— Com licença, comandante, tenho uma pergunta tola...

— A única pergunta tola é aquela que não é feita.

Nunca ouvi essa pérola antes!, pensou David. - Bem, quero dizer que não diz respeito à minha área de atuação.

— Desembuche.

— Em termos de custos, não seria melhor que os dez... hã... potentados viessem até aqui ou se encontrassem com o senhor em algum lugar qualquer?

— Seu raciocínio tem lógica, mas existem motivos para agir da maneira como lhe falei. - Leon falava agora de maneira condescendente. Com as mãos abertas e juntando as pontas dos dedos, ele prosseguiu. - Além de muitas outras excelentes qualidades de liderança que possui, Sua Excelência Nicolae Carpathia é um diplomata incomparável. Ele lidera por meio de exemplos. Lidera sendo útil aos outros. Lidera ouvindo. Lidera delegando poderes, e esta é a razão de minha viagem. O potentado sabe que cada um de seus dez subpotentados necessita ter a sensação de que está sempre contando com a presença dele. Para mantê-los leais, fortalecidos e inspirados, ele prefere delegar-lhes autoridade e autonomia dentro de seus territórios. O fato de Sua Excelência me enviar como seu emissário para visitá-los, digamos, em seus campos de atuação, é uma honra para eles.

— Isto lhes dará a oportunidade de estender seus tapetes vermelhos - prosseguiu Fortunato -, provar a seus súditos que estão sendo honrados com a presença de um visitante do palácio. Em cada capital internacional, farei um convite oficial em público ao potentado regional para que compareça à Festa de Gala Global em setembro. Seus súditos também serão convidados, e insistiremos que estendam a viagem a Jerusalém, fazendo uma peregrinação a Nova Babilônia.

— Interessante - disse David.

— Eu esperava este seu comentário. E é aí que você, seus funcionários e todos os computadores disponíveis entram na história. Para mim, Sua Excelência sempre foi um exemplo impecável de orador público. Você sabe que ele fala vários idiomas fluentemente. Minha fluência não chega a tanto, mas eu gostaria de compreender uma frase ou duas do idioma falado em cada grupo principal ao qual deverei dirigir a palavra. Não sei se você já notou, mas o potentado nunca, nunca mesmo, usa gírias, nem mesmo durante uma conversa informal.

— Tenho tido pouco contato com ele...

— Claro. Mas deixe-me falar sobre o magnífico dom de oratória que ele possui e de sua habilidade inigualável para memorizar páginas e páginas de um discurso, fazendo com que jamais pareça longo ou inoportuno. A verdade é a seguinte: o potentado Carpathia conhece a história de cada país que visita com detalhes, tanto quanto o próprio povo a quem ele dirige a palavra. Você já teve a oportunidade de ver os videoteipes de seu primeiro discurso na Organização das Nações Unidas três anos atrás?

— Tenho certeza de que todos nós tivemos.

— Aquele discurso em si, David, praticamente selou sua nomeação como secretário-geral e, depois, líder da nova ordem mundial. Ele subiu à tribuna como um simples orador convidado, presidente de um pequenino país do leste europeu. A posição que o potentado ocupou como secretário-geral nem sequer estava vaga quando ele iniciou seu discurso. No entanto, com sua inteligência, poder de sedução, perspicácia, conhecimento do idioma de cada país filiado à ONU e uma extraordinária narrativa da história daquela importante instituição, ele granjeou a simpatia do mundo inteiro. Se não tivéssemos acabado de perder entes queridos em conseqüência dos desaparecimentos em

todo o planeta, que nos fizeram mergulhar no mais profundo sofrimento, eu garanto que a platéia que assistiu àquele maravilhoso discurso teria sido muito maior. Mas, aparentemente, tudo transcorreu conforme Deus ordenou, e Sua Excelência foi perfeito naquele momento. Fortunato tinha um olhar perdido.

— Ah! foi um momento mágico - ele disse. - Eu sabia, dentro do coração, que se um dia tivesse o privilégio de contribuir, nem que fosse de maneira ínfima, para os ideais e objetivos daquele homem, eu confiaria minha vida a ele. Você já sentiu a mesma coisa a respeito de alguém, David?

— Posso dizer que sim. Sinto essa mesma devoção dentro de mim.

Aquela frase pareceu tirar Leon de seus devaneios. - Sério? Posso saber quem é?

— Quem é? O senhor quer saber quem eu... idolatro a ponto de confiar minha vida a ele? Ah! sim. Meu Pai.

— Que coisa bonita, David. Ele deve ser um homem maravilhoso.

— Oh! Ele é. Ele é como Deus para mim.

— Verdade? O que ele faz?

— Ele é criativo, trabalha com as mãos.

— Mas, pelo que entendi, é o caráter dele que o fascina.

— Mais do que o senhor pode imaginar. Mais do que eu posso dizer.

— Deve ser alguém muito especial. Eu adoraria ter a oportunidade de conhecê-lo.

— Ah! o senhor terá - disse David. - Tenho certeza de que o senhor se encontrará um dia com Ele, face a face.

— Espero que esse dia chegue logo. Mas fugi da minha linha de raciocínio. Vou voltar ao ponto em que parei e, em seguida, liberarei você. Desculpe-me, mas gosto de incentivar um jovem leal que tem uma carreira promissora.

— Não há o que desculpar.

— Eu gostaria que seus funcionários usassem aqueles computadores para vasculhar fatos importantes a respeito de cada homem que vou visitar, sua região, sua história. Se souber informações detalhadas sobre eles, poderei homenageá-los. Você poderia conseguir isso para mim, David? Preciso de informações que me façam parecer admirável, que façam Sua Excelência parecer admirável, o que será muito bom para a Comunidade Global.

— Aceitarei seu pedido como um desafio pessoal, senhor.

 

Estrelas cintilavam no céu escuro quando, finalmente, Albie parou o velho caminhão em um local poeirento de uma planície deserta. Ele deixou os faróis do veículo acesos iluminando uma pedra grande próxima a uma árvore, cerca de cem metros de distância. Albie saltou para a carroceria do caminhão, subiu na cabina e olhou para trás.

— Meus olhos precisam acostumar-se à escuridão - ele disse -, para eu ter certeza de que estamos sozinhos. - Satisfeito, ele pulou para a carroceria e, em seguida, para o chão.

— Eu costumava descer daqui com um salto só. Mas meu tornozelo... você se lembra?

— Foi ferido no terremoto - disse Rayford.

— Não foi tão grave, considerando tudo o que aconteceu. Albie fez um gesto para que Rayford o seguisse até a frente do caminhão, onde ele se agachou diante dos faróis e pegou uma sacola de papel, tirando dela uma peça retangular de metal preto, semelhante a uma caixa de mais ou menos 25 centímetros de comprimento por 12 de largura e 4 de altura.

— Capitão Steele, isto aqui é sensacional. Custa caro, mas encontrei o que o senhor queria. Observe atentamente e veja como a peça é feita. Se o senhor não conhecer o truque, não vai saber como funciona. Segure para ter uma idéia do que isto representa.

Rayford pegou a peça e ficou impressionado com seu peso e solidez. Não havia emendas visíveis, e a peça parecia resistente.

— Abra - disse Albie.

Rayford revirou a peça sob a luz, procurando uma trava, um dispositivo para abrir, uma mola para apertar, qualquer coisa. Não viu nada.

— Tente - disse Albie.

Rayford segurou a peça pelas pontas e puxou com força. Em seguida, procurou por todos os lados para ver se havia alguma abertura. Virou-a, sacudiu-a e apertou as beiradas.

— Estou convencido - ele disse, devolvendo-a a Albie.

— O que esta peça faz lembrar?

— Uma pedra de lastro. Talvez algum tipo de peso. Quem sabe uma antiga bateria de computador?

— O que o senhor diria ao agente da alfândega se este objeto aparecesse na tela do radar?

— Uma das coisas que eu citei. Eu diria que deve pertencer ao computador que deixei em algum lugar durante minha última viagem.

— Vai funcionar, porque ele não será capaz de abrir. Só se ele fizer isto, mas não acredito.

Albie segurou a peça diante de si, na posição horizontal, e colocou o polegar esquerdo no canto superior esquerdo, firmando o dedo médio esquerdo na parte de trás do canto inferior esquerdo. Depois, fez o contrário com a mão direita, colocando o polegar no canto inferior direito, o dedo médio na parte de trás do canto superior direito.

— Estou empurrando delicadamente com os polegares e firmando os dedos. Quando eu sentir um leve movimento indicando que a peça está sendo destravada, passo os polegares pela borda inferior, coloco os dedos indicadores na borda superior, seguro com força e puxo. Veja como ela se abre facilmente.

Rayford tinha a impressão de que estava presenciando um truque de mágica a um passo de distância, sem ter nenhuma pista de como funcionava. A peça abriu-se pouco mais de dois centímetros, e Albie a fechou rapidamente.

— As emendas parecem sumir, porque esta é uma peça inteiriça feita de um bloco de aço. Tente mais uma vez, capitão.

Rayford colocou os polegares e os dedos médios nos lugares indicados por Albie. Quando ele apertou suavemente os polegares e sentiu a pressão nos dedos, percebeu um leve movimento de que a peça estava sendo destravada. Ele se lembrou de um brinquedo dos tempos de infância, que consistia em tentar fazer uma moedinha cair dentro de um buraco raso feito em um pedaço de cartolina. A moeda só caía quando se inclinava num ponto determinado, nem mais nem menos.

Ele segurou as extremidades da peça conforme Albie fizera, e ela se abriu suavemente. Em sua mão esquerda, estava um bloco de aço compacto, no formato de um grande quebra-cabeça, que se ajustava perfeitamente com a arma pesada em sua mão direita. Impressionante.

— Está carregada?

— Alguém me ensinou que sempre devemos ter muita certeza, ao segurar uma arma, de que está descarregada. Muitas pessoas já morreram em acidentes com armas que acreditavam estar sem balas.

— Concordo. Mas, e se eu apontar e atirar...

— A bala vai ser disparada? Sim.

— Você tem algo que eu possa colocar em cima daquela pedra e usar como alvo?

— Por enquanto, é melhor só mirar na pedra. Você precisa acostumar-se com a arma.

— Eu era um bom atirador nos tempos da academia militar, anos atrás.

— Só anos? Não décadas?

— Que beleza! Fui ofendido por meu fornecedor.

— Conheça primeiro a sua arma.

Rayford colocou o bloco no chão, segurou a arma e examinou-a detalhadamente. Embora fosse muito pesada, era bem-feita e adaptava-se perfeitamente à palma de sua mão. Ele imaginou se não seria difícil segurá-la com firmeza em razão do peso.

— Nenhuma outra arma - disse Albie - possui esse mecanismo. Só os rifles de alta potência. Não é necessário engatilhar. Ela é semi-automática. Você precisa puxar o gatilho para cada novo tiro, mas ela dispara uma seqüência de tiros rapidamente enquanto você solta o gatilho e o puxa de novo. Acho que é a arma mais barulhenta que existe, e eu recomendo que você use alguma coisa para tapar o ouvido que fica próximo à arma. Por enquanto, basta cobrir o ouvido com a outra mão.

— Não estou vendo trava de segurança.

— Não existe. Você simplesmente aponta e dispara. A lógica por trás desta peça é que você não precisa abrir o bloco de aço e deixar a arma à vista, a não ser que pretenda atirar.

E você não vai querer atirar, a não ser que pretenda destruir aquilo que você está mirando. Se você atirar naquela pedra, vai destruí-la. Se você der um tiro e atingir uma das partes vitais do corpo de uma pessoa, a 60 metros de distância, vai matá-la. Se você atingi-la em uma parte neutra, atirando da mesma distância, a munição vai rasgar pele, carne, gordura, tendões, ligamentos, músculos e ossos e atravessar o corpo deixando duas perfurações. Se você estiver a três metros de distância, a cápsula oca terá tempo de se abrir por causa do calor da explosão do tiro e da força centrífuga provocada pela rotação da bala. As estrias sulcadas dentro do tambor produzem a rotação. O projétil fica, então, com quase quatro centímetros de diâmetro.

— A bala se abre e se transforma em um disco giratório?

— Exatamente. Conforme eu lhe disse por telefone, uma bala que errou o alvo e passou a cinco centímetros de um homem a uma distância de quase dez metros do atirador causou-lhe um ferimento profundo só por causa do deslocamento de ar. Se você acertar alguém que esteja a uma distância entre 3 e 60 metros, o buraco da bala vai ser de mais ou menos 15 centímetros de diâmetro, dependendo da parte do corpo que ela atingir. A bala, afiada e girando rapidamente, perfura qualquer coisa que esteja no caminho por causa de sua altíssima rotação. O sangue coagulado fica grudado nela como grama na lâmina de um cortador, e ela se transforma em um grande objeto de destruição. Durante o teste desta arma, um técnico, a uma distância aproximada de seis metros, recebeu um tiro acidental acima do joelho. A perna dele foi praticamente decepada. A parte debaixo ficou presa só por uma fina tira de pele de cada lado do joelho.

Rayford sacudiu a cabeça e olhou firme para aquele objeto medonho que tinha nas mãos. O que ele estava fazendo? Será que se atreveria a carregar aquela monstruosidade? Teria coragem de usá-la? Seria muito difícil justificar-se dizendo que aquilo era uma arma de defesa.

— Você está tentando me convencer a ficar com a arma ou a desistir dela? - Rayford perguntou.

Albie encolheu os ombros.

— Quero que você fique satisfeito com a compra. Não aceito reclamações. Eu disse que poderia encontrar uma mais barata. Você disse que queria eficiência. Não me interessa o que você vai fazer com esta arma e não quero ficar com ela. Mas eu lhe garanto, capitão, que, se um dia você tiver de usá-la para acertar alguém, não vai precisar usá-la duas vezes.

— Não sei - disse Rayford, com o corpo dolorido por ter ficado agachado. Ele mudou de posição, pegou a outra metade da peça e segurou-a olhando de frente para a arma a fim de ver como elas se ajustavam.

— Pelo menos, faça uma tentativa - disse Albie. - Vai ser só uma experiência.

— Espero.

Rayford pôs o bloco no chão novamente, ficou em pé entre os faróis do veículo, afastou as pernas e apontou a arma para a pedra, firmando a mão que apertaria o gatilho com a outra.

Albie tapou os ouvidos. Em seguida, disse:

— Você precisa tapar o ouvido direito.

Rayford enfiou a mão no bolso e pegou o bilhete que Albie havia escrito. Rasgou um pedaço, umedeceu-o na língua e amassou-o fazendo uma bolinha. Colocou-a no ouvido e voltou à posição de atirar.

— É estranho não poder engatilhar esta arma - ele disse. -Tenho a sensação de que ela está pronta e eu não.

— Não estou ouvindo nada - gritou Albie. - Estou com medo de que você atire quando eu tirar as mãos dos ouvidos.

A arma estava relativamente perto do ouvido que Rayford protegeu com a bolinha de papel. Quando ele apertou o gatilho, recebeu um tranco que o atirou de costas contra o capo do caminhão, fazendo-o cair sentado no pára-choque e, em seguida, no chão. A explosão soou como uma bomba e o deixou surdo por alguns instantes, impedindo-o de ouvir o eco. Rayford ficou satisfeito por não ter apertado novamente o gatilho no momento em que caiu no chão. Albie olhava para ele com ar de expectativa.

— Você tinha razão - disse Rayford, com o ouvido zumbindo. - Foi uma experiência!

— Veja - disse Albie, apontando para um local distante. Rayford semicerrou os olhos para ver melhor. A pedra parecia intacta.

— Eu a atingi? - ele perguntou.

— Você acertou na árvore!

Rayford mal podia acreditar. A bala tinha atingido o tronco a uma altura de quase três metros do chão, um pouco abaixo dos galhos.

— Eu preciso ver isso - ele disse, levantando-se do chão com esforço.

Albie o seguiu e, ao chegar perto, viu que mais da metade do tronco havia sido decepada. A outra parte que ficou intacta não agüentou o peso dos galhos e a copa da árvore desabou no chão, caindo ao lado da pedra.

— Ouvi falar que existem cirurgiões de árvores - disse Albie. - Mas...

— Quantas balas ela comporta?

— Nove. Quer tentar novamente para ver se consegue acertar o que você está mirando?

— Vou ter de contrabalançar o peso. Ela puxa para cima e para a direita.

— Não, não puxa.

— Você viu o que eu acertei. Eu estava mirando o meio da pedra.

— Perdoe-me, capitão, mas o problema não estava na arma. Estava no atirador.

— O quê?

— Em sua profissão, diriam que foi um erro do piloto.

— O que foi que eu fiz?

— Você hesitou.

— Não hesitei.

— Hesitou. Você esperou ouvir o som forte e a ação e, sem querer, apontou o tambor para cima e para a direita. Desta vez, além de concentrar-se no que você está fazendo, firme bem o pé atrás para poder suportar o tranco com as duas pernas.

— É muita coisa para a gente pensar.

— Tente. Caso contrário, você vai cair no chão outra vez e dar um tiro de misericórdia na árvore.

Rayford tapou os dois ouvidos, firmou a perna direita no chão e dobrou levemente o outro joelho. Ele não poderia hesitar de jeito nenhum no momento de apertar o gatilho. Com os ouvidos bem tapados e atento para não bater com as costas no caminhão, ele mirou a pedra e atirou. Uma parte enorme do topo explodiu! Rayford recolheu do chão um pedaço de pedra de cerca de 25 centímetros de diâmetro por 8 centímetros de espessura.

— A propósito, quem fabrica esta coisa?

— Só sabe quem precisa saber.

— Ela não tem marca - disse Rayford. - Como é o nome dela?

— As pessoas que conhecem a arma a chamam de Sabre.

— Por quê?

Albie encolheu os ombros.

— Talvez para que a outra parte da peça possa ser chamada de bainha. Quando o bloco e a arma se encaixam, a peça fica parecida com uma espada dentro da bainha.

Albie mostrou novamente a Rayford como montar a peça e a colocou numa sacola de papel. Em seguida, levou Rayford de volta ao centro da cidade no velho caminhão.

_ Você deve saber que eu não carrego tanto dinheiro assim - disse Rayford.

— Eu a recebi em consignação. Você pode me mandar o dinheiro daqui a duas semanas?

— Mac vai cuidar disso. -Muito bom... In!... Oh!...

Rayford levantou a cabeça. A estrada que dava acesso à área comercial estava bloqueada por carros das Forças Pacificadoras da CG com luzes pisca-pisca. Albie desviou pelas ruas secundárias. Quando eles avistaram o café, Albie parou bruscamente e deu um longo suspiro. Rayford foi atirado para a frente, batendo a cabeça no pára-brisa. Uma multidão estava na rua. Não havia ninguém no café, a não ser os Tuttles.

Trudy continuava sentada na mesma posição em que Rayford a deixara, com a cabeça apoiada nos braços sobre a mesa. Mas havia um enorme buraco na parte detrás de sua cabeça, e ela estava coberta de sangue, que pingava no chão.

Ao lado dela, de frente para Rayford, estava o grandalhão, loiro e sardento Dwayne. Sua cabeça tinha sido atirada para trás, e seus braços pendiam ao longo do corpo, mãos abertas e polegares apontando para fora. Em sua testa, havia uma perfuração redonda, de onde jorrava sangue formando uma poça debaixo da cadeira em que ele estava sentado.

Rayford fez menção de abrir a porta do caminhão, mas sentiu os dedos de Albie agarrando-lhe o braço com força.

— Você não pode fazer nada por eles, amigo. Não mostre a cara na frente de seus inimigos. Dê-me seu celular.

Atordoado, Rayford entregou-lhe o celular. Em seguida, começou a esmurrar o painel do caminhão, enquanto Albie afastava-se em marcha a ré do local, atravessando um terreno arenoso. Ele falou rapidamente em sua língua nativa. Em seguida, desligou o celular e o colocou ao lado de Rayford.

Rayford não conseguia parar de esmurrar o painel. Sua cabeça latejava, e os punhos doíam por causa dos murros. Seus dentes estavam cerrados, e seu cérebro zunia. Parecia que sua cabeça ia explodir. O instinto lhe dizia para orar, mas ele não conseguia. Suas forças se esvaíam como se ele tivesse deixado uma torneira aberta. Afundou-se no banco do caminhão.

— Preste muita atenção - disse Albie. - Você sabe que quem fez aquilo está atrás de você. Eles vão ficar de tocaia no aeroporto e talvez já tenham colocado um caça ou dois no ar. Você sabe pilotar aquele avião?

— Sei.

— Eu pedi a um funcionário da torre que avisasse que o aeroporto ia ficar fechado por causa de ventos na redondeza. Ele vai dar dez minutos para o pessoal sair antes de apagar as luzes da pista. Ele me disse que não há ninguém perto de seu avião, mas que há muito mais gente no aeroporto do que o normal. O local vai estar escuro e vazio, assim espero, quando chegarmos lá. Mas, para maior segurança, vou pedir que você desça antes que eu entre na torre. Caminhe no escuro até seu avião. Quando eu ouvir o barulho dos motores, acendo as luzes da pista para você.

Rayford não conseguia falar e muito menos agradecer a Albie. Ali estava um homem que nem sequer era crente, mas era inimigo de Carpathia e estava disposto a fazer qualquer coisa para contrariá-lo. Albie não conhecia a situação de Rayford e pedira-lhe, insistentemente, que não lhe contasse. Ele não queria saber. Porém, ao tentar ajudar Rayford, estava arriscando a própria vida. Rayford jamais se esqueceria disso.

Eles estavam chegando ao aeroporto quando as luzes se apagaram e uma pequena fila de carros saiu do estacionamento. Albie parou e fez sinal a Rayford para que descesse, apontando para a área ao redor do aeroporto, agora completamente às escuras. Rayford pegou a sacola e começou a descer, mas Albie o segurou e abriu a peça de aço. Em seguida, entregou as duas partes a Rayford. Colocou um pouco mais de munição na palma da mão e a despejou no bolso de Rayford.

— Para uma eventualidade - ele disse, guardando a sacola de papel vazia debaixo do banco.

A raiva deixou Rayford com a garganta apertada, impedindo-o de falar. Ele guardou a arma em um dos bolsos e o bloco no outro, pegou seu celular e estendeu a mão para Albie. Eles trocaram um forte aperto de mão.

— Eu sei, eu sei... - disse Albie. - Agora vá.

Rayford caminhou apressado no escuro pelo terreno arenoso, livrando-se do mato rasteiro e ouvindo sua própria respiração ofegante. Quando finalmente suas cordas vocais destravaram, ele começou a gemer a cada respiração. De repente, deu um urro abafado, tão forte e agudo que chegou a ficar zonzo e quase caiu no chão. Quando estava a uns 30 metros do avião, ele ouviu o som de passos atrás dele e um grito.

— Rayford Steele! Pare em nome das Forças Pacificadoras da Comunidade Global!

— Não! - resmungou Rayford. Ele continuou a caminhar e enfiou a mão no bolso para pegar a arma.

— Você está preso!

Ele continuou a caminhar.

— Pare ou eu atiro!

Rayford sentiu um comichão nas costas. Parecia um acontecimento distante e irreal ele ter ludibriado um outro homem da CG naquele mesmo dia... Ele sacou a arma e virou-se.

Com a fraca luz que vinha da estrada, ele avistou o vulto do homem da CG aproximando-se, de arma em punho.

Rayford parou.

— Não me obrigue a atirar em você! - ele gritou, mas o homem continuou a caminhar em sua direção.

Rayford apontou a arma para baixo e atirou no chão, a cerca de um metro do homem, levantando uma nuvem de areia. O homem voou para trás e caiu de bruços com um grito, soltando a arma. Rayford correu na direção do avião. Ao olhar por cima do ombro, ele viu o homem estendido imóvel no chão.

Deus, não permitas que ele morra! ele orou, abrindo a porta com força e mergulhando dentro do avião. Quando fechou a porta, ele viu que estava banhado de suor. Eu não queria matar aquele homem!

Rayford pulou por cima do encosto da poltrona do piloto e ligou os motores. O ponteiro do mostrador do tanque de combustível subiu, os outros dispositivos brilharam no painel e as luzes da pista foram acesas.

— Tudo certo? - ele perguntou pelo rádio, tomando o cuidado de não mencionar o nome de Albie.

— Dois fantasmas a seis milhas ao norte - soou a resposta. Eles poderiam alcançá-lo em segundos, mas esperariam que ele seguisse para oeste e decolasse rapidamente.

Rayford olhou para a sua esquerda antes de alcançar a velocidade para decolagem. O homem da CG conseguira levantar-se do chão e cambaleava como se estivesse recuperando a respiração e procurando sua arma. O Super J subiu suavemente e Rayford rumou para o sul, permanecendo abaixo da linha do radar até ter a certeza de que não estava sendo seguido. Pouco depois, ele acelerou o mais que pôde. O impulso fez seu corpo grudar no encosto da poltrona. Ele embicou o avião na direção das estrelas e rumou para o oeste. Tudo o que ele queria era cruzar o céu, alcançar a velocidade máxima na altitude mais favorável e voltar para casa a fim de rever seus companheiros.

 

Passava um pouco do meio-dia em Illinois. Tsion Ben-Judá estava em pé olhando para fora através da janela do andar superior da casa secreta. O verão se aproximava. Ele acabara de fazer uma refeição leve com Buck, Chloe, o bebê e Leah. Leah havia revelado ser uma mulher extraordinária e fervorosa. Ele não entendia por que Rayford se aborrecia com ela. Para Tsion, ela era muito simpática.

Ele havia quase terminado sua mensagem aos fiéis e ia começar a revisão que seria transmitida dali a poucos minutos. Na mensagem, ele advertia que quanto mais o calendário se aproximasse de setembro - o 42° mês do período da Tribulação - o número de mortes provocadas pelos 200 milhões de cavaleiros chegaria cada vez mais perto de atingir a terça parte da população. A gravidade da mensagem entristeceu Tsion, e ele sentiu um súbito desejo de orar por seu velho mentor e compatriota, Chaim Rosenzweig.

Pai, ele orou, já não sei mais como orar por meu amigo. Prosseguindo em sua intercessão, ele citou um versículo bíblico: "Também o Espírito, semelhantemente, nos assiste em nossa fraqueza; porque não sabemos orar como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós sobremaneira com gemidos inexprimíveis. E aquele que sonda os corações sabe qual é a mente do Espírito, porque segundo a vontade de Deus é que ele intercede pelos santos." E, concluiu dizendo: Obrigado, Senhor.

E, quando abriu os olhos, Tsion Ben-Judá pensou, a princípio, que estivesse sonhando. Tomando conta de todo o seu campo de visão, do outro lado da vidraça, havia um exército de cavaleiros montados em cavalos preparados para a guerra. Centenas e centenas de milhares, cavalgando, cavalgando. A cabeça do cavalo era semelhante à cabeça de um leão, e ele expelia fogo e fumaça pela boca.

Tsion já havia escrito a esse respeito, tinha ouvido relatos de outras pessoas, desejando no íntimo ter um vislumbre dessa cena. Mas agora, enquanto os fitava com os olhos arregalados, sem piscar, querendo chamar os companheiros, principalmente Buck, que também não os havia visto, ele não conseguia proferir uma só palavra.

No meio do dia, com o sol da primavera a pino banhando a cena, o imenso exército de cavaleiros parecia irado e determinado. Suas couraças coloridas brilhavam, e os enormes animais nos quais eles estavam montados lado a lado movimentavam-se fazendo um ruído estrondoso, ganhando velocidade e passando do trote para o galope e do galope para uma corrida desenfreada. Parecia que o tempo deles havia chegado. As incursões ocasionais tinham sido um simples ensaio. A cavalaria demoníaca, que só pouparia os escolhidos de Deus, disparou enraivecida para atacar toda a Terra. Aquele certamente seria seu ataque final.

— Tsion! - chamou Buck, do pé da escada. - Olhe pela janela! Rápido!

 

Rayford ajustou os controles do Super J no rendimento máximo do piloto automático. O cansaço havia tomado conta de seu corpo, mas ele não queria cochilar, mesmo tendo uma tecnologia tão avançada à sua disposição. Quando pegou o celular para ligar para casa, seus olhos captaram uma cena estranha a algumas milhas abaixo. Fogo e rolos de fumaça preta e amarela subiam partindo de uma infinita extensão de milhões de cavaleiros e cavalos agitados, que cruzavam rapidamente o oceano em direção à terra.

 

                   Três Meses Depois

O mês de agosto começou quente e úmido em Monte Prospect, sem vento, e o ar estava quase tão parado quanto Rayford. A casa secreta não possuía ar-condicionado e, com a morte da metade da população mundial desde o Arrebatamento, nada voltara a ser como antes.

Um terrível pressentimento tomava conta de todos da casa. Os ânimos estavam exaltados, e os nervos, à flor da pele. O bebê já dava seus primeiros passos e falava algumas palavras, passando a ser o único a trazer um pouco de alegria à casa. Mas Kenny também andava irritado com o calor, e até mesmo Tsion saía da sala quando a criança começava a ficar irrequieta e Chloe não conseguia acalmá-la.

Se o Arrebatamento havia imposto um sofrimento coletivo ao mundo por causa da perda de familiares e de todas as crianças, e o terremoto da grande ira do Cordeiro modificara o modo de vida e a forma de locomoção do povo, os julgamentos que se seguiram haviam sido piores ainda. A escuridão temporária do Sol, da Lua e das estrelas, a destruição de um terço da população da Terra por meio de fogo, o envenenamento de um terço da água e agora a matança de mais de um bilhão de pessoas... bem, pensava Rayford, seria difícil haver alguém com as idéias no lugar.

Talvez não houvesse. Talvez todos tivessem enlouquecido. Rayford alimentava pensamentos que ele próprio considerava absurdos. Haveria a possibilidade de acordar ao lado de sua querida esposa Irene - tão negligenciada e desprezada -, de ver Raymie, de apenas 12 anos, dormindo no quarto, no fim do corredor, de ainda ter tempo de ser o marido e o pai que deveria ter sido? Teria isso tudo sido apenas um aviso em forma de sonho, como o daquele personagem do famoso conto de Natal de Charles Dickens, que viu como seria terrível sua vida futura se não mudasse seu modo de ser?

Será que ele despertaria um novo homem, pronto para entregar sua vida a Deus, exercendo influência positiva sobre sua filha, sua esposa e seu filho?

Talvez fosse possível, não? Ou tudo continuaria a ser o pior dos pesadelos? Rayford sabia que seu cérebro limitado não havia sido programado para assimilar todo o sofrimento que lhe fora imposto. Ele não queria mais nem pensar em tudo o que vira, tudo o que perdera. A dor havia sido maior do que um mortal poderia suportar e, mesmo assim, ele continuava vivo.

O mundo inteiro tinha sido convidado para a Festa de Gala Global a realizar-se dali a um mês em Jerusalém. Como Carpathia ousava fazer tal festa? Como poderia concordar com essa grande comemoração, sabendo que o número de pessoas mortas na última praga havia sido maior do que o de desaparecidos no Arrebatamento, três anos e meio antes?

Tsion alertou seus leitores a não comparecerem, a não se deixarem induzir pelas profecias que indicavam aquela data como a derrocada da fé mundial, o tempo determinado para as duas testemunhas e para a morte de Carpathia. Apesar de morar na mesma casa, Rayford também lia as mensagens diárias de Tsion, assim como todos os que residiam ali. Tsion escrevera o seguinte a respeito da malfadada Festa de Gala Global:

Estranhei ter sido convidado como um "estadista internacional". Tudo foi perdoado, eles declararam anistia aos dissidentes e nos garantiram proteção. Bem, meus queridos amigos, irmãos e irmãs em Cristo, eu não comparecerei. Há uma profecia que diz que um terremoto exterminará a décima parte daquela cidade. Não temo por minha vida, porque meu futuro está assegurado - da mesma forma que o de todos os que se entregaram a Cristo para receber perdão e vida eterna.

Porém, não optei por testemunhar pessoalmente o mais singular e o mais histórico dos eventos, porque está evidente que Satanás marcará presença ali. Minha família foi trucidada em retaliação ao "pecado" que cometi por manifestar em público minha crença de que Jesus é o Messias aguardado há tanto tempo. Durante a fuga de minha terra natal até o local onde me encontro exilado, fui oprimido pela terrível presença do autor da morte.

A morte estará pairando no ar em Jerusalém no próximo mês, meus amigos, apesar da maneira vistosa como este evento vem sendo embrulhado e vendido ao mundo. É uma afronta transformar uma festa em desculpa para reunir essa gente. Por um lado, o tal potentado mundial decreta o fim dos sacrifícios e oferendas no templo, porque violam os princípios da tolerância defendidos pela Fé Mundial Enigma Babilônia. Por outro, ele tem em mente comemorar o acordo entre a Comunidade Global e Israel. Como podemos juntar estas duas coisas? Embora o potentado tenha intimidado o mundo e impedido que inimigos em potencial atacassem Israel, ele passa por cima das tradições milenares desse povo e trai sua herança e autonomia religiosa.

Da mesma forma que o restante do mundo, acompanharei os festejos pela Internet ou pela televisão. Porém, meus queridos, não aceitarei o convite para comparecer. Esse evento antecede a segunda metade da Tribulação, chamada a Grande Tribulação, que fará com que estes dias terríveis que estamos vivendo pareçam apenas cansativos.

Nem mesmo os meios de comunicação controlados pela CG poderão dourar a pílula daquilo que sabemos ser a verdade. O crime e o pecado estão descontrolados. Os gêneros de primeira necessidade começam a faltar por escassez de mão-de-obra e de condições para fabricá-los e distribuí-los. Apesar disso, por todos os cantos da Terra continuam a existir bordéis, sessões espíritas e casas de quiromancia ou templos pagãos para adoração de ídolos. A vida passou a ser insignificante, e nossos concidadãos morrem diariamente deixando casas e negócios nas mãos de saqueadores. Não existem Forças Pacificadoras suficientes para fazer o policiamento, porque grande parte de seu contingente morreu, e aqueles que continuam trabalhando estão sendo subjugados ou são corruptos.

Mesmo com um número tão reduzido de pessoas em todos os ramos de atividade, é impressionante observar que muita coisa ainda continua a prosperar. Praticamente, não existem mais filmes e programas novos na TV, mas a pornografia e a perversão proliferam nas centenas de canais que ainda funcionam, sendo livremente assistidos por qualquer um que tenha um televisor em casa.

Estes tempos sombrios não nos causam surpresa, meus queridos irmãos e irmãs. Oro para que vocês se mantenham firmes e continuem a divulgar a verdade até a volta de Jesus. Daqui em diante, vocês passarão a maior parte do tempo lutando para sobreviver. Exorto a todos que se preparem, que tracem planos para enfrentar o inevitável dia em que a proibição de entrar neste site ou de declarar-se cristão passará a ser mais abrangente. Estejam preparados para o dia em que será exigida a traiçoeira marca da besta na testa ou na mão para poder comprar ou vender legalmente.

É muito importante que vocês não cometam o erro fatal de pensar que podem estampar aquela marca por conveniência e, ao mesmo tempo, ser um crente em Cristo. Ele deixou bem claro: "Aquele que me negar diante dos homens, eu também o negarei diante de meu Pai." Nas próximas mensagens, explicarei por que a marca do demônio não pode ser invalidada.

Se vocês já aceitaram a Cristo e estão salvos, por certo possuem o selo de Deus na testa, visível apenas aos crentes. Felizmente, o selo na testa e a decisão que vocês tomaram também não podem ser invalidados, portanto não há motivos para ter medo de perder a posição que ocupam perante Ele. Porque está escrito: "Quem nos separará do amor de Cristo? Será tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada? Em todas estas coisas, porém, somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou." Assim como o apóstolo Paulo, "estou bem certo de que nem morte, nem vida, nem anjos, nem principados, nem coisas do presente, nem do porvir, nem poderes, nem altura, nem profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor".

Mesmo em meio a provações e tribulações, devemos continuar a agradecer a Deus, que nos dá a vitória por meio de nosso Senhor Jesus Cristo. A Bíblia também diz: "Portanto, meus amados irmãos, sede firmes, inabaláveis, e sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que, no Senhor, o vosso trabalho não é em vão."

Permaneçam firmes no amor. Seu amigo,

Tsion Ben-Judá

 

Hattie estava presa, sem saber da morte de sua irmã, e Rayford sentia-se responsável por ela.

Os assassinatos de Dwayne e Trudy Tuttle foram um golpe duro para o coração dele.

A reação de Bo Hanson diante da morte do irmão serviu apenas para aumentar o desespero de Rayford. T foi incumbido de dar a notícia a Bo, porque demonstrara ser amigo dele, apesar das diferenças de idéias entre ambos. Rayford havia tido uma discussão acalorada com Bo, e agora esperava que T conseguisse dar um testemunho cristão ao rapaz quando lhe transmitisse a triste notícia. Depois disso, talvez Rayford pudesse desculpar-se por seu mau comportamento e tivesse a oportunidade de ver o rapaz aceitar a Cristo.

T retornara animado de seu encontro com Bo. Depois de um telefonema, ele se dirigiu ao apartamento do rapaz e contou-lhe o que havia acontecido. Entre lágrimas, Bo lhe perguntou sobre o bilhete que recebera de Sam.

— Eu disse a ele que o bilhete foi forjado pela CG, Ray - explicou T. - Aparentemente, ele aceitou. Chorou muito, sentindo-se culpado. Disse que entregou seu irmão por dinheiro. Mas ele não fez isso. Simplesmente cometeu o erro de envolver Sam em um plano malfeito. Bo estava abatido quando o deixei, mas permitiu que eu orasse com ele. Achei que foi um grande passo.

— Tenho certeza disso - disse Rayford -, mas você não quis encontrar-se comigo só para dar esta boa notícia. O que aconteceu?

T recostou-se na cadeira e deu um longo suspiro.

— Bo se matou ontem à noite, Ray. Bebeu demais em um bar, sacou uma arma, amaldiçoou Carpathia e o mundo e deu um tiro em si mesmo.

Rayford passara dias e dias inconsolável.

— Parece que fui eu que puxei o gatilho - ele dizia.

O pessoal do Comando Tribulação o consolou dizendo que ele não era culpado. Finalmente, Rayford concordou com seus companheiros e jogou a culpa naquele que era o responsável por tudo: Nicolae Carpathia.

Rayford passou a concentrar-se nas passagens proféticas a respeito da morte do anticristo, deixando de buscar os conselhos ou as interpretações de Tsion. Em sua obsessão, ele interpretava a Bíblia da maneira que lhe convinha, arvorando-se no agente escolhido por Deus para perpetrar o ato. Quando lia "se alguém matar à espada, necessário é que seja morto à espada", Rayford estremecia porque tinha certeza de que até mesmo Tsion acreditava que o versículo referia-se ao anticristo. Será que a mensagem era dirigida a ele? Um versículo mais adiante dizia: "[...] que façam uma imagem à besta, àquela que, ferida à espada, sobreviveu." Esta devia ser uma referência a uma das cabeças da besta que foi "golpeada de morte, mas essa ferida mortal foi curada".

Ele não conseguia compreender. Quem conseguiria? Sem a ajuda de Tsion, Rayford acreditava que encontrara uma explicação para aqueles versículos. Carpathia ia ser mortalmente ferido na cabeça por uma espada e, em seguida, voltaria a viver. Uma espada? Como era mesmo o nome que Albie deu àquela máquina mortífera fenomenal que Rayford escondera no porão, atrás de alguns tijolos soltos? Sabre.

Seria ele o autor? Teria condições? Seria dele a incumbência? Rayford sacudiu a cabeça, atordoado. Que pensamentos mais estranhos!

 

Mac sentia a falta de Rayford. Para ele, Rayford tinha sido a voz da razão, um mentor, um exemplo de espiritualidade. Mac também gostava de David e Annie, dois jovens excelentes. Mas não tinha muita afinidade com eles. Abdullah era um ótimo co-piloto e companheiro de vôo, porém passava dias sem dizer quase nada, limitando-se apenas a responder às perguntas de Mac.

A vida era interessante, mas, certamente, nunca mais voltaria a ser divertida. Voar para as principais capitais e ouvir a incessante bajulação de Fortunato aos dez reis eram situações que se tornaram cansativas e, ao mesmo tempo, fascinantes. Ocupando uma tribuna na pista do aeroporto de Nairóbi, Leon discursou com grande pompa:

— Saúdo um dos principais potentados regionais de Sua Excelência Nicolae Carpathia, o ilustre Sr. Enoch Litwala.

O esquecimento do nome deste grande líder e renomado pacifista durante a fase inicial da escolha de um potentado regional para os Estados Unidos da África ficará registrado na história da Comunidade Global como um fato constrangedor. Talvez tenhamos nos lembrado dele um pouco tarde, mas nós o descobrimos, não? A multidão aplaudia seu filho favorito. Leon prosseguiu:

— Sua Excelência envia suas mais sinceras saudações à África e os mais altos elogios pelos objetivos internacionais alcançados. Em nome de Sua Excelência, tenho o prazer de convidar o novo potentado para a Festa de Gala Global a realizar-se no mês de setembro em Jerusalém!

Após aguardar alguns instantes até que a multidão se aquietasse, Leon deu um tom de seriedade à voz.

— Temos atravessado tempos difíceis e enfrentado perdas de muitas vidas. Mas Sua Excelência não está poupando esforços nem dinheiro para a realização de uma festa como nunca se viu antes. Além de comemorar a metade do período de vigência do tratado de paz com Israel, também tenho a satisfação de afirmar-lhes que recebi permissão para comunicar publicamente que Sua Excelência está garantindo - sim, os senhores ouviram bem -, garantindo um fim aos dois assassinos. Os senhores querem saber como ele fará isso? O potentado afirma que, se as tais testemunhas diante do Muro das Lamentações não desistirem de atormentar o povo de Israel e o restante do mundo, ele próprio se incumbirá de lidar com os dois.

Esta mensagem foi repetida em todas as capitais, sendo recebida com entusiasmo pelo povo. Mac achava que as pessoas estavam tão cansadas de morte e devastação e tão prisioneiras de seus pecados que queriam desfrutar a vida antes que os dois profetas que pregavam a condenação soltassem o anjo do céu. Será que Carpathia assassinaria os dois? Ele já não havia feito esta ameaça antes? E acabou ridicularizado pelos profetas. Mas agora ele estava garantindo. E estava também empenhando sua palavra de que ajudaria o povo a comparecer à Festa de Gala Global, apesar da escassez de serviços públicos em razão do número reduzido da população.

— Estamos prestes a presenciar uma reviravolta dramática em direção aos nossos objetivos e ideais que visam a uma sociedade utópica - disse Fortunato, citando as palavras de Carpathia. A Festa de Gala Global marcaria o primeiro passo.

Mac achava estranho ver o anticristo envolvido pessoalmente em um assunto de relações públicas, tentando salvar sua imagem.

Nas capitais, Leon prosseguiu em seus elogios aos potentados regionais incluindo promessas da Comunidade Global para melhorar o serviço público.

— Vamos trabalhar com mais vigor e mais afinco - ele dizia -, para atender às necessidades dos senhores. Dentro de uma década, a única lembrança amarga será a tristeza por causa daqueles que perdemos. A palavra inconveniência fará parte do passado, porque trabalharemos juntos até conseguir uma tecnologia de ponta que nos proporcione serviços de alto nível como jamais imaginamos.

Havia sempre uma sessão de fotografias reservada para a imprensa controlada por Carpathia, nas quais Fortunato observava, com ar solene, as áreas subdesenvolvidas em conseqüência do alto índice de mortalidade. Em seguida, ele beijava os bebês e os levantava nos braços, proclamando "o futuro da Comunidade Global". Depois de atrair o entusiasmo dos habitantes do local, ele convidava o potentado regional para entrar no majestoso Fênix 216 para "uma reunião confidencial de alto nível, na qual o líder dos senhores poderá melhor representar as necessidades desta região".

Fortunato ouvia o que os potentados tinham a lhe dizer e fazia promessas que nem mesmo um milhão de Carpathias poderiam cumprir. E, em cada reunião particular, o assunto principal passava a girar em torno da "situação da Fé Mundial Enigma Babilônia". Enquanto ouvia a conversa pelo sistema de escuta clandestina, Mac notou que a maioria dos potentados sabia exatamente o que Leon queria dizer, assim que o assunto era levantado. Alguns perguntavam: "De que situaç&