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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


ATRAVÉS DO DESERTO / Karl May
ATRAVÉS DO DESERTO / Karl May

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

ATRAVÉS DO DESERTO

 

A fatal travessia

- É verdade, sídi, que tu queres permanecer um djaur, um infiel, mais desprezível que um cão, mais repugnante que um rato, cujo alimento é matéria pútrida?

- É verdade.

- Efêndi, odeio aos infiéis e desejo que eles ardam eternamente na Djehenna, onde mora o demônio; a ti, porém, desejava salvar da eterna condenação, para a qual te destinas se não te converteres ao Iskar bil Lisan, o santo testamento. Tu és tão bom, diferente dos outros sídis que tenho servido, e, por isso, hei de te converter, quer queiras quer não.

Assim falava Halef, meu criado e guia com quem rodeara os desfiladeiros e precipícios do Djebel Aurés, para, em seguida, descer o Dra el Hauna, passar sobre o Djebel Tarfani a fim de chegar a Seddada Kris e Dgache de onde uma estrada conduz a Kbilli e Fetnassa, passando pelo famoso Chott Djerid.

Halef era um sujeitinho singular: tão pequeno que apenas me chegava ao ombro e, além disso, tão magro e esguio, que parecia haver ficado, durante uma década inteira, comprimido entre as folhas de um herbário. Seu rostinho desaparecia completamente sob um turbante de três pés de diâmetro e sob o albornoz que antes fora branco e agora se acha coberto de inúmeras nódoas. De certo, havia sido confeccionado para um homem de maior estatura de modo que, quando o homenzinho queria montar, tinha de arrepanhá-lo. Mas, apesar dessa má aparência, era digno de todos os respeitos. Possuía uma invulgar agudeza de espírito, aliada a não pequena coragem. Demais, era dotado de muita habilidade e de uma perseverança que o tornava apto para superar os maiores obstáculos. Falava todos os dialetos que se ouvem entre os acampamentos dos Uelad Bu Seba e as embocaduras do Nilo. Depositava eu nele minha inteira confiança, sendo tratado mais como amigo do que como servo. Contudo, uma qualidade tornava-o bastante importuno: - era muçulmano fanático e, por amizade, tornara a resolução de me converter ao Islam. Ainda há pouco, fizera mais uma de suas infrutuosas tentativas o que me provocara hilaridade, tão cômico parecera.

Eu montava um cavalo berbere, pequeno, semi-selvagem. Meus pés quase arrastavam no chão. Halef escolhera uma velha égua Hassi-Ferdjan, magra e muito alta. Fazíamos uma figura curiosa, um contraste notável um ao lado do outro.

O meu companheiro distinguia-se por sua grande vivacidade na palestra. Abanava com as pernas fora dos estribos, gesticulava com os curtos braços e empenhava-se para corroborar suas palavras por um jogo fisionômico tão intenso que eu era obrigado a fazer esforços para não sir. Não ouvindo a desejada resposta às suas últimas palavras, prosseguiu:

- Sabes, sídi, o que sucederá aos djaurs após a sua morte?

- Não.

- Depois da morte todos os homens vão para o Barza, seja qual for a religião a que pertençam.

- Esse é o estado que medeia entre a morte e a ressurreição?

- É isso mesmo, sídi. Lá seremos despertados pelo clangor das trombetas, pois chegaram el Iaum el akhad, o primeiro dia, el Akhira, o último, indo então todos para o abismo, exceto el Kuhis, o trono de Deus, er Ruh, o Espírito Santo, es Sauhel Mafuf e el Qalam, a tábua e o cálamo da divina predestinação.

- Nada mais subsistirá?

- Nada mais.

- Mas o paraíso e o inferno?

- Sídi, tu és prudente e sábio; logo notas o que eu esqueci, e, por isso, é realmente lastimável que queiras permanecer um djaur amaldiçoado. Mas eu juro pela minha barba que hei de te converter, quer queiras quer não.

Ditas essas palavras formou seis ameaçadoras rugas na testa. Cofiou os sete fios do seu cavanhaque, puxou os oito filamentos à direita e os nove à esquerda do nariz (cuja soma total denominava pomposamente barba), bamboleou atrevidamente as pernas para cima e, com a mão livre puxou a crina da égua, com tanta força, como se ela fosse o diabo de quem eu me devia livrar. O animal, tão cruelmente arrancado da sua meditação, fez menção de levantar as patas dianteiras; lembrou-se, porém, da sua elevada idade e voltou à soberba indiferença que antes ostentava. Halef, imperturbável, prosseguiu a sua exposição.

- Sim, Djinna, o paraíso e Djehenna o inferno, devem coexistir, senão, para onde iriam os santos e os condenados? Antes de lá chegarem os ressuscitados passam na ponte Sfirath, lançada sobre o lago Handh, tão estreita e aguda como o gume de uma espada bem afiada.

- Esqueceste ainda uma coisa.

- O que é?

- A vinda do Dejjal.

- É verdade! Sídi, tu conheces o Alcorão e todos os livros santos, no entanto não te queres converter à verdadeira doutrina. Mas, não tenhas cuidados; hei de fazer de ti um autêntico muçulmano! Antes do juízo, aparecerá o Dejjal que os djaurs chamam de Anticristo, não é, efêndi?

- É isso mesmo.

- Depois, a cada um será aberto o Kitab, onde estão escritas todas as boas e más ações praticadas na terra, a fim de proceder-se o Hisah, julgamento que dura mais de cinqüenta mil anos, espaço de tempo que passará, para os bons como um minuto, e para os maus como uma eternidade. É o Hukm, a apreciação das ações humanas.

- E depois?

- Depois, segue-se o julgamento propriamente dito. Aqueles, cujos bons feitos pesam mais, entram no paraíso, os incrédulos pecadores vão para o inferno, enquanto os muçulmanos que cometeram faltas só temporariamente são castigados. Vês, pois, sídi, o que te espera, mesmo que as tuas boas ações sejam em número mais elevado. Mas será salvo, entrarás comigo na Djinna, o paraíso, porque hei de te converter, queiras ou não!

E, a essa afirmação moveu tão energicamente as pernas que a velha égua Hassi-Ferdjan levantou as orelhas, espantada, e procurou olhá-lo de esguelha.

- E o que me espera no vosso inferno? - perguntei-lhe eu.

- No Djehenna arde o nar, o fogo eterno; correm aí arroios de cheiro tão fétido que os condenados, apesar da ardente sede que os devora não podem neles beber. Vêem-se também, nesse lugar de suplício, horríveis árvores entre as quais a terrível Zekkum em cujos ramos crescem cabeças de diabos.

- Brrrrrr!!

- Sim, sídi, é pavoroso! O senhor da Djehenna é o anjo decaído Thabek. Consta de sete partes para as quais sete portas dão entrada. Na Djehenna, a primeira divisão, são torturados os muçulmanos até ficarem inteiramente purificados; Ladha, a segunda repartição, é para os cristãos, Hothama, a terceira, para os judeus, Sair, a quarta, para os Sabier, Sakar, a quinta, para os magos e adoradores de fogo, e Gehim, a sexta, para os que adoram ídolos ou fetiches. Zaoviat, porém, a sétima divisão, também chamada Derk Asfal, é a mais profunda e terrível. Servirá para a derradeira morada dos hipócritas. Em todas essas repartições os maus espíritos arrastarão os condenados por torrentes ígneas, obrigando-os a comer os estranhos frutos da árvore Zekkum, as cabeças de diabos que lhes morderão e rasgarão as entranhas. Ó efêndi, converte-te ao profeta, para não teres de ficar eternamente no Djehenna.

Meneei a cabeça e disse:

- Nesse caso irei para o nosso inferno que é tão horroroso como o vosso.

- Não creias tal, sídi! Prometo-te pelo Profeta e pelos Califas que entrarás no paraíso. Queres que eu to descreva?

- Quero.

- A Djinna está situada acima dos sete céus e tem oito portas. Primeiro chega-se à grande fonte Hawus Kewser, na qual cem mil bem-aventurados podem beber simultaneamente. As águas desse maravilhoso vertedouro são brancas como leite, seu perfume mais delicioso do que almíscar e mirra, e às suas margens vêem-se milhões de taças cravejadas de diamantes e pedras preciosas. Mais adiante, vê-se um lugar onde descansam os santos, apoiados em almofadas entretecidas com fio de ouro. Jovens imortais e huris eternamente moças, proporcionam-lhes saborosos manjares e licores. Deliciam-lhes os ouvidos os incessantes cânticos do anjo Israfil e as harmonias das campainhas tangidas por uma aragem provinda do trono de Deus. Todos os bem-aventurados têm sessenta polegadas de altura e perenemente trinta anos de idade. Entre todas as árvores destaca-se a Tuhah, a árvore da felicidade, cujo tronco acha-se no palácio do grande Profeta e cujos ramos alcançam as habitações dos santos, pendendo daqueles tudo o que é necessário para a bem-aventurança. Originam-se, nas raízes da Tuhah, todos os rios do paraíso, correndo neles leite, vinho, café e mel.

Não obstante o sensualismo dessa representação, cumpre observar que Maomé a foi ausir na concepção cristã, adaptando-a para as suas tribos nômades. Halef olhou-me, então, com um semblante que evidenciava a esperança de me ter vencido com a descrição do paraíso.

- Que me dizes agora? - perguntou ele, quando me calei.

- Quero te dizer francamente que não tenho vontade nenhuma de crescer até atingir sessenta polegadas; também não quero saber de Huris, pois sou inimigo de todas as senhoras e moças.

- Por que? - perguntou ele muito admirado.

- Segundo o Profeta, a voz da mulher é como o canto do bulbul (¹) mas sua língua é peçonhenta como a da víbora. Ainda não leste isso?

- Li, sim.

Baixou a cabeça: eu o derrotara com as próprias palavras do Profeta. Depois, perguntou-me com um pouco menos de confiança:

- Contudo, não é bela a nossa bem-aventurança? Afinal de contas, podes deixar de parte as Huris.

- Eu permaneço e permanecerei cristão.

- Entretanto, não é difícil dizer: - La isah illa Allah, we Muhammed resul Allah!

- Será mais difícil orar assim: - Já abana, alladhi, fissemawati, iataqaddisu smuka?

Olhou-me raivosamente.

- Sei bem, que Isa Ben Marryam, a quem chamais Jesus, ensinou-vos essa oração por vós denominada Padre Nosso. Sempre queres me converter à tua fé, mas nem penses nisso, pois, me transformarias num renegado do Tanhid, da fé em Allah.

Já por várias vezes experimentara contrapor às minhas as suas tentativas de conversão. Da completa infrutuosidade destas estava plenamente convencido, mas era este o único meio de tapar-lhe a boca.

Era o que agora ainda uma vez se verificava.

- Pois então deixa-me a minha crença como eu te deixo a tua.

A estas palavras resmungou alguma coisa, murmurando em seguida:

- Contudo hei de te converter, queiras ou não. O que resolvi hei de executar, pois eu me chamo Hadji Halef Omar Ben Hadji Abul Abbas Ibn Hadji Dawud al Gossara!

- Então tu és filho de Abul Abbas, que era filho de Dawud al Gossara?

- Sou sim.

- E ambos foram peregrinos?

- Foram.

- Também tu és um Hadji?

- Também.

- Quer dizer que todos três estiveram em Meca e viram a santa Caaba?

 

 (1) Rouxinol.

 

- Dawud al Gossara não.

- Ah! E entretanto tu o chamas Hadji?

- Sim, porque ele o foi. Morava no Djebel Churcham e fez a peregrinação ainda jovem.

- Sem novidade passou pelo Dsehuf, que chamam o “corpo do Deserto”, mas depois adoeceu e teve de ficar na fonte Trasah. Aí tomou esposa e morreu, tendo visto antes seu filho Abul Abbas. Não deve ser ele chamado um Hadji, um peregrino?

- Hum! Mas Abul Abbas esteve em Meca?

- Não.

- E também ele é um Hadji?

- É. Começou a peregrinação, indo até a planície Admar que fica no caminho de Meca.

- Por quê?

- Conheceu aí Amareh, a pérola de Djunna, e amou-a. Amareh tornou-se sua mulher e deu-lhe Halef Omar por filho, ao qual vês aqui ao teu lado. Depois morreu. Não foi ele um Hadji?

- Hum! Mas tu estiveste em Meca?

- Não.

- Apesar disso, te consideras um Hadji?

- Sim. Depois da morte de minha mãe, iniciei a peregrinação. Punha-me em marcha pela alvorada ou pelo escurecer; viajava de tarde e de noite; percorri todos os oásis do deserto e todos os lugares do Egito; nunca estive em Meca, mas ainda hei de ir lá. Não sou eu, então, um Hadji?

- Hum! Julgo que só quem esteve em Meca, pode usar tal título!

- Na verdade, assim é. Mas eu já estive em viagem para lá!

- É possível! Mas tu também acharás por lá uma bela moça, ficando junto dela; com o teu filho se dará o mesmo, pois tal parece ser o kismet de tua família, e teu tataraneto dirá daqui há cem anos:

- Eu sou Hadji Mustafa Ben Hadji Ali Assabeth Ibn Hadji Said al Hamza Ben Hadji Schehab Tafaíl Ibn Hadji Halef Omar Ben Hadji Abul Abbas Ibn Hadji Dawud al Gossara, e nenhum desses sete peregrinos terá visto Meca, e não terá sido um genuíno, autêntico Hadji. Não achas?

Apesar da sua natural gravidade, ele teve de sir desse pequeno e inocente dito malicioso. Há entre os maometanos muitos, muitíssimos, que se apresentam, mormente a estrangeiros, como sendo Hadji, sem nunca terem visto a Caaba, nem percorrido o trecho que vai de Sfafa a Merweh, nem estado em Arafah, nem tampouco haverem sido barbeados em Minah. O meu bom Halef sentia-se derrotado, mas não fez má cara.

- Sídi - perguntou ele a meia voz - pretendes divulgar que eu jamais estive em Meca?

- Só falarei em tal, se intentares, novamente, me converter ao Islam; aliás serei discreto. Mas olha aqui esses rastos na areia!

- Há muito que entráramos no Uádi Tarfaui e chegáramos, nesse passo, a um lugar onde o vento do deserto atirara areia fina sobre rochedos marginais. Nessa areia reconhecia-se, facilmente, um rastro.

- Por aqui cavalgou alguém, - disse Halef com indiferença.

- Então vamos apear, para examinar as pegadas.

Olhou-me, interrogativamente.

- Sídi, isso é supérfluo. Basta saber que houve quem por aqui passasse. Para que queres examinar os vestígios deixados pelos animais?

- Sempre é bom saber que espécie de gente se tem diante de si.

- Se quiseres esquadrinhar todas as pegadas que achares, em menos de duas luas não chegarás a Seddada. Que te importam os homens que estão diante de nós?

- Estive em longínquas terras, onde há muita selvageria e onde não raro a vida depende do cuidado com que se examina todos os traços e rastos, para saber se se vai encontrar um amigo ou um inimigo.

- Aqui não encontrarás inimigos, efêndi.

- Isso não se pode prever.

Apeei. Destacavam-se nitidamente as pegadas de três animais, um camelo e dois cavalos. O primeiro, que deixara apenas uma leve impressão da pata, era um camelo de montaria. Considerando com mais atenção uma particularidade das pegadas, concluí que um dos camelos sofria de uma moléstia da perna. Era para admirar, pois achava-me numa terra onde a abundância de cavalos permitia não se usar animais atacados de tal enfermidade. O dono do cavalo ou era estrangeiro ou um árabe muito pobre.

Halef riu do cuidado com que eu examinei a areia, perguntando, quando me levantei:

- O que viste, sídi?

- Eram dois camelos e um cavalo.

- Dois cavalos e um djemel! Alá abençoe os teus olhos; o mesmo percebi eu sem que fosse preciso apear. Queres ser um taleb, um sábio, e entretanto fazes coisas de fazer sir um hammar, um arrieiro. De que te serve o tesouro de ciência que aqui ajuntaste?

- Quem te dá alguma coisa por essa sabedoria? Vós, homens da Belad er Rumi, da Europa, sois bem estranha gente!

A essas palavras fez uma cara, na qual se lia a mais profunda compaixão; contudo preferi, calado, prosseguir nosso caminho.

Seguimos o rasto por uma boa meia-hora, até que, ao dobrar uma curva do Uádi, involuntariamente sofreamos as nossas montarias. Vimos três corvos, pousados não muito longe de nós, atrás de uma duna de areia, que, ao darem conosco, alçaram vôo, soltando uns pios roucos.

- El buedj; o corvo de barba, - disse Halef. - Onde ele anda há sempre um cadáver.

- Provavelmente morreu por ali um animal qualquer - respondi, seguindo-o.

Obrigara a sua montaria a adiantar-se mais rapidamente, de modo que eu ficara atrás dele. Ao alcançar a duna bruscamente estacou, soltando, logo empós, um grito de horror.

- Ma xa Allah, por Deus! O que é isto? Não é um homem que ali está?

Respondi afirmativamente. Jazia ali um homem e os corvos se banqueteavam com o cadáver. Rápido, saltei do cavalo e ajoelhei-me junto dele. A roupa havia sido rasgada pelas garras das aves. Não fazia muito, porém, que esse infeliz morrera. Logo o senti, ao tocá-lo.

- Allah Kerim, Deus é misericordioso! Sídi, teria este homem perecido de morte natural? - perguntou Halef.

- Não vês a ferida no pescoço e o furo, atrás, na cabeça? Foi assassinado.

- Alá condene o homem que tal crime cometeu! Quem sabe se o morto sucumbiu em nobre peleja?

- Que chamas tu nobre peleja? Talvez seja a vítima de uma vingança. Vamos examinar as suas vestes.

Halef ajudou-me nessa tarefa. Não achamos a mínima coisa até que meu olhar incidiu sobre a mão do morto. Usava uma aliança de ouro, simples. Tirei-a do dedo do cadáver. No lado interno, minúscula, mas claramente, estava gravado: - E. P. 15 Juillet 1830.

- O que achaste? - perguntou Halef.

- Este homem não é Ibn Arab.

- O que é ele, então?

- Francês.

- Francês, um cristão? Por que dizes isso?

- Quando um cristão se casa, troca com a esposa um anel onde é gravado o nome e o dia em que se realiza o matrimônio.

- E esse é um anel dessa espécie?

- É.

- Mas como sabes que este homem pertence ao povo francês? Igualmente podia ele ser inglis, ou nemsi como tu.

- São caracteres franceses os que eu leio aqui.

- Contudo ele pode pertencer a um outro povo. Também não achas, efêndi, que um anel se pode achar ou roubar?

- Isto é verdade. Mas repara a camisa que ele trás sob as vestes. É como usam os europeus.

- Quem o matou?

- Seus dois companheiros. Não vês que o chão acha-se revolvido? Aqui houve luta. Não vês que é...

Detive-me no meio da frase. Ajoelhara-me, para pesquisar o solo. Ergui-me e achei, não longe do lugar em que jazia o morto, o início de um longo rasto de sangue que avançava por entre os rochedos. Segui-o com a arma engatilhada, pois o assassino podia encontrar-se nas imediações. Ainda não andara muito, quando, ruflando as asas, alçou vôo um abutre. Então notei, no lugar em que se elevara, um camelo deitado. Estava morto; no pescoço abria-se uma ferida larga e profunda. Pesaroso, Halef bateu uma mão na outra.

- Um hedjin cinzento, um hedjin-tuareg cinzento, e esse assassino, esse patife, esse cão o matou!

Como se vê, mais lamentava o animal do que o francês. Como bom filho do deserto, ao qual o mais insignificante objeto é precioso, curvou-se e revistou a sela do camelo. Não achou nada. Os bolsos estavam vazios.

- Os assassinos levaram tudo, sídi. Andam eles na Djehenna, por toda a eternidade. Nada, absolutamente nada deixaram, exceto o camelo - e os papéis que aí estão, na areia.

Advertido por essas palavras, notei logo não longe de nós, alguns pedaços de papel amassados e desprezados como inúteis. Talvez pudessem me oferecer um ponto de partida, por isso, adiantei-me para apanhá-los. Eram várias folhas de jornal. Alisei os pedaços amarrotados e procurei uni-los. Tinha nas mãos duas páginas do Vigie algérienne e outras tantas do L’Independant e do Mahouna. A primeira folha aparece na Algéria, a segunda em Constantina, e a terceira em Guelma. Apesar da diversidade de lugares notei, após exame mais atento, uma coincidência surpreendente relativa ao conteúdo das três partes de jornal, pois todas noticiavam o assassinato de um rico comerciante francês em Blidah. Suspeitava-se de certo mercador armênio que se pusera em fuga e que estava sendo perseguido. A descrição da pessoa procurada era a mesma, ipsis literis, nos três jornais. - Por que razão o morto, dono do camelo, trouxera consigo essas páginas? O caso lhe diria respeito, de algum modo? Era um parente do negociante em Blidah ou o assassino? Ou seria um polícia, a perseguir o criminoso?

Guardei os papéis, enfiei o anel no dedo e voltei com Halef, para junto do cadáver. Teimosos, pairavam sobre ele os corvos que, após nosso afastamento, tinham pousado sobre o camelo.

- Que pensas fazer agora, sídi? - perguntou o meu servo.

- Nada mais nos resta senão cobsir o morto.

- Queres enterrá-lo?

- Não, faltam-nos a ferramentas para isso. Vamos amontoar algumas pedras sobre ele; assim nenhum animal poderá descobri-lo.

- Julgas realmente que ele é cristão?

- Sem sombra de dúvida.

- Não obstante, talvez te enganes, sídi; ele poderia ser também um crente. Permite-me, pois, que te peça uma coisa.

- Qual?

- Deitemo-lo de modo que sua face fique voltada para Meca!

- Nada tenho a opor, pois, desta maneira, ficará voltado para Jerusalém onde o Salvador padeceu e morreu. Pega aí!

Era uma triste tarefa essa que executávamos na mais profunda solidão. Quando o monte de pedras que cobria o infeliz ficou suficientemente alto para protegê-lo dos animais do deserto, ajuntei outras para formar uma cruz, ajoelhando-me, em seguida, para rezar. Terminada minha prece, Halef dirigiu os olhos para o oriente e começou o sura 112 do Alcorão:

- Em nome de Deus misericordioso! Diz: - Deus é o único e eterno Deus. Não gera nem é gerado e nenhum ser lhe é semelhante. O homem o ama transitório e não cuida da vida futura. Chegou, porém, tua hora, serás levado perante Deus que te despertará para uma nova vida. Oxalá sejam diminutos os teus pecados e numerosas como a areia do deserto as tuas boas ações!

Ditas essas palavras, abaixou-se para lavar com areia as mãos que tornara impuras ao contato do morto.

- Bem, sídi, estou novamente tahir ou kauscher, como dizem os israelitas, e posso tocar o que é puro e santo. Que faremos agora?

- Vamos em perseguição dos assassinos até encontrá-los.

- Pretendes matá-los?

- Não sou juiz deles. Depois de falar-lhes conhecerei os motivos que os induziram a matá-lo. Só então, saberei o que tenho a fazer.

- Não são muito espertos, do contrário não teriam morto um hedjin que vale mais do que seus cavalos.

- O hedjin tê-los-ia traído, talvez. Olha aqui o rastro deles. Vamos adiante. Estão cinco horas na nossa frente; talvez os encontremos amanhã, antes que cheguem a Seddada.

Apesar do calor sufocante e o terreno acidentado e pedregoso, andávamos com a velocidade de quem vai à caça das gazelas, sendo impossível conversar. O meu bom Halef é que não podia suportar por mais tempo esse silêncio.

- Sídi, gritou ele atrás de mim, sídi, queres abandonar-me? - Voltei-me para ele.

- Abandonar-te?

- Sim. As pernas da minha égua são mais velhas do que as do teu berbere. - Realmente a velha égua Hassi-Ferdjan suava em bicas, e lançava pela boca grandes flocos de espuma.

- Mas hoje não podemos descansar, como costumamos fazer nos dias de grande calor. Temos de viajar até a noite, senão não alcançaremos os dois que estão diante de nós.

- Devagar se vai ao longe, efêndi, pois... - Allah akbar, olha lá em baixo!

- Achávamo-nos sobre um escarpado desfiladeiro que estava, à distância de um quarto de hora de caminho. Nele divisamos dois cavaleiros ou melhor dois homens, assentados à beira de um pequeno sobha, (2) no qual haviam conseguido um pouco de água. Seus cavalos mordiscavam as secas e espinhentas mimosas dos arredores.

- Ah, são eles!

 

 (1) Lagoa.

 

- Sim, sídi, são os nossos homens. Para eles também o calor tornou-se insuportável, por isso resolveram esperar que abrandasse um pouco.

- Ou se detiveram para repartir a presa. Afasta-te, Halef, afasta-te antes que sejamos vistos. Vamos sair do uádi, e cavalgar um pouco para oeste, como se viéssemos do chott Ghersa.

- Para quê, efêndi?

- Para que não suspeitem que encontramos o cadáver da vítima. Nossos cavalos galguem a orla do uádi e dirigimo-nos diretamente para oeste, deserto a dentro. Dobramos em arco até chegar ao lugar em que se encontravam os dois homens. Não podiam ver-nos, por estarem no fundo do uàdi, mas deviam ouvir o ruído que fazíamos aos nos aproximarmos.

De fato, já se tinham levantado, de arma em punho, quando chegamos à beira da depressão. Procurei parecer tão surpreendido como eles, ao encontrar alguém naquelas paragens, contudo não julguei necessário pegar da carabina.

- Salam aleikum! exclamei, contendo o cavalo.

- Somos cavaleiros de paz.

- De onde vindes?

- Do leste.

- E para onde vos dirigís?

- Para Seddada.

- A que tribo pertenceis?

Apontei para Halef e respondi:

- Ele provém das planícies Admar e eu pertenço aos Beni-Sakhsa. Vós quem sois?

- Somos da célebre tribo Uelad Hamalek.

- Os Uelad Hamalek são bons cavaleiros e guerreiros valentes. De onde vindes?

- De Gaffa.

- Fizestes uma longa viagem. Para onde ides?

- Para Bir (1) Sauidi onde temos amigos.

Que eles vinham de Gaffa e se dirigiam para a fonte Sauidi, uma e outra eram mentiras, não obstante fiz como se acreditasse no que haviam dito e perguntei:

- Permitís que acampemos convosco?

- Ficaremos aqui até amanhã de madrugada - foi a resposta que tanto podia ser um não como um sim.

- Também nós tencionamos descansar aqui até o alvorecer. Tendes água suficiente para nós todos e também para nossos cavalos. Podemos ficar convosco?

- O deserto é de todos. Yerhaban, sê bem-vindo!

Apesar dessa resposta vi que prefesiriam ficar sós; nós, porém, descemos a encosta e apeamos junto da água, próximo da qual nos assentamos imperturbavelmente.

 

 (1) Fonte.

 

As duas fisionomias que estavam diante de mim não eram de molde a inspirar confiança. O mais velho que havia sido meu interlocutor era alto e magro. O albornoz pendia-lhe do corpo, lembrando a figura de um espantalho. Abaixo do sujo turbante azul, brilhavam dois olhos penetrantes e sorrateiros; sobre os lívidos e delgados lábios via-se um bigode falhado; o queixo pontiagudo indicava uma viva tendência para a prepotência e o nariz recordava-me o abutre que eu enxotara, havia pouco, de cima do cadáver.

O outro era um jovem de extraordinária beleza; mas as paixões tinham-lhe arrebatado o brilho dos olhos, o vigor dos músculos e os sulcos na face e na testa indicavam um envelhecimento precoce. O resultado do meu exame não era animador.

O mais velho expressava-se no árabe falado às margens do Eufrates e o mais moço traía a sua origem européia. Os cavalos que se achavam nas proximidades eram ruins e estavam visivelmente fatigados. Vestiam roupas surradas, mas traziam armas esplêndidas. No lugar em que antes haviam estado assentados, viam-se vários objetos que raramente se encontram no deserto: um lenço de seda, um relógio de ouro com corrente, uma bússola, um rico revólver e uma caderneta encadernada a marroquim. Os dois não tinham tido tempo de escondê-los das nossas vistas. Fiz como se nada houvesse notado, tomei um punhado de tâmaras e pus-me a mastigá-las calmamente.

- Que vão fazer em Saddada? - perguntou-me o de alta estatura.

- Nada. Seguimos adiante.

- Para onde?

- Passaremos o chott Djerid, para ir a Fetnassa e Kbilli.

Um olhar de advertência que ele lançou ao companheiro, revelou-me que o caminho deles era idêntico. Em seguida, perguntou:

- Tens negócios em Fetnassa ou Kbilli?

- Tenho.

- Tencionas vender lá os teus rebanhos?

- Não.

- Ou os teus escravos?

- Não.

- Então, qual é o teu comércio?

- Nenhum.

- Vais, talvez, em busca de uma mulher, em Fetnassa.

Simulei um ar de indignação.

- Não sabes que é grave ultraje falar a um homem de sua mulher? És acaso um djaur a quem isso é indiferente?

O homem aterrorizou-se a essa interrogação. Eu acertara. Não parecia um beduíno; semblantes como o dele, encontrará em conhecidos de descendência armênia e... mas não fora um mercador armênio o assassino de um negociante de Blidah cuja carteira de identidade guardava comigo? Não tivera tempo de ler atentamente a descrição do homem. Enquanto esses pensamentos, rápidos como relâmpagos, me cruzavam a mente, o meu olhar incidiu novamente sobre o revólver. Fixada à coronha, havia uma placa com um nome gravado.

- Dá licença!

Dizendo isso peguei na arma e li Paul Galingré, Marseille. Não era o nome do fabricante, mas o do possuidor. Sem denunciar o meu interesse pelo menor sinal, perguntei:

- Que arma é essa?

- Um... um.. . um revólver.

- Mostra-me como é que se atira com ele.

Com grande atenção ouvi a explicação que me deu, dizendo em seguida:

- Tu não és Uelad Hamalek, mas um cristão.

- Por quê?

- Vês como acertei? Se fosses um filho do Profeta, já me terias alvejado, por eu te haver chamado de djaur. Só os infiéis usam revólveres. Como é que um Uelad Hamalek poderia obter uma arma como esta? É um presente que recebeste?

- Não.

- Então, compraste-a?

- Não.

- Foi uma presa que tomaste de um inimigo?

- Foi.

- De quem?

- De um franke.

- Com o qual combateste?

- Justamente.

- Onde?

- No campo de batalha.

- Qual?

- Um que fica próximo de El Guerara.

- Mentes!

Finalmente, esgotou-se-lhe a paciência. Ergueu-se e empunhou o revólver.

- Que dizes? Que estou mentindo? Queres morrer como...

Atalhei-o logo:

- Como o franke, lá no uádi Tarfaui.

A destra que empunhava a arma abaixou-se e uma palidez mortal cobriu-lhe o rosto. Reanimou-se, porém, e perguntou em tom de ameaça:

- O que queres dizer com isso?

Meti a mão no bolso e tirei o jornal, para procurar o nome do assassino.

- Quero dizer que tu não és um Uelad Hamalek. O teu nome é Hamd el Amasat.

Ele recuou estendendo ambas as mãos, como para se defender de mim.

- De onde me conheces?

- Basta que saibas que te conheço.

- Não, tu não me conheces, não tenho o nome que enunciaste, sou Uelad Hamalek e quem não quiser acreditar está fadado à morte!

- De quem são esses objetos?

- Meus.

Tomei o lenço nas mãos. Estava marcado com P. G. Abri a tampa do relógio e vi as mesmas letras nele gravadas.

- Onde encontraste isso?

- Não é da tua conta! Larga esses objetos!

Em vez de obedecê-lo, abri a caderneta de notas. Logo na primeira página li o nome Paul Galingré; o resto era estenografado e incompreensível.

- Deixa essa caderneta aí! - Dizendo isso, arrancou-a da mão e lançou-a n’água. Ergui-me para salvá-la, mas sem resultado, pois o mais jovem interpôs-se entre mim e o lago.

Halef, até então, ouvira o diálogo indiferentemente, mas vi que tinha o dedo no gatilho da espingarda. Bastava um leve aceno meu para que ele atirasse. Abaixei-me para examinar a bússola.

- Alto lá! Isso é meu! Já te disse que nada tens que ver com o que me pertence! - vociferou o meu adversário.

Agarrou-me o braço, para dar maior força às suas palavras; tranqüilamente redargüi:

- Senta-te. Preciso falar-te.

- Nada tenho a ver contigo.

- Mas eu tenho. Senta-te, se não queres passar desta para melhor! Essa ameaça produziu efeito. Obedeceu-me. Saquei do revólver e adverti:

- Como vês, eu também possuo um revólver igual ao teu. Deixa-o na cinta se não quiseres receber uma bala!

Vagarosamente baixou a mão, conservando-a, porém, sobre a coronha da arma.

- Não és Uelad Hamalek.

- Sou.

- Não vens de Gaffa!

- Venho.

- Há quanto tempo viajas pelo uádi Tarfaui?

- Que tens a ver com isso?

- Muito. Lá está o cadáver do homem que assassinaste.

Um ritus de maldade contraiu-lhe as feições.

- E se eu o tivesse assassinado, o que me dirias?

- Algumas palavras, apenas.

- Dize-as!

- Quem era esse homem?

- Não o conheço.

- Por que então o mataste?

- Porque quis.

- Era ele um crente?

- Não. Era um djaur.

- Tiraste o que ele trazia consigo?

- Querias que eu deixasse tudo com o cadáver?

- Não, porque devias me entregar tudo.

- Para ti... ?

- É, para mim.

- Não te entendo!

- Com o tempo, compreender-me-ás. O morto era um djaur, como eu; serei o seu vingador.

- Queres matar o assassino dele?

- Não. Do contrário, a essas horas já terias cessado de viver. Achamo-nos no deserto em que reina a lei do mais forte. Não vale a pena ver qual de nós é o mais valente; entrego-te à justiça de Deus, o Onisciente, que tudo vê, castiga o mal e recompensa o bem; uma coisa, porém, eu exijo: Quero que me dês tudo o que roubaste do morto.

Ele sorriu com um ar de menosprezo.

- Pensas mesmo que eu vou obedecer-te?

- Penso.

- Então toma o que mereces!

- Fez menção de arrancar o revólver, mas eu, mais rápido, apontei-lhe o meu.

- Não te mexas senão morres!

Achava-me numa situação delicadíssima. Felizmente, porém, o meu antagonista era mais astuto que animoso. Tirou a mão da arma e ficou indeciso.

- O que vais fazer desses objetos?

- Devolvê-los-ei aos parentes do morto.

Fixou-me com um ar quase compassivo.

- Mentes! Queres é guardá-los para ti!

- Não minto, não.

- E pretendes fazer algo contra mim?

- Por enquanto, não, mas ai de ti se nos encontrarmos novamente! - Diriges-te realmente para Seddada?

- Disse-te a verdade.

- E se te entregarmos esses despojos não obstarás a nossa partida para Bir Sauidi?

- Não.

- Prometes?

- Prometo.

- Jura!

- Um cristão não jura nunca; sua palavra é o penhor da verdade.

- Toma o revólver, o relógio, a bússola e o lenço.

- E o que mais trazia ele consigo?

- Mais nada.

- Ele tinha dinheiro.

- Esse, guardo-o eu.

- Nada tenho a opor, mas dá-me a bolsa ou a carteira em que o encontraste.

- Já te satisfaço.

Meteu a mão na faixa que lhe envolvia a cintura e tirou uma bolsinha bordada que esvaziou para entregar-la em seguida.

- Não trazia mais nada consigo?

- Mais nada. Queres revistar-me?

- Não.

- Então podemos partir?

- Podem.

Ficou como que aliviado. Seu companheiro era, sem dúvida, extremamente medroso e alegrou-se por escapar tão facilmente da entalada. Recolheram a pequena bagagem que traziam e montaram a cavalo.

- Salam aleikum, a paz seja convosco!

Não lhes dei resposta. Indiferentes a essa falta de cortesia, foram-se embora e dentro em pouco desapareciam na orla do uádi.

Halef não proferira palavra. Finalmente rompeu o silêncio:

- Sídi!

- O que é?

- Posso dizer-te uma coisa?

- Por que não?

- Conheces a avestruz?

- Conheço.

- Sabes como ela é?

- Como?

- Estúpida, muito estúpida.

- E daí?

- Perdoa-me, efêndi, mas tu pareces ser pior que uma avestruz!

- Por quê?

- Porque deixaste ir embora esses patifes.

- Não posso nem prendê-los nem matá-los.

- Não vejo o que te impede. Se o assassinado fosse um crente, já os teria mandado para o cheitan (1). Como era, porém, um djaur, pouco me importa que eles sejam ou não castigados. Tu, sim, és cristão e deixas o bandido impune!

- Quem te disse que escaparão do castigo?

- Já se foram! Chegarão em Bir Sauidi donde irão a Debila e El Ued, para desaparecer no Areg.

- Não farão tal.

- Por que não?

- Eles mesmos disseram, há pouco, que iriam a Bir Sauidi.

- Mentiram. Vão é para Seddada.

 

(1) Diabo.

 

- Quem te disse?

- Os meus olhos.

- Alá abençoe os teus olhos com que descobres as pegadas na areia do deserto. Só um infiel pode agir assim como tu. Mas eu hei de te converter à verdadeira fé; disso podes estar certo, quer queiras quer não!

- E depois passarei por peregrino sem nunca ter visto Meca.

- Sídi!... Já me prometeste não revelar isso a ninguém.

- Prometi, sob a condição de que não tentarias me converter.

- Tu és o senhor e não tenho outro remédio senão obedecer-te. Mas, o que faremos, agora?

- Primeiramente, cuidemos da nossa segurança pessoal. Aqui, podemos ser alvejados com toda a facilidade. Verifiquemos se esses marotos se afastaram realmente.

Subi a pequena encosta do desfiladeiro e vi os dois cavaleiros a grande distância, em direção a sudoeste. Halef seguira-me.

- Lá vão eles - obtemperou. Estão na direção de Bir Sauidi.

- Quando se julgarem fora do alcance de nossas vistas quebrarão para o leste.

- Sídi! o teu miolo parece-me um tanto mole. Se fizessem o que dizes, cair-nos-iam novamente nas mãos!

- Julgam que só partiremos ao romper da manhã e que facilmente tornarão sobre nós um avanço apreciável.

- São suposições tuas que não têm nem vislumbre de verdade.

- Estás certo disso? Não te dizia lá em cima que um dos cavalos era manco?

- Realmente, ainda agora, quando se puseram a caminho, verifiquei que tinhas razão.

- Pois acerto igualmente, prevendo que seguirão para Seddada.

- Por que não saímos já no encalço deles?

- Porque chegaríamos primeiro, graças a um certo atalho que conheço; eles dariam com as nossas pegadas e tornariam as devidas precauções para não se encontrarem conosco.

- Descansemos, pois, tranqüilamente, até a hora de partir.

Voltamos. Estendi-me sobre a minha coberta, tapei o rosto com a ponta do turbante e fechei os olhos, não para dormir, mas para meditar sobre os últimos acontecimentos. Mas quem poderá furtar-se à modorra, à sonolência que paira no Saara e fixar o pensamento numa questão intrincada e cheia de aborrecimentos? Adormeci e, duas horas depois, despertei. Levantamos acampamento.

O uádi Tarfaui finda no chott Ghersa; tínhamos de deixá-lo para chegar a Seddada. Decorrida uma hora, mais ou menos, topamos com os rastos de dois cavalos que seguiam a direção oeste-leste.

- Dize-me, Halef, reconheces este ethar, estes sinais?

- Ya xa Allah, tinhas razão, sídi! Eles vão mesmo para Seddada.

Desmontei e examinei as pegadas na areia.

-  Passaram aqui, há pouco mais de meia-hora. Prossigamos mais devagar, senão seremos vistos.

As faldas do Djebel Tarfaui morriam suavemente, dando lugar à planície e, depois que o sol declinou e a lua ascendeu, avistamos Seddada a nossos pés.

- Vamos descer? - perguntou Halef.

- Não. Descansaremos naquele bosquezinho de oliveiras, lá na encosta do monte.

Desviamos um pouco da primitiva direção e achamos sob as árvores um esplêndido lugar para bivaquear. Já estávamos habituados aos uivos do chacal e aos graves sons da sorrateira hiena e dormimos tranqüilamente com a “música” noturna dos animais do deserto. Meu primeiro cuidado, ao acordar, foi procurar as pegadas encontradas no dia precedente. Com grande surpresa constatei que não conduziam para Seddada, mas tomavam a direção sul.

- Por que se desviaram? - perguntou Halef.

- Para não serem vistos. Precaver-se é o mais elementar dever do assassino perseguido.

- Mas, afinal, para onde vão?

- Para Kris a fim de atravessar o Djerid e pôr-se a salvo fora dos lindes algerinos.

- Já estamos em Túnis. O limite vai de Bir el Khalla a Bir et Tam através do chott Ghersa.

- Para essa gente, isso não basta. Aposto como eles vão a Fezzan e daí a Kufarah; aí estarão em completa segurança.

- Nada sofrerão, se estiverem de posse dum budjeruldu (¹) do sultão.

- Um agente de polícia ou o cônsul não acatarão esse documento.

- Achas? Ai daquele que desprezar um “gioelgeda padisahnuen”.

- Como pode dizer isso um livre filho do deserto?

- No Egito é que vi o poder do Grão-senhor; mas, no deserto, não o temo. Agora, vamos a Seddada?

- Vamos até lá comprar tâmaras e beber água fresca. Depois seguiremos caminho.

- Para Kris?

- É.

Um quarto de hora mais tarde, restauradas as nossas forças, tomamos a estrada de Seddada para Kris. À esquerda, a nossos pés, coruscavam as ardentes areias da planície do chott Djerid, espetáculo em que demorei complacentemente o olhar.

O Saara - grande e indecifrável enigma! Já em 1845, Virlet d'Aoust apresentou o projeto de transformar uma parte do deserto em um mar, a fim de tornar férteis as regiões a ele adjacentes e possibilitar o avanço da civilização até os seus habitantes. Permanece, contudo, motivo de disputa, a exeqüibilidade e o valor prático do plano.

 

(1) Passaporte.

 

No sopé da encosta meridional do Djebel Aurés e no prolongamento oriental dessa montanha, isto é, nas regiões denominadas Dra el Haua, Djebel Tarfaui, Djebel Situra e Djebel Hadifa, estende-se, a perder de vista, a monótona planície, ondulada aqui e ali e em cujas depressões encontram-se crostas e eflorescências salinas, depósitos de antigas lagoas desaparecidas. E o que se denomina chott na Argélia e Sobha ou Sebha na Tunísia. Os limites dessa região extremamente característica são, a oeste as abas do planalto Beni Urab, a leste a península de Gabes e ao sul a região das dunas de Isuf e Nifzaua próxima do longo Djebel Tebaga. Talvez essa depressão seja o golfo de Tritão citado pelo velho pai da história, Herôdoto.

Além de um grande número de pequenos pântanos que secam no verão, consta esse território de três grandes lagoas conhecidas por Melsir Ghersa e Djerid ou El Kebir. O nível da parte oriental dessa zona é inferior ao do baixo-mar em Gabes.

A depressão do chott acha-se atualmente coberta por areia. No meio de cada bacia é que se encontram massas d'água mais ou menos consideráveis as quais, na opinião dos escritores ou poetas, assemelham-se ora a um espelho ora uma chapa de prata ora a uma luzidia superfície metálica polida. Essas comparações são motivadas pelo aspecto característico das crostas salinas de espessura variável de 10 a 20 centímetros. Só em alguns pontos essa é bastante resistente para suportar o peso de um homem. Ai daquele que se afasta um palmo sequer da trilha transitável! A crosta cede e o abismo traga instantaneamente a sua vítima. Logo em seguida, a delgada camada fecha-se sem deixar vestígios do acidente. As estreitas sendas que cortam a superfície do chott, são perigosas, mormente em tempo de chuva a qual põe a nu a crosta de sal, levando a areia que se acumula sobre ela.

As águas desses chotts são esverdeadas e densas, não raro, mais ricas em sais do que as do mar. A natureza do terreno não permite que se façam sondagens concludentes, contudo pode-se avaliar em cinqüenta metros a profundidade máxima desses tremedais salinos. A areia movediça que se encontra abaixo da camada superior sólida é a que mais contribui para tornar fatal qualquer afastamento do roteiro viável. O Simum que, há milênios, sopra no deserto, carrega-a para a água.

Já os mais antigos geógrafos árabes como Ibn Djobeir, Ibn Batuta, Obeida el Bekri, El Istakhri e Omar Ibn el Wardi, são unânimes em considerar o chott extremamente perigoso. O Djerid tragou milhares de homens e camelos que desapareceram sem deixar vestígios. No ano de 1826, uma caravana de mais de mil cargueiros teve de atravessar o chott. Um acidente vitimou o camelo ponteiro que guiava os outros no estreito caminho. Afundou-se no enganoso terreno, seguindo-lhe todos os outros animais. Apenas submergira a última animália da caravana, a crosta salina tornou-se como dantes não traindo, pelo mais leve indício, a desgraça que ocorrera. Para quem não tem presentes as circunstâncias especiais do caso, esse parecerá impossível. Basta lembrar, porém, que os camelos estão acostumados a seguir o companheiro que vai na frente ao qual, em geral, está atado; além disso, voltar é impossível, devido a estreiteza do caminho.

O aspecto da traiçoeira superfície, sob a qual a morte espreita o viajor, lembra, em alguns lugares, uma azulada e brilhante chapa de chumbo. A crosta é, por vezes, dura e transparente como vidro e ressoa como o chão de uma sulfatara em Nápoles; mais comumente, porém, encontra-se uma massa mole e pastosa que, à primeira vista, parece seguríssima, sendo, contudo, destituída de resistência. Apenas suporta uma leve camada de areia e a menor sobrecarga basta para rompê-la.

Servem de marcos aos guias, pequenas pedras colocadas de distância em distância. Antigamente, havia no chott El Djerid algumas hastes de palmeira para indicar o caminho. O caule das tamareiras chama-se djerid, daí a designação específica desse chott. Os montícuios de pedras denominam-se gmair.

A crosta do chott não é constituída por uma superfície plana em todos os pontos. De quando em quando, forma ondulações cuja altura atinge, por vezes, trinta metros. Sob a crista dessa cadeia de elevações passam as caravanas que evitam cuidadosamente as depressões fatais ao viajante ignorante. O vento, quando sopra com certa intensidade, origina o movimento ondulatório da crosta e, em certos pontos, essa rompe-se e a água se projeta para o alto.

Essa superfície faiscante, mas enganadora é que se achava à nossa esquerda ao seguirmos a estrada que conduz a Kris; dali parte uma senda sobre o chott a qual leva a Fetnassa, passando pela península de Nifzaua. Halef estendeu a mão e apontou para baixo.

- Vês o chott, sídi?...

- Vejo.

- Já o cruzaste alguma vez?

- Não.

- Então, dá graças a Alá, pois poderias estar fazendo companhia aos teus antepassados! E nós vamos mesmo atravessá-lo?

- Que dúvida!

- Bismillah, em nome de Deus! O meu amigo Sadek deve ainda estar vivo.

- Quem é ele?

- O meu irmão Sadek é o mais célebre guia do chott Djerid; jamais deu um passo em falso. Pertence à tribo dos Merasia e nasceu em Mui Hamed mais vive em Kris com seu filho, que é um valente guerreiro. Conhece o chott como ninguém e é o único a quem eu ouso confiar a tua preciosa existência, sídi. Seguimos diretamente para Kris?

- Quanto tempo falta para lá chegarmos?

- Pouco mais de uma hora.

- Então, desviemos para oeste. Vamos ver se encontramos vestígios dos assassinos.

- Acreditas que tenham ido mesmo para Kris?

- Provavelmente já acamparam e estão adiante de nós, preparando-se para penetrar no chott.

Abandonamos o caminho que vínhamos trilhando e quebramos para oeste. Nas proximidades da estrada deparamos com muitos rastros que cruzamos; depois foram se tornando mais e mais raros cessando, enfim, inteiramente. No ponto em que a estrada se bifurca para El Hamma, divisei afinal o rastro de dois cavalos, na areia e, depois de o haver examinado, concluí que se tratava dos dois assassinos. Seguimo-lo até Kris onde se cruzou com muitos outros. Adquisira a certeza de que os armênios encontravam-se na cidade. Halef ficara pensativo.

- Sídi, permites que te diga uma coisa?

- Pois não!

- É útil a gente saber ler na areia.

- Ah, agora o reconheces? Muito bem. Olha! ali está Kris. Onde mora o teu amigo Sadek?

- Segue-me!

Impeliu o animal para um grupo de cabanas e tendas situadas à sombra de um grupo de palmeiras. Chegou-se para umas amendoeiras, sob as quais havia uma cabana larga e baixa, de onde saiu um árabe que correu alegremente ao encontro de Halef.

- Sadek, meu irmão, favorito dos Califas!

- Halef, meu amigo, abençoado do Profeta!

Abraçaram-se longamente como dois namorados. Depois o árabe voltou-se para mim:

- Perdoa-me o esquecimento! Entra em minha casa que é vossa!

Aceitamos o convite. Achava-se sozinho e ofereceu-nos refrescos, a que fizemos as devidas honras. Então, Halef julgou haver chegado a ocasião propícia para apresentar-me a seu amigo.

- Este é o grande Kara Ben Nemsi, um grande taleb do ocidente que conhece a língua dos pássaros e é perito na leitura dos rastros. Já realizamos ações grandiosas: sou seu amigo e servo e propus-me convertê-lo à verdadeira fé.

O bom homem havia perguntado uma vez pelo meu nome e conservara efetivamente a palavra Karl (Carlos) na memória. Mas como não lhe fosse possível pronunciá-la, transformou-a rapidamente em Kara, acrescentando Ben Nemsi, descendente dos alemães. Infelizmente, não podia recordar-me onde havia palestrado com os pássaros; o caso é que tal afirmativa me equiparava ao sábio Salomão que, segundo a lenda, tinha o dom de falar com os animais. Também dos grandes feitos que tínhamos realizado, nada sabia. Apenas, ao passar uma vez por uma árvore, fiquei preso num ramo, enquanto o meu pequeno cavalo berbere continuou o seu caminho. A parte mais brilhante da diplomacia de Halef foi a afirmação de que eu estava sendo catequizado por ele. Precisava dar-lhe um corretivo e, por isso, perguntei a Sadek:

- Conheces o nome inteiro do teu amigo Halef?

- Conheço.

- Como é?

- Hadji Halef Omar.

- Não é tudo. - Chama-se Hadji Halef Omar Ben Hadji Abul Abbas Hadji Davoud al Gossara. Assim ficas sabendo que ele pertence a uma família piedosa e de merecimentos, cujos membros foram todos Hadji, se bem que...

- Sídi, - interrompeu-me Halef com uma indiscritível pantomima de espanto, - não louves ao teu servo! Tu sabes que sempre te obedecerei sem discussão.

- Espero que sim, Halef, mas também não quero que fales de nós. Melhor farias se perguntasses ao teu amigo Sadek onde se encontra o seu filho, de quem me falaste!

- Falou de fato nele, efêndi? - perguntou-me o árabe. Alá te abençoe, Halef, porque te lembras dos que te estimam! Omar Ibn Sadek, meu filho, passou o chott e foi a Septimi e voltará ainda hoje.

- Também nós queremos passar o chott e tu é que serás o nosso guia - disse Halef.

- Vós? quando?

- Ainda hoje.

- Para onde vais, sídi?

- Para Fetnassa. Que tal se acha o caminho pelo chott?

- Perigoso, muito perigoso. Só existem dois caminhos seguros para o outro lado: El Toserija entre Toser e Fetnassa e El Suida entre Nefta e Sarsim. Mas o caminho daqui a Fetnassa é o mais perigoso, e só dois, aqui em Kris, o conhecem bem, eu e Arfan Rakedim.

- Teu filho não conhece também o caminho?

- Sim, sozinho não o fez ainda, mas conhece melhor o trajeto para Seftimi.

- Este, até certa altura, é comum com o que conduz a Fetnassa, Mais de dois terços, sídi.

- Se partimos ao meio-dia, quando chegaremos a Fetnassa?

- Antes de romper o dia, se os teus animais forem bons.

- Mas queres atravessar o chott de noite?

- Se houver luar. Senão, pernoitaremos no charco, num lugar em que o sal fôr suficientemente consistente para suportar o peso do acampamento.

- Queres ser nosso guia?

- Sim, quero, efèndi. Vamos ver que tal está o chott! É a primeira vez que encontras terreno como esse?

- Não.

- Então vamos! Verás o tremedal da morte, o lugar maldito, o mar do silêncio, sobre o qual te guiarei, a salvo do perigo.

Deixamos a choupana e nos dirigimos para o leste. Atravessamos um trecho largo e pântanos o e alcançamos a margem do chott cujas águas estavam encobertas pela crosta de sal. Atravessei a camada salina com a minha faca e vi que tinha a espessura de 14 centímetros. Era tão dura, que suportava o peso de um homem de tamanho médio. Em vários pontos a areia solta havia sido levada pelo vento, permitindo ver o reflexo azul-celeste do traiçoeiro espelho. Achava-me eu ocupado com essa verificação, quando uma voz se fez ouvir, atrás de nós. - Salam aleikum, a paz seja convosco! Voltei-me. Avistei um beduíno delgado e de pernas tortas, a quem uma doença ou talvez um tiro levara o nariz.

- Aleikum! - respondeu Sadek. - Que faz o meu irmão Arfan Rakedim aqui no chott? Pelo traje vê-se que está de viagem. Haverá viajantes estrangeiros para conduzir pelo sobha?

- Adivinhaste - respondeu o interrogado. - São dois homens que virão daqui a pouco.

- Para onde querem ir?

- Para Fetnassa.

O homem chamava-se Arfan Rakedim e era, pois o outro cicerone, de que Sadek falara. Ele apontou então para mim e Halef e perguntou:

- Esses dois estrangeiros querem ir para a outra margem?

- Querem. Qual é o seu destino?

- Fetnassa também.

- E tu vais levá-los?

- Adivinhaste.

- Poderão aproveitar e ir comigo. Pouparás assim não pouco trabalho.

- São amigos que me não dão trabalho nenhum.

- Eu sei que és avarento e não me dás coisa alguma. Não me tiraste, quase sempre, os viajantes mais ricos?

- Não tirei viajante algum. Conduzo somente as pessoas que me procuram, espontaneamente.

- Como é que o teu filho se tornou perito na estrada de Seftimi? Vós me roubais o pão para que eu morra de fome. Mas Alá há de castigar-vos e dirigir os vossos passos para os abismos do chott.

Talvez a concorrência houvesse gerado aqui uma inimizade, mas via-se que esse homem, além do mais, não tinha bons olhos. Eu não confiaria nele de modo algum. Afastou-se e seguiu pela margem onde, a certa altura, surgiram os dois cavaleiros que ele devia guiar. Eram os dois homens que tínhamos encontrado e perseguido no deserto.

- Sídi, chamou Halef - tu os conheces?

- Conheço-os.

- Vamos deixá-los ir em paz?

Halef já tinha levantado a arma para atirar. Naturalmente eu o sustive.

- Deixa-os, não nos escaparão.

- Quem são aqueles homens? - perguntou o nosso guia.

- Assassinos - respondeu Halef.

- Mataram alguma pessoa da tua família?

- Não.

- Então deixa-os ir em paz! Não é bom a gente meter-se em negócios alheios.

O homem falava como um verdadeiro beduíno. Julgava não valer a pena lançar um olhar a esses homens que lhe eram apontados como assassinos. Também eles nos haviam visto e reconhecido.

Notei que se apressavam para chegar à lagoa. Alcançada esta, ouvimos uma gargalhada de desprezo. Evidentemente queriam nos insultar.

Voltamos à choupana. Descansamos ainda até o meio-dia, munimo-nos das indispensáveis provisões de boca e iniciamos a perigosa travessia.

Durante o inverno, com o auxílio de patins, percorri milhas e milhas, sobre rios desconhecidos, esperando afundar a cada passo. Entretanto, jamais experimentei a sensação que se apossou de mim, quando pisei o traiçoeiro chott. Não era receio ou medo, mas uma sensação semelhante a do funambulista que não sabe ao certo, se o fio que o sustenta foi bem amarrado. Em lugar do gelo, uma camada de sal sob os pés. Para mim, isso constituía uma novidade. O som esquisito, a cor, a cristalização dessa crosta, tudo me era estranho. Não podia sentir-me em segurança. A cada passo examinava e procurava verificar a resistência do solo. Trechos havia em que este era tão duro e liso, que se podia andar de patins. Noutros aparecia outra vez a massa lodacenta e fofa da neve caída, incapaz de suportar o menor peso.

Após me ter orientado um pouco, tornei a montar a cavalo, entregando-me ao instinto do animal e à ciência do guia.

O pequeno potro não dava o menor indício de percorrer tal caminho pela primeira vez. Troteava muito bem disposto onde havia segurança e, quando sentia que o terreno não era firme, avançava cautelosamente por estreitos carreiros. Por vezes, tais carreiros eram tão estreitos que mal permitiam a passagem. Nessas ocasiões, movia as orelhas para frente e para trás, examinava o solo com o focinho, bufava como se desconfiasse ou como se meditasse sobre o perigo iminente, chegando até a experimentar a resistência do chão com prudentes batidas da pata dianteira.

O guia ia na frente, seguido por mim; Halef fechava a retaguarda.

As precauções a tornar absorviam totalmente a nossa atenção. Mal trocávamos uma ou outra palavra. Há três horas que caminhávamos, aproximadamente, quando Sadek se dirigiu a mim:

- Sídi, tome cuidado! Agora vem a parte mais perigosa de todo o trajeto.

- Perigosa por quê?

- O sendeiro vai encontrar diversos pontos de água funda e, em certos trechos, uma passagem com largura inferior a dois palmos.

- Mas o chão é suficientemente resistente?

- Isso não posso garantir; essa trilha está sujeita a alterações, tanto na direção como na largura.

- Então vou apear para dividir o peso.

- Sídi, não faz isso. Teu cavalo anda com mais segurança do que tu. O guia era senhor e mestre na matéria, por isso, obedeci permanecendo montado. Mas ainda hoje me lembro daqueles dez minutos, que se seguiram. Nos momentos críticos, esse curto intervalo de tempo equivale a uma eternidade.

Havíamos alcançado um terreno ondulado. O relevo era de sal endurecido e consistente, mas o solo das baixadas era feito de uma massa viscosa e mole, só transitável em faixas estreitas. E, nesta altura, apesar de estar montado, a água esverdeada chegava não raras vezes às coxas, de sorte que era preciso procurar debaixo d’água o terreno sobre o qual se devia passar. Mas o pior era que o próprio guia e também os animais tinham que procurar e examinar primeiro estes pontos, antes de se arriscarem a firmar-se e, não obstante, eram tão falhas e traiçoeiras essas bases, que se não podia perder um segundo a mais, sob pena de desaparecer no abismo, na profundidade. Era horrível!

Chegáramos a um ponto, onde, numa extensão de vinte metros, a largura da senda não era superior a dez polegadas.

- Sídi, atenção! Estamos no meio do terreno da morte - advertia o guia.

Enquanto continuava a trotear, voltou o rosto para o oriente, e começou a rezar em voz alta a sagrada Fatcha:

- Em nome de Deus Misericordioso! Louvor e glória a Deus, Senhor do mundo e ao Misericordiosíssimo que reinará no dia do juízo final. A Ti queremos servir e a Ti suplicamos para que nos conduzas no caminho verdadeiro dos que se alegram com a Tua graça, e não no caminho daqueles, sobre os quais...

Halef, atrás de mim, entrara a acompanhar a oração, mas, súbito ambos emudeceram ao mesmo tempo; dentre os dois relevos mais próximos detonou um tiro. O guia levantou os braços, deu um grito desarticulado, falseou o pé e, no mesmo instante, sumiu-se sob a camada de sal, que se fechou sobre a sua presa.

 

Em tais momentos, o espírito humano desenvolve uma atividade tão intensa que os pensamentos o cruzam com a rapidez do raio e com uma nitidez extraordinária.

Mal tinha partido o tiro, ainda não desaparecera por completo o guia... e já eu tivera a viva intuição do que se passava. Os dois assassinos queriam eliminar os seus

acusadores; e, fácil lhes fora conquistar o guia Rakedim, porque este tinha inveja do nosso. Não era necessário que nos visassem diretamente. Bastava matar o nosso guia, para irremediavelmente nos perder. Tinham se emboscadp aqui, no lugar mais  perigoso de toda a travessia, a fim de matar Sadek. Agora, podiam calmamente esperar o nosso fim próximo.

Percebi que Sadek havia sido atingido na cabeça, apesar da rapidez com que tudo se passou. Teria a bala atingido também o meu cavalo, ou o estampido o assustara? O caso é que o pequeno potro da Berberia estremeceu violentamente, perdeu o equilíbrio e afundou-se.

- Sídi! - Halef gritou atrás de mim, com indescritível horror.

Sem a minha presteza estaria perdido. Enquanto o cavalo ia submergindo e debalde procurava firmar-se nas patas dianteiras, apoiei as duas mãos na sela, e saltei sobre a cabeça do pobre animal, que, com essa pressão, desapareceu completamente no terreno salitroso.

Deus ouvira a mais fervorosa oração da minha vida, salvando-me do perigo iminente. Para orar, não são precisos muitos minutos, nem muitas palavras; quando se está entre a vida e a morte, não há palavras nem tempo a medir. Apenas alcançara o terreno firme, já este cedeu sob mim; meio atolado, tornei a firmar os pés e me aprumei. Sentia-me atraído para o fundo e, não obstante, avançava atascando-me aqui e ali. Nada ouvia, nada sentia, via apenas os três homens, lá na frente, esperando-me, de arma em punho.

Finalmente, encontrei terreno firme sob os pés, terreno firme e largo, se bem que igualmente salino. Mas suportava bem o meu peso. Dois tiros detonaram. Deus quis que ainda vivesse. Tropeçara e caíra. As balas passaram por mim, zunindo. Ainda trazia a minha arma às costas; por milagre não a perdera. Sem nem mesmo pensar na espingarda, atirei-me sobre os bandidos com os punhos cerrados. Foi um ataque inesperado. O guia fugiu; o mais velho dos dois sabia que sem o guia estaria perdido e precipitou-se atrás dele; ao mais moço eu consegui agarrar. Logrou libertar-se e deitou a correr; persegui-o de perto. Obcecava-o o medo e a mim a ira. Não cuidamos para onde nos levava a corrida - Ele soltou um grito medonho e rouco, e eu me atirei, ato contínuo, para trás. Desapareceu sob a lama salitrosa, deixando-me a trinta polegadas apenas da traiçoeira sepultura. Nesse momento ecoou atrás de mim um clamor angustioso.

- Sídi, socorro, socorro!

Voltei-me. No mesmo lugar onde eu firmara o pé estava Halef, lutando com a morte. Tinha afundado, mas conseguira agarrar-se na crosta de sal que ali, por sorte, era bem resistente. Acudi, tomei a espingarda e lha alcancei deitando-me no chão, por precaução.

- Segura a tira de couro!

- Peguei-a, sídi! O Allah illa Allah!

- Dá um impulso no corpo. Eu não posso chegar até aí. Firma-te bem!

Ele empregou as derradeiras forças, para levantar o corpo, ao mesmo tempo em que eu o puxava com mão forte. E assim alcançou a camada mais firme do charco. Mal tinha tomado fôlego, ajoelhou e rezou a sexagésima-quarta sura:

- Tudo que existe no céu e na terra louva a Deus; Dele é o mundo e a Ele cabe todo o louvor, pois é capaz de todas as coisas!

Ele, o muçulmano, rezava, mas eu, o cristão, não podia rezar, porque, confesso, não encontrava as palavras. Atrás de mim, estava a medonha superfície de sal, tão imóvel, tão calma e, contudo, tão traiçoeira. Tragara os nossos animais e o nosso guia. Na minha frente, via escapar o assassino, causador de tudo isso! Todas as minhas fibras estremeciam e só depois de algum tempo consegui acalmar-me.

- Sídi, estás ferido?

- Não. Mas homem, de que maneira te salvaste?

- Saltei do cavalo assim como tu, efêndi. E não sei mais nada. Só pude pensar novamente, quando consegui subir até a margem. Apesar disso, estamos perdidos.

- Por quê?

- Não temos guia. Oh Sadek, amigo de minh'alma, teu espírito me perdoará, o ter sido eu a causa da tua morte! Mas hei de vingar-te, isso te juro pela barba do Profeta; hei de vingar-te, se não perecer aqui.

- Não perecerás, Halef.

- Pereceremos, morreremos de fome e de sede.

- Teremos um guia.

- Quem?

- Omar, o filho de Sadek.

- Como nos há de achar Ele aqui?

- Não te lembras que ele foi a Seftimi e voltará ainda hoje?

- Mas não nos achará.

- Asseguro-te que nos encontrará. Não disse Sadek que o caminho para Seftimi e Fetnassa, em duas têrças-partes, é o mesmo?

- Efêndi, tu me dás nova esperança e nova vida. Sim, esperaremos até que Omar passse por aqui.

- Para ele é uma sorte, se nos encontrar. Afundaria atrás de nós, pois o caminho antigo alterou-se sem que ele saiba disso.

Deitamo-nos no chão, um ao lado do outro. O sol era tão ardente que a nossa roupa secou em poucos minutos e ficou coberta com uma crosta de sal, nas partes em que nos molháramos.

 

Diante do tribunal

Se bem que alimentasse a esperança de que o filho de Sadek, o guia assassinado, nos poderia socorrer ao voltar da sua viagem, grande era a nossa ansiedade. Talvez ele rodeasse o Chott. A tarde ia morrendo; faltavam apenas duas horas para o anoitecer, quando surgiu um vulto que se aproximava lentamente do lugar onde estávamos. Num dado momento, chegou tão perto que nos avistou.

- É ele - disse Halef que colocou as mãos em concha à boca e chamou - Omar Ben Sadek, vem cá, ligeiro!

Ao ouvir o apelo, o moço estugou o passo e, dentro em pouco, achava-se diante de nós. Reconheceu o amigo de seu pai.

- Bem-vindo sejas, Halef Omar!

- Hadji Halef Omar! - emendou Halef.

- Perdoa-me! O prazer de ver-te é a causa dessa falta. Vieste a Kris visitar o meu pai?

- Vim.

- Onde está ele? O fato de estares no Chott é sinal de que ele se acha nas proximidades.

- Ele está perto - respondeu Halef, solenemente.

- Onde?

- Omar Ibn Sadek, ao crente cabe ser forte quando atingido pelo kismet.

- Explica-te Halef, explica-te. Sucedeu alguma desgraça?

- Infelizmente acertaste.

- O que foi?

- Alá levou teu pai para junto dos seus antepassados.

O jovem ficou perplexo diante de nós, sem poder articular palavra. O seu olhar tornou-se fixo, espelhando o horror e a mágoa que lhe iam n'alma, e o seu semblante empalideceu terrivelmente. Por fim, a muito custo, voltou ao uso da palavra, mas falou de modo diverso do que eu supunha.

- Quem é este sídi? - perguntou.

- É Kara Ben Nemsi, que eu levei à casa do teu pai. Perseguimos dois assassinos, que atravessaram este Chott.

- Meu pai é que vos conduzia?

- Sim, ele foi o nosso guia. Os assassinos compraram Arfan Rakedim e nos armaram uma cilada. Mataram teu pai; ele e os animais foram tragados pelo Chott; nós nos salvamos por obra e graça de Alá.

- Onde estão os assassinos?

- Um morreu no lodo salitroso e o outro foi com o khabi (1) para Fetnassa.___

 

(1) - Guia.

 

- Então a passagem está alterada?

- Sim. Não poderás confiar nela.

- Onde desapareceu meu pai?

- Ali, a trinta passos donde estamos.

Omar adiantou-se o quanto permitia a solidez do terreno, e durante alguns instantes fitou estarrecido a paisagem que se lhe estendia pela frente. Depois, virou-se para o oriente.

- Alá, Deus do poder e da justiça, ouve-me! Maomé, profeta do Senhor, ouve-me! Vós califas e mártires da fé, ouvi-me! Eu, Omar Ben Sadek, não sirei, não farei a barba, não visitarei a mesquita enquanto o Djehenna não receber o assassino de meu pai! Juro por Alá.

Fiquei profundamente impressionado com esse juramento, nada, porem, podia opor.

Omar voltou a sentar-se junto de nós. Depois pediu quase com naturalidade: - Contem-me o que se passou.

Halef satisfez-lhe a curiosidade. Logo que terminou, o jovem levantou-se:

- Acompanhem-me! - Não pronunciou nem mais uma palavra e, calado, tomou a direção, donde viera.

Já tínhamos passado os lugares mais perigosos. Não havia mais nada a temer. Caminhamos toda a tarde e toda a noite e pela manhã achamo-nos às margens da península Nifzaua, avistando Fetnassa à nossa frente.

- E agora? - perguntou Halef.

- Basta seguir-me! - respondeu lacônicamente Omar.

Era esta a primeira palavra que nos dirigia, desde a véspera. Encaminhou-se logo para uma das choupanas que ficavam ali à margem. Um homem de idade estava sentado diante dela.

- Salam aleikum! - saudou Omar.

- Aleikum - redargüiu o velho.

- És tu Abdullah el Hamis?

- Para lhe servir - respondeu ele, sacudindo afirmativamente a cabeça.

- Viste o khabir Arfan Rakedim, de Kris?

- Ele pisou a terra firme ao raiar do dia, acompanhado de um estrangeiro.

- Que faziam eles?

- O khabir descansou aqui em minha casa, depois seguiu para Bir Rekeb, donde pretende voltar a Kris. O desconhecido comprou um cavalo de meu filho e perguntou pelo caminho que leva a Kbilli.

- Eu te agradeço, Abu el Malah!

Omar seguiu ern silêncio e nos levou a uma choupana, onde comemos algumas tâmaras e bebemos uma xícara de lagmi. Depois continuamos a viagem até Bechni, Negua e Mansura, onde nos informaram que estávamos na pista dos assassinos. Mansura dista pouco do grande oásis Kbilli. Neste lugar existia ainda um uakil (1)

 

(1) - governador

 

turco que administrava a península Nifzaua, sob a fiscalização do regente de Túnis. Para isso dez soldados haviam sido postos à sua disposição.

Entramos primeiro num café, no qual Omar não se demorou. Em seguida deixou-nos, para colher informações, voltando somente uma hora mais tarde.

- Vi-o - anunciou ele.

- Onde? - perguntei eu.

- Em casa do uakil.

- Em casa do governador?

- Sim. É seu hóspede e anda finamente trajado. Se querem falar com ele, acompanhem-me, pois é hora de audiência.

Achava-me vivamente interessado pelo caso. Um assassino hóspede de um governador!

Omar nos levou, por um lugar aberto, até uma casa de pedras, baixa, cujos muros externos eram inteiramente destituídos de janelas. Diante da casa, achavam-se nefers (2) a fazer exercícios sob às ordens do onbachi (3) enquanto o saka (4) os apreciava, encostado à porta. Foi-nos facultada a entrada sem dificuldades e um negro indagou dos nossos desejos. Conduziu-nos ao selamluk (5) em cujas paredes nuas não se via nem um único adorno; apenas um tapete velho, estendido a um canto, procurava dar-lhe melhor aspecto. Sobre ele vimos sentado um homem de traços imprecisos, que fumava tabaco num antiquíssimo huka (6) persa.

- Que quereis? - perguntou ele.

A entonação com que fêz a pergunta não me agradou. Respondi com outra:

- Quem és tu?

Ele me olhou com estupefação e redargüiu:

- O uakil.

- Desejamos falar com o hóspede, que chegou à tua casa, hoje ou ontem.

- Quem és tu?

- Aqui tens o meu passaporte.

Passei-lhe o documento. Lançou um olhar sobre o mesmo, dobrou-o e o meteu no bolso de suas largas bombachas.

- Quem é aquele homem? - continuou ele a perguntar, apontando-para Halef.

- Meu servo.

- Como se chama?

- Hadji Halef Omar.

- Quem é o outro?

- É o guia Omar Ben Sadek.

 

(2) - soldados

(3) - sargento

(4) - tamboreiro

(5) - sala de audiências

(6) – cachimbo

 

- E tu quem és?

- Já leste o meu nome aí!

- Não li nada.

- Pois está no passaporte.

- Está escrito com os caracteres dos infiéis. De quem o recebeste?

- Do governador francês na Argélia.

- O governador francês na Argélia não manda nada aqui. Teu passaporte tem o valor dum papel em branco. Portanto, quem és?

Resolvi conservar o nome que me tinha dado Halef.

- Chamo-me Kara Ben Nemsi.    

- Tu és filho dos nemsi? Não os conheço. Onde habitam?

- Do oeste da Turquia até às terras dos franceses e ingleses.

- É grande o oásis em que vivem, ou possuem eles vários oásis pequenos?

- Habitam um único oásis, mas tão grande que nele existem 5O milhões de homens.

- Allah akbar, Deus é grande! Há oásis que parecem verdadeiros formigueiros. Nesses oásis também há arroios?

- Há quinhentos rios e milhões de arroios. Muitos dos cursos dágua são tão grandes, que permitem a navegação de embarcações que comportam mais homens do que os que habitam em Basma ou Rahmath.

- Allah kerim, Deus é misericordioso! Que desgraça se todos esses navios fossem engolidos, numa hora, pelos rios! Em que Deus crêem esses nemsi?

- Eles crêem no mesmo Deus que é o teu, chamam-no, entretanto, de Pai e não de Alá.

- Então não são sunitas mas xiitas?

- São cristãos.

- Alá os lance no fogo eterno! Então também és cristão?

- Sou.

- Um djaur? E te atreves a falar com o uakil de Kbilli! Mandarei dar-te bastonadas, se não tratares, incontinenti, de te afastares da minha vista.

- Cometi alguma falta contra as leis ou acaso fiz algo que te ofendesse?

- Sim. Um djaur não deve atrever-se a aparecer diante dos meus olhos. Como se chama mesmo teu guia?

- Omar Ben Sadek.

- Bem! Omar Ben Sadek, há quanto tempo serves a este nemsi?

- Desde ontem.

- Não é muito. Quero, pois, ser complacente contigo; mandarei dar-te apenas vinte bastonadas na planta dos pés.

Voltou-se para mim e continuou:

- E como se chama o teu servo?

- Allah akbar, Deus é grande, mas infelizmente fez tão pequena a tua memória, que não és capaz nem mesmo de gravar dois nomes. - Meu servo, como já te disse, chama-se Hadji Halef Omar.

- Queres zombar de mim, djaur? Depois darei a tua sentença! Pois bem. Halef Omar, tu és um hadji e serves a um infiel? Isso agrava a tua culpa. Há quanto tempo estás com ele?

- Há cinco semanas.

- Então levarás sessenta bastonadas na planta dos pés, e passaras fome e sede durante cinco dias! E agora tu, outra vez; como é mesmo o teu nome?

- Kara Ben Nemsi.

- Bem, Kara Ben Nemsi, cometeste três grandes crimes.

- Quais, sídi?

- Não sou sídi, não! Tens que me chamar de djenahiniz ou bazretiniz, ou seja, Vossa Majestade ou Vossa Alteza! Os teus crimes são os seguintes: em primeiro lugar seduziste dois crentes verdadeiros para te servir, o que exige 15 bastonadas; em segundo lugar te atreveste a interromper-me no meu kef (1), portanto, mais 15; em terceiro lugar, duvidaste da minha memória, 20 bastonadas. Essas, somadas, perfazem 50, que te serão aplicadas na planta dos pés. E como me assiste o direito de pedir por cada sentença os respectivos emolumentos, tudo quanto possuis e trazes contigo passará a ser de minha propriedade.

- O' grande djenahiniz, eu te admiro: tua justiça é elevada, tua sabedoria altíssima, tua graça admirável e tua prudência e astúcia incomparáveis. Mas eu te peço, nobre bei de Kbilli, permite-nos ver o teu hóspede, antes de sermos castigados.

- Que desejas dele?

- Suponho ser um conhecido meu e desejava vê-lo.

- Não é conhecido teu. Pois é um grande guerreiro, um nobre filho do sultão e um austero seguidor do Alcorão, portanto, nunca será o amigo de um infiel. Mas para que veja como o uaquil Kbilli castiga os crimes, ordenarei que venha cá. Não serás tu quem gozarás do encontro. Dar-lhe-ás o agradável espetáculo do teu sofrimento. Aliás, ele sabia que virias à minha casa.

- Ah, sim! mas como?

- Passastes há pouco por ele sem tê-lo visto e ele deu parte de vós imediatamente. Não tivésseis vindo espontaneamente, ter-vos-ia mandado buscar.

- Ele deu parte de nós? Por quê?

- Já ouvirás o motivo. Terás de receber, então, um segundo castigo, maior ainda do que aquele que já te ditei.

A maneira como decorreu nossa audiência em casa desse funcionário foi, todavia, admirável e sui generis. O uakil que tinha sob as suas ordens dez soldados num oásis tão afastado e abandonado, fora outrora, provavelmente, quando muito, um tschansch (2) ou mulasim (3) e todo mundo sabe quanto vale um tenente turco. Esses subalternos, não são ou não foram outra coisa, senão engraxates ou enchedores de cachimbos dos superiores. Mandaram o coitado para Kbilli, a fim de

 

(1) - sesta

(2) - sargento

(3) - tenente

 

oferecer-lhe a oportunidade de cuidar de si próprio. Depois disso nunca mais se lembraram dele, pois o bei (1) de Túnis havia expulso do país todos os soldados turcos, sendo que os beduínos só estavam sob o protetorado do governador geral, para este enviar anualmente aos caciques das tribos as usuais distinções honoríficas. O bom do uakil era, pois obrigado a lançar mão da extorsão para se sustentar e, como esse processo aplicado à gente da terra era sempre perigoso, um estrangeiro como eu devia ser considerado magnífica vítima. Não sabia nada da Alemanha, desconhecia a significação dos consulados, habitava entre salteadores nômades, supunha-me indefeso e estava convencido que podia fazer comigo o que bem lhe aprouvesse. Na verdade eu me achava entregue a mim mesmo, mas não me passou pela cabeça atemorizar-me com as ameaças de Sua Alteza; muito pelo contrário, dava-me prazer o admirável desembaraço com que ele nos agraciava com bastonadas. Ao mesmo tempo, achava-me curioso de saber se o seu hóspede era efetivamente o personagem por nós procurado. Omar podia ter-se enganado, o que aliás não era muito provável, pois o hóspede do uakil nos denunciara. Se presumia saber qual o crime que me atribuíam era porque caíra nas boas graças do uakil, aproveitando-se disso para nos prejudicar. O governador bateu palmas e imediatamente apareceu um servo negro, que se prostrou diante dele. O uakil segredou-lhe algumas palavras, em virtude do que se afastou. Depois de algum tempo abriu-se a porta, entrando os dez soldados com o seu onbachi. Apresentavam um aspecto singular com um trajo arranjado de excêntricas e velhas peças de roupa, que em nada se parecia com um uniforme militar. A maioria estava descalça e todos traziam armas com que se podia fazer tudo, menos atirar. Prostraram-se em confusão diante do uakil, que os passou em revista com olhares marciais, dando em seguida a ordem: - “Kalkin - levantai-vos!”

Obedeceram todos, e o onbachi arrancou o seu enorme sarras da bainha.

- Kilyn-syraji - formai fileira - berrou ele em voz de estentor.

Os soldados se postaram um ao lado do outro e pegaram desajeitadamente nas armas.

- Has-dur - ombro armas! - comandou em seguida.

 As armas voaram, batendo de encontro umas às outras, contra os muros ou contra as cabeças dos digníssimos heróis, sem maiores incidentes.

- Isalam-dur - apresentar armas!

Novamente houve um entrechocar de armas, e não me admirei ao ver uma das espingardas perder o cano, em meio aquela balbúrdia. O soldado baixou-se calmamente, levantou-o, examinou-o por todos os lados, depois ergueu-o contra a luz para se certificar de que o orifício pelo qual passa o tiro ainda existia, em seguida sacou do bolso uma cordinha de fibras de coqueiro e, com todo o cuidado, firmou com ela o cano no seu devido lugar.

Finalmente, com a alegria estampada na face, levou a arma concertada à posição exigida pela última voz de comando.

 

(1) - governador geral

 

- Sessiz-sojle-me-niz - firmes e não conversem fiado!

A essa voz apertaram os lábios com visível esforço e, por um rápido e cômico piscar d’olhos, mostraram que tinha o firme propósito de não pronunciar nem mais uma só sílaba. Conscios da sua importância, haviam adivinhado o motivo que os chamara. Vinham para prender três criminosos! Esforçavam-se para impressionar-nos e fazer boa figura. Quase não pude conter o riso que me provocaram essas ridículas manobras militares. Vi que essa minha disposição de espírito tinha tido o benéfico efeito de fortificar a coragem dos meus companheiros. A porta tornou a absir-se. O esperado hóspede do uakil entrou. Era ele mesmo. Sem se dignar sequer a nos lançar um olhar, dirigiu-se para o tapete, sentou-se ao lado do governador, tomou o cachimbo das mãos do negro, que entrara com ele, e acendeu o cachimbo. Só então nos olhou de alto a baixo com o maior dos desprezos. O governador tomou a palavra e se dirigiu a mim:

- Este é o homem que queríeis ver. É um conhecido teu?

- Ê sim.

- Disseste a verdade; ele é conhecido teu, isto é, tu o conheces, mas não é teu amigo.

- Agradeço tais amizades.

- Como é o nome dele?

- Chama-se Abu en Nassr.

- Não é verdade! o nome dele é Hamd el Amasat.

- Djaur, não te atrevas a taxar-me de mentiroso, porque senão receberás vinte bastonadas a mais! Sim, de fato, o meu amigo se chama Hamd el Amasat, mas fica sabendo, cão infiel, que, quando ainda me achava destacado em Estambul como miralei (1), certa noite fui assaltado por bandidos gregos, acudindo nessa ocasião Hamd el Amasat, que falou com eles e salvou-me a vida. Desde aquela noite passou a chamar-se Abu en Nassr, - pai da vitória, - porque ninguém pode resistir-lhe, nem mesmo um salteador grego.

Não pude conter-me. Sacudi a cabeça, rindo, e perguntei.

- Tu dizes ter sido coronel em Estambul? Em que força?

- Na guarda, filho dum chacal.

Dei um passo a frente e levantei a mão direita:

- Se te atreveres a insultar-me mais uma vez, dar-te-ei uma bofetada, para que amanhã estejas com o nariz em forma de minarete! Tu lá tens a envergadura de um coronel? Patranhas desse jaez podes contar a esses heróis do oásis, mas não a mim, compreendeste?

Levantou-se com uma presteza fora do comum. Nunca se dera com ele fato semelhante, jamais haviam ouvido uma manifestação de rude franqueza como essa. Olhou-me fixamente como se eu fosse um fantasma e gaguejou então, não sei se de raiva ou de estupefação:

 

(1) - coronel

 

- Homem, até lavi-pascha (1) eu poderia ser, se não tivesse preferido esse cargo aqui em Kbilli.

- Sim, tu és um verdadeiro prodígio de valentia e de bravura. Lutaste com bandidos que o teu amigo venceu com simples palavras. Era provavelmente um velho conhecido deles, ou talvez mesmo um membro da quadrilha. Na Argélia cometeu um assassinato para roubar; em uádi Tarfaui matou um homem; no Chott atirou no guia, pai desse moço, para acabar comigo. Persegui-o até Kbilli, e agora encontro esse homem como amigo de um cidadão que afirma ter sido coronel, a serviço do chefe da nação! Acuso-o, pois, de assassinato e exijo que o prendas!

Então Abu en Nassr levantou-se também e vociferou:

- Esse homem é um djaur. Tomou vinho e não sabe o que está dizendo. ele que vá primeiro cozinhar a sua embriaguez e depois venha; assumir a responsabilidade do que disse.

Era demais. Atirei-me sobre o armênio, agarrei-o, suspendi-o e lancei-o ao solo. Levantou-se de um salto e puxou da faca.

- Cão, puseste a mão num crente, morrerás!

Com estas palavras lançou-se sobre mim, furioso. Mas dei-lhe um murro tão certeiro que o prostrei imóvel por terra.

- Agarrem-no! - ordenou o uakil aos seus soldados, apontando para mim.

Esperava que me agarrassem imediatamente. Entretanto, com grande admiração vi que a coisa era diversa. O sargento veio para a frente dos seus companheiros e comandou: - Komyn-silahlari - ponde de lado as armas!

Todos se curvaram ao mesmo tempo, depondo as armas no chão e voltaram em seguida à posição anterior.

- Dondurmek sagha - à direita, volver!

Fizeram meia volta à direita, ficando enfileirado um atrás do outro.

- Gityn erkek tchewresinie, kochyn-iz - rodeiem esse homem, marchem!

Como no campo de exercícios, levantaram o pé esquerdo; o cerra-fila marcava - sol-sagha-sol-sagha - esquerdo, direito - esquerdo, direito. Marcharam em derredor de mim e pararam, à voz de comando do sargento, depois de cerrarem o círculo.

- Onu tutmyn - agarrem-no!

Vinte mãos, cem dedos escuros e sujos se estenderam por detrás, pela frente, da direita e da esquerda, segurando-me pelas abas do albornoz. A investida era por demais cômica, para que eu fizesse um movimento de defesa.

- Djennabm-iz, bizim-war herifn - Alteza, pegamos o bicho! - comunicou o supremo comando das “tropas”.

- Brakyn-jok onu tekrar azad - Conservem-no seguro! - ordenou o governador com ar grave.

Os cem dedos unharam com mais firmeza no meu albornoz. A imperturbável dignidade oriental com que tudo isso se passou, era de uma comicidade quase

 

(1) - major

 

irresistível. Entrementes, Abu en Nassr tornara a levantar-se. Seus olhos fuzilavam de raiva e de vingança, quando assim se dirigiu ao uakil:

- Tu o mandarás fuzilar!

- Sim, será fuzilado; antes, porém, quero ouvi-lo, pois sou um juiz justo e não condeno ninguém sem ouvi-lo primeiro. Apresenta a tua acusação.

- Este djaur, - começou o assassino, - quando atravessava o Chott com um guia e um servo, encontrou-se conosco e precipitou o meu companheiro no abismo, fazendo com que morresse miseravelmente afogado.

- Por que fêz isso?

- Por vingança.

- De quem queria vingar-se?

- Matou um homem no uádi Tarfaui; nós, acidentalmente, chegamos ao local do crime e procuramos prendê-lo, mas ele nos escapou.

- Podes jurar pela verdade do que disseste?

- Juro, pelas barbas do profeta!

- Isso basta! Ouviste estas palavras? - perguntou-me, então.

- Ouvi.

- E que dizes a isso?

- Que ele é um canalha. Foi ele o assassino; para acusar-me trocou, apenas, as pessoas.

- Ele jurou e tu és um djaur. Não creio em ti, mas nele.

- Pergunta ao meu servo! Ele é minha testemunha.

- Serve a um infiel, e portanto as suas palavras de nada valem. Convocarei o supremo conselho do oásis para julgar o caso.

- Não queres crer nas minhas palavras porque sou cristão, e no entanto confias num djaur. Esse homem é armênio e não muçulmano.

- Ele jurou pelo Profeta.

- Isso é baixeza e pecado, e Deus o há de castigar. Se não queres ouvir-me, acusá-lo-ei no conselho do oásis.

- Um djaur não tem direito de acusar um crente e nem mesmo o conselho lhe poderá fazer alguma coisa, porque o meu amigo possui um bu-djeraldu e é, portanto, um gielgeda -padischahnunn.

- E eu sou um gielgeda senin kyraluem, um protegido do rei. Também eu possuo um bu-djeruldu que está no teu bolso.

- Está escrito na língua dos djaurs, e sujar-me-ia se o lesse. O teu caso será examinado ainda hoje, mas primeiro serás açoitado com os teus companheiros. Tu receberás cinqüenta, teu servo sessenta e teu guia vinte bastonadas. Conduze-os ao pátio, que eu irei em seguida!

- Allekomun elleri - larguem-no! - ordenou imediatamente o sargento.

Os cem dedos soltaram-me.

- Alyn-iz tüfenkleri - tomem as armas!

Os heróis se precipitaram sobre as espingardas e as tornaram novamente.

- Wirmyn hep-utch - cercai todos os três!

Obedientes, cercaram a mim, a Halef e a Omar. Fomos conduzidos ao pátio, em cujo centro havia um bloco, que servia de banco. A sua construção especial indicava para o que servia. Sobre ele os condenados eram castigados com bastonadas. Como me entregasse calmamente, os meus companheiros seguiram também sem resistência; entretanto via nos olhos deles que um simples sinal poria termo à farsa. Depois de algum tempo apareceu o uakil com Abu el Nassr. Diante deles vinha o preto com o tapete. Estendeu-o no chão, e, depois de sentados, deu-lhes o fogo para acender os cachimbos. Então o uakil apontou para mim:

- Wermyn ona elli - dai-lhe cinqüenta!

Chegara o momento oportuno.

- Ainda estás com o meu bu-djeruldu no bolso? - perguntei-lhe.

- Sim.

- Então dá-mo cá.

- Não to devolverei!

- Por quê?

- Para que nenhum crente vá se sujar com ele.

- Queres de fato mandar bater-me?

- Que dúvida!

- Então te mostrarei o que faz um nemsi quando se vê obrigado a procurar justiça por si mesmo.

O pequeno pátio estava cercado de altos muros por três lados, achando-se o edifício no último. Não havia outra saída senão aquela pela qual entráramos. Espectadores não havia. Éramos, pois, três contra treze. Não nos haviam tirado as armas; os usos cavalheirescos do deserto assim o exigiam. O uakil era inofensivo como todos os seus subordinados. Só Abu el Nassr podia ser perigoso. Antes de mais nada precisava pô-lo fora de combate.

- Tens uma corda? - perguntei a Omar em voz baixa.

- Tenho a corda do meu albornoz.

- Então desamarra-a. Voltei-me para Halef e disse:

- Corre para a porta de saída e não deixes passar ninguém. - E já. - Com essas palavras saltei de inopino pelos soldados sobre Abu el Nassr: puxei-lhe os braços para as costas e comprimi-lhe o joelho com tanta violência sobre a nuca, que não lhe foi possível alterar a posição em que estava.

- Amarra-o - ordenei a Omar. Essa ordem era supérflua, porque Omar me compreendera logo e aprontara-se para passar a corda pelos braços do armênio. Antes que pudesse esboçar o menor gesto de resistência já estava atado. O meu ataque repentino tinha deixado o uakil e a sua guarda tão perplexos, que não se haviam assenhoreado da situação e me olhavam consternados. Com a mão direita puxei a minha faca e com a esquerda agarrei o wekil pela nuca. Apavorado estendeu mãos e pernas como se já morto estivesse, porém, tanto mais vida se notou entre os soldados.

- Hatschyn aramin imdadi - fugi e trazei socorro! - berrou o sargento, que fora o primeiro a recuperar a fala. Sua espada ter-lhe-ia estorvado na fuga, por isso atirou-a longe e correu em direção à saída; os outros o seguiram. Mas ali encontraram o valente Halef de arma em punho.

- Geri, durar-siz bimda - para trás! Não se mexam! - gritou-lhes Halef.

Embasbacaram, deram volta e corriam para todos os lados a procura de abrigo nos cantos dos muros. Omar também puxara a sua faca e estava pronto, de olhar tenebroso, a enterrar o punhal no coração de Abu el Nassr.

- Estás morto? - perguntei ao uakil.

- Não, mas tu me matarás!

- Isso depende de ti, modelo de justiça e valentia. Mas desde já te previno que a tua vida está pendente de um fio de cabelo.

- Que exiges de mim, sídi?

Antes que lhe pudesse responder fez-se ouvir uma voz angustiosa de mulher. Voltei-me e vi uma pequena e gorda figura feminina que vinha rolando em nossa direção com visível esforço.

- Parem! gritou ela com voz aguda.

- Oldirme omi, dir benin kodescha - não o mates, Ele é meu marido!

Essa gorda “madame”, tão roliça, que, metida em roupas esquisitas vinha em minha direção, com movimentos natatórios, era pois a senhora governadora. Provavelmente quisera apreciar do harém, guarnecido por um gradil de madeira, a interessante execução, verificando, em seguida, com grande espanto, que a vítima desta seria o marido. Calmamente perguntei-lhe:

- Quem és tu?

- Im karv uakelum, sou a mulher do uakil - respondeu.

- Ewet, dir henun awret, giul Kbillintm - sim, é minha mulher, a rosa de Kbilli - confirmou, rangendo os dentes, o governador.

- Como se chama?

- Demar-im Mersinah, - chamo-me Mersinah - informou a matrona.

- He, demar Mersinah - sim, ela se chama Mersinah, - repetiu o uakil.

A rotunda criatura era, portanto, a “rosa de Kbilli” e se chamava Mersinah, isto é, mirta. A um ser tão delicado eu não podia negar nada.

- Se me mostrares a aurora do teu rosto, flor do oásis, solta-lo-ei - disse eu.

Imediatamente, com um movimento brusco, descobriu o rosto. Vivera muito tempo entre os árabes, cujas mulheres não usam véu, e era por isso menos retraída do que as turcas. Além de tudo tratava-se aqui, segundo pensava, da vida preciosa de seu marido.

Apresentou-se-me um rosto de mulher desbotado, cansado e difuso; cão gordo, que mal se podia distinguir os olhos e o narizinho chato.

Madame uakil devia andar pelos quarenta anos, se bem que procurasse aparentar menos, com umas sobrancelhas pintadas de noir e os lábios retocados de rouge.

Dois sinais pretos colocados em cada maçã do rosto, por meio de um carvão, davam-lhe um aspecto pitoresco, e, ao descobsir os antebraços, notei que não só as unhas mas também as mãos se achavam tingidas de verniz rouge.

- Eu te agradeço, sol de Djerid! Se me prometeres que o uakil ficará sentado nessa posição, sem se mexer - disse eu, para lisonjeá-la, - não lhe farei o menor mal.

- Kaladschak-dir - ficará sentado, eu to prometo!

- Se não o esmago como a um figo seco, ele que agradeça à tua gentileza. Tens uma voz que lembra o som da flauta, e uns olhos brilhantes como a luz do sol. O teu corpo é belo como o de Scheherezade. Só por tua causa é que lhe poupo a vida!

Soltei-o e ele se endireitou, gemendo, mas, obedientemente, conservou-se sentado. Ela me olhou, com muita atenção, da cabeça aos pés e perguntou em tom amigável:

- Quem é?

- Sou um nemsi, um estrangeiro, cuja pátria está longe, no além-mar.

- São belas as vossas mulheres?

- São belas, mas não se podem comparar com as mulheres do chott El Kebir.

Ela sacudiu a cabeça satisfeita e sorridente, e percebi que granjeara as suas boas graças.

- Os nemsi são inteligentes, muito valentes e sobretudo muito delicados; isso me foi dito muitas vezes - opinou ela. - Tu és bem-vindo! Mas por que amarraste este homem, qual a causa da fuga dos nossos soldados, e por que querias matar o poderoso governador?

- Amarrei este homem porque é assassino, os teus soldados fugiram de mim porque perceberam que os venceria a todos, e prendi o uakil porque queria bater-me e talvez mesmo condenar-me à morte, sem me fazer justiça.

- Terás justiça!

Então me convenci que as pantufas têm no oriente o mesmo poder mágico que no ocidente. O uakil viu abalada a sua autoridade e fêz uma tentativa para recuperá-la: Sou um juiz justo e hei-de...

- Sus-olmar-sen, cala-te - ordenou a matrona. - Tu bem sabes que conheço esse homem que se intitula Abu el Nassr, pai dos vitoriosos; devia era chamar-se Abu el jalani, pai dos mentirosos. Ele foi o culpado de teres sido enviado para a Argélia, precisamente quando podias ter passado a Mulasin; por culpa dele é que depois vieste para Túnis. Eu o odeio, e não me oponho a que esse estrangeiro o mate. Ele o merece.

- Não pode ser tocado, porque é um giolgeda padischabnun!

- Tutaghyzi, - cala a boca! Ele é um giolgeda padischahnun, quer dizer que está sob a proteção do padixá, e esse estrangeiro é um giolgeda uakillanan, isso é, acha-se sob a proteção da governadora, sob a minha proteção, ouviste? E quem está sob a minha tutela está a salvo de todos os males. Levanta-te e segue-me!

O pobre homem obedeceu. Apenas a governadora se voltou para ir embora ele preparou-se para segui-la. Naturalmente eu me opus logo.

- Alto! - ordenei, tornando a pegá-lo pelo pescoço. Fique quieto! Ao ouvir estas palavras ela volveu o rosto.

- Não me prometeste que o soltarias? - perguntou-me.

- Prometi, mas com a condição de que ficasse no lugar onde estava.

- Mas não pode ficar sentado aí por toda a eternidade!

- Tens razão, ó pérola de Kbilli, mas pode permanecer aí, até eu arranjar as coisas.

- Mas já está tudo em ordem!

- Como assim?

- Não te dei já as boas-vindas?

- Deste.

- És, portanto, nosso hóspede e ficarás em nossa casa enquanto te aprouver.

- E Abu el Nassr, a quem chamaste de Abu el jalani?

- Fica sob a tua guarda, e farás com ele o que bem entenderes.

- É verdade isso, uakil?

Hesitou em dar resposta, porém um olhar severo que lhe lançou a “madame” obrigou-o a falar:

- É!

- És capaz de jurá-lo?

- Eu o juro.

- Por Alá e seu Profeta?

- Obedeço? - perguntou ele à bela rosa de Kbilli.

- Obedece, sim - respondeu ela em tom que não admitia réplica.

- Então o juro por Alá e seu Profeta.

- Pode vir comigo agora? - perguntou-me a esposa do uakil.

- Pode - respondi-lhe.

- Tu também virás conosco para comer um carneiro com cuscuz.

- Tens um lugar seguro, onde possa guardar a Abu el Nassr?

- Não. Amarra-o no coqueiro, perto do muro. - Não escapará, porque mandarei guardá-lo pelos soldados.

- Eu mesmo me encarrego de vigiá-lo - respondeu Omar em meu lugar. Não há de fugir, mas pagará com a morte a vida de meu pai. Minha faca será implacável.

Desde o instante em que fora algemado, o assassino não pronunciara palavra mas, quando se viu obrigado a seguir-nos para ser amarrado ao coqueiro, trazia o olhar carregado de ódio e despeito. Não era meu propósito tirar-lhe a vida, mas incorrera no crime de homicídio, e eu sabia que nenhuma súplica minha lograria demover Omar do seu vingativo propósito. - Ed dem b'ed dem - ou como diz o turco, - kan kanu odemar - o sangue só se paga com o sangue. Preferia que tivesse conseguido escapar, porém, estivesse no seu encalço e enquanto se achasse em meu poder, devia considerá-lo como inimigo e assassino, e portanto, tratá-lo como tal. Certo, era, que ele não me pouparia se eu tivesse a desdita de cair-lhe nas mãos.

Deixei-o, pois, entregue aos cuidados de Omar e fui com Halef ao selamluk. No caminho,o meu pequeno servo perguntou:

- Disseste que esse homem não é muçulmano. Estás certo disso?

- Estou. Ele é cristão armênio, e se faz passar por maometano quando lhe convém.

- E achas que ele é um homem perverso?

- Muito perverso.

- Estás vendo, efêndi, como os cristãos são homens maus? Precisas te converter à verdadeira fé, se não quiseres arder no djehenna, por toda a eternidade!

- E tu também vais arder o mesmo tempo lá dentro!

- Por quê?

- Não contaste que no derk asfal, o sétimo e mais profundo inferno, hão de arder todos os mentirosos e hipócritas, que comerão as cabeças dos demônios da árvore zekkum?

- Sim, mas o que tenho eu com isso?

- Tu és mentiroso e hipócrita!

- Eu sídi? da minha boca não sai uma só mentira, no meu coração não há falsidade. Quem me disser tais ultrajes está fadado à morte irremediável.

- Mentes dizendo ter visto Meca e finges ser um hadji. Queres que conte isso ao uakil?

- Aman, aman, perdoa-me! Não farás isso ao hadji Halef Omar, o servo mais fiel que existe no mundo!

- Bem, não o farei, mas sabes as condições que imponho, não?

- Conheço-as e tornarei cuidado, mas estou certo que hás de te tornar ainda um verdadeiro crente, quer queiras, quer não queiras, sídi!

Entramos e fomos recebidos pelo uakil que já nos esperava com um ar pouco afável.

- Senta-te - convidou o governador.

Aquiesci e tomei lugar junto dele, enquanto Halef se entretinha com os cachimbos que, nesse ínterim, haviam sido trazidos.

- Por que quiseste ver o rosto da minha mulher? - começou ele.

- Porque sou um franke, habituado a ver sempre o rosto da pessoa com quem falo.

- Tendes hábitos reprováveis! As nossas mulheres se escondem e as vossas se mostram impudentemente. As nossas mulheres trajam vestidos compridos em cima e curtos em baixo, as vossas usam trajes que são curtos em cima e compridos em baixo e, às vezes, curtos tanto em cima como em baixo. Viste alguma vez as nossas mulheres nas terras de vocês? As vossas moças, no entanto, vêm até aqui; por que essa diferença?

- O jazik - não sei...! Uakil, é esta a hospitalidade que me ofereces? Desde quando se recebe um hóspede com um insulto? Não preciso do teu carneiro, nem do teu cuscuz e voltarei de novo ao pátio. Segue-me!

- Perdoa-me, efêndi. Queria tão sòmente dizer-te o que pensava, mas sem o propósito de ofender-te.

- Quem não quer ofender, nem sempre deve dizer o que pensa. Um homem conversador parece-se com um pote quebrado, que ninguém pode utilizar, porque nada conserva.

- Senta-te e conta-me onde encontraste Abu el Nassr?

Dei-lhe detalhado relato da nossa aventura. Escutou calado e, meneando a cabeça, disse em seguida:

- Acreditas, pois, que ele tenha assassinado o negociante em Blidah?

- Tenho certeza.

- Não estiveste presente!

- Não importa! Tirei as minhas conclusões!

- Só Alá pode concluir, pois é onisciente; o pensamento do homem é como um cavaleiro, a quem um animal desobediente pode levar para onde bem entender.

- Só Alá pode concluir porque é onisciente? O' uakil, o teu espírito está obnubilado em virtude da grande quantidade de carneiro com cuscuz que ingeriste! Pois justamente por ser Alá onisciente não precisa concluir. Quem conclui procura um resultado que não conhece e quem tudo sabe prescinde do raciocínio.

- Estou vendo que és um taleb, um sábio que freqüentou muitas escolas, porque falas em termos que ninguém compreende. E achas mesmo que ele tenha morto aquele homem no uádi Tarfaui?

- Acho.

- Estavas presente?

- Não.

- Foi o morto quem te contou?

- Uakil, os carneiros que comeste saberiam que um morto não é dotado de linguagem.

- Efêndi, agora cometeste uma indelicadeza! Não estiveste presente e o morto não podia dizê-lo, donde, pois, tiras que ele é assassino?

- Depreendo dos fatos que conheço.

- Já te disse que só Alá pode tirar conclusões!

- Fui-lhe no encalço e, quando o encontrei, confessou-me o crime.

- O fato de teres achado o seu rasto não constitui prova de que seja assassino, porque com rasto não se mata ninguém. E o fato de ter te confessado o crime, não me confunde, porque ele é um kuch-chakanun, um trocista, cuja intenção era gracejar.

- Com um assassinato não se brinca!

- Mas brinca-se com um homem, e este eras tu. E, finalmente, julgas que ele tenha atirado no guia Sadek?

- Tenho disso a certeza.

- Estavas presente?

- Naturalmente.

- E viste?

- Sem sombra de dúvida. Hadji Halef também é testemunha.

- Pois seja, então o matou e por isso o chamas de assassino?

- Claro!

- Sídi, Alá fortifique o teu entendimento, a fim de que compreendas que a homem não deve concluir!

- E então?

- Ora, por teres testemunhado que ele atirou no guia concluis que é urn assassino?

- Mas isso é evidente por si mesmo.

- Está errado. E se se tratasse de um homicídio por vingança? Não se usa isso em tua terra?

- Não.

- Pois então te digo que o vingador jamais é um assassino. Nenhum juiz o condena, só os parentes do morto têm o direito de persegui-lo.

- Mas Sadek não te fêz nada!

- Então foi a família de Sadek que o ofendeu.

- Não houve nada disso. Uakil, quero te dizer que de minha parte não tenho nada contra esse Abu el Nassr, que na verdade se chama Hamd el Amasat e antes disso certamente já teve nome armênio. Desejo, apenas, que me deixe em paz. Mas ele matou o guia Sadek e Omar Ben Sadek é filho deste; portanto, de acordo com o que disseste ainda há pouco, ele tem direito sobre a vida do assassino. Liquida o assunto com esse patife, porém, toma igualmente providências para que esse “pai da vitória” não torne a encontrar-se comigo, porque então ajustarei contas com ele!

- Sídi, agora as tuas palavras são realmente sábias. Falarei com Omar para que o solte; tu, porém, continuarás como meu hóspede enquanto te aprouver.

Levantou-se e dirigiu-se para o pátio. Eu sabia, de antemão, que todos es esforços junto de Omar seriam baldados. De fato, ao cabo de alguns minutos, voltou com ar sombrio. Permaneceu calado ao ser servido o carneiro assado no espeto que os amáveis dedos pintados de rouge da “rosa de Kbilli” haviam preparado. Eu e Halef entramos. O uakil acabara de contar-me que Omar receberia o almoço no pátio, por não se deixar demover do seu propósito de conservar o assassino do pai, quando se ouviu um grito. Sobressaltei-me ao ouvir novamente: “Breh, effendina, socorro!”

Era eu o interpelado. Levantei-me de um salto e saí correndo. Omar estava deitado no chão e lutava com os soldados; o preso, porém, fugira, Na outra saída estava parado um negro que arreganhou os dentes e disse, com um sorriso malicioso:

- Embora, sídi - cavalgar ali!

Em três pulos estava na frente da casa e ainda pude ver Abu el Nassr desaparecer entre os coqueiros. Montava um camelo de corrida, que parecia ter um esplêndido trote. Adivinhei tudo. O uakil fora mal sucedido no pátio, mas queria salvar a Abu el Nassr a todo o transe; ordenou ao preto que aprestasse o camelo, enquanto os soldados subjugavam Omar para dar fuga ao preso. Os onze heróis atiraram-se sobre o único adversário e foram bem sucedidos. Naturalmente tinha-lhes custado bem caro esse cometimento. Omar fizera uso de sua faca e, quando consegui dissolver o entrevêro que formavam os lutadores, verifiquei que vários deles sangravam.

- Ele se foi, sídi! - exclamou o jovem guia, cheio de raiva e de pezar.

- Eu o vi.

- Para onde ia?

- Para lá.

Estendi a mão na direção do horizonte.

- Efêndi, castiga estes patifes que eu perseguirei o fugitivo.

- Montava um esplêndido camelo.

- Não obstante hei de o alcançar.

- Tu não tens animal!

- Sídi, tenho amigos aqui que me darão um animal de raça, tâmaras e odres com água para a viagem. Antes que desapareça no horizonte, estar-lhe-ei no encalço. Tu encontrarás facilmente a minha pista, se me seguires.

Dito isto, afastou-se correndo. Halef tudo presenciara, auxiliando-me também a livrar Omar das mãos dos soldados. Ardia de raiva.

- Por que soltastes esse homem?... cães, filhos de chacais, ratos...! Provavelmente teria continuado a descompô-los, se no local não tivesse aparecido de novo a mulher do uakil coberta com o véu.

- O que houve? - perguntou-me ela.

- Os teus homens caíram sobre o meu guia e soltaram o prisioneiro.

- Velhacos, patifes - exclamou a matrona, batendo com o pé e cerrando os punhos vermelhos de tinta. - Ladrões, defraudadores - continuou. Parecia brigar com eles todos, pelo menos verbalmente.

- E por ordem do uakil - acrescentei.

- Do uakil? Esse verme, esse desobediente, esse coisa ruim, esse teimoso! A minha mão puni-lo-á e agora mesmo, sem demora!

Deu meia volta e rumou furiosa em direção ao selamluk.

Ó feliz domínio da pantufa! O certo é o mesmo, tanto no norte como no sul, tanto no ocidente como no oriente! Halef com bom humor, zombou:

- Ela que é o uakil e ele a uakila, e nós estamos melhor aqui no gioelgeda wekuelanuen, à sombra da governadora, do que se tivéssemos um bu-djeruldu ou um gioelgeda padischuhnuen, se a sombra do governador supremo nos protegesse.

Hamdulillah, - gloria a Alá, por não ser eu o “felizardo” uakil desta governadora!...

 

No Harém

A ardência do sol egípcio não convidava ninguém a sair. Todos os que não eram compelidos pela necessidade a trabalhar e a viajar naquele forno, procuravam o frescor da sombra.

Achava-me estirado no macio divã do meu apartamento de aluguel, a sorver um saboroso moca e a regalar-me com o perfume penetrante do djebeli que fümegava no meu cachimbo. Os grossos e maciços muros impediam a passagem do calor solar e os porosos potes de barro, colocados aqui e ali, tornavam a temperatura suportável. Fugia, assim, ao torpor que acomete aos habitantes e viajantes dessa terra abrasadora.

De repente, fêz-se ouvir, lá fora, a voz repreensiva do meu servo Agha Halef. Agha Halef? Sim, o meu bom servo tornara-se um agha, um senhor. E quem o dignificara com tal título? Ociosa pergunta! Quem mais, senão ele mesmo?

Havíamos passado por Trípoli e Kufra em demanda do Egito. Visitáramos o Cairo que o egípcio chama impropriamente de el Masr, a capital, ou então el Kahira, a vitoriosa. Depois, subíramos o Nilo o quanto nos permitiram os nossos parcos recursos e, finalmente, para descansar, alugáramos a casa na qual estávamos. O meu repouso teria sido completo, se o divã não fosse infestado por aqueles conhecidos seres salteadores e peritos na arte de picar, dos quais disse o velho e bom Fischart:

- Mich bizt neizwaz, waz mag daz sein?

- Morde-me alguma coisa; o que será?

No Egito abundam as pulex penetram. Essas é que haviam perturbado a minha kef (1).

No momento, impressionára-me os ouvidos a voz exprobrativa do meu servo Agha Halef.

- O quê? Como? Quem?

- O efêndi - respondia uma voz tímida.

- O efêndi, el kebir, queres perturbar o grande mestre e senhor?

- Mas eu preciso falar-lhe.

- O quê? Precisas? Agora que ele está dormindo? Será que o diabo tomou conta da tua cabeça - que Alá me proteja - enchendo-a com lama do Nilo para que não compreendas o que significa ser um efêndi, um hekim, um homem que o Profeta alimenta com o manjar da sabedoria, infundindo nele toda ciência, mesmo a de ressuscitar os mortos?

É preciso que se diga que o meu Halef mudara muito com os ares do Egito!

 

 (1) - Sesta.

 

Tornara-se extremamente vaidoso, grosseiro e fanfarrão, o que significa muito no oriente.

Nas terras levantinas, todo alemão é considerado grande jardineiro e todo estrangeiro exímio atirador ou notável médico. No Cairo, infelizmente, havia-me chegado às mãos a metade de uma farmácia homeopática de Wilmar Schwabe. Tivera oportunidade de aplicar aqui e acolá, num conhecido ou num estranho, cinco glóbulos desse ou daquele específico. Demais, durante a viagem pelo Nilo ministrara aos tripulantes da embarcação em que viajava pequenas doses de lactose, contra toda a espécie de doenças imaginárias, conquistando assim, em três tempos, a fama de médico, auxiliado pelo cheitan (1), capaz de ressuscitar mortos com três glóbulozinhos.

Essa fama despertara no ânimo do meu Halef, uma espécie benigna de megalomania que, por sorte, não o impedia de continuar a ser o mesmo servo fiel e dedicado. É claro que ele contribuía com a maior parcela para a difusão desse renome. Decaíra inteiramente no vergonhoso vício do antigo barão de Muenchhausen Sênior, tentando também salientar-se por certa brutalidade que prometia tornar-se clássica.

Assim, entre outras coisas, adquisira, com o seu pequeno ordenado, um chicote feito com couro de hipopótamo, sem o qual nunca saía. Conhecia o Egito dos tempos antigos e afirmava que sem o rêlho nada se arrumava nessa terra em que só o dinheiro e as bordoadas conseguem operar milagres.

- Alá te guarde, sídi, - dizia o suplicante interlocutor de Halef, mas eu preciso ver e falar com o teu efêndi, o grande médico de Frankhistan.

- Agora é impossível.

- Trata-se de um caso de urgência; não fosse assim, o meu patrão não me teria mandado aqui.

- Quem é o teu senhor?

- É o rico e poderoso Abrahim Mamur, a quem Alá conceda mil anos de vida.

- Abrahim Mamur? Quem é esse Abrahim Mamur e como se chamava o pai dele? Quem era o pai do pai dele e o pai do pai do avô dele? De quem é descendente e onde vivem os seus progenitores?

- Isso eu não sei, sídi, mas o fato é que é um senhor muito poderoso, como o seu nome o indica.

- Não vejo indicação nenhuma!

- Abrahim Mamur. Mamur quer dizer presidente de uma província e sou testemunha de que ele, efetivamente, governou numa região daqui.

- Foi? Então não é mais?

- Não.

- É o que eu pensava. Ninguém o conhece nem mesmo eu Agha Halef, o bravo amigo e protetor do meu senhor. Nunca ouvi falar nele e nem nunca vi a

 

(1) - Demônio.

 

ponta do seu tarbuch(1). Vai te embora; o meu senhor não tem tempo a perder.

- Diz-me, sídi, por favor, o que devo fazer, para chegar até ele!

- Não conheces a palavra mágica, a chave de prata que abre o templo da sabedoria?

- Tenho essa chave comigo.

- Então usa-a e ficarás contente.

Escutei atentamente e ouvi o tilintar de moedas.

- Uma piastra? É preciso que saibas que o orifício da fechadura é maior do que a tua chave; não serve, é muito pequena.

- Então vou aumentá-la.

Tornei a ouvir o mesmo ruído característico das pequenas moedas de prata.

Não sabia se devia sir ou me encolerizar. Esse Agha Halef tornara-se um porteiro extremamente finório!

- Três piastras? Bem, agora ao menos posso te perguntar que recado queres que eu dê ao efêndi.

- Desejava que ele levasse a sua medicina mágica à casa do patrão.

- O que estás pensando, homem? É realmente ousadia pedir tanto por três piastras! Uma droga que uma fada branca lhe traz na primeira noite de cada lua nova não se leva por tão pouco!

- Que dizes? É verdade isso?

- Eu Hadji Halef Omar Agha, Ben Hadji Abul Abbas Ibn Hadji Dawud al Gossara o digo. Eu mesmo a vi quando descia do céu e se não me queres acreditar experimentarás o meu chicote do Nilo!

- Piamente te acredito, sídi!

- É o que te vale!

- Dar-te-ei mais duas piastras.

- Então passa-as para cá! Quem é que está doente na casa do teu senhor?

- É um segredo que só o efêndi pode ter conhecimento.

- Só o efêndi? Patife, acaso não sou também um efêndi que viu a fada! Vai te embora. Agha Halef não admite que o ofendam!

- Perdão, sídi, já te vou contar tudo!

- Pois agora não quero saber de nada. Retira-te daqui.

- Mas eu te peço...

- Vai te embora, já te disse.

- Queres que te dê outra piastra?

- Não aceito uma!

- Sídi!

- Só duas!

- O' sídi, a tua fronte resplandece de bondade. Aqui tens as duas piastras.

- Quem está doente?

- A mulher do meu senhor.

 

(1) - Turbante.

 

- A mulher do teu senhor? - perguntou Halef admirado. - Que mulher?

- Ele só tem uma.

- E no entanto dizes que foi um Mamur!

- Ele é tão rico que podia ter cem mulheres, mas ama só a esta.

- O que é que ela sente?

- Ninguém o sabe. O seu corpo está doente e mais ainda a alma.

- Allah kerim, Deus é misericordioso, mas eu não. Estou com o chicote na mão e devia chibatear-te. Pela barba do Profeta, a tua boca fala como se tivesses deixado ficar o juízo no rio, durante a viagem que fizeste de canoa! Não sabes que a mulher não tem alma e por isso mesmo não entra no céu? Como, pois, pode estar doente a alma de uma mulher e mais ainda do que o corpo?

- Eu não o sei, apenas repito o que me disseram, sídi. Deixa-me entrar no quarto do efêndi.

- Não posso permitir-te tal.

- Por que não?

- O meu senhor conhece o Alcorão e despreza as mulheres. A pérola mais linda do mundo feminino é para ele como o escorpião na areia, e a mão dele jamais tocou o vestido de uma mulher. É-lhe defeso amar uma mulher terrena, porque senão nunca mais a fada o viria visitar.

Sentia uma enorme vontade de fazê-lo experimentar o seu próprio chicote do Nilo, mas tinha de reconhecer o talento do Agha Halef. A resposta do mensageiro foi:

- Deves saber, sídi, que ele não tocará as vestes da mulher, nem verá o seu rosto. Peço, apenas, que consinta em falar-lhe através da grade!

- Admiro a inteligência das tuas palavras e a sabedoria da tua linguagem, ó homem! Mas não percebes que justamente através da grade é que não pode falar com ela?

- Por quê?

- Porque a saúde que o efêndi deve ministrar nem chegaria até a mulher e ficaria presa à grade. Vai-te embora.

- Não posso ir, porque se não voltar acompanhado pelo sábio efêndi, levarei cem bastonadas na planta dos pés.

- Agradece ao teu bondoso senhor, escravo dum egípcio. Que ele te alumié com sua misericórdia. Não quero livrar-te do teu destino. Salam aleikum, Alá esteja contigo para que possas aproveitar bem as cem bastonadas.

- Permite que te diga mais uma coisa, bravo Agha. O senhor da nossa casa tem mais sacas no seu tesouro do que o sultão. Ele me deu ordem que te levasse também para receberes um bakchich, presente mais valioso do que os que o quediva do Egito costuma dar a seus amigos.

Finalmente o homem compreendera e tocara no ponto fraco de todo o oriental. O pequeno Halef mudou imediatamente de tom e respondeu, com voz sensivelmente mais afável.

- Alá abençoe a tua boca, meu amigo! Uma piastra a mais em minha mão me é mais cara do que dez bolsas na de um outro. Mas a tua é tão magra como o chacal na rede ou como o deserto além de Mokattam.

- Não deixes de escutar o conselho do teu coração, meu irmão.

- Teu irmão? O' homem, considera que tu és um escravo, ao passo que eu protejo e acompanho o meu efêndi como homem livre! O conselho do meu coração de nada vale! Como pode o campo produzir frutos, se do céu caem tão poucas gotas de orvalho!

- Aqui tens mais três gotas!

- Mais três? Bem, então vou ver se posso molestar o efêndi, se é que o teu amo quer dar de fato tal bakchich.

- Dará, sim, não tenhas cuidado.

- Então espera aí.

Finalmente julgava que podia molestar-me, esse maroto! Entretanto, era preciso desculpá-lo, pois agia de acordo com os maus hábitos do oriente. Além disso, recebia um ordenado insignificante pelos serviços que me prestava.

Mas o que causava estranheza, em toda essa história, era o fato de eu ser chamado para ver uma mulher. Excetuando-se as tribos errantes de nômades, o muçulmano jamais permite ao estranho ver os apartamentos femininos e suas inquilinas. Tratava-se, portanto, de uma mulher já idosa que, pelas qualidades de seu caráter e gênio, conseguira manter o amor de Abrahim Mamur. - Halef Agha entrou.

- Estás dormindo, sídi?

O malandro! Chamava-me de sídi e, lá fora, permitia que o tratassem do mesmo modo.

- Não. O que queres?

- Está aí um homem que deseja falar-te. Espera-te com uma canoa no Nilo e disse que eu devia acompanhar-te.

Ladinamente fazia essa observação final, para garantir a gorjeta prometida. Mas, como não queria metêr-se em embaraços, fingia nada saber.

- Que deseja?

- Veio buscar-te para que vejas uma doente.

- É urgente o caso?

- Muito, efêndi. A alma da doente está prestes a abandonar a terra. Por isso deves atropelar, se quiseres segurá-la.

- Hum, não fora mau diplomata! Manda entrar esse homem!

Saiu e empurrou o enviado para dentro do aposento. Este se curvou até ao chão, descalçou os sapatos e esperou humildemente, até que lhe dirigisse a palavra.

- Aproxima-te mais!

- Salam aleikum! Alá esteja contigo! O senhor abra os teus ouvidos para as súplicas do teu mais ínfimo servo.

- Quem és?

- Sou um servo do grande Abrahim Mamur.

- Que recado trazes?

- Um grande pesar entrou na casa do meu senhor, pois, Guebela, a coroa do seu coração entra, pouco a pouco, para a sombra da morte. Nenhum médico, nenhum faquir e nenhum mágico foi capaz de tolher os passos da terrível enfermidade. Foi então que o meu senhor ouviu falar em ti e na fama que te cerca, e soube que a morte foge para longe ao som da tua voz. Enviou-me a ti para pedir: - Vem e tira o orvalho do mal que caiu sobre a minha flor e o meu agradecimento há de ser belo e claro como o brilho do outro.

Esta descrição pareceu-me inadequada para uma mulher idosa.

- Não sei onde mora o teu amigo. É longe daqui?

- Reside à beira-rio e te mandou um bote; dentro de uma hora estarás em sua casa.

- Quem me trará, na volta?

- Eu mesmo.

- Já vou. Espera-me lá fora.

Agarrou os sapatos e retirou-se. Levantei-me, atirei sobre os ombros o albornoz, tomei a caixinha com acônito, enxofre, pulsatila e outras drogas que sempre se encontram numa pequena farmácia de cem específicos. Cinco minutos mais tarde encontrávamo-nos sentados na canoa, a qual era provida de quatro remos. Mergulhei em funda meditação, e Halef Agha sentou-se, vaidoso como um pachá. Na cintura, levava as pistolas prateadas, que lhe haviam presenteado no Cairo e o afiado e rico punhal. Na mão, conservara o inseparável chicote do Nilo, com o qual facilmente conquistava, entre aquela gente rude, respeito, estima e consideração.

Apesar do calor intenso que fazia, o movimento do barco, rio acima, tornava agradável a viagem.

Passamos por extensas plantações de fumo e sena, atrás das quais viam-se esguias palmeiras. Depois, seguiram-se áreas não cultivadas, ocupadas por densas brenhas de mimosas. Finalmente, apareceu um rochedo nu, despido de toda vegetação, e do meio desses blocos de pedras milenares, surgiu o muro quadrado, no qual devia se encontrar a entrada da habitação de Abrahim Mamur.

De chegada, notei que um canal comunicando com o rio, por baixo do muro, conduzia água para o interior. O nosso guia, que ia na frente, levou-nos à parte do muro que ficava fronteiro ao Nilo e chegando ao portão deu um sinal, que o fêz absir-se em seguida.

Um negro, com os dentes à mostra, fêz-nos uma profunda reverência. Passamos por ele sem ligar-lhe importância. Beleza arquitetônica não podia esperar numa construção oriental; por isso, não me haviam surpreendido os muros nus, lisos e sem janelas, que vira na frente da casa.

O clima do país tornava imprópria, para uma mulher fraca e doente, essa velha e úmida habitação.

Outrora, folhagens graciosas e bem cuidadas haviam enfeitado o espaço estreito que medeava entre o muro e o prédio, proporcionando às moradoras um aprazível recanto. Agora, porém, estavam murchas e secas. Para onde quer que se dirigisse o olhar encontrava-se apenas solidão, um triste e mortal vazio. Bandos de andorinhas, aninhadas nos vãos e fendas dos muros, davam algum movimento e vida àquelas sombrias paredes.

O guia avançava à nossa frente, e ao atravessarmos um portal baixo e escuro, encontramo-nos num pequeno pátio em cujo centro havia um reservatório d'água. Era ali que vinha dar o canal que vira lá fora ao entrar. O construtor se preocupara em abastecer com o precioso líquido a solitária casa. Observei ainda que a construção fora feita de modo a resistir às inundações anuais do Nilo. Para este pátio olhavam várias aberturas gradeadas atrás das quais se achavam localizados, provavelmente, os apartamentos de residência. Não podia, no momento, dedicar-lhes maior atenção. Acenei ao meu servo, que vinha com a farmácia a tiracolo, para esperar até nova ordem e segui o meu guia ao selamluk da casa.

Era um quarto espaçoso, meio escuro, mas alto, através de cujas janelas gradeadas entrava uma Iuz coada e fraca. Com os tapetes, arabescos e ornamentos colados tornara-se habitável e os refrescantes vasos d'água nos nichos da parede tornavam a temperatura um pouco mais agradável. Um peitoril dividia o compartimento em duas partes, das quais a primeira servia para a criadagem e a parte detrás era reservada ao senhor e hóspedes. No fundo, via-se um divã que se estendia em todo o comprimento da sala e sobre o qual estava sentado Abrahim Mamur, o possuidor das inúmeras sacas de dinheiro.

Levantou-se, ao me ver entrar, permanecendo de pé, consoante o costume. Como não usasse o calçado usual do lugar, não o podia descalçar. De botas mesmo pisei nos fofos tapetes e fui me sentar ao lado do rico senhor. Os criados serviram o indispensável café e os cachimbos de estilo. Só depois disso é que a conversação podia ser entabulada.

Meu primeiro olhar foi para o cachimbo, porque todo o conhecedor do oriente sabe que por ele se pode aquilatar a fortuna do seu dono. O cano comprido e aromático, envolvido por uma espiral de fio prateado, valia bem suas mil piastras. Mais caro e precioso ainda, era o bocal de âmbar, composto de duas partes, ligadas por um anel de brilhantes. O homem parecia possuir realmente muitas bolsas. Nem por isso tornava-se merecedor da minha estima e confiança, pois conheci proprietários de cachimbos de valor superior a dez mil piastras que enriqueceram à custa dos seus infortunados súditos. Era melhor, pois, olhar para a fisionomia! Onde havia eu já visto esses traços delicados, belos e ao mesmo tempo diabólicos?

Perspicazes, ou melhor penetrantes, os pequenos olhos sem pestanas de Abrahim fixaram-se nos meus. Paixões candentes e enervantes haviam imprimido a esse rosto fundas rugas; amor, ódio, vingança e ambição cooperaram mutuamente, para arrastar uma natureza, magnificamente dotada, à lama dos vícios, emprestando ao exterior desse homem um quê de repulsivo.

Onde havia eu encontrado esse indivíduo? Eu o tinha visto em algum lugar; precisava apenas lembrar-me onde e quando. Pressentia que não fora amigável o encontro. Mais, não sabia.

- Salam aleikum! - disse ele calmamente, pronunciando bem as sílabas.

Esta voz era fria, afônica, sem vida e sem alma, quase apavorante.

- Aleikum! respondi.

- Que Alá faça nascer bálsamo sob os teus pés e gotejar mel das pontas dos teus dedos, para que o meu coração não ouça mais a voz do pesar que o oprime.

- Deus te dê a paz e faça com que eu encontre o veneno que ameaça a tua felicidade - disse eu em resposta à sua saudação, porque nem mesmo o médico pode perguntar pela mulher do muçulmano, sem cometer uma grande falta contra a cortesia e os costumes.

- Ouvi dizer que eras um hekim (1). Que médresse (2) freqüentaste?

- Nenhuma.

- Nenhuma?

- Não sou muçulmano.

- Não? O que és então?

- Nemsi.

- Um nemsi! Ah, eu sei, os nemsi são homens inteligentes, conhecem a pedra da sabedoria e o abracadabra, que afugenta a morte.

- Não existe nem pedra da sabedoria nem abracadabra.

Olhou-me fixamente como para avaliar a minha sinceridade.

- Diante de mim não precisas ter reservas. Sei que os mágicos não podem falar de sua arte e nem pretendo desvendar os teus segredos; quero apenas que me ajudes. Como e com que meios expulsas a doença de uma pessoa? É com palavras cabalísticas ou com um talismã?

- Não é nem com palavras cabalísticas nem com talismã, mas com remédios.

- Não precisas ocultar-me nada. Creio em ti, pois apesar de não seres muçulmano, a tua mão é abençoada. Descobsirás a doença e a vencerás.

- O senhor do mundo é onipotente, só Ele tem a chave da vida e da morte e a Ele só cabe a glória. Mas se queres que te ajude, fala!

Essa franca interpelação pareceu desagradá-lo. Não se resolvia a revelar nem sequer um segredo insignificante do seu lar, mas, incontinenti, procurou esconder a sua fraqueza e obedeceu à minha intimação.

- Tu és da terra dos infiéis, onde não se considera vergonha falar em uma mulher.

Agradou-me a maneira com que procurava esquivar-se de falar-me da sua esposa, conservei-me, porém, sério e respondi assaz friamente:

- Queres que te ajude e me insultas?

- Como assim?

- Chamas a minha pátria de terra de infiéis.

- Pois sois incrédulos!

- Cremos em um Deus, que é o mesmo Deus que chamas de Alá. Segundo o teu modo de ver me tens por infiel; com o mesmo direito poderia eu identicamente

 

(1) Médico.

(2) Escola superior do Oriente.

 

qualificar-te, entretanto não o faço, porque, nós, os nemsi, jamais faltamos à cortesia.

- Não falemos sobre a fé! O muçulmano não pode refesir-se à sua mulher, mas permites que fale das mulheres do Frankhistan?

- Permito-o.

- Se a mulher de um franke está doente...

Olhou-me como que a espera de nova observação; fiz-lhe um sinal para que continuasse.

- Sim, se ela está doente e não toma alimento...!

- Nenhum?

- Nada.

- Continua.

- Se perde o brilho dos olhos e o frescor das faces - se está fatigada, sem poder repousar e dormir...

- Continua!

- Se ela apenas pode manter-se recostada ou se caminha vagarosamente, tiritando de frio e ardendo em febre...

- Estou escutando. Continua.

- Se o mais leve ruído a assusta e incomoda... se nada deseja, nada ama e nada odeia e até estremece ao ouvir as batidas do próprio coração...

- Continua, continua!

- Se seu peito arfa assustadoramente, se não ri, e não chora, não fala... se não diz uma só palavra de alegria ou de pesar, e se suspira milhares de vezes... se foge da luz solar e, na escuridão da noite, se acocora nos cantos...

De novo me fixou e notei em seus olhos brilhantes um certo temor que parecia aumentar à referência de cada sintoma. Devia amar a doente com o último clarão do seu coração quase que inteiramente gasto e, sem querer e sem perceber, havia confessado os sentimentos que guardava no peito.

- Ainda não terminaste?

- E se, de quando em vez, deixa escapar um ai alucinante como se lhe cravassem um punhal no peito... se murmura incessantemente uma palavra estranha...

- Qual é essa palavra?

- Um nome.

- Continua.

- Se ela tosse e um fio de sangue lhe corre por entre os lábios pálidos...

Nesse instante fitou-me de tal forma que percebi ser a minha resposta de importância vital para ele. Todavia não hesitei em dar-lhe o derradeiro golpe.

- Então morrerá!

A princípio, permaneceu em tamanha imobilidade que o julguei vítima de um colapso. Em seguida, porém, ergueu-se de um salto, e postou-se diante de mim, hirto, empertigado. O fez vermelho caíra-lhe da cabeça raspada, o cachimbo tombara no chão e no seu rosto as contrações faciais diziam da tempestade que acabava de estalar no seu íntimo. Era uma fisionomia estranha e horrível. Dir-se-ia uma das representações do demônio em que é mestre o lápis do geniel Doré, em que o anjo decaído aparece, não com cauda, cornos e patas caprinas, mas com perfeição e harmonia em cada traço, sem que, no entanto, o efeito final de conjunto deixe de ser repulsivo, apavorante... diabólico. Seu olhar adquisira uma expressão de temor que pouco a pouco se ia transmudando em ódio e ameaça. Finalmente, como que numa explosão, numa distensão de forças espirituais incontidas, vociferou:

- Djaur!

- O quê? - perguntei friamente.

- Djaur - foi o que eu disse. Ousas afirmar semelhante coisa, cão? O chicote há de ensinar-te quem sou e o que quero que faças. Se ela morrer, morrerás também; se porém a salvares, poderás pedir seja o que fôr que to darei.

Lenta e tranqüilamente, levantei-me; com gélida altivez pus-me diante dele e perguntei:

- Sabes qual é a maior vergonha para um muçulmano?

- Qual é?

- Olha o teu fez ali no chão! Abrahim Mamur, não diz o Profeta do Alcorão que descobsir a cabeça diante de um cristão é uma vergonha?

Rápido como um relâmpago enterrou o fez na cabeça e, rubro de raiva, desembainhou o punhal.

- Prepara-te que vais morrer, djaur!

- Quando?

- Já!

- Morrerei sim, mas só quando chegar a minha hora, marcada por Deus e não por ti.

- Morrerás. Faze a tua oração!

- Abrahim Mamur, respondi, sem perder a calma. - Já fui à caça do urso, e persegui a nado o hipopótamo; o elefante ouviu o tiro da minha arma e as minhas balas abateram o leão, o famoso “estrangulador dos rebanhos”. Agradece a Alá o estares ainda com vida e roga a Deus que Ele domine o teu coração. Sem o auxílio d'Ele tu, que és um fraco, não serás capaz de te dominar, e se não voltares imediatamente à razão, morrerás!

Esta réplica foi uma nova ofensa, mais grave que a anterior. Saltou sobre mim e eu rapidamente recuei, de arma em punho. Estávamos frente a frente, a sós, porque, depois de servido o café e os cachimbos, ele ordenara ao criado que se retirasse para nada ouvir do que íamos dizer.

Auxiliado pelo meu valente Halef não temia nenhum habitante da velha casa; em caso de emergência e de ataque nós dois liquidaríamos os poucos homens que nela moravam, caso interviessem na luta; entretanto, pressentia que poderia fazer algo pela doente cuja sorte muito me interessava. Precisava vê-la e, se possível, dizer-lhe algumas palavras.

- Queres atirar? - perguntou ele, espumando de raiva e apontando-para o meu revólver.

- Se me forçares a isso!

- Aqui em minha casa?

- Vejo-me na contingência de me defender.

- Cão, não me enganei com a tua cara!

- Como não te enganaste?

- A tua fisionomia não me é desconhecida.

- Quando a viste?

- Não me recordo.

- Onde?

- Não me lembro tampouco do lugar, mas certo é que nossas relações não foram amigáveis.

- Isto é, assim como hoje, porque seria de admirar se este encontro terminasse bem. Tu me chamaste de cão e eu te previno que se disseres mais uma vez esta palavra, alojo-te uma bala nos miolos. Atenta bem nisso, Abrahim Mamur.

- Chamarei os meus servos.

- Chama-os, se os quiseres ver mortos.

- O quê! Tu não és Deus!

- Mas sou um nemsi. Já experimentaste alguma vez a força do punho de um nemsi?

Ele riu com desprezo.

- Toma cuidado para não fazeres essa experiência ainda hoje! Mas deixo-te em paz. Adeus! Não queres que eu domine a morte e salve a doente; que se cumpra o teu desejo; rabbena khellik, o Senhor te conserve.

Enfiei o revólver no coldre e me encaminhei para a porta.

- Fica, - exclamou ele.

Não lhe dei ouvidos e continuei a caminhar.

- Fica, - gritou em tom imperioso.

Estava a alguns passos da porta e não volvi o rosto.

- Pois então morre, djaur!

Rapidamente me voltei. Foi o quanto deu, para me desviar. O punhal, arremessado por mão firme, passou rente à minha cabeça e cravou-se no painel da parede.

- Agora és meu, patife.

Ato contínuo, saltei sobre ele, agarrei-o, suspendi-o e o atirei contra a parede, fazendo-o cair no solo. Após alguns segundos, levantou-se a custo. Seus olhos saltavam das órbitas, as veias da fronte, de dilatadas, pareciam prestes a rebentar; apontei-lhe o revólver, intimidando-o logo.

- Agora experimentaste a força de um nemsi. Não te atrevas outra vez a provocar-lhe a cólera.

- Cala-te.

- Covarde! Como se deverá chamar ao indivíduo que pede o auxílio do médico e, depois de o insultar, tenta assassiná-lo traiçoeiramente? A religião que possui tais adeptos não pode ser muito elevada!

- Mágico!

- Por que me chamas deste modo?

- Se não o fosses, o meu punhal estaria a essa hora enterrado no teu corpo e não terias tido força para suspender-me.

- Pois bem! Se eu fosse um mágico teria conservado a vida de Guezela, a tua mulher.

Pronunciei este nome com segunda intenção e consegui o meu fim.

- Quem te disse este nome?

- O teu enviado.

- Um infiel não deve pronunciar o nome de uma muçulmana.

- Pronuncio apenas o nome de uma mulher que amanhã, talvez, seja cadáver.

De novo me fixou com olhar atônito; depois cobriu o rosto com as mãos.

- É verdade, hekim, (1) que amanhã ela pode estar morta?

- Sim, é verdade.

- E não a poderás salvar?

- Talvez!

- Não dize talvez, mas certamente. Estás disposto a me ajudar? Se chega a se restabelecer, poderás exigir o que quiseres.

- Sim, estou disposto a fazer o que me pedes.

- Então dá-me o teu talimã ou os teus medicamentos.

- Não possuo talismã e, medicamentos, não os posso dar agora.

- Por que não?

- O médico só pode curar um doente, depois de o examinar. Vamos vê-la, ou manda-a trazer aqui!

Recuou de um salto como se fora atingido por um murro.

- Ma xa Allah, estás louco? O espírito do deserto queimou o teu cérebro, pois nem sabes mais o que estás dizendo. Toda a mulher que é vista por um estranho deve morrer!

- Pois se eu não fôr vê-la, certamente morrerá. Preciso apalpar o seu pulso e demoradamente ouvir o que ela sente. Só Deus, o onisciente, não precisa fazer perguntas.

- Não curas, efetivamente, com auxílio do talismã?

- Não.

- Nem com palavras mágicas?

- Tampouco.

- Nem com orações?

- Eu também rezo pelos que sofrem, mas Deus nos dá os meios de os curar.

- Quais são estes meios?

- São metais, certas flores e terras, cujos sucos e forças nós extraímos.

- Não são venenos?

- Não costumo envenenar os doentes.

- Juras?

- Diante de qualquer juiz.

- E precisas mesmo falar com ela?

- Preciso.

- Hein?

- Preciso informar-me sobre os males que a afligem.

- Mais nada?

- Mais nada.

- Para que eu te dê esta licença é necessário que antes me respondas a certas perguntas.

- Pois não, podes perguntar.

- Precisas também tocar na sua mão?

- Preciso.

- Bem, eu to permito por um minuto. Não podes prescindir de ver-lhe o rosto?

- Pode ficar com o véu, mas terá de caminhar no quarto de um lado para outro.

 

(1) Médico.

 

- Por quê?

- Porque no caminhar e no porte se podem observar muitas coisas relativas à doença.

- Permito-o, pois, e trarei a enferma.

- Não faças tal.

- Por que não?

- Preciso vê-la no lugar onde está, para vistoriar todos os seus aposentos.

- Por quê?

- Porque há muitas doenças que provêm de moradias impróprias e que só o olhar do médico descobsirá.

- Então deves penetrar, de fato, no meu harém?

- Não há outra solução.

- Um infiel?

- Um cristão.

- Não o permito!

- Pois então ela há de morrer. Salam aleikum, a paz seja contigo e com tua esposa!

Voltei-me para sair. Apesar de ter percebido, pelos sintomas, que Guezela sofria de melancolia profunda, fingia acreditar tão somente numa doença corporal, porque desconfiava que o seu sofrimento fosse conseqüência de um constrangimento que a trouxera à posse deste homem. Queria colher esclarecimentos mais minuciosos sobre todos os pontos. Como dantes deixou-me ir até à porta, pedindo-me então:

- Pára, hekim, fica comigo. Poderás penetrar nos meus aposentos! Voltei-me então e encaminhei-me para ele, sem deixar transparecer a minha satisfação. Venci e estava contentíssimo com as concessões que ele me fizera, pois haviam ultrapassado de muito as que se podiam fazer a um europeu. O amor do egípcio e, por conseguinte, os seus cuidados deviam ser extraordinários, para que me concedesse tais permissões. Como era de esperar, lia no seu rosto todo o entranhado ódio que me votava. Eu era para ele um intruso inevitável no recesso do seu lar. Estava convencido de que conquistara para sempre um inimigo irreconciliável, mesmo que lhe salvasse a enferma.

Então, Abrahim se afastou, para providenciar, porque nenhum criado devia saber que ele permitira a um estranho a entrada no sacrário dos aposentos femininos. Após alguns instantes, reapareceu. Em sua boca apertada havia uma expressão de firme e obstinada resolução e, com o olhar carregado de mal disfarçado e mal contido ódio, disse:

- Agora, poderás vê-la.

- Já o tinhas prometido.

- E ver os aposentos em que habita.

- É claro.

- E também a ela.

- Toda velada e encoberta.

- Dou-te licença para lhe falares.

- É imprescindível.

- Concedo-te muito, imensamente efêndi. Mas, pela felicidade dos céus e pelos sofrimentos dos infernos, se disseres uma só palavra supérflua, ou se fizeres a mínima coisa além do que te foi permitido, eu a matarei! És forte e estás bem armado, por isso o meu punhal não se voltará contra ti, mas sim, contra ela. Isso te juro por todos os suwar do Alcorão e por todos os califas, cuja memória Alá abençoe.

- Já me conhecia o suficiente para saber que essas asserções produziriam maior efeito sobre mim do que ameaças petulantes. De mais a mais, nem me passara pela idéia feri-lo em seus direitos mas, o que não podia afastar da mente, em vista de sua atitude, era a desconfiança, o pressentimento de haver nas suas relações com a doente, um ponto obscuro.

- Podemos ir? - perguntei.

- Acompanha-me.

Deixamos a sala em que estávamos. Primeiramente passamos por umas salas quase em ruínas, abrigo de toda a espécie de animais noturnos; entramos, em seguida, numa peça que parecia uma antecâmara e, daí, passamos a um compartimento que, segundo as aparências, devia ser habitado por uma mulher. Todos os pequenos objetos espalhados em derredor eram de uso feminino.

- São estes os quartos que queres examinar. Vê se podes encontrar neles o demônio da doença - disse Abrahim Mamur, com um sorriso irônico.

- E o aposento aqui ao lado... ?

- É da doente. Vê-lo-ás também, depois de eu me certificar que o seu rosto está velado. Não te atrevas a seguir-me, mas espera aqui até que eu volte!

Saiu e fiquei só. Guezela se achava ali a poucos passos. Esse nome significa precisamente “a bela”. Tal circunstância e a atitude do egípcio pôs em cheque a minha primitiva suposição de que se tratasse duma senhora idosa.

Com um olhar, revistei o quarto. A instalação era a mesma do quarto de Abrahim: parapeito, divã, e nichos contendo os vasos porosos. Depois de algum tempo, Abrahim reapareceu.

- Examinaste os quartos? - perguntou-me.

- Examinei.

- E...?

- Nada posso dizer antes de interrogar a doente.

- Pois então vem, efêndi. Mas deixa-me prevenir-te mais uma vez...!

- Está bem! Sei perfeitamente o que devo fazer.

Entramos no outro quarto. Envolta em amplas vestes, estava imóvel, no fundo do quarto, uma mulher cuidadosamente velada. Nada se podia ver dela, senão os pequeninos pés metidos nuns sapatinhos de veludo.

Comecei as minhas perguntas, cuja reserva satisfez totalmente o egípcio. Mandei que ela se movesse um pouco e pedi finalmente que me desse a mão. Estive prestes a explodir numa gostosa gargalhada, apesar da delicadeza da situação. A mão estava de tal modo envolta num pano grosso, que não era possível verificar nem mesmo os contornos de um dedo através do invólucro que se prolongava pelo antebraço. Voltei-me para Abrahim:

- Mamur, essas ligaduras devem ser afastadas.

- Por quê?

- Não posso tornar o pulso.

- Tira os panos! - ordenou ele.

A doente retirou o braço das ataduras e deixou ver uma mãozinha delicada, cujo dedo anular trazia um anel muito delgado com uma pérola. Abrahim observava com grande atenção todos os meus gestos. Enquanto eu colocava os meus três dedos na articulação da mão da moça, curvei a cabeça como se procurasse não só sentir o pulso, como também ouvir-lhe as palpitações; foi então que ela, de mansinho, quase imperceptivelmente, soprou através do véu:

- Kurtar Senitzaji - salve a Senitza!

- Estás pronto? - perguntou Abrahim, aproximando-se de mim.

- Sim, estou.

- O que é que ela tem?

- Foi acometida de um sofrimento grave e profundo, o maior que existe, mas... eu a salvarei.

Estas últimas palavras dirigi com entonação pausada, mais para a donzela do que para o meu interlocutor.

- Como se chama o mal?

- Tem nome estrangeiro, que só os médicos entendem.

- Quanto tempo levará para ficar restabelecida?

- Pode ser breve ou longo, conforme o caso que fizeres das minhas prescrições.

- Que devo fazer?

- É preciso que lhe dês regularmente o remédio que vou receitar.

- Fá-lo-ei.

- A doente precisa ficar sozinha, devendo-lhe ser poupada toda e qualquer preocupação de espírito.

- Não tenhas cuidados, quanto a isso.

- Preciso falar-lhe diariamente.

- Tu? por quê?

- Para preparar os remédios de acordo com a marcha do mal e o estado da doente.

- Neste caso eu te direi como ela vai passando.

- Isso tu não podes fazer, porque não sabes julgar sobre o estado de um doente.

- Mas o que queres dizer-lhe?

- Só aquilo que me permitires!

- Onde?

- Neste mesmo aposento, como hoje.

- Dize-me exatamente por quanto tempo precisarás vir aqui.

- Se me obedeceres, dentro de cinco dias, a contar de hoje, ela estará... livre... do seu mal.

- Pois então receita-lhe o medicamento adequado.

- Não o tenho aqui comigo, está com o meu servo, lá em baixo, no pátio.

- Então vem.

Voltei-me com propósito de me despedir dela mudamente, por meio deste movimento. A enferma levantou as mãos por debaixo dos véus que a cobriam e, em atitude suplicante, atreveu-se a dizer: - Eww Allah, com Deus!

- Cala-te! Só tens que falar quando fores interrogada!

- Abrahim Mamur - respondi com seriedade, - não te disse que lhe deve ser poupado todo incômodo e pesar? Não é assim que se fala a uma doente, ameaçada pela morte!

- Pois então, ela que se cuide, para que não precise incomodar-se. Sabe que não deve falar. Acompanha-me!

Voltamos ao selamluk e mandei chamar a Halef, que não tardou em aparecer com a farmácia. Receitei Ignatia com as respetivas prescrições e me preparei para sair.

- A que horas virás, amanhã?

- A esta mesma hora.

- Enviar-te-ei um bote. Quanto te devo?

- Nada. Quando a doente sarar, dar-me-ás o que bem te aprouver.

Não obstante ele meteu a mão no bolso e puxando de uma saquinho ricamente bordada, tirou algumas moedas e as deu a Halef.

- Guarda isso para ti.

O valente Halef Agha recebeu-as e fêz uma solene reverência dizendo, enquanto deixava cair no bolso o bakchich:

- Abrahim Mamur, a tua mão é tão aberta quanto a minha. Não a fecho contra ti, porque o Profeta diz que uma mão aberta é o primeiro degrau para a paragem dos bem-aventurados. Alá esteja contigo e não me desampare.

Fomos até o jardim, acompanhados pelo egípcio, onde um criado nos abriu a porta do muro. Assim que ficamos sós, Halef meteu a mão no bolso para ver o que tinha recebido.

- Três cequins de ouro, efêndi! Que o Profeta abençoe Abrahim Mamur e conserve doente a sua mulher tanto quanto possível!

- Hadji Halef Omar!

- Sídi! Então não desejas que eu ganhe esses cequins?

- Desejo, sim; porém mais é de desejar a saúde da doente.

- Quantas vezes virás aqui?

- Cinco, talvez.

- Cinco vezes três são quinze cequins; se ela ficar boa, talvez eu receba mais quinze o que perfaz a soma de trinta cequins. Vou ver se aqui, ao longo do Nilo, há mais mulheres doentes.

Saltamos para o bote, no qual os remadores já nos esperavam. O guia que nos trouxera tomou o leme e logo a embarcação se pôs em movimento, rio abaixo, naturalmente com mais rapidez do que na vinda, de sorte que, meia-hora depois, chegávamos ao nosso destino.

Atracamos nas proximidades de uma dahabia (1) que na nossa ausência ancorara na praia. As amarras estavam presas, as velas recolhidas e, segundo o uso piedoso dos maometanos, o reis, capitão do navio, convocou a tripulação para a prece.

- Haia l'es salab, eia preparai-vos para a oração.

Já estava me afastando das margens, mas voltei-me rapidamente; aquela voz pareceu-me conhecida. O ouvido não me enganara. Seria de fato-o velho Hassan, a quem chamavam de Abu er Reisan, o pai dos comandantes? Estivera em Kufra em visita a um filho e encontrara-se conosco, voltando, depois, ao Egito na nossa companhia. Simpatizamos mutuamente e eu tinha a certeza de que se alegraria ao encontrar-me de novo. Esperei, pois, que terminassem a oração, após a qual chamei-o ao convés..

- Hassan er Reisahn, ohio!

Logo assomou o seu bondoso rosto sulcado de rugas e coberto de barba.

- Quem és?... perguntou. - Ó, Allah akbar, Deus é grande! Não é o meu filho, Nemsi Kara Efêndi?

- É ele mesmo, Abu Hassan.

- Sobe meu filho; quero abraçar-te!

Subi e fui recebido com grandes demonstrações de júbilo.

- Que fazes aqui? - perguntou-me.

- Descanso da viagem. E tu?

- Venho de Dongola, onde recebi um carregamento de folhas de sena. O meu navio avariou-se e por isso fui obrigado a atracar neste lugar.

- Quanto tempo ficarás aqui?

- Só até amanhã. Onde estás instalado?

- Ali à direita, naquela casa isolada.

- Tens boa estalagem?

- Sim, sou hóspede do cheikh el beled, muito bom homem. Esta noite irás à minha casa, Abu Hassan?

- Irei, se os teus cachimbos não estiverem quebrados.

- Só tenho um, de sorte que deveras levar o teu. Entretanto hás de fumar o mais delicioso djebeli que já experimentaste.

- Irei com certeza. Ficarás ainda muito tempo por aqui?

- Não. Pretendo voltar em breve para o Cairo.

- Pois então vai comigo. Vou atracar em Bulakh.

Com este oferecimento surgiu-me uma idéia.

- Hassan, tu me chamas de amigo!

 

(1) Navio.

 

- És realmente meu amigo. Pede-me o que quiseres e serás atendido, desde que não seja o impossível.

- Desejava solicitar-te um favor muito grande.

- Poderei fazê-lo?

- Podes, sim.

- Então, desde já considera atendido o que vais pedir. De que se trata?

- Sabê-lo-ás à noite, quando tornares o café comigo.

- Irei... mas, ó meu filho, esquecia-me de que já aceitei um convite...

- De quem?

- De um morador da casa em que estás.

- Do cheikh el beled?

- Não, mas dum homem de Estambul que viajou dois dias comigo e desembarcou aqui. Alugou um quarto para ele e um para o criado.

- De que nacionalidade é?

- Não sei. - Mas o criado dele poderia informar-nos. - O capitão riu, o que era contra o seu costume.

- Aquele homem é um maroto que ouviu falar todas as línguas, mas não conhece nenhuma a fundo. Fuma, assobia e canta todo o dia e, quando se lhe faz perguntas, responde dubiamente. Assim, anteontem era turco, ontem montenegrino, hoje é um drusa e só Alá sabe o que será amanhã e depois de amanhã.

- Então não irás ao meu apartamento?

- Irei sim, depois de ter fumado uma cachimbada com o outro. Alá te guarde! Tenho muito que trabalhar ainda.

Deixei-o e segui Halef que saíra na minha frente. Logo que cheguei em casa, estendi-me no divã para rememorar e meditar sobre os acontecimentos do dia. Isso no entanto não me foi possível, porque, ao cabo de alguns minutos, entrou o dono da casa.

- Salam aleikum.

- Aleikum.

- Efêndi, venho solicitar a tua permissão...

- Para quê?

- Veio um sídi desconhecido e me pediu um quarto e eu cedi-o:

- Onde fica o quarto que lhe deste?

- No andar superior.

- Não há dúvida, não me incomodará. Faze o que bem te aprouver, xeque.

- Mas a tua cabeça tem muito que pensar e acompanha-o um criado que, parece, assobia e canta muito.

- Se me incomodar, irei falar-lhe.

O solícito proprietário afastou-se, deixando-me novamente sozinho. No entanto, não pude aprofundar-me na meditação, porque dela me desviou o ruído dos passos de duas pessoas, que vinham, um do lado do pátio c o outro do lado de fora, encontrando-se, justamente, na porta do meu quarto.

- O que queres aqui? Quem és tu? - perguntou alguém.

Reconheci Halef pela voz. - Primeiro dize-me quem és e o que queres nesta casa? - perguntou o outro.

- Eu? Eu moro aqui! - retrucou resolutamente Halef.

- Eu também!

- Quem és tu?

- Sou Hamsad al Djerbaba. E tu?... - És Agha?

- Sou sim, acompanho e protejo ao meu amo.

- Quem é o teu amo?

- O grande médico que mora neste quarto.

- Um grande medico? Qual é a sua especialidade?

- Ele cura tudo.

- Tudo? Ora, não me venha com prosa! Só existe um ser que cura tudo.

- Quem é?

- Sou eu.

- Então também és médico?

- Não. Sou protetor do meu amo.

- Quem é o teu amo?

- Isso é segredo. Viemos há pouco para esta casa.

- Melhor seria que não tivesses vindo.

- Por quê?

- Porque és um homem descortês e não respondes às minhas perguntas. Queres ou não dizer-me quem é teu amo?

- Pois não!

- E então?...

- É, é... meu amo. O seu nome não é da tua conta.

- Malcriado!

Dito isso, o meu Halef se afastou, extremamente indignado. O outro ficou parado, junto à porta e começou a assobiar; pouco depois, passou a contarolar baixinho. Após uma pausa entoou uma canção a meia voz.

A agradável surpresa que me acometeu foi tanta que me ergui de um salto, como movido por uma mola.

O homem cantara, em árabe, uma bela e querida cançoneta alemã que ouvira muitas vezes na minha pátria, nos anos da minha infância.

Também a melodia era a mesma, sem alteração de uma nota. Quando terminou a segunda estrofe, corri para a porta, abri-a e procurei com os olhos o cantor. Vestia bombachas azuis, larguíssimas, uma jaqueta da mesma côr, botas de couro e um chapéu de feltro. Não tinha nada de extraordinário.

Ao deparar comigo, levou as mãos às ilhargas, pôs-se diante de mim, em sinal de desprezo ou desafio, e perguntou:

- Gostou, efêndi?

- Muito! Onde aprendeste esta canção?

- Eu mesmo a compus.

- Vai dizer isso a outro, mas não a mim! E a música?

- Eu mesmo compus a letra e a música!

- Mentiroso!

- Efêndi, eu sou Hamsad al Djerbaba e não admito que me ofendam!

- És Hamsad al Djerbaba e mentes descaradamente! Eu conheço essa melodia.

- Pois então aquele que ta cantou ou assobiou, aprendeu-a comigo.

- E de quem a ouviste?

- De ninguém, já te disse.

- Ao que parece és incorrigível. Essa é a melodia de uma canção alemã.

- Ora, efêndi, o que sabes tu da Alemanha?

Como única resposta, pus-me a repetir em alemão a popular canção que ele cantara em árabe. Não chegara ao segundo verso, quando fui interrompido pela exclamação admirada e jubilosa:

- Ué! mas o que é isso! O senhor é alemão?!

- Sou sim!

- Realmente? Um efêndi alemão? Donde? Se me permite a pergunta, senhor Hekim Bachi? (1)

- Da Saxônia.

- Um saxônio! Que feliz encontro! E ao que parece, o senhor tornou-se turco?

- Não. E o senhor é prussiano?

- Sou. Um prussiano de Jüterbock.

- Como é que veio parar aqui?

- Andei de estrada de ferro, de vapor, a cavalo, em camelo e também com as pernas e aqui estou.

- Em que se ocupava antes?

- Era barbeiro. Aborrecia-me a monotonia burguesa da minha casa, por isso resolvi correr mundo. Estive já em várias localidades dos dois hemisférios e agora, eis-me nessa boa terra.

- Vai contar-me tudo isso. Mas ao serviço de quem acha-se atualmente?

- O meu amo é o filho dum comerciante de Constantinopla. Chama-se Islã Ben Maflei e tem dinheiro como água.

- O que faz ele nessa cidade?

- Eu sei lá! Procura alguma coisa.

- Mas o quê?

- Provavelmente uma moça.

- Uma moça? Curioso!

- Curioso, mas possível.

- Quem será essa moça?

- Uma montenegrina, uma Senitcha ou Senitza; a minha língua nâo permite pronunciar esse nome.

- O que?... Senitza é o nome dela?

 

(1) Ilustre médico.

 

- É sim.

- Estás certo disso?

- Estou. Primeiro, porque tem um retrato dela; segundo, porque anda constantemente... Olhe: lá está ele batendo palmas, efêndi! Com a sua licença!

Quando me vi só, comecei a caminhar de um lado para outro. Achava muito interessante esse barbeiro de Jüterbock, que se cognominara tão poeticamente de Hamsad al Djerbaba, mas ainda mais interessante me parecia o seu amo que viera ao Nilo, em procura de uma montenegrina, cujo nome era Senitza.

Infelizmente, apareceram alguns felás, que se queixavam de dores de cabeça e dores de barriga, a quem tive de atender e ministrar os meus glóbulos milagrosos. Segundo o uso do oriente, ficaram uma hora inteira sentados ao meu lado, antes de se decidir a me dizer o que queriam. Depois de os ter despachado, permaneceram ainda um bom quarto de hora, até que lhes aprouve despedir-se. Entrementes, anoiteceu. O capitão veio e subiu para o pavimento superior mas, meia-hora mais tarde, ouvi os passos arrastados do velho se encaminharem para o meu aposento. Halef serviu o fumo e o café e retirou-se. Momentos depois ouvi-o discutir com o turco de Jüterbock.

- Está reparada a avaria? - perguntei a Hassan.

- Ainda não. Hoje só pude fechar a brecha e tirar a água. Alá amanhã nos concede outro dia.

- E quando segues viagem?

- Depois de amanhã, bem cedo.

- Queres levar-me contigo?

- Minha alma se encheria de contentamento se pudesse contar com a tua agradável companhia.

- Haverá lugar para mais alguém?

- A minha dahabia poderá receber muito mais passageiros. Quem é?

- É uma mulher.

- Uma mulher? Compraste uma escrava, efêndi?

- Não. É uma mulher que pertence a outro.

- E esse outro irá junto?

- Não.

- Mas então a compraste dele?

- Não.

- Ele te fez presente dela?

- Não. Pretendo raptá-la.

- Allah kerim, Deus é misericordioso! Raptá-la?

- Talvez.

- Homem, avalias a gravidade do crime que cometes?

- E daí?

- Uma tchikarma, um rapto!

- Não há dúvida.

- Uma tchikarma que é punida com a morte! Terás o espírito tão enevoado e a alma tão obcecada pela paixão, a ponto de te fazer esquecer a enormidade do delito que vais perpetrar?

- Não. O negócio ainda é muito problemático. Sei que és meu amigo e sabes guardar segredo. Vou contar-te tudo.

- Abre as portas do teu coração, meu filho, que eu escutarei!

Narrei-lhe toda a minha aventura de hoje e fui ouvido com atenção. Quando terminei, o reis levantou-se.

- Ergue-te, meu filho, toma o teu cachimbo e segue-me!

- Para onde?

- Já verás.

Pressenti a intenção dele e o segui. Conduziu-me ao aposento do comerciante, no pavimento superior. O criado não estava e, por isso, entramos logo, depois de haver anunciado a nossa chegada por um leve pigarro.

O homem que se ergueu ao ver-nos, era moço ainda; teria os seus vinte e seis anos, pouco mais ou menos. O custoso tchibuk (1) que fumava, confirmava o que dissera o prussiano de Jüterbock com relação à fortuna do jovem. Era um tipo interessante e simpático, e, à primeira vista, vi que podia dispensar-lhe toda a minha amizade. O velho Abu er Reisan tomou a palavra:

- Apresento-lhe o comerciante atacadista, Isla Ben Maflei, de Estambul, e aqui o meu amigo efêndi Kara Ben Nemsi, a quem muito estimo.

- Sede ambos bem-vindos e assentai-vos! - respondeu o jovem cavalheiro. Lia-se-lhe no semblante a mais viva expectativa. Tinha boas razões para pensar que o capitão, para me introduzir assim, sem mais cerimônias, tinha motivos de peso.

- Queres prestar-me um obséquio, Isla Ben Maflei? - perguntou o velho.

- Com todo o prazer. Em que posso servir-te?...

- Conta a esse senhor a história que há pouco me narraste.

À visível expectativa que se lia na fisionomia do comerciante, sucedeu-se estupefação e desconfiança.

- Hassan er Reisan, tu me juraste sigilo e agora vejo que burlaste a minha confiança.

- Pergunta ao meu amigo, se lhe revelei algo.

- Mas, por que o trazes a mim e pedes que lhe narre tudo?

- Não me pediste que, onde quer que eu atracasse à noite, trouxesse os olhos bem abertos e procurasse indagar a respeito daquilo que perdeste? Abri bem os olhos e os ouvidos e trago-te este homem que talvez possa dar-te boas notícias.

Isla levantou-se de um salto, atirando o cachimbo para o lado.

- É verdade? Podes dar-me as notícias que busco?

- Meu amigo Hassan não me disse palavra, por isso não sei quais as informações que procuras. Se puder, terei prazer em fazer o que me pedes.

- Efêndi, se na verdade me disseres o que desejo ouvir, recompensar-te-ei

 

(1) Cachimbo.

 

melhor do que o faria um paxá!

- Não quero recompensa. Explica-te!

- Procuro uma donzela que se chama Senitza.

- E eu conheço uma mulher que tem esse nome.

- Onde, onde, efêndi? Dize-me depressa!

- Não queres descrever-me primeiro essa donzela?

- Ó, é bela como a rosa e linda como a aurora; exala um perfume semelhante ao da flor de Resedá. A sua voz é melodiosa como a das huris. O seu cabelo é como a cauda do cavalo de Gilja e o seu pé lembra o de Dalila que denunciou Sansão. A sua boca é rica de palavras de bondade, e os seus olhos...

Interrompi-o com um gesto:

- Isla Ben Maflei, isso não é a descrição que te pedi. Não fala como noivo apaixonado, mas como homem razoável. Quando a perdeste?

- Há duas luas.

- Não tinha alguma coisa, algum sinal que a desse a conhecer?

- Ó efêndi, o que podia ser?

- Uma jóia, um anel, uma corrente...

- Um anel, um anel, sim! Dei-lhe um anel de ouro, em cujo aro delgadíssimo acha-se engastada uma linda pérola.

- Pois eu vi esse anel.

- Onde, efêndi? Por favor, diz e depressa! E quando?

- Hoje, há algumas horas.

- Onde?

- Nas proximidades deste lugar, há uma hora daqui.

O jovem cavalheiro ajoelhou ao meu lado e pôs as duas mãos sobre os meus ombros:

- É verdade isso? Não estás mentindo? Não estás enganado?

- É verdade, não estou enganado.

- Então, vamos até lá...

- É impossível.

- Por que é impossível? Eu te dou mil, duas, três mil piastras, se me levares para junto dela.

- Mesmo que me deres cem mil, não te poderei fazer a vontade,

- Então dize-me quando? Amanhã, amanhã bem cedo?

- Toma o teu cachimbo, acende-o e senta-te! Quem age precipitadamente perde tempo. Vamos combinar um plano de ação.

- Não posso, efêndi! A minha alma geme e estremece!

- Acende o teu cachimbo!

- Não tenho paciência para isso, preciso...

- Bem! Se não quiseres te acalmar, retirar-me-ei.

- Fica! Farei tudo o que quiseres.

Voltou ao seu lugar, e apanhou uma brasa para acender o cachimbo.

- Fala que eu te escutarei! - rogou o jovem.

- Hoje um rico egípcio me chamou à sua casa, para ver-lhe a esposa que  estava enferma...

- Sua esposa...!

- Foi o que ele mandou dizer.

- E tu fôste?

- Fui.

- Quem é esse homem?

- Chama-se Abrahim Mamur e mora não longe daqui, numa casa solitária, meio em ruínas, situada à margem do Nilo.

- Está circundada por um muro?

- Exatamente.

- Quem poderia adivinhá-lo! Investiguei todas as cidades, vilas e localidades do Nilo, mas jamais supus que essa casa fosse habitada. Mas é ela de fato mulher desse homem?

- Não sei, mas não o acredito.

- E acha-se doente?

- E bastante.

- Wallahi, por Deus, ele há de pagar bem caro se suceder algum mal à minha amada. De que moléstia está sofrendo?

- O mal de Senitza é do coração. Odeia-o, consome-se em saudades e deseja fugir do seu tirano. E morrerá se não lograr libertar-se.

- Foi ela e não ele quem te disse isso?

- Nem um nem outro. O que te digo é resultado das minhas observações e deduções.

- Viste-a?

- Sim, eu a vi.

- Ouviste-a?

- Não. Abrahim levou-me ao harém, para que pudesse falar com a doente.

- Ele mesmo? Impossível!

- Ama-a!...

- Alá o castigue!

- E receava que ela morresse se me despedisse.

- Mas então falaste com Senitza?

- Falei, sim, mas apenas o estritamente necessário, o que ele me permitiu. Entretanto a moça teve oportunidade de segredar-me: - Salve Senitza! É porque tem esse nome, embora chamem-na de Guezela.

- E o que foi que respondeste?

- Que havia de salvá-la.

- Efêndi, já te estimo como se te conhecesse desde a tenra infância; a ti pertence a minha vida! Aquele miserável a raptou e seduziu. Apossou-se dela, usando de um embuste. Vem, efêndi, vamos até lá. Preciso ao menos ver a casa onde se acha presa!

- Tu ficarás aqui! Amanhã voltarei lá outra vez, e...

- Irei junto, sídi!

- Ficarás aqui! Ela conhece o anel que trazes no dedo?

- Conhece-o muito bem.

- Queres confiar-mo?

- Com muito gosto. Mas para que fim?

- Amanhã falar-lhe-ei novamente e darei um jeito para que veja o anel.

- Sídi, essa idéia é excelente! Verá logo que eu ando por perto. E depois?

- Conta primeiro aquilo que devo saber.

- Já saberás de tudo. A nossa casa é a mais forte de Estambul; sou filho único e, enquanto meu pai dirige os negócios e fiscaliza os empregados do bazar, eu viajo para a firma. Estive muitas vezes em Scutari e vi Senitza, quando passeava, no lago, com uma amiga. Mais tarde, tornei a vê-la. Seu pai não mora em Scutari, mas na serra negra e, de vez em quando, ela vinha dos montes visitar a amiga. Quando, há dois meses, estive novamente no lago, a amiga tinha desaparecido com o marido e, com eles, Senitza!

- E ninguém soube onde foram parar?

- Ninguém.

- Nem os pais de Senitza?

- Nem os pais. O pai, o bravo Osco, saiu de Czernagora para procurar a filha por todo o mundo; eu tive que vir ao Egito, para fazer compras. No Nilo encontrei uma lancha que subia o rio. Quando o sandal em que eu estava, passou por ela, ouvi pronunciar o meu nome. Olhei e reconheci Senitza, que tinha levantado o véu do rosto. Ao lado dela estava um homem bem apessoado que, imediatamente, lhe fêz baixar o véu; não vi mais nada. Desde aquele instante, estou à procura da minha doce amada.

- Portanto não sabes com certeza, se ela deixou a pátria espontaneamente ou por coação?

- Certo é que não foi espontaneamente.

- Conhecias o homem que se achava ao seu lado?

- Não.

- Curioso! Quem sabe se te enganaste? Ou se se trata de outra pessoa, muito parecida?

- Mas teria então chamado por mim, estendendo-me as mãos, efêndi?

- Lá isso é verdade.

- Sídi, tu prometeste salvá-la?

- Prometi.

- Cumpsirás a tua palavra?

- Eu a cumpsirei se não houver engano de pessoa.

- Mas se não permites que te acompanhe, como virás a saber que é Senitza a doente que estás tratando?

- O teu anel mo dirá.

- E como a libertarás?

- Explicar-te-ei, em tempo, como poderás pô-la em liberdade.

- Arranca-la-ei das mãos do seu raptor der por onde der, podes estar certo.

- E depois? Hassan er Reisan, estarias pronto a recebê-la na tua dahabia?

- Com o máximo prazer, embora não conheça o homem com quem ela está.

- Intitula-se Mamur, como já te disse.

- Se de fato foi Mamur, isto é, governador de uma província, é bastante poderoso para nos aniquilar, se é que consegue nos deitar a mão - disse o capitão com ar grave. - Um rapto é castigado com a morte. Meu amigo Kara Ben Nemsi, amanhã deves agir com cautela e prudência.

Eu desprezava inteiramente o perigo e me deliciava com o sabor da aventura. Claro está que não moveria um dedo, se Abrahim Mamur pudesse apresentar algum direito real sobre a enferma.

Falamos ainda muito tempo sobre o que havíamos de fazer e só nos separamos para dormir. Provavelmente o enamorado e ardente Isla não encontrou sossego nessa noite.

 

O rapto

Já ia avançada a noite, quando nos deitamos, por isso, na manhã seguinte acordamos tarde. E, talvez o meu sono tivesse se prolongado mais, se não me despertasse o canto do barbeiro.

Postara-se à minha porta e, creio que em minha honra, pretendia fazer ouvir todo o seu repertório de cantos populares alemães.

Mandei entrar o cantor, para palestrar um pouco. No decorrer da conversa tive oportunidade de verificar que era um rapaz de boas qualidades, ainda que um tanto leviano. Apesar de ser um patrício não o teria trocado pelo bom Halef. Mal poderia supor que, mais tarde, havia de me encontrar com ele em circunstâncias tão desagradáveis quão graves.

Antes do meio-dia, dirigi-me para o navio de Abu er Reisan, a fim de visitar a esse velho amigo e, ainda não tinha terminado de almoçar, quando apareceu o bote que vinha buscar-me. Há muito que Halef o esperava.

- Efêndi, posso ir junto? - perguntou ele.

Sacudi a cabeça e respondi em ar de troça:

- Hoje não preciso de ti.

- Como? Não precisas de mim?

- Não.

- E se te suceder alguma coisa?

- O que poderá suceder-me?

- Podes cair n'água.

- Se tal acontecer salvar-me-ei a nado.

- Abrahim Mamur pode matar-te. Notei que não te vê com bons olhos.

- Nesse caso nem tu me poderias ajudar.

- Como não? Sídi, Halef Agha é homem em quem podes confiar sempre.

- Bem, nesse caso permito que me acompanhes.

Interesseiro como era, não queria deixar escapar a ocasião de ganhar uma boa gorjeta. Tornamos a percorrer o mesmo trajeto, com a diferença que, dessa vez, prestei mais atenção em tudo o que poderia auxiliar a execução do meu intento. No jardim que atravessamos, havia uma porção de varas fortes e compridas. Tanto o portão interno como o externo achavam-se fechados com tramelas de madeira cuja construção examinei bem. Não encontrei cão de guarda. Pelo timoneiro do bote fiquei sabendo que. além do senhor, da doente e duma velha doméstica, havia onze felás (1) que permaneciam noite e dia no casarão.

Abrahim Mamur dormia no divã que se achava no selamluk. O dono da casa veio-me ao encontro com fisionomia visivelmente mais alegre do que aquela com

 

(1) Criados.

 

que o deixara no dia precedente.

- Bem-vindo sejas, efêndi! És um grande médico.

- Achas?

- Pois ela ontem mesmo já comeu.

- Ah, é?

- E conversou com a camareira.

- Alegremente?

- Sim, muito alegremente.

- Bom sinal. Talvez esteja restabelecida em menos de cinco dias.

- E hoje de manhã até cantou um pouco.

- Melhor ainda. Há muito tempo que é tua mulher?

A essa pergunta transformou-se a sua fisionomia.

- Os médicos dos infiéis são muito curiosos!

- Sequiosos por saber, mas esta sede de saber salva a vida ou a saúde de muitos, a quem os vossos clínicos são incapazes de prestar o menor auxílio.

- A tua pergunta tem realmente alguma finalidade importante?

- Claro que sim!

- É donzela ainda, embora seja minha.

- Então o auxílio é garantido.

Levou-me de novo até o quarto, no qual fiquei esperando como na véspera.

Examinei tudo com muita atenção. Janelas não havia; a luz entrava por aberturas gradeadas. Estas grades eram de construção especial, mas podiam ser abertas facilmente. Bastava retirar-se uma vareta comprida que servia de tramela. Resolutamente puxei a vareta e a escondi atrás da grade, de modo que nada se notava de anormal. Mal terminara esse trabalho, apareceu Abrahim de novo. Vinha seguido de Senitza.

Encaminhei-me ao seu encontro e fiz-lhe algumas perguntas. Enquanto a interrogava, brincava distraidamente com o anel que me dera Isla, fingindo grande zelo pelos sintomas da doença.

Num dado momento, deixei-o cair do dedo. Rolou e foi parar aos pés da moça que se abaixou para agarrá-lo. Mas, ao mesmo tempo Abrahim chegou-se a ela e lho tirou da mão. Apesar da rapidez com que se deu isso, teve tempo de reconhecer a jóia, pois sobressaltou-se e levou instintivamente a mão ao coração. O meu serviço, por ora, estava findo.

Abrahim Mamur perguntou como achara a enferma.

- Deus é bondoso e onipotente - respondi; - Ele envia auxílio sos seus, não raro bem inesperadamente. Se lhe aprouver, amanhã já podera estar restabelecida. Ela que tome o remédio que vou receitar e mandar e espere com confiança até que eu volte.

Nesse dia Senitza se despediu sem dizer palavra. Halef esperava-me no selamluk com a farmácia. Receitei um papel de açúcar em pó e que rendeu ao pequeno Agha uma gorjeta mais elevada que a da véspera. Em seguida, voltamos para casa.

O capitão aguardava-me no quarto do comerciante.

- Viste-a? - exclamou ao me ver entrar.

- Vi, sim.

- Reconheceu o anel?

- Reconheceu.

- Então sabe que estou por perto!

- Assim o supõe. E se interpretou bem as minhas palavras, sabe que será salva esta noite.

- Mas como?

- Hassan er Reisan, já reparaste a avaria?

- Ainda não, mas conto repará-la até à noite.

- Estás disposto a receber-nos à bordo e nos levar até o Cairo?

- Estou.

- Então ouçam cá! Duas portas conduzem para o interior da casa, mas ambas estão cerradas pelo lado de dentro, de forma que não podemos utilizá-las. Mas há, ainda, um outro caminho, embora mais difícil. Isla Ben Maflei, sabes nadar?

- Sei.

- Bem. Por baixo do muro, corre um canal que liga o Nilo a um reservatório construído no meio do pátio. Logo depois da meia-noite, quando todos estiverem dormindo, penetraremos na toca do lobo. Tu passarás pelo canal até o reservatório e, assim, chegarás ao pátio. Encontrarás uma porta fechada por uma tranca, facilmente removível. Aquela dá para o jardim onde existe outra porta que igualmente absirás. Afastados esses obstáculos, poderei entrar. Encostaremos ao muro uma escada ou uma viga e subiremos até as grades das janelas dos aposentos femininos, que já abri por dentro.

- E depois?

- O que há de suceder depois, não sei. Depende das circunstâncias. Iremos de bote até o ancoradouro da embarcação de Abrahim Mamur, que afundaremos para que este fique impossibilitado de perseguir-nos. Entrementes, o reis aprontará a sua dahabia.

Tomei um lápis e desenhei o croquis da planta da casa num papel, para que Isla Ben Maflei soubesse se orientar, à noite, quando saísse do reservatório. Todo o dia foi tomado pelos preparativos necessários; sobreveio à noite e, na hora aprazada, chamei Halef e o instruí sobre a aventura que íamos empreender. Em três tempos, Halef arrumou as nossas coisas. O aluguel tinha sido pago com antecedência.

Fui até o navio de Hassan e logo depois chegou Halef carregado com as nossas bagagens. O navio estava pronto para partir. Largamos sem demora.

Alguns instantes mais tarde, apareceu Isla com o seu servo, devidamente industriado sobre o que lhe cumpria fazer. Embarcamos num bote longo e estreito que pertencia a dahabia. Os dois criados remavam e eu ia no timão.

A noite era duma paz e quietude quase absolutas. Dir-se-ia que, em todo o orbe, não havia um só elemento que não estivesse em ordem e harmonia. A suave aragem que havia brincado com a sombra do crepúsculo, descansava no silêncio da natureza; as estrelas do sul sorriam alegremente no céu azul escuro, e as águas do majestoso rio corriam quedas e sem murmúrio.

Embora custe a crer, no meu interior reinava a mesma paz que se fazia sentir na natureza. O nosso empreendimento nada tinha de fácil e a gente sempre se sente temeroso diante de um acontecimento revestido de certa importância; porém, uma vez resolvida e iniciada a aventura, desaparecem as ponderações e o prazer do imprevisto apossa-se de nós. O rapto talvez pudesse ser evitado. Assistia-nos o direito de citar a Abrahim Mamur nos tribunais.

Mas não sabíamos, precisamente, em que circunstâncias entrara na posse de Senitza e quais os meios legais ou ilegais de que dispunha para fazer valer o seu direito sobre ela. As informações de que necessitávamos, para proceder judicialmente, só nos poderiam ser fornecidas pela própria moça, e isso só seria possível depois de tirarmos Senitza das mãos dele.

Após uma hora de viagem, surgiu no horizonte o contorno da edificação circundada pela massa cinzenta e imprecisa de rochedos. Encostamos, pouco abaixo do muro, onde desci sozinho para proceder ao reconhecimento.

Não notei o menor sinal de vida nas circunvizinhanças. Dentro dos muros tudo se achava mergulhado no mais profundo silêncio. Junto ao canal, encontramos o bote de Abrahim Mamur com os remos. Entrei nele e o trouxe para junto do nosso.

- Aqui está o bote - disse aos dois criados. - Levem-no um pouco mais abaixo, encham-no de pedras e façam-no afundar. Guardem os remos, porque podem servir-nos. Conservem a nossa embarcação pronta para largar logo que voltarmos. Isla Ben Maflei, segue-me!

Deixei o bote e, acompanhado do jovem negociante, aproximei-me do canal. As suas águas negras não nos olhavam muito prazenteiramente. Atirei uma pedra e constatei que não era fundo. Isla despiu-se e mergulhou. A água chegava-lhe ao queixo.

- Será possível atravessar o canal? - perguntei-lhe.

- É melhor nadar do que caminhar. O canal tem muita lama. Estou enterrado até aos joelhos.

- Queres continuar?

- Não recuo diante das dificuldades. Traz a minha roupa até o portão. Vamos, avante.

Deu impulso ao corpo, estendeu os braços e desapareceu pela abertura do muro por onde entrava a água. Não me afastei logo do lugar e esperei um pouco, pois era bem possível que algo de imprevisto sucedesse. E acertei, pois no momento em que ia afastar-me, surgiu a cabeça do nadador na abertura do muro.

- Por que voltaste?

- Não pude ir além.

- O que foi que houve?

- Efêndi, não podemos livrar Senitza!

- Por quê?

- O muro é muito alto...

- E não adiantava nada se fosse mais baixo: a casa está bem fechada.

- E o canal também.

- Também está obstruído?

- Está.

- Com quê?

- Com uma sólida grade de madeira.

- Não te foi possível afastá-la?

- Resistiu a todos os meus esforços.

- A que distância se acha daqui?

- A grade deve estar na altura dos alicerces.

- Vou verificar. Veste-te; segura a minha roupa e espera-me. Despi-me e entrei n'água, nadando de costas. No trecho que dava para o jardim o canal estava fechado com lajes. Quando me achava aproximadamente junto da casa, topei com o gradil. Era do mesmo tamanho do canal e feito de varas fortes e embutidas, sendo preso nos muros por meio de ganchos de ferro. Esse aparelho tinha por fim impedir a entrada de animais, ratos d'água etc. no reservatório. Sacudi-o, mas não cedeu e eu me convenci que não era possível tirá-lo de uma vez. Agarrei uma vara com as duas mãos, encostei os dois joelhos encolhidos contra o muro e, com um esforço ingente, consegui fazer com que a vara cedesse e quebrasse. Havia agora uma brecha e, em menos de dois minutos, logrei arrancar mais quatro praticando assim uma abertura pela qual podia passar. Devia voltar, para deixar o resto a Isla? Não, porque isso importaria em uma irreparável perda de tempo. Estava dentro d'água e conhecia melhor o lugar do que ele. Passei pela abertura e avancei a nado com certa dificuldade, pois a lama fora revolvida. Quando, pelos meus cálculos, devia encontrar-me debaixo do pátio o canal afunilou de repente e a abóbada baixou até a superfície da água; verifiquei, então, que estava próximo do reservatório. Dali em diante, o canal tornou-se inteiramente ocupado pela água. Era impossível respirar. O trajeto restante devia ser feito de gatinhas debaixo d'água ou nadando submerso o que não só era muito incômodo e extenuante, como também extremamente perigoso. O que seria de mim se esbarrasse com outro empecilho qualquer, sem tempo de voltar para tornar fôlego?... Ou se fosse percebido ao surgir à tona d'água, no reservatório? Era possível que se achasse alguma pessoa no pátio.

Essas reflexões não me abalaram. Enchi o pulmão de ar, curvei-me debaixo d'água e avancei, meio nadando e meio caminhando, com a máxima rapidez possível. Percorri, assim, um bom trecho e já começava a sentir faltar de ar, quando dei com a mão num novo empecilho. Pelo tato constatei tratar-se de uma peneira, uma folha perfurada, do tamanho da seção do canal e que devia servir de coador ou de filtro para a água turva e lamacenta.

Ao descobsir isso apoderou-se de mim grande ansiedade. Não podia voltar mais, porque, antes que alcançasse o lugar onde a abóbada se elevava permitindo que visse a cabeça fora d'água para tornar respiração, teria morrido sufocado. Esse filtro parecia bem amarrado nas paredes do canal. Em tal emergência só havia duas soluções: ou conseguia passar, ou sucumbiria miseravelmente. Não podia perder um só instante.

Fiz pressão sobre a folha - debalde; empurrei-a com toda a força, porém sem resultado. E, se conseguisse ultrapassar o obstáculo e logo atrás não se achasse o reservatório, estaria perdido do mesmo modo. Só tinha ar e força para um segundo ainda; sentia uma formidável pressão a despedaçar-me os pulmões, a romper o meu corpo - ainda um último, extremo esforço; meu Deus do céu, ajudai-me para que eu seja bem sucedido! Sinto que a morte estende para mim a sua mão úmida e gélida; agarra-me, cruel e inexorável e me comprime, me esfacela. O meu pulso parou, os sentidos foram me abandonando, a alma luta num último arranco contra o inevitável, uma expansão convulsiva, mortal, distende os nervos e músculos - ouço um estouro, nada mais, mas a luta com a morte alcançou o que a vida não conseguira - a peneira cedeu, desengastou-se da parede e eu surgi à tona d'água. Uma aspiração demorada e profunda deu-me nova vida. Depois de refeito, tornei a mergulhar. Era possível que alguém se achasse no pátio e percebesse a minha cabeça que emergira justamente no meio do reservatório. Â beira desse tornei a sair, para espiar.

Não havia luar, mas as estrelas do sul davam luz suficiente para distinguir os objetos. Saí do reservatório, para me aproximar do muro às furtadelas, quando ouvi um leve crepitar. Olhei para as grades que guarneciam os aposentos das mulheres. A direita de onde eu estava, achava-se o lugar em que tinha retirado a vareta. À esquerda notei uma fenda, na grade do quarto cuja entrada me fora vedada. Era sem dúvida a habitação de Senitza. Estaria ela acordada para me esperar? Aquele rumor viria da grade que absira no seu aposento? Se assim fosse, é porque me vira sair da água e se recolhera novamente, por não me haver reconhecido. Aproximei-me mais, e, colocando às mãos à boca, sussurrei:

- Senitza!

A fenda aumentou, e logo surgiu nela uma cabecinha escura.

- Quem és tu? - ciciou a moça.

- O hekim, que esteve hoje aqui.

- Vieste salvar-me?

- Sim - adivinhaste e compreendeste as minhas palavras!

- Estás sozinho?

- Isla Ben Maflei está lá fora.

- Ah! morrerá!

- Por quê?

- Abrahim Mamur não fecha os olhos durante a noite e está sempre de vigia. A camareira dorme no quarto contíguo ao meu. Pára - escuta! Ó! Foge depressa!

Na porta que conduz ao selamluk fêz-se ouvir um ruído. A abertura da grade no quarto de Senitza fechou-se e eu corri para o reservatório d'água. Era o único lugar onde podia refugiar-me. Entrei com toda a precaução para evitar ondulações na superfície líquida que me poderiam denunciar. Mal havia entrado n'água, abriu-se a porta, aparecendo na soleira a figura de Abrahim, que, cautelosamente, fêz a ronda do pátio. Achava-me imerso até à boca. Escondi a cabeça atrás da borda do reservatório, de modo que o egípcio não me podia perceber. Convenceu-se de que o portão continuava fechado e tornou ao selamluk, depois de haver feito uma volta e um exame completo. Saí da água e me aproximei do portão. Retirei a tramela e o abri. Estava no jardim. Atravessei-o em três pulos, para absir também o portão do muro e ir em busca de Isla Ben Maflei, quando ele apareceu.

- Hamdullilah, louvado seja Deus, efêndi! Foste feliz?

- Fui, mas lutei com a morte! Dá-me o meu casaco. A calça e o colete pingavam d'água; atirei o casaco sobre os ombros, para não ficar com os movimentos tolhidos e disse-lhe:

- Já falei com Senitza.

- É verdade, efêndi?

- Compreendeu as palavras dúbias que lhe disse hoje pela manhã e estava nos esperando.

- Então vamos depressa, depressa!

- Calma.

Entrei no jardim, para agarrar uma vara que havia visto ao entrar pela primeira vez. Passamos para o pátio. A fenda da grade lá em cima torara a absir-se.

- Senitza, minha estrela, minha... - exclamou Isla com voz abafada quando apontei para cima. Interrompi-o:

- Por amor de Deus, fica quieto! Aqui não é lugar para expansões.

- Deixa-me falar sozinho.

Voltei-me então para o alto e perguntei:

- Estás disposta a ir conosco?

- Oh, sim.

- Não se poderá passar pelos quartos?

- Não. Mas adiante, atrás das colunas de madeira, tem uma escada.

- Vou buscá-la!

Não precisávamos nem da vara nem da corda que trouxera. Achei a escada no lugar indicado. Era sólida. Depois de a ter encostado ao muro, Isla subiu.

Entrementes fui até o selamluk, para escutar.

Depois de algum tempo apareceu a moça que desceu ajudada por Isla. No momento em que eles chegaram ao solo, a escala vacilou, tombando ao chão com um forte estrondo.

- Fugi depressa para o bote! - recomendei.

Ainda corriam em direção ao portão, quando ouvi passos atrás ds porta.

Abrahim ouvira o barulho e acudiu. Queria proteger a retirada dos fugitivos e, por isso, seguia-os, procurando não me distanciar muito deles. O egípcio deparou comigo e com a escada caída e a grade aberta.

Soltou um brado que foi, sem dúvida, ouvido por todos os moradores da casa.

- Chirsytz, bajdert, ladrão, bandido, detem-te! Acudi, acudi, homens, pessoal, escravos! Socorro!

Praguejando e vociferando, corria atrás de mim. E como o oriental não dorme em camas como os europeus, mas em geral deita-se vestido em divãs, os domésticos acorreram logo.

O egípcio estava nas minhas pegadas. Quando cheguei ao portão externo, voltei-me para trás. Abrahim achava-se apenas há uns dez passos de mim e, no portão interno, já assomava um segundo perseguidor.

Do lado de fora, à minha direita, fugiam Isla Ben Maflei e Senitza, quebrei, portanto, para a esquerda. Abrahim deixou-se iludir. Não vira a moça e só a mim perseguia. Dobrei uma esquina, em direção ao rio, do lado oposto em que ancorara o bote. Depois, corri pela segunda esquina ao longo do rio.

- Pára, patife! Eu atiro! - gritou.

Trazia, portanto, as armas consigo. Continuei a correr. Se me acertasse uma bala seria morto ou apanhado como prisioneiro, porquanto, após ele, vinham os criados, gritando desabridamente. Ouvi um tiro. Fizera a pontaria correndo, em vez de parar primeiro; o tiro passou raspando por mim. Fingi que tinha sido atingido e: atirei-me ao solo. Passou voando, sem se deter para me examinar, pois, percebera enfim o bote no qual embarcava Isla com Senitza. Assim que se distanciou um pouco levantei-me. Em alguns saltos alcancei-o, e, agarrando-o pela nuca, lancei-o ao chão.

A gritaria dos servos fazia-se ouvir atrás de mim, estavam bem próximos, porque perdera tempo com a luta; mas logrei chegar à embarcação, pulando nela.

Halef empurrou-a imediatamente para o largo, e já nos havíamos afastado um bom trecho, quando os perseguidores chegaram à praia. Nesse ínterim, Abrahim erguera-se. Incontinenti compreendeu a situação.

- Geri, - berrou ele; geri erkekler - voltem, vamos para o bote! Todos volveram em direção ao canal, onde estava amarrado o bote. Abrahim foi o primeiro a chegar. Soltou um grito de raiva ao constatar que o barco tinha desaparecido. Nesse meio tempo, afastáramo-nos das paradas e quietas águas da margem, e entráramos na correnteza; Halef e o barbeiro de ]üterbok remavam; tomei um remo tirado do bote de Abrahim o mesmo fazendo Isla, de sorte que o nosso barco deslizava célere, rio abaixo.

Não se pronunciou palavra; a nossa disposição era simplesmente intraduzível. Toda essa aventura demandara não pequeno lapso de tempo. O horizonte começava a tingir-se de vermelho, as águas do Nilo eram visíveis em extensão muito ampla. Ainda avistávamos Abrahim com os seus servos, parado à margem do rio; mais acima apontava um navio a vela que refletia as cores rubras da madrugada.

- Um sandal! - exclamou Halef.

Sim, era um sandal, um daqueles barcos compridos e bem tripulados, que deslizam com tanta velocidade que são capazes de competir com a marcha de um vapor.

- Ele chamará o sandal e seguirá em nossa perseguição - obtem-perou Isla, receoso.

- Talvez o dono do sandal seja um negociante, e assim não atenderá o chamado de Abrahim.

- Se Abrahim oferecer ao reis uma boa soma, este não se recusará em atendê-lo.

- Ainda assim tornaríamos boa dianteira. Até que o sandal atraque e o dono dele entre em negociações com Abrahim decorrerá um certo tempo. E, antes de Abrahim embarcar, terá de se munir da bagagem indispensável para uma viagem mais ou menos longa, pois não pode saber por quanto tempo nos perseguirá.

A vela desaparecia da nossa vista, e, de tal modo apressamos a marcha do barco que, em menos de meia-hora, lobrigamos a dahabia, que nos tornaria a seu bordo.

O velho Abu er Reisan estava encostado no parapeito da ponte de comando. Percebeu que dentro do nosso bote achava-se uma figura feminina e compreendeu logo que a nossa empresa fora bem sucedida.

- Encostem! - gritou. - Já baixamos a escada!

Subimos a bordo, e o bote foi amarrado à popa. Em seguida, soltaram as amarras e içaram as velas. O barco largou; o vento intumesceu a lona e singramos para o meio do rio, que nos levou correnteza abaixo.

Aproximei-me do reis.

- Como se foi? - perguntou este.

- Muito bem. Contar-te-ei tudo, mas antes dize-me se um bom sandal é capaz de alcançar o teu barco.

- Estamos sendo perseguidos?

- Não o creio, contudo é possível.

- A minha dahabia é muito boa, mas um sandal veloz alcança qualquer dahabia.

- Então façamos votos para que não sejamos perseguidos! Narrei-lhe tudo o que acontecera e fui depois até o camarote para trocar a roupa que ainda estava úmida. O camarote era dividido em duas partes desiguais. A menor fora reservada para Senitza e a maior para o capitão, Isla Ben Maflei e eu.

Duas horas após nossa partida, percebi, nas águas do nosso barco, uma ponta de vela que se aproximava cada vez mais. Quando apareceu o casco reconheci o sandal que vira de manhã.

- Vês aquele navio? - perguntei ao reis.

- Allah akbar, - Deus é grande e a tua pergunta é enorme, - respondeu-me ele. - Como é que eu, um reis experimentado, não vou enxergar um barco que navega tão próximo do meu!

- Será um barco do quediva?

- Não.

- Como sabes isso?

- Conheço bem esse sandal.

- Ah, sim!

- É do reis Khalid Ben Mustafá.

- Tu o conheces?

- E muito bem, mas não somos amigos.

- Por quê?

- Porque um homem honesto não pode ser amigo de um patife.

- Hum, tenho um pressentimento.

- Qual?

- Desconfio que Abrahim Mamur acha-se a bordo desse barco.

- Veremos!

- O que farás se esse sandal pretender encostar na dababia?

- Não posso me opor. A lei assim o manda.

- E se eu me opuser?

- Como queres te arricar a tal? Sou o reis da minha dababia e preciso agir de acordo com a lei.

- E eu sou o reis da minha vontade.

Então Isla aproximou-se de nós. Não queria fazer-lhe perguntas insistentes, mas ele mesmo dirigiu-me a palavra.

- Kara Ben Nemsi, tu és meu amigo, o melhor amigo que até hoje encontrei. Queres que te conte como Senitza caiu nas garras do egípcio?

- Gostaria muito de saber tudo, mas para ouvir a narrativa detalhadamente precisaríamos de certa calma e tranqüilidade que agora nos faltam, por completo.

- Estás inquieto? Por quê?

Ele ainda não percebera o barco que vinha nas águas do nosso.

- Olha lá o que vem no nosso encalço!

Ele se voltou e, ao enxergar o navio, perguntou:

- Será que Abrahim está a bordo?

- Não sei, mas é bem possível, porque o capitão é um patife que se vende com a maior facilidade.

- Como sabes que ele é patife?

- Abu er Reisan o conhece.

- É fato - confirmou este; conheço o capitão e o seu barco. Ainda que estivesse mais afastado, tê-lo-ia reconhecido pelas velas, triplamente reforçadas.

- O que faremos? - perguntou Isla.

- Antes de mais nada, esperar, para ver se Abrahim se encontra à bordo.

- E se estiver?

- Não passará para o nosso barco.

O nosso capitão comparava a marcha do sandal com a que fazíamos nós, e concluiu depois:

- Aproxima-se cada vez mais. Vou levantar mais uma trikheta.

Fêz-se isso, mas alguns minutos depois constatei que tal manobra .era quase inútil. Seríamos alcançados em breve. O sandal se aproximava cada vez mais; por fim a distância tornou-se tão pequena que vimos baixar uma vela, para diminuir a marcha. Abrahim Mamur estava parado na convés.

- Ali está ele - exclamou Isla.

- Onde? - perguntou o reis.

- Na proa.

- Aquele? Kara Ben Nemsi, o que faremos! Vão nos interrogar e nós somos obrigados a responder.

- Quem tem que responder, segundo as tuas leis?

- Eu, o proprietário da dahabia,

- Escuta bem o que te digo, Abu er Reisan.

- Estás disposto a alugar-me o teu navio daqui até Cairo?

O capitão olhou-me estupefato, mas logo percebeu a minha intenção.

- Estou - respondeu-me.

- Portanto sou eu o dono do barco!

- És.

- E tu na qualidade de reis terás que fazer o que eu quiser.

- Pois não.

- E não és responsável por nada?

- Por nada.

- Bem. Chama o teu pessoal!

A tripulação acorreu logo ao apelo do capitão que assim falou:

- Comunico a todos que esse efêndi, cujo nome é Kara Ben Nemsi, alugou a nossa dahabia até o Cairo. Não é assim? - perguntou, volvendo-se para mim.

- Assim é, - confirmei.

- Podeis, pois, testemunhar que não sou mais o dono do barco? - perguntou ele ao pessoal.

- Nós o testemunharemos.

- Pois bem, voltai aos vossos postos. - Permanecerei na direção do navio, porque Kara Ben Nemsi assim o ordenou.

Afastaram-se, visivelmente espantados com a notícia que haviam recebido.

Nesse meio tempo o sandal emparelhara conosco. O seu capitão, alto e delgado com um penacho no turbante, apareceu no convés e perguntou-nos:

- Alô, dahabia, quem é o reis?

Inclinei-me para frente e respondi:

- Reis Hassan.

— Hassan Abu er Reisan?

— É.

- Bem, eu o conheço - respondeu com ar malicioso. - Tendes uma mulher a bordo?

- Temos.

- Entreguem-ma.

- Khalid Ben Mustafá, estás maluco!

- Veremos. Vamos encostar o nosso barco.

- Nós o impediremos.

- Como pretendes fazer isso?

- Já vais ver. Cuidado com o penacho do teu turbante.

Levantei rapidamente a arma, que tinha em prontidão sem que ele tivesse percebido. Fiz pontaria e disparei. O penacho voou. Uma grande desgraça não teria provocado nele um maior susto do que esse tiro. Dir-se-ia que os seus membros delgados eram elásticos, tal o pulo que deu. Dotou as duas mãos na cabeça e correu a esconder-se atrás do mastro.

- Agora sabes, Ben Mustafá, como atiro - gritei. Se o teu sandal continuar por um só minuto ao nosso lado, não atirarei no penacho do turbante mas sim no teu ventre.

Essa ameaça produziu efeito imediato. Correu ao leme, tomou-o das mãos de quem o governava e afastou-o para longe. Dentro de dois minutos achava-se o sandal a salvo das balas.

- Por ora estamos seguros - disse eu.

- Ele não se arriscará mais a aproximar-se tanto - disse Hassan, mas não nos perderá de vista, até que atraquemos em qualquer ponto da praia, para então recorrer à proteção da lei. Não a temo, mas receio outra coisa.

- O que é?

Num gesto mudo apontou para a água.

Compreendemos logo o que queria dizer.

Já há algum tempo havíamos notado que as ondas se avolumavam mais e mais, correndo com grande impetuosidade, e que as margens rochosas do rio se aproximavam, apertando o curso d'água. Estávamos chegando a uma daquelas correntezas que, pelos perigos que oferecem ao navegante, tornam precárias as condições de navegabilidade do Nilo. Era preciso esquecer a inimizade dos homens, para que a atenção de todos se concentrasse no elemento ameaçador. A voz do reis ecoou no convés.

- Olhai para o alto, ó pessoal! a catarata se aproxima. Reuni-vos e rezai a santa Fatha!

Os homens obedeceram e começaram a orar.

- Protegei-nos, ó Senhor, do demônio por ti petrificado!

- Em nome do Todo Misericordioso! - entoou o reis. Ao que os outros atalharam e rezaram a Fatha, primeira surata do Alcorão.

Devo confessar que essa oração também me comoveu, não por nos acharmos diante de perigo iminente, mas pela religiosidade profunda desses homens, semi-selvagens, que nada fazem e nada começam sem evocar Aquele, que é a fortaleza dos fracos.

- Eia, homens. Eia bravos heróis, voltai aos vossos postos - ordenou o comandante, - a correnteza nos apanhou.

O comando dum navio que navega no Nilo não é feito tão tranqüila e exatamente como a direção dum barco europeu. O sangue quente que circula nas veias do oriental joga-o, diante do perigo, de pólo a pólo, da mais larga esperança ao mais profundo abatimento e desespero. Gritos, impropérios, jaculatórias e imprecações se confundem, se repetem, quando o levantino pressente a morte.

No momento seguinte, depois da vitória, já passada a borrasca, solta brados de alegria ainda mais intensos, assobia, canta e exulta. Nesses instantes decisivos todos trabalham com o máximo de suas forças. O comandante corre de um para outro, repreendendo a uns com termos que só o árabe pode imaginar, estimulando a outros com as frases mais doces e mais delicadas, entre as quais a palavra “herói” figura reiteradas vezes. Hassan preparara-se para a passagem da correnteza, trazendo pessoal em excesso. Cada remo era manejado por dois homens. Três práticos, que conheciam a correnteza a palmo no lugar mais perigoso, tomavam conta do leme, e dirigiam o barco. Com impetuosidade cada vez maior rolavam agora as vagas por sobre os blocos de rochedos, mal encobertos pela água. As ondas espumando cobriam o convés, e o reboar da catarata predominava sobre a voz estentórica do comandante.

O barco gemia e estalava em todos os cantos, os remos tornavam-se quase inúteis e o leme recusava-se a obedecer à mão experimentada dos marujos. Num dado ponto as rochas negras e reluzentes estavam de tal modo agrupadas que mal permitiam a passagem da dahabia. As ondas comprimidas nessa estreita garganta se precipitavam, num jato volumoso e gigantesco, caindo numa bacia semeada de recifes de pontas aguçadas. Com velocidade vertiginosa atravessamos o perigoso passo. Os remos foram recolhidos. Parecia que seríamos engolidos pelas medonhas e pétreas fauces, de tão próximas, quase as podíamos tocar com as mãos. A força indomável da correnteza nos precipitou por sobre o pente faiscante e escumoso do salto, como se nos quisesse projetar pelo ar e caímos no abismo da caldeira. Em derredor de nós, as águas fervilham, espadanam, bramem, ribombam. Novamente, uma força irresistível nos arrasta por uma planície acentuadamente inclinada, cuja superfície se espraia sorridente e plana diante de nós, mas justamente essa planície esconde a maior perfídia, porque não deslizamos, não, vamos caindo, precipitados com rapidez veemente à estrada inclinada e...

- Allah kerim, Deus é clemente! - ecoa agora a voz de Hassan tão estridente que se a podia ouvir em meio à fúria dos elementos.

- Allah il Allah, aos remos, aos remos, ó jovens, ó varões, ó heróis, ó tigres, panteras e leões! A morte jaz diante de vós. Não a vedes? Amal, amal, ia Allah amal, depressa, depressa, por Deus depressa, cães, covardes, patifes e gatos, trabalhai, trabalhai valentes, bondosos, heróis, incomparáveis, experimentados e peritos. Caminhamos para uma tesoura que se abre diante de nós e nos aniquilará de um momento para outro.

As rochas são tão afiadas e a queda da correnteza é tão violenta, que, segundo me parece, não ficará um punhado de madeira do nosso navio.

- Allah ia satir, ó divino Protetor, auxiliai-nos! À esquerda, à esquerda, cães, abutres, devoradores de ratos, comilões de imundícies, à esquerda, à esquerda, com o leme, valentes, maravilhosos, pais de todos os heróis! Allah, Allah, Ma xa Allah. - Deus faz milagres, graças lhe sejam dadas!

O barco, obedecendo a esforços quase sobre-humanos, passou com celeridade espantosa. Finalmente alcançamos as águas tranqüilas! Todos caem de joelhos para render graças ao Senhor.

- Achhadu an la ilah illa Allah! - ressoa em jubilosa algazarra sobre todo o convés -  realmente existe só um Deus! Sellem aaleina baraktak - que nos mande a Sua bênção!

Eis que, logo após, voando como que impulsionado pela corda dum arco, aparece o sandal que, como nós, passara os mesmos perigos. A sua velocidade voltara a ser maior do que a nossa e, por isso, era obrigado a passar-nos à frente. Mas é tão estreito o leito navegável, que só a custo foi possível esquivar-nos raspando ele por nós. Abrahim Mamur estava encostado ao mastro, escondendo a mão direita. Ao defrontar-se comigo levantou a arma, uma comprida espingarda árabe, encostou-a ao ombro. Atirei-me ao chão e a bala passou roçando por mim. Pouco depois já o sandal tornara grande dianteira. Todos viram a tentativa de assassinato mas ninguém teve tempo de se admirar ou encolerizar, pois fomos novamente apanhados pela correnteza e atirados a um labirinto de recifes.

Um grito angustioso se fêz ouvir na nossa frente. O sandal, com a impetuosidade do schellah, batera de encontro ao rochedo; os remadores jogaram os remos à água e o barco, levemente avariado, voou livremente, tragado pelas ondas. Com o choque um homem foi atirado às águas; e, desesperadamente agarrou-se ao rochedo. Tomando uma corda de fios de tamareira corri para o lado do convés e arremessei-a ao infortunado. Ele estendeu o braço e conseguiu apanhá-la. Ao suspendê-lo vemos que é Abrahim Mamur.

Assim que se encontrou são e salvo no convés, sacudiu a água da roupa e atirou-se de punhos cerrados contra mim.

- Cão, ladrão, patife!

Esperei-o de pé firme, e essa minha atitude fêz com que ele se detivesse sem fazer uso dos seus punhos.

- Abrahim Mamur, sê cortês, pois não te encontras em tua casa. Se disseres uma só palavra mais que me desagrade, mando-te amarrar ao mastro, para seres chicoteado!

A maior ofensa para um árabe é ser batido, e, em segundo lugar, ser ameaçado com o rêlho. Abrahim fêz um movimento instintivo rnas felizmente, se dominou.

- Tens a bordo minha mulher!

- Não tenho.

- Mentes!

- A moça que se acha a bordo não é tua mulher, mas a noiva desse rapaz que está aqui a meu lado.

Precipitou-se para a cajuta, mas Halef embargou-lhe o passo.

- Abrahim Mamur, eu sou Hadji Halef Omar Ben Hadji Abul Abbas; estás vendo essas pistolas, não é? Se intentares desobedecer ao meu amo,,, alojo-te duas balas nos miolos!

O meu pequeno Halef fêz uma cara tão expressiva que o egípcio não teve ocasião nem vontade de duvidar da seriedade da ameaça.

Por isso voltou-se, bufando de raiva:

- Pois então acusar-vos-ei logo que tocardes em terra, e farei demitir a vossa marujada.

- Não o impediremos. Até lá, porém, não serás meu inimigo, mas sim o nosso hóspede, contanto que não cometas tolices.

Felizmente tínhamos passado o trecho mais perigoso da correnteza, e podíamos discutir o nosso assunto com a devida calma.

- Queres contar-nos agora de que maneira Senitza foi cair nas mãos desse homem? - perguntei a Isla.

- Vou buscá-la, - respondeu o interpelado; ela mesma que o conte.

- Não; deixa-a ficar no camarote, para que a sua presença não excite a ira do egípcio já tão exasperada. Antes de mais nada, dize-nos se Senitza é maometana ou cristã?

- É cristã.

- De que ramo?

- Do que chamais ortodoxo.

- Não foi mulher de Abrahim?

- Ele a comprou.

- Como é isso possível?

- As montenegrinas não andam veladas. Abrahim viu-a em Scutari; ficou apaixonado e pediu-lhe que se casasse com ele. Senitza, porém, repeliu-o ironicamente. Abrahim foi, então, à Czernagora e ofereceu ao pai da moça uma grande soma. Este deu-lhe uma corrida, e vendo-se sem esperança Abrahim lembrou-se de comprar o pai da amiga de Senitza, com quem esta costuma passear.

- Como conseguiu isso?

- Esse homem a fêz passar por sua escrava, vendeu-a a Abrahim Mamur, dando-lhe como garantia um documento em que dizia ser ela uma escrava da Circássia.

- Ah! bem, foi por isso que essa amiga desapareceu de um momento para o outro, juntamente com o pai!

- Só por isso. Depois, a bordo de um navio, foram primeiro para Chipre e depois para o Egito. O resto já o sabeis.

- Como se chamava o homem que a vendeu? - perguntei instintivamente.

- Barud el Amasat.

- El Amasat... el Amasat... esse nome não é estranho. Onde é que o ouvi? Era turco?

- Não, era armênio.

- Armênio - exatamente, agora o sabia! Hamud el Amasat, aquele armênio que tentara matar-nos no chott fugindo depois de Kbilli, - seria o mesmo? - Impossível! a não ser que possuísse o dom da ubiqüidade.

- Não sabes se esse Barud el Amasat tem um irmão? - perguntei a Isla.

- Não sei; nem Senitza o sabe.

Indagamos os menores detalhes no que se referia a essa família. Nessa altura da palestra chegou o criado Hamsad el Djerbaia que se dirigiu a mim:

- Senhor efêndi, tenho uma coisa a dizer-lhe:

- O que é?

- Como se chama esse egípcio?

- Abrahim Mamur.

- Credo! Esse homem tem a coragem de dizer que é Mamur?!

- Pois então!

- Que vá contar isso a outro. Conheço-o melhor do que a mim próprio!

- O que dizes! Quem é ele?

- Vi-o levando bastonadas na planta dos pés e, como era a primeira vez que presenciava tal castigo, interessei-me pela vítima, colhendo informações detalhadas a seu respeito.

- E afinal, quem é ele?

- Fazia parte da legação persa attaché ou coisa parecida e denunciou um segredo, segundo me disseram. Foi condenado à morte mas, por influência de ricos protetores, a pena lhe foi comutada. Seu verdadeiro nome é Dawud Arafim.

Que o barbeiro de Jüterbok conhecesse esse homem era uma coincidência extraordinária, e só agora um raio de luz penetrava a minha inteligência. Vira-o em Ispahan no Almaiden-Xah, amarrado sobre um camelo, para ser levado a Constantinopla como prisioneiro. Naquela ocasião o meu caminho, até certo trecho, era o mesmo da caravana, de sorte que também ele me vira, recordando-se agora da minha pessoa.

- Agradeço-te por essa informação, Hamsad, mas por enquanto guarda-a só para ti.

Agora já não receava que levantasse acusações contra mim ou Isla.

Não sei porque não podia afastar a idéia de que Abrahim já conhecia Barud el Amasat, que lhe vendera Senitza antes dessa transação. Abrahim era um funcionário criminoso, estivera na prisão e tinha levado bastonadas - e agora se apresentava como Mamur e possuía uma elevada fortuna. Tudo isso dava-me muito que pensar.

Achei mais conveniente não divulgar as informações do barbeiro, para que Abrahim não soubesse que havia sido identificado.

No primeiro porto de atracação era preciso desembarcar os marinheiros que tinham sido recolhidos na dahabia, pouco acima da queda d'água. Por isso o nosso barco se dirigiu à margem.

- Vamos lançar âncora ou não? - perguntei ao reis.

- Não. Logo que tivermos posto os homens em terra, daremos volta.

- Por quê?

- Para evitar a polícia.

- E Abrahim?

- Será posto em terra com os demais marujos.

- Não temo a polícia.

- Tu és estrangeiro e te achas sob a proteção do cônsul. Nada poderão fazer contra ti. Ah!

Essa última exclamação fora provocada pelo aparecimento de um bote tripulado por homens armados e mal encarados. Eram khawassas - polícias.

- Certamente não pretendes voltar agora mesmo? - perguntei a Hassan.

- Como não, basta que o mandes. Só a ti tenho de obedecer.

- Não o ordeno; muito pelo contrário tinha vontade de conhecer a polícia da terra.

O bote encostou e toda a tripulação subiu ao convés, antes de termos alcançado a terra. Os homens do Sandal já haviam ancorado, contando que Abrahim morrera afogado no Schellah (1) e que uma mulher havia sido raptada. Além disso o velho reis Khalid Ben Mustafá, segundo fomos informados mais tarde, foi ter logo com o juiz, apresentando ao mesmo uma acusação bem forjada contra mim, o assassino, rebelde e salteador infiel, de modo que podia dar-me por muito satisfeito se fosse enforcado sem ser submetido à tortura.

E como a justiça da África ainda não descobriu os autos, os processos eram julgados rápida e sumariamente.

- Quem é o reis desse navio, - perguntou o comandante da polícia.

- Sou eu, - respondeu Hassan.

- Como é o teu nome?

- Hassan Abu er Reisan.

- Trazes no teu navio um efêndi, um hekim que é infiel?

- Aqui está ele e se chama Kara Ben Nemsi.

- E também não se acha no teu navio uma mulher de nome Guezela?

- Sim, acha-se no camarote.

 

(1) Catarata.

 

- Bem, vós todos sois meus prisioneiros e me acompanhareis à presença do juiz. O navio ficará guarnecido pela minha gente.

A dahabia atracou e toda a sua tripulação bem como todos os passageiros foram transportados incontinenti.

Senitza, toda envolta num véu, foi acomodada numa liteira e teve que seguir o nosso préstito que, a cada passo se avolumava mais, pois moços e velhos, grandes e pequenos se lhe ajuntavam. Hamsad al Djerbaia o ex-barbeiro, caminhava atrás de mim e assobiava alegremente, o - Muss i denn, muss i denn, zum Staedtelein hinaus (1).

O Sahbet-Bei ou chefe de polícia com o seu secretário já estava à nossa espera.

Ostentava o distintivo de Bimbachi, major, ou comandante de mil homens, mas o seu porte não era o de um guerreiro, nem o seu semblante revelava grande inteligência. Como toda a tripulação do sandal, também ele supunha que Abrahim Mamur se afogara. Recebeu o ressuscitado com um respeito e uma admiração que contrastavam com o furor do olhar que nos lançou. Ficamos divididos em dois grupos: de um lado a tripulação do Sandal com Abrahim e alguns dos criados que este trouxera consigo e do outro o pessoal da dahabia com Senitza, Isla, além de Halef, o barbeiro e eu.

- Queres um cachimbo? - perguntou o chefe de polícia ao suposto Mamur.

- Mande trazê-lo!

Ele o recebeu conjuntamente com um tapête, para se sentar. Em seguida, começou a audiência:

- Alteza, dize-me o teu nome, abençoado por Alá!

- Abrahim Mamur.

- És, pois, um Mamur. Em que província?

- Em En-Nasar.

- És o acusador. Fala, que eu escutarei, para depois julgar.

- Acuso este djaur do rapto de minha mulher; acuso de tchikarma (2) o homem que está ao lado dele, e acuso o comandante da dahabia como cúmplice de ambos. Quanto à culpabilidade dos servos desses dois homens e dos marinheiros da dahabia, deixo-a a teu cuidado, Bimbachi.

- Conta como se deu o rapto.

Abrahim aquiesceu. Ao terminar a narração, foram ouvidas as suas testemunhas.

O reis do Sandal Khalid Ben Mustafá me acusou ainda de tentativa de assassinato.

Quando se dirigiu a mim os olhos do chefe de polícia luziam como um relâmpago.

- Como te chamas, djaur?

 

(1) Um canto popularíssimo alemão cujos dizeres são os seguintes: mas será, que eu preciso sair da querida cidadezinha.

(2) Rapto.

 

- Kara Ben Nemsi.

- Qual a tua pátria?

- Djermanistan (1).

- Onde está situado este punhado de terra?

- Punhado? Hum, Bimbachi, bem mostras que és bastante ignorante!

- Cão! - levantou-se ele furioso. - Que queres dizer com isso?

- Djermanistan é um país muito grande e possui dez vezes mais habitantes do que o Egito todo. E tu o desconheces. De mais a mais és um mau geógrafo e por isso deixas-te enredar pelas mentiras de Abrahim Mamur.

- Se te atreveres a dizer mais uma só palavra ofensiva mandar-te-ei pregar na parede pelas orelhas.

- Atrevo-me! Este Abrahim diz ser o Mamur da província En-Nasar, porém Mamur só há no Egito...

- E En-Nasar por acaso não fica no Egito, djaur? Eu pessoalmente estive lá e conheço o Mamur como ao meu próprio irmão, e como a mim mesmo.

- Estás mentindo!

- Preguem-no na parede! - ordenou o juiz.

Saquei do revólver, e Halef ao ver isso, puxou de suas pistolas.

- Bimbachi, eu te asseguro que matarei aquele que ousar tocar-me, e depois a ti! Mentes, repito mais uma vez. En-Nasar é um pequeno oásis, sem importância, entre Homra e Tighert, em Trípoli; lá não existe nenhum Mamur, mas um xeque bem pobre. Chama-se Mamra Ibn Alef Abuzin, e eu o conheço muito bem. Podia divertir-me à tua custa permitindo que prosseguisses o interrogatório, mas prefiro acabar com isso duma vez. Como é que deixas de pé os acusadores, ao passo que o acusado, o criminoso, pode sentar-se e até recebe um cachimbo?

O bom homem me olhou estupefato.

- Que queres dizer com isso, djaur?

- Arrepender-te-ás se tornares a empregar esse termo! Possuo um passaporte e um salvo-conduto do vice-rei do Egito; e este meu companheiro é de Estambul. Possui um Bu-djeruldu do governador geral, e é, pois, um protegido do Paxá.

- Mostrem os documentos!

Entreguei o meu e Isla apresentou-lhe o que trazia. Ele os leu, devolvendo-os confuso.

- Continua a falar.

Esse convite indicava claramente que não sabia o que fazer. Tomei, pois, novamente a palavra:

- És um Sahbet-Bei e um Bimbachi e não conheces as atribuições do teu cargo. Quando lês um manuscrito do Governador Geral, tens de primeiro levá-lo à testa, aos olhos e à boca, intimando a todas as pessoas presentes que se curvem, como se em presença real de Sua Majestade, Hei de dar conhecimento ao Grão-Senhor e ao quediva em Estambul do respeito que lhes tributas!

 

(1) Alemanha.

 

Por essa ele não esperava. Levou tamanho susto que abriu olhos e boca, sem articular palavra. Eu continuei:

- Querias saber o que pretendia há pouco com as minhas palavras. Eu que sou o acusador fico de pé, e este, o acusado, é convidado a sentar-se!

- Quem o acusa?

- Todos nós!

Abrahim estava perplexo mas nada disse.

- De que crime o acusas? - perguntou o chefe de polícia.

- De tchikarma, de rapto, do mesmo crime de que ele nos acusou. Percebi que Abrahim começava a ficar inquieto. O juiz ordenou que eu falasse.

- Lamento, Bimbachi, que tenhas de passar por tamanho pesar.

- Não te entendo. De que pesar falas?

- Teres de condenar um homem que conheces como ao teu irmão e como a ti mesmo. Até estiveste em casa dele em En-Nasar e sabes, com certeza, que é um Mamur. E eu te digo que também o conheço, Chama-se Dawud Arafim, era funcionário do Grão-senhor da Pérsia, foi demitido e até castigado com bastonadas.

Então Abrahim se levantou do solo.

- Cão! - Sahbet-Bei, este homem perdeu o juízo!

- Sahbet-Bei, continua a ouvir-me e hás de de ver qual de nós dois tem a cabeça mais certa e mais bem assente, a minha ou a dele.

- Fala!

- Esta moça é cristã, uma cristã livre de Karadagh (1). Ele a raptou, levando-a para o Egito. Aqui o meu amigo é o verdadeiro noivo dela e por isso veio à sua procura para levá-la novamente consigo. Tu nos conheces, pois viste os nossos documentos identificadores, e a ele não conheces. É um raptor de mulheres e um defraudador. Manda que exiba a sua legitimação, ou eu vou ao quediva para dizer-lhe da justiça que praticas no teu cargo, por ele confiado a ti. O capitão do sandal acusou-me de tentativa de assassinato. Pergunta a estes homens. Todos eles ouviram quando disse que lhe alvejaria o penacho do turbante, no qual de fato acertei. Este, porém, que se intitula Mamur, atirou sobre mim com a intenção e firme propósito de me matar. Aí está a acusação! Agora decide!

O pobre homem estava numa situação bastante embaraçosa, pois não podia desmentir as suas palavras e atos. Sentia, porém, que eu estava com

a razão; resolveu, pois, o caso de uma forma singularíssima e explicável apenas num egípcio.

- O povo que se retire! - ordenou ele. Vou pensar sobre o assunto e à tarde profesirei a sentença. Vós todos sois meus prisioneiros!

Os Khawassas (2) enxotaram os presentes abaixo de bordoadas. Feito isso saíram escoltando Abrahim Mamur e a tripulação do sandal e finalmente levaram também a nós até o pátio da casa, onde podíamos movimentar-nos à vontade.

 

(1) Montenegro.

 (2) Polícias.

 

No portão de saída viam-se alguns guardas que pareciam estar nos vigiando. Entretanto, um quarto de hora mais tarde também eles haviam desaparecido.

Adivinhei o que Sahbet-Bei pretendia, e me aproximei de Isla Ben Maflei que estava sentado ao lado de Senitza, junto ao poço.

- Achas que teremos ganho de causa no nosso processo?

- Não acho nada; deixo tudo ao teu cargo, - respondeu o jovem.

- E se de fato a vitória fôr nossa, que será de Abrahim?

- Nada lhe sucederá. Conheço essa gente. Abrahim oferecerá ao Bimbachi boa soma de dinheiro, ou lhe dará um dos preciosos anéis que traz nos dedos e o Bimbachi o soltará.

- Desejas que ele morra?

- Não. Encontrei Senitza e isso é o suficiente.

- E o que pensa a respeito a tua amiguinha? 

Senitza respondeu por sua própria boca.

- Efèndi, fui muito infeliz, porém agora já estou livre. Não pensarei mais nele.

Isso me bastou. Faltava saber a opinião de Abu er Reisan. Este por sua vez, me respondeu que se dava por muito satisfeito de escapar são e salvo. Em vista disso fui sondar o ambiente. Atravessei o portão e fui até a rua. A temperatura atingira o seu grau máximo, e não se via viva alma pelos arredores.

Evidentemente, o Sahbet-Bei desejava que encontrássemos a solução para o caso, sem esperar pela sua sentença. Assim, voltei ao pátio e transmiti-o meu parecer a todos, convidando-os a me seguirem. Atenderam-me c ninguém se opôs à nossa retirada.

Ao chegarmos à dahabia, vimos que os guardas já haviam deixado o navio. Um negociante interessado no carregamento, que constava de folhas de sena, podia ter procedido, sem impedimento algum, a apropriação do mesmo.

O sandal não se achava mais no ancoradouro. Tinha desaparecido... Provavelmente o digno Khalid Ben Mustafá percebera, antes de nós, a intenção do senhor juiz e resolveu zarpar com o navio e a tripulação.

Mas onde estaria Abrahim Mamur?

Descobri-lo não era tarefa que nos deixasse indiferentes, pois, não só era provável como até mesmo quase certo, que não haveria de nos perder de vista. Pelo menos tinha o pressentimento de que, mais cedo ou mais tarde, havia de encontrar-me novamente com esse embusteiro.

A dahabia levantou âncora e continuamos a nossa viagem interrompida, com a agradável convicção de termos escapado por um triz de uma situação extremamente crítica.

 

Abu-Seif

 “E levantou-se o anjo de Deus que conduzia o exército de Israel e postou-se atrás deste e afastaram-se também as colunas de nuvens colocando-se entre o exército dos egípcios e o dos israelitas; as nuvens eram escuridão para aqueles, e para estes esclarecia a noite; de maneira que em toda a noite não chegou um ao outro.

Eis senão quando Moisés estendeu sua mão por sobre o mar e o Senhor, durante a noite, afastou as águas com um forte vento do oeste e fêz secar o mar e as águas dividirem-se.

E os filhos de Israel entraram pelo meio do mar em seco, ficando as águas como muros à direita e à esquerda deles.

E os egípcios seguiram-nos e meteram-se pelo mar a dentro com os corcéis, carruagens e cavaleiros do faraó.

Quando rompeu a aurora, olhou o Senhor para o exército dos egípcios por entre nuvens e colunas de fogo, causando a todos grande pavor.

E arrancou as rodas dos carros de combate, precipitando-os ao chão com enorme fragor. Então exclamaram os egípcios: fujamos de Israel; o Senhor combate por eles contra nós!

Mas o Senhor disse a Moisés: Estende a tua mão sobre o mar para que a água recaia sobre os egípcios, sobre seus carros c cavaleiros.

Aí estendeu Moisés sua destra sobre o mar e este, antes do alvorecer, voltou para o leito e os egípcios fugiram e o Senhor derrubou os egípcios no meio do mar.

De sorte que a água recaiu cobrindo carruagens e cavaleiros do faraó que o tinha acompanhado ao mar, nada restando deles

Os filhos de Israel, porém, passaram pelo mar enxuto, detendo-se às águas à esquerda e à direita como se fossem muros.

Assim o Senhor salvou a Israel, nesse dia, da mão dos egípcios e eles viram os egípcios mortos na praia.

E viu Israel a grande mão que o Senhor mostrara aos egípcios; e temeu o povo ao Senhor, e creram no Senhor e em Moisés, seu servo.”

Detinha-me nessa passagem do segundo livro de Moisés (Cap. 14, vers. 19-31) quando refreei o meu camelo no vale Hiroth fronteiro ao Baal Zephon e passei os olhos pelas faiscantes ondas do Mar Vermelho. Acometeu-me algo daquele temor que sua vista despertara no coração dos filhos de Israel. Diante daquelas águas históricas, não foi propriamente horror o que me dominou, mas um pouco daquele santo temor de que todo crente se sente possuído, quando visita um lugar onde, segundo a História Sagrada, pousou o pé de Deus, e dominou a mão do Infinito.

Era como se eu ouvisse aquela voz què chamara ao filho de Amram e de Jochebeth:

“Moisés, Moisés, não te aproximes; tira primeiro as sandálias, pois é santa a terra que pisas”.

Atrás de mim estava a terá de Isis e Osíris, a terra das pirâmides e das esfinges, a terra na qual o povo de Deus suportou a servidão, arrastando as pedras para a construção daquela maravilhosa obra que ainda hoje provoca a admiração do viajante que passa pelo Nilo.

Por entre o junco do venerável rio a filha do rei achara aquele menino cuja missão era libertar um povo da escravidão e dar-lhe, com dez mandamentos, uma lei que, após tantos séculos, constitui a base de todas as legislações.

Lá em baixo, a meus pés, cintilavam as ondas do golfo arábico sob os esbraseantes raios do sol. Um dia, obedientes à voz de Jeová, haviam formado dois muros, entre os quais os servos da terra de Gos acharam o caminho da liberdade, enquanto o povo cavaleiro, déspota e perseguidor, sofria uma tremenda derrota. Foi também nessas ondas que, mais tarde, quase pereceu Napoleão Bonaparte, o Sultão Kebir.

E, defronte do Birka Faraun, o lago do faraó, como denominam os árabes o lugar onde desabaram os muros de água sobre os egípcios, eleva-se formidável, desafiando os tempos, o monte mais célebre da terra, o monte Sinai, no qual, por entre raios e trovões, ressoou: “Eu sou o Senhor teu Deus e não deves crer em deuses estranhos.”

Mais do que o lugar me impressionava a história, a ponto de não poder fugir do seu fascínio, nem mesmo que o quisesse. Quanta vez, sentado no colo da minha velha e piedosa avó, sustera a respiração ao ouvi-la contar a criação do mundo, a primeira queda, a morte de Abel, o castigo de Sodoma e Gomorra, a proclamação dos mandamentos, no Sinai... Foi ela, ela quem me juntou as mãozinhas para eu repetir o decálogo.

Agora, que o invólucro carnal da santa criatura, há muito jaz sob a terra, aqui estou no lugar que com tão vivas cores me havia ela pintado, ainda que só o tivesse visto com os olhos da imaginação. Acudiram-me, então, à memória as palavras do poeta tão cheias de verdade:

“O mesmo não acontece com aquelas santas histórias que só pode narrar “o Livro dos Livros”, porque ali se encontram por inspiração do divino Espírito Santo. Só a elas podes, confiantemente, dar fé e, profundamente, mergulhar em seu encanto, pois ali sentes pairar a presença de Deus.”

Mais do que as orgulhosas conclusões da lógica humana pode a fé produzir convicções firmes, inabaláveis. Tal era o que eu tão vivamente sentia e pensava naquela hora, e por certo, mais tempo permaneceria mergulhado em profunda meditação se não me tivesse vindo perturbar a voz do bravo Halef:

- Hamdulillah, graças a Deus que passamos o deserto! Sídi, aqui tem água. Apeia do animal e refresca-te com um banho.

Nesse instante aproximou-se de mim um dos dois beduínos que nos conduzira, e levantou a mão, em sinal de advertência.

- Não faças isso, efêndi!

- Por quê?

- Porque aqui mora Melek el mant, o anjo da morte. Quem entra nessas águas ou se afoga ou leva consigo o germe da morte. Cada gota deste lago é uma lágrima das 100.000 almas que aqui pereceram, por haverem intentado matar Sidna Musa (1) e os seus. Os botes e navios passam rápidos por aqui, sem se deterem, pois Alá, a quem os hebreus chamavam Djehuwa, (2) amaldiçoou o lugar.

- É verdade que nenhuma embarcação se detém aqui?

- É, sim.

- Tencionava ficar por estas paragens à espera de um barco para me levar.

- Queres ir para Suez? - Servir-te-emos de guias e, com nossos camelos, lá chegarás mais rapidamente do que se fosses de navio.

- Não pretendo ir a Suez mas a Tor.

- Então, tens de embarcar, de qualquer modo; mas aqui nenhum navio te receberá. Permite que te acompanhemos ainda um pedaço, para o sul, até alcançarmos um lugar que não seja habitado por espíritos e onde qualquer embarcação de bom grado ancorará, para te acolher.

- Quanto tempo de viagem temos ainda?

- Não chega a três vezes o tempo que os europeus chamam uma hora.

- Então, vamos adiante.

Para chegar ao Mar Vermelho não tomáramos o caminho habitual, de Cairo a Suez. O deserto que medeia estas duas cidades, há muito já não merece mais o nome que tem. Antes era temido não só pela completa falta d'água como pelos saltendores beduínos que aí viviam.

Não é mais assim, agora e, por isso, conserváramos o rumo do sul. Uma viagem solitária era para mim mais interessante do que por estradas freqüentadas. Pelo mesmo motivo, queria evitar Suez que nada mais me podia oferecer do que eu já tinha visto e admirado.

Durante o trajeto, surgiram os dois picos escalvados do Djekem e do Da-ad e quando, à direita, se tornou visível o elevado cume do Djebel Gharib, divisei, logo adiante, o túmulo do faraó. À nossa esquerda, o Mar Vermelho formava uma enseada onde estava ancorada uma embarcação.

Era um daqueles barcos ali designados pelo nome de sambuk. De comprido poderia medir 60 pés e de largura, 15, vendo-se em sua popa uma cabine que, ordinariamente, acolhe o capitão e os passageiros de certa categoria. Um sambuk possui, além dos remos - pois também é movido com o auxílio deles - duas velas triangulares, afastadas de tal modo que - quando enfunadas pelo vento - sobressaem da parte dianteira do navio, formando uma espécie de balões semicirculares, tais como se costuma ver nas moedas antigas ou em velhas gravuras. De boa mente, se pode admitir que as embarcações que aqui se vêem conservam o formato, a maneira de dirigir e a aparelhagem inteiramente iguais às embarcações da

 

(1) Moisés.

(2) Jeová.

 

antigüidade e que os atuais marinheiros freqüentam as mesmas enseadas e ancoradouros que os seus companheiros dos tempos em que Dionísio empreendeu sua célebre viagem para a Índia. Os navios costeiros do Mar Vermelho são comumente construídos com certa madeira da Índia, chamada sadj pelos árabes, madeira que, com o tempo, endurece tanto ao contato com a água, que é impossível cravar nela um prego.

A travessia do golfo arábico é muito perigosa, tanto que nunca se navega nele à noite, procurando todos os navios, à tardinha, um ancoradouro seguro.

Foi o que fizera o sambuk que se apresentava diante de nós. Firmado pela âncora e por um cabo estava acostado, sem tripulação. Os marinheiros tinham desembarcado e se assentado ou deitado junto de um regato que desaguava no mar. Um deles, sentado um pouco afastado dos demais devia ser o capitão ou o proprietário do barco. Notei logo que não era árabe mas turco; o sambuk ostentava as cores do Sultão e a tripulação vestia uniforme levantino.

Aproximamo-nos sem que ninguém se mexesse do seu lugar. Conduzi meu animal até chegar bem perto do chefe, levei a destra ao peito e, intencionalmente, saudei-o, não em turco mas em árabe.

- Deus te guarde! És o capitão deste navio?

Com soberba alçou os olhos para mim, fitou-me de alto a baixo com cuidado e, finalmente, respondeu:

- Sou.

- Para onde se dirige teu sambuk?

- Para toda a parte.

- O que é que levas?

- Várias mercadorias.

- Também recebes passageiros?

- Não sei.

Isto era mais do que responder monossilàbicamente, era ser grosseiro. Por isso, meneei a cabeça e redargüi em tom de compaixão:

- Tu és um kelleh, um infeliz, a quem o Alcorão recomenda piedade a todos os crentes. Tenho pena de ti!

Lançou-me um olhar meio irado, meio surpreso.

- Tens pena de mim? Chamas-me de infeliz? Por quê?

- Alá concedeu à tua boca o dom da palavra, mas a tua alma é muda. Volta tua face para Kiblak, (1) e pede a Deus que lhe devolva a fala, senão será incapaz de entrar no Paraíso!

Sorriu com desprezo e pôs a mão na cinta onde estavam metidas duas gigantescas pistolas.

- Calar é melhor do que tagarelar. És um palrador; o Wergi-Bachi Murad Ibrahim prefere, porém, silenciar.

 

(1) Direção de Meca, para a qual deve voltar-se todo o bom muçulmano, durante a oração.

 

- Wergi-Bachi? Arrecadador geral de impostos? És um homem de importância, talvez mesmo famoso, apesar disso tens de me responder quando te interrogo.

- Pretendes ameaçar-me? Vejo que acertei: és um árabe Djeheine.

Os árabes da tribo Djeheine são conhecidos, no Mar Vermelho, como contrabandistas e salteadores. O arrecadador tomava-me por um deles; aí estava o motivo de sua sobranceria para comigo.

- Tens medo de um Beni Djeheine? - perguntei-lhe.

- Medo?... Murad Ibrahim nunca teve medo!

Não obstante brilharem-lhe os olhos a essas palavras; havia algo em seu semblante que me fazia duvidar da sua coragem.

- E se eu fosse um Djeheine?

- Não te temeria.

- Naturalmente. Tens contigo doze gemi-tai fasyler (1) e oito servos enquanto eu só tenho três companheiros. Mas tranqüiliza-te, não sou Djeheine; não pertenço aos Beni Arab, mas provenho do Ocidente.

- Do Ocidente? Contudo estás vestido como um beduíno e falas árabe!

- É proibido isso?

- Não. És francis (2) ou ingli (3)?

- Sou do povo nemsi (4).

- Um neyntsche, - retorquiu com menosprezo. - Então é um bostandchi (5) ou um bazirgian (6)?

- Nem um nem outro. Sou iazmakdschi.

- Escritor? Ai de mim, e eu te tomei por um beduíno! Que vem a ser um escritor? Um escritor nem é homem; um escritor é um ser que come penas e bebe tinta; um escritor não tem sangue, nem coração, nem coragem, nem...

- Alto lá! - interrompeu-o o meu criado.

- Murad Ibrahim, vês o que eu tenho na mão?

Halef apeou e postou-se, com o chicote diante do turco. Este franziu as sobrancelhas, respondendo:

- Um chicote?

- Bem. Eu sou Hadji Halef Omar Ben Hadji Abul Abbas Ibn Hadji Dawud al Gossara. Este sídi é Kara Ben Nemsi que a ninguém teme. Percorremos o Saara e todo o Egito fazendo grandes proezas que serão narradas em todos os cafés e átrios de igrejas do mundo e se tu ousares dizer uma só palavra que desagrade ao meu efêndi, travarás conhecimento com esse chicote apesar de seres Wergi-Bachi e estares cercado de servos.

 

(1) Marinheiros

(2) Francês.

(3) Inglês.

(4) Nemsi plural de nemtsche alemão.

(5) Jardineiro.

(6) Negociante.

 

Esta ameaça produziu logo extraordinário efeito. Os dois beduínos que nos tinham acompanhado, de tão assustados deram um passo atrás; os marinheiros e demais companheiros do turco de um salto puseram-se de pé e pegaram nas armas, erguendo-se o Bachi com a mesma presteza. Empunhou a pistola, mas Halef já lhe tinha assestado contra o peito o cano da própria arma.

- Agarrem-no! - ordenou o Bachi, baixando precavidamente sua pistola.

A boa gente conservou o ar ameaçador, mas nenhum atreveu-se a pôr a mão em Halef.

- Sabes o que significa ameaçar um Wergi-Bachi com um rêlho? - perguntou o turco.

- Sei - respondeu Halef. - Ameaçar um Wergi-Bachi com um rélho significa pô-lo realmente em ação, caso ouse continuar falando como até agora. És turco, um escravo do sultão; eu, porém, sou um árabe livre!

Obriguei meu camelo a ajoelhar-se, apeei e tirei do bolso o meu passe.

- Murad Ibrahim, vês que a coragem que nos anima é superior à vossa; cometeste uma falta grave, pois ofendeste a um efêndi protegido por um gioelgeda padischahnuen!

- Sob a proteção do Sultão, a quem desejo as bênçãos de Alá? A quem te referes?

- A mim mesmo.

- A ti? Tu és um nemtsche, e portanto um djaur...

- Estás me ofendendo! - interrompi-o.

- És um infiel, e dos djaur está escrito: - “Não façais amizade, ó crentes, com aqueles que não pertencem à vossa religião. Pois sempre vos hão de tentar e desejar a vossa perda!” Como é possível que um infiel esteja sob a proteção do Sultão, amparo de todos os crentes?

- Conheço as palavras que citaste; estão contidas na surat Amran, o terceiro do Alcorão; mas abre bem os olhos e inclina-te com humildade diante do bjuruldu do padixá. Ei-lo aqui.

Tomou o pergaminho, levou-o à testa, aos olhos e ao peito, curvou-se até o chão e leu-o. Feito isto, devolveu-mo.

- Por que não me disseste logo que eras um arkadar (1) do Sultão? Não obstante seres um infiel não teria te chamado de djaur. Sê bem-vindo, efêndi!

- A um tempo, dás-me as boas vindas e injurias minha crença! Nós, cristãos, conhecemos melhor que vós os preceitos da hospitalidade e cortesia; não vos denominamos djaur, pois nosso Deus é o mesmo que o vosso Alá.

- Isto não é verdade. Nós temos só Alá; vós, porém, tendes três deuses, Padre, Filho e Espírito Santo.

- Enganas-te. Temos um único Deus, pois que o Padre, o Filho e o Espírito Santo são um só e o mesmo. Vós dizeis: Allah il Allah, Deus é Deus. E nosso Deus diz: Eu sou o Deus Todo Poderoso. Vosso Alcorão na segunda surata, assim se exprime: Ele é a Vida, a Eternidade; nem o sono nem a fome o acometem; pertence-lhe tudo quanto existe no céu e na terra. E a nossa santa Bíblia diz: - Deus passa de uma eternidade a outra; todas as coisas lhe são conhecidas; foi Ele quem formou a terra e os céus são obra de suas mãos. Não é a mesma coisa?

- Sim, vosso Kitab (2) é bom, mas vossa crença é falsa.

- Enganas-te. Vosso Alcorão diz: - Não consiste a justiça em voltar a face para o oriente ou ocidente, mas justo é aquele que crê em Deus, na Criação, nos anjos, nas escrituras e nos profetas e caridosamente dá esmolas aos parentes, órfãos, pobres e peregrinos, numa palavra, a todos que lhe pedem; liberta aos presos, faz suas orações, cumpre seus ajustes e suporta pacientemente privações e desgostos. Só é justo quem é verdadeiramente temente a Deus. Nossos Santos Livros prescrevem-nos: - Deves amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo. Não nos manda a nossa fé observar o mesmo que a vossa ordena?

- Sem dúvida transcrevestes em vosso Kitab o que encontrastes no Alcorão.

- Como é isso possível se o nosso Kitab foi escrito dois mil anos antes do vosso Alcorão?

- Tu és um efêndi e um efêndi sempre acha provas e fundamentos, mesmo quando não tem razão. De onde vens?

- Das terras do Gipt (3), ál do oeste.

 

(1) Protegido

(2) Livro, bíblia.

(3) Egito, em turco.

 

- E para onde te diriges?

- Para além de Tor.

- E depois?

- Para o Manastyr (1) do Djebel Sinai.

- Então tens de atravessar o mar?

- Sim. Para onde navegas?

- Também para Tor.

- Queres levar-me?

- Se pagares bem e cuidares para não nos tornares impuros.

- Não tenhas receio. Quanto pedes?

- Pelos quatro, com os camelos?

- Não. Só por mim e meu servo Hadji Halef. Esses dois homens voltarão daqui com seus camelos.

- Com que queres me pagar? Com dinheiro ou com mercadorias?

- Com dinheiro.

- Fornecer-te-emos a comida?

- Não, só nos dareis água.

- Pagarás, então, dez misri por ti e oito pelo teu criado.

Ao ouvir isso, dei uma risada na cara do homem.

Só mesmo um turco podia exigir por tão curta viagem e alguns goles. de água, dezoito misri (2).

- Levas mais ou menos um dia para chegar ao golfo de Nayazat onde lanças a âncora, não? - perguntei-lhe.

- É.

- Então de tarde já estaremos em Tor?

- Sim. Por que é que perguntas?

- Porque não te quero pagar dezoito misri, por essa curta viagem.

- Se aqui ficares, terás de embarcar com outro que te cobrará ainda mais que eu.

- Nem ficarei aqui, nem viajarei com outro. Embarco contigo.

- Dar-me-ás, então, a quantia que te pedi.

- Escuta, aqui. Esses dois homens alugaram-me seus animais, acompanhando-nos a pé, desde El Kahira, por quatro táleres; nas romarias cada hadji atravessa o mar por um táler; por mim e meu servo dar-te-ei três; é o quanto basta.

- Assim não te levarei. Meu sambuk não se destina a receber passageiros; pertence ao Sultão. Recolhi zebka (3) e não posso receber ninguém a bordo.

- Mas se eu te pagasse dezoito misri poderias fazê-lo! Precisamente por

 

 (1) Mosteiro.

(2) 34 thalers.

(3) Tributo, exclusivamente destinado para esmolas.

 

pertencer o teu sambuk ao sultão é que ficas obrigado a me receber. Olha mais uma vez aqui, no bjuruldu! Claramente estão escritas as palavras heb imiad wermek, sahihlik itschin meschgul, ejertsche akdschesiz - prestar serviços, dar acolhimento, mesmo gratuitamente. Compreendeste agora? A um particular teria que pagar, mas não a um funcionário do Estado. Voluntariamente dou-te esses três táleres; se não os aceitares, levar-me-ás de graça.

Vendo-se em tal aperto começou a diminuir suas exigências, e, após longos debates, estendeu-me a mão:

- Pois então seja. Estás em goelgeda padischahnuen e vou te levar por três táleres mesmo. Dá-mos cá!

- Pagar-te-ei em Tor ao desembarcar.

- Efêndi, os nessara (1) são todos tão avaros como tu?

- Não são avaros mas precavidos. Permite-me que eu passe para teu navio; não dormirei em terra mas a bordo.

Paguei meus guias que, apenas receberam um bakchich (2), montaram em seus camelos e puseram-se a caminho, apesar do adiantado da hora. Então fui com Halef para bordo. Não possuía uma tenda. Durante a travessia do deserto sofrerá o calor das horas de sol e o desproporcionado frio noturno. Quem é pobre e não tem uma barraca, quando chega a noite, aconchega-se a seu cavalo ou camelo para se aquecer. Não tinha mais nenhum animal e as noites, nas praias, são muito mais frias do que no interior, por isso, preferi abrigar-me na cabine de popa do sambuk.

- Sídi, perguntou-me Halef, fiz bem em ameaçar ao wergi-hachi com o chicote?

- Não vejo motivo para te censurar.

- Mas por que dizes que és um infiel?

- Deve-se, acaso, temer a todo mundo a verdade?

- Não; porém, tu já te encontras a caminho da verdadeira crença. Estamos sobre as águas que os estrangeiros chamam el Bahr el Ahmar, Mar Vermelho; lá está Medina, além, à direita está Meca, a cidade santa, a cidade do profeta. Visitarei a ambas e tu que farás?

Dera voz à pergunta que eu fazia a mim mesmo, nos últimos dias. “Os cristãos que se aventuram até Meca ou Medina, estão sujeitos a morrer; assim se lê nos livros. Será realmente tão perigoso? Poder-se-á lá entrar e declarar que se é cristão? Não se deverá distinguir entre os tempos pacíficos, normais e dias de peregrinação em que o fanatismo atinge o auge? Lera muitas vezes que a um infiel não era permitido entrar numa mesquita e, contudo, eu mesmo tivera ocasião de penetrar em várias; não se daria o mesmo em relação às cidades santas? Achara o Oriente, em geral, bem diverso daquilo que, exageradamente, se costuma imaginar a seu respeito e não podia acreditar que uma visita ou a permanência de algumas horas em Meca, pudesse mesmo oferecer algum perigo. O turco tornara-me por beduíno; era de

 

(1) Cristãos. A palavra significa o mesmo que nazarenos.

(2) Gorjeta.

 

esperar que outros formassem idêntico juízo sobre a minha nacionalidade. Não obstante, mantinha-me irresoluto.

- Ainda não sei bem - respondi ao pequeno Halef.

- Irás comigo a Meca, sídi, abraçando antes, em Djidda, a verdadeira fé.

- Não, isso não farei.

Um grito partido da terra, interrompeu a conversa. O turco ordenara à sua gente a oração da tarde.

- Efêndi, - disse Halef, - o sol desaparece no horizonte; permite que faça minha prece!

Caiu de joelhos e orou. Sua voz confundia-se no uníssono das vozes dos turcos. Apenas ressoara o último eco quando uma outra voz se fêz ouvir.

Partiu detrás dos rochedos que fechavam a perspectiva da parte norte do mar.

“Em Alá encontramos satisfação plena e grandioso é ele, o protetor. Não há nem poder nem força fora de Deus, o Altíssimo, o Todo-Poderoso. Ó ia Allah, Senhor Nosso, ó Misericórdia ilimitada, ó Onipotência, ia Allah, Allah ha!”

Tais palavras foram entoadas com uma forte voz de baixo, dando o suplicante à palavra Alá um tom que ficava um quinto acima das demais. Conhecia essas palavras e esse tom; assim costumam rezar os dervixes gritadores. Os turcos tinham se erguido e olhavam para a direção da qual viera a voz. Apareceu, então, uma jangada de seis pés de comprimento e quatro de largura, conduzida por um homem, ajoelhado, que movia um remo, cantando, compassadamente, sua oração. Em torno do tarbusch vermelho, trazia um turbante branco, sendo também brancas as suas vestes. Indicava isso pertencer ele à seita dos faquires de Kaderiya, fundada por Abdelkader ei Gilani e que se compõe, em sua maior parte, de pescadores e marinheiros. Ao enxergar o sambuk, hesitou por um momento, exclamando afinal:

- La ilah illa Allah!

- llla Allah! - responderam os outros, em coro.

Foi direito ao navio, encostou sua jangada e subiu a bordo. Nós, isto é, eu e Halef, não nos achávamos sozinhos no sambuk; o kuerekdji (1) seguira-nos e foi para este que se dirigiu o dervixe.

- Deus te guarde!

- A mim e a ti! - respondeu o interpelado.

- Como passas?

- Tão bem como tu.

- De quem é este sambuk?

- De sua Majestade, o Sultão, que é o favorito de Alá.

- E quem o comanda?

- Nosso efêndi, o wergi-bachi Murad Ibrahim.

- E qual é o vosso carregamento?

- Não o temos; navegamos de porto em porto, para recolher o tributo que o grão-sacerdote de Meca pediu.

 

(1) Piloto

 

- Deram os crentes, com generosidade?

- Ninguém se negou, por saberem que quem dá aos pobres, empresta a Alá, que recompensa duplamente.

- Para onde ides?

- Para Tor.

- Não chegareis lá amanhã.

- Aportaremos em Ras Nayazar.

- E tu, para onde vais?

- Para Djidda.

- Nesta jangada?

- Sim. Fiz o voto de viajar de joelhos para Meca.

- Mas já pensaste nos bancos de areia, nos recifes, nos baixios, nos maus ventos, que há por aqui, e nos tubarões que rodearão e perseguirão a tua jangada?

- Alá é Todo-Poderoso; Ele me protegerá. Quem são estes dois homens?

- Um dj..., um nemsi e seu servo.

- Um infiel? Para onde vai?

- Para Tor.

- Permite que coma aqui, as minhas tâmaras; em seguida continuarei a viagem.

- Não queres ficar essa noite conosco?

- Tenho que ir adiante.

- É perigoso.

- O crente nada deve temer; sua vida e sua morte estão predestinadas.

Sentou-se e tirou do bolso um punhado de tâmaras.

Como encontrara fechada a porta da cabine resolvera encostar-me sobre a amurada. Os dois interlocutores achavam-se um pouco afastados de nós e eu simulava contemplar despreocupadamente a água, para fazer crer que não ouvia a conversa deles.

- E esse alemão? É rico?

- Não.

- Como o sabes?

- Quis dar-nos só a sexta parte do que pedimos pela viagem. Mas possui um bjuruldu do Sultão.

- Então é, sem dúvida, um homem de condição. Traz muita bagagem consigo?

- Nenhuma, mas muitas armas.

- Nunca vi nenhum nemsi mas ouvi dizer que são muito pacíficos. Ele traz as armas só para se mostrar. Terminei minha refeição; vou tocar para adiante. Agradece ao teu senhor por haver permitido que um pobre faquir entrasse no seu navio!

Alguns minutos depois ajoelhava novamente na jangada. Pegou do remo e começou a movê-lo, seguindo o ritmo do seu ia Allah, Allah ha!

Este homem me causara uma impressão singular. Por que havia subido ao navio em vez de atracar à margem? Por que perguntara se eu era rico e por que havia observado o convés com um olhar cuja agudeza não pudera de todo ocultar? Aparentemente, não havia o menor motivo para receios; contudo, esse homem me era suspeito. Poderia jurar que não era realmente um dervixe.

Quando já não podia mais segui-lo com o olhar assestei-lhe meu óculo de alcance. Apesar de nessas regiões o crepúsculo ser muito curto, ainda havia luz suficiente para poder enxergá-lo com o auxílio da lente. Não estava mais ajoelhado como o prescrevia seu fingido voto, mas assentado comodamente e, com a jangada um pouco inclinada... remava para a margem oposta. O certo é que algo havia de estranho.

Halef estava perto de mim e me observava. Parecia ocupado em adivinhar os meus pensamentos.

- Podes vê-lo ainda, sídi? - perguntou-me.

- Sim.

- Pensa que não o podemos ver e dirige-se para a terra, não é?

- Assim é. Donde depreendes isso?

- Só Alá é onisciente mas Halef também possui olhos penetrantes.

- E o que viram teus olhos?

- Que esse homem nem é dervixe nem faquir.

- Como?

- Sim, sídi. Ouviste, acaso, um dervixe da ordem kaderieja recitar e  cantar a ladainha dos hawlajup? (1)

- É verdade. Mas para que havia de apresentar-se como faquir, se não o é?

- Devemos procurar adivinhá-lo, efêndi. Disse que viajaria também durante a noite. Por que não o fêz?

Nesse ponto o piloto interrompeu nossa palestra. Aproximou-se e perguntou:

- Aonde vais dormir, efêndi?

- Vou-me deitar no tachta-perde (2).

- Não é possível.

- Por quê?

- Porque lá é que guardam o dinheiro.

- Então vê se arranja uns tapetes para nos enrolarmos e dormirmos aqui no convés.

- Já os terás, sídi. Que farias se inimigos se aproximassem do navio?

- De que inimigos falas?

- Salteadores.

- Há salteadores por aqui?

- Os djeheine moram nas proximidades. São considerados em toda a parte como os maiores chirsizler e nenhum navio, nenhum homem está seguro perto deles.

 

(1) Gritador - dervixe gritador.

(2) Cabine.

 

- Penso que Sua Senhoria, o wergi-bachi, Murad Ibrahim, é um herói, um homem valente que não se arreceia de nenhum homem, nem de nenhum salteador.

- Isso é verdade; mas que pode ele, que podemos nós todos contra Abu-Seif, o pai do sabre; que é mais perigoso e mais temível do que o leão nos montes e o tubarão no mar?

- Abu-Seíf? Não o conheço; nunca ouvi falar nele.

- Porque és estrangeiro. No tempo das pastagens os djeheine levam seus rebanhos para as ilhas Libna e Djebel Hassan e deixam, para guardá-los, apenas alguns homens. Os outros, porém, atiram-se ao assalto e à pilhagem. Sob a direção de Abu-Seíf caem sobre as embarcações e, ou pilham tudo o que encontram ou exigem uma elevada soma de resgate.

- E o governo não toma providências?

- Quais?

- Mas os navios não estão sob o goelgeda padischahnuen?

- Os djeheine não o respeitam. São árabes livres protegidos pelo grão-xerife de Meca.

- Pois então, auxiliem-se mutuamente! Prendam os salteadores.

- Efêndi, falas como um estrangeiro que nada entende desses assuntos. Quem é que pode prender e matar Abu-Seif?

- Um homem, certamente.

- Mas um homem auxiliado pelo cheitan (1). Abu-Seif tem o dom de tornar-se invisível, de um momento para outro; pode fender tanto os ares como as águas; tem o corpo fechado tanto ao sabre, como à faca ou às balas; sua adaga é encantada e ele pode atravessar paredes e portas fechadas. De um só golpe tira a alma de cento e tantos inimigos!

- Gostaria de ver esse ser extraordinário!

- Ah! Não desejes tal, efêndi! O diabo vai dizer-lhe que o queres ver e então, podes ficar certo que o encontrarás. Vou procurar o tapete para dormires, mas não esqueças de pedir a Deus que te proteja contra todos os perigos que te possam ameaçar.

- Agradeço-te o conselho, mas eu costumo rezar antes de adormecer.

Trouxe-nos as cobertas com que nos envolvemos, adormecendo logo por estarmos fatigados da longa viagem a cavalo.

Durante a noite, alguns marinheiros guardavam os que dormiam, em terra, enquanto outros custodiavam o dinheiro, a bordo do navio. De manhã, reuniram-se todos no convés. Levantaram âncora, desprenderam os cabos, absiram as velas e o sambuk rumou para o sul.

Velejáramos três quartos de hora, mais ou menos, quando vimos a nossa frente um bote impelido na mesma direção. Ao nos aproximarmos, enxergamos dois homens, acompanhando duas mulheres completamente veladas.

Instantes depois, parou a embarcação e os dois homens fizeram sinais, para

 

(1) Demônio.

 

indicar que queriam falar com a gente do sambuk. O piloto amainou a vela, detendo assim a marcha do nosso barco. Um dos remadores levantou-se e gritou:

- Para onde se dirige o sambuk?

- Para Tor.

- Nós também. Quereis levar-nos junto?

- Podeis pagar?

- Sim.

- Então subi.

A embarcação encostou e as quatro pessoas subiram para bordo. Em seguida o sambuk prosseguiu viagem, levando o bote a reboque.

O wergi-bachi passou para o beliche a fim de dar lugar às senhoras que, segundo os costumes do Oriente, deviam ser subtraídas das vistas dos homens.

Ao se encaminharem para o compartimento que lhes haviam reservado, passaram por diante de mim.

Por ser europeu, não me afastei, tendo ocasião de verificar, com grande espanto, que elas não estavam perfumadas como é de uso entre as orientais.

Aumentou ainda a minha admiração ao sentir um cheiro particular de suor confundido com aquele odor conhecido de todos os viajantes do deserto e que lembra o camelo e o fumo não fermentado de rasr, tão do gosto dos beduínos.

Esse fumo tem gosto e aroma análogos ao das algas dos colchões franceses que, na falta de melhor, serviam para encher o cachimbo de muito herói alemão, na última guerra. Eu tinha a impressão que haviam passado diante de mim dois cameleiros; mas o certo era que, a essas duas beldades, não se podiam aplicar os versos do poeta persa Hafis-Chems-ed-Din Mohammed:

“Do meu túmulo brotarão mil flores, quando o cingirem teus perfumados cabelos...” Atentamente os segui com os olhos até vê-los desaparecer na porta da cabine, não notando, porém, nada de anormal. Talvez tivessem feito uma longa viagem montadas em camelos e o cheiro desses lhes tivesse impregnado as roupas.

Seus dois companheiros falaram muito tempo com o piloto e o bachi, em seguida um deles procurou me abordar.

- Ouvi dizer que és estrangeiro, efêndi?

- Sim, sou estrangeiro.

- Então és desconhecido nesses lugares?

- Sim.

- És alemão?

- Sou.

- Os alemães também têm um padixá?

- Têm.

- E paxás?

- Também.

- Mas tu não és paxá.

- Não, não sou.

- Mas és um homem afamado?

- Pek, billahi - por Deus, muito!

- Sabes escrever?

- Peh ne güzel - e com elegância!

- E atirar?

- Daha ei - ainda melhor!

- Queres verdadeiramente ir a Tor neste sambuk?

- Sim, quero.

- Seguirás ainda mais para o sul?

- Seguirei.

- És conhecido dos ingleses?

- Sou.

- Tens amigos entre eles?

- Tenho.

- Ah isso é bom! És robusto?

- Korkulu - muitíssimo, arslandja - como um leão. Queres que to mostre?

- Não, efêndi.

- E ainda bem, pois tua curiosidade é maior do que a que se pode suportar. Vai-te embora e não tornes cá!

Agarrei-o, fi-lo dar uma volta e sentei-lhe um golpe que o estendeu no chão de todo o comprimento. Levantou-se no mesmo instante, dizendo:

- Wai fana - ai, de ti, ofendeste um crente; vais morrer!

Desembainhou o seu khandjar e atirou-se contra mim. Seus companheiros vieram-lhe em auxílio brandindo as armas. De pronto tirei da cinta de Halef o seu respeitável chicote, para com ele fustigar os atacantes; mas não cheguei a tanto, pois, nesse momento, abriu-se a porta da cabine e apareceu uma das mulheres. Silenciosamente elevou a destra, retirando-se em seguida. Os dois árabes detiveram-se e afastaram-se, sem profesir palavra; mas seus olhos diziam-me claramente que nada de bom tinha a esperar deles.

Os turcos haviam presenciado imperturbavelmente esse incidente. Se alguém tivesse sido morto é que tal era o seu destino.

Encolerizara-me com as inúteis perguntas do homem. Mas, eram realmente tão inúteis? Não teriam uma segunda intenção? O oriental não é tagarela e dificilmente se dirige a um desconhecido do qual apenas sabe que é cristão.

Acalorado pela ira fizera-me passar por um homem famoso e muito protegido. Por que desejaria saber se eu era um paxá, um homem afamado, um escritor e se estava sob uma boa tutela?...

Que lhe importava se eu ia prosseguir em direção ao sul e se tinha amigos ingleses? Por que, ao ouvir a minha afirmativa a esta pergunta, dissera: - Isso é muito bom - e que lhe adiantava saber se eu era forte e robusto? E além do mais, interrogar-me como um superior a seus subordinados, um inquisidor ao réu. Mais estranha ainda parecia-me a obediência que ele e seu companheiro haviam prestado ao sinal da mulher. Isso, num lugar em que a mulher está num plano muito inferior ao do homem e não tem a mínima participação na vida pública, era mais que extraordinário, era suspeito.

- Sídi, - disse Halef que não se afastara do meu lado, viste?

- Quem ou o quê?

- A barba.

- A barba! Que barba?

- Que a mulher tinha...

- A mulher? A mulher tinha barba?

- Seu iachmak não era duplo, como ainda agora, mas simples, de modo que lhe pude ver a barba.

- Bigode?

- Barba inteira. É um homem e não uma mulher. Digo ao bachi?

- Sim, mas de modo que ninguém ouça.

Ele foi. Provavelmente não se tinha enganado, pois eu sabia que podia confiar em seus olhos penetrantes. Associei logo essa nova circunstância ao dervixe. Vi Halef falar com o bachi; este sacudia a cabeça e ria incrédulo. Diante de tal atitude Halef, com o semblante irado, afastou-se e veio ao meu encontro.

- Sídi, este bachi é tão estúpido que me tomou por um estúpido do seu quilate.

- Como?

- E tu ainda por mais estúpido do que eu!

- Ah!

- Disse que uma mulher nunca teve barba e que um homem jamais poria vestes femininas. Sídi, que achas dessas mulheres barbadas? - Serão djabeines?

- Julgo que sim.

- Ôlho-vivo então, sídi!

- É o que faremos, ocultando, antes de mais nada, nossas suspeitas e nossa atenção. Conserva-te afastado de mim mas de modo a que possamos nos auxiliar mutuamente, em caso de perigo.

Afastou-se alguns metros, enquanto eu me deixei ficar no tapete. Comecei a ler notas do meu diário, mantendo-me, porém, atento à cabina e aos dois árabes. Sentia o estranho pressentimento de quem, a cada instante, espera um acontecimento desagradável; sem embargo, o dia transcorreu sem que sucedesse nada de importante.

Já começara a escurecer quando ancoramos em uma pequena enseada, formada por um arco em ferradura do Djebel Nayazet pertencente à extensa cadeia granítica do Sinai.

A costa era muito estreita, pois, a poucos passos da margem, elevava-se, quase a pino, a rocha escarpada. Em virtude dessa circunstância o ancoradouro oferecia proteção contra os ventos, mas não contra outros incômodos... Tencionava examinar as anfracruosidades e fendas dos rochedos, mas, infelizmente, chegáramos à noite, o que fêz com que os turcos descessem à terra para, como de costume, acender algumas fogueiras.

El Mogreh e, uma hora mais tarde, el Achia, as orações da noite, ressoaram solenemente nas abruptas montanhas. Quem estivesse aí escondido pressenteria nossa presença mesmo que não visse as fogueiras. Como na véspera, preferi passar a noite no navio, junto com Halef com o qual combinei fazer guarda, alternadamente. Mais tarde voltaram para bordo alguns marinheiros a fim de render sentinela, saindo, então, as mulheres da cabina, a gozar da frescura da noite. À luz das estrelas do sul, cujo brilho iluminava todo o convés, pude observar que traziam novamente o véu duplo. Porém logo se recolheram. Pude vê-las ainda pela fresta da porta, apesar de achar-me na proa do navio.

Halef dormia a cinco passos de mim.

À meia-noite acordei-o furtivamente e segredei-lhe:

- Dormiste?

- Sim, sídi. Agora, dorme tu!

- Posso confiar em ti?

- Como em ti próprio!

- Desperta-me ao menor sinal suspeito.

- Não te preocupes, sídi!

Enrolei-me bem no tapete e fechei os olhos. Queria dormir mas não o conseguia. Mentalmente recitei a tabuada... mas sem resultado. Então pus em prática o meio mais eficaz para adormecer. Com os olhos cerrados, volvi as pupilas para cima e procurei não pensar em nada. A sonolência veio e... que era isso?

Meti a cabeça para fora da coberta e olhei para Halef. Também ele se tornara atento pois estava levantado a meio, como a escutar. Não ouvia o menor som, mas, quando pus o ouvido no chão, melhor condutor do som que o ar, tornei a ouvir o estranho rumor que apesar de fraco me despertara.

- Ouves alguma coisa, Halef? - sussurrei.

- Sim, sídi, O que é?

- Não sei.

- Eu também não. Escuta!

Um murmúrio suave, muito suave, fazia-se ouvir lá do fundo. Fora, em terra, os fogos estavam apagados.

- Halef, vou num instante lá na popa; cuida das minhas armas e roupas.

Dois dos turcos que haviam retornado a bordo estavam estendidos no chão, a dormir, e o terceiro que se acocorara... também dormia. Era possível que, da cabina, me observassem; por isso tratei de fazer uso de toda sorte de precauções. Larguei a carabina e tirei o turbante e o haik (1) que me podiam trair com a sua côr branca. Depois, cosi-me com o solo, ganhei o bordo do convés e arrastei-me devagarinho até alcançar a extremidade de bombordo, onde uma escadinha estreita conduzia à coberta da cabina e à roda do leme. Silenciosamente, como um felino, trepei por ela para chegar à parte superior.

Fui bem sucedido e arrastei-me até chegar atrás do timão. Ah... estava

 

(1) Capa usada pelos beduínos.

 

explicada a origem do estranho rumor. O bote que trouxera as duas mulheres e que o sambuk carregava a reboque era puxado com tanta força, de dentro da cabina, que já estava bem debaixo da janela que ficava na parte posterior do navio. No instante exato em que eu, cautelosamente, espiava para aquela abertura, desciam eles um objeto pequeno mas pesado, pendente duma corda, cujo atrito produzia aquele som só perceptível ao ouvido colado às tábuas da coberta. No bote, em baixo, achavam-se três homens que receberam o objeto, esperando, em seguida, que a corda fosse içada para trazer um novo pacote.

Compreendi tudo num instante. Aquilo que amontoavam no bote era o dinheiro do wergi-bachi, isto é, o resultado da arrecadação dos impostos e... não tinha mais tempo para fazer conjeturas.

- Alargha iz chijanisch... olhem para cima, fomos traídos - exclamou uma voz profunda do alto da margem, de onde se enxergava todo o convés; no mesmo instante detonou um tiro, vindo a bala cravar-se numa tábua, perto de mim. Um segundo tiro relampeou; mais outro; felizmente as balas passaram por sobre a minha cabeça.

Para não me expor mais retirei-me, tendo ainda tempo de ver recolherem o cabo e remarem para afastar o bote; saltei, então, da cabina para a coberta.

No mesmo momento, abriu-se a porta do camarote, podendo eu ver que, na parte posterior, haviam sido afastadas duas tábuas e que, pela abertura assim praticada, havia penetrado um certo número de homens. Não vi as mulheres, mas nove homens atiraram-se contra mim.

- Vem cá, Halef! - gritei.

Não tivera tempo de sacar minhas armas. Três cingiram-me o corpo e esforçavam-se para não deixar que delas me valesse. Três outros saltaram sobre Halef, enquanto os restantes procuravam imobilizar meus punhos com os quais me defendia. Em terra, detonavam tiros e ecoavam pragas e gritos de socorro, destacando-se vozes de comando proferidas em tom grave que reconheci ser o do dervixe.

- É o nemsi. Segurem-no bem mas não o matem! - ordenou um dos que me agarravam.

Procurei libertar-me, mas em vão. Seis contra um! Foi então que, longe de mim, ecoou um estampido.

- Socorro, sídi! estou ferido! - gritou Halef.

Fiz um violento movimento para trás, arrastando comigo os assaltantes.

- Amordacem-no! - ordenou uma voz arquejante. Prenderam-me ainda mais sòlidamente, apesar da minha precária defesa, e deram-me algumas pancadas na cabeça que me prostraram.

Sentia nos ouvidos uma zoada semelhante ao embate das vagas contra os rochedos. Entre os estrépidos distingui vozes e estampidos; senti que me amarravam pés e mãos e me arrastavam; depois perdi completamente a consciência de tudo.

Quando despertei, doía-me muito a parte posterior da cabeça e, só depois de um certo tempo, é que me pude lembrar do sucedido. A escuridão me rodeava por completo e um certo sog (1), bem característico fazia-me presumir que me achava no porão de um navio impelido com não pequena velocidade. As minhas mãos e pés estavam tão bem atados que não podia mover um dedo. As ligaduras não penetravam na carne por serem de pano e não de corda ou couro, mas me impediam de afastar os ratos que submetiam o meu corpo a um rigoroso exame.

Muito tempo transcorreu sem que minha situação se alterasse. Finalmente ouvi rumor de passos, nada, porém, podendo ver. Desataram-me e uma voz ordenou:

- Levanta-te e segue-nos!

Ergui-me. Saí do porão e atravessei um passadiço meio escuro. No caminho, apalpei minhas vestes, tendo a surpresa e satisfação de constatar que nada, a não ser as armas, me tinham subtraído.

Ao chegar no convés vi que me achava dentro de uma embarcação com quilha muito aguda e provida de duas velas triangulares e uma trapezoidal. Nesses mares freqüentemente revoltos por tempestades e coalhados de escolhos, tal aparelhamento exigia um capitão que conhecesse a fundo o seu ofício e que fosse dotado de coragem e sangue-frio. A embarcação possuía uma tripulação tripla da que era necessária e tinha na proa um canhão meio escondido por caixotes, fardos e barris, passando despercebido a um observador de outro barco. A equipagern compunha-se de homens de tez bronzeada sob a intempérie, trazendo cada um, na cinta, toda a sorte de armas. Na coberta, via-se assentado um homem vestindo calças vermelhas, turbante verde e cafetã azul. A comprida roupagem que descia até os pés toda bordada a ouro e, no bassora-shawl que lhe servia de cinta brilhavam custosas armas. Nele logo reconheci o dervixe. A seu lado estava o árabe que eu arrojara ao chão, no sambuk. Fui levado para diante de ambos. O árabe examinava-me com raiva e o dervixe com um olhar de desprezo.

- Sabes quem sou? - perguntou-me o dervixe.

- Não, mas presumo.

- Bem, então dize-me quem sou eu?

- És Abu-Seíf.

- Acertaste. Ajoelha-te diante de mim, djaur!

- O que é que pensas? Não está escrito no Alcorão que só a Alá se deve adorar?

- Isso não se aplica a ti que és um infiel. Ordeno-te que ajoelhes para mostrar tua humildade.

- Ainda não sei se mereces veneração e, mesmo que o soubesse, te indicaria de outro modo o meu respeito.

- Djaur, ou ajoelhas ou ficas sem cabeça!

Levantara-se e empunhava seu alfange. Dei um passo a frente.

- Minha cabeça? És mesmo Abu-Seif ou um carrasco?

- Sou Abu-Seíf e mantenho a palavra. Ajoelha-te ou perdes a cabeça!

- Cuida da tua própria!

 

(1) Ruído que faz a água ao bater de encontro à quilha de uma embarcação em movimento.

 

- Djaur!

- Korkadjhi!

- O quê! - sibilou ele. - Chamas-me de covarde!!!

- Por que assaltaste o sambuk de noite? Por que disfarçaste de mulher teus espiões? Por que é que só sabes te mostrar corajoso quando protegido e rodeado de teus homens? Estivesses tu sozinho diante de mim e falarias de outra maneira!

- Eu sou Abu-Seif, o pai do sabre, e dez homens da tua laia nada são para mim.

- Aferin - bravo! Assim se fala quando se teme a ação.

- A ação? Estás vendo estes dez aí? Viessem eles contra mim e mostrar-te-ia agora mesmo a verdade das minhas palavras!

- Não são precisos dez; um só basta!

- Quem sabe és tu esse tal?

- Bah, não o permitirias!

- Por que não?

- Porque tens medo. Só matas com a boca mas não com a espada.

Pensara que, a essas palavras, sua cólera chegaria ao paroxismo, mas me enganei. Ocultou a raiva que o invadiu sob a capa de uma calma fria, de morte, tomou o sabre da cinta de seu vizinho e estendeu-mo.

- Toma-o e defende-te. Mas previno-te que mesmo que tenhas a presteza de Afram e a força de Kelad, ao terceiro golpe és um cadáver.

Empunhei o sabre.

Era realmente delicada a situação em que me achava. O pai do sabre, entre seus compatrícios, devia ser um esgrimista exímio, mas eu sabia que os orientais, em geral, esgrimem e se defendem mal. Não era necessária a presteza de Ajram e a força de Kelad, para sair vencedor. Ainda não tivera oportunidade de me bater com um oriental, segundo as regras da arte.

Toda a tripulação se aproximara de nós e em todos os semblantes pintava-se a convicção de que realmente eu seria um homem morto ao terceiro golpe de Abu-Seif.

Com tanta brutalidade e tão desordenadamente me acometeu que nem tive tempo de me pôr em guarda. Aparei seus golpes, dados sem regra, e procurei logo absir um claro em torno de mim; tive, porém, a surpresa de vê-lo aparar com maestria os meus golpes em círculo. Ele foi a fundo e empregou um ardil, mas sem resultado. Então eu também fui a fundo e vibrei-lhe um cutilaço. Acertei-o em cheio, se bem que o não quisesse fesir. Cego de raiva, perdeu a cabeça, recuou e deu um golpe; avancei meio passo a frente, arremeti com firmeza e... a arma voou-lhe da mão, indo parar dentro d'água.

Um clamor ressoou em torno de nós. Recuei e abaixei o sabre.

Ele estava na minha frente e me fitava, perplexo.

- Abu-Seif, és um hábil esgrimista!

Essas palavras fizeram-no voltar a si; mas, contra a minha expectativa, não lhe vi a cólera mas o espanto no semblante.

- Homem, és um infiel e, entretanto, venceste a Abu-Seif! - exclamou.

- Tu mesmo me facilitaste o trabalho, batendo-te sem arte e sem ponderação. O segundo golpe te feriu e o terceiro arrancou-te a arma da mão; no terceiro querias matar-me, enquanto eu poderia fazê-lo muito antes. Aqui tens o sabre; estou em tuas mãos.

Esse apêlo à sua magnanimidade deu bom resultado.

- Sim, estás em meu poder, és meu prisioneiro; mas tens teu destino em tuas próprias mãos.

- Como?

- Se fizeres o que te vou pedir, dentro em pouco estarás em liberdade.

- O que exiges de mim?

- Queres esgrimir comigo?

- Quero.

- E ensinar-me a arte que aprendeste com os nemsi?

- Sim.

- Bem: primeiro, ocultar-te-ás de todo e qualquer olhar estranho, enquanto permaneceres aqui, no meu navio.

- Sim.

- Segundo: deixarás a coberta logo que se aviste uma outra embarcação.

- Sim.

- Não trocarás palavra com teu servo.

- Onde está ele?

- Aqui no navio.

- Atado?

- Não, porque se acha doente.

- Ferido?

- Sim, no braço. Quebrou a perna e não pode se levantar.

- Então nada te prometo. O meu servo é um amigo e dele quero cuidar; conceder-me-as esse obséquio?

- Não o concedo; mas prometo que será bem tratado.

- Isso não basta. Se tem a perna quebrada precisa de meu auxílio, pois aqui ninguém entende da arte de curar.

- Eu a conheço. Sei tanto como um djerrah (1); liguei a ferida e encanei a perna. Não sofre mais dores e está satisfeito comigo.

- Quero ouvir isso dos lábios dele.

- Juro-te por Alá e pelos profetas! Se não me prometeres que não intentarás falar-lhe, vou providenciar para que não o vejas. Mas tenho mais pedidos a fazer-te.

- Dize.

- Como cristão, guarda-te de tornar impuro um dos meus.

- Bem.

- Tens amigos entre os ingleses?

 

(1) Médico, especialista em fazer sarar feridas.

 

- Tenho.

- São pessoas de destaque?

- Alguns são paxás.

- Então poderão resgatar-te?

Mudara de intenção. Não mais me queria matará pretendia agora ganhar dinheiro em troca da minha liberdade.

- Quanto queres?

- Trazes contigo pouco ouro e pouca prata; não podes pagar-me pelo teu resgate.

Rebuscara os bolsos. Mas não encontrara o que eu cosera nas mangas do meu casaco turco. Verdade é que a soma que possuía era insuficiente, por isso respondi:

- Não tenho nada de meu; não sou rico.

- Acredito-o, apesar da excelência das tuas armas e dos instrumentos que possuis e que desconheço. Mas és uma pessoa ilustre.

- Ah!

- E famoso.

- Ah!

- Tu mesmo o disseste aqui no sambuk.

- Foi um gracejo meu.

- Não, disseste a verdade. Quem é tão robusto e sabe esgrimir tão bem como tu, deve ser um grande zabit (1) pelo qual o seu padixá facilmente pagará uma elevada quantia.

- O meu rei não te dará dinheiro pela minha liberdade; ele a exigirá de ti.

- Não conheço o rei dos nemsi; como falará comigo e me obrigará a libertar-te?

- Por intermédio dos seus eltchi (2).

- Também esses me são desconhecidos. Por aqui não há nenhum eltchi dos nemsi.

- O embaixador está em Estambul, junto do sultão. Possuo um budjeruldi que aqui é chamado bjuruldu, o que quer dizer que estou sob a proteção do comendador dos Crentes.

Ele riu.

- Aqui o padixá não tem influência; só o grão-xerife de Meca pode me dar ordens, e eu sou mais poderoso que ambos. Não negociarei nem com o teu rei nem com os seus embaixadores.

- Com quem então?

- Com os inglis.

- Por que com os inglis?

- Porque poderão dar-me outra pessoa em troca.

- E quem é essa pessoa?

 

(1) Oficial.

(2) Embaixadores.

 

- Meu irmão, que se acha nas mãos deles. Atacou um navio inglês e foi aprisionado. Levaram-no para Éden e agora querem matá-lo; poupa-lo-ão a fim de te libertar.

- Talvez te enganes. Não sou súdito inglês. Pouco se importam comigo e matarão teu irmão, de qualquer maneira.

- Então também morrerás. Escreve uma carta para eu lhes entregar Se a redigires bem, poderás recuperar a liberdade; se não, serás responsável pela tua própria morte. Pensa bem o que vais dizer; tens tempo de sobra.

- Quantos dias?

- O mar é pouco favorável; mas, sempre que possível, navegaremos mesmo à noite. Se o vento se mantiver propício, em quatro dias estaremos em Djidda. Daí até Sanah, onde pretendo ocultar o meu navio, levaremos quase que outro tanto. Tens, pois, uma semana para meditar sobre o conteúdo da carta, visto que desembarco antes de chegar em Sanah.

- Escreverei a carta.

- E prometes que não tentarás fugir?

- Isso não te posso prometer.

Fitou-me por alguns instantes.

- Allah akbar, Deus é grande. Não sabia que entre os cristãos também existe gente leal. Com que então queres escapar?

- Hei-de aproveitar a primeira ocasião que se apresente.

- Então não quero mais que me ensines a esgrimir; poderias matar-me e lançar-te n'água para fugir a nado. Sabes nadar?

- Sei.

- Lembra-te que nessas paragens há muitos peixes que te poderiam devorar.

- Não é preciso que mo digas.

- Mandar-te-ei vigiar cuidadosamente. Esse que aqui está, a meu lado, não te perderá de vista um só instante. Ofendeste-o; será, dora em diante, a tua sombra até que sejas liberto ou morto.

- E, neste caso, que sucederá ao meu servo?

- A ele nada acontecerá. Cometeu, é verdade, um grande pecado, entrando para o serviço de um infiel; mas não é nem turco nem djaur; será solto no mesmo dia que tu ou depois da tua morte. Por enquanto podes ficar no convés, mas, logo que o teu guarda o ordenar, descerás para o porão onde serás encerrado.

Em seguida voltou-me as costas, significando com isso que me despedia.

Fui logo para a anteproa, e pus-me a caminhar ao longo da precinta; quando cansei, deitei-me num tapete. A cinco ou seis passos de distância, seguia-me o árabe encarregado de me vigiar.

Isso era, além de supérfluo, desagradável. Os outros não me davam a mínima atenção. Sem dizer palavra, traziam-me água, cuscuz e tâmaras.

Mal se avistava uma embarcação, me levavam para o meu cubículo, à porta do qual se postava o meu guarda, até que eu pudesse sair e, de noite, aferrolhavam e barricavam a entrada.

 

 Livre!

Assim decorreram três dias. Sentia mais cuidados pela doença de Halef do que por mim mesmo; mas todos os meus esforços para vê-lo foram baldados. Naturalmente achava-se no porão, como eu, e toda tentativa para fazer um sinal ao fiel servidor, atrás do meu vigia, só nos poderia prejudicar.

Fizéramos uma viagem feliz e rápida e, por isso, chegáramos, mais ou menos, na região situada entre o Djebel Cyub e o Djebel Kelaya, onde a costa começa a tornar-se mais baixa e mais plana. Caía o crepúsculo. Excepcionalmente via-se no céu, ao norte, uma nuvemzinha semelhante a um véu e que era objeto da atenção de Abu-Seif. Veio a noite e com ela a ordem de descer do convés. Mais do que de costume, o ambiente estava abafado. A pressão baixava de quarto em quarto de hora. À meia-noite eu ainda não conseguira adormecer. Ao longe, surdo reboou um trovão, seguido de outro e mais outro. Sentia que a tempestade se aproximava rapidamente e começava a ameaçar o navio. A anteproa mergulhava fundo nas ondas para, dali a pouco, elevar-se de novo e avançar com dobrada velocidade. A embarcação gemia e rangia, por todas as juntas. As enxárcias estalavam e, na coberta, entre gritos, rogos e imprecações corria a marinhagem

Claramente se destacava de todos esses sons e ruídos a voz de comando do capitão. Cumpria que esse conservasse o sangue-frio.

Pelos meus cálculos devíamos estar próximos do Rabbegh, denominado Rabr, pelos árabes. Dessa altura em diante, há um grande número de recifes e bancos de coral que tornam difícil e perigosa a viagem, até de dia claro. Está também aí situada a ilha Ghanat, elevando-se entre esta e Ras Hatiba dois escolhos coralíferos, pelo meio dos quais, mesmo em mar calmo e à luz do sol, se atravessa com grande perigo e, por isso, a equipagem dos navios que por aí têm de passar sempre se prepara para a morte. O lugar é chamado “Passo das duas cordas”, nome que indica de que maneira procuravam antigamente garantir-se dos perigos.

A essa travessia nos arrastava o Orkan com crescente velocidade. Ancorar era impossível.

Erguera-me do meu lugar. Mas se o navio desse de encontro a um recife, estava perdido porque o cubículo não oferecia saída.

Em meio ao mugir da tempestade, pareceu-me ouvir um rumor na minha porta. Aproximei-me e pus o ouvido à escuta. Não me enganara. Correram o ferrôlho e absiram a porta.

- Sídi!

- Quem está aí?

- Hamdullilah, louvado seja Deus que me fêz achar logo a tua prisão. Não conheces a voz do teu fiel servo Halef?

- Halef? É impossível!

- Por quê?

- Porque ele está ferido e com uma perna quebrada.

- Realmente estou ferido, sídi, com uma bala no braço; mas não há a menor gravidade. Não quebrei perna nenhuma.

- Então Abu-Seif me mentiu!

- Não, eu é que o enganei. Tive de fingir a fim de poder salvar o meu bom sídi. Por três dias permaneci com a perna estendida e encanada; tirei as talas, hoje de noite, para te procurar.

- Bravo Halef; jamais esquecerei isso.

- Soube ainda outras coisas.

- O que foi?

- Abu-Seif vai ancorar antes de chegar em Djidda a fim de seguir «n peregrinação, para Meca. Quer rogar aos céus a liberdade de seu irmão. Muitos de seus homens o acompanharão.

- Talvez que assim nos seja possível a fuga.

- Vou ver. Amanhã é que é o dia da partida. As tuas armas estão na cabina dele.

- Voltarás amanhã, se não escaparmos esta noite?

- Virei, sídi.

- E o perigo que corres, Halef!

- Está hoje tão escuro que ninguém me pode ver e nem têm tempo de cuidar de nós, sídi. Amanhã, porém, Alá nos ajudará.

- Dói-te a ferida?

- Não.

- O que aconteceu com o sambuk? Depois de cair sem sentidos não vi mais nada.

- Subtraíram todo o dinheiro que se achava na oda (1) do capitão e amarraram os tripulantes. Só aprisionaram a nós dois, para poderem negociar com os ingleses e libertar o irmão de Abu-Seif.

- Como sabes isso?

- Escutei uma conversa.

- E a embarcação?

- Estava ancorada não longe de nós atrás dos recifes e nos esperava. Chajir ola, boa noite, sídi.

- Boa noite!

O fiel servo saiu, aferrolhou a porta e repôs em ordem a barricada que desfizera para entrar.

Durante a visita de Halef, esquecera por completo o Orkan que se punha em marcha tão rapidamente como chegara; e apesar das ondas continuarem encapeladas, como depreendia dos movimentos do navio, presumi que se aclarara o céu, ficando afastada a possibilidade de um naufrágio. Tranqüilamente adormeci.

 

(1) Cabina.

 

Quando despertei, o navio estava imóvel; a porta achava-se aberta, mas o meu vigia a guardava.

- Queres subir? - perguntou-me.

- Quero.

Poderás permanecer na coberta só até a deghri (1).

Quando cheguei ao convés vi que haviam desaparecido os vestígios da tempestade. O navio estava ancorado em uma enseada estreita mas profundamente recortada na terra.

As velas foram amainadas e abatidos os mastros móveis, de modo que era difícil ver o navio, do mar ou da terra que parecia deserta e despovoada.

Até meio-dia, mais ou menos, permaneci na coberta sem nada notar de extraordinário. Foi quando Abu-Seif mandou me chamar. Não se achava no convés mas na cabina em cuja parede pendiam todas as minhas armas. Até a patrona ali se achava, ao lado de vários ketchikise (2), contendo pólvora. À minha entrada Abu-Seif fechou um sandyk (3) que estava aberto; todavia tivera tempo de ver os kettchawal que encerrava e onde provavelmente se encontrava o dinheiro roubado ao sambuk.

- Nemsi, tenho algo a dizer-te.

- Fala.

- Quererás, afinal, fazer o compromisso que te pedi de não intentar fugir?

- Não sou mentiroso e, por isso, lealmente te confesso que fugirei logo que se apresentar uma ocasião propícia.

- Essa ocasião não se apresentará; obrigas-me, porém, a te tratar com mais rigor do que desejava. Por dois dias estarei ausente; durante este tempo não sairás do teu cubículo onde ficarás com as mãos atadas,

- Que severidade!

- É verdade, mas tu mesmo tens a culpa.

- Tenho de me sujeitar.

- Bem. Agora podes retirar-te. Lembra-te que deixarei ordem para te matarem se tentares escapar. Se fosses um crente, rogar-te-ia me aceitasses como amigo. Mas não te odeio nem menosprezo por seres um djaur. Daria crédito à tua promessa; já que a não queres fazer, suporta as conseqüências. Vai para o porão!

Fui levado para o meu cubículo onde me aferrolharam. Era desagradabilíssimo suportar, com as mãos atadas, o calor que aí reinava; mas me conformava com a sorte apesar de sentir os efeitos da vingança do meu vigia que não me dava de comer nem de beber. Esperava pela vinda de Halef com uma ansiedade que poucas vezes sentira. A escuridão que me rodeava de todos os lados não melhorava a minha situação. Ouvira rezar El Asr, El Mogreb e El Achia; seguira-se um grande, um enorme espaço de tempo e devia ser mais de meia-noite, quando ouvi do lado de fora da porta um leve rumor. Com uma grande tensão nervosa escutei, mas não

 

(1) Oração que os árabes rezam ao meio-dia.

(2) Bolsa feita com pele de cabra, ficando o pêlo à vista.

(3) Caixa com forma de armário.

 

consegui ouvir mais nada. Naturalmente não proferi palavra. Talvez tivesse sido um rato.

Voltou o silêncio, por mais alguns instantes; depois ouvi passos se aproximarem, aos quais se seguiu o ruído característico de um tapete ou uma esteira ao serem estendidos no chão. O que seria aquilo? Provavelmente o meu vigia resolvera passar o resto da noite diante da porta. Se assim era, devia abandonar a minha esperança, pois que, quando Halef viesse... mas... que novo rumor era este? Quase imperceptível ao meu fino ouvido, deslizava devagarinho o ferrôlho da porta. Alguns segundos após ouvia um golpe seco - um barulho semelhante ao que faz uma pessoa que, baldadamente, se esforça para se levantar do chão - um arquejar breve e abafado e enfim, a meia voz, a pergunta:

- Vem, sídi; tenho-o seguro.

Era Halef.

- Quem? - perguntei.

- O teu guarda.

- Não te posso ajudar por ter atadas as mãos.

- Estás preso à parede?

- Não; posso caminhar.

- Então vem. A porta está aberta.

Ao sair vi o árabe estendido e se contorcendo no chão. Halef ajoelhara junto dele e o mantinha seguro.

- Vê se ele tem uma faca à cinta, sídi!

- Aqui está; espera!

Com as mãos fortemente atadas pelos pulsos, puxei a faca da cinta, segurei a lâmina entre os dentes e cortei com ela os laços que me prendiam.

- Conseguiste, sídi?

- Sim, agora tenho as mãos livres. Louvado seja Deus se ele não morreu.

- Era o que merecia, sídi!

- Todavia desejo que esteja vivo! Amarremo-lo, amordacemo-lo e ponhamo-lo no meu cubículo.

- Assim poderá gemer e nos trair.

- Tiro-lhe o turbante da cabeça e tu o enrolas no seu rosto. Deixa, porém, um pouco frouxo para que possa respirar! Bem... eis a mordaça... a cinta para ligá-lo de pés e mãos... Solta o pescoço e segura as pernas... bem, pronto. Levanta-o, agora!

Ao subir a escada que conduzia à coberta respirei aliviado: deixara o prisioneiro aferrolhado no meu cubículo!

- Que faremos, sídi?

- Antes dize-me como se passou tudo.

- Oh! muito simplesmente. Escapei do meu quarto e pus o ouvido à escuta.

- Ah se tivessem te visto!

- Não me vigiavam, por crerem que não me podia mover. Então ouvi dizer que o Pai do Sabre seguira para Djidda acompanhado por doze homens. Levou uma grande soma consigo para fazer presente ao Grão-Xerife de Meca. Depois soube que o árabe, encarregado de te guardar, dormiria à tua porta. Odeia-te e já há muito te teria matado se não temesse a Abu-Seíf. Para chegar aqui despercebido, arrastei-me pela coberta como me ensinaste no deserto. Apenas eu chegara, senti-o aproximar-se..

- Ah, então eras tu! Ouvi o rumor.

- Depois que ele se deitou, saltei-lhe ao pescoço. O resto já sabes, sídi.

- Muito obrigado, Halef! Como estão as coisas no convés?

- Bem. Ao passar por lá os homens de Abu-Seif estavam prestes a acender o seu afijon (1). Quando o patrão está ausente...

- Guarda para ti as armas que apreendemos; são melhores do que as tuas. Agora segue-me. Eu vou adiante.

Enquanto rastejávamos de mansinho, não me pude conter e sorri ao lembrar-me que Abu-Seif levava de presente ao Grão-xerife, apenas uma parte do que lhe havia roubado. Ao assomar a cabeça na abertura da escada senti logo o aroma característico do ópio. Os homens jaziam imóveis sobre a coberta; não se sabia se dormiam ou se, quedos, esperavam a embriaguez do narcótico. Felizmente, estava livre o caminho para o camarote. Agachados, prosseguimos até alcançar a porta desse. Graças à despreocupação genuinamente oriental, era desprovida de fechadura; os gonzos não podiam ranger, pelo simples motivo de serem feitos com pedaços de couro, pregados na parte superior e inferior da porta e dos umbrais.

Abri apenas o quanto permitiu a passagem do corpo, fechando logo que entrou Halef, em meu seguimento. Sentia-me tão livre e com tal segurança como se me achasse em minha casa. Aqui pendiam as minhas armas e, a cinco passos adiante, estava a amurada do navio que com um salto podia ser transposta para chegar à terra. O relógio, o compasso e o dinheiro não haviam saído do meu poder.

- O que é que eu vou levar? - perguntou Halef.

- Pega um dos cobertores que vejo aí a um canto. Precisamos dele. Também eu levarei um.

- Mais nada?

- Não.

- Mas eu ouvi dizer que aqui está guardado muito dinheiro.

- Sim, lá no sandik; deixemo-lo ficar, pois não nos pertence.

- O quê, sídi? Não queres levar o dinheiro? Queres deixar a esses salteadores o ouro de que tanto necessitamos?

- Porventura queres passar por ladrão?

- Eu? Hadji Halef Omar Ben Hadji Abul Abbas Ibn Hadji Dawud el Gossara ladrão? Sídi, como me podes dizer isso? Acaso tu mesmo não me ordenaste que tirasse as armas do homem que ficou lá no porão? Acaso não me ordenaste que lançasse mão desses cobertores?

- Isso não é roubo. Subtrairam-nos armas e cobertores; portanto, assiste-nos o direito de compensar as perdas sofridas. Mas conservamo-nos de posse do nosso

 

(1) Ópio.

 

dinheiro.

- Não, sídi; o meu eles roubaram.

- Quanto possuías?

- Pois não me deste três táleres, por cada duas semanas? Possuia-os todos ainda; agora, não os tenho mais e tirarei o que me pertence.

Aproximou-se da caixa forte. Devia impedi-lo? Por um lado, tinha razão. Achavamo-nos em circunstâncias tais que nós mesmos é que devíamos zelar pelos nossos direitos. Aonde poderíamos requerer a devolução do dinheiro roubado por Abu-Seif? Para os meus parcos haveres seria penoso dar novamente do meu bolso a Halef a soma que lhe haviam roubado e, além disto, uma contenda poderia fazer rumor e pôr-nos em perigo; contentei-me em objetar:

- O sandik deve estar fechado.

Aproximou-se, examinou-o detidamente, dizendo depois:

- Realmente, está fechado a chave; vou arrombá-lo.

- Não, isso não! Se fizeres saltar a fechadura, o barulho nos trairá.

- Tens razão, sídi. Resigno-me a ficar sem os meus táleres. Vamos embora!

Pelo tom com que ele proferiu essas palavras vi que sentia ter de fazer tal renúncia. Outro árabe, com certeza, não me teria obedecido e, de pena, prometi:

- Halef, dar-te-ei novamente o dinheiro que perdeste!

- É verdade, sídi?

- Sim.

- Então vamos!

Saíamos da cabina e alcançamos, sem novidade, a amurada do navio. A distância entre este e a terra era maior do que me parecera, de noite, à luz das estrelas.

- Poderás saltar por cima, Halef? - perguntei, apreensivo.

Eu sabia que ele tinha boas pernas; mas aqui não havia espaço para dar impulso ao corpo.

- Olha só, sídi!

Ergueu-se, pôs o pé no parapeito e atirou-se. Estava em terra e eu o segui logo depois.

- Hamdulillah, graças a Deus! Enfim, estamos livres. Mas agora, que faremos? - perguntou Halef:

- Partimos para Djidda.

- Conheces a estrada?

- Não.

- Ou tens uma harjta (1) que te sirva de guia?

- Também não; mas, para chegar lá, basta nos conservarmos sempre rumo ao sul.

- Abu-Seíf foi a pé o que é sinal certo da proximidade da cidade. Antes de mais nada examinemos nossas armas.

 

(1) Carta geográfica.

 

Rumamos para trás duma moita de euforbiáceas que nos ocultava quase completamente por ser da espécie indica e não da arábica (1). Minhas carabinas estavam carregadas; de certo não haviam compreendido o manejo do revólver e da arma de repetição e deviam ter se espantado com a pesada “mata-ursos”. O árabe usa uma espingarda leve e longa, existindo ainda tribos inteiras armadas com tipos antiquíssimos e originais de espingardas.

Depois de nos certificarmos de que a nossa fuga ainda não fora notada, pusemo-nos a caminho pela estrada desconhecida. Tanto quanto possível, devíamos seguir a costa, o que nos obrigava a fazer longos percursos inúteis, por ser ela muito recortada. Além disso o solo, apesar da proximidade do mar, era coberto de uma abundante vegetação que dificultava e atrasava a marcha. Finalmente rompeu o dia e a viagem se tornou mais fácil e rápida. Já de longe se podiam ver as sinuosidades da praia e evita-las, cortando caminho. Eram oito horas, pouco mais ou menos, quando enxergamos o minarete de uma cidade rodeada de altos e bem cuidados muros.

- Vamos perguntar se aqui é que é Djidda, sídi? - perguntou Halef.

Já havia uma hora que encontrávamos árabes na estrada sem contudo os interpelar.

- Não; é claro que estamos diante de Djidda.

- E que vamos nós lá fazer?

- Primeiramente, percorrerei a cidade.

- E eu também. Sabes que aí está enterrada Eva, a mãe de todos os viventes?

- Sei.

- Depois de havê-la sepultado, Adão chorou-a durante quarenta dias e quarenta noites; em seguida, dirigiu-se para Selan-Dib onde morreu e está enterrado. É uma ilha conhecida só dos crentes.

- Enganas-te, Halef: Esta ilha é chamada Sinhala Dvipa pelos seus habitantes e Selan-Dib pelos árabes. Sinhala Dvipa significa ilha dos leões; atualmente pertence aos cristãos, aos ingleses, e eu próprio já estive nela duas vezes.

Ele mirou-me admirado.

- Todavia, os nossos talebs (2) dizem que cai fulminado todo o infiel que pisa a ilha de Adão.

- Acaso morri eu?

- Não. Mas tu és um favorito de Alá, apesar de não partilhares da verdadeira fé.

- Ainda um exemplo te quero citar. Não é verdade que está fadado à morte todo o infiel que entrar nas santas cidades de Meca e Medina?

- É.

- Mas há cristãos que já lá estiveram.

- Será verdade?

- É sim. Disfarçaram-se em moslemin, para não serem reconhecidos.

 

(1) A primeira é bem mais alta que a segunda.

(2) Sábios.

 

- Então deviam saber nossa língua e nossos costumes.

- Sabiam tudo isso.

Com uma certa angústia, fitou-me o bom servo.

- Sídi, também tu sabes tudo o que se relaciona conosco. Pretendes ir a Meca?

- Queres levar-me em tua companhia?

- Não, sídi, pois seria lançado nas profundas do Djehenna.

- Trair-me-ias se lá me visses?

- Efêndi, não me entristeças! Devia trair-te, mas sinto que não teria coragem para tanto. E não sobreviveria.

Vi que essa era sua convicção e que seria crueldade tentá-lo e sobressaltá-lo por mais tempo.

- Halef, tu me queres bem?

- Mais do que a mim mesmo, sídi; podes crer!

- Acredito. Por quanto tempo ainda queres viajar em minha companhia?

- Tanto quanto quiseres. Irei contigo por toda a parte, apesar de seres cristão. Mas eu sei que chegarás à posse da verdadeira fé, pois hei de te converter, queiras ou não.

- Só um hadji é que pode dizer tal.

- Oh sídi, hei de me tornar um verdadeiro hadji. Dentro em pouco visitarei o túmulo de Eva em Djidda; seguirei depois para Meca; demorar-me-ei em Arafah, deixar-me-ei barbear em Minah, e acompanharei os outros crentes em todos os santos costumes prescritos. Queres me esperar em Djidda?

- Quanto tempo pretendes ficar em Meca?

- Sete dias.

- Encontrar-me-ás, em Djidda, na volta. Mas será válida a tua hadsch mesmo que não seja feita no mês da peregrinação?

- Assim mesmo é válida. Olha, aí está a porta. Como se denominará ela?

- É a porta do norte, e chama-se Bab-el-Medina. Queres fazer-me um favor?

- Sim, pois sei que és incapaz de me pedir o que não devo fazer.

- Não digas a ninguém que sou cristão.

- Obedecer-te-ei.

- Farás como se eu fosse um muçulmano.

- Sim. Mas, quererás também tu me fazer um favor?

- Qual?

- Pretendo comprar em Meca o Aziz-kumach, além de muitos presentes e dar muitas esmolas...

- Não tenhas cuidados; hoje mesmo receberás os teus táleres.

- Talvez não os aceitem, por serem cunhados em terra de infiéis.

- Pois então dar-te-ei uma soma equivalente em piastras.

- Tens piastras?

- Ainda não; mas obte-las-ei com um sarraf.

- Muito obrigado, sídi! Será que terei o suficiente para ir também a Medina?

- Creio que sim, se fores econômico. A viagem nada te custará.

- Por quê?

- Porque te levarei comigo.

- Para Medina, sídi? - perguntou ele em tom apreensivo.

- Sim. É isso proibido?

- A estrada que lá conduz é livre; mas não poderás entrar na cidade.

- E se eu te esperar em Djhambo?

- Então sim, sídi. Agora me tranqüilizaste.

- Estamos, pois, de acordo.

- E para onde irás depois?

- Primeiramente a Medain Saliha.

- Serás presa da morte, sídi! Não sabes que essa é a cidade dos espíritos que não suportam um só mortal junto de si?

- A mim eles hão de suportar. É um lugar muito misterioso; conta-se tanta coisa a seu respeito, que o quero conhecer.

- Não realizarás teu intento, porque os espíritos não o permitirão, mas não te abandonarei, mesmo com perigo de vida. Irei diretamente para o céu que está sempre aberto aos hadji. E depois, para onde te dirigirás?

- Ou para o Sinai, Jerusalém e Estambul ou para Bássora e Bagdad.

- E levar-me-ás contigo?

- Sim.

Chegáramos à porta. Fora dos muros viam-se inúmeras cabanas de palha ou de folhas de palmeira, onde moravam pobres hadhesi (1) ou miseráveis lenhadores e verdureiros. Um rapaz, todo esfarrapado, interpelou-me, nesses termos:

- Taibin, effendi, seiak, keif helak - como vais, efêndi, estás bem de saúde?

Parei. No oriente sempre se deve ter tempo para responder a uma saudação.

- Vou bem, obrigado; e tu, jovem valente, como passas, como te correm os negócios, herdeiro de uma das mais piedosas famílias dos moslemin?

Empregara esses termos, porque vira que ele trazia o m'eschaleh. Apesar de ultimamente invadida pelos cristãos, Djidda é considerada uma cidade santa e as cidades santas têm o privilégio de trazer esse distintivo. Quatro dias depois do nascimento de uma criança, dão-lhe três talhos nas faces e quatro nas têmporas, perdurando as cicatrizes por toda a vida. É o m'eschaleh.

- Tuas palavras são Zahari (2) cujo aroma lembra as Benat el Djenna (3) - respondeu o homem. - Também eu vou bem e estou satisfeito com os meus negócios. Talvez te possa servir.

- Que profissão exerces?

- Tenho três animais. Meus filhos são hamari e eu os ajudo.

- Estão em tua casa?

- Sim, sídi. Queres que te vá buscar dois burros?

 

(1) Trabalhadores.

(2) Flores.

(3) Huris.

 

- Quanto exiges em pagamento?

- Até onde queres viajar?

- Sou estrangeiro e ando a procura de uma habitação.

Examinou-me atentamente. Um estrangeiro a pé era realmente de admirar.

- Sídi, - perguntou ele, - queres ir para onde conduzi teus irmãos?'

- Que irmãos?

- Ontem, à hora do mogreb vieram treze homens a pé como tu; levei-os para o grande khan.

Certamente haviam sido Abu-Seif e os seus homens.

- Não eram meus irmãos. Não quero alugar quarto nem num khan nem num funduk (1), mas numa casa de família.

- Ama di bacht - que felicidade! Sei duma casa em que podes encontrar um quarto que serviria até para um príncipe.

- Quanto queres para nos levar cm teus burros?

- Duas piastras.

Eram mais ou menos vinte pfennig per capita.

- Vai buscar os animais.

Levantou-se e, com passos vagarosos e graves, dirigiu-se para um cercado de onde trouxe dois burros tão pequenos que quase podiam passar por entre as minhas pernas.

- Agüentar-nos-ão esses burros?

- Sídi, um só deles nos carregaria aos três sem dificuldade.

Era um evidente exagero, contudo o meu animal não deu o menor indício de esforço quando montei, antes pelo contrário, pois partiu num trote rápido que foi interrompido logo que passamos os muros da cidade.

- Tut - gritou uma voz tartamudeante, ao lado, - Ant, Wermya - iz aktsche - alto lá, dêem-me dinheiro!

à minha direita, num muro em ruinas via-se uma abertura quadrangular; nesta abertura achava-se uma cabeça; no rosto dessa via-se uns óculos horríveis e nesses óculos via-se apenas um vidro. Sob este, um formidável nariz me atraiu a atenção, assim como uma grande abertura da qual, provavelmente, haviam saído aquelas palavras.

- Quem é este? - perguntei ao nosso guia.

- O radjul el bab. (2) Ele recolhe o imposto para o sultão. Conduzi o meu burrinho até o buraco onde se achava o original cobrador do sultão e exibi o passe.

- Que queres tu?

- Dinheiro!

- Olha aqui.

Pus-lhe bem diante do olho desprotegido o mohür (3) do grão-senhor.

 

 (1) Hospedaria.

(2) Lit. homem da porta, guarda.

(3) Selo.

 

- Lutf, djenabin - Perdoe-me, Vossa Graça!

Fechou-se a abertura abaixo do nariz, o rosto esquisito desapareceu e logo em seguida vi um corpo esguio saltar dentre as ruínas. Vestia um uniforme velho e surrado de janízaro, calças largas e azuis, meias vermelhas, um casaco verde, ostentando na cabeça um gorro branco com uma borla pendente. Era o bravo radjul el bab.

- Que vem ele fazer aqui fora? - perguntei ao guia.

- Possuis um bu-djeruldi e não precisas dar nada. Ele te ofendeu e teme tua vingança.

Tocamos para diante e cinco minutos mais tarde chegávamos à porta de uma casa que, contrariamente aos usos maometanos, tinha quatro janelas gradeadas, dando para a rua.

- É aqui.

- A quem pertence essa casa?

- Ao djewahirdji (1) Tamaru que me encarregou de zelar por ela.

 

(1) Ourives.

 

- Estará em casa?

- Está.

- Então podes voltar. Aí tens um bakchich!

Com muitos agradecimentos, montou o homem em um de seus burros e foi-se embora. Entrei na casa, acompanhado de Halef, e fui conduzido por um preto até o jardim onde se encontrava o proprietário. A este fiz o meu pedido que concedeu, logo, levando-me para a casa onde haviam muitos compartimentos vazios. Aluguei dois, por uma semana, pagando dois táleres, soma muito razoável. Delicadamente não me fêz perguntas. Apenas dei o nome que Halef me pusera.

À tarde, saí para ver os arredores.

Djidda é uma cidade muito pitoresca e parece-me que lhe vai bem a denominação que significa “a rica”. Por três lados é cercada de altos e grossos muros, providos de torres, sendo protegida ainda por um profundo fosso. Do lado do mar é defendida por um forte e várias baterias. O muro tem três portas: Bab el Medina, Bab el Yemen e Bab el Meca que é a mais bonita e ladeada de duas torres, cujas ameias são todas adornadas. A cidade está dividida em duas partes, na Nàsf (1) da Síria e na do Yemen; suas ruas são largas e bastante limpas. É embelezada por não poucas praças. O mais notável é que muitas casas há em Djidda cujas janelas olham para a rua. Vêem-se várias de mais de um andar, bem acabadas e decoradas, com portas em arco, sacadas e terraços. O bazar corre paralelo ao mar em todo o comprimento da cidade e é cortado por não poucas ruas transversais. Nelas acotovelam-se árabes e beduínos, fallatah, negociantes de Bóssora, de Bagdad, Mascate e Makalla, egípcios, núbios, abissínios, turcos, sírios, gregos, tunisianos, tripolitanos, judeus, hindus, maláios: - e todos em seu traje nacional característico; de quando em vez, mesmo cristãos se encontram. Como na maioria das povoações e cidades árabes, passados os muros, já se encontra o deserto onde os deserdados da sorte constróem suas cabanas.

Não longe da caserna que se acha nas proximidades do Bab el Medina, está o cemitério no qual dizem encontrar-se o túmulo da nossa mãe comum. Este tem sessenta metros de altura e, na sua metade eleva-se uma pequena mesquita.

Em Djidda há muitos mendigos, o que não é para admirar. A maioria é de origem hindu. São por demais preguiçosos para trabalhar como os peregrinos de outras terras que, por esforço próprio, conseguem o dinheiro necessário para a volta. Quem quisesse satisfazer a todos os pedintes, tornar-se-ia também mendigo, dentro em pouco tempo.

Do cemitério me dirigi ao porto onde, vagarosamente, fui costeando a água. Refletia na possibilidade de ver Meca, sem notar que cada vez ia ficando mais só. De repente - sonho ou realidade? - ouvi, do lado do mar o seguinte:

 

 (1) Metade.

 

“Jetzt geh'i zum Soala

Und kaf ma an Strick

Bind's Diandl am Buckl

Trogi's überall mit.” (1)

 

Uma cançoneta da pátria! Em Djidda! Olhei em torno e vi um batel em que se achavam dois homens. Um deles era árabe. A côr da pele e o vestuário denotavam um hadharemich; provavelmente o barco lhe pertencia. O outro, um tipo esquisito, mantinha-se de pé na pequena embarcação. Cobria-lhe a cabeça um turbante azul; vestia bombachas turcas de cor encarnada e um casaco europeu de corte antiquado; um lenço de seda amarela envolvia-lhe o pescoço.

Da cinta, que lhe cingia o enorme ventre, pendia um alfange cuja bainha era tão espessa que podia conter três lâminas.

Era o insólito cantor. Tinha notado que eu parará admirado e pensou, sem dúvida, ter diante de si um beduíno amante do canto, pois colocou a mão diante da boca, virou-se ainda mais para a direita e cantou:

 

“Und der Türk und der Russ

Die zwoa gehn mi nix ó,

Wann i no mit der Gret'l

Koan kriegshandl hó!” (2)

 

Minha satisfação, agora, era maior do que a que sentira, quando Hamsad al Djerbaia de Jüterbock, cantara na minha casa, à beira do Nilo! Também pus a mão, em concha, na boca e gritei:

- Türkü Aschaghyr-durmak - continua!

Não sabia se me fizera compreender; todavia prosseguiu:

 

“Zwischen deiner und meiner

Is a weite Gass'n;

Bua, wennst mi nòt magst,

Kannst es bleiben lass'n!” (3)

 

(1) Vou agora ao Soala

      Comprar uma corda

      Para prender a minha pequena

      E a levar por coda e parte.

 

(2) Nada se me dá

      Da Turquia e da Rússia

     Quando estou em paz

     Com a minha Gretl.

 

(3) Entre ti e mim

      A rua é larga

      Pouco me importa

      Que gostes de mim ou não, rapaz.

Antegozando a estupefação do jodler, cantei:

 

“Zwischen deiner und meiner

Is a enge Gass’n;

Bua, wennst mi gern magst,

Kannst herrudern lass'n!” (1)

 

Soltou então um brado de alegria, arrancou o turbante da cabeça e O aifange da bainha, agitou-os no ar; depois repôs um e outro em seus lugares, tomou do leme e dirigiu o barco para a margem.

Fui-lhe ao encontro. Saltou em terra, mas ficou um tanto constrangido ao me examinar de perto.

- Um turco que sabe falar alemão? - perguntou, com ar de dúvida.

- Não, um alemão que conhece alguma coisa de turco.

- Realmente! Não queria acreditar nos meus ouvidos. Mas o senhor tem o aspecto de um verdadeiro árabe! Dá-me licença de perguntar o que faz o senhor?

- Pois não, sou escritor. E o senhor?

- Eu... eu... eu... hum..., já fui violinista, cômico, cozinheiro de bordo, secretário particular, book-keeper (2), merchant (3), viúvo, capitalista e agora sou um simples turista que volta para casa.

Disse essa “ladainha” com tanta imponência que não pude conter o riso.

- Pelo que vejo exerceu várias profissões! E agora volta para casa?

- Sim, para Trieste, se até lá não resolver o contrário. E o senhor?

- Se Deus quiser, pretendo rever a minha pátria, dentro de poucos meses. Que faz aqui em Djidda?

- Nada, E e senhor?

- Nada. Vamos nos auxiliar mutuamente?

- Como não! De minha parte estou ao seu inteiro dispor!

- Igualmente! Já encontrou quarto?

- Sim, há quatro dias.

- E eu há apenas algumas horas.

- Então ainda não está instalado. Se quiser visitar-me, terei muito prazer em recebê-lo!

- O prazer é meu! Quando poderei ir?

- Agora mesmo. Vamos. Não é longe.

Meteu a mão no bolso e pagou ao bateleiro. Em seguida, afastamo-nos do porto. Durante o percurso, falamos apenas sobre banalidades, até chegarmos a uma

 

(1) Entre ti e mim

     A rua é estreita

     Se gostas de mim, rapaz,

     Manda remar para cá.

(2) Guarda-livros.

(3) Negociante.

 

casinha de um só andar, onde entramos. Abriu a porta, para o lado direito, e entramos num pequeno aposento que tinha por único mobiliário um cavalete de madeira sobre o qual achava-se estendida uma longa esteira.

- Aqui é o meu quarto. Seja bem-vindo. Assente-se!

Mais uma vez, vigorosamente nos apertamos as mãos. Assentei-me no sesir. O patrício entrou no aposento contíguo e abriu uma mala que estava no mesmo.

- A um hóspede de tal distinção não se poupam atenções. Eis aqui as minhas riquezas, - disse ele.

Belas coisas me trazia, senão vede, pela apresentação que fêz:

Aqui um pote com pedaços de maçã cozidos na véspera, em uma cafeteira; é a melhor comida que se tem para oferecer nessas regiões quentes. Duas cucas, feitas na tabaqueira - uma de cada vez. Um resto de pão de trigo inglês - meio velho é verdade, mas ainda bom. O senhor, segundo parece, tem bons dentes. Além disso, poderá apreciar essa metade de lingüiça de Bombaim - está, talvez, um pouco rançosa, mas não faz mal. Esta garrafa contém conhaque legítimo e velho; não temos vinho, mas essa bebida é sempre melhor do que água; o copo quebrou-se ma,. não faz muita falta. Toma rapé?

- Infelizmente não.

- Que pena! Nessa caixeta tenho um esplêndido. Mas, com certeza fuma?

- Sim.

- Bem. Aqui tenho ainda onze cigarros; repartamos: dez pata o senhor e um para mim.

- Ou então o contrário.

- Não.

- Esperemos um pouco. E aí nessa lata, que tem?

- Adivinhe!

- Deixe-me ver!

Deu-me a latinha e eu a cheirei.

- Queijo!

- Acertou! Infelizmente falta a manteiga. Em todo o caso, temos uma faca e um garfo também.

Comemos com prazer.

- Sou saxônio - disse e declarei-lhe o meu nome. E o senhor nasceu em-Trieste?

- Sim. Chamo-me Martin Albani. Meu pai foi sapateiro. Eu devia ter subido de classe e me tornado negociante, dei, porém, mais atenção ao meu violino do que aos números. Depois que meu pai casou novamente, a minha vida mudou. Com madrasta... sabe como é, não? Amava muito ao meu pai o que não impediu que me engajasse numa companhia de harpistas que passou pela cidade. Viajamos por Veneza, Milão, e todo o interior da Itália; finalmente fomos a Constantinopla. Já ouviu falar nessa gente?

- Sim. Viajam muito.

- Primeiramente tocava violino, depois lancei-me no teatro cômico; mas a sorte não nos ajudou e fiquei contentíssimo quando encontrei colocação numa agência bremense de veículos. Com o proprietário fui para Londres e daí para a Índia, na companhia de um inglês. Adoeci em Bombaim, indo parar no hospital. O administrador era um homem ativo mas pouco afeito às letras e aos cálculos; logo que me deram alta, tomou-me como secretário. Mais tarde, fui gerente de uma livraria cujo proprietário faleceu, “legando-me” a viúva com quem casei. Vivemos felizes e sem filhos até a morte de minha cara metade. E agora, a nostalgia me obriga a voltar para a pátria...

- Vai para a casa paterna?

- Também o meu pai deixou de existir, mas - louvado seja Deus! - não sofreu necessidade. Logo que melhorei de situação carteei-me regularmente com ele. Já vendi o meu negócio e posso enfim voltar calmamente para casa.

O homem agradou-me. Sem fingimento, mostrava-se tal qual era. Não se podia qualificá-lo de rico; parecia-me um burguês dono daquilo que precisa e contente com a sua sorte.

- Por que não vai diretamente a Trieste?

- Tive de ir pôr em ordem alguns negócios, em Mascate e Aden.

- Então, sempre conseguiu enfronhar-se nos cálculos comerciais?

- De certo - disse ele, sorrindo. - Atualmente a minha situação não é das piores; sou senhor de mim mesmo - que diz da idéia de irmos ver juntos o Mar Vermelho?

- Acho-a excelente. Quanto tempo pretende demorar-se aqui?

- Até que venha um navio que me agrade e me queira tornar a seu bordo. Não pensou que eu era tirolês ou bávaro, quando me ouviu cantar?

- Pensei; mas não estou decepcionado - apesar de tudo somos compatriotas e nos alegramos de nos havermos encontrado.

- E o senhor, quanto tempo tenciona ficar aqui?

- Hum! O meu servo vai fazer uma peregrinação a Meca; pelo menos uma semana tenho de esperar por ele.

- Essa notícia me alegra; podemos nos entreter mutuamente por mais tempo.

- De acordo; mas durante dois dias nos separaremos.

- Por quê?

- Gostaria de ir a Meca.

- O senhor? Parece que para os cristãos é proibida a entrada.

- É verdade. Mas eu não sou conhecido.

- Bem. Fala árabe?

- Regularmente.

- E sabe quais as prescrições que os peregrinos devem observar?

- Sei; mas naturalmente não as cumpsirei à risca. Em caso contrário, se me sujeitasse ao cerimonial de rigor, se invocasse a Alá e aos Profetas, cometeria um pecado contra a nossa santa fé.

- Interiormente, poderia pensar noutra coisa.

- Isso não diminui a culpa.

- Não merece a ciência um sacrifício?

- Claro que sim, mas não dessa ordem. De resto, eu não sou um cientista. Desejo ir a Meca só por curiosidade e para ter algo a contar aos amigos. Creio que o fato de passar por peregrino para poder visitar a cidade do Profeta, não implica na negação da fé cristã.

- Sou da mesma opinião.

- Julga que Meca só é freqüentada pelos peregrinos?

- Provavelmente também lá irão negociantes que não perderão a oportunidade de visitar os lugares santos.

- Mas ninguém se preocupará com isso. Calculo que daqui a Meca são dezesseis horas de caminho; a cavalo chega-se lá em oito. Tivesse eu um bicharinhedjin e faria o percurso em quatro. De chegada, tornaria um quarto, em qualquer khan e, depois, com gravidade e vagar, percorreria a cidade e visitaria os santuários; para tudo isso, bastam-me algumas horas. Tornar-me-ão por um autêntico moslem e eu poderei voltar tranqüilamente.

- Quem o ouve falar julga que não há o menor perigo nessa viagem, no entanto não deixa de ser arriscada. Li, algures, que um cristão não pode se aproximar de Meca mais que nove milhas.

- Se essas nove milhas fossem inglesas, não poderíamos estar em Djidda. Na estrada que conduz a Meca, há onze cafés; pretendo ir aos nove primeiros e em todos declarar-me cristão. Mudaram os tempos, amigo; agora contentam-se em vedar a entrada da cidade aos cristãos. Vou tentar a aventura.

Eu falara com tal convicção que acabara decidido a ir a Meca. Ao chegar em casa, familiarizei-me com esse pensamento, adormeci com ele e com ele acordei. Halef trouxe-me o café. Mantivera a minha palavra e lhe restituíra o dinheiro perdido.

- Sídi, quando é que me permites partir para Meca? - perguntou.

- Já percorreste Djidda?

- Ainda não; mas em breve terei visto o que há de importante.

- Quem te acompanhará? Um delyl?

- Não, é muito dispendioso. Esperarei por outros peregrinos e alugarei um camelo.

- Poderás partir quando quiseres.

Delyls são os guias que indicam o caminho aos peregrinos e que zelam para não ser omitida nenhuma prescrição. Entre os peregrinos, encontram-se muitas senhoras e moças.

Por ser proibida a entrada nos santuários às donzelas, os delyls, mediante pagamento, casam-se com elas em Djidda, para levá-las a Meca e repudiá-las depois de concluída a peregrinação.

Apenas Halef saíra do meu quarto, ouvi uma voz dizer do lado de fora:

- O teu senhor está em casa?

- Dehm arably - fala árabe! - foi a resposta de Halef a essa pergunta feita em alemão.

- Arably? Não sei, meu rapaz; apenas conheço algo de turco. Mas espera aí. Eu mesmo me apresentarei; com certeza ele está aí do outro lado da porta.

Era Albani que, em voz alta, cantou:

 

“Juchheirassosa!

Und wenn d'willst will i a,

Und wenn d'willst, so mach auf,

Denn deSir eg'n bin i da” (1)

 

Certamente Halef estarrecera de espanto e não respondi de propósito, para tornar a ouvir o cantor e aumentar a perplexidade do meu bom servo. Passados poucos instantes, o triestino continuou:

 

“Soldat bin i gern

Und da kenn'i mi aus,

Doch steh i nit gern Schildwach

In fremder Leut Haus.” (2)

 

E, quando viu que nem essa doce lembrança surtia efeito, ameaçou:

 

“Und a frischa Bua bin i,

D'rum lass dir'mal sag'n:

Wenn d'nit glei itzt aufmachst,

Thua i's Thürerl zerschlag'n!” (3)

 

Evidentemente não o podia deixar ir tão longe, por isso ergui-me e fui absir-lhe a porta.

 

(1) Viva! Viva!

      Se quiseres receber-me,

      Se quiseres receber-me, abre a porta

      Pois vim te visitar.

 

(2) Gosto da vida de quartel

      E sou um bom soldado

      Todavia não me agrada fazer sentinela

       Em casa de desconhecidos.

 

(3) Sou um rapaz disposto a tudo,

       Por isso escute bem,

       Se você não abre já

        Ponho essa porta a dentro.

 

- Olá! - riu ele - afinal fui bem sucedido! Cheguei a pensar que já partira para Meca.

- Pst! O meu servo deve ignorar essa viagem.

- Perdão! Adivinhe o que lhe venho pedir?

- Julga, talvez, que será recebido com as mesmas gentilezas que rne ofereceu ontem? Pois é pena! Munições de guerra tenho em quantidade, mas de boca!... Não lhe poderia apresentar um cardápio tão escolhido como o seu!

- Qual! Não é isso! É um outro pedido ou, melhor, uma pergunta.

- Diga!

- Falamos pouco sobre as suas impressões de viagem; contudo presumo que é um perfeito cavaleiro.

- Não monto mal.

- A cavalo ou em camelo?

- Tanto um como outro; até em burro, quando é necessário.

- Nunca montei num camelo. Ouvi dizer, hoje de manhã, que há um dewedji, nas proximidades, que nos fará passar por beduínos por pouco dinheiro...

- Ah, quer experimentar um passeiozinho em camelo?

- É isso!

- Ficará um tanto mareado...

- Não faz mal.

- Mesmo que use uma dose de creosôto, não melhorará.

- Estou acostumado! Onde já se viu viajar pelas costas do Mar Vermelho e não haver montado num Camelo!... Se me permite, convido-o para me fazer companhia.

- Pois não, aonde quer ir?

- A qualquer parte. Que tal uma excursão pelos arredores de Djidda?

- De acordo. Quem trata os camelos? O senhor ou eu?

- Eu, é claro. Pretende levar também o seu servo?

- Como quiser. Nessas regiões nunca se sabe o que pode acontecer e um criado, no Oriente, jamais é supérfluo.

- Então ele vai junto.

- Quando partiremos?

- Dentro de uma hora.

- Bem. Permita-me, porém, uma observação. Antes de montar examine bem a sela e o enxergão para não ter de travar conhecimento com os hexápodes bachi-bazuks que os orientais batizaram com o belo nome de bit.

- Bit? Não sou nenhum luzeiro em línguas orientais.

- Mas aprendeu um pouco de latim, não?

- Um pouco, sim.

- Falo do animalzinho denominado Lob em alemão e em latim.

- Ah! é tão maligno assim?

 

- À vezes é. Ouvi chamá-lo de Bergleute (1) na Hungria, porque eles trabalham de baixo para cima. Num passeio a camelo terá que haver-se com os Bergleute dos árabes e com os dos camelos. Por sorte, os primeiros são tão fiéis aos seus senhores que dificilmente atacam um djaur. Pelas dúvidas, é aconselhável colocar debaixo um outro enxergão que depois poderá servir de combustível ao primeiro pasteleiro que encontrar.

- Está bem! Levaremos armas?

- Evidentemente. Eu, por exemplo, posso topar com um inimigo.

- O senhor?

- Sim, eu. Achava-me no poder de um pirata a quem escapei ontem de manhã. Está ele a caminho de Meca e talvez o encontremos aqui em Djidda.

- Não diga!... Era um árabe?

- Sim. Apesar da minha vida não valer vinte pfennig, não quero voltar a parar em suas mãos.

- E não me contou nada disso, ontem!

- Para quê? Ouve-se e lê-se muitas vezes que a vida se torna cada vez mais insípida e que as aventuras acabaram. Há poucas semanas falei com um sábio muito viajado que afirmava, precisamente, ser possível ir de Hammerfest à Cidade do Cabo e da Índia ao Japão sem experimentar, uma única vez sequer, as agradáveis emoções de uma aventura. Não o contradisse, mas estou convencido de que isso depende do viajante e da forma de viajar. Uma viagem par entreprise ou com passagem de ida e volta deverá ser muito pacata, mesmo que se destine às Celebes ou à Terra do Fogo. Prefiro o cavalo e o camelo às diligências e estradas de ferro, o canoe ao steamer e a carabina ao passe mil vezes visado; além disso, prefiro ir a Tomboctu ou a Tobolsk a ir a Nizza ou Heligoland.

“Não confio nem nos intérpretes nem nos baedeker (2); para ir a Mursuk dispus de menos dinheiro do que muitos gastam na viagem de Praga a Viena... nunca me queixei por falta de aventuras. Quem dispende uma fortuna, para percorrer os montes Atlas ou o “far-west” americano, só encontra facilidades; quem, porém, chega nessas regiões com o bolso quase vazio, procurará granjear as boas graças e obter a hospitalidade dos beduínos, ou ganhar o pão de cada dia no oeste bravio, por entre mil e um perigos e lutas; numa palavra, não lhe faltarão aventuras. Vamos apostar que, logo mais, depararemos com uma em nossa excursão? Os heróis das antigas lendas saíam em busca de aventuras; os heróis modernos viajam como commis voyageurs (3), turistas, veranistas, banhistas; as aventuras os encontram sob o guarda-chuva, na table d'hôte, na mesa do jogo e no ringue de patinação. Vamos apostar?

- Faz-me realmente curioso!

- Entenda-me bem! É provável que qualifique de aventura o encontro na

 

(1) Mineiros.

(2) Guia do viajante.

(3) Caixeitos viajantes.

 

jângal de dois tigres a lutar encarniçadamente; eu considero uma aventura de igual proporção quando, na orla de um bosque, deparo com a batalha de dois formigueiros, semelhante a dos hunos e godos não só por exigir bravura e força de parte a parte, como por mostrar exemplos verdadeiramente admiráveis de sacrifício, obediência, astúcia e até de tática e prudência estratégica. A onipotência divina brilha esplendorosamente nesses pequenos animais como naqueles dois tigres que só lhe parecem grandes pelo temor que inspiram. Mas vá arranjar os camelos, para que cheguemos a uma fonte nas horas de calor mais intenso.

- Já vou; mas diga-me: mantém a aposta que fêz ainda há pouco?

- Mantenho!

Saiu. Dissera-lhe isso com segunda intenção, pois um dos elementos de prazer do primeiro passeio a camelo é uma certa dose de romantismo.

Quando eu e Halef chegamos à casa de Albani, encontramo-lo armado de ponto em branco.

- Vamos; os dewedji nos aguardam. Ou quer tornar alguma coisa, primeiro? - perguntou-me.

- Não.

- Levemos munições de boca. Este bolso aqui está cheio.

- Essa é boa! Quer gozar das delícias de uma aventura e leva um farnel? Deixe tudo isso aí! Se tivermos fome procuraremos um duar (1), onde obteremos tâmaras, farinha, água e talvez também um pouco de tchekir.

- Tchekir? O que é isso?

- Cucas de gafanhoto moído.

- Safa!...

- É de excelente sabor. Quem come ostras, caracóis, ninho de pássaros, coxas de rã e leite azedo com queijo bichado deve considerar o gafanhoto um acepipe especial. Sabe quem se alimentou com mel e gafanhotos durante muito tempo?

- Creio que foi uma personagem bíblica.

- Isso mesmo, e um homem célebre por sua santidade. Conseguiu um enxergão?

- Consegui.

- Bem. Por quanto tempo alugou os camelos?

- Para todo o dia.

- Tratou com o dewedji ou um dos seus homens?

- Sem acompanhamento.

- Muito bem. Então teve de deixar uma caução? Assim poderemos sair mais tranqüilos. Vamos!

O alugador dos camelos morava na casa seguinte. Vi logo que não era árabe mas turco. No pátio, deparei com três camelos de aspecto deplorável.

- Aonde ficam as estrebarias? - perguntei-lhe.

- Ali! - respondeu ele, indicando um muro que dividia o pátio em duas

 

(1) Aldeia de tendas.

 

partes.

- Abre a porta!

- Para quê?

- Para eu ver se não tens outros animais.

- Tenho, sim.

- Mostra-mos.

Eu não lhe inspirava muita confiança, por isso, ele mesmo foi absir, deixando-me ver a outra repartição. Nessa, achavam-se deitados oito belos camelos. Aproximei-me e os examinei detidamente.

- Dewedji, quanto te pagou esse Hazretin (1) pelos três camelos que nos selaste?

- Cinco mahhuzechins (2).

- E por esse preço nos dás uns animais com as pernas e os pés feridos! Olha aqui: os beiços estão pendentes como a manga rasgada do teu casaco e nem mais cascos têm, ó dewedji! Fizeram uma longa viagem; estão tão magros, tão fracos que apenas suportam a sela. E que aparência orrível têm essas selas! Dize-me o que está caminhando aqui neste enxergão? Apressa-te e arranja-nos outros camelos e outros arreios!

Olhou-me entre desconfiado e encolerizado.

- Quem és tu para me dares ordens?

- Vês este bu-djuruldi do sultão? Queres que lhe conte que és um embusteiro e que esfolas os teus pobres animais? Depressa, sela aí três hedjin, o baio da direita e o cinzento do canto, senão travarás conhecimento com o meu chicote!

Um beduíno teria sacado da pistola ou da faca; o turco, porém, não se deu por achado.

Apressou-se a pôr em execução a minha ordem e, dentro em pouca, seus três melhores camelos com arreios novos e limpos estavam prontos para partir. Voltei-me para Halef.

- Agora mostra a esse sídi a maneira de montar.

Ele o fêz enquanto eu aproximei a montaria de Albani com as pernas dianteiras manietadas.

- Preste atenção! Quando o senhor puser o pé na sela o hedjin levantar-se-á sobre as patas dianteiras, atirando-o para trás. Em seguida levantará a parte traseira, o que o impelirá para a frente. É preciso contrabalançar estes dois solavancos com movimentos contrários.

- Bem. Vou experimentar.

Tomou das rédeas e montou. O animal levantou-se apesar de não se achar com os pés livres. O bom cantor tirolês não caiu logo, porque se agarrou com firmeza na sela; mas, quando o camelo se pôs de pé, enquanto ele permanecia com o corpo inclinado para a frente, foi projetado ao solo.

 

(1 Título honorífico.

(2 Um mahbuzechin vale cinco marcos.

 

- Potz tausend, a coisa não é assim tão fácil! - exclamou decepcionado, levantando-se e esfregando o ombro que machucara na queda. - Mas não desisto, não. Traga-me novamente o camelo!

- Rrrree!

A esse apelo o animal tornou a deitar-se. A segunda tentativa foi bem sucedida, ainda que o cavaleiro tenha ficado um tanto contundido. Eu quis dar uma nova lição ao proprietário dos animais.

- Dewedji, sabes andar num djemel?

- Sim, senhor.

- E governá-lo também?

- Também.

- Não, não sabes; senão terias trazido um metrek (1)

- Perdoe-me, senhor!

Fêz um sinal e trouxeram o bastãozinho. Era a minha vez de montar.

Bem outra figura fazíamos nós nesses camelos que o dewedji havia aprestado após a nossa reclamação. As selas eram muito bonitas e enfeitadas com borlas e bordados. As capas, de tão grandes, quase cobriam inteiramente os animais. Rumamos para a estrada.

- Para onde vamos? - perguntei eu a Albani.

- Deixo isso à sua vontade.

- Bem; então dirijamo-nos para Bab el Medina.

O meu novo conhecido, pela esquisitice do traje, atraía sobre si o olhar dos transeuntes. Por isso, segui pelas ruas transversais e, após alguns rodeios, chegamos à porta da cidade. A passo, atravessamos os acampamentos dos núbios e dos abexins, alcançando pouco depois o deserto que, sem a menor zona intermédia de vegetação, se estende diretamente até à região habitada do Hedjaz.

Até então Albani mal se pudera suster na sela. Ao chegar em terreno plano, porém, voluntariamente os camelos tornaram o seu trote característico e semelhante ao do urso. Mesmo que jamais tenham visto uma só gota d'água do mar os novatos que montam no “navio do deserto” experimentam as sensações de enjôo. Aos primeiros passos o meu amigo riu de si próprio. Não tinha a habilidade de atenuar os solavancos com movimentos apropriados do corpo. Era sacudido para um e outro lado, para diante e para trás; sua longa espingarda árabe atrapalhava-o visivelmente e o seu enorme alfange retinia no flanco do camelo. Apertou a arma entre as pernas, estalou com os dedos e cantou:

“Mei Sabel klippert, mei Sabei klappert

Mei Sabei macht mir halt Müh,

Und das Kamel wickel, das Kamel wackelt,

Das Kamel is ein fakrisch Vieh!” (2)

 

(1) Bastãozinho pequeno e curvo com o qual se guiam os camelos.

(2) A minha espada tilinta e me atrapalha. E o camelo sacode-me de um para o outro lado. Em verdade, o camelo é um animal desgraçado.

 

Então dei uma pequeno pancada no focinho do meu animal: este empinou e caiu para frente, levantando o pó do chão. Naturalmente os outros dois camelos o imitaram e se detiveram, o que veio agravar a crítica situação do cantor. Albani segurava o metrek na esquerda e a espingarda na direita, e, utilizando-se deles como

marombas, volteava os braços no ar para se equilibrar. Fazia uma triste figura.

- Suspenda a arma e agarre-se bem na sela! - gritei eu para ele.

- Se eu pudesse... ai.. .! se eu pudesse... oh, brrr, ah! se eu pudesse suspender a arma! O diabo é que eu não tenho... ai!... ai!... não tenho tempo para isso! Pegue aqui o bas... opa!... oh!... o bastãozinho! ...

- Já o vou auxiliar!

- Bem, mas o meu ca - ... ui!... ui!... - o meu camelo corre como posse... ui!... opa!... - como possesso.

- Detenha-o!

- Como?

- Puxe as rédeas e dê com os pés nos flancos do animal!

- Não consigo levantar os... ai!... os pés e... perdi... pára... oh, pára, pára... e perdi as rédeas!

- Então espere até que o animal se detenha.

- Falta-me... brrr... falta-me o ar!

- Então abra a boca; ar tem bastante!

Toquei para a frente e não ouvi mais as suas interjeições. Achava-se em boas mãos, pois Halef tinha-o seguro.

A poucos passos de distância, chegaríamos ao topo de uma pequena elevação do terreno cuja encosta seguíamos e, então, desdobrar-se-ia, diante de nós, a planície em toda a sua extensão. Albani parecia acomodar-se melhor na sela: não se queixava mais. Fizéramos duas milhas alemãs, mais ou menos, quando divisamos, à nossa frente, a figura de um cavaleiro isolado. Estava a uma meia milha de nós e parecia montar um excelente camelo, pois, a distância que nos separava desaparecia rapidamente e, dez minutos mais tarde, nos defrontávamos.

Pelo traje, denotava ser um abastado beduíno e o capuz cobria-lhe inteiramente o rosto. Seu camelo valia mais do que os nossos três juntos.

- Salam aleikum, a paz esteja contigo - disse ele, descobrindo a mão para saudar.

- Aleikum! - respondi. - Qual é o teu destino?

Sua voz era suave, quase feminina. A mão era morena mas pequena e delicada e, quando descobriu a cabeça, vi um rosto imberbe, no qual se destacavam dois olhos castanhos, grandes e vivos... era uma mulher e não um homem.

- Ando sem destino, - respondeu ela. - E tu para onde vais?

- Venho de Djidda para onde regressarei após o passeio.

Seu semblante carregou-se e seu olhar tornou-se desconfiado.

- Então, moras na cidade?

- Não, sou estrangeiro.

- És peregrino?

Que devia eu responder? Pretendia passar por maometano; mas, como a interrogação era direta, não queria responder com uma mentira.

- Não; não sou hadji.

- És estrangeiro e não tencionas ir a Meca? Então ou já estiveste na cidade santa ou és um infiel.

- Nunca estive em Meca, pois a minha crença não é a vossa.

- És judeu?

- Não, sou cristão.

- E os outros dois?

- Este aqui é cristão como eu e o outro é um moslem que quer ir a Meca,

Instantaneamente, iluminou-se-lhe o rosto e ela se voltou para Halef.

- Onde é a tua pátria, estrangeiro?

- No Oeste, em longínqua terra situada além do grande deserto.

- És casado?

Como eu, Halef admirou-se ao ouvir essa pergunta tão contrária à etiqueta do Oriente.

- Não, sou solteiro, - foi a resposta.

- És amigo ou servo desse efêndi?

- Sou seu servo e amigo.

Então ela tornou a dirigir-se para mim.

- Sídi, vem e segue-me.

- Para onde me queres conduzir?

- És um tagarela ou temes uma mulher?

- Nem uma coisa nem outra! Vamos!

A beduína deu de rédeas ao camelo e voltou, seguindo o rasto que as patas do animal haviam imprimido na areia, pouco antes. Pus-me a seu lado e os outros ficaram atrás.

- Então - gritei a Albani - não tinha razão de esperar uma aventura?

Albani meneou a cabeça com ar de dúvida.

A mulher não era muito jovem e os raios do sol do deserto, as fadigas e privações haviam tostado o seu rosto e o sulcado de rugas; mas, outrora, não devia ter sido feia. Que fazia ela sozinha no deserto? Por que tornara o caminho de Djidda e voltava agora conosco? Por que se alegrara ela ao saber que Halef ia para Meca e por que não nos dizia para onde nos levava?... Era para mim um enigma. Trazia uma espingarda e na cinta um iatagã; preso à sela via-se um dardo, objeto tão perigoso na mão de um árabe destro no seu manejo. Dava a impressão de uma amazona independente e destemida. A palavra amazona é bem empregada, pois, em muitas regiões do Oriente, encontram-se mulheres guerreiras em maior número do que no Ocidente, onde a mulher goza de maior autonomia.

- Que língua é essa? - perguntou ela, quando ouviu a resposta de Albani.

- Alemã.

- És nemtsche?

- Sou.

- Os nemtsche devem ser valentes.

- Por quê?

- O homem mais valente era o Sultão el Kebir e apesar disso os nemtsche-chimaler (1) e os nemtsche-memleketler (2) aliados aos moscovitas o venceram. Por que me olhas tão fixamente?

Ouvira falar com certeza de Napoleão e do resultado da guerra pela liberdade; possuía seguramente uma ascendência ilustre.

- Perdoa-me se meus olhos te ofenderam - respondi eu. - É difícil encontrar na tua terra uma mulher como tu.

- Uma mulher armada? Que não teme a luta? Que governa sua tribo? Nunca ouviste falar em Ghaliê?

- Ghaliê? - perguntei, procurando me lembrar; - não pertencia à tribo dos Begum?

- Vejo que a conheces.

Ela era xeque da sua tribo e derrotou, na batalha de Taraba, o exército de Mohamed Ali, comandado por Tunsun-Bei.

- É verdade. Bem vês que uma mulher pode proceder como um homem.

- O que diz a isso o Alcorão?

- O Alcorão? - perguntou ela com um gesto de desprezo. - O Alcorão é um livro; eis o meu iatagã, o meu tulfenk (3)eo meu djeríd (4). Em que é que tu crês? No livro ou nas armas?

- Nas armas. Vês, pois, que eu não sou djaur. Penso como tu.

- Também crês em tuas armas?

- Sim; mas muitíssimo mais no kitab-aziz (5) dos cristãos.

- Não o conheço, enquanto que vejo as tuas armas.

Era para mim um honroso cumprimento, pois o árabe julga o homem pelas armas que leva. Ela continuou:

- Quem matou mais inimigos, tu ou o teu amigo?

Se o critério de apreciação fosse mesmo as armas, Albani devia ser consideravelmente mais valente do que eu; estava, porém, convencido de que o bom triestino jamais utilizara o seu enorme alfange. Com uma evasiva, respondi:

- Nunca falei com ele sobre esse assunto.

- Quantas vezes tiveste um intikam (6)?

- Nunca. A nós, cristãos, é proibido matar quem quer que seja, mesmo aos inimigos cujos crimes são previstos e punidos pelas leis.

- Mas, se fosses atacado por Abu-Seif, por exemplo?

 

(1) Alemães do norte.

(2) Austríacos.

(3) Espingarda.

(4) Dardo.

(5) Livro santo.

(6) Vingança.

 

- Nesse caso, teria o direito da legítima defesa e, se viesse a matá-lo, não cometeria delito algum. Falas-me do “Pai do Sabre;” tu o conheces?

- Sim, e tu?

- Não só ouvi falar em Abu-Seif, como até o vi, com os meus próprios olhos.

Bruscamente voltou-se para mim.

- Viste-o? Quando?

- Não há muitas horas.

- E aonde?

- Em seu navio. Fui aprisionado por esse bandido e só ontem consegui escapar.

- Onde está o navio em que estiveste preso?

Apontei a direção em que a embarcação devia se achar.

- Lá está ele, oculto numa enseada.

- E Abu-Seif encontra-se a bordo?

- Não. Está em Meca, aonde foi levar um presente ao grão-xerife.

- O grão-xerife não está em Meca, mas em Taif. Agradeço-te a valiosa informação que me prestaste. Vem!

Apressou o seu djemel e, depois de algum tempo, quebrou para a direita onde se avistava no horizonte uma série de elevações do terreno. Quando nos aproximamos, observei que essas colinas eram formadas pelo belo granito cinzento que, mais tarde, encontrei em Meca.

Em uma depressão, viam-se algumas tendas. Mostrou-as com a mão, dizendo:

- Lá é que eles moram.

- Eles quem?

- Os Beni-Küfr da tribo dos Ateibeh.

- Creio que os Ateibeh habitam em El Zallaleh, Taleh e no uádi el Nobeiat.

- Estás bem informado; vem comigo. Já saberás de tudo!

Diante das tendas, descansavam cerca de trinta camelos junto de alguns cavalos e, ao nos aproximarmos, uma matilha de esquálidos e hirsutos cães do deserto pôs-se a ladrar furiosamente, chamando a atenção dos donos que saíram das tendas. Empunhavam as suas armas, apresentando um aspecto bélico.

- Espere aqui! - ordenou a senhora.

Mandou o seu camelo ajoelhar, apeou e aproximou-se dos homens. Minha conversação com ela não fora ouvida nem por Halef nem por Albani.

- Sídi, - perguntou Halef - a que tribo pertence esta gente?

- À dos Ateibeh.

- Já ouvi falar neles. Contam em seu meio os mais valentes homens que cruzam esse deserto e nenhuma caravana está a salvo de suas balas. São inimigos mortais dos Djeheine dos quais Abu-Seif é filho. O que quer de nós essa mulher?

- Ainda não sei.

- Então vamos sabê-lo. Mas conserva-te de prontidão para o que der e vier, sídi; não me inspiram confiança, pois foram expulsos e amaldiçoados.

- Como o sabes?

- Simplesmente, porque todos os bedawi (1) que habitam nas circunvizinhanças de Meca recolhem os pingos de cera, as cinzas das madeiras resinosas e o pó que se acha à soleira da porta da Caaba e ungem-se com a mistura obtida. Estes homens, porém, nada têm à cabeça; não podem ir a Meca nem visitar os lugares santos; estão amaldiçoados.

- Por que será que foram expulsos?

- Eles mesmos nos informarão.

Entrementes, a mulher dissera algumas palavras aos homens, e um deles se aproximou de nós.

Era um ancião de venerável figura.

- Alá abençoe vossa vinda! Apeai e entrai em nossa tenda. Sereis hóspedes dos Ateibeh.

Essas últimas palavras dissiparam os meus temores. Depois de um árabe pronunciar o vocábulo misafir (2), o interpelado pode conceder-lhe toda a sua confiança. Saltamos dos nossos animais e fomos introduzidos em uma das tendas, onde nos assentamos nos sesir (3), para tornar uma refeição frugal.

Enquanto comíamos, não foi proferida uma só palavra. A palestra iniciou-se quando fumávamos o fumo forte de tambaque, proveniente de Bagdad ou de Bássora e contido num bery.

A espécie de cachimbo que nos proporcionavam era uma indicação certa de que esta gente não possuía riquezas. Na região da cidade santa, usam-se três tipos de cachimbos. O primeiro e o mais rico é o khedra. Geralmente repousa num tripé, e é feito de prata finamente cinzelada, provido de um longo tubo denominado leich que é enfeitado com algumas pedras preciosas, segundo a abastança do proprietário. No kbedra só se fumam aromáticos tabacos de Xiraz. O segundo tipo é o schischeb. Assemelha-se ao khedra, do qual difere apenas no tamanho e no valor, que são menores. O terceiro e mais comum é o bery. Consiste em uma casca de coco ao qual se adapta um tubo mais fino.

Mais de vinte homens achavam-se na tenda. O velho que nos saudara tomou a palavra:

- Sou o xeque el Urdi e quero falar contigo, sídi. Os nossos costumes não permitem que se aborreçam os hóspedes com perguntas; contudo, tornarei a liberdade de dirigir-te algumas. Permites-me?

- Pois não!

- És nessarah?

- Sim, sou cristão.

- Que fazes aqui, na terra dos crentes?

- Quero conhecer essas regiões e seus habitantes.

 

(1) Beduínos.

(2) Hóspede.

(3) Cavalete de madeira, baixo, coberto por uma esteira.

 

Fez um gesto de dúvida.

- E depois que os conheceres, que farás?

- Regresso para a minha pátria.

- Allah akbar, Deus é grande e os pensamentos dos nessarah são imperscrutáveis. És meu hóspede e acredito no que estás dizendo. Este homem é teu servo?

Apontava para Halef.

- É meu servo e meu amigo.

- Meu nome é Malek. Aquela com quem falaste é Bin-Xeque-Malek (1); disse-me que o teu servo queria ir a Meca, para tornar-se hadji.

- Disse-te a verdade.

- Pretendes esperar que ele volte?

- Sim, pretendo.

- Onde?

- Ainda não sei.

- És estrangeiro, mas a língua dos crentes não te é desconhecida. Sabes o que é um delyl?

- Um delyl é um homem que tem por ofício mostrar aos peregrinos os lugares santos e as coisas dignas de reparo que se encontram em Meca.

- Vejo que o sabes. Mas um delyl ganha por outro lado. Em Meca, é proibida a entrada às moças solteiras. Quando uma donzela quer ir à cidade santa, casa-se com um delyl, segundo o rito usual. A esposada é levada a Meca, por seu momentâneo marido, onde cumpre o faradh e o wadjib (2); feito isto é repudiada, permanecendo virgem.

- Também sei isso.

A introdução do velho xeque despertou a minha curiosidade. Que intentos o moveriam a associar a peregrinação de Halef a Meca com o ofício de delyl? Soube-os logo em seguida, pois, sem mais preâmbulos, prossepniu:

- Permites que o teu servo Halef sirva de delyl, por algum tempo?

Espantei-me com a proposta.

- Por quê? - perguntei eu.

- Dir-te-ei, depois que me tiveres respondido.

- Não sei se o posso permitir. Os delyl são nomeados pelo governo.

- Quem poderá impedir que ele case com uma jovem e a repudie depois?

- É verdade. Quanto a mim concedo a permissão, se a julgas necessária, Halef é livre e senhor da sua vontade; pergunta a ele mesmo.

Era um prazer observar a fisionomia do meu bom Halef. Estava desconcertadíssimo.

- Aceitas a proposta? - perguntou-lhe o ancião.

- Posso ver a donzela, antes?

 

(1)Filha de Malek.

(2) Preceitos de rigor.

 

O xeque sorriu e respondeu:

- Para que queres vê-la? Não importa que seja velha ou moça, feia ou bonita, pois terás que te divorciar ao regressares do hadj.

- Serão as Benat el Arab (1) como as turcas, cujo rosto é vedado ver?

- As filhas dos árabes não precisam ocultar o semblante. Verás a donzela.

A um aceno seu, ergueu-se um dos presentes e deixou a tenda. Passados alguns instantes, voltou com uma moça cuja semelhança com a amazona denotava o parentesco entre ambas.

- Aí está ela; olha-a! - disse o xeque.

Halef fêz largo uso dessa permissão. A jovem que teria seus quinze anos, era bem feita de rosto e de corpo e pareceu agradá-lo, com os seus olhos escuros.

- Como te chamas? - perguntou.

- Hanna.

- Teus olhos brilham como nur el qamar (2), tuas faces são como zahari (3), teus lábios têm a côr da rommam (4) e tuas pestanas ensombram como as folhas do szemt (5). Meu nome é Halef Omar Ben Hadji Abul Abbas Ibn Hadji Dawud al Gossara, e farei o quanto estiver em mim para te agradar.

Os olhos do meu Halef brilhavam também, mas não como nur el qamar e sim como nur ech chems (6); seu discurso ornado com flores poéticas fazia-me supor que se encontrava à beira do mesmo abismo que tragara as esperanças que seu pai, Abul-Abbas, e seu avô, Dawud al Gossara, alimentavam de se tornarem hadjis, o abismo do amor e do matrimônio.

A jovem afastou-se e o xeque perguntou a Halef:

- Qual é a tua resolução?

- Pergunta ao meu senhor. Se ele permitir satisfarei o teu desejo.

- O teu amo já disse que concedia a permissão.

- Assim é! - corroborei eu. - Mas dize-nos ainda, por que essa jovem quer ir a Meca e porque não procura um delyl em Djidda?

- Conheces Ahmed-Izzet-Paxá?

- O governador de Meca?

- Sim, tu o deves conhecer, pois todos os estrangeiros que chegam a Djidda, vão rogar-lhe proteção.

- O paxá Ahmed mora em Djidda? Não estive em casa dele, não preciso da proteção de um turco.

- Apesar de cristão, és um homem de fibra. A proteção do paxá só se obtém com muito dinheiro. Sim, ele não mora em Meca, onde se exerce a sua jurisdição,

 

 (1) Filhos dos árabes.

(2) Luar.

(3) Flores.

(4) Romã.

(5) Acácia.

(6) Luz do sol.

 

mas em Djidda que é porto de mar. Seus vencimentos elevam-se a mais de um milhão de piastras, porém, na realidade, seu rendimento é o quíntuplo dessa soma. Recebe contribuições de todos, até dos contrabandistas e piratas e, por isso, acha-se domiciliado em Djidda, Disseram-me que havias visto a Abu-Seif?

- Eu o vi.

- Bem, este salteador é um velho amigo do paxá.

- Não é possível!

- Por que não? O que será mais lucrativo: mandar matar um ladrão ou deixá-lo viver para dele obter uma boa renda? Abu-Seif é Djeheine; eu sou Ateibeh. Essas duas tribos são inimigas mortais, todavia ele ousou penetrar no nosso duar e raptar-me a filha. Obrigou-a a esposá-lo; ela, porém, conseguiu fugir-lhe e trazer-me a sua filha. Já conheces a ambas, pois vieste com Bint-xeque-Malek (1), e já te apresentei Hanna a filha dessa. Desde então, procuro-o para ajustar contas com ele. Uma vez tive oportunidade de encontrar esse bandido no serai (2) do governador que lhe deu escapula, quando eu o esperava, na porta da rua. Mais tarde, o xeque da minha tribo mandou-me aqui, para oferecer uma oblação, na Caaba. Estávamos acampados não longe da porta er Ramah quando apareceu Abu-Seif com a sua gente; queria visitar o santuário. Possuído pela cólera, ataquei-o, não obstante ser proibido brigar perto da Caaba. Não pretendia matá-lo, mas queria obrigá-lo a me seguir e travar comigo combate singular, fora da cidade. Defendeu-se, ajudado pelos seus homens. Originou-se uma desordem que a vinda do eunucos pôs termo, sendo eu e os meus levados para a prisão, enquanto Abu-Seif e os seus asseclas eram postos em liberdade. Por castigo, foi-nos proibida a entrada nos lugares santos. Toda a nossa tribo foi amaldiçoada e teve de nos expulsar, para se ver livre da excomunhão. Agora, somos desprezados por todos. Mas havemos de nos vingar e abandonar essa região. Fôste prisioneiro de Abu-Seif?

- Fui.

- Conta-nos o que sucedeu.

Fiz-lhe uma pequena narração da minha aventura.

- Sabes o lugar certo em que está oculto o navio de Abu-Seif?

- Mesmo à noite saberia encontrá-lo.

- Queres conduzir-nos até lá?

- Pretendeis matar os Djeheine?

- Sim.

- Nesse caso a minha fé proibe-me que eu seja vosso guia.

- A vingança, então, não te é permitida?

- Não, pois a nossa religião manda-nos amar aos próprios inimigos. Só a autoridade competente tem o direito de castigar os culpados e vós não sois juizes.

- Tua religião é suave; nós, porém, não somos cristãos e castigaremos o inimigo que encontraria a proteção do juiz venal. Descreveste-me o lugar e, mesmo

 

(1) Filha de Malek.

(2) Palácio.

 

sem o teu auxílio, hei de descobri-lo. Apenas quero que me prometas que não avisarás aos Djeheine.

- Não os avisarei, pois não quero ser novamente aprisionado.

- Então, estamos de acordo. Quando é que Halef seguirá para Meca?

- Amanhã, se o permitires, sídi, - respondeu ele, por mim.

- Amanhã poderás partir.

- Deixa-o ficar conosco desde já, - rogou o xeque. - Acompanha-lo-emos até os limites que nos foram impostos, para reconduzi-lo a ti.

Sobreveio-me um pensamento que exprimi imediatamente.

- Posso ir convosco e esperá-lo em vosso acampamento?

Notei logo que esse desejo fora bem acolhido.

- Efêndi, vejo que não menosprezas os amaldiçoados, - respondeu o xeque. - Serás bem-vindo em nossas tendas! Já poderás ficar, para assistir ao ewlemma (1) que será celebrado essa tarde.

- É impossível. Primeiramente regressarei a Djidda, a fim de concluir os meus negócios. Tenho de informar o meu hospedeiro sobre o lugar onde me encontro.

- Acompanhar-te-ei às portas da cidade. Não posso transpô-las, por ser Djidda uma cidade santa. Quando partirás?

- Logo que te aprouver. Não te farei esperar muito, para regressarmos juntos. Queres que trate com um cádi ou um mullah para celebrar o casamento?

- Não precisamos nem de um nem de outro. Sou o xeque do meu acampamento e a minha presença basta para tornar público e válido qualquer ato. Desejo apenas que me tragas um pergaminho ou um papel, a fim de nele escrevermos o contrato. Possuo o mohüer e o gemedsche (2).

Ao cabo de pouco tempo, os camelos estavam aparelhados e nós montamos. A pequena comitiva compunha-se de dez pessoas, nós três, o xeque, a filha e cinco Ateibeh. Segui o ancião, sem dizer palavra, apesar de observar que não havia tomado o caminho direto, mas seguia mais para a direita, do lado do mar. Albani portava-se melhor na sela e as longas pernas dos animais devoravam literalmente as distâncias.

De súbito o xeque deteve-se, apontando para o lado.

- Sabes o que é aquilo lá, efêndi?

- O que é?

- A enseada na qual se acha ancorado o navio de Abu-Seíf. Adivinhei?

- Não to posso dizer.

Ele adivinhara e calou-se. Fomos adiante. Após algum tempo, avistamos dois pequenos pontos no horizonte, justamente na direção de Djidda. Pareciam não vir ao nosso encontro mas seguir a direção que conduzia ao ancoradouro. Com o óculo de alcance vi que estavam a pé. Era de admirar que pedestres andassem pelo deserto e

 

(1) Casamento.

(2) Sinète e a cera.

 

podia-se presumir que pertenciam à gente de Abu-Seíf. Provavelmente o meu guarda havia denunciado ao capitão a minha fuga e, se assim fosse, esses dois homens poderiam ser os mensageiros que vinham de regresso.

Maleíc também os reconhecera e observava-os atentamente. Em seguida, voltou-se para os seus e segredou-lhes uma advertência. Incontinenti, três deles voltaram pelo caminho que seguíramos. Compreendi o motivo. Malek conjeturava o mesmo que eu e queria apoderar-se daqueles homens. Para o conseguir, tinha de cortar-lhes a retirada. Por isso, os homens destacados não seguiram oblíquamente mas simularam voltar pelo mesmo caminho a fim de atalhar, quando desaparecessem das vistas dos dois. Enquanto nós continuávamos o nosso caminho, perguntou:

- Efêndi, queres esperar um pouco por nós ou segues diretamente para casa? Na volta, encontrar-nos-ás às portas da cidade.

- Tencionas interpelar esses homens e eu ficarei contigo até que lhes fales.

- Talvez sejam Djebeine!

- Sou da mesma opinião. Três dos teus homens vão atalhar-lhes o caminho do navio; segue oblíquamente enquanto eu e Halef prosseguiremos na primeira direção a fim de que não possam fugir para Djidda.

- Teu conselho é bom; segui-lo-ei.

O xeque desviou e eu fiz um sinal a Albani para que o acompanhasse. Assim eu e Halef poderíamos galopar a toda a brida, sem sermos retardados pelo bom do triestino. Com a velocidade máxima que podíamos conseguir dos nossos animais, galopamos, volvendo logo que nos achamos na retaguarda dos perseguidos. Finalmente, compreenderam eles a nossa intenção e hesitaram. Eu e Halef achavamo-nos às costas deles, e de um lado vinha Malek, o que, aparentemente, só lhes deixara livre a estrada que tinham pela frente. Com redobrada pressa, prosseguiram caminho, mas não tinham andado muito, quando avistaram os três Ateibeh. Apesar da distância não lhes permitir que nos reconhecessem, pressentiam que éramos inimigos e procuravam fugir-nos. Havia uma única possibilidade de vitória para eles. Estavam armados. Caso se separassem, tínhamos de seguir-lhes o exemplo e não seria difícil para um pedestre, bom atirador e dotado de sangue frio, enfrentar dois eu mesmo três homens montados. Não lhes ocorreu esse pensamento ou lhes faltou ânimo para executá-lo. Permaneceram juntos e foram logo cercados. No mesmo instante, identifiquei-os: eram realmente dois dos tripulantes do navio.

- Donde vindes? - perguntou-lhes o xeque.

- De Djidda, - respondeu um.

- Para onde ides?

- Para o deserto procurar trufas.

- Procurar trufas? Mas não vejo nem animais de carga nem cestos!

- Queríamos ver primeiro se os fungos estão suficientemente crescidos; depois é que traríamos as cestas.

- A que tribo pertenceis?

- Moramos na cidade.

 

Mentiam descaradamente, pois sabiam muito bem que eu os tinha reconhecido. Halef também se irritou com o atrevimento do Djeheine. Tirou o chicote da cinta e disse:

- Pensam, talvez, que esse efêndi e eu somos cegos? São ambos uns canalhas, uns mentirosos, pois fazem parte da tripulação do navio de Abu-Seif. Se não confessam logo, acabarão tratando relações com o meu chicote!

- Que lhes importa quem somos?

Saltei do camelo sem deixá-lo ajoelhar e tomei o rêlho da mão de Halef.

- Oh homens, sede razoáveis! Ouvi o que vos digo! Não me importa o que esses guerreiros da tribo dos Ateibeh têm e querem convosco; todavia, exijo uma resposta às minhas perguntas. Se o fizerdes nada tereis que temer; se vos recusardes, marcar-vos-ei com esse chicote de modo que jamais possais chegar perto de um valente e livre Ibn-Arab!

A maior ofensa, para um beduíno é ameaçá-lo com a chibata. Ambos empunharam logo as suas facas.

- Matar-te-íamos antes que nos batesses - vociferou um deles.

- Nunca experimentastes a força de um golpe dado por um franke (1) com um chicote de couro de hipopótamo. Corta como um iatagã; é pesado como uma clava e mais rápido do que uma bala da vossa tabandjab (2). Não vedes que as armas de todos esses homens estão apontadas para vós? Deixai as facas na cinta e respondei! Sois ou não enviados de Abu-Seif?

- Somos - disseram ainda hesitantes, por verem que não havia evasiva possível.

- Para denunciar-lhe minha fuga.

- É.

- Onde o encontrastes?

- Em Meca.

- Como é que tão ligeiro fostes a Meca e já estais de volta?

- Alugamos uns camelos em Djidda.

- Por quanto tempo Abu-Seif demorar-se-á na cidade santa?

- Pouco tempo. Tenciona ir a Taif onde se encontra o xerife-emir.

- Pela minha parte, declaro-me satisfeito.

- Sídi, queres deixar escapar esses salteadores? - exclamou Halef. - Atirarei neles para que não possam prejudicar mais ninguém.

- Dei-lhes a minha palavra de que não seriam molestados: não serás tu quem a quebrará. Segue-me!

Tornei a montar e pus-me a caminho. Halef seguiu-me; Albani, porém, ficou para trás. Desembainhara o seu longo alfange; mas eu estava convencido de que esse enérgico gesto não teria nenhuma conseqüência. E, de fato, deixou-se ficar muito descansado no seu camelo, quando os Ateibeh apearam para subjugar os Djeheine. Conseguiram-no, após algumas facadas infrutíferas. Os prisioneiros foram atados em camelos. Dois Ateibeh voltaram ao acampamento para conduzi-los. Os outros nos acompanharam.

- Tu os indultaste, sídi; todavia não escaparão à morte - obtemperou Halef.

- Nada temos que ver com a sua sorte! Lembra-te que hoje contrairás matrimônio e um noivo deve ser clemente!

- Sídi, servirias tu de delyl para essa Hanna?

- Se eu fosse moslem, não me oporia.

- És um cristão, um franke com quem se pode falar dessas coisas. Sabes o que é o amor?

- Sei, o amor é como a colocíntida. Quem come dessa erva fica com cólicas.

- Oh sídi, quem havia de comparar o amor com colocíntida! Alá te ilumine a inteligência e te aqueça o coração! Uma boa mulher é como um cachimbo de jasmim e como uma bolsa na qual nunca falta fumo. E o amor de uma donzela é... é... como... o turbante que protege a calva de um homem que viaja sob o sol do deserto.

- É isso mesmo e quem é atingido pelos seus raios fica com insolação. Acho

 

(1) Estrangeiro, europeu.

(2) Pistola.

 

que já estás acometido por essa doença. Alá te ajude.

- Sídi, sei que tens horror ao casamento; eu, porém, sou noivo e o meu coração está aberto como as narinas que aspiram o aroma das flores.

A nossa curta palestra foi interrompida pela chegada dos outros. Nem uma só palavra foi dita acerca do sucedido e, quando avistamos a cidade, o xeque mandou parar os seus animais. Trouxera consigo dois camelos para a nossa volta.

- Aqui te aguardarei, sídi - disse ele. - Quanto tempo decorrerá até que torne a ver-te?

- Regressarei antes que o sol percorra uma distância igual ao comprimento da tua lança.

- E não esquecerás o tirscheh ou kiahat (1)?

- Não. Trarei também muerek e qalem (2).

- Desde já te agradeço. Alá te proteja!

Os Ateibeh acocoraram-se junto de seus camelos e nós três partimos em direção à cidade.

- Então, não saboreamos as delícias de uma aventura? - perguntei a Albani.

- E que aventura! Até houve mortos e feridos. Cheguei a preparar-me para a luta.

- Realmente, a sua aparência era a de um Orlando furioso com o qual não se brinca. Como se foi?

- Hum! A princípio fomos a trote; depois piorou a minha situação. Ah! como desejei um bom canapé alemão!... Pretende acompanhar esses árabes?... Então, não nos tornaremos a ver tão cedo.

- Talvez não, pois quero aproveitar a primeira oportunidade para partir. Todavia, conheço tantos exemplos de encontros inesperados que admito a possibilidade de nos tornarmos a ver.

Mais tarde, essas palavras deviam ser confirmadas pelos acontecimentos. Após ter devolvido os camelos a seu dono, despedimo-nos com a viva cordialidade de dois patrícios que se encontram em terras longínquas. Depois rumei com Halef para o meu domicílio a fim de apanhar meus haveres e despedir-me de Tamaru, o hoteleiro. Não pensara em deixá-lo tão depressa. Saímos da cidade montados em dois burros alugados. Chegados fora dos muros montamos os camelos que nos esperavam e seguimos com os Ateibeh para o seu acampamento.

 

(1) Pergaminho ou papel.

(2) Tinta e pena.

 

 Em Meca

Durante o trajeto, trocamos apenas alguns monossílabos. A mais silenciosa era a filha do xeque. Não proferiu uma só palavra, mas em seus olhos reluzía um brilho singular de perversidade e, sempre que voltava a cabeça para a esquerda, onde supunha estar o navio de Abu-self, sua mão apertava o cabo do handschar ou a coronha da longa espingarda que trazia atravessada na sela.

Ao nos aproximarmos do acampamento Halef chegou-se para junto de mim.

- Sídi - perguntou - como são os usos da tua terra? Quem casa, lá, costuma presentear a noiva?

- É um costume universal posto em prática por ocidentais e orientais,

- Realmente, isso se faz na Djezirat el Arab e em todo o Xarq (1). Mas, como Hanna só aparentemente, e por alguns dias, será minha esposa, não sei bem se é necessário presenteá-la.

- Um presente é uma delicadeza que desperta sempre doces sentimentos. Eu, em teu lugar, trataria de ser o mais amável possível.

- Mas o que é que eu lhe darei? Sou pobre e não economizei para casar-me. Pensas, talvez, que lhe deva oferecer o meu adechlick (2)?

Adquisira algumas folhas de papier-maché e guardara os fósforos. O objeto era para ele de grande estimação, pois pagara vinte vezes o seu valor real. O amor levara-o à heróica resolução de desfazer-se da sua preciosa aquisição.

- Dá-lhe isso mesmo, - respondi, com seriedade.

- Bem, seguirei teu conselho! Mas devolver-me-á ela o adechlick quando deixar de ser minha esposa?

- Não, conserva-lo-á consigo.

- Allah kerim, Deus é misericordioso e não há de querer que eu renuncie ao que me pertence. Que devo fazer, sídi?

- Poderás dar outra coisa qualquer!

- O quê, então? Não tenho mais nada. Não posso dispensar nem o meu turbante, nem a minha espingarda, nem o meu rêlho.

- Então, não lhe dá nada.

Com um ar apreensivo meneou a cabeça.

- Também essa solução não me agrada, sídi. Afinal é minha noiva e merece um presente. Que pensarão de ti os Ateibeh, quando souberem que o teu servo não dá nada à esposa?

Ah! O ladino queria fesir o meu amor próprio, a fim de, mais à vontade, apelar para a minha bolsa.

 

(1) Leste.

(2) Isqueiro.

 

- Louvado seja Alá que iluminou a tua inteligência, Halef. A mim sucede exatamente o mesmo. Não posso dar à tua noiva nem o meu haik, nem o meu casaco, nem a minha carabina!

- Alá é justo e misericordioso, efêndi; Ele paga mil por um. O teu camelo não carrega um saquinho de couro que contém coisas capazes de encantar uma moça?

- E se te desse algo, recebê-lo-ia novamente, quando repudiasses Hanna?

- Então tu mesmo lhe pedirás!

- Isso não é uso entre os frankes. Mas como me apresentas a perspetiva de receber mil por um, hei de absir depois o saquinho para ver se acho alguma coisa.

Não se podendo conter de alegria, Halef ergueu-se na sela.

- Sídi, tu és o mais sábio e o melhor efêndi que Deus pôs no mundo. Tua bondade é mais larga do que o Saara e tua magnanimidade mais comprida do que o Nilo. Teu pai foi o mais famoso e o pai do teu pai o mais eminente homem que habitou o reino de Nemsistan. Tua mãe foi a mais bela das rosas e a mãe da tua mãe a mais perfumada flor do ocidente. Possam ser os teus filhos mais numerosos do que as estrelas do céu e tuas filhas como a areia do deserto e os filhos dos teus filhos como as gotas do mar!

Era uma sorte que já nos achássemos no acampamento, senão sua gratidão me teria esposado com todas as filhas dos samoiedos, tungusas, esquimós e papuas. O saquinho de couro a que ele aludira continha vários objetos próprios para presentes a moças árabes. O filho do negociante Isla Ben Maflei, quando nos despedimos, no Cairo, termo da nossa viagem pelo Nilo, obrigou-me a aceitar uma porção de pequenos objetos sem grande valor intrínseco, mas muito apreciados pelos habitantes do deserto.

Durante a nossa ausência, uma das tendas havia sido desocupada e arranjada para mim. Logo que me instalei nela, abri o saco de couro e tirei um medalhão no qual se via, através do vidro, um artístico e minúsculo demônio movediço. Era trabalhado como as abotoaduras de punho, com lâminas de tartaruga, e estava preso a um colar de vidro facetado que, à luz, brilhava em todas as cores do arco-íris. Em Paris, teria custado menos de dois francos. Mostrei-o a Halef.

Lançou um olhar sobre o adorno e recuou assustado.

- Maxa Allah, ó milagre! O excomungado cheitan! Sídi, como é que te apoderaste do diabo? La ilah illa Allab, we Muhammed resul Allah! Guarda-nos, ó Senhor Todo Poderoso, do demônio três vezes maldito; pois, só a Ti e não a ele devemos servir!

- Não te fará mal nenhum, pois está encerrado aqui dentro.

- E não poderá fugir daí?

- Claro que não!

- Garantes-me, pela tua barba?

- Pela minha barba!

- Então dá-mo cá para ver, sídi! Mas, se ele conseguir escapar estou perdido; caia, então, a minha desgraça sobre ti e os teus antepassados!

Com as extremidades dos dedos e muito cautelosamente pegou no medalhão, pô-lo no chão e ajoelhou-se para o ver melhor.

- Wallahi - billahi - tallahi - por Alá, é o cheitan mesmo! Vês como tem a boca escancarada e a língua pendente? Esbugalha os olhos e mexe com os cornos; agita a cauda, ameaça com as garras e bate com os pés! O' jazik - ai de mim se ele quebra esta caixinha!

- Descansa que tal não fará. É uma simples representação artística!

- Uma figura feita pela mão do homem? Efêndi, estás me enganando para me dar coragem. Quem poderá pintar o demônio? Ninguém, seja ele moslem, cristão ou judeu! És o maior taleb, o mais valente herói que existe na terra, pois venceste o cheitan e o encerraste nessa estreita zindan (1). Hamdulillah, agora a terra está livre dele e dos seus espíritos e todos os descendentes do Profeta podem exultar e alegrar-se com os tormentos que ele aqui tem de suportar. Para que me mostraste esse colar, sídi?

- Para que o dês de presente à tua noiva.

- Eu... ?! Esse colar cujo valor é maior do que todos os diamantes que se acham no trono do Grão-Mogul? Quem possui tal jóia tornar-se-á célebre entre todos os filhos dos crentes. Queres realmente ceder-ma?

- Quero.

- Então, sê bondoso, sídi, e permite que eu o conserve! Prefiro dar-lhe o meu adechlick.

- Não, dar-lhe-ás o colar. Eu to ordeno!

- Obedecerei. Mas onde estavam todas essas coisas antes que as pusesses no saquinho?

- A região situada entre o Cairo e Djidda é muito perigosa e, por isso, trouxe as minhas preciosidades ocultas no meu schalwars (2).

- Sídi, tua prudência é ainda superior à astúcia do demônio a quem conservaste no teu schalwars. Quando darei a Hanna o colar?

- Logo depois do casamento.

- Tornar-se-á a mais famosa entre todas as Benat el Arab, pois correrá de tribo em tribo que ela possui preso o cheitan. Posso ver também as outras jóias?

Não tive tempo de satisfazê-lo, porque o xeque mandou-nos chamar. Encontramos reunidos em sua tenda todos os Ateibeh.

- Sídi, trouxeste um pergaminho? - perguntou Malek.

- Tenho um papel que é tão bom como pergaminho.

- Queres te encarregar da escritura ao contrato?

- Estou ao teu dispor.

- Podemos começar?

Halef, a quem era dirigida a pergunta, fez um sinal afirmativo, erguendo-se logo um dos presentes, para interrogá-lo:

 

(1) Prisão.

(2) Calças turcas, bem largas.

 

- Como é o teu nome todo inteiro?

- Chamo-me Halef Omar Ben Hadji Ábul Abbas Ibn Hadji Dawud al Gossara.

- De que terra vens?

- Venho do Garbi (1), onde o sol se oculta atrás dos grandes desertos.

- A que tribo pertences?

- O pai do meu pai - que Alá abençoe a ambos - habitava o grande Djebel Xurxum junto com a famosa tribo dos Uelad Selim e Uelad Bu Seba.

O parente da noiva que interpelara Halef voltou-se para o xeque.

- Nós todos te conhecemos, ó valoroso, ó destemido, ó sábio, ó justo. Tu és Hadji Malek Iffandi Ibn Akhmed Khadid el Eini Ben Abul Ali el Besami Abu Chehab Abdolatif el Hanifi, xeque da valente tribo dos Beni Ateibeh. Este homem que aqui está diante de nós é um herói da tribo Uelad Selim e Uelad Bu Seba, que habita nas montanhas alterosas denominadas Djebel Xurxum. Tem por nome Halef Omar Ben Hadji Abul Abbas Ibn Hadji Dawud al Gossara e é amigo de um grande efêndi de Frankistan o qual foi recebido em nosso duar. Possuis uma filha. Seu nome é Hanna; seu cabelo é como seda, sua pele como o óleo e excelsas são suas virtudes. Halef Omar deseja-a para esposa. Dize, ó xeque, o que pensas dessa solicitação.

O interpelado simulou uma grave e profunda meditação e respondeu, depois:

- Falaste, meu filho. Agora, senta-te e ouve-me. Halef Omar Ben Hadji Abul Abbas Ibn Hadji Dawud al Gossara é um herói cuja fama, de há muito, chegou até nós. Seu braço é invencível; seus olhos têm a agudeza dos da águia; sua carreira assemelha-se à da gazela; arremessa o djerid a várias centenas de passos; sua bala nunca erra o alvo e o seu khandjar já viu correr o sangue de não poucos inimigos. Demais, não descurou as letras e conhece o Alcorão, sendo o mais prudente e o mais experimentado dos seus irmãos. Além disso, esse poderoso bei dos francos julgou valiosa a sua amizade... por que lhe recusaria eu a minha filha, se ele está disposto a cumpsir as condições por mim impostas?

- Quais são as condições de que falas?

- A jovem é filha de um poderoso xeque e não a poderás obter por um preço qualquer. Exijo uma égua, cinco camelos de montaria, dez cargueiros e cinqüenta ovelhas.

Ao ouvir essas palavras, Halef fêz uma cara engraçadíssima, como se tivesse acabado de tragar, com couro e tudo, os animais que Malek enumerara. Onde os iria buscar?

Felizmente o xeque prosseguiu:

- Em compensação dou-lhe o dote de uma égua, cinco camelos, dez cargueiros e cinqüenta ovelhas. Vossa sabedoria verá facilmente que, sendo iguais o preço e o dote, é de todo inútil a troca. Desejo, porém, que amanhã de manhã, à hora do Fagr (2), ele inicie a peregrinação a Meca, acompanhado de sua esposa. Lá

 

(1) Oeste.  

 (2) Oração que os muçulmanos rezam ao lomper da aurora.

 

chegados, observarão o santo cerimonial prescrito, para voltar em seguida. O esposo não poderá tocar na esposa e deixa-la-á, quando regressarem. Em recompensa, receberá um camelo e um saco cheio de tâmaras. Se, porém, não tratar minha neta como pessoa estranha, nada ganhará e será morto por nós. Sois testemunhas das minhas condições.

O árabe que iniciara o interrogatório voltou-se para Halef:

- Ouviste as exigências do poderoso xeque Malek. Qual é a tua resposta?

Um certo ponto parecia não agradar ao interpelado. Não podia se resignar a abandonar a esposa. Todavia teve a prudência de acomodar-se às circunstâncias presentes e retorquiu:

- Aceito as condições propostas.

- Então lavra a escritura - rogou-me o xeque. - Escreve-a duas vezes, uma para mim e a outra para Halef!

Satisfiz-lhe a vontade e, em seguida, li em voz alta o contrato que obteve a aprovação do xeque. Ele e Halef assinaram, após o que fêz pingar cera sobre cada uma das cópias, usando então o castão do seu punhal como sinete.

Com isso, estavam terminadas as formalidades e podiam começar os indispensáveis festejos. Foram muito modestos, por se tratar de um matrimônio aparente. Abateram e assaram um carneiro. Enquanto tostava no espeto, ao fogo, houve combate simulado, não sendo dado nem um tiro; a razão é fácil de adivinhar.

A refeição foi servida, ao cair da noite. Só os homens se assentaram a comer e quando todos se achavam satisfeitos é que deram os restos às mulheres. Foi então que Hanna apareceu. Halef aproveitou a oportunidade, para oferecer o presente à noiva. A cena que se seguiu não pode ser descrita. O diabo encerrado no medalhão era, para eles, uma maravilha inconcebível. Baldados foram os meus esforços, para lhes explicar o mecanismo. Não me acreditaram, principalmente pelo fato de ser móvel a figurinha. Fui exaltado como o maior dos heróis e dos mágicos; e, no fim de contas, Hanna não recebeu o regalo que lhe destinara. Só o xeque foi considerado digno de guardar a incomparável preciosidade; e isso depois que lhe assegurei com toda a solenidade que jamais o demônio conseguiria escapar e ocasionar alguma desgraça.

Era quase meia-noite quando voltei à tenda para dormir, Halef me fêz companhia.

- Sídi, terei de cumpsir tudo o que hoje escreveste?

- Claro, promessa é promessa.

Ao cabo de algum tempo, disse baixinho:

- Eras capaz de abandonar tua mulher?

- Nunca.

- E contudo dizes-me que tenho de cumpsir a minha palavra.

- Mas, se eu me casasse, não prometeria entregar novamente a minha esposa a seus pais.

- O', sídi, por que é que não me disseste isto antes!

- És acaso um menino que necessite um tutor? E como pode um cristão instruir um moslem sobre o matrimônio? Parece-me que desejarias ligar-te definitivamente com Hanna!

- Adivinhaste!

- Então queres me abandonar?

- A ti, sídi...? Oh...!

O bom servo, nessa entaladela pigarreou, desconcertado, mas não achou o que responder.

Um murmúrio incompreensível e depois, alguns suspiros, foi tudo quanto ouvi. Virava-se de um lado para outro; era visível que se achavam em conflito o amor que tinha à jovem e a estima que me dedicara. Deixei-o entregue aos seus pensamentos e adormeci.

Meu sono foi tão profundo que só despertei com um tropel de camelos. Ergui-me e saí da tenda. No oriente, já apareciam os primeiros clarões da madrugada e para o lado da enseada o céu estava tinto de vermelho claro. Seguramente havia um incêndio por aquelas bandas. A suposição que me ocorreu foi confirmada pelo movimento que presenciei no acampamento. Os homens haviam saído e regressavam agora, com os camelos carregados. Também a filha do xeque se incorporara ao bando e, quando apeou, notei que suas vestes estavam manchadas de sangue. Malek saudou-me e disse, apontando para as labaredas:

- Viste como achamos o navio? Dormiam, quando nós chegamos e, agora, estão reunidos aos cães dos seus pais.

- Mataste-os e saqueaste o navio, não?

- Saquear? O que queres dizer com esta palavra? A propriedade do vencido não passa, de direito, ao vencedor? Quem nos contestará a posse do que conquistamos?

- A zehka que Abu-Seif roubou pertence ao xerife-emir.

- Ao xerife-emir que nos expulsou? Mesmo que o dinheiro lhe pertencesse, não o receberia. Acreditas realmente que aquele dinheiro era a zehka? Fôste enganado. Só o xerife tem o direito de arrecadar os impostos e jamais consentiria que um turco o substituísse. O turco que tomasce por um arrecadador era um contrabandista ou um alfandegueiro do paxá do Egito, que Alá fulmine!

- Tu o odeias?

- Como todo o árabe livre. Não ouviste falar nas atrocidades que foram cometidas no tempo dos macabeus? Pertença o dinheiro a quem pertencer, agora é meu. Mas aproxima-se a hora do Fagr. Apresta-te para nos seguir. Não podemos ficar mais tempo aqui.

- Onde farás o teu acampamento?

- Em um lugar onde possa observar o caminho que medeia entre Meca e Djidda. Abu-Seif não me escapará.

- Já pensaste nos perigos que te ameaçam?

- Julgas que um Ateibeh se atemoriza diante do perigo?

- Não, mas mesmo o homem mais destemido tem o dever de se acautelar. Se Abu-Seif cair em teu poder e o matares, terás que abandonar imediatamente a região. Perderás, talvez, a filha de tua filha que achar-se-á, então, em Meca, com Halef.

- Se tal coisa suceder, direi a Halef o lugar onde nos encontrará. Hanna parte para Meca, antes que sigamos adiante. Ela é a única de nós que nunca esteve lá, e, mais tarde, talvez não lhe seja possível visitar a cidade santa. Por isso, já há muito que procuro um delyl que a leve a ver a Caaba.

- Atravessaremos o deserto Er Nahman para ir a Mascate de onde mandaremos um mensageiro ao El Frat (1), para rogar aos Beni Chammar ou aos Beni Obeide que nos recebam em sua tribo.

O dia sobreveio ao breve crepúsculo. O sol tocava o horizonte e os árabes que cheiravam ainda a sangue, ajoelharam-se para a oração. Pouco depois, as tendas foram desarmadas e a caravana pôs-se em movimento. Só agora, que a claridade de todo se fizera, podia ver os objetos que os Ateibeh haviam tirado do navio. O assalto tornara-os ricos. Por esse motivo, reinava uma insólita alegria no acampamento. Conservei-me um pouco afastado. Estava de mau humor porque, afinal de contas, eu era a causa do perecimento dos Djeheine. Remorsos propriamente não podia ter, contudo, a minha consciência me dizia que eu poderia ter agido de outro modo. Demais, a aproximação de Meca dava-me muito que pensar. Lá estava “a Santa”, a proibida! Devia evitá-la ou correria os riscos de uma visita? Ardentemente desejava penetrar em suas portas; não obstante sopesava as sérias dificuldades que teria de enfrentar. E ainda que fosse bem sucedido, o que lucraria com isso? Poderia dizer que estivera em Meca... nada mais. Mas, se fosse descoberto, minha morte seria inevitável. E que morte! Tais reflexões, porem, eram inúteis por infundadas. O melhor era esperar pelos acontecimentos. Sempre procedera desse modo e jamais tivera que me arrepender.

Para passar despercebido, o xeque fêz um desvio. Não permitiu nenhuma parada, até o cair da noite. Achavamo-nos em um apertado desfiladeiro, cercado de paredes graníticas a prumo, entre as quais percorremos um longo trecho, até alcançar o vale que, aparentemente, não tinha outra saída. Aí apeamos. Foram armadas as tendas e as mulheres fizeram fogo. Serviram uma rica e variada refeição, para a qual utilizaram provavelmente os mantimentos pilhados a bordo do navio de Abu-Seif. Chegou, afinal, o tão desejado momento da partilha da presa.

Como nada tivesse a ver com isso, retirei-me e percorri o vale cercado de rochas. Num certo ponto, pareceu-me possível a ascensão. As estrelas brilhavam, claras, no firmamento. Depois de alguns esforços, consegui subir. Ao cabo de um quarto de hora, cheguei ao cimo do monte, de onde descortinei um vasto panorama. Ao sul, aparecia uma cadeia de montes escalvados, nimbados por aquela luminosidade que as grandes cidades, à noite, costumam irradiar. Lá estava Meca!

Do vale, chegavam-me aos ouvidos as altercações dos Ateibeh que defendiam

 

(1) Euf rates.

 

os seus interesses. Só depois de muito tempo é que voltei sobre os meus passos. O xeque recebeu-me com as palavras:

- Efêndi, por que não ficaste junto de nós? De tudo quanto achamos no navio tens que receber a tua parte!

- Eu? Enganas-te. Não participei do assalto e nada tenho a receber.

- Teríamos achado os Djeheine se não te encontrássemos? Mesmo sem o querer, fôste o nosso guia e, por isso, receberás o que te pertence.

- Não aceito.

- Sídi, conheço muito pouco as tuas crenças e não as quero ofender, por seres meu hóspede; mas são falsas se te proíbem apossar-te dos despojos dos inimigos. Os Djeheine morreram e a sua embarcação foi destruída. Queres que queimemos ou lancemos fora esses objetos que nos são tão úteis?

- Não briguemos por causa disto; conservai o que tendes.

- Não aceito a solução. Permite que demos a Halef, teu companheiro, a parte que te couber, não obstante ele já haver recebido a sua?

- Dá-lha.

O pequeno Halef Omar não coube em si de gratidão. Ganhara algumas armas, peças de roupa e, além disso, um saco com moedas de prata. Aceitou tudo e me encarregou de contar o dinheiro, para testemunhar do golpe de sorte que o tornara um homem rico. Eram, mais ou menos, oitocentas piastras, soma que dá para fazer feliz um árabe pobre.

- Com esse dinheiro podes custear mais do que cinco vezes a despesa que terás em Meca, - obtemperou o xeque.

- Quando devo partir para a cidade santa? - perguntou-lhe Halef.

- Amanhã, antes do meio-dia.

- Nunca estive lá. Quais são as cerimônias prescritas?

- Já to direi. Logo de chegada, todo peregrino deve ir a El Hamram (1). Diriges-te para a Beit-Allah (2) onde entrarás, deixando os camelos à porta. Provavelmente encontrarás sem dificuldade um metowef (3) que te guiará e te informará sobre tudo; não te esqueças, porém, de tratar previamente o preço com ele, a fim de não seres enganado. Assim que avistares a Caaba, faz dois rikat (4), recitando as orações prescritas, em reconhecimento da graça que obtiveste chegando à cidade santa. Depois vai ao mambar (5) e descalça-te. Na Beit-Allah, não é permitido ficar corn os sapatos na mão e, por isso, eles são aí guardados. Em seguida inicia-se o towaf, o percurso em torno da Caaba que deve ser repetido sete vezes.

- Em que direção?

- Para a direita, de modo que a Caaba permaneça sempre à tua esquerda. As três primeiras voltas são executadas com passos rápidos.

 

(1) A grande mesquita.

(2) Casa de Deus; outra denominação da grande mesquita.

(3) Cicerone.

(4) Prosternações.

(5) Púlpito; em turco: númbar.

 

- Por quê?

- Em memória do Profeta. Divulgara-se o boato que ele se achava gravemente enfermo e, para o dissipar, por três vezes correu em torno da Caaba. As voltas seguintes são feitas vagarosamente. Já conheces as orações de rigor. Depois de cada giro, beija-se a santa pedra. Por último, terminado o towaf, comprime o peito de encontro à porta da Caaba, estende os braços e pede a Alá a remissão de todos os teus pecados.

- E nada mais me restará a fazer?

- Não. Terás de ir, então, ao El Madjem (1) onde te prosternarás duas vezes diante do Mekam-Ibrahim (2). Em seguida, irás à fonte sagrada de Zem-Zem, onde, após curta oração, beberás toda á água que te aprouver. Dar-te-ei algumas garrafas que encherás para me trazer, pois a água santa é um remédio seguro contra todas as enfermidades do corpo e da alma.

- Estas são as cerimônias na Caaba. E que segue depois?

- O Say, o trajeto de Safa a Merna. Na colina de Safa há três arcos abertos. Coloca-te num deles, volta o rosto para a mesquita e roga a Alá que te proteja, na santa estrada. Depois, anda seiscentos passos em direção à sotéia de Merna. No caminho verás quatro pilares de pedra, diante dos quais darás um pequeno salto. Em Merna, farás nova oração, trilhando, novamente, seis vezes o mesmo caminho.

- E então terei cumprido todas as prescrições?

- Não, resta-te ainda rapar a cabeça e visitar Omrah que se acha tão longe da cidade como nós de Meca. Só então podes dar por terminados os santos ritos e regressar. No mês das grandes peregrinações, o crente tem muitas obrigações a cumpsir perdendo muito tempo devido a grande afluência de peregrinos; tu, porém, precisas de dois dias apenas e, no terceiro, podes estar conosco.

Voltei para a tenda. Quando Halef finalmente apareceu, escutou primeiro para ver se eu já estava dormindo. Encontrando-me desperto, perguntou:

- Sídi, quem te atenderá, durante a minha ausência?

- Eu mesmo. Queres fazer-me um obséquio, Halef?

- Naturalmente. Sabes que faço para ti tudo quanto posso.

- Tencionas trazer ao xeque água da santa fonte de Zem-Zem. Não esqueças de reservar uma garrafa para mim também!

- Sídi, pede o que quiseres, menos isso, pois seria exigir o impossível. Só os crentes podem beber a água desta fonte. Se te fizesse a vontade não me conseguiria livrar das penas eternas!

Essa resposta foi dada com tanta convicção que não quis insistir mais. Após uma pausa, perguntou:

- Por que não vais tu mesmo buscar a santa água?

- Sabes que não me é permitido.

 

(1) Cavidade pequena, empedrada com placas de mármore, da qual dizem haver Abraão e Ismael extraído a cal que serviu na construção da Caaba.

(2) Pedra que servia de pedestal a Abraão, na construção da mesma pedra.

 

- Mas se te converteres à verdadeira fé, poderás fazê-lo.

- Jamais faria isso; vamos dormir.

Na manhã seguinte, partiu com a sua cara metade. Tinha ordem de declarar que vinha de longínquas terras, e de ocultar a origem de sua esposa que, aliás, ia cuidadosamente velada. Há alguns quilômetros de distância seguia-os um guerreiro a fim de vigiar a estrada compreendida entre Meca e Djidda. À entrada da garganta, postou-se uma outra sentinela.

O primeiro dia transcorreu sem incidente digno de nota; no segundo, solicitei ao xeque permissão para uma pequena excursão. Cedeu-me um camelo, rogando que tivesse cuidado para não denunciar o nosso acampamento. Desejara sair só mas a filha do xeque, quando eu ia montar, aproximou-se e perguntou:

- Efêndi, posso acompanhar-te?

- Podes.

Após termos atravessado o desfiladeiro, involuntariamente, tomei o caminho de Meca. Julgara que a minha companheira me advertiria; ela, porém, me seguiu sem dizer palavra. Só quando percorrêramos um quarto de hora de caminho, desviou mais para a direita e pediu-me:

- Segue-me, efêndi!

- Para onde?

- Quero ver se a nossa sentinela está em seu posto.

- Cinco minutos mais tarde, nós o avistamos. Estava sentado numa elevação do terreno e olhava fixamente para o sul.

- Não precisa ver-nos - disse. - Vem, sídi; conduzir-te-ei aonde queres ir.

Que significariam essas palavras? Quebrou para a esquerda e voltou-se, sorrindo, para mim. Depois mandou apressar o passo dos animais, detendo-se, finalmente, em um tranqüilo e estreito vale, onde apeou para assentar-se no chão.

- Senta-te junto de mim, para conversarmos um instante, - rogou. Tornava-se cada vez mais enigmática, todavia segui sua intimação.

- Consideras a tua fé como a única verdadeira, efêndi?

- Claro que sim! - respondi.

- Eu também, - obtemperou a minha interlocutora calmamente.

- Tu também? - perguntei admirado; era a primeira vez que ouvia, de um muçulmano tal confissão.

- Sim, efêndi, sei que a tua religião é a única verdadeira.

- Quem to disse?

- Ninguém. O primeiro lugar habitado por homens foi o Paraíso; aí viviam juntas todas as criaturas, na melhor harmonia e paz. Assim o determinou Alá e, por isso, verdadeira é a religião que tal prescreve. E essa religião é a dos cristãos.

- Tu a conheces?

- Não; mas um velho turco, há tempos, nos falou sobre ela. Dizia, que vós rogais a Deus: lle unut bizim günahler, böjle unutar-iz günahler (1). - Não é assim?

 

(1) Perdoai as nossas dívidas assim como nós perdoamos as dos nossos devedores.

 

- E não está escrito em vosso Alcorão: “Allah muhabbet dir, ile muhabedda kim durar, bu durar Allahda ile Allah durar onada”? (1)

- Também está certo.

- Então tendes realmente a verdadeira fé. Será lícito a um cristão raptar uma jovem?

- Não. Se cometesse tal crime seria severamente castigado.

- Vês como a tua religião é melhor do que a nossa? Se fôssemos cristãos, Abu-Seif não teria se atrevido a raptar-me, obrigando-me a esposá-lo. Conheces a história dessa terra?

- Conheço.

- Então sabes que os turcos e os egípcios lançaram-se contra nós, apesar da comunidade de crenças que professamos. Violentaram as nossas mães e empalaram, esquartejaram, queimaram os nossos pais, aos milhares. Cortaram-lhes as orelhas, pernas, braços e narizes, perfuraram-lhes os olhos, trucidaram-lhes os filhos. Odeio essa fé, mas tenho de conservá-la.

- Por que tens de conservá-la? Podes...

- Cala-te - interrompeu cia rudemente. - Digo-te os meus pensamentos, mas dispenso conselhos! Sei o que faço: hei de me vingar - de todos - de todos que me ofenderam.

- E, contudo, julgas verdadeira a religião do amor?

- Sim; mas só eu é que vou amar e perdoar? Hei de me vingar até da lei que nos proibe a entrada na cidade santa. Adivinha como!

- Não sei.

- Acaricias o secreto desejo de penetrar em Meca.

- Quem to disse?

- Eu é que sei.

- Realmente, desejaria ver a cidade santa dos muçulmanos.

- Expor-te-ás a muitos perigos; mas quero vingar-me e, por isso, te conduzi a esse lugar. - Executarás as prescrições, quando chegares à Meca?

- Preferia deixá-las de parte.

- Não queres trair tua crença e fazes bem. Vai a Meca; eu te esperarei aqui.

Era um caso psicológico interessante. Vingava-se do Islamismo, auxiliando a entrada de um infiel na cidade santa. Se fosse missionário teria que resolver uma dupla questão - na qualidade de simples andarilho, era impossível tal tarefa.

- Onde está situada Meca, a vossa cidade santa?

- Deixa aqui o teu animal e segue a pé. Depois que transpuseres este monte avista-la-ás, no vale.

- Por que me aconselhas a ir a pé?

- Porque, se fores montado, parecerás um peregrino e serás notado. Porém, se entrares a pé, crerão que já lá estiveste e que voltas de um passeio.

- Esperar-me-ás aqui?

 

(1) Deus é Amor e quem permanece no Amor, fica em Deus e Deus nele.

 

- Sim.

- Por quanto tempo?

- O tempo que os franke chamam quatro horas.

- É pouco.

- Lembra-te de que muito facilmente podes ser descoberto, se te demorares mais. Vai à Caaba e dá uma volta pela cidade. É o quanto basta.

Dei-lhe razão e pensei comigo mesmo que, mais uma vez andara acertado em confiar nas circunstâncias que me ofereceria o acaso. Ergui-me. A guerreira Ateibeh considerou-me um instante, apontou para as minhas armas e meneou a cabeça.

- És um beduíno perfeito; mas leva um árabe tais armas? Deixa a tua espingarda e toma a minha, em troca.

No primeiro momento acometeu-me uma certa desconfiança; mas, como essa não tivesse o menor fundamento, permutei a minha carabina pela arma que a filha do xeque me oferecia e subi o monte. Quando atingi o cimo avistei Meca no fundo do vale, entre escalvadas e desertas elevações, a uma meia-hora de distância. Distingui a cidadela Djebel Xad e os minaretes de algumas mesquitas. El Hamram, a mesquita principal, acha-se na parte sul da cidade.

Para lá dirigi logo os meus passos. Encontrava-me no estado d'alma de um soldado que tendo participado apenas de algumas escaramuças vê-se surpreendido pelo medonho troar do canhão.

Cheguei sem incidente à cidade. Não precisava perguntar onde ficava a mesquita, pois já lhe determinara a situação topográfica. As casas pelas quais passei eram de alvenaria e as ruas cobertas de areia do deserto. Ao cabo de pouco tempo, achava-me diante do grande retângulo formado pela Beit-Allah e, vagarosamente, fiz-lhe a volta. Nos quatro lados, viam-se colunas e colunatas, sustentando seis minaretes. Medi duzentos e quarenta passos de comprimento e duzentos e cinco de largura. Como pretendia voltar a contemplar o exterior, não me demorei mais e entrei por uma das portas. Junto dela vi assentado um mekkaui (1) que vendia garrafas de cobre.

- Salam aleikum - saudei gravemente. - Quanto custa uma dessas kuleh?

- Duas piastras.

- Alá abençoe os teus filhos e os filhos dos teus filhos, pois os teus preços são razoáveis. Toma as duas piastras e dá-me a kuleh.

Guardei a garrafa e passei por entre as colunas. Achava-me próximo do púlpito e tirei os sapatos. Então, detive-me a contemplar o interior do templo. A Caaba estava mais ou menos no centro. Oferecia um aspecto singular, por estar completamente coberta com o kisua (2). A ela conduziam sete caminhos pavimentados, ladeados de canteiros. Junto da Caaba, a fonte santa, Zem-Zem, reunia muitos peregrinos que recebiam água das mãos de empregados do templo. O santuário não inspirava devoção nem convidava ao recolhimento. Carregadores e

 

(1) Habitante de Meca.

(2) Seda preta.

 

moços de cadeirinhas corriam em todos os sentidos; escrivães públicos sentavam-se entre as colunatas; viam-se até verdureiros e confeiteiros. Ao olhar distraidamente para fora, deparei com um camelo que ajoelhava, para o senhor apear. Era um animal de extraordinária beleza. Seu dono, que tinha as costas voltadas para mim, acenou a um servo, ordenando-lhe que ficasse junto do djemel. Vi isso de relance, quando me dirigia para a fonte. Queria encher a minha garrafa, mas devia esperar a minha vez, na fila dos peregrinos. Dei uma pequena oferta, tapei a kuleh e a guardei. Volvi as costas e.. . a menos de dez passos estava Abu-Seif.

Um terror louco perpassou por todo o meu corpo, mas felizmente não me tolheu os movimentos.

Nos instantes críticos, o homem pensa e resolve dez vezes mais depressa do que em circunstâncias normais. Sem dar mostras de susto ou pressa, alonguei os passos, dirigindo-me para o lugar em que se achava deitado o camelo de Abu-Seif. Só esse animal me poderia salvar. Era um daqueles hedjin zebrunos, oriundos dos montes Djammar.

Abandonei os sapatos; não tinha mais tempo a perder, pois já ouvia atrás de mim gritos e vozes:

- Um djaur, um djaur. Prendei-o, guardas do santuário.

O efeito que essas interjeições produziram foi extraordinário. Não tinha tempo de olhar em torno, mas atrás de mim ouvia o estrondo de uma queda d'água, os clamores de um órgão, o tropel de uma numerosa manada de búfalos. Era impossível manter a regularidade dos passos. Atravessei a praça, e, por entre as ordens de colunas, saltei os três degraus chegando diante do camelo cujos pés não estavam manietados. Com um murro, lancei longe o criado que o guardava e, pouco depois, estava montado, empunhando o revólver. Mas... o animal obedecer-me-ia?

- E - o - ah! - E - o - ah!

Graças a Deus! Ao grito conhecido, o hedjin levantou-se e partiu velozmente. Detonaram alguns tiros atrás de mim... avante, avante!

Se o camelo fosse um daqueles animais teimosos que se encontram com tanta freqüência, eu estaria irremediavelmente perdido.

Em menos de três minutos, encontrava-me fora da cidade e só ousei olhar para trás, quando cheguei a meia encosta do monte. Em baixo, avistei grande número de cavaleiros que me perseguiam. Os muçulmanos haviam corrido logo aos próximos serais e khans, montando os animais lá existentes.

Para onde devia me dirigir? Para o lugar em que me aguardava a filha do xeque que seria denunciada? Mas não podia deixar de avisá-la! Esporeava o meu animal com ininterruptas exclamações; sua velocidade era incomparável. Chegado ao cimo, olhei novamente para trás e vi que estava em segurança. Um único cavaleiro achava-se relativamente próximo de mim. Era Abu-Seif. Montava um cavalo extremamente célere.

Voei pela encosta abaixo. A filha de Malek aguardava-me. Vendo-me montado e correndo daquela maneira logo percebeu a causa. Saltou para o camelo e tomou o outro em que eu viera, pela rédea.

- Quem te descobriu? - perguntou ela em voz alta,

- Abu-Seif.

- Allab akbar! O patife persegue-te?

- Acha-se bem perto de mim.

- E vem acompanhado?

- Sim, mas a uma grande distância.

- Então afasta-te, sempre em linha reta.

- Por quê?

- Já verás.

- Primeiro dá-me as armas.

Rapidamente, ao passarmos um ao lado do outro, trocamos as espingardas; em seguida a filha do deserto ocultou-se atrás de uns rochedos, sem me seguir. Adivinhava-lhe o pensamento: queria colocar Abu-Seíf entre dois fogos. Ao cabo de alguns instantes, o meu perseguidor apareceu no alto da colina. Fiz o meu camelo retardar um pouco a marcha e reparei que o Pai do Sabre redobrava de velocidade. Enquanto eu, a custo, subia o íngreme declive, atravessava ele a galope a depressão em que me achara antes, sem notar, pelos vestígios deixados no solo, que alguém me acompanhava. Quando cheguei ao topo, vi outros beduínos que me seguiam e, abaixo, a filha de Malek que se punha em ação. Lograra seu intento. Abu-Seif achava-se entre nós dois; se a visse julgá-la-ia um dos perseguidores, pois não mais conduzia o camelo pela rédea.

Por mim nada mais tinha a temer.

Os árabes haviam se distanciado muito. Tratava-se, agora, de não deixar escapar Abu-Seif. Procurei sair do terreno acidentado e entrar na planície, mas segui direção oposta à do acampamento dos Ateibeh sem deixar de diminuir a marcha do meu djemel. Andara três quartos de hora quando, finalmente, alcancei o terreno plano. Dei de rédea no animal, mas sempre procurando permanecer fora do alcance da arma de Abu-Seif. Quando a filha do xeque alcançou o sopé da cadeia de colinas, avistei, no espigão das últimas elevações, mais um perseguidor que devia montar um esplêndido camelo, pois aproximava-se visivelmente de nós. Seu animal sobrepujava de muito ao cavalo de Abu-Seif.

Começara já a temer não por mim, mas pela minha companheira, quando com admiração vi que o desconhecido atalhara como se quisesse passar à nossa frente. Detive a minha montaria e olhei fixamente para trás. Seria possível? O homemzinho que, por assim dizer, voava sobre o bedjin parecia o meu Halef. Onde arranjara tão soberbo camelo e como chegara até nós? Tornei a puxar a rédea do djemel para o olhar com mais cuidado. Não havia dúvida: era Halef mesmo. Para dar-se a conhecer moveu os braços no ar como se quisesse apanhar pássaros em pleno vôo.

Parei e tomei a carabina. O perseguidor estava já ao alcance da minha voz.

- Ouve, Pai do Sabre, não te chegues senão mando-te uma bala!

- Que dizes, cão?... - vociferou ele. - Hei de te pegar vivo e levar para Meca onde receberás o castigo que mereces, sacrílego!

Não podia fazer outra coisa: apontei e atirei. Para poupá-lo, visara o peito do cavalo que tombou, arrastando-o na queda; estrebuchou um pouco e depois não se mexeu mais. Estava morto. Esperava que Abu-Seif se erguesse rapidamente, mas tal não sucedeu. Ou fora ferido ou fingia, para atrair-me e surpreender-me. Cautelosamente, dirigi-me para o bandido inerme, acompanhado pela filha dos Ateibeh. Jazia, na areia, com os olhos cerrados e imóvel.

- Efêndi, a tua bala chegou primeiro do que a minha, - lamentou ela.

- Atirei no cavalo e não nele. Mas pode ter quebrado o pescoço ou fraturado um membro. Vou examiná-lo.

Assim o fiz. Se não se molestara internamente, nada sofrerá com a queda, achando-se apenas estonteado. A Ateibeh desembainhou o seu khandjar.

- O que queres fazer?

- Tirar-lhe a cabeça.

- Não farás tal, pois também eu tenho direito sobre esse homem.

- O meu direito é mais antigo.

- Mas o meu é maior: a minha bala é que o lançou ao solo.

- Assim é, segundo os costumes dessa terra. Vais matá-lo?

- Que farás se o libertar ou o deixar ficar aqui?

- Nesse caso abres mão do teu direito e eu aproveito para fazer valer o meu.

- Não permito que lhe toques; ele me pertence.

- Então prendamo-lo. Depois se decidirá a sua sorte.

Nesse ínterim aproximou-se Halef.

- Ma xa Allah, ó milagre! o que fizeste?

- Como vieste ter aqui?

- Seguindo-te, simplesmente.

- Isso já sei. Conta-me alguns pormenores!

- Como sabes, sídi, tenho muito dinheiro. Para que hei de levá-lo no bolso? Resolvi comprar um djemel e dirigi-me a um negociante que mora na parte sul da cidade. Hanna achava-se comigo. Enquanto examinava os animais, dentre os quais esse aqui se destacava, sendo tão caro que só um emir ou um paxá poderia pagá-lo, elevou-se na rua um clamor imenso. Saí com o vendedor e ouvi dizer que um djaur profanara o santuário e fugira. Logo pensei em ti, sídi, e, um minuto mais tarde, vi tu subires a encosta da colina. Todos correram para os pátios em busca de animais, a fim de sair em tua perseguição. Eu fiz o mesmo e montei neste hedjin. Depois de ordenar a Hanna que galopasse em direção do acampamento para narrar ao xeque o sucedido, dei um tabefe no negociante que não me queria emprestar o animal e segui no teu encalço. Os outros todos ficaram atrás; agora estou junto de ti e possuo o djemel.

- Mas esse animal não te pertence!

- Depois discutiremos este assunto, sídi. Os perseguidores estão atrás de nós; não podemos permanecer aqui. Que faremos com esse Pai do Sabre e da Mentira?

- Amarremo-lo sobre esse camelo e levemo-lo daqui. Há de recobrar os sentidos.

- E para onde fugiremos?

- Conheço um esconderijo - atalhou a Ateibeh. - Também tu o conheces, Halef, pois, meu pai, o xeque, to indicou, caso não nos encontrasses no acampamento.

- Aludes às cavernas Atafrah?

- Sim. Hanna guiar-te-ia até essas cavernas que só são conhecidas pelos chefes Ateibeh, os quais não se acham aqui. Agora ajuda-me a atar o prisioneiro.

Não foi difícil amarrá-lo no camelo que me trouxera do acampamento até as proximidades da cidade. A filha de Malek guardou tudo quanto Abu-Seif possuía consigo; depois tornamos a montar, rumando para sudoeste.

Fora feliz na minha fuga. De momento, nem imaginava que me seria dada outra oportunidade de ver Meca. Mais tarde descreverei a cidade, com suas mesquitas e habitantes.

No caminho, fui obrigado a ouvir as exprobrações de Halef.

- Sídi - começou o bom servo - já não te disse que um infiel não pode entrar na cidade santa? Quase perdeste a vida!

- Por que te recusaste a trazer-me água?

- Porque a minha fé mo proibia.

- Por isso, eu mesmo fui buscá-la.

- Estiveste na fonte santa?

- Olha aqui! Essa garrafa contém água da fonte Zem-Zem!

- Allah kerim, Deus é misericordioso, sídi! Converteu-te à verdadeira fé e fêz de ti um hadji. Um djaur não pode penetrar na cidade; mas quem toma água da fonte Zem-Zem torna-se hadji e, por conseguinte, um verdadeiro moslem. Não te dizia sempre que havias de te converter, mesmo contra a vontade?

Era uma concepção tão ousada quão graciosa; mas visava e conseguia, acalmar a consciência muçulmana do meu bom Halef e assim é que não a contradisse nem discuti.

As circunvizinhanças de Meca são extremamente secas e uma fonte é geralmente o ponto central de uma aldeia ou pelo menos de um acampamento ocasional. A fim de evitar os lugares freqüentados, apesar do calor, não nos detivemos até chegar a uma região coberta de rochedos. Seguimos a Ateibeh num terreno extremamente pedregoso, por entre enormes blocos de granito até que se nos deparou uma entrada natural da rocha que teria mais ou menos a largura de um camelo.

- Eis a caverna - advertiu a nossa guia. - Os animais também poderão passar, mas sem as selas.

- Ficamos aqui? - perguntei.

- Sim, até que venha o xeque.

- Ele virá aqui?

- Seguramente, porque Hanna, com toda certeza, informou-o dos últimos acontecimentos. Quando algum dos Ateibeh não volta para o acampamento é logo procurado nessa caverna. Apeai e segui-me!

Abu-Seif voltara a si, mas durante a viagem não dissera uma palavra, conservando os olhos cerrados. Foi o primeiro a ser conduzido através da fenda que se alargava cada vez mais, até formar um largo que poderia comportar quarenta e tantos homens montados. Sua vantagem principal consistia na água que se ajuntara no lado oposto à entrada. Depois que pusemos em segurança o preso e os camelos, saímos à procura de rattamgras, vegetal que tem a propriedade de queimar seco ou verde. Era para a noite, pois de dia não seria prudente atender fogo cujo fumo trairia o nosso esconderijo.

De resto, seria difícil, quase impossível sermos descobertos. Viéramos. por um caminho tão pedregoso que passáramos sem deixar vestígios aparentes.

Ao revistar os alforges do meu camelo, fiz uma boa descoberta: continha uma soma considerável.

Os animais estavam fatigados e nós também; certificamo-nos de que o preso estava sòlidamente atado e, tranqüilos, fomos nos deitar. Naturalmente revesei-me com Halef na vigilância do acampamento. Assim passaram as últimas horas do dia e caiu a noite. Ao alvorecer, era o meu turno. Ouvindo um rumor suspeito, espiei pela fenda e vi um homem que se arrastava cautelosamente. Reconheci nele um Ateibeh e saí.

- Graças a Alá! Enfim te vejo, efêndi! - disse ele. - O xeque mandou-me adiante, para ver se estavam aqui. Não preciso voltar, pois este é o sinal de que já os encontrei.

- Quem presumes estar aqui comigo?

- O teu servo Halef, a Bint el Ateibeh e, provavelmente, Abu-Seif, prisioneiro.

- Quem to disse?

- Efêndi, não é difícil de adivinhar. Hanna veio sozinha para o acampamento e contou que estiveste em Meca e fugiste dos teus perseguidores. A Bint el Malek achava-se em tua companhia e, sem dúvida, não te abandonaria, apesar de haveres cometido uma grave falta. Halef seguiu-te e atrás dos montes os perseguidores encontraram apenas o cavalo morto do Djeheine. É porque o tinham apanhado. É claro que só nós estávamos habilitados a fazer essas conjeturas.

- Quando chegará o xeque?

- Dentro de uma hora, mais ou menos.

- Então, entra.

Nem se dignou olhar para o prisioneiro e deitou-se logo. Ao cabo do tempo predito, a pequena caravana defrontava a entrada da caverna. Descarregaram os animais e penetraram no esconderijo. Esperava ser repreendido pelo xeque. Mas a sua primeira pergunta foi:

- Prendeste o Djeheine?

- Prendi.

- Ele está aqui?

- São e salvo.

- Decidiremos da sua sorte.

Lá pelo meio-dia já todos se achavam instalados nas suas tendas. Aproximava-se o início do julgamento. Antes, porém, travei com Halef uma interessante palestra.

- Sídi, permites-me uma pergunta? - rogou.

- Pois não!

- Lembras-te ainda de tudo quanto escreveste sobre mim e Hanna, não é verdade?

- Lembro-me, sim.

- Quando é que deverei deixar Hanna?

- Logo que terminares a peregrinação.

- Mas eu ainda não a terminei!

- O que é que falta?

- Nada, pois já cumpri todas as prescrições em Meca. Mas gostaria de ficar com a minha mulher e, por isso, lembrei-me de que uma viagem a Medina é o complemento necessário da hadji.

- Está muito bem. E Hanna, que diz a isso?

- Sídi, Hanna me ama. Acredita-me... ela mesma me confessou.

- E tu lhe dedicas idêntica afeição?

- Sim. Não está escrito que Alá tirou uma costela de Adão para criar Eva? O coração acha-se junto à costela e, por isso, o coração do homem será sempre da mulher.

- Mas o que dirá o xeque?

- Isso é o que me inspira cuidados, sídi!

- Não vês outras dificuldades?

- Não.

- E eu? Que direi a isso?

- Tu? Oh, claro está que não recusarás o teu consentimento, pois não te abandonarei, enquanto me quiseres junto de ti.

- Halef, isso é um sacrifício que não exijo nem quero de ti. Mas, já que mutuamente vos amais, deves fazer todo o possível para conservá-la. Talvez consigas que o xeque te conceda a filha para esposa.

- Sídi, eu não a abandono mesmo que tenha de recorrer à fuga. Oh, ela sabe que sou o Hadji Halef Omar Ben Hadji Abul Abbas Ibn Hadji Dawud al Gossara e seguir-me-ia até o fim do mundo.

Com essa afirmação, deu por terminada a conversa e afastou-se. Entrementes, formara-se um círculo para o centro do qual foi levado Abu-Seif. Era obrigado a participar do conselho e assentei-me junto do xeque Malek.

- Efêndi - começou este - ouvi dizer que asseveras teres direitos sobre este homem e sei que falas a verdade. Queres abandoná-lo ao nosso julgamento ou queres participar conosco na decisão de sua sorte?

- Eu e Halef tornaremos parte no conselho, pois ambos queremos vingarmo-nos de Abu-Seif.

- Então, soltem o prisioneiro!

Libertaram-lhe os pés e as mãos, mas ele permaneceu imóvel como se estivesse morto.

- Abu-Seif, levanta-te diante dos teus juizes para te justificares!

Conservou-se quedo e sem descerrar as pálpebras.

- Como vêem, perdeu a fala; para que lhe dirigiremos a palavra? Sabe o que fêz e nós também; o interrogatório é inútil. Determino a morte do criminoso a fim de que o seu cadáver sirva de pasto aos chacais, hienas e abutres. Quem estiver de acordo, declare-o.

Todos votaram a favor. Quando queria apresentar o meu veto sobreveio um incidente imprevisto. De um salto levantou-se o prisioneiro, precipitando-se entre dois Ateibeh e arremessando-se em direção à saída. Ressoou um clamor de consternação. Em seguida, ergueram-se todos em perseguição do fugitivo. Fui o único que fiquei onde estava. Abu-Seif cometera graves faltas e, segundo as leis do deserto, merecia mais do que a morte; entretanto, não me sentia com coragem para votar por essa pena. Talvez conseguisse escapar. Se tal sucedesse, não deveríamos permanecer nem mais um instante na caverna.

Fiquei largo tempo sozinho. O primeiro que voltou foi o velho xeque. Não pudera acompanhar os jovens.

- Por que não lhe saiste no encalço, efêndi? - perguntou-me.

- Porque teus valentes guerreiros alcança-lo-ão sem o meu auxílio. Achas que tornarão a apanhá-lo?

- Não sei. É um famoso corredor e, quando chegamos fora da caverna, já havia desaparecido. Se não o prendermos, teremos de fugir, porque o nosso esconderijo será denunciado.

De quando em quando, regressavam alguns homens. Não o tinham visto correr nem haviam encontrado as suas pegadas. Depois chegou Halef e, por fim, voltou a filha do xeque com as narinas trêmulas de raiva. Trocaram-se algumas opiniões. Ninguém o vira. A consternação e a circunstância de que só um por um podia passar pela estreita saída, dera um avanço ao bandido que fora favorecido pela natureza do terreno, propícia para esconder-lhe o rasto.

- Ouvi, ó homens - disse o xeque, - agora não estamos mais em segurança. Vamos levantar acampamento ou tentar alcançá-lo? Se cercarmos essa região, é possível que o encontremos.

- Não fujamos, procuremo-lo - aconselhou a filha.

Os outros concordaram.

- Pois bem, montai em vossos camelos e segui-me. Quem trouxer o fugitivo - vivo ou morto - receberá uma considerável recompensa.

Então Halef aproximou-se e disse:

- Já mereci o prêmio. A poucos passos daqui acha-se morto o Pai do Sabre.

- Onde o apanhaste? - perguntou o xeque.

- Senhor, deves saber que o meu sídi é mestre na arte de lutar e de achar toda a espécie de makam (1); ele me ensinou a encontrar os rastos deixados na areia, na relva, na terra e nas rochas e me mostrou como se deve proceder na perseguição de um fugitivo. Fui o primeiro que transpôs a saída da caverna após Abu-Seif; mas já o não vi mais. Corri primeiro para uma elevação à esquerda, depois, para outra à direita e como nada visse, julguei que o fugitivo tivera a precaução de ocultar-se para enganar-nos. Procurei-o atrás das pedras e tive a felicidade de achá-lo. Houve uma curta luta que terminou logo. Matei-o com uma punhalada. Mostrar-vos-ei o seu cadáver.

Permaneci novamente na caverna enquanto os outros seguiam Halef, para ver o corpo de Abu-Seif.

Ao cabo de pouco tempo voltaram exultantes.

- Que queres como recompensa? - perguntou o xeque ao destemido Halef.

- Senhor, venho de uma longínqua terra à qual não poderei regressar. Se me considerares suficientemente digno, aceita-me na tua tribo.

- Queres tornar-te Ateibeh? Que diz a isso o teu senhor?

- Está de acordo. Não é, sídi?

- É - corroborei eu. - Nada tenho a opor.

- Se dependesse só de mim já estarias admitido - declarou o xeque. - Mas primeiro tenho de consultar os mais velhos, pois a adoção de um estrangeiro é um assunto que requer muito cuidado e reflexão. Tens parentes nas proximidades?

- Não.

- Tens alguma dívida de sangue?

- Não.

- És sunita ou xiita?

- Adepto da Sunna.

- Nunca tiveste nem esposa nem filhos?

- Nunca.

- Se assim é, podemos passar imediatamente à deliberação.

- Então deliberai sobre um outro ponto!

- Qual é?

- Sídi, queres falar por mim?

Ergui-me do chão e tomei uma atitude grave e cheia de dignidade. Depois comecei o meu discurso:

- Ouve a minha palavra, ó xeque e Alá abra o teu coração a fim de que ela encontre bom acolhimento. Sou Kara Ben Nemsi, um emir entre os talebs e heróis do Frankistan. Venho à África e a esta terra, para conhecer os seus habitantes e praticar grandes feitos. Para ser bem sucedido associei-me a um servo que conhece todas as línguas do oriente e do ocidente, que é prudente e sábio e não teme nem os homens nem os animais ferozes. Por graça de Deus encontrei Hadji Halef Omar Ben Hadji Abul Abbas Ibn Hadji Dawnd al Gossara e, até a presente data, estou inteiramente satisfeito com ele. É forte como um javali, veloz como um galgo, e

 

(1) Pegadas.

 

rápido como um antílope. Lutamos sobre os abismos do chott com inimigos desleais e, contudo, estamos sãos e salvos. Dominamos os animais da planície e da floresta; arrostamos as fúrias do simum; aventuramo-nos até os confins da Núbia e libertamos das mãos de um tirano a flor das flores. Depois, fomos ao Belad el Arab e o que lá passamos já o sabes pois fòste testemunha ocular. Em seguida, o bravo Halef fêz a peregrinação a Meca com a tua neta, Hanna. Aparentemente, ela é sua mulher e ele prometeu que a reconduziria à tenda materna. Acontece, porém, que Deus ligou seus corações. Amam-se reciprocamente c não podem mais separar-se. És Hadji Malek Iffandi Ibn Achmed Chadid el Eini Ben Abul Ali el Besami Abu Schehab Abdolatif el Hanifi, sábio e valoroso xeque dos Beni Ateibeh. Tua perspicácia dir-te-á que eu não abandono com gosto um companheiro como Halef; mas desejo sobretudo a sua felicidade e, por isso, rogo-te o aceites na tribo dos Ateibeh e canceles a promessa que te fêz de repudiar a esposa. Sei que satisfarás o meu pedido e, quando regressar à minha pátria, hei de proclamar e propalar em todo o ocidente a tua nímia bondade. Salam!

Todos me havia escutado atentamente. Malek respondeu:

- Efêndi, sei que tu és um famoso emir dos nemsi, se bem que o teu nome, como o de todos os frankes, seja curto como a lâmina de uma faca de mulher. Saiste pelo mundo como um sultão que, incógnito, pratica grandes feitos e os filhos dos nossos filhos narrarão as tuas façanhas. Hadji Halef Omar é como que um vizir cuja vida pertence ao seu sultão. Viestes às nossas tendas, para nos conquistar grandes honras e riquezas. Nossa afeição se estende a ti e a ele - e, estou certo, de que por unanimidade será proclamado membro da nossa tribo. Falarei com sua esposa e, se concordar em permanecer junto dele, cancelarei a promessa a que aludiste, por ser o bravo Hadji Halef um valente guerreiro que matou Abu-Seif, o pirata. Agora, porém, permite que preparemos um festim, para festejar a morte do inimigo e depois iniciar solenemente a deliberação. És nosso irmão e amigo, apesar de teres outra crença. Salam, efêndi!

 

No Tigre

 “O Senhor será terrível para eles, porque aniquilará todos os deuses da terra; e todos virão adorá-lo, cada um desde o seu lugar: todas as ilhas das nações. Também vós, ó etíopes, sereis mortos pela minha espada. Ele estenderá a mão contra o Norte e destruirá a Assíria; e fará de Nínive uma desolação, terra árida como o deserto.

No meio dela repousarão os rebanhos, todos os animais dos povos; alojar-se-ão em seus capiteis tanto o pelicano como o ouriço; a voz do seu canto se ouvirá nas janelas; haverá desolação em seus limiares, quando tiver descoberto a sua obra do cedro. Esta é a cidade alegre e descuidada que dizia no seu coração: Eu sou e não há outra além de mim. Como se tem ela tornado numa desolação, num covil de feras! Todo aquele que passar por ela assobiará e a escarnecerá.”

Essas palavras do profeta Sofonias voltaram-me à lembrança, quando aproamos à margem direita do Tigre, banhados pelos derradeiros clarões do sol poente. A região que margina o rio, de ambos os lados, é um túmulo, um terrível aglomerado de cidades soterradas e desertas. Os restos das passadas glórias romanas e atenienses são iluminados pelos raios do sol e os monumentos do antigo Egito elevam-se para o céu em gigantescas e majestáticas formas. Visivelmente, falam do poder, da riqueza e do senso estético dos povos que os erigiram. Aqui, porém, na bacia do Tigre e do Eufrates, só se vêem montões de ruínas, sobre as quais o beduíno passa descuidado sem pensar que sob os cascos do seu cavalo estão enterrados prazeres e pesares de milênios. Onde está a torre que os homens construíram na terra de Sinear, depois de dizerem uns aos outros: “Vinde, façamos uma cidade e uma torre cujo cimo chegue até o céu, a fim de que nosso nome seja conhecido!” Construíram a cidade e a torre, mas nem os alicerces existem mais. Queriam tornar-se conhecidos, mas os nomes dos povos que ali habitaram sucessivamente, realizando, na torre, os pecaminosos e idolatras atos de culto, os nomes das dinastias e governadores que ali se sucederam, nadando em ouro e sangue, desapareceram por completo e se ainda são lembrados, o devem à paciência e aos esforços dos sábios que decifraram os hieroglifos.

Mas como vim eu ter ao Tigre e como embarquei no vapor que nos trouxe até às cachoeiras do Chelab?

Seguira com os Ateibeh até o deserto En Nahman, porque não me atrevia a aparecer no oeste da região. Ao chegar perto de Mascate, tive vontade de visitá-la. Percorri-a sozinho. Vi seus muros e torres, suas estradas consolidadas, suas mesquitas e igrejas portuguesas; admirei também a guarda de honra balúchi do imame e, finalmente, assentei-me em um café, para saborear uma taça de kecbra. Essa bebida é feita com a casca do grão de café e temperada com canela e cravo. Minha contemplação foi perturbada por um corpo opaco que obstruía a entrada.

Olhei para ela e vi uma figura digna do mais detido exame: Uma cartola cinzenta encimava uma cabeça esquelética e comprida, inteiramente desprovida de cabelos. Uma boca larga de lábios finos embargava o passo de um nariz longo e pontudo que traía a intenção de alcançar o queixo. O pescoço nu e magro emergia de um largo, irrepreensível colarinho duplo e engomado; seguia-se uma gravata de xadrez, cinzenta, uma roupa de xadrez cinzenta, um colete de xadrez cinzento, po-lainas de idêntica côr e botinas empoeiradas. Do lado direito o homem de roupa de xadrez trazia pendurada uma pá e do lado esquerdo uma pistola de dois canos. No bolsinho superior, espiava curiosamente um jornal dobrado.

- Wermyn kahwe! - balbuciou ele com voz metálica.

Sentou-se num senieh que, com mais propriedade, devia servir como mesa mas que pelo tipo original era usada como cadeira. Serviram-lhe o café, mergulhou o nariz na bebida, aspirou-lhe o aroma, lançou na rua o conteúdo da xícara e arremessou-a ao solo.

- Wermyn tuetuen, dá-me fumo! - ordenou em seguida.

Recebeu um cachimbo aceso, fêz uma careta, assoprou o fumo pelo nariz, cuspiu e mandou o cachimbo fazer companhia à xícara espedaçada.

- Wermyn... - e ficou pensando, mas a palavra turca não lhe ocorreu; segundo parecia, não sabia palavra de árabe. Depois de esforçar-se balbuciou apenas: - Wermyn roastbeef!

O khawadji (1) não o entendeu.

- Roastbeef! - repetiu, fazendo com a boca e as mãos menção de comer.

- Kebab! - traduzi eu ao hoteleiro que desapareceu logo pela porta estreita, para preparar o prato pedido. Consistia em pedacinhos quadrangulares de carne, assada no espeto.

Então o inglês voltou para mim a sua atenção.

- Árabe? - perguntou ele.

- Não.

- Turco?

- Não.

Então, franziu as finas sobrancelhas, com uma fisionomia de franca espectativa.

- Inglês?

- Não. Sou alemão.

- Alemão? O que faz aqui?

- Bebo café!

- Very well! Que profissão tem?

- Sou escritor!

- Ah! Que faz aqui em Mascate?

- Vim ver a cidade.

- E depois, que fará?

- Ainda não sei.

- Tem dinheiro?

- Sim.

- Como se chama?

Disse o meu nome. Abriu a boca de tal modo que seus delgados lábios formaram exatamente um quadrado, deixando ver os largos e compridos dentes que a guarneciam; as sobrancelhas franziram-se ainda mais e a ponta do nariz moveu-se, como se quisesse informar-se sobre o que sairia do orifício que lhe impedia o caminho. Depois, meteu a mão no bolso donde sacou uma caderneta de apontamentos. Folheou-a e, em seguida, levou a mão ao chapéu para fazer-me um rasgado cumprimento.

- Welcome, sir; eu o conheço!

- A mim?

- Yes, muito!

- Permite que lhe pergunte de onde?

- Sou amigo de sir John Rafley, membro do Club Traveller, Londres, Near-Street, 47.

 

(1) Hoteleiro.

 

- Realmente? Conhece sir Rafley? Onde se acha ele agora?

- De viagem - aqui ou acolá - não sei. Esteve com ele no Céilão?

- Estive.

- Caçando elefantes?

- Sim.

- Depois no mar em Girl-Robber?

- Isso mesmo.

- Dispõe de tempo?

- Hum! Por que me faz essa pergunta?

- Li algo sobre a Babilônia - Nínive - escavações - adoradores do diabo. Quero ir até lá - também escavar - encontrar fowling-bull - presentear Museu Britânico. Não sei árabe - gosto muito da caça. Venha comigo - pagar bem, muito bem!

- Com quem tenho a honra de falar?

- Lindsay, David Lindsay - título não, não precisa - sir Lindsay.

- Pretende realmente ir à bacia do Eufrates e do Tigre?

- Yes. Tenho vapor - viajamos rio acima - descemos - vapor espera ou volta para Bagdad - compro cavalos e camelos - viajar, caçar, escavar, presentear Museu Britânico, contar no Club Traveller. Acompanha-me?

- Prefiro andar só e independente.

- Naturalmente! Poderá deixar-me quando quiser - pagarei bem, muito bem pago - só acompanhar.

- Irá mais alguém conosco?

- Quantos homens entender - melhor, eu, o senhor, dois criados.

- Quando parte?

- Depois de amanhã - amanhã - hoje - agora mesmo.

Era um oferecimento que vinha mesmo a calhar. Sem mais reflexões, aceitei, salvaguardando, é claro, a condição de me despedir quando entendesse. Conduziu-me ao porto onde se achava ancorado um lindo iate. Após. meia-hora de palestra já sabia que melhor companheiro era impossível desejar. Planejava matar leões e outras feras, visitar os adoradores do diabo e, desse por onde desse, escavar um touro alado, fowling-bull como ele dizia, a fim de obsequiar o Museu Britânico. Tais projetos eram aventurosos, por isso mesmo concedi-lhes minha plena aprovação. Em minhas viagens encontrara homens ainda mais esdrúxulos do que esse inglês.

Infelizmente não me deixou voltar ao acampamento dos Ateibeh. Um mensageiro foi buscar a minha bagagem e informar a Halef da minha partida. Quando regressou, disse-me que Halef dirigir-se-ia à terra dos árabes Abu-Salman e Chammar, para tratar da incorporação dos Ateibeh nessas tribos. Montaria o meu heijin e não teria dificuldade em encontrar-me depois.

Essa notícia agradou-me. Se Halef fora escolhido para tão importante missão, era porque caíra nas boas graças do sogro. Navegamos pelo Golfo Pérsico acima, avistamos Bássora e Bagdad, chegando enfim, percorrido um trecho do Tigre, ao lugar em que nos achávamos hoje.

Pouco além do ancoradouro o Zab-asfal desembocava no Tigre e ambas as margens estavam cobertas de cerrado bambual. Como dissemos acima, anoitecera; não obstante, Lindsay teimou em ir à terra e armar as tendas. Preferia não desembarcar mas, não querendo deixá-lo só, acompanhei-o. A tripulação do vapor compunha-se de quatro homens; ao romper d'alva devia voltar para Bagdad e, em vista disso, quis o inglês, contra o meu conselho, descarregar toda a bagagem e os quatro cavalos que adquisira lá.

- Melhor seria que não desembarcássemos os animais e os fardos.

- Por quê?

- Porque teríamos tempo de sobra para fazê-lo amanhã de manha cedo.

- Não faz mal - de noite mesmo - paga bem!

- Nós e os cavalos estamos mais seguros na embarcação do que em terra.

- Há aqui ladrões - salteadores - assassinos?

- Nunca se pode confiar nos árabes. Ainda não estamos instalados!

- Não confiaremos neles, mas vamos acampar - temos carabinas; alvejaremos os ladrões!

Não consegui demovê-lo do seu propósito. Gastamos duas horas para levantar as tendas. Prendemos os cavalos entre a margem e o acampamento; depois fizemos uma frugal refeição e em seguida fomos dormir. Eu faria sentinela no primeiro quarto, os dois criados no segundo e no terceiro e Lindsay no último. A noite era lindíssima. Diante de nós marulhavam as ondas do largo rio e lá no fundo elevavam-se os picos do Djebel Djehennen. A lua iluminava bastante a paisagem, mas a região em que nos achávamos era completamente desconhecida para mim. Seú passado era como as vagas do Tigre que desapareciam, lá, ao longe, entre as sombras do jângal. Quando pensamos na Assíria, Babilônia e Caldeia logo nos vem à mente a lembrança de grandes nações e gigantescas cidades, mas essas imagens assemelham-se às de um sonho, que rememoramos ao despertar.

Passado o meu quarto acordei o criado a quem instruí devidamente. Chamava-se Bill. Era um irlandês cuja força muscular parecia três vezes superior à sua inteligência. Às minhas advertências sorriu sutilmente em silêncio. Depois pôs-se a andar de um lado para outro, substituindo-me na guarda do acampamento. Adormeci.

Fui despertado por sacudidelas violentas. Lindsay achava-se junto de mim, enfiado no seu original vestuário que nem mesmo no deserto quisera mudar.

- Sir, acorde!

Ergui-me rapidamente e perguntei.

- Aconteceu alguma coisa?

- Hum, aconteceu!

- Mas o que foi?

- Desagradável!

- Explique-se, que sucedeu, atinai?

- Os cavalos não estão mais aí!

- Os cavalos? Escaparam?

- Não sei.

- Achavam-se no acampamento, quando iniciou o seu quarto?

- Yes!

- E o senhor fêz sentinela?

- Yes!

- Onde?

- Lá!

Apontava para uma pequena colina não pouco afastada das nossas tendas.

- Por que foi para lá?

- Talvez encontrasse ruínas - fowling-bull.

- E quando voltou deu pela falta dos cavalos?

- Yes!

Afastei-me, para examinar as estacas. As extremidades das cordas achavam-se ainda dependuradas; os animais haviam sido soltos por mãos estranhas.

- Os cavalos foram roubados!

Ele formou o conhecido paralelogramo com os delgados lábios e riu satisfeito.

- Yes! Por quem?

- Por ladrões, ora essa!

Seu semblante iluminou-se, mais contente.

- Very well, por ladrões - onde estão - como se chamam?

- Sei eu, acaso?

- No - eu também no - bem, muito bem! - aventura!

- O roubo ocorreu há menos de uma hora. Esperemos ainda uns cinco minutos e a claridade do dia nascente nos permitirá examinar os rastos.

- Bem - esplêndido! Foram caçadores da planície - achar rastos - perseguir - matar - divertidíssimo - pago bem, muito bem.

Foi à sua tenda fazer os preparativos que julgava necessários. Ao cabo de pouco tempo, aos clarões do sol nascente, reconheci as pegadas de seis homens e dei-lhe parte da minha descoberta.

- Seis? Quantos iremos?

- Dois bastam. Os dois restantes permanecerão aqui, no acampamento, e o vapor deve ficar ancorado até regressarmos.

- Yes! Ordenar isso e depois ir embora.

- Tem boas pernas para correr ou é necessário levar Bill?

- Bill? Bah! Para que venho eu ao Tigre? Aventura! Corro bem - corro como lebre!

Dadas as devidas instruções, levou ao ombro a carabina e seguiu-me. Devíamos alcançar os ladrões antes que se unissem ao bando de que faziam parte e por isso apressamos o mais possível o passo. As longas pernas do meu companheiro desempenhavam bem o recado; dava gosto vê-las em movimento.

Achávamo-nos na primavera; tínhamos sobre os pés um prado e não um deserto, pois, aqui e acolá, viam-se tufos de flores que dificultavam a marcha. Ainda não andáramos muito e já as nossas calças estavam manchadas com o pólem que se desprendera à nossa passagem. Graças à vegetação era fácil seguir os vestígios deixados pelos ladrões. Guiados por eles, chegamos finalmente à margem de um pequeno afluente que se originava no Djebel Djehennen. O ponto terminal do rastro estava pisoteado por patas de cavalo e uma nova pesquisa mostrou-me que, daí em diante, havia vestígios de dez em vez de seis cavalos. Dois dos seis ladrões tinham vindo a pé até o lugar em que nos achávamos e que servira de esconderijo aos seus cavalos.

Lindsay fêz um gesto de desagrado.

- Miseráveis - que aborrecimento!

- Por quê?

- Vão escapar!

- Donde conclui isso?

- Agora todos têm cavalos - e nós... a pé.

- Isso não quer dizer nada! Se o senhor agüentar eu ainda posso alcançá-los. Mas não é necessário gastar tantas energias. Tratemos de pensar com lógica!

- Pois então, pense!

- Essa gente encontrou o nosso acampamento?

- Hum!

- Talvez sim e talvez não. Creio, porém, que acompanharam, pela margem, o vapor que todas as noites ancorava. Se assim é, talvez o rasto nos conduza para oeste, pois eles hão de querer evitar a travessia de um rio caudaloso, com cavalos que não conhecem.

- Então vamos fazer um desvio?

- Sim. Provavelmente procurarão um lugar para passar a vau, seguindo depois a direção precedente.

- Bem, - muito bem!

Despiu a roupa e chegou-se para o rio.

- É também um bom nadador, sir?

- Yes!

- Aqui não se passa sem perigo, querendo conservar-se seca a roupa e as armas. Faça um turbante com as vestes!

- Bem - muito bem - vou fazer!

Dei-lhe o exemplo e, da melhor forma que pude, enrolei a roupa na cabeça; depois entramos n'água. O inglês era realmente tão bom nadador como dissera. Alcançamos sem novidade a outra margem e vestimo-nos novamente.

Lindsay entregou-se à minha direção. Corremos ainda umas duas milhas inglesas para o sul e tomamos depois o rumo do leste onde a elevação do terreno nos proporcionou larga perspectiva. Galgamos um morro e olhamos em torno. Não vimos nem uma viva alma.

- Nothing! - Nada - ninguém - miséria!

- Hum, eu também não vejo nada!

- Se se enganou - que fazer?

- Ainda temos tempo de os perseguir no riozinho. Nunca me roubaram um cavalo, impunemente; não descansarei enquanto não recuperar os quatro animais.

- Eu também.

- Não. O senhor cuidará de seus haveres.

- Bah! Se roubarem, comprar outros - pago bem - aventuras - muito bem.

- Psst! Não se move alguma coisa lá adiante?

- Onde?

- Lá!

Indiquei a direção. Abriu desmesuradamente a boca, os olhos e arqueou as pernas. Suas narinas dilataram-se - parecia que seu olfato era também dotado da faculdade de ver ou, então, de pressentir e farejar.

- Perfeitamente - eu também vejo!

- Vem em nossa direção.

- Yes! Se forem eles então mata todos!

- Sir, são homens!

- Ladrões! Devem morrer!

- Lastimo ter de deixá-lo.

- Deixar-me? Por quê?

- Defendo a minha pele quando sou atacado, mas não mato ninguém sem necessidade. Creio que o senhor é inglês!

- Well! Englishman - nobre - gentleman - não matarei - só tornar cavalos!

- Realmente, parece que são eles!

- Yes! Dez pontos - acertou!

- Quatro a pé e seis montados.

- Hum! Senhor bom caçador - teve razão - Sir John Raffley contou muita coisa - ficar comigo, pagar bem, - muito bem.

- Tem boa pontaria?

- Hum, sofrível!

- Então, venha. Recuemos um pouco para não sermos vistos. Nosso campo de operações será o trecho compreendido entre o morro e o rio. Há dez minutos para o sul a cadeia de montanhas aproxima-se tanto da água que não nos escapam.

O mais rapidamente possível, lançamo-nos ladeira abaixo, alcançando em breve o lugar que eu mostrara. O rio era orlado de juncos e bambus e, no sopé do monte, próximo da margem, viam-se mimosas e um pequeno capão de losna. Esconderijo não faltava.

- Que faremos? - interrogou o inglês.

- O senhor oculta-se aqui, entre os juncos, e deixa-os passar sem se mover. Na extremidade deste passo postar-me-ei eu, protegido pelas mimosas. Quando tivermos os ladrões entre nós dois, apareceremos. Só eu é que hei de atirar, porque saberei qual o instante oportuno. Valer-se-á da sua carabina unicamente quando eu o ordenar ou quando tiver a vida em perigo.

- Well - bem, muito bem - esplêndida aventura!

Desapareceu entre os juncos, e eu fui postar-me no lugar combinado. Pouco tempo depois, ouvimos o ruído das patas dos cavalos. Aproximaram-se e passaram diante de Lindsay, sem nada pressentir. Então o inglês saiu do seu esconderijo e eu saltei para o meio da estrada. No mesmo instante, contiveram os animais. Pronta para atirar tinha a minha Henry, trazendo a outra carabina a tiracolo.

- Salam aleikum!

A minha saudação de paz os deixou perplexos.

- Aleik - respondeu um deles. - Que fazes aqui?

- Espero pelos meus irmãos que me hão de auxiliar.

- Qual é o auxílio de que necessitas?

- Vês que estou a pé. Como poderei, assim, atravessar o deserto? Possuis quatro cavalos de sobra; não podias vender-me um, ao menos?

- Estes animais não estão à venda.

- Vejo que és um bom maometano. Não queres vender o cavalo porque pretendes fazer-me presente dele.

- Alá ilumine o teu entendimento! Não pretendo dar-te coisa alguma.

- O' tu, modelo de generosidade, gozarás intensamente as delícias do paraíso; pois, não um mas quatro cavalos receberei de ti.

- Allah kerim - Deus misericordioso! Este homem está realmente louco varrido.

- Lembra-te, irmão, que os loucos costumam tornar à força aquilo que se lhes nega! Olha para trás! Talvez concedas de boa mente àquele lá o que recusas a mim.

Finalmente, à vista do inglês, pôde ajuizar da situação em que se encontrava. Puseram as lanças em riste.

- Que quereis? - perguntou o meu interlocutor.

- Os cavalos que nos roubastes ao romper do dia.

- Homem, tu estás realmente doido! Se te tivéssemos roubado cavalos, como dizes, não nos alcançarias a pé.

- Achas? Esses quatro cavalos pertencem aos frankes que vieram pelo rio, de vapor. Imaginam, acaso, que os estrangeiros se deixam roubar impunemente e que são tão tolos como vós? Sabia que, ao chegardes à margem do rio, faríeis um desvio. Eu o atravessei a nado e cheguei primeiro, eis tudo. Deixaste-vos enganar, mas quero evitar derramamento de sangue, por isso, aconselho-vos que devolvam os cavalos roubados. Depois, podeis ir para onde vos aprouver.

Ele deu uma gargalhada.

- Sois só dois e nós seis!

- Perfeitamente. Faça cada um o que melhor lhe parecer.

- Afasta-te!

Enristou a lança, ornada com penas de avestruz, e avançou o cavalo. Levantei a carabina: um estampido e cavalo e cavaleiro estavam no chão. Em menos de um minuto, apontei e atirei cinco vezes mais. Todos os cavalos foram precipitados ao solo. Os nossos, porém, que eles haviam reunido, estavam ilesos. Aproveitamos os momentos de consternação que se seguiram para montar e fugir.

Atrás de nós ressoavam as imprecações dos árabes. Não fizemos caso delas. Concertamos o melhor possível as rédeas dos animais e galopamos, contentes pela vitória tão facilmente alcançada.

- Magnificent - admirável - bela aventura - vale mil libras! Nós, dois, eles, seis - roubaram-nos quatro, nós tomamos seis cavalos - esplêndido - soberbo! - exclamava Lindsay com a sua estropiada linguagem.

- Foi mesmo uma sorte que corressem tão bem as coisas, sir. Se os nossos cavalos tivessem se assustado, não teríamos podido afastar-nos tão rapidamente e nos pormos a salvo das balas.

- Seguimos adiante ou tornaremos um atalho?

- Seguimos em linha reta. Conhecemos os nossos animais; passaremos sem acidente.

Chegamos em pouco ao acampamento, para ver largar o vapor que nos trouxera, deixando-nos sozinhos no deserto.

A princípio Lindsay quisera levar muita bagagem e provisões; fi-lo, porém, mudar de idéia. Quem deseja conhecer bem uma terra deve aprender a limitar-se ao que ela lhe dá. Além disso, um cavaleiro só carrega consigo o que a própria montaria suporta. Munições, o mais importante, possuíamos em quantidade e dinheiro, o nobleman trazia o bastante para custear uma viagem de muitos anos.

- Agora estamos sozinhos, no Tigre - exclamou ele. - Procuremos fowling-bull e outras antigüidades!

O bom homem lera e ouvira falar a respeito das escavações feitas em Khorsabad, Kufjundschik, Hammum Ali, Nimrud, Keschaf e El Hather e alimentava a esperança de enriquecer o Museu Britânico com alguns achados, tornando-se, aos mesmo tempo, um homem célebre e conhecido.

- Agora, já? - perguntei. - É impossível!

- Por quê? Eu trago uma pá.

- Oh, com esse instrumento não poderá alcançar grande coisa. Aqui, quem quer fazer escavações, tem de se entender previamente com o governo...

- Governo? Que governo?

- Turco.

- Bah! Acaso Nínive pertenceu aos turcos?

- Evidentemente não, pois não havia turcos naquela época. Mas as ruínas lhes pertencem por se acharem em território turco, se bem que o sultão não seja muito acatado nessa região. Os verdadeiros senhores são, aqui, os nômades árabes e o explorador e investigador têm de pôr-se em relações amigáveis com eles para garantir a vida e a propriedade. Foi por isso que lhe aconselhei a compra de presentes para os chefes das tribos.

- As roupas de seda?

- Sim; são aqui muito procuradas e têm a vantagem de ocupar pouco espaço.

- Well, temos de travar relações amigáveis - e já, não?

Sabia que ele não realizaria escavação nenhuma, contudo, resolvera não tentar dissuadi-lo.

- Nada tenho a opor. Mas, antes de mais nada, é preciso saber a que xeque devemos nos dirigir.

- Diga o senhor!

- A tribo mais poderosa é El Chammar. Seus campos de pastagem estão situados no sopé meridional dos montes Sindschar, à margem esquerda do Thathar.

- A que distância estamos de Sindschar?

- A um grau de latitude.

- Muito longe! Quais são as outras tribos que existem por aqui?

- A dos Obeide, Abu-Salman, Abu-Ferhan e outras, mas é difícil determinar o seu paradeiro, porque são nômades. Costumam levantar acampamento assim que os seus rebanhos consomem o pasto que se encontra no campo. Demais, as tribos vivem em guerra contínua e sangrenta; evitam-se mutuamente o que contribui, não pouco, para os tornar errantes

- Boa vida - muitas aventuras - achar muitas ruínas - muito escavar - esplêndido - excelente!

- O mais acertado é penetrarmos deserto a dentro e perguntarmos aos primeiros beduínos com que toparmos, qual o acampamento árabe mais próximo.

- Bem - well - muito bem! Agora já, montar e perguntar!

- Podíamos ficar por aqui, hoje.

- Ficar e não escavar? Não - impossível! Levantar acampamento e ir embora!

Satisfiz-lhe a vontade, mormente depois de considerar prudente retirarmo-nos de um lugar onde tivéramos um tão mau encontro. Desarmamos as leves tendas que seriam carregadas pelos cavalos dos dois criados, montamos e partimos na direção do lago Sabakah.

Era esplêndido cavalgar pela estepe florida. A cada passo o cavalo esmagava folhas e pétalas que desprendiam agradável aroma. Nem as mais férteis savanas da América do Norte podem ser comparadas a essa região. O rumo que tomáramos parecia bem escolhido, pois ainda não andáramos uma hora, quando vimos vir ao nosso encontro, rédea solta, três cavaleiros. Era belo vê-los com os mantos e as penas de avestruz a ondular ao vento. Com altos brados de guerra aproximaram-se de nós.

- Que berros são estes? Vão atacar-nos? - perguntou o inglês.

- Não. É a saudação usual dessa gente. Quem se mostra atemorizado não é considerado um homem.

- Seremos homens!

Sustentou a palavra e nem pestanejou quando um dos árabes lançou-se sobre ele e lhe tocou o peito com a ponta aguçada da lança. Só desviou o cavalo no momento exato para não ser ferido.

- Salam aleikum! Para onde ides? - interpelou um.

- A que tribo pertences?

- A tribo dos Haddedin que faz parte da grande nação dos Chammar.

- Como se chama o teu xeque?

- Mohammed Emin.

- Acha-se ele distante daqui?

- Se quiseres vê-lo, acompanha-nos.

Voltaram e uniram-se a nós. Enquanto galopávamos gravemente - com os criados a seguir-nos na retaguarda - eles principiaram a descrever largos círculos em torno, para mostrar as suas artes de cavaleiros. Sua habilidade principal consiste em conter repentinamente o cavalo, no meio da carreira o que é, aliás, muito prejudicial ao animal. Na minha opinião um índio no seu mustang é muito mais ginete. O inglês gostou das escaramuças dos árabes.

- Magnificent! Hum, eu não poderia fazer isso - quebraria o pescoço!

- Eu já vi outros e mais exímios cavaleiros.

- Onde?

- Uma cavalgada de vida e morte no far-west americano, com o cavalo desferrado ou a correr sobre um rio gelado, por entre as rochas de um canhão, é bem outra coisa.

- Hum! Também irei para a América - cavalgar no far-west - sobre gelo - no canhão - bela aventura - admirável! O que disseram  eles?

- Saudaram-nos e perguntaram o destino da nossa viagem; vão conduzir-nos até a tenda do seu xeque. Chama-se Mohammed Emin e rege os destinos dos Haddedin.

- São valentes?

- Esses homens dizem-se todos valentes e, na verdade, até certo ponto não exageram. Também não é de admirar. A mulher faz todo o serviço enquanto o homem limita-se a andar a cavalo, fumar, roubar, guerrear, conversar e mandriar.

- Boa vida - esplêndida - queria ser xeque - muito escavar - achar fowling-bull e mandar para Londres - hum!

A medida que avançávamos tornavam-se mais freqüentes os encontros com árabes. O acampamento dos Haddedin devia estar próximo. Muitos ainda não haviam se instalado. Não é fácil descrever o curioso aspecto de uma tribo nômade em movimento. Já atravessara o Saara e uma parte da Arábia e tivera oportunidade de conhecer muitas tribos da Arábia ocidental; aqui, porém, oferecia-se um quadro um pouco diverso daqueles que vira. As mesmas diferenças que a Sagrada Escritura assinala entre os oásis do Saara e a “Terra de Sinear”: - Observa-se nos usos, na vida dos seus habitantes. Cavalgávamos num merdj (1) quase ilimitado, em nada semelhante a um uah (2) do ocidente. Mais parecia um tapete formado de lindas plantas multicores. Aqui jamais soprara o terrível simum e nem vestígio se via de uma duna movediça. Não se avistavam wadis íngremes e escalvados e, provavelmente, nessa região, a fada Morgana não acharia elementos para ludibriar o fatigado e solitário pegureiro. A vasta planície engalanara-se com perfumadas flores

 

(1) Campo, prado.

(2) Oásis.

 

e os homens haviam perdido a marca do deserto que trazem todos aqueles que habitam a oeste do Nilo. O vasto campo de variegadas cores em nada lembrava a imensidade monótona e tristonha do Saara.

Atravessávamos um rebanho de milhares de animais, ovelhas e camelos. Até onde a vista alcançava - à direita, à esquerda, adiante e atrás - ondeava um mar de côr acinzentada. Longas filas de bois e de burros passavam, carregados com tendas pretas, tapetes de cores vistosas, enormes panelas e não sei quanta coisa mais. Em cima dessas montanhas de objetos e utensílios, viam-se atados mulheres e homens inválidos. Por vezes, cruzávamos com cabecinhas de crianças que espiavam pela abertura dos sacos, carregados por um daqueles animais e equilibrados, do lado oposto, por cordeirinhos e cabritinhos que olhavam também de sua habitação ambulante e ocasional, balindo e berrando. Em seguida, vinham meninas vestindo apenas uma camisa árabe bem justa ao corpo; mulheres com os