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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


ATLANTIS / David Gibbins
ATLANTIS / David Gibbins

 

 

                                                                                                                                   

  

 

 

 

 

Um poderoso império dominava antigamente a maior parte do mundo. Seus soberanos viviam em uma vasta cidadela, com vista para o mar, um enorme labirinto de corredores, algo nunca visto anteriormente. Eles eram artesãos habilidosos com ouro e marfim e toureiros destemidos. Mas então, por ter desafiado Posêidon, o deus dos mares, em um imenso dilúvio a cidadela foi tragada pelas águas e seu povo nunca mais foi visto!

 

 

 

 

O ancião arrastou os pés até uma parada e levantou a cabeça, tão atemorizado como da primeira vez em que parou diante do templo. Nada que se assemelhasse a isso havia sido construído na Atenas onde havia nascido. Muito acima dele a entrada monumental parecia sustentar todo o peso dos céus, seus pilares colossais lançando uma sombra iluminada pela lua, muito além dos limites do templo, na vastidão pouco luminosa do deserto. À frente, não muito distintas, apareciam fileiras de imensas colunas, elevando-se em antecâmaras em forma de cavernas, suas superfícies polidas cobertas com inscrições hieroglíficas e formas humanas muito grandes, visíveis apenas sob a luz de tochas crepitantes. A única pista do que havia do outro lado era uma brisa fria, sussurrante, que trazia consigo o odor bolorento de incenso, como se alguém tivesse acabado de abrir as portas de uma câmara funerária havia muito fechada. O ancião estremeceu sem querer, sua conduta filosófica dando lugar, momentaneamente, a um medo irracional do desconhecido, um temor do poder dos deuses que ele não podia aplacar e os quais não estavam interessados no bem-estar de seu povo.

- Aproxime-se, grego.

As palavras assobiaram através das trevas enquanto o auxiliar acendia sua tocha em um dos fogos que havia na porta da entrada, a chama tremeluzente revelando o físico de alguém magro e gracioso vestido apenas com uma tanga. À medida que se locomovia silenciosamente adiante, a chama flutuante era o único sinal de seu progresso. Como sempre, ele parou na entrada do santuário interior e esperou impacientemente pelo ancião, cuja forma encurvada seguia-o através da antecâmara. O auxiliar não sentia nada além de desprezo por esse heleno, esse grego, com sua cabeça calva e barba desgrenhada, com suas perguntas intermináveis, que o fazia esperar no templo, todas as noites, muito além do horário estabelecido. Ao escrever nos pergaminhos, o grego realizava um ato particularmente reservado aos sacerdotes.

Agora, o desprezo do auxiliar tinha se transformado em aversão. Naquela mesma manhã seu irmão Seth havia voltado de Náucratis, o ativo porto próximo ao local onde as águas barrentas da enchente do Nilo desembocam no Grande Mar do Meio. Seth parecia abatido e desolado. Eles haviam confiado um lote de roupas, da loja de seu pai em Fayum, a um mercador grego que agora alegava tê-lo perdido em um naufrágio. Os dois irmãos já estavam bastante desconfiados, achando que o grego, com astúcia, iria explorá-los em sua ignorância comercial. Nas circunstâncias atuais, seu presságio se transformara em ódio. Esta havia sido a última esperança de eles escaparem de uma vida de trabalho penoso no templo, condenados a uma existência pouco melhor do que a dos babuínos e gatos que espreitavam nos nichos escuros atrás das colunas.

O auxiliar examinou maldosamente o ancião enquanto este se aproximava. Legislador, era como eles o chamavam. “Eu lhe mostrarei”, o auxiliar sussurrou para si mesmo, “o que meus deuses pensam de suas leis, seu grego.”

A cena no santuário interior contrastava enormemente com o esplendor proibido da antecâmara. Milhares de pontos de luz, como pirilampos na noite, emergiam de lâmpadas cerâmicas de óleo ao redor de uma câmara escavada na rocha natural. Do teto pendiam elaborados incensários em bronze, os finos vestígios de fumaça formavam uma camada de neblina por toda a sala.

As paredes estavam cheias de vãos, como os nichos funerários de uma necrópole: só que aqui eles não estavam preenchidos com cadáveres cobertos com mortalhas e urnas cinerárias, mas sim com jarras altas, abertas no topo, repletas de rolos de papiro. À medida que os dois homens desciam a escadaria, o cheiro desagradável de incenso se tornou mais forte e o silêncio foi quebrado por um murmúrio que ia ficando mais distinto a cada passo. Um pouco adiante, dois pilares encimados com duas águias serviam como batentes para as grandes portas de bronze que se abriam em direção a eles.

Diante deles, a começar da entrada, havia fileiras ordenadas de homens, alguns sentados com as pernas cruzadas em esteiras de palha e vestindo apenas tangas, todos inclinados sobre escrivaninhas baixas. Alguns copiavam de rolos que ficavam ao seu lado, outros transcreviam ditados feitos por sacerdotes vestidos de preto, suas recitações baixas produzindo o canto suavemente, ondulante que tinham ouvido quando se aproximavam do local. Este era o scriptorium, a câmara da sabedoria, um vasto repositório de conhecimento escrito e memorizado que passava de um sacerdote a outro desde os primórdios da história, mesmo antes dos construtores das pirâmides.

O auxiliar retirou-se para as sombras do poço da escadaria. Não lhe era permitido entrar na câmara, e agora começava a longa espera até que chegasse o momento de escoltar o grego para fora. Mas nessa noite, em vez de passar o tempo com um ressentimento mal-humorado, ele saboreou uma tremenda satisfação com a lembrança dos eventos planejados para a ocasião.

Na ânsia de entrar, o ancião foi abrindo caminho entre as fileiras. Essa era a sua última noite no templo, sua última chance de penetrar no mistério que o obcecava desde sua visita anterior. Na manhã seguinte iria ter início o longo mês dedicado ao Festival de Thoth, quando todos os recém-chegados seriam impedidos de adentrar o templo. Ele sabia que um estrangeiro nunca mais conseguiria uma audiência com o sumo sacerdote.

Em sua pressa, o grego tropeçou na sala, deixando cair seu rolo de pergaminho e canetas com um ruído que momentaneamente distraiu os escribas de seu trabalho. Ele resmungou aborrecido e relanceou o olhar em volta, desculpando-se antes de recolher seus pertences e dirigir-se com seu andar arrastado, por entre os homens ali sentados, rumo a um anexo do outro lado da câmara. Esgueirou-se rapidamente por sob uma porta baixa e sentou-se em uma esteira de palha, sabendo tão-só por causa de suas visitas anteriores que haveria uma outra pessoa sentada diante dele.

- Sólon, o Legislador, eu sou Amenhotep, o sumo sacerdote.

A voz era apenas audível, pouco mais que um sussurro, e soava tão velha quanto os deuses. De novo ele falou.

- Você vem ao meu templo em Sais, e eu o recebo. Você procura conhecimento, e eu dou o que os deuses quiserem conceder.

Terminadas as saudações formais, o grego rapidamente ajeitou seu manto branco sobre as pernas e preparou seu pergaminho. Da escuridão Amenhotep inclinou-se para a frente, apenas o suficiente para que seu rosto pudesse ser percebido através de um oscilante feixe de luz. Sólon o vira muitas vezes antes, mas essa visão ainda fazia sua alma estremecer. Ele parecia desencorporado, uma esfera luminosa suspensa na escuridão, como um espectro olhando de soslaio da beira do mundo subterrâneo. Era o rosto de um homem jovem suspenso no tempo, como que mumificado; a pele era esticada e translúcida, quase como um pergaminho, e os olhos, sem expressão, tinham o brilho opaco da cegueira.

Amenhotep já era velho antes de Sólon nascer. Dizia-se que tinha sido visitado por Homero, no tempo do bisavô de Sólon, e que fora aquele a contar sobre o cerco de Tróia, sobre Agamenon, Heitor e Helena, e sobre as viagens de Ulisses. Sólon gostaria de indagar sobre estes e outros assuntos, mas ao fazer isso violaria sua promessa de não interrogar o velho sacerdote.

Sólon inclinou-se para a frente atentamente, determinado a nada deixar escapar nessa última visita. Por fim, Amenhotep falou outra vez, sua voz não mais do que uma exalação espectral.

- Legislador, diga-me a respeito do que falei ontem.

Sólon rapidamente desenrolou seu pergaminho, examinando as linhas escritas de maneira concentrada. Depois de um instante começou a ler, traduzindo o grego que estava em seu manuscrito para a linguagem egípcia que falavam agora.

- Um poderoso império dominava antigamente a maior parte do mundo. - Ele perscrutou atentamente a escuridão. - Seus soberanos viviam em uma vasta cidadela, com vista para o mar, um enorme labirinto de corredores, algo nunca visto antes. Eles eram artesãos habilidosos com ouro e marfim e toureiros destemidos. Mas então, por ter desafiado Posêidon, o deus dos mares, em um imenso dilúvio a cidadela foi tragada pelas águas, seu povo nunca mais foi visto. - Sólon parou de ler e olhou cheio de expectativa. - Foi aqui que o senhor parou.

Depois do que pareceu um silêncio interminável, o velho sacerdote falou de novo, seus lábios mal se movendo e a voz apenas um pouco mais alta que um murmúrio.

- Esta noite, Legislador, lhe direi muitas coisas. Mas primeiro vou falar desse mundo perdido, a cidade orgulhosa derrotada pelos deuses, essa cidade chamada Atlântida.

Muitas horas depois, o grego deixou a caneta de lado, sua mão doendo de tanto escrever, e enrolou o pergaminho. Amenhotep havia terminado. Agora era a noite de lua cheia, o início do Festival de Thoth, e os sacerdotes deviam preparar o templo antes que os suplicantes chegassem ao amanhecer.

- O que lhe contei, Legislador, estava aqui, e em nenhum outro lugar, - sussurrou Amenhotep, seu dedo encurvado batendo vagarosamente na própria cabeça. - Por antigo decreto, nós que não podemos deixar esse templo, nós sumos sacerdotes, devemos conservar essa sabedoria como nosso tesouro. É somente por ordem do astrólogo, o vidente do templo, que você pode estar aqui, por uma vontade do divino Osíris. - O velho sacerdote inclinou-se para a frente, com um vestígio de sorriso nos lábios. - E, Legislador, lembre-se: eu não falo por enigmas, como seus oráculos gregos, mas pode haver enigmas naquilo que relato. Eu expresso uma verdade transmitida, não uma verdade inventada por mim. Agora vá.

Enquanto o rosto cadavérico recuava para dentro da escuridão, Sólon levantou-se vagarosamente, hesitando por um momento e olhando para trás uma última vez antes de sair para o scriptorium, agora vazio, e encaminhar-se em direção à luz do archote na entrada.

Um alvorecer estriado de rosa coloria o céu oriental, seu tênue brilho tingindo o luar que ainda dançava sobre as águas do Nilo. O velho grego estava sozinho, o auxiliar o deixara, como de hábito, fora do recinto do templo. Ele suspirou com satisfação enquanto passava pelas colunas do templo - a parte alta delas era em formato de folhas de palmeira e muito diferente das formas gregas simples - e lançou um último olhar para o Lago Sagrado com seus obeliscos de falanges sinistras, esfinges com cabeças humanas e estátuas colossais de faraós. Ele estava contente de deixar tudo isso para trás e andava com prazer pelos caminhos poeirentos em direção à aldeia construída com tijolos de barro onde temporariamente residia. Em suas mãos agarrava o pergaminho precioso, e de seu ombro pendia uma sacola pesada contendo uma bolsa cheia de dinheiro. Na manhã seguinte, antes de partir, faria sua oferenda de ouro à deusa Neith, como havia prometido a Amenhotep quando conversaram pela primeira vez.

Ele ainda estava perdido em devaneios a respeito do que ouvira. Uma Idade de Ouro, uma era de esplendor que mesmo os faraós não poderiam ter imaginado. Uma raça que dominava a fundo todas as artes, em fogo, pedra e metal. E, no entanto, eram homens e não gigantes como os ciclopes que construíram as antigas muralhas da Acrópole. Haviam encontrado o fruto divino e o furtado. Sua cidadela resplandecia como o Monte Olimpo. Eles ousaram desafiar os deuses e os deuses os abateram.

No entanto eles não pereceram.

Em seu devaneio, não percebeu duas formas escuras que saíram furtivamente de trás de uma parede quando ele estava entrando na aldeia. O golpe atingiu-o sem que ele se desse conta do que estava acontecendo. Quando caiu ao chão, e a escuridão desceu sobre ele, percebeu vagamente mãos que lhe arrancavam a sacola dos ombros. Um dos vultos agarrou-lhe o pergaminho das mãos e rasgou-o em tiras, atirando os fragmentos para longe, o que os fez espalharem-se em um beco cheio de lixo. Os dois vultos desapareceram tão silenciosamente quanto chegaram, deixando o grego inconsciente e sangrando no meio da imundície.

Quando voltou a si, ele não se lembrava daquela última noite no templo. Nos anos seguintes raramente falava do tempo que passou em Sais e nunca mais escreveu. A sabedoria de Amenhotep nunca mais sairia do santuário do templo, e parecia estar perdida para sempre quando os últimos sacerdotes morreram e o lodo do Nilo recobriu o templo e a chave para decifrar os mais profundos mistérios do passado.

 

- Nunca vi nada semelhante a isto!

As palavras eram de um mergulhador que acabara de emergir atrás da popa do navio de pesquisa, sua voz esbaforida por causa da excitação. Depois de nadar até a escada de cordas, removeu os pés-de-pato e a máscara e passou-os para o chefe da embarcação que esperava por ele. Içou-se cuidadosamente para fora da água e os pesados cilindros fizeram com que momentaneamente perdesse o equilíbrio, mas um puxão de cima ajudou-o a subir são e salvo para o convés. Sua figura gotejante foi logo rodeada pelos outros membros da equipe que aguardavam na plataforma de mergulho.

Jack Howard desceu da ponte de comando e sorriu para seu amigo. Ele ainda achava surpreendente que uma figura tão corpulenta pudesse ser tão ágil debaixo d'água. Enquanto tratava de pôr em ordem o equipamento de mergulho, no convés perto da popa, ele disse em voz alta e com o tom zombeteiro que fazia parte da brincadeira deles havia anos:

- Nós pensamos que você tivesse nadado de volta a Atenas para beber um gim-tônica à beira da piscina do seu pai. O que você encontrou, o tesouro perdido da Rainha de Sabá?

Costas Kazantzakis sacudiu a cabeça impacientemente enquanto avançava ao longo da balaustrada em direção a Jack.

Estava por demais agitado até mesmo para se preocupar em tirar seu equipamento.

- Não, - ele ofegou. - A coisa é séria. Dê uma olhada nisso aqui.

Jack silenciosamente rezou para que as novidades fossem boas. Costas tinha feito um mergulho solitário para investigar um banco de areia que entupia o topo do vulcão submerso, e os dois mergulhadores que o haviam seguido logo estariam emergindo, depois da parada para a descompressão. Não haveria mais mergulhos naquela temporada.

Costas destravou um mosquetão e, ao passar pela caixa onde guardavam a câmera de vídeo subaquática, pressionou o botão de replay. Os outros membros da equipe agruparam-se atrás do inglês grandalhão enquanto ele abria o minúsculo monitor LCD e ativava o vídeo. Depois de alguns instantes, o sorriso cético de Jack deu lugar a um olhar de puro assombro.

A cena subaquática estava iluminada com holofotes poderosos que clareavam as trevas a uma profundidade de quase cem metros. Dois mergulhadores, ajoelhados no solo oceânico, manuseavam uma espécie de aspirador, um largo tubo alimentado por uma mangueira de ar de baixa pressão que ia sugando o lodo que cobria o local. Um mergulhador esforçava-se para manter o equipamento na posição enquanto o outro lançava sedimentos para cima, em direção à boca do tubo, ato que ia revelando artefatos, exatamente como um arqueólogo em terra faria usando uma colher de pedreiro.

Quando a câmera deu um close, o objeto que chamara a atenção dos mergulhadores apareceu de maneira dramática. A forma escura inclinada que se tornou visível não era rocha, mas uma densa massa de placas de metal sobrepostas umas sobre as outras como telhas.

- Lingotes em forma de couro de boi, - disse Jack muito excitado. - Centenas deles. E há uma camada almofadada de galhos amortecedores de choques, assim como Homero descreveu no navio de Ulisses.

Cada placa tinha cerca de um metro de comprimento com cantos salientes, cuja forma lembrava o couro esfolado e esticado de um boi. Eles eram lingotes de cobre característicos da Idade do Bronze, com mais de três mil e quinhentos anos de idade.

- Assemelha-se a um tipo mais antigo, - arriscou um dos estudantes da equipe. - Século XVI antes de Cristo?

- Sem dúvida, - disse Jack. - E também foram colocados em fileiras, sugerindo que o casco do navio pode estar preservado por baixo. Esse pode ser o navio mais antigo jamais descoberto.

A excitação de Jack aumentava à medida que a câmera percorria o declive. Entre os lingotes e os mergulhadores apareciam, de maneira indistinta, três enormes jarros de cerâmica, cada um da altura de um homem e com mais de um metro de circunferência. Eram idênticos aos jarros que Jack vira nos almoxarifados de Cnossos, em Creta. Dentro deles, pilhas de cálices pintados com polvos e belos motivos marinhos, suas formas sinuosas em harmonia com as ondulações do fundo do mar.

Eram, sem dúvida, cerâmicas dos minoanos, a notável civilização da ilha que floresceu na época dos primeiros reinados do Egito mas depois desapareceu subitamente, por volta de 1400 a.C. Cnossos, o lendário labirinto do Minotauro, foi uma das descobertas mais sensacionais do último século. Seguindo de perto as pegadas de Heinrich Schliemann, escavador de Tróia, o arqueólogo inglês Arthur Evans iniciou uma viagem para provar que a lenda de Teseu, príncipe de Atenas, e sua amada Ariadne, estava tão fundamentada em eventos reais quanto a Guerra de Tróia. O vasto palácio ao sul de Heraklion era a chave para uma civilização perdida chamada minoana por causa do nome de seu lendário rei. O labirinto de corredores e aposentos deu extraordinária credibilidade à história da batalha de Teseu com o Minotauro e mostrou que os mitos dos gregos, séculos mais tarde, estavam mais próximos da história real do que qualquer pessoa ousaria pensar.

- Sim!, - Jack esmurrou o ar com sua mão livre, a discrição habitual dando lugar à emoção de uma descoberta verdadeiramente significativa. Era o clímax de anos de paixão sincera, a realização de um sonho que o perseguia desde sua infância. Uma descoberta que iria rivalizar com a tumba de Tutancâmon, a descoberta que asseguraria à sua equipe um lugar de vanguarda nos anais da arqueologia.

Para Jack essas imagens eram suficientes. No entanto havia mais, muito mais, e ele ficou transfigurado diante da tela. A câmera se moveu lentamente até os mergulhadores em um pequeno banco de areia debaixo do agrupamento de lingotes.

- Provavelmente é o compartimento da popa, - Costas apontava para a tela. - Bem atrás desse parapeito há uma fileira de âncoras de pedra e um leme de madeira.

Bem na frente havia uma área de luz de um amarelo tênue, semelhante ao reflexo dos holofotes sobre o sedimento na água. Quando a câmera fez um dose, houve um suspiro coletivo de espanto.

- Isso não é areia, - sussurrou um pesquisador.

- É ouro!

Agora eles sabiam para o que estavam olhando, a imagem era de um esplendor insuperável. No centro havia um magnífico cálice de ouro esculpido para o próprio rei Minos. Ele era decorado em relevo com uma elaborada cena de tourada. Ao lado havia uma estátua de ouro de uma mulher em tamanho natural, seus braços levantados em súplica e os cabelos entrelaçados com serpentes. Os seios desnudos haviam sido lindamente esculpidos em marfim, e uma linha curva bruxuleante e colorida mostrava onde seu pescoço estava enfeitado com jóias. Abrigadas na frente havia uma coleção de espadas de bronze com empunhadura de ouro, as lâminas decoradas com cenas de batalha esculpidas em prata incrustada e esmalte azul.

O reflexo mais brilhante vinha da área bem em frente aos mergulhadores. Qualquer movimento de mão parecia revelar um novo objeto cintilante. Jack pôde distinguir barras de ouro, brasões reais, jóias e delicadas coroas de folhas entrelaçadas, tudo isso misturado como se tivessem estado antes dentro de um cofre de tesouros.

A cena mudou rápido de direção, desaparecendo na parte superior da tela, que repentinamente ficou branca. No silêncio impressionante que se seguiu, Jack abaixou a câmera e ergueu a cabeça bem devagar.

- Acho que vamos em frente, - disse calmamente.

Jack havia arriscado sua reputação em uma proposta bastante arrojada. Na década depois de ter completado seu doutorado, ele ficou obcecado em descobrir uma ruína minoana, um achado que consolidaria sua teoria sobre a supremacia marítima dos minoanos na Idade do Bronze. Ele se convencera que o local mais provável era um grupo de recifes e ilhotas cerca de setenta milhas náuticas a noroeste de Cnossos.

Durante semanas, porém, eles procuraram em vão. Alguns dias antes suas esperanças haviam sido renovadas e depois destruídas pela descoberta de um naufrágio romano, em um mergulho que Jack esperava que fosse o último da temporada. O dia de hoje deveria ser empregado para avaliar o novo equipamento para o próximo projeto. Mais uma vez a sorte de Jack persistiu.

- Você se importa de me dar uma mão?

Costas deixou-se cair exausto ao lado da balaustrada da popa, no Seaquest, com o equipamento ainda desafivelado e a água em seu rosto agora misturada com gotas de suor. O sol de fim de tarde do mar Egeu o banhava em luz. Ele levantou o olhar para o corpo magro que se elevava acima dele. Jack era um ilustre descendente de uma das mais antigas famílias inglesas e sua cortesia natural era o único sinal de uma linhagem privilegiada. Seu pai havia sido um aventureiro que tinha escapado de sua classe social e usado sua fortuna para levar a família a locais remotos ao redor do mundo. Sua educação não convencional fez de Jack um forasteiro, um homem muito à vontade em sua própria companhia, não devendo nada a ninguém. Ele era um líder nato que impunha respeito na ponte de comando e na coberta de proa.

- O que você faria sem mim?, - perguntou Jack com um sorriso enquanto retirava os tanques do dorso de Costas.

Filho de um magnata grego que era dono de uma companhia de navegação, Costas havia desprezado uma vida de playboy e optado por freqüentar a Stanford e o MIT durante dez anos, tornando-se um expert em tecnologia submersível. Rodeado por uma grande confusão de ferramentas e instrumentos que apenas ele podia manejar, Costas não raro fazia surgir, como por encanto, extraordinárias invenções como algum Caractacus Pott[1] moderno. Sua paixão pelo desafio combinava com a natureza gregária que lhe era própria, uma capacidade vital numa profissão em que o trabalho de equipe era essencial.

Os dois homens se conheceram em uma base da OTAN em Izmir, na Turquia, quando Jack foi prestar auxílio à Escola de Inteligência Naval e Costas era um consultor civil para o UNANTSUB, o instituto de pesquisa da luta anti-submarina das Organizações das Nações Unidas. Alguns anos mais tarde, Jack convidou Costas para juntar-se a ele na Universidade Marítima Internacional (IMU*), a instituição de pesquisa que havia sido seu lar por mais de dez anos. Naquela época, como diretor de operações de campo na IMU, Jack viu sua área de atividade crescer e passou a se ocupar de quatro navios e mais de duzentas pessoas, e, apesar de uma função igualmente crescente no departamento de engenharia, Costas sempre parecia encontrar uma maneira de se juntar a Jack quando as coisas se tornavam estimulantes.

- Obrigado, Jack. - Costas se levantou lentamente, demasiado cansado para dizer algo mais. Ele batia na altura dos ombros de Jack, tinha um tronco em forma de barril e antebraços herdados de gerações de pescadores de esponjas e de marinheiros, com uma personalidade que se adaptava a isso. Este projeto também era importante para ele, e repentinamente se sentiu esgotado pela excitação da descoberta. Fora ele a pôr em marcha essa expedição, usando as conexões de seu pai com o governo grego. Embora estivessem agora em águas internacionais, o suporte da Marinha helênica havia sido inestimável, pelo menos pelo fato de supri-los com os cilindros de gás purificado, essenciais para o mergulho com trimix*.

- Ah!, quase esqueci. - O rosto bronzeado de Costas abriu-se em um sorriso enquanto ele pegava algo em sua jaqueta de compensação. - No caso de você pensar que eu fraudei a coisa toda.

Ele tirou um pacote envolto em um neopreno protetor e o estendeu a Jack, com um brilho triunfante em seus olhos. Jack estava despreparado para o peso do objeto e por um momento sua mão titubeou ao segurá-lo. Ele desfez o embrulho e ofegou atônito.

Tratava-se de um disco sólido de metal cujo diâmetro era do tamanho da sua mão e sua superfície, tão resplandecente como se fosse novo em folha. Indubitavelmente ele tinha a cor de ouro puro, um ouro refinado até a pureza do metal em barra.

Diferentemente de seus colegas acadêmicos, Jack nunca fingiu não sentir atração por tesouros, e por um instante deixou que a emoção de segurar vários quilos de ouro tomasse conta dele. Enquanto segurava o disco e o movia em direção ao sol, o objeto produziu um deslumbrante lampejo luminoso, como se estivesse liberando uma grande explosão de energia confinada durante milênios.

Ele ficou ainda mais alegre quando viu o sol refletir certas marcações na superfície. Abaixou o disco até a sombra de Costas e passou os dedos sobre os entalhes, todos eles executados de maneira primorosa em um lado convexo.

No centro havia um dispositivo retilíneo curioso, como uma grande letra H, com uma pequena linha saindo do meio da linha transversal, para baixo, e quatro linhas prolongando-se como dentes de um pente de ambos os lados. Ao redor da borda do disco havia três aros concêntricos, cada um deles dividido em vinte compartimentos. Cada um dos compartimentos continha um símbolo diferente gravado em metal. Para Jack o círculo exterior assemelhava-se a pictogramas, símbolos que transmitiam o significado de uma palavra ou frase. Em um relance ele identificou uma cabeça humana, a figura de um homem andando, uma espécie de remo de pá larga, uma canoa e um feixe de milho. Os compartimentos interiores estavam alinhados com os da beirada, mas continham, em vez desses símbolos, sinais lineares. Cada um deles era diferente, porém pareciam mais letras do alfabeto do que pictografias.

Costas se levantou e observou Jack examinar o disco, totalmente absorto. Seus olhos brilhavam como Costas jamais havia visto. Jack estava entrando em contato com a Idade dos Heróis, uma época escondida em mitos e lendas, embora fosse um período que havia sido revelado de forma espetacular através de enormes palácios e cidadelas, por sublimes obras de arte e armas de guerra brilhantemente afiadas. Ele estava iniciando uma comunhão com os antigos de uma maneira que só era possível através de um naufrágio, segurando um artefato de valor inestimável que não havia sido arremessado, mas sim guardado até o momento da catástrofe. No entanto era um artefato envolto em mistério, um enigma que ele sabia que o seduziria sem descanso até que todos os seus segredos fossem revelados.

Jack girou o disco várias vezes e examinou as inscrições de novo, voltando sua mente para os cursos de história da escrita que freqüentara na escola. Ele havia visto algo parecido antes. Fez uma anotação de cabeça para enviar um e-mail ao professor James Dillen, seu antigo mentor na Universidade de Cambridge e a principal autoridade mundial em manuscritos antigos da Grécia.

Jack devolveu o disco a Costas. Durante um momento os dois homens se olharam, com os olhos brilhando de excitação. Jack apressou-se em juntar-se à equipe que agora vestia o equipamento necessário ao lado da escada da popa. A visão de todo aquele ouro havia redobrado seu fervor. O maior perigo para a arqueologia se encontrava nas águas internacionais, uma área livre, sem jurisdição de nenhum país. Todas as tentativas para impor uma lei global para o oceano haviam falhado. Os problemas para policiar essa área imensa pareciam intransponíveis. No entanto, os avanços na tecnologia significavam que submersíveis operados por dispositivos de controle remoto, do tipo usado para descobrir o Titanic, eram agora pouco mais caros do que um carro. A exploração em águas profundas, antes privilégio de algumas instituições, agora estava aberta a todos que quisessem tentar, o que ocasionou a destruição indiscriminada de locais históricos. Saqueadores profissionais, com tecnologia avançada, estavam dilapidando o fundo do oceano sem que nenhum registro fosse feito para a posteridade, e os artefatos iam desaparecendo para sempre nas mãos de colecionadores particulares. Mas as equipes da IMU não lutavam apenas contra operadores legítimos. Antigüidades saqueadas tinham grande valor no submundo do crime.

Jack deu uma olhada no cronômetro da plataforma e sentiu uma onda familiar de adrenalina percorrê-lo quando sinalizou sua intenção de mergulhar. Ele começou a reunir seu equipamento cuidadosamente, ajustando seu computador de mergulho e checando a pressão de seus cilindros, com uma conduta metódica e profissional como se não houvesse nada de especial naquele dia.

Na verdade, mal podia conter sua excitação.

 

Maurice Hiebermeyer levantou-se e enxugou a fronte, detendo momentaneamente o brilho do suor que escorria para o rosto. Olhou para o relógio. Era quase meio-dia, quase hora de interromper o trabalho, e o calor do deserto estava insuportável. Ele estremeceu ao se arquear, percebendo de repente as fortes dores nas costas por ter passado mais de cinco horas curvado sobre uma vala empoeirada. Lentamente dirigiu-se até o centro do local para sua inspeção habitual ao fim do dia. Com um chapéu de aba larga, pequenos óculos redondos e shorts que iam até os joelhos, ele fazia uma figura bastante cômica, como um construtor de império dos tempos antigos, uma imagem que não estava à altura da sua posição como um dos mais importantes egiptólogos do mundo.

Ele examinou em silêncio a escavação, seus pensamentos acompanhados pelo sons familiares produzidos pelos enxadões e o chiado ocasional de um carrinho de mão. Pode ser que aqui não haja o mesmo glamour do Vale dos Reis, ele refletiu, mas tem muito mais artefatos. Tinha dispendido anos em pesquisas infrutíferas antes que a tumba de Tutancâmon fosse descoberta; aqui eles estavam literalmente afundados até os joelhos em múmias, com centenas já descobertas e muitas mais sendo encontradas a cada dia, à medida que a areia ia sendo removida de novas galerias.

Hiebermeyer caminhou até a fossa profunda onde tudo havia começado. Observou atentamente a beirada de um labirinto subterrâneo, uma confusão de túneis cortados na rocha alinhados com nichos onde os mortos haviam permanecido tranqüilos durante séculos, escapando aos ladrões de tumbas que destruíram muitas sepulturas reais. Um camelo teimoso havia exposto as catacumbas; o infeliz animal tinha saído da trilha e sumira nas areias diante dos olhos de seu dono. O condutor correu até o local do desaparecimento e recuou horrorizado quando viu, situados muito abaixo, no buraco aberto pelo camelo, inúmeros corpos enfileirados, suas faces fitando-o como que desaprovadoramente por ter perturbado seu sagrado lugar de repouso.

- Estas pessoas são, muito provavelmente, seus ancestrais, - disse Maurice Hiebermeyer ao condutor de camelos, após ter se deslocado duzentos quilômetros ao sul, do Instituto de Arqueologia, em Alexandria, até o oásis no deserto. As escavações provaram que ele tinha razão. Os rostos que tanto aterrorizaram o condutor eram, na verdade, pinturas extraordinárias. Algumas tinham uma qualidade tal que seria ultrapassada apenas na Renascença Italiana. No entanto, elas eram o fruto do trabalho de artesãos e não de algum antigo grande mestre, e as múmias não eram de nobres, e sim de pessoas comuns. Muitas delas haviam vivido não no tempo dos faraós, mas nos séculos em que o Egito estava sob as ordens dos gregos e Roma governava. Era uma época de prosperidade crescente, quando a introdução de cunhagem de moedas espalhou riquezas e possibilitou que a nova classe média se desse ao luxo de revestir as múmias em ouro e realizar rituais de sepultamento elaborados. Eles haviam vivido em Fayum, o oásis fértil que se estendia por sessenta quilômetros à leste da necrópole em direção ao Nilo.

Esses sepultamentos representavam uma seção transversal da vida dessas pessoas muito mais significativa do que os de uma necrópole real, refletiu Maurice, e eles contavam histórias tão fascinantes como as de um Ramsés ou Tutancâmon mumificados. Só nessa manhã ele havia feito escavações de uma família de alfaiates, um homem chamado Seth, seu pai e seu irmão. Cenas coloridas da vida do templo adornavam a embalagem rígida, o envoltório de linho e gesso que formava o peitoral sobre seus caixões. As inscrições mostravam que os dois irmãos haviam sido humildes auxiliares no templo de Neith, em Sais, mas tinham tido sorte e iniciaram um negócio com seu pai, um comércio de roupas com os gregos. A julgar pelas oferendas valiosas nos envoltórios das múmias e as máscaras de folhas de ouro que cobriam suas faces, eles haviam feito grandes progressos.

- Doutor Hiebermeyer, acho que o senhor deve ver isto aqui.

Era a voz de uma de suas supervisoras de valas mais experiente, uma estudante egípcia formada que, ele esperava, algum dia o substituiria como diretora do instituto. Aysha Farouk emergiu de um dos lados da fossa, seu rosto bonito, de pele escura, era uma imagem do passado, como se um dos retratos de múmia houvesse repentinamente revivido.

- O senhor terá de descer.

Maurice Hiebermeyer substituiu seu chapéu por um capacete de segurança amarelo e desceu a escada devagar, ajudado por um dos felás empregados como trabalhadores no local. Aysha estava debruçada sobre uma múmia em um nicho de arenito situado a pouca distância da superfície. Era uma das sepulturas que haviam sido avariadas pela queda do camelo, e Hiebermeyer podia ver onde o caixão de terracota arrebentara, danificando igualmente a múmia que estava em seu interior.

Eles estavam na parte mais antiga do terreno, um agrupamento não profundo de galerias que formavam o centro da necrópole. Hiebermeyer esperava fervorosamente que a estudante houvesse encontrado algo que provasse sua teoria: que esse complexo necrotério havia sido iniciado no século VI a.C, mais de dois séculos antes que Alexandre, o Grande, conquistasse o Egito.

- Muito bem. O que temos aqui? - O sotaque alemão acrescentava autoridade à sua voz.

Afastando-se da escada, ele encolheu-se com cuidado ao lado de sua assistente para não danificar ainda mais a múmia. Ambos usavam máscaras cirúrgicas, uma proteção contra vírus e bactérias que porventura estivessem adormecidos nas faixas que envolviam a múmia e que poderiam reviver no calor e umidade dos pulmões. Ele fechou os olhos e inclinou levemente a cabeça, um ato de piedade que realizava cada vez que abria uma câmara mortuária. Depois que o morto contasse sua história, ele cuidava para que fosse enterrado de novo de modo a continuar sua viagem através da outra vida.

Quando Hiebermeyer se ajeitou, Aysha ajustou a lâmpada e iluminou o caixão, afastando cuidadosamente os lados do rasgão que abria, como uma grande ferida, o ventre da múmia.

- Espere até eu dar uma limpada nisso.

Aysha trabalhava com a precisão de um cirurgião, seus dedos manipulando com destreza os pincéis e instrumentos dentários, esmeradamente dispostos em uma bandeja ao lado dela. Depois de alguns minutos em que removeu o entulho do seu trabalho anterior, ela recolocou seus instrumentos no lugar e avançou com cautela até a parte superior do caixão, deixando espaço para que Hiebermeyer pudesse se aproximar e olhar.

Ele lançou um olhar profissional sobre os objetos que ela havia removido da gaze embebida de resina que envolvia a múmia, seu aroma ainda penetrante depois de séculos. Identificou rapidamente um ba dourado, o símbolo alado da alma, lado a lado com amuletos protetores com formatos de cobras. No centro da bandeja havia um amuleto de Qebeh-sennuef, o guardião dos intestinos. Ao lado se encontrava um requintado broche de faiança representando um deus águia, com suas asas estendidas, feito de material de silicato queimado até atingir um matiz esverdeado lustroso.

Hiebermeyer deslocou sua constituição corpulenta ao longo da prateleira até que se equilibrasse diretamente sobre a incisão no invólucro. O corpo estava virado para o leste para saudar o sol levante em renascimento simbólico, uma tradição que remontava à pré-história. Debaixo do envoltório rasgado ele podia ver o torso cor de ferrugem da própria múmia, a pele esticada e semelhante ao pergaminho sobre a caixa torácica. As múmias na necrópole não haviam sido preparadas da mesma maneira que os faraós, cujos corpos eram eviscerados e preenchidos com sais embalsamadores; aqui as condições dessecantes do deserto haviam feito a maior parte do trabalho, e os embalsamadores haviam removido apenas os intestinos. Durante o período romano até mesmo esse processo fora abandonado. As características preservativas do deserto eram uma dádiva de Deus para os arqueólogos, tão notáveis quanto os locais aquáticos, e Hiebermeyer ficava não raro surpreso com os materiais orgânicos delicados que haviam sobrevivido por milhares de anos em condições quase perfeitas.

- O senhor está vendo? - Aysha não conseguia mais conter sua excitação. - Bem aqui, debaixo da sua mão direita.

- Ah! Sim. - Os olhos de Hiebermeyer foram subitamente atraídos por uma borda rasgada no envoltório da múmia, sua extremidade esfarrapada apoiada sobre a pélvis.

O material estava coberto com uma escrita espaçada de maneira elegante. Este fato em si não era uma novidade; os antigos egípcios eram arquivistas infatigáveis, anotando abundantes registros nos papéis que fabricavam juntando fibras de hastes de papiros. Papiros descartados também se revelavam excelentes envoltórios de múmias e eram coletados e reciclados pelos técnicos das funerárias. Estas sobras estavam entre os achados mais preciosos da necrópole, e era por essa razão que Hiebermeyer havia proposto uma escavação tão ampla.

No momento ele estava menos interessado no que o escrito relatava do que na possibilidade de determinar a idade da múmia com base no estilo e na linguagem do manuscrito. Ele podia compreender a excitação de Aysha. A múmia rasgada oferecia uma rara oportunidade para que pudessem determinar, lá mesmo onde se encontravam, a época em que ela vivera. Normalmente eles teriam que esperar durante semanas enquanto os conservadores do museu, em Alexandria, removessem os envoltórios de maneira meticulosa.

- O manuscrito está em grego, - disse Aysha, seu entusiasmo sobrepujando sua deferência. Ela estava agora curvada ao lado do egiptólogo, seu cabelo roçando contra o ombro dele enquanto se movia em direção ao papiro.

Hiebermeyer concordou com a cabeça. Ela estava certa. Era sem dúvida um manuscrito fluente do grego antigo, bem diferente do hierático, do período faraônico, e do copta da região de Fayum na época dos gregos e romanos.

Ele ficou desconcertado. Como um fragmento de um texto grego poderia ter se incorporado em uma múmia do século V ou VI a.C? Os gregos obtiveram a permissão de estabelecer uma colônia de comércio mercantil em Náucratis, no braço Canopo do Nilo, no século VII a.C, mas a sua movimentação no interior do país havia sido estritamente controlada. Eles não se tornaram influentes no Egito até a conquista de Alexandre, o Grande, em 332 a.C, e era inconcebível que registros egípcios tivessem sido mantidos em grego antes daquela data.

Hiebermeyer sentiu-se de repente vazio. Um documento grego em Fayum deveria datar provavelmente do tempo dos Ptolomeus, a dinastia macedônica que se iniciou com o general de Alexandre, Ptolomeu I Sóter, e terminou com o suicídio de Cleópatra e a tomada de posse romana em 30 a.C. Será que ele havia errado tanto ao estabelecer a data dessa primeira parte da necrópole? Voltou-se para Aysha, seu rosto sem expressão mascarando um crescente desapontamento.

- Não estou certo de gostar do que estou vendo. Vou dar uma olhada mais cuidadosa.

Ele puxou a lâmpada, que estava no canto, para mais perto da múmia. Usando um pincel da bandeja de Aysha, delicadamente escovou um dos cantos do papiro, o que revelou um manuscrito tão viçoso como se tivesse sido escrito naquele dia. Pegou sua lupa e prendeu a respiração enquanto examinava a escrita. As letras eram pequenas e contínuas, não interrompidas por pontuação. Ele sabia que levaria tempo e seria preciso muita paciência antes que uma tradução completa pudesse ser feita.

O importante agora era identificar o estilo. Hiebermeyer tivera a sorte de estudar com o professor James Dillen, um renomado lingüista cujo ensino deixara uma impressão tão indelével que ele ainda era capaz de se lembrar de cada detalhe, mesmo mais de duas décadas depois de ter estudado a caligrafia grega antiga.

Depois de alguns instantes seu rosto se abriu em um sorriso e ele voltou-se para Aysha.

- Podemos ficar tranqüilos. É de um período antigo, estou certo disso. Provavelmente do século VI antes de Cristo.

Ele fechou os olhos com alívio, enquanto ela lhe dava um rápido abraço esquecendo, momentaneamente, a reserva habitual que havia entre estudante e professor. Aysha já tinha adivinhado a época; sua tese de mestrado havia sido sobre as inscrições de Atenas em grego arcaico e ela era mais entendida do que Hiebermeyer nessa questão, mas quis deixar para ele o triunfo da descoberta, a satisfação de provar sua hipótese sobre o estabelecimento antigo da necrópole.

Com os pensamentos agitados, Hiebermeyer observou atentamente o papiro mais uma vez. Seu espaçamento apertado deixava claro que o manuscrito contínuo não era um livro administrativo, não se tratava de uma mera lista de nomes e números. Não era o tipo de documento que seria produzido pelos mercadores de Náucratis. Será que havia outros gregos no Egito naquele período? Hiebermeyer tinha conhecimento apenas de visitas ocasionais feitas por estudiosos que raras vezes haviam tido acesso aos arquivos do templo. Heródoto de Halicarnasso, o Pai da História, visitara os sacerdotes no século V a.C, e eles lhe contaram muitas coisas surpreendentes sobre o mundo antes do conflito entre os gregos e os persas, que era o tema principal do seu livro. Gregos mais antigos também haviam visitado o templo, políticos e letrados atenienses, mas suas visitas eram apenas lembradas parcialmente e nenhum de seus relatos subsistiu em primeira mão.

Hiebermeyer não ousou expressar em voz alta seus pensamentos para Aysha, ciente do embaraço que poderia ser causado por um anúncio prematuro que se espalharia como fogo em material inflamável no meio de jornalistas ansiosos. Mas ele se continha com dificuldade. Teriam eles encontrado alguma chave para a história antiga havia muito tempo perdida?

Quase toda a literatura que sobreviveu da Antigüidade era conhecida apenas através de cópias medievais, de manuscritos meticulosamente transcritos por monges nos mosteiros depois da queda do Império Romano no Ocidente. Muitos dos manuscritos antigos foram arruinados por decomposição ou destruídos por invasores e fanáticos religiosos. Durante anos os estudiosos esperaram por algo improvável: que o deserto do Egito revelasse textos perdidos, documentos que pudessem provocar uma reviravolta na história antiga. Sonhavam sobretudo com algo que conseguisse preservar a sabedoria dos sacerdotes estudiosos do Egito. O templo scriptoria visitado por Heródoto e seus predecessores preservara uma tradição intacta de conhecimento que remontava aos primórdios da história registrada, milhares de anos antes.

Hiebermeyer pesquisou, de maneira excitada, várias possibilidades. Seria este um relato de primeira mão da perambulação dos judeus, um documento que deveria ser colocado lado a lado com o Antigo Testamento? Ou um registro do final da Idade do Bronze, da realidade por detrás da Guerra de Tróia? O manuscrito poderia ainda relatar uma história anterior, uma que mostrasse que os egípcios fizeram mais do que simplesmente negociar com a Creta da Idade do Bronze e que, na verdade, construíram os grandes palácios. Um rei Minos egípcio? Hiebermeyer achou essa idéia altamente atraente.

Ele foi trazido de volta à terra por Aysha, que havia continuado a limpar o papiro e agora o chamava para perto da múmia.

- Olhe para isto.

Aysha tinha trabalhado ao longo da borda do papiro, onde algo se salientava do envoltório não danificado. Ela levantou com cuidado uma aba do linho e apontou com o pincel.

- É uma espécie de símbolo, - ela disse.

O texto havia sido interrompido por um desenho retilíneo estranho, parte dele ainda escondido sob o envoltório. Parecia-se com o final de um rastelo de jardim com quatro braços projetados.

- O que o senhor acha disso?

- Não sei. - Hiebermeyer fez uma pausa, ansioso por não parecer perdido na frente de sua aluna. - Pode ser alguma forma de dispositivo numérico, talvez derivado do cuneiforme. - Ele estava se lembrando de símbolos em forma de cunha impressos em tabletes de argila feitos pelos primeiros escribas do Oriente Próximo.

- Olhe aqui. Isto pode nos dar uma pista. - Ele se inclinou até que seu rosto ficasse a poucos centímetros da múmia, soprando com cuidado a poeira que havia no texto que continuava debaixo do símbolo. Entre o símbolo e o texto havia uma única palavra, suas letras em grego maiores do que a escrita contínua do restante do papiro.

- Acho que posso lê-la, - ele murmurou. - Tire a agenda do meu bolso de trás e escreva as letras à medida que eu for ditando.

Ela fez como lhe havia sido indicado e agachou-se ao lado do caixão segurando o lápis, orgulhosa de que Hiebermeyer confiasse em sua habilidade para fazer a transcrição.

- O.k. Vamos a isso. - Ele fez uma pausa e pegou sua lupa. - A primeira letra é Alfa. - Mudou de posição para enxergar melhor. - Depois Tau. Em seguida Alfa de novo. Não, apague isto. Lambda. Agora outro Alfa.

Apesar da penumbra do nicho, o suor estava escorrendo de sua fronte. Ele se afastou levemente para trás, preocupado em não molhar o papiro.

- Nu. Depois Tau de novo. Acho que é um lota. Sim, definitivamente. E agora a letra final. - Sem tirar os olhos do papiro ele pegou uma pequena pinça na bandeja e usou-a para levantar um pedaço do envoltório que encobria o final da palavra. Assoprou delicadamente o texto outra vez.

- Sigma. Sim, Sigma. E terminou. - Hiebermeyer se endireitou. - Então, o que temos?

Na verdade, ele soube desde o instante em que vira a palavra, mas sua mente recusou-se a registrar aquilo que lhe aparecia como óbvio. Isto estava além de seus sonhos mais desvairados, uma possibilidade tão enterrada em fantasias que muitos estudiosos simplesmente se recusariam a reconhecê-la.

Ambos olharam para a agenda embaraçados, a singular palavra os paralisava como que por mágica, tudo o mais subitamente pareceu apagado e sem significado.

- Atlântida! - A voz de Hiebermeyer era pouco mais que um murmúrio.

Ele se virou, piscou fortemente, e voltou-se de novo. A palavra continuava ali. Sua mente, de repente, entrou em um frenesi de especulação, trazendo à tona tudo o que ele conhecia para tentar dar sentido ao que via.

Anos de erudição lhe diziam para iniciar com o que fosse menos controverso, para tentar trabalhar primeiro com seu achado dentro da estrutura estabelecida.

Atlântida. Ele fitou o vazio. Para os antigos a história podia ter ocupado a parte final do seu mito da criação, quando a Época dos Gigantes cedeu lugar à Primeira Era dos Homens. Talvez o papiro fosse um relato dessa lendária idade de ouro, uma Atlântida enraizada não na história, mas no mito.

Hiebermeyer olhou para dentro do caixão e sacudiu a cabeça sem dizer palavra. Isto não podia estar certo. O local, a data. Era demasiada coincidência. Seu instinto nunca lhe falhara, e agora ele o sentia de modo mais forte do que nunca.

O mundo familiar e previsível de múmias e faraós, sacerdotes e templos, parecia desmoronar diante de seus olhos. Tudo o que podia pensar era sobre o enorme dispêndio de esforço e de imaginação que havia sido gasto na reconstrução do passado antigo, um edifício que inesperadamente parecia muito frágil e precário.

Era engraçado, ele refletiu, mas aquele camelo pode ter sido responsável pela maior descoberta arqueológica jamais feita.

- Aysha, quero que você prepare este caixão para ser removido imediatamente. Preencha a cavidade com espuma e feche com lacre. - Ele agora era de novo o diretor, a imensa responsabilidade da sua descoberta se sobrepondo à excitação pueril dos últimos minutos. - Quero que este caixão saia no caminhão que vai para Alexandria ainda hoje, e quero que você vá com ele. Providencie a escolta habitual, mas nada de especial, porque não quero atrair atenção indevida.

Eles estavam constantemente preocupados com a ameaça representada pelos modernos ladrões de tumbas, por aqueles que reviravam o lixo e pelos gatunos de estrada que ficavam espreitando o local, escondidos no meio das dunas, e que tinham se tornado progressivamente audaciosos em suas tentativas para furtar até a menor bagatela.

- E, Aysha, - disse ele, com o rosto terrivelmente sério: - Sei que posso confiar em você para não deixar vazar nenhuma informação sobre tudo isto para ninguém, nem mesmo para os nossos companheiros e amigos na equipe.

Hiebermeyer deixou Aysha entregue à sua tarefa e agarrou-se à escada para subir, o extraordinário acontecimento dramático da descoberta contribuindo subitamente para o seu cansaço. Caminhou pelo local, meio que ziguezagueando sob a claridade do sol, esquecido dos escavadores que ainda esperavam, respeitosos, por sua inspeção. Ele entrou na barraca do diretor e sentou-se pesadamente diante do telefone via satélite. Depois de secar o rosto e fechar os olhos por um instante, recompôs-se e ligou o aparelho. Discou um número e logo uma voz chegou através do fone de ouvido, falhando no início, mas bastante nítida depois que a antena foi ajustada.

- Boa tarde, você ligou para a Universidade Marítima Internacional. Como posso ajudá-lo?

Hiebermeyer respondeu rapidamente, sua voz rouca de excitação.

- Alô, aqui fala Maurice Hiebermeyer chamando do Egito. Trata-se de prioridade máxima. Ligue-me imediatamente com Jack Howard.

 

As águas do velho porto ondulavam suavemente no cais, cada onda alongando-se em linhas de algas marinhas flutuantes até onde a vista podia alcançar. De lado a lado da bacia, fileiras de barcos de pesca se agitavam ligeiramente e brilhavam ao sol do meio-dia. Jack Howard levantou-se e foi até a balaustrada, o cabelo negro agitado pela brisa e o aspecto bronzeado refletiam os meses passados no mar em busca de um naufrágio da Idade do Bronze. Ele encostou-se no parapeito e fitou as águas cintilantes. Este havia sido outrora o porto de Alexandria, seu esplendor rivalizando com Cartago e a própria Roma. Daqui partia o comboio de navios mercantes transportando cereais, enormes frotas que carregavam a colheita generosa do Egito para um milhão de pessoas em Roma. Daqui, também, mercadores ricos enviavam arcas com ouro e prata através do deserto para o mar Vermelho e além; na volta traziam as riquezas do Leste, olíbano e mirra, lápis-lazúli, safiras, carapaça de tartaruga, seda e ópio, carregadas por audaciosos marinheiros que ousavam navegar na rota da monção, da Arábia até a longínqua índia.

Jack olhou para o revestimento de pedra maciça dez metros abaixo. Dois mil anos atrás havia sido uma das maravilhas do mundo, o fabuloso Farol de Alexandria. Fora inaugurado por Ptolomeu II Filadelfo em 285 a.C, apenas cinqüenta anos depois que Alexandre, o Grande, fundou a cidade. Com cem metros de altura era maior do que a Grande Pirâmide em Giza. Mesmo hoje em dia, mais de seis séculos depois que o farol foi derrubado por um terremoto, suas fundações permanecem como uma das maravilhas da Antigüidade. As paredes foram transformadas em uma fortaleza medieval e agora servem como quartel-general do Instituto de Arqueologia em Alexandria, o principal centro para o estudo do Egito durante o período greco-romano.

Os restos do farol ainda iluminam o píer do porto. Logo abaixo da superfície há uma grande confusão de blocos e colunas, suas formas maciças intercaladas com estátuas espalhadas de reis e rainhas, deuses e esfinges. O próprio Jack descobriu a figura mais impressionante que ali havia, uma forma colossal quebrada, no fundo do mar, parecida com Ozimandias, Rei dos Reis, a imagem tombada de Ramsés II evocada de maneira tão célebre por Shelley. Jack havia argumentado que as estátuas deveriam ser registradas e deixadas tranqüilas como sua cópia poética no deserto.

Ele ficou contente ao ver uma fila se formando no porto submarino, testemunho do sucesso do parque subaquático. Ao lado do porto o horizonte era dominado pela futurista Biblioteca Alexandrina, a biblioteca reconstituída dos antigos, que formava um elo mais distante com as glórias do passado.

- Jack! - A porta da sala de conferência se abriu e uma figura corpulenta adiantou-se até a sacada. Jack voltou-se para saudar o recém-chegado.

- O mestre professor doutor Hiebermeyer! - Jack sorriu e estendeu a mão. Os dois homens haviam sido contemporâneos em Cambridge, e sua rivalidade alimentou a paixão compartilhada pelo mundo antigo. Jack sabia que a formalidade ocasional de Hiebermeyer mascarava uma mente sumamente receptiva, e Hiebermeyer, por sua vez, sabia como romper a reserva do outro. Depois de tantos projetos em conjunto, em outras partes do mundo, Jack esperava ansiosamente trocar idéias de novo com seu antigo tutor e companheiro. Hiebermeyer havia mudado pouco desde os dias de estudante, e as discórdias entre eles sobre a influência do Egito na civilização grega eram partes integrantes daquela amizade.

Atrás de Hiebermeyer encontrava-se um homem mais velho vestido imaculadamente com um terno claro e leve e uma gravata-borboleta, os olhos surpreendentemente aguçados debaixo de uma cabeleira branca. Jack deu alguns passos e apertou a mão de seu mentor, o professor James Dillen.

Dillen ficou de lado e introduziu mais duas pessoas através da porta.

- Jack, acho que você ainda não conhece a doutora Svetlanova.

Seus olhos verdes penetrantes ficavam quase na mesma altura que os dele e ela sorriu enquanto lhe apertava a mão.

- Por favor, me chame de Katya. - Seu inglês tinha um leve sotaque, mas era impecável, o resultado de dez anos de estudo na América e na Inglaterra depois que lhe fora permitido sair da União Soviética. Jack conhecia sua reputação, mas não imaginara que pudesse sentir uma atração tão imediata. Normalmente ele era capaz de se concentrar completamente sobre a excitação de uma nova descoberta, mas isto era outra coisa. Jack não conseguia tirar os olhos dela.

Seu longo cabelo negro balançou quando ela se voltou para apresentar sua colega.

- E esta é minha assistente, Olga Ivanovna Bortsev, do Instituto de Paleografia de Moscou.

Contrastando com a roupa elegante de Katya Svetlanova, Olga vestia-se de maneira mais rústica. Lembrava uma das heroínas da propaganda da Grande Guerra Patriótica, pensou Jack, bonita e destemida com a força de um homem. Ela estava se debatendo debaixo de uma pilha de livros, mas olhou-o bem nos olhos quando ele lhe ofereceu a mão.

Terminadas as formalidades, Dillen os acompanhou até a sala de conferência. Ele deveria conduzir a reunião, Hiebermeyer havia desistido do seu papel habitual como diretor do instituto em respeito ao status do homem mais velho.

Sentaram-se ao redor da mesa. Olga arrumou sua pilha de livros de modo ordenado ao lado de Katya e depois se retirou para uma das cadeiras enfileiradas ao longo da parede da sala.

Hiebermeyer começou a falar, andando de lá para cá e ilustrando seus relatos com slides. Ele passou rapidamente pelas circunstâncias da descoberta e descreveu como o caixão havia sido removido para Alexandria apenas dois dias antes. Desde a chegada do caixão, os conservadores do museu haviam trabalhado intensamente para separar a múmia do envoltório e libertar o papiro. Ele confirmou que não havia nenhum outro fragmento de escrita, que o papiro era apenas alguns centímetros mais extenso do que a parte que ficara visível durante a escavação.

O resultado foi colocado na frente deles sob um painel de vidro em cima da mesa, uma folha irregular de mais ou menos trinta centímetros de comprimento e quinze de largura, sua superfície inteiramente coberta pela escrita, exceto por uma lacuna no meio.

- É uma extraordinária coincidência que o camelo tenha colocado sua pata bem aqui, - disse Katya.

- É espantosa a freqüência com que este tipo de coisa acontece em arqueologia. - Jack olhou para ela e ambos sorriram.

- Muitas das grandes descobertas são feitas por acaso, - continuou Hiebermeyer, esquecido dos outros dois. - E lembrem-se, temos mais centenas de múmias para abrir. Este é precisamente o tipo de descoberta pela qual eu esperava e pode haver muitas mais.

- Uma perspectiva fabulosa, - concordou Katya.

Dillen inclinou-se para a frente para pegar o controle remoto do projetor. Ele ajeitou uma pilha de papéis que havia tirado de sua pasta enquanto Hiebermeyer estava falando.

- Amigos e colegas, - disse ele, examinando lentamente os rostos esperançosos. - Todos sabemos por que estamos aqui.

A atenção deles se deslocou para a tela na outra extremidade da sala. A imagem de uma necrópole deserta foi substituída por um close-up do papiro. A palavra que tanto havia pasmado Hiebermeyer no deserto agora preenchia a tela.

- Atlântida, - sussurrou Jack.

- Devo lhes pedir paciência. - Dillen examinou os rostos ao seu redor, ciente de quão desesperados eles estavam para ouvir a tradução do texto que ele e Katya haviam feito. - Antes de falar, proponho que a doutora Svetlanova nos dê um relato da história conhecida da Atlântida. Katya, se você quiser...

- Com prazer, professor.

Katya e Dillen haviam se tornado amigos quando ela era uma colega que gozava a licença de um ano sabático, sob sua orientação, em Cambridge. Recentemente tinham estado juntos em Atenas quando a cidade foi devastada por um grande terremoto que, abrindo uma fenda na Acrópole, revelou um agrupamento de câmaras talhadas na rocha que continham o arquivo havia muito perdido da cidade antiga. Katya e Dillen assumiram a responsabilidade pela publicação de textos que relatavam a exploração grega do outro lado do Mediterrâneo. Fazia poucas semanas que seus rostos apareceram nas primeiras páginas dos jornais do mundo inteiro, depois de uma conferência de imprensa em que revelaram como uma expedição de aventureiros gregos e egípcios havia navegado através do oceano Índico até o mar do Sul da China.

Katya também era uma das maiores autoridades mundiais sobre a lenda da Atlântida, e havia trazido consigo cópias de textos antigos relevantes. Ela pegou dois pequenos livros e abriu-os nas páginas marcadas.

- Senhores, gostaria em primeiro lugar de expressar meu prazer por ter sido convidada para este simpósio. Esta é uma grande honra para o Instituto de Paleografia de Moscou. Que o espírito de cooperação internacional continue por muito tempo.

Houve um murmúrio de aprovação ao redor da mesa.

- Serei breve. Primeiro, vocês podem, na prática, esquecer tudo o que ouviram sobre a Atlântida.

Katya assumiu um comportamento sério de estudiosa, a malícia em seus olhos havia desaparecido, e Jack se viu completamente concentrado no que ela dizia.

- Vocês podem pensar que a Atlântida foi apenas uma lenda, preservada em mito ao redor do mundo, algum episódio distante na história mais ou menos lembrado por muitas culturas diferentes.

- Como a história do Grande Dilúvio, - interveio Jack.

- Exatamente. - Ela fixou os olhos como que estranhamente distraída. - Mas vocês estariam enganados. Há apenas uma fonte. - Ela pegou os dois pequenos livros enquanto falava. - O antigo filósofo grego Platão.

Os outros se recostaram para ouvir.

- Platão viveu em Atenas de 427 a 347 antes de Cristo, uma geração depois de Heródoto, - ela contou. - Quando jovem, Platão teria conhecido o orador Péricles, assistido às peças de Eurípides, Esquilo e Aristófanes, teria visto os grandes templos sendo erigidos na Acrópole. Estes foram os dias gloriosos da Grécia clássica, o maior período de civilização jamais conhecido. - Katya colocou os livros abertos sobre a mesa. - Estes dois livros são Timeu e Crítias. São diálogos imaginários entre homens com esses nomes e Sócrates, o mentor de Platão cuja sabedoria sobrevive apenas através dos escritos de seu discípulo.

“Aqui, em uma conversa fictícia, Crítias conta a Sócrates sobre uma poderosa civilização, que surgiu do oceano Atlântico nove mil anos antes. Os atlantes eram descendentes de Posêidon, o deus dos mares. Crítias está fazendo uma preleção para Sócrates.”

“Havia uma ilha situada defronte ao Estreito que é chamado por vocês os Pilares de Hércules, a ilha era maior do que a Líbia e a Ásia juntas. Nesta ilha da Atlântida havia um grande e maravilhoso império que governava a ilha inteira e várias outras, e ainda partes do continente, e, além disso, os homens da Atlântida dominaram as partes da Líbia dentro das Colunas de Hércules até o Egito, e a Europa até a Tirrênia. Este vasto poder, reunido em um só, esforçou-se por conquistar de uma vez nosso país e o seu e toda a região dentro do Estreito.”

Katya pegou o segundo volume, olhando-o brevemente.

- A Líbia era o nome antigo da África, Tirrênia era a Itália central e os Pilares de Hércules, o Estreito de Gibraltar. Mas Platão não era nem geógrafo nem historiador. O seu tema era uma guerra monumental entre os atenienses e os atlantes, que os atenienses naturalmente ganharam mas só depois de enfrentarem o mais extremo perigo.

Ela olhou outra vez para o texto.

- E agora o clímax, o ponto essencial da lenda. Estas poucas sentenças finais atormentaram os estudiosos por mais de dois mil anos e conduziram a mais becos sem saída do que posso enumerar.

“Mas, mais tarde, ocorreram violentos terremotos e dilúvios e em um único dia e uma única noite de desdita todos os nossos guerreiros belicosos, em grande número, afundaram dentro da terra, e a ilha da Atlântida dessa maneira desapareceu para sempre nas profundezas do oceano.”

Katya fechou o livro e fitou Jack de modo zombeteiro.

- O que você esperava encontrar na Atlântida?

Jack hesitou de maneira não habitual, ciente de que pela primeira vez seria julgado por sua erudição.

- A Atlântida sempre significou muito mais do que uma simples civilização perdida, - ele replicou. - Para os antigos ela representava uma fascinação com a desgraça, com a grandeza condenada pela arrogância e insolência. Cada era teve sua fantasia sobre a Atlântida, sempre se referindo a um mundo de esplendor inimaginável ofuscando toda a história. Para os nazistas ela foi o local de nascimento do Übermann, a pátria ariana original, o que estimulou uma procura demente, ao redor do mundo, por descendentes racialmente puros. Para outros foi um Jardim do Éden, um Paraíso Perdido.

Katya concordou com um aceno de cabeça e falou calmamente.

- Se existe alguma verdade nessa história, se o papiro nos der mais pistas, então seremos capazes de solucionar um dos maiores mistérios da história antiga.

Houve uma pausa em que a assembléia reunida se entreolhou, expressando antecipação e ansiedade mal contidas em seus rostos.

- Obrigado, Katya. - Dillen levantou-se, sentindo-se mais confortável para falar em pé. Ele era um consumado orador, habituado a ter sob controle a completa atenção de sua audiência. - Eu sugiro que a história da Atlântida não é uma história, mas uma alegoria. A intenção de Platão era extrair uma série de lições morais. No Timeu, a ordem triunfa sobre o caos na formação do Cosmos. Em Crítias, os homens autodisciplinados, que mostravam moderação e respeito pelas leis, triunfam sobre os homens orgulhosos e presunçosos. O conflito entre Atlântida e Atenas foi inventado para mostrar que os gregos sempre tinham sido homens de determinação que sairiam, em última análise, vitoriosos em qualquer guerra. Mesmo Aristóteles, discípulo de Platão, pensava que a Atlântida nunca existira.

Dillen apoiou as mãos sobre a mesa e inclinou-se para a frente.

- Sugiro que a Atlântida é uma fábula política. O relato de Platão de como ele chegou até a história é uma ficção extravagante, como a introdução de Swift às Viagens de Gulliver, onde ele indica uma fonte que é plausível, mas que nunca pôde ser verificada.

Dillen estava representando o advogado do diabo, reconheceu Jack. Ele sempre apreciara as habilidades retóricas de seu antigo professor, um reflexo dos anos passados nas maiores universidades do mundo.

- Seria útil se o senhor pudesse nos relembrar sobre a fonte de Platão, - disse Hiebermeyer.

- É claro, - Dillen releu suas anotações. - Crítias era o avô de Platão, e dizia que o seu próprio avô ouvira a história da Atlântida de Sólon, o famoso legislador ateniense. Sólon, por sua vez, a ouvira de um idoso sacerdote egípcio em Sais, no delta do Nilo.

Jack efetuou um cálculo mental rápido.

- Sólon viveu de 640 a 560 antes de Cristo. Ele só foi admitido no templo por ser um sábio respeitado. Se assumirmos, então, que ele visitou o Egito já idoso, mas não demasiado idoso para viajar, isto situaria o encontro por volta do início do século VI antes de Cristo, quer dizer, 590 ou 580 antes de Cristo. No caso de estarmos lidando com fatos e não com ficção, eu gostaria de fazer uma pergunta. Como é possível que uma história tão notável seja tão pouco conhecida? Heródoto visitou o Egito na metade do século V antes de Cristo, quase meio século antes da época de Platão. Ele era um pesquisador infatigável, um tagarela que investigava cada fragmento de trivialidade e seu trabalho sobreviveu integralmente. No entanto, ele não menciona a Atlântida. Por quê?

O olhar de Dillen abrangeu a todos, um de cada vez. Ele sentou-se. Depois de uma pausa, Hiebermeyer se levantou e caminhou atrás das cadeiras.

- Acho que sou capaz de responder à sua pergunta. - Fez uma breve pausa. - No nosso mundo tendemos a pensar sobre o conhecimento histórico como propriedade universal. Há exceções, é claro, e todos sabemos que a história pode ser manipulada, mas em geral pouco do significado dela pode ser mantido escondido durante muito tempo. Bem, no antigo Egito não foi assim.

Os outros escutavam atentamente.

- Diferentemente da Grécia e do Oriente Próximo, cujas culturas foram completamente destruídas por invasões, o Egito tem uma tradição intacta que remonta ao início da Idade do Bronze, até o período dinástico inicial, por volta de 3100 antes de Cristo. Alguns acreditam mesmo que ela remonta à chegada dos primeiros agricultores, quase quatro mil anos mais cedo.

Houve um murmúrio de interesse entre os assistentes.

- No entanto, no tempo de Sólon, o acesso a esse conhecimento antigo se tornara muito difícil. Era como se ele tivesse sido dividido em fragmentos que se integravam como em um jogo de quebra-cabeça, que depois foram embrulhados em pacotes pequenos e separados. - Hiebermeyer fez uma pausa, contente com a metáfora. - Ele chegou a ficar em muitos templos diferentes, dedicado a muitos deuses diferentes. Os sacerdotes guardavam sua parcela de conhecimento avidamente, como um tesouro. Ele só podia ser revelado a estrangeiros por meio de intervenção divina, através de algum sinal dos deuses. Estranhamente, - ele acrescentou com um piscar de olhos, - estes sinais apareciam com maior freqüência quando o pretendente oferecia um benefício, em geral ouro.

- Então, você podia comprar conhecimento?, - perguntou Jack.

- Sim, mas apenas quando as circunstâncias fossem corretas, no dia certo do mês, longe dos dias de festivais religiosos, de acordo com uma série de outros sinais e presságios. A não ser que tudo estivesse rigorosamente certo, um pretendente seria mandado embora, mesmo se chegasse com um navio cheio de ouro.

- Então a história da Atlântida só podia ser conhecida em um templo, e contada a apenas um grego.

- É isso mesmo, - Hiebermeyer concordou solenemente com Jack. - Apenas poucos gregos entraram dentro de templos scriptoria. Os sacerdotes suspeitavam de homens como Heródoto, que eram muito inquisidores e indiscriminados, viajando de templo em templo. Algumas vezes Heródoto recebia informações erradas, histórias que haviam sido exageradas e falsificadas. Ele era, como vocês ingleses dizem, ludibriado.

“O conhecimento mais precioso era muito sagrado para ser confiado ao papel. Ele era transmitido de boca em boca, de um sumo sacerdote para outro. Muito desse conhecimento morreu com os últimos sacerdotes quando os gregos fecharam os templos. O pouco registrado em papel perdeu-se sob os romanos, quando a Livraria Real de Alexandria foi queimada durante a guerra civil, em 48 antes de Cristo, e a Livraria Filial teve o mesmo fim sob o império de Teodósio, que ordenou a destruição de todos os templos pagãos remanescentes, em 391 depois de Cristo. Nós já sabemos um pouco do que foi perdido, a partir de referências em textos antigos que sobreviveram. A Geografia de Píteas, o Navegador. A História do Mundo do imperador Cláudio. Os volumes extraviados de Galeno e de Celso. Grande obras de história e de ciência, compêndios de conhecimento farmacêutico que teriam provocado um enorme avanço na medicina. Mal podemos imaginar o conhecimento secreto dos egípcios que seguiu o mesmo caminho.”

Hiebermeyer sentou-se e Katya voltou a falar.

- Eu gostaria de propor uma hipótese alternativa. Sugiro que Platão estava dizendo a verdade sobre sua fonte. No entanto, por alguma razão Sólon não escreveu um relato de sua visita. Será que foi proibido de fazê-lo pelos sacerdotes? -Katya pegou os livros e continuou. - Acredito que Platão pegou os poucos fatos que tinha e enfeitou-os para servir a seus propósitos. Aqui, concordo em parte com o professor Dillen. Platão exagerou para fazer da Atlântida um local mais remoto e atemorizador, adaptando-a em uma época distante. Assim, ele coloca a história em um passado remoto, torna a Atlântida semelhante aos maiores territórios que pôde imaginar, e a situa no oceano ocidental, além dos limites do mundo antigo. - Ela olhou para Jack. - Há uma teoria sobre a Atlântida, amplamente aceita pelos arqueólogos. Temos sorte de ter um de seus ilustres proponentes entre nós hoje. Doutor Howard?

Jack já estava pressionando o controle remoto para encontrar um mapa do mar Egeu com a ilha de Creta destacando-se no centro.

- Isto só se torna plausível se reduzirmos a escala, - ele afirmou. - Se estabelecermos novecentos anos em vez de nove mil anos antes de Sólon, chegaremos a 1600 antes de Cristo. Este foi o período das grandes civilizações da Idade do Bronze, o Novo Reino do Egito, os cananeus da Sírio-Palestina, os hititas da Anatólia, os micênios da Grécia, os minoanos de Creta. Este é o único contexto possível para a história da Atlântida. - Jack apontou um indicador a laser para o mapa. - E acredito que a única localização possível seja Creta. - Ele olhou para Hiebermeyer. - Para muitos egípcios do tempo dos faraós, Creta era o limite setentrional até onde se aventuravam. A partir do sul ela é uma terra majestosa, um longo contorno de costa com montanhas como pano de fundo, no entanto os egípcios deviam saber que se tratava de uma ilha por causa das expedições que empreenderam ao palácio de Cnossos na costa setentrional.

- E o oceano Atlântico? - perguntou Hiebermeyer.

- Você pode esquecê-lo, - disse Jack. - Nos dias de Platão, o mar a oeste de Gibraltar era desconhecido, um vasto oceano que conduzia à extremidade ígnea do mundo. Então foi para lá que Platão transferiu a Atlântida. Seus leitores dificilmente ficariam intimidados por uma ilha no Mediterrâneo.

- E a palavra Atlântida.

- O deus do mar, Posêidon, tinha um filho, Atlas, o colosso com músculos superdesenvolvidos que carregava a abóbada celeste em seus ombros. O oceano Atlântico era o oceano de Atlas e não da Atlântida. O termo Atlântico apareceu pela primeira vez em Heródoto, e, portanto, era de uso corrente quando Platão estava escrevendo. - Jack fez uma pausa e olhou para os outros. - Antes de ver o papiro, eu teria argumentado que Platão inventou a palavra Atlântida, um nome plausível para um continente perdido no oceano de Atlas. Sabemos, por meio das inscrições, que os egípcios se referem aos minoanos e aos micênios como povos de Keftiu, povos do Norte, que vinham em navios trazendo tributos. Eu teria sugerido que Keftiu, não Atlântida, deveria ser o nome para o continente perdido no relato original. Agora não tenho tanta certeza. Se este papiro data, em verdade, de antes da época de Platão, então ele certamente não inventou a palavra.

Depois de um breve silêncio, Katya falou de novo.

- Será que a guerra entre os atenienses e o atlantes era, na verdade, uma guerra entre os micênios e os minoanos?

- Acredito que sim, - replicou Jack. - A Acrópole de Atenas pode ter sido a mais impressionante de todas as fortalezas dos micênios antes que fosse demolida para dar lugar às construções do período clássico. Logo depois de 1500 antes de Cristo os guerreiros micênios controlaram Cnossos em Creta e mantiveram esse domínio até que o palácio fosse destruído pelo fogo e pela violência cem anos mais tarde. O ponto de vista convencional é que os micênios eram belicosos, os minoanos, pacíficos. A posse ocorreu depois que os minoanos foram devastados por uma catástrofe natural.

- Pode haver uma pista sobre isso na lenda de Teseu e o Minotauro, - refletiu Katya. - Teseu, o príncipe de Atenas, cortejou Ariadne, filha do rei Minos de Cnossos, mas, antes de conseguir sua mão, ele devia enfrentar o Minotauro no Labirinto. O Minotauro era metade touro, metade homem, certamente uma representação da força dos minoanos nas armas.

Hiebermeyer acrescentou:

- A Idade do Bronze foi redescoberta por homens que acreditavam que as lendas continham uma semente de verdade. Sir Arthur Evans em Cnossos, Heinrich Schliemann em Tróia e Micenas. Ambos entendiam que as guerras de Tróia na Ilíada e na Odisséia de Homero, escritas no século VIII antes de Cristo, preservaram a memória dos eventos tumultuados que levaram ao colapso da civilização da Idade do Bronze.

- Isto conduz à minha conclusão, - disse Jack. - Platão não teria sabido nada da Creta da Idade do Bronze, que foi esquecida na Idade das Trevas, precedente ao período clássico. No entanto, há mais pormenores na história rememorativa dos minoanos, detalhes que Platão nunca poderia ter conhecido. Katya, você permite?

Jack pegou os dois livros que a doutora empurrou em sua direção, atraindo o olhar dela enquanto o fazia. Ele folheou um e o deixou aberto no final.

- Aqui está: a Atlântida era o caminho para as outras ilhas, e delas você podia passar para todo o continente fronteiro. Exatamente assim é que Creta era vista pelo Egito, as outras ilhas sendo Dodecaneso e os arquipélagos Cicládicos no Egeu e o continente da Grécia e da Ásia Menor. E ainda há mais. - Ele abriu o outro livro e leu uma nova passagem. - A Atlântida era muito alta e escarpada do lado do mar, e rodeava uma grande planície circundada por montanhas.

Jack deu grandes passos até a tela que agora exibia um mapa de Creta em grande escala.

- É exatamente esta a aparência da costa sul de Creta e da grande planície de Mesara.

Jack voltou para o lugar onde havia deixado os livros sobre a mesa.

- E finalmente os próprios atlantes. Eles estavam divididos em dez regiões administrativas relativamente independentes sob a primazia da metrópole real. - Ele girou e apontou para o mapa. - Os arqueólogos acreditam que a Creta dos minoanos estava dividida em doze ou mais domínios feudais com palácios, semi-autônomos, sendo Cnossos o mais importante.

Jack pressionou o controle remoto para revelar uma imagem espetacular do palácio desenterrado em Cnossos com a sala do trono restaurada.

- Esta certamente é a esplêndida cidade capital na metade do caminho ao longo da costa. - Ele passou rapidamente por vários slides até chegar a um close-up do sistema de drenagem do palácio. - E do mesmo modo que os minoanos eram excelentes engenheiros hidráulicos, os atlantes construíam cisternas, algumas abertas aos céus, outras cobertas por telhados, para usar nos invernos como banhos quentes; havia banhos para os reis e para as outras pessoas, para os cavalos e o gado. E depois o touro. - Jack pressionou o seletor e apareceu uma nova vista de Cnossos, desta vez mostrando uma magnífica escultura de chifres de touro, ao lado do pátio. Ele leu mais uma vez: - Havia touros que eram enormes, e os reis, deixados sozinhos no templo de Posêidon, depois de oferecerem preces ao deus para que pudessem capturar uma vitima que fosse aceitável para eles, caçavam os touros, sem armas mas com bastões e laços.

Jack voltou-se para a tela e mostrou novos slides.

- Uma parede de Cnossos pintada com um touro e um acrobata pulando. Um vaso de libação feito de pedra com a forma de uma cabeça de touro. Uma taça de ouro com uma cena de caçada de touro. Uma fossa escavada contendo centenas de chifres de touro, descoberta recentemente debaixo do pátio principal do palácio. - Jack sentou-se e olhou para os outros. - E há um elemento final nessa história.

A imagem se transformou em uma vista aérea da ilha de Thera, uma que Jack havia tirado do helicóptero do Seaquest apenas alguns dias antes. O contorno recortado da cratera podia ser visto nitidamente, a vasta bacia rodeada por despenhadeiros espetaculares elevando-se acima das casas brancas das povoações modernas.

- O único vulcão do Egeu é um dos maiores do mundo. Em algum momento, na metade do segundo milênio antes de Cristo, aquele vulcão entrou em erupção. Dezoito quilômetros de rocha foram lançados a oitenta quilômetros de altura e a centenas de quilômetros para o sul e ao leste do Mediterrâneo, sombreando o céu durante dias. O abalo sacudiu construções no Egito.

Hiebermeyer citou de memória o Antigo Testamento:

- E o Senhor disse a Moisés, estenda a mão para o céu e sobre toda a terra do Egito haverá uma escuridão que se poderá apalpar. E Moisés estendeu a mão para o céu e uma densa treva cobriu a terra do Egito durante três dias.

- As cinzas cobriram toda Creta e destruíram a agricultura durante uma geração, - continuou Jack. - Marés com ondas imensas, tsunamis, danificaram a praia setentrional devastando os palácios. Houve fortes terremotos. A população remanescente não conseguiu medir forças com os micênios quando estes chegaram à procura das abundantes colheitas.

Depois de um breve silêncio, Katya falou.

- Então, os egípcios ouviram um barulho muito forte. O céu escureceu. Alguns poucos sobreviventes chegaram ao Egito contando histórias aterrorizantes de um dilúvio. Os homens de Keftiu não mais vieram com seus tributos. A Atlântida não submergiu debaixo das ondas, mas, mais precisamente, ela desapareceu para sempre do mundo egípcio. - Ela ergueu a cabeça e olhou para Jack, que sorriu.

- Eu terminei minha exposição, - disse ele.

Durante essa discussão Dillen permaneceu em silêncio. Ele sabia que os outros estavam intensamente cientes de sua presença, cônscios de que sua tradução do fragmento de papiro podia ter revelado segredos que iriam subverter tudo em que eles acreditavam. Agora olhavam para ele cheios de expectativa, enquanto Jack reiniciava o projetor para mostrar a primeira imagem. A tela exibia novamente o close-up do manuscrito em grego antigo.

- Vocês estão prontos? - Dillen perguntou ao grupo.

Ouviu-se um murmúrio de aquiescência. A atmosfera na sala ficou perceptivelmente mais tensa. Dillen abriu sua pasta, tirou um grande pergaminho e desenrolou-o na frente deles. Jack escureceu as luzes principais e acendeu uma lâmpada fluorescente sobre o fragmento rasgado de papiro antigo no centro da mesa.

 

O objeto da atenção deles foi revelado em cada detalhe, a antiga folha escrita aparecia quase luminosa sob a protetora placa de vidro. Todos puxaram as cadeiras para a frente e seus rostos surgiam das trevas de maneira indistinta no limite da área iluminada.

- Primeiro, o material.

Dillen entregou, para que todos examinassem, uma pequena caixa de plástico contendo a amostra de um fragmento removido para análise, quando a múmia fora desembrulhada.

- Sem dúvida alguma é papiro, Cyperus papyrus. Ê possível perceber o padrão de linhas cruzadas onde as fibras da haste foram alisadas e grudadas.

- O papiro desapareceu quase completamente do Egito por volta do século II depois de Cristo, - disse Hiebermeyer. - Extinguiu-se por causa da obsessão egípcia em manter registros. Eles eram brilhantes na irrigação e na arquitetura, mas falharam, por alguma razão, em manter a plantação dos canteiros de papiro ao longo do Nilo. - Ele falava com um rubor de excitação. - E posso revelar agora que os primeiros papiros conhecidos datam de 4000 antes de Cristo, quase mil anos antes de qualquer achado anterior. Ele foi descoberto no princípio deste ano, durante minhas escavações no templo de Neith, em Sais, no delta do Nilo.

Houve um murmúrio de excitação ao redor da mesa. Katya inclinou-se para a frente.

- Então, vamos ao manuscrito. Temos um método que é antigo, mas pode estabelecer a data de qualquer época até o século II depois de Cristo. Podemos ter uma precisão maior do que essa?

Hiebermeyer sacudiu a cabeça.

- Não se utilizarmos apenas o material. Poderíamos tentar estabelecer esta data usando carbono 14, mas os isótopos radioativos seriam provavelmente contaminados por algum outro material orgânico existente nas faixas que envolvem a múmia. E fazer uso de uma amostra maior significaria destruir o papiro.

- Isto é, obviamente, inaceitável. - Dillen assumiu o controle da discussão. - Mas temos a evidência do próprio manuscrito. Se Maurice não o reconhecesse, não estaríamos aqui hoje.

- Os primeiros indícios foram detectados por minha pesquisadora Aysha Farouk.. - Hiebermeyer olhou ao redor da mesa. - Acredito que o papiro e o sepultamento foram feitos na mesma época. O papiro não era um pedaço de algum manuscrito antigo, mas sim um documento que acabara de ser escrito. A clareza das letras comprova isso.

Dillen prendeu com tachinhas os quatro cantos do seu manuscrito sobre a mesa, permitindo que todos vissem que ele estava coberto com símbolos copiados do papiro. Ele havia agrupado letras idênticas, pares de letras e palavras. Era uma maneira de analisar a regularidade do estilo, algo familiar aos que haviam estudado com ele.

Ele apontou para oito linhas de escrita contínua na parte inferior do manuscrito.

- Maurice estava certo ao identificá-las como uma forma antiga de escrita grega, de uma época anterior ao importante período clássico do século V antes de Cristo. - Ergueu os olhos e fez uma pausa. - Ele estava certo, mas eu posso ser mais preciso ainda.

Dillen deslocou a mão até um grupo de letras na parte superior.

- Os gregos adotaram o alfabeto dos fenícios no início do primeiro milênio antes de Cristo. Algumas das letras fenícias permaneceram inalteradas, outras mudaram de forma com o passar do tempo. O alfabeto grego só alcançou sua forma definitiva perto do fim do século VI antes de Cristo. - Pegou o indicador a laser e apontou-o para o canto superior direito do manuscrito. - Agora olhem para isto.

Uma letra idêntica havia sido sublinhada em certo número de palavras copiadas do papiro. Ela se parecia com a letra A tombada para a esquerda, a linha transversal se estendendo para ambos os lados como os braços estendidos em um desenho.

Jack falou excitadamente:

- A letra A fenícia.

- Correto. - Dillen puxou sua cadeira para mais perto da mesa. - A forma fenícia desaparece em torno da metade do século VI antes de Cristo. Por esta razão e por causa do vocabulário e do estilo, sugiro como data o começo do século. Talvez o ano 600 ou, o mais tardar, o ano 580 antes de Cristo.

Ouviu-se um suspiro coletivo.

- Até onde você está convencido disto? - perguntou Jack.

- Estou tão confiante quanto sempre estive.

- E agora posso revelar nossa evidência mais importante para a datação da múmia, - anunciou Hiebermeyer de maneira triunfal. - Um amuleto de ouro em forma de coração, ib, debaixo de um disco solar, re, formando juntos uma representação simbólica do faraó Ápries, nome de nascimento Wah-Ib-Re. O amuleto pode ter sido um presente pessoal para o ocupante da tumba, um bem valioso levado para a vida após a morte. Ápries foi um faraó da Vigésima Sexta Dinastia, que governou de 595 a 568 antes de Cristo.

- Fantástico, - exclamou Katya. - Fora uns poucos fragmentos não temos manuscritos gregos originais de antes do século V antes de Cristo. Este data de apenas um século depois de Homero, apenas poucas gerações antes que os gregos começassem a usar o novo alfabeto. Este é o achado epigráfico mais importante em décadas. - Ela fez uma pausa para ordenar seus pensamentos. - Minha pergunta é esta: o que um papiro com escrita grega estava fazendo no Egito no século VI antes de Cristo, mais de duzentos anos antes da chegada de Alexandre, o Grande?

Dillen olhou ao redor da mesa.

- Eu não usarei de rodeios por mais tempo. Acredito que temos um fragmento do último trabalho de Sólon, o Legislador, o relato de sua visita ao sumo sacerdote em Sais. Encontramos a fonte da história da Atlântida de Platão.

Meia hora mais tarde eles se agruparam na varanda para apreciar o Grande Porto. Dillen estava fumando seu cachimbo e observando afetuosamente Jack e Katya conversarem, um pouco afastados dos demais. Não era a primeira vez que ele via isto, mas talvez Jack tivesse encontrado, finalmente, alguém sério. Alguns anos antes, Dillen percebera o potencial de um estudante indomável que não possuía as credenciais de uma educação convencional; fora ele quem estimulara Jack a passar uma temporada em um serviço militar de inteligência com a condição de retornar e fazer carreira na arqueologia. Um outro antigo estudante, Efram Jacobovich, providenciou uma doação de sua fortuna, obtida com software, que financiou toda a pesquisa da IMU, e Dillen deleitou-se, em silêncio, com a oportunidade que isso lhe deu de se envolver com as aventuras de Jack.

Jack desculpou-se para ir fazer uma chamada via satélite ao Seaquest, colocando brevemente a mão sobre o braço de Katya e dirigindo-se para a porta. A sua excitação com a descoberta do papiro competia com a necessidade de se manter informado sobre a escavação no naufrágio. Fazia apenas dois dias que Costas havia descoberto o disco de ouro, embora o local já estivesse revelando riquezas que ameaçavam eclipsar até mesmo esse achado.

Durante uma pausa na conversa enquanto Jack estava fora, os outros integrantes da equipe se entretiveram com uma tevê colocada em um nicho da parede. Era uma reportagem da CNN sobre um novo ataque terrorista na antiga União Soviética, um carro-bomba devastador explodira na capital da República da Geórgia. Assim como outras atrocidades recentes, esse não havia sido um trabalho de fanáticos mas um calculado ato de vingança pessoal, mais um horrível episódio em um mundo onde uma ideologia extremista estava sendo substituída por ganância e vendeta como a principal causa da instabilidade mundial. Esta era uma situação que preocupava bastante aqueles que se encontravam na varanda, as antigüidades roubadas estavam sendo usadas para facilitar transações e os operadores do mercado negro se mostravam cada vez mais audaciosos em suas tentativas para adquirir os tesouros de maior valor.

Quando retornou, Jack retomou a conversa que estivera tendo com Katya. Ela havia revelado pouco sobre seus antecedentes, mas tinha confessado sua ânsia de se envolver mais do que sua posição atual permitia na batalha contra o roubo de antigüidades. Jack descobriu que posições de prestígio haviam sido oferecidas a ela no Ocidente, mas que Katya preferira permanecer na Rússia, na vanguarda do problema, apesar da burocracia corrupta e da eterna ameaça de chantagem e represália.

Hiebermeyer e Dillen juntaram-se a eles e a discussão voltou ao papiro.

- Eu sempre fiquei perplexo com o fato de Sólon não deixar nenhum relato sobre sua visita ao Egito, - disse Katya. - Ele era um escritor muito proeminente, o mais erudito de Atenas em seus dias.

- Será que esse documento foi escrito dentro do próprio recinto do templo? - Jack olhou de maneira inquiridora para Hiebermeyer, que estava limpando os óculos e transpirava visivelmente.

- Provavelmente, embora tais ocasiões devessem ter sido poucas e distantes uma da outra. - Hiebermeyer recolocou os óculos e enxugou a fronte. - Para os egípcios a arte de escrever era um dom divino de Thoth, escriba dos deuses. Tornando-a sagrada, os sacerdotes podiam manter o conhecimento sob seu controle. E qualquer escrito feito por um estrangeiro, em um templo, seria considerado sacrílego.

- Nesse caso, ele não seria popular, - comentou Jack.

Hiebermeyer sacudiu a cabeça.

- Ele teria sido recebido com suspeita por aqueles que desaprovavam a decisão do sumo sacerdote de revelar seu conhecimento. Os guardiões do templo se ofenderiam com sua presença por ele ser um estrangeiro, o que daria a impressão de desafiar os deuses. - Hiebermeyer se esforçou para tirar a jaqueta e arregaçou as mangas. - E os gregos não eram exatamente muito populares. Os faraós haviam permitido, fazia pouco tempo, que eles estabelecessem um posto comercial em Náucratis, no delta. Eles eram comerciantes astutos, experientes, por causa do seu comércio com os fenícios, ao passo que o Egito se mantivera fechado ao mundo exterior durante anos. Os egípcios que confiaram suas mercadorias aos mercadores gregos ignoravam as duras realidades do comércio. Aqueles que não tiraram proveito imediatamente sentiram que haviam sido enganados e traídos. Havia muito ressentimento entre eles.

- Então, o que você está sugerindo, - interrompeu Jack, - é que Sólon, na verdade, fez esse relato mas que, de alguma maneira, o escrito foi retirado dele e destruído?

Hiebermeyer concordou com a cabeça.

- Isso é possível. Você pode imaginar o tipo de estudioso que ele era. Sincero de um modo obsessivo, fazendo poucas concessões para os que estavam à sua volta. E ingênuo a respeito do mundo real. Devia estar carregando uma bolsa cheia de ouro, e o pessoal do templo ficou sabendo. Ele deve ter sido uma presa fácil naquelas caminhadas durante a noite, através do deserto, do recinto do templo até a cidade onde se hospedava.

- Então, o que estamos dizendo é que Sólon é atacado traiçoeiramente e roubado no deserto. Seu pergaminho é rasgado e jogado fora. Pouco depois alguns pedaços são reunidos e usados de novo como envoltório de múmias. O ataque ocorre depois da última visita de Sólon ao templo, e dessa forma o manuscrito todo fica perdido.

- E o que aconteceu depois disso, - continuou Hiebermeyer, - é que ele foi tão perversamente surrado que pôde apenas lembrar fragmentos do ocorrido, talvez nada sobre sua última visita ao templo. Já é um homem idoso e sua memória está diminuída. De volta à Grécia ele nunca mais escreve, e está muito envergonhado para admitir o quanto perdeu por causa de sua própria estupidez. Ele apenas conta uma versão falsificada do que consegue lembrar para poucos amigos.

Dillen ouviu com visível satisfação enquanto seus dois antigos alunos desenvolviam esse argumento. Uma reunião como esta significava mais do que a soma de suas partes; o encontro de intelectos provocava o aparecimento de novas idéias e linhas de raciocínio.

- Eu mesmo cheguei a uma conclusão semelhante lendo os textos, - disse Dillen, - comparando a história de Platão com o papiro. Vocês verão em breve o que quero dizer. Vamos nos reunir novamente.

Voltaram para a sala de conferência, a fria umidade das paredes era refrescante depois do calor causticante que fazia lá fora. Todos olharam esperançosamente enquanto Dillen se acomodava diante do fragmento do papiro.

- Tenho a impressão de que esta é a transcrição de um ditado. O texto foi escrito apressadamente e a composição não está particularmente elegante. Ela é apenas um pedaço do manuscrito original, que pode ter tido milhares de linhas. O que subsistiu equivale a dois curtos parágrafos separados por um vazio da largura de seis linhas. No centro encontra-se este símbolo seguido pela palavra Atlântida.

- Eu já vi isto em algum lugar anteriormente, - Jack estava se inclinando sobre a mesa e observando atentamente o símbolo no centro do papiro.

- Sim, você já o viu. - Dillen olhou brevemente para suas anotações. - Mas vou deixar isto para um pouco mais tarde, se você não se incomodar. Não há dúvida alguma de que isso foi escrito por Sólon no templo scriptorium, em Sais, sentado diante do sumo sacerdote.

- Seu nome era Amenhotep. - Hiebermeyer estava de novo rubro de excitação. - No mês passado, durante nossa escavação no templo de Neith, encontramos uma lista fragmentada de sacerdotes durante a Vigésima Sexta Dinastia. De acordo com a cronologia, Amenhotep tinha mais de cem anos quando Sólon o visitou. Existe até uma estátua dele. Ela está no British Museum.

Hiebermeyer estendeu a mão e deu uma leve pancada no projetor multimídia, revelando uma figura em pose egípcia clássica segurando um modelo de relicário nãos*. O rosto parecia, ao mesmo tempo, jovem e eterno, ocultando mais do que revelava, mas com a expressão triste de um homem idoso que passou por tudo que lhe fora dado passar antes que a morte o levasse.

- Será, - Katya interrompeu, - que o vazio no texto representa uma pausa no ditado, que a escrita de cima representa o fim de um relato, talvez de um dia de audiência com o sacerdote, e a escrita debaixo o começo de um outro?

- É exatamente isto, - Dillen sorriu. - A palavra Atlântida é um título, o início de um novo capítulo. - Seus dedos digitaram no laptop que ele havia conectado com o projetor multimídia. Agora eles podiam seguir uma imagem digitalmente aumentada do texto grego lado a lado com as palavras inglesas. Dillen começou a ler a tradução sobre a qual ele e Katya haviam trabalhado desde sua chegada no dia anterior.

- E em suas cidadelas existiam touros, tantos que eles abarrotavam os pátios e os corredores estreitos, e os homens dançavam com eles. E depois, no tempo do Faraó Tutmósis, os deuses atingiram a terra com um poderoso estrondo e as trevas cobriram-na, e Posêidon lançou uma onda poderosa e impetuosa que destruiu completamente tudo por onde passou. Esse foi o fim do reino da ilha de Keftiu. E depois vamos ouvir sobre um outro reino poderoso, o da cidadela desaparecida que chamavam Atlântida.

- E agora a segunda parte, - continuou Dillen. Bateu em uma tecla e apareceu a imagem do pergaminho que estava abaixo do espaço vazio. - Lembrem-se, que este material é bem grosseiro. Sólon estava traduzindo do egípcio para o grego enquanto escrevia. Então, para nós ele é relativamente direto, com poucas frases complexas ou palavras obscuras. Mas existe um problema.

Dillen olhou para a tela e todos seguiram seu olhar. Ele foi ate o fim do texto e eles viram que as palavras se tornavam menores onde o papiro fora rasgado. Enquanto o primeiro parágrafo havia sido bem conservado, o segundo estava progressivamente mutilado, à medida que as beiradas rasgadas convergiam para uma forma em V. As últimas linhas continham apenas fragmentos de palavras.

Katya começou a ler.

- Atlântida. - Seu sotaque acrescentava ênfase às sílabas, ajudando, de certa maneira, a tornar familiar a realidade daquilo que tinham diante de si.

- A primeira sentença não é controversa. - Ela focalizava a tela e falava em voz baixa.

- Dia ton neson mechri hou he thalatta stenoutai. - As vogais soavam quase como chinês, à medida que ela recriava o ritmo da antiga língua.

- Através das ilhas até os estreitos do mar. Passada a Catarata de Bos.

Hiebermeyer, perplexo, franziu as sobrancelhas.

- Meu grego é bom o suficiente para saber que katarraktes significa uma catarata ou queda d'água, - disse ele. - A palavra era usada para descrever as correntezas da parte alta do Nilo. Como pode referir-se ao mar?

Dillen foi até a tela.

- Nesse ponto, nós começamos a perder palavras inteiras do texto.

Katya leu de novo.

- E depois vinte dromoi ao longo da margem situada ao sul.

- Um dromos equivalia a sessenta estádios, - comentou Dillen. - Cerca de cinqüenta milhas náuticas.

- Isso era, de fato, altamente variável, - disse Jack. Dromos significa 'correr', a distância que uma embarcação podia navegar em um dia enquanto havia sol.

- Provavelmente essa medida variava de um local para outro, - Hiebermeyer refletiu. - De acordo com os ventos, as correntezas e a época do ano, levando em conta as mudanças climáticas sazonais e as horas de luz do dia.

- Precisamente. Uma corrida era uma indicação de quanto tempo levaria para ir de A até B em condições favoráveis.

- Sob o alto bucranion*, o signo do touro, - continuou Katya.

- Ou, chifres do touro, - sugeriu Dillen.

- Fascinante, - disse Hiebermeyer quase para si mesmo. - Um dos símbolos mais sugestivos da pré-história. Nós já os vimos nas fotos que Jack tirou em Cnossos. Eles também aparecem em santuários neolíticos e em todos os palácios da Idade do Bronze no Oriente Próximo. Mesmo mais tarde, no período romano, o bucranium é encontrado em toda parte na arte grandiosa.

Katya assentiu.

- O texto se torna fragmentado agora, mas o professor e eu concordamos em relação ao significado. Será mais fácil entenderem se virem onde a ruptura ocorre.

Ela transformou o projetor em retroprojetor, ao mesmo tempo que colocava uma folha transparente na placa de vidro. A tela mostrava as palavras escritas de forma esmerada debaixo da forma em V da parte inferior do papiro.

- Depois você chega à cidadela. E mais abaixo está situada uma vasta planície dourada, as bacias profundas, os lagos salgados, até onde os olhos podem alcançar. E duzentas existências atrás Posêidon descarregou sua vingança sobre os atlantes por ousarem viver como deuses. A catarata desmoronou, a grande porta de ouro da cidadela foi cerrada para sempre, e a Atlântida foi tragada pelas ondas. - Ela fez uma pausa. - Acreditamos que estas últimas sentenças eram uma forma de ligar a história com a destruição da terra de Keftiu. Talvez o tema do sumo sacerdote fosse a fúria do deus do mar, a vingança de Posêidon contra os homens por causa de sua arrogância.

Ela apontou o indicador a laser para a tela.

- A parte seguinte era, provavelmente, o início de uma descrição detalhada da Atlântida. Infelizmente há apenas algumas palavras desconectadas. Aqui, achamos, está escrito casa dourada ou muralha dourada. E aqui vocês podem ler, nitidamente, as letras gregas que indicam pirâmide. A frase completa se traduz como imensas pirâmides de pedra? Ela olhou de maneira interrogativa para Hiebermeyer, que estava demasiado atordoado para fazer algum comentário e podia apenas olhar estupidamente para a tela.

- E depois estas palavras finais. - Ela apontou para a ponta rasgada do documento. - Morada dos deuses, talvez salão dos deuses, que de novo é kata houkeros, que significa sob o signo do touro. E aqui termina o texto.

Hiebermeyer foi o primeiro a falar, sua voz tremendo de excitação.

- Certamente isso decide o assunto. A viagem através das ilhas até um lugar onde o mar se estreita. Isso só pode significar para o oeste a partir do Egito, passando pela Sicília até o Estreito de Gibraltar. - Ele bateu com a mão sobre a mesa enquanto afirmava. - A Atlântida ficava no oceano Atlântico, afinal!

- E a catarata? - perguntou Jack. - O Estreito de Gibraltar não se parece com uma torrente enfurecida.

- E a vasta planície dourada, e os lagos salgados, - acrescentou Katya. - No Atlântico, tudo o que você teria é o mar de um lado, altas montanhas ou deserto do outro.

- A costa sul também é desconcertante, - disse Jack. - Uma vez que não há uma costa sul evidente para o Atlântico, isto implicaria que a Atlântida ficava no Mediterrâneo, e dificilmente posso imaginar uma cidadela na costa estéril do Saara ocidental.

Dillen desprendeu o retroprojetor e preparou o projetor para exibir slides, recarregando as imagens digitais. Uma série de montanhas cobertas de neve ocupou a tela, com um complexo de ruínas aninhadas entre terraços verdejantes no primeiro plano.

- Jack tinha razão ao associar a Atlântida de Platão com a Creta da Idade do Bronze. A primeira parte do texto referia-se claramente aos minoanos e à erupção do Thera. O problema é que Creta não era a Atlântida.

Katya aquiesceu lentamente.

- O relato de Platão é uma combinação.

- Exatamente. - Dillen ficou em pé atrás de sua cadeira, gesticulando enquanto falava. - Temos fragmentos de duas histórias diferentes. Uma descreve o fim de Creta da Idade do Bronze, a terra de Keftiu. A outra é sobre uma civilização muito mais antiga, a da Atlântida.

- A diferença de datas não é ambígua. - Hiebermeyer enxugou o rosto enquanto falava. - O primeiro parágrafo do papiro situa a destruição de Keftiu no reinado de Tutmósis. Ele era um faraó da Décima Primeira Dinastia, no final do século XVI antes de Cristo, exatamente na época em que o Thera entrou em erupção. E para a Atlântida 'duzentas existências', no segundo parágrafo, é, de fato, um cálculo razoavelmente preciso, a duração de uma existência significava cerca de vinte e cinco anos para os historiadores egípcios. - Ele fez um rápido cálculo mental. - Cinco mil anos antes de Sólon, então mais ou menos 5600 antes de Cristo.

- Incrível. - Jack sacudiu a cabeça descrente. - Toda uma época antes das primeiras cidades-Estado. O sexto milênio antes de Cristo ainda era o período neolítico, quando a agricultura era uma novidade na Europa.

- Estou confusa com um detalhe, - disse Katya. - Se essas histórias são tão diferentes, como pode o símbolo do touro figurar de maneira tão destacada nos dois relatos?

- Isto não é um problema, - disse Jack. - O touro não era um símbolo apenas minoano. Desde o início do período neolítico ele representava força, virilidade, domínio sobre a terra. Os arados de bois eram vitais para os antigos fazendeiros. Os símbolos do touro estão em toda parte nas comunidades agrícolas da região.

Dillen olhou de modo pensativo para o papiro.

- Acredito que descobrimos a base para dois mil e quinhentos anos de especulação mal orientada. No fim de seu relato sobre Keftiu, o sumo sacerdote, Amenhotep, assinalou sua intenção para o próximo encontro com Sólon, dando uma amostra do que estava por vir. Queria manter Sólon em um estado de grande expectativa, para assegurar que ele voltasse, dia após dia, até a data-limite permitida pelo calendário do templo. Talvez ele estivesse interessado naquela bolsa cheia de ouro, ou em doações mais generosas. Penso que temos aqui uma antecipação da história da Atlântida, na sentença final do relato de Keftiu.

Jack imediatamente captou a intenção de seu mentor.

- Você quer dizer que na confusão de Sólon a palavra Atlântida pode ter substituído Keftiu sempre que ele recordava a história da destruição dos minoanos.

- Você adivinhou, - aquiesceu Dillen. - Não há nada no relato de Platão para sugerir que Sólon se lembrava de alguma coisa da segunda parte do texto. Nem da catarata, nem da vasta também não lembrava das pirâmides, que seria difícil de esquecer. Alguém deve tê-lo espancado com muita força naquela última noite.

O sol agora estava se pondo, seus raios lançando um matiz rosa sobre as águas do Grande Porto situado abaixo. Eles haviam retornado para a sala de conferência para uma última sessão depois de uma pausa ao meio-dia. Nenhum deles mostrava qualquer sinal de cansaço, apesar das horas que gastaram em torno da mesa com o precioso documento. Todos se mostraram estimulados pelo êxtase da descoberta que revelava uma chave para o passado, capaz de mudar todo o quadro da origem da civilização.

Dillen recostou-se na cadeira e falou.

- E, Jack, em relação àquele símbolo que você disse que já havia visto...

Naquele momento houve uma batida sonora na porta e um jovem adentrou o recinto.

- Perdão, professor, mas isso é muito urgente. Doutor Howard.

Jack levantou-se rapidamente e pegou o celular que o rapaz lhe estendia, indo até a balaustrada em frente ao mar de modo a deixar os demais fora do alcance da sua voz.

- Aqui é Howard.

- Jack, aqui é Costas. Estamos em Alerta Vermelho. Você deve retornar imediatamente ao Seaquest.

 

Jack soltou os comandos e o helicóptero Lynx ainda permaneceu parado no ar, o zumbido normal do rotor reduzido a um barulho de trepidação. Ajustou o áudio em seu fone de ouvido enquanto diminuía aos poucos a pressão que ativava o pedal esquerdo, provocando ao mesmo tempo, na hélice traseira, um repentino solavanco de forma a colocar o helicóptero inclinado lateralmente, para poder apreciar a vista espetacular lá embaixo. Ele se voltou para Costas e ambos olharam atentamente para fora através das portas laterais abertas.

Cerca de mil metros abaixo ficava o fogo que arde lentamente no coração do Thera. Estavam pairando sobre os restos inundados de uma caldeira gigantesca, uma vasta concha escavada com as beiradas denteadas projetando-se acima do mar. Ao redor deles despenhadeiros se erigiam de forma abrupta. Diretamente abaixo se encontrava Nea Kameni, “Novo Queimado”, sua superfície ressecada e sem vida. No centro havia intrigantes colunas de fumaça onde o vulcão mais uma vez estava atravessando a crosta da Terra. Isto era um sinal de advertência, pensou Jack, um prenuncio de destruição, como um touro resfolegando e batendo com as patas antes de um ataque violento.

Uma voz desincorporada chegou através do intercomunicador, uma voz que Jack estava achando cada vez mais irresistível.

- É impressionante, - disse Katya. - As placas da África e da Eurásia atritaram-se aqui para produzir mais terremotos e vulcões do que em qualquer outro lugar sobre a Terra. Não admira que os deuses gregos tivessem uma sina tão violenta. Estabelecer uma civilização aqui é como construir uma cidade sobre a falha de San Andreas.

- Sem dúvida, - replicou Costas. - Mas sem as placas tectônicas o calcário nunca se transformaria em mármore. Não haveria templos, nenhuma escultura. - Ele fez um gesto em direção aos despenhadeiros. - E as cinzas vulcânicas? Que material incrível! Os romanos descobriram que, se adicionassem a ela argamassa de oxido de cálcio, eles obteriam um concreto que se assentava debaixo d'água.

- É verdade, - Katya concedeu. - Os restos vulcânicos também produzem um solo incrivelmente fértil. As planícies ao redor do Etna e do Vesúvio eram o estômago do mundo antigo.

Jack sorriu para si mesmo. Costas era um galanteador e ele e Katya tinham descoberto uma paixão compartilhada por geologia que havia dominado a conversa durante todo o caminho desde Alexandria.

O Lynx estava voando de volta para o Museu Marítimo em Cartago quando Costas recebeu um sinal de emergência de Tom York, o capitão do Seaquest. Costas informou a Jack de imediato e desviou para o sul em direção ao Egito. Naquela tarde, ao lado do porto, ele observou enquanto Jack se despediu rapidamente de Dillen e Hiebermeyer, qualquer desapontamento que eles pudessem sentir estava mascarado pela ansiedade claramente estampada em seus rostos.

Jack ficara sabendo que Katya era uma mergulhadora experiente, assim, quando na varanda ela se aproximou e perguntou-lhe se podia se associar a ele, Jack não viu motivo para recusar.

- É uma oportunidade de me juntar à equipe que está à frente da escavação, - ela havia dito, - para experienciar em primeira mão quais são os problemas com que os modernos arqueólogos se defrontam.

Enquanto isso, sua assistente Olga voltaria, por causa de um negócio urgente, a Moscou.

- Aqui está ele.

O helicóptero se inclinou para a frente, dirigindo o olhar deles para o horizonte oriental. Eles não viam mais Thera e podiam apenas discernir o Seaquest no nevoeiro distante. À medida que se aproximavam, o azul profundo do Mediterrâneo escureceu como que pela passagem de uma nuvem. Costas explicou que era por causa de um vulcão submerso, seu cume se levantando do abismo como um atol gigante.

Jack deu uma leve pancada no intercomunicador.

- Não era aqui que eu esperava encontrar um lugar onde algo importante aconteceu, - disse ele. - O cume do vulcão está trinta metros debaixo da água, em uma região muito profunda para ter sido um recife. Alguma outra coisa fez naufragar nosso navio minoano.

Agora eles estavam diretamente sobre o Seaquest e começaram a descer para o heliporto na popa. As marcas de aterrissagem se tornaram mais visíveis quando o altímetro marcou uma altitude abaixo de mil e quinhentos metros.

- Mas tivemos muita sorte do navio afundar naquele local, em uma profundidade que possibilita o trabalho dos nossos mergulhadores. É o único lugar, num raio de muitos quilômetros, onde o fundo do mar está a uma profundidade menor do que quinhentos metros.

A voz de Katya chegou pelo intercomunicador.

- Você disse que o navio afundou no século XVI antes de Cristo. Isto pode ser apenas uma suposição, mas poderia ter sido pela erupção do Thera?

- Certamente, - exultou Jack. - E, de forma estranha, isto também explica o seu excelente estado de preservação. O navio afundou com um dilúvio repentino e submergiu até cerca de setenta metros abaixo do cume.

Costas falou de novo.

- Provavelmente houve um terremoto alguns dias antes de o vulcão entrar em atividade. Sabemos que os minoanos foram avisados com antecedência e conseguiram partir com a maior parte de seus pertences.

Jack concordou.

- A descarga explosiva teria destruído tudo por quilômetros à sua volta, - continuou Costas. - Mas isso foi apenas o começo. A agitação da água dentro da caldeira teria repercutido de modo horrível, causando tsunamis de cem metros. Eles estavam bastante próximos do Thera e as ondas teriam perdido pouco da sua força. Elas romperiam qualquer navio em seu caminho em pedacinhos, deixando apenas fragmentos destroçados. Nosso navio naufragado subsistiu no fundo do oceano apenas por ter entalado em uma fenda abaixo da profundidade das oscilações das ondas.

O helicóptero pairou a cerca de cem metros acima do Seaquest enquanto Jack esperava permissão para aterrissar. Ele aproveitou a oportunidade para avaliar de maneira crítica o navio que era seu orgulho e sua alegria. Além do heliporto e dos barcos infláveis havia três andares de acomodações capazes de abrigar vinte cientistas e uma tripulação de trinta pessoas. Com 75 metros, o Seaquest tinha quase o dobro do comprimento do Calypso de Cousteau. Ele havia sido construído nos estaleiros da Finlândia que fabricaram as famosas embarcações da classe Akademic para o Instituto Oceanográfico Russo. Como aquelas embarcações, o navio tinha proa e empuxos laterais para capacidade de posicionamento dinâmico, permitindo-lhe conservar-se em uma posição precisa acima do fundo do mar, e um sistema automático de distribuição de lastro para manter a estabilidade através da regulagem do fluxo de água nos seus tanques de lastro. O navio já estava em uso há mais de dez anos e deveria sofrer um reaparelhamento, mas ainda era moderno e vital para a pesquisa da IMU e a exploração ao redor do mundo.

Quando ele empurrou a alavanca de comando para a frente, sua atenção foi atraída por uma silhueta escura no horizonte. Era um outro navio, de porte inferior e sinistro, parado a vários quilômetros da proa do Seaquest.

Todos sabiam para o que estavam olhando. Esta tinha sido a razão pela qual Jack havia sido chamado de volta de Alexandria com tanta urgência. Katya e Costas ficaram em silêncio, suas mentes desviando-se da excitação causada pelos documentos arqueológicos e se voltando para os sérios problemas do presente. Jack cerrou os maxilares com firme determinação enquanto fazia um pouso perfeito dentro do círculo laranja do heliporto. Sua segurança calma camuflava a raiva que se espalhava dentro dele. Sabia que sua escavação seria descoberta, mas não esperava que fosse tão cedo. Seus oponentes tinham acesso ao ex-satélite de vigilância russo, capaz de distinguir o rosto de um homem de uma altura orbital de quatrocentos quilômetros. O Seaquest estava totalmente exposto no céu de verão sem nuvens do Mediterrâneo, e o fato de ele ter ficado parado por vários dias havia obviamente despertado interesse.

- Examine isto. Chegou ontem antes que eu fosse buscá-lo.

Costas conduziu Jack e Katya através do labirinto de mesas no laboratório de conservação do Seaquest. As lâmpadas de tungstênio suspensas sobre os cavaletes lançavam um facho de luz brilhante sobre a cena. Um grupo de técnicos, vestidos de branco, estava ocupado limpando e registrando dezenas de artefatos preciosos que nos últimos dois dias tinham vindo do navio minoano naufragado, preparando-os para a conservação antes de serem exibidos. Aos fundos do laboratório Costas parou ao lado de uma bancada baixa e com cuidado ergueu a cobertura que protegia um objeto de cerca de um metro de comprimento.

Katya susteve a respiração com grande surpresa. Era uma cabeça de touro em tamanho natural, a carne negra feita de esteatita do Egito, os olhos, de lápis-lazúli do Afeganistão, e os chifres, de ouro sólido incrustado de rubis cintilantes da Índia. Um buraco na boca mostrava tratar-se de um ríton, um vaso côncavo de libação para oferendas aos deuses. Um objeto tão suntuoso quanto este devia ter sido usado apenas pelos sumos sacerdotes nas cerimônias mais sagradas do mundo minoano.

- Ele é maravilhoso, - murmurou Katya. - Picasso teria gostado dele.

- Uma peça decorativa brilhante para a exposição, - disse Costas.

- No museu marítimo?, - perguntou Katya.

- Jack reservou uma antiga embarcação de guerra, em um barracão, para armazenar os achados tão estimados do seu navio minoano naufragado. Ele está quase cheio e a escavação mal começou.

A base mediterrânea da IMU era o antigo lugar de Cartago na Tunísia, onde o porto de guerra circular dos fenícios havia sido magnificamente reconstruído. Os barracões usados antigamente para navios a remo agora abrigavam os achados de muitos navios antigos naufragados.

Jack subitamente agitou-se com raiva. Era inconcebível que um artefato inestimável como aquele pudesse cair nas mãos do submundo do crime. Mesmo o refúgio seguro do museu não era mais uma opção. Desde o momento em que aquela silhueta aparecera no horizonte, as freqüentes viagens de ida e volta do helicóptero foram abandonadas. O Lynx tinha uma capacidade acima do normal, o que, na prática, lhe permitia escapar de qualquer outra aeronave do tipo autogiro em distâncias curtas, mas ele era tão vulnerável quanto qualquer aeronave subsônica aos mísseis teleguiados por laser e enviados de um navio. Seus inimigos localizariam o local do desastre com um GPS e recuperariam o material do naufrágio usando veículos submersíveis operados por controle remoto. Qualquer tripulação sobrevivente poderia ser sumariamente executada e os artefatos desapareceriam para sempre após o saque do agressor.

Era uma forma nova e letal de pirataria em alto-mar.

Jack e seus companheiros se dirigiram até a cabine do comandante. Tom York, o comandante do navio, era um sujeito forte, um inglês de cabelos prateados que havia encerrado uma carreira brilhante na Marinha de Guerra como capitão de porta-aviões de aeronaves tipo jumpjet*. À sua frente estava sentado um homem robusto e de boa aparência cujo físico havia sido exercitado como o de um jogador internacional de rúgbi em sua Nova Zelândia natal. Peter Howe passara vinte anos na Marinha Real e no Serviço Aéreo Especial da Austrália e agora era o oficial-chefe de segurança da IMU. Na noite anterior ele pegara um vôo ao sair do centro de operações da IMU em Cornwall, na Inglaterra. Howe havia sido companheiro de Jack desde os tempos de escola e todos os três tinham servido juntos no serviço de inteligência naval.

- Eu não consegui preparar nosso equipamento de alpinismo. - Howe lançou um olhar pesaroso para Jack.

- Sem problemas. - O rosto de Jack se abriu em um sorriso. - Vou conseguir um fretamento aéreo. Encontraremos uma montanha para subir quando isto tudo terminar.

Sobre a mesa havia um transceptor UHF e um mapa do Egeu usado por almirantes. Costas e Katya se espremeram ao lado de York e Howe. Jack permaneceu em pé, a compleição forte obstruindo a porta, e sua fala soou breve e precisa.

- E então, o que aconteceu?

- Trata-se de um novato, - disse Howe. - Seu nome é Aslan.

Katya estremeceu visivelmente, os olhos arregalados e sem querer acreditar.

- Aslan! - Sua voz era apenas audível.

- Você conhece esse homem? - perguntou Jack.

- Sim, eu o conheço. - Ela falava de maneira hesitante. - Aslan, significa Leão. Ele é... - Ela vacilava, seu rosto estava pálido. - Ele é um líder militar, um gângster. O pior.

- Do Cazaquistão, para ser preciso. - Tom York pegou uma fotografia e jogou-a sobre o mapa. - Recebi isto por e-mail da agência de imprensa da IMU, em Londres, alguns minutos atrás.

A foto exibia um grupo de homens em uniformes de combate e roupas islâmicas típicas. O pano de fundo era um panorama de aspecto estéril, com desfiladeiros ressecados pelo sol e acúmulo de pedras na base dos penhascos. Eles seguravam rifles Kalashnikovs, e no chão à sua frente havia altas pilhas de armas russas, desde metralhadoras de calibre pesado até lançadores de granadas RPG.

Não era tanto o arsenal abundante que chamava a atenção deles, tais imagens eram lugar-comum desde os primeiros dias dos mujahedin* no Afeganistão; tratava-se da figura que estava sentada no centro. O homem era de um tamanho impressionante, suas mãos agarravam os joelhos e os cotovelos se projetavam para fora de maneira desafiadora. Em contraste com os uniformes caquis que o rodeavam, ele vestia um manto branco esvoaçante e um fez bem ajustado. Uma sugestão de bigode aparecia de cada lado da boca. O rosto mostrava feições agradáveis, até mesmo bonitas, com o nariz arqueado e as maçãs do rosto salientes como era comum nos nômades da Ásia Central. Os olhos, em suas órbitas afundadas, eram muito negros e fitavam de maneira penetrante.

- Aslan, - disse York. - Seu nome verdadeiro é Piotr Alexandrovich Nazarbetov. O pai era da Mongólia, a mãe é do Quirguistão. Estava baseado no Cazaquistão, mas tem uma praça forte no mar Negro em Abkházia, a província separatista da República da Geórgia. Um ex-acadêmico soviético e ex-professor de História da Arte na Universidade de Bishkek, você acreditaria?

Howe aquiesceu. Esta era sua especialidade.

- Pessoas de todos os tipos têm sido seduzidas pelos enormes lucros do crime nesta parte do mundo. E isso leva alguém especializado em história da arte a conhecer o valor das antigüidades e onde encontrá-las. - Ele olhou para os recém-chegados. - Creio que todos vocês estão familiarizados com a situação no Cazaquistão. - Ele mostrou um mapa que estava atrás dele. - É sempre a mesma história. O Cazaquistão obtém a independência após o colapso da União Soviética. Mas o governo constituído pelo Partido Comunista anterior está no controle. A corrupção é predominante, a democracia, uma farsa. Apesar das reservas de petróleo e do investimento estrangeiro, há um colapso progressivo na segurança interna. Uma rebelião popular dá aos russos uma desculpa para enviarem uma armada, que se retira depois de uma guerra sangrenta. As forças nacionalistas ficam severamente enfraquecidas, e o local vira uma anarquia.

- E depois chegam os chefes militares, - completou Costas.

- Correto. Os insurgentes que antes lutaram juntos contra os russos agora competem entre si para preencher o espaço vazio. Os idealistas dos primeiros dias são substituídos por assassinos e extremistas religiosos. Os mais cruéis assassinos e saqueadores cruzam o país. Eles dividem territórios para si mesmos como se fossem barões medievais, dirigindo seus próprios exércitos e enriquecendo com dinheiro de drogas e armas.

- Eu li em algum lugar que o Cazaquistão é agora o maior produtor mundial de ópio e de heroína, - disse Costas.

Howe concordou.

- E este homem controla a maior parte desse comércio. De acordo com o que dizem, ele é um anfitrião encantador para os jornalistas seus convidados, um estudioso que coleciona arte e antigüidades em um escala prodigiosa. - Fez uma pausa e olhou ao redor da mesa. - E é também um assassino psicopata.

- Há quanto tempo ele tem estado nos observando? - perguntou Jack.

- Eles apareceram dentro do nosso alcance visual há vinte e quatro horas, instantes antes de Costas telefonar para você em Alexandria, - respondeu York. - O SATSURV* já havia nos avisado sobre uma possível intromissão hostil, uma embarcação com aspecto de navio de guerra que não respondia a nenhum sinal de chamada internacional.

- Foi quando vocês mudaram de posição. - O Seaquest agora estava distante duas milhas náuticas do atol onde se dera o naufrágio.

- Fizemos isto depois de colocarmos minas de bolhas de ar no local, - replicou York.

Katya olhou de maneira interrogativa para Jack.

- É uma inovação da IMU, - ele explicou. - Minas miniaturas de contato, do tamanho de bolas de pingue-pongue, unidas por monofilamentos como uma tela de bolhas. Elas são colocadas em funcionamento por sensores fotoelétricos que podem distinguir o movimento de mergulhadores e de submersíveis.

Costas desviou o olhar para York.

- Quais são suas opções?

- O que quer que façamos agora pode ser sem propósito. - A voz de York era fria e destituída de emoção. - Recebemos um ultimato.

Ele entregou a Jack uma folha de papel que havia acabado de chegar por e-mail. Jack examinou rapidamente o texto, seu rosto não deixando transparecer o tumulto que sentia no interior.

- Seaquest, aqui é o Vultura. Partam dentro de dezoito horas ou serão aniquilados.

Costas observou atentamente o papel.

- Não dá para brincar, não é?

Como um aviso houve um terrível som acelerado, semelhante ao de um jato voando baixo, seguido por um estrondo ensurdecedor na proa a estibordo. Tom York voltou-se rapidamente para a portinhola mais próxima no momento exato em que uma coluna de água muito violenta batia contra a vidraça deixando-a borrifada. A bomba não os atingira por pouco.

- Seus bastardos, - disse York por entre dentes cerrados, com a raiva de um oficial naval profissional impotente para responder da mesma forma.

Naquele momento o transceptor começou a emitir ruídos, e furiosamente York acionou o intercomunicador para que todos pudessem ouvir.

- Aqui é o Seaquest, - a voz de York estava quase descontrolada, era praticamente um rosnado. - Deixem claras suas intenções. Câmbio.

Depois de alguns momentos chegou uma voz pelo intercomunicador, sua fala arrastada, os tons guturais eram obviamente russos.

- Boa tarde, capitão York, major Howe e doutor Howard, estou certo? Nossas felicitações. Aqui é o Vultura. - Houve uma pausa. - Vocês foram avisados!

York desligou o aparelho receptor com desgosto e abriu uma tampa ao seu lado. Antes de fazer baixar a alavanca que havia lá dentro, ele olhou para Jack, sua voz estava agora friamente serena.

- Vamos batalhar por posições.

A buzina elétrica soou e depois de alguns minutos o Seaquest havia se transformado de uma embarcação de pesquisa em um navio de guerra. O equipamento de mergulho, que não raro se amontoava desordenadamente no convés, havia sido guardado tão logo o Vultura aparecera em cena. Agora, no porão, na frente da cabine do convés, um grupo de técnicos em seus macacões brancos antichamas estava preparando uma série de armas do Seaquest, entre as quais uma Breda L70 dupla, 40 milímetros, modificada de acordo com especificações da IMU. A sucessora dos renomados Bofors, armas antiaéreas da Segunda Guerra Mundial, a Fast Forty tinha um mecanismo alimentado de maneira dupla que atirava explosivos de alta potência e projéteis que penetravam em couraças blindadas a uma velocidade de 900 tiros por minuto. O compartimento que continha a arma ficava escondido em um alojamento retrátil que se elevava momentos antes do uso.

Na parte debaixo do convés todo o pessoal dispensável estava reunido ao lado do submersível de fuga Netuno II. O submersível atingiria rapidamente as águas do território grego e se encontraria com uma fragata da marinha grega que sairia de Creta dentro de uma hora. Ele também levaria o ríton e outros artefatos que haviam subido do naufrágio depois que o último helicóptero voara para Cartago.

York rapidamente conduziu o grupo por meio de um elevador até um ponto bem abaixo da linha da água, e a porta que se abriu revelou uma antepara de metal curvo cuja aparência era a de um disco voador preso no casco do navio.

York olhou para Katya.

- O módulo de comando. - Ele bateu na superfície lustrosa. - Tem uma espessura de vinte centímetros de aço reforçado com titânio. Esta unidade destacável pode impelir-se para fora do Seaquest e sair sem ser detectada, graças à mesma tecnologia de ação secreta que usamos para o submersível de fuga.

- Penso nele como um gigantesco assento que pode ser ejetado, - sorriu Costas. - Como o módulo de comando dos antigos foguetes sobre a velha lua de Saturno.

- Desde que ele não nos envie para o espaço, - disse Katya.

York falou em um intercomunicador e a escotilha circular se abriu. Uma luz vermelha suave, vinda das baterias dos painéis de controle do outro lado, lançava um brilho sinistro no interior. Eles se abaixaram para passar e York puxou a escotilha atrás deles, girando a roda central até que os braços que prendiam a escotilha se fechassem completamente.

Imediatamente à frente deles, vários tripulantes estavam ocupados preparando munição para armas de pequeno porte, inserindo balas nos pentes e montando armas. Katya foi até lá e pegou um rifle e um pente, carregando-o habilmente e armando o gatilho da arma.

- Este é um Enfield SA80 Mark 2”, - anunciou ela. - Uma arma da armada britânica. Pente com trinta balas, calibre 5,56 milímetros. Coronha tipo Bullpup, na frente do pente, versátil para espaços pequenos. - Examinou atentamente ao redor. - O infravermelho de quatro alcances é um excelente recurso, mas dê-me o novo Kalashnikov AK102 qualquer dia. - Ela removeu o pente para balas e checou que a câmara estivesse vazia antes de recolocar a arma no armeiro.

Ainda em seu elegante vestido negro que havia usado na conferência, Katya parecia uma figura algo incongruente com o local, refletiu Jack, mas ela obviamente mostrava habilidades mais do que adequadas para lutar em uma batalha.

- Você é uma dama notável, - disse Costas. - Primeiro uma especialista mundial em manuscritos gregos antigos, agora uma instrutora militar em armas de pequeno porte.

- De onde eu venho, - Katya respondeu, - é a segunda qualificação que conta.

Enquanto se dirigiam para o arsenal, York olhou para Jack.

- Devemos decidir nosso método de ação agora.

Jack concordou.

York os conduziu por um pequeno lance de escadas até uma plataforma de cerca de cinco metros. Ele se dirigiu até um semicírculo de cadeiras giratórias diante de uma bateria de estações de trabalho distribuídas ao longo de uma superfície.

- O terminal de controle da ponte de comando, - disse York para Katya. - Ele serve como um comando central e uma ponte de comando de realidade virtual, permitindo que naveguemos o Seaquest usando a vigilância e os sistemas de visualização da parte superior do navio.

Acima deles uma tela côncava exibia uma reprodução digital panorâmica da vista da ponte de comando do Seaquest. As câmaras estavam equipadas com sensores infravermelhos e de visualização térmica, de modo que mesmo ao anoitecer eles ainda podiam distinguir a forma baixa do Vultura e a marca de fogo desbotada de sua torre rotatória blindada, na parte anterior, de onde saíam os canos de canhão.

York voltou-se para Howe.

- Peter deseja rever nossas opções de segurança.

Peter Howe olhou tristemente para os outros.

- Eu não vou fazer rodeios. Nossa condição é ruim, realmente ruim. Estamos enfrentando um navio de guerra especialmente construído, armado até os dentes com o que há de mais moderno, capaz de derrotar e fugir de praticamente qualquer navio ou embarcação da guarda costeira designada para lidar com este tipo de ameaça.

Jack voltou-se para Katya.

- A orientação política da IMU consiste em confiar nas nações amigas nesse tipo de situação. A presença de navios de guerra e aeronaves não raro é suficientemente intimidadora mesmo que eles estejam fora das águas territoriais e sejam legalmente incapazes de intervir.

Howe bateu em uma tecla e a tela acima deles mostrou o mapa do mar Egeu usado por almirantes.

- Os gregos não podem deter o Vultura ou afugentá-lo. Mesmo entre as ilhas ao norte ele pode encontrar uma rota mais do que seis milhas náuticas longe da praia, e os estreitos dentro do mar Negro são considerados águas internacionais. Os russos se asseguraram disso. O Vultura tem um retorno desimpedido para o seu porto natal em Abkházia.

Howe apontou um indicador luminoso para a posição atual deles na parte inferior do mapa.

- Durante esta noite a Marinha helênica terá fragatas posicionadas aqui, aqui e aqui. - Ele iluminou ao norte e a oeste do vulcão submerso. - O ponto mais perto é logo abaixo das seis milhas náuticas a sudeste do Thera, quase dentro do alcance visual do Seaquest. Mas eles não se aproximarão mais do que isto.

- Por que não? - perguntou Katya.

- Por causa de uma coisa maravilhosa chamada política. - Howe virou-se para olhá-los. - Estamos em águas disputadas. Poucas milhas ao leste existem ilhotas desabitadas reivindicadas tanto por turcos como por gregos. A disputa levou-os a uma ameaça de guerra. Nós informamos os turcos sobre o Vultura, mas a política determina que o seu foco são os gregos, não alguns cazaques renegados. A mera presença de navios de guerra gregos nesta área é suficiente para pôr o Comando Turco de Defesa Marítima em alerta máximo. Uma hora atrás quatro aeronaves F16 da Força Aérea Turca sobrevoaram um perímetro de uma extensão de cinco milhas ao leste. Os gregos e os turcos sempre foram amigos da IMU, mas agora eles estão impotentes para intervir.

Howe mudou a imagem e a tela voltou a exibir a vista exterior do Seaquest.

York levantou-se e começou a andar entre as cadeiras, as mãos firmemente agarradas atrás das costas.

- Não podemos nunca lutar contra o Vultura com a esperança de ganhar. Não podemos contar com ajuda externa. Nossa única opção é aceder aos seus pedidos, abandonar imediatamente o lugar e desistir do navio naufragado. Como capitão devo pôr a segurança da tripulação em primeiro lugar.

- Podemos tentar negociar, - propôs Costas.

- Isto está fora de questão! - York bateu com força sobre o painel de controle, demonstrando a tensão vivida nas últimas horas. - Estas pessoas só querem negociar frente a frente e em seus próprios termos. Aquele que for até o Vultura imediatamente se tornará um refém. Eu não arriscarei a vida de nem um único membro da minha tripulação nas mãos desses assassinos.

- Deixe-me tentar.

Todos eles olharam para Katya, seu rosto se mostrava impassível.

- Eu sou a única opção de vocês, - ela disse calmamente. - Eu sou de um partido neutro. Aslan não teria nada a ganhar me prendendo como refém e teria tudo a perder nas suas relações com o governo russo. - Ela fez uma pausa, depois falou com voz mais forte. - As mulheres são respeitadas no meio de seu povo. E minha família tem influência. Posso mencionar alguns nomes que serão de grande interesse para ele.

Houve um grande silêncio enquanto os outros digeriam suas palavras. Jack tentava não deixar suas emoções se imiscuírem enquanto considerava todas as possibilidades. Ele queria evitar colocá-la em perigo, mas sabia que ela tinha razão. A expressão dela confirmava que ele tinha pouca escolha.

- Está bem, - Jack levantou-se. - Eu convidei Katya para nos acompanhar, então a responsabilidade é minha. Escolham um canal seguro e coloquem-me em contato com o Vultura!

 

Jack levantou o binóculo e posicionou-o até focalizar a mancha longínqua que era o único ponto de referência entre o mar e o céu. Muito embora estivesse escuro agora, ele podia distinguir cada detalhe do navio distante, o realce ótico intensificando a luz disponível para dar uma imagem tão clara como se fosse de dia. Ele até podia ler as letras do alfabeto cirílico abaixo da proa.

Vultura[2]. Quão apropriado, ele pensou. O navio era exatamente isto, um urubu horrendo à espreita, ao redor da zona de extermínio, até o momento certo de agarrar a presa e devorar os frutos do trabalho alheio.

Tom York colocou-se ao lado do companheiro.

- Projeto 911, - disse ele, seguindo o olhar de Jack. - Os russos os chamam de navios de escolta, o equivalente às corvetas e fragatas no código da OTAN. Este é o último, produzido depois dos eventos de 2002 para patrulhamento antiterrorista. Quase do mesmo tamanho de nossos navios classe Sea, porém um pouco mais sofisticados. Todo o maquinado é feito com uma outra liga. Turbinas de diesel-gás GT de duas toneladas produzindo 52.000 cavalos-vapor para uma velocidade de cruzeiro de 36 nós. Turbojatos propulsores capazes de atingir, por meio de hidrofólios, velocidades de 60 nós, acima da superfície da água, são quase tão rápidos quanto uma aeronave leve. O Vultura é um dentre meia dúzia de navios que foram postos fora de uso quando a Marinha russa passou pela última redução em sua frota. O Tratado de Oslo exige que a Federação Russa venda navios de guerra excedentes apenas para governos reconhecidos pelas Nações Unidas, então o Vultura deve ter sido adquirido em algum negócio obscuro antes que ele deixasse o estaleiro.

Jack mirou o binóculo nos turbojatos acoplados de cada lado da popa do Vultura, depois o moveu ligeiramente para incluir a torre rotatória blindada, na parte anterior, com seu cano de canhão dirigido diretamente para eles.

York percebeu seu movimento.

- Canhão automático Tulamahzadov, 130 milímetros. Calibragem do alcance de tiro por GPS computadorizado que faz ajustes instantâneos conforme o impacto. Capacidade de atirar um projétil que pode penetrar em casco destituído de urânio e que abriria um buraco na cabine de comando do Seaquest a uma distância de vinte milhas.

Eles estavam em pé no heliporto do Seaquest, a brisa fria fazendo tremular suavemente a bandeira da IMU na popa. Observaram ansiosamente enquanto Katya, agora vestida de maneira mais apropriada, com um macacão especial da IMU, dirigiu um dos Zodiacs do Seaquest na escuridão, o duplo 90 cavalos-vapor, com capacidade para transportá-la até o Vultura em questão de minutos. Antes que ela descesse as escadas, Jack a havia chamado de lado e, tranqüilamente, repassara mais uma vez a operação do Zodiac e repetira as instruções de Howe e de York sobre seu possível curso de ação se tudo desse errado.

Ela tinha partido havia apenas vinte minutos e já a espera parecia interminável. Costas decidiu fazer uma teleconferência com Dillen e Hiebermeyer para ocupar a mente de Jack de modo mais produtivo, e os dois homens entraram na sala de navegação atrás da ponte de comando do Seaquest.

Costas deu um comando e o monitor na frente deles se pôs a funcionar, revelando duas figuras tão nitidamente como se elas estivessem sentadas do lado oposto da mesa. Jack aproximou-se de Costas para que a imagem deles fosse projetada de maneira similar. Eles iam perder a perícia de Katya, mas uma teleconferência parecia ser a maneira óbvia de decidir o modo de proceder. Dillen e Hiebermeyer tinham ficado em Alexandria para esperar notícias do Seaquest, e Costas já os havia posto a par sobre a ameaça apresentada pelo Vultura.

- Professor. Maurice. Saudações.

- É bom vê-lo de novo, Jack, - disse Dillen. - Eu gostaria de recomeçar onde havíamos parado, com estes símbolos.

Tocando uma tecla eles tiveram acesso a um conjunto de imagens que haviam sido escaneadas antes. No canto inferior direito do monitor eles viam agora a descoberta triunfante de Costas, o extraordinário disco de ouro do naufrágio do navio minoano. Os estranhos símbolos, na superfície, haviam sido aumentados digitalmente para que pudessem estudá-los com maior cuidado.

Hiebermeyer inclinou-se para a frente.

- Você disse que já havia visto antes este desenho central, Jack.

- Sim. E aqueles símbolos circundando a beirada, as pequenas cabeças e remos de pá larga e assim por diante. Eu me dei conta de repente de onde eles estavam, quando voávamos saindo de Alexandria. Os discos de Phaistos.

Costas olhou de modo inquiridor enquanto Jack chamava, à tela do computador, a imagem de dois discos de cerâmica, ambos parecendo idênticos e cobertos por uma faixa em espiral de símbolos em miniatura. Um dos símbolos se parecia de maneira extraordinária com o desenho no papiro e no disco de ouro. O resto parecia sobrenatural, especialmente as pequenas cabeças com narizes encurvados e cabelos cortados como os indígenas da tribo dos moicanos.

- Asteca? - arriscou Costas.

- Bela tentativa, mas não, - replicou Jack. - De muito mais perto de casa. Da Creta minoana.

- O disco à esquerda foi encontrado perto do palácio de Phaistos quase cem anos atrás. - Dillen pressionou uma tecla enquanto falava, o projetor mostrou repentinamente a imagem de um amplo átrio de pedra de onde se tinha a visão panorâmica de uma planície com montanhas cobertas de neve ao fundo. Depois de um instante a imagem voltou para os discos. - Ele é de argila, cerca de dezesseis centímetros de diâmetro, e os símbolos estão impressos nos dois lados. Muitos são idênticos, gravados com o mesmo molde.

Dillen aumentou o disco do lado direito.

- Este surgiu durante as escavações francesas do ano passado.

- Data? - perguntou Hiebermeyer.

- O palácio foi abandonado no século XVI antes de Cristo, depois da erupção do Thera. Ao contrário de Cnossos, ele nunca foi habitado de novo. Então, os discos podem ter sido perdidos na mesma época que a do naufrágio que vocês estão investigando.

- Mas eles podem datar de antes, - sugeriu Jack.

- De muito antes. - A voz de Dillen tinha agora um familiar tom impaciente que denotava excitação. - Costas, o que você conhece sobre datação termoluminescente?

Costas pareceu perplexo, mas replicou com entusiasmo.

- Se você enterrar cristais minerais eles absorvem gradualmente isótopos radioativos do material que os rodeia até atingir o mesmo nível de radiação. Se depois aquecer o mineral, os elétrons aprisionados são emitidos como termoluminescência. - Costas começou a adivinhar para onde as questões estavam levando. - Quando você queima a argila, ela emite TL* armazenada, fazendo com que o medidor de TL volte ao zero. Enterre a cerâmica e de novo ela começa a reabsorver isótopos em uma certa proporção. Se conhecer esta proporção, bem como o nível de TL do sedimento circundante, você pode datar a argila esquentando-a e medindo a emissão de TL.

- Como isso se faz precisamente? - perguntou Dillen.

- Os últimos refinamentos em luminescência estimulada oticamente nos permitem retroceder por quinhentos anos, - replicou Costas. - Esta é a data para o material queimado na fornalha dos primeiros lugares habitados pelo homem de Neandertal na Europa. Para a cerâmica queimada em forno, que apareceu pela primeira vez no quinto milênio antes de Cristo no Oriente Próximo, a combinação TL-OSL* pode datar um fragmento de algumas centenas de anos se as condições estiverem corretas.

Costas desenvolveu uma perícia formidável em ciência arqueológica desde que se juntou à IMU, estimulado por suas convicções de que muitas das questões que Jack colocava sobre o passado distante poderiam um dia ser resolvidas por uma ciência sólida.

- O segundo disco, o que foi descoberto no ano passado, foi queimado. - Dillen pegou uma folha de papel enquanto falava. - Um fragmento foi enviado ao Laboratório de Termoluminescência de Oxford para análise, usando uma nova técnica de estrôncio que pode determinar a data da queima com uma maior precisão. Acabo de receber os resultados.

Os outros olharam cheios de expectativa.

- Com uma probabilidade de erro de cem anos para mais ou para menos, este disco foi queimado em 5500 antes de Cristo.

Ouviu-se um suspiro coletivo de grande surpresa.

- Impossível, - ofegou Hiebermeyer.

- Isto é apenas pouco antes do naufrágio que estamos escavando, - murmurou Costas.

- Apenas quatro mil anos antes, - disse Jack calmamente.

- Dois milênios e meio antes do palácio de Cnossos, - Hiebermeyer ainda estava sacudindo a cabeça. - Apenas alguns séculos depois que os primeiros agricultores chegaram a Creta. E se isto está escrito, então esta é a primeira escrita conhecida durante dois mil anos. O cuneiforme do Oriente Próximo e os hieróglifos egípcios não aparecem até o final do quarto milênio antes de Cristo.

- Parece incrível, - replicou Dillen. - Mas logo vocês verão por que estou convencido de que é verdade.

Jack e Costas olharam atentamente a tela enquanto Dillen colocava um CD-ROM em seu laptop e o ligava ao projetor multimídia. Os desenhos dos discos de cerâmica foram substituídos por símbolos dispostos em colunas, cada uma diante de grupos aglomerados como palavras. Eles podiam ver que Dillen havia aplicado a mesma técnica de análise que usara para estudar o manuscrito grego no papiro.

Jack reativou o módulo de teleconferência e de novo ficaram face a face com Dillen e Hiebermeyer, distantes duas mil milhas em Alexandria.

- Estes são símbolos dos discos de Phaistos, - disse Jack.

- Correto. - Dillen pressionou uma tecla e os dois discos reapareceram, dessa vez no canto esquerdo inferior. - O fato que mais deixou os estudiosos confusos é que os discos são, na verdade, idênticos, exceto em um aspecto crucial. - Ele moveu o cursor para iluminar vários aspectos. - Por um lado, no que eu chamo de anverso, os dois discos têm exatamente cento e vinte e três símbolos. Ambos estão divididos em trinta e um arranjos, cada um deles compreendendo de dois a sete símbolos. O menu, podemos chamar assim, é o mesmo, compreendendo quarenta e cinco símbolos diferentes. E a freqüência é idêntica. Desse modo, a cabeça de um índio da tribo dos moicanos aparece treze vezes, o homem marchando seis vezes, o couro de boi esfolado onze vezes, e assim por diante. É a mesma história no reverso, exceto o fato de que contém trinta palavras e cento e dezoito símbolos.

- Porém a ordem e os arranjos são diferentes, - assinalou Jack.

- Precisamente. Olhe para o primeiro disco. O homem andando mais árvore, três vezes. O disco solar mais a cabeça do índio da tribo dos moicanos, oito vezes. E duas vezes toda a seqüência de flecha, bastão, remo de pá larga, canoa, couro de boi e cabeça humana. Nenhum desses arranjos ocorre no segundo disco.

- É estranho, - murmurou Costas.

- Acredito que os discos foram mantidos juntos como um par, um legível e o outro sem significado. Seja quem for que tenha feito isto estava tentando sugerir que os tipos, o número e a freqüência dos símbolos eram o que importava, e não suas associações. Foi um artifício, uma maneira de distrair a atenção do arranjo dos símbolos, de dissuadir o curioso de procurar significado na seqüência.

- Mas certamente existe um significado nisso, - interrompeu Costas com impaciência. Ele pressionou o mouse para iluminar combinações no primeiro disco. - Canoa ao lado de remo de pá larga. Homem andando. Homem da tribo dos moicanos sempre olhando na mesma direção. Feixe de milho. O símbolo circular, provavelmente o Sol, em metade dos arranjos. É uma espécie de viagem, talvez não uma viagem real, mas uma jornada através do ano, mostrando o ciclo das estações.

Dillen sorriu.

- Esta é precisamente a linha adotada pelos estudiosos que acreditam que o primeiro disco contém uma mensagem, que ele não é apenas decorativo. Ele parece oferecer mais significado do que o segundo disco, a seqüência de imagens é mais lógica.

- Mas, e daí?

- Porém isto pode fazer parte do artifício. O criador do primeiro disco pode ter emparelhado deliberadamente símbolos que parecem combinar, como o remo de pá larga e a canoa, na esperança de que as pessoas tentariam decifrar os discos dessa maneira

- Mas certamente remo de pá larga e canoa combinam, - protestou Costas.

- Só se você assumir que eles são pictogramas, nesse caso remo de pá larga significa remo de pá larga, canoa significa canoa. Combinar remo de pá larga com canoa significa andar por água, viajar por mar, movimento.

- Os pictogramas foram a primeira forma de escrita, - acrescentou Hiebermeyer. - Mas mesmo os primeiros hieróglifos egípcios não eram todos pictogramas.

- Um símbolo também pode ser um fonograma, em que o objeto representa um som, não uma coisa ou uma ação, - continuou Dillen. - Em inglês podemos usar um remo de pá larga para representar a letra P, ou a sílaba pa?

Costas concordou lentamente.

- Então você quer dizer que os símbolos podem ser uma espécie de alfabeto?

- Sim, embora não no sentido estrito da palavra. A primeira versão do nosso alfabeto foi a língua hebraica do Norte, precursora do alfabeto fenício do segundo milênio antes de Cristo. O aspecto inovador era um símbolo diferente para os sons de cada uma das principais vogais e das consoantes. Os sistemas anteriores tendiam a ser silábicos, cada símbolo representando uma vogal e uma consoante. É assim que interpretamos a escrita linear A dos minoanos e a linear B dos micênios. - Dillen pressionou uma tecla e a tela voltou a exibir o disco de ouro. - O que nos traz de volta para o achado no naufrágio.

A imagem foi ampliada para mostrar o misterioso símbolo profundamente gravado no centro do disco de ouro. Depois de uma pausa juntou-se a ele uma outra imagem, uma placa preta irregular coberta com três faixas de escrita primorosamente espaçadas.

- A Pedra de Roseta? - Hiebermeyer parecia perplexo.

- Como você sabe, a armada de Napoleão na campanha do Egito em 1804 incluía uma legião de estudiosos e de desenhistas. Esta foi a sua descoberta mais sensacional, encontrada perto da antiga Sais no braço Roseta do Nilo. - Dillen iluminava cada parte do texto, alternadamente, começando do alto. - Hieróglifos egípcios. Egípcio popular. Grego helênico. Vinte anos mais tarde um filólogo chamado Champollion percebeu que estas eram traduções da mesma narrativa, um decreto trilíngüe editado por Ptolomeu V em 196 antes de Cristo, quando os gregos controlavam o Egito. Champollion utilizou o seu conhecimento do grego antigo para traduzir os outros dois textos. A Pedra de Roseta era a chave para decifrar os hieróglifos. - Dillen pressionou uma tecla e a pedra desapareceu, a tela voltou a exibir a imagem do disco de ouro. - Ignorem o desenho no centro, por enquanto, e concentrem-se nos símbolos ao redor da beirada. - Ele iluminou cada uma das três faixas alternadamente, do exterior para o interior. - Linear B dos micênios. Linear A dos minoanos. Os símbolos de Phaistos.

Jack já havia adivinhado até aí, mas a confirmação ainda fez seu coração disparar com excitação.

- Senhores, temos a nossa própria Pedra de Roseta.

Durante os minutos seguintes, Dillen explicou que os micênios que controlaram Creta, depois da erupção do Thera, originalmente não possuíam escrita própria e haviam tomado emprestado os símbolos linear A dos marinheiros minoanos que comerciavam com o continente grego. Sua escrita, linear B, foi brilhantemente decifrada, logo depois da Segunda Guerra Mundial, como uma versão antiga do grego. Mas a linguagem dos minoanos permaneceu um mistério até o início daquele ano, quando o maior esconderijo de tábuas com escrita linear A foi descoberto em Cnossos. Por muita sorte, várias das tábuas eram bilíngües e tinham também a escrita linear B. Agora o disco de ouro oferecia a extraordinária possibilidade de também decifrar os símbolos dos discos de Phaistos.

- Não há símbolos de Phaistos em Cnossos e não há texto bilíngüe para eles, - explicou Dillen. - Eu supus que ela seria uma linguagem perdida, uma bem diferente do minoano ou do grego micênio.

Os outros ouviam sem interromper enquanto Dillen trabalhava metodicamente com os símbolos linear A e linear B no disco de ouro, mostrando sua consistência com outros exemplos de escrita da Creta da Idade do Bronze. Ele havia disposto todos os símbolos em fileiras e em colunas para estudar sua concordância.

- Eu comecei com o primeiro dos discos de Phaistos, aquele encontrado cem anos atrás, - disse Dillen. - Assim como vocês, pensei que este, provavelmente, seria mais inteligível.

Dillen digitou no teclado e todos os trinta e quatro grupos de símbolos do lado anverso apareceram com a respectiva tradução fonética debaixo deles.

- Aqui está, leitura feita do centro para fora seguindo a direção do homem caminhando e os símbolos de rosto, como a lógica parece ditar.

Jack examinou rapidamente as linhas.

- Não reconheço nenhuma palavra linear nem vejo nenhuma das combinações familiares de sílabas.

- Temo que você esteja certo. - Dillen pressionou as teclas de novo e um outro dos trinta e quatro arranjos apareceu na parte inferior da tela. - Aqui está uma leitura feita de trás para a frente, em espiral da beirada para o centro. É a mesma história. Absolutamente nada.

A tela ficou vazia e houve um breve silêncio.

- E o segundo disco? - perguntou Jack.

A expressão de Dillen revelou muito pouco, apenas um vestígio de sorriso traindo sua excitação. Ele pressionou as teclas e repetiu o exercício.

- Aqui está, em espiral para fora.

O coração de Jack quase sofreu um colapso quando novamente não reconheceu nada nas palavras. Depois começou a ver pares que pareciam estranhamente familiares.

- Há alguma coisa aqui, mas não está muito claro.

Dillen permitiu que ele olhasse durante mais um instante para a tela.

- De volta para o anterior, - ele estimulou.

Jack olhou para a tela de novo mais atentamente e de repente bateu com força a mão sobre a mesa.

- É claro!

Dillen não pôde se conter por mais tempo e sorriu abertamente, enquanto pressionava mais uma vez a tecla e a seqüência aparecia na ordem inversa. Jack inspirou de modo audível quando percebeu, de imediato, aquilo que eles estavam procurando.

- Extraordinário, - ele murmurou. - Este disco data de mais de dois mil anos antes do início da Idade do Bronze. No entanto esta é a linguagem da escrita linear A, a linguagem de Creta na época do naufrágio que estamos escavando. - Ele mal podia acreditar no que estava dizendo. - Ele é minoano.

Naquele momento o intercomunicador emitiu um estalido no Seaquest e interrompeu a conversa.

- Jack, venha imediatamente até o tombadilho. Há atividade no Vultura. - O tom de voz de Tom York demonstrava urgência.

Jack levantou-se imediatamente sem dizer palavra e correu até a ponte de comando, com Costas logo atrás dele. Depois de alguns segundos os dois homens estavam ao lado de York e de Howe, seu olhar dirigido para a luz fraca das lâmpadas distantes no horizonte.

No mar à frente havia uma ligeira agitação, um turbilhão de gotículas que rapidamente foi reconhecido como o Zodiac do Seaquest. Logo eles puderam distinguir Katya ao volante, seu cabelo comprido esvoaçando ao vento. Jack segurou com força o parapeito e as ansiedades das últimas horas foram subitamente substituídas por uma sensação de alívio. Graças a Deus ela estava bem.

Costas olhou para o amigo com afeto. Ele o conhecia muito bem para saber que toda a vida emocional de Jack estava rapidamente sendo envolvida pela pesquisa deles.

À medida que o barco se aproximava e os motores diminuíam seu funcionamento, o ar preencheu-se com um novo som, o ruído abafado de motores diesel à distância. Jack agarrou o telescópio noturno e ajustou-o mirando o horizonte. A estrutura cinzenta do Vultura ocupou a imagem, que revelou seu casco baixo e ameaçador. De repente uma onda branca apareceu na popa, um vagalhão gigante tornou-se brilhante pela fosforescência provocada pelo deslocamento do navio. Vagarosa e indolentemente, como o despertar de um animal que não tem nada a temer, o Vultura fez uma grande curva e desapareceu na escuridão, e seu rastro permaneceu como a fumaça de um foguete mesmo depois do navio ter sido engolido pela noite.

Jack abaixou o telescópio e olhou para a silhueta que acabava de pular graciosamente sobre o parapeito. Ela sorriu e acenou. Jack falou em voz baixa, suas palavras audíveis apenas para Costas ao seu lado.

- Katya, você é um anjo.

 

O helicóptero abaixou rápido sobre as montanhas costeiras da Turquia ocidental, seu rotor reverberando nas baías profundas que recortavam a costa. Para o leste a aura rosada da nova aurora revelava os contornos escarpados do platô da Anatólia, e através do Egeu as formas fantasmagóricas das ilhas mal podiam ser vistas através da bruma da manhã.

Jack soltou a coluna de controle do Lynx e ligou o piloto automático. O helicóptero infalivelmente seguiria o curso que ele havia planejado no seu computador náutico, conduzindo-os para o seu destino programado, quase quinhentas milhas náuticas em direção ao nordeste.

Uma voz familiar chegou pelo intercomunicador.

- Há algo que eu não compreendo sobre o disco de ouro, - disse Costas. - Estou admitindo que ele foi feito por volta de 1600 antes de Cristo, pouco antes do naufrágio. No entanto, o único paralelo para aqueles símbolos, que estão na faixa exterior, data de quatro mil anos antes, no segundo disco de Phaistos, de Creta.

Katya se juntou a eles.

- É espantoso que a linguagem da Creta da Idade do Bronze já fosse falada pelos primeiros colonos neolíticos na ilha. A decifração do professor Dillen revolucionará nosso retrato sobre as origens da civilização grega.

Jack ainda se sentia orgulhoso pelo sucesso de Katya ao neutralizar o confronto com o Vultura na noite anterior. A libertação deles tinha sido uma espécie de pequeno milagre e ele sabia disso. Ela disse que mostrara para Aslan retratos do naufrágio romano que Jack havia tirado durante o mergulho da semana anterior e o havia convencido de que tudo o que fora encontrado eram ânforas de cerâmica, que não valia a pena se interessar pelo navio naufragado e que o Seaquest se encontrava na região apenas para testar um novo equipamento de mapeamento.

Jack estava certo de que Katya não contara tudo, de que havia mais do que ela queria ou era capaz de dizer. Tinha-lhe feito inúmeras perguntas, mas ela permanecera de boca fechada. Ele conhecia muito bem o mundo sombrio dos acordos e contra-acordos, das permutas que a máfia fazia e do suborno no qual os cidadãos da antiga União Soviética eram obrigados a operar. Katya podia certamente ter feito o seu próprio acordo com eles.

A ansiedade corrosiva escondida durante a teleconferência enquanto ela ficara fora, tinha se transformado em um enorme prazer em dar prosseguimento aos trabalhos. Quando voltou, Katya recusou-se a descansar e juntou-se a Jack e Costas enquanto eles estudavam atentamente o plano do naufrágio e o estágio seguinte da escavação; embora tarde da noite, o entusiasmo agora os motivava, uma vez que sabiam não haver impedimentos a que o projeto seguisse seu curso.

Foi só a garantia de Katya de que o Vultura não iria retornar que havia persuadido Jack a empreender esse vôo matinal. Esta deveria ser uma visita de rotina, uma inspeção planejada ao irmão do Seaquest, o navio Sea Venture, no mar Negro, mas agora havia um estímulo especial em razão dos relatos de uma descoberta que começara na costa norte da Turquia.

- O que nenhum de vocês sabe, - disse Jack, - é que agora temos uma data confiável para o disco de ouro. Ela chegou por e-mail enquanto vocês dormiam. - Ele entregou um pedaço de papel a Costas, que estava no assento do co-piloto. Depois de um instante ouviu-se um grito de alegria.

- Data por hidratação! Eles conseguiram! - Costas, sempre mais à vontade com as certezas da ciência do que com as teorias que parecem nunca conseguir chegar a qualquer conclusão exata, estava em seu elemento. - É uma técnica refinada na IMU, - explicou ele a Katya. - Alguns minerais absorvem uma quantidade minúscula de água em sua superfície com o passar do tempo. A hidratação da crosta se desenvolve de novo em superfícies que foram cinzeladas ou formadas pelo homem, e assim pode ser usada para datar pedras e artefatos de metal.

- O exemplo clássico é a obsidiana, - acrescentou Jack. - A pedra vulcânica vítrea é encontrada no Egeu apenas na ilha de Meios. Utensílios de obsidiana, encontrados em locais onde caçadores se reuniam no continente grego, foram datados por hidratação em 12000 antes de Cristo, a fase final da Idade do Gelo. Esta é a primeira evidência de comércio marítimo no mundo antigo.

- A datação por hidratação do ouro só foi possível mediante um equipamento de alta precisão, - disse Costas. - A IMU ganhou a liderança nesse tipo de pesquisa em razão do número de vezes que encontramos ouro.

- Qual é a data? - perguntou Katya.

- As três faixas de símbolos foram impressas no meio do segundo milênio antes de Cristo. A data estimada é 1600 antes de Cristo, podendo haver um erro de cem anos a mais ou a menos.

- Isto coincide com o naufrágio!, - exclamou Katya.

- Dificilmente poderia ser muito antes, - salientou Jack. - A faixa interior está escrita em micênio linear B, que só foi desenvolvido em torno daquela época.

- Mas esta é apenas a data dos símbolos, a data em que eles foram gravados no metal. Ela vem da hidratação da crosta nos próprios símbolos. - Costas falou com uma excitação mal contida. - O próprio disco é mais velho. Muito mais velho. E o símbolo central encontrava-se no molde original. Alguém quer adivinhar? - Ele mal parou de falar.

- Ele data de 6000 antes de Cristo.

Era uma brilhante manhã de domingo, a vista estendia-se desimpedida em todas as direções. Eles estavam sobrevoando o promontório noroeste da Turquia em direção a Dardanelos, o estreito canal que divide a Europa da Ásia. Para o oeste ele se amplia no mar de Mármara antes de se reduzir no Bósforo, o estreito que conduz ao mar Negro.

Jack fez um leve ajuste no piloto automático e olhou sobre o ombro de Costas. Galípoli estava claramente visível, a grande faixa de terra que se sobressaía no Egeu e definia a costa norte de Dardanelos. Imediatamente abaixo deles situava-se a planície de Hissarlik, local da lendária Tróia. Eles estavam em um vórtice da história, um lugar onde o mar e a terra se estreitavam para dirigir para um ponto focal os imensos deslocamentos de pessoas do sul para o norte e do leste para o oeste, do tempo dos primeiros hominídeos até o aparecimento do Islã. A paisagem tranqüila contradizia a verdade dos conflitos sangrentos que essa movimentação gerou, desde o cerco de Tróia até a carnificina em Galípoli três mil anos mais tarde, durante a Primeira Guerra Mundial.

Para Jack e Costas esta não era uma terra de fantasmas, mas um território familiar que os fazia lembrar de um feito revolucionário e brilhante. Nessa região haviam realizado a sua primeira escavação juntos, quando ambos estavam estacionados na base da OTAN em Izmir. Um fazendeiro, enquanto arava, havia descoberto algumas madeiras escurecidas e fragmentos de armadura de bronze entre a costa atual e as ruínas de Tróia. A escavação que fizeram mostrou que o local era o contorno da costa na Idade do Bronze, invadida pelo lodo, e revelou que os restos carbonizados eram de uma série de galeras de guerra queimadas em uma conflagração em torno de 1150 a.C.

Havia sido uma descoberta sensacional, os primeiros artefatos encontrados da própria Guerra de Tróia, uma revelação que fez os estudiosos olharem mais uma vez para as lendas outrora descartadas como meias verdades. Para Jack foi um ponto decisivo, a experiência que reacendeu sua paixão pela arqueologia e pelos mistérios não solucionados do passado.

- O.k., vamos tirar isso a limpo. - Costas estava tentando juntar as revelações extraordinárias dos últimos dias em uma espécie de todo coerente. - Primeiro é encontrado no Egito um papiro que mostra que Platão não estava inventando a lenda da Atlântida. O registro havia sido ditado para um grego chamado Sólon por um sacerdote egípcio por volta de 580 antes de Cristo. A história era quase incomensuravelmente antiga, datando de milhares de anos antes do tempo dos faraós.

- O papiro também mostrou que a história de Platão é cheia de imprecisões, - lembrou Jack. - O relato nunca chegou ao mundo exterior porque ele foi roubado e perdido. O que sobreviveu foi adulterado, uma mistura da descrição da destruição dos minoanos, no meio do segundo milênio antes de Cristo, com o que Sólon podia lembrar da Atlântida. A confusão de Sólon induziu os estudiosos a equiparar a história da Atlântida com a erupção do Thera e a destruição dos palácios em Creta.

- Essa era a única interpretação plausível, - disse Jack. - Sabemos agora que a Atlântida era uma espécie de cidadela, não um continente ou uma ilha. Localizava-se à beira da água, com um amplo vale e altas montanhas no interior. Ela estava de alguma forma encimada por um símbolo de touro. A alguns dias de caminhada havia uma catarata, e entre esta e o Egito situava-se um mar cheio de ilhas. Em alguma época entre sete ou oito mil anos atrás a Atlântida desapareceu debaixo da água.

- E agora temos esse extraordinário mistério dos discos, - disse Katya.

- O elo entre o papiro e os discos é aquele símbolo. Ele é exatamente o mesmo, como a letra H com quatro braços de cada lado.

- Acho que podemos seguramente chamá-lo de símbolo da Atlântida, - declarou Katya.

- Ele é o único que não mostra concordância com um símbolo linear A ou linear B, - disse Jack. - Pode se tratar de um logograma que representa a própria Atlântida, como o touro de Cnossos dos minoanos ou a coruja da Atenas clássica.

- Uma coisa que me confunde, - disse Costas, - é o porquê dos discos de argila e o disco de ouro terem sido feitos. Maurice Hiebermeyer disse que o conhecimento sagrado era passado oralmente de um sumo sacerdote a outro para assegurar que permanecesse não corrompido, para mantê-lo secreto. Então, por que eles precisavam de um decodificador na forma desses discos?

- Eu tenho uma teoria acerca disso, - disse Jack.

Uma luz vermelha de aviso piscou no painel de instrumentos. Jack mudou os controles para manuais e engatou os dois tanques auxiliares de combustível necessários para um vôo longo. Em seguida, revertendo para o piloto automático, inseriu um CD-ROM no console e puxou uma tela pequena do teto da cabine. Ela mostrava uma longa procissão de escaleres deixando a cidade, os habitantes observando das varandas das moradias dispostas em terraços, ao longo da costa.

- O famoso afresco da marinha, encontrado nos anos 1960 na Casa do Almirante perto de Akrotiri, em Thera, era usualmente interpretado como representando uma ocasião cerimonial, talvez a consagração de um novo sumo sacerdote.

Jack pressionou uma tecla e a imagem mudou para uma fotografia aérea mostrando camadas de paredes em ruínas e balaustradas projetando-se de um lado de um desfiladeiro.

- O terremoto que danificou o Partenon no ano passado também desalojou o lado do desfiladeiro na costa do Paleo Kameni, “Velho Queimado”, a segunda maior ilhota do grupo de ilhas de Thera. Ele expôs os restos do que parecia ser um mosteiro no topo do desfiladeiro. Muito do que sabemos sobre a religião minoana vem dos chamados santuários situados sobre picos, recintos sagrados cercados nos topos das colinas e montanhas de Creta. Agora acreditamos que a ilha de Thera era o maior dentre todos esses santuários.

- A casa dos deuses, a entrada dos mundos subterrâneos, - propôs Costas.

- Algo assim, - replicou Jack. - O próprio santuário foi destruído em pequenos fragmentos quando o Thera entrou em erupção. Mas havia também uma comunidade religiosa, enterrada sob cinzas e pedras-pomes, do outro lado da caldeira.

- E a sua teoria sobre os discos? . perguntou Costas.

- Vou chegar lá, - disse Jack. - Primeiro vamos considerar o nosso navio naufragado. A melhor suposição é de que o naufrágio foi causado pela erupção do Thera, ele submergiu com o choque de uma onda antes da explosão principal.

Os outros dois murmuraram um assentimento.

- Tenho para mim, no entanto que ele era mais do que apenas um rico navio mercante. Pensem no carregamento. Cálices de ouro e colares. Estátuas em ouro e marfim, algumas quase em tamanho natural. Altares de libação esculpidos em raro pórfiro egípcio. Os rítons de cabeça de touro. Muito mais riqueza do que seria normalmente confiada a um simples carregamento.

- O que você está sugerindo? - perguntou Costas.

- Acho que nós encontramos o tesouro dos sumos sacerdotes de Thera, o repositório mais sagrado da civilização da Idade do Bronze. Acredito que os discos eram as propriedades mais cobiçadas dos sumos sacerdotes. O disco de ouro era o mais antigo, exposto apenas nas cerimônias mais sagradas, e originalmente só tinha o símbolo central. Já o disco de argila, o mais antigo dos dois discos Phaistos, era uma tábua de registro e não um objeto venerado. Ele continha uma chave para o conhecimento, mas estava escrito em símbolos antigos que somente os sacerdotes podiam decifrar. Em seguida aos terremotos de advertência, temendo um apocalipse iminente, o sumo sacerdote ordenou que esses símbolos fosse gravados ao redor da beirada do disco de ouro. Eles formavam um léxico, uma concordância dos antigos símbolos no disco de argila com as escritas predominantes linear A e B. Qualquer letrado minoano perceberia que os arranjos silábicos eram uma versão ancestral de sua própria linguagem.

- Então, era uma apólice de seguro, - sugeriu Katya. - Um livro de código para a leitura do disco de argila no caso de todos os sumos sacerdotes virem a morrer.

- Sim, - Jack voltou-se para ela. - Juntamente com o magnífico ríton em forma de cabeça de touro, os mergulhadores voltaram com um monte de varetas em marfim e ébano, primorosamente gravadas com imagens das grandes deusas-mãe. Achamos que elas eram os bastões sagrados dos minoanos, peças rituais como os bastões dos bispos e cardeais. A meu ver essas peças acompanhavam o próprio sumo sacerdote quando ele escapou do santuário da ilha.

- E os discos de Phaistos?

- Ao mesmo tempo que mandou gravar os símbolos no disco de ouro, o sumo sacerdote ordenou que fosse feita uma réplica do antigo disco de argila, aquele que parecia conter um texto similar, mas que de fato não tinha significado. Como o professor Dillen disse, a réplica era uma maneira de impedir os estranhos de procurar significado demais nos símbolos. Apenas os sacerdotes teriam conhecimento do verdadeiro sentido do texto e teriam acesso à concordância no disco de ouro.

- Como eles foram parar em Phaistos? - perguntou Costas.

- Acho que originalmente eles estavam no mesmo repositório que o disco de ouro, no mesmo almoxarifado no templo da ilha de Thera, - disse Jack. - O sumo sacerdote os enviou em um primeiro carregamento que alcançou Creta com segurança. A cidade de Phaistos deve ter dado a impressão de ser um refúgio óbvio, muito acima do mar e protegida do vulcão, ao norte, pelo Monte Ida.

- É um centro religioso, - acrescentou Katya.

- Próximo ao palácio se encontra Hagia Triadha, um complexo de ruínas que há muito deixa os arqueólogos perplexos. Foi onde ambos os discos foram descobertos com um intervalo de cem anos. Atualmente achamos que ele era uma espécie de seminário, um centro de treinamento de sacerdotes que seriam depois enviados aos santuários localizados sobre picos.

- Mas Phaistos e Hagia Triadha foram ambas destruídas na época da erupção, - exclamou Katya. - Arrasadas por um terremoto e nunca mais reocupadas, os discos foram enterrados nas ruínas apenas alguns dias depois de chegarem de Thera.

- Eu tenho uma última pergunta, - disse Costas. - Como o sumo sacerdote do templo de Sais no delta do Nilo veio a saber da Atlântida, quase mil anos depois da erupção do Thera e da perda desses discos?

- Acho que os egípcios conheciam a história através da mesma fonte que remontava à pré-história, ela sobreviveu separadamente em cada civilização. Ela era sagrada, transmitida escrupulosamente sem embelezamento ou correção, como mostrado pelos detalhes idênticos do símbolo da Atlântida tanto no papiro como nos discos.

- Temos que agradecer a Sólon, o Legislador, pela conexão, - disse Katya. - Se ele não tivesse copiado minuciosamente aquele símbolo ao lado da palavra grega Atlântida talvez não estivéssemos aqui.

- Os discos de Phaistos não tinham valor, eram feitos de cerâmica, - refletiu Costas, - valiam apenas pelos símbolos. Mas o disco encontrado no naufrágio é de ouro puro, talvez o maior lingote que sobreviveu desde a pré-história. - Ele se virou em seu assento e olhou de modo penetrante para Jack. - Meu pressentimento é de que existem mais coisas aqui do que parece à primeira vista. Acho que o nosso pesa-papéis de ouro, de alguma maneira, irá desvendar um mistério ainda maior.

Haviam passado o mar de Mármara e estavam sobrevoando o Bósforo. O ar claro do Egeu havia se transformado em um nevoeiro de poluição causado pela expansão de Istambul. Eles mal podiam distinguir o Chifre de Ouro, a pequena baía onde os colonos gregos fundaram Bizâncio no século VIII a.C. Ao lado dela uma floresta de minaretes sobressaía na bruma da manhã. No promontório puderam distinguir o palácio de Topkapi, outrora o próprio símbolo da decadência oriental e agora um dos excelentes museus arqueológicos do mundo. De frente para o mar situavam-se as grandes muralhas de Constantinopla, capital do Império Bizantino, que manteve Roma viva no leste até que a cidade caiu sob o domínio dos turcos em 1453.

- Ela é uma das minhas cidades favoritas, - disse Jack. - Assim que você consegue se orientar dentro dela, ela lhe oferece a história mais rica que possa imaginar.

- Quando isto terminar, eu gostaria que você me levasse até lá, - disse Katya.

Mais adiante estava o mar Negro, uma costa muito ampla de ambos os lados do Bósforo, aparentemente se estendendo até o infinito. O GPS mostrou a etapa final da viagem diretamente em direção ao leste até uma posição cerca de dez milhas náuticas ao norte do porto turco de Trabzon. Jack sintonizou o canal da IMU no retransmissor VHF e ligou o misturador de freqüências, escolhendo a combinação adequada para entrar em contato com a tripulação do Sea Venture.

Momentos mais tarde uma luz azul piscou no canto direito inferior da tela acima do console central.

- E-mail chegando, - disse Costas.

Jack clicou o mouse duas vezes e esperou enquanto aparecia o endereço.

- É do professor Dillen. Talvez seja a sua tradução do disco de Phaistos.

De seu assento traseiro, Katya inclinou-se para a frente, e eles esperaram em silenciosa expectativa. Logo todas as palavras estavam visíveis na tela.

 

Meu caro Jack,

Desde o nosso telefonema na noite passada, trabalhei tão rápido quanto possível para completar a tradução. Contei com a cooperação de colegas ao redor do mundo. O arquivo linear A encontrado em Cnossos no ano passado foi dividido entre muitos estudiosos diferentes para ser examinado, e você sabe quão protecionistas os acadêmicos podem ser com seus dados inéditos - lembre do trabalho que tivemos para obter acesso aos Manuscritos do Mar Morto quando começamos nossa pesquisa sobre Sodoma e Gomorra. Felizmente muitos dos estudiosos da epigrafia minoana são antigos alunos meus. Apenas o anverso do segundo disco é significativo. A tentativa para esconder o verdadeiro texto é maior do que pensávamos.

Nosso símbolo misterioso aparece duas vezes e eu o traduzi simplesmente como Atlântida. Eis o texto:

 

Abaixo do signo do touro repousa o deus águia com as asas estendidas. (Perto de) seu rabo (está) a Atlântida cercada de paredes de ouro, a maior porta de ouro da (cidadela?). (As) pontas de suas asas tocam o nascer e o pôr-do-sol. (No) nascer do sol (está) a montanha de fogo e de metal. (Aqui está) o salão dos sumos sacerdotes [Sala do trono? Câmara de audiência?]. Acima (aqui está) a Atlântida. (Aqui está) a deusa-mãe. (Aqui é) o lugar (dos) deuses (e) o depósito (do) conhecimento.

 

Não sei o que fazer com isto. Será um enigma? Maurice e eu estamos ansiosos para saber o que você pensa a respeito.

Seu sempre amigo, James Dillen.

 

Eles leram a tradução várias vezes em silêncio. Costas foi o primeiro a falar, sua mente, como sempre, procurando praticidade onde os outros vislumbravam apenas mistério.

- Isto não é um enigma. É o mapa de um tesouro.

 

- Jack! Bem-vindo a bordo!

A voz sobressaiu-se à barulheira da turbina do motor do Rolls-Royce Gem, enquanto eles desaceleravam. Jack acabara de sair da aeronave pisando no flutuador inflável, uma modificação naval da configuração usual do trem de aterrissagem com rodas, o que permitia que os helicópteros da IMU pousassem na água. Ele apressou-se em ir apertar a mão estendida de Malcolm Macleod, inclinando-se para baixo enquanto o rotor diminuía a velocidade para parar. Costas e Katya o seguiam de perto. Quando eles desceram, vários tripulantes correram até o Lynx para amarrá-lo ao tombadilho e começaram a descarregar as malas de equipamentos do compartimento de carga.

O Sea Venture diferia do Seaquest apenas quanto à variedade de equipamentos adequados para o seu desempenho como navio-chefe de pesquisa da IMU em mar profundo. Recentemente, a IMU havia conduzido a primeira inspeção submersível tripulada na Mariana Trench* situada no Pacífico ocidental. Seu papel atual no mar Negro começou com uma análise sedimentológica de rotina, mas havia agora tomado uma nova e surpreendente dimensão.

- Sigam-me até o console da ponte de comando.

Malcolm Macleod conduziu-os para baixo da mesma tela de forma côncava que eles tinham no Seaquest. Macleod era equivalente a Jack no departamento de oceanografia, um homem cuja perícia Jack havia aprendido a respeitar muito através dos inúmeros projetos em que colaboraram ao redor do mundo.

O escocês ruivo e corpulento sentou-se na cadeira do operador ao lado do console.

- Bem-vindos ao Sea Venture. Acredito que sua inspeção pode esperar até que eu lhes mostre o que encontrei.

Jack aquiesceu.

- Vá em frente.

- Vocês ouviram falar sobre a crise de salinidade de Messina?

Jack e Costas concordaram, mas Katya pareceu perplexa.

- O.k. Vou contar para esclarecer nossa nova colega sobre o assunto. - Macleod sorriu para Katya. - Foi assim chamada depois que depósitos foram encontrados perto do Estreito de Messina, na Sicília. No início de 1970 o navio de perfuração em águas profundas, o Glomar Challenger, pegou amostras na parte central do Mediterrâneo. Abaixo do solo do oceano eles encontraram uma imensa camada de material volátil compactado, atingindo em certos locais três quilômetros de espessura. Ela se formou durante o último Mioceno, a era geológica mais recente antes da nossa, cerca de cinco milhões e meio de anos atrás.

- Volátil? - perguntou Katya.

- Principalmente sal-gema, sal de rocha comum, o material deixado quando a água do mar evapora. Acima e abaixo é tudo calcário argiloso, sedimentos marinhos normais de argila e carbonato de cálcio. A camada de sal formou-se ao mesmo tempo através do Mediterrâneo.

- O que isto significa?

- Significa que o Mediterrâneo evaporou.

Katya pareceu incrédula.

- O Mediterrâneo evaporou? Ele todo?

Macleod aquiesceu.

- O que precipitou isto foi uma imensa queda na temperatura atmosférica, um período de tempo mais frio do que o da nossa recente Idade do Gelo. O gelo polar se alastrou por inúmeros oceanos do mundo, fazendo com que o nível do mar baixasse até quinhentos metros. O Mediterrâneo ficou fechado e começou a secar, finalmente deixando apenas lodo salobro na parte mais profunda das bacias.

- Como o mar Morto, - sugeriu Katya.

- Ainda mais salino; de fato, não era mais líquido. Demasiado salgado para muitas formas de vida, por isso a escassez de fósseis no local. Enormes áreas ficaram desertas.

- Quando ele se encheu de novo?

- Quase dois mil anos mais tarde. Deve ter sido um processo dramático, o resultado de uma fusão maciça de gelo nos pólos. Os primeiros gotejamentos do Atlântico deveriam tornar-se torrentes, a maior queda d'água de todos os tempos, centenas de vezes maior que as cataratas do Niágara, esculpindo o Estreito de Gibraltar até sua profundidade atual.

- De que maneira isto é importante para o mar Negro? - perguntou Katya.

- A crise de salinidade de Messina é um fato cientificamente estabelecido. - Macleod olhou sutilmente para Jack. - Isso ajudará a acreditar no inacreditável, que é o que vou lhes contar em seguida.

Eles reuniram-se atrás da estação do veículo de bordo do Sea Venture, operado por controle remoto, do outro lado do console. Macleod convidou Katya para sentar-se frente à tela e mostrou-lhe como usar o joystick.

- Pense nisso como sendo um simulador de vôo. Use o joystick para voar da maneira que quiser, para cima ou para baixo, para os lados ou para trás. O controle de velocidade é o mostrador que está ao lado da sua mão esquerda.

Macleod pôs sua mão sobre a de Katya e executou uma volta completa no sentido dos ponteiros de um relógio, puxando o joystick em círculo e inclinando-o ao máximo para baixo. A tela de vídeo, em formato grande, permaneceu completamente escura, mas o indicador de direção girou 360 graus. O instrumento de profundidade indicava 135 metros e um conjunto de coordenadas GPS mostrava a posição do ROV* com uma precisão de desvio de menos de meio metro.

Macleod puxou o joystck de volta ao seu alinhamento padrão.

- Um giro em queda livre seguido por uma perfeita recuperação. - Ele sorriu para Jack, que lembrava bem de seus combates aéreos a curta distância, por meio de ROV, quando haviam treinado juntos nas Bermudas usando as instalações com equipamentos para pesquisa em oceano profundo da IMU.

- Os ROVs já têm sido amplamente utilizados por equipes científicas há duas décadas, - explicou Macleod. - Mas nos últimos anos a tecnologia tornou-se progressivamente refinada. Para a inspeção exploratória usamos AUVs, veículos operados de maneira autônoma, que têm conjuntos de sensores com múltiplas aplicações incluindo vídeo e um sonar de abrangência lateral. Assim que um alvo é identificado nós preparamos ROVs de controle direto. O Mark 7 da IMU que estamos operando aqui não é muito maior do que uma pasta para papéis, é bastante pequeno para penetrar em um respiradouro subaquático.

- Você pode girar um desses equipamentos em um espaço muito pequeno, - acrescentou Costas. - E o controle da radiofreqüência pelo Doppler significa que ele pode andar até quinze milhas náuticas horizontalmente ou ir direto para o abismo mais profundo.

- Estamos quase lá, - interrompeu Macleod. - Ativando os refletores.

Ele inclinou o joystick, o que acionou vários interruptores no painel do console. Repentinamente a tela se iluminou, o negrume foi substituído por uma luz fraca e brilhante emitida por pequenos pontos.

- Lodo, - explicou Macleod. - Nossas luzes estão refletindo partículas que foram agitadas na água.

Começaram a distinguir algo mais substancial, um fundo sombrio que gradualmente tornou-se uma visão mais clara. Era o solo do oceano, um deserto cinzento sem traços característicos. Macleod ligou o radar do ROV de relevo do terreno, que mostrou o solo oceânico inclinando-se 30 graus a partir do sul.

- Profundidade 148 metros.

Uma estrutura estranha, como uma torre, subitamente tornou-se visível, e Macleod parou o ROV a alguns metros dela.

- Mais um dos aparelhos engenhosos de Costas. Uma escavadora operada por controle remoto, capaz de perfurar partes duras, cem metros abaixo do solo oceânico, ou transportar grandes volumes de sedimentos.

Com a mão livre Macleod pegou algo dentro de uma caixa ao lado de seu assento.

- E foi isto que encontramos logo abaixo do solo oceânico.

Ele passou para Katya um pequeno objeto negro do tamanho do seu punho. Ela o sopesou em sua mão e lançou um olhar zombeteiro.

- Um seixo de praia?

- Um objeto polido à beira-mar. Ao longo de todo este declive nós encontramos evidências de um antigo litoral, cento e cinqüenta metros de profundidade e dez milhas náuticas da costa. Mais surpreendente ainda é sua data. Esta é uma das descobertas mais notáveis que jamais fizemos.

Macleod escolheu dentre uma série de coordenadas GPS e a imagem da tela começou a se mover, o solo do mar iluminado por holofotes mostrando pouca alteração enquanto o ROV se mantinha na mesma profundidade do contorno da praia.

- Eu o coloquei no piloto automático. Faltam quinze minutos até o alvo.

Katya devolveu o seixo enegrecido.

- Será que isto poderia estar associado com a crise de salinidade de Messina?

- Nós certamente o situaríamos antes da chegada dos humanos - ou melhor, hominídeos - nesta região, dois milhões de anos atrás.

- Mas?

- Mas estaríamos errados. Totalmente errados. Contornos da costa submersos são, em geral, comuns em nossa linha de trabalho, mas este é uma grande novidade. Sigam-me e vou lhes mostrar.

Macleod fez o download de um mapa isométrico gerado por computador do mar Negro e do Bósforo.

- A relação entre o Mediterrâneo e o mar Negro é uma espécie de microcosmos da relação entre o Atlântico e o Mediterrâneo, - ele explicou. - O Bósforo tem apenas cem metros de profundidade. Qualquer rebaixamento do Mediterrâneo, abaixo daquela profundidade, e ele se torna uma ponte de terra, isolando o mar Negro. Foram estas condições que permitiram aos primeiros hominídeos da Europa mudarem-se da Ásia. - Ele movimentou o cursor para destacar o sistema de três rios que levam ao mar.

- Quando o Bósforo era uma ponte de terra, a evaporação fez com que o mar Negro baixasse, da mesma forma que o Mediterrâneo durante a crise de salinidade. Mas o mar Negro foi de novo preenchido pela afluência de três rios, o Danúbio, o Dnieper e o Don. Alcançou-se uma média em que a taxa de evaporação igualava a taxa de afluência. Daí em diante houve uma mudança em relação à salinidade, e o mar Negro se tornou, conseqüentemente, um vasto lago de água fresca.

Macleod pressionou uma tecla e o computador começou a simular os eventos que estava descrevendo, mostrando o Bósforo se tornar seco e o mar Negro baixar até um ponto cerca de 150 metros abaixo do atual nível do mar e 50 metros abaixo do solo do Bósforo onde seu nível era mantido pela afluência dos rios.

Ele girou a cadeira e olhou para os outros.

- Agora a surpresa. Esta não é uma imagem do início do Plistoceno, das profundezas da Idade do Gelo. Vocês estão olhando para o mar Negro como ele era menos de dez mil anos atrás.

Katya pareceu assombrada.

- Você quer dizer depois da Idade do Gelo?

Macleod concordou vigorosamente com a cabeça.

- A glaciação mais recente chegou ao ponto máximo cerca de vinte mil anos atrás. Acreditamos que o mar Negro foi separado algum tempo antes disso, e que já havia baixado os cento e cinqüenta metros. Nossa praia foi o litoral durante os doze mil anos subseqüentes.

- Então, o que aconteceu?

- Repetiu-se a crise de salinidade de Messina. As geleiras derreteram, o Mediterrâneo subiu, apareceram cascatas sobre o Bósforo. A causa imediata pode ter sido uma fase de recuo cerca de sete mil anos atrás no lençol de gelo da Antártida Ocidental. Acreditamos que levou apenas um ano para o mar Negro alcançar seu nível atual. Com um fluxo pleno de quase vinte quilômetros cúbicos vertidos por dia, resultando em um aumento de cerca de quarenta centímetros por dia ou três metros por semana.

Jack apontou para a parte inferior do mapa.

- Você poderia nos dar um close-up disto?

- Certamente. - Macleod digitou uma seqüência e a tela mostrou um close da costa norte da Turquia. O mapeamento isométrico do terreno continuava a apresentar a topografia da terra antes da inundação.

Jack moveu-se para a frente enquanto falava.

- Estamos atualmente onze milhas náuticas distantes da costa norte da Turquia, digamos dezoito quilômetros, e a profundidade do mar abaixo de nós é de cerca de cento e cinqüenta metros. Uma inclinação constante em relação ao litoral atual significaria um aumento de cerca de dez metros para cada quilômetro e meio em direção ao interior. Digamos uma proporção de um para cento e cinqüenta. Este é um declive bastante suave, pouco perceptível. Se o mar levantou tão depressa quanto você indicou, então estamos olhando para trezentos ou quatrocentos metros de água afluindo por semana, ou seja, cinqüenta metros por dia.

- Ou até mais, - disse Macleod. - Antes da inundação, muito do que se situa abaixo de nós estava apenas a alguns metros acima do nível do mar, com uma inclinação mais forte na proximidade da costa atual, quando começa a subir o platô da Anatólia. Em poucas semanas vastas áreas teriam sido inundadas.

Jack olhou para o mapa durante alguns instantes, em silêncio.

- Estamos falando do período neolítico inicial, o primeiro período de exploração agrícola, - ele refletiu. - Quais teriam sido as prováveis condições daqui?

Macleod sorriu.

- Nossos paleoclimatologistas têm feito horas extras trabalhando sobre isto. Eles fizeram uma série de simulações com todas as variáveis possíveis para reconstruir as condições ambientais entre o final do Plistoceno e a inundação.

- E?

- Eles acreditam que esta era a região mais fértil do Oriente Próximo.

Katya assobiou baixinho.

- Esse poderia ser um quadro completamente novo da história da humanidade. Uma faixa de terra com uma largura de vinte quilômetros, centenas de quilômetros de comprimento, em uma das áreas-chave para o desenvolvimento da civilização. E nunca antes explorada pelos arqueólogos.

Macleod estava estremecendo de excitação.

- E agora a razão pela qual vocês estão aqui. É hora de voltar ao monitor do ROV.

O fundo do oceano estava agora mais ondulado, com rochas ocasionais aflorando e sulcos de depressões onde outrora haviam existido ravinas e vales de rios. A medida de profundidade mostrava que o ROV estava acima da superfície de terra submersa, uns quinze metros acima e um quilômetro para dentro da antiga costa. As coordenadas GPS estavam começando a convergir com os alvos programados por Macleod.

- O mar Negro deveria ser um paraíso dos arqueólogos, - disse Jack. - Os cem metros superiores têm baixo teor de sal, uma relíquia do lago de água fresca e um resultado da afluência de rios. As perfuratrizes marinhas, tais como o molusco que fura o casco dos navios, chamado Teredo novalis, requerem um ambiente mais salino, assim os madeiramentos antigos podem sobreviver aqui em condições em que não são corrompidos. Sempre sonhei em encontrar um trirreme, um antigo barco de guerra guarnecido de remos.

- Mas é um pesadelo para os biólogos, - contou Macleod. - Abaixo de cem metros a água está envenenada com gás sulfídrico, o resultado de uma alteração química da água do mar quando as bactérias a usam para digerir enormes quantidades de matéria orgânica que chega com a afluência dos rios. E nas profundezas do abismo é ainda pior. Quando as águas altamente salinas do Mediterrâneo caíram como uma cachoeira sobre o Bósforo, elas afundaram quase duzentos metros até a parte mais profunda do oceano. Ainda estão lá, uma camada estagnada com uma espessura de duzentos metros, incapaz de acolher qualquer vida. É uma das condições ambientais mais nocivas do mundo.

- Na base da OTAN em Izmir interroguei um tripulante de submarino que havia desertado da esquadra soviética do mar Negro, - murmurou Costas. - Um engenheiro que havia trabalhado em sondagens ultra-secretas do fundo do mar. Ele afirmava ter visto navios naufragados imponentemente assentados sobre o solo oceânico com seu conjunto de cabos intactos. Ele me mostrou uma foto onde até se podia distinguir cadáveres humanos, uma confusão de formas espectrais envolvidas em salmoura. É uma das coisas mais assombrosas que jamais vi.

- Quase tão notável quanto esta.

Uma luz vermelha piscou no canto direito inferior da tela quando a posição do GPS convergiu. Quase simultaneamente o solo oceânico se transformou em uma cena tão extraordinária que eles ficaram sem respirar. Diretamente à frente do ROV o holofote refletiu um complexo de construções baixas, seus tetos horizontais fundindo-se uns com os outros como em um povoado indígena. Escadas de cordas conectavam as salas de baixo com as de cima. Tudo estava coberto com uma camada fantasmagórica de lama semelhante à cinza de uma erupção vulcânica. Era uma imagem assombrada e desoladora, embora fizesse seus corações se acelerarem de excitação.

- Fantástico, - exclamou Jack. - Podemos olhar mais de perto?

- Vou me aproximar até onde estávamos quando lhe telefonei ontem.

Macleod mudou o controle para manual e dirigiu o ROV até uma entrada no topo de um dos tetos. Manuseando com cuidado o joystick ele entrou na construção, movimentando vagarosamente a câmera pelas paredes. Elas estavam decoradas com desenhos esculpidos apenas visíveis na escuridão, ungulados de pescoço comprido, talvez cabras selvagens, bem como leões e tigres saltando com os membros estendidos.

- Almofariz hidráulico, - murmurou Costas.

- O quê? - perguntou Jack distraidamente.

- Só assim estas paredes poderiam ter sobrevivido sob a água. A mistura deve conter um agente hidráulico de ligação. Eles tinham acesso ao pó vulcânico.

No lado oposto da sala submersa havia uma forma que podia ser instantaneamente reconhecida por qualquer estudante da pré-história. Era a forma em U de chifres de touro, esculpida em tamanho maior que o real e incrustada em um amplo pedestal similar a um altar.

- Isto é quase do período neolítico. Não há dúvida. - Jack estava muito entusiasmado, sua atenção completamente focalizada nas extraordinárias imagens que via à sua frente. - Este é um relicário familiar, exatamente como um que foi escavado mais de trinta anos atrás em Çatal Hüyük.

- Onde? - perguntou Costas.

- Na Turquia central, na planície de Konya, cerca de quatrocentos quilômetros ao sul daqui. Provavelmente a primeira cidade do mundo, uma comunidade agrícola estabelecida dez mil anos atrás, no início da agricultura. Uma conglomeração bem compacta de construções de tijolo de barro com estruturas de madeira como estas.

- Um local único, - disse Katya.

- Até agora. Isto muda tudo.

- Há mais coisas, - disse Macleod. - Muito mais. O sonar mostra anomalias como estas ao longo da costa antiga até onde pudemos inspecionar, cerca de trinta quilômetros de cada lado. Elas ocorrem a cada dois quilômetros e cada uma é indubitavelmente uma nova aldeia ou propriedade rural.

- É surpreendente. - A mente de Jack estava acelerada. - Esta região deve ter sido incrivelmente produtiva, sustentando uma população maior do que a região fértil da Mesopotâmia e do Oriente. - Ele olhou para Macleod com um amplo sorriso no rosto. - Para um especialista em ventos hidrotermais em oceano profundo, você fez um trabalho satisfatório para um dia de serviço.

 

O Sea Venture deixou um rastro de espuma branca enquanto ia rumo ao sul a partir de sua posição acima da antiga costa submersa. O céu estava claro, mas o mar escuro oferecia um contraste que se opunha ao azul profundo do Mediterrâneo. Mais adiante apareciam indistintamente as florestas em declive ao norte da Turquia e a crista do platô da Anatólia, a cordilheira que marcava o início da região montanhosa da Ásia Menor.

Assim que o ROV foi recuperado, o Sea Venture dirigiu-se rapidamente em direção a sua base de abastecimento em Trabzon, o porto no mar Negro cujas construções caiadas se aninhavam contra a costa em direção ao sul. Katya estava aproveitando a primeira oportunidade de relaxar desde a sua chegada em Alexandria, três dias antes, seu cabelo esvoaçando na brisa enquanto tirava a roupa e ficava em um biquíni que deixava muito pouco para a imaginação. Ao lado dela, no tombadilho, Jack estava achando difícil se concentrar em sua conversa com Costas e Macleod.

Costas estava dando sua opinião a Macleod sobre o melhor meio de mapear a aldeia neolítica submersa, evocando seu sucesso com a fotocartografia no navio minoano naufragado. Eles haviam concordado que o Seaquest se juntaria ao Sea Venture no mar Negro o mais depressa possível, o equipamento e a perícia deles eram essenciais para uma investigação completa. Um outro navio já saíra de Cartago para auxiliar no local do naufrágio e poderia agora ser controlado do Seaquest.

- Se o mar estava subindo quarenta centímetros por dia depois que se abriu uma fenda no Bósforo, - disse Costas, sua voz elevando-se acima do ruído do vento, - então isso teria sido bastante óbvio para a população costeira. Depois de alguns dias eles teriam adivinhado que o prognóstico, a longo prazo, não era bom.

- Certo, - concordou Macleod. - A aldeia neolítica está dez metros mais alta do que a linha da antiga costa. Eles teriam cerca de um mês para abandonar o local. Isto explicaria a ausência de artefatos nas salas que vimos.

- Este poderia ser o dilúvio bíblico? - arriscou Costas.

- Na verdade, cada civilização tem um mito sobre o dilúvio, mas a maioria deles deve estar mais relacionada com inundações provocadas por rios e não ocasionadas por algum dilúvio oceânico, - disse Jack. - Inundações catastróficas produzidas por rios eram mais prováveis nos tempos antigos, antes que as pessoas aprendessem a construir aterros e canais para controlar as águas.

- Esta sempre pareceu ser a base mais provável para o épico de Gilgamesh - disse Katya. - Uma história sobre dilúvio escrita em doze tabuletas de argila por volta de 2000 antes de Cristo, descobertas nas ruínas de Nínive no Iraque. Gilgamesh era um rei sumério de Uruk, na margem esquerda do rio Eufrates, um lugar que foi estabelecido antes do fim do sexto milênio antes de Cristo.

- O dilúvio bíblico pode ter tido uma origem diferente, - acrescentou Macleod. - A IMU tem examinado a costa mediterrânea de Israel e já encontrou evidências de atividade humana que datam do final da Idade do Gelo, na época da grande fusão do gelo, doze mil anos atrás. A cinco quilômetros longe da costa encontramos instrumentos de pedra e montes de cascos de animais onde caçadores paleolíticos se reuniam antes que a região ficasse submersa.

- Você está sugerindo que os israelitas do Antigo Testamento conservaram alguma memória desses eventos? - perguntou Costas.

- A tradição oral pode sobreviver milhares de anos, sobretudo em uma sociedade firmemente unida. Porém alguns de nossos agricultores que se deslocaram do mar Negro poderiam ter se estabelecido em Israel.

- Não se esqueçam da Arca de Noé, - disse Jack. - Uma grande embarcação construída após avisos de um dilúvio. Pares de cada espécie de animal para procriação. Pense nos nossos agricultores do mar Negro. O mar teria sido sua principal rota de fuga e eles devem ter levado consigo tantos animais quantos conseguiram, em pares, para procriar a fim de iniciar uma nova população.

- Acredito que eles não possuíam embarcações grandes naquela época, - disse Costas.

- Os construtores navais da era neolítica podiam construir longas embarcações capazes de transportar várias toneladas de carga. Os primeiros agricultores em Chipre possuíam bois selvagens gigantes, os ancestrais do gado de hoje, bem como porcos e veados. Nenhuma dessas espécies era nativa e só poderiam ter sido levadas por embarcações. Isso aconteceu por volta de 9000 antes de Cristo. Provavelmente o mesmo aconteceu em Creta mil anos depois.

Costas cocou o queixo pensativamente.

- Então, a história de Noé pode conter um grão de verdade, não uma arca enorme, mas muitas embarcações menores transportando agricultores e um conjunto de animais domésticos do mar Negro.

Jack concordou.

- Esta é uma idéia atraente.

Os motores do Sea Venture desaceleraram quando ele se dirigiu para a entrada do porto em Trabzon. Do lado leste do cais eles podiam ver as silhuetas cinzentas de dois classe Dogan FBP-57, dois barcos de ataque rápido que faziam parte da resposta da Marinha turca à crescente epidemia de contrabando no mar Negro. Os turcos assumiram uma posição inflexível, lutando de forma dura e imediata e atirando para matar. Jack sentiu-se tranqüilizado pelo que via, sabendo que seus contatos na Marinha turca assegurariam uma resposta rápida se eles encontrassem qualquer problema nas águas territoriais.

Eles estavam parados perto da balaustrada no tombadilho superior quando o Sea Venture se deslocou lentamente para o cais ocidental. Costas observou com cuidado as ladeiras cheias de florestas acima da cidade.

- Para onde eles foram depois do dilúvio? Eles não seriam capazes de praticar a agricultura aqui.

- Tiveram que fazer uma grande viagem para o interior, - concordou Jack. - E era uma população considerável, pelo menos dez mil pessoas, a julgar pelo número de estabelecimentos que vimos através da leitura do sonar.

- Então eles se dividiram.

- Pode ter havido um êxodo organizado dirigido por alguma autoridade central, a fim de assegurar uma oportunidade maior de encontrar um novo território, um que fosse mais adequado para a população inteira. Alguns foram para o sul por aquele cume, outros para o leste e outros mais para o oeste. Malcolm mencionou Israel. Há, obviamente, outras destinações.

Costas falou de maneira excitada.

- As primeiras civilizações. Egito. Mesopotâmia. O Vale do Indus. Creta.

- Isto não é tão disparatado. - As palavras vinham de Katya, que havia se sentado e estava agora totalmente absorvida na discussão. - Um dos aspectos mais impressionantes sobre a história das línguas é que a maioria delas se desenvolveu a partir de uma raiz comum. Na Europa, na Rússia, no Oriente Médio, no subcontinente da índia, muitas das línguas faladas hoje têm uma única origem.

- Indo-européia, - esclareceu Costas.

- Uma antiga língua-mãe que muitos lingüistas já cogitaram ter surgido na região do mar Negro. Podemos reconstruir seu vocabulário através de palavras mantidas em comum por línguas posteriores, tais como o sânscrito pitar, o latim pater e o alemão vater, a origem da palavra inglesa father.

- E as palavras para a agricultura? - perguntou Costas.

- O vocabulário mostra que eles aravam a terra, usavam roupas de lã e trabalhavam o couro. Possuíam animais domesticados tais como bois, porcos e carneiros. Tinham estruturas sociais complexas e uma diferenciação de riquezas. Adoravam uma grande deusa-mãe.

- O que você está sugerindo?

- Muitos acreditam que a expansão indo-européia ocorreu ao mesmo tempo que a propagação da agricultura, um processo gradual que levou muitos anos. Por ora sugiro que ela foi o resultado de uma migração. Os nossos agricultores do mar Negro foram os indo-europeus originais.

Jack equilibrou um bloco de papel na balaustrada e rapidamente desenhou o croqui de um mapa do mundo antigo.

- Esta é uma hipótese, - ele disse. - Nossos indo-europeus abandonaram seus lares na costa do mar Negro. - Ele desenhou uma ampla seta indo em direção ao leste a partir de sua posição atual. - Um grupo vai para o Cáucaso, a Geórgia de hoje. Alguns deles viajam para as montanhas de Zagros, alcançando no fim o Vale do Indus no Paquistão.

- Eles devem ter visto o monte Ararat logo depois de enveredar pelo interior, - afirmou Macleod. - Devem ter se deparado com uma vista atemorizante, com montanhas muito mais elevadas do que aquelas que conheciam. É quase certo que o lugar ficou registrado nas tradições populares como aquele onde finalmente eles perceberam que haviam escapado ao dilúvio.

Jack colocou uma outra seta no mapa.

- Um segundo grupo se dirige para o sul, através do platô da Anatólia para a Mesopotâmia, estabelecendo-se nas margens dos rios Tigre e Eufrates.

- E um outro grupo segue na direção noroeste para o Danúbio, - sugeriu Costas.

Jack acrescenta uma terceira seta no mapa.

- Alguns se estabelecem ali, outros usam o sistema fluvial para atingir a área central da Europa.

Macleod falou de maneira excitada.

- A Grã-Bretanha se torna uma ilha no fim da Idade do Gelo, quando o mar do Norte sofreu inundação. Mas estes povos possuíam a tecnologia para atravessar. Será que os primeiros agricultores da Grã-Bretanha foram os ancestrais das pessoas que construíram Stonehenge?

- A língua céltica da Grã-Bretanha era indo-européia, - esclareceu Katya.

Jack desenhou uma seta para o oeste que se ramificou em direções diferentes como uma árvore suspensa.

- E o último grupo, talvez o mais significativo, remou para o oeste e aportou depois do Bósforo, em seguida reembarcou e foi até o Egeu. Alguns se estabeleceram na Grécia e em Creta, outros em Israel e no Egito, outros foram mais longe, até a Itália e a Espanha.

- O Bósforo deve ter sido uma vista impressionante, - refletiu Costas. - Algo que permaneceu na memória coletiva como o monte Ararat para o grupo que se dirigiu para o leste, por isso a catarata de Bos foi mencionada no disco.

Katya olhou de maneira intensa para Jack.

- Sua hipótese é inteiramente consistente com a evidência lingüística, - disse ela. - Existem mais de quarentas línguas antigas com raízes indo-européias.

Jack aquiesceu e olhou para seu mapa.

- O professor Dillen me disse que a linguagem minoana linear A e os símbolos de Phaistos são os que mais se aproximam da língua-mãe indo-européia. Creta pode ter testemunhado a maior sobrevivência da cultura indo-européia.

O Sea Venture estava agora atracando no cais em Trabzon. Vários tripulantes pularam a fenda estreita entre o cais e o navio e estavam ocupados amarrando cabos grossos para segurar o navio. Um pequeno grupo se juntou na zona portuária, oficiais turcos e o pessoal do depósito de suprimentos da IMU que estavam muito interessados em ouvir sobre as últimas descobertas. Entre eles encontrava-se a figura barbuda de Mustafá Alkõzen, um antigo oficial naval turco que era o principal representante da IMU no país. Jack e Costas acenaram para seu velho amigo, felizes por renovar uma parceria que tinha começado quando estavam lotados juntos na base de Izmir e ele os havia chamado para desenterrarem as galeras da Guerra de Tróia.

Costas se voltou e olhou para Macleod.

- Eu tenho uma última pergunta.

- Vá em frente.

- A data.

Macleod sorriu amplamente e bateu em um cilindro de papelão que estava segurando.

- Eu estava pensando se você não iria perguntar isto.

Tirou três grandes fotografias e passou-as para os outros. Elas tinham sido tiradas com a câmera do ROV, a profundidade e as coordenadas estavam impressas no canto direito inferior. Mostravam uma grande estrutura de madeira e, ao longo dela, um número considerável de toras.

- Parece um local de construção - disse Costas.

- Nós passamos por ele ontem, fica ao lado da casa com o relicário. Novas salas estavam sendo acrescentadas quando a aldeia foi abandonada. - Macleod apontou para uma tora de madeira no solo do mar. - Usamos o jato de água do ROV para limpar a lama. Eram troncos recém-cortados, a casca da árvore ainda estava bem aderida e havia seiva na superfície.

Macleod abriu sua maleta e tirou um tubo plástico claro de meio metro de comprimento. Em seu interior havia uma vareta fina de madeira.

- O ROV tem uma broca côncava que pode extrair amostras de madeira de construção e de outros materiais compactos de até dois metros de comprimento.

O grão cor de mel estava conservado de maneira impressionante, como se tivesse saído de uma árvore viva. Macleod passou-o para Costas, que percebeu de imediato a que ele estava se referindo.

- Dendrocronologia.

- Você adivinhou. Há uma seqüência contínua de três anéis para a Ásia Menor desde 8500 antes de Cristo até hoje. Perfuramos no coração da tora e encontramos cinqüenta e quatro anéis, o suficiente para datar.

- E? - persistiu Costas.

- No laboratório do Sea Venture temos um scanner que equipara as seqüências da linha de base em questão de segundos.

Jack olhou de maneira interrogativa para Macleod, que estava gostando de explorar o drama com o máximo de empenho.

- Você é o arqueólogo, - disse Macleod. - Qual é a sua estimativa?

Jack aceitou o jogo.

- Logo depois do fim da Era do Gelo, mas muito tempo antes de o Mediterrâneo ter alcançado o nível do Bósforo. Eu diria oito, talvez sete milênios antes de Cristo.

Macleod recostou-se na balaustrada e olhou de modo intenso para Jack. Os outros aguardaram prendendo a respiração.

- Você chegou perto, mas não o suficiente. A árvore foi derrubada em 5545 antes de Cristo, considerando um erro de um ano para mais ou para menos.

Costas parecia incrédulo.

- Impossível! Parece muito tarde!

- Este dado é corroborado por todas as outras datas de três anéis do local. Parece que subestimamos em um milênio o tempo que o Mediterrâneo levou para alcançar seu nível atual.

- Muitos lingüistas situam o indo-europeu entre 6000 e 5000 antes de Cristo - exclamou Katya. - Tudo se ajusta perfeitamente.

Jack e Costas agarraram o parapeito enquanto o passadiço do Sea Venture era firmado ao cais abaixo deles. Depois de tantas aventuras juntos eles partilhavam os mesmos pressentimentos, um conseguia adivinhar o pensamento do outro em questão de segundos. No entanto, mal podiam acreditar para onde estavam sendo conduzidos, tratava-se de uma possibilidade tão fantástica que suas mentes se recusaram a aceitá-la, até que a lógica predominou.

- Aquela data, - disse Costas baixinho. - Nós já a vimos antes.

Katya ofegou.

- É claro!

A voz de Jack denotava total convicção quando ele se dirigiu a Macleod.

- Eu posso lhe contar sobre esses indo-europeus. Eles têm uma grande cidadela perto do mar, um salão cheio de conhecimento no qual você entra através de grandes portas de ouro.

- Do que você está falando?

Jack fez uma pausa e falou baixinho.

- Atlântida.

- Jack, meu amigo! É bom encontrá-lo.

A voz profunda vinha de uma figura vistosa no cais, suas feições escuras ressaltadas por calças de algodão e uma camiseta branca com o logotipo da IMU.

Jack aproximou-se e apertou as mãos de Mustafá Alkõzen assim que ele e Costas desceram o passadiço. Quando olharam, acima da moderna cidade, para a cidadela arruinada, era difícil imaginar que esta havia sido outrora a capital do reino de Trebizonda, o ramo medieval do império bizantino, renomado por causa de seu esplendor e decadência. Desde os primórdios a cidade floresceu como um centro de comércio entre o Leste e o Oeste, uma tradição agora continuada de maneira sombria no crescente mercado negro que havia se instalado desde a queda da União Soviética e tinha proporcionado um refúgio para os contrabandistas e agentes do crime organizado no Leste.

Malcolm Macleod havia ido na frente para lidar com a multidão de funcionários públicos e jornalistas que se aglomeraram quando o Sea Venture atracou. Eles haviam concordado que seu relato sobre a aldeia neolítica descoberta seria deliberada-mente vago até que pudessem realizar mais explorações. Sabiam que olhos inescrupulosos já estariam monitorando seu trabalho via satélite e estavam tomando cuidado para não revelar mais do que o estritamente necessário para satisfazer os jornalistas. Felizmente o local situava-se a uma distância de onze milhas náuticas longe da costa, perfeitamente dentro de águas territoriais. Os barcos de ataque rápido da Marinha turca já haviam atracado do lado oposto do porto e tinham sido avisados para manter uma vigilância contínua até que as investigações estivessem completadas e fosse concedido ao local um status de proteção especial pelo governo turco.

- Mustafá, esta é nossa nova colega, doutora Katya Svetlanova.

Katya havia posto um vestido em cima de sua roupa de banho e estava carregando um palmtop computer* e uma pasta com documentos. Ela apertou a mão estendida e sorriu para Mustafá.

- Doutora Svetlanova. Jack me contou pelo rádio sobre sua formidável perícia. Prazer em conhecê-la.

Jack e Mustafá andaram na frente dos outros dois enquanto se encaminhavam para o depósito da IMU no fim do cais. Jack falava em voz baixa e com grande intensidade, colocando Mustafá a par de todos os eventos desde a descoberta do papiro. Havia decidido aproveitar-se da parada para reabastecimento do Sea Venture para valer-se da perícia sem igual do turco e incluí-lo no pequeno número de pessoas que sabiam a respeito dos papiros e dos discos.

Antes de entrar na baixa construção de concreto, Jack estendeu um bloco de anotações que Mustafá passou para a sua secretária quando alcançaram a porta. Ele continha o pedido de uma lista de equipamentos arqueológicos e de mergulho a serem fornecidos pelo depósito da IMU, que Jack havia compilado nos últimos minutos antes de desembarcar do Sea Venture.

Katya e Costas juntaram-se a eles na frente da grande porta de aço. Depois de Mustafá digitar um código de segurança, a porta se abriu e eles passaram por uma sucessão de laboratórios e salas de reparações. Por fim entraram em uma sala com estantes de madeira enfileiradas e uma mesa no centro.

- A sala do mapa, - explicou Mustafá. - Ela nos serve de quartel-general operacional. Sentem-se, por favor.

Mustafá abriu uma gaveta e tirou um mapa do Egeu e da região sul do mar Negro, abrangendo a costa turca em toda a sua extensão até o litoral leste na fronteira com a República da Geórgia. Estendeu o mapa e o prendeu à mesa. De uma pequena gaveta debaixo, ele pegou uma série de divisores náuticos e réguas cartográficas, colocando-os lado a lado enquanto Katya ligava seu computador.

Depois de alguns momentos ela disse:

- Estou pronta.

Todos haviam concordado que Katya daria a tradução do papiro enquanto eles tentavam compreender o mapa. Ela leu lentamente da tela.

- Através das ilhas até os estreitos do mar!

- Isto se refere claramente ao arquipélago Egeu visto do Egito, - disse Jack. - O Egeu tem mais de mil e quinhentas ilhas uma área confinada. Em um dia claro ao norte de Creta você não consegue navegar em lugar algum sem ver pelo menos uma ilha.

- Então, os estreitos devem ser Dardanelos, - declarou Costas.

- O que decide isto é a seguinte passagem.

Os três homens olharam para Katya cheios de expectativa.

- Passada a catarata de Bos.

Jack animou-se de repente.

- Isto deveria ser evidentemente óbvio. O Bósforo, a entrada para o mar Negro.

Costas voltou-se para Katya, sua voz denotando incredulidade.

- Será que a palavra Bósforo é tão antiga?

- Ela data de pelo menos dois mil e quinhentos anos atrás, do tempo dos primeiros escritos geográficos. Mas é provavelmente milhares de anos mais velha. Bos é a palavra indo-européia para touro!

- Estreito do Touro, - refletiu Costas. - Esta pode ser uma grande pista, mas estou pensando nos símbolos de touro naquela casa neolítica e nos da Creta minoana. Eles são bem abstratos, apresentando os chifres do touro como uma espécie de sela, algo semelhante a um travesseiro japonês. Este deveria ter sido, precisamente, o aspecto do Bósforo visto do mar Negro antes do dilúvio, uma grande sela esculpida em uma alta montanha acima do mar.

Jack olhou para seu amigo com simpatia.

- Você nunca pára de me surpreender. Esta é a melhor idéia que ouvi já faz um bom tempo.

Costas animou-se com seu tema.

- Para pessoas que adoravam o touro a visão de toda aquela água cascateando pelos chifres devia parecer um presságio, um sinal dos deuses.

Jack concordou e voltou-se para Katya.

- Então, estamos no mar Negro. O que há depois?

- E depois vinte dromoi ao longo da margem situada ao sul

Jack debruçou-se à frente.

- Diante disso temos um problema. Existem alguns registros de tempos de viagens no mar Negro durante o período romano. Um deles começa aqui, no que os romanos chamam de lago Maeótico*. - Ele apontou para o mar de Azov, ao lado da península da Criméia. - Daqui levou onze em dias para ir até Rodes. Apenas quatro dias foram passados no mar Negro.

Mustafá olhou pensativamente para o mapa.

- Então, uma viagem de vinte dias a partir do Bósforo, vinte dromoi ou corridas, nos levaria até além do litoral leste do mar Negro.

Costas pareceu desanimado.

- Talvez os antigos barcos fossem mais lentos?

- O oposto, - disse Jack. - Os longos barcos que usavam remos de pá larga deviam ser mais rápidos do que os barcos a vela, menos sujeitos aos caprichos dos ventos.

- E a afluência de água durante o dilúvio deveria ter criado uma corrente para o leste muito forte, - disse Mustafá de modo carrancudo. - O suficiente para impulsionar um barco até a costa afastada em apenas poucos dias. Receio que a Atlântida está fora dos mapas por mais de uma razão.

Uma sensação esmagadora de desapontamento impregnou a sala. De repente a Atlântida parecia estar tão distante quanto sempre havia estado, uma história destinada aos anais do mito e da fábula.

- Há uma solução, - disse Jack lentamente. - O relato egípcio não está baseado na própria experiência deles. Se fosse assim, eles nunca teriam descrito o Bósforo como uma catarata, uma vez que o Mediterrâneo e o mar Negro se nivelaram muito antes que o Egito começasse a explorar o Norte distante. Em vez disso, a fonte deles foi o relato feito pelos migrantes do mar Negro, contando sua viagem a partir da Atlântida. Os egípcios simplesmente reverteram o relato.

- É claro! - Mustafá entusiasmou-se de novo. - A partir da Atlântida significa contra a corrente. Ao descrever a rota para a Atlântida, os egípcios usaram o mesmo tempo de viagem que demorava para fazer o mesmo percurso no sentido inverso. Eles nunca poderiam ter adivinhado que haveria uma diferença significativa entre as duas.

Jack olhou de maneira proposital para Mustafá.

- O que precisamos é de uma maneira de avaliar a velocidade da corrente, de calcular o progresso que um barco do período neolítico faria contra a corrente. Isto nos daria a distância percorrida em cada dia e a distância, a partir do Bósforo, até um ponto de embarque vinte dias antes.

Mustafá endireitou-se e replicou com confiança.

- Vocês vieram para o lugar certo.

 

O sol estava se pondo no contorno da costa a oeste quando o grupo se reuniu na sala do mapa. Durante três horas Mustafá ficara debruçado sobre uma série de telas de computadores, em um anexo, e havia dez minutos apenas chamara para anunciar que estava pronto. A eles se juntara Macleod, que havia arranjado uma entrevista coletiva à imprensa, para anunciar a descoberta da aldeia neolítica, quando um FAC* da Marinha estivesse posicionado sobre o local na manhã seguinte.

Costas foi o primeiro a pular da cadeira. Os outros se agruparam à sua volta enquanto ele examinava ansiosamente o console.

“O que você conseguiu?”

Mustafá respondeu sem desviar o olhar da tela central. “Há alguns pequenos defeitos no software de navegação que eu devo resolver, mas tudo se ajusta perfeitamente.”

Haviam colaborado com Mustafá, pela primeira vez, quando ele era um capitão-de-corveta incumbido da unidade de Desenvolvimento e Pesquisa de Navegação por Computador na base da OTAN em Izmir. Depois de deixar a Marinha turca e completar um Ph.D. em arqueologia, ele se especializou na aplicação da tecnologia CAN* para uso científico. No passado havia trabalhado com Costas em um conjunto de programas inovadores de software para calcular o efeito dos ventos e das correntes na navegação durante a Antigüidade. Conhecido como uma das mentes mais eminentes nesse campo, ele era também um formidável chefe de departamento naval que havia provado mais de uma vez o seu valor quando a IMU tinha, anteriormente, operado em águas turcas.

Mustafá pressionou uma tecla e a imagem de um barco apareceu na tela central.

- Eu e Jack conseguimos fazer isso.

- O desenho se baseia nos madeiramentos neolíticos escavados no ano passado na embocadura do Danúbio, - explicou Jack. - O nosso é um barco aberto com cerca de vinte e cinco metros de comprimento e três metros de largura. O remo de metal só se torna difundido no fim da Idade do Bronze, então ele tem quinze remos de pá larga, de madeira, de cada lado. Tem capacidade para transportar dois bois como representamos aqui, vários pares de animais menores como porcos e veados, cerca de doze mulheres e crianças e uma tripulação de reserva de remadores.

- Você tem certeza de que eles não possuíam veleiros? - perguntou Macleod.

Jack aquiesceu.

- A navegação a vela foi inventada no início da Idade do Bronze no Nilo, onde os barcos podiam flutuar até o delta e depois velejar de volta contra a corrente impulsionados pelo vento do Norte predominante. Os egípcios podem, de fato, ter introduzido a navegação a vela no Egeu, onde as embarcações a remo eram, na verdade, a melhor maneira de navegar ao redor das ilhas.

- O programa indica que a embarcação podia fazer seis nós durante a calmaria, - disse Mustafá. - Isto dá seis milhas náuticas por hora, quase sete milhas de mil seiscentos e oito metros.

- Eles deviam ter necessidade da luz do dia para puxar a embarcação até a praia, alimentar seus animais e estabelecer acampamento, - disse Jack. - E faziam o contrário de manhã.

- Agora sabemos que o êxodo teve lugar no fim da primavera ou no início do verão, - revelou Macleod. - Nós pesquisamos o perfil subterrâneo com nosso aparelho de alta resolução em uma área de um quilômetro quadrado próxima da aldeia neolítica. O lodo escondia um sistema de agricultura completo, perfeitamente preservado, com sulcos de arado e regos de irrigação. O laboratório de paleontologia ambiental acabou de completar as análises das amostras dos caroços que obtivemos com o ROV. Elas mostram que a safra era de grãos. De trigo Einkorn*, Triticum monococcum para ser mais preciso, semeado cerca de dois meses antes da inundação.

- O grão é geralmente semeado nessas latitudes em abril ou maio, - esclareceu Jack.

- Correto. Estamos falando de junho ou julho, cerca de dois meses depois que o Bósforo se rompeu.

- Seis nós significa quarenta e oito milhas náuticas em uma corrida de oito horas, - Mustafá continuou. - Isto pressupõe uma tripulação de reserva, bem como água e provisões, e um dia de trabalho de oito horas. Em mares calmos nossa embarcação teria feito esse percurso, ao longo da costa sul, em pouco mais que onze dias. - Ele pressionou uma tecla onze vezes, avançando a imagem da mini-embarcação ao longo de um mapa isométrico do mar Negro. - É aqui que o programa CAN realmente entra em jogo.

Ele pressionou a tecla outra vez e a simulação se transformou sutilmente. O mar tornou-se ondulado e o seu nível caiu para mostrar o Bósforo como uma queda d'água.

- Aqui estamos no verão de 5545 antes de Cristo, mais ou menos dois meses depois do início do dilúvio.

Ele reposicionou a embarcação perto do Bósforo.

“A primeira variável é o vento. Os ventos que predominam no verão chegam do norte. As embarcações que navegam para o oeste só podem fazer sérios avanços após alcançarem Sinope, o meio do caminho ao longo da costa sul onde o litoral começa a dirigir-se para oeste-sul-oeste. Antes disto, para acompanhar a costa oeste-norte-oeste, eles necessitariam de remadores.

- Quais as diferenças de clima? - perguntou Katya.

- Hoje, as principais flutuações são causadas pela oscilação do Atlântico Norte - replicou Mustafá. - No clima quente, a baixa Pressão atmosférica do Pólo Norte causa fortes ventos do oeste que mantêm o ar ártico no norte, o que significa que o Mediterrâneo e o mar Negro ficam quentes e secos. Quando o clima é frio, o ar ártico vai para o sul, incluindo os ventos do norte sobre o mar Negro. Basicamente fica mais ventoso e úmido.

- E durante a Antigüidade?

- Pensamos que o início do Holoceno, alguns mil anos depois da grande fusão, teria correspondido estritamente a uma fase fria. Era menos árido do que hoje, com considerável quantidade de precipitação. O mar Negro ao sul teria sido um ótimo local para o desenvolvimento da agricultura.

- E o efeito da navegação? - perguntou Jack.

- Vinte ou trinta por cento de probabilidade de ventos fortes para o norte e para o oeste. Alimentei o programa CAN com esses dados e obtive a melhor previsão para cada setor até cinqüenta milhas náuticas da costa durante dois meses de dilúvio, incluindo o efeito do vento sobre o movimento das águas.

- A sua segunda variável deve ser o próprio dilúvio.

- Estamos vendo dez milhas cúbicas de água do mar precipitando-se a cada dia, durante dezoito meses, depois uma queda gradual durante os seis meses seguintes até um equilíbrio ser alcançado. O êxodo teve lugar durante o período de afluência máxima.

Ele pressionou algumas teclas e uma seqüência de figuras apareceu no lado direito da tela.

- Isto mostra a velocidade da corrente leste vinda do Bósforo. Ela diminui de doze nós na queda d'água para abaixo de dois nós no setor mais ao leste, distante mais de quinhentas milhas.

Costas juntou-se à conversa.

- Se estivessem fazendo apenas seis nós, os nossos agricultores neolíticos jamais alcançariam o Bósforo.

Mustafá concordou.

- Posso até predizer onde eles avistaram a primeira terra, trinta milhas a leste do ponto em que a corrente se torna demasiado forte. Dali eles teriam transportado os barcos por terra, passando pela costa asiática do Bósforo, rumo a Dardanelos. A corrente através dos estreitos também teria sido muito forte, então não tenho certeza se eles reembarcariam antes de alcançar o Egeu.

- Deve ter sido um transporte de barcos muito difícil, - disse Macleod. - Quase duzentas milhas náuticas.

- Eles provavelmente separaram os cascos dos barcos e colocaram parelhas de bois para puxar as madeiras de construção sobre trenós - replicou Jack. - Muitas embarcações antigas eram feitas de pranchas de madeira juntadas fixando-se o madeiramento com cordas, o que permitia que os cascos fossem desmontados facilmente.

- Talvez aqueles que foram para o leste tenham deixado, na verdade, suas embarcações no monte Ararat - refletiu Katya. - Eles podem ter separado as pranchas de madeira e tê-las arrastado até ter a certeza de que não necessitariam mais delas, ao contrário do grupo que foi em direção ao oeste e que provavelmente sempre via o mar durante o transporte de seus barcos.

Costas estava olhando para Dardanelos.

- Eles podem até ter iniciado a viagem partindo da colina de Hissarlik. Alguns dos nossos agricultores podem mesmo ter ficado por lá para se tornarem os primeiros troianos.

As palavras de Costas trouxeram à tona, de novo, a grandeza dessa descoberta, e por um momento eles ficaram dominados por uma sensação de respeito. Cuidadosa e metodicamente, estavam juntando as peças de um quebra-cabeça que havia confundido os estudiosos durante gerações, revelando uma estrutura que não pertencia mais ao domínio da especulação. Não estavam simplesmente construindo um dos lados do quebra-cabeça, mas haviam começado a reescrever a história em grande escala. No entanto, a fonte estava tão incrustada em fantasia que ela ainda parecia uma fábula, uma revelação cuja verdade eles mesmos tinham dificuldade em reconhecer.

Jack voltou-se para Mustafá.

- Qual é a distância de vinte dromoi nestas condições?

Mustafá apontou para o lado direito da tela.

- Nós trabalhamos retrocedendo a partir do ponto de desembarque perto do Bósforo. No final do dia eles só haviam feito meio nó contra a corrente e o vento, significando uma jornada de não mais de quatro milhas. - Ele pressionou uma tecla e o barco moveu-se ligeiramente para o leste.

- Em seguida as distâncias se tornam progressivamente maiores, até alcançarmos uma corrida depois de Sinope, onde eles cobrem trinta milhas. - Ele pressionou uma tecla doze vezes e a embarcação cobriu metade do caminho ao longo da costa do mar Negro. - Depois a viagem tornou-se ligeiramente mais árdua durante alguns dias, enquanto eles se dirigiam para noroeste contra o vento predominante.

- Isto dá quinze corridas - disse Jack. - As outras cinco conduzem para onde?

Mustafá pressionou a tecla mais cinco vezes e a embarcação foi parar no canto sudeste do mar Negro, exatamente no contorno previsto da costa antes do dilúvio.

- Acertamos - disse Jack baixinho.

Antes de imprimir a data fornecida pelo CAN, Mustafá conduziu os companheiros para uma área separada, adjacente à sala do mapa. Ele diminuiu as luzes e dispôs várias cadeiras ao redor de um console central do tamanho de uma mesa de cozinha. Então pressionou um interruptor e a superfície se iluminou.

- Uma mesa holográfica iluminada - explicou Mustafá. - O que há de mais recente em representação batimétrica. Este aparelho pode modelar uma imagem tridimensional de qualquer área do fundo do mar para a qual tenhamos dados de pesquisa, desde o solo do oceano inteiro até setores de apenas dois metros de largura. Sítios arqueológicos, por exemplo.

Ele deu um comando e a mesa se encheu de cores. Era uma escavação subaquática, brilhantemente clara, com cada detalhe delineado de forma bastante precisa. Uma certa quantidade de sedimento havia sido retirada para revelar fileiras de cubas com cerâmicas e lingotes de metal colocados em uma barcaça, onde madeiras de construção se projetavam de cada lado. O casco estava colocado em uma vala acima de um declive íngreme, e grandes porções de rocha desapareciam de cada lado onde a lava havia outrora escorrido.

- O naufrágio minoano como ele estava dez minutos atrás. Tack me pediu para deixá-lo à mão de modo a poder monitorar o progresso da escavação. Uma vez que tivermos este equipamento em ligação direta o tempo todo, poderemos realmente ingressar em um trabalho de campo que se situa distante, seremos capazes de dirigir as escavações sem nem mesmo nos molhar.

Antigamente enormes esforços teriam sido necessários para preparar o terreno sob a água, as medições eram feitas meticulosamente à mão. Agora tudo isto foi eliminado pelo uso da fotocartografia digital, um conjunto de mapeamento sofisticado que utiliza um veículo operado por controle remoto para tomar imagens ligadas diretamente ao Seaquest. Fotografando durante dez minutos o navio naufragado, naquela manhã, o ROV havia coletado mais informações do que as obtidas com uma escavação esmerada no passado. Do mesmo modo que o holograma, os dados eram incluídos em um projetor a laser que construía um modelo do local em látex, na sala de conferência do Seaquest, e as modificações eram continuamente feitas à medida que os escavadores retiravam artefatos e sedimentos. Esse sistema inovador era mais uma razão para agradecer a Efram Jacobovich, o benfeitor e fundador da IMU que havia posto a perícia de sua enorme empresa de software inteiramente à disposição deles.

Naquela tarde Jack havia passado várias horas examinando o holograma durante uma teleconferência com a equipe de escavação. Mas para os outros era uma visão empolgante, como se eles tivessem sido subitamente transportados para o fundo do mar Egeu, distante oitocentas milhas náuticas. Eles viam o notável progresso que fora feito em vinte e quatro horas desde que tinham sido trazidos de helicóptero. A equipe havia removido muito da sobrecarga que cobria os artefatos e enviado o tesouro encontrado para a segurança do museu de Cartago. Debaixo de uma camada de ânforas cheias de incenso ritual havia um casco de navio mais bem preservado do que Jack ousara imaginar, suas juntas de encaixe tão nítidas como se elas tivessem sido talhadas no dia anterior.

Mustafá pressionou outra tecla.

- E agora o mar Negro.

A tela que mostrava a embarcação naufragada se desintegrou em um caleidoscópio de cores a partir do qual o mar Negro tomou forma. No centro encontrava-se a planície abismai, o tóxico mundo inferior com quase 2200 metros de profundidade. Ao redor da borda ficavam os litorais rasos que se inclinavam mais suavemente do que em muitos outros lugares do Mediterrâneo.

Pressionando uma outra tecla, Mustafá iluminou a linha da costa antes do dilúvio.

- Nossa área-alvo.

Um pequeno sinal de luz apareceu no distante canto sudeste.

- Quarenta e dois graus de latitude norte, quarenta e dois graus de longitude leste. Esta é a posição mais precisa que podemos obter com o nosso cálculo de distância a partir do Bósforo.

- Esta é uma área bem grande, - advertiu Costas. - Uma milha náutica equivale a um minuto de latitude; um grau, sessenta minutos. Esta área tem trezentas e sessenta milhas quadradas.

- Lembrem que estamos procurando por um lugar costeiro, - disse Jack. - Se seguirmos a antiga linha da costa, do lado em direção à terra, conseqüentemente alcançaremos nosso alvo.

- Quanto mais próximo pudermos identificá-lo agora, com precisão, melhor, - disse Mustafá. - De acordo com a batimetria, a antiga linha da costa, neste setor, está afastada da praia pelo menos trinta milhas, bem além das águas territoriais. Ficará bem óbvio que estamos procurando ao longo de um contorno particular. Haverá olhares curiosos sobre nós.

Ouviu-se um murmúrio um tanto deprimente dos demais quando as implicações se tornaram aparentes. O mapa mostrava que eles ficariam perigosamente próximos da costa mais afastada do mar Negro, uma costa selvagem nos dias de hoje, onde o leste encontra o oeste de uma maneira nova e sinistra.

- Estou intrigado com este aspecto. - Macleod apontou para uma irregularidade no solo oceânico, uma cordilheira de quase cinco quilômetros de comprimento, paralela ao antigo contorno da costa. Do lado em direção ao mar havia um precipício estreito que caía mais de quinhentos metros, uma anomalia onde a inclinação média não alcançava esta profundidade nas outras trinta milhas mar adentro. - Este é o único ponto saliente em muitas milhas ao redor. Se eu fosse construir uma cidadela, gostaria de ter uma posição de comando. Este é um lugar ideal.

- Mas a passagem final no papiro fala de lagos salgados, - lembrou Costas.

Katya pegou seu palmtop computer e leu.

- Depois você chega à cidadela. E mais abaixo está situada uma vasta planície dourada, as bacias profundas, os lagos salgados, até onde os olhos podem alcançar.

- Esta é a imagem que eu tenho do Mediterrâneo durante a crise de salinidade de Messina, - comentou Costas. - Água muito salgada e estagnada, como o sul do mar Morto hoje.

- Penso que tenho uma explicação. - Mustafá pressionou uma tecla e o holograma se transformou em um close-up do setor sudeste. - Com o nível do mar mais baixo cento e cinqüenta metros, uma grande área afastada da costa daquela cordilheira ficava seca apenas um ou dois metros acima da antiga costa. Grandes áreas estavam, na verdade, alguns metros abaixo do nível do mar. Quando o nível atingiu o seu valor mínimo, no final do Plistoceno, ele deve ter deixado lagos salgados naquelas depressões. Eles eram rasos e devem ter evaporado rapidamente, deixando imensas camadas de sal. Elas seriam visíveis de uma posição elevada a uma certa distância e não manteriam nenhuma vegetação.

- E vamos lembrar como o sal era importante, - disse Jack. - Era um conservante vital, um importante artigo de comércio. Os antigos romanos prosperaram porque controlavam o sal na embocadura do Tibre, e podemos estar procurando por uma história similar aqui, milhares de anos antes.

Costas falou com ponderação.

- Planície dourada podia significar campos de trigo e de cevada, um prado rico de grãos cultivados com as montanhas da Anatólia como pano de fundo. Era a “montanha cercada de planícies” do relato de Platão.

- Você descobriu, - disse Mustafá.

- Será que tenho razão em pensar que parte da cordilheira está hoje acima da água? - Costas estava examinando a geomorfologia no holograma.

- Este é o cume de um pequeno vulcão. A cordilheira é parte da zona de abalo sísmico ao longo das placas asiáticas que se estendem do oeste para o norte da falha de Anatólia. O vulcão não está completamente adormecido, mas não houve erupção nos anais da história. A caldeira tem cerca de um quilômetro de diâmetro e se eleva trezentos metros acima do nível do mar.

- Qual é o seu nome?

- Não tem nome, - respondeu Macleod. - Tem sido território disputado desde a Guerra da Criméia, 1853-56, entre a Turquia otomana e a Rússia tsarista. Ele fica em águas internacionais, mas mais exatamente na fronteira entre a Turquia e a Geórgia.

- A área tem sido uma zona inativa há muito tempo, - continuou Mustafá. - Apenas alguns meses antes do colapso da União Soviética, em 1991, um submarino nuclear desapareceu perto dali em circunstâncias misteriosas. - Todos ficaram intrigados e Mustafá continuou de modo prudente. - O submarino nunca foi encontrado, mas a operação de busca fez com que fossem trocados tiros entre navios de guerra turcos e russos. Este era um lugar do globo com grande potencial de violência, dadas as associações da Turquia com a OTAN. Ambos os lados concordaram em parar e a confrontação acalmou-se, mas como resultado houve pouca pesquisa hidrográfica nesta área.

- Parece que estamos sozinhos novamente, - disse Costas taciturno. - Países amigos de cada lado mas incapazes de intervir.

- Estamos fazendo o máximo que podemos, - disse Mustafá. - O Tratado de Cooperação Econômica do Mar Negro, em 1992, levou ao estabelecimento do Blackseafor, a força-tarefa de cooperação naval do mar Negro. Isto ainda é mais um gesto do que uma atividade efetiva, e a maior parte da interdição marítima turca continua a ser unilateral. Mas pelo menos a base para a intervenção existe. Há também um vislumbre de esperança no lado científico. A Comissão Oceanográfica Nacional da Turquia está avaliando um oferecimento da Academia de Ciências da Geórgia para colaborar em um laudo de inspeção que incluiria aquela ilha.

- Mas não há esperança de uma força de proteção, - disse Costas.

- Nada que indique direito de possessão. A situação é demasiado delicada. A bola está do nosso lado.

O sol havia se posto e os declives arborizados atrás das luzes de Trabzon estavam encobertos pela escuridão. Jack e Katya caminhavam lentamente ao longo da fenda rochosa, o ruído de seus passos combinando com o som das ondas quando elas quebravam suavemente na praia.

Antes eles haviam ido a uma reunião na residência do vice-almirante que estava no comando do Blackseafor, e o acentuado aroma dos arranjos de pinhos preparados para a recepção ao ar livre parecia segui-los pela noite. Eles haviam deixado o píer do lado leste bem para trás. Jack ainda estava vestindo seu smoking, mas tinha afrouxado o colarinho e retirado a gravata, enfiando-a no bolso com a Cruz de Condecoração por Serviços Prestados que havia relutantemente usado para a ocasião.

Katya estava com um vestido negro comprido e brilhante. Havia soltado os cabelos e tirado os sapatos para andar descalça na arrebentação.

- Você está muito bonita.

- Você também não está mal. - Katya olhou para Jack e sorriu, tocando seu braço ligeiramente. - Acho que já nos distanciamos bastante.

Eles andaram um pouco na praia e se sentaram em uma rocha de onde tinham uma vista panorâmica do mar. A lua, que se elevava no céu, lançava uma luz cintilante na água, as ondas dançavam e brilhavam na frente deles. Acima do horizonte, ao norte, estava escuro como breu, uma frente de tempestade descendo das estepes russas. Uma brisa fria trouxe a sugestão de uma mudança fora de estação que alteraria a aparência do oceano nos próximos dias.

Jack dobrou as pernas e rodeou os joelhos com os braços, seus olhos fixos no horizonte.

- Este é sempre o momento mais tenso, quando você sabe que uma grande descoberta está dentro do seu alcance. Qualquer atraso é frustrante.

Katya sorriu de novo para ele.

- Você fez tudo que podia.

Eles tinham discutido arranjos para se juntar ao Seaquest no dia seguinte. Antes da recepção Jack havia falado com Tom York pelo canal de segurança da IMU. Por ora o Seaquest devia estar indo, em alta velocidade, para o Bósforo, tendo deixado a escavação dos destroços do naufrágio nas mãos seguras do navio-auxiliar. No horário de seu projetado encontro, por helicóptero, na manhã seguinte, o Seaquest deveria estar no mar Negro. Eles estavam ansiosos por alcançá-lo o mais rápido possível e se assegurar que o equipamento estava completamente preparado.

Katya estava olhando para o outro lado e parecia preocupada.

- Você não compartilha do meu entusiasmo.

Quando ela replicou, suas palavras confirmaram a sensação de Jack de que algo a perturbava.

- Para vocês, no Ocidente, pessoas como Aslan não têm rosto, como os inimigos da Guerra Fria, - disse ela. - Mas para mim elas são pessoas reais, de carne e sangue. Monstros que fizeram de meu lar uma terra devastada e desconhecida de violência e voracidade. Para conhecer isto você teria que viver ali, um mundo de terror e anarquia que o Ocidente não vê desde a Idade Média. Os anos de repressão incentivaram uma carência por objetos cujo único pretenso controle é proporcionado por gângsteres e líderes militares. - Sua voz soava emocionada enquanto ela fitava o oceano. - E este é o meu povo. Eu sou um deles.

- Uma pessoa com vontade e força para lutar contra isto. - Jack estava irresistivelmente atraído por sua silhueta escura, que se desenhava contra o horizonte ameaçador.

- Estamos prestes a entrar em meu mundo e não sei se poderei protegê-lo. - Ela se virou para olhá-lo, os olhos insondáveis quando ela fito os dele. - Mas é claro que compartilho de seu entusiasmo.

Eles se aproximaram e se beijaram, primeiro de maneira suave e depois longa e apaixonadamente. Jack ficou subitamente dominado pelo desejo quando sentiu o corpo dela contra o seu peito. Ele fez com que o vestido lhe escorregasse dos ombros e a puxou para mais perto de si.

 

- Permanecendo estabilizado em três-um-cinco graus. Profundidade sessenta e cinco metros, velocidade de subida um metro por segundo. Logo vamos começar a ver a superfície.

Jack observou atentamente através da cúpula de plexiglas à sua esquerda. Apesar da escuridão ele podia distinguir Costas debaixo de uma cúpula idêntica cerca de quinze metros adiante, sua cabeça parecendo desincorporada no misterioso brilho lançado pelos instrumentos do painel. Quando subiram um pouco mais foi possível visualizar melhor o submersível. A cúpula cobria um assento inclinado em forma de concha, amarelo, do tamanho de um homem, disposto de tal modo que o piloto podia sentar-se confortavelmente. Abaixo havia plataformas flutuantes como reservatórios de lastro, e atrás ticava o compartimento da bateria com capacidade de acionar uma dúzia de jatos de água dirigíveis, posicionados por toda a volta, em uma estrutura externa. Duas torqueses como braços de robôs davam ao submersível a aparência de um escaravelho gigante.

- Ali está ele.

Jack olhou para o alto e viu a silhueta do Seaquest vinte metros acima. Ajustou a descarga de água do lastro para reduzir a velocidade da subida e olhou de novo para Costas, que, ao lado, preparava-se para emergir.

Costas sorriu para o amigo.

- Missão cumprida.

Costas tinha todas as razões para estar contente consigo mesmo. Eles haviam acabado de concluir os testes no mar do Aquapod IV, o mais novo submersível, com capacidade para um único ocupante, projetado por sua equipe para a IMU. Ele operava a uma profundidade máxima de cento e cinqüenta metros, quase duas vezes a marca anterior. A bateria de lítio-anodo supercarregada tinha uma vida de cinqüenta horas com uma velocidade de cruzeiro de três nós. O mergulho de uma hora, naquela manhã, no fundo do mar Negro mostrara que o equipamento estava em condições bem acima daquelas exigidas pela tarefa que tinham à frente, uma exploração ao longo da linha da antiga costa mais ao leste do que jamais haviam ido antes.

- Seaquest, aqui é o Aquapod Alpha. Estamos chegando sãos e salvos. Câmbio.

Eles já podiam ver os quatro mergulhadores esperando logo abaixo da superfície para guiá-los. Antes dos últimos dez metros pararam para travar os dois Aquapods, um procedimento-padrão para impedir que se chocassem em mares turbulentos. Enquanto Jack permanecia parado, Costas manobrou cuidadosamente até que as cremalheiras de travamento se alinhassem. Acionando um interruptor ele inseriu quatro hastes de metal diretamente nas cunhas da estrutura externa do navio.

- Parece seguro. Puxe-nos para dentro.

Os mergulhadores desceram rapidamente e conectaram os ganchos do elevador com os Aquapods. Jack e Costas mudaram para estado de prontidão e desativaram os ajustadores de equilíbrio que os mantinham na horizontal. Quando os mergulhadores nadaram de volta para posições seguras, o operador de guincho suavemente puxou cada submersível para dentro do casco do navio.

Eles adentraram uma câmara com holofotes do tamanho de um hangar pequeno de aeronave. O Seaquest estava equipado com um ancoradouro interno com instalações completas, que era bastante útil quando o mar estava muito encapelado para operações no tombadilho ou quando queriam permanecer escondidos. O casco do navio havia se aberto como as portas de lançar bombas de uma imensa aeronave. Quando as duas partes se fecharam, Jack e Costas destravaram as cúpulas que também serviam como abrigo de entrada. Uma plataforma deslizava debaixo delas e se erguia como o elevador em um porta-aviões, fechando firmemente assim que toda a água fosse escoada.

Tom York estava lá para cumprimentar os dois homens quando eles subiram.

- Um teste bem-sucedido?

Jack foi o primeiro a sair ao convés. Falou rapidamente enquanto tirava sua roupa de sobrevivência.

- Não há nenhum problema para relatar. Vamos usar os Aquapods para nosso reconhecimento esta tarde. Os braços robóticos precisam ser substituídos pela câmera de vídeo digital e holofotes.

- Isto está sendo feito exatamente agora, enquanto conversamos.

Jack olhou em volta e viu a tripulação de manutenção trabalhando duro nos submersíveis. Costas estava debruçado sobre a unidade de recarga da bateria conversando animadamente com um dos técnicos. Jack sorriu consigo mesmo quando viu que o amigo, em seu entusiasmo para discutir o desempenho do submersível com sua equipe de engenheiros, havia esquecido de remover seus fones de ouvido.

Jack falou com York enquanto seguia em frente e guardava sua roupa em um dos armários com chave que se enfileiravam no aposento.

- Temos uma hora antes que o Seaquest esteja em posição. É uma oportunidade para rever nossas opções uma última vez. Eu gostaria que todo o pessoal estivesse no console da ponte de comando precisamente às onze horas.

Vinte minutos mais tarde eles estavam parados na frente de um semicírculo de homens e mulheres no interior da cabine de comando do Seaquest. York havia acionado a navegação automática e o sistema de vigilância, ativando a ponte de comando virtual que permitia que o navio fosse operado do console ao lado de Jack. A tela hemisférica acima deles exibia uma vista panorâmica do mar, sua superfície cinza encapelada, um prognóstico agourento da tempestade que vinha se formando ao norte nas últimas vinte e quatro horas.

Jack cruzou os braços e se dirigiu ao grupo.

- Somos uma tripulação reduzida, e nosso trabalho vai ser ainda mais exigente. Não vou fazer rodeios. Vamos nos defrontar com um risco real, provavelmente maior do que aqueles que já enfrentamos até aqui.

Depois de chegar ao Seaquest de helicóptero no dia anterior, Jack havia decidido reduzir a equipe a um número mínimo. Toda a tripulação era de voluntários, mas ele tinha se recusado a arriscar as vidas de cientistas cujo trabalho só poderia começar realmente depois que eles fizessem alguma descoberta. Além dos oficiais de engenharia e do convés, ele selecionara os técnicos mais experientes em armas, inclusive vários homens que pertenceram às Forças Especiais e que Jack conhecia desde o tempo da Marinha.

- O que podemos esperar no que diz respeito a ajuda exterior?

A pergunta veio de Katya, que estava parada no meio da tripulação vestindo um macacão padrão azul com o sinalizador luminoso de ombro da IMU. Jack tentou convencê-la a partir com os outros quando o Sea Venture encontrou-se com eles, assim que passaram por Trabzon, mas ela insistiu que sua habilidade lingüística seria vital para decifrar as inscrições que viessem a encontrar. Na verdade, Jack sabia, depois das longas horas que passaram juntos na noite anterior, que ela não o abandonaria agora, que havia entre ambos um vínculo que não podia ser quebrado, e que ela compartilhava de sua responsabilidade pelo Seaquest e sua tripulação à medida que navegavam mais adiante para uma zona de perigo.

- Vou deixar o chefe da segurança responder a esta pergunta.

Peter Howe adiantou-se e tomou o lugar de Jack.

- A má notícia é que estaremos em águas internacionais, além do limite de doze milhas acordado em um protocolo de 1973 entre a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas e a Turquia. A boa notícia é que a Geórgia e a Turquia assinaram um Acordo de Cooperação para a Segurança da Costa em 1998 e concordaram em fornecer assistência no caso de uma descoberta importante. O pretexto seria o memorando de cooperação que acabaram de assinar, com a ratificação das Nações Unidas, para executar pesquisa geológica em colaboração naquela ilha vulcânica. Eles estariam agindo sob as cláusulas da lei internacional.

Ele deu um passo atrás e olhou para o leste do mar Negro no mapa da Marinha, acima do console.

- O problema é que eles só ajudarão se as suspeitas russas, relativas àquele submarino que desapareceu em 1991, puderem ser diminuídas. Se houver qualquer alusão a outras nações envolvidas em uma busca, eles partirão para o tiroteio. Literalmente. E existem outras preocupações. Desde o início dos anos noventa, os russos participaram ativamente da guerra civil em Abkházia, ostensivamente como uma força de estabilização, mas, na verdade, para atrair a região de volta para Moscou. O principal interesse deles é o petróleo. Em 1999 seu monopólio sobre a produção no mar Cáspio foi ameaçado pelo primeiro oleoduto a contornar a Rússia, desde Baku no Azerbaijão até Supsa na costa da Geórgia, perto de Abkházia. Os russos fariam de tudo para impedir outros investimentos ocidentais, mesmo que isso significasse anarquia e guerra civil. - Howe voltou-se para fitar o grupo reunido.

- Nós dissemos à embaixada russa que estamos executando uma avaliação hidrográfica em comum acordo com os governos da Turquia e da Geórgia. Parece que eles acreditaram nisso. Mas se virem navios de guerra convergindo para o local, presumirão que estamos atrás do submarino. O urso russo pode ter perdido muitas de suas garras, mas ainda é a maior esquadra na região. As relações entre Ankara e Moscou já são muito difíceis por causa do trafico de narcóticos. Poderia pelo menos haver um horrível incidente internacional, muito provavelmente uma guerra que iria aumentando de intensidade até tragar esta parte do mundo.

- Uma questão de somenos importância, - interrompeu Costas. - Não creio que a Geórgia tenha uma Marinha.

- Este é um outro problema, - replicou York de modo taciturno. - Os georgianos, na prática, não herdaram nada da esquadra soviética do mar Negro. Eles têm um navio de ataque rápido do tipo Project 206MP, de construção ucraniana, e um navio fora de uso, da guarda costeira americana, transferido através do Programa de Excesso de Artigos de Defesa dos Estados Unidos. Mas não percam as esperanças. O FAC não tem mísseis porque não possui condições de armazenamento e instalações de teste. E o navio só tem uma metralhadora de calibre cinqüenta.

- Esta não é a verdadeira Marinha da Geórgia.

Todos se voltaram para Katya.

- A verdadeira Marinha da Geórgia está escondida ao longo da costa para o norte, - disse ela. - É a Marinha dos líderes militares, dos homens da Ásia central que usam Abkházia para ter acesso às ricas colheitas do mar Negro e do Mediterrâneo. Estes é que devem ser temidos, meus amigos, não os russos. Falo por experiência pessoal.

Katya era ouvida com evidente respeito pela tripulação. Sua importância, aos olhos deles, era incontestável desde que ela sozinha resolvera a situação difícil com o Vultura, no mar Egeu, dois dias antes.

- E a Marinha turca? - Costas olhou esperançoso para Mustafá, que havia chegado com o Sea Venture no dia anterior.

- Temos uma presença forte no mar Negro, - replicou o turco. - Mas estamos intensificando, com poucos meios, a guerra contra o contrabando. Para auxiliar o Seaquest, a Marinha turca necessitaria transferir unidades que estão no mar Egeu. Não podemos transferir os navios antecipadamente porque qualquer mudança na nossa esquadra no mar Negro despertaria imediatamente a suspeita dos russos. Meu governo só assumirá riscos se uma descoberta importante for confirmada.

- Então, estamos sozinhos.

- Temo que sim.

Na breve pausa que se seguiu, York enviou dois dos tripulantes para a borda do navio; o vento que se levantava ameaçava o equipamento e por isso precisavam amarrá-lo com corda ao tombadilho. Jack interveio rapidamente para centrar a discussão no assunto em pauta; a urgência do seu tom de voz refletia o pouco tempo agora disponível até que o Seaquest chegasse ao local.

- Devemos estar seguros de atingir o lugar certo logo na primeira tentativa. Podemos ter certeza de estar sob vigilância de satélite bem agora, sob os olhos de pessoas que não engolirão essa história de pesquisa hidrográfica por muito tempo.

Um dos ex-homens da Marinha levantou a mão.

- Desculpe, senhor, mas exatamente atrás do que nós estamos?

Jack desviou-se para o lado para deixar a tripulação ver a tela do computador na frente do console.

- Mustafá, vou deixar você explicar como chegamos até aqui.

Mustafá exibiu a imagem isométrica do mar Negro e percorreu rapidamente a interpretação do texto do papiro, avançando a embarcação ao longo da linha da costa até que ela alcançasse o setor sudeste. Agora eles haviam deixado seu porto final de escala e Jack havia decidido tomar a tripulação do Seaquest completamente sob sua confiança. Aqueles que ainda não tinham ouvido detalhes estavam fascinados; mesmo os veteranos ficaram paralisados diante da grandeza de um achado que parecia agigantar-se tão fabulosamente das brumas das lendas.

- Alcançamos o ponto-alvo seguindo o contorno de cento e cinqüenta metros de profundidade, a linha da costa antes do dilúvio. Ela se desloca para o mar à medida que nos movemos para o leste saindo de Trabzon. No momento o Seaquest está exatamente doze milhas náuticas distante da costa, mas pouco a pouco vamos nos afastar mais à medida que formos para o leste.

Ele pressionou uma tecla e a imagem se transformou em um close-up de um mapa.

- Este é o melhor cenário que temos sobre a Atlântida. É Uma área de solo oceânico com vinte milhas náuticas de comprimento por cinco milhas de largura. O seu contorno, com cento e cinqüenta metros de profundidade, continua margeando o lado norte, então estamos olhando aqui para o que era terra seca. Se abaixarmos o nível do mar até aquele contorno, ficamos com uma idéia da sua aparência antes do dilúvio.

A imagem se transformou para mostrar uma planície na parte afastada da costa que levava a uma cordilheira, ao longo da costa, com vários quilômetros de comprimento. Além dela ficava o vulcão.

- Não há muitos detalhes porque há pouquíssimos dados de batimetria para essa área. Mas estamos convencidos de que o local deve ser ou a cordilheira ou o vulcão. A cordilheira se levanta cerca de cem metros acima da linha da antiga costa. O problema é: não há acrópole, nem afloramentos de rochas, acima da superfície do terreno, para uma cidadela. É difícil entender o papiro sem isto.

- O vulcão é um marco bastante bom, - observou Howe. - O lado noroeste forma uma série de plataformas em forma de terraços antes que ele alcance um despenhadeiro. Uma cidadela neste local estaria situada de maneira a causar grande impressão, com um alcance de visão de várias milhas de cada lado. Vocês podem imaginar uma cidade se estendendo ao longo de baixos declives ao lado da costa.

- A defesa era provavelmente um fator, embora não o dominante porque não havia outras cidades-Estado por perto, - afirmou Jack. - A única ameaça podia ter sido causada por bandos de saqueadores formados por caçadores, um último resíduo da Idade do Gelo, mas eles teriam sido muito pouco numerosos. Encontrar terreno alto significava principalmente evitar zonas sujeitas a inundações e pântanos.

- E a atividade vulcânica? - perguntou York.

- Não houve uma erupção vulcânica significativa por mais de um milhão de anos-, - replicou Mustafá. - O que vocês vêem hoje é uma atividade ocasional dos respiradouros, fontes quentes de gases e vapor que são cuspidos para fora quando a pressão dentro do núcleo aumenta periodicamente.

Eles olharam para a tela de realidade virtual, onde agora mal podiam distinguir a ilha no horizonte. Era o cume do vulcão que havia permanecido acima da água depois da inundação. As colunas de vapor se elevando do seu cume pareciam juntar-se ao céu baixo e cinzento, a tempestade que estava trovejando no norte aproximava-se com velocidade alarmante.

Jack falou novamente.

- Na Antigüidade, eventos sísmicos eram quase invariavelmente vistos como sinais dos deuses. Um vulcão, com pouca atividade, poderia vir a ser um lugar importante para a prática de rituais, talvez esse fosse um dos principais motivos para se estabelecerem naquele local. Em uma região tão fértil eu presumiria que ambos, o vulcão e a cordilheira, fossem ocupados. Mas devemos escolher entre os dois. Podemos não ter a oportunidade de fazer uma segunda exploração antes que visitantes indesejados apareçam. Temos vinte minutos antes que o Seaquest esteja sobre a cordilheira. Qualquer sugestão é bem-vinda.

Houve outra pequena pausa enquanto Jack conferenciava com York. Eles fizeram vários ajustes no console de navegação e examinaram as imagens através do radar de vigilância. Quando os dois homens se voltaram para a tripulação, Katya pegou seu palmtop computer e pressionou uma série de comandos.

- Qualquer lugar se adaptaria ao texto, - disse ela. - Tanto a cordilheira quanto o vulcão tinham uma vista panorâmica sobre um amplo vale para o sul com montanhas distantes e lagos salgados no meio.

- Será que o papiro nos diz mais alguma coisa que possa ajudar? - perguntou um dos tripulantes.

- Não, de fato. - Katya olhou atentamente para o texto de novo e sacudiu a cabeça. - Os fragmentos finais do escrito parecem se referir ao interior da cidadela.

- Há algo mais.

Todos se voltaram para Costas, que estivera observando, muito concentrado, a imagem da ilha à medida que ela se tornava maior e mais claramente definida. Ele desviou o olhar e voltou-se para Katya.

- Leia aquela primeira frase depois de chegar à Atlântida. - Katya deu um comando e leu na tela. - Sob o signo do touro

Todos olharam para Costas de maneira interrogativa.

- Vocês estão familiarizados com o bar no topo do telhado no Museu Marítimo em Cartago?

Houve um murmúrio geral de assentimento.

- A vista da baía de Túnis para o leste, o sol da tarde esbanjando sua luz rósea sobre o mar, os dois picos gêmeos do Ba'ai Qarnain perfurando o céu ao fundo.

Todos aquiesceram.

- Bem, talvez poucos de vocês estejam tão familiarizados com a primeira coisa que se avista de manhã. Durante o solstício de verão o sol levanta-se diretamente sobre a sela entre os picos. Para os fenícios, esta era uma montanha sagrada consagrada ao deus Céu. Ba'ai Qarnain significa Deus de Dois Chifres. - Ele se voltou para Jack. - Acredito que signo do Touro se refere ao perfil daquela ilha.

Todos olharam para o aparecimento gradual de uma grande área de terra na tela.

- Estou confuso, - interrompeu Howe. - De onde estamos, a ilha não se parece com nada disso.

- Tente em outra direção, - disse Costas. - Estamos olhando para o sudeste. E como seria a vista se a contemplássemos do contorno da costa, de debaixo do vulcão onde existiu uma povoação?

Mustafá rapidamente pressionou algumas teclas para reorientar a vista para o nordeste, aumentando assim a ampliação e fazendo surgir a imagem do antigo contorno da costa abaixo do vulcão.

Ouviu-se um suspiro de espanto quando a imagem apareceu. Acima deles foram surgindo dois picos separados por uma sela profunda.

Costas olhou para a tela com um ar triunfante.

- Ali, senhoras e senhores, estão nossos chifres de touro.

Jack sorriu abertamente para seu amigo antes de se voltar para York.

- Acho que temos uma resposta. Planeje uma rota para aquela ilha com velocidade máxima.

 

Os holofotes, um de cada lado dos Aquapods, lançavam uma faixa brilhante de iluminação sobre o solo oceânico, os feixes direcionados para convergir cinco metros abaixo. A luz refletia milhões de partículas de lama suspensas como se eles estivessem atravessando véus sem fim de uma neblina salpicada. Rochas isoladas apareciam e desapareciam atrás, à medida que passavam em velocidade máxima. À esquerda o fundo do mar caía abruptamente em um abismo, o cinza desolado do solo oceânico transformando-se em um negrume ameaçador completamente destituído de vida.

O intercomunicador deu um estalido.

- Jack, aqui é do Seaquest. Está me ouvindo? Câmbio.

- Estou escutando alto e claro.

- O avião teleguiado detectou algo. - A voz de York estava ansiosa e excitada. - Você deverá alcançar a posição dele dentro de quinhentos metros se mantiver sua trajetória atual. Estou enviando as coordenadas para que você possa programar a rota se tiver algum problema.

Mais cedo naquele dia a ilha foi surgindo gradualmente no horizonte como uma aparição mítica. Logo antes da chegada do Seaquest, o mar tornou-se muito calmo, uma calmaria sinistra que parecia libertar seus vapores em um manto de fumaça espectral. Quando o vento recomeçou e empurrou a neblina em direção à costa árida, eles se sentiram como exploradores que tiveram a chance de encontrar-se inesperadamente com algum mundo perdido. Com sua falta de vegetação e rochedo íngreme, a ilha parecia inacreditavelmente antiga, um penhasco de solo improdutivo reduzido pelo tempo e intempéries à sua mera essência. No entanto, se seus instintos estavam certos, fora aqui que todas as esperanças e o potencial da humanidade se originaram.

Eles pararam o Seaquest cerca de duas milhas náuticas a oeste da ilha. Para reconhecer os declives submersos haviam usado um avião teleguiado com sonar em vez do ROV, que era limitado a uma inspeção visual. Durante três horas não houve nada de incomum na leitura do sonar, e eles tinham decidido utilizar os Aquapods também. A velocidade era agora o elemento mais importante.

Jack fez um sinal de aprovação para Costas, que estava circundando o contorno do fundo do mar a uma profundidade de 140 metros. Podiam perceber a excitação que se apoderava de cada um, uma sensação de antegozo que não necessitava de trocas de palavras. Desde o momento da chamada telefônica, quando Hiebermeyer revelou pela primeira vez o texto do papiro, Jack soube que eles seriam impulsionados para uma grande revelação. Através de todo o esmerado processo de tradução e de decifração ele sentiu-se altamente confiante de que se tratava do verdadeiro manuscrito, que as estrelas estavam todas alinhadas desta vez. No entanto, o ritmo dos acontecimentos, desde que eles desvendaram o código, lhe deixou pouco tempo para refletir. Apenas alguns dias antes ele se enchera de incrível orgulho por causa do naufrágio minoano. Agora estavam no ápice de uma das maiores descobertas de todos os tempos.

Os Aquapods diminuíram a velocidade até se movimentarem muito lentamente, e eles continuaram em silêncio, cada homem ciente do outro através de suas cúpulas de plexiglas enquanto os visíveis assentos amarelos, em forma de concha, avançavam pouco a pouco na escuridão, separados apenas por alguns metros.

Momentos mais tarde, a visão de formas espectrais começou a se materializar fora da cerração. Eles haviam estudado as imagens da aldeia neolítica de Trabzon antecipando esse momento. Mas nada podia tê-los preparado para a realidade de entrar em um lugar que tinha estado perdido para o mundo por quase oito mil anos.

De repente isso estava acontecendo.

- Vá mais devagar, - disse Jack quase sem respirar. - Dê uma olhada nisto.

O que tinha parecido ser uma ondulação regular no solo oceânico assumia uma nova forma quando Jack dirigiu uma forte rajada do jato de água para remover sedimentos. Quando o local ficou limpo, eles puderam ver as bocas escancaradas de um par de imensos jarros de cerâmica enterrados como colunas, lado a lado, entre paredes baixas de retenção. Uma outra rajada revelou um segundo par de jarros, e ondulações idênticas continuaram ladeira acima até onde a vista podia alcançar.

- Este é um armazém, provavelmente para grãos, - disse Jack. - Eles são como os pithoi* em Cnossos. Apenas quatro mil anos mais antigos.

De repente, uma forma maior apareceu diante deles, bloqueando completamente seu avanço. Por um momento lhes pareceu que haviam chegado à beira do mundo. Eles estavam na base de um enorme rochedo íngreme que se estendia por todo o contorno nas duas direções, sua parede inclinada interrompida por saliências e fissuras como a face de uma pedreira. Depois viram remendos retangulares de piche negro, alguns em intervalos regulares no mesmo nível.

Assombrados, eles então se deram conta do que estavam olhando.

Um imenso conglomerado de telhados planos e de paredes interrompidas por janelas e vias de acesso, tudo coberto por uma manta de lama. Era como uma aldeia neolítica, mas em escala gigantesca. As construções se elevavam por quatro ou cinco andares, as mais altas com terraços na parte superior do telhado, unidos por escadarias e escadas de mão.

Eles pararam os Aquapods e fixaram os olhos com grande admiração, forçando as mentes para registrar uma imagem que parecia ser mais fantasia do que fato.

- É como um imenso condomínio, - maravilhou-se Costas.

Jack fechou os olhos e depois os abriu de novo, a descrença se transformando em assombro à medida que a lama levantada pelos Aquapods começava a se depositar e a revelar os sinais inequívocos de esforço humano ao redor deles.

- As pessoas subiam para o alto do telhado por essas portas. - Seu coração estava acelerado, a boca seca, mas ele se forçava a falar em um tom desapaixonado de arqueólogo profissional. - Suponho que cada um desses blocos abrigava uma família extensa. Conforme o grupo aumentava, eles construíam no sentido vertical, acrescentando estruturas de madeira e andares de tijolos de barro.

À medida que se elevavam eles podiam ver que os blocos eram perfurados por um labirinto de ruelas, uma reminiscência espantosa dos mercados do Oriente Médio.

- Isto deve ter fervilhado com artesãos e comércio - disse Jack. - Não há possibilidade de terem sido apenas agricultores. Eles eram hábeis oleiros, carpinteiros e metalúrgicos.

Ele fez uma pausa e olhou através da cúpula de plexiglas para o que parecia ser a fachada de uma loja localizada no térreo.

- Alguém neste local fez o disco de ouro.

Durante alguns minutos eles passaram por outras construções elevadas de telhados planos, as janelas escuras fitando-os como olhos cegos na luz dos holofotes. Cerca de quinhentos metros para o leste, a partir do armazém de depósito, a conglomeração terminou abruptamente. Na escuridão à frente eles podiam distinguir um outro complexo, distante, talvez, uns vinte metros, e abaixo deles um espaço mais amplo e mais regular que as ruelas.

- É uma estrada, - disse Jack. - Ela deve ir até o antigo litoral. Vamos dar uma olhada e depois retomaremos nossa rota original.

Os dois homens viraram para o sul e seguiram lentamente a estrada declive acima. Duzentos metros depois, ela era interceptada por uma outra estrada que se estendia na direção leste-oeste. Viraram e seguiram para o leste, com os Aquapods mantendo uma altitude de vinte metros para evitar chocar-se com as construções de ambos os lados.

- Extraordinário, - disse Jack. - Estes blocos estão separados nor uma rede regular de ruas, as primeiras em milhares de anos.

- Alguém planejou este lugar.

A tumba de Tutancâmon, o palácio de Cnossos, as paredes fabulosas de Tróia, todas as consagradas descobertas da arqueologia de repente pareciam prosaicas e mundanas, meros trampolins para as maravilhas que apareciam diante deles.

- Atlântida, - Costas sussurrou. - Há poucos dias eu nem mesmo acreditava que ela existisse. - Ele olhou para a silhueta na outra cúpula de plexiglas e disse: - Algum tipo de agradecimento seria bem apreciado.

Jack sorriu apesar de sua preocupação com as fabulosas imagens ao redor deles.

- O.k. Você nos conduziu na direção correta. Eu lhe devo um enorme gim-tônica.

- Isto foi o que ganhei da última vez.

- Então um estoque para o resto da vida.

- Combinado.

Pouco depois as construções de ambos os lados desapareceram de repente e o solo do mar baixou sem que pudessem ver o fundo. Cinqüenta metros adiante ainda não havia nada exceto uma neblina de lama suspensa.

- Minha sonda acústica de profundidade mostra que o solo do mar baixou quase vinte metros abaixo do nível da estrada, - exclamou Jack. - Acho que podemos descer e voltar até o ponto em que as construções desapareceram.

Esvaziaram a água do tanque de lastro até que as luzes revelaram o solo do mar. Ele era plano e sem traços característicos, diferente da superfície ondulada que haviam atravessado quando se dirigiam para a fronteira oeste da cidade.

Alguns minutos mais tarde voltaram ao ponto em que tinham visto estruturas pela última vez. Diante deles o solo do mar se elevava de maneira repentina com um ângulo de 45 graus até alcançar a base das construções no final da estrada acima.

Costas movimentou o Aquapod para a frente até que seu tanque de lastro pousasse no chão, logo antes que este se inclinasse para cima. Dirigiu uma forte rajada de seu jato de água em direção ao declive e depois voltou para onde estava Jack.

- Exatamente como eu pensava!

Retirada a lama, revelou-se um terraço em escadas como assentos em um teatro. Entre o chão e o trecho inicial do terraço havia uma parede de três metros de altura.

- Ela foi desbastada na rocha viva, - disse Costas. - É tufo calcário, não é? A mesma pedra negra usada na Roma antiga. Leve porém resistente, é escavada facilmente, mas serve bem para suportar peso.

- Mas não vimos quaisquer construções em alvenaria-, - protestou Jack.

- Deve haver estruturas sólidas em algum lugar.

Jack estava olhando atentamente para as características do local à sua frente.

- Isso é mais do que apenas uma pedreira. Vamos seguir os terraços e ver aonde eles nos levam.

Vinte minutos mais tarde haviam percorrido três lados de um vasto pátio escavado de quase mil metros de comprimento por quinhentos metros de largura. Enquanto o traçado da estrada seguia a linha da antiga costa, correndo paralelamente a ela e respeitando-lhe as curvas, o pátio estava alinhado na direção sudeste. Eles o ladearam no sentido dos ponteiros do relógio e estavam agora na fronteira sudeste oposta ao seu ponto inicial. Acima deles as construções e a estrada prosseguiam exatamente da mesma maneira que do outro lado.

- Parece um estádio, - murmurou Costas. - Lembro de você dizer que aqueles pátios nos palácios, em Creta, eram lugares onde se açulavam touros, se praticavam sacrifícios e outros rituais.

- Os pátios minoanos era menores, - replicou Jack. - Mesmo a arena do Coliseu, em Roma, tem apenas oitenta metros de circunferência. Este é imenso. - Ele pensou por um instante. - É apenas um pressentimento, mas antes de continuar pela estrada eu gostaria de ir até o centro deste espaço.

De dentro de sua cúpula Costas aquiesceu.

Eles começaram a se dirigir para o centro pelo oeste. Depois de cerca de cento e cinqüenta metros, deram uma parada. À sua frente estava uma massa de pedra coberta de lama, a forma era irregular e bem diferente do limite do pátio.

Costas dirigiu um jato de água sobre a rocha, o que praticamente encobriu sua cúpula com lama. Depois de alguns instantes sua voz chegou pelo intercomunicador.

- Este é um afloramento que permaneceu em pé quando o resto foi escavado.

Jack estava passando bem lentamente, na direção sudeste, por uma projeção de rocha que se estendia por vinte metros a começar do aglomerado principal. A projeção terminava em uma borda redonda de cerca de dois metros de altura e cinco metros de lado a lado. Costas acompanhou quando Jack limpou delicadamente a superfície com seu jato de água, retirando a lama para revelar a rocha nua.

Com estupefação eles fitaram a forma que emergiu, suas mentes incapazes de reconhecer o que viam diante de si.

- Meu Deus!

- Isto é... - Jack vacilou.

- É uma pata, - sussurrou Costas.

- Uma pata de leão. - Jack rapidamente recuperou seu sangue-frio. - Esta deve ser uma estátua gigantesca, com pelo menos cem metros de comprimento por trinta metros de altura.

- Você está pensando no que estou pensando?

- Uma esfinge?

Durante um momento os dois homens se encararam em silêncio, perplexos, através das cúpulas transparentes. Finalmente a voz de Costas soou alterada pelo intercomunicador.

- Parece inacreditável, mas tudo é possível neste local. O que quer que haja acima, está muito longe do caminho que percorremos e nós não vimos. Vou dar uma olhada.

Jack ficou parado enquanto o companheiro flutuava para cima, a cúpula desaparecendo gradualmente até deixar visível apenas um halo de luz. Quando este também estava para desaparecer, Costas parou de maneira abrupta, cerca de trinta metros acima do solo do mar.

Jack esperava ansioso o relato de Costas. Passado pouco mais de um minuto ele não pôde conter-se.

- O que você pode ver?

A voz de Costas pareceu estranhamente apagada.

- Me ajude a lembrar. A esfinge tem um corpo de leão e uma cabeça humana. Certo?

- Certo.

- Veja esta variante.

Costas acionou os holofotes no máximo. A imagem que apareceu bem acima era impressionante e aterrorizante, uma visão de pesadelo. Era como se um flash de iluminação, em uma noite de tempestade, tivesse revelado uma imensa besta elevando-se sobre eles, as feições da silhueta exibindo um brilho espectral que irrompia no meio de grandes quantidades de nuvens.

Jack olhou para cima transfigurado, quase incapaz de registrar uma imagem para a qual todos os seus anos de exploração e de descobertas extraordinárias não o haviam preparado.

Era uma imensa cabeça de touro, os enormes chifres erguidos na escuridão além do alcance da luz, o focinho meio aberto como se ele estivesse prestes a abaixar a cabeça e bater com as patas no chão antes do ataque violento.

Depois do que pareceu uma eternidade, Costas mudou a posição do seu Aquapod voltando-o para a frente e dirigiu a luz para o pescoço da besta, mostrando exatamente a partir de onde ela se transfigurava em corpo de leão.

- Ela foi escavada na rocha viva, basalto ao que parece, - disse ele. - Os chifres se elevam pelo menos dez metros acima das construções. Outrora isso deve ter sido uma ponta saliente feita de lava que fluía para o mar.

Costas estava descendo mais rapidamente agora e logo alcançou Jack.

- A estátua está de frente para o vulcão, - continuou ele. - Isto explica o alinhamento estranho do pátio. Ele respeita mais a orientação dos picos gêmeos do que a linha da costa, que teria sido uma marca de referência mais prática para o planejamento das ruas.

Jack rapidamente compreendeu o significado das palavras de Costas.

- E o nascer do sol teria brilhado diretamente entre os chifres e os dois picos, - ele disse. - Deve ter sido uma vista que mesmo os antigos mal podiam ter imaginado em suas fantasias mais selvagens sobre o mundo perdido da Atlântida.

Os dois Aquapods subiram juntos, vagarosamente, até o parapeito, seus jatos de água expulsando uma tempestade de lama à medida que eles se afastavam do solo do pátio. A forma traseira da gigantesca esfinge-touro foi engolida na escuridão atrás deles, mas a imagem da colossal cabeça com os seus chifres curvos e proeminentes permanecia gravada em suas mentes.

O perímetro sudeste era maior do que o resto, elevando-se pelo menos dez metros verticalmente.

- É uma escadaria, - disse Jack. - Uma grande entrada para o pátio.

Os dois Aquapods foram um para cada lado, Jack à esquerda e Costas à direita. Em poucos instantes, um parecia ao outro como um simples borrão amarelo na escuridão. No topo havia uma ampla estrada, que, como seus jatos de água revelaram, apresentava uma superfície branca lustrosa.

- Parece um pavimento de mármore.

- Eu não sabia que as pessoas já trabalhavam a pedra tão cedo. - Costas ficara maravilhado antes com a extensão da extração de pedra no pátio, e agora havia ali evidência de trabalhos de alvenaria. - Eu pensava que a extração de pedras só houvesse começado com os egípcios. Os caçadores da Idade da Pedra escavavam procurando coisas muito duras para fazer ferramentas, mas esta é a evidência mais antiga de construções em pedra cortada com precisão. Isto atribui uma data anterior em relação as primeiras extrações egípcias de pelo menos dois mil anos.

Eles continuaram avançando silenciosamente, nenhum dos dois capaz de compreender a enormidade do seu achado.

Marcas fosforescentes aumentavam atrás deles como uma esteira de névoa. A estrada seguia a mesma orientação que o pátio, conduzindo, do olhar fixo da esfinge-touro, diretamente para a base do vulcão.

- Posso ver estruturas à minha direita, - anunciou Costas. - Pedestais, pilares, colunas. Estou passando por uma quadrada, de quase dois metros de largura. Suas torres elevam-se a perder de vista. Parece um obelisco.

- Estou vendo o mesmo, - disse Jack. - Elas estão dispostas de maneira simétrica, exatamente como nos recintos dos templos egípcios em Luxor e Karnak.

Os holofotes revelaram uma sucessão de formas espectrais de cada lado do caminho processional, as quais iam aparecendo e em seguida desaparecendo gradativamente como fantasmas vislumbrados em uma tempestade de areia. Eles viram altares e pedestais, estátuas de cabeça de animais e membros esculpidos de criaturas muito bizarras para serem reconhecidas. Os dois homens começaram a se sentir enfraquecidos, como se estivessem sendo seduzidos por essas sentinelas que acenavam de dentro de um mundo além de sua experiência.

- Isto é como a entrada do Hades, - murmurou Costas.

Eles percorreram o corredor entre as lúgubres fileiras de estátuas à espreita, uma presença chocante que parecia reprová-los por violar um domínio que havia sido só delas durante milênios.

Momentos mais tarde a palidez sumiu do rosto de ambos quando a estrada terminou de maneira abrupta em duas grandes estruturas divididas por uma passagem central. Ela tinha dez metros de largura, menos que a metade da largura da estrada, e degraus baixos como aqueles que conduziam ao pátio.

- Posso ver blocos, cada um com quatro ou cinco metros de comprimento e talvez dois metros de altura. - Costas sentiu-se subitamente exaltado. - É para aqui que vinham todas as pedras extraídas! - Ele parou bem no meio da passagem e usou seu jato de água para retirar lama da base da parede. Dirigiu sua luz de modo que iluminasse a estrutura.

Jack estava distante cerca de dez metros de Costas e ao olhar na direção do companheiro podia ver-lhe o rosto sob a cúpula.

- É a minha vez de fazer reconhecimento.

Jack deu saída à água e começou a subir, mas, em vez de ir afastando-se aos poucos, ele sumiu abruptamente em uma borda não muito acima.

Vários longos minutos depois sua voz se fez ouvir no inter-comunicador.

- Costas, você está me ouvindo? Isto é incrível.

- O que é?

Houve uma pausa.

- Pense nos monumentos mais marcantes do antigo Egito. - O Aquapod de Jack reapareceu e ele desceu até a passagem.

- Não é uma pirâmide.

- Você adivinhou.

- Mas pirâmides têm lados em declive. Estes são verticais.

- O que você está vendo é a base de um terraço muito grande, - explicou Jack. - Cerca de dez metros acima de nós ele se transforma em uma plataforma de dez metros de largura. Acima deste há um outro terraço com as mesmas dimensões, depois um outro, e assim por diante. Eu percorri toda a extensão deste lado e pude ver que o terraço continua do lado sudeste. É o mesmo desenho básico que o das primeiras pirâmides egípcias, as pirâmides escalonadas do início do terceiro milênio antes de Cristo.

- Qual é o tamanho disto?

- Esta é a diferença. Esta é imensa, mais parecida com a Grande Pirâmide em Giza. Eu estimaria cento e cinqüenta metros de lado a lado na base e oitenta metros de altura, mais da metade do caminho até o nível do mar. É inacreditável. Este deve entrar na categoria do mais antigo e maior edifício de alvenaria no mundo.

- E do meu lado?

- É idêntico. Um par de pirâmides gigantescas marcando o fim do caminho processional. Atrás disto espero encontrar alguma forma de templo ou um complexo mortuário, talvez desbastado no interior do vulcão.

Costas ativou o monitor de navegação que se elevou à sua frente como a mira da arma de um piloto de avião de combate.

Jack olhou para baixo quando o modem da radiofreqüência mostrou a mesma imagem na sua tela.

- Um mapa hidrográfico recentemente superado, - explicou Costas. - Feito por um navio de inspeção britânico que realizou medidas sonoras manuais para determinar a profundidade da água, enquanto acompanhava a derrota infligida pelos Aliados à Turquia otomana, no fim da Primeira Guerra Mundial. Infelizmente a Marinha Real só teve um tempo limitado antes que a República Turca adquirisse controle e as forças soviéticas fechassem as portas do mar Negro. Ele é o mais detalhado que consegui, mas em uma escala de um para cinqüenta mil só mostra amplos contornos de batimetria.

- O que você quer dizer?

- Dê uma olhada na ilha. - Costas deu um comando para uma vista em close-up. - Os únicos aspectos irregulares, grandes bastantes para aparecer na inspeção, eram aqueles dois montes subaquáticos que se elevam contra o lado noroeste da ilha. Eles são estranhamente simétricos, não é?

- As pirâmides! - O rosto de Jack abriu-se em um amplo sorriso. - Tanto melhor para o nosso trabalho de detetive. A Atlântida tem sido mostrada em um mapa por mais de oitenta anos.

Eles diminuíram a velocidade no centro da passagem, as pirâmides foram aparecendo pouco a pouco com sua sólida alvenaria perfeitamente ajustada, apenas visível através da escuridão que havia de cada lado. Como Jack estimou, eles ultrapassaram as extremidades depois de cento e cinqüenta metros. Os degraus continuaram adiante na escuridão.

O único som, à medida que avançavam, era o zumbido dos jatos de água enquanto eles mantinham uma altitude constante de um metro acima do solo do mar.

- Olhe!

Houve uma súbita comoção e uma praga abafada. Durante uma fração de segundo, em que a atenção de Costas foi desviada, ele colidiu com um obstáculo logo adiante.

- Você está bem? - Jack estava uns cinco metros atrás do companheiro, mas então o alcançou e ficou ao seu lado, o rosto mostrando preocupação enquanto olhava atentamente através do redemoinho de lama.

- Não há dano evidente, - respondeu Costas. - Felizmente estávamos andando em baixa velocidade.

Costas fez um diagnóstico de rotina com seu braço robótico e arrumou o holofote antes de retroceder alguns metros.

- Regra número um ao dirigir: sempre olhe para onde você está indo, - disse Jack.

- Obrigado pelo aviso.

- Então, o que era?

Eles se esforçaram para ver através da lama. A perturbação do local havia reduzido a visibilidade para menos de um metro, mas quando o sedimento começou a se depositar começaram a distinguir uma forma curiosa bem à sua frente.

- Parece um espelho de banheiro de tamanho fora do comum, - disse Costas.

Era um imenso disco, talvez com cinco metros de diâmetro, colocado em um pedestal de quase dois metros de altura.

- Vamos procurar inscrições, - sugeriu Jack. - Você limpa a lama e eu vou dar uma volta aí em cima para ver se encontro algo.

Costas desprendeu uma luva de metal de seu painel de instrumentos, inseriu sua mão esquerda e curvou os dedos. O braço robótico na frente do Aquapod imitava exatamente seus movimentos. Ele abaixou o braço até o bocal do jato de água que se projetava do chassi e selecionou um tubo do tamanho de um lápis. Depois de ativar o jato, começou a limpar metodicamente, a partir do centro do disco para fora, traçando círculos cada vez maiores na pedra.

--Esta é uma bela pedra granulada. - A voz veio do halo amarelo que era tudo o que Jack podia ver de Costas no meio da nuvem de lama logo abaixo. - É um granito ou um mármore de Crescia, semelhante ao pórfiro egípcio. Só que este tem partículas esverdeadas como o lápis lacedaemonia de Esparta. Deve ter sido uma rocha de mármore local submersa pelo dilúvio.

- Você pode ver algumas inscrições?

- Há alguns entalhes lineares.

Costas esguichou com cuidado no lugar onde estava Jack. Quando a lama se depositou, o padrão inteiro foi revelado.

Jack soltou um grito de alegria.

- Sim!

Com uma precisão geométrica o construtor havia esculpido um complexo de entalhes horizontais e verticais na superfície polida. No centro havia um símbolo como a letra H, com uma linha vertical pendurada da linha transversal e as laterais se estendendo em uma fileira de pequenas linhas horizontais como um rastelo de jardim.

Jack enfiou a mão livre no bolso de seu casaco e de maneira triunfante pegou uma cópia feita em polímero do disco de ouro para que Costas a visse. Era uma réplica exata feita por laser no Museu de Cartago, onde o original estava guardado a sete chaves. A cópia tinha sido levada ao Sea Venture por helicóptero pouco antes da chegada deles.

- Eu trouxe isto comigo para o caso de encontrarmos algo, - disse Jack.

- Atlântida, - Costas sorriu para Jack.

- Este deve ser o marco da entrada. - Jack estava contente, mas olhou de maneira determinada para seu amigo. - Devemos nos apressar. Já passamos do tempo combinado para o reconhecimento e o Seaquest deve estar esperando por nós para restabelecer contato.

Eles aceleraram e desceram rapidamente rodeando cada lado do disco de pedra, mas quase imediatamente tiveram de desacelerar quando se confrontaram com uma forte inclinação no declive. A passagem se estreitava em direção a uma escada com degraus não muito mais largos do que os dois Aquapods. Quando começaram a subir eles mal podiam distinguir os declives rochosos e vertiginosos de cada lado do vulcão.

Costas elevou seus holofotes e examinou com muita atenção o que havia à frente, preocupado com o seu quase desastre de poucos minutos antes. Depois que subiram apenas alguns degraus ele falou:

- Há algo estranho aqui.

Jack estava hipnotizado por uma série de cabeças de animais esculpidas que se alinhavam na escadaria ao seu lado. Elas pareciam desfilar em procissão para o alto, atraindo-o para lá, e estavam identicamente esculpidas em cada degrau. À primeira vista pareciam os leões rosnadores da arte suméria e egípcia, mas quando olhou mais cuidadosamente ficou espantado ao ver seus incisivos imensos, como os dos tigres com dentes de sabre da Idade do Gelo. Havia tanto para se maravilhar, tanto para assimilar, ele pensou.

- O que é isto? - ele perguntou.

A voz de Costas soou perplexa.

- Está incrivelmente escuro acima de nós, quase um breu. Chegamos a uma profundidade de cem metros e deveria haver vestígios da luz do sol. Deveria estar ficando mais claro e não mais escuro. Deve haver algum tipo de saliência. Sugiro que... Pare! - ele berrou repentinamente.

Os Aquapods pararam apenas a alguns centímetros da obstrução.

- Jesus! - exclamou Costas com vigor. - Quase bati de novo.

Os dois homens olhavam espantados e boquiabertos. Acima deles aparecia uma forma colossal que se estendia dos dois lados até onde conseguiam enxergar. Ela barrava o caminho da escada de lado a lado, bloqueando o progresso deles e escondendo qualquer entrada que pudesse haver atrás.

- Meu Deus! - exclamou Jack. - Posso ver rebites. Ê um navio naufragado.

Sua mente oscilou enquanto se lançava das profundezas da Antigüidade até o mundo moderno, para uma intromissão que parecia quase uma blasfêmia depois de tudo que haviam visto.

- Ele deve ter entalado entre as pirâmides e o vulcão. - É exatamente o que precisamos, - disse Jack com resignação. - Provavelmente da Primeira ou Segunda Guerra Mundial. Há uma porção de navios inexplorados afundados por U-boats* em todo o mar Negro.

- Eu tive um mau pressentimento sobre isto. - Costas estava manobrando seu Aquapod para o nível acima da curva do casco do navio. - Volto já.

Ele foi para a esquerda, quase fora do campo de visão, e depois girou e retornou sem parar, seus holofotes direcionados para a massa negra. Jack se perguntava quanto estrago havia sido causado, quanto tempo precioso seria necessário para vencer este novo obstáculo inoportuno.

- Bem, o que é?

Costas aproximou-se dele e falou bem devagar, num tom que era uma mistura de apreensão e excitação.

- Você pode esquecer a Atlântida por um tempo. Acabamos de encontrar um submarino nuclear russo.

 

- É um Akula classe SSN, um submarino nuclear de ataque. Não tenho dúvida de que este é Kazbek, o navio que desapareceu neste setor em 1991. - York curvou-se sobre as telas no console na ponte de comando do Seaquest, seus olhos se movendo entre a imagem de sonar recém-enviada por um ROV que passava por cima do naufrágio e um conjunto de especificações transferidas de uma base de dados do IMU sobre embarcações navais do antigo bloco soviético.

Jack e Costas haviam voltado nos Aquapods menos de uma hora antes e tinham se dirigido direto para uma reunião com York e Howe. A tempestade que estivera se formando durante toda a manhã no céu do norte agora se fazia presente, e Howe havia ativado o sistema que equilibrava o lastro de água para manter o barco estável. Era um novo acontecimento agourento que aumentava a ansiedade de Jack quanto a voltar para debaixo da água com máxima urgência, e todas as mãos disponíveis estavam agora se amontoando sobre o console enquanto tentavam localizar a presença sinistra que estava bloqueando seu caminho em direção ao fundo do mar.

- Akula é a designação da OTAN, a russa é tubarão. Kazbek nome dado por causa da mais alta montanha no Cáucaso central. - Katya aproximou-se do console, oferecendo um café a Jack com um sorriso. - A designação soviética era Projeto 971.

- Como é que você sabe de tudo isto?

A pergunta veio de um cientista chamado Lanowski, que havia se juntado ao Seaquest em Trabzon, um homem magro e cabeludo que usava óculos com lentes de cristal e olhava para Katya com desprezo evidente.

- Antes de estudar para o meu doutorado completei o serviço militar compulsório como analista na divisão de guerra submarina no Departamento do Serviço de Inteligência da marinha soviética.

O cientista mexeu em seus óculos e permaneceu calado.

- Consideramos que este seja o melhor de todos os submarinos de ataque, equivalente ao americano classe Los Angeles, - ela acrescentou. - O Kazbek foi construído em Komsomolsk sobre o Amur em 1988 e colocado em operação no início de 1991. Apenas um reator, em desacordo com as avaliações do serviço de inteligência ocidental. Tubos de lançamento: quatro de seiscentos e cinqüenta milímetros e seis de quinhentos e trinta e três milímetros para múltiplas armas, inclusive mísseis de cruzeiro.

- Mas ele não possui ogivas nucleares, - disse York firmemente. - Este não é um SSBN, uma embarcação de mísseis balísticos. O que me intriga é por que os russos foram tão fanáticos para manter a perda em segredo. Muita dessa tecnologia nos era familiar desde que o primeiro tipo apareceu nos meados dos anos oitenta. Logo antes de deixar a Marinha Real, eu participei de uma visita, durante o Acordo para a Redução de Armas Estratégicas, à Frota do Norte na sub-base em Yagenaya, perto de Murmansk, onde nos levaram em um roteiro guiado para conhecer o último Akula. Vimos tudo, exceto a sala do reator e o centro de operações táticas.

- Uma equipe da IMU desautorizou o uso de um Akula I durante a operação de limpeza em Vladivostok dois anos atrás, - acrescentou Costas. - Eu pessoalmente separei as partes dele, uma a uma.

Um dos membros da tripulação perguntou:

- O que aconteceu ao Kazbek? O reator funcionou mal?

- Foi o que tememos naquela época. - Mustafá Alkõzen deu um passo à frente para se dirigir ao grupo. - Um problema de fundição teria precipitado um vazamento de radiação maciça, matando a tripulação e irradiando o oceano por milhas ao redor. No entanto, os monitores de advertência turcos não detectaram radiação anormal nas águas territoriais.

- Uma falha de reator, apesar de rara, resulta em fundição, - disse York. - Com maior freqüência, na verdade, ela reduz a emissão da radiação. E não é o fim do processo. Se o núcleo do reator não pode ser reativado existem sempre os motores diesel auxiliares como back-up!

- O que estamos prestes a ver pode responder a pergunta. - Costas dirigiu a atenção para o monitor de vídeo acima do console, para onde imagens tiradas por seu Aquapod, no fundo do mar, haviam sido transferidas. Ele apontou um controle remoto para o vídeo e passou rapidamente através de uma série de cenas extraordinárias de esfinges-touro e de pirâmides até que as formas se tornassem menos distintas. Depois deu pausa em uma imagem mostrando uma massa de metal emaranhada, o naufrágio esboçado em uma auréola amarela onde os holofotes refletiam os sedimentos suspensos na água.

- A popa, - disse Costas simplesmente. - Esta é a hélice ou o que sobrou dela. As sete pás da hélice estão intactas mas cortadas rente ao eixo. Essa confusão no primeiro plano é o estabilizador inferior e o inconfundível estabilizador superior, perto da popa do Akula, está visível acima dela.

- Deve ter sido um impacto terrível, - disse um tripulante.

- Nós examinamos o lado leste da pirâmide pouco antes de subir, - continuou Costas. - A alvenaria foi extensamente danificada no lado oposto ao vulcão. Achamos que o submarino estava indo na direção sudoeste com velocidade máxima de mais de trinta nós e estas estruturas foram detectadas muito tarde para que ele pudesse desviar. Eles evitaram uma colisão frontal dando uma guinada a bombordo, mas ao fazer isto bateram a popa contra a pirâmide, com os resultados que vocês podem observar. O submano continuou por mais cem metros até que sua proa ficou presa em uma fenda logo acima da antiga escadaria. Ele afundou em pé entre a pirâmide e o vulcão.

- Inacreditável, - disse York. - Deve ter sido pura loucura viajar àquela velocidade tão perto de uma ilha desenhada em um mapa de maneira tão precária.

- Algo deu muito errado, - concordou Costas.

- Até onde podemos perceber não houve sobreviventes, - continuou York. - No entanto, mesmo a cem metros de profundidade a tripulação teria uma chance usando a versão soviética do colete salva-vidas de capuz Steinke com aparelho de respiração. Até mesmo um único cadáver flutuante teria sido detectado por satélites monitores por causa do mini-radiotransmissor incorporado ao capuz. Por que eles não ejetaram uma bóia SLOT, um transmissor unidirecional lançado do submarino? O casco do navio é ainda mais desconcertante. Você diz que o dano é externo e que não há evidência de que a armação tenha sido rompida. Por que eles não esvaziaram os tanques de lastro? O Akula tem casco duplo com três vezes o poder de flutuação de uma embarcação com um único casco.

- Estas são todas boas questões. - Jack saiu das sombras onde estivera ouvindo silenciosamente. - E podemos certamente encontrar respostas. Mas devemos nos concentrar em nosso objetivo. O tempo está passando rápido.

Ele ficou em frente ao grupo, ao lado de Costas, e examinou os rostos de todos atentamente.

- Estamos aqui para encontrar o centro da Atlântida, não para reiniciar a Guerra Fria. Acreditamos que o texto está nos guiando para dentro daquele vulcão, subindo o caminho processional desde a esfinge-touro em direção a algum tipo de santuário. A escadaria continua sob o submarino, mas não além dele. Nós verificamos isso.

Ele pôs as mãos nos quadris.

- Nosso alvo está abaixo de um cilindro de metal de cento e oito metros de comprimento e que pesa nove mil toneladas. Temos que supor que os tanques de lastro não podem ser aliviados. Mesmo se conseguíssemos um equipamento para deslocar navio, nossas atividades se tornariam óbvias na superfície e os russos avançariam sobre nós como uma bala. Qualquer tentativa para conseguir uma ajuda externa nos faria perder a iniciativa. A Atlântida se tornaria acessível para Aslan e seu bando de saqueadores. As imagens que vocês acabaram de ver seriam as últimas. - Ele fez uma pausa e falou bem lentamente. - Temos apenas uma opção. Vamos ter que entrar lá dentro e abrir caminho através da rocha.

- Profundidade setenta e cinco metros e descendo. Deveríamos estar entrando em uma área visível agora.

Katya observou atentamente através da portinhola de plexiglas à sua esquerda. O que a princípio parecia uma escuridão impenetrável revelou-se aos poucos como uma paisagem marítima de formas maciças e sombras. O casco negro do submarino afundado apareceu repentinamente à frente em toda a sua magnitude assombrosa.

Costas puxou para trás a coluna de direção e voltou-se para o co-piloto.

- Jack, fique pronto com o trem de aterrissagem. Prepare-se para um solavanco.

Katya estava sentada ao lado de dois tripulantes e de grande quantidade de equipamento na fuselagem central do DSRV-4, o veículo de submersão para resgate em águas profundas que era padrão em todas as embarcações classe Sea da IMU. O chão diante deles era dotado de um acoplamento universal que poderia se unir com a porta da escotilha de praticamente qualquer submarino, permitindo que marinheiros aprisionados pudessem ser removidos em grupos de oito ou dez. No cais, os tripulantes haviam feito ajustes finais à alça do estai para se adequar ao SSN russo.

Vinte minutos antes eles haviam vislumbrado o Seaquest pela última vez, quando sua silhueta oscilante desaparecia nas águas turbulentas acima deles.

- Chegando a cerca de cento e oitenta graus para o sul. Profundidade de noventa e cinco metros.

Houve uma pancada surda quando eles chegaram a pousar carcaça dianteira do submarino. Na frente deles levantava-se a parte principal da torre blindada do submarino, o periscópio e o sistema de antena apenas visível sob a luz do holofote acima das portinholas escuras da ponte de comando. Pela primeira vez eles podiam apreciar o imenso tamanho do submarino, quase duas vezes a tonelagem do Seaquest e tão longo quanto um campo de futebol.

Costas olhou para Jack.

- O classe Akula foi o submarino mais silencioso que os soviéticos desenharam. Ele recebeu um revestimento anecóico, finos ladrilhos de borracha no casco exterior destinados a absorver pulsos ativos de sonar. Foi por isso que não fizemos um estrondo maior quando aterrissamos. Também torna mais fácil agarrar o casco usando ventosas de sucção hidráulica em nosso trem de aterrissagem.

Costas moveu cuidadosamente a alavanca de comando para a frente e o DSRV deslocou-se alguns metros para mais perto do estabilizador. Quando ele desceu outra vez a entrada para o compartimento de fuga tornou-se visível.

- Bem como o York suspeitava. Este compartimento está fechado e selado. Qualquer tentativa de fuga e ele estaria aberto.

Costas havia calculado que a antiga escadaria estaria debaixo da sala situada no nariz em forma de cone da sala de torpedos, tornando a escotilha de fuga dianteira seu ponto de acesso mais próximo. Katya havia explicado que mesmo em um estado de emergência de nível baixo as anteparas selariam automaticamente o reator, da área operacional à frente, o que não permitiria que da escotilha perto da popa fosse possível acessar a sala de torpedos.

Costas estivera usando o display de navegação digital para alinhar o DSRV com o seu alvo. Um instante depois houve um som satisfatório quando o aro de enganchar nas docas encaixou-se sobre a escotilha de fuga. Ele desligou o sistema de navegação e acionou quatro interruptores, em cada lado do joystick, nivelando o DSRV com o tombadilho e empregando as pernas estabilizadoras com seus pés de sucção.

- Ele tem uma vedação flexível. Entrada em doca segura.

Costas desatou seu cinto de segurança e virou o pescoço para se dirigir a Katya e aos dois tripulantes.

- Vamos treinar a manobra mais uma vez. O sonar de penetração profunda no ROV sugere que a parte dianteira do submarino continua impermeável. Sobre o resto não se tem certeza, porque o reator e o outro maquinário preenchem muito do espaço interno, mas eles também poderiam estar secos.

Ele rastejou até o sistema de acoplamento e Jack seguiu-o de perto.

- Diretamente abaixo de nós está o compartimento dianteiro de fuga, - continuou ele. - Em uma fuga molhada a tripulação sobe ao compartimento e veste seus respiradores. A escotilha inferior se fecha, o compartimento se enche de água e a tripulação foge através da escotilha superior.

- E no caso de uma fuga seca? - perguntou Katya.

- O DSRV se acopla diretamente à escotilha de fuga exterior, - replicou Costas. - No Akula I modificado, a escotilha é colocada dois metros para dentro do casco, criando uma câmara exterior adicional que atua como uma medida de segurança para o resgate da população. Com a nossa própria escotilha fechada podemos acoplar com o casco, abrir a escotilha da carcaça, bombear o compartimento externo até secá-lo e com um braço robótico abrir a escotilha de fuga situada dois metros abaixo. Depois usamos o sistema sensor externo do DSRV para testar o ambiente interior sem que, na verdade, tenhamos de nos expor a ele.

Costas fez um sinal aos tripulantes e eles começaram a examinar a vedação. Depois de travar manualmente a argola, rastejaram em direção à popa do submersível e sentaram-se lado a lado na frente de um pequeno console. Com o estalido de um interruptor, a cobertura sobre a escotilha na frente de Katya retraiu-se para dentro do casco do DSRV, revelando uma cúpula de plexigas côncava que se iluminou quando um holofote foi ativado e os tripulantes começaram a desacoplar a escotilha do submarino.

Alguns instantes depois ouviu-se um assobio agudo quando a água do mar, dentro da câmara, foi bombeada e substituída pelo ar que estava em um dos cilindros externos de alta pressão do DSRV.

- Câmara evacuada e equalizada, - disse um dos tripulantes. Eivando agora o braço robótico.

Katya se espremeu entre Costas e Jack para ver melhor. Abaixo deles podiam ver um tubo fino que terminava em um dispositivo como uma garra, seu movimento sendo controlado por um dos tripulantes, que usava um pequeno joystick e uma tela de navegação.

- Ele trabalha por pressão diferencial, - explicou Costas. - Nós enchemos a câmara com ar em uma pressão barométrica ambiente, a mesma que existe dentro do DSRV. Enganchamos aquele braço na escotilha e o engrenamos para exercer alguma força de tração, em seguida diminuímos bem devagar a pressão na câmara até ela ficar mais baixa do que a do submarino. Depois, bingo! A escotilha se abre.

Eles ficaram olhando enquanto o braço robótico destravava o fecho de segurança e agarrava firmemente a manivela central; a escotilha se erguia enquanto a tensão era aplicada. O tripulante diante do console estava concentrado em uma tela que lhe dava uma visão em close-up do casco.

- Pressão de um bar. Reduzindo agora. - Ele abriu uma válvula em um cano acima de onde se posicionava e ativou uma bomba extratora que retirou o ar da câmara.

- Bar 0,95; 0,90; 0,85; 0,80. Agora!

Quando ele fechou a válvula todos puderam ver a escotilha flutuando como se estivesse cavalgando uma onda. O braço retraiu-se automaticamente e empurrou a escotilha contra o lado da câmara. Agora podiam ver através da abertura as entranhas do submarino, o holofote que ia dançando sobre tubulações e anteparas no corredor abaixo.

- A pressão está em 0,795 bar.

- Era o que eu estava esperando. - Costas olhou para o tripulante: - Dê-me as especificações ambientais completas antes que compensemos.

Um sistema sensor que incorporava um espectrômetro de gás, um contador Geiger e um medidor de dose de radiação foi baixado da unidade destacável externa de modo a ficar à vista.

- Dose de radiação 0,6 milirém por hora, menos do que você obtém em um grande avião de transporte. Toxicidade geral de nível moderado, com nenhuma indicação significativa de gás ou de derrame químico. Alto teor de amônia provavelmente por causa da decomposição orgânica, 8,2 por cento de oxigênio, 70 por cento de nitrogênio, 22 por cento de dióxido de carbono, 0,8 por cento de monóxido de carbono, um pouco arriscado para exposição prolongada. Temperatura de + 2°C.

- Obrigado, Andy. - Costas olhou de modo estranho para Tack. - Entrar lá agora seria o mesmo que aterrissar no alto do Everest com um kit tropical e a boca com gosto de ovos estragados.

- Beleza - disse Jack. - Por que será que este tipo de coisa sempre acontece quando você está na chefia?

Costas sorriu e olhou de novo para o console.

- Andy, compense o ambiente usando oxigênio puro e empregue depuradores de gás CO2.

Ouviu-se um assobio agudo quando o DSRV começou a derramar oxigênio dentro da escotilha por meio dos cilindros de gás externos.

- O classe Akula tem os seus próprios depuradores, - disse Katya. - Se pudermos ativá-los, eles farão o trabalho por nós. Ele também possui uma unidade que decompõe a água do mar para liberar o oxigênio. Esses submarinos podem ficar debaixo da água durante meses com um ar que é mais puro e mais bem oxigenado que na superfície.

Costas limpou o suor da fronte e olhou para ela:

- Isto levaria muito tempo. As baterias que fornecem energia para aqueles sistemas devem ter se esgotado alguns meses depois que o sistema diesel auxiliar interrompeu suas operações, e prefiro reservar a bateria do DSRV para reativar a iluminação de emergência. O nosso próprio depurador incorpora monóxido de carbono e queimadores de hidrogênio, bem como uma série de filtros químicos.

Uma voz chegou de onde estava o console.

- Alcançamos a pressão ambiente. Em dez minutos o ciclo de purificação estará completo.

- Certo, - disse Costas. - É tempo de se equipar.

Eles vestiram E-suits* bem ajustados, todas as partes externas em contato com o ambiente eram de neoprene moído reforçado com Kevlar, que era o amálgama com que faziam os mais recentes trajes secos de mergulho com o brasão da Marinha americana, roupas que podiam ser usadas em guerra química e biológica. Em torno das panturrilhas colocaram nadadeiras de silicone flexível que podiam ser calçadas debaixo da água.

Costas fez um resumo rápido para os companheiros, enquanto apertava suas correias:

- Teremos condições de respirar com segurança, mas, de qualquer modo, sugiro que coloquemos máscaras que cobrem todo o rosto, enquanto os reguladores misturam e aquecem o ar, bem como filtram as impurezas residuais. Há um suprimento adicional de oxigênio que entra em operação assim que o sensor detecta uma diminuição atmosférica.

A máscara era um capacete de silicone enriquecido que se ajustava perfeitamente à forma do rosto. Depois de terminar de se vestir, Jack ajudou Katya a colocar o seu equipamento completo de subsistência, que consistia em uma mochila de polipropileno de forma aerodinâmica contendo um respirador compacto de oxigênio, um regulador de vários estágios e um conjunto triplo de cilindros reforçados com titânio, cheios de ar, que suportam até oitocentas vezes a pressão barométrica. Os cilindros da IMU eram superleves e estreitos, pesando menos do que um simples conjunto de mergulho antigo e desenhado ergonomicamente de modo que eles mal percebiam o volume adicional.

Em seus pulsos, microconsoles exibiam os dados completos do ambiente, bem como cálculos para uma variação de misturas de hélio, oxigênio e ar nos cilindros. O gás era misturado automaticamente, o computador levava em conta a profundidade, o perfil do mergulho, a temperatura e até a fisiologia individual.

- O intercomunicador deve nos permitir comunicar com o DSRV, - disse Costas. - Ligue-o quando você ativar o sistema SCLS* logo antes de entrarmos.

Depois de realizarem entre eles uma dupla inspeção nos equipamentos de cada um, Jack pegou uma Beretta 92FS, 9 milímetros, de uma prateleira acima da escotilha. Encaixou o pente com quinze balas e guardou a pistola em um coldre à prova d'água e levou consigo um pente de reserva.

- Equipamento-padrão. - Ele olhou para Katya de maneira tranqüilizadora, lembrando a conversa que tinham tido na noite anterior sobre os riscos envolvidos. - Você nunca pode estar inteiramente a salvo nessas empreitadas.

- Doutor Howard. Mensagem urgente do Seaquest.

- Coloque-a no áudio. - Jack levantou o visor de seu capacete e pegou o microfone do tripulante. - Aqui é Howard. Câmbio.

- Jack, é Tom falando. - A voz chegava interrompida pela estática. - A tempestade finalmente nos pegou. Temporais com descargas elétricas, a visibilidade baixou para cinqüenta metros. A força da tempestade é descomunal e está aumentando. Ela é muito pior do que temíamos. Não consigo manter a posição atual tão perto da ilha. Repito. Não consigo manter a posição atual. Câmbio.

A urgência que transparecia em sua voz era absolutamente clara apesar da perturbação. Jack pressionou o botão de resposta.

- Qual é a previsão? Câmbio.

- É uma das maiores tempestades jamais registradas nessa época do ano. A sua chance de abortar a operação é agora. Câmbio.

O DSRV era grande demais para ser preparado em um ancoradouro interno do Seaquest e em vez disto ficava balançando, como os botes salva-vidas, na popa. A experiência havia lhes dado uma apreciação nítida dos perigos de regressar em mares agitados.

- Qual é a alternativa? Câmbio.

- Vocês ficarão sozinhos durante vinte e quatro horas. Pretendo levar o Seaquest para o norte, cerca de vinte milhas náuticas, para detrás da tempestade, e depois seguir atrás dela de volta para o sul. Câmbio.

- O DSRV não pode seguir o Seaquest tão longe debaixo da água, - murmurou Costas. - A bateria está projetada para operações de resgate e só conseguiria nos levar por cerca de duas milhas antes de se esgotar.

Jack fez uma pausa antes de levantar o microfone.

- Tom, espere um momento. Câmbio.

No breve silêncio que se seguiu, Jack olhou para os outros e recebeu um sinal de aquiescência de cada um deles. Andy e Ben eram veteranos da IMU. Andy era um especialista em submersíveis e o técnico-chefe de Costas, e Ben era um antigo integrante da Marinha Real que havia servido na Seção de Embarcações Especiais antes de se juntar ao departamento de segurança de Peter Howe. Os dois homens seguiriam Jack para qualquer lugar e eles estavam profundamente envolvidos com as metas da IMU.

Jack sentiu uma onda de adrenalina percorrê-lo quando viu que a resposta era unânime e sem restrições. Eles tinham ido muito longe para deixar seu alvo escorregar por entre os dedos. Nesse meio-tempo os movimentos do Seaquest já deviam ter despertado o interesse de seus adversários, homens que os eliminariam, sem hesitar um instante sequer, caso eles ficassem em seu caminho. Eles sabiam que essa era sua única chance.

Jack pegou o microfone outra vez.

- Vamos ficar. Repito, vamos ficar. Vamos utilizar as condições atmosféricas adversas para vantagem nossa. Presumo que nenhuma embarcação hostil será capaz de chegar perto de onde nos encontramos. Necessitaremos do tempo que vocês se ausentarem para examinar o submarino. Câmbio.

- Compreendo. - Mal se ouvia a voz através da estática. - Recolham a radio-bóia e utilizem-na só em uma emergência, pois ela pode ser detectado por qualquer receptor em muitas milhas ao redor. Aguardem nosso contato. Muita sorte para vocês todos. Seaquest desligando.

Por um momento, o único som foi o baixo zunido dos depuradores de CO2 e o zumbido do motor elétrico utilizado para recolher a radio-bóia.

- Dez minutos se passaram, - disse Ben do console. - Vocês já podem ir.

- Certo. Vamos dar início à operação.

Andy resvalou até alcançar o grampo de segurança e o destravou. A escotilha abriu-se para fora sem encontrar resistência, a pressão no interior do DSRV e do submarino estava agora equalizada.

Costas moveu as pernas até encontrar os degraus da escada de corda que ficava na parede interna. Ele tinha começado a levantar sua máscara e depois parou.

- Mais uma coisa.

Jack e Katya olharam para o companheiro.

- Isto não é o Marie Celeste*. O Kazbek tinha uma tripulação completa de setenta e três homens quando afundou. Podemos nos deparar com visões horríveis lá dentro.

- Vamos nos dirigir para a frente através do corredor. A antepara atrás de nós veda o compartimento do reator.

Costas alcançou o último degrau da escada de corda no compartimento de fuga e nadou ao redor; sua headlamp* emitia um feixe de luz oscilante no centro do submarino. Jack o seguia de perto e curvou-se bastante quando se voltou para oferecer uma mão a Katya. Ela lançou um último olhar para cima, para os tripulantes que observavam atentamente do DSRV, antes de mergulhar através da escotilha atrás dos outros.

- O que é esta matéria branca? - ela perguntou.

Por todo lugar que olhavam uma incrustação pálida cobria a superfície como uma camada de açúcar. Katya esfregou sua luva ao longo de uma balaustrada, e a substância se espalhou como neve revelando um metal lustroso por debaixo.

- É um precipitado, - explicou Costas. - Provavelmente o resultado de uma reação de ionização entre o metal e os crescentes níveis de dióxido de carbono depois que os depuradores pararam de funcionar.

O brilho fantasmagórico só aumentava a sensação de que este era um lugar completamente isolado, tão distanciado das imagens lá fora que a cidade antiga parecia pertencer a um outro tipo de mundo de sonhos.

Eles avançaram lentamente ao longo de um corredor elevado para um espaço aberto obscurecido pelas trevas. Depois de alguns passos lá dentro, Costas parou debaixo de uma caixa métrica colocada entre as tubulações acima de suas cabeças. Ele procurou, no interior de seu cinto de ferramentas, por um limpador de ar comprimido miniatura ligado a um cartucho de CO2 e usou-o para assoprar o precipitado de um soquete. Depois de conectar um fio elétrico que havia puxado do DSRV, um indicador de luz alaranjada apareceu acima do painel.

- Ei! Nossa! Ainda funciona depois de todos esses anos. E nós todos pensávamos que a tecnologia soviética fosse muito inferior. - Ele olhou para Katya: - Não pretendi ofendê-la.

- Não me ofendi de modo algum.

Pouco depois a luz fluorescente voltou, suas primeiras pulsações surgiram como uma iluminação distante. Quando eles desligaram as headlamps um mundo bizarro se tornou visível, uma confusão de consoles e equipamentos cobertos de manchas brancas. Era como se estivessem em uma caverna de gelo, uma impressão realçada pela luz azulada e as nuvens de exalação que saíam de suas máscaras e encontravam o ar gelado.

- Esta sala é o centro de controle de ataque, - disse Costas. - Deve haver alguma pista sobre o que aconteceu.

Seguiram cuidadosamente até o final do corredor e desceram uns poucos degraus até o outro nível. No convés havia uma pilha de rifles Kalashnikov, com os familiares pentes em forma de banana sobressaindo-se na frente da escada de corda. Jack pegou um rifle enquanto Katya observava.

- Armas das Forças Especiais, com coronha dobradiça, - ela comentou. - AK-74M, 5,45 milímetros, derivada da AK-47. Com a piora da situação política, o Departamento de Inteligência do Estado-Maior Soviético colocou tropas navais spetsialnoe naznachenie - especializadas - em alguns submarinos nucleares. Mais conhecidas por seu acrônimo spetsnaz*. A GRU* tinha pavor de deserções ou insurreições e o combatente spetsnaz era diretamente responsável por evitar isso, essa não era uma tarefa do capitão.

- Mas suas armas normalmente ficariam trancadas dentro de um armeiro, - comentou Jack. - E há algo estranho aqui. - Ele mexeu no pente e puxou de volta o ferrolho. - O pente está cheio até a metade e há uma bala na câmara. Esta arma foi usada.

Um rápido exame revelou que as outras armas se encontravam na mesma condição. Debaixo dos rifles de ataque eles podiam ver uma confusão de revólveres, pentes vazios e caixas de cartuchos usados.

- Dá a impressão de que alguém fez uma arrumação depois de uma batalha.

- Isto foi exatamente o que aconteceu. - Costas falou do centro da sala. - Dê uma olhada ao seu redor.

No meio da sala havia uma cadeira de comando ladeada por duas colunas que alojavam os sistemas de periscópio. Colocados nas paredes ao redor do estrado havia consoles para armas e para controle de navegação que compunham o centro operacional do submarino.

Em todos os lugares via-se destruição. Os monitores dos computadores tinham sido reduzidos a buracos denteados de vidro quebrado, suas entranhas estavam para fora em uma confusão de fios e placas de circuitos. Os dois periscópios haviam sido destruídos, estavam irreconhecíveis, as objetivas danificadas dependuravam-se em ângulos estranhos. A mesa do mapa tinha sido violentamente rachada, o recortado em sua superfície era o resultado inequívoco de uma arma de fogo automática.

- A estação de controle da embarcação sofreu um terrível tiroteio. - Costas estava examinando a destruição no outro lado da sala. - Agora vejo por que eles não conseguiram se mover.

- Onde estão os tripulantes? - perguntou Katya.

- Houve sobreviventes, - Costas fez uma pausa. - Alguém escondeu aquelas armas, e acho que os corpos foram levados para algum outro lugar.

- Qualquer que seja o lugar onde eles acamparam, não foi aqui, - disse Jack. - Sugiro irmos até os alojamentos do submarino.

Katya conduziu-os ao longo do corredor em direção aos compartimentos dianteiros do submarino. De novo eles mergulharam na escuridão, uma vez que o sistema elétrico auxiliar só proporcionava uma luz de emergência nos compartimentos principais. A medida que avançavam, Jack e Costas podiam apenas discernir a silhueta de Katya enquanto ela se segurava no corredor e se atrapalhava para ligar a headlamp.

Houve um súbito ruído e um grito agudo foi ouvido. Jack e Costas lançaram-se para a frente. Katya estava caída no corredor.

Jack ajoelhou-se ao lado dela e verificou seu regulador. O rosto dele demonstrava preocupação quando fitou os olhos de Katya.

Ela estava resmungando incoerentemente em russo. Um instante depois ela mesma se ergueu, apoiou-se no cotovelo e os dois homens ajudaram-na a ficar em pé. Ela falou de maneira hesitante.

- Eu tive um... choque, isto foi tudo. Acabei de ver...

Sua voz enfraqueceu enquanto ela levantava o braço e apontava em direção à sala do sonar, no final do corredor.

Jack ligou a headlamp. O que ela revelou foi uma imagem de horror, uma aparição saída do pior pesadelo. Assomando indistintamente na escuridão havia a forma coberta de branco de um homem enforcado, os braços dependurados como os de algum boneco demoníaco, o rosto grotesco e com a língua para fora enquanto ele olhava de soslaio com seus olhos mortos.

Era uma verdadeira aparição da morte, o guardião de uma tumba da qual nenhum ser vivo fazia parte. Jack, de repente, sentiu um arrepio percorrer-lhe a medula.

Katya se recuperou e voltou à sua posição. Com cautela os três introduziram-se na sala. O corpo estava vestido com a sarja negra de um oficial naval soviético e encontrava-se suspenso pelo pescoço em um laço de fio elétrico. No chão espalhavam-se caixas descartáveis de alimentos e outros detritos.

- O seu nome era Sergei Vassilyevich Kuznetsov. - Katya estava lendo de um diário que encontrou na mesa atrás do cadáver. - Capitão, Segundo Grau, Marinha Soviética. Recebeu a Ordem da Estrela Vermelha por serviços prestados na área da segurança. Ele era o zampolit* do Kazbek, o zamestitev komandira politicheskoi chasti, o comandante encarregado de assuntos políticos. Responsável por supervisionar a confiabilidade política e assegurar-se de que o capitão cumprisse suas ordens.

- Um boneco da KGB, - disse Costas.

- Posso pensar em alguns capitães que conheci na frota do mar Negro que não ficariam descontentes com essa visão. - Ela continuou a ler. - Ele passou seus últimos dias bem aqui. O sonar ativo ficou danificado, então não pôde enviar um sinal. Mas ele monitorou o detector passivo de ondas de radar, procurando por qualquer sinal nas vizinhanças de alguma embarcação de superfície. - Ela virou a página.

- Meu Deus. O último registro é em 25 de dezembro. Por coincidência foi o último dia em que a bandeira vermelha flutuou sobre o Kremlin. - Ela olhou para Jack e Costas com os olhos vazios. - O submarino afundou em 17 de junho daquele ano, o que significa que este homem ficou vivo aqui por mais de seis meses!

Eles olharam fascinados e horrorizados para o cadáver.

- Isto é possível, - disse Costas por fim. - Quer dizer, fisicamente. A bateria pode ter sustentado os depuradores de CO2 e a máquina de dessalinização por eletrólise que extrai oxigênio da água do mar. E havia, evidentemente, muita comida e bebida. - Ele olhou para as garrafas vazias de vodca espalhadas no chão, no meio dos detritos. - Psicologicamente é um outro assunto. Não posso entender como alguém pode permanecer sadio nestas condições.

- O diário está cheio de retórica política, o tipo de propaganda comunista vazia que inculcaram em nós como se fosse uma religião, - disse Katya. - Apenas os membros mais fanáticos do partido eram escolhidos como oficiais políticos, o equivalente da Gestapo nazista.

- Aconteceu algo muito estranho aqui, - murmurou Jack. - Não posso acreditar que durante seis meses ele não encontrou uma maneira de sinalizar sua localização para alguém na superfície. Ele poderia ter ejetado manualmente uma bóia através de um tubo de lançamento de torpedos ou descarregado lixo flutuante. Isto não faz sentido.

- Ouçam isto. - A voz de Katya traía o início de uma compreensão enquanto ela virava as páginas, uma a uma, parando ocasionalmente para examinar o que estava escrito. Ela hesitou por um momento e depois começou a traduzir.

- Eu sou o escolhido. Enterrei os meus camaradas com honras militares completas. Eles sacrificaram suas vidas pela Pátria. A força deles deu-me força. Longa vida para a Revolução! - Ela olhou para os outros.

- O que isto significa? - perguntou Costas.

- De acordo com este diário, havia doze deles. Cinco dias depois de afundarem, eles selecionaram um homem para sobreviver. O resto tomou cápsulas de cianureto. Ele adicionou pesos aos corpos, que foram ejetados através dos tubos de lançamento de torpedos.

- Será que todos perderam qualquer esperança? - Costas parecia incrédulo.

- Eles estavam determinados a não deixar o submarino cair nas mãos da OTAN. Estavam preparados para destruir a embarcação se aparecesse algum salvador de uma nação inimiga.

- Eu posso quase perceber a lógica, - disse Costas. - Você precisa de apenas um homem para detonar cargas explosivas. Um homem consome menos alimento e ar, então o submarino pode ser mantido por muito mais tempo. Qualquer um a mais é pior e desnecessário, um dreno de recursos preciosos. Eles devem ter escolhido o homem que possuía menor probabilidade de sofrer colapso mental.

Jack ajoelhou-se perto das garrafas vazias e balançou a cabeça.

- Deve haver algo mais do que isto. Essa não é uma explicação suficiente.

- O mundo deles estava prestes a ser destruído, - disse Costas. - Pessoas corajosas como estas devem ter se convencido de que elas eram o último baluarte do comunismo, a proteção final contra o Ocidente.

Eles olharam para Katya.

- Todos sabíamos que o fim estava próximo, - disse ela, - e alguns se recusaram a aceitar este fato. Mas eles não colocavam loucos em submarinos nucleares.

Uma questão estava importunando-os desde que viram o cadáver pendurado, e Costas finalmente falou.

- O que aconteceu com o resto da tripulação?

Katya estava lendo uma outra parte do diário, um olhar de incredulidade crescente apareceu em seu rosto quando ela começou a juntar as coisas.

- Era isto que suspeitávamos na inteligência marinha naquela época, só que é pior, - disse ela. - Esta era uma embarcação desertora. Seu capitão, Yevgeni Mikhailovich Antonov, saiu da frota de submarinos do mar Negro, baseada em Sebastopol, para uma patrulha rotineira. Ele desapareceu em direção ao sul sem tornar a fazer contato.

- Ele jamais poderia esperar sair do mar Negro sem ser detectado, - disse Costas. - Os turcos mantêm cem por cento de cobertura por sonar sobre o Bósforo.

- Não acredito que esta fosse a intenção dele. Acho que se dirigia para um encontro. Talvez nesta ilha.

- Parece uma hora estranha para desertar, - observou Jack. - Bem no final da Guerra Fria, com o colapso da União Soviética à vista. Qualquer oficial naval astuto perceberia o que estava por vir. Faria mais sentido simplesmente persistir e esperar.

- Antonov era um oficial brilhante, mas também uma pessoa de pensamento independente. Ele odiava tanto os americanos que foi considerado muito arriscado deixá-lo navegar em embarcações contendo mísseis balísticos. Não creio que isso fosse uma deserção.

Jack ainda estava perturbado.

- Ele deve ter tido algo para oferecer a alguém, algo que valesse a pena.

- Será que o diário revela o que aconteceu com ele? - perguntou Costas.

Katya leu antes de olhar para eles.

- Nosso amigo, o zampolit, soube do que estava em andamento várias horas antes de o navio afundar. Ele juntou a equipe spetsnaz e confrontou o capitão na sala de controle. Antonov já havia providenciado baionetas para os seus oficiais, porém eles não eram adversários para rifles de ataque. Depois de uma batalha sangrenta, o zampolit forçou o capitão e a tripulação sobrevivente a se render, mas não antes que o submarino ficasse sem controle e se chocasse com o fundo do mar. Antes do confronto, Kuznetsov vedou o compartimento de engenharia e reverteu os ventiladores extratores de modo a bombear, para dentro do compartimento, o monóxido de carbono coletado nos depuradores. Os engenheiros morreram antes de saber o que estava acontecendo. Quanto a Antonov e seus homens, eles foram forçados a entrar no compartimento de fuga e depois aprisionados no compartimento do reator.

- Morte por irradiação lenta. Pode ter levado dias, até mesmo semanas.

Costas encarou o rosto mumificado, a horrível sentinela que parecia amarrada ao dever mesmo na morte. Ele olhou como se quisesse atingir com seu punho a cabeça murcha.

- Você mereceu o seu fim, seu bastardo sádico.

- Esta é uma embarcação dos mortos. Quanto antes sairmos daqui melhor.

Katya fechou o diário e conduziu-os para fora da sala do sonar, passando pelo corpo pendurado. Ela evitou dar uma última olhada para o corpo, embora aquele rosto horrível já estivesse gravado em sua mente.

- Lanternas acesas o tempo todo agora, - ordenou Costas. - Devemos presumir que o zampolit programou esta embarcação para um desastre repentino.

Depois de alguns instantes ele levantou a mão.

- Aquela é a escotilha da sala com o carregador de armas, acima de nós, - disse ele. - Teremos de ser capazes de deslizar pelo tubo inclinado diretamente para a sala de torpedos. Este é o poço de um elevador aberto, mas tem uma escada de corda no interior.

Eles foram até a beira do poço logo abaixo da escotilha. Quando Costas estava prestes a pisar no degrau superior, parou e olhou para um dos canos que saía da sala do sonar em direção ao tubo inclinado. Ele escovou a incrustação de uma leve saliência que se estendia ao longo do cano, o que revelou um par de fios Métricos encapados de vermelho amarrados ao metal.

- Esperem aqui.

Costas voltou até a sala do sonar, parando de vez em quando para escovar a incrustação. Logo desapareceu atrás do corpo pendurado, mas não demorou a retornar.

- É bem como eu suspeitava, - disse ele. - Os fios elétricos conduzem até um interruptor que foi conectado por um dueto ao console. É um interruptor SPDT, monopolar e com chave reversora que pode ativar uma corrente e controlar dois circuitos diferentes. Meu palpite é que os fios elétricos vão até a sala de torpedos onde nosso amigo ativou um par de ogivas. A explosão faria esta embarcação voar em pequenos pedaços e nós com ela.

Costas encaminhou-se para baixo, rastreando os fios em seu percurso, e os outros dois seguiram atrás cautelosamente. A incrustação suavizava as reverberações de seus pés, tornando-as um eco abafado que soava de maneira monótona e agourenta através do poço. Na metade do caminho eles pararam para observar atentamente, através de uma escotilha, o alojamento dos oficiais, e suas headlamps revelaram uma outra cena de desordem com roupas de cama e pacotes espalhados pelo chão.

Momentos depois Costas alcançou o final da descida.

- Que bom! A iluminação de emergência funciona aqui também.

O compartimento do outro lado estava cheio de prateleiras abarrotadas, apenas um pequeno espaço permitia alcançar o ponto mais distante. As prateleiras haviam sido projetadas de modo que as armas pudessem ser baixadas diretamente do tubo inclinado para as prateleiras de suporte e daí alimentar os tubos de lançamento, através de um sistema de transporte automático.

- Um suprimento normal em um Projeto 971U seria de trinta armas, - disse Katya. - Até doze mísseis de cruzeiro SS-N-21 Sampson e um sortimento de mísseis antinavios. Mas as ogivas maiores estarão provavelmente nos torpedos.

Costas seguiu os fios dentro de um corredor apertado entre as prateleiras à esquerda da ala central. Depois de ficar alguns momentos agachado, levantou-se com um brilho triunfante nos olhos.

- Bingo! São aquelas duas estruturas diretamente na frente de vocês. Um par de torpedos 65-76 Kit. Os maiores torpedos jamais construídos, com quase onze metros de comprimento. Cada um com quatrocentos e cinqüenta quilos de hélio, o suficiente para perfurar um casco blindado com titânio. Mas deve ser uma coisa simples desativar as ogivas e remover os fios elétricos.

- Desde quando você é um especialista em desativar torpedos russos? - perguntou Jack cheio de dúvidas.

- Cada vez que tento algo novo parece que dá certo. Você já deveria saber disso. - O comportamento de Costas se tornou repentinamente sério. - Não temos escolha. Os fusíveis são eletromagnéticos, e o circuito deve estar deteriorado depois de tantos anos neste ambiente. Nas condições em que se encontram agora é quase certo que eles sejam perigosamente instáveis, e nosso equipamento irá perturbar o campo eletromagnético. Este é um problema que não podemos ignorar.

- OK., você venceu. - Jack olhou para Katya, que acenou concordando. - Já que chegamos até aqui, vamos fazer isso.

Costas deitou-se de barriga para cima no espaço confinado entre as prateleiras e foi se arrastando até que sua cabeça ficasse a um quarto de distância de onde estavam os torpedos. Ele levantou sua máscara por um instante e torceu o nariz quando respirou pela primeira vez dentro do submarino sem a proteção do filtro SCLS.

Os outros dois se aproximaram, Jack pela passagem estreita à esquerda e Katya pela ala central mais larga. Eles podiam ver o rosto do companheiro voltado para cima no assoalho entre os torpedos. Costas insinuou-se em direção ao torpedo ao lado de Jack até que sua cabeça ficasse quase abaixo do mesmo.

- Estamos com sorte. Eles têm uma conexão, no revestimento exterior, que pode ser desparafusada, o que permite que as ogivas sejam armadas manualmente no caso de uma falha eletrônica. O conector desta ogiva foi aberto e o fio elétrico passa Por dentro dele. Eu vou precisar alcançá-lo, desparafusar o fusível e cortar o fio. - Costas rolou para o outro lado e inspecionou o segundo torpedo. - Acontece o mesmo com este.

- Lembre que essas coisas são voláteis, - avisou Katya. - Elas não são elétricas como em muitos torpedos, mas funcionam com querosene e peróxido de hidrogênio. O submarino Kursk foi destruído no mar de Barents em 2000 por causa da explosão de peróxido de hidrogênio vazado de um torpedo 65-76 como este.

Costas fez uma careta e concordou. Ele rolou outra vez e ficou imóvel entre as duas prateleiras, a headlamp apontando diretamente para o alto.

- Por que a demora? - perguntou Jack.

- Estou me colocando na posição do nosso amigo. Se ele e seus companheiros eram tão fanáticos e dispostos a proteger este submarino, devem ter se preparado para qualquer contingência, caso todos morressem. Devem ter suposto que o naufrágio poderia ser descoberto. Meu pressentimento é que este detonador é uma armadilha para os desavisados. Ele está demasiado simples desse jeito.

- O que você sugere?

- Há uma possibilidade óbvia. - Costas pegou o seu cinto de ferramentas e puxou um aparelho do tamanho de uma calculadora de bolso. Mal podiam distinguir a luz verde de uma tela digital LCD quando ele ativou o sensor. Costas levantou o aparelho até o fio que corria entre os torpedos, logo acima de sua cabeça, e prendeu-o cuidadosamente usando um grampo e um minialicate.

- Jesus! Era bem o que eu pensava.

- O que é?

- Este é um multímetro. Ele está dando uma leitura positiva de quinze miliamperes. Este fio está ativo.

- O que isto significa? - perguntou Jack.

- Significa que a instalação elétrica deve estar conectada aos pólos de uma bateria. As principais baterias de chumbo do submarino provavelmente ainda têm armazenada uma voltagem suficiente para produzir uma corrente nesta amperagem baixa. A instalação elétrica deve ser um circuito elétrico fechado contínuo do pólo positivo para o negativo da bateria, com o interruptor na sala do sonar formando o acionador e as duas ogivas completando a conexão. A instalação deve ter sido arriscada, mas eles devem ter calculado que a amperagem seria muito fraca para detonar as ogivas. A chave é oscilação de corrente elétrica que ocorre se alguém tentar remover os fios. Uma tentativa de desconectar o fusível ativador da ogiva causará uma instantânea oscilação de corrente. Se dermos uma leve pancada no interruptor, na sala do sonar, obteremos o mesmo resultado. Não há um disjuntor de circuito para cortar a corrente. Ficaremos pulverizados antes que eu retire a mão do fio elétrico.

Jack soltou um longo suspiro e sentou-se encostado na parede.

- Então, o que faremos agora?

- É corrente contínua, então o fluxo da carga elétrica deve ser em um sentido. Se eu cortar o fio negativo, haverá uma oscilação de corrente elétrica e nós desapareceremos. Se eu cortar o positivo, tudo fica neutralizado e estaremos salvos.

- Qual é qual?

Costas voltou a cabeça para a direita e, através do espaço estreito, olhou, pesaroso, para Jack.

- Nosso amigo pode ainda ter se reservado a última palavra. Com uma amperagem tão baixa não há jeito de saber.

Jack deitou-se no corredor e fechou os olhos. Um instante depois, Costas falou de novo.

- Para ativar uma bomba com uma oscilação de corrente elétrica, o ponto de ignição precisa estar em contato direto com os materiais explosivos no detonador ou com a carga explosiva principal. Eles precisariam ter aberto a ogiva para introduzir o fio de descarga. Há mais espaço para operar do lado onde está Katya, então sugiro que é ali que ele está conectado. Assim, o fio à minha direita seria o positivo.

Costas se virou para Katya e impulsionou o corpo o mais que pôde contra o torpedo, estendendo seu braço esquerdo abaixo da estante até tocar o fio que emergia da ogiva. Ele apoiou a mão no assoalho e começou a raspar ao redor da incrustação.

- Posso sentir o fio.

Katya raspou mais ainda e esticou-o para trás até o tubo inclinado onde se encontravam as armas. Ela correu e foi observar atentamente a escada antes de retornar.

- Ele volta até o interruptor, - ela anunciou.

- Certo. Estou convencido disso. - Costas retirou o braço e procurou em seu cinto uma multiferramenta compacta, abrindo-a de modo a formar um par de cortadores de fios de alta precisão. A borracha em sua luva E-suit forneceria isolamento contra um choque elétrico, embora, se isto acontecesse, ele não vivesse muito tempo para se incomodar.

Ele virou a cabeça em direção a Jack.

- Você está comigo?

- Estou com você.

Costas reassumiu a posição anterior, sua mão esquerda segurava agora os cortadores diretamente abaixo do fio onde este pendia em um leve arco do orifício da tomada no suporte da ogiva.

Durante alguns segundos Costas permaneceu imóvel. O único som era o contínuo gotejamento da condensação e o ruído algo estridente de seus respiradores. Katya e Jack olharam um para o outro por debaixo da prateleira dos torpedos.

Costas estava transpirando por debaixo da máscara e levantou-a com a mão direita para ter uma visão mais clara. Tirou a luva prendendo-a entre os joelhos e enxugou a testa antes de olhar de maneira decidida para o fio.

Katya fechou os olhos bem apertados durante os poucos segundos que Costas levou para apertar as lâminas do cortador no fio. Ele pressionou forte e ouviu-se um estalido alto.

Depois silêncio.

Os três seguraram a respiração pelo que pareceu uma eternidade. Em seguida Costas soltou um longo suspiro e deixou-se cair no assoalho. Depois de uma pausa ele guardou sua multiferramenta e tornou a recolocar a máscara com o respirador. Virou-se para Jack e deu uma piscadela.

- Viu? Sem problemas.

Jack tinha o olhar vazio de um homem que havia encarado a morte com muita freqüência. Ele desviou o olhar para Costas e conseguiu dar um meio sorriso.

- Nenhum problema.

 

Na entrada para o compartimento das armas, Costas retirou um outro aparelho de seu cinto, uma caixa amarela do tamanho de um telefone celular. Ele abriu a tampa para revelar uma pequena tela LCD que brilhava com uma luz verde desbotada.

- Um sistema de posicionamento global, - anunciou. - Isto deve resolver o assunto.

- Como ele consegue funcionar aqui? - perguntou Katya.

Uma série de figuras apareceu na tela.

- Esta caixa é nossa especialidade: um receptor acústico GPS subaquático e um computador de navegação, acoplados, - disse Jack. - Dentro do submarino não podemos enviar ondas acústicas, então não temos acesso ao GPS. Por isso transferimos as especificações para esta classe de submarino do banco de dados da IMU e os juntamos com uma série de localizações GPS fixas que conseguimos, através de bóias de superfície exteriores, quando saímos hoje de manhã nos Aquapods para reconhecimento. O computador deve nos permitir navegar como se estivéssemos usando GPS.

- Achei! - anunciou Costas. - Quando estava no Aquapod anotei a localização do lugar onde a escadaria desapareceu sob o Submarino. Foi a bombordo da sala de torpedos. Rumo duzentos e quarenta e um graus a partir de nossa posição atual, 7,6 metros adiante e 2 metros abaixo. Isto nos coloca do outro lado das prateleiras de armas, logo adiante do tanque de lastro a bombordo.

Quando Costas começou a procurar uma maneira de passar pelas estantes repletas, Katya o alcançou e segurou seu braço.

- Antes de ir até lá, há algo que você precisa ver.

Ela apontou para a ala central no compartimento de armas, logo atrás do local onde eles, tomados por um pânico mortal, haviam se escondido alguns momentos antes.

- Aquela ala deveria estar desobstruída para permitir ao sistema de deslocamento transferir as armas das estantes e transportá-las para os tubos. Mas ela está bloqueada.

Isto deveria ter ficado muito claro desde o início, mas eles tinham estado tão preocupados com a falsa armadilha que falharam em observar o resto da sala.

- É um par de engradados empilhados. - Costas ergueu-se no espaço apertado do lado esquerdo, entre os engradados e as estantes de armas, com a cabeça mal sobressaindo acima da caixa mais alta.

- Há mais dois atrás destes. E mais dois depois deles. - A voz de Costas ficou amortecida quando ele deslizou mais adiante. - São seis no total, cada engradado com cerca de quatro metros de comprimento por um metro e meio de largura. Eles devem ter sido içados de modo a alcançar o tubo inclinado e depois foram arriados até este lugar através dos ganchos dos torpedos.

- São engradados com armas? - perguntou Jack.

Costas reapareceu e sacudiu o precipitado branco que havia grudado em seu corpo.

- Eles são muito pequenos para um torpedo ou um míssil e muito grandes para serem lançados por tubos. Precisamos abrir um deles, mas não temos equipamento nem tempo para isso.

- Há algumas marcações, - Katya havia se agachado diante do engradado mais baixo e raspava vigorosamente a incrustação. Isso revelou uma superfície metálica com figuras impressas em dois agrupamentos separados. - Codificações do Ministério de Defesa Soviético. - Ela apontou para o grupo superior de símbolos -Estas são armas legais.

Em seguida Katya percorreu com a mão o outro grupo, passou a examinar mais cuidadosamente.

- Eletro... - Ela hesitou. - Electrochimpribor.

Eles estavam começando a pensar o impensável.

- Unidade Electrochimpribor, - disse Katya baixinho. - Conhecida como Plant 418, o principal local de montagem das armas termonucleares soviéticas.

Costas apoiou-se pesadamente contra a estante dos torpedos

- Santa Mãe de Deus. Estas são armas nucleares. Cada um desses engradados tem o tamanho certo para abrigar uma ogiva SLBM.

- Tipo SS-N-20 Sturgeon, para ser precisa. - Katya ficou de pé e olhou para os dois homens. - Cada uma delas é cinco vezes mais poderosa do que a bomba de Hiroshima. Há seis engradados, dez ogivas em cada um. - Ela fez uma pausa e olhou para os engradados. - As autoridades fizeram de tudo para manter secreta a perda deste submarino. Posteriormente houve um certo número de desaparecimentos misteriosos, sobretudo em Sebastopol, porto de origem do Kazbek. Agora acredito que eles foram vítimas de um expurgo stalinista à moda antiga. As execuções passaram despercebidas no meio dos eventos significativos daquele ano.

- Você está sugerindo que estas armas nucleares foram roubadas? - perguntou Costas com incredulidade.

- O Exército soviético ficou profundamente decepcionado depois da guerra afegã em 1980. A Marinha começou a se desintegrar com navios fora de serviço e tripulação ociosa. O pagamento era desanimador ou não existente. Mais informações foram vendidas para o Ocidente durante os anos finais da União Soviética do que durante o auge da Guerra Fria.

- Como o Antonov se encaixa nisso? - perguntou Costas. Ele era um homem que podia ser subordinado para bons propósitos, mas que era perigoso quando as rédeas estavam soltas e odiava a glasnost* e a perestroika* e chegou a desprezar o regime seu conluio com o Ocidente. Este parece ter sido o seu último ato de desafio.

- Se o regime não podia mais atacar o Ocidente, ele podia, - murmurou Costas.

- E sua tripulação o seguiria para qualquer lugar, principalmente com o chamariz de uma recompensa em dinheiro.

- Para onde ele estaria levando estas armas?

- Para Saddam Hussein, no Iraque. O Talibã, no Afeganistão Hamas, na Síria. Os norte-coreanos. Isto foi em 1991, lembra?

- Deve ter havido um intermediário - disse Jack.

- Os urubus já estavam voando em círculos, mesmo antes do colapso da União Soviética - replicou Katya de modo desolado.

- Eu subestimei nosso amigo, o oficial político, - disse Costas baixinho. - Ele pode ter sido um fanático, mas também pode ter salvado a humanidade de sua pior catástrofe.

- Isso ainda não acabou, - Jack endireitou-se. - Em algum lugar lá fora há um cliente insatisfeito, alguém que tem estado observando e esperando durante todos esses anos. E os potenciais clientes de agora são muito piores que os de outrora, eles são terroristas dirigidos apenas pelo ódio.

A luz azulada da iluminação de emergência do submarino mal chegava até a escuridão no final da sala de torpedos. Costas acendeu a headlamp até sua capacidade de iluminação máxima antes de caminhar entre as prateleiras de armas em direção às coordenadas indicadas pelo seu aparelho transceptor. Jack e Katya o seguiam de perto, os seus trajes de sobrevivência assumindo uma aparência espectral à medida que eles encostavam na incrustação que havia ao longo de toda a superfície do submarino. Depois de se espremerem no trecho final, eles se agacharam em fila única em uma passagem estreita avermelhada pelo revestimento do casco.

Costas endireitou-se com o dorso apoiado contra o revestimento. Ele enganchou o dedo através de uma grade no chão com cerca de um metro de comprimento.

- Aqui vamos.

Costas deu um impulso para a frente e puxou a grade com toda a sua força. Segundos mais tarde a grade cedeu com um som metálico, espalhando grande quantidade de precipitado ao redor. Jack rastejou até o companheiro para ajudá-lo a colocar a grade deixando a Costas espaço para balançar as pernas no interior do buraco e observar cuidadosamente a escuridão sob eles. Costas foi descendo até que apenas sua máscara ficasse visível abaixo da passagem.

- Estou no chão acima dos porões, - ele anunciou. - Para não entrar em um nevoeiro tóxico só é possível descer até aqui. - Ele tirou o GPS do seu bolso.

Jack passou por cima do buraco para deixar Katya chegar até a beirada. Agora as três headlamps iluminavam a luz verde bruxuleante da tela.

- Bingo! - Costas ergueu o olhar da tela e fitou o revestimento que estava ao alcance de seu braço. - Estou cinco metros acima do ponto onde as escadarias desapareceram sob o submarino. Estamos bem no meio do alvo.

- O revestimento se parece com o quê? - perguntou Jack.

- Estamos com sorte. Por quase todo o seu comprimento o Kazbek tem um casco duplo, um revestimento de compressão interior e um casco exterior hidrodinâmico separados por uma camada de borracha com cerca de vinte centímetros. Ele proporciona melhor isolamento acústico e espaço para um tanque de lastro. Mas logo antes da extremidade em forma de cone ele volta a ter um único casco para permitir um maior espaço interno quando o revestimento se afunila.

Katya inclinou-se para frente.

- Há algo que não entendo completamente.

- Fale.

- Entre nós e a rocha há uma parede de metal de vinte centímetros de espessura. Como vamos passar por ela?

Costas estendeu o pescoço para olhar para Katya. Ele havia deixado sua máscara levantada desde que desativara a ogiva, e a mistura de suor com o branco do precipitado em seu rosto lembrava uma estranha pintura de guerra.

- Amplificação de luz por uma emissão estimulada de radiação.

Katya fez uma pausa.

- Laser?

- Você acertou.

Naquele momento ouviu-se um ruído metálico atrás deles Antes de deixar a ala das armas, Costas havia utilizado o rádio para chamar Ben e Andy no DSRV e dera-lhes instruções de como chegar até a sala de torpedos. Os dois homens haviam utilizado a passagem lateral e agora apareciam com seus E-suits e trazendo malas de rodinhas.

- Vamos precisar de um espaço maior, - disse Costas aos homens. - Venham para cá e juntem-se a mim.

Jack e Katya ergueram mais duas grades, para que os homens pudessem descer ao porão. Logo que chegaram ao espaço confinado, abriram as malas e, com as peças trazidas, começaram a montar o aparelho.

Usando uma fita como compasso improvisado, Costas fez um círculo com giz de cerca de um metro de diâmetro no revestimento do casco. Moveu-se para o lado quando os dois homens levantaram o aparelho para colocá-lo no lugar indicado. O mecanismo parecia um módulo lunar, em escala menor, uma série de pernas articuladas que se estendiam de uma unidade central poliédrica do tamanho de um computador de mesa. Ben segurou a unidade na frente da localização do GPS enquanto Andy posicionava as pernas ao redor do círculo traçado. Depois de uma breve inspeção, ele pressionou o interruptor e as patas de sucção se fixaram ao casco. Ao mesmo tempo, um grupo de hastes saiu de cada junta para travar o aparelho em um único aglomerado sólido.

Ben colocou um tubo telescópico de cada lado da unidade, uma extremidade no centro do círculo de giz e a outra na reentrância escura abaixo da grade de metal do chão. À esquerda da unidade havia uma proteção blindada, como uma caixa em U, aberta em cima, com meio metro de largura. Acima do tubo via-se um visor e, abaixo dele, uma empunhadura e um gatilho.

Depois de uma rápida verificação, Ben conectou um cabo que puxara do DSRV. A tela do LCD atrás da unidade se iluminou e começou a executar uma série de instruções antes de estabilizar em uma tela branca salpicada de ícones de programas.

- Bom trabalho, rapazes, - disse Costas. - Agora vamos colocar este dispositivo em ação.

Costas deu uma série de comandos, seus olhos moviam-se agitadamente entre a tela e o teclado. Depois da finalização do pro inclinou-se para a frente e pressionou o olho contra o visor do aparelho, em seguida fez pequenos ajustamentos ao alinhamento no tubo do telescópio usando um par de joysticks, um de cada lado.

Menos de cinco minutos depois de a força ter sido conectada, ele se inclinou para trás e olhou para Jack.

- Estamos prontos?

- Vá em frente.

Costas agarrou a empunhadura com o gatilho. Quando apertou o gatilho, um tubo de raios catódicos acima do teclado começou a emitir flashes cor de âmbar.

- T menos sessenta segundos.

A luz se transformou em um verde contínuo.

- Pronto para continuar, - anunciou Costas.

- Tempo para a ação? - perguntou Jack.

- Dois minutos. Poderíamos fatiar o revestimento como se fosse manteiga, mas a drenagem de corrente não seria suportável para as baterias do DSRV. Mesmo o que estamos fazendo já pode diminuir a nossa margem de segurança, se quisermos usar o DSRV para retornar ao Seaquest. - Costas olhou para Katya, o rosto dele mostrando uma excitação reprimida.

- Você está olhando para um laser na freqüência máxima do infravermelho acionado por um gás semicondutor lacrado, - explicou Costas. - Se conectá-lo às baterias de prata-zinco de dois mil e setecentos amperes do DSRV, você terá um feixe de 10,6 mícrons de 10 quilowatts. Isto é suficiente para dar aos Klingons* tempo para pensar.

Jack resmungou impacientemente enquanto Costas verificava o cronômetro e dava um toque no teclado.

- O visor é um dispositivo de posicionamento que nos permite apontar o raio perpendicularmente ao casco, - ele continuou, - o laser geralmente queima um buraco de um centímetro de diâmetro no revestimento. Acabei de apontá-lo para uma válvula direcional que nos permite retirar material enquanto mantém fora a água do mar.

- Em teoria, - retorquiu Jack.

- Não há nada de errado com um banho frio de chuveiro.

O módulo começou a emitir um ruído baixo de aviso. Costas retomou sua posição na frente da tela e realizou uma série de diagnósticos. Depois de uma pausa, ele colocou a mão em volta da empunhadura.

- O feixe se apagou automaticamente cinco milímetros antes do acabamento. Estou reativando-o agora.

Ele comprimiu o gatilho e ficou imóvel. Depois de alguns instantes a luz verde reverteu em um âmbar flamejante. Costas examinou o visor com cuidado, o suor de sua testa caindo sobre o cano. Inclinou-se para trás e relaxou.

- A conexão se mantém firme. Nós estamos ligados.

Costas afastou-se para deixar Ben ocupar o lugar no console. Juntos eles acabaram de montar a proteção blindada, em forma de caixa em U, aberta em cima, à esquerda da unidade. Dentro de um reticulado de linhas brilhou intensamente um verde luminoso como uma cortina de fundo de um cenário de teatro em miniatura.

- Ben tem mais prática do que eu - disse Costas. - Alguns desses software são tão novos que não tive a oportunidade de lidar com eles antes de irmos escavar o navio naufragado.

- Você quer dizer que nunca mexeu com isso antes? - perguntou Katya.

- Tudo tem sua primeira vez.

Katya fechou os olhos por um momento. Apesar de toda a alta tecnologia e o estilo militar de planejamento, parece que as operações da IMU, inclusive desativar bombas, se baseiam em uma improvisação e uma prece.

- Aqui é onde este dispositivo se torna muito útil, - entusiasmou-se Costas. - Este é um dos mais sofisticados lasers multiusos jamais produzidos. Preste atenção naquela caixa.

A luminosidade verde desbotada transformou-se em uma luz trêmula de minúsculas partículas que pulsavam a cada poucos segundos. Cada oscilação de corrente formava uma imagem de complexidade crescente, as linhas eram progressivamente mais concretas. Depois de mais ou menos um minuto, a imagem se tornou tridimensional. Era como se alguém tivesse pressionado dentro da caixa uma massa de vidraceiro de um verde incandescente para criar uma caverna em miniatura.

- Um holograma! - exclamou Katya.

- Correto. - Costas permaneceu de olhos grudados na imagem. - A fase dois consiste na inserção de um laser ultravioleta de baixa energia através do buraco no revestimento, um dispositivo de mapeamento que reproduz a imagem como um holograma dentro da caixa. Você pode ajustar o laser de maneira que ele reflita apenas materiais de uma densidade particular, neste caso, o basalto em forma vesícular do vulcão.

Jack olhou para Katya.

- Nós o usamos para duplicar artefatos, - disse ele. - Os dados do mapeamento são transferidos para um laser infravermelho de alta intensidade que pode cortar quase qualquer material com uma precisão cuja margem de erro é de um mícron, menos do que uma partícula de poeira.

- Ele produziu a cópia sintética em polímero do disco de ouro do naufrágio minoano.

Jack aquiesceu.

- A IMU também desenvolveu o hardware necessário para reproduzir os Elgin Marbles* para o Parthenon em Atenas.

Costas inclinou-se sobre o console.

- OK, Ben. Um máximo de resolução.

A oscilação de corrente de pulsação verde para cima e para baixo começou a acentuar aspectos que tinham aparecido em esboço momentos antes. Eles podiam distinguir os afloramentos de basalto em forma de bulbo, uma parede de lava formada milênios antes que os primeiros hominídeos alcançassem essas praias.

Foi Katya quem primeiro percebeu as regularidades na base da imagem.

- Posso ver degraus!, - ela exclamou.

Eles olharam enquanto as linhas horizontais tomavam uma forma inconfundível. Os últimos seis degraus conduziam para cima da face íngreme que terminava em uma plataforma de cinco metros de largura. Acima dela uma rocha suspensa se estendia por todo o submarino, vedando completamente a plataforma.

Ben começou a contagem a cada pulsação do laser.

- Noventa e sete... noventa e oito... noventa e nove... cem. Resolução completada.

Todos os olhos focalizaram a reentrância escura no centro da imagem. O que no início parecia um nevoeiro opaco gradualmente se destacou como um nicho retangular de quatro metros de altura e três de largura. Ele estava na parte posterior da plataforma, atrás das escadas, e havia sido nitidamente desbastado na rocha.

Quando o scanner se retraiu, o nicho ficou claramente visível. No centro eles podiam distinguir um entalhe vertical do chão até o teto. Entalhes horizontais estendiam-se ao longo das extremidades superiores e inferiores. Cada painel estava adornado com a forma em U inconfundível dos chifres de touros.

Costas assobiou enquanto Katya se inclinava para a frente para ver melhor.

Jack rebuscou seu bolso da frente e puxou um pedaço dobrado de papel. Ele leu baixinho a tradução feita por Dillen:

- A grande porta de ouro da cidadela.

Costas olhou para o seu amigo e viu o familiar rubor de excitação.

- Não posso garantir pelo ouro, - disse Jack. - Mas posso dizer uma coisa: encontramos o portal para a Atlântida.

 

Jack observou Katya do outro lado do corredor. Ela estava inclinada sobre a abertura falando com Costas, sua posição encurvada acentuava os limites estreitos entre as prateleiras de armas e o revestimento do casco. A dança agitada de suas headlamps parecia aumentar as trevas espectrais ao redor deles. Poderia pelo menos existir o gemido das velhas anteparas, os sinais da falibilidade que davam vida a qualquer casco. Ele tinha que se lembrar que o Kazbek havia afundado a menos de duas décadas e ainda tinha integridade para resistir muitas vezes à pressão da corrente de água. O navio parecia estar em desacordo com o interior fantasmagórico, com o manto de precipitado que o fazia parecer ter sido construído havia uma eternidade, como as secreções de pedra calcária de uma caverna.

Quando o seu olhar se desviou para a reentrância escura do outro lado do corredor, Jack sentiu um súbito enrijecimento, um sobressalto de medo primitivo que ele não conseguia controlar.

Ele não podia deixar que isso acontecesse de novo.

Não aqui. Não agora.

Jack se forçou a desviar o olhar do corredor para a atividade que se desenvolvia lá embaixo. Por um instante fechou os olhos e apertou os maxilares enquanto chamava todas as suas forças para lutar contra o pesadelo do domínio da claustrofobia. A ansiedade das últimas horas o deixara vulnerável, tinha aberto uma fenda em sua armadura.

Ele teria que ser cauteloso.

Quando sua respiração estava quase se normalizando, Costas olhou para ele e apontou para o display holográfico com sua imagem de realidade virtual do lado íngreme do despenhadeiro. Era uma prova fascinante de que estavam exatamente no alvo.

- A fase três é passar através do casco para a via de acesso, - disse ele a Katya.

- É muito fácil, como você diria.

- Espere e verá.

Ouviu-se um súbito assobio como se houvesse água escapando de uma válvula de radiador.

- Há um espaço vazio de cinco metros entre o casco do submarino e o despenhadeiro, - explicou Costas. - Precisamos criar algo como um túnel de fuga, - explicou Costas. Apontou para um cilindro preso à unidade. - Ele está cheio de um silicato liqüefeito, hidrossilicato eletromagnético 4, ou EH-4. Nós o chamamos de lama mágica. Este assobio é o som que faz por estar sendo forçado pela pressão de gás através do buraco que acabamos de fazer no exterior do casco, e lá ele está se engrossando como geléia.

Costas parou para observar atentamente uma exibição percentual na tela. Quando a figura atingiu cem por cento, o assobio parou abruptamente.

- OK, Andy. Expulsão completa.

Andy fechou a válvula e apertou um outro cilindro.

Costas voltou-se para Katya.

- Em termos simples, estamos fazendo uma câmara inflável, criando efetivamente uma extensão do casco do submarino, feita de silicato.

- A lama mágica!

- Sim, é aqui que entra Lanowski.

- Oh! - Katya fez uma careta quando lembrou do recém-chegado em Trabzon. A figura mal-humorada que se recusou a acreditar que ela podia conhecer alguma coisa sobre submarinos.

- Talvez ele não seja a companhia ideal para um jantar festivo, - disse Costas. - Mas é um brilhante engenheiro em compostos múltiplos. Nós o roubamos do MIT* quando o Departamento de Defesa dos Estados Unidos contratou a IMU para encontrar uma maneira de preservar o que sobrou dos naufrágios da Segunda Guerra Mundial em Pearl Harbor. Ele descobriu um selador hidráulico que pode triplicar a resistência dos restos do casco de metal, extraindo os sais do mar que danificam o ferro velho e inibindo a corrosão. Aqui o estamos usando para propósitos diferentes, é claro. Lanowski descobriu que ele é também um excepcional agente de ligação para certos minerais cristalinos.

- Como você o transforma em uma bolha? - perguntou Katya.

- Esta é a parte engenhosa.

Enquanto eles conversavam, Ben e Andy tinham estado ocupados ajustando um outro componente da unidade laser. Ao redor do círculo feito com giz, haviam colocado um anel com pequenos dispositivos, cada um deles preso ao revestimento por uma ventosa de sucção ativada por uma bomba a vácuo. Fios elétricos espalhavam-se em direção a um painel de controle ao lado do console.

- Aqueles são diodos, - disse Costas apontando para os dispositivos. - Semicondutores de estado sólido. Cada um contém uma bobina que age como uma trava magnética no caso de uma corrente passar através dela. O cabo do DSRV se conecta com o painel de controle e também com aqueles fios elétricos. Estamos usando o cabo para carregar uma bateria reserva, de modo a poder operar de maneira independente, se necessário. De todo modo, obtivemos voltagem suficiente para propagar um feixe direcional de radiação eletromagnética bem através do revestimento do casco.

Costas trocou de lugar, naquele espaço incrivelmente apertado, de modo a permitir que os tripulantes assumissem posições na frente do painel de controle.

- A mistura expelida está suspensa em dióxido de carbono líquido, hidrato de CO2 - explicou ele. - A solução é mais densa do que a água do mar, e a pressão nessa profundidade impede que ela se transforme em gotículas. O revestimento anecóico do submarino é como lixa e deve impedir a mistura de escoar.

Os dois tripulantes chamaram uma versão da imagem holográfica no monitor do computador. Andy estava lendo as coordenadas enquanto Ben digitava as figuras no teclado, e cada dado introduzido produzia um pequeno fio de retícula vermelha na tela. As retículas vermelhas começaram a descrever um círculo irregular ao redor da entrada.

- Lanowski descobriu uma maneira de usar tecnologia cristalina de produção e medição de objetos de tamanho microscópico para aumentar o reticulado magnético através da solução, - continuou Costas. - No momento a mistura é como fibra de vidro liqüefeita, com milhões de minúsculos filamentos comprimidos uns contra os outros. Acrescente uma aplicação de radiação eletromagnética e eles aderem uns aos outros como uma estrutura de rocha, na direção da vibração.

- Como concreto armado, - disse Katya.

- Uma bela analogia. Apenas por seu peso e densidade o nosso material é cerca de cem vezes mais forte do que qualquer outro material de construção conhecido.

O sombreado do desenho tornou-se um círculo contínuo e uma luz verde piscou na trava de controle abaixo. Andy saiu de seu assento e Costas tomou o seu lugar na frente da caixa holográfica. *

- OK. - Costas endireitou-se. - Vamos em frente.

Ben ligou uma chave no painel de diodos e transistores. Ouviu-se um zunido baixo e a luz que rodeava a imagem começou a pulsar. O contador de percentual moveu-se até cem e piscou em verde.

- Estamos operando. - Costas olhou para Katya, a face dele ruborizada por causa da excitação. - Acabamos de aplicar uma corrente magnética de cento e quarenta volts através dos diodos, magnetizando o EH-4 em um anel que foi depois projetado, como uma membrana com espessura de um centímetro, para as coordenadas representadas pelas retículas. A câmara em forma de cone, com o final amplo circundando toda a plataforma de rocha. – Ele pressionou uma tecla. - A corrente liga a membrana ao casco como um aglomerado sólido contínuo. A sonda mostra que o basalto tem um alto grau de magnetismo, de modo que a corrente foi capaz de prender a membrana na rocha, apesar das irregularidades da superfície.

Andy desprendeu os fios elétricos que iam dos diodos para o painel transistorizado.

- Agora que a oscilação inicial de corrente desapareceu, necessitamos apenas de dois fios para manter a carga elétrica, - disse Costas. - A remoção do resíduo nos permite ter acesso ao casco e completar o estágio final.

- Cortar através do casco? - perguntou Katya.

Costas concordou.

- Primeiro precisamos tirar a água do compartimento. Andy está ativando o aspirador que sugará a água através do buraco e a descarregará no submarino. Os porões suportam mais um metro de água. De todo jeito esta embarcação não está indo para lugar nenhum.

- Por enquanto, - disse Jack. Ele tinha estado no corredor observando os procedimentos silenciosamente, os E-suits e o aparelho a laser pareciam um cenário de ficção científica. Seus pensamentos estavam dominados pelo horror nuclear que era dever deles impedir.

- Pronto para ativar a bomba, - disse Ben.

Costas acionou uma chave e o zumbido do transformador foi engolido pelo barulho de um motor elétrico. Segundos depois eles puderam ouvir os jatos de água sendo lançados na escuridão do porão.

- Estamos simultaneamente injetando ar na pressão atmosférica, - disse Costas. - A membrana é forte o suficiente para impedir a câmara de implodir sob o peso da água do mar.

O jato cessou bruscamente e Andy apontou para a tela.

- Estamos secos, - ele anunciou. - Iniciando a fase quatro.

Jack inclinou-se e olhou atentamente para a caixa holográfica buscando algumas alterações na aparência do despenhadeiro. A imagem pulsante mostrou que o scanner tinha sido reativado e estava retransmitindo dados para o conversor holográfico.

- A porta cortada na rocha parece estar se mantendo, - ele disse.

Costas olhou para o holograma.

- A sonda está detectando um pequeno vazamento ao longo do batente. É exatamente como foi previsto.

- Nós fizemos o modelo deste cenário, na noite passada, no Seaquest, - explicou Jack. - Admitimos que as escadas deveriam levar a uma espécie de porta. Também supusemos que a água do mar encontraria seu caminho de modo satisfatório e transbordaria em direção ao que houvesse do outro lado. O fato de a porta não se abrir sob a pressão da água no interior mostra que há um batente cortado na rocha que a impede de se abrir para fora. Há muito pouco crescimento marinho aqui porque o gás sulfídrico na água destrói pouco a pouco quaisquer secreções de calcita.

Houve um súbito som de um pulverizador debaixo deles enquanto a bomba de vácuo ajudava a expelir a poça de água que havia começado a se acumular do outro lado da câmara.

- Deve haver também algum tipo de dispositivo de bloqueamento, - murmurou Jack. - Se este é realmente o caminho para o coração da Atlântida, então eles devem ter ido longe para manter afastados os visitantes indesejados.

- De todo modo, vamos ter de andar no molhado, - replicou Costas. Katya pareceu perturbada.

- Andar no molhado?

- É a nossa única maneira de ir além dessas portas, - explicou Costas. - Sairemos daqui secos, mas depois precisaremos vedar o casco e inundar a câmara. Se as portas abrirem para o interior, necessitaremos equalizar a pressão em relação ao peso da água do outro lado. Uma vez lá dentro ficaremos debaixo da água até alcançarmos o nível do mar.

Ben e Andy estavam fazendo ajustes finais em um braço robótico que eles haviam alongado de uma unidade central até um ponto logo acima do círculo traçado a giz. Depois de checarem por duas vezes suas posições, Ben moveu um pino de travamento enquanto Andy, sentado em frente ao console, digitava uma série de comandos.

Costas inclinou-se para inspecionar o dispositivo antes de se dirigir aos outros.

- Este braço é uma extensão do laser que usamos para perfurar o casco. Ele gira em torno de um eixo central no sentido dos ponteiros de um relógio e deve ser capaz de cortar o casco com facilidade. Felizmente o classe Akula foi feito de aço e não de titânio.

- Será que a escotilha não vai implodir quando a câmara se encher de água? - perguntou Katya.

- A escotilha está moldada de tal forma que só se abrirá para dentro da câmara e se fechará de novo com a pressão da água quando sairmos.

Andy se voltou para olhar Costas.

- Todos os sistemas estão em ordem. Estou pronto para ativar a fase final.

Costas agarrou-se à beirada da passagem e supervisionou o equipamento uma última vez.

- Inicie.

Katya observava fascinada enquanto o laser começava a descrever um arco no sentido dos ponteiros de um relógio no casco do submarino, o braço manipulador girava ao redor de uma unidade central como um enorme compasso de desenho. O corte tinha apenas alguns milímetros de largura e seguia a linha do círculo traçado a giz por Costas ao redor da localização indicada pelo GPS. Depois que o feixe de laser atravessou o primeiro quadrante, Ben posicionou um pequeno tubo metálico contra o corte. Com um movimento hábil ele abriu um minicilindro de CO2, o que fez sair uma fita magnética para o exterior, com a qual criou uma dobradiça para que a escotilha girasse de volta contra a membrana da parede da câmara.

- Quinze minutos para sair, - disse Costas. - É tempo de se preparar.

Jack deu uma mão para que Costas se içasse até o corredor.

- A partir do momento em que a escotilha se fechar não há rede de segurança. Nossas vidas dependem uns dos outros e do nosso equipamento, - disse Costas.

Lenta e metodicamente, Jack checou duas vezes o equipamento completo de subsistência que eles tinham montado no DSRV. Depois de calibrar o computador de descompressão no punho esquerdo, ele inspecionou a vedação do E-suit de Katya.

- A malha de Kevlar tem boa resistência ao metal e à rocha - disse ele. - As vedações de borracha dividem o traje em um certo número de compartimentos, então um rombo não significa que se fica completamente encharcado. Mesmo assim teremos de ser cuidadosos. A quase cem metros de profundidade estamos abaixo do termoclino e a temperatura será de apenas alguns graus Celsius, tão frio quanto o oceano Atlântico.

Depois de Jack ter dado uma olhada em seu equipamento, Costas desprendeu um pequeno console do seu ombro esquerdo. Ele tinha uma tela LCD digital e estava conectado à tubulação em sua mochila.

- Quando a câmara inundar estaremos sujeitos à pressão da água do mar circundante, quase dez atmosferas, - explicou Costas. - É a mesma profundidade na qual se deu o naufrágio minoano, por isso estamos usando a nossa mais que testada fórmula trimix. Qualquer profundidade adicional rasgará o invólucro de toxicidade do oxigênio. Necessitaremos urgentemente da passagem para ir para cima e não para baixo.

- E quanto ao mal-estar da descompressão? - perguntou Katya.

- Não deverá ser um problema. - Costas colocou o console de volta em seu lugar. - Nesta profundidade o trimix é principalmente composto de hélio e hidrogênio. O nitrogênio aumenta à medida que subimos, o regulador ajusta automaticamente a mistura conforme a pressão decresce. A não ser que demoremos muito, quando subirmos vamos precisar apenas de poucas paradas para breves descompressões, de modo a deixar o excesso de gás se dissipar de nossa circulação sangüínea.

- Estaremos indo para cima, - afirmou Jack. - Meu palpite é que isso nos levará até uma espécie de santuário situado sobre um pico.

- Isto faz sentido geologicamente falando - disse Costas. - Seria uma tarefa hercúlea perfurar horizontalmente através de camadas de basalto compactado. Eles teriam se deparado com respiradouros e até com magma do vulcão. Seria mais fácil escavar um túnel para cima ao longo da linha do fluxo de lava, mais ou menos no mesmo ângulo que a escadaria.

- Bem, já sabemos que essas pessoas eram engenheiros brilhantes. - Katya falou enquanto sintonizava seu receptor bidirecional VHF para a mesma freqüência que a dos outros dois. - Eles podiam escavar uma área do tamanho de um campo de futebol, construir pirâmides mais impressionantes do que qualquer uma do Egito antigo. Não acredito que construir um túnel fosse um grande obstáculo para eles. - Ela reinstalou o console de comunicação no seu capacete. - Deveríamos esperar o inesperado.

O único ruído era o baixo zumbido do gerador enquanto o laser já chegara à metade do seu trabalho. Diferentemente do corte imperfeito por um maçarico de oxiacetileno, a beirada estava tão lisa como se estivessem usando um maquinado de alta precisão. O firme avanço do braço manipulador parecia contar os minutos finais antes que eles entrassem no desconhecido.

Quando o laser estava entrando no último quadrante, houve uma súbita vibração. Foi como se um tremor de terra tivesse sacudido todo o submarino. Isto foi seguido por um baque surdo e um tinido amortecido, depois por um silêncio agourento.

- Acione a bateria de reserva! - ordenou Costas.

- Acionado. Não houve interrupção detectada na corrente.

O zunido elétrico recomeçou quando Andy puxou o fio elétrico que estava conectado ao DSRV e examinou a tela procurando falhas.

- Que diabos foi ísso? - perguntou Jack.

- O barulho veio do revestimento do casco - replicou Andy. - Não posso detectar a fonte.

- Não de um lugar à frente, - afirmou Ben. - Estamos a poucos metros da curva da cobertura de metal que envolve o motor e sentiríamos qualquer impacto ali. Ele deve ter vindo de perto da popa, talvez do lado da antepara que veda a câmara do reator.

Costas olhou de maneira severa para Jack.

- Temos que admitir que o DSRV ficou comprometido.

- O que você quer dizer com comprometido? - perguntou Katya.

- Quero dizer que recebemos visitantes.

Jack puxou para trás o slider da sua Beretta e verificou se havia uma bala na câmara. Depois de se assegurar, ele deixou o slider voltar ao seu lugar para fechar o chassis e com cuidado levou o cão para a posição de segurança. Ele seria capaz de esvaziar as balas Parabellum, de 9 milímetros, em questão de segundos, se fosse necessário.

- Não compreendo, - disse Katya. - É gente nossa?

- Impossível, - replicou Costas. - A tempestade será intensa até amanhã de manhã, mais doze horas a partir de agora. O Seaquest está a pelo menos dez milhas náuticas em direção ao norte. Esta é uma distância muito grande para que um Aquapod venha até aqui, e com este tempo não há jeito de um helicóptero baixar o suficiente para deixar mergulhadores perto do local em que estamos.

- Se eles fossem mergulhadores da IMU já teriam estabelecido contato conosco, nem que fosse batendo o código Morse no casco, - disse Ben.

Katya ainda parecia iludida.

- Como o Seaquest os deixou passar? Eles devem ter chegado antes de a tempestade começar, no entanto os monitores não mostraram nenhuma embarcação de superfície num raio de quinze milhas.

- Nestas condições de tempo a vigilância por satélite é quase inútil, mas o radar do Seaquest deveria ter evidenciado qualquer anomalia de superfície neste setor. - Costas fez uma pausa, seus dedos batucando na grade. - Há uma possibilidade. - Ele olhou para Jack. - Uma embarcação já poderia estar posicionada do outro lado do vulcão, agitando-se muito próxima, na tempestade, para que pudesse ser detectada pelo radar. Um submersível lançado por eles pode ter encontrado o Kazbek e se juntado ao DSRV, permitindo, assim, que uma equipe de assalto entrasse pelo compartimento de fuga.

- Isso explicaria o barulho, - arriscou Ben.

- Mas já estavam posicionados? - Katya não estava convencida. - Como eles poderiam estar em posição atrás da ilha? Ninguém mais possuía o texto da Atlântida, ninguém mais tem a perícia para traduzir e interpretar as direções. - Ela olhou para os homens. - Receio pela segurança do Seaquest

Jack sustentou o olhar de Katya durante um tempo maior do que os demais. Naquela fração de segundo ele teve a sensação de que algo estava errado, de que ela estava demonstrando mais do que apenas a apreensão que todos eles estavam tentando dominar. Quando estava prestes a interrogá-la, um outro solavanco chacoalhou o submarino e acabou com toda a especulação. Jack enfiou a Beretta no coldre em seu peito.

- Costas, você fica aqui com Andy. Esta escotilha pode ser nossa única via de fuga. Ben, você vem comigo.

- Também vou, - disse Katya sem permitir contestação. - Necessitamos de todo poder de fogo que pudermos reunir. Os submarinos Akula carregam uma reserva de armas no alojamento dos oficiais, no convés acima de nós. Conheço sua localização.

Não havia tempo para discussões. Rapidamente eles retiraram suas mochilas SCLS e escoraram-nas contra o casco.

Jack os alertou enquanto rastejavam pela passagem.

- Estas pessoas não vieram para escavar antigas relíquias. Eles vão pressupor que encontramos a recompensa deles e que estamos impedidos de nos comunicar com a superfície. Se nos eliminarem poderão completar essa transação malograda tantos anos atrás. Não estão interessados na Atlântida. Cinco metros adiante há armas nucleares suficientes para terminar com a civilização ocidental.

Quando Katya alcançou o primeiro degrau que conduzia ao convés acima, ela se afastou um pouco para evitar a rajada de precipitado branco provocada pela subida de Jack. Depois de chegar com muito cuidado ao décimo segundo degrau, ela bateu em sua perna, fazendo um sinal para Ben que estava logo atrás.

- Chegamos, - ela sussurrou.

Eles tinham alcançado o nível acima da sala de torpedos, onde menos de uma hora antes, ao descerem, haviam visto os alojamentos da tripulação. Katya passou pela escotilha e afastou os detritos que estavam ao lado da entrada. Jack a seguia de perto e Ben estava logo atrás. Enquanto eles se confundiam na escuridão, Jack localizou e acendeu a headlamp de Katya.

- As armas estão na parte mais baixa, - murmurou ele. - Tudo correrá bem enquanto vocês não emitirem luz dentro do tubo inclinado, onde ela poderá se refletir na passagem acima de nós.

Katya atravessou a passagem estreita até o outro lado do compartimento. Atrás de um par de mesas em desordem uma escotilha estava entreaberta. Ela fez um gesto para que eles permanecessem onde estavam e seguiu rastejando. Enquanto ela passava agachada pela escotilha, Ben virou-se para trás para ver se ouvia algum som acima deles.

Depois de alguns minutos de silêncio tenso Katya reapareceu, sua headlamp apagada para evitar refletir no tubo inclinado. Enquanto ela se dirigia até eles, puderam ver que estava carregada de equipamentos.

- Uma AKS-74U, - ela sussurrou. - Também uma pistola Makarov, nove milímetros, e ainda uma Walther PPK. O armário das armas estava quase vazio e isso foi tudo o que pude encontrar. Há também uma caixa de munição.

- Isto dará conta do serviço. - Ben retirou a arma do ombro de Katya. A AKS-74U tinha a mesma dimensão que a Heckler & Koch MP5, a familiar arma da polícia no Ocidente, mas, diferentemente das submetralhadoras, ela utilizava balas de rifles de 5,45 milímetros, de alta velocidade. Os engenheiros no Departamento de Projeto de Armas Kalashnikov aperfeiçoaram um supressor de som que não afetava a velocidade da bala e desenvolveram uma câmara de expansão que tornou a arma mais controlável no automático do que qualquer outra arma de fogo de calibre similar.

Ouviu-se um outro som amortecido distante, nas entranhas do submarino. Jack levantou a cabeça alarmado e todos pararam para ouvir. O que de início parecia um tinido metálico distante tornou-se, progressivamente, mais nítido, uma sucessão de sons surdos e monocórdios que continuou por vinte segundos e parou.

- Passos, - sussurrou Jack. - No nível acima de nós, dirigindo-se para o compartimento de fuga. Meu palpite é que nossos amigos controlaram o compartimento. Precisamos interceptá-los antes que alcancem o tubo inclinado onde se encontram as armas.

Jack e Katya pegaram, cada qual, um pente Kalashnikov e rapidamente enfiaram nele balas que estavam na caixa de munição. Katya passou seu pente para Ben, que o colocou com as balas remanescentes na cartucheira em seu cinto. Ele introduziu o outro pente na arma, puxou o ferrolho para trás e acionou a trava de segurança. Katya armou a Makarov e deslizou-a sob o cinto de ferramentas na cintura.

- Certo, - sussurrou Jack. - Vamos.

Parecia ter se passado uma eternidade desde que haviam encontrado o horrível espectro na entrada da sala do sonar. Quando eles alcançaram os degraus finais da escada de corda, Jack sentiu-se agradecido pela escuridão que os protegia do olhar maligno da sentinela.

Ele ajudou Katya a subir. Segundos depois os três estavam prontos com suas armas. Através da passagem podiam ver perto da popa o brilho da luz de emergência iluminando a sala de controle.

Jack os conduziu em fila indiana ao longo do lado esquerdo do corredor com a Beretta apontada. Logo antes da entrada ele sentiu seu corpo gelar e levantou um braço como um aviso. Katya chocou-se com ele enquanto Ben parecia ter se fundido com a escuridão do outro lado.

Do seu ponto de observação restrito, tudo o que Katya podia ver era um aglomerado de maquinário desconjuntado e consoles quebrados. O manto de precipitado emprestava uma qualidade bidimensional à cena, como se eles estivessem olhando para uma pintura demasiado abstrata para registrar quaisquer texturas ou formas separadas.

De súbito ela se deu conta de por que Jack havia parado. Ao lado dos restos retorcidos do periscópio uma figura fantasmagórica se destacava do fundo, a forma só era perceptível quando se movia. Enquanto avançava em direção a eles ficava claro que a figura ignorava que estivessem ali.

Ouviu-se um estalido ensurdecedor da Beretta de Jack. Através da tempestade branca que despencou das paredes, ela viu a figura vacilar contra o compartimento do periscópio e cair no convés de modo desajeitado. Jack atirou mais cinco vezes em rápida sucessão, a cada estampido arremessando uma chuva de fragmentos de bala que emitiam um som agudo e ribombavam ao redor do compartimento.

Katya estava atordoada com a ferocidade dos estrondos. Para seu horror viu a figura se erguer devagar e apontar a sub-metralhadora Uzi que estivera carregando no corredor. Ela podia distinguir com nitidez as marcas onde as balas de Jack haviam atingido sem causar dano no exosqueleto de Kevlar. O oponente desencadeou com a Uzi uma detonação selvagem surpreendente, disparando balas que provocavam faíscas quando atingiam o maquinário atrás deles.

Diretamente do lado escuro chegou uma rajada da AKS-74U de Ben, o barulho menos assustador do que o da Beretta, por causa do silenciador, porém de efeito mais mortal. As balas bateram com força na figura que avançava e empurraram-na de volta contra o periscópio, fazendo com que as balas de sua Uzi traçassem um arco selvagem no teto. Cada impacto o atingia com a força de uma britadeira, enquanto seus membros se agitavam em uma dança maluca. Quando o Kevlar se rasgou, seu torso inclinou-se em um ângulo grotesco onde a espinha havia sido arrebentada. Ele morreu antes de atingir o solo.

Uma outra arma automática de algum lugar distante da sala se juntou ao estrondo daninho. As reverberações transmitiam um tremor ao submarino, os choques faziam o ar vibrar no momento dos disparos.

Jack se agachou e empurrou as balas mexendo os pés como um corredor antes de uma corrida.

- Cobrindo o fogo.

Ben esvaziou o que restava em seu pente dentro da sala, enquanto Jack saía de seu esconderijo e corria para a plataforma central, a Beretta soltando uma rajada de balas para além do periscópio, de onde se originavam as balas da arma inimiga. Ouviu-se um grito agudo e um barulho, seguido de passos que se retiravam. Katya correu para perto de Jack, com os ouvidos ressoando por causa do tiroteio. Ben rapidamente juntou-se a eles e os três ficaram agachados lado a lado contra a base destruída do periscópio.

- Quantos serão? - perguntou Ben.

- Dois, talvez três. Acabamos com um. Se conseguirmos mantê-los no corredor, limitaremos seu campo de fogo.

Os dois homens tiraram fora os pentes e os recarregaram. Enquanto Ben enfiava no pente as balas soltas que havia em sua cartucheira, Katya olhou para a cena de massacre atrás deles.

Era uma visão repugnante. No meio de uma mistura de sangue coagulado e cartuchos vazios da Uzi estava o corpo do homem sentado em um ângulo estranho, o torso dobrado em dois e a cabeça com o rosto voltado para baixo. As balas tinham rompido seu equipamento de respiração, os cilindros e o regulador estavam respingados com fragmentos de ossos e carne. Logo abaixo havia um buraco no lugar onde estivera o pulmão e o coração. Uma mangueira estourada de seu regulador de oxigênio havia entrado na cavidade, produzindo uma espuma sangrenta que assobiava e borbulhava como em uma paródia grotesca das respirações finais do homem.

Katya abaixou-se e levantou-lhe a cabeça. Ela estremeceu e deixou-a cair rapidamente. Jack teve certeza de que ela o havia reconhecido. Ele colocou uma mão em seu ombro quando ela se virou.

- Já houve mortes suficientes nesta embarcação. - Ela subitamente parecia cansada. - Já é hora de terminar com isto.

Antes que Jack pudesse detê-la, Katya se levantou e ergueu os dois braços rendendo-se. Ela parou no espaço entre os periscópios.

- Meu nome é Katya Svetlanova. - Ela falou em voz alta e em russo, com as palavras ressoando através do compartimento.

Houve uma comoção imediata e o som de uma conversa em voz baixa. Por fim uma voz respondeu em um dialeto que nem Jack nem Ben reconheceram. Katya abaixou os braços e iniciou um diálogo acalorado que durou vários minutos. Ela parecia estar no comando da situação. Sua voz emanava autoridade e confiança, ao passo que a do homem era hesitante e respeitosa. Depois de uma breve sentença final, ela deixou-se cair e empurrou a pistola dentro do seu cinto.

- Ele é um cazaque,* - disse ela. - Eu lhe contei que colocamos armadilhas no corredor, a começar daqui até a sala de torpedos. Disse também que só negociaremos cara a cara com seu líder. Isto não vai acontecer, mas ganharemos tempo enquanto eles planejam seu próximo passo.

Jack olhou para ela. Katya havia sido útil por duas vezes ao impedir um desastre, primeiro ao prevenir um ataque do Vultura no Egeu e agora ao negociar com o matador profissional. Parecia que, enquanto ela estivesse presente, os adversários deles manteriam distância e aguardariam o momento propício.

- Estes homens, - disse ele, - suponho que sejam os nossos amigos do Vultura!

- Você está certo, - ela replicou baixinho. - E eles são completamente desumanos.

- O que faremos agora? - perguntou Ben.

Eles ouviram um som surdo e embotado de um ponto distante do submarino.

- Eis a sua resposta, - replicou Jack. Era um sinal previamente combinado com Costas de que a operação para cortar o casco havia dado certo. Jack levantou-se e conduziu os outros dois para fora da* sala de controle, passando ao lado do lugar escorregadio por causa do sangue que ainda escorria do cadáver. À medida que recuavam pelo corredor, Jack olhou para trás uma última vez, para os destroços da sala, assegurando-se de que não estavam sendo seguidos.

Deixaram Ben agachado nas sombras ao lado da extremidade do tubo inclinado onde se encontravam as armas. Ele havia assinalado sua intenção e fizera sinal para que Jack e Katya continuassem. Com apenas um pente e meio à sua disposição as chances estavam contra ele, mas Jack sabia que se houvesse um confronto final cada bala encontraria seu alvo.

Levou apenas alguns minutos para que Katya e Jack atravessassem o caminho, agora familiar, até o final do tubo inclinado e chegassem na sala de torpedos. Quando alcançaram a abertura das grades, sem dizer palavra recolocaram os SCLS que haviam deixado ali, checando um ao outro e ativando os consoles reguladores.

Eles sabiam o que tinham de fazer. Não havia nada a ganhar em ficar se demorando com Ben e Andy, uma situação que poderia ter um único resultado. A defesa deles estava baseada na força da ameaça de Katya e logo que esta falhasse o número deles não faria diferença. Esta era sua única chance, sua esperança de conseguir ajuda enquanto a tempestade rugia lá fora.

Os riscos eram terrivelmente altos.

Quando desceram para o porão, puderam ver que Costas já havia recolocado sua máscara e vedado seu capacete. Eles rapidamente seguiram o exemplo, mas não antes de Katya entregar sua pistola, que estava no console, para Andy.

- Você pode precisar mais disso do que eu, - disse ela.

Andy aquiesceu de maneira apreciativa e colocou a arma no coldre antes de se voltar para a tela. Enquanto Jack conferia silenciosamente os elementos na sala de controle, Costas terminava de retrair o braço telescópico. O laser havia cortado um círculo perfeito de um metro e meio de diâmetro no revestimento do casco.

- Ele gira em torno de uma dobradiça que inserimos, - disse Andy. - Tudo que tenho de fazer agora é reduzir a pressão de ar na câmara e ele abrirá para fora como uma escotilha.

Eles olharam para o casco com um misto de emoções, apreensivos com os perigos que os esperavam, embora atraídos pela irresistível excitação de um mundo perdido que despertava neles as fantasias mais desenfreadas.

- OK. - disse Costas. Vamos.

 

Costas agachou-se tomando cuidado para evitar a borda afiada como navalha onde o laser havia cortado o casco. Ele estendeu a mão para testar a membrana magnetizada e depois se voltou para ajudar Katya e Jack. Assim que passaram a salvo, ele ajudou a fechar a escotilha, temendo que um rasgão na membrana causasse uma inundação incontrolável no submarino. A junção nivelada onde a escotilha se fechou testemunhava a precisão microcirúrgica do laser.

Embora a membrana fosse translúcida, havia muito pouca luz natural naquela profundidade, e ela estava bloqueada ainda mais pela rocha suspensa que se estendia sobre o submarino e os isolava do mar lá fora.

Quando ligaram as headlamps, ao redor deles a luz refletia a retícula cristalina da membrana, produzindo uma luz branca fraca e brilhante. À frente deles, a face íngreme do rochedo parecia assustadoramente fora do comum, o verde monocromático do holograma não deixara perceber sua superfície brilhante. Era como se eles estivessem olhando para uma fotografia em sépia, fora de moda, uma beirada enevoada enquadrando a imagem matizada de alguma gruta perdida havia muito tempo.

Eles andaram vagarosamente para a frente, endireitando sua postura à medida que o túnel se alargava. A membrana tinha a dureza de uma rocha e proporcionava um apoio seguro, apesar do gotejamento de água que vinha da plataforma à frente. Depois de oito metros, alcançaram o ponto onde a membrana havia se juntado magneticamente com a face do despenhadeiro. Costas os guiou até as escadas e agachou-se para inspecionar a superfície.

- Há quase uma total ausência de incrustação marinha, não há nem mesmo algas. Nunca vi um mar mais morto do que este. Se tirarmos nossos capacetes, sentiremos um cheiro forte e desagradável de ovos podres, por causa do gás sulfídrico na água.

Costas ligou o botão do volume de seu console de comunicações e assegurou-se de que os outros podiam ouvir. Jack murmurou um assentimento, mas estava preocupado com a imagem à sua frente. Ele e Katya estavam parados lado a lado, separados apenas alguns metros da escuridão na parte de trás da plataforma.

Quando Costas juntou-se a eles, sua headlamp acrescentou maior nitidez à cena. Bem à frente havia um nicho retilíneo cortado na rocha com quase o dobro da altura deles e três vezes mais largo. Ele tinha uma profundidade de cerca de três metros e havia sido polido até alcançar um acabamento impecável. Na parede de trás estava a imagem que os havia paralisado quando a viram no holograma, o desenho de uma grande porta dupla.

Katya foi a primeira a afirmar o óbvio, sua voz estava tensa de excitação.

- Ela é de ouro!

Quando seus feixes de luz convergiram sobre a porta, eles quase foram cegados pelo resplendor. Katya com cuidado apontou a lanterna para a beirada inferior da luz brilhante.

- Ela é feita de placas de ouro, eu acho, - disse Costas. - Forjadas e polidas e depois aderidas às lajes de pedra debaixo delas. Havia abundância de ouro de aluvião, no Cáucaso, naquele período, mas eles esgotariam os recursos para fazer esta porta de ouro sólido. De todo jeito ela ficaria muito maleável.

Através da fenda ao redor da beirada inferior, um fino reflexo de água se espalhava para fora da cavidade. A luz das lanternas refratava-a em miríades de minúsculos arco-íris, uma auréola caleidoscópica que se somava ao deslumbrante efeito do ouro.

- As portas batiam em cheio contra um peitoril baixo que corria ao longo da beirada. - Costas estava examinando atentamente o canto direito inferior. - É isto que impede que as portas se abram em nossa direção. Elas foram desenhadas para se abrir para dentro, como nós pensávamos. - Ele deu um passo para trás e voltou-se para Jack. - Precisamos inundar esta câmara para equalizar a pressão de água dos dois lados da porta. Estamos prontos?

Os outros dois aquiesceram e ajustaram seus consoles reguladores, substituindo o gás de ar comprimido que estavam respirando pelo trimix, essencial para se sobreviver a cem metros abaixo do nível do mar. Katya oscilou ligeiramente, sentindo a cabeça oca quando respirou a mistura não usual. Costas estendeu a mão para ampará-la.

- Você se acostumará com o gás, - disse Costas. - Ele deixará sua mente clara para todas aquelas inscrições que irá traduzir.

Katya e Jack checaram as pressões dos cilindros um do outro antes de dar o sinal de ok para Costas, que deslizou de volta ao longo da membrana até o submarino. Depois de ativar o seu próprio regulador, ele deu uma sucessão de golpes cortantes com a sua multiferramenta. Alguns segundos mais tarde um jato violento de água irrompeu através do buraco no centro da escotilha, batendo estrepitosamente no despenhadeiro com a força de um canhão de água. Andy havia revertido a bomba de alta pressão e, através de um equipamento de filtragem, puxara para cima a água dos porões para purificá-la das toxinas e da matéria sólida.

Todos se achataram contra a parede para evitar a forte rajada de água que trovejou ao passar por eles. Quando ela ricocheteou na rocha e começou a encharcá-los, Jack ofegou de dor.

- O que aconteceu? - perguntou Katya. - Você está bem?

- Não é nada.

A postura de Jack mostrava exatamente o contrário, seu corpo estava contorcido enquanto se mantinha contra a rocha.

Somente quando a água subiu na altura de suas pernas foi que ele começou a se endireitar lentamente, sua respiração entrecortada claramente audível através do intercomunicador.

- Aconteceu durante nossa pequena luta final. - Sua voz traía a dor que o estava consumindo. - Levei um tiro do lado direito quando nos precipitávamos pela sala. Eu não disse nada porque não havia o que fazer. A bala penetrou no Kevlar, então eu tenho uma câmara mal vedada. A água está fria. Vai passar.

A realidade era mais séria. Mesmo que tivesse sido apenas uma bala Uzi em baixa velocidade, ela havia fraturado uma costela e o deixara com um buraco na carne. Ele já havia perdido bastante sangue e sabia que logo sua sobrevivência iria depender apenas de um milagre. A arremetida da água havia estancado o sangue e estava entorpecendo a dor, mas o buraco em seu traje era pior do que anunciara. Nas condições de quase congelamento em que se encontravam, seria apenas uma questão de tempo antes que sua temperatura caísse para um nível perigoso.

Quando Jack tentou controlar a respiração, sentiu uma súbita onda de vertigem, um sinal seguro de diminuição de oxigênio. Seu corpo estava ansiando por alimento depois de perder tanto sangue. Ele começou a hiperventilar.

Não de novo!

Ele enrijeceu enquanto a água subia e o envolvia. Sentia uma necessidade premente por espaço vazio à medida que diminuía o espaço sem água; um medo crescente surgiu quando a claustrofobia começou a se apoderar dele.

Jack necessitava desesperadamente convencer a si mesmo de que isto era um processo fisiológico, uma reação natural enquanto seu corpo lutava para se ajustar, e não um pânico cego.

Relaxe. Solte.

Sua respiração se fazia com inalações irregulares quando se ajoelhou no chão com os braços soltos e a cabeça curvada, enquanto o barulho do seu regulador era abafado pela agitação da água ao redor. Ele mal estava consciente de Katya e Costas à sua frente, que, com os corpos envolvidos por água enquanto observavam o nível da superfície subir, pareciam ter se esquecido dele.

Ele fechou os olhos.

Uma onda o empurrou para trás repentinamente, circundando seu corpo como se ele estivesse no vórtice de um redemoinho de água. De cada lado o redemoinho parecia acariciá-lo, como se o peso na frente o pressionasse fortemente para baixo, uma enorme massa que o fixava contra a membrana.

Jack abriu os olhos horrorizado.

Tudo o que pôde ver foi um rosto medonho pressionado contra ele, as cavidades dos olhos vazias e o sorriso retorcido repercutindo como uma boneca enlouquecida, os braços fantasmagóricos se agitando na tentativa de circundá-lo em um abraço mortal. A cada nova onda a água se cobria com flocos brancos e acinzentados que pareciam se destacar da aparição como se fossem neve.

Jack se via impotente para resistir, preso em um pesadelo que o paralisava sem possibilidade de fuga, ameaçando-o inexoravelmente de maneira esmagadora.

Ele parou de respirar, a boca congelada em um grito entrecortado.

Era uma alucinação!

Sua mente racional lhe disse que ele era vítima de uma narcose. O homem que eles haviam matado no tiroteio. O corpo depenáuraáo na sala do sonar. Eram os fantasmas do submarino, aparições que vieram para assombrá-los.

Ele fechou os olhos bem apertado, lutando com todas as suas forças para não deslizar para a escuridão.

Em um lampejo viu-se de volta à escavação de uma passagem vertical, cinco meses antes, em um local onde as condições era muito difíceis. Mais uma vez ele sentiu o choque quando o gás subiu da escavação e o fez bater com força contra a viga, danificando o seu suprimento de ar e apagando toda a luz. Lembrou a asfixia sufocante em um escuro de breu antes que Costas o encontrasse e aplicasse uma respiração boca a boca para trazê-lo de volta à vida. O horror quando a segunda onda o atingiu e o empurrou para longe do alcance de Costas, em direção a superfície. As horas na câmara hiperbárica, horas de exaustão, pontuadas por momentos de puro terror quando a consciência o levava de volta repetidas vezes para o instante de pânico. Havia sido a experiência que todos os mergulhadores receavam, aquela que abala a confiança construída precariamente ao longo dos anos, fazendo-o cair em um mundo onde todos os controles, todos os parâmetros, devem ser dolorosamente reconstruídos a partir da ferida.

E agora estava acontecendo o mesmo, de novo.

- Jack! Olhe para mim. Tudo está bem. Já passou.

Costas fitou os olhos arregalados de Jack e agarrou-o pelos ombros. Quando o barulho do jato d'água diminuiu e ele começou a ouvir o exaustor outra vez, Jack arfou, estremeceu com a respiração e começou a relaxar.

Era Costas. Ele ainda estava na câmara.

- Deve ter sido um dos corpos que Kuznetsov ejetou pelo tubo dos torpedos. Conseguiu se alojar no nicho da rocha e depois foi empurrado pelo jato d'água. Não era uma visão bonita. - Costas apontou para a forma coberta de flocos brancos agora flutuando na água em direção ao casco do submarino, seu torso mutilado de maneira obscena onde Costas o socou para empurrá-lo para o lado, fazendo com que o tecido adiposo que ainda estava grudado ao esqueleto se desintegrasse.

Em vez de repugnância, Jack sentiu uma enorme alegria, a liberdade de um sobrevivente que encarou o esquecimento e o venceu. O afluxo de adrenalina iria impulsioná-lo através de qualquer coisa que houvesse na frente deles.

Katya havia sido empurrada para trás pela força da água, contra a membrana, e ficou alheia ao seu pânico. Jack olhou para ela e falou com voz rouca pelo intercomunicador, sua respiração saindo ainda interrompida por estremecimentos.

--É a minha vez de ter um choque, isto é tudo.

Ela não poderia ficar sabendo dos demônios que o haviam assombrado, a força que o havia ameaçado e quase significou o fim para ele.

O redemoinho giratório terminou e a água atingiu uma clareza límpida logo depois que a turbulência cessou. Os olhos de Costas permaneceram fixados em Jack até perceber que ele havia relaxado completamente. Depois de um instante Costas desfez as tiras de velcro que mantinham as nadadeiras de Jack presas em suas pernas, colocando as lâminas de silicone em seus pés e encaixando-as no lugar.

Jack girou e observou as bolhas de seu exaustor se unirem em pequenas poças translúcidas que oscilavam e tremeluziam e iam juntar-se no teto da membrana. Sentiu seu cilindro arranhar ao longo da parte inferior das costas e rapidamente injetou uma rajada de ar dentro de seu traje para conseguir um poder de flutuação.

Costas nadou do casco em direção à rocha. Quando ele a alcançou, um ruído alto, incompreensível, invadiu seus fones de ouvido. Jack percebeu que estava tremendo violentamente, o terror dos últimos minutos se transformara em um alívio delirante.

- Olá, Mickey Mouse, - disse Jack. - Acho que você deve ativar o modulador de voz.

A combinação de hélio com uma pressão extrema distorcia a voz de maneira cômica, e a IMU havia desenvolvido um equipamento de compensação para evitar o efeito que Jack estava achando tão difícil de absorver.

- Peço desculpas. Vou tentar de novo. - Costas girou um disco na lateral da máscara. Encontrou uma freqüência mais bem ajustada e ligou o automático, para que o modulador se adaptasse às mudanças de pressão e composição de gás à medida que a profundidade se alterava.

- Andy diminuiu a magnetização para tornar a membrana semiflexível, permitindo que a pressão ambiental do mar entrasse para dentro do espaço e igualasse a pressão da água atrás da porta. Ela é de 9,8 atmosferas, quase cem metros. Nesta profundidade o trimix dura apenas meia hora.

Com os feixes de luz das headlamps reduzidos à metade para limitar a reflexão, eles podiam distinguir mais aspectos da via de acesso. Em cada painel da porta havia o símbolo do magnífico chifre de touro que fora visto no holograma, o formato em tamanho natural, forjado em ouro, que se salientava em baixo-relevo.

Costas extraiu um outro dispositivo do seu cinto de ferramentas.

- Algo que encontrei por acaso no laboratório de geofísica na IMU, - disse ele. - Um radar que penetra na terra gerando um sistema de ondas eletromagnéticas para revelar imagens abaixo da superfície. Nós o chamamos de holofotes acústicos. O sinal GPR* penetra apenas cinco metros, mas deve nos indicar se há uma obstrução sólida no outro lado.

Ele prolongou a antena do transdutor e nadou para cá e para lá ao longo da base da via de acesso, chegando por fim a descansar ao lado da fenda entre as portas.

- Está claro, - ele anunciou. - Não há resistência depois de meio metro, que deve ser a espessura das portas. Olhei com cuidado ao longo do umbral inferior e não há nada que possa nos causar problemas.

- Corrosão metálica? - perguntou Katya.

- O ouro não corrói de maneira perceptível na água do mar.

Costas recolocou o dispositivo no cinto e curvou seus dedos por cima do peitoril abaixo da porta. Ele moveu o corpo para a frente e para trás algumas vezes, depois descansou.

- Aqui vai - disse ele.

Num ímpeto repentino ele se jogou para a frente, atirando toda a força do seu corpo contra a porta. Permaneceu firmando-se contra ela durante alguns instantes antes de desistir vencido pela exaustão. As portas pareciam feitas de rocha sólida, os dois metros de altura delineavam meros entalhes na superfície do despenhadeiro.

- Nada a fazer, - ele ofegou desoladamente.

- Espere. Olhe para isto.

Jack estivera flutuando um metro acima e havia sido envolvido pelo resplendor das bolhas que saíam do exaustor de Costas. Seu olhar tinha sido atraído por um aspecto curioso, refratado através da turbulência, uma irregularidade muito pequena para ser apreendida pelo holograma a laser.

Essa irregularidade semelhava um lugar mais baixo, uma depressão central do tamanho de um pires situada entre os dois conjuntos de chifres de touro. A fenda entre as portas estava escondida abaixo dela, fazendo a depressão se parecer com um selo estampado no metal depois que as portas foram fechadas pela última vez.

Katya se moveu acima dele e conseguiu tocá-la.

- Ela parece cristalina, - disse ela. - É bastante complexa, contém muitos ângulos retos e superfícies planas.

O cristal era imaculado, quase tão sem defeito que era praticamente invisível. O movimento da mão de Katya quando ela traçou a forma da depressão parecia a gesticulação de um artista mímico. Foi apenas quando eles diminuíram a luz das headlamps que uma forma começou a emergir, refratando a luz como um prisma para revelar linhas e ângulos.

Quando Jack se movimentou, as linhas subitamente se juntaram em uma forma familiar.

- Meu Deus, - ele ofegou. - O símbolo da Atlântida!

Durante um instante eles ficaram olhando assombrados, as provações por que haviam passado durante as últimas horas desapareceram, e foram de novo sugados pela extraordinária excitação da descoberta.

- Quando estávamos nos deslocando nos Aquapods vimos este símbolo esculpido em um disco na fachada da pirâmide, - disse Jack. - Parece lógico encontrá-lo aqui também.

- Sim, - disse Katya. - Uma espécie de talismã para proclamar a santidade do lugar.

Costas pressionou o visor de sua máscara contra o cristal.

- A escultura é incrível, - ele murmurou. - Muitos compostos de sílica não durariam tanto tempo na água do mar com teor tão alto de enxofre sem formar uma patina como reação.

Os pensamentos se agitavam na mente de Jack enquanto ele olhava para a porta. Repentinamente ele grunhiu e puxou para fora um pacote alongado que havia colocado junto com a Beretta.

- Eu trouxe comigo o meu próprio talismã.

Desembrulhou a cópia do disco encontrado no naufrágio minoano. Quando ele o girou para revelar o símbolo, a luz de sua headlamp dançou sobre a superfície.

- Olhem a chave para a Atlântida, - disse ele alegremente.

Costas ficou excitado.

- É claro! - Ele pegou o disco de Jack e o segurou levantado. - A forma convexa se ajusta perfeitamente à concavidade da porta. O símbolo no disco está ao contrário. O disco deve se ajustar como uma chave em uma fechadura.

- Eu tinha um pressentimento de que ele poderia ser útil, - disse Jack.

- Aquela porta não vai sair do lugar nem um centímetro, - disse Costas. - Esta pode ser nossa única chance.

Jack elevou-se um pouco até ficar diretamente na frente do símbolo gravado na porta. Katya se postou à sua esquerda.

- Só há uma maneira de descobrir, - disse ele.

 

Quando Jack alinhou o disco com a porta, o cristal pareceu puxá-lo para si, como se uma força primitiva estivesse atraindo ao mesmo tempo duas metades de um todo que o destino manteve separadas durante muito tempo. E de uma maneira bastante firme, o disco ajustou-se ao cristal e deslizou suavemente para o interior até que se nivelasse com as portas.

- Bingo! - disse Jack baixinho.

Ele colocou a palma da mão sobre o disco e o pressionou com força. De maneira abrupta o disco se ajustou ao interior e girou rapidamente no sentido dos ponteiros do relógio, movimento que fez com que a água realizasse um giro como o rastro de um propulsor. Quando parou de girar, ouviu-se um barulho baixo e opressivo, o disco se desprendeu e as portas moveram-se e ficaram entreabertas.

Houve pouca resistência quando Jack abriu amplamente as portas. A visão deles ficou momentaneamente obscurecida pelo resplendor da turbulência quando a água gelada do interior se misturou com a água do mar ao redor deles. Jack prendeu a respiração para ocultar um espasmo de dor, uma sensação de facada onde o rasgão em seu traje havia exposto seu peito à água muito gelada. Os outros dois perceberam sua agonia, mas sabiam que ele iria recusar uma mostra de simpatia deles.

Costas havia flutuado acima da soleira da porta e estava examinando o mecanismo revelado em sua beirada.

- Fascinante, - ele murmurou. - A porta era mantida por uma viga de granito como uma trave, em dois comprimentos chanfrados juntos. A superfície superior havia sido esculpida em saliências e sulcos como uma roda dentada. O cristal estava encaixado em um cilindro de pedra com saliências que se igualavam. Quando Jack pressionou o disco, as rodas dentadas se engataram.

Costas tirou o disco do cristal e passou-o para Jack por medida de segurança.

- Como ele girou por si mesmo? - perguntou Katya.

- As extremidades da viga contêm lastro, provavelmente dentro das cavidades adjacentes aos batentes. Quando a roda dentada é engatada, os pesos puxam os dois comprimentos da trave separando-os, fazendo o cilindro girar.

- Para os espectadores a automatização deve ter parecido milagrosa, obra dos deuses, - disse Jack.

- Uma impressionante peça de engenharia.

- Simplicidade de propósito, economia de projeto, durabilidade de materiais. - Costas sorriu para eles através de sua máscara. - Esta invenção teria ganhado facilmente o primeiro prêmio na competição de estudantes da MIT na época em que estive lá.

Eles ajustaram as headlamps para emitir iluminação máxima. A água ao redor deles era cristalina, livre de contaminações durante milhares de anos desde que pela primeira vez penetrou nas fendas pelo vão entre as portas.

A luz cintilava nas paredes de rocha quando os feixes atravessavam de um lado a outro. Eles haviam entrado em uma câmara retangular do tamanho do compartimento de torpedos no submarino. Logo à frente deles havia um pedestal maciço desbastado na rocha viva.

- É um altar! - exclamou Jack. - Você pode ver os condutos onde o sangue transbordava para as escadarias do lado de fora.

- Sacrifício humano? - perguntou Costas.

- Isto tem uma longa história entre os povos semíticos do Oriente Próximo, - disse Katya. - Pense em Abraão e Isaac no Velho Testamento.

- Mas nunca em grande escala, - contrapôs Jack. - A história de Abraão e Isaac é poderosa exatamente por ser excepcional. Os minoanos também utilizavam sacrifícios humanos, mas a única evidência disso é um santuário situado em um pico próximo de Cnossos, onde um tremor de terra derrubou o templo no meio de um ritual e preservou o esqueleto. Provavelmente eles eram realizados somente por ocasião de catástrofes como a erupção do Thera.

Estavam se dirigindo para o pedestal no centro da câmara, seus feixes de luz convergindo para a beirada da plataforma de sacrifício. Quando o topo se tornou visível eles foram confrontados por uma imagem quase que demasiado fantástica para ser compreendida, um espectro que desaparecia, como um gênio, logo que se aproximavam dele.

- Você viu o que eu vi? - ofegou Katya.

- Extraordinário - murmurou Costas. - Os ossos devem ter se desintegrado milhares de anos atrás, mas na imobilidade os sais de cálcio devem ter permanecido onde eles caíram. Com a menor perturbação, desapareceram como uma baforada de fumaça.

Por uma fração de segundo eles viram um touro deitado, sua forma gigantesca reduzida a uma marca de faixas brancas como um negativo fotográfico esmaecido. Nos cantos da mesa podiam-se distinguir buracos onde seus membros tinham sido amarrados antes do sacrifício, a corda desaparecera fazia muito tempo, quando a água do mar tinha subido e levado a carcaça em seu abraço gelado.

Jack pegou uma adaga que estava em um dos lados da mesa. A empunhadura de pedra estava talhada com uma besta medonha, metade touro, metade águia.

- Aqui está sua resposta, - disse Jack suavemente. - O pátio com sua estátua colossal no contorno da costa foi a primeira arena de luta de touros do mundo. Os animais condenados eram conduzidos pela via processional, entre as pirâmides, e depois impelidos escada acima até esta laje. Este deve ter sido um lugar espetacular, de onde se podia ver toda a cidade na planície abaixo, o sacrifício era realizado, talvez, no momento exato em que surgia o primeiro clarão de sol entre os dois picos gêmeos do vulcão e entre os cornos da esfinge-touro no pátio, bem abaixo. A cidade inteira deveria parar para assistir.

Fez uma pausa e olhou solenemente para os outros dois através do vidro da máscara.

- Acabamos de prestar testemunho do sacrifício final, a última tentativa desesperada dos sacerdotes para rechaçar a elevação da água do mar antes que as portas deste local se fechassem para sempre.

Eles nadaram sobre o altar e se dirigiram para um buraco negro aberto na parte de trás da câmara. Uma luz fraca se tornou mais intensa à medida que nadavam para a frente, enquanto a luz de suas headlamps cintilavam nas paredes como se estivessem formando ondas de cristal e ouro.

- Atlântida com paredes de ouro, - disse Jack baixinho.

Logo antes de eles atingirem o portal, Costas virou para a direita, e seu feixe de luz ficou reduzido a um círculo estreito quando ele o projetou sobre a parede.

- Elas são feitas de pirita, o ouro dos tolos, - falou Costas com voz baixa e admirada. - Os cristais são tão grandes e colocados tão próximos uns dos outros que parecem placas de ouro até que você se aproxime bastante.

- Mas a ilha é vulcânica, feita de rocha ígnea, - disse Katya.

- Principalmente basalto, - concordou Costas. - Magma derretido que esfriava muito rapidamente para poder formar cristais de minério. O basalto entre o despenhadeiro e o antigo contorno da costa tinha baixo teor de sílica, então esfriava lentamente quando fluía para fora do substrato calcário. Mais tarde ele se formou de lava ácida, rica em sílica, que se solidificava tão logo atingia a superfície. Quando nos locomovíamos nos Aquapods vimos fissuras de obsidiana, o vidro vulcânico negro que se forma quando a lava riolítica é rapidamente resfriada.

- As lâminas de obsidiana eram as mais cortantes conhecidas até o desenvolvimento do aço rico em carbono na Idade Média, - disse Jack. - Aquela adaga era de obsidiana.

Costas caminhou ao longo da parede do fundo até juntar-se a eles.

- Incrível, - ele disse. - Ferramentas de obsidiana, tufo calcário para alvenaria, pó vulcânico para pilão, sal para boa preservação. Para não mencionar a gleba de terra cultivada mais rica do que em qualquer outro lugar e o mar fervilhando de peixes. Este povo possuía tudo.

- E o granito nas portas? - persistiu Katya.

- Também ígneo, - replicou Costas. - Mas ele não é o resultado de uma erupção vulcânica. É um rochedo intruso que se forma profundamente na crosta da terra quando o magma se esfria de maneira lenta, produzindo estruturas cristalinas, sobretudo de feldspato e de quartzo. É chamado plúton por causa de Plutão, o deus grego do inferno. Ele foi empurrado para cima por placas tectônicas.

- Isto explica um outro recurso, - exclamou Jack. - A pressão também transforma a pedra calcária do fundo oceânico em mármore, proporcionando uma pedra finamente granulada para as esculturas que estão lá fora. Deve haver afloramentos debaixo desses declives e naquela cordilheira a oeste.

- Estamos dentro de um vulcão composto, - continuou Costas. - Uma combinação de cones de escória de carvão e blindagem vulcânica, a lava intercalada com cinza piroclástica e rocha. Pense no Monte Santa Helena, no Vesúvio, no Thera. Em vez de se desenvolver atrás de uma massa de lava solidificada no gargalo do vulcão e entrar em erupção de maneira explosiva, o magma começa a fluir através de um afloramento coberto de rocha plutônica e se solidifica como uma blindagem basáltica, um acontecimento que se repete a cada vez que a pressão sobe. Meu palpite é que nas profundezas dessa rocha há um caldeirão em ebulição, de gás e lava, que força seu caminho através de fissuras para deixar uma espécie de favo de mel feito de passagens e de cavernas. Bem na profundeza este vulcão está literalmente permeado com rios de fogo.

- E o ouro dos tolos? - perguntou Katya.

- Um raro nódulo denso de ferro incrustado no granito. Resfriando lentamente no interior da crosta terrestre forma imensos cristais. Eles são fabulosos, uma descoberta única.

Eles se voltaram para dar uma última olhada no mundo que estavam deixando. Nos lugares iluminados por suas headlamps, a água estava cheia de cor, a luz cintilando na rocha com brilho de ouro.

- Esta câmara é o sonho de um geólogo, - murmurou Costas de maneira respeitosa. - Depois de polida seria um espetáculo que deslumbraria qualquer espectador. Para os sacerdotes deveria parecer uma dádiva dos deuses. Um complemento impressionante ao espetáculo pirotécnico do próprio vulcão.

Atrás da silhueta do altar eles podiam distinguir o casco do submarino e o final do túnel. Era uma lembrança de que o inimigo sinistro barrava seu caminho de volta para o mundo de cima, de que sua única esperança de resgatar Ben e Andy estava na escuridão de breu à frente.

Antes de enfrentar a escuridão proibida do portal, Costas nadou de volta até o centro da câmara. Retirou um item de seu cinto de ferramentas e nadou com ele ao redor do altar antes de voltar, era uma fita laranja que se desenrolava de um carretel em sua mochila.

- Andei pensando sobre algo, quando você estava nos contando as lendas que se referiam aos conflitos entre os minoanos e os micênios na Idade do Bronze, - explicou ele. - Quando Teseu chegou em Cnossos para matar o Minotauro e lhe foi dado um rolo de fio por Ariadne para guiá-lo pelo labirinto. Debaixo dessa rocha, não temos acesso ao GPS e só podemos navegar com um cálculo de navegação estimado com bússola e medida de profundidade. O fio de Ariadne pode ser nossa única corda de salvação.

Jack os conduziu para fora da câmara de sacrifício e através do portal, com sua lanterna apontando para o túnel à frente. Depois de mais ou menos dez metros a passagem se estreitava e se curvava para a direita. Jack parou para permitir que os outros dois ficassem lado a lado com ele, o espaço era largo apenas o suficiente para que pudessem se alinhar dessa maneira.

Estavam sozinhos naquele silêncio mortal de um lugar em que nenhum ser humano havia penetrado desde a aurora da civilização. Jack experimentou uma onda familiar de excitação, uma descarga de adrenalina que aliviava de maneira temporária os efeitos debilitantes de seu ferimento, impelindo-o em direção ao desconhecido.

A passagem começou a serpentear em curvas alternadas, cada volta parecendo aumentar a distância entre eles e a entrada. A experiência era estranhamente desorientadora, como se os antigos arquitetos desse continente tivessem conhecido o efeito perturbador da ausência de linhas retas no sentido de direção do ser humano.

Eles pararam enquanto Costas desenrolava o último pedaço de fita da bobina e a prendia a um novo carretel em suas costas. Nos espaços estreitos, suas lanternas lançavam uma luz brilhante nas paredes ao redor, as superfícies lustrosas como se as tivessem mantido polidas durante milênios.

Jack nadou alguns metros à frente e percebeu uma irregularidade na parede.

- Existem inscrições aqui.

Os outros dois se aproximaram rapidamente.

- Feitas pela mão do homem, - afirmou Costas. - Cinzeladas na rocha. Elas são como as molduras ornamentais ao redor dos hieróglifos que Hiebermeyer encontrou naquela pedra antiga, no templo onde Sólon visitou o sumo sacerdote.

Centenas de inscrições praticamente idênticas estavam alinhadas em vinte registros horizontais que se estendiam para além da curva seguinte na passagem. Cada inscrição compreendia um símbolo rodeado por uma beirada oval, a moldura ornamental à qual Costas se referia. Os símbolos dentro das molduras eram retilíneos, cada um com uma haste vertical contendo um número variado de arranjos de barras horizontais que se ramificavam para cada lado.

- Parecem letras rúnicas - disse Costas.

- Impossível - retorquiu Katya. - As runas derivam dos etruscos e dos alfabetos latinos, do contato com o Mediterrâneo durante o período clássico. Seis mil anos mais tarde para nós.

Os outros dois se retraíram para deixar mais espaço para Katya. Ela examinou de perto uma das inscrições, depois se afastou para ter uma visão mais ampla.

- Eu não acredito que isto seja um alfabeto, - disse ela. - Em um alfabeto há uma correspondência direta entre o símbolo gráfico que forma a palavra e os fonemas, entre o símbolo e a unidade de som. Muitos alfabetos têm de vinte a trinta símbolos e poucas línguas possuem mais do que quarenta sons importantes. Existem demasiadas permutações aqui, no número e na localização das barras horizontais. De modo inverso eles não são suficientes para ser sinais representativos de uma palavra, onde o símbolo representa uma palavra, como na língua chinesa.

- Silábica? sugeriu Costas.

Katya sacudiu a cabeça.

- Os símbolos nos discos de Phaistos são fonogramas silábicos. É impossível que os atlantes houvessem desenvolvido dois sistemas silábicos para serem usados em um contexto sagrado.

- Prepare-se para se surpreender. - A voz de Costas era alta e clara pelo intercomunicador, embora ele tivesse desaparecido na curva seguinte da passagem. Katya e Jack nadaram atrás dele, suas luzes convergiam enquanto olhavam atentamente.

Os símbolos terminavam abruptamente em uma linha vertical gravada desde o chão até o teto. Atrás dela havia um magnífico touro, seu contorno esculpido em baixo-relevo. Ele era de tamanho natural, a cabeça enorme com chifres curvos olhando para eles, o corpo maciço apoiado em uma plataforma, suas pernas separadas. Os olhos haviam sido esculpidos profundamente para mostrar a íris e eram amplos, de uma maneira sobrenatural, como se a besta houvesse sido capturada em um momento de medo primordial.

- É claro - exclamou Katya subitamente. - São símbolos numéricos!

Jack compreendeu imediatamente.

- Este era o sacrifício ritual na câmara da entrada - ele se entusiasmou. - Os símbolos devem ser um cômputo, um registro de cada sacrifício.

- Eles foram até mesmo dispostos na antiga forma de escrita boustwphedon! - Katya olhou para Costas. - Como você sabe, no grego moderno, bous significa boi e strophos, a ação de virar. “Como os bois se viram quando estão arando a terra”, em direções alternadas. Como serpentes e escadas de mão. - Ela apontou para a maneira pela qual a linha que emoldurava cada símbolo se prendia à linha de baixo.

Costas fez um giro para dirigir-se a Jack, seus olhos brilhando de excitação.

- Quando os sacrifícios ocorreram?

- Eram eventos associados às colheitas e às estações do ano. Os solstícios de inverno e de verão, a chegada da primavera, a ação de graças pelas safras.

- O ciclo lunar? - sugeriu Costas.

- Muito provavelmente - replicou Jack. - O intervalo entre luas cheias era possivelmente a primeira medida exata de tempo jamais feita. A diferença entre o ano lunar e o solar realmente era importante para povos que dependiam de saber onde se encontravam dentro do ciclo da semeadura. O ciclo sinódico, o ciclo lunar, tem onze dias a menos que o ano solar, assim, um mês adicional é intercalado a cada três ou quatro anos. Observações celestes para medir a diferença eram provavelmente efetuadas nos santuários minoanos situados sobre picos. Aposto que aqui também há um observatório.

Costas apontou para um curioso conjunto de símbolos localizados diretamente acima do touro.

- É por causa disso que pergunto, - disse ele.

O que no início parecia ser um adorno abstrato adquiriu, de repente, um novo significado. Imediatamente acima da espinha dorsal do animal, havia um disco de mais ou menos dois palmos de largura. De cada lado uma sucessão de imagens invertidas espalhadas simetricamente, primeiro um meio disco, depois um quarto de disco e, finalmente, uma simples linha curva.

- Observem o ciclo lunar, - proclamou Costas. - Lua nova, lua crescente, lua minguante, lua cheia, depois o mesmo ao contrário.

- O disco de ouro, - disse Jack suavemente. - Ele era um símbolo lunar. O anverso representa a lua cheia, o perfil elíptico descreve a lua quando ela passa através de seu ciclo mensal.

Ele não precisou mostrar o disco aos companheiros para ter certeza de que estava certo, de que a forma biconvexa se ajustava exatamente com a depressão côncava do disco esculpido na rocha acima deles.

Costas nadou alguns metros para a esquerda do touro, a grande quantidade de gravuras se dispunha na frente dele como um exótico tapete oriental.

- O número máximo de barras do lado direito de cada haste é seis, e não raro os traços oblíquos continuam para cima também do lado esquerdo. O fato de que algumas vezes há sete traços naquele lado quase acabou com a minha teoria.

- Qual é? - perguntou Jack.

Eles puderam ouvir Costas inalar profundamente do seu regulador.

- Cada moldura representa um ano, cada barra horizontal um mês. Você sobe primeiro pelo lado direito, depois pelo esquerdo. Janeiro é a primeira barra do lado direito, dezembro a superior do lado esquerdo.

Jack estava nadando ao longo da parede, acima de Costas, onde muitas das molduras continham o número máximo de linhas.

- É claro - exclamou ele. - As molduras dos símbolos com uma linha extra contêm treze linhas no total. Devem representar os anos com um mês extra no calendário lunar. Olhe esta seqüência. O mês a mais ocorre a cada três ou quatro molduras, exatamente o que é necessário para manter o ano lunar no mesmo passo do ciclo solar.

- Como você calcula os meses que faltam? - Katya havia mergulhado em direção ao solo e estava examinando as molduras inferiores. Algumas possuíam apenas a linha vertical, e outras somente uma ou duas barras em pontos aparentemente ao acaso de cada lado.

- Muitos sacrifícios são propiciatórios, correto? São realizados na esperança de uma recompensa, algum sinal ou favor dos deuses. Que lugar melhor do que em um vulcão ativo? Onde há escoamento de magma, tremores sísmicos, até mesmo chuvas causadas por gás e vapor.

- Então, um sacrifício era sempre realizado no início do mês lunar. - Katya havia imediatamente acompanhado o raciocínio de Costas. - Se um sinal era observado antes da lua nova seguinte, então uma linha era esculpida. Se não, não havia inscrição.

- É isso mesmo - disse Costas. - A parte central, na frente de Jack, tem muitos símbolos, gravados todos os meses durante vinte e cinco ou trinta anos. Depois há longos períodos com poucos símbolos. Meu palpite é que vimos um padrão comparável de inconstância para este tipo de vulcão, com várias décadas de atividade alternando com períodos similares de quase dormência. Não estamos falando de erupções espetaculares, mas sim de um caldeirão que borbulha para fora antes de lentamente se encher de novo.

- A julgar pelas inscrições, o último sacrifício foi em maio ou junho, precisamente na época do ano em que teria ocorrido a inundação, segundo a análise de pólen em Trabzon, - disse Katya. - Durante vários anos antes não houve inscrições. Parece que tiveram sorte em seu penúltimo sacrifício.

- Eles precisavam dela - disse Costas de modo estranho.

Os três olharam para o símbolo final, uma inscrição feita às pressas que contrastava completamente com as incisões cuidadosas dos anos anteriores. Eles mal podiam imaginar o terror das pessoas, enquanto enfrentavam uma catástrofe inimaginável, procurando desesperadamente por algum sinal de esperança antes de abandonar a terra natal onde haviam prosperado desde quando a história começou.

Jack nadou de volta até a parede oposta de maneira que pudesse apreciar um número maior de símbolos ao mesmo tempo.

- Há cerca de mil e quinhentas molduras no total, - calculou ele. - Remontando a uma inundação datada de 5545 a.C, isso nos dá oito milênios antes de Cristo. É incrível. Mil e quinhentos anos de uso contínuo, não interrompido por guerra ou desastre natural, um tempo em que havia animais suficientes para um sacrifício de touro a cada mês. A Atlântida não surgiu repentinamente do dia para a noite.

- Lembrem-se de que estamos apenas olhando para um registro de eventos desde que a passagem se alargou, - advertiu Costas. - Isto era, originalmente, uma fissura vulcânica acessível do exterior. Aposto que este local foi visitado muito antes do primeiro sacrifício.

- Precisamos nos movimentar, - disse Jack. - Não sabemos o que há adiante.

A escultura do touro assumiu uma forma alongada e sinuosa, arqueando-se arredondada na curva final da parede. Quando eles passaram pelo rabo, a passagem estreitou-se e continuou sem desviar até onde suas luzes podiam alcançar. De cada lado, viam-se nichos esculpidos na rocha, cada um assemelhando-se a um vaso raso dentro de uma saliência projetada como um mini-relicário na lateral.

- Para tochas ou velas, provavelmente sebo, gordura animal - observou Jack.

- É bom saber que aquelas carcaças de touro tinham alguma utilidade - disse Costas.

Eles foram adiante. Depois de mais ou menos quinze metros a passagem terminava abruptamente em três vias de acesso, duas que se abriam obliquamente de cada lado da via central. As passagens pareciam desaparecer de maneira idêntica na escuridão de breu do centro do vulcão.

- Um outro teste - disse Costas de modo desanimado.

- Não a passagem central, - disse Jack. - É demasiado óbvio.

Katya estava examinando a entrada lateral direita e os outros foram até onde ela estava. Eles se juntaram na entrada e acenaram concordando, sem dizer palavra. Katya arrancou na frente e conduziu os demais. A passagem só permitia que dois deles se colocassem lado a lado e mal dava para ficarem em pé.

A passagem continuou de maneira constante por vinte metros, as paredes lisas não mostravam nada. A distância entre Katya e os outros aumentou quando Costas parou para acrescentar um outro carretel à fita que arrastava atrás de si e Jack esperou por ele. Jack colocou a mão enluvada no rasgo aberto em sua roupa.

Ele fez uma careta.

- A água está mais quente. Posso senti-la.

Nem Costas nem Katya tinham qualquer sensação da temperatura externa em seus E-suits, e até agora não tinham tido motivo para monitorar os termômetros em seus consoles.

- Tenho um mau pressentimento sobre isto, - disse Costas. - Deve haver um respiradouro vulcânico que está fazendo a água esquentar. Precisamos sair daqui.

Subitamente perceberam que Katya não estava respondendo. Quando Jack se adiantou, ansiosamente, a razão se tornou aparente. Seus fones de ouvido estalaram com uma estática crescente que impedia qualquer recepção.

- Localizado um campo eletromagnético. - A voz de Costas tornou-se mais clara quando se aproximou de Jack. - Há uma espécie de magnetita na rocha, uma extrusão mineral concentrada como o ouro dos tolos na entrada da câmara.

Uma curva à direita mostrou onde Katya havia desaparecido de vista. Eles nadaram rapidamente, com a atenção toda voltada para a escuridão à sua frente. Quando rodearam a curva, as paredes, antes polidas e lustrosas, passaram a ter a aparência desbastada e áspera de uma face de pedreira. A vista à frente estava indistinta e oscilava como uma miragem.

- É uma escaldadura, - ofegou Jack. - Não posso ir adiante.

Eles haviam passado pelas paredes desbastadas por mão humana e estavam agora rodeados pelos contornos recortados de uma fissura vulcânica. Katya surgiu de repente da escuridão como um fantasma em uma tempestade no deserto, e naquela fração de segundo eles sentiram uma força escura atrás dela, algum alienígena das profundezas movendo-se ruidosamente em direção a eles com uma intenção inexorável.

- Voltem! - berrou Katya. - Voltem para a passagem!

Jack nadou na direção dela, mas foi atirado de volta por uma vaga enorme a que ele não pôde resistir. Tudo o que podiam fazer era tentar desesperadamente evitar as beiradas serrilhadas da lava enquanto se locomoviam através da água a uma velocidade apavorante. Antes de perceberem já haviam retornado para dentro das paredes polidas da passagem. Um imenso tremor empurrou-os, chocados e entorpecidos, quase dez metros para dentro da fissura.

Katya estava hiperventilando e lutando para controlar a respiração. Jack nadou até ela e checou seu equipamento. Por um momento, um instante fugaz, ele lembrou do seu próprio medo, mas de maneira firme não lhe permitiu tomar conta de sua mente, resolvendo que o havia destruído e que estava extinto agora.

- Penso que tomamos o caminho errado, - ofegou Katya.

Costas endireitou-se e nadou para trás alguns metros para emendar a fita, então rasgada pela força que quase os aniquilara. Eles estavam de novo na zona de perturbação magnética e a voz de Costas estalou no intercomunicador.

- Uma explosão freática. Ela acontece quando a água colide com lava derretida. Explode como pólvora. - Fez uma pausa para tomar fôlego, as sentenças pontuadas por tragadas profundas em seu respirador. - E esta fissura é como um barril de pólvora. Se através dela não houvesse soprado um vento em algum lugar atrás de nós, seríamos o último registro acrescentado ao cômputo de sacrifícios.

Retornaram rapidamente para o lugar onde havia as três vias de acesso. Evitaram a via central, continuando a confiar no instinto de Jack. Quando se aproximaram da entrada da via de acesso à esquerda, Jack baixou até o chão, repentinamente dominado por uma onda de náusea, quando seu corpo lutou para enfrentar a mudança da água quente para as águas geladas da passagem.

- Estou bem, - ele ofegou. - Preciso apenas de um instante.

Costas olhou preocupado para ele e depois seguiu Katya até a entrada da via de acesso. Ela ainda não havia se recuperado do choque e sua voz estava tensa.

- É a sua vez de conduzir, - disse ela. - Quero ficar ao lado de Jack.

 

O túnel à esquerda fazia um ângulo abrupto para baixo, as paredes ficando gradualmente mais apertadas e convergindo para as entranhas do vulcão. A imagem estimulou uma desordem no psiquismo de Jack enquanto ele lutava com seu ferimento. Agora, também tinha de lidar com os efeitos debilitantes do aumento de pressão à medida que eles mergulhavam na escuridão gelada do túnel.

- Posso ver degraus cinzelados lá embaixo - anunciou Costas. - Devemos rezar para que logo pare de descer. Mais dez metros e estamos perdidos.

Costas monitorou ansiosamente seu aferidor de profundidade conforme desciam, os compensadores automáticos de poder de flutuação deles drenavam ar suficiente para impedi-los de cair verticalmente. Depois de alguns metros a queda aumentou de maneira alarmante. Por um momento Jack e Katya não conseguiram ver nada, sua visão estava obscurecida pela nuvem de bolhas que saíam do exaustor de Costas à medida que ele mergulhava abaixo deles.

- Está tudo bem - chegou a voz de Costas. - Posso ver um chão.

Os degraus que estavam embaixo viraram apoios para os pés quando a face do túnel se tornou vertical. Jack mergulhou e pousou sobre os joelhos. Katya seguiu-o.

- Cento e dezesseis metros - murmurou Costas. - É por isso que precisamos do trimix. Mais alguns metros e os reguladores teriam falhado.

Os outros dois não responderam e Costas examinou ansiosamente seus rostos procurando sinais de narcose. Quando seus olhos se acostumaram com os arredores, ele percebeu por que os outros estavam silenciosos. Os limites claustrofóbicos do túnel haviam dado lugar a uma vasta câmara feita de magma, seu conteúdo ígneo tinha se dissipado havia muito tempo, deixando uma cavidade alongada como o saguão de um castelo medieval. A analogia parecia particularmente apropriada quando Costas olhou para trás em direção ao ponto de entrada. O túnel acima se abria como o tubo de uma antiga chaminé, a face rochosa abaixo se expandia em uma reentrância, como uma lareira baronial.

A câmara parecia um fenômeno inteiramente natural, seu formato de nave era o resultado de forças titânicas na crosta da terra e não o fruto de uma atividade humana. Quando a mente de Costas se ajustou ao tamanho da câmara, ele começou a ver padrões giratórios no basalto dos dois lados, um tumulto de formas em espiral como se uma cascata de lava houvesse congelado enquanto caía. De repente percebeu o que havia atraído os outros dois. Era como se, diante de um problema difícil, a sua mente houvesse intuitivamente focalizado as formas geológicas. Assim que reconheceu a alternativa que se apresentava a ele, uma cena fantástica revelou-se diante de seus olhos. As paredes se encontravam cobertas com uma fantástica coleção de animais pintados ou gravados na rocha, as suas formas respeitavam os contornos da câmara e tiravam vantagem dos padrões naturais do basalto. Alguns eram em tamanho natural, outros maiores, mas todos estavam reproduzidos em um estilo muito naturalista, o que tornava bem fácil a sua identificação.

Com uma olhadela Costas reconheceu rinocerontes, bisões, veados, cavalos, tigres e touros. Havia centenas deles, alguns sozinhos, mas muitos estavam em grupos superpostos, imagem após imagem, empilhados uns sobre os outros como em uma tela reutilizada. O efeito era surpreendentemente tridimensional e, combinado com a sensação suavemente alucinógena do nitrogênio, dava a Costas a impressão de que estavam vivos, um agrupamento de bestas escravizadas movendo-se em direção a ele como em uma miragem inconstante.

- Incrível. - Jack finalmente quebrou o silêncio, com voz baixa e respeitosa. - O saguão dos ancestrais.

Costas espantou a imagem ilusória e olhou de maneira indagadora para seu amigo.

- Você sugeriu isto - explicou Jack. - Que existiram povos aqui muito antes dos primeiros sacrifícios de touros. Bem, aqui está a evidência. Estas pinturas são da era paleolítica superior, o período final da antiga Idade da Pedra, quando as pessoas caçavam grandes animais selvagens ao longo da beirada das geleiras. Acabamos de nadar em direção a milhares de anos atrás, até a primeira explosão da criatividade artística humana, cerca de trinta e cinco a doze mil anos atrás.

- Como você pode ter certeza?

- Olhe para as espécies.

Eles nadaram lado a lado até o centro da galeria, os exaustores soltando, por causa de suas respirações, grandes colunas de fumaça prateada em direção ao teto. Para cada lado que apontavam as headlamps, novas maravilhas da arte antiga iam surgindo. Apesar da grande necessidade de se apressar, eles estavam atraídos pela enormidade do que estavam vendo.

- Não há animais domesticados, - aventurou-se Katya. - Não há bois, carneiros ou porcos. E alguns desses animais parecem pertencer a espécies extintas.

- Exatamente, - disse Jack, e sua excitação era evidente. - Uma megafauna da Idade do Gelo, mamíferos enormes que morreram no final do Plistoceno, dez mil anos atrás. Você pode até identificar as subespécies. Isto é espantoso. Os touros, por exemplo, não são um rebanho moderno, trata-se de bois selvagens, Bos primigenius, um tipo que foi ancestral do rebanho domesticado e desaparecido nesta região durante o período neolítico. O rinoceronte veio do rinoceronte lanudo, outra espécie extinta que media mais de dois metros de altura. Eles pareciam bois-almiscarados enormes, a única relíquia da megafauna do período Plistoceno que sobreviveu até hoje.

Quando avançaram, uma forma imensa apareceu na parede lateral esquerda, seu torso era uma protuberância natural na rocha. A figura era quase três vezes mais alta do que eles e tinha presas enormes e curvas de pelo menos seis metros de comprimento.

- Um mamute lanudo! - exclamou Jack. - Os mamutes se extinguiram no sul do Cáucaso durante a última era interglacial, quando o clima se tornou muito quente para eles naquela região. Ou estes artistas tinham uma abrangência incrivelmente ampla, que ia até as bordas das geleiras nas estepes setentrionais, ou estamos olhando para pinturas com pelo menos quarenta mil anos de idade.

- Eu pensei que pinturas paleolíticas em cavernas fossem encontradas apenas na Europa ocidental, - murmurou Katya.

- Principalmente nos Pirineus e na Dordonha, as mais famosas estão em Altamira e na gruta de Lascaux. Existem, também, umas poucas no leste da Itália, a primeira prova de que agrupamentos de caçadores europeus alcançaram as costas da Ásia ocidental.

- Acho que essas pinturas têm uma espécie de significado religioso, - disse Costas. - Um culto animal, a adoração de espíritos de animais?

- No início da arte, muitas destas representações deveriam ter uma qualidade mágica, - afirmou Jack. - Principalmente quando eram fruto do trabalho de xamãs ou de curandeiros indígenas, pessoas que procuravam lugares como este, onde suas imagens pareceriam mais atemorizantes.

- Ou curandeiras, - interpôs Katya. - Muitas sociedades de caçadores eram matriarcais e adoravam a deusa-mãe. As mulheres não só criavam filhos e colhiam grãos.

Uma outra imagem colossal apareceu, dessa vez um boi selvagem gigante. Ele estava refletido por uma figura idêntica na parede oposta, era um arranjo especial que os fazia estar parados como terríveis sentinelas confrontando qualquer um que avançasse pela galeria. Estavam curvados sobre patas dianteiras muito musculosas e em um estado de grande excitação sexual.

- Eles se parecem com os touros, pintados na passagem, que são oferecidos em sacrifício, - observou Costas. - E a postura é a mesma que a da grande esfinge-touro no pátio.

Jack estava se debatendo com as implicações da sua descoberta.

- Na época da inundação, muitos destes animais teriam sido bestas mitológicas do passado, os mamutes e os rinocerontes seriam como a esfinge ou o grifo para as culturas posteriores. O único fio de continuidade era o touro. Para caçadores pré-históricos, os agressivos bois selvagens eram o símbolo mais poderoso de força. Para os primeiros agricultores os bois era essenciais como animais de carga, rebanho para carne, leite e couro.

- Você está dizendo que o povo neolítico da Atlântida adorava imagens que já existiam havia trinta mil anos? - perguntou Costas, incrédulo.

- Nem todas as pinturas são tão antigas - replicou Jack. - Em muitas galerias da caverna a arte não é homogênea, mas representa acúmulos episódicos durante longos períodos com pinturas mais antigas retocadas ou substituídas. Mas mesmo os acréscimos mais recentes, desde o final da Idade do Gelo, devem ter pelo menos doze mil anos de idade, mais do que cinco mil anos antes do fim da Atlântida.

- Tão distante para o povo da Atlântida quanto a Idade do Bronze é para nós, - disse Katya.

- Nas sociedades primitivas a arte sobrevivia apenas se ela continuasse a ter significado cultural ou religioso, - afirmou Jack. - Até este momento, todas as passagens haviam sido quadradas e polidas, no entanto os zeladores da Atlântida deliberadamente deixaram esta câmara inalterada. Estas pinturas eram veneradas como imagens ancestrais.

Jack nadou para cima e examinou a imensa anca do mamute, com cuidado para não danificar os pigmentos que haviam sobrevivido tanto tempo na quietude gelada da água.

- Eu sabia que a Atlântida conservaria surpresas extraordinárias, - disse ele. - Mas nunca esperei encontrar o primeiro elo evidente entre as crenças do primitivo Homo sapiens e nossos ancestrais neolíticos, um culto do touro que existiu desde o início dos tempos. - Ele se afastou devagar, ainda olhando para a impressionante imagem do mamute. - Ou descobrir a primeira obra de arte de todo o mundo.

Eles estavam agora a mais de trinta metros da entrada inclinada e na metade do caminho através da galeria. Acima deles a rocha subia como uma grande catedral, o teto era como um vagalhão de lava resfriada enquanto escorria descendo pelas paredes. A medida que as figuras dos bois selvagens ficavam para trás, os animais pareciam mais agrupados, em alguns lugares lembrando um estouro de manada, tão denso que as cabeças se entrechocavam.

- Em Lascaux existem seiscentas pinturas e doze mil gravuras, - murmurou Jack. - Aqui deve haver cerca de três ou quatro vezes esse número. Isto é sensacional. É como descobrir um Louvre pré-histórico.

Ele e Katya estavam tão absorvidos pelas cenas extraordinárias de cada lado da galeria que não perceberam o final da câmara se aproximando. Costas os alertou, nadando ansiosamente à frente depois de consultar seu computador de mergulho.

- Olhem para a frente, - disse ele.

O final da galeria se encontrava agora a menos de dez metros. Quando suas lanternas iluminaram a rocha, eles puderam ver que não havia pinturas nela, sua superfície era suavizada e polida como as das primeiras passagens. Mas depois começaram a reconhecer o contorno de uma escultura. Ela era imensa, estendendo-se por quinze metros ao longo de toda a parede.

O feixe de luz de Costas juntou-se ao deles e a imagem se tornou completa.

- É uma ave de rapina, - exclamou Katya.

- O deus águia de asas estendidas, - disse Jack brandamente.

A escultura estava no mesmo baixo-relevo que o touro oferecido em sacrifício na passagem. Parecia notavelmente similar às águias imperiais da antiga Mesopotâmia ou de Roma, sua cabeça estava rigidamente arqueada para a direita e seus olhos miravam com arrogância acima de um bico curvado fortemente para baixo. Mas, em lugar de se estenderem para fora, as asas estavam dirigidas para os cantos superiores da câmara. Parecia que o pássaro estava prestes a cair sobre sua presa, as garras esticadas quase alcançando o solo.

- Ele é de um período posterior ao das pinturas, - disse Jack. - Os caçadores paleolíticos não tinham ferramentas para esculpir o basalto dessa maneira. Deve ser contemporâneo à escultura do touro, do período neolítico.

Quando suas luzes iluminaram as terríveis garras, eles perceberam que a águia estava equilibrada sobre uma série de vias de acesso escuras, ao longo da base da parede. Havia quatro ao todo, uma debaixo de cada extremidade das asas e uma debaixo de cada conjunto de garras.

- Parece que temos quatro escolhas, - disse Jack.

Eles examinaram a parede com obstinação, procurando por pistas, cientes de que seu tempo, nessa profundidade, estava se tornando perigosamente curto. Fazia quase meia hora que haviam saído do submarino. Depois de nadar por toda a extensão da parede, examinando cada via de acesso, reuniram-se no centro.

- Elas são idênticas, - disse Katya desanimada. - Vamos ter de decidir tirando a sorte de novo.

- Espere um momento. - Costas estava olhando para a imagem acima dele, as pontas das asas quase perdidas nas alturas cavernosas da câmara. - Aquela forma. Eu já a vi em algum lugar antes.

Os outros dois seguiram o olhar de Costas. Katya de repente respirou rapidamente.

- O símbolo da Atlântida!

Costas exultava.

- Os ombros e as asas formam o H central do símbolo. As pernas são os raios inferiores. O símbolo da Atlântida é uma águia com asas estendidas!

Jack, muito excitado, tirou o disco para que eles pudessem ver o dispositivo retilíneo impresso na superfície, uma imagem muito familiar, no entanto até agora inescrutável em sua forma.

- Talvez ele seja como o símbolo egípcio ankh, - disse Katya. - O hieróglifo de uma cruz com um laço em sua extremidade que significa força de vida.

- Quando vi o cômputo de sacrifícios na passagem, comecei a pensar que o símbolo da Atlântida era mais do que apenas uma chave, que representava também um dispositivo numérico, - disse Costas. - Talvez um código binário que utiliza linhas horizontais e verticais para zero e um, ou uma calculadora para relacionar os ciclos lunar e solar. Mas agora parece que ele é simplesmente uma representação da águia sagrada, uma abstração que poderia facilmente ser copiada em diferentes materiais por causa de suas linhas retas. Mas, mesmo assim...

- Ele pode conter algum tipo de mensagem, - interrompeu Jack.

- Um mapa?

Jack nadou até onde estava Katya.

- Você pode localizar a tradução do disco de Phaistos feita por Dillen?

Ela rapidamente soltou o palmtop computer do ombro mantendo-o protegido em seu estojo à prova d'água. Depois de alguns instantes um parágrafo começou a aparecer na tela.

Abaixo do signo do touro repousa o deus águia com as asas estendidas. Perto de seu rabo está a Atlântida cercada de paredes de ouro, a maior porta de ouro da cidadela. As pontas de suas asas tocam o nascer e o pôr-do-sol. No nascer do sol está a montanha de fogo e de cristal. Aqui está o salão dos sumos sacerdotes...

- Pare aqui. - Jack voltou-se para Costas. - Qual é a nossa posição?

Costas havia adivinhado a pergunta do amigo e já estava consultando sua bússola.

- Levando em conta a variabilidade magnética na rocha, eu diria que esta parede está orientada quase exatamente na direção leste-oeste.

- Certo. - Jack rapidamente ordenou seus pensamentos. - Signo do touro refere-se a este vulcão, aos dois picos gêmeos. O deus águia com as asas estendidas é esta imagem acima de nós, as asas estão alinhadas precisamente com o nascer e o pôr-do-sol. O salão dos sumos sacerdotes se localiza no nascer do sol. Isto significa as portas situadas ao leste, abaixo da ponta da asa esquerda.

Costas estava concordando com a cabeça, seus olhos fixos no símbolo.

- Ainda há mais do que isto. - Ele pegou o disco de Jack, traçando as linhas enquanto falava. - Imagine que isto seja um mapa, não uma representação em escala, mas um diagrama, como um plano de metrô. A linha vertical que corresponde às pernas da águia é a passagem que conduz da porta até a face do despenhadeiro. Estas duas linhas no meio das pernas da águia são os nossos becos sem saída, logo depois da escultura do touro. Estamos agora no centro do símbolo, o ponto a partir do qual as asas se estendem uma para a esquerda e outra para a direita.

- Então as duas entradas à nossa frente conduzem respectivamente ao pescoço e ao coração da águia, - disse Jack. - E o texto no disco tem uma dupla mensagem, dizendo-nos não apenas para pegarmos a porta em direção ao leste, mas também para seguirmos a passagem até o ponto em que ela se comunica com a ponta da asa esquerda.

- E para onde conduzem todas as outras passagens? - perguntou Katya.

- Meu palpite é que a maioria delas forma um complexo de túneis e galerias como esta. Imagine um mosteiro subterrâneo completo, com salas de culto, quartos onde padres e servidores possam morar, cozinhas e despensas, escritórios e oficinas. Os caçadores paleolíticos que chegaram pela primeira vez aqui devem ter percebido o plano simétrico do local, uma singularidade da natureza que podia ser concebida como um padrão de águia com asas estendidas. Mais tarde a escavação na rocha pode ter regularizado mais ainda este padrão.

- Infelizmente não temos tempo para explorações. - Costas nadou para ficar ao lado de Jack e estava olhando para a capacidade de seu calibrador com alarme. - O ferimento do tiro e a exposição à água alteraram sua velocidade de respiração. Você quase acabou com a reserva de emergência. Só há trimix suficiente para você voltar ao submarino, nada mais. É o seu alerta.

Jack replicou sem hesitar. Enquanto os que os sitiavam estivessem no local, não haveria jeito de voltar para o submarino. A única chance deles era encontrar um caminho através do labirinto de túneis para a superfície.

- Vamos continuar.

Costas olhou para o amigo e concordou sem dizer palavra. Katya se aproximou e pegou no braço de Jack. Eles nadaram em direção à porta situada no lado esquerdo, lançando um olhar final para a caverna que deixariam para trás. À medida que seus feixes de luz dançavam através da superfície Ondulante, os animais pareciam tortos e alongados, como se tivessem se levantado nas patas traseiras e se esforçassem para segui-los, uma cavalgada fantástica determinada a irromper das profundezas da Idade do Gelo.

Quando alcançaram a esquina, Costas parou para prender uma nova fita de bobina. Depois nadou para a frente, em direção à escuridão ameaçadora da passagem; Jack e Katya se posicionaram um de cada lado de Costas.

- Muito bem, - disse ele. - Sigam-me.

 

- Teseu, aqui é Ariadne. Teseu, aqui é Ariadne. Você está me ouvindo? Câmbio.

Tom York repetiu a mensagem que estava enviando continuamente durante a última meia hora, usando o código de nomes que havia combinado com Jack e os demais antes que eles partissem no DSRV para o submarino. Ele pressionou o botão do microfone e o colocou em receptor VHF ao lado do console do radar. Era de manhã cedo e o Seaquest havia praticamente voltado para a sua posição original, tendo contornado a tempestade enquanto ela se dirigia para a costa sul do mar Negro. Muito embora tivessem se passado quase doze horas desde que se haviam separado, ele não estava excessivamente preocupado. Os outros podiam ter demorado para penetrar no submarino, e o aparelho laser de Costas não havia sido testado. Eles podiam ter decidido não utilizar a bóia de rádio do DSRV até que as condições da superfície fossem menos tumultuadas.

Mais cedo, através da ligação da IMU com o CGHQ, em Cheltenham, o centro de operações de inteligência e de comunicações do Reino Unido, Tom York havia determinado que um dos satélites digitais de mapeamento de terreno de última geração deveria passar por cima do local dentro de uma hora. Estavam na beirada de seu campo de ação e a janela, na tela, para obter informações seria de apenas cinco minutos, mas eles deveriam conseguir uma imagem de alta resolução da ilha se as nuvens se levantassem o suficiente para permitir uma visão sem impedimentos, a partir da trajetória orbital de seiscentos quilômetros. Mesmo com alguma obstrução visual, os sensores térmicos infravermelhos proporcionariam uma imagem detalhada, que seria dominada por intensa radiação do vulcão, mas que poderia captar sinais de seres humanos se eles estivessem suficientemente afastados do centro.

- Capitão, terra à vista. Sul-sul-oeste, a estibordo da proa.

Com a chegada do amanhecer ele e o timoneiro haviam saído da ponte de comando virtual, situada no módulo de comando, para o convés acima da linha de água. Quando a embarcação se inclinava e se agitava, ele agarrava o corrimão e olhava para fora através da janela açoitada pela chuva, vistoriando o equipamento que estava no assoalho da coberta de proa e que resistira ao ataque devastador da tempestade. A luz esmaecida da aurora revelava um mar inquieto, sua superfície perturbada elevava-se e descia com ondas que provocavam espuma branca. O horizonte se afastou, de maneira constante, quando o manto de nevoeiro se dissipou e os raios de sol apareceram.

- Distância de três mil metros, - estimou York. - Reduza a velocidade para um quarto e oriente para setenta e cinco graus.

O tripulante checou o detector de distância a laser, enquanto York confirmava a localização no GPS e se debruçava sobre o mapa usado por almirantes ao lado da caixa de bússola. Alguns momentos mais tarde a ilha surgiu de maneira dramática, sua superfície brilhante se elevando em um cone quase perfeito.

- Meu Deus! - exclamou o tripulante. - Ele está em erupção!

York pousou o compasso e apanhou um binóculo. O guarda-chuva que cobria a ilha não era apenas uma bruma do mar, mas uma coluna de fumaça que saía do próprio vulcão. Quando o nevoeiro que estava na parte inferior do vulcão se ergueu, a coluna estendeu-se em direção ao céu como uma faixa, a parte superior balançando-se de um lado para o outro antes de se dirigir para o sul empurrada pelo vento. No meio havia um pouco de chuva, uma brilhante faixa de cor que tremeluzia ao receber os raios do sol.

York manteve o binóculo focalizando o espetáculo durante um minuto inteiro.

- Eu não acredito nisso, - replicou ele. - Não há uma matéria especial sendo expelida. Já vi isto antes, nas ilhas Vanuatu, no Pacífico Sul. A água da chuva satura as camadas superiores porosas da cinza e se vaporiza quando entra em contato com o magma, formando uma coluna que sobe durante horas depois que as nuvens se afastam. Mas nunca vi uma como esta. O vapor parece ter sido canalizado por uma única chaminé, produzindo uma coluna que parece não ter mais do que vinte metros de largura.

- Se isto aconteceu em tempos antigos, deve ter parecido aterrador, um evento sobrenatural, - arriscou o tripulante.

- Gostaria que Jack pudesse ver isto. - York olhou de modo pensativo para as ondas. - Isto faz acreditar na teoria de que esta montanha era sagrada, um local de culto como aqueles santuários minoanos situados sobre picos. Daria a impressão de ser a própria morada dos deuses.

York levantou o binóculo de novo para examinar o vulcão no lugar em que este se inclinava na frente deles. A superfície parecia desolada e sem vida, a cinza chamuscada do cone dava lugar à estéril desordem do basalto que ficava abaixo. Mais ou menos no meio do caminho para baixo ele viu uma linha de manchas pretas acima de saliências retilíneas que pareciam plataformas ou galerias. York fechou os olhos um breve instante por causa do sol, olhou de novo, depois resmungou. Ele pousou o binóculo e se dirigiu até o telescópio de alta resolução, mas logo foi interrompido por uma voz que estava à porta.

- Que bela vista. Presumo que seja vapor de água. - Peter Howe entrou no convés. Usava botas verdes de borracha, calças marrons de veludo cotelê e uma malha branca de gola rulê, e estava carregando duas canecas fumegantes.

- Você parece alguém que saiu da batalha do Atlântico, - disse York.

- Mais provavelmente da batalha do mar Negro. Foi uma noite infernal. - Howe passou-lhe uma caneca e deixou-se cair no assento do timoneiro. Não havia feito a barba e seu rosto estava marcado pelo cansaço, a fadiga acentuando sua fala arrastada da Nova Zelândia. - Eu sei que você nos manteve fora da mira da tempestade, mas ainda temos nosso trabalho de impedir o equipamento de balançar. Quase perdemos o submarino de fuga.

Eles haviam recuperado o submersível logo depois de despachar o DSRV e os passageiros foram entregues, de maneira segura, ao Sea Venture, que estava cerca de trinta milhas náuticas a oeste. Embora tivessem guardado a embarcação dentro da enseada interna, durante a noite ela havia saltado fora dos parafusos centrais que a prendiam, quase causando um grande deslocamento de peso que teria sido fatal para a embarcação e sua tripulação. Se os esforços de Howe e sua equipe tivessem falhado, eles só teriam como recurso livrar-se do submarino, uma decisão que poderia salvar o Seaquest, mas que teria impedido sua única possibilidade de fuga de emergência.

- Temos apenas uma tripulação reduzida de doze pessoas, - continuou Howe. - Meu pessoal passou a noite em claro trabalhando. Qual é a nossa condição?

York olhou para o monitor SATNAV* e observou que suas coordenadas convergiam para a localização do GPS onde eles haviam lançado o DSRV no dia anterior. A tempestade tinha amainado, no mar havia vagas moderadas e o sol da manhã brilhava suavemente na superfície vítrea da ilha. A previsão era de um belo dia de verão.

- Se não tivermos notícias de Jack dentro de seis horas, vou enviar os mergulhadores. Enquanto isso, você pode liberar a tripulação que está em serviço de vigilância, durante o próximo turno, de modo que possam descansar. Eu os chamarei ao meio-dia.

- E nossos anjos guardiões?

- O plano será o mesmo. Se não houver contato, transmitiremos uma notificação de condição de emergência ao meio-dia.

Seus anjos guardiões eram os tripulantes da força-tarefa naval, grupamento considerado seu apoio máximo. Uma fragata turca e uma pequena frota FAC já haviam atravessado o Bósforo e estavam vindo a todo vapor na direção deles, e em Trabzon uma esquadrilha de helicópteros Seahawk com elementos da Brigada Anfíbia da Marinha das Forças Especiais Turcas estava de prontidão. Mustafá Alkõzen e uma equipe de diplomatas turcos de primeira linha haviam voado para a capital da Geórgia, Tbilisi, para assegurar que qualquer intervenção fosse um esforço de completa cooperação entre as duas nações.

- Muito bem. - Howe falou com evidente alívio. - Estou indo checar a torre blindada e rotatória dianteira e depois eu mesmo vou tirar uma soneca. Vejo você ao meio-dia.

York aquiesceu e pegou o binóculo. Vinte minutos antes o timoneiro informara sobre uma imensa fissura no solo oceânico, uma falha tectônica, não mostrada no mapa, com dez quilômetros de comprimento e mais de quinhentos metros de profundidade. Ele havia observado enquanto o detector de profundidade mapeava seu progresso desde o canyon até a linha da antiga costa com cento e cinqüenta metros de profundidade. Haviam agora alcançado o local marcado para o encontro e pararam a uma milha náutica e meia da ilha na posição norte-norte-oeste, quase exatamente o mesmo local onde Jack e Costas, em seus Aquapods, tinham visto, no dia anterior, pela primeira vez a antiga cidade.

York olhou para a ilha, os dois picos gêmeos e a sela estavam agora claramente visíveis onde a caldeira desmoronara muitíssimo tempo atrás. Ele permaneceu silencioso, em sinal de respeito pelo que pudesse haver embaixo. Era quase inacreditável que as águas à sua frente pudessem ocultar as maiores maravilhas do mundo antigo, uma cidade anterior a todas as outras por milhares de anos, a qual continha imensas pirâmides, estátuas colossais e habitações com vários andares, uma comunidade mais avançada do que qualquer outra na pré-história. E, para coroar isso tudo, em algum lugar no fundo do mar havia a forma sinistra de um submarino nuclear soviético, algo que ele passara metade de sua vida treinando para destruir.

Uma voz irrompeu de súbito no rádio.

- Seaquest, aqui é o Sea Venture. Você está me ouvindo? Câmbio.

York agarrou o microfone e falou de maneira agitada.

- Macleod, aqui é o Seaquest. Transmita suas coordenadas. Câmbio.

- Estamos ainda parados em Trabzon por causa da tempestade. - A voz estava oscilante e distorcida, o efeito de cem milhas de interferência elétrica. - Mas Mustafá conseguiu se conectar via satélite. Está conectado para imagem infravermelha. Deve estar navegando agora.

York girou para olhar melhor a tela no console de navegação, passando pelo tripulante que estava no leme do navio. Uma cor bruxuleante e brilhante se dissolveu em uma paisagem rochosa e depois se fragmentou em um mosaico de pontos luminosos.

- Você está olhando para a parte central da ilha. - A voz de Macleod estava apenas audível. - A costa oriental fica no topo. Temos apenas alguns instantes antes de perdermos o satélite.

A parte superior da tela permanecia obscura, mas um movimento do scanner revelou uma imagem vivida no centro. Para além do recortado da lava ficava a beirada de uma ampla plataforma, uma área de pedras espaçadas e niveladas, visíveis apenas do lado esquerdo. À direita havia o contorno inconfundível de uma escadaria desbastada na rocha.

- Sim! - O tripulante deu um soco no ar. - Eles conseguiram!

York, ansiosamente, seguiu o olhar do tripulante. Duas manchas irregulares vermelhas se destacavam na escadaria e estavam se movendo de modo visível. Uma terceira apareceu saindo do labirinto de pontos luminosos no topo da tela.

- Que estranho! - York parecia desconfortável. - Eles estão se movendo acima da direção do contorno da costa, no entanto Jack estava convencido de que a passagem subterrânea os levaria para perto do topo do vulcão. E eles deveriam ter feito contato por rádio logo que alcançaram a superfície.

Como se recebesse um sinal, suas piores suspeitas foram confirmadas. Uma quarta e depois uma quinta figura apareceram, espalhando-se de cada lado da escadaria.

- Jesus! - exclamou o tripulante. - Não são os nossos.

A imagem se desintegrou e o estalido do rádio se tornou contínuo. O rosto do tripulante se voltou para uma luz de advertência na tela adjacente.

- Senhor, deve olhar para isto.

O monitor exibiu a varredura circular do radar de vigilância de superfície e navegação Racal Decca TM1226 de especificação militar.

- Há um contato se destacando do lado leste da ilha. Não posso ter certeza até que a imagem fique mais nítida, mas eu diria que estamos olhando para um navio de guerra do tamanho de uma fragata, talvez um FAC grande.

Bem neste momento houve um som agudo terrível vindo da parte de cima e os dois homens foram atirados violentamente para trás. York se recompôs e correu para a ala a estibordo, justo a tempo de ver a erupção de uma coluna de jato de líquido em gotículas minúsculas a quinhentos metros da proa. No mesmo instante ouviu um estrondo distante de arma de fogo, o som reverberando da ilha e se dirigindo para eles no ar claro da manhã.

- Desliguem todos os sistemas, repito, desliguem todos os sistemas - gritou o tripulante. - Radar, rádio, computadores. Desliguem tudo.

York dirigiu-se cambaleando para o convés e olhou rapidamente ao redor. Através da porta da sala de navegação ele pôde ver que a tela de seu monitor estava em branco. A iluminação e o rádio VHF na ponte de comando não estavam funcionando, assim como o receptor GPS e todos os outros displays LCD. Imediatamente ele abaixou a alavanca da buzina elétrica e deixou aberta a tampa do tubo de voz que chegava em todos os alojamentos do navio.

- Ouçam isto - ele gritou mais alto que o som da buzina. - Alerta vermelho! Alerta vermelho! Estamos sendo atacados. Todos os aparelhos eletrônicos estão desligados. Repito, todos os aparelhos eletrônicos estão desligados. Major Howe, apresente-se na ponte de comando imediatamente. Todos os demais tripulantes devem reunir-se na enseada interna e preparar para fuga o submarino Neptune II - Ele fechou a tampa do tubo de voz e olhou para o timoneiro, seu rosto contraído e preocupado. - Uma E-bomb*!

O outro homem concordou com um gesto. A aquisição mais ameaçadora do arsenal terrorista, nos últimos anos, havia sido as bombas eletromagnéticas, projéteis carregados magneticamente que emitiam um pulso de microondas de muitos milhões de watts quando explodiam. A mais poderosa que fora produzida fazia uma faísca que parecia uma lâmpada elétrica e podia deixar fora de uso todos os equipamentos elétricos, computadores, além de bloquear as telecomunicações dentro de sua área de ação.

- Está na hora de você se juntar aos outros, Mike, - ordenou York para o timoneiro. - As baterias reservas no submarino e no módulo de comando estão protegidas de interferência eletromagnética e devem, portanto, poder operar. Peter e eu ficaremos tanto quanto possível e iremos embora no módulo, se for necessário. É imprescindível que vocês alcancem as águas territoriais russas antes de transmitir sua posição. O código da chamada é “Ariadne necessita Anjo Guardião” e você deve usar o canal de segurança da IMU. Como tripulante mais velho, eu lhe transmito minha autoridade.

- Sim, senhor. E boa sorte, capitão.

- Para vocês também.

Quando o tripulante desceu rapidamente a escada, York focalizou seu binóculo na extremidade oriental da ilha. Segundos depois uma forma baixa deslizou de detrás das rochas, sua proa inclinada tão ameaçadora quanto uma boca de tubarão. Na luz translúcida da manhã, cada aspecto parecia acentuado, desde a pequena torre blindada e rotatória de onde atiravam, na frente da superestrutura lustrosa, até a nacela em forma de leque da popa.

Ele sabia que este navio só podia ser o Vultura. Além dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha, só os russos haviam desenvolvido projéteis de artilharia acionados por pulsos eletromagnéticos. Durante o mais recente conflito no Golfo, a estudada neutralidade da Rússia levou um certo número de guerreiros frios e corajosos a sugerir que ela havia secretamente suprido os rebeldes com armamentos. Agora York tinha a confirmação daquilo que muitos haviam suspeitado, que os projéteis faziam parte de um tráfico ilegal dos antigos arsenais soviéticos, que alcançavam os terroristas por meio do submundo do crime. Aslan provavelmente não era o único líder militar a reter um pouco do valioso equipamento para seu uso pessoal.

Enquanto York vestia rapidamente seu equipamento de sobrevivência, Howe chegou subindo as escadas. Ele já havia vestido metade de um resistente macacão branco cintilante e deu um outro para York. Os dois homens se aprontaram rapidamente e cada um pegou um capacete do compartimento debaixo do console. As cúpulas de Kevlar incorporavam protetores de orelha em forma de bulbos e visores retrateis à prova d'água.

- Então, é isto, - disse Howe.

- Que Deus esteja conosco.

Os dois homens abaixaram a escada para o convés. Atrás da superestrutura o heliporto estava vazio, o Lynx havia voado para Trabzon, tão logo a tempestade começara.

- O sistema automático de tiro será inútil sem os equipamentos eletrônicos, - disse Howe. - Mas eu coloquei a unidade destacável em operação manual, da última vez que fiz uma verificação, de modo que deveremos ser capazes de acioná-lo manualmente.

A única esperança deles era a surpresa. O Vultura não sabia que eles carregavam armamentos fixos; a unidade destacável de armas ficava recolhida durante as operações normais do Seaquest. A intenção de Aslan, indubitavelmente, era abordá-los e saqueá-los e depois dispor do navio ao seu bel-prazer. Eles não tinham o poder de afetar o destino do Seaquest, mas podiam cobrar um preço para devolvê-lo. Com o canhão do Vultura apontado para eles, era certo que o primeiro tiro provocaria um inferno, um ataque cuja violência e fúria o navio não fora construído para suportar.

Juntos, os dois homens se agacharam no meio da cobertura da proa e levantaram uma escotilha circular. Abaixo deles ficava o cinza desbotado da blindagem da torre rotatória, os canos duplos do Breda, de quarenta milímetros, se elevavam na parte central do suporte.

Howe desceu até a plataforma da arma, preparou-se para atirar e olhou para cima em direção a York.

- Precisamos estar prontos para atirar logo que levantarmos a torre e mirarmos no alvo. Vamos fazer isto à maneira antiga. Eu sou o apontador da arma e você o observador externo.

A arma seria normalmente operada da ponte de comando do Seaquest, utilizando o telêmetro instalado no radar de rastreamento Bofors 9LV 200 Mark 2 e um sistema de controle de tiro 9LV 228. Do jeito que as coisas estavam, York nem mesmo podia usar o seu telêmetro a laser, operado manualmente, e tinha que confiar sem restrições em sua experiência de navegação. Felizmente ele lembrava a distância das coordenadas do local de encontro até a extremidade oriental da ilha, onde o Vultura agora estava exposto ao longo do costado.

- Distância de três mil e trezentos metros. - York levantou os braços para obter uma indicação visual grosseira, seu braço direito mantido para fora a quarenta e cinco graus da proa do Seaquest e o esquerdo na direção da popa do Vultura. - Azimute duzentos e quarenta graus a partir do nosso eixo.

Howe repetiu as instruções e girou a roda ao lado da base da arma até que os canos ficassem alinhados com o Vultura. Ele rapidamente calculou o ângulo de elevação, movimentando uma engrenagem dentada na bússola semicircular de metal, de modo que os canos ficassem na trajetória quando a torre rotatória fosse levantada.

- A pressão barométrica e a umidade estão normais, a velocidade do vento é insignificante. Não há necessidade de compensação para esta distância.

York desceu até onde estava Howe para ajudá-lo com a munição. A fita de alimentação automática de projéteis estava vazia, porque o navio não havia sido preparado para uma batalha antes do ataque, e porque, em qualquer caso, não operava sem os equipamentos eletrônicos. Por isso eles começaram a retirar projéteis dos compartimentos de reserva existentes de cada lado no interior da torre rotatória.

- Vamos ter de alimentar manualmente a arma, - disse Howe. - Explosivo de alta potência para o cano esquerdo e perfurante de blindagem para o direito, cinco balas em cada. Duvido que tenhamos oportunidade para usar mais do que isso. Utilizaremos o hélio para o telêmetro porque o impacto fica mais visível e depois mudamos para projétil sólido.

York começou a alojar os projéteis de cinco quilos nos carregadores, os de ponta vermelha à esquerda e os de ponta azul à direita. Quando ele terminou, Howe sentou-se no lugar do atirador e puxou para trás a culatra em cada cano para pôr uma bala em cada câmara.

- É muito frustrante ter apenas dez projéteis para uma arma que dá quatrocentos e cinqüenta tiros por minuto, - observou Howe de modo indiferente. - Talvez os deuses da Atlântida riam de nós.

Os dois homens abaixaram os visores de proteção. York ergueu o corpo dentro do estreito espaço na frente da roda que comandava a elevação dos canos, enquanto Howe pegava o manual que ensinava a levantar e abaixar a torre rotatória. Depois de experimentar girar a roda, ele olhou para York.

- Pronto para erguer?

York fez um sinal de aprovação com o polegar voltado para cima.

- Agora!

Quando a torre rotatória se levantou e os canos abaixaram, York sentiu uma descarga de adrenalina percorrê-lo. Ele havia enfrentado ações hostis muitas vezes, mas sempre em uma posição privilegiada, em uma ponte de comando ou uma sala de controle. Agora estava prestes a se empenhar em combate mortal com um inimigo atrás do frio metal de uma arma. Pela primeira vez ele percebeu o que sentiam os homens agachados atrás dos canhões do Victory de Nelson ou dentro das poderosas torres giratórias dos grandes navios de guerra em Jutlândia* ou no Cabo Norte. A sobrevivência deles estava em jogo, e as desigualdades iam se somando à medida que se aproximava a hora em que teriam de enfrentar o canhão de cento e trinta milímetros do Vultura, equipado com o GPS mais moderno e conectado ao sistema de alcance.

A unidade destacável elevou-se acima do convés e a silhueta do Vultura apareceu. Quando York observou os canos baixarem até a marca predeterminada e ficarem travados nesse local, ele prendeu com força a manivela na roda de elevação e ergueu seu braço direito.

- Está na marca!

Howe virou para cima o dispositivo de segurança e colocou o dedo ao redor do gatilho.

- Fogo!

Houve um estrondo ensurdecedor e o cano do lado esquerdo deu um violento coice quando recuou. York agarrou o binóculo e seguiu a trajetória do projétil enquanto ele emitia um barulho agudo através do ar. Alguns momentos depois, um jato de água pulverizada apareceu à direita do Vultura.

- Vinte graus à esquerda, - gritou York.

Howe girou a roda do azimute e a travou.

- Fogo!

Houve um outro estrondo dissonante e um jato de chama partiu do cano do lado esquerdo. O gás expeliu instantaneamente o envoltório usado e pôs na câmara uma nova bala.

- Acertou! - gritou York. - Alta potência, rajada contínua de cinco tiros!

Ele havia visto o clarão vermelho, onde o explosivo havia detonado contra o metal espalhando estilhaços pela popa do Vultura. A esperança deles era de que agora a fuzilaria pesada colocasse fora de condições de uso o sistema de propulsão do navio, causando grandes estragos nas turbinas propulsoras que davam ao Vultura maior velocidade do que quase qualquer outra embarcação de superfície.

- Fogo!

Howe armou o gatilho do lado direito e o manteve pressionado. Com o barulho de uma britadeira gigantesca, o canhão disparou os cinco projéteis explosivos em uma cadência cíclica, o carregador se esvaziou em um segundo e as cápsulas vazias voaram pela parte traseira da arma de fogo a cada coice provocado pelas detonações.

Mesmo antes de a reverberação ter cessado, houve um estrondo impactante na popa do Seaquest e uma forte vibração através do convés. Os dois homens olharam com horror enquanto o navio era atingido meia dúzia de vezes logo acima da superfície da água. Nessa distância o poderoso propulsor Nitrex permitia ao Vultura atirar praticamente em uma trajetória horizontal; os projéteis AP, sem urânio, podiam acertar o Seaquest desde a popa até o meio do navio. Era como se o Seaquest tivesse sido espetado por um forcado gigantesco, cada projétil perfurando sem esforço as anteparas e saindo do outro lado com um jato de fogo e de detritos.

- Eles vão atirar em seguida na ponte de comando, - gritou York, - depois será em nós.

Enquanto o Seaquest se levantava e vergava, York dirigiu o binóculo para a popa do Vultura. Colunas de fumaça subiam onde ele havia sido atingido. Um movimento chamou sua atenção e ele desviou o binóculo para averiguar do que se tratava. Um barco inflável de casco rígido estava se dirigindo para eles, os motores externos duplos produzindo uma ampla onda em forma de V. Dentro dele York podia ver um grupo de figuras agachadas. Eles já haviam transposto a metade do caminho e se aproximavam rapidamente.

- Barco RIB inimigo se aproximando, distância de oitocentos metros, - gritou York. - Abaixar os canos do canhão para a elevação mínima. Iniciar ataque fazendo pontaria visual!

York girou freneticamente a roda de elevação, enquanto Howe movia para cima o visor na frente do assento do atirador. Bem quando sua mão se fechou sobre o gatilho do cano esquerdo, ouviu-se um estrondo ensurdecedor que jogou os dois homens no chão. Com um som de mil vidraças despedaçadas, uma chuva de estilhaços de metal ricocheteou da torre rotatória. Um deles cortou profundamente a perna de York e ensopou seu macacão de sangue. Segundos depois, mais duas explosões devastaram o convés e sinais de queimado indicavam que um projétil perfurante os havia atingido, tinha aberto uma fenda no convés e fora cair com estrondo no mar, passando a estibordo pela proa.

No chão, York foi se arrastando, os ouvidos ressoando furiosamente e a perna esquerda imprestável, e olhou para o buraco aberto onde antes havia a ponte de comando. Para um homem ligado ao mar, essa era uma visão assustadora, como se ele estivesse olhando, impotente, para a mulher que amara durante seus espasmos mortais, sem enxergar, sem conseguir falar, com o rosto arrasado.

- Vamos pegar aqueles bastardos. - Sua voz estava fria e firme apesar da dor.

- Sim, sim, senhor.

Howe voltou para o assento do atirador com o RIB em sua mira assim que eles se aproximaram rapidamente a menos de duzentos metros de distância. Com os canos abaixados ao máximo, ele detonou os projéteis de hélio restantes com um segundo de intervalo. O primeiro caiu perto e levantou a embarcação, mas o vento os ajudou a se endireitar. O segundo passou sob a quilha e levantou o RIB completamente fora da água, a popa adernando de modo que eles puderam ver os seis homens molhados agarrando-se desesperadamente ao chão da embarcação. O terceiro explodiu contra a ponte, pondo fogo no depósito de combustível e convertendo a embarcação e seus ocupantes em uma bola de fogo que os devorou com assustadora rapidez.

Os dois homens não tiveram tempo para alegrar-se. O fim, quando chegou, foi muito violento e impiedoso, muito mais do que poderiam prever.

Quando os primeiros fragmentos incandescentes do RIB atingiram a torre rotatória, eles sentiram uma onda gigantesca debaixo de seus pés. Rebites estouraram e o metal se torceu grotescamente de um lado a outro do convés. Um instante depois um outro projétil explodiu a torre rotatória arrancando-a de seu suporte e empurrando-os contra a balaustrada a estibordo. Eles foram envolvidos em um inferno de fogo, um redemoinho abrasador que os arremessou em um vazio estreito.

Enquanto York lutava para não desmaiar ele captou um vislumbre final do Seaquest, uma pira de destruição, embora flutuando ainda milagrosamente, uma embarcação devastada, irreconhecível, e no entanto tão desafiadora quanto o vulcão que aparecia insensível atrás dela.

 

Quando mergulharam na escuridão assustadora do túnel sob a ponta da asa esquerda da águia, puderam ver que as paredes haviam sido alisadas e polidas como nas passagens anteriores. Durante os primeiros metros após percorrer o saguão dos ancestrais, Costas os conduzia pelo caminho, mas logo este se alargou e Jack e Katya puderam seguir ao lado do companheiro. Depois de dez metros o chão tornou-se uma escada, e os degraus gastos davam para uma rampa uniforme até onde as luzes podiam penetrar.

- Os deuses desta vez estão do nosso lado, - disse Costas. - Mais alguns minutos nesta profundidade e ficaríamos aqui para sempre.

Enquanto subiam a rampa, conservavam a energia usando seus compensadores de flutuação para ascender. As paredes estavam esculpidas, em um friso contínuo, com touros em tamanho natural, as formas sinuosas lembrando de maneira espantosa as pinturas minoanas de touros que havia em Creta. Pareciam olhar furiosos e bater os pés violentamente de cada lado à medida que os três prosseguiam para cima.

Justo quando a velocidade de respiração de Jack estava começando a estabilizar, seu computador deu uma advertência audível de que estava prestes a entrar na reserva. Ele sentiu um aperto momentâneo em seu regulador quando o suprimento de emergência entrou em ação e depois este fluiu livremente de novo.

- À medida que subirmos, a pressão se reduzirá e você irá obter um volume maior do suprimento de reserva, - assegurou Costas. - Se ficar sem reserva sempre podemos partilhar o ar.

- Ótimo. - Jack fez uma careta através do visor antes de se concentrar em manter sua flutuação apenas acima do nível neutro.

Durante os minutos seguintes, o único som era o da exalação das bolhas que se soltavam enquanto subiam gradualmente pela passagem. Depois de cerca de cem metros, Costas fez um sinal para pararem.

- Estamos agora setenta metros abaixo do nível do mar, - ele anunciou. - Meu computador avisa que precisamos parar cinco minutos para a descompressão. Muito embora respiremos principalmente hélio e oxigênio, ainda assim absorvemos muito nitrogênio. Necessitamos nos livrar do gás.

Apesar da dor penetrante que sentia em seu ferimento, Jack fez um esforço consciente para não hiperventilar. Exausto, ele se deixou cair sobre as escadas e apanhou o disco.

- Está na hora de ler o mapa, - disse ele.

Os outros dois se abaixaram ao seu lado enquanto ele rodava o disco até o símbolo ficar alinhado com a direção da passagem.

- Se nossa decifração estiver correta estamos aqui, ao longo do ombro esquerdo da águia, - apontou Costas. - Não devemos ir muito mais longe por este caminho. Estamos chegando perto da face do despenhadeiro.

- Quando essa passagem chegar ao final, vamos virar à direita, - disse Katya. - Depois faremos todo o caminho ao longo da asa da águia até a virada final à esquerda e depois para a extremidade oriental.

- Se estivermos nos encaminhando para a caldeira, precisamos subir cerca de cem metros e nos dirigir quatrocentos metros para o sul, em uma inclinação de trinta graus. Em algum ponto vamos ultrapassar o nível do mar, mas ainda assim estaremos debaixo da terra.

- O que vai acontecer se a passagem for para baixo? - perguntou Katya.

- Seremos queimados vivos, - disse Costas asperamente. - O centro é uma massa em ebulição de lava derretida e de gás ardente. Mesmo indo para cima podemos encontrar nosso caminho barrado por lava que esteja fluindo desde o tempo da inundação.

Os cronômetros deles soaram ao mesmo tempo depois de cinco minutos para indicar que a parada havia sido cumprida. Jack recolocou o disco no bolso e levantou da escada de modo decidido.

- Não temos escolha, - ele disse. - Vamos rezar para que Ben e Andy ainda estejam agüentando. Somos a única corda de salvação deles.

Quando passaram da marca dos sessenta metros, seus reguladores começaram a substituir, como principal gás inerte, o hélio pelo nitrogênio. Logo a mistura de gás que tinham para respirar iria diferir do ar atmosférico apenas pelo oxigênio enriquecido injetado durante os poucos metros finais para retirar de sua corrente sangüínea qualquer excesso de nitrogênio.

Costas conduziu-os pelo caminho quando a escadaria começou a se estreitar em um túnel apertado. Depois de mais um passo o caminho virava à direita, seguindo aparentemente uma fissura natural, antes de retomar o curso inicial levando-os bem rápido até a entrada de uma outra caverna.

- Esta é nossa interseção, acertamos no alvo.

Suas lanternas revelaram uma câmara de cerca de dez metros de comprimento por cinco de largura, com portas nos quatro lados. A parada de descompressão havia revitalizado Jack e ele nadou para a frente de modo a examinar o compartimento mais de perto. No centro havia uma mesa retangular orlada de pedestais de mais ou menos dois metros em cada canto. A mesa havia sido desbastada da rocha e tinha uma borda elevada como a tampa de um sarcófago. Os pedestais eram vasos largos e redondos que permaneciam livres, em pé, como as pias batismais das igrejas medievais.

- Não há pequenos canais para escoar o sangue e teria sido impossível trazer um animal grande para este local tão distante nas montanhas, - disse Jack. - Os sacrifícios tendem a ser públicos e o que quer que ocorresse aqui só podia ser assistido por poucos escolhidos.

- Uma mesa de ablução, para purificação ritual? - sugeriu Costas.

Katya nadou até a porta oposta ao seu ponto de entrada. Ela examinou o corredor além dessa porta e desligou por instantes a lanterna.

- Posso ver luz - disse ela. - Ela está pouco discernível, mas há quatro tanques uniformemente separados.

Jack e Costas se aproximaram. Eles também podiam discernir manchas esmaecidas, de um verde nebuloso.

- Estamos apenas cinqüenta metros abaixo do nível do mar e poucos metros dentro da face do despenhadeiro. - Costas apagou sua luz enquanto falava. - É de manhã cedo lá fora, por isso há um pouco de luz vestigial nesta profundidade.

- O corredor se corresponde com uma das linhas paralelas que sobressaem da asa da águia, - disse Jack. - Aposto que são alojamentos de moradas, com janelas e balcões dando para as pirâmides. Exatamente como nos complexos minoanos nos despenhadeiros do Thera, uma localização magnífica que servia de ideal monástico, embora também dominasse a população que habitava na costa abaixo.

- Nós poderíamos sair por uma daquelas janelas, sugeriu Katya.

- Sem chance, - disse Costas. - Elas parecem ser poços de ventilação, provavelmente com menos de um metro de largura. E não temos tempo para explorá-las. Nosso mapa se mostrou verdadeiro até aqui e sugiro segui-lo.

Bem nesse momento uma vibração passou por eles, um escurecimento da água que fez Jack temer que estava prestes a desmaiar. Ela foi seguida por vibrações posteriores e depois uma série de barulhos abafados de marteladas, cada um precedido de um som amortecido como de um vidro quebrado a longa distância. Não havia jeito de detectar de onde o som estava vindo.

- O submarino! - exclamou Katya.

- O som está muito distinto, muito controlado - disse Costas. - Qualquer explosão no Kazbek e não estaríamos aqui falando sobre isto.

- Eu já ouvi este som antes. - Jack estava olhando para Costas, sua raiva era palpável mesmo através do visor. - Penso que é a vibração de projéteis penetrando em um casco. Há uma batalha de canhões retumbando na superfície acima de nós.

- O que quer que seja, precisamos encontrar uma saída agora - disse Costas ansioso. - Vamos.

Eles nadaram em direção à entrada que assinalava a virada à direita indicada pelo símbolo. Depois de passar pelos vasos grandes, Costas parou para verificar sua bússola.

- Para o sul - ele anunciou. - Tudo que temos de fazer agora é seguir esta rota até o fim e depois virar à esquerda.

Katya estava se aproximando da via de acesso alguns metros na frente dos outros dois. Ela parou subitamente.

- Olhem para cima - disse muito excitada.

Acima da via de acesso havia um enorme lintel esculpido na rocha. A frente estava profundamente entalhada com símbolos, alguns ocupavam toda a altura de meio metro da laje. Eles estavam separados em quatro grupos de quatro, cada grupo rodeado por uma delimitação entalhada como uma moldura de hieróglifo.

Não havia como equivocar-se sobre o seu significado.

- O feixe de milho. O remo de pá larga. A meia-lua. E aquelas cabeças de índio da tribo dos moicanos - disse Katya.

- Esta é a comprovação final - murmurou Jack. - O disco de Phaistos, o disco de ouro do naufrágio. Os dois vêm deste lugar. Estamos olhando para o manuscrito sagrado da Atlântida.

- O que ele significa? - perguntou Costas.

Katya já estava consultando o seu palmtop computer. Ela e Dillen o haviam programado em uma concordância que combinava cada um dos símbolos da Atlântida com sua sílaba equivalente em linear A, proporcionando uma tradução mais apropriada do vocabulário minoano decifrado até aquela data.

- Ti-ka-ti-re, ka-ka-me-re. - Katya pronunciou os sons lentamente, seu sotaque russo dava um leve som sibilante às sílabas finais de cada palavra.

Ela procurou, em ordem alfabética, na lista do computador, enquanto Jack e Costas observavam as palavras bruxuleantes quando elas apareciam no display LCD.

- As duas palavras estão no léxico minoano, - anunciou Katya. - Ti-ka-ti significa rota ou direção. Ka-ka-me significa morte ou morto. O sufixo re significa para ou de. Então a tradução é da “rota da morte”, “o caminho da morte”.

Eles ficaram olhando para a inscrição acima de suas cabeças, os símbolos pareciam nítidos, como se tivessem sido esculpidos poucos dias antes.

- Isto não soa muito promissor, - disse Costas carrancudo.

Jack estremeceu e os outros dois olharam para ele com ansiedade renovada. Ele reuniu sua energia restante e adiantou-se na passagem.

- Esta deve ser a última perna do símbolo. Sigam-me.

Costas se atrasou um instante para amarrar a última bobina de fita em sua mochila. Tudo o que ele podia ver dos outros dois era a turbulência em seu rastro, a passagem se inclinava em um ângulo não muito pronunciado. Quando nadou atrás deles, o vislumbre tranqüilizador de suas lanternas apareceu mais adiante no túnel.

- Mantenham sua velocidade de ascensão abaixo de cinco segundos por metro, - ele instruiu. - O tempo que ficamos na câmara conta como uma outra parada de descompressão, e com esta inclinação não necessitaremos parar de novo antes de alcançar a superfície.

O chão era áspero, parecia ter sido deixado inacabado de maneira deliberada para proporcionar uma melhor aderência. De cada lado havia entalhes paralelos, como os sulcos em antigos caminhos de carretas. De repente, encontraram-se na entrada de uma outra câmara, as paredes desaparecendo em uma escuridão de breu, embora a rampa continuasse para cima.

Era um espaço cavernoso que fazia o saguão dos ancestrais parecer pequeno. Ao redor deles havia concavidades ondulantes de rocha que pareciam se agitar quando eles movimentavam suas lanternas para a frente e para trás. As laterais caíam verticalmente em um precipício escancarado, a queda perpendicular quebrada apenas por ranhuras nodosas de lava que pontuavam as paredes como nós em velhos carvalhos. Para qualquer lugar que olhassem viam rios contorcidos de lava, testemunhos das forças colossais que arruinaram a câmara a partir do núcleo derretido da terra.

- O centro do vulcão deve estar apenas a uns duzentos metros em direção ao sul, - disse Costas. - Magma e gás encontravam seu caminho através da cinza compactada do cone formando buracos abertos e depois se solidificando. O resultado é este gigantesco efeito de favo de mel, um centro expandido oco entremeado com o entrelaçado das formações basálticas.

Eles olharam atentamente através da água clara como cristal e a rampa se revelou como um passadiço gigantesco, uma imensa espinha dorsal de rocha que se estendia até onde a vista podia alcançar. Para a esquerda suas lanternas brincavam sobre um dique maciço, seguido por um outro a igual distância, ambos se projetando em ângulo reto a partir da espinha dorsal central e se fundindo com a parede da câmara.

Foi Costas que chamou a atenção para o óbvio, a razão pela qual a geometria parecia tão estranhamente familiar.

- A espinha central é a parte superior da asa no símbolo. Os diques são duas das projeções para a esquerda. Nós estamos na parte final.

- Este lugar deve ter parecido apavorante para as primeiras pessoas que chegaram até esta câmara, - disse Jack. - Acho que o outro lado do centro também tem intrusões de basalto irradiando para fora onde o magma se espalhou ao longo das fissuras até a superfície. Se o padrão é simétrico torna-se fácil perceber como ele adquiriu qualidades mágicas. Ele era a imagem do seu sagrado deus águia.

Katya estava paralisada pelas cascatas espetaculares de rocha ao redor deles. O passadiço era como a ponte final para uma fortaleza subterrânea, um derradeiro teste de nervos que deixaria qualquer um suficientemente corajoso para se aventurar por ele exposto a um fosso de fogo.

Ela mal podia distinguir as entradas na parede no final das duas rampas separadas. Diretamente à frente, a uns cem metros, Katya podia ver o vislumbre distante de uma parede de rocha, sua dimensão escondida na escuridão. Ela estremeceu quando lembrou o severo epíteto na entrada da câmara.

Costas começou a nadar com determinação ao longo do passadiço.

- Jack tem apenas mais alguns minutos de ar em seu reservatório. É hora de encontrar a superfície.

Jack e Katya nadavam de cada lado de Costas acima dos sulcos que vinham se estendendo desde a passagem. Logo depois que passaram a junção com o primeiro passadiço para a esquerda, uma outra característica apareceu, uma depressão no meio do caminho ao longo da espinha dorsal que havia ficado invisível da entrada.

Quando se aproximaram da depressão, uma cena espantosa se descortinou diante de seus olhos. O espaço tinha uma largura de cinco metros a contar do passadiço e uma distância equivalente do outro lado. Ele tinha cerca de dois metros de profundidade e possuía escadas de cada lado. À direita, contemplando o canyon, havia uma escultura de chifres de touro com os lados verticais característicos e uma vasta curva interior. Uma escultura idêntica levantava-se à esquerda do centro, e entre elas havia uma laje maciça. Os chifres haviam sido esculpidos na rocha, suas extremidades quase alcançavam o nível do passadiço, ao passo que a laje era de um mármore branco brilhante semelhante à pedra com que foram esculpidas as fantásticas formas de animais que eles haviam visto nas laterais do caminho processional do lado de fora.

Quando mergulharam para olhar melhor, puderam ver que a laje estava inclinada por cima do vazio.

- É claro! - exclamou Jack. - Aquela inscrição. Não é “o caminho da morte” mas o “caminho dos mortos”. Desde que vi a Atlântida pela primeira vez fiquei me perguntando onde seriam os cemitérios. Agora sabemos. Aquela última câmara era um mortuário fúnebre, uma câmara de preparação. E era aqui que preparavam seus mortos.

Até Costas esqueceu momentaneamente sua urgência de escapar e nadou para olhar melhor o precipício. Ele ligou seu feixe de luz de alta intensidade durante alguns segundos, ciente de que bastava apenas uma pequena ruptura para esgotar sua reserva de bateria.

- Eles escolheram um local adequado, - concluiu. - A lava aqui embaixo é recortada, do tipo que seca rápido, e preenche a ravina como uma torrente solidificada. Há sete mil anos isto podia bem ter sido um canal ativo. Lava derretida ferve a mil e cem graus Celsius, o suficiente para derreter um carro, desse modo eles conseguiram um crematório já pronto.

Katya estava examinando os degraus que conduziam à plataforma.

- Eles deviam trazer os corpos para cá antes de colocá-los na laje para sua jornada final - ela conjeturou. - Os sulcos na rampa estão separados por dois metros, o que é o necessário para um esquife. Eles devem ter sido produzidos pelos pés dos carregadores durante milhares de procissões funerárias.”

Jack estava olhando para as profundezas do precipício, toda a sua imaginação dirigida para evocar uma imagem do ritual realizado pela última vez no local havia milênios de anos. Ele tinha escavado muitos locais de antigos cemitérios, os mortos não raro contavam histórias melhores que os detritos dos vivos, e ele havia suposto que sua maior descoberta seria uma rica necrópole. Agora ele sabia que os únicos restos mortais do povo da Atlântida estavam codificados dentro deles mesmos, nos genes daqueles marinheiros intrépidos que haviam escapado da inundação e espalhado as sementes da civilização.

- Então, este é o inferno dos antigos, - disse Jack, com a respiração curta. - E o Estige* não era um remanso plácido, mas um rio de fogo em combustão.

- O velho Caronte, o barqueiro dos infernos, teria gostado de aceitar um convite para trabalhar aqui, - disse Costas. - Para mim, isto se parece com os portões dos infernos. Vamos sair antes que acordemos o deus deste lugar e ele possa reativar a fornalha.

Quando nadaram até a parte final da rampa, Jack estava respirando com dificuldade. Sua respiração desigual era audível e Katya voltou-se alarmada para ele. Costas parou perto deles e puxou Jack para que parasse.

- Está na hora da respiração compartilhada, - disse ele.

Depois de se atrapalhar por alguns instantes com sua mochila, Costas pegou uma mangueira vulcanizada que enfiou em um orifício do tubo de Jack. Ele abriu a válvula girando-a algumas vezes e ouviu-se um assobio quando os dois sistemas se equalizaram.

- Obrigado. - A respiração de Jack tornou-se mais fácil.

- Temos um problema, - anunciou Costas.

Jack havia estado concentrado em sua respiração, mas agora olhou para a face da rocha que aparecia na frente deles.

- Um tampão de lava, - disse ele em tom desanimado.

Cerca de cinco metros adiante a saliência terminava na extremidade nordeste da câmara. Eles mal distinguiam uma entrada, larga como uma passagem e tampada por um lintel. Mas tudo isto estava obscurecido por um coágulo gigante de lava solidificada, uma erupção horrível que havia escorrido para dentro do precipício e deixado apenas uma abertura estreita no topo.

Costas se voltou para Jack. - Estamos a apenas oito metros abaixo do nível do mar, dentro da margem de segurança de dez metros para a toxicidade do oxigênio, então, enquanto pensamos na maneira de resolver isto podemos ao mesmo tempo purificar nossos sistemas.

Ele ligou o seu computador e o de Katya para um funcionamento manual e acionou as válvulas de oxigênio de seus tubos de distribuição. Depois ele e Jack nadaram um atrás do outro até a abertura para examinar o espaço além dela.

- O túnel de lava deve ter atravessado o basalto até a passagem em alguma época depois da inundação, - disse Costas. - A abertura é o resultado de escapamento de gás. Se tivermos sorte haverá uma cavidade durante todo o caminho.

Jack deu uma arrancada para dentro da brecha recortada e sua cabeça e ombros desapareceram. Depois do estreitamento ele pôde ver que a cavidade se abria como um dueto de ventilação, as paredes estavam manchadas com ranhuras ígneas onde o gás havia explodido através do escoamento da lava com a força de um motor a jato.

- Não há jeito de passarmos usando nossos equipamentos, - disse Jack. - Depois do escapamento, a lava deve ter se expandido enquanto se solidificava, estreitando os primeiros metros em um túnel que mal é suficiente para Katya, imagine para mim ou para você.

Eles sabiam o que tinham de fazer. Jack começou a desafivelar seu equipamento profissional.

- Faz sentido eu ir primeiro. Você e Katya ainda têm suas reservas. E eu sou o único que pode realizar um mergulho livre até quarenta metros.

- Não com um buraco de bala no seu flanco.

- Deixe-me assoprar um pouco de oxigênio no túnel, --replicou Jack. - Posso ver ondulações no teto que podem esconder bolsões de gás e proporcionar uma parada segura.”

Costas parou, relutando instintivamente em expelir um dos parcos suprimentos que possuíam, mas ele percebeu o bom senso nas palavras de Jack. Desafivelou o regulador do segundo estágio de sua mochila e entregou-o a Jack. Este esticou o mais que pôde a mangueira dentro da fissura e pressionou a válvula de purificação. Houve um barulho ensurdecedor quando o oxigênio foi descarregado naquele espaço e cascateou como água branca ao longo da superfície da rocha.

Costas olhou com muita atenção enquanto o ponteiro em seu mostrador caía para menos de cinqüenta atmosferas e o alarme indicador da reserva começava a piscar.

- Basta! - disse ele.

Jack soltou a mangueira e colocou o regulador dentro da extremidade da abertura. Quando tirou sua mochila e a prendeu em um rebordo da lava, Costas destacou a fita de seu dorso e amarrou-a no braço de Jack.

- Enviar sinais-padrões, - instruiu Costas. - Uma puxada significa ok. Duas puxadas, que você necessita de mais uma carga de oxigênio. Uma puxada contínua significa que você passou e que é seguro segui-lo.

Jack fez um sinal concordando, enquanto Costas checava para se assegurar de que a bobina estava soltando a fita facilmente. Jack ficaria isolado do intercomunicador quando necessitasse levantar seu visor para ter acesso aos bolsões de ar no túnel. Ele abriu o fecho de segurança de seu capacete e olhou para Costas, que acabara de confirmar em seu computador que eles haviam cumprido as exigências de descompressão.

- Pronto.

- Troca de regulador.

Quando Costas desprendeu a mangueira umbilical, Jack fechou bem os olhos e atirou seu capacete para trás, empurrando, ao mesmo tempo, o regulador de segundo estágio em sua boca e retirando a máscara de rosto mantida em um bolso lateral para uso em emergência. Ele a colocou no rosto e soprou pelo nariz para se livrar da água, permanecendo quieto por alguns instantes para deixar sua velocidade de respiração se acalmar, pois o choque da água fria a havia acelerado.

Depois de pegar um farolete de mão, Jack se içou para a abertura. Costas o seguiu de perto para se assegurar de que a mangueira não ficasse demasiado esticada. Quando Jack agarrou o lintel, ele sentiu um dentículo onde a lava havia envolvido a superfície da rocha. Seus dedos traçaram a forma de um símbolo talhado fundo no basalto.

Ele se virou para Katya e gesticulou muito excitado. Ela fez um aceno exagerado concordando, antes de retribuir seu olhar, muito mais preocupada com as chances dele de atravessar o túnel.

Jack se voltou para a frente e relaxou completamente, o corpo dependurando-se no lintel com os olhos fechados. Usando a técnica de um mergulhador sem equipamento, ele respirou lenta e profundamente para saturar seu corpo com oxigênio. Depois de um minuto, deu o sinal de ok para Costas e colocou a mão sobre o regulador. Respirou rapidamente cinco vezes, depois cuspiu e se lançou para a frente no meio de uma agitação de bolhas.

Costas agarrou a fita que era o precioso fio de vida deles. Quando ela começou a deslizar pelos seus dedos, ele falou bem baixinho.

- Boa sorte, meu amigo. Precisamos dela.

 

Durante os primeiros metros, Jack teve de se deslocar com esforço através dos limites estreitos do túnel onde a lava caíra sobre a entrada. Podia sentir seu traje se rasgar quando comprimia o corpo ao passar pelos nós de lava afiados como navalha. Ele olhou para trás para ter certeza de que a fita estava intacta e depois se deslocou rapidamente pelo túnel, os braços estendidos para a frente e o farolete iluminando diretamente adiante.

Enquanto subia verticalmente, ele pôde sentir uma gradual inclinação onde o fluxo de lava se amoldara ao declive crescente da passagem. Jack se movimentou e viu poças de luminosidade no teto onde o oxigênio do regulador de Costas fora coletado. Quase exatamente um minuto depois de ter respirado uma última vez, ele colocou, de repente, a cabeça em uma poça que preenchia uma fissura na lava. Respirou três vezes em rápida sucessão, checando ao mesmo tempo a profundidade em que se encontrava e deixando um bastão luminoso Cyalume flutuando na poça como uma bóia luminosa para os outros seguirem.

- Três metros abaixo do nível do mar, - disse para si mesmo. - É uma barbada.

Mergulhou de novo e deu um impulso para a frente dentro da passagem. Quase imediatamente ela se bifurcava. Jack intuiu que uma passagem o levaria à salvação e a outra acompanharia a abertura por onde a lava havia escorrido desde o centro. Era uma decisão de vida ou morte que determinaria o destino dos outros dois.

Depois de checar sua bússola, Jack nadou resolutamente pegando a passagem à esquerda, exalando com suavidade para impedir o rompimento dos pulmões quando a pressão diminuísse. Uma luminosidade iridescente apareceu diante dele, uma superfície muito ampla para ser uma poça de oxigênio colada contra o teto do túnel.

Seus pulmões começaram a ter espasmos enquanto ele lutava com desespero crescente dentro do estreito espaço entre as paredes da rocha. Quando deu um impulso rompendo a camada de lava e emergindo na superfície, quase esmagou a cabeça contra a rocha do teto. Respirou ofegante, repetidas vezes, e depois ficou tonto na superfície da água. Havia alcançado o nível do mar, mas ainda estava bem fundo dentro do vulcão, a passagem adiante não mostrava sinal de saída enquanto continuava a subir.

Fazia apenas três minutos que havia deixado Costas e Katya, mas parecia uma eternidade. Enquanto lutava contra a inconsciência, Jack focalizou toda a sua energia na fita laranja que emergiu atrás de si, puxando-a repetidas vezes até que ela se soltou da sua mão e ele ficou imóvel.

Houve uma imensa erupção de água pulverizada quando Costas emergiu, seu corpo surgindo como uma baleia na superfície. Katya apareceu segundos depois e imediatamente começou a examinar a ferida de Jack. Havia preocupação em seu rosto quando ela se deu conta da crosta de sangue que havia escorrido através do corte e impregnava o traje do companheiro.

Costas removeu com violência sua máscara e respirou pesadamente, o cabelo escuro colado na testa e o rosto vermelho e inchado.

- Lembre-me de fazer dieta, - Costas ofegou. - Eu tive um pouco de dificuldade para atravessar a última parte.

Costas se esforçou para ir até a beirada do lago do vulcão e tirou seus pés-de-pato. Jack se recobrou o suficiente para se erguer sobre os cotovelos e se pôs a desparafusar o projetor de feixe luminoso de sua lanterna de modo que a lâmpada exposta lançasse uma luz meio imprecisa, como de uma vela, ao redor deles.

- Junte-se ao clube, - disse Costas. - Sinto como se tivesse passado por um moedor de carne.

Suas vozes soavam perfeitas e vibrantes depois de tanto tempo falando pelo intercomunicador. Jack tentou se içar mais acima no declive, mas desistiu por causa da dor.

- Eu guardei a mochila de Katya dentro do túnel, - disse Costas. - Há trimix suficiente para dois de nós compartilharmos e voltarmos para o submarino em caso de necessidade. Também amarrei a ponta da fita ao bastão luminoso naquela poça de ar. Se tivermos de voltar é preciso lembrar de virar à direita naquela bifurcação.

A água estava salpicada de minúsculas bolhas efervescentes que subiam para a superfície. Os dois homens olharam para elas enquanto recuperavam o fôlego.

- Isto é esquisito, - disse Costas. - Parece ser algo mais do que apenas os restos do oxigênio do regulador. Deve ser uma espécie de descarga de gás do respiradouro do vulcão.

Agora que estavam todos salvos, eles eram capazes de olhar para o ambiente que os cercava. Mais acima na rampa havia uma outra passagem retilínea desbastada na rocha, conduzindo inexoravelmente para cima, no entanto a vista diferia de um modo esquisito.

- Isto é alga, - disse Costas. - Deve haver luz natural suficiente para fotossíntese. Devemos estar mais perto da saída do que eu pensava.

Agora que a água havia se acalmado, eles podiam ouvir o barulho de um gotejamento contínuo.

- Água de chuva, - disse Costas. - O vulcão ficará saturado depois da tempestade. Haverá uma coluna de vapor proporcional a uma explosão nuclear.

- Pelo menos o Seaquest não deverá ter problemas para nos encontrar. - As palavras de Jack foram elaboradas enquanto ele se ajoelhava. A impulsão dada pelo oxigênio o havia sustentado através do túnel, mas agora seu corpo estava trabalhando em excesso para limpar o nitrogênio remanescente. Cambaleou quando ficou de pé, com cuidado para evitar os trechos escorregadios onde a água da chuva molhara a rocha ao redor deles. Ele sabia que sua provação ainda não havia terminado. Tinha se saído bem com seu suprimento de ar, mas agora deveria enfrentar uma dor muito maior sem a frieza amortecedora da água.

Jack percebeu os olhares preocupados.

- Eu ficarei bem. Costas, você comanda.

Quando estava prestes a se mover, Katya olhou para Jack.

- Oh!, quase esqueci.

Sua pele cor de oliva e o cabelo negro lustroso brilharam quando a água escorreu por eles.

- Aquela inscrição que havia no lintel, - disse ela. - Dei uma olhada enquanto estávamos esperando você atravessar a passagem. O primeiro símbolo era a cabeça de um índio da tribo dos moicanos, a sílaba at, Tenho certeza que o segundo símbolo era o feixe de milho, ai ou Ia. Não tenho dúvida de que a inscrição completa quer dizer Atlântida. Este é o nosso último marcador de caminho.

Jack concordou com um aceno de cabeça, muito debilitado para falar.

Começaram a subir a rampa. Agora que tinham ficado sem seus equipamentos de respiração, não podiam mais contar com as headlamps que faziam parte do conjunto do capacete. Os faroletes de mão eram destinados a bóias de emergência que acendem e apagam, e usá-los constantemente esgotava rapidamente as baterias. Enquanto subiam a rampa, as luzes começaram a falhar e se apagaram ao mesmo tempo.

- Chegou a hora da iluminação química, - disse Costas.

Guardaram seus faroletes, e em seguida Costas e Katya ligaram seus bastões luminosos. Combinados com o início de luz natural, ainda débil, os bastões produziam uma aura sobrenatural, um brilho vítreo que lembrava a luz de emergência que eles haviam ativado na sala de controle do submarino danificado.

- Vamos ficar juntos, - avisou Costas. - Estas luzes podem durar horas, mas elas mal iluminam o chão. Não sabemos o que pode vir pela frente.

Quando contornaram uma curva na passagem, o odor acre que vinha irritando suas narinas desde o momento em que haviam atingido a superfície se tornou de repente indescritivelmente intenso. Uma corrente de ar quente trazia consigo o odor doce e nauseante de decomposição, como se os mortos da Atlântida ainda estivessem em estado de putrefação em seus sepulcros bem abaixo.

- Dióxido de enxofre, - anunciou Costas, torcendo levemente o nariz. - Desagradável, mas não tóxico, se não ficarmos por aqui durante muito tempo. Deve haver um respiradouro ativo por perto.

À medida que continuavam para cima, viram o local onde um outro túnel de lava havia arrebentado, derramando o seu conteúdo, como concreto despejado, sobre o chão do túnel. A lava estava recortada e quebradiça, mas agora não impedia, diferentemente do que seu fluxo causara no túnel anterior, a passagem deles. O buraco por onde ela emergira estava rachado como um favo de mel, com fissuras e fendas, e era a fonte do vento terrível que se intensificava a cada passo que eles davam.

- Esses dois túneis de lava que encontramos são relativamente recentes, - disse Costas. - Eles devem ter aberto caminho depois da inundação, senão os sacerdotes os teriam limpado e reparado.

- Deve ter havido erupções semelhantes durante a época da Atlântida, - disse Katya de maneira incerta. - Este lugar está muito mais ativo do que os geólogos suspeitam. Estamos dentro de uma bomba-relógio.

Jack estivera lutando com a dor, uma sensação que o atormentava muito e que havia crescido à medida que passava o efeito entorpecedor da água fria. Agora cada respiração era uma facada cruel, cada passo um golpe doloroso que o levava à beira de um colapso.

- Vocês dois prossigam. Precisamos entrar em contato com o Seaquest o mais cedo possível. Eu seguirei quando puder.

- Sem chance. - Costas nunca havia visto seu amigo admitir derrota, e sabia que Jack forçaria a si mesmo até cair, quaisquer que fossem as probabilidades. - Eu o carregarei nas costas se precisar.

Jack reuniu suas forças e lentamente, num estado que beirava a agonia, seguiu os outros dois sobre a lava, escolhendo o seu caminho com cuidado no meio das formações recortadas. O progresso ficou mais fácil quando o chão inclinado se tornou uma série de degraus baixos. Cerca de vinte metros depois da lava, a passagem dobrava para o sul, as dimensões perderam gradualmente sua regularidade quando as paredes deram lugar às formas naturais de uma fissura vulcânica. Quando o túnel se estreitou mais adiante, eles começaram a se deslocar em fila única com Costas conduzindo.

- Posso ver luz mais adiante, - ele anunciou. - Deve ser isto.

A elevação aumentou ficando mais pronunciada, e logo tiveram que se arrastar sobre as mãos e os pés. Quando se aproximaram da fraca aura de luz, as algas tornaram cada passo progressivamente mais escorregadio. Costas deslizou na parte final e voltou para trás para dar uma mão a Jack.

Chegaram ao lado de um canal de três metros de largura por três de profundidade, os lados alisados por milênios de erosão. Na parte de baixo havia um córrego raso que parecia cair verticalmente em um canyon estreito, o barulho distante de água era audível, mas a sua visão estava completamente obscurecida por um reflexo de neblina. À direita o canal seguia para dentro da face da rocha com um vislumbre de luz no final.

Costas olhou para seu console para checar o altímetro.

- Calculamos a altura do vulcão, antes da inundação, como de trezentos e cinqüenta metros acima do nível do mar. Estamos agora a cento e trinta e cinco metros acima do atual nível do mar, apenas oitenta metros abaixo do cume do cone.

Tendo penetrado no vulcão pelo lado norte, eles estavam agora de frente para o oeste e a forma das passagens refletia a inclinação das rampas superiores. À frente deles a boca escura do túnel parecia convidar para que se lançassem de novo no labirinto, embora só pudesse haver uma curta distância antes que alcançassem o ar livre.

- Sejam cuidadosos, - disse Costas. - Um passo em falso e esta ladeira íngreme nos mandará direto ao inferno.

Eles haviam perdido a noção do tempo desde sua saída do Seaquest no DSRV um dia antes. A confusão de rochas era um mundo sinistro de sombras e formas bruxuleantes. Quando galgaram uns poucos degraus cortados na rocha, o conduto tornou-se mais escuro, e de novo eles tiveram que contar com a iluminação lúgubre dos bastões luminosos.

O túnel seguia a direção do basalto, cada camada sucessiva claramente visível na estratificação das paredes. O escoamento havia corroído a lava carregada de gás do cone, as cinzas e os resíduos de carvão, comprimidos como concreto, formavam pedaços de pedra-pomes e escória engastados na matriz. Quanto mais subiam, mais porosas as paredes se tornavam, com água da chuva gotejando através do aglomerado que se projetava do teto. A temperatura estava se tornando nitidamente mais quente.

Depois de vinte metros o túnel se estreitou e fez convergir a água que passou a fluir contra eles em uma violenta torrente. Jack cambaleou para um lado, seu corpo repentinamente convulsionado pela dor. Katya entrou na água para ajudá-lo a ficar em pé contra a torrente que agora chegava até a altura do peito. Com uma lentidão angustiante os dois abriram caminho para passar pelo estreitamento, enquanto Costas avançava e desaparecia dentro da cortina de névoa. Quando prosseguiram em frente, cambaleantes, as paredes subitamente se abriram de novo e o fluxo diminuiu para pouco mais do que um escoamento lento. Eles viraram em uma curva e depararam com Costas parado, imóvel, sua silhueta gotejante recortada contra um pano de fundo de iluminação opaca.

- É uma imensa clarabóia, - anunciou Costas excitado. - Devemos estar bem debaixo da caldeira.

A abertura acima era suficientemente ampla para que a fraca luz do dia revelasse a impressionante extensão da câmara na frente deles. Era uma vasta rotunda, com pelo menos cinqüenta metros de largura por cinqüenta de altura, as paredes subiam até uma abertura circular que emoldurava o céu como uma janela circular gigante. Para Jack, o local se assemelhava espantosamente ao Panteão em Roma, o antigo templo dedicado a todos os deuses, sua cúpula elevada representando o domínio sobre os céus.

Ainda mais empolgante era a aparição no centro. Da clarabóia até o chão havia uma imensa coluna de gás que rodopiava, exatamente do tamanho da janela circular. Ela parecia projetar o clarão do dia direto para baixo como um feixe de luz gigante, um pilar incandescente de luz pálida.

Depois de olhar com pavor, durante um momento, eles perceberam que a coluna estava subindo vertiginosamente a uma grande velocidade, dando a ilusão de que eles próprios estavam sendo lançados inexoravelmente para baixo, dentro das profundezas ígneas do vulcão. Todos os seus instintos diziam que isso devia fazer um barulho ensurdecedor, no entanto a câmara estava sinistramente silenciosa.

- É vapor de água, - exclamou Costas por fim. - Então, é isto que acontece à água da chuva não canalizada para fora. Deve ser como uma fornalha explosiva aqui embaixo.

O crescente calor que sentiram durante a subida estava emanando da chaminé que tinham à sua frente.

Eles estavam parados na extremidade exterior de uma ampla plataforma que se estendia ao redor da rotunda, vários metros acima do chão central. Portas igualmente espaçadas, idênticas àquela da qual haviam emergido, tinham sido cortadas na rocha ao longo de todo o perímetro. Cada uma delas estava coberta com símbolos agora familiares. Além da extremidade interior da plataforma eles podiam distinguir, alguns metros abaixo, o estrado central da câmara. Dando de frente para a coluna de vapor havia quatro cadeiras de pedra, cada uma com a forma de chifres de touro e dispostas em pontos cardeais da bússola. Uma delas, bem diante deles, estava obscurecida pela plataforma, mas era nitidamente maior do que as outras, as pontas dos chifres se elevavam em direção à janela circular.

- Isto deve ser uma espécie de sala do trono, - disse Costas, intimidado. - Uma câmara de audiência para os sumos sacerdotes.

- O salão dos ancestrais. A câmara funerária. E agora a câmara de audiência, - murmurou Katya. - Esta deve ser nossa última escala para o santuário mais sagrado.

Eles vinham sendo tomados de grande excitação, um pouco embriagados pela emoção das descobertas, desde que tinham deixado o submarino. Agora que se defrontavam com o verdadeiro núcleo do vulcão, sua exuberância se misturava a um certo desconforto, como se eles soubessem que a derradeira revelação não seria concedida sem um preço. Até mesmo Costas vacilou, relutante em abandonar a segurança do túnel e lançar-se no desconhecido.

Foi Jack quem quebrou o encanto e incitou-os a continuar. Ele se voltou para os outros dois, seu rosto estava sujo de fuligem e as feições, contraídas pela dor.

- Era para cá que o texto estava nos conduzindo, - disse ele. - O santuário da Atlântida está em algum lugar por aqui.

Sem pressa ele se obrigou a ir em frente, avançando com dificuldade, e sua força de vontade era a única coisa que o impedia de desistir. Costas caminhava ao lado de Jack, enquanto Katya seguia-os logo atrás, o rosto dela impassível enquanto se dirigiam para o extremo da plataforma.

Assim que o trono começou a aparecer por cima da beirada da plataforma, os três foram cegados por um feixe de luz. Instintivamente eles cobriram e protegeram os olhos. Através do clarão distinguiram duas figuras que se materializaram uma à direita e outra à esquerda.

Repentinamente a luz desapareceu. Quando sua visão se aclarou, viram que as duas figuras estavam vestidas de preto como os assaltantes no submarino, e cada uma carregava, na altura do quadril, uma Heckler & Koch MP5 apontadas ameaçadoramente para eles. Jack e Costas levantaram as mãos, eles não teriam chance de pegar suas armas antes de serem cortados ao meio por uma rajada de balas.

Mais à frente uma escadaria com doze degraus rasos descia para o estrado. Ao lado dela, um holofote portátil estava apontado para eles. Uma passagem elevada conduzia diretamente até a escultura dos chifres de touro, cujas extremidades eles haviam visto de cima da beirada da plataforma. Essa escultura formava a luxuosa parte de trás de uma poltrona de pedra maciça, mais ornamentada do que as outras.

A poltrona estava ocupada.

- Doutor Howard. Ê um prazer conhecê-lo, finalmente.

Jack reconheceu a voz, a mesma fala arrastada, de tom gutural, que, três dias antes, vinda do Vultura, havia chegado pelo rádio ao Seaquest. Ele e Costas foram puxados com rudeza pelas escadas e a figura inchada de Aslan apareceu nitidamente. Ele estava sentado no trono de maneira desleixada, os pés plantados firmemente no solo e seus imensos antebraços apoiados nas laterais do trono. A face pálida e imutável quase se parecia com a de algum sacerdote antigo, o que destoava eram os sinais de desenfreado excesso em sua corpulência. Com seu imenso manto vermelho e as feições orientais, ele parecia um exemplo típico de um déspota do Leste, uma imagem saída direto da corte de Gengis Khan, exceto pelos guerreiros completamente modernos postados de cada lado do trono, cada um carregando uma submetralhadora.

À direita de Aslan estava, imóvel, uma figura diminuta que não combinava com o resto do ambiente. Era uma mulher de aspecto simples vestindo um casaco cinza de tecido grosso, o cabelo puxado em um coque.

- Olga Ivanovna Bortsev, disse Katya entre os dentes.

Sua assistente de pesquisa tem sido de muita ajuda, - revelou Aslan de bom humor. - Uma vez que ela me mantém informado, conservo sua embarcação sob constante vigilância. Durante muito tempo tive vontade de visitar esta ilha. Felizmente meus homens encontraram lá fora um caminho que vem dar a esta câmara. Parece que chegamos no momento exato. - De repente sua voz endureceu. - Estou aqui para reivindicar esta propriedade perdida.

Costas não pôde se conter por mais tempo e lançou-se para a frente. Ele foi imediatamente empurrado ao chão quando a extremidade de uma arma bateu com força em seu estômago.

- Costas Demetrios Kazantzakis, - disse Aslan com escárnio. - Um grego. - Ele cuspiu a palavra com desprezo.

Enquanto Costas se esforçava para ficar em pé, Aslan voltou sua atenção para Katya, seus olhos negros se estreitaram e os cantos de sua boca revelaram o traço de um sorriso.

- Katya Svetlanova. Ou eu deveria dizer Katya Petrovna Nazarbetov?

O olhar de Katya mudou e nele agora brilhava um desafio furioso. Jack sentiu as pernas cederem quando seu corpo finalmente não resistiu. A resposta dela parecia vir de uma outra pessoa, de um submundo sombrio desconectado da realidade. Pai.

 

Ben deslocou-se quase imperceptivelmente sobre os quadris, não deixando seus olhos se desviarem nem uma vez da mancha de luz que emanava da sala de controle no fim da passagem. Ele havia mantido a mesma posição hora após hora, aliviado apenas por breves substituições de Andy, que ficava na sala de torpedos embaixo. Com o corpo pressionado contra o revestimento, e coberto pelo precipitado branco, ele parecia quase uma parte da estrutura do submarino, diferindo pouco do cadáver macabro do zampolit pendurado na escuridão à distância de um braço apenas.

Apesar da E-suit o frio tinha penetrado insidiosamente em seu corpo, e os dedos curvados ao redor do gatilho da AKSU estavam adormecidos havia horas. No entanto, ele sabia como isolar a dor, como rechaçar tudo, deixando apenas o que era necessário: observar e esperar. Em anos anteriores havia aprendido que o verdadeiro teste de resistência era uma paciência extrema, a qualidade rara que o havia singularizado entre todos os demais candidatos para as Forças Especiais.

Ele havia retirado o visor e um odor acre o atingiu antes que percebesse qualquer movimento.

- Consegui uma bebida quente. - Andy rastejou atrás dele e empurrou uma caneca fumegante sob seu rosto. - Um pouco de sujeira soviética.

Ben resmungou, mas pegou agradecido o café com a mão livre. Eles não tinham nenhum alimento a não ser as barras energéticas em suas mochilas de emergência, mas haviam encontrado algumas garrafas de água no alojamento dos oficiais e se mantinham bem hidratados.

- Nada ainda? - perguntou Andy.

Ben sacudiu a cabeça. Fazia quase oito horas desde que Jack e os outros haviam saído, um dia inteiro desde que tinham visto a luz do sol pela última vez. Os relógios diziam que era hora do anoitecer, mas, sem ligação com o mundo exterior, eles tinham pouca sensação da passagem do tempo. Na frente deles, seus oponentes haviam consolidado, de maneira barulhenta, sua posição debaixo da escotilha de fuga, havia períodos de atividade e de vozes elevadas pontuados por longos silêncios. Durante horas eles suportaram os gemidos e os gritos de dor de um homem ferido até que um tiro abafado pôs fim a isso. Meia hora antes tinha havido uma intensa comoção. Ben sabia que era o submersível inimigo aportando com o seu próprio veículo de resgate de submersão profunda, e tinha ouvido o barulho de passos na entrada da escotilha. Havia batido de leve um sinal pré-combinado para Andy vir juntar-se a ele, pois esperava que o pior acontecesse.

- Aqui vamos nós.

Repentinamente brilhou um farolete, na passagem, dirigido para eles. Apesar do brilho desagradável, nenhum dos homens recuou. Ben colocou a caneca no chão e destravou a AKSU, Andy pegou a Makarov e se escondeu na escuridão do outro lado da antepara.

A voz de homem que chegou até eles era áspera e forçada, as palavras metade em inglês e metade em russo.

- Tripulação do Seaquest. Desejamos conversar.

Ben replicou rispidamente em russo.

- Se vocês se aproximarem destruiremos o submarino.

- Isto não será necessário. - Desta vez as palavras foram ditas em inglês e vieram de uma mulher. Ben e Andy mantiveram os olhos atentos, cientes de que um instante de cegueira causada pelo farolete podia fazê-los perder sua vantagem. Eles se deram conta de que ela havia avançado na frente dos homens e parara cerca de cinco metros à frente deles.

- Vocês são peões em jogos de outros homens. Passem para o nosso lado e serão magnificamente recompensados. Vocês podem conservar suas armas. - O tom insinuante da mulher tornava a sua pronúncia ainda mais fria, mais desagradável.

- Repito, - disse Ben. - Não se aproximem nem mais um passo.

- Vocês estão esperando seus amigos. - Ela gargalhou com desprezo. - Katya - ela pronunciou com mais desprezo ainda, - não tem a menor importância. Mas tive o prazer de encontrar o doutor Howard em Alexandria. Muito interessado na localização da Atlântida. E gostei muito de reencontrá-lo e conhecer o doutor Kazantzakis nesta manhã.

- Vocês foram avisados pela última vez.

- Os supostos amigos de vocês estão mortos ou foram capturados. O Seaquest foi destruído. Ninguém mais conhece a localização deste submarino. O empreendimento de vocês está condenado. Juntem-se a nós e salvem suas vidas.

Ben e Andy ouviam de modo impassível, nenhum deles decepcionado ou acreditando no que estava sendo dito. Ben olhou para Andy, depois para os outros.

- Sem chance, - disse ele.

Jack acordou com raios de sol matinais brincando em seu rosto. Abriu os olhos, examinou em torno com a vista embaçada, depois os cerrou de novo. "Devo estar sonhando", pensou. Ele estava deitado de costas no centro de uma cama grande com lençóis de linho limpos. A cama ocupava um dos lados de um quarto espaçoso, as paredes pintadas de branco e meia dúzia de quadros de pintores modernos pendurados, todos eles parecendo vagamente familiares. Oposta a ele uma grande janela dava para a baía, o vidro matizado revelava um céu sem nuvens e uma série de colinas iluminadas pelo sol.

Começou a se levantar e sentiu uma punhalada de dor no seu lado esquerdo. Olhou para baixo e viu que uma faixa cobria sua caixa torácica logo abaixo de uma série de contusões. De repente se lembrou de tudo, da extraordinária aventura no vulcão, da passagem pela câmara de audiência, da imagem de Costas no chão cheio de dor e de Katya ao seu lado. Sentou-se de forma abrupta quando lembrou da última palavra que ela pronunciara, com a mente hesitando em acreditar.

- Bom dia, doutor Howard. Seu anfitrião o espera.

Jack levantou o olhar e viu um homem sério, de idade indeterminada, parado na porta. Ele tinha as feições de um mongol da Ásia Central, no entanto sua pronúncia em inglês era impecável, assim como seu uniforme de criado.

- Onde estou? - perguntou Jack asperamente.

- Tudo no devido tempo, senhor. Deseja ir ao banheiro?

Jack olhou na direção que o homem indicara. Sabia que valia pouco protestar e levantou-se pisando no chão de madeira de mogno esplendidamente matizado. Entrou no banheiro ignorando a banheira de hidromassagem e preferindo o chuveiro. Quando voltou encontrou roupas novas esperando por ele. Uma camisa preta Armani, de gola rulê, calças brancas e sapatos de couro da marca Gucci, tudo do seu tamanho. Com uma barba de três dias e a aparência de quem havia sido exposto às intempéries, Jack não se sentia à vontade com aquela roupa de grife, mas estava agradecido por não ter de vestir o E-suit com sua desconfortável roupa de baixo molhada com sangue e água do mar.

Alisou os cabelos espessos e olhou o criado parado discretamente na soleira da porta.

- Está bem, - disse Jack severamente. - Vamos encontrar o seu senhor e mestre

Enquanto seguia o homem escada abaixo, Jack se deu conta de que o quarto que havia ocupado fazia parte de uma série de unidades reservadas espalhadas ao redor das ravinas e das rampas das ladeiras, todas interligadas por uma conexão de passagens tubulares que irradiava de um centro construído no solo do vale.

O edifício no qual estavam entrando agora era uma vasta construção circular encimada por uma cúpula branca brilhante.

Quando se aproximaram, Jack observou que os painéis exteriores tinham sido colocados em um determinado ângulo que permitia captar o sol da manhã enquanto este brilhava no vale, e que embaixo se encontrava uma outra bateria de painéis solares perto de uma estrutura semelhante a uma estação elétrica. O complexo inteiro parecia estranhamente futurista, como um modelo, em tamanho natural, de uma estação lunar ainda mais elaborada do que tudo que a NASA jamais inventou.

O criado fechou as portas atrás de Jack quando ele entrou cautelosamente na sala. Nada no exterior funcional havia preparado Jack para o cenário do lado de dentro. Era uma réplica exata do Panteão em Roma. O vasto espaço tinha precisamente as mesmas dimensões que o original, era suficientemente amplo para acomodar uma esfera de mais de quarenta e três metros de diâmetro, maior do que a abóbada de São Pedro no Vaticano. Da abertura, muito acima do solo, uma coluna de luz solar iluminava a estrutura arqueada da abóbada, sua superfície dourada clareando o interior da mesma forma que deve ter ocorrido no local original, no século II d.C.

Debaixo da abóbada as paredes da rotunda eram interrompidas por uma sucessão de nichos profundos e reentrâncias rasas, cada um deles ladeados por colunas de mármore e rematados por frisos elaborados. O chão e as paredes eram marchetados com mármores exóticos do período romano. Com uma olhadela, Jack pôde identificar o pórfiro vermelho do Egito, preferido pelos imperadores, o verde lápis lacedaemonis de Esparta e o maravilhoso giallo antico cor de mel da Tunísia.

Para Jack, isto era mais do que uma extravagância de antiquário em grande escala. Em lugar dos estrados altos dos reis, os nichos estavam preenchidos com livros e as reentrâncias, com pinturas e esculturas. O enorme recinto semicircular atrás de Jack era um auditório com filas de luxuosas poltronas na frente de uma tela de cinema em tamanho natural, e estações de trabalho de computadores estavam distribuídas ao redor da sala. Diretamente oposta ao recinto semicircular havia uma imensa janela, que dava para o norte. A cordilheira distante que Jack havia visto da janela do dormitório preenchia a vista aqui, com o mar à esquerda.

O acréscimo mais chocante ao antigo esquema estava bem no centro, uma imagem ao mesmo tempo supremamente moderna e completamente dentro do espírito da concepção romana. Tratava-se de um projetor planetário, que brilhava em seu pedestal como um Sputnik. Na Antigüidade o iniciado podia olhar para cima e ver a ordem triunfando sobre o caos; aqui, no entanto, a fantasia foi levada um passo adiante, para dentro de um domínio perigoso de excesso de confiança onde os antigos jamais ousariam se aventurar. Projetar uma imagem do céu noturno dentro da cúpula era a ilusão suprema de poder, a fantasia de controle total sobre os próprios céus.

Esta era uma sala de brinquedo de um homem culto e erudito, refletiu Jack, de incalculável riqueza e indolência, alguém cujo ego não conhecia limites e que sempre procuraria dominar o mundo ao seu redor.

- Minha pequena vaidade, - disse uma voz grave e ressoante. - Infelizmente não pude ter o original, então construí uma cópia. Uma versão improvisada, você há de concordar. Agora lhe será possível compreender por que me sinto tão à vontade dentro da câmara do vulcão.

A acústica notável significava que a voz podia ter vindo de detrás de Jack, mas de fato ela emanava de uma cadeira perto da janela na parede distante. A cadeira girou e Aslan surgiu, sua postura e manto vermelho eram exatamente como Jack lembrava de ter visto antes de perder a consciência.

- Espero que tenha passado uma noite confortável. Meus médicos cuidaram de seus ferimentos. - Ele fez um gesto em direção a uma mesa baixa à sua frente. – Café da manhã?

Jack permaneceu onde estava e examinou a sala de novo. Havia um segundo ocupante nela, Olga Bortsev, a assistente de pesquisa de Katya. Ela o estava observando de um dos nichos em frente a uma mesa coberta com livros abertos em formato in-fólio. Jack a fitou com animosidade e ela lhe devolveu um olhar desafiador.

- Onde está o doutor Kazantzakis? - ele perguntou.

- Ah, sim, o seu amigo Costas, - replicou Aslan com um riso falso. - Você não precisa se preocupar. Ele está vivo, parou de reclamar. Está nos ajudando na ilha.

Jack atravessou a sala de maneira relutante. Seu corpo ansiava desesperadamente por alimento. Quando se aproximou da mesa, dois garçons apareceram com bebidas e pratos suntuosos de comida. Jack escolheu um lugar bem afastado de Aslan e sentou-se cuidadosamente nas macias almofadas de couro.

- Onde está Katya? - ele perguntou.

Aslan o ignorou.

- Espero que você goste de meus quadros, - ele desconversou. - Em seu quarto estão penduradas algumas de minhas últimas aquisições. Creio que sua família tem um interesse especial pela arte cubista e impressionista do início do século XX.

O avô de Jack havia sido um grande patrono de artistas europeus, nos anos que se seguiram à Primeira Guerra Mundial, e a galeria Howard era famosa por suas esculturas e pinturas modernas.

- Algumas telas bonitas, - disse Jack de maneira seca. - Picasso, Mulher com criança, 1938. Ela sumiu do Museu de Arte Moderna de Paris no ano passado. E vejo que sua coleção não se restringe a pinturas. - Indicou uma caixa de vidro em um dos nichos. Dentro havia um artefato instantaneamente reconhecível no mundo inteiro como a Máscara de Agamenon, o maior tesouro micênio da Idade do Bronze. Ela ficava normalmente no Museu Nacional de Atenas, mas, assim como o Picasso, desaparecera em uma série de roubos audaciosos na Europa durante o verão anterior. Para Jack isto era um símbolo de nobreza que zombava da arrogância do seu novo e grotesco guardião.

- Eu era professor de arte islâmica e é disso que gosto, - disse Aslan. - Mas não limito minha coleção aos mil e quatrocentos anos desde que Maomé recebeu as palavras de Alá. A glória de Deus se reflete na arte de todos os tempos. Ele me abençoou com o dom de constituir uma coleção que realmente reflete Sua glória. Alá seja louvado.

- Brincar de Deus não o fará ter amigos no mundo islâmico, - disse Jack calmamente. - Nenhum devoto verdadeiro mantém uma coleção que imita a criação de Deus.

Aslan fazia um gesto com a mão rejeitando o que Jack dissera, quando o seu telefone celular emitiu um trinado. Ele o retirou de uma bolsa em sua cadeira e falou em uma língua gutural que Jack acreditou ser o seu cazaque nativo.

A refeição sobre a mesa parecia apetitosa, e Jack aproveitou a oportunidade para comer bastante.

- Peço desculpas. - Aslan recolocou o telefone na bolsa. - Os negócios antes do prazer, receio. Um assunto de somenos a respeito de um carregamento atrasado para um de nossos clientes importantes. Você sabe como são essas coisas.

Jack ignorou o comentário.

- Acho que estou em Abkházia, - ele disse.

- Você está certo. - Aslan pressionou um botão e sua cadeira girou em direção a um mapa do mar Negro na parede oposta. Ele dirigiu um apontador a laser para uma região de montanhas e de vales entre a Geórgia e o Cáucaso russo. - Trata-se de destino. Esta costa era a residência de verão dos Khan da Horda Dourada, o império mongol ocidental localizado no rio Volga. Eu sou um descendente direto de Gengis Khan e de Tamerlão, o Grande. A história, doutor Howard, está se repetindo. Apenas não quero parar aqui. Eu empunharei a espada onde meus ancestrais falharam.

Abkházia, ferozmente independente e tribal, era um esconderijo feito sob medida para líderes militares e terroristas. Outrora era uma região autônoma dentro da República Soviética da Geórgia; o colapso da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas em 1991 precipitou a sangrenta guerra civil e de purificação étnica na qual morreram milhares de pessoas. Com a irrupção do extremismo islâmico, a guerra recomeçou, não deixando ao governo da Geórgia outra alternativa a não ser desistir de todas as reivindicações sobre a região. A partir de então, Abkházia tornou-se um dos lugares mais caóticos sobre a Terra, sua junta de governo sobreviveu com pagamentos de salários provenientes de gângsteres e dos partidários da guerra santa dos maometanos, que haviam chegado de todos os cantos do mundo e transformaram os antigos recantos soviéticos ao longo da costa em seus próprios domínios feudais privados.

- O litoral de Abkházia situa-se a cento e cinqüenta quilômetros ao norte do vulcão, - observou Jack de modo sucinto. - O que você propõe fazer conosco agora?

A conduta de Aslan mudou repentinamente; seu rosto se contorceu em um olhar de sarcasmo e suas mãos agarraram os braços da poltrona de tal modo que suas articulações ficaram brancas.

- Vou pedir um resgate por você. - A voz de Aslan era ríspida, deixando transparecer sua raiva. - Vamos obter um bom preço pela sua cabeça, daquele judeu. - Ele pronunciou a última palavra com todo o veneno que pôde reunir, seu ódio era um coquetel venenoso de anti-semitismo e de inveja pelo sucesso espetacular de Efram Jacobovich como financista e homem de negócios.

- E os outros?

- O grego irá cooperar quando eu lhe disser que você será torturado e decapitado se não o fizer. Ele tem uma pequena tarefa a realizar para nós. Irá nos conduzir, através do vulcão, ao Kazbek.

- E Katya?

Uma nuvem negra passou pelo rosto de Aslan e sua voz baixou para pouco mais do que um murmúrio.

- No mar Egeu, decidi afastar-me quando ela disse que nos conduziria a um tesouro maior. Dei-lhe dois dias, mas ela não nos contatou. Felizmente Olga já havia copiado os textos antigos em Alexandria e tinha feito o seu trabalho. Sabíamos que vocês só poderiam estar se dirigindo para cá.

- Onde está Katya? - Jack tentou manter sua voz controlada.

- Ela era uma criança adorável. - O olhar de Aslan pareceu se suavizar durante uns instantes. - Nossas férias na casa de campo na Rússia eram uma alegria, antes da morte da sua mãe. Depois, Olga e eu tentamos de tudo.

Ele olhou para Olga, que, da mesa onde estavam os fólios, sorriu-lhe de volta com um jeito insinuante. Quando Aslan voltou-se para Jack, sua voz estava subitamente aguda e ríspida.

- Minha filha me desonrou e também a sua fé. Não tive controle sobre ela durante o período de sua educação soviética, então ela escapou para o Ocidente e foi corrompida. Ela teve o descaramento de rejeitar meu sobrenome e adotar o de sua mãe. Vou mantê-la no Vultura e levá-la de volta para o Cazaquistão, onde será tratada de acordo com a lei sharia*?

- Você que dizer mutilada e escravizada, - disse Jack num tom glacial.

- Ela será purificada dos vícios da carne. Depois do rito da circuncisão, eu a enviarei para um colégio sagrado para uma purificação moral. Em seguida arranjarei um marido conveniente para ela, instiallah. Se for a vontade de Deus.

Aslan fechou os olhos por alguns instantes para se acalmar. Depois estalou os dedos e dois criados se materializaram para ajudá-lo a se levantar. Ele alisou o manto vermelho e colocou as mãos sobre sua pança.

- Venha. - Acenou em direção à janela. - Deixe que lhe mostre a vista antes de descermos para tratar de negócios.

Enquanto Jack seguia a imensa figura que arrastava os pés, seu olhar foi atraído por uma outra caixa de vidro montada em um pedestal ao lado da janela. Com um estremecimento de emoção ele reconheceu duas maravilhosas placas de marfim da antiga Rota da Seda de Begram, tesouros que pareciam ter se perdido para sempre quando o Talibã violou o museu de Kabul, durante o seu reinado de terror no Afeganistão. Ele parou para examinar a escultura intrincada das placas, originárias da China, segundo século d.C, período Han, encontradas no almoxarifado de um palácio junto com laças da Índia, de valor inestimável, e raras obras-primas romanas de vidro e bronze. Jack estava encantado pelo fato de tais peças terem sobrevivido, embora entristecido por encontrar os artefatos nesse monumento ao ego. Ele acreditava ardorosamente que a revelação do passado ajudava a unificar as nações por meio da celebração compartilhada das realizações da espécie humana. As maiores obras de arte desapareceram no buraco negro dos armazéns subterrâneos dos bancos e das galerias particulares, apenas uma minoria parecia disponível.

Aslan se voltou e percebeu o interesse de Jack. Ele experimentou um prazer muito grande ao interpretar o que via como um sentimento de inveja por parte do outro.

- Esta é minha compulsão, minha paixão, secundária apenas à minha fé, - ele ofegou. - Espero selecionar alguns itens do seu museu em Cartago como parte do seu resgate. E algumas das pinturas da Galeria Howard me interessam muito.

Aslan conduziu Jack até uma janela convexa que circundava a rotunda. Era como se estivessem olhando através da torre de controle de um aeroporto, uma impressão aumentada pelo complexo de pistas de pouso e decolagem que se espalhavam pelo vale abaixo.

Jack tentou ignorar Aslan e se concentrar na paisagem. As pistas formavam um L gigante, a pista de alcatrão leste-oeste abaixo deles ladeava o lado sul do vale e a pista norte-sul ficava a oeste onde, no contorno, as colinas eram baixas. Ao lado delas um agrupamento de construções do tamanho de armazéns assinalava o terminal. Próximo a ele havia um heliporto, com três dos seus quatro lugares ocupados por um Hind E, um Havoc e um Kamov Ka-50 Werewolf. O Werewolf rivalizava com o Apache americano na agilidade de manobra e no poder de fogo. Qualquer um deles podia desferir um ataque devastador em um barco de patrulha ou helicóptero de polícia suficientemente ousado para confrontar as operações de Aslan.

O olhar de Jack foi atraído por uma série de aberturas negras no lado distante do vale, atrás do final da pista. Eram abrigos de aeronaves, escavados bem fundo nas rampas rochosas. Para seu espanto percebeu que duas formas cinzentas à sua frente eram aeronaves Harrier, que podem decolar e aterrissar verticalmente, seus narizes aparecendo sob coberturas de camuflagem que os tornavam invisíveis a uma vigilância por satélite.

- Você pode ver que os meus equipamentos bélicos não se limitam ao antigo arsenal soviético, - sorriu Aslan. - Recentemente o seu governo, de maneira insensata, desbaratou a força Harrier da Marinha Real. Oficialmente foram descartados como sucata, mas um antigo ministro, interessado no comércio de armas, provou que eles serviam para ser comercializados. Por sorte não tenho falta de pessoal treinado. Olga era um piloto reserva na Força Aérea Soviética e recentemente realizou o seu primeiro vôo experimental.

Com desânimo crescente, Jack seguiu o olhar de Aslan quando este pressionou um botão na balaustrada e as estantes de livros se recolheram para revelar o litoral. As cordilheiras que limitavam os vales se estendiam para formar um amplo ancoradouro natural. O espigão mais próximo deles se localizava ao lado de um sólido cais de concreto que se dobrava em ângulo em direção ao norte para esconder a baía das embarcações que passavam.

O último navio de Aslan era um Project 1154 russo, classe Neustrashimy, uma fragata tão resistente quanto o Vultura, mas que se deslocava três vezes mais rápido. Ela estava nos estágios finais de aparelhamento, com armas e unidades de comunicações sendo içadas a bordo por guindastes da zona portuária. Uma distante chuva de faíscas elétricas mostrava soldadores trabalhando duro no extenso heliporto e na plataforma das aeronaves que podem decolar e aterrissar verticalmente.

Jack pensou de novo no Seaquest. Depois de seguir a tempestade, retornando do sul, ele deve ter parado de se deslocar quando estava acima da Atlântida, e então foi abatido. Não ousava mencioná-lo, achando que talvez pudesse ter escapado, mas parecia inconcebível que o navio não tivesse sido localizado assim que entrara dentro do alcance do radar do Vultura. Jack lembrou da distante troca de tiros que haviam escutado quando estavam na câmara mortuária. Ele começava a temer o pior.

- Estamos quase prontos para nossa viagem de estréia. Você será meu convidado de honra na cerimônia de delegação de autoridade. - Aslan fez uma pausa, seus dedos entrelaçados sobre a barriga e o rosto demonstrando um contentamento voraz. - Com meus dois navios eu serei capaz de percorrer os altos mares à vontade. Nada oferecerá resistência em meu caminho.

Quando Jack deu uma olhada final para aquela cena, começou a perceber, gradualmente, a magnitude impressionante do poder de Aslan. Onde o vale se estreitava ao leste havia alvos para tiros e estruturas que se pareciam com manequins em tamanho natural para treinamento de combate urbano. Entre o terminal e o mar via-se um outro centro circular, este aparelhado com antenas parabólicas de satélite e sistemas de antenas. Ao longo da cordilheira existiam estações de vigilância camufladas, e na praia acumulavam-se armas, colocadas entre as palmeiras e os eucaliptos, que eram sobras do arsenal do Partido Comunista que outrora ocupara o vale.

- Você verá agora que é inútil tentar escapar. Para o leste há as montanhas do Cáucaso, para o norte e para o sul o território é infestado de bandidos, onde nenhum ocidental poderia sobreviver. Eu espero que você, em vez disso, aprecie minha hospitalidade. Anseio por ter uma companhia com quem possa conversar sobre arte e arqueologia.

Aslan parecia repentinamente muito eufórico, os braços levantados e o rosto embevecido.

- Este é o meu Kehlsteinhaus, meu Ninho de Águia, - ele discursou. - É o meu templo sagrado e minha fortaleza. Você há de concordar que esta vista é tão bonita quanto a dos Alpes da Bavária, não é?

Jack replicou calmamente, com os olhos ainda fixados no vale abaixo.

- Durante o que você chama de Grande Guerra Patriótica, meu pai era um piloto, explorador de rotas, da Força Aérea Real, - disse ele. - Em 1945 ele teve o privilégio de conduzir a invasão de Obersalzberg* em Berchtesgaden. Nem a casa de campo do Führer nem o quartel-general da SS provaram ser tão invulneráveis quanto o seu criador imaginara. - Jack voltou-se e olhou sem vacilar dentro dos olhos negros de Aslan. - E a história, como o senhor diz, professor Nazarbetov, tem o hábito desagradável de repetir a si mesma.

 

Quase não havia sensação de velocidade enquanto o ônibus acelerava por uma das passagens tubiformes, a bolsa de ar abaixo fazia com que ele se locomovesse como um aerodeslizador. Jack e Aslan estavam sentados em assentos opostos, a corpulência do segundo ocupava toda a largura do compartimento. Jack supunha que eles estavam descendo para o vale e se aproximavam agora da parte central que ele havia visto da sala do Panteão.

Alguns momentos antes haviam parado para apanhar um outro passageiro, que agora permanecia imóvel entre eles. Tratava-se de um homem enorme como um urso, vestindo uma roupa preta justa, com a testa inclinada, nariz achatado e, debaixo de sobrancelhas pronunciadas, olhos como os de um porco que fitavam a paisagem lá fora sem expressão alguma.

- Deixe-me lhe apresentar seu guarda-costas, - disse Aslan de bom humor. - Vladimir Yurevich Dalmotov. Um antigo comandante das forças russas de elite, um veterano da guerra do Afeganistão, que desertou para as tropas de libertação da Tchetchênia depois que seu irmão foi executado por estrangular o oficial que enviou seu pelotão para a morte em Grosny. Depois da Tchetchênia ele se engajou para lutar com os santos guerreiros da Al Qaeda pela libertação da Abkházia. Eu o encontrei seguindo os rastros de cadáveres. Ele não acredita em Deus, no entanto Alá perdoa.

Quando o ônibus chegou a uma parada, a porta se abriu deslizando, e dois criados entraram para ajudar Aslan. Jack estivera esperando o momento propício para agir desde que soubera que Costas e Katya ainda estavam na ilha. Quando Dalmotov apressou-o para sair, Jack notou que ele tinha uma Uzi pendurada nas costas, mas que não usava proteção para o corpo.

O local onde entraram contrastava completamente com o esplendor relaxante da habitação que deixaram havia pouco. Era um hangar gigantesco, e suas portas se retraíram para revelar o heliporto que Jack havia visto antes. Na pista de asfalto encontrava-se a forma volumosa do Hind; uma equipe de manutenção agitava-se ao redor dele e um homem preparado para abastecê-lo com combustível esperava ali perto.

- O Hind nos transportou da ilha ontem à noite, - disse Aslan. - Agora está prestes a preencher os propósitos para os quais foi construído.

A vista fora do hangar estava parcialmente obscurecida por um caminhão-plataforma estacionado bem diante da porta. Enquanto eles observavam, uma equipe de homens começou a pôr engradados para fora e a empilhá-los contra a parede ao lado de uma prateleira de trajes de vôo.

Dalmotov murmurou algo para Aslan e avançou aos saltos. Ele pegou um dos engradados e ergueu-o, abriu-o apenas com as mãos, retirando e conectando os componentes contidos ali. Mesmo antes que ele o levantasse para testar a pontaria, Jack havia identificado o Barrett M82A1, provavelmente o rifle de franco-atirador mais letal do mundo. Ele fora dimensionado para a bala calibre 50 da metralhadora Browning BMG ou para a equivalente russa, 12,7 milímetros, atirando em alta velocidade uma bala que podia penetrar em um tanque blindado a quinhentos metros ou arrancar a cabeça de um homem a mil e quinhentos metros.

- Minha modesta contribuição à guerra santa dos muçulmanos. - Aslan sorriu abertamente. - Você deve ter notado nossa escola de treinamento de franco-atiradores atrás da pista de decolagem e aterrissagem. Dalmotov é o nosso principal instrutor, incluem-se entre nossos clientes a Nova Brigada da Armada Republicana Irlandesa e a Al Qaeda, e eles nunca ficaram menos do que plenamente satisfeitos.

Jack lembrou o grande número de ataques de franco-atiradores de elevado perfil no início daquele ano, uma fase nova e devastadora na guerra terrorista contra o Ocidente.

Enquanto Dalmotov supervisionava a montagem das armas, Jack seguia Aslan até o armazém do lado oposto do hangar. Em seu interior, engradados estavam sendo fechados a marteladas e o controle era feito por homens com jalecos de manutenção. Quando uma empilhadeira passou, Jack viu a palavra escrita na lateral em letras vermelhas. Uma das primeiras atribuições de Jack quando estava na inteligência militar havia sido interceptar um cargueiro da Líbia que transportava engradados idênticos àqueles. Eram de Semtex, o explosivo plástico mortal da República Tcheca usado pelo IRA em sua campanha de terror na Grã-Bretanha.

- Este é o nosso principal meio de transporte, - explicou Aslan. - Normalmente a baía está fechada para armas químicas e biológicas, mas eu acabei de despachar nosso último lote transportando-o de helicóptero para um outro cliente satisfeito, no Oriente Médio. - Aslan fez uma pausa, as mãos entrelaçadas sobre a barriga com os polegares gordos girando lentamente. Seus olhos estavam estreitados e ele fitava a meia distância.

Jack estava começando a reconhecer os sinais de advertência do temperamento volúvel de Aslan.

- Eu tenho um cliente infeliz, alguém cuja paciência tem sido extremamente posta à prova desde 1991. Quando seguimos o rastro do Seaquest a partir de Trabzon, sabíamos que ele só poderia ter um destino, o lugar que Olga identificou com precisão, baseada em seu estudo do antigo texto. Nós nos dirigimos até o vulcão protegidos pela escuridão da noite. Você me proporcionou a proteção perfeita para ir até o local onde os políticos me negaram acesso durante anos. No passado, qualquer visita a essa ilha teria provocado uma resposta militar imediata. Agora, se o satélite detecta qualquer atividade, ele supõe que se trata de você e de um projeto científico legítimo. Este deveria ter sido o nosso ponto de encontro com os russos, se aquele idiota do Antonov não tivesse afundado seu submarino e minha mercadoria por causa de sua incompetência.

- O capitão Antonov teria entregado seu carregamento, - replicou Jack tristemente. - Houve uma amotinação conduzida pelo comandante político. Esta foi provavelmente a única coisa boa que a KGB já fez.

- E as ogivas nucleares? - Aslan interrompeu bruscamente.

- Só vimos armas convencionais - mentiu Jack.

- Então, por que minha filha ameaçou com uma destruição nuclear quando negociou com meus homens?

Jack ficou em silêncio durante alguns momentos. Katya não havia revelado este detalhe de sua conversa na sala de controle do submarino.

- Meus homens vão impedir a sua entrada - disse Jack calmamente. - Os seus amigos fundamentalistas não são os únicos dispostos a morrer por uma causa.

- Eles podem decidir de outra maneira depois de ouvirem sobre o destino que o espera, bem como o do grego, se não capitularem. - Aslan sorriu já sem humor, sua serenidade retornando brevemente. - Acho que você vai achar nossa próxima parada muito interessante.

Eles deixaram o hangar por um corredor diferente. Estavam se dirigindo para a parte central, que ficava um quilômetro mais próxima do mar. Depois de uma caminhada de cinco minutos, pegaram uma escada rolante que os conduziu até uma porta de elevador. Ali, um criado acionou uma chave e os levou até o nível mais alto.

A cena parecia saída de um lançamento espacial da NASA. A sala tinha o mesmo tamanho que o Panteão, mas estava ocupada com um grande número de computadores e equipamento de vigilância. Quando saíram do elevador, Jack constatou que tinham entrado em um cilindro giratório que se elevava no centro como uma coluna truncada. Era como a arena de um anfiteatro moderno, rodeada por fileiras concêntricas de estações de trabalho que ficavam na frente deles em séries contínuas de cor. Na parede de trás, telas gigantes mostravam mapas e imagens televisuais. O conjunto todo se parecia com o módulo de controle do Seaquest, mas em uma escala muito maior, com monitores e equipamentos de comunicação suficientes para controlar uma pequena guerra.

Dois assistentes ajudaram Aslan a se instalar em uma cadeira de rodas eletrônica. As fileiras de figuras indefinidas, curvadas atrás dos monitores, pareciam mal ter se dado conta da chegada deles.

- Prefiro a excitação do Vultura. Poder-se-ia dizer que lá há mais participação ativa. - Aslan se acomodou em sua cadeira. - Mas aqui posso controlar todas as minhas operações simultaneamente. Da cadeira de comando consigo ver qualquer tela na sala sem sair do lugar.

Um criado, que estivera esperando a um canto com o semblante apreensivo, inclinou-se e sussurrou urgentemente algo em seu ouvido. O rosto de Aslan permaneceu impassível, mas seus dedos começaram a bater nos braços da cadeira. Sem dizer uma palavra ele pressionou um botão em sua cadeira de rodas e se dirigiu para um console onde um grupo de homens estava reunido. Jack o seguiu com Dalmotov ao seu lado. Quando se aproximaram do console, Jack observou que as telas imediatamente à direita eram monitores de segurança similares aos usados no museu de Cartago, os quais mostravam vistas interiores do edifício.

Os homens se afastaram em silêncio para permitir que Aslan tivesse acesso à tela. Jack se movimentou até ficar bem atrás da cadeira de rodas e do operador que estava trabalhando no teclado do console. Dalmotov ficou ao seu lado.

- Nós finalmente fizemos a conexão, - disse o operador em inglês. - O SATSURV* deve entrar em ligação direta agora.

O homem tinha uma aparência asiática, mas usava jeans e uma camiseta branca no lugar da roupa preta que parecia ser o padrão no local. Pelo seu sotaque, Jack adivinhou que ele havia sido educado na Grã-Bretanha.

O operador olhou primeiro para Jack e depois de maneira interrogativa para Aslan. O homem imenso acenou concordando com indulgência, um gesto não de indiferença, mas de suprema confiança de que seu convidado nunca estaria em condições de divulgar nada que visse ou ouvisse.

Um mosaico de pontos luminosos converteu-se em uma vista do mar Negro, o canto sudeste ainda parcialmente obscurecido por nuvens da tempestade. A formação de imagem térmica transformou a cena em um espectro de cores, a linha da costa emergiu nitidamente quando o satélite pegou uma radiação infravermelha de debaixo da base da nuvem. Ele repetiu o processo até que a tela ficou dominada pela ilha; no centro havia uma auréola mutável de cor-de-rosa e amarelos, onde o núcleo estava emitindo uma forte radiação de calor.

Bem próximo, no mar, havia um objeto colorido que indicava uma superfície de navio. O operador ampliou bastante até ele encher a tela toda; a imagem estava agora em alta resolução. A embarcação encontrava-se inerte na água, o casco adernado a bombordo com a proa submersa e sua hélice a estibordo dependurada acima dos restos esmagados do leme.

Para seu horror Jack reconheceu o Seaquest, suas linhas ainda claras apesar dos danos pavorosos. A radiação de calor mostrava onde os projéteis de alta potência haviam penetrado no casco e deixado rombos, como a passagem de balas de alta velocidade através de um corpo humano. Jack se sentiu tomado de raiva enquanto avaliava a destruição. Ele girou a cadeira de rodas e confrontou Aslan.

- Onde está o meu pessoal? - perguntou.

- O calor não mostra nenhuma presença humana, - replicou Aslan calmamente. - Dois de seus tripulantes foram loucos o bastante para envolver o Vultura em uma batalha de canhões ontem de manhã. Uma espécie de batalha unilateral como você pode imaginar. Logo enviaremos o Hind para apossar-se dos destroços.

Na coberta da proa despedaçada Jack podia ver a torre rotatória elevada e preparada para entrar em combate. Os canos de canhão estavam em um ângulo incomum, evidentemente o resultado de um choque direto. Jack sabia que York e Howe não teriam abandonado o Seaquest sem luta. Rezou silenciosamente para que ambos tivessem conseguido escapar mais tarde, com o resto da tripulação, no submersível.

- Eles eram marinheiros e cientistas, não fanáticos e assassinos, - disse Jack friamente.

Aslan encolheu os ombros e voltou-se para a tela.

De pronto a tela se transformou para mostrar um outro navio, este bem próximo da ilha. Um grupo de figuras podia ser visto desmantelando dois largos canos que mostravam padrões irregulares de radiação térmica como se eles estivessem em fogo. Justamente quando Jack percebeu que estava olhando para os danos causados ao Vultura durante a batalha, Aslan estalou os dedos e uma mão agarrou o ombro de Jack como se fosse um torno.

- Por que não me disseram?, - gritou Aslan com raiva. - Por que isto foi mantido escondido de mim?

A sala ficou silenciosa e ele apontou para Jack.

- Ele não vale um resgate. Será liquidado como sua tripulação. Tirem-no da minha frente!

Antes de ser empurrado para fora, Jack fez uma rápida anotação mental das coordenadas do GPS na telas do SATSURV. Quando Dalmotov o puxou, ele fingiu tropeçar nos monitores de segurança. Antes ele havia reconhecido a passagem de acesso e a entrada do hangar nas duas telas mais próximas. Quando tropeçou no painel de controle, pressionou a tecla de pausa. Outras câmeras CCTV* iriam mapear o trajeto deles, mas, com todos os olhares voltados para a imagem do Vultura, poderia haver uma chance de passarem despercebidos.

Desde que havia acordado naquela manhã, Jack se sentia determinado a agir. Ele sabia que o humor de Aslan era inconstante, que a raiva da sua última explosão se converteria de novo em aparente hospitalidade, mas Jack havia decidido não brincar mais com os caprichos de um megalomaníaco. A imagem chocante do Seaquest e o destino incerto de sua tripulação haviam fortalecido sua resolução. Ele devia isto àqueles que tinham pago o preço máximo. E sabia que o destino de Costas e de Katya estavam em suas mãos.

Sua oportunidade apareceu quando o ônibus estava transportando-os rapidamente do centro de controle para o hangar. Logo depois da metade do caminho, Dalmotov deu um passo à frente para observar o cais na baía, quando ela se tornou visível. Foi um lapso momentâneo na vigilância, um erro que ele nunca teria cometido se seus instintos não tivessem ficado entorpecidos por estar demasiado tempo no covil de Aslan. Com extrema rapidez, Jack puxou para trás o punho esquerdo e bateu com toda a força nas costas de Dalmotov, um impacto violento que desequilibrou Jack e deixou-o massageando a mão, cheio de dor.

Foi um soco que teria matado qualquer homem comum. Jack tinha colocado toda a sua força para atingir um ponto logo abaixo da caixa torácica, onde o choque de um impacto pode fazer parar o coração e o diafragma simultaneamente. Ele olhou sem acreditar quando Dalmotov permaneceu parado, seu imenso físico aparentemente intocado. Em seguida ele murmurou algo ininteligível e caiu de joelhos. Continuou aprumado por alguns instantes, suas pernas se mexendo debilmente, depois caiu para frente e ficou imóvel.

Jack puxou a forma inativa para longe de qualquer câmera de vigilância.

O cais parecia vazio e as únicas figuras que Jack podia ver estavam no heliporto fora da entrada do hangar. Quando o ônibus parou, ele saiu e pressionou o botão de retorno, enviando-o juntamente com o ocupante inconsciente de volta para o centro de controle. Ele estava obtendo um tempo precioso e sabia que cada segundo devia contar.

Sem hesitar, Jack caminhou ousadamente para a entrada do heliporto, rezando para que o seu modo de andar confiante tranqüilizasse as suspeitas. Alcançou a prateleira onde estavam os trajes de vôo, selecionou o maior e vestiu-o. Ajustou o colete salva-vidas e vestiu um capacete, abaixando o visor de modo que lhe escondesse o rosto.

Jack agarrou uma maleta de equipamentos e pegou um dos rifles Barrett de franco-atirador. Ele havia observado Dalmotov montar a arma e rapidamente encontrou a trava. Retirou o pente da arma e guardou tudo na maleta. Empilhadas ao lado, havia caixas de papelão com a etiqueta BMG, a bala de calibre 50 da metralhadora Browning. Jack pegou um punhado de cartuchos 14 milímetros e os enfiou na maleta ao lado da arma.

Depois de fechar a maleta, Jack continuou resolutamente em direção à entrada do hangar. Chegando lá, ele se agachou para observar a cena enquanto fingia ajustar uma correia no tornozelo. O asfalto estava quente ao toque, o sol de verão havia evaporado a água da chuva da noite anterior. Na luz forte e ofuscante, as construções do complexo pareciam chamuscadas e sobrecarregadas com o calor, como as colinas ao redor.

Jack já havia decidido qual helicóptero usar. O Werewolf era o mais sofisticado, mas estava estacionado junto ao Havoc, na outra extremidade do heliporto. O Hind se encontrava apenas vinte metros à frente e estava sendo preparado para um vôo. Ele havia sido um burro de carga da máquina de guerra russa e com sua cabine de piloto de dois assentos espaçados parecia confiável.

Jack apertou o passo e foi até o tripulante-chefe, que estava abastecendo uma fita de metralhadora dentro do compartimento de munição.

- Novas ordens prioritárias, - anunciou Jack em voz alta. - O cronograma foi adiantado. Devo partir agora.

O seu russo era rústico e com sotaque acentuado, mas Jack esperava que passasse despercebido em um lugar onde muitos eram originários do Cazaquistão e de Abkházia.

O homem pareceu surpreso, mas não excessivamente espantado.

- As armas perfurantes ainda não foram colocadas e você só tem quatrocentas balas de 12,7 milímetros, mas fora isto estamos prontos para partir. Pode subir e iniciar as verificações prévias do vôo.

Jack atirou a maleta para dentro do helicóptero e subiu pela porta de estibordo. Içou-se para dentro da cabine do piloto e começou a fazer funcionar os instrumentos. Ele teve o cuidado de esconder a maleta. Os controles não pareciam oferecer problemas, a configuração geral diferia pouco de outros helicópteros militares em que voara.

Quando colocou o cinto de segurança, Jack olhou para fora. Através do Plexiglas protuberante da nacela do artilheiro, podia ver um grupo de montadores transportando dois vagonetes sobre rodas, cada um deles carregado com tubos lançadores para o míssil radioguiado antiblindagem Spiral. O Hind estava sendo abastecido para o ataque final ao Seaquest. No mesmo instante Jack percebeu vindo da entrada do hangar, dois homens em trajes de vôo, evidentemente o piloto e o atirador do Hind, que se aproximavam dele. No instante em que viu o chefe da manutenção pegar o seu celular e olhar alarmado em sua direção, Jack soube que seu disfarce havia sido descoberto.

O rotor gigante de cinco pás já estava girando, os dois motores turboshafts Isotov TV3-117 de 2200 cavalos de potência já estavam aquecidos como parte da rotina prévia do vôo. Jack examinou os mostradores e viu que o tanque estava cheio e que as pressões hidráulica e do óleo estavam corretas. Ele rezou fervorosamente para que as defesas antiaéreas de Aslan ainda não tivessem sido instruídas para atirar em uma de suas próprias aeronaves. Agarrou as duas alavancas de controle; a mão esquerda puxava com força o manche e virava o regulador de pressão, e a direita empurrava o manche cíclico tão para a frente quanto possível.

Em alguns segundos a batida do rotor elevou-se num crescendo e o Hind levantou-se no ar com o nariz inclinado para baixo. Durante alguns momentos de intensa agonia, não houve movimento enquanto o helicóptero se esforçava e lutava contra a força da gravidade; seus esforços produziam o som de um rufar de tambor em uma cacofonia ensurdecedora que reverberava nos edifícios ao redor do heliporto. Quando Jack habilmente aliviou os pedais para impedir que o helicóptero virasse para os lados, ele percebeu um homem, grande como um urso, correndo para fora do hangar e empurrando para o lado os dois pilotos estupefatos.

Dalmotov nem se utilizou de seu Uzi, sabendo que as balas de 9 milímetros não causariam dano à chapa blindada do helicóptero. Em vez disso ele usou uma arma, muito mais letal, que apanhara enquanto corria pelo hangar.

A primeira bala da metralhadora BMG, calibre 50, despedaçou a parte da frente da nacela do artilheiro, uma posição que Jack teria ocupado se soubesse que a aeronave tinha duplo controle. Quando o helicóptero subitamente deu um pulo para frente, uma segunda bala o atingiu em algum lugar atrás, um impacto que fez a máquina vibrar e a fuselagem oscilar para o lado, o que forçou Jack a compensar com um impulso extra do rotor de cauda.

Enquanto Jack lutava com os controles, o helicóptero ergueu-se acima do hangar e moveu-se com crescente velocidade em direção ao dique situado ao sul. À sua esquerda ele podia ver o complexo futurista do palácio de Aslan e, à direita, as linhas suaves da fragata. Momentos depois Jack cruzou o perímetro e encontrou-se em mar aberto, o trem de aterrissagem deslizando sobre as ondas porque ele se mantinha em baixa altura para reduzir as chances de ser detectado por um radar. Com o regulador de pressão no máximo e o manche cíclico impelido para a frente, ele logo alcançou, voando ao nível do mar, a velocidade máxima de 335 quilômetros por hora, um número que ele seria capaz de aumentar ligeiramente depois que descobrisse como recolher o trem de aterrissagem. O litoral agora estava recuando rapidamente para o leste, e à frente havia apenas o céu matinal sem nuvens se fundindo em um nevoeiro azul cinzento no horizonte.

Depois de quinze milhas náuticas, Jack pressionou o pedal que controlava o rotor de cauda e empurrou o manche cíclico para a esquerda, girando suavemente o helicóptero até que a bússola mostrasse 180 graus em direção ao sul. Ele já havia feito funcionar o radar e o GPS e agora estava programando as coordenadas para a ilha que ele havia memorizado no Seaquest três dias antes. O computador calculava a distância que faltava em apenas cento e cinqüenta quilômetros, um tempo de vôo de meia hora com a velocidade atual. Apesar do consumo alto de combustível, Jack havia decidido manter uma altitude baixa e o regulador de pressão no máximo, e os tanques de combustível proporcionavam ampla margem para percorrer esta distância.

Jack ativou o piloto automático e levantou o visor de seu capacete. Sem nem mesmo fazer uma pausa, levantou a maleta e começou a armar o rifle. Ele sabia que não podia se permitir baixar a guarda nem por um instante. Aslan iria fazer tudo que estivesse ao seu alcance para capturá-lo.

 

- Pare o helicóptero e aguarde uma escolta. Execute esta ordem imediatamente ou será destruído. Você não receberá um novo aviso.

Jack tinha ouvido esta voz apenas uma vez antes, amaldiçoando com voz gutural em russo, mas não havia engano: era o modo de falar arrastado de Dalmotov que se fazia ouvir pelo inter-comunicador. Jack havia mantido o rádio bidirecional durante o vôo e estava esperando que o contato fosse estabelecido assim que seus perseguidores entrassem dentro do alcance do rádio. Durante os últimos dez minutos ele estivera monitorando a tela do radar enquanto dois pontos vermelhos convergiam em sua direção vindos do norte, a velocidade e a trajetória deles não deixando dúvidas de que eram o Havoc e o Werewolf da base de Aslan.

Jack estava a apenas dez milhas náuticas ao norte da ilha, a menos de cinco minutos de vôo. Havia sacrificado a velocidade máxima para poder manter uma altitude baixa, acima das ondas, de modo a não ser detectado pelo radar, um jogo que quase teve sucesso. Apesar do seu tempo de existência, o Hind era muito mais rápido e mais poderoso do que os outros dois helicópteros, mas eles haviam sido favorecidos por voarem a uma altitude mais alta, onde havia menos resistência do ar.

Além de um canhão fixo de trinta milímetros de alta velocidade, e de dois carregadores circulares com vinte foguetes de oitenta milímetros, o Havoc e o Werewolf carregavam, cada um, uma combinação letal de mísseis, ar-ar e ar-navio, guiados a laser, armas que Jack havia visto no armazém de carga. Em contraste, os carregadores dos projéteis perfurantes nas aletas do Hind estavam vazios, o único poder de fogo vinha da metralhadora-padrão de quatro canos, 12,7 milímetros, na torreta giratória. Tratava-se de uma arma potencialmente devastadora, que matara em grande escala nas guerras do Afeganistão e da Tchetchênia, mas, na ausência de um atirador, Jack podia operá-la apenas em uma trajetória fixa e com visibilidade livre. Com uma velocidade de 1200 balas por minuto, por cano, os quatro carregadores de cem projéteis demorariam apenas cinco segundos para serem descarregados, o que era suficiente para causar uma destruição colossal a pequena distância, mas insuficiente para fazer frente aos dois formidáveis adversários.

Jack sabia que infelizmente as vantagens estavam contra ele em um embate formal. Sua única chance seria um combate a curta distância do tipo mais brutal possível.

- Ok, Dalmotov, desta vez você venceu, - Jack resmungou carrancudo, para si mesmo, enquanto puxava para trás o manche e girava o helicóptero diretamente em direção ao inimigo. - Mas não pense que vai voltar a ver sua casa de novo.

Os três helicópteros pairavam alinhados, trinta metros acima das ondas, enquanto o vento das hélices levantava redemoinhos de espuma. No centro, o Hind parecia muito volumoso, uma vez que os outros dois helicópteros haviam sido projetados com maior poder de manobra em situações de combate e baixa visibilidade. À direita de Jack, o Havoc Mi-28 lembrava um chacal faminto com sua cabine baixa e o focinho protuberante. À sua esquerda, o Werewolf Ka-50 padrão, com seus dois rotores coaxiais que, embora aumentassem sua potência, reduziam sua estrutura ao tamanho de um inseto.

Através do vidro blindado da cabine do Werewolf, Jack pôde distinguir o olhar enfurecido de Dalmotov.

Ele deu instruções a Jack para permanecer cinqüenta metros adiante de sua escolta. O ruído dos rotores aumentou até um estrondo ensurdecedor quando as três máquinas seguiram em frente e começaram a voar em formação fechada para noroeste.

Cumprindo ordens, Jack desligou o rádio bidirecional que teria permitido chamar ajuda externa. Depois de ativar o piloto automático, ele recostou-se e colocou a Barrett no colo, fora do alcance de visão de seus inimigos. Completamente montada, ela tinha quase um metro e meio de comprimento e pesava catorze quilos. Ele havia sido obrigado a remover o carregador circular de dez balas para manter o cano escondido debaixo da capota do motor. Com a mão direita, Jack checou o carregador que havia munido com um poderoso projétil BMG, calibre 50. Sua chance de se sair bem estava se reduzindo a cada quilômetro e ele sabia que devia agir rapidamente.

A oportunidade surgiu antes do que ele esperava. Depois de cinco minutos se depararam com uma repentina corrente ascendente quente, efeito residual da tempestade da noite anterior. Os helicópteros pularam e pinotearam como numa montanha russa que parecia ondular do Hind para os outros dois. No espaço de tempo de um segundo que as aeronaves inimigas levaram para ajustar seus controles, Jack decidiu agir. Quando um outro solavanco de turbulência os atingiu, ele puxou o manche para trás e pisou forte no acelerador. Apesar da diminuição na potência do motor, a corrente ascendente era suficiente para fazê-lo subir com as lâminas do rotor acionadas ao máximo. O Hind deu um salto de vinte metros acima de seu curso original e começou a descer. Os outros dois passaram por baixo dele como em câmara lenta, suas lâminas quase roçando a barriga do Hind. De repente, Jack estava atrás deles. Fora uma manobra clássica da Primeira Guerra Mundial que havia sido utilizada, com efeito devastador, pelos Harriers britânicos contra os mais rápidos Mirages argentinos durante o conflito das Malvinas.

Com a boca da arma de fogo apoiada na janela da esquerda, Jack decidiu utilizar todo o poder de fogo do Hind contra o helicóptero da direita. Ele girou o manche ao máximo e inclinou-se lateralmente até que o Havoc estivesse à vista. A manobra inteira tinha levado menos de cinco segundos, um tempo mal suficiente para os outros registrarem a sua ausência e curto demais para tentarem realizar qualquer manobra evasiva.

Assim que o Hind alcançou uma posição cinqüenta metros atrás, Jack abriu a trave de segurança e apertou o botão vermelho de fogo. As quatro armas da torreta giratória dispararam uma imensa onda ruidosa, um martelar cadenciado que atirou Jack para frente com o coice. Cada cano lançava vinte projéteis por segundo, as cápsulas eram ejetadas num amplo arco de cada lado. Durante cinco segundos chispas de fogo saíram de debaixo do nariz do helicóptero e uma chuva destruidora de fogo avançou para o seu oponente.

A princípio o Havoc pareceu absorver os tiros como se eles tivessem atravessado a parte posterior da fuselagem. Então, um buraco escancarado apareceu repentinamente da parte anterior à posterior, quando as balas estilhaçaram tudo em seu caminho, e a cabine e seus ocupantes desintegraram-se numa explosão. Quando o Hind inclinou-se para cima, a última rajada de balas atingiu a turbina do Havoc e soltou o rotor, que se desprendeu como um bumerangue descontrolado. Segundos depois a fuselagem explodiu em uma gigantesca bola de fogo produzida por combustível e munição explosiva.

Jack puxou fortemente o manche e passou por cima do helicóptero destruído. Ele nivelou sua trajetória com a do Werewolf, a forma sinistra trinta metros à sua esquerda e ligeiramente à frente. Jack podia ver o piloto lutando com os controles quando a pequena estrutura foi atingida pelo calor e pela onda de choque da explosão. Dalmotov parecia paralisado pelo espanto, incapaz de aceitar o que havia acontecido, mas Jack sabia que isto duraria pouco; ele tinha apenas alguns segundos antes de perder a sua vantagem.

Jack apontou a Barrett para fora da janela e atirou. A bala partiu com um poderoso estrondo, o barulho reverberando dentro de seu fone de ouvido. Ele praguejou enquanto via as faíscas saindo da fuselagem superior do Werewolf e rapidamente colocou uma outra bala. Desta vez apontou para a direita, a fim de compensar os duzentos quilômetros por hora de velocidade de vôo. Ele atirou bem no instante em que Dalmotov colocou a cabeça redonda para fora, de modo a olhar para Jack.

Como muitos helicópteros de defesa, o Werewolf estava bem protegido contra ataques terrestres, a blindagem ao redor da cabine era projetada para resistir a tiros de canhão de até vinte milímetros. Sua vulnerabilidade jazia na fuselagem superior e na região do motor, áreas menos suscetíveis a fogo terrestre, onde placas defensivas haviam sido sacrificadas para permitir que a proteção máxima fosse concentrada ao redor do compartimento dos tripulantes. O aerofólio do rotor antibinário constituía tanto sua força quanto sua fraqueza, produzindo um equipamento muito ágil, mas requerendo um eixo protuberante acima da fuselagem para acomodar as duas cabeças dos rotores co-axiais de três lâminas.

O segundo tiro acertou logo abaixo do rotor inferior, atingindo o motor e afetando seriamente os controles. Por um instante nada aconteceu e o helicóptero continuou em frente com o nariz abaixado. Então ele começou a vibrar violentamente e levantou a traseira em um ângulo anormal. Jack pôde ver Dalmotov movendo freneticamente os controles. Mesmo à distância ele pôde perceber que os rotores não mais respondiam aos pedais. Dalmotov conseguiu então alcançar uma alavanca vermelha que estava acima de sua cabeça.

Entre os helicópteros de combate, o Werewolf era o único dotado de uma cadeira de piloto ejetável. O problema com a ejeção no helicóptero sempre fora o rotor acima da cabine, mas Kamov havia desenvolvido um sistema engenhoso através do qual as lâminas eram descartadas e a cadeira do piloto era atirada para cima até uma altitude de segurança para a abertura do pára-quedas.

No instante em que puxou a alavanca, Dalmotov deve ter percebido que algo estava terrivelmente errado. Em vez de serem ejetadas, as lâminas do rotor permaneceram presas enquanto as cargas explosivas ao redor da cabine detonavam em rápida sucessão. A capota foi atirada no rotor e lançada para o espaço, deixando as lâminas torcidas mas funcionando. Instantes depois o assento foi ejetado em uma nuvem de fumaça. Por um terrível azar, Dalmotov ficou preso entre os dois conjuntos de lâminas e foi torcido violentamente como numa roda Catarina* jorrando fogo. Depois de duas revoluções completas, cada parte protuberante do corpo de Dalmotov havia sido fatiada, e sua cabeça vestida com capacete fora arremessada como uma bola de futebol. Após um último giro, os rotores atiraram fora o que havia sobrado de sua carga macabra e ela desapareceu debaixo de uma coluna de líquido pulverizado.

Jack olhou impassivelmente enquanto o Werewolf executava uma dança maluca, em círculos cada vez menores, as lâminas se rompendo uma a uma sob a crescente pressão do ar até que a fuselagem caiu verticalmente no mar e explodiu.

Sem mais tardar, Jack girou em direção ao sul, retomando sua rota original, e torceu o manche ao máximo. Dalmotov devia ter transmitido um sinal radiotelefônico internacional automático de S.O.S. com as coordenadas de sua posição, e os técnicos, no centro de controle de Aslan, estariam provavelmente redirecionando o SATSURV para a mancha brilhante de óleo e detritos onde os helicópteros haviam desaparecido. A visão desse local só alimentaria a raiva de Aslan, já exacerbada depois do dano causado ao Vultura. Jack sabia que qualquer valor que tivesse como refém estaria agora eclipsado pela necessidade de Aslan de retribuir na mesma moeda.

Para seu desespero, Jack viu que o indicador de combustível estava se aproximando perigosamente do zero. Quando ele o havia checado, dez minutos antes, o painel marcava ainda três quartos de combustível, e a ação que empreendera não podia ter consumido metade do tanque. Ele lembrou da colisão, na parte posterior, provocada pela arma de Dalmotov. Se a bala atingira o tanque de combustível, o solavanco que o helicóptero dera, quando ele passara pela corrente térmica, poderia ter agravado o dano, rompendo a conexão e causando uma grande perda de combustível.

Ele não tinha tempo para confirmar o ocorrido. Puxou o manche para trás para reduzir o consumo de combustível e baixou para uma altitude de trinta metros. A forma distante da ilha apareceu na neblina da manhã, os picos gêmeos com sua característica forma de chifres de touro, exatamente como os vira do Seaquest três dias antes. Sua única esperança agora era que o combustível do Hind durasse o suficiente para chegar a uma distância em que ele pudesse nadar até a costa norte.

Quando os motores turboshafts começaram a fazer barulho e a engasgar, a visão de Jack ficou momentaneamente obscurecida por uma cortina de fumaça preta. Ele se retraiu por causa do cheiro forte de cordite e plástico queimado. Segundos depois tudo clareou e ele se deparou com o casco do Seaquest a menos de duzentos metros à sua frente.

As imagens a que Jack assistira via satélite não o prepararam para o choque com a realidade. A principal embarcação de pesquisa da IMU estava imersa com sua coberta de proa quase inundada, a superestrutura destruída e irreconhecível, e o flanco de estibordo apresentava fendas cavernosas onde os projéteis do Vultura haviam atravessado a blindagem. Parecia um milagre que ele ainda estivesse flutuando, mas Jack podia quase afirmar que as anteparas dianteiras iriam logo ceder e o Seaquest seria arrastado para o fundo.

O Hind mal se mantinha no ar enquanto estremecia acima do casco danificado. Quase imediatamente começou a descer, uma vez que o rotor não conseguia mais proporcionar o empuxo necessário. Quando o motor soltou seus últimos espasmos, Jack tinha pouco tempo para agir.

Vestiu rapidamente sua jaqueta salva-vidas e empurrou o manche cíclico para a frente o mais que pôde. Inclinando o helicóptero para baixo, ele elevou as aletas atrás do compartimento de modo a afastá-las de seu caminho, mas ao fazer isso também orientou o helicóptero para um mergulho de nariz. Com apenas alguns segundos disponíveis, Jack tirou o capacete, foi para trás da cabine e pulou para fora, as pernas cruzadas fortemente e os braços bem pressionados contra o peito para proteger-se do choque com a água.

Sem o capacete Jack reduziu o risco de quebrar o pescoço, mas mesmo assim o impacto foi dolorido para seus ossos. Ele adentrou o mar de pé e mergulhou verticalmente, bastante fundo para sentir o termoclino. Então abriu os braços para interromper a descida. Quando nadou de volta para a superfície, ele sentiu uma dor lancinante onde a ferida em seu flanco se abrira de novo. Na metade do caminho para cima houve um tremendo impacto que gerou uma onda de choque através da água. Ele alcançou a superfície e viu os vestígios fumegantes do Hind não longe dali, uma cena de devastação que poderia ter sido facilmente sua própria pira funerária.

Acionou o cartucho de CO2 em sua jaqueta salva-vidas e se dirigiu para o Seaquest. Jack sentiu-se repentinamente muito cansado, o choque de adrenalina havia esgotado suas já reduzidas reservas de força.

O Seaquest estava tão afundado na proa que Jack foi capaz de nadar sobre o castelo de proa submerso e se arrastar sobre o convés inclinado na frente do posicionamento do canhão. Foi a última cena vista por Howe e York no dia anterior. Depois de observar rigorosamente a cena, Jack retirou sua jaqueta salva-vidas e dirigiu-se com cautela para a outra parte do convés. Justo antes de alcançar a escotilha que dava para o porão, ele escorregou e caiu pesadamente. Percebeu com angústia que havia escorregado em sangue coagulado, uma mancha carmesim que se arrastava a estibordo do casco.

Jack sabia que não havia nada a ganhar em ficar pensando nos momentos finais de sua tripulação. Ele se abaixou para descansar por um instante ao lado da escotilha, enquanto convocava toda a sua força e o poder da sua vontade.

Quase tarde demais ele viu o helicóptero com o canto dos olhos. O aparelho estava distante, bem na extremidade da ilha, e o som do seu rotor era abafado pelo barulho do Seaquest se rompendo. Jack sabia, por causa do lugar vago no heliporto, que Aslan tinha um quarto helicóptero de ataque, e ele achava que este era um Kamov Ka-28 Helix que havia partido do Vultura. Piscou os olhos sob o sol da manhã e viu o helicóptero voando baixo acima da água, apontando diretamente para ele. Jack havia estado em muitas batalhas de helicópteros para saber o que devia esperar, mas raramente se sentira tão vulnerável.

Houve um clarão distante quando um rastro indicador surgiu e começou a se alastrar com uma rapidez terrível. Era um míssil ar-navio pesado, provavelmente uma das temidas ogivas Exocet AM.39 que Jack havia visto estocadas no centro de operações de Aslan. Ele se lançou pela escotilha e foi parar no convés inferior, caindo literalmente dentro do módulo de comando. Quando girou a trava, ouviu-se um imenso estrondo. Jack foi atirado violentamente para trás contra uma antepara e desmaiou.

 

A porta bateu com força atrás de Costas quando ele deu de encontro com a antepara. Foi um impacto desagradável, a saliência protuberante de metal atingiu-o no peito fazendo com que ele lutasse para respirar. A venda havia se rasgado, mas tudo o que ele podia ver era uma mancha carmesim. Recuou ligeiramente, o corpo todo convulsionado pela dor, e bem devagar ergueu o braço para sentir o rosto. O olho direito estava inchado e fechado, entorpecido ao toque. Moveu os dedos para o olho esquerdo e tirou a venda grudenta antes de abri-lo. Seu foco foi melhorando pouco a pouco. De onde estava deitado ele podia ver uma tubulação caiada ao longo da antepara, o lado dianteiro estampado com símbolos e letras que pareciam pertencer ao alfabeto cirílico.

Não tinha idéia de tempo ou lugar. Sua última memória clara era a de Jack desmaiando dentro da câmara de audiência. Depois havia um branco, uma memória vaga de movimento e de dor. Ele havia estado amarrado em uma cadeira com uma luz ofuscante acesa diretamente em seu rosto. Em seguida, hora após hora de tormento, de socos dolorosos e gritos agudos. Eram sempre as mesmas figuras vestidas de preto, sempre as mesmas questões colocadas em um inglês incorreto. Como você saiu do submarino? Ele achava que estava no Vultura, mas todo o seu poder de análise se encontrava paralisado e sua mente focalizada apenas na própria sobrevivência. Repetidas vezes foi atirado dentro daquele quarto, depois arrastado de novo quando acreditava que tudo havia terminado.

E agora estava acontecendo de novo. Desta vez não houve intervalo. A porta se abriu com estrondo e alguém lhe deu um soco violento nas costas, o que o fez vomitar sangue. Depois arrastaram-no de joelhos, ao mesmo tempo que ele vomitava e tossia, e a venda foi amarrada de novo, tão apertada que Costas podia sentir o sangue saindo da sua órbita inchada. Ele pensava que jamais poderia experimentar um outro tipo de dor, mas aquilo era algo novo. Costas concentrou seu ser inteiro em uma única corda de salvação: a de que era ele e não Jack quem estava recebendo o castigo. Precisava se agarrar em qualquer coisa que pudesse até que o Seaquest chegasse e a descoberta das ogivas se tornasse conhecida.

Costas voltou a si com o rosto apoiado em cima de uma mesa e as mãos presas atrás da cadeira onde estava sentado. Não fazia idéia do tempo que havia estado ali e só podia ver uma nauseante mancha de pontos de luz onde a venda pressionava seus olhos. Enquanto sentia doer-lhe a cabeça, ele podia ouvir vozes, não a dos seus torturadores, mas a de uma mulher e um homem. Um pouco antes ele conseguira captar, em fragmentos de conversas, que seus aprisionadores estavam esperando o retorno de Aslan, que deveria vir de helicóptero direto do seu centro de operações. Mesmo o pior deles parecia apreensivo. Havia ocorrido uma espécie de crise, um helicóptero fora roubado e um prisioneiro tinha escapado. Costas rezou para que tivesse sido Jack.

As vozes pareciam estar em algum lugar distante, em um corredor ou em uma sala contígua, mas a mulher falava em voz alta, com raiva, e ele podia escutar claramente o que diziam. Eles mudavam do russo para o inglês e Costas percebeu que eram Aslan e Katya.

- Estes são assuntos pessoais, - disse Aslan. - Vamos falar em inglês para que meus mujahedin não ouçam esta blasfêmia.

- Seus mujahedin? - A voz de Katya estava cheia de desprezo. - Seus mujahedin são jihadistas. Eles lutam por Alá, não por Aslan.

- Eu sou o novo profeta deles. Sua lealdade é para Aslan.

- Aslan. - Katya cuspiu a palavra com escárnio. - Quem é Aslan? Piotr Alexandrovich Nazarbetov. Um professor fracassado de uma obscura universidade com ilusões de grandeza. Você nem usa a barba de um homem santo. E saiba que eu conheço nossa herança mongol. Gengis Khan foi um infiel que destruiu metade do mundo muçulmano. Alguém deveria contar tudo isto para os seus santos guerreiros.

- Você se esquece de si mesma, minha filha. - A voz estava glacial.

- Lembro bem do que tive de aprender quando era criança. Aquele que for fiel ao Alcorão prosperará, quem o ofender será punido pela espada. A fé não permite o assassinato de inocentes. - A voz de Katya era um soluço sentido. - Eu sei o que você fez a minha mãe.

A respiração pesada de Aslan soou para Costas como uma panela de press&atil