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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


ATÉ À VISTA / Mary Higgins Clark
ATÉ À VISTA / Mary Higgins Clark

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

ATÉ À VISTA

 

Meghan Collins permanecia de certa forma afastada do agrupamento dos outros jornalistas nas Urgências do Hospital de Roosevelt, em Manhattan. Minutos antes, um senador reformado dos Estados Unidos fora assaltado em Central Park West e imediatamente enviado para ali. Os media andavam de um lado para o outro, aguardando informações sobre o seu estado.

 

Meghan baixou o seu pesado saco de trabalho até ao chão. O microfone sem fio, o telefone celular e os apontamentos faziam com que a tira se cravasse na sua omoplata. Encostou-se a uma parede e fechou os olhos por um momento para descansar. Todos os repórteres estavam cansados. Tinham estado no tribunal desde o começo da tarde, aguardando o veredicto do julgamento de uma fraude. Às nove horas, e quando já estavam de saída, chegou a chamada para fazerem a cobertura do assalto. Eram agora quase onze. O encrespado dia de Outono tornara-se numa noite obscura, o que era uma promessa nada bem-vinda de um Inverno antecipado.

 

Era uma noite agitada no hospital. Jovens pais carregando uma criança a sangrar foram conduzidos por detrás da secretária de registo e através de uma porta para a área de exames. Passageiros magoados e abalados devido a um acidente de automóvel consolavam-se mutuamente, enquanto aguardavam tratamento médico.

 

No exterior, a persistente lamúria das ambulâncias que chegavam e partiam acrescentavam som à familiar cacofonia do trânsito de Nova Iorque.

 

Uma mão tocou o braço de Meghan.

 

Que tal é que isso vai, Sr.a Advogada?

 

Era Jack Murphy, do Canal 5. A sua mulher estudara na Universidade de Direito de Nova Iorque com Meghan. Contudo, ao contrário de Meghan, Liz exercia Direito. Meghan Collins, jurista, trabalhara para uma firma de advogados em Park Avenue durante seis meses, depois desistira e arranjara um emprego na rádio WPCD como repórter noticiosa. Já lá estava há três anos e, durante o último mês, fora regularmente emprestada pelo Canal 3 PCD, o departamento televisivo.

 

Vai bem, acho eu disse-lhe Meghan. O seu page soou.

 

Vem jantar connosco um dia destes disse Jack. Já passou muito tempo. Ele voltou a juntar-se ao seu cameraman, assim que ela tirou o telefone celular do saco.

 

A chamada era de Ken Simon do escritório da estação de notícias WPCD.

 

Meg, o scanner EMS acabou de detectar uma ambulância em direcção a Roosevelt. Vítima esfaqueada encontrada na Rua Cinquenta e Seis com a Décima. Procura-a.

 

O agourento som ee-aww de uma ambulância que se aproximava coincidiu com o batimento staccato de pés apressados. A equipa de socorro a traumas dirigia-se para a entrada das Urgências. Meg interrompeu a ligação, atirou o telefone para dentro do saco e seguiu a marquesa vazia, enquanto esta rolava para fora da calçada semicircular.

 

A ambulância guinchou ao travar. Mãos experientes apressaram-se a ajudar na transferência da vítima para a maca. Uma máscara de oxigénio foi apertada contra a sua cara. O lençol que cobria o esbelto corpo da vítima estava manchado de sangue. Cabelo castanho e embaraçado acentuava a palidez tingida de azul do seu pescoço. Meg apressou-se para a porta do condutor.

 

Alguma testemunha? perguntou ela, rapidamente.

 

Não apareceu ninguém. A cara do condutor estava afilada e cansada, a sua voz apática. Há um beco entre duas daquelas velhas moradias, perto da Décima. Parece que alguém apareceu por detrás, empurrou-a e esfaqueou-a. Se calhar, foi num abrir e fechar de olhos.

 

Ela está muito mal?

 

Tão mal quanto se pode estar.

 

Identificação?

 

Nenhuma. Roubaram-na. Foi, provavelmente, atacada por algum drogado que precisava de uma dose.

 

A maca estava a ser empurrada para dentro. Como um dardo, Meghan lançou-se atrás dela, seguindo-a até à sala de Urgências.

 

O médico do senador está prestes a fazer um depoimento disse, repentinamente, um dos jornalistas.

 

Os media apressaram-se através da sala para se agruparem à volta da secretária. Meghan não sabia que instinto a mantinha perto da maca. Observava enquanto o médico iniciava uma intravenosa, retirava a máscara de oxigénio e levantava as pálpebras da vítima.

 

Morreu disse ele.

 

Meghan espreitou por cima do ombro de uma enfermeira e, espantada, olhou para os olhos cegos e azuis da jovem morta. Respirou com alguma dificuldade enquanto olhava aqueles olhos, a testa larga, as sobrancelhas arqueadas, as maçãs do rosto altas, o nariz direito, os lábios generosos. Era como se estivesse a olhar para um espelho. Ela estava a olhar para a sua própria cara.


Meghan apanhou um táxi para o seu apartamento na Battery Park City, mesmo na extremidade de Manhattan. Era uma tarifa dispendiosa, mas era tarde e ela estava muito cansada. Quando chegou a casa, o choque entorpedecedor de ter visto a mulher morta era mais intenso do que desgastante. A vítima fora esfaqueada no peito, possivelmente quatro ou cinco horas antes de ter sido encontrada. Vestia jeans, um casaco de ganga pespontado, ténis e meias. O motivo fora, muito possivelmente, o roubo. Â sua pele estava bronzeada. Tiras estreitas de pele mais clara no seu pulso e em vários dedos sugeriam que faltavam anéis e um relógio. Os seus bolsos estavam vazios e não foi encontrada nenhuma mala de mão.

 

Meghan acendeu a luz do vestíbulo e olhou para a sala. Da sua janela, podia ver a Ilha de Ellis e a Estátua da Liberdade. Podia observar os navios de cruzeiro a serem comandados para os seus ancoradouros no rio Hudson. Ela adorava a baixa de Nova Iorque, a estreiteza das ruas, a grandiosidade avassaladora do World Trade Center, o alvoroço do bairro financeiro.

 

O apartamento era um estúdio de boas dimensões com uma alcova para dormir e uma kitchenette. Meghan mobilara-o com os restos de mobiliário que a sua mãe lhe dera, pretendendo, eventualmente, arranjar um espaço maior e gradualmente redecorá-lo. Nos três anos em que trabalhava para o WPCD, isso ainda não acontecera.

 

Atirou o casaco para cima de uma cadeira, dirigiu-se à casa de banho e vestiu um pijama e um roupão. O apartamento era confortavelmente quente, mas ela sentiu-se arrepiada ao ponto de se sentir doente. Apercebeu-se de que estava a evitar olhar para o espelho da vaidade. Finalmente, virou-se e estudou-se, enquanto tentava agarrar o creme de limpeza.

 

A sua face estava branca como giz, os seus olhos escancarados. As suas mãos tremiam, enquanto soltava o cabelo de modo a que este se espalhasse à volta do seu pescoço.

 

Com fria descrença, tentou estabelecer diferenças entre ela própria e a mulher morta. Lembrou-se de que a cara da vítima era um pouco mais cheia, o formato dos olhos dela redondos em vez de ovais, o seu queixo mais pequeno. Mas o tom de pele e a cor do cabelo e os olhos sem visão e abertos eram muito parecidos com os seus.

 

Ela sabia onde se encontrava agora a vítima. No exame médico da morgue, a ser fotografada e a serem-lhe tiradas as impressões digitais. Seriam feitos registos dentários. E depois a autópsia. Meghan apercebeu-se de que estava a tremer. Apressou-se para a kitchenette, abriu o frigorífico e retirou o pacote de leite. Chocolate quente. Talvez isso ajudasse. Sentou-se no sofá e abraçou os joelhos, a chávena fumegante à sua frente. O telefone tocou. Seria provavelmente a sua mãe, portanto, esperou que a sua voz soasse regular quando o atendesse.


Meg, espero que não estivesses a dormir.

 

Não, acabei agora mesmo de chegar. Como é que vai isso, mãe?

 

Acho que tudo bem. Hoje, tive notícias do pessoal dos seguros. Vêm cá amanhã à tarde, de novo. Só peço a Deus que não façam mais perguntas acerca daquele empréstimo que o pai tirou das suas apólices. Eles não conseguem imaginar que eu não saiba sequer o que é que ele fez com o dinheiro.

 

No final de Janeiro, o pai de Meghan conduzia de regresso a casa no Connecticut, vindo do aeroporto de Newark. Durante todo o dia nevara e saraivara. Às sete e vinte, Edwin Collins fez uma chamada do telefone do seu carro para um dos seus sócios comerciais, Victor Orsini, marcando um encontro para a manhã seguinte. Disse a Orsini que estava no acesso à Ponte de Tappan Zee.

 

No que deve ter sido apenas uma fracção de segundos mais tarde, um camião cisterna transportando combustível girou, descontrolado, para fora da ponte e embateu contra um camião TIR, Causando uma série de explosões e uma bola de fogo que apanhou sete ou oito automóveis. Um dos atrelados embateu contra um dos lados da ponte e abriu-lhe um amplo buraco antes de se lançar nas águas geladas e rodopiantes do rio Hudson. Seguiu-se a cisterna de combustível, que arrastou consigo os outros veículos que se desintegravam.

 

Uma testemunha ocular, gravemente ferida, que conseguiu manobrar o carro para fora do trajecto directo do camião TIR, testemunhou que vira um Cadillac azul-escuro rodopiar à sua frente e desaparecer através do aço fendido. Edwin Collins vinha a conduzir um Cadillac azul-escuro.

 

Era o pior desastre da história da ponte. Perderam-se oito vidas. O pai de Meg, com 60 anos de idade, nunca chegou a casa nessa noite. Supôs-se que teria morrido na explosão. As autoridades Thruway de Nova Iorque ainda procuravam os corpos e os destroços, mas agora, passados quase nove meses, ainda não fora encontrado nenhum vestígio dele ou do seu carro.

 

Uma semana depois do acidente, fora oferecida uma missa fúnebre, mas como não fora emitido nenhum certificado de óbito, os bens conjuntos de Edwin e de Catherine Collins foram congelados e as grandes apólices de seguros de vida não tinham sido pagas.

 

«Como se não bastasse a mãe estar com o coração destroçado, ainda tem o incómodo que estas pessoas lhe estão a causar», pensou Meg.

 

Estarei aí amanhã à tarde, mãe. Se eles continuarem a protelar, talvez tenhamos de abrir um processo.

 

Ela debateu-se, depois decidiu que a última coisa de que a mãe precisava era de ouvir que uma mulher com uma estranha parecença consigo fora esfaqueada até à morte. Em vez disso, falou do julgamento daquele dia, cuja cobertura jornalística fora da sua responsabilidade.


Durante muito tempo, Meghàn ficou deitada na cama dormitando esporadicamente.

 

Por fim, adormeceu profundamente.

 

Um guincho agudo arrancou-a do sono. O fax começou a gemer. Ela olhou para o relógio: eram quatro e um quarto. «Que diabo?», pensou. Acendeu a luz, ergueu-se sobre um cotovelo e olhou, enquanto o papel deslizava lentamente da máquina. Saltou para fora da cama, correu através do quarto e agarrou a mensagem. Dizia: «ERRO. ANNIE

 

FOI UM ERRO.»

 

Tom Weicker, 52 anos de idade, director do Canal 3 PCD, solicitava o empréstimo de Meghan Collins da rádio afiliada com uma frequência cada vez maior. Encontrava-se no processo de escolher a dedo outro repórter para a equipa de notícias em directo e tinha rodado os candidatos, mas agora tomara a sua decisão final: Meghan Collins.

 

Argumentou que ela tinha boa dicção, podia esquivar-se sem grandes explicações e dava sempre um sentido de imediatismo e excitação até mesmo a artigos noticiosos menores. O seu treino legal era também um bónus a considerar, no caso dos julgamentos. Era muito bonita e tinha um fervor natural. Gostava das pessoas e conseguia relacionar-se com elas.

 

Na manhã de sexta, Weicker mandou chamar Meghan. Quando ela bateu na porta aberta do seu gabinete, ele fez-lhe sinal para que entrasse. Meghan envergava um casaco feito por medida em tons de azul-pálido e castanho-ferrugem. Uma saia da mesma lã fina ultrapassava ligeiramente o cimo das suas botas. «Clássico», pensou Weicker, «perfeita para o trabalho.» Meghan estudou a expressão de Weicker, tentando ler os seus pensamentos. Este possuía uma cara magra e de traços afilados, e usava óculos sem aros. Isso e o seu cabelo fino faziam-no parecer mais velho do que a sua idade, e mais um empregado bancário do que um media poderoso. Contudo, foi uma impressão que depressa se dispersou, quando ele começou a falar. Meghan gostava de Tom, mas sabia que a sua alcunha Weicker, o Mortífero, era merecida. Quando começara a pedir a sua cedência à estação de rádio, ele tornara claro que fora algo de duro e péssimo a morte do seu pai na tragédia da ponte, mas precisava da sua garantia em como isso não afectaria o desempenho do seu trabalho.

 

Não afectara e, nesse momento, Meghan ouviu a oferta de trabalho por que tanto almejara. A reacção imediata e instintiva que a inundou foi: «Mal posso esperar para contar ao pai!»


Trinta andares mais abaixo, na garagem do edifício da PCD, Bernie Heffernan, o funcionário do parque de estacionamento, encontrava-se no carro de Weicker a revistar o porta-luvas. Devido a alguma ironia genética, os traços de Bernie tinham sido formados de modo a dar-lhe o semblante de uma alma alegre. As suas bochechas eram rechonchudas, o seu queixo e boca pequenos, os seus olhos largos e sinceros, o seu cabelo espesso em desordem, o seu corpo robusto, de certo modo cheio. Aos trinta e cinco, a expressão imediata que dava aos observadores era que ele era um tipo que, apesar de vestir o seu melhor fato, podia substituir o seu pneu furado.

 

Ainda vivia com a sua mãe na miserável casa em Jackson Heights, Queens, onde nascera. As únicas alturas em que estivera afastado foram aqueles negros períodos de pesadelos, quando fora encarcerado. No dia que se seguira ao seu décimo segundo aniversário, fora enviado para um centro juvenil de detenção, no que viria a ser a primeira de doze vezes. No início dos seus vinte anos, passara três anos numa instituição psiquiátrica. Há quatro anos atrás, fora condenado a dez meses na Ilha de Riker. Fora quando a Polícia o apanhara a esconder-se num carro de uma estudante. Fora avisado uma dúzia de vezes para se manter afastado dela. «Engraçado», pensou Bernie, já nem sequer se lembrava qual era o seu aspecto. Nem dela nem de nenhuma das outras. E, na altura, tinham sido todas tão importantes para ele.

 

Bernie não queria regressar à prisão, nunca mais. Os outros presos assustavam-no. Espancaram-no duas vezes. Jurara à mãe que nunca mais se voltaria a esconder nos arbustos e a espreitar pelas janelas, ou a seguir uma mulher e tentar beijá-la. Estava também a melhorar o controlo sobre o seu temperamento. Odiava o psiquiatra que continuava a avisar a mãe de que um dia aquele temperamento vicioso traria complicações a Bernie, que ninguém conseguiria resolver. Bernie sabia que ninguém precisava mais de se preocupar com ele. O seu pai desaparecera quando ele era um bebé. A sua mãe, amargurada, já não se aventurava a sair e, em casa, Bernie tinha de suportar as incessantes recordações de todas as injustiças que a vida lhe infligira durante os setenta e três anos e o quanto ele lhe devia.

 

Bom, o que quer que fosse que ele lhe «devesse», Bernie conseguiu gastar a maior parte do seu dinheiro em equipamento electrónico. Possuía um rádio que localizava as chamadas da Polícia, outro rádio suficientemente poderoso para receber programas de todo o mundo e um aparelho para alterar a voz. À noite, submissamente, via televisão acompanhado pela mãe. Contudo, depois de ela se ir deitar às dez horas, Bernie desligava a televisão, apressava-se para a cave, ligava os rádios e começava a telefonar aos apresentadores dos talk shows. Inventava nomes e vidas para lhes dar. Convocava um convidado da ala direita e discursava violentamente sobre os valores liberais e com um convidado liberal cantava os louvores da extrema direita. Sendo ele o que convocava, adorava discussões, confrontos e troca de insultos. Na cave e às escondidas da mãe, também possuía uma televisão de setenta centímetros e um vídeo, e via frequentemente filmes que alugava nos clubes de pornografia. O scanner da Polícia inspirava-lhe outras ideias. Começou a percorrer listas telefónicas e a colocar círculos à volta de números, com nomes de mulheres. Marcava um desses números a meio da noite e dizia que se encontrava no exterior da sua casa a utilizar um telefone celular e que estava prestes a arrombar a porta. Sussurrava que talvez lhe fizesse uma visita ou, talvez, a matasse. Então, Bernie sentava-se e ria, enquanto ouvia os scanners da Polícia enviando rapidamente um carro-patrulha para a morada. Era quase tão bom como espreitar às janelas ou seguir mulheres e nunca tinha de se preocupar com os faróis de um carro da Polícia a brilharem subitamente sobre ele, ou com um polícia num altifalante a gritar «Alto».

 

O carro pertencente a Tom Weicker era uma mina de ouro de informação para Bernie. Weicker tinha um livro de moradas electrónicas no porta-luvas. Neste, ele guardava os nomes, moradas e números do pessoal principal da estação. «Os grandes chefes», pensou Bernie, enquanto copiava números para o seu próprio bloco electrónico. Até já conseguira apanhar a mulher de Weicker uma noite em casa. Ela começara a gritar quando ele lhe disse que estava na porta traseira e prestes a entrar. Depois, lembrando-se do seu terror, rira durante horas. O que lhe estava a custar agora era que desde a primeira vez que fora libertado da Ilha de Riker, ele tinha aquela sensação assustadora de não conseguir tirar alguém da sua cabeça. Esse alguém era uma jornalista. Era tão bonita que, quando lhe abria a porta do carro, tinha de lutar consigo mesmo para não lhe tocar. O seu nome era Meghan Collins.

 

De algum modo, Meghan foi capaz de aceitar a oferta de Weicker calmamente. Era uma piada entre a equipa, que se se fosse muito cheio de salamaleques nos agradecimentos de uma promoção, Tom Weicker ponderava se teria feito ou não uma boa escolha. Ele queria pessoas ambiciosas, as quais sentissem que qualquer reconhecimento lhes era mais do que devido.

 

Tentando parecer casual, ela mostrou-lhe a mensagem do fax. Enquanto a lia, Weicker levantou as sobrancelhas.

 

Que significa isto? perguntou ele. Qual é o erro? Quem é a Annie?

 

Eu não sei. Tom, na noite passada, quando trouxeram a vítima de esfaqueamento, eu estava no Hospital Roosevelt. Ela já foi identificada?


Ainda não. E o que tem ela?

 

Acho que deves saber uma coisa disse Meghan, relutantemente. Ela é parecida comigo.

 

Tem alguma semelhança contigo?

 

Quase poderia ser a minha dupla. Os olhos de Tom semicerraram-se.

 

Estás a sugerir que este fax está relacionado com a morte daquela mulher?

 

Provavelmente, é só uma coincidência, mas pensei que, pelo menos, devia deixar-te ver isto.

 

Fico satisfeito que o tenhas feito. Deixa-me ficar com ele. Eu vou ver quem é que está a tratar da investigação do caso e deixá-lo dar uma vista de olhos nisto.

 

Meghan sentia-se, realmente, aliviada quando foi buscar a programação do seu dia ao Departamento Noticioso. ^

 

Foi um dia relativamente calmo. Uma conferência de Imprensa nos escritórios do prefeito, no qual ele informou qual a sua escolha para o novo comissário da Polícia, e um fogo suspeito que incendiara uma vivenda em Washington Heights. Ao fim da tarde, Meghan telefonara para o Departamento de Patologia. Um esboço da mulher morta bem como a sua descrição física tinham sido emitidos pelo Departamento de Pessoas Desaparecidas. As suas impressões digitais estavam a caminho de Washington para serem comparadas com os ficheiros governamentais e criminais. Ela morrera devido a uma profunda facada no peito. A hemorragia interna fora lenta mas massiva. Há alguns anos atrás, partira tanto as pernas como os braços. Se o seu corpo não fosse reclamado dentro de trinta dias, seria enterrado no cemitério dos indigentes numa sepultura numerada. Outra maria-ninguém.

 

Às seis da tarde daquele dia, Meghan estava prestes a sair do emprego. Tal como fazia desde o desaparecimento do pai, iria passar o fim-de-semana em Connecticut com a mãe. Na tarde de domingo, seria ela a fazer a cobertura de um acontecimento na Clínica Manning, uma instalação de reprodução assistida, localizada a quarenta minutos da sua casa em Newtown. A clínica iria ter a sua reunião anual de crianças, nascidas como resultado das fertilizações in vitro aí executadas.

 

O editor, responsável pela distribuição de tarefas, seguiu-a até ao elevador.

 

Steve ocupar-se-á da câmara no domingo na Manning. Eu disse-lhe para se encontrar lá contigo às três.

 

Okay.

 

Durante toda a semana, Meghan utilizou um veículo da empresa. Nessa manhã, conduzira o seu próprio veículo até à zona alta da cidade. O elevador deu um solavanco no nível da garagem. Ela sorriu quando Bernie a viu e começou, imediatamente, a andar para o piso inferior do parque. Bernie trouxe para cima o seu Mustang branco e segurou-lhe a porta para ela entrar.

 

Alguma notícia acerca do seu pai? perguntou, solicitamente.

 

Não, mas obrigada por perguntar.

 

Ele inclinou-se, aproximando a sua cara da dela.

 

A minha mãe e eu estamos a rezar.

 

«Que tipo tão simpático!», pensou Meghan, enquanto conduzia o carro pela rampa acima na direcção da saída.

 

O cabelo de Catherine Collins parecia sempre que ela acabara de passar a mão através dele. Era um esfregão curto e encaracolado, agora tingido de louro-cinza, que acentuava a beleza atrevida da sua cara em forma de coração. Ocasionalmente, ela lembrava a Meghan que fora algo de bom o facto de ela ter herdado o queixo determinado do seu próprio pai. Caso contrário, agora que tinha 53 anos, assemelhar-se-ia a uma enfraquecida boneca Kewpie, uma impressão aumentada pelo seu tamanho diminuto. Apenas com um metro e meio, referia-se a si mesma como o anão da casa.

 

O avô de Meghan, Patrick Kelly, viera da Irlanda para os Estados Unidos com 19 anos, «com a roupa que trazia vestida e uma muda de roupa interior enrolada debaixo do braço», como rezava a história. Depois de trabalhar durante o dia como lavador de pratos na cozinha de um hotel na Quinta Avenida e de trabalhar de noite com a equipa de limpezas de uma casa funerária, concluira que embora existissem muitas coisas sem as quais se podia viver, ninguém podia desistir de comer ou de morrer. Visto que era mais alegre ver as pessoas a comer do que deitadas num caixão com cravos espalhados sobre elas, Patrick Kelly decidiu dirigir todas as suas energias para o negócio da alimentação.

 

Vinte e cinco anos mais tarde, construiu a pousada dos seus sonhos em Newtown, Connecticut, e chamou-lhe Drumdoe, como homenagem à aldeia onde nascera. Tinha dez quartos para hóspedes e um óptimo restaurante, que atraía as pessoas num raio de oitenta quilómetros. Pat concluiu o sonho renovando a propriedade contígua, uma quinta encantadora, e transformando-a num lar. Escolheu então uma noiva, teve Catherine e dirigiu a pousada até à sua morte, aos oitenta e oito.

 

A sua filha e neta foram criadas naquela pousada. Catherine dirigia-a com a mesma dedicação que Patrick instilara nela, e o trabalho que realizava ajudaram-na a enfrentar a morte do marido.

 

Contudo, nos nove meses decorridos desde o acidente na ponte, ela achava impossível não acreditar que um dia a porta se abriria e Ed chamaria alegremente: «Onde estão as minhas raparigas?» Por vezes, apercebia-se de que ouvia o som da voz do marido.

 

Agora, e para acrescentar a todo o choque e desgosto, as suas finanças tinham-se tornado um problema urgente. Há dois anos, Catherine fechara a pousada durante seis meses, hipotecara-a e iniciara uma grande renovação bem como um projecto de redecoração.

 

A altura não podia ter sido pior. A reabertura coincidiu com a descida da economia. Os pagamentos da nova hipoteca não estavam de acordo com o rendimento actual, e os encargos trimestrais estavam prestes a surgir. Na sua conta pessoal, só existiam alguns milhares de dólares.

 

Quatro semanas depois do acidente, Catherine preparara-se para a chamada que a informaria que o corpo do seu marido fora retirado do rio. Agora, rezava para que essa chamada chegasse e terminasse com a incerteza. Sentia-se como se algo tivesse ficado por concluir. Catherine pensava, frequentemente, que as pessoas que ignoravam os rituais fúnebres não compreendiam o quanto estes eram necessários para o espírito. Ela queria poder visitar a sepultura de Ed. Pat, o seu pai, costumava falar acerca «de um funeral decente e cristão». Ela e Meghan costumavam brincar acerca disso. Sempre que Pat descobria o nome de um velho amigo na necrologia, ela ou Meghan costumavam provocá-lo: «Oh, por Deus, espero que ele tenha tido um funeral decente e cristão.» Agora, já não brincavam com isso.

 

Sexta à tarde, Catherine estava em casa, preparando-se para ir para a pousada à hora do jantar. «Por falar em TGIF», pensou ela. Sexta-feira significava que, em breve, Meg estaria em casa para passar o fim-de-semana.

 

O pessoal dos seguros deveria estar a chegar a qualquer momento. «Se me concedessem, pelo menos, um pagamento parcial até os mergulhadores da Thruway encontrarem os destroços do carro», pensou Catherine, enquanto apertava um alfinete na lapela do seu casaco de pêlo. «Eu preciso do dinheiro. Eles só estão a tentar evitar pagar uma dupla indemnização, mas estou disposta a adiar isto até eles terem a prova da qual passam a vida a falar.»

 

Mas quando os dois executivos de aspecto sério chegaram não foi para iniciar o processo de pagamento.

 

Sr.a Collins disse o mais velho dos dois, espero que compreenda a nossa posição. Compartilhamos os seus sentimentos e entendemos a situação em que se encontra. O problema é que não podemos autorizar o pagamento sobre as apólices do seu marido sem um certificado de óbito, e esse não vai ser emitido.

 

Catherine olhou para ele.

 

Quer dizer que não vai ser emitido até eles terem a prova absoluta  da sua morte? Mas suponha que o corpo dele foi arrastado pelo rio abaixo até ao Atlântico?

 

Ambos os homens pareciam pouco à-vontade.

 

Sr.a Collins, a Autoridade Thruway de Nova Iorque, como proprietária e operadora da Ponte Tappan Zee, conduziu operações exaustivas para recuperar as vítimas e os destroços do rio. É dado como certo que as explosões destruíram os veículos. Apesar disso, partes pesadas como transmissões e motores não se desintegram. Para além do reboque e do camião-cisterna, seis veículos caíram de um dos lados, ou sete, se incluirmos o carro do seu marido. Partes de todos os outros veículos já foram recuperadas. Todos os outros corpos já foram igualmente recuperados. Não existe sequer uma roda, pneu, porta ou parte de motor de um Cadillac no leito do rio, por baixo do local do acidente respondeu o mais novo.

 

Então, está a dizer... Catherine descobriu que lhe custava formar as palavras.

 

Estamos a dizer que o relatório detalhado do acidente está prestes a ser emitido pelas Autoridades Thruway, o qual reporta categoricamente que Edwin Collins não podia ter perecido na tragédia da ponte naquela noite. Os peritos acham que, apesar de ele poder ter estado perto da ponte, não foi certamente uma das vítimas. Nós achamos que ele escapou, sendo apanhado entre os carros que estiveram envolvidos no acidente e aproveitou-se da situação para desaparecer, tal como tinha planeado. Achamos que ele pensou que conseguiria tomar conta de si e da sua filha através do seguro, e que poderia continuar com uma nova vida que já planeara iniciar.

 

Mac, como era conhecido o Dr. Jeremy Maclntyre, vivia com o seu filho de 7 anos, Kyle, ao virar da esquina da família Collins. Nos Verões dos seus anos de universidade em Yale, Mac trabalhara como empregado de mesa na Pousada Drumdoe. Nesse tempo, afeiçoara-se à região e decidira que haveria de aí viver um dia.

 

Ao crescer, Mac notara que era apenas um tipo na multidão e que as raparigas nem davam por ele. Estatura média, peso médio, aspecto normal. Era uma descrição razoavelmente precisa mas, de facto, Mac subestimava-se. Depois de o olharem com mais atenção, as mulheres encontravam um desafio na expressão interrogativa dos seus olhos castanhos, uma puerilidade ternurenta no cabelo cor de areia que parecia constantemente despenteado pelo vento, uma estabilidade reconfortante na autoridade com que as conduzia para a pista de dança ou quando lhes segurava gentilmente o cotovelo numa noite gelada.


Mac sempre soubera que, um dia, seria médico. Quando iniciou os seus estudos na escola médica da UNI, começara a acreditar que o futuro da medicina estava na genética. Agora, com 36 anos, trabalhava no LifeCode, um laboratório de pesquisa genética em Westport, a uns cinquenta minutos a sudeste de Newtown.

 

Era o emprego que ele queria e encaixava na sua vida de homem divorciado e de pai, com a custódia de um filho. Aos 27 anos, Mac casara. O casamento durou um ano e meio e produziu Kyle. Então, um dia, Mac chegou a casa vindo do laboratório e encontrou uma babysitter e um bilhete. Este dizia:

 

Mac, isto não é por mim. Sou uma péssima esposa e uma péssima mãe. Ambos sabemos que não pode dar certo. Tenho de tentar ter uma carreira. Toma bem conta do Kyle. Adeus, Ginger.

 

Ginger dera-se bem, desde essa altura. Cantava em cabarés em Vegas e em navios de cruzeiro. Gravara alguns álbuns e o último alcançara os tops de vendas. Enviava presentes dispendiosos a Kyle, no seu aniversário e Natal. Os presentes eram, invariavelmente, ou muito sofisticados ou muito infantis. Em sete anos, apenas vira Kyle três vezes.

 

Apesar de ter sido quase um alívio, Mac ainda guardava alguma amargura quanto à deserção de Ginger. De certa forma, o divórcio nunca fizera parte dos seus planos para o futuro e ele ainda se sentia desconfortável quanto a isso. Sabia que o filho sentia saudades de ter uma mãe e, assim, tinha um cuidado e um orgulho especial em manter-se um pai atento.

 

Nas noites de sexta, Mac e Kyle jantavam por vezes na Pousada Drumdoe. Comiam no pequeno e informal restaurante, onde o menu especial de sexta incluía pizzas individuais, peixe e batatas fritas.

 

Catherine estava sempre na pousada à hora do jantar. Também Meg, ao crescer, se encontrava sempre na pousada. Quando ela tinha 10 anos e Mac era um empregado de mesa de 19, ela dissera-lhe anelantemente que era engraçado comer em casa.

 

«Quando o paizinho está cá, às vezes fazemos isso.»

 

Desde o desaparecimento do pai que Meg passava quase todos os fíns-de-semana em casa e acompanhava a mãe na pousada ao jantar. Mas nessa noite de sexta-feira não havia qualquer sinal nem de Catherine nem de Meg.

 

Mac reconhecia que se sentia desiludido, mas Kyle que estava sempre ansioso por ver Meg, rejeitou a ausência dela.

 

Então, ela não está cá. Óptimo.

 

«Óptimo» era a palavra que Kyle usava para todas as ocasiões. Usava-a quando estava entusiasmado, enojado ou a ser porreiro. Nessa noite, Mac não estava certo de qual a emoção que estava a ouvir. «Mas espera lá», disse a si próprio, «dá espaço ao miúdo. Se existe algo que o está a preocupar, isso há-de vir ao de cima mais cedo ou mais tarde, e certamente não tem nada a ver com a Meghan.» Kyle terminou o resto da pizza em silêncio. Estava zangado com Meghan. Ela agia sempre como se estivesse mesmo interessada nas coisas que ele fazia, mas, na quarta-feira à tarde, quando ele estava fora de casa e acabara de ensinar o seu cão Jake a manter-se de pé nas patas traseiras e a pedir, Meghan passara por ele e ignorara-o. Ela conduzia muito devagar e ele gritara para ela parar. Sabia que ela o vira, porque olhara directamente para ele. Mas, depois, aumentara a velocidade e afastara-se, e nem sequer perdera tempo a ver o truque de Jake. Óptimo. Ele não falaria ao seu pai acerca disso. O pai diria que Meghan estava apenas preocupada, porque o Sr. Collins há muito que não vinha para casa e podia ter sido uma das pessoas cujo carro caíra da ponte para o rio. Ele diria que quando as pessoas estão a pensar noutra coisa qualquer, podiam passar por outras pessoas e nem sequer as ver. Mas Meg vira Kyle na quarta-feira e nem se dera ao trabalho de lhe acenar. «Óptimo», pensou ele. «Tudo bem.»

 

Quando Meghan chegou a casa, encontrou a mãe sentada na sala de estar escurecida, as mãos apertadas no colo.

 

Mãe, estás bem? perguntou, ansiosamente. São quase sete e meia. Não vais para a Drumdoe? Acendeu a luz e viu a face de Catherine manchada de lágrimas. Caiu de joelhos e agarrou as mãos da mãe. Oh, Deus, eles encontraram-no? É isso?

 

Não, Meggie, não é isso disse, pausadamente, Catherine Collins, e contou a visita dos agentes da seguradora. «O pai não», pensou Meghan. «Ele não podia, não faria isto à mãe. Não a ela. Tem de ser um engano.»

 

Isso é a coisa mais louca que alguma vez ouvi disse ela, gravemente.

 

Foi o que eu lhes disse. Mas, Meg, por que haveria o teu pai de ter pedido tanto dinheiro emprestado ao seguro? Isso assusta-me. E mesmo que ele o tenha investido, eu não sei onde. Sem um certificado de óbito, as minhas mãos estão atadas. Não consigo cobrir as despesas. Phillip envia mensalmente o dinheiro da empresa do pai, mas isso não é justo para ele. Muito do dinheiro das comissões já deu entrada há algum tempo. Eu sei que sou conservadora por natureza, mas certamente não o fui quando renovei a pousada. Exagerei mesmo. Agora, possivelmente, terei de vender a Drumdoe.

 

A pousada. Era sexta-feira à noite. A mãe deveria estar lá agora, no seu elemento, a cumprimentar os convidados, a manter a vigilância sobre os empregados de mesa e sobre os rapazes que levantavam os pratos, a tratar dos arranjos de mesa, a escolher os pratos na cozinha. Cada pormenor, automaticamente, visto e revisto.

 

O pai não te faria isto disse Meg, simplesmente. Sei isso. Catherine Collins começou a soluçar, soluços secos e curtos.

 

Talvez o pai tenha usado o acidente na ponte para se livrar de mim. Mas porquê, Meg? Eu amava-o tanto.

 

Meghan colocou os braços à volta da mãe.

 

Escuta disse ela, firmemente, tinhas razão da primeira vez. O pai nunca te faria isto e, de uma forma ou de outra, nós vamos prová-lo.

 

O escritório de Collins e Cárter Pesquisa Executiva, localizava-se em Danbury, Connecticut. Edwin Collins iniciara a empresa quando tinha vinte e oito anos, depois de ter trabalhado cinco anos para uma empresa referenciada na Fortune 500, situada em Nova Iorque. Nessa altura, apercebera-se de que trabalhar dentro da estrutura corporativa não era para ele.

 

Depois de se casar com Catherine Kelly, mudara as instalações do seu escritório para Danbury. Eles queriam viver em Connecticut e a localização do escritório de Edwin não era importante, já que passava a maior parte do tempo viajando pelo país e visitando clientes.

 

Uns doze anos antes do seu desaparecimento, Collins trouxera Phillip Cárter para o negócio.

 

Cárter, um graduado de Wharton com o bónus adicional de uma licenciatura em Direito, fora previamente um cliente de Edwin, tendo sido colocado por ele em vários trabalhos. O último, antes de terem unido forças, fora numa empresa multinacional em Maryland.

 

Quando Collins visitava esse cliente, ele e Cárter almoçavam juntos ou tomavam uma bebida. Ao longo dos anos, tinham desenvolvido uma amizade orientada pelo negócio. No princípio dos anos 80, depois de um divórcio difícil e já na meia-idade, Phillip Cárter deixou finalmente o seu trabalho em Maryland para se tornar colega e sócio de Collins.

 

Eram o oposto um do outro em muitas coisas. Collins era alto e bonito de um modo clássico, vestia-se impecavelmente e era calmo e espirituoso, enquanto Cárter era fanfarrão e cordial, com traços atraentes e irregulares, e uma cabeça com cabelo forte que começava a embranquecer. As suas roupas eram caras, mas nunca pareciam condizer. A sua gravata tinha, frequentemente, o nó solto. Era um homem que gostava de estar entre homens, cujas histórias contadas sobre uma bebida desencadeavam rompantes de gargalhadas, e também um homem com um certo olho para as mulheres.

 

A sociedade resultara. Durante bastante tempo, Phillip Cárter vivera em Manhattan e fazia um intercâmbio em sentido oposto para Danbury, quando não estava a viajar pela empresa. O seu nome aparecia frequentemente nas colunas sociais dos jornais de Nova Iorque como tendo participado em diversos jantares e festas de angariação de fundos com várias mulheres. Eventualmente, acabou por adquirir uma pequena casa em Brookfield, a dez minutos do escritório, e permanecia aí com uma frequência crescente.

 

Agora, com 53 anos, Phillip Cárter era uma figura familiar na área de Danbury.

 

Trabalhava regularmente no seu gabinete durante várias horas depois de já todos os funcionários terem saído, já que um considerável número de clientes e possíveis clientes se encontravam no Midwest e na Costa Oeste e o início da noite era uma boa altura para os contactar. Desde a noite da tragédia na ponte, Phillip raramente deixava o escritório antes das oito horas.

 

Quando Meghan telefonou às cinco para as oito dessa noite, ele estava a pegar no casaco.

 

Eu receava que chegasse a isto disse, depois de ela lhe ter contado o que acontecera durante a visita dos agentes da seguradora. Pode vir cá amanhã por volta do meio-dia?

 

Depois de ter desligado, deixou-se ficar sentado durante bastante tempo à sua secretária. Depois levantou o auscultador e chamou o seu contabilista.

 

Acho que é melhor fazermos uma auditoria dos livros agora mesmo disse calmamente.

 

Quando Meghan chegou aos escritórios Collins e Cárter Pesquisa Executiva, às duas horas de sábado, encontrou três homens trabalhando com calculadoras numa comprida mesa que, normalmente, continha revistas e plantas. Não necessitava da explicação de Phillip Cárter para lhe confirmar que eles eram auditores. Por sugestão dele, dirigiram-se ao escritório privativo do seu pai.

 

Passara a noite sem dormir, a sua mente um campo de batalha cheio de perguntas, dúvidas e negações. Phillip fechou a porta e indicou uma das duas cadeiras em frente da secretária. Sentou-se na outra, uma subtileza que ela apreciou. Magoá-la-ia se ele se tivesse sentado na secretária do pai.

 

Ela sabia que Phillip seria honesto com ela.

 

Phillip, acha que é remotamente possível que o meu pai ainda esteja vivo e que tenha optado por desaparecer? perguntou.

 

A pausa momentânea antes de ele falar foi resposta suficiente.


Acha mesmo possível? incitou ela.

 

Meg, eu já vivi o suficiente para saber que tudo é possível. Honestamente, os investigadores da Thruway e a seguradora têm andado a rondar já há algum tempo, a fazer umas quantas perguntas bastante directas. Por duas vezes, já os quis pôr, fisicamente, na rua. Tal como toda a gente, eu esperava que o carro do Ed ou os restos deste fossem recuperados. É possível que grande parte dos destroços tenham sido arrastados pela maré rio abaixo, ou que se tenham alojado no leito do rio, mas não é de nenhuma ajuda o facto de ainda não se terem encontrado quaisquer vestígios do carro. Portanto, para te dar uma resposta, sim, é possível. E não, não acredito que o teu pai fosse capaz de uma coisa dessas.

 

Era o que ela estava à espera de ouvir, mas isso não facilitava nada. Em tempos, quando ela era pequenina, Meghan tentara tirar um pedaço de pão queimado da torradeira com um garfo. Sentia-se como se estivesse a reviver a experiência da dor fulgurante da corrente eléctrica a disparar através do seu corpo.

 

E claro não ajuda em nada o facto de o meu pai ter retirado o dinheiro das suas apólices, umas quantas semanas antes de ter desaparecido.

 

Não, não ajuda. Quero que saibas que estou a fazer a auditoria para o bem da tua mãe. Quando se tornar do domínio público, e podes ter a certeza de que se tornará, quero ter a certeza de que tenho um depoimento certificado de que os nossos livros estão em ordem. Este tipo de coisas desencadeia rumores por aí, como podes calcular.

 

Meghan olhou para baixo. Vestia jeans e um casaco de ganga a condizer. Ocorreu-lhe que este era o tipo de roupa que a mulher morta usava quando foi levada para o Hospital Roosevelt. Afastou daí o pensamento.

 

O meu pai era um jogador? Isso explicaria a sua necessidade para um empréstimo de dinheiro?

 

Cárter abanou a cabeça.

 

O teu pai não era um jogador e eu já vi bastantes, Meg sorriu. Meg, eu gostava de poder encontrar uma resposta, mas não consigo. Nada nos negócios nem na vida pessoal de Ed me sugere que ele pudesse escolher desaparecer. Por outro lado, a falta de provas físicas do acidente é forçosamente suspeita, pelo menos, para os estranhos.

 

Meghan olhou para a secretária com a sua cadeira de executivo. Conseguia ver o pai ali sentado, encostado, de olhos a brilhar, as mãos fechadas, os dedos apontando para cima, no que a sua mãe chamaria «a pose de santo e mártir Ed».

 

Conseguia ver-se a si mesma a correr para o seu escritório quando criança. O pai tinha sempre doces para ela, barras de chocolate muito doce, rebuçados de alteia, amendoim estaladiço. A mãe tentara mantê-la longe desse tipo de doces.


«Ed», protestava ela, «não lhe dês esse lixo. Vais-lhe dar cabo dos dentes.»

 

«Doces para o doce, Catherine.»

 

A menina do papá. Sempre. Ele era o pai divertido. A mãe era aquela que fazia Meghan praticar piano e fazer a cama. Fora a mãe que protestara quando ela saíra da firma de advogados.

 

«Por amor de Deus, Meg», implorara, «dá-lhe mais do que seis meses, não desperdices a tua educação.»

 

O pai tinha compreendido.

 

«Deixa-a estar, amor», dissera, firmemente. «A Meg tem a cabeça bem assente nos ombros.»

 

Uma vez, quando era pequena, Meghan perguntara ao pai por que é que ele viajava tanto.

 

«Ah, Meg», ele suspirara. «Como eu gostava que não fosse necessário. Talvez tenha nascido para ser um trovador errante.»

 

Como estava ausente tantas vezes, quando regressava a casa tentava sempre compensá-la. Sugeria que em vez de irem para a pousada, ele faria o jantar de ambos em casa.

 

«Meghan Anne», dizia-lhe, «és a minha namorada.»

 

«Este escritório tem a sua aura», pensou Meg. A graciosa secretária de cerejeira que ele encontrara num armazém do Exército de Salvação, e a qual raspara e à qual dera o acabamento final. A mesa por detrás desta com fotografias suas e da mãe. Os suportes para livros em forma de cabeça de leão, segurando os livros encadernados a couro.

 

Durante nove meses, chorara-o como se estivesse morto. Pensou se, neste momento, ainda o estaria a chorar mais. Se os agentes da seguradora tivessem razão, ele transformara-se num estranho. Meghan olhou para os olhos de Phillip Cárter.

 

Eles não têm razão disse em voz alta. Eu acredito que o meu pai está morto. Acredito que ainda se há-de encontrar algum vestígio do seu carro olhou à sua volta. Mas para sermos justos para si, não temos o direito de manter fechado este gabinete. Virei até cá na próxima semana para arrumar os seus objectos pessoais.

 

Nós trataremos disso, Meg.

 

Não. Por favor. Aqui, consigo seleccionar melhor as coisas. A minha mãe já está suficientemente mal, sem precisar de me ver a fazê-lo em casa.

 

Phillip Cárter concordou.

 

Tens razão, Meg. Eu também estou preocupado com Catherine.

 

É por isso que não me atrevo a contar-lhe o que aconteceu na noite passada. Ela viu a preocupação a aprofundar-se na sua cara, enquanto lhe contava tudo acerca da vítima de esfaqueamento que se parecia com ela, e o fax que chegara a meio da noite.

 

Meg, isso é bizarro disse ele. Espero que o teu patrão fale do que aconteceu à Polícia. Não podemos deixar que nada te aconteça.


Enquanto Victor Orsini rodava a sua chave na porta dos escritórios de Collins e Cárter, ficou surpreendido por constatar que estava destrancada. Normalmente, sábado à tarde, significava que ele tinha o local só para ele. Regressara de uma série de reuniões no Colorado e queria verificar o correio e as mensagens.

 

Com 31 anos de idade, um bronzeado permanente, braços e ombros musculados, e um corpo magro e disciplinado, ele tinha a figura de um homem que gostava de espaços abertos. O seu cabelo preto-azeviche e os seus traços vincados mostravam a sua herança italiana. Os seus intensos olhos azuis eram uma reminiscência da sua avó inglesa.

 

Orsini trabalhava para a Collins e Cárter há quase sete anos. Não contara ficar tanto tempo, de facto, esperara usar este emprego como um degrau para uma empresa maior.

 

As suas sobrancelhas ergueram-se quando abriu a porta e viu os auditores. Num tom deliberadamente impessoal, o responsável disse a Orsini que Phillip Cárter e Meghan Collins se encontravam no escritório privado de Edwin Collins. Hesitantemente, colocou Victor ao corrente da teoria da seguradora, de que Collins optara por desaparecer.

 

Isso é uma loucura. Victor atravessou a passos rápidos a área da recepção e bateu à porta que estava fechada.

 

Cárter abriu-a.

 

Oh, Victor, que bom vê-lo. Não estávamos à sua espera hoje. Meghan virou-se para o cumprimentar. Orsini apercebeu-se de que ela estava a tentar evitar chorar. Procurou algo de tranquilizador para dizer, mas não conseguiu encontrar nada. Fora interrogado pelos investigadores acerca da chamada telefónica que Ed Collins lhe fizera, momentos antes do acidente.

 

«Sim», dissera na altura, «Edwin disse que estava a entrar na ponte. Sim, tenho a certeza de que ele não disse que estava a sair dela. Acha que eu não o ouvi? Sim, ele queria ver-me na manhã seguinte. Não havia nada de invulgar acerca disso. Ed usava o telefone do seu carro a toda a hora.»

 

De repente, Victor pensou quanto tempo levaria até que alguém pusesse em causa que era apenas a sua palavra que colocava Ed Collins na rampa para a Ponte Tappan Zee naquela noite. Não lhe era difícil ver a preocupação espelhada na cara de Meghan, quando ele apertou a mão que ela lhe estendia.

 

Às três horas de domingo à tarde, Meg encontrou-se com Steve Boyle, o câmara da PCD, no parque de estacionamento da Clínica Manning

 

A clínica estava situada numa ladeira a dois quilómetros do Itinerário 7, na região rural de Kent, uma viagem de apenas quarenta minutos a norte da sua casa. Fora construída em 1890, como residência de um homem de negócios astuto, cuja mulher tivera o bom senso de refrear o seu ambicioso marido, na criação de uma exibição ostensiva da sua escalada meteórica para o estatuto de príncipe mercante. Ela convenceu-o de que, em vez do pseudopalácio que ele planeara, uma mansão estilo inglês era mais adequada à beleza do campo.

 

Preparada para a hora das crianças? perguntou Meghan ao operador de câmara, enquanto subiam o caminho.

 

Os Giants estão no ar e nós estamos presos aos Munchkins lamentou-se Steve.

 

No interior da mansão, o espaçoso vestíbulo funcionava como área de recepção. Das paredes de painéis de carvalho pendiam fotografias emolduradas das crianças, que deviam a sua existência ao génio da ciência moderna. Para lá do vestíbulo, o grande corredor tinha o ambiente de uma confortável sala familiar, com agrupamentos de mobília que convidavam a conversas íntimas ou que podiam ser dispostos em certos ângulos para conferências informais.

 

Brochuras com testemunhos de pais agradecidos estavam espalhadas sobre as mesas. «Nós queríamos tanto um filho. As nossas vidas estavam incompletas. Então, marcámos uma consulta na Clínica Manning...» «Eu ia a um chá realizado em casa de uma amiga que estava prestes a ter um bebé e tentava não chorar. Alguém sugeriu que eu procurasse a fertilização in vitro e Jamie nasceu quinze meses mais tarde...» «O meu quadragésimo aniversário aproximava-se e eu sabia que dentro de pouco tempo seria tarde de mais...»

 

Todos os anos, no terceiro domingo de Outubro, as crianças que tinham nascido como resultado da FIV na Clínica Manning, eram convidadas para regressarem com os seus pais para a reunião anual. Meghan soubera que este ano tinham sido enviados trezentos convites e mais de duzentos tinham sido aceites. Era uma grande e barulhenta festa. Numa das pequenas salas de estar, Meghan entrevistou o Dr. George Manning, o director da clínica, de 70 anos e cabelo prateado e pediu-lhe para explicar a fertilização in vitro.

 

Nos termos mais simples possíveis explicou ele, a FIV é um método através do qual uma mulher que tem grandes dificuldades em conceber tem, por vezes, a capacidade de ter o bebé ou os bebés que ela quer tão desesperadamente. Depois de o seu ciclo menstrual ter sido monitorizado, ela começa o tratamento. São administradas drogas fertilizantes, de modo que os seus ovários são estimulados para libertarem uma abundância de folículos, que são depois recuperados.

 

»Pede-se ao companheiro da mulher para fornecer uma amostra de sémen para inseminar os óvulos contidos nos folículos, em laboratório. No dia seguinte, um perito em embriologia verifica quais os óvulos (se é que houve algum), que foram fertilizados. Se o sucesso foi alcançado, um médico irá transferir um ou mais dos óvulos fertilizados, que são agora referidos como embriões, para o útero da mulher. Se for pedido, o resto dos embriões serão criogenicamente preservados para serem posteriormente implantados.

 

«Passados quinze dias, retira-se sangue para o primeiro teste de gravidez o médico apontou para o vestíbulo. Como pode constatar a partir da multidão que hoje temos aqui, muitos destes testes provaram ser positivos.

 

Certamente que posso concordou Meg. Doutor, qual é a diferença de sucesso em relação ao insucesso?

 

Ainda não tão baixa como gostaríamos que fosse, mas está constantemente a melhorar disse ele, solenemente.

 

Obrigado, doutor.

 

Seguida por Steve, Meghan entrevistou várias das mães, pedindo-lhes para partilharem as suas experiências pessoais com a fertilização in vitro.

 

Uma delas, em pose com os seus três bonitos descendentes, explicou:

 

Eles fertilizaram catorze óvulos e implantaram três. Um deles resultou numa gravidez e aí está ele sorriu para o seu filho mais velho. Chris tem agora sete anos. Os outros embriões foram preservados criogenicamente ou, em termos simples, congelados. Regressei há cinco anos atrás e Todd é o resultado. Depois tentei novamente o ano passado e a Jill tem três meses de idade. Alguns dos embriões não sobreviveram à descongelação, mas eu ainda tenho dois preservados criogenicamente no laboratório. Se eu alguma vez arranjar tempo suficiente para ter outro miúdo disse ela sorrindo, enquanto o rapaz de quatro anos desatava a correr.

 

Já temos o material suficiente, Meghan? perguntou Steve.

 

Eu gostava de apanhar o último quarto de hora do jogo dos Giant.

 

Deixa-me falar com mais um membro da equipa. Tenho estado a observar aquela mulher. Ela parece saber o nome de toda a gente.

 

Meg dirigiu-se para a mulher e olhou de relance para a chapa do seu nome. Posso falar consigo. Dr.a Petrovic?

 

Claro. A voz de Petrovic era bem modulada, com um ligeiro sotaque. Era de estatura mediana, com olhos castanhos e traços refinados. Parecia mais cortês do que amigável. Mesmo assim, Meg reparou que tinha um agrupamento de crianças à sua volta.

 

Há quanto tempo está na clínica, doutora?


Faz sete anos em Março. Eu sou a especialista em embriologia responsável pelo laboratório.

 

Gostaria de fazer algum comentário acerca do que sente em relação a estas crianças?

 

Sinto que cada uma delas é um milagre.

 

Obrigada, doutora.

 

Já temos imagens suficientes filmadas cá dentro disse Meg a Steve quando deixou Petrovic. Apesar disso, quero uma imagem da fotografia do grupo. Eles reunir-se-ão para a tirar dentro de um minuto.

 

A fotografia anual era tirada no relvado da frente, no exterior da mansão. Havia a confusão habitual que surgia sempre que se tentava alinhar crianças com a mais tenra idade até às de nove anos, com as mães segurando os bebés, de pé, na última fila, e rodeadas pelos membros da equipa médica.

 

O dia de Verão índio estava luminoso e, enquanto Steve focava a câmara no grupo, Meghan teve um fugaz pensamento de que todas as crianças pareciam bem vestidas e felizes. «Por que não?», pensou. Todas elas tinham sido desesperadamente desejadas.

 

Uma das crianças de três anos correu vinda da primeira fila na direcção da sua mãe grávida, que se encontrava de pé perto de Meghan. Olhos azuis e cabelo dourado, com um sorriso doce e tímido, lançou os braços à volta dos joelhos da mãe.

 

Apanha uma imagem disso disse Meghan a Steve. Ele é adorável.

 

Steve segurava a câmara sobre o pequeno rapaz, enquanto a mãe o convencia a reunir-se às outras crianças.

 

Eu estou mesmo aqui, Jonathan assegurou-lhe ela, enquanto o colocava de novo na ordem. Tu podes ver-me. Eu prometo que não me vou embora. Regressou ao local onde estivera anteriormente.

 

Meghan dirigiu-se à mulher.

 

Importa-se de me responder a umas quantas perguntas? perguntou, segurando o microfone.

 

Com todo o prazer.

 

Pode dar-nos o seu nome e dizer-nos que idade tem o seu pequeno rapaz?

 

Eu sou Diná Anderson e o Jonathan tem quase três.

 

O bebé de que está à espera é também resultado da fertilização in vitro?

 

Sim, de facto, ele é o gémeo idêntico do Jonathan.

 

Gémeo idêntico! Meghan sabia que parecia surpreendida.

 

Eu sei que parece impossível disse Diná Anderson, alegremente, mas é assim que é. É extremamente raro, mas um embrião pode dividir-se no laboratório, do mesmo modo que se dividiria no útero. Quando nos foi dito que um dos óvulos fertilizados se tinha dividido, o meu marido e eu decidimos que eu tentaria dar à luz cada gémeo separadamente. Achámos que, individualmente, cada um deles podia ter uma melhor oportunidade de sobreviver no meu útero e, realmente, é prático. Eu tenho um emprego de responsabilidade e detestaria ter de deixar duas crianças com uma ama.

 

O fotógrafo da clínica estivera a tirar fotografias. Um momento depois, gritou:

 

Okay, miúdos, obrigado. As crianças espalharam-se e Jonathan correu para a mãe. Diná Anderson acolheu o filho nos braços. Não consigo imaginar a minha vida sem ele disse ela. E dentro de dez dias, teremos o Ryan.

 

«Que interesse humano isso daria», pensou Meghan.

 

Sr.a Anderson disse, persuasivamente, se estiver disposta, gostaria de falar com o meu patrão acerca da possibilidade de fazer uma reportagem quanto às características dos seus gémeos.

 

No caminho de regresso a Newtown, Meghan usou o telefone do carro para telefonar à mãe. A preocupação que sentira quando ouvira o atendedor de chamadas transformou-se em alívio, quando ligou para a pousada e lhe disseram que a Sr.a Collins estava na sala de jantar.

 

Diga-lhe que vou a caminho disse ela à telefonista e que me encontrarei lá com ela.

 

Durante os quinze minutos que se seguiram, Meghan conduziu como se tivesse ligado o piloto automático. Estava entusiasmada com a possibilidade da reportagem que conseguiria dar a Weicker. E até podia pedir alguma ajuda a Mac. Ele era um especialista em genética. Seria capaz de lhe dar alguns conselhos de perito bem como material de leitura, que ela poderia estudar para ficar com um conhecimento mais amplo acerca de todo o espectro da reprodução assistida, incluindo as estatísticas relacionadas com o sucesso ou as taxas de fracasso. Quando o trânsito abrandou até parar completamente, ela levantou o telefone do seu carro e marcou o número dele.

 

Kyle respondeu. Meghan ergueu as sobrancelhas ao aperceber-se de que o tom de Kyle se alterara quando reconheceu a sua voz. «Que o estará a preocupar?», pensou, quando ele ignorou a sua saudação e passou o telefone ao pai.

 

Olá, Meghan. Que posso fazer por ti? Tal como sempre, o som da voz de Mac desferia em Meghan uma familiar punhalada de dor. Ela chamara-lhe o seu melhor amigo quando tinha dez anos, tivera um fraco por ele aos doze e apaixonara-se quando tinha dezasseis. Três anos mais tarde, ele casara com Ginger. Ela fora convidada para o casamento e esse fora um dos piores dias da sua vida. Mac era doido por Ginger e Meg suspeitava que, mesmo depois de sete anos, se Ginger entrasse pela porta dentro e deixasse cair a sua mala, ele ainda a quereria. Meg nunca admitiria que, por muito que se esforçasse, nunca fora capaz de deixar de amar Mac.

 

Preciso de alguma ajuda profissional, Mac. Enquanto o carro arrancava na via obstruída e aumentava de velocidade, ela explicou-lhe a visita à clínica e a história que estava a preparar. E eu preciso da informação com uma certa urgência, de modo a poder apresentar tudo ao meu chefe.

 

Eu posso dar-ta já. Kyle e eu estamos agora mesmo a dirigirmo-nos para a pousada. Levo-a comigo. Queres juntar-te a nós para o jantar?

 

Isso é óptimo. Até já desligou.

 

Eram quase sete, quando alcançou os subúrbios da cidade. A temperatura estava a descer e a brisa da tarde transformara-se em rajadas de vento. As luzes dos faróis embateram nas árvores, ainda pesadas com folhas que estavam agora a mexer-se impacientemente e que enviavam sombras sobre a estrada. Nesse momento, fizeram-na pensar nas águas escuras e agitadas do Hudson.

 

«Concentra-te na forma como poderás propor ao Weicker a ideia de fazer um especial sobre a Clínica Manning», disse a si própria, ferozmente.

 

Phillip Cárter estava na Drumdoe, sentado numa mesa colocada para três e junto à janela. Acenou a Meghan.

 

Catherine está na cozinha a dar uma descompostura ao chefe disse-lhe ele. As pessoas que estão ali acenou para uma mesa próxima queriam a carne mal passada. A tua mãe disse que o que lhes serviram podia ter passado por um pedaço de carvão. De facto, estava muito bem passado.

 

Meghan afundou-se numa cadeira e sorriu.

 

O melhor que lhe podia acontecer era se o chefe se demitisse. Então, teria de voltar para a cozinha. Manteria a sua cabeça afastada das coisas inclinou-se sobre a mesa e tocou a mão de Cárter. Obrigada por passar por cá.

 

Espero que ainda não tenhas comido. Consegui que a Catherine prometesse que se juntaria a mim.

 

Isso é óptimo, mas que tal se eu tomar só um café consigo? Mac e Kyle devem estar a chegar a qualquer momento e eu disse que lhes faria companhia. A verdade é que eu preciso de vasculhar a mente de Mac.

 

Ao jantar, Kyle continuava distante de Meghan. Por fim, ela ergueu as sobrancelhas e olhou inquiridoramente para Mac, que encolheu os ombros e murmurou:

 

Não me perguntes. Mac aconselhou-a acerca da reportagem que ela estava a planear. Tens razão. Existe uma série de fracassos e é um procedimento muito caro.

 

Meg olhou para Mac e para Kyle. Eles eram tão parecidos. Ela recordava-se da forma como o seu pai lhe apertara a mão no casamento de Mac. Ele compreendia. Sempre a compreendera. Quando estavam prontos para sair, ela disse:

 

Eu vou ficar aqui mais alguns minutos com a mãe e Phillip colocou um braço à volta de Kyle. Até à vista, companheiro.

 

Ele sacudiu-a.

 

Eia, então disse Meghan. Que vem a ser isto?- Para sua surpresa, viu lágrimas a surgirem-lhe nos olhos.

 

Eu pensava que tu eras minha amiga virou-se de repente e correu para a porta.

 

Hei-de saber o que se passa prometeu Mac enquanto se apressava a ir ter com o filho.

 

Às sete horas, perto de Bridgewater, Diná Anderson segurava Jonathan no colo, enquanto beberricava o resto do seu café e contava ao marido como correra a festa na Clínica Manning.

 

Podemos ser famosos disse ela. Meghan Collins, aquela jornalista do Canal 3, quer ter a aprovação do patrão dela para estar no hospital quando o bebé nascer e tirar as primeiras fotografias de Jonathan com o seu novo irmão. Se o patrão dela concordar, ela pode querer fazer as actualizações de tempos a tempos para ver como eles se dão.

 

Donald Anderson tinha uma expressão de dúvida.

 

Querida, eu não estou certo de que precisemos dessa publicidade.

 

Oh, vá lá. Podia ser engraçado. E eu concordo com a Meghan, que se mais pessoas que querem bebés percebessem os diferentes tipos de nascimento assistido, elas aperceber-se-iam de que a FIV é realmente uma opção viável. Este aqui valeu certamente toda a despesa e esforço.

 

A cabeça desse tipo está a cair para dentro do teu café Anderson levantou-se, rodeou a mesa e tirou o filho dos braços da mulher.

 

São horas de Bonzo dormir anunciou ele, e depois acrescentou:

 

Se queres fazê-lo, por mim tudo bem. Acho que deve ser engraçado ter algumas cassetes dos miúdos gravadas por profissionais.

 

Diná observava-o afectuosamente, enquanto o seu marido louro e de olhos azuis carregava a sua criança igualmente loura para as escadas. Todas as fotografias de bebé de Jonathan já estavam prontas. Seria tão divertido compará-las com as fotografias de Ryan. Ainda tinha um embrião criogenicamente preservado na clínica. «Dentro de dois anos tentaremos ter outro bebé e talvez esse se pareça comigo», pensou ela, olhando de relance para o espelho do outro lado da sala e colocado sobre o aparador. Estudou o seu reflexo, a sua pele cor de azeitona, os olhos castanhos e o cabelo cor de carvão.

 

«Isso também não seria um mau negócio», murmurou para si própria.

 

Na pousada, demorando-se sobre uma segunda chávena de café, com a sua mãe e Phillip, Meghan escutava atentamente este último, enquanto ele discutia sobriamente sobre o desaparecimento do seu pai.

 

O empréstimo tão elevado que Ed fez sobre o seu seguro sem te dizer, encaixa mesmo bem nas mãos das seguradoras. Como te contaram, interpretam-no como um sinal, de que pelos seus próprios motivos ele estava a juntar dinheiro. Tal como não te pagam o seu seguro pessoal, eu também fui notificado de que não estabelecerão o seguro da sociedade, que te seria pago como satisfação pela sua sociedade sénior na Pesquisa Executiva.

 

O que significa disse Catherine Collins, calmamente que como eu não consigo provar que o meu marido está morto, fico a perder tudo. Phillip, deviam mais dinheiro a Edwin pelo trabalho já efectuado?

 

A sua resposta foi simples.

 

Não.

 

Como está o negócio de recursos humanos este ano?

 

Não muito bom.

 

Tu emprestaste-nos quarenta e cinco mil dólares, enquanto esperamos que o corpo de Edwin seja descoberto.

 

De repente, Phillip ficou com uma expressão grave.

 

Catherine, estou satisfeito por tê-lo feito. Eu só gostava de o poder aumentar. Quando tivermos a prova da morte de Ed, podes pagar-me com o dinheiro do seguro.

 

Ela colocou uma mão sobre a dele.

 

Eu não posso deixar-te fazer isso, Phillip. O velho Pat daria voltas na sepultura se pensasse que eu estava a viver à custa de dinheiro emprestado. O facto é que, até que eu consiga arranjar alguma prova de que Edwin morreu de facto naquele acidente, perderei o local que o meu pai passou toda a vida a criar e terei de vender a minha casa; olhou para Meghan. Graças a Deus, tenho-te a ti, Meggie. Ao ouvir a mãe, Meghan decidiu não voltar de carro para Nova Iorque como planeara, mas sim passar a noite em casa.

 

Quando ela e a mãe voltaram para casa, concordaram sem palavras que não voltariam a falar do homem que fora o seu pai e marido. Em vez disso, viram o noticiário das dez horas, depois prepararam-se para se irem deitar. Meghan bateu à porta do quarto da mãe para lhe desejar as boas-noites. Apercebeu-se de que já não pensava no quarto como sendo dos seus pais. Quando a mãe abriu a porta, viu com uma punhalada de dor que a mãe mudara as suas almofadas para o centro da cama. Meghan sabia que este gesto era uma mensagem  clara de que se Edwin Collins estava vivo, não havia mais lugar para ele naquela casa.

 

Bernie Heffernan passou a noite de domingo com a mãe, vendo televisão na miserável sala de estar da sua casa estilo bangaló, em Jackson Heights. Ele preferia muito mais observar o que se passava do centro de comunicações, que criara na cave grosseiramente construída, mas ficava sempre lá em cima até a sua mãe ir para a cama às dez horas. Desde a sua queda há dez anos atrás, esta nunca mais se aproximara das íngremes escadas da cave.

 

O segmento de Meghan acerca da Clínica Manning apareceu no ar no noticiário das seis. Bernie olhava especado para o ecrã, a transpiração gotejando-lhe sobre as sobrancelhas. Se estivesse lá em baixo agora, podia estar a gravar Meghan no seu vídeo.

 

Bernard! a voz cortante da mãe interrompeu o seu devaneio. Sorriu artificialmente.

 

Desculpe, mãezinha. As lentes bifocais dos óculos sem aros da mãe aumentavam-lhe os olhos.

 

Eu perguntei-te se alguma vez encontraram o pai daquela mulher.

 

Mencionara uma vez o pai de Meghan à sua mãe e arrependera-se logo de o ter feito. Deu-lhe umas leves palmadinhas na mão.

 

Eu disse-lhe que estamos a rezar por ela, mãezinha. Não gostou da forma como a sua mãe olhou para ele.

 

Tu não estás a pensar naquela mulher, pois não, Bernard?

 

Não, mãezinha. É claro que não, mãezinha...

 

Depois de a mãe se ter ido deitar, Bernie foi até à cave. Sentia-se cansado e abatido. Existia sempre uma maneira de obter algum alívio. Iniciou, imediatamente, as suas chamadas. Primeiro, a estação religiosa em Atlanta. Usando o engenho de alteração de voz, gritou insultos ao pregador até este desligar. Depois telefonou para um talk show em Massachusetts e disse ao anfitrião que escutara uma conspiração de assassínio contra ele.

 

Às onze, começou a telefonar a mulheres, cujos nomes procurara na lista telefónica. Uma a uma, avisou-as de que estava prestes a arrombar-lhes a porta. Ouvindo as suas vozes, conseguia imaginar como é que elas pareciam. Jovens e bonitas. Velhas. Simples. Magras. Gordas. Mentalmente, criara um rosto preenchendo os detalhes das suas feições com cada palavra adicional que elas diziam.

 

Excepto hoje. Hoje todas elas tinham a mesma cara.

 

Nesta noite todas se pareciam com Meghan Collins.

 

Quando Meghan desceu as escadas na segunda de manhã às seis e meia, encontrou a mãe na cozinha. O aroma do café enchia a sala, o sumo fora deitado e o pão estava na torradeira. O protesto de Meghan de que a mãe não se devia ter levantado tão cedo morreu-lhe nos lábios. Das sombras profundas em redor dos olhos de Catherine Collins, era óbvio que ela dormira pouco, se é que chegara a dormir.

 

«Tal como eu», pensou Meghan, enquanto pegava na cafeteira.

 

Mãe, estive a pensar disse ela. Escolhendo cuidadosamente as suas palavras, continuou: Não consigo encontrar um único motivo para o desaparecimento do pai. Imaginemos que existia outra mulher. Isso podia certamente acontecer, mas se acontecesse, o pai ter-te-ia pedido o divórcio. Claro que terias ficado devastada e eu ficaria zangada por ti, mas, afinal, somos ambas realistas, e o pai sabia isso. As companhias de seguros suspenderam tudo devido ao facto de não terem ainda encontrado nem o seu corpo nem o carro, e de que ele pediu dinheiro emprestado contra as suas próprias apólices. Mas as apólices eram dele e, tal como disse, ele pode ter querido fazer qualquer tipo de investimento que sabia que tu não irias aprovar. É possível.

 

Tudo é possível disse Catherine Collins calmamente, incluindo o facto que eu não sei o que fazer.

 

Eu sei. Nós vamos apresentar uma intimação exigindo o pagamento daquelas apólices, incluindo dupla indeminização por morte acidental. Não vamos ficar sentadas e deixar aquela gente dizer-nos que o pai te fez uma coisa destas.

 

Às sete horas, Mac e Kyle sentaram-se em frente um do outro à mesa da cozinha. Kyle fora para a cama continuando a recusar-se a falar acerca da sua frieza para com Meghan, mas esta manhã a sua disposição alterara-se.

 

Estive a pensar começou. Mac sorriu.

 

Isso é um bom começo.

 

tou a falar a sério. Lembras-te que, ontem à noite, a Meghan esteve a falar da cobertura daquele caso em tribunal, onde teve de estar durante toda a quarta-feira?

 

- Sim.

 

Então, ela não podia ter estado aqui na quarta à tarde.

 

Não, não esteve.

 

Então, eu não a vi passar de carro pela nossa casa. Mac olhou para os olhos sérios do filho.

 

Não, não a podes ter visto na quarta à tarde. Tenho a certeza disso.

 

Acho que era alguém que se parecia muito com ela. O sorriso aliviado de Kyle revelou a falta de dois dentes. Olhou para Jake, que estava esticado debaixo da mesa. Agora, quando Meghan vier a casa no próximo fim-de-semana, posso mostrar-lhe como Jake sabe pedir na perfeição.

 

Ao ouvir o seu nome, Jake saltou e levantou as patas da frente.

 

Eu diria que agora ele já o sabe fazer na perfeição disse Mac de modo seco.

 

Meghan conduziu directamente para a entrada da garagem do edifício PCD, na Rua Cinquenta e Seis Oeste. Bernie abriu a porta do condutor no momento exacto em que ela travava o carro.

 

Olá, Menina Collins. O sorriso irradiante e a voz quente de Bernie trouxeram-lhe um sorriso aos lábios. A minha mãe e eu vimo-la na clínica, quero dizer, vimos as notícias de ontem à noite em que a menina aparecia. Deve ter sido engraçado estar com todos aqueles miúdos. A mão dele estendeu-se para a ajudar a sair do carro.

 

Eles foram incrivelmente engraçados, Bernie concordou Meghan.

 

A minha mãe diz que parece um pouco estranho, sabe o que quero dizer, ter bebés da maneira como aquelas pessoas os têm. Eu não sou muito dado a estas modas científicas.

 

«Inovações, não modas», pensou Meghan.

 

Eu sei o que queres dizer respondeu. Parece algo tirado do Admirável Mundo Novo.

 

Bernie olhou inexpressivamente para ela.

 

Até à vista dirigiu-se para o elevador, a sua pasta de cabedal comprimida debaixo do braço.

 

Bernie observou-a a afastar-se, depois entrou no carro e conduziu-o para o piso inferior da garagem. Deliberadamente, colocou-o num canto escuro junto à parede mais afastada da garagem. Durante a pausa do almoço, todo o pessoal escolhia um carro para descansar, onde comiam, liam o jornal ou passavam pelas brasas. A única regra da administração era terem cuidado para não sujarem os estofos com ketchup. Desde que um drogado qualquer queimara o cabedal do banco de apoio de um Mercedes, ninguém podia fumar, nem sequer nos carros onde o cinzeiro estava cheio de beatas. A questão era que ninguém achava estranho o facto de se fazer uma pausa no mesmo carro ou no mesmo tipo de carros. Bernie sentia-se feliz por se sentar no Mustang de Meghan. Tinha um ligeiro odor ao perfume que ela usava.

 

A secretária de Meghan ficava no trigésimo andar. Leu, rapidamente, a folha de serviço. Às onze horas, teria de estar presente em tribunal para assistir à acusação de um corretor da Bolsa.

 

O seu telefone tocou. Era Tom Weicker.

 

Meg, podes chegar aqui?

 

Estavam dois homens no escritório privado de Weicker. Meghan reconheceu um deles, Jamal Nader, um detective negro de voz suave que ela encontrara algumas vezes no tribunal. Cumprimentaram-se calorosamente. Weicker apresentou o outro homem como tenente Story.

 

O tenente Story está encarregado de solucionar o homicídio do qual fizeste a cobertura na outra noite. Entreguei-lhe o fax que recebeste.

 

Nader abanou a cabeça.

 

A rapariga morta é mesmo muito parecida consigo, Meghan.

 

Ela já foi identificada? perguntou Meghan.

 

Não Nader hesitou. Mas parece que ela a conhecia.

 

Que me conhecia? Meghan olhou espantada para ele. Por que é que diz isso?

 

Quando a trouxeram para a morgue, na quinta-feira à noite, revistaram a roupa dela e não encontraram nada. Enviaram tudo para o escritório do delegado do Ministério Público para ser armazenado como prova. Um dos nossos agentes voltou a revistar tudo. O forro do bolso do casaco estava descosido. Ele encontrou uma folha de papel rasgada de um bloco de notas da Pousada Drumdoe. Tinha o seu nome e o número de telefone directo da WPCD escrito nela.

 

O meu nome!

 

O tenente Story enfiou a mão no bolso. O pedaço de papel estava enfiado dentro de um invólucro de plástico. Ele ergueu-o.

 

O seu nome próprio e o número.

 

Meghan e os dois detectives estavam de pé perante a secretária de Tom Weicker. Meghan agarrou a extremidade da mesa, enquanto olhava fixamente para as letras maiúsculas, a impressão inclinada dos números. Sentiu os lábios a secarem.

 

Menina Collins, reconhece esta letra? perguntou Story, asperamente.

 

Ela fez que sim com a cabeça.

- Sim.

 

Quem...?

 

Meghan virou a cabeça, não querendo voltar a ver aquela letra familiar.

 

O meu pai escreveu isso sussurrou ela.

 

Na segunda-feira de manhã, Phillip Cárter chegou ao escritório às oito horas. Tal como de costume, foi o primeiro a chegar. O pessoal era pouco, consistindo em Jackie, a sua secretária de 50 anos, mãe de adolescentes; Milly, a avó contabilista em part-time; e Victor Orsini.

 

O computador de Cárter encontrava-se próximo da sua secretária. Neste, ele mantinha ficheiros aos quais só ele podia aceder, ficheiros que tinham listas dos seus registos pessoais. Os seus amigos gracejavam com o prazer que sentia ao assistir aos leilões de terrenos agrícolas, mas teriam ficado espantados com a quantidade de propriedades rurais que ele acumulara, calmamente, ao longo dos anos. Infelizmente para ele, a maior parte da terra que adquirira a um preço baixo, perdera-se no seu acordo de divórcio. As propriedades que ele comprara a preços elevadíssimos foram adquiridas depois do divórcio.

 

Enquanto introduzia a password no computador, reflectia que quando Jackie e Milly soubessem que a presumível morte de Edwin Collins estava a ser questionada, não lhes faltaria coscuvilhice à hora do almoço.

 

O seu sentido da privacidade gostou da ideia, de que ele nunca seria o tema para uma das encaloradas discussões que Jackie e Milly partilhavam, enquanto almoçavam saladas, que pareciam consistir basicamente de rebentos de alfafa.

 

O assunto do gabinete de Ed Collins preocupava-o. Parecera-lhe decente deixá-lo tal como estava, já que Meghan dissera que queria empacotar os objectos pessoais do pai. De uma forma ou de outra, Edwin Collins nunca o voltaria a usar.

 

Cárter franziu o nariz. Victor Orsini. Não conseguia gostar do homem. Orsini estivera sempre mais próximo de Ed, mas fizera um excelente trabalho e o seu conhecimento no campo da tecnologia médica era absolutamente necessário nos tempos que corriam, e especialmente valioso, agora que Ed desaparecera. Ele ficara com a maior parte dos negócios dessa área.

 

Cárter sabia que não tinha nenhuma forma de evitar de dar o escritório de Ed a Orsini, quando Meghan tivesse acabado de o esvaziar. O escritório actual de Victor era apertado e só tinha uma janela pequena. Sim, de momento, ele precisava do homem, quer gostasse dele quer não. Apesar disso, a intuição de Phillip avisava-o de que existia algo de ambíguo na pessoa de Victor Orsini, que nunca deveria ser ignorado.

 

O tenente Story autorizou que fosse feita para Meghan uma cópia do pedaço de papel do invólucro de plástico.

 

Há quanto tempo lhe foi designado aquele número de telefone na estação de rádio? perguntou-lhe ele.

 

Em meados de Janeiro.

 

Quando foi a última vez que viu o seu pai?

 

A14 de Janeiro. Ele ia para a Califórnia numa viagem de negócios.

 

Que tipo de negócios?

 

Meghan sentiu a língua a ficar espessa e os seus dedos a gelarem enquanto segurava a fotocópia com o seu nome, o qual parecia surgir incongruentemente negro contra o fundo branco. Ela falou-lhe acerca da Collins e Cárter Pesquisa Executiva. Era óbvio que o detective Jamal Nader já contara a Story que o pai dela desaparecera.

 

O seu pai tinha este número com ele quando se foi embora?

 

Devia tê-lo. Nunca mais falei com ele ou o voltei a ver depois do dia catorze. Ele devia regressar a casa a vinte e oito.

 

E morreu no acidente da Ponte Tappan Zee, naquela noite.

 

Ele telefonou ao seu associado Victor Orsini quando estava quase a entrar na ponte. Em pouco menos de um minuto, depois da conversa telefónica, dava-se o acidente. Alguém informou ter visto um Cadillac escuro rodopiar na direcção do camião de combustível e ir pela borda fora. Era inútil tentar esconder o que este homem poderia ficar a saber através de um único telefonema. Devo-lhe dizer que as companhias de seguros se recusam a pagar as suas apólices, baseando-se no facto de que, pelo menos, partes de todos os outros veículos foram encontradas, mas não houve até à data vestígio do carro do meu pai. Os mergulhadores da Thruway argumentam que se o carro caiu ao rio naquele lugar já deviam tê-lo localizado. O queixo de Meghan ergueu-se. A minha mãe vai apresentar queixa para que lhe seja pago o seguro.

 

Ela podia ver o cepticismo nos olhos dos três homens. Aos seus próprios ouvidos, e com este papel na sua mão, parecia-se com uma daquelas infelizes testemunhas que vira nos julgamentos em tribunal, pessoas que se mantinham obstinadas em relação ao seu testemunho, mesmo quando colocadas perante provas irrefutáveis de que ou estavam enganadas ou estavam a mentir.

 

Story desobstruiu a garganta.

 

Menina Collins, a jovem mulher que foi assassinada na quinta-feira à noite tem uma incrível semelhança consigo e transportava um pedaço de papel com o seu nome e número de telefone, escritos com a letra do seu pai. Tem alguma explicação?

 

Meghan endireitou as costas.

 

Eu não faço ideia por que é que aquela mulher teria consigo esse pedaço de papel. Não faço ideia como é que ela o obteve. Ela, realmente, parecia-se muito comigo. Tudo o que eu sei é que o meu pai pode tê-la conhecido, comentando a semelhança e dizendo: «Se alguma vez for a Nova Iorque, gostava que conhecesse a minha filha.» As pessoas costumam parecer-se umas com as outras. Toda a gente sabe isso. O meu pai estava no tipo de negócio em que se conhece muita gente, e quem o conhecesse, sabe que esse seria o tipo de comentário que ele faria. Mas de uma coisa tenho a certeza, se o meu pai estivesse vivo não teria desaparecido deliberadamente, deixando a minha mãe financeiramente paralisada. Virou-se para Tom.

 

Fui destacada para fazer a cobertura da acusação de Baxter. Tenho de me pôr a andar.

 

Estás bem? perguntou Tom. Não havia nenhuma indicação de pena nos seus modos.

 

Estou perfeitamente bem disse Meghan, calmamente. Não olhou nem para Story nem para Nader.

 

Foi Nader quem falou.

 

Meghan, estamos em contacto com o FBI. Se surgir alguma notícia reportando o desaparecimento de uma mulher que corresponda à descrição da vítima esfaqueada na quinta-feira à noite, sabê-lo-emos em breve. Talvez as respostas estejam ligadas umas às outras.

 

Helene Petrovic adorava o seu trabalho como perita em Embriologia e responsável pelo laboratório da Clínica de Manning. Viúva aos vinte e sete anos, emigrara da Roménia para os Estados Unidos e recebera com gratidão a ajuda de uma amiga de família, trabalhando para ela como esteticista e começando a frequentar a escola nocturna.

 

Agora, com 48 anos, era uma mulher esbelta e bonita, cujos olhos nunca sorriam. Durante a semana, Helene vivia em New Milford, Connecticut, a cinco quilómetros da clínica, num andar mobilado que alugara. Os fins-de-semana eram passados em Lawrenceville, Nova Jérsia, na agradável casa de estilo colonial que aí possuía. O estúdio do seu quarto estava repleto de fotografias de crianças que ela ajudara a trazer ao mundo.

 

Helene considerava-se a chefe de Pediatria de um berçário de recém-nascidos na ala de maternidade de um excelente hospital. A diferença era que os embriões ao seu cuidado eram mais vulneráveis do que o recém-nascido mais frágil. Desempenhava a sua função com uma responsabilidade séria e feroz.

 

Helene olhava para os pequenos frascos no laboratório (e conhecendo os pais e por vezes os irmãos), na sua mente conseguia visualizar as crianças que um dia poderiam nascer. Amava-as a todas, mas havia uma criança que ela amava acima de todas e cujo lindo semblante com o seu sorriso doce lhe lembrava o marido que perdera quando ainda era uma jovem mulher.

 

O julgamento de Baxter, o corretor da Bolsa, cuja acusação era devida a trocas comerciais internas, decorreu no tribunal da Centre Sreet. Flanqueado pelos seus dois advogados, o acusado, impecavelmente vestido, declarou-se inocente, a sua voz firme sugerindo autoridade na sala de audiências. Steve era novamente o operador de câmara de Meg.

 

Mas que artista vigarista. Quase que preferia voltar a Connecticut para estar com os Munchkins.

 

Escrevi um memorando e deixei-o para Tom, em relação a uma reportagem acerca daquela clínica. Esta tarde, vou propor-lhe isso disse Meghan.

 

Steve piscou o olho.

 

Se eu alguma vez tiver filhos, espero tê-los da velha maneira tradicional, se percebes o que eu quero dizer.

 

Ela sorriu ligeiramente.

 

Sei o que queres dizer.

 

Às quatro horas, Meghan estava de novo no escritório de Tom.

 

Meghan, deixa-me ver se entendo isto correctamente. Queres dizer que esta mulher está prestes a dar à luz o gémeo idêntico do seu filho de três anos?

 

É exactamente o que eu quero dizer. Esse tipo de nascimento dividido já foi realizado em Inglaterra, mas por cá é novidade. Para mais, neste caso, a mãe é bastante interessante. Diná Anderson é vice-presidente de um Banco, uma mulher muito atraente e bem-falante e, obviamente, uma mãe bestial. E o de três anos é um amor.

 

Outro aspecto é que muitos estudos demonstram que gémeos idênticos, mesmo quando separados à nascença, crescem com gostos idênticos. Pode ser estranho. Eles podem casar com pessoas com o mesmo nome, chamar os seus filhos pelos mesmos nomes, decorar as suas casas com as mesmas cores, usar o mesmo tipo de penteado, escolher as mesmas roupas. Seria interessante saber como se modificaria o relacionamento se um gémeo for significativamente mais velho do que o outro.

 

Pensa nisso concluiu ela. Só passaram 15 anos depois do milagre do primeiro bebé proveta, e agora existem milhares deles. Todos os dias, surgem mais inovações nos métodos da reprodução assistida. Creio que segmentos contínuos dos novos métodos, bem como actualizações acerca dos gémeos Anderson, podiam dar uma reportagem espectacular.

 

Ela falava ansiosamente, aquecendo ao ouvir os seus próprios argumentos. Tom Weicker não era fácil de convencer.

 

Que certezas tem a Sr.a Anderson de que está à espera do gémeo idêntico?

 

Tem a certeza absoluta. Os embriões criogenicamente preservados encontram-se em tubos individuais, marcados com o nome da mãe, número da Segurança Social e data do nascimento dela. Depois de o embrião de Jonathan ter sido transferido, os Andersons tinham dois embriões, o seu gémeo idêntico e um outro. O tubo com o seu gémeo idêntico foi especialmente etiquetado.

 

Tom levantou-se da secretária e espreguiçou-se. Tirara o casaco, desapertara a gravata e abrira o botão do colarinho. O efeito servia para suavizar o seu exterior habitualmente severo. Avançou até à janela, olhou para baixo para o contínuo rugido do trânsito na Rua Oeste Cinquenta e Seis e depois virou-se repentinamente.

 

Gostei do que tu fizeste ontem na reunião com o Manning. Tivemos uma boa reacção. Vai em frente com isso.

 

Ele estava a dar-lhe permissão para a reportagem! Meghan acenou com a cabeça, lembrando-se de que o entusiasmo estava fora de questão. Tom regressou para a secretária.

 

Meghan, olha para isto. É um esboço de artista da mulher que foi esfaqueada na quinta à noite. Entregou-lhe o desenho.

 

Apesar de ela ter visto a vítima, a boca de Meghan secou quando olhou para o esboço. Leu os dados: branca, cabelo castanho-escuro, olhos azuis-esverdeados, 1,60 m, figura esbelta, 58 kg, entre 24 a

28 anos de idade. Bastava acrescentar um centímetro à sua altura e tinham a sua própria descrição.

 

Se aquele fax «erro» estivesse à altura e indicasse que eras tu a vítima pretendida, torna-se bastante claro por que é que esta rapariga está morta comentou Weicker. Ela pertencia a este bairro e a parecença contigo é espantosa.

 

Eu simplesmente não compreendo. Nem entendo como é que ela obteve aquele pedaço de papel com a letra do meu pai.

 

Falei novamente com o tenente Story. Ambos concordámos que até o assassino ser encontrado seria melhor tirar-te dos furos jornalísticos, só para o caso de haver algum tipo de tarado a tentar caçar-te.

 

Mas, Tom... protestou ela. Ele interrompeu-a.

 

Meghan, concentra-te naquela reportagem. Pode tornar-se numa espetacular história de interesse humano. Se resultar, faremos segmentos futuros sobre aqueles miúdos. Mas, por ora, estás fora dos furos jornalísticos. Mantém-me informado. Estalou os dedos enquanto se sentava e abria uma gaveta da secretária, díspensando-a claramente.

 

Na tarde de segunda, a Clínica Manning já se refizera da excitação da reunião do fim-de-semana. Todos os vestígios da festa tinham desaparecido e a área de recepção regressara à sua habitual elegância calma.

 

Um casal na faixa etária dos trinta desfolhava revistas enquanto aguardavam a sua primeira consulta. Marge Walters, a recepcionista, olhou para eles com simpatia. Ela não tivera qualquer problema em ter três filhos, logo nos primeiros três anos do seu casamento. Do outro lado da sala, uma mulher na casa dos vinte e obviamente nervosa, segurava a mão do marido. Marge sabia que a mulher mais nova tinha uma consulta para lhe serem implantados os embriões no útero. Doze dos seus óvulos tinham sido fertilizados no laboratório. Três seriam implantados, na esperança que um pudesse resultar numa gravidez. Por vezes, desenvolvia-se mais de um embrião, conduzindo a um nascimento múltiplo.

 

«Isso seria uma bênção, não um problema», assegurara a jovem a Marge quando se inscreveu. Os outros nove embriões seriam criogenicamente preservados. Se uma gravidez não resultasse desta vez, a mulher jovem voltaria e ser-lhe-iam implantados mais uns quantos daqueles embriões.

 

O Dr. Manning marcara uma inesperada reunião de equipa para a hora do almoço. Inconscientemente, Marge passou os dedos através do cabelo louro e curto. O Dr. Manning dissera-lhes que o Canal 3 PCD ia fazer um especial de televisão sobre a clínica e relacioná-lo com o nascimento iminente do gémeo idêntico de Jonathan Anderson. Pediu que fosse dada a Meghan Collins toda a cooperação, respeitando, é claro, a privacidade dos clientes. Apenas os clientes que aceitassem por escrito poderiam ser entrevistados.

 

Marge tinha esperança de poder aparecer no especial. Os seus rapazes haviam de gostar tanto disso.

 

À direita da sua secretária, encontravam-se os escritórios do pessoal mais antigo. A porta que conduzia a esses escritórios abriu-se e uma das secretárias novas saiu, com um passo apressado. Parou junto à secretária de Marge o tempo suficiente para sussurrar:

 

Passa-se alguma coisa. A Dr.a Petrovic acabou de sair do escritório do Manning. Ela está muito aborrecida e, quando eu entrei, ele parecia estar prestes a ter um ataque cardíaco.

 

Que achas que se está a passar? perguntou Marge.

 

Eu não sei, mas ela está a arrumar a secretária. Será que ela se despediu, ou será que foi despedida?

 

Eu não consigo imaginá-la a deixar este sítio por sua livre vontade respondeu Marge, incrédula. Aquele laboratório é toda a sua vida.

 

Na segunda à noite, quando Meghan foi buscar o seu carro, Bernie dissera:

 

Até amanhã, Meghan.

 

Ela informara-o de que não viria ao escritório durante algum tempo, pois estaria a tratar de uma tarefa em Connecticut. Dizer aquilo a Bernie fora fácil, mas enquanto conduzia para casa, lutava com o problema de como explicar à mãe que fora deslocada da equipa das notícias logo depois de ter conseguido o trabalho.

 

Teria simplesmente de dizer que a estação queria que a reportagem fosse rapidamente terminada, devido ao nascimento iminente do bebé Anderson. «A mãe já está suficientemente preocupada sem ter de se preocupar com o facto de eu poder vir a ser a hipotética vítima de um assassinato», pensou Meghan, «e ficaria de rastos se tivesse conhecimento do pedaço de papel com a letra do pai.»

 

Saiu pela Interestatal 84 em direcção ao Itinerário 7. Algumas árvores ainda tinham folhas, apesar das cores vivas de meados de Outubro já se terem desvanecido. «O Outono sempre foi a sua estação favorita», reflectiu ela. Mas não este ano.

 

Uma parte do seu cérebro, a parte prática, aquela que separava a emoção da evidência, insistia para que ela começasse a considerar todas as formas eventuais de como aquele papel com o seu nome e número de telefone poderia ter ido parar ao bolso da mulher morta. «Não é desleal examinar todas as possibilidades», disse a si mesma firmemente. «Um bom advogado de defesa também deve sempre ver o caso através dos olhos do advogado de acusação.»

 

A mãe passara revista a todos os papéis que se encontravam no cofre de parede em casa. Mas ela sabia que a mãe não examinara o conteúdo da secretária do gabinete do pai. Era altura de o fazer.

 

Ela esperava ter tratado de tudo na sala do Departamento de Notícias. Antes de sair, Meg fizera a Bill Evans, o seu colega da filial de Chicago, uma lista do trabalho que tinha entre mãos, já que seria este que a substituiria na equipa de notícias enquanto estava a decorrer a investigação do assassínio.

 

O seu compromisso com o Dr. Manning fora marcado para o dia seguinte às onze horas. Ela perguntara-lhe se podia passar por uma sessão inicial de informação e aconselhamento, como se ela própria fosse uma nova cliente. Durante uma noite de insónia, lembrara-se de outra coisa. Seria um toque agradável obter em imagem Jonathan Anderson a ajudar a sua mãe a preparar-se para o bebé. Pensou se os Anderson teriam alguns vídeos caseiros de Jonathan como recém-nascido.

 

Quando ela chegou a casa, esta estava vazia. O que só podia significar que a mãe estava na pousada. «Óptimo», pensou Meghan. «É o melhor local para ela.» Preparou a máquina do fax que lhe tinham emprestado no escritório e ligou-a à segunda ficha no gabinete do pai. «Pelo menos, não serei acordada a meio da noite por mensagens malucas», pensou, enquanto fechava e trancava a porta, e começava a acender as luzes, face à escuridão que rapidamente se avizinhava.

 

Meghan suspirou inconscientemente enquanto andava pela casa. Sempre adorara aquele lugar. Os quartos não eram grandes. A queixa favorita da mãe era que as quintas pareciam sempre maiores do lado exterior do que o eram no interior.

 

«Este local é uma ilusão óptica», lamentava-se ela. Mas aos olhos de Meghan, a intimidade dos quartos concedia-lhes um certo encanto. Gostava da sensação do chão ligeiramente desigual com as suas tábuas amplas, a aparência das lareiras e das portas envidraçadas, e os armários de canto da sala de jantar. Aos seus olhos, eram eles o cenário perfeito para a antiga mobília de plátano com a sua adorável patine quente, a tapeçaria extremamente confortável, os tapetes coloridos e feitos à mão.

 

«O pai ausentava-se tantas vezes», pensou ela, enquanto abria a porta do escritório, o qual tanto ela como a mãe tinham evitado desde a noite do acidente na ponte. «Mas tu sempre soubeste que ele haveria de regressar e ele era tão engraçado.»

 

Acendeu o candeeiro da secretária e sentou-se na cadeira giratória. Esta sala era a mais pequena do primeiro andar. Duas estantes de livros estavam dispostas de cada lado da lareira. A cadeira favorita do pai, de cabedal castanho com uma almofada da mesma cor, tinha um candeeiro de pé alto perto de um dos lados e uma mesa pequena do outro lado.

 

A mesa, tal como a camilha, sustinham grupos de fotografias de família: o retrato de casamento da mãe e do pai; Meghan quando bebé; eles os três enquanto ela crescera; o velho Pat, rebentando de orgulho frente à Pousada Drumdoe. «Recordações de uma família feliz», pensou Meghan, percorrendo com o olhar um grupo de fotografias emolduradas.

 

Levantou a fotografia da mãe do seu pai, Aurelia. Esta fora tirada no início dos anos 30 quando ela tinha 24 anos e mostrava claramente que esta fora uma bonita mulher. Cabelo espesso e ondulado, grandes olhos expressivos, cara oval, pescoço esguio, peles de zibelina sobre o fato. A sua expressão tinha um olhar sonhador, olhar esse que era o favorito dos fotógrafos da altura.

 

«Eu tinha a mãe mais bonita da Pensilvânia», costumava dizer o pai, acrescentando em seguida: «E agora tenho a filha mais bonita de Connecticut. Tu és parecida com ela.»

 

A sua mãe morrera quando ele era ainda um bebé.

 

Meghan não se lembrava de ter visto uma única fotografia de Richard Collins.

 

«Nunca nos entendemos», dissera-lhe o pai, sucintamente. «Quanto menos o vir melhor.»

 

O telefone tocou. Era Virginia Murphy, o braço direito da sua mãe na pousada.

 

Catherine queria que eu verificasse se estava em casa e se queria vir cá jantar.

 

Como é que ela está, Virginia? perguntou Meghan.

 

Ela está sempre bem quando está aqui, e temos muitas reservas para hoje à noite. O Sr. Cárter vem às sete. Ele quer que a sua mãe lhe faça companhia.

 

«Humm», pensou Meghan. Ela sempre suspeitara que Phillip Cárter estava a desenvolver uma paixoneta por Catherine Collins.

 

Pode dizer à minha mãe que amanhã tenho uma entrevista em Kent e que preciso de fazer alguma pesquisa? Eu arranjo qualquer coisa por aqui.

 

Assim que desligou, retirou resolutamente a sua pasta e arrancou dela todos os jornais e revistas sobre histórias de interesse humano relacionadas com a fertilização in vitro, que um pesquisador da estação reunira para ela. Franziu o nariz ao encontrar diversos casos sobre uma clínica que fora processada, porque os testes tinham revelado que o marido da parturiente não era o pai biológico da criança.

 

Esse é um erro muito grave para se cometer disse ela em voz alta, e decidiu que era um ângulo que deveria ser focado num dos segmentos da reportagem.

 

Às oito horas, preparou uma sanduíche e um bule de chá e levou-os para o gabinete. Comeu enquanto tentava absorver o material técnico que Mac lhe dera. Era, decidiu ela, uma questão bombástica nos procedimentos de reprodução assistida. O clique da fechadura, um pouco depois das dez horas, significava que a mãe regressara a casa.

 

Olá, estou aqui gritou Meghan. Catherine Collins apressou-se para a sala.

 

Meggie, estás bem?

 

Claro. Porquê?

 

Agora mesmo, enquanto subia a calçada, senti uma sensação estranha em relação a ti, senti que alguma coisa estava mal, quase como um pressentimento.

 

Meghan esforçou-se por rir, levantou-se rapidamente e abraçou a mãe.

 

Havia algo de mal disse ela. Tenho estado a tentar absorver os mistérios do ADN e, acredita-me, é duro. Sei agora porque é que a irmã Elizabeth me disse que eu não tinha cabeça para a ciência.

 

Ficou aliviada ao constatar que a tensão diminuía na cara da mãe.

 

À meia-noite, Helene Petrovic engolia nervosamente, enquanto arrumava a última das suas malas. Só deixou de fora os artigos de higiene pessoal e as roupas que vestiria de manhã. Estava ansiosa para acabar com tudo. Tornara-se tão nervosa ultimamente. Era demasiada tensão, decidiu ela. Era altura de lhe pôr um final.

 

Levantou a mala da cama e colocou-a ao pé das outras. Do vestíbulo, chegou-lhe o som desvanecido de uma fechadura a rodar. Colocou uma mão contra a boca para abafar um grito. Não era suposto ele vir hoje à noite. Virou-se para o encarar.

 

Helene? a sua voz era amável. Não tencionavas despedir-te?

 

Eu... eu ia escrever-te.

 

Agora, já não será necessário.

 

Ele meteu a mão direita dentro do bolso. Ela viu o metal brilhar. Depois, ele levantou uma das almofadas da cama e segurou-a à sua frente. Helene nem teve tempo para tentar fugir. Uma dor fulminante explodiu na sua cabeça. O futuro que ela planeara tão cuidadosamente desaparecera com ela na escuridão.

 

Às quatro da manhã, a campainha do telefone arrancou Meghan do seu sono. Procurou o auscultador às apalpadelas.

 

Meg murmurou uma voz rouca e pouco clara.

 

Quem fala? Ela ouviu um clique e soube que a mãe estava a ouvir na extensão.

 

É o paizinho, Meg. Estou em apuros. Fiz algo terrível.

 

Um gemido estrangulado fez com que Meg largasse o auscultador e corresse para o quarto da mãe. Catherine Collins estava afundada sobre uma almofada, a sua face cor de cinza, os seus olhos fechados. Meg agarrou-lhe nos braços.

 

Mãe, é um tarado qualquer disse, apressadamente. Mãe! A sua mãe estava inconsciente.

 

Às sete e meia de terça de manhã, Mac observava o seu activo filho saltar para o autocarro da escola. Depois, entrou para o seu carro para se dirigir para Westport. Fazia um frio de rachar e os seus óculos começavam a embaciar-se. Ele tirou-os, deu-lhes uma esfregadela rápida e quase instantaneamente desejou ser um dos felizes utilizadores de lentes de contacto, cujas caras sorridentes o repreendiam dos seus cartazes, sempre que ele se dirigia ao oculista para ajustar ou substituir os óculos.

 

Quando fazia a curva da estrada, ficou espantado ao ver o Mustang branco de Meg, preparando-se para virar para a rampa da sua casa. Ele buzinou e ela travou.

 

Ele encostou ao lado dela. Em uníssono, baixaram as janelas. O seu jovial: «Que andas a fazer?», morreu-lhe nos lábios quando olhou atentamente para Meghan. A sua cara estava tensa e pálida, o seu cabelo despenteado e a parte de cima de um pijama às riscas era visível entre as lapelas da sua gabardina.

 

Meg, que se passa? perguntou ele.

 

A minha mãe está no hospital disse ela, inexpressivamente. Um carro aproximava-se por detrás dela.

 

Vai em frente disse ele. Eu sigo-te.

 

Na rampa, ele apressou-se a abrir a porta do carro a Meghan. Ela parecia distante. «Quão mal estará a Catherine?», pensou Mac, preocupado. Na varanda, tirou a chave de casa de Meghan da sua mão.

 

Vá, deixa-me fazer isso.

 

No vestíbulo, colocou as mãos sobre os seus ombros.

 

Conta-me.

 

Ao princípio, pensaram que era um ataque cardíaco. Felizmente, estavam enganados, mas há a possibilidade de que ela esteja a caminho de um. Está sob medicação para o evitar. Vai ficar no hospital, pelo menos, uma semana. Eles perguntaram, ouve bem isto, se ela esteve sujeita a alguma pressão uma gargalhada incerta transformou-se num soluço abafado. Ela engoliu em seco e tentou recompor-se. Estou bem, Mac. Os exames mostraram que não há danos a nível do coração, por agora. Está exausta, doente do coração, preocupada. Descanso e alguns sedativos é o que ela precisa.

 

Eu concordo. Também não te haviam de fazer mal. Vem. Estás a precisar de uma chávena de café. ^

 

Ela seguiu-o até à cozinha.

 

Eu faço.

 

Senta-te. Não queres tirar o casaco?

 

Ainda tenho frio tentou sorrir. Como é que se pode sair num dia como este sem um casaco?

 

Mac olhou de relance para o seu casaco cinzento de tweed.

 

O meu sobretudo tem um botão solto. Não consigo encontrar o meu estojo de costura.

 

Quando o café estava pronto, ele serviu uma chávena a cada um e sentou-se à mesa do lado oposto ao dela.

 

Suponho que com a Catherine no hospital venhas para cá dormir durante algum tempo.

 

Era o que ia fazer, de qualquer maneira calmamente, contou-lhe tudo o que acontecera com a vítima que se parecia tanto com ela, a nota que fora encontrada no seu bolso, o fax a meio da noite. E assim explicou, a estação quer-me longe da linha de fogo por agora e o meu patrão deu-me a reportagem sobre a Clínica Manning. E, depois, esta madrugada o telefone tocou e... contou-lhe acerca da chamada telefónica e do colapso da mãe.

 

Mac esperava que o choque que sentia não transparecesse na sua cara. Certo que Kyle estivera a jantar com eles no domingo à noite. Ela podia não ter querido dizer nada em frente dele. Mesmo assim, Meg nem sequer demonstrara que três dias antes vira uma mulher assassinada que podia ter morrido em vez dela.

 

Também escolhera não confiar em Mac acerca da decisão da seguradora.

 

Desde a altura em que ela tinha apenas dez anos e ele era um estudante do segundo ano da faculdade que trabalhava aos fins-de-semana na pousada, que sempre fora o confidente dos seus segredos, sabendo de tudo, desde as saudades que sentia do pai quando este estava ausente até ao quanto odiava ter de praticar piano.

 

O ano e meio que durara o casamento de Mac fora a única altura em que ele não vira, regularmente, os Collins. Vivia ali desde o divórcio, há quase sete anos, e acreditava que tanto ele como Meg tinham regressado à base de irmão-pequena irmã. «Tenta adivinhar de novo», pensou ele.

 

Meghan estava agora silenciosa, absorvida pelos seus próprios pensamentos e, claramente, que nem procurava nem esperava qualquer ajuda ou conselho da sua parte. Ele lembrava-se da observação de Kyle: Pensava que tu eras minha amiga. A mulher que Kyle vira a passar de carro pela casa na quarta-feira, a qual ele pensava ter sido Meghan. Seria possível que fosse ela a mulher que morrera um dia depois?

 

Mac decidiu não discutir isso com Meghan até questionar primeiro Kyle e ter tido uma oportunidade para pensar. Mas tinha de lhe perguntar outra coisa.

 

Meg, desculpa-me, mas existe alguma hipótese, por muito remota que seja, que tenha sido o teu pai a telefonar esta manhã?

 

Não, não. Eu conheceria a sua voz. E a minha mãe também. A que ouvimos era surrealista, não tão má quanto uma voz de computador, mas não era a correcta.

 

Ele disse que estava em apuros. -Sim.

 

E a nota no bolso da vítima esfaqueada tinha a letra dele.

- Sim.

 

O teu pai alguma vez mencionou alguém chamado Annie? Meghan olhou espantada para Mac.

 

Annie! Ela conseguia ouvir o seu pai a gozar com ela enquanto dizia: Meg... Meggie... Meghan Anne... Annie...

 

«Annie era sempre o nome carinhoso que ele me dava», pensou, aterrorizada.

 

Na terça de manhã, das janelas da frente da sua casa em Scottsdale no Arizona, Francês Grolier podia ver o primeiro vislumbre de luz que começava a delinear as montanhas McDowell, luz que ela sabia que se havia de tornar forte e brilhante, modificando constantemente os matizes, os tons e as cores reflectidos naqueles maciços de rocha.

 

Ela virou-se e atravessou o amplo quarto até às janelas das traseiras. A casa chegava à vasta reserva dos índios Pima e oferecia uma vista do deserto primitivo, persistente e aberto, orlado pela montanha Camelback; tanto o deserto como a montanha estavam nesse momento misteriosamente iluminados pelo brilho sombrio e rosa que precedia o amanhecer.

 

Aos 56 anos, Francês conseguira de certa forma reter uma estranha qualidade, que se adaptava à sua cara magra. Uma espessa massa de cabelo castanho que começava a embranquecer e olhos grandes e envolventes. Nunca se preocupara em suavizar com maquilhagem as linhas profundas que lhe rodeavam os olhos e a boca. Alta e ágil, sentia-se mais confortável de calças compridas e túnicas soltas. Evitava a publicidade pessoal, mas o seu trabalho como escultora era conhecido nos círculos de arte, especialmente, pela forma como moldava caras. A sensibilidade com a qual captava as expressões por debaixo da superfície era a marca pessoal do seu talento.

 

Já há muito tempo que tomara uma decisão e mantivera-se fiel a esta sem se arrepender. O seu estilo de vida combinava consigo. Mas agora...

 

Ela não esperara que Annie compreendesse. Devia ter mantido a sua palavra e não lhe ter contado nada. Annie escutara a sua dolorosa explicação, os seus olhos bem abertos e exprimindo choque. Depois, atravessara a sala e derrubara deliberadamente o pedestal onde se encontrava o busto de bronze.

 

Com o grito horrorizado de Francês, Annie apressara-se a sair de casa, metera-se no carro e partira. Naquela tarde, Francês tentara contactar a filha no seu apartamento em San Diego. O atendedor de chamadas estava ligado. Todos os dias da semana anterior telefonara e fora sempre atendida pela máquina. Era mesmo de Annie desaparecer para local desconhecido. No ano anterior, depois de ter rompido o relacionamento com Greg, apanhara um avião para a Austrália e deambulara de mochila às costas durante seis meses.

 

Com dedos que pareciam ser incapazes de obedecer aos sinais do seu cérebro, Francês continuou com a restauração cuidadosa do busto que fizera do pai de Annie.

 

Às duas horas da tarde de terça e assim que entrou no seu gabinete, Meghan sentiu a mudança de atitude do Dr. George Manning. No domingo, quando fizera a cobertura da reunião, ele fora expansivo, cooperante, orgulhoso por apresentar as crianças e a clínica. No dia anterior, ao telefone, quando ela marcara a reunião, ele mostrara-se claramente entusiasta. Hoje, mostrava cada dia que passara dos seus setenta anos. A saudável compleição rosada que ela notara anteriormente fora substituída por uma palidez cinza. A mão que ele lhe estendia tremia ligeiramente.

 

Nessa manhã, antes de partir para Westport, Mac insistira para que ela telefonasse para o hospital e verificasse como estava a mãe. Fora-lhe dito que a Sr.a Collins estava a dormir e que a sua tensão arterial melhorara significativamente e apresentava agora níveis normais.

 

Mac. Que vira ela nos seus olhos quando ele se despedira? Ele roçara ao de leve a sua face, com o seu habitual beijo ligeiro, mas os seus olhos continham outra mensagem. Pena? Ela não a queria.

 

Deitara-se durante algumas horas, sem dormir mas passando ligeiramente pelo sono, diminuindo parte da dormência dos seus olhos pesados. Depois, tomara um duche, um duche demorado e quente, que retirou parte da dor que sentia nos ombros. Vestira, de seguida, um fato verde-escuro com um casaco feito à medida e uma saia que lhe chegava aos tornozelos. Queria aparecer com a melhor aparência possível. Reparara que os adultos na reunião da Clínica Manning estavam todos bem vestidos, concluindo de seguida que pessoas que podiam dar-se ao luxo de gastarem entre dez e vinte mil dólares numa tentativa para ter um bebé, tinham fartos rendimentos.

 

Na empresa da Park Avenue, onde ela exercera Direito, uma das políticas da casa era não permitir o vestuário casual. Como jornalista de rádio e agora de televisão, Meghan observara que as pessoas que eram entrevistadas sentiam-se mais expansivas quando se identificavam com o entrevistador.

 

Ela queria que, subconscientemente, o Dr. Manning pensasse e falasse com ela como se ela fosse uma cliente em perspectiva. Agora, em pé à sua frente e estudando-o, ela apercebeu-se de que ele a olhava da mesma forma que um condenado olharia para o juiz que o sentenciara. Medo era a emoção que emanava dele. Mas por que teria o Dr. Manning medo dela?

 

Estou mais ansiosa para fazer este especial do que lhe consigo dizer começou, enquanto se sentava na cadeira do lado oposto da secretária. Eu...

 

Ele interrompeu-a.

 

Menina Collins, receio não podermos colaborar em nenhuma reportagem de televisão. Os funcionários e eu tivemos uma reunião e a sensação é que muitos dos nossos clientes se sentiriam desconfortáveis se vissem as câmaras de televisão por aqui.

 

Mas o senhor estava satisfeito quando estivemos cá no domingo passado.

 

As pessoas que aqui estiveram no domingo têm crianças. As mulheres que são recém-chegadas ou aquelas que não obtiveram uma gravidez de sucesso, estão frequentemente ansiosas e deprimidas. A reprodução assistida é uma questão muito pessoal. A sua voz era firme, mas os seus olhos traíam o seu nervosismo. «Em relação a quê?», pensou ela.

 

Quando falámos ao telefone continuou ela, concordámos que ninguém seria entrevistado ou filmado pela câmara, se não estivesse disposto a informar que era um dos clientes da clínica.

 

Menina Collins, a resposta é não e agora receio ter de me despedir, já que sou aguardado numa reunião. E levantou-se. Meghan não teve outra escolha senão levantar-se.

 

Que aconteceu, doutor? perguntou ela, cuidadosamente. Deve saber que estou consciente de que se deve passar algo mais para esta súbita mudança do que apenas a sua recente preocupação pelos seus clientes.

 

Ele não respondeu. Meghan saiu do escritório e avançou ao longo do corredor até à recepção. Sorriu calorosamente à recepcionista e olhou de relance para o nome da placa na secretária.

 

Sr.a Walters, tenho uma amiga que estaria muito interessada em qualquer tipo de literatura que eu lhe possa dar acerca da clínica.

 

Marge Walters parecia intrigada.

 

Suponho que o Dr. Manning se esqueceu de lhe dar todas as informações que pediu à secretária que reunisse para si. Deixe-me chamá-la. Ela entregÁ-las-á.

 

Se puder disse Meghan. O doutor estava disposto a colaborar com a história que eu tinha planeado.

 

É claro. O pessoal adora a ideia. É boa publicidade para a clínica. Deixe-me chamar a Jane.

 

Meghan fez figas, esperando que o Dr. Manning não tivesse informado a sua secretária da sua decisão de se recusar a estar envolvido na reportagem especial. Depois, enquanto ela a observava, a expressão de Walters alterou-se de um sorriso para um franzir intrigado. Quando pousou o auscultador, a sua atitude aberta e amigável tinha desaparecido.

 

Menina Collins, acho que sabe que eu não devia ter pedido o dossier à secretária do Dr. Manning.

 

Eu só estou a pedir qualquer tipo de informação que uma nova cliente poderia pedir disse Meghan.

 

É melhor tratar disso com o Dr. Manning hesitou. Eu não quero ser mal educada, Menina Collins, mas trabalho aqui. E recebo ordens.

 

Era óbvio que não iria receber qualquer ajuda da parte dela. Meghan virou-se para se ir embora e depois parou.

 

Pode dizer-me só isto? Existia muita preocupação por parte do pessoal em relação à reportagem? Quero dizer, foi toda a gente ou apenas alguns que se opuseram na reunião?

 

Ela podia ver o conflito na outra mulher. Marge Walters estava a rebentar com curiosidade. A curiosidade venceu.

 

Menina Collins sussurrou, ontem, por volta do meio-dia, tivemos uma reunião de pessoal e toda a gente aplaudiu as novidades de que você iria fazer um especial. Estivemos a brincar acerca de quem iria aparecer na filmagem. Não consigo imaginar por que motivo o Dr. Manning mudou de ideias.

 

Mac achava o seu trabalho no Laboratório de Pesquisa de Código Genético (onde era especialista em terapia genética), recompensante, satisfatório e completamente absorvente.

 

Depois de ter deixado Meghan, conduziu em direcção ao laboratório e iniciou imediatamente o seu dia de trabalho. Contudo, enquanto o dia avançava, admitiu para si próprio que estava com dificuldade em se concentrar. Uma aborrecida sensação de apreensão parecia estar a paralisar-lhe o cérebro penetrando no seu corpo, de tal forma que os seus dedos (os quais lidavam com o equipamento mais delicado como se fosse a sua segunda natureza), se sentiam pesados e desastrados. Almoçou na sua secretária e, enquanto comia, tentou analisar o medo tangível que o estava a arrebatar. Telefonou para o hospital e informaram-no de que a Sr.a Collins fora transferida da unidade de Cuidados Intensivos para a secção de Cardiologia. Ela estava a dormir e não lhe eram passadas chamadas telefónicas.

 

«São só boas notícias», pensou Mac. A secção de Cardiologia era, muito possivelmente, apenas uma precaução. Ele sentia que Catherine estava bem e que o descanso reforçado lhe faria bem.

 

Era a sua preocupação com Meghan que lhe causava este desconforto cego. Quem é que a estaria a ameaçar? Mesmo que o inacreditável fosse real e Ed Collins ainda estivesse vivo, certamente que o perigo não surgia da sua parte.

 

Não, a sua preocupação referia-se à vítima que se parecia com Meghan. Quando deitou fora a metade inacabada da sua sanduíche e bebeu o resto do café frio, Mac sabia que não conseguiria descansar até ir à morgue de Nova Iorque para ver o corpo daquela mulher.

 

Naquela tarde, parando no hospital enquanto se dirigia para casa, Mac visitou Catherine, a qual estava claramente sob o efeito de sedativos. O seu discurso era vincadamente mais lento do que a sua habitual conversa espirituosa.

 

Isto não é uma parvoíce, Mac? perguntou ela. Ele puxou uma cadeira.

 

Até as robustas irmãs de Erin têm autorização para sair de vez em quando, Catherine.

 

O seu sorriso era de reconhecimento.

 

Acho que tenho andado um pouco com os nervos à flor da pele. Suponho que sabes de tudo.

 

- Sim.

 

A Meggie acabou de sair. Vai para a pousada. Mac, aquele novo cozinheiro que eu contratei! Juraria que a experiência dele se resume a uma espelunca de take-away. Vou ter de me livrar dele! A cara dela ensombrou-se. Isto é, se eu conseguir manter a Drumdoe.

 

Acho que é melhor pôr de lado esse tipo de preocupações, pelo menos, durante algum tempo.

 

Ela suspirou.

 

Eu sei. É que eu posso fazer alguma coisa quanto a um mau cozinheiro. Mas não consigo fazer nada quanto a seguradoras que não pagam e malucos que telefonam a meio da noite. A Meg disse que aquele tipo de chamada doentia é o reflexo dos tempos, mas é tão miserável e perturbante. Ela está a fingir que não é nada, mas podes perceber por que é que eu estou preocupada.

 

Confie na Meg. Mac sentiu-se hipócrita enquanto tentava parecer confiante.

 

Alguns minutos depois, levantou-se para se ir embora. Beijou a testa de Catherine. O sorriso dela tinha um toque de jovialidade.

 

Tenho uma grande ideia. Quando eu despedir o cozinheiro, vou enviá-lo para este lugar. Comparado com aquilo que me serviram para o jantar, ele pode ser considerado um Escoffier.

 

Marie Dileo, a empregada doméstica, estava a pôr a mesa quando Mac chegou a casa, e Kyle estava estendido no chão a fazer os trabalhos de casa. Mac puxou Kyle para cima do sofá, sentando-o ao seu lado.

 

Eia, companheiro, diz-me uma coisa. No outro dia, até que ponto é que tu viste a mulher que pensaste ser a Meghan?

 

Bastante bem respondeu Kyle. A Meg passou por cá esta tarde.

 

-Foi?

 

Sim. Ela queria saber por que é que eu estava zangado com ela.

 

E tu disseste-lhe?

 

Hum-hum.

 

Que é que ela disse?

 

Oh, disse só que na quarta-feira à tarde estava no tribunal e que por vezes, quando as pessoas estão na televisão, outras pessoas gostam de ver onde elas vivem. Essas coisas. Tal como tu, ela perguntou se eu vi bem aquela outra senhora. E eu disse-lhe que ela passou muito, muito devagar. É por isso que quando eu a vi, corri pela rampa e a chamei. E ela parou o carro, olhou para mim, depois desceu o vidro da janela e depois foi-se, simplesmente, embora.

 

Não me disseste isso tudo.

 

Eu disse que ela me tinha visto e que depois se afastou rapidamente.

 

Não me disseste que ela parou e desceu o vidro, meu.

 

Hum, hum. Eu pensei que ela era a Meg. Mas o cabelo dela era mais comprido. Também contei isso à Meghan. Sabes, chegava-lhe aos ombros. Como aquela fotografia da mamã.

 

Ginger enviara a Kyle uma das suas recentes imagens publicitárias, uma fotografia da sua cara com o seu cabelo louro caindo-lhe sobre os ombros, os seus lábios afastados, revelando dentes perfeitos e os seus olhos grandes e sensuais. Num dos cantos, escrevera: «Para o meu querido pequeno Kyle, Amor e beijos, mamã.» «Uma fotografia publicitária», pensara Mac com nojo. Se ele tivesse estado em casa quando aquilo chegara, Kyle nunca a teria visto.

 

Depois de ter parado para ver Kyle, de visitar a mãe e de verificar se estava tudo em ordem na pousada, Meghan chegou a casa às sete e meia. Virginia insistira para que ela levasse o jantar para casa, uma tarte de galinha, salada e pastéis quentes e salgados que Meghan adorava.

 

És tão má quanto a tua mãe exagerara VirgÍnia. Vais-te esquecer de comer.

 

«Provavelmente, esquecer-me-ia», pensou Meghan enquanto se trocava, rapidamente, vestindo um pijama velho e um robe. Esta forma de se vestir datava dos dias da faculdade e continuava a ser a sua roupa favorita para uma noite sossegada de leitura ou para ver televisão.

 

Na cozinha, beberricara um copo de vinho e petiscara um dos pastéis salgados, enquanto o forno micro-ondas alterava automaticamente a temperatura de tartes para alimentos cozinhados a vapor.

 

Quando a tarte ficou pronta, ela levou-a num tabuleiro para o escritório e sentou-se na cadeira giratória do pai. No dia seguinte, começaria a investigar a história da Clínica Manning. Os investigadores da estação de televisão podiam rapidamente arranjar toda a informação acerca desta. «E sobre o Dr. Manning», pensou ela. «Eu gostaria de saber se existem alguns esqueletos no seu armário», disse para si mesma.

 

Contudo, nessa noite, tinha um projecto diferente em mente. Tinha mesmo de encontrar qualquer pedaço de prova que servisse de ligação entre o pai e a mulher morta, que se parecia com ela, a mulher cujo nome podia ser Annie.

 

Uma suspeita insinuara-se na sua mente, uma suspeita tão incrível que ela ainda nem a conseguia considerar. Só sabia que era absolutamente essencial examinar até ao fim todos os papéis pessoais do pai, imediatamente.

 

As gavetas da secretária estavam impecáveis, o que não era inesperado. Edwin Collins fora um metódico inato. Papel para escrever, envelopes e selos estavam colocados com precisão na gaveta lateral. O seu calendário diário estava totalmente preenchido no mês de Janeiro e início de Fevereiro. Depois desses, apenas datas dispersas. O aniversário da mãe. O dela. A excursão de Primavera do clube de golfe. Um cruzeiro que os pais dela tinham planeado fazer, para celebrar o seu trigésimo aniversário de casamento, em Junho.

 

«Por que haveria alguém que estivesse a planear desaparecer marcar antecipadamente no seu calendário as datas importantes, nos respectivos meses?», pensou. Isso não fazia qualquer sentido.

 

Os dias em que ele estivera fora em Janeiro ou em que planeara ausentar-se em Fevereiro tinham, simplesmente, o nome de uma cidade. Ela sabia que os pormenores daquelas viagens teriam de estar listados na agenda de negócios que ele transportava sempre consigo.

 

A gaveta do fundo, do lado direito, estava fechada à chave. Meghan procurou em vão uma chave, depois hesitou. No dia seguinte, poderia tentar arranjar um serralheiro, mas ela não queria esperar. Foi à cozinha, encontrou a caixa de ferramentas e trouxe consigo uma lima de aço. Tal como esperara, a fechadura era velha e conseguiu facilmente forçar a abertura.

 

Dentro da gaveta, molhos de envelopes eram mantidos juntos com elásticos. Meghan levantou o molho de cima e passou os olhos por ele. Todos, exceptuando o primeiro envelope, estavam escritos com a mesma letra.

 

Aquele continha apenas um recorte de jornal do Boletim de Filadélfia. Por baixo da fotografia de uma bonita mulher, a nota de óbito dizia:

 

Aurelia Crowley Collins, 75 anos, uma residente de longa data em Filadélfia, morreu no Hospital de St. Paul, a 9 de Dezembro, de colapso cardíaco.

 

Aurelia Crowley Collins! Meghan ofegava enquanto estudava a imagem. A disposição larga dos olhos, o cabelo ondulante que emoldurava a sua cara oval. Era a mesma mulher, agora envelhecida, cujo retrato estava proeminentemente colocado na mesa a uns quantos centímetros de distância. A sua avó.

 

A data do recorte tinha dois anos. A sua avó estivera viva até à dois anos atrás! Meghan folheou os outros envelopes do molho que segurava. Vinham todos de Filadélfia. O carimbo do último tinha aposto uma data de há dois anos e meio.

 

Ela leu um, depois outro e outro. Sem acreditar no que via, percorreu os outros molhos de envelopes. Continuava a ler aleatoriamente. A carta mais antiga datava de há trinta anos atrás. Todas continham o mesmo argumento.

 

Querido Edwin,

Tive esperança que, talvez neste Natal, recebesse uma palavra tua. Rezo para que tu e a tua família estejam bem. Como eu adoraria ver a minha neta. Talvez um dia permitas que isso aconteça.

Com amor,

MÃE

 

Querido Edwin,

É suposto olharmos sempre em frente. Mas à medida que uma pessoa envelhece, é mais fácil olhar para trás e arrepender-se amargamente dos erros do passado. Não é possível falarmos, mesmo que seja ao telefone? Dar-me-ia tanta felicidade.

Amor,

MÃE.

 

Passados alguns instantes, Meg não conseguiu ler mais, mas pela sua aparência gasta tornara-se óbvio que o pai deveria ter chorado sobre elas muitas vezes.

 

«Pai, tu eras tão gentil», pensou ela. «Por que disseste a toda a gente que a tua mãe estava morta? Que te fez ela que foi tão imperdoável? Por que mantiveste estas cartas se nunca irias fazer as pazes com ela?»

 

Ela pegou no envelope que contivera a notícia de necrologia. Não tinha nome, mas a morada impressa na aba era uma rua em Chestnut Hill. Ela sabia que Chestnut Hill era uma das áreas residenciais mais restritas de Filadélfia. Quem seria o remetente? Mais importante, que tipo de homem teria realmente sido o seu pai?

 

Na charmosa casa colonial de Helene Petrovick em Lawrenceville, Nova Jérsia, a sua sobrinha, Stephanie, estava de mau humor e preocupada. O bebé estava para nascer dentro de poucas semanas e as suas costas doíam-lhe. Estava sempre preocupada. Como surpresa, dera-se ao trabalho de preparar um almoço quente para Helene, que lhe dissera que planeava chegar a casa ao meio-dia.

 

À uma e meia, Stephanie tentara telefonar à tia, mas ninguém atendeu no apartamento em Connecticut. Agora, eram seis horas e Helene ainda não chegara. Passar-se-ia alguma coisa de errado? Talvez algumas incumbências de última hora tivessem surgido. Helene já vivia sozinha há tanto tempo, que se desabituara de manter alguém informado dos seus movimentos.

 

Stephanie ficara chocada quando no dia anterior, Helene lhe dissera que se despedira do seu trabalho e que esse despedimento era imediato.

 

Preciso de um descanso e estou preocupada por estares tão sozinha dissera-lhe Helene.

 

O facto é que Stephanie adorava estar sozinha. Nunca tivera o privilégio de poder ficar deitada na cama até se decidir a fazer café ou a ir buscar o jornal, que fora distribuído nas horas que antecediam o amanhecer. Nos dias em que se sentia realmente preguiçosa e enquanto ainda descansava na cama, via por vezes a programação matinal televisiva.

 

Tinha 20 anos mas parecia mais velha. Ao crescer, um dos seus sonhos fora o de ser como a irmã mais nova do pai, Helene, a qual partira para os Estados Unidos há vinte anos atrás, depois da morte do marido.

 

Agora, essa mesma Helene era a sua âncora, o seu futuro, num mundo que já não existia como ela o conhecera. A sangrenta e breve revolução na Roménia custara a vida aos seus pais e destruíra o seu lar. Stephanie mudara-se para a casa de vizinhos, cuja minúscula casa não tinha espaço para outro ocupante. Ao longo dos anos, Helene enviara-lhe ocasionalmente algum dinheiro e um presente pelo Natal. Em desespero, Stephanie escrevera-lhe implorando ajuda.

 

Algumas semanas depois, estava num avião a caminho dos Estados Unidos.

 

Helene era tão gentil. Só que Stephanie queria ferozmente viver em Manhattan, arranjar trabalho num salão de beleza e frequentar a escola de esteticismo à noite. O seu inglês já era excelente, apesar de no ano anterior, quando chegara, só conhecer umas quantas palavras de inglês.

 

O seu tempo quase que chegara. Ela e Helene tinham visto estúdios em Nova Iorque. Encontraram um em Greenwich Village que estaria disponível em Janeiro e Helene prometera que iriam juntas às compras para o decorar.

 

Esta casa estava à venda. Helene sempre dissera que não iria desistir do seu emprego e da casa em Connecticut, até que esta se vendesse. «Que a fizera mudar tão subitamente de ideias?», pensou Stephanie.

 

Penteou para trás o cabelo castanho-claro da sua testa larga. Estava novamente com fome e bem podia comer. Podia sempre aquecer o jantar para Helene, quando esta chegasse.

 

Às oito horas, enquanto se ria com uma repetição da série televisiva Sarilhos com Elas, a campainha da porta tocou.

 

O seu suspiro era simultaneamente de alívio e de humilhação. Helene estava, provavelmente, carregada de embrulhos e não queria ter de procurar a chave. Deu uma última olhadela ao ecrã. O programa estava prestes a acabar. Depois de ter chegado tão tarde, Helene não podia ter esperado mais um minuto?, pensou, enquanto se erguia do sofá.

 

O seu sorriso de boas-vindas desvaneceu-se e desapareceu ao ver um polícia alto com uma cara juvenil. Incrédula, ouviu-o enquanto este dizia que Helene Petrovic fora morta a tiro em Connecticut.

 

Antes do desgosto e do choque a envolverem, o único pensamento lúcido de Stephanie foi o de se perguntar freneticamente, o que será de mim? Só na semana passada é que Helene falara da sua intenção de modificar o seu testamento, o qual deixava tudo o que possuía para a Fundação de Pesquisa da Clínica Manning. Agora, era demasiado tarde.

 

Às oito horas da noite de terça-feira, o trânsito na garagem abrandara até se tornar um ligeiro escoar. Bernie, que frequentemente fazia horas extraordinárias, trabalhara nesse dia doze horas e era altura de ir para casa.

 

Ele não se preocupava com as horas extraordinárias. O pagamento era bom e também o eram as gorjetas. Durante todos estes anos, o dinheiro extra é que pagara o seu equipamento electrónico.

 

Nessa noite, enquanto se dirigia para o escritório para sair, estava preocupado. Não se apercebera de que o patrão estava nas instalações, quando, à hora do almoço, se sentara no carro de Tom Weicker e remexera, novamente, o porta-luvas, procurando possíveis objectos de interesse. Então, olhara para cima e vira-o especado, olhando-o através da janela do veículo. Este afastara-se simplesmente, sem dizer palavra. Isso era ainda pior. Se se tivesse zangado, teria desanuviado o ambiente.

 

Bernie deu um murro no relógio. O gerente nocturno estava sentado no escritório e chamou-o. A sua cara não estava muito amistosa.

 

Bernie, esvazia o teu cacifo segurava um envelope na mão. Isto cobre o salário, férias, dias de baixa e duas semanas de indemnização.

 

Mas... o protesto morreu-lhe nos lábios quando o gerente ergueu uma mão.

 

Escuta, Bernie, sabes tão bem quanto eu que tivemos queixas do desaparecimento de dinheiro e de objectos pessoais dos carros que estavam estacionados nesta garagem.

 

Eu nunca tirei nada.

 

Tu não tinhas nada que remexer no porta-luvas do Weicker, Bernie. Estamos conversados.

 

Quando chegou a casa, ainda zangado e perturbado, Bernie descobriu que a mãe tinha uma refeição congelada de macarrão com queijo, pronta para ser colocada no micro-ondas.

 

Foi um dia terrível queixou-se a mãe, enquanto retirava o invólucro da embalagem. Os miúdos do quarteirão de baixo estavam aos gritos em frente à casa. Eu disse-lhes para se calarem e eles chamaram-me velha excêntrica. Sabes o que eu fiz? Não esperou por uma resposta. Chamei os polícias e queixei-me. Depois, um deles veio cá a casa e foi muito grosseiro comigo.

 

Bernie agarrou-lhe o braço.

 

Tu trouxeste os polícias cá a casa, mãe? Eles foram lá abaixo?

 

Por que haveriam de descer as escadas?

 

Mãe, não quero os polícias cá em casa nunca mais.

 

Bernie, eu não vou lá a baixo há anos. Tens mantido tudo limpo lá em baixo, não tens? Eu não quero pó a infiltrar-se cá para cima. A minha sinusite está péssima.

 

Está tudo limpo, mãe.

 

Espero que sim. Tu não és uma pessoa asseada. Tal como o teu pai ela bateu a porta do micro-ondas. Magoaste-me o braço. Agarraste-o com força. Não voltes a fazer isso.

 

Não voltarei, mãe. Desculpa, mãe.

 

Na manhã seguinte, Bernie saiu para o trabalho à hora habitual. Não queria que a mãe soubesse que ele fora despedido. Apesar disso, dirigiu-se a uma estação de lavagem de carros a uns quantos quarteirões da casa. Pagou por um tratamento completo aO seu Chevy de oito anos. Aspirar, limpeza do porta-bagagens, polir o painel, lavagem, cera. Quando o carro saiu, ainda miserável mas já com um ar respeitável, a sua cor verde era reconhecível.

 

Ele nunca limpava o carro, excepto nas raras ocasiões no ano em que a mãe anunciava estar a planear ir à igreja no domingo seguinte. é claro que seria diferente se fosse levar a Meghan a dar um passeio. Ele jÁ o teria a brilhar para ela.

 

Bernie sabia o que iria fazer. Pensara nisso toda a noite. Talvez existisse uma razão para que ele tivesse perdido o seu emprego na garagem. Talvez fizesse tudo parte de um grande plano. Durante semanas, não lhe fora suficiente ver Meghan apenas nos poucos minutos em que ela deixava ou ia buscar o seu Mustang ou qualquer outro veículo do Canal 3.

 

Ele queria estar perto dela, de modo a que a pudesse filmar e visse o vídeo durante a noite.

 

Iria comprar uma câmara de filmar na Rua Quarenta e Sete. Mas tinha de ganhar algum dinheiro. Ninguém era melhor condutor do que ele, por isso, podia ganhar algum utilizando o seu carro como um táxi cigano.

 

Isso também lhe daria muita liberdade. Liberdade para conduzir para Connecticut, onde Meghan Collins vivia quando não estava em Nova Iorque.

 

Teria de ter cuidado para que não o vissem.

 

«Chama-se obsessão, Bernie», explicara-lhe o psiquiatra em Riker Island, quando Bernie lhe suplicara que lhe dissesse o que se passava com ele. «Acho que o ajudámos, mas se essa sensação o invadir de novo, quero que fale comigo. Significará que poderá precisar de alguma medicamentação.»

 

1 Utilização de veículos particulares como táxis sem licença. (N. do t.)

 

Bernie sabia que não precisava de nenhuma ajuda. Só precisava de estar perto de Meghan Collins.

 

O corpo de Helene Petrovic ficou quase toda a terça-feira no quarto, onde fora morta. Nunca fora muito amistosa para com os seus vizinhos e já se despedira dos poucos com os quais trocava saudações. O seu carro estava fora de vistas na garagem do seu condomínio arrendado.

 

Só nessa tarde, quando a proprietária do condomínio passou pelo apartamento é que encontrou a mulher morta aos pés da cama.

 

A morte de uma silenciosa perita em Embriologia em New Milford, Connecticut, foi sucintamente mencionada nos noticiários televisivos de Nova Iorque. Não era uma história muito importante. Não havia provas de arrombamento, nem nenhum ataque sexual aparente. A mala da vítima que continha duzentos dólares encontrava-se dentro do quarto, portanto, o roubo também fora excluído.

 

Uma vizinha do lado oposto da rua ofereceu-se para dizer que vira o visitante de Helene Petrovic, um homem que vinha sempre a altas horas da noite. Nunca conseguira vê-lo muito bem, mas sabia que ele era alto. Pensava que era o seu namorado, já que ele encostava sempre o carro do lado oposto da garagem de Petrovic. Ela sabia que ele saía durante a noite, porque nunca o vira de manhã. Quantas vezes o vira? Talvez uma meia dúzia de vezes. O carro? Um modelo recente... um Sedan escuro.

 

Depois da descoberta do obituário da avó, Meghan telefonou para o hospital e foi informada de que a mãe estava a dormir e que o estado dela era satisfatório. Totalmente exausta, revistou o armário dos medicamentos, procurando um comprimido para dormir e, de seguida, foi para a cama e dormira até o alarme a acordar às 6:30 da manhã.

 

Um telefonema para o hospital assegurou-a de que a mãe tivera uma noite descansada e que os seus sinais vitais estavam normais.

 

Meghan leu o Times, enquanto bebia café, e ficou chocada ao ler na secção de Connecticut a morte da Dr.a Helene Petrovic. Havia uma fotografia da mulher. Nela, a expressão dos seus olhos era, simultaneamente, triste e enigmática. «Falei com ela na Manning», pensou Meghan. «Ela era responsável pelo laboratório com os embriões criogenicamente preservados.» Quem teria assassinado aquela mulher calma e inteligente?, quis Meghan saber. Outro pensamento atingiu-a. De acordo com o jornal, a Dr.a Petrovic deixara o seu emprego e planeara mudar-se para Connecticut na manhã seguinte. Teria a decisão dela algo a ver com a recusa do Dr. Manning em colaborar no especial de televisão?

 

Era muito cedo para telefonar a Tom Weicker, mas, provavelmente, ainda não era muito tarde para apanhar Mac, antes de este sair para o trabalho. Meghan sabia que havia algo mais que teria de encarar e, esse momento, era uma altura tão boa como outra qualquer.

 

O cumprimento de Mac foi apressado.

 

Mac, desculpa-me. Eu sei que esta é uma má altura para telefonar, mas tenho que falar contigo disse Meghan.

 

Olá, Meg. Claro. Espera só um segundo.

 

Ele devia ter colocado a mão sobre o bocal. Ela ouviu a sua voz abafada mas exasperada:

 

Kyle, deixaste os teus trabalhos de casa na mesa da sala de jantar.,

 

Passamos por isto todas as manhãs. À noite, digo-lhe sempre para colocar os trabalhos de casa na mochila. Ele não o faz. De manhã, anda a gritar que os perdeu explicou Mac, quando voltou a falar.

 

Por que não os guardas tu na mochila dele?

 

Isso não lhe forma o carácter a sua voz mudou. Meg, como é que está a tua mãe?

 

Bem. Acho que está mesmo bem. Ela é uma senhora forte.

 

Como tu.

 

Eu não sou assim tão forte.

 

Forte de mais para o meu gosto, para não me contares nada acerca daquela vítima esfaqueada. Mas isso é uma conversa que haveremos de ter noutra altura.

 

Mac, podes passar por cá durante três minutos quando estiveres de saída?

 

Claro. Assim que o His Nibs entrar no autocarro.

 

Meghan sabia que tinha menos de vinte minutos para tomar duche e se vestir, antes que Mac chegasse. Estava a pentear o cabelo quando a campainha da porta tocou.

 

Bebe uma chávena de café convidou ela. O que te vou perguntar não é fácil.

 

«Fora apenas há vinte e quatro horas que eles se tinham sentado frente a frente nesta mesma mesa?», pensou ela. Parecia ter sido há mais tempo. Mas no dia anterior, ela estivera quase em estado de choque. Hoje, sabendo que a mãe estava quase boa, era capaz de enfrentar e aceitar qualquer verdade que viesse à tona de água.

 

Mac começou ela, tu és um especialista em ADN.

- Sim.

 

A mulher que foi esfaqueada na quinta-feira à noite... a que se parece muito comigo?

 

Calão para pessoa importante ou empertigada. (N. do t.)

 

- Sim.

 

Se o ADN dela fosse comparado com o meu, poderia ser estabelecida consaguinidade?

 

Mac ergueu as sobrancelhas e estudou a chávena que tinha na mão.

 

Meg, deixa-me explicar-te como as coisas funcionam. Com o teste do ADN podemos saber, com absoluta certeza, se duas pessoas tiveram a mesma mãe. É complicado e posso mostrar-te no laboratório como é que o fazemos. Dentro do percentil noventa e nove, podemos estabelecer se duas pessoas tiveram o mesmo pai. Não é tão absoluto como o cenário de mãe-filho, mas podemos obter uma indicação muito forte se estamos ou não a lidar com meios-irmãos.

 

Esse teste pode ser feito em mim e na mulher morta?

 

- Pode.

 

Tu não pareces surpreendido por eu te estar a perguntar isto, Mac.

 

Ele pousou a chávena de café e olhou directamente para os olhos dela.

 

Meg, eu já tinha decidido ir, hoje à tarde, à morgue, para ver o corpo daquela mulher. Eles têm um laboratório de ADN no gabinete do médico legista. Planeava certificar-me de que eles preservavam uma amostra do seu sangue, antes de ela ser transferida para o cemitério de indigentes.

 

Meg mordeu o lábio.

 

Então, estás a pensar do mesmo modo que eu piscou os olhos para apagar da sua memória a imagem da cara da mulher morta. Tenho de ver Phillip esta manhã e passar pelo hospital continuou ela. Encontro-me contigo no gabinete do médico legista. Qual é a melhor altura para ti?

 

Concordaram em encontrar-se às duas horas. Enquanto Mac se afastava de carro, pensava que nenhuma altura era uma boa altura para olhar para a cara de uma mulher morta, que se parecia com Meghan Collins.

 

Quando se encontrava a caminho do escritório, Phillip Cárter ouviu no rádio a notícia pormenorizada da morte da Dr.a Helene Petrovic. Pensou que não se podia esquecer de dizer a Victor Orsini que seguisse de perto, e imediatamente, a vaga que a morte dela deixara na Clínica Manning. Afinal, ela fora contratada para a Manning através da Collins e Cárter. Este tipo de serviço era bem remunerado e haveria outra boa comissão, se a Collins e Cárter fosse comissionada para encontrar um substituto.

 

Chegou ao escritório à um quarto para as nove e avistou o carro de Meghan estacionado num dos parqueamentos, perto da entrada do edifício. Ela estava, obviamente, à sua espera, porque saiu do carro assim que ele estacionou.

 

Meg, que agradável surpresa colocou um braço à volta dela.

 

Mas, por amor de Deus, tens uma chave. Por que é que não entraste?

 

Meg sorriu ligeiramente.

 

Só estou aqui há um minuto «Além disso», pensou, «sentir-me-ia uma intrusa se entrasse.»

 

Catherine está bem, não está? perguntou ele.

 

Está muito bem.

 

Graças a Deus, por isso respondeu ele com sinceridade.

 

A pequena sala da recepção era agradável com o seu sofá e cadeiras com estofos de cores vivas, uma mesa de centro circular e paredes com painéis. Meghan sentiu, novamente, uma reacção de intensa tristeza enquanto se apressava a atravessá-la. Desta vez, dirigiram-se para o gabinete de Phillip. Ele parecia pressentir que ela não queria voltar a entrar no gabinete do pai. Ajudou-a a despir o casaco.

 

- Café?

 

Não, obrigada. Já bebi três chávenas. Phillip sentou-se atrás da sua secretária.

 

E eu estou a tentar cortar, por isso vou esperar. Meg, pareces-me muito preocupada.

 

E estou Meghan humedeceu os lábios. Phillip, estou a começar a pensar que não conhecia nada bem o meu pai.

 

Em que aspecto?

 

Ela contou-lhe tudo acerca das cartas e do obituário que encontrara na gaveta trancada, depois observou-o enquanto a expressão de Phillip mudava de preocupação para incredulidade.

 

Meg, não sei o que te dizer começou ele quando ela terminou. Conheço o teu pai há anos. Desde que me lembro, que sei que a mãe morreu quando ele era um miúdo, que o pai voltou a casar e que ele teve uma péssima infância, vivendo com o pai e a madrasta. Quando o meu pai estava a morrer, o teu pai disse-me algo que eu nunca esqueci. Disse: «Invejo-te por seres capaz de chorar um pai.»

 

Então, também nunca soube?

 

Não, é claro que não.

 

O que me pergunto é por que é que ele teve de mentir acerca disso? perguntou Meghan, a sua voz subindo de tom. Apertou as mãos e mordeu o lábio. Quero dizer, por que não dizer a verdade à minha mãe? Que tinha ele a ganhar ao enganá-la?

 

Pensa nisso, Meg. Ele conheceu a tua mãe, contou-lhe a história da família tal como a contou a toda a gente. Quando se começaram a interessar um pelo outro, teria sido bastante difícil admitir que lhe mentira. E consegues imaginar a reacção do teu avô se soubesse  que o teu pai ignorava a sua própria mãe, qualquer que fosse a razão?

 

Sim, eu posso compreender isso. Mas o avôzinho já morreu há tantos anos. Por que não pôde ele...? A voz dela desvaneceu-se.

 

Meg, quando começas a viver uma mentira, dia a dia torna-se mais difícil alterá-la.

 

Meghan ouviu o som de vozes no exterior do gabinete. Levantou-se.

 

Podemos manter isto entre nós?

 

É claro ele também se levantou. Que vais fazer?

 

Assim que tiver a certeza de que a mãe está bem, dirijo-me à morada em Chestnut Hill, que estava no envelope, com a notícia de necrologia. Talvez obtenha algumas respostas por lá.

 

Como vai a reportagem da Clínica Manning?

 

Não vai. Eles estão a emparedar-me. Tenho de encontrar outra instituição de fertilização in vitro que possa utilizar. Espera um minuto. Tu ou o pai colocaram alguém na Manning, não foi?

 

O teu pai tratou disso. Por acaso, foi aquela pobre mulher que foi alvejada ontem à noite.

 

A Dr.a Petrovic? Eu conheci-a a semana passada.

 

O intercomunicador zumbiu. Phillip Cárter levantou o auscultador.

 

Quem? Está bem, eu atendo.

 

Um jornalista do New York Post explicou ele a Meghan. Sabe Deus o que querem de mim.

 

Meghan observava enquanto a face de Phillip Cárter se obscurecia.

 

Isso é absolutamente impossível! A sua voz soava rouca devido à indignação. Eu... eu não comentarei até ter falado pessoalmente com o Dr. lovino no Hospital de Nova Iorque.

 

Pousou o auscultador e voltou-se para Meghan.

 

Meg, aquele jornalista esteve a pesquisar sobre a Helene Petrovic. Nunca ouviram falar dela no Hospital de Nova Iorque. As credenciais dela eram falsas e nós somos responsáveis por ela ter arranjado o trabalho no laboratório da Manning.

 

Mas não confirmaram as referências dela antes de a submeterem à clínica?

 

Mesmo enquanto fazia a pergunta, Meghan já sabia a resposta, podia lê-la na cara de Phillip. Fora o seu pai que lidara com o ficheiro de Helene Petrovic. Seria da sua responsabilidade validar a informação no seu curriculum vitae.

 

Apesar dos melhores esforços de toda a equipa da Clínica Manning, não havia forma de esconder a tensão que envolvia a atmosfera. Alguns clientes novos e pouco à-vontade observavam uma carrinha com o logotipo da televisão CBS, que estacionava no parqueamento, e um jornalista e um cameraman que, saindo desta, se apressaram pelo passeio.

 

Marge Walters apresentava o seu melhor como recepcionista, mantendo-se firme com o jornalista.

 

O Dr. Manning recusa ser entrevistado até ter investigado todas as alegações disse ela. Marge foi incapaz de impedir o câmara, quando este começou a filmar a sala e os seus ocupantes.

 

Vários clientes levantaram-se. Marge apressou-se na direcção destes. Isto é tudo um erro implorou ela, apercebendo-se subitamente de que estava a ser filmada.

 

Uma mulher com as mãos a tapar a cara, explodiu de fúria:

 

Isto é uma afronta. Já é suficientemente duro ter de procurar este tipo de procedimento para ter um bebé, sem ter de aparecer nas notícias das onze horas dizendo isto, apressou-se a sair.

 

Sr.a Walter, também me vou embora. É melhor cancelar a minha consulta disse outra mulher.

 

Eu compreendo. Marge forçou um sorriso simpático. Para quando gostaria de voltar a marcar?

 

Terei de consultar a minha agenda. Depois telefono.

 

Marge observava as mulheres que se retiravam. «Não, não vais voltar a telefonar», pensou ela. Alarmada, apercebeu-se da Sr.a Kaplan, uma cliente na sua segunda visita à clínica, a aproximar-se do jornalista.

 

Por que é isto tudo? exigiu ela.

 

O motivo para tudo isto é que a pessoa responsável pelo laboratório da Clínica Manning, durante os últimos seis anos, não era aparentemente uma médica. De facto, a sua única experiência parece ter sido como esteticista.

 

Meu Deus! A minha irmã fez uma fertilização in vitro aqui há dois anos atrás. Existe alguma possibilidade de ela não ter recebido o seu próprio embrião? A Sr.a Kaplan juntou as mãos.

 

«Deus nos ajude», pensou Marge. «Isto é o fim deste lugar.» Ela ficara chocada e entristecida quando ouvira as notícias da manhã acerca da morte da Dr.a Helene Petrovic. Fora só quando chegara ao serviço, há uma hora atrás, que ouvira os rumores acerca das credenciais falsas de Petrovic. Mas só ao ouvir a afirmação do jornalista e ao observar a reacção da Sr.a Kaplan é que se apercebera da enormidade das possíveis consequências.

 

Helene Petrovic fora responsável pelos embriões criogenicamente preservados. Dezenas e dezenas de tubos de ensaio, não maiores do que a metade do dedo indicador, cada um contendo um ser humano potencialmente viável. Bastava um deles estar mal etiquetado para que o embrião errado fosse implantado no útero de uma mulher, tornando-a a mãe anfitriã, mas não a mãe biológica da criança.

 

Marge observou a Sr.a Kaplan sair apressadamente da sala, seguida pelo jornalista. Olhou pela janela. Mais carrinhas de serviços noticiosos estavam a chegar. Mais jornalistas estavam a tentar interrogar as mulheres, que tinham acabado de sair da recepção.

 

Ela viu a jornalista do Canal 3 PCD a sair do carro. Meghan Collins. Era esse o seu nome. Fora ela que planeara fazer a reportagem especial que o Dr. Manning cancelara tão repentinamente...

 

Meghan não estava certa se deveria estar ali, já que o nome do seu pai poderia surgir no decurso da investigação das credenciais de Helene Petrovic. Ao deixar o escritório de Phillip Cárter, recebera um bip da estação informando-a de que Steve, o seu câmara, se encontraria com ela na Clínica Manning.

 

Weicker aprovou asseguraram-lhe.

 

Tentara contactar Weicker mais cedo, mas este ainda não chegara. Ela achou que teria de falar com ele acerca de um possível conflito de interesses. No entanto, por agora, era mais fácil aceitar a tarefa. De qualquer forma, as probabilidades de que os advogados da clínica permitissem entrevistas com o Dr. Manning eram mínimas.

 

Não tentou juntar-se aos outros jornalistas no ataque aos clientes que saíam. Em vez disso, viu Steve e fez-lhe sinal para que ele a seguisse para dentro da clínica. Abriu a porta silenciosamente. Tal como ela esperara, Marge Walters estava à sua secretária, falando insistentemente ao telefone.

 

Temos de cancelar todas as consultas de hoje! exclamava. É melhor dizerem-lhes que eles têm de fazer qualquer tipo de declaração. Caso contrário, a única coisa que o público vai ver são as mulheres a saírem porta fora.

 

Quando a porta se fechou atrás de Steve, Marge Walters olhou para cima.

 

Não posso falar mais disse, apressadamente, e pousou o auscultador.

 

Meghan não falou até estar instalada na cadeira do lado oposto da secretária de Walters. A situação requeria tacto e tratamento cuidadoso. Ela aprendera a não fazer perguntas a alguém que estivesse na defensiva.

 

Deve estar a ser uma manhã muito dura para si, Sr.a Walters disse ela, compreensivamente.

 

Olhou para a recepcionista, enquanto esta passava uma mão sobre a testa.

 

Pode crer que é.


O tom da mulher era cuidadoso, mas Meghan sentiu o mesmo conflito de que se apercebera no dia anterior. Ela sabia a necessidade que havia em ser discreto, mas estava ansiosa para falar com alguém acerca de tudo o que se passara. Marge Walters era uma coscuvilheira natural.

 

Eu encontrei a Dr.a Petrovic numa reunião disse Meghan. Parecia ser uma pessoa adorável.

 

E era concordou Walters. É difícil acreditar que não fosse qualificada para o trabalho que estava a fazer. Mas a experiência médica anterior foi, provavelmente, na Roménia. Com todas as alterações que sofreu o governo da Roménia, aposto que descobrirão que ela tinha todos os diplomas de que necessitava. Não compreendo como é que o Hospital de Nova Iorque disse que ela não estagiou lá. Aposto que também isso é um erro. Mas quando descobrirem isso, poderá já ser demasiado tarde. Toda esta má publicidade pode destruir este local.

 

Pois pode concordou Meghan. Acha que a demissão dela teve algo a ver com a decisão do Dr. Manning de cancelar a nossa sessão de ontem?

 

Marge Walters olhou para a câmara que Steve segurava.

 

Se me puder dizer alguma coisa que possa equilibrar todas estas notícias negativas, gostaria de a incluir na entrevista acrescentou Meghan, rapidamente.

 

Marge Walters decidiu-se. Ela confiava em Meghan Collins.

 

Então, deixe-me dizer-lhe que Helene Petrovic era uma das pessoas mais maravilhosas e trabalhadoras que eu alguma vez conheci. Ninguém ficava mais feliz do que ela quando um embrião chegava a termo no útero da mãe. Ela amava cada embrião daquele laboratório e insistia em testar regularmente o gerador de emergência para se certificar de que no caso de alguma falha de energia, a temperatura se manteria constante.

 

Os olhos de Marge ficaram nublados.

 

Lembro-me do Dr. Manning nos contar numa reunião de equipa, no ano passado, como correra para a clínica durante aquela terrível tempestade de neve que houve em Dezembro, quando toda a electricidade foi abaixo, para se certificar de que o gerador de emergência estava a funcionar. Adivinhe quem chegou um minuto antes dele? Helene Petrovic. E ela odiava conduzir com neve ou gelo. Era um dos seus maiores receios, contudo, veio até cá no meio daquela tempestade. Era dedicada a esse ponto.

 

Está a dizer-me exactamente o que eu senti quando a entrevistei comentou Meghan. Ela parecia ser uma pessoa que se preocupava muito. Pude constatá-lo na forma como se relacionava com as crianças durante a sessão fotográfica de domingo.

 

Não estive cá. Nesse dia, fui ao casamento de um familiar. Agora acha que pode desligar a câmara?

 

Claro que sim Meghan acenou para Steve. Marge abanou a cabeça.

 

Eu queria cá ter estado. Mas a minha prima Dodie casou, finalmente, com o namorado. Estavam a viver juntos já há oito anos. Devia ter ouvido a minha tia. Poder-se-ia pensar que a noiva era uma rapariga de dezanove anos, acabada de sair de um convento. Juro por Deus que na noite que antecedeu o casamento, ela explicou à Dodie como é que nascem os bebés.

 

Marge sorriu quando a incongruência da sua observação com esta clínica lhe ocorreu.

 

Como é que a maioria deles nascem, quero eu dizer.

 

Existe alguma hipótese de eu poder ver o Dr. Manning? Meghan sabia que se existisse alguma oportunidade seria através desta mulher.

 

Marge abanou a cabeça.

 

Aqui entre nós, um assistente do delegado público e alguns investigadores estão com ele neste momento.

 

Isso não era de admirar. Certamente que estariam a investigar a súbita partida de Helene Petrovic da clínica e a fazer perguntas acerca da sua vida pessoal.

 

A Helene tinha aqui alguns amigos íntimos?

 

Não. Nem por isso. Ela era muito simpática, mas um pouco formal, percebe o que quero dizer. Pensei que fosse assim por ser da Roménia. Apesar de que, quando se pensa nisso, as irmãs Gabor também vieram de lá e elas tiveram mais do que a sua parcela de amigos íntimos, especialmente Zsa Zsa.

 

Tinha quase a certeza de que as Gabor eram húngaras não romenas. Então, a Helene Petrovic não tinha nenhuns amigos em particular ou nenhuma relação íntima de que você tivesse conhecimento?

 

Quem se encontrava mais perto dela era o Dr. Williams. Ele foi o assistente do Dr. Manning e não sei se não existiria alguma coisa entre ele e Helene. Vi-os uma vez a jantar, quando o meu marido e eu fomos a um restaurante pouco frequentado. Não pareceram ficar muito satisfeitos quando eu passei pela mesa deles para os cumprimentar. Mas isso foi só uma vez, há seis anos atrás, logo depois de ela ter começado a trabalhar aqui. Tenho de confessar que fiquei de olho neles depois disso, mas nunca agiram como se tivessem algum relacionamento especial.

 

O Dr. Williams ainda trabalha cá?

 

Não. Ofereceram-lhe um emprego para inaugurar e dirigir uma nova instalação, e ele aceitou. É o Centro Franklin em Filadélfia. Tem uma excelente reputação. Entre nós, o Dr. Williams era um administrador de primeira. Foi ele que reuniu toda a equipa médica e, acredite-me, fez um excelente trabalho.

 

Então, foi ele que contratou a Petrovic?

 

Teoricamente, mas eles contratam sempre o pessoal principal através de uma daquelas agências de recrutamento de pessoal, que os recruta e os analisa para nós. Mesmo assim, o Dr. Williams ainda aqui trabalhou perto de seis meses, depois de a Dr.a Helene ter ingressado na equipa, e acredite-me que ele teria notado se ela fosse incompetente.

 

Gostaria de falar com ele, Sr.a Walters.

 

Por favor, trate-me por Marge. Eu gostaria que pudesse falar com ele. Ele dir-lhe-ia quão maravilhosa a Helene era naquele laboratório.

 

Meghan ouviu a porta da frente abrir-se. Marge olhou para cima.

 

Mais câmaras! Meghan, é melhor eu não falar mais. Meghan levantou-se.

 

Você foi de grande ajuda.

 

De volta a casa, Meghan reflectiu que não daria ao Dr. Williams a oportunidade de a evitar pelo telefone. Iria ao Centro franklin em Filadélfia e tentaria vê-lo. Com sorte, poderia convencê-lo a deixá-la filmar uma entrevista para a reportagem sobre fertilização in vitro.

 

Que teria ele a dizer acerca de Helene Petrovic? Iria ele defendê-la como Marge Walters? Ou sentir-se-ia ultrajado por Helene o ter enganado, tal como enganara todos os seus colegas?

 

«E», pensou Meghan, «que ficaria a saber com a sua outra paragem na área da Filadélfia?» A casa em Chestnut Hill, de onde alguém notificara o pai da morte da sua avó.

 

Victor Orsini e Phillip Cárter nunca se encontravam à hora de almoço. Orsini sabia que Cárter o considerava o protegido de Edwin Collins. Há aproximadamente sete anos, quando surgira a hipótese de trabalhar na Collins e Cárter, a escolha fora entre Orsini e outro candidato. Ed Collins escolhera Orsini. Desde o início que a sua relação com Cárter fora cordial, mas nunca amistosa.

 

No entanto, hoje, depois de ambos terem encomendado o linguado cozido e a salada da casa, Orsini sentia-se solidário com a óbvia angústia de Cárter. Diversos jornalistas tinham estado no escritório e uma dúzia de telefonemas dos media perguntando como era possível que a Collins e Cárter não tivesse detectado as mentiras no curriculum vitae de Helene Petrovic.

 

Eu disse-lhes a pura das verdades disse Phillip Cárter, enquanto tamborilava, nervosamente, com os dedos sobre a toalha da mesa. Ed sempre investigou meticulosamente os possíveis candidatos, e este serviço pertencia-lhe. O facto de Ed estar desaparecido e da Polícia dizer abertamente que não acredita que ele tenha morrido no acidente da ponte, só deita achas para a fogueira.

 

A Jackie lembra-se de alguma coisa em relação ao caso Petrovic? perguntou Orsini.

 

Na altura, ela tinha começado a trabalhar para nós. As suas iniciais estão na carta, mas não se deve recordar disso. Por que haveria de recordar-se? Era a habitual recomendação anexada ao curriculum vitae. Depois de a ter recebido, o Dr. Manning teve uma reunião com a Petrovic e contratou-a.

 

De todos os campos, nos quais se pode ser apanhado a verificar referências fraudulentas, a pesquisa médica é apenas a pior de todas disse Orsini.

 

Sim, é concordou Phillip. Se foram cometidos alguns erros por Helene Petrovic e a Clínica Manning for processada, existe uma boa probabilidade de a Clínica nos processar a nós.

 

E de ganhar.

 

Cárter concordou carrancudamente.

 

E de ganhar fez uma pausa. Victor, você trabalhava mais directamente com Ed do que comigo. Quando ele lhe telefonou do carro, naquela noite, disse-lhe que se queria encontrar consigo de manhã. Foi só isso que ele disse?

 

Sim, foi tudo. Porquê?

 

Bolas, Victor! explodiu Phillip Cárter. Vamos deixar-nos de jogos! Se Ed conseguiu sair da ponte em segurança, você tem algum indício, a partir daquela conversa, de que ele pudesse estar com vontade de se aproveitar do acidente como uma oportunidade para desaparecer?

 

Olhe, Phillip, ele disse que se queria certificar de que eu estaria de manhã no escritório respondeu Orsini, a sua voz soando com um certo tom de irritabilidade. Era uma ligação péssima. É tudo o que lhe posso dizer.

 

Desculpe. Continuo à procura de alguma coisa que comece a fazer sentido Cárter suspirou. Victor, tenho querido falar consigo. A Meghan vai tirar as coisas pessoais do Ed do gabinete no sábado. Quero que fique com aquele gabinete a partir de segunda-feira. Não tivemos um grande ano, mas podemos certamente renová-lo dentro de certas medidas.

 

Não se preocupe agora com isso. Pouco mais tinham para dizer um ao outro.

 

Orsini reparou que Phillip Cárter não sugerira que, depois de se esclarecer a situação legal de Ed Collins, lhe ofereceria uma sociedade. Ele sabia que essa oferta nunca seria feita. Pela sua parte, era apenas uma questão de semanas, antes que a vaga que quase conseguira na Costa no ano anterior se tornasse novamente disponível. O tipo que eles tinham contratado para o trabalho não dera certo. Desta vez, estavam a oferecer a Orsini um salário maior, uma vice-presidência e opções na Bolsa.

 

Ele desejou poder sair hoje. Fazer as malas e voar imediatamente para lá. Mas devido às circunstâncias, isso era impossível. Existia algo que ele queria encontrar, algo que ele queria verificar no escritório, e agora que se podia mudar para o gabinete de Ed, a busca poderia ser mais fácil.

 

Bernie parou num restaurante do Itinerário 7, mesmo à saída de Danbury. Sentou-se num banco ao balcão e pediu o hambúrguer Deluxe, batatas fritas e café. Sentindo-se cada vez mais satisfeito, enquanto mastigava e engolia, reviu com satisfação as horas atarefadas que passara desde que saíra de casa nessa manhã.

 

Depois de o carro estar limpo, adquirira um chapéu de motorista e um casaco escuro numa loja de segunda mão na parte baixa de Manhattan. Achava que aquele fato o ajudaria em relação a todos os outros táxis ciganos de Nova Iorque. Depois, dirigira-se para o aeroporto de La Guardia e permanecera perto da área das bagagens juntamente com outros motoristas, que também esperavam serviços.

 

Teve logo sorte. Um tipo com trinta anos, ou perto disso, desceu as escadas rolantes e observou os cartões com nomes que os motoristas seguravam. Não havia nenhum à espera dele. Bernie conseguia ler-lhe os pensamentos. Tinha, provavelmente, contratado um motorista de uma empresa barata e agora estava arrependido. A maioria dos condutores daquelas empresas eram tipos que tinham acabado de chegar a Nova Iorque e tinham passado os seus primeiros seis meses de trabalho a perderem-se.

 

Bernie aproximara-se do homem, oferecera-se para o transportar para a cidade, avisando-o de que não tinha uma limusina sofisticada mas um carro simpático e limpo, e gabou-se de ser o melhor condutor que alguém pudesse contratar. Fez-lhe um preço de vinte dólares para o conduzir até à Rua Quarenta e Oito Oeste. Conseguiu pô-lo lá em trinta e cinco minutos e recebeu uma gorjeta de dez dólares.

 

Você é um condutor dos diabos! disse o homem enquanto pagava.

 

Bernie lembrou-se do elogio com prazer enquanto pegava numa batata frita e sorriu para si mesmo. Se continuasse a fazer dinheiro desta maneira, acrescentando-o à sua indemnização e ao pagamento das férias, podia aguentar-se durante bastante tempo sem a sua mãe saber que ele já não estava no seu antigo trabalho. Ela nunca lhe telefonava. Não gostava de falar ao telefone. Dizia que lhe provocava uma das suas dores de cabeça.

 

E aqui estava ele, livre como um pássaro, sem ter de dar contas a ninguém e procurando saber onde vivia Meghan Collins. Comprara um mapa das ruas da área de Newtown e estudava-o. A casa dos Collins ficava na Estrada Bayberry e ele sabia como lá chegar.

 

Exactamente às duas horas, conduzia lentamente pela única casa branca com venezianas pretas. Os seus olhos estreitaram-se enquanto se embebia de cada pormenor. O alpendre amplo. Agradável. Tipo elegante. Pensou nos seus vizinhos em Jackson Heights, que tinham despejado cimento sobre a maior parte do seu minúsculo quintal e que agora, orgulhosamente, se referiam a essa superfície granulada como o seu pátio.

 

Bernie estudou os terrenos. Existia um enorme rododendro do lado esquerdo da estrada de macadame e um salgueiro chorão no meio do relvado. Arbustos de folha perene formavam uma fulgurante orla separando o terreno dos Collins da propriedade vizinha.

 

Satisfeito, Bernie pressionou o pé sob o acelerador. No caso de estar a ser observado, não seria assim tão estúpido que desse ali a volta. Conduziu ao longo da curva, depois travou repentinamente. Quase atropelou um cão estúpido.

 

Um miúdo veio a correr através do relvado. Pela janela, Bernie conseguia ouvi-lo a chamar, freneticamente, pelo cão: «Jake! Jake!»

 

O cão correu para o miúdo e Bernie colocou novamente o carro em andamento. A rua estava suficientemente calma e, através da janela fechada, ouviu o miúdo gritar:

 

Obrigado, senhor. Muito obrigado.

 

Mac chegou ao escritório do médico legista na Rua Trinta e Um Este, à uma e meia. Meghan só chegaria às duas horas, mas ele telefonara e marcara uma reunião com o Dr. Kenneth Lyons, o director do laboratório. Foi escoltado até ao quinto andar, e no pequeno escritório do Dr. Lyons, explicou-lhe as suas suspeitas.

 

Lyons era um homem magro na casa dos quarenta com um sorriso pronto e olhos penetrantes e inteligentes.

 

Aquela mulher tem sido um enigma. Não tem, certamente, a aparência de alguém que simplesmente desaparecesse e que não fosse notada. De qualquer forma, estávamos a planear retirar uma amostra do ADN do seu corpo, antes de este ser removido para o cemitério. Será também muito simples recolher uma amostra de sangue da Menina Collins e ver se existe a possibilidade de consaguinidade.

 

Isso é o que a Meghan quer fazer.

 

A secretária do médico estava sentada numa mesa perto da janela. O telefone tocou e ela atendeu-o.

 

A Menina Colins está lá em baixo.

 

Não foi só a normal apreensão de ver o cadáver na morgue que Mac viu na cara de Meghan quando saiu do elevador. Algo mais se acrescentara à dor dos seus olhos e às linhas que lhe rodeavam a boca. Parecia-lhe que existia nela uma tristeza retirada do desgosto em que vivia desde o desaparecimento do pai.

 

Mas ela sorriu quando o viu, um sorriso rápido e aliviado. «Ela é tão bonita», pensou. O seu cabelo castanho caía-lhe despenteado à volta da cabeça, como uma testemunha do vento forte que soprara de tarde. Vestia um fato de tweed preto e branco e botas pretas. O casaco fechado por um fecho éclair chegava-lhe às ancas e a saia travada dava-lhe pela barriga das pernas. Uma camisola de gola alta preta acentuava a palidez da sua cara.

 

Mac apresentou-a ao Dr. Lyons.

 

Serão capazes de estudar mais de perto a vítima lá em baixo do que na sala de reconhecimento disse Lyons.

 

A morgue estava anti-septicamente limpa. Filas de gavetas alinhavam-se nas paredes. Por detrás de uma janela com dois centímetros de espessura de uma porta no corredor, chegava o murmúrio abafado de vozes. As cortinas foram corridas sobre a janela. Mac tinha a certeza de que estava a ser realizada uma autópsia.

 

Um assistente conduziu-os quase até ao fim do corredor. O Dr. Lyons acenou-lhe com a cabeça e ele agarrou a pega de uma gaveta.

 

A gaveta deslizou para fora, sem qualquer ruído. Mac olhou para o corpo nu e frio da jovem mulher. No seu peito, existia apenas a marca de uma facada profunda. Os seus braços esbeltos repousavam de ambos os lados; os seus dedos estavam abertos. Ele observou a cintura estreita, as ancas magras, as pernas longas, os seus pés curvos. Por fim, estudou-lhe a cara.

 

O cabelo castanho estava caído sobre os ombros, mas ele conseguia imaginá-lo com a mesma vida e revolvido pelo vento, tal como o cabelo de Meghan. A boca, generosa e com uma promessa de simpatia, as pestanas grossas que se arqueavam sobre os olhos fechados, as sobrancelhas escuras que lhe acentuavam a testa alta. Mac teve a sensação de que lhe esmurravam violentamente o estômago. Sentiu-se entorpecido, nauseado, de cabeça leve. «Esta podia ser a Meg», pensou, «era isto que podia ter acontecido a Meg.»

 

Catherine Collins premiu o botão perto da sua mão e a cama articulada ergueu-se, sem ruído, até ela a ter travado numa posição semi-reclinada. Durante a última hora, desde que o tabuleiro do almoço fora levado, que tentara dormir, mas em vão. Estava irritada consigo própria devido ao seu desejo de fugir para o sono. «É altura de encarar a vida, minha menina», disse ela a si mesma, severamente. Desejou ter uma calculadora e os livros de contabilidade da pousada. Precisava de calcular quanto tempo se poderia aguentar antes de ser forçada a vender a Drumdoe. «A hipoteca», pensou ela, «aquela maldita hipoteca!» O pai nunca precisaria de pôr tanto dinheiro no local. Resolver as coisas com a prata da casa, fora sempre esse o seu ditado quando novo. Quantas vezes teria ela escutado aquilo?

 

Mas assim que conseguira a pousada e a casa tinha sido o mais generoso dos pais e maridos. Apesar de não ser exageradamente extravagante, é claro.

 

«E eu fui ridícula ao dar àquele decorador tanta liberdade», pensou Catherine. «Mas isso são águas passadas.» A analogia fê-la tremer. Trouxe-lhe à memória as fotografias horríveis dos destroços dos carros a serem rebocados para a superfície debaixo da Ponte Tappan Zee. Ela e Meghan tinham estudado as fotografias com lupas, receando encontrar aquilo que estavam à espera de ver: algum vestígio de um Cadillac azul-escuro.

 

Catherine atirou para trás os cobertores, saiu da cama e agarrou no seu roupão. Atravessou o quarto em direcção à pequenina casa de banho e lançou água sobre a cara, depois olhou para o espelho e sorriu. «Põe alguma pintura de guerra, querida», disse para si própria.

 

Dez minutos depois, estava de volta na cama e sentia-se, de certa forma, melhor. Escovara o seu cabelo louro e curto; o blush que aplicara nas suas faces e o baton nos lábios camuflara a palidez esquálida que vira no espelho; um casaco de dormir de seda azul fê-la sentir-se apresentável para possíveis visitas. Ela sabia que Meghan estaria em Nova Iorque durante a tarde, mas existia sempre a possibilidade de alguém aparecer.

 

Alguém apareceu. Phillip Cárter bateu na porta entreaberta.

 

Catherine, posso entrar?

 

Claro que podes.

 

Ele inclinou-se e beijou-lhe a face.

 

Estás com muito melhor aspecto.

 

Sinto-me muito melhor. De facto, estou a tentar sair daqui, mas eles querem que eu fique mais uns dois dias.

 

Boa ideia puxou uma cadeira confortável para perto da cama e sentou-se.

 

Catherine reparou que ele vestia um casaco desportivo num tom cru, umas calças largas castanho-escuras e uma gravata com desenhos castanhos e beges. A sua forte presença masculina fez com que ela sentisse saudades do marido.

 

Edwin fora terrivelmente atraente. Ela conhecera-o há trinta e um anos, numa festa que se seguira a um jogo de futebol entre Harvard e Yale. Ela namorava com um dos jogadores de Yale. Reparara em Ed na pista de dança. O cabelo escuro, os profundos olhos azuis, o corpo alto e magro. Edwin interrompera a dança que se seguira e, no dia seguinte, estava a tocar à campainha da quinta com uma dúzia de rosas na mão.

 

«Estou a cortejar-te, Catherine», anunciou ele.

 

Nesse momento, Catherine piscava os olhos, tentando impedir que as lágrimas lhe subissem aos olhos.

 

Catherine? A mão de Phillip segurava-lhe a sua.

 

Estou bem disse ela, retirando a mão.

 

Acho que não te vais sentir assim daqui a alguns minutos. Gostava de ter conseguido falar com a Meghan antes de ter vindo.

 

Ela teve de ir à cidade. Que se passa, Phillip?

 

Catherine, tu deves ter lido acerca da mulher que foi assassinada em New Milford.

 

Aquela médica. Sim. Que horror.

 

Então, não ouviste ainda que ela não era uma médica, que as suas credenciais eram falsas e que ela foi colocada na Clínica Manning através da nossa empresa?

 

Catherine gritou.

 

- O quê?

 

Uma enfermeira entrou apressadamente.

 

Sr.a Collins, estão dois detectives da Polícia de New Milford no salão de entrada, que precisam de falar consigo. O médico vem a caminho. Ele quer estar presente, mas disse que eu deveria avisá-la de que eles estarão aqui dentro de poucos minutos.

 

Catherine esperou até ouvir os passos da enfermeira a afastarem-se no corredor e só então perguntou:

 

Phillip, sabes o motivo por que essas pessoas estão aqui?

 

Sim, sei. Estiveram no escritório há uma hora.

 

Porquê? Esquece esperar pelo doutor. Eu não tenho intenção de ter, novamente, um colapso. Por favor, preciso de saber o que estou a enfrentar.

 

Catherine, a mulher que foi assassinada a noite passada em New Milford era cliente do Ed. Ed tinha de saber que as credenciais dela eram falsificadas. Phillip Cárter virou-se, como que evitando observar a dor que sabia que ia infligir. Tu sabes que a Polícia não acha que Ed se tenha afogado no acidente da ponte. Uma vizinha que vive do outro lado da rua do apartamento de Helene Petrovic disse que esta era visitada regularmente, de noite e a horas tardias, por um homem alto que conduzia um Sedan escuro fez uma pausa, a sua expressão rígida. Ela viu-o lá há duas semanas atrás. Catherine, quando a Meg chamou a ambulância na outra noite, também veio um carro-patrulha. Quando recuperaste, disseste ao polícia que tinhas recebido uma chamada do teu marido.

 

Catherine tentou engolir mas não conseguiu. A sua boca e os seus lábios estavam ressequidos. Teve o pensamento incongruente de que era isto que se devia sentir quando se tinha uma sede imensa.

 

Eu estava fora de mim. Eu queria dizer que a Meg recebera uma chamada de alguém dizendo que era o pai.

 

Bateram à porta. O médico começou a falar enquanto entrava.

 

Catherine, peço imensas desculpas por tudo isto. O assistente do delegado público insiste que os detectives de um homicídio em New Milford lhe têm de fazer umas quantas perguntas, e eu não pude dizer que você não estava suficientemente bem para os ver.

 

Eu estou suficientemente bem para os ver disse Catherine, calmamente. Olhou para Phillip. Ficas?

 

Claro que sim ele levantou-se, quando os detectives seguiram a enfermeira para dentro do quarto.

 

A primeira impressão de Catherine foi de surpresa ao ver que um dos investigadores era uma mulher, uma mulher jovem aproximadamente da mesma idade de Meghan. O outro era um homem que ela julgou encontrar-se na casa dos trinta. Foi este que falou primeiro, desculpando-se pela intromissão, prometendo apenas roubar-lhe alguns minutos do seu tempo e apresentando-se, bem como à sua colega.

 

Esta é a detective especial Arlene Weiss. Eu sou Bob Marron foi direito ao assunto. Sr.a Collins, trouxeram-na para aqui em estado de choque porque a sua filha recebeu um telefonema a meio da noite de alguém que dizia ser o seu marido?

 

Não era o meu marido. Eu conheceria a voz dele em qualquer lado, sob quaisquer circunstâncias.

 

Sr.a Collins, peço desculpa por lhe ter de perguntar isto, mas ainda acredita que o seu marido tenha morrido em Janeiro passado?

 

Acredito, com toda a convicção, de que ele está morto disse ela, firmemente.

 

Lindas rosas para si, Sr.a Collins gorjeou uma voz, assim que a porta se abriu. Era uma das voluntárias de casaco cor-de-rosa, que entregava flores nos quartos, trazia o carro dos livros e ajudava a alimentar os pacientes mais idosos.

 

Agora não! exclamou o médico de Catherine.

 

Não, não faz mal. Coloque-as só na mesa. Catherine apercebeu-se de que a intromissão era bem-vinda. Precisava de um momento para se controlar. Empatando, novamente, para ganhar tempo, esticou-se para o cartão que a voluntária estava a retirar da fita do vaso. Olhou de relance para ele, depois ficou petrificada, os seus olhos cheios de terror. Enquanto todos olhavam especados para ela, ela levantou o cartão com dedos que tremiam, lutando para manter a compostura.

 

Eu não sabia que as pessoas mortas podiam enviar flores murmurou ela. Leu-o em voz alta. «Minha muito querida. Tem fé em mim. Eu prometo que tudo irá dar certo.» Catherine mordeu o lábio. Está assinado: «O teu marido que te ama, Edwin.»

 

Na tarde de quarta-feira, investigadores de Connecticut dirigiram-se a Lawrenceville, Nova Jérsia, para interrogar Stephanie Petrovic a respeito da sua tia assassinada.

 

Tentando ignorar o agitar inquieto do seu útero, Stephanie juntou as mãos para as impedir de tremerem. Tendo crescido na Roménia sob o regime de Ceausescu, fora treinada para recear a Polícia, e, apesar dos homens que estavam sentados na sala de estar da sua tia parecerem muito amáveis e não terem uniformes, ela sabia o suficiente para não confiar neles. Pessoas que confiavam na Polícia acabavam muitas vezes na prisão ou em sítios piores.

 

O advogado da sua tia, Charles Potters, um homem que lhe fazia lembrar um oficial da aldeia onde nascera, também estava presente. Estava a ser amável, mas ela sentia que a sua amabilidade tinha algo de impessoal. Cumpria com o seu dever e já a informara de que o seu dever era levar a cabo os termos do testamento de Helene, que deixava toda a sua herança para a Clínica Manning.

 

Ela fazia tenções de o modificar dissera-lhe Stephanie. Ela planeava tomar conta de mim, ajudar-me enquanto eu frequentasse a escola de cosmética, para me arranjar um apartamento. Ela prometeu que me deixaria dinheiro. Ela disse que eu era como uma filha para ela.

 

Eu compreendo. Mas visto que ela não alterou o seu testamento, a única coisa que eu posso dizer é que até esta casa ser vendida, você pode viver nela. Como procurador, posso possivelmente fazer com que seja contratada como zeladora até a venda estar terminada. Depois disso, receio que esteja legalmente por sua conta.

 

Por sua conta! Stephanie sabia que se não conseguisse arranjar um visto provisório e um emprego, não havia forma de poder ficar no país.

 

Um dos polícias perguntou se existia algum homem que tivesse sido amigo pessoal da sua tia.

 

Não. Nem por isso respondeu. Às vezes, à noite, íamos a festas dadas por outros romenos. Por vezes, Helene ia a concertos. Ao sábado ou ao domingo, e com uma certa frequência, ela saía durante três ou quatro horas. Nunca me disse onde ia. Mas Stephanie sabia que não existia nenhum homem na vida da tia. Repetiu o quanto ficara surpreendida ao saber que Helene deixara, abruptamente, o seu emprego. Estava a planear deixar de trabalhar assim que vendesse a casa. Ela queria mudar-se para França durante algum tempo. Stephanie sabia que estava a tropeçar sobre as palavras inglesas. Estava apavorada.

 

De acordo com o Dr. Manning, ele não suspeitava de que ela estava a pensar em deixar a clínica disse em romeno, o detective chamado Hugo.

 

Stephanie lançou-lhe um olhar de gratidão e começou, também, a falar na sua língua nativa.

 

Ela disse-me que o Dr. Manning iria ficar muito perturbado e ela tinha medo de lhe dar a notícia.

 

Ela tinha outro emprego em mente? Significaria que as credenciais dela seriam, novamente, verificadas.

 

Ela disse que precisava de algum tempo livre para descansar. Hugo virou-se para o advogado.,

 

Qual era a situação financeira de Helene Petrovic?

 

Eu posso assegurar-lhe de que era bastante boa. A doutora, ou melhor, a Sr.a Petrovic, vivia muito cuidadosamente e fazia bons investimentos. Esta casa foi paga e ela tinha oitocentos mil dólares em acções, títulos e dinheiro respondeu Charles Potters.

 

«Tanto dinheiro», pensou Stephanie, e agora ela não iria receber um único tostão. Esfregou a testa com a mão. Doíam-lhe as costas. Os seus pés estavam inchados. Sentia-se tão cansada. O Sr. Potters estava a ajudá-la a preparar o serviço fúnebre. Teria lugar em St. Dominic, na sexta-feira.

 

Olhou à sua volta. Esta sala era tão bonita, com a sua tapeçaria de brocado azul, mesas polidas, candeeiros debruados a azul e o tapete azul-pálido. Toda esta casa era tão bonita. Ela gostava de estar num sítio como aquele. Helene prometera que poderia tirar dali algumas coisas e levá-las para o seu apartamento em Nova Iorque. Que haveria de fazer agora? Que estava a perguntar o polícia?

 

Para quando espera o seu bebé, Stephanie? Lágrimas corriam-lhe pela cara abaixo quando respondeu:

 

Dentro de duas semanas ela explodiu. Ele disse-me que o problema era meu e mudou-se para a Califórnia. Ele não me vai ajudar. Não sei onde o encontrar. Não sei o que fazer.

 

O choque que Meghan voltara a sentir ao ver a mulher morta que se parecia com ela desvanecera-se quando lhe tiraram uma amostra de sangue do braço.

 

Ela não sabia bem que reacção esperaria de Mac quando este visse o corpo. A única que detectara fora o cerrar dos seus lábios. O único comentário que fez foi que achara a semelhança tão alarmante que julgava a comparação do ADN absolutamente necessária. O Dr. Lyons era da mesma opinião.

 

Nem ela nem Mac tinham almoçado. Deixaram o escritório do médico legista em carros separados e foram até um dos locais favoritos de Meg, Neary’s, na Rua Cinquenta e Sete. Sentados lado a lado num banco do confortável restaurante, com uma sanduíche e café, Meghan contou a Mac tudo acerca das credenciais falsificadas e do possível envolvimento do pai.

 

Jimmy Neary aproximou-se para saber como estava a mãe de Meghan. Quando soube que Catherine estava no hospital, trouxe o seu telefone portátil para a mesa, para Meghan lhe telefonar. Phillip atendeu.

 

Olá, Phillip disse Meghan. Pensei em telefonar para saber como está a mãe. Podia passá-la, por favor?

 

Meg, ela teve um choque bastante grande.

 

Que tipo de choque? exclamou Meghan.

 

Alguém lhe enviou uma dúzia de rosas. Vais perceber quando eu te ler o cartão.

 

Mac estivera a olhar para o outro lado da sala, onde pendiam imagens emolduradas do campo irlandês. Ao ouvir a voz ofegante de Meghan, virou-se para ela, depois observou-a enquanto os olhos dela se abriam em estado de choque. «Passa-se alguma coisa com a Catherine», pensou.

 

Meg, que se passa? Retirou-lhe o telefone dos seus dedos trémulos. Estou...

 

Mac, fico satisfeito que esteja aí.

 

Era a voz de Phillip Cárter, soando, mesmo nesse momento, confiante e responsável.

 

Mac colocou o braço à volta de Meghan, enquanto Cárter relatava resumidamente os acontecimentos da última hora.

 

Eu vou ficar com a Catherine durante algum tempo informou. Ficou muito perturbada a princípio mas, agora, está mais calma. Ela diz que quer falar com a Meg.

 

Meg, é a tua mãe disse Mac, passando-lhe o telefone. Por um momento, não teve a certeza se Meghan o ouviu, mas logo em seguida ela agarrou no telefone. Ele podia ver o esforço que ela fazia para que a sua voz soasse normal.

 

Mãe, tens a certeza de que estás bem? Que é que eu penso? Eu também acho que é uma brincadeira cruel. Tens razão, o pai nunca faria uma coisa dessas... eu sei... eu sei como é difícil...Vá lá, tu certamente tens força suficiente para lidar com isto. És a filha do velho Pat, não és? Eu tenho um compromisso com o Sr. Weicker, na estação, daqui a uma hora. Depois, vou directamente para o hospital... Também te amo. Deixa-me falar com Phillip por um minuto. Phillip, vai ficar com ela, não vai? Ela agora não deve ficar sozinha... Obrigada.

 

Assim que desligou o telefone, Meghan começou a chorar.

 

É um milagre que a minha mãe não tenha tido um ataque cardíaco dos grandes, com os detectives a fazerem-lhe perguntas acerca do pai e a entrega daquelas rosas... A sua boca estremeceu e ela mordeu o lábio.

 

«Oh, Meg», pensou Mac. Ansiava por colocar os braços à sua volta, apertá-la contra si, afastando a dor dos seus olhos e lábios com beijos. Em vez disso, tentou tranquilizá-la acerca do principal receio que a paralisava.

 

Catherine não vai ter um ataque cardíaco disse-lhe, firmemente. Afasta, pelo menos, essa preocupação da tua cabeça. Estou a falar a sério, Meg. Agora, será que percebi bem quando o Phillip disse que a Polícia está a tentar ligar o teu pai ao assassinato daquela mulher Petrovic?

 

Aparentemente. Eles continuam a referir uma vizinha, que disse ter visto um homem alto com um Sedan escuro de último modelo, que visitava a Petrovic regularmente. O pai era alto. E conduzia um Sedan escuro.

 

Tal como milhares de outros homens altos, Meg. Isso é ridículo.

 

Eu sei que é. A minha mãe também o sabe. Mas a Polícia não acredita que o pai esteve envolvido no acidente da ponte, o que significa que, para eles, provavelmente, ainda está vivo. Eles querem saber por que motivo é que ele considerou verdadeiras as credenciais falsas da Petrovic. Eles perguntaram à mãe se ele teve algum relacionamento pessoal com a Petrovic.

 

Acreditas que ele esteja vivo, Meg?

 

Não, não acredito. Mas se ele colocou a Helene Petrovic naquele trabalho, sabendo que ela era uma fraude, algo estava mal. Anão ser que ela também o tenha enganado a ele.

 

Meg, conheço o teu pai desde que eu era um novato na faculdade. Se existe algo de que te posso assegurar é que Edwin Collins era, ou é, um homem muito gentil. O que disseste à Catherine é absolutamente verdade. Aquela chamada telefónica a meio da noite bem como o envio daquelas flores que a tua mãe recebeu não é, simplesmente, o tipo de coisa que o teu pai fizesse. Fazem parte do tipo de jogos que as pessoas cruéis jogam.

 

Ou pessoas dementes. Meghan endireitou-se como se estivesse consciente do braço de Mac à sua volta. Calmamente, Mac retirou-o e disse: Meg, as flores têm de ser pagas com dinheiro, com um cartão de crédito ou através de uma conta bancária. Como foi feito o pagamento das flores?

 

Suponho que os detectives estejam a verificar isso. Jimmy Neary ofereceu-lhes um Irish Coffee. Meghan sacudiu a cabeça.

 

Eu estava mesmo a precisar de um, Jimmy, mas é melhor ficar para a próxima. Tenho de ir para o escritório.

 

Mac ia regressar ao trabalho. Antes de entrar no carro, colocou-lhe as mãos sobre os ombros.

 

Uma coisa, Meg. Promete-me que me deixas ajudar.

 

Oh, Mac ela suspirou, acho que já tiveste a tua quota-parte dos problemas da família Collins. Quanto tempo é que o Dr. Lyons disse que demorariam os resultados da comparação do ADN?

 

De quatro a seis semanas respondeu Mac. Telefono-te hoje à noite, Meg.

 

Meia hora mais tarde, Meghan estava sentada no escritório de Tom Weicker.

 

A entrevista que fizeste com a recepcionista da Clínica Manning foi excelente disse-lhe ele. Mais ninguém tem nada que se assemelhe. Mas considerando a ligação do teu pai com a Petrovic, eu não quero que te voltes a aproximar daquele local.

 

Era o que esperava ouvir. Olhou directamente para ele.

 

O Centro Franklin em Filadélfia tem uma óptima reputação. Eu gostava de substituir essa instalação in vitro pela Clínica Manning esperou, receando ouvir que ele também a queria afastada dessa.

 

Quero a reportagem terminada o mais depressa possível. Toda a gente anda a sussurrar por causa da fertilização in vitro, devido à Petrovic. A altura é perfeita. Quando podes ir para Filadélfia? perguntou Weicker, deixando Meghan aliviada.

 

Amanhã.

 

Sentiu-se desonesta por não dizer a Tom que o Dr. Henry Williams, que chefiava o Centro Franklin, trabalhara com Helene Petrovic na Manning. Mas ela sabia que se tivesse alguma hipótese de conseguir falar com Williams seria como uma jornalista da PCD e não como a filha do homem que submetera o falso currículo de Helene Petrovic e que a recomendara entusiasticamente.

 

Depois de Connecticut, Bernie dirigiu-se para Manhattan. O ter visto a casa de Meghan trouxera-lhe à memória todas as outras vezes em que seguira uma rapariga até casa, escondendo-se depois no seu carro, na garagem ou até mesmo nos arbustos que cercavam a casa, de modo a poder observá-la. Era como se estivesse num mundo diferente, onde só eles os dois estivessem vivos, apesar de a rapariga não saber que ele se encontrava ali.

 

Sabia que tinha de estar perto de Meghan, mas teria de ter cuidado. Newtown era uma pequena comunidade fechada e os polícias de sítios como aquele estavam sempre alerta com os carros estranhos que vagueavam perto dos bairros.

 

«Supondo que tinha atropelado aquele cão», pensou Bernie, enquanto guiava através do Bronx na direcção da ponte da Avenida Willis. O seu dono, aquele miúdo, teria provavelmente começado a gritar até rebentar. As pessoas sairiam das suas casas para verem o que se tinha passado. Uma delas podia começar a fazer perguntas, o que faz um tipo num táxi cigano, neste bairro, numa rua sem saída? «Se alguém chamasse a Polícia, podiam verificar o meu cadastro», pensou Bernie. Ele sabia o que isso significaria.

 

Só havia uma coisa que ele podia fazer. Quando chegou à baixa de Manhattan, dirigiu-se à loja de preços baixos da Rua Quarenta e Sete, onde adquirira a maioria dos seus engenhos electrónicos. Já há algum tempo que andava de olho numa câmara vídeo, topo de gama. Comprara-a bem como um rádio scanner da Polícia para o carro.

 

De seguida, dirigiu-se a uma loja de artigos de arte e comprou folhas de papel cor-de-rosa. Este ano, o cor-de-rosa era a cor dos passes da Imprensa que a Polícia emitira para os media. Tinha um em casa. Um jornalista deixara-o cair na garagem. No seu computador, podia copiá-lo e fazer um passe que parecesse oficial. Faria também uma autorização de estacionamento para a Imprensa para colar no seu pára-brisas.

 

Havia montes de estações de cabo locais, às quais ninguém prestava atenção. Ele diria que era de uma delas. Seria Bernie Heffernan, repórter.

 

Tal como Meghan. O único problema era que estava a gastar demasiado depressa o dinheiro que recebera, relativo ao pagamento das férias e da indemnização. Teria de fazer com que o dinheiro continuasse a entrar. Felizmente, conseguiu apanhar um passageiro para o Aeroporto Kennedy e outro de regresso à cidade, antes de ser altura de ir para casa.

 

Ao jantar, a sua mãe estava a espirrar.

 

Estás a constipar-te, mãezinha? perguntou ele, solicitamente.

 

Eu não me constipo. Só tenho alergias ripostou ela. Acho que há pó nesta casa.

 

Mãezinha, sabes que aqui não há pó. Tu és uma boa dona de casa.

 

Bernard, tens mantido a cave limpa? Eu confio em ti. Não me atrevo a tentar descer aquelas escadas depois do que aconteceu.

 

Mãe, está óptima.

 

Viram juntos o noticiário das seis horas e observaram Meghan Collins a entrevistar a recepcionista na Clínica Manning. Bernie inclinou-se para a frente, bebendo o perfil de Meghan enquanto esta fazia perguntas. As suas mãos e testa ficaram húmidas. Depois, o telecomando foi-lhe arrancado da mão. Quando a televisão se desligou, ele sentiu a ferroada de um estalo na cara.

 

Estás a começar de novo, Bernard gritou-lhe a mãe. Estás a observar aquela rapariga. Sei que estás. Posso dizê-lo com toda a certeza! Tu nunca mais aprendes?

 

Quando Meghan chegou ao hospital encontrou a mãe completamente vestida.

 

Virginia trouxe-me algumas roupas. Eu tenho de sair daqui disse Catherine Collins, firmemente. Não posso simplesmente ficar deitada nesta cama a pensar. É demasiado perturbante. Pelo menos, na pousada, estarei ocupada.

 

Que disse o médico?

 

Ao princípio opôs-se, é claro, mas agora concorda, ou, pelo menos, está disposto a autorizar-me a alta. Avoz faltou-lhe. Meggie, não tentes fazer-me mudar de ideias. É realmente melhor se eu estiver em casa.

 

Meghan abraçou-a impetuosamente.

 

Já fizeste a mala?

 

Até já arrumei a escova de dentes. Meg, mais uma coisa. Aqueles investigadores querem falar contigo. Quando chegarmos a casa, tens de lhes telefonar a marcar um encontro.

 

O telefone estava a tocar quando Meghan abriu a porta de casa. Correu para o atender. Era Diná Anderson.

 

Meghan, se ainda está interessada em estar por perto quando o bebé nascer, comece a fazer planos. O médico vai colocar-me no Centro Médico Danbury na segunda-feira de manhã, e provocar o parto.

 

Estarei lá. Há problema se eu aparecer no domingo à tarde com um câmara e fizer algumas filmagens de si e de Jonathan a prepararem-se para a chegada do bebé?

 

Isso será óptimo.

 

Catherine Collins deslocou-se de quarto para quarto, acendendo as luzes.

 

É tão bom estar em casa murmurou.

 

Queres deitar-te?

 

Isso é a última coisa que eu quero fazer no mundo. Vou afundar-me na banheira e vestir-me como deve ser, e depois vamos jantar à pousada.

 

Tens a certeza? Meghan observava-a, enquanto o queixo da sua mãe se erguia e a sua boca se firmava numa linha.

 

Tenho a certeza absoluta. As coisas vão piorar muito mais antes de melhorarem, Meg. Vais ver quando falares com aqueles investigadores. Mas ninguém vai pensar que nos estamos a esconder.

 

Acho que as palavras exactas do avô eram: «Não deixem aqueles filhos da mãe apanharem-vos.» É melhor eu telefonar para o escritório do delegado público.

 

John Dwyer era o assistente do delegado público, designado para o tribunal de Danbury. A sua jurisdição incluía a cidade de New Milford.

 

Com 40 anos, Dwyer trabalhava no escritório do delegado público há quinze anos. Durante todos aqueles anos, enviara para a prisão alguns cidadãos notáveis, pilares da comunidade, por crimes que iam de fraude a homicídio. Acusara, igualmente, três pessoas que tinham falsificado as suas mortes numa tentativa de receber os seguros.

 

A suposta morte de Edwin Collins na tragédia da Ponte Tappan Zee, gerara uma cobertura simpatizante por parte dos media locais. A família era bem conhecida na área e a Pousada Drumdoe era uma instituição.

 

O facto, quase certo, de que o carro de Collins não caíra da ponte e o seu papel na verificação das credenciais falsas de Helene Petrovic tinham transformado um homicídio suburbano num escândalo a nível estatal. Dwyer sabia que o Departamento Estatal de Saúde estava a enviar investigadores médicos para a Clínica Manning, para determinar quais os prejuízos causados pela presença de Petrovic no laboratório da clínica.

 

Ao fim da tarde de quarta-feira, Dwyer teve uma reunião no seu escritório com os investigadores da Polícia de New Milford, Arlene Weiss e Bob Marron. Estes tinham conseguido obter o ficheiro de Petrovic no Departamento de Estado em Washington.

 

Weiss reviu em seu benefício os pontos essenciais do ficheiro.

 

Petrovic veio para os Estados Unidos há vinte anos atrás, quando tinha vinte e sete anos. A sua patrocinadora dirigia um salão de beleza na Broadway. O formulário de inscrição do seu cartão VISA descreve a sua educação como uma estudante da escola secundária, com algum treino numa escola de cosmética em Bucareste.

 

Não existe treino médico? perguntou Dwyer.

 

Nenhum em que ela se tenha inscrito confirmou Weiss. Bob Marron olhou para os seus apontamentos.

 

Ela foi trabalhar para o salão da sua amiga, permaneceu aí durante onze anos e, nos últimos dois, tirou cursos de secretariado à noite.

 

Dwyer abanou a cabeça.

 

Depois, ofereceram-lhe um emprego de secretária no Centro de Reprodução Assistida em Trenton, Nova Jérsia. Foi quando ela comprou a casa de Lawrenceville.

 

Três anos mais tarde, Collins colocou-a na Clínica Manning como uma perita em Embriologia.

 

E acerca de Edwin Collins? O seu historial confirma-se? perguntou Dwyer.

 

Sim. Ele é licenciado por Harvard em Gestão Empresarial. Nunca esteve em apuros. Sócio maioritário na firma. Adquiriu licença de porte de arma há cerca de dez anos, depois de ter sido retido num sinal vermelho em Bridgeport. O intercomunicador zumbiu.

 

A Menina Collins em resposta à chamada do Sr, Marron.

 

A filha de Collins? perguntou Dwyer.

- Sim.

 

Faz com que ela venha até cá amanhã.

 

Marron pegou no telefone e falou com Meghan, depois olhou para o assistente do delegado público.

 

Amanhã de manhã às oito horas, está bem? Vai amanhã para Filadélfia em trabalho e precisa de estar cá cedo.

 

Dwyer anuiu.

 

Depois de Marron ter confirmado o compromisso com Meghan e de ter pousado o auscultador, Dwyer inclinou-se para trás na sua cadeira giratória.

 

Vamos ver o que temos. Edwin Collins desapareceu e presume-se que esteja morto. Mas agora a sua mulher recebe flores enviadas por ele, que tu dizes que foram deduzidas do seu cartão de crédito.

 

A encomenda foi feita pelo telefone para a florista. O cartão de crédito nunca foi cancelado. Por outro lado e até esta tarde, o cartão não era usado desde Janeiro disse Weiss.

 

A conta não foi vigiada após o seu desaparecimento, para ver se havia algum tipo de movimento?

 

Até ao outro dia, presumia-se que Collins se tivesse afogado. Não existiam razões para nos mantermos vigilantes quanto aos seus cartões.

 

Arlene Weiss estava a verificar os seus apontamentos.

 

Quero perguntar a Meghan Collins uma coisa acerca de algo que a mãe dela nos disse. Que a chamada telefónica que levou a Sr.a Collins para o hospital, e que ela jura que não era do marido...

 

Que tem?

 

Ela pensou ter ouvido a pessoa que telefonou dizer algo como: «Estou em apuros». Que poderá isso significar?

 

Perguntaremos à filha o que ela pensa quando falarmos com ela amanhã disse Dwyer. Eu sei o que penso. Edwin Collins ainda está listado como desaparecido ou presumivelmente morto?

 

Marron e Weiss acenaram os dois ao mesmo tempo. O assistente do delegado público levantou-se.

 

Provavelmente, deveríamos mudar isso. Isto é como eu o vejo. Primeiro, estabelecemos a ligação Collins-Petrovic. Segundo, quase de certeza que não morreu no acidente da ponte. Terceiro, levantou todo o dinheiro das suas apólices algumas semanas antes do seu desaparecimento. Quarto, não foi encontrado qualquer vestígio do seu carro, mas um homem alto num Sedan escuro visitava regularmente a Petrovic. Quinto, a chamada telefónica, o uso do cartão de crédito, as flores. Eu digo que chega. Ponham uma indicação no Edwin Collins, dizendo: «Procurado para interrogatório pelo assassinato de Helene Petrovic.»

 

Pouco antes das cinco da tarde, Victor Orsini recebeu a chamada telefónica que receava. Larry Downes, presidente da Downes e Rosen, telefonou-lhe para lhe dizer que seria melhor ele não dar a notícia à Collins e Cárter.

 

Durante quanto tempo? perguntou Orsini, em voz baixa.

 

Não sei respondeu Downes, evasivamente. Este espalhafato acerca de Helene Petrovic acabará eventualmente por esmorecer, mas tu tens um feedback muito negativo agarrado a ti, para vires para aqui agora. E se se vem a descobrir que a Petrovic confundiu algum daqueles embriões na clínica, vai ser um sarilho dos diabos e tu sabes disso. Vocês colocaram-na lá e vocês irão ser considerados responsáveis.

 

Victor protestou.

 

Eu mal tinha começado quando a candidatura de Helene Petrovic foi submetida à Clínica Manning. Larry, tu deixaste-me em baixo no Inverno passado.

 

Peço desculpa, Victor. Mas o facto é que tu trabalhavas aí há seis semanas quando a Petrovic começou a trabalhar na Manning. O que significa que estavas lá quando a investigação sobre as credenciais dela deveriam estar a ocorrer. Collins e Cárter é uma pequena empresa. Quem é que vai acreditar que tu não sabias o que se estava a passar?

 

Orsini engoliu em seco. Quando falou com os jornalistas, dissera-lhes que nunca ouvira falar da Petrovic, que acabara de ser contratado quando ela fora aceite na Manning. Eles não tinham compreendido que ele estivera obviamente no escritório quando a candidatura dela fora processada. Tentou mais um argumento.

 

Larry, ajudei-vos muito este ano.

 

Ah, sim, Victor?

 

Colocaste candidatos em três das nossas melhores contas.

 

Talvez o perfil dos nossos candidatos fosse melhor.

 

Quem é que te disse que aquelas empresas necessitavam de preencher vagas?

 

Desculpa,Victor.

 

Orsini olhou fixamente para o auscultador, assim que a chamada se desligou. «Não nos telefones. Nós telefonaremos», pensou ele. Sabia, agora, que o emprego na Downes e Rosen, provavelmente, nunca lhe seria atribuído. Milly meteu a cabeça dentro do seu escritório.

 

Vou-me embora. Não foi um dia terrível, Sr. Orsini? Todos estes jornalistas a chegarem e todas aquelas chamadas telefónicas... Os seus olhos brilhavam de excitação. Victor conseguia imaginá-la à mesa do jantar nessa noite, repetindo com prazer cada pormenor do dia.

 

- O Sr. Cárter já voltou?

 

Não. Ele telefonou a dizer que ia ficar com a Sr.a Collins no hospital e depois iria directamente para casa. Sabe, acho que ele está a começar a gostar dela.

 

Orsini não respondeu.

 

Bem, boa noite, Sr. Orsini.

 

Boa noite, Milly.

 

Enquanto a mãe se vestia, Meghan esgueirou-se para o escritório e tirou as cartas e o obituário da gaveta da secretária do pai. Escondeu-as na mala e rezou para que a mãe não reparasse nos ténues arranhões da secretária, onde a lima se enfiara quando ela estava a arrombar a gaveta. Meghan teria eventualmente de lhe contar acerca das cartas e da notícia da morte da avó, mas não já. Talvez depois de ter ido a Filadélfia tivesse algum tipo de explicação.

 

Subiu as escadas até à sua própria casa de banho para lavar a cara e mãos e retocar a sua maquilhagem. Depois de ter hesitado um momento, decidiu-se a telefonar a Mac. Ele dissera-lhe que lhe telefonaria e ela não queria que ele pensasse que acontecera alguma coisa. «Mais do que aquillo que já aconteceu», corrigiu-se ela.

 

Kyle respondeu.

 

Meg! Era o Kyle que ela conhecia, deliciado por ouvir a sua voz.

 

Oi, companheiro. Como é que vai isso?

 

Óptimo. Mas hoje foi mesmo mau.

 

Porquê?

 

Quase que mataram Jake. Eu estava a atirar-lhe uma bola. Ele está a ficar muito bom em conseguir apanhá-la, mas eu atirei-a com muita força e foi parar à estrada, ele correu atrás dela e um tipo quase o atropelou. Quero dizer, devias ter visto o tipo a parar o carro. Mesmo a parar. O carro até abanou.

 

Fico satisfeita por Jake estar bem, Kyle. Da próxima vez, atira-lhe a bola no quintal. Tens mais espaço.

 

Isso foi o que o pai disse. Ele está a agarrar o telefone, Meg. Até à próxima.

 

Mac veio ao telefone.

 

Eu não o estava a agarrar. Eu segurei-o. Olá, Meg. Já tens todas as notícias deste lado. Como é que isso vai?

 

Ela disse-lhe que a mãe estava em casa.

 

Vou amanhã para Filadélfia, para a reportagem que estou a tentar executar.

 

Também vais verificar aquela morada em Chestnut Hill?

 

Sim. A mãe não sabe nada acerca disso nem acerca daquelas cartas.


Ela não o vai saber por mim. Quando é que regressas?

 

Provavelmente, não antes das oito horas. É uma viagem de quase quatro horas até Filadélfia.

 

Meg... a voz de Mac parecia hesitante. Eu sei que tu não queres que eu interfira, mas gostava que me deixasses ajudar. Por vezes, sinto que me estás a evitar.

 

Não sejas tolo. Nós sempre fomos bons compinchas.

 

Já não tenho a certeza se o somos. Talvez me tenha escapado alguma coisa. Que aconteceu?

 

«O que aconteceu», pensou Meghan, «é que não consigo deixar de pensar naquela carta que te escrevi há nove anos atrás, a suplicar-te para não casares com a Ginger sem me contorcer de humilhação. O que acontece é que eu nunca serei mais do que a tua pequena companheira e consegui separar-me de ti. Não me posso arriscar a passar novamente pela retirada de Jeremy Maclntyre.»

 

Não aconteceu nada, Mac disse ela, ligeiramente. Ainda és o meu compincha. Só que já não falo acerca de lições de piano. Desisti delas há anos atrás.

 

Nessa noite, quando ela foi ao quarto da mãe para lhe abrir a cama, colocou o auscultador do telefone fora do descanso. Se houvessem mais chamadas nocturnas, seriam apenas ouvidas por ela.

 

O Dr. Henry Williams, de 65 anos e o responsável pelo Centro de Reprodução Assistida de Franklin na recentemente renovada área urbana da cidade, era um homem que fazia, vagamente, lembrar o tio favorito de toda a gente. O seu cabelo era forte, abundante e começava a ficar cinzento, e possuía uma cara bondosa que tranquilizava até o paciente mais nervoso. Muito alto, quando falava inclinava-se ligeiramente, o que sugeria que tinha o hábito de se curvar para ouvir o seu interlocutor.

 

Meghan telefonara-lhe depois da sua reunião com Tom Weicker e ele concordara imediatamente com a marcação de uma entrevista. Neste momento, Meghan sentava-se em frente da sua secretária no seu alegre escritório, cujas paredes eram revestidas por fotografias emolduradas de bebés e crianças pequenas.

 

Estas crianças nasceram todas através da fertilização in vitro?

 

perguntou Meghan.

 

Nasceram através da reprodução assistida corrigiu Williams.

 

Nem todas são nascimentos in vitro.

 

Eu compreendo ou, pelo menos, acho que sim. O método in vitro é aquele cujos óvulos são retirados dos ovários e fertilizados com o sémen em laboratório.

 

Correcto. Compreende que são dadas às mulheres químicos de fertilidade, de modo a que os seus ovários possam libertar grande número de óvulos ao mesmo tempo?

 

Sim. Eu sei isso.

 

Existem outros procedimentos que nós praticamos, tudo variantes da fertilização in vitro. Acho que talvez seja melhor dar-lhe alguma literatura, onde estes processos são explicados. Resume-se, basicamente, a dados de serviços que fazem a síntese de como assistir uma mulher a ter a gravidez de sucesso, que ela almeja.

 

Estaria disposto a ser entrevistado perante uma câmara, de nos deixar fazer algumas filmagens nas instalações e a falar com alguns dos seus clientes?

 

Sim. Sinceramente, nós estamos orgulhosos com o que fazemos e publicidade favorável é sempre bem-vinda. No entanto, há algo que terei de ser eu a fazer. Contactarei alguns dos nossos clientes e perguntar-lhes-ei se estão dispostos a falar consigo. Não quero que seja você a aproximar-se deles. Algumas pessoas optam por não dar a conhecer às suas famílias que utilizaram procedimentos de nascimento assistido.

 

Por que haveriam de se opor? Acho que devem ficar satisfeitos por irem ter o bebé.

 

E ficam. Mas uma sogra, ao ter conhecimento do nascimento assistido do neto, disse abertamente que duvidava que o bebé fosse realmente filho do seu filho, porque a contagem de espermatozóides do filho era muito baixa. Assim, executámos tanto à nossa cliente como ao marido e ao bebé um teste de ADN, de modo a provar que este era o descendente de ambos os pais.

 

É claro, que algumas pessoas usam embriões doados.

 

Sim, aqueles que simplesmente não conseguem conceber por eles próprios. É, de facto, uma forma de adopção.

 

Acho que deve ser. Doutor, eu sei estou a ir demasiado depressa, mas poderia voltar cá durante a tarde do dia de hoje com um cameraman? Uma mulher no Connecticut está prestes a dar à luz o gémeo idêntico do seu filho que nasceu há três anos atrás, através da fertilização in vitro. Iremos fazer a sequência das imagens do progresso das crianças.

 

A expressão de Williams modificou-se, tornando-se preocupada.

 

Por vezes, penso se não estaremos a ir longe de mais. O aspecto psicológico do nascimento em alturas diferentes de gémeos idênticos preocupa-me grandemente. Acidentalmente, quando o embrião se divide em dois e um é criogenicamente preservado, chamamos-lhe o clone, não o gémeo idêntico. Mas para responder à sua pergunta, sim, estarei disponível logo à tarde.

 

Nem lhe posso dizer o quanto lhe estou grata. Faremos algumas filmagens no exterior e na área de recepção. Farei a introdução, a partir do início do Centro Franklin. Foi há cerca de seis atrás, segundo me constou.

 

Fez seis anos em Setembro último.

 

Então, farei perguntas específicas acerca da fertilização in vitro e do congelamento, quero dizer da preservação criogénica do clone, como no caso da Sr.a Anderson.

 

Meghan levantou-se para partir.

 

Tenho alguns preparativos de última hora para fazer. Quatro horas é uma boa hora para si?

 

Está óptima.

 

Meghan hesitou. Receava questionar o Dr. Williams acerca de Helene Petrovic antes de ter estabelecido alguns laços com ele, mas não podia esperar mais.

 

Dr. Williams, eu não sei se os jornais aqui reportaram a história, mas Helene Petrovic, uma mulher que trabalhava na Clínica Manning, foi encontrada morta, e veio a público que as Credenciais dela eram falsas. O senhor conhecia-a e chegou a trabalhar com ela, não foi?

 

Sim, trabalhei Henry Williams abanou a cabeça. Eu era o assistente do Dr. Manning e sabia de tudo o que se passava naquela clínica e quem estava a fazer o trabalho. Fui, certamente, enganado por Helene Petrovic. Ela mantinha aquele laboratório do modo que os laboratórios deveriam ser mantidos. É terrível que ela tenha falsificado as credenciais, mas ela parecia saber exactamente o que estava a fazer.

 

Meghan decidiu arriscar-se, dando a perceber a este homem amável o porquê desta sondagem.

 

Doutor, a firma do meu pai e especialmente o meu pai foram acusados de confirmarem as mentiras de Helene Petrovic. Peço desculpa, mas tenho de tentar saber mais acerca dela. A recepcionista da Clínica Manning viu-o a si e a Helene Petrovic, uma vez, a jantarem juntos. Até que ponto é que a conheceu?

 

Henry Williams parecia divertido.

 

Refere-se a Marge Walters. Também lhe contou que, como uma forma de cortesia, eu levava sempre a jantar fora todos os novos membros da equipa da Manning? Umas boas-vindas informais...

 

Não, não contou. Conhecia a Helene Petrovic antes de ela ter ido para a Manning?

 

Não.

 

Teve algum contacto com ela desde que saiu?

 

Nenhum.

 

O intercomunicador zumbiu. Ele levantou o auscultador e escutou.

 

Espere um momento, por favor disse, virando-se de seguida para Meghan.

 

Ela aproveitou a deixa.

 

Doutor, eu não lhe vou tomar mais do seu tempo. Muito obrigada. Meghan pegou na sua mala e saiu.

 

Quando a porta se fechou atrás dela, o Dr. Henry Williams voltou a aproximar o auscultador do ouvido.

 

Passe agora a chamada, se faz favor murmurou um cumprimento, escutou, depois disse nervosamente: Sim, é claro que estou sozinho. Ela acabou de sair. Ela vai estar de volta às quatro horas, com um operador de câmara. Não me digas para ser cuidadoso. Pensas que sou parvo?

 

Pousou o auscultador no telefone, sentindo-se de repente infinitamente cansado. Passado um momento, levantou novamente o auscultador e marcou um número.

 

Está tudo sobre controlo por aí? perguntou ele.

 

Os seus antepassados escoceses chamavam-lhe segunda visão. Este dom surgia sempre nas mulheres de diferentes gerações do Clã Campbell. Desta vez, fora concedido a Fiona Campbell Black. Uma médium que era requisitada regularmente pelos departamentos de Polícia por todo o país para ajudar a resolver crimes, e por famílias frenéticas por descobrir os seus amados desaparecidos. Fiona tratava as suas capacidades extraordinárias com um profundo respeito. Casada há vinte anos, vivia em Litchfield, Connecticut, uma antiga e adorável cidade que fora fundada no princípio do século xvI.

 

Na quinta-feira à tarde, o marido de Fiona, Andrew Black, um advogado com escritórios na cidade, veio a casa para almoçar. Ele encontrou-a sentada na sala do pequeno-almoço, o jornal da manhã espalhado à sua frente, o seu olhar pensativo, a sua cabeça inclinada como se estivesse à espera de ouvir uma voz ou um som, que ela não queria perder.

 

Andrew Black sabia o que aquilo significava. Despiu o seu casaco, atirou-o para uma cadeira e disse:

 

Vou arranjar qualquer coisa para nós.

 

Dez minutos mais tarde, quando regressou com um prato de sanduíches e um bule de chá, Fiona ergueu as suas sobrancelhas.

 

Aconteceu quando eu vi isto ergueu o jornal local, onde a fotografia de Edwin Collins surgia na página principal. Eles estão à procura deste homem para o interrogarem acerca da morte da tal Petrovic.

 

Black serviu o chá.

 

Eu li essa notícia.

 

Andrew, eu não me quero envolver, mas acho que tenho de o fazer. Estou a receber uma mensagem acerca dele.

 

É muito clara?

 

Não, não é. Tenho de tratar de algo que lhe pertence. Achas que devo telefonar à Polícia de New Milford ou achas que vá falar directamente com a família?

 

Acho que é melhor tentares primeiro a Polícia.

 

Se calhar lentamente, Fiona passou as pontas dos dedos sobre a reprodução da cara de Edwin Collins. Tanta maldade murmurou ela, tanta morte e maldade a cercá-lo.

 

O primeiro passageiro de Bernie na manhã de quinta-feira vinha do Aeroporto Kennedy. Ele estacionou o Chevy e vagueou até onde os autocarros suburbanos apanhavam e deixavam os passageiros. Bernie olhou de relance para o horário. Um autocarro para Westport estava prestes a chegar e um grupo de pessoas esperavam-no. Um casal com aproximadamente trinta anos estava acompanhado por duas crianças pequenas e uma data de bagagem. Bernie decidiu que eles geriam clientes em perspectiva.

 

Connecticut? perguntou-lhes, o seu sorriso aberto.

 

Não vamos apanhar um táxi disse a mulher, impacientemente, enquanto agarrava a mão do miúdo de dois anos. Billy, fica comigo ralhou ela. Tu não podes andar por aqui a correr.

 

Quarenta dólares mais portagens disse Bernie. Tenho de ir buscar uma pessoa perto de Westport, por isso qualquer passageiro que eu consiga encontrar é dinheiro ganho.

 

O marido tentava segurar a criança de três anos, que se retorcia.

 

Negócio fechado. Nem se preocupou em olhar para a mulher para obter a sua aprovação.

 

Bernie levara, novamente, o seu carro à lavagem e voltara a aspirar o interior. Viu o desdém que, inicialmente, surgira na cara da mulher alterar-se para aprovação ao ver o interior limpo do Chevy. Conduziu cuidadosamente, nunca ultrapassando o limite de velocidade e sem mudanças rápidas de alameda para alameda. O homem sentou-se à frente. A mulher estava no banco de trás, os miúdos sentados a seu lado, com os cintos de segurança colocados. Bernie pensou que não se deveria esquecer de comprar alguns assentos de criança, os quais guardaria no porta-bagagens quando não fossem utilizados.

 

O homem indicou a Bernie para se dirigir para a Saída 17, depois da portagem de Connecticut.

 

Fica a pouco mais de dois quilómetros daqui.

 

Quando chegaram à agradável casa de tijolo na Estrada de Tuxedo, Bernie foi recompensado com uma gorjeta de dez dólares.

 

Regressou à portagem de Connecticut, a sul da Saída 15 e, novamente, ao Itinerário 7. Era como se ele não conseguisse impedir o carro de se dirigir aonde Meghan vivia. «Tem cuidado», tentou dizer a si próprio. Mesmo com a câmara e o passe de jornalista, podia parecer suspeito o facto de estar na sua rua.

 

Decidiu tomar uma chávena de café e pensar acerca disso. Estacionou junto ao restaurante mais próximo. Entre a porta interior e exterior, existia uma máquina de venda de jornais. Através do vidro, Bernie viu o cabeçalho, o qual só mencionava a Clínica Manning. Fora ali que Meghan realizara a entrevista de ontem, aquela que ele e a mãe tinham visto. Procurou algumas moedas dentro do bolso e comprou um jornal. Enquanto bebia café, leu o artigo. A Clínica Manning ficava a cerca de quarenta minutos da cidade de Meghan. Deviam andar por lá jornalistas porque eles estavam a investigar o laboratório onde aquela mulher trabalhara.

 

Talvez a Meghan também estivesse lá. Ontem, estivera lá.

 

Quarenta minutos mais tarde, Bernie encontrava-se na estreita e sinuosa estrada que conduzia do antigo centro de Kent até à Clínica Manning. Depois de ter deixado o restaurante, sentara-se no carro e estudara muito cuidadosamente o mapa da área, imaginando o caminho mais fácil e directo para lá chegar.

 

Tal como esperara, existiam algumas carrinhas de jornalistas no parque de estacionamento da clínica. Estacionou a uma certa distância e colocou a sua autorização de estacionamento no pára-brisas. Depois, estudou o passe de jornalista que criara. Seria necessário um perito para verificar que não era genuíno. Apresentava-o como Bernie Heffernan, Canal 86, Elmira, Nova Iorque. Recordou-se que esta era uma estação da comunidade local. Se alguém perguntasse por que estaria aquela comunidade interessada nesta história, ele diria que estavam a pensar em construir instalações semelhantes às da Clínica Manning por lá.

 

Satisfeito por verificar que a sua história parecia verosímil, Bernie saiu do carro e apertou o seu corta-vento. A maioria dos jornalistas e dos câmaras não se vestiam a rigor. Decidiu pôr óculos escuros, depois tirou a sua nova câmara de vídeo do porta-bagagens. «Topo de gama», disse a si próprio orgulhosamente. Custara-lhe umas boas massas. Descontara-as no seu cartão de crédito. Esfregara-a com algum pó da cave, de modo a que não parecesse nova e pintara dos lados o logotipo do Canal 86.

 

Uma dúzia ou mais de repórteres e de operadores de câmara encontravam-se na recepção da clínica. Entrevistavam um homem que, Bernie podia ver, estava a empatá-los.

 

Eu repito, a Clínica Manning está orgulhosa do seu sucesso no auxílio prestado às mulheres que desejam, ardentemente, ter filhos. Acreditamos que, apesar das informações constantes do seu visto, Helene Petrovic tornou-se perita em Embriologia na Roménia. Nenhum dos profissionais que trabalharam com ela detectaram a mínima palavra ou acção da sua parte que sugerisse que ela não soubesse tudo acerca do seu trabalho dizia este.

 

Mas... e se ela cometeu erros? perguntou um jornalista. Suponhamos que ela misturou aqueles embriões congelados e as mulheres deram à luz filhos de outras pessoas?

 

Nós faremos análises de ADN para quaisquer pais que desejem o teste clínico para si próprios e para o seu filho. Os resultados demoram de quatro a seis semanas, mas são irrefutáveis. Se os pais desejarem que o teste seja feito noutra instalação, nós pagaremos a despesa. Nem o Dr. Manning nem nenhum dos membros mais antigos da equipa esperam qualquer problema nessa área.

 

Bernie olhou à sua volta. Meghan não estava ali. Deveria ele perguntar às pessoas se a tinham visto? Não, isso seria um erro. «Torna-te simplesmente parte da multidão», acautelou-se ele. Mas tal como esperava, ninguém lhe prestava a mínima atenção. Apontou a câmara na direcção do tipo que estava a responder às perguntas e ligou-a.

 

Quando a entrevista acabou, Bernie afastou-se juntamente com o grupo, precavendo-se para não se aproximar de ninguém. Avistara um câmara da PCD, mas não reconheceu o homem forte que segurava o microfone. Perto dos degraus do alpendre, uma mulher-parou o seu carro e saiu. Estava grávida e obviamente preocupada.

 

A senhora é uma das clientes? perguntou-lhe um jornalista. Stephanie Petrovic tentou esconder a cara das câmaras, enquanto chorava.

 

Não, não. Eu só vim suplicar-lhes para partilharem o dinheiro da minha tia comigo. Ela deixou tudo à clínica. Acho que alguém da clínica a deve ter assassinado, porque tinham medo que, depois da sua demissão, ela pudesse modificar o seu testamento. Se eu pudesse provar isso, o dinheiro dela seria meu?

 

Durante longos minutos, Meghan manteve-se sentada no seu carro em frente à bonita casa de calcário em Chestnut Hill, a trinta e dois quilómetros da baixa da cidade de Filadélfia. As linhas graciosas da residência de três andares eram acentuadas pelas janelas de caixilho, pela antiga porta de carvalho e pelo telhado de ardósia, que cintilava em tonalidades verde-escuras sob o sol do início da tarde.

 

O passeio que serpenteava através da vasta extensão de relvado era bordejado por filas de azaleas, que Meghan estava certa que haveriam de florescer com uma beleza viva na Primavera. Uma dúzia de delgados vidoeiros brancos espalhavam-se como sentinelas por toda a propriedade.

 

O nome na caixa do correio era C. J. Graham. Tinha ela alguma vez ouvido o seu pai dizer aquele nome? Meghan achava que não. Saiu do carro e subiu lentamente o passeio. Hesitou um momento, depois tocou à campainha e ouviu o ténue ressoar de sinos dentro da casa. Um pouco depois, a porta foi aberta por uma criada de uniforme.

 

Sim? A sua pergunta era educada mas reservada. Meghan apercebeu-se de que não sabia quem haveria de pedir para ver.

 

Eu gostaria de falar com a pessoa que vive nesta casa que possa ter sido amiga de Aurelia Collins.

 

Quem é, Jessie? ouviu-se uma voz masculina.

 

Atrás da criada, Meghan viu um homem alto, com cabelo branco como a neve, a aproximar-se da porta.

 

Convida a jovem a entrar, Jessie instruiu ele. Está frio lá fora.

 

Meghan entrou. Enquanto a porta se fechava, os olhos do homem semicerraram-se. Ele fez-lhe sinal para que ela se aproximasse.

 

Entre, por favor. Para a luz. Um sorriso assomou-lhe ao rosto. É a Annie, não é? Minha querida, fico satisfeito por voltar a vê-la.

 

Catherine Collins tomou o pequeno-almoço com Meghan antes de esta sair para se encontrar com os detectives do tribunal de Danbury e de conduzir, em seguida, para Filadélfia. Catherine levou uma segunda chávena de café para o andar de cima e ligou a televisão do seu quarto. Nas notícias locais, ouviu que a posição oficial acerca do seu marido o qual era considerado como desaparecido, presumivelmente morto fora alterada para procurado para interrogatório acerca da morte de Helene Petrovic.

 

Quando Meg telefonou para dizer que terminara a reunião com os detectives e estava prestes a partir para Filadélfia, Catherine perguntou:

 

Meg, que é que eles te perguntaram?

 

O mesmo tipo de perguntas que te fizeram a ti. Tu sabes que eles estão convencidos de que o pai está vivo. Até à data, acusam-no de fraude e homicídio. Sabe Deus o que mais irão inventar. Foste tu que me avisaste ontem que iria ficar pior antes de melhorar. Tinhas razão e de que maneira!

 

Alguma coisa na voz de Meghan arrepiou Catherine.

 

Meg, há qualquer coisa que não me estás a contar.

 

Mãe, tenho de ir. Falaremos logo à noite, prometo.

 

Não quero que me escondas nada.

 

Juro, por Deus, que não te esconderei nada.

 

O médico aconselhara Catherine a ficar em casa e a descansar, pelo menos durante alguns dias. «Descansar e oferecer-me um verdadeiro ataque cardíaco a preocupar-me», pensou, enquanto se vestia. Iria antes para a pousada.

 

Estivera ausente apenas durante alguns dias, mas podia encontrar algumas diferenças. Virginia era uma boa profissional, mas falhava nos pormenores. O arranjo floral do balcão da recepção começava a inclinar-se.

 

Quando chegou isto? perguntou Catherine.

 

Hoje de manhã.

 

Telefona à florista e pede para o substituírem.

 

As rosas que recebera no hospital estavam frescas e orvalhadas, recordou-se Catherine.

 

As mesas na sala de jantar estavam postas para o almoço. Catherine percorreu-as, uma a uma, examinando-as atentamente, com um ajudante a segui-la.

 

Falta aqui um guardanapo e outro na mesa ao pé da janela. Ali falta uma faca e o saleiro parece sujo.

 

Sim, minha senhora.

 

Foi até à cozinha. Em Julho e após vinte anos de serviço, o seu antigo chefe reformara-se. O seu substituto, Clive D’Arcette, surgira com uma experiência impressionante, apesar de ter apenas 26 anos. Passados quatro meses, Catherine chegara à conclusão de que ele era um substituto razoável, mas ainda não sabia desenvencilhar-se sozinho.

 

Estava a preparar os pratos especiais para o almoço quando Catherine entrou na cozinha. Franziu o nariz ao reparar nos salpicos de gordura no fogão. Obviamente, que pertenciam ao jantar da noite anterior. O caixote do lixo não fora despejado. Ela provou o molho holandês.

 

Por que é que está salgado? perguntou.

 

Eu não lhe chamaria salgado, Sr.a Collins disse D’Arcette, o seu tom não mostrando qualquer delicadeza.

 

Mas eu chamo-lhe salgado e suspeito que alguém que o encomende também lhe dê o mesmo nome.

 

Sr.a Collins, a senhora contratou-me para ser o chef. A não ser que eu possa ser o chefe possa preparar a comida à minha maneira, esta situação não resultará.

 

Tornou-me tudo muito mais fácil disse Catherine. Está despedido.

 

Estava a atar um avental à volta da cintura, quando Virginia Murphy entrou apressadamente.

 

Catherine, para onde vai Clive? Ele acabou de passar por mim como um furacão.

 

Espero que de regresso à escola de culinária.

 

Devia estar a descansar. Catherine voltou-se para ela.

 

Virginia, a minha salvação vai estar neste fogão durante todo o tempo que conseguir manter este lugar. Bem, que especiais é que o Escoffier marcou para hoje?

 

Serviram quarenta e três almoços, bem como sanduíches no bar. Estava uma boa casa. Enquanto os novos pedidos abrandavam, Catherine conseguiu ir até à sala de jantar. No seu longo avental branco, foi de mesa em mesa, parando por momentos em cada uma. Podia ver os olhares interrogativos, surgindo atrás dos acolhedores sorrisos de saudação.

 

«Não culpo as pessoas por serem curiosas depois de tudo o que já ouviram», pensou ela. «Eu também o ficaria. Mas estes são meus amigos. Esta é a minha pousada e, independentemente da verdade que for revelada, a Meg e eu temos o nosso lugar nesta cidade.»

 

Catherine passou o resto da tarde no escritório vendo os livros. «Se o Banco me deixar refinanciar e se eu penhorar ou vender as minhas jóias», decidiu, «sou capaz de me aguentar, pelo menos, durante seis meses. Até lá, pode ser que fiquemos a saber alguma coisa em relação ao seguro.» Fechou os olhos. Se ao menos não tivesse colocado a casa em seu nome e no de Edwin depois da morte do pai...

 

«Por que é que o fiz?», pensou. «Sei porquê. Eu não queria que Edwin pensasse que estava a viver na minha casa. Mesmo quando o pai era vivo, Edwin sempre insistiu em pagar as contas mensais e as reparações. «Tenho de sentir que pertenço aqui», dizia. Oh, Edwin!» Como é que ele se chamava a si próprio? Oh sim, um «trovador viajante». Ela sempre pensara nisso como uma piada. Será que ele o dizia como uma piada? Agora, já não estava tão certa disso.

 

Tentou recordar-se de algumas estrofes da velha canção de Gilbert e Sullivan, que ele costumava cantar. Só se recordou do início da canção e de uma outra frase. O início era: «Um trovador viajante, Eu, uma coisa de fragmentos e remendos». A outra frase: «E para os inconstantes humores, eu canto a melodia da minha canção subtil.»

 

«Palavras melancólicas se as analisarmos. Por que teria Edwin achado que elas se aplicavam a ele?»

 

Resolutamente, Catherine regressou à verificação das contas. O telefone tocou quando ela fechava o último livro. Era Bob Marron, um dos detectives que a fora visitar ao hospital.

 

Sr.a Collins, como não estava em casa, arrisquei telefonar para a pousada. Surgiu uma coisa. Nós sentimos que devíamos passar-lhe esta informação, apesar de não recomendarmos que actue, necessariamente, em conformidade com ela.

 

Não sei do que é que está a falar disse Catherine, frontalmente.

 

Prestou-lhe atenção enquanto Marron lhe contava que Fiona Black, uma vidente que trabalhara diversas vezes com eles em casos de pessoas desaparecidas, telefonara.

 

Ela diz que está a receber vibrações muito fortes acerca do seu marido e gostaria de poder tocar em algo que lhe tivesse pertencido concluiu Marron.

 

Está a tentar enviar-me alguma curandeira?

 

Eu sei como se sente, mas lembra-se da criança Talmadge que desapareceu há três anos?

 

Sim.

 

Foi a Sr.a Black que nos disse para concentrarmos as buscas na área de construção, perto da Câmara Municipal. Ela salvou a vida daquela criança.

 

Estou a perceber. Catherine humedeceu os lábios com a língua. «Mais vale saber alguma coisa do que nada», disse para si própria. Agarrou com mais força no auscultador. Que é que a Sr.a Black quer de Edwin? Roupa? Um anel?

 

Ela está aqui neste momento. Ela gostaria de passar por sua casa e escolher algo, se for possível. Eu posso levá-la até aí, dentro de meia hora.

 

Catherine pensou se deveria esperar por Meg antes de se encontrar com esta mulher.

 

Dentro de meia hora, está bem. Eu vou agora para casa disse, antes de se aperceber.

 

Meghan sentia-se congelada no tempo enquanto se encontrava no átrio com o homem elegante o qual, obviamente, acreditava que já se tinham conhecido anteriormente. Através de lábios demasiado entorpecidos para proferir palavras, ela conseguiu dizer:

 

O meu nome não é Annie. é Meghan. Meghan Collins. Graham olhou de perto para ela.

 

És a filha de Edwin, não és?

 

Sim, sou.

 

Vem comigo, por favor agarrou-lhe no braço e conduziu-a através da porta para o escritório, à direita do átrio. Passo a maior parte do meu tempo aqui disse-lhe ele, enquanto a guiava até ao sofá e se sentava numa cadeira de costas altas. Desde que a minha mulher faleceu, esta casa parece-me horrivelmente grande.

 

Meghan apercebeu-se de que Graham vira o seu choque e angústia e estava a tentar abrandá-los. Mas ela já nem era capaz de colocar as perguntas diplomaticamente. Abriu a mala e retirou o envelope com a notícia da necrologia.

 

Enviou isto ao meu pai? perguntou-lhe.

 

Sim, enviei. Ele não se mostrou agradecido, mas também nunca esperei que o fizesse. Eu tive tanta pena quando li tudo acerca do acidente de Janeiro passado.

 

Como é que conhecia o meu pai? perguntou Meghan.

 

Peço desculpa desculpou-se ele. Eu acho que não me apresentei. Eu sou Cyrus Graham. O meio-irmão do teu pai.

 

«O meio-irmão dele! Eu nunca soube da existência deste homem», pensou Meghan.

 

Ainda há pouco chamou-me Annie... disse ela. Porquê? Ele respondeu-lhe com uma pergunta.

 

Tens alguma irmã, Meghan?

 

Não.

 

E não te lembras de te teres encontrado comigo há dez anos atrás no Arizona, estando o teu pai e a tua mãe também presentes?

 

Eu nunca estive no Arizona.

 

Então, estou totalmente confuso disse-lhe Graham.

 

Exactamente quando e onde acha que nos encontrámos no Arizona? perguntou Meghan, apressadamente.

 

Deixa-me ver. Foi em Abril, quase há onze anos atrás. Em Scottsdale. A minha mulher tinha ido passar uma semana nas Termas de Elizabeth Ar den e eu ia buscá-la de manhã no dia seguinte. Na noite anterior, eu tinha ficado no Hotel Safari em Scottsdale. Estava a sair da sala de jantar, quando avistei Edwin. Estava sentado com uma mulher que devia estar na casa dos quarenta e uma jovem rapariga que se parecia muito contigo. Graham olhou para Meghan. Aliás, tanto tu como ela se parecem muito com a mãe de Edwin.

 

A minha avó.

 

Sim. Agora ele parecia preocupado. Meghan, receio que isto te esteja a angustiar.

 

É muito importante que eu saiba tudo o que for possível acerca das pessoas que estavam com o meu pai nessa noite.

 

Muito bem. Compreendes que foi um encontro breve, mas visto que era a primeira vez em anos que eu via Edwin, causou-me um certo choque.

 

Há quanto tempo não o via antes disso?

 

Desde que terminou a escola preparatória. Mas apesar de terem passado trinta anos, reconheci-o imediatamente. Aproximei-me da mesa e fui friamente recebido. Ele apresentou-me à mulher e à filha, como se eu fosse alguém que ele tivesse conhecido em Filadélfia na infância. Percebi a deixa e parti imediatamente. Soube através de Aurelia que ele e a família viviam em Connecticut e parti do princípio que estavam, simplesmente, a passar férias no Arizona.

 

Ele apresentou-lhe a mulher com quem estava como sendo a mulher dele?

 

Acho que sim. Não posso ter a certeza disso. Ele deve ter dito algo como: «Francês e Annie, este é o Cyrus Graham.»

 

Tem a certeza que o nome da rapariga era Annie?

 

Sim, tenho. E sei que o nome da mulher era Francês.

 

Que idade tinha a Annie então?

 

Diria que cerca de dezasseis.

 

Meghan pensou que isso faria com que ela tivesse agora cerca de vinte e seis. Estremeceu. «E está na morgue em vez de mim.» Apercebeu-se de que Graham estava a estudá-la.

 

Acho que nos faria bem uma chávena de chá disse ele. Já almoçaste?

 

Por favor, não se incomode.

 

Gostaria que me fizesses companhia. Vou pedir à Jessie para preparar algo para nós.

 

Quando ele saiu do escritório, Meghan colocou as suas mãos apertadas sob os joelhos. As suas pernas estavam fracas e cambaleantes, como se não sustentassem as pernas. «Annie», pensou. Uma recordação veio-lhe à memória acerca de uma discussão de nomes que tivera com o pai.

 

«Como é que escolheu Meghan Anne para mim?» «Os meus dois nomes favoritos no mundo são Meghan e Annie. E foi assim que tu te tornaste Meghan Anne.»

 

«Acabaste por usar os teus dois nomes favoritos afinal de contas, pai», pensou Meghan, amargamente. Quando Cyrus Graham regressou, seguido pela criada, a qual trazia uma bandeja com um lanche, Meghan aceitou uma chávena de chá e uma sanduíche.

 

Não consigo dizer-lhe o quão chocada estou disse ela, e estava satisfeita por, pelo menos, parecer calma. Agora fale-me dele. Subitamente, o meu pai tornou-se um completo estranho para mim.

 

Não era uma história muito bonita. Richard Collins, o seu avô, casara com Aurelia Crowley de dezassete anos, quando esta ficara grávida.

 

Ele achou que era a solução mais honrosa disse Graham. Ele era muito mais velho e divorciou-se dela quase de seguida, mas sustentou-a e ao bebé com uma razoável generosidade. Um ano mais tarde, quando eu tinha catorze, Richard e a minha mãe casaram. O meu próprio pai já tinha morrido. Este era o lar da família Graham. Richard Collins mudou-se para cá e foi um bom casamento. Ele e a minha mãe eram ambos bastante rígidos, pessoas tristes, e, como diz o velho ditado: «Em vez de se estragarem duas famílias estraga-se só uma.»

 

E o meu pai foi criado pela mãe?

 

Até aos três anos, quando Aurelia se apaixonou loucamente por alguém da Califórnia que não queria ser sobrecarregado com uma criança. Uma manhã, ela chegou aqui e depositou Edwin com as suas malas e brinquedos. A minha mãe estava furiosa. Richard estava ainda mais furioso e o pequeno Edwin estava devastado. Ele venerava a mãe.

 

Ela abandonou-o numa família onde ele não era desejado? perguntou Meghan, incrédula.

 

Sim. A mãe e Richard receberam-no como um dever, mas não por desejo. Receio que ele tenha sido uma criança difícil. Lembro-me dele, todos os dias, com o nariz encostado à janela, tão certo estava que a sua mãe iria regressar.

 

E ela regressou?

 

Sim. Um ano mais tarde. O grande romance azedara, ela regressou e veio buscar Edwin. Ele estava cheio de alegria e os meus pais também.

 

E depois...

 

Quando ele tinha oito anos, Aurelia conheceu outra pessoa e a história repetiu-se.

 

Meu Deus! exclamou Meghan.


Desta vez, Edwin ficou realmente impossível. Aparentemente, pensou que se se portasse muito mal, eles encontrariam uma maneira de o devolver à mãe. Foi uma manhã interessante, quando ele colocou a mangueira do jardim no depósito de gasolina do Sedan novo da mãe.

 

Mandaram-no para casa?

 

Aurelia deixara, novamente, Filadélfia. Ele foi enviado para o internato e depois para o campo de férias durante o Verão. Eu estava fora, depois fui para a faculdade de Direito e só o via ocasionalmente. Visitei-o uma vez na escola e fiquei surpreendido por ver que ele era muito popular junto dos colegas. Até mesmo aí, ele dizia às pessoas que a mãe dele já tinha morrido.

 

Ele voltou a vê-la?

 

Ela regressou a Filadélfia quando ele tinha dezasseis anos. Desta vez, ficou. Amadurecera, finalmente, e trabalhava num escritório de advogados. Sei que ela tentou ver Edwin, mas era tarde de mais. Ele não queria saber dela. A dor era demasiado profunda. De tempos a tempos, ao longo dos anos, ela contactava-me para me perguntar se eu voltara a saber de Edwin. Um amigo enviou-me um recorte de jornal com a notícia do casamento dele com a tua mãe. O nome e a morada da sua empresa apareciam no recorte. Dei o recorte a Aurelia. Pelo que ela me contou, escrevia-lhe todos os anos no seu aniversário e no Natal, mas nunca recebeu qualquer resposta. Numa das nossas conversas, falei-lhe acerca do encontro em Scottsdale. Talvez eu não devesse ter-lhe enviado a notícia da sua morte.

 

Ele foi um pai maravilhoso e um marido notável para a minha mãe disse Meghan. Tentou afastar as lágrimas que sentia brotarem-lhe dos olhos. Viajava muito em trabalho. Eu não consigo acreditar que ele tenha vivido uma segunda vida com outra mulher a quem possa ter chamado esposa, talvez outra filha que ele também deve ter amado. Mas começo a pensar que deve ser verdade. De que outra maneira é que se explica a Annie e a Francês? Como é que alguém espera que eu e a minha mãe perdoemos essa decepção?

 

Era uma pergunta que ela estava a fazer a si própria e não a Cyrus Graham, mas ele respondeu-lhe.

 

Meghan, vira-te apontou para a fila de janelas por detrás do sofá. Aquela janela do centro era onde um rapazinho permanecia de pé todas as tardes olhando pela janela procurando pela mãe. Aquele tipo de abandono afecta tanto a alma como a psique.

 

Às quatro horas, Mac telefonou para casa de Catherine para saber como é que ela se estava a sentir. Quando não obteve resposta, tentou contactá-la na pousada. Quando a operadora estava prestes a transferir a chamada para o escritório de Catherine, o intercomunicador da sua secretária começou a zumbir.

 

Não, não faz mal disse ele, apressadamente. Tentarei contactá-la mais tarde.

 

A hora que se seguiu foi demasiado atarefada e ele não conseguiu telefonar-lhe novamente. Estava nos subúrbios de Newtown quando lhe telefonou para casa do telefone do carro.

 

Pensei que se estivesse em casa eu pudesse passar por aí por uns minutos, Catherine disse ele.

 

Agradeço o seu apoio moral, Mac Catherine contou-lhe rapidamente tudo acerca da médium, e que tanto esta como o detective se encontravam a caminho.

 

Estarei aí dentro de cinco minutos. Mac colocou o auscultador sob o telefone e franziu o nariz. Ele não acreditava em médiuns. «Sabe Deus o que está a Meghan a ouvir neste momento acerca de Edwin em Chestnut Hill», pensou ele. «Catherine está por um fio e elas não precisam de um charlatão para lhes dar mais problemas.» Estacionou na entrada da casa dos Collins ao mesmo tempo que um homem e uma mulher saíam de um carro em frente da casa. «O detective e a médium», pensou Mac.

 

Ele conseguiu alcançá-los no alpendre. Bob Marron apresentou-se em primeiro lugar e, em seguida, apresentou a Sr.a Fiona Black, dizendo apenas que ela era alguém que esperava poder ajudar a localizar Edwin Collins.

 

Mac estava preparado para ver uma verdadeira exibição de truques de magia e embustes de antemão preparados. Em vez disso, encontrou-se a admirar a mulher contida e equilibrada, que cumprimentou Catherine com compaixão.

 

Você tem passado por muito disse ela. Eu não sei se a posso ajudar, mas sei que tenho de tentar.

 

A cara de Catherine estava cansada, mas Mac viu a centelha de esperança que surgiu nela.

 

Eu acredito no meu coração que o meu marido está morto disse ela a Fiona Black. Sei que a Polícia não acredita nisso. Seria tão mais fácil se houvesse uma certeza, alguma maneira de o provar, de o descobrir de uma vez por todas.

 

Talvez haja. Fiona Black apertou as mãos de Catherine nas suas. Avançou lentamente na direcção da sala de estar, os seus modos observadores. Catherine manteve-se junto a Mac e ao detective Marron, observando-a.

 

Ela virou-se para Catherine.

 

Sr.a Collins, ainda tem as roupas do seu marido e os seus objectos pessoais?

 

Sim. Suba lá acima disse ela, indicando o caminho.

 

Mac sentiu o coração a bater mais rapidamente, enquanto eles a seguiam. Havia algo acerca de Fiona Black. Ela não era uma fraude. Catherine levou-os até ao quarto principal. Sob a cómoda, encontrava-se uma moldura dupla. Uma das fotografias era de Meghan. A outra era de Catherine e de Edwin formalmente vestidos. «A última passagem de ano na pousada», pensou Mac. Fora uma noite de festa.

 

Onde está a roupa dele? perguntou Fiona Black, depois de ter estudado a fotografia.

 

Catherine abriu a porta de um armário de parede. Mac recordou-se que, há anos atrás, ela e Edwin tinham deitado abaixo a parede que dava para o pequeno quarto adjacente e tinham construído dois armários de parede. Este era o de Edwin. Filas de casacos, calças e fatos. Prateleiras de cima a baixo com pólos e camisolas. Uma prateleira para sapatos.

 

Catherine olhava para o conteúdo do armário.

 

Edwin tinha óptimo gosto para roupas. Fui sempre eu que escolhi as gravatas do meu pai disse ela. Era como se ela estivesse a contar as suas reminiscências.

 

Fiona Black dirigiu-se ao armário, os seus dedos tocando ligeiramente na lapela de um casaco ou no ombro de outro.

 

Tem alguns dos seus botões de punho favoritos ou um anel? Catherine abriu uma gaveta da cómoda.

 

Esta foi a aliança de casamento que eu lhe dei. Ele perdeu-a uma vez. Pensámos que se tinha perdido de vez. Ficou tão perturbado que eu a substituí, depois encontrámo-la caída atrás da cómoda. Tornara-se um pouco apertada, por isso ele continuou a usar a nova.

 

Fiona Black pegou no fino aro de ouro.

 

Posso levá-la por alguns dias? Prometo não perdê-la.

 

Se acha que lhe vai ser útil respondeu Catherine, após uma ligeira hesitação.

 

O operador de câmara da sucursal da PCD em Filadélfia encontrou-se com Meghan à um quarto para as quatro, no exterior do Centro Franklin.

 

Desculpe isto ser um trabalho à pressa desculpou-se ela.

 

Estamos habituados a isso disse, encolhendo os ombros, o magro operador de câmara, que se apresentara como Len.

 

Meghan estava satisfeita por ser necessário concentrar-se nesta entrevista. A hora que passara com Cyrus Graham, o meio-irmão do seu pai, fora tão dolorosa que teria de esquecer durante algum tempo o que pensava a esse respeito, até que a pouco e pouco conseguisse aceitar a situação. Prometera à mãe que não lhe esconderia nada. Seria difícil, mas iria manter essa promessa. À noite, falariam disso.

 

Len, na abertura, gostaria de obter uma filmagem completa do bloco. Estas ruas pavimentadas não fazem parte daquilo que as pessoas pensam de Filadélfia disse.

 

Tu devias ter visto esta área antes de ser arranjada disse Len enquanto começava a filmar.

 

Dentro do Centro, foram saudados pela recepcionista. Três mulheres estavam sentadas na sala de espera. Todas pareciam bem vestidas e estavam cuidadosamente pintadas. Meghan tinha a certeza de que estas eram as clientes que o Dr. Williams contactara para serem entrevistadas.

 

Ela estava certa. A recepcionista apresentou-lhas. Uma estava grávida. Ao ser filmada, explicou que este seria o seu terceiro filho, que nasceria através da fertilização in vitro. As outras duas já tinham uma criança e estavam a tentar planear outra gravidez com os seus embriões criogenicamente preservados. Eu tenho oito embriões congelados disse uma delas alegremente, enquanto sorria para a objectiva. Eles vão transferir três deles, esperando que um seja aceite. Se não, esperarei uns quantos meses, depois outros serão descongelados e tentarei de novo.

 

Se conseguir engravidar imediatamente, voltará para o próximo ano? perguntou Meghan.

 

Oh, não. O meu marido e eu só queremos dois filhos.

 

Mas você ainda ficará com embriões criogenicamente preservados e armazenados no laboratório, não ficará?

 

A mulher anuiu.

 

Sim, ficarei disse ela. Nós pagamos para que eles sejam armazenados. Quem sabe? Só tenho 28 anos. Posso mudar de ideias. Dentro de alguns anos, posso voltar e é bom saber que ainda tenho mais embriões disponíveis.

 

Desde que algum deles sobreviva ao processo de descongelamento? perguntou Meghan.

 

É claro.

 

De seguida, dirigiram-se ao escritório do Dr. Williams. Meg sentou-se do lado oposto deste, de modo a conduzir a entrevista.

 

Doutor, novamente os meus agradecimentos por nos receber disse ela. O que eu gostaria era que, de início, nos explicasse a fertilização in vitro de uma forma tão simples como me explicou anteriormente. Depois, se nos permitir fazer uma filmagem do laboratório e mostrar-nos como são mantidos os embriões criogenicamente preservados, não lhe tomaremos mais tempo.

 

A entrevista com o Dr. Williams correu bem. Admiravelmente sucinto, explicou rapidamente as razões por que as mulheres tinham dificuldade em conceber e o procedimento da fertilização in vitro.

 

São administradas à paciente medicamentos de fertilização para simular a produção de óvulos; os óvulos são retirados dos seus ovários; no laboratório são fertilizados e o resultado desejado é que possamos obter embriões viáveis. Os primeiros embriões são transferidos para o útero da mãe, normalmente dois ou três de uma só vez, esperando que, pelo menos, um se transforme numa gravidez de sucesso. Os outros são criogenicamente preservados ou, utilizando linguagem leiga, congelados para uma eventual utilização posterior.

 

Doutor, dentro de poucos dias e assim que nascer, iremos visitar um bebé cujo irmão gémeo e idêntico nasceu há três anos atrás disse Meghan. Pode explicar aos nossos espectadores como é possível gémeos idênticos nascerem com três anos de diferença?

 

É possível, mas muito raro, que o embrião se divida em duas partes idênticas no prato de Petri tal como poderia dividir-se no útero. Neste caso, aparentemente, a mãe optou para que um dos embriões fosse transferido imediatamente, sendo o outro criogenicamente preservado para uma transferência posterior. Felizmente, e apesar das grandes disparidades, ambos os procedimentos foram bem sucedidos.

 

Antes de terem deixado o escritório do Dr.Williams, Len filmou a parede com as fotografias das crianças que tinham nascido através da reprodução assistida no Centro. Em seguida, fizeram uma curta metragem do laboratório, dando particular atenção aos recipientes de armazenagem de longa duração, onde os embriões criogenicamente preservados eram mantidos, submersos em nitrogénio líquido.

 

Eram quase cinco e meia quando Meghan se despediu.

 

Okay, está terminado. Obrigado a todos. Doutor, estou-lhe imensamente grata.

 

Eu também estou assegurou-lhe ele. Posso garantir-lhe que este tipo de publicidade irá gerar muitas perguntas por parte de casais sem filhos.

 

No exterior, Len colocou a câmara na carrinha e acompanhou Meghan até ao carro.

 

Acaba por ser perturbante, não é? perguntou ele. Quero dizer, eu tenho três miúdos e odiaria pensar que eles começaram a vida num congelador como aqueles embriões.

 

Por outro lado, aqueles embriões representam vidas que não existiriam sem todo este processo respondeu Meghan.

 

Quando iniciou a longa viagem de regresso a Connecticut, apercebeu-se de que a suave e agradável entrevista com o Dr. Williams fora relaxante.

 

Nesse momento, os seus pensamentos voltaram ao momento em que Cyrus Graham a cumprimentara como Annie. Cada palavra que ele dissera durante o tempo que estiveram juntos voltou a desfilar na sua mente.

 

Nessa mesma noite, às oito e um quarto, Fiona Black telefonou a Bob Marron.

 

Edwin Collins está morto disse ela, calmamente. Está morto há muitos meses. O seu corpo está submerso em água.

 

Eram nove e meia quando Meghan chegou a casa na quinta-feira, aliviada por encontrar Mac com a mãe à sua espera. Vendo a pergunta nos seus olhos, ela acenou-lhe. O gesto não passou despercebido à sua mãe.

 

Meg, que foi?

 

Meg conseguiu distinguir o aroma de sopa de cebola.

 

Sobrou alguma? acenou com a mão na direcção da cozinha.

 

Tu não jantaste? Mac, serve-lhe um copo de vinho enquanto eu aqueço alguma coisa.

 

Só sopa, mãe, se faz favor. Quando Catherine saiu, Mac aproximou-se dela.

 

Foi assim tão mau? perguntou ele, a sua voz baixa.

 

Ela virou-se, não querendo que ele visse as lágrimas de cansaço que ameaçavam começar a correr.

 

Foi bastante mau.

 

Meg, se queres falar sozinha com a tua mãe, eu vou-me embora. Só pensei que ela precisava de companhia e a Sr.a Dileo estava disposta a ficar com o Kyle.

 

Isso foi simpático da tua parte, Mac, mas não devias ter deixado o Kyle. Ele está sempre tão ansioso para que voltes para casa. Os miúdos pequenos não devem ser desiludidos. Nunca o desiludas.

 

Ela sentiu que estava a balbuciar. As mãos de Mac seguraram-lhe a cara, virando-a para ele.

 

Meggie, que se passa?

 

Meg pressionou os nós dos dedos contra os lábios. Não queria ceder.

 

É só que...

 

Não conseguia continuar. Sentiu os braços de Mac a rodearem-na. «Oh, Deus!, deixa-te ir, deixa-te ser abraçada por ele.» A carta. Há nove anos atrás, ele viera ter com ela com a carta que ela escrevera, a carta na qual implorava para que não casasse com Ginger...

 

«Acho que não queres que eu guarde isto», dissera-lhe ele então.

 

Ela recordava-se de que, também, nessa altura, ele colocara o braço à sua volta.

 

«Meg, um dia também te apaixonarás. O que tu sentes por mim é outra coisa. Toda a gente se sente assim quando um grande amigo se casa. Existe sempre o medo de que tudo irá ser diferente. Não será assim entre nós. Seremos sempre compinchas.»

 

A memória era tão perturbante, como um banho de água fria. Meg endireitou-se, afastando-se.

 

Eu estou bem, só estou cansada e com fome. Ouviu os passos da mãe e esperou que ela regressasse à sala. Tenho notícias muito perturbantes para ti, mãe.

 

Acho que é melhor deixar-vos sozinhas para falarem disse Mac.

 

Foi Catherine que o impediu.

 

Mac, tu és família. Gostaria que ficasses.

 

Sentaram-se à mesa da cozinha. Parecia a Meghan que conseguia sentir a presença do pai. Era ele que preparava um jantar tardio sempre que o restaurante estava apinhado e a sua mãe demasiado ocupada para comer. Era um mímico perfeito, adoptando os maneirismos de um empregado a lidar com um convidado mal humorado.

 

«Esta mesa não é satisfatória? O banquete? É claro. Uma corrente de ar? Mas não há nenhuma janela aberta. Esta pousada é completamente estanque. Talvez seja o ar a soprar entre as suas orelhas, madame.»

 

Beberricando um copo de vinho, a sopa fumegante tão apetitosa, mas que deveria permanecer intocada até que ela lhes contasse o que acontecera em Chestnut Hill, Meghan falou acerca do pai. Contou, deliberadamente e em primeiro lugar, a sua infância, bem como a crença de Cyrus Graham de que a razão que o levara a afastar-se da mãe fora porque não conseguira suportar a possibilidade de ela o voltar a abandonar.

 

Meghan observou a cara da mãe e encontrou a reacção esperada, pena pelo pequeno rapaz que não fora desejado, pelo homem que não se podia arriscar a magoar-se uma terceira vez. Mas depois foi necessário contar-lhe acerca do encontro em Scottsdale entre Cyrus Graham e Edwin Collins.

 

Ele apresentou outra mulher como sendo a sua esposa? Não existia expressão na voz da sua mãe.

 

Mãe, eu não sei. Graham sabia que o pai era casado e tinha uma filha. Ele partiu do princípio que o pai estava com a mulher e a filha. O pai disse-lhe algo como: «Francês e Annie este é o Cyrus Graham.» Mãe, o pai tinha outros familiares dos quais tu tenhas conhecimento? Existe uma possibilidade de termos primos no Arizona?

 

Por amor de Deus, Meg, se eu não sabia que a tua avó esteve viva todos estes anos, como poderia eu saber alguma coisa acerca de eventuais primos? Catherine Collins mordeu o lábio. Desculpa. A sua expressão modificou-se. Tu dizes que o meio-irmão do teu pai pensou que tu eras a Annie. Pareces-te assim tanto com ela?

 

Sim. Meg olhou para Mac de modo implorante. Ele percebeu o que ela estava a pedir.

 

Meg disse ele, acho que não há necessidade de ocultarmos da tua mãe o motivo da nossa ida de ontem a Nova Iorque.

 

Não, não há. Mãe, há algo mais que tu tens de saber... olhou calmamente para a mãe enquanto lhe contava aquilo que esperava ter de esconder.

 

Quando terminou, a mãe manteve-se sentada, olhando absortamente para além dela, como se estivesse a tentar compreender o que acabara de ouvir. Finalmente, numa voz calma que soava quase como um fio de voz, disse:

 

Uma rapariga que foi esfaqueada era parecida contigo, Meg? Trazia um pedaço de papel da Pousada Drumdoe com o teu nome e número de telefone do teu trabalho, com a letra do teu pai? Passadas algumas horas, depois de ela ter morrido, tu recebeste um fax que dizia: «ERRO. ANNIE FOI UM ERRO»?

 

Os olhos de Catherine tornaram-se absortos e assustados.

 

Tu mandaste analisar o teu ADN para compará-lo com o dela, por que pensaste que podes ser aparentada com aquela rapariga.

 

Fi-lo, porque estou a tentar encontrar respostas.

 

Estou satisfeita por ter visto aquela tal de Fiona esta noite disparou Catherine. Meg, acho que não vais aprovar, mas Bob Marron da Polícia de New Milford telefonou esta tarde..

 

Meghan escutava-a enquanto a sua mãe falava da visita de Fiona Black. «É bizarro», pensou ela, «mas não mais bizarro do que qualquer outra coisa que aconteceu nestes últimos meses».

 

Às dez e meia, Mac levantou-se para se ir embora.

 

Se eu puder dar um conselho, sugiro que vão ambas para a cama disse.

 

A Sr.a Dileo, a governanta de Mac, estava a ver televisão, quando ele chegou a casa.

 

O Kyle ficou muito desapontado porque o senhor não chegou a casa antes de ele adormecer disse ela. - Bom, eu estou de saída.

 

Mac esperou até o carro dela se afastar, depois desligou as luzes exteriores e trancou a porta. Entrou no quarto de Kyle para ver como ele estava. O seu pequeno filho estava enrolado na posição fetal, a almofada apertada debaixo da sua cabeça.

 

Mac aconchegou-lhe os cobertores à sua volta, curvou-se e beijou-lhe o cimo da cabeça. Kyle parecia estar muito bem, um miúdo bastante normal mas, nesse momento, Mac perguntou-se se estaria a ignorar quaisquer sinais que Kyle pudesse estar a enviar. A maioria dos miúdos de sete anos cresciam com as mães. Mac não tinha a certeza se a onda esmagadora de ternura que sentia agora seria pelo seu filho ou pelo pequeno rapaz que Edwin Collins fora há cinquenta anos atrás em Filadélfia. Ou por Catherine ou por Meghan, que certamente eram as vítimas da infeliz infância do seu marido e pai.

 

Meghan e Catherine viram a comovente entrevista de Stephanie Petrovic na Clínica Manning no noticiário das oito horas. Meg escutava enquanto o pivot relatava que Stephanie Petrovic vivera com a tia na sua casa em Nova Jérsia.


O corpo vai ser enviado de barco para a Roménia, o serviço fúnebre será realizado ao meio-dia na Igreja Romena de St. Dominic em Trenton terminou ele.

 

Eu vou àquela missa disse Meghan à mãe. Quero falar com aquela rapariga.

 

Às oito horas da manhã de sexta-feira, Bob Marron recebeu uma chamada telefónica em casa. Um carro mal estacionado em Baterry Park City, Manhattan, no exterior do apartamento de Meghan Collins, um Cadillac Sedan azul-escuro, fora multado. O carro estava registado no nome de Edwin Collins e parecia ser o carro que este conduzia na noite em que desapareceu.

 

A médium acertou em cheio com esta disse Marron à mulher, enquanto marcava o número de John Dwyer, o assistente do delegado público.

 

Quinze minutos mais tarde, Marron contava a Meghan a descoberta do carro do pai. Perguntou se ela e a Sr.a Collins se poderiam deslocar até ao escritório de John Dwyer. Ele gostaria de as ver às duas o mais depressa possível.

 

Na sexta-feira de manhã cedo, Bernie viu novamente a gravação da entrevista que fizera na Clínica Manning. Decidiu que não segurara devidamente a câmara. A imagem oscilava. Teria de ter mais cuidado da próxima vez.

 

Bernard! A mãe gritava por ele, ao cimo das escadas. Relutantemente, desligou o equipamento.

 

Vou já, mãezinha.

 

O teu pequeno-almoço está a arrefecer. A mãe estava embrulhada no seu robe de flanela. Fora lavado tantas vezes, que o pescoço, as mangas e a zona onde ela se sentava estavam puídos. Bernie dissera-lhe que ela o lavava demasiadas vezes, mas a mãe respondera dizendo que era uma pessoa asseada e que na sua casa se podia comer no chão. Hoje, a mãe estava de mau humor.

 

Ontem à noite, fartei-me de espirrar disse-lhe ela, enquanto tirava flocos de aveia da panela que estava sob o fogão. Acho que me cheirou a pó vindo da cave agora mesmo. Tu varres o chão lá em baixo, não varres?

 

Sim, eu varro, mãezinha.

 

Gostava que tu consertasses as escadas para a cave, de modo a que eu pudesse ir lá abaixo e ver por mim própria.

 

Bernie sabia que a mãe nunca se arriscaria naquelas escadas. Um dos degraus estava partido e o corrimão oscilava.

 

Mãe, aquelas escadas são perigosas. Lembras-te do que aconteceu à tua anca; e agora, com a tua artrite, os teus joelhos estão mesmo mal.

 

Nem penses que me vou arriscar daquela maneira outra vez resmungou ela. Mas certifica-te de que a manténs limpa. De qualquer modo, também não sei por que é que passas tanto tempo lá em baixo!

 

Sim, sabes, mãezinha. Não preciso de dormir muito e se eu tiver a televisão ligada na sala de estar, isso faz-te ficar acordada. A mãe não fazia ideia de todo o equipamento electrónico que ele possuía e nunca saberia.

 

Não dormi muito ontem à noite. As minhas alergias não me largam.

 

Oh, que pena, mãezinha! Bernie terminou a papa de aveia morna.

 

Vou chegar atrasado agarrou no seu casaco. Ela seguiu-o até à porta. Quando ele ia a descer o passeio, ela gritou-lhe:

 

Fico satisfeita por ver que tens mantido o carro decente, para variar.

 

Depois da chamada telefónica de Bob Marron, Meghan tomou um duche rápido, vestiu-se e desceu para a cozinha. A mãe já lá se encontrava, preparando o pequeno-almoço. A tentativa de Catherine num alegre «Bom dia, Meg», congelou-se nos seus lábios quando viu a cara de Meg.

 

Que se passa? perguntou. Eu ouvi o telefone tocar quando estava no duche, não ouvi?

 

Meg pegou nas suas mãos.

 

Mãe, olha para mim. Eu vou ser absolutamente honesta contigo. Durante meses, pensei que o pai tivesse morrido na ponte naquela noite. Com tudo o que aconteceu a semana passada, preciso de me obrigar a pensar como uma advogada e uma jornalista. Olhar para todas as possibilidades, pesar cada uma cuidadosamente. Eu própria tentei considerar que ele pudesse estar vivo e em perigo. Mas eu sei... eu tenho a certeza... que o que se passou nestes últimos dias, foi algo que o pai nunca nos faria. Aquele telefonema, as flores... e agora... Ela parou.

 

E agora o quê, Meg?

 

O carro do pai foi encontrado na cidade, estacionado ilegalmente no exterior do edifício do meu apartamento.

 

Mãe do Céu! A cara de Catherine ficou pálida.

 

Mãe, alguém o colocou lá. Eu não sei porquê, mas existe uma razão por detrás de tudo isto. O assistente do delegado público quer ver-nos. Ele e os seus detectives vão tentar convencer-nos de que o pai está vivo. Eles não o conheciam. Nós sim. Por mais que alguma coisa estivesse errada na vida dele, fosse o que fosse, ele não enviaria flores ou deixaria o carro onde seria, certamente, encontrado. Ele saberia como haveríamos de ficar assustadas. Quando tivermos este encontro, vamos manter a nossa palavra e defendê-lo.

 

Nenhuma das duas se preocupou com a comida. Levaram até ao carro fumegantes chávenas de café.

 

Pode ser ilegal conduzir só com uma mão, mas o café ajuda imenso disse Meghan, tentando gracejar, enquanto tirava o carro da garagem.

 

Isso é porque temos ambas tanto frio, por dentro e por fora. Olha, Meg. A primeira camada de neve já cobriu o relvado. Vai ser um longo Inverno. Eu sempre adorei o Inverno. O teu pai odiava-o. Isso era um dos motivos pelos quais ele não se importava de viajar tanto. O Arizona é quente o ano inteiro, não é?

 

Mãe, olha para ali. Quando voltarmos, eu deixo-te na pousada. Tu vais trabalhar e eu vou começar a procurar respostas. Promete-me que não dizes nada acerca do que Cyrus Graham me contou ontem. Lembra-te, ele só assumiu que a mulher e a rapariga que estavam com o pai há dez anos atrás éramos tu e eu. O pai nunca as apresentou senão pelos seus nomes, Francês e Annie. Mas até podermos fazer uma investigação por conta própria, não vamos dar mais nenhum motivo ao delegado público para destruir a reputação do pai disse Meghan, quando passaram pela Pousada Drumdoe.

 

Meghan e Catherine foram imediatamente acompanhadas até ao escritório de John Dwyer. Este esperava-as, acompanhado pelos detectives Bob Marron e Arlene Weiss. Meghan sentou-se na cadeira junto da mãe, a sua mão cobrindo-lhe as mãos de modo protector. Era óbvio o que se pretendia. Os três, tanto o delegado como os oficiais, estavam convencidos de que Edwin Collins estava vivo e prestes a contactar directamente a sua esposa e filha.

 

O telefonema, as flores, agora o seu carro referiu Dwyer. Sr.a Collins, sabia que o seu marido tinha licença de porte de arma?

 

Sim, sabia. Obteve-a há cerca de dez anos atrás.

 

Onde é que ele a guardava?

 

Fechada à chave no seu escritório ou em casa.

 

Quando foi a última vez que a viu?

 

Não me lembro de a ver há anos.

 

Por que é que está a fazer perguntas acerca da arma do meu pai? Foi encontrada no carro? perguntou Meghan, interrompendo-o.

 

Sim, foi disse John Dwyer, calmamente.

 

Isso não seria invulgar disse Catherine, rapidamente. Ele queria-a para o carro. Teve uma experiência terrível em Bridgeport há dez anos atrás, quando o mandaram parar num semáforo.

 

Dwyer virou-se para Meghan.

 

Esteve fora todo o dia em Filadélfia, Menina Collins. É possível que o seu pai esteja a par dos seus passos e saiba que você deixou o Connecticut. Ele pode ter calculado que você estaria no seu apartamento. O que vos quero especialmente pedir é que se o Sr. Collins contactar com alguma de vós, insistam para que ele venha até aqui para falar connosco. A longo prazo, será muito melhor para ele.

 

O meu marido não nos irá contactar disse Catherine com firmeza. Sr. Dwyer, não houve algumas pessoas que tentaram abandonar os seus carros naquela noite na ponte?

 

Sim. Creio que sim.

 

Uma mulher que deixou o seu carro não foi atingida por um dos outros veículos e escapou por pouco de ser arrastada para fora da ponte?

 

- Sim.

 

Então, pense nisto. O meu marido pode ter abandonado o carro e ter sido apanhado naquela carnificina. Outra pessoa qualquer pode tê-lo conduzido.

 

Meghan observou a exasperação misturada com pena na cara do assistente do delegado público.

 

Catherine Collins também o viu. Levantou-se para sair.

 

Quanto tempo é que a Sr.a Black demora normalmente a obter um sinal em relação a uma pessoa desaparecida? perguntou ela.

 

Dwyer trocou olhares com os detectives.

 

Ela já a obteve disse este, relutantemente. Ela acredita que o seu marido está morto há muito tempo, que está submerso em água.

 

Catherine fechou os olhos e oscilou. Involuntariamente, Meghan agarrou os braços da mãe, receando que ela pudesse desmaiar. Todo o corpo de Catherine tremia.

 

Nunca pensei encontrar consolo numa mensagem desse tipo, mas neste lugar e estando a ouvi-la, encontro realmente algum consolo nela a sua voz soou firme, quando abriu os olhos.

 

A unanimidade dos jornalistas em relação à comovente entrevista de Stephanie Petrovic, era que ela era uma potencial herdeira desiludida. A sua acusação de uma possível conspiração por parte da Clínica Manning para matar a sua tia foi rejeitada como frívola. A clínica pertencia a um grupo privado de accionistas e era dirigida pelo Dr. Manning, cujas credenciais eram impecáveis. Este continuava a recusar-se a falar com os jornalistas, mas era claro que não era um dos beneficiários pessoais do legado de Helene Petrovic na pesquisa dos embriões na clínica. Após a sua explosão, Stephanie fora levada para o escritório de um membro mais antigo da equipa da Clínica Manning, que não fez qualquer comentário sobre a conversa.

 

O advogado de Helene, Charles Potters, ficou intimidado quando leu a notícia do episódio. Na manhã de sexta-feira antes do serviço fúnebre, foi até à casa e, com uma mal disfarçada afronta, apresentou as suas condolências a Stephanie.

 

Independentemente do que se vier a revelar acerca do seu passado, a sua tia era devotada ao seu trabalho na clínica. Se soubesse que a sua sobrinha tinha criado uma cena daquelas, teria sido arrasador para ela.

 

Quando viu a miséria na cara da jovem mulher cedeu.

 

Eu sei que você tem passado por muito disse-lhe ele. Depois da missa, terá uma oportunidade para descansar. Eu pensei que alguns amigos de Helene Petrovic de St. Dominic estivessem a planear ficar consigo.

 

Mandei-os para casa disse Stephanie. Eu mal os conhecia e estou melhor sozinha.

 

Depois de o advogado se ter ido embora, ela colocou almofadas no sofá e deitou-se. O seu corpo pesado tornava difícil sentir-se confortável. Agora, as suas costas doíam-lhe sempre. Sentia-se tão sozinha. Mas não queria aquelas mulheres velhas à sua volta a observarem-na, a falarem acerca dela. Estava grata pelas instruções específicas deixadas por Helene Petrovic nas quais esta indicava que após a sua morte não deveriam velar o seu corpo e que este deveria ser enviado para a Roménia e enterrado na sepultura do seu marido.

 

Passou ligeiramente pelo sono e foi acordada pelo toque do telefone. «Quem será agora?», pensou ela, fatigadamente. Era uma agradável voz de mulher.

 

Menina Petrovic? -Sim.

 

Eu sou Meghan Collins, do Canal 3 PCD. Eu não estive na Clínica Manning ontem quando lá esteve, mas vi a sua declaração no noticiário das onze horas.

 

Eu não quero falar acerca disso. O advogado da minha tia está muito zangado comigo.

 

Eu gostava que falasse comigo. Posso ser capaz de a ajudar.

 

Como é que me pode ajudar? Como é que alguém me pode ajudar?

 

Existem meios. Eu estou a falar através do telefone do meu carro. Vou a caminho da missa. Depois, posso levá-la a almoçar?

 

«Ela parece tão amigável», pensou Stephanie, «e eu preciso tanto de uma amiga.»

 

Não quero aparecer, novamente, na televisão.

 

Eu não estou a pedir-lhe para aparecer na televisão. Estou-lhe a pedir para falar comigo.

 

Stephanie hesitou. «Quando o serviço estiver terminado», pensou ela, «eu não quero estar com o Sr. Potters nem com todas aquelas velhas mulheres da Sociedade Romena. Estão todas a coscuvilhar a meu respeito.»

 

Irei almoçar consigo respondeu ela.

 

Meghan deixou a mãe na pousada, depois seguiu para Trenton tão rapidamente quanto se atreveu. No caminho, fez uma segunda chamada telefónica para o escritório de Tom Weicker, para lhe dizer que o carro do pai fora localizado.

 

Mais alguém sabe acerca da descoberta do carro? perguntou ele, rapidamente.

 

Ainda não. Eles estão a tentar manter segredo. Mas ambos sabemos que se vai saber ela tentou soar natural. Pelo menos, o Canal 3 pode ficar por dentro da história.

 

Está a tornar-se numa grande história, Meg.

 

Eu sei que está.

 

Nós vamos passá-la de imediato.

 

É por isso que eu te estou a contar. Meg, tenho pena.

 

Não tenhas. Existe uma resposta racional para tudo isto.

 

Quando nasce o bebé da Sr.a Anderson?

 

Ela vai para o hospital na segunda-feira. Está disposta a que eu vá a casa dela no domingo à tarde e a filme a ela e ao Jonathan a prepararem o quarto para o bebé. Tem várias fotografias do Jonathan que podemos usar. Quando o bebé nascer, compararemos as fotos do recém-nascido.

 

Mantém essa história, pelo menos, por agora.

 

Obrigada, Tom disse ela. E obrigada pelo apoio.

 

Phillip Cárter passou a maior parte da tarde de sexta-feira a ser interrogado acerca de Edwin Collins. Cada vez com menos paciência, Cárter respondia às perguntas que se tornavam cada vez mais incriminadoras.

 

Não, nunca tivemos outro caso no qual houvesse a questão de credenciais falsas. A nossa reputação tem sido irrepreensível.

 

Arlene Weiss fez-lhe perguntas acerca do carro.

 

Quando foi encontrado em Nova Iorque tinha 43 400 km no conta-quilómetros, Sr. Cárter. De acordo com o livrinho de registo de serviços, a revisão foi feita em Outubro passado, há pouco mais de um ano atrás. Nessa altura, tinha 33 700 km. Quantos quilómetros é que o Sr. Collins fazia em média por mês?

 

Eu diria que isso dependia inteiramente do seu horário. Temos carros da empresa que trocamos de três em três anos. Cabe-nos a nós levarmos os carros à revisão. Eu sou relativamente meticuloso. Edwin tinha tendência a ser um pouco negligente.

 

Deixe-me colocar-lhe a questão deste modo disse Bob Marron. O Sr. Collins desapareceu em Janeiro. Entre Outubro do ano passado e Janeiro deste ano, é possível que ele tenha feito quase dez mil quilómetros com aquele carro?

 

Eu não sei. Posso dar-vos os relatórios daqueles meses e tentar calcular através das despesas para que sítios é que ele se dirigiu.

 

Precisamos de fazer a estimativa de quantas vezes foi o carro utilizado desde Janeiro disse Marron. Também gostaríamos de ver a conta do telefone do carro de Janeiro.

 

Presumo que queiram verificar a altura em que ele fez a chamada para o Victor Orsini. A companhia de seguros já verificou isso. A chamada foi feita menos de um minuto antes do acidente na ponte Tappan Zee.

 

Fizeram perguntas acerca do estatuto financeiro da Collins e Cárter.

 

Os nossos livros estão em ordem. Foi feita uma auditoria completa. Nos últimos anos, tal como em muitos negócios, sentimos os efeitos da recessão. O tipo de empresas com que lidamos estavam a mandar embora pessoal e não a contratá-lo. Contudo, não sei de nenhuma razão para Edwin ter pedido emprestado vários milhares de dólares do seu seguro de vida.

 

A vossa empresa recebeu uma comissão da Clínica Manning por terem colocado a Petrovic?

 

É claro.

 

Collins açambarcou essa comissão?

 

Não, os auditores encontraram-na.

 

Ninguém indagou sobre o nome de Helene Petrovic quando o pagamento de seis mil dólares chegou?

 

A cópia da declaração do cliente Manning nos nossos ficheiros foi falsificada. Dizia: «Segunda colocação efectuada para substituir o Dr. Henry Williams.» Não havia nenhuma segunda colocação para ser feita.

 

Então, obviamente, Collins não a colocou lá, de modo a poder cometer uma fraude de seis mil dólares.

 

Eu diria que isso é óbvio.

 

Quando finalmente partiram, Phillip Cárter tentou, sem sucesso, concentrar-se no trabalho da sua secretária. Conseguia ouvir o telefone a tocar no escritório exterior. A voz de Jackie zumbiu no intercomunicador. O jornalista de um tablóide de supermercado estava ao telefone. Phillip recusou de modo cortês a chamada, apercebendo-se de que as únicas chamadas daquele dia tinham sido dos jornalistas. A empresa Collins e Cárter não tinha sido contactada por um único cliente.

 

Meghan esgueirou-se para a igreja de St. Dominic ao meio-dia e meia, a meio da missa de Helene Petrovic, na qual poucas pessoas estavam presentes. Mantendo os desejos da falecida, foi uma cerimónia simples, sem flores, nem música.

 

Alguns vizinhos de Lawrenceville, bem como umas quantas mulheres velhas da Sociedade Romena espalhavam-se pela igreja. Stephanie estava sentada com o advogado dela e, quando iam a deixar a igreja, Meghan apresentou-se. Ajovem mulher pareceu satisfeita por a ver.

 

Deixe-me despedir daquelas pessoas disse, depois irei ter consigo.

 

Meghan observava enquanto educados murmúrios de simpatia eram proferidos. Não viu nenhuma grande manifestação de pesar por parte de ninguém. Avançou ao encontro de duas mulheres que acabavam de sair da igreja.

 

Conhecia bem a Helene Petrovic? perguntou-lhes.

 

Tão bem como as outras pessoas respondeu uma delas, agradavelmente.

 

Algumas de nós vamos a concertos juntas. Helene juntava-se a nós ocasionalmente. Ela era membro da Sociedade Romena e era notificada acerca de todas as nossas actividades. Às vezes, aparecia.

 

Mas não muitas vezes.

 

Não.

 

Ela tinha algumas amigas íntimas? A outra mulher abanou a cabeça.

 

Helene era muito reservada.

 

E acerca de homens? Eu conheci a Sr.a Petrovic. Era uma mulher muito atraente.

 

Ambas abanaram a cabeça.

 

Se ela tinha algum amigo especial, nunca disse uma palavra acerca disso.

 

Meghan notou que Stephanie estava a despedir-se das últimas pessoas que saíam da igreja. Enquanto se dirigia para se juntar a ela, ouviu o conselho do advogado.

 

Gostaria que não falasse com essa jornalista. Eu teria todo o gosto em levá-la a casa ou a almoçar.

 

Eu ficarei bem.

 

Meghan pegou no braço da jovem mulher, enquanto desciam o resto dos degraus.

 

São muito íngremes.

 

E eu estou tão desastrada agora. Passo a vida a atrapalhar-me.

 

Este é o seu território disse Meghan quando elas estavam no carro. Onde gostaria de comer?

 

Importa-se se voltarmos para casa? As pessoas deixaram tanta comida por lá e eu estou a sentir-me tão cansada.

 

É claro.

 

Quando chegaram à casa de Petrovic, Meghan insistiu que Stephanie descansasse enquanto ela preparava o almoço.

 

Tire os sapatos e coloque os pés no sofá disse ela, vigorosamente. Nós temos uma pousada familiar e eu fui criada na cozinha. Estou habituada a preparar refeições.

 

Enquanto aquecia sopa e arranjava um prato de galinha fria e salada, Meghan estudava o ambiente circundante. A cozinha tinha uma decoração tipo casa de campo Francêsa. As paredes de azulejos e o chão de terracota eram certamente feitos de encomenda. Os electrodomésticos eram topo de gama. A mesa redonda de carvalho bem como as cadeiras eram antiguidades. Obviamente, um grande cuidado e uma grande quantidade de dinheiro tinham sido empregues no local.

 

Comeram na sala de jantar. As cadeiras de braços estofadas e colocadas à volta da mesa de cavalete da sala também eram obviamente caras. A mesa brilhava com a patine da mobília antiga e requintada. «De onde vinha o dinheiro?», pensou Meghan. Helene trabalhara como esteticista até ter arranjado emprego como secretária na clínica em Trenton e daí fora para a Manning.

 

Meghan não teve de fazer perguntas. Stephanie estava mais do que disposta a falar dos seus problemas.

 

Eles vão vender esta casa. Todo o dinheiro da venda e oitocentos mil dólares vão para a clínica. Mas é tão injusto. A minha tia prometeu alterar o seu testamento. Eu sou a única parente dela. Foi por isso que ela fez com que eu viesse.

 

E o pai do bebé? perguntou Meghan. Ele pode ser obrigado a ajudá-la.

 

Ele mudou-se.

 

Pode ser localizado. Neste país existem leis para proteger as crianças. Qual é o nome dele?

 

Stephanie hesitou.

 

Eu não quero saber dele.

 

Tem direito a que tomem conta de si.

 

Eu vou dar o bebé para adopção. É a única maneira.

 

Pode não ser a única maneira. Qual é o nome dele e onde é que o conheceu?

 

Eu... eu conheci-o num dos encontros de romenos em Nova Iorque. O nome dele é Jan. Helene teve uma dor de cabeça naquela noite e saiu mais cedo. Ele ofereceu-se para me levar a casa de carro. Olhou para baixo. Não gosto de falar por ter sido tão parva.

 

Saiu muitas vezes com ele?

 

Algumas vezes.

 

Contou-lhe acerca do bebé?

 

Ele telefonou para dizer que ia para a Califórnia. Foi quando eu lhe disse. Ele respondeu-me que o problema era meu.

 

Quando foi isso?

 

Em Março último.

 

Que tipo de trabalho é que ele tem?

 

Ele é... mecânico. Por favor, Menina Collins, eu não quero envolver-me com ele. Não existem imensas pessoas que querem bebés?

 

Sim, imensas. Mas era a isso que eu me referia quando disse que podia ajudá-la. Se encontrarmos Jan, ele terá de sustentar o bebé e ajudá-la, pelo menos, até você conseguir arranjar um emprego.

 

Por favor, deixe-o em paz. Eu tenho medo dele. Ele estava tão zangado.

 

Zangado porque lhe disse que ele era o pai do seu bebé?

 

Não continue a fazer-me perguntas sobre ele! Stephanie empurrou a cadeira para longe da mesa. Você disse que me ajudaria. Então, encontre-me pessoas que fiquem com o bebé e me dêem algum dinheiro.

 

Desculpe, Stephanie. A última coisa que eu vim cá fazer foi aborrecê-la. Vamos tomar uma chávena de chá. Eu depois limpo as coisas.

 

Na sala de estar, ela colocou uma almofada por detrás das costas de Stephanie e puxou uma otomana para junto dos pés dela.

 

Você é muito amável. Fui malcriada. É que aconteceu tanta coisa tão depressa disse Stephanie, sorrindo embaraçadamente.

 

Stephanie, o que você vai precisar é que alguém de confiança se torne responsável por si e lhe consiga um visto, até você conseguir arranjar trabalho. Certamente que a sua tia deveria ter um bom amigo que a pudesse ajudar.

 

Quer dizer que se algum dos amigos dela se responsabilizar, poderei ser capaz de ficar.

 

Sim. Não existe ninguém, alguém que possa eventualmente dever um favor à sua tia?

 

A expressão de Stephanie alegrou-se.

 

Oh, sim, pode, de facto, existir alguém. Obrigada, Meghan.

 

Quem é o amigo? perguntou Meghan, rapidamente.

 

Eu posso estar enganada disse Stephanie, repentinamente nervosa. Tenho de pensar acerca disso.

 

Não diria mais nada.

 

Eram duas da tarde. De manhã, Bernie arranjara duas viagens a partir do Aeroporto de La Guardiã, depois transportara um passageiro do Aeroporto Kennedy até Bronxville. Não tivera nenhuma intenção em ir para o Connecticut naquela tarde. Mas quando ele deixou o Cross County deu por si a virar para Norte. Tinha de voltar a wNewtown.

 

Não havia nenhum carro no acesso à casa de Meghan. Conduziu lentamente pela rua que se encurvava para o beco, depois deu meia volta. Não avistava nem o miúdo nem o cão. Isso era bom. Não queria que reparassem nele.

 

Passou novamente pela casa de Meghan. Não podia ficar por ali.

 

Passou pela Pousada Drumdoe. «Espera um minuto», pensou. «Este é o lugar que pertence à sua mãe.» Lera essa notícia no jornal de ontem. Fez rapidamente uma inversão de marcha e conduziu até ao parque de estacionamento. «Tem de existir um bar», pensou. «Talvez eu possa beber uma cerveja ou comer uma sanduíche.»

 

Supondo que Meghan estivesse por lá. Contar-lhe-ia a mesma história que contara aos outros, que estava a trabalhar para uma estação de cabo local em Elmira. Não havia motivo para ela não acreditar nele.

 

O átrio da pousada era de tamanho médio, com paredes apaineladas e tapetes em xadrez azul e vermelho. Não havia ninguém por detrás do balcão da recepção. Para a direita, ele conseguia ver umas quantas pessoas na sala de jantar e ajudantes a levantarem mesas. «Bem, a hora do almoço já terminou há algum tempo», pensou ele. O bar ficava à esquerda. Ele podia ver que estava vazio, à excepção do empregado. Dirigiu-se para o bar, sentou-se num dos bancos, pediu uma cerveja e pediu para ver a ementa. Depois de ter escolhido um hambúrguer, começou a falar com o empregado.

 

Este é um sítio muito agradável.

 

Pois é concordou o empregado do bar.

 

O tipo tinha um alfinete no peito com «JoE» escrito; parecia ter cerca de cinquenta anos. O jornal da localidade encontrava-se atrás do bar. Bernie apontou para ele.

 

Li o jornal de ontem. Parece que a família que é dona deste lugar tem um monte de problemas.

 

Se tem anuiu Joe. É uma pena. A Sr.a Collins é a mulher mais simpática que se pode conhecer e a filha dela, Meg, é uma querida.

 

Entraram dois homens e sentaram-se na extremidade do balcão. Joe serviu-lhes bebidas, depois ficou a falar com eles. Bernie olhou à sua volta, enquanto terminava o seu hambúrguer e cerveja. As janelas das traseiras davam para o parque de estacionamento. Para lá deste, existia uma área arborizada que se estendia por detrás da casa Collins.

 

Bernie teve um pensamento interessante. Se viesse até aqui à noite, poderia estacionar no parque juntamente com os carros dos clientes do jantar e esgueirar-se pelo bosque. Talvez daí conseguisse tirar fotografias a Meghan no interior da sua casa. Possuía um zoom. Deveria ser fácil.

 

Antes de sair, perguntou a Joe se eles tinham um empregado no parqueamento.

 

Só nas noites de sexta-feira e sábado disse-lhe Joe. Bernie acenou com a cabeça. Decidiu que voltaria no domingo à noite.

 

Meghan deixou Stephanie Petrovic às duas horas.

 

Entrarei em contacto consigo e quero saber quando é que vai para o hospital. É difícil ter o seu primeiro bebé sem ninguém por perto disse, junto à porta.

 

Eu estou a ficar assustada com isso admitiu Stephanie. A minha mãe teve dificuldades quando eu nasci. Só quero acabar com isto.

 

A imagem da jovem cara preocupada manteve-se na memória de Meghan. Por que estaria Stephanie tão inflexível a respeito de um eventual apoio por parte do pai da criança? Claro que se ela estava determinada a dar a criança para adopção, esta era, provavelmente, uma questão discutível.

 

Havia outra paragem que Meghan queria fazer antes de se dirigir para casa. Trenton não era longe de Lawrenceville, e Helene Petrovic trabalhara aí como secretária no Centro Dowling, uma instalação de reprodução assistida. Talvez alguém de lá se lembrasse da mulher, apesar de ela ter trocado o local pela Clínica Manning há seis anos atrás. Meghan estava determinada a descobrir mais acerca dela.

 

O Centro de Reprodução Assistida de Dowling ficava num pequeno edifício, o qual estava ligado ao Hospital Valley Memorial. A sala de recepção possuía apenas uma mesa e uma cadeira. Obviamente, este lugar não se encontrava na mesma escala da Clínica Manning. Meghan não mostrou a sua identificação da PCD. Ela não estava ali como jornalista. Quando disse à recepcionista que queria falar com alguém acerca de Helene Petrovic, a cara da mulher alterou-se.

 

Nós não temos mais nada a dizer em relação ao assunto. A Sr.a Petrovic trabalhou cá como secretária durante três anos. Nunca esteve envolvida em nenhuns procedimentos médicos.

 

Eu acredito nisso disse Meghan. Mas o meu pai está a ser responsabilizado por a ter colocado na Clínica Manning. Eu preciso de falar com alguém que a tivesse conhecido bem. Preciso de saber se a firma do meu pai alguma vez requesitou referências a respeito dela.

 

A mulher pareceu hesitar.

 

Por favor disse Meghan, calmamente.

 

Vou ver se a directora está disponível.

 

A directora era uma mulher bonita de cabelo grisalho, com perto de cinquenta anos. Quando acompanharam Meghan até ao seu gabinete, ela apresentou-se como Dr.a Keating.

 

Sou licenciada, mas não sou médica disse ela, bruscamente. Preocupo-me com o lado comercial do Centro.

 

Ela tinha o ficheiro de Helene Petrovic na sua gaveta.

 

O gabinete do delegado público de Connecticut pediu uma cópia deste ficheiro há dois dias comentou ela.

 

Importa-se que tome apontamentos? perguntou Meghan.

 

De modo nenhum.

 

O ficheiro continha as informações relatadas nos jornais. Na sua ficha de inscrição para Dowling, Helene Petrovic fora sincera. Concorrera para uma vaga de secretariado, referindo a sua experiência profissional como esteticista e citando o seu certificado recentemente adquirido da Escola de Secretariado Woods em Nova Iorque.

 

Confirmámos as referências dela disse a Dr.a Keating. Ela possuía uma excelente aparência e maneiras agradáveis. Contratei-a e fiquei muito satisfeita com ela durante os três anos em que ela aqui esteve.

 

Quando ela se foi embora disse-lhe que ia para a Clínica Manning?

 

Não. Disse que planeava voltar a aceitar um trabalho como esteticista em Nova Iorque. Contou-me que uma amiga iria abrir um salão. Foi por isso que nunca achámos surpreendente o facto de nunca termos sido contactados para dar referências.

 

Então, não tinham qualquer contacto com a Collins e Cárter, Pesquisa Executiva?

 

Nenhum.

 

Dr.a Keating, a Sr.a Petrovic conseguiu enganar a equipa médica na Clínica Manning. Onde acha que ela arranjou o conhecimento para lidar com embriões criogenicamente preservados?

 

Keating franziu a testa.

 

Tal como eu disse aos detectives de Connecticut, Helene estava fascinada com a medicina e particularmente com a que é aqui executada, o processo de reprodução assistida. Costumava ler os livros médicos quando havia pouco movimento, visitava frequentemente o laboratório e observava o que por lá se passava. Devo acrescentar que ela nunca deveria ter sido autorizada a entrar sozinha no laboratório. De facto, em laboratório, só podem estar, no mínimo, dois membros qualificados da equipa. E o tipo de sistema segurança-falha. Eu acho que devia ser uma regra em todas as instalações deste tipo.

 

Então, crê que ela obteve o conhecimento médico através da observação e leitura?

 

É difícil acreditar que alguém que não teve a oportunidade de fazer o trabalho sob supervisão fosse capaz de enganar peritos, mas é a única explicação que encontro.

 

Dr.a Keating, tudo o que ouço é que Helene Petrovic era muito simpática, muito respeitada e uma solitária. Isso também se passava aqui?

 

Eu diria que sim. Pelo que sei, nunca socializou com as outras secretárias ou com alguém desta equipa.

 

Não tinha amigos do sexo masculino?

 

Não sei, ao certo, mas sempre suspeitei que ela andava com alguém  do hospital. Por diversas vezes, quando se encontrava afastada da sua secretária, uma das outras raparigas atendia o seu telefone. Começaram a gozá-la acerca de quem seria o seu Dr. Kildare. Aparentemente, a mensagem era para telefonar para uma extensão do hospital.

 

Não sabe qual era a extensão?

 

Foi há mais de seis anos.

 

É claro Meghan levantou-se. Dr.a Keating, a senhora foi muito amável. Posso dar-lhe o meu número de telefone para o caso de se lembrar de alguma coisa que possa ajudar?

 

Keating esticou a mão.

 

Eu conheço as circunstâncias, Menina Collins. Gostava de poder ajudar.

 

Quando estava a entrar no seu carro, Meghan estudou a estrutura impressionante que era o Hospital Valley Memorial. Com uma altura de dez andares, metade da extensão do quarteirão de uma cidade e centenas de janelas, de onde luzes começavam a cintilar no fim de tarde.

 

Seria possível que por detrás de uma daquelas janelas estivesse o médico que ajudara Helene Petrovic a aperfeiçoar a sua perigosa fraude?

 

Meghan estava a sair para o Itinerário 7, quando começou o noticiário das cinco. Ouviu o boletim da estação de rádio WPCD: «O assistente do delegado público John Dwyer confirmou que o carro que Edwin Collins conduzia na noite do acidente da ponte Tappan Zee, em Janeiro passado, foi localizado no exterior do apartamento da sua filha em Manhattan. Testes de balística mostram que a arma de Collins, encontrada no carro, foi a mesma arma utilizada no crime que matou Helene Petrovic, a funcionária de laboratório, cujas credenciais fraudulentas Collins alegadamente apresentou à Clínica Manning. Acabou de ser emitido um mandado de busca em nome de Edwin Collins, dando-lhe voz de prisão por suspeita de homicídio.»

 

O Dr. George Manning deixou a clínica às cinco da tarde de sexta-feira. Três novas pacientes tinham cancelado as suas consultas e até à data só meia dúzia de pais preocupados tinham telefonado fazendo perguntas sobre os testes do ADN, de modo a ficarem tranquilos quanto às suas crianças serem, efectivamente, os seus descendentes biológicos. O Dr. Manning sabia que bastava apenas a confirmação de uma única troca para causar o alarme entre todas as mulheres, cujos filhos tivessem nascido através do tratamento na clínica. Tinha motivos suficientes para recear os próximos dias.

 

Exausto, conduziu os treze quilómetros até à sua casa em South Kent. «Era uma pena, era uma grande pena», pensou. Dez anos de árduo trabalho e uma reputação nacional completamente arruinada de um dia para o outro. Há menos de uma semana estivera a celebrar a sua reunião anual e ansiava por se reformar. No seu septuagésimo aniversário, em Janeiro passado, anunciara que iria permanecer no seu cargo só mais um ano. A recordação que mais o irritava era que Edwin Collins lhe telefonara ao ler o relatório sobre a celebração do seu aniversário e os seus planos de reforma, perguntando se a Collins e Cárter podiam uma vez mais servir a Clínica Manning!

 

Na noite de sexta-feira, Diná Anderson ao deitar o seu filho de três anos na cama abraçou-o fortemente.

 

Jonathan, acho que o teu gémeo não vai esperar até segunda-feira para nascer disse-lhe ela.

 

Como é que vai isso, querida? perguntou-lhe o marido, quando ela desceu as escadas.

 

Com cinco minutos de intervalo.

 

É melhor alertarmos o médico.

 

Lá se vai o Jonathan e eu a sermos filmados enquanto preparamos o quarto para o Ryan ela estremeceu. É melhor dizeres à minha mãe para vir para cá já e diz ao médico que eu vou a caminho do hospital.

 

Meia hora mais tarde, no Centro Médico de Danbury, Diná Anderson estava a ser examinada.

 

Acredita que as contracções pararam? perguntou ela, desgostosa.

 

Vamos mantê-la aqui disse-lhe o obstetra.

 

Se não acontecer nada durante a noite, iniciaremos uma intravenosa para provocar o parto de manhã. Don, quanto a si, é melhor ir para casa.

 

Diná puxou a cara do marido para baixo para o beijar.

 

Não fiques tão preocupado, paizinho. Oh, e podes telefonar à Meghan Collins para a alertar que, provavelmente, Ryan vai estar por aí amanhã. Ela quer estar lá para o filmar assim que ele estiver no berçário. Não te esqueças de trazer as fotografias de Jonathan de recém-nascido. Ela vai mostrá-las juntamente com o bebé, de modo a que toda a gente possa ver que eles são exactamente iguais. E deixa o Dr. Manning saber. Ele foi tão querido. Telefonou hoje para saber como é que eu estava.

 

Na manhã seguinte, Meghan e o seu operador de câmara, Steve, estavam na recepção do hospital, esperando notícias do nascimento de Ryan. Donald Anderson entregara-lhes fotografias de Jonathan recém-nascido. Quando o bebé fosse para o berçário, eles seriam autorizados a filmá-lo. Jonathan seria levado para o hospital pela mãe de Diná e eles seriam capazes de filmar rapidamente a família toda junta. Com um olhar profissional, Meghan observou a actividade da recepção. Uma jovem mãe numa cadeira-de-rodas com o seu bebé entre os braços era conduzida para a porta por uma enfermeira. O seu marido seguia-a, debatendo-se com malas e ramos de flores. De um dos bouquets de flores, flutuava um balão cor-de-rosa com a inscrição: «É UMA MENINA.»

 

Um casal com um ar exausto saiu do elevador, dando as mãos a uma criança de quatro anos com um dos braços engessado e uma ligadura na cabeça. Uma mãe grávida atravessou o salão e entrou por uma porta que dizia ADMISSÃO.

 

Vendo estas famílias, Meghan lembrou-se de Kyle. Que tipo de mãe se iria embora deixando um bebé de seis meses? O operador de câmara estudava as fotografias de Jonathan.

 

Vou tentar apanhar o mesmo ângulo disse ele. É um bocado estranho quando pensamos que sabemos exactamente como é que o miúdo se vai parecer.

 

Olha disse Meghan. É o Dr. Manning que vem a entrar. Será que ele está cá por causa dos Andersons.

 

Na sala de parto de um dos pisos superiores, um vagido alto trouxe um sorriso às caras dos médicos, das enfermeiras e dos Andersons. Pálida e exausta, Diná olhou para cima, para o seu marido, e viu uma expressão de choque estampada na sua cara. Freneticamente, apoiou-se num cotovelo.

 

Ele está bem? chorou ela. Deixa-me vê-lo.

 

Ele está óptimo, Diná disse o médico, segurando um bebé que gritava e cuja cabeça estava coberta por uma penugem vermelho-viva.

 

Esse não é o gémeo do Jonathan! gritou Diná. De quem é o bebé que carreguei?

 

Chove sempre ao sábado murmurou Kyle, enquanto mudava de canal para canal. Estava sentado de pernas cruzadas sob o tapete, com Jake a seu lado.

 

Mac estava concentrado no jornal da manhã.

 

Nem sempre respondeu, ausentemente. Olhou de relance para o relógio. Era quase meio-dia.

 

Muda para o Canal 3. Quero ver as notícias.

 

Okay Kyle carregou no comando. Olha, está ali a Meg! Mac largou o jornal.

 

Aumenta o volume.

 

Estás sempre a dizer-me para o baixar.

- Kyle!

 

Okay, okay.

 

Meg estava de pé no átrio de um hospital.

 

Surgiu uma nova e assustadora novidade no caso da Clínica Manning. Seguindo-se ao assassinato de Helene Petrovic e à descoberta das suas credenciais fraudulentas, tem existido uma certa preocupação de que a falecida Sr.a Petrovic tenha cometido erros graves no manuseamento dos embriões criogenicamente preservados. Há uma hora atrás, um bebé que se esperava que fosse o clone do seu irmão de três anos de idade nasceu aqui no Centro Médico de Danbury.

 

Mac e Kyle observavam, enquanto o ângulo da câmara aumentava.

 

Comigo está o Dr. Allan Neitzer, o obstetra que assistiu ao parto de Diná Anderson. Doutor, pode falar-nos acerca do bebé?

 

O bebé é um rapaz saudável e lindo de 3600 kg.

 

Mas não é o gémeo idêntico do filho de três anos dos Anderson?

 

Não, não é.

 

É o filho biológico de Diná Anderson?

 

Só os testes do ADN o podem provar.

 

Quanto tempo demorarão?

 

De quatro a seis semanas.

 

Como estão a reagir os Andersons?

 

Muito transtornados. Muito preocupados.

 

O Dr. Manning esteve aqui. Ele subiu as escadas antes de eu ter conseguido falar com ele. Esteve a visitar os Andersons?

 

Não posso fazer comentários a esse respeito.

 

Obrigado, doutor. Meghan virou-se para encarar, directamente, a câmara. Ficaremos por aqui com esta história por revelar. De volta ao estúdio, Mike.

 

Desliga isso, Kyle. Kyle carregou no botão do telecomando e o ecrã apagou-se. Que é que aquilo significa?

 

Significa grandes problemas», pensou Mac. Quantos erros teria Helene Petrovic cometido na clínica? Quaisquer que eles fossem, Edwin Collins seria sem dúvida considerado igualmente responsável por eles.

 

É muito complicado, Kyle.

 

Está alguma coisa mal para a Meghan?

 

Mac olhou para a cara do filho. O cabelo cor de areia tão parecido com o seu e que nunca ficava no mesmo sítio caía-lhe sobre a testa. Os olhos castanhos que herdara de Ginger tinham perdido o seu cintilar, habitualmente alegre. Exceptuando a cor dos olhos, Kyle era no seu todo um Macintyre. «Como é que seria», pensou Mac, «olhar a cara do meu filho e aperceber-me de que ele não me pertencia.» Colocou um braço à volta de Kyle.

 

As coisas têm sido difíceis para a Meg ultimamente. É por isso que ela parece preocupada.

 

Depois de ti e do Jake, ela é a minha melhor amiga disse Kyle, sobriamente.

 

Ao ouvir mencionar o seu nome, Jake deu à cauda. Mac sorriu fatigadamente.

 

Tenho a certeza de que a Meg ficará lisonjeada por o saber. Não pela primeira vez, nestes últimos dias, ele pensou se a sua estupidez cega em não se aperceber dos seus sentimentos por Meg o teriam relegado a seus olhos para o estatuto de amigo e compincha.

 

Meghan e o operador de câmara sentavam-se no átrio do Centro Médico de Danbury. Steve parecia saber que ela não queria conversar. Nem Donald Anderson nem o Dr. Manning tinham descido as escadas.

 

Escuta, Meg disse Steve, repentinamente, aquele não é o outro miúdo Anderson?

 

Sim, é. Aquela que está com ele deve ser a avó levantaram-se ambos num salto, seguiram-nos através da sala de espera e apanharam-nos no elevador. Meg ligou o microfone. Steve começou a filmar.

 

Será que poderia falar connosco por um momento? perguntou Meghan à mulher. Não é a mãe de Diná Anderson e a avó de Jonathan?

 

Sim, sou. A voz bem educada estava tensa. Cabelo prateado emoldurava uma cara preocupada. Pela expressão dela, Meghan soube que a mulher estava consciente do problema.

 

Falou com a sua filha ou com o seu genro desde que o bebé nasceu?

 

O meu genro telefonou-me. Por favor. Queremos subir. A minha filha precisa de mim. Entrou no elevador, a mão do rapazinho agarrando-lhe com força a mão. Meghan não tentou detê-la. Jonathan vestia um casaco azul que condizia com o azul dos seus olhos. As suas faces eram pontos róseos na sua compleição loura. O seu capuz estava caído e gotas de chuva formavam contas no seu cabelo de um louro-esbranquiçado, cortado ao estilo Buster Brown. Ele sorriu e acenou.

 

Adeus gritou, quando as portas do elevador se começaram a fechar.

 

Aquilo é que é um miúdo espectacular! constatou Steve.

 

Ele é lindo concordou Meghan. Regressaram para os seus lugares.

 

Achas que Manning irá fazer uma declaração? perguntou Steve.

 

Se eu fosse o Dr. Manning estaria a falar com os meus advogados.

 

«E a Collins e Cárter também precisará dos seus advogados», pensou ela.

 

O pager de Meghan tocou. Tirou o seu telefone celular, telefonou para a recepção do estúdio e foi informada de que Tom Weicker queria falar com ela.

 

Se Tom está lá ao sábado, é porque algo aconteceu murmurou ela.

 

Algo acontecera. Weicker foi directamente ao assunto.

 

Meg, Dennis Cimini vai a caminho para te substituir. Foi de helicóptero, portanto, deve estar a chegar.

 

Ela não estava surpreendida. A reportagem acerca de gémeos idênticos nascerem com três anos de diferença transformara-se numa história de maior envergadura. Estava agora ligada ao escândalo da Clínica Manning e ao assassinato de Helene Petrovic.

 

Está bem, Tom ela pressentiu que havia algo mais.

 

Meg, tu falaste com as autoridades do Connecticut acerca da mulher morta que se parece contigo e que esta tinha um pedaço de papel no bolso com a letra do teu pai.

 

Achei que lhes devia dizer. Tinha a certeza de que os detectives de Nova Iorque os iriam contactar em relação a isso.

 

Houve uma fuga de informação algures. Eles também ficaram a saber que tu foste à morgue para fazer um teste de ADN. Temos de pegar na história desde já. As outras estações já a têm.

 

Compreendo, Tom.

 

Meg, a partir de agora, estás de licença. Remunerada, é claro.

 

Está bem.

 

Tenho pena, Meg.

 

Eu sei que tens. Obrigada. Ela desligou. Dennis Cimini atravessava, nesse momento, a porta giratória, entrando na recepção. Acho que é desta. Até à vista, Steve disse ela. Esperou que a sua amarga decepção não fosse demasiado óbvia para ele.

 

Estava na altura de um leilão de terrenos, perto da extremidade limítrofe de Rhode Island. Phillip Cárter planeara ir até lá para dar uma olhadela.

 

Ele precisava de um dia longe do escritório e da miríade de problemas da última semana. Os media tinham-se mantido omnipresentes. Os detectives entravam e saíam. O apresentador de um talk show chegou a pedir-lhe para participar num programa acerca de pessoas desaparecidas.

 

Victor Orsini não estivera muito longe da verdade, quando dissera que cada palavra pronunciada ou impressa acerca das credenciais fraudulentas de Helene Petrovic eram um prego no caixão da Collins e Cárter.

 

No sábado pouco antes do meio-dia, Cárter encontrava-se à porta de sua casa quando o telefone tocou. Pensou se haveria de responder, depois levantou o auscultador. Era Orsini.

 

Phillip, eu tinha a televisão ligada. Vai ser o diabo. O primeiro erro conhecido de Helene Petrovic na Clínica Manning acabou de surgir.

 

Que é que isso quer dizer?

 

Orsini explicou. Enquanto Phillip o escutava, o seu sangue gelou.

 

Isto é apenas o começo disse Orsini. Que tipo de seguro é que a companhia tem para uma situação destas?

 

Não existe, no mundo, um seguro suficiente para cobrir um caso destes respondeu calmamente Cárter, enquanto desligava.

 

«Achas que tens tudo controlado», pensou ele, «mas nunca tens.» O pânico não era uma emoção familiar, mas de repente” os acontecimentos estavam a submergi-lo.

 

No momento seguinte, começou a pensar em Catherine e em Meghan. Já nem se lembrava do seu passeio de lazer pelo campo. Telefonaria mais tarde a Catherine e a Meghan. Talvez, esta noite, lhes pudesse fazer companhia ao jantar. Ele queria saber o que elas estavam a fazer e o que elas estavam a pensar.

 

Quando Meghan chegou a casa à uma e meia, Catherine já almoçara. Ela vira a transmissão do noticiário no hospital.

 

Foi provavelmente a minha última reportagem para o Canal 3 disse Meg, calmamente.

 

Durante um bocado e ambas demasiado deprimidas para falarem, as duas mulheres comeram em silêncio. Depois, Meg disse:

 

Mãe, embora também esteja a ser mau para nós, podes imaginar como se sentem as mulheres que passaram pela fertilização in vitro na Clínica Manning? Com a confusão dos Anderson, não existe uma única que não se vá interrogar se recebeu o seu próprio embrião. O que acontecerá quando os erros forem encontrados e tanto a mãe biológica como a mãe hospedeira reclamarem a mesma criança?

 

Posso imaginar como será. Catherine Collins inclinou-se sobre a mesa e agarrou a mão de Meghan. Meggie, vivi durante quase nove meses num vaivém emocional tal que estou completamente atordoada.

 

Mãe, eu sei como te tem custado.

 

Escuta-me. Não faço ideia como é que isto vai acabar, mas sei uma coisa. Eu não te posso perder. Se alguém matou aquela pobre rapariga pensando que eras tu, só posso sentir pena dela, com todo o meu coração, e agradecer a Deus de joelhos o facto de seres tu que estás viva.

 

Ambas deram um salto quando a campainha da porta tocou.

 

Eu vou lá disse Meg.

 

Era uma embalagem registada para Catherine. Ela abriu-a. Dentro estava um bilhete e uma pequena caixa. Leu o bilhete em voz alta:

 

Cara Sr.a Collins, devolvo-lhe a aliança de casamento do seu marido. Raramente sinto uma certeza tão grande como a que senti quando contei ao detective Bob Marron que Edwin Collins morreu há muitos meses atrás.

 

Os meus pensamentos e preces estão consigo,

 

FIONA CAMPBELL BLACK.

 

Meghan apercebeu-se de que estava satisfeita por ver as lágrimas afastarem parte da dor que estava estampada na cara da mãe. Catherine tirou o fino anel de ouro da caixa e fechou a sua mão sobre ele.

 

Sábado à tarde, no Centro Médico de Danbury, uma Diná Anderson sob o efeito de sedativos, passava pelo sono com Jonathan dormindo a seu lado. O seu marido e mãe estavam sentados silenciosamente ao lado da cama. O obstetra, Dr. Neitzer, assomou à porta e acenou a Don. Este saiu.

 

Alguma novidade? O médico anuiu.

 

E boas, espero eu. Ao verificar o seu sangue, o da sua mulher, o de Jonathan e o do bebé, verificámos que o bebé pode certamente ser o vosso filho biológico. Você é A positivo, a sua mulher é O negativo, o bebé é O positivo.

 

Jonathan é A positivo.

 

O qual é outro tipo de sangue compatível com a criança de pais com A positivo e O negativo.

 

Eu não sei o que pensar disse Don. A mãe de Diná jura que o bebé se parece com o seu próprio irmão quando ele nasceu. Existe cabelo ruivo daquele lado da família.

 

O teste do ADN estabelecerá definitivamente se o bebé é ou não biologicamente vosso, mas isso vai levar no mínimo quatro semanas.

 

E que é que fazemos entretanto? perguntou Don, zangado. Afeiçoamo-nos a ele, amamo-lo e talvez venhamos a descobrir que teremos de o entregar a alguém da Clínica Manning? Ou deixamo-lo ficar no berçário até sabermos se ele é ou não nosso?

 

Não é bom para nenhum bebé nas primeiras semanas de vida ser deixado num berçário respondeu o Dr. Neitzer. Até mesmo os bebés com doenças graves são tratados o máximo possível pelas mães e os pais. E o Dr. Manning diz...

 

Nada que o Dr. Manning diga me interessa interrompeu-o Don. Tudo o que ouvi desde que o embrião se dividiu há quase quatro anos atrás foi que o embrião do gémeo de Jonathan estava num tubo especialmente marcado.

 

Don, onde estás? chamou uma voz fraca. Anderson e o Dr. Neitzer voltaram para o quarto. Diná e Jonathan estavam ambos acordados.

 

Jonathan quer ver o seu novo irmão disse Diná.

 

Querida, eu não sei...

 

A mãe de Diná levantou-se e olhou esperançada para a filha.

 

Sei-o eu. Concordo com Jonathan. Carreguei aquele bebé durante nove meses. Nos três primeiros, eu estava em apuros e aterrorizada de o perder. O primeiro momento em que eu senti vida, fiquei tão contente que chorei. Adoro café e não conseguia beber um golo, porque aquele miúdo não gosta de café. Deu-me tantos pontapés que não consegui ter uma noite decente em três meses. Se ele é ou não o meu filho biológico, por Deus, mereço-o e quero-o.

 

Querida, o Dr. Neitzer diz que os testes de sangue mostram que ele pode ser nosso filho.

 

Isso é bom. Agora, se faz favor, diz a alguém para me trazer o meu bebé.

 

Às duas e trinta, o Dr. Manning, acompanhado pelo seu advogado e por um funcionário do hospital, entrou no anfiteatro do hospital. O funcionário do hospital fez uma comunicação firme.

 

O Dr. Manning irá ler uma declaração previamente preparada. Não responderá a quaisquer perguntas. Depois disso, peço-vos que se retirem todos das instalações. Os Anderson não vão prestar nenhuma declaração, nem vão permitir qualquer fotografia.

 

O cabelo grisalho do Dr. Manning estava despenteado e a sua cara amável tinha uma expressão cansada enquanto colocava os óculos. Com voz rouca começou a ler.

 

Eu só posso pedir desculpas pelo incómodo que a família Anderson está a ter. Acredito veementemente que a Sr.a Anderson tenha dado à luz o seu próprio filho biológico. Ela tinha dois embriões criogenicamente preservados no laboratório da nossa clínica. Um era o gémeo idêntico do seu filho Jonathan; o outro, o seu irmão.

 

»Na segunda-feira passada, Helene Petrovic confessou-me que tivera um acidente no laboratório na altura em que estava a manusear os pratos Petri, que continham aqueles dois embriões. Ela escorregou e caiu. A sua mão bateu e derrubou um dos pratos do laboratório, antes dos embriões serem transferidos para os tubos de ensaio.

 

Ela acreditava que o prato que restava continha o gémeo idêntico e colocou-o no tubo especialmente marcado. O outro embrião perdeu-se.

 

O Dr. Manning tirou os seus óculos e olhou para cima.

 

Se Helene Petrovic estava a contar a verdade e eu não tenho motivo para duvidar, repito, Diná Anderson deu hoje à luz o seu filho biológico.

 

Choveram perguntas.

 

Por que é que na altura a Petrovic não lhe disse?

 

Por que não avisou imediatamente os Anderson?

 

Quantos erros mais é que acha que ela cometeu?

 

O Dr. Manning ignorou-os a todos e saiu da sala, tropegamente.

 

Victor Orsini telefonou a Phillip Cárter depois da difusão do noticiário nocturno.

 

É melhor pensar em arranjar advogados para representarem a firma disse ele a Cárter.

 

Cárter estava prestes a sair para jantar na Pousada Drumdoe.

 

Concordo. O que se está a passar é demasiado grande para que seja o Leiber a tratar disto, mas ele pode certamente recomendar alguém.

 

Leiber era o advogado que prestava serviços à empresa.

 

Phillip, se não tem planos para esta noite, que tal se jantássemos? Há um velho ditado que diz: a miséria gosta de companhia.

 

Então, fiz os planos correctos. Vou encontrar-me com a Catherine e Meg Collins.

 

Apresenta-lhes os meus cumprimentos. Vemo-nos na segunda-feira.

 

Orsini desligou e dirigiu-se à janela. Nessa noite, o lago Candlewood estava tranquilo. As luzes das casas que o ladeavam brilhavam mais do que habitualmente. «Jantares de festas», pensou Orsini. Ele estava certo de que o seu nome surgiria em todas as casas. Toda a gente daqui sabia que ele trabalhava para a Colins e Cárter.

 

O telefonema que fizera a Phillip Cárter trouxera à tona a informação que ele pretendia. Cárter estaria seguramente entretido durante a noite. Victor podia ir agora ao escritório. Estaria absolutamente sozinho e poderia passar umas duas horas a verificar os ficheiros no gabinete de Edwin Collins. Algo começara a chateá-lo e era vital que ele desse uma olhadela final naqueles ficheiros, antes que Meghan os tirasse de lá.

 

Meghan, Mac e Phillip encontraram-se para jantar na Pousada Drumdoe às sete e meia. Catherine estava na cozinha onde estivera desde as quatro da tarde.

 

A tua mãe tem coragem disse Mac.

 

Podes crer que sim concordou Meg. Viste as notícias da noite?

 

Vi o PCD, e a reportagem principal era uma combinação entre a troca do bebé dos Anderson, o assassínio da Petrovic, a minha semelhança com a mulher da morgue e o mandado de busca para a prisão do meu pai. Suponho que todas as estações começaram com isso.

 

Eu sei disse Mac, calmamente.

 

Phillip levantou a mão num gesto de impotência.

 

Meg, eu faria qualquer coisa para te ajudar e à tua mãe, faria qualquer coisa para encontrar alguma explicação para o facto de Edwin ter enviado a Petrovic para a Manning.

 

Existe uma explicação disse Meg. Eu acredito nisso e a mãe também, e foi isso que lhe deu a coragem para vir até cá e pôr um avental.

 

Ela não está a planear tratar da cozinha sozinha infinitamente? protestou Phillip.

 

Não. Tony, o cozinheiro-chefe que se reformou o Verão passado, telefonou hoje e ofereceu-se para voltar e ajudá-la durante algum tempo. Disse-lhe que isso seria maravilhoso, mas avisei-o para não se apoderar da cozinha. Quanto mais ocupada a minha mãe estiver tanto melhor para ela. Mas ele está lá agora. Ela deve ser capaz de nos fazer companhia dentro em pouco.

 

Meghan sentiu os olhos de Mac colocados sobre ela e olhou para baixo para evitar a compaixão que via neles. Ela sabia que esta noite toda a gente na sala de jantar estaria a estudá-la bem como à mãe, para ver como é que elas se estavam a aguentar. Ela vestira-se deliberadamente de vermelho: uma saia pela barriga das pernas e uma camisola de lã em cachemira com capuz e jóias de ouro.

 

Ela maquilhara-se cuidadosamente com blush, baton e sombra para os olhos. «Acho que não me pareço como uma jornalista desempregada», decidiu ela, olhando-se de relance ao espelho quando saía de casa.

 

A parte desconcertante era que ela tinha a certeza que Mac conseguia ver por detrás da sua fachada. Ele calcularia que ainda para agravar o que se passava, ela estava preocupadíssima por poder perder o seu emprego.

 

Mac encomendara vinho. Quando foi servido, ergueu o seu copo na direcção de Meg.

 

Tenho uma mensagem de Kyle. Quando soube que iríamos jantar juntos, ele disse para te dizer que vem cá para te assustar amanhã à noite.

 

Meg sorriu.

 

É claro, amanhã é o Dia das Bruxas. Que é que Kyle vai vestir?

 

Muito original. Ele é um fantasma, um fantasma muito assustador, ou, pelo menos, é o que ele diz. Vou levá-lo a ele e a alguns miúdos amanhã à tarde para «Doce ou Partida», mas ele quer guardar-te para amanhã à noite. Portanto, se ouvires uma pancada na janela depois de escurecer, prepara-te.

 

Vou certificar-me de que fico em casa. Olha, aí vem a mãe.

 

Catherine manteve um sorriso nos lábios, enquanto atravessava a sala de jantar. Era constantemente interpelada por pessoas que se levantavam, repentinamente, das suas mesas para a abraçarem.

 

Estou tão satisfeita que tenhamos vindo até aqui. É muito melhor do que ficar em casa a pensar disse ela, quando se juntou a eles.

 

Tu estás maravilhosa disse Philip. Estás um verdadeiro estrondo.

 

A admiração dos seus olhos não se perdeu em Meg. Ela olhou para Mac. Ele também a vira.

 

«Tem cuidado, Phillip. Não cerques a mãe», pensou Meghan.

 

Estudou os anéis da mãe. Os diamantes e esmeraldas que ela usava brilhavam sob a pequena lâmpada da mesa. Anteriormente nessa tarde, a mãe dissera-lhe que na segunda-feira pretendia vender ou empenhar as suas jóias. Uma das maiores taxas da pousada estaria a pagamento durante a próxima semana.

 

O meu único desgosto em desistir das jóias é que eu queria que ficasses com elas dissera a mãe.

 

«Eu não me preocupo comigo», pensou Meghan, «mas...»

 

Meg? Estás pronta para encomendar?

 

Oh, desculpa. Meghan sorriu em tom de desculpa e olhou de relance para o menu que tinha na mão.

 

Experimenta o bife Wellington disse Catherine. É óptimo. Tenho obrigação de o saber. Fui eu que o fiz.

 

Durante o jantar, Meg sentiu-se grata por Mac e Phillip conduzirem a conversa para assuntos seguros, desde o pavimento proposto para as estradas locais até ao campeonato da equipa de futebol de Kyle.

 

Enquanto bebiam o cappucino, Phillip perguntou a Meg quais eram os seus planos.

 

Tenho pena por causa do emprego disse ele. Meg encolheu os ombros.

 

Não estou certamente feliz acerca disso, mas talvez corra tudo bem. Sabe, continuo a pensar que ninguém sabe ao certo nada acerca de Helene Petrovic. Ela é a chave para tudo isto. Eu estou determinada a encontrar alguma coisa acerca dela que nos possa dar algumas respostas.

 

Gostava que descobrisses disse Phillip. Sabe Deus que gostava de ter algumas respostas.

 

Mais uma coisa acrescentou Meghan. Acabei por não esvaziar o gabinete do pai. Importa-se que vá lá amanhã?

 

Vai quando quiseres, Meg. Posso ajudar-te?

 

Não, obrigada. Eu fico bem.

 

Meg, telefona-me quando tiveres acabado disse Mac. Eu passo por lá e levo as coisas para o carro.

 

Amanhã é o teu dia de brincares a «Doce ou Partida» com Kyle lembrou-lhe Meg. Eu posso tratar disso sorriu para os dois homens. Muito obrigada, amigos, por estarem aqui connosco hoje à noite. É bom ter amigos numa altura destas.

 

Em Scottsdale, Arizona, às nove horas da noite de sábado, Francês Grolier suspirou quando pousou a sua faca de cabo de pereira. Tinha uma encomenda de uma estatueta em bronze de trinta e oito centímetros de dois jovens navajo, um rapaz e uma rapariga, por fazer, a qual seria um presente para o convidado de honra de um jantar de angariação de fundos. O prazo de entrega aproximava-se rapidamente e Francês estava totalmente insatisfeita com o modelo de barro em que estava a trabalhar.

 

Não conseguira captar a expressão interrogativa que vira nas caras sensíveis das crianças. As fotografias que lhes tirara tinham-na captado, mas as suas mãos eram simplesmente incapazes de executar a sua visão do que a escultura deveria ser.

 

O problema era que ela simplesmente não se conseguia concentrar no seu trabalho.

 

Annie. Não tinha notícias da sua filha há quase duas semanas. Todas as mensagens que ela deixara no atendedor de chamadas tinham sido ignoradas. Nos últimos dias, telefonara aos amigos mais íntimos de Annie. Ninguém a vira.

 

«Ela pode estar em qualquer lugar», pensou Francês. Podia ter aceite uma missão para escrever um artigo sobre viagens nalgum local remoto e esquecido por Deus. Como escritora de viagens free-lancer, Annie andava de lá para cá sem um horário estabelecido.

 

«Criei-a para ser independente», disse Francês a si própria. «Criei-a para ser livre, para se arriscar, para aproveitar da vida o que quisesse. Ensinei-lhe isso para justificar a minha própria vida?», pensou.

 

Era como se isso lhe viesse repetidamente à cabeça nos últimos dias.

 

Não valia a pena continuar a trabalhar. Dirigiu-se à lareira e colocou-lhe mais troncos, que retirou do cesto. O dia estivera quente e solarengo mas agora, à noite, e no deserto, fazia um frio penetrante.

 

A casa estava tão calma. Talvez não voltasse a sentir a antecipação que fazia o seu coração bater mais fortemente ao saber que ele estava prestes a chegar. Enquanto ainda era uma rapariguinha, Annie perguntava-lhe frequentemente por que é que o seu pai viajava tanto.

 

«Ele tem um trabalho muito importante com o Governo», dizia-lhe Francês.

 

Enquanto Annie crescia, tornava-se mais curiosa.

 

«Que tipo de trabalho é, pai?»

 

«Oh, um tipo de cão de guarda, querida.»

 

«Trabalhas para a CIA?»

 

«Se trabalhasse, nunca te diria.»

 

«Trabalhas, não trabalhas?»

 

«Annie, trabalho para o Governo e faço muitos quilómetros devido a isso.»

 

Recordando-se, Francês dirigiu-se à cozinha, colocou gelo num copo e deitou uma quantidade generosa de uísque sobre ele. «Não é a melhor maneira de resolver os problemas», disse a si própria.

 

Pousou a sua bebida, foi até à casa de banho do quarto de dormir e tomou um duche, esfregando os pedaços de barro seco, que se tinham colado às rugas das palmas das suas mãos. Vestindo um pijama de seda cinzento e um roupão foi buscar o uísque e instalou-se no sofá em frente da lareira. Depois, pegou no artigo da Imprensa Associada que rasgara da página dez do matutino, um resumo do relatório publicado pela Autoridade Thruway do Estado de Nova Iorque sobre o acidente na Ponte Tappan Zee. Em parte, dizia:

 

«O número de vítimas que faleceram no acidente foi reduzido de oito para sete. Buscas exaustivas não revelaram vestígios do corpo de Edwin R. Collins, nem de destroços do seu veículo.»

 

Francês sentia-se assombrada pela questão, seria possível que Edwin ainda estivesse vivo?

 

Na manhã em que partira, estava tão preocupado com negócios.

 

Ele sentia um medo terrível que a sua vida dupla fosse exposta e que ambas as suas filhas o desprezassem.

 

Ultimamente, sentia dores no peito, as quais foram diagnosticadas como sendo causadas por ansiedade.

 

Dera-lhe um título ao portador no valor de duzentos mil dólares em Dezembro.

 

«Para o caso de me acontecer alguma coisa», dissera-lhe. Estaria ele a planear uma forma de desistir de ambas as suas vidas quando disse aquilo?

 

E onde estaria Annie? Francês agonizava por sentir uma crescente sensação de maus presságios.

 

Edwin tinha um atendedor de chamadas no seu gabinete particular. Durante aqueles anos, se Francês o tivesse que contactar, o acordo era que ela teria de telefonar entre a meia-noite e as cinco da manhã, hora oriental. Ele telefonava sempre às seis para saber as mensagens e depois apagava-as.

 

Era óbvio que esse número deveria estar desligado. Ou não estaria?

 

Passavam poucos minutos das dez no Arizona e já passava da meia-noite na Costa Este.

 

Ela levantou o auscultador e marcou o número. Depois de dois toques, a mensagem gravada de Edwin começou: «Acabou de ligar para o número 203-555-2867. Depois do sinal deixe, por favor, uma breve mensagem.»

 

Francês ficou tão espantada ao ouvir a sua voz que quase se esqueceu por que é que estava a ligar. «Poderá isto significar que, talvez, ele esteja vivo?», pensou ela. «E se Ed está vivo algures, será que alguma vez consultará esta máquina?» Não tinha nada a perder. Apressadamente, Francês deixou a mensagem que eles tinham combinado.

 

Sr. Collins, por favor, contacte os Artigos de Cabedal Palomino. Se ainda estiver interessado naquela mala, nós temo-la em armazém.

 

Victor Orsini estava no gabinete de Edwin Collins, ainda a remexer nos ficheiros, quando o telefone particular deste tocou. Ele saltou. Quem é que telefonaria a uma hora daquelas para um escritório? O atendedor de chamadas ligou-se. Sentado na cadeira de Collins, Orsini escutou a voz regular enquanto esta deixava a breve mensagem. Quando a chamada terminou, Orsini ficou sentado durante longos minutos, olhando fixamente a máquina. «Não se fazem chamadas telefónicas sobre uma mala a esta hora», pensou ele. «Isto é algum tipo de código. Alguém espera que Edwin Collins receba esta mensagem.» Era mais uma confirmação de que uma pessoa misteriosa acreditava que Ed estava vivo e algures por aí.

 

Passados alguns minutos, Victor saiu. Não encontrara aquilo que procurava.

 

No domingo de manhã, Catherine Collins assistiu à missa das dez horas em St. Paul, mas foi-lhe difícil concentrar-se no sermão. Fora baptizada nesta igreja, casara-se nela, fizera aqui o serviço fúnebre dos seus pais. Sempre encontrara conforto ali. Durante tanto tempo, rezara na missa para que o corpo de Edwin fosse encontrado, pedira resignação pela sua perda, para ter forças para continuar sem ele.

 

O que pedia ela agora a Deus? Apenas que Ele mantivesse Meg em segurança. Olhou de relance para Meg, sentada a seu lado, quieta, aparentemente atenta à homilia, mas Catherine suspeitava que os pensamentos da filha também estavam longe.

 

Um fragmento do Dies Irae surgiu subitamente na cabeça de Catherine. «Dia de ira e dia de luto. Vede o mundo em cinzas ardentes.»

 

«Eu estou zangada, magoada e o meu mundo está em cinzas», pensou Catherine. Afastou lágrimas repentinas que lhe assomavam aos olhos e sentiu a mão de Meg a fechar-se sobre as suas.

 

Quando deixaram a igreja, pararam para tomar café e comerem pães quentes numa pastelaria local, a qual tinha meia dúzia de mesas na zona mais afastada do interior.

 

Sentes-te melhor? perguntou Meg.

 

Sim disse Catherine, vivamente. Estes pães quentes conseguem-no sempre. Vou contigo para o escritório do pai.

 

Pensava que tínhamos acordado que seria eu a tratar das coisas. Foi por isso que viemos com dois carros.

 

Não é mais fácil para ti do que para mim. Faz-se mais depressa se formos juntas e algumas daquelas coisas devem ser pesadas para carregar.

 

A voz da sua mãe tinha a habitual nota de fim-de-conversa que Meghan sabia pôr termo a uma posterior discussão.

 

O carro de Meghan estava cheio de caixas. Ela e a mãe transportaram-nas até ao edifício. Quando abriram a porta do escritório da Collins e Cárter ficaram surpreendidas por encontrá-lo quente e com as luzes ligadas.

 

Aposto que Phillip veio mais cedo para ter tudo preparado observou Catherine. Ela olhou em redor da sala de recepção. É surpreendente quão raramente vim aqui disse ela. O teu pai viajava muito e mesmo quando não estava a viajar costumava estar fora em reuniões. E, é claro, eu estava sempre ocupada com a pousada.

 

Eu provavelmente estive aqui mais vezes do que tu concordou Meg. Costumava vir aqui, por vezes, depois das aulas e o pai dava-me boleia para casa.

 

Abriu a porta do gabinete do pai.

 

Está tal e qual como ele o deixou disse ela à mãe. Phillip foi generosíssimo ao mantê-lo o mais intocado possível. Eu sei que o Victor é que devia estar a utilizá-lo.

 

Durante um longo momento, ambas estudaram a sala: a sua secretária, a mesa de apoio com as suas fotografias, as estantes de livros e os armários de ficheiros embutidos na parede com um acabamento de cerejeira semelhante ao da secretária. O efeito era organizado e de bom gosto.

 

Edwin comprou e restaurou aquela secretária disse Catherine. Tenho a certeza de que Phillip não se importaria que ficássemos com ela.

 

Tenho a certeza que não.

 

Começaram a recolher as fotografias e a enfiá-las numa caixa. Meghan sabia que ambas sentiam que quanto mais depressa o gabinete assumisse um aspecto impessoal, mais fácil seria.

 

- Mãe. por que não começas com os livros. Eu vejo a secretária e os ficheiros sugeriu.

 

Foi só quando estava sentada à secretária que viu a luz a piscar no atendedor de chamadas, o qual se encontrava colocado numa mesa baixa perto da cadeira.


Olha para isto.

 

A mãe dirigiu-se à secretária.

 

Ainda está alguém a deixar mensagens no atendedor do pai? perguntou ela incrédula, depois inclinou-se para ver o painel de chamadas. Só há uma. Vamos ouvi-la.

 

Espantadas, ouviram a mensagem e depois a voz computadorizada da máquina, informando: «Domingo, 31 de Outubro, 24:09. Fim da mensagem final.»

 

Essa mensagem chegou há poucas horas! exclamou Catherine. Quem é que deixa uma mensagem comercial a meio da noite? E quando é que o pai encomendaria uma mala?

 

Podia ser um engano disse Meghan. Quem quer que telefonou não deixou nome nem um número onde pudesse ser contactado.

 

A maioria dos vendedores não deixariam um número de telefone se quisessem confirmar uma encomenda, especialmente, se a encomenda foi feita há meses atrás? Meg, essa mensagem não faz sentido. E essa mulher não soa a uma empregada de balcão de encomendas.

 

Meg tirou a cassete da máquina e colocou-a dentro da mala.

 

Não faz sentido concordou ela. Estamos só a perder tempo a tentar descobrir. Vamos continuar a empacotar e voltamos a ouvi-la em casa.

 

Olhou rapidamente para as gavetas da secretária e encontrou o habitual sortido de artigos de papelaria, blocos de notas, clips, canetas e marcadores fluorescentes. Lembrava-se que quando revia o currículo de um candidato, o seu pai marcava os aspectos mais favoráveis a amarelo e os menos favoráveis a rosa. Transferiu rapidamente o conteúdo da secretária para dentro de caixas. De seguida, pegou nos ficheiros. O primeiro parecia ter cópias dos relatórios de despesas do pai. Aparentemente, o contabilista guardava o original e devolvia uma fotocópia com «PAGO» carimbado no cimo da página.

 

Vou levar estes ficheiros para casa disse ela. São as cópias do pai dos originais que já estão nos registos da empresa.

 

Vale a pena levá-los?

 

Sim, pode existir alguma referência aos Artigos de Cabedal Palomino.

 

Estavam a fechar a última caixa quando ouviram a porta exterior a abrir-se.

 

Sou eu chamou Phillip.

 

Entrou, vestindo uma camisa aberta no pescoço, um colete de lã, um casaco de bombazina e calças largas.

 

Espero que estivesse agradável quando cá chegaram disse-lhes. Passei por cá de manhã. Este lugar arrefece bastante durante o fim-de-semana, se o termostato não estiver ligado.

 

Olhou para as caixas.

 

Eu sabia que vocês iriam precisar de uma ajuda. Catherine, por favor, coloca imediatamente essa caixa de livros no chão.

 

O pai chamava-a «O super-rato» disse Meg. Isso é muito simpático da sua parte, Phillip.

 

Ele viu o cimo de uma folha de despesas, espreitando de uma das caixas.

 

Tens a certeza de que queres toda essa tralha? São coisas elementares e tu e eu já passámos revista a isso tudo, Meg, à procura de algumas apólices de seguros que pudessem não estar no cofre.

 

É melhor levá-los disse Meg. De qualquer maneira, teria de se livrar deles.

 

Phillip, o atendedor de chamadas estava a piscar quando chegámos cá. Meghan tirou a cassete, colocou-a na máquina e fê-la tocar.

 

Viu o olhar de estupefacção na cara dele.

 

Obviamente, que também não a entende.

 

Não, não entendo.

 

Fora bom ambas terem trazido os seus carros. As bagageiras e os bancos de trás já estavam apinhados quando trouxeram a última caixa para baixo. Recusaram a oferta de Phillip para as seguir e ajudá-las a descarregar.

 

Eu peço a alguns dos rapazes da pousada para tratarem disso disse Catherine.

 

Enquanto Meghan conduzia de regresso a casa, sabia que cada hora em que não estivesse à procura de informações sobre Helene Petrovic, estaria a passar revista a cada linha de cada página dos registos do pai.

 

«Se existiu mais alguém na vida do pai», pensou ela, «e se aquela mulher na morgue é a Annie que Cyrus Graham conheceu há dez anos atrás, deve existir algo nos seus ficheiros que me possa conduzir até elas.» Uma espécie de segundo sentido dizia-lhe que os Artigos de Cabedal Palomino podiam bem ser essa ligação.

 

Aos olhos de Kyle, o «Doce ou Partida» fora absolutamente magnífico. Na noite de domingo, espalhou a sua colecção de doces sortidos, bolachas, maçãs e moedas no chão da cozinha enquanto Mac preparava o jantar.

 

Não comas nada disso agora avisou Mac.

 

Eu sei, pai. Já me disseste duas vezes.

 

Então, é melhor que isso te entre na cabeça. Mac retirou os hamburguers do grelhador.

 

Por que é que comemos sempre hamburguers ao domingo quando estamos em casa? perguntou Kyle. Eles são melhores no MacDonald’s.

 

Muito obrigado. Mac colocou-os sobre pães torrados. Comemos hamburguers ao domingo porque eu cozinho hamburguers melhor do que qualquer outra coisa. Levo-te a jantar fora quase todas as sextas-feiras. Faço massa quando estamos em casa aos sábados e a Sr.a Dileo faz uma excelente comida durante o resto da semana. Agora, come se queres voltar a vestir o teu fato e ires assustar a Meghan. Kyle deu umas quantas dentadas no seu hambúrguer.

 

Gostas da Meg, pai?

 

Sim, gosto. Muito. Porquê?

 

Eu gostava que ela viesse cá mais vezes. Ela é engraçada. «Também eu gostava que ela viesse cá mais vezes», pensou Mac,

 

«mas não me parece que isso vá acontecer». Na noite anterior, quando se oferecera para a ajudar a empacotar as coisas do gabinete do pai, ela interrompera-o tão depressa que a cabeça dele ficara às voltas.

 

Mantém-te afastado. Não te aproximes tanto. Nós somos apenas amigos. Era como se ela tivesse colocado uma tabuleta de aviso.

 

Certamente que crescera muito desde a miúda de dezanove anos que tivera um fraco por ele e lhe escrevera uma carta a dizer-lhe que o amava e a pedir-lhe para não casar com Ginger.

 

Nesse momento, desejou ter a carta. Também desejou que ela se sentisse novamente assim. Arrependia-se realmente de não ter aceite o seu conselho acerca de Ginger.

 

Depois Mac olhou para o filho. «Não, não me arrependo», pensou ele. «Não poderia nem quereria desfazer o facto de que tive este miúdo.»

 

Pai, que se passa? perguntou Kyle. Pareces preocupado.

 

Isso foi o que tu disseste acerca de Meghan quando a viste ontem na televisão.

 

Bom, ela parecia-o e tu também.

 

Só estou preocupado por pensar que tenho de aprender a cozinhar outra coisa qualquer. Acaba isso e veste o teu fato.

 

Eram sete e meia quando saíram de casa. Kyle achou que já estava suficientemente escuro lá fora para o aparecimento de fantasmas.

 

Aposto que existem mesmo fantasmas lá fora disse ele. Na Noite das Bruxas, todas as pessoas mortas saem das suas sepulturas e andam por aí.

 

Quem é que te disse isso?

 

Danny.

 

Diz a Danny que isso é uma história que toda a gente conta na Noite das Bruxas.

 

Contornaram a curva da estrada e chegaram à propriedade dos Collins.

 

Agora, pai, tu esperas aqui perto da sebe onde a Meghan não te pode ver. Eu vou pelas traseiras, bato na janela e uivo. Okay?

 

Está bem. Não a assustes muito.

 

Balançando a sua lanterna em forma de crânio, Kyle correu para as traseiras da casa dos Collins. As cortinas da sala de jantar estavam afastadas e ele podia ver Meghan sentada à mesa com um monte de papéis à sua frente. Teve uma ideia. Iria directamente até à extremidade do bosque e correria de lá até à casa, gritando Uuuhhhh, uuuhhh, e depois bateria na janela. Isso deveria mesmo assustar a Meghan.

 

Colocou-se entre duas árvores, esticou os braços e começou a abaná-los. Quando a sua mão direita foi para trás, ele sentiu carne, carne macia, depois uma orelha. Ouviu uma respiração. Ao rodar a cabeça, viu a forma de um homem, agachado atrás dele, a luz reflectindo-se na lente de uma câmara. Uma mão agarrou-lhe o pescoço. Kyle mexeu-se para se libertar e começou a gritar. Depois, foi empurrado para a frente com um forte empurrão. Quando caiu deixou cair a lanterna e começou a arranhar o chão, a sua mão fechou-se sobre algo. Ainda a gritar, levantou-se e correu em direcção à casa.

 

«Aquilo é que é um grito muito realista», pensou Mac, quando ouviu pela primeira vez o grito de Kyle. Depois, à medida que o grito aterrorizador continuava, começou a correr na direcção do bosque. Acontecera algo a Kyle. Começou a correr através do relvado para as traseiras da casa.

 

Do interior da sala de jantar, Meg ouviu os gritos e correu para a porta das traseiras. Abriu-a de rompante e agarrou Kyle enquanto ele entrava pela porta aos tropeções e caía nos seus braços, soluçando de terror.

 

Foi assim que Mac os encontrou, com os braços à volta um do outro, Meg embalando o seu filho para trás e para a frente, acalmando-o.

 

Kyle, está tudo bem. Está tudo bem continuava ela a repetir.

 

Passaram alguns minutos até ele conseguir dizer-lhes o que acontecera.

 

Kyle, são todas essas histórias acerca dos mortos a andarem por aí que te fazem pensar que estás a ver coisas disse Mac. Não havia lá nada.

 

Mais calmo agora, bebendo o cacau quente que Meg lhe preparara, Kyle mostrava-se inflexível.

 

Estava lá um homem e tinha uma câmara de filmar. Eu sei. Eu caí quando ele me empurrou, mas apanhei qualquer coisa. Depois deixei-a cair quando vi a Meghan. Vai ver o que é, pai.

 

Vou buscar uma lanterna, Mac disse Meg.

 

Mac dirigiu-se para o exterior e começou a movimentar o feixe de um lado para o outro sobre o chão. Não precisou de ir muito longe. A poucos metros de distância do alpendre das traseiras, encontrou uma caixa de plástico cinzenta, do tipo das usadas para transportar cassetes de vídeo.

 

Pegou nela e dirigiu-se para o bosque, com a luz ainda brilhando à sua frente. Ele sabia que era inútil. Nenhum intruso fica por perto à espera de ser descoberto. O terreno estava demasiado duro para se conseguirem ver pegadas, mas encontrou a lanterna de Kyle, exactamente na mesma direcção das janelas da sala de jantar. De onde se encontrava, conseguia ver claramente Meg e Kyle.

 

Alguém com uma câmara estivera aqui a observar Meg, talvez até a filmá-la. Porquê? Mac pensou na rapariga morta que se encontrava na morgue, depois apressou-se de regresso a casa através do relvado.

 

«Aquele miúdo estúpido!», pensou Bernie, enquanto corria através do bosque em direcção ao seu carro. Estacionara-o perto da extremidade do parque de estacionamento da Pousada Drumdoe, mas não tão longe que desse nas vistas. Nesse momento, perto de quarenta carros estavam espalhados pelo parque, por isso ninguém devia ter prestado atenção ao seu Chevy. Bernie atirou apressadamente a sua câmara para o porta-bagagens e conduziu através da cidade na direcção do Itinerário 7. Foi cuidadoso em não ultrapassar o limite máximo permitido em mais de seis quilómetros. Mas ele sabia que conduzir muito devagar também podia chamar a atenção dos polícias.

 

Será que o puto o vira bem? Ele achava que não. Estava escuro e o miúdo estava assustado. Alguns segundos a mais e podia ter recuado, e o miúdo nem se aperceberia de que ele estava ali.

 

Bernie estava furioso. Estava a gostar de observar Meghan através da câmara e tinha uma óptima vista sobre ela. Estava certo de que fizera excelentes filmagens.

 

Por outro lado, nunca vira ninguém ficar tão assustado como aquele miúdo ficara. Sentia-se vivo, dinâmico e quase enérgico só de pensar nisso. Por ter tal poder. Por ser capaz de filmar as expressões de alguém, os seus movimentos e pequenos gestos secretos, como a forma como Meghan colocava uma madeixa de cabelo atrás da orelha quando se estava a concentrar. Por conseguir assustar tanto alguém, que gritava, chorava e corria como aquele miúdo ainda há pouco.

 

Para observar Meghan, as suas mãos, o seu cabelo...

 

Stephanie Petrovic teve uma noite irregular, caindo por fim num sono pesado. Quando acordou, às dez e meia de domingo, abriu os olhos preguiçosamente e sorriu. Finalmente, as coisas estavam a resultar.

 

Fora avisada de que nunca deveria pronunciar o seu nome, que deveria esquecer que alguma vez o conhecera, mas isso fora antes do assassinato de Helene e antes de Helene ter tido a hipótese de alterar o seu testamento.

 

Ao telefone, ele fora tão amável com ela. Prometeu que iria tomar conta dela. Ele trataria dos preparativos para a adopção do bebé por pessoas que pagassem cem mil dólares por ele.

 

«Tanto?», perguntou ela, deliciada.


Ele assegurou-lhe de que não haveria de haver problema. Também trataria de lhe arranjar um visto.

 

«Será falso, mas nunca ninguém será capaz de ver a diferença», dissera-lhe. «Contudo, sugiro que te mudes para uma zona onde ninguém te conheça. Não quero que ninguém te reconheça. Mesmo num local tão grande como a cidade de Nova Iorque, as pessoas dão de caras umas com as outras e, no teu caso, começariam a fazer perguntas. Podes tentar a Califórnia.»

 

Stephanie sabia que iria adorar a Califórnia. «Talvez consiga arranjar um emprego numa estância termal», pensou. Com cem mil dólares, ela haveria de conseguir a formação de que precisava. Ou, talvez, ela pudesse arranjar já um emprego. Ela era semelhante a Helene. Ser uma esteticista surgiu-lhe naturalmente. Ela adorava aquele tipo de trabalho.

 

Ele ia-lhe enviar um carro às sete horas dessa tarde.

 

Não quero que os vizinhos te vejam a fazer a mudança disse-lhe ele.

 

Stephanie queria preguiçar na cama mas sentia fome. «São só mais dez dias, o bebé nascerá e depois posso fazer uma dieta», prometeu a si própria.

 

Tomou duche, depois vestiu as roupas de pré-mamã, que começara a odiar. De seguida, começou a fazer as malas. Helene tinha sacos de pano no armário. «Por que não haveria de ficar com eles?», pensou Stephanie. «Quem os merece mais do que eu?» Devido à gravidez, tinha muito poucas roupas, mas assim que voltasse à sua figura normal as roupas de Helene servir-lhe-iam. Helene fora conservadora no seu modo de vestir, mas todas as suas roupas eram caras e de bom gosto. Stephanie revistou o armário e as gavetas da cómoda, rejeitando apenas aquilo de que não gostava absolutamente nada. Um pequeno cofre encontrava-se no fundo do armário de Helene. Stephanie sabia onde esta guardava a combinação e, assim, abriu-o. Não continha muitas jóias, mas havia algumas peças boas, que ela colocou dentro de um saco de cosmética.

 

Era uma pena que não pudesse deslocar a mobília para o exterior. Por outro lado, ela sabia através de fotografias que vira, que na Califórnia não usavam mobiliário antigo e acolchoado, nem madeiras escuras como mogno.

 

Percorreu a casa e escolheu algumas estatuetas de porcelana de Dresden para levar consigo. Lembrou-se, então, dos talheres de prata. A caixa onde estes estavam era demasiado pesada para ser carregada, por isso ela colocou as pratas em sacos de plástico e apertou-lhes elásticos à volta, impedindo que chocalhassem na mala.

 

O advogado, o Sr. Potters, telefonou às cinco horas para saber como é que ela se estava a sentir.

 

Talvez se queira juntar a mim e à minha mulher para jantar, Stephanie.


Oh, obrigada disse ela, mas uma pessoa da Sociedade Romena vai passar por cá.

 

Óptimo. Nós só não queríamos que se sentisse sozinha. Lembre-se, certifique-se de que me telefona se precisar de alguma coisa.

 

O senhor é tão amável, Sr. Potters.

 

Bem, eu só desejava poder fazer mais por si. Infelizmente, no que me diz respeito, as minhas mãos estão atadas.

 

«Eu não preciso da sua ajuda», pensou Stephanie, enquanto desligava o telefone. Agora era altura de escrever a carta. Ela compôs três versões diferentes antes de ficar satisfeita. Sabia que algumas das suas palavras estavam mal escritas e que teria de procurar algumas outras palavras, mas, pelo menos, parecia estar tudo bem. Esta era dirigida ao Sr. Potters:

 

Caro Sr. Potters,

Fico satisfeita por lhe poder dizer que Jan, o pai do meu bebé, foi a pessoa que me veio ver. Vamos casar e ele vai tomar conta de nós. Tem de voltar imediatamente para o seu trabalho, por isso, parto com ele. Ele agora trabalha em Dallas.

Amo muito o Jan e sei que ficará satisfeito por mim.

Obrigada.

STEPHANIE PETROVIC

 

O carro que a vinha buscar chegou exactamente às sete. O condutor transportou as suas malas para fora de casa. Stephanie deixou o bilhete e a chave da casa na mesa da sala de jantar, desligou as luzes, fechou a porta atrás de si e apressou-se através da escuridão, descendo o passeio lajeado até ao veículo que a aguardava.

 

Na segunda-feira de manhã, Meghan tentou telefonar a Stephanie Petrovic. Não obteve resposta. Sentou-se à mesa da sala de jantar, onde começara a rever os ficheiros dos negócios do pai.

 

Reparou imediatamente em algo. Ele registara-se no Hotel Four Seasons em Beverly Hills e foram-lhe cobrados cinco dias, entre 23 e

28 de Janeiro, o dia em que ele fora para Newark e desaparecera. Depois dos dois primeiros dias, não existia quaisquer despesas extras naquela conta. «Mesmo que ele comesse quase sempre fora», pensou Meghan, «as pessoas encomendam o pequeno-almoço ou fazem um telefonema ou abrem o bar do quarto e tomam uma bebida... qualquer coisa.»

 

Por outro lado, se ele tivesse ficado no andar do concierge, seria típico do seu pai dirigir-se ao buffet de cortesia e servir-se de sumo, café e pãezinhos. Era o tipo de pessoa que tomava um pequeno-almoço ligeiro.

 

No entanto, a conta dos dois primeiros dias apresentava despesas extras, tais como serviços particulares, uma garrafa de vinho, uma refeição ligeira à noite, telefonemas. Apontou as datas dos três dias em que não existiam despesas extras. «Pode ser que exista um padrão», pensou ela. Ao meio-dia, voltou a tentar telefonar a Stephanie e, novamente, não obteve resposta. Às duas da tarde, começou a ficar alarmada e telefonou ao advogado Charles Potters. Este assegurou-lhe de que Stephanie estava óptima. Falara com ela na noite anterior e esta dissera-lhe que alguém da Sociedade Romena iria passar por lá.

 

Fico satisfeita disse Meghan. Ela é uma rapariga muito assustada.

 

Sim, é concordou Potters. Algo que não é conhecido do público em geral, é que quando alguém deixa um património inteiro a uma instituição médica ou de caridade ou médica, tal como a Clínica Manning, e se essa pessoa tem um parente próximo necessitado, o qual pretende anular o testamento, a instituição pode oferecer discretamente um acordo. Contudo, depois de Stephanie ter surgido na televisão acusando literalmente a clínica de ser responsável pelo assassinato da tia, tal tipo de acordo está fora de questão. Iria parecer que lhe estavam a pagar para a silenciar.

 

Compreendo disse Meghan. Vou continuar a tentar falar com a Stephanie, mas pode pedir-lhe para me telefonar se tiver notícias dela? Continuo a achar que alguém devia ir atrás do homem que a engravidou. Se ela entregar o bebé, poderá vir um dia a arrepender-se.

 

A mãe de Meghan fora para a pousada para servir o pequeno-almoço e o almoço e entrou em casa quando Meghan terminava a conversa com Potters.

 

Deixa-me também ocupar-me disso disse ela, sentando-se a seu lado na mesa da sala de jantar.

 

De facto, podes ocupar-te com tudo respondeu Meghan. Tenho mesmo de ir até ao meu apartamento buscar roupa e ver o meu correio. É o primeiro de Novembro e todos os pequenos envelopes com janela vão lá estar.

 

Na noite anterior, quando a mãe regressara da pousada, ela contara-lhe acerca do homem com a câmara que assustara Kyle.

 

Pedi a uma pessoa na estação para o confirmar por mim; ainda não recebi nenhuma resposta, mas tenho a certeza de que um daqueles programas manhosos está a montar uma história sobre nós, o pai e os Anderson disse ela.

 

Mandar alguém para nos espiar é a forma como eles trabalham. Não permitira que Mac telefonasse à Polícia.

 

Mostrou à mãe o que estava a fazer com os ficheiros.

 

Mãe, verifica os recibos de hotel em alturas em que não existam despesas extras durante três ou quatro dias seguidos. Gostaria de ver se isso só acontecia quando o pai estava na Califórnia... não disse que Los Angeles ficava a meia hora de avião de Scottsdale.

 

E quanto aos Artigos de Cabedal Palomino disse Catherine. Não sei porquê, mas esse nome tem andado às voltas na minha cabeça como uma batedeira. Sinto que já ouvi falar deles anteriormente, mas há muito tempo.

 

Meghan ainda não decidira se haveria de passar na PCD a caminho do seu apartamento. Vestia umas confortáveis calças largas e velhas e uma das suas camisolas favoritas. «Deve chegar», pensou. Aquele era um dos aspectos que ela adorava no trabalho, a informalidade por detrás das cenas.

 

Escovou rapidamente o cabelo e apercebeu-se de que estava muito comprido. Gostava de o usar pelo colarinho. Agora tocava-lhe nos ombros. O cabelo da rapariga morta também lhe chegava aos ombros. Com umas mãos subitamente frias, Meghan pegou na parte de trás do seu cabelo, enrolou-o num carrapito e prendeu-o com ganchos.

 

Meg, por que não sais para jantar fora com alguns dos teus amigos? Havia de te fazer bem, afastares-te um bocado de tudo isto disse-lhe a mãe quando ela estava de saída.,.

 

Eu não estou com muita disposição para jantares sociais disse Meg, mas telefono-te para te dizer. Vais estar na pousada?

 

- Sim.

 

Bem, quando estiveres aqui depois de escurecer, certifica-te de que tens as cortinas corridas ergueu a mão de palma virada para cima e para diante e dedos esticados. Tal como o Kyle diria: «Dá cá mais cinco.»

 

A mãe dela levantou a mão e tocou na palma da filha em resposta.

 

Podes crer.

 

Elas olharam uma para a outra durante um longo minuto, depois Catherine disse bruscamente:

 

Tem cuidado a conduzir.

 

Era o aviso-padrão desde que Meghan tirara a carta de condução aos dezasseis.

 

A sua resposta era sempre parecida.

 

Por acaso, pensei em servir de tampa traseira ao reboque de um camião cisterna. Depois quis morder a sua própria língua. O acidente na ponte Tappan Zee fora causado por um camião cisterna que fizera explodir o reboque de outro camião.

 

Ela sabia que a sua mãe estava a pensar o mesmo quando disse:

 

Santo Deus, Meg, é como andar sobre um campo de minas, não é? Até mesmo o tipo de observações jocosas que tem feito parte da estrutura das nossas vidas está manchada e desvirtuada. Será que alguma vez terá fim?

 

Na mesma manhã de segunda-feira, o Dr. George Manning foi novamente interrogado no escritório do assistente do delegado público John Dwyer. As perguntas tinham-se tornado mais contundentes e misturadas com um toque de sarcasmo. Os dois detectives sentavam-se silenciosamente, enquanto o seu chefe se ocupava do interrogatório.

 

Doutor perguntou Dwyer, pode explicar por que não nos disse imediatamente que a Helene Petrovic estava com medo de ter misturado os embriões dos Anderson?

 

Porque ela não tinha a certeza. Os ombros de George Manning descaíram bruscamente. O seu tom de pele, normalmente de um rosa saudável, estava pálido. Até mesmo a sua bonita cabeça de cabelo grisalho parecia apresentar uma tonalidade de um branco-acinzentado e desvanecido. Desde o nascimento do bebé dos Anderson que ele envelhecera visivelmente.

 

Dr. Manning, o senhor disse repetidamente que a fundação e a administração da clínica de reprodução assistida foi a grande realização da sua vida. Estava consciente de que Helene planeava deixar o seu considerável património para ser utilizado em pesquisa e investigação na sua clínica?

 

Tínhamos falado acerca disso. O nível de sucesso no nossso campo ainda não é nada daquilo que gostávamos que fosse. É muito dispendioso para uma mulher fazer uma fertilização in vitro, fica qualquer coisa entre dez e vinte mil dólares. Se uma gravidez não for conseguida, o processo recomeça. Enquanto algumas clínicas reinvindicam uma taxa de sucesso em cada cinco, o número mais honesto é um em cada dez.

 

Doutor, está muito ansioso por ver a taxa de gravidez de sucesso na sua clínica aumentar?

 

Sim, é claro.

 

Não foi como que um choque para si, na passada segunda-feira, quando Helene Petrovic não só se demitiu como admitiu a possibilidade de ter cometido um erro muito sério?

 

Foi devastador.

 

Contudo, mesmo quando ela foi encontrada morta, o senhor reteve o verdadeiro motivo pelo qual ela se despedira e segundo o que ela própria lhe dissera. Dwyer inclinou-se sobre a secretária. Que mais é que a Sr.a Petrovic lhe disse na última reunião na passada segunda-feira, doutor?

 

Manning juntou as mãos.

 

Disse que estava a planear vender a sua casa em Lawrenceville e a mudar-se, que poderia ir viver para França.

 

E que pensou acerca desse plano?

 

Fiquei aturdido sussurrou ele. Eu tinha a certeza de que ela estava a fugir.

 

A fugir de quê, doutor?

 

George Manning sabia que estava tudo acabado. Não podia continuar a proteger a clínica.

 

Tive a sensação de que ela tinha medo que se o bebé dos Anderson não fosse o gémeo do Jonathan, poderia haver uma investigação que podia revelar muitos erros no laboratório.

 

O testamento, doutor. Também achou que a Helene Petrovic modificaria o seu testamento?

 

Ela disse-me que tinha pena, mas que era necessário. Planeava afastar-se durante bastante tempo do trabalho e teria de tratar da família.

 

John Dwyer teve de encontrar a resposta que ele calculava estar ali.

 

Doutor Manning, quando foi a última vez que falou com Edwin Collins?

 

Ele telefonou-me no dia anterior ao seu desaparecimento, George Manning não gostou do que viu nos olhos de Dwyer. Foi o primeiro contacto que tive com ele, quer por telefone quer por carta, desde que ele colocara Helene Petrovic na minha clínica disse ele, desviando o olhar, incapaz de enfrentar a incredulidade e desconfiança que estava a ler no comportamento do assistente do delegado público.

 

Meghan decidiu não passar pelo escritório e chegou ao edifício do seu apartamento às quatro horas. A sua caixa do correio estava a transbordar. Tirou todos os envelopes, anúncios e folhetos publicitários, depois subiu de elevador até ao seu apartamento no décimo quarto andar.

 

Abriu imediatamente as janelas para afastar o cheiro a mofo, depois manteve-se, por momentos, de pé, olhando sobre a água para a Estátua da Liberdade. Hoje, a senhora parecia remota e formidável nas sombras lançadas pelo sol da tarde.

 

Frequentemente, quando olhava para a estátua, pensava no seu avô, Pat Kelly, que viera para este país quando jovem, sem nada, e que trabalhara tão arduamente para conseguir a sua fortuna. Que pensaria o avô se soubesse que a sua filha Catherine podia perder tudo aquilo porque ele tinha trabalhado, porque o seu marido a enganara durante anos?

 

Scottsdale, Arizona. Meg olhou sobre as águas do porto de Nova Iorque e compreendeu o que a estava a preocupar. O Arizona ficava no Noroeste. Palomino soava a Noroeste.

 

Dirigiu-se ao telefone, marcou o número da operadora e pediu o código da área para Scottsdale, Arizona. De seguida, marcou o número das informações do Arizona. Quando conseguiu obter ligação, perguntou:

 

Tem na lista algum número pertencente a um Edwin Collins ou a um E. R. Collins?

 

Não havia nenhum. Meg fez outra pergunta.

 

Tem uma lista para Artigos de Cabedal Palomino? Seguiu-se uma pausa, depois a operadora disse:

 

Por favor, aguarde pelo número.

 

Na noite de segunda-feira, quando Mac chegou a casa do trabalho, Kyle estava com o seu bom humor habitual. Informou o pai que contara a todos os miúdos na escola acerca do tipo nos bosques.

 

Todos me disseram como ficariam assustados explicou ele com satisfação. Contei-lhes como corri realmente depressa e fugi dele. Contaste aos teus amigos?

 

Não, não contei.

 

Eu não me importo, se o quiseres fazer disse Kyle, magnanimamente.

 

Enquanto Kyle se virava, Mac segurou-lhe o braço.

 

Kyle, espera um minuto.

- Que foi?

 

Deixa-me ver uma coisa.

 

Kyle estava a usar uma camisa de flanela aberta no pescoço. Mac puxou-a para trás, revelando contusões amarelas e arroxeadas na base do pescoço do seu filho.

 

Arranjaste isto ontem à noite?

 

Eu disse-te que o tipo me agarrou.

 

Tu disseste que ele te empurrou.

 

Primeiro agarrou-me, mas eu fugi.

 

Mac praguejou. Não se lembrara de examinar Kyle na noite anterior. Ele tinha vestido o fato de fantasma e por baixo uma camisa de gola alta branca. Mac pensara que Kyle só fora empurrado pelo intruso com a câmara. Em vez disso, fora agarrado pela zona do pescoço. Dedos fortes tinham-lhe causado aquelas nódoas negras.

 

Mac manteve um braço à volta do filho enquanto telefonava para a Polícia. Na noite passada, concordara relutantemente com Meghan, quando ela lhe suplicara para que ele não lhes telefonasse.

 

«Mac, isto já está a ser suficientemente mau sem ter de dar aos media um novo ângulo sobre o que está a suceder», dissera-lhe ela. «Ouve o que te digo, alguém vai escrever que o pai anda a rondar a casa. O assistente do delegado público tem a certeza de que ele nos vai contactar.»

 

«Já deixei a Meg manter-me afastado disto o tempo suficiente», pensou Mac, sombriamente. «Não vai continuar a acontecer. Aquilo não era um tipo qualquer que se encontrava a filmar por ali.»

 

O telefone foi atendido ao primeiro toque. Aqui o agente Thorne.

 

Quinze minutos mais tarde, um carro-patrulha encontrava-se estacionado perto da casa. Era óbvio que os dois polícias não estavam satisfeitos por não terem sido contactados anteriormente.

 

Dr. Maclntyre, a noite passada foi a Noite das Bruxas. Estamos sempre preocupados que algum tarado possa andar por perto, à espera de agarrar algum miúdo. Aquele tipo pode ter ido para outra área da cidade.

 

Concordo que devia ter telefonado disse Mac, mas acho que aquele tipo não estava à procura de crianças. Ele estava exactamente no alinhamento das janelas da sala de jantar da casa dos Collins e a Meghan Collins estava perfeitamente visível.

 

Reparou nos olhares que os polícias trocaram.

 

Acho que o escritório do delegado público tem de ter conhecimento disto disse um deles.

 

Durante todo o caminho desde o seu apartamento até casa, a amarga verdade entranhara-se nela. Meghan sabia que agora possuía a confirmação real que o seu pai tinha uma segunda família no Arizona.

 

Quando telefonara para a Loja de Artigos de Cabedal Palomino, falara com a proprietária. A mulher ficara atónita quando ela a questionou acerca da mensagem no atendedor de chamadas.

 

Essa chamada não foi feita daqui disse ela, secamente.

 

Confirmara que tinha uma cliente chamada Sr.a E. R. Collins, a qual tinha uma filha na casa dos vintes. Depois disso, recusara-se a prestar mais informações pelo telefone. Eram sete e meia quando Meghan chegou a Newtown. Quando virou para a rua que conduzia à sua casa, ficou surpreendida por ver o Chrysler vermelho de Mac e um Sedan desconhecido estacionados em frente da casa. «Que foi agora?», pensou ela, alarmada. Estacionou atrás deles e apressou-se a subir os degraus do alpendre, apercebendo-se de que qualquer ocorrência inesperada era suficiente para lhe fazer disparar o coração em pavor.

 

A detective especial Arlene Weiss estava na sala de estar com Catherine, Mac e Kyle. Não havia qualquer tom de desculpa na voz de Mac quando explicou a Meg por que telefonara à Polícia local e depois para o escritório do assistente do delegado público acerca do intruso. De facto, Meg tinha a certeza, pela maneira cortante como falara com ela, que Mac estava zangado. «Kyle foi maltratado e aterrorizado, podia ter sido estrangulado por algum lunático e eu não deixei Mac notificar a Polícia», pensou ela. Não o culpou por estar furioso.

 

Kyle estava sentado entre Catherine e Mac no sofá. Escorregou para baixo e atravessou a sala na direcção de Meg.

 

Meg, não fiques tão triste. Eu estou bem. Colocou as suas mãos na cara dela. A sério, eu estou bem.

 

Ela olhou para os seus olhos sérios, depois abraçou-o firmemente.

 

Podes crer que estás, companheiro. Weiss não se demorou.

 

Menina Collins, quer acredite quer não, nós queremos ajudá-la disse ela, enquanto Meghan a acompanhava até à porta. Quando não participa ou não permite que outras pessoas façam a participação de incidentes como o de ontem à noite está a dificultar esta investigação. Nós poderíamos ter aqui um veículo policial em minutos se o tivesse chamado. De acordo com Kyle, aquele homem transportava uma grande câmara de filmar que o deveria ter atrasado. Por favor, há mais alguma coisa que tenhamos de saber?

 

Nada disse Meghan.

 

A Sr.a Collins disse-me que esteve no seu apartamento. Encontrou mais mensagens de fax?

 

Não mordeu o lábio, pensando no seu telefonema para a Loja de Artigos de Cabedal Palomino.

 

Weiss olhou fixamente para ela.

 

Estou a ver. Bom, se se lembrar de alguma coisa que ache que nos possa interessar, sabe onde nos encontrar.

 

Vai para o gabinete. Podes ver televisão durante quinze minutos. Depois, temos de nos ir embora disse Mac a Kyle, quando Weiss saiu.

 

Não faz mal, pai. Não está a dar nada de bom. Eu fico aqui.

 

Não era uma sugestão. Kyle saltou.

 

Está bem. Não precisas de ficar irritado por isso. Kyle deu-lhe cinco ao passar pela cadeira de Meghan. Mac esperou até ouvir o estalido da porta do gabinete.

 

Que descobriste enquanto estiveste no teu apartamento, Meghan?

 

Meghan olhou para a mãe.

 

A localização da Loja de Artigos de Cabedal Palomino e que eles têm uma cliente chamada Sr.a E. R. Collins.

 

Ignorando o suspiro da mãe, contou-lhes acerca da chamada telefónica para Scottsdale.

 

Eu vou até lá amanhã de avião disse ela. Temos de saber se a Sr.a Collins deles é a mulher que Cyrus Graham viu com o pai. Não podemos ter a certeza até eu a conhecer.

 

Catherine Collins esperava que a dor que via na cara da filha não se espelhasse na sua própria expressão. Disse calmamente:

 

Meggie, se tu és tão parecida com aquela jovem rapariga morta e a mulher em Scottsdale é a mãe dessa rapariga, pode ser terrível para ela ver-te.

 

Não há nada que possa ser fácil para quem quer que seja a mãe daquela rapariga.

 

Ficou satisfeita por ninguém a ter tentado dissuadir.

 

Meg, não digas a ninguém, e quero dizer mesmo ninguém, onde vais. Quanto tempo esperas ficar? perguntou-lhe Mac.

 

De um dia para o outro, no máximo.

 

Então, para todos os efeitos, estás no teu apartamento. Deixa ficar por aí.

 

Catherine, se Kyle e eu pudermos passar pela pousada amanhã à noite, acha que teria tempo para se juntar a nós para jantar? perguntou Mac, quando foi buscar Kyle.

 

Catherine esboçou um sorriso.

 

Adoraria. Que é que devo ter no menu, Kyle?

 

Chicken McNuggets! respondeu ele, esperançoso.

 

Estás a tentar arruinar-me o negócio? Vem cá dentro. Eu trouxe para casa algumas bolachas. Leva umas quantas contigo conduziu-o até à cozinha.

 

Catherine tem muito tacto disse Mac. Acho que ela sabia que eu queria um minuto contigo. Meg, não gosto que vás para lá sozinha, mas acho que compreendo. Agora quero a verdade. Estás a esconder alguma coisa?

 

Não.

 

Meg, eu não vou deixar que tu me continues a excluir. Habitua-te a essa ideia. Como é que posso ajudar?

 

Telefona a Stephanie Petrovic de manhã e, se ela não estiver em casa, telefona ao advogado. Tenho um estranho pressentimento acerca de Stephanie. Tentei contactá-la três ou quatro vezes e ela tem estado fora todo o dia. Até lhe telefonei do carro à meia hora atrás. O bebé dela está para nascer dentro de dez dias e ela sente-se muito mal. No outro dia, ficou exausta depois do funeral da tia e mal podia esperar para se deitar. Eu não estou a vê-la a afastar-se durante tanto tempo. Deixa-me dar-te o número.

 

Quando Mac e Kyle saíram uns minutos mais tarde, o beijo de Mac não era o beijo habitual, amigável e rápido, dado por obrigação na sua face. Em vez disso, e tal como o seu filho fizera anteriormente, ele segurou a cara de Meghan entre as suas mãos.

 

Toma cuidado contigo ordenou-lhe ele, enquanto os seus lábios se fecharam firmemente sobre os dela.

 

Segunda-feira fora um mau dia para Bernie. Ele levantou-se de madrugada, instalou-se no sofá reclinável e rachado Naugahyde na cave, e começou a ver e rever o vídeo que fizera de Meghan a partir do seu esconderijo nos bosques. Preferiria tê-lo visto ontem à noite quando chegara a casa, mas a mãe obrigara-o a fazer-lhe companhia.

 

Eu fico muito sozinha, Bernard queixara-se ela. Tu nunca costumavas sair tanto aos fins-de-semana. Tu não tens uma namorada, pois não?

 

É claro que não, mãezinha dissera-lhe.

 

Tu sabes os problemas que arranjas por causa das raparigas.

 

Isso não foi culpa minha, mãezinha.

 

Eu não disse que a culpa era tua. Eu disse que aquelas raparigas são veneno para ti. Mantém-te longe delas.

 

Sim, mãezinha.

 

Quando a mãe ficava naquele estado de humor, a melhor coisa que Bernie podia fazer era ouvi-la. Ele ainda tinha medo dela. Ainda tremia ao lembrar-se das vezes em que, enquanto crescia, ela surgia de repente com um cinto nas mãos.

 

«Vi-te a olhar para aquela sujeira na televisão, Bernard. Eu consigo ler esses pensamentos nojentos na tua cabeça.»

 

A mãe nunca entenderia que o que ele sentia por Meghan era puro e lindo. Ele queria, simplesmente, ficar ao pé de Meghan, queria vê-la, queria sentir que conseguia que ela olhasse para ele e lhe sorrisse sempre. Como ontem à noite. Se ele a tivesse filmado à janela e ela o tivesse reconhecido, não se teria assustado. Ela teria corrido para a porta para o deixar entrar. Ter-lhe-ia dito: «Bernie, que estás aqui a fazer?» Talvez até lhe oferecesse uma chávena de chá.

 

Bernie inclinou-se para a frente. Estava, novamente, a chegar à melhor parte, onde Meghan parecia tão atenta ao que estava a fazer, sentada à cabeceira da mesa da sala de jantar com todos aqueles papéis à sua frente. Com a lente de zoom, conseguira grandes planos da sua cara. Havia algo em relação ao modo como ela começara a humedecer os lábios que o excitara. A blusa dela estava aberta no pescoço. Ele não estava certo se conseguia ver o bater da sua pulsação ali ou se só o conseguira imaginar.

 

Bernard! Bernard!

 

A mãe estava no cimo das escadas, a gritar-lhe. Há quanto tempo estaria ela a gritar?

 

Sim, mãezinha. Já vou.

 

Levaste muito tempo disse-lhe ela, repentinamente, quando ele chegou à cozinha. Vais chegar atrasado ao trabalho. Que estavas a fazer?

 

A arrumar um pouco as coisas. Eu sei que tu queres que eu deixe tudo impecável.

 

Quinze minutos mais tarde, ele estava no carro. Desceu o quarteirão, incerto para onde ir. Sabia que devia apanhar alguns passageiros no aeroporto. Com todo o equipamento que andava a comprar, precisava de ganhar algum dinheiro. Obrigou-se a virar o carro e conduziu na direcção do Aeroporto de La Guardiã.

 

Passou o dia a conduzir do aeroporto e para o aeroporto. O dia correu suficientemente bem até ao fim da tarde, quando um tipo qualquer se começou a queixar do trânsito.

 

Por amor de Deus, meta-se na faixa da esquerda. Não vê que esta está bloqueada?

 

Bernie recomeçara a pensar em Meghan e se seria seguro passar de carro pela casa dela, assim que escurecesse. Um minuto mais tarde, o passageiro exclamou:

 

Escute, eu sei que devia ter apanhado um táxi. Onde é que aprendeu a conduzir? Acompanhe o trânsito, por amor de Deus!

 

Bernie estava na última saída da Alameda Grand Central antes da Ponte Triborough. Virou rapidamente à direita para a rua paralela à Alameda e encostou o carro à beira do passeio.

 

Que raio é que pensa que está a fazer? exigiu o passageiro. A grande mala do tipo estava ao pé de Bernie, no assento da frente. Ele inclinou-se, abriu a porta do carro e empurrou-a para fora.

 

Desapareça! gritou. Arranje um táxi.

 

Virou a cabeça para olhar para a cara do passageiro. Os seus olhos encontraram-se.

 

A expressão do passageiro alterou-se para pânico.

 

Okay, tenha calma. Desculpe se o irritei.

 

Saltou do carro e puxou a mala, assim que Bernie pisou o acelerador. Bernie atravessou as ruas laterais. Era melhor ir para casa. Caso contrário, ainda daria meia volta e partiria a cara daquele fala-barato.

 

Começou deliberadamente a inspirar profundamente. Aquilo foi o que o psiquiatra da prisão lhe dissera para fazer quando se sentisse zangado.

 

«Tens de saber lidar com essa raiva, Bernie», avisara-o. «Anão ser que queiras passar aqui o resto da tua vida.»

 

Bernie sabia que nunca poderia voltar à prisão. Ele faria qualquer coisa para impedir que isso acontecesse.

 

Na manhã de terça-feira, o despertador de Meghan disparou às 4 da madrugada. Tinha uma marcação para o voo 9 da America West, que partia do Aeroporto Kennedy às 7:25. Não teve problemas em levantar-se. O seu sono fora incerto. Tomou um duche, deixando que a água escorresse tão quente quanto a conseguia aguentar, satisfeita por sentir alguns dos músculos tensos do seu pescoço e costas descontraírem.

 

Enquanto vestia a roupa interior e as meias, ouvia o boletim meteorológico na rádio. Estavam temperaturas abaixo de zero em Nova Iorque. Arizona, é claro, era outra coisa. Fresco durante as noites nesta época do ano, mas ela sabia que podia atingir temperaturas bastante quentes durante o dia.

 

Um casaco de lã leve de um tom castanho-amarelado e calças largas com uma blusa de marca pareciam ser uma boa escolha. Sobre isso, usaria o seu Burberry mas sem o forro. Arrumou rapidamente numa mala as coisas de que iria precisar para uma noite.

 

O cheiro do café saudou-a assim que desceu as escadas. A mãe estava na cozinha.

 

Não te devias ter levantado protestou Meghan.

 

Eu não estava a dormir. Catherine Collins brincava com o cinto do seu roupão de veludo frisado. Eu não me ofereci para ir contigo, Meg, mas agora estou a pensar de forma diferente. Talvez eu não devesse deixar-te fazeres isto sozinha. É que se existe outra Sr.a Edwin Collins em Scottsdale, eu não sei o que lhe poderia dizer. Será que ela também ignorava o que se passava, tal como eu? Ou viveu uma mentira com conhecimento de causa?

 

Espero que ao fim do dia já possa ter algumas respostas disse Meg. E sei que será realmente melhor se fizer isto sozinha.

 

Beberricou uns goles do sumo de uva e engoliu um pouco de café.

 

Tenho de ir andando. Ainda é um grande esticão até ao Aeroporto Kennedy. Não quero ser apanhada pelo trânsito da hora de ponta.

 

A mãe acompanhou-a até à porta. Meg deu-lhe um abraço rápido.

 

Chego a Phoenix às onze horas, tempo da montanha. Telefono-te ao fim da tarde.

 

Conseguia sentir os olhos da mãe sobre ela, enquanto caminhava até ao carro.

 

O voo foi monótono. Ela tinha um lugar à janela e, durante longos períodos de tempo, contemplou as almofadas de nuvens brancas do exterior. Recordou-se do seu quinto aniversário, quando a mãe e o pai a tinham levado à DisneyWorld. Era o seu primeiro voo. Ela ficara sentada à janela, com o pai a seu lado, a mãe na coxia.

 

Ao longo dos anos, o pai nunca se cansara de gozar com a pergunta que ela fizera nesse dia.

 

«Paizinho, se saíssemos do avião, poderíamos andar nas nuvens?»

 

Ele dissera-lhe que tinha pena de ter de lho dizer, mas as nuvens não aguentariam com ela.

 

«Mas eu aguentarei sempre contigo, Meggie Anne», prometeu ele.

 

E aguentara. Ela pensou no dia terrível em que tropeçara mesmo antes da meta de uma corrida e custara à sua equipa da Escola Secundária o campeonato do Estado. O seu pai estava à espera quando ela se esquivou do ginásio, não querendo ouvir as palavras de consolo das suas colegas de equipa ou de ver a desilusão nas suas caras.

 

Ele oferecera compreensão e não consolo.

 

«Existem acontecimentos nas nossas vidas, Meghan», dissera-lhe ele, «que não interessa o tempo que passe, a memória deles continuará sempre a magoar-nos. Receio que tenhas participado num desses acontecimentos.»

 

Uma onda de ternura abateu-se sobre Meghan, desvanecendo-se logo de seguida ao recordar-se dos negócios urgentes do pai, que sempre o tinham mantido afastado. Às vezes, até mesmo em datas festivas, como o Dia de Acção de Graças e o Natal. Estaria ele a celebrá-las em Scottsdale? Com a sua outra família? Os feriados eram sempre tão atarefados na pousada. Quando ele não estava em casa, ela e a mãe jantavam lá com amigos, mas a mãe andava sempre de um lado para o outro a cumprimentar os convidados e a verificar a cozinha.

 

Lembrou-se dos seus catorze anos e das suas lições de dança jazz. Quando o pai chegava a casa de uma das suas viagens, mostrava-lhe os novos passos que aprendera.

 

«Meggie», suspirava ele, «o jazz é uma música boa e^uma óptima forma de dança, mas a valsa é a dança dos anjos», fora ele que lhe ensinara a valsa vienense.

 

Sentiu-se aliviada, quando o piloto anunciou que estavam a iniciar a descida no Aeroporto Internacional de Sky Harbor, onde a temperatura exterior era de 20 °C.

 

Meghan tirou as suas coisas do compartimento de bagagens acima da sua cabeça e esperou, impacientemente, que a porta da cabina se abrisse. Queria terminar este dia o mais depressa possível.

 

A agência de aluguer de veículos ficava no terminal Barry Goldwater. Meghan parou para procurar a morada da Loja de Artigos de Cabedal Palomino e, quando alugou um carro, perguntou à empregada a direcção.

 

Isso fica na secção Bogotá de Scottsdale respondeu a empregada. É uma área comercial maravilhosa, que a fazem pensar que está numa cidade medieval.

 

Num mapa, indicou o caminho para Meghan.

 

Chegará lá dentro de vinte e cinco minutos disse-lhe ela. Enquanto conduzia, Meghan absorvia a beleza das montanhas à distância e o céu de um azul-intenso e sem nuvens. Quando ultrapassou a zona comercial, palmeiras, laranjeiras e cactos saguaro começaram a surgir por entre a paisagem.

 

Passou pelo Hotel Safari de adobe. Com os seus loendros brilhantes e altas palmeiras, parecia sereno e convidativo. Fora aqui que Cyrus Graham vira o seu meio-irmão, o seu pai, há quase onze anos.

 

A Loja Artigos de Cabedal Palomino ficava a pouco mais de um quilómetro e meio, mais adiante, na Rua Scottsdale. Aqui, os edifícios tinham torres semelhantes às dos castelos e paredes com parapeitos guarnecidos de ameias. Ruas pavimentadas com pedras contribuíam para um efeito de velho mundo. As botiques que perfilavam as ruas eram pequenas e pareciam todas elas dispendiosas. Meghan virou à esquerda para a área de estacionamento, que ficava depois da Loja de Artigos de Cabedal Palomino e saiu do carro. Ficou desconcertada quando se apercebeu de que os seus joelhos estavam a tremer.

 

O aroma acre do cabedal de boa qualidade acolheu-a, quando ela entrou na loja. Malas que iam do tamanho de bolsas de mão a malas de porão estavam agrupadas com bom gosto em prateleiras e em mesas. Um expositor continha carteiras, porta-chaves e jóias. Pastas e malas de viagem eram visíveis numa área maior, num nível ligeiramente inferior, na zona mais afastada da entrada.

 

Estava apenas mais outra pessoa na loja, uma mulher jovem com inconfundíveis traços índios, e cujo cabelo forte e escuro lhe caía pelas costas em cascata. Olhou para Meghan, por detrás da caixa registadora e sorriu.

 

Posso ajudá-la? Não existia qualquer indício de reconhecimento na sua voz ou no seu comportamento.

 

Meghan pensou rapidamente.

 

Espero que sim. Vou ficar na cidade apenas por algumas horas e queria visitar alguns parentes. Não tenho a morada deles e não estão inscritos na lista telefónica. Sei que costumam fazer compras aqui e esperei poder saber a morada ou o número de telefone através de si.

 

A caixeira hesitou.

 

Eu sou nova. Talvez possa voltar dentro de uma hora. A proprietária estará cá.

 

Agradecia-lhe tanto disse Meghan, tenho tão pouco tempo.

 

Qual é o nome? Posso ver se eles têm cá conta.

- E. R. Collins.

 

Oh disse a empregada, você deve ter telefonado ontem.

 

Exacto.

 

Eu estava aqui. Depois de ter conversado consigo, a proprietária, a Sr.a Stoges, contou-me acerca da morte do Sr. Collins. Era seu parente?

 

A boca de Meghan ficou seca.

 

Sim. É por isso que eu estou ansiosa por visitar a família. A empregada ligou o computador.

 

Aqui está a morada e o número de telefone. Receio ter de telefonar à Sr.a Collins e pedir autorização para lhos dar.

 

Não podia fazer mais nada senão concordar. Meghan observou as teclas do telefone a serem rapidamente pressionadas. Um momento mais tarde, a caixeira disse para o auscultador:

 

Sr.a Collins? Daqui fala da Loja de Artigos de Cabedal Palomino. Está aqui uma rapariga que gostaria de a ver, uma parente. Não há problema se eu lhe der a sua morada?

 

Ela escutou, depois olhou para Meghan.

 

Posso perguntar-lhe o nome?

 

Meghan. Meghan Collins.

 

A empregada repetiu-o, escutou, depois despediu-se e desligou. Sorriu para Meg.

 

A Sr.a Collins gostava que a senhora fosse já lá. Vive apenas a dez minutos daqui.

 

Francês mantinha-se de pé, olhando através da janela nas traseiras da casa. Uma parede baixa de estuque, coroada com um corrimão de ferro forjado, circundava a piscina e o pátio. A propriedade terminava na extremidade da imensa expansão de deserto que era a Reserva dos índios Pima. À distância, a montanha Camelback brilhava sob o sol do meio-dia. «Um dia estranhamente belo para a revelação de todos os segredos», pensou ela.

 

Afinal, Annie sempre acabara por ir a Connecticut procurar Meghan e enviara-a ali. «Por que haveria a Annie de ter honrado os desejos do pai», perguntou-se Francês, furiosamente. «Que lealdade lhe deve a ele ou a mim?»

 

Nos dois dias e meio desde que deixara a mensagem no atendedor de chamadas de Edwin, ela aguardara numa agonia de esperança e pavor. A chamada que recebera da Palomino não era a que ela esperava receber. Mas, pelo menos, Meghan Collins podia ser capaz de lhe dizer quando é que vira Annie, talvez até soubesse onde é que Francês a podia contactar.

 

Os sinos retiniram pela casa, suaves, melodiosos, mas arrepiantes. Francês voltou-se e avançou na direcção da porta da frente.

 

Quando Meghan parou em frente da Estrada Doubletree Ranch

1006, viu-se perante uma casa de um só piso na orla do deserto, com um telhado de telhas vermelhas estucada a creme. Hibiscos vermelho-vivos e cactos emolduravam a frente da residência, complementando a beleza pura da cordilheira de montanhas que se avistava à distância.

 

Enquanto se encaminhava para a porta, passou pela janela e viu de relance a mulher que se encontrava no interior. Não lhe conseguia ver a cara, mas podia ver que a mulher era alta e muito magra, com o cabelo preso num carrapito. Parecia trazer vestido uma espécie de bata.

 

Meghan tocou à campainha, depois a porta abriu-se.

 

A mulher teve um sobressalto. A sua face empalideceu.

 

Meu Deus! sussurrou ela. Eu sabia que te parecias com Annie, mas não fazia ideia... Colocou a mão sob a sua boca, encostando-a aos lábios num esforço visível para silenciar a corrente de palavras.

 

«Esta é a mãe de Annie e ela não sabe que Annie está morta», pensou Meghan, horrorizada. «Vai ser pior para ela que eu esteja aqui. O que sentiria a minha mãe se tivesse sido Annie a ir até Connecticut dizer-lhe que eu estava morta?»

 

Entra, Meghan. A mulher desviou-se para o lado, ainda apertando o puxador da porta com a mão, como se estivesse a apoiar-se nela. Chamo-me Francês Grolier.

 

Meghan não sabia que tipo de pessoa esperara encontrar, mas não era de certeza esta mulher com o seu tipo lavada de fresco, cabelo grisalho, mãos fortes, de cara magra e com rugas. Os olhos para os quais olhava estavam chocados e preocupados.

 

A empregada da Loja Palomino não a tratou por Sr.a Collins, quando lhe telefonou? perguntou Meghan.

 

Os comerciantes conhecem-me como Sr.a Collins.

 

Usava uma aliança de ouro. Meghan olhou para ela intencionalmente.

 

Sim disse Francês Grolier. Por causa das aparências, o teu pai deu-ma.

 

Meghan pensou no modo como a mãe agarrara firmemente a aliança de casamento que a médium lhe devolvera. Desviou o olhar de Francês Grolier sentindo-se, repentinamente, preenchida por uma esmagadora sensação de perda. Vislumbres da sala filtravam-se através da angústia deste momento.

 

A casa estava dividida numa área de lazer e num atelier, estendendo-se da frente da casa até às traseiras.

 

A área da frente era a sala de estar. Um sofá frente à lareira. Tijoleira de terracota no chão.

 

A cadeira de cabedal castanho e a otomana do mesmo material colocadas ao lado da lareira eram réplicas exactas das do gabinete do seu pai, apercebeu-se Meghan com um sobressalto. Estantes de livros, cujo alcance era fácil a partir da cadeira. «Certamente que o pai gostava de se sentir em casa onde quer que estivesse», pensou Meghan, amargamente.

 

Fotografias emolduradas colocadas em evidência sob a lareira atraíram-na como um íman. Existiam fotografias de grupo do seu pai com esta mulher e uma jovem rapariga que podia facilmente ser sua irmã, e que era ou fora a sua meia-irmã. Uma fotografia em particular prendeu-lhe a atenção. Era uma fotografia de Natal.

 

O pai segurando uma criança de cinco ou seis anos no colo, rodeado de presentes. Uma jovem Francês Grolier ajoelhando-se atrás dele, com os braços à volta do seu pescoço. Todos vestindo pijamas e roupões. Uma família alegre.

 

«Seria aquele um dos dias de Natal em que passei todo o tempo a rezar por um milagre, que de repente o paizinho entrasse pela porta?», pensou Meghan.

 

Uma dor pungente atingiu-a. Virou-se e viu, encostado à parede mais distante, o busto colocado sob um pedestal. Com pés que pareciam demasiado pesados para se mexerem, avançou nessa direcção.

 

Um talento raro modelara esta imagem de bronze do pai. Amor e compreensão tinham captado a sugestão de melancolia por detrás do brilho nos olhos, a boca sensível, os dedos longos e expressivos dobrados debaixo do queixo, a cabeça elegante com a madeixa que lhe caía sempre para a frente da testa.

 

Observou que rachas ao longo do pescoço e da testa tinham sido cuidadosamente reparadas.

 

Meghan?

 

Ela virou-se, receando o que agora teria de dizer a esta mulher. Francês Grolier atravessou a sala na sua direcção.

 

Estou preparada para qualquer coisa que sintas a meu respeito, mas por favor... tenho de saber o que se passa com Annie. Sabes onde ela está? E acerca do teu pai? Ele entrou em contacto contigo? perguntou ela, a sua voz implorante.

 

Mantendo a sua promessa, Mac tentou infrutiferamente telefonar a Stephanie Petrovic às nove horas da manhã de terça. Os telefonemas que efectuou de hora a hora continuavam a não obter qualquer resposta. Ao meio-dia e um quarto, telefonou a Charles Potters, o advogado de Helene Petrovic. Quando Potters atendeu o telefone, Mac identificou-se, esclarecendo o motivo que o levara a telefonar-lhe, e Potters respondeu-lhe imediatamente que também ele estava preocupado.

 

Tentei telefonar a Stephanie ontem à noite explicou Potters.

 

Percebi que a Menina Collins estava preocupada com a ausência dela. Vou passar agora lá por casa. Tenho uma chave.

 

Prometeu que voltaria a telefonar.

 

Uma hora e meia mais tarde, tremendo de indignação, Potters contou a Mac acerca do bilhete de Stephanie.

 

Aquela rapariga traiçoeira! exclamou. Levou tudo aquilo que conseguiu transportar! As pratas. Algumas porcelanas de Dresden. Praticamente, todo o guarda roupa de Helene. As suas jóias. Aquelas peças estavam seguradas num valor superior a cinquenta mil dólares. Vou notificar a Polícia. Isto é um caso de roubo.

 

Diz que ela se foi embora com o pai do bebé? perguntou Mac.

 

Pelo o que a Meghan me contou, acho muito difícil acreditar nisso. Ela teve a sensação de que a Stephanie ficou assustada quando lhe sugeriu que fosse atrás dele para lhe pedir uma pensão de alimentos.

 

O que pode ter sido uma mera representação disse Potters.

 

Stephanie Petrovic é uma mulher muito fria. Posso afiançar-lhe que o motivo principal do seu pesar pela morte da tia deve-se ao facto de Helene não ter alterado o seu testamento, como prometeu a Stephanie que iria fazer.

 

Sr. Potters, acredita que Helene Petrovic planeava modificar o seu testamento?

 

Não tenho forma de o saber. Mas sei que nas semanas que antecederam a sua morte, Helene colocara a sua casa à venda e convertera os seus títulos de crédito em títulos de Tesouro. Felizmente, esses não estavam no seu cofre.

 

Quando Mac desligou o telefone, recostou-se na cadeira.

 

«Durante quanto tempo poderia um amador, independentemente dos seus dotes, enganar os peritos especializados no campo da endocrinologia reprodutiva e na fertilização in vitro?», meditou ele. Contudo, Helene Petrovic conseguira-o durante anos. «Eu não o teria conseguido fazer», pensou Mac, recordando-se do seu intenso treino médico.

 

De acordo com Meghan, quando Petrovic trabalhara no Centro de Reprodução Assistida em Dowling passava muito do seu tempo às voltas no laboratório. Podia também namorar um dos médicos do Valley Memorial, o hospital ao qual o centro pertencia.

 

Mac decidiu-se. No dia seguinte, tiraria uma folga. Havia coisas que era melhor fazer pessoalmente. Amanhã, iria de carro até ao Valley Memorial em Trenton e visitaria o director da instituição. Precisava de tentar obter alguns ficheiros.

 

Mac conhecera e gostara do Dr. Manning, mas sentia-se chocado e preocupado por a Manning não ter avisado imediatamente os Anderson acerca da possível troca dos embriões. Não havia dúvidas de que estivera à espera de poder arranjar uma saída.

 

Agora, Mac pensava se a decisão repentina de Helene Petrovic de deixar a clínica, modificar o seu testamento, vender a sua casa e mudar-se para França poderia ter outros significados mais sinistros do que o receio da descoberta de um erro laboratorial. «Sobretudo», raciocinou ele, «porque ainda se podia provar que o bebé dos Anderson era o seu filho biológico e até, talvez, o gémeo idêntico que eles esperavam.»

 

Mac queria saber se existiria qualquer espécie de ligação do Dr. George Manning ao Hospital Valley Memorial, nos anos em que Helene Petrovic trabalhara na instalação adjacente.

 

Manning não seria o primeiro homem a pôr de lado a sua vida profissional por uma mulher, nem seria o último. Tecnicamente, Petrovic fora contratada através da Collins e Cárter Pesquisa Executiva. Contudo, só ontem é que Manning admitira que falara com Edwin Collins no dia que antecedera o desaparecimento de Collins. Teriam eles estado em conluio acerca daquelas credenciais? Ou teria sido outra pessoa da equipa Manning a ajudá-la? A Clínica Manning só tinha cerca de dez anos. Os seus relatórios anuais teriam a lista dos nomes dos membros mais velhos da equipa. Ele pediria à sua secretária para os fotocopiar.

 

Mac puxou de um bloco de notas e, com a sua caligrafia clara, com a qual os seus colegas gozavam por ser tão incaracterística da profissão médica, escreveu:

 

1. Acredita-se que Edwin Collins morreu no acidente da ponte,

28 de Janeiro; sem provas.

2. Mulher que se parece com a Meg (Annie?) esfaqueada fatalmente, 21 de Outubro.

3. «Annie» pode ter sido vista pelo Kyle no dia anterior à sua morte.

4. Helene Petrovic fatalmente morta a tiro, horas depois de se ter demitido do seu trabalho na Manning, 25 de Outubro. (Edwin Collins colocou Helene Petrovic na Clínica Manning, assegurando a exactidão das suas credenciais falsas.)

5. Stephanie Petrovic queixou-se de conspiração por parte da Clínica Manning para impedir a sua tia de alterar o testamento.

6. Stephanie Petrovic desapareceu entre o final da tarde de

31 de Outubro e 2 de Novembro, deixando um bilhete dizendo que se iria juntar ao pai do seu filho, um homem que aparentemente ela receava.

 

Nada daquilo fazia sentido. Mas havia algo que ele estava convencido que era verdade. Tudo o que acontecera estava ligado de um modo lógico. «Tal qual os genes», pensou. «No momento em que se compreende a estrutura, tudo encaixa no seu lugar.»

 

Colocou de lado o bloco. Tinha coisas a fazer se estava a planear tirar o dia de amanhã para a viagem até Dowling. Eram quatro da tarde. Isso significava que eram duas da tarde no Arizona. Pensou em como estaria Meg e como estaria a passar o dia, que deveria ser muito difícil para ela.

 

Meg olhava fixamente para Francês Grolier.

 

Que quer dizer com se eu tive alguma notícia do meu pai?

 

Meghan, da última vez que ele esteve aqui, pude ver que o mundo estava a desabar sobre ele. Estava tão assustado, tão deprimido. Disse que desejava poder simplesmente desaparecer. Meghan, tens de me dizer. Viste a Annie?

 

Apenas algumas horas atrás, Meg lembrara-se do aviso do pai, quando lhe dissera que alguns acontecimentos causam uma dor imperecível. A compaixão submergiu-a quando viu o horror a surgir nos olhos da mãe de Annie.

 

Francês agarrou-lhe as mãos.

 

Meghan, a Annie está doente?

 

Meghan não conseguia falar. Respondeu à nota de esperança na pergunta ansiosa com um imperceptível abanar da cabeça.

 

Ela está... a Annie está morta?

 

Tenho muita pena.

 

Não, não pode ser. Os olhos de Francês Grolier procuraram a cara de Meghan, implorando. Quando abri a porta... apesar de saber que vinhas aí... naquela fracção de segundo, pensei que era a Annie. Eu sabia como vocês eram parecidas. Ed mostrou-me fotografias. Os joelhos de Francês fraquejaram.

 

Meghan segurou-lhe os braços e ajudou-a a sentar-se no sofá.

 

Não existe alguém a quem eu possa telefonar, alguém que gostasse de ter perto de si?

 

Ninguém murmurou Francês. Ninguém... A sua palidez transformara-se num cinzento doentio, enquanto olhava fixamente para a lareira, como se de repente não estivesse consciente da presença de Meghan.

 

Meghan observava-a impotentemente enquanto as pupilas de Francês Grolier se dilatavam, a sua expressão vazia. «Ela está a entrar em choque», pensou Meghan.

 

Depois, com uma voz destituída de emoção, Francês perguntou:

 

Que aconteceu à minha filha?

 

Foi esfaqueada. Por acaso, eu estava na sala de emergências quando a trouxeram.

 

Quem...? Francês não concluiu a pergunta.

 

A Annie pode ter sido vítima de um assalto disse Meghan, calmamente. Não trazia qualquer identificação, exceptuando um pedaço de papel com o meu nome e número de telefone.

 

O papel timbrado da Pousada Drumdoe?

 

- Sim.

 

Onde está a minha filha agora?

 

No... no edifício do médico legista em Manhattan.

 

Queres dizer a morgue.

 

- Sim.

 

Como é que me encontraste, Meghan?

 

Através da mensagem que deixou na outra noite para telefonar para a Loja de Artigos de Cabedal Palomino.

 

Um sorriso sombrio arrastou-se pelos lábios de Francês Grolier.

 

Deixei aquela mensagem na esperança de contactar o teu pai. O pai de Annie. Ele sempre te colocou em primeiro lugar, sabes. Sempre tão receoso que tu e a tua mãe descobrissem tudo a nosso respeito. Sempre com tanto medo.

 

Meghan podia ver que o choque estava a ser substítuido por raiva e desgosto.

 

Tenho muita pena foi tudo o que conseguiu pensar em dizer. De onde estava sentada, conseguia ver a fotografia de Natal. «Tenho tanta pena por todas nós», pensou ela.

 

Meghan, tenho de falar contigo, mas não agora. Preciso de ficar sozinha. Onde estás hospedada?

 

Vou tentar arranjar um quarto no Hotel Safari.

 

Eu ligo-te para lá mais tarde. Por favor, vai-te embora. Enquanto Meghan fechava a porta, ouviu um soluçar regular, sons

 

rítmicos e baixos que lhe despedaçaram o coração.

 

Dirigiu-se ao hotel, rezando para que não estivesse cheio, que ninguém a visse e pensasse que ela era Annie. Mas o registo no hotel foi rápido e, dez minutos mais tarde, fechava a porta do quarto e afundava-se na cama, as suas emoções uma combinação de enorme piedade, dor partilhada e um medo gélido.

 

Francês Grolier acreditava, obviamente, que era possível que o seu amante, Edwin Collins, estivesse vivo.

 

Na manhã de terça-feira, Victor Orsini mudou-se para o gabinete de Edwin Collins. No dia anterior, os serviços de limpeza tinham lavado as paredes e janelas e limpado a carpete. Agora, estava imaculadamente limpo. Orsini não tinha qualquer interesse em o redecorar. Não da maneira como as coisas estavam.

 

Ele sabia que no domingo, Meghan e a sua mãe tinham levado do escritório os objectos pessoais de Collins. Partiu do princípio que elas teriam ouvido a mensagem do atendedor e tinham levado a cassete. Ele só podia imaginar o que elas poderiam pensar acerca desta.

 

Esperara que elas não se preocupassem com os ficheiros de Edwin, mas tinham-nos retirado todos. Sentimentalismo? Ele duvidava disso. Meghan era esperta. Ela estava à procura de algo. Seria a mesma coisa que ele estava tão ansioso por encontrar? Estaria nalgum daqueles papéis? Será que ela ia encontrar alguma coisa?

 

Orsini fez uma pausa no desempacotar dos seus livros. Abrira o jornal da manhã sob a secretária, a secretária que pertencera a Edwin Collins e que dentro em breve seria transportada para a Pousada Drumdoe. Uma actualização na página da frente sobre o escândalo da Clínica Manning anunciava que os investigadores médicos do Estado tinham estado na clínica na segunda-feira, e já corriam rumores acerca da possibilidade de outros erros graves cometidos por Helene Petrovic. Entre os tubos contendo embriões criogenicamente preservados, tinham sido encontrados outros tubos, estes vazios, sugerindo que a falta de perícia médica de Petrovic poderia ter resultado no facto dos embriões terem sido indevidamente etiquetados ou até mesmo destruídos.

 

Uma fonte independente, que se recusou a identificar-se, afirmou que os clientes pagavam excessivamente pela manutenção dos seus embriões. No pior dos cenários, mulheres que podiam não ser capazes de produzir óvulos para uma possível fertilização podiam ter perdido a sua oportunidade de uma maternidade biológica.

 

No artigo que se seguia à reportagem, encontrava-se uma reprodução da carta de Edwin Collins, recomendando fortemente a «Dr.a» Helene Petrovic ao Dr. George Manning.

 

A carta fora escrita em 21 de Março, há quase sete anos atrás, e tinha o carimbo de recepção do dia 22 de Março.

 

Orsini franziu o nariz, ouvindo novamente a voz zangada e acusadora de Collins, quando este lhe telefonara do carro naquela noite. Olhou fixamente o jornal, a assinatura e a letra grande de Edwin na carta de recomendação. Começou a transpirar. «Algures neste gabinete ou nos ficheiros que Meghan Collins levara para casa, encontra-se a prova incriminatória que deitará abaixo este castelo de cartas», pensou ele. «Mas irá alguém encontrá-la?»

 

Durante horas, Bernie foi incapaz de acalmar a raiva que o passageiro escarnecedor despoletara nele. Assim que a sua mãe fora para a cama na segunda-feira à noite, correra escadas abaixo para passar os vídeos de Meghan. As cassetes dos noticiários continham a sua voz, mas aquela que ele fizera escondido no bosque atrás da sua casa, era a sua favorita. Tornava-o descontroladamente agitado estar perto dela novamente.

 

Viu as gravações durante a noite, apenas indo para a cama quando um ténue amanhecer bruxuleou através do corte no cartão que colocara sobre a estreita janela da cave. A sua mãe haveria de reparar se a sua cama não tivesse sido utilizada.

 

Enfiou-se na cama completamente vestido e puxou os cobertores mesmo a tempo. O chiar do colchão no quarto ao lado avisou-o de que a mãe estava a acordar. Uns minutos mais tarde, a porta do seu quarto abriu-se. Sabia que ela estava a olhar para ele. Manteve os olhos fechados. Ela não esperava que ele acordasse dentro dos próximos quinze minutos.

 

Depois de a porta se fechar de novo, sentou-se na cama, planeando o seu dia.

 

Meghan tinha de estar no Connectícut. Mas onde? Em casa dela? Na pousada? Talvez estivesse a dar uma ajuda à sua mãe a dirigir a pousada. E quanto ao apartamento de Nova Iorque? Talvez ela estivesse lá.

 

Levantou-se prontamente às sete horas, despiu a sua camisola e camisa, vestiu o casaco do pijama para o caso de a mãe o ver e saiu para a casa de banho. Aí, espalhou água na cara e mãos, barbeou-se, escovou os dentes e penteou o cabelo. Sorriu para o seu reflexo no espelho do armário dos medicamentos. Sempre lhe tinham dito que tinha um sorriso quente. O problema era que a prata estava a destacar-se por detrás do vidro e o espelho reflectia uma imagem distorcida, como as dos parques de diversão. Nesse momento, não parecia quente e amigável.

 

Depois, tal como a mãe o ensinara a fazer, pegou na lata de detergente, abanou uma quantidade razoável do pó granulado para o lavatório, esfregou-o vigorosamente com uma esponja, enxaguou-o e secou o lavatório com o trapo que a mãe deixava sempre dobrado sobre um dos lados da banheira.

 

De regresso ao seu quarto, fez a cama, dobrou o seu casaco de pijama, vestiu uma camisa lavada e levou a suja para o cesto.

 

Hoje a mãe fizera flocos de farelo de trigo, os quais já colocara na sua tigela.

 

Tu pareces cansado, Bernard disse ela, rispidamente. Estás a descansar o suficiente?

 

Sim, mãezinha.

 

A que horas é que foste para a cama?

 

Acho que por volta das onze horas.

 

Eu levantei-me para ir à casa de banho às onze e meia. Ainda não estavas deitado.

 

Talvez tenha sido um pouco mais tarde, mãezinha.

 

Pareceu-me ouvir a tua voz. Estavas a falar com alguém?

 

Não, mãezinha. Com quem é que eu estaria a falar?

 

Pensei ter ouvido a voz de uma mulher. Mãezinha, era a televisão engoliu de um trago os cereais e o chá. Tenho de chegar cedo ao trabalho.

 

Ela observou-o da porta.

 

Chega a casa a horas do jantar. Eu não quero ficar às voltas na cozinha toda a noite.

 

Ele quis dizer-lhe que contava fazer horas extraordinárias, mas não se atreveu. Talvez lhe telefonasse mais tarde.