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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


AUTOMÓVEL / Arthur Hailey
AUTOMÓVEL / Arthur Hailey

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

AUTOMÓVEL

 

O presidente da General Motors sentia-se colérico. Havia passado uma noite infernal porque o cobertor elétrico só funcionara de modo descontínuo, obrigando-o a se acordar várias vezes, tremendo de frio. Agora, depois de vagar de pijama e roupão pela casa, tinha espalhado ferramentas no lado que lhe cabia na espaçosa cama de casal onde a esposa ainda dormia, e estava desmontando o mecanismo de controle. Percebeu, quase que imediatamente, uma junção deslocada, responsável pelo intermitente funcionamento noturno. Resmungando irritado contra os fabricantes de controles de cobertor de má qualidade, o presidente da GM levou a peça para consertar na oficina do porão.

Coralie, a esposa, se remexeu. Dali a pouco o despertador ia tocar e se levantaria sonolenta para preparar o café dos dois.

Lá fora, na suburbana Bloomfield Hills, a quinze quilômetros ao norte de Detroit, tudo continuava escuro.

O presidente da GM — homem parcimonioso, dinâmico, de gênio normalmente sereno — tinha outro motivo de mau humor além do cobertor elétrico: Emerson Vale. Minutos antes, o rádio ligado baixinho ao lado da cama do chefe da GM transmitira um noticioso que incluía a voz detestada, adstringente e familiar do maior crítico da indústria automobilística.

Na véspera, numa entrevista coletiva com a imprensa em Washington, Emerson Vale tornara a bombardear seus alvos favoritos — a General Motors, a Ford e a Chrysler. Os serviços telegráficos de notícias, no mínimo devido à falta de matéria importante de outras procedências, tinham naturalmente dado o máximo destaque à dia­tribe de Vale.

As três grandes da indústria automobilística, acusava Emerson Vale, eram culpadas de “ganância, conluio criminoso e exploração da boa-fé pública em causa própria”. O conluio se resumia no contínuo fracasso em aperfeiçoar alternativas para carros movidos a gasolina — isto é, veículos acionados por eletricidade e a vapor — que, segundo Emerson Vale, “já são exeqüíveis”.

A acusação não constituía novidade. Mas Vale — tarimbado em relações públicas e jornalismo — havia conseguido interpolar material recente em quantidade suficiente para torná-la digna de ampla divulgação.

O presidente da maior corporação mundial, portador de diploma de engenheiro, consertou o controle do cobertor, da mesma maneira que gostava de fazer outros serviços em casa, quando dispunha de tempo. Depois tomou banho, barbeou-se, vestiu-se para ir ao escritório e foi tomar café com Coralie.

Um número do Detroit Free Press estava em cima da mesa da sala de refeições. Ao ver o nome e o rosto de Emerson Vale em destaque na primeira página, atirou o jornal com raiva no chão.

—  Puxa — disse Coralie. — Espero que  agora  você   se  sinta melhor.

Pôs um prato de dieta de colesterol diante dele — a clara de um ovo com torrada seca, fatias de tomate e requeijão. A esposa do presidente da GM sempre preparava o café da manhã pessoalmente, tomando-o junto com o marido, por mais madrugadora que fosse sua hora de partida. Sentando-se no lado oposto, apanhou o Free Press e abriu-o.

Não demorou muito, comentou:

—  O Emerson Vale diz que, já que temos competência técnica pra colocar homens na Lua e em Marte, a indústria automobilística devia ser capaz de produzir um carro totalmente seguro, à prova de defeitos, que não poluísse o meio ambiente.

O marido pousou a faca e o garfo.

— Será que você precisa estragar meu café, por frugal que seja?

Coralie sorriu.

— Eu tinha impressão que outra coisa já havia feito isso. —Continuou,  impassível: — O Mr. Vale cita a Bíblia pra falar na poluição do ar.

— Cristo! Onde que a Bíblia se refere a um negócio desses?

— Cristo não, meu bem.  Está no Antigo Testamento.

A curiosidade aguçada, ele resmungou:

— Está bem, leia de uma vez. De qualquer jeito você ia ler mesmo.

—  É de Jeremias — prosseguiu Coralie. — “E te conduzi a um pais fértil, para viver à custa de seus frutos e de seus bens; mas quando ali entraste, conspurcaste minha terra e transformaste meu patrimônio em abominação.” — Serviu mais café para ambos.  — Tenho que admitir que ele foi bastante sabido.

—  Nunca ninguém disse que esse canalha fosse burro.

Coralie continuou a ler em voz alta.

—  “As indústrias de automóvel e combustíveis, afirmou Vale, aliaram-se para entravar o progresso técnico que poderia, há muito tempo, ter resultado num carro elétrico ou a vapor eficaz. O raciocínio delas é simples. Um carro desse tipo anularia o enorme investimento de capital aplicado no motor de combustão interna que propaga a poluição.” — Baixou o jornal. — Isso tem algum fundamento?

— É óbvio que o Vale acha que sim.

—  Mas você não?

—  Lógico.

—  Sob hipótese alguma?

—  Às vezes — retrucou irritado, — há um resquício de verdade na declaração mais infame. É assim que gente que nem o Emerson Vale consegue parecer plausível.

—  Então você vai desmentir o que ele diz?

—  Provavelmente não.

—  Por quê?

—  Porque se a General Motors enfrentasse o Vale, seríamos acusados de ser um grande monólito esmagando um indivíduo. Se não retrucarmos, também seremos condenados, mas assim pelo menos não se corre perigo de truncarem nossas declarações.

—  Alguém não devia responder?

—  Se algum repórter inteligente conseguir entrevistar o Henry Ford, ele é bem capaz — o presidente da GM sorriu. — Só que o Henry vai ser veemente pra burro, e os jornais não publicarão todos os palavrões que ele soltar.

— Se eu ocupasse teu cargo — disse Coralie, — tenho impressão que daria alguma declaração. Isto é, se tivesse mesmo certeza de estar com a razão.

—  Obrigado pelo conselho.

O presidente da GM terminou o café, recusando-se a se deixar fisgar de novo pelas iscas da esposa. A conversa, porém, junto com a alfinetada que Coralie achava que de vez em quando lhe fazia bem, tinha ajudado a livrá-lo do mau humor.

Pela porta de comunicação com a cozinha, o presidente da GM escutou a chegada da empregada, o que significava que o carro e o chofer — que dava carona à moça — já estavam esperando lá fora. Levantou-se da mesa e se despediu da esposa com um beijo.

Poucos minutos mais tarde, logo depois das seis, seu Cadillac Brougham entrava na Telegraph Road, dirigindo-se à Perimetral Lodge e ao Centro novo da cidade. Fazia uma revigorante manhã de outubro, com um toque de inverno nas rajadas do vento nordeste.

Detroit, Michigan — a Cidade do Automóvel, capital mundial da indústria automobilística — começava a despertar.

Também em Bloomfield Hills, a dez minutos da casa do presidente da GM na marcha macia de um Lincoln Continental, um vice-presidente executivo da Ford preparava-se para sair a caminho do Aeroporto Metropolitano de Detroit. Já tinha tomado café sozinho. A governanta trouxera-lhe a bandeja na escrivaninha do gabinete suavemente iluminado onde, desde as cinco da manhã, alternara-se entre a leitura de memorandos (a maioria no papel azul especial de correspondência que os vice-presidentes da Ford usam no programa de adimplementos contratuais) e o ditado de enérgicas instruções a um gravador. Mal erguia os olhos, à aparição da bandeja ou para comer, enquanto realizava, no espaço de uma hora, o que muitos executivos levam um dia inteiro ou mais.

A maior parte das decisões que acabava de tomar dizia respeito à construção ou expansão de novas fábricas e implicava em gastos de vários bilhões de dólares. Uma das responsabilidades do vice-presidente executivo era aprovar ou vetar projetos e estabelecer prioridades. Certa vez perguntaram-lhe se essas decisões, sobre o destino de imensas riquezas, não o preocupavam. “Não” — respondeu, — “porque sempre corto mentalmente os três últimos algarismos. Dessa maneira não se sua mais do que pra comprar uma casa.”

A pronta resposta prática era típica do homem que se elevara, como um foguete, de humilde vendedor de automóveis a um dos doze supremos artífices da indústria. O mesmo processo, incidentalmente, o tornara multimilionário, embora se pudesse ponderar que o preço pago pelo sucesso e pela fortuna talvez significasse um despropósito para um ser humano.

O vice-presidente executivo trabalhava doze e às vezes quatorze horas diárias, invariavelmente num ritmo frenético, e geralmente o cargo lhe exigia os sete dias da semana. Hoje, num momento em que grande porcentagem da população ainda se achava na cama, ele estaria a caminho de Nova York, num Jetstar da companhia, utilizando o tempo da viagem para efetuar uma análise de mercado com seus assessores. Assim que o avião pousasse, presidiria uma reunião sobre o mesmo assunto com os gerentes regionais da Ford. Logo a seguir, enfrentaria um feroz debate com vinte vendedores de Nova Jersey que tinham reclamações a respeito de certificados de garantia e assistência técnica. Mais tarde, em Manhattan, compareceria ao almoço de uma convenção de banqueiros e pronunciaria um discurso. Logo após, seria questionado por repórteres numa entrevista coletiva destituída de formalidades.

No começo da tarde, o mesmo avião da companhia o traria de volta a Detroit, onde permaneceria em seu escritório atendendo horas marcadas e negócios de rotina até o momento do jantar. A certa altura da tarde, enquanto continuasse no trabalho, um barbeiro viria cortar-lhe o cabelo. O jantar — na cobertura do prédio, um andar acima do apartamento privativo da diretoria — incluiria uma discussão sobre novos modelos com os gerentes locais.

Mais tarde ainda, teria que passar pela Capela Mortuária William R. Hamilton para render homenagem a um colega de serviço, falecido na véspera, vitimado por uma oclusão coronária provocada por estafa. (A agência funerária Hamilton era de riguer para as grandes personalidades do mundo automobilístico que, ciosas da hierarquia até o último instante, ali se detinham a caminho do aristocrático Cemitério de Woodlawn, também conhecido como “Valhala dos Executivos”.)

Por fim o vice-presidente executivo iria para casa — com a pasta atulhada de papéis a serem examinados amanhã de manhã.

Agora, afastando a bandeja do café e recolhendo documentos, pôs-se de pé. A seu redor, nesse gabinete particular, as paredes estavam apinhadas de livros. De vez em quando — embora não hoje de manhã — passava-lhes uma olhada com certa nostalgia; houve época, anos atrás, em que lia bastante, de tudo um pouco, e poderia ter sido um intelectual, se a sorte orientasse sua vida noutra direção. Mas atualmente não dispunha de tempo para a leitura. O próprio jornal do dia teria que esperar pelo intervalo propício que lhe permitisse folheá-lo às pressas. Apanhou o jornal ainda dobrado como a governanta o deixara, e guardou-o na sacola. Só mais tarde se inteiraria da última diatribe de Emerson Vale, amaldiçoando-o intimamente, tal como fariam vários outros luminares da indústria automobilística antes que terminasse o dia.

No aeroporto, os assessores que deviam acompanhá-lo já se achavam na sala de espera do hangar dos Transportes Aéreos Ford. Sem perda de tempo, disse-lhes:

—  Vamos embora.

Os motores do Jetstar foram ligados assim que a comitiva de oito pessoas subiu a bordo e o aparelho rumou para a pista de decolagem, antes que o último a sentar tivesse tempo de afivelar o cinto de segurança. Só quem viaja em aviões particulares sabe o tempo que se economiza comparado com as linhas aéreas comerciais.

Contudo, apesar da rapidez, as pastas já estavam abertas no colo quando o jato alcançou a pista de decolagem.

O vice-presidente executivo iniciou a discussão.

—  Os resultados deste mês da Região Nordeste não satisfazem. Vocês conhecem as estatísticas tão bem quanto eu. Quero saber por quê. Depois quero que me digam o que foi feito.

Ao terminar de falar, estavam em pleno ar. O sol já se erguia no horizonte: um vermelho fosco, clarean­do aos poucos, entre tênues nuvens cinzentas.

Abaixo do Jetstar ganhando altitude, à luz da manhã, a vasta cidade espalhada e seus arredores iam ficando visíveis: o centro de Detroit, oásis de quase dois quilômetros quadrados, verdadeira Manhattan em miniatura; logo além, léguas monótonas de ruas, edifícios, fábricas, casas, perimetrais — a maioria coberta de sujeira: um sórdido burgo de trabalho sem verba para limpeza. A oeste, Dearborn, mais limpa, mais verdejante, confinando com o gigantesco complexo de fábricas do Rouge; em contraste, na extremidade leste, Grosse Pointes, cheia de arvoredos, bem tratada, reduto dos ricos; industrial e enfumaçada Wyandotte ao sul; Belle Isle, avolumando-se no Rio Detroit feito uma barcaça sobrecarregada verde-cinza. Do lado do Canadá, na outra margem do rio, a lúgubre Windsor, equiparável em matéria de feiúra ao que há de pior na sua irmã mais velha americana.

Em torno e através de todas, revelado pela luz do dia, rodopiava o tráfego. Em dezenas de milhares, que nem exércitos de formigas (ou minúsculos roedores, dependendo do ponto de vista do observador), operários de turnos, balconistas, executivos e outros rumavam para um novo dia de trabalho nas inúmeras fábricas, grandes e pequenas.

A produção diária de automóveis do país — controlada e orientada em Detroit — já tinha começado, o ritmo de rendimento constatado por uma gigantesca tabuleta Goodyear na confluência congestionada de carros das Perimetrais Edsel Ford e Walter Chrysler. Em algarismos de metro e meio de altura, e funcionando como um velocímetro descomunal, a fabricação de carros do ano corrente é registrada por minuto, com admirável precisão por meio de um sistema de informação de âmbito nacional. O total aumenta à medida que os carros completados saem das linhas de montagem disseminadas por todo O país.

Vinte e nove fábricas no fuso horário leste já se encontravam em operações, fornecendo dados. Em breve, os algarismos girariam mais depressa, quando mais treze fábricas de montagem entrassem em funcionamento no meio-oeste, seguidas por outras seis na Califórnia. Os motoristas locais conferem a tabuleta Goodyear assim como um médico tira a pressão arterial ou um corretor acompanha os resultados na bolsa de valores.

O manancial de produção de carros mais próximo da tabuleta era o da Chrysler — as oficinas Dodge e Plymouth em Hamtramck, a cerca de dois quilômetros de distância, onde mais de cem carros por hora começavam a afluir das linhas de montagem às seis da manhã.

Houve época em que o presidente em exercício da Chrysler era capaz de aparecer pessoalmente para assistir ao início da produção e verificar o acabamento do produto. Hoje em dia, porém, raramente o fazia, e nesta manhã ainda estava em casa, folheando o Walt Street Journal e tomando o café que a esposa lhe trouxera antes de sair para comparecer a uma reunião matutina da Associação de Artes Plásticas no centro da cidade.

Antigamente, o presidente da Chrysler (então apenas diretor recém-nomeado) vivia em grande atividade pelas fábricas, em parte porque a corporação, desanimada, em decadência, precisava de sua orientação direta, em parte porque estava resolvido a eliminar o rótulo de “guarda-livros” aplicado a todo elemento que subia por via das finanças em lugar de por meio do departamento de vendas ou técnico. A Chrysler, sob sua direção, tinha progredido a trancos e barrancos. Um longo ciclo de seis anos despertara a confiança dos investidores; o ciclo subseqüente fez bimbalhar os sinos de alarme financeiro; depois, mais uma vez, à custa de suor, drásticas medidas econômicas e esforço, o alarme diminuiu, o que causou comentários de que a companhia funcionava melhor em condições precárias ou adversas. De qualquer maneira, ninguém mais punha seriamente em dúvida que o pontiagudo Pentastar da Chrys­ler fosse permanecer em órbita — façanha, por si só, respeitável, levando o presidente atualmente a se apressar menos, pensar mais, e ler o que queria.

Neste momento estava lendo o último desabafo de Emerson Vale, que o Wall Street Journal também reproduzia, embora menos floridamente que o Detroit Free Press. Mas Vale o entediava. O presidente da Chrysler achou os comentários do crítico de automóveis repisados e sem originalidade, e depois de um momento passou às notícias imobiliárias, decididamente mais convincentes. Por enquanto quase ninguém sabia, mas nos últimos anos a Chrysler vinha-se dedicando a formar um império imobiliário que, ao mesmo tempo que diversificava a companhia, podia, no espaço de poucas décadas (pelo menos sonhava-se), converter a atual “número três” numa empresa tão grande ou maior que a General Motors.

Nesse entretempo, como o presidente confortavelmente sabia, os automóveis continuavam a jorrar das fábricas da Chrysler em Hamtramck e outros lugares.

Assim, as Três Grandes — como noutra manhã qualquer — se empenhavam em manter sua posição privilegiada, enquanto a American Motors, mais modesta, através de sua fábrica no norte de Wisconsin, acrescentava um tributário menor de Ambassadors, Hornets, Javelins, Gremlins e similares.

 

Numa fábrica de montagem de carros ao norte da Perimetral Fisher, o subgerente Matt Zaleski, encanecido veterano da indústria automobilística, sentia-se contente por hoje ser quarta-feira.

Não que o dia fosse estar isento de problemas urgentes e exercícios de sobrevivência — nenhum jamais estava. Logo mais à noite, como sempre, voltaria extenuado para casa, sentindo-se mais velho que seus cinqüenta e três anos, e convencido de que passara outro dia de sua vida dentro de uma panela de pressão. Matt Zaleski às vezes gostaria de poder recobrar a energia que tivera na juventude, tanto ao ingressar na produção de automóveis como quando servira de bombardeador na Força Aérea durante a Segunda Guerra Mundial. Às vezes também, ocorria-lhe, em retrospecto, que os anos passados na guerra — muito embora se encontrasse na Europa no próprio centro dos acontecimentos, contando com impressionante folha-corrida de combates — haviam sido menos cheios de crises que sua ocupação civil atual.

Nos poucos minutos de sua chegada ao escritório envidraçado na sobreloja da fábrica de montagem, enquanto tirava o casaco, já lançara um rápido olhar ao memorando tarjado de vermelho, em cima da escrivaninha — uma reclamação sindical que, notou imediatamente, provocaria a greve geral dos operários, se não fosse atendida com acerto e prontidão. Havia sem dúvida outras preocupações na pilha de papéis ao lado — novas dores de cabeça, inclusive carestias críticas de material (todos os dias havia uma), exigências do controle de qualidade, deficiências de mecanismo, ou algum enigma inédito e imprevisto, e bastaria apenas um deles para interromper a linha de montagem e cessar a produção.

Zaleski jogou sua figura corpulenta na cadeira da escrivaninha de metal cinzento, agindo com gestos curtos e bruscos, como sempre fazia. Ouviu o protesto da cadeira — um lembrete de seu crescente excesso de peso e da vasta barriga que atualmente ostentava. Pensou vexado: agora não poderia espremê-la na exígua cúpula do nariz de um B-17. Quisera que a preocupação lhe fizesse diminuir alguns quilos; em vez disso, parecia aumentá-los, principalmente desde que Freda falecera e a solidão noturna o impelia à geladeira, beliscando coisas, por falta de algo melhor a fazer.

Mas pelo menos hoje era quarta-feira.

Vamos por partes. Acionou o botão do interfone para o escritório geral; sua secretária ainda não tinha chegado. Um cronometrista atendeu.

— Quero falar com o Parkland e o representante do sindicato — ordenou o subgerente da fábrica. — Mande-os aqui em seguida .

Parkland era contramestre. E lá fora deviam saber perfeitamente a que representante do sindicato ele se referia porque estavam a par do memorando tarjado de vermelho em cima da escrivaninha. Numa fábrica, as más notícias se espalham feito gasolina incendiada.

A pilha de papéis — ainda intata, apesar de que em breve teria de enfrentá-la — lembrou a Zaleski os sombrios pensamentos que lhe tinham ocorrido sobre as várias causas capazes de interromper uma linha de montagem.

Interromper a linha, cessar a produção por qualquer motivo, equivalia a enfiar uma espada nas costelas de Matt Zaleski. A função do seu cargo, sua raison d’être pessoal, consistia em conservar a linha em andamento, com carros prontos a rodar na extremidade oposta, na proporção de um por minuto, por mais complicado que fosse ou que ele, às vezes, se sentisse que nem um malabarista com quinze bolas no ar ao mesmo tempo. Seus superiores não estavam interessados em atos de malabarismo, nem tampouco em desculpas. O que contava eram os resultados: as quotas, a produção diária, os custos de manufatura. Mas se a linha parasse, ele logo ficaria sabendo. Cada minuto de tempo perdido significava um carro inteiro não produzido, e a perda nunca seria recuperada. Desse modo, até uma pausa de dois ou três minutos custava milhares de dólares porque, enquanto a linha de montagem ficasse imobilizada, os salários e outras despesas continuariam vertiginosamente.

Mas pelo menos hoje era quarta-feira.

O interfone deu um estalo.

— Já estão a caminho, Mr. Zaleski.

Deu uma resposta lacônica.

O motivo de Matt Zaleski gostar das quartas-feiras era simples. Segunda ficava dois dias atrás e para sexta só faltavam mais dois.

Segundas e sextas, por causa das faltas, são os dias mais penosos para a administração das fábricas de automóveis. Toda segunda-feira o número de empregados diaristas que não se apresenta no serviço é maior do que em qualquer outro dia útil; a sexta-feira vem logo em segundo lugar. Isso se deve ao fato de que, depois da distribuição dos cheques de pagamento, geralmente na quinta-feira, muitos operários começam um longo fim de semana de bebedeiras ou drogas, e posteriormente a segunda-feira servir para recuperar o sono ou curar as ressacas.

Assim, nas segundas e sextas, outros problemas ficam eclipsados por esse imenso de manter a produção em andamento a despeito da escassez crítica de pessoal. Homens mudam de posição feito bolas de gude num intricado jogo chinês. Alguns se vêem removidos de tarefas a que estão acostumados e são colocados em trabalhos que nunca fizeram antes. Um operário que normalmente aperta parafusos de rodas pode encontrar-se ajustando guarda-lamas dianteiros, às vezes depois da instrução mais sumária ou então sem a menor explicação. Outros, tirados às pressas das mesas de trabalho ou serviços menos especializados — tais como carregar caminhões ou varrer — têm que pôr mãos à obra enquanto perduram as brechas. Às vezes adaptam-se rapidamente às funções provisórias; outras, são capazes de passar um turno inteiro instalando braçadeiras na mangueira de ar quente, ou algo parecido — de cabeça para baixo.

O resultado é inevitável. Vários carros das segundas e sextas-feiras terminam mal montados, autênticos legados imbuídos de problemas para futuros proprietários. Quem conhece o segredo, evita-os como carne deteriorada. Certos revendedores das grandes cidades, cientes do fato e com prestígio nas fábricas devido ao índice de vendas, insistem para que os carros comprados por pessoas importantes sejam montados nas terças, quartas ou quintas, e a clientela influente às vezes procura os grandes revendedores com essa finalidade. Os automóveis dos executivos de companhias e seus amigos são invariavelmente programados para um dos dias do meio da semana.

A porta do escritório do subgerente da fábrica abriu-se abruptamente. Parkland, o contramestre que mandara chamar, foi logo entrando sem se dar ao incômodo de bater.

Parkland tinha ombros largos e ossos grandes, e quase quarenta anos, cerca de quinze menos que Matt Zaleski. Poderia ter sido fullback de futebol se tivesse freqüentado a universidade. Ao contrário de muitos contramestres atuais, dava impressão de ser capaz de impor sua autoridade. Parecia também, nesse momento, estar à espera de encrenca e preparado para enfrentá-la. Sua expressão era carrancuda e Zaleski notou que havia uma contusão escura abaixo do osso molar direito.

Ignorando o modo brusco de entrar, Zaleski indicou-lhe uma cadeira.

—  Descanse um pouco e depois se acalme.

Encararam-se  por   cima  da escrivaninha.

—  Estou  disposto  a  ouvir sua versão dos   acontecimentos  — disse  o subgerente da fábrica, — mas não desperdice  tempo porque do jeito que está aí — apontou o relatório da reclamação tarjado de vermelho, — você nos preparou uma bela bomba.

—  Preparei uma ova! — Parkland fitou com ar feroz o superior; o rosto avermelhou acima da contusão. — Despedi um cara porque ele me deu um soco.  E tem mais. Não vou   aceitá-lo de volta, e se você tiver um pouco de peito ou noção de justiça, há de me apoiar.

Matt Zaleski elevou a voz ao tom retumbante que aprendera a usar no pavimento da oficina:

—  Acabe logo de uma vez com essa bobagem, porra! — não tinha a mínima intenção de perder o controle da situação. Mais razoável, resmungou:  — Eu pedi pra você se acalmar, e estava falando sério.  Quando for a hora, eu decido a quem hei de apoiar e por quê. E não quero mais saber de besteiras a propósito de ter peito e noção de justiça. Compreendeu?

Entreolharam-se fixamente. Parkland baixou os olhos primeiro.

—  Muito bem, Frank — disse Matt. — Pode começar, e desta vez conte tudo direito, desde o início.

Fazia muito tempo que conhecia Frank Parkland. A folha de serviços do contramestre era excelente e em geral sabia ser justo com os homens que trabalhavam sob suas ordens. Seria preciso algo excepcional para irritá-lo dessa maneira.

—  Havia  um serviço deslocado —  explicou  Parkland. —Era nos pinos da barra de direção, e o encarregado era esse rapaz;  ele é novo, me parece. Estava atrapalhando o colega do lado. Eu queria recolocar o serviço no lugar.

Zaleski aquiesceu. Isso acontece com bastante freqüência. Um operário com atribuição específica demora alguns segundos a mais na operação. À medida que carros sucessivos avançam na linha de montagem, sua posição muda gradativamente, de modo que em breve está invadindo a área da operação subseqüente. Quando um contramestre percebe, trata de auxiliar o operário a voltar ao lugar correto, primitivo.

—  Desembuche logo — disse Zaleski, impaciente.

Antes que pudessem continuar, a porta do escritório abriu outra vez e o representante do sindicato entrou. Era baixo, de fisionomia corada, com óculos de lente grossa e maneiras meticulosas. Chamava-se Illas e, até uma eleição sindical de poucos meses atrás, também tinha  trabalhado na linha de montagem.

—  Bom dia — disse ele a Zaleski.

Fez um brusco aceno de cabeça a Parkland, sem falar. Matt Zaleski indicou uma cadeira ao recém-chegado.

—  Estávamos justamente chegando ao âmago da questão.

—  O senhor pouparia tempo — retrucou Illas, — se lesse o relatório da reclamação.

—  Já li.  Mas às vezes gosto de ouvir ambas as partes.

Zaleski  incitou Parkland a prosseguir.

—  Tudo o que eu fiz — explicou o contramestre, — foi chamar outro cara e dizer: “Me ajude a botar o serviço deste homem em  posição.”

—  E eu digo que você é um mentiroso! — o representante do sindicato curvou-se, acusador, para a frente; depois virou-se  para Zaleski: — O que ele de fato disse foi: “botar o serviço deste moleque em posição.” E acontece que a pessoa a quem ele se referia, chamando de “moleque”  é  um dos nossos membros de cor pra quem  essa  palavra constitui termo pejorativo.

—  Ah, pelo amor de  Deus!  — a voz de  Parkland misturava raiva com repugnância. — Você acha que eu não sei disso? Acha que não ando por aqui o tempo suficiente pra saber que não se deve usar essa palavra nesse sentido?

—  Mas você usou, não usou?

— Talvez, pode ser que tenha usado. Não estou dizendo que não usei, porque não me lembro, essa é que é a verdade. Mas se por acaso usei, não foi por gosto. Foi sem querer, mais nada.

O representante do sindicato deu de ombros.

—  Isso é o que você está inventando agora.

—  Inventando porra nenhuma, seu filho da puta!

Illas levantou-se.

—  Mr. Zaleski, eu vim aqui em caráter oficial, representando a União dos Operários Automobilísticos. Se é essa  a espécie de linguagem. . .

—  Não vai haver mais isso — atalhou o subgerente da fábrica. —  Sente-se, por favor, e já que tocamos no assunto, sugiro-lhe que também não abuse da palavra “mentiroso”.

Parkland, com toda a força, deu um soco de frustração em cima da mesa.

—  Eu  disse que não era invenção minha,  e  não é. E tem mais. O cara de quem eu estava falando não deu a mínima bola pro que eu disse, ao menos antes de se armar todo esse escarcéu.

—  Não é o que ele diz — retrucou Illas.

—  Talvez agora não seja.   — Parkland  apelou  para  Zaleski. —  Escute aqui, Matt, o cara que estava fora da posição não passa de um fedelho.  Um pretinho, que não deve ter mais que dezessete anos.   Não  tenho  nada contra ele;  ele  é  lerdo,  mas estava fazendo o serviço dele.  Eu  tenho um irmão menor, da mesma idade. Chego em casa, pergunto: — “Onde anda o moleque?” Ninguém acha nada demais. Foi exatamente  o que  aconteceu   até que esse tal de Newkirk se intrometeu.

—  Mas você reconhece que usou   a palavra “moleque” — insistiu Illas.

—  Tá bem,  tá bem, ele usou — disse Matt Zaleski, exausto. —  Vamos partir desse pressuposto.

Zaleski estava se contendo, como sempre tinha de fazer quando surgiam questões raciais na fábrica. Seus próprios preconceitos eram arraigados, sobretudo contra negros; havia-os assimilado no subúrbio densamente povoado por poloneses de Wyandotte onde nascera. Ali, as famílias descendentes de imigrantes tratavam os negros com desprezo, considerando-os ineptos e encrenqueiros. A gente de cor, por sua vez, odiava os polacos, e mesmo atualmente, em toda a Detroit, inimizades antigas persistiam. A necessidade ensinara Zaleski a refrear seus instintos: não se pode dirigir uma fábrica onde há tanta mão-de-obra negra como esta e deixar que os preconceitos pessoais transpareçam, pelo menos não com muita freqüência. Agora mesmo, depois da última observação de Illas, Matt Zaleski se sentira tentado a atalhar: “E que é que tem que ele o chamasse de “moleque”? Que porra de diferença faz? Quando o contramestre dá uma ordem, o filho da mãe tem que voltar pro  batente.” Mas Zaleski sabia que esse tipo de comentário   se   espalharia   e   talvez   causasse   maiores   problemas ainda.   Em vez  disso, resmungou:

—  O que interessa é o que aconteceu depois.

—  Puxa — disse Parkland, — pensei que não chegaríamos mais lá.   Nós quase botamos o serviço de novo no lugar, e aí  então esse mastodonte de Newkirk se intrometeu.

—  É outro membro de cor — explicou Illas.

—  O Newkirk estava trabalhando bem no fim da linha.  Nem sequer ouviu o que aconteceu; alguém lhe contou.   Ele veio, me chamou de porco racista, e me deu um soco.

O contramestre apontou para o rosto contundido que inchara ainda mais desde que entrara.

—  Você reagiu? — perguntou logo Zaleski.

—  Não.

—  Menos mal que mostrou um pouco de juízo.

—  Mostrei, sim — disse Parkland.  — Despedi o Newkirk. Ali mesmo, na hora. Aqui  ninguém esmurra contramestres e o negócio fica por isso mesmo.

—  É o que veremos — retrucou Illas. — Muita coisa depende das circunstâncias e da provocação.

Matt Zaleski passou a mão pelos cabelos; havia dias em que se admirava de que ainda lhe restassem alguns. Toda essa situação podre era algo que McKernon, o gerente da fábrica, devia tratar, mas McKernon não se achava presente. A quinze quilômetros de distância, na sede da companhia, assistia a uma reunião sobre o novo Orion, o carro supersigiloso que a fábrica começaria a produzir brevemente. Às vezes, parecia a Matt Zaleski que McKernon já tivesse entrado em aposentadoria, passando seis meses oficialmente ausente.

Matt Zaleski agora estava cuidando do bebê, como já cuidara antes, e o negócio não era nada agradável. Zaleski nem sequer assumiria o posto de McKernon, coisa que não ignorava. Já haviam-lhe mostrado sua própria ficha oficial, a opinião que constava de um livro de folhas avulsas, encadernado em couro, que jazia permanentemente em cima da escrivaninha do vice-presidente do Manufaturamento. O livro ficava ali para o vice-presidente consultar-lhe as páginas toda vez que novos cargos ou promoções entrassem em cogitações. A inscrição de Matt Zaleski, junto com sua fotografia e outros dados, dizia: “Esta pessoa está bem colocada em seu nível de administração atual”.

Todas as figuras de importância na companhia sabiam que essa declaração formal e untuosa significava um “beijo de despedida”. Ela, de fato, queria dizer: Este sujeito subiu à máxima posição que lhe era possível. Provavelmente completará seu tempo de serviço no cargo atual, mas não receberá novas promoções.

Pelas normas, quem recebesse a fatídica anotação em seu dossiê tinha que ser informado; merecia ao menos essa consideração. E por esse motivo Matt Zaleski já sabia há vários meses que nunca passaria de seu posto atual de subgerente. A princípio a notícia constituíra uma amarga decepção, mas agora que se acostumara com a idéia, também descobrira o por quê: Era um traste velho, o último espécime de uma raça quase extinta, que a administração e as juntas de diretoria não queriam que ocupasse mais os supremos postos cruciais. Zaleski tinha subido por um caminho que poucos chefes de fábrica tomam hoje em dia — operário especializado, inspetor, contramestre, superintendente, subge­rente geral. Para começo de conversa, não possuía diploma de engenheiro, tendo largado o colégio antes da Segunda Guerra Mundial. Mas depois da guerra armara-se de um diploma, por meio de aulas noturnas e bolsas de pracinha, e desde então iniciara sua ascensão, sendo ambicioso, como a maioria da geração que havia sobrevivido à Festung Europa e outros perigos. Porém, conforme Zaleski reconheceu mais tarde, já tinha perdido muito tempo; suas verdadeiras oportunidades surgiram com irremediável atraso. Os fortes competidores, o material que supria os escalões superiores das companhias de automóveis — então como agora — eram jovens brilhantes que chegavam, inexperientes e ansiosos, pelo caminho direto da universidade rumo ao escritório da sede.

Mas isso não constituía motivo para que McKernon, que ainda era o chefe da fábrica, se esquivasse dessa situação toda, mesmo que involuntariamente. O subgerente hesitou. Estaria dentro de seus direitos se mandasse chamar McKernon, o que poderia fazer agora mesmo — bastava apanhar ó telefone.

Duas coisas o impediram. Uma, ele próprio o confessava, era o orgulho: Zaleski sabia que era capaz de tratar do caso tão bem, senão melhor, que McKernon. A outra: o instinto lhe advertia que simplesmente não dava tempo.

—  Que quer o sindicato? — perguntou abruptamente a Illas.

—  Bem,  eu conversei com o presidente  da nossa divisão regional. . .

— Vamos deixar isso de lado — atalhou. — Ambos sabemos que é preciso começar nalgum lugar, portanto, o que é que você quer?

—  Muito  bem  — retrucou  o representante  do  sindicato. — Nós  insistimos em  três coisas. Primeira: readmissão imediata do membro Newkirk, com indenização pelo tempo perdido. Segunda: um pedido de desculpas aos dois homens em causa. Terceira: o Parkland terá que ser destituído do posto de contramestre.

Parkland,queafundaranapoltrona,endireitou-sedeumsalto.

— Por Deus! Vocês não querem nada. — Inquiriu, sarcástico: —   Apenas  por uma questão de interesse: devo pedir  desculpas antes ou depois de ser despedido?

— O pedido de desculpas seria oficial, por parte da companhia — respondeu Illas. — Quanto a você ter o decoro de apresentar também o seu, fica a seu critério.

— Nem há dúvida que fica. Mas não vá ninguém prender a respiração à espera disso.

—  Se você tivesse prendido um pouco mais a sua — retrucou Matt Zaleski em  seguida, —  não estaríamos metidos nesta enrascada.

—  Você pretende me dizer que concorda com  tudo isso?

O contramestre apontou com raiva para Illas.

—  Por enquanto não  estou  dizendo nada a ninguém. Estou procurando pensar, e preciso de maiores informações do que as que vocês dois me deram.

Virou-se para apanhar um telefone. Interpondo o corpo entre o aparelho e os dois, discou um número e aguardou.

Quando o homem que ele queria atendeu, perguntou simplesmente:

—  Como vão as coisas por aí?

A voz do outro lado falou baixo.

— Matt?

— É.

No fundo da resposta cautelosa do outro, Zaleski escutou uma cacofonia de ruídos no pavimento das oficinas. Sempre se admirava de como era possível passar todos os dias da vida inteira no meio daquela balbúrdia. Mesmo nos anos em que ele próprio trabalhara numa linha de montagem, antes que a mudança para o escritório o resguardasse da maior parte do barulho, nunca conseguira  se habituar.

—  A situação está preta, Matt — disse o informante.

—  A que ponto?

—  Os ânimos estão fervendo. Não diga que fui eu que avisei, hem?

—  Você sabe que eu nunca faço isso — retrucou o subgerente da fábrica.

Havia girado parcialmente a cadeira e sabia que os outros dois observavam-lhe a fisionomia. Talvez adivinhassem, sem ter certeza, que estivesse falando com o contramestre negro Stan Lathruppe, um da meia dúzia de homens que Matt Zaleski mais respeitava na fábrica. Era uma relação estranha, inclusive paradoxal, pois fora da fábrica Lathruppe era militante ativo, já tendo sido adepto de Malcom X. Mas aqui levava suas responsabilidades a sério, acreditando que no mundo automobilístico poderia obter resultados mais positivos para sua raça através da razão do que pela anarquia. Era essa segunda atitude que Zaleski — de início hostil a Lathruppe — terminou, afinal, respeitando.

Infelizmente para a companhia, no atual estado de relações raciais, o número de contramestres ou gerentes negros era relativamente ínfimo. Deveria ser maior, muito maior, coisa que todo mundo sabia, mas de momento grande parte dos operários negros não queria responsabilidades, ou tinha medo de assumi-las, ou por causa de militantes jovens em seus quadros, ou por simplesmente não estarem prontos. Às vezes Matt Zaleski, em seus instantes menos preconceituosos, achava que, se os figurões da indústria tivessem tido a previsão que deveriam ter, iniciando um programa de treinamento valioso para operários negros nas décadas de 40 e 50, hoje em dia haveria maior número de Stan Lathruppes. Todo mundo saía perdendo com o fato de não haver.

— Que está sendo planejado? — perguntou Zaleski?

— Uma greve, acho eu.

— Pra quando?

— No mínimo pra hora do almoço. Talvez antes, mas não creio.

A voz do contramestre negro soava tão baixo que Zaleski precisava esforçar-se para ouvir. Conhecia o problema do outro homem, acrescido do fato de que o telefone que estava usando ficava junto da linha de montagem onde os demais trabalhavam. Lathruppe já tinha sido rotulado de “crioulo branco” por certos companheiros negros que ressentiam até que sua própria raça exercesse autoridade, e não fazia diferença que a acusação fosse inverídica. Com exceção de mais algumas perguntas, Zaleski não tinha a mínima intenção de tornar a vida de Stan Lathruppe ainda mais difícil.

—  Há algum motivo pro adiamento? — indagou.

—  Há.   O pessoal quer tomar conta da  fábrica toda.

— A coisa já se espalhou?

— Tão depressa que até parece que a gente ainda usa tambores que nem na selva.

— Ninguém frisou que o negócio todo é ilegal?

— Você conhece outra piada igual a essa? — perguntou Lath­ruppe .

—  Não. — Zaleski suspirou. — Mas obrigado. — Desligou.

Portanto seu primeiro pressentimento estava certo. Não havia tempo a perder, e não houvera desde o início, porque uma disputa racial trabalhista sempre queimava com pavio curto. Agora, se ocorresse uma greve, poder-se-ia levar dias até resolvê-la e botar todo mundo de novo a trabalhar; e mesmo que abrangesse apenas operários negros, e talvez nem todos, o efeito ainda seria suficiente para interromper a produção. O encargo de Matt Zaleski era manter a produção em andamento.

Como se Parkland lhe tivesse adivinhado os pensamentos, o contramestre insistiu:

—  Matt,  não se  deixe  levar   por eles!  Pode ser que  alguns larguem o emprego e a gente fique em apuros.  E daí? Às vezes vale a pena  lutar por um princípio, não vale?

—  Às vezes — disse Zaleski. — O problema é saber que princípio, e quando.

—  Ser justo é uma boa maneira de começar  — retrucou Parkland, — e a justiça funciona como uma balança. . .  pra cima e pra baixo. — Debruçou-se na escrivaninha, falando com ardor para Matt Zaleski, de vez em quando lançando um olhar a Illas, o representante do sindicato.  — Está certo, tenho sido duro com os caras da linha porque é preciso.  O contramestre fica no meio, aparando merda de todas as direções. Daqui de cima, Matt, você e o seu pessoal caem no pescoço da gente todo dia, exigindo produção,  produção, mais produção; e quando não  são vocês, é o Controle da Qualidade que manda; façam melhor, mesmo que a gente esteja fazendo mais rápido.  Depois tem os que estão trabalhando, fazendo os serviços. . . inclusive alguns como o Newkirk, e outros... e o contramestre tem que arcar com eles, e com o sindicato  também, se der um passo em falso,  e às vezes  até quando não dá. De modo que o negócio é duro, e eu tenho sido duro; é o jeito de sobreviver.   Mas também  tenho sido justo. Nunca tratei  um caraque  trabalhe pra mim de maneira diferente só porque seja negro, e não sou nenhum feitor de plantação de relho na mão.  Quanto ao que agora estamos discutindo, a única coisa que fiz. . . ao que dizem. . .  foi chamar um negro de “moleque”. Não lhe pedi pra colher algodão, mudar de lugar no ônibus, engraxar sapatos, ou qualquer outra coisa geralmente ligada a essa palavra. O que eu fiz foi ajudá-lo no serviço. E tem mais: se o chamei de “moleque”. . . sem querer, palavra de honra!. . . digo que sinto muito, porque sinto mesmo. Mas não peço desculpas ao Newkirk. O membro Newkirk fica despedido. Porque se ele não ficar, se se safar do soco que deu num contra-mestre sem motivo, é melhor você enfiar uma bandeira de rendiçãono rabo e dar adeus a qualquer tipo de disciplina aqui dentroapartirdehojeemdiante.Isso é o que eu entendo por ser justo.

—  Há um ou dois pontos aí  em que você tem razão — retrucouZaleski.Ironicamente,pensou,FrankParkland tinha sido justo com os operários negros, talvez mais  ainda do que muitos outros na fábrica.  Perguntou a Illas: — Que é que você acha de tudo  isso?

O representante do sindicato fez um olhar inexpressivo por trás dos óculos de lente grossa.

—  Já expus as condições do sindicato,  Mr.  Zaleski.

—  De modo que, se eu recusá-las, decidindo apoiar o Frank tal como ele acaba de me dizer que devo, que é que vai acontecer?

—  Seremos forçados a recorrer a outros expedientes de agravo — respondeu  Illas, inflexível.

—  Muito bem —  o subgerente da fábrica aquiesceu. — É uma prerrogativa que lhe cabe.  Só que, caso recorrermos a todos os trâmites de agravo, talvez leve trinta dias ou mais. Nesse meio tempo, todo mundo continua  trabalhando?

—  Naturalmente. O acordo de pacto coletivo especifica. . .

Zaleski  encolerizou-se.

—  Não preciso que você me lembre o que diz o acordo. Ele reza que todo mundo permanece no serviço enquanto se negocia. Mas neste instante uma boa  parte dos seus homens se  apronta pra largar o serviço em violação do contrato.

Pela primeira vez, Illas pareceu  contrafeito.

—  A UOA  não ampara greves ilícitas.

—  Então pare com esta,  porra!

—  Se o que o senhor diz é verdade, falarei com alguns membros.

—  Falar não adianta. Você sabe disso e eu  também.

Zaleski olhou para o representante do sindicato, cujo rosto corado empalidecera de leve; Illas,  obviamente,  não  estava  gostando da idéia de discutir com alguns dos militantes negros em vista dos ânimos atuais.

O sindicato — como Matt Zaleski, perspicaz, sabia — se achava num beco sem saída em situações desse gênero. Se deixasse de apoiar por completo seus associados negros, eles o acusariam de preconceito racial e de “lacaio da administração”. No entanto, se lhes prestasse apoio ostensivo, podia encontrar-se numa posição legalmente insustentável, como partícipe de uma greve fraudulenta. As greves ilícitas constituíam anátema para dirigentes da UOA como Woodcock, Fraser, Greathouse, Bannon, e outros, que tinham granjeado fama de intransigência nas negociações, mas de também honrarem acordos feitos e solucionar agravos através de processos normais. A ilegalidade aviltava a palavra do sindicato e solapava sua força  nas  transações.

— Ninguém vai agradecer a você na Casa da Solidariedade se nós deixarmos que a situação escape das nossas mãos — persistiu Matt Zaleski, — Só existe uma coisa capaz de impedir a greve: tomarmos uma decisão aqui, e depois ir lá embaixo pra anunciá-la.

— Depende da decisão — retrucou  Illas.

Mas era evidente que o representante do sindicato estava ponderando as palavras de Zaleski.

Matt Zaleski já tinha decidido sobre a solução que ia dar, e sabia que ninguém ia ficar totalmente satisfeito com ela, inclusive ele mesmo. Pensou com amargura: vivemos numa época horrível, em que um homem tem que guardar suas convicções no bolso junto com o amor-próprio — pelo menos se pretender manter uma fábrica  de automóveis em  funcionamento.

—   Ninguém  será  despedido — anunciou  bruscamente.   —O Newkirk volta  pro  serviço dele, mas daqui por diante vai usar os punhos pra trabalhar e mais nada. — O subgerente da fábrica fixou os olhos em Illas. — Quero que você e o Newkirk entendam claramente. . . se isso se repetir,  ele vai  pro olho da rua. E antes de recomeçar o trabalho, falarei pessoalmente  com  ele.

—  Ele receberá pagamento pelo tempo perdido?

O representante do sindicato tinha um leve sorriso de triunfo.

— Ele ainda está na fábrica?

— Está.

Zaleski hesitou, depois aquiesceu relutante.

— OK, desde que complete o turno. Mas não se  fala mais em ninguém  pra  substituir o Frank.   — Virou-se  paia  encarar Parkland. — E você faça o que disse que ia fazer. . . converse com o rapaz.  Diga-lhe que tudo não passou de mal-entendido.

—  Por outras palavras, peça-lhe desculpas — disse Iilas.

Frank Parkland  olhou  indignado  para ambos.

—  Ora, já se viu recuo mais sujo e miserável!

—  Tome cuidado com o que diz!   — advertiu Zaleski.

—  Cuidado uma ova! — O possante contramestre estava de pé, elevando-se sobre o subgerente da fábrica.  Cuspia as palavras em cima da escrivaninha que os separava.  — Você é que está tomando cuidado. . . sem querer enfrentar a situação porque é covarde demais,  porra, pra defender o que sabe que está direito.

O rosto vermelho feito pimentão, Zaleski  gritou:

— Não tenho que agüentar isso de você! Agora chega! Ouviu?

—  Ouvi — a voz  e  os olhos de Parkland estavam cheios de desprezo.  — Mas não gosto do que estou ouvindo, nem do cheiro que estou sentindo.

— Nesse caso, talvez prefira ser despedido!

— Talvez  — retrucou o contramestre. — Talvez o ar esteja mais limpo nalgum outro lugar.

Fez-se silêncio entre os dois.  Depois Zaleski resmungou:

— Não está, não. Tem dias que ele fede por toda a parte.

Agora que já desabafara, Matt  Zaleski recuperara o controle de si mesmo. Não tinha nenhuma intenção de despedir Parkland, sabendo que, se o fizesse, cometeria uma injustiça ainda maior que a primeira; de mais a mais, não é fácil encontrar bons contramestres. Parkland tampouco se demitiria espontaneamente, por mais que ameaçasse; Zaleski já contava com isso desde o começo. Acontece que sabia que Frank Parkland tinha obrigações com a família que tornavam indispensável a continuidade dos cheques de pagamento, além de muito tempo de serviços prestados à companhia para jogar fora daquele jeito.

Mas há pouco, a acusação de covardia que Parkland lhe fizera o tinha magoado. Houve um momento em que o subgerente da fábrica sentiu vontade de gritar que Frank Parkland era um pirralho remelento de dez anos quando ele, Matt Zaleski, andava suando em missões de bombardeio pelos céus europeus, jamais sabendo quando um naco pontudo de bateria antiaérea retalharia a fuselagem, picoteando-lhe depois horrivelmente as tripas, o rosto ou o pau, ou imaginando se o B-17F não iria cair de quase 8.000 metros de altitude, rodopiando em chamas até o chão, como muitos bombardeiros da Oitava Força Aérea faziam enquanto os colegas ficavam olhando. . . Portanto reflita bem sobre quem você está acusando de covardia, filhinho; e lembre-se de que sou eu, e não você, que tem de manter esta  fábrica  funcionando  direito,  por mais quantidade de bílis que seja obrigado a engolir!. . . Mas Zaleski não disse nada disso, sabendo que certas coisas que pensara tinham acontecido há muito tempo, não eram mais relevantes, e que as idéias e os valores haviam mudado de modo absurdo, confuso; e que também existiam diversos tipos de covardia, e que talvez Frank Parkland tivesse razão, pelo menos em parte. Com nojo de si mesmo, o subgerente da fábrica convidou os outros dois:

— Vamos lá embaixo resolver isso.

Saíram da sala — Zaleski à frente, seguido pelo representante do sindicato, com Frank Parkland, furioso e casmurro, à retaguarda. Ao descerem estrepitosamente a escada de metal que ligava o escritório da sobreloja ao pavimento das oficinas, o barulho ensurdecedor do trabalho atingiu-os em cheio, feito uma barragem de balbúrdia.

A escada, à altura do pavimento das oficinas, ficava próxima a uma seção da linha de montagem onde as partes iniciais eram soldadas em chassis, convertendo-se nas bases sobre as quais se assentariam os carros prontos. O fragor deste recanto era tão intenso que homens trabalhando a poucos metros de distância um do outro tinham que berrar, de cabeças unidas, para se comunicarem. Ao redor deles, chuvas de fagulhas voavam em todas as direções numa cortina pirotécnica de intenso azul-esbranquiçado. Saraivadas de máquinas de soldar e pistolas de rebitar eram pontuadas pelo assobio ininterrupto do plasma vital das ferramentas elétricas — o ar comprimido. E no centro de tudo, foco de atividades como o lento desfilar de uma divindade a exigir louvores, a linha de montagem locomovia-se palmo a palmo, inexoravelmente.

O representante do sindicato colocou-se ao lado de Zaleski quando o trio começou a percorrer a linha. Andavam consideravelmente mais rápido que a própria montagem, de modo que os carros por onde passavam ficavam progressivamente mais perto do acabamento. Agora cada chassi possuía seu grupo motopropulsor particular, e logo adiante uma carcaça de carroçaria estava prestes a assentar sobre um deles, no que os montadores de automóveis chamavam de “ato nupcial”. Os olhos de Matt Zaleski se desviaram para a cena, conferindo pontos-chaves da operação como sempre, instintivamente.

Cabeças se erguiam ou viravam, à medida que o subgerente da fábrica avançava pela linha em companhia de Illas e Parkland. Alguns cumprimentavam, mas não muitos, e Zaleski surpreendeu olhares carrancudos na maior parte dos operários por onde passavam, tanto brancos como negros. Sentiu a atmosfera carregada de ressentimento e agitação. Isso acontecia ocasionalmente nas fábricas, às vezes sem motivo, outras por causas insignificantes, como se uma erupção fosse, de qualquer forma, ocorrer e estivesse apenas à procura da válvula de escape mais próxima. Os sociólogos, ele sabia, a definiam como reação à monotonia desumanizante.

O representante do sindicato mantinha grave a expressão do rosto, talvez para indicar que privava da companhia da administração unicamente por dever, mas que não lhe agradava.

—  Que lhe parece — perguntou-lhe Matt Zaleski, — agora que você não trabalha mais na linha?

—  Ótimo — respondeu Illas, lacônico.

Zaleski acreditou. Forasteiros em visita às fábricas de automóveis geralmente supõem que os operários ali, com o tempo, se conformam com o barulho, o cheiro, o calor, a pressão inexorável e a repetição infinita do serviço. Matt Zaleski já tinha escutado turistas explicando aos filhos pequenos, como se falassem de animais de um jardim zoológico: — Eles todos se acostumam. A maioria vive contente com esse tipo de trabalho. Nem pensa em fazer outra coisa.

Quando ouvia isso, sempre lhe dava vontade de gritar: — Crianças, não acreditem! É mentira!

Zaleski, a exemplo da maior parte dos que conhecem intimamente as fábricas de automóveis, sabia que quase ninguém que trabalhe nas linhas de produção das oficinas por longos períodos tenciona fazer dessa ocupação o objetivo de uma vida inteira. Normalmente, ao ser contratado, o operário considera o cargo como provisório, enquanto não surge algo melhor. Mas para muitos — sobretudo os de pouca instrução — o cargo melhor fica sempre fora de alcance, uma eterna quimera. Com o correr do tempo, arma-se a cilada. É uma faca de dois gumes, com os compromissos pessoais de um lado — o casamento, os filhos, o aluguel, as prestações de pagamento — e do outro, o fato de que o salário na indústria automobilística é elevado em comparação com outras espécies de emprego.

Mas nem o salário nem as vantagens laterais são capazes de alterar a natureza lúgubre, desanimadora do serviço. Grande parte dele é fisicamente árdua, mas o pior tributo cobrado é o mental — horas e horas a fio, dia após dia, de ensurdecedora monotonia. Eaíndoledotrabalhoprivaoindivíduodequalquervaidade. A linha de produção não oferece oportunidades de sensação de êxito; seus participantes nunca fazem o carro; apenas montam, ou juntam, peças — acrescentando uma arruela a um pino, apertando uma tira de metal, colocando uma série de parafusos. E é sempre o mesmo tipo de arruela, de tira, de série de parafusos, sempre, sempre, sempre, sempre, sempre, sempre, sem cessar, enquanto as condições de trabalho — inclusive o excesso de barulho — tornam a comunicação difícil, a relação de amizade entre indivíduos impossível. Com o passar dos anos, muitos, embora detestando, se conformam. Alguns sofrem colapsos mentais. Quase nenhum gosta do trabalho que executa.

Assim, a ambição do operário da linha de produção, tal como a do prisioneiro, concentra-se na fuga. As faltas são uma maneira parcial de fugir; a greve também. Ambas provocam entusiasmo, uma ruptura na monotonia — de momento, a tendência predominante.

Mesmo agora, o subgerente da fábrica percebia, talvez fosse impossível subjugar essa tendência.

—  Lembre-se — avisou a Illas, — fizemos um trato. Agora eu quero que  esse  negócio se  resolva  de  uma vez por todas.  —  O representante  do sindicato não retrucou, e Zaleski prosseguiu: — Hoje devia ser um dia de alegria pra você. Conseguiu tudo o que queria.

—  Nem tudo.

—  Pelo menos o que interessava.

Esse breve diálogo ocultava um fato comprovado que ambos conheciam: um dos caminhos de fuga da linha de produção que certos operários escolhem é por meio de eleição a um posto de tempo integral no sindicato, com possibilidade de subir nos quadros da UOA. O próprio Illas, recentemente, havia tomado esse caminho. Mas uma vez; eleito, o representante sindical torna-se uma figura política; para sobreviver, precisa ser reeleito, e no intervalo das eleições maquinar feito político cortejando favores dos cabos eleitorais. Os operários que cercam o representante sindical são seus votantes, e ele se empenha em agradá-los. Mas agora enfrentava esse problema.

— Onde está o tal Newkirk? — perguntou-lhe Zaleski.

Tinham chegado ao ponto da linha de montagem onde ocorrera a explosão de ânimos matutina.

Illas acenou na direção de uma área aberta, com várias mesas e cadeiras revestidas de plástico, onde os operários da linha faziam refeições nas pausas de trabalho. Havia uma banca de vendedoras automáticas para café, refrigerante e caramelos. No chão, uma faixa pintada servia de limite circundante. O único ocupante à vista de momento era um negro corpulento, de proporções enormes; saía fumaça do cigarro que segurava na mão enquanto observava o trio que acabava de chegar.

— Muito bem — disse o subgerente da fábrica, — diga a ele pra voltar pro trabalho, e não se esqueça de explicar tudo direitinho. Quando terminar de falar, mande-o pra cá.

—  OK — respondeu Illas.

Cruzou a faixa pintada e estava sorrindo ao sentar na mesa do homenzarrão.

Frank Parkland já se encaminhara diretamente a outro negro mais jovem, ainda trabalhando na linha, e agora falava-lhe com toda a seriedade. A princípio o rapaz pareceu contrafeito, mas logo em seguida sorriu timidamente e aquiesceu com a cabeça. O contramestre tocou-lhe no ombro e apontou para o lado de Illas e Newkirk, ainda na mesa da área de refeições, as cabeças juntas. O jovem operário da montagem tornou a sorrir. O contrameste estendeu-lhe a mão; depois de hesitar brevemente, o jovem aceitou-a. Matt Zaleski ficou pensando se teria sido capaz de resolver a parte de Parkland de modo tão airoso ou tão bem.

—  Oi, chefe!

A voz partia da extremidade oposta da linha de montagem. Zaleski virou-se.

Era um inspetor de remates internos, veterano no setor, criatura raquítica, com um rosto que lembrava extraordinariamente o de Hitler. Os colegas, inevitavelmente, o apelidavam de Adolf e, como que aprovando a piada, o empregado — cujo verdadeiro nome Zaleski nunca conseguia lembrar — até penteava o cabelo curto caído sobre um olho.

—  Oi, Adolf! — o subgerente da fábrica atravessou para o outro lado da linha, pisando com cuidado entre um conversível amarelo e um sedan verde-claro. — Como está a qualidade das carroçarias hoje?

—  Já houve dias piores, chefe. Lembra-se do Campeonato Nacional de Beisebol?

—  Nem me fale.

A época do Campeonato Nacional de Beisebol e os dias de abertura da temporada de caça em Michigan eram períodos temidos pelos homens da produção de automóveis. A falta de mão-de-obra chegava ao auge; os próprios contramestres e supervisores não compareciam ao trabalho. A qualidade caía verticalmente, e por ocasião do Campeonato de Beisebol a situação ainda piorava porque os empregados prestavam mais atenção aos rádios portáteis que ao serviço. Matt Zaleski se lembrava de que no momento culminante do Campeonato de 1968, ganho pelos Detroit Tigers, ele tinha comentado sombriamente com a esposa, Freda — foi no ano anterior à morte dela — “Hoje eu não gostaria que fizessem um carro nem pro meu maior inimigo.”

—  Em todo caso, este especial aqui está em ordem — Adolf (ou seja lá qual fosse seu nome)   havia  saltado agilmente para dentro e para fora do sedan verde. Agora, voltava a atenção para o carro seguinte: um compacto esporte laranja claro com assentos brancos dobradiços. — Aposto como este é pra uma loura — gritou Adolf do interior do carro. — E bem que eu queria ser o felizardo que vai trepar com ela aqui dentro.

—  Você já tem um trabalho mole — retrucou  Matt Zaleski, também aos berros.

—  Eu ficaria mais mole depois dela.

O inspetor saiu, cocando o pau com uma cara safada: o humor nas oficinas raramente era requintado.

O subgerente da fábrica também sorriu, sabendo que era um dos poucos contatos humanos que o operário teria durante seu turno de oito horas.

Adolf entrou noutro carro, verificando o interior. Tinha fundamento o que Zaleski dissera momentos antes: um inspetor de fato fazia um serviço mais mole do que a maioria dos outros na linha e em geral o conseguia por antiguidade. Mas o cargo, que não incluía pagamento extra e não lhe dava nenhuma autoridade verdadeira, possuía suas desvantagens. Se um inspetor fosse consciencioso e chamasse atenção para todo trabalho mal feito, despertava a ira dos colegas que podiam tornar-lhe a vida miserável de várias maneiras. Os contramestres, ainda por cima, tratavam com menosprezo os inspetores que considerassem excessivamente zelosos, ressentindo tudo que atrasasse seu setor especial de produção. Todos os contramestres sofrem pressão dos superiores — inclusive de Matt Zaleski — para cumprir as quotas de produção, e um contramestre pode, como muitos fazem, rejeitar a opinião de um inspetor. Numa fábrica de automóveis é comum ouvir-se o contramestre resmungar: “Deixa pra lá”, enquanto uma peça de equipamento ou  acabamento inferior avança pela linha afora — para ser às vezes percebida pelo Controle de Qualidade, mas com mais freqüência não.

Na área reservada às refeições, o representante sindical e Newkirk levantavam-se da mesa.

Matt Zaleski virou-se para a linha; qualquer coisa no sedan verde, agora diversos carros à frente, despertou-lhe o interesse. Decidiu examinar aquele carro mais minuciosamente antes que saísse da fábrica.

Também mais adiante na linha avistou Frank Parkland perto do seu habitual posto de contramestre; provavelmente havia reassumido o serviço, supondo que sua parte na pendência já solucionada estivesse terminada. Bem, Zaleski acreditava que sim, embora desconfiasse que o contramestre teria maiores dificuldades, a partir de agora, para manter a disciplina quando fosse preciso. Mas, que diabo! — todo mundo tem seus problemas. Parkland teria que arcar com o dele.

Enquanto Matt Zaleski atravessava de novo a linha de montagem, Newkirk e o representante do sindicato vieram a seu encontro. O negro caminhava com ar displicente; de pé, parecia ainda maior do que antes na mesa. Os traços do rosto eram grandes e salientes, combinando com a constituição física, e ele estava sorrindo.

— Comuniquei ao  membro Newkirk — anunciou  Illas, — a decisão que obtive pra ele. Ele  concorda em voltar ao trabalho, subentendendo que será indenizado pelo tempo perdido.

O subgerente da fábrica aquiesceu; não tinha a mínima intenção de desmerecer a glória do representante do sindicato, e já que Illas queria converter aquela briga insignificante numa batalha de proporções históricas, não seria Zaleski quem iria objetar. Mas advertiu, veemente, a Newkirk:

— Pode tirar o sorriso da cara. Não há nada de engraçado. — Perguntou a Illas: — Você não lhe disse que vai ser ainda menos engraçado da próxima vez que isso se repetir,

— Ele me disse o que tinha que  dizer — retrucou Newkirk. — Isso não vai se repetir mais, desde que não haja motivo.

— Você é bastante atrevido, hem? — disse Zaleski. — Considerando-se que acaba de ser despedido e readmitido.

— Atrevido não, invocado! — O negro fez um gesto que abrangia Illas. — Isso é uma coisa que todos vocês, sem exceção, nunca hão de entender.

— Eu  também posso ficar invocado pra burro com as brigas que atrapalham esta fábrica — revidou Zaleski logo.

— Não com a mesma convicção. Uma coisa que queima, uma fúria.

— Não me provoque. Senão sou capaz de lhe provar o contrário.

O outro sacudiu a cabeça. Para alguém tão descomunal, a voz e os movimentos eram surpreendentemente delicados; só os olhos ardiam — um cinza-esverdeado intenso.

— Homem, você não é negro, não sabe o que isto significa: a fúria, a raiva. É um milhão de alfinetes filhos da puta fincando na gente desde o dia que se nasce até que um branco sacana chame a gente de “moleque” e aí o caldo entorna.

— Ei, que é isso? — reclamou o representante do sindicato, O negócio já está resolvido. Não precisa recomeçar tudo outra vez.

Newkirk não quis conversar.

— Cale o bico!

Conservou os olhos fixos, desafiante, no subgerente da fábrica.

Não era a primeira vez que Matt Zaleski se perguntava: Será que todo mundo que anda por aí enlouqueceu? Para pessoas como Newkirk e milhões de outras, inclusive a própria filha de Zaleski, Barbara, parecia um credo básico que tudo o que antes importava —  a autoridade, a ordem, o respeito, o decoro moral — não mais contava de nenhum modo reconhecível. A insolência era a norma — do tipo que Newkirk usava na voz e agora nos olhos. Expressões típicas constituíam uma parte integrante disso: a fúria e a raiva convicta de Newkirk eram permutáveis, dava impressão, com centenas de outras como brecha entre gerações, ligado, amarrado, barato, alienado, a maioria das quais Matt Zaleski não compreendia e — quanto mais ouvia — não queria compreender. As mudanças que hoje em dia não conseguia acompanhar nem realmente entender, o deixavam exausto e desanimado.

De maneira estranha, neste momento, viu-se comparando a enorme negro Newkirk com Barbara — que era bonita, tinha vinte e nove anos, nível universitário, e branca. Se Barbara Zaleski estivesse agora aqui, automática, inevitavelmente, tomaria o partido de Newkirk, e não o do pai. Puxa vida! gostaria de ter metade da certeza que tinham.

Cansado, apesar de estarem apenas no início da manhã, e nada convencido de ter resolvido a situação do jeito que devia, Matt Zaleski ordenou bruscamente a Newkirk:

—  Volte pro seu trabalho.

Depois que Newkirk se afastou, Mas disse:

— Não vai haver greve. Já estão espalhando por aí.

— Que esperam que eu faça? Que agradeça? — perguntou Zaleski irritado. — Por não ter sido currado?

O representante do sindicato deu de ombros e foi embora.

O sedan verde-claro que despertara a curiosidade de Zaleski já ia bem longe na linha. Apressando o passo, o subgerente da fábrica o alcançou.

Conferiu os papéis, inclusive as especificações e prazo de entrega, num papelão dobrado e pendurado na grade do radiador. Como já suspeitara, além de “especial” — um carro que recebia atenção mais meticulosa que a rotineira — também se destinava a um “amigo do contramestre”.

Um carro destinado a um “amigo do contramestre” era algo muito especial. Era também ilícito em qualquer fábrica e, neste caso, equivalia a várias centenas de dólares de desonestidade. Matt Zaleski, que possuía o dom de armazenar preciosos detalhes de informação para mais tarde unir todos juntos, fazia mais do que uma idéia perspicaz de quem poderia estar envolvido com o sedan verde-claro, e por quê.

O carro se destinava ao relações públicas de uma firma. As especificações oficiais eram espartanas e incluíam poucos, para não dizer nenhum, itens extras. No entanto o sedan estava (como diziam os automobilistas) “carregado” de itens especiais. Mesmo sem inspecionar minuciosamente, Matt Zaleski notou um volante de direção de luxo, pneus de lona branca de qualidade excepcional, rodas de aço de gosto apurado, vidros rayban, e toca-fitas estereofônico, nenhum dos quais constava das especificações que segurava na mão. Parecia, ainda por cima, que o carro havia recebido uma camada dupla de pintura, o que aumentava a durabilidade. Fora esse último item que despertara a atenção de Zaleski anteriormente.

A explicação quase-certa encaixava com vários fatos que o sub­gerente já conhecia. Duas semanas atrás, a filha de um contramestre veterano na fábrica tinha casado. Por pura consideração, o relações públicas, a quem o carro se destinava, conseguira publicidade, fazendo estampar as fotografias nupciais com destaque nos jornais de Detroit e cidades vizinhas. O pai da noiva ficou encantado. O fato fora amplamente comentado no recinto da fábrica.

O resto era fácil de imaginar.

O relações públicas decerto descobrira antecipadamente o dia em que seu carro estaria marcado para produção.  Aí então telefonou a seu amigo contramestre, que sem dúvida se incumbiu de providenciar para que o sedan verde-claro recebesse atenções especiais durante toda a montagem.

Matt Zaleski sabia o que tinha de fazer. Precisava confirmar suas suspeitas, mandando chamar o referido contramestre, e depois redigir um relatório ao gerente da fábrica, McKernon, a quem não restaria outra alternativa senão agir de imediato. A partir daí, haveria dezessete espécies de diabo às soltas, atingindo — por causa do relações públicas envolvido — os escalões mais altos da companhia.

Matt Zaleski sabia também que não faria nada disso.

Já bastavam os problemas que tinha. A encrenca Parkland-Newkirk-Illas, por exemplo; e a essas horas, inevitavelmente, outros aguardavam sua decisão lá em cima no escritório envidraçado da sobreloja, junto com os que encontrara em cima da mesa ao chegar — que, conforme se lembrou, ainda não examinara.

No rádio de seu carro, ao vir de Royal Oak para o trabalho mais ou menos uma hora atrás, havia escutado Emerson Vale, o crítico de automóveis que Zaleski considerava um imbecil, disparando novas cargas de chumbo grosso contra a indústria. Na ocasião, como agora, Matt Zaleski teve vontade de instalar Vale por uns dias num posto explosivo da produção, para que o filho da puta descobrisse o que era realmente preciso, em termos de esforço, aflição, compromisso e exaustão humana para conseguir aprontar um único carro.

Matt Zaleski afastou-se do sedan verde-claro. Ao administrar-se uma fábrica, é necessário reconhecer o momento em que certas coisas têm que ser ignoradas. Esse era um deles.

Mas pelo menos hoje era quarta-feira.

 

Às sete e meia da manhã, quando dezenas de milhares de pessoas na Grande Detroit já estavam de pé há horas, e trabalhando, outras — seja por querer ou pela natureza do próprio serviço — ainda continuavam dormindo.

Uma que permanecia por querer era Erica Trenton.

Na espaçosa cama provençal francesa, entre lençóis de cetim que se amoldavam macios à rija superfície de seu corpo juvenil, jazia acordada, mas deixando-se embalar de novo pelo sono, sem a menor intenção de levantar por mais duas horas  no mínimo.

Letárgica, apenas semiconsciente de seus pensamentos, sonhava com um homem. . . nenhum determinado, simplesmente uma figura vaga. . . excitando-a sexualmente, introduzindo nela até o fundo — mais! mais. . . como o próprio marido não fazia há três semanas, pelo menos, e provavelmente um mês.

Enquanto deixava-se levar, como numa maré que aos poucos fosse subindo entre a completa lucidez e a volta ao sono, Erica refletia que nem sempre dormira até tão tarde assim. Nas Baha­mas, onde tinha nascido e morado antes do casamento com Adam cinco anos atrás, muitas vezes acordava antes do amanhecer, ajudando a arrastar um escaler para dentro d’água, manobrando depois o motor quando o pai se punha a pescar e o sol surgia no horizonte. O pai gostava de peixe fresco no café da manhã e, nos últimos anos que passara em casa, era Erica quem os cozinhava ao regressarem.

Durante os primeiros tempos do casamento, em Detroit, observara o mesmo costume, levantando-se cedo com Adam e preparando o café que tomavam juntos — ele todo animado e ruidosamente apreciativo do  talento natural  de  Erica para  a  cozinha, que ela usava com imaginação, mesmo nas refeições mais simples. Por sua própria vontade, não tinham empregada que pernoitasse no serviço, e Erica conservava-se ocupada, sobretudo depois que os filhos gêmeos de Adam, Greg e Kirk, internos num colégio das imediações, começaram a passar a maior parte dos fins de  semana e férias  em casa.

Foi nessa época que se preocupou com sua aceitação dos garotos — Adam havia-se divorciado da mãe deles no começo daquele ano, apenas alguns meses antes de conhecer Erica e do iníciodeseubreve namoro a jato. Erica, porém, logo fora aceita por Greg e Kirk — inclusive com gratidão, pelo jeito, pois ambos poucotinhamvistoos pais nos vários anos precedentes. Adam viviaimersonotrabalhoeFrancine,amãe dos pequenos, viajava freqüentemente para o estrangeiro, como ainda fazia. Além disso, Erica estava mais perto da idade dos garotos: mal completaravinteeumanos,Adamtendo dezoito a mais do que ela, apesar de que a diferença de idades não desse impressão de importar.Claro que a distância de idade entre Adam e Erica continuava a mesma, só que hoje em dia — cinco anos mais tarde — parecia maior.

Um motivo, obviamente, era que a princípio os dois se devoraram sexualmente. Fizeram amor pela primeira vez — tempestuosamente — numa praia enluarada das Bahamas. Erica ainda lembrava: a noite quente, perfumada de jasmins, a areia branca, o suave marulho das ondas, a brisa agitando' as palmeiras, a música que vinha de um iate iluminado nó porto de Nassau. Conheciam- se há poucos dias. Adam estava em férias — frutos do divórcio — em casa de amigos em Lyford Cay, que o apresentaram a Erica num lugar noturno de Nassau, o Charley Charley's. Passaram todo o dia seguinte juntos  e os subseqüentes também.

A noite na praia não era a primeira que iam ali. Mas nas ocasiões anteriores ela resistira a Adam; agora, sabia, não podia mais resistir — apenas balbuciou, indefesa: — Posso ficar grávida.

— Você vai casar comigo — murmurou ele. — De modo que não faz mal.

Não ficara grávida — e quantas vezes depois lamentou não ter ficado.

Apartirdaí,atéadatadocasamento um mês mais tarde, fizeram amor com freqüência e com paixão — quase infalivelmente todas as noites, consumindo-se de novo ainda mais (mas, ah, de que forma mais gloriosa) ao despertar de manhã. Mesmo ao voltar para Detroit, as relações noturnas e  matinais   persistiram a despeito de Adam ter que levantar cedo para o trabalho, detalhe que Erica rapidamente descobriu que fazia parte da vida de um executivo da indústria automobilística.

Mas à medida que os meses corriam e, posteriormente, durante os primeiros anos, a paixão de Adam diminuía. Pois ambos jamais poderiam manter o frenético ritmo inicial — isso Erica compreendia. O que não esperava, porém, era que o declínio fosse tão prematuro assim, ou quase tão completo. Ela se deu, indiscutivelmente, mais conta da mudança devido ao decréscimo das outras atividades. Greg e Kirk agora pouco apareciam em casa, tendo trocado Michigan pela faculdade — Greg indo para Colúmbia, a caminho de se formar em medicina; Kirk para a Universidade de Oklahoma, a fim de estudar jornalismo.

Continuava deixando-se levar. . . Ainda não totalmente adormecida. A casa, perto do Lago Quarton, no subúrbio de Birmingham, na zona norte, estava silenciosa. Adam já tinha ido embora. Como a maioria das figuras importantes da indústria automobilística, encontrava-se sentado à sua escrivaninha às sete e meia, completando uma hora de trabalho antes que as secretárias chegassem. Além disso, como de costume, Adam se levantara a tempo de fazer ginástica, dar uma corrida de dez minutos lá fora e, depois do banho, preparar seu próprio café, como sempre fazia atualmente. Erica aos poucos abandonou o hábito de prepará-lo pessoalmente desde o dia em que Adam lhe disse francamente que a refeição estava demorando muito; ao contrário dos primeiros anos de vida em comum, irritava-se impaciente, querendo sair de uma vez, não apreciando mais o sossegado quarto de hora que partilhavam à mesa. Uma manhã disse simplesmente: — “Meu bem, fique na cama. Eu mesmo posso fazer o café pra mim.” E fez, repetindo-se a cena no dia seguinte e nas manhãs posteriores, até se transformar na rotina atual, embora Erica considerasse deprimente a idéia de não ser mais útil a Adam no início do dia, e que seus imaginosos cardápios matinais, a mesa posta com alegria e sua própria presença ali constituíssem motivos de irritação e não de prazer.

Hoje em dia, o crescente desinteresse de Adam pelo que se passavaemcasa, aliado à sua total dedicação pelo trabalho, pareciamcadavezmais exasperantes a Erica. Ele também se desdobravaem atenções que lhe eram tediosas. Se o despertador tocasse,Adamo desligava prontamente, antes que perturbasse o sono profundo de Erica, e logo saía da cama, embora desse impressão de que não fazia tanto tempo assim que ainda se procuravam instintivamente ao despertar, quando às vezes copulavam às pressas, descobrindo que um podia levar o outro, febrilmente, a um clímax mais rápido que à noite. Aí, enquanto Erica permanecia deitada, ainda ofegante, o coração batendo mais forte, Adam lhe sussurrava ao se esgueirar dela e da cama:

— Há melhor maneira de começar o dia?

Mas não era mais assim. Nunca de manhã, e de noite, agora, só raramente. De manhã, a julgar pelo contato que tinham, pouca diferença faria se fossem dois estranhos. Adam levantava em seguida, se desincumbia logo de suas rotinas, e depois ia embora.

Hoje, quando Erica escutou os movimentos de Adam no banheiro e no andar térreo, ruminou a idéia de mudar de sistema e ir ter com ele. Mas aí lembrou-se de que ele só queria andar ligeiro — como os carros supermodernos idealizados pela sua equipe de Planejamento de Produto; o mais recente, a novidade-prestes-a-ser-revelada, sendo o Orion — e pôr-se a caminho. Além disso, com sua maldita eficiência, Adam era capaz de preparar o café com a mesma rapidez que Erica — até para meia dúzia de pessoas, se necessário, como já fora o caso. Mesmo assim, chegou a pensar em se levantar, e ainda estava em dúvida quando ouviu o carro de Adam arrancar e partir. Tarde demais.

Aonde foram parar todas as flores? O amor, a vida, o idílio saudoso de Adam e Erica Trenton, amantes jovens há tão pouco tempo atrás? Ah, onde, onde?!

Erica adormeceu.

Quando acordou, a manhã já ia pelo meio, e um pálido sol de outono infiltrava-se  pelas ripas das venezianas.

No andar térreo, o aspirador de pó gemia e batia pelos cantos. Erica sentiu-se aliviada. Mrs. Gooch, a faxineira que vinha duas vezes por semana, havia chegado e já estava trabalhando. O que significava que hoje Erica não precisava preocupar-se com a casa, embora ultimamente, de qualquer modo, prestasse muito menos atenção a isso do que antes.

Viu um jornal matutino ao lado da cama. Adam decerto o deixara ali, como às vezes fazia. Ajeitando os travesseiros, os longos cabelos louros-acinzentados cobrindo-os em desordem, Erica abriu-o.

Grande parte da primeira página era dedicada a uma diatribe contra a indústria de automóveis, assinada por Emerson Vale. Erica leu-a só por cima, com desinteresse, apesar de que às vezes também lhe desse vontade de atacar o mundo automobilístico. Nunca se importara com aquilo desde que chegara a Detroit, malgrado seus esforços por causa de Adam. Mas a obsessão demonstrada por tantas pessoas ligadas à indústria, não lhes sobrando tempo para quase mais nada, a repugnava. O próprio pai de Erica, comandante de uma linha aérea, e pontual cumpridor de suas obrigações, sempre se libertava mentalmente das preocupações do trabalho quando saía de uma cabina de comando da Island Airways para voltar para casa. Seus maiores interesses consistiam em estar com a família, pescar, ocupar-se da carpintaria, ler, dedilhar um violão, e às vezes simplesmente ficar sentado no sol. Erica sabia que, mesmo agora, seu pai e sua mãe passavam muito mais tempo juntos do que ela e Adam.

Fora seu pai quem havia dito, quando ela anunciou seus súbitos planos de casar com Adam: — “Você é e sempre foi dona de sua vida. Portanto não me vou opor, porque, ainda que me opusesse, não faria a menor diferença e prefiro que você parta com minha bênção que sem ela. E talvez, com o tempo, me acostume a ter um genro quase da minha idade. Me parece um sujeito decente; gosto dele. Mas quero te prevenir de uma coisa: ele é ambicioso, e você ainda não sabe o que significa ter ambição, especialmente lá por Detroit. Se vocês dois tiverem problemas, a causa será essa.” Às vezes pensava como o pai tinha sido observador — e com toda a razão.

Os pensamentos de Erica voltaram-se para o jornal e Emer­son Vale, cuja fisionomia a contemplava fixamente de um inserto de duas colunas. Imaginou se o jovem crítico de automóveis seria bom de cama, depois decidiu: provavelmente não. Tinha ouvido falar que não existiam mulheres na vida dele, nem homens tampouco, apesar de esforços malogrados para difamá-lo com pecha de homossexual. A humanidade, pelo visto, possuía uma proporção deprimente de eunucos e machos exauridos. Virou a página, apática.

Haviapoucamatériainteressante, desde o noticiário internacionalomundocontinuavaamesma bagunça dos outros dias — até as colunas sociais, que traziam os habituais nomes de automóveis:osFordstinham recepcionado uma princesa italiana,os Roches estavam em Nova York, os Townsends no con­certo da Sinfônica e os Chapins caçando patos em North Dakota. Noutrapágina,EricaparounaseçãodeAnnLander, e começou então a compor mentalmente uma carta pessoal: Meu problema, Ann, é o chavão da mulher casada. Há piadas a respeito disso, mas são feitas por gente que não passou por essa experiência . A pura verdade — se posso falar com franqueza, de mulher para mulher — é que simplesmente não estou tendo que chega. . . E ultimamente não estou tendo nenhuma. . .

Com gesto impaciente, irritado, Erica amassou o jornal e empurrou longe as roupas de cama. Levantou-se e foi à janela, onde puxou com força a corda das venezianas, inundando o quarto com a luz do dia. Procurou em torno por uma bolsa de crocodilo marrom que tinha usado ontem; estava em cima do toucador. Abrindo-a, remexeu dentro até encontrar uma pequena agenda de capa de couro, que levou — folheando as páginas — a um telefone junto da cama do lado de Adam.

Discou rapidamente — antes que mudasse de idéia — o número achado na agenda. Ao terminar, Erica percebeu que a mão tremia e apoiou-a na cama para se firmar melhor. Uma voz feminina  atendeu:

—  Mancais e Engrenagens  Detroit.

Erica pediu o nome que tinha escrito na agenda, numa letra tão indecifrável que somente ela poderia lê-la.

—  Em que departamento ele trabalha?

—  Vendas. . .  acho eu.

—  Um momento, por favor.

Erica ainda ouvia o aspirador de pó num ponto qualquer lá fora. Pelo menos, enquanto continuasse, ficaria segura de que Mrs. Gooch não estava escutando.

Houve um estalido e outra voz atendeu, mas não a que esperava. Erica repetiu o nome que havia pedido.

—  Ele está, sim. — Ouviu a voz chamar: — Ollie!  — Outra voz respondeu: — Já peguei — e, depois, mais clara: — Alô.

—  Aqui é a Erica.  — Acrescentou, vacilante:  — Você sabe; nós nos encontramos. . .

—  Sim, claro; sei.  Onde é que você está?

—  Em casa.

—  Qual é o número?

Ela disse.

— Desligue.  Eu vou ligar pra ai.

Erica esperou, nervosa, perguntando-se se devia atender, mas quando deu o sinal, levantou imediatamente o fone.

—  Oi, boneca!

—  Olá — disse Erica.

—  Certos telefones são melhores do que  os  outros pra chamados especiais.

—  Eu compreendo.

—  Faz tempo que a gente não se vê.

—  Pois é.

Uma pausa.

—  Por que você telefonou, boneca?

—  Bem, eu pensei. . .  que a gente podia se encontrar.

—  Pra quê?

—  Tomar um drinque, talvez.

—  Nós tomamos da última vez.  Lembra-se? Passamos a tarde inteira sentados naquela porcaria do bar do Queensway Inn.

—  Eu sei, mas. . .

—  E a mesma coisa aconteceu na vez anterior.

—  Aquela foi  a  primeira; quando nos conhecemos.

—  Tá bem, quer dizer que da primeira vez você não entrega as fichas. Cada uma faz do jeito que bem entende. É justo. Mas na segunda vez o cara espera entrar com a mão na massa, e não passar a tarde inteira batendo papo.  Por isso repito. . .  o que que você pretende?

—  Eu pensei. . .   se a  gente  pudesse conversar, só um pouquinho, dava pra eu explicar...

—  Negativo.

Ela deixou cair a mão que segurava o fone. Santo Deus, que estava fazendo, dignando-se a falar com esse. . . Tinha que haver outros homens.  Mas onde?

O receptor do telefone fez um ruído.

—  Você ainda está aí, boneca?

Tornou a levantar o fone.

—  Sim.

—  Escute aqui, vou fazer-lhe uma pergunta. Você quer trepar?

Erica reteve as lágrimas; lágrimas de humilhação, de autodesprezo.

—  Sim — respondeu.  — Sim, é o que eu quero.

—  Desta vez você tem certeza? Nada de bater papo?

Deus do céu! Será que ele precisava de uma declaração por escrito? Pensou: haveria mesmo mulheres tão desesperadas que correspondessem a um método de aproximação tão grosseiro? Era óbvio que sim.

—  Tenho — respondeu Erica.

—  Formidável, garota! Que tal se a gente fosse pra cama na quarta-feira que vem?

—  Eu pensei. . . quem sabe, antes?

Quarta-feira que vem  era dali a uma semana.

—  Sinto muito, boneca; negativo.  Tenho de sair em viagem de vendas.  Sigo pra Cleveland dentro de uma hora. Vou ficar cinco dias por lá.  — Uma risadinha.  — Tenho de fazer a felicidade dos  brotos  de  Ohio.

Erica forçou uma gargalhada.

—  Puxa, você se vira, hem?

— Você ficaria admirada.

Não ficaria, não — pensou. Com coisa alguma, nunca mais.

—  Ligo pra você, assim que voltar. Enquanto eu estiver fora, guarde o calor pra mim.  — Um segundo de  pausa,   depois:  — Quarta-feira você vai estar em forma? Sabe o que eu quero dizer?

Erica perdeu o controle.

— Claro que sei.  Você acha que sou tão burra que não ia pensar nisso?

—  Você nem imagina quantas não pensam.

Num canto recôndito do cérebro, como se fosse espectadora e não participante, espantou-se: Será que algum dia ele já tentou fazer uma mulher se sentir bem, em vez de mal?

— Tenho que ir, boneca.  De volta à escravidão! Outro dia de trabalho pra ganhar o tutu!

— Até logo — disse Erica.

— Tchou.

Desligou. Cobrindo o rosto com as mãos, soluçou em silêncio até que os dedos longos e finos se umedeceram de lágrimas.

Mais tarde, no banheiro, lavando o rosto e passando maquilagem para disfarçar as marcas de choro da melhor maneira possível, Erica raciocinou: havia uma escapatória.

Não precisava se expor àquilo dentro de uma semana. Adam podia evitar, embora sem nunca ficar sabendo.

Se ao menos, durante as próximas sete noites, a tomasse nos braços como um marido pode e deve tomar, desta vez ela resistiria e depois, de um jeito ou doutro, havia de reduzir a urgência do próprio corpo à sensatez. Tudo o que queria — o que sempre tinha querido — era alguém que gostasse e precisasse dela, e a quem pudesse retribuir. Ainda gostava de Adam. Erica fechou os olhos, lembrando-se de como a amara e precisara dela pela primeira vez.

EresolveuqueiaajudarAdam.Hojedenoite,e outras noites se necessário, se faria irresistivelmente bela, lavando o cabelo para que ficasse suavemente cheiroso, usando um perfume de almíscar capaz de tantalizá-lo, pondo seu negligê mais transparente. . . Espere aí! Compraria um novo — hoje, nesta manhã, agora. . .  em Birmingham.

Começou a se vestir às pressas.

 

O bonito prédio cinzento da diretoria, que podia muito bem servir de sede à assembléia estadual, estava deserto na hora matinal em que Adam Trenton desceu em seu cupê esporte bege pela rampa interna. Traçou uma rápida curva em forma de s, rangendo os pneus, até sua vaga na área de estacionamento reservada aos executivos no subsolo, e depois retirou o corpo esguio do assento de direção, deixando as chaves do lado de dentro. Uma chuvarada na noite passada tinha maculado de leve o brilhante polimento do carro; hoje o lavariam, segundo a rotina, enchendo o tanque de gasolina e executando os serviços que fossem necessários.

Um carro próprio, da livre escolha do executivo, trocado de seis em seis meses, e cada vez com todos os acessórios extras que desejasse, além de combustível e assistência permanentes, era uma das vantagens laterais que acompanhavam os postos supremos da indústria automobilística. Dependendo da companhia para que trabalhasse, a maior parte dos diretores fazia sua seleção nas linhas de luxo — Chrysler Imperials, Lincolns, Cadillacs. Alguns, como Adam, preferiam algo mais leve e esportivo, com motor de alto rendimento.

Os passos de Adam ressoaram pelo negro pavimento encerado, cintilante e imaculado, da garagem.

Um espectador veria um homem atlético, ágil, de terno cinza, umoudois anos acima dos quarenta, alto, de ombros largos e cabeçaquadrada,jogadaparaa frente, como que impelindo o restodocorpoasegui-la.HojeemdiaAdamTrentontrajavademodo mais conservador que antigamente, mas ainda parecia elegante, com um toque de ostentação.   De traços faciais nítidos e alertas, com intensos olhos azuis e a boca reta, firme, amenizada por um resquício de humor, o conjunto geral dava uma forte impressão de manifesta honestidade. Reforçava essa impressão ao falar, com uma maneira franca, direta, que às vezes desconcertava o interlocutor — tática que aprendera a usar deliberadamente. O jeito de caminhar era confiante; o passo de quem não admite brincadeiras, sugerindo o homem que  sabe aonde vai.

Adam Trenton carregava o símbolo de ofício do executivo automobilístico — uma pasta cheia de documentos. Continha papéis que levara para casa na véspera e que o haviam ocupado desde o jantar até a hora de dormir.

Entre os poucos carros de executivos já estacionados, Adam notou duas limusines na fila dos vice-presidentes — uma série de vagas perto de um elevador privativo que subia, sem parar, ao décimo-quinto andar, reduto do supremo comando da companhia. Uma delas, a mais próxima do elevador, era reservada ao presidente, a seguinte ao diretor-presidente, vindo depois os vice-presidentes, por ordem decrescente de hierarquia. O lugar em que se estacionasse constituía significativo fator de prestígio na indústria de automóveis. Quanto mais elevado o posto, menor a distância que teria de transpor entre o carro e sua escrivaninha.

Das duas limusines já presentes, uma pertencia ao próprio chefe de Adam, o vice-presidente do Aperfeiçoamento de Produto. A outra era o carro do vice-presidente de Relações Públicas.

Adam subiu pulando um curto lance de degraus, de dois em dois, entrou na porta do saguão principal do prédio, depois prosseguiu, animado, até um elevador geral da diretoria, onde apertou o botão do décimo andar. Sozinho ali dentro, esperou impaciente enquanto o mecanismo controlado por computador levava tempo para dar a partida e, finalmente, durante a subida, sentiu a ânsia que sempre lhe assaltava ao mergulhar num novo dia de trabalho. Como de costume, fato que se repetia há quase dois anos, o Orion tomava a dianteira de suas preocupações. Fisicamente, Adam sentia-se ótimo. Apenas uma vaga tensão o inquietava, uma tensão mental de que se dera conta ultimamente, uma amolação, ilógica e no entanto cada vez mais difícil de eliminar. Tirou uma pequena cápsula verde-e-preta do bolso interno, meteu-a na boca e engoliu.

Do elevador, ao longo de um corredor silencioso e deserto queveriapoucaatividadeporoutrahoraainda,Adamdirigiu-se a seus próprios escritórios — situados num canto, também indício de hierarquia, colocado apenas ligeiramente mais abaixo que uma vaga de estacionamento de vice-presidente.

Logo de entrada, viu uma pilha de correspondência recém-entregue na escrivaninha da secretária. Houve época, no início de sua carreira, em que Adam teria parado para folheá-la, a fim de verificar o que havia de interessante e de novidade, mas há muito que perdera esse hábito, atualmente prezando demais seu tempo para se permitir semelhante indulgência. Uma das obrigações da secretária modelo — Adam ouvira certa vez o presidente da companhia declarar — consistia em “fazer a triagem das tolices” na montanha de papel que chegava às mãos do chefe. Devia ter permissão para examinar tudo primeiro, usando seu próprio critério quanto ao que referir posteriormente, para que o espírito do executivo pudesse ocupar-se de planos de ação e idéias, livre de pormenores que outros, em posições subalternas, dispunham  de confiança para resolver.

Eis aí o motivo pelo qual poucas das milhares de cartas endereçadas anualmente por proprietários individuais de carros aos diretores das companhias de automóveis chegam à pessoa visada pelo remetente. Todas essas cartas são selecionadas por secretárias, depois enviadas a departamentos especiais que as tratam de acordo com rotinas estabelecidas. Por fim, a soma de todas as reclamações e comentários do ano é tabulada e analisada, mas nenhum executivo de projeção seria capaz de examiná-las pessoalmente e, ao mesmo tempo, fazer seu trabalho. Uma exceção ocasional é quando o correspondente tem astúcia suficiente para escrever ao endereço particular do executivo — nada difícil de encontrar, uma vez que a maioria consta do Who's Who, à disposição nas bibliotecas públicas. Aí então o executivo, ou sua mulher, pode perfeitamente ler a carta, interessar-se por determinado caso, e tratar dele pessoalmente.

A primeira coisa que Adam Trenton reparou em seu gabinete foi uma luz cor de laranja, acesa na caixa de interfone atrás da escrivaninha. Isso mostrava que o vice-presidente do Aperfeiçoamento de Produto tinha chamado, quase certamente agora de manhã.  Adam apertou um botão acima da luz e esperou.

Uma voz, metálica no interfone, perguntou:

— Qual a desculpa de hoje? Acidente na estrada, ou você dormiu demais?

Adam riu, olhando rapidamente o relógio na parede, que marcava 7h23m. Soltou o botão que o ligava com o escritório do vice-presidente,  cinco andares acima.

—  Você conhece meu problema, Elroy. Simplesmente não consigo sair da cama.

Era raro que o diretor do Aperfeiçoamento de Produto chegasse antes de Adam;  quando  conseguia, gostava de se gabar.

— Adam, que é que você tem pra fazer durante a próxima hora?

— Umas coisas. Mas nada  que não possa adiar.

Pelas janelas do gabinete, enquanto conversavam, Adam divisava o tráfego matutino na perimetral. A esta altura, o índice estava moderadamente denso, embora não tanto quanto uma hora atrás, quando os operários de produção se dirigiam às oficinas para começar os turnos diários. O padrão, porém, se modificaria de novo dentro em breve, quando milhares de empregados de escritório, agora tomando o café da manhã em casa, acrescentassem seus carros à correnteza apressada. As pressões e afrouxamentos de densidade do trânsito, como as variações no vento, sempre fascinavam Adam — o que não era de admirar, já que os automóveis, seus principais componentes, constituíam a idée fixe de sua própria existência. Tinha inventado uma escala particular — semelhante à escala de ventos de Beaufort, variando de um a dez graus de índice — que aplicava ao trânsito ao contemplá-lo. Neste momento, decidiu, a circulação estava  no índice Cinco.

—  Queria falar um instante com você aqui em cima — disse Elroy Braithwaite,  o  vice-presidente.   — Acho que você já sabe que o nosso amiguinho, o Emerson Vale, entrou em órbita outra vez.

— Sim. — Adam tinha lido a reportagem do Free Press com as últimas acusações de Vale, antes de deixar o jornal do lado da cama onde Erica dormia.

— Alguns representantes da imprensa pediram comentários. Desta vez o Jake acha que devíamos fazer alguns.

Jake Earlham era o Vice-Presidente de Relações Públicas, cujo carro também já estava estacionado lá embaixo quando Adam chegara.

— Concordo com ele — disse Adam.

— Bem, parece que fui o escolhido, mas gostaria que você tomasse parte na entrevista. Será informal. Alguém da AP, a moça de Newsweek, o Wall Street Journal, e  o Bob Irvin, do Detroit News. Vamos receber todos ao mesmo tempo.

— Tem  alguma norma básica,  alguma instrução?

Em geral, antes das entrevistas coletivas das companhias de automóveis com a imprensa, são feitos  preparativos  elaborados, os departamentos de relações públicas providenciando listas antecipadas de perguntas que os executivos depois estudam. Às vezes até há ensaios, os funcionários das relações públicas funcionando como repórteres. Uma entrevista importante leva semanas para ser planejada, para que os porta-vozes das companhias automobilísticas estejam tão bem preparados como o Presidente dos EUA para enfrentar a imprensa; às vezes até melhor.

— Nenhuma instrução — respondeu Elroy Braithwaite. — Jake e eu resolvemos botar pra quebrar. Vamos dar nomes aos bois. Isso vale pra você também.

— OK — disse Adam. — Você já está pronto?

— Daqui a dez minutos. Eu ligo  pra você.

Enquanto esperava, Adam esvaziou a pasta de documentos com o trabalho da noite anterior, depois usou ditafone para deixar uma série de instruções à secretária, Ursula Cox, que as trataria com proverbial eficiência quando chegasse. Grande parte do trabalho caseiro de Adam, bem como das instruções, relacionava-se com o Orion. Em seu papel de Gerente do Planejamento de Veículos Avançados, estava profundamente envolvido no novo projeto, ainda secreto, e hoje uma série crucial de testes em torno de um problema de vibracão-e-ruído no Orion seria examinada no campo de provas da companhia, a quase cinqüenta quilômetros de distância de Detroit. Adam, que teria que tomar uma decisão posterior, concordara em ir assistir ao teste, em companhia de um colega do Centro de Projetos e Estilo. Agora, devido à entrevista com a imprensa recém-convocada» uma das instruções de Ursula era transferir os preparativos no campo de provas para mais tarde, durante o dia.

Adam resolveu que seria melhor reler o artigo de Emerson Vale antes do começo da entrevista. Junto com a pilha de correspondência lá fora havia alguns jornais matutinos. Pegou o Free Press e o New York Times, retornando depois ao gabinete e abrindo-os em cima da escrivaninha, desta vez decorando, ponto por ponto, o que Vale tinha declarado em Washington na véspera.

Adam havia encontrado Emerson Vale uma vez, quando o crítico de automóveis se encontrava em Detroit para pronunciar um discurso. Como vários outros membros da indústria, Adam Trentoncompareceramovidoporpuracuriosidadee,aoser apresentado a Vale antes da reunião, ficou surpreso de encontrar um rapazdesimpatiairradiante,nadadafigurapetulanteeagressiva que esperava. Mais tarde, quando Vale enfrentou a platéia de cima da plataforma, mostrou-se igualmente simpático, falando com fluência e facilidade enquanto desfiava argumentos com sumo tato. A apresentação toda, Adam, foi forçado a reconhecer, era impressionante e, pelos aplausos subseqüentes, boa parte do público — que pagara ingresso — partilhava dessa opinião.

Só havia um defeito. Para qualquer especialista, vários dos argumentos de Emerson Vale eram tão precários quanto um barco furado.

Ao mesmo tempo que atacava uma indústria extremamente técnica, Vale traía sua própria falta de conhecimentos, e incidia freqüentemente em erro ao descrever as funções mecânicas. Suas declarações sobre engenharia eram passíveis de várias interpretações; Vale dava uma: a que convinha a seu ponto de vista. Noutros momentos, tratava de generalidades. Muito embora com prática jurídica, Emerson Vale ignorava regras elementares. Oferecia provas de defesa, de outiva, não corroboradas, como fato; ocasionalmente, o jovem crítico de automóveis — no parecer de Adam — destorcia propositalmente os dados. Desenterrava o passado, anotando falhas em carros que os fabricantes há muito tempo já tinham confessado e corrigido. Apresentava acusações baseadas unicamente na correspondência que recebia de usuários descontentes. Ao mesmo tempo que descompunha a indústria automobilística pela falta de estética, péssimo acabamento e carência de medidas de segurança dos modelos, Vale não registrava nenhum dos problemas e esforços recentes e genuínos da indústria para melhorar as soluções. Não conseguia enxergar nada de bom nos fabricantes de automóveis e seus subalternos — apenas indiferença, descaso e baixeza.

Emerson Vale tinha publicado um livro intitulado O carro americano: incerto em todas as necessidades. Escrito com talento, com a capacidade de chamar atenção que o próprio autor possuía, resultou um best seller que manteve Vale sob os refletores da atenção pública por meses a fio.

Mas subseqüentemente, por parecer que pouco lhe restava a dizer,EmersonVale começou a sumir de vista. Seu nome era publicado nos jornais com menos freqüência e depois, durante algum tempo, desapareceu por completo. Essa falta de atenção o incitou a novas atividades. Necessitando de publicidade como uma droga, dir-se-ia que estava disposto a fazer declarações sobre qualquer assunto, em troca de manter o nome diante do público. Definindo-se como “um porta-voz dos consumidores”, desferiu nova série de ataques contra a indústria  automobilística, alegando defeitos de traçado em carros específicos, que a imprensa divulgava, embora alguns fossem mais tarde desmentidos. Induziu um senador dos EUA a apresentar informações escamoteadas a respeito dos custos das companhias que logo se revelaram como absurdamente incompletas. O senador fez papel de palhaço. Um dos hábitos de Vale era telefonar aos repórteres dos diários das grandes cidades — a cobrar, e às vezes a altas horas da noite — com sugestões para artigos que, por mero acaso, incluiriam o nome de Emerson Vale, mas que provavam ser pouco fidedignas quando apuradas. Como resultado, a imprensa, que confiara em Vale para fornecer material fascinante, começou a tomar cautelas e, com o tempo, certos jornalistas cessaram definitivamente de confiar nele.

Mesmo surpreendido em equívoco, Emerson Vale — a exemplo de Ralph Nader, seu predecessor no campo da crítica de automóveis — nunca admitiu um erro ou se desculpou em público, como a General Motors em determinada oportunidade o fez, pedindo desculpas a Nader, depois que a corporação cometeu intromissões indevidas na vida privada de Nader. Pelo contrário, Valepersistia em acusações e denúncias contra todos os fabricantesde automóveis e, às vezes, ainda conseguia atrair a atenção do país inteiro, como havia sido o caso de ontem em Washington .

Adam dobrou os jornais. Um rápido olhar à janela mostrou-lhe que o tráfego na perimetral aumentara para o índice Seis. Um momento mais  tarde o interfone zumbiu.

— O quarto poder acaba de chegar — avisou o vice-presidente do Aperfeiçoamento de Produto. — Quer contribuir pra formar o quinto?

No elevador, Adam lembrou-se de que hoje tinha de telefonar numahoraqualquer,àsuamulher.SabiaqueEricaandava insatisfeita ultimamente, certas ocasiões tornando a convivência mais difícil que durante os dois primeiros anos de vida conjugal, iniciada tão auspiciosamente. Adam sentia que parte do problema devia-se ao seu próprio cansaço no fim de cada dia, que cobrava um pesado tributo de ambos. Mas gostaria que Erica saísse mais decasae aprendesse a ter auto-iniciativa. Tentara encorajá-la nesse sentido, ao mesmo tempo que se assegurava que não lhe faltasse dinheiro nenhum. Felizmente tanto um como outro não tinham apertos financeiros, graças à contínua série de promoções que vinha recebendo, com ótimas possibilidades de melhorar ainda mais no futuro, perspectiva que alegraria qualquer esposa.

Adam percebia que Erica ainda ressentia a quantidade de tempo e energia exigida pelo seu trabalho, mas agora fazia cinco anos que vivia no meio automobilístico e já devia ter-se conformado com isso,  tal como outras esposas.

De vez em quando ficava pensando se não teria sido um erro casar com alguém tão mais jovem que ele, embora intelectualmente nunca tivessem tido o menor problema. Erica possuía inteligência e tirocínio muito precoces para a idade, e — conforme Adam havia visto — raramente entrava en rapport com homens mais moços.

Quanto mais refletia sobre isso, mais se dava conta de que seria obrigado a encontrar logo uma solução para seus problemas mútuos.

Mas no décimo-quinto andar, ao penetrar no território do alto comando, Adam sufocou os pensamentos pessoais.

No conjunto de escritórios do diretor do Aperfeiçoamento de Produto, Jack Earlham, Vice-Presidente de Relações Públicas, fazia as apresentações. Earlham, calvo e atarracado, fora jornalista há muitos anos e agora parecia um Mr. Picwick pernóstico. Andava sempre de cachimbo, para fumar ou gesticular com ele. Neste momento acenava-o, a fim de registrar a entrada de Adam Trenton.

—  Creio que você conhece a Monica do Newsweek.

—  Já nos encontramos.

Adam cumprimentou a morena baixinha, já instalada num sofá. Os belos tornozelos cruzados, a fumaça erguendo-se indolente do cigarro, ela retribuiu tranqüilamente o sorriso, deixando claro que uma correspondente de Nova York não se deixa levar pelo charme de Detroit, por maior que seja o empenho aplicado.

Ao lado do Newsweek, no sofá, estava o Wall Street Journal, um repórter exuberante, de meia-idade, chamado Harris. Adam apertou-lhe a mão, depois a do representante da AP, rapaz tenso, com um maço de papel diagramado, que cumprimentou Adam rapidamente, dando a entender que queria o prosseguimento da entrevista. Bob Irvin, calvo e pachorrento, do Detroit News, ficou por último.

—  Oi, Bob — disse Adam.

Irvin, que era quem Adam melhor conhecia, escrevia uma coluna diária sobre assuntos automobilísticos. Bem informado e respeitado na indústria, apesar de não bajular ninguém, sempre pronto a espetar a agulha quando a ocasião permitisse, Irvin tinha, no passado, dado boa cobertura de apoio tanto a Ralph Nader como a Emerson Vale.

Elroy Braithwaite, diretor do Aperfeiçoamento de Produto, ocupou uma poltrona vaga no confortável recanto onde o grupo se reunira.

—  Quem vai começar? — perguntou, afável.

Braithwaite, conhecido entre os íntimos como o “Raposa Prateada” por causa da sua juba de cabelos grisalhos meticulosamente penteados, trajava elegante terno de corte eduardiano, ostentando outro traço pessoal característico — abotoaduras enormes. Possuía uma classe que combinava com o ambiente em que vivia. Como todos os escritórios de vice-presidentes e postos ainda superiores, este tinha sido decorado e mobiliado com o maior requinte: as paredes eram forradas de madeira Avodire africana, com cortinas de brocado e, no soalho, fofos tapetes de lado a lado. Todo homem que atingia esta eminência numa companhia automobilística trabalhava muito tempo, e com afinco, para chegar até aqui. Mas depois de chegar, as condições de trabalho comportavam vantagens agradáveis, inclusive um escritório como este, com quarto de vestir e dormitório contíguos, além de — no andar superior — uma sala de refeições particular, bem como banho a vapor e massagista, disponíveis a qualquer hora.

— Talvez a moça devesse ser a primeira — sugeriu Jake Earlham, instalado numa poltrona na janela atrás deles.

— Muito bem — disse a morena do Newsweek. — Qual a última desculpa esfarrapada por não iniciar um programa consistente pra aperfeiçoar um motor a vapor pra carros que não polua o ar?

— Já esgotamos o repertório de desculpas — respondeu o Raposa Prateada. A expressão de Braithwaite não se modificara; apenas a voz estava ligeiramente mais cortante. — De mais a mais, isso já foi feito. . . por um sujeito chamado George Stephensen. . . e nós achamos que não houve nenhum  progresso significativo a   partir de então.

O representante da AP tinha posto óculos de aro fino; olhava por eles com impaciência.

—  OK, quer dizer que a comédia acabou. Dá pra gente agora fazer umas perguntas a sério?

—  Acho bom — disse Jake Earlham. O diretor de relações públicas acrescentou, desculpando-se:  — Devia ter-me lembrado.  Os correspondentes dos vespertinos da Costa Leste têm que remeter a matéria mais cedo.

—  Obrigado — retrucou o da  AP. Dirigiu-se   a  Elroy  Braithwaite: — Ontem à noite o Mr. Vale declarou que as  companhias automobilísticas são culpadas de conluio e outras coisas por não fazerem esforços sérios no sentido de aperfeiçoar uma alternativa pro motor de combustão interna. Ele também diz que os motores a vapor e elétricos já são exeqüíveis. O senhor não quer fazer um comentário a respeito?

O Raposa Prateada aquiesceu.

—  O que o Mr. Vale falou a respeito dos motores serem exeqüíveis não é verdade. Há vários tipos; a maioria deles funciona, e nós mesmos já temos vários em nosso centro de provas.  O que o Vale não disse. . . ou porque estragaria o argumento dele, ou porque ignora. . . é que ainda não existe a mínima esperança de fabricar um motor a vapor ou elétrico pra carros, de baixo custo, pouco peso, e boas conveniências, no futuro próximo.

—  Quanto tempo levaria?

—  Até o fim da década de 70. De 1980 em diante haverá novos aperfeiçoamentos, apesar de que o motor de combustão interna. . . um que seja quase totalmente isento do perigo de poluir o ar. . . talvez ainda predomine.

— Mas anda havendo uma porção de artigos sobre tudo quanto é tipo de motores atualmente. . . — atalhou o Wall Street Journal.

—  Tem toda a razão — disse Elroy Braithwaite, — e a maioria deles devia sair na seção de histórias em quadrinhos. Vocês me perdoem, mas os jornalistas são praticamente as pessoas mais crédulas que existem. Pode ser que o sejam de propósito. Vai ver que, desse modo, os artigos que escrevem saem mais interessantes. Mas deixem algum inventor. . . pouco importa se gênio ou biruta. . . surgir com uma novidade única, e larguem a imprensa em cima dele. Que acontece? No dia seguinte, todas as notícias publicam que esse talvez seja o grande avanço, talvez seja o modo como será o futuro. Repita-se isso um punhado de vezes pra que o público leia bastante, e todo mundo pensa que deve ser verdade, tal como os jornalistas, suponho, acreditam na própria matéria que escrevem, se for em quantidade suficiente. É essa espécie de espalhafato que convenceu uma boa proporção de habitantes deste país de que haverá   um carro a vapor ou elétrico, ou possivelmente um produto híbrido, dentro em breve em suas próprias garagens.

O Raposa Prateada sorriu para seu colega de relações públicas, que mudara de posição contrafeito e remexia no cachimbo.

—  Sossegue, Jake. Não estou ridicularizando a imprensa. Apenas tento estabelecer uma perspectiva.

—  Ainda bem que você me avisou — retrucou Jake Earlham, impassível. — Por um instante fiquei em dúvida.

— O senhor não está perdendo certos fatos de vista, Mr. Braithwaite? — insistiu o homem da AP. — Tem muita gente conceituada que ainda acredita na força a vapor. Há grandes empreendimentos, fora das companhias de automóveis, trabalhando nisso. O Governo da Califórnia está investindo dinheiro pra colocar uma frota de carros a vapor em circulação. E há projetos legislativos por lá, no sentido de proibir motores de combustão interna daqui a cinco anos.

O vice-presidente  do Aperfeiçoamento de Produto sacudiu a cabeça com decisão, agitando a juba prateada.

—  A meu ver, o único sujeito conceituado que acreditou num carro a vapor foi o Bill Lear. Depois ele desistiu publicamente, dizendo que a idéia era “absolutamente ridícula”.

—  Mas ele já mudou de opinião — disse o homem da AP.

— Sim, lógico. E anda por aí com uma caixa de chapéu, dizendo que seu novo motor a vapor está lá dentro. Ora, nós sabemos o que está lá dentro: é o núcleo mais recôndito do motor, o que equivale a pegar uma vela de ignição e dizer: “eis aqui o motor dos nossos carros atuais”. O que raramente é mencionado, pelo Mr. Lear e por outros, é que é preciso acrescentar combustores, caldeira, condensador, ventiladores de recuperação... uma lista enorme de ferragens volumosas, pesadas e caras, de eficiência duvidosa.

—  Os carros a vapor do Governo da Califórnia — lembrou Jake Earlham.

O Raposa Prateada aquiesceu.

—  Ah é.  Claro que o Estado da Califórnia está gastando à beça; qual o Governo que não gasta? Se você e meio milhão de outros estivessem dispostos a pagar mil dólares a mais por seus carros, talvez. . .  talvez, notem bem. . .  pudéssemos fabricar um motor a vapor, com todos os problemas e desvantagens que comporta. Mas a maioria dos nossos compradores. . . e dos compradores de nossos concorrentes, convém não esquecer. . . não tem dinheiro pra botar fora.

—  O senhor ainda  não tocou  nos carros  elétricos — frisou o Wall Street Journal.

Braithwaite fez sinal com a cabeça para Adam.

—  Encarregue-se dessa parte.

—  Já existem carros elétricos — declarou Adam aos repórteres. Vocês viram os carrinhos de golfe, e é concebível que um veículo para dois passageiros possa ser aperfeiçoado em breve pra fazer compras ou uso semelhante dentro de uma pequena área local. Mas de momento sairia muito caro e não passaria de mera curiosidade. Nós mesmos também fabricamos caminhões e carros de experiência, movidos a eletricidade. O problema é que, mal a gente os põe em funcionamento, tem que encher a maior parte do espaço interno com baterias pesadas, o que não é muito lógico.

— A bateria pequena, de peso leve. . . com pilhas galvanizadas, ou combustíveis — perguntou o homem da AP. — Quando vai vir?

— O senhor esqueceu a de enxofre de sódio — disse Adam. — Essa é outra de que já se fala. Infelizmente, por enquanto é quase só falatório.

— Com o tempo — interveio Elroy Braithwaite, — acreditamos que terá de haver um progresso nas baterias, com bastante energia armazenada em pequenas dimensões. E o que é mais, há um grande uso potencial pra veículos elétricos no trânsito do centro da cidade. Mas tomando por base tudo o que sabemos, pode-se prever que isso não vai acontecer antes da década de 80.

— E pra quem pensa que os carros elétricos hão de impedir a poluição do ar — acrescentou Adam, — existe um fator que muita gente esquece. Seja qual for o tipo de baterias usado, elas precisam ser carregadas de novo. Assim, com centenas de milhares de carros ligados em fontes de eletricidade, vai haver necessidade de um número muito maior de centrais de energia, cada qual gerando sua própria poluição do ar. Uma vez que as usinas elétricas são geralmente construídas nos subúrbios, o que vai acontecer é que a gente acaba tirando a neblina das cidades e transferindo-a pra lá.

—  Isso tudo não continua sendo uma desculpa bem esfarrapada? — A imperturbável morena do Newsweek descruzou as pernas, puxando depois a saia para baixo, sem nenhum efeito, como indubi­tavelmente sabia; as coxas bonitas ainda ficavam à mostra. Um a um, os homens baixaram os olhos para onde as coxas e a saia se uniam. Ela explicou: — Quero dizer, uma desculpa por não ter um programa dinâmico pra fazer um motor bom e barato. . . a vapor ou elétrico, ou as duas coisas juntas. Foi assim que chegamos à lua, não foi? — Acrescentou, petulante: — Caso estejam lembrados, foi a minha primeira pergunta.

—  Eu me lembro — disse Elroy Braithwaite. Ao contrário dos outros homens, não tirava o olhar da junção da saia com as coxas, retendo-o ali deliberadamente. Passaram-se vários segundos de silêncio em que muitas mulheres ter-se-iam remexido ou ficado intimidadas. A morena, presunçosa, inteiramente à vontade, deixou patente que não se incomodava. Sempre sem desviar os olhos, o Raposa Prateada perguntou, sem pressa: — Qual foi mesmo a pergunta, Monica?

—  Não se faça de desentendido.

Só então Braithwaite, dando-se por vencido, levantou a cabeça.

— Ah, sim... a lua — suspirou. — Você sabe, tem dias que eu quisera que nunca tivéssemos chegado lá.  Produziu um novo chavão. Atualmente, no momento que ocorre algum impasse técnico, em qualquer lugar, pode-se ficar certo de que alguém dirá: Nós chegamos à lua, não chegamos? Por que não podemos resolver isso?

— Se ela não tivesse perguntado — disse o Wall Street Journal, — eu perguntaria. Portanto, por que não podemos?

— Já explico — retrucou o vice-presidente. — A turma espacial não só dispunha de ilimitados fundos públicos. . .  que não possuímos. . . como também tinha um objetivo: chegar à lua. Vocês nos pedem, baseados vagamente em coisas que leram ou ouviram dizer, que aperfeiçoemos um motor a vapor ou elétrico pra carros que exigem, por assim dizer, prioridade absoluta, e bilhões de despesas particulares.  Ora, acontece simplesmente que alguns dos melhores cérebros técnicos deste ramo não acham que seja um objetivo prático, nem sequer compensador. Temos idéias melhores e outros objetivos.

Braithwaite passou a mão pela juba prateada, depois fez sinal com a cabeça para Adam. Dava impressão de estar farto.

—  O que nós acreditamos — interveio Adam — é que o ar limpo. . .   pelo menos o ar não poluído por veículos motorizados. . . possa ser obtido de maneira melhor, mais rápida e menos onerosa, por meio de refinamentos do atual motor de combustão interna a gasolina, junto com novos aperfeiçoamentos no controle de descarga e nos combustíveis. — Conservou a voz num timbre baixo de propósito. Agora acrescentava: — Talvez não seja uma idéia tão espetacular como a da força a vapor ou elétrica, mas é amparada por uma ciência sólida à beca.

Bob Irvin, do Detroit News, abriu a boca pela primeira vez:

—  Completamente à parte dos motores elétricos e a vapor, você reconhece, não é?, que antes do Nader, do Emerson Vale, e outros do mesmo gênero, a indústria não se via tão preocupada quanto hoje com o controle da poluição do ar?

A pergunta foi feita com aparente tranqüilidade, Irvin olhando suavemente pelos óculos, mas Adam sabia que estava carregada de explosivo. Hesitou apenas momentaneamente, depois respondeu:

—  Reconheço, sim.

Os três outros repórteres viraram-se, surpresos.

—  Segundo entendo — continuou Irvin, sempre com a mesma maneira tranqüila, — nós estamos aqui por causa do Emerson Vale, ou, em outras palavras, por causa de um crítico de automóveis. Não é exato?

Jake Earlham aparteou lá da poltrona junto à janela.

—  Nós estamos aqui porque os redatores-chefes de vocês. . .  e no seu caso,  Bob, você pessoalmente. . .  nos pediram pra responder hoje certas perguntas, e nós concordamos. A nosso ver, as perguntas se relacionariam, em parte, com as declarações prestadas pelo Mr. Vale, mas não marcamos uma entrevista coletiva com a imprensa só por causa do Vale.

Bob Irvin sorriu.

—  A diferença é meio bizantina, não lhe parece, Jake?

O Vice-Presidente de Relações Públicas deu de ombros.

—  Talvez.

Pela expressão dubitativa de Jake Earlham agora e anteriormente, Adam desconfiou de que ele estivesse imaginando se a entrevista informal teria sido uma idéia tão boa assim.

—  Nesse caso — prosseguiu Irvin, — creio que a pergunta tem cabimento, Adam.  — O colunista parecia ruminar, hesitando verbalmente à medida que falava, mas quem o conhecesse logo veria que a aparência era ilusória. — Na sua opinião, os críticos de automóveis. . . o Nader, por exemplo, na questão de segurança. . . cumpriram uma função útil?

A pergunta era simples, mas expressa de modo que não podia ser contornada. Adam sentiu vontade de protestar: Por que logo eu, Irvin? Depois lembrou-se das instruções de Elroy Braithwaite momentos antes: Vamos dar nome aos bois.

— Sim, eles cumpriram uma função — respondeu Adam, sereno. — Em termos de segurança, o Nader chutou esta indústria, aos gritos, para a segunda metade do século vinte.

Todos os quatro repórteres anotaram a frase.

Enquanto escreviam, Adam passou rapidamente em revista o que tinha dito e a repercussão que teria. Dentro da indústria de automóveis, sabia muito bem, uma vasta porcentagem concordaria com ele. Um forte contingente de executivos mais moços e um surpreendente punhado nos escalões superiores concedia que, basicamente — a despeito de excessos e inexatidões os argumentos de Vale e Nader durante os últimos anos tinham sua lógica. A indústria havia relegado a segurança a um papel insignificante no projeto de um carro, havia concentrado a atenção nas vendas com exclusão de quase todo o resto, havia resistido a mudanças até ser forçada a mudar por determinação do governo ou pela ameaça de medidas governamentais. Parecia, em retrospecto, que os fabricantes de automóveis tinham-se embriagado com a própria vastidão de seu poderio, e se comportado feito Golias, até finalmente serem humilhados por um David — Ralph Nader e, posteriormente, Emerson Vale.

A comparação bíblica, segundo Adam, era apropriada. Nader especialmente — sozinho, sem ajuda, e com admirável coragem moral — enfrentou a indústria automobilística dos EUA em peso, com seus recursos ilimitados e forte influência nos bastidores de Washington, e, onde outros tinham fracassado, conseguiu fazer levantar os padrões de segurança e aprovar uma nova legislação a favor do consumidor. O fato de Nader ser um polemista que, como todos os polemistas, assumia poses intransigentes, caía freqüentemente em exageros, mostrava-se impiedoso e, às vezes, inexato, não diminuía sua proeza. Somente um fanático seria capaz de não reconhecer que ele prestou um valioso serviço à coletividade. Igualmente oportuno: para lograr um serviço desse porte, em semelhantes condições de inferioridade, um tipo como Nader fazia-se necessário.

—  Ao que me consta, Mr. Trenton — observou o Wall Street Journal, —  nenhum executivo da indústria automobilística  tinha feito até hoje esse reconhecimento em público.

—  Se nenhum fez — retrucou Adam, — talvez já fosse hora de alguém fazer.

Seria imaginação, ou Jake Earlham — aparentemente ocupado com seu cachimbo — empalidecera? Adam notou o rosto carrancudo do Raposa Prateada, mas que diabo; se necessário, discutiria com Elroy mais tarde. Adam jamais havia sido “puxa-saco”. Poucos elementos que galgavam as alturas da indústria automobilística o eram, e os que guardavam suas francas opiniões, temendo a desaprovação dos superiores, ou devido à insegurança de seus cargos, raramente ultrapassavam a administração intermediária, se tanto. Adam não costumava calar, acreditando que a franqueza e a sinceridade eram contribuições úteis que podia fazer a seus empregadores. O importante, conforme aprendera, era permanecer um indivíduo. Uma idéia errônea que os leigos fazem dos executivos de automóveis é a de que se conformam com um padrão estabelecido, como se fossem prensados em fôrmas de biscoito. Nenhum conceito poderia estar mais equivocado. De fato, eles têm certos traços em comum — ambição, dinamismo, senso de organização, capacidade para o trabalho. Mas, fora isso, são extremamente individualistas, com um punhado mais-do-que-normal de excêntricos, gênios e dissidentes.

Fosse como fosse, estava dito; nada agora seria capaz de desdizê-lo. Mas havia os corolários.

— Se vocês pretendem citar isso — Adam olhou para o quarteto de repórteres, — há outras coisas que é preciso também acrescentar.

—  Quais?

A pergunta partira da moça do Newsweek. Parecia menos hostil do que antes, tinha apagado o cigarro e estava tomando notas. Adam lançou-lhe um olhar: a saia continuava lá em cima, as coxas e pernas cada vez mais atraentes no tênue nylon cinzento. Sentiu crescer seu interesse, depois expulsou seus pensamentos.

—  Em primeiro lugar — respondeu, — os críticos fizeram o que tinham que fazer. A indústria está se dedicando mais do que nunca à segurança; e o que é mais, a pressão continua. Além disso, agora pensamos no consumidor. Durante algum tempo não fizemos isso. Em retrospecto, parece que, sem perceber, tínhamos ficado descuidados e indiferentes em relação aos consumidores.  Mas hoje não é mais assim, e é por isso que os Emersons Vales ficaram estridentes e às vezes ridículos. Se aceitarem os pontos de vista professados por eles, nada que um fabricante de automóveis fizer jamais estará certo. Talvez seja esse o motivo por que o Vale e outros do mesmo gênero ainda  não reconheceram. . .   eis o segundo ponto sobre o qual eu queria chamar a atenção. . . que a indústria automobilística se acha numa fase totalmente nova.

—  Se isso for verdade — indagou o homem da AP, — o senhor não diria que os críticos de automóveis a forçaram a isso?

Adam controlou a irritação. Às vezes a crítica feita aos automóveis se convertia em fetiche, em culto irracional, e não só entre profissionais como Vale.

—  Eles ajudaram — admitiu, — estabelecendo metas e direções, sobretudo no que diz respeito à segurança e à poluição. Mas nada tiveram que ver com a revolução tecnológica, que de um jeito ou doutro era inevitável. É isso que irá tornar os próximos dez anos mais empolgantes pra todo mundo que trabalhe neste ramo do que o meio século inteiro que acaba de passar.

—  De que maneira? — perguntou o homem da AP, consultando o relógio de pulso.

— Alguém aqui falou em progressos — respondeu Adam.   — Os mais importantes, e que já se fazem sentir, são no setor de materiais que nos permitirão projetar  um tipo totalmente novo de veículos na metade e no fim da década de 70. Os metais, por exemplo. Em vez dó aço compacto que usamos hoje, vem aí o aço alveolado; será forte, rígido, e no entanto incrivelmente mais leve. . . implicando em economia de combustível; também absorverá melhor os impactos do que o aço convencional. . . outra segurança a mais. Depois temos as novas ligas metálicas pra motores e componentes. Prevemos uma capaz de tolerar mudanças de temperatura de cem a mais de dois mil graus Fahrenheit, em questão de segundos, com expansão mínima apenas. Usando-a, podemos incinerar o resto do combustível que não queima e provoca a poluição do ar. Outro metal que está sendo aperfeiçoado é um com a técnica de retenção pra “lembrar” o formato original. Se a gente amassar um guarda-lamas ou uma porta, bastará aplicar calor ou pressão e o metal voltará à forma primitiva. Outra liga, esperamos que permita a produção barata de rodas sólidas, de alta qualidade, pra motores de turbina a gasolina.

— Essa última   merece  atenção — frisou  Elroy  Braithwaite. — Se com o tempo o motor de combustão interna cair em desuso, o de turbina a gasolina é bem provável que o substitua. Existe uma porção de problemas com uma turbina pra carros. . . ela só é eficiente com alta potência efetiva de força, e a gente precisa de um intercambiador de calor dispendioso, se não se quiser queimar os pedestres. Mas são problemas solúveis, e estão sendo estudados.

— OK — disse o Wall Street Journal. — Isso quanto aos metais.   Quais são as outras novidades?

— Algo importante, e que em breve haverá pra  todos os carros, é um computador embutido. — Adam olhou para o representante da AP.  — Vai  ser pequeno,  mais ou menos do tamanho do porta-luvas.

—  Um computador pra fazer  o quê?

—  Praticamente de tudo; é só dizer.  Servirá de monitor pros componentes do motor. . .  velas, injetor direto de gasolina, todos os restantes. Controlará vazamentos e advertirá se o motor estiver poluindo.  E será revolucionário noutros sentidos.

—  Cite alguns — pediu o   Newsweek.

— Parte do tempo, o computador raciocinará pelo motorista e corrigirá erros, muitas vezes  antes que ele perceba que estão ocorrendo. Uma coisa que o computador vai determinar é a freagem sensorial — os freios aplicados individualmente a cada roda, demodoque o motorista nunca  perca o controle ao derrapar. Um radarauxiliaradvertirá se o carro da frente está diminuindo a marchaou se a genteoestáseguindopertodemais.Numa emergência, o computador pode desacelerar e aplicar os freios automaticamente, e como as reações de um computador são mais rápidas que as humanas, deverá haver muito menos colisões de retaguarda.Haverámeiosdetravarnasfaixas de controle de radarautomáticodas rodovias, que já se acham em estudos, e deverá ser reforçada pelo controle de fluxo de trânsito por satélite espacial.

Adam percebeu o olhar de aprovação de Jake Earlham e compreendeu o motivo. Tinha conseguido desviar a conversa do sentido defensivo para o positivo, tática que o departamento de relações públicas sempre recomendava aos porta-vozes da companhia.

— Um efeito de todas essas inovações — prosseguiu ele — é que o interior dos carros, sobretudo do ponto de vista do motorista, terá um aspecto incrivelmente diferente dentro dos próximos anos. O computador embutido modificará a maior parte dos instrumentos atuais. O medidor de gasolina, por exemplo, tal como o conhecemos hoje, está em vias de desaparecer;  em seu lugar  surgirá um indicador, mostrando quantos quilômetros de rodagem  pode fazer o combustível em determinada velocidade. Numa tela tipo televisão, na frente do motorista, aparecerão informações   sobre o percurso e sinais de aviso da rodovia, projetados por câmaras magnéticas sensitivas no caminho. Ter de procurar sinais rodoviários já é uma coisa superada e perigosa; em geral o motorista nem os vê; quando estiverem dentro do  carro, ele os verá.  Aí então, se  a gente viajar por uma rota desconhecida, bastará introduzir uma cassete, tal como hoje se faz com o toca-fitas por mera diversão. Segundo o lugar em que se esteja, e ligado de modo semelhante  aos sinais rodoviários, se poderá receber  orientações faladas e sinais visuais na tela. E quase de imediato o rádio do carro comum terá um transmissor, além de um receptor, operando na faixa local.  Terá que ser um sistema de âmbito nacional, pra que o motorista possa pedir auxílio. . . de toda espécie. . . sempre que precisar.

O homem da AP estava de pé, virando-se para o vice-presidente das Relações Públicas.

—  Há algum telefone que eu possa usar...

Jake Earlham deixou a poltrona da janela e dirigiu-se à porta. Acenou com o cachimbo para que o homem da AP o acompanhasse.

—  Vou-lhe procurar um que seja isolado.

Os outros já se  levantavam.

Bob Irvin do News esperou que o repórter do serviço telegráfico saísse e depois  perguntou:

—  A respeito do tal computador embutido.  Vocês vão usá-lo no Orion?

Desgraçado daquele Irvin! Adam sabia que estava encurralado. A resposta era “sim”, mas sigilosa. Em compensação, se respondesse “não”, com o tempo os jornalistas descobririam que tinha mentido.

—  Você sabe que não posso falar sobre o Orion, Bob — protestou Adam.

O colunista sorriu. A ausência de um desmentido formal havia-lhe dado a resposta que queria.

— Bem — disse a morena do Newsweek; agora que estava de pé parecia mais alta e ágil do que sentada. — Vocês conseguiram tergiversar por completo o assunto que nos trouxe aqui.

— Menos eu. — Adam encarou-a diretamente nos olhos: de um azul gélido, avaliavam tudo com escarninho. Quando viu, estava querendo que se tivessem conhecido de maneira diferente e não tanto como adversários.  Sorriu. — Sou um mero operário de automóveis que procura enxergar os dois  lados da questão.

—  Não diga — Os olhos dela permaneceram fixos, ainda refletindo escárnio. — Então que tal uma resposta  sincera   ao seguinte: As perspectivas dentro da  indústria automobilística estão mesmo mudando? — A moça do Newsweek consultou o bloco de anotações.  — Os grandes fabricantes de automóveis acompanham realmente a época. . . aceitando idéias novas sobre a responsabilidade coletiva, criando uma consciência social,  mostrando-se realistas sobre conceitos inovadores, inclusive  os que se  referem a carros? Vocês de fato acreditam que o fenômeno do consumo seja um fator irreversível? Existe mesmo uma nova fase, tal como vocês apregoam? Ou tudo não passa de pura balela, uma farsa  montada pela astúcia dos relações públicas, enquanto o que vocês verdadeiramente esperam é que a atenção que estão recebendo agora se desfaça, e tudo volte a ser como antes, quando faziam praticamente o que queriam? Vocês estão realmente a par do que está acontecendo em matéria de meio-ambiente, segurança, e tudo mais, ou estão apenas se fazendo, e a nós, de bobos? Quo Vadis?. . . seu latim está em dia, Mr. Trenton?

—  Sim — respondeu Adam, — está.

Quo  Vadis? Aonde vais?. . .  A pergunta imemorial da humanidade,  ecoando pela história afora, feita a civilizações, países, indivíduos, grupos e, agora, a uma indústria.

—   Escute aqui, Monica — indagou Elroy Braithwaite, — isso é pergunta ou  discurso?

—  É uma mistura. — A moça do Newsweek concedeu ao Raposa Prateada um sorriso nada afável.   — Se for complicada demais pra você, posso dividi-la em orações simples, usando palavras mais curtas.

O chefe de relações públicas acabava de voltar depois de ter acompanhado o homem da AP.

—  Jake — disse o vice-presidente do Aperfeiçoamento de Produto ao colega,  — não sei por que, mas essas entrevistas com a imprensa já não são como eram.

—  Se quer dizer que  ficamos mais agressivos, e não  somos mais condescendentes — retrucou o Wall Street Journal, — é porque os repórteres agora são treinados desse modo, e os nossos redatores-chefes nos pedem pra fazermos pressão.  Como tudo mais, acho que há um novo estilo de jornalismo.  — Acrescentou pensativo: — Às vezes também me deixa contrafeito.

—  Pois a mim não — afirmou a moça do Newsweek, — e ainda espero a resposta da minha pergunta.  — Virou-se para Adam:  — A que fiz  a você.

Adam hesitou. Quo Vadis? Em outros termos, às vezes ele se colocava a mesma interrogação. Mas agora, ao responder, até que ponto poderia ser sincero?

Elroy Braithwaite livrou-o da  decisão.

—  Se o Adam não se importar — interpôs o Raposa Prateada, — creio que eu mesmo posso responder-lhe. Sem aceitar todas as suas premissas, Monica, esta companhia. . .  como representante da nossa indústria. . .   sempre aceitou a responsabilidade  coletiva; e, o que é mais  importante, realmente tem uma consciência social, que já  demonstrou durante vários anos. Quanto ao fenômeno do consumo, nunca deixamos de acreditar nele, muito antes que o próprio termo fosse cunhado por  aqueles que. . .

As frases arredondadas seguiram rolando com eloqüência. Ouvindo-as, Adam sentiu-se aliviado por não ter respondido. Apesar de sua própria dedicação ao trabalho, teria sido compelido, por sinceridade, a admitir certas dúvidas.

Mas sentiu alívio, também, porque a entrevista estava quase no fim. Ansiava por voltar a seu campo de atividades, onde o Orion — como uma amante carinhosa, porém exigente — o intimava a ir.

 

No Centro incorporado de Projetos e Estilo — a pouco mais de um quilômetro de distância do prédio da diretoria onde a entrevista com a imprensa agora chegava ao fim — o odor do barro de modelagem, como sempre, impregnava tudo. Os funcionários que trabalhavam ali afirmavam que depois de certo tempo não se sentia mais o cheiro — uma mistura suave, mas insistente, de enxofre e glicerina, que provinha de dezenas de estúdios fortemente vigiados, formando um anel em torno do núcleo interno circular do Centro. Dentro desses estúdios, modelos esculpidos de possíveis automóveis novos iam tomando forma.

Os visitantes, porém, franziam o nariz, enojados, quando o cheiro os atingia pela primeira vez. Não que fossem muitos os que se aproximavam do local de onde ele provinha. A maioria, no máximo chegava apenas ao saguão de recepção externo, ou a um da meia-dúzia de escritórios localizados logo a seguir, e mesmo assim eram examinados, na entrada e na saída, por guardas de segurança, nunca sendo deixados a sós, e recebendo emblemas de cores codificadas, que definiam — e geralmente limitavam severamente — os setores aonde podiam ir acompanhados.

Em certas ocasiões, a segurança e os segredos nucleares nacionais haviam sido guardados com menos cuidado que os detalhes dos projetos de modelos de carros futuros.

Os próprios projetistas não gozavam de franquia de movimentos. Os menos veteranos ficavam restritos a um ou dois estúdios, sua liberdade aumentando somente depois de anos de serviço. A precaução era lógica. O projetistas às vezes são requisitados por outras companhias automobilísticas e, como cada estúdio guardava segredos isolados, quanto menor o seu acesso individual, menos possibilidades se ofereciam de transpirar as coisas sigilosas que continham. Em geral, as informações que um projetista recebe sobre a atividade em novos modelos de carros se baseiam no princípio militar de “conhecimento parcelado”. À medida, porém, que os projetistas contavam com maior número de anos a serviço de uma companhia, encontrando-se também mais “presos” financeiramente, por meio de opções na compra de ações e plano de aposentadoria, a segurança ficava atenuada e um emblema característico — usado feito condecoração de batalha — permitia a passagem de um indivíduo através da maioria das portas e guardas. Mesmo assim, o sistema nem sempre dava certo, porque ocasionalmente um projetista importante, veterano, mudava para uma companhia concorrente com um arranjo financeiro tão magnânimo a ponto de sobrepujar tudo mais. Aí, quando ia embora, levava consigo anos de conhecimento antecipado. Alguns projetistas da indústria automobilística já trabalharam para todas as grandes companhias, embora a Ford e a General Motors mantenham um acordo tácito mediante a qual nenhuma pode abordar os projetistas da outra — ao menos diretamente — com propostas de emprego. A Chrysler já é menos inibida.

Só certas pessoas isoladas — diretores de projetos e chefes de estúdios — gozavam de permissão para circular livremente no Centro. Uma delas era Brett DeLosanto. Nesta manhã ele caminhava sem pressa pelo pátio agradável, envidraçado, que conduzia ao Estúdio X. Esse estúdio tinha, de momento, uma relação com os outros do prédio que, de certo modo, se assemelhava à da Capela Sistina com a nave da Basílica de São Pedro.

Um guarda de segurança largou o jornal quando Brett se aproximou .

—  Bom dia, Mr. DeLosanto. — O homem mirou o jovem projetista de alto a baixo e depois assobiou baixinho. — Eu devia ter trazido meus óculos escuros.

Brett DeLosanto riu. Uma figura rutilante a qualquer hora com seu cabelo comprido — embora cuidadosamente penteado — vastas suíças e barba à Van Dyke meticulosamente aparada, hoje acrescentara ao conjunto uma camisa cor de rosa com gravata lilás, que combinava com a calça e os sapatos, o conjunto coroado por um paletó de caxemira branco.

—  Gostou do traje, hem?

O guarda considerou. Era um ex-não combatente do exército, com mais do dobro da idade de Brett.

—  Bem, pode-se dizer que é diferente.

—  A única diferença entre você e eu, Al, é que eu desenho os meus uniformes. — Brett acenou para a porta do estúdio. — Muito movimento hoje?

—  Só o pessoal de costume, Mr. DeLosanto.  Quanto ao movimento aí dentro, quando vim pra cá me disseram: Fique de costas pra porta, de olhos pra frente.

—  Mas você sabe que o Orion está aí dentro. Já deve ter visto.

—  Já vi, sim senhor. Quando os maiorais vieram pro grande dia da aprovação, eles o levaram pra sala de exposições.

—  Que é que você acha?

O guarda sorriu.

—  Vou lhe dizer o que eu acho, Mr. DeLosanto. Eu acho que o senhor e o Orion são muito parecidos.

Quando Brett entrou no estúdio, e a porta externa se fechou solidamente com um estalo às suas costas, refletiu: se isso for fato, não terá nada de surpreendente.

Parte considerável de sua vida e talento criador tinha sido aplicada ao Orion. Havia ocasiões, nos momentos de auto-avaliação, que se perguntava se não fora demais. Nem gostava de pensar nas centenas de vezes que cruzara por aquela mesma porta de estúdio, durante dias frenéticos e noites inacabáveis, exaustivas — horas de agonia e êxtase — enquanto o Orion se transformava da idéia em embrião no carro pronto.

Estivera envolvido naquilo desde o início.

Mesmo antes do trabalho de estúdio começar, ele e outros funcionários do Centro tinham analisado os estudos — pesquisas de mercado, crescimento da população, mudanças econômicas, sociais, faixas etárias, necessidades, tendências em voga. Foi estabelecido um teto para o custo. Depois surgiu o conceito original de um carro completamente inédito. Durante os meses subseqüentes, critérios de projetos foram ponderados em reuniões a fio de planejadores, projetistas e técnicos de produção. Depois disso, e trabalhando em equipe, os técnicos inventaram um acondicionamento de energia, enquanto os projetistas — entre os quais Brett — rabiscavam, tornando-se finalmente específicos, de maneira que as linhas e os contornos do carro ganharam forma. E enquanto isso acontecia as esperanças aumentavam e diminuíam; os planos davam certo, davam errado, e depois davam certo de novo; surgiam dúvidas que eram reprimidas e voltavam a se manifestar. Dentro da companhia, centenas de especialistas estavam envolvidos, chefiados por meia-dúzia de elementos de elite.

Ocorriam infindáveis modificações no projeto, algumas inspiradas pela lógica, outras apenas pela intuição. Mais tarde ainda, começaram as experiências. Com o tempo — cedo demais, na opinião de Brett — a diretoria aprovou a produção e, a partir daí, entrou em cena a Fabricação. Agora, com o planejamento de produção bem adiantado, em menos de um ano o Orion iria passar pelo mais crucial de todos os testes: aceitação ou rejeição pública. E durante todo esse tempo até agora, embora nenhuma pessoa isolada pudesse jamais ser responsável por um carro inteiro, Brett DeLosanto, mais que qualquer outra na equipe de projetistas, tinha implantado no Orion suas próprias idéias, gosto artístico e esforços.

Brett — com Adam Trenton.

Era por causa de Adam Trenton que Brett estava aqui esta manhã — muito mais cedo que na hora em que costumava iniciar o trabalho. Os dois haviam planejado ir juntos ao campo de provas da companhia, mas um recado de Adam, que acabava de receber, prevenia que ele ia demorar. Brett, menos disciplinado que Adam em seus hábitos de trabalho, e preferindo dormir até tarde, ficou aborrecido por se ter levantado sem necessidade, e depois resolveu aproveitar aquele curto momento de solidão para passá-lo em companhia do Orion. Abrindo uma porta interna, entrou no estúdio principal.

Em várias áreas de trabalho profusamente iluminadas, o aperfeiçoamento do projeto estava em andamento nos modelos de argila dos derivados do Orion — uma versão esportiva, a aparecer no prazo de três anos, uma camioneta, e outras variações do projeto original que talvez pudessem, ou não, ser usadas nos anos vindouros.

O Orion primitivo — o carro que faria sua apresentação pública dentro de apenas um ano — se encontrava na extremidade oposta do estúdio, pousado sobre macio tapete cinza, sob a luz dos refletores. O modelo estava rematado em bleu céleste. Brett se aproximou, tomado por uma sensação de entusiasmo, motivo de sua vinda aqui, sabendo que a sentiria.

O carro era pequeno, compacto, sóbrio, de linhas elegantes. Tinha o que os organizadores de vendas já chamavam de “estilo portátil, tubular”, nitidamente influenciado pelo desenho dos mísseis, dando-lhe um aspeto funcional, no entanto cheio de ímpeto e classe. Diversas características da carroçaria eram revolucionárias. Pela primeira vez em qualquer carro, havia visão panorâmica absoluta acima da cinta de aço de proteção. Os fabricantes de automóveis há décadas que falavam em capotas transparentes, experimentando-as timidamente, mas agora o Orion conseguira o mesmo efeito, mas sem perda da força estrutural. No interior da clara capota de vidro, ramos verticais de aço fino, de grande elasticidade — pilares A e C para os projetistas — tinham sido moldados de maneira quase invisível, entrelaçando-se para se unirem discretamente no alto. O resultado era uma “estufa” (outra expressão dos projetistas para designar a carroçaria superior de todo automóvel) muito mais resistente que a dos carros convencionais, realidade já confirmada por uma violenta série de colisões e capotagens. O ângulo de caimento — em que a parte superior da carroçaria se inclinava por dentro a partir da vertical — era suave, permitindo amplo espaço interno para a cabeça. A mesma amplitude, surpreendente num carro tão pequeno, estendia-se abaixo da cinta de aço de proteção, onde o projeto era curvo e avançado, porém não bizarro, de modo que o Orion, sob qualquer ângulo, fundia-se num todo agradável à vista.

Brett sabia que, por baixo do exterior, inovações técnicas estariam à altura do aspeto extrínseco. Uma especialmente notável era o injetor direto eletrônico, substituindo o carburador convencional — remanescente anacrônico de motores primitivos e cuja extinção já vinha com atraso. Controlar o sistema de injeção de gasolina era uma das muitas funções do computador do tamanho de uma caixa de sapatos, embutido, do Orion.

O modelo no Estúdio X, entretanto, não continha nenhum mecanismo Era apenas uma carcaça de fibra de vidro, feita do molde de uma escultura original de argila, embora mesmo com exame minucioso fosse difícil perceber que o carro sob a luz dos refletores não era de verdade. O modelo havia sido deixado aqui para comparação como outros modelos que surgiriam posteriormente, bem como para os funcionários superiores da companhia visitarem, examinarem, se preocuparem e renovarem sua fé. Essa fé era importante. Uma soma fabulosa de dinheiro dos acionistas, além das carreiras e reputações de todos os implicados, do presidente da companhia em diante, dependia das rodas do Orion. A junta de diretoria já tinha aprovado verbas de cem milhões de dólares para aperfeiçoamento e produção, com a possibilidade de novos milhões acrescentados ao orçamento antes do prazo de apresentação.

Brett lembrou-se de que certa vez ouvira alguém descrever Detroit como “mais um centro de jogo que Las Vegas, com apostas mais elevadas”.  Essa idéia materialista desviou-lhe o espírito para coisas mais prosaicas, uma das quais era o fato de que ainda não-havia tomado café.

Na sala de refeições dos diretores de projetos, vários outros já estavam tomando café quando Brett DeLosanto entrou. Como de costume, em vez de fazer o pedido à garçonete, Brett foi à cozinha, onde brincou com os cozinheiros, que o conheciam bem, coagindo-os. depois a preparar Ovos Benedict, que nunca constavam do cardápio regulamentar. Voltando, reuniu-se aos colegas na grande mesa redonda da sala.

Havia dois visitantes — alunos do Curso de Projetos do Centro de Artes de Los Angeles, onde há menos de cinco anos atrás, o próprio Brett DeLosanto tinha estudado. Um dos alunos era um rapaz pensativo, que agora traçava figuras geométricas na toalha com a unha, o outro uma moça de olhos vivos, de dezenove anos de idade.

Lançando um olhar em volta para se certificar de que o escutariam, Brett reencetou a conversa iniciada ontem com os estudantes.

—  Se vierem trabalhar aqui — aconselhou-lhes, — convém instalar filtros no cérebro pra não assimilar as idéias antidiluvianas que as velharias vão querer inculcar em vocês.

—  A idéia que o Brett faz de velharia — disse um projetista de trinta e poucos anos do outro lado da mesa, — é qualquer pessoa em idade de votar quando o Nixon foi eleito.

— A pessoa idosa que acaba de falar — retrucou Brett, — é o nosso Mr. Robertson. Ele projeta ótimos sedans pra família que ficariam ainda melhores com varais e um cavalo na frente. A propósito, ele endossa seus cheques de pagamento com pena de pato e anda à espera da aposentadoria.

— Uma das coisas que adoramos no jovem DeLosanto — atalhou outro projetista grisalho — é o respeito que ele tem pela idade e pela experiência. — O projetista, Dave Heberstein, que era chefe do estúdio para Cor e Interiores, examinou o aspecto cuidadosamente arrumado,  porém ofuscante, de Brett. — Falar nisso, onde é o baile de fantasia hoje à noite?

—  Se você estudasse meus exteriores com maior atenção — retorquiu Brett, — usando-os depois pros seus interiores, iria provocar uma avalancha de compradores.

—  Pros nossos concorrentes? — perguntou alguém.

—  Só se eu fosse trabalhar pra eles.

Brett sorriu. Tinha-se especializado em respostas espirituosas e insolentes com a maioria dos funcionários dos outros estúdios de projetos desde que viera trabalhar ali como neófito, e parecia ainda se divertir muito com aquilo. Tampouco afetara a ascensão de Brett como projetista de automóveis, que havia sido fenomenal. Agora, aos vinte e seis anos de idade, classificava-se em plano igual de hierarquia com todos, à exceção de uns poucos chefes veteranos de estúdio.

Há alguns anos, seria inconcebível que alguém com o aspecto de Brett DeLosanto conseguisse passar pelos guardas de segurança do portão principal, e muito menos ter permissão para trabalhar na atmosfera estratificada de um estúdio de projetos incorporado. Mas os conceitos haviam mudado. Hoje em dia, a administração percebera que os carros de vanguarda eram capazes de serem criados por projetistas “prafrentex”, imaginosos e dispostos a fazer experiências com a moda, inclusive em sua própria aparência. De modo análogo, enquanto os projetistas-estilistas deviam trabalhar com afinco e produzir, superiores como Brett tinham licença, relativa, para decidir suas próprias horas de trabalho. Muitas vezes Brett DeLosanto chegava tarde, vadiava ou até desaparecia por completo durante o dia, trabalhando depois à noite, em horas a fio de solidão. Como sua folha de serviços era excepcionalmente boa, e comparecia às reuniões da diretoria quando recebia ordens específicas, nunca ninguém reclamava.

Dirigiu-se novamente aos estudantes.

— Uma das coisas que os mais velhos dirão a vocês, inclusive alguns que estão  nesta mesa comendo ovos  fritos. . .  Ah, muito obrigado! — Brett fez uma pausa enquanto a garçonete colocava os Ovos Benedict à sua frente, depois continuou:  — Uma coisa que eles vão afirmar é que não está havendo mais grandes mudanças nos projetos de carros. De agora em diante, dizem eles, teremos apenas transições e aperfeiçoamento prescrito. Ora, isso é o que pensavam as usinas de gás pouco antes de Edison inventar a luz elétrica. Eu digo a vocês que vêm aí modificações de projetos dignas da Disneylândia. Um dos motivos: Dentro em breve teremos novos materiais fantásticos pra trabalhar, e esse é um setor que uma porção de gente nem examina  porque não dispõe de nenhuma lanterna.

— Mas você examina, não é Brett? — perguntou alguém. — Por  todos nós.

— Exatamente. — Brett DeLosanto cortou um pedaço considerável dos Ovos Benedict e espetou-o com o garfo. — Podem ficar sossegados.  Eu os ajudarei a conservarem seus empregos. Comeu com gosto.

— Não é verdade que a maior parte dos novos projetos, daqui por diante, será principalmente funcional? — perguntou a estudante de olhos vivos.

Falando de boca cheia, Brett respondeu:

— Eles podem ser funcionais e fantásticos.

— Você vai ficar funcional como um pneu balão se continuar comendo desse jeito. — Heberstein, o chefe de Cor e Interiores olhou o suculento prato de Brett com repugnância, e depois disse aos estudantes: — Quase todo projeto bom é funcional.  Sempre foi. As exceções são meras formas artísticas que não têm outro propósito senão o de serem belas. É quando o projeto não é funcional que se torna ruim ou escapa por pouco de sê-lo. Os Vitorianos faziam projetos pesados, não-funcionais, e é por isso que tantos são estarrecedores.  Note-se que nós ainda fazemos às vezes a mesma coisa neste negócio, quando colocamos enormes rabos de peixes, excesso de cromo ou  ornamentos de  grade salientes. Felizmente  estamos aprendendo a suprimir isso.

O estudante pensativo parou de desenhar na toalha.

—  O Volkswagen é funcional. . . totalmente. Mas não se pode dizer que seja bonito.

Brett DeLosanto acenou com o garfo e engoliu rápido, antes que alguém falasse antes.

— É nisso, meu caro, que você e o resto do público mundial estão credulamente iludidos. O Volkswagen é uma vigarice, uma mistificação fabulosa.

— É um bom carro — retrucou a estudante. — Tenho um.

— Claro que é um bom carro. — Brett comeu mais um pouco enquanto os dois jovens aspirantes a projetistas o observavam com curiosidade. — Quando for feita a lista dos automóveis que marcaram épocas neste século, o Volkswagen terá que figurar ao lado do Pierce-Arrow, do Ford-Bigode, do Chevrolet 6 de 1929, do Pa-ckard antes da década de 40, do Rolls-Royce até a década de 60, do Lincoln, do Airflow da Chrysler, dos Cadillacs dos anos 30, do Mustang, do Pontiac GTO, dos Thunderbirds de 2 passageiros, e alguns outros. Mas o Volkswagen ainda é uma vigarice porque uma campanha de vendas convenceu o povo de que é um carro feio, o que ele não é, senão não teria durado a metade do tempo que vem durando. O que o Volkswagen tem mesmo é forma, equilíbrio, senso de simetria e um toque de gênio. Se fosse uma escultura de bronze, em vez de um carro, podia estar num pedestal ao lado de um Henry Moore. Mas como martelaram o público na cabeça com afirmações de que é feio, todo mundo engoliu a isca, inclusive você. Mas enfim, tudo quanto é proprietário de carro gosta de se iludir.

— Foi aí que eu entrei — disse alguém.

Cadeiras foram afastadas da mesa. A maioria começou a se espalhar, em direção aos respectivos estúdios. O chefe de Cor e Interiores parou junto dos dois estudantes.

— Se vocês filtrarem as idéias do nosso Júnior aí. . . do jeito que ele aconselhou logo de início. . . é capaz que encontrem uma pérola ou duas.

— Quando eu tiver terminado — Brett conteve um jorro de ovo e café com o guardanapo, — eles terão pérolas suficientes até pra fazer geléia.

— Pena que eu não possa ficar! — Heberstein acenou amavelmente da soleira da porta. — Passe por lá depois, viu, Brett? Temos um relatório sobre tecidos que acho que você há de querer dar uma olhada.

— É sempre assim?

O rapaz, que recomeçara a desenhar parábolas na toalha, olhou para Brett com curiosidade.

— Aqui dentro, geralmente, é. Mas não se deixe levar pelas brincadeiras. Por baixo delas, uma porção de idéias ótimas vão surgindo.

Era verdade. As administrações das companhias de automóveis estimulam os projetistas, bem como outros que desempenham funções criadoras, a fazer refeições juntos em salas particulares; quanto mais alto o grau de hierarquia individual, mais agradáveis e exclusivos se tornam esses privilégios. Mas, seja qual for esse grau, a conversa na mesa gira, inevitavelmente, em torno do trabalho. Aí então, espíritos agudos produzem centelhas mútuas e idéias brilhantes ocasionalmente são geradas durante a entrada ou a sobremesa. As salas de refeições dos funcionários superiores operam com prejuízo, mas as administrações cobrem o déficit de bom grado, considerando-as como investimentos de boa renda.

— Por que você disse que os proprietários de carros gostam de se iludir? — perguntou a moça.

— Nós sabemos que eles gostam. É um traço da natureza humana que a gente aprende a aceitar. — Brett afastou a cadeira da mesa e inclinou-a para trás. — A maioria do Zé-povinho lá fora nas comunidades adora carros de aspecto alinhado. Mas também gosta de pensar que é racional. Então, que  acontece? Engana-se a  si mesma. Uma porção desses Zés não reconhece, nem mentalmente, os verdadeiros motivos que a leva a comprar uma caranga nova.

— Como é que você sabe?

Muitosimples.Se o Zé quer apenas um transporte seguro. . .  como boa parte de tipos iguais a ele diz que quer. . .  ele só precisa do modelo mais barato, mais simples, mais econômico na linha do Chevrolet,  Ford ou  Plymouth. Vários, porém, querem mais do que isso. . . um carro melhor porque, tal como uma boneca sexy pelo  braço ou uma casa espetacular, dá uma sensação de calor gostoso por dentro. Não tem nada de mais! Mas o Zé e os amigos deles pensam que tem, e é por isso que se iludem.

— Quer dizer que a pesquisa de consumo...

— Não vale nada! Está certo, nós mandamos uma fulana qualquer de bloco em punho perguntar a um cara que vem vindo pela rua o que ele quer no carro que pretende comprar.  No mesmo instante, pra impressioná-la, ele enumera todo esse negócio quadrado de carro de confiança, quilometragem de gasolina, segurança, valor de permuta. Se o questionário for escrito, sem assinatura, ele age assim só pra impressionar a si mesmo. Bem no fim, em ambas as hipóteses, talvez inclua a aparência, se é que chega a mencioná-la. Mas quando chega a hora da compra e o mesmo cara está numa sala de exposições, confesse ou não, a aparência ocupa o primeiro lugar da lista.

Brett levantou e espreguiçou-se.

— Vocês vão encontrar quem lhes diga que a paixão do público pelos carros já terminou. Estão loucos! Ainda vão precisar muito tempo de nós, filhotes, porque o velho Zé-povinho, com suas dúvidas, ainda é o amigo dos projetistas.

Olhou o relógio de pulso: faltava meia hora para se encontrar com Adam Trenton a caminho do campo de provas, o que lhe dava tempo de passar pelo estúdio de Cor e Interiores. Ao saírem da sala, Brett perguntou aos estudantes: — Que é que vocês acham disso tudo?

A curiosidade era autêntica. O que os dois estudantes estavam fazendo agora o próprio Brett tinha feito poucos anos atrás. As companhias automobilísticas convidam regularmente os alunos dos cursos de projetos, tratando-os como VISPs(1)1, enquanto os estudantes vêem, pessoalmente, a espécie de aura em que talvez trabalhem mais tarde. Os fabricantes de carros, também, requisitam os alunos nos próprios cursos. Equipes das Três Grandes visitam os cursos de projetos várias vezes por ano, competindo abertamente pelos formandos mais promissores, e o mesmo se aplica a outras áreas da indústria — engenharia, ciência, finanças, comércio e direito — a fim de propiciar às companhias de automóveis, com seu pródigo padrão de salários e benefícios, inclusive promoção planificada, uma elevada proporção dos melhores talentos. Alguns — entre os quais gente criteriosa dentro da própria indústria — pretendem que o processo é injusto, que os fabricantes de carros monopolizam por demais a nata da inteligência mundial, em detrimento da civilização em geral, que precisa de mais cérebros para resolver problemas humanos urgentes e complexos. Mesmo assim, nenhuma outra agência ou indústria consegue recrutar cabedal comparável, constante de empreendedores de primeira categoria. Brett DeLosanto tinha sido um deles.

— É empolgante — disse a moça de olhos vivos, em resposta à pergunta de Brett. — Que nem tomar parte na criação, a coisa autêntica.  Um pouco assustador, lógico. Competir com toda essa gente, e sabendo como deve haver elementos bons.  Mas vencendo aqui, se vence mesmo de verdade.

A atitude certa na opinião de Brett. Só precisava de talento, e um pouco de iniciativa extra para superar o preconceito da indústria contra mulheres que querem ser mais que secretárias.

—  E você? — perguntou ao rapaz.

O jovem pensativo sacudiu a cabeça, hesitante. Franzia a testa.

— Não tenho certeza.  OK, tudo é feito com grande aparato, há pão à beca jogado por aí, uma porção de esforços, e também acho que é empolgante — acenou para a moça, — tal como ela disse.  Mas fico pensando:  será que vale a pena? Talvez eu seja louco, e sei que agora é tarde; quero dizer, tendo me especializado no ramo e tudo mais, ou a maior parte.  Mas a gente não pode deixar de se perguntar: Pra um artista, interessa? É nisso que se quer aplicar o sangue, a vida inteira?

— Você tem que gostar muito de carros pra trabalhar aqui — disse Brett. — Tem que se importar tanto com eles que eles se transformem na  coisa mais importante que existe.   Você respira, come, dorme carros, às vezes chega a se lembrar deles quando está fazendo amor. Acorda de noite, e está pensando em carros. . .  os que você está projetando, outros que você gostaria de projetar. É como uma religião. — Acrescentou, sucinto: — Se você não se sentir assim, seu lugar não é aqui.

— Mas eu gosto muito de carros — retrucou o rapaz. — Sempre gostei, desde que me lembro, exatamente do modo que você disse. Só que  ultimamente. . .   — Deixou   a frase  em suspenso,  como  se não quisesse proferir heresia pela segunda vez.

Brett não fez outros comentários. Opiniões, pareceres desse gênero eram individuais, e as decisões provocadas por eles, pessoais. Ninguém mais podia ajudar, porque no fim tudo dependia de suas próprias idéias, valores, e às vezes consciência. Além do que, havia outro fator que Brett não tinha nenhuma intenção de discutir com aqueles dois: Ultimamente vinha também sentindo as mesmas incertezas e dúvidas.

O chefe da Cor e Interiores tinha um esqueleto logo à entrada de seu gabinete, usado para estudos de anatomia em redação aos assentos de automóvel. O esqueleto, pendurado ligeiramente acima do chão, era suspenso por uma corrente presa a uma placa no crânio. Brett DeLosanto apertou-lhe os ossos da mão ao entrar.

—  Como vai, Ralph?

Dave Heberstein saiu de trás da escrivaninha e acenou na direção do estúdio principal.

— Vamos lá pra dentro. — Bateu de leve, carinhosamente, no esqueleto ao passar. — Um elemento da equipe, leal e prestativo, que nunca critica, nunca pede aumento.

O Centro da Cor, onde entraram, era uma vasta câmara circular, coberta por cúpula, construída principalmente de vidro, permitindo que a luz do dia caísse em profusão. A cúpula dava-lhe um efeito de catedral, fazendo com que diversas cabinas fechadas —  para exame de amostras e materiais coloridos sob luz controlada — parecessem capelas. Um tapete grosso amortecia os ruídos.  Por toda a peça havia quadros de mostruário, amostras de remates flexíveis e duros, e uma livraria abrangendo todas as cores do espectro, além de milhares de derivadas.

Heberstein parou num quadro de mostruário.

— Cá está o que eu queria que você visse  — disse a  Brett DeLosanto.

Debaixo do vidro havia meia-dúzia de amostras de estofamento, cada uma identificada por número de fábrica e aquisição. Outras amostras semelhantes estavam soltas em cima da mesa. Embora de colorido diferente, traziam o nome genérico “Salgueiro Metálico”. Dave Heberstein pegou uma.

— Lembra-se destas?

— Claro — Brett aquiesceu. — Eu gostava delas; ainda gosto.

— Eu também. Pra dizer a verdade, recomendei o uso delas. — Heberstein passou o dedo pela  amostra, que era agradavelmente macia ao contato.  Tinha, como todas as outras, uma atraente estampagem de pintas de prata. — Tem urdimento plissado, com um fio metálico.

Os dois sabiam que o tecido fora introduzido como alternativa de custo extra dos melhores modelos da linha da companhia para este ano. Ficara popular e em breve, em diversas cores, estaria disponível para o Orion.

— Então qual é o problema? — perguntou Brett.

— Cartas — respondeu Heberstein.  — Cartas de compradores que começaram a chegar há umas duas semanas. — Tirou um chaveiro do bolso e abriu uma gaveta na mesa de mostruário. Dentro havia um arquivo contendo cerca de duas dúzias de fotocópias de cartas. — Leia algumas.

A correspondência, na maior parte de mulheres ou maridos, embora um punhado fosse escrito por advogados em nome de constituintes, apresentava um tema comum. As mulheres tinham sentado nos carros usando casaco de vison. Em cada caso, ao saírem do carro, parte da pele ficara colada no assento, rasgando e arruinando o casaco. Brett assobiou baixinho.

— O departamento de vendas fez um levantamento por meio do computador — segredou Heberstein. — Em todos os casos, o carro em questão tinha assentos de Salgueiro Metálico. Eu  soube que ainda há mais cartas por chegar.

— Você, evidentemente,  fez  testes. — Brett devolveu a pasta de cartas. — Que é que eles mostram, então?

— Mostram  que  a  coisa  toda  é simplíssima;  o diabo é que ninguém se lembrou, antes que acontecesse. Você senta no banco, o assento cede e o pano se abre. É normal, lógico, mas o que também se abre nesse caso são os fios metálicos, o que até aí não tem nada de mais, desde que você não esteja usando vison.  Mas se estiver, alguns dos pêlos finos se prendem entre os fios metálicos. Você levanta, e os fios se fecham, retendo os pêlos do vison, que são arrancados do casaco.  É suficiente pra estragar um casaco de três mil dólares só pra dar uma volta na quadra.

Brett sorriu.

— Se a notícia se espalha, tudo quanto é mulher com casaco velho de vison no país vai dar um passeio no carro pra depois entrar com uma ação e ganhar outro novo.

— Ninguém está adiando graça. Lá na diretoria já apertaram o botão de alarme.

— O tecido vai sair da produção?

Heberstein confirmou.

— A partir de hoje de manhã. E de agora em diante temos outro teste por aqui, com panos novos. Como é bastante óbvio, ficou conhecido como o teste do vison.

— Que vai acontecer com todos os assentos que já saíram?

— Só Deus sabe! E me felicito que parte não seja dor de cabeça minha. A última coisa que ouvi dizer, tinha chegado até o diretor-presidente. Mas sei que o departamento jurídico está liquidando todas as reclamações discretamente, mal elas surgem. Eles calculam que haverá algumas falsas, mas é melhor pagar, se houver possibilidade de manter a coisa toda encoberta.

— Com abrigos de vison?

— Poupe-me suas piadas infames — retrucou o chefe de estúdio, casmurro. — Você ficará sabendo disso tudo pelos canais competentes, mas achei que você e alguns outros deviam ser informados imediatamente por causa do Orion.

— Obrigado — Brett sacudiu a cabeça, pensativo.

Era verdade — teriam que fazer modificações nos planos do Orion, apesar de que o setor em questão não fosse da sua responsabilidade. Sentia-se grato, contudo, por outro motivo.

Decidiu logo que, dentro dos próximos dias, precisava trocar de carro ou os assentos do que possuía atualmente. O carro de Brett tinha estofamento revestido de Salgueiro Metálico e, por coincidência, planejava dar um presente de aniversário de vison no próximo mês, que não tinha a mínima vontade de ver estragado. O vison, que sem dúvida seria usado no seu próprio carro, era para Barbara.

Barbara Zaleski.

 

— Papai — disse Barbara, — vou ficar um ou dois dias em Nova York. Achei melhor avisá-lo.

Ao fundo, pelo telefone, escutou os ruídos das oficinas. Barbara teve que esperar vários minutos enquanto a telefonista localizava Matt Zaleski na fábrica; agora, presumivelmente ele atendera o chamado de algum canto perto da linha de montagem.

— Por quê? — perguntou o pai.

— Por que o quê?

— Por que você tem que ficar?

— Ah, a mesma coisa de sempre. Problemas de clientes na agência. Umas reuniões sobre a publicidade do ano que vem; eles precisam de mim aqui. — Barbara estava sendo paciente. Realmente não devia explicar, como se ainda fosse uma criança pedindo licença para chegar tarde. Se resolvesse ficar uma semana, um mês, ou eternamente em Nova York, ninguém tinha nada a ver com isso.

— Não dava pra você voltar pra casa de noite,  e depois regressar de manhã?

— Não, papai, não dá.

Barbara esperava que isso não fosse se transformar noutra discussão em que seria necessário frisar que estava com vinte e nove anos, uma pessoa juridicamente adulta que havia votado em duas eleições presidenciais, e tinha um cargo responsável que desempenhava muito bem. O cargo, por sinal, a deixara financeiramente independente, de modo que podia morar sozinha a qualquer hora que quisesse, exceto que vivia com o pai, sabendo que ele se sentia solitário desde a morte da mãe, e não querendo tornar as coisas piores para ele.

— Quando é que você volta pra casa, então?

— No fim da semana, com certeza. Você pode se defender sem mim até lá. E cuidado com sua úlcera. Falar nisso, como vai ela?

— Já tinha me esquecido dela. Tenho uma porção de outras coisas pra pensar.  Houve um pouco de encrenca aqui nas oficinas hoje de manhã.

Achou que ele parecia tenso. A indústria automobilística provocava esse efeito em todo mundo que a rodeava, inclusive nela própria. Quer se trabalhasse numa oficina, ou numa agência de publicidade, ou em projetos, como Brett, as angústias e pressões terminavam agarrando a gente. O mesmo tipo de compulsão prevenia-lhe neste momento que precisava largar o telefone e voltar à reunião com o cliente. Escapulira há poucos minutos, os homens supondo, sem dúvida, que havia saído para fazer o que as mulheres sempre fazem nos banheiros e, instintivamente, Barbara passou a mão pelo cabelo — castanho escuro e exuberante, igual ao de sua mãe polonesa; crescia também com rapidez aborrecedora e assim tinha que perder mais tempo do que queria com salões de beleza. Ajeitou o cabelo; teria que servir. Seus dedos encontraram os óculos escuros que empurrara para cima da testa horas antes, lembrando-a que ouvira alguém ridicularizar recentemente os óculos escuros no alto do cabelo como sinal característico da moça executiva. Ora, por que não? Deixou-os onde estavam.

— Papai — disse Barbara, — não tenho muito tempo. Dá pra você fazer uma coisa pra mim?

— O quê?

— Telefonar pro Brett. Diga a ele que sinto muito, mas não posso me encontrar com ele hoje à noite, e que se ele quiser ligar pra mim mais tarde, estarei no Hotel Drake.

— Não tenho certeza se vou poder. . .

— Claro que pode! Brett está no Centro de Projetos, como você sabe perfeitamente, de modo que basta pegar um telefone interno e discar. Não lhe estou pedindo pra gostar dele; sei que você não gosta, e já deixou isso bem claro uma porção de vezes pra nós dois.  Só estou lhe pedindo pra transmitir o recado. Talvez nem precise falar com ele.

Não conseguira dissimular a impaciência na voz, e assim agora estavam, afinal de contas, tendo uma discussão: outra a acrescentar a uma longa série.

— Está bem — resmungou Matt. — Eu dou o recado. Não precisa ficar braba.

— E você também não. Até logo, Papai. Cuide-se bem. A gente se vê no fim da semana.

Barbara agradeceu à secretária cujo telefone estivera usando e deslizou o corpo opulento, de membros longos, da escrivaninha onde se empoleirara. As formas de Barbara, que ela sabia que os homens admiravam, eram outra herança materna que haviam conseguido transmitir um forte sensualismo — caracteristicamente eslavo, segundo alguns — até os últimos meses que precederam sua morte.

Barbara encontrava-se no vigésimo-primeiro andar do edifício da Terceira Avenida que servia de sede à Osborne J. Lewis Company em Nova York — ou mais familiarmente, OJL — uma das seis maiores agências de publicidade do mundo, com cerca de dois mil funcionários em três pavimentos do arranha-céu. Se quisesse, em vez de telefonar a Detroit de onde tinha feito, Barbara poderia ter usado um escritório na coelheira criativa, apinhada de gente, do andar inferior, onde um punhado de gabinetes sem janelas, do tamanho de um armário, ficavam à disposição de funcionários forasteiros, como ela própria, enquanto trabalhassem provisoriamente em Nova York. Mas parecera-lhe mais simples permanecer aqui em cima, onde estava se efetuando a reunião de hoje de manhã. Este andar era território dos clientes. Era também onde os executivos da contabilidade e funcionários superiores da agência tinham seus conjuntos de escritório suntuosamente decorados e estendendo-se a perder de vista, com originais de Cézanne, Wyeth ou Picasso nas paredes, além de bares embutidos — os últimos mantendo-se ocultos ou à mostra, de acordo com as preferências conhecidas e cuidadosamente lembradas do cliente. Até as secretárias dispunham aqui de melhores condições de trabalho que alguns dos maiores talentos criadores lá embaixo. Barbara às vezes achava que, de certo modo, a agência se assemelhava a uma galera romana, embora ao menos os que ficavam embaixo tinham seus almoços regados a martini, iam para casa de noite, e — caso fossem bastante veteranos — podiam, de quando em quando, subir ao andar de cima.

Passou rapidamente por um corredor. Nos austeros escritórios da OJL em Detroit, onde Barbara fazia a maior parte de seu trabalho, o salto dos sapatos teriam estalado, mas aqui, o tapete grosso amortecia o ruído. Passando por uma porta entreaberta, escutou um piano e a voz de uma cantora:

“Outro feliz consumidor

Juntou-se à legião dos

Que pedem Rápido! — por favor,

O produto de mais valor.”

Com quase toda a certeza, havia um cliente lá dentro ouvindo, que tomaria uma decisão sobre o jingle — sim ou não, acarretando enorme despesas — baseada em palpite, preconceito, disposição de espírito ou dispepsia provocada pelo café da manhã. A letra, naturalmente, era horrível, provavelmente porque o cliente preferia que fosse banal, temendo — como a maioria temia — algo de maior imaginação. Mas a música tinha uma graça contagiante; gravada com orquestra e coro, grande parte da nação talvez estivesse cantarolando aquela modinha daqui a um mês ou dois. Barbara ficou imaginando o que seria Rápido. Uma bebida? Um novo detergente? Talvez ambas as coisas, ou algo mais exótico. A agência OJL possuía centenas de clientes em ramos diversos, embora a conta da companhia automobilística para quem Barbara trabalhava figurasse entre as mais importantes e lucrativas. Como os homens da companhia automobilística gostavam de lembrar ao pessoal da agência, só a verba para a publicidade de carros ultrapassava a cifra de cem milhões de dólares anuais.

Do lado de fora da Sala de Conferências n.° 1, um aviso vermelho REUNIÃO EM ANDAMENTO continuava piscando. Os clientes adoravam os sinais luminosos pela aura de importância que criavam.

Barbara entrou discretamente e deslizou para sua cadeira no meio da longa mesa. Havia sete outras pessoas no majestoso aposento, revestido de paredes de jacarandá, com mobília no estilo georgiano. À cabeceira da mesa era ocupada por Keith Yates-Brown, grisalho e polidamente cortês, supervisor da administração da agência, que tinha a missão de manter as relações entre a companhia automobilística e a Osborne J. Lewis isentas de atrito. A sua direita estava o gerente de publicidade da companhia automobilística em Detroit, J. P. Underwood (“Me chamem de J. P., por favor”), bastante moço, recentemente promovido e não totalmente à vontade ainda com o pessoal de mais gabarito da agên­cia. Defronte a Underwood, achava-se o calvo e brilhante Teddy Osch, diretor do departamento de criação da OJL e homem cuja fertilidade de idéias se equiparava a de uma fonte inexaurível. Osch, irremovível, com ares professorais, sobrevivera a muitos colegas e era veterano de vitoriosas campanhas automobilísticas anteriores .

Os outros compreendiam o assistente de J. P. Underwood, também de Detroit, mais dois funcionários da agência — um criativo, um executivo — e Barbara, a única mulher presente, salvo uma secretária que neste momento tornava a encher as xícaras de café.

O assunto da discussão era o Orion. Desde ontem à tarde estavam examinando as idéias de publicidade que a agência tinha desenvolvido até agora. O grupo da OJL na reunião se revezara nas apresentações ao cliente — representado por Underwood e seu assistente.

— Reservamos uma  seqüência pro fim, J.  P. — dizia Yates-Brown  direta, embora informalmente,  ao  gerente de publicidade da companhia automobilística. — Achamos que você iria achá-las originais, talvez até interessantes.

Como sempre, Yates-Brown conseguia uma mistura apropriada de autoridade e deferência, muito embora todos os presentes soubessem que um gerente de publicidade dispõe de pouco poder de decisão verdadeiro e permanece fora do curso principal do alto comando da companhia.

— Vamos ver — retrucou J.  P. Underwood, com mais brusquidão do que seria necessário.

Um dos outros homens da agência colocou uma série de cartões num cavalete. Cada um estava preso a uma folha de papel de  seda,  contendo um esboço de desenho em fase preliminar. Cada esboço, conforme Barbara sabia, representava horas e às vezes longas noites de raciocínio e fadiga.

O método de hoje e ontem era normal nas etapas iniciais de toda nova campanha automobilística e as folhas de seda recebiam o apelido de “maço farfalhante”.

— Barbara — pediu Yates-Brown, — você quer fazer o favor de orientar  esta exposição?

Ela aquiesceu.

— O que nós pretendemos, J. P. — disse Barbara a Underwood, com um olhar de  relance ao assistente dele, — é mostrar como será o Orion no uso diário. O primeiro desenho, como vêem, é um Orion saindo da lavagem.

Todos os olhares se concentraram no esboço. Tinha imaginação e estava bem feito. Mostrava a parte dianteira do carro emergindo de um túnel de lavagem que nem uma borboleta de uma crisálida. Uma mulher jovem esperava para partir no volante do carro. Fotografada em cores, fosse imóvel ou em filme, a cena seria impressiva.

J. P. Underwood não demonstrou nenhuma reação, nem sequer pestanejou. Barbara acenou para  a folha de seda seguinte.

— Na opinião de alguns de nós, há muito tempo que o uso de carros pelas mulheres não recebe a devida ênfase publicitária. A maior parte dos anúncios, conforme sabemos, tem sido dirigida aos homens.

Podia ter acrescentado, mas não o fez, que sua própria designaçãonosdoisúltimos anos fora motivada para dar maior impulsoaopontodevista feminino. Havia dias, entretanto, em que, depois de ler a publicidade orientada para o consumidor masculino (conhecida pela classe como “matéria musculosa”) que continuava a ser divulgada, Barbara se convencia de que fracassara totalmente.

Agora comentava:

— Nós acreditamos que as mulheres vão usar muito o Orion.

O  desenho no cavalete era de  um ponto de estacionamento de supermercado. A composição do artista estava excelente — a fachada da loja ao fundo, um Orion em destaque na frente, com outros carros em volta. Uma mulher que fazia compras enchia o banco traseiro do Orion de mercadorias.

— Esses outros carros — perguntou o gerente de publicidade da companhia automobilística — seriam nossos ou de concorrentes?

— Nossos,  eu  diria, J.  P.  —  apressou-se  a  responder Yates-Brown.

— Devia haver alguns carros de concorrentes,  J.  P. — disse Barbara. — Senão  a coisa toda perde o realismo.

— Não posso dizer que goste das mercadorias.   — O  comentário partia  do assistente de Underwood. — Atravancam a vista. Desvia a atenção do carro. E se usarmos mesmo esse fundo, tem que ser besuntado de vaselina.

Barbara sentiu vontade de soltar um suspiro de desânimo. A vaselina besuntada em torno de uma lente de câmara ao fotografar carros era um truque fotográfico que se tornara lugar-co­mum; deixava o fundo embaciado, ressaltando nitidamente o carro. Embora as companhias automobilísticas persistissem em usá-lo, muita gente na publicidade considerava o recurso tão antiquado quanto o twist.

— Nós estamos procurando mostrar o uso prático — explicou Barbara docemente.

— Mesmo assim — interveio Keith Yates-Brown, — foi  bom lembrar. Vamos anotar isso.

— O desenho seguinte — disse Barbara, — é um Orion na chuva. . . a nosso ver, um verdadeiro aguaceiro ficaria bem. De novo, uma mulher motorista, dando impressão que vai voltar do escritório pra casa. A fotografia seria tirada à noite, pra obter melhores reflexos  de uma rua molhada.

Seriadifícilnãosujaro carro — observou J. P. Underwood.

— A idéia toda é sujá-lo um  pouco — retrucou  Barbara. — Mais uma vez. . . realismo.  Em filme colorido ficaria sensacional.

— Não consigo ver o pessoal da diretoria topando isso — murmurou o assistente do gerente de publicidade de Detroit.

J.  P.  Underwood  guardou  silêncio.

Havia mais uma dúzia. Barbara passou um por um, rápida mas conscienciosamente, sabendo quantos esforços e dedicação os elementos mais jovens da agência tinham aplicado a cada um. Era sempre assim. Os criadores veteranos como Teddy Osch ficavam de lado e — como eles mesmo diziam — “os garotos que se cansem”, sabendo por experiência que o trabalho inicial, por melhor que fosse, seria sempre rejeitado.

Estava rejeitado agora. A conduta de Underwood deixava isso bem claro, e todo mundo na sala se deu conta disso, tal como acontecera ontem, antes do início dessa reunião. Nos seus primeiros tempos na agência, Barbara havia sido bastante ingênua para indagar por que isso sempre ocorria assim. Por que tanto esforço e qualidade — freqüentemente qualidade excelente — ficavam totalmente desperdiçados?

Aospoucos,certosfatos da vida em relação à publicidade de automóveis foram se explicando gradativamente. Perguntavam-lhe: se o programa de promoção germinasse logo, em vez de se desenvolver lenta e penosamente — muito mais que a promoção da maioria dos outros produtos — então como é que todo o pessoal que lida com automóveis em Detroit justificaria seus empregos, as intermináveis reuniões meses a fio, as polpudas contas de despesas, as viagens fora da cidade? De mais a mais, se uma companhia de automóveis preferia arcar com essa espécie de custo inflacionário, a agência não tinha nada que sugerir o contrário, e muito menoscomeçar uma cruzada. A agência saía-se esplendidamentebemdo arranjo; e depois, aliás, o plano sempre era aprovado no fim. O processo de publicidade para cada modelo anualprincipiava emoutubroounovembro.pormaiooujunho as decisões tinham que ser firmes para que a agência pudesse fazer seu trabalho; por conseguinte, o pessoal da companhia de automóveis começava a resolver o que queria porque também sabia consultar o calendário. A essa altura os maiorais em Detroit faziam igualmente sua entrada em cena, tomando decisões finais a respeito da publicidade, tivessem ou não talento para esse setor especializado.

O que mais aborrecia Barbara — e outros também, como descobriu mais tarde — era a espantosa perda de tempo, talento, gente e dinheiro, o exercício em futilidade. E, em conversa com elementos de outras agências, soube que o mesmo processo estava em uso em todas as Três Grandes companhias. Era como se a indústria automobilística, normalmente tão cônscia de tempo-e-movimento e crítica da burocracia externa, houvesse criado sua própria burocracia, que se  alastrava internamente.

Certa vez perguntou: Alguma das idéias iniciais, as realmente boas, chegam a ser apresentadas de novo? A resposta foi: Não, porque não se pode aceitar em junho o que se rejeitou em novembro passado. Seria embaraçoso para o pessoal da companhia automobilística. Esse tipo de coisa seria capaz de custar a um homem — talvez bom amigo da agência — o seu emprego.

— Obrigado, Barbara. — Keith Yates-Brown  assumia suavemente o comando. — Bem, J. P., pelo visto ainda temos um longo caminho pela frente.

O sorriso do supervisor da administração era cordial e expansivo, o tom de voz de quem sabe se desculpar sem passar vexame.

— E têm mesmo — retrucou J. P. Underwood, recuando a cadeira da mesa.

— Não houve nada que o senhor gostasse? — insistiu Barbara. — Absolutamente  nada?

Yates-Brown virou a cabeça abruptamente na sua direção e ela percebeu que tinha ultrapassado dos limites. Os clientes não deviam ser importunados daquele modo, mas a superioridade brusca de Underwood a espicaçara. Pensou, mesmo agora, em alguns dos jovens talentosos da agência, cuja obra imaginativa, bem como a dela própria, acabava simplesmente de ir por água abaixo. Talvez o que tivessem produzido até o presente momento não desse a resposta definitiva às necessidades do Orion, mas tampouco merecia ser menosprezado com tanta falta de consideração.

— Ora, Barbara — disse Yates-Brown, — ninguém falou que não houvesse gostado de nada. — O supervisor da agência continuava afável e simpático, mas ela sentiu o aço por baixo de suas palavras. Se quisesse, Yates-Brown, essencialmente um vendedor que praticamente nunca tivera uma idéia original própria, podia esmigalhar o pessoal criador da agência sob a sola de seus elegantes sapatos de crocodilo. Ele prosseguiu: — Mas nós seríamos menos que profissionais se não concordássemos que ainda não captamos o verdadeiro espírito do Orion. É um espírito formidável, J. P. Vocês nos deram oportunidade de trabalhar com um dos grandes carros da história.

Dava impressão que o gerente de publicidade tinha projetado o Orion sozinho.

Barbara sentiu-se ligeiramente nauseada. Percebeu o olhar de Teddy Osch. Imperceptivelmente, o diretor do departamento de criação sacudiu a cabeça.

— Direi o seguinte — declarou  espontaneamente J. P. Underwood. Seu tom era mais amistoso. Durante anos tomara parte nas reuniões desta mesa como mero subalterno; talvez a novidade do posto, a sua própria insegurança, tivessem contribuído para a rispidez de momentos antes. — Acho que acabamos de ver um dos melhores maços farfalhantes que vocês já fizeram pra nós.

Fez-se um silêncio penoso na sala. Até Keith Yates-Brown traiu um lampejo de surpresa escandalizada. Inepta, ilogicamente, o homem da publicidade da companhia havia tocado na simulação combinada, revelando o funcionamento da meticulosa farsa. Primeiro — o repúdio automático de tudo que lhe fora apresentado; um instante depois, o elogio ofensivo. Mas a situação permaneceria inalterada. Barbara estava bastante calejada para ter certeza disso.

E Keith Yates-Brown  também.  Recobrou-se logo.

— Que generosidade, J. P. Você foi generoso à beça! Falo em nome de todos aqui da agência quando lhe digo que ficamos gratos pelo seu estímulo e lhe asseguramos que da próxima vez seremos ainda mais efetivos. — O supervisor da administração agora estava de pé; os outros imitaram-lhe o exemplo. Virou-se para Osch:  — Não é mesmo, Teddy?

O chefe do departamento de criação aquiesceu com um sorriso amarelo.

— Nós fazemos o possível.

Encerrada a reunião, Yates-Brown e Underwood precederam os demais em direção à  porta.

— Alguém conseguiu dar um jeito nas entradas do teatro?

Barbara, que vinha atrás, escutara quando o gerente de publicidade pedira um conjunto de seis poltronas para uma comédia de Neil Simon, cujos ingressos, mesmo no câmbio negro, eram quase impossíveis de ser obtidos.

O supervisor da agência soltou uma gargalhada expansiva.

— Então você duvida de mim? — Passou o braço,  tom familiaridade, pelos ombros do outro. — Claro que conseguimos, J. P. Você escolheu as entradas mais difíceis da cidade, mas pra você a gente sempre dá um jeito. Elas serão entregues na nossa mesa de almoço no Waldorf.   Fica bem assim?

— Fica, sim.

Yates-Brown baixou a voz.

— E me avise onde o seu grupo gostaria de jantar. Nós nos encarregaremos das reservas.

E da conta, e de todas as gorjetas, pensou Barbara. Quanto aos ingressos do teatro, imaginou que Yates-Brown devia ter pago cinqüenta dólares por poltrona, mas a agência descontaria isso, junto com outras despesas, multiplicado por mil, na publicidade do Orion.

Certas ocasiões, quando os clientes eram levados a almoçar pelos executivos da agência, funcionários do setor criativo também ficavam convidados. Hoje, por razões todas suas, Yates-Brown resolvera  o contrário.   Barbara sentiu-se aliviada.

Enquanto o grupo de executivos da agência e de J. P. Underwood se dirigia certamente para o Waldorf, ela percorria, com Teddy Osch e Nigel Knox, o outro funcionário do departamento de criação que participara da reunião com o cliente, alguns quarteirões da parte superior da Terceira Avenida. Seu destino era o Joe & Rose, um pequeno restaurante obscuro, mas de primeira ordem, freqüentado na hora do almoço pelos publicitários das grandes agências das imediações. Nigel Knox, um rapaz efeminado, geralmente irritava Barbara, mas como o trabalho e as idéias dele também tinham sido rejeitadas, ela o tratava tom mais simpatia que de costume.

Teddy Osch tomou a dianteira, sob um toldo vermelho desbotado, do caminho para o despretensioso interior do restaurante. Durante o trajeto, ninguém havia pronunciado mais que uma ou duas palavras. Agora, ao serem conduzidos a uma mesa na pequena sala dos fundos, reservada aos habituès, Osth levantou três dedos em silêncio. Momentos após, três martinis em cálices gelados eram colocados diante deles.

— Não vou fazer nenhuma idiotice que nem chorar — disse Barbara,— e não quero cair no pileque porque a gente  sempre se sente horrível depois.  Mas se vocês dois não se importam, pretendobeberum bocado. — Emborcou o martini. — Outro, por favor.

Osch chamou o garçom.

— Traga três.

— Teddy — disse  Barbara, — que diabo, como é que você agüenta?

Osch passou a mão, pensativo, pela careta.

— Os primeiros vinte anos são os piores. A partir daí, depois de você ver uma dúzia de J. P. Underwoods entrando e saindo. . .

Nigel  Knox explodiu  como se  estivesse  reprimindo um protesto.

— Ele é uma criatura nojenta. Eu me esforcei pra simpatizar com ele, mas não houve jeito.

— Ah, cale a boca, Nigel — retrucou Barbara.

— O truque — continuou Osch  — é a gente se lembrar que o salário é bom, e na maioria das vezes. . . menos hoje. . . eu gosto do trabalho. Não há coisa mais empolgante. E digo mais ainda: Por melhor que seja o Orion que eles fabricarem, se for um sucesso, e vender bem, será por causa de nós e da promoção. Eles sabem disso; nós sabemos.  Assim, que mais interessa?

— O Keith Yates-Brown interessa — disse Barbara. — E  ele me dá engulhos.

Nigel Knox parodiou, com voz de falsete:

— Que generosidade, J.P. . .   Você foi generoso à beca! Agora eu vou me deitar no chão, J. P., e só espero que você me dê uma mijada em regras.

Knox teve um frouxo de riso. Pela primeira vez desde a reunião da manhã, Barbara achava graça nalguma coisa. Teddy Osch fez um olhar feroz  para os dois.

— O Keith Yates-Brown é o meu ganha-pão e o de vocês também, e que nenhum de nós se esqueça disso.  Claro, eu não poderia fazer o que ele faz. . . andar todo refestelado, lambendo o rabo do Underwood e de outros e ficar com cara de quem está gostando, mas é uma parte deste negócio que alguém tem que cuidar, portanto por que  recriminá-lo por um trabalho perfeito? Agora mesmo, e uma porção de outras vezes enquanto nós estamos fazendo a parte criativa, de que gostamos, o Yates-Brown fica na cama com o cliente, acariciando tudo o que for necessário pra manter o fulano animado e contente, e falando em nós, como nós somos fabulosos. E se você já tivesse estado numa agência que perdeu uma conta de fábrica de automóveis, saberia por que me alegro que ele esteja fazendo isso.

O garçom surgiu afobado.

— A vitela à parmigiana hoje está boa.

No Joe & Rose ninguém perdia tempo com frioleiras como cardápios.

Barbara e Nigel Knox toparam.

— OK, com inhoques — pediu Osch ao garçom. — E outra rodada de martinis.

Barbara percebeu que a bebida já os descontraíra. Agora o grupo estava seguindo um ritual estabelecido — a princípio sorumbáticos, depois cheios de autocomiseração; em breve, depois de mais um martini provavelmente, ficariam filosóficos. Nos poucos anos que trabalhara na agência OJL, tinha comparecido a várias autópsias deste gênero, em Nova York em lugares “bem” do mundo publicitário como o Joe & Rose, em Detroit no Caucus Club ou no Jim's Garage, no centro da cidade. Foi no Caucus que certa vez havia visto um publicitário idoso se desfazer todo e soluçar porque meses de seu trabalho tinham sido bruscamente jogados fora uma hora antes.

— Eu já trabalhei numa agência — disse Osch, — onde perdemos uma conta de automóveis. Aconteceu bem no fim-de-semana; ninguém esperava por aquilo, a não ser a outra agência que nos tirou  a conta.  Nós a apelidamos de “Sexta-Feira Negra”.

Passou os dedos pelo pé do cálice, rememorando aqueles anos.

— Uma centena de pessoas da agência foi despedida naquela sexta-feira  à tarde. Outras não esperaram  pra serem despedidas; sabiamque não restava nada pra elas, de modo que saíram correndopra cima e pra baixo na Madison e na Terceira Avenidas, à procura de empregos noutros lugares antes que encerrassem o expediente.Os caras estavam apavorados. Muitos deles tinham casas  suntuosas, hipotecas cavalares, filhos no colégio. O diabo é que asagênciasnãogostamdo cheiro de fracasso; além disso, alguns doscaras mais velhos já estavam simplesmente liquidados. Eumelembro,dois deram pra beber e não largaram mais; um suicidou-se.

— Mas você sobreviveu — disse Barbara.

— Eu era moço. Se acontecesse agora, iria pelo mesmo caminho deles. — Levantou o cálice. — Ao Keith Yates-Brown.

Nigel Knox largou o martini parcialmente bebido em cima da mesa.

—  Ah,  não, francamente.   Eu  não posso,  de jeito  nenhum.

Barbara sacudiu a cabeça.

—  Desculpe, Teddy.

— Então eu tomo o brinde sozinho — retrucou Osch. E tomou.

— Opiordonosso tipo de publicidade — disse Barbara, — équeoferecemosumcarroque não existe a uma pessoa imaginária.Ostrêstinhamquase terminado os últimos martinis; ela se deu conta que sua dicção estava pastosa. — Nós todos sabemos que não é possível comprar o carro que aparece nos anúncios, mesmo  querendo, porque as fotografias mentem. Quando se tiram retratos dos carros de verdade, usa-se uma lente de grande abertura angular pra expandir o primeiro plano, uma  lente de distensão pra dar maior profundidade ao panorama lateral. Chegamos até a melhorar a qualidade da cor, com jatos de spray e de pó e filtros de câmara.

Osch acenou de leve com a mão.

— Truques do ofício.

Um garçom viu o aceno.

— Outra rodada, Mr. Osch? A comida já vem  vindo.

O chefe do  departamento de criação aquiesceu.

— Mesmo assim, é um carro que não existe — insistiu Barbara.

— Gostei de ver! — Nigel Knox aplaudiu com estrépito, derrubando o cálice vazio e fazendo com que os ocupantes das outras mesas olhassem para eles com cara de riso. — Agora nos diga quem é a pessoa imaginária pra quem nós dirigimos a publicidade.

Barbara respondeu devagar, as idéias concatenando-se com menos presteza  que de costume.

— Os executivos de Detroit que dão a palavra final na promoção não compreendem o povo. Trabalham demais; não têm tempo. Por isso a maior parte da publicidade de automóveis consiste num executivo de Detroit dirigindo a promoção a outro executivo de Detroit.

— Descobri! — Nigel Knox sacudiu exuberantemente a cabeça. — Todo mundo sabe que um manda-chuva de Detroit é uma pessoa imaginária. Você é genial! Genial!

— Você também é — disse Barbara. — Acho que, a esta altura, eu não seria nem capaz de pensar em manda. . .  sei-lá-o-quê, quanto mais pronunciar a palavra.

Cobriu o rosto com a mão, arrependida de não ter bebido mais devagar.

— Não toquem nos pratos — recomendou o garçom, — estão quentes. — A vitela à parmigiana, com saborosos inhoques fumegantes, foi posta diante deles, acompanhada por outros três martinis. — Cumprimentos da mesa vizinha — explicou o garçom.

Osch agradeceu os drinques, depois semeou os inhoques com um punhado generoso de pimentas vermelhas.

— Cruzes — preveniu Nigel  Knox, — isso aí arde que é um horror.

— Eu preciso de fogo novo dentro de mim — retrucou o chefe do departamento de criação.

Fez-se silêncio enquanto começavam a comer,  por fim Teddy Osch olhou para Barbara no outro lado da mesa.

— Pelo jeito que você está se sentindo, acho até uma sorte você sair do programa do Orion.

— Quê?

Espantada, soltou a faca e o garfo.

— Eu era pra ter contado antes. Mas não houve oportunidade.

— Quer dizer que fui despedida?

Ele sacudiu  a  cabeça.

— Serviço novo. Amanhã você ficará sabendo.

— Teddy — implorou, — você tem que me dizer agora.

— Não — recusou-se com firmeza. — Quem vai dizer é o Keith Yates-Brown. Foi ele quem recomendou você. Lembra-se?. . .   o cara que você não quis brindar.

Barbara teve uma sensação  de vazio.

— Só posso dizer — continuou Osch, — que gostaria de estar no seu lugar. — Tomou um gole do novo martini; dos três, era o único que ainda estava bebendo. — Se fosse mais moço, acho que talvez me teriam escolhido. Mas tenho impressão que vou continuar fazendo o que sempre fiz: promovendo aquele carro que não existe a uma pessoa imaginária.

— Teddy — disse Barbara, — sinto muito.

— Não precisa. O triste é que eu acho que você tem razão. — O chefe do departamento de criação piscou. — Puxa vida! Essas pimentas ardem mais do que eu   pensava.

Tirou  um  lenço e  enxugou  os  olhos.

 

A mais ou menos cinqüenta quilômetros de distância de Detroit, ocupando meio milhar de acres de magníficas terras de Michigan, o campo de provas da companhia automobilística se estendia como um país dos Bálcãs obstruído por fronteiras protegidas. Existia apenas uma entrada para o campo de provas — pela barreira dupla, vigiada por guardas de segurança, extraordinariamente parecida com o Checkpoint Charlie de Berlim Oriental. Aqui os visitantes eram detidos para exame de credenciais; não se admitia o ingresso de ninguém sem autorização prévia.

À parte esse ponto de acesso, a área toda era fechada por cerca alta, de trançado de ferro, patrulhada por guardas. Por dentro da cerca, árvores e outras plantas protetoras formavam um escudo visual contra observadores externos.

O que a companhia protegia era alguns de seu segredos mais cruciais. Entre eles: experiências com novos carros, caminhões e seus componentes, bem como testes de rendimento, destinados à eliminação de modelos atuais.

As provas se efetuavam em cerca de 250 quilômetros de estradas — caminhos que não levavam a parte alguma — indo desde as melhores espécies até as absolutamente piores ou mais catastróficas do mundo. Entre estas últimas figurava uma reprodução da pavorosamente íngreme Filbert Street(1)1 de São Francisco, cujo nome (segundo os são-franciscanos) é mais que apropriado, uma vez que se precisa ser doido para descê-la de carro. Uma estrada belga,  pavimentada  de  madeira,  fazia  saltar  todos os  parafusos, soldas e rebites de um carro, e bater os dentes do motorista. Ainda mais brutal, e usada para experiências com caminhões, era a réplica de uma trilha de caça africana, com raízes de árvores, rochas e buracos de lama.

Uma parte da estrada, construída ao nível do solo, ficou conhecidacomooBecoda Serpentina. Consistia numa série de curvas fechadas em forma de s, a curtos espaços de distância e absolutamente planas, de modo que a ausência de qualquer rampa forçava o carro aos últimos limites quando as dobrava em alta velocidade.

Neste momento, Adam Trenton lançava um Orion pelo Beco da Serpentina a 90 quilômetros por hora.

Os pneus chiavam com violência, desprendendo fumaça, enquanto o carro investia impetuosamente para a esquerda, depois para a direita, depois para a esquerda de novo. Cada vez, a força centrífuga se distendia, premente, protestando, contra a direção da curva. Aos três ocupantes, parecia que o carro ia capotar a todo instante, muito embora soubessem que não.

Adam olhou para trás. Brett DeLosanto, sentado no centro do banco traseiro, preso pelo cinto de segurança, escorava os braços em ambos os lados.

O projetista gritou por cima do encosto:

— Meu fígado e meu baço simplesmente trocaram de posição. Estou contando com a próxima curva pra botar tudo de novo no lugar.

Junto a Adam, Ian Jameson, escocês franzino de cabelos rui-vos, do Departamento Técnico, mantinha-se imperturbável. No mínimo pensava a mesma coisa que Adam — que não havia nenhuma necessidade de fazerem todas aquelas curvas: motoristas profissionais já tinham submetido o Orion a severos testes ali, e ele resistira galhardamente. O verdadeiro objetivo do trio no campo de provas hoje consistia em examinar um problema de RVR (iniciais técnicas para Ruído, Vibração e Rigidez) que os modelos do Orion haviam desenvolvido em velocidades muito altas. Mas a caminho da pista de corridas tinham passado pelo acesso ao Beco da Serpentina e Adam enveredara primeiro por ele, na esperança de que ao arremessar o carro de um lado para outro aliviaria um pouco a própria tensão que sentia, e da qual continuava consciente desde o fim da entrevista coletiva com a imprensa umas duas horas antes.

A tensão, que se manifestara de manhã cedo, vinha ocorrendo com mais freqüência ultimamente.   A tal ponto que,  poucas semanas atrás, Adam marcara consulta no médico, que perscrutou, premiu, procedeu os testes mais variados e, afinal, disse-lhe que fisicamente não apresentava nada de grave, a não ser, talvez, um excesso de acidez no organismo. O clínico depois falou vagamente em “personalidade sujeita a úlcera”, na necessidade de parar de se preocupar, e rematou com este lugar-comum, digno de jardim da infância: “Uma montanha só parece intransponível a quem se dispõe a escalá-la.”

Enquanto Adam escutava impaciente, desejando que os médicos atribuíssem maiores conhecimentos e inteligência aos pacientes, o clínico frisou que o corpo humano possui seus próprios mecanismos intrínsecos de advertência aconselhando-lhe um pouco de repouso, coisa que Adam sabia que seria impossível este ano. O médico finalmente chegou aonde Adam pretendia, receitando-lhe comprimidos de Librium na dosagem prescrita. Adam prontamente ultrapassou-a, e continuou a fazer o mesmo. Também não revelou ao médico que andava tomando Valium, obtido noutra fonte. Hoje, Adam havia ingerido várias pílulas, inclusive uma pouco antes de partir para o centro da cidade, mas sem efeito perceptível. Agora, como as curvas em s também nada tinham feito para aliviar-lhe a tensão, tirou furtivamente outra pílula do bolso e engoliu-a.

Aaçãolembrou-lhe que ainda não mencionara a Erica a visitaao médico, nem os comprimidos, que guardava na pasta, escondidos .

Perto do fim do Beco da Serpentina, Adam desviou abruptamente o carro, diminuindo um pouco a velocidade antes de se dirigir à pista utilizada para corridas de alta velocidade. Do lado de fora, árvores, prados e estradas convergentes passavam voando. O velocímetro baixou para 90,  depois subiu para 100.

Com uma das mãos, Adam verificou de novo a firmeza de seus próprios tirantes no colo e do arnês dos ombros. Sem virar a cabeça, avisou aos outros:

— OK.  Vamos dar uma embalada neste boneco.

Investiram pela pista de corridas, cruzando à toda por outro carro, a velocidade sempre aumentando. Iam a 105 quilômetros por hora, e Adam mal divisou o rosto do outro motorista, virado para eles.

IanJamesonesticouopescoçoàesquerdaparaver o ponteiro do velocímetro, agora acima de 110. O técnico de cabelos ruivos havia sido uma figura-chave na análise do problema RVR atual do Orion.

— Daqui a pouco vamos ouvi-lo —  disse Jameson.

Avelocidadeestavaem 115. O vento, em grande parte criado por eles mesmos, bramia enquanto voavam em torno da pista. Adampisou fundo no acelerador. Agora tocava no controle de velocidade automático, passando a comando ao computador, e tirando o pé do pedal. A velocidade aumentou gradativamente. Já ultrapassava de  120.

— Aí vem — disse  Jameson.

Mal falou, o carro estremeceu com violência — uma pulsação intensa, sacudindo tudo, inclusive os ocupantes. Adam sentiu a visão ligeiramente turva com a rapidez do movimento. Ao mesmo tempo, um zumbido metálico surgiu e diminuiu.

— Na hora agá — disse o técnico.

Adam achou-o complacente, como se fosse ficar desapontado se o problema não aparecesse.

— Nas feiras de diversões. . . — Brett DeLosanto falava  aos berros  para se fazer ouvir; as palavras saíam entrecortadas pelos sacolejões. — Nas feiras de diversões, o pessoal paga pra dar uma volta destas.

— E se deixássemos tal como está — retrucou Adam, — a maioria dos motoristas nem ia  perceber.  Não são muitos os que ultrapassam de  100.

— Mas alguns passam — disse Ian Jameson.

Adam reconheceu, soturno: era verdade. Um punhado de motoristas irresponsáveis chegaria a 120 e, entre eles, um ou dois poderia se assustar com a vibração repentina, perdendo depois o controle, matando ou aleijando a si mesmos ou a outros. Mesmo sem acidente, o efeito RVR talvez ficasse notório, e gente como Emerson Vale tiraria o máximo partido disso. Adam lembrou-se que foram alguns acidentes esparsos, em alta velocidade, com motoristas que manobravam demais ou de menos nas emergências que liquidou com o Corvair poucos anos atrás. E apesar de que quando Ralph Nader publicou sua hoje famosa denúncia do Cor­vair as falhas iniciais já estivessem corrigidas, o carro mesmo assim estava com sua sorte selada sob o peso de publicidade desencadeada por Nader.

Adameoutrosdacompanhia, que sabiam do estremecimentoàalturadoexcessode velocidade, não tinha nenhuma intençãodepermitirque um episódio semelhante fosse prejudicar a folha-corridadoOrion.Eraumdosmotivos que levava o supremocomandoda companhia a manter-se calado para que os boatosdoproblemanãotranspirassemfora. Uma   pergunta vital nesta fase era: Como eliminar o estremecimento e a que preço? Adam tinha vindo descobrir e, por causa da urgência, possuía autoridade  para tomar decisões.

Retomou o controle do carro, desligando o computador, e deixou que a velocidade baixasse, 30 km por hora. Depois, por duas vezes mais, em proporções de aceleramento diversas, aumentou de novo para 120. Cada vez, tanto a vibração como o ponto em que ocorreu foram idênticos.

— Há uma diferença no metal laminado deste carro.

Adam lembrou-se de que o Orion que estava dirigindo era um modelo inicial, feito a mão — como todos até agora — porque a fabricação na linha de montagem ainda não começara.

— Não faz diferença pro efeito — afirmou Ian Jameson, categórico. — Já fizemos outra experiência aqui com um Orion perfeito, e outra no dinamômetro. Todos fazem o mesmo. Mesma velocidade, mesmo RVR.

— Parece uma mulher tendo orgasmo — disse Brett. — Até o barulho, também. — Perguntou ao técnico: — Não causa nenhum dano?

— Que nos conste, não.

— Então é uma pena suprimi-lo.

— Pelo amor de Deus — explodiu Adam, pare de dizer besteira! Claro que temos que suprimi-lo! Se fosse uma questão de aparência, você não seria tão complacente, porra.

— Ora, vejam — retrucou Brett. — Pelo jeito não é só o carro que está  trepidando.

Tinham deixado a pista de corridas. De repente Adam freou, tão abruptamente que todos os três foram jogados para a frente, contra os tirantes. Dobrou na direção de uma saliência coberta de grama. Quando parou o carro, desafivelou os cintos, depois saiu e acendeu um cigarro. Os outros o acompanharam.

Dolado de fora, Adam sentiu um leve arrepio. O ar estava revigorante, folhas de outono giravam numa rajada de vento, e o sol, antes à mostra, se escondera entre as nuvens cinzentas. Através das árvores, avistava-se um lago, a superfície desoladamente franzida.

Adam ponderou a decisão que devia tomar. Estava cônscio de que era uma decisão difícil, pela qual seria recriminado — justa ou injustamente — se não desse certo.

Ian  Jameson  interrompeu  o  silêncio  constrangedor.

— Nós estamos convencidos de que o defeito é  causado pelos pneus e superfícies da estrada quando uma coisa ou outra entra em fase com os harmônicos da carroçaria, de modo que a vibração é a freqüência natural da carroçaria.

Por outras palavras, deduziu Adam, não havia nenhum defeito na estrutura do carro.

— A vibração pode ser dominada? — perguntou.

— Sim — respondeu Jameson. — Temos certeza disso, e também de que se pode optar por duas soluções: projetar de novo a estrutura lateral da parte dianteira do carro e  as barras de tor­ção embaixo da carroçaria — supriu   os  detalhes   técnicos — ou adicionar braçadeiras  e reforço.

— Ei! — Brett ficou imediatamente alerta. — A primeira implica em modificações externas da carroçaria, não é?

— É — confirmou o técnico. — Elas seriam necessárias na parte lateral inferior, perto de abertura da porta dianteira e das áreas de cobertura do balancim.

Brett estava carrancudo — e não era para menos, pensou Adam. Ia ser preciso revisar todo o projeto e estabelecer um programa de testes a uma altura em que todo mundo acreditava que o projeto do Orion já se achava definitivamente pronto.

— E os aditivos? — indagou.

— Fizemosexperiências,ehaveriaduas peças. . . um reforço do soalho dianteiro e uma braçadeira sob o painel de instrumentos.

O técnico descreveu a braçadeira, que ficaria oculta, estendendo-se de um lado da estrutura lateral da parte dianteira até a coluna de direção, e dali até a parte dianteira  do lado oposto.

Adam fez a pergunta crucial:

— Custo?

— Você não vai gostar. — O técnico hesitou, sabendo a reação que suas próximas palavras iam produzir. — Cinco dólares, mais ou menos.

— Deus do céu! — gemeu Adam.

Encontrava-se perante um dilema desanimador. Fosse qual fosse o caminho escolhido, seria negativo e dispendioso. A primeira alternativa do técnico — projetar de novo — seria menos custosa, oscilando provavelmente de meio a um milhão de dólares em novos equipamentos. Mas provocaria atrasos, e a apresentação do Orion sofreria um adiamento de três a seis meses que, de per si, poderia ser desastrosa por vários motivos.

Poroutrolado, num milhão de unidades, o custo dos dois aditivos — o reforço do soalho e a braçadeira — seria de cinco milhõesdedólares,eesperava-se fabricarevender uma quantidade de Orions muito superior a um milhão de carros. Milhões de dólares, a serem acrescidos às despesas de produção, para não falar nos lucros perdidos, e tudo por causa de um item totalmente negativo! Na fabricação de automóveis, cinco dólares representam uma soma respeitável, e os fabricantes pensam geralmente em termos divisionários, cortando dois cents aqui, cinco cents ali, devido ao vasto  número total envolvido.

— Porcaria! — exclamou Adam, com profundo desgosto.

Olhou para  Brett.

— Estou vendo que não é mole — disse o projetista.

A explosão de Adam no carro não era o primeiro atrito entre ambos desde o começo do projeto Orion. Às vezes era Brett quem perdia a calma. Mas, apesar dos pesares, até agora tinham conseguido permanecer amigos. Menos mal, porque um novo projeto os esperava, cujo nome de código por enquanto era Farstar.

— Se você quiser ir até o laboratório — sugeriu Ian Jameson, — temos um carro com os aditivos pra lhe mostrar.

Adam aquiesceu, carrancudo.

— Então vamos de uma vez.

Brett DeLosanto ergueu  os  olhos,  incrédulo.

— Você quer dizer que esse pedaço de ferro-velho e aquele outro ali vão custar cinco dólares?

Olhava para uma chapa de aço, fixa por parafusos, que passava por baixo de um Orion.

Adam Trenton, Brett e Ian Jameson estavam examinando o reforço proposto para o assoalho numa área de inspeção sob um dinamômetro, de modo que toda a parte inferior do carro ficava-lhes exposta, à vista. O dinamômetro, um conjunto de placas, cilindros e instrumentos de metal lembrando vagamente um gigantesco guincho de posto de serviço, permitia que o carro fosse manobrado como se estivesse na rua, enquanto era observado de todos os ângulos.

emcimatinhamexaminadoooutroreforçoqueiadeumladoaoutrodapartedianteira, passando pela barra de direção.

— Talvez fosse possível economizar alguns cents  no custo — admitiu Jameson, — mas não mais, depois de levar em conta o material, o trabalho a máquina, e por fim a colocação dos parafusos e serviço de instalação.

O modo do técnico, uma espécie de indiferença pedante, como se o custo e as questões econômicas não lhe interessassem de forma alguma, continuava irritando Adam, que indagou:

— Até que ponto o Departamento Técnico está se protegendo? Nós  vamos precisar mesmo de  tudo isso aí?

Era a pergunta constante de um planejador de produto a um técnico. Os homens do produto acusavam sistematicamente os técnicos de incluir, em tudo quanto é parte, margens de resistência maiores que as necessárias, aumentando assim o custo e o peso de um automóvel, com prejuízo do rendimento. O Planejamento de Produto seria capaz de afirmar: se a gente deixasse o pessoal do setor siderúrgico fazer o que bem entende, tudo quanto é carro teria a resistência da Ponte de Brooklyn, rodando feito caminhão blindado, e com. a durabilidade do Stonehenge. Tomando posição adversária, os técnicos se defendiam: Claro que adotamos margens, porque se alguma coisa falhar, quem leva a culpa somos nós. Se os planejadores de produto fossem responsáveis pela parte técnica, eles conseguiriam peso leve. . . no mínimo com um chassi de cortiça e sapatas de freio de folha de estanho.

— Não há nenhuma proteção do Departamento Técnico ali. — Tocava  a vez de Jameson se melindrar. — Nós reduzimos o RVR a um nível que acreditamos aceitável. Se adotássemos outra soluçãomaiscomplicada. . . que seria mais dispendiosa. . . provavelmenteo eliminaríamos por completo. Por enquanto não adotamos.

— Vamos ver o que adianta isso aí — retrucou Adam, sem se dar por achado.

Jameson tomou a dianteira do trio para subir a escada metálica que ligava o pátio de inspeção com o pavimento principal do Laboratório de Ruído e Vibração lá  em cima.

Olaboratórioumprédiono campo de provas, cujo formato se assemelhava a um hangar de aviões, dividido em grandes e pequenas áreas de trabalho especializado — estava, como de costume, ocupado com enigmas de RVR jogados ali pelos vários departamentos da companhia. Um problema agora sendo examinado em caráter de urgência era um chiado estridente, que lembrava um grito de mulher, emitido por um novo tipo de freio em locomotivas diesel. O Departamento de Vendas Industriais tinha imposto rigorosamente: a força de parada devia ser mantida, mas as locomotivas precisavam soar como se estivessem sendo freadas, e não violentadas. Outro problema — este do Departamento de Utilidades Domésticas — era um ruído perceptível  num relógio de controle de forno de cozinha; o de uma firma concorrente, apesar de menos eficiente, era silencioso. Sabendo que o público desconfia de barulhos novos ou diferentes e que as vendas poderiam sofrer uma baixa se o ruído persistisse, o Departamento de Utilidades Domésticas apelara ao laboratório de RVR a fim de acabar com o ruído, mas não com o relógio.

Os automóveis, porém, constituíam o grosso dos problemas do laboratório. Um, recente, originava-se da revisão de estilo de vim modelo de carro tradicional. O novo estilo da carroçaria quando em movimento, produzia um barulho de tambor; os testes demonstraram que provinha de um pára-brisas modificado. Depois de semanas de experiências a esmo, os técnicos em RVR eliminaram o barulho de tambor introduzindo uma ondulação no assoalho metálico do carro. Ninguém, inclusive os próprios técnicos, soube explicar exatamente por que a ondulação parou com o barulho do pára-brisas;  o importante foi que parou.

A fase atual de testes com o Orion no laboratório tinha sido iniciada no dinamômetro. Em conseqüência disso, o carro podia ser manobrado em qualquer velocidade, manualmente ou por controle remoto, durante horas, dias ou semanas a fio, sem nunca se deslocar da posição primitiva nos roletes da máquina.

O Orion que haviam examinado pela parte de baixo estava pronto para entrar em ação. Passando por cima das chapas do piso de aço do dinamômetro, Adam Trenton e Ian Jameson subiram no carro, Adam ocupando o volante.

Brett DeLosanto já não os acompanhava. Tendo-se satisfeito com a constatação de que os aditivos propostos não afetariam a aparência externa do carro, voltara lá para fora a fim de examinar uma pequena modificação na grade do radiador do Orion. Os projetistas gostam de ver os resultados de seu trabalho ao ar livre — “no meio da grama”, como dizem. Às vezes, em ambiente aberto e com luz natural, um projeto apresenta efeitos visuais imprevistos, em comparação com o aspecto que tem no interior de um estúdio. Quando o Orion, por exemplo, foi visto pela primeira vez sob a luz direta do sol, a grade do radiador apareceu inesperadamente preta, em vez de prateada, como deveria ser. Impôs-se uma modificação  de ângulo na grade para corrigi-la.

Uma especialista de casaco branco saiu de uma cabina de controle envidraçada.

— Há algum tipo especial de estrada que o senhor queira, Mr. Trenton? — perguntou a moça.

— Me dê uma bem desparelha que produza bastantes solavancos — pediu o técnico. — Uma da Califórnia, por exemplo.

— Pois não.

A moça voltou à cabina, depois curvou-se para fora, à soleira da porta, segurando um rolo de fita magnética na mão.

— Esta é a da Rodovia Estadual 17, entre Oakland e São José.

Entrando de novo na cabina, colocou a fita  num aparelho, prendendo  a ponta na bobina vazia.

Adam girou a chave de ignição. O motor do Orion começou a funcionar.

Adam sabia que a fita que agora rodava no interior da cabina envidraçada ia transferir eletronicamente a superfície da estrada verdadeira aos roletes do dinamômetro por baixo do carro. A fita era uma das várias da biblioteca do laboratório, e tudo tinha sido feito com veículos de gravação sensível, passando por estradas da América do Norte e da Europa. Assim, as condições da estrada autêntica, boas e más, podiam ser reproduzidas instantaneamente para finalidades de teste e estudo.

Pôs o Orion em movimento e acelerou.

A velocidade aumentou rapidamente para 75 km por hora. As rodas do Orion e os roletes do dinamômetro giravam, embora o carro em si permanecesse imóvel. No mesmo instante, Adam sentiu a insistência das batidas que vinham da parte inferior.

— Muita gente acha as auto-estradas da Califórnia ótimas — observou Ian Jameson. — Ficam admirados quando lhes demonstramos como elas podem ser ruins.

O velocímetro marcava 95.

Adam aquiesceu. Sabia que os técnicos automobilísticos criticam a pavimentação das rodovias da Califórnia porque as auto-estradas estaduais — devido à ausência de geadas — não são feitas com espessura suficiente. Essa falta de espessura provoca a depressão das faixas de concreto no meio e forma sulcos e rachas nas beiras — conseqüência do peso dos grandes caminhões. Desse modo, quando um carro chega à extremidade de uma faixa, fica em falso e salta para a próxima. O processo causa solavancos e vibrações contínuas que os motoristas têm que manobrar para absorver.

A velocidade do Orion se aproximava de 120.

— A coisa deve vir agora — disse Jameson.

Mal terminou de falar, um zumbido e uma vibração — em acréscimo às imperfeições da  auto-estrada da Califórnia — se estenderam de ponta à ponta no carro. Mas o efeito era leve, o zumbido pouco intenso, a vibração ínfima. O RVR já não assustaria os ocupantes do carro, como antes na pista de  provas.

— É só isso? — perguntou Adam.

— Só — garantiu Jameson. — Os reforços eliminaram o resto. Conforme eu disse, nós consideramos que o que ficou tem um nível aceitável. — Adam diminuiu a velocidade, e o técnico acrescentou: — Vamos experimentar numa estrada parelha.

Com outra fita no gravador da cabina — um trecho da Interestadual 80 de Illinois — as desigualdades da pavimentação desapareceram, enquanto que o zumbido e a vibração pareciam, proporcionalmente, mais baixos.

— Tentemos ainda mais uma — sugeriu Jameson, — que seja dura de roer mesmo.  — Fez sinal à assistente  do laboratório na cabina, que sorriu..

Quando Adam acelerou, até a 90 km por hora, o Orion sacolejava de maneira alarmante.

— Esta é do Mississippi — anunciou Jameson, — a U.S.  90, pertodeBiloxi. A estrada já não era boa, e o furacão Camille terminou estragando-a por completo. O trecho que percorremos agora ainda não foi consertado. Naturalmente, ninguém correria nela com essa velocidade, a não ser que estivesse contemplando o suicídio.

A 120 km por hora a estrada, transmitida pelo dinamômetro, era tão ruim que não dava nem para distinguir a própria vibração do carro. Ian Jameson parecia satisfeito.

— O pessoal nem imagina como a nossa técnica tem que ser boa pra enfrentar tudo quanto é   tipo de estrada — comentou, enquanto a velocidade diminuía, — inclusive uma porção de outras iguais a esta.

Segundo Adam, Jameson estava perdido de novo no mundo abstrato da técnica. O que realmente interessava, do ponto de vista prático, era o fato de que o problema de RVR do Orion podia ser resolvido. Adam já havia decidido que a solução dos aditivos, apesar do custo exorbitante, seria a escolhida, a fim de não atrasar o lançamento do Orion. É claro que Hub Hewitson, o vice-presidente executivo da companhia, que tratava o Orion com desvelos de criança mimada, ia ter uma crise quando soubesse do custo adicional de cinco dólares. Mas acabaria se conformando, como Adam — quase — se conformara.

Saiudocarro, acompanhado por Ian Jameson. De acordo com as instruções do técnico, Adam deixou o motor ligado. Agora a moça na cabina assumia o comando, manobrando o Orion por controle remoto. A 120 km por hora no dinamômetro, a vibração do lado de fora não era mais intensa do que tinha sido lá dentro.

— Tem certeza de que o reforço há de resistir ao longo uso? — perguntou Adam a Jameson.

— Sem dúvida nenhuma.  Já o expusemos a  todos os  testes. Ficamos satisfeitos.

Sim, pensou Adam. Estou vendo como você ficou satisfeito. Demais até, porra. A indiferença do técnico — que mais parecia autocomplacência — ainda o irritava.

— Você nunca se chateia — perguntou Adam, — com o fato de que tudo o que vocês   fazem   aqui tem   um aspeto   negativo? Vocês não produzem nada.  Apenas tiram  coisas, eliminam.

— Ah, mas alguma coisa sempre se produz. — Jameson apontou   para  os  roletes  do  dinamômetro,  que  continuavam girando velozes, impelidos pelas rodas do Orion.  — Está vendo aquilo ali? Eles são ligados a um gerador, tal como os outros dinamômetros do laboratório.  Toda vez que acionamos um carro, que os roletes geram eletricidade,  ficamos acoplados com a Detroit  Edison e lhe fornecemos força.  — Olhou para Adam com ar de desafio. — Às vezes me parece tão útil quanto certas coisas que saem do Planejamento  de Produto.

Adam sorriu, concedendo.

— Mas não quanto o Orion.

— Não — concordou Jameson. — Nesse sentido acho que nossas  esperanças são comuns.

 

Erica Trenton comprou finalmente na Laidlaw-Beldon de Somerset Mall, em Troy, o negligè que tanto procurava. Antes havia corrido todas as lojas de Birmingham, sem encontrar nada que a atraísse como suficientemente digno do objetivo que tinha em mente, de modo que prosseguira na busca pelo bairro em seu conversível esporte, realmente não se incomodando, porque era agradável, para variar, ter alguma coisa a fazer que lhe interessasse.

Somerset Mall era uma praça ampla, moderna, a leste de Big Beaver Road, com lojas de luxo, freqüentadas pelas famílias ricas da indústria automobilística residentes em Birminghan e Bloom-field Hills. Erica costumava comprar muito ali e conhecia a maior parte das lojas, inclusive a  Laidlaw-Beldon.

Assim que o enxergou, percebeu logo que o negligê era exatamente o que queria. De nylon puro, fazendo jogo com o peignoir, em bege claro, tinha quase a cor do seu cabelo. O efeito total, ela sabia, seria o de projetar uma imagem de lourismo cor de mel. Resolveu que um batom laranja pálido completaria a impressão sensual que pretendia criar, hoje à noite, para Adam.

Erica não possuía conta na loja e pagou com cheque. Depois foi comprar batom na seção de cosméticos porque estava incerta se teria algum em casa que  fosse da tonalidade desejada.

Havia muito movimento na seção de cosméticos. Enquanto esperava, examinando um mostruário de cores de batom, Erica notou outra compradora no balcão de perfumes ao lado, uma mulher de sessenta e poucos anos que informava à vendedora:

— É pra minha nora. Não tenho muita certeza. . . Deixe-me ver o Norell.

Usando um frasco de amostra, a moça — uma morena entediada — aplicou o perfume.

— Sim — disse a mulher. — Sim, é ótimo. Vou levar. O frasco de trinta gramas.

A vendedora escolheu uma embalagem branca de letras pretas na prateleira revestida de espelhos às suas costas, fora do alcance da freguesia, e colocou-a em cima do balcão.

— São cinqüenta  dólares, mais o imposto de mercadorias. É à vista ou a crédito?

A mulher mais velha hesitou.

— Oh, não pensei que fosse tão caro.

— Temos em tamanhos menores, madame.

— Não. . .   Bem, sabe, é pra presente.  Eu acho que devia. . . Mas vou refletir e depois passo outra hora.

Quando a mulher se afastou do balcão, a vendedora fez o mesmo: cruzando por uma porta em arco, ficou momentaneamente fora de vista. A embalagem continuou em cima do balcão, no mesmo lugar.

Irracionalmente, da maneira mais incrível, uma idéia se formou no pensamento de Erica: Norell é o meu perfume. Por que não pego esse vidro?

Vacilou, escandalizada pelo próprio impulso. Enquanto isso, uma segunda idéia a assaltou: Ande de uma vez! Você está perdendo tempo! Agarre logo!

Mais tarde, lembrou-se que esperara o bastante para se perguntar: é mesmo o meu próprio cérebro que está raciocinando? Depois, deliberadamente, sem se afobar, mas como que impelida por uma força magnética, Erica passou da seção de Cosméticos para a de Perfumes. Não se apressou nem desperdiçou movimentos. Apanhou a embalagem, abriu a bolsa e jogou-a dentro. A bolsa tinha fecho de mola e fechava com um estalido. O ruído pareceu um disparo de canhão a Erica. Devia ter chamado atenção.

Que tinha feito?

Ficou parada, trêmula, na expectativa, com medo de se mexer, esperando uma voz acusadora, com a mão no seu ombro, que gritasse: “Ladra!”

Nada disso aconteceu. Mas aconteceria; sabia que ia acontecer, a qualquer momento.

Como poderia explicar? Impossível. Estava com a prova dentro da bolsa. Refletiu imediatamente: não seria melhor tirar a embalagem, repô-la no lugar, antes que aquele impulso estouvado, inacreditável, a tivesse invadido, levando-a a agir desse modo? Nunca havia feito coisa semelhante, nunca, nem nada sequer parecido.

Ainda trêmula, consciente das batidas do próprio coração, Erica perguntou-se: Por quê? Que motivo teria, se tanto, pra fazer o que acabava de fazer? O mais absurdo c que não precisava roubar — nem perfume nem nada. Trazia dinheiro, e o talão de cheques, na bolsa.

Mesmo agora, se quisesse, podia chamar a vendedora de volta ao balcão, retirar o dinheiro para pagar a embalagem, e tudo ficaria por isso mesmo. Desde que agisse depressa.  Já!

Não.

Como não havia ainda acontecido nada, era óbvio que ninguém a tinha visto. Do contrário, pensou, a esta altura já teria sido abordada, interpelada, talvez levada embora. Virou-se. Com o ar mais natural, fingindo indiferença, examinou a loja em todas as direções. O movimento prosseguia como de costume. Ninguém parecia absolutamente interessado nela, ou sequer olhava para seu lado. A vendedora de perfumes não reaparecera. Sem se apressar, como antes, Erica recuou para a Seção de Cosméticos.

Lembrou-se: de qualquer maneira, pretendia comprar um perfume. O modo como o conseguira havia sido tolo e perigoso, e nunca, jamais, voltaria a fazer aquilo. Mas agora era seu, e o que está feito, está feito. Tentar desfazê-lo só iria criar-lhe dificuldades, exigir explicações, talvez seguidas de acusações, todas as quais convinha evitar.

Uma das vendedoras da seção de Cosméticos ficou livre. Com seu sorriso e maneira mais cativantes, Erica pediu para experimentar algumas tonalidades de batom laranja.

Sabia que ainda havia um perigo: a vendedora dos perfumes. A moça não daria pela falta da embalagem retirada da prateleira? Nesse caso, não se lembraria que Erica tinha ficado por perto? O instinto de Erica a aconselhava a sair, a correr para fora da loja, mas a razão preveniu-lhe: seria menos conspícuo permanecer onde estava. De propósito, demorou-se na escolha de batom.

Outra freguesa parou no balcão de perfumes. A vendedora voltou, atendeu a recém-chegada, e de repente, como que lembrando, olhou para o lugar onde deixara a embalagem de Norell. Fez cara de surpresa. Virando-se rapidamente, examinou a prateleira do estoque onde antes apanhara a embalagem. Havia várias outras; algumas do Norell no tamanho de 30 gramas. Erica adivinhou a incerteza da moça: teria reposto a embalagem no lugar ou não?

Cuidando para não olhar diretamente, Erica ouviu a freguesa que acabava de chegar fazer uma pergunta. A vendedora de perfumes respondeu, mas parecia inquieta, continuando a olhar em torno. Erica sentiu-se observada. No mesmo instante sorriu para a vendedora que a atendia.

— Vou levar este — disse-lhe.

Erica pressentiu que a inspeção da outra vendedora tinha terminado.

Nada acontecera. A moça, provavelmente, estava mais preocupada com o próprio descuido e as conseqüências que poderiam advir dele, do que com qualquer outra coisa. Ao pagar o batom, apenas entreabrindo a bolsa para retirar uma nota dobrada, Erica sossegou.

Antes de ir embora, cedendo a uma tentação de malícia, chegou mesmo a parar no balcão de perfumes para experimentar uma amostra de Norell.

Só quando se aproximou da porta da rua foi que o nervosismo de Erica voltou. Converteu-se em terror ao imaginar: talvez, no fim das contas, tivesse sido vista. Quem sabe não a estariam observando, permitindo-lhe sair desse modo para que a loja dispusesse de elementos de acusação mais fortes contra ela? Lembra-se vagamente de ter lido qualquer coisa nesse sentido. A alameda de estacionamento, visível lá fora, parecia um refúgio amigo, à sua espera — próxima, no entanto ainda tão longe.

— Passe bem, minha senhora.

Surgido do nada, Erica teve impressão, havia um homem a seu lado. De meia-idade, grisalho, tinha um sorriso fixo, revelando dentes  salientes.

Erica gelou. O coração parecia que ia parar. Quer dizer que afinal. . .

— Tudo em ordem, madame?

Sentiu   a boca seca.

— Sim. . .   sim, obrigada.

Cheio  de deferência, o homem manteve a porta aberta.

— Passe bem.

Aí então, tomada de alívio, viu-se ao ar livre.  Lá fora.

Partindo no carro, a princípio teve uma sensação de abatimento. Agora que sabia como toda sua preocupação fora desnecessária, que não havia absolutamente nada para se inquietar, seus receios no interior da loja pareciam ridículos, excessivos. Mas ainda se perguntava: o que a levara a proceder assim?

De repente sua disposição  ficou   eufórica;  sentiu-se  como há muitas semanas não se sentia.

A euforia de Erica persistiu pelo resto da tarde e não diminuiu enquanto preparava o jantar para Adam e ela mesma. Nada de descuidos na cozinha hoje à noite!

Escolhera Fondue Bourguignonne como prato principal, um pouco por ser um dos prediletos de Adam, mas sobretudo porque a idéia de comerem juntos do mesmo fondue sugeria-lhe uma intimidade que esperava que perdurasse pela noite toda. Na sala de refeições, pôs a mesa com o máximo requinte. Colocou dois castiçais de prata, em aspirai, com velas de cera em torno de um arranjo de crisântemos. Comprara as flores ao voltar para casa e agora espalhava as restantes pelo living, a fim de que Adam as visse ao entrar. Como sempre acontecia depois do dia de limpeza de Mrs. Gooch, a casa cintilava. Quando faltava mais ou menos uma hora para Adam chegar, Erica acendeu o fogo na lareira.

Mas Adam, infelizmente, se atrasou, o que nada tinha de insólito; insólito era não lhe ter telefonado para avisar. O relógio bateu 7h30m, depois 7h45m, 8h, deixando-a cada vez mais nervosa, indo freqüentemente à janela da frente que dava para a alameda de carros, passando em revista de novo a sala de refeições e por fim a cozinha, onde abriu a geladeira para certificar-se de que as verduras da salada, preparada há mais de uma hora, conservavam-se frescas. O filé mignon do fondue, que já havia cortado em pequenos nacos, bem como os condimentos e molhos nos pratos de servir, também lá estavam. Quando Adam finalmente chegasse, demoraria apenas alguns minutos para aprontar o jantar.

De tanto reabastecer o fogo no living, o calor que se formou em ambas as salas, intercomunicantes, ficou opressivo. Erica abriu uma janela, permitindo a entrada do ar frio, que, por sua vez, provocou fumaça, obrigando-a a fechar a janela em seguida. Lembrou-se então do vinho — um Château Latour, safra de 61, das raras garrafas que guardavam escondidas para ocasiões especiais aberto às seis horas, pois esperava servi-lo às sete e meia. Levou-o de volta à cozinha, tampando-o a rolha de novo.

Completados os preparativos, ligou o toca-fitas estereofônico. Já havia uma cassete inserida; acabados os últimos compassos de uma gravação, começou outra.

Era Ilhas das Bahamas, música de que Erica gostava muito, e que o pai costumava tocar no violão enquanto ela cantava a letra.

Mas hoje à noite a suave melodia do calipso deixou-a triste   e saudosa.

A brisa agita de leve a areia inconstante,

A água azul clara embala essa terra fragrante;

Ah, belas Bahamas.

Radiosas Bahamas!

Paraíso aconchegante.

Arquipélago cravado como jóia no mar,

Alvas praias que o sol vem beijar;

Viver, amar numa ilha

— Meu Deus. Que maravilha!

Brancos hibiscos ao longo das sendas,

Grutas de coral, lá no fundo, como rendas —

Tesouro de beleza,

Doce alegria da natureza,

Vem me buscar!

Desligou o aparelho, não deixando a música terminar, e estancando as lágrimas furtivas antes que arruinassem a leve maquilagem que estava usando.

Às oito e cinco o telefone tocou e Erica correu a atender, esperançosa. Não era Adam, porém, e sim uma ligação interurbana para “Mr. Trenton”. Durante o diálogo com a telefonista, Erica percebeu que quem queria falar com Adam era a irmã, Teresa, que morava em Pasadena, na Califórnia. Quando a telefonista da Costa Oeste perguntou: “A senhora não quer falar com outra pessoa nesse número?”, Teresa, que devia saber perfeitamente que a cunhada estava na linha, hesitou e por fim respondeu: — “Não, preciso falar com Mr. Trenton mesmo. Por favor, deixe recado pra que ele me telefone.”

Sentiu-se irritada com a parcimônia de Teresa em não permitir que o chamado fosse completado; hoje à noite uma conversa lhe faria bem. Sabia que Teresa, depois de enviuvar há um ano atrás, com quatro filhos menores para cuidar, tinha que pensar em economias, mas não certamente a ponto de se inquietar com o custo de uma ligação interurbana.

Tomou nota do recado para Adam, com o número da telefonista de Pasadena, para que ele pudesse ligar mais tarde.

Aí então, às oito e vinte, Adam chamou pelo rádio do seu carro, na Faixa de Cidadãos, para dizer que se encontrava na Perimetral Southfield, a caminho de casa. Isso significava que estava a quinze minutos de distância. Os dois tinham combinado que Erica sempre teria um receptor ligado» de prontidão naquela Faixa durante o início da noite e se Adam chamasse, em geral incluía uma expressão em código — “prepare a azeitona”. Ele a usara agora, o que queria dizer que estaria pronto para um martini assim que chegasse. Aliviada, e contente por não ter escolhido o tipo de jantar que o longo atraso teria arruinado, Erica pôs dois cálices de mar­tini no congelador da cozinha e começou a preparar os drinques.

Ainda dava tempo para correr ao quarto de dormir, examinar o cabelo, retocar o batom e renovar o perfume — o perfume. Um espelho de corpo inteiro revelou-lhe que o palazzo pijama de etiqueta Paisley que havia escolhido com a mesma meticulosidade que o resto, continuava com a bela aparência de antes. Quando escutou o chave de Adam na fechadura, Erica desceu a escada às pressas, irracionalmente nervosa como uma recém-casada.

Ele entrou pedindo desculpas.

— Sinto muito pelo atraso.

Como sempre, parecia bem disposto, imaculado e com o olhar vivo de quem vai começar um dia de trabalho em vez de ter acabado de completá-lo. Ultimamente, porém, Erica às vezes percebia uma certa tensão por baixo daquela fachada; agora não tinha muita certeza.

— Não faz mal.

Perdoou a demora ao beijá-lo, sabendo que a pior coisa que podia fazer era bancar a hausfrau por causa do jantar atrasado. Adam retribuiu o beijo distraído, insistindo depois em explicar o motivo do atraso, enquanto ela servia os martinis no living.

— O Elroy e eu estávamos com o Hub. O Hub estava uma fera. Não era  a melhor hora pra  interromper e  telefonar.

— Uma fera? Com você?

Como qualquer outra esposa da companhia, Erica sabia que Hub era Hubbard J. Hewitson, atual vice-presidente executivo das operações automobilísticas norte-americanas, e testa coroada da indústria, com um poder tremendo. Esse poder incluía a capacidade de promover ou despedir qualquer outro executivo da companhia que não fosse o presidente ou o diretor-presidente, os únicos que o superavam em hierarquia. Os exigentes requisitos de Hub eram bem conhecidos. Ele podia ser, e era, implacável com quem não os satisfizesse.

— Comigo, em parte — respondeu Adam. — Mas, acima de tudo, ele queria desabafar. Amanhã já passou.

Contou a Erica sobre os aditivos, e respectivo custo, do Orion, que Adam já previa que provocaria a explosão que terminou provocando. Ao regressar dó campo de provas para a sede da companhia, Adam fora falar com Elroy Braithwaite. O vice-presidente do Aperfeiçoamento de Produto decidiu que deveriam procurar Hub imediatamente, para enfrentar logo a tempestade — exatamente o que aconteceu.

Mas por mais implacável que Hub Hewitson fosse era um homem justo que a esta altura provavelmente já se conformara com a inevitabilidade e o custo dos acessórios extras. Adam sabia que tinha tomado a decisão certa no campo de provas, embora continuasse cônscio da tensão que sentia no íntimo, que o Martini aliviara um pouco, mas não muito.

Estendeu o copo para enchê-lo de novo, depois deixou-se cair numa poltrona.

— Está quente como o diabo aqui dentro hoje de noite. Por que você acendeu a lareira?

Havia sentado junto da mesa que continha algumas das flores que Erica comprara à tarde. Adam empurrou o vaso para o lado a fim de ceder espaço ao cálice.

— Achei que podia tornar o ambiente mais acolhedor. Ele olhou diretamente para ela.

— Quer dizer que em geral não é?

— Não foi isso que eu disse.

— Mas bem que podia ter sido.

Adam levantou-se, caminhou um pouco pela sala, tocando nos objetos, nas coisas familiares. Era um velho hábito que tinha, algo que fazia quando se sentia inquieto. Erica teve vontade de gritar-lhe: Experimente tocar em mim! Você conseguirá uma resposta muito maior!

Em vez  disso,  falou:

— Ah, chegou carta do Kirk.  Ele escreveu pra nós dois. Foi nomeado redator-chefe do jornal da universidade.

— Hum — resmungou Adam, sem entusiasmo.

— É importante pra ele. — Não pôde resistir e acrescentou: — Tão importante como uma promoção pra você.

Adam virou-se, de costas para o fogo.

— Eu já lhe disse — retrucou, áspero, — que me habituei com a idéia de Greg ser médico.  Até gosto, aliás.  Não é fácil se qualificar, e quando ele se formar, estará contribuindo...  fazendo alguma coisa de útil. Mas não espere que eu, agora, ou mais tarde, fique contente com o Kirk ser jornalista, ou com qualquer coisa que lhe suceda nesse sentido.

Era um assunto de discussão permanente, e Erica já estava arrependida de tê-lo abordado porque aquilo só podia acabar mal. Os filhos de Adam tinham tido idéias bem definidas a respeito de suas próprias carreiras muito antes de ela entrar em suas vidas. Mesmo assim, em discussões posteriores, apoiara as escolhas deles, deixando claro que se alegrava por não terem seguido Adam na indústria automobilística.

Mais tarde percebeu a insensatez cometida. Os rapazes, de qualquer modo, teriam tomado seus próprios caminhos, de maneira que ela só conseguira tornar Adam ressentido, já que a carreira dele, por inferência lógica, fora repudiada pelos filhos.

Usou o tom mais suave que pôde.

— Está claro que escrever em jornal é fazer uma coisa de útil.

Ele sacudiu a cabeça, irritado. A lembrança da entrevista coletiva desta manhã continuava aborrecendo-o. Quanto mais pensava naquilo, menos lhe agradava.

— Se você tivesse tanto contato com essa gente de jornal quanto eu, talvez mudasse de idéia. A maior parte do que eles fazem é superficial, fora de proporção, cheia de preconceitos quando alegam imparcialidade, e crivada de inexatidões. Culpam a inexatidão a uma obsessão com a rapidez, desculpa digna da muleta de aleijado. Parece que nunca ocorre à direção dos jornais, nem aos editorialistas, que ir um pouco mais devagar, apurando os fatos antes de tumultuá-los com a publicação apressada, possa fornecer melhor serviço ao público. E o pior é que se instituem críticos e juizes das falhas de todo mundo, menos das deles.

— Isso, em parte, é verdade — admitiu Erica. — Mas não se aplica a tudo quanto é jornal, nem a  todo mundo que trabalha na imprensa.

Adam parecia disposto a uma discussão que ela sentiu que poderia transformar-se desavença. Resolvida a abortá-la, Erica cruzou a sala e tomou-lhe o braço. Sorriu.

— Esperemos que o Kirk se saia melhor que a maioria e surpreenda  você.

O contato físico, ultimamente tão raro, deu-lhe uma sensação de prazer que, se tudo resultasse de acordo com seus planos, seria ainda maior antes que a noite terminasse.

— Deixemos isso pra outra hora — insistiu.  — Seu jantar favorito está esperando.

— Vamos ver se  a gente come bem depressa — disse Adam. — Tenho alguns papéis que pretendo examinar depois, e não quero perder muito tempo.

Erica soltou-lhe o braço e foi para a cozinha, imaginando se ele se dava conta da quantidade de vezes que havia usado quase as mesmas palavras em circunstâncias idênticas, a ponto de agora já soarem como ladainha.

Adam  seguiu-a.

— Posso ajudar em algo?

— Ponha o tempero na salada e misture bem.

Ele pôs rapidamente, competente como sempre, e por fim viu o recado de Pasadena sobre o chamado de Teresa.

— Não espere por mim, comece logo — disse a Erica. — Vou ver o que a Teresa quer.

Quando a irmã de Adam pegava um telefone, raramente falava com brevidade, interurbano ou não.

— Já esperei até agora — protestou Erica, — e não pretendo jantar sozinha. Não dá pra você chamar depois? São apenas seis horas lá.

— Bem, se estamos com tudo pronto.

Erica tinha corrido. O molho de azeite na manteiga, que aquecera na panela do fondue no fogão de cozinha, estava pronto. Levou-o para a sala de refeições, colocou a panela no suporte e acendeu a lata de fervura por baixo. Tudo o mais estava na mesa de jantar, que parecia elegante.

Quando ia iluminar as velas, Adam perguntou:

— Vale a pena acendê-las?

— Vale.

Acendeu-as todas.

A luz dos castiçais revelou o vinho que Erica fora buscar de novo. Adam franziu o cenho.

— Julguei que estivéssemos reservando isso pra uma ocasião especial.

— Especial de que maneira? Lembrou-a.

— Os Hewitsons e os Braithwaites virão jantar no mês que vem.

— O Hub Hewitson não percebe a mínima diferença entre um Château Latour e um Cold Duck, e pouco está ligando.  Por que nós não podemos ser especiais, só nós dois?

Adam espetou um naco de filé mignon, deixando-o na panela do fondue enquanto começava a comer a salada.

Afinal perguntou:

— Por que  é que você nunca perde  a oportunidade de espinafrar meus colegas, ou o trabalho que eu faço?

— Eu?

— Não banque a desentendida. Você não tem feito outra coisa desde que casamos.

— Talvez seja por que me parece que tenho que lutar por cada momento íntimo que passamos juntos.

Mas no íntimo concedeu: às vezes realmente dava indiretas e alfinetadas desnecessárias, tal como fizera há pouco com Hub Hewitson.

Encheu a taça de vinho de Adam e pediu, delicadamente:

— Desculpe. O que eu disse a respeito do Hub foi esnobe e dispensável. Se você quiser que ele tome Château Latour, eu compro mais.

Ocorreu-lhe a idéia: talvez eu possa conseguir uma ou duas garrafas extras tal como consegui o perfume.

— Deixa pra lá — retrucou Adam. — Não tem importância.

Durante o café, pediu licença e subiu  ao seu gabinete  para telefonar a Teresa.

— Como é que vai, seu figurão! Onde você andava? Contando suas ações preferenciais?

A voz de Teresa chegava com clareza dos três mil quilômetros de distância que os separavam, aquela voz de contralto da irmã mais velha, que lhe trazia recordações da infância. Teresa tinha sete anos quando Adam nasceu. No entanto, a despeito da grande diferença de idade, sempre haviam sido íntimos e, por estranho que pareça, desde a época em que Adam entrara na adolescência, Teresa procurava o conselho do irmão menor e muitas vezes o acatava.

— Sabe como é, mana. Me consideram indispensável, o que torna difícil voltar pra casa. Às vezes fico até pensando como é que puderam começar essa indústria sem mim.

— Todos nós sentimos orgulho de você — disse Teresa. — As crianças estão sempre falando no Tio Adam. Dizem que um dia ele vai ser presidente da companhia.

Outro traço simpático de Teresa era o prazer indisfarçável que sentia com o êxito do irmão. Sempre reagira desse jeito ante seus progressos e promoções, com muito mais entusiasmo — reconheceu, relutante — do que Erica jamais demonstrara.

— Como é que você tem andado, mana?

— Muito sozinha. — Uma pausa. — Você  estava   esperando outra resposta qualquer?

— De fato, não. Apenas imaginei se, a esta altura. . .

— Não teria surgido alguém?

— Mais ou menos isso.

— De vez em quando surge um.  Ainda não sou uma viúva de se jogar fora.

— Eu sei. — Era verdade. Embora fosse completar cinqüenta dentro de um ou dois anos, Teresa tinha corpo escultural, uma beleza clássica, e sensualismo de sobra.

— O diabo é que, quando a gente teve um homem. . . um homem, mesmo. . . durante vinte e dois anos, a gente começa a comparar os outros com ele. E ninguém se sai bem.

Clyde, o marido de Teresa, tinha sido um contador com vasto âmbito de interesses. Morrera tragicamente num desastre de aviação há um ano atrás, deixando a viúva com quatro filhos menores, adotados nos últimos tempos de seu casamento. A partir de então, Teresa viu-se obrigada a fazer grandes ajustamentos psicológicos e financeiros, estes num setor que nunca a havia preocupado anteriormente.

— O dinheiro dá pra tudo? — perguntou Adam.

— Creio que sim.  Mas foi por isso que  liguei   pra   você. Às vezes eu gostaria que você morasse mais perto.

Embora o falecido cunhado de Adam tivesse deixado a família bem provida, a situação de seus negócios por ocasião de sua morte era um pouco desordenada. Do melhor modo permitido por aquela distância, Adam ajudara Teresa a destrinçá-la.

— Se você precisa mesmo de mim — disse Adam, — posso tomar o avião dentro de um ou dois dias.

— Não.  Você já está onde eu  precisava que estivesse. . .  em Detroit.  Ando preocupada com aquele investimento que o Clyde fez na Stephensen Motors.  Rende dinheiro, mas representa muito capital. . .  a maior parte do que temos. . .  e eu vivo me perguntando: devo deixar onde está, ou vender e aplicar o dinheiro em algo mais seguro?

Adam conhecia os antecedentes. O marido de Teresa fora maníaco por corridas de automóveis; não arredava pé das pistas do sul da Califórnia, e assim ficou conhecendo uma porção de corredores . Um deles era Smokey Stephensen, vencedor sistemático anos a fio que, fato excepcional para o meio, soubera amealhar com astúcia o dinheiro dos prêmios e, com o tempo, aposentar-se com a maioria dos ganhos intacta. Mais tarde, usando seu nome e prestígio, Smokey Stephensen se transformou em concessionário da revenda de automóveis em Detroit, negociando com os produtos da companhia de Adam. O marido de Teresa tinha entrado como sócio comanditário do ex-corredor, contribuindo com quase a metade do capital necessário. As cotas do negócio agora pertenciam a Teresa, por herança de Clyde.

— Mana, você diz que está recebendo dinheiro de Detroit. . . do Stephensen?

— É. Não tenho os dados, mas posso mandá-los pra você, e os contadores que ficaram com a firma do Clyde dizem que é bom rendimento. O que me preocupa é tudo o que eu leio a respeito da revenda de carros ser investimento arriscado, e que algumas entram em falência. Se isso acontecesse com o Stephensen, as crianças e eu ficaríamos em apuros.

— Pode acontecer — concordou Adam.  — Mas se você tiver a sorte suficiente de ter cotas de um bom revendedor, talvez cometesse um grande erro em se desfazer delas.

— Eu compreendo. É por isso que preciso que alguém me aconselhe, alguém em quem eu possa confiar. Adam, eu detesto pedir uma coisa dessas a você porque sei como você vive ocupado.  Mas será que não daria pra você procurar o Smokey Stephensen, sondar como vão as coisas, formar uma opinião própria sobre as perspectivas, pra depois me dizer o que devo fazer? Não sei se você se lembra, mas nós já falamos sobre isso antes.

— Lembro-me sim. E acho que então expliquei que ia ser problemático. As companhias automobilísticas não consentem que os funcionários se envolvam com concessionários. Antes de mais nada, eu teria que consultar a Comissão de Conflito de Interesses.

— É um bicho de sete cabeças? Você ficaria constrangido?

Adam hesitou. A resposta era: ficaria, sim. Para fazer o que Teresa pedia, teria que proceder um exame minucioso da concessionária de Stephensen, o que significava vasculhar a escrita e analisar os métodos operacionais. Teresa, naturalmente, daria a Adam a autorização suficiente, mas sob o ponto de vista da companhia de Adam — seus empregadores — a coisa mudava completamente de figura. Antes de Adam entrar em confabulações com qualquer concessionário, fosse qual fosse a finalidade, teria que declarar o que estava fazendo, e por quê. Elroy Braithwaite precisaria saber; e Hub Hewitson, provavelmente, também, e ele seria capaz de apostar como nenhum dos dois ia gostar da idéia. Por uma razão bem simples. Um executivo do gabarito de Adam encontra-se em posição de oferecer vantagens financeiras a um concessionário, daí as normas estritas que todas as companhias automobilísticas mantêm em relação a interesses comerciais externos nesse e noutros setores. Uma Comissão permanente de Conflito de Interesses examina essas questões, inclusive investimentos pessoais de empregados da companhia e respectivas famílias, objeto de um relatório anual cuja forma se assemelha a uma declaração de imposto de renda. Um punhado de elementos, indignado com essa medida, aplica investimentos em nome da mulher ou dos filhos, guardando sigilo. Mas a maioria das normas é lógica, e os executivos as observam.

Bem, pelo jeito ele teria que comparecer perante a comissão e expor seus argumentos. Afinal de contas, não visava nenhum lucro pessoal com aquilo; estaria apenas defendendo os interesses de uma viúva e filhos menores, o que dava ao pedido um toque de compaixão. De fato, quanto mais pensava na idéia, menos problemas antecipava.

— Verei o que posso fazer, mana — disse Adam ao telefone. — Amanhã vou dar início às providências na companhia, e depois talvez leve uma ou duas semanas até conseguir a aprovação necessária . Você compreende, não é, que não posso fazer nada sem isso?

— Compreendo, sim. E a demora não tem importância. O que conta é que você estará cuidando dos nossos interesses.

Teresa parecia aliviada. Podia imaginá-la o pequeno franzir de testa que fazia quando enfrentava alguma dificuldade no mínimo agora desfeito, substituído por um sorriso afetuoso, do tipo que faz bem à gente. A irmã de Adam era uma mulher que gostava de depender de um homem, entregando-lhe as decisões, embora durante o ano passado se tivesse visto forçada a tomar um número desusado de decisões próprias.

— Quantas cotas da Stephensen Motors o Clyde possuía? — perguntou Adam.

— Quarenta e nove por cento, e eu ainda tenho todas. O Clyde aplicou cerca de duzentos e quarenta mil dólares. É por isso que ando tão preocupada.

— O nome do Clyde constava da concessão?

— Não. Só o do Smokey Stephensen.

— É melhor você me mandar toda a documentação — instruiu ele, — inclusive um registro dos pagamentos que você recebeu como dividendos.  Escreva ao Stephensen, também.  Diga-lhe que provavelmente terá notícias minhas, e que você me autorizou a ir dar uma olhada em tudo. OK?

— Farei tudo isso. E obrigada, meu querido. Muito obrigada. Dê lembranças a Erica, sim? Como vai ela?

— Ah, vai bem.

Erica tinha tirado a comida da mesa e estava no sofá do living, sentada sobre os pés, quando Adam desceu. Indicou uma mesa no canto.

— Fiz mais café.

— Obrigado.

Ele encheu uma xícara, depois foi buscar a pasta no vestíbulo. Ao voltar, afundou numa poltrona junto à lareira, cujo fogo agora ardia baixo, abriu a pasta e começou a retirar papéis.

— O que era que a Teresa queria? — perguntou Erica.

Em poucas palavras, Adam explicou o pedido da irmã e o que prometera fazer.

Viu que Erica o olhava com incredulidade.

— Quando é que você vai fazer isso?

— Ah, não sei. Tenho que encontrar tempo.

— Mas quando? Eu quero saber.

Com uma sombra de irritação, Adam retrucou:

— Quando a gente resolve fazer alguma coisa, sempre se encontra tempo.

— Menos você. — A voz de Erica tinha uma intensidade que ultimamente não possuía. — Você tira o tempo de outra coisa ou alguém. Isso não vai acarretar uma porção de visitas ao tal concessionário? Interrogar pessoas. Apurar a situação do negócio. Eu sei como você costuma proceder. . . sempre do mesmo modo, exaustivamente. De forma que vai precisar de tempo à beca. Tenho ou não tenho razão?

— Creio que sim — concedeu.

— Será na hora do expediente? De dia, durante a semana?

— Provavelmente não.

— De forma que restam as noites e os fins de semana. As concessionárias de automóveis permanecem abertas, não é?

— Não abrem aos domingos — retrucou Adam, secamente.

— Ora viva! — Erica não tencionava se comportar desse jeito hoje à noite. Queria ser paciente, compreensiva, carinhosa, mas de repente o ressentimento se apossou dela.  Continuou, colérica, sabendo que seria preferível parar, mas não conseguindo: — Talvez esse tal concessionário abra aos domingos, se você lhe pedir com bons modos, explicando que ainda tem um bocadinho de tempo de sobra para passar em casa como a sua mulher, e que você gostaria de resolver logo esse problema, como, por exemplo, enchendo-o com trabalho.

— Escuta aqui — disse Adam, — isso não é trabalho nenhum, e se eu pudesse não o faria. É simplesmente por Teresa.

— E que tal alguma coisa simplesmente por Erica? Ou seria pedir demais? Espera aí!. . . por que você não usa também o seu período de férias? Aí então você podia...

— Você está sendo ridícula — disse Adam.

Tinha tirado os papéis da pasta e espalhado em semicírculo ao redor dele. Feito um círculo de feiticeiro no meio da grama, pensou Erica, que só podia ser transposto pelos iniciados, os enfeitiçados. As próprias vozes que chegavam ao círculo mágico se tornavam destorcidas, mal-interpretadas, com palavras e significados deformados. . .

Adamtinharazão.Elaestava sendo ridícula. E agora fantasiosa.

Passou para trás dele, sempre consciente do semicírculo, evitando-lhe o perímetro tal como as crianças que jogam amarelinha evitam os riscos nas lajes da calçada.

Erica colocou as mãos de leve nos ombros de Adam, o rosto colado contra o dele. Ele levantou o braço, tocando-lhe numa das mãos.

— Não posso desapontar a mana — a voz de Adam era conciliatória. — De que jeito? Numa situação inversa, o Clyde faria o mesmo, ou ainda mais, por você.

Abrupta, inesperadamente, ela percebeu que o ânimo de ambos tinha mudado. Pensou: existe uma forma de transpor o círculo mágico. Talvez o truque não fosse procurar encontrá-la, e sim repentinamente descobri-la.

— Eu sei — retrucou Erica. — E sinto-me grata que não seja uma situação inversa. — Experimentou uma sensação de trégua da própria estupidez de poucos minutos atrás, a sensação de ter caído, sem querer,  num momento de intimidade e ternura. Continuou baixinho: — Só que às vezes me dá vontade de que as coisas entre mim e você fossem como  eram no começo. Eu realmente vejo você tão pouco. — Cocou  de leve, com  as unhas, em torno das orelhas dele, algo que antes fazia sempre mas há muito não tinha oportunidade. — Eu ainda te amo. — E sentiu-se tentada a acrescentar, mas não o fez: — Por favor, oh, por favor, faça amor comigo esta noite.

— Eu também não mudei — disse Adam. — Não há nenhum motivo. E sei o que você quer dizer a respeito do tempo que nos resta. Talvez depois que o Orion seja lançado, sobre mais tempo pra nós dois. — O último comentário, porém, carecia de convicção. Como ambos já sabiam, depois do Orion seria a vez do Farstar, que provavelmente consumiria mais tempo ainda. Sem querer, os olhos de Adam se desviaram  de novo para os papéis espalhados à sua frente.

Não se afobe! Não insista demais! — aconselhou Erica a si mesma.

— Enquanto você fica fazendo isso — disse, — acho que vou dar uma volta. Estou com vontade.

— Quer que eu vá junto?

Ela sacudiu a cabeça.

— Prefiro que você termine o que está fazendo.

Se ele deixasse o trabalho agora, sabia que mais tarde voltaria a se absorver nele até altas horas da noite ou então haveria de querer se levantar numa hora ridiculamente cedo da manhã.

Adam pareceu aliviado.

Do lado de fora da casa, Erica apertou bem em torno do corpo o casaco de camurça que enfiara e saiu caminhando com passo enérgico . Trazia o cabelo preso por uma echarpe. O ar estava frio, apesar de que a ventania que açoitara a Cidade do Automóvel durante o dia inteiro já tivesse amainado. Erica gostava de passear à noite. Nas Bahamas sempre fazia isso, e aqui também, embora os amigos e vizinhos às vezes a desaconselhassem, porque o índice de crimes em Detroit aumentara de maneira alarmante nos últimos anos, e agora até em subúrbios como Birmingham e Bloomfield Hills — outrora considerados quase isentos de crimes — registravam-se agressões e assaltos a mão armada.

Mas Erica preferia arriscar-se a dar seus passeios.

Embora a noite estivesse escura, com as estrelas e a lua ocultas por nuvens, vinha claridade suficiente das casas do Lago Quarton para Erica enxergar o caminho com nitidez. Enquanto passava pelas casas, às vezes observando as figuras lá dentro, pôs-se a pensar naquelas outras famílias, em seus próprios ambientes, com suas dúvidas, mal-entendidos, conflitos, problemas. Evidentemente, todas tinham alguns, e a diferença entre a maioria era apenas uma questão de grau. Mais pertinente, indagou-se: como serão os casamentos atrás dessas outras paredes, comparados com o meu e do Adam.

Grande parte da vizinhança pertencia à classe automobilística, onde o abandono conjugal parece ser regra hoje em dia. As leis fiscais americanas facilitaram o caminho, e muitos executivos que recebem salários vultosos descobriram que podem obter liberdade pagando vastas pensões alimentares que não lhes custam praticamente nada. A pensão é descontada dos salários extraordinários, e assim eles meramente pagam às ex-esposas o que teriam de fazer ao governo em forma de imposto de renda. Certos elementos da indústria chegam a fazer isso duas vezes.

Mas eram sempre os casamentos fracassados que constituíam notícia. Existia uma porção do outro tipo — histórias de amor duradouro que não se desgasta com o tempo. Erica lembrou-se de nomes que aprendera desde que viera morar em Detroit: os Riccardos, os Gerstenbergs, os Knudsens, os Iacoccas, os Roches, os Bramblctts, e outros. Havia também segundas núpcias notavelmente bem sucedidas: os Henry Fords, os Ed Coles, os Roy Chapins, os Bill Mitchells, Pete e Connie Estes, os John DeLoreans. Como sempre, tudo dependia das pessoas.

Erica caminhou meia hora. No trajeto de volta, começou a cair uma chuva miúda. Ergueu o rosto até ficar molhado, escorrendo, e nó entanto, de certo modo, consolado.

Entrou sem perturbar Adam, que continuava no living, imerso nos papéis. Lá em cima, Erica enxugou o rosto, penteou os cabelos, depois despiu-se e pôs o negligê comprado durante a tarde. Analisando-se criticamente, notou que o puro nylon bege realçava-a ainda mais do que esperara na loja. Passou o batom laranja e por fim aplicou generosamente o Norell.

— Você vai demorar? — perguntou a Adam, da porta do living. Ele levantou a cabeça e tornou a baixá-la para o arquivo de capa azul que segurava na mão.

— Meia hora, talvez.

Adam, pelo jeito, não reparara no negligê transparente que não podia competir, aparentemente, com o arquivo, cujos dizeres eram: Projeção Estatística do Registro de Automóveis e Caminhões nos Estados. Torcendo para que o perfume causasse maior efeito, Erica aproximou-se por trás da poltrona, tal como fizera antes, mas a única coisa que aconteceu foi um beijo maquinal e um murmúrio:

— Boa noite. Não espere por mim.

Achou que daria no mesmo se estivesse banhada em óleo canforado.

Foi para a cama e se deitou, com o lençol de cima e o cobertor virados para trás, seu desejo sexual crescendo à medida que esperava. Se cerrasse os olhos, poderia imaginar Adam estendido sobre ela. . .

Erica abriu os olhos. O relógio da cabeceira da cama mostrava que não apenas meia, mas duas horas tinham passado. Era 1 da madrugada.

Pouco depois ouviu Adam subindo a escada. Entrou, bocejando com um “Meu Deus, como estou cansado”, depois despiu-se sonolento, deitou na cama e quase no mesmo instante adormeceu.

Erica ficou deitada, em silêncio, a seu lado, muito distante do sono. Ao cabo de certo tempo, imaginou-se caminhando de novo lá fora, com a chuva miúda caindo no rosto.

 

No dia seguinte, depois que Adam e Erica Trenton não conseguiram transpor a brecha cada vez maior formada entre ambos, que Brett DeLosanto renovou a confiança que depositava no Orion, embora temendo pelo seu destino artístico, que Barbara Zaleski contemplou frustrações no fundo de martinis, e que Matt Zaleski, o chefe de oficina que era seu pai, sobreviveu a outro dia de trabalho na panela de pressão, ocorreu um incidente insignificante na zona de marginais de Detroit, não relacionado com nenhuma dessas cinco pessoas, mas cujo efeito, daqui a vários meses, envolveria e motivaria todas.

Hora: 8,30 da noite. Local: Centro da Cidade, Terceira Avenida perto da Brainard. Um carro-patrulha vazio estacionado no meio-fio.

— Encosta esse rabo negro na parede — ordenou o guarda branco.

Segurando uma lanterna na mão, a pistola na outra, correu o foco de luz acima e abaixo de Rollie Knight, que pestanejou quando a claridade lhe feriu os olhos e permaneceu ali.

— Agora vira pra lá. Com as mãos ao alto. Anda de uma vez!. . .  seu  presidiário de uma figa.

Enquanto Rollie Knight obedecia, o guarda branco pediu ao colega negro:

— Revista esse cretino.

O rapaz negro e maltrapilho, que os policiais tinham detido, andava perambulando pela Terceira Avenida quando o carro da radiopatrulha parou a seu lado e os ocupantes saltaram, de revólver em punho.

—  Que foi que eu fiz? — protestava agora,  tendo um frouxo de riso quando as mãos do segundo  policial lhe passaram pelas pernas e depois em volta do corpo. — Ei, amizade, ai, eu sinto cócegas!

—  Cala o bico! — ordenou o guarda  branco.

Era veterano na força pública, com olhos penetrantes e uma barriga enorme, esta última resultado de anos e anos de andar em carros-patrulhas. Tinha sobrevido muito tempo nesse batente e nunca afrouxava a vigilância em serviço.

O policial negro, vários anos mais moço e mais novo na força, baixou as mãos.

— Tudo em ordem. — Voltando para junto do companheiro, perguntou em voz baixa: — Que diferença faz a cor do rabo dele?

O guarda branco teve uma expressão de surpresa. Na pressa, depois de se afastar do carro, tinha esquecido que esta noite seu colega de costume, também branco, estava em casa, de cama, sendo substituído por um negro.

— Porra! — retrucou logo. — Deixa de bobagem. Só porque você é da cor dele, não quer dizer que seja da mesma laia.

— Obrigado — disse secamente o outro guarda.   Sentiu vontade de falar mais, porém calou-se.  Voltou-se para o homem contra a parede: — Pode baixar as mãos. E vire de frente.

Enquanto a instrução era acatada, o guarda branco perguntou com voz áspera:

— Onde você andou durante a última meia hora,  Knight?

Conhecia Rollie Knight de nome, não só por vê-lo naquelas imediações com freqüência, como também pela ficha policial que incluía dois encarceramentos, num dos quais o próprio guarda branco havia dado a ordem de prisão.

— Onde andei? — O rapaz negro já se refizera do choque inicial.   Embora as faces estivessem   cavadas,  e  parecesse  subnu­trido e fraco, nada tinha de fraqueza no olhar, que irradiava ódio. — Trepando com uma branquinha.  Não sei o nome dela, só sei que ela diz que o macho dela é gordo feito um porco brando e que não levanta mais. Ela vem cá quando precisa de homem.

O guarda branco recuou, as veias do rosto inchadas, vermelhas. Sua intenção era esmigalhar a coronha do revólver naquela caracheiadedesprezo;provocante.Depois alegaria que Knight oagrediraprimeiroequeagiraemautodefesa. O colega apoiariaessaversão,domesmomodoqueum sempre apoiava o que ooutro dizia, só que — de repente lembrou — hoje à noite seu colegaeraumdeles, bem capaz de ser bastante ordinário para criarencrencamaistarde. O policial, então,controlou-se, sabendo que teria nova oportunidade noutra ocasião, como esse crioulo metido a sebo terminaria vendo.

O guarda  negro resmungou com Rollie Knight:

— Não abuse da sorte. Conte-nos onde você andou.

O rapaz negro cuspiu na calçada. Um guarda, seja qual for sua cor, é sempre um inimigo, e um guarda negro ainda é pior, porque é lacaio dos brancos. Porém respondeu:

— Ali dentro — indicando um bar de subsolo no outro lado da rua.

— Durante quanto  tempo?

— Uma hora. Duas, talvez. Ou três. — Rollie  Knight deu de ombros. — Sei lá.

— Quer que eu vá verificar? — perguntou o guarda  negro ao colega.

— Não, é perda de tempo.  Vão dizer que ele esteve  lá.  São todos uns mentirosos de uma figa.

— Em todo caso, pra chegar até aqui nesse tempo, desde a West Grand com a Segunda, ele teria que ter asas.

O aviso fora recebido há poucos minutos pelo rádio do carro-patrulha. Um roubo a mão armada perto dó Edifício Fisher, a dezoito quarteirões de distância. Acabava de acontecer. Dois suspeitos haviam fugido num sedan último tipo.

Segundos depois, a dupla de patrulheiros tinha avistado Rollie Knight caminhando sozinho pela Terceira Avenida. Apesar de que a possibilidade de um pedestre isolado, aqui, estar envolvido num roubo na parte alta da cidade fosse remota, quando o guarda branco reconheceu Knight, mandou logo parar o carro, depois saltou, não deixando ao colega outra alternativa senão segui-lo. O policial negro sabia por que haviam agido assim. O aviso do roubo proporcionava um pretexto para “deter e revistar”, e o outro gostava de deter pessoas e intimidá-las quando sabia que ficaria impune, embora — pura coincidência, naturalmente — aqueles que escolhia fossem invariavelmente negros.

O policial negro acreditava que existisse uma relação entre a malvadez e a brutalidade do colega — bem conhecidas na força — e o medo, que o acossava quando fazia serviço na zona de marginais. O medo tem cheiro ativo, e o policial negro o havia sentido, fortemente, no branco a seu lado no momento em que o aviso do roubo fora irradiado, e quando saltaram do carro, e mesmo agora. O medo pode tornar, e torna, ainda mais malvado um homem mau. E quando esse homem também possui autoridade, é capaz de se tornar selvagem.

Não que o medo estivesse deslocado nesta vizinhança. Realmente, um policial de Detroit que desconhecesse o medo trairia uma falta de conhecimento, uma ausência de imaginação. Na zona dos marginais, que tinha provavelmente o índice de crimes mais elevado de todo o país, a polícia servia de alvo — sempre de ódio, muitas vezes de tijolos, punhais e balas. Onde a sobrevivência depende da vigilância, um certo grau de medo é racional; assim também a desconfiança, a cautela, a rapidez quando o perigo surge de fato, ou aparentemente. Assemelhava-se a uma guerra em que a polícia estivesse na linha de fogo. E como em toda guerra, as qualidades do comportamento humano — polidez, psicologia, tolerância, delicadeza — eram postas de lado como supérfluas, de maneira que a guerra se intensificava enquanto os antagonismos — freqüentemente encontrando justificativa em ambas as facções — se perpetuavam e multiplicavam.

Contudo alguns policiais, como o guarda negro sabia, aprendiam a conviver com o medo, ao mesmo tempo que permaneciam, também, seres humanos dignos. Esses eram os que compreendiam a essência da época, o ânimo da raça negra, suas frustrações, a longa história de injustiças que sofrera. Esse tipo de policial — fosse preto ou branco — ajudava a aliviar um pouco a guerra, embora fosse difícil saber até que ponto, porque não constituíam maioria.

Transformar os moderados em maioria, e elevar os padrões da força pública de Detroit de modo geral, formavam os objetivos expressos por um chefe de policia recentemente nomeado. Mas entre o chefe e seus objetivos havia a presença física de um contingente de guardas, numericamente forte, que por medo ou preconceito arraigado era francamente racista, como.esse guarda branco que agora estava aqui.

— Onde você trabalha, verme? — perguntou a Rollie Knight.

— Sou que nem você. Não trabalho, só fico matando tempo.

A cara do guarda inchou de raiva novamente.  O colega negro sabia que, se não estivesse ali, o outro teria soqueado o rosto frágil do rapaz que o fitava com ar malévolo.

— Dá o fora! — ordenou o  guarda negro  a Rollie Knight. — Você lucraria mais se calasse o bico.

De volta ao carro-patrulha, o outro policial estava uma fera.

—  Palavra de honra como ainda prendo esse miserável.

Oguardanegro pensou: E vai prender mesmo, provavelmen­teamanhãoudepoisdeamanhã,quando andar outra vez com teuchapa,eeleolharprooutrolado se houver uma surra ou prisão por qualquer acusação forjada. Andava ocorrendo uma porção de vinganças desse gênero.

Obedecendo a um impulso, o guarda negro, que estava na direção, exclamou:

— Espere aí! Eu já volto.

Ao descer do carro, Rollie Knight se encontrava a cinqüenta metros de distância.

— Ei, você!

Quando o rapaz negro se virou, o guarda fez um sinal e depois se aproximou.

Curvou-se para Rollie Knight, numa atitude ameaçadora. Mas disse baixinho:

— Meu colega quer te pegar, e acho que vai conseguir. Você é uma besta quadrada  por falar sem pensar, e não te devo nenhum favor. Mesmo assim, estou te prevenindo; some de vista, ou melhor ainda. . . sai da cidade até que o cabra amoleça.

— Um guarda crioulo Judas! A troco de quê que vou acreditar na tua palavra?

— Não querendo, não acredite. — O guarda deu de ombros. — Deixa o pau comer.  Afinal, o couro não é meu.

— Como é que eu posso ir embora? Onde vou arranjar condução, grana?

Apesar de feita com escárnio, a pergunta já era menos hostil.

— Então não vai. Some de circulação, tal como eu te disse.

— Por  aqui não   é mole,  amizade.

Não era, não, e o guarda negro sabia. Não era fácil passar despercebido dias e noites a fio quando alguém andava à procura da gente e os outros sabiam onde se andava. A informação sai barata pra quem conhece os informantes da zona de marginais; basta o preço de uma picada de injeção, a promessa de um favor, até o tipo certo de ameaça. A lealdade não é planta que floresça aqui. Mas ir para outro lugar, ausentar-se, durante certo tempo, ao menos, ajudaria.

— Por que você não está trabalhando? — perguntou o policial.

Rollie Knight sorriu.

— Você ouviu o que eu disse ao cretino do teu  amigo...

— Deixa de  farolagem. Você quer trabalhar?

— Talvez.

Mas por trás da confissão havia o conhecimento de que poucos empregos se acham abertos aos que possuem ficha na polícia como Rollie Knight.

— As  fábricas de automóveis estão procurando gente  — disse o guarda negro.

— Isso é papo furado.

— Há trabalho à beca  por lá.

— Já experimentei uma vez — resmungou Rollie Knight.   —Um boca de bagre branco disse que não.

— Experimenta de novo. Olha  aqui.

Oguardanegrotirouumcartãodobolso da túnica. Um conhecido que trabalhava no departamento de pessoal de uma companhia tinha-lhe entregue na véspera. Trazia o endereço de umpostoderecrutamento de serviço, um nome, e as horas de expediente.

Rollie Knight amarrotou  o cartão  e enfiou-no no bolso.

— Quando me der vontade, boneco, eu dou uma mijada em cima.

— Como queira — retrucou o guarda e voltou ao carro.

O colega branco olhou-o desconfiado.

— Que negócio é esse?

— Aquietei o bicho — respondeu, lacônico, sem entrar em explicações.

O policial negro não tinha a mínima intenção de ficar intimidado mas tampouco queria entrar em discussão — pelo menos por enquanto. Embora a população de Detroit seja quarenta por cento negra, somente de uns anos para cá a força pública deixou de ser cem por cento branca, e dentro do departamento de polícia ainda predominam influências antigas. Desde as arruaças de 1967 o número de guardas negros aumentou por imposição pública, mas até agora não é suficiente em quantidade, hierarquia ou influência para contrabalançar a poderosa Associação da Guarda Civil de Detroit, dominada por brancos, ou mesmo ter certeza de um trato justo, departamentalmente falando, em qualquer confrontação de negros e brancos.

Assim, a patrulha continua numa atmosfera de incerteza hostil, ânimo que reflete as tensões raciais da própria Detroit.

A bravata individual, negra ou branca, muitas vezes é apenas aparente, e Rollie Knight, no intimo, estava com medo.

Com medo do guarda branco com quem insensatamente se encarniçara, e agora percebia que seu ódio temerário, causticante, triunfaramomentaneamentedacautelahabitual. Pior ainda; temiavoltarparaaprisão,ondeuma novacondenação era capaz de mandá-lo por longo tempo para lá. Rollie tinha três sentenças pelas costas, e dois períodos de encarceramento; para qualquer coisa que lhe acontecesse agora, não havia mais esperança de clemência.

Só um negro americano conhece os verdadeiros abismos de desespero e degradação animalescos a que o sistema penitenciário pode reduzir um ser humano. É verdade que os prisioneiros brancos são muitas vezes maltratados, e também sofrem, mas nunca tão sistemática ou totalmente como os negros. É também verdade que certas prisões são melhores ou piores que outras, mas isso é o mesmo que dizer que certas partes do inferno são dez graus mais quentes ou frias que as restantes. O negro, seja qual for a prisão em que estiver, sabe que a humilhação e o abuso constituem a regra, e que a brutalidade física — às vezes acarretando ferimentos graves — é tão normal quanto o ato de defecar. E quando o prisioneiro é fraco — assim como Rollie Knight em parte devido a um raquitismo congênito, em parte pela subnu­trição acumulada durante vários anos — os castigos e a angústia podem ser maiores ainda.

Aliado, nesse momento, a esses medos estava o conhecimento do rapaz negro de que uma busca policial no seu quarto revelaria uma pequena quantidade de maconha. Ele próprio fumava de vez em quando, mas principalmente vendia, e embora os lucros fossem mínimos, ao menos permitiam-lhe comer porque, desde que saíra da cadeia há vários meses, não havia encontrado uma outra solução. Mas a maconha era tudo o que a polícia precisava para uma sentença, seguida de encarceramento.

Por esse motivo, mais tarde, na mesma noite, enquanto perguntava-se nervoso se já não estaria sendo vigiado, Rollie Knight jogou a maconha num terreno baldio. Agora, em vez do recurso precário que lhe garantia os meios de subsistência cotidiana, dava-se conta de  que  não dispunha de mais nenhum.

Foi por isso que, no dia seguinte, desamarrotou o cartão que o guarda negro lhe entregara e dirigiu-se ao centro de recrutamento da companhia automobilística na zona de marginais. Não alimentava esperanças porque. . . (e esta é a grande brecha invisível que separa os que “não-têm-nem-nunca-terão” deste mundo, como Rollie Knight, dos que “têm”, inclusive alguns que tentam compreender seus irmãos menos-afortunados e no entanto, ah! com que tristeza, fracassam) . . . já tinha vivido tanto tempo sem nenhum motivo para crer em alguma coisa, que a própria esperança já se achava fora do  seu alcance mental.

E também foi até  lá porque não tinha mais nada que fazer.

O prédio, perto da Rua 12, como a maioria dos prédios do tenebroso “gueto negro” da zona de marginais estava carcomido e mal cuidado, com vidraças quebradas, das quais apenas algumas haviam sido tapadas para dar proteção interna contra o mau tempo. Até há bem pouco tempo, tinha ficado em desuso e desintegrava-se rapidamente. Mesmo agora, apesar dos remendos e pintura mal feita, a decadência continuava, e os que iam trabalhar ali diariamente às vezes se perguntavam se as paredes ainda estariam de pé quando fossem embora de noite.

Mas o velho prédio, e outros dois semelhantes, preenchiam uma função urgente. Serviam de posto avançado para os programas de “reforço” de recrutamento das companhias automobilísticas.

O assim chamado reforço de recrutamento tinha começado depois das arruaças locais e representava uma tentativa de proporcionar trabalho a um núcleo indigente da zona de marginais negros, na maioria — que, trágica e desumanamente, havia passado anos desempregado. A iniciativa foi tomada pelas companhias automobilísticas. Outras se seguiram. As companhias automobilísticas, naturalmente, afirmavam agir por altruísmo e, a partir do momento em que começou o programa, o departamento de relações públicas proclamou o espírito cívico dos empregadores. Observadores mais cínicos alegaram, porém, que o mundo automobilístico estava sendo levado pelo medo, temendo o efeito que uma comunidade permanentemente assolada por conflitos teria sobre seus negócios. Houve quem também vaticinasse que quando a fumaça da cidade, em chamas, sacudida por tumultos, atingisse o Edifício da General Motors em 1967 (como atingiu), e o fogo se aproximasse, uma certa forma de serviço público ficaria assegurada. O vaticínio transformou-se em realidade, só que a Ford foi mais rápida.

Mas fossem quais fossem os motivos, concordava-se sobretudo em três coisas: o programa de reforço de recrutamento era bom. Devia ter acontecido vinte anos atrás. Sem as arruaças de 67, talvez nunca se efetuasse.

De modo geral, descontados os erros e derrotas, o programa deu certo. As companhias automobilísticas diminuíram as exigências de emprego, permitindo o ingresso de ex-vadios. Como era de prever, alguns não aprovaram, mas um número surpreendente demonstrou que um vadio só precisa de oportunidade. Quando Rollie Knight apareceu por lá, empregadores e empregados já tinham aprendido muita coisa.

Ficou numa sala de espera com cerca de mais de quarenta homens e mulheres, dispostos em filas de cadeiras. Estas, tal como os candidatos a emprego, eram de todas as formas e tamanhos, só que os candidatos apresentavam uma uniformidade: não havia um que não fosse negro. Pouco se conversava. Para Rollie Knight a espera levou uma hora. Durante boa parte dela ele cochilou, hábito que adquirira e que o auxiliava, normalmente, a enfrentar dias vazios.

Quando, eventualmente, foi conduzido a um compartimento de entrevistas — um da meia dúzia enfileirada na área de espera — sentia-se ainda sonolento e bocejou para o entrevistador, que o fitava do outro lado da escrivaninha.

O entrevistador, um negro gorducho de meia-idade, com óculos de aro de tartaruga, paletó esporte e camisa preta sem gravata, disse amável:

— Esperar cansa, né? Meu pai sempre dizia: “a  gente cansa mais ficando sentado em cima do traseiro do que cortando lenha.” E desse jeito me fazia cortar lenha pra xuxu.

Rollie  Knight olhou para  as mãos do outro.

— Você não tem cortado muito ultimamente.

— Ora, vejam só — retrucou  o entrevistador, — tem razão. E já estabelecemos uma coisa importante: você é um homem que observa e raciocina.  Mas está interessado em cortar lenha, ou em fazer um trabalho que  também não é nada mole?

— Sei lá.

Rollie estava se perguntando por que viera, afinal. Dali a pouco iam saber da ficha que tinha na polícia, e tudo ficaria por isso mesmo.

— Mas está aqui porque quer emprego, não é? — O entrevistador deu uma olhada no cartão amarelo que uma secretária havia preenchido lá fora. — Não é, Mr. Knight?

Rollieaquiesceu.O“Mr.”osurpreendera.Nãopodialembrar-se quando fora a última vez que tinha sido tratado dessa maneira.

— Comecemos por determinar quem você é.

O entrevistador alcançou-lhe um bloco com dizeres impressos. Parte da nova técnica de recrutamento consiste em que os candidatos não precisam mais completar pessoalmente um questionário antes de pegar o emprego. No passado, muitos que mal sabiam ler ou escrever foram rejeitados por causa de incapacidade de cumprir o que a sociedade moderna imagina ser uma função regulamentar: preencher um formulário.

Percorreram rapidamente as perguntas básicas.

Nome: Knight, Rolland Joseph Louis. Idade: 29 anos. Endereço: ele deu, sem mencionar que o quarto exíguo, em prédio sem elevador, pertencia a outra pessoa que o deixara morar ali por um dia ou dois, e que o endereço talvez não fosse o mesmo na semana seguinte, se o ocupante resolvesse escorraçar Rollie. Mas afinal de contas grandes parte de sua vida se alternara entre esse tipo de acomodação, as espeluncas, ou as ruas quando não tinha onde morar.

Filiação: Forneceu os nomes. Os sobrenomes divergiam, uma vez que os pais não eram casados nem viviam mais juntos. O entrevistador não fez comentários; era bastante normal. Rollie também não acrescentou: Conhecia seu pai porque a mãe lhe dissera quem ele era, e Rollie tinha a vaga impressão de tê-lo encontrado uma vez: um sujeito corpulento, de queixo quadrado, carrancudo, com uma cicatriz na cara, e que não se mostrou cordial nem in­teressado no filho. Anos atrás, Rollie ficou sabendo que o pai tinha pegado prisão perpétua. Se ainda continuava preso, ou mor­rera não fazia 0 mínima idéia. Quanto à mãe, com quem morou, esporadicamente, até trocar o lar pelas ruas aos quinze anos de idade, acreditava que estivesse agora em Cleveland ou Chicago. Não a via nem recebia noticias suas há vários  anos.

Instrução: Até o oitavo ano.  Tinha revelado inteligência viva, rápida, no colégio, a qual ainda se manifestava quando surgia qualquer novidade, mas compreendia o quanto um negro precisava aprender se quisesse derrotar o fétido sistema furado,  coisa que agora já não poderia.

Empregos anteriores: Esforçou-se para lembrar nomes e lugares. Havia tido serviços não especializados depois de sair do colégio — cobrador de ônibus, limpador de neve, lavador de carros. 1 Depois, em 1957, quando Detroit foi atingida por uma crise de proporções nacionais, não existiam empregos de espécie alguma e ele terminou na vadiagem, entremeada de jogos de dados, aliciamento de vícios, e sua primeira condenação: roubo de automóvel.

— Tem ficha  na polícia, Mr. Knight? — perguntou o entrevistador .

— Tenho.

— Creio que preciso dos pormenores. E acho bom lhe prevenir que depois  verificamos, de modo que só tem a lucrar se fornecê-los corretamente logo de saída.

Rollie deu de ombros. Lógico que os filhos das putas iam verificar. Sabia disso, não era necessário que viesse com aqueles rapapés.

Primeiro prestou todas as declarações sobre o caso do roubo do automóvel. Tinha dezenove anos na época. Ficou um ano em sursis.                                                                                    

Pouco interessa agora como foi que a coisa aconteceu. Que importa que os outros companheiros no carro o tivessem apanhando, que ele tivesse ido junto, sentando no banco de trás, só pra se divertir, e que depois a policia os tivesse detido, acusando todos os seis ocupantes de roubo? Antes de comparecer perante o tribunal no dia seguinte, propuseram-lhe um trato: se confessasse culpado e pegaria liberdade condicional. Confuso, assustado, topou. O trato foi mantido. Entrou e saiu do tribunal em questão de segundos. Só mais tarde ficou sabendo que com um advogado pra assessorá-lo — tal como um garoto branco teria tido — uma contestação de inocência provavelmente o libertaria, com uma simples advertência do juiz e nada mais. Tampouco lhe avisaram que confessando-se culpado implicava numa ficha na policia, que permaneceria empoleirada como um gênio do mal em seu ombro pelo resto da vida.

E que também serviu para que a próxima sentença fosse mais drástica.

— Que aconteceu depois? — perguntou o entrevistador.

— Estive na penitenciária.

Foi um ano mais tarde. Por roubo de automóvel de novo. Desta vez de verdade, e tinha havido outras duas vezes que não fora descoberto. A pena: dois anos.

—  Mais alguma coisa?

Chegara o golpe de misericórdia. Sempre, depois disso, fechavam o livro — nada feito, não tem trabalho. Pois podiam enfiar seus empregos no rabo; Rollie ainda se perguntava por que tinha vindo.

— Assalto a mão armada.   Peguei de cinco a quinze, cumpri quatro anos na Penitenciária de Jackson.

Uma joalheria. Ele e um amigo a haviam arrombado de noite. Só conseguiram um punhado de relógios vagabundos e foram presos na saída. Rollie, ainda por cima, cometera a estupidez de andar com um calibre 22. Embora não o tivesse puxado do bolso, o fato de se encontrar com ele garantia uma acusação mais grave.

— Foi solto por boa conduta?

— Não. O guarda ficou com ciúmes. Pediu minha cela.

O entrevistador negro de  meia-idade  ergueu  os olhos.

— Eu gosto de piadas. Elas alegram a insipidez dos dias. Mas foi por boa conduta?

— Pode-se dizer que sim.

— Muito bem, eu direi que foi. — O entrevistador anotou.  — Sua conduta atual é boa, Mr. Knight? Quero dizer, o senhor não anda mais encrencado com a policia?

Rollie sacudiu negativamente a cabeça. Ele é que não iria contar a este Pai Tomás o que tinha acontecido ontem à noite: que andava encrencado se não conseguisse conservar-se afastado do branco cretino que havia desafiado, e que encontraria forma de encaná-lo, desde que tivesse oportunidade, usando uma lei furada pra trancafiar a ralé. A idéia serviu de lembrete dos medos anteriores, que agora voltavam: o temor da prisão, o verdadeiro motivo que o trouxera aqui. O entrevistador continuava a fazer perguntas, e anotar as respostas, mais entretido que um cachorro catando pulgas.

Rollie se admirava de que elas não parassem, perplexo de que já não o tivessem posto no olho da rua, como geralmente sucedia depois que pronunciava as palavras “assalto a mão armada”.

O que não sabia — porque ninguém se lembrara de lhe avisar, e não era leitor de jornais ou revistas — é que o reforço de recrutamento também havia adotado uma nova atitude, menos rígida, quanto às fichas de polícia.

Enviaram-noa outra sala, onde despiu a roupa e fez exame físico.

O médico, jovem, branco, impessoal, trabalhando depressa, encontrou tempo para olhar criticamente o corpo ossudo e as faces maceradas de Rollie.

— Seja qual for o emprego que lhe derem, use parte do salário pra se alimentar melhor, e engorde um pouco, senão você não vai durar nele. De qualquer maneira você não duraria na fundição pra onde se dirige a maioria do pessoal daqui. Talvez eles possam colocar você na Montagem. Vou recomendar.

Rollie escutou com desdém, já detestando o sistema, o pessoal que trabalhava nele. Porra, quem é que esse branquinho presunçoso pensava que era? Uma espécie de Deus? Se Rollie não precisasse tremendamente de grana, de um pouco de trabalho provisório, sairia agora mesmo, mandando todo mundo se foder. Uma coisa era certa: fosse qual fosse o emprego que essa gente lhe desse, não ficaria nele um dia a mais que o necessário.

De volta à sala de espera, outra vez no compartimento. O primeiro entrevistador anunciou:

— O doutor diz que você está respirando, e que quando lhe abriu a boca, não pôde enxergar a luz do dia, de modo que vamos lhe oferecer um emprego. É na montagem final. O serviço é duro, mas o salário compensa. . . o sindicato cuida disso. Aceita?

— Estou aqui, não é?

Que esperava o filho da puta? Que lhe lambesse a sola dos sapatos?

— É, você está aqui, portanto deduzo que isso quer dizer que sim. Haverá algumas semanas de treinamento; também serão pagas. Lá fora lhe explicarão os detalhes. . . o dia que tem que se apresentar, e o local que deve procurar. Só mais uma coisa.

Aí vem o sermão. Tão certo como a morte, Rollie Knight já estava sentindo o cheiro. Talvez este crioulo branco fosse pregador nas horas vagas.

O entrevistador tirou os óculos de aro de tartaruga, debruçou-se na escrivaninha e uniu a ponta dos dedos.

— Você é vivo. Conhece a jogada. Sabe que está conseguindo uma chance, e é por causa da época, do jeito que as coisas andam. O pessoal, as companhias como esta, têm uma consciência que nem sempre tiveram. Não interessa que seja tarde; existe, e uma porção de outras coisas está mudando.  Talvez não acredite, mas está. — O entrevistador gorducho, de paletó esporte, pegou um lápis, rolou-o entre os dedos, largou-o. — Talvez você nunca tenha tido uma oportunidade antes, e esta seja a primeira. Acho que é. Mas eu não estaria cumprindo com o meu dever se não lhe dissesse que sua ficha é a única que você terá, pelo menos aqui. Uma porção de sujeitos passa por este lugar. Alguns vencem depois que saem daqui; outros não. Os que vencem são aqueles que querem vencer. — O entrevistador olhou bem firme para Rollie. — Deixe de ser trouxa, Knight, e aproveite esta oportunidade. É o melhor conselho que você pode receber hoje. — Estendeu a mão. — Felicidades.

Relutante, sentindo que tinha sido tapeado, mas sem saber exatamente de que modo, Rollie aceitou a mão que lhe oferecia.

Lá fora, tal como o homem havia dito, explicaram-lhe como devia fazer para ir ao trabalho.

O curso de treinamento, patrocinado conjuntamente pela companhia e subsídios federais, era de oito semanas. Rollie Knight durou uma semana e meia.

Recebeu o cheque de pagamento da primeira semana, que representava uma soma que há muito tempo não via. Durante o fim de semana seguinte tomou um pileque. Na segunda-feira, contudo, conseguiu acordar cedo e tomar o ônibus que o deixava no centro de treinamento da fábrica no outro extremo da cidade.

Mas na terça-feira o cansaço venceu. Só acordou quando, pela vidraça suja, sem cortina, do quarto, o sol lhe caía em cheio no rosto. Rollie se levantou sonolento, pestanejando, e foi olhar na janela. Um relógio na rua lá embaixo marcava quase meio-dia.

Sabia que entrara pelo cano, que o emprego estava perdido. Sua reação foi de indiferença. Não sentiu nenhum desapontamento porque, desde o começo, não esperava outro desfecho. Como e quando viria o fim eram meros detalhes.

A experiência nunca ensinara Rollie Knight — ou dezenas de milhares iguais a ele — a adotar um ponto de vista a longo prazo sobre o que quer que fosse. Quando a gente nasce na miséria, cresce sem ganhar nada e aprende a viver com falta de tudo, não há ponto de vista a longo prazo — existe apenas o dia de hoje, o momento presente, aqui e agora. Muitos elementos do mundo branco — pessoas ignorantes, superficiais — chamam essa atitude de “inépcia” e a condenam. Os sociólogos, com mais compreensão e certa simpatia, classificaram o síndrome de “orientação do tempo presente” ou “desconfiança do futuro”. Rollie desconhecia essas frases, mas seu instinto acolhia ambas. Ele também lhe prevenia, neste momento, que continuava sentindo-se cansado. Tornou a se deitar.

Mais tarde, não fez a mínima tentativa de regressar ao centro do treinamento ou ao posto de recrutamento de serviço. Voltou a freqüentar os mesmos antros e a vida pelas esquinas, ganhando um dólar quando podia, e quando não, arrumando-se de qualquer jeito. O guarda que tinha antagonizado deixou-o — miraculosamente — em paz.

Houve apenas um pós-escrito — ou ao menos na ocasião pareceu — ao emprego de Rollie.

Uma tarde, cerca de quatro semanas depois, na casa de cômodos onde ainda encontrava tolerante guarida, recebeu a visita de um instrutor do curso de treinamento da fábrica. Rollie Knight lembrava-se do homem — ex-contramestre de oficinas, musculoso, o rosto corado, os cabelos ralos, e com vasta barriga, que agora bufava com os quatro lances de escada que fora obrigado a subir.

— Por que não apareceu mais? — perguntou, sem rodeios.

— Ganhei nas corridas, amizade. Não preciso de emprego.

— Vocês! — O visitante lançou um olhar de repugnância pelo quarto sórdido. — Pensar que a gente tem que sustentar uma laia dessa espécie à custa de impostos. Se dependesse de mim... — Não completou a frase, tirando um papel do bolso. — Assine aqui. Diz que você não vai voltar mais.

Indiferente, não querendo encrenca, Rollie assinou.

— Ah é, e a companhia emitiu alguns cheques. Agora têm que ser reembolsados. — Remexeu num maço de papéis, dos quais parecia haver uma boa quantidade. — Precisa também assinar estes aqui.

Rollie endossou os cheques. Eram quatro.

— Da próxima vez — disse o instrutor, de forma antipática, — procure dar menos incômodo aos outros.

— Ora, vai te foder, pançudo — retrucou Rollie Knight, soltando um bocejo.

Nem Rollie nem o visitante podiam imaginar que durante esse diálogo houvesse um carro de luxo do último tipo, estacionado ao lado oposto da rua e cujo único ocupante, um negro alto, grisalho, de aspecto distinto, aguardava com interesse a saída do instrutor de treinamento. Agora, quando o ex-contramestre musculoso, de rosto corado, deixava o prédio e partia em seu próprio carro, o outro automóvel o seguiu, despercebido, a uma distância discreta, como já vinha fazendo quase toda a tarde.

 

—  Anda de uma vez, boneca, larga essa porcaria de drinque. Eu tenho bebida lá em casa.

Ollie, o vendedor de peças mecânicas, perscrutou Erica Trenton com impaciência na penumbra, do outro lado da pequena mesa preta que os separava.

Era no começo da tarde. Estavam no bar do Queensway Inn, a curta distância de Bloomfield Hills, Erica demorando-se no segundo drinque que havia pedido como recurso de adiamento, muito embora reconhecendo que o adiamento não tinha sentido, pois se iam levar adiante o motivo que os reunira aqui, melhor seria pôr-se logo a caminho.

Erica tocou no copo.

— Deixe-me acabar este. Eu preciso.

Pensou: até que não é feio, de uma maneira meio vulgar. Tem porte elegante e o corpo deve ser, obviamente, melhor que o jeito de falar e o comportamento, no mínimo porque se cuida — lembrou-se que ele lhe dissera, com orgulho, que freqüentava um ginásio qualquer para exercícios regulares. Achou que podia ter caído em piores mãos, apesar de que gostaria que tivessem sido melhores.

A ocasião em que lhe falara sobre os exercícios no ginásio fora no primeiro encontro, aqui, neste mesmo bar. Erica tinha vindo tomar um drinque uma tarde, assim como outras esposas solitárias fazem às vezes, na esperança de que lhe sucedesse algo de interessante, e Ollie puxara conversa — Ollie, cínico, experiente, que conhecia este bar e o motivo por que certas mulheres o freqüentavam. Depois disso, o próximo encontro havia sido programado de antemão e ele pediu um quarto na parte residencial do hotel, supondo que ela o fosse acompanhar. Mas Erica, torturada entre a simples necessidade física e a consciência incômoda, insistira em ficar no bar a tarde inteira, e no fim fora para casa, para raiva e desgosto de Ollie. Pelo visto, ele a riscara de seu caderno, até que ela lhe telefonou, uma manhã, várias semanas atrás.

A partir de então, viram-se forçados a adiar o encontro porque Ollie não conseguiu voltar de Cleveland na data aprazada, viajando, ao invés, para duas outras cidades — Erica já esquecera os nomes. Mas agora estavam aqui, e Ollie começou a impacientar-se.

—  Como é, boneca? — insistiu.

De repente, num misto de ironia e tristeza, ela se lembrou de uma máxima que havia na parede do gabinete de Adam:NÃO ESPERE PELO DIA DE AMANHÃ!

—  Está bem — concordou.

Empurrou a cadeira para trás e levantou-se da mesa.

Caminhando ao lado de Ollie pelos atraentes corredores cobertos de quadros do hotel — onde tantas outras tinham passado antes dela com idêntica finalidade — sentiu o coração bater mais rápido e procurou não se afobar.

Diversas horas mais tarde, refletindo com calma, Erica decidiu que a experiência não fora tão boa quanto esperava, nem tão má quanto temia. De certo modo, básico, premente e atual, tinha encontrado satisfação sexual; por outro lado, mais difícil de exprimir, não tinha. Mas de duas coisas estava certa. Primeiro: esse tipo de satisfação não era duradouro, como costumava ser antigamente quando Adam se comportava que nem um amante agressivo e o efeito dos momentos amorosos desfrutados juntos perdurava no íntimo, às vezes dias a fio. Segundo: não pretendia repetir a experiência — ao menos com Ollie.

Com essa disposição de ânimo, ao sair do Queensway Inn no fim da tarde, Erica foi fazer compras em Birmingham. Comprou algumas coisas de que precisava, e outras perfeitamente dispensáveis, mas a maior parte do seu prazer proveio de que resultou ser um jogo empolgante, cheio de desafio — levar artigos das lojas sem pagar. Fez isso três vezes, com segurança cada vez maior, afanando um cabide decorativo, um tubo de xampu e — triunfo especial! — uma caneta caríssima.

A experiência prévia de Erica, ao surripiar o vidro de perfume Norell, havia demonstrado que furtar de lojas com êxito não é difícil. Os requisitos, agora sabia, eram inteligência, rapidez, e nervos de aço. Sentia-se ufana por ter provado que possuía todos os três.

 

Num dia feio, lúgubre e úmido, de novembro, seis semanas depois do encontro com Adam Trenton no campo de provas, Brett DeLosanto achava-se no centro de Detroit — com uma disposição de ânimo desolada e triste que combinava com o tempo.

Essa disposição não lhe era característica. Normalmente, por maiores que fossem as pressões, inquietações e — mais recentemente — dúvidas que o acometiam, o jovem projetista de carros sempre se mostrava alegre e bem disposto. Mas num dia como hoje, pensou, para quem nasceu na Califórnia como eu, Detroit no inverno é simplesmente o cúmulo, um horror.

Momentos antes, tinha chegado até seu carro num parque de estacionamento perto do cruzamento da Congress e da Shelby, sendo forçado a fazer o trajeto a pé, no meio do vento, da chuva e do trânsito, este último parecendo se prolongar interminavelmente no instante em que tentava cruzar uma rua, de maneira que ficava parado, impaciente, no meio-fio, já miseravelmente encharcado, e cada vez mais molhado.

Quanto à zona de marginais que o cercava. . . argh! Sempre suja, preponderantemente feia e deprimente a qualquer hora do dia, o céu de chumbo e a chuva de hoje — segundo a imaginação de Brett — se assemelhavam à fuligem espalhada sobre um cemitério. Só existia uma época pior durante o ano: em março e abril, quando as fortes nevascas do inverno, gélidas e transformadas em pretume, começavam a se derreter. Mesmo assim, imaginava ele, havia gente que terminava se acostumando eventualmente com a feiúra da cidade. Menos ele, por enquanto.

Dentrodocarro, Brett ligou o motor e pôs o aquecimento e oslimpadoresdepára-brisaafuncionar.Sentia-secontentepor estar, finalmente, abrigado; lá fora, a chuva continuava caindo com força. O parque de estacionamento estava apinhado, e ele encurralado. Teria que esperar enquanto dois carros a sua frente fossem removidos para lhe permitir a saída. Mas fizera sinal ao guardador ao entrar no estacionamento, e agora podia ver o homem a várias fileiras de automóveis ao longe.

Esperando, Brett lembrou-se que fora num dia como este que havia chegado a Detroit pela primeira vez, para morar e trabalhar.

Os quadros de projetistas das companhias automobilísticas andavam cheios de refugiados californianos, cuja rota para Detroit, como a dele, se efetuara através do Curso de Projetos da Escola de Belas Artes de Los Angeles, que funcionava num sistema trimestral. Para os que se formavam no inverno e vinham trabalhar em Detroit o choque de encontrar a cidade na pior das estações era tão deprimente que alguns regressavam prontamente ao Oeste, procurando outro setor qualquer de projetos como meio de vida. A maioria, porém, apesar do impacto sofrido, ficava, tal como Brett, e mais tarde a cidade revelava compensações. Detroit é notável centro de cultura, principalmente nos setores de artes plásticas, música e teatro, enquanto que fora da cidade, o Estado de Michigan propicia uma admirável arena para esportes de férias, no inverno como no verão, gabando-se de possuir alguns dos mais belos lagos e campos não devastados do mundo.

Porra, quando é que esse cara do estacionamento vai tirar esses outros carros? perguntou-se Brett.

Era esse tipo de frustração — nada de maior — que lhe provocava o mau humor atual. Tinha tido um almoço marcado no Hotel Pontchartrain com um amigo chamado Hank Kreisel, fabricante de acessórios de automóveis, e Brett dirigira-se de carro ao hotel, só para descobrir que a garagem de estacionamento estava lotada. Como conseqüência disso, teve que estacionar a vários quarteirões de distância, molhando-se todo na caminhada de volta. No Pontchar­train havia um recado de Kreisel, desculpando-se, mas dizendo que não poderia vir, e assim Brett almoçou sozinho, depois de percorrer vinte quilômetros com essa finalidade. Tinha várias outras coisas a fazer no centro, as quais o mantiveram ocupado pelo resto da tarde; mas ao andar de um lado para outro, uma série de motoristas grosseiros, maníacos da buzina, se recusavam a dar-lhe a menor oportunidade nos cruzamentos de pedestres, a despeito da chuvarada.

A quase selvageria dos motoristas era o que mais o afligia. Em nenhuma outra cidade que conhecesse — inclusive Nova York, o que não é dizer pouco — havia motoristas tão mal-educados, desconsiderados e inflexíveis como nas ruas e radiais de Detroit. Talvez porque a cidade viva à custa de automóveis, que se tornaram símbolos de poder, mas seja qual for o motivo, todo habitante de Detroit atrás do volante parece se transformar no monstro de Frankenstein. A maior parte dos recém-chegados, a princípio abalada pelo modo de guiar na base do “pega pra capar”, logo aprende a se comportar de maneira idêntica, por questão de autodefesa. Brett nunca conseguira. Habituado à cortesia inerente na Califórnia, o modo de guiar em Detroit continuava sendo-lhe um pesadelo, e uma fonte de cólera.

O guardador do estacionamento tinha, obviamente, esquecido de tirar os carros da frente. Brett sabia que teria de sair e localizar o indivíduo, com ou sem chuva. Foi o que fez, fulo de raiva. Mas quando enxergou o homem não reclamou. O coitado estava todo enlameado, parecia exausto e molhado feito um pinto. Brett deu-lhe uma gorjeta e apontou para os carros que lhe bloqueavam a saída.

Ao menos, pensou, voltando a seu carro, possuo um apartamento quente e confortável pra onde ir, coisa que o guardador provavelmente não tem. O apartamento de Brett ficava em Birmingham, no aristocrático Solar do Country Club, e lembrou-se de que Barbara viria hoje à noite fazer o jantar para os dois. O modo de vida de Brett, além da ausência de preocupações monetárias que seu salário de cinqüenta mil dólares anuais e gratificações tornava possível, constituíam compensações que Detroit lhe dava, e ele não fazia segredo de apreciá-las.

Até que enfim os carros que o atrapalhavam seriam removidos. Quando o que estava encostado na frente desviou para a lado, Brett saiu devagar com o dele.

O portão do parque de estacionamento ficava apenas a cinqüenta metros de distância. Outro carro seguia adiante, também de saída. Brett DeLosanto acelerou um pouco para diminuir o espaço entreambos e puxou a carteira do bolso para pagar o caixa do portão.

De repente, caído das nuvens, um terceiro carro — um sedan verde escuro — se interpôs diretamente na frente de Brett, virando bruscamente à direita e colocando-se em segundo lugar na fila de saída. Brett pisou nos freios com força, recobrou controle, parou e esbravejou:

— Seu doido varrido!

Todas as frustrações do dia, somadas à sua fixação nos motoristas de Detroit, ficaram sintetizadas nas ações de Brett durante os cinco segundos seguintes. Saltando do carro, avançou para o sedan verde escuro e abriu encolerizado a porta do lado do volante.

— Seu filho da. . .

Não conseguiu terminar o insulto.

— Sim? — fez o outro motorista. Era um negro alto, grisalho ebemvestido, de cinqüenta e poucos anos. — O senhor estava dizendo. . .?

— Não tem importância — resmungou Brett. Fez um movimento para fechar a porta.

— Espere aí, por favor! Tem importância, sim! Posso até fazer queixa perante a Comissão de Direitos Humanos! Direi a eles: um rapaz branco abriu a porta do meu carro com a intenção evidente de me quebrar a cara. Quando descobriu que eu era de outra raça, estacou. Isso é discriminação, sabe? O pessoal dos direitos humanos não vai gostar.

— Seria sem dúvida um ângulo novo. — Brett riu. — Quer que eu quebre?

— Acho que sim, já que insiste — retrucou o negro grisalho. — Mas preferia convidá-lo pra tomar um drinque, e aí então me desculpar por atravessar na frente desse jeito, e explicar que foi um impulso idiota, irracional, resultado de um dia de frustrações.

— Também teve um dia ruim?

— Pelo visto, estamos no mesmo caso.

Brett aquiesceu.

— OK. Aceito.

— No Jim's Garage, digamos? Agora?  Fica a três quarteirões daqui e o porteiro estaciona o carro. A propósito, meu nome é Leonard Wingate.

O sedan verde tomou a dianteira.

A primeira coisa que descobriram, depois de pedir uísque com gelo, foi que trabalhavam para a mesma companhia. Leonard Wingate era executivo do Departamento de Pessoal e, Brett deduziu pela conversa, cerca de dois degraus abaixo do nível da vice-presidência. Mais tarde saberia que seu companheiro de bar era o negro de cargo mais elevado na companhia.

— Já ouvi falar em seu nome — disse Wingate a Brett. — Você andou bancando o Miguel Ângelo com o Orion, não foi?

— Bem, nós esperamos que o resultado seja esse. Viu o modelo? O outro sacudiu a cabeça.

— Se quiser, posso dar um jeito.

— Gostaria. Outro drinque?

— A vez é minha.

Brett fez sinal ao garçom.

O bar do Jim's Garage, pitorescamente decorado com artefatos históricos da indústria automobilística, era atualmente o lugar “quente” do centro de Detroit. Agora, no começo da noite, começava a ficar cheio de gente, o nível do movimento e das vozes aumentando simultaneamente.

— Tem muita coisa dependendo do sucesso do Orion — disse Wingate.

— Se tem, porra.

— Principalmente empregos pra minha gente.

— Pra sua gente?

— Operários pagos por hora, negros e brancos. Do jeito que o Orion sair depende o destino de uma porção de famílias aqui nesta cidade: o horário de trabalho, o dinheiro que levam pra casa. . . o que inclui o modo como vivem, comem, se dispõem de meios pra cumprir os pagamentos  da hipoteca, comprar roupas novas, tirar férias, o que acontece com os filhos.

Brett ficou pensando.

— A gente nunca se lembra disso quando está projetando um carro novo ou aplicando barro no modelo de um guarda-lamas.

— Também, de que jeito? Nenhum de nós jamais sabe a metade do que se passa com a vida alheia; tudo quanto é espécie de muro é construída entre nós. . . de tijolos, de outros tipos. Mesmo quando se consegue eventualmente transpô-los, descobrindo o que há lá por trás, talvez até ajudando a salvar alguém, constata-se que não se salvou ninguém, por causa de outros parasitas nauseabundos, podres, complacentes. . . — Leonard Wingate cerrou o punho e bateu duas vezes, silenciosa mas intensamente, no balcão do bar.  Olhou de soslaio para Brett, depois sorriu meio encabulado. — Desculpe!

—  Aí vem seu drinque, meu amigo.   Acho que você está precisando dele. — O projetista tomou um gole antes de perguntar: — Isso tem alguma coisa a ver com aquelas nefandas acrobacias aéreas lá no estacionamento?

Wingate aquiesceu.

— Desculpe-me aquilo, também. Eu estava fulo de raiva.   — Sorriu, desta vez menos tenso. — Agora acho que já botei toda a fumaça pra fora.

— Fumaça é só uma nuvem branca — retrucou Brett. — A ori­gem dela era concreta?

— Propriamente, não.  Já ouviu falar no reforço de recrutamento de serviço?

— Já. Não conheço todos os detalhes.

Mas sabia que Barbara Zaleski andava interessada no assunto ultimamente por causa de um novo projeto que lhe fora designado pela agência de publicidade OJL.

O funcionário grisalho do Departamento de Pessoal resumiu o programa do reforço: seu objetivo no tocante à zona de marginais e ex-desempregados; os postos de recrutamento das Três Grandes no centro da cidade; como, em relação a pessoas individuais, o programa às vezes dava certo e outras não.

— Mas tem valido a pena, apesar de algumas decepções. O nosso índice de retenção. . . isto é, de gente que se mantém nos empregos que lhe demos. . . é superior a cinqüenta por cento, mais do que se esperava.  Os sindicatos cooperam; os meios noticiosos dão destaque que auxilia; têm havido outras espécies de ajuda, de várias maneiras. É por isso que dói ser apunhalado nas costas pela nossa própria gente, na nossa própria companhia.

— Quem apunhalou você? De que maneira? — perguntou Brett.

— Deixe-me recapitular um pouco. — Wingate pôs a ponta do dedo comprido e fino no drinque e mexeu o gelo. — Uma porção de elementos que empregamos através deste programa nunca teve, anteriormente, uma vida com horário regular. A maioria porque não tinha motivo. Trabalhar regularmente, como quase todos nós trabalhamos, cria hábitos: como o de acordar cedo, ser pontual pra tomar o ônibus, acostumar-se a trabalhar cinco dias por semana. Mas se você jamais fez uma coisa dessas, não tiver o hábito, é o mesmo que aprender outra língua; e ademais demora. Pode-se definir isso como mudança de atitude, ou de engrenagem. Ora, nós aprendemos um bocado a respeito disso tudo desde que iniciamos o reforço de recrutamento de serviço. Aprendemos também que certas pessoas — não todas, mas algumas — que não adquirem esses hábitos por conta própria, são capazes de adotá-los se receberem ajuda.

— É melhor você me ajudar — disse Brett. — Tenho problema pra me levantar cedo.

O outro sorriu.

— Se realmente procurássemos ajudar, eu mandaria alguém do pessoal de relações de empregados falar com você. Caso você largasse o trabalho, não aparecendo mais na fábrica, ele lhe perguntaria o motivo. Tem mais: alguns novatos faltam um dia, ou até chegam com uma ou duas horas de atraso, e depois simplesmente desistem. Talvez não pretendessem faltar; mero acaso, mais nada. Mas eles têm a idéia de que somos tão inflexíveis que uma falta implica, automaticamente, na perda do emprego.

— E não implica?

— Puxa, claro que não! Damos ao cara toda a chance possível porque nós queremos que o negócio funcione. Outra coisa que também fazemos é fornecer um despertador barato às pessoas com problema pra chegar ao trabalho; você ficaria assombrado de ver como existe gente que nunca possuiu um. A companhia me deixou comprar uma grosa. Lá no meu gabinete eu tenho despertadores tal como outros funcionários têm grampos de papel.

— Puta merda! — exclamou Brett.

Parecia-lhe absurdo que uma companhia automobilística colossal, cujas despesas de salário anuais andavam pela casa dos bilhões, fosse preocupar-se com a hora de chegada de meia dúzia de empregados dorminhocos.

— O.ponto aonde quero chegar — continuou Leonard Wingate — é que se um operário do reforço não aparece no serviço, seja pra terminar o curso de treinamento, seja nas oficinas, o funcionário encarregado deveria avisar um de meus subordinados especiais. Só depois, a não ser  que se trate  de  caso perdido, é que  dariam seguimento.

— Mas não é o que acontece? É por isso que você se sente frustrado?

— Em parte. Há muito mais do que isso. — O funcionário do Departamento de Pessoal esvaziou o fundo do copo de uísque. — Esses cursos que mantemos, onde o pessoal do reforço recebe orientação. . . duram oito semanas; há talvez duzentos candidatos em cada curso.

Brett pediu para renovar a dose. Quando o garçom se afastou, lembrou:

— Muito bem, quer dizer que cada curso tem duzentos candidatos.

— Exato. Um instrutor e uma secretária são os responsáveis. Entre si, os dois efetuam o registro de todos os cursos, inclusive da freqüência.  Emitem cheques de pagamento, que chegam semanalmente num maço da Contabilidade Matriz. Esses cheques, é lógico, são baseados no registro do curso. — Wingate acrescentou, ressentido: — É o instrutor e a secretária. . . só uma dupla. São eles.

— Eles, o quê?

— Que andam mentindo, tapeando, roubando as pessoas que foram pagas pra ajudar.

— Acho que já entendi — disse Brett.  — Mas em todo caso, continue.

— Ora, à medida que o curso prossegue, há desistências. . . pelas razões que apontei, além de outras. Isso sempre acontece; já contamos com elas. Como expliquei antes, quando o nosso departamento é avisado, procuramos persuadir alguns a voltar. Mas o que esse instrutor e a secretária têm feito é não comunicar as desistências, registrando esses elementos como presentes.  E assim os respectivos cheques prosseguem chegando, e aí então a dupla de espertalhões guarda os cheques pra ela.

— Mas eles são nominais. Ninguém pode descontá-los.

Wingate sacudiu a cabeça.

— Não só pode, como tem descontado. O que acontece é que essa dupla comunica, de fato, que certos desistentes deixam de comparecer, e assim a companhia também pára com a emissão de cheques. Aí o instrutor sai por aí com os cheques que guardou, à procura das pessoas pra quem foram emitidos. Não é difícil; todos os endereços constam do arquivo. O instrutor prega uma potoca qualquer, alega que a companhia quer o dinheiro de volta, e consegue que sejam endossados.  Depois disso, pode descontá-los onde bem entende. Eu sei que é assim que ele faz. Segui-o uma tarde inteira.

— Mas e depois, quando seus funcionários de relações de empregados vão fazer visitas? Você diz que eles ficam sabendo, eventualmente, das desistências. Não descobrem a tramóia dos cheques?

— Não necessariamente. Não esqueça que as pessoas de que estamos tratando não são comunicativas. São desistentes em várias acepções da palavra, de modo geral, e nunca dão informações espontâneas. Já é bastante difícil conseguir respostas às perguntas. Além disso, tenho impressão que houve diversos casos de suborno.  Não posso provar, mas há um cheiro inconfundível.

— A coisa toda fede.

Brett pensou: comparadas com o que Leonard Wingate estava contando, suas próprias irritações de hoje pareciam insignificantes.

— Foi você que descobriu tudo isso? — perguntou.

— A maior parte, apesar de que um de meus assistentes teve a idéia primeiro. Ele ficou desconfiado com o número de freqüência do curso; parecia bom demais. Aí nós dois começamos a verificar, comparando os novos dados com os que já tínhamos anteriormente, e depois conseguimos estatísticas semelhantes noutras companhias. Elas demonstraram o que estava se passando, ora, que dúvida. A partir daí, foi só questão de cuidar e pegar as pessoas em flagrante. E pegamos.

— E que vai acontecer agora?

Wingate deu de ombros, o corpo debruçado no balcão do bar.

— O Departamento de Segurança tomou conta; o caso está fora da minha alçada. Hoje de tarde trouxeram o instrutor e a secretária ao centro da cidade. . . separados. Eu estive lá. Os dois se desfizeram, confessando tudo. O sujeito chegou a chorar. Você acredita?

— Acredito, sim — disse Brett. — Também sinto vontade de chorar,maspormotivodiferente.Acompanhianão vai abrir processo?

— O sujeito e a amiguinha dele acham que sim, mas eu sei que não. — O negro alto endireitou o corpo; era quase uma cabeça mais alto que Brett DeLosanto. Disse, com ar de troça: — Fica mal pras relações públicas, sabe? Não vão querer que saia nos jornais, com o nome da companhia. Ademais, segundo o ponto de vista dos patrões, o essencial é recuperar o dinheiro; parece que se trata de alguns milhares. . .

— E essa outra gente? Os desistentes, que podiam ter voltado, indo pro trabalho.

— Ora, meu amigo, você está sendo sentimental de um modo ridículo.

— Deixe disso! — retrucou Brett, veemente. — Não fui quem roubou esses cheques de merda.

— Não, não foi. Pois, quanto a essa outra gente, digo-lhe o seguinte. Se eu contasse com um número de subordinados seis vezes maior, e se pudéssemos examinar todos os registros e ter certeza dos nomes que devíamos investigar, e se pudéssemos localizá-los depois de todas essas semanas. . .

O garçom apareceu.  O copo de Wingate estava vazio, mas ele sacudiu a cabeça.

— Faremos o possível — acrescentou, para Brett. — Talvez não seja muito.

— Me dá pena — disse Brett. — Me dá uma pena filha da mãe. — Fez uma pausa, depois perguntou: — Você é casado?

— Sim, mas não sou escravo.

— Escute aqui, a minha namorada vai cozinhar hoje lá em casa . Por que não vem junto?

Wingate vacilou, por cortesia. Brett insistiu.

Cinco minutos depois partiam para o Solar do Country Club.

Barbara Zaleski tinha a chave do apartamento de Brett e estava lá quando chegaram, já ocupada na cozinha. Um aroma de cordeiro assado pairava no ar.

— Ei, mestre cuca! — gritou  Brett  do vestíbulo.  — Vem cá, quero te apresentar um convidado.

— Se for outra mulher — rebateu a voz de Barbara, — você pode cozinhar sozinho. Ah, não é. Oi!

Surgiu com um avental minúsculo sobre o elegante vestido de tricô com que tinha chegado, vinda diretamente do escritório da agência OJL em Detroit. O vestido, pensou Brett com admiração, fazia justiça à figura de Barbara; sentiu que Leonard Wingate estava tendo a mesma opinião. Como sempre, Barbara repuxara os óculos escuros para cima dos bastos cabelos castanhos, detalhe que sem dúvida já havia esquecido. Brett levantou a mão, retirou os óculos e beijou-a de leve.

Apresentou-os, informando Wingate:

— Esta é a minha amante.

— Ele gostaria que eu fosse — disse Barbara, — mas não sou. Espalhar pra todo mundo que sou é a maneira dele se desforrar.

Conforme Brett esperava, Barbara e Leonard Wingate logo estabeleceram um relacionamento. Enquanto conversavam, Brett abriu uma garrafa de Dom Perignon, que os três dividiram. De vez em quando Barbara se desculpava para ver como iam as coisas na cozinha.

Durante uma dessas ausências, Wingate olhou em torno do espaçoso living do apartamento.

— Lugarzinho gostoso.

— Obrigado.

Quando Brett alugara o apartamento, um ano e meio atrás, tinha-se encarregado pessoalmente da decoração, e a mobília refletia seu gosto pelo estilo moderno e as cores exuberantes. Amarelos, lilases, vermelhos e verdes-cobaltos vivos predominavam, usados no entanto com imaginação, de modo que se fundiam num todo atraente. A iluminação complementava o colorido, salientando certos recantos, atenuando outros. O efeito era criar — engenhosamente — uma série de ambientes dentro de uma peça única.

Numa das extremidades da sala havia uma porta aberta que comunicava com outra dependência.

— Você faz a maior parte do seu trabalho aqui? — perguntou Wingate.

— Alguma. — Brett acenou para a porta aberta. — Aquilo ali é meu Pensário. Pra quando sinto vontade de criar e não ser interrompido por telefonemas daquele Taj Mahal onde nós trabalhamos. —  Fez um gesto vago na direção do Centro de Projetos e Estilo da companhia.

— Ele também faz outras coisas ali — disse Barbara.  Voltara enquanto Brett falava. — Vem cá, Leonard. Vou te mostrar.

Wingate seguiu-a, com Brett atrás.

A outra peça, embora também colorida e agradável, estava equipada como um estúdio, com todos os acessórios de um projetista. Um monte de papel fino de seda no chão, ao lado da mesa de desenho, indicava o lugar em que Brett havia traçado uma série de esboços, rasgando fora cada folha, usando uma nova do bloco à medida que o projeto ganhava forma.  O último desenho da série —  um modelo de guarda-lamas traseiro — estava preso por alfinete a um quadro de cortiça.

Wingate apontou para ele.

— Aquele ali é pra valer?

Brett sacudiu a cabeça.

— A gente brinca com idéias, dá vazão a elas, como quando se arrota. Às vezes, desse modo, adquire-se uma noção que no fim leva a algo de definitivo. Não é o caso dessa aí. — Arrancou a folha de seda e amarrotou-a. — Se você pegasse todos os desenhos que precedem qualquer carro novo, daria pra encher o Cobo Hall só de papel.

Barbara acendeu uma lâmpada. Era num canto da peça onde havia um cavalete, coberto por um pano. Ela tirou o pano com cuidado.

— E aí então tem este aqui — disse Barbara. — Que não é pra jogar no lixo.

Por baixo do pano havia um quadro a óleo, quase — mas não completamente — pronto.

— Não conte com isso — retrucou Brett, acrescentando: — A Barbara é muito leal. Às vezes prejudica-lhe a opinião.

O negro alto e grisalho sacudiu a cabeça.

— Desta vez não prejudicou, não.

Examinou o quadro com admiração.

Representava uma coleção de refugos automobilísticos, empilhados juntos. Brett tinha reunido o material que lhe servira de modelo — exposto em cima de uma tábua diante do cavalete, e iluminado por refletor — numa pilha de escombros de automóveis. Havia diversas velas de ignição queimadas, já marrons, um eixo de comando de válvulas quebrado, uma lata de gasolina inutilizada, as vísceras de um carburador, um farol amassado, uma bateria de doze volts antiquada, um trinco de janela, uma parte do radiador, uma chave inglesa partida, e uma variedade de porcas de parafuso e arruelas enferrujadas. Um volante de direção, ao qual faltava o aro da buzina, pendia torto no alto.

Nenhuma coleção poderia ter sido mais ordinária, menos propícia a inspirar uma grande obra de arte. No entanto, surpreendentemente, Brett tinha conseguido dar vida a esse sortimento de ferro velho, transmitindo à tela, ao mesmo tempo, uma beleza tosca e uma sensação de tristeza e nostalgia. Isso são relíquias aos pedaços, parecia dizer o quadro; queimadas, rejeitadas, toda a utilidade perdida; com nada pela frente a não ser a desintegração total. Contudo, outrora, por breve que fosse, tiveram vida, funcionaram, representando sonhos, ambições, proezas da humanidade. Pressentia-se que todas as outras proezas — passadas, presentes, futuras, por mais aclamadas que fossem — estavam fadadas ao mesmo fim, teriam seus epílogos escritos em monturos de lixo. Entretanto não eram o sonho, a fugaz proeza — em si — suficientes?

Leonard Wingate permanecera, imóvel, diante da tela.

— Conheço alguma coisa de pintura — disse devagar. — Você tem talento. Poderia ser um grande pintor.

— É o que eu digo a ele.

Depois de um instante, Barbara tornou a colocar o pano sobre o cavalete e apagou a lâmpada. Voltaram ao living.

— O que a Barbara quer dizer — declarou Brett, servindo mais Dom Perignon, — é que vendi minha alma por um prato de lentilhas. — Lançou um olhar em torno. — Ou talvez em troca de um apartamento.

— O Brett podia ter dado um jeito de se dedicar a projetos e às belas artes — explicou Barbara a Wingate, — se não houvesse alcançado um êxito danado como projetista. Agora, a única coisa que ele tem tempo pra fazer em matéria de pintura são umas pinceladas ocasionais. Com o talento dele, é uma tragédia.

Brett sorriu.

— A Barbara nunca viu a coisa por este ângulo. . . que projetar um carro é uma atividade tão criadora quanto pintar. Ou que o que me interessa são carros. — Lembrou-se do que havia dito aos dois estudantes poucas semanas atrás:  Vocês respiram, comem, dormem carros. . . acordam no meio da noite, estão pensando em carros. . . que nem uma religião. Ora, ele próprio ainda se sentia assim, não era? Talvez não com a mesma intensidade como quando chegara a Detroit pela primeira vez. Mas será que alguém conseguia, de fato, manter viva a mesma sensação? Havia dias em que olhava para os que trabalhavam com, ele, e ficava pensando. Além disso, se fosse sincero, existiam outros motivos para que os carros continuassem sendo o seu “interesse”. Como, por exemplo, o que podia fazer com cinqüenta mil dólares por ano, para não falar no fato de que estava apenas com vinte seis anos e ia entrar numa nota muito mais firme dentro de poucos anos. Perguntou alegremente a Barbara: — Você ainda viria correndo fazer o jantar se eu morasse numa mansarda e cheirasse a aguarrás?

Ela olhou com firmeza para ele.

— Você sabe que sim.

Enquanto conversavam sobre outros assuntos, Brett decidiu: terminaria a tela, que há semanas não tocava. O motivo da abstenção era simples. Depois de começar a pintar, deixava-se absorver por completo e não há vida que comporte mais que determinado grau de absorção absoluta.

Durante o jantar, tão saboroso quanto prometia o aroma, Brett desviou a conversa para o que Leonard Wingate lhe revelara no bar do centro da cidade.  Barbara, ao saber da trapaça de que tinham sido vítimas os operários do reforço, ficou escandalizada e ainda mais indignada que Brett.

Fez a pergunta que Brett DeLosanto não fizera.

— De que cor eles são. . .  o instrutor e a secretária que ficaram com os cheques?

Wingate arqueou as sobrancelhas.

— Que diferença faz?

— Escute  aqui — disse Brett. — Você sabe muito bem que faz.

— São brancos — respondeu Wingate, tenso. — Que mais podiam ser?

— Negros.

O  comentário era de  Barbara,  pensativa.

— Sim, mas as probabilidades são contra. — Wingate hesitou. — Olha aqui, eu  sou  convidado de vocês...

Brett acenou com a mão.

— Deixe disso!

Fez-se um silêncio entre os dois. Depois o negro grisalho disse:

— Certas coisas eu gosto de  deixar bem claro, mesmo entre amigos.Portantonãoseiludamcomasaparências:oternosóbrio, um diploma de universidade, o cargo que ocupo. Ah, lógico, sou o autêntico crioulo com posição na diretoria, aquele que todos apontamquandodizem: Está vendo, um negro pode subir. Ora, no meu caso é verdade, porque fui um dos poucos que tive um pai quepodiapagarmeusestudossuperiores,queéoúnicomodode um negro vencer na vida. Assim, venci, e talvez ainda chegue mais alto, ficando diretor na companhia. Ainda sou bastante joveme confesso que me agradaria; e à companhia também. De uma coisa eu sei. Se tiverem que escolher entre mim e um branco, o cargo é meu, desde que prove minha capacidade. É assim que está a situação, meu filho; tudo pende a meu favor, porque o departamento de relações públicas e alguns outros simplesmente adorariam gritar: Olhem só pra nós! Temos um negro na junta de diretoria!

Leonard Wingate  tomou  o café que  Barbara havia  trazido.

— Então, como eu estava dizendo, não se iludam com as aparências.   Continuo sendo um membro da minha raça.  — Largou abruptamente a xícara. Do outro lado da mesa de refeições, fitou Brett e Barbara com um olhar incendiado. — Quando acontece uma coisa como  a que  aconteceu hoje, eu não fico apenas com raiva. Eu pego fogo, desprezo e odeio. . . tudo o que é branco.

O olhar incendiado se desfez. Wingate tornou a erguer a xícara de café, embora a mão estivesse trêmula.

Passado um momento, disse:

— James Baldwin escreveu o seguinte:  “Os negros neste país sãotratadoscomonenhum de vocês sonharia tratar um cão ou umgato.”Eéverdade.. . em Detroit, como noutros lugares.  E a despeito de tudo o que aconteceu nestes últimos anos, não mudou realmente nada nas atitudes da maioria da gente branca, por baixo da superfície. Mesmo o pouco que tem sido feito para aliviar as consciências brancas. . . como o reforço de recrutamento de serviço, que aquela dupla de brancos tentou enfunerar, e conseguiu. . . não passa de um arranhão no verniz. As condições das escolas, moradias,  remédios e hospitais são tão ruins  aqui que chegam a ser inacreditáveis. . . a menos que você seja negro;   aí então você acredita  porque sabe, na carne. Mas um dia, se a indústria automobilística pretende sobreviver nesta cidade. . . porque a indústria automobilística é Detroit. . .  ela terá que se encarregar da melhoria da vida negra na comunidade, porque ninguém mais vai fazer isso, ou dispõe de recursos ou inteligência pra tanto.  — Acrescentou:  — Mesmo assim, não creio que faça.

— Então não resta nada — disse Barbara.  — Nenhuma esperança .

Havia emoção em  sua voz.

— Ter esperança nunca fez mal a ninguém — retrucou Leonard Wingate.  E depois, em tom de troça: — Não custa nada.  Mas se iludir  também não adianta.

— Obrigada pela  franqueza — disse Barbara devagar, — por explicarcomoéqueé.Nemtodossedão a esse trabalho. Eu que o diga.

— Conta pra ele — insistiu Brett. — Conta sobre o teu novo serviço.

— Incumbiram-me de uma tarefa — disse Barbara a Win­gate. — Lá na agência de publicidade onde trabalho, que faz as promoções da companhia. É pra fazer um filme. Um filme sincero sobre Detroit. . .  a zona  de  marginais.

Sentiu o interesse imediato do outro.

— A primeira vez que me falaram no projeto — explicou Barbara, — foi há seis semanas.

E descreveu as instruções que recebera de Keith Yates-Brown em Nova York.

Tinha sido depois do dia da malograda reunião do “maço farfalhante” em que as idéias iniciais da agência OJL para a promoção do Orion haviam sido apresentadas como de praxe e, também como de praxe, rejeitadas.

TalcomoTeddyOsch,odiretordo departamento de criação, vaticinara durante o almoço regado a martinis, Keith Yates-Brown,o supervisor da conta, mandara chamar Barbara no dia seguinte.

Em seu magnífico escritório no último andar da agência, Yates-Brown parecia moroso em contraste com os modos expansivos, teatrais, da véspera. Parecia também mais grisalho e mais velho, e por diversas vezes nas etapas finais da conversa virou-se para a janela, olhando por cima do panorama de Manhattan na direção de Long Island Sound, como se uma parte de seu espírito estivesse distante. Talvez, pensou Barbara, o esforço de permanente afabilidade com os clientes exigisse um contrapeso ocasional de mau humor.

Certamente não houve nenhuma cordialidade no primeiro comentário que Yates-Brown fez depois de trocarem cumprimentos.

— Ontem você foi arrogante com o cliente — declarou a Barbara. — Eu não gostei, e você não devia ter feito isso.

Não retrucou. Supôs que Yates-Brow estivesse referindo-se à mordaz interrogação que fizera ao gerente de publicidade da companhia: Não teve nada que lhe agradasse? Absolutamente nada? Pois continuava achando que se justificava e não seria agora que se iria humilhar. Mas tampouco pretendia hostilizar Yates-Brown sem necessidade, antes de saber qual era o novo serviço.

— Uma das primeiras coisas que você precisa aprender aqui — persistiu o supervisor da conta — é mostrar-se às vezes controlada, e agüentar firme.

— Está bem, Keith — disse Barbara. — É exatamente o que estou fazendo agora.

Ele teve  a polidez de sorrir, depois voltou à frieza.

— O que você vai fazer exige controle;  além de sólido discernimento e, naturalmente, imaginação.  Sugeri você pro serviço, acreditando que possua essas qualidades. Ainda  acredito, apesar de ontem, que prefiro classificar como um lapso momentâneo.

Ah! meu Deus!, sentiu Barbara vontade de exclamar. Pare com o sermão e desembuche logo! Mas teve o bom senso de ficar calada.

— É um projeto que conta com o interesse pessoal do presidente da diretoria do cliente.

Keith Yates-Brown pronunciou “presidente da diretoria” com admiração e reverência. Barbara ficou surpresa por ele não se ter levantado, em posição de sentido, pra dizer aquilo.

— Em conseqüência disso — continuou o supervisor da conta, — você terá a responsabilidade. . .   uma enorme responsabilidade que afeta a todos nós da OJL...  de apresentar relatório, ocasionalmente, ao próprio presidente da diretoria.

Bem, quanto a isso Barbara avaliava como ele devia estar-se sentindo. Apresentar relatórios diretamente a um presidente sobre o que quer que fosse era uma responsabilidade enorme, embora não a amedrontasse. Mas já que o presidente — se quisesse exercê-lo —  dispunha de poder de vida e morte sobre a agência de publicidade que a companhia usasse, Barbara podia imaginar Keith Yates-Brown e outros pairando nervosamente nos bastidores.

— O projeto — acrescentou Yates-Brown — é um filme.

Eprosseguira, fornecendo os detalhes até então conhecidos. O filmeseriasobre Detroit: a zona de marginais e seus habitantes, seus problemas — raciais e outros — seu modo de vida, pontos de vista, suas necessidades. Teria que ser um documentário real, honesto. De maneira nenhuma serviria a fins de propaganda da companhia ou da indústria; o nome da firma apareceria apenas uma vez — nos letreiros, como patrocinadora. O objetivo seria apontar os problemas urbanos, a necessidade de reativar o papel da cidade na vida do país, com Detroit como exemplo primordial. O filme se destinaria principalmente a grupos educacionais e cívicos, e a escolas de toda a nação. Provavelmente seria transmitido pela televisão. E se fosse bastante bom, podia também passar em  cinemas.

O orçamento ia ser generoso. Facultaria o uso de uma organização cinematográfica  normal,  mas a agência OJL escolheria o diretor e se reservaria o controle. Pretendiam contratar um cineasta de fama,  e  um  roteirista,  se  necessário,  embora   Bárbara —  em virtude  de sua experiência como redatora de anúncios — talvez preferisse  escrever ela mesma o roteiro.

Barbara representaria a agência, com atribuições plenipotenciárias.

Sentindo-se cada vez mais entusiasmada, à medida que Yates-Brown falava, Barbara lembrou-se das palavras de Teddy Osch ontem durante o almoço. O diretor do departamento de criação tinha dito: A única coisa que posso dizer a você é que eu gostaria de estar em seu lugar. Agora compreendia por quê. O serviço não só significava um cumprimento que lhe era feito profissionalmente, como também representava um grande desafio a seu espírito criador, que recebia com prazer. Quando viu, estava olhando cheia de admiração — e certamente com maior tolerância — para Keith Yates-Brown.

Mesmo as palavras subseqüentes do supervisor da conta só lograram arrefecer de leve seu entusiasmo.

— Você vai  trabalhar no escritório de Detroit, como sempre — ele havia dito, — mas nós queremos ficar informados aqui de tudo o que estiver se passando, de tudo, faço questão de frisar. Outra coisa que convém lembrar é o que falamos antes. . . controle. O filme é pra ser honesto, mas não se deixe levar pelo entusiasmo. Não creio que nós queiramos, ou que o presidente da diretoria queira, dar demasiado destaque a. . .  digamos?. . . um ponto de vista socialista.

Bem, isso ela tinha deixado passar, percebendo que haveria uma porção de idéias, além de pontos de vista, pelos quais teria que lutar eventualmente, sem perder tempo com argumentos abstratos agora.

Uma semana mais tarde, depois de redistribuídas as outras atividades em que andava envolvida, Barbara começou o trabalho no projeto, intitulado provisoriamente: A Cidade dos Automóveis.

Do lado oposto da mesa de refeições de Brett DeLosanto, Bar­bara explicou a Leonard Wingate:

— Certas previdências iniciais  já foram tomadas, inclusive a escolha da companhia produtora e do diretor. É lógico que vai haver mais planejamentos antes que as filmagens possam começar, mas nós esperamos principiar a rodagem em fevereiro ou março.

Onegroaltoegrisalho refletiu antes de retrucar. Por fim disse:

— Eu podia ser cínico e brilhante, dizendo que fazer um filme sobre  problemas, em vez: de resolver ou procurar resolvê-los, é o mesmo que Nero tocar violino. Mas o fato de ser executivo me ensinou que a vida nem sempre é tão simples assim; e que a comunicação, também, é importante. — Fez uma pausa e depois acrescentou: — O que você pretende talvez dê bons resultados. Se precisar de algum auxílio de minha parte, disponha.

— Talvez precise — admitiu Barbara. — Já falei com o diretor, Wes Gropetti, e uma coisa em que concordamos é que tudo o que for dito a respeito da zona de marginais tem que ser dito através da gente que mora lá. . . das pessoas. Uma delas, a nosso ver, seria alguém que estivesse cumprindo o programa de “reforço” de recrutamento  de serviço.

— O reforço de recrutamento nem sempre dá certo — advertiu Wingate. — Vocês talvez rodem uma porção de cenas sobre um indivíduo que acaba sendo um fracasso.

— Se for isso o que acontecerá — insistiu Barbara, — será o que contaremos. Não estamos fazendo nenhuma refilmagem de Pollyanna.

— Então talvez haja alguém — disse Wingate  pensativo. — Lembra-se do que lhe contei. . . a tarde em que segui o instrutor que roubou os cheques e depois mentiu pra que fossem endossados?

— Sim,  lembro — respondeu ela.

— No dia seguinte eu voltei pra falar com  algumas das pessoasqueeletinhavisitado.Anotei os endereços; o meu escritório comparou-os com os nomes. — Leonard Wingate tirou uma agenda do bolso e folheou-a. — Um deles era um homem com quem eu andava cismado. Não tenho certeza que espécie de cisma, só  que  consegui  convencê-lo   a voltar pro  trabalho.   Cá  está.   — Parou numa página.  — O nome dele é  Rollie Knight.

Antes, para chegar ao apartamento de Brett, Barbara havia tomado um táxi. Mais tarde, no fim da noite, quando Leonard Wingate já tinha ido embora — depois de prometer que os três tornariam a se reunir dentro em breve — Brett levou Barbara de carro para casa.

Os Zaleski moravam em Royal Oak, um subúrbio residencial de classe-média a sudeste de Birmingham. Atravessando a cidade pela Maple, com Barbara no assento da frente a seu lado, Brett exclamou:

— Estou doido pra fazer isto!

Freou, parou o carro e abraçou-a. O beijo foi apaixonado e longo.

— Escute aqui! — disse Brett; enterrou o rosto na seda macia doscabelosdelae apertou-a com força. — Que diabo estamos fazendovindopraesteslados? Volte e passe esta noite comigo. Éoquenósdoisqueremosenãohá nada no mundo que nos impeça.

Tinhafeitoamesma sugestão antes, logo depois que Win­gate saíra. Além disso, já haviam discutido aquilo uma porção de vezes.

Barbara suspirou.

— Sou uma grande decepção pra  você,   não é?  — disse baixinho.

— Como é que eu posso saber se é, se você nunca me deixa verificar?

Ela soltou uma pequena risada. Brett possuía a capacidade de fazê-la achar graça nos momentos mais imprevistos. Barbara levantou o braço, passando os dedos de leve na testa dele para desfazer o cenho franzido que sentia que se tinha formado.

— Não é justo! — protestou  ele. — Todo mundo que nos conhece pensa que estamos  dormindo juntos, e você e eu somos os únicos que sabemos que não é verdade.  Até o seu velho acha que estamos.  Vai dizer que não?

— Sim — admitiu ela. — Creio que sim.

— Poiseu tenho certeza, pombas! E o pior é que cada vez quemeencontro com ele, aquele velho urubu deixa bem claro que não está gostando.De modo que de todo jeito quem sai perdendo sou eu.

— Querido — disse  Barbara,  — eu sei, eu sei.

— Então por que a gente não faz alguma coisa. . . agora mesmo, hoje de noite? Barbara, meu bem, você tem vinte e nove anos. Não é possível que ainda seja virgem. Portanto, qual é a dúvida? Sou eu? Ando cheirando a barro de modelar, ou a desagrado de algum outro modo?

Ela sacudiu enfaticamente a cabeça.

— Você me atrai em todos os sentidos, e estou falando com a mesma seriedade com que falei  todas as outras vezes.

— Faz tantas vezes que já dissemos tudo. — Acrescentou, casmurro — Nenhuma das outras teve mais lógica do que agora.

— Por favor — pediu Barbara, — vamos pra casa.

— Pra minha?

Ela riu.

— Não, pra minha.

Quando o carro estava andando, ela tocou no braço de Brett.

— Eu também não tenho certeza; sobre ter lógica, quero dizer. Acho que simplesmente não penso do jeito que todo mundo parece que está pensando hoje em dia; ao menos por enquanto. Talvez seja espírito retrógrado meu. . .

— Você quer dizer que, se eu quiser provar o mel, tenho que casar com você.

— Não, nada disso — retrucou Barbara, veemente. — Eu nem sequer tenho certeza se quero casar com alguém; não esqueça que sou uma moça que tem carreira. E sei que você não pretende casar.

Brett sorriu.

— Quanto a isso, tem razão. Então por que a gente não vive junto?

— Podia-se — disse ela, pensativa.

— Está falando sério?

— Não tenho certeza. Acho que podia estar, mas preciso de tempo. — Hesitou. — Brett, querido, se você prefere que a gente não se veja por uns tempos, já que fica frustrado toda vez que nos encontramos. . .

— Já tentamos essa solução, não foi? Não deu certo porque senti saudade de você. — Afirmou, decisivo: — Não, vamos continuar assim  nem que eu me  comporte de vez em quando feito um garanhão encurralado.   Ademais — acrescentou,   todo alegre; — você não pode resistir a vida, inteira.

Formou-se um silêncio enquanto o carro rodava. Brett dobrou na Woodward Avenue, dirigindo-se à zona sul e então Bar­bara disse:

— Posso pedir-lhe uma coisa?

— O quê?

— Termine o quadro. Aquele que vimos hoje.

Pareceu surpreso.

— Você quer dizer que aquilo é capaz de fazer diferença pra nós?

— Não tenho certeza. Só sei que faz parte de você, uma parte especialmente importante; algo que você tem dentro de você e que tem que sair.

— Que nem uma tênia? Ela sacudiu a cabeça.

— Um grande talento, tal como o Leonard disse. Uma que a indústria automobilística jamais há de oferecer a oportunidade adequada, se  você continuar com os projetos de carros, e envelhecer nesse ramo.

— Olhe aqui!. . . eu vou aprontar o quadro. De qualquer maneira já pretendia.  Mas você também está nesse ramo. Onde fica sua lealdade?

— No escritório — respondeu Barbara. — Só a uso até às cinco da tarde. Agora, neste momento, eu sou eu, e é por isso que quero que você seja você. . .   o melhor, o verdadeiro Brett DeLosanto.

— Como é que eu posso reconhecê-lo, se encontrar esse cara? — brincou Brett. — Está bem, sou vidrado por pintura, lógico. Mas você sabe quais são as chances que tem um pintor, qualquer pintor, pra se tornar grande,  ficar célebre e,  ao mesmo tempo, ser bem pago?

Enveredaram pela alameda do modesto chalé onde Bárbara morava com o pai. Um carro cinza estava na garagem, à entrada.

— Seu velho está em casa — disse Brett. — De repente parece que o tempo esfriou.

Matt Zaleski estava no alpendre de orquídeas, que ficava contíguo à cozinha, e levantou os olhos quando Brett e Barbara entraram pela porta lateral do chalé.

Matttinha construído o alpendre logo depois de comprar a casa,dezoitoanos atrás, ao emigrar de Wyandotte para cá. Naquelaépocaamudançapara o lado norte de Royal Oak representava o progresso econômico de Matt em relação ao ambiente da infância e a seus pais poloneses. O alpendre de orquídeas fora ideado para proporcionar um passatempo calmante, contrabalançando o esforço mental de auxiliar a administrar uma oficina de automóveis. Raramente conseguira. Pelo contrário, embora Matt ainda gostasse muito da visão exótica, do contato e, às vezes, do aroma das orquídeas, um cansaço crescente durante as horas que passava em casa havia transformado o prazer que sentia em cuidar delas numa obrigação, embora se tratasse de uma coisa que, mentalmente, jamais poderia descartar-se por completo.

Hoje à noite ele chegara há uma hora, tendo ficado até tarde nas oficinas de montagem por causa de certa escassez crítica de materiais, e depois de um jantar frugal, percebeu que precisava providenciar sem perda de tempo alguns plantios e novas disposições de vasos. Quando escutou as rodas do carro de Brett, Matt já tinha trocado a posição de várias plantas, a última sendo uma Masdevallia triangularis amarela-roxa, agora colocada onde a passagem do ar e a umidade lhe seriam mais favoráveis. Estava regando carinhosamente a flor quando os dois entraram.

Brett apareceu no umbral aberto do alpendre.

— Oi,  Mr. Z.

Matt Zaleski, que não gostava de ser chamado de Mr. Z, apesar de que vários elementos na fábrica o tratassem assim, resmungou o que podia ser tomado por um cumprimento. Barbara reuniu-se a ele, beijou o pai rapidamente, e depois foi para a cozinha e começou a preparar um drinque de malte quente para os três.

— Puxa! — exclamou Brett. Resolvido a ser cordial, examinou as prateleiras e os xaxins suspensos de orquídeas.  — Que formidável ter tempo de sobra pra cuidar de uma coisa dessas. — Não notou que Matt repuxara os cantos da boca. Apontando para uma Catasetum saccatum que floria numa prateleira, Brett comentou., cheio de admiração: — Mas que beleza!  Parece um pássaro  em pleno vôo.

Por um momento Matt se descontraiu, partilhando do prazer da deslumbrante flor roxa e marrom, cujas sépalas e pétalas re-curvavam-se para cima.

— Parece mesmo, não é? — concedeu. — Nunca tinha reparado.

Sem querer, Brett quebrou a atmosfera.

— O dia lá na montagem foi divertido, Mr.  Z.? Aquele seu conjunto de montador rolante ainda não despencou?

— Se não despencou — retrucou Matt Zaleski, — não foi graças aos projetistas de carro malucos com quem temos que trabalhar.

— Ora, você sabe como é. Nós gostamos de jogar pra vocês, da turma do ferro, qualquer coisa que represente um desafio; se não vocês acabariam cochilando de  tédio.

Para Brett, o gracejo bem-humorado era um modo de ser tão natural quanto a respiração. Infelizmente, nunca se dava conta de que o pai de Barbara não tolerava essa atitude e por isso considerava insuportável o amigo da filha.

Enquanto  Matt Zaleski fazia carranca,  Brett  acrescentou:

— Não demora muito, vocês vão receber o Orion. Só que ele não dará o mínimo trabalho.  É até capaz de se montar sozinho.

Matt explodiu. Da maneira mais agressiva possível, retrucou:

— Não há nada que seja capaz de se montar sozinho. Isso é o que fedelhos convencidos como você não entendem. Só porque sua laia chega aqui com diploma de faculdade, pensam que são uns sabichões, acreditando que tudo o que botam no papel tem que dar certo. Não dá! É gente que nem eu. . .  da turma do ferro, como vocês dizem; os bocós que trabalham. . . que têm que encontrar uma solução que funcione. . .

E continuou por aí  a fora.

Por trás do desabafo de Matt havia o cansaço de hoje à noite: também estava ciente de que, de fato, o Orion chegaria em breve às suas mãos; de que as oficinas, onde era o segundo por ordem de comando teriam que fabricar o novo carro, deixando tudo aquilo lá na maior desordem para depois juntar tudo outra vez, com o resultado de que nada mais daria certo como antes; de que os problemas comuns de produção, já bastante difíceis, atingiriam rapidamente proporções monumentais e, por meses a fio, ocorreriam a toda hora; de que o próprio Matt arcaria com o pior quinhão durante a mudança completa de modelo, quase sem tempo para descansar, e certas noites poderia considerar-se afortunado se conseguisse, ao menos, deitar numa cama; além disso, levaria a culpa quando as coisas saíssem erradas. Eram experiências que estava farto de conhecer, repetidas inúmeras vezes, e a idéia da próxima — prestes   a desabar — parecia-lhe  inagüentável.

Matt parou, percebendo que não estava realmente dirigindo-se a esse fedelho atrevido do DeLosanto — por mais que lhe fosse antipático — mas que eram suas. emoções íntimas, acumuladas, que de repente encontravam vazão. Ia confessá-lo, desajeitadamente, acrescentando que sentia muito, quando Barbara apareceu na porta do alpendre, branca  de palidez.

— Papai, você vai pedir desculpas por tudo o que acaba de dizer.

A primeira reação foi de  tenacidade.

— Vou fazer o quê?

Brett intercedeu; nada o aborrecia por muito tempo.

— Não tem importância — disse a Barbara, — não é preciso. Foi só um pequeno mal-entendido, não é, Mr. Z.?

— Não! — Barbara, em geral paciente com o pai, não cedeu. Insistiu: — Peça  desculpas! Se você não pedir, vou-me embora agora mesmo. Com o Brett. Estou falando sério.

Matt percebeu  que ela estava mesmo.

Triste, não compreendendo realmente nada, inclusive os filhos que crescem e faltam com respeito aos pais, gente moça que se comporta em geral assim; sentindo saudade da esposa, Freda, morta há um ano já, que, para começo de conversa, nunca permitiria que isso acontecesse, Matt resmungou um pedido de desculpas, depois trancou a porta do alpendre e foi-se deitar.

Quase em seguida, Brett deu boa noite a  Barbara e partiu.

 

O inverno agora dominava a Cidade dos Automóveis. Novembro se fora, depois o Natal, e o início de janeiro, com a neve funda, esquiava-se ao norte de Michigan e o gelo se empilhava em camadas altas e sólidas às margens dos lagos St. Clair e Erie.

Com a chegada do ano novo, intensificaram-se os preparativos para o lançamento do Orion, marcado para meados de setembro.ODepartamento de Fabricação, já atropelado há vários meses com os planos, acelerou as modificações nas oficinas, que começariamem junho, para produzir a primeira partida de Orions — Primeira Etapa, como ficou chamada — em agosto. Aí então, seis semanas de produção — cercadas de sigilo — seriam necessárias antes da apresentação pública do carro. Nesse meio tempo, o Departamento de Compras coordenava nervosamente uma armada de materiais, encomendada e a ser entregue em datas vitais, enquanto o de Vendas e o de Mercado se puseram a consolidar os planos, submetidos a intermináveis debates e mudanças constantes, para a apresentação e promoção aos revendedores. O de Relações Públicas estabeleceu bases para a campanha luculiana que acompanharia a apresentação do Orion à imprensa. Outros departamentos, segundo o maior ou menor grau de suas funções, aderiram aos preparativos.

E enquanto avançava o programa do Orion, muita gente da companhia se dedicava ao Farstar, que viria logo a seguir, embora o prazo ainda não estivesse marcado, e seu feitio e substância ainda não fossem conhecidos. Entre esses contavam-se Adam Trenton e Brett DeLosanto.

Outra coisa que preocupava Adam em janeiro era a sindicância do investimento de sua irmã Teresa, deixado em herança  pelo falecidomarido,na concessionária de automóveis de Smokey Stephensen.

A aprovação da companhia para que Adam se envolvesse pessoalmente, ainda que de maneira superficial, com um de seus revendedores, levou mais tempo do que o esperado, e foi concedida a contragosto depois de discussões na Comissão de Conflito de Interesses. Por fim, Hub Hewitson, vice-presidente executivo, deu parecer favorável ao ser procurado pelo próprio Adam. Agora, contudo, soada a hora de cumprir a promessa feita a Teresa, Adam percebia como realmente não precisava, nem queria, responsabilidades extras. Seu volume de trabalho aumentara e uma sensação de tensão física ainda o importunava. Em casa, as relações, com Erica não pareciam melhores nem piores, embora reconhecesse a justiça da queixa da esposa — repetida recentemente — de que atualmente mal tinham tempo para ficar juntos. Em breve, decidiu, encontraria modo de repor tudo nos eixos, mas antes, aceito o novo compromisso,  necessitava levá-lo a cabo.

Assim foi que, numa manhã de sábado, depois de combinar pelo telefone, Adam fez sua primeira visita a Smokey Stephensen.

A concessionária de Stephensen ficava nos subúrbios da zona norte, perto das linhas divisórias entre Troy e Birmingham. A localização era boa — no trajeto de uma radial importante, com a Woodward Avenue, uma das principais artérias da parte noroeste da cidade, a apenas poucos quarteirões de distância.

Smokey, que estava evidentemente de olho na rua lá fora, cruzou o limiar da porta do recinto de exposição, dirigindo-se à calçada enquanto Adam descia do carro.

O ex-corredor profissional, com a barba cerrada e agora corpulento na meia-idade,  bradou:

— Salve! Salve!

Trajava paletó azul escuro de seda, calças pretas de friso impecável e gravata larga profusamente colorida.

— Bom dia — disse Adam, — eu sou. . .

— Não precisa dizer! Vi seu retrato no Automotive News. Passe!

O concessionário segurou bem aberta a porta do recinto de exposição.

— Nós sempre dizemos que  só há  dois motivos pra alguém entrar aqui. . .  pra fugir da chuva ou comprar rodas. Acho que você é a exceção. — Já dentro, declarou:  — Daqui a meia hora estaremos  nos tratando pelos primeiros   nomes.  Eu  sempre  digo, pra que esperar tanto? — Estendeu a mão, que mais parecia uma pata de urso. — Eu me chamo Smokey.

— E eu Adam.

Conseguiu manter a firmeza enquanto a mão era espremida.

— Dê-me as chaves do carro. — Smokey fez sinal a um jovem vendedor que se apressou a atravessar o recinto de exposição. — Estacione o carro do Mr. Trenton com cuidado, e não tente vendê-lo. Não esqueça também de tratar nosso visitante com respeito. A irmã dele possui quarenta e nove por cento disto  aqui, e  se os negócios não melhorarem até o meio-dia, vou remeter-lhe os cinqüenta e um restantes pelo correio.

Piscou acintosamente para Adam.

— É uma época de angústia pra todos nós — concordou Adam. Sabia, pelos relatórios de vendas, que um período de bonança posterior às festas estava-se fazendo sentir este ano por todos os fabricantes e revendedores de automóveis. No entanto, caso os compradores de carro soubessem, essa era a melhor ocasião de todos os tempos para se fazer um negócio vantajoso. Com as agências revendedoras repletas de carros impingidos pelas fábricas, e às vezes desesperadas para reduzir o estoque, um comprador astuto poderia economizar várias centenas de dólares num carro de preço médio, comparado com a compra que faria mais ou menos um mês mais tarde.

— Eu devia estar vendendo televisões coloridas — resmungou Smokey. — É  nisso que os trouxas gastam por volta do Natal e do Ano Novo.

— Mas você se saiu bem  com a modificação de modelo.

— Nem tem dúvida. — O revendedor se animou. — Você viu as cifras, Adam?

— Minha  irmã me mandou.

— É tiro e queda. A gente seria capaz de pensar que o pessoal já aprendeu. Felizmente pra nós, nunca aprende. — Smokey olhou para Adam enquanto percorriam o recinto de exposição.  — Você sabe  que estou falando com absoluta franqueza, não é?

Adam aquiesceu.

— Acho que é o que nós dois devíamos fazer, mesmo.

Sabia, lógico, o que  Smokey Stephensen queria dizer. Na época de apresentação de modelos — de setembro a fins de novembro — os revendedores podem vender tudo quanto é carro novo que as fábricas lhes forneçam. Aí então, em vez de reclamar a quantidade de carros consignados — como fazem noutras épocas do ano — pedem ainda mais. E a despeito de toda a publicidade adversa sobre automóveis, o público continua afluindo para comprar os modelos novos, ou as modificações importantes. O que esses compradores ignoram, ou não ligam, é que esse é o período de caça de freguesia, quando os revendedores relutam no regateio; além disso, os primeiros carros depois de uma modificação no produto são invariavelmente menos bem feitos que outros que se seguirão meses mais tarde. Todo modelo novo entrava o ritmo de produção, enquanto os técnicos, contramestres e operários horistas aprendem a montar o carro. Igualmente previsível é a carestia de componentes ou acessórios, acarretando improvisos de fabricação que ignoram padrões de aprimoramento. Como resultado os primeiros carros representam geralmente péssima compra sob o ponto de vista da qualidade.

O comprador inteligente que deseja o modelo novo, espera de quatro a seis meses a partir do início da produção. A essa altura as probabilidades de conseguir um carro superior são maiores, porque as falhas já estão certamente eliminadas e a produção — excetuados os problemas de trabalho às segundas e sextas-feiras, que se prolongam pelo ano inteiro — se efetua sem percalços.

— Tudo aqui está aberto pra você, Adam — declarou Smokey Stephensen, — que nem um bordel sem telhado. Pode examinar nossos livros, arquivos, balanços, o que quiser; tal como sua irmã examinaria, direito que lhe assiste. E as perguntas que fizer terão resposta imediata.

—  Pode contar com  as perguntas — disse   Adam,  — e mais tarde vou precisar ver tudo isso que você mencionou.  O que eu também quero. . . que talvez leve mais tempo. . . é me familiarizar com seu sistema de operações.

— Claro, lógico; para mim, o que você quiser está bem.

O revendedor de automóveis tomou a dianteira para subir o lance de escada que levava à sobreloja. Essa ocupava todo o comprimento do recinto de exposição acima do rés do chão. A maior parte servia de escritórios. No alto dos degraus, os dois pararam para olhar lá embaixo, contemplando os carros de várias linhas de modelo, reluzentes, imaculados, coloridos, que se encontravam expostos. Num dos lados haviam diversas cabinas envidraçadas, tipo gabinete, para uso dos vendedores. Uma ampla arcada dava acesso a um corredor que conduzia às seções de Acessórios e Serviço, que não ficavam à vista.

Já na metade da manhã, apesar da falta de movimento peculiar à época, várias pessoas examinavam os carros, com os vendedores   pairando  nas imediações.

— Sua irmã está com um bom negócio aqui. . . o dinheiro do coitado do Clyde rendendo pra ela e todos os filhos. — Smokey olhou para Adam  com expressão desconfiada. — Que bicho mordeu a Teresa? Ela tem recebido os cheques. Dentro de pouco tempo teremos um balanço contábil de fim de ano.

— Teresa está pensando principalmente a longo prazo. — frisou Adam. — Você sabe que vim cá pra aconselhá-la: ela deve ou não deve vender as ações?

— Sim, eu sei. — Smokey refletiu. — Você me desculpe, Adam, mas se você aconselhá-la a “vender”, a coisa vai ficar apertada pra mim.

— Por quê?

— Porque não posso conseguir o dinheiro pra comprar a parte dela. Não agora, com os tempos difíceis como estão.

— Segundo entendo — retrucou Adam, — se a Teresa decidir vender as quotas que possui na firma, você tem uma opção de sessenta dias para comprá-las. Só se você não comprar é que ela fica livre pra vendê-las a terceiros.

Smokey confirmou:

— Exato.

Mas num tom mal-humorado.

O que não lhe agradava, evidentemente, era a possibilidade de um novo sócio, talvez receando que outra pessoa quisesse tomar parte ativa no negócio ou resultasse mais incômoda que uma viúva a três mil quilômetros de distância. Adam ficou imaginando o que, precisamente, escondia a inquietação de Smokey. Seria o desejo natural de dirigir a própria firma sem interferências, ou estariam acontecendo coisas na concessionária que preferia que ninguém mais soubesse? Fosse qual fosse o motivo, Adam pretendia, se possível, descobri-lo.

—  Vamos  ao meu escritório, Adam.

Passaram da parte aberta da sobreloja a uma sala pequena, mas Confortável, mobiliada com poltronas e sofá de couro verde. A tampa da escrivaninha e a cadeira giratória tinham o mesmo estofamento.  Smokey notou  que Adam   examinava-as.

— O cara que eu pedi pra decorar isto aqui queria tudo vermelho. Eu disse pra ele: “Que loucura! O único vermelho que há de me acontecer neste negócio será por acidente” (1)

Um lado do escritório, quase inteiramente de vidro, fazia frente com a sobreloja. O revendedor e Adam, de pé, contemplavamorecinto de exposição como da ponte de comando de um navio.

Adam indicou uma fileira de cabinas de venda lá embaixo.

— Você tem um sistema de comunicações  interna?

Pela primeira vez Smokey hesitou.

— Sim.

— Eu gostaria de ouvir. Aquela cabina ali  à direita.

Numa das repartições  envidraçadas um jovem  vendedor,  de semblante infantil e basta cabeleira loura, enfrentava um casal de possíveis compradores. Havia papéis espalhados entre eles sobre uma escrivaninha.

— Acho que você pode.

A falta de entusiasmo de Smokey era palpável. Mas abriu um painel corrediço perto de sua mesa, revelando vários botões, um dos quais comprimiu. No mesmo instante ouviram-se vozes por um alto-falante dissimulado na parede.

—  . . . claro, dá pra encomendar o modelo que desejam em verde-claro. — Era obviamente o jovem vendedor falando. — Pena que não tenhamos no estoque.

— Podemos esperar  — respondeu  outra voz masculina, meio fanhosa, agressiva. — Isto é, se fecharmos negócio aqui. Senão talvez procuremos noutra parte.

— Compreendo perfeitamente, meu senhor. Diga-me uma coisa, só por curiosidade. O modelo Galahad, em verde-claro, que ambos acabam de ver. Que diferença a mais, no preço, acham que custaria?

— Já lhe disse — retrucou a voz fanhosa. — Um Galahad está fora de nossas possibilidades.

— Mas só por curiosidade. . . cite qualquer soma. Quanto custaria a mais?

Smokey riu entre os dentes.

— Esse Pierre é fogo! Parecia ter esquecido sua relutância em permitir que Adam escutasse. — Vai terminar empurrando o carro pra eles.

— Bem, uns duzentos dólares, talvez — respondeu a voz fanhosa, de má vontade.

Adam viu que o vendedor sorria.

— Na verdade — disse, num sussurro, — apenas setenta e cinco.

— Meu bem, já que é só isso. . . — intercedeu uma voz feminina.

Smokey gargalhou.

— Sempre se fisga uma mulher desse jeito. A fulana já está pensando que economizou cento e vinte e cinco dólares. O Pierre não mencionou algumas opções extras naquele Galahad. Mas ele termina chegando lá.

— Por que não dão outra olhada no carro? — sugeriu o vendedor. — Eu gostaria de lhes mostrar. . .

Enquanto o trio se levantava, Smokey desligou o botão.

— Esse vendedor — disse Adam. — Já vi o rosto dele. . .

— Claro. É  o Pierre Flodenhale.

Então Adam se lembrou. Pierre Flodenhale era um corredor de automóveis cujo nome, durante os últimos dois anos, vinha ficando cada vez mais famoso em todo o país. Tivera diversas vitórias espetaculares na mais recente temporada.

— Quando as coisas se acalmam lá pelas  pistas — explicou Smokey, — deixo o Pierre trabalhar aqui. É conveniente pra nós dois. Algumas pessoas o reconhecem; gostam que ele lhes venda um carro, só pra contar aos amigos. De  um jeito ou  doutro, é um vendedor ótimo. Esse negócio aí vai ser uma barbada pra ele.

— Quemsabeelenãoquer entrar de sócio, se a Teresa desistir?

Smokey sacudiu a  cabeça.

— Que esperança, O rapaz já está na lona; é por isso que faz esse bico aqui. Todos os corredores profissionais são iguais. . . torram o dinheiro com mais rapidez do que ganham, mesmo os grandes vencedores. Perdem logo a cabeça; imaginam que vão passar a vida toda com o bolso recheado.

— Seu caso foi diferente.

— Porque fui sabido. Ainda sou.

Discutiram a filosofia do revendedor.

— Isto aqui nunca foi negócio pra maricas — explicou Smokey, — e agora está ficando mais duro. Os compradores são mais espertos, E o revendedor tem que ser mais ainda. Mas é um negoção, e a gente pode ganhar fortunas.

A uma referência à proteção ao consumidor, Smokey se empertigou todo.

— O “pobre consumidor” está tomando um cuidado filha da mãe consigo mesmo. O público já era ganancioso antes;  a proteção ao consumidor o tornou pior. Agora todo mundo só quer fazer negócios da  China, com atendimento gratuito pro resto da vida. Que tal se a gente “protegesse” um pouco também o revendedor de vez em quando? O revendedor tem de lutar pra sobreviver.

Enquanto conversavam, Adam continuou observando a atividade lá embaixo. De repente apontou de novo para as cabinas de vendas.

— Aquela primeira ali. Eu gostaria de ouvir.

O painel corrediço tinha ficado aberto. Smokey estendeu o braço e comprimiu o botão.

— . . . negócio. Estou-lhe dizendo, a senhora não encontrará vantagens melhores em parte alguma.

Outra vez a voz de um vendedor; desta vez um mais velho que Pierre Flodenhale, grisalho, e de modos mais bruscos. O possível comprador, uma mulher que Adam julgou que andasse pelos trinta e poucos anos, parecia estar desacompanhada. Sentiu momentaneamente um complexo de culpa por estar bisbilhotando, depois lembrou-se de que o uso de microfones escondidos por revendedores, para acompanhar diálogos entre seus agentes e os compradores de carros, era muito difundido. Ademais, unicamente escutando como fazia agora, poderia Adam avaliar a qualidade de comunicação entre a concessionária de Smokey Stephensen e a freguesia.

— Não tenho tanta certeza assim — retrucou a mulher. — Com o carro em tão boas condições que dou em troca, creio que seu preço podia ser cem dólares mais baixo. — Fez menção de se levantar. — Acho melhor tentar noutro lugar.

Ouviram  o suspiro do vendedor.

— Vou repassar mais uma vez as cifras. — A mulher tornou a sentar. Uma pausa, depois o vendedor de novo: — O carro novo será financiado,  não é?

— É.

— E a senhora quer que obtenhamos o financiamento?

— Espero que sim. — A mulher hesitou. — Bem, quero.

Por experiência própria, Adam adivinhava o processo de raciocínio do agente. Em quase todas as vendas financiadas, o vendedorrecebedobancooudacompanhiafinanciadoraumacomissão, geralmente de cem dólares, às vezes maior. Os bancos e similares oferecem essa vantagem como meio de conseguir o negócio, para o qual existe forte concorrência. Numa transação difícil, a certeza dessa comissão pode ser usada para efetuar descontos de última hora, em lugar de perder totalmente a venda.

Como se tivesse lido o pensamento de Adams, Smokey murmurou:

— O Chuck conhece a jogada. Não gostamos de perder nossa comissão, mas às vezes somos obrigados.

— Talvez dê pra se fazer um desconto maior. — Era o agente na cabina de novo. — O que eu fiz foi, na sua troca. . .

Smokey desligou o botão, suprimindo os detalhes.

Diversos recém-chegados tinham entrado no recinto de exposição; agora um novo grupo se aproximava de outra cabina de vendas.  Mas Smokey parecia insatisfeito.

— Pra que  este troço dê lucros, tenho que vender dois mil e quinhentos carros por ano, e os negócios andam muito parados.

Bateram com o nó dos dedos na porta do escritório pelo lado de fora. Quando Smokey respondeu: “Sim!”, ela se abriu, dando ingresso ao agente que havia atendido a mulher desacompanhada. Trazia um maço de papéis que Smokey pegou, folheou e depois comentou, acusadoramente:

— Ela foi mais esperta que você. Não era preciso usar todos os cem.  Ter-se-ia contentado com cinqüenta.

— Pois sim. — O vendedor olhou  de relance para Adam e virou-se outra vez para Smokey. — É muito viva. Certas coisas não podem ser percebidas daqui de cima, chefe. O olhar das pessoas, por exemplo. Vou lhe contar, o dela era duro.

— Como é que você sabe? Quando entregou de mão beijada o meu dinheiro a ela, no mínimo estava olhando pras coxas dela, e se deixou lograr.

O agente ficou mortificado.

Smokey rabiscou uma  assinatura e  devolveu  os papéis.

— Mande entregar o carro.

Observaram o agente deixar a sobreloja e voltar à cabina onde a  mulher  aguardava.

— Coisas a serem lembradas a respeito de vendedores — disse Smokey Stephensen: — pagá-los bem, mas mantê-los em seus lugares, e nunca confiar neles. Boa parte é capaz de aceitar cinqüenta dólares por baixo da mesa, em troca de um negócio vantajoso ou pra manipular um financiamento, com á mesma rapidez com que assoa o nariz.

Adam acenou para o painel de botões. Mais uma vez, Smokey acionou-o e os dois ficaram escutando o agente que deixara o escritório momentos  antes.

— . . . essa cópia é sua. Nós guardamos esta.

— Já está devidamente assinada?

— Está sim. — Agora, com o negócio fechado, o agente parecia mais tranqüilo;  debruçou-se na escrivaninha, apontando:  — Ali, oh. Com a letra do patrão.

— Ótimo. — A mulher pegou o contrato de venda, dobrou-o e anunciou: — Estive pensando enquanto o senhor saiu e afinal resolvi desistir do financiamento. Quero pagar à vista, deixando um cheque de depósito agora e liquidando o saldo quando vier buscar o carro na segunda-feira.

Houve um silêncio na cabina de vendas.

Smokey Stephensen deu um soco na palma da mão.

— Vivaldina de uma  figa!

Adam olhou-o com curiosidade.

— Essa sirigaita safada deu o golpe! Ela nunca pretendeu financiar coisa alguma.

Da cabina, ouviram o vendedor hesitar.

— Bem. . . nesse caso há uma diferença.

— Diferença no quê? No preço do carro? — indagou a mulher, com toda a calma. — De que jeito, a menos que haja alguma taxa imprevista que o senhor não me informou? De acordo com a lei. . .

Smokey virou às pressas para a escrivaninha, pegou um telefone interno e discou. Adam viu o vendedor estender o braço para retirar o fone do gancho.

— Deixe essa vaca ficar com o carro — rosnou Smokey. — Nós mantemos o negócio. — Desligou com força e depois resmungou: — Mas ela que experimente voltar pra ser atendida depois do prazo de garantia, que vai ver!

— Talvez ela também já tenha pensado nisso — comentou Adam, conciliador.

Como se o tivesse escutado, a mulher olhou para a sobreloja e sorriu.

— Hoje em dia há sabichões por tudo quanto é parte. — Smokey voltou a parar ao lado de Adam. — Os jornais publicam coisas demais; há um excesso de articulistas que metem o nariz ondenãosãochamados.Opúblico lê essas asneiras. — O revendedor debruçou-se, examinando o recinto de exposição. — E o que é que acontece? Tem gente, como essa mulher, que vai ao banco, consegue o financiamento antes de vir cá, mas não diz nada até fechar o negócio. Nos deixa com a idéia de que o financiamento corre por nossa conta. E assim nós calculamos o lucro. . . ou parte dele. . . com a venda e aí estamos perdidos, e se o vendedor desiste do contrato assinado, se mete numa enrascada. A mesma coisa com o seguro; nós gostamos de nos encarregar do seguro dos carros porque a comissão é boa; no seg ro de vida, nas prestações de financiamento ainda é melhor. — Acrescentou, rabugento: — Ao menos essa cretina não nos passou também a perna no seguro.

Adam achou que cada incidente, até agora, lhe proporcionava movo vislumbre do caráter de Smokey Stephensen.

— Imagino que se possa considerar isso sob o ponto de vista do comprador — sugeriu Adam. — Todo mundo quer o financiamento menos oneroso, o seguro mais econômico, e o pessoal está aprendendo que não consegue nem um nem outro através do revendedor, e que lhe é mais vantajoso arranjar ambos por conta própria. Quando há uma margem de lucro pro revendedor. . . no financiamento ou no seguro. . .   eles sabem que é o comprador quem paga, porque o dinheiro extra fica incluído nas taxas e ônus.

— O revendedor também precisa viver — protestou Smokey, casmurro. — De mais a mais, quando o público não sabia de nada, não se preocupava com isso.

Noutra cabina de vendas, havia um casal idoso sentado diante de um agente. Momentos antes, o trio se afastara de um carro esporte que tinham examinado. A um sinal de Adam, o botão estalou de novo sob a mão de Smokey.

— . . . realmente gostaríamos de tê-los como fregueses, porque o Mr. Stephensen dirige uma concessionária de  alta qualidade e ficamos felicíssimos quando vendemos a pessoas de alto gabarito.

— O senhor é muito amável — disse a mulher.

— Pois o Mr. Stephensen vive falando aos vendedores: “Não pensem no carro que vão vender hoje. Pensem no bom serviço que podem prestar aos fregueses, e também que eles voltarão daqui a dois anos, e talvez outros dois ou três depois disso.

Adam se virou para Smokey.

— Você falou isso?

O revendedor sorriu.

—  Se não falei, devia ter falado.

Durante os próximos minutos, enquanto escutavam foi discutida uma permuta. O casal idoso hesitava em assumir compromisso com uma soma definitiva — a diferença entre o abatimento sobre o carro usado e o preço de um novo. Viviam de renda fixa, explicou o marido — sua pensão de aposentadoria.

Por fim o agente anunciou:

— Olha aqui, minha gente, como disse, o negócio que propus a vocês é o melhor que podemos oferecer a qualquer pessoa. Mas já que vocês são tão simpáticos, vou tentar uma coisa que não devia. Vou lhes propor uma condição toda especial, e depois verei se consigo convencer o patrão a topar.

— Bem. . . — a mulher dava impressão de dúvida. — Nós não queremos que. . .

— Não se preocupe — tranqüilizou-a o agente. — Tem certos dias em que o  patrão está menos atento que de costume;  esperemos que hoje seja um deles. O que eu farei é modificar as cifras da seguinte maneira: na troca. . .

Resultava num desconto de cem dólares do preço final. Ao desligar o botão, Smokey parecia encantado.

Momentos depois, o agente batia na porta do escritório e entrava, trazendo um contrato de venda preenchido.

— Oi, Alex. — Smokey pegou o contrato e apresentou Adam, acrescentando: — Não tem importância, Alex; ele é de casa.

O  agente apertou-lhe a mão.

— Muito prazer, Mr. Trenton. — Acenou com a cabeça para a cabina lá embaixo. — O senhor estava escutando, chefe?

— Claro que sim. Pena que hoje eu não esteja num de meus dias mais atentos, não é?

O revendedor sorria.

— É. — O agente retribuiu o sorriso. — Pena.

Enquanto conversavam, Smokey fez alterações nas cifras dos documentos de venda. Depois de assinar, olhou de relance para o relógio de pulso.

— Já demorou que chega? — perguntou.

— Acho que sim — respondeu o agente. — Prazer em conhecê-lo, Mr. Trenton.

Smokey e o agente saíram juntos do escritório e ficaram parados no alto da sobreloja.

Adam ouviu Smokey Stephensen levantar a voz aos gritos.

— Que é que você pretende? Me deixar na falência?

— Escute, chefe, deixe eu explicar.

— Explicar!  Explicar o quê? Eu  sei  ler  algarismos;  eles me dizem que esse negócio significa uma grande perda de dinheiro. Lá embaixo, no recinto de exposição, cabeças viravam, rostos olhavam para cima, na direção da sobreloja. Entre eles, os do casal idoso na  primeira cabina.

— Chefe, essa gente é muito boa — a voz do vendedor se equiparava a de Smokey em volume. — Nós  queremos fazer negócio com eles, não é?

— Claro que queremos, mas isto já é fazer caridade.

— Eu estava apenas procurando. . .

— Por que não procura emprego noutro lugar?

— Olhe aqui, chefe, talvez dê pra se remediar isso. São pessoas razoáveis. . .

— Tão razoáveis que querem me arrancar o couro!

— Fui eu quem quis, chefe; não foram eles. Apenas pensei que talvez. . .

— Nós oferecemos ótimos negócios aqui. Mas quando  se trata de perdas, a gente dá o basta. Compreendeu?

— Compreendi.

O diálogo continuava aos berros. Adam observou que dois outros agentes sorriam sub-repticiamente. O revendedor tornou a gritar.

— Está bem, me devolva esses papéis!

Pela porta aberta, Adam viu Smokey agarrar o contrato de venda e fazer movimentos de quem escreve, embora as alterações já estivessem  feitas.   Smokey devolveu bruscamente os papéis.

— Isso é o máximo que posso fazer. Estou sendo generoso porque você me botou contra a parede.

Piscou acintosamente, apesar de que só fosse visível na sobreloja.

O agente também piscou. Enquanto descia a escada, Smokey entrou de novo no escritório e bateu a porta com força, o barulho retumbando lá embaixo.

— Puxa, que atuação — comentou Adam, impassível.

Smokey riu entre os dentes.

Otruquemaisvelhoqueexiste, e às vezes ainda surte efeito.

O botão de escuta para a primeira cabina de vendas ainda estava ligado; ele aumentou o volume quando o agente chegou perto do casal idoso, que se tinha levantado.

— Oh, estamos tão sentidos — disse a mulher. — Ficamos cons­trangidos por sua causa. Não queríamos que acontecesse uma coisa dessas. . .

A fisionomia do agente estava apropriadamente  abatida.

— Imagino que tenham ouvido.

— Ouvido! — objetou o homem idoso. — Acho que não houve ninguém que não ouvisse a cinco quarteirões de distância. Ele não devia falar com o senhor desse jeito.                                     

— E o seu emprego? — perguntou a mulher.                          

— Não se preocupem; desde que eu venda alguma coisa hoje, não há perigo. O chefe, no fundo, é bom sujeito. Como lhes disse, as pessoas que fazem negócios aqui sabem disso. Vamos examinar as cifras. — O agente abriu o contrato em cima da escrivaninha e depois sacudiu a cabeça. — Tenho impressão que voltamos à proposta inicial, embora ainda seja ótima. Bem, eu tentei.

— Nós vamos ficar com o carro — disse o homem, aparentemente esquecido das dúvidas anteriores. — O senhor já teve tanto trabalho. . .

— Está no papo — disse Smokey, todo alegre.

Desligou o botão e mergulhou numa das poltronas de couro verde, indicando outra a Adam. O revendedor tirou um charuto do bolso, oferecendo um a Adam, que recusou e acendeu um cigarro.

— Eu falei que o revendedor tem de lutar — disse Smokey, — e é o que ele faz. Mas é um jogo também. — Lançou um olhar desconfiado a Adam. — Um jogo diferente do seu, me parece.

Adam concordou.

— De fato.

— Não tão requintado como lá naquela sua fábrica de raciocínios, hem?

Adam não fez comentários. Smokey contemplou a brasa da ponta do charuto, depois prosseguiu.

— Não esqueça: o camarada que se converte em revendedor de automóveis não inventa o jogo, não cria as regras.  Ele adere ao jogo e joga da maneira que é jogado. . . pra valer, como no strip pôquer. Sabe o que acontece quando se perde no strip pôquer?

— Só imagino.

— Não há nada pra imaginar. A gente termina de rabo de fora. É como eu terminaria aqui se não jogasse com firmeza, pra valer, tal como você viu. Apesar de que ela fosse ficar mais bonita do que eu de rabo de fora — Smokey riu entre dentes — era o que ia acontecer a sua irmã. Só lhe peço que não esqueça disso, Adam.  — Levantou-se. — Vamos jogar um pouco mais o jogo.

Adam percebeu que estava, afinal de contas, tendo uma visão desimpedida da concessionária em plena atividade. Aceitava o ponto de vista de Smokey de que a transação de carros — novos e usados — era um negócio feroz, cheio de concorrência, no qual o revendedor que se descuidasse ou fosse compassivo poderia desaparecer rapidamente de circulação, como muitos já tinham desaparecido. Uma concessionária de carros é a linha de fogo do mercado automobilístico. E como toda linha de fogo, não é lugar para os francamente sensíveis ou obcecados por problemas éticos. Em compensação, um oportunista perspicaz, esperto — como Smokey Stephensen parecia ser — era capaz de ganhar a vida de um modo incrivelmente fácil: parte do motivo da sindicância de Adam.

A outra consistia em descobrir como Smokey conseguiria adaptar-se a mudanças futuras.

Adam sabia que no decorrer da próxima década, surgiriam grandes modificações no presente sistema de concessionárias de carros, sistema que muitos — dentro e fora da indústria — consideram arcaico na sua forma atual. Até agora, os revendedores existentes — bloco poderoso, organizado — resistiram às mudanças. Mas se os fabricantes e revendedores, agindo em conjunto, não lograrem iniciar logo as reformas no sistema, é certo que o governo há de intervir, como já fez em outros setores, industriais.

Os revendedores de carros há muito representam o ramo menos conceituado da indústria automobilística, e apesar de a fraude direta ter sido evitada nos últimos anos, diversos observadores acreditam que o público estaria mais bem servido se o contrato entre fabricantes e compradores de carros fosse mais imediato, com menos intermediários. Inovações prováveis serão os sistemas centrais de concessionárias, controlados pelas fábricas, que entregarão carros aos compradores de modo mais eficiente e por um custo geral menor que o atual. Há anos vem-se usando, com êxito, um sistema semelhante para os caminhões; mais recentemente, os usuários de frotas de carros e as firmas que alugam e sublocam automóveis efetuaram grande economia comprando diretamente. Junto com esses escoadouros de venda direta, a garantia e os centros de atendimento controlados pelas fábricas são outras inovações prováveis, os últimos oferecendo um serviço mais consistente e mais bem supervisionado do que o proporcionado por muitos revendedores nos dias de hoje.

O que se torna necessário para dar início a tais sistemas — e que as companhias automobilísticas acolheriam secretamente de bom grado — é a imposição mais externa, pública.

Mas ao mesmo tempo que as concessionárias terão que mudar, e algumas fracassarão nesse sentido, as mais eficientes, mais bem controladas, provavelmente continuarão prosperando. Um dos motivos é o argumento mais imperioso para a existência de revendedores — o recolhimento que fazem dos carros usados.

Uma questão que Adam teria que decidir era: a concessionária de Smokey Stephensen — e de Teresa — progrediria ou decairia no meio das modificações previstas para os próximos anos? Já debatia mentalmente essa dúvida ao descer com Smokey do escritório da sobreloja para o pavimento de exposição.

Durante a hora seguinte, Adam ficou perto de Smokey Stephensen, observando-o em ação. Claramente, enquanto deixava os agentes fazerem o serviço, Smokey mantinha um dedo sensível no pulso do negócio. Quase nada lhe escapava. Também sabia, por instinto, quando era que sua intervenção pessoal poderia apressar uma venda titubeante até a feliz conclusão.

Um homem cadavérico, de queixo saliente, que viera da rua sem sequer olhar de relance para os veículos expostos, discutia preços com um dos agentes. O homem sabia o carro que queria; e, igualmente óbvio, já passara noutras lojas.

Trazia um pequeno cartão na mão. Mostrou-o ao agente, que sacudiu a cabeça. Smokey se aproximou. Adam se colocou numa posição que lhe permitia observar e ouvir.

— Com licença.

Smokey estendeu o braço, retirando habilmente o cartão dos dedos do Queixo Saliente. Era um cartão comercial com o emblema de um revendedor na frente; no verso havia números a lápis. Anuindo amavelmente, de um jeito que anulava a afronta da ação, Smokey examinou as cifras. Ninguém perdeu tempo com apresentações; o ar de proprietário de Smokey, somado à barba e ao paletó de seda azul, serviam de identificação. Ao devolver o cartão arqueou as sobrancelhas.

— De um revendedor de Ypsilanti. O nosso amigo mora lá?

— Não — respondeu o Queixo Saliente. — Mas gosto de comprar em tudo quanto é parte.

— E onde compra, pede um cartão com a melhor diferença de preço entre o carro que pretende trocar e o novo, não é?

O outro aquiesceu.

— Seja camarada — disse Smokey. — Me mostre os cartões dos outros revendedores.

O Queixo Saliente hesitou, depois deu de ombros.

— Por que não?

Tirou do bolso um punhado de cartões e entregou-os a Smokey, que os contou, rindo entre dentes. Incluindo o que segurava na mão, eram oito. Smokey espalhou-os em cima de uma escrivaninha nas proximidades, e aí então, junto com o agente, analisou-os um por um.

— A oferta mais baixa é de dois mil dólares — leu em voz alta o agente, — e a mais alta de dois mil e trezentos.

Smokey fez um gesto.

— Os dados sobre a troca que ele quer fazer.

O agente alcançou uma folha, que Smokey examinou rapidamente e depois devolveu.

— Suponho que  também gostaria de receber um cartão meu —  disse ao homem do queixo saliente.

— Naturalmente.

Smokey pegou um cartão comercial, virou-o do outro lado e rabiscou no verso.

O Queixo Saliente aceitou o cartão, depois levantou bruscamente os olhos.

— Aqui diz mil e quinhentos dólares.

— Uma bela cifra redonda — retrucou Smokey, afável.

— Mas a senhor não me vai vender um carro por esse preço!

— Tem toda a razão, meu amigo. E lhe digo mais. Nem tampouco nenhum desses outros aí, ao menos pelo preço que puseram nos cartões deles. — Smokey juntou todos os cartões comerciais e devolveu-os, um a um. — Volte lá nesse lugar, eles lhe dirão que o imposto de vendas não foi incluído. Este aqui. . . deixaram de fora o custo das opções, talvez do imposto de vendas também. Aqui, não acrescentaram o equipamento de revenda, a licença, e algo mais. . . —  Continuou passando os cartões, apontando o dele por último. — Não incluí as rodas e o motor; mas chegarei lá quando voltar aqui pra gente negociar pra valer.

O Queixo Saliente ficou cabisbaixo.

— Um velho truque de revendedor, meu amigo — disse Smokey, — preparado pra compradores como o senhor, e o nome do jogo é “Faça-os voltar mais   tarde!” — E  perguntou, enérgico: — Não acredita?

— Acredito, sim.

Smokey atacou em cheio o ponto aonde queria chegar.

— Portanto, nove revendedores depois que o senhor começou. . . aqui mesmo e agora. . . foi onde obteve a primeira informação honesta, onde alguém mostrou-se à sua altura. Acertei?

— É o que parece — disse o outro, arrependido.

— Ótimo! É assim que fazemos nesta loja.  — Smokey passou cordialmente a mão pelos ombros do Queixo Saliente. — De modo que agora, meu amigo, o senhor recebeu o sinal de partida. O que deve fazer a seguir é voltar a todos esses outros revendedores, pedindo mais preços, mas os preços de verdade, tão aproximados quanto possível. — O homem fez um esgar, que Smokey pareceu não notar. — Depois disso, quando estiver pronto pra novas informações honestas. . . por exemplo, um preço pra levar na hora, que inclua tudo. . . volte aqui. — O revendedor estendeu a mão de atleta. — Boa sorte!

— Espere aí! — disse o Queixo Saliente. — Por que não me diz agora?

— Porque o senhor ainda não está preparado pra falar a sério. Seria pura perda de tempo pra nós dois.

O homem hesitou apenas um segundo.

— Estou falando sério. Qual é o preço honesto?

— Maior que qualquer um desses falsos — preveniu Smokey. — Mas meu preço tem as opções que o senhor quer, o imposto de vendas, a licença, um tanque de gasolina, nada escondido, tudo, em suma. . .

Minutos mais tarde apertavam-se as mãos na casa de dois mil e quatrocentos e cinqüenta dólares. Enquanto o agente dava início à papelada, Smokey afastou-se, continuando a perambular pelo recinto de exposição.

Quase em seguida, Adam viu-o ser detido por um recém-chegado presunçoso, fumando cachimbo, muito bem vestido, com paletó de mescla Harris, calças impecáveis e sapatos de crocodilo. Conversaram bastante e assim que o homem saiu Smokey voltou para perto de Adam, sacudindo a cabeça.

— Impossível vender pra aquele! Um médico! Não existe coisa pior pra se negociar. Querem comprar a preços irrisórios, depois exigem atendimento prioritário, e sempre com um carro de experiência grátis, como se eu os tivesse na prateleira feito Band-Aids. Pergunte a qualquer revendedor sobre médicos. Tocará num ponto sensível.

Mostrou-se menos crítico, logo após, em relação a um homem atarracado, calvo, de voz rouca, que desejava comprar um carro para a mulher. Smokey apresentou-o a Adam como o chefe de polícia local, Wilbur Arenson. Adam, que tinha encontrado o nome freqüentemente nos jornais, sentiu aqueles olhos frios, azuis, analisando-o, memorizando-lhe a identidade por força do hábito. Os dois se retiraram para o escritório de Smokey, onde efetuou-se o negócio — Adam desconfiou que favorável para o comprador. Quando o chefe de polícia foi embora, Smokey disse:

— É preciso ser amigo dos guardas. Podia me custar uma fortuna se fosse multado por todos os carros que meu departamento de serviço tem que deixar, certos dias, na rua.

Um homem moreno, loquaz, entrou e recebeu um envelope que já estava a sua espera no balcão da recepção. Ao se dirigir à saída, Smokey interceptou-lhe o passo, apertando-lhe cordialmente a mão. Posteriormente explicou:

— É barbeiro. Um dos nossos perdigueiros. Pega as pessoas à unha; enquanto corta o cabelo, fica falando sobre as ótimas vantagens que teve aqui, sobre a excelente qualidade do serviço. Às vezes os fregueses dele dizem que vão passar por aqui, e se nós fechamos negócio, o cara leva uma comissãozinha. — Smokey revelou que tinha cerca de vinte perdigueiros em caráter permanente, inclusive funcionários de postos de serviço, um farmacêutico, uma cabeleireira e um armador funerário. Quanto a este último: — Um sujeito morre, a mulher quer vender o carro, talvez trocar por outro menor. Em geral, o que acontece é que o armador consegue hipnotizá-la e ela acaba indo aonde ele manda, e se for aqui, ele leva a parte dele.

Voltaram ao escritório da sobreloja para tomar café misturado com conhaque, de uma garrafa que Smokey tirou da gaveta da escrivaninha .

Enquanto bebiam, o revendedor abordou um assunto novo — o Orion.

— Vai ser um estouro quando for lançado, Adam, e aí então é que venderemos uma quantidade fabulosa de Orions. Você sabe como é que é. — Smokey remexeu a mistura na xícara. — Estive pensando. . . se você pudesse usar sua influência pra nos conseguir uma cota extra, seria ótimo pra Teresa e pros garotos.

— E também pra forrar os bolsos de Smokey Stephensen — retrucou Adam secamente.

O revendedor deu de ombros.

— E daí? Uma mão lava a outra.

— Não nesse caso. E lhe peço pra nunca mais tocar nesse assunto, nem em qualquer outro parecido.

Instantes atrás, Adam se retesara, indignado com a proposta, tão afrontosa, que representava tudo o que a comissão de Conflito de Interesses da companhia propunha-se impedir. Depois, terminando por achar graça na história, contentou-se com a resposta moderada. Não havia a mínima dúvida que em matéria de vendas e negócios Smokey Stephensen era totalmente amoral e não percebia nada de mal no que acabava de sugerir. Talvez um revendedor de carros tivesse que ser assim. Adam não tinha certeza; como também não tinha, por enquanto, sobre o conselho que daria a Teresa.

Mas havia obtido as primeiras impressões que viera procurar. Eram confusas; queria digeri-las e ponderá-las.

 

Hank Kreisel, almoçando em Dearborn com Brett DeLosanto, representava a parte oculta de um iceberg.

Com cinqüenta anos, magro, atlético e mais alto que a maioria das outras pessoas, feito um cão pastor no meio de uma matilha de rafeiros, era proprietário de uma firma que fabricava acessórios de automóveis.

Ao se falar em Detroit, todo mundo pensa em termos dos famosos fabricantes de carros, dominados pelas Três Grandes. A impressão é correta, salvo que as principais marcas de automóveis representam a parte à vista do iceberg. Ocultas, existem milhares de firmas suplementares, algumas importantes, mas a maioria pequena, e com um surpreendente segmento funcionando em buracos-na-parede à base de financiamentos irrisórios. Na área de Detroit, encontram-se por toda parte — no centro da cidade, nos subúrbios afastados, nas estradas secundárias, ou como satélites de grandes oficinas. As sedes de operações variam desde complexos aparatosos até armazéns em ruínas, antigas igrejas ou paióis de uma só peça. Alguns são sindicalizados, muitos não são, embora suas folhas de pagamento totalizem bilhões de dólares anuais. Mas a coisa que têm em comum é que um Niágara de miudezas — algumas grandes, mas a maioria ínfima, várias de finalidade irreconhecível, a não ser por especialistas — fluem publicamente para criar outros acessórios e, por fim, os automóveis prontos. Sem os fabricantes de acessórios, as Três Grandes se veriam em situação idêntica à dos produtores de mel privados de abelhas.

Nesse sentido, Hank Kreisel era uma abelha. Por outro lado, fora sargento-ajudante no Corpo de Fuzileiros. De atuação destacada na Guerra da Coréia, ainda mantinha a aparência do papel que desempenhara: cabelo curto, ligeiramente grisalho, bigode bem aparado e porte marcial quando ficava parado, o que raramente acontecia. Sobretudo, movia-se com gestos urgentes, precisos, rápidos — depressa, depressa, depressa — e falava da mesma maneira, desde a hora em que levantava cedo em sua casa de Grosse Pointe até o fim de cada dia de atividade, que invariavelmente terminava já de madrugada. Esse e outros hábitos haviam-lhe causado dois ataques cardíacos e a advertência médica de que o próximo poderia ser fatal. Mas Hank Kreisel tomou-a como antigamente teria reagido à notícia de uma provável emboscada inimiga na selva pela frente. Continuou no mesmo ritmo, mais esforçado do que nunca, confiante numa convicção pessoal de indestrutibilidade e sorte que raramente lhe faltavam.

Era a sorte que lhe dera, até agora, uma vida cheia das duas coisas que Hank Kreisel mais apreciava — trabalho e mulheres. De vez em quando essa sorte falhava. Por exemplo: durante um caso tórrido, muito à vontade, com a esposa de um coronel, o marido, pessoalmente, rebaixou-o a soldado raso. E mais tarde, na sua carreira de fabricante em Detroit, sobrevieram-lhe desastres, apesar de que os sucessos fossem mais numerosos.

Brett DeLosanto travara relações com Kreisel quando este último se achava um dia no Centro de Projetos e Estilo demonstrando um novo acessório. Simpatizaram-se mutuamente e, em parte devido à autêntica curiosidade do jovem projetista em conhecer como funcionava e vivia o resto da indústria automobilística, tornaram-se amigos. Era com Hank Kreisel que Brett planejava encontrar-se no dia de frustração no centro da cidade quando conheceu Leonard Wingate no parque de estacionamento. Mas naquele dia Kreisel não pôde comparecer e agora, meses depois, os dois finalmente conseguiam realizar o almoço adiado.

— Andei pensando, Hank — disse Brett DeLosanto. — Como foi que você começou com esse negócio de acessórios de automóveis?

— É uma longa história.

Kreisel pegou o copo de uísque acidulado — seu drinque habitual — e tomou um vasto gole. Estava descontraído e, embora trajando um terno bem cortado, tinha desabotoado o colete, mostrando que usava suspensórios além do cinto.

— Se quiser, eu conto — acrescentou.

— Pode começar.

Brett havia trabalhado várias noites consecutivas no Centro de Projetos e Estilo, tendo recuperado o sono nesta manhã, e agora aproveitava a liberdade diurna antes de voltar à mesa de desenho durante a tarde.

Achavam-se num pequeno apartamento particular, a uns dois quilômetros de distância do Museu Henry Ford e de Greenfield Village. Por causa da proximidade, também, com a sede da Companhia Ford de Automóveis, o apartamento figurava na contabilidade da firma de Kreisel como seu “escritório de ligação com a Ford”. Na realidade, a ligação não era com a Ford, mas com uma morena ágil de pernas esguias chamada Elsie, que morava gratuitamente no apartamento, constava da folha de pagamentos da firma de Kreisel embora jamais pusesse os pés lá, e que retribuía pondo-se à disposição de Hank Kreisel uma ou duas vezes por semana, ou mais, caso ele se sentisse disposto. O arranjo era conveniente para ambas as partes. Kreisel, homem atencioso, razoável, sempre telefonava antes de aparecer, e Elsie providenciava para que ele tivesse a prioridade.

Sem que ela soubesse, Hank Kreisel também mantinha outro escritório “de ligação” com a General Motors e a Chrysler, que funcionava nas mesmas .bases..

Elsie, que preparara o almoço, agora estava na cozinha.

— Espere aíl — exclamou Kreisel a Brett. — Acabo de me lembrar de uma coisa. Você conhece o Adam Trenton?

— Intimamente.

— Gostaria de conhecê-lo. Andam falando que ele tem um futuro fantástico.  Nunca é demais fazer amigos de alto nível neste ramo.

A declaração era característica de Kreisel: uma mistura de franqueza e amável cinismo que tanto os homens como as mulheres achavam simpática.

Elsie reuniu-se a eles, cada movimento seu uma demonstração de manifesto sensualismo, acentuado pelo vestido simples, preto e justo. O ex-fuzileiro deu-lhe um tapa carinhoso no traseiro.

— Claro, posso arrumar um encontro. — Brett sorriu. — Aqui?

Hank Kreisel sacudiu a cabeça.

— No chalé do Lago Higgins. Uma festinha de fim de semana. Vamos marcar pra maio. Você escolhe a data. Eu me encarrego do resto.

— OK. Vou falar com o Adam. Depois lhe aviso.

Quando andava com Kreisel, Brett sem querer passava a usar o mesmo tipo de frases curtas do anfitrião. Quanto à festinha, Brett já tinha ido a várias no chalé de refúgio de Hank Kreisel. Eram ocasiões badaladíssimas que muito lhe agradavam.

Elsie sentou à mesa  junto  com eles  e  continuou a almoçar, acompanhando com os olhos a conversa.   Brett sabia, por já ter estado ali antes, que ela gostava de ouvir mas dificilmente abria a boca.

— Por que se lembrou do Adam? — perguntou Brett.

— O Orion. Soube que ele aprovou os aditivos. Solução fabulosa de última hora. Estou fabricando um deles.

— Você! Qual? A escora ou o reforço do assoalho?

— A escora.

— Ei, eu tomei parte nisso! É uma encomenda enorme.

Kreisel teve um sorriso de astúcia.

— Pode me enriquecer ou arruinar. Eles precisam de cinco mil escoras imediatamente, pra já. Depois disso, dez mil por mês.  Fiquei em dúvida se aceitava. O prazo é fogo. Vai dar dor de cabeça à beca. Mas o pessoal acha que posso cumprir.

Brett já conhecia a reputação de Hank Kreisel em matéria de pontualidade de entrega, qualidade prezada pelos departamentos de compras das companhias automobilísticas. Um dos motivos era seu talento de improvisar ferramentas que poupavam tempo e dinheiro, e embora não fosse técnico qualificado, Kreisel era capaz de derrotar mentalmente muitos que o eram.

— Puxa vida! — exclamou Brett. — Você e o Orion.

— Não sei que admiração é essa. A indústria está cheia de gente invadindo o terreno alheio. Às vezes nem dá tempo pra notar. Todo mundo vende para todo mundo. A GM vende caixas de mudança pra Chrysler. A Chrysler vende isolantes pra GM e pra Ford. A Ford cede limpadores de pára-brisa à Plymouth.  Conheço um cara, técnico de vendas. Mora em Flint, trabalha pra General Mo­tors. Flint é uma cidade que pertence à GM. O principal comprador dele é a Ford em Dearborn. . .  pra projetos técnicos de acessórios de motor.   Ele leva troços confidenciais da Ford pra Flint.   A GM não deixa nem o próprio pessoal de serviço dar uma espiada, e eles dariam um dente para poder ver. O cara dirige um Ford. . . pra visitar a Ford, freguesa dele. Os patrões na GM compraram o carro pra ele.

Elsie tornou a encher o copo de uísque de Hank Kreisel; Brett antes já recusara.

— O Hank está sempre me contando coisas que ignoro — disse Brett à moça.

— Ele sabe coisas à beca.

Os olhos dela, sorridentes, se desviaram do jovem projetista para Kreisel. Brett sentiu que transmitiam uma mensagem íntima.

— Ei! Querem que eu vá embora?

— Não há pressa. — O ex-fuzileiro tirou o cachimbo do bolso e acendeu-o. — Quer ouvir mais sobre os acessórios? — Olhou de relance para Elsie. — Não me refiro aos seus, boneca. — Querendo nitidamente dizer: esses são só pra mim.

— Acessórios de automóveis — frisou Brett.

— Exato. — Kreisel teve seu sorriso astuto. — Trabalhei numa fábrica de automóveis antes de me alistar. Depois da Coréia, voltei. Fui operário de prensa de perfuração. Por fim, contramestre.

— Progrediu rápido.

— Demais, talvez.  Seja como for, vi como funcionava a produção. . . a prensagem dos metais. As Três Grandes são todas a mesma coisa.  Precisam das máquinas mais modernas, dos prédios mais bem instalados, despesas gerais sem limite, refeitórios, tudo mais. Essa coisa toda faz uma prensagem de dois cents custar cinco.

Hank Kreisel soltou uma tragada e se aureolou de fumaça.

— Assim passei pro Departamento de Compras. Encontrei um cara que eu conhecia. Disse-lhe que achava que podia fazer o mesmo troço por menos.  Por conta própria.

— Eles o financiaram?

— Não quiseram.  Nem na hora, nem depois.  Mas me deram um contrato. Ali mesmo. Um milhão de pequenas arruelas. Quando larguei meu emprego, tinha duzentos dólares no bolso. Nem prédio, nem máquinas. — Hank Kreisel riu entredentes. — Naquela noite não dormi. Morria de medo. No dia seguinte saí por aí. Aluguei um velho salão de bilhar. Mostrei o contrato da companhia e o de aluguel pra um banco. Eles me emprestaram a soma pra comprar as máquinas no ferro-velho. Depois empreguei dois outros caras. Nós três deixamos as máquinas feito novas. Eles trabalhavam nelas. Eu corria na rua, conseguindo encomendas. — Acrescentou, com um toque de nostalgia: — E nunca mais parei.

— Você é uma epopéia — disse Brett.

Tinha visto a impressionante mansão de Hank Kreisel em Gros-se Pointe, sua meia dúzia de fábricas florescentes, ex-salão de bilhar, ainda em pleno funcionamento. Calculava, numa estimativa moderada, que Hank Kreisel devia ter cerca de dois ou três milhões de dólares.

— Esse seu amigo no Departamento de Compras — disse Brett. — O que lhe deu a primeira encomenda. Você ainda se dá com ele?

— Lógico. Ele continua lá. . . recebendo salário. Mesmo cargo. Está por se aposentar. Às vezes convido-o pro almoço.

— Que é uma epopéia? — perguntou Elsie.

— Um cara que não desiste, até o fim — explicou-lhe Kreisel.

— Um sujeito legendário — disse Brett.

Kreisel sacudiu a cabeça.

— Não eu. Por enquanto, ao menos. — Parou, de repente, pensativo como Brett jamais o vira. Quando tornou a falar, a voz estava mais vagarosa, as palavras menos abruptas. — Há uma coisa que eu gostaria de fazer, e talvez resultasse em algo parecido com uma epopéia, se pudesse levá-la a cabo. — Consciente da curiosidade de Brett, o ex-fuzileiro tornou a sacudir a cabeça. — Agora não. Um dia, talvez, eu conte.

Voltou à disposição de ânimo anterior.

— Aí então, fabriquei os acessórios e cometi erros. Aprendi logo uma porção de coisas. Uma: procure pontos fracos no mercado. Onde a concorrência seja mínima. De modo que ignorei acessórios novos; dava muita briga interna. Comecei a me interessar por consertos, peças sobressalentes, o “mercado futuro”.  Mas unicamente peças a menos de meio metro de distância do chão. Principalmente dianteiras e traseiras. E que não custassem mais de dez dólares.

— Por que esses limites?

Kreisel teve seu habitual sorriso de astúcia.

— A maior parte dos pequenos acidentes ocorre na parte dianteira e traseira dos carros.  E abaixo de meio metro, todas ficam mais avariadas. Assim são precisas mais peças, implicando em maiores encomendas. É onde os fabricantes de acessórios tiram os grandes lucros. . . a longo prazo.

— E o limite de dez dólares?

— Digamos que você esteja fazendo um conserto. Qualquer peça avariada. Se custar mais de dez dólares, você tentará arrumar pessoalmente. Se custar menos, você joga a peça velha fora, e usa uma sobressalente. É onde eu entro em cena. Em grandes quantidades, claro.

Era tão engenhosamente simples que Brett teve que soltar uma gargalhada.

— Dediquei-me aos acessórios mais tarde.  E aprendi outra coisa. Comecei certos trabalhos de defesa.

— Por quê?

— A maioria das peças o pessoal não quer. Pode ficar difícil. Em geral duram pouco, não há muito lucro. Mas pode levar a coisas maiores. E o Imposto de Renda facilita mais nos descontos. Eles não querem confessar. — Olhou com expressão divertida para seu “escritório de ligação com a Ford”. — Mas eu sei.

— A Elsie tem razão. Você sabe coisas à beca. — Brett se levantou, consultando o relógio de pulso. — Tenho que voltar à fábrica de carruagens! Obrigado pelo almoço, Elsie.

A moça também se levantou, se aproximou dele e tomou-lhe o braço. Sentiu-lhe a proximidade, o calor transmitido pela finura do vestido. O corpo esguio, firme, afastou-se e depois apertou-se de novo contra o seu. Acidentalmente? Duvidava. Suas narinas registraram o suave perfume dos cabelos dela, e Brett invejou Hank Kreisel pelo que desconfiava que fosse acontecer logo que saísse.

— Apareça quando quiser — disse Elsie, num sussurro.

— Ei, Hank! — exclamou Brett. — Você ouviu esse convite?

O homem mais velho desviou momentaneamente os olhos, e depois respondeu mal-humorado:

— Se você aceitar, faça o possível para que eu não venha a saber.

Kreisel veio a seu encontro na porta. Elsie tinha voltado para o interior do apartamento.

— Vou marcar aquele encontro com o Adam — prometeu Brett. — Amanhã lhe telefono.

— OK.

Os dois apertaram-se as mãos.

— Sobre aquele outro assunto — disse Hank Kreisel. — Eu estava falando sério. Não deixe que eu saiba. Compreendeu?

— Compreendi.

Brett havia decorado o número do telefone do apartamento, que não constava da lista. Tinha toda a intenção de ligar para Elsie no dia seguinte.

Enquanto Brett descia no elevador, Hank Kreisel fechou e trancou a porta do apartamento por dentro.

Elsie já o esperava no quarto. Despira-se e estava com um mini-quimono transparente, amarrado por uma faixa de seda. Os cabelos escuros, soltos, caíam-lhe pelos ombros; a boca ampla sorria, os olhos demonstrando o prazer que anteviam. Beijaram-se de leve. Ele não se afobou para afrouxar a faixa, e depois, abrindo o quimono, abraçou-a.

Passados alguns instantes, ela começou a tirar-lhe a roupa devagar, pondo cada peça cuidadosamente de lado e dobrando-a. Ele lhe ensinara, como já tinha feito com outras mulheres antes, que isso não era um gesto de servilismo e sim um rito — praticado no Extremo Oriente, onde o aprendera — e um estímulo de antecipação mútua.

Quando ela concluiu, os dois deitaram juntos. Elsie entregara a Hank um casaco happi que ele vestira; era um dos vários que trouxera do Japão, e já estava puído pelo uso, mas ainda servia para provar o que os asiáticos estão cansados de saber: que uma peça de roupa usada durante a relação sexual, por mais leve ou frouxa que seja, aumenta a sensação que o homem e a mulher têm um do outro, e o prazer recíproco.

— Me ama, boneca! — murmurou.

— Me ama, Hank! — gemeu ela, baixinho. Foi o que ele fez.

 

— Sabe do que é feito este mundo de merda, boneca? — tinha perguntado Rollie Knight ontem a May Lou. E como ela não respondesse, explicou: — De bafo! Não há nada neste baita mundão que não seja puro bafo!

O comentário era inspirado por acontecimentos na fábrica de montagem de carros onde Rollie agora trabalhava. Apesar de não estar fazendo a contagem, hoje marcava o início de sua sétima semana no emprego.

May Lou também era nova em sua vida. Ela era (como Rollie dizia) uma franguinha que ele tinha comido durante um fim de semana, enquanto dava sumiço num dos primeiros cheques de pagamento, e recentemente o casal havia-se instalado em dois quartos de um prédio de apartamentos na Blaine, perto da Rua 12. May Lou passava atualmente os dias ali, lidando com panelas, móveis e colocando cortinas, feito — como descreveu um freqüentador de bar, conhecido de Rollie — passarinho fazendo ninho.

Rollie não havia levado, e continuava não levando, a sério o que chamava de “essas besteiras de May Lou bancando a dona de casa”. Em todo caso dava-lhe a grana, que ela gastava com os dois, e para conseguir mais, apresentava-se quase todos os dias da semana na fábrica de montagem.

O que deu início a essa segunda investida, depois que desistira do primeiro curso de treinamento, foi — nas palavras de Rollie — um crioulão enorme com traje todo bacana, que lhe apareceu certo dia, dizendo que se chamava Leonard Wingate. Isso se passou no quarto de Rollie na zona de marginais, e os dois haviam batido um vasto papo, no qual Rollie primeiro mandou o cara plantar batatas, que fosse se foder, já tava de saco cheio. Mas o crioulão soube ser persuasivo. E explicou, enquanto Rollie escutava fascinado, como o gordalhufo do branco miserável do instrutor que aplicara o golpe dos cheques tinha sido desmascarado. Mas quando Rollie perguntou, Wingate confessou que o gordalhufo branco não iria pra cadeia como um negro teria ido, o que provava que todo o bafo sobre justiça era exatamente isso. . . bafo! Até o crioulão, Wingate, reconhecia isso. E só depois que reconheceu — um reconhecimento desolado, rancoroso, que surpreendeu Rollie — foi que Rollie, de certo modo, quase sem se dar conta, concordou em voltar para o trabalho.

Foi também Leonard Wingate quem disse a Rollie que ele podia deixar de lado o resto do curso de treinamento. Wingate, pelo jeito, havia examinado os registros que informavam que Rollie era vivo e de espírito ágil, e por isso (sempre segundo Wingate) iam colocá-lo na linha de montagem na semana seguinte, a partir de segunda-feira, pra fazer um serviço em caráter permanente.

Isso (tal como Rollie novamente previa) também terminou sendo pouco bafo.

Em vez de lhe darem serviço numa só posição, que talvez pudesse atender, informaram-lhe que teria que substituir operários em várias posições da linha, o que implicava em se deslocar para trás e para frente, feito mosca tonta, de modo que mal se acostumava a fazer uma coisa, já era obrigado a passar para outra, depois para uma terceira completamente diferente, e assim por diante, até ficar com a cabeça girando. Isso se repetiu durante as duas primeiras semanas, a tal ponto que já nem sabia — una vez que as instruções que recebia eram mínimas — o que teria que fazer de um momento para outro. Não que ligasse muito para isso. Exceto pelo que o crioulão, Wingate, havia dito, Rollie Knight — como sempre — não esperava coisa nenhuma. Mas isso apenas mostrava que nada do que diziam saía da maneira prometida. Portanto. . .   bafo!

Ninguém, naturalmente, mas ninguém mesmo, tinha-lhe falado na rapidez da linha de montagem. Descobriu isso por sua conta — da pior maneira possível.

No primeiro dia de serviço, quando Rollie teve sua visão inicial de uma linha final de montagem de carros, ela parecia avançar com a lentidão de um passo de lesma. Chegou cedo às oficinas, apresentando-se para o turno do dia. O tamanho do lugar, a multidão que descia de carros, ônibus, de tudo quanto é tipo de veículo imaginável, para começo de conversa, assustou-o; além disso, todo mundo, menos ele, parecia saber para onde ia — todos numa pressa danada — e por quê. Mas descobriu onde tinha que se apresentar, e de lá o enviaram a um prédio enorme, de telhado metálico, mais limpo do que esperava, porém barulhento. Ah, amizade; que barulho! Cercava a gente de todos os lados, parecendo cem conjuntos de rock numa viagem grilada.

Seja como for, a linha de carros serpenteava pelo prédio, com o fim e o começo fora de vista. E dava impressão de que havia tempo de sobra para qualquer um dos caras e fulanas (algumas mulheres trabalhavam junto com os homens) terminar o trabalho que estivesse fazendo num carro, descansar no intervalo de um compasso, e depois recomeçar o serviço no próximo. A maior canja! Para um cabra vivo, com mais do que vento entre as orelhas, uma barbada!

Em menos de uma hora, como milhares que o haviam precedido, Rollie, de um modo soturno, estava bem mais experiente.

O contramestre que lhe indicaram logo à chegada, perguntou simplesmente:

—  Número?

Jovem e branco, mas calvo, com o aspeto atormentado do homem de meia-idade, o contramestre tinha lápis na mão e insistiu, mal-humorado, quando Rollie hesitou:

— O da Previdência Social!

Por fim Rollie localizou o cartão que um funcionário do Departamento de Pessoal lhe entregara. Havia um número nele. Impaciente, sabendo de vinte outras coisas que precisava fazer imediatamente, o contramestre anotou-o.

Indicou os quatro últimos algarismos: 6469.

— É por eles que você vai ficar conhecido — gritou o contramestre; a linha já começara e o estrépito dificultava a audição. — Portanto decore esse número.

Rollie sorriu, sentindo vontade de dizer que era que nem uma prisão. Calou-se, porém, e o contramestre fez sinal para que o acompanhasse, levando-o então a uma posição de serviço. Um carro parcialmente pronto ia passando devagar, a carroçaria cintilando com a pintura reluzente. Que rodas bacanas! Apesar do hábito da indiferença, Rollie aguçou o interesse.

O contramestre berrou-lhe no ouvido:

— Você tem de colocar três parafusos no chassi e na mala. Aqui, aqui e aqui. Os parafusos estão ali naquela caixa. Use esta chave inglesa elétrica. — Meteu-a nas mãos de Rollie. — Entendeu?

Rollie não tinha certeza. O contramestre tocou no ombro de outro operário.

— Mostre pra esse novato. Ele vai assumir esta posição. Preciso de você na suspensão dianteira.  Depressa com isso.

O contramestre afastou-se, ainda parecendo mais velho do que era.

—  Fica olhando, meu chapa!

O operário agarrou um punhado de parafusos e aplicou-os na porta de um carro com a chave inglesa elétrica, cujo fio arrastava. Enquanto Rollie ainda espichava o pescoço, tentando enxergar o que ele estava fazendo, o outro de repente recuou com força, esbarrando em Rollie.

— Fica olhando, meu chapa!

Contornando a parte traseira do carro, investiu contra a mala, com mais dois parafusos na mão, sempre de chave inglesa em punho.

— Entendeu como é? — gritou.

Demonstrou com o carro seguinte e depois, atendendo a repetidos sinais do contramestre, desapareceu, avisando:

— Agora corre tudo por tua conta, meu chapa.

Apesar do barulho, das dezenas de pessoas que via por perto, Rollie nunca se sentiu mais só em toda a sua vida.

— Você! Ei! Comece de uma vez!

Era o contramestre, aos berros, acenando com os braços do lado oposto da linha.

O carro em que o operário tinha executado o serviço já havia sumido. Incrivelmente, a despeito da aparente lentidão da linha, outro já se achava diante de Rollie. Não havia ninguém a não ser ele para colocar os parafusos. Pegou um punhado e pulou para o carro. Apalpou à procura dos furos onde deviam ser colocados, encontrou um, e então percebeu que tinha esquecido a chave inglesa. Voltou para buscá-la. Ao pular de novo para o carro, a chave pesada caiu-lhe da mão e os dedos se esfolaram no soalho de metal. Conseguiu começar a girar o parafuso isolado; antes que pudesse aprontar, ou inserir outro, o fio da chave esticou enquanto o carro seguia adiante. A chave não alcançava até lá. Rollie largou o segundo parafuso no chão e desceu.

Com o carro depois desse, deu um jeito de enfiar dois parafusos, procurando apertá-los, embora não tivesse certeza se havia feito direito. Com o próximo, já se saiu melhor; também com o carro seguinte. Começava a aprender a usar a chave inglesa, apesar de achá-la pesada. Estava suando e tinha novamente esfolado as mãos.

Só quando chegou ao quinto carro foi que se lembrou do terceiro parafuso que devia aplicar na mala.

Alarmado, Rollie olhou ao redor. Ninguém havia notado.

Nas posições de serviço vizinhas, de ambos os lados da linha, dois homens instalavam rodas. Entretidos na tarefa, nenhum prestara a mínima atenção a Rollie.

— Ei! — gritou a um deles. — Esqueci de botar uns parafusos.

Sem levantar a cabeça, o operário também gritou:

— Não faz mal! Bota no seguinte. Os caras da revisão põem o resto no fim da linha. — Levantou de repente a cabeça e soltou uma risada. — Talvez.

Rollie começou a enfiar o terceiro parafuso, prendendo cada mala ao chassi. Para isso, teve de aumentar o ritmo. Era também necessário entrar por completo na mala e, ao sair pela segunda vez, bateu com a cabeça na tampa. O choque meio que o atordoou, e teria apreciado um descanso, mas o carro seguinte já vinha vindo e trabalhou nele com uma sensação de estupor.

Estava aprendendo: primeiro, o ritmo da linha era mais rápido do que parecia; segundo, ainda mais premente que a rapidez, era a sua inexorabilidade. A linha avançava, sempre, sempre, sem cessar, implacável, insensível a fraquezas ou rogos humanos. Assemelhava-se a uma maré que nada detinha, salvo a pausa de meia hora para o almoço, o fim de um turno, ou sabotagem.

Rollie tornou-se sabotador no segundo dia.

A essa altura já trocara de várias posições, desde a inserção de parafusos de chassi até a colocação de ligações elétricas, depois passando a instalar barras de direção e, finalmente, a ajustar pára-lamas. Ouviu alguém dizer que na véspera tinha havido uma carestia de operários; daí o pânico — coisa habitual nas segundas-feiras. Na terça notou a presença de mais gente nos serviços de rotina, mas Rollie continuava sendo utilizado pelos contramestres para preencher vagas provisórias enquanto os outros substituíam alguém ou folgavam. Conseqüentemente, quase nunca lhe sobrava tempo para aprender qualquer coisa direito e em cada nova posição diversos carros seguiam adiante antes que encontrasse oportunidade de assimilar o serviço. Em geral, se um contramestre andasse pelas imediações e reparava, o serviço defeituoso era corrigido; outras vezes, simplesmente prosseguia linha a fora. Nas poucas ocasiões em que os contramestres viram que algo ia mal, não se importaram.

Enquanto tudo isso acontecia, Rollie Knight cada vez ficava mais exausto.

Na véspera, no fim do trabalho, o corpo raquítico doía-lhe todo.  Ficou com as mãos feridas; em vários outros lugares a pele estava machucada ou em carne viva. Nessa noite, dormiu mais profundamente que em muitos anos e só acordou na manhã seguinte porque o despertador barato, que Leonard Wingate deixara, insistiu ruidosamente. Perguntando-se por que fazia aquilo, Rollie saltou da cama e poucos minutos depois falava sozinho na frente do espelho partido que encimava a bacia de esmalte lascada:

— Seu adorável gato doido, seu cabeça de asno, te arrasta de volta pra cama e ferra de novo no sono.  Quem sabe lá você não está querendo virar crioulo de branco?

Contemplou-se com desprezo, mas não voltou para a cama. Em vez disso, apresentou-se outra vez na fábrica.

No início da tarde, seu cansaço transparecia. Durante toda a hora anterior, não parara de bocejar.

Um jovem operário negro, de penteado africano, avisou-lhe:

— Amizade, você está dormindo em pé.

Os dois estavam encarregados da colocação de motores, o serviço consistindo em baixá-los dentro do chassi e depois firmá-los.

Rollie fez uma careta.

— Essas rodas não param de chegar. Nunca vi tantas de uma vez só.

— Você precisa descansar, amizade.  Folgue um pouco quando esta linha desgraçada parar.

— Acho que ela não vai parar nunca mais.

Seguraram pela parte de cima um motor volumoso, depositando-o no compartimento dianteiro de outro carro, inserindo o eixo-acionador no prolongamento da transmissão, que nem um trem ao ser engatado, largando depois o motor. Outros operários, mais adiante na linha, prenderiam os parafusos no lugar.

O colega de penteado africano encostou a cabeça na de Rollie.

— Você quer fazer parar esta linha aqui? Estou falando sério, amizade.

— Sim, sim, lógico.

Rollie sentia mais vontade de fechar os olhos do que se meter em conversa besta.

— Não estou brincando. Veja só. — Sem que ninguém das imediações percebesse, o operário abriu o punho que segurava fechado. Na palma da mão havia um parafuso preto de aço, de quatro polegadas. — Toma, pega isto aqui!

— Para quê?

— Faça o que eu digo. Larga ali!

Apontou para um sulco no pavimento de concreto perto dos pés de ambos, por onde passava a corrente propulsora da linha de montagem, uma correia interminável que parecia a corrente monstruosa de uma bicicleta. Percorria toda a extensão da linha de montagem, ida e volta, impelindo os carros parcialmente prontos a avançarem numa velocidade uniforme. Em vários pontos, mergulhava no chão, emergindo em pavimentos extras superiores, passando por cabinas de pintura, câmaras de inspeção ou simplesmente mudando de direção. Toda vez que fazia isso, a corrente movediça batia com fragor nos dentes da engrenagem.

Ora, porra, pensou Rollie. Qualquer coisa que sirva para passar o tempo, para ajudar este dia a acabar mais cedo — mesmo um punhado de nada. Soltou, o parafuso no sulco da corrente.

A única coisa que aconteceu foi que o parafuso avançou pela linha a fora; em menos de um minuto desapareceu de vista. Só então Rollie percebeu cabeças se levantando a seu redor, os rostos — na maioria negros — sorrindo-lhe. Intrigado, pressentiu que os outros aguardavam, na expectativa. Do quê?

A linha de montagem parou. Parou sem aviso, sem nenhum barulho ou solavanco súbitos. A mudança foi tão imperceptível que levou vários segundos para que alguns, concentrados no trabalho, notassem que agora ela estava imóvel à sua frente, em vez de continuar passando.

Durante dez segundos, talvez, houve uma pausa. Nesse meio tempo, os operários em torno de Rollie sorriam ainda mais abertamente que antes.

Por fim, a confusão. Campainhas de alarme tocaram. Gritos urgentes retumbaram no setor fronteiro da linha. Logo em seguida, de um canto qualquer nos fundos da fábrica, uma sirene gemeu de leve, e depois aumentou de volume, cada vez mais próxima.

Os veteranos que haviam observado, sub-repticiamente, o diálogo entre Rollie e o operário de penteado africano, sabiam o que acontecera.

Da posição de serviço de Rollie Knight, o dente de engrenagem da corrente propulsora mais próximo ficava a cem passos de distância da parte dianteira da linha. Até esse ponto, o parafuso que ele inserira num elo da corrente passou sem incidentes. Mas ao atingir o dente da engrenagem, comprimiu-se com força entre ele e a corrente, de maneira que algo tinha que ceder. O elo partiu. A corrente propulsora rebentou. A linha de montagem parou. No mesmo instante, setecentos operários ficaram sem fazer nada, os salários estipulados pelo sindicato continuando a correr enquanto esperavam que a linha recomeçasse.

Transcorreram novos segundos. A sirene, cada vez mais perto, mais forte, vinha rápida. Num corredor largo, rente à linha, os que estavam parados em pé — supervisores, almoxarifes, mensageiros etc. — cediam caminho às pressas. Outros veículos da fábrica, guinchos, carriolas de eletricidade, carrinhos para executivos — afastavam-se e estacionavam. Investindo por uma curva no prédio, um caminhão amarelo com pisca-pisca vermelho surgiu à vista. Era uma viatura de socorro, transportando uma equipe de três homens com ferramentas e material de soldagem. Um guiava, o pé calcando fundo; os dois outros viajavam no estribo, escorando-se nos cilindros de soldagem na parte traseira. Mais adiante na linha, um contramestre de braços erguidos assinalava o ponto do rompimento. O caminhão passou chispando pela posição de serviço de Rollie Knight — um borrão amarelo e vermelho, a sirene aumentando. Diminuiu a marcha e depois parou. A equipe saltou.

Em qualquer linha de montagem, a interrupção imprevista da linha é uma emergência que só perde importância para um incêndio. Cada minuto de produção perdido equivale a uma fortuna em despesas de salário, administração e fabrico, nenhuma das quais consegue jamais ser ressarcida. Por outras palavras: quando uma linha de montagem funciona, produz um carro novo em cada cinqüenta segundos, mais ou menos. Diante de uma interrupção imprevista, a mesma quantidade de tempo acarreta o prejuízo dó custo total de um carro novo.

Desse modo, o objetivo é recomeçar a linha primeiro, e fazer perguntas depois.

A equipe de emergência, calejada para tais contingências, sabia o que fazer. Localizaram o rompimento da corrente propulsora, aproximando as partes rebentadas. Retirando o elo partido, soldaram outro no mesmo lugar. O caminhão mal tinha parado e os maçaricos já entravam em ação. O trabalho foi feito às pressas. Quando necessário, os homens do socorro improvisavam para pôr a linha em movimento de novo. Mais tarde, a uma pausa da produção para mudança de turno ou intervalo de almoço, o conserto seria revisado, efetuando-se um trabalho mais duradouro.

Um dos membros da equipe de socorro fez sinal para um contramestre — Frank Parkland — em comunicação telefônica com o ponto de controle mais próximo.

— Pode ligar!

A ordem foi transmitida. A força elétrica, cortada por chave de circuito, tornou a ser ligada. A corrente propulsora bateu com estrépito nos dentes da engrenagem, desta vez sem obstáculos. A linha recomeçou.   Setecentos  empregados,  a maioria grata  pela trégua, reiniciaram o trabalho.

Da interrupção da linha até seu reiniciei, havia levado quatro minutos e cinqüenta e cinco segundos. Cinco carros e meio, portanto, tinham sido perdidos, ou seja, mais de seis mil dólares.

Rollie Knight, apesar de assustado a essa altura, não sabia com segurança o que havia acontecido.

Não tardou em descobrir.

Frank Parkland, o contramestre — de enorme ossatura, espadaúdo — voltou a passos largos ao longo da linha, carrancudo. Trazia na mão um parafuso retorcido de quatro polegadas que um dos membros da equipe de socorro lhe entregara.

Parou, fazendo perguntas, mostrando o parafuso estragado.

— Veio deste setor; tem que ser. De algum lugar aqui, entre dois conjuntos de dentes de engrenagem. Quem foi? Quem viu?

Os homens sacudiam a cabeça. Frank Parkland seguiu adiante, perguntando de novo.

Ao se aproximar do grupo que colocava motores, o jovem operário de penteado africano finava-se de rir. Quase sem poder falar, apontou para Rollie Knight.

— ‘Tá ali ele, chefe! Eu vi quando ele botou.

Os outros nas posições de serviço vizinhas também riam.

Embora Rollie fosse o alvo, percebeu, instintivamente, que não havia malícia naquilo. Era simplesmente uma piada, uma gozação, uma brincadeira desenfreada. Quem ligava para as conseqüências? De mais a mais, a linha só tinha parado alguns minutos. Rollie começou a rir junto, mas de repente notou o olhar de Parkland e gelou.

—  Foi você? — O contramestre estava uma fera. — Você jogou este parafuso ali dentro?

A expressão de Rollie o traiu. Seus olhos arregalaram de medo súbito combinado com exaustão. Desta vez a insolência postiça lhe faltava.

— Fora! — ordenou Parkland.

Rollie Knight afastou-se da posição que ocupava na linha. O contramestre fez sinal para um substituto entrar no lugar dele.

— Número?

Rollie Knight repetiu o número da Previdência Social que aprendera na véspera. Parkland pediu-lhe o nome e também anotou-o, sempre carrancudo.

— Você é novato, não é?

— Sou.

Puta merda! — sempre a mesma coisa. Perguntas, conversa fiada, aquilo nunca mais tinha fim. Até quando o Branco dá um chute no rabo da gente, tem que vir com papo furado.

— O que você   fez   foi  sabotagem.   Sabe   quais são as conseqüências?

Rollie deu de ombros. Não fazia idéia do que fosse “sabotagem”, embora o som da palavra não lhe agradasse. Com resignação idêntica a demonstrada poucas semanas antes, aceitava a perda do emprego. A única coisa que lhe interessava agora era se perguntar: Que mais poderiam lançar contra ele? Pelo jeito que esse bolha branco estava fervendo, não hesitaria em provocar uma encrenca.

Por trás de Parkland, alguém avisou:

— Frank. . . o Mr. Zaleski.

O contramestre se virou. Ficou olhando para a figura atarracada do subgerente da fábrica, já próxima.

— Que foi que houve, Frank?

— Isto aqui, Matt.

Frank mostrou o parafuso retorcido.

— Proposital?

— Estou averiguando.

O tom dizia: Deixe isso por minha conta!

— OK. — Os olhos de Zaleski se desviaram calmamente para Rollie Knight. — Mas se for sabotagem, vamos dar o basta. O sindicato há de nos apoiar, você bem sabe. Depois me informe, Frank.

Acenou com a cabeça e se afastou.

Frank Parkland não sabia ao certo por que se contivera em delatar como sabotador o homem que estava à sua frente. Podia ter feito isso, despedindo-o no ato; não haveria nenhuma repercussão. Mas por um instante, tudo lhe parecera fácil demais. O sujeitinho com cara de fome dava mais impressão de vítima que vilão. De mais a mais, alguém que conhecesse a jogada não se deixaria pegar de maneira tão vulnerável.

Mostrou o parafuso culpado.

— Você sabia o que isso ia causar?

Rollie levantou os olhos para Parkland, altíssimo a seu lado. Normalmente teria lançado um olhar de ódio, mas sentia-se exausto demais até para isso. Sacudiu a cabeça.

— Pois agora fique sabendo.

Lembrando-se dos gritos, da balbúrdia, da sirene, das luzes intermitentes do pisca-pisca, Rollie não pôde deixar de sorrir.

— Sim, amizade!

— Alguém te mandou fazer isso?

Sentiu-se observado pelos colegas mais próximos na linha, que já não sorriam.

— Vamos, quem foi? — interpelou o contramestre.

Rollie permaneceu mudo.

— Foi o cara que te acusou?

O operário de penteado africano estava curvado, colocando outro motor.

Rollie sacudiu a cabeça. Se lhe fosse dada a oportunidade, havia dívidas que cobraria. Mas não dessa forma.

— Muito bem — disse Parkland. — Não sei por que estou fazendo isso, mas acho que te fizeram de trouxa, embora o trouxa agora talvez seja eu. — O contramestre fez uma carranca, ressentido com a própria concessão. — O que aconteceu será considerado como acidente. Mas vou ficar de olho em você; tome nota. — Acrescentou bruscamente: — Volte pro trabalho!

Rollie, para sua grande surpresa, terminou o turno colocando revestimentos nos painéis de instrumentos.

Sabia, porém, que a situação não podia ficar do jeito que estava. No dia seguinte viu-se sujeito a olhares avaliadores dos colegas, e alvo de brincadeiras. A princípio foram apenas tentativas, casuais, mas percebeu que podiam tornar-se mais violentas, muito mais se se espalhasse a noção de que Rollie Knight era um “pato” para troças e intimidações. Para alguém que tivesse a falta de sorte ou fosse suficientemente inepto para merecer essa reputação, a vida podia virar numa desgraça, perigosa mesmo, porque a monotonia do serviço na linha de montagem fazia os operários acolherem de bom grado qualquer coisa, até a brutalidade, como divertimento.

No refeitório, no seu quarto dia de emprego, ocorreu a desordem habitual na hora do almoço, quando várias centenas de homens abandonavam correndo as posições de serviço com o objetivo de entrar na fila para serem atendidos logo e, depois de esperar, engolir a comida às pressas, ir ao toalete lavar a sujeira e a graxa se tivessem vontade (nunca era prático lavar antes de comer) e por fim voltar ao trabalho — tudo em trinta minutos. No meio da multidão no refeitório, Rollie enxergou o operário de penteado africano rodeado por um grupo que ria, olhando de modo especulativo para ele. Poucos minutos mais tarde, depois de conseguir a comida, levou um empurrão tão forte que o prato já pago se esparramou todo no chão, onde imediatamente o pisotearam — aparentemente também por acaso, embora Rollie soubesse que não. Nesse dia não comeu nada; não dava mais tempo.

Durante o empurrão, ouviu um estalido e viu o brilho de uma lâmina de canivete. Da próxima vez, suspeitava, o empurrão seria mais violento, a lâmina usada para cortá-lo, ou coisa pior. Não perdeu tempo em refletir que o processo era desvairadamente ilógico e injusto. Uma oficina de fábrica com milhares de operários não passava de uma selva, com a mesma anarquia reinante, e a única coisa que podia fazer era escolher o momento para se defender.

Apesar de saber que o tempo conspirava contra ele, Rollie esperou. Pressentiu que a oportunidade viria. Veio.

Na sexta-feira, último dia útil da semana, foi novamente designado para baixar motores em chassis. Trabalhava num grupo que incluía um homem mais velho — o supervisor do grupo — e entre as posições vizinhas estava o operário do penteado africano.

— Xi, amizade, estou sentindo qualquer coisa rastejando devagarinho — declarou este último quando Rollie se reuniu a eles perto do fim do intervalo de almoço, pouco antes do reinicio da linha. — Você hoje vai nos dar uma folga especial?

E deu um tapa nas costas de Rollie, enquanto os outros estouravam de riso. Alguém fez o mesmo pelo lado oposto. Os dois golpes poderiam ter sido bem-humorados, mas em vez disso abalaram a fragilidade de Rollie e quase o fizeram perder o equilíbrio.

A oportunidade planejada e esperada ocorreu uma hora mais tarde. Além de executar o serviço desde que se reunira ao grupo, Rollie Knight vinha cuidando, minuto por minuto, os movimentos e posições dos outros, que obedeciam a um padrão, mas de vez em quando apresentavam variações.

Cada motor instalado era abaixado pela parte de cima por meio de correntes e roldanas, essa manobra e o ato de soltar controlados por três botões de acionamento - PARA CIMA, PARA BAIXO -num grosso fio elétrico suspenso convenientemente acima da posição de serviço. Normalmente, o supervisor do grupo operava os botões, mas Rollie também aprendera a usá-los.

Um terceiro homem — neste caso o operário de penteado africano — locomovia-se entre as posições, ajudando os outros dois quando necessário.

Embora a equipe de instalação trabalhasse rápido, cada motor era colocado cuidadosamente no lugar e, ao ser pousado, já quase na largada final, cada homem se certificava se suas mãos estavam livres.

Quando um motor se achava quase abaixado e no lugar, seus tubos de combustível e de vácuo se enredavam na suspensão dianteira do chassi. O entrave era momentâneo e ocorria ocasionalmente; quando ocorria, o operário do penteado africano intervinha, estendendo o braço por baixo do motor para desembaraçar os tubos. Era o que estava fazendo agora. As mãos dos outros dois — Rollie e o supervisor — já se haviam afastado.

Observando, escolhendo o momento propício, Rollie deslocou-se ligeiramente para o lado, levantou o braço do modo mais natural e depois apertou o botão PARA BAIXO. No mesmo instante, um baque surdo, pesado, indicava que meia tonelada de motor e transmissão tinha caído com toda a força nos engastes lá embaixo. Rollie soltou o botão e, simultaneamente, afastou-se.

Por uma fração infinitesimal de segundo o operário de penteado africano ficou em silêncio, contemplando a mão incrédulo, os dedos ocultos por baixo do bloco do motor. Aí então começou a gritar — cada vez mais — um grito estridente, enlouquecido, de agonia e horror, ultrapassando todos os ruídos ao redor, de tal maneira que homens trabalhando a cinqüenta passos de distância levantaram a cabeça e espicharam o pescoço, inquietos, para ver o motivo. Os gritos continuaram, terríveis, sem parar, enquanto alguém apertava um botão de alarme para interromper a linha, outro o controle PARA CIMA, a fim de erguer a montagem do motor. Ao ser levantado, os gritos se intensificaram, dilacerantes. Os que se encontravam mais perto fitaram com pavor a massa informe de sangue e ossos esmigalhados, mutilados, que segundos antes haviam sido dedos. O operário ferido vergou os joelhos. Dois colegas ampararam-lhe o corpo ofegante. O rosto se contorcia e lágrimas rolavam pelos lábios que balbuciavam gemidos incoerentes, animalescos. Um terceiro operário, pálido como um cadáver, pegou a mão estraçalhada e flácida, e despregou o que pôde, embora boa parte ficasse para trás. Quando o que restava da mão finalmente se libertou, a linha de montagem recomeçou.

O operário ferido foi carregado numa padiola, os gritos diminuindo à medida que a morfina fazia efeito. A droga tinha sido ministrada por uma enfermeira convocada às pressas no ambulatório da fábrica. Ela pôs um curativo provisório na mão e seu uniforme branco estava respingado de sangue ao caminhar junto da padiola, acompanhando-a até a ambulância que esperava lá fora.

Entre os operários, nenhum olhou para Rollie.

No intervalo de serviço, alguns minutos mais tarde, o contra-mestre Frank Parkland e um guarda de segurança da fábrica interrogaram os que se achavam mais próximos do ocorrido. Um representante do sindicato acompanhava a cena.

Os homens da fábrica perguntaram: o que aconteceu exatamente?

Pelo jeito, ninguém sabia. Aqueles que talvez fizessem uma idéia afirmaram que estavam olhando para outro lado quando ocorrera o acidente.

— Não  é possível — disse  Parkland.  Olhou  fixamente  para Rollie Knight. — Alguém deve ter visto.

— Quem mexeu no botão? — indagou o guarda de segurança.

Ninguém respondeu. A única coisa que fizeram foi arrastar nervosamente os pés, desviando o olhar.

— Alguém mexeu — insistiu Frank Parkland. — Quem foi?

O silêncio continuou.

Então o supervisor da colocação de motores falou. Parecia mais velho e mais grisalho do que antes, e tinha suado tanto que os cabelos curtos grudavam-se úmidos no crânio preto.

— Acho que fui eu. Tenho impressão que toquei naquele botão e deixei o motor cair. — Acrescentou, resmungando: — Pensei que não havia mais perigo, todo mundo já tinha tirado as mãos.

— Tem certeza? Ou está protegendo alguém?

Os olhos de Parkland voltaram, desconfiados, para Rollie Knight.

— Tenho certeza.  — A voz do supervisor estava mais firme. Ergueu a cabeça e seu olhar cruzou com o do contramestre. — Foi um acidente. Sinto muito.

— E tem que sentir mesmo — retrucou o guarda de segurança. —  O rapaz perdeu a mão por sua culpa. E veja aquilo ali!

Apontou um cartaz que dizia:

ESTA FABRICA JÁ EFETUOU

1.987.560 HORAS DE TRABALHO

SEM NENHUM ACIDENTE

— Agora a nossa contagem volta a zero — comentou o guarda com rancor, deixando a nítida impressão de que isso era o que mais importava.

Com a firme declaração do supervisor, um pouco da tensão diminuiu.

— Que vai acontecer? — perguntou alguém.

— Se foi acidente, não há penalidades — disse o representante do sindicato. Dirigiu-se a Parkland e ao guarda de segurança:

— Mas há perigo nesta posição de serviço. Tem que ser, senão não permitiremos que mais ninguém trabalhe aqui.

— Vai com calma — advertiu Parkland. — Por enquanto isso ainda não ficou provado.

— Levantar da cama de manhã também é perigoso — protestou o guarda de segurança. — Basta levantar de olhos fechados.   .

E fechou a carranca novamente para o supervisor enquanto, ainda confabulando, o trio se afastava.

Logo depois todos os interrogados voltaram ao serviço, o operário ausente sendo substituído por um novato que olhava as mãos com nervosismo.

A partir de então, embora nada jamais fosse dito, Rollie Knight não teve mais problemas com os colegas. Sabia por quê. Apesar dos desmentidos, os que haviam ficado por perto não ignoravam o que tinha acontecido, e agora adquirira a reputação de ser um homem que não devia ser traído.

A princípio, quando viu a mão esmigalhada, sangrando, do ex-algoz, Rollie também levou um choque e sentiu náusea. Mas assim que a padiola se afastou, desfez-se a sensação de imediatez do incidente, e como não era da índole de Rollie apoquentar-se com as coisas, já no dia seguinte de trabalho — com o fim de semana no meio — aceitava a ocorrência como pertencente ao passado, e ponto final. Não temia represálias. Pressentia que, lei da selva ou não, uma certa justiça rudimentar estava do seu lado, e os outros sabiam disso, inclusive o supervisor da colocação de motores que o protegera.

O incidente teve outras conseqüências.

À maneira que se espalham informações sobre alguém que chama atenção, a ficha de Rollie na polícia transpirou. Mas em vez de representar um constrangimento, descobriu que ela o convertia numa espécie de herói popular — ao menos entre os operários mais jovens.

— Ouvi dizer que você esteve em cana — comentou um rapaz de dezenove anos da zona  de  marginais. — Garanto como  você sacaneou à beca esses brancos cretinos antes de ir pra cadeia, hem?

— Você anda armado? — perguntou outro adolescente.

Embora soubesse que uma porção de operários andava sempre de revólver na fábrica — para defender-se, segundo afirmavam, de assaltos habituais em banheiros ou parques de estacionamento — Rollie não fazia o mesmo, cônscio da dura sentença que pegaria se, com a ficha que tinha, algum dia o surpreendessem com arma de fogo em seu poder.

— Não chateia, fedelho — respondeu, sem se comprometer.

Em breve outro boato somou-se ao resto: aquele baixinho, o Knight, andava sempre armado. Era mais um motivo de respeito entre os jovens militantes.

— Ei, quer puxar um fumo? — perguntou-lhe um deles.

Aceitou. Não demorou muito, embora com menos freqüência que a maioria, Rollie já fumava maconha na linha de montagem, descobrindo que assim o dia passava mais depressa, tornando mais suportável a monotonia. Quase ao mesmo tempo, começou a jogar nos números.

Posteriormente, quando houve razão para refletir sobre aquilo, percebeu que tanto as drogas como os números tinham marcado sua entrada no submundo complexo e perigoso do crime na fábrica.

Os números, para começar, pareciam bastante inocentes.

Conforme Rollie sabia, jogar nos números — principalmente nas fábricas de automóveis — é, para os habitantes de Detroit, um fenômeno tão natural quanto respirar. Apesar do jogo ser controlado pela Máfia, comprovadamente desonesto, e que as possibilidades de ganhar sejam de mil contra uma, ele atrai uma quantidade incalculável de apostadores diários que arriscam qualquer coisa, de cinco cents a cem dólares, e às vezes mais. A aposta cotidiana mais comum nas fábricas, e a que o próprio Rollie fez, é de um dólar.

Mas seja qual for a aposta, o jogador escolhe três algarismos quaisquer, na esperança de que dêem a combinação vitoriosa daquele dia. Na hipótese de acertar, o pagamento é na proporção de 500 para 1, com exceção das apostas feitas em algarismos isolados em vez de combinações de três, para as quais as vantagens são menores.

O que parece não preocupar ninguém que jogue nos números em Detroit é que o número vencedor seja escolhido pela casa de apostas entre as combinações que tenham menos dinheiro arriscado nelas. Só na cidade vizinha de Pontiac, onde o número vencedor está relacionado com os resultados das corridas e os pagamentos são divulgados pelo sistema pari-mutuel, é que o jogo — pelo menos nesse respeito — é honesto.(1)

O FBI, a policia de Detroit, e outros organismos efetuam, periodicamente, batidas no chamado “círculo de números de Detroit”. BATIDA RECORDE NOS NÚMEROS ou A MAIOR BA­TIDA NA HISTÓRIA DOS EUA são manchetes rotineiras no Detroit News ou no Free Press, mas no dia seguinte, e sem muita procura, a colocação de apostas continua fácil como sempre.

À medida que Rollie ficava veterano na fábrica, o modo de operar com os números ali foi-se tornando mais claro. Os faxineiros figuravam entre os vários recolhedores de apostas; nos baldes, debaixo de panos secos, carregavam as tradicionais tiras de papel amarelo usadas pelos anotadores de apostas, bem como o dinheiro cobrado. Tanto as tiras como o dinheiro saíam clandestinamente da fábrica para chegar ao centro da cidade antes de determinada hora — em geral a do sinal de partida nas pistas de corrida. Um representante do sindicato, Rollie aprendeu, era o supervisor dos números na linha de montagem; suas obrigações habituais tornavam-lhe possível andar por todos os cantos da fábrica sem despertar suspeitas. Igualmente óbvio era que as apostas fossem um vício cotidiano partilhado pela maioria dos operários, inclusive supervisores, elementos do departamento de pessoal, e — como um informante garantiu a Rollie — alguns dos principais administradores. Devido à imunidade gozada pelo jogo de números, essa última hipótese parecia  plausível.

Algumas vezes depois do incidente dos dedos esmigalhados, Rollie recebeu sugestões indiretas de que também poderia participar ativamente no jogo de números, ou talvez num dos outros negócios fraudulentos praticados na fábrica. Entre estes, ele sabia, incluíam-se os empréstimos a juros extorsivos, a venda de drogas, e o desconto ilegal de cheques; além disso, justapondo-se a atividades mais amenas, havia bandos de roubo organizado, assim como freqüentes arrombamentos e assaltos.

A ficha de Rollie na polícia, a essa altura já de conhecimento geral, tinha-lhe dado nitidamente uma posição ex-officio entre os elementos da escória diretamente envolvida com o crime na fábrica, bem como com os que flertavam com ela em acréscimo a seus serviços. Certa vez, parado ao lado de Rollie no mictório, um operário corpulento, normalmente taciturno, conhecido pelo apelido de Big Rufe, anunciou em voz baixa:

Opessoalme disse que você é barra limpa, por isso vou tecontarqueumjeito docarasevirarmelhorquecom a miséria fedida que pagam pros trouxas quadrados aqui. — Esvaziouabexigacomumgrunhidodealívio. — Às vezes a turma precisa de caras vivos, que conhecem a jogada, e não se apavoram fácil.

Big Rufe parou, puxando o fecho da braguilha para cima enquanto outro sujeito se colocava ao lado deles, depois afastou-se, acenando com a cabeça, indicando que em breve os dois voltariam a conversar.

Mas não conversaram, porque Rollie deu jeito de evitar o novo encontro, e fez o mesmo depois de uma segunda abordagem de outra fonte. Seus motivos eram confusos. A possibilidade de voltar à prisão com uma sentença longa ainda o atormentava; também tinha a sensação de que sua vida, assim como estava de momento, era tão boa ou melhor do que jamais fora antes. Uma coisa importante era a grana. Miséria fedida que pagavam pros trouxas quadrados ou não, sem dúvida representava mais do que Rollie tinha visto durante muito tempo, incluindo bebida, bóia, um pouco de erva quando sentia vontade, e aquele prato de sexo que era a pequena May Lou, de quem talvez viria ainda a se cansar, mas por enquanto ainda não. Não era nenhuma beleza de cair para trás, nenhuma África, e sabia que já havia trepado à beca com outros caras antes dele. Mas conseguia deixá-lo todo aceso. Ficava excitado só de olhar para ela e os dois iam para a cama, copulando até três vezes por noite, principalmente quando May Lou caprichava mesmo, deixando-o sem fôlego com os truques que conhecia, coisas que Rollie tinha ouvido falar mas nunca tivera quem lhe proporcionasse.

Eis aí o motivo, de fato, por que deixou May Lou procurar os dois quartos que ocupavam, e não protestou quando ela os mobiliou. Tinha conseguido a mobília sem gastar muito dinheiro, pedindo apenas para Rollie assinar os papéis que trazia. Ele assinava, indiferente, sem ler, e mais tarde os móveis vieram, inclusive uma TV colorida, tão boa como a de qualquer bar.

Mas, em compensação, o preço pago por tudo isso foi caro demais — dias de trabalho longos, cansativos, nas oficinas de montagem, ou seja, cinco por semana, embora às vezes quatro e houve uma em que foram só três. Rollie, como tantos outros, faltava às segundas-feiras, se estivesse chumbado, ou nas sextas, se queria começar o porre mais cedo. Mas quando isso acontecia, o dinheiro do próximo dia de pagamento já dava para cair na farra.

Não menos que a dureza do trabalho, persistia a monotonia, lembrando-lhe o conselho recebido logo de início por um colega de serviço:

—  Quando você vier pra cá, deixe a cabeça em casa.

E no entanto. . . havia outro aspecto.

A despeito de si mesmo, das formas arraigadas de raciocínio que o preveniam do perigo de se tornar um trouxa e lacaio dos bolhas brancos, Rollie Knight começou a tomar interesse, a criar uma consciência, pelo trabalho que efetuava. Uma razão básica para isso era sua inteligência rápida, aliada a um instinto de aprender, nenhum dos quais tivera oportunidade de desenvolver antes, como fazia agora. Outra — que Rollie negaria se o acusassem dela — foi a relação, baseada em respeito mútuo, que estabeleceu com o contramestre Frank Parkland.

A princípio, depois dos dois incidentes que trouxeram Rollie Knight à sua atenção, Parkland mostrou-se hostil. Mas como resultado da estreita vigilância que mantinha sobre ele, essa hostilidade desapareceu, substituída por aprovação. Conforme Parkland exprimiu a Matt Zaleski durante uma das vistorias periódicas que o subgerente da fábrica costumava fazer na linha de montagem:

— Está vendo aquele baixinho? Na primeira semana dele aqui pensei que fosse um encrenqueiro. Agora é um dos melhores elementos que tenho.

Zaleski resmungara qualquer coisa, mal prestando atenção. Recentemente, no seio administrativo da fábrica, haviam irrompido várias frentes novas de problemas, inclusive uma exigência de incrementar a produção e, ao mesmo tempo, conter os custos e, de certo modo, elevar os padrões de qualidade. Embora os três objetivos fossem fundamentalmente incompatíveis, a alta administração da companhia insistia neles, insistência essa que não ajudava a úlcera do duodeno de Matt, sua velha inimiga íntima. A úlcera, temporariamente sossegada, agora o afligia constantemente. Assim, Matt Zaleski não conseguia encontrar tempo para se interessar pelas outras pessoas — apenas por estatísticas resultantes de regimentos de pessoas comparáveis a ingratos soldados rasos do exército.

Essa — malgrado Zaleski não ter nem a percepção de vê-la, nem o poder de modificar o sistema se pudesse — era uma das causas por que os automóveis norte-americanos geralmente apresentavam qualidade inferior da dos provenientes da Alemanha, onde sistemas menos rígidos de fabricação dão aos operários uma sensação de individualismo e orgulho de artesão.

Nessas condições, Frank Parkland fez o máximo que pôde.

Foi Parkland quem acabou com a situação de Rollie como substituto, designando-o para uma posição fixa na linha. Depois disso, Parkland deslocou Rollie para outros serviços de montagem, mas pelo menos sem desnorteá-lo com as mudanças de hora em hora que tivera que suportar antes. Além disso, uma razão para os deslocamentos era que Rollie, gradativamente, seria capaz de enfrentar as tarefas mais difíceis e complicadas, coisas que Parkland não esqueceu de frisar.

Uma lição que Rollie aprendeu a essa altura foi que, embora os serviços da linha de montagem fossem duros e exigentes, alguns eram suaves. Instalar pára-brisas, por exemplo. Os operários encarregados de fazê-lo, no entanto, procediam de maneira astuciosa quando se sentiam observados, entregando-se a movimentos supérfluos, desnecessários, para dar impressão de que a tarefa era mais árdua. Rollie trabalhou nos pára-brisas, mas só durante poucos dias porque Parkland o colocou de novo mais adiante na linha, num dos serviços mais difíceis — escarafunchar e se retorcer no interior das carroçarias para inserir complicados equipamentos de instalação elétrica. Mas tarde ainda, Rollie enfrentou uma “operação cega” — a espécie mais violenta de todas, onde os parafusos têm de ser enfiados fora de vista, depois apertados, também exclusivamente pelo tato.

Foi nesse dia que Parkland lhe segredou: — Não é um sistema justo. Os caras que trabalham melhor, em quem o contramestre pode confiar, recebem os serviços mais cretinos e se vêem mal. O diabo é que eu preciso de alguém que eu tenha certeza que seja capaz de apertar esses parafusos sem fazer asneiras.

Para Frank Parkland, o comentário era espontâneo. Mas para Rollie Knight representava a primeira vez que alguém que ocupasse um posto de autoridade se ombreava com ele, criticando o sistema, dizendo-lhe uma coisa sincera, algo que ele sabia que era verdade, e fazia isso sem bafo.

O resultado foi duplo. Primeiro: Rollie colocou corretamente todos os parafusos que ficavam fora de vista, utilizando uma habilidade manual crescente e um físico melhorado que as refeições regulares agora tornaram possível. Segundo: começou a observar Parkland com o máximo cuidado.

Depois de certo tempo, embora não chegando a ponto de admirá-lo, viu o contramestre como um sujeito que não era puro bafo, que tratava os outros — negros ou brancos — com honestidade, mantinha a sua palavra, e conservava-se sinceramente alheio à sordidez e corrupção que o rodeavam. Tinha havido poucas criaturas na vida de Rollie de quem ele pudesse dizer, ou pensar, algo semelhante.

Aí então, como sempre acontece quando as pessoas elevam alguém acima do plano da fragilidade humana, a imagem caiu por terra.

Perguntaram-lhe, mais uma vez, se não queria ajudar a recolher apostas na fábrica. A abordagem foi feita por um rapaz negro, magro e intenso, de rosto marcado por cicatriz, Daddy-o Lester, que trabalhava nas entregas do almoxarifado e combinava, sabidamente, seu serviço com recados que fazia para os banqueiros de números da fábrica e os que emprestavam dinheiro a juros. Boatos ligavam a cicatriz, que cortava o rosto de Daddy-o de alto a baixo, à facada que levara depois de não cumprir o pagamento de uma dívida. Agora trabalhava para o lado oposto dos sistemas fraudulentos. Daddy-o assegurou a Rollie, encostando-se na posição de serviço onde acabara de entregar o material de almoxarife:

— Os caras gostam de você. Mas andam cismando que você não gosta deles e são capazes de ficar violentos.

Sem se deixar impressionar, Rollie retrucou:

— Vocês não me assustam com conversa fiada. Dá o fora!

Semanas antes, Rollie havia decidido: jogaria nos números, nada mais.

Daddy-o persistiu.

— Um homem tem que fazer alguma coisa pra mostrar que é homem, e você não é. — Pensando melhor, acrescentou:  — Pelo menos ultimamente.

Mais para ter algo a dizer do que por uma idéia específica, Rollie protestou:

— Ah, pelo amor de Deus, como é que eu ia poder recolher números aqui com o contramestre de olho na gente?!

Nesse momento Frank Parkland surgiu à vista.

— Aquele veado que se foda! Ele não cria galho. É pago pra isso — afirmou Daddy-o, com desprezo.

— Você ‘tá mentindo.

— Se eu provar que não t’ou, você topa?

Rollie afastou-se do carro em que estava trabalhando, cuspiu do lado da linha, depois subiu no seguinte. Por um motivo que não pôde definir, dúvidas incômodas começavam a importuná-lo.

— Sua palavra não vale nada — insistiu.  — Prove primeiro.

No outro dia, Daddy-o provou.

Como pretexto de fazer uma entrega na posição de serviço de Rollie Knight, mostrou-lhe um envelope encardido, sem selo, que abriu suficientemente para Rollie ver o que continha — uma tira de papel amarelo e duas notas de vinte dólares.

— OK, meu chapa — disse Daddy-o. — Agora cuida!

Dirigiu-se à pequena escrivaninha vertical que Parkland usava — de momento desocupada — e enfiou o envelope debaixo de um pesa-papéis. Depois aproximou-se do contramestre, que estava mais adiante na linha, e disse-lhe qualquer coisa rápida. Parkland anuiu. Sem se apressar de maneira flagrante, mas sem perda de tempo, o contramestre voltou à escrivaninha, onde pegou o envelope, deu uma olhada no conteúdo e por fim guardou-o no bolso do paletó.

Rollie, observando nos intervalos de serviço, não precisou de nenhuma explicação. Nada podia ser mais óbvio: o dinheiro era suborno, um pagamento.

Durante o resto daquele dia Rollie trabalhou com menos capricho, deixando escapar vários parafusos por completo e não apertando outros. Pra quê, porra? Não compreendia sua surpresa. Todo mundo não é podre? Pois então! De um jeito ou doutro, quem não leva o seu? Essa gente; todo mundo. Lembrou-se do instrutor do curso, que o persuadira a endossar os cheques, e depois roubou o dinheiro de Rollie e de outros aprendizes. O instrutor era um; agora Parkland era outro, portanto a troco de quê Rollie Knight ia ser diferente?

De noite falou para May Lou:

— Sabe do que que é feito este mundo de merda, boneca? De bafo! Não há nada neste mundão todo que não seja puro bafo.

Mais tarde, na mesma semana, começou a trabalhar para a quadrilha de números da fábrica.

 

A parte setentrional de Michigan que abrange o Lago Higgins é descrita pela Câmara de Comércio local como “Região Recreativa”.

Adam Trenton, Brett DeLosanto e as demais pessoas que passaram o fim de semana no chalé de Hank Kreisel nos últimos dias de maio acharam justa a descrição.

O “chalé” de Kreisel — na verdade uma casa de campo espaçosa, luxuosamente aparelhada, com múltiplos dormitórios — ficava na margem oeste do lado superior do Lago Higgins. A forma do lago lembra um amendoim ou um feto, a escolha da comparação dependendo, talvez, do tipo de estada que o visitante esteja tendo.

Adam localizou o lago e o chalé sem dificuldade, depois de passar de carro sozinho a manhã de sábado por Pontiac, Saginaw, Bay City, Midland e Harrison — a maioria da viagem de trezentos quilômetros pela Interestadual 75. Fora das cidades, achou a zona rural de Michigan exuberantemente verde, as faias começando a tremular e as amoreiras já todas floridas. O ar estava suave, refrescante. O sol brilhava no céu quase sem nuvens. Adam sentia-se deprimido ao sair de casa, mas sua disposição se reanimava à medida que as rodas cobriam o percurso rumo ao' norte.

A depressão teve origem numa discussão com Erica.

Várias semanas atrás, ao informá-la do convite recebido para a festinha de fim de semana só para homens que Brett DeLosanto lhe transmitira, ela se limitou a comentar:

— Bem, já que não querem as esposas, vou ter que descobrir alguma coisa pra eu fazer, não é?

Na hora, aquela sensatez deixou Adam tentado a reconsiderar sua decisão de ir; no início, para dizer a verdade, não mostrara muito entusiasmo pela idéia, mas cedera à insistência de Brett, que queria que Adam conhecesse Hank Kreisel, o amigo que fornecia acessórios à companhia. Por fim, Adam resolveu deixar tudo como estava.

Mas Erica, obviamente, não havia feito nenhum plano pessoal, e hoje de manhã, quando ele se levantou e começou a separar algumas coisas para levar na mala, ela perguntou:

— Você tem que ir mesmo?

Ao lhe assegurar que a essa altura tinha que ir porque prometera, ela interpelou, mordaz:

— “Só pra homens” significa que não vai ter mulheres, ou só se aplica a esposas?

— Não vai ter mulher  nenhuma — respondeu, não sabendo se era verdade ou não, embora suspeitasse que não, porque já tinha passado outras festinhas de fim de semana no chalé do fornecedor.

— Pois sim! — Estavam na cozinha nessa hora, Erica fazendo café e dando jeito de bater com força com a panela. — E imagino que não vá haver nada mais forte que leite ou limonada pra beber.

— Se vai haver ou não — retrucara prontamente, — de qualquer modo será uma atmosfera mais agradável do que esta porra aqui.

— E quem é que cria a atmosfera desagradável?

Aí então Adam perdeu a calma.

— Vou eu saber, puta que pariu! Mas se for eu, não me consta que cause esse efeito em alguém além de você.

— Pois então vai pro diabo que te carregue!

E com essa, Erica jogou-lhe a xícara de café — felizmente vazia — que, também felizmente, conseguiu apanhar no ar e colocar na mesa sem quebrar. Ou talvez felizmente fosse exagero, porque começou a rir, o que deixou Erica mais furiosa que nunca, e saiu batendo com tudo, quase derrubando a porta da cozinha. Já completamente irritado, Adam tinha atirado no carro as poucas coisas que levava e ido embora.

Trinta quilômetros adiante, na estrada, a cena toda parecia-lhe ridícula, como as brigas conjugais tantas vezes parecem em retrospecto, e Adam sabia que se houvesse ficado em casa, tudo estaria esquecido muito antes do meio-dia. Depois, perto de Saginaw, já sentindo-se alegre por causa do dia que estava fazendo, tentou telefonar para casa, mas não obteve resposta. Erica, evidentemente, havia saído. Resolveu ligar de novo mais tarde.

Hank Kreisel acolheu Adam à chegada no chalé dó Lago Higgins, conseguindo simultaneamente manter elegância e naturalidade nas bermudas impecavelmente frisadas e na camisa havaiana que vestia, sua figura magra e esguia marcialmente ereta como sempre. Findas as respectivas apresentações, Adam estacionou o carro no meio de outros sete ou oito — todos do último tipo nas categorias de luxo.

Kreisel acenou na direção dos automóveis.

— Veio pouca gente ontem de noite. Alguns ainda dormem. Mais tarde chegarão outros.

Pegou a maleta de pernoite de Adam e acompanhou-o por uma alameda coberta por caramanchão que se estendia em volta do chalé no lado da estrada. O chalé, propriamente dito, era uma construção sólida, com paredes externas de troncos de madeira e um frontão central, apoiados em vigas maciças falquejadas à mão. Mais abaixo, no nível do lago, havia um cais flutuante onde se viam vários barcos ancorados.

— Gostei da casa, Hank — disse Adam.

— Obrigado. Não é das piores, acho. Mas não fui eu que construí. Comprei do primeiro dono. Ele gastou demais e depois precisou de dinheiro. — Kreisel teve um sorriso astuto. — Quem não precisa?

Pararam diante de uma porta, uma das várias que davam para a alameda. O fabricante de acessórios entrou, tomando a dianteira de Adam. Sem antecâmara, havia um quarto de dormir, cuja mobília envernizada reluzia. Na lareira, defronte à cama de casal, ardia um fogo de lenha.

— Você vai gostar disso aí. De noite às vezes faz frio — avisou Kreisel. Aproximou-se de uma janela. — Dei-lhe um quarto com vista pro lago.

— É mesmo.

Parado junto do anfitrião, Adam podia ver as águas claras e brilhantes, magnificamente azuis, tendendo para o verde perto das margens de areia. O local no Lago Higgins ficava em morros ondulados — os últimos poucos quilômetros da viagem tinham sido uma subida constante — e em volta do chalé havia magníficas plantações de vários tipos de pinheiro: abetos, bálsamos, amarelos, loriços e vidoeiros. A julgar pela vista panorâmica, Adam achou que lhe tinham reservado o melhor quarto. Perguntou-se por quê. Estava também curioso a respeito dos demais hóspedes.

— Quando você estiver pronto — anunciou Hank Kreisel, — o bar está aberto. E a cozinha também. Aqui não há refeições. Apenas bebida e comida vinte e quatro horas por dia. O resto a gente dá um jeito. — Teve de novo o sorriso astuto ao abrir uma porta no lado oposto ao que haviam entrado. — Há duas portas pra entrar e sair. . . esta e a outra. As duas com ferrolho. Pra entradas e saídas privadas.

— Obrigado: se precisar, eu me lembro.

Quando o outro foi embora, Adam tirou da mala as poucas coisas que trouxera e, logo depois, abriu a segunda porta por onde saíra o anfitrião. Descobriu que dava para uma galeria estreita acima de um amplo living central, decorado e mobiliado em estilo de pavilhão de caça. A galeria estendia-se em torno do living e ligava com uma série de lajes que servia de escada, e que, por sua vez, formava parte de uma imensa lareira de pedra. Adam desceu os degraus. Não havia ninguém por ali. Dirigiu-se a um zunzum de vozes que vinha do lado de fora.

Emergiu num espaçoso solário à grande altura do lago. Um grupo de pessoas conversava; agora, uma voz se destacava das demais, discutindo acaloradamente:

— Palavra que vocês estão cada vez mais agindo feito mulher histérica nessa indústria. Não se pode mais criticar porra nenhuma que ficam logo feito porco-espinho. Vocês encorajam os exibicionistas, como se eles fossem uns sábios respeitabilíssimos, quando não passam de caçadores de publicidade que querem ter o nome nos jornais e na televisão. Espiem só as reuniões anuais que vocês fazem! Hoje em dia são verdadeiros circos. Um biruta qualquer compra uma ação da companhia e se acha no direito de passar um pito no presidente da firma, que fica lá parado, agüentando tudo. É o mesmo que deixar um só eleitor, seja lá qual for, ir a Washington e começar a reclamar no recinto do Senado.

— Não é, não — disse Adam. Sem levantar a voz, meteu-se na conversa. — Um eleitor não tem nenhum direito de invadir o recinto do Senado, mas um acionista pode falar numa reunião anual, mesmo que possua uma única ação. É nisso que se constitui o nosso sistema. E nem todos os críticos são bestas quadradas. Se começássemos a raciocinar assim, não dando mais ouvidos a ninguém, voltaríamos ao ponto em que estávamos cinco anos atrás.

— Ei! — gritou Brett DeLosanto. — Escutem essa fala de introdução, e vejam só quem chegou!

Brett estava usando um traje exótico em magenta e amarelo, evidentemente desenhado por ele mesmo, semelhante a uma toga romana. Por estranho que pareça, conseguia ser arrojado e prático. Adam, em calças largas e camisa de gola olímpica, sentia-se conservador a seu lado.

Várias pessoas que conheciam Adam o cumprimentaram, inclusive Pete O’Hagan, o homem que estava falando quando ele se aproximou do grupo. O'Hagan representava uma das principais revistas nacionais em Detroit, com a missão de cortejar socialmente os figurões da indústria automobilística — maneira sutil, mas eficaz, de conseguir anúncios de publicidade. A maioria das grandes revistas — Look, Life, etc. — mantinha representantes parecidos, gente que às vezes se tornava íntima de presidentes de companhia, ou similares de alto gabarito. Essas amizades eram do conhecimento das agências de publicidade, que raramente as impugnavam; assim, quando os anúncios tinham que ser suspensos, as publicações que possuíam influência junto aos escalões superiores eram as últimas a sair perdendo. Tipicamente, apesar do rude desacordo de Adam com o que ele havia dito, O'Hagan não se mostrou ressentido: apenas sorriu.

— Venha, quero apresentá-lo a todos — disse Hank Kreisel.

Orientou Adam em torno do grupo. Entre os convidados figuravam um deputado federal, um juiz, uma personalidade de rede de TV, dois outros fabricantes de acessórios e diversos diretores da própria companhia de Adam, inclusive um trio de agentes de compras. Havia também um rapaz que estendeu a mão e sorriu de maneira simpática quando Adam se aproximou.

— Smokey me falou muito  no  senhor. Meu  nome   é  Pierre Flodenhale.

— Mas claro. — Adam lembrava-se do jovem corredor profissional que tinha visto, trabalhando como vendedor de carros, na concessionária de Smokey Stephensen. — Como vão as vendas?

— Muito boas, quando há tempo pra me dedicar a elas.  O senhor sabe como é.

— Deixe esse negócio de “senhor” de lado — pediu Adam. — Aqui todo mundo se trata pelo primeiro nome. Você teve azar nas 500 milhas de Daytona.

— De fato, tive.

Pierre Flodenhale puxou para trás os louros cabelos despenteados e fez uma careta. Dois meses antes tinha completado cento e oitenta voltas de arrepiar em Daytona, estava na dianteira com apenas mais vinte pela frente, quando uma tampa do motor explodiu e tirou-o da corrida.

— Depois fiquei com vontade de pisotear aquela lata velha — confessou.

— Se tivesse sido comigo, eu a empurraria do alto de um precipício.

— Acho que dentro em breve talvez me saia melhor. — O corredor profissional teve um sorriso infantil; continuava com as mesmas maneiras simpáticas que Adam observara na ocasião anterior. — Tenho impressão que este ano sou capaz de vencer as 500 de Talladega.

— Vou estar em Talladega — disse Adam. — Vamos expor uma das concepções do Orion lá. Portanto torcerei por você.

De um ponto qualquer mais atrás, a voz de Hank Kreisel interrompeu-os .

— Adam, esta aqui é a Stella. Ela fará o que você quiser.

— Como, por exemplo, buscar um drinque — confirmou uma agradável voz feminina. Adam viu uma ruivinha bonita a seu lado. Trazia o corpo coberto pelo mais sumário dos biquinis. — Olá, Mr. Trenton.

— Olá. — Adam enxergou duas outras moças por perto e lem­brou-se da pergunta de Erica: “Só pra homens” significa que não vai ter mulheres, ou só se aplica a esposas?

— Que bom que você gosta do meu maiô — disse Stella a Pierre, cujos olhos a analisavam de alto a baixo.

— Não tinha notado que você estava com um — retrucou o corredor profissional.

A moça virou-se para Adam.

— E o drinque?

Pediu um Bloody Mary.

— Não vá embora — ela recomendou-lhe. — Eu já volto.

— Que “concepção” do Orion é essa, Adam? — indagou Pierre.

— Um tipo especial de carro, feito pra expor antes do lançamento do verdadeiro. Nós o chamamos de “amostra”.

— Mas o que vai pra Talladega. . . não será um  Orion autêntico?

— Não — respondeu Adam. — O verdadeiro está programado só pra um mês depois. A “concepção” será parecida com ele, apesar de que não estejamos dizendo até que ponto. Ficará exposta em vários lugares. A idéia é fazer o público comentar especulando. . . como vai ser o aspeto definitivo do Orion? — Acrescentou: — Pode-se dizer que é uma espécie de modelo provocante.

— Esse papel eu posso fazer — disse Stella.

Vinha de volta com o drinque de Adam e outro para Pierre. O deputado federal aproximou-se deles. Seu cabelo branco ondulava no ar, tinha maneiras afáveis e uma voz sonora, mas pomposa.

—  Fiquei interessado no que o senhor disse a respeito da sua indústria estar dando ouvidos, Mr. Trenton. Espero que parte dessa atenção seja para o que os legisladores dizem.

Adam hesitou. Sentia-se tentado a responder sem rodeios, como sempre, mas aquilo ali era uma festa; ele, um convidado. Surpreendeu o olho de Hank Kreisel, que parecia ter o dom de estar presente em toda a parte, escutando tudo o que lhe interessava.

— Fiquem à vontade — disse Kreisel. — Um pouco de briga não faz mal a ninguém. Daqui a pouco vai chegar um médico.

— O que se anda legislando atualmente — retrucou Adam ao deputado, — é na maior parte bobagens de pessoas que querem o nome nos noticiários e sabem que arrasar com a indústria automobilística, de maneira lógica ou não, é o caminho pra isso.

O deputado federal avermelhou enquanto Adam persistia;

— Um  senador dos  EUA  pretende  interditar os automóveis dentro de um prazo de cinco anos, caso continuem a ser movidos por motores de combustão interna, embora ele não tenha a mínima noção do que irá substituí-los. Ora, se tal ocorrer, a única vantagem é que ele não vai poder andar por aí fazendo discursos bestas. Alguns Estados entraram com ações judiciais pra nos obrigarem a recolher todos os carros fabricados de 1953 pra cá e reformá-los se­gundo padrões de descarga que só foram adotados em 1966 na Califórnia e em 1968 no resto do país.

— São exemplos extremos — protestou o deputado federal. Sua dicção estava meio pastosa, e o drinque que tinha na mão não era, evidentemente, o primeiro do dia.

— Concordo. São. Mas exemplificam bem o que estamos ouvindo dos legisladores, e essa. . . segundo me lembro. . . foi sua pergunta.

Hank Kreisel, reaparecendo, frisou, todo alegre:

— Exatamente, foi a pergunta. — Deu um tapa nas costas do deputado. — Cuidado, Woody! Esses camaradas jovens de Detroit têm o espírito alerta. São vivos demais pra turma de vocês em Washington.

— Quem havia de imaginar — informou o deputado ao grupo. — que quando este cara, o Kreisel, e eu estivemos juntos no Corpo de Fuzileiros ele sempre me fazia continência?

— Não seja por isso, General...

Hank Kreisel, ainda com as mesmas bermudas elegantes, colocou-se logo em rígida posição de sentido e prestou continência no estilo de parada militar. Depois ordenou:

— Stella, busque outro drinque pro senador.

— Eu não era general — reclamou o deputado. — Era um coronel galinha, e não sou senador.

— Você nunca foi galinha, Woody — assegurou-lhe Kreisel. — E ainda há de ser senador. Provavelmente em cima do cadáver desta indústria.

— A julgar por você, e por este lugar, é um cadáver com uma saúde danada. — O deputado voltou os olhos para Adam: — Quer apostar como os políticos vão fazer um escarcéu ainda maior?

— Não duvido. — Adam sorriu. — Alguns de nós crêem que já é hora de os nossos legisladores fazerem algo de positivo, em vez de simplesmente repetirem como papagaio o que os críticos dizem.

— Positivo em que sentido?

— De promulgar certas leis de execução compulsória. Por exemplo: a poluição do ar. Está certo, já existem padrões de anti-poluição pra carros recém-fabricados. Muitos de nós, na indústria, concordam que são bons, necessários e já deviam ter entrado em vigor já muito tempo. — Adam percebeu que o tamanho do grupo formado em torno deles aumentara, interrompendo as outras conversas. Prosseguiu: — Mas o que pessoas como você pedem a gente como nós é a produção de um dispositivo antipoluidor que não estrague, nem precise de revisão ou regulagem, pra vida inteira de cada carro. Ora, isso é impraticável. Tem tanta lógica quanto esperar que uma peça de mecanismo qualquer funcione sempre com perfeição.  Portanto, o que é que está fazendo falta? Uma lei com força cominatória, que exija inspeções periódicas dos dispositivos poluidores do carro e, depois, dos consertos e substituições que se fizerem necessários. Mas seria uma lei impopular, porque o público na verdade não liga a mínima bola pra poluição e só se importa com o que lhe é conveniente. É por isso que os políticos têm medo de promulgá-la.

— O público liga, sim — afirmou o deputado, acalorado.  — Tenho cartas que provam.

— Algumas pessoas isoladas ligam. O público não. Faz mais de dois anos — insistiu Adam, — que existe equipamento pra controle da poluição disponível pra carros mais antigos. A instalação custa vinte dólares, e nós sabemos que funciona. Diminui a poluição e torna o ar mais puro. . . em toda a parte.  Os equipamentos tiveram promoção, anúncios na TV, no rádio, nos cartazes, mas quase ninguém compra. Acessórios extras nos carros. . . mesmo em carros velhos. . . que nem pneus de contraplacas brancas ou toca-fitas estereofônicos têm ótima saída. Mas ninguém quer os equipamentos antipoluição; é o artigo de menos procura que já fabricamos. E os legisladores que você me perguntou, que nos fazem uma preleção sobre a pureza do ar à menor provocação, tampouco demonstraram o mínimo interesse.

— Costelas sobressalentes!  Costelas sobressalentes! — entoaram em coro a voz de Stella e de vários outros.

O grupo em torno de Adam e do deputado se desfez.

— Já era tempo — comentou alguém. — Faz uma hora que ninguém come nada.

A visão da comida empilhada, sobre um aparador na parte posterior do solário, presidida por um mestre-cuca de coifa branca, lembrou a Adam que ele não tinha tomado café, devido à briga com Erica, e estava com fome. Também lembrou-se de que precisava telefonar logo para casa.

Um dos agentes de compras convidado, segurando um prato cheio de comida, gritou:

— Está sensacional, Hank!

— Ainda bem — agradeceu o anfitrião. .— E com vocês aqui, tudo é descontado no imposto de renda.

Adam sorriu com os demais, sabendo que o que Kreisel havia dito era verdade — a presença dos agentes de compras transformava a ocasião em negócio, a ser descontado eventualmente na declaração de renda de Hank Kreisel. As razões: os agentes de compras das companhias automobilísticas, que efetuam encomendas anuais no valor de milhões de dólares, exercem uma autoridade de vida ou morte sobre fabricantes de acessórios como Kreisel. Antigamente, por causa disso, estavam habituados a receber presentes generosos — até uma lancha-cruzeiro ou a mobília de uma casa inteira — dos fornecedores que favoreciam. Hoje as companhias automobilísticas proíbem essa espécie de suborno e um contraventor, se descoberto, é despedido sumariamente. Mesmo assim, ainda há saídas para os agentes de compras, e uma delas é ser recebido socialmente em ocasiões como esta ou em caráter privado. Outro é ter as contas pessoais de hotel liquidadas por fornecedores ou seus vendedores; esse é considerado seguro, uma vez que nem mercadorias nem dinheiro trocam diretamente de mãos, e mais tarde, caso necessário, um agente de compras pode negar conhecimento, dizendo que esperava que o hotel lhe fosse mandar a conta. E os presentes na época do Natal ainda estão em uso.

As distribuições de Natal são proibidas anualmente pela administração das companhias automobilísticas em memorandos que circulam durante novembro e dezembro.  Mas, com a mesma inevitabilidade, as secretárias dos departamentos de compras preparam listas de endereços particulares dos funcionários daqueles departamentos, que são entregues aos vendedores dos fornecedores em atendimentos a pedidos considerados tão rotineiros quanto desejar “Feliz Natal!” Os endereços particulares das secretárias sempre constam das listas e, apesar dos protestos de ignorância do que se está passando, por parte dos agentes de compras, os seus também encontram meio de figurar nelas. Os presentes resultantes — nenhum entregue no escritório — não são tão pródigos como antigamente, mas poucos fornecedores se arriscam a deixar de dá-los.

Adam ainda estava observando o agente de compras com o prato cheio, quando uma voz macia e feminina murmurou:

— Adam Trenton, você sempre diz exatamente o que pensa?

Virou-se. Diante dele, olhando-o com ar divertido, havia uma moça de vinte e oito ou trinta anos, aparentemente. O rosto de pomos salientes estava erguido de um jeito enviesado, os úmidos lábios grossos entreabertos num sorriso. Seu olhar inteligente, vivo, encarava-o diretamente. Sentiu um perfume de almíscar, notou o corpo ágil, esbelto, de pequenos seios rijos por baixo do vestido de linho azul claro. Adam achou-a uma das mulheres mais deslumbrantes que já tinha visto. E era negra. Não mulata, negra. De um negro retinto, esplendoroso: a pele lisa, imaculada, parecia de ébano sedoso. Refreou o impulso de levantar o braço para tocar nela.

— Meu nome é Rowena — disse a moça. — Fui designada para você. E me pediram pra lhe arranjar alguma coisa pra comer.

— Rowena de quê?

Percebeu que hesitava.

— Que diferença faz?

Ela sorriu, tornando-o novamente cônscio dos lábios polpudos, vermelhos e úmidos.

— Além do mais — continuou Rowena, — eu lhe fiz uma pergunta antes. Você não respondeu.

Adam lembrava-se de que ela perguntara qualquer coisa como — se ele sempre dizia o que pensava?

— Nem sempre. Não creio realmente que nenhum de nós proceda assim. — Pensou: Tenho certeza absoluta de que não estou procedendo assim agora, depois acrescentou em voz alta: — Mas quando digo alguma coisa, faço o possível pra que seja sincera e franca.

— Eu sei. Fiquei ouvindo o que você falou. Não tem gente que chega entre nós que faça assim.

O olhar da moça cruzou com o dele, encarando-o com firmeza. Ele se perguntava se ela imaginava o impacto que lhe causara, e desconfiou que sim.

O mestre-cuca, no aparador, com a ajuda de Rowena, encheu dois pratos que levaram para uma das mesas próximas no solário. Já se encontravam sentados o juiz — um negro jovem, do tribunal federal em Michigan — e outro convidado da companhia de Adam, um técnico de aperfeiçoamento, de meia-idade, chamado Frazon. Momentos mais tarde Brett DeLosanto veio reunir-se ao grupo, acompanhado por uma morena atraente e discreta, que apresentou como Elsie.

— Nós julgamos que aqui é que a coisa estivesse boa — disse Brett. — Não nos decepcionem.

— Que espécie de coisa você tem em mente? — indagou Rowena.

— Você conhece o pessoal do automobilismo. Só temos dois interesses. . . negócios e sexo.

O juiz sorriu.

— É cedo. Talvez fosse melhor tratar de negócios primeiro. — Dirigiu-se a Adam. — Há pouco você mencionou as reuniões anuais da companhia. Gostei do que disse. . . que o público, mesmo com uma única ação, devia ser ouvido.

Frazon, o técnico, não deixando escapar a oportunidade, largou a faca e o garfo.

— Pois eu não. Discordo de Adam, e há muita gente que é da minha opinião.

— Eu sei — disse o juiz. — Vi como você reagiu. Não nos quer explicar por quê?

Frazon franziu a testa, ponderando.

— Muito bem. O que o público reclamante, de ação única quer, inclusive os grupos de consumidores e o chamado comitê de responsabilidade associada, é criar ruptura, e fazem isso através de distorção, mentiras e insultos. Lembram-se da  reunião anual   da General Motors, quando a quadrilha do Nader chamou todo mundo da indústria de “criminosos mancomunados”, falando depois sobre nosso “descaso pela lei e justiça”, afirmando que fazíamos parte de uma “onda de crime organizado que deixava o crime das ruas num chinelo”? Como é que a gente pode se sentir quando ouve uma coisa dessas? Como é que se devem tratar os palhaços que proferem uma imbecilidade dessas? A sério?

— Puxa! — exclamou Brett DeLosanto. — Vocês, os caras da técnica, estavam prestando atenção mesmo. Nós pensávamos que a única coisa que vocês ouvissem fosse o barulho dos motores.

— Eles prestaram, sim — disse Adam. — Todos nós ouvimos. . . os da General Motors, das outras companhias também. Mas o que uma porção de gente da indústria não entendeu foi que as próprias palavras que acabam de ser citadas — fez um gesto na direção de Frazon — pretendiam indignar, inflamar e impedir uma resposta sensata. A turma do protesto não queria que a indústria automobilística se mostrasse sensata; se quisesse, teríamos arrasado com eles. E o que eles planejaram, deu certo. O nosso pessoal caiu na cilada.

— Então você considera a invectiva uma tática — sugeriu o juiz.

— Naturalmente. É a linguagem da nossa época, e a garotada que a usa. . . na maioria, os jovens advogados brilhantes. . . sabe exatamente o efeito que causa nos velhos das juntas de diretoria. Ficam de cabelo em pé, aumenta-lhes a pressão arterial, tornando-os duros e inflexíveis. Os presidentes e diretores da nossa indústria foram, criados à base de cortesia; no seu período áureo, até quando se apunhalava um concorrente, a gente dizia “desculpe”. Agora não. Hoje o diálogo é áspero e desabrido, os pontos são marcados com espalhafato, de modo que, se a gente estiver prestando atenção. . . e for vivo. . . reage-se com discrição e se mantém a calma. A maior parte do nosso pessoal nos altos escalões ainda não aprendeu isso.

— Eu não aprendi, nem pretendo aprender — retrucou Frazon. — Prefiro continuar com maneiras decentes.

— Falou o técnico, o supremo conservador! — ironizou Brett.

—  O Adam também é técnico — lembrou Frazon. — O diabo é que passa tempo demais junto com os projetistas.

O grupo na mesa riu.

Olhando para Adam, Frazon continuou:

— Você decerto não está sugerindo que eu concorde com o que os militantes das reuniões anuais querem. . . representantes dos consumidores nas juntas de diretoria, e tudo mais?

— Por que não? — retrucou Adam, tranqüilamente. — Serviria pra mostrar que estamos dispostos a ser flexíveis, e talvez valesse a pena tentar.   Coloque alguém numa junta. . . ou num júri. . . e eles são capazes de levar a coisa a sério, em vez de simplesmente bancar os dissidentes. Pode ser até que  terminemos aprendendo algo. De mais a mais, isso, com o tempo, vai acontecer, e seria melhor que nós fizéssemos com que acontecesse já do que sermos forçados a aceitar isso mais tarde.

— Juiz — interpelou Brett, — qual é seu veredito, agora que ouviu ambas as partes?

— Desculpem. — O juiz pôs a mão na boca, reprimindo um bocejo. — Por um instante, pensei que estivesse no tribunal. —Sacudiu a cabeça, numa solenidade brincalhona.   — Sinto muito. Nunca emito pareceres em fins de semana.

— Todo mundo devia fazer o mesmo — declarou Rowena. Tocou na mão de Adam, correndo ligeiramente os dedos sobre os dele. Quando ele se virou, ela murmurou baixinho: — Vamos nadar?

Os dois pegaram um barco no cais flutuante — um que pertencia a Hank Kreisel, com motor na popa, que Adam usou para levá-los, sem pressa, a uns cinco quilômetros de distância, rumo às margens orientais do lago. Depois, perto de uma praia cercada por árvores altaneiras e frondosas, desligou o motor e ficaram vagando na água azul, translúcida. Alguns outros barcos, não muitos, surgiram e se afastaram. A tarde ia ao meio. O sol estava alto, o ar letárgico. Antes de saírem, Rowena tinha posto um maiô: imitava a pele do leopardo e o que revelava de seu corpo, além da negrura macia, sedosa da pele, mais do que cumpria a promessa do vestido de linho que trajara antes. Adam estava de calção. Quando pararam, acendeu cigarros para ambos. Ficaram sentados lado a lado nas almofadas do barco.

— Hum — fez Rowena. — Que gostoso. — Reclinou a cabeça, fechando os olhos contra a claridade do sol e do lago. Entreabriu os lábios.

Ele soprou um anel de fumaça, preguiçosamente.

— Isso se chama largar tudo de mão. — A voz, por algum motivo, não estava firme.

— Eu sei — disse ela baixinho, com súbita seriedade.  — Não acontece muitas vezes. E nunca dura.

Adam virou-se. O instinto lhe prevenia que se tocasse nela, ela responderia. Mas, durante segundos de incerteza, hesitou.

Como que lhe adivinhando os pensamentos, Rowena riu alegremente. Jogou o cigarro na água.

— Nós viemos nadar, lembra-se?

Com um movimento ágil, levantou-se e mergulhou pela amurada. Teve impressão que o corpo dela, negro, flexível, de membros distendidos, assemelhava-se a uma flecha. Depois, com um som chicoteante e salpicando água, desapareceu de vista. O barco sacudiu de leve.

Adam hesitou outra vez, e por fim também mergulhou. Depois do calor do sol, a água fresca do lago parecia gelada. Voltou à tona ofegante, tremendo de frio, e olhou em torno.

— Ei! Aqui! — Rowena continuava rindo. Sumiu da superfície, reapareceu de novo, a água escorrendo pelo rosto e pelo cabelo. — Não está uma maravilha?

— Quando eu recuperar a circulação,  lhe digo.

— O seu sangue precisa de calor, Adam.  Eu vou pra margem. Você vem junto?

— Acho que sim.  Mas não podemos deixar o barco do Hank à deriva.

— Então  traga-o junto. — Já nadando com energia, rumo à praia, Rowena gritou: — Isto é, se você não tiver medo de se perder comigo.

Mais lento, rebocando o barco, Adam seguiu-a. Na margem, e acolhendo novamente o calor do sol, deixou o barco em seco, e foi ao encontro de Rowena, deitada na areia, a cabeça apoiada nas mãos. Atrás da praia, abrigado por árvores, havia um chalé, mas de persianas fechadas e abandonado.

— Já que você falou nisso — disse Adam, — de momento não me lembro de mais ninguém com quem eu gostaria tanto de me perder.

Estendeu-se também na areia, com a sensação de que fazia meses que não se sentia tão sossegado.

— Você não me conhece.

— Você me despertou certos instintos. — Apoiou-se ao cotovelo, certificando-se de que a moça a seu lado era tão deslumbrante quanto lhe parecera ao encontrá-la várias horas trás, depois acrescentou: — Um deles é a curiosidade.

— Sou apenas alguém que você conheceu numa festa; numa das festinhas de fim de semana do Hank Kreisel, onde ele contrata moças pra fazer companhia aos hóspedes. E caso você esteja imaginando, é só pra isso que ele nos contrata. Você estava imaginando?

— Estava.

Ela soltou a risadinha a que ele se acostumara.

— Logo vi.  A diferença entre você e a maioria dos homens é que os outros teriam mentido e dito “não”.

— E o resto da semana, quando não há festinhas?

— Sou professora de colégio secundário. — Rowena parou. — Droga! Eu não lhe devia contar isso.

— Então vamos empatar a partida — disse Adam. — Tinha uma coisa que não era pra eu dizer a você.

— Qual?

— Pela primeira vez na minha vida — garantiu-lhe baixinho, — eu sei, de verdade, o que significa quando dizem que “Preto é a Cor”.                                               

No silêncio que se seguiu, perguntou-se se a ofendera. Podia ouvir o barulho da água, o zumbido dos insetos, um motor de lancha ao longe.  Rowena não disse nada.   Depois, sem aviso, debruçou-se e beijou-o em cheio nos lábios.

Antes que pudesse retribuir, ela deu um pulo e saiu correndo pela praia em direção ao lago. Da beira d'água gritou:

— O Hank disse que você tinha fama de ser um amor quando ele me pediu pra tomar conta especial de você. Agora vamos voltar.

No barco, rumo à margem oeste, ele perguntou:

— Que mais que o Hank disse?

Rowena pensou um pouco.

— Bem, ele me contou que você seria a pessoa mais importante aqui, e que um dia você ocuparia o maior cargo de sua companhia.

Desta vez Adam riu.

Mas continuava intrigado com Kreisel e seus motivos.

O crepúsculo veio, a festa no chalé continuando — e se animando — à medida que as horas passavam. Antes que o sol desaparecesse finalmente por trás de um pelotão de vidoeiros brancos feito silhuetas de sentinelas, o lago ficou vividamente colorido. Uma brisa agitou-lhe a tona, trazendo ar fresco, perfumado de pinheiro. A tarde foi morrendo e de repente ficou noite. Quando as estrelas surgiram, o ar noturno esfriou e a festa se deslocou do solário para a parte interna, onde, na grande lareira de pedra, pilhas de galhos e lenha ardiam.

Hank Kreisel, anfitrião afável e atento, aparecia por todos os cantos, tal como antes. Dois bares e a cozinha funcionavam, cheios de movimento. O que ele havia dito sobre a bebida e a comida estarem disponíveis vinte e quatro horas por dia parecia verdade. No espaçoso living em estilo de pavilhão de caça, a festa se dividiu em dois grupos, alguns se alternando em ambos. Um agrupamento em torno de Pierre Flodenhale bombardeava-o com perguntas sobre corridas de automóveis:

— . . . dizem que uma corrida é ganha ou perdida na linha de largada. Isso concorda com sua experiência?

— . . . Sim, mas o preparo do corredor também influi. Antes da corrida, a gente planeja como vai fazer, volta por volta. Durante a prova, a gente planeja a próxima volta, modificando o primeiro plano. . .

A personalidade de rede de TV, que até então se mostrara tímido, agora estava expansivo e fazia uma talentosa imitação do Presidente dos EUA, supostamente diante das câmaras em companhia de um fabricante de carros e de um especialista em meio-ambiente, tentando apaziguar ambos.

— A poluição, com todos os seus inconvenientes, faz parte da nossa grande perícia norte-americana. . . Meus assessores científicos asseguram que os carros estão poluindo menos do que antes. . . ao menos deveriam estar, se não houvessem tantos. (Pequeno acesso de tosse) . . . Prometo que voltaremos a ter ar puro neste pais. A política da Administração é encaná-lo para todos os lares. . .

Entre os ouvintes, um ou dois pareciam carrancudos, mas a maioria ria.

Algumas das moças, inclusive Stella e Elsie, andavam de grupo em grupo. Rowena permaneceu perto de Adam.

Gradativamente, à proporção que se aproximava e passava da meia-noite, os números diminuíram. Os convidados bocejavam, espreguiçando-se cansados, e logo depois subiram a escada de lajes em torno da lareira, alguns gritando boa-noite do alto da galeria para os remanescentes lá embaixo. Um ou dois saíram pelo solário, presumivelmente ganhando seus quartos pela rota alternativa que Hank Kreisel tinha mostrado antes a Adam. Por fim, o próprio Kreisel — carregando uma garrafa de uísque acidulado — subiu a escada. Logo depois, Adam notou, Elsie desapareceu. E o mesmo fizeram Brett DeLosanto e a ruiva, Stella, que haviam passado a última hora na maior intimidade.

Na vasta lareira o fogo ardia baixo, quase em cinzas. Além de Adam e Rowena, que ocupavam um sofá nas proximidades, um único grupo permanecia no canto oposto da peça, ainda bebendo, ruidoso, e obviamente com a intenção de se demorar muito mais tempo.

— Um trago antes de dormir? — perguntou Adam.

Rowena sacudiu a cabeça. Seu último drinque — um uísque fraco com água — tinha-lhe durado um hora. Os dois haviam conversado a noite inteira, a maior parte sobre Adam, embora não por deliberação dele, mas porque Rowena desviava habilmente as perguntas a respeito dela. Porém ficara sabendo que sua especialidade pedagógica era o Inglês, que ela confessou depois de citar Cervantes, morrendo de rir: “Minha memória é tão ruim que muitas vezes esqueço meu próprio nome”.

Ele se levantou.

— Vamos lá pra fora.

— Está bem.

Ao saírem, ninguém do outro grupo olhou em sua direção.

A lua tinha surgido. A noite estava fria e clara. Raios de luar cintilavam na superfície do lago. Sentiu que Rowane tremia e passou-lhe o braço pelos ombros.

— Quase todo mundo — comentou Adam — parece que foi pra cama.

Rowena riu de novo, baixinho.

— Eu vi que você notou.

Virou-a para ele, levantou-lhe a cabeça e beijou-a.

— Então vamos.

Os lábios se encontraram outra vez. Sentiu os braços dela apertarem-no com força.

— O que eu disse é verdade — cochichou ela. — Isto não está no contrato.

— Eu sei.

— Uma moça aqui pode escolher quem quiser, mas o Hank providencia pra que ela não precise fazer isso.   — Aconchegou-se mais perto. — Ele gostaria de que você soubesse disso. Ele se preocupa com o que você pensa dele.

— Neste momento — murmurou, — não estou pensando absolutamente no Hank.

Entraram no quarto de Adam pela alameda externa — o caminho que tinha usado de manhã, ao chegar. Lá dentro estava quente. Alguém, consideradamente, viera acender o fogo; agora, labaredas lançavam luz e sombras no teto. A colcha havia sido retirada da cama de casal, com os lençóis dobrados para trás.

Diante da lareira, Adam e Rowena despiram a roupa que usavam. Em seguida levou-a para a cama.

Esperava ternura. Encontrou, ao invés, uma selvageria que a princípio espantava, logo depois excitava e, ao cabo de pouco tempo, também o inflamou. Nada em sua experiência o preparara, para a paixão arrebatada, tempestuosa que Rowena desencadeou. Para ambos, perdurou — com os lapsos exigidos pelos limites humanos — a noite toda.

Já estava quase raiando o dia quando ela perguntou, travessa:

— Você ainda acha que preto é a cor?

— Mais do que nunca — respondeu-lhe, com sinceridade.

Tinham estado deitados, serenos, lado a lado. Agora Rowena, apoiada ao cotovelo, olhava-o. E sorria.

— E pra um bolha branco, até que você não é mau.

Tal como ontem à tarde, acendeu dois cigarros e entregou-lhe um. Passado algum tempo ela disse:

— Acho que preto é a cor, como dizem. Mas também acho todas as cores bonitas. Depende do dia que a gente olha pra elas.

—  Assim como hoje?

— Sabe o que eu seria capaz de dizer hoje? Hoje eu diria que até o feio é bonito!

Amanhecia.

— Quero me encontrar com você de novo — disse Adam.  — Como vamos fazer?

Pela primeira vez, a voz de Rowena foi abrupta.

— Nós não nos vamos encontrar de novo. Tanto você como eu sabemos disso. — Quando protestou, ela cobriu-lhe os lábios com o dedo. — Nós não mentimos um pro outro. Não vá começar agora.

Sabia que ela tinha razão, que o que haviam começado terminaria aqui. Detroit não era Paris, nem Londres, nem sequer Nova York. No fundo, Detroit ainda continuava sendo uma cidade pequena, mais tolerante do que antigamente, mas ele não podia ter Detroit e Rowena — sob hipótese alguma. A idéia o entristeceu. E perdurou, o dia todo, e ao partir do Lago Higgins para a viagem de volta, rumo ao sul, no fim daquela tarde.

Quando agradeceu ao dono da casa antes de ir embora, Hank Kreisel disse:

— Não conversamos muito, Adam. Gostaria que tivéssemos mais oportunidade. Posso telefonar-lhe na semana que vem?

Assegurou-lhe que sim.

Rowena, de quem Adam se despedira a sós, uma hora antes, atrás de duas portas trancadas, não se achava à vista.

 

—  Ah, meu Deus! — exclamou Adam. — Esqueci de telefonar pra minha mulher.

Lembrou-se, culposamente, que pretendia desde sábado pela manhã ligar para Erica e fazer as pazes depois da briga que haviam tido antes de sair de casa. Agora era domingo de noite e ainda não telefonara. Nesse meio tempo naturalmente, tinha havido Rowena, que eclipsara assuntos mais prementes, e Adam ficou inquieto, também, ante a idéia de enfrentar Erica depois daquilo.

— Quer que voltemos pra procurar um telefone público? — perguntou Pierre Flodenhale.

Estavam na Interestadual 75, rumando para o sul, perto dos arredores de Flint, e Pierre dirigia o carro de Adam, como vinha fazendo desde que partiram do chalé do Lago Higgins. O jovem corredor profissional viera passar o fim de semana no automóvel de alguém que fora embora mais cedo, e Adam prontificara-se a oferecer-lhe carona, alegre também por ter companhia no regresso a Detroit. Além disso, quando Pierre se oferecera para guiar, Adam aceitou de bom grado, cochilando durante a parte inicial do percurso.

Agora estava escurecendo. Os faróis deles brilhavam no meio de vários que cortavam as trevas, voltando do interior para a cidade.

— Não — respondeu Adam. — Se pararmos perderemos tempo. Vamos seguir adiante.

Estendeu a mão, para tentar localizar a estação da Faixa de Cidadãos na parte inferior do painel de instrumentos. Em breve ficariam dentro do alcance da Grande Detroit, e era possível que Erica estivesse com o receptor da cozinha ligado, como fazia nos fins de semana. Depois deixou cair a mão, resolvendo não chamar. Percebeu que se sentia cada vez mais nervoso ante a perspectiva de falar com Erica, nervosismo que aumentou meia hora mais tarde, ao passarem por Bloomfield Hills, e, logo após, ao abandonar a radial e dobrar a oeste, na direção do Lago Quarton.

Pretendia persuadir Pierre, que morava em Dearborn, a levar o carro direto, depois de largá-lo em casa. Em vez disso, convidou-o a entrar e ficou aliviado quando aceitou. Pelo menos, pensou, vou ter o resguardo de uma pessoa estranha por algum tempo, antes de enfrentar Erica sozinho.

Não precisava ter-se preocupado.

Quando o carro estacou com um rangido no cascalho da alameda da casa dos Trentons, as luzes se acenderam, a porta da frente se abriu e Erica saiu para acolhê-lo calorosamente.

— Que bom que você chegou, meu bem! Já estava com saudade.

Beijou-o, e ele percebeu que era sua maneira de demonstrar que o incidente de sábado estava esquecido e não seria mais mencionado .

Não sabia que parte da boa disposição de Erica provinha de umrelógiodetoaletequeela estava usando, adquirido noutra excursão predatória pelas lojas da cidade durante a ausência do marido.

Pierre Flodenhale saiu de trás do volante. Adam apresentou-o.

Erica concedeu-lhe o seu sorriso mais deslumbrante.

— Já vi você correr. — Acrescentou: — Mas se soubesse que iria trazer o Adam pra casa, teria ficado nervosa.

— Ele é muito mais vagaroso do que eu — retrucou Adam. — Não infringiu o limite de velocidade uma só vez.

— Que monótono! Espero que a festa tenha sido mais animada.

— Nem tanto, Mrs. Trenton. Comparada com algumas em que já estive, até foi calma. Acho que é sempre assim quando só tem homens.

Não exagera, meu chapa! — sentiu Adam vontade de recomendar. Notou que Erica olhou de relance, desconfiada, para Pierre, e suspeitou que o jovem corredor profissional não estava habituado à companhia de mulheres inteligentes e perspicazes. Mas Pierre estava nitidamente impressionado com Erica, mais moça e linda do que nunca no palazzo-pijama de seda, etiqueta Pucci, os longos cabelos louro-cinza caindo-lhe pelos ombros.

Entraram na casa, prepararam drinques e levaram para a cozinha, onde Erica fez sanduíches de ovos fritos para todos, e café. Adam deixou-os um instante a sós — para dar um telefonema e, apesar de cansado como estava, reunir as pastas de documentos que precisava examinar hoje à noite a fim de preparar para amanhã. Quando voltou, Erica escutava com a maior atenção uma preleção sobre corridas de automóveis — uma explanação, aparentemente, dos comentários de Pierre ao grupo que o cercava no chalé.

Pierre tinha aberto uma folha de papel, onde traçara o esboço de uma pista de alta velocidade.

—  . . . de modo que, aproximando-se do trecho principal diante dos pavilhões, a gente quer a linha mais reta possível. A trezentos quilômetros por hora, se se deixar o carro desviar de um lado pro outro, perde-se um tempo enorme. O vento, em geral, corta a pista, portanto a gente se mantém perto do muro, colado àquele muro velho o mais rente possível. . .

— Tenho visto corredores fazerem isso — disse Erica. — Sempre me assusto. Se você bater no muro numa velocidade dessas. . .

— Nesse caso, é mais seguro bater em cheio, Mrs. Trenton. Já estive em alguns muros. . .

— Chame-me de Erica — pediu. — Esteve mesmo?

Adam, escutando, achou graça. Tinha levado Erica a corridas de automóveis, mas nunca a vira demonstrar semelhante interesse. Pensou: talvez seja porque ela e o Pierre simpatizaram um com o outro instintivamente. O fato era óbvio, e o jovem corredor profissional estava radiante, retribuindo o interesse de Erica com entusiasmo infantil. Adam sentiu-se grato pela oportunidade de recuperar a própria compostura sem se converter no foco de atenção da esposa. Apesar de se encontrar outra vez em casa, a lembrança de Rowena continuava indelével no seu espírito.

— Em toda pista que a gente corre, Erica — disse Pierre, — temde se aprender a tratá-la como se fosse. . . — Hesitou, à procura da comparação, e por fim acrescentou: — como se fosse um violino.

— Ou uma mulher — retrucou Erica.

Os dois riram.

— A gente tem de saber onde fica cada buraco da pista, os pontos baixos,  o estado da superfície  quando o sol queima de rachar, ou depois de um chuvisqueiro. Aí então a gente pratica e pratica, guia e guia, até encontrar o melhor caminho, a linha mais rápida em torno.

Sentado no canto oposto da sala, as pastas de arquivo agora a seu lado, Adam opinou:

— Se parece um bocado com a vida.

Os outros dois não demonstraram que tivessem ouvido. Era óbvio, segundo Adam, que não se importariam que se dedicasse ao trabalho.

— Quando você está numa corrida longa, de quinhentas milhas, digamos — perguntou Erica, — sua atenção não começa a “divagar? Você nunca pensa em coisas completamente diversas?

Pierre teve aquele seu sorriso de garoto.

— Não, de jeito nenhum! Não quando se quer ganhar, ou ao menos sair caminhando, em vez de carregado. — Explicou: — Tem uma porção de coisas pra verificar e lembrar a toda hora. O modo como os outros estão correndo, os planos pra passar na frente deles, ou não deixar que passem na frente da gente. Ou no problema que talvez possa surgir, como um desgaste de pneu, capaz de reduzir um décimo de segundo da velocidade. Então se fica com todos os sentidos alertas, lembrando, fazendo contas de cabeça, pensando em tudo, e aí decidindo o momento de parar pra trocar o pneu, de que pode depender a vitória ou a perda da corrida. A gente cuida do nível de óleo cinqüenta metros antes de cada curva, depois, na reta de fundo, verifica todos os indicadores, prestando grande atenção ao barulho do motor. E é preciso também atentar pros sinais do pessoal na faixa de largada. Tem dias que se pode até usar uma secretária. . .

Adam, concentrado na leitura de memorandos, já não escutava as vozes de ambos.

— Nunca imaginei nada disso — comentou Erica. — Agora informada, vou assistir com outro estado de espírito.

— Gostaria que você me visse correr, Erica. — Pierre olhou um instante para o canto oposto da sala. Baixou ligeiramente a voz: — O Adam me falou que você iria pras 500 milhas de Talladega, mas antes vai haver outras corridas.

— Onde?

— Na Carolina do Norte, por exemplo. Talvez desse pra você ir.

Olhou-a fixamente, e ela, pela primeira vez, sentiu nele um ar de arrogância, de vedetismo: a certeza de ser a coqueluche da multidão. Desconfiou que Pierre já devia ter tido grande êxito com mulheres.

— A Carolina do Norte não é tão longe assim. — Erica sorriu. — Dá pra pensar, não é?

Pouco tempo depois, o fato de Pierre Flodenhale estar de pé chamou a atenção de Adam.

— Acho que já vou indo, Adam — disse ele. — Muito obrigado pela carona e pelo convite pra entrar.

Adam guardou a pasta na maleta — um levantamento de oscilações populacionais previstas para os próximos dez anos, preparado para análise em conjunto com as inclinações de preferência do mercado consumidor de carros.

— Não me portei como bom anfitrião — desculpou-se. — Espero que minha mulher tenha remediado a situação.

— Claro que sim.

— Pode levar o carro. — Tirou as chaves do bolso. — Se você telefonar amanhã pra minha secretária, diga-lhe onde o deixou que ela manda alguém buscar.

Pierre hesitou.

— Obrigado, mas a Erica disse. . .

Erica entrou toda afobada no living, pondo um casaco leve sobre o palazzo-pijama que trajava.

— Eu levo o Pierre em casa.

— Não precisa. . . — começou Adam a dizer.

— A noite está linda — insistiu ela. — E estou com vontade de tomar um pouco de ar.

Poucos momentos depois, ouvia lá fora a batida das portas do carro e o motor sendo ligado e afastando-se. A casa ficou silenciosa.

Adam trabalhou ainda meia hora e depois subiu a escada. Estava-se deitando quando escutou o carro voltar e Erica entrar, mas quando ela chegou no quarto ele já dormia.

Sonhou com Rowena.

Erica sonhou com Pierre.

 

Uma das crenças entre os planejadores de produto automobilístico é a de que as melhores idéias para carros novos são concebidas subitamente, feito granadas de iluminação imprevistas que irrompem durante reuniões informais a altas horas da noite, quando todo mundo já está com os pés em cima da escrivaninha nos escritórios .

Há precedentes que comprovam a teoria. O Mustang da Ford — a inovação mais assombrosa saída de Detroit depois da Segunda Guerra Mundial, precursora de toda uma série de produtos Ford, GM, Chrysler e American Motors subseqüentes — originou-se desse modo, bem como outros, menos espetaculares. Eis aí o motivo que leva as equipes de produção a permanecer às vezes no trabalho quando as demais já estão dormindo, e a se deixar embalar pelo fumo e pela conversa, na esperança — de autênticas Gatas Borralheiras — de que uma vara de condão qualquer efetue o passe de mágica.

Numa noite de começo de junho — duas semanas depois da festa de fim de semana no chalé de Hank Kreisel — Adam Trenton e Brett DeLosanto nutriam a mesma espécie de desejo.

Porque o Orion também se iniciara à noite, eles e outros torciam para que a musa do Farstar — o próximo projeto de vulto pela frente — pudesse ser cortejada de maneira idêntica. Há vários meses vinham mantendo inúmeras reuniões — algumas incluindo grupos grandes, outras pequenos, e outras ainda formadas por duplas como Adam e Brett — mas de nenhuma delas saíra por enquanto qualquer idéia que confirmasse a direção que precisava ser tomada em breve. O trabalho de base (segundo a classificação de Brett DeLosanto) achava-se pronto. Recolhiam-se papéis de planejamento que perguntavam e respondiam mais ou menos o seguinte: Onde estamos hoje? Quem está vendendo a quem? Que estamos fazendo direito? Errado? Que é que as pessoas acham que querem num carro? Que é que elas realmente querem? Onde estarão elas, e nós, daqui a cinco anos? Politicamente? Socialmente? Intelectualmente? Sexualmente? Como serão as populações? Os gostos? As modas? Que novas questões, controvérsias, surgirão? Coma se formarão as faixas etárias? E quem será rico? Pobre? Remediado? Onde? Por quê? Todas essas e uma infinidade de outras perguntas, fatos, estatísticas, entravam e saíam rapidamente dos computadores. Agora o que se precisava era algo que nenhum computador poderia simular: uma intuição profunda, um palpite certo, uma súbita inspiração, um rasgo de gênio.

Um dos problemas: para determinar o formato do Farstar, teriam de saber a reação provocada pelo Orion. Mas ainda faltavam quatro meses para a apresentação do Orion; mesmo aí, o impacto não poderia ser avaliado por completo senão meio ano depois. Portanto os planejadores tinham de proceder, como a indústria automobilística sempre procedeu devido aos longos prazos de espera requeridos pelos novos modelos — por meio de suposições.

A reunião de hoje à noite, para Adam e Brett, começou na sala de dissecações da companhia.

A sala de dissecações era mais que uma sala; era um departamento que ocupava um prédio rigorosamente guardado — um depósito de segredos onde pouca gente estranha penetrava. As que penetrassem, porém, encontravam ali fontes de informação decididamente honestas, pois a função da sala de dissecações era analisar os produtos da companhia e dos concorrentes, e depois compará-los, objetivamente, entre si. Todos os três grandes fabricantes de automóveis mantêm salas idênticas, ou sistemas comparáveis.

No recinto da dissecação, se o carro ou componente de uma Companhia concorrente for mais forte, mais leve, econômico, bem montado, ou superior em qualquer outro sentido, os analistas não usam de subterfúgios. Nenhuma lealdade jamais influencia sua opinião.

Os técnicos e projetistas que cometem erros às vezes ficam constrangidos com as revelações da sala de dissecações, embora ficariam certamente muito mais se chegassem ao conhecimento da imprensa ou do público — o que raramente acontece. As companhias rivais também não divulgam relatórios desfavoráveis a respeito de falhas nos carros das concorrentes: sabem que é uma tática que amanhã poderá ser usada contra elas. Em todo caso, os objetivos da sala de dissecações são positivos — fiscalizar os produtos e projetos da companhia, e aprender com o exemplo alheio.

Adam e Brett tinham vindo estudar três carros pequenos em condição de serem dissecados — o minicompacto da própria companhia, um Volkswagen e outra importação, japonesa.

Um perito, que fazia serão a pedido de Adam, os fez passar por portas externas trancadas, que davam acesso a um saguão iluminado, depois através de outras ainda até uma sala ampla, de teto alto, cheia de prateleiras embutidas que cobriam as paredes de cima a baixo.

—  Desculpe estragar-lhe a noite — disse Adam. — Não deu pra chegarmos mais cedo.

— Não tem importância, Mr.  Trenton.  Sou pago em dobro. — O velho perito, mecânico especializado que já trabalhara em linhas de montagem e agora ajudava a desmontar carros, abriu caminho até uma parte das prateleiras, algumas das quais tinham sido esvaziadas. — Tudo o que o senhor pediu já está pronto.

Brett DeLosanto olhou em torno. Apesar de ter estado ali uma porção de vezes, o processo de dissecação nunca deixava de fasciná-lo.

O departamento adquiria os carros de maneira idêntica ao público — através de revendedores. As compras são feitas em nome de particulares, de modo que nenhum revendedor jamais sabe que to carro vendido se destina a estudos detalhados e não ao uso normal. A precaução garante que todos os carros recebidos sejam modelos de produção rotineira.

Assim que o carro chega, é levado ao porão e desmontado. Isso não implica meramente em separar suas peças componentes, mas abrange o desmonte total. Depois, cada item fica numerado, catalogado, descrito, e o peso é registrado. Limpam-se as peças oleosas e engraxadas.

Quatro homens levam de dez a quinze dias para reduzir um carro normal a fragmentos classificados, montados em pranchas de mostruário.

Às vezes contam uma história — que ninguém sabe se é mesmo verdadeira — sobre uma equipe de dissecação que, só por brincadeira, trabalhou nas horas vagas para desmontar o carro de um dos elementos do grupo que andava de férias pela Europa. Quando o excursionista voltou, encontrou o carro na garagem de sua casa, incólume, mas dividido em mais de quatorze mil peças separadas. Era um mecânico competente que aprendera muita coisa no serviço de dissecação, e resolveu juntar tudo de novo. Levou um ano.

As técnicas para a desmontagem total são tão especializadas que exigem a invenção de ferramentas sui generis — algumas semelhantes a um pesadelo de funileiro.

As pranchas de mostruário contendo os veículos desmontados ficam guardadas em prateleiras corrediças. Assim, feito cadáveres dissecados, os carros atuais da indústria se encontram à disposição para exame e comparação particulares.

Podia-se trazer aqui um técnico da companhia e dizer-lhe:

—  Olha os faróis do concorrente! Formam parte integrante do suporte do radiador, em vez de serem peças separadas, complexas. O método deles é melhor e mais barato. Vamos dar um jeito nisso!

É a chamada técnica de valorização e poupa dinheiro, pois cada vintém de custo economizado no projeto de um carro equivale a milhares de dólares de lucro eventual. Uma vez, durante a década de 60, a Ford economizou a soma colossal de vinte e cinco cents por carro ao trocar o cilindro mestre do sistema de freios, depois de estudar o cilindro mestre da General Motors.

Outros, como Adam e Brett neste momento, efetuam o exame a fim de acompanhar a evolução das mudanças de projeto e procurar inspiração.

O Volkswagen nas pranchas de mostruário que o perito havia retirado era um modelo novo.

— Faz anos que desmonto fuscas — comentou, com leve mau-humor. — Toda vez é a mesma droga. . . a qualidade melhor do que nunca.

Brett concordou com a cabeça.

— Quem dera que se pudesse dizer o mesmo dos nossos.

— De fato, Mr. DeLosanto. Mas não se pode. Ao menos aqui. Diante das pranchas de mostruário expondo o minicompacto da própria companhia, o velho disse:

— Note-se que desta vez o nosso saiu bastante bom. Se não fosse aquele cascudo alemão, faríamos boa figura.

— Isso é porque a montagem dos carros pequenos americanos está ficando mais automática — observou Adam. — A Vega iniciou uma grande mudança com a nova fábrica em Lordstown. E quanto maior for a automatização que tivermos, usando cada vez menos gente, melhor será a qualidade de todo mundo.

— Salvo no Japão — retrucou o perito. — Pelo menos na fábrica que produziu essa lata velha.  Pelo amor de Deus, Mr.  Trenton! Espie só!

Examinaram certas peças da importação japonesa, o terceiro carro que tinham vindo examinar.

— Uma mixórdia de fios de asame — sentenciou Brett.

— Vou dizer uma coisa pro senhor. Eu é que não deixaria ninguém que me interessasse andar num troço desse. É um motociclo de quatro rodas, e mesmo assim péssimo.

Permaneceram nas prateleiras de dissecação, analisando os três carros em detalhe. Mais tarde o velho perito os conduziu de volta pelo mesmo caminho.

À saída, perguntou:

— Os senhores sabem o que vem por aí agora? Pra nós, quero dizer.

— Foi bom ter lembrado — respondeu Brett.  — Nós viemos aqui pra lhe fazer a mesma pergunta.

Teria que ser um tipo de carro pequeno — quanto a isso tinham certeza. A questão fundamental era: de que tipo?

Mais tarde, de volta à sede da companhia, Adam comentou:

— Durante muito tempo, até 1970, uma porção de gente neste negócio pensou que o carro pequeno fosse moda passageira.

— Eu fui um — confessou Elroy Braithwaite, vice-presidente de Aperfeiçoamento do Produto.

O Raposa Prateada reunira-se a eles logo depois do regresso de Adam e Brett da sala de dissecações. Agora, um grupo de cinco — Adam, Brett, Braithwaite e mais dois funcionários do departamento de planejamento de produto — espalhava-se pelo conjunto de escritório de Adam, ostensivamente fazendo pouco mais que matar o tempo, mas na realidade esperando, por meio de conversa orientada, despertar idéias mútuas. As mesas e beiradas de janelas estavam repletas de xícaras de café abandonadas e cinzeiros transbordantes. Já passava da meia-noite.

— Pensei que a febre dos carros pequenos não fosse durar — continuou Braithwaite, passando a mão pela juba prateada, hoje à noite despenteada, o que era insólito. — Muita gente boa achava a mesma coisa, mas nós todos nos enganamos. Pelo que me é dado ver, esta indústria vai-se concentrar nos carros pequenos, desistindo dos grandes por muito tempo ainda.

— Pra sempre, talvez — disse um dos outros planejadores de produto, um jovem negro inteligente, de óculos enormes, chamado Castaldy, recrutado em Yale um ano atrás.

— Nada é eterno — protestou Brett DeLosanto. — A altura das saias, o estilo dos penteados, a gíria popular ou os carros. De momento, porém, concordo com o Elroy. . . o carro pequeno é o símbolo do status, da posição social, e parece que vai pegar.

— Há quem acredite — disse Adam, — que o carro pequeno seja o desmentido de um símbolo. Dizem que ninguém mais liga pra status.

— Ah, mas você, como eu, não pode acreditar numa coisa dessas — retrucou Brett.

— Nem eu tampouco — disse o Raposa Prateada. — Muita coisa mudou nestes últimos anos, menos o caráter fundamental da natureza humana. Sim, lógico, há um fenômeno de “status inverso”, que se tornou popular, mas resulta no que sempre foi. . . um esforço individual pra ser diferente ou superior. O próprio marginal que não toma banho não deixa de estar procurando uma espécie de status.

— Então o que nós precisamos — sugeriu Adam, — talvez seja de um carro que atraia fortemente os que procuram um “status inverso”.

O Raposa Prateada sacudiu a cabeça.

— Não é bem assim. Ainda temos de considerar os quadrados. . . essa vasta e sólida reserva de compradores.

— Mas a maior parte dos quadrados pensa que não é — lembrou Castaldy. — Por isso os presidentes de banco usam suíças.

— E quem não usa? — Braithwaite apontou para as suas.

No meio das risadas discretas, Adam interveio:

— Talvez não seja tão engraçado assim. Talvez indique o tipo de carro que não queremos. Isto é. . .  tudo o que se pareça com carros convencionais produzidos até agora.

— Que é um empreendimento difícil pra burro — opinou o Raposa Prateada.

— Mas não impossível — disse Brett, depois de refletir.

Castaldy, o jovem formando de Yale, lembrou:

— O ambiente atual faz parte do “status inverso”. . . já que o chamamos assim. Refiro-me à opinião pública, ao não-conformismo, às minorias, às injunções econômicas, e tudo mais.

— É verdade — disse Adam, e acrescentou: — Eu sei que já repassamos isso uma porção de vezes, mas vamos fazer de novo uma lista dos fatores relativos ao ambiente.

Castaldy consultou suas anotações.

— A poluição do ar: todo mundo quer que se faça alguma coisa.

— Perdão — objetou Brett. — Todo mundo quer que os outros façam alguma coisa.  Ninguém quer abrir mão do seu transporte pessoal, de andar em carro próprio. É o que afirmam todos os nossos levantamentos.

— Verdade ou não — afirmou Adam, — os fabricantes de automóveis estão-se esforçando pra controlar a poluição e os particulares não podem fazer grande coisa nesse sentido.

— Mesmo assim — insistiu o jovem Castaldy, — há muita gente convencida de que o carro pequeno polui menos que o grande, o que os leva à idéia de que podem contribuir desse modo. Nossos levantamentos também provam isso. — Tornou a consultar as anotações. — Posso continuar?

— Farei o possível  pra não interromper — avisou  Brett.   — Mas não garanto.

— Quanto à economia — prosseguiu Castaldy, — a quilometragem de gasolina não constitui mais o fator predominante de antigamente, ao passo que o custo do estacionamento sim.

Adam concordou.

— Nem se discute.  O espaço de estacionamento nas ruas está cada vez mais difícil de encontrar.  E o custo do estacionamento público e particular aumenta dia a dia.

— Mas acontece que os parques de estacionamento em muitas cidades estão cobrando menos dos carros pequenos, e a idéia está-se disseminando.

— Tudo isso nós sabemos — disse o Raposa Prateada, irritado. — E já optamos pelo carro pequeno.

Por trás dos óculos, Castaldy pareceu melindrado.

— Elroy — frisou Brett DeLosanto, — o rapaz está-nos ajudando a pensar. Portanto, se você quer que ele continue, pare de impor sua autoridade.

— Meu Deus! — reclamou o Raposa Prateada. — Como vocês são sensíveis. Eu estava apenas sendo natural.

— Banque o bonzinho — aconselhou Brett, — em lugar de bancar o vice-presidente.

— Seu sacana! — Mas Braithwaite sorria.  Pediu a Castaldy: — Desculpe! Toque adiante.

— O que eu queria mesmo dizer, Mr. Braithwaite...

— Elroy. . .

— Sim, senhor. O que eu queria dizer. . . é que tudo isso faz parte do quadro geral.

Discutiram problemas de ambiente e da humanidade: a explosão demográfica, a carestia de espaço vital por toda a parte, a poluição em tudo quanto é forma, os antagonismos, a rebelião, os novos conceitos e valores adotados pela juventude — a juventude que em breve governará o mundo. No entanto, apesar das mudanças, ainda haverá necessidade de carros por muito tempo ainda; a experiência já demonstrou isso. Mas que tipo de carros? Alguns terão de ser como os atuais, ou semelhantes, mas também será preciso que haja outros tipos, que atendam de maneira melhor às necessidades sociais.

— Por falar em necessidades — perguntou Adam, — não daria pra resumi-las?

— Se você quiser numa só palavra — respondeu Castaldy, — eu diria “utilidade”.

Brett DeLosanto tentou no seu idioma:

— A Era da Utilidade.

— Concordo, em parte — disse o Raposa Prateada, — Mas, não inteiramente. — Fez um gesto, pedindo silêncio, enquanto ordenava suas idéias. Os outros esperaram. Por fim falou, lentamente: — Está bem, portanto a utilidade é o “quente”. Ê o símbolo mais recente de status, ou de status inverso. . . e já concordamos que seja lá qual for o nome que lhe dermos, redunda na mesma coisa. Também admito que provavelmente é o que vai acontecer no futuro. Mas isso ainda não abrange o resto da natureza humana: o impulso de mobilidade, que nasce praticamente conosco e, mais tarde, a ânsia de poder, velocidade, emoção, da qual nunca nos libertamos por completo. Todos nós, no fundo, somos Walter Mitty,(1)1 e utilidade ou não, o escapismo também está na ordem do dia. Nunca deixou de estar, aliás. E nunca deixará.

— É o que também me parece — disse Brett. — Pra provar o que você lembrou, reparem nos caras que inventaram esses carrinhos pra andar nas dunas. É gente que gosta de carro pequeno e descobriu uma válvula de escape semelhante às do Walter Mitty.

— E há  milhares  e  milhares  desses  carrinhos — acrescentou Castaldy, pensativo. — E o número cada vez aumenta mais. Hoje em dia existem até nas cidades.

O Raposa Prateada deu de ombros.

— Eles pegam um Volkswagen de utilidade, mas sem bossa, tiram tudo, só deixando o chassi, e depois põem a bossa.

Uma idéia agitou o cérebro de Adam. Relacionava-se com a conversa. . . com o Volkswagen dissecado que tinha visto há pouco, hoje de noite. . . e com outra coisa qualquer, difusa: uma frase que não lhe ocorria à lembrança. . . Puxou pela memória enquanto os outros falavam.

Quando não conseguiu recordar a frase, lembrou-se de uma ilustração que tinha visto numa revista dias atrás. A revista ainda estava no seu escritório. Remexeu numa pilha e encontrou-a. Enquanto folheava-a, os outros o olhavam com curiosidade.

A ilustração era colorida. Mostrava um carrinho de dunas numa praia inóspita, em ação, inclinado violentamente de lado. Todas as rodas lutavam para se locomover, lançando uma nuvem de areia na retaguarda. O fotógrafo, inteligente, tinha diminuído o controle de velocidade da exposição, de modo que o carrinho parecia uma mancha em movimento. O texto com a foto dizia que o número de proprietários de carrinhos de dunas “aumentava feito doido”; quase cem fabricantes já se dedicavam à produção de carroçarias; só na Califórnia havia oito mil desses carrinhos.

Brett, espiando por cima do ombro de Adam, perguntou, achando graça:

— Você não está pensando em fabricar carrinhos de dunas, está?

Adam sacudiu a cabeça. Por maior que ficasse o número de proprietários de carrinhos daquele tipo, continuaria sendo uma moda passageira, uma criação de especialista, não o negócio das Três Grandes. Isso ele sabia. Mas a frase que não lhe vinha à lembrança, estava, de certo modo, ligada... Ainda sem recordar-se dela, jogou a revista aberta em cima de uma mesa.

O acaso, como tantas vezes acontece na vida, se encarregou do resto.

Maisacima da mesa onde Adam jogou a revista havia uma fotografia emoldurada do Módulo Lunar da Apoio 11 durante a primeira alunissagem. Tinham-na dado a Adam de presente, que gostou da fotografia, mandou pôr em quadro e pendurou-a. Na foto, o módulo predominava; mais abaixo, via-se um astronauta em pé.

Brett pegou a revista com o retrato do carrinho de dunas e mostrou-o aos outros.

— Esses troços correm pra burro!... — comentou. — Já guiei um. — Examinou a ilustração novamente. — Mas o filho-da-puta é feio pra chuchu.

Tal como o módulo lunar — pensou Adam.

Feio mesmo: todo arestas, quinas, projeções, esquisitices, falta de equilíbrio; pouca simetria, quase nenhuma curva nítida. Mas como o módulo cumpria sua finalidade de modo extraordinário, fazia esquecer a feiúra e, no fim ganhava uma beleza toda especial.

A frase perdida lhe veio.

Era de Rowena. Na manhã seguinte à noite que passaram juntos, ela dissera:

— Sabe o que eu seria capaz de dizer hoje? Eu diria que até “o feio é bonito”.

O Feio é Bonito!

O módulo lunar era feio. O carrinho de dunas também. Mas ambos eram funcionais, úteis; tinham sido fabricados com uma finalidade e a desempenhavam. Portanto, por que não um carro? Por que não uma tentativa deliberada, atrevida, de produzir um carro que fosse feio segundo os cânones existentes, mas tão adequado às necessidades, ao meio-ambiente, e à época atual — a Era da Utilidade — que se tornaria bonito!

— Eu talvez tenha encontrado uma idéia pro Farstar — disse Adam. — Mas não me afobem. Deixem-me expô-la devagar.

Os outros ficaram calados. Disciplinando as idéias, escolhendo cuidadosamente as palavras, Adam começou.

Eram demasiado experientes — todos os membros do grupo — para se decidirem, instantaneamente, por uma única idéia. Mas ele sentiu uma tensão súbita, que antes faltava, e um interesse crescente à medida que continuava falando. O Raposa Prateada quedou pensativo, de olhos entrecerrados., O jovem Castaldy cocou o lóbulo da orelha — um hábito, quando se concentrava — enquanto o outro planejador de produto, que até então pouco abrira a boca, não tirava os olhos de cima de Adam. Os dedos de Brett DeLosanto pareciam irrequietos. Como que por instinto, Brett puxou um bloco de desenho para perto de si.

Foi Brett, também, quem deu um salto quando Adam terminou, e se pôs a caminhar de um lado para outro. Proferia idéias, frases inacabadas, que nem fragmentos de um quebra-cabeça. . . Há séculos que os artistas plásticos vêem beleza na feitura... Pensem na escultura destorcida, torturada, desde Miguel Ângelo até Henry Moore. . . E nos tempos modernos, o metal da sucata soldado numa mixórdia — disforme para alguns, que escarnecem, mas muita gente não. . . Tomem a pintura: as formas de avant-garde; caixas de ovos, latas de sopa em colagens. . . Ou a própria vida! — uma garota bonita ou uma megera grávida: qual a mais bonita?. . . Sempre depende do ponto de vista. Forma, simetria, estilo, beleza, nunca foram conceitos arbitrários.

Brett deu um soco na palma da mão.

— Com Picasso nas nossas narinas, andamos projetando carros que parecem saídos de uma tela de Gainsborough.

— Tem uma frase num trecho do Gênesis — disse o Raposa Prateada. — Acho que é assim: Vossos olhos serão abertos. — Acrescentou, prudente: — Mas não nos deixemos arrebatar pelo entusiasmo. Talvez tenhamos encontrado algo. Caso contrário, há um longo caminho pela frente.

Brett já estava desenhando, o lápis correndo, criando formas logo descartadas. Ao rasgá-las do bloco, as folhas iam caindo no chão. Era o modo de raciocínio de um projetista, tal como os outros trocavam mais idéias por meio de palavras. Adam se propôs a recolher as folhas mais tarde e guardá-las; se alguma coisa resultasse desta noite, ficariam históricas.

Porém sabia que o que Elroy Braithwaite tinha dito era verdade. O Raposa Prateada, com mais anos de experiência que todos eles reunidos ali, havia visto carros novos passarem de idéias iniciais a produtos prontos, mas também sofrera durante projetos que na começo pareciam promissores, só para depois serem suprimidos por motivos imprevisíveis ou, às vezes, sem a menor explicação.

Dentro da companhia, a concepção de um carro novo encontrava múltiplas barreiras pela frente, inúmeras críticas a superar, intermináveis reuniões, tendo que vencer a oposição. E mesmo que uma idéia sobrevivesse a tudo isso, o vice-presidente executivo, o presidente, e o diretor-presidente da junta tinham o direito do veto. . .

Mas algumas idéias vingavam e se convertiam em realidade.

Como o Orion. Portanto. . . talvez fosse possível. . . que essa concepção inicial, incipiente, a semente lançada aqui e agora, resultasse no Farstar.

Alguém trouxe mais café, e continuaram conversando, noite a dentro.

 

A agência de publicidade OJL, na pessoa de Keith Yates-Brown, andava nervosa e impaciente porque o filme documentário “A cidade dos automóveis” prosseguia as filmagens sem roteiro de espécie alguma.

— Tem que ter um roteiro — protestara Yates-Brown a Barbara Zaleski pelo telefone de Nova York,   um ou dois dias atrás. — Se não tiver, como podemos defender os interesses do cliente aqui, e fazer sugestões?

Barbara, em Detroit, sentiu vontade de dizer ao supervisor da administração que a última coisa que o projeto precisava era da interferência da Madison Avenue. Isso podia transformar o filme honesto, perceptivo, que já ia ganhando forma, numa salada lustrosa e inócua. Mas, em vez disso, repetiu a: opinião do diretor, Wes Gropetti, um homem de talento com sólida bagagem de sucessos artísticos para fazer impor seu ponto de vista.

— Não se pode captar o espírito da zona de marginais de Detroit botando um monte de palavrões no papel simplesmente porque nós ainda não sabemos que espírito seja esse — Gropetti declara. — Estamos aqui com toda essa complicação de câmara e aparelhamento de som pra descobrir.

O diretor, de barba enorme, mas estatura pequena, parecia um pardal hirsuto. Nunca era visto sem estar de boina preta na cabeça e mostrava-se menos sensível com as palavras do que com as imagens visuais.

— Eu quero que os piadistas, o mulherio e os moleques da zona de marginais nos digam — prosseguira ele, — o que realmente acham de si mesmos, e como é que encaram o resto da vil e abjeta humanidade. Isso inclui seus ódios, esperanças, frustrações, alegrias, bem como a maneira como respiram, comem, dormem, fornicam, suam, e o que vêem e cheiram. Vou filmar tudo isso. . . caretas, vozes, sem ensaiar. Quanto à linguagem, vamos deixar que falem os palavrões que quiserem. Talvez eu tenha que sacanear algumas pessoas pra fazer com que fiquem loucas de raiva, mas de um jeito ou doutro hão de falar, e depois, quando falarem, vou deixar a câmara perambular, com olho vivo de prostituta, e aí então veremos Detroit do jeito que eles vêem, do ponto de vista da zona de marginais.

E estava dando certo, Barbara assegurou a Yates-Brown.

Usando a técnica do cinema-verdade, de câmara na mão e um mínimo de aparato para não perturbar ninguém, Gropetti percorria a zona de marginais com sua equipe, persuadindo as pessoas a falar livremente, com franqueza, e às vezes comovedoramente, no filme. Barbara, que em geral acompanhava as expedições, sabia que parte do gênio de Gropetti residia no seu instinto de seleção, e depois em fazer com que aqueles que escolhia esquecessem que tinham uma lente e refletores em cima deles. Ninguém sabia o que o minúsculo diretor cochichava na orelha dos figurantes antes de começaram a falar; às vezes ele inclinava a cabeça, minutos a fio, com ar confidencial. Mas assim obtinha reações: de divertimento, desafio, relacionamento, discórdia, mau humor, petulância, vivacidade, raiva e até — de um jovem militante negro que ficou impressionantemente loquaz e eloqüente — de ódio abrasador.

Quando estava certo de uma reação Gropetti logo recuava, para que a câmara — já rodando a um sinal dissimulado do diretor — captasse em cheio as expressões faciais e as palavras espontâneas. Depois, com paciência infinita, Gropetti repetia o processo até obter o que procurava — uma visão de personalidade, boa ou má, amável ou selvagem, mas vital e real, e sem a intrusão canhestra de entrevistadores .

Barbara já havia visto o copião e as primeiras montagens dos resultados, e estava entusiasmada. Fotograficamente, possuíam a qualidade e a agudeza dos retratos de Karsh, com o acréscimo da mistura mágica de vibrante animação de Gropetti.

— Já que vamos intitular o filme de “A cidade dos automóveis” — comentou Keith Yates-Brown quando ela lhe contou tudo isso, — talvez fosse bom lembrar o Gropetti de que há automóveis por aí além de gente, e que nós esperamos ver alguns. . . de preferência do nosso cliente. . . na tela.

Barbara sentiu que o supervisor da agência já estava arrependido de lhe ter dado carta branca. Mas também devia saber que qualquer projeto cinematográfico necessita de um pulso firme no comando e, enquanto a agência OJL não a destituísse nem despedisse, era o que ela continuaria a fazer.

— Vai haver carros no filme — garantiu ela a Yates-Brown, — e serão os do cliente. Não pretendemos realçá-los, mas tampouco os estamos escondendo, portanto a maioria das pessoas reconhecerá de que tipo são.

E entrou em pormenores sobre as filmagens já feitas nas oficinas de montagem da companhia automobilística, dando ênfase ao reforço de recrutamento de serviço na zona de marginais — e a Rollie Knight.

Durante as filmagens na fábrica, os outros operários nas imediações não se deram conta de que Rollie era o centro das atenções da câmara. Em parte, isso atendia ao pedido de Rollie, que quis que fosse assim, e em parte ajudava a manter a atmosfera realista.

Leonard Wingate, do Departamento de Pessoal, tendo ficado interessado pelo projeto de Barbara na noite em que os dois se conheceram no apartamento de Brett DeLosanto, tinha providenciado tudo sem alarde. A única coisa que sabiam na fábrica era que um trecho da linha de montagem ia ser filmada, para finalidades não especificadas, enquanto o trabalho regular prosseguia. Apenas Wes Gropetti, Barbara e os cinegrafistas e técnicos de som percebiam que grande parte do tempo que pareciam estar rodando cenas de fato não estavam, e que a maioria das tomadas focalizava Rollie Knight.

O único som gravado a essa altura eram os ruídos durante as filmagens e que depois Barbara escutava na fita de gravação sonora: uma cacofonia de pesadelo, incrivelmente eficiente como fundo da seqüência visual.

A voz de Rollie Knight mais tarde seria dublada durante uma visita de Gropetti e da equipe do filme ao prédio de apartamento na zona de marginais onde Rollie e May Lou, sua companheira, moravam. Leonard Wingate estaria presente. E Brett DeLosanto — embora Barbara não comunicasse esse fato a Keith Yates-Brown — também.

— Não esqueça — recomendou Keith Yates-Brown pelo telefone, — que estamos gastando um bocado de dinheiro do cliente, pelo qual teremos que prestar contas.

— Continuamos dentro do orçamento — informou Barbara. — E até agora, pelo jeito, o cliente aprovou o que fizemos. O presidente da junta de diretoria, pelo menos.

Ouviu um barulho no telefone que podia ter sido Keith Yates-Brown saltando da cadeira.

— Você entrou em contato com o presidente da junta de diretoria!

Se ela tivesse dito o Papa ou o Presidente dos Estados Unidos, a reação não teria sido maior.

— Ele veio visitar nossas filmagens in loco. No dia seguinte, o Wes Gropetti pegou um trecho do filme e passou no escritório do presidente.

— Você permitiu que aquele hippie de boca suja do Gropetti andasse às soltas pelo décimo quinto andar!?

— Segundo o Wes, ele e o presidente se entenderam muito bem.

— Segundo ele! Quer dizer que você nem sequer foi junto?

— Naquele dia não dava.

— Ah, meu Deus!

Barbara parecia estar enxergando o supervisor da agência, lívido, segurando a cabeça com a mão.

— Você mesmo me disse — lembrou-lhe, — que o presidente estava interessado e que eu podia fazer-lhe um relatório ocasional. . .

— Mas não casual! Não sem nos avisar aqui, com antecedência, pra que planejássemos o que você iria dizer. E quanto a mandar o Gropetti lá sozinho. . .

— Eu já ia contar-lhe — disse Barbara, — o presidente do cliente me telefonou no dia seguinte. Falou, pra começo de conversa, que achava que nossa agência havia demonstrado imaginação elogiável. . . foram as próprias palavras dele. . . em contratar o Wes Gropetti, e insistiu pra que lhe déssemos carta branca porquê este era o tipo do troço que devia ser um filme de diretor. E afirmou que ia repetir tudo isso por escrito e mandar pra agência.

Escutou uma respiração ofegante na linha.

— Aqui ainda não chegou nada. Quando chegar. . . — Uma pausa. — Barbara, me parece que você está-se saindo muito bem. — A voz de Yates Brown tornou-se suplicante. — Mas por favor, não se arrisque, por favor, e me avise de qualquer coisa, na mesma hora, que tenha relação com o presidente da junta de diretoria do cliente.

Ela prometeu que avisaria, depois do que Keith Yates-Brown — ainda nervosamente — repetiu que gostaria que escrevessem um roteiro.

Agora, vários dias mais tarde e sempre sem roteiro nenhum, Wes Gropetti aprontava-se para filmar a seqüência final em torno do reforço de recrutamento de serviço e Rollie Knight.

Ao anoitecer.

Oito pessoas, ao todo, atulhadas no quarto abafado e precariamente mobiliado.

Para Detroit, em geral, e de modo especial para a zona de marginais, tinha sido um dia de verão tórrido, sem vento. Mesmo agora, com o sol posto, a maior parte do calor — no interior das casas e na rua — persistia.

Rollie Knight e May Lou eram dois dos oito porque moravam — por enquanto — aqui. Embora a peça fosse exígua sob qualquer ponto de vista, servia à dupla finalidade de viver e dormir, enquanto uma quitinete ao lado continha uma pia só de água fria, um fogão a gás caindo aos pedaços e algumas prateleiras despretensiosas. Não havia toalete nem banheiro. Essas conveniências, por assim dizer, ficavam no andar de baixo e eram partilhadas com meia dúzia de outros apartamentos.

Rollie parecia lerdo, como se estivesse arrependido de ter-se metido naquilo. May Lou, uma verdadeira criança com jeito de ter brotado feito caniço, com pernas finas e braços esqueléticos, dava impressão de amedrontada, apesar de mais calma depois que Wes Gropetti, de boina preta na cabeça com todo aquele calor, conversou baixinho com ela.

Por trás do diretor se achavam o cinegrafista e o técnico de som, com o equipamento disposto de qualquer forma no espaço exíguo. Barbara Zaleski, parada em pé a seu lado, conservava aberto o livro de anotações.

Brett DeLosanto, assistindo, achou graça de ver que Barbara, como de costume, tinha repuxado os óculos escuros para o alto da cabeça.

Os refletores estavam apagados. Todo mundo sabia que quando fossem acessos de novo, o quarto ficaria ainda mais quente.

Leonard Wingate, do Departamento de Pessoal dos fabricantes de automóveis e também o negro de cargo executivo mais importante na companhia, enxugava o suor do rosto com imaculado lenço de linho. Tanto ele como Brett se encostavam na parede, procurando ocupar o mínimo espaço possível.

De repente, embora só os dois técnicos tivessem visto o sinal de Gropetti, as luzes se acenderam e o gravador de som começou a girar.

May Lou pestanejou. Mas enquanto o diretor continuava falando baixinho, ela anuiu e compôs o rosto. Depois, ágil, suavemente, Gropetti se afastou, recuando do campo de alcance da câmara.

Com toda a naturalidade, como se estivesse concentrada exclusivamente em seus próprios pensamentos, May Lou começou   a falar.

— Não adianta nada a gente se preocupar com o futuro, como dizem que a gente deve, porque parece que nunca vai ter nada disso pra gente. — Deu de ombros. — Agora, então, tá tudo do mesmo jeito de antes.

— Corta! — A voz de Gropetti.

Os refletores se apagaram. O diretor se aproximou de May Lou, cochichando-lhe de novo ao ouvido. Depois de vários minutos, enquanto os outros aguardavam em silêncio, os refletores se acenderam. Gropetti deslizou para trás.

A fisionomia de May Lou se reanimou.

— Lógico que levaram a nossa TV colorida. — Olhou para o canto vazio do outro lado da peça. — Dois caras vieram buscá-la, dizendo que a gente só tinha pago a primeira prestação. Um deles queria saber por que a gente a tinha comprado. Aí eu disse: “Moço, se eu tenho dinheiro pra dar de entrada, hoje eu posso ver televisão. Tem dias que é a única coisa que interessa”. — A voz dela ficou mais baixa. — Eu devia ter dito pra ele: “Sabe lá o que vai acontecer amanhã?”

— Corta!

— Que negócio é esse? — murmurou Brett a Leonard Wingate.

O executivo negro continuava enxugando o rosto.

— Eles estão em apuros — respondeu em voz baixa. — Os dois se viram com um pouco de dinheiro de verdade pela primeira vez na vida, então ficaram malucos, compraram móveis, TV colorida, se comprometeram com prestações que não podiam pagar. Agora uma parte do material teve de ser devolvida. E não é só isso.

Diante deles, Gropetti estava fazendo May Lou e Rollie Knight trocar de posições. Agora Rollie enfrentava a câmara.

— Que mais aconteceu? — perguntou Brett, sempre em voz baixa.

— A palavra é “penhorada” — explicou Wingate. — Significa uma lei asquerosa, antiquada, que os políticos concordam que devia ser abolida, mas ninguém toma providências.

Wes Gropetti tinha baixado a cabeça e conversava com Rollie com seu jeito habitual.

— O Knight já teve o salário penhorado uma vez — disse Wingate a Brett. — Esta semana houve um segundo mandado judicial, e pelo acordo sindical, duas penhoras implicam na perda automática de emprego.

— Pô! E você não pode fazer nada?

— Talvez. Depende do Knight. Quando isto aqui acabar, vou falar com ele.

— Você acha que ele devia desabafar desse modo no filme?

Leonard Wingate deu de ombros.

— Eu disse a ele que não era preciso, que ninguém tem nada a ver com a vida particular dele. Mas pelo visto nem ele, nem a moça estão-se importando muito. Talvez não liguem; talvez imaginem que possam ajudar outras pessoas. Sei lá.

Barbara, que havia escutado, virou a cabeça.

— O Wes diz que faz parte do quadro geral. Ademais, ele vai cortar fora o que não ficar bem.

— Se eu não soubesse que seria assim — retrucou Wingate, — não estaríamos aqui.

O diretor continuava dando instruções a Rollie.

Wingate, falando baixinho, mas com voz  intensa, explicou a Barbara e Brett:

— Metade dos problemas que estão acontecendo com o Knight se deve a nossas próprias atitudes. . . do próprio sistema. O que significa de gente como vocês dois e eu. Está certo, nós ajudamos alguém como estes dois garotos, mas assim que fizemos isso, esperamos que eles tenham todos os nossos valores de classe-média que levamos anos de vida, ao nosso modo, pra adquirir. O mesmo se aplica ao dinheiro. Muito embora o Knight não estivesse acostumado a tê-lo, porque nunca teve nada de seu na vida, nós esperamos que saiba lidar com ele, como se tivesse andado endinheirado a vida inteira, e se não souber, o que é que acontece? É levado aos tribunais, onde lhe penhoram o salário, é posto no olho da rua. Nós esquecemos que muita gente que sempre teve dinheiro ainda contrai dívidas que não consegue pagar. Mas vá este cara fazer a mesma coisa — o executivo negro acenou na direção de  Rollie Knight — e o nosso sistema logo entra em funcionamento pra lançá-lo de volta ao monturo de lixo.

— Você vai permitir que isso aconteça? — murmurou Barbara.

Wingate sacudiu a cabeça com impaciência.

— Não posso fazer grande coisa.  E o Knight é apenas um de uma série de outros.

Os refletores se acenderam. O diretor olhou para eles, fazendo sinal, pedindo silêncio. A voz de Rollie Knight se elevou com clareza na peça sossegada e quente.

— Claro que a gente aprende muita coisa vivendo aqui. Por exemplo, que quase nada vai melhorar, por mais que digam. Além

disso, não tem nada que dure. — Um sorriso inesperado iluminou o rosto de Rollie; depois, como que arrependido, trocou-o por uma carranca. — Portanto o melhor é não esperar nada. Aí então, quando a gente perde, não sofre.

— Corta! — gritou Gropetti.

As filmagens prosseguiram por mais uma hora, Gropetti persuadindo, paciente, Rollie falando de suas experiências na zona de marginais e nas oficinas de montagem de automóveis onde continuava empregado. Embora as palavras do jovem operário negro fossem simples e às vezes desarticuladas, transmitiam realidade e um retrato verdadeiro dele próprio — nem sempre favorável, mas tampouco depreciativo. Barbara, que havia acompanhado as tomadas das seqüências anteriores, estava convicta de que a cópia final seria um documento eloqüentemente comovedor.

Quando os refletores se apagaram depois da última tomada, Wes Gropetti tirou a boina preta e secou a cabeça com grande lenço encardido. Acenou para os dois técnicos.

— Podem guardar tudo! Já dá um rolo.

Enquanto os outros se retiravam, com rápidos “boa-noites” a Rollie e May Lou, Leonard Wingate ficou para trás. Brett DeLosanto, Barbara Zaleski e Wes Gropetti iam jantar no Clube de Imprensa de Detroit, onde Wingate depois os alcançaria.

O executivo negro esperou que passassem pelo acanhado corredor externo, com sua lâmpada única de poucos watts e pintura descascada, e descessem com estrépito a gasta escada de madeira até a rua lá embaixo. Pela porta do corredor entrava o cheiro do lixo. May Lou fechou-a.

— O senhor não quer um drinque? — perguntou.

Wingate já ia sacudir a cabeça, mas mudou de idéia.

— Quero sim, por favor.

De uma prateleira na minúscula cozinha, a moça retirou uma garrafa de rum com apenas três centímetros de bebida, que dividiu igualmente entre dois copos. Adicionando gelo e coca-cola, entregou um a Wingate e o outro a Rollie. Os três sentaram na peça que servia para tudo.

— Vocês vão receber um pouco de dinheiro do pessoal do filme pelo uso do apartamento hoje à noite — disse Wingate. — Não vai ser grande coisa; nunca é. Mas farei com que vocês recebam.

May Lou sorriu contrafeita. Rollie Knight não disse nada.

O executivo tomou o drinque.

— Já sabia da penhora? A segunda?

Rollie continuou sem responder.

— Alguém falou hoje para ele no serviço — disse May Lou. — Dizem que ele não vai ganhar mais o cheque de pagamento. É fato?

— Não vai ganhar uma parte.  Mas se perder o emprego, não vai haver mais cheques de jeito nenhum. . . pra ninguém.

Wingate passou a explicar a penhora — a retenção do pagamento de um operário na fonte por ordem judicial, requerida pelos credores. Acrescentou que, apesar de as companhias automobilísticas e outros patrões detestarem o sistema da penhora, não tinham outra escolha senão obedecer à lei.

Conforme Wingate desconfiava, Rollie e May Lou não haviam compreendido a penhora anterior, e nem tampouco percebido que uma segunda — de acordo com as normas ditadas pela companhia e pelo sindicato — podia pô-los no olho da rua.

— Há um motivo pra isso — explicou Wingate. — As penhoras dão muito trabalho pro departamento de folhas de pagamentos, e custam caro pra companhia.

— Bafo! — exclamou Rollie, sem se conter.

Levantou-se e começou a andar de um lado para outro.

Leonard Wingate suspirou.

— Quer a minha opinião sincera? Acho que você tem razão. É por isso que vou tentar ajudá-lo, se puder. E se você quiser.

May Lou olhou para Rollie. Umedeceu os lábios.