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AVICENA ou CAMINHO PARA ISPAHAN / Gilbert Sinoué
AVICENA ou CAMINHO PARA ISPAHAN / Gilbert Sinoué

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A V I C E N A

CAMINHO PARA ISPAHAN

 

É a Pérsia de há mil anos que apa­rece ante os nossos olhos encantados. O que fora um poderoso império é, então, um vasto país dividido e dilacerado entre potentados locais, que assimilou com surpreendente facili­dade a religião, a língua e a cultura dos conquistadores árabes sem, con­tudo, perder totalmente a sua identi­dade, enquanto desaba já sobre ele uma nova vaga invasora, a dos Tur­cos, vindos da Ásia Central. É sobre esse pano de fundo complexo e agitado, muitas vezes dramático, com os requintes da civilização e os fulgores do saber a despontarem por entre as nuvens negras do obscuran­tismo e da violência, que se desenha a figura gigantesca de Abu Ali ibn Sina, o célebre médico e filósofo persa, conhecido, desde há muitos séculos como Avicena. Imbuído da cultura grega, o seu papel em muito con­tribuiria para que, mais tarde, a Europa viesse a redescobrir as suas próprias raízes espirituais. Preso nas convulsões e nas guerras que agitam os confins da Turquia e da Pérsia nos princípios do século XI, conhece diferentes destinos: médico acarinhado, vizir escutado, proscrito, prisioneiro. Nómada, vai de cidade em cidade, franqueando desertos e montanhas e a sua derradeira etapa leva-o a Ispahan, a cidade sublime, término da sua jornada. Este romance, baseado em factos verí­dicos, em que a guerra e a paz, a pai­xão e a política, a ciência e o sonho se misturam, é, também, uma medita­ção sobre o mundo e o homem.

 

                                   PRIMEIRA MAKAMA

Em nome de Alá, aquele que faz misericórdia, o Misericordioso!

Eu, Abu Obeid el-Jozjani, te entrego estas palavras. Elas foram-me confiadas por aquele que foi o meu mestre, o meu amigo, o meu olhar, durante vinte e cinco anos: Abu Ali ibn Sina, Avicena para as gentes do Ocidente, príncipe dos médicos, cuja sapiência e cujo saber deslumbraram todos os homens, quer fossem califas, vizires, príncipes, mendigos, cabos de guerra ou poetas. De Samarcanda a Chiraz, das portas da Cidade Redonda às das setenta e duas nações, da magnificência dos palácios aos humildes burgos do Tabaristão, ressoa ainda a grandeza do seu nome.

Eu amava-o como se ama a felicidade e a justiça, como se ama — deveria confessá-lo — os amores impossíveis. Quando leres o que vai seguir-se, saberás que espécie de homem ele era. Virás ao encontro do meu pensamento. Que Alá te acompanhe no teu encaminhamento!

Abandono-te, hoje, ao meu mestre.

Segue-o sem receio. Deixa estar a tua mão na sua e, sobretudo, não a largues nunca. Ele levar-te-á pelos caminhos da Pérsia, ao longo das pousadas dos caravaneiros, mesmo até ao fim dos grandes oásis da Sogdiana, até às beiras do Turquestão.

Segue-o através do vasto planalto que constitui o meu país, ora tórrido, ora gélido, pelas suas extensões desérticas e salgadas, onde, de longe em longe, surgirão para teu prazer, no meio de luxuriantes oásis, cidades duma beleza tão imprevista que até te parecerá irreal. Para ti, as caravanas desenfardarão as gemas e as especiarias do País Amarelo, as armaduras da Síria, os marfins de Bizâncio. Nos bazares de Ispahan, rolarão a teus pés as peles, o âmbar, o mel e as escravas brancas.

Nas vielas mercantis dos suks, as tuas narinas encher-se-ão de odores únicos e de perfumes preciosos. Dormirás sob as estrelas, em desertos de pedras ou nos flancos do Elburz, tendo como único ornato o cume do Demavend sulcado por traços verticais de neve, que procuram atrair o que resta de luz no céu.

Deitar-te-ás entre os indigentes e no esplendor dos palácios. Atravessarás aldeias esquecidas, com ruelas estreitas e casas sem janelas. Penetrarás no segredo dos poderosos, na intimidade dos serralhos, na voluptuosidade dos haréns. Verás sofrer da mesma maneira os príncipes e os mendigos, e convencer-te-ás assim (se alguma dúvida subsistisse no teu espírito) de que somos eternamente iguais perante a dor. Como uma égua espantada, o teu coração pulará dentro do teu peito, no instante em que a tua bem-amada te conceder o tesouro do seu rosto desnudado à claridade das estrelas; pois amarás mais do que uma mulher e mais do que uma mulher te adulará. Aprenderás o desprezo ante a pequenez dos poderosos e conhecerás o respeito ante a grandeza dos pequenos.

Olha!, cá estamos, hoje, em Bukhara, capital da província do Khorasan, situada a norte do rio Amu-Daria. É o Verão de 998. O meu mestre tem exactamente dezoito anos...

O velho el-Arudi jazia estendido em cima de uma esteira de palha entrançada, com as mãos dobradas sobre o baixo-ventre, o rosto avermelhado, congestionado pela dor.

— Está assim há vários dias... — sussurrou Salwa, sua esposa, uma curda de pele baça, oriunda da região de Harki-Oramar.

Debruçando-se sobre o marido, ela declarou com solicitude:

— O xeque veio para te curar.

Um gemido de dor foi a única reacção de Abu el-Hosayn.

Ibn Sina ajoelhou-se junto dele e apalpou-lhe o pulso, com a palma da mão voltada para cima, no sítio exacto em que as artérias afloram à pele. Fechou os olhos, para melhor se concentrar, e ficou assim um grande bocado, com o semblante fixo e tenso; depois, voltou a palma da mão para baixo.

— É grave? — inquietou-se Salwa.

Ali não respondeu. Puxou lentamente para cima a camisa interior encharcada em suor e afastou as mãos que o doente mantinha crispadas sobre o baixo-ventre. Com precaução, apalpou longamente a região suprapúbica: estava inchada como um odre.

— El-Arudi, meu irmão, desde há quanto tempo não urinas?

— Três, quatro, seis dias, já não sei. No entanto, o Invencível é minha testemunha, não é nem por falta de vontade, nem por falta de tentar.

— É grave?

Desta vez, a pergunta fora feita pela filha de el-Arudi, que acabava de se introduzir discretamente no quarto. Ela tinha quinze anos ajusta, mas possuía já todos os mistérios desabrochados da mulher. De tez muito baça como a mãe, tinha os olhos em forma de amêndoa, um rosto muito puro, dominado por uma espessa cabeleira negra que lhe escorria até às ancas.

Ibn Sina dirigiu-lhe um sorriso, que pretendia ser tranquilizador, e retomou o seu exame, concentrando-se, desta feita, no pénis do homem, que auscultou a todo o comprimento. Da sua sacola tirou um instrumento — um perfurador de ferro temperado, com uma ponta triangular, aguçada, cravado num cabo de madeira — e flores de papoila branca, de meimendro e de aloés, que entregou à rapariga.

— Toma, Warda, prepara-me uma decocção e põe água a ferver!

— Filho de Sina, por piedade, alivia o meu penar! — gemeu o curdo, levando a mão à aba da veste de Ibn Sina; o que, segundo o costume, era sinal de aflição e de prece.

— Se aprouver ao Altíssimo, assim será feito, venerável Abu el-Hosayn.

— Mas de que sofre ele? — interrogou Salwa, enlaçando e desenlaçando as mãos nervosamente.

— A veia, que permite à urina escoar-se, está obstruída.

— Mas como é isso possível?

— Em certos casos, a causa da obstrução pode ser devida a um desenvolvimento excessivo do que nós chamamos a glândula que se acha à frente(1) ou, então, à presença duma pedra formada por uma concreção dos sais minerais. Para o teu esposo, trata-se desta segunda causa.

— Filho de Sina, não entendo nada das tuas concreções, nada tão-pouco dessa glândula que se acha à frente. Mas se falas uma linguagem incompreensível para os mortais, é porque deves receber as tuas palavras de mais alto. Salvarás, pois, o meu marido.

— Se Lhe aprouver — repetiu Ibn Sina com brandura. Warda estava de volta e estendia-lhe um vaso de barro em

que macerava a decocção, bem como uma grande malga de água a ferver.

Ali soergueu lentamente a cabeça do doente e aproximou o vaso dos seus lábios.

— Há que beber isto...

— Beber? Mas, cheikh el-rais, não vês que a minha bexiga está como o ubere duma vaca pronta para dar de mamar? ! Ela não resistiria a uma gota mais.

— Não tenhas receio. Esta gota será para ti um benefício. Abu el-Hosayn ingurgitou o líquido, à maneira de um gato

que bebe com a língua, e deixou-se cair outra vez de costas, esgotado pelo esforço.

— Agora, há que dar à medicação tempo para actuar.

O médico mergulhou o seu instrumento na água que ainda fumegava e retomou o pulso do doente. Pôde em breve verificar que as palpitações da artéria se apaziguavam, que os traços fisionómicos do paciente, até aí crispados pela dor, se descontraíam.

 

(1) Com esta expressão Ibn Sina aludia sem dúvida à próstata. (N. do T.)

 

Ajoelhada ao pé de seu pai, Warda não tirava os olhos de Ali. Nas suas pupilas havia toda a veneração do mundo.

— Anda, Warda, ajuda-me a despi-lo!

Um instante mais tarde, el-Arudi estava como no dia do seu nascimento.

Ali rebuscou na sacola e tirou de lá um fio bastante grosso, que lhe atou em volta do pénis. Uma vez feita a ligadura, agarrou no perfurador.

Abu el-Hosayn tinha fechado os olhos. Parecia dormir.

— Porque lhe ataste o membro? — inquietou-se Salwa.

— Para evitar que a pedra, que se encontra no canal urinário, me escape, regressando para a bexiga. Agora, preciso da vossa ajuda: tu, Salwa, tu também, Warda, cada uma por seu lado, prendei-lhe os braços.

Assegurando-se pela última vez de que as flores de papoila haviam insensibilizado os membros do doente, ele levantou-lhe o pénis. Com a ajuda do polegar e do indicador, alargou o meato e introduziu lentamente a ponta acerada na uretra até sentir uma resistência.

— Creio que encontrei a pedra. Agora, vai-me ser preciso furá-la ou parti-la.

Fez girar várias vezes o instrumento sobre ele próprio, da esquerda para a direita, depois da direita para a esquerda, interrompendo por momentos a sua acção, como se procurasse ler pelo corpo do doente.

A sua testa cobria-se de suor, invadira-o uma certa tensão, mas o gesto continuava de uma grande precisão.

— Creio que a pedra está furada...

Usando das mesmas precauções que empregara aquando da intromissão, retirou o perfurador. Algumas gotas de urina tingida com filamentos sanguíneos escorreram do meato. Ali desatou, então, a ligadura e logo o líquido orgânico se derramou num jacto forte e regular. Ele comprimiu a verga, e poeiras acastanhadas misturaram-se com a urina.

— Tudo correrá bem, agora — declarou ele, apalpando com satisfação o baixo-ventre do velho. — O balão vesical desapareceu e a superfície suprapúbica retomou o seu aspecto normal.

— Bem mereces o título de cheikh el-rais, o mestre dos sábios! — exclamou Salwa. — Que Alá prolongue a tua vida por mil anos!

— Agradeço-te, mulher. Mas contentar-me-ei com metade. El-Arudi esperneou um pouco sobre a esteira, antes de mergulhar outra vez no seu torpor.

Ibn Sina entregou a Salwa umas sementes de dormideira.

— Hás-de dar-lhe a beber uma segunda decocção ao pôr do Sol, assim como água de rosas. Na sua doença, beber é um factor de cura.

— Quando penso que, ontem, eras tu que te inclinavas diante dos adultos e que, hoje, reinas como senhor sobre as cabeças embranquecidas.

— Perdoa-me, bem-amada Salwa, mas não me lembro de me ter jamais inclinado diante de quem quer que seja.

— Meu filho, se eu não tivesse medo de atiçar um pouco mais o teu orgulho, dir-te-ia que é, infelizmente, verdade. Mesmo metido nas tuas faixas de criança, mantinhas uma postura real! Mas que importa? Tudo te está perdoado, porque conforme vem dito no Livro: «àquele que restituir a vida a um homem ser-lhe-á tido em conta como se tivesse restituído a vida à humanidade inteira...»

Ali começou a arrumar a sua sacola.

— Espera, tenho qualquer coisa para ti — disse a mulher. Ele quis protestar, mas ela já se tinha eclipsado.

Warda levantou-se por seu turno.

— Não te agradeci... — disse ela timidamente.

— E inútil. No silêncio do teu coração, sei que há todas as palavras.

A adolescente baixou os olhos, como que envergonhada de verificar mais uma vez que ele podia ler nela com tanta facilidade.

— Isto é para ti.

A mulher de el-Arudi tinha voltado e apresentava-lhe um objecto. Era uma kharmèk, uma pequena bola de vidro azulado suspensa na ponta dum cordãozinho. Antes que ele tivesse tempo de reagir, ela passou-lha por cima da cabeça e atou-lha em volta do pescoço.

— Assim, nem a maldicência dos maus, nem os demónios — ainda que fossem tão temíveis como o terrível dragão que o intrépido Rustam(1) matou — terão poder sobre ti.

— Sabes, não acredito muito no mau olhado. Mas, já que é esse o teu desejo, prometo-te que este presente me acompanhará tanto tempo quanto eu viver.

— Acredita em mim, meu filho, quando o Criador dá a um mesmo ser o génio e a beleza de milhares de outros, esse homem haverá de recear até o brilho do Sol. Warda — retomou ela, indo sentar-se à cabeceira do marido —, serve lá ao nosso hóspede um copo de chá! Ele deve ter sede.

— Não me leves a mal, mas faz-se tarde e há convidados à minha espera em casa do meu pai.

A mulher de el-Arudi inclinou-se.

— Nesse caso, paz contigo, filho de Sina. És verdadeiramente alguém de muito especial.

— E contigo a paz. Voltando-se para Warda, perguntou:

— Acompanhas-me até à porta?

Ela aquiesceu com uma espontaneidade tocante.

Uma vez na rua, com os primeiros clarões do poente, ela ficou sabendo, sem que houvesse necessidade de trocarem a menor palavra, que também ele tinha esperado aquele momento.

— O teu trabalho no hospital não é demasiado penoso? — interrogou ela, com uma certa falta de habilidade.

— O ensino e o trabalho têm valor de oração. Iluminam o caminho para o Paraíso, protegem-nos contra os maus hábitos do pecado, mas... — acrescentou ele muito depressa — por vezes, o pecado também tem valor de oração... Warda, os meus olhos...

 

(1) O equivalente, entre os Ocidentais, de Hércules ou de Aquiles. (N. doT.)

 

Perturbada, ela baixou as pálpebras, enquanto se aproximava dele. Sob o véu do seu vestido, adivinhava-se o contorno firme dos seios, que se erguiam ao ritmo da sua respiração bruscamente acelerada.

Desde que a família Sina tinha deixado Afshana, para vir ins-talar-se ali, em Bukhara, à distância de uma pedrada de sua casa, ela sentira-se atraída por ele. Cinco anos já... cinco anos de recordações doces como o mel.

— Dá-me a água da tua boca... — suspirou ela.

Ele prendeu-lhe a coxa debaixo da lã áspera, subiu lentamente para a curva das suas ancas e puxou-a para si. As suas bocas juntaram-se com doçura, desuniram-se para se retomarem com mais fervor. As roupas haviam-se tomado para eles uma insuportável ofensa. Ele teria querido insinuar-se nela, fazer cair a fina muralha tecida, último obstáculo que lhes separava a pele; desvairado, procurou afastar-se, mas ela reteve-o com toda a força dos seus quinze anos.

— Ó meu rei!... não te vás embora... ainda não.

— Tu bebeste na minha boca, Warda. Eis que, agora, sou eu que tenho sede; uma sede que queima o meu corpo e consome os meus lábios. É preciso protegeres-te, Warda. Protegermo-nos da nossa febre. Amanhã... mais tarde.

Ela quis, mesmo assim, apertar-se de encontro a ele.

— Bebe... bebe em mim! — suplicou ela.

— Não, minha alma. O meu corpo já não se contentaria com o regato dos teus lábios. Precisaria do oceano para acalmar o seu desejo. Temos que nos acautelar... Depois já não poderemos.

Ele repetiu:

— Amanhã... mais tarde...

— Mas eu quero... meu coração...

Ele sacudiu a cabeça e colocou-lhe furtivamente um beijo na testa, antes de fugir muito depressa.

Os convidados estavam reunidos no jardinzinho da pequena casa de adobe, em redor de uma mesa posta debaixo de uma parreira.

No lugar do anfitrião encontrava-se Abd Allah, o pai de Ali. Uns sessenta anos, uma magreza pouco comum e uma constituição seca, que se tinha fortalecido com a idade. A barba muito branca, aparada em bico, enquadrava-lhe o rosto anguloso, e os seus olhos reflectiam uma bondade natural que nada, ao que parecia, teria podido alterar. Ele era natural de Balkh, uma das quatro capitais da província do Khorasan. Muito cedo, havia deixado essa cidade para se dirigir a Karmaithan, não longe de Bukhara, onde tinha vivido alguns anos. Tinha-se mudado, em seguida, para a vizinha aldeia de Afshana, onde encontrara aquela que havia de vir a ser sua esposa. Após o nascimento dos seus dois filhos, a família veio instalar-se em Bukhara. Abd Allah fora aí nomeado colector de impostos, função que continuava a ocupar ao serviço do soberano reinante, Nuh o segundo do nome.

A seu lado, estava o filho mais novo, Mahmud, de treze anos.

Embora de figura bastante fraca, o irmão de Ibn Sina parecia muito mais alto do que seria próprio da sua idade. Uma cara assaz redonda e cabelos frisados davam-lhe, pelo menos em aparência, um ar travesso e risonho, desapegado das coisas.

— Alguém deseja mais outra bolacha?

Sêtareh, a mãe de Ali, acabava de aparecer. Alta, morena, quase longilinea, vestida com uma túnica de lã crua, movia-se lentamente, e o seu rosto quase sem rugas exalava uma certa nobreza. O seu nome próprio queria dizer estrela.

Ela apresentou um prato aos convidados, e Mahmud levantou espontaneamente a mão.

— Meu irmão, nunca estás, então, com a barriga cheia? — interrogou Ali, com um sorriso trocista.

— Tens a memória curta, meu filho — ralhou Sêtareh. — Com a idade dele, tu comias uma tamareira e mais o tronco!

— Talvez, mas eu cá tirei proveito disso — retorquiu Ali, voluntariamente superior —, enquanto que ele — e apontou para o irmão — devora e não tira daí benefício nenhum. Tem a cintura tão fina como um cabelo. Um pé-de-vento varrê-lo-ia.

Os convidados riram-se às gargalhadas, ao verem a expressão indignada de Mahmud.

Desde sempre, no último dia do mês, a maior parte dos intelectuais de Bukhara tinha adquirido o hábito de se reunir na morada dos Sina. Nessa noite, eles eram quatro.

Hosayn ibn Zayla, o discípulo predilecto de Ibn Sina.

Um homem dos seus sessenta anos, com o semblante ensombrado por um fino cordão de barba acinzentada, Firdussi de seu nome. Não era uma presença familiar naquela casa. Oriundo de Tus, um cantão do Khorasan, estava de passagem na região para tratar dum assunto de interesses imobiliários. Dizia-se que era um prestigioso poeta.

Encontrava-se ali também um músico, el-Mughanni. Mas, sobretudo, uma personagem considerada por todos os da terra como sendo um dos espíritos mais dotados do seu tempo: Ibn Ahmad el-Biruni. Chamavam-lhe já el-ustaz, o mestre. Sete anos mais velho que Ali, ele tinha deixado o seu Uzbequistão natal para se pôr ao serviço do emir Nuh o segundo do nome. Foi ele quem acudiu a Mahmud.

— Que só a minha unha coce as minhas costas, que só o meu pé entre no meu quarto! Mahmud, meu filho, enxota, pois, esses invejosos! Eles que se ocupem do que lhes diz respeito.

— Tens razão, mestre el-Biruni, mas as suas palavras são-me tão indiferentes como os mosquitos no bico do falcão!

E voltando-se para sua mãe com um sorriso malicioso:

— Mamèk, dás-me uma terceira bolacha?

— Há que confessar que são deliciosas — fez notar o músico. — Nunca teria pensado que bolachas sem levedura pudessem ter tanto sabor. Donde te veio esta receita?

A mãe de Ibn Sina baixou os olhos. Dir-se-ia que a pergunta a embaraçava.

— Oh! É um costume antigo... A minha mãe herdou-o da sua mãe, que, por sua vez, o tinha herdado dos seus longínquos antepassados.

— E curioso, ainda assim — disse o jovem Mahmud. — Só cozinhas estas bolachas uma vez por ano. Com o êxito que elas têm, poderias ser mais generosa!

Sêtareh deitou um olhar embaraçado ao seu esposo e, para disfarçar um tanto a sua atrapalhação, tratou de pôr umas pérolas de incenso a arder.

— Porque é assim! E, depois, deixa lá a tua mãe em paz! As tuas perguntas são tão irritantes como o zumbido das moscas!

Algo surpreendido com a reacção do pai, o garoto meteu-se a um canto do divã, com ar amuado.

— Venerável Firdussi, como vai a boa cidade de Tus? — perguntou el-Biruni.

Firdussi deu-se tempo para esgaravatar umas amêndoas num dos numerosos pratos colocados sobre um grande tabuleiro de cobre cinzelado, antes de responder com uma certa lassidão:

— A ribeira de Harat continua a desafiar o sol e os contrafortes do Binalund ainda dominam o mausoléu do bem-amado Harun el-Rashid. A cidade de Tus vai bem.

— E as tartarugas? — apressou-se a perguntar o irmão mais novo de Ali. — Conta-se que há por lá algumas tão grandes como carneiros e que...

— Meu filho — interrompeu Abd Allah —, estou disposto a atribuir a insignificância da tua pergunta à tua pouca idade. Temos a sorte, esta noite, de ter debaixo do nosso tecto um dos maiores poetas da nossa história, e tudo o que tu encontras para lhe perguntar são notícias da sua cidade! Interroga-o antes acerca da obra colossal que ele está redigindo! Sabes ao menos de que estou a falar?

Mahmud sacudiu a cabeça, embaraçado.

— Um poema, meu filho. Mas um poema que desafia a imaginação, pela sua importância.

Inclinando-se para Firdussi, perguntou-lhe:

— De quantos versos se compõe?

— Trinta e cinco mil, nesta data. Mas ainda só vou a meio. Impressionado, Ali perguntou por sua vez:

— Foi-me dito confidencialmente que te inspiravas no Khvatay-namak, uma história dos reis da Pérsia desde os tempos míticos. E verdade?

— É exacto. E a tradução desse texto escrito em palavi causa-me grandes problemas.

— Quando calculas terminar a tua obra?

— Ai de mim! Não antes de uma dezena de anos. Ou seja, cerca de trinta e cinco anos de trabalho. O que, afinal, não representa mais do que um bago de arroz em comparação com a eternidade!

Um murmúrio de admiração percorreu a assistência.

— Trinta e cinco anos de escrita... — suspirou o músico. — Se eu houvesse de fazer vibrar o meu alaúde durante tanto tempo, creio que ele acabaria por tocar sozinho! Pergunto a mim mesmo onde é que um homem encontra a energia necessária para realizar um trabalho tão prodigioso?

Firdussi fez um gesto evasivo.

— O amor, meu irmão, unicamente o amor. Meti-me nesse empreendimento pelos olhos da minha única filha. Vendendo a obra a um dos nossos príncipes, pensava conseguir para ela um dote razoável. Infelizmente, desde então, o dote transformou-se em herança!

— Já decidiste que título darás ao poema?

— O Shah-nameh... O Livro dos Reis. Por vezes, quando penso no longo caminho que me espera, um arrepio de temor invade o meu espírito. Mudemos, pois, de assunto: mestre el-Biruni, fala-nos do emir! É verdade que a sua saúde se degrada um pouco mais, a cada dia que passa?

— É verdade. Ninguém compreende nada daquilo.

— Porque ele está rodeado de analfabetos, de lagartos engelhados!

E apontou Ali.

— No entanto, está aqui aquele que poderia tirar Nuh das garras da doença. Que esperam eles, pois, para o vir buscar? Tu, mestre el-Biruni, tu que estás no segredo da corte, tu deves saber.

— Ai de mim! Não sei mais do que vós. Eles não descuraram os conselhos de nenhum sábio. Quando lhes propus os serviços do teu filho, os seus rostos fecharam-se como se eu tivesse injuriado o Santo Nome do Profeta. Não entendo nada da sua atitude.

Firdussi abanou a cabeça tristemente.

— Inveja, estupidez... Esses homens só servem para esticar o pescoço (1), guiados unicamente pelo seu próprio interesse.

— E o do seu paciente? É absurdo, contrário aos princípios sagrados da medicina!

— É sem dúvida a minha pouca idade que os assusta — disse Ali, com um sorriso.

— Queres tu dizer que ela os aterroriza! — encareceu el-Biruni. — Se, para infelicidade deles, tu viesses a salvar o soberano, a permanência no palácio daqueles velhos com turbante ficaria sensivelmente abreviada. No entanto, estou convencido de que não é a única razão da sua recusa; deve, certamente, tratar-se de outra coisa.

— O emir está ao corrente da sua atitude assassina?

— Nuh II está à beira do coma. Mal se apercebe ainda das palpitações do seu coração.

El-Biruni continuou:

— Mas não é unicamente a saúde do emir que está em perigo: o seu poder também está.

— Era de prever — acrescentou Abd Allah — Desde há algum tempo que ele se acha em situação de devedor. Implorou o auxílio dos Gaznávidas(2), esses turcos piolhosos, e obteve-o. Em troca, foi obrigado a ceder a prefeitura do Khorasan a Subuktegin

 

(1) Esta expressão significa também pretender, aspirar ao poder. (N. do T.)

(2) O nome desta dinastia tem origem na cidade de Ghazna, actualmente Ghazni, a sul de Cabul, no Afeganistão. (N. do T.)

 

e ao seu filho Mahmud, a quem já denominam o rei de Ghazna. Sùbùktegin morreu e Mahmud dá mostras dum apetite feroz. Firdussi suspirou:

— Desde a conquista árabe e a queda dos Abássidas, nós corremos para o abismo. A nossa terra está retalhada. Samânidas, Buyidas, Zyáridas, Kakuyidas, outras tantas dinastias e outros tantos régulos que reinam em plena confusão. E na sombra... a águia turca, que faz pouco dos nossos senhores e tira proveito das suas divisões. Na realidade, tudo isto nunca teria acontecido se, para reforçar os seus exércitos, eles não tivessem comprado sem contar legiões inteiras de escravos, na sua maior parte turcos. Dei-xaram-nos instalar-se impunemente nos mais altos cargos nomean-do-os a toda a pressa generais, escudeiros ou marechais da corte, cedendo a todas as suas exigências. Em conclusão, os nossos príncipes criaram um dragão, que se prepara para os devorar.

— Ah!... — suspirou Abd Allah, deitando a cabeça para trás. — Como o Profeta foi clarividente, quando disse: «Os povos têm os governantes que merecem...»

Todos aprovaram unanimemente os propósitos do anfitrião. E a discussão recomeçou acerca do devir incerto da região. Foi o momento que Ibn Sina e el-Biruni escolheram para se retirarem discretamente para um canto do pátio. O ar da noite estava agradável, pleno de um cheiro a almíscar seco. Ali indicou um pontinho no firmamento.

— O véu das sete cores... El-Biruni encarou-o com espanto.

— Porque dizes isso?

— Segundo a crença popular, o universo seria composto por sete céus: o primeiro seria de pedra dura; o segundo, de ferro; o terceiro, de cobre; o quarto, de prata; o quinto, de ouro; o sexto, de esmeralda, e o sétimo, de rubi.

— E original, mas reconheçamos que não é muito científico. No sítio em que se encontravam, chegavam até eles vozearias

muito animadas, fragmentos de frases misturados com o canto apaziguador de uma fonte.

Num movimento afectuoso, el-Biruni pousou a mão no ombro de Ali.

— Não nos deixemos levar para a filosofia. É um exercício que turva os humores. Diz-me antes quais são os teus projectos! Falaram-me de uma obra que estarias a escrever, ou seriam apenas rumores?

— É verdade que a escrita me obceca. Mas não me atrevo ainda. Uma vez que se conheceu Aristóteles, Hipócrates ou Ptolomeu, uma pessoa sente-se, mesmo que não queira, muito pequena.

— Não me habituaste a tanta modéstia, filho de Sina. Terei eu de recordar-te o teu génio? Aos dez anos, sabias de cor as cento e catorze suras do Alcorão. E não falarei do que fizeste sofrer ao teu desventurado preceptor.

Ali teve um gesto de desdém.

— El-Natili? Era um burro. Um incompetente.

— Mais do que um mestre o teria passado a ser, ao pé de ti. Podes imaginar como é embaraçoso para um professor ter que enfrentar um aluno que não só assimila todas as matérias com uma facilidade desconcertante, mas que, ainda por cima, corrige os seus enunciados e resolve as dificuldades melhor do que ele!

— Do divino Aristóteles, ele só retinha a pontuação, e ainda menos compreendia a geometria de Euclides.

— Esqueçamos, pois, esse pobre el-Natili, que, aliás, bem depressa apresentou a sua demissão ao teu pai. Mas que pensas tu do teu desempenho, aquando do teu exame de medicina na escola de Djundaysabur? Não me vais contradizer, se eu te disser que ele ficou gravado em mais do que uma memória.

— Foi há dois anos...

— Em 20 de dhù el-qua 'da, muito precisamente... Sei de cor todos os pormenores. A sala estava negra de gente. Muitos eram os que tinham vindo de todo o país para ouvirem o prodígio de dezasseis anos. Havia, ao que me disseram, médicos de todas as origens, judeus, cristãos, mazdeístas, daqueles sábios velhos com a cara burilada, com a expressão inteiriçada pelo saber. Lembras-te, não é?

— Lembro-me sobretudo do meu coração, que galopava dentro do meu peito!

— Contudo, naquele dia, falaste e os rostos iluminaram-se. A exposição que fizeste sobre o estudo da pulsação, a extraordinária concisão com que descreveste os seus diferentes aspectos, cinco mais do que Galeno, impressionaram todos os espíritos.

— Uma questão de intuição e de percepção. O Altíssimo devia, sem dúvida, inspirar-me as palavras.

— Mecanismo da digestão, estabelecimento do diagnóstico pela inspecção das urinas, meningites, dieta dos velhos, utilidade da traqueotomia... Seria tudo isso também intuição e percepção? Ao tratar da apoplexia, agitaste a assistência, afirmando que era devida à oclusão duma veia do cérebro, com o que puseste em causa a teoria de Galeno. Isso também seria intuição e percepção?

— Não é a ti que vou dizer que a facilidade aparente só se consegue à força de trabalho. Mas mudemos de assunto, e fala-me de ti. Continuas a pensar em sair de Bukhara?

— Nuh o segundo é para mim um benfeitor. O meu primeiro benfeitor. Mas tenho vinte e cinco anos, e a febre das viagens não me larga. Para tudo te confessar, parto amanhã.

Ali ergueu as sobrancelhas.

— Sim, tens o direito de estar surpreendido. Aliás, és o primeiro a saber isto. Vou para a corte de Gorgan, para junto do emir Kabus, que regressou do exílio. Por lá, parece-me que o clima será propício à escrita, pois não te escondo que também eu penso seriamente em compor uma obra importante, que trataria, entre outras coisas, dos calendários e das eras, de problemas matemáticos, astronómicos e meteorológicos. Depois...

— Por conseguinte, pões-te ao serviço do «caçador de codornizes»... Ele passa, no entanto, por ser um príncipe duma grande crueldade.

— Talvez seja verdade. Mas homens como tu e eu podem escolher os seus amos? Não somos mais do que umas palhinhas assopradas pelos nossos mecenas.

— Quanto a ti não sei, el-Biruni, mas posso garantir-te que certos soberanos, por muito generosos que sejam, nunca me terão ao seu serviço: os Turcos, os Turcos são uns desses! O filho de Sina não se humilhará nunca perante um gaznávida.

— Cada um vê o sol onde quer... Mas, para voltar ao caçador de codornizes, gostaria de te referir que a crueldade não é o único traço da sua personalidade. Ele adquiriu uma grande nomeada como sábio e como poeta. Mas, agora penso eu, porque não me acompanharias tu até Gorgan? Kabus ficaria, estou certo disso, muito honrado. Além disso, receberias um salário bem mais consistente do que aquele que te paga actualmente o hospital de Bukhara.

— O teu convite toca-me. Mas ainda só tenho dezoito anos e acho-me no dever de permanecer junto dos meus pais. Deixando o Khorasan, teria a impressão de os abandonar. Mas acredita que, aconteça o que acontecer, onde quer que eu esteja, te guardarei no meu coração.

— Para mim será a mesma coisa. Continuaremos em comunicação, escrever-nos-emos enquanto o Altíssimo permitir.

— Então, vós os dois, estais refazendo o mundo?

A voz peremptória de Abd Allah veio interromper os dois jovens.

Ali respondeu, sorrindo:

— Não, pai, estamos preparando um novo.

— Pois bem, abandonai-o por uns instantes e vinde lá escutar o alaúde de el-Mughanni! Por vezes, é salutar distrairmo-nos da gravidade das coisas.

Já as primeiras notas animavam a noite. Voltaram para junto do grupo e Ali foi sentar-se ao pé de Sêtareh. Espontaneamente, pegou na mão da mãe e fechou os olhos, deixando-se levar pela magia da música.

A parreira mal se mexia com a brisa ligeira e, ao mesmo tempo, carregada dos odores da noite. Adivinhava-se o canto puro da fonte, que corria secretamente ao encontro do alaúde para se confundir com ele, se atar às sua cordas, acentuando o encantamento da hora. Então, através das suas pálpebras cerradas, Ali pôs-se a sonhar com a face angélica de Warda.

 

                                     SEGUNDA MAKAMA

Ali apagou com um sopro a candeia de azeite e afastou o seu livro com um gesto brusco. Furioso, pôs-se a olhar fixamente o jardinzinho, por cima do qual tremulavam já os primeiros rubores da aurora.

Era a quadragésima vez que ele relia aquela Teologia de Aristóteles. Sabia de cor cada uma das suas linhas, cada uma das suas subtilezas, e, não obstante, ela continuava a ser-lhe inacessível. Dois anos antes, julgara, graças a uma obra de el-Farrabi adquirida a um preço insignificante no livreiro de Bukhara, ter desvendado, enfim, os segredos do filósofo grego. Não. Tinha de dar-se por vencido. O véu, que se levantara por um instante, tornara a cair, cobrindo outra vez o seu espírito de trevas.

Contradições. Confusões. Como era possível? Aristóteles, a seus olhos, representava o génio, a ciência perfeita. A soberba mestria. Era o seu mestre, desde sempre. E o seu mestre decepcionava-o. Só essa ideia fazia nascer em Ali um sentimento de revolta e de cólera. Preferia convencer-se de que era o discípulo quem tinha falta de clarividência.(1)

Deitou a mão à botija de vinho temperado com especiarias e acabou de beber as últimas gotas. Depois, passado um momento de hesitação, levantou-se e retirou da arca de madeira de cedro encostada à parede um tapete de seda.

A oração, pensou ele. Desde sempre, ela lhe fora salutar. De cada vez que tinha estado defronte de um problema árduo, era no silêncio soberano da mesquita que ele havia encontrado o caminho. Alá é o espelho. Ele é o reflexo supremo da verdade.

 

(1) Na realidade, o que Ibn Sina julga ser a teologia de Aristóteles mais não era, efectivamente se não extratos das Eneadas de Pelotino, erradamente atribuídos ao filósofo grego. Esse erro de atribuição insidirá em toda a sua obra filosófica. (N. do T.)

 

Desenrolou asedjadeh e ficou sobre ela de pé, com os braços estendidos ao longo do corpo, voltado para Meca.

Fechando os olhos, recitou o prelúdio ao acto sagrado: Deus é Grande. E, em seguida, declamou a fatiha. Num movimento ágil e unido, inclinou o tronco até roçar com as palmas das mãos nos joelhos, ajoelhou-se, tocando no chão com a testa, e, depois de se pôr outra vez em pé, ergueu as mãos.

— Não há Deus senão Deus, e Muhammad é o seu Profeta. Lá ao longe, Bukhara despertava. Mas, todo entregue à oração,

Ali não a ouvia. Não ouviu tão-pouco a porta que se entreabria, para dar passagem a seu pai.

Abd Allah entrou no quarto e sentou-se à beira da cama, esperando pacientemente que o filho acabasse a sua acção de graças, antes de o interpelar.

— Estou aborrecido contigo — começou ele, com voz firme. Ali ergueu um olhar surpreso para o velho, que prosseguia:

— Não sei se estás consciente da maneira como vives. Mas corres para o esgotamento. Tens dezoito anos. Raramente deitado antes da alvorada, só dormes uma hora ou duas.

Fez uma pausa, designando os manuscritos espalhados em cima da mesa.

— Só o Altíssimo sabe aonde a tua busca te levará. Eu julgo-a benéfica. Pelo contrário, isto...

O seu indicador apontou a botija.

— Isto... é o diabo! Julgas poder conservar por muito tempo a lucidez?

Ali sacudiu a cabeça, com um certo despeito.

— Pai, já to disse. O vinho é um estimulante indispensável à minha concentração.

— Sabes, no entanto, a resposta do Profeta, quando o interrogaram sobre a questão: Não é um remédio, é uma doença!

— A ciência explica-nos que o que é nefasto para um pode ser benéfico para o seu irmão.

— Tcharta parta! Palratório! Vou recordar-te também que Muhammad era de opinião que se devia dar quarenta vergastadas com ramos de palmeira ao bebedor inveterado! E fica sabendo que, apesar dos teus dezoito anos e da tua estatura de camelo, ainda sinto o braço bastante forte para te aplicar esse castigo! Ali deitou ao velho um olhar enternecido.

— Pai, conheço a tua força. Por isso, vou fazer o possível. A partir de hoje, beberei vinho de Busr, em lugar do Tamr. Dizem que é mais leve.

Abd Allah guardou um tempo de silêncio, antes de replicar com uma voz suavizada:

— Na realidade, meu filho, tu não és inteiramente responsável. Os perigos do vinho são obra desses comerciantes cristãos e judeus. Se eles não se tivessem ligado para importar essa infame decocção lá dos confins do Egipto ou de Damasco, o Islão ainda conservaria a sua pureza! Que ardam, pois, e que os seus corpos conspurcados fiquem reduzidos a cinzas na fornalha!

Ali aprovou com um ligeiro sorriso.

— Gostaria de continuar este diálogo, mas faz-se tarde. O bimaristan(1) espera-me. E tenho também que ir visitar o nosso vizinho.

— Vai lá, meu filho — murmurou Abd Allah com uma certa lassidão. — E que o Invencível te proteja das tentações deste baixo mundo...

Uma hora depois, Ali chegava à vista do hospital. O Sol daquele começo de dhà el-hijà ainda não tinha alcançado o seu apogeu no céu, mas já um calor húmido se espalhava pelas vielas da cidade. Pensou nos doentes acamados nas suas esteiras inconfortáveis, e sentiu o coração oprimido.

«O Verão é ainda mais impiedoso para aqueles que sofrem...»

Se o conforto contribuía para o bem-estar dos doentes, a verdade é que o do hospital de Bukhara era bem modesto. Não se podia compará-lo com os faustosos bimaristan de Raiy ou de Bagdad, que constituíam a glória do país.

Ali transpôs a entrada, passou pelo dispensário ambulante e

 

(1) Hospital. Do persa istan, que significa lugar, e bimar, doente. (N. do T.)

 

desembocou no pátio, onde reinava uma agitação desabitual. Naquele 3 de dhà el-hijà, Julho para os cristãos, era dia de exames, e os aspirantes à profissão médica comprimiam-se em fileiras compactas à sombra do grande iwan, a vasta sala coberta, limitada por três paredes.

À vista de Ibn Sina, estabeleceu-se um silêncio imediato, seguido de comentários respeitosos e admirativos. Ele cumprimentou o grupo com um movimento da cabeça e entrou no edifício. Tinha de reconhecer que aquele lampejo reverencioso, que lia às vezes no olhar dos outros, não o deixava indiferente.

Percorreu o longo corredor que conduzia até à sala de serviço, onde encontrou o seu confrade Abu Sahl el-Massihi mergulhado numa colectânea de observações.

— Despertar feliz! Já estava inquieto, xeque Ali. Não é teu hábito chegares atrasado.

— Despertar luminoso, el-Massihi. Estou desolado, tive que ir ver el-Arudi, nosso vizinho. E aqui? Novas entradas, desde anteontem?

— Que o Altíssimo nos livre de tal: já temos suficiente dificuldade em tratar dos pacientes actuais!

— Como evolui o caso do pequeno Ma'mun?

— Estacionário, infelizmente. Nenhuma alteração.

— Vou aproveitar para o apresentar aos estudantes. Eles já chegaram?

El-Massihi decidiu-se a fechar o livro e respondeu, com um sorriso de esguelha:

— A menos que se trate dum inconsciente, não conheço em toda a Pérsia um candidato à licenciatura que faltasse a uma aula dada pelo célebre Ibn Sina!

— Bem reconheço aí a ironia habitual do dhimmil Acautela-te, cristão: terás, um dia, a mesma sorte que o teu profeta!

El-Massihi encolheu os ombros, com um ar desenganado.

— Filho de Sina, se procuras irritar os meus humores, pre-vino-te que vais direito a uma amarga decepção.

Nos primeiros tempos, bastava a palavra dhimmi para mergulhar el-Massihi num furor indescritível; actualmente, já não sentia mais do que indiferença. Era com essa alcunha que se apelidava os cristãos, os judeus e os estrangeiros que obtinham por um período breve o direito de permanecer em terra do islão. De longínqua ascendência nestoriana, el-Massihi sempre tivera dificuldade em aceitar esse qualificativo, que considerava discriminante; tanto mais que, por detrás dessa palavra, se escondia uma série de pirraças e de medidas vexatórias, que iam da proibição de se vestir à moda árabe até ao pagamento de um imposto. Mas o mais custoso era, sem dúvida, a obrigação de usar um sinal distintivo: para o judeu, era uma faixa amarela; para o cristão, um cinto de cor negra. Só a sua função de médico havia permitido a el-Massihi evitar o porte desses indícios bárbaros. Com uma voz monótona, ele retomou:

— Vós, muçulmanos, tendes tendência para esquecer que foram os médicos cristãos e judeus que dirigiram os primeiros trabalhos de tradução das obras gregas, e que foram eles os vossos iniciadores.

— Para um médico cristão, mil médicos árabes ou persas: el-Razi, Ibn Abbas e...

— Cheikh el-rais! Tem piedade do teu irmão! Conheço essa lista de cor.

Perante a mímica assustada do seu amigo, Ibn Sina largou uma irresistível gargalhada. Haveria que precisar que, naquele homem duns trinta anos, baixo, atarracado, de pança dilatada, de rosto imberbe e anafado, a mais pequena expressão se tornava cómica. Logo, desde o seu primeiro encontro e apesar da diferença de idade, Ali experimentara pelo médico cristão um sentimento de simpatia, que se tinha transformado numa amizade respeitosa. Pois, além do homem, havia também o sábio e o mestre. Já muito antes de o conhecer, Ibn Sina tinha podido apreciar as suas grandes competências, ao compulsar Os Centos, um manual de medicina reputado em toda a Pérsia, de que era autor el-Massihi. Mais tarde, este aconselhou-o e guiou os seus primeiros passos. Durante noites inteiras, comentou para ele Galeno, Hipócrates, Paulo de Egina, Oribásio, o célebre Livro Real do médico zoroastrista Ibn Abbas. E se, hoje, Ali praticava com tanta mestria essa arte sagrada que consiste em fazer recuar a morte, era sem dúvida alguma ao cristão que ele o devia.

— Sossega! Poupo-te, posto que me imploras. De resto, tenho de começar a minha visita. Acompanhas-me?

El-Massihi já estava de pé.

— Fiel, apesar da tortura... Não se há-de dizer que um descendente de nestori ano fraquejasse, um dia, sob o jugo do islão!

Um cheiro acre irritou a garganta dos dois homens, assim que chegaram à entrada da primeira sala. Ali, outra vez sério, afastou a tapeçaria de púrpura que demarcava o limiar, e observou as filas cerradas dos doentes alinhados ao longo das paredes de barro.

— Cheikh el-rais, estamos ao teu serviço.

Naquele que acabava de se lhe dirigir, Ali reconheceu el-Hosayn ibn Zayla, um zoroastriano oriundo de Ispahan, um dos seus discípulos mais atentos, que lhe dedicava uma grande admiração. Era um parse, um daqueles adeptos da religião do fogo, ensinada por Zaratustra, que ainda se recusavam a converter-se ao islão.

— Muito bem. Vamos começar por um caso que eu tomo particularmente a peito.

Ali convidou o pequeno grupo, que o esperava respeitosamente, a segui-lo. Se Ibn Zayla tinha mais quatro anos que o seu mestre, alguns dos seus companheiros, aspirantes à licenciatura, ultrapassavam os quarenta anos.

Deslocaram-se rapidamente até à cabeceira do doente escolhido pelo xeque: tratava-se de uma criança duns dez anos, de rosto muito pálido, que estava dormindo.

— Escutai atentamente! Eu próprio examinei esta criança, anteontem. Eis os sintomas apresentados: febre intensa, confusão mental, respiração rápida e irregular. Pude observar convulsões localizadas e generalizadas. O sono é agitado, acompanhado de alucinações. O doente dá gritos e não pode suportar a luz. Agora, há alguém, entre vós, que me possa sugerir um diagnóstico?

Num silêncio recolhido, os estudantes tinham-se espontaneamente agrupado em semicírculo à volta da cama.

Um dos candidatos, o mais velho, começou com uma voz hesitante:

— Cheikh el-rais, parece-me que esses sintomas deixam entrever uma paralisia facial.

— Conheces, verdadeiramente, os sinais anunciadores da paralisia facial?

— Ah!... Esses mesmos que tu acabas de citar, cheikh el-rais: convulsões localizadas e generalizadas e...

— Verificaste se a criança sofria de perturbações da sensibilidade? A sua pálpebra inferior está caída? Notaste um aumento da salivação? A pele de uma das suas bochechas está flácida?

— Eu... parece-me que...

— Responde! Notaste tais sintomas?

— Não, cheikh el-rais. Mas...

— Então, estás enganado, meu irmão. E o mesmo que confundir camelo com falcão!

O homem baixou a cabeça, ante o olhar zombeteiro dos colegas.

— Então — recomeçou Ibn Sina —, há aqui alguém capaz de propor um diagnóstico para o caso desta criança?

— Talvez sofra de uma febre eruptiva? — sugeriu um homem novo, com feições redondas, metidas numa moldura de barba rasa cor de pez.

— A tua confusão é perdoável. Porque, em algumas dessas doenças, aparecem também dores de cabeça violentas, um sono perturbado, acompanhado de febre. Mas, se assim fosse, os olhos desta criança estariam vermelhos e lacrimejantes, ela teria a respiração obstruída e a voz enrouquecida. Sintomas que eu não mencionei. Por outro lado...

— Eu sei de que sofre o doente! — interrompeu, bruscamente, Zulficar, o homem que, havia uns instantes, tinha sugerido uma paralisia facial.

Ibn Sina deu uma brusca meia-volta e cravou o seu olhar negro no do impetuoso aluno.

— Estou à tua escuta, meu irmão.

— Uma tísica!

— Está bem. E mesmo excelente. Possuis, certamente, um sentido divinatòrio. É um dom admirável.

Um sorriso feliz iluminou o rosto do homem, que se empertigou orgulhosamente.

— Um dom admirável — acrescentou Ibn Sina —, mas de que a ciência perfeita, que é a medicina, não se pode servir. Um médico não é um vidente, nem um alquimista! E um sábio!

Ele quase gritara as últimas palavras, transtornando instantaneamente a expressão do seu aluno.

— Por que artes mágicas descobres tu uma inflamação da pleura, que teria apanhado o pulmão? Es um burro, meu irmão! Um burro !

À beira do desfalecimento, o estudante quinquagenàrio dobrou-se sobre si próprio, à maneira de uma folha que a chama toca ao de leve. Bmscamente, pegou na mão de Ibn Sina e procurou beijá-la.

— Piedade, piedade, cheikh el-rais Mas é preciso que eu consiga esta licenciatura. Tenho mulher e seis filhos para criar.

Ali recuou, chocado, e meditou um momento, antes de declarar:

— Pois seja, hás-de ser médico. Mas médico da tua família, unicamente, e com a promessa formal de nunca lhe receitar nada mais do que água de flores de laranjeira.

Derrotado, o homem reergueu-se e, após um último olhar para a criança acamada, dirigiu-se, de costas abauladas, para a saída. Quase imediatamente, um outro aluno, mais novo, imitou-o.

— Aonde vais tu? A minha recomendação só se destinava a esse homem.

— Eu bem entendi, cheikh el-rais, mas é-me impossível manter a minha candidatura.

— E, então, porquê?

— Aquele, que tu acabas de admoestar assim, é nem mais nem menos que meu mestre. Foi dele que recebi todas as minhas noções de medicina.

Ali fez um gesto fatalista.

— Nesse caso...

— Como dizia o grande Hipócrates — comentou el-Massihi, divertido com o incidente —, a vida é breve, mas a arte é longa, a oportunidade é fugaz, a experimentação, perigosa, e o juízo, árduo!...

— Falas de ouro, Abu Sahl, mas voltemos a esta criança! Será preciso eu repetir os traços essenciais da minha análise?

— Não será necessário, cheikh el-rais. Parece-me ter achado. Ali voltou-se para Ibn Zayla.

— Creio que estamos a contas com uma inflamação das membranas do cérebro, localizada nas meninges.

— O teu juízo vem tarde, mas a propósito. Viste bem. Estamos mesmo perante um sersam agudo, uma meningite. Mas, em tua opinião, ela está na fase terminal?

Ibn Zayla reflectiu um momento, antes de perguntar:

— A língua está paralisada?

— Não.

— A insensibilidade é geral? Ibn Sina sacudiu a cabeça.

— Há arrefecimento das extremidades?

— Nenhum desses sinais me apareceu.

— Nesse caso, cheikh el-rais, pode dizer-se que a afecção ainda não atingiu o estado irreversível.

Ibn Sina cruzou os braços e observou o seu discípulo com satisfação.

— Tomai como exemplo a análise deste jovem. Ela está, em todos os aspectos, conforme ao caminhar dum homem de ciência: observação, reflexão, dedução. Tal é a regra que tereis de adoptar, durante toda a vida, se quiserdes, um dia, dominar esta arte perfeita que é a medicina. Todavia, para voltar ao sersam, devo especificar o seguinte: sempre os antigos confundiram a meningite e as afecções agudas, acompanhadas de delírio. Não deixeis de separar nitidamente essas duas doenças. Agora, passemos ao caso seguinte.

O Sol estava a declinar, quando eles chegaram à cabeceira do último doente. Tratava-se de uma mulher duns quarenta anos, de pele morena. Apesar das suas feições abalofadas pelo vinho e pela vida, adivinhava-se que ela devia ter sido bastante bonita nos seus tempos de menina e moça. O seu ventre redondo e proeminente não deixava qualquer dúvida quanto à razão da sua presença no bimaristan.

— O teu filho anuncia-se para breve — declarou Ali, com um sorriso.

Contra toda a expectativa, a mulher deu um grito e rasgou com raiva a parte de cima do vestido.

Ali, surpreendido, debruçou-se sobre ela.

— É por teres dormido demasiado tempo na casa do lavador dos mortos que ficaste contaminada? Não sabes que esse gesto é sinal de luto?

A mulher deitou-lhe um olhar de desprezo.

— E tu? Não sabes que só vai dormir em casa do lavador dos mortos a mulher que receia a esterilidade? Para uma mulher como eu, é a fertilidade que é uma maldição. Sou como uma gata que não pára de ter ninhadas! Basta que um homem se dispa ante os meus olhos para eu engravidar. Vou no meu quinto parto!

— Um nascimento é uma felicidade. Um testemunho do amor de Alá. — protestou el-Massihi. — Deverias, pelo contrário, dar graças ao Altíssimo.

— E os meus clientes? Achas que eles me darão graças? E quando eu voltar para casa, já de noite, sem ter ganho um único dirham, os meus filhos louvarão Alá?

Ibn Sina ajoelhou-se junto da mulher e pediu a el-Massihi:

— Dá-me cá a verga do governo!

O médico não pareceu surpreendido com o estranho pedido do seu colega. Com efeito, era assim que as mulheres de má vida tinham denominado o instrumento que permitia examinar as cavidades do organismo.(1)

Logo a mulher fechou as pernas resolutamente.

— Médico, afasta esse objecto infame, ou vais arrepender-te!

— Nesse caso, o que desejas tu? — interrogou Ibn Sina, com impaciência.

— Que me esvaziem as entranhas. Que me desembaracem desta boca que eu não poderei alimentar!

— Como quiseres. Mas sabes, ao menos, como eu operaria, se decidisse expulsar de ti essa vida?

Ela sacudiu a cabeça.

— Vou explicar-te...

Ali recomeçou, separando deliberadamente as palavras:

— Haverá, primeiro, que administrar-te remédios próprios para esse efeito. Remédios, que nem todos têm um gosto agradável. Quando a náusea invadir o teu corpo, e a vertigem, o teu espírito, eu dilatarei o orifício do teu baixo-ventre e meterei lá a mão armada de um gancho, que espetarei nas órbitas do teu filho, na boca ou, então, debaixo do queixo.

Ele fez uma pausa, para avaliar o efeito das suas palavras, e verificou que a indiferença da mulher tinha diminuído sensivelmente. Retomou o fio do seu discurso:

— Para remediar o inconveniente de a cabeça se deslocar para o lado oposto àquele em que eu tiver espetado o meu gancho, colocarei um segundo gancho no outro sentido. Numa orelha ou numa bochecha. Em seguida, esforçar-me-ei por extrair a criança. Afogados no sangue e nos humores, as tuas carnes e os teus ossos romper-se-ão, sob os meus esforços, e todos os campos de papoilas de Ispahan não apaziguarão o teu sofrimento. E os teus gritos ecoarão até às portas da Cidade Redonda.

— Pára, maldito gaiato! Pára!

A mulher tapou os ouvidos, mas Ali prosseguiu, imperturbável:

 

(1) Aquilo a que, hoje em dia, se chama especulo. (N. do T.)

 

— No estado avançado da tua gravidez, os membros do teu filho alcançaram a sua perfeita evolução; por conseguinte, é muito provável que a cabeça seja demasiado volumosa. Serei, pois, obrigado a cortá-la em pedaços. Queres que te explique em pormenor esta última operação?

A mulher sacudiu a cabeça, atemorizada, e escondeu-se debaixo do lençol.

— Está bem... Eis-te, novamente, com melhores sentimentos. Daqui em diante, não te esqueças disto: a morte realiza perfeitamente o seu funesto trabalho; então, nunca exijas dum homem, ainda menos dum médico, que lhe preste auxílio!

 

                             TERCEIRA MAKAMA

Warda... Ela ali estava. Nua. Estendida sobre ele. A sua pele cheirava a pêssego e a romã. A amêndoa dos seus olhos dormia no seu olhar. Donde lhes vinha aquela necessidade insaciável de casar os seus corpos, as parcelas mais íntimas do seu ser? Ele murmurou com uma voz quase imperceptível:

— Es tu... Tu és o barro de que eu fui tirado. E de ti que eu vivo, neste momento.

Ela manteve o silêncio e comprimiu os seus jovens seios de encontro ao tórax dele, antes de esconder a cabeça na parte côncava do seu ombro. Na face de Ali, o seu fôlego era brando como o ventre do pardal.

Como teria ele podido resistir-lhe mais tempo?Teria tido que espetar lâminas afiadas nos seus próprios olhos, ou que morrer, já que só a morte cura do amor.

Ele aprisionou nas suas mãos os globos soberbos do seu traseiro. Tocou-os ao de leve, depois acariciou-os com descaramento. A sua carícia subiu até às ancas, às costas, até que, com a impaciência dos seus dezoito anos, a levantou, deslocou o seu corpo debaixo do dela, soergueu-a quase, para que ela recebesse toda a sua virilidade.

Transtornada, ela sentiu a brasa que penetrava pela primeira vez no segredo da sua carne, inflamando-lhe o ventre, cristalizando, naquele berço até então virgem, o sofrimento e o prazer. Ela fechou os olhos. Instintivamente, apertou as coxas, invadida pelo súbito receio de que a noite se esquivasse. Os seus lábios murmuraram palavras, palavras distantes e vagas, palavras como frutos que tivessem o sabor do amor e do medo.

Então, as primeiras vagas de prazer sucederam à ferida que, até aí, havia atormentado a sua carne. Agora, Warda já não estava dividida: a mulher tinha levado de vencida a criança, tomando posse de todo o seu ser, e segredava-lhe que naquela união mágica devia haver promessas de uma volúpia maior ainda. Ela adivinhava isso. Dizia-lho o seu instinto. Era como se ela estivesse no sopé de uma montanha, cuja crista vagamente se vislumbra.

Foi ele que soube ler nela? Ou foi ela sozinha que encontrou a via? Nem um nem outro o poderiam dizer. No momento em que o gozo se desencadeou no seu ventre, Warda deu um grito, com o corpo sacudido por sobressaltos. Inclinou-se para trás, sob as investidas do prazer, desvairada, voltada do avesso.

E quando se deixou cair sobre ele, Ali ouviu-a chorar.

— Amo-te, minha Warda. Amo-te como se ama a felicidade e o sol.

A rapariga comprimiu-se mais fortemente de encontro a ele.

Era a alvorada. A hora do sahari. Eles tinham passado a noite estendidos numa esteira improvisada, naquela cabana abandonada fora da cidade.

Dali, através das ramadas, podia avistar-se ao longe a sombra severa do Kuhandiz, a cidadela de Bukhara, que dominava a parte alta da cidade, e, mais a leste, a flecha do minarete prolongando para o céu a antiga mesquita de Kutayaba, transformada em Casa do Tesouro, onde trabalhava o pai de Ali.

Ele procurou de novo os lábios dela, e as suas salivas mis-turaram-se, apaziguadoras como a água das nascentes do Mazandaran.

— Ali! Meu irmão, estás aí?

O grito fê-los sobressaltar quase ao mesmo tempo. Desorientada, Warda desprendeu-se do corpo do seu companheiro, procurando desajeitadamente proteger a sua nudez.

A voz levantou-se, mais insistente.

— Ali! Sou eu, Mahmud!

— Não tenhas medo! — sussurrou Ibn Sina, tapando o corpo da rapariga. — É o meu irmão.

Endireitando-se, pôs a sua djubba, um manto de lã, e passou a cabeça pela abertura da cabana.

— Estou aqui. Que me queres tu?

O garoto, que já estava só a uns passos de distância, estacou, com o rosto banhado em suor, e deixou cair com alívio os braços ao longo do corpo.

— Alá seja louvado! Encontrei-te, enfim...

— Que se passa?

— A cidade inteira anda à tua procura. Eles levantaram as casas e as ruelas. Eles...

— De quem estás tu a falar?

— Dos guardas. Os guardas do palácio. Reclamam-te no serralho.

O rosto de Ali contraiu-se de repente.

— O emir?

— O emir está a morrer...

Uma atmosfera oprimente reinava no quarto em que repousava Nuh, o segundo do nome, filho de Mansur.

Num queimador de bronze consumiam-se lentamente perfumes raros, que subiam em espirais para as muqarnas, as estalactites de pedra finamente cinzeladas. Iluminado por lustres de cobre e grandes candelabros de prata, com as suas paredes cobertas de alvéolos, o sítio fazia pensar numa colmeia deslumbrante, aprisionada sob um céu de esmeralda.

Nuh, de rosto macilento, pálpebras cerradas, estava deitado no centro da sala, num imenso leito de madeira incrustada de marfim e de nácar. Por momentos, entreabria os olhos, como se tentasse decifrar a trama de palavras extraídas do Alcorão, gravadas ao longo dos frisos do tecto. A sua cabeceira encontravam-se personagens com aspecto grave: o camareiro, o cadi(1), escudeiros,

 

(1) O cadi é uma espécie de juiz. Segundo a lei muçulmana, ele sentencia sobre todas as questões, do civil ao penal. Mas o meu mestre havia de me explicar que a sua competência se estendia sobretudo às questões mais estreitamente relacionadas com a religião. Citou-me como exemplo: o direito familiar ou sucessório e as fundações piedosas. (Nota de Jozjani.)

 

dignitários imobilizados dentro de cafetães cor de céu, o jurisconsulto el-Barguy, assim como o vizir Ibn el-Sabr, enroupado numa burda adamascada de cores ocre e negra.

De pé, junto do emir, Ibn Sina adivinhava os olhares assestados nele. Espreitavam os seus gestos, procuravam decifrar o seu pensamento. Dirigiu-se a Ibn Khaled, uma personagem austera, com uns sessenta anos de idade, médico pessoal do soberano.

— Rais... gostaria de conhecer o historial da doença.

O sobrenome de rais, cientemente empregado por Ibn Sina, devia ter lisonjeado o médico, pois um clarão atento iluminou de repente o seu olhar até então desconfiado.

— Tudo começou há mais de um mês. O nosso emir bem-amado despertou, queixando-se de cólicas muito violentas e de ardências de estômago. Eu examinei-o e, não tendo descoberto nada de significativo, receitei uma decocção de mélia, que, como sabes, é um analgésico eficaz. Aconselhei também a noz-da-índia. O que me parecia...

Ali interrompeu-o.

— Perdoa-me, venerável Khaled, mas voltemos ao historial. Houve outros sintomas, além das cólicas e das ardências de estômago?

— Uma paragem do trânsito intestinal.

— Examinaste a parede abdominal?

— Com certeza. Notei que ela estava particularmente sensível no seu conjunto. Muito dolorosa ao tocar.

— E... aconselhaste, portanto, um laxante.

— Naturalmente: ruibarbo. Ali franziu o sobrolho.

— Não estarias de acordo com o emprego do ruibarbo?

— E a receita dum laxante que não me parecia muito desejável. O médico quis protestar, mas Ali anticipou-se:

— Em seguida, qual foi a evolução?

— Vómitos.

— Estudaste o seu aspecto?

— Tratava-se de vómitos de cor anegrada.

— Depois?

Neste ponto do interrogatòrio, Ali julgou sentir um certo embaraço no seu interlocutor. Teve de repetir a pergunta.

— Diarreias. Diarreias espontâneas. Mas posso afirmar, e afirmo que essas diarreias não eram, em caso algum, provocadas pelo ruibarbo!

— Não tem importância nenhuma, venerável Khaled. Continuemos!

— Foi, então, que se deu uma coisa assaz frustrante. Todos esses indícios se sumiram de uma só vez, como por magia. Até pensámos que a doença se havia extinguido pela misericórdia de Alá. Mas, infelizmente, uns dias depois, o ciclo recomeçou: dores, ardências, paragem do trânsito intestinal, diarreias espontâneas e vómitos.

— Efectuastes sangrias?

— Várias vezes. Sem resultado.

Uma nova expressão contrariada apareceu no semblante de Ibn Sina.

— Seria o célebre cheikh el-rais contrário à sangria?

O homem, que acabava de exprimir-se assim, fizera-o com mal disfarçada agressividade.

— Quem és tu?

— Ibn el-Suri. Mandaram-me vir de Damasco.

— Na Síria não se ensina aos estudantes que, em certos casos, a sangria pode ser mortal para o paciente?

O médico pôs-se a rir.

— Aos dezoito anos, já te julgas acima do grande Galeno? A sangria foi, desde sempre, a arma terapêutica por excelência!

— Não estou aqui para expor a minha opinião acerca de Galeno, nem para te esclarecer quanto ao emprego da sangria. Em compensação, se quiseres frequentar aulas, o que me parece uma medida desejável, fica sabendo que eu ensino, todos os dias, no bimaristan.

Sem esperar pela réplica do sírio, ele inclinou-se para Ibn Khaled:

— Tens outras coisas a dizer-me?

O médico manteve o silêncio, depois pegou em Ali pelo braço e levou-o até ao leito. Aí, afastou o lençol com um gesto brusco, descobrindo assim o corpo do príncipe.

— Olha!

Num primeiro tempo, ele não notou nada de especial. Foi somente após uma observação mais minuciosa que reparou na posição curiosa em que se encontravam o dedo médio e o anular de ambas as mãos. Os dois dedos estavam em parte dobrados e tortos. Tentou desenlear as falanges, mas estas recusaram-se a qualquer extensão. Levantou os braços do soberano, tornou a largá-los, para verificar que eles caíam de cada lado do corpo como duas massas destituídas de vida.

— Paralisia bilateral dos membros superiores...

— Exactamente. E tenho muito medo de que seja irreversível.

— Eu não seria tão afirmativo.

— Nesse caso, o cheikh el-rais poderia dar-nos a honra dum diagnóstico?

Ali não teve necessidade de se voltar, para saber quem era o autor da pergunta. Deitou uma olhadela indiferente ao sírio e retirou-se para um canto da sala, onde pareceu meditar.

— Alguém de entre vós me pode dizer em que é que bebe o emir?

A assistência encarou-o com surpresa.

— Numa taça, evidentemente — respondeu uma voz.

— De que género?

— De que género queres tu que ela seja? — replicou Ibn Khaled, com uma ponta de irritação. — Como todas as taças: de barro.

— Posso ver uma delas?

— Não vejo, na verdade, o interesse de semelhante pedido! Ali insistiu.

Com um gesto agastado, Ibn Khaled bateu as palmas. Um criado apareceu.

— Traz-nos lá uma das taças de que se serve o soberano!

— E aproveita para a encher de vinho! — acrescentou o sírio com desprezo. — O nosso jovem amigo, aqui presente, já é, ao que parece, grande amador disso!

Com o olhar fixo no homem, Ali murmurou:

— Deus cerca os incrédulos por todos os lados. Pouco falta para que o raio lhes tire a vida...

— E ei-lo a citar o Livro! — replicou o sírio, divertido.

O criado voltou, enfim, com o objecto pedido. Uma vez entregue a Ali, este fê-lo girar na palma da mão e restituiu-o.

— Está bem — disse, suavemente.

Sem esperar mais, sob o olhar circunspecto da assistência, voltou a aproximar-se da cama e apontou para a boca do emir.

— E ali que deveria achar-se a confirmação do diagnóstico. Ajoelhou-se e levantou o lábio superior do soberano. Alguém, na sala, fez chacota:

— O menino prodígio do Khorasan é, pois, também dentista! Indiferente, Ali prosseguiu:

— Se vos derdes ao trabalho de examinar as gengivas do soberano, notareis que elas estão debruadas por uma orla.

O sírio por pouco não sufocava.

— Há dois anos que nos martelam os ouvidos com o génio do filho de Sina, para ele vir aqui anunciar-nos a descoberta duma orla na boca real! E risível. E mesmo insultante!

Murmúrios confusos fízeram-se ouvir na assistência.

— Intoxicação pelo chumbo!

A afirmação estalara, cobrindo o vozeio.

— Intoxicação pelo chumbo! — repetiu Ali, martelando as sílabas, uma a uma. — E aqui está o responsável.

Tornou a tirar a taça das mãos do criado.

— Observai bem os ornamentos que rodeiam a parede exterior. São bonitos, requintados, delicados, mas, antes de mais nada, são pintados. Não podeis ignorar que todas as tintas estão carregadas de chumbo, e a que serviu para ornamentar esta taça não é excepção. Compreendeis, agora?

Como ninguém reagisse, ele retomou o fio do discurso:

— De cada vez que o príncipe leva a taça aos lábios, absorve, na mesma ocasião, sais tóxicos. Com o tempo, esses sais acabaram por minar o seu organismo.

Indicando o soberano, que continuava imóvel:

— E o resultado aqui está.

Um silêncio estupefacto seguiu-se à explicação de Ali. Ibn Khaled foi o primeiro a perguntar:

— Tens a certeza do teu diagnóstico?

— A minha única prova será a cura do príncipe. Só espero que não seja tarde de mais para travar o mal. Neste género de doença, quanto mais depressa se agir, tanto mais probabilidades se tem de salvar o paciente.

Esta última observação não fez senão agravar o mal-estar já instalado.

— Que tratamento propões?

— Haverá que aplicar, todas as horas, compressas quentes sobre o estômago. Depois preparareis uma mistura composta por extractos de beladona, de meimendro, de tebaína e de mel, o que dará uma pasta, que se deixará endurecer e que se fará assimilar ao doente por via rectal. Isto, duas vezes por dia. Claro está que nunca mais se deverá servir o soberano nessas taças. Mais tarde, consoante a evolução da doença, poderemos pensar noutras medicações, que seria fastidioso enumerar aqui.

— Será feito como tu ordenas — disse Ibn Khaled. E acrescentou muito depressa, como que envergonhado:

— Cheikh el-rais...

O vizir, que, até então, se tinha limitado a observar os acontecimentos, decidiu intervir:

— Parece-me preferível que sejas tu a seguir o nosso ilustre paciente. Assim, serás só tu a recolher o mel do êxito ou o leite amargo do malogro.

Ibn Sina levou algum tempo, antes de responder:

— Acedo ao teu pedido, excelência. Mas ponho uma condição...

— Qual?

— Tratarei o príncipe, sozinho. Ninguém deverá imiscuir-se no meu tratamento.

O vizir baixou a cabeça, como se procurasse contar os fios de ouro que ornavam as suas babuchas, e inclinou-se.

— Já que é esse o teu desejo...

Ibn Sina procurou com os olhos o médico sírio, mas ele tinha saído do quarto.

Nos dias que se seguiram, toda a província do Khorasan conteve a respiração. O cheikh el-rais, o príncipe dos médicos, seria bem sucedido onde os maiores espíritos do país haviam falhado?

No recinto da escola de Bukhara, professores e estudantes interrogavam-se quanto aos verdadeiros méritos do filho de Sina. Todas as sextas-feiras, ao sair da mesquita, o povo fazia o mesmo. Enquanto que, às portas da cidade, no instante em que o dia azula as cúpulas da cidadela, a narrativa da visita ao palácio alimentava a arenga dos mendigos.

Foi por volta do décimo terceiro dia de muharram, cerca de vinte e dois dias mais tarde, que uma delegação, composta pelo camareiro e por mamelucos (1) que formavam a guarda do emir, se apresentou na morada de Abd Allah.

Uma hora depois, introduziram Ali no palácio. Mas, desta vez, em lugar de conduzi-lo directamente à cabeceira do príncipe, levaram-no para uma sala que ele ainda nunca tinha visto. Um lugar ainda mais deslumbrante do que era o quarto do soberano. Contra sua vontade, o jovem sentiu-se tomado de vertigens à entrada daquela imensa sala apainelada, de tecto abobadado,

 

(1) Que Alá perdoe a minha impertinência, mas muitos são os rum que poderiam crer que a palavra mameluk é um título honorífico qualquer; por isso, julgo útil especificar que o termo vem do participio passado malaka, que quer dizer, simplesmente, possuir. Um mameluco nada mais é do que um escravo na posse do seu amo. (Nota de Jozjani.)

 

povoada por uma floresta de pilares de mármore branco. O sol, que jorrava das janelas de ébano abertas para a planície, fazia cintilar os polígonos de marfim, as estrelas de turquesa, os arabescos cor de malva, as cerâmicas aniladas, que, por seu turno, iluminavam com mil lampejos o espelho do chão. No fundo da sala, em direcção ao nascente, erguia-se um biombo de renda de madeira preciosa. Através dos interstícios orlados de madrepérola, Ali avistou de relance o trono coberto de folhas de ouro e de prata, erguido sobre um pedestal de bronze.

«Colocámos essas constelações no céu. E ornámo-las para aqueles que o olham...»

A voz grave de Nuh o segundo do nome não vinha de lado algum.

Ali não viu, a princípio, mais do que uma vaga silhueta, atrás do biombo. Deu-se um movimento de tecido a roçar, depois apareceu o soberano, vestido com uma ampla djukha adamascada, um casaco comprido de mangas largas, e com a testa cingida por um turbante sabiamente enrolado.

— Sê bem-vindo, Ibn Sina!

Ali ajoelhou-se e quis, espontaneamente, beijar o chão diante do soberano. Mas este impediu-o.

— És um sábio, Ali ibn Sina, o mestre dos sábios, mas és também um menino que ignora o protocolo da corte: só se beija o chão em presença do califa. Ainda que esse uso, como a maior parte dos nossos usos, tenha praticamente desaparecido por influência do ocupante árabe.

Ele calou-se, depois, com uma súbita amargura, acrescentou:

— De resto, seria preciso encontrar-se oportunidade para honrar o califa. Desde que a dinastia buyida domina Bagdad, diz-se que cada dia vê matar um califa e proclamar outro!

Fez uma nova pausa, e a sua expressão descontraiu-se:

— Mas não estamos aqui para chorar pela sorte da Cidade Redonda. Quero agradecer-te, filho de Sina. Dizer-te quão grande é a gratidão do meu coração. O teu talento e as tuas acções benéficas foram-me contados pelas pessoas que me rodeiam; de má vontade, é certo, mas foram-no, ainda assim.

— Senhor, o meu talento e as minhas acções benéficas vêm-me do Criador de todas as coisas. E a Ele que há que dar graças. Eu não possuo senão o que Ele me deu.

— Alá concede também o dobro a quem Ele quer. Por isso também lhe podemos dar graças. Quanto a mim, tenho uma dívida para pagar, pois devo-te a vida, o bem mais precioso. Gostaria de te recompensar. Já sei que nem os tesouros de Samarcanda mais os de Ispahan reunidos bastarão. No entanto, pede. Pede e eu satisfarei o teu desejo.

— Senhor, a tua saúde recobrada é o meu presente mais caro. Ele bastará para a minha felicidade.

O soberano entristeceu-se.

— E pensaste na minha? Gostarias que eu perdesse o sono? Não achas que as manhas de Mahmud o Gaznávida e as conjuras buyidas me causam preocupações suficientes para que a tua recusa me seja também causa de desagrado? Não, em verdade, filho de Sina, se atribuis importância ao meu bem-estar, exige a tua recompensa!

— Mas eu não sei...

— Reflecte!

— Senhor, não estou interessado nem nos tesouros de Samarcanda, nem nos de Ispahan. Mas se as riquezas terrestres me importam pouco, as do espírito, em compensação, são-me indispensáveis.

— Não compreendo. Que desejas, então?

— Uma autorização.

— Qual?

— O acesso à biblioteca real dos Samânidas. Nuh ibn Mansur arregalou os olhos, de espanto.

— A biblioteca real? E tudo?

— Sabes que a lei só lá admite os notáveis. Se eu pudesse lá trabalhar, por minha vez, isso valeria para mim mais do que mil moedas de ouro.

— Decididamente, Ali ibn Sina, apesar da tua pouca idade, possuis a ciência, mas também a sapiência. Pois bem, seja. A partir de hoje, as portas da biblioteca real estarão abertas para ti. Poderás lá ir à vontade e consultar todos os livros, todos os documentos que quiseres. Possa o Altíssimo ajudar-te a aumentar assim o teu saber... Mas não é tudo. Doravante, viverás na corte e serás meu médico pessoal. Estou farto desses incompetentes adiposos que envelhecem nas suas babuchas. Desde há muito que eu procurava desembaraçar-me deles. Tu forneces-me a ocasião para tanto. Vai, pois, e que a paz seja contigo, filho de Sina! — Que ela esteja sobre ti, senhor...

«Acreditarias em mim, se eu te dissesse que nunca alegria maior foi dada ao meu mestre?

«No dia seguinte, o emir mandou-lhe entregar um cofre -zinho cheio até às bordas de moedas de ouro. Sua mãe ficou assustada com isso, seu irmão, maravilhado, e Abd Allah, tomado por um incomensurável orgulho; enquanto que, nessa mesma altura, o xeque começava a percorrer um caminho que levava a esplendores de uma outra dimensão.

«A biblioteca real era comparável às de Chiraz, de Ispahan ou de Raiy, cujas riquezas o país inteiro gabava, no entanto. Nuh II tinha feito ponto de honra em enriquecê-la com textos preciosos e raros, que lhe traziam de Bagdad ou da China as caravanas que seguiam a rota do Khorasan.»

— Todo o saber do mundo conhecido deve estar reunido neste lugar!... — exclamara ele, ao contemplar as estantes de madeira de cedro, que pareciam subir até ao céu.

«Todas as obras estavam classificadas, arrumadas; os registos, actualizados; as inspecções, irrepreensíveis. Os escritos encontravam-se redigidos em materiais tão diversos como os rolos de papiro egípcio, os pergaminhos de carta, e, sobretudo, papel do País Amarelo ou de Bagdad.

«O papel... Já pensaste sequer no que ele representa para nós? Observa, toca, apalpa essas folhas que tens entre as mãos.

Sente o seu cheiro. Vê como elas estão vivas, ardentes ou frias, conforme o pensamento do autor. Apercebes-te da palpitação que nasce debaixo dos teus dedos? Creio que nunca, desde que esse material existe, o sábio muçulmano se mostrou tão infatigável escritor. Os escritos proliferam tão rapidamente, nos nossos dias, que o ofício de copista-livreiro se tomou tão rendoso como o de camareiro.

«Os três anos seguintes foram para o meu mestre um período de grande enriquecimento. Ele aprofundou e dominou perfeitamente a jurisprudência. A literatura, tal como a música e as suas modas deixaram de ter segredos para ele. Graças ao grande Ptolomeu, de que já conhecia a astronomia, aprendeu os mecanismos do nosso universo, o movimento dos planetas fixados nas suas esferas respectivas, perfeitamente transparentes. Teve diante dos olhos os mapas das constelações estabelecidos por Hiparco e a sua estimativa do brilho das estrelas.

«Enquanto completava as suas noções de matemática, qual não foi a sua surpresa ao descobrir as obras dum certo Tales, um homem de ciência jónio, que enunciava teoremas geométricos semelhantes àqueles que Euclides haveria de sistematizar, três séculos mais tarde. Percorreu também os manuscritos de Eratóstenes, que dirigiu a grande biblioteca de Alexandria e que um dos seus contemporâneos invejosos alcunhou de Beta, nome da segunda letra do alfabeto grego, pois, dizia este, ele era segundo em tudo.

«Que Alá me perdoe!, havia de confiar-me, mais tarde, o meu mestre, mas esse contemporâneo era um iletrado. Eratóstenes merecia antes a alcunha de Alfa. Foi ele o primeiro homem a ter tentado medir a dimensão da Terra, e a consegui-lo. Devemos-lhe também a prova da curvatura do nosso mundo.

«O xeque teve também entre mãos um documento absolutamente surpreendente, cuja cópia se teria encontrado, ao que parece, na biblioteca de Alexandria; o autor, um tal Aristarco, dizia aí que a Terra não era mais do que um planeta, o qual, como os outros planetas, girava em volta do Sol.(1)

 

(1) Como deves supor, trata-se de conclusões desprovidas de sentido. Todos nós sabemos, tal como ensinou o grande Ptolomeu, que o universo está centrado em volta da Terra e que são, pelo contrário, o Sol, a Lua e os outros astros que giram em seu redor. (Nota de Jozjani.)

 

«Completou também os seus conhecimentos de filosofia, tentando desesperadamente compreender as contradições que, desde sempre, tinha encontrado na leitura dessas duas obras de Aristóteles: a Metafísica e a Teologia.

«No decorrer desses três anos, produziu-se uma série de acontecimentos importantes, que tenho de referir. O primeiro, e não dos menos dolorosos, foi a morte súbita do emir Nuh II. Este perdeu a vida durante uma das batalhas que travava contra os seus inimigos. Ao cabo de vinte e um anos de reinado, o soberano benfeitor extinguiu-se nos primeiros dias do ano de Cristo de 997, ou seja, quase dez meses depois de Ali o ter salvo do anjo da morte. Foi o seu filho Mansur quem lhe sucedeu.

«Por razões que seria fastidioso enumerar aqui, conflitos de ambição, voracidade dos estadistas, Mansur foi destronado e cegado, e colocaram o seu irmão Abd el-Malik à frente do Khorasan. Na realidade, por detrás dessas sucessivas perturbações, perfilava-se a sombra de Mahmud o gaznávida.

«Para Ali, a situação permaneceu praticamente inalterada: ambos os sucessores de Nuh II lhe renovaram a sua confiança.

«No início do seu vigésimo ano, a rogo do jurisconsulto Abu Bakr el-Barguy, decidiu-se a pegar no càlamo. Em poucas semanas, redigiu para ele um conjunto de dez volumes: O Tratado do Resultante e do Resultado, assim como um estudo acerca dos costumes: A Inocência e o Pecado.

«Ao mesmo tempo, elaborou em honra do seu vizinho, el-Arudi, uma obra geral sobre a filosofia: A Filosofia de Arudi, cujos vinte e um volumes a tornavam tão densa como O Tratado do Resultante e do Resultado.

«Foi pelo décimo sexto dia do mês de rabi al-awwal, do ano 1000 para os cristãos, que os acontecimentos se precipitaram. Abd el-Malik, o novo emir, continuava a reinar em Bukhara. O meu mestre entrava no seu vigésimo primeiro ano.

«Nesse dia, estava ele sentado, em companhia de el-Massihi, nos degraus da biblioteca real. E o poente insinuara-se nos jardins, tornando impreciso o contorno das coisas...»

— Tornaste-te o alvo de todas as maledicências, Ali ibn Sina.

— Quando é que tu deixarás de me martelar os ouvidos, bem-amado el-Massihi?

— Não compreendes que a cura do emir Nuh II fez nascer à tua volta a inveja e o ódio? Desde há três anos que correm rumores nocivos a teu respeito. Propósitos insultantes. Não está longe o tempo em que te atribuirão os dez vícios de Dahak.(1)

— Estou disposto a admitir todos os seus vícios, excepto a fealdade e a estatura!

— Meu irmão, não pareces compreender a gravidade da situação. Mas a tua ironia é compreensível, visto que não sabes toda a verdade.

— Que se poderia acrescentar a tudo o que já me contaste? El-Massihi baixou os olhos, sem responder.

— Abu Sahl, começas a inquietar-me. De que outra monstruosidade me acusam? À vista do teu embaraço, o caso deve ser verdadeiramente sério.

— Com efeito...

— Ou já disseste demasiado ou ainda não disseste o suficiente. Fala, pois, el-Massihi!

— Yahudi...

O médico tinha de tal modo murmurado a palavra que Ali julgou ter ouvido mal.

— Yahudi... Dizem que és judeu.

Primeiro, petrificado, Ibn Sina saltou, literalmente.

— Judeu! Mas, então, quem está na origem duma acusação tão blasfematória?! Quem? Intimo-te a responder-me!

Num impulso amistoso, el-Massihi levantou-se por sua vez e agarrou no braço de Ibn Sina.

— Acalma-te! São simples mexericos.

— Aí, és tu quem disparata. E muito mais grave do que simples mexericos. Mas por que incrível volta é que essa ideia pôde brotar nos espíritos? Eu sou chiita. É de notoriedade pública. Isso é insensato, absurdo!

— Menos absurdo do que tu pensas. A tua família tem má reputação. Não me confiaste tu, há uns anos, que o teu próprio pai se tinha convertido à heresia ismaelita e que tinha feito tudo para te convencer a fazer o mesmo?

— Isso é história antiga. As crenças do meu pai pertencem-lhe. Por minha parte, nunca renunciei à chi'a.

El-Massihi tossiu ligeiramente, para firmar a voz.

— E Sêtareh?

Uma palidez medonha invadiu o semblante de Ali.

— Que queres tu dizer?

— Serias de mãe judia.

As bolachas sem fermento... sempre na mesma data... Ainda há algumas semanas, inspirado por um estranho pressentimento, ele não pudera deixar de verificar isso e apercebera-se de que essa data correspondia pouco mais ou menos, no calendário judeu, ao 16 de nissan, dia da «apresentação das primícias da colheita», uma festa que se seguia à «Pessah». A Páscoa, para os filhos de Abraão... Era isso, então?

— De qualquer maneira — retomou Abu Sahl, num tom desprendido —, que importância pode ter isso? Serias judeu? Pois eu sou cristão. Haverá com certeza lugar suficiente no inferno para mais dois incrédulos!

— Cão, vais calar-te?!

Com uma dureza perfeitamente inesperada, Ali agarrou no médico pelos ombros e sacudiu-o como uma tamareira.

— Proíbo-te, estás a ouvir, proíbo-te de me chamar incrédulo ! O único incrédulo, aqui, és tu!

E repetiu:

— Cão!

Cego de furor, empurrou o amigo, que foi rebolar até ao fundo dos degraus da biblioteca. Foi só nesse momento que ele tomou consciência da espessa fumarada que subia para o céu. Primeiro, julgou ser vítima de uma alucinação, mas bem depressa compreendeu: a biblioteca real estava a arder!

Em breve, todo o céu se abrasou. O jardim, o pátio, as cúpulas, até a água dos tanques e dos fontanários, toda a paisagem se iluminou de púrpura e ocre.

— Abu Sahl!

Como um demente, Ali precipitou-se para o seu amigo inanimado. Já havia guardas correndo em todos os sentidos.

— Abu Sahl...

Perante a falta de reacção do médico, pegou nele por baixo dos braços e arrastou-o até à bacia de fontanário mais próxima. Tirando a água com as mãos, aspergiu-lhe a cara. Abu Sahl levantou as pálpebras, fazendo uma careta, e cruzou o olhar angustiado de Ali, iluminado pelas chamas.

— A Fornalha... já?...

— Ainda não é a Geena, mas não estamos longe dela! Podes levantar-te?

— Cheikh el-rais! Tens que te afastar daqui!

Ali reconheceu o uniforme negro da guarda do Khorasan.

— Ajuda-me a transportar o meu amigo! Ele está ferido.

— Nunca me senti melhor! — protestou el-Massihi, erguendo-se. Mas, assim que se pôs em pé, deu um grito de dor.

— O meu tornozelo...

Sem esperar, Ali fez sinal ao soldado para o ajudar a suster o cristão, e lá foram em direcção à Praça do Rigistan.

Na rua, era o desvario geral. Dir-se-ia que todos os habitantes de Bukhara se tinham atirado para fora de suas casas. As pessoas apinhavam-se na praça, interrogavam-se, apontando para a coluna de fumo que enegrecia o céu.

Com a ajuda do mameluco, abriram passagem de qualquer maneira através da multidão, até ao grande bazar coberto, onde reinava também um vento de loucura. Enquanto seguiam ao longo das bancas vazias, por um triz não foram atropelados por um grupo de cavaleiros, que tinha saído repentinamente da noite, descendo a praça à rédea solta.

— Mas é o fim do mundo! — gritou o cristão. — Eles perderam a cabeça!

— Não sei se é o fim do mundo — respondeu Ibn Sina, com uma voz surda —, mas esta biblioteca em chamas é uma parte do seu saber que se vai com o fumo. Só mais um esforço, estamos a chegar.

Ao fundo da viela, acabava de avistar-se a pequena casa de adobe. Mahmud corria ao encontro deles, seguido por Abd Allah e Sêtareh.

— Ali! — gritou o rapazinho, atirando-se quase ao pescoço do irmão.

Depois, reparando em el-Massihi, perguntou:

— Que lhe aconteceu?

Antes que Ibn Sina tivesse tempo de responder, el-Massihi vociferou:

— Fui empurrado por um imbecil...

Ibn Sina baixou os olhos, pouco à vontade.

— Cuidei que tivesses morrido, meu filho! — disse Sêtareh, acorrendo por seu turno.

— Está bem, mamèk, está bem. Tudo vai bem...

Com um certo embaraço, desenlaçou os braços da mãe e entrou em casa.

Abd Allah revezou o guarda, e estenderam o cristão em cima de um divã.

— Mãe, traz-nos um jarro de vinho! O álcool ajudá-lo-á a suportar a dor.

Abu Sahl observou-o de soslaio, enquanto ele lhe desapertava os botins. O pé direito estava vermelho, entumecido até aos dedos.

— Então, cheikh el-rais, descubro que também és veterinário?

— Que queres tu dizer?

— Pois não são os veterinários que tratam os cães?

— De que está ele a falar? — perguntou Mahmud. — Sofre da perna, e é a cabeça que está avariada?

— Com os cristãos, é assim. — gracejou Abd Allah.

Ali contentou-se com cerrar os dentes. Os seus olhos estavam cheios de noite.

A calma tinha voltado a Bukhara.

Sentado diante de seu pai, Ali bebeu pelo jarro o que restava de vinho. Todos dormiam. Eles estavam sós, debaixo da parreira.

— Portanto, não era um mmor...

— Filho, tu, que, aos dez anos, recitavas o Alcorão, deves lembrar-te melhor do que ninguém das palavras do Profeta.

— Esta noite, tenho a cabeça cansada.

— Então, se quiseres, eu serei por um instante a tua memória. Ele disse: «Menciona Abraão no Livro. Foi um justo e um profeta.»

Quase imediatamente, Ali replicou com uma voz triste: «Interroga os filhos de Israel: Quantas provas irrefutáveis

nós lhes demos! Mas Deus é terrível no seu castigo para aquele

que muda a mercê de Deus, após tê-la recebido.»

Abd Allah esboçou um ligeiro sorriso e redarguiu:

«Pois quem experimenta aversão pela religião de Abraão,

senão aquele que é insensato?» Não disse ele também isso?

Com irritação, Ali tirou de uma tigela um punhado de bagos

de romã.

— Pai, poderíamos atirar um ao outro versículos do Alcorão até amanhecer. Mas quanto a este assunto — que o Altíssimo me perdoe! —, só encontraremos contradições entre as cento e catorze suras. Resta, todavia, um versículo desprovido de toda a ambiguidade: «Ó vós que creis! Não tomeis por amigos os judeus e os cristãos, eles são amigos uns dos outros. Aquele que, entre vós, os tomar por amigos, é dos seus. Deus não dirige o povo injusto.»

Abd Allah observou o filho com tristeza.

— Então, darias a Abu Sahl, o cristão, aquilo que recusas à tua própria mãe.

Ali pôs-se em pé de repente, fazendo cair a tigela de romã, que se partiu.

— Mas tu não vês? Abre lá os olhos! Olha! Proibiam-me o acesso ao palácio, quando o emir estava agonizante! Compreendes, agora, porquê? E será assim em toda a parte. Hoje, em Bukhara. Amanhã, em Bagdad ou em Nishapur! Não compreendes? Eu sou um yahudil Aos olhos da Pérsia inteira, serei um yahudil

Abd Allah levantou-se por sua vez. O furor turvava-lhe o olhar. Agarrou no filho e puxou-o para si.

— Escuta-me bem, Ali ibn Sina! E que as minhas palavras se gravem para sempre na tua cabeça de pássaro maluco. És um crente. Um filho do Islão. Um chiita e nada mais. E a tua mãe é digna. E a tua mãe é boa. E tu és o fruto das suas entranhas. Mas se deves, um dia, corar por isso, então, peço-te, Ali ibn Sina: foge, foge para o mais longe que puderes. Deixa este tecto! Corre até aos limites do mundo conhecido, e que o mar das Trevas te leve para a eternidade!

 

                                      QUARTA MAKAMA

— Cheiram mal! Os excrementos dos camelos do país dos Turcos têm o cheiro mais detestável que há!

Ocupado a cortar uma tira de tecido de riscas largas, Salah o alfaiate meneou a cabeça com indiferença.

— Saído dum traseiro dailamita ou dum traseiro curdo, um excremento de camelo é sempre um excremento, meu irmão.

— De modo algum. Essas caravanas, que vêm lá do outro lado do Amu-Daria, exalam qualquer coisa de insuportável!

Continuando com a cabeça inclinada para a sua costura, Salah pôs-se a rir suavemente.

— Neste lugar em que o sândalo está misturado com o aloés, o gengibre com a canela, o benjoim com o açafrão, não vejo, na verdade, como é que podes fazer a destrinça entre o cheiro duma bosta de vaca, dumas caganitas de mula ou das fezes duma águia real. Deves ter um olfacto muito apurado!

Soleiman encolheu os ombros e continuou a entrançar os seus ramos de vime. Em redor deles, o grande mercado coberto vibrava, à dura luz do meio-dia. Aos relinchos das mulas respondia o cacarejo das capoeiras, e aos gritos dos mercadores de água, as altercações dos mendigos, que se juntavam, na poeira e no sol, àquela moléstia dos perfumes, de que falava Salah.

Mais longe, à sombra dos toldos cor de areia e de incenso, diante dos fardos inchados como odres e das seiras empilhadas, comerciantes pançudos, de caras vincadas, gabavam as suas pacotilhas com largos movimentos de mangas. Nesse universo em furta-cores, as ânforas da Ática, os tapetes de lã ou de seda safávida, as peles e os feltros do Turquestão, os tecidos de Damieta em brocado de ouro, a caxemira da índia, os gomis da Síria, as louças e os vasos cinzelados, o aço damasquinado, encontravam-se, em confusão, ao lado do sal e das tâmaras, do trigo e do mel, do âmbar e da pérola. Mais longe ainda, estavam à venda uns çaqaliba, eslavos com a face luzidia de suor, acabados de chegar das estepes do Norte, a caminho do mar dos Cazares.

O entrançador de vime inclinou-se discretamente para o seu vizinho.

— Reconheces esse homem?

— Vejo dois. De qual deles queres tu falar?

— Do mais novo. Reconhece-lo? Soleiman levantou de novo a cabeça.

— Quer-me parecer que é o cheikh el-rais.

— Exactamente: Ali ibn Sina. Estás a par das últimas novas? Soleiman disse que não.

— Conta-se que é ele quem teria deitado fogo à biblioteca real.

— O cheikh el-raisl Por que motivos teria ele feito isso?

— Para guardar só para ele os conhecimentos extraordinários que lá teria adquirido. Não achas que isso seria uma acção monstruosa?

— Se viesse a confirmar-se, seguramente: o saber é propriedade de Alá.

Ali, acompanhado por el-Massihi, passou pelos dois homens e continuou o seu caminho através do mercado. Passado um momento, quando estavam à vista do hospital, ele proferiu com desdém:

— Pergunto a mim mesmo quem será mais célebre, hoje, em Bukhara, se é o médico ou o pirómano?

— Esperava que o diálogo desses dois imbecis te tivesse escapado. Que queres que eu te diga? A língua de alguns sempre foi portadora de veneno. Que eles morram da sua raiva!

— Desde o vizir aos eunucos do palácio, isso causaria muitos mortos... Pois se muitos não estão convencidos da minha responsabilidade no incêndio da biblioteca real, todos eles se interrogam.

— Enquanto o emir permanecer acima das maledicências, nada tens a recear.

— Dos teus lábios às portas do céu, el-Massihi. Mas quanto tempo poderá durar esta situação? Compreendes, agora, a minha cólera nos jardins da biblioteca?

El-Massihi deitou um olhar de esguelha ao seu amigo e respondeu com uma certa ironia:

— Ali ibn Sina, se, por acaso, o meu espírito carecesse de discernimento, o meu tornozelo dorido cá estaria para colmatar essa lacuna.

— Nesse dia, um djinn(l) tinha apanhado a minha cabeça, el-Massihi. Perdoar-me-ás, alguma vez, a minha loucura?

— Filho de Sina, pode-se perdoar o que está esquecido? Eles não trocaram mais uma única palavra até chegarem à

entrada do hospital. Ao passar por baixo do grande portal, prepararam-se para saudar um grupo de estudantes que vinham na sua direcção, mas, para grande surpresa sua, como que tomados de pânico, os jovens afastaram-se apressadamente do seu caminho.

— Que é que lhes deu? — resmungou el-Massihi. — Falavas tu dum djinn, há bocado; é de crer que eles tenham visto um!

— É esquisito, efectivamente.

Invadidos por uma surda inquietude, atravessaram rapidamente o iwan e dirigiram-se para a câmara dos médicos. Foi aí que viram os mamelucos. Três deles estavam de guarda diante da porta, vedando-lhes a passagem. O quarto, que tinha ar de ser o chefe, interpelou-os secamente:

— Qual de vós dois é o cheikh el-rais? Ali respondeu espontaneamente:

— Sou eu. Que se passa?

— Ordem do cadi. A tua presença no bimaristan já não é desejável. Doravante, o acesso a este lugar está-te terminantemente proibido.

— Mas com que direito? De que me acusam?

— Estou aqui para cumprir a minha missão. Não sei mais nada.

El-Massihi protestou:

— E quem tratará os doentes, na nossa ausência? O cadi? O mameluco fez um gesto evasivo.

— Não sei nada dessas coisas. De qualquer maneira, a proibição só diz respeito ao cheikh el-rais. Tu podes prosseguir livremente o teu trabalho.

— E insensato. Deixa-me passar!

Com um gesto brusco, Ali empurrou o soldado e avançou para a porta. A sua tentativa foi imediatamente gorada pelos guardas. El-Massihi tentou interpor-se, mas o chefe chamou-o à ordem:

— Tu, ó dhimmi, se não queres sofrer a mesma sorte que o teu amigo, aconselho-te a ser dócil!

— E tu tem cuidado com as tuas palavras, senão alguém poderia cortar-te a língua!

O homem descurou a intervenção do cristão e interrogou Ibn Sina:

— Queres deixar este hospital por tua própria vontade ou os meus homens têm de se encarregar de te pôr lá fora?

Ali procurou uma resposta no olhar do seu amigo.

— Que queres tu fazer, quando o teu juiz é o teu adversário? — disse este. — Anda, vamo-nos embora! O ar tornou-se irrespirável.

Voltaram a atravessar o pátio inundado de sol e acharam-se de novo na mela.

— E agora? — interrogou Ali, com uma voz rouca.

— Contradizer a opinião dum príncipe é mergulhar a mão no próprio sangue. É preciso, acima de tudo, manter a calma.

— Mas o emir Abd el-Malik talvez não esteja ao corrente? Eleja não se lembra de que, há três anos, salvei a vida de seu pai?

— «Se sois amigo do rei, ele apanha-vos as riquezas; se sois seu inimigo, ele apanha-vos a cabeça.»

— Pareces perder de vista que eu continuo sendo seu médico pessoal. Se me comunicaram a minha demissão do hospital tal, em compensação nada me foi dito quanto ao meu futuro na corte.

— Ora, não te faças ingénuo. Bem sabes que as duas coisas vão a par.

— Quero ter a certeza! Vou daqui direitinho pedir uma entrevista a el-Barguy, que não deixa de ser jurisconsulto. Esse não pode ter esquecido todas as noites em claro que eu consagrei à redacção do seu Tratado do Resultante e do Resultado. Ele aju-dar-me-á.

— No teu lugar, eu não me mexeria. Estás à beira dum precipício. Pensa também nos teus pais. O teu pai tem uma idade avançada. Não estaria certo que os teus sofressem as consequências da tua exaltação.

— Não tenhas receio, el-Massihi. Talvez eu esteja doido, mas ainda me restam momentos de lucidez.

Com um embaraço evidente, o jurisconsulto apoiou o cotovelo num dos braços da poltrona de madeira de cedro e encostou a face direita ao seu punho fechado, exprimindo-se com lentidão:

— Não tenho nenhum poder, cheikh el-rais. O assunto, que te preocupa, não é da minha competência.

— Já vejo. Portanto, a ordem da minha destituição provém de mais alto que o cadi?

— Tu o disseste.

— Mas como é que o soberano pode crer que eu tenha deitado fogo à biblioteca real? É de tal maneira absurdo!

O olhar habitualmente muito límpido de Abu Bakr velou-se um pouco. Num gesto maquinal, passou com a mão pelos cabelos pintados com hena.

— Estamos rodeados de absurdos. Como sabes, a situação política é das mais precárias. Desde a morte de Nuh II, a dinastia samânida mete água por todos os lados. A águia turca não está longe de se precipitar sobre o Khorasan. Nestas condições, os nossos príncipes perdem o sentido do juízo. A menor suspeita redunda em acusação. Há que referir também que, desde há três anos, tu contribuíste largamente para a tua desgraça, por não procurares mitigar o ciúme e a inveja dos teus inimigos. Inimigos poderosos, Ali ibn Sina.

Enquanto falava, debruçou-se sobre a pequena mesa de marchetaria e pegou num prato de frutos secos, que ofereceu ao seu visitante.

— Agradeço-te, mas hás-de compreender que, neste momento, me falte o apetite. É verdade, confesso, que nunca soube calar as minhas opiniões. Mas que teria eu podido fazer? Tolerar em silêncio a incompetência dos médicos que rodeiam o emir? Aplaudir, perante a asneira?

— Conheces o provérbio: «Beija a mão que não podes morder.» Evidentemente, ainda és muito novo para aceitar esses princípios.

— Pergunto a mim mesmo se jamais poderei aceitá-los. Houve um silêncio, e Ali retomou:

— Se eu falasse ao emir?

— Ele não te receberá. A sua porta continuará fechada.

— E tu? Não poderias tu convencê-lo de que estou inocente do crime ignóbil de que me acusam?

— Não há só essa história do incêndio a pesar na balança, como deves supor.

Ibn Sina apertou com todas as suas forças os braços da poltrona.

O seu interlocutor recomeçou, com gravidade:

— Ser suspeito de descrença é um crime bem mais grave... Compreendes o que eu quero dizer?

Com o rosto mais branco do que o alvaiade, Ali levantou-se de um pulo.

— Escuta-me, Abu Bakr! Neste mundo, fica sabendo que só há um único homem do meu valor, um único, e chamam-lhe incrédulo; então, seja: não deve existir um único muçulmano neste mundo!

O jurisconsulto, sorrindo, passou a mão pela barriga.

— Isso é o protesto dum crente sincero ou o dum converso, que quer fazer esquecer a sua origem judaica? Afinal de contas, o teu próprio pai não abandonou o chiismo duodecimano pelo ismaelismo?

Ali teve a impressão de que as paredes da sala cambaleavam à sua volta. Quase imediatamente, voltou-lhe ao espírito a voz de el-Massihi: Estás à beira dum precipício...

Abu Bakr levantou-se lentamente.

— Bem vejo que me levas a mal eu ter-te falado sem rodeios. No entanto, é preciso que saibas que, apesar das aparências, não há em mim qualquer animosidade. Até tenho afecto por ti. Afecto e respeito. É por isso que gostaria de dar-te um conselho, cheikh el-rais. Ele vem do fundo do meu coração: enquanto que os homens se aproximam do Criador através de todas as variedades da devoção, tu aproxima-te d'Ele por meio de todas as formas de inteligência: chegas antes de todos. E enquanto as pessoas se cansam tanto a multiplicar os seus actos de adoração, tu preocupa-te unicamente com o conhecimento do mundo inteligível. Assim, irás bem mais alto do que a águia real. Falei claro?

— Muito claro, Abu Bakr. Guardarei os teus propósitos na memória. Agora, permite-me que eu me retire.

— Paz sobre ti, meu amigo.

— Sobre ti a paz, el-Barguy.

«Um Inverno terrível, como jamais sucedera, caiu sobre o Khorasan. Desde jumàda el-akhira a ragàb, os canais gelados não correram mais pelo fundo da planície e as águas do Zarafshan adormeceram no seu leito de cristal. Muitos julgaram que elas nunca mais tornariam a despertar. A certas horas, do alto da cidadela, no momento em que a luz parte para a noite, a paisagem lembrava um oceano de espuma branca e violácea com barcos parados. Era belo e assustador, ao mesmo tempo.

«Depois veio outra vez a suavidade do mês de sha'bàn. E, com o ramadão, o verde, o púrpura das rosas e o vermelho sangue das romãs abertas revelaram-se de novo.

«Que foi feito da vida do meu mestre durante esses seis meses? Afastado do hospital, ele aplicou toda a sua energia a cuidar daqueles que reclamavam a sua ciência, quer fossem notáveis ou mendigos. De cada vez que o clima o permitia, deslocava-se pelas povoações dos arredores, sem receber ouro nem prata, não querendo esperar a sua retribuição, senão do Altíssimo.

«Confidenciou-me ele que, de tempos a tempos, ia buscar uns furtivos lampejos de felicidade na pele de Warda. E confessou-me que, deitado junto dela, conheceu mais do que um momento supremo, longe da mesquinhez dos homens.

«Consagrou também numerosas horas ao estudo da religião de Abraão, e muitas vezes me haveria de repetir aquela sura: "Pois quem experimenta aversão pela religião de Abraão, senão aquele que é insensato?"

«Desde então, as verdades da sua fé tomaram-se como o vento de shamal, que sopra sobre as pistas, mas que nunca se vê; porque ele sofreu demasiado com a intolerância dos homens, e com a sua.

«Mas, hoje, não é tempo de melancolia. Estamos no último dia do santo mês do ramadão. O dia do Eid el-saghir, que assinala o fim dos trinta dias de jejum. Sêtareh serviu um carneiro grelhado, que cheira a canela e a cominhos bravos, guarnecido com pinhões, passas e amêndoas. Sobre o grande tabuleiro de cobre, cinzelado com arabescos, há um número impressionante de pequenos pratos.

«Todos os amigos estão presentes, excepto el-Biruni, que está em Gorgan, ao serviço do caçador de codornizes, e de Firdussi, que regressou à sua cidade natal de Tus, para continuar a redacção do seu Livro dos Reis.

«Há ali alcachofras, favas, sémola, que Sêtareh enrolou durante horas em manteiga feita com leite de ovelha; peixe com açafrão, arroz em abundância, leite coalhado. Para a sobremesa, espera uma pirâmide de guloseimas envoltas em mel, deliciosos melões, que Mahmud trouxe do mercado, chegados de Ferghana em caixas de chumbo cheias de gelo, para melhor resistirem à viagem.

«Naquela mesa, não se encontram legumes como a abóbora ou o tomate, nem carne de lebre ou de gazela, outros tantos alimentos proibidos pelas nossas crenças chiitas. Em compensação, a cebola e o alho, se bem que desaconselhados pelo Profeta, estão presentes. Na verdade, se Muhammad rejeitava o uso dessas plantas, era, sobretudo, por causa do mau hálito que provocavam e que ele tinha repugnância em sentir nos lugares de oração.»

— Excedeste-te, mamèk — disse Mahmud, molhando um bocado de pão de centeio em leite coalhado. — E uma verdadeira walimal

— Melhor ainda — exagerou el-Massihi —, raramente vi uma boda tão rica!

— Eu, de boa vontade, comeria mais uma fatia desse maravilhoso carneiro — anunciou el-Mughanni.

— Que parte preferes, desta vez? — interrogou Sêtareh.

— Tal como o Profeta, o ombro e as patas dianteiras.

— Afinal — fez notar Ibn Zayla —, há algo de espantoso, quando se pensa em todas estas iguarias maravilhosas, que o homem inventou, em todas as horas, que ele dedica a prepará-las, para satisfazer uma ínfima parcela de si: o palato. Tesouros de engenho destinados a estes poucos instantes furtivos, em que se leva a comida aos lábios.

— Não sou da tua opinião — protestou Abd Allah. — No cerimonial dum repasto não há só o gosto. O prazer está também na vista.

E tomou Ibn Sina como testemunha:

— Não és tu que me vais contradizer, meu filho. Tu que acrescentaste aos quatro sabores gustativos, descritos pelo teu mestre Aristóteles, o mau gosto, a insipidez e outros mais...

— Tens razão, pai. Facilmente se poderia enriquecer essa lista com o prazer da vista, assim como com o olfacto e o tacto. Há mesmo qualquer coisa de sensual na percepção dum prato. Muitos outros elementos participam no sabor duma refeição. E, inclinando-se para o músico, sugeriu:

— A música não é um deles?

Como se não esperasse mais que essa ocasião, el-Mughanni pousou a sua taça de vinho de palma e apossou-se do seu instrumento, uma kemangeh aguz, uma variedade de alaúde. Entalou entre as coxas a ponta de metal, que sobressaía na parte de baixo da caixa, e colocou o arco sobre uma das cordas. Com uma arte consumada, fez girar o instrumento da direita para a esquerda, e a música envolveu a casa.

— Toca, el-Mughanni, toca!... — murmurou Abd Allah, deitando ligeiramente a cabeça para trás e fechando os olhos.

— Alá me perdoe... que mais pedir à vida? Rodeado por aqueles de quem se gosta, diante duma refeição digna dos príncipes, tendo a seu lado filhos e uma esposa a quem se ama... não é isso uma felicidade que nos baste?

Os convidados aprovaram sem reservas esses propósitos. Então, el-Mughanni, excitado pelo vinho, pôs-se a tocar mais apaixonadamente. E terminou sob uma salva de aplausos.

— Maravilhoso! — disse Ibn Sina, com admiração. — És um grande artista, el-Mughanni.

Procurou a aprovação de seu pai. Foi, então, que notou que a cabeça do velho lhe tinha descaído sobre o peito, ligeiramente inclinada para o lado, enquanto os braços lhe pendiam ao longo do corpo.

— Pai!

O grito de terror de Ali ressoou na sala inteira. Os olhares de todos os presentes convergiram para Abd Allah. E eles compreenderam.

— Depressa, ajudai-me! Há que levá-lo para a cama!

No quarto, estenderam Abd Allah em cima de um cobertor de lã, e Ali apressou-se a tomar-lhe o pulso.

— Estará ele?... — murmurou el-Mughanni, branco como a cal da parede.

A voz de Ali interrompeu-o brutalmente.

— O coração ainda bate — anunciou ele, voltando-se para el-Massihi, ajoelhado do outro lado da cama.

Durante todo o tempo que durou o exame, o silêncio foi tal que se teria podido ouvir o estremecimento do ar dentro do quarto. Ali escutou as palpitações do sangue nos diferentes pontos do corpo. Estudou os membros, o brilho dos olhos, verificou a cor e a temperatura das extremidades. Quando tomou a erguer-se, enfim, tinha as feições cobertas de suor. Fez sinal a todos, com excepção de el-Massihi, para que os deixassem sós.

Sêtareh tinha agarrado na mão inerte do seu esposo, e nada neste mundo teria podido separá-la dele. Fechando a porta atrás dos convidados, Mahmud, com os olhos toldados pelas lágrimas, veio sentar-se no chão, ao lado da mãe.

El-Massihi e Ali aproveitaram o ensejo para se afastarem até à janela aberta sobre o poente.

— Então?

Ali limpou com as costas da mão as gotas de suor que lhe orvalhavam os lábios, enquanto olhava o seu amigo com um ar perdido. El-Massihi repetiu a pergunta.

— Nada...

— Que dizes tu?

— Nada... Está tudo negro na minha cabeça... El-Massihi agarrou-o pelos ombros e disse-lhe baixinho:

— Terias tu enlouquecido? Acabas de o examinar, não? Ibn Sina aquiesceu, com uma expressão vaga.

— E, então, que é que notaste?

— Parece... parece-me... que há paralisia completa do lado direito.

El-Massihi esbugalhou os olhos.

— Parece-te?

— Já não ouço! Não vejo nada! Não consegues compreender?

Quase gritara, reprimindo com todas as suas forças o choro aue lhe subia à garganta.

— Torna a cair em ti, por Deus, torna a cair em ti ! Eu sei que se trata do teu pai, mas é, antes de mais nada, um doente, um doente como os outros! Como todos aqueles que tu trataste!

Ali agarrou-se à aba da veste de el-Massihi:

— Examina-o tu, por piedade! Examina-o! Desamparado, o cristão pareceu hesitar, depois decidiu-se a

ir até à cama.

Sêtareh veio ter com Ali, junto da janela.

— Vais salvá-lo, meu filho... Vais salvá-lo, não vais? Ele baixou a cabeça, procurando evitar o olhar da mãe.

— Tu és o cheikh el-rais, tu és Ibn Sina, o maior dos médicos... Vais salvá-lo...

«Ali ibn Sina não salvou o seu pai... Não soube. El-Massihi confiou-lhe os resultados do seu exame. Falou-lhe duma perda da sensibilidade, duma frieza das extremidades, do olhar fixo de Abd Allah, sem dúvida já aberto para a morte, e o meu mestre bem reuniu na sua cabeça todos os conhecimentos, todo o saber do cheikh el-rais, o príncipe dos médicos; mas nada compreendeu. Os seus livros mais não eram do que páginas em branco.

«Só sei que ele teria querido que o Altíssimo restringisse a sua vida, para prolongar a do seu pai, e que nada mais fez, senão rezar.

«El-Massihi sugeriu a sangria. Via uma embolia. Se Ali tivesse aprovado, talvez Abd Allah tivesse sobrevivido. Paralisado, sem dúvida, mas vivo. Ali recusou a sangria. Noutros casos, teria sem hesitação praticado ele próprio o gesto, mas, naquele dia, não foi capaz de ver correr o sangue de seu pai.

«Abd Allah morreu, passados uns dias.

«Repousa no cemitério de Bukhara. Deitado sobre o flanco direito, orientado para Meca, sem cúpula por cima do seu túmulo — como quer a tradição — para que nada impeça a chuva de correr sobre a pedra.

«O meu mestre decidiu partir. Vai-se embora, e Mahmud ficará ao pé de Sêtareh. Com as moedas de ouro, derradeiro presente do falecido emir Nuh II, estarão por muito tempo a salvo de necessidades.

«Ele já não espera nada daquela província. O palácio, a cidadela, a grande mesquita, os canais tornaram-se uma ofensa, a seus olhos. E o seu coração chora, quando avista da janela a Casa do Tesouro, aonde seu pai nunca mais irá.

«Decidiu partir e falou nisso a el-Massihi, que quer acompanhá-lo, pois pressente que a dinastia samânida está a chegar ao fim. Amanhã, daqui a uma semana, daqui a um mês, Bukhara e toda a província do Khorasan cairão irremediavelmente sob a dominação turca.

«Disse adeus a Warda. E eu sei que as lágrimas, que ela derramou, lhe afogaram o coração.

«Eles não sabem para onde irão. A terra da Pérsia é vasta, as sazões variadas e as cidades inumeráveis. Talvez vão ter com el-Biruni à corte do caçador de codornizes. Ou, então, talvez desçam para sul, para o Fars ou para o Kirman, ou subam mais para norte, até ao Turquestão. Para o sítio, onde correm as nascentes do olvido...»

 

                               QUINTA MAKAMA

Acompanhados pelo som dos tambores mortuários, os penitentes desfilavam em fileiras cerradas na praça de Dargan. Dargan, aldeia castanha com casas de lama seca e de tijolos cozidos. Dargan, encostada à corrente do Amu-Daria, que, naquela manhã, tinha ares de fim do mundo.

Ibn Sina, el-Massihi e o seu jovem guia, forçados pela massa compacta dos aldeãos reunidos a ambos os lados da rua, tiveram que imobilizar-se ao pé da manara, a alta torre de sinalização.

Dezenas de estandartes bordados com versículos do Livro estalavam ao vento por cima da cabeça dos recitantes, que caminhavam a gemer e a bater no peito. Um porta-guião abria a marcha: sobre o tecido, um desenho representava uma mão aberta, símbolo do chiismo(1).

Encorajados pelas vociferações da multidão, homens e adolescentes, com a cara colorida de vermelho, flagelavam com uma violência extraordinária os seus peitos nus, utilizando pontas de aço, ou laceravam à facada os seus crânios rapados, manchando de sangue a testa, as faces, as túnicas de lã branca. Uma mulher gritou, à beira da histeria. El-Massihi, assustado, tentou dominar o arrebatamento do seu cavalo:

— Teríamos nós chegado a Gomorra?

Ali replicou, gritando para se sobrepor ao rumor que rugia de todos os lados:

— Hoje é o décimo dia de dhà el-higgà O dia memorável de Karbala!

O guia voltou-se com espanto para Ibn Sina:

— O dia de Karbala?

 

(1) Os cinco dedos representam o Profeta, Fátima, sua filha, Ali, seu genro, e os dois filhos do casal, Hassan e Hossein. (N. do T.)

 

— Ghilman(1) mas a que religião pertences tu, para ignorares o que é Karbala?

Um novo grito de mulher encheu o espaço. O guia respondeu, pondo as mãos a fazer de porta-voz:

— Sou um parse. Um parse como o era o meu pai!

— Fica, então, sabendo que o dez de dhù el-higgà é o dia em que Hossein, o filho mais novo do genro do Profeta, foi derrotado em Karbala, quando tentava apoderar-se do califado. No fim da batalha, foi decapitado pelos seus inimigos, tornando-se assim o maior dos mártires chiitas. O chahid por excelência.

Ali designou os penitentes:

— Todos os anos, esta gente dá assim testemunho da sua morte...

— Mas eu julgava que esta manifestação fosse reprovada pelas altas autoridades chiitas? — admirou-se el-Massihi.

— Não só reprovada, mas também proibida. O que não impede que, aqui e ali, o povinho continue ainda a comemorar Karbala. E...

Ali interrompeu-se. Um adolescente titubeante acabava de chocar de frente com o seu cavalo. Desequilibrou-se para trás, com os olhos exorbitados, e rodopiou sobre si próprio, antes de cair no chão como uma flor cortada.

— Está morto?! — exclamou o guia, com assombro.

— Simplesmente desmaiado. Antes do fim do dia, muitos outros lhe irão fazer companhia.

Ali voltou a sua atenção para a procissão, que continuava a desenrolar a sua faixa sangrenta através da aldeia. Um dos flagelantes atraiu-lhe o olhar: tinha o crânio coberto de sangue e de farrapos rosados de pele arrancada. Aparentemente insensível à dor, ele lacerava as faces à facada.

— Vai esvaziar-se do seu sangue... — suspirou Ali, aterrado.

 

(1) Descansa, ghilman é um sobrenome que nada tem de ultrajante. E uma palavra árabe que quer dizer, simplesmente, homem novo ou rapaz. Significa também criado; habitualmente, criado de condição livre. Num passado ainda próximo, foram assim designados jovens príncipes abássidas. E posso confiar-te que conheci príncipes que lembravam criados e criados, príncipes... (Nota de Jozjani.)

 

E gritou na direcção do penitente, embora consciente de que este não o podia ouvir.

— Há que fazê-lo parar, é uma demência!

Antes que el-Massihi e o guia tivessem tempo para reagir, ele apeou-se e correu para o homem. Quase imediatamente, levantando nuvens de poeira, uns cavaleiros surgiram de parte nenhuma. Com um turbante na cabeça, um lenço preto atado ao pescoço, chibatando violentamente os cavalos, transpuseram a toda a pressa a orla da aldeia. No contraluz, um sabre faiscou ao sol.

Foi o guia o primeiro a dar o alarme:

— Os Ghuzl

Imediatamente, voltou rédeas, num gesto desvairado, exclamando de novo:

— Os Ghuzl Há que fugir depressa!

Com o olhar fito em Ali, que já só estava a uns passos do penitente, el-Massihi não pareceu ouvi-lo.

— Pelo fogo sagrado! Terás ficado surdo? Eles vão chacinar-nos até ao último. Temos que fugir da aldeia!

— E tu terás ficado maluco?! Não vamos abandonar o Ali! Com uma pancada seca, dada na garupa do cavalo, dirigiu-

-se a toda a pressa para o seu companheiro. Este, metido na multidão, tinha conseguido desarmar o penitente e tentava retirá-lo da procissão.

Em torno deles, a horda invadira a praça. Os cavaleiros da frente, de sabre em punho, passavam em pequenas vagas por cima dos aldeãos.

— Ali!

Impelindo a sua cavalgadura através da multidão apavorada, el-Massihi tentava desesperadamente aproximar-se do seu amigo, que amparava o ferido. Como num pesadelo, enxergou a arma que se ia abater sobre o xeque.

— Ali! Cuidado!

Foi sem dúvida pela expressão aterrorizada do flagelante, que ele arrastava a seu lado, que Ibn Sina compreendeu que a morte se encontrava por cima dele. O sabre caiu sobre ele, rompendo o ar com um silvo áspero. E mal ele teve tempo de saltar para trás, sentindo uma terrível mordedura à altura do antebraço.

— Monta!

Ali reconheceu a voz do ghilman e apressou-se a agarrar a mão que este lhe estendia.

Entretanto, o pânico apoderara-se de toda a aldeia. Escarranchado atrás do guia, Ali tentou manter o equilíbrio, enquanto abriam caminho através da multidão. Ao deitar uma olhadela por cima do ombro, viu, num turbilhão de poeira, rebentar o crânio do flagelante. Sem saber muito bem como, com el-Massihi no seu encalço, conseguiram sair da aldeia. A sua frente, apareceram, então, campos de algodão maduro, alinhados ao longo da margem direita do rio.

Trazido pelo vento seco, o eco dos combates perseguiu-os por muito tempo no coração da planície. Quando se atenuou, enfim, separavam-nos de Dargan quase dois farsakhs(1). Só então é que reduziram o andamento. O que el-Massihi aproveitou para vir ter com os seus companheiros.

— Que se passou? — começou ele, com uma voz rouca. — Nunca vi...

Mas interrompeu-se, ao ver a túnica ensanguentada de Ibn Sina.

— Estás a sangrar. Estás ferido...

Ali deitou uma olhadela à ferida aberta no seu antebraço.

— Não creio que seja muito grave. Em todo o caso, é menos grave do que a perda do meu cavalo e do alforje que continha os meus instrumentos e as minhas notas. Felizmente que conservei a minha bolsa, presa à cintura.

— Mais vale isso do que uma cabeça cortada! Haverá, mesmo assim, que esterilizar a tua ferida. Tenho comigo tudo o que é preciso.

— Quando pararmos. Ainda estamos muito perto da aldeia. E, dirigindo-se ao guia, pediu:

 

(1) Um farsakh equivale a cerca de 6 quilómetros. (N. do T.)

 

— Agora, explica-nos quem são aqueles loucos?

— Membros duma tribo turca oriental — respondeu o guia. — Vivem nas estepes do Norte. A princípio, comerciavam em bom entendimento com as gentes do Kharazm, mas muito depressa as agressões começaram. Primeiramente, limitaram-se a confrontos com os Ghazis, os muçulmanos fronteiriços, depois vieram as razias de maior extensão. Até se atreveram a atacar os arrabaldes de Kath, a principal cidade da região, situada mais a norte, do outro lado do rio.

— E que fazem as autoridades?

— As forças do emir Ibn Ma'mun, o soberano do Kharazm, ripostam, claro está. Mas não é fácil. Os ataques dos Ghuz são tão violentos como imprevisíveis.

— E, agora — interrogou el-Massihi, com uma voz cansada —, que vamos fazer? A sorte não parece ser-nos favorável.

— Dargan continua sendo o termo da nossa viagem — respondeu Ali com firmeza. — Não é um bando de rapinantes que dele nos afastará.

O guia aprovou.

— Creio, no entanto, que seria mais prudente passar a noite noutro lado. Amanhã, tudo estará outra vez calmo.

— Se bem entendo, propões-nos dormir mais uma vez ao relento! Isso é mais do que os meus pobres ossos podem suportar!

— El-Massihi, meu irmão, não paraste de gemer, desde que partimos. Deverias saber, contudo, que não há nada mais saudável do que dormir ao ar livre.

— As noites são de tal modo frias que mesmo os escorpiões estão gelados! Além disso...

— Que o Invencível nos proteja! — lançou o guia. — As vossas disputas vão acabar por nos dar azar! Escutai-me lá! A dois ou três farsakhs daqui, encontra-se um khan, o khan Zafarani. Poderemos alojar-nos lá. Tu tratarás o teu braço, e, amanhã, logo veremos.

— Essas pousadas à beira da estrada repugnam-me — suspirou el-Massihi — cheiram a bosta. Mas temos por onde escolher?...

Ignorando o comentário do médico, o guia deu o sinal da partida, e eles puseram-se de novo a caminho em direcção ao norte.

Nada, fora o assobio tépido do vento e o martelar dos cascos, veio perturbar o silêncio da sua cavalgada. Onde quer que o olhar se pousasse, só havia planície ondulante; a estepe inculta, vazia, prolongada até ao infinito, colorida, em certos pontos, por tufos de ervas secas, raras, tão frágeis que se poderia julgá-las transparentes.

Quando chegaram, enfim, ao seu destino, o Sol tinha quase desaparecido entre as colinas de terra vermelha e os montes longínquos do Khorasan.

No crepúsculo, o khan apresentou-se aos seus olhos como uma construção quadrangular de dois andares, com torres maciças em cada esquina e paredes de tijolos cozidos reforçadas por contrafortes. Se não fossem os salientes enquadrando um monumental pórtico de arco angular, decorado com arabescos, dir-se-ia um fortim.

Os cavaleiros meteram-se por uma espécie de vestíbulo, para o qual se abriam, a um lado e a outro, os compartimentos do guarda e lojas com bancas carregadas de objectos de primeira necessidade. Depois depararam-se-lhes o grande pátio e o respectivo tanque.

No rés-do-chão, dispunha-se, debaixo de galerias, o que pareciam ser depósitos e alojamentos. Ao lado direito, entre a oficina do ferrador e as cavalariças, avistaram um homem de cara esguia que lhes fazia sinal. Após as saudações habituais, confiaram-lhe as bestas e encaminharam-se para a sala dos viajantes.

A imensa sala abobadada desaparecia num fumo acinzentado. Encostadas às paredes ou sentadas em tamboretes improvisados, destacavam-se silhuetas, à luz bruxuleante das tocheiras: dailamitas, de feições curtidas, de olhos negros, que cheiravam ao mar dos Cazares; nómadas da China, de fácies amarelado, de olhar oblíquo, velado por aquela expressão enigmática própria das populações de além do Pamir; curdos, com nariz de águia preso por baixo de uma larga testa apergaminhada.

Próximo de um prestidigitador, Ali indicou a braseira, sobre a qual estava colocada uma chaleira de cobre, cheia de chá.

— Empresta-me o teu punhal! — pediu ele a el-Massihi.

— Tu pareces esquecer-te, por vezes, de que eu também sou médico... — vociferou o cristão. — Eu vou tratar de ti.

Um instante depois, já ele tinha cortado a manga de Ibn Sina e lavado a ferida com vinho. Em seguida, recuperando a lâmina, que tinha previamente aquecido nas brasas até ficar branca, murmurou:

— Cerra os dentes, meu irmão, que isto vai cozer... Exalou-se um cheiro a carne queimada, quando ele aplicou a

folha do aço sobre a ferida. Com o rosto bmscamente encovado, Ali praguejou:

— Dhimmi, que o Altíssimo te perdoe!... Noto que sentes, neste momento, um certo prazer.

El-Massihi replicou, com um sorriso:

— Um tornozelo em troca dum antebraço... Não sei qual de nós dois ganha com isto...

Rebuscando na sua sacola, tirou de lá um pó amarelado, com o qual polvilhou a ferida enegrecida pelo fogo. O guia perguntou, intrigado:

— Enxofre em cima duma chaga?

— Não, meu amigo, hena. Tem uma virtude cicatrizante das mais enérgicas. Recordo-me dum rapaz de dezasseis anos, que, numa rixa, tinha sido espezinhado pelos cascos dum cavalo. A sua ferida abrangia toda a região muscular braquial, um pouco a baixo da articulação, e, graças a uma aplicação de hena, em doze dias, a cicatrização foi total.

— Folhas de murta também são soberanas para acalmar a dor — acrescentou Ali. — Mas imagino que não encontraremos disso aqui.

Deitando um olhar satisfeito à sua ferida, ele retomou:

— Agora, se arranjássemos um canto sossegado... Todas estas emoções me despertaram a sede.

Mal eles se tinham instalado num canto da vasta sala, quando um homem seco, com uma larga faixa atada à cintura, se lhes apresentou cortesmente:

— Que a paz seja convosco!... Julguei compreender que tendes fome.

— Que tens tu para nos propor? — perguntou Ali.

— Tenho harissa, arroz, carneiro, lagarto e, sobretudo, uvas de Ta'if... A escolha é grande.

— Deixa o lagarto para os Árabes! Mas desconheço a harissa. O que é, então?

— Carne picada e trigo cozido com gordura. E excelente.

— Quero ter esperança de que o teu carneiro não seja mayta (1)como o teu lagarto!

O homem cruzou os braços, com um sorriso divertido:

— Se eu te respondesse que não, como farias tu a diferença? Não te inquietes, pois. Alá é grande e misericordioso.

— E também impiedoso para aqueles que renegam voluntariamente os seus preceitos. Serve-nos lá a tua harissa e umas tâmaras. Mas, antes de tudo o mais, vinho. Sobretudo, vinho.

— Também tenho pãezinhos com papoila. Com papoila de Ispahan, a melhor.

— Suponho que o suco fosse amassado com água?... — lançou el-Massihi com uma pontinha de desdém.

O homem levantou o queixo, ofendido.

— Com água nunca, meu irmão, com mel, mel de Bukhara...

— O melhor, é claro — sublinhou o guia, com um sorriso divertido.

 

(1) Sempre fiquei surpreendido ao verificar que o meu mestre se entregava sem escrúpulos à bebida, aos prazeres do corpo, e se recusava, em contrapartida, a infringir a lei islâmica que proíbe comer may ta, isto é, carne dum animal encontrado morto. Mas suponho que era mais por um princípio de higiene do que por motivos religiosos. (Nota de Jozjani.)

 

O homem aprovou, imperturbável:

— O melhor...

— E como são os teus quartos? — inquietou-se ainda el-Massihi. — Espero que a sua qualidade nada tenha a ver com esses khans de montanha, em que só se dispõe duma miserável banqueta para passar a noite! Ou de estrados sobrelevados, onde se dorme com menos conchego que os animais!

— Não tenhas receio!... Disporeis de um quarto e de esteiras de junco.

— Nesse caso, está perfeito... Nós ficamos — disse Abu Sahl, fechando os olhos com ostentação.

A alguns passos deles, um homem de rosto burilado pôs-se a tocar um saroh; era um instrumento raro naquela região, que, pela sua forma de losango, fazia lembrar uma raia. Este tinha uma particularidade: na extremidade da haste, um pássaro, um tentilhão, talhado na madeira, parecia segurar no bico as oito cordas.

Uma música estranha, lancinante, encheu a sala. Contra sua vontade, Ali sentiu-se levado para as suas recordações e com o coração oprimido.

Havia já dois meses que eles tinham deixado Bukhara e a província do Khorasan. De lugarejos a aldeias, de oásis a caravançarais, tratando, aqui e ali, aqueles que reclamavam os seus cuidados. Dois meses: uma eternidade. Ele sentia a falta de Sêtareh e de Mahmud, e a imagem de Abd Allah assediava as suas noites. Cem vezes, deitado sob as estrelas do Uzbequistão, ele tinha julgado ouvir a sua voz no sopro gélido do vento. Cem vezes, tinha imaginado a sua silhueta, ao rodear uma colina. E, naquela noite, ali estava ele, naquele khan do fim do mundo, sem objectivo definido, a não ser a fuga para o desconhecido.

— Desejas uma fumaça, cheikh el-rais? Arrancado ao seu devaneio, Ali sobressaltou-se.

— Uma fumaça? — repetiu o desconhecido, apresentando-lhe o tubo de um narguilé envolto em marroquim vermelho.

Ele aceitou e levou aos lábios a boquilha de âmbar escuro.

Aspirou lentamente o fumo de ópio, fazendo murmurar a água morna e perfumada que estremecia dentro do vaso.

— Porque me chamaste por esse nome?

— Não é assim que te apelidam por todo o país? Eu chamo-me Abu Nasr el-Arrak. Sou matemático e pintor nas horas vagas.

Calou-se e, debruçando-se sobre um saco de pele, tirou de lá vários esboços, na maior parte representando cavalos e paisagens. Ali inclinou-se, perante a grande qualidade dos desenhos.

O homem continuou:

— Avistei-te, uma noite, aquando dum banquete na corte do emir Nuh. Estavas tu, então, no auge da tua glória.

Ali aspirou mais uma fumaça, antes de responder laconicamente:

— E o passado...

Restituiu o tubo do narguilé ao seu interlocutor e bateu as palmas:

— Taberneiro! O teu jarro faz-se esperar! O homem perguntou-lhe:

— Aonde te diriges assim?

— Ontem, Chach; amanhã, Dargan; um dia, Samarcanda; talvez, mais tarde, o País Amarelo... O mundo é vasto.

El-Arrak passou, distraidamente, a boquilha do narguilé pelos seus lábios grossos:

— Dargan? Essa aldeia perdida? Mas é um lugar indigno dum homem como tu!

Fez uma pausa e indicou:

— Xeque Ibn Sina, sabes que de bom grado te acolheriam na corte de Ali ibn Ma'mun, o emir de Gurgandj? Se o desejares, eu posso interceder em teu favor.

O taberneiro apresentou-se com os pratos. Sem esperar que ele tivesse acabado de arrumá-los aos pés dos comensais, Ali pegou no jarro de vinho e encetou-o a grandes goles, sob o olhar desaprovador de el-Massihi.

— Acautela-te, filho de Sina! O ópio é soberano, a água do esquecimento também, mas os dois juntos dão-se tão mal como a ratazana e o falcão.

— Vinho, vinho e páginas em branco... Que isso te agrade ou não, esta noite baterei com a taça na pedra.(1)

— Só faltava a poesia nas tuas prendas — replicou el-Massihi com irritação. — Doravante, é caso arrumado!

Com os primeiros efeitos do ópio, as pupilas de Ali velavam-se já.

— Dhimmi, meu irmão, não sou um poeta, simplesmente me sirvo da poesia. As gerações vindouras o confirmarão sem dúvida.

Ignorando o epíteto de dhimmi, Abu Sahl voltou-se para el- Arrak:

— Permite-me que me apresente: chamo-me Abu Sahl el-Massihi e...

O homem interrompeu-o, surpreendido:

— O médico? O autor dos Centos? Lisonjeado, o cristão observou:

— Vejo que conheces excelentes obras. E exacto. Mas explica-me porque dizias tu poder interceder a favor do xeque?

— Porque eu próprio vivo na corte de Gurgandj. Desde há alguns anos que a corte ma'munida se tornou um centro de ciências para os eruditos e os literatos de todo o islão oriental. Por instigação do seu vizir, el-Soheyli, o emir rodeou-se duma brilhante assembleia de figuras. Até se fala de recebermos, nos próximos meses, alguém que vós conheceis talvez: Ahmad el-Biruni.

Ali sobressaltou-se:

— El-Biruni? Mas eu julgava que ele estivesse em Gorgan, junto do caçador de codornizes?

— É verdade. Mas os acontecimentos por lá são preocupantes. Fala-se de revoltas militares provocadas pela tirania do governador de Astarabad. Na sua última missiva, el-Biruni encarava seriamente a possibilidade de deixar o Daylam.

Ali ensopou um pedaço de pão no prato de harissa e levou-o à boca:

 

Expressão que significa beber até à última gota. (N. do T.)

 

— Decididamente, as nossas dinastias são tão movediças como a curva das dunas...

— Voltemos aos teus conselhos! — disse el-Massihi, servindo-se por sua vez. — Julgo saber que já existe um médico junto do emir; nesse caso, em que é que Ibn Sina e eu próprio poderíamos ser úteis?

El-Arrak acabou de chupar no seu narguilé, com um sorriso ao canto dos lábios.

— A vossa modéstia é grande. Mas a notoriedade do xeque é maior ainda. Não é somente o médico que a corte se honraria em receber, mas também o sábio, o pensador universal. Eu regresso de Ferghana, onde tive que ir por razões familiares. Mas, já amanhã, seguirei viagem para Gurgandj. Se quiserdes, poderemos encaminhar-nos juntos para lá.

El-Massihi abanou a cabeça, pensativamente.

— A ideia seduz-me bastante... E tu, filho de Sina?

— Se o emir está interessado num jurisconsulto, eu poderia ser esse homem. Mas se é um médico de talento que ele procura, nesse caso, terá de contar com Abu Sahl. Com Abu Sahl unicamente. O meu destino mudou de cara...

El-Arrak deitou um olhar perplexo a el-Massihi.

— Deixa... — disse Abu Sahl suavemente. — Daqui por diante, o cérebro do nosso amigo está sob o domínio total da ratazana e do falcão.

— A tua afirmação só é verdadeira em metade — replicou Ali, com uma voz que o álcool tornara incerta —, e eu comprometo-me a rectificá-la.

Endireitou-se lentamente e gritou:

— Vinho, taberneiro!

A uns passos deles, o tocador de saroh, que não tinha parado de dedilhar as cordas do seu instrumento, disse com uma voz distante:

— A melancolia é a aflição da alma, meu irmão... E contra esse inimigo a água do esquecimento é ineficaz.

Ali ergueu-se subitamente.

— Que sabes tu da alma, meu amigo? Acaso a conhecerias tão bem como eu conheço a música? Porque eu também conheço a música. Entre outras, a do teu país. Pois parece-me reconhecer, naquilo que tu tocas, árias inspiradas no deus Shiva. Não tenho razão?

Como única resposta, o homem meneou a cabeça e continuou a tocar. Ali recomeçou, com uma voz que o álcool e o ópio tornavam pastosa:

— Sei de cor o sistema musical de Bha-rata, a Sagrama, a gama primária, a gama complementar. Posso...

— Então, sabes também que, para as gentes do meu país, a música é uma arte essencialmente divina. Por conseguinte, todo o músico possui em si uma parte de Shiva ou... de Alá.

Ali pôs-se a rir suavemente.

— Es filósofo ou músico?

Como o outro mantivesse o silêncio, acercou-se dele, disposto a polemicar; mas, bruscamente, qualquer coisa no olhar do homem o travou. Era um olhar fixo, um olhar branco, sem vida, incrustado num rosto transtornado, percorrido por mil rugas. Ali compreendeu que o homem era cego. Então, sentou-se em frente dele e contentou-se com observar em silêncio os dedos que corriam ao longo das cordas de seda.

O músico disse, passado um momento:

— Então, reconheces que a música é uma arte essencialmente divina?

O filho de Sina aprovou.

— Então, porque te admiras, quando eu te digo que conheço a alma? E a tua está triste, mais triste do que a fusão do gelo nas montanhas do Pamir. Dá-me a tua mão !

Ele hesitou. Depois apresentou-lhe a palma da mão direita, que o homem aprisionou entre os seus dedos rugosos. Pousando o seu instrumento no chão, fez deslizar com uma lentidão fascinante o indicador da sua mão livre sobre a mão de Ibn Sina.

Agora, todas as caras estavam voltadas para eles.

— Tu não és de sangue real, mas és um príncipe — começou o cego em voz baixa —, pois entre os teus dedos repousa o dom da vida. Sinto a tua juventude, ela palpita, ela bate debaixo da tua pele, e, no entanto, já és velho. Conheceste as honras e a traição. Em verdade, conhecerás honras e traições maiores ainda.

Ele apertou mais fortemente a mão de Ali, prosseguindo com uma certa tensão:

— Amaste, mas ainda não conheces o amor. Encontrá-lo-ás. Ele terá a tez do país dos Rumes(1) e os olhos da tua terra. Sereis felizes, muito tempo. Negá-lo-ás, mas será o teu amor mais durável. Ele ficará contigo, por tu o teres encontrado. Ele não está longe, dorme algures entre o Turquestão e o Djibal.

O homem fez uma pausa.

— E tocarás nas estrelas. Aproximar-te-ás delas como raramente um homem o fez. Alguns te amaldiçoarão por isso. Serás imortal, mas a tua imortalidade terá como preço uma eterna vagueação.

Subitamente, tornou-se hirto e acrescentou com uma certa emoção:

— Desconfia, meu amigo, desconfia das planícies do Fars e das cúpulas douradas de Ispahan, pois é aí que se acabará o teu caminho. Nesse dia, a teu lado, haverá um homem, um homem de alma negra. Que Shiva amaldiçoe para sempre a sua memória!...

Acabada a sua predição, tornou a pegar no saroh e pôs-se a tocar outra vez, como se nada se tivesse passado.

Ali, muito pálido, tinha dificuldade em esconder a sua perturbação. Com os lábios secos, não conseguia proferir nem mais uma palavra. Foi precisa a voz de el-Massihi, para o tirar do seu torpor.

— Pelo Altíssimo! — disse Abu Sahl, num tom que pretendia ser desprendido. — Esse velho lagarto é um excelente comediante. Ao ver a tua expressão, até julguei que ele te tivesse apanhado.

— Sem dúvida — murmurou Ibn Sina, com um sorriso forçado. — É, de facto, um excelente comediante.

 

(1) Os Romanos. Mais propriamente, o Império Romano do Oriente, ou seja, Bizâncio e os seus territórios. (N. do T.)

 

El-Arrak tentou por sua vez desanuviar a atmosfera:

— Todos esses videntes têm isto em comum: é que os seus propósitos são sempre evasivos. Nenhum interesse para um espírito científico.

Ali aprovou, com o olhar enevoado.

— Em todo o caso, há uma coisa que esse homem conseguiu fazer: foi desembriagar-me. Agora, há que recomeçar tudo... Pas-sa-me lá esse jarro, ghilmanl

Abu Sahl adiantou-se ao guia.

— Um instante, filho de Sina! Eu não vou passar a minha vida errando nas estepes do Uzbequistão. Dentro em breve, estarás caído no chão. Por isso, gostaria de conhecer, agora, a tua decisão: seguimos o nosso conselheiro até Gurgandj?

Ali estendeu a mão para o jarro, respondendo com um estranho sorriso:

— O lugar de destino é Gurgandj, claro está... Como fugiria eu ao amor?

 

                                   SEXTA MAKAMA

Quando transpuseram a porta do Fir, uma das quatro portas abertas na alta muralha que rodeava Gurgandj(1), a Lua estava cheia no céu.

Precedidos por el-Arrak, atravessaram as ruelas adormecidas da cidade interior e viraram à direita, à altura da imensa praça do mercado, para se dirigirem, em seguida, até à Bab el-Hudjaj, «a Porta da Peregrinação», onde se encontrava o palácio do emir Ibn Ma'mun.

Prevenido pela sentinela no alto da torre de vigia, um destacamento de soldados, embiocados nos seus uniformes verdes, aco-lheu-os diante do portal de ébano. Depois de el-Arrak ter declinado a sua identidade ao comandante, este designou ao guia o seu alojamento e, seguidamente, escoltou os três homens através dos jardins até ao edifício principal, onde um criado preto, vestido com umas calças entufadas e trazendo um archote, se encarregou deles.

— Que a paz seja convosco! — disse ele, inclinando-se perante o matemático. — O camareiro incumbiu-me de conduzir os teus hóspedes aos seus aposentos. Recomendou-me também que te diga que o nosso bem-amado vizir Ahmad el-Soheyli vos concederá audiência, amanhã mesmo.

— Que seja feito, pois, segundo a vontade do camareiro! Nós seguimos-te.

Acompanhando o criado, el-Arrak voltou-se para Ibn Sina e declarou com satisfação:

 

(1) Tenho muito medo de que a cidade de Gurgandj já não exista, na hora em que leres estas linhas. Fica sabendo, simplesmente, que ela se encontrava nas margens do Amu-Daria, a uma dezena de farsakhs do mar do Khuwarizm. (Nota de Jozjani.)

Jozjani tinha razão. Hoje, é a pequena cidade de Urgenç, na República do Uzbequistão, que se ergue no antigo sítio de Gurgandj, a uns sessenta quilómetros do mar de Arai, onde desagua o Amu-Daria. (N. doT.)

 

— Receei, um instante, que a mensagem, que eu tinha mandado ao vizir, não lhe houvesse sido entregue a tempo. Comprovo com satisfação que o nosso sistema de correio não funciona muito mal.

Ali aquiesceu, com um movimento do queixo.

— Com a teia de aranha que formam através de todo o país as mil estações de muda de cavalos, seria uma decepção se assim não fosse.

— E as torres de vigia são também eficazes. Raros são aqueles que passam através das malhas da rede.

— Salvo os Ghuz! — fez notar el-Massihi, com uma certa ironia.

El-Arrak teve um gesto fatalista.

— Todas as defesas têm a sua fraqueza...

— Para ser sincero, julguei, durante muito tempo, que essas torres não tivessem outra finalidade senão servir como pontos de referência visíveis de longe para as caravanas.

— Não deixas de ter razão, pois também servem para esse efeito. E até acontece serem erguidas unicamente como colunas de vitória.

Acabavam de chegar ao cimo de uma escada de mármore cor-de-rosa. Perante eles, abria-se um longo corredor de paredes decoradas com frescos, sobre os quais se projectava a sombra ténue das tocheiras. O criado imobilizou-se diante duma das portas e mostrou ao mesmo tempo uma outra, um pouco mais longe, ao lado esquerdo.

— Os teus hóspedes que escolham — disse ele, inclinando-se.

— Está perfeito — disse el-Arrak. — Cheikh el-rais, é aqui que os nossos caminhos se separam. Eu fico alojado no andar de cima. Espero que a noite vos seja agradável.

— Aceita os nossos agradecimentos, Abu Nasr. Que a felicidade esteja ao teu despertar.

Ali seguiu com os olhos o matemático, enquanto este se retirava, na peugada do criado negro. Quando se voltou para el-Massihi, o médico tinha desaparecido. Esquadrinhou, um instante, a penumbra e ouviu o seu companheiro murmurar vagamente:

— Al Hamdu lillah... Glòria a Deus!... Uma cama... enfim, uma cama!

O Sol estava quase no zénite, quando Ibn Sina abriu os olhos. Pestanejou, um pouco desconcertado, e precisou de um momento para tomar consciência de que estava em Gurgandj, em casa do emir Ibn Ma'mun. Saiu do leito, enrolando-se no cobertor de pêlo de camelo, e dirigiu-se à janela, onde um espectáculo surpreendente o esperava: um jardim.

Um jardim, que nada, à primeira vista, diferenciava dos espaços verdes do príncipe Nuh II, ou dos outros jardins de notáveis que Ali tivera ocasião de ver. Foi somente após uma segunda observação que as diferenças lhe saltaram aos olhos, e que a respiração lhe ia faltando.

As centenas de palmeiras, que marginavam a àlea central, não eram verdadeiras palmeiras; as faias tampouco; ainda menos, os maciços de rosas e os tufos de erva densa. Ali bem procurava, mas, excepto a areia das áleas e a pedra, não reconhecia naquela estranha florescência nenhum elemento natural.

Os troncos das árvores eram de prata esculpida; alguns eram mesmo de marfim. O sol passava através de milhares de rosas, todas feitas de fragmentos de vidro esmaltado; o seu caule era de cerâmica de Raiy. Espantosos ornatos de folhagem, também eles de cerâmica, rodeavam um grande lago de jardim com o rebordo atapetado de faianças cor de turquesa; mas o tanque não tinha água, somente mercúrio. Um lago de mercúrio, em que vogavam pequenos navios com velas de ouro; uns autómatos, como o eram as dez estátuas de guerreiros que meneavam a cabeça, erguendo para o céu punhais com esmeraldas engastadas.

Era feérico, assustador ao mesmo tempo. Frio como a soberba e quente como a Geena. Ele pensou no emir e perguntou a si mesmo se havia que atribuir uma tal obra à sua loucura ou à sua ingenuidade, ou se era, simplesmente, um capricho de príncipe?

Umas pancadas discretas na porta arrancaram-no à sua contemplação. No limiar, encontravam-se dois criados com os braços carregados de roupas.

— Para o xeque — anunciaram eles, quase em coro. — Da parte do vizir.

Um deles acrescentou:

— Sua Excelência encarregou-me também de vos dizer que vos receberá, assim como o emir Ibn Ma'mun, daqui a duas horas, à sua mesa. Entretanto, se o desejais, posso conduzir-vos ao hammam.

Não era proposta que lhe desagradasse; durante cerca de dez dias, só tinha conhecido a água das fontes. Indicou o quarto no fundo do corredor, onde el-Massihi devia ainda dormitar.

— Preveni, pois, o meu companheiro. Estou certo de que terá prazer em juntar-se a mim.

Os dois criados retiraram-se, cumprimentando por duas vezes, e Ali pôde examinar à vontade o presente que acabavam de lhe dar.

Sem dúvida alguma, o ministro tinha melhor gosto do que o seu soberano. Quer se tratasse da tanga, que servia de roupa interior, ou das camisas de baixo, a qualidade dos tecidos era irrepreensível. Não faltava nada: nem a djubba de pura lã branca, nem a barda, nem tampouco o turbante, que nada tinha a invejar à «nuvem», como era conhecida a peça de tecido que protegia a cabeça do Profeta. Sandálias de couro, botins, babuchas ornadas com fios de ouro, cafetã guarnecido a fio de prata e, sobretudo, a kaba, uma soberba veste de brocado, com mangas fendidas do lado da frente; cada uma das peças era de um puro requinte.

Não passou despercebido a Ali que uma das djubbas tinha sido usada. Mas não ficou surpreendido com isso, antes honrado, por não ignorar que oferecer uma vestimenta pessoal era um sinal de amizade e de afecto.

A sua mão roçou na perolazinha azul, presente de Salwa. Ele apertou-a com muita força, pedindo que nunca mais voltasse a viver os últimos meses passados em Bukhara.

Ahmad el-Soheyli era um homem duns cinquenta anos. Com um ar afável, uma fisionomia aberta, dotado de uma certa nobreza, com os olhos cor de tâmara faiscando de inteligência, sentia-se que o homem impunha naturalmente o respeito e a fidelidade dos seus colaboradores. As promoções sucessivas, que o haviam levado até ao vizirato, devia-as ele unicamente ao seu grande sentido da diplomacia, a uma clarividência indubitável e a uma maneira de abordar as coisas da política que se poderia qualificar como visionária. Acima de tudo, ele possuía essa faculdade rara que permite a certos homens ler no coração dos outros com uma acuidade desarmante.

Tal como o tinha dado a entender el-Arrak, embora fosse o emir a tirar daí todos os proveitos, era mesmo graças aos seus esforços que a corte ma'munida se tornara o pólo de atracção para numerosos eruditos do islão oriental; os poucos convidados reunidos, naquela ocasião, na imensa sala de jantar do palácio eram disso a própria ilustração: el-Arrak, evidentemente; o médico Ibn el-Khammar, fdho de um negociante de vinho, cristão como el-Massihi, educado em Bagdad; o filólogo al-Thalibi, natural de Nishapur e íntimo do emir(,); assim como outras personalidades igualmente reputadas.

Foi ante o olhar simultaneamente curioso e admirativo dessa assistência que el-Soheyli deixou o banco estofado, em que estava sentado, e, abrindo uma excepção no protocolo, foi espontaneamente ao encontro de Ibn Sina e de el-Massihi.

— Boas-vindas ao Turquestão. Boas-vindas a Gurgandj — declarou ele, com a mão direita posta sobre o coração. — Espero sinceramente que a vossa estada seja feliz, feliz e prolífica.

Os dois amigos retribuíram-lhe respeitosamente a saudação.

— A tua reputação de homem letrado e de mecenas alcançou as fronteiras do país — declarou cortesmente o filho de Sina.

Que o Altíssimo conceda, por isso, a eternidade ao teu nome!

Nós esforçar-nos-emos por ser dignos da tua hospitalidade.

— Não duvido disso. Fica sabendo que el-Arrak me falou longamente do teu génio, mas também dos teus tormentos em Bukhara. Sorririas, talvez, se eu te afirmasse que aqui «um guarda se mantém ao pé de cada alma». Acredita que a única ambição da corte ma'munida é facilitar a homens como tu o acesso à felicidade.

Enquanto falava, o vizir teve o cuidado de se voltar para el-Massihi. E o médico compreendeu que o calor das suas palavras lhe dizia igualmente respeito.

— Agora, sentai-vos! O emir vai chegar dentro em breve. Os dois homens apressaram-se a ir ter com el-Arrak, que estava sentado, em companhia do médico el-Khammar e de outros convidados, sobre espessas almofadas de brocado.

Feitas as apresentações, el-Khammar acometeu Ibn Sina com mil perguntas. Muito depressa, uma discussão apaixonada os levou para os temas que lhes eram caros. Emprego da sangria, propriedades da cevada e do leite de burra, preparação dos electuários, possibilidade de operar a catarata por sucção ou ainda da laqueação das artérias proposta em Tesrif, uma das trinta obras redigidas pelo grande cirurgião Abu el-Cacis.(1) Foi necessária a chegada repentina do emir para pôr fim às suas permutas.

Logo à primeira vista, Ali compreendeu que a única característica que Ibn Ma'mun II tinha em comum com o seu vizir era a idade. Quanto ao resto, uma pequena estatura, um fácies achatado, lábios grossos, uma testa baixa e um ventre proeminente e roliço, que o príncipe do Kharazm parecia trazer com lassidão rente às coxas.

O pouco que Ali tinha sabido acerca do homem, devia-o a el-Arrak. Alguns anos antes, ele havia herdado o trono de seu pai, fundador da dinastia, e adoptado por sua vez o título histórico de «Kharazm-shah». Casando com Kaldji, a irmã de Mahmud o gaz

 

(1) A data em que escrevo estas linhas, Abu el-Cacis, de seu verdadeiro nome Abu el-Kassem Khalef ibn Abbas el-Zahraui, tem noventa e dois anos de idade e continua a viver em Córdova. (Nota de Jozjani.)

 

Gnávida, o homem de quem se murmurava que teria a seus pés não só o Oriente, mas até o mundo, o emir julgara encontrar uma protecção; na realidade, esse casamento pusera-o, simplesmente, na dependência do Turco. E, de tempos a tempos, por instigação de patriotas, o povo vinha gritar a sua humilhação às portas do palácio.

Todos os convidados, o vizir em primeiro lugar, se levantaram como um só homem, enquanto que, num silêncio atento, o soberano vestido com uma túnica púrpura e rosa, com o crânio protegido por um turbante de riscas largas, atravessava a sala de jantar a passo rápido. Chegado à altura de el-Arrak, imobilizou-se.

— Saudação a ti, bem-amado el-Arrak. Espero que os teus amigos tenham feito boa viagem.

A voz do príncipe era fanhosa e pomposa. O matemático pegou na mão do soberano e beijou-a respeitosamente.

— E saudação a ti. Kharazm-shah. Permite-me que eu te apresente o cheikh el-rais Ali ibn Sina, assim como o seu companheiro, Abu Sahl el-Massihi, o autor afamado d'Os Centos.

— Boas-vindas a Gurgandj — declarou o soberano, fazendo uma prega no queixo.

— Que Alá te restitua as tuas mercês, Excelência! — disse Ali, beijando por sua vez a mãozinha rechonchuda do príncipe. — Estamos-te infinitamente reconhecidos pela hospitalidade que te dignaste oferecer-nos.

Ibn Ma'mun pareceu, por um instante, avaliar o seu hóspede, depois abanou a cabeça com compunção e, sem nada acrescentar, encaminhou-se para o lugar de honra no centro da sala de jantar, onde se deixou cair pesadamente no meio das almofadas adamascadas. Mal se instalara, vieram juntar-se a ele dois jovens, dois gémeos de pele nacarada, cheios de exuberância, que não deviam ter muito mais de vinte anos.

— São Anbar e Kafur — segredou o matemático, discretamente. — Eunucos pela graça do príncipe. Bizantinos, que foram comprados pelo emir a um caravaneiro de passagem por uma verdadeira fortuna. Não tinham, então, mais do que dezasseis anos.

O matemático assegurou-se de que ninguém o ouvia, antes de prosseguir, sempre em voz baixa:

Anbar é um khassi. Sabes, evidentemente, que este qualificativo se aplica aos eunucos que sofreram apenas a ablação dos testículos. Enquanto que o seu irmão, Kafur, é um madjbub, portanto, amputado da totalidade dos órgãos sexuais. Uma vez seu dono, foi Ibn Ma'mun quem decidiu quanto a essas formas diferentes de castração.

— Mas qual o interesse? — interrogou Ibn Sina, intrigado.

— Segundo os próprios termos do príncipe, «para fazer a diferença, mesmo numa noite sem luar, entre a égua e o cavalo, entre a maçã e a romã».

— É verdadeiramente bárbaro...

Como médico, Ali sabia o sofrimento e as consequências da castração. Tinha ainda na memória o caso daquele miúdo, cujo testículo, sob o efeito do pavor, havia subido, escapando à mutilação. Quando pensava nas diversas formas de castração, ele não podia deixar de experimentar um sentimento de aversão profunda. Quer fosse a widja, que consistia em apertar com uma ligadura o cordão suspensor dos testículos e em fazê-los sobressair, para os submeter, em seguida, a uma martelagem; ou akhissa, intervenção que devia ter sofrido um dos gémeos, e que se efectuava incisando e cauterizando, ao mesmo tempo, a pele do escroto por meio de uma lâmina em brasa, para, depois, retirar os testículos; todas essas ofensas à virilidade, e, por conseguinte, à dignidade do homem, suscitavam em Ali revolta e horror.

— Não é tudo... — reatou el-Arrak, lentamente. — Enquanto que os castrados são habitualmente relegados para funções domésticas, Ibn Ma'mun, levado pela sua paixão pelos dois efebos, promoveu Kafur à dignidade de mestre do registo do Conselho, e nomeou Anbar para o cargo de intendente do palácio. Assim, em quatro anos, eles tornaram-se a sombra do soberano. Nada se diz ou se faz aqui, que não seja relatado ao príncipe na mesma hora.

Ali ia responder, quando a voz do emir ressoou na sala.

— Cheikh el-rais, o nosso amigo el-Arrak falou-me das tuas proezas e dos teus conhecimentos infinitos. Se hei-de crer no que ele me disse, tu serias um dos homens mais eruditos do mundo conhecido. É verdade?

Ibn Sina levantou-se e disse, com um sorriso:

— A erudição duma pessoa mede-se, às vezes, pela ignorância das outras.

O emir franziu o sobrolho. Via-se bem que a resposta ambígua de Ibn Sina não o satisfazia.

— E na medicina? Pensas de igual modo? Achas que um bom médico é, simplesmente, um homem que possui mais saber do que outro?

— Excelência, a medicina nada tem em comum com a filosofia ou a literatura. É uma ciência que combate a morte. Exige, pois, uma mestria diferente. Absoluta.

— Se eu der crédito à tua notoriedade, tu possuirias essa mestria.

Ali perguntou a si próprio aonde queria chegar o emir.

— Pois não desconheces isso, eu já tenho numerosos médicos na minha corte. Citarei apenas Ibn el-Khammar, aqui presente. Todos se dizem brilhantes. Todos afirmam possuir essa mestria, de que tu falas.

— O saber de Ibn el-Khammar é digno desta corte — disse, simplesmente, Ali. — Ele faz parte daquela raça de homens, da qual se pode dizer: «Que Alá nos permita encontrá-los, quer seja para deles tirar benefício, quer seja para lho dar.»

Ibn Ma'mun aprovou, cruzando as suas mãozinhas sobre a pança, e prosseguiu com a mesma voz lenta:

— É estranho, muitas vezes fiz a mim próprio esta pergunta: como se explica que o médico morra dum mal, que ele costumava curar, outrora? Todos morrem: o que receita a droga e aquele que a toma...

Como que para recolher o efeito da sua tirada, o emir calou-se, um instante, e deitou um olhar de soslaio aos seus eunucos. A reacção destes não se fez esperar: puseram-se a rir, com um riso algo tolo, esganiçado, um riso esquisito, entre a mulher e a criança. Contente consigo, o soberano retomou:

— Gostaria, pois, que me provasses a tua diferença. Gostaria de saber o que fez a tua reputação.

— Um médico não é um vulgar mágico, Kharazm-shah, é apenas um homem de ciência.

— Trazei o doente! — foi a única réplica do soberano.

Ibn Sina cruzou o olhar de el-Arrak, depois o do vizir. Apanhados desprevenidos, ambos estavam visivelmente embaraçados. Quanto a el-Massihi, muito corado, adivinhava-se que estava prestes a fazer um escândalo.

Passado um momento, um adolescente apresentou-se à entrada da sala. Frágil, muito pálido, vestido com um sirwal cinzento e um colete, com a cabeça protegida por um turbante negro, avançou com um passo hesitante até ao emir.

— É meu sobrinho — anunciou Ibn Ma'mun. — Como podes verificar, está muito enfraquecido. Há mais de três meses que ele definha. As mais belas pérolas do meu harém deixam-no frio, os pratos mais raros são-lhe indiferentes. Além disso, desde há uns dias, fechou-se num mutismo total; mudo como o deserto, apagado como a noite, ninguém consegue arrancar-lhe uma única palavra. Confio-to, pois, cheikh el-rais.

Ali cerrou os lábios, tentando dominar a cólera que emergia dentro de si. Tinha a impressão de ser um vulgar prestidigitador, a quem se tivesse pedido que executasse um número de destreza.

— Kharazm-shah — disse ele, separando deliberadamente as palavras —, precisas dum médico ou de quem faça habilidades? Aliviar a dor não é um divertimento, é um acto sagrado.

Fez o gesto de se sentar, mas sentiu a mão de el-Arrak a retê-lo.

— Alá é minha testemunha — sussurrou o matemático, aflito —, fica sabendo que desaprovo este incidente e que o acho humilhante, mas suplico-te que faças um esforço. É a minha palavra que está em causa e, talvez, a minha situação.

— Tratar um mudo! — resmungou Ali, colérico.

— Por mim, cheikh el-rais, tenta por mim! A voz fanhosa elevou-se de novo:

— Escutamos-te, filho de Sina. E impacientamo-nos também.

Após uma profunda inspiração, e com uma má vontade flagrante, Ali dirigiu-se para o jovem e obrigou-o a estender-se sobre uma das banquetas cobertas com tapetes de seda. Todos aqueles rostos silenciosamente voltados para si agravavam o seu mal-estar.

Ele fez um esforço intenso para se concentrar e, reencontrando os gestos usuais, pôs-se a estudar os traços fisionómicos do estranho paciente. O que impressionava, logo à primeira vista, era a expressão de grande melancolia e de infinita tristeza, que dormia nos olhos pisados do rapaz. Apalpou a elasticidade das bochechas, examinou o globo ocular, a cor do ângulo interno, verificou a tensão da parede abdominal, a temperatura das extremidades, a reacção dos reflexos e, não tendo descoberto nada que o pudesse guiar, pôs-se à escuta do pulso. Mas, também aí, não notou nenhum sinal particular; as pulsações eram regulares, leves, desprovidas de qualquer alteração.

Ali deu uma olhadela por cima do ombro na direcção de el-Arrak, que lhe respondeu com um sinal de impotência. Foi nesse momento que se levantou a voz de el-Khammar:

— Perdoa-me, Kharazm-shah ! O que tu pedes ao xeque está no limite do impossível. Privar um médico do interrogatório clínico é amputar-lhe as orelhas! O caso deste jovem seria antes da alçada dos teus magos! Eu sei...

— Cristão! Do Khorasan ao Fars, de Bagdad a Samarcanda, até nas espeluncas de Sugud, se gaba os méritos do filho de Sina! Quererias tu dizer que esses louvores são infundados? Nesse caso, a corte de Gurgandj não precisa para nada de mais um médico. Tu bastas amplamente nessa função.

— Excelência, parece-me com toda a sinceridade que...

— Gostaria de silêncio — pediu, subitamente, Ibn Sina. Sem largar o pulso do jovem, ele continuou, dirigindo-se ao soberano:

— Kharazm-shah, poderias fazer o obséquio de repetir as palavras que acabas de pronunciar?

Confuso, Ibn Ma'mun não pareceu compreender.

— Sim, Kharazm-shah, é isso mesmo que eu desejo — recomeçou o xeque, com uma voz mais calma —, que repitas as palavras que pronunciaste.

— Repetir as palavras? Mas quais palavras?

— Os nomes de terras. Unicamente os nomes de terras. O emir parecia completamente perdido. Ele insistiu.

— Mas já não me lembro.

— Tenta! Peço-te.

— Khorasan?

— Continua!

— Samarcanda? Fars?

Ali aprovou com a cabeça. A escuta das pulsações, a sua expressão tornara-se incrivelmente tensa. O emir continuou a titubear desajeitadamente:

— Samarcanda... Bagdad...

Fez uma pausa, antes de recomeçar:

— Sugud... Raiy...

— A cidade de Raiy não foi citada — rectificou el-Massihi, com uma quezília voluntária.

O soberano balbuciou, como uma criança apanhada em falta:

— Ah!... Bukhara?

— Bukhara também não!

— Mas...

— Não tem importância — declarou Ali, erguendo-se. Vol-tando-se para o vizir, perguntou: — Onde fica Sugud?

— Sugud? A dois passos de Gurgandj. É uma minúscula aldeia dos arredores.

— A aldeia possui um dihkarii Um chefe?

— Salah ibn Badr. É ele o dihkan.

— Muito bem. Podes convocá-lo?

El-Soheyli buscou a aprovação do seu príncipe, que lhe fez sinal para aceitar.

— Vou dar as ordens. Ele estará aqui, dentro em pouco.

— Nesse caso, será preciso que o jovem fique entre nós. Vedes nisso algum inconveniente?

Ibn Ma'mun encolheu os ombros.

— Nenhum. Se isso pode ajudar ao diagnóstico. Talvez a visão da comida excite o seu apetite.

E enquanto Ali retomava o seu lugar ao pé de el-Arrak, o soberano ordenou:

— Que nos sirvam! Todas estas emoções me deram fome! Mal se haviam instalado, el-Massihi e Ibn el-Khammar precipitaram-se para Ali. Foi Abu Sahl quem, primeiro, o interrogou febrilmente:

— Tens uma ideia do mal?

Ibn Sina abanou a cabeça, com um ar enigmático.

— Explica-te!

— Digamos que creio entrever qualquer coisa, mas, por agora, nada posso afirmar. Há que esperar pela chegada do dihkan.

Inclinando-se para Ibn el-Khammar, ele disse:

— Quero agradecer-te pela tua intervenção.

— Cheikh el-rais, sou médico como tu. Como tu, conheço os limites do nosso poder.

— Este sobrinho... Fala-me um pouco dele!

— Infelizmente, não sei muita coisa, a não ser que ele se chamaAmine e que, antes da sua doença, apresentava a aparência dum rapaz inteiramente são, afável e sensível. Nada de muito especial, senão, talvez, uma excessiva emotividade. Por certo, viver sob a tutela dum homem como o emir não é coisa fácil, mas não ao ponto de se ficar doente.

— Estou vendo — murmurou Ali, pensativamente.

Os criados tinham começado a evoluir em volta das banquetas, dispondo pratos de prata dourada, cobrindo os tabuleiros de cobre com mil e uma delícias, enchendo de chá fumegante os copos de ouro. Cominhos bravos, canela, perfumes de amêndoas doces, pombos com mel, cereais salpicados com coentros invadiram de repente toda a sala.

Estendido preguiçosamente, Ibn Ma'mun tinha descalçado as babuchas e acariciava distraidamente os dedos dos pés, enquanto questionava com um dos eunucos. Parecia ter esquecido o caso.

— Julgas poder safar-te da esparrela? — perguntou el Arrak. Ali encolheu os ombros, observando o jovem triste, que se

sentara à beira da banqueta, deixando pender as mãos entre os joelhos.

— Espero que sim, meu irmão. A minha única impressão, mas ela é frágil, é que o nosso paciente não sofre de nenhuma doença orgânica.

— Existem, então, outros males que não sejam os do corpo?

— E igualmente temíveis, Abu Nasr: os do espírito e os da alma. Lembras-te do músico? Na sua cegueira, ele tinha a presciência desses males.

— A dada altura, julguei que o rapaz estivesse anémico — confiou Ibn el-Khammar, com enfado. — Foi-me contado que tu aconselhavas, em certos casos, mandar chupar tutano de osso acabado de cortar(1). Segui esse preceito, mas sem nenhum resultado.

— Eu teria, talvez, agido como tu...

A hora passou. Apesar da insistência dos outros, Ali não tocou nem no carneiro, nem nas túberas do deserto, nem tampouco nos frutos envoltos em açúcar e em mel. Durante todo o tempo, permaneceu como que ausente de tudo, mas sentia-se que o seu pensamento estava inteiramente associado ao jovem triste.

Enfim, deu-se uma certa agitação entre os convivas, quando o vizir anunciou uma personagem de silhueta esguia:

— Eis aquele que tu reclamavas.

Ali retomou o seu lugar junto do sobrinho do emir, pegou-lhe outra vez no pulso e interpelou o chefe da aldeia:

— Meu irmão — começou ele, com uma voz firme —, há quanto tempo és o dihkan de Sugud?

 

(1) O meu mestre foi, com efeito, o primeiro médico a tratar assim os anémicos. (Nota de Jozjani)

 

O homem respondeu timidamente:

— Há cerca de dez anos.

— Foi-me dito que era uma aldeia minúscula. Quase um lugarejo. É verdade?

O dihkan disse que sim com a cabeça.

— Deves, então, conhecer perfeitamente as ruas dessa aldeia?

— É fácil. Só há três.

— Podes citá-las de cor?

— Com certeza.

— Então, nomeia-as, mas o mais devagar possível — disse Ali, continuando com o dedo grande e o indicador postos no pulso do jovem.

— El-Nahr... el-Jibal... Makran...

— Podes repetir?

O homem obedeceu docilmente. Após uma breve reflexão, Ali perguntou-lhe:

— Conheces as famílias da rua el-Jibal?

— Claro que sim.

— Cita-mas, por favor. Lentamente.

— Há os Hosayn, os Ibn el-Sharif, os Halabi, a minha própria família, el-Badr, os Sandjabin, os...

Ali interrompeu-o:

— Diz-me outra vez esses nomes!

Mais uma vez, o dihkan obedeceu. Quando acabou a sua enumeração, Ali interrogou-o:

— Diz-me, filho de Badr, tens filhos?

— Uma rapariga e um rapaz.

— Os seus nomes?

— Osman e Latifa.

— Latifa — repetiu Ali, pensativo.

Depois, chegando-se ao ouvido do jovem, murmurou qualquer coisa, que ninguém ouviu.

— Cheikh el-rais Podes explicar-nos o que significa tudo isto? — exclamou o emir, com irritação.

Ignorando a sua intervenção, Ali continuou a falar ao jovem, até que se produziu neste uma reacção muito curiosa: os seus olhos encheram-se de lágrimas.

Só então, o médico se deslocou até junto do soberano e lhe anunciou, com um sorriso:

— Kharazm-shah, tinhas razão em supor que eu não podia fazer grande coisa pelo teu sobrinho. Com efeito, ele sofre duma doença tão sagrada como a ciência que eu pratico. Ela ataca sem discriminação príncipes e mendigos, adolescentes e velhos. Uma doença que talvez te tenha atacado, um dia. O que a torna única é que do sofrimento, que ela pode gerar, pode também nascer a felicidade.

De boca aberta, o emir pareceu fazer-se mais pequeno entre as almofadas de brocado.

— De que doença queres tu falar?

— O amor, Kharazm-shah. Quero falar do amor.

— O amor?

— O amor, Excelência. O teu sobrinho está, pura e simplesmente, enamorado da filha do dihkan. Por razões que não me dizem respeito, esse amor parece-lhe impossível.

O soberano deu literalmente um salto.

— Terás perdido a cabeça? Terás enlouquecido? O filho de Sina apontou o jovem com o dedo.

— Ele talvez não o confesse, mas é assim.

O chefe da aldeia, aterrorizado, tinha caído de joelhos e gemia, tapando o rosto.

— Retém o teu fôlego!(l) — berrou Ibn Ma'mun. — Quanto a ti, Ali ibn Sina, que o Altíssimo te perdoe a tua impertinência!

Imperturbável, Ali enfrentou o olhar negro do príncipe.

— O meu sobrinho enamorado duma filha de dihkanl — recomeçou ele, tomando os seus convidados como testemunhas. — Raramente ouvi propósitos tão ridículos!

Ali fez um gesto fatalista.

— Fica sabendo que não procuro ofender-te em nada.

Obedeço, simplesmente, às tuas ordens. Pediste-me que diagnosticasse o mal do teu sobrinho, eu assim fiz. Repito, ele sofre do mal que é o amor.

Com as faces carmesinadas, o soberano agarrou Ali pelo colete.

— Cospe lá essas palavras da tua boca! Elas parecem-se com a aurora azulada!(1) O meu sobrinho está tão apaixonado pela filha dum dihkan como a Arábia e o Kirman são um lago!

E estendeu o braço direito à sua frente.

— Sai, agora! Que a tua recordação se apague para sempre do Turquestão!

Ibn Sina, muito calmo, preparava-se para obedecer, quando, de repente, se levantou a voz delicada do jovem:

— Eu amo-a... Amo Latifa e quero casar com ela.

A maioria dos convidados, e o vizir em primeiro lugar, ergueram-se como se o fogo do céu acabasse de cair no meio deles.

— O quê? — tartamudeou Ibn Ma'mun. — Que dizes tu?

— Amo-a. Quero casar com ela — repetiu o rapaz, baixando os olhos.

O emir de Gurgandj deixou-se cair entre as almofadas, não esmagando por pouco um dos gémeos.

— Queres tu dizer que, durante este tempo todo, te deixavas morrer por amor?

— O xeque o disse...

. À beira do desfalecimento, Ibn Ma'mun meteu a mão na base da manga e tirou de lá um lenço de seda, com o qual limpou o suor que lhe humedecia a testa.

— Amine — balbuciou ele —, reza, reza, para que, na sua infinita bondade, o Altíssimo te perdoe!

O jovem levantou-se. Um pouco curvado, aproximou-se lentamente de Ibn Sina e, inclinando-se, beijou-lhe a mão, num gesto furtivo. Depois, sem um olhar para o seu tio, deixou a sala de jantar.

O silêncio tornou a cair, pesado, quase sufocante. Finalmente, foi o emir que, num esforço humilhante, pronunciou as primeiras palavras:

— Por que sortilégio, por que milagre? Dizias-te médico, e não mágico.

— Não há nada de mágico no incidente do ritmo cardíaco — explicou Ali, tranquilamente. — Foste tu, Excelência, quem me deu a chave.

— Faz-nos a dádiva das tuas explicações! — disse o vizir.

— No instante em que o soberano pronunciou a palavra Sugud, eu notei uma precipitação das pulsações. Em medicina, é preciso saber que há sempre um motivo para uma arritmia. Tentei, pois, apanhá-lo. Quando o dihkan citou a rua do Djibal, achou-se confirmada a arritmia, e, mais ainda, com o nome de el-Badr, depois o de Latifa. Reunindo as informações de Ibn el-Khammar, relativas à grande emotividade do jovem e à sua sensibilidade, o diagnóstico tornou-se pura dedução. Estou grato ao príncipe, por ele me ter indicado o caminho.

Ali fez uma pausa, antes de perguntar:

— Agora, o meu companheiro e eu sempre nos devemos retirar?

O emir ergueu para ele um olhar confundido.

— Conheces o décimo sexto versículo da décima sétima sura? Ibn Sina aquiesceu.

— «Quem quer que esteja desencaminhado, só está desencaminhado em seu próprio detrimento.» Aceita, pois, as minhas desculpas, cheikh el-rais, e considera, doravante, este palácio como tua morada.

 

                             SÉTIMA MAKAMA

Gurgandj, 3o. dia de rabi'el-akhir «Meu irmão, el-Biruni, recebe a minha saudação.

«A noite insinuou-se no absurdo jardim de Ibn Ma'mun II. Estamos apenas a meio de rabi'el-akhir e, no entanto, a neve já cobriu tudo. Os autómatos, as rosas de vidro esmaltado e o tanque de mercúrio foram vencidos por este Inverno precoce. E bem mais vale assim.

«A julgar pela carta que recebi de ti esta manhã, a tua estada nas margens do mar dos Cazares não está à altura das tuas esperanças. Quis-me parecer que terias a intenção de deixar o "caçador de codornizes", para nos vir visitar em Gurgandj. Como calculas, nada me daria maior alegria.

«Recordo-me duma frase, que tu pronunciaste na noite em que discutíamos, na casa de meu pai, das "coisas do universo". Dizias tu: "Nós não somos mais do que umas palhinhas assopradas pelos nossos mecenas." Como tinhas razão! Para prazer do príncipe, fiz, haverá em breve quatro meses, o papel dum vulgar ilusionista. Que remédio tive eu?

«Num domínio completamente diferente, um mensageiro, chegado ao palácio há uma hora ajusta, informou-nos dos acontecimentos graves ocorridos, nestas últimas semanas, no Khorasan; mais propriamente, em Bukhara:

«Abd el-Malik, o nosso último sultão samânida, foi escorraçado do trono pela águia turca. Já não há dúvida nenhuma de que essa dinastia tem os dias definitivamente contados. Doravante, toda a província está nas mãos de Mahmud o Gaznávida, que se fez reconhecer como rei de Ghazna e do Khorasan. Conta-se aqui que ele teria feito votos de invadir a índia e de castigar os infiéis, em cada ano da sua vida. Podes acreditar em tal ambição? A voracidade desse filho de escravo nunca terá fim, então?

«Não desconheces isso, o emir Ibn Ma'mun casou com a irmã do Gaznávida. Julga-se, assim, protegido; no entanto, eu não ficaria surpreendido se Gurgandj e a região de Kharazm viessem a ser os seus próximos alvos.

«Que o Todo-poderoso me perdoe este pessimismo, mas tenho o sentimento de que o nosso país vai viver horas conturbadas; e, com tudo o que se passa em Bukhara, confesso estar muito inquieto por causa da minha mãe e do meu irmão.

Como dizer-te a alegria que me causou a tua carta? Sei que o correio só excepcionalmente transmite as missivas particulares, por isso agradeço a Alá esta vantagem que nos oferecem as nossas funções na corte dos poderosos. Tomei conhecimento com paixão da cópia, que me mandaste, do teu compêndio de geometria e de aritmética, assim como das primeiras páginas do teu tratado de mineralogia. Invejo-te, por poderes escrever tais obras; por agora, está longe de ser o meu caso. Desde os vinte volumes do meu Tratado do Resultante e do Resultado, e A Filosofia de el-Arudi, não redigi uma só linha digna de interesse. Salvo, talvez, um Poema sobre a Lógica. Assim como um Resumo de Euclides e uma Introdução à Arte da Música, inspirada pelo encontro que tive com uma personagem espantosa, um músico cego.

«Interrogas-me sobre a minha vida e os meus projectos.

«De momento, não tenho alternativa. Conto permanecer em Gurgandj. onde os meus dias se repartem entre os tratamentos e o ensino; com efeito, el-Massihi e eu próprio trabalhamos também como professores na escola de Gurgandj.

«Esta escola, frequentada por crianças muito novas, está situada mesmo no coração da mesquita e possui um observatório astronómico (que te cativaria, estou certo disso), assim como uma biblioteca, que, sem ser à imagem das de Bukhara ou de Chiraz, não deixa de ser interessante. Aliás, encontrei lá obras bastante raras, trazidas da índia, que tratam de farmacopeia e sobretudo de astronomia.

Em medicina, quando tomo a fazer o inventário de todas as obras herdadas dos Antigos, não posso deixar, ainda hoje, de me lembrar com emoção de todos esses tradutores, siríacos, judeus, cristãos — anónimos, na maior parte —, graças a quem Hipócrates, Paulo de Egina. Oribásio, Galeno, Alexandre de Trales (que eu considero como o maior cirurgião da Antiguidade) nos são, hoje, acessíveis. Um pensamento me obceca, todavia: que será feito dessa herança, se ninguém tomar a decisão de ordená-la, de clarificá-la? Não serias tu a contradizer-me, se eu te dissesse que, neste domínio, já nada mais há que esperar do Ocidente. O universo dos Rumes está em pleno naufrágio; afun-da-se numa triste decadência. Mas será mesmo preciso que alguém se encarregue, um dia, de passar o testemunho...

«Em astronomia, encontrei uma das primeiras traduções em palavi do Almagesto do grande Ptolomeu; ela dataria de há mais de trezentos anos. É uma versão que deve ter pertencido à escola dita daMeia-noite. Penso seriamente em redigir um resumo dela.

«Tomei também conhecimento das tábuas astronómicas indianas. A esse respeito, confesso estar bastante céptico quanto ao que os sábios desse país chamam "o dia de Brahma". E cientificamente possível imaginar que, a cada revolução de 432 milhões de anos, os astros voltam à sua posição original? Gostaria muito de ter a tua opinião acerca disto.»

Ali pousou, por um instante, o seu càlamo e voltou-se para a porta. Alguém acabava de bater. — És tu, Abu Sahl?

Foi abrir. Perante ele, encontrava-se uma mulher. Ela era alta, estava inteiramente velada, e só os seus olhos apareciam. Uns olhos negros, imensos, uns olhos de gazela, que o khôl e olitham'u de cor púrpura, que lhe mascarava o rosto, faziam sobressair mais negros ainda.

 

'" O pano destinado a cobrir a cabeça e a cara. (N. do T.)

 

— Quem és tu?

— O meu nome é Sindja — disse ela em voz baixa, abaixando as pálpebras.

Exprimira-se com um ligeiro sotaque. Estranho, indefinível.

— Que posso eu fazer por ti? — perguntou Ali, surpreendido.

— E o emir quem me manda.

— O emir? Mas por que razão? Estás doente?

— Eu sou Sindja.

Um sorriso divertido iluminou o rosto de Ali.

— Entra! — disse ele, suavemente. —Talvez me possas dizer um pouco mais do que o teu nome.

Com um roçagar discreto, ela deslizou para dentro do quarto e ficou imóvel, silenciosa, no centro do compartimento. Ele foi sentar-se numa quina da sua mesa de trabalho e voltou-se para ela.

— Por conseguinte, é o emir que te manda. Ela respondeu num tom recitativo:

— Para testemunhar o seu reconhecimento ao cheikh el-rais.

— O seu reconhecimento? Mas a que propósito?

— Ele disse-me simplesmente... — elaesforçou-se por separar bem as palavras — ... que o ruibarbo tinha sido salutar e que, desde há uma hora, estava perfeitamente aliviado.

Ali sacudiu a cabeça, como se tivesse dificuldade em crer em tal coisa.

— Mas ele não sofria de quase nada. Era irrisório!

— Não sei, xeque.

Ali pareceu reflectir, depois declarou:

— Está bem. Agora, vai outra vez ter com o emir e diz-lhe que o cheikh el-rais foi muito sensível à sua generosidade. Mas. esta noite, os meus humores estão turvos e os meus sentidos embotados. Vai. Sindja!

Ele esboçou um movimento em direcção à porta, mas, para sua grande surpresa, ela lançou-se a seus pés, agarrando-se à aba da sua túnica.

— Por piedade, não me mandes embora!... Não me mandes embora, suplico-te! O príncipe nunca mo perdoaria.

Ele quis pô-la de pé. mas ela resistiu.

— Sabes — disse ela. com um soluço na voz —. dizem que sou muito bela, dizem-me ardente, também. E faço os homens felizes.

— Vamos, Sindja, levanta-te!

Ela ergueu para ele os seus olhos húmidos. Havia qualquer coisa de comovedor na súplica que eles lhe dirigiam.

— Levanta-te!... Sou eu que te peço, agora.

Ele pegou na mão dela e viu que ela tinha as unhas e a palma da mão pintadas com hena. Ela pôs-se em pé.

Houve um longo silêncio, e. bruscamente, ela deixou cair o véu, oferecendo à luz difusa das lâmpadas de azeite um rosto de uma beleza mágica.

O seu pescoço era longo e fino. A sua cabeleira negra de azeviche, tão negra como os seus olhos, era brilhante e sedosa. Os seus dentes eram mais brancos que o leite de ovelha. E o sinal, que se destacava no meio da sua testa, formava como que um frágil ponto de noite. Manchas de carmim iluminavam as suas faces com um fogo discreto, enquanto que a sua boca lembrava uma flor de gerânio.

Ele ficou sem voz.

— És bela, Sindja — disse ele, perturbado. Encorajada, ela desatou o cordão que lhe aprisionava a cintura

e fez escorregar o manto, um rashidi de lã cinzenta, e depois o vestido. Agora, mais nada escondia a sua nudez.

Baixou a cabeça e. num gesto quase infantil, cruzou as mãos sobre o peito. A sua cintura era perfeita e, embora imperceptivelmente velados pelo açafrão com que ela havia untado o corpo inteiro, os seus seios tinham a brancura da opala nobre.

Espontaneamente, um antigo poema voltou à memória de Ali:

Ela apareceu entre as duas abas dum véu, como o Sol no dia em que brilha nas constelações de Sa 'd; como uma pérola tirada da sua concha, que regozija o mergulhador e cuja visão o leva a agradecer a Deus e a prosternar-se.

Pegou nela, suavemente, pelo braço, cobriu-a com o manto e fê-la sentar-se no único banco que mobilava o quarto.

— És muito bonita — repetiu ele, ajoelhando-se diante dela.

— E tu, tu és generoso, cheikh el-rais...

— O meu nome é Ali. Ali ibn Sina.

— Ali ibn Sina.

Sempre aquele sotaque estranho.

— De que região és tu, Sindja?

— Nasci, já lá vão vinte e seis anos, em Jodpur, no país banhado pelo mar de Harkand e do Lar, nesse país a que os comedores de lagartos chamam el-Sind, e os Rumes, a índia.

Ele pôs-se a rir.

— Os comedores de lagartos?

— É assim que os meus alcunham os Árabes. E... Ela interrompeu-se, subitamente perturbada.

— Perdoa-me!... Ofendi-te.

— Não tenhas receio. Eu não sou um comedor de lagartos, sou persa. Ainda que isso te possa admirar, o meu pai era de Balkh. uma cidade próxima do teu país. Mas diz-me lá: de Jodpur até ao harém de Ibn Ma'mun, a viagem deve ter-te parecido muito longa; pois fazes mesmo parte do harém do emir, não é assim?

— Sim. Foram homens do país dos Turcos que me trouxeram aqui e me venderam na praça de Gurgandj. Há mais de dois anos.

— E, então, não usavas véu. Ela disse que não com a cabeça.

— E nunca compreendi porque é que os homens daqui nos obrigam a esconder-nos por detrás desse pano. Para vós, a mulher é um objecto tão desprezível que seja preciso dissimulá-lo?

— Não, Sindja, é exactamente o contrário. Enfim, a meu ver.

— Explica-me!

— O véu é destinado a abrigar o eleito, ante o esplendor do rosto divino. Está escrito: Não é dado a um homem que Deus lhe fale, senão detrás de um véu. O que é velado é sagrado. O que está velado está protegido.

— Eu sou, pois, sagrada? — disse ela, com uma expressão ingénua. — Ou. então, é sagrado aquele que pousa o seu olhar em mim?

Ele apreciou a lógica da sua pergunta.

— Eu diria que tu estás protegida.

Ela assumiu um ar grave, de criança que reflecte, e perguntou mais:

— Porque te chamam cheikh el-rais!

— Por nada. Talvez, porque eu sou um comedor de livros. Na verdade, sou médico.

— Médico? Ah! Agora, compreendo!

— E que compreendes tu?

— Salvaste a vida do emir. E por isso que ele te quer recompensar.

— Sindja — replicou Ali, com uma ponta de zombaria —, efectivamente, salvei o nosso Kharazm-shah. Ele sofria, há quatro dias... de uma real prisão de ventre!

Ela abriu muito os olhos, como se ele estivesse fazendo pouco dela. Depois rebentou de riso com a espontaneidade de uma menina.

— Perdoa-me — emendou-se ela muito depressa —, não é de ti que eu me ria.

Ele tranquilizou-a com um gesto.

— Tu és médico — retomou ela, após um silêncio —. e. no entanto, és incapaz de tratar dos teus humores turvos e dos teus sentidos embotados...

Ele sorriu e encostou suavemente a palma da mão à sua face.

— Por vezes, escrever a alguém, que nos é caro e que está longe, desperta recordações e causa pesar. É o que eu estava fazendo, antes da tua chegada. Estou certo de que esse sentimento não te é estranho.

— Conheci-o. Mas, se és médico, deves saber que se pode ficar doente por andar muito tempo com desgosto. Eu decidi, há muito tempo, não mais estar doente. E esqueci o meu desgosto.

— Está bem. Sindja. O teu povo é conhecido pela sua sabedoria. Tu és mesmo uma filha de el-Sind.

— Se quiseres, eu poderei curar-te também.

Ele ia responder, mas o beijo de Sindja selou-lhe os lábios. E os seus lábios tornaram-se como a brasa e espalharam o fogo dentro dele. De novo, ele ouviu as palavras do antigo poema:

O príncipe afirma, e eu disso não provei, que ela cura por meio duma saliva perfumada aquele que está sedento. O príncipe afirma, e eu disso não provei, que é doce receber dela um beijo. Se, por acaso, eu de tal provasse, dir-lhe-ia: mais.

Então, ele abriu suavemente o manto da jovem mulher, para ir procurar a doçura do seu ventre desnudado. Ela abandonou-se, deitando a cabeça para trás. entreabrindo-se às suas carícias como o mar se abre ao rio. Aprisionando-lhe a nuca, ela disse num sopro:

— É a mim que compete oferecer-te o prazer, sou eu que devo ir para ti.

Ignorando o gesto que o ligava a ela, Sindja desapertou os pequenos botões que fechavam o seu cafetã e fê-lo passar por cima da cabeça dele. Quando Ali ficou nu, ela levantou-se ao mesmo tempo que ele e comprimiu o seu corpo de encontro ao dele.

Ele pensou: Ela olhou com a pupila duma jovem gazela domesticada.

Quando rolaram por entre as almofadas adamascadas, ele julgou entrever a imagem furtiva de Warda.

A aurora encontrou-os ainda abraçados. Ali estava acordado já há muito tempo, não se atrevendo a incomodá-la no seu sono. Mas teria ele chegado sequer a dormir?

Exceptuando Warda, ele não conhecera nenhuma outra mulher. Era por causa disso, ou dos cinco anos que os separavam, que a ciência amorosa de Sindja lhe parecia infinita? Durante toda a noite, os seus corpos se haviam perdido e reencontrado. Naquele rebuliço da carne de ambos, ele tinha alcançado mais de dez vezes o prazer supremo; de cada vez, convencido de que seria o último amplexo e, de cada vez, regenerado pelas carícias de Sindja. Quando, num movimento quase tocante pela sua devoção, ela bebera a água do seu prazer no mais íntimo da sua fonte, ele julgara baquear no Janna, o Éden citado no Livro.

Agora, sentia-se culpado. A castidade prescrita pelo Profeta não é o sinal distintivo do crente? Ele estava impuro. Sindja estava impura.

Ele murmurou quase em voz alta: «Deus gosta de perdoar, Ele é misericordioso.»

Ela mexeu-se, encostada a ele. e entreabriu as pálpebras.

— Que o dia te seja propício! — murmurou ela, suavemente.

— Que ele te seja luminoso, Sindja! Ela prendeu-lhe a nuca e puxou-o para si.

— Estou repleta de ti. E tu, Ali, estás feliz?

Ele desprendeu-se, afastando a coberta, pousou os lábios sobre o ventre dela. muito levemente arqueado, e disse, com uma ponta de humor:

— O teu umbigo é uma taça arredondada, onde jamais faltou o vinho.

Um clarão de orgulho iluminou as pupilas dela, mas desapareceu com a mesma rapidez.

— Que há? São as minhas confissões que te põem triste?

— Não, não. Não é nada.

— Nada?

Ele ia prosseguir, quando ressoaram violentas pancadas na porta, logo seguidas de brados:

— Ali, abre, depressa!

— Cheikh el-rais!

Ele identificou, sucessivamente, a voz de el-Massihi e a de Ibn el-Khammar. Sem hesitar, saltou da cama, enquanto Sindja tapava a sua nudez, puxando a coberta até à cara.

— Que há? — interrogou ele, abrindo o batente.

— Mortos! — explicou o cristão, tomado de uma viva excitação. — Cadáveres!

— Na margem do rio. No sopé da colina de el-Borge! — precisou Ibn el-Khammar, igualmente arrebatado.

— Mas de que estais a falar? O que é essa história de cadáveres?

— A uma hora daqui, a cavalo, um correio descobriu por acaso ossadas humanas em quantidade considerável. Ele está pronto a levar-nos lá.

O rosto de Ali iluminou-se. de repente.

— Vou já. Dai-me tempo para me vestir!

Ante o olhar perdido de Sindja, ele correu para as suas roupas.

— Que se passa?

— Alá é Todo-poderoso. Mais tarde, te explicarei.

Ele acabou de vestir umas calças entufadas e de calçar umas botas, e ela repetiu com uma voz longínqua:

— Mais tarde...

A abertura dos cadáveres era considerada pelos crentes como uma verdadeira profanação. Um sacrilégio. Certas obras narravam que mesmo Galeno hesitava em dissecar o homem e recomendava aos seus discípulos que se exercitassem, primeiro, nos animais; sobretudo, no macaco. Nessas condições, nem a anatomia nem a cirurgia podiam fazer grandes progressos. A estrutura interna do ser humano continuava sendo como um livro fechado, que só os acasos do tempo entreabriam, por vezes. Os sábios estavam reduzidos a estimativas quanto à localização das veias tranquilas, das vísceras principais, dos ligamentos, dos nervos ou dos músculos. Por isso, quando as circunstâncias os punham em presença de restos humanos, havia que dar graças ao Invencível e, sobretudo, que não deixar passar a ocasião.

Era nisso que pensavam Ali e os seus companheiros, enquanto escalavam a encosta íngreme da colina de el-Borge.

A alguns passos atrás deles, seguiam dois soldados armados de pás e transportando alforjes de couro revirado.

Em redor, a planície estava branca. Branca a perder de vista. E a neve continuava a cair. No sopé da colina, podia distinguir-se como uma cicatriz «a estrada que anda», o rio Amu-Daria, que arrastava, num silêncio impressionante, os seus blocos de gelo até ao mar do Khuwarizm.

— E aqui — indicou o correio, designando uma espécie de cova.

Ali e os seus amigos estugaram o passo. Uns instantes depois, deparava-se-lhes um pasmoso espectáculo. Restos humanos meio enterrados apareciam diante dos seus olhos, misturados, emaranhados, disseminados por uma extensão considerável. Um pouco como se o solo tivesse abatido ou se tivesse entreaberto.

— E incrível! — arquejou Ibn el-Khammar.

Ali já se tinha ajoelhado, enquanto que el-Massihi dava ordem aos serventes para desaterrar o sítio com precaução.

— São mesmo ossadas humanas — confirmou Ibn Sina, debruçado sobre um crânio com os orifícios tapados pela neve.

— Haverá que andar depressa... — murmurou um dos soldados. — Caem flocos que dão para vestir os pobres.

Ocupados com as suas observações, nenhum dos três médicos pareceu ouvi-lo.

— É incrível, mesmo assim — repetiu Ibn el-Khammar, cada vez mais desorientado. — Deve haver aqui mais de dez mil cadáveres. E, visto o seu estado de decomposição, tudo leva a crer que aí estejam há vários anos. Mas que se passou aqui? Como é que tantos homens encontraram a morte no mesmo sítio, no mesmo instante?

Ibn Sina, com a barba e as sobrancelhas salpicadas de neve, respirava muito fortemente, invadido pela excitação e pela perturbação.

— Abu Sahl! Ibn el-Khammar! Vinde cá ver!

Os dois homens foram logo ter com ele e debruçaram-se sobre o objecto que ele lhes apresentava: uma queixada.

— Até hoje — começou ele, com uma certa febrilidade —, todos os anatomistas concordaram em dizer que a mandíbula é composta por dois ossos firmemente reunidos no queixo... Ora, observai bem: o osso da maxila inferior é único; não há nem jun-tura nem sutura.

É verdade. Mas talvez se trate dum caso excepcional. Seria preciso poder verificar noutros exemplares, antes de nos pronunciarmos.

— Ibn el-Khammar, meu irmão — fez notar Ali —, não se trata, aqui, duma deformação, mas dum estado natural. Posso afirmá-lo.

Ele levantou do chão um tronco vertebral, ou, pelo menos, o que dele restava, e perguntou:

— Reconheceis isto?

— Evidentemente: são as vértebras superiores. As quatro primeiras, parece-me.

— Observai atentamente! Não encontrais nada de especial na estrutura da primeira vértebra?

Ibn el-Khammar e Abu Sahl examinaram demoradamente a ossada. Depois el-Massihi declarou:

— Parece-me que o buraco, por onde saem os nervos, não está situado como nas outras vértebras.

— Tens toda a razão.

— Imagino que tens uma explicação. Foi Ibn el-Khammar quem respondeu:

— Parece-me simples, Abu Sahl. Se esse buraco estivesse colocado onde encaixam as duas apófises da cabeça e onde se produzem os seus movimentos violentos, os nervos seriam danificados; aconteceria o mesmo, se ele estivesse situado no ponto em que se encontra a articulação da segunda vértebra.

— Exacto — aprovou Ali. — E através de pormenores tão essenciais que nós podemos verificar como a obra do Criador é sublime, perfeita e única. Mas continuemos a procurar. Se ao menos pudéssemos encontrar um esqueleto inteiro.

Ele esteve prestes a acrescentar: «Ou um corpo, um corpo aberto, que nos tirasse da noite!». Mas conteve-se, lamentando, quase imediatamente, o seu pensamento.

Os flocos continuavam a desfiar-se sobre a paisagem. A medida que um dos três homens encontrava uma ossada digna de interesse, apressava-se a entregá-la a um dos soldados, que, por sua vez, a metia no seu alforje. Daquele vaivém macabro emanava qualquer coisa de sobrenatural. Aquelas silhuetas embuçadas em peles, ora curvadas, ora ajoelhadas, que, a cada exalação, expeliam pequenas nuvens pela boca; aqueles cavalos que deitavam baba fumegante ou que se agitavam, raspando a neve com os cascos, e faziam rebolar até ao sopé da colina um fémur ou um parietal; a corrida lenta e imutável do rio; tudo levava a crer que a cena fosse uma miragem vinda da estepe.

«Retomo a minha carta, abandonada ontem à noite.

«Regressei, há bocado, de uma expedição que nos levou a uma hora de Gurgandj. Um dia te explicarei de viva voz os pormenores do caso. Fica sabendo, simplesmente, que pude, em companhia de el-Massihi e de Ibn el-Khammar, examinar de perto restos humanos.

«Sabes tão bem como eu o inestimável interesse duma tal oportunidade.

«Entre todos esses restos mortais (perto de dez mil), dois ou três estavam menos decompostos que os outros. Dir-se-ia que tinham sido depositados ali havia ajusta dois anos. Como é evidente, interrogámo-nos sobre o mistério daquela descoberta(1), sem conseguirmos pôr-nos de acordo quanto a uma explicação científica. Trouxemos um número não descurável de ossadas e

 

(1)'" O médico Adb el-Latif, no segundo livro da sua Relação sobre o Egipto. narra um caso semelhante, de que ele foi testemunha ocular e que situa num lugar do Delta chamado «Maks». Eis os seus próprios termos: «... e podia estimar-se em vinte mil cadáveres, e mais, a quantidade que os olhos avistavam.» Talvez a ciência de hoje tenha uma explicação a dar. (N. do T.)

 

encarregámos el-Arrak, matemático de profissão, mas maravilhoso desenhador nas horas vagas, de nos traçar os respectivos esboços.

«Nada de fundamental eu teria para te confiar, se não fosse o acaso, o maravilhoso acaso, ter-me permitido encontrar uma cabeça ainda provida dum dos seus globos oculares. Passei o dia a estudá-la e cheguei à conclusão seguinte: há que situar o órgão da visão não no cristalino, como afirmam os Antigos, mas na retina e nos centros ópticos. Consegui também definir muito exactamente os movimentos de constrição e de alargamento da íris. Falar-te-ei nisso ulteriormente.

«Faz-se tarde. Ainda tenho muito que fazer. Permite-me que te abrace muito fraternalmente, e que o Altíssimo te conceda a sua bênção.

O teu amigo, Ali ibn Sina»

Ali voltou a pousar o càlamo em cima da mesa, apercebendo-se ao mesmo tempo da ausência de Sindja. E viu de novo a expressão melancólica do seu rosto, no momento em que ele se preparava para a deixar.

— Mais tarde... — murmurara ela.

Levantou-se subitamente, acometido por um mau pressentimento. Onde poderia ela estar, àquela hora, senão na secção reservada às mulheres, e cujo acesso lhe era vedado? A única pessoa que teria podido informá-lo, era talvez Sawssan, o camareiro, ou um dos eunucos. Apesar da hora tardia, ele afastou os seus escrúpulos e avançou pelos corredores do palácio adormecido.

— Ela já cá não está — disse, simplesmente, um dos gémeos, com uma voz ensonada.

— Não compreendo. Queres tu dizer que ela já não está no palácio?

— Foi-se embora. Partiu, esta tarde, com a caravana de el-Farrubi.

Ali abriu muito os olhos com o espanto.

— Continuo a não compreender.

O eunuco adoptou um ar aborrecido.

— Habitualmente, é el-Farrubi quem fornece o harém. Ele propôs-nos duas virgens do Djibal. Duas raparigas de catorze anos. O emir propôs Sindja em troca. E...

— Onde se encontra a caravana? Ainda está em Gurgandj?

— Sem dúvida. Era já tarde, quando el-Farrubi deixou o palácio. Suponho que ele deve ter esperado que o tempo esteja mais clemente, para se pôr outra vez a caminho. Não creio que ele seja tão doido que vá viajar de noite, debaixo de neve. Além disso...

Sem esperar por mais explicações, Ali rodou sobre os calcanhares e correu para as cavalariças...

Gurgandj dormia, sepultada debaixo da neve. Estalactites pendiam das árvores geladas, do beirado dos telhados, como agulhas de cristal.

Ele atravessou a galope a praça do mercado, passou ao longo da grande mesquita, com o seu minarete erguido para as estrelas, e, sem parar, enfiou pelo pórtico do dar el-wakala, «a casa da procuração», a que também se chamava «caravançarai».

Se a caravana não se tinha posto a caminho, era aí que ela devia encontrar-se. Era naquele lugar de transacção e de breve permanência que os mercadores vindos de longe residiam, mediante uma renda paga ao guarda, o qual, em troca, fornecia as esteiras e a palha. Era ali também que os grossistas, os revendedores, os comissionistas e os retalhistas vinham buscar as suas mercadorias.

A maneira como ele encontrou el-Farrubi, naquele dédalo de cheiros e de corredores, teve algo de milagroso. Fora preciso acordar o guarda, que, por sua vez, havia tirado do sono uns cameleiros, a protestar e a praguejar, que, por seu turno, tinham sugerido uns guias que poderiam conhecer o mercador. Quando Ali lhe falou de Sindja, o outro julgou estar a sonhar. Esbugalhou os olhos, franziu a testa e acabou por deixar rebentar o seu furor:

— É a esta hora que tu vens propor-me comerciar? Essa criatura possui-te ao ponto de teres perdido a noção do dia e da noite?!

— É importante — foi a única resposta de Ibn Sina.

— Não mais do que o meu sono!

— Estou pronto a comprar-te novamente essa mulher.

— Ainda era preciso que ela estivesse à venda! Eu nunca disse que ela estava. Então, vai, volta para casa, e que Alá te acompanhe!

— Mesmo se eu te disser que fui mandado por el-Soheyli?

— O vizir?

— O vizir. Essa mulher foi-te vendida por engano.

— O que é que me prova que é mesmo el-Soheyli quem te manda?

— Eu chamo-me Ali ibn Sina. Sou o médico da corte.

Ao tomar conhecimento do seu cargo, o mercador pareceu acalmar-se. Coçou o queixo com perplexidade, passou a mão pelos cabelos despenteados e acabou por declarar:

— Vizir ou não, poderias tu reembolsar-me o preço de duas virgens?

— Talvez. Tudo depende da avaliação que delas fizeres.

— Duas donzelas, meu irmão. Umas verdadeiras pérolas raras.

— Eu sei, o eunuco contou-me tudo. Diz-me o teu preço! O mercador deitou-lhe um olhar por baixo e lançou:

— Setecentos dinares.

Sem hesitar, Ali replicou, desprendendo a bolsa:

— Estão aqui seiscentos e sessenta dinares. São teus. Onde está a rapariga?

— Eu disse setecentos.

— El-Farrubi, trata de dar mostras de prudência e esquece um pouco a tua ganância! Mais vale aceitares esta quantia, já que ela se arrisca a derreter-se com os primeiros raios do dia, tão depressa como a neve que nos rodeia.

— Que me estás tu a querer dizer?

— Abre os ouvidos e os olhos! Confiei-te que sou o médico da corte e amigo do vizir. Então, não queres compreender?

O mercador coçou ainda mais a barba, franzindo o sobrolho. Depois estendeu a mão com má vontade.

Quando ela apareceu, velada, no limiar da sala do caravançarai reservada às mulheres, ele reconheceu-a logo pelos olhos e pela perfeição da silhueta.

Ela deu uns passos para ele e pareceu hesitar. Dir-se-ia que tinha dificuldade em acreditar no que lhe sucedia.

— Cheikh el-rais?

— Sim, Sindja, sou mesmo eu, Ali. Ela repetiu, incrédula:

— Cheikh el-rais!

— Anda! O teu lugar não é entre os comedores de lagartos...

 

                           OITAVA MAKAMA

«A ampulheta esvaziou-se lentamente, e os grãos do tempo escorreram para a memória do passado.

«Neste vigésimo dia de dhù el-higgà, o Sol transpôs há mais de uma hora o meio-dia do rio, e nós entramos no nono ano da permanência do cheikh el-rais em Gurgandj. Nove anos, durante os quais o meu mestre se consagrou à escrita e ao ensino. Redigiu, sucessivamente, uma súmula tratando da pulsação, em persa; um poema sobre a lógica; uma Refutação das predições do futuro baseadas nos horóscopos, também chamada Refutação da Astrologia judiciária; dez poemas e uma epístola sobre o ascetismo, em que expôs com uma grande precisão os estados de consciência da ascese. Escreveu também um livro filosófico, que intitulou: As Faculdades humanas e suas apreensões, numerosos poemas sobre A Magnificência e a Sabedoria, assim como um tratado acerca de A Tristeza e suas Causas. Pareceu-me que o exílio longe de Bukhara e a recordação de seu pai não foram alheios à redacção desta última obra.

«Durante todo esse tempo, Sindja viveu a seu lado.

«Ela observou-o, enquanto ele trabalhava sem descanso, ou quase: massajando com devoção as suas falanges queimadas pelas frieiras; cobrindo-lhe os ombros com o seu longo manto defashfash, quando, aos primeiros alvores do dia, acontecia ao xeque adormecer com a cabeça assente em cima da mesa de madeira de cedro. E, que o Todo-poderoso me perdoe, viu-o também consumir bastante vinho de Busr.

«Curiosamente, a mulher só guardaria desse período a recordação da "facilidade desconcertante", com que o filho de Sina realizava o seu trabalho. E, muitas vezes, el-Massihi corroborou a sua opinião.

— Pois que me censurais vós? — lançou-lhes, um dia, o xeque com autêntica irritação. — Julgais que a criação é sempre sinónimo de suor e de sofrimento? Uma mula tem mais mérito do que um puro-sangue, simplesmente porque se cansa dez vezes mais a trepar uma ladeira? Se assim é, Alá é minha testemunha, não reivindicarei nunca esse mérito!

«Na verdade, não havia nada de espantoso em que as testemunhas da sua vida fossem sensíveis à sua capacidade de trabalho: pelas estradas poeirentas ou sob os ouros dos palácios, por vezes até a cavalo, ele encontrava sempre a concentração necessária à continuação da sua obra. Mas o que, acima de tudo, perturbava aqueles que o rodeavam era a sua prodigiosa memória. A partir dos vinte e dois anos, quer tratasse de filosofia, de astronomia, de matemática ou de medicina, ele nunca sentiu a necessidade de compulsar uma nota ou uma obra. Muito mais tarde, evocando essa época, ele confiou-me: Eu estava, então, no auge da minha erudição, tinha lido todos os livros dignos de serem lidos, possuía a ciência de cor; desde então, ela não fez senão amadurecer em mim.

«Não posso deixar de pensar novamente na frase pronunciada, nove anos antes, pelo emir Nuh II: Alá concede o dobro a quem ele quer...

«A véspera do 17 de dhù el-higgà era uma sexta-feira. Do alto da casa de Deus, o adirane, o apelo à oração, subira para o azul do céu. A voz chorosa do mua 'dhine havia exaltado a unicidade e a glória do Altíssimo e abençoado a memória do Profeta. Coisa rara, o mua dhine de Gurgandj era cego; pois, inspirando-se num antigo costume, o soberano impusera que esse cargo fosse atribuído exclusivamente aos seres atacados de cegueira; isto, para que, da sua situação elevada, eles não pudessem espiar o que se passava nos terraços ou nos pátios das casas vizinhas do minarete.

«No interior da mesquita, consumiam-se nos incensadores de cobre as substâncias aromáticas, e os seus perfumes balsamizavam os pilares, as lanternas de prata e o chão inteiramente recoberto de esteiras.

«Desde a morte de Muhammad — que o Invencível abençoe o seu nome! —, a função de imam, "aquele que está à frente", estava reservada ao califa. Na sua ausência, essa função era transferida para os seus lugar-tenentes, para os seus governadores nas províncias ou ainda para a pessoa mais autorizada entre os presentes. Foi, pois, Ibn Ma'mun que, do alto da cátedra, pronunciou a tradicional khotba, o sermão. Sendo a espada inseparável da nossa fé, ele dirigiu-se mais particularmente aos seus soldados armados, que tinham entrado a cavalo na mesquita, e concluiu o seu sermão, comunicando o resultado das últimas batalhas contra os Ghuz. Deu também a conhecer as suas ordens e proferiu as habituais maldições contra todos os inimigos da província.

«Hoje, a mesquita está entregue aos alunos. Eles acabam de fazer a oração da alvorada e estão ali, uns trinta, sentados em círculo na sala de aulas contígua ao edifício. Têm na mão as tabuinhas de argila mole, que servirão para gravar as suas notas por meio de um estilete. A média das suas idades oscila entre os dez e os vinte anos. Encontram-se também ouvintes mais velhos e ambiciosos eruditos, vindos de outras cidades, que andam de província para província, à procura de novos mestres ilustres. E o caso de Ibn Zayla, que já foi discípulo de Ibn Sina em Bukhara. Há mesmo sábios, que, tal qual como os estudantes, se deslocam para seguir as aulas dadas por célebres colegas.

«Trinta alunos é um número modesto, se se tiver em conta que o ensino é gratuito, que qualquer indivíduo, sem excepção, tem o direito absoluto de escutar um mestre, que os mais pobres beneficiam de alimentação e que, em geral, a mesquita oferece importantes bolsas para estudantes estrangeiros.

«Numerosos são os Rumes que ficarão surpreendidos, ao lerem estas linhas, pois ignoram que a casa de Deus não é somente um lugar de oração, mas também a sede principal do ensino islâmico, onde está instituída a madrasa, a escola; igualmente, serve de biblioteca e de tribunal. Ficarão mais admirados ainda, quando souberem que, no caso da cidade ser desprovida de estalagem, a mesquita faz as vezes de hospício; daí resulta que se come na mesquita, e eu fui lá testemunha de ricos banquetes. Muitas vezes, como hoje, em sinal de devoção, o meu mestre mandava servir vitualhas, que partilhava com os seus discípulos.

«Ali não se senta numa cadeira sobrelevada, mas num tapete; respeitando o uso que manda que um docente não se eleve acima do círculo dos seus ouvintes, só as suas roupas reflectem a importância da sua função. Ele está vestido com o traje dos sábios e tem a cabeça envolta num turbante sabiamente atado. No decurso destes últimos anos, a sua silhueta transformou-se consideravelmente, ao passar do jovem ao adulto. Uma barba de um negro mate, cuidadosamente aparada, enquadra, hoje, o seu rosto; e se as suas pupilas conservaram o mesmo brilho, a mesma acuidade, há uma expressão nova, .que se lhes veio juntar.

«O ensino ministrado na madrasa era composto por várias partes. Antes de tudo o mais, havia o adab, as regras da vida em sociedade; e, de maneira mais geral, a literatura. Era preciso, evidentemente, saber ler e escrever e conhecer um pouco de gramática. Ensinava-se, sobretudo, às crianças a recitar o Alcorão de cor, assim como se lhes ensinava os hadith, isto é, a tradição ligada aos actos, às palavras ou às atitudes do Profeta. Por isso, não era surpreendente que, naquela manhã, vigésimo dia de dhu el-higgà, o filho de Sina começasse por esta interrogação...»

— A que é que se chama os cinco pilares do Islão? Há algum de vós que saiba responder?

Espontaneamente, levantaram-se vários braços. Ali designou uma criança ao acaso.

— A profissão de fé, a oração, a esmola, o jejum e a peregrinação a Meca.

— Está perfeito. A isso há que acrescentar que alguns dos nossos irmãos, em especial o ramo dos Hagiritas, consideram a djihad, a guerra santa, como o dever principal do crente. Mas vamos ater-nos ao ensino original e evitaremos a polémica. O Livro estipula apenas a esmola e o jejum. Aprendemos, durante as últimas aulas, em que consistiam esses pilares, que são os deveres que cada um de nós deve cumprir ao longo de toda a sua vida. Hoje, gostaria de abordar de maneira mais aprofundada a oração e as suas origens.

Ali fez uma breve pausa, antes de perguntar:

— Sabeis como foi fixado em cinco o número das nossas orações quotidianas?

O silêncio embaraçado das crianças foi dominado pela intervenção dos estudantes mais velhos:

— Assim o manda o Profeta.

— Está escrito no Livro.

— Não — protestou um ouvinte —, estais enganados. O Livro só menciona duas orações: a do pôr e a do nascer do Sol.

As respostas e as contradições encavalitaram-se, até que Ibn Zayla declarou:

— A tradição afirma que esse número canónico de cinco foi inspirado ao Profeta por Moisés.

Um ligeiro movimento produziu-se no meio da assistência.

— O nosso amigo diz a verdade. Eis os factos: uma noite, por ordem do arcanjo Gabriel, Muhammad montou em Buraq, o estranho corcel branco, mistura de mula e de burro, e voou por entre as estrelas até Jerusalém. Aí, um grupo de profetas —Abraão, Moisés, Jesus e outros — veio ao seu encontro. Muhammad foi erguido para fora deste mundo e atingiu aquele ponto extremo, a que o Livro chama o Lótus do Limite. A Luz divina desceu sobre o Lótus e cobriu-o. Foi aí que o Profeta recebeu para o seu povo a ordem de efectuar cinquenta orações por dia.

Ao ouvir aquele número, os adolescentes olharam-se uns aos outros com assombro e perplexidade.

— Aqui, tenho de respeitar os textos da tradição. Por isso, citarei, simplesmente, as palavras de Muhammad: «No caminho do regresso, quando eu passava diante de Moisés, este perguntou-me: "Quantas orações te foram impostas?" Eu disse-lhe cinquenta por dia, e ele declarou: "A oração canónica é um pesado fardo e o teu povo é fraco. Regressa junto do teu Senhor e pede-lhe que aligeire o fardo para ti e para os teus."

«Eu voltei, pois, para trás e pedi ao meu Senhor um alijamento. Ele retirou dez orações. Tornei a passar diante de Moisés, que me fez a mesma pergunta e a mesma observação que antes; de modo que eu voltei para donde vinha, e dez outras orações me foram retiradas. De cada vez que tornei a passar diante de Moisés, ele fez-me arrepiar caminho, até que, enfim, me tivessem sido retiradas todas as orações, com excepção de cinco para cada período de um dia e de uma noite. Regressado ao pé de Moisés, ele fez-me a mesma pergunta, à qual eu respondi: "Já voltei tantas vezes junto do meu Senhor e tanto lhe pedi que tenho vergonha. Não voltarei mais."»

Ali passeou o seu olhar pelos estudantes, antes de concluir:

«É assim que aquele que efectua as cinco orações com fé e confiança na bondade divina, esse mesmo receberá a recompensa de cinquenta orações...»

Passado o momento de surpresa, a aula continuou, e aconteceu que Ibn Sina repetisse três ou quatro vezes certos hadith, de maneira que os alunos pudessem assimilá-los correctamente. Depois decidiu passar ao ditado:

— Proponho-vos um poema: o Aferine-nama. O seu autor, Abu Sukur, de Balkh, já faleceu, mas eu considero que foi ele o verdadeiro introdutor da forma poética, propriamente persa, da quadra. Em seguida, ditar-vos-ei um dos versículos do Livro. E...

— Mas, cheikh el-rais — melindrou-se alguém —, sempre me disseram que não convinha que as crianças se exercitassem com as palavras do Livro santo!

Ali sacudiu a cabeça com indiferença:

— Deixa!... Deus sabe o que é justo.

Quando acabou o ditado, ele inspeccionou atentamente cada uma das tabuinhas, explicou os erros, e as crianças alisaram a argila com a parte chata do estilete. Depois ele preparou-se para recitar o versículo que tinha escolhido. Curiosamente, o meu mestre propôs naquele dia o versículo 136, tirado da terceira sura. Eis o seu conteúdo: «Dizei: Nós cremos em Deus, naquilo que nos foi revelado, naquilo que foi revelado a Abraão, a Ismael, a Isaac, a Jacob e às tribos; no que foi dado a Moisés e a Jesus; no que foi dado aos profetas da parte do seu senhor. Nós não temos preferência por nenhum deles; nós somos submissos a Deus.»"'

O Sol estava no meio-dia do rio, quando Ali despediu os alunos mais novos. Mas, antes, designou-lhes uma abertura feita no chão do pátio, a pouca distância das fontes que serviam para as abluções, e recomendou-lhes que lavassem bem as suas tabuinhas de argila, mantendo-as por cima do orifício; pois, debaixo da terra, encontrava-se uma conduta que levava ao túmulo do fundador da mesquita, de modo que a sua sepultura podia ser regularmente regada com águas portadoras das palavras do Alcorão.

Uma vez terminada a oração do meio do dia, Ali retomou o seu ensino, mas, desta feita, em proveito dos mestres e dos ouvintes eruditos vindos dos quatro horizontes da Pérsia.

Falou-se de literatura, de tradição, de lógica, de ciência dos números, de ciência dos corpos e, naturalmente, de medicina. Nessa tarde, Ali ditou mais de cem folhas. Quando, acompanhado por Ibn Zayla, deixou a mesquita, o crepúsculo tinha invadido a cidade.

Na soleira da casa de Deus, os dois homens conversaram ainda um pouco, até ao momento em que o discípulo enxergou um homem duns cinquenta anos, duma grande magreza, muito pálido, com as feições encovadas, que avançava a titubear e que, apesar da frescura do ar, suava a grandes gotas sob o peso dos seus pequenos fardos.

— Eis alguém que me parece ter abusado de vinho da Sogdiana! Olha como ele vacila! Dir-se-ia uma palmeira ao vento de Shawal!

Ali, por sua vez, observou o indivíduo. Depois lançou, bruscamente:

— Vem, Hosayn! Sigamo-lo!

Ibn Zayla encarou o xeque com espanto.

— Mas, mestre, achas verdadeiramente necessário seguir um bêbedo?

Mas já o médico ia no encalço do homem. À medida que este progredia através do labirinto das ruelas, podia notar-se como a sua marcha se tornava cada vez mais incerta.

— Observa-o bem! — disse Ali, com uma certa excitação. — Esse infeliz ainda não sabe que a sombra, que o acompanha, talvez seja a da morte.

Um momento mais tarde, viram-no, a arfar, meter-se numa casinha próxima do palácio.

— E agora? — interrogou Ibn Zayla, cada vez mais perplexo.

— Fiquemos aqui. A espera não será longa. E...

Ele não teve tempo para acabar a frase. Um grande grito fez-se ouvir e, quase imediatamente, a porta abriu-se com fragor, deixando aparecer uma silhueta feminina.

— Ele morreu! O meu marido morreu! — gritou ela, soluçando e esbofeteando a própria cara. — Alá tenha piedade de mim!

Ali deitou um olhar entendido a Ibn Zayla.

— Nós não somos Deus — declarou ele, precipitando-se para a casa —, mas Ele oferece-nos, talvez, a ocasião de agir por Ele.

Sem se preocupar com a mulher, que soluçava e gemia, avançou para dentro da casinha, onde o esperava um espectáculo macabro: o homem tinha caído por terra, e a sua cara como que se esvaziara de sangue; se não fossem os seus olhos muito abertos que fixavam o nada, ter-se-ia podido julgar que ele dormia.

— A alma veio ao lábio!(1) — recomeçou a mulher, voltando para casa, acompanhada, desta vez, pelos vizinhos atraídos pelos seus gritos. — Izra'il, o anjo da morte, deitou-o ao chão! Porquê, Rabbi, porquê?

Ibn Zayla tentou, tanto quanto possível, consolar a infeliz:

 

(1) expira ou expirou. (N. do T. )

 

— O anjo da morte é, antes de mais, o enviado do Invencível. Se Ele julgou apropriado chamar o teu esposo, é que a sua hora tinha chegado.

Ali já tinha desapertado o traje do homem e, com a cabeça pousada sobre o tórax, pusera-se à escuta do corpo. Examinou, em seguida, as extremidades e verificou que elas estavam tão geladas como as noites do Pamir.

Alguém se aproximou e, pegando no braço do defunto, ou suposto tal, levantou-o, largou-o e declarou solenemente, ao verificar que o membro tornara a cair sem vida:

— Deus tenha a sua alma!

— Mas que fazes tu? — assustou-se a mulher, vendo que Ali continuava a despir o seu esposo. — Não vês que é tarde de mais?!

Ignorando os seus protestos, o médico perguntou-lhe:

— Tens mel, muito mel? Ela aquiesceu, transtornada.

— Optimo. Vais apressar-te a dissolvê-lo em água, que porás, previamente, a ferver.

— Mas não vês que é tarde de mais?! — gemeu uma voz.

— Conspurcar os restos mortais dum crente!

Como a mulher parecesse hesitar, Ali fez-se ameaçador:

— Se queres que o teu esposo recupere a vida, faz o que eu te digo! Depressa!

Então, ela correu para a braseira.

— E tu, Hosayn — retomou ele, dirigindo-se ao discípulo —, abre lá o meu saco ! Hás-de encontrar lá uma pêra. Enche-a de hidromel, assim que ele estiver pronto.

Sob o olhar reprovador dos curiosos, que se haviam, agora, aglutinado dentro do quarto, Ali acabou de despir o homem, antes de voltá-lo de barriga para baixo.

— Mas quem és tu? — gritou alguém, com cólera. — Que é que te dá o direito de espezinhar assim a dignidade dum morto?

Ali encolheu os ombros.

— Eles vão fazer-nos alguma... — sussurrou Ibn Zayla, perante a agressividade que crescia em torno dos dois.

— Deixa estar, eles ladram, mas não mordem. Começava a instalar-se uma certa tensão, que não fez senão

aumentar, quando a esposa do «defunto» voltou com um púcaro fumegante na mão.

Ibn Zayla fez o que lhe havia ordenado o xeque e, depois de ter atarraxado a cânula, estendeu-lhe a pêra. Ali esperou um pouco que a mistura de água e mel amornasse, depois, ante o olhar consternado das testemunhas, introduziu a cânula no ânus do homem.

— Dar um clister a um cadáver! — protestou um vizinho. — Mas este indivíduo é um descrente!

Indiferente ao desassossego que provocava, o xeque prosseguiu a sua intervenção. Quando injectou toda a quantidade de líquido melado, voltou de costas o corpo do homem e declarou:

— Agora, há que esperar um pouco. O tempo necessário para que o hidromel se difunda no sangue.

— Mas é absurdo! — exclamou alguém. — Este homem é doido! É preciso escorraçá-lo daqui!

— Sim! Basta! Fora!

O círculo começava a apertar-se perigosamente em volta de Ali e do seu discípulo.

— Cheikh el-rais — segredou o rapaz, assustado —, há que sair daqui !

— Calma, Hosayn. Deixa-me agir!

Ele levantou-se lentamente e olhou de alto a baixo o pequeno grupo que se acercava.

— Porque vos exaltais assim? Não vos peço nada, a não ser um pouco de reflexão: se o vosso amigo está morto, o que eu lhe fiz não pode, em caso algum, agravar o seu estado. Pode-se tirar duas vezes a vida? Pode-se cortar duas vezes o mesmo pescoço? Em compensação, se um sopro de vida se agita ainda no interior deste corpo, não é um clister de hidromel que de lá o expulsará.

Rebuscando dentro do seu saco, tirou de lá uma pequena ampulheta, que colocou no chão.

— Se, uma vez cheio o vaso inferior, o vosso amigo ainda não tiver recuperado os sentidos, convocareis imediatamente os guardas do palácio e eles levar-me-ão.

Os homens miraram-se, perplexos, e, embora se os sentisse seduzidos pelos propósitos do médico, nenhum deles ousava tomar posição. Finalmente, foi a esposa que murmurou a meia voz:

— Se um milagre... se um milagre fosse possível...

O círculo desfez-se, insensivelmente. E a espera começou. Todos os olhos se fixaram na corrida dos grãos de areia escorrendo através da sua prisão de vidro.

Lá fora, um cão pôs-se a ladrar, quebrando o silêncio. De tempos a tempos, produzia-se um roçar de manga, o esfregar de um calcanhar no chão, um suspiro de lassidão.

Ibn Zayla, lívido, parecia também ele subjugado pela ampulheta. Dir-se-ia que, com toda a força do seu pensamento, ele tentava travar a queda da areia. Em breve, não restou mais do que um fiozinho, fino, ténue, quase transparente. Por um furtivo instante, deu a impressão de se imobilizar no gargalo que separava os dois vasos, depois, de uma só vez, caiu.

Todos os olhares convergiram para Ibn Sina. A figura deitada no chão continuava inanimada.

Ali tomou o pulso ao homem, antes de dizer, impávido:

— Está bem. Podeis chamar os guardas. A mulher abafou um soluço.

Alguém esboçou um passo em direcção à porta.

Nesse mesmo instante, Ibrahim, tal era o nome do «defunto», mexeu as pálpebras e, ante a estupefacção geral, ergueu-se ligeiramente, balbuciando como quem sai de um sono profundo:

— Meu Deus... que aconteceu?

A vista de tal prodígio, irromperam espontaneamente exclamações, em que se adivinhavam ao mesmo tempo o temor e a admiração.

— Ele venceu Izra'il... — balbuciou a esposa, prestes a desmaiar.

— Ele venceu Izra'il! — repetiram, em eco, outras vozes.

Deu-se, então, uma incrível confusão, pois todos queriam aproximar-se do ressuscitado, tocar-lhe, falar-lhe.

Discretamente, Ali recuperou a ampulheta, voltou a fechar o saco e convidou Ibn Zayla a segui-lo. Uma vez no exterior, para grande espanto do discípulo, deu um pulo e deitou a correr a direito, descendo apressadamente as ruelas, para só parar à porta do palácio.

— Cheikh el-rais! — protestou Ibn Zayla, tentando retomar o fôlego. — Nem sequer deste tempo àquela gente para te exprimir a sua gratidão!

Ali abanou a cabeça, enquanto limpava o suor que lhe aljo-frava a testa.

— Acreditas, realmente, que o homem estivesse morto? Ibn Zayla respondeu pela negativa.

— Evidentemente, ele estava apenas com uma síncope.

— A embriaguês? — perguntou o discípulo.

— De modo nenhum. Bastava reparar na sua magreza, na palidez anormal das suas faces, na sua respiração curta, no suor que lhe inundava exageradamente a cara, no esforço excessivo que ele fazia para levar os seus pequenos fardos e, sobretudo, no seu andar incerto, para compreender que o equilíbrio perfeito, que deve reinar em todos os seres, estava a ponto de se romper.

— Perdoa-me, mestre, mas tenho dificuldade em seguir-te.

— Escuta: todos os temperamentos se dividem em três tipos principais: bilioso, sanguíneo e seco. No dia em que uma causa qualquer vem a perverter ou a transformar um desses temperamentos, isso basta para criar o desfalecimento. Entre os indivíduos, alguns há que têm na sua constituição uma predisposição para contrair a doença. Porque, e isto é muito importante, se a causa, actuando só por si, encontrar um organismo não predisposto e que não lhe dê nenhuma ajuda, ela não poderá agir sobre ele e a sua acção será nula. Poderemos chamar a esse estado, inexplicável, eu reconheço isso, o meio favorável ou a receptividade.

— E no caso daquele homem?

— A sua fraca constituição forçava-o a tirar anormalmente de si uma grande quantidade de energia, a tal ponto que esta acabou por lhe faltar. Donde, essa perversão do equilíbrio, que eu mencionava há pouco. O meu tratamento consistiu, simplesmente, em reconstituir as suas reservas enfraquecidas. Para esse efeito, que há de mais soberano que o mel?(1)

Ibn Zayla manteve um silêncio admirativo, antes de declarar:

— É perfeitamente extraordinário... Mas, contudo, ainda não entendo qual a razão que te levou a fugir.

— Reflecte! Tu e eu sabemos que não ressuscitei aquele desgraçado, mas, a estas horas, aquela gente está convencida do contrário. Continuas a não ver?

O rapaz disse outra vez que não.

— As lendas correm mais depressa do que o vento. Se eu fugi, foi para que não me reconhecessem. Pois, já amanhã, em toda a cidade de Gurgandj, desde o bazar até à mesquita, se contaria que Abu Ali ibn Sina tem o poder de ressuscitar os mortos!

Hosayn não pôde deixar de se rir.

— Isso não faria mais do que aumentar a tua glória, cheikh el-rais.

— A tua visão não vai, pois, mais longe do que a ponta das tuas sandálias? Supõe lá, um instante, que um dia, amanhã, a esposa dum emir, um membro da sua família, ou o próprio califa, venha a falecer. Não deixarão, então, de me pedir que realize esse prodígio, que me teria sido atribuído sem razão. E aí, meu amigo, não achas que eu ficaria muito embaraçado?

E Ali concluiu:

— Nesse dia, a minha pobre cabeça não valeria muito mais do que um pedaço de pele debaixo da lâmina do curtidor...

Um clarão de cumplicidade iluminou o olhar do jovem.

— Agora, são horas de nos separarmos — acrescentou Ali. — O dia foi custoso. Que o Clemente alumie a tua noite, filho de Zayla!

 

(1)Parece que, nesse dia, Ibn Sina se achou perante aquilo a que a medicina de hoje chamaria uma crise de hipoglicémia. (N. do T.)

 

— Que Ele te proteja, mestre, e que Ele mantenha para sempre a tua perspicácia!

Quando penetrou no pátio do palácio, Ali tomou imediatamente consciência da agitação desabitual que lá reinava. Soldados, vestidos com uniformes que ele não conhecia, iam e vinham; palafreneiros tiravam as selas aos seus cavalos, e, no alto da torre de vigia, as atalaias haviam sido reforçadas.

Mal ele transpusera o portal, viu acorrer ao seu encontro, com grandes gesticulações de braços, Sawssan, o camareiro.

— Onde estavas tu, cheikh el-rais? Há horas que nós te procuramos através da cidade.

— Porquê? Que se passa? O emir está doente?

— Se eu me atrevesse, dir-te-ia que isso seria menos grave do que a desgraça que nos toca. Vai depressa ter com os outros à sala das recepções. Lá encontrarás reunida toda a corte. Eles te explicarão.

O camareiro tinha razão. A sala das recepções estava negra de gente. El-Massihi, el-Arrak, Ibn el-Khammar, o vizir, o próprio emir; ninguém faltava à chamada. Ele não se lembrava de ter assistido a uma tal reunião, durante aqueles nove anos passados em Gurgandj.

Todos falavam ao mesmo tempo, e era difícil compreender as suas palavras.

— Silêncio! — gritou o vizir el-Soheyli, com uma voz impaciente. — Estamos no palácio, não num caravançarai!

Ali procurou Ibn Ma'mun com o olhar e logo ficou impressionado com a sua atitude: com o corpo curvado, a cara apoiada com moleza na palma da mão, parecia aniquilado.

— Que a paz seja contigo, cheikh el-rais! — lançou el-Soheyli, fazendo-lhe sinal para que se aproximasse. — Causaste-nos grandes inquietações.

— Estava a tratar um doente... — quis explicar Ali. Mas o vizir não lhe deixou tempo para continuar:

— Chegaram-nos de Ghazna notícias desagradáveis. Notícias muito desagradáveis.

E designou um indivíduo que se mantinha afastado:

— Eis um mensageiro de Mahmud o Gaznávida. Ele chegou há pouco.

O homem inclinou-se com unção perante Ibn Sina, enquanto o vizir prosseguia:

— O rei reclama a transferência imediata de todos os sábios, de todos os intelectuais e de todos os artistas de Gurgandj. Todos, sem excepção, deverão dirigir-se para a corte de Ghazna, dentro do mais curto prazo.

— Todos?

— Todos, sem excepção.

Atordoado, Ali examinou um por um os seus amigos, el-Arrak, Ibn el-Khammar e os outros, e ficou imediatamente impressionado com a resignação que se lia nos seus rostos.

— Disporeis duma renda real — houve por bem especificar o mensageiro do Gaznávida. — Nada vos faltará. Muito pelo contrário, Mahmud, que Alá abençoe o seu nome!, encher-vos-á dos seus benefícios.

O médico fechou os olhos, e as palavras, que ele pronunciara, alguns anos antes, em conversa com el-Biruni, repercutiram-se subitamente na sua memória.

Não sei quanto a ti, mas posso garantir-te que certos soberanos, por muito generosos que sejam, nunca me terão ao seu serviço: os Turcos, os Turcos são uns desses. O filho de Sina jamais se humilhará diante dum Gaznávida!

Respirou profundamente e voltou-se para o mensageiro:

— Nessas condições, será necessário que o príncipe passe sem um de nós.

— Dois! — rectificou espontaneamente el-Massihi. Como se não compreendesse, o mensageiro buscou uma explicação junto do vizir.

— Não pareces ter percebido o assunto — disse el-Soheyli, num tom conciliador. — Não é um convite, é uma ordem.

— Há ordens que são ofensas, bem-amado el-Soheyli.

— Não temos por onde escolher!

Desta vez, era o emir que tomava partido.

— Não temos por onde escolher — disse ele de novo, pausadamente. — Não vamos, em todo o caso, correr o risco duma guerra contra o Gaznávida! Contra o meu próprio cunhado! O seu desejo será satisfeito.

— Será satisfeito. A vontade do príncipe é coisa corrente. Mas eu, por minha parte, outorgo-me o direito de lhe resistir.

— Loucura! — gritou Ibn Ma'mun. — Loucura! Vendes Gurgandj por dois grãos de cevada!

Fez menção de rasgar o colarinho da sua burda e continuou com cólera:

— De qualquer maneira, fica sabendo que, de entre todos os meus sábios, tu és aquele cuja partida me causará menos pena!

Recompondo nervosamente as pregas da sua veste, o emir explicou:

— Sabemos a vida dissoluta que tu levas, desde a tua chegada a Gurgandj, e o que tu ensinas na mesquita sobre a origem das cinco orações!

Ali empalideceu, ante a alusão ligeiramente velada; cerrou os punhos, pronto a replicar, quando o vizir lhe sussurrou ao ouvido:

— Vai esperar-me, na companhia de el-Massihi, junto ao tanque de mercúrio. Vai !...

Dando meia volta, declarou com uma voz sossegada ao enviado do Gaznávida:

— Podes anunciar ao teu amo que o xeque e todos os seus companheiros se submeterão às suas ordens. Pôr-se-ão a caminho, amanhã mesmo, após a oração da alvorada.

Na escuridão que reinava no jardim, mal se adivinhavam as três silhuetas que caminhavam pelas áleas. O ar estava quente e húmido, carregado com as lenturas vindas do mar do Khuwarizm.

O vizir deitou uma olhadela por cima do ombro, para verificar que ninguém os seguia, e perguntou pela segunda vez a Ibn Sina:

— A tua decisão é, pois, irrevogável. Não irás para Ghazna? Ali reiterou a sua recusa.

— Presumo que tu sabes o que pode custar-te uma tal atitude?

— Só Alá decidirá da minha sorte. Sabes, el-Soheyli, comecei há pouco a escrever um tratado acerca do destino. Descansa, poupar-te-ei os pormenores da sua elaboração... Autoriza-me, no entanto, a confiar-te a minha filosofia, e, se a minha atitude não te parecer demasiado orgulhosa, aceita as minhas palavras como outros tantos conselhos: «Antecipa-te ao tempo e julga tu próprio o universo, quer ele te seja propício ou adverso, como o faria Deus em relação à sua criatura.» Eu já julguei: não me submeterei ao Turco.

El-Massihi tossicou discretamente.

— Nesse caso, não tendes muito por onde escolher: há que fugir, que deixar Gurgandj imediatamente. Amanhã, será tarde de mais. Vou pôr um guia e cavalos à vossa disposição. Tereis de meter-vos prontamente a caminho.

— Para que destino? — inquietou-se el-Massihi. Ali reflectiu um momento, antes de responder:

— Iremos ter com el-Biruni à corte do caçador de codornizes.

— Mas Gorgan está a mais de duzentos farsakhs daqui! É uma viagem longa e cansativa!

— Não tenhas receio! Levaremos o tempo que for preciso. E aproveitaremos para parar, por alguns dias, em Bukhara. Vai para nove anos que não tornei a ver a minha mãe e o meu irmão. Estou ansioso por abraçá-los.

— Se ao menos a alegria de os tornar a ver pudesse dar-nos asas — replicou el-Massihi, com um sorriso um pouco cansado —, sofreríamos menos com as fadigas da viagem. Embora eu fique encantado por voltar a ver Gorgan. Afinal de contas, é a minha cidade natal.

Ali sondou o olhar do vizir.

— Porque fazes isto?

El-Soheyli mostrou um ar sereno.

— Talvez porque, por minha vez, já julguei...

De pé, junto da janela aberta, Sindja observava-o, enquanto ele arrumava as suas notas. Quando ele lhe anunciara a sua partida, ela nada dissera, mas sentia-se, através da bruma que lhe velava as pupilas, todos os desgostos do mundo.

Também ele tinha o olhar triste. Acercou-se, um tanto contrafeito, e estendeu-lhe uma folha.

— Teria gostado de oferecer-te arcas de ouro, todos os tesouros e todos os campos de Ispahan. Ai de mim!, o meu único presente limita-se a esta prosa ligeira.

Ela não respondeu. Pegou, simplesmente, na folha e bebeu cada uma das palavras:

Ó vento do norte! Não vês como a minha aflição é grande? Traz-me lá um pouco do alento de Sindja, sopra, peço-te, sopra para ela e diz-lhe: Doce, doce Sindja, o que me hasta de ti é este pouco, e menos ainda. Vou fingir esquecer-te para que o meu coração volte a ser o que era, mas sei de antemão que, aofazê-lo, mais violento se tornará o meu desejo, mais eterna será a minha melancolia...

Ela apertou a folha de encontro ao coração, depois, pegando numa ponta do véu, puxou-o para a cara. Ali apercebeu-se de que ela tinha trocado o litham de seda púrpura, que trazia habitualmente, por um shawdar de cor amarela, símbolo de dor e de desgosto...

 

                                 NONA MAKAMA

Enroupado numa grande toga azul, com o crânio envolto num turbante bordado a pedrarias, Mahmud o Gaznávida tinha um ar imponente.

Súbúktegin, seu pai, tinha começado por fazer dele seu lugar-tenente. Um lugar-tenente impetuoso, a quem mesmo os seus depreciadores mais encarniçados reconheciam tenacidade e bravura. Muito depressa, ele tomou a cidade de Nishapur aos heréticos ismaelitas e fez dela a sua capital. Mais tarde, quando Súbúktegin morreu, deixou o trono ao seu filho mais novo, Ismail. Poder-se-ia julgar que Mahmud se inclinaria perante a escolha do pai; nada disso. Passados vinte meses, caiu sobre Ghazna, derrotou o irmão e fez-se coroar «rei da cidade». Isso fora há doze anos. Desde então, o poderio e a glória daquele a quem todos já só chamavam o Gaznávida não tinham deixado de abrasar a terra da Pérsia.

Contudo, naquela noite, algo viera embaciar esse brilho. Algo de imprevisível e, portanto, aos olhos daquele homem habituado a moldar o seu próprio destino e o do seu meio, totalmente inaceitável.

Mahmud tirou uma tâmara de uma grande taça cinzelada, cuspiu o caroço para os pés de Ibn el-Khammar e dos outros sábios reunidos na sala do trono, e disse num tom firme:

— Visto que o vosso colega, o cheikh el-rais, julgou a nossa corte indigna da sua presença, será, pois, trazido à força. Ficai sabendo que não descansarei enquanto não tiver obtido satisfação!

— Mas do Turquestão ao Djibal todos os homens se assemelham, Excelência — fez notar, timidamente, o chanceler. — Para encontrar Ibn Sina, seria preciso recrutar um exército.

Mahmud inclinou ligeiramente a cabeça para o lado e apontou o indicador para el-Arrak.

— Tu! Aproxima-te! Entre todas as qualidades que te atribuem, há uma que vai certamente facilitar-nos o trabalho. Tu és matemático, filósofo, mas és também pintor, não é verdade?

El-Arrak confirmou.

— Nesse caso, vais executar para mim um retrato, o do cheikh el-rais. E quero-o incomparável na precisão, perfeito na parecença.

— Mas... parece-me muito difícil realizar tal coisa de memória.

— Sem dúvida nenhuma. É por isso mesmo que recorro a ti e não a outro qualquer. Quando tiveres acabado o teu trabalho, todos os pintores, todos os desenhadores de Ghazna o reproduzirão. Preciso de tantos exemplares quantas as cidades, as aldeias, as guarnições militares fortificadas e as torres de sinalização que há. Talvez, então, o filho de Sina me fique grato por eu ter contribuído para a sua imortalidade.

O soberano calou-se e, depois de ter avaliado o efeito das suas palavras, voltou-se para o sêpeh-dar, o comandante do exército, e o tom da sua voz endureceu incrivelmente:

— Quero-o. Quero o cheikh el-rais, vivo. E, num sussurro, acrescentou:

— Ou morto.

A água canta na chaleira posta em cima das brasas.

A noite caiu. A terceira, desde que partiram de Gurgandj. Uma noite polar, que entorpece o cintilar das estrelas. Naquele lugar do mundo é sempre assim: o dia inflama a terra, a noite gela-a. Apesar dos seus espessos mantos de pêlo de camelo, o frio insinua-se insidiosamente no corpo dos viajantes e queima tanto como o fogo.

O guia adormeceu, há já um momento, à sombra deformada dos cavalos.

Enrolado no seu cobertor de lã, Ali está deitado de costas, com o olhar perdido nas constelações.

— Pergunto a mim próprio, por vezes — disse ele, sorrindo —, se o tremular das estrelas não é o pulso do universo.

El-Massihi deitou um pouco de chá num copo e passou-o ao seu amigo.

— Se assim fosse, seria esse o único pulso que mesmo tu, cheikh el-rais, nunca poderias tomar.

Erguendo-se, apoiado no cotovelo, Ibn Sina designou um ponto perdido no espaço.

— Reconheces aquela estrela? É al-Zuhara, Vénus para os Rumes, o senhor dominante. Segundo Ptolomeu, ela ocupa no sistema geocêntrico o terceiro lugar, a contar do interior. Sabias isso, Abu Sahl?

— Julgas, realmente, que sou ignaro a esse ponto? Gostava de saber se ainda te lembras de que sou um intelectual e um sábio... que fui teu mestre em medicina e que, sem mim, andarias ainda à procura do teu caminho! Sim, graças a Deus, tenho algumas noções de astronomia. Mas os teus sistemas geocêntricos dão-me vertigens e cansam-me. Para mim, pobre analfabeto, al-Zuhara é, antes de tudo o mais, a divindade do amor.

Ali bebeu um gole de chá fumegante, antes de responder com uma ponta de malícia:

— Não inovas nada, mestre el-Massihi; retomas a interpretação dos Egípcios e dos Gregos. Não há aí nada de muito científico.

— Evidentemente. A teus olhos, tudo deve ser «científico». Mesmo o amor! Quando lhe acariciavas o corpo, avaliavas também os «sistemas geocêntricos» daquela pobre Sindja? Calculavas o diâmetro e a circunferência do seu prazer?

— De todos os mistérios do universo, o amor é realmente o mais complexo. O amor está próximo do divino. Não há que rir dele, Abu Sahl.

— Tu falas bem do amor. Mas eu interrogar-me-ei sempre quanto à tua capacidade de amar as mulheres.

— Poderia responder-te que sou guiado por esse preceito do povo: «Nestes três seres nunca deposites a tua confiança: o rei, o cavalo e a mulher; porque o rei é insensível, o cavalo, fugaz, e a mulher, pérfida.» E estou certo de que acreditarias em mim.

— Claro que sim! Porque não acreditaria em ti, quando vejo a maneira como tu deixaste essa moça das índias. Parece-me que nove anos de vida comum mereciam muito mais do que um simples poema; ainda que o seu autor fosse o famoso Abu Ali ibn Sina.

— És verdadeiramente um descrente, Abu Sahl. És tu quem não sabe nada das coisas do coração. Eu amei Sindja. Ainda a amo.

— Nesse caso, porque é que a deixaste em Gurgandj?

Ali observou demoradamente o seu amigo, como se procurasse inspirar-lhe a resposta, depois, com um gesto nervoso, puxando para os ombros o cobertor de lã, voltou-se de lado:

— Pois bem, meu irmão — vociferou ele —, eis uma questão que ocupará a tua noite.

A aurora despontava entre os montes do Khorasan, enquanto eles progrediam em direcção ao sudeste, onde se adivinhava a linha ondulosa do rolador de ouro, o rio Zarafshan; mais longe, a renda das muralhas castanho-avermelhadas, com tonalidades trigueiras de pastel, que a cúpula da cidadela dominava. À direita, começava-se a vislumbrar os vestígios da antiga muralha, chamada da Velha.

Bukhara.

O coração de Ali pôs-se a bater com muita força no seu peito, à vista daquela paisagem, em que ele tinha crescido; uma vaga de emoção fez vacilar a sua memória. Com uma pancada seca, esporeou a montada e passou à frente do guia, que galopava ao lado de el-Massihi.

Foi em grupo que eles ultrapassaram a pequena aldeia de Samtine, a pouca distância do novo oratório edificado durante o reinado de Nuh para acolher os crentes que já não cabiam na antiga mesquita. Voltando costas à aldeia, tomaram a direcção de uma das onze portas abertas na grande muralha e, pelo caminho, cruzaram-se com os primeiros camponeses que desciam para os campos, por entre as primeiras brumas de calor.

Abrandaram o passo à entrada da Porta das Ovelhas e iam passar por debaixo da abóbada, quando qualquer coisa chamou a atenção de el-Massihi: dois pequenos cartazes afixados nos tijolos, a um lado e outro da porta.

— Há que dar meia-volta, depressa!

— Que se passa? Dá a impressão que viste um djinnl

— Não me teria causado maior efeito!

— Mas que há?

— A tua cabeça. A tua cabeça está posta a prémio!

— Que estás tu para aí a dizer?

Acabavam de entrar na Praça do Rigistan, não muito longe do grande bazar coberto. Diante deles, a uma distância de algumas braças, destacava-se sobre uma parede de pedra um novo cartaz.

— Olha! — exclamou el-Massihi. — Trata-se mesmo de ti!

Incrédulo, Ali voltou rédeas e dirigiu-se para o ponto designado pelo cristão. À medida que lia o texto inscrito por baixo do retrato, teve a impressão de que um vento glacial lhe percorria o corpo.

Em nome de Deus, aquele que faz misericórdia, o Misericordioso. Por ordem de Sua Altíssima Majestade, Mahmud o hem-amado rei de Ghazna e do Khorasan, qualquer pessoa susceptível de encontrar este homem, conhecido pelo nome de Ibn Abd Allah ibn Ali ibn Sina, é obrigada a prendê-lo ou a avisar as autoridades militares da cidade. Uma recompensa de 5000 dirhems será entregue ao cidadão diligente.

— E incrível ! — admirou-se o guia, por sua vez. — O retrato é da maior fidelidade.

— Em toda a Pérsia, não conheço senão um único artista capaz de uma tal obra — observou Ali. — É o nosso amigo el-Arrak.

— Que importa o autor desta obra-prima? Temos que deixar imediatamente Bukhara!

— Deixar Bukhara? Quando estamos a dois passos de Mahmud e de Sêtareh? Não penses nisso!

— No entanto...

— Nem falar em tal!

— Mas, cheikh el-rais — implorou o guia —, a tua morada é certamente o primeiro sítio do país em que te devem esperar.

— Ele tem razão. Seria um suicídio!

— Nesse caso, esperaremos pela noite. Mas nenhuma força no mundo me impedirá de tomar a ver a minha mãe e o meu irmão. Deixemos a cerca e esperemos fora da cidade que venha a hora do poente.

Ali ergueu-se um pouco sobre os estribos e voltou para a Porta das Ovelhas.

A casa continuava a cheirar a almíscar e a pão quente. Apesar dos anos, Sêtareh não tinha mudado muito. Ele voltou a encontrar no seu rosto a mesma pureza e nos seus olhos de azeviche, sublinhados muito ao de leve com khôl, a mesma submissão das mulheres daquele país às coisas do destino. A alegria do seu reencontro foi semelhante a todas as grandes venturas: houve mais lágrimas do que risos. Foi Mahmud que o inquietou.

Desde sempre, o seu irmão mais novo apresentara uma constituição frágil. Mahmud estava privado de tudo o que Ali possuía de força e de acuidade. Se um ostentava todas as energias físicas e intelectuais, o outro era como uma cidadela com as defesas minadas; um pouco como se, arbitrariamente, a natureza tivesse dado a Ali aquilo que tirara a Mahmud.

Por isso, ele procurou tranquilizar-se, dizendo a si próprio que o irmão continuava sendo como era, quando ele ó deixara.

Estavam sentados no interior da casa de adobe. Sêtareh tinha apagado todas as lâmpadas. A Lua, redonda, ia alta no céu, e, pela janela aberta para o pátio, a sua luz insinuava-se no claro-escuro ao longo das silhuetas sentadas no chão com as pernas cruzadas.

— Continuas tão doido como antes, meu filho — sussurrou Sêtareh, carinhosamente. — Não devias ter corrido um tamanho risco. Há três dias que andam em redor da casa pessoas esquisitas.

— Mamèk, não tenhas receio! Não nos viram chegar, nem nos verão tornar a partir.

Ela estendeu a mão para a perolazinha azul, como sempre pendurada ao pescoço do filho, e fê-la girar entre os dedos.

— Está bem, guardaste o presente da nossa vizinha. Mas talvez ele não tenha poder bastante para afastar o olhado dos invejosos e dos maldizentes.

— Seria preciso ao teu filho uma pedra do tamanho dum coco! — suspirou el-Massihi.

— Ainda te lembras do velho el-Arudi? — perguntou Sêtareh.

— Como haveria eu de esquecê-lo? A sua bexiga está gravada na minha memória!

A mulher pôs-se a rir suavemente, depois a sua expressão fez-se outra vez séria:

— Ele já nos deixou. Há exactamente três anos.

— E Warda? Que é feito dela?

— Logo a seguir à morte do pai, casou com um rico mercador de Nishapur. É lá que ela vive com a mãe.

Ali julgou sentir de novo nos seus lábios um longínquo sabor a pêssego e a amêndoa doce.

— Então, tencionais ir para Gorgan? — interrogou Mahmud. — Mas é no outro extremo da Pérsia. Correis o risco de se vos depararem patmlhas. A costa do mar dos Cazares está cheia de guarnições militares fortificadas, de torres de sinalização.

— Não estejas inquieto. Tornar-nos-emos tão invisíveis como o vento. Fala-me da tua vida, Mahmud! Onde trabalhas tu?

— Nas plantações de Samtine. A paga é modesta, mas a faina não é demasiado cansativa.

— Sêtareh — disse el-Massihi, com um certo embaraço —, o meu estômago gorgoleja de impaciência. Não terias tu um pouco de pão para nos oferecer e umas daquelas almôndegas de carne, de que tens o segredo?

— Por aí reconheço eu o bom do Abu Sahl ! — disse Mahmud, desatando a rir.

— Não é um homem, é uma barriga — acrescentou Ali. Sêtareh já tinha ido para a cozinha.

Mahmud, divertido, deu umas palmadinhas na pança do cristão:

— Uma barriga bem bonita!

Ia ele retirar a mão, quando Ali lha agarrou bruscamente e, sem razão aparente, obrigou o rapaz a levantar-se e a segui-lo até ao pátio.

A claridade da Lua, inspeccionou em silêncio o pulso de Mahmud e verificou nele uma ulceração bastante profunda.

El-Massihi veio ter com eles, a convite de Ibn Sina, e, por sua vez, examinou o braço de Mahmud.

— Mas o que há? Vós meteis-me medo, os dois!

— O teu diagnóstico? — interrogou Ali, fitando Abu Sahl.

— Sem dúvida o mesmo que o teu. Mas não se vê grande coisa. Seria preciso iluminar.

— Estais doidos! — exclamou Mahmud. — A luz poderia chamar a atenção dos soldados!

— Vai lá! — ordenou, mesmo assim, Ibn Sina.

Abu Sahl correu para dentro de casa e reapareceu quase imediatamente com uma lâmpada na mão, que colocou por cima do pulso do rapaz.

— Julgo saber... Ultimamente, não sentiste náuseas, acompanhadas por febre? Comichões?

— Ah... sim. Mas foi há um mês ou mais. Nada de importância. Eu devia ter apanhado frio.

Irritado, Mahmud quis libertar o braço.

— Paciência, meu irmão! — murmurou Ali. — Paciência. Ele tocou ao de leve na ulceração:

— Não havia aí uma espécie de bolha, um pouco parecida com a provocada por uma queimadura?

Mahmud franziu o sobrolho e disse com uma voz um tanto tensa:

— Sim. E rebentou sozinha. Como as outras, de resto.

— As outras?

O jovem levantou a veste até aos joelhos e designou dois pontos, um à altura do tornozelo direito, o outro na base da tíbia esquerda, também eles profundamente ulcerados.

Ali tirou a lâmpada das mãos de el-Massihi e ajoelhou-se.

— Não há qualquer dúvida possível — declarou ele, ao cabo de um longo silêncio.

— A filaria de Medina? — diagnosticou Abu Sahl.

— Incontestavelmente.

— De que estais para aí a falar? — disse Mahmud, assustado. — O que é que vem a ser essa filaria de Medina?

— Nada de muito grave — explicou Ali. — Digamos que o teu corpo está ocupado por... hóspedes indesejáveis.

Ele voltou-se para el-Massihi:

— Sabes do que eu preciso. Vê se Sêtareh nos pode ajudar.

— Queres explicar-me o que se passa? — proferiu o jovem, libertando-se com um movimento brusco. — Que me ides vós fazer?

Ali tranquilizou-o:

— Acalma-te! Já que eu te digo que a tua doença é benigna.

— Mas eu não estou doente!

— Sim, estiveste doente e ainda estás. El-Massihi regressou, em companhia de Sêtareh.

— O que há? — indagou ela, com expressão preocupada. Pegando no braço de Mahmud, perguntou, febrilmente:

— De que sofres tu, meu filho? Onde é que te dói?

— Não sei nada disso, mamèk. Pergunta-lhes! Entretanto, Ali tinha pegado num pauzinho, que Massihi lhe

trouxera, e pediu ao seu irmão que se estendesse no chão — o que ele fez de má vontade. Em seguida, pediu ao cristão que mantivesse a lâmpada por cima do pulso e, com precaução, colocando o pauzinho bem encostado à ulceração, fê-lo rolar entre o polegar e o indicador. Passado um momento, ante o olhar horrorizado de Sêtareh e de Mahmud, viu-se aparecer a ponta de um filamento: na realidade, a extremidade de um verme.

— Mas isso é horrível! — gemeu Mahmud, imitado pela mãe. — O que é que vem a ser esse animal?

— Bem vês, um verme.

— Mas donde é que ele sai? Como é que ele se meteu debaixo da minha pele?

— Ela se meteu — corrigiu Ali. — E um verme fêmea.

— Fêmea ou macho, que me importa! Vais, enfim, explicar-me? Além disso, ele parece gigantesco!

Com efeito, o tamanho do verme, que Ali continuava a enrolar em torno do pauzinho, não estava, agora, longe do comprimento de um braço.

— Isto é, provavelmente, consequência dos teus trabalhos nos campos. Se a minha memória não me atraiçoa, a pouca distância de Samtine estão os canais que trazem a água do Zarafshan?

Mahmud disse que sim.

— Imagino que vos acontece beber dessa água, quando a sede aperta mais?

Mahmud aquiesceu de novo.

— A causa, então, é simples. Pois é na água que nasce a filaria de Medina. Existem em certos ribeiros, rios, regatos, ou, como neste caso, nos canais, pequenas larvas, quase invisíveis à vista desarmada; mais precisamente, «microfilárias», ou seja, minúsculos vermes. Eles vão alojar-se no que poderíamos chamar «hospedeiros intermédios»: pequenos crustáceos, quase tão pequenos como o próprio verme. Se essa água for absorvida por um homem ou por um animal, ele absorverá, naturalmente, os vermes que ela contém.

Sêtareh fez uma careta enojada, ao ver o tamanho do verme que Ali tinha retirado. Este aproximou-o da chama, para melhor o examinar, e depois queimou-o.

— Não sabemos grande coisa, infelizmente, do que se passa no interior do corpo, mas eu tenho as minhas próprias convicções.

— Nunca falámos nisso — disse el-Massihi, um tanto surpreendido.

— Conheces-me há tempo suficiente para saber a importância que eu atribuo às provas científicas. Lembra-te da nossa discussão de ontem à noite!

Ali fez uma pausa, e o seu interlocutor julgou ver brilhar-lhe nos olhos um clarão levemente irónico:

— Bem sabes que, para mim, até o amor é científico...

— Basta de retórica. Expõe-me antes a tua teoria acerca da viagem do verme, uma vez no interior do corpo humano.

— Antes de mais nada, precisaria de mais dois pauzinhos.

— Com risco de te desiludir — replicou o cristão, entregan-do-lhe mais duas varinhas, com um ar contrafeito —, eu tinha pensado nisso.

Ali concentrou-se, então, no tornozelo do irmão e repetiu a mesma operação. Depois foi a vez da tíbia. Quando acabou, examinou em pormenor os membros inferiores e levantou-se, enfim, satisfeito.

— Aí está, Mahmud. Bem vês que eu não te tinha mentido. Não sofreste.

— É verdade. Mas passaram nove anos, e eu tinha esquecido um pouco que tu eras o maior médico da Pérsia.

— E essa teoria sobre a filaria de Medina! — clamou el-Massihi.

— Mamèk — murmurou Ibn Sina, com um desprendimento voluntário —, haveria que pensar em dar de comer ao nosso amigo. Quando ele tem fome, fica de mau humor.

— Tudo está pronto. Mas com esta história... Vinde! Apaguemos esta lâmpada e voltemos para dentro. Será mais discreto.

Mal entrou em casa, el-Massihi atirou-se literalmente às parras recheadas e ao leite com hortelã.

— Agora — lançou ele a Ali, com a boca cheia —, a tua teoria não tem, verdadeiramente, mais interesse nenhum, perante tais delícias! Podes guardá-la para ti.

— Nesse caso, anseio por ta confiar — replicou doutamente Ibn Sina, tirando os botins.

Respirou fundo e inclinou-se para a frente:

— Dizia eu, pois, que quando se absorveu essa água poluída, carregada desses minúsculos crustáceos, as larvas, que ela contém, passam necessariamente para o tubo digestivo, cuja parede atravessam. Suspeito-as de se deslocarem, em seguida, para a membrana que está estendida em volta.(1) Por razões que eu ignoro, os machos vão desaparecer, enquanto as fêmeas progredirão em direcção aos membros inferiores, onde morrerão, provocando os sintomas sentidos por Mahmud: comichões, febre, vómitos, assim como essas bolhas que emergem à flor da pele e que acabam, um dia, por rebentar.

El-Massihi encolheu os ombros, enquanto molhava um bocado de pão no leite.

— Não é senão uma teoria... Quanto a mim, eu...

Ele não teve tempo de acabar a frase. Mahmud, que se ausentara por alguns instantes, acabava de reaparecer na sala, com uma expressão transtornada.

— Os soldados! Estão ao fundo da ruela! ' Ali e el-Massihi saltaram ao mesmo tempo.

— Mas... como? — balbuciou Sêtareh. — Como é que eles souberam?

— Não faço a menor ideia, mas temos que fugir — replicou Ibn Sina, apressando-se a calçar os botins.

Abu Sahl juntou as mãos, nervosamente.

— Fugir, certamente. Mas para aonde ir?

— Os nossos cavalos continuam na Porta das Ovelhas. É preciso ir ter com eles. Depois veremos.

Ali apontou para o pátio:

— Por ali, depressa!

Sua mãe mal teve tempo de lhe acariciar a face, enquanto que Mahmud se precipitava para a porta da rua.

— Aonde vais tu? — exclamou Ali.

— Correr, meu irmão, correr na direcção oposta. Talvez eu os possa enganar.

 

(1)Com esta expressão Ibn Sina designa o peritoneu. (N. do T.)

 

— Não faças isso!

Mas era tarde de mais. Mahmud já estava lá fora e descia a ruela.

— Adeus, mamèkl — murmurou Ali, com a garganta presa. — Que Alá te proteja e me perdoe todos os tormentos que eu te causo.

Ele desatou a bolsa presa ao seu cinturão e estendeu-lha:

— Toma! E tudo o que eu tenho. Mas ser-te-á útil.

Com os olhos cheios de lágrimas, ela recuou num movimento de recusa, deixando cair a bolsa, que bateu no chão com um ruído surdo.

— Que Deus despedace esse porco! — praguejou Ibn Sina, apertando as coxas de encontro aos flancos da sua montada.

— Conheces muitos indivíduos que resistissem a cinco mil dirhems? — fez notar el-Massihi, que se esforçava por seguir o andamento imposto pelo seu companheiro. — O nosso guia conformou-se com a regra que estipula que a maior parte dos homens estejam à venda.

Galopavam quase lado a lado, de costas voltadas a Bukhara, correndo sempre a direito na direcção do oeste. A claridade da Lua, os canais, que eles costeavam, faziam pensar em tiras de opala e os juncos erguidos ao longo das margens lembravam calamos gigantes.

Andaram ainda durante muito tempo, ultrapassando burgos e casais, aldeias com sombras de tijolo, casinhas de barro amassado com palha, palmares esguedelhados, disseminados ao longo das terras férteis, até ao esgotamento das suas montadas. Foi só depois de atravessado o Amu-Daria que Ibn Sina decidiu parar. Encontravam-se, então, nos confins da planície, a um farsakh da aldeia de Marw.

— E agora? — murmurou el-Massihi, com a cara inundada em suor.

Apontou para o horizonte flamejante, por detrás da crista dos montes Binalund, e disse:

— A aurora desponta. Os nossos cavalos estão esfalfados, nós não temos nenhumas provisões, e mais de cem farsakhs nos separam de Gorgan e do mar dos Cazares...

— Marw está no fim da pista. Pararemos lá, para repousar, e aproveitaremos a ocasião para trocar as nossas montadas por camelos. Serão mais seguros e mais resistentes. Será preciso também arranjarmos um guia. Em breve, estaremos no deserto, e receio que não possamos encontrar sozinhos o nosso caminho.

— Camelos? Da única vez que cavalguei um, vomitei todas

as minhas vísceras.

— Infelizmente, não conheço outros animais capazes de percorrer mais de cmqutnldifarsakhs numa só jornada, sem beber e sem comer. Na viagem que nos espera, um cavalo seria tributário da água e da forragem, que teríamos de transportar para ele. Só espero que te restem ainda alguns dirhems, pois, hoje, o príncipe dos sábios está mais pobre do que o mais pobre dos mendigos do Khorasan.

Com um gesto tranquilizador, el-Massihi deu umas pancadinhas na bolsa que lhe pendia do cinto.

— Um ano de soldo... O que deveria bastar largamente para alcançarmos a corte do caçador de codornizes.

— Nesse caso, vamos a isso. Direitos a Marw.

Mediante mais alguns dinares, eles trocaram os cavalos po camelos. Compraram também odres, uma tenda de pêlo de cabra, assim como provisões, mantos e panos para a cabeça. Como Ali achasse mais prudente esperar no oásis que se encontrava a uma milha árabe de Marw, foi el-Massihi quem se encarregou de todas essas diligências. Depois de terem repousado durante algumas horas e de terem tomado uma refeição frugal, conduzidos por Saiam, seu novo guia, um jovem curdo com uns vinte anos de idade, puseram-se novamente em marcha, quando o Sol começava o seu declínio atrás dos montes acastanhados. A noite encontrou-os nas cercanias da cidade de Nishapur, onde dormiram até ao amanhecer.

Depois foi de novo a partida, a caminho de Sabzevar e Shahrud.

Dali por diante, a paisagem, que se desenrolava ao passo dançante dos camelos, era mais dura, mais árida também. Moitas de tamariz e de espinhosas, túberas bravas e palmeiras esparsas formavam a única vegetação daquele canto do mundo. Estava-se à beira do Dasht el-Kavir, o grande deserto salgado, extensão infinita, mar de areia que se estendia por mais de cinquenta farsakhs. Imensidão de morte, que os viajantes de todos os tempos, quer viessem do Djibal ou do Daylam, do Fars ou do Kirman, tinham a cautela de evitar.

Tinham partido havia quase duas horas, quando, de repente, Saiam, o jovem guia, mandou parar os dois homens; colocou a mão sobre a testa, para se proteger do sol, e fixou demoradamente a linha do horizonte.

— Que se passa? — perguntou Ali, surpreendido.

— Olhai! — disse, simplesmente, o curdo, estendendo o braço para o sul.

Primeiro, el-Massihi e o seu companheiro não viram nada de especial. Foi somente após uma observação mais prolongada que eles descobriram uma nuvem de areia, que parecia girar sobre si mesma.

— O que é? — inquietou-se Abu Sahl.

— O sopro dos cento e vinte dias — explicou o guia, preocupado. — E um vento de areia, que flagela unicamente durante o Verão. Pode alcançar velocidades incríveis. Contaram-me que na região do Sistão ele conseguia deslocar as casas.

— Que propões tu?

— Se não estivéssemos já tão afastados de Nishapur, eu daria imediatamente meia-volta. Mas, agora, é impossível, nunca teremos tempo para chegar à cidade. Só nos resta deitar os animais na areia e fazer um baluarte com os seus corpos.

E acrescentou muito depressa:

— Oremos! A protecção de Alá não será de mais.

A nuvem de areia aumentava. Dir-se-ia um imenso enxame de moscas ou de abelhas. Um enxame silencioso, que trazia em si a morte. As primeiras volutas ocreosas e cinzentas chegaram mais depressa do que previsto até aos três homens. Só el-Massihi não tinha ainda conseguido deitar o seu camelo.

— Despacha-te! — gritou o guia. — Depressa!

— Faço o que posso! — encolerizou-se o cristão, puxando desesperadamente pelas rédeas.

O jovem curdo voou em socorro de el-Massihi, que rodopiava em torno do camelo no momento em que rebentaram as primeiras vagas de areia.

Foi, imediatamente, como se uma mão invisível tivesse entreaberto as portas da Geena. Em alguns instantes, os três viajantes foram apanhados num irresistível turbilhão; com uma violência espantosa, miríades de grãos caíram sobre os animais e os homens, chicoteando, contundindo as parcelas mais secretas da sua pele. Vagas saltantes, rajadas desencadeadas, impiedosas, revolveram tudo à sua passagem.

Ibn Sina tinha-se enrolado como um feto, encostado à pança do camelo, com a cabeça metida debaixo da tela da sua veste, com o corpo em apneia, afogado num oceano de areia e de pó.

O sopro dos cento e vinte dias continuou durante muito tempo a cavar o ventre da planície. Quando a calma voltou, ter-se-ia podido crer que todo o Dasht el-Kavir se havia despejado sobre os três homens.

Ali, pregado ao chão, já não ousava mexer-se, com medo de que um movimento demasiado apressado despertasse a cólera das areias. Com infinita lentidão, mexeu as pernas, depois os dedos da mão, ergueu-se à custa de mil e um esforços, para tentar livrar-se da nassa arenosa, e conseguiu, enfim, tomar a pôr-se em pé. Deixou errar o olhar em seu redor, à procura dos seus companheiros. Ao aperceber-se do vazio circundante, julgou, por um instante, que o céu os tivesse tragado. Deu uns passos na direcção em que vira el-Massihi e Saiam pela última vez. Uns inchaços deformavam a superfície da areia. Só um dos camelos tinha conseguido liber-tar-se e fitava Ali, com um olhar glauco.

Tomado por um sentimento de terror, deixou-se cair de joelhos e começou a cavar a areia com as próprias mãos. Precisou de um certo tempo para libertar o corpo do guia, depois o de el-Massihi.

Saiam estava morto, mas o coração do cristão ainda batia. Voltou-o prontamente de costas e tratou de desembaraçá-lo da areia que lhe obstruía as narinas e lhe velava as pálpebras. Abu Sahl mexeu-se devagar. A sua respiração estava rouca, pesada. Quando falou, a sua voz era a de outro:

— Alá te abençoe, cheikh el-rais... Conseguiste voltar a encontrar o teu velho mestre...

— Não digas nada! Poupa as tuas forças! Vou dar-te de beber. Ali esboçou um movimento para se pôr de pé novamente, mas os dedos do seu amigo mantiveram-no preso. Abu Sahl fez uma careta, sufocou, com as feições deformadas pelo sofrimento.

— Não, meu irmão, não te afastes. É tarde de mais.

— Serás sempre o mesmo incompetente, velho Abu Sahl! Assim que eu te refrescar a cara, estarás mais fresco do que um peixe nadando no mar do Fars! Vamos, deixa-me matar-te a sede!

Ele quis levantar-se de novo, mas qualquer coisa no olhar do seu amigo o impediu de o fazer. Decifrou nos seus olhos como que uma imensa tristeza.

— Chegou a hora de fechar a minha tenda — suspirou ele, com uma voz quebrada.

— Deus não gosta dos infiéis do teu género — disse Ali, esíorçando-se por dominar a angústia que subia dentro de si. — Que queres tu que ele faça de mais um incrédulo?

— Mais um incrédulo no Paraíso será muito útil a um descrente como tu, cheikh el-rais...

Ele soluçou, depois encontrou forças para prosseguir:

— Que Alá te proteja, Ali ibn Sina!... Os poderosos são ingratos e o mundo é duro... A minha alma está à beira dos meus lábios... Vou sentir a tua falta...

Ali julgou que o céu desabasse à sua volta como as muralhas de uma velha cidade inútil.

— Não! — gritou ele com todas as suas forças. — Não! Ele não!

Atirou-se de encontro ao peito do seu amigo, agarrou-lhe nas abas da veste e levantou-o em parte, comprimindo-o sobre o seu próprio tórax.

— Abu Sahl !... — balbuciou ele, soluçando. —Velho incrédulo, volta...

Ali ficou colado ao corpo de el-Massihi, incapaz de se mover, incapaz de pensar, esvaziando-se das suas lágrimas e de todo o seu desespero.

Quando se decidiu, enfim, a levantar-se, o Sol ia no meio-dia e queimava a paisagem desolada. A maneira de um bêbedo titubeante, ergueu o punho em direcção ao céu:

— Do mais profundo da poeira negra até ao mais alto do céu de al-Zuhara, eu resolvi os problemas mais árduos do universo! Libertei-me de todas as cadeias da ciência e da astuciosa lógica! Desatei todos os nós, todos, excepto o da morte... Porquê? Alá, porquê?

Ficou à espreita do azul ofuscante, que formava como que uma tigela emborcada sobre o deserto, mas não ouviu mais do que o rumor surdo do vento vindo do Dasht el-Kavir...

 

                               DÉCIMA MAKAMA

Meio deitado em cima do único camelo que tinha sobrevivido, já nem sequer tentava proteger a cara dos raios ardentes do Sol.

Fiando-se nas estrelas, tinha-se posto outra vez a caminho em direcção ao que lhe parecera ser o noroeste, em direcção ao mar dos Cazares, a Gorgan, a el-Biruni e ao caçador de codornizes.

Agora, ao alvorecer do sexto dia, como podia ele duvidar ainda? Tinha-se, certamente, perdido: transpusera os limites proibidos do grande deserto salgado, o Dasht el-Kavir. Esse lugar maldito, em que a lenda situa Sodoma e Gomorra.

Sob o passo lancinante do animal, o solo fendia-se como farrapos de folhas secas. A perder de vista, era uma terra feita de castanho avermelhado, de cinzento sujo e de branco amarelecido. Um oceano mineral retalhado, rebentado ao pé das raras proeminências.

Ali endireifou-se, com os olhos avermelhados. Não teria podido dizer se a causa desse movimento fora a tristeza ou a mordedura do sol. Os seus lábios assemelhavam-se às gretas do solo; e, debaixo da barba embranquecida pelo sal, a sua pele estava mais enrugada do que um figo passado.

Desprendeu o odre que pendia sobre o flanco do animal e bebeu as últimas gotas, numa semi-inconsciência. Era o odre do infeliz Saiam. Passada a tempestade, pudera recuperar as provisões que se encontravam sobre o cadáver do seu camelo. O outro animal, o de el-Massihi, tinha desaparecido algures ao fundo da planície e ele nunca mais o voltara a encontrar. Era a essas reservas suplementares que ele devia sem dúvida o estar ainda vivo, seis dias depois.

Mas por quanto tempo mais?

O odre de Saiam estava vazio. Ali torceu-o raivosamente entre os dedos e atirou-o para a sua frente. Para matar a sede, não lhe restaria mais do que a urina do seu camelo.

Dentro de uma hora, seria noite. E os seus sofrimentos seriam maiores. O primeiro poente, desejara-o ele com todas as suas forças, esperando encontrar no regresso da noite um pouco de descanso. Mas o frio nocturno era muito mais terrível ainda do que a fornalha que abrasava o dia.(1) Pouco depois do desaparecimento do Sol, todo o seu corpo ficava prisioneiro de uma carapaça de gelo. Não era o pobre lume, que ele conseguira acender nos dois primeiros dias, graças à bosta do camelo, que tinha podido aquecer os seus membros gelados.

E, depois, havia aquelas visões, que atormentavam o seu espírito cansado. Visões incoerentes e macabras, povoadas de anjos justiceiros e de djinns com caras monstruosas.

Ali ibn Sina, é a tua própria vida ou a visão da tua morte inelutável que se assemelha à desordem deste cenário?

Aonde vou eu? Aonde vou eu, pai?

E tu, Sindja, sonho de tez oleosa, sabes a resposta ?

Abu Sahl, meu irmão desaparecido, tu, que sabes, agora, o mistério incomunicável, responde-me! Foi a minha infância invejada, a vaidade do meu saber demasiado precoce ou a arrogância da minha juventude, que me condenou? Sou castigado por ver? Ou Alá castigará de igual modo os cegos?

Ontem, amado, acariciado por dedos de âmbar. Hoje, mortificado pelo céu e pela terra. Porque está a felicidade tão próxima da infelicidade?...

Aquela noite foi semelhante às outras seis. Mais uma vez, encontrou a força necessária para estudar o movimento dos astros, o silêncio de al-Zuhara, o astro que mostrava o Norte e a saída do inferno.

 

(1)Na região do Dasht el-Kavir, as temperaturas oscilam, todo o ano, entre -30 e +50 graus centígrados. (N. do T.)

 

A aurora do sétimo dia descobriu-o continuando a avançar pelo Dasht el-Kavir, obrigando-se a manter o rumo e a resistir à vontade de se deixar cair e de implorar a morte. Foi somente nesse dia que ele compreendeu a que ponto morrer podia tornar-se um livramento, quando a agonia do homem se faz inumana.

Bruscamente, quando o crepúsculo começava a sombrear a terra com tons arroxeados, algo novo apareceu, a umas quantas milhas à sua frente. Ele tentou levantar um pouco mais as pálpebras queimadas, para confirmar a realidade da sua visão.

Acolá, ao longe... junto ao horizonte, a sombra de uma cidade? Seria isso possível? Ou eram as muralhas de Sodoma?

Foge, pela tua vida! Não olhes para trás de ti e não pares em parte alguma na planície, foge para a montanha, para não seres levado!

Mas donde vinha essa voz, que, agora, gritava dentro da sua cabeça?

Ter-se-ia ele transformado em Lot? Já não era Ali ibn Sina? Nesse caso, só podia ser Sodoma, que surgia das trevas. E ele ia morrer, condenado ao braseiro, como os injustos erguidos contra a face de Jeová.

Ora, a mulher de Lot olhou para trás, e tornou-se uma estátua de sal.

Tomado por um indizível terror, Ali cobriu a face, gemendo.

— Peço-te, Senhor! O teu servo caiu em graça a teus olhos e tu mostraste uma grande misericórdia, ao garantir-me a vida. Mas eu não posso fugir para a montanha, sem que me alcance à desgraça e eu morra!

Ergueu para o céu cru um rosto implorante:

— Senhor, eis essa cidade bastante próxima para que eu fuja para lá, e ela é pouca coisa. Permite que eu lá me refugie e que lá viva!

A voz ressoou de novo na sua cabeça; uma voz assustadora, fria como a morte.

Faço-te mais essa mercê de não derrubar a cidade de que tu falas. Depressa! Refugia-te lá, pois eu nada posso fazer, antes de tu teres chegado.

Num gesto desesperado, Ali pôs-se a chicotear o pescoço do camelo, cada vez com mais força, e o animal correu com as forças que lhe restavam.

Em seguida, foi como se um véu negro caísse sobre o deserto inteiro.

— Oh! Vinde ver! Ele está a acordar!

Ali abriu muito as pupilas, mas só viu sombras inclinadas, imprecisas no contraluz.

Eram djinns ou anjos? Não, eram seres de carne que o rodeavam. Mas, então, onde estava ele? Em que canto do universo? Tentou erguer-se. Uma mão empurrou-o para trás sem delicadeza.

— Oh! Mais devagar, filho de Sina! Mais devagar. Ainda temos algum tempo.

Filho de Sina? Então, sabiam o seu nome.

Ele quis de novo sentar-se, mas, desta vez, o homem esbofe-teou-o com as costas da mão; ele caiu para trás, abafando um grito de dor.

— Para um moribundo, acho-o bastante agitado!

Ali bem escancarava os olhos, mas continuava a não conseguir distinguir claramente aqueles que encontravam prazer em torturá-lo assim. Um arrepio de angústia percorreu-lhe o corpo, e perguntou a si próprio se jamais voltaria a encontrar a acuidade da sua visão.

— Cinco mil dirhems — lançou uma voz —, por uns destroços, fica caro. Tanto mais que eleja não lhes vai servir para grande coisa.

— Pouco importa! Em compensação, eu cá sei para que nos servirá o prémio!

Por conseguinte..., pensouAli, tinham-no reconhecido. Mesmo aqui. Mesmo a centenas defarsakhs de Bukhara. Mahmud o Gaznávida, o antigo filho de escravo, tinha-se tornado senhor da Terra.

— Poderíeis dizer-me ao menos onde estamos?

— No khan Abu el-Fil, a uma dezena defarsakhs de Gorgan.

Ali sentiu pular o coração. A sombra ameada, que ele enxergara, não era Sodoma, nem tampouco Gomorra. Ele tinha alcançado a região do Daylam! O país dos lobos. O mar dos Cazares. Paradoxalmente, procurou convencer-se de que nada mais teria a temer: el-Biruni advogaria a sua causa junto do emir de Gorgan. Limpariam as suas chagas; dedos delicados untariam o seu corpo com substâncias aromáticas e perfumes raros. Ele ia voltar a viver!

Com uma voz fortalecida pela esperança, perguntou:

— De que estamos à espera? Porque não me levais a Gorgan?

— As pérolas do harém, eis o que nós esperamos! — o homem riu de escárnio, imitado pelos seus amigos. — Havemos de reservar para ti a mais bela delas todas.

Ibn Sina fez úm novo esforço para identificar as personagens. Infelizmente, os seus olhos continuavam velados e o cenário obscuro.

— Seria possível darem-me umas tâmaras?

— Umas tâmaras? Porque não um carneiro recheado? Bebeste quase todas as nossas reservas de chá! Começas a custar-nos caro. Não são os poucos dinares que te restavam, que nos vão compensar.

Maquinalmente, Ali apalpou o seu cinturão e verificou que a bolsa de el-Massihi tinha desaparecido.

— Por quem sois! — disse ele, com lassidão. — Há mais de três dias que não como nada. Os cinco mil dirhems da minha captura bastar-vos-ão largamente.

— Está bem — opinou alguém, com má vontade. — Demos-lhe as tâmaras! Quanto mais não seja, para o manter vivo até à chegada dos soldados.

— Há mesmo que reconhecer que ele as mereceu. Raros são aqueles que sobrevivem ao Dasht el-Kavir! — salientou um outro.

O primeiro homem ia replicar, quando, bruscamente, lhes chegou do exterior o eco de uma cavalgada.

— Pronto. Eles aí estão!

Debruçando-se sobre Ibn Sina, ele acrescentou com uma voz maldosa:

— Tarde de mais para as tâmaras, meu irmão. O eco dos cavalos calou-se.

Ali julgou discernir uma súbita efervescência, barulho de passos. Um pouco depois, num ruído de uniformes e de capas, entrou gente no quarto. Quantos eram eles? A julgar pelo vozeio que acompanhava a sua chegada, sem dúvida uma dezena.

— Ei-lo!

— És Ibn Abd Allah ibn Sina? — gritou uma voz nova. Ali disse que sim com a cabeça e apressou-se a acrescentar:

— Sou um amigo de Ahmad el-Biruni. Um colaborador do emir Kabus. Eu...

Não teve tempo para acabar as suas explicações: os homens tinham desatado numa imensa risada.

— O emir Kabus? Ouvistes? Ele invoca a protecção de Kabus!

Ali quis prosseguir, mas interromperam-no de novo.

— Então, não sabes a novidade? Terias tu passado tanto tempo no Dasht el-Kavir que desconheças os acontecimentos de Gorgan? O emir Kabus já não existe. O caçador de codornizes morreu.

— Morreu?... — balbuciou Ibn Sina — Mas como? Quando?

— Perdeu a última batalha na guerra que travava desde sempre contra os seus inimigos hereditários, os Buyidas, e o seu chefe, Fakhr el-Dawla. Depois de o fazerem prisioneiro, acorrentaram-no à entrada da cidade e deixaram-no morrer de sede e de fome, como um cão! Se tivesses chegado dois dias mais cedo, terias podido contemplar o seu cadáver descarnado, roído pelas aves de rapina. Ele parecia-se um bocado contigo.

Transtornado, Ali já não conseguia encontrar palavras. O sangue latejava-lhe nas têmporas, e ele sentia que as suas derradeiras resistências o abandonavam. A roda do seu destino acabava de se imobilizar no infortúnio.

Encontrou, todavia, forças para balbuciar:

— E el-Biruni?... Ahmad el-Biruni... que é feito dele?

— A gente não conhece o teu el-Biruni! De qualquer maneira, se ele era um colaborador do caçador de codornizes, deve ter tido a mesma sorte que o seu amigo. É mesmo certo.

— Vamos! — ordenou um dos soldados. — Basta de bisbilhotices. Temos de estar de regresso a Gorgan, antes do cair da noite.

Ali sentiu-se bruscamente levantado do chão. Não resistiu, enquanto o arrastavam para o exterior, onde o vento fresco, vindo do mar, lhe fustigou a cara.

— Para onde me levais?

— Para a prisão da cidadela, enquanto não fores entregue aos enviados do Gaznávida. Acho que o rei de Ghazna tem pressa em te oferecer a sua hospitalidade.

Ali devia ter perdido a consciência de novo. Ou, então, não tinha parado de morrer e de renascer. A morte talvez fosse esse estado: uma sucessão de noites e de dias, para além do espaço e do tempo.

A célula, em que o haviam encerrado, era fria e húmida. Se não houvesse aquelas altas grades, que fechavam a janela, e através das quais se insinuava a claridade pálida das estrelas, ele teria podido julgar que o tinham enterrado vivo.

A perda parcial da sua visão inquietava-o acima de tudo. A experiência ensinara-lhe que um fio invisível ligava as potências do corpo às do espírito. Um pouco como uma ponte lançada sobre um rio. No caso de ocorrer um transtorno numa das duas margens, a outra era afectada de igual modo.

Deitou uma olhadela enfastiada à comida, que lhe tinham servido. A mesma desde há três dias: uma malga de leite coalhado e um prato de trigo cozido com gordura de aspecto duvidoso.

Onde estavam o carneiro recheado de Sêtareh, os frutos secos, que cheiravam a almíscar e a jasmim, as guloseimas envoltas em mel e os melões dourados de Ferghana?...

A felicidade está, pois, tão próxima da infelicidade?

Metendo os dedos no trigo cozido, levou a comida aos lábios com repugnância. No entanto, tinha fome. Sabia, ele, o cheikh el-rais, o príncipe dos sábios, que, para recuperar a clareza dos seus pensamentos, era necessário que o seu corpo reencontrasse o seu equilíbrio. Mas qualquer coisa se tinha quebrado dentro dele, insinuando-lhe que, doravante, acontecesse o que acontecesse, a sua visão da existência nunca mais seria a mesma.

Os poderosos são ingratos e o mundo é duro...

Sim, meu bom el-Massihi, meu irmão, minha ternura. Como essas últimas palavras, que tu pronunciaste, estão carregadas de verdade!

Pegou na malga com as suas mãos buriladas e bebeu as últimas gotas de leite coalhado, depois, com as pontas do dedo indicador e do maior juntas, limpou as paredes interiores e o fundo da tigela e passou delicadamente as falanges assim molhadas pelas suas pálpebras contusas.

De maneira quase inconsciente, o seu punho fechou-se sobre a pedra azul de Salwa, que continuava pendurada ao seu pescoço.

Se queria manter-se vivo, era preciso que a sua memória permanecesse desperta. Então, com uma espécie de raiva, e ao jeito de uma criança que soletra um poema, obrigou-se a recitar os noventa e nove nomes e atributos de Deus ensinados pela tradição muçulmana; sendo o centésimo reservado à vida futura.

— O Invencível. O Altíssimo. O Máximo. A Verdade Evidente. O Senhor dos Mundos. O Real. O Sapiente. O Misericordioso...

O Misericordioso...

Cada nome reencontrado tornava-se uma vitória alcançada sobre o desvario do seu espírito doente.

Quando acabou, sussurrou, aliviado:

— O erro desapareceu. O erro deve desaparecer...

— Levanta-te! O comandante da cidadela quer ver-te. Dois homens de uniforme negro acabavam de entrar repentinamente na sua célula, arrancando-o ao seu torpor.

Que dia era? Que mês, de que ano?

Fez um esforço para se aguentar em pé e, vacilante, seguiu os soldados através do labirinto escuro da cidadela.

Algures, ao longe, uma voz chorosa recitava o Alcorão. Na sua miséria, Ali não pôde deixar de apreciar o talento daquele desconhecido. Pois todo o crente sabe que não basta conhecer de cor os versículos do Livro, é preciso, além disso, dizê-los segundo regras perfeitamente definidas. Consistindo toda a arte da recitação em salmodiar as palavras, respeitando o tom, as pausas, o ritmo, os subtis matizes melódicos, sem esforço nem exagero.

Cativado pelo mua 'dhine, Ali mal se apercebeu de que acabavam de chegar ao limiar dum pequeno quarto abobadado, iluminado por três lâmpadas de cobre cinzelado. Todo o mobiliário se reduzia a uma esteira de junco, uma mesinha redonda de madeira rústica e um tamborete. Um vulto estava estendido sobre a esteira, junto do qual, de costas voltadas para a porta, havia alguém ajoelhado.

— Comandante, aqui está o prisioneiro — anunciou um dos soldados que acompanhavam Ali.

O homem desdobrou-se lentamente e voltou-se para os recém-chegados. Era de estatura imponente e de idade avançada.

— Está bem — ordenou com voz grave —, deixai-nos sós! Acercando-se de Ibn Sina, observou-o atentamente, antes de

acrescentar:

— Pareces-me em muito mau estado. Ali contentou-se com abanar a cabeça.

— Queres beber um pouco de chá?

— Vinho. Se tiveres algum.

O comandante pareceu chocado.

— Vinho? Então, não sabes que a nossa fé no-lo proíbe?

— Em certos casos, o álcool pode ser um remédio eficaz.

— Visto que tu o afirmas...

Bateu as palmas e gritou um nome. Um soldado entreabriu a porta, quase imediatamente, a quem ele deu ordens.

— Desejas outra coisa?

— Ai de mim! Os meus desejos são demasiado numerosos para que te seja possível realizá-los todos. No entanto, gostaria também de um pouco de leite de burra.

O sêpeh-dar admirou-se pela segunda vez.

— Para as minhas pálpebras e para a minha cara — explicou Ali, passando o indicador pelas suas faces curtidas.

— Estou vendo.

Voltando-se para o soldado, o comandante mandou:

— Ouviste. Faz o que é preciso!

Sem se voltar, o filho de Sina apontou o vulto deitado:

— Ele está doente?

— Tu és médico, deves saber.

— Quem é?

— O meu filho. O único.

E acrescentou muito depressa, com um certo pudor:

— Gostaria que tu o examinasses.

Ali abriu os braços, num gesto acabrunhado.

— No meu estado? Eu venho da Fornalha, sabes? O sêpeh-dar disse que sim.

— Eu mal vejo. As minhas pernas já quase não me aguentam. Tenho a cabeça cheia de noite.

Ao longe, a voz admirável do recitante continuava a implorar o Invencível.

— Dizem que és têguin — disse o homem. — Corajoso, valoroso. Se quiseres, podes tratar o meu filho.

— Sêpeh-dar, atribuis-me demasiado valor. Se eu tivesse tantas qualidades e poderes, porque estaria eu nesta cidadela?

— Aí, trata-se duma questão completamente distinta. Não achas?

Ali meditou um breve instante, antes de perguntar:

— Na corte do caçador de codornizes, encontrava-se um homem... um amigo muito caro.

— O seu nome?

— El-Biruni. Ahmad el-Biruni.

O comandante respondeu sem hesitar:

— Vejo perfeitamente de quem se trata: um espírito brilhante.

— Conhece-lo, então! — exclamou Ali. — Os soldados deram-me a crer que ele tinha sofrido a mesma sorte que o emir Kabus.

— E mentira. Uns dias antes dos acontecimentos que causaram a morte do príncipe, já ele tinha deixado o palácio.

— Tens a certeza disso?

— Inteiramente. Foram homens da minha guarnição que, por ordem do próprio emir, o acompanharam até às fronteiras do Daylam.

— Alá seja louvado! — disse Ali, bruscamente aliviado de um imenso peso. Logo a seguir, retomou: — E sabes para onde ele teria podido ir?

— Pareceu-me compreender que ele tencionava dirigir-se para o Turquestão, para Gurgandj, ao serviço de Ibn Ma'mun.

Um sorriso melancólico iluminou o rosto do filho de Sina.

— Ia eu ao seu encontro, enquanto ele ia ter comigo... Decididamente, o destino dos homens é imprevisível.

Um violento ataque de tosse rouca interrompeu o diálogo. O comandante correu para a cabeceira do doente.

— Ele está a sufocar-se!

— Afasta-te! Eu vou examiná-lo. Mas, antes, diz-me o que se passou!

— Há cerca de uma semana, dez dias talvez, ele começou a queixar-se de dores na garganta. A sua voz enrouqueceu e a febre começou a invadir-lhe o corpo. Em seguida, foi acometido por fortes ataques de tosse, e, por momentos, era sacudido por espasmos.

Parecia que se estava a sufocar. Desde há dois dias, essa sensação de asfixia acentuou-se. Esta manhã, acordou sem voz.

Enquanto o homem falava, Ibn Sina tomara o pulso do doente e apalpava com atenção a palpitação do sangue na artéria. Verificou que a pulsação estava muito rápida.

— Traz-me uma lâmpada! Tenho que lhe examinar a garganta.

O comandante obedeceu.

— Mantém-na por cima da cara!

Agora, ele podia observar melhor as feições do paciente. Tratava-se de um jovem, duns vinte anos quando muito, com um rosto de uma beleza quase feminina. Tinha uma tez baça e cabelos escuros como a maior parte das pessoas do país; mas, coisa mais rara, os olhos eram de um verde jade.

— Qual é o nome dele? — perguntou Ali.

— Abu Obeid.

— Abu Obeid, podes abrir a boca?

O rapaz tentou articular um sim, mas não emitiu mais do que um som confuso, incoerente. Não obstante, fez o que Ali lhe pedia.

— Aproxima a lâmpada! — pediu Ibn Sina ao pai. Servindo-se do dedo indicador, Ali comprimiu a língua do

doente, a fim de descobrir o orifício da laringe, e pôde assim verificar que o fundo da garganta, assim como as suas paredes estavam totalmente cobertos de membranas esbranquiçadas. Um pouco como se uma aranha tivesse tecido a sua teia dentro do corpo do doente, uma teia de que só se distinguia a parte visível.

De repente, o jovem foi acometido por uma convulsão. A sua respiração tornou-se mais difícil, mais curta ainda, tanto na expiração como na inspiração. Ao mesmo tempo, as faces, os lábios, a testa do paciente adquiriam insensivelmente uma cor azulada.

— Depressa, o teu punhal! — exclamou Ibn Sina. O seu interlocutor encarou-o com assombro.

— O teu punhal, é o que te digo!

O comandante tirou a arma da bainha.

— Que... que lhe vais fazer?

Ignorando a pergunta, Ali aqueceu a lâmina na chama. Com a mão esquerda, empurrou para trás o queixo do rapaz, enquanto que, com a outra mão, apoiava a ponta afiada na base do pescoço, num ponto delimitado entre duas cartilagens. Com um gesto seco, ante o olhar aterrorizado do pai, perfurou a pele, criando assim uma abertura com a largura aproximada de uma falange.

Produziu-se, então, um curioso silvo, provocado pelo ar que se engolfava através do orifício.

Entretanto, o soldado tinha voltado ao quarto, com o jarro de vinho e a malga de leite de burra, que lhe haviam pedido.

— Agora — disse Ali, restituindo o punhal ao comandante —, eu precisaria de sementes de papoila piladas, mel, meimendro e, sobretudo, de um tubo, ou qualquer coisa parecida: uma caninha de bambu serviria.

— A cana de bambu parece-me mais fácil de encontrar. As margens do rio Andarhaz, que atravessa a cidade, estão cobertas disso.

— O tempo urge, há que não deixar a ferida tornar a fechar-se. O sêpeh-dar voltou-se para o soldado, imóvel no mesmo sítio,

desembaraçou-o dos objectos que ele tinha nas mãos e ordenou:

— Despacha-te! Se for preciso, manda um destacamento ao longo do rio.

Estendido sobre a esteira, o doente recuperava lentamente as suas cores. A sua respiração tornara-se outra vez normal e a vida brilhava de novo nas suas pupilas. Ele tentou falar, mas sem conseguir emitir o menor som.

Ali, com a boca seca, encostou-se à parede, enquanto limpava com o canhão da sua manga suja o suor que lhe inundava a testa.

— Sêpeh-dar... o jarro.

O comandante compreendeu e apressou-se a servi-lo.

— Perdoa-me — disse ele, prestamente —, o medo de perder o meu filho fez-me esquecer o teu estado.

E acrescentou a meia voz:

— Ele está livre de perigo?

Enquanto bebia uma grande golada, Ali fez um sinal de assentimento.

— Pode-se, impunemente, abrir um buraco na garganta dum homem, sem correr o risco de matá-lo ou de vê-lo esvaziar-se do seu sangue? Serias tu mágico?...

Ali disse, com um sorriso triste:

— Não, não sou mágico. Mas tenho pena, nestas últimas semanas da minha vida, de não o ter sido.

Ele prosseguiu:

— A garganta do teu filho estava infectada. Essa infecção tinha dado origem a excrescências, que, dia após dia, iam entupindo a laringe e o levavam à asfixia.(1) O único remédio, nesse caso, é perfurar a base da laringe, para permitir ao doente respirar livremente.(2) No entanto, há um inconveniente nesta intervenção: enquanto o orifício estiver aberto, o teu filho ficará privado da palavra.

— Mas esse buraco... A hemorragia?...

— Como pudeste observar, sangrou, mas não houve hemorragia. A experiência ensinou-me que existem no corpo humano vários pontos como esse. Não são irrigados pelas veias principais, mas por minúsculos vasos, cuja destmição não acarreta consequências graves.

O rapaz e o pai bebiam com admiração as palavras do médico. A voz do mua'dhine calara-se e o Sol começava a erguer-se por cima da cidadela de Gorgan.

Ali molhou dois dedos na malga de leite e passou-os pelas pálpebras, pelas queimaduras da cara. Foi então que a porta se entreabriu, deixando aparecer dois soldados. O primeiro trazia

 

(1)Ibn Sina achou-se, nesse dia, perante aquilo a que se chamou depois uma angina diftèrica. (N. do T.)

(2) Pode-se considerar Ibn Sina como o inventor da traqueotomia, ou tubagem da laringe, cujo manual operatório seria definido pelo célebre cirurgião árabe Abu el-Casis, de Córdova. Essa probabilidade é apoiada pelas citações tiradas das traduções latinas e do texto original das suas obras. Haverá que esperar pelo Renascimento, para voltar a encontrar indícios de semelhante intervenção, praticada pelo célebre médico italiano Antonio Musa Brasavola (1490-1554). (N. do T.)

 

duas longas varas de bambu e uma tigela de mel, o outro, uma taça cheia de sementes de papoila piladas. Puseram tudo em cima da mesa e retiraram-se.

— E agora? — interrogou o comandante.

— Vou de novo ter necessidade do teu punhal.

Ali seccionou o bambu, para obter um troço do comprimento de duas falanges, de que escureceu uma das extremidades na lâmpada mais próxima, e voltou a ajoelhar-se junto do rapaz.

— Não tenhas receio, que não vais sofrer. Eu vou simplesmente introduzir este tubo na abertura que fiz, para impedir as carnes de cicatrizar. Pois, se isso acontecesse, a ferida fechar-se-ia e o ar já não passaria. A asfixia afligir-te-ia de novo.

Abu Obeid aprovou com um pestanejar.

— Tens toda a sua confiança — observou o sêpeh-dar. — Salvas-te-lhe a vida. Não lha vais tornar a tirar.

Delicadamente, após ter afastado os dois lábios da incisão, o filho de Sina introduziu o tubo de bambu no orifício aberto na base do pescoço. Fê-lo penetrar aproximadamente o comprimento de uma unha, verificou que estava bem seguro e levantou-se, satisfeito.

— Pronto. Está terminado. No entanto, terás que encher-te de paciência e continuar deitado de costas durante dois a três dias. Uma vez restabelecido o equilíbrio, retirarei o tubo e tornarei a fechar a abertura com alguns pontos de sutura. Recuperarás, então, o uso da palavra.

Com os olhos cheios de admiração, Abu Obeid aquiesceu.

— Agora, vai-me ser preciso preparar um remédio completamente diferente — disse ainda Ali, dirigindo-se para a mesa.

Ante o olhar curioso dos dois homens, ele afadigou-se com os ingredientes que lhe haviam trazido, misturando astuciosamente mel, meimendro e dormideira, para obter uma pasta consistente. Em seguida, à maneira de um oleiro trabalhando o barro, elaborou seis cones de tamanho mais ou menos idêntico e ali-nhou-os à beira da mesa.

— Dentro de pouco tempo, a pasta terá endurecido. Terás, então — e dirigiu-se mais especialmente ao pai do rapaz —, que lhe administrar um destes cones por via rectal. Assim, ao nascer e ao pôr do Sol, durante três dias.

Voltando para junto de Abu Obeid, indicou:

— E tu, tu cuidarás de que o caule de bambu fique bem no seu lugar. Senão, arriscar-te-ias a uma nova dificuldade respiratória. Haveis-me compreendido bem?

O sêpeh-dar endireitou-se, deu alguns passos e examinou Ali com emoção.

— Alá te abençoe! Que Ele te pague cem vezes os teus benefícios!

— Alá é diligente no seu julgamento — disse Ali, levando o jarro à boca.

Do exterior, subiam o rumor da cidade, que despertava, e o grito dos primeiros barqueiros afadigando-se nas margens do rio.

— Cheikh el-rais — começou o comandante, com uma voz firme —, não sei porque é que o Gaznávida quer a tua pele. Mas nós somos, o meu filho e eu, oriundos de Balkh e...

— É curioso — interrompeu-o Ali, sem se voltar —, o meu pai também era de Balkh.

— Então, deves saber — retomou o sêpeh-dar, com veemência — que os naturais de Balkh são verdadeiros crentes e que prefeririam morrer a trair as Escrituras. Sabes isso?

— Como poderia eu ignorá-lo?

— Nesse caso, sabes também o que está dito: «Àquele que restituir a vida a um homem ser-lhe-á tido em conta como se ele tivesse restituído a vida à humanidade inteira.» Por conseguinte, a partir de hoje, considera-te como um homem livre. Podes deixar a cidadela e ir para onde bem te parecer.

Ali, com os olhos brilhantes, apreciou o seu interlocutor:

— És bom... Es tu quem mereceria o nome de têguin. Esteve a ponto de acrescentar: «Mas aonde iria eu?...»

— Que dirás tu aos homens do Gaznávida, quando eles vierem buscar-me, para me levarem para Ghazna?

O sêpeh-dar fez uma cara enjoada e cuspiu para o chão.

— A minha resposta satisfaz-te?

— Ela satisfaz plenamente o filho de Sina. Mas duvido que suceda o mesmo com o filho de Siibiiktegin.

— Cá me arranjarei... Talvez até eles nunca venham. Talvez até eles nunca cheguem a saber que foste encontrado.

O comandante pronunciara estas últimas palavras num tom enigmático.

— Que queres tu dizer?

— Deixa lá! E responde-me: quando queres partir?

Ali passou lentamente a palma da mão pela barba e respondeu com um sorriso triste:

— Conheces, tal como eu, o provérbio: «Anda com sandálias até que Deus te arranje sapatos!» Infelizmente, olha para mim, nem sequer tenho sandálias. As estradas do Daylam têm fama de ser difíceis, e Alá talvez tenha outras prioridades.

— Eu compreendo. Que mais posso fazer? Pede! Tudo te será concedido.

— Antes de tudo o mais, plantas. Plantas para eu me tratar e tratar os outros, já que a minha profissão continua sendo o meu único dever e o meu único recurso. Duas noites de sono em cima de uma esteira limpa; uma verdadeira refeição e — Ali fez uma pausa, antes de concluir — umas sandálias...

O comandante pousou uma mão amistosa sobre o seu ombro.

— Assim será. A partir de agora, partilharás o quarto do meu filho. E partirás, quando achares que as tuas forças voltaram. Tenho, agora, que vos deixar, os deveres do meu cargo...

— Nem sequer sei o teu nome...

— Osman.

— E o teu filho? Abu Obeid, se não me engano...

— Exactamente. Ele chama-se Abu Obeid el-Jozjani.

 

                                 DÉCIMA PRIMEIRA MAKAMA

«Foi, pois, desta maneira, naquela cidadela de Gorgan, que eu, Abu Obeid el-Jozjani, natural de Balkh, então com vinte anos de idade, encontrei o homem que havia de vir a ser meu mestre, meu amigo: o cheikh el-rais, Ali ibn Sina. Tudo quanto precedeu, foi ele que mo ditou; daquilo que se segue fui eu testemunha ocular. Pois, desde o dia em que ele me salvou a vida, tomei-me a sua sombra, ele tornou-se o meu olhar. Foi nos seus olhos que observei o mundo dos homens, foi pelo seu pensamento que meditei a filosofia.

«Teve ele, alguma vez, consciência da força da minha ternura? Interrogou-se ele, alguma vez, quanto ao ardor da minha devoção? Nunca eu o soube. A resposta pouco importa. Ao longo de todos esses vinte e cinco anos, fui aquela nascente das altas montanhas, o ahi Tabaristan, que, diz a lenda, deixa de correr, logo que um viajante dá um grito de dor. Assim, de cada vez que o meu mestre conheceu o sofrimento, a corrente da minha vida imobilizou-se.

«Durante aqueles três dias, em que partilhámos o mesmo quarto, obrigado ao silêncio pelo ferimento da minha garganta, descobri um ser ferido, desamparado e, apesar de tudo, lúcido. Concluí daí que era essa lucidez que o torturava. A travessia do Dasht el-Kavir havia sido para ele uma viagem ao fim de si próprio. Ele tinha alcançado Gorgan, mas o seu espírito não tinha chegado ao porto; e, alguma vez, lá chegaria?

«Enquanto estava deitado ao meu lado, e à medida que lhe voltavam as forças, ia-me confiando as suas preocupações filosóficas. Falou-me longamente daquele que considerava como o mestre do seu pensamento, o Macedónio, o preceptor de Iskandar, Alexandre Magno para os Rumes, o fundador da lógica formal e da escola peripatètica: Aristóteles. Descreveu para mim o que ele Chamava as grandes fases da medicina árabe". Eu sentia-o convencido de que ele próprio fazia parte integrante de uma dessas fases. Traçou com uma precisão espantosa o cenário do nosso século: a expansão irresistível da civilização árabe, posta em marcha por impulso do Profeta, uns quatrocentos anos antes, e que havia apanhado a Espanha, o Norte de África, a Síria e a nossa terra, a Pérsia; uma vaga imensa que varrera tudo à sua passagem, forçando a cultura helenística a ceder-lhe o lugar.

«Quase te confessaria que, no termo da nossa conversa, o mundo cristão me pareceu verdadeiramente microscópico, comparado com aquele que o Islão então dominava, e que cheguei a imaginar — um tanto ingenuamente, reconheço — que, um dia próximo, a Terra já não seria povoada, senão pelos filhos de Muhammad. »

«Foi na aurora do quarto dia que ele decidiu deixar Gorgan e a cidadela. Supliquei-lhe, então, que me deixasse acompanhá-lo...

«O meu pedido surpreendeu-o, depois inquietou-o. Ele recusou, pois, e eu fiquei magoado, porque ele empregou palavras duras. Mas, em verdade, eu li nele muito depressa: ele sabia que estava em perigo e não queria de modo nenhum que alguém viesse a sofrer, por ser seu companheiro. Percebi também que se sentia culpado da morte de el-Massihi. Foi, talvez, o ter compreendido isso que me ajudou a convencê-lo.

«Assim, a 3 de muharram, deixámos o País dos Lobos e partimos para a região do Dihistan e a aldeia do mesmo nome. O céu estava de um azul perfeito, mas carregado daquela humidade que caracteriza as extensões que marginam o mar dos Cazares. Dihistan está situada a meio caminho entre Gorgan e Kharizm. É uma dessas praças fortes fronteiriças, a que nós chamamos um ribat, povoada na sua maioria por pescadores e caçadores de aves. Chegámos lá ao cabo do nosso segundo dia de viagem e, como a aldeia não possuísse estalagem, instalámo-nos dentro da cerca da mesquita.

«Logo no dia seguinte, Ali pôs-se a trabalhar. Eu segui-o de burgos para casais (mais de vinte ocupam o distrito): Nasa, Tus, B award, desde Harat até à península de Dihistanan Sur; propondo os serviços do xeque a todos os que deles necessitavam, tratando os indigentes sem contrapartida e aqueles que eram mais abastados a troco de peixe, de fruta ou, por vezes, de alguns dinares.

«Assim, a nossa vida evoluiu pacatamente entre aquelas paisagens de areia ruiva, em que pára o mar, e o prolongamento do velho vulcão extinto, o Dêmavend. Acontecia-nos, às vezes, no caminho do regresso, pararmos perto do burgo de Baidjun, só para encher os nossos odres com as águas sulfurosas que jorram numa fonte quente, no sopé do vulcão, e que, segundo o meu mestre, são salutares para o fígado.

«Para mim, que nunca havia deixado a casa da família desde que saíra de Balkh, aqueles dias eram ricos em descobertas; para o meu mestre, era diferente. Eu sentia-o melancólico e ausente. Lembro-me de uma tarde, quando cavalgávamos ao longo do cabo de Kulf e estávamos a começar o quarto mês daquela vida errante, em que o xeque compôs sobre a sua situação um poema cheio de amargura. Fixei, sobretudo, estes versos: Eu não sou grande, mas não há país que me contenha. O meu preço não é caro, mas faltam-me compradores...

«Contudo, apesar da fadiga e da incomodidade das viagens, ele tinha recomeçado a escrever, e eu pude dar-me conta de que nem a sua clarividência nem a sua prodigiosa memória tinham sido alteradas pelos acontecimentos passados. Até me atreveria a dizer que tinham adquirido mais acuidade. A única novidade é que ele tinha, doravante, tomado o hábito de me ditar as suas obras. Encontrávamo-nos, em certas noites, partilhando o lume com nómadas de acaso; o meu mestre instalava-se fora do grupo, e os seus propósitos sobre a lógica, a matemática, a medicina ou a astronomia levavam-me para longe de tudo. Eu escrevia durante longas horas, ao clarão incerto das chamas, e se nos interrompíamos, de tempos a tempos, era para nos deixarmos levar pelo relato inesperado de um caçador do Turquestão ou pelas descrições de um mercador do Kirman, que contava cidades espantosas, prenhes de luz.

«Durante esses meses, o cheque ditou-me quatro obras: Os Remédios para o Coração, O Tratado expondo a Epístola do Médico, uma Síntese sobre o facto de o ângulo formado pela tangente não ter quantidade e as Questões Gerais de Astronomia. Eu conservava esses escritos em sacos de pele de cabra e, de cada vez que voltávamos a Dihistan, tratava de arrumá-los em lugar seguro.»

«Uma manhã, a 7 de rabi'el-akhir, o meu mestre acordou, ardendo em febre. Encontrávamo-nos, então, na encosta duma colina, a dois Jarsakhs de Gorgan. Apressei-me a envolvê-lo no meu abas, um grosso manto de pêlo de camelo, e aqueci um pouco de chá açucarado. Mas, muito depressa, o seu estado se agravou. Foi acometido de náuseas e eu fiquei aterrorizado com os seus vómitos de cor avermelhada. Depois as suas evacuações viraram para o negro e a sua sede tornou-se intensa. Sentiu, em seguida, perturbações respiratórias e foi atacado por violentas diarreias. Conseguiu, todavia, conservar suficiente lucidez para me indicar os cuidados que eu lhe devia ministrar. Eu seguia, pois, as suas directivas à letra. Antes de sucumbir numa espécie de prostração, recomendou-me que lhe desse a beber, de três em três horas, vinho quente, no qual eu haveria de pôr a macerar cascas de quinquina. Foi o que eu fiz. Pela observação dos sintomas, o exame da sua pulsação e, mais especialmente, por verificar que a febre voltava regularmente à terceira hora do dia, de dois em dois dias, e à quarta, de três em três dias, ele tinha deduzido que estava atacado pela doença dos pântanos.(1)

«Os dias seguintes foram uma provação. Ouvi-o murmurar palavras sem nexo, com o rosto encharcado em suor, os olhos exorbitados, o corpo invadido por breves arrepios. Custava-me a reconhecer naquele fácies pálido e crispado o cheikh el-rais, o meu mestre Ali ibn Sina. Devo confessá-lo? Enchi-me de medo. Um medo, que eu não pude dominar e que me levou a cavalgar

 

(1) (" Pensa-se no paludismo. Esta doença atinge cerca de 10 milhões de pessoas por ano, das quais, mais de 3 milhões morrem. E a quinina continua sendo o único remédio. (N. do T.)

 

a minha montada e a descer a vereda que conduzia à estrada de Gorgan. Eu precisava de ajuda. Porque, Alá me perdoe!, estava minado pela dúvida e interrogava-me quanto às aptidões do xeque para se tratar a si mesmo. O futuro havia de provar-me que eu estava enganado, mas, não obstante, as consequências da minha estúpida diligência iriam revelar-se como proveitosas.

«Cavalgava eu à rédea solta em direcção a Gorgan, e já não estava muito longe da cidade, quando me cruzei com um grupo de cavaleiros que vinham no sentido oposto. Percebi pelo seu vestuário que me encontrava diante de ricos caçadores. Um deles trazia um falcão encarapuçado em cima do indicador protegido por uma luva. Tocando-o com o calcanhar, sem saber bem porquê, fiz o meu cavalo encaminhar-se para ele e confiei-lhe o meu desespero. O homem escutou-me com uma atenção que me tocou, e, quando declinei a minha identidade, vi que o nome do meu pai não lhe era desconhecido. Ele ofereceu-se para me seguir até ao sítio, onde eu tinha deixado o xeque, e para me ajudar a transportá-lo até à cidadela de Gorgan. Apesar da feição que os acontecimentos tomavam, eu não podia deixar de estar inquieto, consciente dos perigos que nós corríamos. O meu pai iria poder esconder pela segunda vez a presença de Ibn Sina?

«Todo o grupo se pôs a caminho, na minha peugada. Foi somente junto do xeque que o destino se pronunciou de uma maneira totalmente diferente daquela que eu esperava.

«Depois de se ter apeado, o homem do falcão fez sinal a um dos seus companheiros para o seguir. Ambos se acercaram do rais, para o levantarem e o instalarem sobre o meu cavalo. Mas, nesse preciso momento, ao descobrir as feições do doente, o homem imobilizou-se, e eu compreendi que ele o tinha reconhecido.

«— E incrível... Os meus olhos enganam-me? Ou é mesmo o príncipe dos sábios, Ali ibn Sina?

«A minha primeira reacção foi negar. Mas devo ter mostrado falta de convicção, pois o homem do falcão insistiu e suplicou-me que lhe dissesse a verdade.

«— Não tenhas medo! Com o Clemente como minha testemunha, afirmo-te que não sou daqueles que trairiam um homem desse valor. E mesmo ele, o cheikh el-rais?

«Seguro da sua sinceridade, eu aquiesci. Então, a expressão do homem iluminou-se de repente. Sem esperar, convidou o seu companheiro a ajudá-lo, depois, voltando-se para mim, declarou com paixão:

«— O meu nome é Muhammad el-Chirazi. Possuo várias casas em Gorgan. Alojaremos o teu mestre numa delas. Ele poderá considerá-la como sua. Fica sabendo que tens diante de ti um amante sincero das ciências e das letras, e, sobretudo, um fervente admirador do xeque. Fica sabendo também que o ter podido socorrê-lo, hoje, permanecerá no meu espírito como a mais bela acção da minha vida.

«Nessa mesma noite, instalámo-nos na morada posta à nossa disposição pelo generoso el-Chirazi, e, ao despontar da terceira aurora, pude verificar que o tratamento decidido pelo meu mestre, e em relação ao qual eu tivera dúvidas, fazia efeito. No sexto dia, recobrou a lucidez, e a febre deixou-o. Foi sem dúvida a partir desse momento que eu tomei consciência de duas coisas essenciais: a extraordinária resistência física do cheikh el-rais e aquela protecção oculta, que o acompanhava e sempre acompanharia para onde quer que ele fosse.»

«Sucessivamente fustigados pelos ventos e pela chuva, os retratos, que até então cobriam as paredes da cidade, foram-se esfarrapando com o passar dos meses. Actualmente, ninguém teria podido reconhecer, através daqueles retalhos de folhas amarelecidas, as feições do príncipe dos sábios.

«Com uma rapidez espantosa, Ali recuperou as suas forças e agarrou-se ao trabalho ainda com mais ardor que no passado. El-Chirazi cuidava de que nada nos faltasse. Em troca, pediu ao meu mestre que tivesse a bondade de lhe dar lições de astronomia e de lógica. O xeque fez mais do que isso. Em poucas semanas, redigiu uma obra, que intitulou Kitab el-Aussat (Média Lógica) e que dedicou ao seu benfeitor.

«Progressivamente, a nossa morada foi-se tornando o ponto de encontro de todos os intelectuais de Gorgan. O que aumentou enormemente o trabalho do rais. Não se passava um dia, sem que um novo amigo, um estudante, um filósofo, o interrogasse sobre este ou aquele assunto. E perante a riqueza e a clareza das suas respostas, chocados com a ideia de que ninguém, a não ser eles, se aproveitaria disso nos tempos vindouros, os seus novos amigos suplicaram ao xeque que lhes respondesse por escrito; o que ele se resignou a fazer sob a forma de epístolas. Assim, houve entre outras: A Epístola do Ângulo, A Origem e o Regresso da Alma, ou também As Definições. Esta última epístola é, parece-me, muito importante pelas preciosas informações que nos dá acerca das concepções filosóficas do filho de Sina.

«Mas foi também debaixo daquele modesto telhado que o xeque haveria de começar o que viria a ser a obra capital de toda a sua vida.

«Estávamos no último dia do mês de sha 'bane.

«Instalados no terraço, esperávamos, tal como todos os muçulmanos da Pérsia, a ocasião de poder distinguir no céu o fino crescente da lua nova, que anuncia o começo do ramadão. Durante os trinta dias que se iam seguir, todos os filhos do Islão, sãos de corpo e de espírito, deveriam abster-se de alimentos, de bebidas, de perfumes e de relações sexuais, muito precisamente desde o instante, em que se pode distinguir uma linha branca de uma linha preta, e até ao crepúsculo, quando essa diferença deixa de ser perceptível.

«Estávamos, pois, nessa expectativa, quando Ali, sem tirar os olhos do céu, murmurou:

«— Abu Obeid, lembras-te de quando, há uns meses, eu te falava das "grandes fases da medicina árabe"?

«Antes de que eu tivesse tempo para responder afirmativamente, ele continuou:

«— Tal como eu te explicava, a primeira fase ficou caracterizada por aquilo que eu chamei "a febre das traduções", o que levou a que, hoje, toda a medicina hipocrática, galènica e bizantina seja acessível em língua árabe.

«O xeque fez uma pausa, antes de prosseguir:

«— Desde há pouco, entrámos na segunda fase — esta, criadora. Tomo como exemplo O Continente, escrito pelo grande el-Razi, a quem devemos a descoberta das duas principais febres epidémi-cas(1) e a observação da reacção da pupila à luz. As conclusões dum homem como Ibn el-Haitham, que define a vista como um processo ligado à refracção, são fundamentais. Criadoras também as intervenções que se deram, há um ano ajusta, num hospital de Bagdad. Lembra-te, foi durante uma delas que uns médicos conseguiram extrair o cristalino, aquando duma operação da catarata; o que representa um imenso progresso em relação ao antigo processo, que consistia em fixar simplesmente a lente tornada opaca no humor vítreo.(2) Poderia citar ainda o Livro Real, de Ibn Abbas, ou o dos Centos, do meu amigo el-Massihi. A lista estaria longe de ser exaustiva.

«O meu mestre calou-se de novo. Eu julguei descobrir no seu olhar uma chama nova. Ele perguntou-me:

«— Não falta nada na minha análise?

«Encarei-o, perplexo, sem saber muito bem aonde ele queria chegar. Ele explicou-me:

«— Uma obra. Falta uma obra. Um conjunto estruturado. A suma clara e ordenada de todo o saber médico da nossa época, à qual se acrescentariam, evidentemente, as próprias observações e descobertas do autor.

«Fiz-lhe notar:

«— Estás ao menos consciente do que representa um tal projecto?

Semelhante empreendimento seria, em todo o caso, mais ambicioso do que as Epidemias de Hipócrates ou do que os quinhentos tratados de medicina deixados por Galeno!

«O xeque não pareceu ouvir a minha objecção e prosseguiu, levado pela torrente das suas próprias reflexões:

«— Na realidade, penso na redacção de cinco livros muito

 

(1) Com efeito, devemos a esse célebre médico o diagnóstico da varíola e do sarampo. (N do T. )

(2) O meu mestre foi incapaz de me indicar com precisão o nome do médico que tentara essa espantosa intervenção. (Nota de Jozjani.)

 

específicos. O primeiro seria consagrado às generalidades sobre o corpo humano, a doença, a saúde, o tratamento e as terapêuticas gerais. O segundo compreenderia a matéria médica e a farmaco­logia dos simples. O terceiro livro exporia a patologia especial, estudada por cada órgão ou por cada sistema. O quarto abrir-se-ia com um tratado das febres, o dos sinais, dos sintomas, dos diag­nósticos e prognósticos, a pequena cirurgia, tumores, feridas, fracturas, mordeduras, e um tratado acerca dos venenos. Para concluir, o quinto livro conteria a farmacopeia.

«A medida que enumerava as subdivisões do seu projecto, senti um arrepio invadir-me o corpo, e uma certeza impôs-se ao meu espírito: nada havia de impulsivo ou de improvisado em tudo quanto ele acabava de me confiar. A ideia devia estar a amadu­recer dentro dele há mesmo muito tempo. Mas teria ele medido, verdadeiramente, a vastidão da tarefa?

«Das ruelas, subiu um movimento de regozijo, que me tirou do meu devaneio. A lua nova acabava de aparecer por cima da cidadela de Gorgan.

«O xeque levantou-se em silêncio e desenrolou o seu tapete de oração. Fiz o mesmo e aproximei-me dele. Como se tivesse lido nos meus pensamentos, voltou-se para mim e disse, com um sorriso:

«— Queres saber se pensei no título dessa obra? Vai inspirar-se na palavra grega Kanón, que significa regra...»

Estendido no seu divã, Muhammad el-Chirazi tomou a fechar o exemplar do Almagesto, a célebre obra de Ptolomeu, e levou aos lábios um copo de chá com hortelã.

Estávamos em 1012, para o Ocidente. Um ano acabava de transcorrer...

El-Chirazi não respondeu e contentou-se com tomar mais um gole de chá.

— No entanto, deverias saber isso melhor do que qualquer pessoa. É preciso um espírito concentrado para compreender bem os mecanismos astronómicos ensinados por Ptolomeu. A teoria das esferas não está ao alcance de todos.

O mecenas abanou a cabeça, em sinal de assentimento:

— Estou consciente disso, cheikh el-rais. Mas pode-se domi­nar as preocupações do coração?

— Eu não teria a ousadia de me intrometer na intimidade da tua vida. Só espero que não seja eu a causa dessas preocupa­ções.

Um certo embaraço apareceu na expressão de el-Chirazi. Ele sentou-se no divã.

— Que pensas tu da carta que recebeste, ontem à noite, de

el-Biruni?

— Deves fazer uma ideia. A alegria que senti ao saber que ele estava são e salvo, foi alterada, quando fiquei sabendo que ele se encontrava em Ghazna, ao serviço do Turco. Hei-de confessá--lo? Senti, com isso, uma certa amargura.

— Que queres? Nem toda a gente tem as mesmas opiniões que tu acerca de Mahmud o Gaznávida. Ele...

— Perdoa-me, el-Chirazi, mas a amizade que me liga a el--Biruni, tira-me toda a objectividade. É por isso que prefiro não fazer juízos quanto à sua atitude. Desejo apenas que ele encontre por lá as possibilidades de continuar a sua obra. É a única coisa que me interessa. O resto...

Ali fez um gesto fatalista e recomeçou:

— O que me ultrapassa, sobretudo, é a crueldade cada vez maior do rei de Ghazna. Segundo el-Biruni, a campanha, que ele está fazendo na índia, ainda agora vai no começo. Nada parece resistir ao Gaznávida. Desde que ele desbaratou a confederação formada pelos Hindus e apanhou a cidade de Kangra, os seus exércitos avançam em terreno conquistado. Pilham os templos, degolam os habitantes: mulheres, crianças, velhos, sem distinção.

Há mais de três anos que a índia vive no terror e no sangue.

— Se bem compreendi a carta de el-Biruni, é muito possível que ele próprio se junte a uma dessas expedições.

— Sim, na qualidade de astrólogo. Ainda que te possa surpreender, penso que essa perspectiva deve encantá-lo. El-Biruni sempre teve desejo de descobrir o mundo.

— Estranha maneira de realizar o seu sonho.

— Estou persuadido de que os seus olhos nada mais verão do que as terras, as paisagens, os manuscritos, os movimentos geológicos. Caminhará ao lado do crime, mas não dará por ele.

— Pareces colocar bem alto o teu amigo...

— Posto que é meu amigo... Mas, antes de a nossa conversa divagar, tu falavas-me das tuas preocupações. Julguei adivinhar que eu não lhes era estranho.

— Digamos que...

Ele interrompeu-se, como se procurasse as palavras, depois perguntou com uma certa pressa:

— Já ouviste falar de Shirine, mais conhecida pelo nome de a Sayyeda?

— Parece-me. Não é a rainha da cidade de Raiy?(1)

— Exactamente. Ela é também sobrinha do célebre Ibn Dushmanziyar, fundador da dinastia dos Kakuyidas, de que ela própria faz parte.

— Dushmanziyar... Isso significa acabrunhando o inimigo. É mesmo esse o sentido da palavra?

— Sim. Aliás, encontra-se invariavelmente esse nome em todas as moedas kakuyidas. Mas voltemos à rainha! Desde a morte do marido, é ela que reina sobre a região ocidental do Djibal. Na realidade, ela só tem o título de regente, visto que a coroa possui um herdeiro na pessoa do seu jovem filho: Majd el-Dawla. Ele tem, hoje, dezasseis anos.

 

(1) As suas ruínas erguem-se, hoje, a cerca de 8 quilómetros a sudeste de Teerão. (N. do T.)

 

Ali acariciou distraidamente a barba.

— Perdoa-me, el-Chirazi, mas não vejo os motivos dessa tua exposição acerca da Sayyeda e da dinastia kakuyida. Estamos tão longe de Ptolomeu e das esferas universais!

De novo, el-Chirazi pareceu embaraçado.

— Sinto-me culpado — disse ele, baixando os olhos. — Há mais de um mês que sou importunado por enviados da corte de Raiy. Há mais de um mês que faço orelhas moucas. A rainha soube da tua presença em Gorgan e solicita-te para o palácio. Ainda ontem, recebi a visita do vizir Ibn el-Kassim, em pessoa.

— Mas que me quer essa gente?

— Foi-me confiado que a saúde do filho e herdeiro causava algumas inquietações. Ele sofreria da sawda.(1)

— Estou vendo... E que lhes respondeste tu? El-Chirazi enfrentou o olhar inquieto do seu protegido e respondeu com um arzinho de desafio:

— Que tu estavas ausente. Que viajavas muito. Que me eras indispensável. Como podes verificar, menti-lhes.

— Mas porquê?

— Tu, que sabes tão bem ler o segredo das almas, ignoras que o homem é por natureza egoísta?

— El-Chirazi, meu amigo, na tua boca esses propósitos soam como uma blasfémia.

— No entanto... Só pensei em mim. Só tive uma única ideia, manter-te a meu lado o mais tempo possível. Depois reflecti, e as pressões fizeram-se mais fortes. Então...

Ali deixou o seu lugar e deu uns passos para a janela.

— Devo, portanto, dirigir-me a Raiy... El-Chirazi apressou-se a ir ter com ele.

— Talvez não seja um mal. Tu és de uma outra dimensão, Ali ibn Sina. A minha modesta morada nunca bastará para te conter. Eu reflecti, como te dizia. Para que me serviria guardar-te aqui, quando te são necessários, estou convencido disso, espaços reais?

 

(1) Melancolia, neurastenia, depressão. (N. do T.)

 

Ele fez uma pausa, antes de precisar, carregando deliberadamente nas palavras:

— Como a el-Biruni.

— Já to disse. A escolha dum mecenas é questão de critério pessoal.

— Mas tu próprio o davas a entender. Um sábio precisa de ter à sua disposição os recursos necessários para prosseguir as suas pesquisas, sob altas protecções. Eu, já vês, não sou senão um simples comerciante. Estarás muito mais bem protegido sob a cúpula dum serralho.

Ali deu bruscamente meia-volta.

— O serralho! Abre lá os olhos, meu irmão! Os artistas, os sábios, quem quer que eles sejam, venham eles donde vierem, não são nada mais do que alavancas, de que se servem os grandes, que nos governam, para se erguerem acima da vasa! Uma vez alcançado o seu objectivo, apressam-se a abandonar-nos, ou, então, raa-tam-nos. Nós somos a boa consciência dos príncipes, el-Chirazi. Observa a minha vida e verás que por duas vezes servi e que nunca estive tanto em perigo como debaixo dos dourados daqueles palácios.

El-Chirazi abriu a boca para protestar, mas todas as palavras lhe pareceram vãs. Ibn Sina acrescentou:

— De qualquer maneira, a nossa discussão não tem razão de ser. Tu falaste em pressões. Portanto, eu deduzo daí que não nos deixam por onde escolher. Não é verdade?

O silêncio do mecenas continha a resposta.

— O meu destino é, decididamente, muito estranho: escorraçado de um lado, apanhado do outro. Está bem. Previne os emissários da rainha: amanhã mesmo, seguirei para Raiy.

El-Chirazi agarrou espontaneamente no braço de Ibn Sina, num movimento caloroso:

— Não tens que te inquietar, meu amigo! Vais ver, serás lá recebido com todas as honras devidas ao teu saber.

— Inquietar-me?

Ele deixou vaguear o olhar pelo mar dos Cazares, que se desenhava ao longe.

— Aconteça o que acontecer, nunca esqueças isto: a nossa existência decorre em poucos dias. Ela passa como o vento do deserto. Por isso, enquanto te restar um sopro de vida, há dois dias com que nunca te deverás inquietar: o dia que ainda não veio e aquele que já passou...

 

                             DÉCIMA SEGUNDA MAKAMA

No jardim do palácio, estendido de barriga para baixo entre as moitas, o adolescente dormitava, ou, então, fingia.

Um ligeiro ruído fê-lo entreabrir as pálpebras. Retesou-se. O ruído renovou-se. Então, ele agarrou na pedra de arestas afiadas, levantou o punho e esperou. Uma cabeça de lagarto apareceu entre dois tufos de ervas secas. O adolescente esperou com paciência até quase poder contar as escamas cor de azebre que cobriam as costas do sáurio. Quando este já só estava à distância de um sopro, desferiu o golpe, esmagando de repente o ventre mole, que se esvaziou de uma mistela leitosa com vísceras misturadas. Muito depressa, pôs-se a bater nos membros rebentados do réptil. Mais e mais, até só ficar uma massa diluída, que se confundia com a areia e as ervas amarelecidas.

Só então a sua raiva se atenuou. Com um sorriso satisfeito, molhou lentamente a cabeça do dedo indicador na papa informe e escreveu uma palavra: SFURINE...

— Senhor! Onde está Sua Excelência?

A voz do velho eunuco, que tinha o cargo de camareiro, acabava de ressoar no jardim do palácio.

— Senhor! Onde estais? Pela bondade do Altíssimo, respondei! O adolescente decidiu-se, enfim, a levantar-se, ao mesmo

tempo que, com um movimento distraído, limpava o indicador no seu sirwal de veludo púrpura.

— Que me querem?

Pôs-se em bicos dos pés, e a sua cabeça redonda, de cabeleira negra e frisada, surgiu por cima da sebe. O camareiro estava a uns passos de distância, mas de costas voltadas para ele.

— Eu perguntei: que me querem?

O velho girou sem sair do mesmo sítio e inclinou-se.

— Honra da nação, Shirine, tua mãe solicita-te com toda a urgência.

O adolescente pôs as mãos na cintura, inclinou um pouco a cabeça para o lado e, com um trejeito de desprezo, abriu caminho até aos maciços de roseiras, antes de se encaminhar para a fachada oeste do serralho, com o camareiro no seu encalço.

— Tu ainda não me respondeste. Que me quer a rainha?

— Como o saberia eu, Honra da nação? Parece-me que...

— Quando é que tu deixarás de me tratar por esse sobrenome estúpido? Majd. Majd el-Dawla. Não quero ouvir senão este nome.

O camareiro curvou-se humildemente, com as mãos juntas diante do peito.

— Sim... Senhor.

O jovem emir recomeçou, apressando o passo:

— Suponho que a minha querida mãe deseja dar-me mais uma lição sobre os direitos ilegítimos do Estado?

— Eu... Eu julguei perceber que ela queria apresentar-te um recém-chegado ao palácio.

Desta vez, o príncipe escrutou com suspeição o seu interlocutor.

— Quero ter esperança de que não se trate, mais uma vez, de um médico. Trata-se de um médico?

O eunuco baixou os olhos.

— Não sei, Excelência. Não sei.

— Perfeito. Já conheço, pois, a resposta.

Majd el-Dawla retomou a marcha para o palácio, com o passo mais rápido, mais firme também.

— Cheikh el-rais, devo prevenir-te. O meu filho é um rapaz com múltiplas facetas. Aos dezasseis anos, é capaz dos actos mais generosos e mais perversos. Chego a duvidar de que tenha sido o meu ventre que gerou um ser tão... difícil.

— A indisciplina não é pròpria da juventude?

Como se não tivesse ouvido o reparo, a rainha acrescentou:

— E, no entanto, Majd é meu filho. Eu amo-o. Gostaria tanto que ele se curasse!

— Perdoa-me, Sayyeda. Tudo isso é pouco claro. Ele precisa de um preceptor ou de um médico?

— Não são os preceptores que lhe faltaram. Alá é testemunha, todos eles depuseram as armas. Quanto aos médicos, depois de terem examinado o príncipe, apressaram-se a voltar aos seus estudos.

— Mas de que sofre, precisamente, Sua Excelência? Fala-ram-me na sawda.

Ali começava a sentir uma verdadeira irritação. El-Jozjani e ele próprio tinham chegado a Raiy havia três dias. Só naquela manhã é que a rainha lhe havia concedido audiência, donde ele deduzira que o estado do príncipe não devia ser tão inquietante como os mensageiros tinham dado a entender.

Por outro lado, tinha havido aquele sentimento de mal-estar, logo no primeiro instante em que ele se achara na presença da rainha. Ele tentara atribuí-lo ao seu físico. Obesa, excessivamente arrebicada, com os cabelos ruivos escondidos sob um gigantesco turbante decorado com pérolas, a sobrinha de Dushmanziyar devia ter uns quarenta anos, mas o seu triplo queixo, a redondez empastada das suas feições, as olheiras que contornavam o seu olhar de camaleão, com a íris azul, dum azul frio, aprisionado sob uma testa franzida, contribuíam para a envelhecer e lhe dar aquele ar imperioso e dominador.

— De que sofre ele? — replicou a rainha. — Mas, cheikh el-rais, parece-me que é a ti que competirá dar-me a resposta.

Antes que ele tivesse tempo de retorquir, ela indicou:

— Sem que nada o deixe prever, acontece-lhe fechar-se num irremediável mutismo. O seu olhar esvazia-se de toda a expressão. Recusa alimentar-se. Por vezes, até tem crises de choro que não consegue dominar. Além disso...

A rainha desviou, bruscamente, o rosto repleto e fitou o horizonte, para além das janelas de madeira preciosa que rodeavam a sala do trono.

— Suspeito-o de estar possuído pelo pior de todos os males: é um shirrib. Com dezasseis anos ajusta, já se entrega à bebida.

Ali esteve a ponto de replicar que o jovem príncipe tinha muita razão em apreciar esse sumo divino, bem menos amargo do que certas desilusões da vida. Mas contentou-se com declarar:

— Sayyeda, é para o pecado que o perdão existe.

Ela não pareceu entender a alusão e abanou, simplesmente, a cabeça, batendo as palmas. Um soldado apareceu na ombreira da porta.

— Onde se meteu o camareiro?

— Não sei, Majestade. Talvez...

— Talvez se tenha desencaminhado nos jardins do palácio. É isso?

Inclinando-se para Ibn Sina, ela disse pausadamente:

— Incompetentes! Estou rodeada de incompetentes! Que admiram as fragilidades deste reino!

Ela ia prosseguir, quando, com o rosto avermelhado, a respiração ofegante, o camareiro surgiu, enfim. Avançou com um passo incerto até aos pés da rainha e ajoelhou-se, tocando com a testa no chão.

— E o meu filho? Onde está o príncipe? Sem se levantar, o velho gaguejou:

— Ele corria tão depressa... A rainha cerrou os lábios.

— Infiel... Esse menino é um infiel.

Tomando o médico como testemunha, continuou num tom quase lastimável:

— No entanto, eu não desejo senão o seu bem. O seu bem, unicamente. Consegues compreender uma tal ingratidão?

— Como saber o que se passa na cabeça dum homem?

— Cheikh el-rais, estás enganado: não é um homem! Majd ainda não é senão uma criança.

Ela afirmara isso num tom que não admitia contradições.

— Já que tu o decidiste, Sayyeda, o emir não é, pois, senão uma criança.

— Eu vou, agora mesmo, à sua procura — propôs o camareiro, que continuava ajoelhado. — Se tu a tal me autorizas, Majestade.

— Vai lá! E, se for necessário, põe todos os criados do palácio a ajudar-te. Quando o tiveres encontrado, leva-o ao cheikh el-rais. Quero que ele o examine. Está bem entendido?

O eunuco levantou-se desajeitadamente e saiu da sala do trono, coxeando ligeiramente.

Um silêncio embaraçado instalou-se por um breve instante, depois a Sayyeda continuou:

— Cheikh el-rais, tudo isto te deve perturbar. Por isso, gostaria de tranquilizar-te. Não te mandei vir unicamente para sofreres os caprichos do meu filho. Como sabes, se a nossa cidade é célebre pela sua biblioteca e pelas suas cerâmicas, elaé-o mais ainda pelo seu hospital. A reputação do bimaristan de Raiy está assegurada.

Ali aprovou. Sabia que a rainha dizia a verdade.

— Gostaria — prosseguiu ela — que aceitasses o cargo de sa'urm(1). Estarias disposto a isso?

A proposta apanhava-o de surpresa. Durante algum tempo, ele receara ter-se, uma vez mais, metido numa situação vã.

— Suceder ao grande el-Razi é uma honra, que eu não poderia recusar. Espero, somente, ser digno dela.

— Mais ninguém, além de ti, o poderia ser.

Ela fez uma pausa, depois disse com desprendimento:

— Um salário de mil dinares por mês contentar-te-ia?

Mil dinares? Uma verdadeira fortuna, em comparação com os trezentos dirhems que ele recebia no bimaristan de Bukhara.

— Sayyeda, a tua generosidade é grande. Que o Clemente te retribua cem vezes mais!

A rainha encolheu os ombros.

— A generosidade mede-se pela dificuldade que se encontra em dar. O meu reino é rico.

 

(1) Primeiro director. (N. doT.)

 

Ele julgou descobrir naquela afirmação uma ponta de desprezo. Ou, então, seria uma grande lucidez?

— A partir de amanhã, poderás assumir as tuas funções de primeiro director. Agora, podes retirar-te.

Ela levantou-se, no meio duma tempestade de seda.

A noite dormia sobre Raiy, a cidade das sete cores, das sete muralhas e dos mil jardins.

Algumas fogueiras de acampamento, esparsas, cintilavam ao longo da planície fértil. Com um gesto aborrecido, Ibn Sina afastou os pergaminhos, que cobriam a imponente mesa de madeira de cedro, e serviu a si próprio mais uma taça de vinho, ante o olhar reprovador do seu discípulo. Crente íntegro, el-Jozjani recusara-se sempre a infringir a lei.

Ali levantou-se, bebeu uma grande golada e foi até à janela, que ficava por cima do caminho de ronda, iluminado com tocheiras. No segredo da noite, adivinhavam-se os contornos da cidade.

— Vamos no capítulo dos tratamentos e das terapêuticas gerais — recordou el-Jozjani, brandindo o seu càlamo.

— Está perfeito. Chegaremos, em breve, ao final do primeiro livro do Cânone.

O tom desapegado, com que Ali respondera, não passou despercebido ao jovem.

— Porque bebes tu, esta noite, cheikh el-rais? Eu julgava que estivesses feliz.

— Mas quem te disse que só se há-de beber na aflição? O vinho não é meu amigo, desde sempre? Eu seria mesmo o último dos infiéis se só confiasse ao meu amigo os meus tormentos.

— Já te confiaste muito, esta noite.

— Esta noite, é diferente. É com o Todo-poderoso que eu bebo. Num gesto provocador, ergueu a taça para o céu.

— Alá! Batamos, tu e eu, com a taça de encontro à pedra! Tu, que sabes como ele faz correr gotas de suor pelas faces das belas mulheres de Raiy! Desde a Lua até ao peixe, não existem outras mais belas!(1)

— Cheikh el-rais Suplico-te, não blasfemes! Isso dá azar! Num ímpeto desvairado, ele pulou para junto do mestre, para

tentar arrancar-lhe a taça. Ela escapou-lhe, deu uma volta no ar, antes de cair dois côvados mais abaixo, algures entre as ameias do caminho de ronda.

— Mas que te aconteceu? Sou eu que bebo e és tu que te embebedas !

— Rais, peço-te por favor. Estás a prejudicar-te. Anda, retomemos o nosso trabalho!

Ignorando a súplica do discípulo, Ali passou as pernas pela janela e, antes que o outro tivesse tempo para reagir, saltou para o vazio.

— Divanê! Louco! Insensato!

Debruçando-se sobre o parapeito, Abu Obeid enxergou-o a rebuscar na escuridão, à procura da taça.

— Divanê! Poderias ter-te matado!

— Se eu não encontrar esta taça, quem vai morrer és tu!

— E com razão!

Os dois homens imobilizaram-se, surpreendidos. Ibn Sina interrogou o seu discípulo:

—- Eu sonhei, ou alguém falou?

— Não sonhaste e ainda não estás a cair de bêbedo — replicou a mesma voz. — Mas repito, terias razão. Ninguém se deve intrometer na liberdade dos outros. O teu amigo merece ser chicoteado!

Ali voltou-se. Uma silhueta acabava de surgir das trevas: um adolescente de feições arredondadas e cabelos desgrenhados. Embora nunca o tivesse visto, percebeu, imediatamente, quem ele era. Colocando a palma da mão sobre o coração, saudou-o com um sorriso divertido:

 

(1) Expressão figurada, muito utilizada na Pérsia, que significa: no mundo inteiro, de um pólo ao outro. (N. doT.)

 

— Príncipe, tens à tua frente um homem cheio de satisfação por descobrir que não é o único a apreciar as delícias da água do esquecimento.

Majd el-Dawla, pois era ele, aproximou-se.

— E tu, quem és? Eu julgava conhecer todos os ocupantes deste palácio.

— O meu nome é Ali ibn Sina. Estou aqui apenas desde há três dias.

O emir esquadrinhou-o com desconfiança.

— Não serias tu, por acaso, o médico que a minha mãe convocou?

— Sim, Excelência. Mas, agora que te vejo, confesso não discernir as razões da sua inquietação.

— A minha mãe... As inquietações da minha mãe não são mais do que uma máscara. Por detrás, encontra-se a noite. Ela seria capaz de me vender por dois grãos de cevada.

Ignorando deliberadamente o comentário, Ali perguntou:

— Príncipe, estarias tu disposto a partilhar um pouco do divino néctar comigo?

— Porque não? Confesso que é mesmo a primeira vez que um médico me faz semelhante sugestão. Mas... és tu, realmente, médico?

—Tanto como tu és príncipe.

O adolescente teve um sorriso irónico.

— Nesse caso, não és médico.

Uma vez mais, Ali fez de conta que não compreendera o subentendido e disse, voltando-se para el-Jozjani, que, debruçado à janela, não havia perdido uma palavra da conversa:

— O jarro, Abu Obeid! E, desta vez, não sejas desajeitado! Com uma má vontade evidente, o discípulo obtemperou.

— Príncipe, anda, afastemo-nos do olhar depreciador do meu amigo! O seu azedume bem poderia turvar o veludo deste vinho.

Majd aquiesceu, divertido, e puseram-se a andar, juntos, pelo caminho de ronda. Um pouco mais adiante, designando um dos torreões que dominavam o pátio interior, Ibn Sina propôs:

— O lugar não é, certamente, digno dum sangue real, mas, lá de cima, talvez tenhamos a impressão de dominar o mundo.

Então, sentaram-se, lado a lado, nos degraus de pedra do cimo do torreão, descobrindo a paisagem.

Raiy... Pátria de Harun el-Rashid. Chegando do sudeste, vindo de Gorgan, Ali descobrira-a erguida no sopé do esporão que o contraforte das montanhas de Elburz projectava na planície. Era ali que, desde tempos imemoriais, se haviam estabelecido as comunicações entre o leste e o oeste. Era ali, à sombra das construções de adobe, que dormitavam os mistérios milenários, os doze lugares sagrados criados por Mazda, o deus do fogo da religião zoroástrica.

Por cima da planície, alinhadas até ao infinito, as constelações cintilavam como outros tantos pontos de ouro, e o céu estava de tal maneira puro que se poderia imaginar definir-lhe os limites.

— A noite é milagre — murmurou Ali, com o rosto erguido para as estrelas. —A noite é quietude. Muitas vezes a tenho comparado com um oceano calmo. A superfície está imóvel, enquanto que o fundo é só movimento.

Ofereceu o jarro ao príncipe.

— Gostas da noite?

— É, sem dúvida, o momento que eu prefiro. De dia, posso ler a minha condição no olhar dos outros; de noite, tudo desaparece.

— A tua condição... Falas como se trouxesses o peso do universo em cima dos ombros. Só tens dezasseis anos. E...

O emir interrompeu-o, com uma voz dura:

— Não há idade para aceitar a injustiça e a traição.

— Nada acontece a alguém sem que a natureza o tenha feito capaz de suportar isso.

— Tu falas bem. Mas, no que me diz respeito, a natureza deve ter-se enganado.

— Então, talvez seja aí que se encontra a causa da tua doença? O adolescente voltou-se bruscamente, com um olhar fero.

— Proíbo-te de dizer que eu estou doente!

— Perdoa-me. Mas a tua mãe...

— A minha mãe! A minha mãe é uma ave de rapina, e eu não sofro de nada mais, a não ser das garras que ela crava na minha cabeça e no meu corpo.

Como Ali permanecesse silencioso, bebeu um gole de vinho, e a sua expressão fechou-se.

Um vento fresco pusera-se a lamber as muralhas, trazendo da planície o cheiro dos jardins. Arrepiando-se, Majd encostou os joelhos ao peito.

— Tens frio. Queres ir para dentro?

O príncipe sacudiu a cabeça, com um ar teimoso.

— Então, tu és médico.

— Como te disse.

— Julgas poder ser bem sucedido, onde todos falharam?

— A tua pergunta é estranha. Não acabaste de me dizer que não estavas doente?

— A minha mãe está, porém, convencida do contrário.

Ali tornou a pegar no jarro e fê-lo rodar entre as palmas das mãos, com um ar pensativo.

— Nesse caso — disse ele, com um sorriso —, é talvez, sobre ela que seria preciso eu debruçar-me.

O adolescente reprimiu um movimento de surpresa.

— Que dizes tu?

— Ouviste bem. Talvez seja a Sayyeda quem tenha necessidade da ciência.

A expressão admirada de Majd acentuou-se e ele desatou a rir, espontaneamente.

— Decididamente, começas a agradar-me. Ninguém, até agora, se tinha atrevido a encarar semelhante coisa!

Ele serenou e pediu:

— Recorda-me o teu nome!

— Ali. Ali ibn Sina. Apelidam-me também cheikh el-rais.

— Pois bem, mereces com certeza esse apelido.

Houve um novo silêncio, depois o soberano murmurou, num tom outra vez sério:

— Sabes tu quem era o meu pai?

— És filho do defunto Fakhr el-Dawla.

— Sabes que o seu nome era mencionado a seguir ao do califa, aquando dos sermões da sexta-feira? E, diante das residências principescas, às horas das cinco orações?

— Ignorava isso. Mas a sua grandeza não me é desconhecida.

— Eu... Eu, Majd el-Dawla, não sou nada. Nunca serei nada

— Nasceste príncipe. Isso não se apaga.

— De príncipe, não possuo mais do que o título. Isto, quando, à morte do meu pai, os seus vassalos me designaram oficialmente herdeiro do reino. Quanto ao meu irmão, pois também tenho um irmão mais velho, Shams, que tem mais dez anos que eu, atribuíram-lhe o governo de Hamadhan(1) e de Kirmanshahan.

— Se não me falha a memória, tu só tinhas quatro anos, nessa altura.

— Foi por isso que a minha mãe ocupou a regência.

Ele calou-se, tirou o jarro das mãos de Ali e bebeu uma golada de vinho, antes de concluir sombriamente:

— Mas, hoje... Hoje, as coisas já não estão na mesma. Tenho idade para tomar as rédeas. E da lei. É o meu direito. Eu reivindico-o.

— Compreendo...

— Deveras?

Havia uma tal intensidade na pergunta que Ali até ficou comovido.

— Sim, Honra da nação. Eu compreendo todos aqueles que procuram fazer recuar a injustiça. Mas tenho, por meu turno, alguma coisa a dizer-te. Perdoa-me de antemão as palavras que vou pronunciar, mas é preciso que saibas que o rancor, quando dorme demasiado tempo no coração humano, pode tornar uma pessoa doente. Tu já não comes, disseram-me. Quase que não dormes. Encerras o teu espírito numa prisão, que tu construíste com as tuas próprias mãos. Muito mais inexpugnável do que o forte de Tabarak. Cedo ou tarde, sofrerás as consequências do teu encerramento. Compreendes isso?

 

(1) Hamadhan é uma cidade do Irão central, a sul de Raiy. (N. do T.)

 

O emir não respondeu, e ele acrescentou:

— Se quiseres, um dia, recuperar os teus direitos, se quiseres pôr-te à cabeça do teu reino, precisarás de forças. De muitas forças. Se o teu corpo vier a abandonar-te, o teu espírito seguirá o mesmo caminho. Por conseguinte, há que reviver. Há que reconstituir as tuas energias interiores. Assim, poderás alcançar o teu objectivo. Visto que tens esse direito.

— Mas sou incapaz. Talvez eu tenha criado a minha prisão, mas é a Sayyeda quem tem a respectiva chave. Como hei-de eu fazer? Como? O exército, os espiões, o camareiro, ela domina todo o meu universo. Eu sufoco, compreendes? Sufoco!

— Escuta-me! Se uma coisa te parecer inacessível, não deduzas daí que ela é inacessível aos outros homens. E se essa mesma coisa for inacessível aos outros, convence-te de que ela é realizável para ti...

O emir observou-o como se procurasse impregnar-se verdadeiramente do sentido das suas palavras e, ao fim de um bocado, declarou:

— Anda, cheikh el-rais, vamos embora daqui! Está frio. Logo acrescentou muito depressa:

— E creio que tenho fome.

A aurora tinha despontado havia pouco e, por cima das casas de adobe, flutuava uma renda de bruma, que criava um céu cinzento pastel. Aquele começo de rabi'el-akhir mostrava já todos os indícios de um Outono precoce.

O vizir Ibn el-Kassim apertou de encontro ao peito as abas do manto e curvou-se ligeiramente, ao penetrar sob a imensa abóbada que assinalava a entrada do hospital de el-Sayyeda, o outro nome do bimaristan de Raiy. Apontou com o dedo a fachada de tijolo e disse para Ibn Sina:

— Eis o lugar de todas as esperanças e de todos os sofrimentos. Ali sentiu-se perturbado, perante aquelas paredes ainda marcadas pelo cunho do seu ilustre predecessor, o grande el-Razi, desaparecido, no entanto, havia oitenta anos. O vizir continuou:

— Sem querer parecer-te exagerado, creio sinceramente que o nosso hospital nada tem a invejar aos de Bagdad. Nem o Aldudi nem o Mu'tadid lhe são comparáveis. Sabes a quanto montam as nossas despesas mensais?

— Só tenho como termo de comparação o hospital de Bukhara. Cerca de duzentos dinares por mês?

— Seiscentos!

Ibn el-Kassim anunciara aquela cifra com um certo orgulho. E Ali pensou, imediatamente, no salário que a rainha lhe oferecera: mil dinares. Não pôde deixar de assinalar isso ao seu interlocutor.

— Descansa! O teu soldo será pago pelo tesouro real. Além disso, deves saber que os hospitais sobrevivem graças aos donativos feitos por particulares ricos. Eles não faltam em Raiy. Para conseguir os favores da corte, mais do que um notável está disposto a entregar metade da sua fortuna em benefício desta instituição, dentro em pouco centenária.

— Tendes também uma unidade médica móvel?

— Com certeza. Há práticos que, todos os dias, acompanham o nosso dispensário ambulante pelas aldeias do Djibal. Tratam tanto os muçulmanos como os infiéis. Inspeccionam também as prisões, fornecendo medicamentos e poções aos presos doentes. E mais um pormenor, que talvez te possa surpreender: autorizámos, nessas mesmas prisões, que as mulheres lá vão como enfermeiras.

A informação não admirou Ali. Cerca de um século antes, no tempo de Sinan Ibn Thabit, médico-chefe do hospital de Bagdad, a coisa já existia.

Tinham chegado ao pé da mãe-d'água que abastecia o edifício, e o vizir designou um homem, que vinha ao seu encontro:

— Eis o intendente geral, Soleiman el-Damashki. Conhece todos os recantos do bimaristan. Há dez anos que ocupa esse cargo, e esta instituição já não tem segredos para ele. Sabe, dia a dia, a quantidade de comida ou de medicamentos distribuída, o consumo do carvão, que serve para o aquecimento das salas, e o número de cobertores.

Após as saudações habituais, o intendente examinou Ibn Sina

com curiosidade.

— Então, és tu. Es tu o xeque Ali ibn Sina. O mestre dos sábios. Percorri a maior parte das tuas obras com uma admiração nunca desiludida.

Ali sorriu, divertido.

— Imaginavas-me diferente?

— Não, cheikh el-rais. Longe de mim, eu ter-te imaginado! Nunca pus uma cara sobre as páginas que lia. O seu brilho bastava para me satisfazer. Tenho, aliás, a esse respeito mil perguntas para te fazer.

— Parece-me — disse o vizir — que o xeque sente o mesmo desejo em relação a ti. Por isso, vou deixar-vos. Mas, antes, gostaria de conversar um momento com ele.

Voltando-se para Ali, chamou-o de parte.

— Soube que te encontraste, finalmente, com o nosso príncipe.

— É verdade.

— A crer no que me disse o emir, causaste-lhe forte impressão.

Baixando a cabeça, o vizir continuou, quase em segredo:

— Ele contou-me também a vossa discussão. Haverei de confessar-te que fiquei muito sensibilizado com os conselhos que tu lhe deste?

Ali manteve o silêncio. Mas como Ibn el-Kassim procurasse dizer-lhe qualquer coisa, sem conseguir encontrar a palavra adequada, ele proferiu num tom neutro:

— Os meus conselhos diziam respeito à saúde do príncipe. Se ele não sofre de nenhuma doença orgânica, pareceu-me, em compensação, que o seu espírito estava atormentado.

— Descansa! Eu sei isso tudo. Vi nascer o emir. Servi o seu pai — que o Todo-poderoso prolongue a sua memória! —, conheço também a Sayyeda. Em verdade, o que eu gostaria de te dizer é que sou inteiramente dedicado a Majd. De corpo e alma. Por agora, ele está no sopé duma alta montanha, mas, com a ajuda de Alá, subirá a encosta até ao cimo. Com a ajuda de Alá e...

Calou-se e deitou uma olhadela à sua volta, como que para se certificar de que ninguém o poderia ouvir.

— Com a ajuda de Alá e a minha.

Admirado com tantas confidências, Ali aprovou, sem sair da sua reserva. Uma voz interior lembrava-lhe que não estava assim muito afastado das regiões pantanosas do Qazwim. Uma região, onde numerosos viajantes se perdiam por um excesso de imprudência. Adivinhando o seu pensamento, Ibn el-Kassim acrescentou:

— Acautela-te, mesmo assim, cheikh el-rais A rainha está em toda a parte. À escuta dos menores rumores. E os rumores andam depressa neste país.

— Agradeço-te. Mas conheço de mais as coisas da política para poder esquecer-me de que, se tenho trinta e dois anos, o Clemente não me concedeu trinta e duas vidas.

O vizir apreciou, com um sorriso satisfeito, e girou sobre os calcanhares sem mais comentários.

— Entremos! — disse Ali, dirigindo-se ao intendente, que esperava pacientemente a uma certa distância. —Tenho pressa de descobrir as maravilhas de el-Sayyeda!

Na sala que servia para arrumação dos produtos médicos, Soleiman mostrou, com orgulho não dissimulado, as prateleiras, em que estavam colocadas as plantas medicinais, todas classificadas por ordem utilitária. Era impressionante. Aqui, ruibarbo, maná, sene, cássia e mirobálanos, tudo plantas conhecidas pelos seus efeitos purgativos. Mais acima, os estimulantes: a noz-vómica, a galanga, a cânfora e a moscada. Na categoria dos medicamentos com acção preponderante sobre o sistema nervoso, encontravam-se o acònito, o cânhamo, o âmbar, utilizado para os tiques faciais, o coco ou noz-da-índia, como sedativo, a colocíntida, empregada como diurético.

Concreções de bambu, para tratar a disenteria. E outras plantas mais, com usos menos correntes.

— Soleiman, meu amigo, estou cheio de admiração, diante de tanta precisão e ordem.

— E ainda não é tudo. Olha isto!

O intendente apresentou a Ali um espesso manuscrito. Na capa estava escrito: Farmacopeia. Bastou-lhe uma olhadela para apreciar a qualidade do trabalho realizado pelo seu interlocutor. Tratava-se de uma espécie de repertório dividido em duas partes distintas. A primeira descrevia os medicamentos chamados compostos, agrupados por ordem alfabética e por analogias terapêuticas. A segunda parte descrevia os remédios próprios para cada órgão. Foi assim que Ali pôde descobrir, para grande surpresa sua, sugestões quanto aos tratamentos da dor de cabeça, da queda do cabelo ou até dos problemas oftálmicos, que não deixavam de ser pertinentes.

— E notável, absolutamente notável! — comentou ele, com entusiasmo. — Espero, simplesmente, que as gerações vindouras reconheçam parte dos nossos méritos.

— Cheikh el-rais, como podes duvidar disso? Bem sabes que os nossos pais foram os primeiros a introduzir as preparações químicas na farmácia, a substituir o mel pelo açúcar na fabricação dos xaropes; a fermentação alcoólica, pela destilação das matérias feculentas e açucaradas. A química aplicada à farmácia testemunhará em nosso favor de maneira indiscutível. Conheces, hoje, muitos países, em que a instituição farmacêutica esteja colocada sob a vigilância do governo? Onde existam inspectores dos farmacêuticos e dos herbanários?

— É verdade. Não vejo nenhum. Mas o tempo, que passa, parece-se com o vento. Possui, por vezes, o poder funesto de apagar as maiores realizações. O nosso contributo talvez caia no esquecimento.

O intendente franziu o sobrolho, melindrado.

— Nunca, cheikh el-rais. Nunca. Em todo o caso, a recordação, que tu, por tua parte, deixarás nas memórias, permanecerá indelével, estou convencido disso.

Ali aquiesceu sem convicção e apontou para a porta, que dava para o corredor de acesso às salas:

— Agora, visitemos os pacientes!

— Quais?

O intendente explicou:

— Porque aqui isolámos cada categoria de doentes. As febres, a oftalmia, a cirurgia, os casos de disenteria, tudo é tratado separadamente.

Desta vez, o filho de Sina sentiu-se ultrapassado. Mas já o intendente prosseguia:

— E possuímos também uma biblioteca, depósitos de víveres, uma mesquita.

— É prodigioso... Como poderia eu admirar-me, se me anunciasses que também haveis pensado num local de culto para os dhimmis?!

Soleiman abanou a cabeça, encantado.

— Sim, cheikh el-rais. Ele está situado, muito exactamente, na ala esquerda do edifício.(1)

Atordoado, o filho de Sina levou algum tempo, antes de declarar:

— Meu irmão, já não sei se, depois de tantas revelações, ainda me resta energia bastante para examinar os pacientes. Por isso, dá provas de indulgência e guia-me até à sala das febres!

Plenamente satisfeito com o efeito obtido junto do novo primeiro director, Soleiman convidou-o a segui-lo.

«Assim começou a primeira jornada do cheikh el-rais no bimaristan de el-Sayyeda. Ela foi, em todos os aspectos, conforme à de um médico principal: visita de inspecção aos doentes, prescrição de receitas, tratamentos, consulta da clientela privada e, ao fim da tarde, regresso para uma conferência aos estudantes. Posso testemunhar isso, com o passar das semanas, o meu mestre retomou gosto pela vida. A luz da paixão, que se tinha velado sensivelmente no

 

(1) Um século mais tarde, encontrarse-à no Egipto essas mesmas estruturas, muito mais desenvolvidas no hospital Mansuri, que teve a sua reputação de ser o mais esplêndido e aperfeiçoado já mais visto em terra do Islão. A sua dutação teria ascendido a cerca de um milhão de dirhems num ano. Era lá admitidos homens e mulheres. Ninguém era mandado embora e a duração do tratamento não era limitada. (N. do T.)

 

decurso dos últimos anos, iluminou de novo a sua fisionomia. A sua alma, até então cercada por incertezas e dúvidas, reencontrou a ventura da certeza. E isso modificou-me por completo. Ao ouvi-lo rir, eu ria de novo. Ao sentir o seu fervor, eu recobrava a minha fé na grandeza de Alá. Quanto ao seu ensino, este tinha-se apurado. Lembro-me, em especial, de uma reunião que tinha congregado, como nos tempos de Gurgandj, estudantes e sábios vindos de toda a região do Fars e do Kirman, durante a qual ele respondeu com uma extraordinária concisão às perguntas mais diversas e mais difíceis. Algumas dessas respostas ficaram-me na memória.

«— Cheikh el-rais, quando várias doenças chegam ao mesmo tempo, há uma prioridade na escolha dos métodos terapêuticos?

«— Em primeiro lugar, será preciso começar por tratar a afecção que tenha mais probabilidades de se curar antes da outra. Assim, uma inflamação será tratada antes de uma úlcera. Num segundo tempo, ocupar-nos-emos daquela doença que poderia ser considerada como causa da segunda. Por isso, na tuberculose e sua febre, não se pode curar a segunda, senão atacando a primeira. Enfim, haverá que preocupar-se com a doença curável. Entre a febre com recaídas e a paralisia, optar-se-á por tratar a febre com recaídas.

«O xeque concluíra com um aforismo que eu já conhecia, posto que era igualmente a conclusão do primeiro livro do Cânone:

«— Esforçar-nos-emos, antes de mais nada, por tratar a própria doença, de preferência ao seu sintoma. Mas se o sintoma se tornar urgente, o médico abandonará o tratamento da doença, por algum tempo, e tratará o sintoma.

«— E se a cura não vem, apesar da aplicação de certos medicamentos?

«— Nesse caso, pode haver habituação a esses medicamentos. Por conseguinte, haverá que mudá-los. Mas acrescentarei um pormenor essencial: se não conheceis a origem da doença, se, para vós, ela continua sendo obscura, deixai agir a Natureza! Não tenteis apressar as coisas. Porque ou a Natureza trará a cura ou, então, revelará claramente o que o doente tem.

«— Que aconselharias tu para o regime dos velhos?

«— A massagem e o exercício, contanto que sejam moderados. Desaconselharia os banhos demasiado frios. Estes só convêm àqueles que estão de perfeita saúde. A esses, eu sugeriria que os tomassem depois de um banho quente, para reforçar a epiderme e manter o calor.

«— Terias tu, por acaso, conselhos que tratem da beleza, cheikh el-rais?

«A pergunta fê-lo sorrir, porque provinha de Naila, uma jovem síria, que trabalhava no bimaristan como enfermeira.

«— Basta saberes que a pele é o reflexo da beleza. Por isso, preserva-a destes três elementos: o sol, pois pode ser tão benéfico como temível, o vento e o frio.

«E Ali concluiu, com uma voz apaixonada: «— Há vários séculos, numa ilha da Grécia, um homem dei-xou-nos uma mensagem fundamental. Vós, que, amanhã, exercereis esta profissão única, aonde quer que os vossos passos vos levem, desde o Kirman às portas de Córdova, guardai na memória estas palavras, que são sagradas:

« "Prometo e juro, em nome do Ser supremo, ser fiel às leis da honra e da probidade no exercício da medicina. Darei os meus cuidados gratuitos ao indigente e jamais exigirei um salário acima do meu trabalho. Admitido no interior das casas, os meus olhos não verão o que lá se passa; a minha língua calará os segredos que me forem confiados, e a minha condição não servirá para corromper os costumes nem para favorecer o crime. Respeitoso e reconhecido para com os meus mestres, tornarei a dar aos seus filhos a instrução que recebi de seus pais. Que os homens me concedam o seu apreço, se eu for fiel às minhas promessas! Que eu seja coberto de opróbrio e desprezado pelos meus confrades, se a elas faltar!(1) «Assim terminou uma das inúmeras conferências dadas pelo meu mestre, Abu Ali ibn Sina, o príncipe dos médicos...»

 

Este acto de fé, referido naquele dia por Ibn Sina, não é senão aquilo que as gerações futuras chamarão «o juramento de Hipócrates». (N. doT.)

 

                           DÉCIMA TERCEIRA MAKAMA

A jovem eslava deu um gritinho, no momento em que sentiu a virilidade de Ali penetrá-la. Ela estava de costas voltadas para ele. As suas ancas eram largas e gordas, e o seu traseiro, encaixado no baixo-ventre do xeque, estava frio. Ela abafou um novo gemido e contraiu os lábios, enquanto ele, num segundo movimento, entrava nela mais profundamente.

El-Jozjani, sentado no chão a um canto do quarto, observava distraidamente o seu mestre. E dizia para consigo que havia mesmo qualquer coisa sórdida naquela espelunca, cujas paredes cheiravam a suor e a vinho ordinário.

Em menos de uma hora, era o quarto amplexo, a que o xeque se entregava. Ele não dava nada. Tomava com uma espécie de raiva, uma sede inexplicável de se exceder. Era absurdo. Dir-se-ia que ele procurava, desesperadamente, consumir-se nos braços daquela prostituta, até que o seu gozo mais não fosse do que cinzas.

O que mais o surpreendia era a maneira como as coisas se tinham passado: eles iam a caminho do hammam, quando, bruscamente, sem que nada o fizesse prever, Ali tomara a decisão de dar uma volta por aquele antro ímpio, levado por esse desejo indomável de se macular, como nas noites em que se deixava ir, nos vapores do ópio, até perder a noção do tempo.

Agora, a rapariga ria-se. O seu riso ressoava na cabeça de Abu Obeid com mais força do que uma blasfémia. Ele ergueu o olhar para o par e viu que eles se tinham, enfim, desprendido um do outro. Para seu grande alívio, o xeque começou a vestir-se. — Então, meu irmão, quando é que te decidirás a oferecer a

tua virgindade?

Fingindo ignorar o seu mestre, el-Jozjani encolheu os ombros e levantou-se com um ar melancólico, o que provocou uma nova gargalhada da eslava.

— Ghulam...(1) — disse ela, com um trejeito divertido. — A sua juventude talvez o torne tímido. Ou então...

Ela rebentou de riso, assentando a palma da mão sobre os lábios:

— Ou, então, talvez ele só goste dos rapazes? Ela debruçou-se para ele e mostrou vontade de lhe acariciar a

face. A reacção de el-Jozjani foi tão brutal como imediata: deu-lhe uma bofetada com as costas da mão. Depois, agarrando no seu manto de lã, abriu a porta e desapareceu.

Exceptuando o murmúrio tranquilo da fonte e o eco discreto de alguns banhistas que se refestelavam na piscina, a atmosfera, que reinava no interior do hammam, era suave e voluptuosa.

Na sala de repouso, preguiçosamente estendido sobre um dos bancos de madeira guarnecidos com almofadas de seda, Ali contemplava com um olhar distraído a água que corria com uma regularidade lancinante para o tanque escavado no centro da sala.

Ele e Jozjani, encerrado num mutismo total, tinham passado pelo vestiário, depois pelas mãos do barbeiro. Em seguida, imergidos em pequenas piscinas, tinham sido, sucessivamente, ensaboados com água morna, depois esfregados com óleos e unguentos pelos serventes. Terminados esses primeiros cuidados, haviam-nos conduzido, vestidos com tangas feitas de toalhas atadas, para a sala interior, onde, estendidos em mesas de mármore cor-de-rosa, eles se tinham abandonado às massagens do friccionador.

— Continuas irritado? — perguntou Ali, de brincadeira. Abu Obeid fulminou-o com o olhar.

— Que Alá te perdoe, cheikh el-rais. Tu és, sem dúvida,

 

(1) Miúdo. (N. do T. )

 

o mestre dos sábios, mas, desde a Lua até ao peixe, és também o dos estróinas!

Ali contentou-se com responder da mesma maneira que o fizera

à rainha Shirine:

— É para o pecado que o perdão existe.

— Mas porquê? Porque sentes tu esse desejo de te rebolar

no lodo?

— O amor merece esse qualificativo?

— O amor? Mas o amor nada tem a ver com o acto que tu acabas de cometer! Foi puramente bestial. Uma cópula desprovida de qualquer forma de ternura. Como é que podes falar de amor?

Ali ergueu-se ligeiramente e retorquiu com voz firme:

— Apesar da diferença de idades que nos separa, tu não podes ignorar que existem várias formas de amor. No preciso instante em que ela se encontrou nos meus braços, eu amei aquela moça. Amei-a, muito simplesmente, porque ela satisfez o meu

prazer.

— E ela? Pensaste nela?

— Mas ela também me amou.

Com uma naturalidade desarmante, concluiu:

— Muito simplesmente, porque eu lhe dei dinheiro. El-Jozjani, desesperado, ergueu os olhos ao céu.

— Há horas em que tu me escapas, cheikh el-rais. E, Alá é minha testemunha, não são as horas em que me falas de ciência.

— Abu Obeid, posso esperar que, apesar da tua opinião, ainda

me queiras ser agradável?

El-Jozjani hesitou, um tanto surpreendido, antes de aquiescer

com um movimento de humor.

— Então, relê-me a última carta de el-Biruni! E esqueçamos isso tudo!

O discípulo teve de novo um tempo de hesitação, depois eclipsou-se. Quando reapareceu, passado um momento, trazia uma sacola na mão.Tirou de lá umas folhas, que desdobrou, soltou um profundo suspiro e começou a ler:

Ghazna, 3° dia de Safar, 406 da Hégira «Filho de Sina, aceita a minha saudação!

«É o teu amigo el-Biruni, de regresso da índia, que te escreve neste mês de safar do ano 1013, para as gentes do Ocidente. É a terceira vez que eu acompanho o Gaznávida às terras do País Amarelo. Que te hei-de dizer? Senão que o filho de Súbiiktegin está em vias de edificar para si um reino desde a margem esquerda do Amu-Daria até à cordilheira Soleiman, a oeste do Indo. Porque te esconderia eu as minhas revoltas? Testemunha do horror, estou dorido por dentro, Sina, meu amigo. Cada nova incursão do Gaznávida em terra indiana deixa o seu rasto de atrocidades.

«Os seus exércitos chacinam tudo o que lhes resiste. Profanamos os templos, quebramos os ídolos hindus. A pilhagem do templo de Somenath, situado na costa sul da península de Guzerate, ficará para sempre presente na minha memória. Esse templo continha uma estátua de Shiva, que, como sabes, é alvo de uma grande veneração por parte do povo desse país. Mahmud tomou esse santuário após um assalto de três dias e três noites. Destruiu sem escrúpulos a estátua do deus e, por razões que me escapam, mandou arrancar as portas para as transportar para Ghazna.(1) Em verdade, o que mais me perturba na personalidade do turco é a sua duplicidade. Como é que um ser pode amar a poesia, como é que pode rodear-se de letrados e de sábios, e possuir na sua alma tanta violência?

«Mas, com o que eu te surpreenderei mais, será dando-te a saber que um dos nossos longínquos amigos acaba, também ele, de chegar à corte. Recordas-te de Firdussi? O poeta dos 60000 versos? Ele faz parte, doravante, dos íntimos do Gaznávida. Julgo saber que lhe destina o seu Livro dos Reis. Mas, é claro, o dinheiro não deve ser estranho a tudo isso.

«Filho de Sina, como, de repente, tudo me parece vazio. Não procurei a proximidade e a protecção do rei de Ghazna, senão para saciar a minha sede de descobrir o mundo. E eis que, hoje, toda a massa de informações, que eu reuni, me parece vã, em comparação com o caminho percorrido para lá chegar. No entanto, continuo a escrever. Comecei uma obra, cujo título provisório é Índia, que pretende ser uma descrição geográfica, histórica e religiosa desse país. Digo a mim próprio que esta obra poderá, talvez, prestar serviços aos viajantes e aos historiadores futuros. Acabei o meu sumário de geometria e de astrologia. Vai incluído no meu correio; gostaria, sinceramente, de conhecer a tua opinião.

«E tu, meu irmão? Como decorre a tua vida? Quero ter a esperança de que a felicidade esteja vigilante a teu lado. Que tenhas, enfim, encontrado a serenidade na corte de Raiy. Escreve-me! Escreve-me, assim que o tempo to permitir. As tuas palavras reconfortar-me-ão e apaziguarão a minha alma atormentada.

Penso em ti. Que o Altíssimo te proteja!» Acabada a leitura, Ali suspirou:

— Tenho, por vezes, a impressão que a existência nada mais é do que um imenso labirinto, em que nós não seríamos senão umas imagens errantes...

De repente, ele levantou-se.

— Anda! Faz-se tarde. Gostaria que começássemos o livro

segundo do Cânone.

O discípulo preparava-se para ir ter com ele, quando se produziu qualquer coisa estranha. Dir-se-ia que, de súbito, o chão se furtava debaixo dos seus pés. No tanque, a superfície da água enrugou-se. Os mosaicos, que coloriam as paredes da sala, deram a ilusão de se desarticular. Depois tudo voltou a estar normal.

— Que se passou? — interrogou Abu Obeid, estupefacto.

— Como hei-de eu saber? Talvez isso viesse da caldeira ou das canalizações de aquecimento.

— É curioso. Parecia que a terra tremia.

— Qualquer que seja o motivo, penso que seria melhor recuperarmos as nossas roupas. Se viesse a declarar-se um incêndio no hammam, que o nosso pudor seja preservado!

Sem perder tempo, os dois homens dirigiram-se para o vestiário, vestiram-se rapidamente e encaminharam-se para a saída.

No instante exacto em que transpunham o limiar, o fenómeno renovou-se, mas, desta vez, com maior amplitude.

— A caldeira já não está em causa! — exclamou Ali.

Ele ia acrescentar qualquer coisa, mas um novo abalo fê-lo perder o equilíbrio, e teve de agarrar-se a um dos pilares de estuque, para não cair.

Alguém gritou:

— Alá nos proteja! O touro mexeu-se!

Sem tentar interpretar o sentido daquela estranha afirmação, Ali agarrou em Abu Obeid pelo braço e correu para o exterior. Um vento de pânico soprava já sobre Raiy. O céu estava baixo, tão negro como o véu das mulheres enlutadas, cheio de nuvens carregadas, que rolavam com lentidão, prontas a rebentar.

A rua principal pôs-se a cambalear. Os marmeleiros e as suas flores brancas deformaram-se, enquanto a torre dos Guebros, essa torre em que os habitantes tinham o costume de expor os seus mortos, vacilava perigosamente.

A mesma voz de há pouco clamou de novo:

— O touro está enfurecido!

— Anda! — gritou Ali para o seu discípulo. — Não se pode ficar aqui. Voltemos para o hammaml

— Mas isso é uma loucura!

— Faz o que te digo! E lá que teremos mais probabilidades de sobreviver!

Um ronco surdo subiu do ventre da terra, coberto, quase imediatamente, pelos gritos de terror dos habitantes. Com Jozjani na sua peugada, Ali meteu-se a toda a pressa debaixo do portal do hammam. Atrás deles, o solo fendeu-se a todo o comprimento. A fractura correu até à praça do mercado, até às portas sul da cidade, até às colinas rochosas que formavam os contrafortes da cordilheira do Elburz.

— É o fim do mundo! — disse el-Jozjani, com o olhar esgazeado. — Ou, então, são os djinns, que acordaram!

— Não, meu irmão. Isto chama-se um tremor de terra. E talvez seja muito mais temível que todos os djinns do universo.

Os dois homens tinham-se acocorado debaixo da arcada sobranceira à sala de repouso, e, do exterior, chegavam até eles os ecos do horror. O wakkad, encarregado do aprovisionamento da fornalha do hammam, o barbeiro, assim como o empregado do vestiário tinham vindo juntar-se a eles. Este último, com o rosto tão branco como o de el-Jozjani, tremia por todos os seus membros.

— O Todo-poderoso nos perdoe — balbuciou ele —, mas a injustiça deve reinar na nossa cidade.

Ibn Sina não fez comentários, mas a frase do homem pertur-bou-o.

Deu-se um terceiro abalo, mais violento do que os precedentes. Desenharam-se rachas ao longo das paredes de tijolo e no tecto abobadado, rasgando o revestimento polido que cobria o chão. Depois tudo se imobilizou numa cortina de fumo. À espreita, os homens já não se atreviam a cometer o menor movimento, nem sequer pestanejos nem respirações, que pudessem ser susceptíveis de irritar os djinns do fundo da terra.

Um tempo infinito passou. El-Jozjani foi o primeiro a mexer-se.

— Creio que acabou — disse ele, com uma voz débil. O empregado do vestiário declarou, gravemente:

— Se a injustiça não for reparada, o touro mexer-se-á de novo. O filho de Sina exclamou:

— Que é que um touro tem a ver com um fenómeno natural?

— Não há nada de natural nas cóleras da terra. Ali olhou-o com indulgência.

— Tu desconheces, sem dúvida, as crenças de Raiy — explicou o wakkad. — Elas têm origem na noite dos tempos. Não deverias rir-te delas!

— Que diz a história do touro? — interrogou Jozjani.

— Diz que a terra está pousada num dos cornos dum imenso touro, que está ele próprio em cima dum peixe, algures no universo das Plêiades. Quando há demasiada injustiça numa parte do mundo, o touro enfurece-se e faz baloiçar a terra de um corno para outro. O tal fenómeno natural, de que fala o teu amigo, produz-se, então, no sítio exacto da terra que cai sobre o chifre do animal. Eis o que diz a lenda. E nós sabemos que a injustiça reina na nossa cidade.

— Que pretendes tu insinuar?

O homem entreabriu os lábios para responder, mas reconsiderou.

— Vinde! — disse ele aos seus colegas. — Vamos ver se resta alguma coisa da nossa cidade!

— Não sei se é a injustiça a causa deste tremor de terra — observou o filho de Sina. — Mas se é o caso, e se se trata de um príncipe privado de um trono, roguemos a Alá que, entre o palácio e o hospital, tenha sido poupado o hospital. Pois pressinto que nos espera uma pesada tarefa.

Uma nuvem de poeira pairava sobre a cidade e os seus mil jardins. A torre dos Guebros e as muralhas estavam velados. Tudo era confusão e gemidos. Sombras errantes perfilavam-se entre as ruínas. Uma mulher soluçava, ajoelhada no meio da ma. Mais adiante, uma criança observava, com ar espantado, aquilo que, sem dúvida, já não era mais do que os restos da sua casa.

— E terrível. Sem instrumentos, sem poções, nada posso fazer por estes infelizes. Temos que nos dirigir imediatamente ao bimaristan, esperando que o intendente tenha dado ordens para que se destaque o dispensário ambulante e se toque à chamada de todos os médicos disponíveis.

Após um último olhar para o bairro em ruínas, Ali e el-Jozjani acorreram ao hospital.

Os feridos chegavam às vagas: velhos, mulheres, crianças. Muito depressa, o local ficou saturado; corredores, salas de vigia, tudo foi ocupado; até se criaram espaços nos depósitos de víveres e nas reservas de carvão.

O intendente geral seguia Ali como se fosse a sua sombra, pronto a reagir a cada uma das suas directivas. Por agora, o xeque estava debruçado sobre o corpo de um jovem, que sofria de uma fractura da tíbia. Uns instantes antes, ele tinha untado a perna com uma solução de óleo canforado, tinha reduzido a fractura, e, agora, estava instalando uma espécie de grade constituída por canas. Quando terminou o trabalho, foi ter com outros feridos, sempre seguido pelo intendente.

Aqui, era preciso estancar uma hemorragia, por meio de um cautério aquecido ao rubro branco. Acolá, suturar uma ferida, utilizando fios de palmeira de pequeníssimo volume. Aplicar pensos simples, feitos de hena. Colocar emplastros de argila ou cinza de rosmaninho, para assegurar a hemóstase. Apaziguar as dores, distribuindo decocções de ópio ou de mélia. Sem interrupção, durante quatro dias e quatro noites, os médicos de el-Sayyeda dispensaram os seus cuidados aos feridos, que não paravam de afluir. Depois houve que enfrentar novos tormentos. Ao poente do sétimo dia, viu-se aparecer os primeiros casos epidémicos. Os doentes, que chegaram ao bimaristan, sofriam todos dos mesmos sintomas: enterocolite fulminante, caracterizada por uma diarreia súbita, durante a qual — Ali sabia isso, por o ter observado no passado — o doente podia eliminar até um litro por hora. Esse estado era acompanhado por uma desidratação severa, uma sede intensa, cãibras musculares, pele enrugada e olhos encovados. A cólera tinha caído sobre Raiy. E contra essa doença a medicina nada podia fazer. Apenas se podia esperar. Esperar que o doente transpusesse o cabo dos seis dias. Se o conseguisse, tinha, então, todas as probabilidades de se curar.

As directivas dadas pelo xeque basearam-se nos princípios que ele próprio enunciara, algumas semanas antes, perante os

seus estudantes:

Se o sintoma se tornar urgente, abandonar-se-á o tratamento da doença, para tratar o sintoma.

Ele preconizou aos seus colegas que dessem ópio aos doentes, a fim de ajudá-los a suportar o sofrimento das cãibras musculares, e que os fizessem beber a maior quantidade possível de água açucarada, para tentar compensar as perdas de substâncias.

Cerca de três semanas mais tarde, o Inverno instalou-se no Djibal, e a população de Raiy ainda não tinha acabado de tratar as suas feridas. Estava-se ao fim da tarde, em pleno jumada el-ula, e o filho de Sina, que tinha concluído a sua visita de inspecção quotidiana, preparava-se para regressar ao palácio. Na sua cabeça ainda se entrechocavam os acontecimentos trágicos daqueles últimos tempos, aos quais viera juntar-se um conflito aberto entre a rainha e o filho. Era para crer que aquele tremor de terra havia também transtornado os espíritos. Caminhava ele, absorto nos seus pensamentos, pelo bairro que vira nascer o imortal Harun el-Rashid, a pouca distância da porta chamada da Planície Fértil, quando chamaram a sua atenção uns clamores. Ele disse para consigo que eram, sem dúvida, comerciantes ou aguadeiros que se descompunham uns aos outros, como de costume, e seguiu o seu caminho. Foi, quando estava chegando à esquina dos jardins reais, que viu uma silhueta feminina correndo para ele, perseguida por um grupo de homens e de mulheres vociferantes, de punhos no ar.

Antes que ele tivesse tempo para analisar a cena, a silhueta veio cair a seus pés.

— Quem quer que tu sejas... salva-me!

Sem hesitar, Ali estendeu-lhe a mão, para a ajudar a levantar-se, enquanto que um círculo ameaçador se formava em volta deles. A maior parte das pessoas reconheceram-no, o que, sem dúvida, temperou a sua animosidade.

— Cheikh el-raisl Afasta-te dessa mulher! Ela vai contaminar-te.

— Sim, ela está atacada pela doença que rói as carnes. Ela é contagiosa.

— De que doença quereis vós falar?

— Da doença que come as carnes: a lepra.

— Como o podeis afirmar?

— Basta que lhe vejas os braços e as pernas. A sua pele está queimada. Sabes tão bem como nós que o tremor de terra destruiu, praticamente, a leprosaria de Deir el-Mar. Esta mulher deve ser uma das que escaparam.

— De qualquer maneira, ninguém a viu jamais na cidade.

Ninguém aqui a conhece.

— Acalmai-vos! — replicou Ibn Sina. — Deixai-me ao menos

examiná-la!

O grupo ergueu os braços, em sinal de desaprovação.

— Mas ela vai matar-te, cheikh el-rais Tu és médico, sabes que essa afecção é contagiosa! Irás, por tua vez, contaminar os teus pacientes.

Ali debruçou-se sobre a mulher. Ela não se tinha mexido, desde que caíra aos seus pés. As suas roupas esfarrapadas deixavam entrever parte da sua nudez. A sua pele era nitidamente mais branca do que a das filhas da Pérsia. Prostrada à maneira de uma gazela acossada, com a cara escondida nas mãos, as pernas dobradas debaixo dela, sentia-se que ela tremia da cabeça aos pés. Então, ele agarrou-lhe o queixo, forçou-a lentamente a levantar a cabeça e viu que os seus olhos estavam cheios de todos os medos do mundo. Estranhamente, ela tinha a pele e o rosto de uma rume. A sua idade era indefinível: ela tanto podia ter trinta anos como dez anos mais. Da sua expressão, simultaneamente pura e atormentada, desprendia-se um encanto inexprimível. Ele ajoelhou-se junto dela e estudou os seus braços desnudados. Os homens tinham visto bem, os lados posteriores, assim como os cotovelos, estavam cobertos de placas escamosas avermelhadas, que lembravam manchas de cera. Ele verificou a mesma coisa nos joelhos e nas pernas. Mas o que o inquietou mais foi a perfeita limitação daqueles eritemas: eram quase simétricos, tal como as placas com orlas nítidas, que lhe fora dado ver em certos leprosos. No entanto, qualquer coisa lhe insinuava que não se tratava da mesma afecção. Ou talvez ele se recusasse a fazer esse diagnóstico.

Ali pôs-se em pé outra vez e deu consigo a anunciar com firmeza aos populares:

— Esta mulher não está tocada pela doença que corrói carnes. Mas apenas por um mal que se lhe assemelha.

— Como podes ter a certeza disso?

— Já te esqueceste da minha profissão? E ele acrescentou, num tom decidido:

— Vou levá-la para o bimaristan. Vós podeis estar descansados, ela ficará isolada e não sairá de lá, senão depois de curada.

— É o cheikh el-rais — disse uma voz, com fatalismo. — Ele sabe coisas que nós ignoramos.

— Mesmo assim, a sua ciência não é infinita!

Deu-se uma certa hesitação entre os presentes, quando Ali ajudou a mulher a levantar-se, mas eles afastaram-se para os deixar passar.

— Continuas a não querer dizer-me o teu nome? — perguntou o filho de Sina, ajudando a mulher a estender-se na única cama disponível do hospital.

Era a segunda vez que ele lhe fazia a pergunta. Até agora, apesar de todos os seus esforços, ela não tinha aberto a boca. Ali examinou-a de novo. Tinha a certeza disso: ela não era árabe. Em volta dos seus grandes olhos castanhos claros, adivinhavam-se vagamente restos de khôl, e ele notou que dos seus cabelos de um castanho avermelhado se desprendiam reverberações azuladas. Tinha ouvido falar nesses reflexos artificiais, obtidos habitualmente pela aplicação de uma tintura de anil e hena, que caracterizava, sobretudo, as mulheres de má vida frequentadoras dos portos de Deybul ou de Sifar.

— Vou morrer?

Ele ficou tão surpreendido de a ouvir que levou um tempo antes de responder:

— Achas que o Altíssimo tiraria a vida a uma criatura que mal começa a descobrir o mundo? Não. Nós vamos tratar-te e tu hás-de curar-te.

— O mundo, conheço-o eu até de mais. Não ficaria decepcionada por ter de deixá-lo.

Quanto mais ele a observava, menos ele conseguia apanhá-la. Mas o mais singular era aquela espécie de sentimento confuso, que, simultaneamente, o impelia para ela e o procurava afastar dela.

— Não se deve falar assim — disse ele, com uma voz neutra. — Não se deve blasfemar contra a vida.

Ela sacudiu a cabeça e puxou para si o cobertor de lã, como que para se proteger das palavras.

— Eu chamo-me Ali ibn Sina. Agora, que sabes o meu nome, não me quererás dizer o teu?

— Qual? Apelidam-me de múltiplas maneiras.

— Nesse caso, dá-me o nome que tu preferes.

— Yasmina...

— Pelo teu sotaque, pela cor da tua pele, reconheço que não és oriunda do Djibal. Não me admiraria que sejas uma filha de Rume. Donde és tu?

Ela iludiu a resposta e retorquiu com uma ingenuidade deliberada:

— Tu és médico, não és? Ele disse que sim.

— Um médico precisa de conhecer o país dum doente, para aliviar os seus sofrimentos?

Ele não pôde deixar de aprovar a lógica da sua réplica e fez o gesto de lhe retirar o cobertor. Ela teve um movimento de defesa, e os seus dedos agarraram-se à lã.

— Se queres que eu te trate, tens de me deixar examinar-te!

— E verdade o que eles disseram? Eu teria a lepra?

— Não creio. Mas confesso que ainda não tenho a certeza. Ele estendeu de novo a mão para o cobertor. Desta vez, ela

não se opôs. Aquilo que devia ter sido uma durra'a, um manto, estava reduzido ao estado de farrapos e desfiava-se lamentavelmente, não escondendo já quase nada das suas pernas frágeis. Mas havia outra coisa: mesmo abaixo da palma da mão, o seu pulso estava lacerado. A cicatriz, embora antiga, não deixava dúvidas quanto à origem. Mas donde vinha ela, que terrível viagem tinha ela feito, de que espelunca de Samarcanda ou de Chiraz tinha ela fugido, para estar num tal estado?

Ele fez um esforço para se concentrar nas placas escamosas que tinha visto, uma hora antes. Mais uma vez, ficou admirado com as suas localizações: cotovelos, joelhos, couro cabeludo lados posteriores dos antebraços e das pernas. Ao examiná-las mais atentamente, verificou que as escamas da pele estavam cobertas por uma fina película transparente.

Tirando do seu estojo uma curta lâmina afilada, imobilizou um dos braços da mulher e começou a raspar delicadamente o eritema.

Todo o corpo dela se retraiu.

— Não tenhas medo, Yasmina! Não vais sentir nada. Prometo-te.

— Um homem a prometer... — disse ela, desenganada. — As promessas dos homens são parecidas com as ondas do mar: morrem tão depressa como nascem.

Ali parou a lâmina, e uma expressão de desafio iluminou a sua fisionomia:

— Nesse caso, não te prometo nada; afirmo. Ele raspou delicadamente a película, que cobria a placa, e verificou que, por baixo, a derme se assemelhava a um orvalho sanguinolento.

— Recordas-te de quando estas marcas apareceram?

— Há umas semanas. Nos cotovelos, primeiro. Depois, nos joelhos.

Ali meditou, um momento, antes de lhe perguntar:

— Sentiste uma fraqueza geral, sobretudo, muscular? A jovem disse que não com a cabeça. Dores nas mãos? Na planta dos pés? Ela tornou a responder negativamente. Então, ele apalpou-lhe

o pulso e ficou, atentamente, à escuta do sangue que palpitava à flor da pele. Ao mesmo tempo, tal como o fiel da balança de um comerciante de cereais, o seu espírito sopesava, avaliava, acrescentava e subtraía tudo quanto ele possuía como ciência. Lepra? Ou, então, doença da pele, cuja origem lhe era desconhecida? Ele só podia proceder por exclusão de partes: as placas, que ele observava, não eram hipopigmentadas. A jovem não parecia sofrer de alopecia das sobrancelhas, e as lesões não eram convergentes. Os seus dedos articulavam-se normalmente. Não obstante, restava um sintoma que ele ignorava ainda. Pegando outra vez no cotovelo da mulher, ele avisou-a:

— Agora, já não posso afirmar que a minha acção não causará dor. Peço-te, simplesmente, que não me leves isso muito a mal.

Ela aquiesceu com um movimento das pálpebras.

Pondo o indicador no centro exacto do eritema, carregou na pele. A jovem soltou, no mesmo instante, um gritinho de dor. Para seu grande espanto, a reacção de Ali foi oposta à que ela teria podido imaginar. O seu olhar brilhou com uma expressão triunfante, e ele anunciou, aliviado:

— Não é lepra! Desta vez, tenho a certeza disso.(1) Ela abriu muito os olhos, com o espanto.

— Desde quando é que a dor seria um indício favorável?

— A dor é, por vezes, um indício saudável. Em todo o caso, quanto ao que me preocupava, é uma reacção concludente.

— Não compreendo.

— Seria fastidioso desenvolver a minha conclusão. Fica sabendo, simplesmente, que, se se tratasse de lepra, o centro dessas placas deveria estar completamente indolor.

Ela ergueu-se ligeiramente e pareceu aceitar o diagnóstico com indiferença.

— Então, Deus não quer lá infiéis...

Ele não procurou aprofundar o comentário e ela perguntou:

— Poderás fazer desaparecer as marcas desta doença?

 

(1) Muito provavelmente Ibn Sina encontrou-se perante o que a medecina actual chama Psoríase. Uma doença de pele, cuja causa continua sendo desconhecida. (N. do T.)

 

— Penso que sim. Vamos começar por decapar a película, que cobre as placas, com óleo de zimbro. Depois será preciso expor o teu corpo ao sol, o mais amiúde possível, enquanto reconstituímos o seu vigor.

— Espero que não estejas enganado, Ali ibn Sina, e que o teu tratamento dê resultado. Perdoa-se muita coisa a uma mulher, mas, raramente, a sua fealdade.

— A fealdade está tão afastada das tuas feições como a mentira da verdade.

Julgou que ela ia responder, mas os seus olhos tinham-se enevoado, e ela voltou-se para o lado, bruscamente, para que ele não a visse chorar.

O xeque tratou-a como se trata o próprio filho. Não se passou um só dia, sem que ele aparecesse à sua cabeceira; sem que ele próprio lhe servisse a comida; sem que a acompanhasse até aos jardins do bimaristan, a fim de que ela beneficiasse daquele sol que a sua doença tanto necessitava.

E como Jozjani se admirasse dessa dedicação excessiva a um ser de quem ele nada sabia, e que, ainda para mais, não exprimia a sua gratidão em momento algum, ele deu esta réplica pelo menos enigmática:

— Abu Obeid... Quando a Providência coloca no nosso caminho uma irmã regressada das sombras, seria sacrilégio desviarmo-nos...

 

                       DÉCIMA QUARTA MAKAMA

O vizir Ibn el-Kassim tinha dificuldade em dominar a sua excitação. Interrompeu-se, para retomar o fôlego, antes de concluir:

— A cabeça da Sayyeda rebolará pela cinza...

Buscou em seu redor um sinal de adesão. Sentado, em frente dele, com o olhar fixo nos seus botins, vestido com uma ampla djukha, encontrava-se Majd el-Dawla. A esquerda deste, com ar grave, estava instalado o sêpeh-dar, Osman el-Bustani, comandante da guarnição aquartelada no forte de Tabarak. A direita, com uma veste de brocado cor-de-malva, achava-se o grande chanceler. De pé, mais atrás, destacava-se no claro-escuro Hosayn, o grande cadi.

Do tecto abobadado, o único lustre de bronze difundia uma luz pálida. E, ao longo das paredes castanho-avermelhadas, tremelicavam arabescos de tons uniformes.

O chanceler exprimiu-se em primeiro lugar:

— O plano parece-me perfeito. Por minha parte, não lhe noto quaisquer defeitos.

O vizir inclinou a cabeça com satisfação, depois a sua atenção voltou-se para o jovem soberano.

— Pareces perplexo, Excelência? — interrogou Ibn el-Kassim. Majd apontou o indicador para o comandante:

— É dele que tudo vai depender. A minha mãe é uma mulher poderosa. Para que tenha êxito o golpe de Estado, precisaremos do apoio total e indefectível da guarnição. Temo-lo?

O sêpeh-dar afastou as mãos, num movimento de oferenda:

— Inteiramente. Isso garanto eu. Sua Excelência sabe que, de todas as tropas do Djibal, as de Tabarak são as mais temíveis.

— Estou convencido disso — disse Majd. — Mas sei também o poder da minha mãe. E não esqueci o malogro da minha primeira tentativa.

O vizir apressou-se a tranquilizá-lo:

— Foi há três anos. Estavas, então, mal secundado. O que não é o caso, hoje. Eu to afirmo: daqui a trinta e cinco dias muito precisamente, ao despontar da Primavera, serás sagrado rei do Djibal. A justiça terá recobrado os seus direitos.

— Inch Allah! — disse o chanceler. — O Clemente está do lado do Justo.

Foi então que o grande cadi se decidiu a tomar a palavra. Fê-lo com lentidão e com ar preocupado:

— Gostaria de mencionar um pormenor, que poderia ter a sua importância. Todos sabeis que, se a rainha se sentisse ameaçada, não ficaria de braços cruzados. Uma parte do exército continua a ser-lhe fiel. E...

O comandante interrompeu-o:

— Uma parte, somente. Mas eu insisto, o coração das forças está aqui, em Tabarak. Não é a guarnição daylamita, formada por escravos turcos, que nos resistirá.

— É provável. Mas essa será também a visão da rainha. Ela procurará alianças. Mandará pedidos de socorro. Não podeis ignorar que mantém relações privilegiadas com o príncipe curdo, Hilal ibn Badr. O eventual apoio deste teria, então, um grande peso na balança. Lembrai-vos de que, há seis anos, na mesma situação, ela não hesitou em pedir a ajuda de Hassanwaih, o próprio avô de Badr.

— É verdade. Mas, desta vez, beneficiaremos do efeito de surpresa — objectou o chanceler real. — Ela não disporá do tempo necessário para concretizar uma nova aliança com os Curdos.

O cadi cruzou os dedos sobre o peito e encaminhou-se para o príncipe.

— Excelência! Isto não é tudo. Há também um outro elemento, que toda a gente parece descurar.

— Estou à tua escuta.

O cadi olhou de alto a baixo, sucessivamente, o vizir e o chanceler:

— O nosso príncipe tem um irmão. Shams el-Dawla. Tê-lo-íeis vós esquecido?

Majd replicou com irritação:

— Que tem o meu irmão a ver com este debate? Ele é governador de Hamadhan. Ele reina sobre todo o Kirmanshahan. Ele nunca foi lesado no que quer que seja. E...

O emir acentuou com um desprezo voluntário estas últimas

palavras:

— E ele não gosta muito mais dessa... mulher que eu próprio...

— O príncipe tem razão — confirmou Ibn el-Kassim. — Shams el-Dawla não tem por sua mãe grande apreço. Ele sabe que o irmão é, há muito tempo, vítima duma injustiça.

— Nesse caso — retorquiu o grande cadi, franzindo um pouco os olhos —, porque é que, até hoje, ele nunca fez nada a favor do nosso soberano?

Majd voltou a baixar o olhar para os seus botins.

— Porque se eu, Majd el-Dawla, filho de Shirine, tenho razões maiores para entrar em conflito com a rainha, o mesmo não sucede com Shams. Travar batalha contra a sua própria mãe não é coisa fácil. Há que ter verdadeiros motivos. Não é o caso do meu irmão.

Procurando, talvez, tranquilizar-se, concluiu:

— Não. O meu irmão não agirá. Nem num sentido, nem no

outro.

Uma mudança do vento fez, bruscamente, tremer a luz debaixo da abóbada, criando a ilusão muito breve de que as próprias personagens vacilavam.

Ibn el-Kassim levantou-se.

— Creio que demos a volta à questão — disse ele, com firmeza. — No primeiro dia da Primavera, o nosso jovem príncipe estará sentado no trono de Raiy.

Todos aquiesceram. O príncipe foi o primeiro a retirar-se, seguido pelo chanceler e pelo grande cadi. Só ficaram na sala o vizir e o comandante.

Este último passou lentamente as palmas das mãos pelas faces e declarou, um pouco cansado:

— Compreendo a inquietação deles.

— Nem pode ser de outra maneira, visto que eles ignoram aquilo que eu sei.

— Talvez fosse preciso tranquilizá-los.

— Para isso, teria eu que descobrir o essencial do meu plano. Ora, isso é impossível. Cedo de mais. Perigoso de mais.

— Tens, então, tanto medo de que um brusco impulso patriótico inverta a determinação deles?

O vizir cravou, literalmente, o seu olhar no do sêpeh-dar.

— Escuta-me bem, Osman ! Sabes perfeitamente que o nosso braço, ainda que seja forte, não o é suficientemente para vencer a rainha. Dentro de trinta e cinco dias, não será apenas a tua guarnição a invadir a nossa cidade. E na palma duma outra mão que Majd el-Dawla será levado ao trono. Isso, bem vês, não me arriscarei eu a revelar...

Quando deixou a galope o forte de Tabarak, o príncipe Majd el-Dawla não notou, em nenhuma ocasião, a sombra do cavaleiro que o seguia. Nem tampouco a descobriu, ao meter-se na passagem secreta, que lhe permitia regressar ao palácio.

O vulto continuava no seu encalço, quando ele bateu à porta de Ibn Sina, e viu o médico aparecer no limiar e o príncipe entrar para o quarto discretamente.

— Eu sei que é tarde — disse Majd, deixando-se cair no divã, que estava ao pé da janela. — Mas tinha necessidade de falar com alguém...

— Qualquer que seja a hora, tu és bem-vindo. El-Jozjani esboçou um movimento discreto em direcção à

porta, mas, com um sinal, o príncipe convidou-o a ficar. Enquanto falava, este notara que Ali tinha posto o càlamo no tinteiro.

— Ainda?... Mas tu desconheces a fadiga? Tenho-te observado, desde a tua chegada. Quando não tratas, ensinas, ou, então, escreves. E, mesmo quando não fazes nada disso, desconfio que trabalhas na tua cabeça. Estou enganado?

Ali serviu uma taça de vinho temperado com especiarias, que ofereceu ao soberano.

— Há duas espécies de homens: uns, que procuram alcançar um objectivo e não o conseguem; outros, que o alcançam e não se dão por satisfeitos com isso. Por conseguinte, Excelência, ser metade de cada espécie é um fardo, que custa muito a transportar...

Majd recusou a taça com as costas da mão.

— Não, esta noite não. O meu humor está demasiado perturbado e a minha alma demasiado inquieta.

Ele dirigiu de novo a sua atenção para a mesa de trabalho.

— Em que ponto vais na redacção dessa obra imponente, de

que me falaste?

— O Cânone? Estou chegando ao fim do segundo livro.

— Se não me falha a memória, ainda te restam outros três. Ali confirmou.

— Um longo caminho... El-Jozjani apressou-se a indicar:

— Um caminho que teria podido ser mais curto, se o xeque se limitasse a esta tarefa.

— Queres, sem dúvida, referir-te ao seu trabalho no bimaristan? — interrogou o príncipe.

— Não, Excelência. Trata-se de outra coisa: o espírito do rais é uma eterna efervescência. No instante em que estamos a dar início ao capítulo dos medicamentos simples, ele interrompe-se para me ditar um teorema de lógica. E quando eu julgo o seu cérebro enfim liberto, ele aborda as propriedades da linha equinocial. Se...

Ali interrompeu o seu discípulo:

— Abu Obeid, eu conheço as tuas razões de queixa. Mas importunamos o príncipe com isso tudo. Deixa-me antes ofere-cer-lhe um presente!

Deixando o seu lugar, pegou num manuscrito, que estendeu

ao príncipe:

— Concede-me a honra de aceitar este modesto testemunho de amizade! É uma obra que eu escrevi unicamente para ti. Está dedicada a ti. Quero ter a esperança de que a sua leitura te abra horizontes mais optimistas, mais filosóficos, e, sobretudo, espero que ela te ajude a voar acima da mediocridade dos maus. Majd agarrou no manuscrito e leu o título em voz alta:

— Kitab el-Maad... O Regresso da Alma...

Ele levantou a cabeça e perguntou, com interesse:

— Cheikh el-rais, acreditas, então, na imortalidade?

— Na da alma, sem dúvida alguma. Majd abanou a cabeça, com perplexidade. Ali lembrou-lhe:

— Tinhas necessidade de falar com alguém...

— Sim. Sobretudo, necessidade de conselhos. Que pensarias tu de um filho que decidisse fazer guerra à sua própria mãe? Mesmo que isso devesse levar à sua morte...

O filho de Sina sacudiu a cabeça, embaraçado.

— Que pergunta essa, Honra da nação!... Que provação tu me infliges!... Porque não me interrogas sobre a manutenção da Terra no centro da esfera celeste ou sobre a unidade divina? Como me seria, então, fácil responder-te !

— Porque nem a esfera celeste nem a unidade divina me interessam, cheikh el-rais. Só me preocupa o meu destino terrestre.

E o príncipe insistiu.

— Eu poderia dizer-te — começou Ali — que a melhor maneira de alguém se vingar dum inimigo, ainda que seja a sua própria mãe, é nunca se parecer com ele. Poderia dizer-te também que não nos devemos convencer de que aquilo que desejamos é mais importante do que aquilo que possuímos. E garantir-te que nenhuma ambição vale o preço de uma vida humana...

Majd replicou, com um gesto de impaciência:

— São apenas frases abstractas. Eu quero uma resposta de homem.

E repetiu, espaçando as palavras:

— Um filho tem o direito de fazer guerra à sua própria mãe? Ali reflectiu, antes de dizer:

— Vou citar-te as palavras dum filósofo judeu ignorado, cujos escritos eu descobri, um dia, quando me encontrava na biblioteca de Gurgandj(1): Quando a estupidez esbofeteia a inteligência, então a inteligência tem o direito de se comportar estupidamente.

O xeque fez uma pausa e acrescentou:

— A minha resposta basta-te, Honra da nação?

O soberano levantou-se do divã e fitou Ali com um olhar sombrio:

— Ignoro quem seja o teu filósofo judeu, mas, como todos os Judeus, ele devia ser finório.

— Nesse caso, eu devo ser terrivelmente judeu, Excelência, pois não vejo outra resposta para a tua pergunta...

— Tens consciência de que ela deixa a porta aberta a todas as possibilidades, sem limites?

— Dentro dos limites do ultraje.

Majd el-Dawla contraiu, imperceptivelmente, o lábio inferior. O seu rosto estava muito pálido. Fitou o xeque, durante alguns instantes, e disse com determinação:

— Portanto, até à morte...

Sem esperar por mais, correu para a porta e desapareceu.

O vulto, que os escutava, mal teve tempo para se ocultar num recôncavo do corredor...

 

(1) Não era a primeira vez que eu ouvia o meu mestre falar desse filósofo, um tal Ben Gurrno, natural das costas do mar dos Rumes. A frase citada provinha de uma obra intitulada Colectânea de Pensamentos, que o xeque sabia perfeitamente de cor. Agora, que escrevo estas linhas, estou na posse dessa compilação, e ela merece toda a minha admiração. (Nota de Jozjani.)

Ao cabo de numerosas peripécias, consegui, por minha vez, tornar a encontrar a colectânea em questão. Que eu saiba, devem existir dois ou três exemplares no mundo. Pode-se perguntar por que motivos Ben Gurno continua sendo, ainda hoje, desconhecido para o grande número e também para os meios literários. (N. do T.)

 

                             DÉCIMA QUINTA MAKAMA

— O mestre dos sábios seria também o mestre dos assassinos?

A rainha parou de torturar o seu lenço de seda e deitou-o ao chão com raiva mal contida. O xeque não se mexeu.

— Nunca encorajei o assassínio. Nunca. Sei melhor do que ninguém o preço da vida.

— Mentira! Eu estou a par de tudo. A vida não tem mais importância aos teus olhos do que um prato de lentilhas! Em todo o caso, a MINHA vida.

— Isso é falso, Sayyeda.

Um relâmpago passou pelos olhos violeta da rainha.

— Quando a estupidez esbofeteia a inteligência, a inteligência tem o direito de se comportar estupidamente...

Ela pronunciara pausadamente as palavras, indo buscar a cada sílaba um pouco mais de furor.

— Os teus espiões têm o ouvido apurado... Isso é indiscutível. Mas eu não fazia mais do que citar um filósofo e...

— Judeu!

Ele fez um trejeito condescendente:

— Judeu, eu reconheço isso. Mas uma frase tirada do seu contexto pode ser interpretada de mil maneiras. E...

A Sayyeda interrompeu-o abruptamente:

— Que sentido darias tu a esse género de máxima? Eu só vejo aí um encorajamento ao assassínio! E isso que tu procuras? A morte de uma mãe, ferida pelo seu próprio filho? É isso que tu vieste semear debaixo do meu tecto?

— Alteza... eu não semeei nada de novo, que não crescesse já, antes da minha chegada a esta cidade.

— Que queres tu dizer?

— Que há vários anos que o joio cresce no campo. A doença de Majd el-Dawla é esse joio.

— E, em lugar de procurar tratar, não encontraste nada melhor do que acelerar a doença por meio de conselhos manhosos e injustos!

— Não sei o que os teus espiões te relataram. Mas autoriza-me a lembrar-te que dar a sua opinião sobre um assunto não é aconselhar.

A rainha alisou maquinalmente o seu triplo queixo, enquanto

fechava os olhos.

— Negarias tu que o príncipe te fez uma visita, ontem à noite?

— De modo nenhum.

— Reconheces que haveis falado do diferendo que nos opõe?

— Ele tinha necessidade de falar com alguém... Eu escutei-o. Como se escuta um amigo.

As feições da Sayyeda endureceram. Tudo indicava que a sua paciência se ia esgotando:

— Escuta-me bem, filho de Sina!

Era a primeira vez que ela lhe chamava assim.

— Ou deveria eu dizer... Ben Sinal Ele julgou ter ouvido mal.

— Eu repito: Ben Sina. Mas eu, quando me sirvo das palavras, nunca é a brincar. Nunca é inocente.

Ela calou-se, para melhor avaliar o efeito das suas palavras. Depois, com um desprendimento deliberado, ergueu lentamente a mão direita, abrindo os dedos, e pôs-se a olhar fixamente o diamante de grande pureza que ornava o seu dedo mínimo:

— Não serias tu mais do que um ladrão de sêdjadeh(1) Ibn Sina? As tuas origens são dúbias. Ninguém desconhece a conversão do teu pai ao ismaelismo.

 

(1) O sêdjadeh é o pequeno tapete de oração. A expressão «roubar um sêdjadeh na mesquita» significa ir lá por hipocrisia. (N. do T.)

 

— O meu pai era um bom muçulmano.

— Poderás tu dizer outro tanto?

— Não encontrarás, em todo o país, chiita mais convicto do que eu...

A rainha deu um risinho divertido.

— É isso... Um chiita convicto. Como a tua mãe, sem dúvida? Ele pareceu cambalear, como que desequilibrado por um invisível embate.

— A minha mãe — sussurrou ele, com uma voz que a emoção tornara trémula —, a minha mãe era boa e digna.

Ela ia interrompê-lo, mas, desta vez, foi ele quem impôs o silêncio:

— Esta discussão é estéril e arrisca-se a levar-nos ambos para areias movediças. Por isso, prefiro ficar por aqui. A partir deste instante, considera-me demissionário das minhas funções no bimaristan. Sairei do palácio e, se preciso for, da cidade.

— Nem pensar nisso!

Saltando para fora do trono com a nervosidade de uma leoa, desceu os três degraus de mármore cor-de-rosa, que a separavam dele, e avançou na sua direcção, com o indicador apontado:

— Nem pensar! A tua condição de sábio dispensa-te de respeitar o protocolo? Ninguém se despede da rainha, é a rainha que despede! Ninguém se demite, é a rainha que manda embora! Permanecerás no teu posto, enquanto eu entender que isso é necessário e útil a esta cidade. É claro?

Estás à beira dum precipício... um passo a mais e...

Ao ressurgir na sua memória, essa frase, pronunciada por el-Massihi uns anos antes, produziu nele o efeito de algo já vivido. Ao mesmo tempo, ele tomou a plena medida da sua imensa vulnerabilidade. Ante a ameaça dos príncipes, a cidadela, ao abrigo da qual todo o indivíduo julga viver, não é, na realidade, mais do que uma miserável palhota. Cerrando os punhos, inclinou-se com deferência, sendo o primeiro a admirar-se de ter encontrado coragem para declarar:

— Será feito conforme é desejo da rainha.

Um clarão vitorioso perpassou pelo olhar da Sayyeda.

— E melhor assim, cheikh el-rais.

Ela teve prazer em observá-lo, em silêncio, deleitando-se com o que, sem dúvida, considerava como uma guerra ganha.

— Mas acrescentarei isto: ficaríamos, verdadeiramente, muito contrariados, se, de futuro, soubéssemos que o meu filho recebia outra vez conselhos dum filósofo. Mesmo que este fosse judeu... Presentemente, podes retirar-te.

A luz desfazia-se em franjas por detrás dos contrafortes dos montes Elburz. O poente não estava longe de abranger todo o Djibal.

Ali deu folga às rédeas, pondo o seu cavalo baio a passo, para evitar que ele tropeçasse ao longo da senda tortuosa que levava até à saliência natural escavada na montanha. O ar frio fazia tremer os ramos despidos das raras árvores naquela paisagem atormentada. Com um bater de cascos assustado, o animal por pouco não escorregou para o abismo, que se abria à esquerda da vereda, e recuperou o equilíbrio ajusta.

Alcançaram, enfim, um promontório formado por lava endurecida, no centro do qual se destacava um rochedo arroxeado, sulcado por ranhuras. Ali deu umas palmadinhas no pescoço do animal, apeou-se e atou a arreata a um tronco descarnado. Depois desprendeu da sela a sua sacola. Não era a primeira vez que ele ali vinha. Conhecia aquele sítio de cor, palmo a palmo. Nem as ervas bravas, nem a terra húmida, em que se marcavam as pegadas das suas botas, nem tampouco as rochas de obsidiana tinham segredos para ele. Era ali que ele havia dado início ao estudo dos movimentos geológicos. Ali, também, que redigira a sua epístola sobre a Causa da manutenção da Terra no seu lugar. Pegou numa folha, no càlamo e no tinteiro, e deixou vagabundear o seu espírito.

Ao longe, para o lado do norte, a superfície etérea do mar dos Cazares formava como que um espelho de prata. O leste oferecia a crista nevada do Dêmavend, o cume mais alto de toda a Pérsia.(1) A oeste, estendia-se a imensa planície amarela d Rihab.

Ali sentiu, pouco a pouco, voltar a ele a serenidade. Sob a influência do silêncio, as frases da Sayyeda esfumavam-se. A paz retomava-lhe lentamente a alma. Ele estava bem. Estava só. Fora de alcance para o tumulto e a mediocridade dos seres humanos. Pegou no càlamo e, utilizando a superfície plana do rochedo como se fosse uma escrivaninha, escreveu no cabeçalho da folha: Remédio para os diversos erros administrativos. E mais abaixo:

Não convém que aquele que deve governar os animais saia ele próprio de entre os animais. Não convém que aquele que deve governar os celerados saia ele próprio de entre os celerados. Não convém que aquele que deve governar a massa saia ele próprio do meio da massa... Não, é preciso que ele seja pelo menos algum rapazinho mais inteligente do que ela.

O Sol desaparecera do outro lado da Terra. A noite aí estava. As palavras diluíram-se nas trevas.

Ali arrumou os seus folhetos. O frio queimava-lhe um pouco os dedos. Enrolou-se na manta e deitou-se no chão. Já sabia que o sono levaria tempo a chegar...

O terceiro dia encontrou-o ainda no mesmo sítio. E os dias seguintes também. Assim por diante, até ao sétimo. As folhas amontoaram-se à volta dele. Sentado com as pernas cruzadas, frente ao horizonte, permanecia imóvel. De tal maneira que se poderia confundi-lo com a paisagem. O tinteiro estava seco. Seco como ficaram os traços da sua fisionomia. Ele nada bebeu, nada comeu, desde há sete dias. Os seus olhos encovaram-se, mas sem nada perderem do seu brilho; dir-se-ia até que se tornaram mais vivos.

A aurora subia lentamente do mar. Ali levantou-se. Com os braços ao longo do corpo, murmurou: — Deus é Grande...

Foi um pisar de ervas, misturado com o passo incerto de um cavalo descendo a senda, que o fez voltar-se para trás. Um cavaleiro apareceu, ao rodear as árvores. Não, eram dois. Pela aparência do primeiro, Ali reconheceu, imediatamente, el-Jozjani; o segundo era-lhe desconhecido. Quando ele o identificou, a sua surpresa foi imensa: tratava-se da mulher das escamas

na pele, Yasmina.

Os dois cavaleiros apearam-se quase ao mesmo tempo. E el-Jozjani correu para o seu mestre. Incapaz de proferir uma só palavra, agarrou-o pelos ombros e apertou-o com todas as suas forças. Quando afrouxou o seu amplexo, tinha os olhos cheios de lágrimas.

— Cheikh el-rais... — balbuciou ele. —Alá é misericordioso!

Ele restituiu-te a mim.

Ali pousou uma mão fraterna na face do discípulo.

— Porque haveria ele de me tirar a ti?

A sua atenção voltou-se para a jovem, que continuava a não dizer nada. Mas ela antecipou-se à sua pergunta:

— Julguei que tivesses morrido...

— Então, já não te lembras? Não foste tu que me disseste, há pouco tempo, que o Todo-poderoso não queria lá infiéis?

— Procurámos-te em toda a parte! — gemeu el-Jozjani. — Noite e dia. Revistámos todos os recantos de Raiy. E tu estavas aqui... Mas como pudeste resistir ao frio? Sem comida? Sem água?

— Ao que parece — fez notar Yasmina, com uma pontinha de ironia, —Alá dotou o xeque duma resistência física pelo menos igual à sua capacidade intelectual.

Ali voltou-se lentamente para ela:

— Porque estás tu aqui?

Foi el-Jozjani quem respondeu:

— Ela estava inquieta por já não te ver no bimaristan. E dirigiu-se a mim.

O filho de Sina repreendeu-a com fingida severidade:

— Deixaste, pois, o hospital sem autorização do primeiro director. Sabes que isso é grave?

— Eu estou curada, cheikh el-rais. Podes verificar. Unindo o gesto à palavra, arregaçou as duas mangas da sua

vestimenta e mostrou-lhe os braços nus. Uma simples olhadela bastou ao médico para comprovar que ela dizia a verdade. Não havia mais vestígios dos eritemas.

— És um bom médico...

Decididamente, uma vez mais aquela mulher o intrigava. Ele notou que a breve estada no hospital a tinha profundamente transformado. O seu rosto, queimado pelo sol, a que ela se tinha exposto, reencontrara a sua beleza antiga. Mas tratava-se, verdadeiramente, de beleza? Não, tratava-se de outra coisa. Talvez aquela aura que emanava de todo o seu ser; a maneira como ela se mexia; o som forte e terno da sua voz. Ou até aquela vibração do olhar, absolutamente singular. Na realidade, ela era simplesmente mulher. Mulher até no ar que ela expirava, no perfume exalado pela sua pele.

— Tive medo por tua causa...

Ela exprimira-se num tom neutro. Foi na sua expressão que ele decifrou o fervor das suas palavras. Ela acrescentou, suavemente:

— Não achas que seria tempo de regressar ao palácio?

A noite cobria Raiy.

Com a cabeça repousada sobre o ventre de Yasmina, Ali parecia dormir, mas, na realidade, ele respirava o cheiro a mel da sua pele.

Tinham feito amor. E, sem demora, ele se interrogara quanto à exactidão dessa expressão. Podia, verdadeiramente, aplicar-se ao que eles acabavam de conhecer? Por todo o tempo que o seu amplexo durara, se haviam insinuado no seu espírito reminiscências vindas de algures, que se poderia crer que subiam da noite dos tempos. Cada um conhecia, de antemão, os gestos, as respirações do outro, com a presciência dos seus desejos recíprocos, espantosamente antecipados. A experiência de amores passados havia-lhe ensinado que era raro que, logo à primeira vez, dois corpos ainda desconhecidos na véspera pudessem alcançar a perfeita osmose. No entanto, o prodígio dera-se. Eles tinham bebido um no outro, os seus lábios tinham-se misturado, juntado, casado, com o fervor de uma obra de barro que torna ao seu molde. Eles tinham-se queimado, consumido, sem saber já qual deles era o sebo e qual era a chama. Na verdade, não tinham feito amor... tinham-se apenas reconhecido.

— Que se passa comigo? — disse Ali, como se falasse para si próprio. — Há qualquer coisa a viver em mim, que eu não conhecia até a esta hora. Tu compreendes?

Ela passou meigamente a mão pela nuca dele.

— Compreendo, Ali ibn Sina. Mas, ao contrário de ti, embora nunca tivesse sentido isso de que tu falas, eu sabia que isso existia. Confusamente. Como quem sabe de uma terra, sem jamais a ter conhecido.

Ele veio deitar-se junto dela. Sentia-se que estava profundamente perturbado.

— No entanto, não se deve... Eu não.

Os seus dedos fecharam-se, bruscamente, sobre a pedra azul, que ele trazia pendurada ao pescoço.

— Vês isto? — começou ele, devagar. — Eu tinha, então, apenas dezoito anos. Foi uma vizinha que mo ofereceu, para me agradecer ter-lhe salvo o marido. Ainda me lembro das palavras que ela pronunciou. E ela concluiu, dizendo: «Nenhum mau-olhado terá poder sobre ti...» Eu sou um homem de ciência e não acredito no irracional. Até escrevi uma obra sobre o assunto, intitulada: Refutação das Predições baseadas nos horóscopos. Contudo, qualquer coisa me diz que, sem esta pedra, já teria morrido mais do que uma vez. Pois, desde que saí de Bukhara, a minha vida tem decorrido sobre o gume duma cimitarra. E hoje...

— Hoje?

— Há muitas coisas que tu desconheces. Raiy vai passar por acontecimentos graves. Uma vez mais, a minha situação virá a ser das mais precárias. Arrisco-me a deixar aí a minha cabeça.

A expressão da jovem transformou-se de repente.

— Tu? Tu estarias em perigo? Ele confirmou.

— Perdoa-me, mas eu nada conheço dos problemas desta cidade.

— É verdade. Já me esquecia.

Bruscamente, ele deu-se conta de que continuava a nada saber acerca daquela mulher. E perguntou-lhe:

— Donde és tu? Fala-me da tua vida!

Ela manteve-se em silêncio, antes de responder a meia voz:

— Achas, realmente, que seja útil? Saber donde vimos, quem somos, isso modificaria o presente?

Ela aproximou-se um pouco mais dele.

— Não me peças que desperte a minha memória! Há portas que estão fechadas; abri-las só me faria sofrer. Peço-te esse favor. Talvez, que um dia, mais tarde...

Ele decidiu respeitar o seu desejo. Ela prosseguiu:

— Porque dizias tu que iam ocorrer acontecimentos graves?

— Creio que estamos nas vésperas duma revolução. Esta terá a triste originalidade de opor uma mãe ao seu filho: a regente actual ao príncipe herdeiro.

— Pode-se derramar o próprio sangue?

— Tu estás longe dos meandros da política e da sedenta ambição dos príncipes que nos governam. Para essas pessoas, a justiça não passa daquilo que dá proveito ao mais forte. Sempre, de qualquer facção que sejam.

Um sorriso assomou aos lábios de Yasmina:

— Se existe em toda a Pérsia um homem que odeia as coisas do Estado, parece-me bem que ele está ao pé de mim. Mas a tua condenação não é um tanto simplista? Não é preciso que os povos sejam governados? Um rebanho não tem necessidade dum pastor?

— Só com a diferença que tu imaginas pastores interessados no bem-estar das suas rezes. Infelizmente, estou persuadido de que a maioria deles não tem outro desejo senão utilizá-las em proveito próprio. Mas o que mais me apoquenta, é que os povos sofrem de uma dupla enfermidade: a ausência de memória e a cegueira. O que lhes confere a estranha capacidade de enaltecer aqueles que odiavam, na véspera, e de odiar, no dia seguinte, aqueles que são, ainda hoje, venerados.

— E tu? Que contas tu fazer?

— Nada. Esperar. Estou num dos pratos da balança. Só posso esperar que ele se incline a meu favor.

— Para o lado da rainha?

— Não. Para o do príncipe...

— Qual é o teu pressentimento?

— Vou surpreender-te... mas tenho a impressão que os dois pratos da balança vão ser varridos...

Os olhos de Yasmina arredondaram-se, e ela sentiu o corpo inteiro invadido pelo Inverno.

— É por isso que tu dizias que «não se deve...»? Ele atraiu-a para si.

— Aqueles que se aproximam de mim, passam pelos mesmos perigos que eu. A sua existência vem ter com a minha em cima do gume da cimitarra. Tenho eu o direito de os expor assim? Alguém tem o direito de arriscar a vida daqueles que ama?

Ela não respondeu logo, mas ele sentiu que algo se havia quebrado dentro dela.

— Achas que estou enganado? Ela sacudiu a cabeça.

— Não sei, filho de Sina. Apenas sei que, no passado, já vivi sobre esse gume, de que tu falas, para só conhecer sofrimento e aviltamento. Por isso, perdoa-me se me custa tanto pensar que, hoje, eu poderia, pela primeira vez, pagar esse preço, mas em troca da felicidade...

Ela mal tinha acabado de falar, quando, bruscamente, como o movimento da maré que sobe pelo areal, ressurgiu na memória de Ali uma das predições do músico cego. Fora, há muito tempo, na noite do Turquestão: Tu amaste, mas ainda não conheces o amor. Encontrá-lo-ás em breve. Ele terá a tez do país dos Rumes e os olhos da tua terra. Sereis felizes, muito tempo. Negá-lo-ás, mas será esse o teu amor mais durável. Ele ficará contigo, por tu o teres encontrado. Ele não está longe, dorme algures entre o Turquestão e o Djibal.

Nas semanas que se seguiram, as torres de vigia viram passar muitos mensageiros. Do Djibal para o Daylam. E do Daylam para o Turquestão.

Tal como o cadi tinha pressentido, aquando da reunião que decorrera no forte de Tabarak, a rainha, assim que soube da conjura, não hesitou em pedir auxílio ao príncipe curdo, Hilal ibn Badr. Este apressou-se a avançar com as suas tropas até às portas de Raiy. Mas chegou tarde de mais dois dias: a cidade e o palácio já estavam nas mãos dos rebeldes comandados por Osman. A rainha só ficara a dever a salvação à dedicação da sua guarda pessoal. Diziam que andava fugida algures nas montanhas do Elburz.

Perante a posição estratégica do inimigo, o emir curdo não teve outro remédio senão montar o cerco em volta da cidade. Por consequência, os pratos da balança, evocados por Ibn Sina, deram a ilusão de uma ligeira vantagem a favor do príncipe herdeiro.

O Inverno passou. A Primavera chegou, e a situação continuou sem alterações. Depois os efeitos do cerco começaram a fazer-se sentir, e a inquietação e o nervosismo aumentaram na cidade. Em meados do mês de dhà el-qu'ada, Majd el-Dawla encontrava-se solitário, desamparado, mais atormentado que nunca. Uma manhã, abriu-se acerca disso junto do xeque, que tentou tranquilizá-lo o melhor que pôde.

— Não compreendes, então? A nossa resistência está no fim. Raiy está exangue. Já não aguentaremos muito tempo mais.

— Príncipe, eu nada sei da arte da guerra, mas talvez o exército devesse tentar uma surtida?

— É exactamente o que eu me empenho em repetir ao vizir e ao comandante Osman. Mas eles fazem orelhas moucas. Tenho a impressão de falar a umas pedras!

— Eles esperam, sem dúvida, que os Curdos sejam os primeiros a cansar-se. Ao fim e ao cabo, um cerco não pode durar mil anos.

Tomado de uma grande agitação, Majd andava para trás

e para diante no quarto.

— Não, cheikh el-rais, não. Trata-se de outra coisa. Se eu não desconhecesse nada do seu plano, até juraria que eles parecem estar à espera de socorro.

— De socorro? Mas donde viria ele? Sabemos perfeitamente que nem o governador do Kirman, nem o emir do Rihab, nem tampouco o califa de Bagdad estão dispostos a intervir neste caso.

Com uma expressão terrivelmente tensa, Majd el-Dawla juntou as mãos e exclamou com paixão:

— Ah! Se ao menos eu pudesse ler no futuro!

Infelizmente, esse dom não pertence ao homem, mesmo que seja príncipe de raça. Mas ainda que possuísse esse dom, nunca o jovem soberano lhe teria dado crédito. Pois como teria ele podido crer, um só instante, que o socorro, que ele acertadamente pressentira, esse socorro esperado pelo vizir Ibn el-Kassim, se encontrava muito precisamente a três dias de marcha de Raiy? E que o seu nome era Massud? Massud, o próprio filho de Mahmud o Gaznávida, rei de Ghazna.

 

                                 DÉCIMA SEXTA MAKAMA

— Maldito sejas, Ibn el-Kassim! Que a tua alma arda para a eternidade na Geena!

Num desdobramento de mangas, o vizir levantou-se de repente, com a face lívida.

— Excelência! — replicou ele, avançando prudentemente para Majd el-Dawla, instalado no trono da rainha. — Nós não tínhamos por onde escolher. Se reclamei a ajuda do Gaznávida, foi unicamente para te servir. Para servir o reino. Sem o seu exército, nós estávamos perdidos. Eu sabia isso.

— Aos Turcos! Vendeste o reino do meu pai aos Turcos!

— Rejeito essa acusação! Rejeito-a com toda a minha alma. Foi um apoio que eu pedi. Unicamente, um apoio militar.

— Um apoio militar? E foi por magnanimidade que o rei de Ghazna to concedeu? Eu talvez só tenha dezasseis anos, mas o Todo-poderoso deu-me, mesmo assim, um cérebro capaz de reflectir!

— Alteza... Eu...

— Silêncio! Que a tua língua caia em poeira e que os teus olhos dessequem!

Ali ibn Sina, que observava a cena, julgou que o vizir ia perder o que lhe restava de domínio de si próprio e atirar-se à cara do jovem soberano. Mas não aconteceu nada disso. Ibn el-Kassim respirou fundo e apostrofou os membros da corte:

— Escutai-me! A situação é clara: a uma noite daqui, acampa um exército, que pode, sem dúvida, tirar a mordaça que nos sufoca. Ao pé das muralhas, encontra-se um outro exército, que, tarde ou cedo, nos forçará à rendição; o que terá como consequência o regresso da rainha. Pois, já o sabeis, ela está viva, a sua tenda ergue-se no coração do acampamento curdo. Que decidis?

Um silêncio penoso sucedeu às palavras do vizir. O chanceler baixou os olhos. O grande cadi sacudiu nervosamente o pó da manga do seu cafetão. O comandante compôs o turbante, olhando fixamente para o vazio. Ninguém parecia querer reagir. Finalmente, foi o camareiro quem tomou a palavra:

— Honra da nação — começou ele, num tom hesitante —, parece-me que não temos assim muito que escolher.

— Queres tu dizer que não temos nada que escolher — rectificou o comandante Osman. — Estamos num calabouço e a chave...

— A chave — interrompeu Majd el-Dawla —, está nas mãos dos Turcos! E amanhã? Quem será o nosso novo carcereiro? Os Curdos ou o Gaznávida?

— A resposta compete-te, Excelência! — lançou o vizir.

— O meu irmão? Talvez que o meu irmão...

Ele pronunciara estas palavras com soluços na voz. Era, subitamente, o menino que voltava ao de cima no corpo do homem.

— Os nossos espiões em Hamadhan deram-me a saber que, por agora, Shams permanece insondável. Pediu que o mantenham ao corrente, hora a hora, da evolução dos acontecimentos, mas não parece disposto a agir de nenhuma maneira.

O jovem soberano deitou as mãos à cabeça e ficou imóvel, petrificado entre os ouros nacarados do trono.

Estava como a cria de uma corça, à beira dum abismo, perseguida por um bando de falcões. Uma só alternativa se lhe oferecia: ou atirar-se para o vazio ou deixar-se devorar.

Decidiu-se a declarar:

— Que o Clemente nos proteja! As nossas tropas que estejam prontas a colocar-se ao lado de Massud. Travaremos batalha, quando este o julgar propício.

— Amanhã, Majestade — murmurou o vizir. — O filho do Gaznávida fez-me saber que atacará os Curdos, amanhã, às primeiras horas da alvorada.

— Então, que seja amanhã...

Com um gesto da mão, Majd indicou que a audiência estava terminada. A corte inclinou-se respeitosamente e deixou a sala do trono. O filho de Sina preparava-se para imitar os outros quando a voz de Majd o interpelou:

— Cheikh el-rais

— Senhor?

— Amanhã, correrá muito sangue nas fileiras dos nossos irmãos. Haverá que fazer o possível por mitigar o sofrimento do nossos soldados. Eu gostaria que todos os médicos estivessem no campo de batalha, que acompanhassem a unidade médica móvel.

Ibn Sina respondeu sem hesitação:

— É isso mesmo que eu tinha pensado, Honra da nação. E acrescentou, com uma voz comovida:

— Que Alá nos livre de amanhã!...

O Sol içava-se lentamente entre as cristas do Daylam. Brumas de calor flutuavam por cima da planície, formando como que um cinto de espuma branca a meia altura das muralhas de Raiy, donde o vizir Ibn el-Kassim, Majd el-Dawla e as altas personalidades da corte contemplavam o campo de batalha.

A esquerda, o exército curdo, impressionante pela sua massa, tinha-se imobilizado na ordem perfeita do ussul; a configuração tradicional dos corpos de batalha repartidos por cinco khamis, cinco elementos intangíveis: o centro, a ala direita, a ala esquerda, a vanguarda e a retaguarda. E a luz coada da aurora deslizava insensivelmente pelo aço fosco dos sabres de Damasco, infiltrava-se no entrelaçamento das cotas de malha e cobria a cabeça acastanhada das clavas.

A direita, de costas para o sol, visivelmente em número inferior, as forças turcas tinham iniciado a descida ao longo dos flancos da colina dita «dos corvos». O exército estava disposto em três filas. Na primeira, imersos nas mantilhas de bruma, podia-se distinguir os soldados de infantaria abrigados atrás dos seus escudos de um castanho dourado; na segunda fila, pairava a sombra negra dos archeiros e dos besteiros; na terceira fila, tornados quase invisíveis pelos empoeiramentos do contraluz, campeavam os cavaleiros pesados. No centro, tinham-se levantado os pendões bordados a fios de ouro sobre fundo de púrpura e de ébano, dominados pelas liwa, as bandeiras do soberano gaznávida e as dos Buyidas, estas com cores azuis.

— É curioso — notou o chanceler, apontando com o dedo as tropas turcas —, embora o equilíbrio das forças seja claramente a nosso desfavor, Massud adoptou uma posição defensiva. Ainda para mais, colocou os seus archeiros em segunda linha, o que vai contra todas as regras da guerra.

O vizir Ibn el-Kassim, levando a mão à testa, alvitrou:

— Ele deve ter as suas razões. Não estou nada inquieto. Sem tirar os olhos do campo de batalha, Majd murmurou,

com a garganta apertada:

— Que o Clemente nos proteja!...

Ao longe, do lado curdo, irromperam trombetas de timbre estridente, sob o véu que continuava oscilando por cima dos exércitos. Hilal ibn Badr voltou-se para os seus lugar-tenentes e ordenou com voz forte:

— Mandai a cavalaria!

Imediatamente, os cavalos, com os flancos protegidos por redes acobreadas, arrancaram, levantando um turbilhão de areia. Desceram a colina, a ribombar como um trovão, seguiram sempre em frente e arremessaram-se sobre o centro do exército turco. Houve um momento de hesitação, e logo, como um só homem, os soldados de Massud romperam o alinhamento, à maneira duma vaga quebrada pela proa de um navio, iniciando um movimento em semicírculo na direcção das duas alas do exército curdo.

— O filho do Gaznávida perdeu a cabeça! — vociferou o chanceler. — Esse estratagema é velho como o mundo. Jamais os Curdos cairão numa esparrela tão grosseira. As suas alas estão perfeitamente protegidas, e eles têm a superioridade numérica!

— E o seu centro ficará desguarnecido! — acrescentou Majd el-Dawla, muito pálido.

Efectivamente, uma vez afastada a primeira linha dos infantes, a cavalaria curda engolfou-se na brecha como uma torrente, enquanto, atrás dela, o kalb, o coração do seu exército, se punha em marcha.

O Sol tinha-se erguido mais alto no céu, mas sem conseguir ainda romper as brumas de calor, que persistiam sobre a planície, ocultando a colina dos corvos.

Os infantes do Gaznávida continuavam a sua progressão para os flancos esquerdo e direito do exército curdo, onde, de joelho no chão, músculos tensos e caras de pedra, os aguardavam os archeiros de Ibn Badr. A um sinal do general, as flechas curdas derramaram-se subitamente no céu. Com um silvo ligeiro, elas subiram quase na vertical acima das brumas; pareceram, por um instante, retidas no ar, mas logo voltaram a cair, espalhando uma chuva mortífera sobre as hostes da infantaria gaznávida.

Foi o momento que Massud escolheu para lançar, por sua vez, a cavalaria pesada. Contrariamente ao adversário, os seus cavaleiros estavam munidos de arcos e flechazinhas, que lhes tinham valido a reputação de «demónios do Turquestão». Enquanto cavalgavam com uma agilidade prodigiosa, largaram um dilúvio de flechas, semeando a morte e a confusão no seio da cavalaria curda. O galope dos cavalos parecia fender o ventre da planície, arrancando-lhe volutas de areia, que pairavam rente ao solo, antes de caírem em farrapos. De súbito, deu-se o choque. Terrível. As duas cavalarias entrechocaram-se com a violência de vagas desfazendo-se de encontro às rochas. Sabres e cimitarras brandidos para o céu adquiriram vida, sob o áspero fulgor do sol. E tudo se misturou, para não formar mais do que um magma de cores e de ruídos. Aqui, o roçar do linho na lã, os turbantes decapitados; acolá, o fôlego curto, o suor salgado e a baba dos cavalos. A essa confusão vieram juntar-se, sucessivamente, três dos khamis do exército curdo: a ala direita e a ala esquerda opondo-se à manobra de flanqueamento tentada pelo inimigo gaznávida.

Numa posição recuada, de pé em cima da cobertura de uma das quatro unidades móveis, Ali tentava decriptar o desfecho do combate. Ele sempre conhecera aquele cheiro de sangue e de morte, mas, nessa manhã, havia nele algo de mais agudo, que revoltava o estômago e provocava náuseas. Maquinalmente, limpou os lábios com a manga, como que para tentar fazer desaparecer aquele gosto a excrementos e a vomitado. Na realidade, já não sabia muito bem se eram as cenas de horror, que se desenrolavam diante dos seus olhos, ou o pensamento de se encontrar involuntariamente associado àqueles que ele considerava como os inimigos da Pérsia, os Gaznávidas, que despertava em si essa náusea.

Por agora, tudo era somente confusão e tumulto. As forças curdas opunham uma surpreendente resistência aos mercenários mamelucos. Tinham mesmo conseguido repelir o ataque, que ameaçava as suas alas, e progrediam pelos flancos do adversário, iniciando um movimento em tenaz.

Ninguém teria podido prever o desfecho dos combates. Nem o vizir, nem as personalidades encarrapitadas nas muralhas de Raiy, e muito menos Majd el-Dawla, que não se sabia se estava mais atormentado pela possível derrota dos Curdos ou pela vitória de Massud.

Foi, então, que se deu o acontecimento que ia mudar a sorte dos exércitos. A bruma tinha-se dissipado totalmente, deixando aparecer um céu de cristal límpido. As linhas confusas, que, até a essa altura, haviam delimitado o horizonte, destacavam-se claramente aos quatro cantos da planície ondulada, descobrindo ao mesmo tempo a crista e as cercanias da colina dos corvos.

Foi daí que surgiram os dez elefantes turcos. Imensos, semelhantes a lanços de muralha; arreados e enfeitados com coleiras de guizos, com a barriga protegida por uma couraça, com um esporão no peitoral, montados por archeiros, que haviam sido instalados, a um lado e outro dos seus flancos, dentro de uns howdahs, uns cestos de palha entrançada. Deslocavam-se com uma velocidade surpreendente para o seu peso, e o eco glacial dos seus barritos, correndo através do campo de batalha, bastou, só por si, para que um vento de pânico soprasse imediatamente sobre as tropas de Ibn Badr. Guiados pelos seus cornacas, os animais atiraram-se para a frente. Apesar das flechas que choviam de todos os lados, eles varriam tudo por onde passavam, espezinhavam os cadáveres, encarniçavam-se sobre os restos humanos. Os esporões do seu peitoral rompiam inexoravelmente as filas dos khamis curdos, as suas trombas trituravam os soldados ou arrancavam-nos do chão, para os atirar ao ar como insectos insignificantes; enquanto que as suas defesas, prolongadas por lâminas de ferro inclinadas para o solo, rasgavam tudo o que tentasse resistir-lhes.

A única réplica possível teria consistido em lacerar o baixo-ventre dos animais ou em lhes cortar os tendões, mas a desordem era tal nas fileiras curdas que ninguém ouviu as ordens gritadas por Ibn Badr. Um último quadrado de besteiros reagrupou-se e tentou, numa manobra derradeira e desesperada, visar os olhos dos elefantes. Mas era tarde de mais. O sol cegava-os e os mastodontes estavam demasiado próximos, já em cima deles.

Transtornado pelo espectáculo de desolação que se patenteava aos seus olhos, Ibn Sina voltou a cabeça para o lado, com o olhar toldado.

A vitória tinha escolhido o seu campo.

Massud era mesmo o digno filho do rei de Ghazna.

O crepúsculo azulava os contornos da planície e os cadáveres dos soldados misturados com os dos cavalos. Ali acabava de tratar o último ferido que lhe tinham trazido. Tinha conseguido sustar a hemorragia, graças a um cautério aquecido ao rubro branco, e estava, agora, aplicando um unguento feito de terra argilosa. Quando terminou, examinou a ferida, para se assegurar de que estava perfeitamente coberta, e envolveu-a com um pano. No carro que servia de dispensário ambulante, reinava um insuportável fedor, que impregnava as roupas e os objectos.

Um pouco mais longe, Yasmina tentava dar a beber a um soldado uma decocção de mélia, para apaziguar as suas dores. Durante toda a tarde, outras mulheres da cidade tinham vindo prestar ajuda aos médicos e aos enfermeiros. A intenção era nobre, mas irrisória. Na realidade, teriam sido necessários, sobretudo, prodígios de ciência, para salvar ao menos um décimo dos homens atingidos. Uma vez acabado o penso, Ali pegou num dos jarros, em que restava um fundo de vinho, e bebeu uma grande golada. Sentia-se esvaziado, esgotado por aquelas horas que acabava de passar a dispensar cuidados, que, no fundo de si mesmo, sabia serem insuficientes. Horas inteiras a distribuir analgésicos, a tentar suturar, limpar aqueles ferimentos abertos pelo aço das lâminas e pela ponta das flechas.

Afastando o toldo variegado que servia de porta, desceu os três degraus que levavam ao exterior, e foi encostar-se a uma das rodas do carro. Quase imediatamente, o ar fresco do entardecer fustigou-lhe o rosto coberto de suor, trazendo-lhe um certo bem-estar. O seu olhar errou pelo campo de batalha ainda juncado de cadáveres e ele pensou no absurdo de tudo aquilo. O destino dos homens não estaria jamais assente, senão em mal-entendidos, em discórdias, na soberba e na falta de tolerância? Lá em cima, no céu invadido pela noite, já se vislumbrava al-Zuhara, a estrela do anoitecer, que luzia a norte com um brilho mate, a pouca distância de Zuhal, uma das duas grandes estrelas do infortúnio...

Preparava-se para regressar ao carro, quando um gemido se fez ouvir à sua esquerda. Primeiro, julgou que fosse apenas o eco dos gritos do dia, de que os seus ouvidos ainda estavam cheios. Mas muito depressa teve a certeza de que se tratava mesmo de alguém que sofria. Avançou na direcção dos gemidos e, esquadrinhando a penumbra, descobriu um vulto enrolado sobre si próprio. Ajoelhou-se junto dele e, com precaução, deitou-o de costas. Era um rapaz de uns vinte anos de idade, quando muito. Tinha uma perna atrozmente mutilada a todo o comprimento da tíbia, e o rasgão era tão profundo que se podia entrever a brancura do osso. Um cheiro nauseabundo emanava da ferida, e não havia qualquer dúvida de que já a gangrena se lhe havia incrustado nas carnes. De súbito, um pormenor saltou aos olhos de Ali: aquele soldado não era nem um infante gaznávida, nem um cavaleiro curdo, e também não era um dos homens de Majd el-Dawla.

No entanto, era mesmo um militar. Mas, então, donde vinha ele? De que exército?

Sem perder um instante, levantou-o do chão e levou-o até ao dispensário.

— Depressa! — gritou ele. — Um anestésico!

Yasmina estendeu-lhe imediatamente uma malga ainda fumegante de dormideiras, pela qual acabara de dar de beber a um ferido.

Ali estendeu o soldado e rasgou com um golpe seco o tecido que lhe envolvia a perna ferida.

Um dos auxiliares do xeque acercou-se do ferido e examinou-o, por sua vez. Não precisou de muito tempo para chegar à mesma conclusão que o filho de Sina:

— Donde vem ele? Nunca vi este uniforme.

— Encontras-me tão surpreendido como tu. Pois, que eu saiba, só havia, hoje, dois exércitos que se enfrentavam. É estranho.

Intrigados pelos propósitos dos dois médicos, os ocupantes do dispensário haviam-se agrupado em semicírculo à volta do militar desconhecido. Um dos médicos declarou, encolhendo os ombros:

— De qualquer maneira, gaznávida ou curdo, esse homem está perdido. Daqui a umas horas, a morte tê-lo-á levado.

Ali levantou-se bruscamente, com uma expressão dura e agarrou o colega pela gola do colete:

— Nunca, estás a ouvir-me, nunca pronuncies diante de mim semelhantes palavras! Tu és médico! Não és desertor. O teu dever é preservar a vida, não predizer a morte !

Apanhado de surpresa pela violência de Ibn Sina, o homem balbuciou umas palavras confusas e baixou os olhos. As mulheres desviaram-se, embaraçadas. Só Yasmina veio ajoelhar-se junto do soldado.

— Queres que eu lhe dê de beber? — perguntou ela, suavemente.

Ali aquiesceu e levantou lentamente a cabeça do soldado. Este entreabriu, então, os olhos pela primeira vez e olhou fixamente o médico.

— Que se passa? Onde estou eu?

— Estás ferido. Eu encontrei-te no campo de batalha. Mas tudo correrá bem.

Ele bebeu uns goles de dormideira e quis deixar-se cair outra vez para trás. Mas o xeque reteve-o:

— Não. Há que beber tudo! É indispensável, se quiseres ter menos dores.

Yasmina tornou a levar-lhe a taça à boca e forçou-o a ingurgitar todo o conteúdo. Quando ele acabou de beber, Ali ajudou-o a pousar de novo a cabeça na esteira e esperou.

Insensivelmente, o olhar do ferido velou-se e as suas feições descontraíram-se.

— Só?... Encontraste-me só? Não havia ninguém a meu lado?

— Só estavas tu. Mas a que corpo de exército é que tu pertences?

Os primeiros efeitos da dormideira faziam-se sentir: o rapaz parecia já não ser senhor de si.

— Hamadhan... — foi a sua única resposta. — Hamadhan... O xeque sobressaltou-se quase.

— Queres dizer que vens de Hamadhan?

Cada vez mais drogado, o soldado mexeu as pálpebras, repetindo de novo, como um refrão, o nome da cidade.

— É incrível! — exclamou um dos médicos. — Então ele pertenceria ao exército de Shams el-Dawla, o próprio irmão do nosso soberano?

— Porque não? — retorquiu uma enfermeira. — Afinal, Hamadhan não fica distante de Raiy mais do que uma dezena de farsakhs.

— O que deixaria supor que seja um espião?

— Eu inclinar-me-ia antes para um batedor — rectificou Ali.

— Mas, então...

— Então, que Alá nos proteja!... Shams não deve ter visto com muito bons olhos a intervenção gaznávida.

— Teria, pois, decidido vir em socorro do irmão?

— Como saber quais são os seus verdadeiros desígnios? Eu não vejo outra explicação para a presença deste homem. Logicamente, deveríamos contar com ver aparecer, já pela madrugada, o exército do filho mais velho da Sayyeda.

— Mas, com os seus elefantes, Massud é invencível!

— E tudo o que lhe resta — fez notar Ali. — Ele não está, seguramente, em condições de travar uma segunda batalha num prazo tão curto.

Uma expressão consternada apareceu nos rostos, e todos observaram o ferido com incredulidade.

Ali voltou-se, bruscamente, paraYasmina: — Por agora, temos uma vida para salvar. Vou precisar ainda de mais dormideira, muito mais concentrada. Vais prepará-la em vinho quente, em que deitarás também umas sementes de mei-mendro.

Depois ordenou a um dos médicos:

— Escolhe as melhores lâminas, de gume mais afiado. Os melhores cautérios. E prepara-te para imobilizar as pernas e os braços do ferido com cordas.

— Perdoa-me, cheikh el-rais — murmurou o seu colega, embaraçado. — Mas que tencionas tu fazer?

— Amputá-lo. Não vejo outra solução, se quisermos ter uma esperança de o salvar.

— Mas... a amputação...

— Eu sei — interrompeu Ibn Sina. — É uma operação aleatória. Mas, neste caso preciso, não temos por onde escolher. Agora, anda!

E dirigindo-se aos outros ocupantes do dispensário, acrescentou:

— Lâmpadas! Juntai todas as lâmpadas, mesmo as das outras unidades! Vou precisar de toda a luz do Daylam.

O soldado tinha adormecido. A sua respiração tornara-se mais profunda, mais regular. Ajoelhada junto do seu rosto, Yasmina enxugou-lhe as faces, a testa e as pálpebras encharcadas em suor. As extremidades dos seus membros tinham sido amarradas e quatro médicos seguravam-nas firmemente. Assim estendido de costas, esquartejado sob as sombras amarelas e pálidas, envolto em fumo de ópio, o ferido assemelhava-se a um crucificado.

Ali tomou-lhe a pulsação no pulso e no alto da garganta. Certo de que ela estava regular, começou por instalar um sólido garrote a meio da coxa, depois pegou na faca preparada pelo seu colega, experimentou o gume na palma da mão, verificando que o aço não tinha quaisquer brechas. Em seguida, esticou firmemente a pele da coxa com a sua mão livre e começou a seccionar as carnes, um pouco acima da articulação troclear, nitidamente mais alto do que a ferida. O sangue escapou-se em fios grossos dos primeiros vasos cortados. Muito depressa, os dedos de Ibn Sina ficaram manchados de sangue, depois as suas mãos e a lã da sua túnica. A faca, que se metia mais para dentro, rompia deliberadamente as vias do sangue, desfazia irremediavelmente o nácar dos nervos e dos tendões.

— Perdoa-me, cheikh el-rais — perguntou uma voz —, mas porque fizeste a incisão tão longe da ferida?

— É melhor nunca seccionar no limite da gangrena — explicou Ali, sem levantar a cabeça. — Mas, sim, a uma certa distância, aonde o mal ainda não chegou.

Tinha atingido os primeiros músculos femorais. Apoiando-se no peróneo, escavou um caminho em semicírculo, perpendicular, acima do joelho. Lacerando, cavando no cerne cada vez mais profundamente, até que descobriu uma resistência. O branco mate do osso apareceu na ponta da lâmina, como uma bengala de marfim deitada no fundo de um canal.

— A serra! — reclamou o xeque, confiando a faca a Yasmina. O sangue corria em regos espessos ao longo da esteira.

Alguém se lembrara de queimar incenso, para atenuar o mau cheiro que enchia o carro. Em volta deles, as luminárias tremelicavam nas candeias de azeite.

No momento em que se fez ouvir um barulho de grosa, cobrindo a respiração ofegante do ferido, uma das mulheres sentiu-se mal e foi obrigada a sair do dispensário. A própria Yasmina, branca como a cal, tê-la-ia sem dúvida alguma imitado, se não a retivesse a vontade indomável de não fraquejar diante de Ali.

A expectativa prolongou-se, naquela atmosfera sufocante, até que o filho de Sina se erguesse, enfim. Ele afastou a tíbia, que acabava de separar do fémur, e limpou as mãos viscosas ao longo do seu cafetão.

— Agora, é preciso estancar os corrimentos — anunciou ele, num tom neutro. — Passai-me um cautério! O mais largo.

Uma das mulheres precipitou-se para a braseira fumegante e retirou de entre as brasas avermelhadas uma placa oval de metal dourado, prolongada por um cabo de madeira. Estendeu-a a Ibn Sina, que a aplicou, imediatamente, sobre as extremidades sanguinolentas da coxa. A carne encarquilhou-se de repente, à maneira de um pergaminho que range com o calor.

O ferido produziu um silvo rouco, e todo o seu corpo se retesou.

— Dai-lhe mais uma dose de dormideira! — ordenou Ali. Após ter verificado que estava sustada a hemorragia, tomou de novo o pulso ao homem. Certificou-se, em conformidade com os antigos preceitos de Hipócrates, de que as vias do sangue na testa e nas pálpebras não estavam inchadas nem inteiriçadas. Aparentemente satisfeito com o exame, pediu ao colega que aplicasse no coto um unguento composto por gordura de cabra derretida, jujuba brava e casca de romanzeira piladas, antes de envolver a ferida com um tecido de lã. Em seguida, depois de ter dado uma última olhadela ao ferido, saiu do carro.

Uma vez no exterior, foi encostar-se a uma das rodas, com a cabeça deitada para trás, subitamente vazia de pensamentos. Passado um instante, Yasmina veio ter com ele. Ela chegou-se discretamente ao pé dele e, pouco depois, disse com uma voz tensa: — Sinto-te inquieto...

Ele não respondeu logo. Mas, para ele, tudo estava claro. Se não se equivocara, se Shams el-Dawla havia tomado a decisão de vir pôr ordem no reino de Raiy, tornaria sem dúvida a colocar a rainha no trono. Nesse caso, ele, Ali, estava definitivamente perdido...

Tomando um punhado de areia fina na mão, deixou-a escorrer por entre os dedos entreabertos.

— Vou-me embora — anunciou ele, bruscamente. A mulher anuiu e deixou-o prosseguir.

— Não vejo outra solução. Se Shams restituir a coroa à Sayyeda, ela procurará vingar-se, é claro. Todos os que apoiaram o seu filho pagarão o respectivo preço. Estou condenado de antemão.

— E para onde irás tu?

— Ainda não sei... Provavelmente, para o Sul.

— El-Jozjani acompanhar-te-á?

— Penso que sim. Terá de ser ele a decidir. Passou-se um tempo, depois ela perguntou:

— E... eu?

Ali pegou em mais um bocado de terra com a mão.

— Tu, Yasmina... Onde encontrarei eu a resposta? Sinto-me de tal maneira perdido! Tenho trinta e quatro anos e dois mil anos. Tanto quanto eu me lembro, nunca deixei de viver no exílio. Já sei que será, inexoravelmente, esse o meu destino. Talvez eu seja responsável por isso. Talvez eu tivesse tido falta de coragem. Ainda que arriscando-me a parecer-te cínico, vou citar-te as palavras de um filósofo grato ao meu coração, Ben Gurno: Aquele que me criou tem o dever de me destruir, porque a sua obra é imperfeita...

— Oque é imperfeito em ti, Ibn Sina, é o teu receio do amor... Ele não pôde deixar de sorrir.

— Está bem. Então, diz-me o que é o amor!

— O dom de si mesmo. O sacrifício. O perdão.

Sem renunciar ao seu sorriso, contemplou com um ar distraído os grãos de areia que lhe fugiam por entre os dedos.

— Desculpa, mas acho que estás enganada. Ou, então, deves viver no mundo dos sonhos. Eu vou dizer-te o que é o amor.

Voltou-se para ela, e ela julgou sentir os olhos dele a mergulhar no interior da sua alma.

— Quando nós dizemos que amamos, o que é que isso quer dizer? Simplesmente, que possuímos. Visto que, assim que perdemos a pessoa amada, nos sentimos perdidos, despojados de tudo. Na realidade, ao dizer que amamos, não fazemos mais do que legalizar um sentimento de posse.

— Mesmo quando perdoamos a um ser que nos magoa, que nos trai?

— Mesmo aí. Que fazemos nós? Queremos-lhe mal, lem-bramo-nos do que ele fez. E, finalmente, somos levados a pronunciar a frase sagrada: «Eu perdoo-te.» O que é que isso revela? Nada. Nada, a não ser que continuamos, como sempre, sendo a personagem central, que sou «eu» que tomo importância, posto que sou ainda «eu» quem perdoa... Talvez tenhas razão, Yasmina. Eu receio o amor. Ele assenta apenas na atracção dos corpos, na ideia de posse, no ciúme, na desconfiança e no medo. E terrível ter medo. E como morrer. Decerto, nós julgamos amar. Mas, em verdade, só nos amamos a nós. E, como eu te dizia, acho-me imperfeito. Pode-se amar o que é imperfeito?

Yasmina ergueu os braços ao céu, num gesto fatalista.

— Cheikh el-rais, a tua retórica ultrapassa-me. Eu não sou mais do que uma simples mortal. Falo-te de coração, tu falas-me de álgebra e de coisas que me ultrapassam... Seja, posto que é esse o teu desejo, partirás sem mim para a província do Sul!

 

                           DÉCIMA SÉTIMA MAKAMA

«A aurora despontou há já uma hora. O deserto começou mesmo às portas da cidade. À passada regular dos cascos, não se descobre mais do que pedras, areia e o cinzento do céu, que se estende a perder de vista por cima do ventre estéril da planície. Na peugada das nossas montadas, seguem dois cavalos de carga. Sobre os arreios do primeiro instalámos uma armação de madeira, para nela fixar a imponente mala contendo todas as obras e os livros preciosos do meu mestre. Em cima da outra besta, amontoei vários pequenos fardos, bem seguros com cordas de cânhamo, que contêm as nossas roupas, um pouco de ópio para resistir ao cansaço, reservas de água e de comida.

«Será longo o caminho que deve levar-nos até ao Mazandaran, o país dos machados, assim chamado em virtude das densas florestas que cobrem a região. É uma província limitada a norte pelo mar dos Cazares, a sul pela cordilheira do Elburz. Uma lenda conta que ela deve a sua prosperidade a Ali, o emir dos crentes, que lá sacudiu a sua toalha, depois de ter comido. Os Árabes conhecem-na pelo nome de Tabaristão. Mas os naturais de lá também lhe chamam Bab el-Mêzanne, a Porta da Pesagem. Acabei por crer que as recentes comparações, que o xeque fizera acerca da instabilidade do destino, talvez não tivessem sido estranhas à escolha daquele rumo. Seja como for, se esse for o desejo de Alá, daqui a cinco dias entraremos em Qazvim. Por razões de segurança, foi essa a cidade que Ibn Sina escolheu, preferindo-a a Amol, no entanto, mais importante e mais florescente. Mas, antes, teremos que atravessar a faixa estreita de deserto que nos separa do Elburz, subir a serra, tornar a descer para os vales.

«Yasmina acompanha-nos. Mesmo no último instante, sem que nada o deixasse prever, o xeque abandonou as suas reticências. Confesso que fiquei muito admirado com isso. Quanto à rapariga, se também o ficou, nada deu a perceber.

«Porquê essa mudança de atitude? Qual foi a causa dessa reviravolta? Sempre estive convencido de que nunca, na sua vida errante, o rais imporia a si próprio a preocupação causada por uma presença feminina. Afinal, ele tinha falseado a minha análise. Concluí daí que os desígnios do coração são impenetráveis. Neste ponto, tenho de mencionar um pormenor, que pode parecer insignificante, mas que terá, ulteriormente, uma repercussão terrível, imprevisível: enquanto que, até àquele dia, Yasmina tinha andado de rosto descoberto, assim que transpusemos as portas de Raiy, apressou-se a esconder as suas feições por detrás de um litham, um desses véus que só deixam adivinhar a linha dos olhos. Foi, aliás, o meu mestre quem primeiro se apercebeu disso e lho fez notar:

«— Terias tu receio dos olhos do deserto? E, no entanto, nas cidades que, habitualmente, as mulheres se protegem dos olhares impuros.

«À laia de explicação, ela deu esta resposta ambígua:

«— Não se diz que a cara é o reflexo da alma? Visto que, doravante, te pertenço, mais ninguém, senão tu, terá o direito de conhecer o que eu sou.»

«Por cima das nossas cabeças, o Sol ganhou altura e começa a queimar a areia da pista. Em breve, o calor será insuportável. Não haverá árvores, nem a menor protecção, antes da montanha.

«Ao meio-dia do horizonte, atingimos, enfim, a encruzilhada, donde sai o caminho que leva aos contrafortes do Elburz, tendo lá mesmo no final a nossa primeira pousada, o Dêmavend, o tecto da Pérsia.

«Agora, a pista sobe ao longo das encostas pedregosas. Lentamente, vamos ganhando altitude. O abismo cava-se, para ocidente. Em breve, aparece a primeira ponte, o fragor duma torrente. Teremos de passar o desfiladeiro, que serpenteia acima das nossas cabeças. Continuamos a trepar em fila. O ar adquiriu uma transparência ambarada, cristalina, cada vez mais pura, enquanto que, insensivelmente, abaixo de nós, na direcção do oriente, toma forma uma paisagem de incrível esplendor.

«Não posso deixar de sentir um certo respeito perante a coragem de Yasmina. Ela está exausta, mas não solta qualquer queixume. À minha proposta de fazer uma paragem, opõe o xeque uma recusa categórica: ele prefere deixar isso para mais tarde, por receio, sem dúvida, de estar ainda demasiado próximo da Sayyeda Shirine e das ameaças de Raiy.»

«Atravessámos o desfiladeiro. O Dêmavend está à nossa frente.

«As vistas transformaram-se de repente. Aninhada a nossos pés, aparece a aldeia, com a sua mesquita azul, as suas árvores, os seus choupos e, a toda a volta, um mundo perturbado e confuso de penedos, de colinas e de picos agudos; um entrelaçado de grande beleza, composto por formas recortadas e tonalidades esbatidas, que vão dos castanhos avermelhados do pórfiro aos rastos vivos do enxofre.

«Paramos, enfim, junto a uma das numerosas ribeiras que sulcam a montanha, e na qual vem despenhar-se a vertigem efervescente de uma cascata. O nosso primeiro impulso é lavar-nos na água fresca, antes de absorvermos alguns alimentos à sombra das árvores: umas tâmaras, uma tigela de arroz, chá açucarado.

«Dali, onde nós estamos, pode-se avistar claramente a rua principal da aldeia: dois caminhos estreitos à beira de casas arrui-vadas. A flecha do único minarete, inteiramente coberta de tijolos e de faianças azuis, foge para o céu.

«As lendas contam que foi aqui, no Dêmavend, que se deu a passagem do estado nómada para aquele em que o homem persa se fixou e criou a primeira cidade.

«Uma hora depois, eis-nos outra vez a caminho. Pelaur é o nosso próximo lugar de destino, é lá que passaremos a noite.

«Lá vamos de novo em fila ao longo da senda, a uma altitude de cerca de seis mil côvados.(l) Daqui, é quase toda a Pérsia que se descobre para nós. A corrente verde escura dos valezinhos, as árvores apertadas ao longo das ribeiras do Mazandaran, a fronteira do deserto e cumes de tal modo desordenados que se poderia crer que solidificaram, antes de estarem acabados.

«As sombras, que precedem a noite, estão já a escalar as encostas. Todo o cenário lá mais em baixo parece defender-se contra a invasão irresistível das trevas e teima em atirar clarões fulvos para o céu.

«Mas com a fulgurância própria dessa região, que desconhece os crepúsculos, o véu da noite cobre de repente a paisagem.

«Proponho ao xeque uma nova paragem, mas ele retorque-me que os animais vêem melhor do que nós na escuridão. No entanto, progredimos por um caminho que desce em íngreme ladeira e volteia perigosamente por entre os rochedos. Está tão escuro que mal distinguimos a cabeça das nossas montadas. E eu tenho a certeza de sentir tremer os flancos do meu cavalo. «— Cheikh el-rais Vamos partir os ossos! «Mas Ibn Sina não parece ouvir-me. Eu adivinho-o ligeiramente debruçado sobre o cavalo, deixando-lhe a rédea, fiando-se nele.

«Porque é que, nesse mesmo instante, uma série de imagens perfeitamente incoerentes me voltou à memória? Os momentos de embriaguez do meu mestre, os seus desvarios nos fumos de ópio e essa cena impura na espelunca de Raiy, enquanto ele fazia amor àquela eslava... Nessa noite, julguei que essas imagens me fossem inspiradas pelo medo, que me apertava o ventre. Mas, hoje, tenho a certeza de que, em certos momentos da sua vida, o filho de Sina procurou conscientemente destruir-se, indo ao ponto de cortejar a própria morte.»

«A noite é glacial. Sempre levados pela prudência, preferimos ultrapassar o lugarejo de Pelaur e as suas casas de barro seco, para irmos dormir, um farsakh mais adiante, numa crista tão estreita como o gume duma espada.

«Yasmina está sentada mesmo ao pé do lume. A seu lado, o xeque aspira umas baforadas de ópio, enquanto acaba de me ditar um dos capítulos do livro terceiro do Cânone; aquele que trata da patologia especial, estudada órgão por órgão. Essa faculdade, que possui o meu mestre, de concentrar, assim que ele o deseja, o seu pensamento criador será sempre para mim um motivo de perturbação e de admiração. Mais uma vez exilado, a caminho do desconhecido, praticamente sem recursos nesta montanha, onde o frio nos atravessa os ossos, ei-lo que encontra os meios necessários para isolar o seu espírito e se voltar exclusivamente para o objectivo que impôs a si próprio: acabar o Cânone.

«O tempo passa. Os meus dedos começam a ficar entorpecidos. E a voz de Yasmina que põe fim à nossa sessão de trabalho. Dentro em pouco, mordidas pelo frio, as minhas falanges ter-se-iam partido como canas de vidro.

«— Uma estrela cadente!

«O filho de Sina interrompe-se e esquadrinha o canto do céu designado pela sua companheira. Ela acrescenta:

«— Cheikh el-rais, tu, que possuis a ciência infinita, sabes a explicação deste fenómeno?

«Ali sorriu, sacudindo a cabeça.

«— Confesso que me interessei pela questão. Mas o Todo-poderoso não me concedeu a resposta. Mas talvez, tu, Yasmina, me possas esclarecer?

«A mulher olhou-o de alto abaixo, com um ar de criança

contente consigo mesma.

«— Apraz-me verificar que ainda ignoras certos mistérios. Eu posso explicar-te as estrelas cadentes.

«Eu permiti-me recordar:

«— Sempre ouvi dizer que cada estrela cadente é a vida dum ser humano que se extingue.

«Yasmina rejeitou a minha sugestão. Então, o xeque fez-me sinal para arrumar as folhas do Cânone e fitou a mulher, com um

olhar atento.

«— Estou à escuta.

«— Pois bem. Quando o demónio esfrega os calcanhares um no outro, caem de lá diabinhos. Estes trepam, então, para os ombros uns dos outros, para espiarem o que se passa no sétimo céu. Então, o Eterno dá ordem aos seus anjos para lhes atirar uma seta, que os disperse. E essa flecha que nós chamamos estrela cadente.

«Um sorriso indulgente iluminou o semblante do meu mestre.

«— Onde foste tu buscar essa teoria? Quem ta referiu?

«— Mas ninguém! Ou tu subestimas-me ao ponto de me julgares incapaz de uma tal reflexão?

«Ibn Sina voltou-se logo para mim:

«— Ouviste, Abu Obeid? Tomaste nota?

«Como eu respondesse negativamente, ele acrescentou, severo:

«— Pois, então, fizeste mal. Esta teoria é essencial. Amanhã, alguém a referirá a outrem, que a dirá a mais outro. Daqui a mil anos, ainda circulará. É assim que nascem as lendas.

«A jovem exclamou, melindrada:

«— Uma lenda? Mas não tem nada de lenda!

«Ele apressou-se a tranquilizá-la:

«— É assim que os homens a interpretarão. Só nós saberemos que não é uma lenda, mas uma teoria perfeitamente científica.

«— Estás a zombar de mim, cheikh el-rais.

«Ele debruçou-se para ela e roçou com os seus lábios nos dela. Ela pagou-lhe o beijo com fervor, enquanto que eu me afastava deles...»

«A aurora encontrou-nos em marcha por uma vereda escarpada, juncada de grandes pedras, que rebolavam debaixo das patas dos nossos cavalos.

«A descida para o vale do Lar começou. A nossa esquerda, os últimos contrafortes do Dêmavend, que nós deixámos há já uma hora; à nossa direita, "o caminho que anda", um ribeiro. Mais ao longe, cristas afiladas.

«Shawwal aproxima-se do fim, mas ainda se pode ver grandes campos de neve coroando a cabeça do velho vulcão. Em volta do cone, flutuam algumas nuvens ligeiras, e há volutas de fumo que sobem pelo flanco da montanha. Neste momento, caminhamos ao longo de um precipício de várias centenas de côvados, que acaba numa estreita garganta, no fundo da qual corre o Tchilik, o rio que nos servirá de guia.

«Em alguns sítios, o sol nascente ilumina as águas tumultuosas, lançando, esporadicamente, reflexos de prata para a sombra da ravina.

«Com docilidade, os nossos cavalos procuram onde pousar os cascos neste caminho incrivelmente perigoso. Somos obrigados a deixar-lhes inteira liberdade e, por conseguinte, a rédea solta. Mas, muitas vezes, não temos outro remédio senão apear-nos, dada a perigosa inclinação de certas ladeiras; empurrando as nossas montadas pela garupa, forçamo-las a atirar-se, depois a deslizar, com as quatro patas abertas, por uma derrocada de pedras até chegarem a um terreno mais firme.

«Quantas orações o meu coração balbuciou? Quantas suras eu repeti comigo próprio? Já nem me lembro... Com a extrema fadiga a ajudar, só sei que acabei por nos entregar nas mãos do Clemente.

«Quando penetrávamos em gargantas tão estreitas que a luz já quase lá não chegava, passei de novo por outros sustos. E se não fosse o barulho ensurdecedor do rio redemoinhando aos nossos pés, creio que se teria podido ouvir os gritos assustados do meu coração, às marteladas no meu peito.

«Durante toda a manhã, seguimos a mesma senda, que domina a cabeceira do vale. Aquela paisagem, que se vai progressivamente tomando verde, deixa pressentir as florestas do país dos machados. A medida que avançávamos, o espaço alargava-se, tornava-se mais vasto, os horizontes afastavam-se.

«Após uma breve paragem, durante a qual o xeque e Yasmina tomaram um banho na mais simples indumentária, retomámos a nossa peregrinação. O ar estava cheio de lentura, e a proximidade das terras baixas do Mazandaran envolvia-nos numa atmosfera húmida, que nos tirava toda a energia. No entanto, continuávamos a progredir, mesmo assim.»

«Uma vez atravessado o Tchilik, deixámos definitivamente as florestas, para entrar num imenso território pantanoso, que se estendia numa longa faixa por mais de quinze farsakhs. Eram só regueiras, regatos, terras negras, onde havia campos de algodão, de arroz e de tabaco. Naquela época do ano, a paisagem estava dourada pelo sol, rasa e salpicada de grandes canas, que oscilavam suavemente com o sopro mal perceptível do vento. Bêbedos de cansaço e de perfumes, abrandámos quase sem dar por isso o passo das nossas montadas. Uma olhadela por cima do ombro deu-me a esperança de que o meu mestre se decidisse, enfim, a parar. Yasmina estava deitada para a frente, numa atitude sonolenta, com a face macilenta e dessecada. Quanto ao xeque, não estava muito mais resplandecente; o seu rosto estava curtido, queimado, e a barba colava-se-lhe às faces como uma máscara de barro acinzentado.

«Foi, finalmente, à vista de Amol, no coração do país dos machados, que eu, sem forças, supliquei ao filho de Sina que se resignasse, enfim, a fazer uma paragem. As cores do céu tinham adquirido tons de púrpura e de violeta. O crepúsculo não ia tardar a invadir os sulcos dos arrozais. Para meu grande alívio, o rais aceitou. Avistando, a um meio farsakh aproximadamente, os vestígios duma cabana erguida sobre um terrapleno, sugeri que nos instalássemos lá para passar a nossa segunda noite. Eu deveria, nesse dia, ter selado os meus lábios! Alguma vez oTodo-poderoso, na sua infinita misericórdia, me perdoará a minha fraqueza?

«Uma hora mais tarde, quando a noite já tinha ocupado a paisagem, foi aí que nós fomos atacados pelos ayyarun...»

Foi, talvez, o chapinhar provocado pela marcha dos homens no arrozal próximo que tirou Ali do sono. Em verdade, ele não estava, propriamente, a dormir. Como teria ele podido dormir, com a impertinência dos mosquitos, a humidade sufocante e a dor lancinante, que provinha dos seus membros exaustos? Primeiro, ele julgou que os ruídos, que ouvia, nada mais fossem do que as últimas brasas a crepitar no lume. Mas, quando se pôs em pé, apercebeu-se de que estavam cercados por uns vinte vultos ameaçadores, armados de punhais e sabres.

Pelo seu aspecto esfarrapado, Ali identificou-os imediatamente. Havia qualquer coisa de deliberado no couro laminado das suas botas, nas suas calças entufadas, nos farrapos que lhes serviam de mantos e nos mil acrescentos que lhes cobriam os turbantes. Eram mesmo uns ayyarun, esses cavaleiros vagabundos, que, desde há uns anos, semeavam o terror até às portas de Bagdad. Na realidade, mais do que simples bandidos, os ayyarun formavam uma verdadeira confraria actuando segundo regras bem definidas, as dafutuwwa; um termo que subentende o espírito de cavalaria.

Era uma ordem bastante misteriosa, com um regulamento muito rigoroso, e regida por um grão-mestre (por vezes, o próprio califa). Possuía a característica, entre outras, de não estar presa por nenhum laço confessional, corporativo ou tribal. A investidura dos novos adeptos desenrolava-se de maneira solene. No final, faziam-nos envergar as sarawil el-futuwwa, as calças de cavalaria, e davam-lhes de beber pela taça da fraternidade. Tudo isso estava organizado segundo um sistema de reuniões regulares, com um ritual imutável. Adeptos de uma moral expeditiva, baseada no despojamento dos ricos, os ayyarun tinham conseguido tecer pouco a pouco, de cidade para cidade, as redes de uma solidariedade muito especial, e não era raro que os seus dirigentes — por vezes, verdadeiros senhores das cidades — tratassem de igual para igual com as autoridades oficiais.

O homem, que tinha ares de chefe, aproximou-se lentamente de Ibn Sina.

Ao observá-lo, a primeira impressão de Ali foi que estava em presença de um falcão com físico humano. Os seus olhos eram redondos e negros como o carvão, duros como a pedra. As feições eram angulosas e o nariz aquilino curvava-se na extremidade para um lábio superior grosso. Ele devia ter um pouco mais de cinquenta anos.

— Quem sois vós? Donde vindes?

— Mercadores — respondeu Ali. — Estamos a caminho de Qazvim.

O chefe dos ayyarun apontou o indicador para a jovem mulher.

E ela?

— É minha esposa.

El-Sabr, era esse o seu nome, acariciou com um ar pensativo o punho adamascado do seu punhal.

— Mercadores... E que vendeis vós?

Ali teve um imperceptível movimento de hesitação.

— Livros.

Os olhos de falcão do ayyar abriram-se muito. E ele deu uma grande gargalhada, imitado pelos seus companheiros.

— Eis a minha barba!(1) É mesmo a primeira vez que ouço falar numa tal profissão!

— No entanto, ela existe — apressou-se a responder Ali. Incrédulo, o chefe dirigiu-se com passo rápido para a grande

mala de couro que continha os manuscritos. Com um gesto decidido, desembainhou o punhal.

— Não! — exclamou o xeque, correndo para o homem. — Não faças isso! Depois de rasgada, esta bagagem ficará inutilizável e o seu conteúdo perdido. Deixa-me abri-la!

E apressou-se a desatar ele próprio as correias que fechavam a mala, deixando aparecer, perante a expressão consternada do ayyar, um número impressionante de livros de todos os géneros e de manuscritos não encadernados.

El-Sabr apossou-se de uma obra ao acaso, fê-la girar um instante nas suas mãos e atirou-a ao chão com irritação.

— Não estou a entender nada disto!

Dando uma reviravolta, ordenou aos seus homens:

— Revistai tudo! Examinai os mais pequenos recantos! Se estes indivíduos são negociantes de livros, eu sou comedor de lagartos!

Num ápice, os fardos foram esvaziados do seu conteúdo, a mala com as obras do xeque foi voltada ao contrário, os arreios cortados à faca. Não se deixou nada ao acaso, mas o único resultado dessa busca selvagem foi agravar um pouco mais a irritação já grande de el-Sabr.

— Bem vês — protestou Ibn Sina —, não possuímos nem ouro, nem pérolas raras. Deixa-nos, pois, prosseguir a nossa viagem em paz.

— Nem por sombras! Desde os quinze anos de idade que gasto a minha pele em todas as areias do deserto. Sei fazer a diferença entre um passarinheiro e um aguadeiro, um vendedor de ópio e um tecedor de tendas. E, quanto a ti, posso afirmar que nada tens dum mercador. O teu nome! E de que cidade és tu?

— Chamo-me Abd el-Kitab, o servo do livro. E sou oriundo de Balkh. Tal como o meu sócio.

O ayyar apontou com o dedo para Yasmina:

E a tua esposa? Também ela seria uma filha de Balkh?

— Ela é natural de Raiy.

Deu um passo para a mulher e indicou as suas mãos e os seus pés descobertos.

— Isto é que é estranho... Uma filha de Raiy que tem a pele tão branca como uma rume.

Ali tentou manter o sangue-frio.

— Conheci mulheres do país dos Turcos com a pele cor de ébano. E naturais do Khorasan com tez amarela. Não há aí nenhum prodígio, a não ser o acaso da natureza.

— Ela que tire o véu!

Yasmina recuou, protegendo a cara com as mãos.

— Sacrilégio! — protestou Ali, interpondo-se entre el-Sabr e a sua companheira. —Terias tu esquecido as Escrituras Sagradas?

— Deus é aquele que perdoa — foi a única resposta do ayyar.

E ele arrancou o véu de Yasmina.

 

                           DÉCIMA OITAVA MAKAMA

Rapidamente dominados, haviam sido levados para uma tenda, amarrados de pés e mãos. O primeiro pensamento de Ali foi para a sua companheira, mas ficou aliviado por voltar a encontrá-la, com o rosto a descoberto, estendida ao pé de Jozjani.

— Decididamente, estes indivíduos têm uma estranha concepção do espírito de fraternidade e de generosidade.

— Bandidos, é o que eles são! — ciciou Abu Obeid.

— Que vão eles fazer de nós? — perguntou Yasmina, um tanto perdida.

— Como hei-de eu saber? Só espero que eles não mantenham relações com a corte do Daylam.

— De qualquer maneira, não vão manter-nos prisioneiros indefinidamente!

— Não. Creio que não. A não ser que...

Yasmina percebeu logo que estava implicada nessa frase voluntariamente deixada em suspenso.

— Queres tu dizer que eu me arrisco a interessar-lhes?

Ele ia responder, quando a tela, que fechava a entrada da tenda, se afastou bruscamente. Um dos homens de el-Sabr entrou de supetão. Sem pronunciar uma só palavra, desembainhou o punhal e cortou com um golpe seco as cordas que prendiam o médico.

— Anda comigo! O chefe quer ver-te.

Um instante mais tarde, faziam-no entrar na tenda de el-Sabr. Envolto numa nuvem de fumo azul, o chefe estava sentado, de pernas cruzadas, num tapete de seda. A sua mão segurava negligentemente um kalyan, um cachimbo de ópio. Os manuscritos de Ibn Sina estavam espalhados à volta dele.

A pouca distância, uma mulher grácil, com o rosto descoberto, estava meia estendida num tapete. Os seus olhos, sombreados por longas pestanas, estavam resolutamente voltados para baixo. E ela mal deu pela chegada do médico. A seu lado, encontrava-se um recipiente cheio de brasas.

Com um gesto indolente, el-Sabr convidou o xeque a sentar-se. Enquanto o observava, levou a boquilha do cachimbo aos lábios. Deitando a cabeça para trás, saboreou o seu prazer em silêncio.

— Toma! — disse ele, passado um momento, estendendo-lhe o kalyan. — É do melhor. Espero que te agrade...

Ali agradeceu e aspirou por sua vez duas profundas baforadas.

— Reconheço, realmente, a qualidade incomparável dos campos de Ispahan.

O ayyar apontou a mulher estendida no tapete.

— É Khadija, minha esposa, minha favorita. Não é lindíssima? A mulher levantou o queixo, com um trejeito de desdém.

— Inconstante e indomável como o vento — comentou o chefe com tristeza.

Depois varreu o ar com um gesto de despeito e deitou a mão a um dos manuscritos.

— Tratado sobre a natureza da oração — começou ele, com uma voz neutra.

Entreabrindo a última página, recitou:

— Em menos de meia hora, exposto a muitas distracções, compus este tratado com a ajuda de Deus e pela sua graça abundante; é por isso que peço a todo o leitor, que tenha recebido, pela graça do Altíssimo, a sua parte de inteligência e de justeza de espírito, que não divulgue o meu segredo de modo nenhum, mesmo que esteja a salvo de todas as represálias maldosas da minha parte. Confio o meu caso exclusivamente ao Senhor; só ele o conhece, e mais ninguém, afora eu próprio. Assina: Abu Ali el-Hosayn ibn Abdallah ibn Sina.(I)

— Conheces o autor deste texto? — perguntou el-Sabr, depois de uma pausa.

Ali respondeu, impávido:

— Tão bem como a mim mesmo. É um filósofo. Pelo menos, considera-se como tal.

Sem esperar, o ayyar pegou numa outra obra:

— Livro Primeiro do Cânone da Medicina. Reportando-se de novo à última página, prosseguiu:

— O selo da obra é uma acção de graças. A nossa próxima tarefa será compilar a obra sobre os Simples, com a permissão de Alá. Que Ele possa ser o nosso auxílio, e agradeçamos-Lhe por todas as suas inumeráveis mercês. Assina: Abu Ali el-Hosayn ibn Abdallah ibn Sina.

— Um filósofo, que é também um médico...

— Alá seja louvado! Temos na Pérsia homens de qualidade. El-Sabr abanou a cabeça, pensativamente, e pegou num terceiro volume.

— Tratado acerca da Música... Aquele que transcreveu esta obra é a criatura mais humilde, que conta mais pecados, Abu Ali el-Hosayn ibn Sina. Possa Alá ajudá-lo a terminar a sua vida nas melhores condições...

Neste ponto da leitura, uma certa tensão aparecera na fisionomia do ayyar.

— Um filósofo, que é também um médico, que é também um musicòlogo — disse ele, com uma voz zombeteira.

Ali não fez qualquer comentário.

— Bem vê — recomeçou el-Sabr, chupando no cachimbo com um ar absorto —, acho curioso, mesmo assim, que um negociante de livros se limite a vender apenas um só autor.

— Creio que estás enganado. Se bem examinaste o conteú­do da mala de couro, deves, seguramente, ter encontrado obras de Ptolomeu e...

— Basta! Para um livro do teu Ptolomeu, dez de Ibn Sina! E não me convencerás de que se possa ganhar a vida oferecendo uma escolha tão limitada. Não, trata-se de outra coisa.

— Que queres tu insinuar?

— Nada. A não ser que tudo isto confirma as minhas dúvidas. Com os olhos redondos postos em Ali, ele concluiu, espaçando as palavras:

— Tu não és um mercador. O teu nome não é Abd el-Kitab.

— Propõe-me um outro...

O ayyar aspirou uma baforada, antes de proferir:

— Abu Ali el-Hosayn ibn Abdallah ibn Sina. Não tenho razão?

— Se assim fosse, que importância teria?

— Uma importância extrema! Eu não suporto enganar-me. Desde sempre, assentei as minhas acções e as minhas atitudes numa intuição sem par. E ficaria profundamente transtornado nos meus humores se alguém me viesse a demonstrar que não sou infalível. Então, responde!...

O filho de Sina estendeu a mão para o cachimbo de ópio.

— Que sabes tu do homem, cuja identidade me atribuis? El-Sabr encolheu os ombros.

— Nada. Nada, a não ser que ele me parece ser dotado de um espírito pouco comum.

— És sincero? Não sabes, realmente, nada dele? O ayyar pareceu chocado:

— Quem quer que tu sejas, proíbo-te de pôr a minha palavra em dúvida. Acontece-me roubar, mas nunca mentir. Agora, responde!

Ali exalou uma fina nuvem de fumo.

— Podes estar descansado, meu irmão. As tuas intuições

são inigualáveis.

— Ah! — disse ele, com um largo sorriso. — Prefiro essa linguagem. E, para to provar, convido-te a partilhar um melão de Ferghana.

Ele dirigiu-se para um cesto de fruta, colocado em cima de uma arca ornada com arabescos.

— Olha! — disse, brandindo um melão. — Cheira este perfume!

E, inclinando-se para a sua favorita, propôs-lhe meigamente:

— Também queres, menina dos meus olhos?

Mais uma vez, a reacção da mulher foi curiosa: cuspiu para o chão e voltou-se para o lado.

— Decididamente... — disse el-Sabr, embaraçado — elas são tão versáteis como as camelas.

Desembainhando o punhal, cortou o fruto em duas partes iguais e voltou para junto de Ibn Sina.

— Por conseguinte, és médico — recomeçou ele, voltando a sentar-se. — Mas porque é que me mentiste?

— Meu irmão, a mentira é uma das taras do homem, isso é verdade. Mas permite ganhar tempo.

— Procuravas, então, preservar-te de alguma coisa. Ali não pôde senão confirmar.

Talhando uma grossa fatia de melão, el-Sabr engoliu-a de uma só vez.

— Deduzo daí que eu poderia tirar de ti um certo proveito.

— Sempre pensei que a futuwwa tinha por princípio só se atirar aos poderosos, defender a viúva e o órfão. Não imaginava que vós fôsseis daqueles que esticam a mão.(1) Estava, pois, enganado.

O ayyar ergueu o indicador direito à sua frente.

— Tu não fazes parte desses poderosos. Mas és, certamente, o servidor dum deles. Um servidor que anda fugido. A tua cabeça deve ter um preço. Entregando-te, eu não faria mais do que aliviar a bolsa dum rico.

Ali teve um gesto de abnegação.

— Singular raciocínio, contra o qual eu estou desarmado, infelizmente...

E há outra coisa. Essa mulher, que te acompanha, é mesmo tua esposa?

— De alguma maneira.

 

(1) Esticar a mão para apanhar o que é dos outros, praticar a concussão a a tirania. (N. do T. )

 

— Há quanto tempo a conheces?

— Há umas semanas. Mas porquê estas perguntas?

O ayyar estendeu-se no tapete e disse, esfregando a ponta do queixo:

— Fica sabendo que, enquanto nós falamos, um dos meus homens não deve poder dormir. Está convencido de que a encontrou em qualquer parte. Numa cidade, Bagdad, provavelmente. Mas, infelizmente, é incapaz de se lembrar em que ocasião, em que dia.

Ali enrugou a testa, subitamente preocupado. Pensou nas discussões que tivera com Yasmina, em todas as perguntas que haviam ficado sem resposta.

— Não sei quais são os teus projectos — disse el-Sabr —, mas permite-me que eu te recorde o famoso provérbio: Nesses três seres nunca deposites a tua confiança: o rei, o cavalo e a mulher...

Ali continuou, em lugar do ayyar:

— ... porque o rei é insensível, o cavalo, fugaz, e a mulher, pérfida... Sim, meu irmão, eu sei. Responder-te-ei, simplesmente, que se venera raramente o rei e que não se fornica com o cavalo. Em compensação, ama-se uma mulher e faz-se-lhe amor. Há apenas que tomar cautela, para não sofrer muito. Enfim, quando se pode...

Ele adoptara um tom um tanto indiferente, mas, no fundo de si mesmo, estava profundamente perturbado pelas confidências do chefe.

A voz irónica da favorita de el-Sabr arrancou-o, bruscamente, aos seus pensamentos:

E que se deve dizer dos homens que nem sequer fazem amor à sua mulher?

O ayyar explodiu:

— Agora, basta! Se continuas a encher-me os ouvidos, mando-te embora para a tenda das tuas companheiras.

Voltando-se para Ali, retomou, irritado:

— Ora, bem. Agora, conta-me a tua história! Quero saber tudo.

Perante a sua expressão hesitante, o chefe apressou-se a explicar-lhe secamente:

— Toma cuidado, Ibn Sina! Esta noite, não estou com disposição para tergiversar. Fala e não me faças impacientar-me! Um indivíduo da tua inteligência deve saber que não tem por onde escolher. Eu poderia mostrar-me muito menos hospitaleiro. Estou à escuta.

A ameaça era inútil. No momento em que entrara na tenda, Ali já sabia que seria vã qualquer resistência. Então, confíou-se. Revelou, em linhas gerais, a sua situação junto da rainha, de Majd el-Dawla, o ataque a Raiy, a intervenção de Shams e a sua fuga. Quando ele acabou, o ayyar levantou-se subitamente:

Buyidas, Samânidas, gente do serralho... são todos iguais. Ratos presos na sua própria ratoeira. Não tenho respeito nenhum por esses indivíduos. São desprovidos de qualquer nobreza. O seu único interesse limita-se a disputar entre si bocados da nossa terra, como abutres com o cadáver duma gazela. Eu tenho de reflectir. Amanhã, decidirei quanto à tua sorte e à dos teus amigos. Agora, vai-te! Preciso de dormir.

Ali cumprimentou. Ao retirar-se, deitou uma olhadela discreta à favorita. Ela estava com um ar mais carrancudo que nunca.

Dez dias passaram.

Foi só na manhã do décimo primeiro dia que o chefe dos ayyarun mandou chamar o seu prisioneiro. Mal tinha entrado na tenda, Ali tomou consciência do estado de enervamento em que el-Sabr estava mergulhado.

— Que o diabo leve as mulheres! — suspirou ele, dando grandes passadas. — Raios partam as criaturas do diabo! Que pensas de Khadija?

— Mas...

— Sem rodeios! Quero a tua opinião.

Atrapalhado, o xeque tentou encontrar a palavra adequada.

— Visto que a tanto me autorizas — começou ele, prudentemente, — eu diria que é uma mulher... muito agradável.

— Mas também...

— Apetecível...

— Que mais?

— Meu irmão, perdoa-me, mas eu nada sei da tua favorita. Como poderia eu...

— És um homem de ciência. És um sábio. Um escritor. Deves ser capaz de julgar os teus congéneres só com um olhar!

Ali meditou, um instante. Era evidente que el-Sabr desejava ouvir determinadas palavras. Mas quais?

— Ela é única — lançou ele, bruscamente. — É única, visto que tu a amas.

As feições do ayyar pareceram ir-se abaixo de repente. Ele deixou-se cair no seu tapete de seda, deitando as mãos à cara.

— Sim — gemeu ele. — Sim, eu amo-a. E esse amor é a causa de todos os meus males.

— Confia-me o teu problema!

Continuando com o rosto escondido, o homem murmurou:

— Ela quer deixar-me... Ela despreza-me. E o seu desprezo queima tanto como um tição. Achas que se pode morrer de amor?

— Sim... meu irmão. Às vezes. Mas descansa, é uma morte de que se volta. O mundo está cheio de almas penadas do amor.

O ayyar afastou as mãos e levantou a cabeça devagar. Ele estava verdadeiramente desesperado.

— O teu conhecimento pode explicar o inexplicável?

— Qual é o teu cuidado?

El-Sabr hesitou um momento, antes de declarar com uma voz fraca:

— A minha virilidade deixou-me... Ali julgou ter ouvido mal.

— Sim — repetiu o chefe dos ayyarun, mortificado. E, para bem sublinhar os seus propósitos, assentou a mão no sexo:

— Ele já não me obedece. Foge ao trabalho. Furta-se como um corcel diante do obstáculo. Tu pròprio o disseste, a minha mulher é apetecível. E eu sei que a sua gampa é mais bela do que a duma égua. Os seus peitos interpelam-me como astros. E a sua pele tem o perfume da manga.

— Mas, mesmo assim, fazes-lhe amor? — inquietou-se Ali, em plena perplexidade.

— Não estou eu já bastante humilhado, para que a tua pergunta venha ainda acrescer essa humilhação? Claro está que lhe faço amor. Mas o infortúnio pôs-me nos braços uma esposa jamais saciada. Uma loba com o desejo sempre renovado. O primeiro amplexo não é mais do que um prelúdio, a seus olhos. Enquanto que eu, por mim, estou satisfeito. O meu membro apaga-se como uma chama, à primeira mudança do vento... Que posso eu fazer? É, talvez, a idade? Talvez eu esteja doente?

E apressou-se a perguntar:

— Estou doente?

Ali mostrou-se tranquilizador:

— Não, meu irmão. Mas, bem vês, a virilidade do homem não é sempre constante. Influenciável, ela varia consoante os humores, as estações do ano, a alimentação. Não há nisso nada de alarmante. Posso afirmar-te que estás tão sólido como um rochedo.

— Mas, então? Que posso eu fazer para satisfazer a minha Khadija? Eu amo-a, não a quero perder. Ela ameaçou-me de se atirar para os braços do primeiro cameleiro! E isso... Jamais eu poderia aceitar isso. Se, amanhã, a surpreendesse a enganar-me, a sua cabeça iria rebolar para um arrozal do Mazandaran, juntamente com a do seu amante! Pelo Invencível o juro!

— Acalma-te! Talvez eu tenha uma solução para o teu problema.

Os olhos de el-Sabr arredondaram-se subitamente.

— Sim — continuou Ali —, quando a cana pende, há que pô-la outra vez a direito. Quando o tronco fraqueja, precisa dum tutor.

— Que sugeres tu?

— Existe uma substância... Uma substância em pó, que se tira da casca duma árvore e que tem a faculdade de restituir àquele que a absorve a virilidade dos seus vinte anos.(1) Duas horas antes de ires ter com a tua bem-amada, bastar-te-á beberes uma decocção dela, para conheceres o ardor do leão.

À medida que o médico falava, a expressão de el-Sabr tornava-se a de uma criança maravilhada.

— Jura! — balbuciou ele, de boca aberta. — Jura-me, pelo santo nome do Profeta, que é verdade tudo o que estás dizendo!

Ali respondeu afirmativamente.

— Poderias preparar-me esse remédio mágico para esta noite?

— Agradece à Providência! Pois a árvore em questão não cresce no nosso país. Mas descansa, eu possuo alguns bocados de casca, comprados há uns meses a um mercador de ervas.

O ayyar fechou os olhos, por um instante. Ali disse para consigo que na sua cabeça passava sem dúvida a visão ardente das suas proezas futuras.

— Filho de Sina, eis o pacto que eu te proponho: se a tua poção milagrosa agir como tu deste a entender, os teus amigos e tu podereis seguir viagem, em liberdade, para o lugar de destino que escolherdes. No caso contrário...

Ele fez uma pausa, antes de concluir num tom seco:

— No caso contrário... amanhã de manhã, terei o prazer de te amputar dos teus órgãos genitais e de os espetar na ponta da minha lança. Este pacto convém-te?

O xeque engoliu a custo a sua saliva.

O martelar lancinante dos tamboris acompanhava os movimentos frenéticos do dançarino. Sentados em círculo à volta dele, com a cara iluminada pelas chamas e pelo ouro das estrelas, os homens encorajavam-no, batendo com ardor na palma das mãos.

Por cima do acampamento, a Lua estava redonda e cheia. A tenda de el-Sabr estava fechada.

Deitado na esteira, com o corpo reluzente de suor, Ali prendeu com fervor a boca de Yasmina. Os seus lábios juntaram-se com uma extraordinária intensidade. As suas salivas misturaram-se, procurando confundir as suas línguas numa busca apaixonada.

— Se, amanhã, devo ser castrado, Alá faz com que esta noite seja a noite de todo o meu amor!...

Yasmina, na penumbra, teve uma expressão comovida e ofereceu-lhe os lábios ainda com mais ardor.

Os seus cabelos desatados faziam no chão uma mancha castanha avermelhada, que se diluía no loiro da esteira. Subitamente, ele obrigou-a a ajoelhar-se entre as suas coxas e puxou-lhe a cabeça para o seu baixo-ventre. Ele deu um gemido, quando a língua da sua amante passou ao de leve pelos segredos da sua carne, e estendeu-se mais para ela. Numa espécie de desesperança, estreitou as têmporas da mulher e levou o seu sexo ao encontro dela. Lentamente, ela conduziu-o até à beira do prazer, depois ainda para além, de tal sorte que ele soltou um grito desconcertante, quase um soluço.

Quase no mesmo instante, agarrou-a pelos ombros e trouxe-a para o seu peito, cobrindo-a de beijos, sorvendo o mel e o âmbar da sua pele.

— Amo-te... minha bem-amada! Amo-te como se ama a felicidade e a vida.

Ela quis responder-lhe, mas não conseguiu articular o menor som. Não fez mais do que apertar-se de encontro a ele, desesperadamente, com todas as suas forças, com os dedos incrustados nas suas costas, presa ao corpo dele como se, debaixo de si, se encontrasse um abismo assustador de infinito.

— Quando se diz que, no coração humano, o amor é como uma chama devoradora, creio que isso é verdade...

E agora, Ali, meu bem-amado, tens menos medo do amor?

— Pelo contrário. Tenho muito mais medo ainda... Sem dúvida porque sei, doravante, que o meu primeiro olhar para ti não era o primeiro; que o nosso primeiro encontro não era o primeiro. Como sabia também, na hora da nossa separação, que nada seria bastante forte para nos manter separados.

Ele calou-se.

No exterior, o som agudo de uma flauta tinha-se unido ao tamboril.

Ali recomeçou:

— Mas sei também que essas convicções reforçaram a minha fé na eternidade e na imortalidade da alma... Isso ajuda-me, às vezes, a esquecer o meu medo. Mas que importa?... Ardamos, meu amor! Queimemo-nos, visto que esta noite é capaz de ser a minha última noite...

As palmas das mãos de Ali deslizaram febrilmente ao longo do busto de Yasmina, para a cintura e as ancas. A sua mão direita desceu mais abaixo ainda, imobilizou-se sobre a fenda quente que dormia entre as coxas dela, e o seu dedo grande tocou ao de leve na corola trémula de orvalho, arrancando à mulher um suspiro.

— O teu corpo é a minha página de ouro — disse ele, suavemente —, e eu sou o càlamo que nela escreve...

Ela ofereceu-se naturalmente às suas carícias, muito tempo, infinitamente, até sentir que ele a tinha penetrado. Primeiro, foi uma posse lenta, meiga; mas, muito depressa, tomou um outro aspecto, mais intenso, mais forte. Ele levantou as pernas da mulher, dobrou-as quase sobre o seu busto, de maneira a entrar nela mais profundamente. Ela teve a visão furtiva de uma vaga quebrada por uma proa e cerrou os lábios para não gritar. Com a violência do amplexo, a dor não tardou a confundir-se com o prazer, um ardor intenso invadiu todos os seus poros, um pouco como se o Sol tivesse descido ao mais íntimo dela. Lágrimas de felicidade correram ao longo das suas faces nacaradas. O seu espírito voltou-se, ela já não era senhora de si. Libertou as pernas, o seu corpo curvou-se como um arco sob a intensidade do prazer, e ela dei-xou-se cair para trás, desfalecida.

Aquele prazer desmedido renovou-se uma e outra vez até à aurora, nutrindo-se de mil carícias, de mil fogos, até ao momento em que a voz de Jozjani os arrancou à sua loucura:

— El-Sabr! El-Sabr quer ver-te imediatamente! Estava a amanhecer.

Primeiro, Ali julgou ser sem dúvida vítima de uma alucinação, que o medo de morrer lhe inventasse uma miragem ou que a noite de amor, que acabava de passar, lhe tivesse transtornado a razão. No entanto, ele estava mesmo ali. De pé, ao lado de el-Sabr. Real. E ele sorria-lhe.

— Mahmud... — balbuciou Ali, com a garganta apertada num torno. — Mahmud, meu irmão... Es mesmo tu?

O jovem contentou-se com aquiescer, ele próprio tão comovido como o xeque.

Ali deu mais um passo. Incerto. A sua mão estendeu-se, quase sem ele dar por isso, para a face do irmão mais novo. Bruscamente, agarrou-o pelos ombros e puxou-o para o seu coração.

— Mas como... como chegaste tu aqui? Mahmud sacudiu a cabeça, com lassidão.