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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


BALA SANTA / Luis Miguel Rocha
BALA SANTA / Luis Miguel Rocha

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

BALA SANTA

 

                               Tudo tem um início.

O princípio, o começo, o arranque, o zero, o domingo, o tiro de partida, o esgravatar da terra em busca de luz, o chapinhar na água, a precoce batida do coração, a primeira palavra, o primeiro choro que aprisiona a alma e agarra a vida até à hora da morte que se espe­ra tardia e coberta de prosperidade e prestígio... o nada a caminho do tudo, a primeira pedra de uma aldeia, vila, cidade, de um muro, de uma casa, de um palácio, de uma igreja, de um edifício. Deste edifício em cidade incógnita, cujo rés-do-chão e subcave são ocupa­dos por um restaurante de luxo, conforme nos indica a ementa fixa­da ao lado da porta. Não que anuncie aos quatro pontos cardeais, mais os colaterais, sobre esta sua qualidade, nada disso, percebe-se pelo facto de não se saber o que está por trás das portas de vidro fumado, sempre fechadas, pela pose altiva do empregado, impeca­velmente vestido com uma farda da cor do vinho tinto. Em última análise, o leigo aperceber-se-á do luxo que emana deste restaurante pelo facto de não haver qualquer intenção de anunciar o estabeleci­mento para além de um empregado fardado e da placa que indica uma amostra de pratos executáveis. A falta de preços na ementa, aliada à proliferação de expressões em francês, é também sinal de fausto, mesmo que a cidade incógnita se situe em terras francesas, o que não é confirmado nem tão-pouco desmentido. O que é certo é que o dito restaurante não precisa de qualquer divulgação dos seus serviços, o que, por si só, subentende clientela recorrente.

Qualquer comensal que queira usufruir dos valimentos deste estabelecimento terá primeiro de ver aprovada essa ambição. Auto­rização sem a qual jamais passará pelas portas de vidro fumado. Habitualmente, pode ser conseguida através da sugestão de um cliente frequente, o equivalente a membro, que tem muito peso junto da gerência, ou fazendo um pedido formal que passa por um longo processo de averiguação da vida privada do visado. Uma conta bancária recheada é útil mas não preponderante, pelo que é habitual verem-se declinadas as pretensões de alguns novos-ricos, ainda que também não sejam escassas as de membros consanguí­neos de linhagens ancestrais. Tal declinação, e repare-se que as pala­vras «rejeição» ou «recusa» jamais são usadas, é efectivada através uma missiva em sobrescrito branco, sem referência ao remetente. Uma vez tomada essa decisão, esta nunca mais poderá ser revogada. Em caso de aceitação, haverá um conjunto de regras a serem consi­deradas. Está, por exemplo, previsto nos estatutos a expulsão de um membro nos casos de ofensas mais graves, se bem que tal nunca tenha acontecido.

A aceitação como cliente frequente ou membro do estabeleci­mento é manifestada de forma diferente da recusa. Um telefonema para a residência a convidar o eleito para um jantar. Aí sim, é cumprimentado pelo empregado fardado que abre as portas de vidro fumado. Uma vez lá dentro, é tratado com toda a deferência, mas sem nunca roçar o excesso. Outro serviçal encarrega-se de o aliviar das vestes mais pesadas. Seguidamente, é encaminhado para a sua mesa que, a partir deste dia, será sempre a mesma, seja qual for a hora, em qualquer dia da semana. Pode trazer sempre os convida­dos que desejar, conquanto informe a gerência até cinco dias de antecedência e reporte os nomes dos convidados. Neste caso não será aferida a moralidade dos acompanhantes. Privilégio este de clientes seleccionados que podem comprovar o que e com quem quiserem: favores, negócios, intrigas, chantagem, compras, o desti- no dos outros, os seus destinos, sem que ninguém aponte um dedo recriminatório, tudo acompanhado pelo paladar requintado de um peito de frango recheado com patê de bacon e molho de cogumelos, vinho tinto e brandy. Aqui não existem transacções financeiras, só as mencionadas nos negócios discutidos à mesa e que não são pou­cas. Os membros pagam uma avença mensal de doze mil e qui­nhentos euros, por transferência bancária, que cobre todos os privi­légios de ter uma cozinha disponível durante as vinte e quatro horas dos sete dias da semana. Assim funciona este restaurante, com filiais espalhadas um pouco por todas as cidades de maior influência polí­tico-económica do mundo, como esta.

Hoje, nesta hora almoço em particular, o restaurante está meio vazio, o que equivale a dizer que os clientes das mesas desocupadas ficaram retidos nas suas vidas pessoais ou profissionais ou outras. A mesa que nos importa é a treze, contudo, os dois homens que nela se sentam não são dados a concepções supersticiosas. Na sua opi­nião, tão válidas como quaisquer outras, o que importa é o aqui e o agora. O que está para além disso são teorias inúteis e inválidas, aos milhares, incapazes de serem avalizadas, de momento, por falta de elementos que consigam explicá-las. Contudo, estes homens são moldáveis aos tempos e às circunstâncias. Cada caso é um caso. Num mundo em que o motor é o dinheiro, esta filosofia adaptativa é vantajosa e estes dois sabem aproveitar-se dela.

Razões de segurança e privacidade impedem que se divulgue em que cidade se localiza o restaurante a que pertence a mesa número treze em que se sentam, um na frente do outro, os dois homens. O que está de costas para a sala de refeições é o membro e, embora não transpareça, tem idade para ser pai ou até avô do que se lhe senta à sua frente. Não é uma coisa nem outra, nenhum laço de parentesco os une, a não ser o de Adão e Eva que nos liga a todos. Na verdade nem amigos são. O mais novo é colaborador do mais velho, para não dizer servo, um epíteto em desuso nos dias actuais, pelo mesmo motivo talvez não devamos chamar ordens àquilo que está a receber e sim instruções ou indicações. Trajam sobriamente, como qualquer executivo ou homem de negócios sentado nas outras mesas. Comem uns deliciosos bocados de alabote com molho de espinafres e mascarpone e folhados de presunto de Parma, o que deita por terra a teoria de que se come pouco e mal nos restauran­tes de luxo. A ser verdade, este deve então figurar nos da categoria de excepção à regra. Bebem um Pinot Noir, Kaim ira, colheita de 1998, escolhido pelo membro sem qualquer consulta, prévia ou pos­terior, do colaborador. Tudo é comedido, pois não são homens de excessos nem contemplações, nunca o foram, já que a palavra «excep­ção» não faz parte dos seus vocabulários. Tudo é o que é: aqui e agora, sempre.

Não tive oportunidade de lhe perguntar como está a correr a investigação nos Estados Unidos — pergunta o mais velho.

Foi arquivada, obviamente. Causas naturais.

Perfeito. Posso portanto depreender que não restou qualquer indício no local?

O calculismo do mais velho assoma-lhe à boca. Não é dado a imponderabilidades ou surpresas de última horta.

Com certeza. Recolhi tudo antes de as autoridades chegarem. A idade dele também ajudou a que encerrassem tudo mais rapida­mente — explica o mais novo com um tom frio e profissional.

Perfeito.

Continuam a comer em silêncio durante algum tempo. Deste modo se percebe quem marca a cadência da conversa, para não a rotular de interrogatório, pelo menos nesta fase, pois este não é um almoço de confraternização ou convívio, mas uma reunião com um plano de trabalhos bem delineado pelo mais velho. Ambos comem *- pausadamente, enchendo o garfo com pouca comida de cada vez e parando para mastigarem sem pressa.

A segunda parte do plano vai iniciar-se de imediato — come­ça o mais velho. —Vai ser cada vez mais exigente. Não pode haver falhas.

Não haverá — garante o mais novo, confiante.

Como está a equipa?

— Já no terreno há algumas semanas, conforme ordenado. Todos os alvos estão sob vigia permanente, excepto um.

Pois, pois. Óptimo. — Só faltava esfregar as mãos de conten­te, se fosse um homem dado a elocuções gestuais. Todas as emoções são guardadas para si e jamais partilhadas. Porém, aquele que falta não será fácil de agarrar. — E em Londres?

O nosso homem conseguiu acesso privilegiado ao alvo — explica. — Assim que eu dê o OK, o caminho será aberto.

— São as partes mais difíceis de concretizar do plano. Londres e JC — informa com dureza o homem de costas para a sala de refeições.

Ainda não há sinal dele? — quer saber o mais jovem.

Não. É uma raposa velha, como eu. Mas somos obrigados a fazê-lo aparecer, caso contrário, o plano ficará comprometido.

Fá-lo-emos aparecer. Londres provocará isso.

Sim. Assim que surja, não pense, aja. Se se der ao luxo de pen­sar durante um segundo que seja, quando der por si, já estará domi­nado por ele.

O jovem não consegue imaginar um cenário desses. Não que não esteja preparado para tudo, mas a ideia de haver pessoas com tanta rapidez de raciocínio como ele parece-lhe um tanto ou quanto improvável. Além, disso estamos a falar de um velho com mais de setenta anos. Que mal poderá ele representar? Não deixa, porém, transparecer tais pensamentos perante o idoso sentado na sua mesa, ou antes, na mesa dele.

Sei o que pensa — adverte o mais velho. — Todos os seres humanos têm fraquezas. A minha é a Igreja, a sua é a autoconfian­ça. É um erro. Retire tudo isso da equação, o seu próprio ego. Só assim poderá garantir que não falhará.

— Será feito.

— Terá mesmo de ser. Caso contrário, não será você a olhar para o cadáver deles. E mesmo em Londres não vai ser fácil.

Tenho lá um homem muito eficiente que abrirá o caminho para eu fazer o trabalho.

Uma ressalva antes de tudo o resto. De momento, não tenho qualquer motivo para criticar ou censurar o seu trabalho. Cem por

cento de eficácia, mas sem nunca ter defrontado as forças que vai ter pela frente desta vez...

O plano é praticamente infalível — contesta o jovem, ousada­mente.

Isso não existe — argumenta o outro. — Existe um plano que tem tudo para dar certo, aliás, tem de dar certo, é essa a minha von­tade, mas infalível nem o papa.

Claro, mas...

Para terminar a minha ressalva — interrompe — apenas uma pequena advertência. — Espera que o jovem o fite bem nos olhos, captando toda a sua atenção: — JC foi o homem que matou João Paulo I, em 1978 e, apesar disso, não conseguiu matá-lo em Londres. E, também ele, nunca tinha falhado antes.

O jovem absorve as palavras e queda-se pensativo durante alguns momentos. O velho tem razão. O excesso de confiança é inimigo da concretização. É essa a mensagem que ele quer fazer passar.

Compreendi. Não darei margem de manobra a ninguém. — Também ele está ciente de que se falhar não sobreviverá. Seja por intermédio de JC ou deste cliente frequente do restaurante localiza­do em cidade incógnita, não verá o dia seguinte. É hora de mudar de assunto, dentro do mesmo tema, seguindo a enorme abrangência do plano. — E quanto a Mitrokine?

Está tratado — responde o velho. — Os meus contactos em Moscovo estão a tratar do assunto neste preciso momento.

E o turco?

Deixe-o continuar preso. Esse não faz mal a ninguém. Não se esqueça que não voltaremos a comunicar até que o plano se conclua.

Sim, compreendo. Não esquecerei. Só falta...

O Vaticano — interrompe o velho. — Desses tratarei pessoal­mente. — Pela primeira vez o velho esboça um sorriso esbatido. Tudo tem um início.

 

                     WOJTYLÀ, 13 de Maio de 1981

De entre aquelas vinte mil pessoas, nenhuma saberá dizer ao certo se chovia ou se o céu estava limpo naquele longínquo décimo terceiro dia, do quinto mês, do ano da Graça do Senhor de 1981. Porventura, se fizessem um esforço, pudessem afirmar com alguma dose de certeza que estava um dia de sol brilhante, um calor pri­maveril aprazível, apesar de ter chovido um pouco a meio da tarde, não muito, apenas durante cinco minutos. E, destas vinte mil pes­soas, mais de metade não se lembrará do calor primaveril aprazível, tão-pouco do sol, mas não esquecerá a chuvá, conseguirão ainda senti-la a molhar o corpo, a ensopar os ossos, tal como no próprio dia em questão. Alguns duvidarão inclusive de que tenha chovido somente durante cinco minutos, não, foi muito mais, cinco minu­tos apenas não molham assim tanto. Mas de todas as reminiscên­cias, estas vinte mil pessoas não se lamentarão nem da chuva nem do sol, contudo ainda sentem a dor e as lágrimas a escorrerem pelas suas faces, e o som agudo de cada tiro bem vivos na mente, um, dois, três, quatro, cinco, seis, primeiro, segundo, terceiro, quarto, quinto, sexto. E o impacto que rasgou a carne e fez chiar de mágoa as vinte mil pessoas, tanto como a própria vítima. Disso sim, lem­bram-se. Que importância tem o sol e a chuva no meio de um cal­vário desses? Que importam as horas certas, se o papa podia ter morrido?

Vinte mil pessoas aguardavam-no nesse dia, na majestosa Praça de São Pedro, a sala de visitas do mundo católico. Para aqueles elei­tos pelo acaso adequava-se a máxima de ir a Roma e ver o papa. No número magno de um bilião de fiéis católicos que, segundo o mun­do estatístico, se espalham pelo globo, apenas alguns poucos milhões poderão dizer que já viram o papa e desses, menos ainda poderão gritar a viva voz que o viram a uma distância identificável. E, no fim de contas, apenas um parco número na ordem dos milhares poderá afiançar que tocou no Santo Padre ou que trocou palavras com ele. Para a maioria, o papa não passa de uma imagem na televisão, de uma fotografia, de uma ilusão. Para o jovem de 23 anos que aguar­dava no meio da multidão, sempre com as duas mãos enfiadas nos bolsos do casaco, o Sumo Pontífice, Karol Wojtyla, era apenas um trabalho.

Estava em Roma havia três dias e esperava sair do país ainda naquele 13 de Maio, depois de cumprida a tarefa encomendada. Não era de fácil concretização, mas o desafio clamava dentro do seu coração jovem. Assim que superasse o obstáculo com distinção, todos o olhariam com outros olhos, com respeito e admiração, até com algum receio. Alude-se às pessoas integrantes do seu ramo de actividade, obviamente. Os outros, os que formam a chamada socie­dade, jamais saberiam da sua existência ou da autoria material no acto que iria mudar para sempre o mundo católico. Matar um papa não era algo de propriamente novo, já outros o haviam feito no pas­sado, o anterior, Albino Luciani, foi disso prova, como bem sabia, mas nunca ninguém o fez aos olhos do mundo em pleno dia, sem esperar pela calada da noite para depois pôr as culpas num coração débil. Este homicídio era muito mais ousado. Matar e andar, no meio de vinte mil pessoas, à luz das cinco da tarde.

Choveu um pouco durante a tarde, mas esta acabou por se render definitivamente ao sol, que cobriu a cidade e o pequeno Estado do Vaticano com um calor primaveril aprazível. A chuva seria, talvez, uma melhor aliada, uma vez que encobriria os seus gestos no meio dos chapéus-de-chuva protectores. Por outro lado, obrigaria a que João Paulo II fosse, ele próprio, acompanhado de um assistente para o proteger com um chapéu-de-chuva. Em último caso, poderia até optar por desfilar num carro fechado. Melhor assim, portanto. Ao sol, o Universo conspirava a seu favor. O crime perfeito não é aquele que não parece ser crime, mas aquele em que não se é apanhado.

As ordens haviam sido precisas, matar e andar, disparar e fti.gir, se fosse capturado, só podiam fazer uma coisa por ele e não passava pela sua libertação. Mas nada de mal iria suceder. Pleno de fé em si próprio, apertou ainda com mais força a coronha do revólver que estava dentro do bolso do casaco. Mais quinze minutos...

 

A alguns quarteirões da Praça de São Pedro, encontra-se outro admirável templo da Cristandade, a Basilica di Santa Maria Maggiore, o mais antigo lugar de culto do mundo dedicado à Virgem. É tam­bém conhecida como Basilica di Santa Maria della Neve, ou Liberiana, em honra de Libério, papa do século iv, a quem a Virgem apareceu em sonhos e ao qual, sob o testemunho do patrício roma­no João e sua esposa, pediu que se construísse uma capela, em Roma, no local onde viesse a nevar por aqueles dias. Tal variação cli­mática veio a acontecer, de facto, em pleno Verão, na noite de 4 para 5 de Agosto do ano 358, no monte Esquilino. Ora, sendo Libério o papa, esqueceu o pedido humilde da Virgem e traçou um esboço na neve daquilo que viria a ser um enorme santuário. Porém, só um sécu­lo depois, no papado de Sixto III, logo após o Concílio de Éfeso, aque­le que confirmou a maternidade divina de Maria e veio tornar legal aquilo que já se sabia há cinco séculos, a existência do Filho de Deus, concebido sem pecado, é que foi construída a basílica, ainda maior do que previa o projecto inicial do santuário de Libério que lhe foi consagrada. É este mesmo edifício sacro que, mais restauração, menos restauração, se ergue nos dias actuais no monte Esquilino e que todos os 5 de Agosto se vê inundado de pétalas brancas, simbo­lizando a neve que nunca mais voltou a cair, literalmente, em pleno

Verão. A amada Maria, Senhora da Terra, acolhida sob o signo de Salus Populi Romani.

Às cinco da tarde daquele dia 13 de Maio, entrou nestes domí­nios um purpurado que caminhava em passos largos, percorrendo a portentosa abside, ignorando fiéis e turistas e, por acréscimo, os des­lumbrantes mosaicos do frade franciscano Jacopo Torriti, originá­rios da época em que o frade viveu, o século mil, e que retratam a Coroação da Virgem. Tão-pouco prestou atenção às ancestrais colu­nas de mármore atenienses que suportavam a nave e serviram de molde a muitas outras estruturas idênticas do mundo católico ou à tumba onde Gian Lorenzo Bernini descansa para a eternidade. Nada disso ofuscava a concentração do bispo, que continuava o seu caminho na direcção do altar.

Sua Eminência necessita de alguma coisa? — pergunta um dos redentoristas com amável simpatia, ainda que se tenha colocado no caminho do prelado com alguma rispidez, o que não deve ser inter­pretado como rudeza, mas antes como vontade de servir.

O purpurado pára por momentos ao ver o seu caminho impedi­do e, como que voltasse a reflectir, contornou o irmão responsável pelas confissões daquele dia.

Saia-me da frente — rosnou, só faltando empurrá-lo, coisa que provavelmente faria se não o tivesse já contornado. — Só falta­va sair-me um dominicano ao caminho.

O objectivo do seu trajecto revelou-se ao fim de alguns metros, junto ao baldaquino de bronze, quando desceu as escadas que leva­vam à cripta.

A cripta de Belém, também chamada da natividade, é um lugar santo com um grande significado religioso e histórico. Alberga, segundo parece, relíquias da Terra Santa, entre as quais figura nas tábuas que pertenceram ao berço de madeira em que Jesus Cristo dormiu aquando do seu nascimento. Tudo isso pode ser visto aqui nesta cripta onde Inácio de Loiola deu a sua primeira missa no dia 25 de Dezembro de 1538, antes de fundar a célebre Companhia de Jesus, que ainda hoje coabita entre nós. O purpurado desceu ao san­tificado lugar, ajoelhou-se e benzeu-se.

— Perdoe-me, Pal, pois eu pequei — suplicou baixando a cabeca em gesto de submissao e gentrino arrependimento. — A carne é fraca, sou urn fraco. 0 demOnio tenta-me diariamente e nao tenho forcas para resistir.

As lagrimas jorram dos olhos como agua a abrir caminho pelos trilhos da nascente. Nao e pouco o sofrimento do purpurado nein a carga que Ihe sopesa os ombros, fazendo-o vergar e implorar a Deus Pai Todo-Poderoso pela sagrada misericOrdia divina. Quern ntmca pecou que atire a primeira pedra sobre este bispo carpidor da Igreja Catolica Romana, pois se nem boa parte do; santos conseguiu pas­sar a sua vida imune a sagacidade do ma!, ainda que lhe tenha resis­tido mais que os comuns mortais. Nesta cripta estao enterrados papas e outros doutos da Igreja a quern o bispo vem pedir clemen­cia e forca, já que o peso é demasiado para urn homem so.

— Ajuda-me, meu Sao Jerónimo, intercede por mim junto do Deus Menino — suplica o purpurado cobrando favores ao santo aui sepultado, pois urn bispo deve ser atendido antes dos outros fieis ou nao fosse esse urn dos privilegios de servir a Deus. — Por tudo o que é mais sagrado, tira-me este peso dos ombros. Deixa-me respirar.

Levantou-se e retirou uma chave que trazia pendurada ao pesco­co numa volta de ouro. Colocou-a na fechadura do escudo de vidro e rodou. Apesar de rid() ser uma porta que se abrisse corn frequen­cia, nao revelou qualquer sinal da prisao dos tempos. Talvez porque o ouro se mantivesse incorruptivel ao long° dos seculos, superando as animosidades do clima, da Historia e da loucura dos homens.

As entranhas seculares rodaram os mecanistnos interligados que abriram o escudo de vidro. De dentro da batina, o prelado retirou um sobrescrito amarelo e grande que dep6s no interior, por tras do relicario dourado. A expressao pensativa durou uns instantes, o suor misturava­-se corn as lagrimas: o mesmo sal para diferentes sensacoes. As varias mandestacOes do corpo na sua logica reaccional. Fechou os olhos ao mesmo tempo que rodou a chave, fechando a o escudo de vidro que guardaria o segredo ate quando a HistOria decidisse julga-lo, noutra epoca, nem melhor nem pior, mas diferente desta, longinqua, quando já nao restasse ninguem relacionado corn tal segredo no capitulo terreno.

Mais calmo, recuou alguns passos de cabeça baixa, em atitude submissa, mas nunca humilde.

— Meu Pai, perdoa-me por tudo o que fiz — disse em voz grave e pesarosa. Abriu os olhos ainda humedecidos e benzeu-se antes de virar as costas e sair da cripta. — E pelo que mandei fazer.

 

Mais ou menos à mesma hora a que o bispo saía da Basílica di Santa Maria Maggiore, onde expiou os pecados que lhe massacravam a consciência, João Paulo, o segundo Pastor dos Pastores com esse nome, fazia a sua aparição na Praça de São Pedro perante as vinte mil pessoas presentes. Um corredor, aberto pelas forças de segurança por entre os fiéis, indicava o caminho que o carro, descapotável, compra­do propositadamente para aquelas ocasiões, tomaria. A multidão aclamava o Santo Padre, criando um clamor ensurdecedor que se espalhava pela praça, vias e ruelas adjacentes. Era o papa, o mais santo entre os santos, a voz de Deus na Terra. Quantos não pagariam por um momento destes, de o poder ver ali, a dois ou três passos, a acenar, a sorrir, grato pela visita e dedicação deles... grato pela fé?

Alheio a tudo isso, o jovem de vinte e três anos aguardava a altu­ra certa. A caravana distava ainda mais de cem metros e aproxima­va-se devagar. O polaco queria mesmo ser visto por cada um dos seus dilectos fiéis. Aproveita a tua última ovação, pensou para si mesmo. Daqui vais directo para a cova. Respirava a confiança pró­pria da perene idade, excessiva e tonta que acaba por passar com o tempo, ou não, dependendo da vida que cada um leva e da força com que ela nos faz vergar à sua vontade, sem piedade ou miseri­córdia, sem contemplações.

Cinquenta metros separavam a vida do vale das sombras da morte, a desventura da glória restrita, Wojtyla de Mehmet, respecti­vamente, sendo este último o nome do jovem imberbe de vinte e três anos, de mãos enfiadas nos bolsos do casaco, apesar da ausência de frio. Nada os unia naquele momento, um fiel disfarçado e o maior contrito de todos eles, ignorando que era o alvo do rapazola atirador profissional com currículo, preparado para adicionar a cereja ao bolo da carreira, aquela pelo qual jamais seria esquecido no seu mundo.

Aos quarenta metros as pessoas começaram a juntar-se cada vez mais, apertando-se, acotovelando-se urnas às outras na esperança egoísta de conquistar urna melhor posição de visionação, quem sabe até roubar um olhar ao Santo Padre, um aceno pessoal e intrans­missível, adicionado pelo sorriso bondoso. Ouro sobre azul, a sorte grande, que melhor fortuna poderia suceder do que ir a Roma, ver o papa e ser visto e cumprimentado por ele, mesmo que à distância de dois ou três passos, certamente cientes de que o Sumo Pontífice jamais os recordaria nos seus sonhos, conversas, discursos... mas nada disso importava.

Os trinta metros entre o papa e o atirador revelaram um proble­ma não calculado e incontrolável, a falta de liberdade de movimen­tos que o aperto da multidão provocava. Irónico, como aquilo que tornava o plano infalível, um tiro no meio da turba, disparado sabia­-se lá de onde, por sabia-se lá quem, parecia naquele instante um entrave. Era como se parte das vinte mil pessoas, inconscientemen­te, é claro, tentassem proteger o seu pastor daquilo que não podiam prever nem nos mais calamitosos pensamentos. Ou então seria o Deus deles a ordenar a cada um dos presentes tal disposição. É certo que essa ideia lhe passou pela cabeça, mas, assim como imprevista­mente surgiu, com igual rapidez a afastou. Era hora de agir, de se focar na tarefa em mãos, de neutralizar o alvo.

Vinte metros. A euforia aumentava a cada passo, uma experiên­cia de fé autêntica e sagrada que enchia de comoção o portento elíp­tico de Gian Lorenzo Bernini. Desinteressado dessa experiência mística, Mehmet via a sua vida andar para trás, bem como o reco­nhecimento e admiração, mais a glória, ainda que restrita. Estava entalado entre uma idosa polaca em lágrimas que gritava palavras desentendidas na sua língua mãe, duas alemãs, mais um militar ita­liano engalanado com as conquistas de uma vida a tirar vidas em defesa do país, um entrevado numa cadeira de rodas, proveniente de Nápoles, e cinco irmãs das Missionárias da Consolata. Todos eles contribuíam em igual medida para o transtorno de Mehmet, que não encontrava, por muito que procurasse, a tão almejada via de fuga. Bastavam 50 centímetros de espaço ou até menos e ninguém o apanharia, mas, assim, mal tinha como tirar a arma do bolso. Raios, praguejava interiormente. O alvo sorria à multidão.

Dez metros. Mehmet conseguia descortinar todos os contornos do rosto e do corpo de Wojtyla. Aquela distância entrevia o seu sor­riso benigno, a par dos gestos de agradecimento à multidão, estes repetidos infinitamente desde o início do trajecto, mas que pareciam sempre renovados, cativantes, sentidos. O papa emanava alegria, res­plendor, esperança, e tudo isso provocava urna alteração psicológica nos presentes, um alento redobrado, uma esperança tão forte, que todos queriam um pouco do olhar, do sorriso e do aceno sagrado de João Paulo II. Mehmet desejava apenas um momento de menor aper­to para poder aviar o feito com pleno vigor. A chuva teria, apesar de tudo, sido melhor aliada, mas o bom executor não procura desculpas na hora da verdade. Sairia dali a bem ou a mal, em último caso não sairia, riscos da profissão, mas a sua tarefa seria cumprida.

Era o momento, se o papa passasse dali, não conseguiria concre­tizar a encomenda. Escapaste uma vez, pensa a lembrar o passado recente. Hoje és meu. Esfria a mente o mais possível e tira a arma do bolso. O gatilho é apertado uma, duas, três, quatro vezes, cinco, seis vezes, até que foi impedido de continuar pelos corajosos populares que o circundavam. Desarmaram-no num ápice aplicando força bruta e muita sorte teve em não ser linchado ali mesmo. As forças de segurança acercaram-se dele e detiveram-no, enquanto o carro pontifício acelerava a toda a velocidade, com o papa ferido ampara­do pelos assistentes e seguranças, em direcção aos muros protecto­res do Estado da Santa Sé. Ao revistarem o jovem de 23 anos de nome Mehmet, encontraram um bilhete com uma frase escrita em turco. Mais tarde, alguém traduziria os dizeres como: Mato o Papa como forma de protesto contra o imperialismo da União Soviética e dos Estados Unidos da América e contra o genocídio que está a ser levado a cabo em El Salvador e no Afeganistão.

Algemado e arrastado pelas forças policiais sem qualquer respei­to, pagante dos seus próprios agravos mentais, Mehmet gritava a viva voz na sua língua materna, facto que decerto contribuiu para que as pessoas não atentassem contra ele, antes se limitassem a olha­-lo incrédulos, desgostosos, impotentes e com o coração cheio de mágoa e preocupação pelo Santo Padre.

A execução da encomenda resultou num detido, o pobre e nada arrependido Mehmet, e três feridos. Dois deles ligeiros, espectado­res tranquilos sem culpa nenhuma das ideias votivas do turco, assim como a terceira delas, o próprio papa, recebeu quatro balas e cujo corpo não foi feito para receber nenhuma. Abdómen, intestino, braço e mão do lado esquerdo, marcas suficientes para abalar uma vida inteira.

— Não tenho nenhum respeito pela vida humana — era o que ele gritava, sorrindo satisfeito pela tarefa cumprida. Eram cinco e um quarto da tarde.

Sessenta e quatro anos antes, no mesmo dia e hora, a dois mil quilómetros de Roma, a Virgem aparecia pela primeira vez aos três pastorinhos da Cova da Iria, em Portugal.

 

                          Jerusalém.

A vista sobre a cidade santa é assombrosa a partir do sétimo andar do Hotel Rei David, sito na rua com o mesmo nome. Vê-se a abóbada da Igreja do Santo Sepulcro no bairro cristão e arménio, onde se crê que esteve sepultado o próprio Cristo, há mais de dois mil anos, o mesmo que ressuscitou ao terceiro dia. Sobressai nos céus a dourada Cúpula da Rocha de Haram esh-Sharif, no bairro muçulmano, que protege das intempéries a rocha sagrada onde, supõe-se, Deus pediu a Abraão que sacrificasse Isaac, seu filho. Um pouco mais à direita descortina-se a cúpula mais pequena da Mesquita de El-Aqsa, na qual hoje ao meio-dia irão reunir-se inú­meros fiéis, visto que é sexta-feira. E vê-se ainda o bairro judaico, mais ao fundo, com o arco suspenso da antiga Sinagoga de Hurva, único elemento que restou do imenso edifício depois das batalhas de 1948 que opuseram judeus a árabes.

O homem que observa a cidade à luz da manhã, debruçado sobre a janela, está muito preocupado. Aterrou em Ben Gurion, em Telavive, a meio da tarde do dia anterior e logo se dirigiu ao seu objec­tivo, antes mesmo de ir ao hotel. Entrou na cidade antiga pela movi­mentada Porta de Damasco, anexa à grande muralha que envolve a parte secular, mandada erguer por Solimão, o Magnífico, e seguiu em frente pela El-wad acompanhando a confluência da multidão.

Na mão levava uma mala preta de executivo. Mais adiante, virou à direita, entrando na Via Sacra, contrariando o fluxo de turistas que cumpriam a terceira e quarta estações da cruz, respectivamente aquela onde Jesus, carregando-a sobre as costas, caiu e aquela na qual viu a mãe. Uma homenagem ao Filho de Deus que morreu para salvar a humanidade de si própria, segundo reza a lenda.

Os turistas ocidentais deixavam-se enlevar pelo misticismo, olhando em redor, absorvendo a energia, recordando a história imposta aos seus ouvidos desde o nascimento e comprovando-a in loco, numa escala bem mais pequena do que a que tinham imagina­do. Foi essa a sensação que ele teve aquando da sua primeira visita à cidade, há muitos anos. As ruas estreitas, as casas pequenas, con­trastam com a magnificência que se exige quando se menciona Cristo. É a realidade de tudo o que foi ou pode ter sido, sem que se tire a importância devida aos acontecimentos históricos importan­tes que o local presenciou ou se subestime a beleza pictórica do lugar. Simplesmente quer evidenciar-se a humildade e a fé, elemen­tos comuns aos três grandes profetas que deram origem às três gran­des religiões monoteístas, sem desprimor para as outras. A simplici­dade é patente por todo o lado, muito mais do que em qualquer outro lugar santo, ainda que filial deste.

Prosseguiu no trilho histórico, pejado de casas e lojas, deixan­do a multidão dos crentes seguir o resto da História lá para trás, na Via Dolorosa, passando, sem deitar um segundo olhar, à primeira estação da Cruz, no Mosteiro da Flagelação, onde o Cristo foi con­denado e barbaramente torturado pelos legionários a soldo de Pôncio Pilatos.

Um pouco mais adiante, o homem cortou à esquerda, na Qadisieh, repleta de casas baixas e portas fechadas. Bateu na terceira, do lado esquerdo. Ali teria de perguntar pela direcção. Quem abriu foi uma mulher de tez escura — não lhe escapou a cor, apesar do pouco que as vestes deixavam entrever. Assim manda a tradição muçulmana, que as mulheres nada mostrem, pois o homem não pode ser tentado pela carne da fêmea e, se o for, a culpa é, natu­ralmente, dela.

— Perdoe-me a intromissão — escusou-se. — Terá a gentileza de me informar onde fica a casa de Abu Rashid?

A reacção da mulher foi um intempestivo bater com a porta, dei­xando-o especado a olhar a madeira lascada pelos anos. Das duas, uma, ou é esta a casa de Abu Rashid ou não.

Quando estava prestes a desistir e tentar outra porta, ouviu pas­sos pesados, provindos do interior da casa, a aproximarem-se da entrada. O ranger dos gonzos revelou um homem robusto com barba e bigode grisalhos, túnica da cor do vinho tinto a cair-lhe sobre o corpo, marcas da sempre honrosa tradição.

— Boa tarde — cumprimentou o estrangeiro. — Saberá dizer­-me onde fica a casa de...

— Sim, sim... — resmungou o velho barbudo, impaciente, inun­dando o ar com perdigotos. Fitou o estrangeiro de fato negro, ava­liou a meia-idade e virou costas, deixando a porta aberta. — Deixa os sapatos à entrada.

Não levou muito tempo a acatar as ordens do proprietário e des­calçou-se. Sentia-se um pouco suado e a precisar de um banho, mas não ia virar costas ao trabalho só por se sentir desconfortável. O seu bem-estar estava muito abaixo na lista de prioridades. Entrou na casa de forma respeitosa, desde muito cedo aprendera que reveren­ciar os outros traz benefícios a curto, médio e longo prazo. A luz penetrava livremente pelo topo da casa que, à excepção da porta que voltava a estar fechada, deixava o ar entrar e arejar o corredor e as divisões. Sentiu vários olhares femininos sobre a sua nuca, apesar de não os conseguir ver. Perscrutou alguns risinhos tímidos por detrás das cortinas. Quedou-se a meio do corredor. Não queria ser indeli­cado e entrar onde não devia. Aguardou um sinal do velho, que che­gou em forma de convite.

— Shai? — ouviu perguntar de urna antecâmara mais ao fundo do iluminado espaço.

Encaminhou-se nessa direcção e deu com ele sentado num cadeirão de baloiço, a fumar um cigarro. Uma mulher descoberta abana um leque ao seu lado, afugentando o calor repentino do final da tarde e secando com um lenço de tecido as gotículas de exsudação que teimam em formar-se na testa dele. Porventura, a sua espo­sa ou uma delas.

Sim, aceito — respondeu o estrangeiro. — Obrigado.

Um leve gesto para a jovem mulher, e esta saiu esbaforida para cumprir o mandado, deixando a canícula apoderar-se do seu lindo marido.

— E cobre essa cabeça — gritou o homem na entoação certa para que a ordem fosse ouvida. — Temos visitas.

O estrangeiro fitou-o durante alguns segundos, com a preocupação de não se mostrar inconveniente, contudo, o velho muçulmano rodeava-se de uma aura de mistério tão cativante que dificultava qualquer movimento.

Senta-te — ordenou o dono da casa, apontando na direcção de um cadeirão idêntico ao seu.

O estrangeiro, mais uma vez, voltou a acatar a ordem, quase sem raciocinar, obedecendo à ordem ou pedido sem saber se por sua própria vontade ou não. Pousou a mala sobre o colo.

Queres juntar a tua presença à de Abu Rashid — disse o velho.

Sim — respondeu o estrangeiro, apesar de não ter sido profe­rida nenhuma pergunta. — Sabe onde mora? — deu por si a per­guntar como uma criança que pede um rebuçado.

Ele anda sempre por aí — limitou-se a dizer. — Qual é o teu assunto com ele? — perguntou sem cerimónia.

O estrangeiro decidiu não fazer segredo das suas intenções, apesar da devida reserva atrás da qual se deveria proteger. Porém, subia por si acima um sentimento cognitivo de que se mentisse o velho saberia.

— Sou o emissário de Roma — informou num tom grave, eviden­ciando o profissionalismo e competência que se exigem a um homem do seu calibre. — Vim investigar as alegadas visões de Abu Rashid.

Alegadas? — O velho inclinou-se para a frente, agarrando-se aos braços do cadeirão com uma expressão inquisitiva e desconfia­da. — Por acaso Roma pensa que é uma lenda?

Em Roma ainda não se pensa nada. Por isso me enviaram — explicou o estrangeiro, sentado na beira do cadeirão, tentando manter as costas erectas. — Existem várias versões acerca dos feitos e visões de Abu Rashid. Estou aqui para avaliar o caso e sancionar a abertura de uma comissão de investigação, se vier a ser necessário.

O silêncio interpôs-se com a entrada não anunciada da jovem esposa, que segurava um tabuleiro, em que o vapor da água, mistu­rado com as folhas de menta, inundavam o ambiente, já de si reple­to de odores almiscarados. Não se tinha esquecido do lenço sobre a cabeça, pois ainda havia visitas. Pousou o tabuleiro em cima de uma pequena mesa escura e redonda, encostada a uma parede e desceu a boca do bule fumegante primeiro sobre a chávena do esposo, verteu o líquido esverdeado e deitou seis colheres de açúcar. Devotamente, depositou pires e chávena na mão dele, que lhe pegou, quase incons­cientemente, sem dispensar um olhar à mulher, que só então foi pre­parar o mesmo para o visitante.

O velho sorveu um pouco do chá fervido, sem esboçar nenhum incómodo pela temperatura elevada e sem tirar os olhos do estran­geiro, que recebeu da dedicada esposa a porcelana com conteúdo idêntico, que agradeceu.

E consideras necessário sancionar essa comissão? — inquiriu o velho, logo após a esposa sair da sala.

Ainda não sei. Cheguei há poucas horas e é a primeira para­gem que faço — esclareceu.

Compreendo. Mas com certeza fizeste o teu próprio juízo de valor acerca do que já ouviste sobre Abu Rashid — prosseguiu o muçulmano. — Achas necessário?

Havia uma certa boçalidade no dono da casa que incomodava o estrangeiro, aliada à maneira como o olhava e ao inquérito descarado de que era alvo. Contudo, por incrível que pudesse parecer, a aura de mistério cativante continuava a rodeá-lo, invisível, poderosa. Quem é este homem?, lembra-se de ter pensado na altura. Decidiu responder.

É certo que os relatos parecem um pouco fantasiosos, esta­mos a falar de alguém que, ao que parece, tem o dom de curar o, cientificamente, incurável. Parece que salvou trinta pessoas, depois de elas se terem afogado. E que ele próprio se afogou e ressuscitou. Mas existem inúmeros exemplos na História de pessoas que possuíam o dom da cura, uns mais credíveis do que outros... Portanto, até que veja e avalie, não posso admitir qualquer juízo de valor da minha parte — terminou com uma sorvedela muito ligeira para não queimar a língua. Era um chá muito forte e excessivamente açucarado.

O outro deixou que a atenção do estrangeiro recaísse sobre si.' Esperava nova pergunta, certamente, mas não acederia à previsibi­lidade, particularidade alheia ao seu feitio.

Sei muito bem quem é Abu Rashid — começou, por fim, o velho, desviando o olhar para as suas reminiscências. — Um homem i santo, capaz de curar os vivos... E os mortos.

Os mortos? — perguntou o estrangeiro, agitando-se, descon­fortavelmente, no cadeirão. — Isso não me parece muito verosímil — arriscou-se a confessar.

—Ah mas é verdade — asseverou, olhando o vazio. — A mais pura verdade.

O timbre da voz do muçulmano alterou-se sobremaneira. Os modos racionais e inquiridores foram arredados por outros mais introspectivos, revivalistas, demonstradores de respeito e até alguma veneração> letárgicos também, de alguém que olha outro mundo, reclinado no cadeirão de braços.

—Terei de confirmar — contrapôs o estrangeiro evasivamente.

Como podes considerar a ressurreição inverosímil, se defen­dem que o vosso messias o fez a ele próprio e a Lázaro? — argu­mentou o velho, que parecia ter ganho algum poder de raciocínio.

—Por isso mesmo. Era o Messias. Mais ninguém teve o seu poder desde então — garantiu o estrangeiro, decisivo.

— Alá disse: Quanto aos incrédulos, tanto se lhes dá que os admoes­tes ou não os admoestes... não crerão. Sei muito bem o que estou a dizer, pois já estive morto e ele trouxe-me de novo para a vida.

Um interesse súbito apoderou-se do estrangeiro.

Como disse?

Já estive morto e ele trouxe-me de novo para a vida — repetiu o velho muçulmano olhando-o nos olhos. — Não vais encontrar mentiras aqui.

Os dois homens deixaram cair a conversa, cada um entregue à sua chávena de chá de menta. Houve tempo para a temperatura bai­xar e tornar o líquido facilmente bebível, ainda que, no que tocava ao dono da casa, já tivesse tragado a maior parte quando ainda escaldava, como era da sua preferência.

— O que me intriga — prosseguiu o velho, libertando a sua fron­talidade — é essa súbita preocupação de Roma. Sancionar ou não uma investigação para quê? O que têm que ver com isto?

Sabe que a Igreja sempre defendeu os seus fiéis e os seus san­tos. Pode muito bem ser possível que Abu Rashid venha a merecer os preceitos da beatificação e da canonização, depois da sua morte, evidentemente. Contudo, é uma oportunidade para nos documen­tarmos já. De qualquer forma, os milagres que ele fizer em vida não serão válidos. Só contam os póstumos.

O velho muçulmano soltou uma gargalhada efusiva que lhe fez lacri­mejar os olhos. O estrangeiro fitava-o sem perceber a razão de tanto riso.

Ah, então é isso — disse o velho, pousando o pires e a cháve­na vazia, periclitantemente, em cima do braço do cadeirão, engas­gado com a gargalhada gutural. — Deixa-te ficar para jantar. Podes começar a tua avaliação comigo. Mas não te vai servir de nada — informou parando de rir.

Porquê? — O estrangeiro continuava pasmado.

O velho mirou-o seriamente.

Desde quando é que os cristãos rezam a muçulmanos?

— Nunca ninguém disse que ele era muçulmano. Os relatos men­cionam um cristão muito crente que vê a Virgem. — Mal conseguia acreditar no que ouviu. — Tem a certeza?

Absolutamente. Não é cristão crente. Mas vê a Virgem Maria. — O velho levantou-se e aproximou-se do outro, estendendo a mão. — Abu Rashid. Alá esteja contigo.

Este homem que observa a cidade à luz da manhã, debruçado sobre a janela, está muito preocupado.

 

A igreja Dei Quattro Capi é assim denominada por ficar perto da ponte com o mesmo nome, que antigamente se chamava de ponte Fabricio e ainda dá por esse nome se por ele decidirem perguntar, rebaptizando-a em honra do mestre que mandou colocar a primei­ra pedra no ano 62 antes da vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo à terra, o grande responsável pelo inicio do calendário, o que a torna a ponte mais antiga de Roma. Antes desta denominação actual e simplista — Quatro Cabeças — herdada das duas bermas com as tais quatro cabeças de Mercúrio esculpidas que, para quem nunca reparou nelas, se situam numa das extremidades, a ponte era apeli­dada de Pons Judaeorum devido à proximidade do gueto judaico. Sempre foi um preceito conciliatório dos humanos, o de associar as coisas ao evidente.

No travertino dos dois arcos que a sustentam há mais de vinte e um séculos foram inseridas gravações, de ambos os lados, que relembram o seu construtor, Fabricio, o homem que esteve no inicio de tudo o que se passou com esta ponte até ao dia de hoje e que deste modo tentou deixar a sua marca para a posteridade. Mas a verdade é que ninguém o recorda, tão-pouco nenhum historiador poderá afirmar com certeza o seu primeiro nome, apenas que começa por L. como testemunham as gravações na ponte e pouco mais. É mais um componente nas várias camadas de História que se acumulam, umas sobre as outras, a mais recente encobrindo a anterior e fazen­do da cidade a mais secreta e misteriosa. Sobre a ponte Fabricio pas­sam vários grupos de pessoas, esquecidas ou ignaras do que outro­ra era mais do que uma ponte pedonal e turística, mas um ponto de passagem de víveres, haveres, valores e veículos na sublime capital do grande Império Romano... mas isso foi no início.

Hoje as pessoas limitam-se a atravessá-la em direcção à igreja, como este sacerdote, nada interessadas em engenharia de pontes, para assistirem às missas das sete horas da manhã e a das seis e meia da tarde, de segunda a sábado, ou às missas das sete e a das onze horas da manhã, ao domingo. Como todas as casas do Senhor espalhadas por este mundo, a pequena igreja de San Gregorio delia Divina Pietà, o seu nome oficial, na freguesia de Sant'Angelo, acolhe todos os fiéis que desejem ouvir e sentir a Sua Palavra, descarregar o pesado fardo da vida durante a duração de uma eucaristia e unirem-se na fé.

Esta manhã de terça-feira não é excepção, várias pessoas entram na pequena igreja, a maior parte nem se digna a admirar a fachada, talvez pela habituação à mesma, como se se tratasse de mais um reduto doméstico, como a própria cidade onde se vive, ou talvez o facto de a missa já ter começado funcione como catalisador de urgência. Os poucos que a olham são com certeza turistas, admiram a pintura do Cristo Crucificado que a domina, chorado, em baixo, por Maria e Madalena, a costumeira cena comummente reproduzida nos seus vários ângulos e interpretações artísticas e subjectivas da mãe e da esposa que choram o defunto filho e marido que havia de ressuscitar ao terceiro dia. Por cima do pórtico uma placa com os dizeres Indulgencia plenaria quotidiana perpetua pro vivis et defunctis. Uma deliberação papal e sacerdotal sobre a bondade quotidiana sobre os vivos e os mortos que se pode viver dentro deste templo sagrado. O sacerdote, que ainda há pouco passou a ponte Fabricio, entra tam­bém na igreja onde a missa já decorre. O interior reflecte alguma da simplicidade exterior, se bem que, como é comum a todas as igrejas e basílicas de Roma, possua relíquias de incalculável valor, ainda que em menor número quando comparada com as restantes centenas de igrejas espalhadas pela cidade.

Não é a primeira vez que o padre Rafael Santini celebra missa neste local, embora não seja a paróquia que lhe foi atribuída. Essa fica a norte de Roma, numa pequena aldeia, a qual não é seu hábito ublicitar por razões que não vêm agora ao caso.

Junta-se nesta manhã fresca às comemorações das bodas de prata do padre Carrara no exercício do dever de pároco, seu amigo de longa data e colega de ofício, do sacerdócio e de outros que não se darão agora a conhecer. Rafael, enquanto padre, não é um homem que passe indiferente às pessoas, especialmente às mulheres, assim lhe tem manifestado a experiência do alto da sua meia-idade. Mas sendo que uma meia-idade pode variar muito, dependendo dos cál­culos e variáveis de quem a estipula, deve usar-se como molde uma vida inteira entre os setenta e cinco e oitenta anos para que fique clara esta a que nos referimos do padre Rafael. Poderíamos ser directos e apontar os seus trinta e oito anos, feitos no dia 16 de Abril, mas quem poderá afirmar com certeza a sua idade e dia correctos de aniversário? Homens como Rafael têm a idade que querem aparen­tar, se essa for a sua vontade.

Quem o veja a celebrar a eucaristia, como agora, lá, em cima no altar de San Gregorio delia Divina Pietà, não deixará de reparar num certo desprendimento eucarístico, pouco habitual num sacerdote. A velocidade com que lê o Missal, chegando não raras vezes a pare­cer ouvir-se apenas um balbucio sem sentido, chega a raiar o desa­mor pela causa. O próprio sermão é proferido com tanta frieza, que faz lembrar um funcionário público a recitar o código de IRS ou um aluno a dizer a cantilena da tabuada em frente ao professor.

O que pode ser entendido pelo mais comum dos crentes, alguns dos quais estão sentados nestes bancos, como falta de vocação, não corresponde em nada à realidade. Que o diga este homem que acaba de entrar e se senta na última fila. Uma batina negra e um cabeção denunciam-no como mais um padre dentro de uma igreja, nada de verdadeiramente anormal. Mas anormalidades e imaginações pouco interessam, centremo-nos na sua aparência sexagenária que não é ilusória, adicionando um ano ou reduzindo dois à conta, e muito poderá dizer sobre a vocação de Rafael Santini no zelo pelos interesses da Santa Madre Igreja, ainda que jamais tenha testemunhado qualquer acto ou o tenha sequer conhecido alguma vez antes de entrar nesta igreja. Tudo o que pode afiançar sobre a lealdade e com­petência do padre Rafael baseia-se em relatos fidedignos e verdadei­ros que, na sua opinião, não deixam qualquer margem para dúvida.

Acelere-se, portanto, a celebração eucarística até ao seu ponto culminante em que Rafael profere a frase mais querida por uns e mais mal-amada por outros: «Ide em paz e o Senhor vos acompa­nhe», por vezes modificada para «Ide na paz do Senhor», ou ainda o simples «Bom dia».

Ámen — salva o coro de fiéis presentes, enunciando, poste­riormente, o sinal da cruz, dando por finda a missa de alva. Todos se levantam dos seus lugares em direcção à saída, o padre Rafael rumo à sacristia e o padre que entrou durante a leitura da Primeira Epístola do Apóstolo São Paulo aos Fariseus aproveita para concluir o propósito da sua visita matinal. Uma vez entrado na sacristia da igreja de San Gregorio della Divina Pietà, baptizada desta forma por causa de o pai do santo ter tido a sua casa neste preciso lugar, é sur­preendido pelo vazio. Não o do despojo decorativo, quanto a isso a divisão corresponde perfeitamente aos parâmetros romanos, mas o vazio humano. Rafael, que há pouco vira encaminhar-se nesta mesma direcção não se encontra...

A que devo a honra? — ouve-se uma voz perguntar por trás do visitante.

Ah, padre Rafael. Como está? — cumprimenta o homem depois de se virar. — Assustou-me.

Não foi minha intenção.

Eu sei. Alertaram-me sobre a sua imprevisibilidade.

O que o traz por cá? — questiona bruscamente. Uma das par­ticularidades de Rafael, sem categorizar como defeito ou qualidade, é o facto de não gastar latim com banalidades. Aquela visita só pode significar urna coisa, pelo que devem poupar-se as simpatias preli­minares, embora isso não queira dizer que será mal-educado.

O padre Carrara não está? — quer saber o visitante.

Só na missa da tarde.

Muito bem. O meu nome é Phelps. Sou um padre inglês, des­tacado no Vaticano. James Phelps. É um prazer conhecê-lo. — Estende a mão em cumprimento, a qual é correspondida com um aperto forte e firme.

Rafael Santini.

O padre Phelps não consegue disfarçar o seu constrangimento. Não é com certeza um homem habituado a estas funções.

— Tenha calma, padre Phelps — serena Rafael, sem deixar o tom sério. — É tudo muito simples. Basta que me transmita as informa­ções que lhe deram ou que me forneça o suporte onde as gravaram e o seu trabalho fica completo. O resto é comigo.

Pois. Quem me dera que fosse assim tão simples. Temos um problema grave.

— São todos.

— As minhas ordens são para o levar imediatamente para a Santa Sé.

A sério? Quanta honra. Vou adorar conhecer o Vaticano. E vamos falar com quem?

O inglês não fica agradado com o tom irónico a roçar o sarcásti­co do seu interlocutor, mas o respeito e admiração granjeados por Rafael, segundo os relatos a si transmitidos por interposta pessoa, são demasiado grandes para se dar ao luxo de ficar incomodado ou dá-lo a entender.

Com Sua Santidade, o Papa Bento XVI.

 

                     O ENCONTRO, Fevereiro de 1981

Haverá quem diga que o encontro entre os dois homens não ocorreu no ano de 1981, mas antes em 1979 ou 1980, ou mesmo em Março de 1982. Outros corroboram o encontro de 1981, mas não concordam com o mês, apontam para Agosto, Setembro ou Novembro, sem quaisquer argumentos que validem essa afirmação. Alguns dos defensores do mês de Fevereiro não conseguem acordar a data certa do tal encontro e tão-pouco existem duas vozes conso­nantes no que toca ao teor e atmosfera da conversa. Já em relação à localização, são mais os apoiantes de que o encontro tenha ocorrido no gabinete de um ou do outro. Outro ponto muito propenso à dis­córdia histórica é o da discussão em si. Uma facção defende uma conversa serena e cordata, enquanto outra, precisamente o contrá­rio. Há ainda quem conteste todas estas teorias e afirme alto e bom som que tal encontro nunca aconteceu. Em História é tudo uma questão de pontos de vista e de imaginação.

O suposto encontro entre os dois homens ocorreu, de facto, no gabinete do primeiro, às onze horas da manhã de terça-feira, 3 de Fevereiro. O segundo homem marcou presença bem mais cedo à porta do gabinete por ignorar que o norte-americano apenas conse­guia libertar-se do sono matinal muito tarde. Já deveria conhecer os seus hábitos, pois o homem por quem esperava não era propria­mente um novato, à data executava aquelas funções há já dez anos e por outros tantos permaneceu no mesmo cargo. Para além disso, não tinha qualquer encontro formalmente marcado pelos canais burocráticos tidos como naturais nestas ocasiões.

Ora, depois de duas horas e meia de espera, o norte-americano dignou-se a divorciar-se do sono mais do que reparador, necessário para manter repousados os quase dois metros de altura que lhe valiam a alcunha de Gorila e, enfim, apareceu no gabinete.

- Bom dia, Eminência — cumprimentou o serviçal que abriu a porta prontamente para que o norte-americano não sujasse a pudica mão na maçaneta.

Bom dia. — O ríspido tom do mau acordar. A melhor hora de cama para este homem era a manhã, o quente dos lençóis, o som do movimento diurno, a consciência leve... Alguém estava sentado no interior do seu gabinete.

O cardeal está à sua espera há algum tempo — apressou-se a infor­mar o serviçal a medo. O norte-americano tinha as suas crises tempera­mentais, especialmente de manhã. Desta vez, porém, limitou-se a entrar sem lançar qualquer olhar reprovador ao infeliz funcionário. Que podia fazer? Recusar a entrada a um cardeal da Santa Madre Igreja?

O outro estava sentado na cadeira oposta à secretária, o rosto inexpressivo, absorto nos documentos trazidos por si. O norte-ame­ricano dirigiu-se à sua cadeira sem o olhar uma única vez.

Bom dia, Eminência — cumprimentou o recém-chegado num tom neutro. — Não me recordo de termos agendado esta reunião.

E não o fizemos — retorquiu o outro sem levantar o rosto.

Dois cães a cheirarem os medos um do outro, com o perdão da metáfora, entenda-se a alusão canídea como mera extrapolação ima­ginativa para a correcta concepção da cena a que se assiste e nunca como um agravo gratuito a qualquer dos presentes.

Então vou ter de pedir que se retire e marque urna audiência formal — disse o norte-americano com frieza, sentando-se e pegan­do num havano de uma caixa dourada sobre a secretária de mogno, sem o acender.

O bispo Marcinkus está a perder a educação hierárquica? — perguntou o cardeal levantando os olhos pela primeira vez.

 

De maneira nenhuma, Eminência. Estou apenas a fazer o que as minhas competências exigem. Todas as reuniões devem ser pre- viamente marcadas. Além disso, neste departamento, o meu superior hierárquicou é Sua Santidade.

— Bem sei. Bem sei — disse sem desviar os olhos do norte-americano Marcinkus.

— E até onde pensa que vai conseguir ir?

— Não estou a compreender.

— Acha que Sua Santidade vai apoiá-lo quando as autoridades italianas e norte-americanas começarem a pressionar? Acha que ele, em boa-fé, vai ficar do seu lado? Neste momento da conver­sa, embora nenhuma das várias teorias o defenda, o cardeal levan­tou-se e apoiou as mãos em cima da secretária, fitando intensamente o bispo.

— Não estou a compreender, Eminência.

- Ora, deixe-se disso. Não precisa de se armar em puritano comigo. Eu já sei de tudo.

— Mas... tudo o quê, Eminência?

— Tudo. Tudo. As maquinações financeiras, a lavagem de dinheiro, o descalabro do Ambrosiano. Sei que está por trás de tudo isso. É a vez de Marcinkus se levantar e olhar o cardeal do alto dos seus imponentes quase dois metros.

Terei de pedir que marque uma reunião para outra data. Queira retirar-se. — O expiro profundo que mal disfarçou a fúria também não pretendia dissimular o que quer que fosse.

Não será necessário, bispo — respondeu o cardeal tirando as mãos da secretária e dirigindo-se à porta. — Sua Santidade está atento.

Antes de o cardeal sair, ainda teve tempo de ouvir a resposta do americano.

É bom que esteja, Eminência. Nunca se sabe o que pode apa­recer pela frente.

Sem manifestar qualquer reacção àquelas últimas palavras, o car­deal saiu e fechou a porta.

Todas as teorias terminam com o cerrar desta porta testemunha­do pelo serviçal que estava do lado de fora do gabinete.

Marcinkus, o bispo, impediu qualquer espécie de interrupção até nova ordem, deliberação que o serviçal acatou sem qualquer aceno de compreensão, com o norte-americano ouve-se e cala-se e cumpre-se.

No interior do gabinete, o bispo apressou-se a pegar no telefone e a discar um número.

Eles estão a apertar o cerco — informou sem esboçar qualquer saudação para quem estava do outro lado da linha. Não era o momento de seguir os protocolos da boa educação. — Temos de agir rapidamente.

O bispo ficou a ouvir as palavras do destinatário da chamada durante algum tempo.

Não quero saber de falhas nem de desculpas. Quero isso resol­vido o quanto antes. Aquele alemão, o Ratzinger, acabou de sair daqui.

 

Solomon Keys é norte-americano. Por si só, este rótulo não é defei­to nem qualidade, apenas um dado adquirido, uma comprovação.

Aos 87 anos, longe vai o tempo em que era dado a patrio­tismos excessivos, ao América, América, América, a terra da opor­tunidade, da liberdade e por aí fora. Entenda-se, Solomon Keys foi tudo isso no passado e até há bem pouco tempo. Nascido em Washington, Distrito de Colúmbia — em honra do descobridor do continente — centro mundial da política desde 1800, ano em que foi inaugurada a cidade, Solomon Keys combateu a guerra da sua geração, a II Grande Guerra Mundial, no seu caso concreto, mas cuide-se o verbo combater com as devidas aspas, urna vez que nunca viu uma frente de guerra, nem mortos, estropiados ou algo que o valha. O seu posto operacional situava-se em Londres no Office of Strategic Services, a descodificar mensagens alemãs, o que acabou por ter grande influência nas várias frentes e, talvez enquanto dava cabo das costas inclinado sobre a secretária a des­lindar códigos, tenha salvado algumas vidas. Nem sequer se pode dizer que tenha sofrido as agruras do Blitz que assombrou as noites e os dias dos Britânicos entre 1940 e 1941, pois Solomon Keys che­gou à capital inglesa em Maio de 1943. Seja como for, serviu a sua pátria com dedicação, competência, empenho, obediência, como um bom americano.

De regresso a casa, rumou a New Haven, no Connecticut, para ingressar na mítica Universidade de Yale, onde foi estudar Direito. Claro está que um jovem nascido na capital federal, que tenha servi­do no OSS, que, a partir de final da guerra, se tornou, como que por artes mágicas, e sob as ordens do presidente Harry S. Truman, a Central Intelligence Agency, vulgo CIA, para os amigos e conheci­dos, não deu estes passos tão facilmente como se descreve. Tudo adveio dos conhecimentos certos na altura e local certos que facilita­ram os passos, também, naturalmente, certos e que englobaram igualmente o previsível ingresso na sociedade secreta Caveira e Ossos no ano de 1948, no mesmo grupo que o futuro quadragésimo primeiro presidente dos Estados Unidos da América e 20 anos antes do quadragésimo terceiro, por acaso, mas só por acaso, filho do qua­dragésimo primeiro, para que nada fique por explicar. Reunião todas as quintas-feiras e domingos à noite, na Tumba, o edifício sede da nada secreta sociedade, com práticas notoriamente secretas que passavam e passam por dignificantes lutas na lama ao célebre e difí­cil momento em que o futuro membro é chamado a confidenciar algum segredo que nunca tenha confiado a ninguém, o que faz que seja tratado daquele dia em diante como um bonesman. Os futuros homens mais influentes do país e alguns até do mundo, ligados uns aos outros por rituais e segredos, irmãos de sangue, de servidão mútua até ao final das vidas, os Cavaleiros como se chamam os membros entre si, os escolhidos para tomar o poder, para vergarem os Bárbaros à sua vontade, epíteto pelo qual são nomeados todos aqueles que não pertencem à sociedade criada em 1832, basicamen­te, o mundo inteiro. Cavaleiros a dominar os Bárbaros, registe-se a falta de imaginação.

Mas tudo isso faz parte do rico passado de Solomon Keys, que após décadas de trabalho e dedicação decidiu partir ao encontro do desconhecido, sem destino nem ambições, essas já tinham sido preenchidas, apenas pelo prazer do divertimento e do turismo. E é aqui que o encontramos, já a viagem vai longa, na Amsterdam Centraal a fazer horas para apanhar o serviço Go London, que engloba uma viagem ferroviária até à estação de Hoek van Holland Haven, o canto da Holanda, literalmente, seguido de ferry até Harwish e, novamente, viagem ferroviária da estação Harwish International até Londres, com término na estação de Liverpool Street. A viagem em sentido inverso tem o nome de Dutchflyer e Solomon Keys tem bilhete de regresso a Amesterdão, nesse mesmo serviço, daqui a três dias. Seguidamente, partirá ainda mais para leste, a fim de explorar a Europa do frio, os países que compunham a antiga Cortina de Ferro.

É assaz desconfortável que tenhamos de descrever aqui o chama­mento a que Solomon Keys foi imposto pela mãe natureza, e expli­car que este homem tão pródigo e com uma vida tão preenchida se encontre, neste momento, de calças arregaçadas numa das casas de banho masculinas da estação, fechado num dos compartimentos para detritos fecais. Ainda faltam noventa minutos para o comboio o transportar até Hoek van Holland e sempre é melhor estar ali do que experimentar os WC pouco higiénicos do combóio.

É então, no meio desta serenidade sadia, pois Solomon Keys é o único ocupante do espaço, que tal calmaria é interrompida por alguns encontrões na porta de entrada, seguido de mais alguns ruí­dos entrechocados que acabam por invadir o privado ao lado daque­le que é ocupado pelo norte-americano, até que... até que conti­nuam os ruídos com pequenos estrompidos que não deixam perce­ber muito bem o que se passa ali dentro. Será injusto para com o idoso descrever os factos e deixá-lo de fora da escorreita realidade, até porque a idade merece respeito, portanto, e ao invés de fazermos de voyeurs, quedamo-nos do lado de Solomon Keys, que tenta deci­frar os sons que lhe chegam do outro privado tal qual um código em plena guerra. Em 87 anos, esta é a primeira vez que o norte-ameri­cano ouve alguém copular assim tão perto, pelo menos é o que lhe soa, não nos cabe a nós confirmar ou desmentir, o que deita por terra as teses de que na Caveira e Ossos se promoviam orgias ou outro tipo de convivências análogas. Se o faziam, tal nunca aconte­ceu na sua presença.

Preenchendo os sons que chegam aos ouvidos de Solomon Keys e que estimulam a sua imaginação, o ulo contido da mulher deixa entrever o prazer e o fogo dos dois, bem como o roçagar das roupas e o entrechocar de corpos permite que Solomon Keys possa conjec­turar uma cópula desenfreada. Alguns minutos depois, o frenesim rende-se e os gemidos transformam-se em cicios de gozo, tanto masculino como feminino, e as palavras que se ouvem sair da boca dela são de tal maneira ofensivas, que a sua reprodução é algo de proibido, deixamo-las a Solomon Keys, com todo o respeito. A parede que separa Solomon daqueles dois indivíduos licenciosos começa a abanar com mais intensidade, como se algo ou alguém estivesse a ser empurrado contra ela. Uma mudança de posição? Santa Mãe de Deus, pensa Solomon, que nem é muito crente. Continua sentado, quieto, de calças arreadas, com o coração aos solavancos à espera do desfecho. Jamais se havia rendido às garras do matrimónio, não que não o tivesse sido pelo sexo, claro. Mas nunca ouvira sentenças tão porcas durante o coito como estas que são sussurradas, neste instante, aqui ao lado.

Enquanto o assalto continua com promessas de derramamento breve, isso pode afiançar Solomon Keys, pois ouviu-o com os seus próprios ouvidos, a porta do privado onde eles estão abre-se ante- tempo. Dois baques abafados transformam em silêncio súbito aque­la excitação desenfreada anunciada aos quatro ventos. Solomon Keys ouve o som dos corpos que caem no chão, desamparados.

Oh Diabo. O que se está a passar?, sobressalta-se Solomon Keys. Passos firmes e fortes que, há pouco, não ouvira invadirem a casa de banho, deslocam-se para a sua porta. A excitação dá lugar ao pâni­co. Solomon Keys estica os braços a agarrar ambos os lados do pri­vado e soergue-se ligeiramente da sanita.

Dois tiros trespassam a porta. O primeiro atinge o azulejo por trás de si, o segundo, o peito. Agarrado à dor, o norte-americano sente que tudo vai terminar. O que quer que tenha feito ou mereci­do no passado, ou a simples aleatoriedade da vida elegera-o para a deixar hoje, agora. Não sente nada do outro lado da porta fechada. Nem passos nem a respiração. Apenas o silêncio. Talvez ainda possa sair e pedir ajuda. Ergue uma das mãos para o trinco, com muito esforço. O trinco parece-lhe uma enorme e pesada fechadura de um portão. As forças esvaem-se rapidamente. O sofrimento acaba depressa, com o terceiro tiro que trespassa a porta e o atinge na testa. O fim.

Solomon Keys vê a sua vida terminar nos privados do WC da estação de Amsterdam Central. Com ele partiu também um casal de aventureiros do sexo.

 

               MARCINKUS, 19 DE FEVEREIRO DE 2006

Muito se poderá dizer sobre Paul Casimir Marcinkus, arcebispo da Igreja de Roma. Durante anos, mais de uma década, foi o homem mais influente do Vaticano. Como é que um homem que nunca che­gou a cardeal se tornou mais poderoso do que o próprio papa? Bem, essa é uma outra história.

O que verdadeiramente importa neste dia 19, do mês de Fevereiro, é a solidão. A solidão de Paul Marcinkus, desde há dezasseis anos des­terrado na sua própria terra natal. A verdade é que viveu em Roma mais de dois terços da vida, cortando praticamente qualquer laço com a pátria. Em adição a essas concordâncias, esteve também a particu­laridade, por si só de magna importância, de Paul Marcinkus não per­tencer a lado nenhum, ser um cidadão do mundo, e ao mesmo tempo ser estranho a ele. A Paul Casimir Marcinkus apenas interessa o seu mundo, tudo o resto não passa de marionetas que devem ser mani­puladas a seu bel-prazer até que se tornem inúteis.

Afastado para a diocese de Chicago em 1989, viu-se obrigado a esquecer toda a opulência e poder com que se rodeara durante tanto tempo. Apenas restou a solidão e, mais grave, a confirmação de que não tinha amigos, apenas comparsas. Há amizades cuja pedra basi­lar é o poder e sem a qual se desmoronam quase instantaneamente. No seu regresso a Chicago, há dezasseis anos, teve pela primeira vez a noção de que sempre estivera sozinho, sempre fora uni órfão da vida. Ainda hoje, com oitenta e quatro anos feitos no mês passado, já não em Chicago, mas em Sun City, perto de Phoenix, no estado do Arizona, uma cidade com cerca de quarenta mil habitantes, onde está instalado desde 1997, está só.

Já praticamente não sai do quarto da casa onde vive. Apenas para celebrar a eucaristia na paróquia de St. Clements of Rome, onde é um dos quatro párocos, pelo que não tem de o fazer diariamente. O resto do dia passa-o a perscrutar as memórias cada vez mais enraizadas no fundo do cérebro ou a ver papéis e fotografias. O Papa Paulo, Calvi e Gelli nos bons tempos, o sacana do Villot, Casarolli, Poletti, os cabrões do Luciani e do Wojtyla... Emanuela... a bela Emanuela. Pena que não tenha nenhuma fotografia da Emanuela. Como poderia? Ele, um arcebispo da Igreja Católica Romana, casa­do com Deus, seja Ele quem for, gestor, durante muitos anos, das contas por Ele legadas na Terra, chegando mesmo a triplicar o seu pecúlio, há quem afirme que de forma duvidosa e danosa, mas isso são más-línguas, ter um retrato da doce Emanuela? Como se tipifi­caria essa traição? Que bom seria ver uma imagem da bela Emanuela. Quantos anos passaram desde que ela... vinte e dois? Vinte e três? E pensar que já foi o rei dos números, dos cálculos, das operações financeiras. Mas, pudera, são oitenta e quatro anos, uma vida. Os mortos fazem-lhe muito mais companhia do que os vivos.

Dois toques na porta afastam o estado letárgico da imagem lon­gínqua e fixa de Emanuela... de Deus, permitam a correcção. Quem poderá ser? Leva o seu tempo a levantar-se da escrivaninha e a fazer o percurso até à porta da entrada, no entanto, o som na porta não se voltou a fazer sentir. Ou é alguém muito paciente ou o velho Marcinkus já anda a ouvir coisas. São os mortos que se afeitam da sua vida. Mas assim que abre a porta, congratula-se por ver que, de facto, há alguém materializado do outro lado da entrada.

— Boa tarde, Eminência — cumprimenta o jovem visitante. Uma vez que o termo «jovem» tem um raio de abrangência muito lato, deve reduzir-se essa influência para a idade que se compreende entre os vinte e oito e os trinta e três anos. O desapego entre os dois limites marca a idade correcta deste jovem, transfigurando-o num adulto com as devidas renitências.

Quem é você? — pergunta Marcinkus com maus modos, a simpatia nunca foi o seu forte.

O jovem não parece minimamente impressionado com a altura do homem, tão-pouco com a falta de modos

— Sou o irmão Herbert. Liguei para a paróquia a dizer que vinha — informa o jovem clérigo. Calças negras, camisa e casaco negro e um cabeção idêntico ao que os padres usam. Confere. Traz ainda uma capa com folhas e uma garrafa.

Ninguém me disse nada. Qual é o assunto? — dispara Marcinkus. Odeia visitas, especialmente de desconhecidos.

Vim de Roma. Estou a fazer o meu doutoramento. Peço imen­sa desculpa por incomodá-lo, mas a minha tese é sobre o mundo financeiro e a Igreja, e quem melhor que sua Eminência para me esclarecer? — O jovem continua submisso e educado.

— Não posso ajudá-lo. Boa tarde — responde o velho Marcinkus fazendo menção de fechar a porta.

Não vou levar muito tempo, Eminência. Prometo — apressa­-se o jovem a argumentar. — Trouxe um presente de Itália. — Levanta a mão com a garrafa de Brunello di Montalcino,um maravi­lhoso néctar tinto da região da Toscana, encorpado e de sabor intenso, que não deve ser confundido com o mais comum Rosso di Montalcino, proveniente da mesma região.

Marcinkus matuta durante alguns segundos, reticente.

— Façamos o seguinte — mudança de estratégia por parte do Jovem, um negociador, a diferença entre uma boa tese e outra exce­lente, a porta de entrada para uma grande carreira: — a garrafa fica e eu volto num horário mais oportuno. Parece-lhe bem?

Marcinkus fita o jovem durante mais algum tempo.

Venha amanhã depois do almoço.

Muito obrigado, Eminência — agradece o jovem. — Fico-lhe eternamente grato.

Cobrarei essa gratidão.

Será um privilégio. — O jovem prepara-se para dar meia-volta. — Muito obrigado, Eminência. Até amanhã.

— Espere — ordena o velho Marcinkus. — Isto fica. — Retira-lhe a garrafa da mão.

Claro, claro — desculpa-se o jovem cura. — As minhas des­culpas. Até amanhã, Eminência.

— Não se atrase. — E fecha a porta sem mais palavras. Um baque forte e vigoroso que até abalou os alicerces da casa. O regresso às . suas memórias, aos seus espectros que o aguardam do outro lado, 1 seja ele qual for, bem entendido, porque apenas se sabe que é outro lado, o de lá, o além, onde vivem os mortos à espera que o tempo passe para nós, isto se houver tempo. A verdade é que nunca nin­guém regressou para contar como é esse outro lado, mas o facto é que Marcinkus vai relembrar esses mortos, acordá-los, mesmo que o faça apenas na sua consciência. O que ignora é que, hoje, os mor­tos que o acompanham desde há 84 anos vêm reclamar a sua pre­sença junto deles.

Descanse em paz, Eminência — deseja o jovem clérigo, já sem. que Paul Marcinkus o ouça e antes de dar meia-volta para sair do edifício.

 

O tempo esgota-se. O arcebispo, estendido no seu leito de morte, sabe que os seus problemas começam agora, quando for chamado prestar contas ao Deus que tanto teme e que esqueceu em tantas oca­siões. O verdadeiro banqueiro de Deus via-se diante do Todo‑

Poderoso, mostrando-lhe os livros de receitas e despesas, o deve e o haver, explicando porque haviam cometido aquelas fraudes, conven cendo-o da necessidade de diversificar os investimentos e branquear o dinheiro do crime organizado. Com a febre e a angústia da morte, Marcinkus vê Deus como o presidente de um conselho de administra­ção, um chefe incapaz de reconhecer tudo o que aquele servo fez ao longo dos seus 84 anos foi para o bem da Empresa.

 

No chão do quarto, ao lado da cama, uma garrafa entornada e um copo partido.

 

Raul Brandão Monteiro sabia que este dia haveria de chegar. Não que tenha alma de vidente ou tido qualquer sonho premonitório. Ser capitão do exército português na reforma não lhe permite, por deformação profissional, ir buscar quaisquer previsões a outro lugar que não seja o da razão, a neurálgica religião do raciocínio lógico. Foi o passado mais longínquo e alguns elementos mais recentes que proporcionaram esta inferência e, por muito que tentasse conven­cer-se e aos seus do contrário, sabia que um dia abriria a porta ao passado para o deixar fazer a cobrança. Esse dia é hoje.

Primeiro entra o velho de bengala, uma cabeça de leão dourada domina o castão, a seguir o homem mais novo vestido num impe­cável fato Armani acetinado, de cor negra. Se a bengala encimada pela cabeça de leão ampara a velhice do primeiro indivíduo, ao segundo também não destoaria. O pronunciado manquejar da perna esquerda é revelador de um acidente ou outro assunto menos esclarecido, feridas que se vão coleccionando, umas mais graves do que outras, das indeléveis às marcantes, como esta, que apenas suce­dem aos vivos. Alguns, poucos, saberão a origem do ferimento, tal­vez até o próprio capitão Raul Brandão Monteiro tenha a noção de como tudo sucedeu, mas a maioria ficará na ignorância, não sendo o homem do impecável fato Armani, agora com o epíteto de manco, pessoa de anunciar factos do passado, o como, o onde e o porquê, nem de embarcar em questões cármicas, esotéricas ou filosóficas. Cada um joga com o que tem ou recebe.

O sereno monte alentejano no lugar da Trindade, perto de Beja, onde o capitão decidiu, há uns anos, descalçar as botas e tirar os galões para gozar a reforma, juntamente com a esposa Elizabeth, inglesa por nascimento, não se coaduna com a tensão imanente. Ainda bem que Elizabeth não está em casa, se bem que, com esta gente, isso valha de muito pouco. Para um homem com um poder tão grande capaz de vergar a CIA à sua vontade, como o deste velho, saber que Elizabeth foi à cidade fazer compras para a propriedade não será tarefa hercúlea. O mais certo é que já o saiba.

Meu caro capitão. Voltamos a encontrar-nos — diz o velho, parando diante de Raul.

O manco, sem respeitar qualquer norma referente a visitantes e donos de casa, puxa uma cadeira para que o anoso possa sentar-se e recuperar o fôlego. A idade é madrasta e o tempo padrasto. Os dois juntos não perdoam, são impiedosos, vergando os fortes e os oprimi­dos, os nobres e os plebeus, sendo que a avaliação de cada um de nós é subjectiva e particular. O mal e o bem não são iguais para todos.

O capitão fita os dois homens alternadamente, medindo as pos­sibilidades. O velho sentado é um alvo fácil, apesar de ser quem comanda, agora o outro é outra conversa. O defeito é na perna e não nas mãos, não pensará duas vezes em sacar a arma e dar-lhe um ou dois tiros e, pior, com frieza suficiente para decidir que parte do corpo atingir. E o facto de o velho se ter incomodado em viajar até ao seu encontro é manifestamente prenúncio de interesses 'impor­tantes, ou seja, o tiro ou tiros não seriam mortais.

O que quer de mim? — pergunta o militar com rispidez.

Ora, meu caro. Onde estão os seus modos? — protesta o velho sem alterar o tom neutro. — Estamos em terra de bom vinho. Sei que tem a sua produção própria para consumo caseiro. Podemos começar por aí. — Que ninguém se iluda com os modos convidati­vos, isto é uma ordem e não uma sugestão. Não são estes homens pessoas de pedidos ou convites amáveis, o mundo não se governa com simpatia.

Raul dirige-se à cozinha sob o olhar atento do manco que, por ainda não ter outro nome, continuará a ser tratado assim. Em momento algum deixa o militar sair do seu campo visual. Há pes­soas a quem basta um segundo, uma oportunidade para inventarem meios de alcançar a liberdade, mas não hoje, não agora, não sob o seu olhar desvelado. Apenas um homem se tomou de veleidades e o apanhou desprevenido no passado deixando a sua marca indelével. Tal não voltará a acontecer.

O capitão regressa com dois copos e uma garrafa sem rótulo, pousa-os em cima da mesa da sala, a divisão de entrada nesta casa térrea no meio do nada, enche os dois copos com o líquido rubro de casta periquita e deixa o resto à vontade do velho. Este estende a mão para um dos copos e beberica um pouco a tomar o gosto.

Magnífico — comenta. — Uma das jóias deste vosso país é, sem dúvida, o vinho. — Vira-se para o manco: — Bebe. — Depois, voltando-se novamente para o militar: — Traga outro copo para si. É sempre bom pôr a conversa em dia ao sabor de um bom vinho.

— Não tenho vontade — informa Raul o mais friamente possível.

A nossa futura convivência ensinar-lhe-á várias coisas, uma das quais é a de que não gosto de me repetir — afirma categórico e leva novamente o copo escolhido à boca. O manco sorve também o seu aos poucos, não manifestando qualquer deleite ou desprazer. É difícil prever e avaliar os seus gostos. Um profissional que em nenhuma altura tira os olhos do alvo, neste caso concreto, o capitão português. Trabalho é trabalho, conhaque é conhaque e, mesmo a haurir o vinho, não se deixa lograr por concepções vinícolas, por muita qualidade que o líquido possa ter. Não é o momento e o velho não perdoa distracções. Nem ele próprio, aliás.

- Verdadeiramente magnífico — repete o velho em tom provocatório.

Raul vai buscar outro copo ao armário da cozinha. Verte nele um pouco do líquido da garrafa e bebe-o de uma só vez. A bola volta a estar do outro lado, se é que alguma vez chegou a sair. O português sabe que não adianta forçar as coisas. Não obterá respostas apenas pelo simples acto de perguntar. Não com esta gente, entenda-se que a expressão «esta gente» não subentende qualquer infusão ofensiva, por mais rarefeita que possa parecer. Esta gente significa apenas esta gente. Por isso a melhor estratégia será aguardar. Acabarão, por fim, por dizer ao que vêm, isso é certo.

O velho acaba o vinho remanescente no seu copo e não pede mais. O manco nem chega a terminar de beber o conteúdo do seu. Ambos pousam os copos. O mais novo sempre a fitar Raul, o mais velho divagando pelos vários cantos da grande e acolhedora divisão. É urna sala decorada com motivos rurais, alentejanos, a fazer jus à região em que se encontram. O celeiro de Portugal, a terra plana, em contraste com o acidentado terreno do Norte e Centro. Uma roda de carroça domina uma das paredes, bem no alto, envernizada e com vários azulejos espalhados pelos aros. Alguns com versos escritos, outros com figuras históricas. Leva algum tempo para que o velho desvie os olhos do objecto tão pitoresco e os fixe num corno de boi. Parece não ter pressa nenhuma, será a provecta idade que o tornou assim, pachorrento, plácido ou é, pura e simplesmente, uma sua abordagem psicológica. Não restem dúvidas sobre o seu engenho manipulador e a sua arte para o engano, sempre usados no bom sen­tido, é claro. Aquele que lhe convém mais. Que outro poderá ser mais importante?

Dez minutos de silêncio. Dez. Não se pronuncia uma única pala­vra, apenas os sons respiratórios mais arfantes do velho se fazem ouvir e o roçagar das roupas de Raul Brandão Monteiro, quando se move na cadeira em que se sentou, manifestando desconforto. Mais nada.

 

                       O SEGUNDO CONCLAVE DE 1978

A segunda-feira marca o terceiro dia de conclave. Para trás ficam seis sessões de escrutínio inconclusivas. Cento e onze car­deais com idade inferior a oitenta anos participam no sufrágio, os mesmos que há seis semanas escolheram Albino Luciani, o defun­to João Paulo I, trinta e três dias no cargo até que o coração parou, segundo conta a história oficial, aquela que permanece... até que se demonstre o contrário.

A hora de almoço suspende os trabalhos, aumentando a tensão sobre os ombros do polaco Karol Wojtyla. Durante duas noites rezou intensamente na cela número 91, que lhe foi atribuída, para que Deus iluminasse o conclave com a Sua infinita sabedoria, na justa condu­ção dos votos. Ah, porque é tão difícil ser homem da Igreja Católica Romana? Se ao menos o além pudesse ter um modo de comunicação mais directo com a Terra.., como entender os sinais, o que é e o que não é? O choque da morte súbita de Luciani ainda paira sobre ele, o seu sorriso genuíno, a bondade intrínseca, a santidade... Nunca pen­sou voltar a pisar a Capela Sistina para escolher outro papa na sua vida, tão-pouco no mesmo ano, apenas escassas semanas depois.

Agora, debruça-se sobre os cannellonis sem fome alguma, receo­so de que tenha rezado para si próprio, de que Deus veja em si o seguidor de Luciani.

Como é possível que no sábado tenha iniciado o conclave com uns surpreendentes cinco votos e na sexta votação, antes deste almo­ço, tenha recolhido cinquenta e dois? Durante aqueles dias de prepa­ração do conclave em que alguns cardeais mitigam as hostes, anun­ciando, hipocritamente, que não são candidatos ao pontificado, em lanches e outros encontros santificados, Wojtyla e os outros soube­ram, desde logo, quem eram os favoritos, os papabile. Apenas dois, Siri e Benelli. O primeiro, um ultraconservador curial com muito mau feitio, e o segundo na linha mais liberal de João Paulo I, de quem era amigo. Chegara a comentar sobre o favoritismo do genovês e do florentino com Kõnig, o influente cardeal austríaco.

O conclave é para corredores de fundo, Karol — respondeu­-lhe este. — Aqueles que entram papas no conclave normalmente saem cardeais.

Bem sei, Franz. Mas não creio que este traga as surpresas do anterior — manifestou Karol com sinceridade. Ambos falavam na língua viva que os unia, o italiano. Kõnig com um pronunciado sota­que alemão e Karol, imaculadamente.

Nunca se sabe — disse Franz Kõnig dando-lhe uma palmada no ombro. — Nunca se sabe.

Mas a verdade é que a primeira votação revelou uma tendência patente com a linha de pensamento do polaco. Siri à frente com vinte e três votos, seguido de Benelli com vinte e dois, Ursi com dezoito, Felici com dezassete, Pappalardo com quinze e... Wojtyla com cinco, provavelmente por benquerença, cinco almas com quem ele foi mais cordato num passado recente. Realce-se o facto de que não se tratava de uma qualquer competição desportiva ou de outro tipo, mas tudo é feito na mais sagrada convivência espiritual e qual­quer semelhança com uma disputa desaforada é ilusória. São fór­mulas santas de eleger um santo, o meio de comunicação com o Pai e a configuração descritiva dos resultados é meramente ilustrativa, portanto, quando se diz Siri à frente com vinte e três votos, não se deve imaginar uma claque a gritar o seu nome como a que incita um corredor.

No segundo sufrágio de sábado, Benelli arrancou quarenta votos, Felici trinta e Siri caiu para onze. Ursi manteve os dezoito votos, Pappalardo saiu da lista dos votados e Wojtyla, vá-se lá saber como, aumentou o seu pecúlio para nove. Na altura não se preocupou com o assunto, seriam as tais votações por simpatia, nada demasiado sus­tentado nem sustentável. Dali a pouco sairia da lista de votados como Pappalardo. Cracóvia estaria à vista no final da semana, o mais tardar.

O domingo iniciou-se com três sessões de votação, ainda que Benelli não necessitasse de tanto. Seria papa no final do dia ou antes disso, assim pensou Karol Wojtyla na sua ingenuidade, ignorando as fabricações de um grande amigo. A primeira do dia, terceira da geral, deu quarenta e cinco votos a Benelli, vinte e sete a Felici, os dezoito votos do costume a Ursi e os mesmos nove a Wojtyla. Mais trinta e Giovani Benelli obteria os dois terços mais um exigidos, nada de muito problemático.

Na ronda seguinte, Benelli, sempre em ascensão, colheu sessenta e cinco votos, Ursi quatro e Wojtyla avançou para vinte e quatro. Porém, surge um novo adversário, no sentido mais canónico do termo, pois não se trata de nenhuma disputa militada, Giovanni Colombo, arcebispo de Milão, com catorze votos.

Antes da última votação do dia, o cardeal Colombo apresentou um pedido para que não voltassem a considerá-lo nas sessões subse­quentes. Assim, Benelli foi votado setenta vezes, a meros cinco votos do papado, e Wojtyla teve quarenta votos. O regresso à cela número 91, depois do jantar, fez-se com alguma ansiedade, mas não muita. Benelli estava a alguns míseros votos de se tornar o próximo Sumo Pontífice. De manhã, estaria tudo resolvido a favor do florentino. Por isso, dedicou a oração a Benelli, para que obtivesse a luz necessária para guiar a Igreja nos próximos anos. Ao terceiro papa, no mesmo ano, havia necessidade de assentar.

Assim chegou a manhã de segunda-feira e a sexta votação que fez Wojtyla encolher-se ao dizerem o seu nome cinquenta e duas vezes, enquanto Benelli reduzia o seu raio de influência para cinquenta e nove votos. Em matéria de conclaves, quando se perde terreno, nunca mais se recupera.

Percebe-se desta forma que o cardeal de Cracóvia olhe para os can­nellonis, mas não sinta vontade de comê-los. Urna bola de nervos enche­-lhe o estômago, de tal maneira, que o deixa descorado e arquejante.

— O conclave é para corredores de fundo, Karol — ouve o pola­co. É Franz Künig que se senta ao seu lado. Acompanha-o o compa­triota de Karol, Wyszynski.

Isto é obra tua — ataca Wojtyla levantando os olhos para o companheiro.

— Minha? Isso são sinais de contradição — acusa o austríaco com um sorriso. — Não, Karol. Isto é obra tua.

— Vai correr tudo bem — apoia Wyszynski.

Os três homens levantam-se e dirigem-se para a capela. O prato de Wojtyla permaneceu intocado durante toda a refeição.

Lembras-te do que Willebrands disse ao Luciani na última votação? — pergunta Kõnig em voz baixa.

Não estava perto deles no último conclave.

Eu estava. E quando Luciani começou a sentir o pânico da sua eleição iminente, Willebrands disse-lhe urna grande verdade: O Senhor dá o fardo, mas também dá a força para o carregar.

Não desejes estar no meu lugar, Franz. Espero que Benelli recupere e acabe logo com isto.

Põem-se na fila para a entrada ordeira na capela. Nada neste local é feito com balbúrdia, tudo segundo as normas de Deus Pai Todo- Poderoso, criador do Céu e da Terra e de todo o Universo. Karol Wojtyla cerra os olhos e inspira. Tudo será como Ele quiser. Benelli ou ele. Seja.

Um pouco mais atrás, Franz Kõnig rejubila-se com o seu trabalho. Desde o início que traçou um estratagema para que o desenlace se torne a eleição de Karol Wojtyla. Falou com a maior parte dos cole­gas não italianos, ofereceu-lhes obras de Wojtyla, para melhor cativá­-los. Nada como um pouco de publicidade, nada enganosa, pois Wojtyla é um homem sério e íntegro. Tudo sem que este se tenha apercebido de nada. Chega de Siri e Benelli e Felici. Todos têm as suas qualidades inerentes, é óbvio, bem, Siri talvez não tenha nenhu­ma, mas é altura de mudar. O tempo dos italianos tem de acabar.

Sétima sessão de votação, o mesmo ritual de há oito séculos, dois dias de fumo negro esbranquiçado, de decisão pendente, de expec­tativas goradas na Praça de São Pedro. Duzentas mil pessoas no local em espera constante e um bilião de ouvidos colados ao recep­tor de rádio e olhos na televisão. Isto só no que toca a católicos. Falta adicionar todos os peritos e curiosos, não movidos por religião, e os afectos às outras manifestações teológicas. A contagem dá setenta e três votos a Wojtyla e trinta e oito a Giovanni Benell i. Mais dois votos e Karol Wojtyla jamais verá Cracóvia com os mesmos olhos de cardeal, somente corno papa e em breves visitas. Este pensamento desconforta-lhe o coração e quase lhe mareja os olhos de emoção.

As cinco horas e vinte minutos da tarde, conforme os relógios estejam mais ou menos adiantados, Wojtyla torna-se o primeiro papa não italiano em mais de quatrocentos e cinquenta anos de História. O último fora Adriano VI, um holandês, eleito em 1522, muito impopular em Roma por defender e referenciar numa das suas obras o haeresim per suam determinationem aut Decretalem assu rondo, o que equivale a dizer que os papas podiam cometer erros em matéria de fé. Sacrilégio. Sacrilégio. Morreu pouco mais de um ano depois do entronizamento e não deixou saudades, segundo parece.

O ducentésimo sexagésimo quarto papa da Igreja Católica põe as mãos na cabeça e começa a chorar espalhando um clamor de emo­ção pela capela que se transformou num aplauso contido. O cardeal Jean-Marie Villot, camerlengo, o equivalente a papa interino, cargo que apenas existe desde a morte de um papa até à eleição do suces­sor, dirige-se ao lugar de Wojtyla com o cenho franzido, sinal de solenidade.

— Aceita a sua eleição canónica para Sumo Pontífice?

Com os olhos marejados, Wojtyla levanta a cabeça e fita os pre­sentes. As lágrimas deslizam pelo rosto abaixo.

— Com obediência na fé a Cristo, Nosso Senhor, e com confian­ça na Mãe de Cristo e na Igreja, apesar das grandes dificuldades, aceito.

Um suspiro de alívio percorreu a capela, especialmente para os lados do austríaco Franz Künig. Eleger um papa é fácil. Convencê­-lo a aceitar o cargo depende apenas do eleito.

— Por que nome deseja ser chamado? — prossegue Villot. A mesma pergunta que ainda há seis semanas pronunciara ao desdi­toso Albino Luciani, encontrado morto nos seus aposentos durante a madrugada de 28 para 29 de Setembro, o papa que morreu sozinho, isto a acreditar na versão oficial. Há quem defenda uma morte obs­cura, um assassínio, devido ao seu ímpeto reformativo e incorrupti­bilidade total. Fala-se até em veneno ou numa almofada que o sufo­cou pela calada da noite, mas essa é a história do Papa Luciani e a que importa agora é a do polaco Wojtyla, não se misturem as coisas.

Karol Wojtyla pensa durante alguns segundos e sorri pela primei­ra vez.

— João Paulo II.

Ordena-se a abertura da capela, os irmãos Gammarelli entram para vestirem o novo papa na sacristia. Haviam feito três sotainas imaculadas, alguma haverá de servir ao polaco.

Os boletins são queimados de forma a produzirem o célebre fumo branco, mas o problema não está nos compostos químicos, antes na chaminé suja que há mais de um século ninguém limpa. Assim nunca se saberá com certeza se o fumo é branco ou preto, pelo que, na Praça de São Pedro, alguns permanecem, resistentes, e outros desistem, regressando às suas casas ou aos seus hotéis, às suas vidas.

Duas horas depois, os sinos retumbam anunciando a boa-nova e as portas da varanda da Basílica de São Pedro abrem-se. A praça fer­vilha de fiéis silenciados para deixarem Pende Felici 'pronunciar as mesmas palavras de 26 de Agosto, substituindo apenas o nome do sucessor de Luciani.

— Annuntio vobis gaudio magno, habemus Papam! Eminentissimum ac Reverendissimum Dominam, Dominam Carolum, Santae Romanae Eclesiae Cardinalem Wojtyla, qui sibi nomem impostat... Ioannis Pauli Secundi.

 

É sempre recomendável ajustar todo um conjunto de engrena­gens para que o processo conflua no objectivo primário. A isso pode chamar-se o plano de execução, de produção, de fabrico, o grande plano, o método, processo, operação, fabricação, maquinação, mani­pulação... O plano.

Sarah Monteiro sabe que é apenas e só uma das rodas dessa engrenagem maior que culminará em algo que ainda desconhece. Jornalista, luso-britânica, filha do nosso já conhecido capitão do exército português Raul Brandão Monteiro, e de Elizabeth Sullivan Monteiro para que fique completa a filiação, está ciente de que o lugar que ocupa é temporário, enquanto o seu trabalho servir os interesses maiores de quem pode, quer e manda.

Se há alguns meses alguém lhe tivesse dito que, hoje, Sarah seria editora de política internacional do conceituado e prestigiado The Times, arrancaria uma gargalhada gutural, obtusa mas verdadeira, seguida de um rotundo «Internem-no», se o profeta fosse do sexo masculino, obviamente.

Porém, não se enganaria, pois as condicionantes da vida, da já mencionada engrenagem, assim o desejaram. Sarah é a reputada editora de política internacional, um cargo imensamente cobiçado e invejado que ela nunca procurou alcançar. Chega a raiar a vidência a forma como consegue obter informações exclusivas ou prever futuras reacções. Há editores de política internacional de outros jor­nais que andam a reboque das suas acções, aguardando que ela aponte o caminho, que sugira um panorama possível. Em Inglaterra, esse respeito e admiração granjeada aos colegas da classe valeram­-lhe o rótulo de «Mourinho» do jornalismo, contribuindo para isso a sua costela paterna portuguesa.

Como em tudo o que nos rodeia, existem também os cobiçosos, aqueles que por incompetência, infortúnio ou pura ruindade não conseguem atingir o nível de fiabilidade e profissionalismo de Sarah e conspurcam o seu bom nome, inventando sobre o amante que ela tem nos serviços secretos. A verdade é que alguém lhe transmite, de facto, as informações que acabam sempre por se provar correctas, mas não é seu amante nem tão-pouco funcionário dos serviços secretos de qualquer país. Está muito acima disso.

Para se perceber como Sarah chegou a este lugar, teríamos de recuar no tempo, alguns meses, quase um ano, a uma noite na sua anti­ga casa de dois pisos em Belgrave Road, mesmo junto à paragem do 24 que ruma a Pimlico/Grovesnor Road ou Trafalgar Square se for no sentido inverso, e contar uma outra história com tantos elementos e revelações sobre a sua ascendência e as da própria sociedade. Teríamos de falar de lojas maçónicas secretas e verdadeiras, espiões, padres e car­deais assassinos e assassinados, documentos perdidos e encontrados, um papa maravilhoso morto antes do seu tempo, ou no seu tempo,, quem sabe o quê sobre os desígnios Dele que, apesar de parecerem: sempre desencontrados, acabam por se revelar rectos e direitos. A simplicidade da natureza, aquela que não é reproduzível em,laboratório.

- Isso é outro livro — protesta Sarah. — Está à venda nas livra­rias.

- Não precisas que te conte. A história agora é outra.

— Está publicado? — pergunta Simon, curioso.

- O quê?

- Esse livro?

- Não leves tudo ao pé da letra — explica ela. — Nem penses que o mundo gira à tua volta. Não estava a falar contigo. Simon olha em redor.

— Não está aqui mais ninguém.

— Tenho mais que fazer. Vá, deixa-me trabalhar.

Simon, estagiário e assistente de Sarah, recrutado em Cardiff, e com um sotaque cerrado, difícil de compreender pelos próprios Ingleses, sai do gabinete, cabisbaixo. Sarah é um mistério para ele, a todos os níveis, para além disso é sobejamente considerada pelos outros integrantes da sua espécie como fisicamente atraente. Contratou-o ao fim de duas perguntas, a primeira foi para confir­mar o nome Simon Lloyd e a segunda se podia confiar nele, deitan­do por terra todos os temores e aflições, suores frios e nervos que rodearam a véspera da entrevista. Preparou-se para algo intenso em que teria de mostrar o seu valor, autoconfiança e auto-estima e, de repente, ainda mal sentado na cadeira, já Sarah lhe estendia a mão a dizer para comparecer no dia seguinte, às 9 da manhã, pronto para trabalhar. Sempre se perguntou, nos poucos meses que tem naquele emprego, o que a levou a contratá-lo. Tentou também, não poucas vezes, saber mais coisas sobre a sua superior hierárquica, mas sem êxito. Sarah defende a sua privacidade ferreamente e sempre deu a entender que avançar nesse sentido é como levar com uma parede de betão na cara. A existir uma porta nessa parede, será aberta quando e se ela quiser revelar os interiores do seu mundo.

A verdade é que estes últimos meses estavam a correr-lhe bem, sob todos os aspectos, falamos de Simon e não de Sarah. São aque­las fases da vida em que parecemos imparáveis, tudo resulta, nada parece impossível e o futuro afigura-se como algo muito fácil de alcançar. O emprego no melhor jornal britânico não podia ter che­gado em melhor hora, e ao mesmo tempo de um novo amor, pleno de paixão e emoção, que apareceu por acaso, na noite em que feste­java a nova posição, uma bênção. Não se lembra de ter estado tão de bem com a vida antes como agora, todo ele é serenidade e confian­ça, coragem e paixão pela vida, sente-se capaz de tudo e emana um amor por si mesmo, pelo novo amor, uma gratidão e admiração pela sua misteriosa chefe que proporcionou, inconscientemente, toda essa estabilidade profissional e emocional.

O telefone toca em cima da secretária, sim, ele tem a sua própria secretária à porta do gabinete de Sarah, virado para a alvoroçada redacção sempre repleta de frenesi taquicárdico, retirando-o desta letargia feliz e convocando-o de volta ao trabalho.

Simon Lloyd — apresenta-se à pessoa do outro lado da linha.

— Olá, meu amor. Bom dia. — Um sorriso largo alastra pelos lábios assim que reconhece a voz. O rubor colora-lhe a pele do rosto e pro­voca outras reacções corporais, normais neste caso específico. — Não estava nada à espera que me ligasses.

Inicia-se nesta fase uma conversa entre apaixonados que não importa seguir, frases do género Dormiste bem? ou És um anjo, ou ainda Não te quis acordar, por isso, saí de mansinho. Avancemos, portanto, até ao toque persistente que invade o auscultador cinco minutos mais tarde, a anunciar outra chamada a pedir atenção.

Aguarda um momento, tenho outra chamada em linha — informa Simon. — É um minuto, meu anjo. Até já. Beijo. Beijo. Beijo. — Esforça-se por carregar no botão que faz que o seu amor fique em segundo plano, porém, sempre primeiro no seu coração, e abre caminho ao destruidor de conversas amorosas.

Simon Lloyd — apresenta-se com profissionalismo, embora deixe escapar alguma rudeza na voz.

Bom dia, Simon — ouve-se a voz dizer num inglês de estran-. geiro nada simpático. — Desejo falar com a Sarah.

Ela está ocupada. Terei de ver se poderá atender. Quem devo anunciar? — pergunta enquanto olha as unhas da mão direita, ana­lisando a necessidade ou não de as cortar. Imagem é tudo nesta pro­fissão e nesta cidade.

Diga-lhe que é o pai.

— Ah, senhor Raul. Como está? Não o reconheci, peço desculpa.

Não faz mal. Vou andando, e você? — Se não fosse a flecha de cupido, Simon notaria no tom de voz do capitão alguma impaciên­cia. O puro acto de fazer conversa por fazer, por delicadeza, educa­ção, simpatia, sem sentido.

Óptimo. Estou óptimo. — O mesmo sorriso parvo inunda-. va-lhe a boca, o sorriso da felicidade. — Vou passar, senhor Raul. Continuação de bom dia. — Não fora o facto do tão cobiçado amor estar em segundo plano, na linha adjacente, Simon iniciaria

unia longa conversa com o simpático capitão, ou coronel, ou major, pai de Sarah Monteiro, que ainda não teve a oportunidade de conhecer. Ainda bem que optou por não fazê-lo. Ainda bem para os dois, é claro.

Clica nos botões adequados ao efeito pretendido, que é passar a chamada de Raul Brandão Monteiro para o terminal no gabinete de Sarah, nem precisa de comunicar à chefe, pois as ordens são para transmitir directamente a chamada quando se trata de família, pai e mãe, bem entendido.

Estou de volta, meu amor — diz ele com o mesmo sorriso parvo e o rubor entranhado na pele. É o amor. — Era o pai da minha chefe. Nada de importante.

Deixemos o namorico continuar desse lado e passemos ao gabi­nete de Sarah, onde o terminal telefónico começa a tocar. Não é Simon, caso contrário, soaria de unia forma diferente, são as mara­vilhas da tecnologia, é uma chamada externa e ao deslocar o olhar para o visor do telefone identifica o número familiar da herdade dos pais, em Beja. Pára o trabalho que está a fazer no computador e atende imediatamente.

Estou?

Sarah?

Olá, pai. Está tudo bem?

Estás bem, Sarah? — Uma pergunta a seguir a outra pergun­ta, ignorando totalmente o interesse primeiro da filha.

Sim. Estou bem. — Mau. A voz do pai não reflecte a sereni­dade costumeira. A última vez que o ouviu neste estado tinha um homem à porta da sua antiga casa, em Belgrave Road, pronto para a matar. E só não o fez porque...

— Sarah, preciso que me escutes com atenção — ordena o pai em tom grave.

— O que se passa, pai? — Regressa um nervoso miúdo que já não sentia há algum tempo. A sensação desconfortável que jamais dese­jara voltar a sentir.

Escuta, Sarah — repete o pai. — Escuta com atenção. Tens de sair de Londres imediatamente...

Porquê? — interrompe de rompante com o coração alvoroça­do. — Não me trates corno uma criança que só faz aquilo que man­das e faz as perguntas depois. Desta vez quero saber tudo.

O silêncio invade a linha, nunca totalmente, pontuado por uns estalidos e pela estática que se multiplica nestes meios, assenho­reando-se dos domínios da comunicação e escutando as privacida­des sem olhar a quem. A apoquentação ganha terreno em Sarah, assim como a confusão. O passado a bater-lhe à porta como naque­la noite. Que raio está a passar-se?

Pai? — chama-o para o trazer novamente à terra.

— Sarah — profere uma voz diferente, na mesma ligação, que faz Sarah quase sufocar com os nervos e o pânico. Não. Não pode ser ele. Será?

JC? — pergunta a medo, desejando ter confundido ou ouvido mal. Por favor, não. Que não seja ele. Suplica.

- Muito me honra não se ter esquecido de mim.   

É ele. As pernas fraquejam-lhe, não fora a cadeira e o facto de estar bem sentada e cairia no chão, tal é o choque de o ouvir novamente.

— Como está desde a nossa última conversa no Palatino? — quer saber ele no puro acto de fazer conversa, coisa que não é própria da sua personalidade e deixa Sarah desconfiada. Relembra a conversa que teve com JC no Grand Hotel Palatino, em Roma, e das promes­sas de que voltariam a falar. Quase um ano depois, esta chamada cumpria esse preceito.

O que quer? O que está a fazer na herdade dos meus pais? — Acabam-se as cerimonias em Sarah, assim que recupera a razão. Não poderá demonstrar medo, por muito que o sinta. É essa a forma de lidar com gente desta, sem desprimor da expressão. JC em Portugal, na casa dos pais, se o número que está no visor do telefo­ne não mente. O significado disso ainda é uma miragem.

Ora, ora, minha querida. Onde estão os seus modos? — pro­testa o tal JC, sem se importar em disfarçar o sarcasmo. — Estou a ter uma agradável conversa com o seu pai, acompanhado de um vinho magnífico. Chegámos, finalmente, ao ponto mais crucial do nosso reencontro, razão pela qual ele lhe telefonou.

___ O que quer de nós? — A voz sai-lhe dura, como pretende, ape­sar do turbilhão interior que a atormenta.

Vou simplificar as coisas, para me tornar compreensível e não dar azo a mal-entendidos.

Sou toda ouvidos. — Mal acredita que disse isto.

Um segundo de silêncio para que toda a concentração se con­dense em Sarah. O velho sabe como captar a atenção aos interlocu­tores. Nem sempre é necessária uma arma apontada à cabeça para se fazer entender.

— Saia de Londres, já. Traga aquilo que lhe deixei no hotel Grand Palatino e não fale com ninguém, não avise ninguém, não espere por ninguém ...

E se não fizer o que me pede? — resiste Sarah.

Nesse caso, o seu pai poderá começar já a tratar da traslada­ção do seu corpo porque será eliminada ainda hoje.

 

Neste local encontram-se os restos mortais do patrono dos camio­nistas, dos tanoeiros, chapeleiros, farmacêuticos, veterinários, pelei­ros, cavaleiros e peregrinos, das peregrinações e dos caminhos, do Chile, Peru, México, Colômbia, Cuba, Guatemala, Nicarágua, Galiza e Espanha e, para abreviar a longa lista, do exército espanhol. É conhe­cido por muitos nomes, Iacobus, Jacob, Jacó, James, Jacques, Jacóme, Jaume, Jaime, mas aquele que move multidões é o antropónimo Santiago. Santiago Maior, apóstolo de Cristo, morto pelo fio da espada de Herodes, irmão de outro apóstolo, São João Evangelista, ambos filhos de Salomé e Zebedeu.

Ninguém sabe precisar a data, mas, segundo essa imprecisão, pró­pria desses tempos em que a informação se perdia nas bocas e nos pergaminhos e era consumida pelo fogo dos déspotas ou pelo sim­ples e impiedoso passar do tempo, foi no ano de 813 ou 814 que Pelágio, um eremita cristão, avisou Teodomiro, bispo de Iria Flavia, aqui na Galiza, sobre uma estrela que iluminava um monte. Há tam­bém quem, nesta parte da lenda, ou da verdade, quem quiser que escolha, substitua estrela por luzes estranhas ou um sinal dos céus, o que é certo é que, fosse o que fosse, incidia sobre um local concreto, um monte desabitado, CO()m se alguém ansiasse que algo não per­manecesse mais na ignorância obscura. Foi assim que Teodomiro encontrou uma tumba. Dentro dela, um corpo degolado com uma cabeça debaixo do braço, presumivelmente pertencente ao mesmd dono. As certezas foram unânimes em apontar o corpo, mais a cabe-;, ça debaixo do braço, como sendo o do apóstolo Santiago Maior, para': sempre imortalizado como Santiago de Compostela e que não deve: ser confundido com Santiago Menor, outro dos doze seguidores de Cristo. Lenda ou não, a verdade é que milhões de pessoas visitam este lugar sacro todos os anos, muitas delas fazem um dos inúmeros caminhos que lá vão dar. E isto acontece desde há doze séculos.

É na Plaza dei Obradoiro, fronteiriça à catedral barroca, cons­truída durante os nove séculos posteriores ao achamento dos restos' mortais do referido apóstolo, que Marius Ferris se deixa contagiar pela quietude do local. Contempla a rebuscada fachada da catedral, de costas para o Pazo Raxoi, actual sede da Xunta Galicia, um edifí­cio em estilo neoclássico, mandado construir pelo arcebispo de igual nome, Raxoi, no mesmo século em que terminaram as obras de edificação da catedral de Santiago, o de número dezoito, que se deve sempre representar em letra romana, é claro. Duas formas dis­tintas de se perpetuar o nome com que se nasce, Raxoi e Santiago, a um bastou separarem-lhe a cabeça do corpo e ser achado, tão-pouco deve ter buscado qualquer fama e proveito no seu espalhamento da Palavra Dele, o outro teve de mandar construir um palácio.

Também antigos são os edifícios, - igualmente ignorados por Marius Ferris, uma vez que continua a fitar atentamente a fachadà da catedral. À sua esquerda, a norte, o Hostal de Los Reyes Ca­tólicos, urna hospedaria de luxo, que começou a ser erigida no ano de 1486, por ocasião da visita de Isabel e Fernando a Santiago de Compostela. O projecto inicial configurava um hospital para aco­lher os inúmeros peregrinos que faziam o caminho, mas quis a rai­nha que o edifício se transformasse em posto de acolhimento e não de cura.

Do lado direito de Marius Ferris, que continua hipnotizado pela catedral dominante, ergue-se o Colexio San Xerome, do século xvt, um hospital de peregrinos e residência de jovens estudantes sem recursos. Mas nada disso importa a Marius Ferris, nem sequer o pavimento secular pisado por comuns e nobres, desde o tempo de Afonso II, das Astúrias, de cognome o Casto e, claro, por clérigos enfastiados. Quem o conheça, e não haverá muitos espécimes que se possam gabar disso, nem os suficientes para encher os dedos de urna mão, saberá que ele está a desfilar a memória diante dos seus olhos. Mais de vinte anos o separaram desta visão, desta terra que é sua. Primeiro de Santiago e da Galiza, de Espanha depois. Ninguém diria. A copiosa cabeleira branca identifica uma vida inteira, anos de ausência, noutras paragens, muito mais cosmopolitas. Trocou urna cidade pequena, com oitenta mil habitantes, por outra com oito milhões, do lado de lá do Atlântico. Foram os imperativos da vida, os OSSOS do ofício, as ordens, pois um padre também os tem, porventu­ra em maior quantidade do que os outros. A um padre não se pede que se desloque para Nova Iorque durante vinte anos, não se convi­da. Simplesmente, ordena-se. A vida de um padre pertence ao bispo, ao cardeal e, acima de todos, ao papa. Nunca de Deus. Esse está no chamamento, a máquina organizativa das autoridades religiosas trata do resto. E claro, tendo em conta que Sua Santidade é o emissário de Deus na Terra, está tudo muito bem entregue.

Assim aconteceu com Marius Ferris, desterrado em Manhattan, o sonho de muitos, não o dele.

Enquanto contempla a fachada, um sorriso esboça-se-lhe nos lábios, inconscientemente. O desterro terminou. Não que não tenha gostado da Grande Maçã. Em certa medida até a amou, a diversida­de cultural, étnica, a oferta museológica — a sua preferida — e tea­tral, tudo para todos os gostos corno costuma dizer. Sim, esteve na cidade certa, serviu o seu papa, o magno João Paulo II, com primor e brio. Mesmo hoje, não há nenhum dado negativo que os seus superiores possam alvitrar contra ele. Já o contrário não é assim tão certo. Depois de um ano a servir Bento XVI, lá longe, decidiu pedir dispensa, por razões que não vêm agora ao caso, mas que deixaram a sua vida numa situação instável e periclitante, isto na sua forma de ver modesta e complacente. A verdade é que não foi assassinado por urna unha negra e isso abalou-o.

Este é o primeiro dia da nova vida. De regresso às origens, vem prestar visita ao apóstolo Santiago. É justo que seja a primeira coisa a fazer se, há vinte anos, foi a última, antes de abandonar a cidade rumo ao novo inundo.

Marius Ferris, cura reformado, sobe as escadas da imensa cate­dral. É hora de rezar, de prestar contas, de se entender com o seu Deus, alheio ao homem que, alguns metros atrás de si, refaz os seus passos até ao interior da catedral.

 

Nunca pensei conhecer um membro da Santa Aliança.

A Santa Aliança não existe — responde Rafael peremptoriamente.

Não existe?

Não. É um mito.

— Então a que organização pertence? — pergunta o padre James Phelps, ajeitando-se no assento do Airbus A320 que cruza os céus a onze mil metros de altitude.

Rafael volta a olhar através da pequena janela. Daquela altitude apenas se vislumbra o azul do céu, tudo o resto é desconexo, ininte­ligível, assim como a dúvida do clérigo que o acompanha em via­gem. Noutros tempos, mesmo perante um colega de ofício, ou sobretudo diante de um, responderia com um categórico Sou o que sou, encerrando dessa forma o assunto. Porém, neste caso, trata-se de alguém que o acompanha numa missão, cujo desfecho é ainda uma incógnita. Não deve, por isso, alimentar querelas toscas.

Sou outra coisa — conclui de forma mais evasiva do que i m per at iva.

A cabine está povoada com cento e trinta e nove almas, classe exe­cutiva incluída, não há diferenças quando se fala de números, seja de feridos, mortos ou, simplesmente, de passageiros. Todos são iguais aos olhos dos contabilistas. Descolaram há pouco mais de uma hora, o que significa ainda mais noventa minutos de voo. A refeição está em plena distribuição para aqueles que a aceitam, a maior parte, quanto mais não seja porque está incluída no preço do bilhete, logo é pertença do visado ou serve como desculpa para dois dedos de conversa com a hospedeira, nada mais do que isso, dois dedos.

Rafael não enverga qualquer traje que o identifique como membro da Igreja, enquanto James Phelps veste um fato acinzentado muito sóbrio, com o cabeção delator. Não é vergonha nenhuma usar as ves­tes que traduzem a sua crença, seja urna batina ou um simples cabeção, um turbante, um chador, uma burca, um niqab, uma barba grande ou um chapéu, uma estrela ou tatuagem. Contudo, existe um conjunto diminuto de situações que apelam à preterição desses elementos para que não sejam chamadas atenções indesejadas. Esta é uma delas.

Assim que cheguemos a terra é melhor tirar o cabeção — avisa Rafael. Escusado será dizer que a entoação recomendatória mais não é do que isso, uma entoação, e James Phelps é inteligente o sufi­ciente para perceber isso.

--- E depois?

Depois é simples: siga as minhas instruções.

Com certeza — acede o mais velho. — Não tenho idade para me meter em areias movediças.

Já está metido, padre. Agora, o que é preciso é não ir ao fundo.

Confio em si — remata o outro com um sorriso benigno.

O melhor é confiar no seu Deus. É mais fiável.

O inglês olha-o com difidência.

O nosso Deus, meu caro. E não me meta mais medo do que já tenho.

Phelps relembra o encontro com Rafael no Palácio Apostólico do Vaticano. Entrou sozinho e saiu vinte minutos depois, sem sequer parar para esperar que o emissário à Igreja de San Gregório della Divina Pietà se levantasse da cadeira, estofada de veludo vermelho. Ainda estava a meio desse processo quando ouviu um Vamos? prove­niente do corredor por onde Rafael havia seguido. «Vamos aonde?», murmurou para si próprio.

Rafael não disse uma palavra do que aconteceu durante os vinte minutos em que desapareceu pela enorme porta que separa os apartamenntos papais do resto do palácio. Nem esmiuçou qualquer comentário sobre quem com ele falou. Teria sido o próprio papa, como lhe haviam ordenado que dissesse quando o foi buscar? O secretário Bertonne? Ou outra pessoa qualquer, menos referen­ciada e reverenciada? Fosse como fosse, Rafael não era homem a quem se pudesse perguntar algo desse género, assim como James Phelps não era homem para o interpelar sobre isso, por muito que se sentisse tentado e até no direito, uma vez que, pelos vistos, foi incumbido de o acompanhar. A cada um o seu mester e as suas frouxidões e, a acreditar nos relatos que ouviu sobre o passado dele, como acredita, sabe do que ele é capaz. Somando todas essas har­monias, Phelps está ciente de que se Rafael considerar importante que ele fique a par do teor da conversa ou da reunião instrutória — será esta última a melhor designação —, dá-la-á a conhecer. Até lá morará na ignorância, prosseguindo pelos ares a novecentos quiló­metros por hora a caminho do insondado.

— Aceita a sua refeição? — pergunta a hospedeira estendendo algo comestível envolto numa película de alumínio, provavelmente uma sanduíche guarnecida com qualquer tipo de recheio mal temperado.

Sim, obrigado — responde Rafael libertando o tabuleiro que desce das costas da cadeira defronte, as maravilhas da ergonomia na aviação, que inventam espaço onde não o há.

E o senhor aceita a sua refeição? — repete a hospedeira, maquinalmente, desta vez tendo James Phelps como alvo.

— Não, obrigado. Não tenho fome — responde o simpático senhor, passando os dedos entre o cabeção e o pescoço, urna sensação de desconforto, de aperto súbito, falta de ar, a lividez a alastrar pelo rosto. Onde é que me fui meter?, pensa. — Mas aceito um copo de água, por favor.

Com certeza. — A hospedeira pega na garrafa transparente com eficiência e verte o líquido. — Aqui está, senhor.

O cura segura no copo e, mal o pousa no tabuleiro que, entre­tanto, também desprendeu das costas da cadeira à sua frente, agar­ra-se à perna esquerda. Urna dor acutilante perfura-lhe o meio da coxa. Controla-se o mais possível para não verbalizar o padecimento, respirando fundo e engolindo os vagidos, tornando-os lamentos respiratórios ofegantes.

O senhor está bem? — pergunta a hospedeira com as mãos cheias com mais um invólucro de alumínio e um copo com sumo de laranja.

Sim. Sim, não é nada. Isto passa, obrigado — responde ele recostando a cabeça na cadeira e fechando os olhos por instantes. O suor cobre-lhe a testa com gotículas.

Rafael, alheado do desconforto do confrade, ataca a sanduíche, que descobre ser de presunto, aliado a uma pasta ainda não identi­ficada, mas que não resulta num grande casamento, embora a ele não lhe faça qualquer diferença. Para beber fica-se pelo sumo de laranja. Será, possivelmente, um dos raros seres humanos a gostar de comida aeronáutica. O que quer que lhe ponham à frente é um verdadeiro pitéu dos ares e será tragado com gosto.

O repasto termina com um café para Rafael. James Phelps, já recomposto da dor acutilante que o agrediu, pede mais um copo de água, que bebe de uma só vez.

Faz mal em não comer — adverte Rafael.

Não tenho mesmo fome nenhuma — desculpa-se o inglês. — E comida de avião não é o meu forte. Gosta mesmo disso? — Aponta para o invólucro de alumínio espalmado, que há pouco envolvia a sanduíche.

Quando estiver dias sem comer e sem saber quando será a próxima refeição decente, isto vai-lhe parecer o melhor manjar da sua vida.

Phelps engole em seco. Não tanto pelo cenário dantesco apresen­tado, mas pela frieza coalescente da voz.

— O que nos espera? — pergunta curioso e com os nervos a aflo­rar a pele. A sensação desconfortável regressa às vias respiratórias. No que é que me fui meter?, pensa novamente, enquanto tira o colar branco da gola da camisa e desaloja o primeiro botão.

Rafael leva algum tempo a responder. A expressão pensativa revela ponderação nas palavras a usar e, ao mesmo tempo, aumenta a cada segundo a tensão do clérigo inglês.

Depende — responde por fim, optando pelo subterfúgio, mas forçando outra pergunta inequívoca.

O alarme é cada vez mais evidente nos olhos de Phelps. Sessenta anos, adicionando um ou suprimindo dois, passados quase na tota­lidade na devoção a Cristo e no estudo, sempre com tudo modesta­mente planeado, do a ao c, passando pelo b, com horários o mais pormenorizados possível, nada de aventuras nem de dias de fome. E agora isto. Uma viagem, o desconhecido, obscuro e perigoso e, aquilo que o deixa mais abismado, a calma do seu companheiro na cadeira ao lado, a olhar pela janela para o vazio do ar, depois de se ter tranquilamente alimentado. Mas o melhor é nem sequer pensar nisso, tão-pouco que tudo teve início com uma visita aos aparta­mentos papais e que o que quer que vão fazer tem o aval de uma alta instância do Vaticano, quiçá o próprio Sumo Pontífice, o magno Joseph Ratzinger. Neste momento, o que mais o atormenta é a parca elucidação à sua simples pergunta anterior.

De quê? — insiste. É lógico que algo que dependa esteja sujei­to a variantes explicáveis.

Se vamos chegar a tempo... ou não.

 

São inúmeros os tratados, os atestados, os exames médicos, burocracias, condições, avaliações, impressões, interrogatórios, abonatórios ou não, que fazem parte de um processo de beatifica­ção ou de canonização. Existem leis e regras rigorosas, na maior parte dos casos, que devem ser cumpridas escrupulosamente pelos funcionários, emissários e prelados da Santa Sé encarregados do caso. Um milagre, um que seja, é suficiente para desencadear a máquina asseverante. Leva anos, por vezes décadas a legalizar o feito e o efeito, dependendo do candidato em questão e do interes­se da Igreja na matéria. Muito interesse resulta num aceleramento do processo, pouco, numa morosidade capaz de enegrecer e esbo­roar as pedras da calçada. É premente que o candidato à santidade esteja morto há mais de cinco anos para se iniciar o processo de beatificação, menos só em casos pontuais de santificação por ati­tude ou modo, adoptadas em vida pelo proponente. Dá-se como exemplo a venerável Madre Teresa de Calcutá que, em vida, foi mais santa do que muitos santos depois de mortos. Segue o exem­plo de Madre Teresa este que é Abu Rashid, o muçulmano gordo, sentado numa cadeira estreita, no quarto do sétimo andar do Hotel Rei David.

0 estrangeiro mira através da janela a cidade antiga e a sua inter-religiosidade polémica, mas pacífica, nesta parcela de terra, ninguém se atreve a questionar o que é de cada um nos bairros afectos ao seu credo particular.

Hoje é sexta-feira, ainda não é meio-dia, mas já se ouvem os altifalantes a chamar para a oração no alto do minarete da Mesquita de El-Aqsa. Noutros tempos, seria o muezim a invocar os fiéis para o momento de rezar a Alá, virados para a cidade sagrada de Meca.

Conte-me tudo, Abu Rashid — pede o homem sem desviar o olhar hipnotizado das cúpulas cristãs e ortodoxas do bairro cristão e arménio.

Que hei-de contar que já não saibas? — responde com uma pergunta.

O estrangeiro relembra o dia anterior e a visita certeira à ca­sa do muçulmano, a primeira onde bateu, mais o que sucedeu depois.

Resgatou-se dos mortos e a quem estava consigo no Haj, depois de um dilúvio monstruoso que afogou trinta pessoas, perto de... — repete o estrangeiro pela quarta vez. — Onde andam esses mortos-vivos? — pergunta, sardónico.

Por aí — limita-se a dizer. — fiscalizar a vida dos outros.

Isso terá de se ver... Terá de se ver... — avisa o outro. — O senhor imagina o trabalho que me vai dar? — Assoma-lhe ao semblante uma quase imperceptível irritação.

Já estás mais do que habituado. Alguém tem de o fazer. — A voz permanece serena, jamais se alterando. Um poço de paciência.

O estrangeiro afasta-se da janela e senta-se na beira da cama. Fita Abu Rashid com alguma submissão que mal consegue disfarçar, o que o deixa ainda mais alterado. Sente-se corar. O calor sobe-lhe pelas bochechas. Odeia que isso aconteça, especialmente quando está a trabalhar em algo tão importante.

— Quando é que viu a... Virgem? — Não é sem algum temor que evoca o nome da Mãe Dele.

Sempre que Ela aparece.

O estrangeiro encara a resposta como um desplante blasfémico. Sente-se como se tivessem insultado a sua própria mãe, o que acaba por corresponder à verdade, pois a Virgem é a mãe de cada cristão.

E quando é isso? — Opta por acalmar-se. Não adianta perder o controlo.

Depende.

De quê?

Do que Ela tiver para dizer.

Ela é a Mãe de Cristo, um ícone cristão. O Abu Rashid acredi­ta Nela? — Não percas a paciência. Não percas a paciência.

Acredito porque A vejo.

Pode não passar de uma alucinação, homem de Deus... De Alá — corrige.

— Alá é Deus — contrapõe o muçulmano.

Mas não o meu — replica o outro, decisivo.

Só existe um Deus. O meu pode ser o nosso.

Deixe-se de demagogia. Acredita Nela porque A vê.

Correcto.

Mas Ela pode não passar de uma alucinação — afirma em jeito de sugestão.

Abu Rashid abana a cabeça negando.

Não. As alucinações são como as miragens. Enganam.

E Ela não engana?

Nunca. Tudo o que diz está sempre certo. — A frase reflecte o respeito que tem pela visão.

O estrangeiro volta a levantar-se e anda de uma lado para o outro do quarto bem generoso de espaço. Suspira fundo. Mãos atrás das costas.

O que é que essa visão lhe disse? — acaba por perguntar.

Oh, tanta coisa... — Um sorriso invade-lhe os lábios.

Exemplifique — ordena o estrangeiro.

Falou-me do dilúvio e do afogamento.

Isso foi há quantos anos?

Há dez.

Tem essa visão há dez anos?

Há mais — afirma o muçulmano com o mesmo sorriso estampado.

Quando teve a primeira visão? — inquire o estrangeiro, a meio caminho entre a porta e a cama na sua demanda nervosa. — Lembra-se?

— Como se fosse hoje — anuncia Abu Rashid com o olhar melan­cólico e nostálgico, virado para o passado, para aquele dia de aniver­sário, o décimo primeiro, em que ela apareceu a seu lado, nem acima, nem abaixo, no Monte das Oliveiras, trajada de branco alvo, tão bri­lhante que ele teve de escudar os olhos com a mão. Corria em direc­ção à cidade, para a mesma casa que hoje habita, na Rua Qadisieh, a fim de acompanhar o pai a Haram esh-Sharif para a oração.

— Aonde vais com tanta pressa? — perguntou-lhe Ela numa voz melodiosa e calmante.

O menino explicou-lhe dos seus deveres para com Deus e a famí­lia, contrito, respeitoso.

Deus está sempre dentro de ti. Basta ouvi-lo e senti-lo — res­pondeu Ela corno o chilrear de um rouxinol, a melodiosa razão que fez o menino parar para a ver melhor.

Quem é a senhora?

A Senhora. Tenho muitos nomes. Maria de todas as vontades e ideias, Aparecida, Virgem, tudo o que me quiserem chamar, incluindo Senhora.

O menino achou aquilo muito estranho. Uma senhora com os nomes que lhe quiserem chamar?

Okay, okay, okay — profere o estrangeiro chamando-o nova­mente ao presente com impaciência. — Então, segundo diz, Ela apa­rece-lhe desde os onze anos — recapitula.

— Correcto.

Tem algum dia certo para o fazer, algum ritual que tenha de seguir para que Ela apareça?

Não.

Consegue contabilizar quantas visões teve? — suspira. Está a perder a paciência.

Isso é fácil.

É? — Afinal há esperança.

É. Basta contar os dias desde a visão no Monte das Oliveiras.

— Não estou a perceber. — Volta a sentar-se na beira da cama, atento.

É simples. Ela aparece todos os dias desde então.

O estrangeiro fita-o incrédulo.

Está a dizer que a Virgem lhe aparece diariamente? Isso perfaz milhares de vezes.

Abu Rashid limita-se a confirmar com um aceno de cabeça.

E esse facto não o tornou cristão?

Como vês, não.

Porquê?

Porque a Virgem nunca mo pediu.

E mudaria se Ela pedisse?

Não pediria — atesta o velho com certeza.

Mas suponha que pedia.

Não pediria.

E o que é que Ela lhe diz? — muda de assunto o estrangeiro.

Já te respondi a isso.

Mas não sabia que protagonizou milhares de visões da Nossa Senhora. Isso muda muita coisa. Vá, dê-me mais alguns exemplos. — A entoação em jeito de teste e desafio é evidente.

Disse-me que virias.

O estrangeiro suspende a pressão ao ouvir esta observação, dei­xando espaço a Abu Rashid para prosseguir.

Contou-me tudo o que vai acontecer comigo e contigo.

E está a corresponder?

Um toque telefónico interrompe os fios condutores do pensa­mento. É o do telemóvel do estrangeiro, não poderia ser outro, pois Abu Rashid ainda não se rendeu às maravilhas da tecnologia.

Sim? — atende o outro levantando-se e acercando-se da jane­la. Fala em sussurros para não se deixar entender pelo muçulmano, ainda pouco convencido da veracidade das visões, pois, caso con­trário, de nada adiantaria escudar-se na voz baixa, quase soletrada. De qualquer maneira, é pouco provável que Abu Rashid perceba e domine a língua italiana.

A conversa prolonga-se durante alguns minutos, sempre o mesmo tom nasalado. Todo o cuidado é pouco. O estrangeiro tenta ser o mais evasivo possível, lançando para o bocal palavras desco­nexas como problema, averiguar, com certeza, farei o melhor que me for possível... De súbito, olha para trás, para a cadeira onde Abu Rashid está sentado e não consegue deixar de pensar que ele está a entender tudo, ou melhor, que nada daquilo é novidade. Concentra­-se nas palavras do interlocutor, afastando as ideias invasivas. Não se pode deixar influenciar pelas palavras. Só os factos contam. A cha­mada termina com um dique do outro lado. Jamais se atreveria a desligar antes dele.

— Recebeste as tuas instruções? — pergunta Abu Rashid de rom­pante, sem cerimónia.

Era uma conversa privada — protesta o estrangeiro.

Mas que me diz respeito — assevera.

Um sorriso amarelo atravessa os lábios do estrangeiro.

Não sabia que percebe italiano.

Não percebo, mas já conheço o teor dessa conversa há muito mais tempo do que tens de vida — afirma peremptório.

A atitude imposta à frase faz vergar o estrangeiro. Há aqui qual­quer coisa.

Então sabe o que vai acontecer a seguir?

— Vamos viajar — continua a falar com modos sérios.

Que mais é que Ela te disse? — tenta mudar de assunto, ligei­ramente, e ignorar o acerto do velho.

Que nem Ela nem o Filho se preocupam com o comunismo ou qualquer outra convicção política. Jamais dividem o mundo entre bons e maus. Todo o mal do mundo é criado única e exclusi­vamente por nós, por nossa livre e espontânea vontade, portanto, quando se reza a Deus para que nos proteja, deve-se, na verdade, rezar ao homem para que se defenda de si próprio.

O estrangeiro levanta-se e dirige-se junto de Abu Rashid, olha-o do alto dos seus quase um metro e oitenta.

Cuidado com aquilo que diz — ameaça.

— Não tenho medo.

Vejo que nada é novidade para si.

Pois não.

— Quer dizer mais alguma coisa?

— Sei o que fizeram ao corpo do polaco — limita-se a dizer Abu Rashid.

Chocado, mas preocupado em não o demonstrar, o estrangeiro volta a pôr-lhe a mordaça, que pendia no pescoço do muçulmano, na boca e certifica-se de que as cordas estão bem presas ao corpo e à cadeira, não permitindo a fuga.

 

                       NESTOR, 18 DE Acos ro DE 1981

Folgo em vê-lo recuperado, Santidade.

Obrigado, Marcinkus.

Os dois homens estão sentados num sofá carmesim no gabinete papal. Wojtyla sentou-se a custo. As marcas do atentado ficaram vincadas no corpo.

A que devo a honra? — quer saber o polaco.

O americano sorve um pouco do chá que o Santo Padre, tão amavelmente, pediu. Pires numa mão, chávena noutra.

— Bom, temo que não seja um assunto do seu agrado, Santidade. O Sumo Pontífice franze o sobrolho, manifestando total atenção.

Diga.

Marcinkus ajeita a batina negra no sofá antes de falar.

— Bem, serei directo e conciso, como o Santo Padre merece. Fui con­tactado por um homem que se diz chamar Nestor e alega pertencer ao KGB. Informou-me que esteve por trás do atentado de há três meses e que pode preparar-se para outros se não cumprir com as exigências dele.

O semblante do papa sobrecarrega-se com mágoa e receio.

E quais são essas exigências?

Parar imediatamente o financiamento ao Solidariedade e dei­xar de pressionar a Cortina de Ferro. Suspender todas as auditorias ao IOR. Reforçar o investimento à América do Sul da forma que há- -de especificar.

O Papa cerra os olhos e suspira.

É SÓ?

Para já — responde Marcinkus.

E porque o contactou a si?

Porque represento o IOR. Sou quem gere o dinheiro. Ele foi específico — adverte Marcinkus, imprimindo um tom mais sério. — Cessar imediato dos donativos ou poderá ser vítima de novo atenta­do e, garantiu, que desta vez...

Percebi — interrompe o papa com a mão levantada. — Qual é o prazo?

O prazo inicial era de quinze dias, mas consegui que desse um mês.

Agradeço — profere Wojtyla, que se levanta e deambula, sofri­damente, pelo gabinete.

Mãos atrás das costas, pensativo, receoso, suores frios fizeram-no arrepiar, mas Marcinkus não se apercebeu. Ser papa é muito mais difícil do que se pensa. Para além das inúmeras obrigações a que está sujeito devido ao cargo, tem a vida sempre em perigo, sempre.

Como disse que se chama esse agente?

Nestor, Santidade.

Nestor, exacto.

Já ouviu falar dele por intermédio de outras pessoas, Santidade?

Não, não.

O Papa caminha, lentamente, até junto do sofá carmesim e olha para Marcinkus.

Um mês. Voltaremos a falar.

Com certeza, Santidade.

Marcinkus levanta-se, beija o anel de pescador e sai do gabinete.

O Papa deixa-o sair em silêncio e assim permanece durante algum tempo. Mais tarde, ajoelha-se no meio do gabinete e beija o terço que traz sempre consigo.

Ajuda-me, Maria.

 

Geoffrey Barnes é o homem da CIA na Europa. Esta é a forma sim­plificada de explicar um sem-número de responsabilidades e tarefas, o nome preciso do cargo é o imponente director de Operações e ges­tor de Informações da Placa Continental Europeia. O assento princi­pal localiza-se na cidade de Londres, num edifício de aspecto perfei­tamente normal, bem no centro, e do qual não podemos fornecer morada por razões de segurança nacional, o pior dos motivos e o mais comum, capaz de fazer que os cidadãos percam direitos temporária ou permanentemente. Assim sendo, circunscrevemos o centro opera­cional à cidade, não afectando os interesses norte-americanos, tão­-pouco a sua intocável segurança nacional.

Geoffrey Barnes tem a seu cargo centenas de pessoas espalhadas pela placa continental, a porção de terra chamada Europa, desde subdirectores a chefes de departamento, agentes, técnicos e colabo­radores temporários, todos a soldo do Tio Sam, que tem os bolsos cheios de dinheiro para que toquem e dancem a sua música. Quem pode, pode, e quem não pode sai de cima. Querendo ou não, a infor­mação secreta mais relevante passa sempre por este lado do Atlântico, não existe lugar mais importante, sendo depois enviada e triada em Langley, onde funciona a sede da Agência, local que pode ser publicitado sem receio de represálias, pois é do conhecimento geral e até histórico. Barnes tem apenas dois superiores

 

hierárquicos, o director-geral em Langley, no estado da Virgínia, e o presi­dente dos Estados Unidos da América, ou o vice-presidente em caso de impedimento físico ou legal do chefe de Estado ou de estados, como é o caso. Existem ainda parcerias especiais com outras agên­cias de informação, nomeadamente a Mossad, ou mesmo outras entidades secretas generosamente patrocinadas por si e que, não raras vezes, solicitam o apoio logístico da Companhia.

Hoje o problema é exclusivamente da Agência: a morte de um antigo operacional na estação central de Amesterdão em circunstân­cias mal esclarecidas. A viagem até à capital holandesa foi célere e sem novidades. A distância de Londres aqui é apenas um suspiro. Acompanha-o Jeronimo Staughton, promovido a assistente pessoal de Geoffrey Barnes há pouco menos de um ano e que bem preferia o seu antigo posto de analista de dados em tempo real. Andar a reboque de Barnes é como levar com uma tuneladora em cima, diariamente, sujei­to aos seus caprichos e variações de humor, ao vozeirão gutural cheio de impropérios e aos apetites fora de tempo para alimentar o corpo gigante. Para além das diferenças evidentes entre ser analista e assis­tente, o trabalho no terreno é sempre mais perigoso do que estar sen­tado a uma secretária a olhar para papéis ou monitores. É a chamada progressão na carreira que nem sempre é bem-vinda, não fosse pelos tostões a mais no final de cada semana. De qualquer maneira, apesar da gravidade da situação, Barnes tem-se mostrado calmo, nada trucu­lento, até mais conversador, facto não muito natural num homem que tem de gerir os grandes segredos sobre tudo e todos.

Assim que aterram no aeroporto de Schiphol, os carros já os aguardam. Tudo é planeado ao milímetro, mesmo quando feito em cima da hora ou com prazo reduzido. São carros de gama média, para não levantarem suspeitas e não se apresentarão, obviamente, como pessoas da CIA, antes como agentes do FBI atentarem saber mais e oferecerem os seus préstimos, na medida do possível, sobre o ocorrido. Uma das desvantagens do disfarce é terem de andar no meio do trânsito sem que possam abrir caminho livremente. Se esti­vessem nos Estados Unidos, ou mesmo no Reino Unido, levariam tudo à frente, mas aqui há que manter as aparências e a boa educação, já que os Holandeses não são conhecidos somente pelas tulipas, mas também pela hospitalidade. A viagem leva, por isso, uma hora. Assim que avistam a estação, apercebem-se também da presença do agente Thompson, que veio à frente auscultar as intenções.

Assim que saem do carro, Barnes põe as mãos no fundo das cos­tas, em jeito de espreguiçamento, como a tentar debelar algum incó­modo ou mau jeito.

— Isto fode- me — limita-se a dizer. — Este trabalho ainda me vai matar.

Vai-nos enterrar a todos, chefe — diz Thompson, estendendo a mão a Barnes em cumprimento e só depois a Staughton. São as normas hierárquicas que também dominam as da educação. — Que tal foi a viagem?

Demorou mais do aeroporto aqui do que de Londres a Schiphol.

É da hora.

Vamos ao que interessa — ordena Barnes, peremptório. — Ainda quero chegar a casa a tempo do jantar.

Por aqui — encaminha Thompson em direcção ao interior da estação.

O que conseguiste apurar até agora? — quer saber Barnes.

Staughton é conhecido por falar pouco, mas bem, daí que se per­ceba o seu silêncio. Está a assimilar todas as informações que ouve e vê, para mais tarde processar. É nisso que ele é bom, em somar as partes, sempre tentando dominar o espírito impulsivo do director.

A estação não está fechada. Apenas algumas partes estão vedadas por fita policial, pelo que o movimento de civis é constante.

Não fecharam a estação? — inquire Barnes.

— Não consideraram necessário. O WC é afastado do coração da estação, fica num canto, por isso, optaram por vedar os acessos desse lado, que não afectam o normal funcionamento — explica. — Não houve qualquer atraso nos comboios, sequer.

Eficiência.

— O nosso homem chamava-se Solomon Keys — começa Thom­pson. — Nascido em 1920.

Solomon Keys? — admira-se Barnes. — É uma lenda da Agência. Lembro-me de o ter visto uma ou duas vezes. Fazia parte da mobília desde o início. Veio do OSS, se não estou em erro.

Afirmativo — prossegue Thompson auxiliando-se de uma cábula que escreveu num pequeno caderno de capa negra dura. — Auxiliar da OSS de 1943 até ao fim da guerra, tendo sido logo recru­tado pela Agência, assim que foi fundada.

Um dos fundadores — relembra Barnes, mais a falar consigo mesmo do que com os outros. Um pouco a lembrar o seu próprio percurso até chegar aqui, a director da CIA, aqui, a Amsterdam I Centraal. Muito suor e sangue vertidos, a vida em perigo muitas vezes e perda. A perda de tudo. Da família, das mulheres, da vida... A Companhia exige exclusividade. É o que costuma pensar nas noites solitárias para se justificar do que perdeu. A verdade é que não sabe­ria viver de outra forma. Quando um homem tem um grau de infor­mações tão lato como Geoffrey Barnes, com o poder e responsabili­dades inerentes ao cargo, deixa de ter vida própria. É uma cruz. A cruz dele, a cruz que todos carregam à maneira de cada um, umas mais pesadas do que outras. Ninguém tem noção do que é ser Geoffrey Barnes, do que é ter o seu trabalho, do que é saber o que ele sabe. E nenhuma esposa, por mais dedicada, teria estofo para esperar noi­tes infindas, ignorando por vezes se voltaria a ver o marido vivo. É duro trabalhar na Agência, tão duro como ser esposa de um assala­riado da mesma. Que o diga Jeronimo Staughton com os seus dois casamentos falhados, ainda mal ultrapassados os trinta anos. — Devia ser um filho da puta, mau como as cobras, cabrão até dizer chega.

Pois — adverbia Thompson. — Estudou Direito em Yale ao mesmo tempo que se tornou um recurso valioso da CIA — continua a explanação. — Deixou de servir a Agência em 92 e dedicou­-se a viajar pelo mundo. Ah, e querem saber uma coisa interessante?

Estamos aqui só para isso. Para tragédias kcava em casa a pinar.

Era membro da Caveira e Ossos. Entrou no mesmo ano do Bush pai.

Que filho da puta.

Quem? — pergunta Thompson curioso.

— Ninguém. É apenas urna expressão — explica Staughton, sem­pre pronto a livrar Barnes da sua própria boca. — Quando digo que és um filho da puta, não te estou a insultar, efectivamente, percebes? É como um cumprimento.

Okay.

Membro da Caveira e Ossos — repete Barnes pensativo.

O que é a Caveira e Ossos? — pergunta Staughton. — Algum clube? Uma fraternidade ou irmandade?

O que é a Caveira e Ossos? — Barnes está escandalizado com tamanha ignorância.

Não fui contratado pela minha cultura geral — remata Staughton como que a pedir desculpa.

A Caveira e Ossos é uma sociedade secreta. Ou melhor, é a grande sociedade secreta do nosso país. — É Thompson quem explica.

Outra como a P2?

Não. Nada disso — contesta Barnes. — Não. A P2 é diferente. — Reflecte durante alguns segundos. — Se fôssemos obrigados a fazer um ranking das sociedades secretas, a P2 seria aquela que mandaria em quase todas as outras, inclusive na Caveira e Ossos.

Mas, segundo o Thompson, essa Caveira e Ossos tem mem­bros influentes. Ouvi falar num presidente — argúi Staughton ver­dadeiramente curioso.

Sim. Na verdade são dois, o Bush filho também é membro desde 68 — reforça Thompson.

Vamos lá ver se me faço entender — comede Barnes parando.

A alusão à P2, sigla da loja maçónica italiana com o nome com­pleto de Propaganda Due, tem que ver com um caso ocorrido no ano anterior que juntou estes três homens numa perseguição em grande escala que acabou em nada, no entender de Barnes. A Propaganda Due é uma das tão faladas parceiras especiais da Agência e a avença milionária que recebe de Langley, há mais de 30 anos, permite que os seus líderes tenham uma relação privilegiada, confundindo-se, não raras vezes, a ascendência de quem sobre quem, ou de quem serve quem, ou ainda quem usa quem. O poder dessa Loggia é, de facto, enorme, bem acima de alguns presidentes, primeiros-minis­tros e afins. Na realidade, a P2 tem poder suficiente para instaurar governos ou derrubá-los quando já não servem os seus propósitos. Dispõem das vidas de todos como lhes convém, até de papas. Que o dissesse João Paulo 1, se ainda estivesse entre nós. O certo é que a Caveira e Ossos é um clube de bairro, uma brincadeira de alunos ricos, quando comparada com a P2, ainda que disponha de mem­bros influentes, bem entendido, mas sempre sob a alçada de quem manda realmente. E quem o faz de verdade não aparece nas televi­sões a discursar ao mundo.

Mas o chefe disse que a P2 mandava em quase todas as outras — interrompe Staughton. — Falta o quase.

Geoffrey Barnes olha os dois homens do alto dos seus quase dois metros imponentes. Retomam o andamento em direcção ao local onde o crime foi cometido há 18 horas. Fitas da polícia holandesa vedam o local, bem como a porta de entrada do WC. Um agente far­dado está de guarda à porta para se certificar de que os não autori­zados não entram.

Ora, meus burros, quem manda em tudo e em todos?

Quem? — pergunta Thompson à falta de conclusão.

O Opus Dei, quem havia de ser? — conclui o chefe. Mostra o distintivo do FB1 à sentinela e entra no local do crime, deixando os dois subalternos boquiabertos a olharem um para o outro.

O Opus Dei? — dizem um para o outro.

Acabam por se juntar a Barnes instantes depois, ignorando se o que ele dissera correspondia à verdade ou era uma brincadeira. Fosse como fosse, era hora de desligar dos assuntos mundanos do poder e concentrar esforços para encontrar o assassino ou assas­sinos de Solomon Keys.

Cá estamos — diz Barnes olhando para ampla divisão. Urinóis à direita, privados à esquerda. Um cori dor a separar. O amarelado dos azulejos não disfarça o passar do tempo. Outrora eram de branco alvo, imaculados, escolha indisputável quando se trata de casas de banho, símbolo de salubridade, porém, luxo ao mesmo tempo. O objecto da investigação encontra-se logo ali, no quarto e quinto privados, são oito ao todo. O sangue espalha-se pelas paredes e chão, mais no quarto do que no quinto. A porta do quinto tem três buracos que formam um triângulo imperfeito. Uma mancha de sangue projecta-se na parede onde se encosta o autoclismo. Alguns azulejos estão partidos do lado esquerdo da mesma parede.

Foi aqui que assassinaram o nosso homem — informa Thompson.

Todos olham em silêncio, retirando as ilações do crime. O mais ínfimo pormenor comunica com eles, tenta dar resposta às suas per­guntas. Quem? Porquê?

Que forma mais fodida de morrer — desabafa Barnes.

Se é. E, segundo o relatório dos Holandeses, com as calças na mão. Literalmente — avisa Thompson.

Um gajo já nem pode cagar em paz — adverte Barnes anali­sando inquisitoriamente o local.

Aqui, neste, estava um casal de ingleses. Tal como o nosso homem, aguardavam o comboio para Hoek Van Holland.

Quando eu morrer, quero que seja assim, com ela dentro — escarnece Barnes, lançando um sorriso sarcástico.

Como sabe? — pergunta Staughton.

Tens de ter traquejo de cérebro, Jeronimo, rapidez de raciocínio — adverte Barnes. — Que eu saiba ainda não existem WC mistos. Faz-se luz na mente de Staughton. Claro, é evidente.

E estes tiros na porta? — questiona Barnes para Thompson.

Parece que o Keys foi assassinado com a porta fechada. Pelo menos foi assim que a encontraram e estava fechada por dentro. Um tiro acertou no peito, o outro na cabeça e um perdeu-se naqueles azulejos.

Barnes olha para Thompson e depois para as portas.

A porta estava fechada? — Pensativo, segura a porta em que os tiros foram desferidos e analisa-a com mais cuidado. Depois passa para a outra porta. — Onde é que estes levaram os tiros?

Ah, um tiro na cabeça de cada um. Limpinho — comunica Thornpson.

Porta aberta, porta fechada. A mente de Barnes fervilha com equações e elucubrações. As coisas nunca são o que parecem. Existem sempre variantes e variáveis, caprichos e imponderáveis, coisas difíceis de unir e compreender.

O que achas disto, Staughton? — pergunta o chefe em forma de teste.

Profissional, Staughton não se deixa apavorar. Com Barnes é pre­ciso estar sempre à altura, sem medo, de peito feito, pronto para receber as balas, em sentido figurado, entenda-se. Staughton nunca se deu muito bem no terreno e o seu trabalho acessório pretende apenas ser isso, extrínseco, sem levantar ondas, apresentar soluções, sem que para isso tenha de estar no local onde se vão concretizar. É claro que prefere nunca ter de sair de Londres, do centro de ope­rações. Mas não são incursões como esta a Amesterdão que o afli­gem. Há coisas muito mais perigosas neste mundo.

Se o relatório está correcto, e aconteceu tudo, de facto, como ouvimos...

Descomplica e avança — interrompe Barnes. Não tem paciên­cia para interlúdios.

Diria que o senhor Solomon Keys foi um dano colateral — conclui.

O quê? — pronuncia Thompson melindrado.

Também me parece — apoia Barnes.

Como é que podem chegar a essa conclusão? — interroga Thompson ainda pasmado.

Staughton, faz o favor... — incita Barnes, autorizando o subordinado a apresentar a teoria.

— Não é, evidentemente, uma conclusão, é uma teoria — previne Staughton. As coisas devem sempre ser bem explicadas para evitar confusões e equívocos. — Se os dados que deste/estão correctos — olha para Thompson, que assevera com um aceno de cabeça o acer­to dos dados — trata-se, quase de certeza, de um dano colateral. A porta do privado onde estava o casal está aberta e não apresenta perfurações de bala. Por outro lado, também não apresenta qualquer sinal de ter sido arrombada. O trinco está intacto, como podem ver

— aponta para a fechadura da porta do privado número quatro que, na realidade, não apresenta qualquer sinal de arrombamento. — Ou seja, o que quer que eles estivessem a fazer...

Estavam a comer-se, de certeza absoluta — Barnes sussurra para si mesmo acenando para Thompson com um sorriso vicioso.

— ... Deviam estar tão imersos nos seus assuntos, que nem se deram ao trabalho de o fechar por dentro. Neste confirma-se que estava fechado por dentro e o assassino nem se deu ao trabalho de o arrombar. Deu três tiros e arrumou o assunto.

Não estou a perceber onde querem chegar com isto — profe­re Thompson confundido.

É simples, Thompson. Quem quer que tenha feito isto não estava preocupado com o velho. Nem se deu ao trabalho de se cer­tificar de que ele morrera, nem quem era. Não importava. Eu digo que o Keys estava cá dentro quando o casal entrou. Depois entrou o assassino que abriu a porta deles e os arrumou sem falhas. Como a porta do Keys estava fechada, partiu do princípio de que estava alguém no interior. Deu três tiros e foi à vida. Em suma, isto foi para eles — aponta para o privado número quatro — e não para ele.

Sabes a identidade deles? — pergunta Barnes a Thompson. É obvio que corrobora a teoria de Staughton.

Estão aqui — anuncia Thompson entregando-lhe um papel com as identificações.

Barnes olha para os nomes. Dois desconhecidos, macho e fêmea, ambos mortos no decurso do prazer. Barnes não deixa de esboçar um sorriso ao imaginá-los a libertar os fluidos e as energias, de repente, pum, pum, ou antes puf, puf, pois ninguém ouviu nada parecido com tiros em toda a estação. Estava munido, decerto, de silenciador. Solomon Keys ao lado, a procurar passar o mais desper­cebido possível, talvez até excitado, na medida do permitido pelos seus 87 anos, o desatino que deve ter escutado e cogitado e, de súbi­to, nada. Provavelmente auscultou os corpos a caírem sem dono e, depois, a porta do seu cubículo fechada, sempre fechada, nenhuma menção para a abrir ou arrombar, nada. O silêncio, apenas o silên­cio. Aposta que nem a respiração se ouvia, de nenhum deles. Um de um lado, outro do outro, o velho de calças para baixo, que puta de maneira de morrer. Um homem que deu tudo à pátria. Não há direi­to. É humilhante, Barnes sente-se humilhado por Solomon Keys, por si próprio, pois ninguém sabe em que condição chega ao outro lado. Morto, isso é certo, chega-se morto, mas o último momento, aquele último momento, o do suspiro final, do Amo-te, Amo-vos, ou algo do género, quantos terão a serenidade, a perspicácia de o sen­tir, de o saber chegar e de se despedirem, a tempo, dos seus. O mo­mento do puf, puf, puf, para Solomon Keys de calças arreadas. Puta que pariu. Não há direito. É, ele foi um dano colateral, aquele que estava no local errado à hora errada. Não existe azar maior do que a hora e local errados trazerem a morte consigo. Tudo o resto é tole­rável, menos isso. Mas quem tem o poder de adivinhar quais são os locais certos e errados para se estar? A razão do crime foi o casal inglês. Era deles que ele ou ela vinham atrás. Destes dois de nome...

Oh, merda — pragueja Barnes.

Que foi, chefe? — quer saber Thompson.

Reconheces algum nome destes? — pergunta Barnes entre­gando o papel identificativo a Staughton.

Sem esperar resposta, Barnes pega no seu telemóvel e faz uma chamada.

Oh, não — deixa escapar Staughton.

O que se passa? Alguém me diz? — continua a perguntar Thompson, arreliado por não reconhecer nenhum dos nomes.

— É o Barnes. — Apresenta-se assim que a chamada é completa­da. — Quero comunicar um homicídio. — Aguarda uns instantes. — Chame-o, por favor. — Mais um momento de espera, parece estar a ouvir o que o colocutor diz. — Não me interessa que ele esteja ocu­pado. Chame-o imediatamente e não se ponha com merdas. Houve um assassínio, mas isso é o menos.  

Voltemos às engrenagens e às suas rodas solitárias, que apenas sabem fazer a sua parte, ignorando o resultado final, o propósito do seu rodar para uni lado ou para o outro. Falamos de Sarah Monteiro e do turbilhão que a apanhou há pouco, do telefonema do pai e de JC, coisa estranha e apoquentadora, os dois juntos na mesma casa. Que privações estará Raul Brandão Monteiro a sofrer neste preciso momento? O certo é que a voz denotava apenas apreensão e pesar, a do pai, bem certo, nenhum esgar doloroso foi perceptível, mas quem sabe o quê de alguma coisa quando se trata de JC. Ele é que parece ter os meios de saber de tudo e de todos e dispor de todos e de cada um a seu bel-prazer. É ele o desenhador da engrenagem, o engenheiro e o cons­trutor, é ele quem cria os movimentos das rodas dentadas, das corren­tes, das correias, ora para um lado, ora para o outro. Todos dançam ao som da sua música, disso Sarah tem a certeza. A única no meio das dúvidas todas que a atormentam. A ele se deve o lugar de editora de política internacional do The Times, as notícias correctas e as reacções previstas. Mesmo ausente, esteve sempre presente no último ano, a cochichar ao seu ouvido, a sombra que se dissipa quando olha por cima do ombro ou, simplesmente, quando é fruto da sua imaginação. Mas não hoje, não agora que ouviu a sua voz, novamente. Ficar para ver a sua sentença ser efectuada não é opção. Antes cumprir os precei­tos instruídos para depois ver, fora de portas, as sequelas.

 

O táxi leva-a na direcção da sua casa nova, em Chelsea, uma moradia de dois pisos, bem abonados de espaço e com uma vista de sonho para quem gosta de admirar edifícios e rios de água castanha. Depois daquela noite, há quase um ano, quando habitava a sua anti­ga casa, também de dois pisos, em Belgrave Road, na qual não con­seguiu voltar a pôr os pés. As cenas assomavam-lhe constantemen­te ao pensamento e relembrava-as com demasiada nitidez. De como todos pareciam suspeitos, os simples transeuntes que ela mirava pela janela. O homem do lixo, a mulher a falar ao telefone que esta­va permanentemente a olhar pela janela do segundo andar do Hollyday Express, em frente, a paragem do 24, o carro negro de vidros fumados estacionado na rua, o homem que invadiu a sua casa, a arma apontada a si e os dois tiros misteriosos que deixaram dois orifícios inofensivos na janela da sua antiga casa de banho e dois letais no homem que viera para a abater. Só mais tarde perce­beu quem fora o seu salvador, quem matara o assassino que a viera matar. Pensa nele várias vezes, no salvador, ainda que nunca mais o tenha visto. Aparece-lhe todas as noites a livrá-la dos pesadelos nocturnos, da imagem de JC, do outro bem vestido, dos tiros, das mortes, dos risos malignos, dos actos maléficos. É sempre ele quem se vem deitar com ela, todas as noites, sussurrando cantigas de embalar ao seu ouvido, até que Sarah acorda de manhã, calma e serena, um sorriso nos lábios, sozinha, sem ninguém. Os monstros regressam todas as noites, as mesmas imagens, personagens, rostos, as mesmas balas, os mesmos mortos, a última noite na casa de Belgrave Road, a arma apontada a si, os últimos momentos da vida curta e ele que volta para o seu lado, a sussurrar-lhe melodias até ela adormecer novamente. Depois disso foi viver uns tempos para o stu­dio da amiga e colega de profissão NataJie Gokien em Pentonville Road. Posteriormente, ainda alugou um tt4dio em Polygon Road até o emprego actual lhe trazer o conforto financeiro para arrendar o novo imóvel. Não o teria se não fosse ele, tão-pouco estaria neste táxi, nem Simon Lloyd seria seu estagiário e se sentaria ao seu lado com o brilho da felicidade no olhar. Tudo é uma consequência de causas anteriores.

Sarah não se sentira bem a ausentar-se do jornal sem deixar aviso, por isso, informara o seu director sobre a ausência breve. Um furo jornalístico, de última hora, um exclusivo que valia a pena investigar, justificavam a viagem.

--- Nesse caso, leva o Simon contigo — foi o que ordenou o direc­tor e ela não conseguiu argumentar para declinar aquela oferta. Talvez noutra altura, com mais calma, o tivesse persuadido da desnecessida­de de levar Simon consigo, sem ofensa para a competência dele, mas a sua mente estava ocupada com outros problemas mais prementes.

— O que vamos fazer a sua casa? — quer saber o curioso Simon, embalado pelo andamento veloz do carro pelas ruas de Londres, apesar da hora de ponta do final da tarde.

Vou buscar alguns elementos de pesquisa — explica Sarah. — E depois estás dispensado e podes ir-te embora — conclui.

Valia a pena tentar, mas certamente Simon não ia acatar tal sugestão, mesmo provinda da sua superior hierárquica.

As minhas ordens são para a acompanhar nesta matéria. Não pense que se livra de mim assim com tanta facilidade — contesta Simon virilmente. Bravo, rapaz.

As ordens sou eu que tas dou, esqueceste-te? — ataca ela.

— Com o devido respeito, acato sempre as suas ordens, mas estas foram dadas, pessoalmente, pelo director — argumenta com um dedo empinado para o alto como se estivesse a falar do próprio Deus. — O que é que lhe digo se me apresento ao trabalho e ele me pergunta por si? — Um a zero para Simon Lloyd. «Ah, senhor direc­tor, ela dispensou-me.» É isso que digo?

Okay, okay — rende-se Sarah. Mais vale conformar-se por ora e depois se verá. De qualquer maneira, jamais se perdoaria se lhe aconte­cesse alguma coisa por sua causa. Um passo de cada vez, um problema de cada vez. — Está atento àquilo que te vou dizer. Fazes tudo o que eu te mandar fazer e não inventas nada dessa cabecinha louca. Entendido?

Simon fita-a abespinhado.

Sinto-me um pouco ofendido com a observação, mas conte comigo. Não serei um estorvo, mas um activo. Somos uma equipa — sorri ao terminar a frase.

Que raio de gajo tão formal, pensa Sarah irritada.

E agora pode dizer-me para onde vamos? — pergunta Simon curioso.

— Vamos a minha casa, já sabes — resposta seca.

Sim, e depois disso?

Sarah ainda não delineou essa parte. A frase Saia de Londres, já ainda ecoa na sua mente como um martelo pneumático, mas sair para onde? Para onde há-de ir? O leque é alargado, Londres está liga­da ao mundo por terra, água e ar, por aí não é problema, porém, para onde será melhor? Apanhar um avião intercontinental com destino aos Estados Unidos, por exemplo? Será um lugar, temporariamente, seguro? Ou, por outro lado, deve permanecer na Europa, perto do pai e com mais flexibilidade de movimentos e independência para se mover? Mais nenhuma instrução lhe foi dada para além do fugir a sete pés e não olhar para trás, eles andam aí, atrás de ti, não te deixes apanhar. E depois? O melhor é ficar por perto, decide. Além disso, a sua última experiência do outro lado do Atlântico foi tão traumática, que é sempre melhor enfrentar os perigos do lado de cá.

Depois, comboio até Paris — anuncia.

Paris? — repete Simon com o rosto iluminado. — Nunca esti­ve em Paris. Vai ser maravilhoso.

Simon, é trabalho e não turismo — adverte. — O que estás a fazer? — pergunta Sarah ao vê-lo dedilhar freneticamente no tele­móvel.

A enviar uma mensagem à minha cara-metade. Sabe como é. A Sarah tem namorado? — Talvez ainda possa saber algo da chefe, afinal de contas. Inesperado. É curioso como tudo muda em segun­dos, talvez esta viagem laborai acabe por uni-los e transforme a fac­tícia relação hierárquica numa bela amizade.

Chegámos — informa Sarah ao entrarem na Rua Redcliffe Gardens. A sua casa situa-se numa das extremidades e mais infor­mações sobre a morada não se darão, a fim de preservar a sua pri­vacidade. É importante que episódios como o de Belgrave Road não se repitam, para bem da própria sanidade mental de Sarah, que bem precisa de alento nesta hora de incerteza.

Pagamento efectuado ao taxista, em libras esterlinas, o numerá­rio do reino. Simon e Sarah atravessam a rua para o outro lado, o certo, pois o taxista encostou no oposto, em frente, são futilidades do sentido de trânsito que não importa referir. Chegados ao lado correcto, Sarah abre a bolsa e procura a chave da sólida porta bran­ca, de madeira. Pensa em Paris, na viagem a Paris, de comboio, no Eurostar, o TGV que cruza o Canal da Mancha e liga a ilha ao con­tinente, duas horas e trinta e sete minutos depois, se não houver atrasos, normalmente não os há. Da última vez que fez essa viagem ia com ele, o seu salvador, com um fardo imenso na consciência, forçada pelas incongruências do destino, como agora, ainda que, desta vez, tenha hipótese de escolha. Deixavam para trás um rasto de destruição, é verdade, um mar de lágrimas, de lares desfeitos, de projectos cancelados ou adiados, de vidas desconjuntadas, na sua última viagem de Eurostar em direcção à Cidade Luz. Não, desta vez é muito diferente. Ainda não há mortos e feridos, pelo menos que saiba, só um aviso, uma advertência ou ordem de sair dali. O resto se verá.

Sarah encontra o boneco em forma de burro que faz as vezes de porta-chaves e aponta a certa na fechadura, no preciso momento em que uma sombra enegrece o branco da sólida porta de madeira. Olha para trás e vê um autocarro londrino parar em frente para dei­xar sair e entrar quem segue a vida normalmente. Quem lhe dera poder fazer o mesmo. Em vez disso, tem de relembrar coisas passa­das, como, por exemplo, o local onde guardou o dossier que JC, ou alguém a seu soldo, é o mais certo, deixou no quarto do sétimo andar do Grand Hotel Palatino, em Roma.

— Sarah Monteiro?

Ouve uma voz dizer ao seu ouvido. Não é Simon, esse está do Outro lado. Olha para um homem enfiado num fato negro, uma cica­triz a rasgar-lhe o rosto desde o olho direito até ao lábio superior do mesmo lado, a lembrar os vilões que sempre existem nos romances de cordel ou em alguns policiais, mais ou menos desconchavados, sobre serviços secretos, espionagem, atentados a papas e filmes do mesmo teor ficcional. Não se pode dizer que o pânico não tenha aflorado as emoções, mas, para grande surpresa de Sarah, consegue controlá-lo moderadamente de forma a não o deixar expandir para o exterior.

— Quem deseja saber? — pergunta sem denotar qualquer fricção nervosa nas cordas vocais.

O meu nome é Simon Templar — responde sucinto. — Vou necessitar que me acompanhe. — Uma necessidade mais em jeito de ordem do que outra coisa, pois já a agarra por um braço ao mesmo tempo que mostra a sua identificação. Um cartão no interior da car­teira desdobrável a evidenciar o seu retrato, anos mais novo, cumeado pela afiliação laboral. SIS. Secret Intelligence Services.

Uau — deixa escapar Simon Lloyd, necessitado agora de ape­lido para que não haja confusões. — Serviços secretos.

Qual é a razão? — pergunta Sarah ruborizada. Os nervos inte­riores começam a dar-lhe calafrios. Verdade ou não, por esta não esperava. Será mesmo?

É um assunto de Estado. De momento não posso adiantar mais nada — conclui, revelando alguma irritação. O Estado, com letra capital, está acima de tudo. Credo, raça, profissão, vida pessoal, nada disso importa quando toca a campainha do Estado. Nunca se deve questionar a sua vontade. Cumpre-se e pronto.

O agente Simon Templar, cujo nome parece saído de uma qual­quer série de televisão dos anos 60, puxa pelo braço de Sarah, como um guarda prisional zeloso, alerta para qualquer acto ilícito ou imprevisto.

Não preciso de guia. Eu sei andar sozin a, obrigada — avisa Sarah libertando o braço e lançando um olhar seguro ao agente governamental.

Caminham em direcção a um carro negro com matrícula do governo, que deixa Sarah mais aliviada.

Sarah — chama o outro Simon, o subalterno, correndo ao seu encontro. Ficara embasbacado na soleira da porta durante alguns instantes, sem reacção, mas logo recuperou a agilidade lógica. — O que precisa que faça?

Ah... não sei quanto tempo vai demorar isto... por isso... ah... — pensa, raciocina. — Vais a minha casa e, na sala, na estante de livros, procuras uma caixa de madeira com uma garrafa de vinho do porto vintage, colheita de 1976. Por trás, está um dossier. Leva-o contigo e aguarda que eu te contacte — conclui Sarah entrando no banco de trás da viatura.

— Será feito, Sarah — descansa-a ele. — Qualquer coisa que pre­cise... mas mesmo qualquer coisa...

O carro governamental arranca a toda a velocidade, não deixan­do entrever o seu interior, devido aos vidros fumados.

Simon Lloyd, funcionário bem-comportado, acerca-se da sólida porta branca de madeira que barra a entrada livre na casa de Sarah. A chave ainda está enfiada na fechadura. Com a confusão imprevis­ta, Sarah havia-se esquecido de a tirar. O refrão de Bad, de Michael Jackson, começa a tocar no telemóvel de Simon. Não deixa sequer chegar ao terceiro verso.

— Olá, meu amor — cumprimenta. — Nem imaginas o que aconteceu agora. Até estou com pele de galinha.., depois conto-te. — Escuta a voz do amor do outro lado da linha imaginária. — Vamos, quer dizer, íamos... ainda devemos ir, assim que ela esteja livre. — Mais conversa. — Livre é como quem diz. Assim que esteja disponível.., depois conto-te com mais pormenor... Agora? Agora vou a casa dela...

Para que se explique como é que, dois segundos depois, Simon Lloyd está estendido no chão, entre o passeio e o alcatrão, com a porta por cima dele, partida ao meio, é preciso utilizar o recurso estilístico, não literário, da câmara lenta, pois dois segundos basta­ram para separar o fim de uma frase de tudo o resto que aconteceu no seguimento. E se dois segundos parecem muito pouco tempo, foram mais que suficiente para quem, assim que rodou a chave na fechadura da sólida porta branca, a sentiu ser impelida contra si, arremessada por urna explosão provinda do interior, arrastando-o alguns metros no ar até embater com as costas no autocarro de dois andares que iniciava a sua marcha, ao mesmo tempo que a porta se partia sobre si. Amassou um pouco da carroçaria e só não partiu os vidros porque a deslocação de ar provocada pelo estouro tratou disso, não só no mencionado autocarro, mas num raio de centenas de metros, quase todos os carros e casas viram os seus vidros desfa­zerem-se em mil pedaços, projectando-os em todas as direcções. Simon caiu ao chão, prostrando-se com os pés no passeio e a cabeça no alcatrão da rua, junto ao autocarro, inanimado. Não se apercebe, por isso, das labaredas que irrompem da casa de Sarah e se estendem já às outras casas vizinhas. Os gritos desconexos ecoam pela rua. Relembram velhas e recentes memórias de atentados à vida das pessoas normais. O fim das vidas, sem apelo nem agravo, sem piedade. Como pode algo tão divino não ter qualquer significado para alguns?

Simon abre os olhos por um momento, o sangue espalha-se pelo rosto e corpo, vidros e lascas de madeira, cinza, a placa grande que era a porta sobre si, rachada ao meio. Pressente a presença de alguns vultos. Os olhos desfocados tentam ver, mas não consegue discernir nada. Onde estará? Morreu? Será a entrada no céu? Não há dor, pelo menos que sinta. Sente os vultos aproximarem-se ainda mais. Um segundo, um milésimo, ou algo da sua própria mente, um enfoque fugaz num dos vultos consegue provocar-lhe um sorriso antes de desfalecer e um murmúrio.

— Meu amor. Meu amor.

É curioso como tudo muda em segundos.

 

A primeira coisa a fazer assim que se passam as portas de vidro automáticas da entrada é seguir em frente até aos elevadores. A excepção do domingo, há sempre grande azáfama durante os res­tantes dias da semana, por isso, como hoje é quinta-feira, percebem­-se os movimentos, à primeira vista desconexos, de todos os que aqui trabalham, ora para um lado, ora para o outro, de elevador, subindo as escadas, entrando nos vários sectores, percorrendo os corredores labirínticos, cada um com um cartão plastificado identificativo, pen­durado no casaco, na camisa, na blusa decotada, conforme o traje da ocasião. Porém, cada um é uma peça influente, uma parte fundamen­tal do sistema. Uma vez entrados no elevador que se disponibiliza, têm de marcar o número 3 para que a máquina eleve o receptáculo até este parar no andar em questão. Uma vez aí, damos com um enorme corredor, tomamos o caminho da direita, de acordo com a perspecti­va de quem sai da caixa elevatória, e percorremos cem metros, mais coisa, menos coisa, onde se nos depara um par de portas de alumínio. Estão fechadas, mas não trancadas, basta empurrar para cederem. Mais trinta ou quarenta metros onde o dito corredor vira à esquerda num ângulo de 90 graus, marcando a esquina do edifício, pelo meio das pessoas compenetradas nos seus afazeres laborais, e aparecerá um novo par de portas de alumínio, com uma placa de vidro martelado na parte de cima da qual está gravada a palavra Pathologie.

Lá dentro, para além de três marquesas de aço inox, mais um con­junto de monitores e vários utensílios e armários que não importa nomear, existe toda uma parede revestida com o mesmo aço e dezoi­to portas quadradas, uniformemente colocadas, três filas de seis que preenchem todo o cumprimento e largura da parede. São as câmaras frigoríficas que albergam os corpos que deixaram a dúvida neste mundo. Falamos da sala de autópsias do Nederlands Forensisch Instituut, o local onde os mortos revelam as suas últimas sentenças.

É aqui que vemos entrar os três norte-americanos, Geoffrey Barnes, Jeronimo Staughton e Thompson. Tencionam ver os corpos dos dois ingleses fornicadores, mais o de Solomon Keys e tempo não é um elemento de que disponham em abundância. Não, se se con­firmar uma das identidades ali presentes.

Ao contrário das morgues convencionais, a temperatura destas arcas varia entre 15 e 25 graus centígrados negativos, para que a decomposição seja totalmente interrompida, preservando assim a maior parte dos dados forenses possíveis. Nas morgues hospitalares ou funerárias, por exemplo, a intenção não é interromper a decom­posição, mas atrasá-la, deixá-la avançar lentamente, pelo que a tem­peratura nesses frigoríficos é positiva, entre 2 e 4 graus. São duas formas diferentes de preservar aqueles que já partiram, durante o tempo suficiente para que digam tudo o que têm a dizer sobre as causas da sua morte, antes de serem co andados à sua última morada, seja ela onde for.

Um homem de bata branca, supostamente médico-legista, o que se confirma pelo cartão identificativo pendente na bata, faz a limpeza a uma das marquesas, com uma mangueira fina donde jorra o líquido asséptico que permitirá nova autópsia, livre de ger­mes antigos a infestarem as novas provas. Olha para os três matu­lões que acabam de entrar, enquanto varre o sangue para os cana­letes adjacentes. Quantos corpos lhe terão passado hoje pelo bis­turi, para sofrerem a última incisura, a mais invasiva de todas, aquela que tudo relata, os defeitos e virtudes, sem omissões nem mentiras ou meias-verdades, preto no branco, nas entranhas, nas artérias, nas veias, nos órgãos outrora vitais ou não vitais? A vida já não é para aqui chamada. Depois de tudo dito, anotado, aponta­do, medido, desencaixado, por fora e por dentro, unem-se nova­mente as peles e cosem-se, dependendo dos resultados particula­res, com ou sem todos ou alguns órgãos reencaixados, uma ex­-vida é enfiada numa destas câmaras frigoríficas a aguardar fune­ral, cremação, identificação ou reclamação por parte dos entes familiares. A estas arcas vem parar tudo o que a sociedade tem para oferecer, famílias felizes avassaladas por um acidente, víti­mas de crimes passionais que na altura calcularam mal o risco de uma relação extemporânea, os desconhecidos ou aqueles que os Americanos chamam de John Doe e que assim permanecem, mesmo depois de mortos, os desafortunados do destino, crimino­sos que viram alguma das suas negociatas dar para o torto, pes­soas com vida dúbia, dupla, omissa, egoísta, sofrida, aberta, cor­rida, breve, infeliz. Aqui se vê aquilo que o ser humano é capaz de fazer ao próximo, ao familiar, ao amigo, ao vizinho, ao incógnito apenas e só para lucrar com isso ou por uma zanga que saltou as barreiras da placidez, acabando em descontrolo.

— O senhor é que é o Dr. Davids? — pergunta Barnes impacien­te, em inglês, obviamente.

Sou eu mesmo — responde o outro na mesma língua conti­nuando nos seus afazeres.

O tenente Balkenende deu-nos autorização para aqui vir — prossegue Barnes. — Queremos ver três corpos.

— 1k wil ook vele dingen — formula o outro na sua língua, o mesmo que dizer também quero muita coisa. — Aguarde um momento, por favor.

Wij willen deze dode drie zien, nu — exige Barnes irritado, agi­tando no ar uma folha de papel. Queremos ver estes três mortos, agora. Não que seja um plurilingue competente, mas o facto de compreender as noções básicas das mais importantes línguas euro­peias como o espanhol, francês, italiano, alemão, neerlandês, portu­guês e russo foi preponderante para que o nomeassem para o cargo na Europa. — E não me obrigues a pegar-te pelos colarinhos e meter-te numa destas arcas — conclui em inglês.

— Amerikanen — deixa escapar o médico, entre dentes, arran­cando o papel das mãos de Geoffrey Barnes. — Sempre com o rei na barriga.

Lê os nomes escritos na folha de papel e dirige-se ao computador instalado numa pequena mesa quadrada. Pressiona as teclas que no conjunto farão aparecer o primeiro nome, escolhido pelo médico, aleatoriamente. Neste caso, Solomon Silvander Keys, nome comple­to da vítima. Depois de clicar na tecla Enter, aparece um conjunto de informação pormenorizada no monitor de plasma, certificado de autópsia em anexo, e muitos outros dizeres pouco relevantes para Geoffrey Barnes e acompanhantes. O que Davids pretende com este procedimento é saber a localização da vítima, que logo aparece no canto inferior direito do ecrã: o número 13. Como a conta é feita a partir de cima e da esquerda para a direita, sabemos que a porta treze, para onde Davids se dirige, ou deveremos dizer Dr. Davids, é a da fila de baixo, do lado esquerdo.

O médico abre a porta quadrada de inox, e puxa a marquesa que se descobre no seu interior, onde o corpo se encontra deitado, inerte. O invólucro onde coube a vida de 87 anos de Solomon Keys. O tom, acentuadamente acinzentado, da pele é reflexo da temperatura a que o corpo está exposto, interrompendo, por completo, a decomposição, mas proporcionando este ar monstruosamente cadavérico, sobrena­tural, vampírico. E se não fossem três homensi abituados a lidar com as cenas mais descomunais, talvez se vergasse1,, ao medo ou vomitas­sem as tripas, como vemos Jeronimo Staughton fazer neste momento para o primeiro local onde encontrou, um balde azul de plástico. São os três homens habituados a lidar com estas ocorrências, Geoffrey Barnes, Thompson e o Dr. Davids, é claro, sendo que os dois primei­ros talvez já tenham tratado, no seu passado profissional, de fornecer' corpos, pessoalmente ou por interposta pessoa, a este mesmo médi­co-legista, sem que nenhum saiba de tais arranjos.

— Vai lá para fora, Staughton — ordena Barnes sem tempo para frouxidões subalternas.

Staughton cumpre a ordem com gosto, sem disposições heróicas para demonstrar, nem interesse nisso. Barnes sabe perfeitamente as qualidades e defeitos de quem o serve e o que cada um consegue aguentar. De outra forma, obrigá-lo-ia a permanecer ali durante toda a observação. Staughton é bom noutras coisas, como já ficou provado na casa de banho de Amsterdam Centraal. Observar e deduzir, recolher os dados e processá-los. Sim, nisso ninguém bate Jeronimo Staughton.

Barnes olha o corpo com seriedade. Totalmente despido de roupa e preconceitos, santificado pela morte perene, dois orifícios combinam com o relatório de perícia, um no peito e outro bem no meio da testa, roxo, sem vida, pois até o sangue perde a vivacidade e assenta com a podridão que virá, mais cedo ou mais tarde, não importando o tempo que se atrase o processo.

Já tem o relatório da balística? — pergunta Barnes sem tirar os olhos do corpo do antigo agente da Agência.

Sim, só um momento — responde o médico, dirigindo-se com má vontade à pequena mesa onde assenta o monitor. — Nove milí­metros.

Nove milímetros — repete Barnes. — Claro. Só podia ser. — Continua a olhar o corpo. — Foram todos abatidos com a mesma arma?

Não consegue parar de olhar para o homem, embora raciocine independentemente. Pensa que um dia poderá ser ele ali estendi­do ou noutra marquesa qualquer de outro departamento forense, com um tiro nos cornos e as rugas vincadas da idade a foderem­- lhe a cabeça, isto se chegar à idade de Solomon Keys. O mundo de Solomon já não existe. Um tempo em que as pessoas confia­vam em desconhecidos que apareciam do nada, de repente, mani­pulando-as a seu bel-prazer, pagando generosamente por in­formações e lugares estratégicos, eliminando quem tinha de o ser e poupando quem fazia por isso. Hoje as coisas são mais perigosas, OS criminosos são muito mais inteligentes, cautelosos, estão sempre dois passos à frente dos serviços de informação e não têm contem­plações. Para além disso, vidas duplas ou triplas ou totalmente inventadas pelos agentes, como no tempo dele já não fazem senti­do. Todo é feito à distância, pela Internet ou outros dispositivos sem fios. A exigência é muito maior. As comunicações são seladas e são sempre necessários vários milhões de dólares para validar ou decifrar uma informação, não significando isso que seja fiável. Essa é urna das razões por que a Companhia opta por vigiar todos e não apenas aqueles que sejam considerados suspeitos, pois não fazem ideia de quem sejam realmente. Depois de urna triagem informática em que um supercomputador procura padrões binários que reflictam palavras como presidente, atentado, bomba, Estados Unidos da América, ameaça, gás, entre outras de uma extensa lista, via Internet, audio e vídeo, conseguem, de vez em quando, apanhar alguém cuja inteligência raia a estupidez. Não, Barnes não chegará aos 87 anos de Solomon Keys, nem nada que se pareça. Mas o tiro nos cornos é praticamente garantido. P&. isso, o olhar compassivo para o velho defunto.

— Foram. Todos pela mesma arma — conclui o médico-legista. — Quero ver os outros dois — exige Barnes.

Mais umas quantas batidas no teclado do computador e a infor­mação aparece no ecrã, revelando as portas 15 e 16 como albergues', dos corpos do casal inglês. Davids dirige-se primeiro à 15, abre-a e' puxa pela marquesa que revela.., nenhum corpo.

Isto é inesperado — profere Davids tocado pela surpresa. — Tem a certeza que era aí que estava? — pergunta Barnes.

É o que diz o computador — infor?la o médico.

Abre a porta da 16 que apresenta o n-i smo resultado. Nada.

Foda-se — blasfema Barnes. — Estás a ver isto? — inquire virado para Thompson.

Irritado e impaciente, Barnes começa a abrir as portas de todas as arcas frigoríficas e a puxar pelas marquesas.

Ei — protesta o médico.

Deixe-se estar quieto — avisa Thompson começando também a abrir as arcas e a ler a etiqueta colocada no pé de cada extinto.

Treze mortos depois, já que algumas arcas se encontram vazias, não encontram qualquer sinal do casal inglês. Conferindo a lista dos presentes, mais as respectivas localizações, tudo parece estar em ordem com os outros.

— Quem é que pode ter levantado os corpos? — pergunta Barnes ao médico.

— Ninguém. Os corpos ainda não estão liberados para trasladação.

E quando estiverem? Quem os pode levantar?

Neste caso, como são estrangeiros, pode ser a família ou um representante do Estado de origem do defunto, mas sempre acom­panhado de um familiar.

Não pode haver qualquer erro informático? Os corpos terem sido liberados e essa informação não estar ainda processada no computador? — quer saber Thompson.

Acho um pouco estranho, mas vou já saber isso — informa Davids, muito mais amistoso do que no início. É a morbidez da situação. Ironia, ironia.

Levanta o auscultador do telefone, pregado à parede junto à porta de entrada ou saída, conforme o caso, e disca três algarismos, extensão interna. Três segundos depois, inicia uma conversa no nasalado neerlandês que culmina com o desligar violento do aus­cultador em cima da base do telefone que acabou por ficar a balan­çar pendido pelo fio.

Ele vem aí — aclara.

Ele quem? — perguntam Barnes e Thompson.

O chefe. O Dr. Vanderbilt — explica. — Zoon van een wiffje. — Filho da puta. As razões da blasfémia são dele, porventura, acasos de ordem hierárquica que não nos dizem respeito, tão-pouco a Barnes ou a Thompson nem a Staughton que adentra novamente, descora­do como uma couve branca, a limpar a boca com um lenço de teci­do, ao mesmo tempo que o usa para cobrir o nariz.

Aqui está tudo esterilizado. Não cheira a nada — adverte Davids saturado de tanta intromissão. Estão a atrasar o seu trabalho.

Staughton não liga à advertência. Olha para as portas abertas da gigante arca frigorífica e para os corpos, treze, puxados para fora. Observa Thompson curioso. Este, ao encará-lo, desvia o olhar.

Nem perguntes — avisa.

Nesse entretanto, entra aquele que será o tal Vanderbilt, Doutor, chefe de Davids, Doutor. Traja um fato azul índigo com gravata de idêntica cor por dentro da bata branca aberta. Pose emanante de confiança e altivez e um sorriso nos lábios interrompido subitamen­te. Suspende o Goede nacht, heren, Boa noite, senhores, ao ver aque­le espectáculo macabro. Parece que alguém quer comprar corpos ou parte deles.

Davids, sluit alies, nu — grita para Davids, o equivalente a mandar fechar aquela merda toda, sem a respectiva blasfémia, mas inerente ao tom com que a frase é proferida. — Que vem a ser isto, meus senhores? Querem assaltar-me a loja? — profere em tom joco­so. Sabe a quem pode falar e em que modos.

Um único aceno de cabeça de Barnes para Thompson faz que o segundo se coloque no caminho de Dav/i'ds, impedindo-o de cum­prir a ordem do chefe.

— Alto lá, Davids — notifica Barnes. — Aqui ninguém mexe em nada até que me expliquem onde é que estão os dois corpos em falta.

Mas que vem a ser isto, senhores? Onde pensa que está? No seu país? Aqui não manda nada — profere abandonando os modos conciliatórios. Afinal, parece que não sabe a quem pode falar e em que modos.

Este norte-americano foi assassinado no seu país, nesta cida­de. Se soubesse a importância que este homem tem para os Estados Unidos da América, pensaria duas vezes. Se chegamos a Bagdade em três semanas, podemos muito bem chewar aqui em três dias.

Ora, ora. Não há necessidade de nos kxaltarmos. Além disso, estão sob jurisdição holandesa. Esse corpo não vai a lado nenhum até que eu dê autorização.

Tem-nos no sítio, pensa Barnes.

Muito bem. Onde estão os corpos dos ingleses? — pergunta.

Foram liberados. Estão a caminho de Londres neste exacto momento.

Não está no computador — informa Davids, surpreendido.

Não está porque eu ainda não coloquei. Acabei de o fazer há cerca de três quartos de hora.

— Quem levou os corpos? — Voz incisiva e cortante a de Barnes. Algo lhe escapa. O quê?

Um familiar.

O nome — quer saber Barnes.

Sabe perfeitamente que é matéria sob investigação e sigilos... — O nome. — Desta vez di-lo a gritar para que não existam dúvi­das sobre quem manda ali.

Vanderbilt, Doutor, acerca-se do computador e insere um con­junto de códigos e outras parafernálias programáticas, necessárias ao bom funcionamento do software informático. Instantes depois, roda o monitor de plasma para que eles vejam o nome. A sua cara é de poucos amigos, mas de nada lhe vale. O que está feito, feito está.

Barnes abeira-se do monitor e lê a informação nele contida.

Staughton e Thompson fazem o mesmo.

O quê? — desabafa Staughton atónito.

Grande filho da puta — vocifera Geoffrey Barnes, mal acredi­tando no nome que lê.

 

Ó Deus, cujo Filho Unigénito, com a sua vida, morte e ressur­reição, nos alcançou o prémio da vida eterna, concedei-nos, a nós que celebramos estes mistérios do santo rosário, imitar o que contêm e alcançar o que prometem. Por Cristo nosso Senhor — recita o padre.

— Amen — retribuem todos os crentes.

Assim se apresenta o acto litúrgico na capela-mor da catedral de Santiago de Compostela onde o maior turíbulo do mundo, o bota- fumeiro, pende inerte, sem incenso, mas mantendo o maior dos res­peitos. Há 700 anos que se processa a tradição de usar o gigante incensório, não este, que tem pouco mais de 150, mas apenas outros envoltórios, sendo que a ideia era purificar o ambiente espiritual­mente e em jeitos de olfacção, pois era o meio mais eficaz de repelir o cheiro que emanava dos peregrinos, depois de centenas ou milha­res de quilómetros em peregrinação pela fé, descurando a higiene, não tão acessível nem recomendável naqueles tempos.

Marius Ferris passou aqui o dia inteiro assistindo, praticamente, a todos os rituais da jornada litúrgica. Visitou a cripta de Jacob, onde restam as relíquias do apóstolo. Esteve ajoelhado em oração duran­te mais de uma hora no estreito local, ignorando os passantes que acudiam à obrigatória passagem que fica por debaixo do altar, sendo que a entrada é do lado esquerdo, por uma porta coarcta que dá para umas escadas ainda mais estreitas. Se a entrada fica do lado esquerdo de quem olha de frente para o altar e a salida do direito e amba estão devidamente assinaladas, há quem não se digne a cumpri esses preceitos organizativos e entre pela saída e saia pela entrada Alheio a tudo isso, Marius Ferris continuou a rezar a Santiag Maior, ajoelhado no genuflexório, de olhos fechados, testa franzida sentindo cada palavra proferida mentalmente. Houve ocasiões em que parecia ver-se urna lágrima desprender-se da pálpebra fechada e descer até se perder na bochecha e evaporar.

Agora está sentado a meio da nave, escutando as últimas palavra do padre Clemente, já a noite caiu há mais de uma hora. Alguma dezenas de fiéis espalham-se pelas filas de bancos, idosos e engravatados acabados de sair dos seus empregos ou empresas, conforme o casos, agradecendo as graças obtidas ou, o mais certo, pedindo novos favores ou sub-rogando antigos por recentes como um servi ço fornecido do alto a quem saiba negociar.

Na última fila senta-se um homem novo de fato negro, e quem atentasse aos seus movimentos durante o dia jamais poderia afirma com certeza absoluta que o motivo da sua presença fosse Mariu Ferris. Bem pelo contrário. A forma como vagueou pela catedral evitando a cripta quando o sacerdote lá rezava afincadamente, faria que o mais afoito dos curiosos o rotulasse de historiador ou um amante açulado da arte sacra. Demorou-se nos mais variados recan­tos, prezando algumas das relíquias abertas ao olhar, não todas, pois um dia não é suficiente, porventura nem uma vida, dando especial atenção ao crucifixo de ouro, oriundo do ano 874, que reside na capela do relicário e que contém, segundo se crê, um pedaço da ver­dadeira cruz em que Cristo foi crucificado. A História, sempre a História e a fé, não tanto a fé neste homem em particular, mas antes a valia e a curiosidade, imanente da relíquia, talvez somente a curio­sidade. Será mesmo um pedaço da madeira da cruz? E se for? Reflectiu sobre isso largos minutos, por falta de outro interesse e local para onde ir, mas acabou por concluir que, mesmo que se con­firmasse tal proveniência a ele tanto se lhe fazia, pois um objecto não se torna santo só porque segurou o Cristo até à morte, fazendo- o penar, torturando-o horas e horas até ao último suspiro.

Mais tarde, desceu à cripta, quando esta já estava desocupada da oração, e analisou o lugar acanhado. Três pequenas portas gradeadas, sendo que a do meio guarda o sarcófago de prata com relíquias sagra­das, os ossos de Jacob, ao fundo de um pequeno corredor com o chão coberto de mosaicos pretos e brancos. As outras duas portas guardam os restos mortais dos dois discípulos de Santiago Maior, denominados São Teodoro e São Atanásio, juntos do seu amo na vida e na morte.

Finda esta pequena peregrinação pessoal, mais por obrigação e para evitar o enfado do trabalho a que está destinado, veio então sentar-se neste banco da última fila onde permanece desde que a missa começou.

Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo — profere o padre Clemente ao mesmo tempo que usa a mão direita sobre a testa ao pronunciar Pai e sobre cada um dos ombros ao dizer Filho e Espírito Santo. — Ide em paz e o Senhor vos acompanhe.

Mais uma celebração eucarística terminada, a quinta a que assis­te hoje, falamos do mesmo homem sentado no banco. Está quase a terminar o seu martírio e a começar o de outros. As coisas estão a correr bem nas várias frentes de operação.

Vê Marius Ferris dirigir-se ao sacerdote que se encaminha para a sacristia, mas não esboça qualquer tentativa de se levantar do banco da última fila. Ainda não é hora. As instruções são precisas.

Dom Clemente — cumprimenta Marius Ferris, numa voz plá­cida, consonante com o local sagrado.

O outro, também de cabeleira branca, detém-se e examina-o. Aquele rosto não lhe é estranho. Mas o cabelo branco...

Marius? — pergunta o outro meio a medo.

Ainda te lembras de mim — responde o outro.

Oh, Marius.

Os dois homens da Igreja abraçam-se com força, congregando todos os anos de apartamento com aquele gesto.

Quantos anos? — quer saber por fim Dom Clemente tocado pela alegria de rever o amigo e conterrâneo.

Foram muitos — returque Marius Ferris. — Não importa. Como estás?

Como vês — replica o outro. — Na Graça do Senhor. Não estava nada à espera de te rever. Como vais? O que tens feito?

Regressei — informa Marius Ferris sem acrescentar mais do que o devido. O suficiente é bastante.

— Ouvi dizer que estavas em Nova Iorque.

Sim. É verdade — responde evasivamente.

Então e é o regresso definitivo?

Quase — atesta Marius Ferris. — Ainda me falta uma última jornada. Mas quis começar por aqui primeiro.

Obviamente. Obviamente — apoia Dom Clemente. — Primeiro aqueles que nos tocam mais de perto.

Certíssimo. Foram muitos anos afastado da terra. — Estas últimas palavras são pronunciadas com alguma melancolia e um olhar vazio. O tempo a passar pelas órbitas, sem demência, o que lá vai, lá vai, está feito, está passado e não voltará a ser presente, nunca mais, por isso, se lamenta, se chora, é a mágoa que vence quando se relembra o tempo que não foi nosso. Mas urna vida dedicada aos ideais da Igreja não se desgosta, muito menos uma pessoa na posição de Marius Ferris. Pode-se ter pena p la vida longe da terra, pelo coração que aqui ficou enquanto ele par iu, há vinte anos, mas não pelos seus feitos e concretizações, pelo espalhamento da Palavra Dele e dele, sendo a deste último a dos Pastor dos Pastores, Sua Santidade o Papa, que os teve vários e a eles serviu durante todo este tempo. — Ainda irei a Fátima, Lourdes e visitarei a nossa Santa Sé. Só então regressarei de vez — conclui.

Urna verdadeira peregrinação pessoal — diz Dom Clemente, verdadeiramente admirado. — Da qual estou necessitado há muito. — Acredito. Acredito — admite o padre. — Cá te esperarei quan-do voltares. Sabes sempre onde me encontrar. Coloca uma mão no ombro de Marius Ferris em jeito de apreço e depois continua a sua caminhada para a sacristia. — Na verdade — começa Marius Ferris, interrompendo os pas-sos de Dom Clemente, — vim cá também por outra razão. — O seu semblante é sério.

Ai sim? — Aguarda que o amigo Marius prossiga a sua expla­nação, mas este não diz mais nada. Continua a fitá-lo com expres­são grave. — Então? Desembucha.

Quero confessar-me.

A tensão constrangedora que Marius incutiu ao ambiente é cor­tada por uma gargalhada estridente de Dom Clemente.

Só isso? — pergunta o outro enxugando as lágrimas com a manga da sotaina. — Por momentos, pensei que me vinhas pedir dinheiro.

É a vez de Marius Ferris esboçar um sorriso.

Não. Só me quero confessar.

Muito bem.

O silêncio espraia-se por toda a catedral, praticamente vazia. Somente um homem deambula pelo Pórtico de la Glória, absorto pela magnanimidade do local. Marius continua a fitar o amigo.

O quê? Agora? — quer saber Dom Clemente raciocinando de repente. Não se tinha apercebido de que o pedido era de acatamen­to imediato.

Sim — confirma o outro.

Dom Clemente consulta o relógio com o cenho franzido e olha a grande porta da catedral.

- Espera por mim aqui. Já venho — delibera.

E com estas palavras vira as costas e retoma o seu caminho. Marius Ferris senta-se num dos bancos olhando o altar.

Por norma, um padre nunca se confessa num confessionário, é dito e sabido que um dos privilégios do cargo, se assim se quiser con­siderar, reside no facto de não ter de entrar no cubículo claustrofóbi­co para desnudar a alma, murmurar para o enredado que encerra o padre do outro lado, nem ouvir o decreto penitencial. Quando um padre se confessa a outro, fá-lo cara a cara, olhos nos olhos, despo­jando todos os pecaminosos feitos passados, purificando o espírito, na medida do que é possível. A desvantagem, se a houver, é que, ao contrário do comum dos fiéis, um colega do ofício não pode contar a outro os seus segredos mais profundos. Não que exista qualquer adenda que permita liberdades ao segredo confessional, neste caso, funciona do mesmo jeito, fechado, inviolável, intransmissível. Qualquer palavra proferida jamais poderá ser contada a terceiros. O problema é intrínseco ao facto de o pecador ser padre, assim como o confessor, e um ter de guardar os segredos do outro filho da Igreja Católica Romana, podendo, dependendo do segredo e do pecado, originar uma ascendência desfavorável de um sobre o outro. Tudo deriva do carácter de cada um e de cada qual. Por isso, quando um padre se confessa, tem de ter muito cuidado com o que diz.

Dom Clemente regressa pouco tempo depois, trajado com roupa de ocasião, o cabeção por dentro do colarinho da camisa a sinalizar o mester. Senta-se no banco e aguarda que Marius Ferris se abeire,

Conta-me, Marius — pede ele. — Purifica a tua alma.

Marius Ferris aproxima-se do amigo e fita-o durante alguns momentos, os olhos marejados pela emoção. O que quer que adve­nha dele será a total verdade, sem rodeios, hoje, nesta hora. Marius Ferris vai abrir o coração sem medir as palavras. Não haverá cuida­dos nem segredos.

Conheces-me há muitos anos, Clemente — começa Marius Ferris. — Sabes que sempre fui devoto do 5enhor, sempre segui os Seus ensinamentos, na Sua infinita sabedoria, sem nunca duvidar.

Dom Clemente acena com a cabeça em jeito de confirmação.

Fiz tudo o que devia fazer, conforme me exigiam, dentro das minhas possibilidades e valores, por vezes com muito suor e sacrifí­cio. Nem todos entendem os caminhos de Deus como eu e como tu sabes bem disso.

O confessor escuta, com os olhos fixos no interlocutor, sem esbo­çar qualquer juízo de valor sobre o que ouve. O certo é que ainda nada foi dito que requeira a intrínseca capacidade humana de esmar, de criticar, ainda que sem verbalizar esses arrazoamentos sobre as atitudes dos outros.

Não me posso queixar de nada. Deixar Compostela, há mais de vinte anos, foi, provavelmente, a minha maior provação. A Galiza pren­de-nos a alma, finca-nos com unhas e dentes e não deixa que a esque­çamos. Muitas noites houve em que chorei por estar arredado daqui e não poder ver a catedral, comer umas navajas no Don Gaifeiros.

Chorava sim, mas no quarto do meu luxuoso apartamento, na Sétima Avenida, a poucos quarteirões do Central Park. Celebrava as missas no conforto do lar, numa divisão aparelhada para esse efeito, só para alguns fiéis abastados que tinham esse privilégio. Amealhei muito dinheiro para a obra de Deus. — Fala num tom contido, concernen­te com a aura compostelana, contudo, denota-se na voz uma certa rispidez incisiva. — No ano passado, alguns acontecimentos desen­cadearam em mim alguns receios.

Que acontecimentos foram esses? — quer saber Dom Clemente, completamente embrenhado pela narrativa.

Recebi alguns documentos de um monsenhor português cha­mado Valdemar Firenzi. Já ouviste falar?

Reconheço o nome — responde Dom Clemente ajeitando-se no banco. — Mas não creio que o conheça pessoalmente.

Deves ter ouvido falar dele quanto noticiaram a sua morte — explica Marius Ferris.

Pois, talvez — concorda o outro ainda com aquele ar pensati­vo de quem localiza um nome ou um acontecimento no grande armazém da mente. — Exactamente — lembra-se agora. — Apareceu no rio Tibre no ano passado.

Correcto — assente Marius Ferris. — Valdemar Firenzi foi assassinado por causa desses documentos. Foi ele quem mos enviou para os guardar num lugar seguro.

E que documentos são esses? — É notória a avidez curiosa de Dom Clemente.

Marius Ferris silencia-se por uns instantes, o que acicata ainda mais a veia onzeneira de Dom Clemente. O primeiro organiza as ideias, mas não medirá as palavras. Tudo tem de ser dito.

Documentos escritos pelo punho do Papa João Paulo I e que desapareceram na noite da sua morte — conclui.

Dom Clemente fica boquiaberto, mas logo recupera o arrazoamento.

Mas... mas... que documentos são esses? Onde estavam? Isso não é uma lenda? Um mito?

— Não. Eu vi-os. Tive-os na mão e li-os. Aparentemente o Valdemar encontrou-os, por acaso, nos Arquivos Secretos do Vaticano e já lá estavam há mais de vinte anos. Pelos vistos, foi o próprio assassino quem os colocou lá.

— Mas como? É um de nós? Corno é que tens acesso a esta infor­mação toda? É fiável? — A torrente de perguntas oportunas que brota de Dom Clemente não parece incomodar minimamente a mente racional do colega ou amigo ou o que quer que sejam depois de vinte anos sem se verem.

— Tive o desprazer de o conhecer no ano passado.

A quem? Ao assassino do Papa Luciani?

Marius Ferris acena afirmativamente.

Marius... — Dom Clemente fita-o atónito. — Tens a noção daquilo que estás a dizer?

A verdade, Clemente. A mais pura das verdades. Teve conhe­cimento de que eu guardara os papéis e localizou-me. O pior não aconteceu por muito pouco.

Esta confissão começa a patentear-se mais como uma conversa, urna revelação, do que uma verdadeira explanação dos pecados ter­renos cometidos pelo fiel Marius Ferris, seguidor de Cristo.

Continua — pede Dom Clemente. — Se te interrompo sem pre, nunca mais chegas ao fim.

Fui captdrado e juntado a um grupo de pessoas que, de uma forma ou de outra, também tinham conhecimento dos papéis escritos pelo papa. Éramos quatro. Os únicos que sobraram. Os outros já tinham sido todos assassinados. Esperava-nos o pior. Mas, graças a um emissário do Vaticano e a uma jornalista portuguesa que força­ram um acordo, conseguimos escapar todos, uns mais feridos do que outros. Graças ao bom Deus, saí de lá incólume. Os papéis de que te falei são valiosos apenas pelo seu valor histórico. Não têm qualquer informação relevante capaz de abanar os alicerces da nossa querida Igreja. São pensamentos de um homem liberal que já mor­reu. Nada de mais. Todos somos livres de pensar.

Isso que me contas é estrondoso — afirma Dom Clemente aturdido com tudo o que ouve. — Porém, ainda não te ouvi um único pecado em tudo o que disseste. — Um sorriso espalha a bonomia pela face. — Acasos do destino, sim. Imponderáveis da

vida, também, coisas que fogem ao nosso controlo. Mas nenhum pecado.

           - Já lá vamos — adverte Marius Ferris. — Já lá vamos — repete. Dom Clemente aproveita novamente para ajeitar o seu corpo obeso no banco, enquanto o amigo organiza mentalmente as ideias.

Durante este último ano, aproveitei para fazer uma grande introspecção. Analisei todos os meus anos de trabalho e devoção, assim como o de outros. Descobri que há muita gente a usar a Igreja para se governar, Clemente.

Bem sei, Marius. Mas o que é que se pode fazer?

Muita coisa. Pode mudar-se tudo — censura Marius Ferris, visivelmente irritado com a postura acomodatícia do outro. — A obra de Deus tem de continuar.

A obra de Deus serve apenas os interesses de poucos.

Como te atreves a dizer uma coisa dessas? — O afogueamen­to da fúria propaga-se pelo rosto. — Há anos que ouço palavras afrontosas desse género. Mas nunca pensei ouvi-las de um homem conhecedor como tu.

Marius. Tu sabes que é verdade — alega. — Podes ser bem­-intencionado, Marius. Não tenho qualquer dúvida disso, mas tu próprio o afirmaste ainda há pouco. Celebravas a Eucaristia no con­forto do teu apartamento a uns quantos privilegiados.

Não percebes, Clemente? — Fita-o fixamente. — Não perce­bes que os soldados de Cristo têm de chegar a todos os estratos da sociedade? — Olha ao redor da majestosa nave da catedral. — A tua função é conquistar os mais pobres. A minha, os mais ricos.

Soldados? Conquistar? Isto não é uma guerra, Marius. — O tom contido reflecte uma tentativa de acalmia nos mares alterca­dos do ambiente.

Aí é que te enganas. Isto é uma guerra. Uma guerra estratégi­ca. Temos inimigos no exterior e no interior da Igreja. E temos de os eliminar a todos.

Ouve-te a ti próprio, Marius. — Não resultou a pretensa ten­tativa de acalmá-lo. O diálogo não está a funcionar nesta conversa confessional. — Guerra? Eliminar os inimigos?

A experiência do ano anterior levou-me a descobrir que exis tem outras entidades que actuam no interior do Vaticano. A nossa Santa Sé faz negociatas com essa gente. E o que é que eles têm para nos oferecer? Nada. Nem crentes são. Querem apenas o dinheiro e o poder que podem retirar dessa parceria.

Tudo bem, Marius. Estás aqui para te confessar e não para te queixar. Continua, por favor. — Dom Clemente profere estas pala­vras friamente. Ninguém muda ninguém. Pensa. Por muito que se possa pensar o contrário.

Marius Ferris continua irritado por não ver os seus princípios compreendidos e acatados.

Perdoa-me, padre, pois eu pequei — diz ele friamente.

Fala-me desse pecado — profere o outro, pagando na mesma moeda.

Fui conivente na morte de um homem.

O silêncio apodera-se do local por uns momentos. Dom Clemente indica, gestualmente, a Marius Fprris que prossiga. — E que mal te fez esse homem?

Atentou contra a nossa Santa Madre Igreja.

E de que maneira cometeu ele esse acto tão hediondo e ofen­sivo para com a nossa Santa Madre Igreja?

Repudiou os ensinamentos do Senhor e vendeu a sua alma ao Demónio.

Dom Clemente abana-se desconfortavelmente no banco. Com efeito, não gosta do que ouve, mas já tantos queixumes lhe passaram pelo confessionário, dos mais variados teores nos longos anos de serviço, que imunizou a sua mente e coração. O que o perturba é o facto de ser um amigo, ainda que apartado da convivência habitual pelo labor, a proferir aquelas tolices.

E como é que ele repudiou os ensinamentos do Senhor?

Tentou matar um papa. Um dos nossos tentou matar o Supremo Pontífice, acreditas?

Que dizes? — Dom Clemente não deve ter ouvido bem.

É isso mesmo que ouviste. Tentou matar um papa. — E mais não acrescenta, ainda que o confessor continue a fitá-lo intensamente.

Bem... hoje não paras de surpreender. — Nem sabe o que há- -de dizer.

Que tipo de penitência merece um acto desses?

Dom Clemente pondera durante um longo momento. Nunca havia pensado rever Marius Ferris neste dia, muito menos que ele lhe haveria de contar tantas coisas que ele preferiria ignorar. Que o Papa Luciani fora assassinado não era novidade nenhuma. E não deixou de ser reprovável a forma como o Vaticano lidou com o assunto. Mas isso foi há 30 anos e Dom Clemente não é homem para andar a ques­tionar as atitudes dos seus superiores. Também é comum planearem­-se atentados contra papas. Todos eles foram vítimas de atentados, quanto mais não seja em pensamento, no papel, na delineação. Na prática foram poucos os que sucumbiram ou os que saíram feridos de um. Contudo, dos últimos três papas, dois sofreram atentados, sendo que um deles pereceu por causa de um e outro ficou grave­mente ferido, mas isso é do conhecimento geral. De qual deles esta­rá Marius Ferris a falar?

Não se considera pecado quando está em causa a sagrada ins­tituição da Santa Madre Igreja, pelo que, ainda que a conivência num homicídio seja uma falta gravíssima, não posso, em boa-fé, dar-te qualquer penitência pelo acto — decreta Dom Clemente.

Obrigado, irmão. Era isso que queria ouvir — profere Marius Ferris, beijando-lhe a mão. — Como está o teu sobrinho? — pergunta.

Está bem — responde o outro em jeito de agradecimento pela lembrança.

Sendo assim, não te tomo mais tempo e despeço-me. Até à vista.

Dom Clemente levanta-se ao ver o outro fazer o mesmo e tomar o caminho da porta grande da catedral.

Adeus, Marius.

Marius Ferris não olha para trás e deixa o sagrado edifício. Dom Clemente, de olhar esvaziado fixo nas portas por onde o colega saiu, permanece junto ao banco, com a mente a fervilhar. Nem repara no homem vestido de negro que se acerca de si.

Posso ajudá-lo? — pergunta quando dá pela presença.

Sim, obrigado — responde o homem, simpaticamente, enquanto tira algo do bolso interior do casaco. — Quero que me diga onde está o dossier do turco.

O quê? Não faço ideia do que está a falar — responde Clemente, confuso.

Então não preciso de ajuda.

Nesse caso, boa noite. — E com isto Dom Clemente vira as costas ao visitante, encolhendo os ombros.

Não se considera pecado quando está em causa a sagrada ins­tituição da Santa Madre Igreja — diz o homem. Dom Clemente volta-se para ele a tempo de lhe ver na mão uma Beretta com silen­ciador.

 

Na sala onde Sarah Monteiro aguarda não dá para ver que já é madrugada, apenas se depreende, porque não há janelas, somente relógios. O sempre cordato Simon Templar trouxe-a para as instala­ções do Vauxhall Cross, o quartel general do SIS, Secret Intelligence Service, o nome correcto dos serviços secretos britânicos, mais conhecidos como MI6, a sua denominação anterior. Durante a Segunda Grande Guerra, os serviços secretos britânicos estavam divididos em vários departamentos encarregados de tarefas diferen­tes. Estes eram denominados por MI, Military Intelligence, seguido do número que identificava o serviço, iam do MI1, encarregados da decifração de códigos, ao MI19, incumbidos de extrair informação dos prisioneiros de guerra. Pelo meio ficavam os famosos MI5 que tratavam da segurança intrafronteiras, e o MI6, que cuidava da infor­mação exterior. Mudam os nomes, mas a conduta e objectivo são os mesmos, apoiados, no presente, por tecnologia de ponta. Simon ainda perguntou sobre o seu estado em termos de nutrição e hidra­tação, ao que ela respondeu com a declinação em ambas as matérias. Foi-lhe pedido que aguardasse. Isto foi há quase nove horas.

A sala onde aguarda é despida de acessórios decorativos, apenas o mobiliário essencial, uma mesa quadrada, suficiente para acomodar duas pessoas de cada lado, mas que neste momento tem somente três cadeiras como apendículo, uma num dos flancos e duas em frente.

Sarah está sentada num pequeno sofá de napa preto, não muito confortável, pois tem tendência para afundar aqueles que nele se sentam. Cinco relógios estão pregados numa das paredes, com placas identificativas do local a que se referem na parte inferior. A saber, da esquerda para a direita, são três horas e três minutos da madrugada em Londres, quatro e três em Paris, vinte e duas e três em Washington, seis e três em Moscovo, a mesma hora que em Bagdade. O tempo pode ser diferente, mas nunca pára.

O suspiro de Sarah revela cansaço e desconforto. Já são muitas horas de espera, sabe-se lá do quê. Agora, a proposta alimentar de Simon Templar já seria vista com outros olhos, mas o certo é que, desde que ele saiu, às 18 horas, mais minuto, mblos minuto, nunca mais ninguém se dignou a aparecer. Sarah passou o tempo afunda­da no sofá ou a andar de um lado para o outro, tentou por várias vezes telefonar para Simon Lloyd e para o jornal, mas nunca conse­guiu completar a chamada, apesar de ter rede no telemóvel. Por sorte, a divisão tem acesso a uma pequena casa de banho, limpa, graças a Deus, que Sarah usou duas vezes. e a ideia de tudo aquilo é debilitá-la psicologicamente para melhor poderem manusear as suas vontades, deve estar a funcionar, pois está capaz de dizer tudo o que eles quiserem ou de assinar o que quer que lhe ponham à frente. Chegou a fitar a porta algumas vezes sem nunca se aproxi­mar dela. O teclado numérico acoplado na fechadura anuncia a necessidade de um código para a abrir. Contudo, Sarah nunca quis confirmar se a porta está, de facto, trancada. É uma forma de se pre­caver animicamente e não se sentir cativa. Cada um tem a sua maneira de lidar com as situações do dia-a-dia, por muito pouco rotineiras que sejam. Durante as primeiras horas, equacionou as possíveis perguntas de que seria alvo. Pode ser tanta coisa. Porém, não encontrava razões para que o que quer que se trate tenha algu­ma coisa que ver com o assassínio do Papa Luciani. Não, esse segre­do está bem guardado e não é do interesse de JC que os Ingleses, ou outros, se metam nesse assunto. Isto tem de ser sobre outra coisa. Mas o quê? O pressionar de seis dígitos no exterior da divisão des­tranca a porta. Finalmente, vêm aí as respostas.

Entram dois homens, sendo que Sarah reconhece, prontamente, um deles como Simon Templar que a foi buscar a Redcliffe Gardens. Sarah levanta-se com um impulso inconsciente, como se o corpo soubesse reagir automaticamente perante esta situação.

Sarah Monteiro — chama o homem que ela desconhece. — Venha sentar-se nesta cadeira, por favor — solicita colocando as mãos nas costas da cadeira singular que já foi referida como estan­do num dos lados em oposição a outras duas, nas quais, por certo, se sentarão os agentes.

Sarah cumpre o pedido como se de uma ordem se tratasse. Senta­-se na cadeira que o agente ajeita como um bom empregado de mesa de um restaurante bem cotado. Não consegue deixar de se sentir nervosa depois de tantas horas de espera. Ao aperceber-se disso, tenta disfarçar como pode. Não se deve demonstrar fraqueza nestas horas. Simon Templar já se sentou numa das cadeiras à frente de Sarah e aguarda que o colega contorne a mesa e se sente na sua, depois de ter tido a amabi­lidade de ajudar Sarah. Está criado o ambiente de cooperação. Um dos­sier foi pousado em cima da mesa. As letras da etiqueta colada na capa são demasiado pequenas para que Sarah consiga discerni-las.

Sarah Monteiro — volta a chamar o mesmo homem abrindo o dossier. — A senhora é uma mulher misteriosa.

Eu? — É a única palavra que lhe vem à cabeça.

Sim, a Sarah — confirma o homem em tom brando. — Uma mulher cheia de segredos.

Não sei porque diz isso — disfarça.

Sabe — responde o agente, peremptório. — Mas antes de debatermos o assunto que nos levou a trazê-la aqui, gostaria que desse uma vista de olhos nisto. — O agente ainda sem nome retira umas fotografias do dossier e desliza-as, sobre a mesa, até Sarah. — Pôs a cidade em polvorosa há poucas horas.

Sarah olha para a primeira fotografia em formato A4 que mostra um autocarro londrino com os vidros todos partidos e algumas mossas na carroçaria. Outras viaturas estão também no mesmo estado. Vidros e outras espécies de detritos espalham-se pela rua.

Reconhece o lugar?

A segunda fotografia mostra urna casa completamente destruída, ou pelo menos assim parece, sem portas nem janelas, somente o esqueleto das paredes permanece e o número da entrada por cim do que era o pórtico. O transtorno toma conta de si.

Mas... mas... esta é a minha... — As palavras faltam-lhe.

É verdade — confirma o único agente falador até ao momen to. — Isso é o que resta da sua casa.

Mas como? — Não consegue tirar os olhos da fotografia. — Na realidade, deve agradecer ao agente Simon Templar por te sido tão obsequioso quando a foi buscar.

Não percebo. — Sarah continua atónita, com os olhos esbuga lhados a perscrutarem todos os recantos da imagem.

— Como pode ver, todo esse estrago foi provocado por um enge nho explosivo que deflagrou quando a chave foi accionada na fecha dura — explica. — Podia ter sido a Sarah.

Sarah reflecte naquilo durante uns instantes, completamente devastada. Alguém tentou matá-la e deu-se a um trabalho enorme para o fazer. Podia ter sido ela a rodar a chae na fechadura, como lembrou o agente. Podia ter sido...

Meu Deus. — Alteia a voz, nervosa. — O Simon. — Lembra­-se do estagiário. — Foi ele quem abriu a porta. Eu é que mandei... — Esconde o rosto entre os braços, pousando a cabeça em cima da mesa. Isto não pode ser verdade.

Está vivo - limita-se o agente a dizer.       

Está?

— Sofreu algumas escoriações, partiu alguns ossos, mas sobrevi­verá. Podia ter sido muito pior. Está internado no Chelsea and Westminster Hospital — informa.

Uma onda de alívio percorre o corpo de Sarah. Algumas escoria­ções e ossos partidos é algo suportável. A ser verdade. A morte é que não é.

Havemos de falar sobre isto com mais profundidade — alerta o agente. — Mas, como sabe, esta não foi a razão por que a convo­cámos — diz, enquanto tira as fotografias a Sarah.

Convocámos? Chama a isto convocar? Está doido, pensa.

Explodiram a minha casa. Quer falar sobre o que mais?

Compreendo a sua reacção, mas acredite que, neste momen­to, há matérias mais importantes.

Sim, Sarah. — É a primeira vez que o agente Simon Templar usa da palavra desde que a interpelou há mais de nove horas. — Deixe o agente Fox fazer as perguntas. Mais tarde trataremos do que aconteceu em sua casa.

É natural que a senhora esteja preocupada com a explosão, Simon — adverte o recém-baptizado agente Fox.

Sim, mas com o devido respeito que a Sarah Monteiro mere­ce — desculpa-se Simon Templar —, temos assuntos mais impor­tantes a tratar. Sabe disso, John.

— Mais importantes do que armadilharem a minha casa, mandá­-la pelos ares e ferirem o meu assistente, isto sem falar dos inúme­ros estragos que devem ter provocado? — Sarah está furiosa.

De facto... há coisas bem mais importantes do que isso — informa o agente John Fox fazendo deslizar mais três fotografias na direcção de Sarah. — Reconhece alguma dessas pessoas?

Desta vez são três retratos em formato de dez por quinze centí­metros. O primeiro mostra um homem de idade com uma cabeleira branca imaculada. A tremura do papel brilhante é causada pela mão de Sarah, cujos nervos ainda estão à flor da pele. Pudera. Fizeram explodir a sua casa sem contemplações e o alvo era ela. Quase um ano depois a sua vida volta a estar pendente por um fio muito ténue, capaz de quebrar a qualquer instante. A fotografia foi tirada enquan­to o homem entrava num táxi verde com caracteres levantinos que denunciam o Oriente da estada.

Não conheço — conclui.

Tem a certeza? — pressiona o agente Fox.

Absoluta — reforça Sarah. — Nunca vi este homem. — Olha novamente para o idoso na imagem. — Porquê? Devia conhecê-lo?

Depende das suas relações com os efectivos da CIA — ataca Simon Templar de forma cortante.

Sarah não esperava esta tirada. O velho da fotografia pertencia à CIA? É nestas horas que surge a dúvida sobre o que se pode dizer ou não, sobre o que eles sabem ou fazem de conta que sabem. É difícil gerir estas conjunturas. O que é certo é que não conhece o velho da fotografia e por aí não podem acusá-la de absolutamente nada... até ver.

Não tenho relação nenhuma com a CIA, como deve ser do vosso conhecimento. — Opta por resguardar-se. — Tenho tanta como tenho convosco.

Se eles desconfiarem de alguma coisa, continuarão a seguir mesma linha de interrogatório, caso contrário, seguirão em frente.

É assim que eles funcionam e Sarah sabe disso. Lançam o isco e aguardam que a linha traga algo quando a puxam.

— Esse homem chamava-se Solomon Keys e era um antigo agen­te da CIA — informa John Fox.

Chamava-se? — Já não se chama?

Foi assassinado há dois dias em Amesterdão.

Os dois homens fitam Sarah como se aguardassem uma confis­são ou comentário.

— Se julgam que tive algo que ver com isso,yodem confirmar com muitas pessoas que estive a cobrir a cimeira do G8 em Edimburgo — apressa-se a desculpar-se.

Estamos ao corrente dos seus passos, não se preocupe — informa John Fox. — E quanto aos outros? — Aponta para as foto­grafias que ainda estão na mão dela.

Sarah nem se lembrou de olhar para os outros retratos. Partiu do princípio de que pertenceriam à mesma pessoa, mas logo viu que não ao ver a imagem seguinte. Um loiro, na casa dos trinta e cinco anos. A última fotografia revela uma mulher também da mesma idade, mais mês, menos mês, um sorriso idílico nos lábios, os cabe­los ruivos a descerem pelos ombros até aos seios tapados por uma blusa justa. O que significa aquilo?

Estes conheço — limita-se a dizer.

Quem são? — quer certificar-se John Fox.

Sarah recusa-se durante alguns momentos a dizer o que quer que seja. Será que eles não sabem? Não, com certeza saberão. Não será difícil chegar às identidades, filiações, profissão, cadastro criminal e cor política. Decide confiar. Não tem nada a ganhar em esconder as coisas.

Ele é Greg Saunders. Ela é Natalie Golden.

E qual é a sua relação com eles?

Somos amigos e colegas de profissão. A Natalie trabalha na BBC, como devem saber, e o Greg é repórter fotográfico. Actualmente dedica-se à vida animal e viaja frequentemente para África ao serviço da National Geographic, como devem ter visto pelo passaporte dele.

John Fox e Simon Templar entreolham-se incomodados. Sarai] apercebe-se disso e sente um calafrio percorrer-lhe a espinha.

Que se passa? — pergunta.

— Sabe qual era a natureza da relação entre os dois? — interroga John Fox debruçando-se sobre a mesa.

A relação entre eles? — Sarah não está a gostar do rumo da conversa.

Sim. A relação. Eram namorados? Amigos? Noivos?

Eles não têm espírito matrimonial — diz Sarah esboçando um sorriso delicado ao imaginar a cena. — Podem ter tido as suas brin­cadeiras um com o outro, mas nada sério.

E essas brincadeiras eram frequentes?

Depende. Chama-se a isso uma amizade colorida. É quando

calha. — Que raio de conversa.

Percebo — afirma Simon Templar tirando um cigarro do maço e levando-o à boca. — Importa-se que fume?

Não espera pela resposta de Sarah e acende o isqueiro prateado que logo dirige à ponta do cigarro, abrasando-a. Duas passas tensas acendem o cigarro, uma baforada de fumo impregna o ar.

— Esses encontros ainda acontecem? — É John Fox quem pergunta.

Não os vejo há duas ou três semanas, mas presumo que sim. John Fox levanta-se e começa a andar pela sala.

Sarah, não há uma maneira fácil de dizer isto, portanto...

O telefone toca neste preciso momento e faz que Sarah dê um salto de susto. É um toque estridente e contínuo que provém do tele­móvel preso ao cinto de John Fox, que já pega no aparelho e acaba com o martírio sonoro.

— Fox — profere para o bocal do terminal. Ouve o que dizem do outro lado durante alguns instantes e começa a denotar-se o enrije­cer dos músculos. O que quer que seja não são boas notícias, isso é certo. Um estalido seco marca o fim da chamada e o regresso do telemóvel ao seu lugar.

Vamos — avisa fechando o dossier e tirando as fotografias d mão de Sarah sem cerimonias nem educação.

Ela também? — pergunta Simon Templar.

— Sim. Vamos todos — ordena o outro dirigindo-se para a porta Simon levanta-se, assim como Sarah, ainda meio atarantada.

Vamos onde? - inquire ela.

A Redcliffe Gardens — informa John Fox.

Sarah leva dois segundos a raciocinar.

O que vamos lá fazer?

John Fox digita o código no teclado da fechadura e destranca a porta antes de olhar Sarah nos olhos.

Encontraram um corpo no interior da/habitação.

O quê? - guincha ela.

É isso mesmo — assevera ele e vira-se para Simon: — Quanto aos corpos dos outros...

Os de Amesterdão? — inquire de forma atabalhoada.

Exactamente. Desapareceram da morgue.

Sarah escuta esta troca de palavras com atenção e sente um arre­pio trespassar-lhe o corpo.

Corpos? Que corpos?

 

                           O ARCEBISPO, 26 DE SETEMBRO DE 1981

O papel é timbrado com o brasão pontifício de João Paulo II, duas chaves cruzadas, uma de ouro, outra argêntea, atadas por um cordão encarnado, sob um escudo eclesiástico azul com uma cruz latina de jalde. A tiara papal com três coroas douradas acima do escudo e das chaves.

Paul Casimir Marcinkus, arcebispo titular de Horta e secretário da Cúria romana, está a um passo de ser nomeado pro-presidente da Comissão Pontifícia para o Estado da Cidade do Vaticano, tornan­do-o o terceiro homem mais influente da Igreja. Falta para isso a assinatura de Karol Wojtyla, que tem a caneta de ouro, de tinta per­manente, na mão para esse efeito.

Tens a certeza? — pergunta o alemão.

Um suspiro faz o polaco pousar a caneta em cima da secretária, ao lado do papel.

Parece-me o homem certo.

Pensa mais um pouco. — Senta-se numa cadeira em frente à majestosa secretária papal. — Não me inspira confiança. — Tu não confias em ninguém, Joseph.

Confio, só penso que somos muito influenciáveis.

— Sermos influenciáveis é que nos trouxe aqui — acrescenta o polaco. O cardeal alemão fita o amigo e superior hierárquico com con­descendência. Tem razão, como sempre.

Compreendo, Karol — assevera Joseph. — No entanto, custa­-me vê-lo com mais mandatos. Parece que estamos a passar uma procuração de plenos poderes. Estou certo que com um pouco mais de tempo...

Fiz uma promessa quando fui eleito, Joseph. Proteger a nossa família — diz com ênfase. — Não me vou desviar desse caminho — afirma, decidido.

Joseph sabe que não vale a pena apresentar argumentos que o con­trariem. Nada o vai demover de cumprir a promessa, pelo simples facto de que se comprometeu com Deus quando a fez e ninguém, no seu perfeito juízo, pode renegar a um acordo que fez com o Criador.

Muitas pessoas escrevem sobre os meus actos, sabes isso muito bem. Não posso dar um passo que não seja julgado por alguém, arquivado para a posteridade. Quando comuniquei que perdoei ao rapaz os seus actos, todos censuraram. É uma hipocrisia. Só está a dizer isso para ficar bem, está a armar-se em santo. Em nenhum momento as pessoas pensaram, quem sou eu para julgar os actos dos outros, mesmo que eles me prejudiquem? Em nenhum momento disseram, ora aí está um gesto genuíno... Assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido.

O silêncio espraia-se pelo imenso gabinete papal. Aqui tomam­-se as maiores decisões do mundo católico. Uma simples assinatura sobre uma folha de papel timbrado tem o poder de mudar cons­ciências, iniciar revoltas ou amenizá-las, minorar uma pequena parte da fome no mundo, da pobreza, de abrigar os que não têm casa, de acolher aqueles cujos reprodutores os renegaram. Aqui se fazem padres, bispos, arcebispos, monsenhores, cardeais, missioná­rios que levam o nome de Cristo aos quatro cantos do mundo, uma palavra amiga, um pão, um copo de água potável, um sorriso aliado a um beijo de amor. Aqui se omite o que não pode ser dito e se maquilham as verdades. Só desta forma, complexa, atreita a cedên­cias, negociações, acordos estratégicos, pode existir Igreja. A simpli­cidade pura a que se associa a imagem de Jesus Cristo não é possí­vel de concretizar no mundo dos homens, a não ser por um homem superior, como o próprio Cristo.

Depois de tudo o que se conseguiu extrair do turco... — defende o cardeal alemão.

É exactamente por isso que o faço. Se, de facto, ele estiver envolvido, não suspeitará da nossa desconfiança. Depois poderemos investigar à vontade.

Talvez estejas certo — condescende Joseph.

Quando for possível, quero falar pessoalmente com o turco.

Wojtyla pega na caneta, no exacto momento em que a porta se abre e o secretário anuncia a chegada do arcebispo Paul Marcinkus.

– Mande-o entrar. — Vira-se para o cardeal alemão. — Dá-me um minuto, Joseph, por favor.

Contrafeito, Joseph levanta-se da cadeira e deixa o gabinete por uma porta lateral, ao mesmo tempo que o bispo norte-americano entra.

— Santo Padre — cumprimenta, fazendo menção de beijar o anel de pescador, no dedo de Wojtyla, porém, este não a estende.

Sente-se, por favor — acolhe sisudo. — Deseja tomar alguma coisa?

Estou bem, obrigado —, agradece com um sorriso.

Tem havido notícias do Nestor? — pergunta o Sumo Pontífice.

Não. De qualquer maneira, ainda não cumprimos com os requisitos dele, Santidade.

Pois, pois — corrobora, falsamente. — Relembre-me o pedido.

Ele está interessado no reforço do investimento do IOR na América do Sul e na Suíça — aventa Marcinkus. Adopta um tom confidencial. — Na verdade, ele tem pressionado. Eu é que não quis perturbar o Santo Padre. Tenho apresentado desculpas sobre os preparativos da viagem ao Reino Unido e, de momento, tenho conseguido mantê-lo afastado. Mas vivo com receio permanente de que possam atentar contra si, novamente, Santidade. É um mar­tírio.

Claro, claro. Agradeço, meu bom homem, tudo o que tem feito para me preservar — advoga o polaco. Pensa durante uns ins­tantes. — Pode iniciar os investimentos na América do Sul, confor­me achar melhor.

Isso são óptimas notícias, Santo Padre. — Marcinkus sorri genuinamente. Isto é que é uma boa-nova. — Vou fazer investimen­tos inteligentes que não corrompam o seu bom nome.

Assim espero. Não quero outro Ambrosiano, Marcinkus — alude com voz firme. — Mas não foi por isso que o chamei.

Não? — Ainda há mais?, pensa Marcinkus.

— Não. — Wojtyla levanta-se e olha pela janela. — Quero comu­nicar-lhe que vou empossá-lo pro-presidente da Comissão Pontifícia para o Estado da Cidade do Vaticano.

Marcinkus fita o padre, incrédulo.

Muito me honra, Santo Padre. Estou sem palavras.

Terá mais responsabilidades, mas estou certo de que estará à altura delas.

Muito agradecido, Santidade. — Marcinkus está, verdadeira­mente, surpreendido.

Minutos depois, sozinho, Wojtyla volta a sentar-se na cadeira, pega na caneta... Três segundos mais e assina a folha de papel timbrado.

 

A Mercedes escura segue pela auto-estrada E19 / A1 a grande velo­cidade. Entenda-se como tal tudo o que supere a velocidade máxi­ma permitida por lei de 120 quilómetros por hora. São raros os cumpridores, e esta Mercedes de vidros negros não é excepção. Rola a 160 quilómetros por hora, ultrapassando os vários veículos que circulam com menor mecha.

Há necessidade de irmos a esta velocidade? — pergunta James Phelps no banco do passageiro, o único naquela enorme carrinha, com uma aparência pálida de desconforto.

O tempo urge, meu caro — responde Rafael, sem deixar de olhar a estrada. — Temos 400 quilómetros para percorrer e quatro horas para o fazer.

Onde vamos agora?

Logo verá.

Tem sido assim desde que saíram de Roma, no avião, e agora nesta carrinha Mercedes negra. Falamos da pouca informação libertada por Rafael. Apenas em pequenas doses ambages, sem aprofundar muito, ou quase nada o que se tem reflectido no humor de James Phelps, sempre tão sereno e circunspecto, que até parece deslocada aquela manifestação de desagrado.

Assim que puseram o pé em terra, Rafael ordenou-lhe que espe­rasse por ele ali mesmo, no terminal do aeroporto.

Não ligue a ninguém, não fale com ninguém, a não ser que alguém fale consigo. Se lhe perguntarem, está à espera que um fami­liar o venha buscar.

Quem é que vai falar comigo? — interrogou Phelps atónito.

Não sei. Estou apenas a dar-lhe estas instruções por precau­ção. Nunca se sabe — explica Rafael calmamente. — Aproveite para comer qualquer coisa. Daqui a duas horas dirija-se à porta das che­gadas e espere por mim — concluiu avançando pelo meio da multi­dão para o exterior do aeroporto.

— Espere, vai demorar assim tanto? — quis saber James Phelps, mas Rafael já não o ouviu, perdendo-se no meio da turba de viajantes acaba­dos de chegar e famílias reencontradas, na plataforma de chegada.

James Phelps, cuja profissão não voltaremos a propalar por moti­vos bem conhecidos, se bem lembados estamos da advertência de Rafael quanto ao cabeção que James envergava orgulhosamente no colarinho da camisa, e que tirou ainda antes de deixar o avião, deam­bulou durante alguns minutos pelo terminal com o semblante car­regado. Não quis comer nada, apesar do conselho, e após uma hora comprou um The Times à venda no quiosque. Folheou-o com aten­ção, pois não tinha para onde ir na próxima hora, nem mais o que fazer. A noite caiu e os ecrãs espalhados pelo aeroporto indicavam as oito horas da noite. Ao fim de alguns instantes, não se conseguia concentrar nas notícias impressas no papel. Pensar que de manhã tudo estava bem, calmo e sereno, sobre carris, organizado e, poucas horas depois... Se ao menos soubesse que palavras haviam sido tro­cadas no interior dos apartamentos papais... Provavelmente dimi­nuiria em muito a sua apoquentação e apreensão. Ele é muito inte­ligente, pensou. Com tantos abutres ao seu redor, é a única maneira de conseguir gerir aquilo tudo sem ficar doido. Reuniões à porta fechada, encontros secretos. É um bravo. Um bravo, reflectiu ao mesmo tempo que ia lendo o jornal. Partindo do princípio que foi com ele que Rafael falou, claro, continuou nas suas inferências. Mas só podia ser. Só podia.

Continuou com aqueles devaneios para preencher o tempo de ócio, sem se entregar à leitura atenta do diário britânico. Passava apenas as folhas, lendo os títulos maiores, até se deter num que ape­lou à sua maior atenção, sabe-se lá por que razão umas coisas aten­tam ao nosso espírito e outras não.

Casal de ingleses assassinado em Amesterdão.

Um casal de ingleses foi encontrado morto numa das casas de banho da Estação Central de Amesterdão. Segundo os poucos dados que se conse­guiram apurar junto das autoridades, parece ter-se tratado de uma espécie de execução, pois ambos foram mortos com tiros na cabeça. As identida­des das vítimas ainda não foram tornadas Ablicas pelas autoridades holandesas, que conjugam esforços com a Scotiand Yard para apurarem as causas de tal fatalidade.

Vidas ceifadas por outras vidas, sem piedade. Que benefícios se colhem com tais atitudes? Alguém há-de ganhar com isso, certamen­te, mas será que vale o preço? Qual será o sabor de algo conquistado à custa de vidas humanas? O provável é que seja saboreado na mesma, sem olhar aos meios utilizados, caso contrário, ninguém o faria.

Duas horas se passaram e James Phelps, sempre brioso da sua pontualidade, mesmo em casos não marcados por ele, postou-se no exterior do terminal de chegadas à espera do estranho Rafael. Não demorou mais do que cinco minutos para que uma Mercedes negra assobiasse por ele. A princípio não ligou, mas assim que o vidro automático do lado do passageiro baixou e viu Rafael no lugar do condutor, entendeu que o assobio era para ele.

O que é isto? — foi a sua primeira reacção interrogativa.

Uma carrinha — limita-se Rafael a responder.

Do aeroporto até à auto-estrada E19/A1, levou cerca de uma hora e cem quilómetros deixados para trás. Faltam, como informou Rafael, cerca de 400 quilómetros para o destino que só ele conhece.

Não gosto muito de viagens à noite — desabafa James Phelps.

Não se preocupe. Vai correr tudo bem.

Uma pequena travagem, mais intensa do que o normal, mas sem ser brusca, provoca um baque no separador entre a cabine de condu­ção e a parte de carga. Algo embateu nessa divisória metálica.

Trazemos alguma coisa na parte de trás? — questiona Phelps curioso. Ainda olha pela pequena janela localizada a meio da chapa separatória, mas vê apenas o negrume que habita a parte de trás.

Deve ser o triângulo ou o pneu sobresselente que andam aos tombos lá para trás —, responde Rafael sem tirar os olhos da estrada.

Mas Phelps não fica convencido. Aquilo que embateu na divisó­ria era algo maior e mais sólido do que um pneu ou um simples triângulo. Dedução apurada pela sonância do baque. Ali há mistério ou então não.       

Alguns quilómetros mais à frente, Rafael interrompe o silêncio instalado para informar Phelps de que vai abastecer na próxima' estação de serviço. Atento aos sinais informativos e, antes de Rafael fazer sinal para virar à direita em direcção à estação de serviço, Phelps vê a placa que diz faltarm oito quilómetros para Antuérpia. Que raio fazem na Bélgica? E para onde vão? Tem de descobrir isso o mais rapidamente possível. Não pode continuar a ser uma muleta. Além disso, tem a sua própria vida à espera. Ele não é nenhum agen­te secreto, nenhum espião ao serviço do papa. Esse é o papel de Rafael. Foi destacado para a Santa Sé com o intuito, pelo menos assim pensou, de servir os fiéis no melhor que pudesse, dentro das suas qualidades inerentes de pastor e guia, não um activo agente da Santa Aliança ou como quer que se chamem os serviços secretos do Vaticano. Activo no sentido de presente, porque se lhe perguntas­sem o que está a fazer e porquê, não saberia responder, pois não faz a mínima ideia. É um desalinhado, deslocado, e como odeia não ter o controlo das coisas. Podem tirar-lhe tudo, menos isso. Precisa de ter a noção de que as coisas correm como planeia e organiza, sem espaventos nem desinformações. De outra forma não pode ser.

Assim que param, Rafael sai da carrinha e inicia os procedimen­tos naturais de enchimento do depósito. Após uns instantes, bate no vidro da porta de Phelps. Este desce-o.

Está a encher. Vou à casa de banho.

— Tudo bem — acena Phelps apreensivo.

Um, dois, três, quatro, cinco segundos, é o tempo que leva Rafael leva a entrar na loja e a desaparecer nos lavabos. Phelps sai da carrinha e contorna-a pelo lado do condutor para chegar à parte de trás do veí­culo e abre as portas. Confirma-se a sua suspeita. Não era o pneu sobresselente, muito menos o triângulo.

Que raio — pragueja ele abespinhado. — Não pode ser. Não pode ser — repete sozinho. — Isto é...

Senhor padre, controle-se —, ouve a voz de Rafael ordenar atrás de si, vinda sabe-se lá de onde.

O que vem a ser isto? — pergunta Phelps sobressaltado e indignado. — É o que eu penso?

Só pode, não lhe parece? — responde o outro.

Chega de segredos. Quero saber tudo. — A voz dele altera-se. Phelps está mesmo zangado. — Primeiro deixa-me duas horas à sua espera em Schiphol, depois aparece nesta carrinha, sem nenhum esclarecimento. Agora estamos no meio da Bélgica e vejo isto aqui dentro? Dois caixões?

Correcto, meu caro — anui Rafael impassível.

O que se está a passar? — Está furioso. — Têm gente dentro?

Claro — responde o outro. Sobe para a carrinha e abre os dois caixões. Uma mulher está deitada no da direita e um homem no da esquerda.

Phelps lembra-se da notícia que leu no jornal ainda há poucas horas. Casal de ingleses assassinado em Amesterdão. Não há coinci­dências. O espírito atenta naquilo que considera premente nas nos­sas vidas. Não quer com certeza dizer que estes sejam os mesmos, mas há grande probabilidade disso, confirmado pelos orifícios bem demarcados na testa dele e na fronte dela. Isto não está a correr nada bem, pensa. A dor na perna esquerda volta a fazer-se notar. Agarra­-se ao local, a meio da coxa, com um esgar pungente. São as marcas dos anos ao redor do corpo, agredindo, aleatoriamente, o atingido, sem dó nem piedade, apenas porque sim, porque na saúde e na doença todos somos iguais, não importa que tratamentos façam, quão saudáveis sejam, o tempo e a aleatoriedade darão cabo de tudo e todos. Desta feita, a dor aguda quase o faz vergar e gemer, mas consegue controlar-se. Mais alguns instantes e acaba por passar por completo.

Devia ir ver o que tem nessa perna — alvitra Rafael sem demonstrar qualquer tipo de compadecimento. Um tom neutro completamente deslocado em quem vê alguém condoer-se como James Phelps.

Isto não é nada — diz o outro. — Quem são? — pergunta numa voz sumida fitando os cadáveres. O palor dos corpos alastra­-se ao seu próprio rosto. Leva um lenço de tecido a limpar o suor frio que pulou a testa com gotículas.

São o isco — responde Rafael fitando-o seriamente.

 

As noites são o pior do dia quando o estado é de alerta como hoje. Há, no entanto, um ponto positivo que reside no facto de estar céu estrelado, cenário raramente presenciado por ele, nado e criado numa grande cidade, muito industrializada, com edifícios altos, muitos carros, pessoas, competição e tempo escasso para admirar o céu de dia ou de noite. Esta seria uma visão magnífica se ele fosse contaminável pela majestade do Universo. A única coisa que o preo­cupa é a dor na perna esquerda que o assola durante as noites secas. Não traz consigo previsões climatéricas ou esotéricas, apenas dói... e mais nada. Mas alguém tem de fazer a ronda, de vigiar a herdade, ainda que seja altamente improvável que saibam onde eles estão e, mesmo que soubessem, não seria fácil encontrarem aquele monte no meio do nada. Beja, pleno Alentejo, coração da planície lusa, a pouco mais de sessenta quilómetros da fronteira espanhola. Os seus sapatos Prada estão pejados de poeira. Aquele lugar não combina com a classe do seu calçado, tão-pouco com o fato Armani, mas do mal, o menos, se estivesse a chover seria muito pior. O som das báte­gas anularia por completo a possibilidade de circunscrever a aproxi­mação de qualquer vilão, para não mencionar a lama a meter-se pelos sapatos dentro. É melhor o pó.

Faltam três horas para a alvorada. Tudo está calmo. Estabeleceu um perímetro de vigia com cerca de mil e quinhentos metros, que percorre de duas em duas horas para se certificar, pessoalmente, da segurança. Noutros tempos teria vários homens espalhados por pontos-chave, por si delineados, prontos para darem o alerta ao mínimo suspiro e neutralizarem a ameaça. Assim de repente, vem­-lhe à memória Cabul, Budapeste, Sófia, Ramalá. Hoje está só, defei­tuoso de uma perna, mas não menos letal. Sai de cima do banco do tractor onde descansou alguns minutos depois da ronda das quatro e percorre a distância que leva do celeiro à casa.

Em cima da mesa estão três pratos com restos de comida, fala-se já do interior da casa onde ele acaba de entrar, uma perna de pre­sunto já meada, presa no suporte de corte, vários copos, uns com vinho, outros vazios, mas com um fundo rosado revelador da peri­quita que outrora poisou neles, vestígios de um banquete aparente.

Raul Brandão Monteiro descansa no sofá, coberto por um cobertor fino. Disponibilizou um dos três quartos ao velho JC, mas recusou-se a ir dormir no seu, a veia militar não lhe permite con­fortos em horas de crise. Isso e o facto de a esposa, Elizabeth, o ter mirado com olhos letais assim que chegou a casa e tomou conheci­mento das identidades e intenções de tão ilustres visitas. Responsabiliza Raul por estes acontecimentos e não deixa de ter razão, pois o seu passado é causa desta consequência. O ingresso numa loja maçónica na juventude rebelde é a causa, o efeito é JC ser o actual grão-mestre dessa ordem e ter interesses que interferem com as suas vidas e a da filha.., pela segunda vez. Ela está em peri­go e ele não pode fazer nada. Estão todos em perigo. Desta vez, Elizabeth não lhe vai perdoar.

O manco senta-se na poltrona que está junto à parede com a roda da carroça pendurada e vários motivos alentejanos presos aos aros. Descansará uma hora, sempre com um olho aberto, não vá o diabo tecê-las, sendo isto uma força de expressão, é claro, e, quanto ao diabo, partindo do princípio que ele existe.

Ainda há mais um quarto livre. Pode ir descansar — aconse­lha o capitão, deitado no sofá, sem abrir os olhos. — Eu tomo conta.

Estou habituado. Não há necessidade — responde o manco reclinando-se na poltrona e fechando, também ele, os olhos.

Como queira — responde afoito. — Há notícias?

— Ainda não — limita-se a responder. Flecte o joelho com esfor­ço. Parece que dói mais e mais. Há dias em que a dor quase o impe­de de pensar. Hoje não é um deles, felizmente. É a moedeira com que convive há quase um ano, premente, permanente, impiedosa.

Estou preocupado — confessa o capitão ainda de olhos fecha­dos. É notório que não consegue dormir. A filha não lhe sai do pen­samento. A filha e a mulher.

Não adianta nada — diz o outro com rispidez. — Só lhe resta esperar.

Devia ter falado com o meu contacto. — Abre os olhos e senta-se com o cobertor a tapar-lhe as pernas.

Não volte a falar sobre isso — irrompe o manco. A simples menção que Raul faz do seu contacto provoca-lhe tanta ira, que esquece a moedeira que lhe agride a perna.

Compreendo a sua raiva. Acredite que compreendo, mas esta­mos do mesmo lado, desta vez — tenta explicar Raul.

Não diga disparates. Nunca estaremos do mesmo lado — dis­para o manco.

Só existe um lado — ouve-se uma voz dizer. — O meu.

Ambos olham na direcção da voz e vêem JC de roupão, junto à porta da sala. Segura-se na bengala e caminha até ao sofá onde Raul ocupa um lugar e senta-se a seu lado.

Não consegue dormir? — pergunta a Raul.

Não sou o único — pronuncia o militar a olhar para o manco.

Ah, ele? Parece que está acordado, mas está a dormir — diz apoiando as duas mãos na bengala.

O manco não se manifesta. Continua com os olhos fechados, refastelado na poltrona, atento ao interior e ao exterior, vá-se lá saber das capacidades de atalaia deste homem.

A sua senhora não reagiu muito bem.

— Pudera — suspira Raul. — Se lhe dissessem que a sua filha está em perigo, como é que se sentiria?

Não tenho descendência. A família é uma fraqueza — profere friamente.

Acha que sim? — Raul fita-o horrorizado perante a ideia que o outro defende. — Sem descendência, sem família, não há humanidade.

Já lhe passou pela cabeça que isto sem nós seria o paraíso?

Raul não responde. Consegue entender agora porque é que JC não tem qualquer respeito pela vida humana, que a considere algo dispensável, a não ser que tenha alguma utilidade momentânea. Só existe um lado.

Quem é que cometeu a proeza de fazei fugir o temível JC, assassino de João

Paulo I ?

Ah, meu caro. Não me atribua crimes que a História não con­sidera como tal.

Ambos sabemos que a História é insolente — volta a atacar Raul.

É a que temos e a que respeitamos 7-- delibera calmamente. As palavras de Raul não surtiram qualquer efeito provocatório, se era essa a intenção. — Quanto à sua pergunta, trata-se de uma conjun­tura estratégica desfavorável. Nada mais.

Dito assim, até parece simples.

— E é. Repare, os aliados de ontem são os inimigos de hoje. É assim que funciona o mundo. Há milhares de exemplos na História capa­zes de ilustrar o que lhe digo e não é necessário recuar muito.

E os inimigos tornam-se aliados?

Evidentemente. — Recosta-se no sofá e pousa a bengala a seu lado. — Não é preciso ser um grande cérebro para ver isso a olho nu. A relação dos Norte-Americanos com o Bin Laden, por exemplo.

Esse sempre foi o eterno inimigo.

Ou o eterno aliado? — pergunta pronta de JC a lançar a dúvi­da sobre Raul.

Se ele é um aliado deles vou ali e venho já — refuta Raul.

— Existem inúmeras formas de cooperação, meu caro capitão. Se eu o ataco, não sou, necessariamente, seu inimigo, posso ser um aliado, cujo papel é parecer inimigo. Mas estou a dispersar-me, des­culpe. Este exemplo não ilustra o que lhe disse. Ponha os olhos no Paquistão, na Arábia Saudita. Esses sim, são aliados e inimigos dos Estados Unidos, conquanto a gerência de cada país entenda ser do seu melhor interesse.

— E qual é a sua relação com esses países? Aliado ou inimigo? — Dedo incisivo na ferida por parte de Raul.

Um sorriso seco é a primeira resposta, seguido de urna tosse engasgada que o deixa a arfar. O oxigénio é um bem difícil de adqui­rir com a idade.

Ninguém se pode dar ao luxo de me ter como inimigo, capi­tão. Se me conhecesse, saberia disso.

Mas não é o que parece. Senão não estaria aqui. — Mais uma tacada. Está em forma o militar.

Também não me conhecem. Em breve tomarão noção disso — responde em tom sério com a certeza inerente dos líderes. — E a CIA onde fica no meio disto tudo? Tem tanto poder sobre eles.

Não podemos contar com a CIA neste campo. Estão do outro lado da barricada. Vão dar a entender isso, mas não levantarão uma mão para prejudicar qualquer um dos lados. É urna maneira esqui­sita de funcionar, mas a única de sobreviverem.

Um toque vibratório, seguido da Nona Sinfonia de Beethoven, invade a sala. É o telemóvel do manco que logo o atende sem se dig­nar a abrir os olhos.

Pronto.

Vinte segundos depois, desliga o telefone, sem pronunciar mais nenhuma palavra desde o cumprimento, nem um «adeus» ou um «até já», tão-pouco um «obrigado».

Explodiram com a casa dela. Ainda não é público — limita­-se a dizer.

Urna aflição lancinante perpassa o corpo de Raul, pior do que uma lâmina quente.

E Sarah?

Não há notícias dela.

Meu Deus. — Raul leva as mãos ao rosto, desesperado. A sensação de impotência invade-lhe a alma, enquanto tenta ima­ginar a filha, entregue à sua sorte, em parte incerta ou mesmo morta, de forma execrável. Os profissionais não têm compaixão nem estão com meias-palavras. A confirmar-se, só espera que tenha sido rápido.

Não se preocupe — ouve JC dizer. — Se lhe tivesse aconteci­do alguma coisa, já saberíamos.

Como pode ter tanta certeza? — pergunta frustrado com os olhos marejados.

Porque essa seria uma mensagem que eles tratariam de nos fazer chegar imediatamente. Já estaria na televiSão. Pode ficar des­cansado. Está tudo bem — explica o velho coM serenidade. Tanta frieza provoca arrepios em Raul.

Como é que se consegue esconder a explosão de uma casa dos meios de comunicação? — Isso não percebe. As palavras de JC, vá-se lá saber porquê, acalmam-no. Está tudo bem com Sarah, con­segue pensar, mais aliviado.

Vedando a área ou dizendo que foi urna botija de gás. Perdem logo o interesse — aclara. — O que importa é sangue e ter­rorismo.

Isto tem tudo que ver com a morte do Luciani? — quer saber o português.

Ironicamente, não.

Não?

Não.

O silêncio espraia-se pela sala com grande rapidez. Raul aguarda uma conclusão que não chega. O velho é irritante.

Tem que ver com o quê, então? — acaba por ter de perguntar.

Um chá quente.

Como?

Um chá quente. É o que me está a apetecer. Tem?

Raul não consegue acreditar que nesta hora de incerteza o velho esteja a pensar em beber chá, mas vindo dele já devia estar habitua­do. Na grande maioria das vezes, Raul encara-o corno um ser huma­no normal, um velho frágil como qualquer outro dos tantos que se vêem por aí. Nada mais ilusório.

Tem? — volta a perguntar JC.

— Tília — responde o militar.

Terá de servir. Mas sugiro que renove o seu stock com Earl Grey ou Twinnings, pela manhã.

Raul levanta-se e olha-o de cima antes de ir para a cozinha pre­parar a infusão.

Não me vai responder?

Isto não tem nada que ver com o Papa Luciani — returque sem olhar para ele. — Tem que ver com o polaco.

O Wojtyla? — Raul está incrédulo.

O velho confirma com um aceno de cabeça.

Você tem todos os papas como inimigos?

— O Wojtyla não era meu inimigo. Nunca. Era um velho medro­so, mas não um inimigo.

Esta resposta deixa Raul pasmado. O mistério adensa-se. Afinal, isto não tem nada que ver com o que pensava. Está mesmo por fora de tudo o que está a passar-se à sua volta. Uma coisa é certa, não há muitas pessoas que façam alguém tão influente como JC recuar e procurar um lugar como a sua herdade para se refugiar. O que se passa tem de ser grave para que este estratega brilhante deixe o con­forto da sua villa em Itália. Outra coisa que o arrepia até às pontas dos cabelos é a tentativa do velho de proteger a sua filha, ainda que não tenha feito nada palpável a não ser avisá-la. Tem uma ténue esperança no coração de que o tenha feito a tempo e ela tenha con­seguido sair da cidade.

Enquanto põe a água a ferver, ligue para o seu contacto.

Mestre — desperta o manco, que se levanta de rompante com o orgulho ferido. — Isso não.

Senta-te — ordena o velho com uma voz firme. Não existem dúvidas sobre quem é o leão do trio. — Precisamos de alguém mais próximo dos acontecimentos. Devido ao nosso recuo estratégico, não temos ninguém que possa ser os meus olhos e ouvidos no local, portanto, esta é a melhor solução. — O olhar austero demonstra que está decidido e explicado.

O homem manco, epíteto utilizado sem desprimor ou qualquer juízo de valor para com o visado, apenas uma verificação sobre alguém que não gosta de revelar o seu nome, não esconde o esgar de fúria no rosto, mas acaba por sentar-se sem dizer mais nada.

— Quem é que anda atrás de nós, afinal? — quer saber Raul, que ainda não foi pôr a água para o chá de tília a ferver nem cumpriu com o disposto por JC.

O velho puxa o cobertor que cobria Raul para cima das suas per­nas. O calor também é um bem que nunca se deve menosprezar na sua idade. Raul aguarda uma resposta que vem glacial e insensível.

— O Opus Dei.

 

Está muita coisa a acontecer nas nossas barbas e não me agra­da não termos o mínimo controlo da situação — grita Geoffrey Barnes ao entrar no centro de operações da CIA em Londres.

Percorre a enorme sala repleta de monitores, computadores e um enorme ecrã que enche toda uma parede onde aparece o mapa do mundo com várias sinaléticas pouco importantes para o comuns mortais, ainda que possa ter muito que ver com as vidas desses comuns dos mortais, sempre a vociferar e a gesticular, ruborizado pela fúria. Aqui, nesta divisão, só algumas vidas são importantes, todas as outras são descartáveis sempre e quando necessário.

As impressoras debitam páginas e páginas de informação e cola­boram com a polvorosa que coabita no centro operacional. Ninguém liga às palavras encarniçadas do director, não há tempo nem paciên­cia, ele próprio os deterá se considerar que todos o devem ouvir. Mas não o faz, Geoffrey Barnes já entrou no seu gabinete, separado do centro operacional por uma mera estrutura de alumínio e vidro. O director tem vista privilegiada sobre a sala, nada lhe escapa, se assim o desejar, mas, se por outro lado o seu anseio for usufruir de uns minutos de privacidade, bastará descer os estores interiores e ninguém terá conta nas actividades de Geoffrey Barnes. Staughton e Thompson seguem-no para o interior do gabinete e fecham a porta atrás deles, anulando por completo o som corredio da sala.

O chefe senta-se e põe os pés em cima da secretária. Staughton e Thompson limitam-se a observá-lo, enquanto ele deita alguns papéis ao chão para melhor repousar as pernas e gozar do descanso eféme­ro. Aos três telefones que se enfileiram em cima do tampo de mogno, mais para o lado direito, já não tem o desplante de os maltratar. Esses não. Um verde, outro bege e mais um vermelho. O verde é o contac­to directo com Langley, na Virgínia, sede dos serviços secretos norte­-americanos, o bege, para os parceiros da'Agência, é costumeiro ver­se Barnes evitar atender esse telefone, são duas as razões para tal, a primeira por não saber quem está do outro lado e a segunda por saber. São muito poderosas as pessoas que usam esse telefone, pode mesmo dizer-se que, em alguns casos, têm mais poder que o homem que usa o terceiro telefone, o vermelho, oóbvio mas verdadeiro tele­fone do Presidente. Quando toca, signifièri que do outro lado está alguém do gabinete pessoal do dono da Casa Branca ou o próprio presidente dos Estados Unidos da América, em voz, porque não se pode dizer em pessoa. Esse tocou apenas uma vez desde que Barnes tomou o cargo em suas mãos há mais de sete anos e foi precisamen­te no dia 7 de Julho de 2005, quando, alegadamente, quatro terroris­tas explodiram com o sistema de transportes londrino, pela manhã. Lembra-se de ter corado quando o telefone começou a soar, nunca lhe tinha passado pela cabeça que o aparelho funcionasse, tão habi­tuado estava a vê-lo mudo ou a nunca ouvi-lo. Ao atender, soube ser um assistente qualquer do presidente a querer saber notícias mais aprofundadas para transmitir em primeira mão ao chefe de Estado. Barnes não esteve com meias-medidas e vendeu a versão oficial, aquela a que qualquer um teve acesso. A verdade, por vezes, não é para os ouvidos do presidente.

Não se pretende com isto dizer que Geoffrey Barnes não seja patriota. Quem não quer ver a sua vida revelada jamais deve pro­nunciar tais ditos de maneira a que ele os ouça. Geoffrey Barnes é um dos poucos homens que se pode dar ao luxo de triar a infor­mação e separá-la em vários sectores, a essencial, a vital e a normal. O presidente tem acesso apenas à informação normal e essencial. A vital é tratada por outros. Um país tem tantos podres, que há certos e determinados assuntos que não podem chegar ao conheci­mento do chefe supremo. Todos os entenderão, por certo.

Estamos fodidos — desabafa ainda enfurecido. — Marca uma reunião de grupo para as seis e meia.

— Tão cedo? — contesta Staughton timidamente.

Estou acordado, não estou? — vocifera Barnes. — Então mais ninguém pode estar no conforto do lar a dormir depois de uma boa pinadela — conclui depois de ver que Staughton não se interpõe.

Okay — limita-se a responder Jeronimo Staughton, abrindo a porta para ir cumprir a ordem noutro local. Por momentos, o estru­pido invade o gabinete quebrando o sossego sonoro que aí se insta­lara. Só o tempo de Staughton sair e voltar a fechar a porta e separar OS mundos.

— Thompson — chama Barnes.

Diga, chefe.

Quero um relatório daqui a meia hora na minha mesa com todos os dados e factos do que sabemos até ao momento.

É para já — acata o outro, imediatamente a aludir a saída.

É melhor pores todos os teus contactos de prevenção — orde­na Barnes.

Todos? — interroga o outro já com a mão na maçaneta da porta. Só consegue pensar no cigarro que vai fumar não tarda.

Todos. — Levanta-se com algum esforço e debruça-se sobre a mesa apoiado nas duas mãos. — De quanto tempo precisas?

É só fazer alguns telefonemas — responde Thompson, pensa­tivo. — Um quarto de hora. Aproveito e já fico a saber que ondas é que andam por aí.

Faz isso.

Thompson abre a porta. Já consegue sentir o travo do tabaco a invadi-lo e a serenar os instintos, a necessidade de afinar o faro, a máquina de luta. As coisas estão difíceis lá fora.

E não te esqueças de me trazer o relatório daqui a meia hora — adverte Barnes virando-lhe as costas e olhando a cidade. Odeia não ter o controlo das situações. Pior do que isso, abomina não per­ceber patavina do que está a acontecer. Três mortos numa casa de banho pública holandesa, sendo que um era um antigo agente da CIA. A imagem dele com o alvéolo avioletado, escuro, bem no meio da testa a demarcar o fim da vida. Puta que os pariu, ou que o pariu, pois tudo aponta para que tenha sido apenas um, as estatísticas não atribuem crimes destes a autores do sexo feminino, a assinar o passamento dos três desgraçados.

   A cidade é apenas um imenso candeeiro de luzes amareladas, ponteadas, em baixo, pelas avermelhadas das traseiras dos carros.

Londres é também urna cidade que não dorme, nunca, há muitos anos. A esta hora sabia-lhe bem ir tomar um pequeno-almoço vasto ao Vingt et Quatre em Fulham Road, na zona de Chelsea. O facto de ser conhecido da casa ajuda-o a ultrapassar a habitual fila de pessoas que têm de esperar à porta para conseguir mesa, seja dia ou noite. Uns ovos escalfados, mais umas salsichas fritas, feijão vermelho e branco começam a fazer salivar os pensamentos alimentares de Geoffrey Barnes. Raios partam aqueles que se intrometem entre a sua soberba barriga e a possibilidade de a encher com substâncias tão nutritivas. Terá de ficar para outra noite. A sorte é que o Vingt et Quatre não sai do sítio.

Esquece a cidade e pega no auscultador do telefone interno. Basta levantar o auscultador para alguém atender do outro lado, é a secretária, Theresa, que lhe pergunta das suas vontades.

— Boa noite, Theresa. Traga-me um hambúrguer duplo com queijo, uma pizza americana e uma Carlsberg, o mais depressa pos­sível — solicita Barnes com a boca em água só de imaginar tudo isto à sua frente. Ao mesmo tempo, ouve as perguntas da solícita secre­tária. Barnes nunca lhe falta ao respeito nem eleva a voz. — Prefiro Burguer King, mas se não encontrar nenhum aberto, pode ser de outra loja qualquer, não se preocupe com isso. — E pousa o auscul­tador.

Entrega-se, novamente, à reflexão idiossincrática dos aconteci­mentos. Mais uma vez, Jack Payne ou Rafael, ou como quer que se chame, a meter-se no seu caminho. A diferença é que desta não vai levar a melhor. Não haverá acordos que o salvem. Por que razão terá ido levantar os dois corpos a Amesterdão? Para quê? Os cadáveres

não têm utilidade nenhuma, ou têm? Aquele não dá ponto sem nó. Precisa de o ter na sua frente o quanto antes. É isso. Pega no auscul­tador do telefone, mas desta vez digita três números. Dois toques depois, o destinatário atende pronunciando o apelido, regra organi­zacional para evitar o Está lá? Quem fala?.

Staughton — profere o alvo da chamada.

Quero que ponhas um grupo exclusivamente atrás do Jack. Quero-o à minha frente até ao final da manhã.

Atrás do Jack Payne, certo? — Não há espaço para mal­-entendidos nesta profissão. Joga-se com vidas humanas e os erros, por norma, pagam-se caro, contribuindo para as estatísticas da morte.

Claro que é do Jack Payne, quem mais poderia ser? — Jack tem o dom ou a faculdade de o perturbar sobremaneira, deixa-o irritadiço e, por consequência, cheio de fome.

Okay. Vou tratar disso — informa Staughton, que desliga o telefone sem aguardar que Barnes se lembre de debitar mais instru­ções. Dar ordens é muito bonito, o pior é o resto.

Barnes, do seu lado, também pousa o auscultador com alguma boçalidade. Observa a sala para além do vidro separador. Continua uma correria de homens e mulheres, de um lado para o outro. Gente com papéis na mão a esbracejar, outros a gritar para o telefone, há quem esteja com as mãos nos auscultadores a escutar algo atenta­mente, música não será com certeza. Os mais distraídos ou pouco frequentadores destes espaços poderão pensar tratar-se da bolsa de Wall Street ou de Londres, neste caso, a trabalhar fora de horas. A aparente desorganização não passa de algo ilusório, todos sabem o que estão a fazer no interior daquela sala. No grande ecrã que enche uma parede o mapa do mundo sofreu um aumento conside­rável e incide agora somente sobre o Velho Continente. Novos cír­culos, de várias cores, piscam psicadelicamente sobre certos locais. Cada cor identifica uma acção a decorrer, seja uma escuta, uma ope­ração de menor ou maior envergadura, o mero posicionamento dos agentes no terreno e por ai fora. São indicadores que importam somente a quem aqui trabalha, ainda que muitos serviços secretos e outros indivíduos menos escrupulosos adorassem deitar a mão esta informação.

Embora, à primeira vista, ninguém pareça olhar duas vezes para esse ecrã, as instruções nele contidas são vitais para a Agência. As acções de todos os que aqui correm de um lado para o outro estão nele identificadas e tipificadas. Até Barnes está lá patente com a sua barriga proeminente a ansiar por um hambúrguer duplo com quei­jo, mais a pizza americana e a Carlsberg para empurrar tudo para baixo. Com um simples dique, conseguiriam, se fosseimportante, aceder a todos os seus dados pessoais, cadastro, contas bancárias, casamentos, descendência, se a houvesse, e todos os lícitos possíveis e imagináveis. Se necessário, poderiam bloquear essas mesmas con­tas ou modificá-las, alterar o cadastro, para o bem ou para o mal, enfim, um sem-número de cenários e possibilidades que todos os dias são executados a outros sujeitos, mas não a Barnes, claro está. Até ao momento tem sido sempre considerado um activo compe­tente em todas as avaliações anuais.

Se esforçar um pouco a vista, do gabinete onde se encont Barnes conseguirá ver um círculo vermelho a piscar intermitente mente sobre Amesterdão. A informação ainda é escassa, mas e breve estará cheio como um ovo.

— A puta da comida nunca mais vem — pragueja.

É nesse momento que um som estridente começa a ressoar con tinuamente. Um arrepio atravessa-lhe a coluna. Observa o telefone verde em cima da secretária. Uma luz verde pisca a informá-lo de que está a tocar. É um alerta aos sentidos auditivo e visual, impossí­vel de evitar. Langley quer informações por via segura. Não é muito normal. O bege também mistura o seu toque com o outro provo­cando uma amálgama de sons tintinábulos, denuncia-o a luz cor de laranja intermitente. Barnes silencia os telefones para não contami­narem mais o ambiente e a sua cabeça, deixando as luzes a piscar, sinal de que a chamada continua. Qual é o protocolo a seguir quan­do dois telefones seguros tocam ao mesmo tempo? Não existe. Decide-se pelos patrões de Langley. Afinal de contas, são eles quem lhe pagam.

— Barnes.

É então que o som de outro telefone se faz ouvir no gabinete. Barnes deixa-se cair na cadeira, sem conseguir desviar os olhos dele. o toque contínuo poderia enganar, mas a luz vermelha a piscar em sinal de emergência não deixa margem para dúvidas. O telefone do Presidente está a dar sinais de vida.

 

A explosão de gás que ocorreu no número que não propalaremos da Rua de Redcliffe Gardens, em Chelsea, deixou-o irreconhecível. Isto pode atestar a sua dona, que bem sabia corno era dantes e entra agora nos destroços remanescentes. As últimas horas têm sido para esquecer. Os olhos encovados acusam choro recente ou ainda ema­nante, pois vê-se uma lágrima a escorrer rosto abaixo. Não se saberá dizer se ela se soltou do olho devido a esta visão infausta ou se ainda é o resquício da dor da perda dos dois amigos. A Natalie e o Greg mortos. Essa é uma visão inimaginável por muito que se tente con­vencer da verdade, aliás, sabe que vai acontecer a todos numa deter­minada hora e dia, sem apelo nem agravo, sem aviso. Mas Natalie e Greg perfilam-se naquele grupo de pessoas imortais, tal era a vida que se soltava dos seus corpos. Mas o que mais a afecta é a forma como deixaram este mundo. Decerto, nem se deram conta que mor­reram. Num segundo estão vivos a exprimir a sua volúpia, sem bar­reiras, segundo descreveu o agente John Fox, no outro estão mortos, cadáveres, defuntos, inanimados. É cruel. E como se não bastasse, agora tem de se defrontar com isto, um farrapo de casa, sem personalidade, sem vida, uma ruína. Por certo, a lágrima mistura ambas as dores. Este dia não tem sido nada fácil para Sarah Monteiro.

— Têm a certeza de que Simon Lloyd está no hospital? — per­gunta incomodada, lembrando o corpo que vem ver, com um arre­pio pelo meio.

Temos. Tenha calma — atenua o agente John Fox. — Este é outro indivíduo.

Espero não o conhecer — confessa egoisticamente, mais para si do que para os agentes.

Vestiram umas toucas e envolveram os sapatos com uma protec ção que se aperta com um cordão no tornozelo, para não contami­narem o local do crime, ainda que seja certo encontrarem vestígios do ADN de Sarah Monteiro por todo o lado.

— Não toque em nada — admoesta o sempre simpático Simon Templar com um rosnar. — Quero deixar r gistado que sou contra a sua presença neste local.

Está registado — afirma John Fox. Daqui se percebe quem manda em quem, se ainda não se tinha percebido. — Agora prossi­gamos.

O local está iluminado por holofotes. Vários técnicos da Políci Metropolitana estão espalhados pelo que, outrora, foram as divisões de uma casa sobriamente decorada. Ainda assim, existem paredes que permaneceram intocadas pelo brasidoAo fogo, acarinhando as luzes quentes dos projectores e espelhando a sua limpidez.

Quase que é necessário um mapa para se ver onde se pode pisar, já que o trabalho prossegue e ainda há alguns locais inacessíveis, onde se pode ver técnicos forenses debruçados sobre pequenos objectos com um pincel de pêlo mole, tal qual um arqueólogo e o paciente desenterro dos ossos do período Cretácico ou outro qual­quer. É um trabalho que exige eupatia, empenho e muita agudeza de espírito.

— Onde está o corpo? — pergunta John Fox a um desses técnicos.

Na sala — returque sem sequer levantar os olhos para o inqui­ridor.

John Fox fita Sarah como que a perquirir onde fica a divisão que servia de sala.

É em frente e à esquerda — informa ela. — Acho eu.

Seguem, lentamente, pelo corredor enegrecido, repleto de despo­jos esparsos pelo chão mas devidamente circunscritos com fitas da polícia que separam os locais escalonados como livres dos outros que requerem mais horas, quiçá dias de intenso labor. É uma sorte que o departamento de comunicação, sabe-se lá por que razão, tenha ocultado da opinião pública, pelo menos durante algum tempo, a verdadeira origem da explosão. Parecendo que não, atenua em muito a pressão sobre os técnicos forenses. Se já fosse do domí­nio público a origem criminosa do incidente, seriam muitos mais os agentes escalados para a investigação e os telefonemas estariam a chover, constantemente, demandando um culpado ou um bode expiatório, para início de conversa. Desta forma, há tempo de fazer um trabalho em condições, com resultados certeiros, se assim for necessário.

John Fox é o primeiro a entrar na sala. Nada faz lembrar tratar-se dessa divisão da casa, tão-pouco faria lembrar outra coisa. Estantes, sofás, o plasma de 40 polegadas, leitor de DVD, a mesa de jantar e as cadeiras, entre muitos outros itens que restarão olvidados. À primei­ra vista, nada restou incólume. A única história que contam é a de terem sido consumidos pelas chamas e pela força da explosão.

Estava a ver que não era hoje — resmunga aquele que será o médico-legista, ansioso por deixar o corpo seguir os trâmites legais, dispensando-o para o que resta da sua folga. Entende-se, por isso, os maus modos patentes na sua expressão facial. — Não podiam ir vê­-lo à morgue?

Se pudéssemos ou quiséssemos, não o teríamos mandado esperar aqui — ataca Simon Templar, sedento de conflito.

Pára com isso, Simon — ordena John Fox. Vira-se para o médico: — Será rápido.

O corpo está deitado numa maca, dentro de um saco próprio para cadáveres que se encontra fechado.

Vamos despachar isto — incita o médico-legista, solícito, cor­rendo o fecho para abrir o saco. Quanto mais depressa melhor.

John Fox olha para Sarah e não precisa de dizer nada para se fazer entender. Ela avança lentamente em direcção à maca que sustenta o corpo até o interior do saco entrar no seu campo de visão. Não tem coragem de fitar, logo, o rosto, por isso começa pelo tronco porque foi até onde o médico-legista abriu o fecho. Vai enfrentando o medo, desviando o olhar cada vez mais em direcção ao rosto. É ou era um homem grande, encorpado, a fazer lembrar Geoffrey Barnes, de tão má memória. Veste uma camisa de fazenda grossa e um casaco pró-• prio para a neve, ambos bastante afectados pela destruição, rasgados e queimados em alguns sítios, todavia, mantêm a identidade de casaco e camisa. Aliás, o corpo está bastante bem conservado para. quem foi vítima de uma explosão.

- Qual foi a causa da morte? — quer saber Sarah.

- A senhora quem é? — pergunta o médico-legista com desplante.    

Sou a dona da casa — enfrenta ela,— E sou jornalista.

Bonito — deixa escapar o homem' dos mortos. — Agora é que se fodeu tudo.

Cuidado com a língua — repreende John Fox. — A Sarah Monteiro está aqui na qualidade de testemunha e não vai divulgar nenhuma das nossas conclusões enquanto for do nosso interesse — conclui.

Sarah fita, por fim, o rosto do cadáver. - Válido, mas sereno. Parece que foi vítima de uma morte santificada.

Morreu de morte morrida — brinca o médico-legista, mas ninguém se manifesta contente com a piada. — Foi uma pancada na cabeça, mas só a autópsia poderá concluir, efectivamente.

Já têm dados sobre a identidade da vítima? — questiona John Fox, sério.

— Se temos. A crer pelos documentos que tem na carteira, julgue você mesmo — diz o médico estendendo um papel.

O que é isto?

— Um print dos dados relativos à vítima. A carteira já seguiu para a perícia. Não ia ficar à vossa espera — clama dando uma risada. John Fox pega no papel e começa a ler em voz alta.

— Grigori Nikolai Nestov, 51 anos, russo, de Vladivostok, é... — As palavras atropelam-se à saída da boca. — Isto é verdade? — per­gunta para o médico-legista.

— Ainda não foi desmentido — returque o outro, mascando uma chiclete que se vê de cada vez que dá uma risada como agora.

A situação diverte-o. São os efeitos da convivência diária com a morte. Deixa de doer.

O que é? — inquire Sarah curiosa.

John Fox passa o papel a Simon Templar.

Conhece-o? — questiona.

Não. Nunca o vi — returque Sarah sem sombra de dúvida.

Tem a certeza?

Absoluta.

SVR? — deixa escapar Simon Templar.

É o que parece — returque John Fox.

SVR? — questiona Sarah, curiosa. — Isso quer dizer o quê?

Que a vítima era um agente dos serviços secretos russos.

— Serviços secretos russos? — Sarah fica boquiaberta. — E o que estava a fazer em minha casa? — pergunta meio incrédula, meio escandalizada.

Bem, vou deixá-los com os vossos problemas e vou à minha vida — avisa o médico-legista fechando o saco. Assobia para a porta a chamar os maqueiros que conduzirão o corpo para a ambulância. Estes entram lestos e iniciam o transporte, um de cada lado.

— Cuidado ao sair. Não queremos aparecer na televisão nem nos jornais — previne fitando Sarah. — Boa noite, meus senhores — despede-se dos presentes e sai atrás dos maqueiros.

Sem o corpo, a sala parece mais vazia, com os holofotes a ilumi­narem o vazio, os despojos do que foi urna construção sólida. Sarai) mudou-se há tão pouco tempo e agora tem de prever outra mudan­ça... se sobreviver. Observa todos os recantos da sala calamitosa e algo lhe clama a atenção. Um objecto desenquadrado com a desar­monia do local. Urna pequena caixa de madeira que sobreviveu ao holocausto explosivo sem um arranhão ou chamuscadela. Dali não consegue ver o seu interior, mas sabe o que lá se encontra. Uma gar­rafa de porto vintage, colheita de 1976, o ano do seu nascimento.

Dá alguns passos para contornar a caixa que se encontra tomba­da no chão, no meio do entulho, faltava esta informação, não por­que sinta o desejo de adocicar os lábios, simplesmente pela atracção da aleatoriedade do destino. Urna caixa tão pequena e frágil sobrevive a urna explosão, seguida de incêndio. Quão improvável poderá isso ser? Se um corpo nem sequer aguenta uma pancada na cabeça. Sarah sabe que a parte frontal da caixa é de vidro para servir de expositor ao néctar intocável que reina no interior da garrafa. Assim que contorna a caixa, a fim de ver o outro lado, repara que o vidro não está virado para baixo, impedindo de ver se a garrafa não se par­tiu. Vêm-lhe à mente as palavras de Simon Templar, não toque em 1 nada. Não será necessário. Olha o interior, para além do vidro into­cado e espanta-se ao ver que a garrafa não está onde deveria estar. É uma caixa vazia, incólume. Debruça-se sobre ela.

Não toque em nada — reclama Simon Templar.

Sarah endireita-se pensativa, tal arraoamento advém de uma simples garrafa de vinho, com a sua idadé, que falta dentro da caixa de madeira sobrevivente. Ergue o olhar para John Fox, a quem deci­diu nada confidenciar e apercebe-se que ele há muito não tira o olhar dela, atento e perscrutador.

É. A Sarah é uma mulher cheia de mistérios.

 

O último olhar sempre teve sobre ele um efeito devastador tão pronunciado, que se tornou um vício. O da maior parte dos que compõem a sua vasta experiência são de súplica, um pedido sentido de demência, de dó, reflectido na urina que se desprende e, por vezes, no resto.

As reacções são diferentes em cada caso, dependendo do que vem à mente de cada alvo nos últimos momentos. Dom Clemente confi­gura naquele género que mais o aborrece. Enfrentou a arma com um sorriso sereno e pacífico e assim permaneceu, mesmo depois...

Normalmente, quando se mata, quita-se do alvo aquilo que ele mais preza, mas existem alguns, como Dom Clemente, a quem já não se tira absolutamente nada. A necessidade de sentir a culpa a massacrar-lhe a consciência depois de premido o gatilho que provo­ca o baque abafado que liberta a ceifeira permanece adiada. Nem se permitiu a um segundo olhar para Dom Clemente quando este caiu para trás e derrubou, com a sua robustez corporal, a fila de bancos que se lhe sucedia. O padre não deu por nada, disso tem a certeza, sabe perfeitamente onde levou a bala a entrar para que ele estivesse morto antes de tombar.

Mas este homem de aparência comum, uma vantagem de refe­rência para um mester como o seu, não é dado a introspecções nos­tálgicas. Dom Clemente é passado, nado e morto, o seu corpo jaz a mais de mil quilómetros de distância, na Galiza, porventura em alguma morgue a tentar contar ao médico-legista a história da sua morte. Que se dane Dom Clemente, a Galiza, mais Santiago de Compostela, cidade, catedral e santo, tudo junto.

Teve tempo de embarcar no último voo para a capital inglesa, onde o cerne do plano se joga nesta fase. Têm sido dias muito exte­nuantes mas prazenteiros, com inúmeras viagens, Roma, Amesterdão, Compostela e, agora, Londres. O encomendador optou por seguir para outro destino como previsto. Mais dois dias e jun­tar-se-á a ele para a resolução final.

Percorre a cidade no célebre táxi londrino em direcção à morada combinada. Ainda existem mais alvos para serem riscados do mapa pela Beretta. Em tempos foi o fiel proprietário de uma Glock com a mesma medida de projéctil, os nove milímetros, mas esta Beretta 90two dá outra sensação. Funciona como um prolongamento da mão, as balas são cuspidas pelos dedos. Já a Glock é mais bruta, mais aguer­rida e, apesar de provocar o mesmo estraw, dá coices a cada tiro, o que, a um profissional perfeccionista con.{o ele, revolta sobremaneira. Assim, optou pela menos temperamental Beretta, porém, entenda-se que as armas não têm consciência, tudo resulta do humano que a empunha, disso não há dúvida, servirá o seu dono cegamente.

A vibração do telemóvel colado ao corpo não se confunde com a do automóvel a trilhar o piso irregular. Retira do bolso do casaco um auricular sem fios que coloca no ouvido e pressiona um botão para autorizar a chamada. Não troca qualquer palavra inicial, ape­nas ouve a demanda.

— Estou a caminho — informa em francês. Escuta o que quer que esteja a ser dito do outro lado com notável concentração. Ninguém o poderá acusar de não ouvir atentamente. Franze o cenho ligeiramen­te. — Isso não é bom.

As luzes da cidade vão iluminando o banco traseiro à medida que o carro penetra na cidade. Vêm e vão, ficam para trás, imóveis, dei­xando o veículo seguir o seu rumo pelo interior da metrópole orde­nada, invadindo a cabine, mas logo desapossando de livre vontade o espaço da sua presença, para logo outra fazer o mesmo, num jogo interminável de fiapos de luz amarela que usurpam a privacidade do homem que permanece à escuta, falando, quase soletrando, na lín­gua gálica as suas considerações sobre o tema em debate.

— Vou tratar disso. Tudo seguirá conforme o plano. Tenho gente no local, estou certo de que agirão em conformidade. — E desliga.

Digita uns quantos algarismos no aparelho telefónico. Dois toques depois, alguém atende.

— Onde estás? — pergunta em tom sério. — Perfeito. Vou já ter contigo. Não saias daí.

Desliga o telemóvel e esboça um sorriso ténue. As coisas estão a correr bem, afinal. A equipa é boa. Pressiona o botão que permite comunicar com o condutor do táxi.

— Mudança de planos. Leve-me para o Chelsea and Westminster Hospital.

 

É certo que o rosto de Abu Rashid já viu melhores dias. Os lábios cortados, um olho inchado, umas quantas contusões internas e externas, na zona do tronco, essencialmente, imperceptíveis devido à túnica branca que as esconde. Apesar de tudo, não se verga à dor e permanece com a mesma expressão serena de quem conhece uma verdade maior e, por isso, apoia-se nela com todas as forças.

O estrangeiro fez um intervalo e está sentado mais atrás, num dos luxuosos bancos de pele creme do jacto privado que sobrevoa o território búlgaro. O plano previa o regresso num voo comercial que sairia de Ben Gurion e faria escala em Frankfurt, antes do destino final, Roma. Porém, as confirmadas palavras de Abu Rashid inco­modaram tanto o superior, que mandou de imediato preparar um jacto e alterou a rota. Saíram de Kefar Gallim, para não levantarem muitas suspeitas, e Abu Rashid mostrou-se sempre cooperante. Talvez, por isso, tenha o rosto neste estado que podemos testemu­nhar. O sangue que brotava do lábio secou, mas o inchaço no olho esquerdo parece estar a aumentar a cada segundo. Tudo porque não altera as palavras que, alegadamente, ouviu da boca de Nossa Senhora, em visão, o que, sendo ele muçulmano, agrava muito a sua condição. Não há menção na história religiosa ou outra, averbada ou verbalizada, de um santo católico ter alguma vez aparecido a um crente de outra religião, seja ela qual for, e, para susceptibilizar um pouco mais, essa visão ser protagonizada pela Mãe de Cristo, em pessoa, a Virgem Maria, Nossa Senhora. E se esse facto, indesculpá­vel, pode deixar qualquer prelado com os nervos à flor da pele, capaz de arrolar um conjunto de imberbes pensamentos e provocar um incidente inter-religioso de dimensões graves, a coisa ainda se aprofunda quando as palavras proferidas pela boca da Virgem e transmitidas ao inundo pelo árabe podem provocar mossa em todo o orbe católico.

O estrangeiro remói os vários pressupostos, enquanto olha pela pequena janela. Não se vê nada, pois está escuro como o pez, a noite instalou-se e vai permanecer durante toda a duração da viagem. Já não falta muito. Deus é testemunha de que ele não queria magoar o velho, contudo, se aquela boca se abre publicamente, todos sofrerão. Ele tem de ser silenciado, desacreditado, o que até nem é difícil, um muçulmano que vê Maria uma piada, só pode ser, motivo de riso em todo o mundo católico e muçulmano. O problema está no que ele diz. Se alguém, mais inteligente, for aprofundar os seus dizeres, pode chegar, facilmente, à verdade. E isso não pode acontecer, de forma alguma. Tem de dar um jeito no homem. Mesmo que ele, verdadei­ramente, veja Maria. Ela terá de compreender. Existem os católicos e os outros, eles e nós, não há misturas, nunca houve. No dia em que tal acontecer, acabam-se as religiões. Isto é grave, muito grave.

Ele volta a levantar-se e dirige-se ao assento de Abu Rashid, que repousa com os olhos fechados e um pequeno sorriso.

Sei perfeitamente — afirma o velho sem abrir os olhos.

Sabe o quê?

Sei para onde vamos. É o que ia perguntar.

O estrangeiro senta-se no banco ao lado e suspira. Olha para a pasta preta que permanece algemada ao banco. Para além de Abu Rashid, outra das responsabilidades é aquela mala preta. Estas pre­monições tiram-no do sério. Deve ser qualquer evolução cerebral que permite antever as disposições das outras pessoas. Em momen­to algum pode pensar que é mesmo a Virgem quem o ajuda. Perderia toda a força e controlo se se deixasse apoderar por essa sensação. E seria uma maneira de Ela dizer que não pode contar com ele nem com nenhum cristão. Ou que são mesmo todos iguais. Merda. Merda. Merda.

Pode não parecer, mas estou aqui para o ajudar — alega o estrangeiro. — Se colaborar, será bom para si e para nós.

Não tenho feito mais nada senão colaborar — declara Abu Rashid, ainda com os olhos fechados.

Preciso de mais da sua parte, Abu Rashid — observa. — Dê­-me o que preciso para interceder perante o meu superior e deixo-o seguir em liberdade.

Um sorriso distende os lábios do muçulmano.

— O que você quer é que eu minta.

Quero que colabore — insiste o estrangeiro.

Estou a colaborar — atesta Abu Rashid, como conclusão. — Não tenho culpa que tenha escolhido o lado errado. Mas está no seu direito. Há sempre dois lados.

Está a dizer que defende aqueles que querem prejudicar a Igreja?

Sou muçulmano, não podia estar menos interessado na sua Igreja. — Abre bem os olhos. — Estou do lado Dela.

Eu também — alega o estrangeiro.

Você está do lado da Igreja.

A Igreja que a representa. Que lhe deu a imagem. Fez Dela o que Ela é.

Precisamente — profere Abu Rashid, desviando o olhar para a janela com uma expressão entristecida.

O que sabe exactamente acerca do local para onde vamos?

Sei tudo o que há para saber — atém-se o velho muçulmano, coçando a barba.

Importa-se de ser mais explícito?

Sabe o que aconteceu ao trigésimo terceiro dia após a morte do seu papa anterior?

Não sei — suspira. — Mas segundo os contactos com os meus superiores hierárquicos, penso que o senhor também não deveria saber. — Talvez fosse melhor para mim não saber nada — confessa Abu Rashid.

Quer dizer que chegamos a um acordo? Pode esquecer tudo o que julga saber?

Meu caro, você é político e trabalha para políticos. Não se pode confiar em vocês. São capazes de vender a própria Mãe do Céu.

Sem acordo com que convencer o tão mencionado superior a poupar Abu Rashid, o estrangeiro levantou-se e arregaçou as man­gas. Afinal de contas, ainda faltam algumas horas de voo.

 

                   LÚCIA, 31 DE Agosto DE 1941

Há uma certa urgência na escrita. As palavras surgem apressadas, lar­gadas pela tinta da caneta que escorre de forma precisa e escorreita, sem manchas inadequadas. Porém, não são caracteres debitados com gosto, floreados na elaboração ou adornados pela execução. É um trabalho, um dever, uma obrigação. Uma cópia de algo já escrito por outrem. Perde o brilho da nossa própria criatividade. São folhas de papel brancas, sem linhas, umas já garatujadas, outras por garatujar. As preenchidas pelas palavras da língua mãe lusa estão separadas em dois montes, colocados do seu lado esquerdo. Desconhece-se a razão dessa divisão, de qualquer forma há unia curiosidade intrínseca que chama a atenção dos mais atentos, se os houvesse. O monte de folhas à direita apresenta uma letra pulcra, inocente, sem rasuras, nascida de um punho puro, talvez ingé­nuo, jovem. O outro é igual a esta folha que agora se escreve, pressiona­do, cativo da obrigação informe, como se soubesse que não devia trans­crever aquelas palavras, pois não nasceram de si. Um e outro, falamos dos montes de folhas empilhadas, foram escritos pelo mesmo punho, contudo, a diferença é pungente entre um e outro.

Porquê?

É a mesma mulher quem os escreve, sentada numa cadeira del madeira escura, debruçada sobre uma mesa pequena do mesmo tom, à luz de uma vela, a cabeça a vigiar a folha de papel a poucos centímetros, por não a ver com nitidez. Mas não é essa a razão que marca a diferença de letra. Unia folha, do seu lado direito, marca o molde do que se quer escrito pelo seu punho.

O emissário, de batina negra, entra na acanhada cela, silencioso, dá passos surdos até junto da mulher e pousa mais um molho de folhas do lado direito.

São só mais estas, filha — diz com voz sumida para não per turbar.

Pode deixar. — A jovem pára de escrever e olha para o homem, apoquentada. — Tem a certeza disto? Não me parece bem... O emissário sorri e senta-se a seu lado.

Não te preocupes, Lúcia. Estás a fazer o correcto, sob orientação de Deus, por intermédio de Sua Eminência, Dom Alves Correia da Silva.

Mas não entendo este secretismo. A Senhora...

Tem calma — interrompe o emissário. — Os fiéis necessitam de ser moldados. Temos de ter muito cuidado como passamos as informações para não cairmos no ridículo e chegarmos ao maior número de pessoas.

— Não estou a ver. Falam de segredos. A Senhora nunca falou em segredos.

Vou explicar-te novamente. O papa decidiu dividir as revela­ções em três segredos. A visão do Inferno, o primeiro, o final da Primeira Guerra e a previsão da Segunda se continuarem a ofender a Deus e a Rússia não se converter, o segundo, e aquele que ainda não conseguimos interpretar será o terceiro e o único que permane­cerá secreto. Quanto a esse, peço-te que não o escrevas para já.

Compreendo. Mas a Senhora nunca me mostrou nenhuma visão do Inferno, nem falou da Segunda Guerra Mundial em que vivemos, nem da reconversão da Rússia, nem...

Como te disse, é preciso moldar os fiéis. Confia no Santo Padre. Ele sabe o que faz.

Eu confio — declara Lúcia.

O emissário ajeita-se na sua cadeira.

A Senhora tem-te aparecido? — pergunta timidamente.

Todos os meses.

Não te esqueças de apontar tudo o que Ela diz. Pode ser importante — recomenda o homem.

Tudo o que a Senhora diz é importante — resmunga Lúcia.

Claro... Foi isso que quis dizer — desculpa-se o homem. — Mas a forma como se transmite a mensagem ao mundo deve obe­decer às ordens do papa. Só ele sabe como lidar com os fiéis.

Lúcia anui com um gesto.

Seguirei as instruções do Santo Padre e do bispo. Mas, por favor, diga-lhes que aquilo... — reflecte, — ...a que chamam a ter­ceira parte do segredo deve ser revelado o mais tardar até 1960.

Participarei ao bispo — prossegue o emissário. — Tudo o que a Senhora transmitir deve ser passado para o papel e enviado por mim para o bispo de Leiria, que decidirá como proceder.

Lúcia escuta com atenção. Não percebe nada das leis que orien­tam a Igreja. As coisas deviam ser mais simples. Quando a Senhora lhe aparece, envolta numa aura de paz e alegria, a simplicidade reina, não pede segredo. A verdade é que também não pede a orientação da Igreja, isso aconteceu por moto próprio, já que é natural que o clero cuide do que tem que ver consigo. Todavia, nunca pensou que o con­trolo fosse tão intensivo, resguardando-a da vida pública, alegando que precisa de protecção, instruindo-a sobre o que irão dizer em nome dela e da Virgem. Não tem nada contra isso, nem censura, louva até a atenção com que é brindada pela Igreja. Tratam-na como um cristal frágil que pode partir ao toque mais singelo. Há dias, porém, em que não consegue evitar sentir-se presa, asfixiada. É o destino que Deus lhe reservou e não será alcançado sem sacrifício.

A única coisa que a perturba não é o controlo que o Santo Padre e o bispo exercem sobre todas as visões, mas as inclusões fictícias que se atribuem à Senhora e que Ela nunca menciona nas suas aparições. A explicação do emissário é satisfatória, eles sabem melhor do que ninguém difundir a mensagem da Senhora.

— Não esqueças, jamais deves falar disto com quem quer que seja. Voltarás para Portugal em breve e ingressarás nas irmãs car­melitas. É esta a vontade de Deus e da Senhora.    

O voto de silêncio que prometeu perante o emissário será por si cumprido até ao final dos seus dias. Entretanto, vai escrever o que lhe pedem, na certeza de que, em breve, a Senhora aparecerá, nova­mente, e poderá então passar ao papel /s felizes palavras que Ela proferir. Esses são os momentos mais felizes da sua vida.

 

A viagem ondeante no pequeno ferry torna-se um alívio acresci­do para James Phelps. Três horas e meia de viagem viária deixaram­-lhe as nádegas dormentes e, apesar de estarem a navegar no canal há cerca de um quarto de hora, ainda sente um desconforto no fundo das costas.

A brisa está um pouco fria, mas não se importa. O céu está limpo e estrelado, o que o espanta, pois não vivemos numa época em que os homens olhem as estrelas no céu, a não ser que sejam astrónomos amadores ou profissionais. Sente-se embebido pela força do Universo durante algum tempo. Rafael conversa com o capitão do barco no interior da minúscula ponte de comando. Ao fundo, avis­ta as luzes que ponteiam a costa, Dover, o início do império inglês. Tem todos os ingredientes para se sentir em paz com o seu Deus, mas está desassossegado. Rafael é um homem cheio de mistérios e não confia nele, isso é óbvio, senão ter-lhe-ia contado dos corpos que transportam na carrinha. Pelo menos esses dormem o sono dos justos para a eternidade.

Não voltaram a trocar palavras desde o posto de abastecimento perto de Antuérpia, mas James Phelps desenrolou o seu próprio enredo, centenas de conjecturas e especulações, a fim de tentar, pelo menos, perceber uma ínfima parte do quebra-cabeças. Contudo, só conseguiu sentir o rabo a adormecer mais e mais a cada quilómetro percorrido. Entraram em França e percorreram todo o litoral norte a grande velocidade até Calais, onde este ferry os aguardava. Tudo muito bem combinado e James Phelps, como sempre, um especta­dor envolvido na trama, mas completamente por fora do esquema.

— Basta — ouve-se a si próprio dizer para o vazio.

Leva a mão decidida ao bolso interior do casaco e retira um tele­móvel. Também ele tem direito a aquiescer às novas tecnologias, ainda que não seja um corrompido. Pode trazer vantagem quando usada com moderação e tino, como tudo. Não digita números de memória, que essa não se pode cansar, pois se se perde pode nunca mais se encontrar, antes percorre a lista telefónica à procura do nome a quem tem em mente ligar. Assim que o encontra carrega no botão verde, aquele que autoriza o chamamento. Lança um olhar para cima, para a ponte de comando onde Rafael ontinua entretido numa con­versa amena com o capitão do ferry, que aparenta ser seu conhecido.

— Estou completamente por fora do que se está a passar — diz de .: rompante para o bocal do telemóvel assim que alguém atende. — Não sei de nada. Ordenaram-me que o acompanhasse, mas ele não abre a boca sobre nada. Assim é difícil. Se ele não fala, penso que o Monsenhor tem o dever de me informar e alertar. — Dá oportuni­dade ao tal monsenhor de acatar a sugestão, pode parecer mais do que isso no tom de voz decidido de James Phelps, será da mente satu­rada, mas jamais lhe passaria pela cabeça dar ordens a quem quer que seja, quanto mais a um monsenhor. — Sim, claro. Peço desculpa, mas tenho andado às cegas desde que saímos de Roma. — Pausa. — Não era a minha intenção — desculpa-se, submisso. — Peço descul­pa, mas entenda, trazemos corpos connosco. Não é normal, tem de convir. Não estou habituado a... — É interrompido do outro lado da linha, percebe-se devido à súbita pausa e pela expressão de atenção auditiva. — Ouviu bem, monsenhor. Corpos. Segundo sei, são de um casal de ingleses. — Nova pausa. Decerto acicatou a curiosidade do prelado. — No Canal da Mancha a caminho de Dover.

Sente uma pressão indolor nas costas da mão, que a faz abrir, como que telecomandada, e largar o telemóvel sobre outra mão que o acolhe, a de Rafael. James Phelps não o ouviu aproximar-se.

Corno se atreve? — grita Phelps ruborizado. Já não aguenta mais este homem. Não tem o menor respeito pelas pessoas nem pela idade, que é um posto, bem certo.

Acto contínuo, Rafael atira o aparelho para bem longe, num arco que se perde na escuridão da noite e cai nas águas do canal, provo­cando um chapinhar inaudível que se confunde com a água rasgada pela proa do ferry.

O senhor é doido? Como se atreve? — Phelps está possesso, olhando a água onde a voz do monsenhor se afogou. — Não posso acreditar no que fez.

Rafael fita-o com aquela expressão indiferente característica do seu modo. Não tuge nem muge, desafectado pela ira dantesca do parceiro.

Eu... eu... eu... — insiste James Phelps na sua litania embas­bacada. O seu estado habitualmente sereno tem maior ascendente sobre ele. Nota-se, pois o repertório de impropérios que qualquer um na mesma situação lançaria sobre Rafael esgota-se em pouco tempo, nem dando tempo à língua de aquecer. O rubor de fúria é que ainda daria para ver, se as condições de iluminação fossem favoráveis, já que mesmo um cavalheiro como James Phelps tem direito a exaltar-se perante um vitupério destes. Ora, era um telemóvel, o seu, e estava em plena conversação. Não pode haver maior afronta do que esta hoje.

Rafael põe uma mão sobre o ombro de Phelps e olha-o nos olhos com seriedade.

Dê a outra face — limita-se a dizer em surdina. — Dê a outra face. — E deixando estas palavras no ar, retira-se para a ponte de comando para continuar a conversa com o capitão.Precisamente catorze minutos depois, Rafael senta-se, novamente, ao volante da Mercedes e James Phelps, silencioso, no lugar do pendura, prontos para prosseguirem para o destino desconhecido, pelo menos de todos os James Phelps que habitam este mundo. Phelps quem consulta o relógio que Rafael ainda não se lembrou de atirar borda fora, neste caso, janela fora. Ainda marca a hora romana, mais uma que na velha Albion, contas fáceis de fazer: são, neste momento, três horas e três minutos da madrugada. A noite vai a meio, assim como a fúria. Se continuar nesta mecha, vai perder respeito pelo seu ofício, desonrar o Deus Pai Todo-Poderoso e acer tar uns sopapos nas fuças deste Rafael... ou talvez seja melhor nã embarcar por esse caminho. Benze-se sub-repticiamente a afastar mau íntimo. É incrível o que este homem consegue despertar em si. A estrada aparece-lhes deserta, ponteada pelos postes de iluminação nas margens. Só o barulho do motor da carrinha perturba a harmo- nia nocturna.

Quando é que vai deixar de me tratar como uma muleta? — pergunta por fim, em tom cordato, para tentar obter alguma informação a bem, embora esteja ciente de que isso pouco vale para o homem que conduz a Mercedes.

Não o trato como uma muleta responde Rafael sem tirar os olhos da estrada.

Não? — Por momentos perde as estribeiras, o que faz que esta negativa lhe saia com mais força do que pretendia. Consegue apelar à calma para que reúna as hostes e se reapodere do corpo e do espí- rito. — Não sei para onde vamos nem de quem são os corpos que transportamos ou o que vai fazer com eles. É sacrilégio, devia saber, profanar corpos desta forma. Merecem o descanso eterno. — Enumera com os dedos da mão, lembrando-se de não altear a voz. Como é que Rafael consegue manter aquela aparência neutra? É isso que também lhe passa pela cabeça e atenta contra a sua serenidade. É irritante. — Teve o desplante de atirar o meu telemóvel ao canal. — Aqui a voz começa a alterar-se. A simples rememoração deixa-o encolerizado. — Não conseguirei aguentar mais tempo, esta situação — desabafa. — Sinto-me perdido, não sei o que ando aqui a fazer... quero ajudar, não me interprete mal, mas não sei como. — Suspira.

Se quer saber a verdade, sinto-me cativo. Estou sob a sua custó- dia sem saber porquê, nem que pena aguardo.

Uma travagem súbita espanta as ideias de James Phelps e deixa- -o a palpitar de ansiedade. A carrinha estaca completamente.

— O que foi? — perquire Phelps com os instintos despertos, olhan- do para todos os lados.

Rafael permanece imperturbado e sereno.

— O que se passa? — quer saber James Phelps, que não consegue avistar nada de anormal.

Estou à espera — declara Rafael.

À espera de quê?

Que saia da carrinha.

James Phelps fita Rafael atónito.

Quer que saia da carrinha?

Não. O senhor é que se sente preso. Estou a mostrar-lhe que pode ir-se embora quando bem entender.

Os dois homens miram-se em silêncio durante uns instantes. Rafael não é homem capaz de deixar assuntos por resolver, já quan­to às dúvidas, prefere esclarecer algumas e deixar outras a maturar. A mensagem que quer que James Phelps capte é a de que a missão em que estão envolvidos far-se-á com ou sem ele.

- Siga — decide-se o outro.

É de sua livre e espontânea vontade? — pressiona Rafael, assim certifica-se de que o assunto fica arruinado.

Siga — repete Phelps.

A Mercedes arranca decidida em direcção a Londres. A tensão que se sobrepunha na cabine desapareceu.

Saberá por que razão veio comigo na altura devida. Só aí o informarei do que lhe compete fazer. Quanto ao resto, é melhor per­manecer na ignorância, para sua própria segurança.

Porquê tudo isto? Tanto secretismo?

— Não me cabe a mim explicar-lhe os meandros e móbiles da Operação.

Mas a que se deve tudo isto? Andamos atrás de quê ou de quem?

Rafael deixa a pergunta de James Phelps flutuar. Uma pausa suspen­siva, catalisante da curiosidade, própria dos mestres manipuladores.

Um toque telefónico inibe a aclaração. Só pode ser o telemóvel de Rafael, pois o de James Phelps jaz, afogado, no fundo do canal até à decomposição derradeira. Rafael olha para o mostrador e, pela primeira vez, Phelps vê-o hesitar. Quem quer que seja teve algum efeito nele.

Estou — acaba por atender.

Passam sessenta e um segundos em que não pronuncia qualquer palavra, mas o tom indiferente abandona-o. O cenho franzido é'. denunciador de tensão moderada. Afinal, ele é humano, tensa James Phelps.

Não tem mais informações? — pergunta para o telemóvel. Escuta a resposta. — Conheço quem nos pode ajudar. Vou tratar disso... se ainda for a tempo. — E desliga o aparelho. As conversas telefónicas entre gente desta são sempre muito secas.

Alguma coisa perturbou Rafael, pois os seus modosindiferentes como que se esvaeceram. A sua mente é um motor a ti abalhar em rotação elevada. Até James Phelps consegue perceber isso.

Não me chegou a responder — interrompe Phelps assim que . considera ter dado o tempo suficiente. — Andamos atrás de quem?

De João Paulo II — responde Rafael, secamente.

O quê? — James Phelps mal acredita no nome que ouviu.

 

Esta cidade-dormitório nos arredores de Washington, D. C., tem, no seu seio, a capacidade de influir nos acontecimentos do mundo. É como um órgão vital da sociedade que, se funcionar mal, pode provocar graves disfunções. Falamos de Langley, no estado norte­-americano da Virgínia, onde está instalado o quartel-general da Central Intelligence Agency. Aqui são colhidas as informações que chegam de todo o mundo e apresentadas ao poder político de Washington, aqui ao lado, quando se justifica.

Inventados ou fidedignos, ficcionados ou realistas, a verdade é que os relatórios confidenciais que daqui saem têm o poder de fomentar guerras onde elas ainda não existem, suprimir qualquer política, natural ou em solo estrangeiro, que não siga os caminhos exigidos pelas estatísticas conciliatórias ou mesmo modificar a roti­na de milhares e milhares de pessoas num determinado ponto do globo, apenas porque se calcula, segundo estudos previsionais, que isso poderá beneficiar a economia americana ou debelar uma hipo­tética ameaça externa. Ilustra-se, desta forma subliminar, o poderio da Agência, da Companhia, sita neste enorme edifício onde traba­lhan-i dezenas de milhares de pessoas.

Porém, os sessenta anos da Companhia reflectem a entrada na terceira idade. Outras instituições, nomeadamente a NSA, sigla de National Security Agency, durante muitos anos apelidada de No Such Agency, tal era o estatuto de secretismo de que usufruía, usam tecnologia de ponta que chega sempre mais longe e rapidamente do que a força humana em que a CIA se apoia, contribuem para o declí­nio e algum descrédito a que estão afeitos. Além disso, as máquinas são sempre muito mais confiáveis. O tempo dos espiões mudou de repente e sem aviso.

O turno da noite acaba de entrar ao serviço e isso, 4rita o secre­tário do co-director, pois significa horas extraordinárias, o sacrifício do tempo familiar, novamente, a terceira vez esta semana. Contudo, para Harvey Littel, a pátria está acima de tudo, talvez esse factor explique a elevada taxa de divórcios entre os que trabalham neste ramo, ainda que não seja o caso dele.

Fez muitos quilómetros por estes corredores onde o vemos, desde que picou o ponto, às sete da manhã, ainda o Sol não havia nascido e, agora, volta a percorrê-los em direcção ao elevador da ala este. Os trinta minutos de jogging que pratica todas as manhãs, antes de entrar no edifício sede, proporcionam-lhe uma forma invejável, que permite, aos cinquenta e três anos, aguentar a pressão diária a que é submetido por ser secretário do co-director.

As funções de Harvey Littel podem ser explicadas de forma assaz simplificada, categorizando-o como o homem que faz a papa toda ao co-director para que este a apresente ao director como um traba­lho da sua autoria, ou seja, se Harvey Littel, por algum acaso, fizer merda, todos levarão com ela no seguimento, mas só uma cabeça rolará... a dele.

Olha de relance as janelas que espelham a escuridão da noite, certificando-se de que mais um dia passou sem que pudesse usu­fruir do sol. As cinco da tarde informou a mulher, Lindy, de que não contasse com ele para jantar.

— Harvey, é a terceira vez esta semana — admoestou esta assim que atendeu, ofegante. Harvey nem precisou de dizer a razão da ligação. — Vê lá se o teu chefe te começa a dispensar. É o que dá ter um marido que vende mais do que os outros — continuou a resmungar, mais con­sigo própria do que com ele numa cadência acelerada. É uma senhora sozinha, desde que os filhos seguiram o seu rumo. O marido é demasiado ocupado com o trabalho na firma de computadores onde é chefe do departamento de vendas. Um beijo de cada lado termina com o tea­tro. A Lindy nem se lhe afigura que o marido pensa que anda a salvar o mundo todos os dias, defendendo o interesse nacional. Harvey nem imagina que o protesto pela sua falta de comparência à mesa de jantar foi feito em cima da cama — da sua cama — de casal onde ela monta­va o amante das cinco da tarde, o Stephen Baldwin, que, por acaso, até se parece com o famoso e que, por mais um acaso, também trabalha na Agência, no economato. Falamos do Stephen Baldwin desconheci­do que vai a casa de Harvey Littel às cinco da tarde das segundas, quar­tas e sextas-feiras, bem entendido que ignora que o marido de Lindy seja secretário do co-director da CIA. É o que dá não olharmos para o nosso próprio umbigo.

Uma vez entrado na cabine do elevador, Littel passa o seu cartão de funcionário com licença de nível dois e digita um código que lhe foi atribuído. O elevador interpreta a ordem e inicia a descida para o piso menos dois, bem enterrado no solo, onde o aguardam. Estas licenças vão do grau mais inferior, o seis, ao um e servem para controlar a segu­rança e a informação a que cada indivíduo pode ter acesso no interior do edifício e noutras dependências espalhadas pelo território. A cúpu­la directiva consegue, desta forma, monitorizar ao pormenor o traba­lho que cada indivíduo presta à Agência. Assim, se viesse a ser forçoso por alguma contingência duvidosa, seria possível consultar os dados e saber que Harvey Littel desceu no elevador número doze ao piso menos dois, às vinte e três horas e quarenta e cinco minutos e doze segundos do dia actual, pois todos os movimentos são controlados. Os cartões atribuídos aos funcionários não barram, como se demonstra, o acesso somente à informação informática, mas, também, a entrada em todas as divisões em que a licença atribuída não o permita. Se um qual­quer distraído tentar entrar onde não deve, verá a porta permanecer trancada ou o elevador imóvel e será prontamente chamado aos servi­ços de segurança interna para se justificar.

Mas isto são as regras da casa, pouco importam ao comum mor­tal, servem apenas para entreter enquanto o elevador desce Harvey Littel ao piso pedido.

 

Uma travagem suave antecede a voz masculina que informal sobre o explícito, Doors opening. Harvey sai para o corredor escuro, polvilhado com sensores de presença invisíveis que vão acendendo as luzes fluorescentes à medida que ele avança em passo firme e enérgico. No poupar é que está o ganho.

Após virar uma vez à esquerda e duas à direita, desemboca num outro corredor, mais estreito, com uma luz azulada e uma porta ao fundo a barrar a progressão. Harvey passa, novamente, o cartão no leitor pregado na parede e introduz o código habitual. O efeito é sentido de imediato pelo destrancar e abertura automática da porta, deixando a via aberta ao passante. Uma vez do outro lado, a porta fecha-se atrás de Harvey Littel, separando um mundo do outro.

A luz cria uma atmosfera infausta, como que a transportar os transeuntes para outra dimensão. Várias portas se perfilam de ambos os lados, todas fechadas. A que importa a Harvey Littel é a terceira do lado direito. Passa o cartão no leitor. É, decerto, um dos movi-mentos que mais executa ao longo do dia, perscrutando o acesso aos locais onde se dirige. A porta abre-se mal ele digita o código e, assim que inspira fundo, entra. Lá dentro, sete pessoas o aguardam.

— Boa noite, meus senhores — cumprimenta com modos severos, compenetrado no seu papel profissional.

Quase todos se levantam ao redor da comprida mesa rectangular que os componentes mal enchem. Só o velho coronel Stuart Garrison não o faz, contudo, não se atribua tal atitude à sua arro-gância nata que o torna um sujeito insuportável. A cadeira de rodas em que se senta é argumento mais do que suficiente para explicar que se quede sentado quando todos os outros se levantam. São as marcas da guerra que ficam para a vida, obtidas, como não se cansa' de contar, em Março de 2003, nos arredores de Nassíria, durante a segunda Guerra do Golfo, quando as forças aliadas marchavam a toda a velocidade no interior do território iraquiano, a caminho de Bagdade. Um rocket lançado por um fulano classificado como xiita sobre o Humvee em que seguia com uma equipa de cinco militares tirou-lhe toda a capacidade de locomoção da cintura para baixo, o que afecta outrossim a sua aptidão sexual, ainda que nada disso influa no seu carácter forte. Tal acto terrorista de que foi vítima valeu ao coronel Stuart Garrison a medalha de bravura devido aos feitos heróicos que empreendeu no seguimento da explosão. De uma forma floreada, o relatório narra que Stuart Garrison, preso no que restou da estrutura do contorcido Humvee, conseguiu debelar a ameaça que se preparava para aplicar o golpe de misericórdia com outro projéctil. Um tiro certeiro na cabeça do vilão salvou a vida aos seis ocupantes do veículo, sendo que um não resistiu aos ferimentos e faleceu a caminho do hospital de campanha, ao fim de três horas de espera pela equipa de resgate. O que o relatório não mencionou foi que o tiro fora dado a um púbere com menos de quinze anos que reagiu de forma vingativa depois de os aliados terem aniquilado toda a sua família inocente. São as baixas de guerra, implacáveis para ambos os lados. Uma vez afastado do terreno pela impondera­bilidade da guerra, Stuart Garrison foi convidado a ingressar na Agência, devido aos seus contactos privilegiados com o Médio Oriente, o que o torna o homem da CIA mais estuporado, arrogan­te, insuportável e deficiente. Palavras mudas de quem o conhece.

Explicadas as minudências de uns se levantarem e outro não, passamos a apresentar o resto do grupo por ordem hierárquica. Sentam-se três de cada lado, numa das extremidades do rectângulo, deixando o topo para o recém-entrado secretário do co-director, Harvey Littel, cuja posição superior lho permite ocupar. Se o co- director ou o director cá estivessem, em pessoa, teriam essa mesma primazia. Do lado direito, do ponto de vista do secretário, temos o já mencionado coronel Stuart Garrison, responsável pelas comuni­cações do Médio Oriente e Rússia, seguido de Wally Johnson, tenen­te-coronel, oficial de ligação com o exército dos Estados Unidos da América, jovem, intrépido e orgulhoso, na casa dos 40 anos, ainda na puberdade no que toca aos meandros militares. Na frente deles, a dois metros, correspondente à largura da mesa, Sebastian Ford, adido diplomático, o político de profissão, aquele que parece sempre dizer muito mal, mas quando se tenta tirar o sumo das suas pala­vras, não resta nada. O demagogo-mor que liga este departamento ao presidente, sempre preparado para sacrificar quem quer que seja

em prol da carreira... ah, e da segurança nacional, como é óbvio. Os outros não importa nomear, uma vez que pouco interesse apresen­tam para o desenrolar da história, são as crueldades da relevância, que afectam sempre os anónimos. Já esquecíamos a mulher que não se senta na mesa, mas numa cadeira junto à parede atrás de Harvey Littel, com um bloco de apontamentos pronto a ser freneticamente rabiscado. Chama-se Priscilla Thomason e é a assistente de Harvey, pois até ele é filho de Deus e tem direito a algumas benesses.

Já fizeram a ligação? — pergunta Littel a ninguém em particular.

Já — alguém responde.

Muito bem. Barnes? — chama para o aparelho telefónico que se encontra à sua frente. Não há resposta.

Barnes? — volta a chamar...

A mesma resposta.

Littel levanta o auscultador do aparelho e leva-o ao ouvido. Pousa-o em seguida.

Caiu a ligação. Voltem a ligar — ordena.

Espanta-se quando não vê ninguém mexer-se.

Estão à espera que seja eu a ligar? — começa a irritar-se com tanta falta de dinamismo e pega, novamente, no auscultador.

Dr. Littel — chama Priscilla, atrás de si, levantando-se. Ao menos haja alguém activo. — A ligação já foi feita, mas... — Baixa o olhar.

Mas? — ajuda Littel em tom incitador.

Ele desligou — completa Stuart Garrison.

Desligou? — A expressão com que lança o vocábulo denota estranheza. Pensa durante dois segundos. — E já tentaram refazer a ligação?

— Várias vezes — informa a secretária, de pé, ao seu lado. — Não atende.

Littel compreende agora os ares sisudos com que se deparou à entrada. Quando esbarram num entrave, cabe a ele contorná-lo, deste modo, arcará com as consequências e responsabilidades para o bem e para o mal. A mente ferve com conjecturas e apelações. Barnes desligou o telefone directo e seguro que liga Londres a Langley. Isso é uma quebra grave do protocolo, com direito a processo disciplinar e possível despedimento, quando não justificado convincentemente. Barnes pode ser um rezingão, nunca nada está bem para ele, mas daí a manchar a sua folha de serviço por iniciativa própria vai urna gran­de distância. É um activo valioso, inteligente, um verdadeiro mouro de trabalho que carrega com um continente inteiro e os arredores de mais dois. Não pode ser. Algo deve ter acontecido para Barnes ter desligado. Algo grave. A não ser que...

Já alguém ligou para o centro de operações? — Adopta uma pose de liderança. Há esperança.

Não — responde Stuart.

Não nos passou pela cabeça. A conduta de Geoffrey Barnes é muito grave — argumenta Sebastian Ford. — Terei de informar o presidente disso. — A sua boca parece que mal se abre para pro­nunciar estas locuções. O cabelo empastado de gel, caneta na mão, na vertical, costas direitas, nenhum gesto passa indiferente à cons­ciência, tão-pouco nenhuma palavra. É tudo estudado. O político na sua melhor forma.

Ele não poderá atender se o edifício lhe caiu em cima, por exemplo — argumenta Littel. — Liguem para o centro de operações.

Irrita-o a ameaça do adido diplomático. É um vendido, sem alma, autoproclama-se patriota quando nem sabe a história dos pais da nação. Se existe alguém por quem Littel poria as mãos no fogo, seria Barnes. Terá uma justificação plausível.., sem dúvida.

Priscilla puxa para si o telefone e digita quatro algarismos. Os bips irrompem pela sala no alta voz do aparelho, enquanto todos estão suspensos a olhar o aparelho com apreensão. Por fim, ouve-se um estalido estático que antecede o atendimento e uma voz nervo­sa, provavelmente devido à proveniência da chamada. Não é todos os dias que se recebe uma chamada da Toca.

Staughton — pronuncia, embora pareça ser mais urna per­gunta do que uma apresentação.

Boa noite, agente Staughton — cumprimenta Littel, afavel­mente. — Sou Harvey Littel, decerto já ouviu falar de mim...

Si... sim, senhor secretário — responde Staughton, pronta­mente. É audível o seu desconforto.

Vou directo ao assunto, agente Staughton. Preciso de falar, urgentemente, com o seu superior, Geoffrey Barnes. — Os seus modos são graves agora.

Ah, pois... não estou com ele, mas... — desculpa-se ataba­lhoadamente.

Faça-me um favor, procure-o.

Com certeza — acata Staughton. — Ligue-me daqui a cinco minutos... — Novamente, mais em jeito de pergunMo que afirmação.

Não, não, agente Staughton. Não me está a perceber. Quero que o procure agora. Agora, entendeu?

O silêncio prova que Jeronimo Staughton não esperava esta ordem. Se soubesse da extensa audiência de que é alvo, afundaria a cabeça na areia. Todos escutam, atentamente, a respiração ofegante de Staughton. Se não tivesse os tímpanos a latejar com os batimen­tos do seu próprio coração, talvez conseguisse ouvir os suspiros que são dados a milhares de quilómetros.

Agente Staughton, está a ouvir-me? — pressiona Littel. O tempo urge e ruge.

A resposta só chega dez segundos mais tarde, quando I.ittel ia refazer a pergunta.

O chefe está no gabinete.

Littel sente o alívio invadir-lhe o corpo como se estivesse a tomar um duche de água tépida. óptimo.

Perfeito, agente Staughton. Faça o favor de lhe passar o tele­móvel.

Ah... não vai ser possível — refuta Staughton.

— Como não? Faça o que lhe mando. — Ainda que tenha impri­mido um toque rude e seco à voz, Littel sabe por que razão Staughton não pode passar o telefone. Barnes tem outra prioridade.

Que petulância — resmoneia o coronel Garrison.

Littel levanta-se e ergue um braço como que a pedir silêncio na sala.

É que... É que... — gagueja Staughton.

É que o quê, homem? Desembuche.

Exceptuando Littel, a respiração fica suspensa na sala. Que raio esta­rá Barnes a fazer para que o funcionário receie passar-lhe o telefone?

É que ele está na linha directa com a Casa Branca.

A lividez toma conta dos presentes, menos Littel, que vê o seu raciocínio premiado. Fita Sebastian Ford, não deixando escapar o sorriso interior que o acomete. É sempre bom ver aqueles que não hesitam em pôr os seus homens em cheque a terem de recuar com o rabo entre as pernas e engolirem em seco a estupidez que lhes sai pela boca.

Perfeitamente, agente Staughton — cientifica Littel. — Transmita, por favor, ao seu superior que me ligue assim que termi­ne a chamada com a Casa Branca.

Okay, senhor secretário. — A voz de Staughton recupera a confiança. Se calhar, até se habituaria a receber estes telefonemas.

A chamada é cortada do lado americano, deixando no ar um silêncio pesado. Todos fixam pontos neutros e indistintos para olha­rem, sendo o preferido o tampo da mesa de mogno, o telefone vem logo em segundo lugar. Littel é o primeiro a agitar as águas, como teria de ser. O tempo de reflexão passou.

É óbvio que a situação escapou ao nosso controlo — afirma pesaroso.

De uma forma alarmante — completa Wally Johnson.

Sebastian — diz Littel —, prepare o gabinete de crise.

Para quando?

Estes políticos só sabem funcionar com prazos e horários.

Para há meia hora — responde Littel, curto e grosso. Ford sai com os dois assistentes que se sentavam ao seu lado.

Coronel — Littel vira-se para Garrison, desta vez —> quem temos na Rússia?

O Nestov e o Litvinenko.

Esse não morreu envenenado? — espanta-se Wally Johnson. O coronel e Littel lançam-lhe um olhar reprovador.

Há mais Litvinenkos no SVR — aclara o velho militar. — Trate de entrar em contacto com eles. Isto vai aquecer e preci­samos de estar preparados.

   O coronel recua a cadeira e depois é ajudado por um assistente contornar a mesa e a sair da sala. Restam Littel, Priscilla e Wally Johnson. Entreolham-se em silêncio e, em seguida, os dois homens irrompem numa gargalhada uníssona que deixa Priscilla atónita.

Arranja-nos dois cafés, por favor, Cil — pede Littel enxugan­do os olhos do riso. — Vai ser uma longa noite.

Priscilla sai da sala para cumprir o pedido/deixando os dois homens entregues a si próprios.

É Wally o primeiro a enfrentar o silêncio. — O que achas que o presidente quer do Barnes?

Uma receita de bacalhau com natas — responde Littel, sério, provocando nova gargalhada no militar que acaba por contagiá-lo.

Como é que o filho da puta do Keys foi morrer tão longe e numa casa de banho? — quer saber Wally Johnson.

Isso é o que temos de ver. A história do dano colateral não me convence.

Achas que alguém desconfia?

— Não — responde Littel com uma segurança indubitável. — Vai ser uma bomba.

 

Uma porta salvou Simon Lloyd da morte certa. Essa ironia vital é ignorada pelos autores destes passos que ecoam no corredor escuro, perturbando o silêncio que se instalou desde que a noite caiu. Esta é a ala de ortopedia do Chelsea and Westminster Hospital e os gemi­dos provocados pelos ferros espetados que atravessam carne e fixam ossos só não se fazem ouvir porque as portas, que se alinham dos dois lados do corredor, são reforçadas e estão fechadas. Por isso, os passos mais sonoros de Sarah e em menor percentagem ruidosa de John Fox, ao seu lado, não fazem qualquer diferença a quem está dei­tado nas camas que se perfilam no interior dos quartos, onde os pacientes tentam passar mais uma noite, suportando a dor, almejan­do melhores dias para breve, na manhã seguinte, se possível.

Sarah evita demonstrar a fraqueza que se apodera de si, será inconveniente, estando ao lado de um agente do SIS, ainda que John Fox se revele bastante amigável. Simon Templar preferiu aguardar no carro, daí a sua ausência, antes rezingar com o volante do que servir de dama de companhia da portuguesa, jornalista de profissão, ainda por cima.

Assim que o corpo de Grigori Nestov foi levado pelo médico-legista dos escombros da casa de Sarah, o agente John Fox tratou de dispensá-la. Foram muitos acontecimentos e agnições para um dia só. Tinham o seu contacto telefónico, se necessitassem de alguma coisa voltariam a contactá-la. Ciente de que as ordens que rece­bera de JC haviam sido muito explícitas, decidiu que iria para Waterloo International, a estação de comboios, apanhar o primeiro Eurostar para Paris. Uma vez lá, ligaria para g-pai. Lembrou-se, porém, de que devia uma visita a Simon Lloyd. É o mínimo que pode fazer pelo que ele suportou. Decidiu então que iria ao hospi­tal, bem perto de sua casa, antes de rumar a Waterloo. Pediu boleia a John Fox, que se ofereceu para a acompa4ar, como vemos. Era uma forma de auscultar o estado do tal Simon Lloyd para prestar declarações. Acompanhando Sarah, rapidamente ganharia a con­fiança dele e poderia combinar uma visita para o dia seguinte.

A expressão apreensiva de Sarah não lhe passa indiferente. Sim­patizou com ela mal a viu, não somente como mulher, mas também pela grande dose de mistério que encerra em si. Esta mulher sabe muito, embora ele não tenha bem a noção do quê nem como. Lê assiduamente os artigos que ela escreve no jornal que, por vezes, revelam ser grandes ajudas para os variados departamentos do SIS, bem como para as agências estrangeiras, sabe disso muito bem. É como se Sarah se limitasse a enviar mensagens para as várias fac­ções, Ocidente, Oriente, corno se ela os conhecesse a todos, as suas identidades secretas e verdadeiras. É uma peça valiosa a ter como aliada, por isso, John não compreende a atitude desconfiada e sus­peitosa de Simon Templar. Será por causa de ser urna mulher que detém informações que todos eles apreciariam ter? Pouco importa, ele, John Fox, está disposto a investir neste contacto, não a pressio­nando, mostrando-se cordato e amigo. Depois se verá. Há boas coi­sas que nascem primeiro da artificialidade.

Não se preocupe — tenta acalmá-la. — Ele deve estar bem.

Espero bem que sim — almeja Sarah com um sorriso tími­do. Mas não é nele que estou a pensar, confessa interiormente. A sua mente navega em marcha atrás, ao ano anterior, a relembrá­-lo. Estava ao seu lado, protegia-a, apesar da irritante mania de não contar nada ou, por outra, contar as coisas aos bochechos, numa lógica apenas por ele entendida. A falta que ele lhe faz nesta hora. Sente-se sozinha, desabrigada, se bem que, com todos os mortos e feridos que caíram sobre si, entes bastante chegados que prefere não recordar agora, para não fraquejar, mais a explosão em casa, o telefonema alarmante de JC, e apesar de tudo isso, não se sente verdadeiramente em perigo. Não como na noite de há um ano em que, por esta altura, já haviam invadido a sua casa e apon­tado uma arma à cabeça, pronta a disparar. Talvez os vilões de hoje, sejam eles quem forem, saibam que ela está acompanhada dos agentes do SIS. É óbvio que sim. A curta viagem até Waterloo International será tensa, pois não planeia apanhar a amável boleia de John Fox, novamente. Eles não podem saber das tenções de abandonar Londres.

— Qual é o número da cama? — Sarah esqueceu-se. É dos nervos.

— A vinte e cinco — comunica John Fox. — Já estamos quase lá.

Os passos vencem os metros que distam do quarto onde, segun­do foram informados no balcão da recepção, está internado o paciente do episódio de urgência número 259475, com o nome Simon Lloyd. Passam o 19, o 20. Inconscientemente, Sarah abran­da o andamento, numa atitude defensiva e de preparação para o que vai enfrentar.

Respira fundo...

Respira fundo...

Abranda ainda mais, deixando que John Fox se adiante alguns metros.

Permite-se cerrar os olhos durante alguns segundos. Porque é que está a acontecer tudo de novo? Ninguém devia ser obrigado a passar por isto duas vezes. Ninguém devia ser obrigado a passar por isto, ponto final. Simon Lloyd, mais uma vítima do poder dos homens que não olham a meios. Tudo por causa dela, do seu pai, do seu passado... do ano passado...

 

— Sente-se bem? — interpela John Fox, parado, à sua espera, três passos adiante.

Natalie e Greg. Mortos. Vencidos pela força gigante dos maquia­vélicos. Porquê? Não deseja que a sua mente vagueie por essas matérias obscuras, mas não consegue evitar. Tantas dúvidas, tantas questões, nenhuma resposta. Apercebe-se, finalmente, de como está em perigo a sua vida. Natalie e Greg. Mortos. Castigados por alguém que não tem o menor respeito pela existência dos outros. Nem temor algum a Deus. São os mais perigosos. Lembra apenas um motivo para que os tenham eliminado. Sim, ele existe. Praticamente inofensivo, mas real. Deve ter sid9 isso que os matou. Meu Deus, capazes de matar por tão pouco... e ao menos ele esti­vesse aqui...

Abre os olhos.

Sim, estou bem — replica numa voz sumida. Se a luz fosse difusa, quase inexistente, John Fox veria o mar em que os olhos de Sarah se tornaram.

Vamos?

O olhar apático de Sarah deixa-o constrangido.

— Entro primeiro e depois chamo-o. — É uma ordem, não uma sugestão, e John Fox tem de acatar.

Sarah abre a porta com cuidado para fazer pouco barulho e fecha-a mal entra. O quarto está mais iluminado que o corredor, assim tem de ser, de outra forma os auxiliares, médicos e enfermei­ros, apesar de não se ver nenhum nas proximidades, andariam aos tombos e encontrões em caso de emergência. Enxuga os olhos com as mãos e olha para a cama onde Simon dorme, encostado à cabe­ceira, com a cabeça a pender para o lado direito. Cai-lhe uma baba da boca aberta para a bata do hospital. Deve ter sido visitado por alguém e adormecido a ver televisão, quedando nesta posição, ora deitado, ora sentado ou nem urna coisa nem outra. A televisão irra­dia urna luminescência irritante nesta hora, mais brilhante, menos, luz clara, escura, assim-assim, grandes diferenças de tom, depen­dendo da imagem do filme de terror que preenche o ecrã. Indiferente a tudo isto, Simon dorme, libertando o líquido para a camisola onde se confunde o que é baba e suor, um ligeiro roncar de puro cansaço, quase imperceptível.

Sarah respira fundo e acerca-se do assistente com cautela para não o perturbar.

— Já voltaste? — ouve-se Simon dizer, sem abrir os olhos, numa voz entaramelada, própria do sono e dos analgésicos que deve andar a tomar.

— Sou eu, a Sarah.

Olha para ele de cima a baixo, inspeccionando-o, à vista desar­mada, na procura de elementos que fundamentem a presença dele ali. Não vê, no entanto, nada de condicionante, a não ser uma mão ligada, a esquerda, a sinistra, ainda que os membros inferiores este­jam cobertos pela manta fina e não se deixem analisar.

Simon abre os olhos, alerta, e sorri.

Olá, chefe. Que horas são? — Olha para o relógio de pulso, em cima da mesa, outro sobrevivente da explosão, meio atrapalha­do. — Caramba. Tão cedo — exclama. — Que faz aqui a esta hora?

Endireita-se, para ficar mesmo sentado.

— Vim ver-te. — Tenta manter uma voz normal, tencionando pas­sar a mensagem sub-reptícia de que tudo está bem. — Como estás?

Tendo em conta as circunstâncias, não podia estar melhor. Queimei a mão, como pode ver, e uma perna. Estou um pouco dorido. Parece que bati contra um autocarro, mas, de resto, pronto para outra.

Um brilho nos olhos deixa entrever um certo orgulho em ter ultrapassado a provação e sobrevivido.

O que é que se passou? Foi mesmo uma fuga de gás? Sarah ainda não está preparada para dar explicações mais matu­radas. Além disso, não tem respostas para as perguntas deste

Simon. Quanto menos souber, melhor para ele, pelo menos, por agora.

Sim, foi — responde apenas. — Um problema na instalação. Peço desculpa por isso — escusa-se meio sem jeito.

Não tem de pedir desculpa. Já passou — afirma Simon com condescendência.

Podemos seguir viagem amanhã — muda de assunto, sorrindo.

— É melhor ficares a recuperar. Eu trato de tudo.

Nem pensar — protesta. — Estou óptimo.

A persistência jornalística. Deformação profissional. É das pri_ meiras coisas que se aprendem se se pretende sobreviver na função.

Além disso, há pessoas que te vão querer fazer perguntas nos próximos dias — desculpa-se. Não se vai/conformar desta vez. O perigo é real. Necessita estar sozinha e nã1arrastar mais inocen. tes consigo.

Mais? — Um gesto de irritação faz que mexa a mão mais do que o suportado e solte um gemido. — Já estou farto de responder a perguntas idiotas.

Cuidado. Acalma-te — riposta Sarah, aproximando-se dele e passando a mão pelos cabelos ainda molhados do suor. — Quem esteve cá? — pergunta como quem está somente a fazer conversa­ção.

A Scotland Yard, o FBI, também o MI6. — Suspira revoltado. — Esses estavam mesmo ao meu lado quando acordei. A seguir aos médicos, foram as primeiras pessoas que vi.

E o que queriam?

Dar-me instruções, mas penso que a si posso dizer. Afinal de contas, estamos juntos nisto.

Sarah puxa uma cadeira para junto da cama e senta-se a escutar atenta.

Fui vítima de uma explosão, provocada por uma fuga de gás, e é isso que tenho de responder a quem quer que venha cá. Se per­guntarem por si, tenho de dizer que não sabia onde estava e fui lá a casa sozinho.

E cumpriste?

Claro. Com os outros foi fácil. O pior foi convencer o nosso director.

Esteve cá?

Sim. E perguntou por si. Não recebeu as chamadas dele no telemóvel?

Onde estava não dava para receber telefonemas.

Não sei se ele ficou convencido, mas eu disse que nos tínha‑

mos separado. Fiquei de ir buscar umas coisas a sua casa, enquanto a Sarah ia comprar umas roupas de que precisava. Combinámos encontrar-nos na estação. Se ele perguntar, é esta a versão oficial. Não me encrave. — Esboça um sorriso tímido.

Não te preocupes. Podes ficar descansado. Quando amanhe­cer, ligo-lhe e confirmo a história. — Usa de um tom amistoso com Simon, ainda que a sua mente fervilhe com outros pesos mais pre­mentes que a falta de convencimento do director.

Nunca pensei ser uma estrela tão mediática. Tudo por causa de uma fuga de gás. Ainda pediram desculpa.

Quem?

Os do MI6. — Talvez a hora tardia provoque uma mistura de assuntos em Simon, perfeitamente desculpável. — Por estarem a dar- me instruções mas, ao abrigo da lei do terrorismo, não queriam que passasse para a opinião pública uma versão tendenciosa, baseada em conjecturas e boatos — resmunga puxando-se mais para cima, lem­brando-se de não usar a mão lesionada, o que dificulta o movimen­to. — Uma explosão é o suficiente para acagaçar toda a gente.

E os outros? Também foram amistosos?

Que nada. Foram uns sacanas. — Está mesmo enervado, este Simon Lloyd, só de se lembrar.

O que é que eles queriam?

Saber como tudo aconteceu. Se estava a fumar, se levava algum componente combustível, mesmo desactivado ou em estado sólido, líquido ou gasoso ou uma treta qualquer. São uns arrogan­tes de merda e parece que não acreditam naquilo que dizemos.

Conheço muito bem a sensação, apoia Sarah, sem proferir palavra.

— Mal-encarados. Especialmente, os americanos. Pensam que é tudo deles — prossegue com a lamúria. — Parece que cometemos o crime de lhes dar trabalho. Imagine se tivesse sido uma bomba da Al-Qaida. Ia preso — bufa de raiva.

Tem calma. Correu tudo bem. Só o facto de te poderes la­mentar é bom sinal.

— Como é que a deixaram entrar a esta hora? — quer saber Simon.

Vim com um agente do SIS — sai-lhe de rompante, sem pen­sar. — Se não, não me deixavam entrar — conclui.

É verdade. O agente dos serviços secretos. — Absorve modos pensativos. — Desculpe. Nunca mais me lembrei disso. Que tal cor_ reu? Consideram-na uma terrorista?

Não te preocupes com isso — responde, evasiva. — Ele está aí fora para te conhecer. Estás disposto?

A Sarah é que é a chefe.

Não estou aqui nessa qualidade. Sou tua amiga. Tu é que decides. Simon leva pouco tempo a matutar.

Mande-o entrar — delibera.

Sarah levanta-se e dirige-se à porta. Abre-a e espreita o corredor. Não há sinal de John Fox. Estranho. Não é crível que ele se fosse embora sem avisar. Talvez tenha ido à casa de banho. Sai para o corredor a fim de ver um pouco melhor mas a vista não a enganou. Não se encontra nas imediações. Sarah, apreensiva, volta a entrar no quarto. Esquece. Há-de aparecer, pensa.

Não está aqui. Deve ter ido à casa de banho — justifica.

E recebeste mais visitas? — Sarah tenta fazer conversa. Decide esperar John Fox durante quinze minutos. Depois disso, adeus.

— Olhe, vieram cá os meus pais, raladíssimos, como é óbvio, mas saíram daqui bastante mais descansados. A minha irmã também esteve cá. Foi uma querida. Fez-me uma massagem que me deixou bastante relaxado, mas foi nessa altura que vieram os homens do FBI e ela teve de sair. São uns mal-educados, arrogantes...

Esquece, Simon. Já passou. Não vale a pena ficares de mau humor por causa de gente dessa — aconselha Sarah.

Tem razão — respira fundo. — Tem razão. — Um sorriso invade-lhe os lábios. Um pensamento bom a substituir uma má memória. — E veio cá o meu amor. Foi a melhor visita, sem querer diminuir a minha família, claro. É de urna timidez. Só veio quando todos se foram embora.

Este Simon quando abre a matraca nunca mais se cala. Desfia a vida toda a quem quer que seja. Coitado do ouvinte. Trata-se de elucubrações de Sarah, que vê o colega recuperar a forma a olhos vistos. Ainda bem. Menos um com que se preocupar.

— Veja o presente que me trouxe. — Com algum esforço, Simon alcança a mesa-de-cabeceira do lado da janela e agarra em algo. - Já viu a qualidade disto?

Sarah mira, boquiaberta e chocada, a garrafa de vinho de porto vintage, colheita de 1976. Não pode ser. Não pode ser.

 

Geoffrey Barnes gasta a alcatifa azul que cobre o chão a cada passo. A sua figura imponente, fruto das boas mesas de restaurante que pol­vilham essa Europa, mais os nervos inerentes ao telefonema que expe­rimentou com a Casa Branca, nem há cinco minutos. Convém que se rectifique esta informação última, pois o telefone cor de sangue ou vitória, quiçá tragédia outrossim, está ligado ao gabinete do presiden­te dos Estados Unidos da América onde quer que ele esteja e não só na Casa Branca, símbolo máximo da democracia norte-americana a seguir ao titular do cargo. Dito isto, o aparelho vermelho que segue o magno responsável pela nação está a bordo do Air Force One, o veí­culo de transporte mais usado pela presidência e seus afiliados, pelo que foi de lá que a comunicação partiu.

Geoffrey Barnes espuma de raiva e apreensão, sintoma invulgar quando se falou com o presidente em pessoa e não com um qual­quer lacaio amestrado.

Staughton abre a porta e sente as más vibrações imanentes do chefe. A curiosidade acicatada é a modos que convencida a aguardar por horas mais serenas. De qualquer maneira, não se augura nada de bm se a comunicação o deixou neste estado. O recado é que tem de ser dado para não ser chamado ao cepo.

— Chefe, os tipos de Langley querem que lhes ligue. — Prepara os ouvidos para incineração auditiva.

O que é que esses filhos da puta querem? — Por incrível que pareça, os impropérios são proferidos sem levantar o timbre da voz, ainda que evidenciando irritação.

Foi o Harvey Littel quem me ligou. Pediu que lhe ligue mal termine a chamada com a Casa Branca.

Como é que eles sabem que estava ao telefone? — Levanta os olhos para Jeronimo Staughton.

Ele queria que eu lhe passasse o telefone— explica com apreensão. — Tive de dar uma justificação.

Fizeste bem. Fizeste bem — concorda, sentando-se no cadei­rão e bufando desassossegado. — Ligo daqui a pouco. Que esperem, que se fodam.

Theresa entra com a encomenda. Hambúrguer duplo com quei­jo, pizza americana e uma Carlsberg fresca. Ah, vem mesmo a calhar. Regar o desgosto com cerveja e encher o bandulho de calo­rias. Thompson entra atrás dela com um maço de papéis na mão.

Novidades? — quer saber Barnes, apreciando os invólucros que Theresa pousa sobre a secretária.

Quentes. — Agita o maço de papéis.

Vão tirar-me o apetite? — pergunta com ar oprimido. — Se vão, podes esperar lá fora.

Thompson não faz caso das palavras do chefe. São explosões de feitio, nada que interfira, efectivamente, no trabalho. O que tem de ser tem muita força, e Barnes saberá agradecer no final. É sempre assim.

Há algumas horas deu-se uma explosão numa casa em Redcliffe Gardens, perto de Earl's Court — começa Thompson en­tusiasmado como um jornalista a contar um exclusivo.

— Uma explosão, é ? — questiona Barnes pelo puro acto de questionar, com a boca cheia com urna porção de sanduíche com hambúrguer duplo com queijo que mastiga alarvemente. Em seguida, leva o gargalo da Carlsberg à boca a fim de ajudar à escorreita liquefacção dos alimentos.

Mais alguma coisa, Dr. Barnes? — pergunta Theresa da porta.

Não, obrigado, Theresa. Está muito bom.

Esta sai, deixando os três homens sozinhos e em silêncio, entre­cortado apenas pelas mastigadelas pronunciadas e pelo deglutir afincado de enormes pedaços. Em três dentadas, o hambúrguer desaparece-lhe das mãos. Passa ao segundo prato, não de somenos importância. Os dois assistentes olham-no como se estivessem a comer com os olhos a maneira como Barnes come.

— E o que tem essa explosão? — retoma Barnes com a boca cheia.

As autoridades falam de uma fuga de gás.

Então não há história — conclui Barnes.

Pois não — concorda Staughton.

Os meus homens andaram no terreno e juntaram algumas peças. Não foi uma fuga de gás. Foi uma bomba — atira Thompson a seco, captando de imediato a atenção dos dois homens. Barnes até pára de mastigar.

Tens a certeza?

— Absoluta. E mais, o MI6 anda metido no encobrimento disto tudo.

Porquê? O que é que ganham com isso?

Ainda não sei. Mas eles sabem como nós somos. Gostamos de fuçar... e o que é que o nosso faro descobriu, off the record?

Barnes e Staughton aguardam a completação da frase como que suspensos.

Encontraram um corpo entre os escombros. Pertencente a Grigori Nestov. Já ouviram falar?

Grigori Nestov — repetem enquanto processam nome e ape­lido nos registos mentais.

Não faço ideia — desiste Staughton.

Nunca ouvi falar — garante Barnes.

Nem eu — completa Thompson com um sorriso triunfal. — Mas acontece que Nestov faz parte dos quadros na SVR.

— Uau — deixa escapar Staughton. — SVR?

Tanto Barnes como Thompson encaram-no reprovadoramente.

O que tem de especial ser do SVR quando eles são da CIA?

— Ternos o SVR no meio de uma explosão. O que significará isso?

— matuta Barnes, enquanto leva à boca o último pedaço de pizza.

Mas isto ainda fica melhor e, isso sim, será capaz de o fazer levantar da cadeira — antecipa Thompson.

O quê? — inquire Barnes na expectativa.

A casa... está em nome de Sarah Monteiro. Este nome diz-lhe alguma coisa?

O quê? — Esta pergunta já advém em forma de grito catató­nico, com Barnes em pé e as mãos apoiadas na ecretária.

Uau — repete Staughton. — Confirmado?

Confirmadissimo — esclarece acenando com os Papéis e entregando o primeiro a Staughton para que est comprove pelos seus próprios olhos.

Que filhos da puta — insulta Barnes enervado. — Quem é que estes Ingleses, pensam que são? Só servem para nos limpar o cu e agora querem deixar-nos borrados? Cabrões.

O que aconteceu à gaja? — pergunta Staughton entregando, por sua vez, o papel a Barnes, que pega nele com brutalidade, arran­cando-o das mãos do assistente.

Localização desconhecida. Sabe-se que há um ferido. Está internado no Chelsea and Westminster Hospital, mas não é ela.

Vão para lá imediatamente — ordena Barnes. — E quero-a à mi­nha frente antes do final da manhã. Descubram o que estava um agen­te russo a fazer na casa dela. Isso também é prioritário, entendido? — Não espera resposta. Claro que está entendido. — Há notícias do Jack?

Da minha parte, nada — noticia Thompson com alguma frustra­ção. — Esse Jack Payne é uma pedra no sapato e sabe como nos irritar.

Nem tanto. — Staughton pega na palavra com alguma con­fiança. — Localizámos uma reserva de uma carrinha Mercedes Vito, preta, feita em Fiumicino e levantada no aeroporto de Schiphol.

Amesterdão — diz Barnes em voz alta para si mesmo. Senta­-se, novamente com modos meditabundos.

A reserva foi registada no nome de Rafael Santini — prossegue Staughton.

Rafael Santini? — perquire Thompson. — Acham que pode

ser ele?

É ele — afirma Barnes com certeza. — O verdadeiro nome dele, ao que parece. — A raiva cresce-lhe na voz.

Como é que não descobrimos mais cedo? — Thompson con­tinua curioso. O indivíduo sempre o cativou.

Porque ele não quis — esclarece Barnes. — Um bom agente duplo ou infiltrado, traidor, filho da puta, só se revela quando bem entende. — Vira-se para Staughton. — Onde é que ele anda?

Não sabemos — responde baixando o olhar.

Não sabemos?

Não. Foi visto em Antuérpia, Dunquerque e perdemos-lhe o rasto por aí.

Barnes leva uma mão circunspecta ao queixo. As cartas estão jogadas e os dados lançados. Quem tiver a melhor mão ou tirar o resultado mais pungente sairá vencedor e, desta vez, terá de ser Geoffrey Barnes, pois o derrotado não ficará vivo para contar a sua versão da história. É, vitória ou morte.

Ele vem para cá — acaba por dizer.

O quê?

— Como?

Ele vem para cá — repete Barnes. — Levantou a carrinha em Amesterdão, foi buscar os corpos, visto na Bélgica e em França. Ele vem para cá e quero um comité de boas-vindas quando ele chegar. Sem erros.

Como pode ter tanta certeza? — perquire o sempre calculista Staughton.

Devido a algo com o que não nos podemos dar ao luxo de lidar, neste momento.

— O quê? — perguntam os dois assistentes.

— O facto de ser ele a semear as pistas para as colhermos facilmen­te. Isso perturba-me. Ele quer que o descubramos. — Muda de assunto. — Vão ao hospital e vejam em que estado está o ferido. Quero um inter­rogatório profundo. Não deve ter magoado a boca, por isso, ponham-no a deitar tudo cá para fora. Está na hora de dar satisfações a Langley.

— E quanto à Casa Branca? Alguma coisa digna de nota? — per­quire Thompson, que tinha a questão fisgada desde que entrou no gabinete. Aguardou o momento propício... este.

Barnes dá o último gole na Carlsberg antes de responder.

Uma arma de destruição maciça, minha gente. Uma arma de destruição maciça.

 

Quem... quem te deu isso? — Não tem olhos para mais nada senão para a garrafa. — Posso ver?

Sarah tira-lhe a garrafa das mãos sem que Simon tenha tido tempo de contestar. Analisa-a ao pormenor. Até a proveniência é idêntica, Real Companhia Velha. Não pode ser.

Foi a minha cara-metade. — Simon estranha o comporta­mento da chefe, que não está aqui nessa qualidade. Sarah é uma mulher plena de mistérios. E um deles é a forma como avalia a gar­rafa oferecida, nesta visita que lhe faz em hora tão tardia ou madru­gadora, conforme o ponto de vista. — Faz-lhe lembrar Portugal? Nunca pensei que fosse tão melancólica — goza Simon, ainda que de forma comedida, a medo. Aos poucos vai conquistando con­fiança. Aos poucos.

Antes fosse, deseja Sarah em pensamento. Aproxima-se novamen­te da porta com a garrafa na mão e entreabre-a. Espreita o corredor com os instintos despertos. Nem sinal de John Fox. Ninguém. O pâ­nico deixa-a com pele de galinha. Fecha a porta devagar e depara-se com um Simon que não desvia a expressão inquisitória de si.

A tua namorada ofereceu-te esta garrafa? — volta a pergun­tar. — Tens a certeza?

Pode-se dizer que sim — responde Simon entabulado, ainda a estranhar.

Pode-se dizer que sim? Ou foi ou não foi. — Não vale a pena irritar-se com ele. Tem de ser fria para poder pensar logicamente. A rapidez de raciocínio vale tempo de vida.

Foi... mas não é a minha namorada.

Foste tu que disseste — interrompe Sarah. — Então é o quê? — Raios partam o rapaz que não diz coisa com coisa. Será dos medicamentos.

Eu sei o que disse... É meu namorado — explica reticente. O medo adensa-se em Sarah. Isso explica muita coisa.

Tu tens um namorado?

Sim.

E ele ofereceu-te esta garrafa?

Já disse que sim. — Simon perscruta Sarah em busca de ele­mentos reprovadores, mas não os detecta. Apenas confusão.., em ambos.

Simon, tu confias em mim?

Claro — responde sem qualquer rasto de dúvida.

Óptimo. — Olha-o com seriedade. — Levanta-te e vamos embora.

O quê? — Que sugestão tão descabida. — Quando?

Agora.

Sarah, o que é que está a passar-se?

Sarah acerca-se dele e põe-lhe as mãos nos ombros, em jeito de reconforto.

Simon, confia em mim. A nossa vida está em perigo. Se não sairmos daqui, agora, vamos morrer. Não há outra forma de o dizer.

Simon não consegue articular qualquer palavra, nota-se a amál­gama de dúvidas que pairam na mente e o fazem permanecer encos­tado na cabeceira da cama. Sarah terá de se explicar melhor.

Simon, faz o que te digo. Levanta-te.

Simon não se move.

Sarah suspira e fecha os olhos antes de se decidir.

Não foi uma fuga de gás. — Seja feita a tua vontade. — Foi uma bomba, accionada quando rodaste a chave.

O quê?! — guinchou atónito. — Mas quem?

__ O quem não importa de momento, Simon. Se ficarmos aqui para os conhecermos, será o nosso fim.

Dois segundos é o tempo que Simon leva a decidir-se. Os novos dados são relevantes. Levanta-se, calça os chinelos do hospital e arrasta-se a custo em direcção à porta. Sarah terá de ampará-lo, para isso, põe-se ao seu lado a servir de apoio. Será mais fácil para simon, mais lento para os dois. Não há tempo a perder.

— Espera aqui — pede Sarah, chegando uma cadeira que está ao lado da porta para junto dele. Simon prefere segurar-se nos braços a sentar-se. Sarah entreabre a porta e espreita para um lado e para o outro. O caminho está livre.

Vamos.

Sarah recua para servir de muleta ao colega dorido e enfrentam o corredor deserto e escuro. Todos os gemidos, gritos e apitos dos pacientes e das máquinas se ouvem agora e servem para catalisar o medo. Um passo de cada vez, um arrastar suado, um olhar em redor em busca do perigo. O fim do corredor, ao fundo, parece que se afasta mais, inibindo a esperança de alcançar o exterior. Até as suas sombras, misturadas com as outras, os fazem temer que algo surja do escuro, sem aviso, sem direito a última palavra e acabe tudo, de uma só vez, como começou.

Tem a certeza? — pergunta Simon em surdina, assustado. — Tenho. Achas que te tirava do quarto e prejudicava a tua recu­peração por uma brincadeira?

Claro que não. Sarah jamais o faria. Maldito corredor, que nunca mais acaba. Ouve-se um ruído metálico proveniente do fundo. Algum objecto caiu ao chão ou foi lançado, porque as coi­sas não caem sem ajuda. Sarah e Simon param. Olham para trás. Não se vê ninguém. Talvez valesse a pena optar por esse caminho, que Sarah apenas conhece este, por onde veio com John Fox. Retomam o andamento em direcção à fonte do ruído que ecoou há Pouco. É melhor arriscar pelo território conhecido. As palpitações aumentam de intensidade nos dois colegas. Simon, apoiado em Sarah, o corpo a tinir, pedindo descanso. O coração dela a latejar nos ouvidos impedindo o discernimento. A ironia é que, agora, o fundo do corredor aproxima-se muito rapidamente a cada passo, pois o receio do que está para lá da esquina, jurito aos elevadores, é incontestável.

Por fim, acabam por dobrar a esquina à esquerda e avistam os elevadores. A fonte do ruído foi um tabuleiro de metal que caiu de um carrinho estacionado contra a parede. Vários instrumentos cirúrgicos estão espalhados pelo chão, fruto da queda, tais como tesouras, bisturis, pinças de vários tamanhos e outros objectos não tão facilmente identificáveis à primeira vista, mas de igual escala. Avançam, cautelosamente, para os elevadores, contornando o repulsivo metal. Sarah consegue distinguir umas manchas escuras em alguns dos objectos cortantes, mas a ténue iluminação não deixa discernir cores. A imaginação levita-a instantaneamente para o vermelho-sangue, o que não é descabido e combina pueril­mente com o bisturi. Contudo, não está a ver um médico ou enfer­meiro, a deixar os seus instrumentos de trabalho todos sujos, depois de uma operação e sair da sala sem se preocupar com este­rilizações e desinfecções. Afasta as possíveis más conjecturas da mente e chama o elevador. É interessante como algo tão natural como a presença de sangue num hospital, similar à sua correria dentro das veias, pode parecer deslocado numa mancha no bistu­ri, partindo do princípio que se trata mesmo de sangue e não um qualquer jogo de sombras imperceptível. Isso é uma teoria para Sarah deslindar em momento propício. O que importa, neste momento, é saírem dali.

Um sinal sonoro avisa que um dos elevadores está a chegar ao andar e vai abrir as portas. Existem três hipóteses, esquerda, direi­ta, centro, como em tudo na vida, mas não têm mais nenhuma informação de qual seja o salvador. Acaba por ser o do centro a abrir as portas e a revelar o agente John Fox no seu interior, a fitar Sarah.

Sirnon finca os dedos no braço dela de tal forma que, se a adre­nalina não lhe estivesse a invadir o organismo, era bem provável que gritasse de dor.

— Este é o agente John Fox, que me acompanhou — avisa Sarah, mais aliviada.

simon refreia os dedos, contagiado pelo alívio de Sarah. Este é o agente que a acompanhou. John qualquer coisa, não conseguiu per­ceber o apelido. Ainda bem.

O agente está calado e continua a fitar Sarah, concentradamente. — Tenho uma coisa para lhe dizer — começa Sarah erguendo a garrafa de porto que traz na única mão livre. — Eles...

John Fox dá um passo inseguro à frente e apoia-se no caixi­lho das portas abertas do elevador, como Sansão nas colunas do templo.

— ... estão aqui — completa Sarah, já sem reflectir no que está a dizer.

Ambos fitam John Fox, que concentra a atenção nos dois de forma estranha.

— Fujam — consegue dizer em surdina, antes de uma golfada de sangue lhe sair pela boca. Dá mais dois passos à frente como um zombie, que aterram Sarah e Simon, obrigados a recuar para lhe dar espaço sem conseguirem desviar o olhar. John Fox cambaleia por uns instantes até que o seu corpo cai pesadamente sobre o carrinho estacionado, derrubando-o e, com ele, o resto dos utensílios que nele pousavam. Nas costas de John Fox nada menos do que seis bis­turis espetados. Como é que lá foram parar? Essa é a questão que não importa ver respondida.

Sarah e Simon registam o acontecimento, incrédulos. Parece um filme de terror ou um pesadelo do qual querem acordar e não conse­guem porque os olhos já estão abertos. Bem tentam esforçar-se por abri-los ainda mais, quase a fazê-los saltar das órbitas, mas acabam por se convencer de que é a pura realidade.., a deles. Sarah dá um grito mudo e desagrilhoa-se da mão de Simon, que, à vista da cena, re­cobra a energia e não se sente tão dorido. O que é uma dor quando se assiste a uma morte ao vivo, a sangue-frio, sem reservas nem censura.

Passos. Ouvem-se passos no corredor por onde vieram. Sem se darem ao luxo de reflectir, caminham juntos para o elevador aberto.

Os passos escutam-se cada vez mais próximos. Firmes e cadencia­dos, nem depressa nem devagar, capazes de provocar horror suficiente a um gato escaldado como Sarah Monteiro. Carregam várias vezes no botão rotulado com o número zero. Podia ter sido ou­tro qualquer, desde que as portas fechem e os passos deixem de se ouvir.

Fecha, fecha, fecha — suplica Sarah i/a tentativa vã de apres­sar o sistema com as palavras.

Um vulto dobra a esquina do corredor e corre para as portas que se fecham.

Simon. Simon — ouve-se gritar.

Este, impelido pela voz que reconhece, procura o botão de abrir as portas e pressiona-o assim que o encontra.

Simon, não — grita Sarah. — Não faças isso.

Simon não dá ouvidos à chefe e mantém o botão premido. As portas obedecem prontamente e abrem-se, permitindo que a cabi­ne ilumine o vulto e o torne um homem garboso, mais velho que Simon, a raiar a idade de Sarah.

Que se passou aqui, meu amor? — pergunta o desconhecido.

Oh, meu querido. Foi horrível. Alguém matou o homem. — Uma lágrima rola pelo rosto de Simon, de medo e desgos­to pelo que viu e jamais conseguirá apagar. — Andam atrás de nós, Hugh.

O quê? Quem? — O homem parece perdido, olhando para o corpo e para Simon, sem nunca fitar Sarah. — Quem fez isto?

Não sei. Não sei. — Simon chora copiosamente. — Abraça­-me, Hugh — implora na urgente necessidade de amor.

Oh, meu amor. Não chores — acalma o tal Hugh, colocan­do-se entre as portas de modo a não permitir o fecho automá­tico e abraça Simon com força. — Pronto, já passou. — Dá-lhe beijos na cabeça com ternura. Simon liberta a torrente de emo­ções sem qualquer travão preconceituoso. — Pronto. Pronto. Já passou.

Os dois homens rodam o sentido abraço de maneira a Simon ficar do lado de fora e o outro do lado de dentro, de costas para

Sarah, que assiste àquilo com incerteza. Não sabe o que fazer, ou melhor, sabe mas tem receio das consequências.

O abraço perde fulgor, ainda que os homens permaneçam agar- rados. Simon tem os olhos fechados e molhados, aproveitando cada centésimo de segundo.

O que vieste aqui fazer a esta hora? — questiona. — Como entraste?

O homem hesita por uns instantes, mas o abraço esconde essa hesitação de Simon. Somente Sarah se apercebe, se bem que ele esteja de costas para si. Incentiva-a a tomar a decisão. E esta é a hora certa de agir. Espera que tudo corra pelo melhor.

Ah... tenho um conhecido aqui. Não aguentei de saudades.

A força com que a garrafa de porto vintage, colheita de 76, bate na cabeça de Hugh estilhaça-a de uma só vez, à garrafa, bem certo, quedando somente o gargalo na mão de Sarah.

Isto é por roubares aquilo que não é teu, Hugh. — Ênfase no nome do homem a insinuar desconfiança na veracidade do mesmo.

Que desperdício de bom vinho se vê escorrer pela cabeça do namorado de Simon abaixo.

Antes que Simon se aperceba do que se passa, Sarah segura-o por um braço e puxa-o para dentro do elevador, enquanto aproveita o atordoamento momentâneo de Hugh para o empurrar para fora com um pé. Espanta-se por vê-lo sair do elevador com tanta facili­dade e tombar no chão à saída. Óptimo. Acto contínuo, assim que os sensores ficam desimpedidos, as portas fecham-se para levarem os ocupantes ao destino, previamente solicitado, o piso zero. Missão cumprida. A excitação de Sarah é tanta, que nem repara no peque­no orifício que se criou no espelho por detrás de si, fruto de um dis­paro mal-amanhado, do tal Hugh, mais que certo.

— O que é que você fez? — grita Simon. — É doida? — Preme o botão do andar de onde acabaram de sair. — Foda-se. Como é que Pode fazer uma coisa dessas? Não se pode desconfiar de toda a gente, dessa maneira. — Está completamente fora de si.

Cala-te, Simon — ordena Sarah, decidida. — Esta garrafa — agita o gargalo que permanece na sua mão, sempre serve de arma

defensiva, à falta de melhor. — Quando era uma garrafa, estava na minha casa. Lembras-te onde te mandei buscar o dossier?

Simon mal consegue raciocinar. Relembra as ordens. Pegar no dossier que está por trás de unia garrafa de vinho do porto vintage.

E? — questiona. — Só existe esta? Não existem mais à venda? — A caixa está intacta no que resta da minha casa. A garrafa não está lá dentro. Preciso de ser mais clara? (

As lágrimas voltam a ser expulsas dos olhos de Simon.

Não pode ser. Não pode ser. Ele deve ter urna explicação. Vê a vida desmoronar-se à sua frente. — Deve ser uma desagradá­vel coincidência. — Agarra-se a essa esperança. Há mais garrafas de vinho do porto vintage, colheita de 1976. Foi urna prenda de Hugh, nada mais, sem obscuridades. Rememora o vulto de Hugh mesmo no momento em que desfaleceu, em Redcliffe Gardens. Podia ser uma visão turva, urna alucinação, uni engano da mente que o fez ver o ente amado naquela hora má.

Lamento, Simon. Ele nem sequer se deve chamar Hugh. Lamento muito.

O elevador atinge o piso pedido e abre as portas. À espera deles está Simon Templar.

Ainda bem que o vejo — diz Sarah ofegante. — Mataram o seu colega e andam atrás de nós.

Sarah ajuda Simon a sair do elevador e encaminha-se para as portas de saída, a vinte metros. A excepção de Templar, não há nenhum funcionário à vista.

Onde pensam que vão? — pergunta Simon Templar de maneira embófia.

Sarah continua a arrastar Simon Lloyd em direcção às portas de saída. Ouvem um estalido electrónico parecido com o de uni rádio de comunicação. Sarah apressa ainda mais o passo, puxando por um Siunon letárgico.

James, és mesmo estúpido — ouvem Simon Templar dizer para o rádio.

Um zunido perpassa pelos ouvidos de Simon e Sarah e estatela­-se no chão de mármore provocando um estilhaço de pedra e pó.

Um tiro com silenciador. Sarah olha para trás e vê Simon Templar de arma em punho, apontada a eles. Simon pouco se importa, mas Sarah sente aumentar o pânico e a frustração. Uma arma volta a estar apontada a si, um ano depois.

— A próxima é na testa — avisa Templar, que volta a chegar o rádio à boca. — James, desce. Já os apanhei.

 

Só pode estar a brincar comigo.

Não estou.

Quer dizer-me que andamos a perseguir um morto? — James Phelps expressa incredulidade aliada ao cansaço do longo dia atípi­co. Contudo, tem argúcia suficiente para se benzer do pensamento impuro e da blasfémia aos quais é alheio. — Fui ao funeral de Sua Santidade há dois anos.

Eu também, mais quatro milhões de pessoas.

Ainda no mês passado visitei a Cripta dos Papas e rezei dian­te da sua campa. Paz à sua santa alma. — Ignora a observação de Rafael.

Há homens que não morrem.

Sim, histórica, intelectual e culturalmente. César, Imperador de Roma, jamais morrerá, Henrique VIII, Cristóvão Colombo...

— João Paulo II — completa Rafael concentrado nos poucos qui­lómetros que faltam percorrer na M20 à entrada de Londres.

João Paulo II — anui Phelps. — Então estamos na senda do seu legado.

Rafael vira-se para James Phelps e fita-o, gravemente, para em seguida voltar a olhar a Motorway e as luzes vermelhas que pon­teiam os veículos circulando à frente deles com destino ao frenesi da capital sem confirmar ou desmentir a conjectura de Phelps. Tudo a seu tempo.

Embora acicatado pela curiosidade mórbida dos objectivos pri­mordiais de Rafael, ao serviço de Bento P. P. XVI — assim se aqui­lata — o sono começa a assenhorear-se de James Bihelps sem con­sentimento. Está acordado há quase vinte e quatro horas e o movi­mento da carrinha mais o estrépito do motor co leçam a soar corno um ronronar felino e embalador, capaz de faze pesar as pálpebras e inibir qualquer tentativa de as levantar.

Quando se apercebe da mudança de direcção tornada por Rafael, abre os olhos. Parece-lhe que não passou tempo nenhum desde que os fechou, mas passaram dez minutos de inconsciência.

   Já chegámos?    

Ainda não — responde Rafael olhando para o retrovisor do seu lado. — Vem alguém atrás de nós.

A sério? — Um nó forma-se na garganta de Phelps dissipan­do inteiramente o sono. — Estamos a ser seguidos por quem?

Rafael acelera a carrinha em direcção a uma estrada secundária, Phelps inclina a cabeça para ver pelo retrovisor do seu lado os faróis brancos que apontam para a carrinha. O coração bombeia com mais vigor o sangue arterial em todas as direcções do corpo. A respiração adensa-se. James Phelps não é um homem habituado a estes cenários.

Tem a certeza? — pergunta a medo, sem tirar os olhos do espelho.

Absoluta.

E o que vai fazer?

Nada — esclarece Rafael. — Continuamos o nosso caminho.

Para onde vamos?

Daqui a pouco saberemos.

Phelps desaperta o botão da camisa, angustiado e receoso.

Não me estou a sentir muito bem — avisa. — Taquicardia. — Adicione-se a falta de ar às palpitações fora de tempo, suores frios que encharcam o corpo, a perna latejante que volta a incomodar com a dor acutilante e obtemos o quadro clínico deste britânico sexagenário.       

É dos nervos — limita-se a dizer Rafael, atento à estrada e aos perseguidores, sem esboçar qualquer reflexo de preocupação.

Você... você não tem medo? — perquire Phelps com a boca a clamar por alguma substância líquida que derrote a secura nervosa.

Medo de quê?

Rafael insiste em não olhar para ele e adopta um tom insensível, altamente incomodativo para James Phelps.

Deles. — Aponta para a parte de trás, a fonte da ameaça.

Não — responde secamente.

James Phelps olha para o retrovisor novamente, a controlar a dis­tância que, por razões contraditórias, parece encurtar cada vez mais, segundo os seus olhos pouco confiáveis a esta hora.

Sente um ímpeto de fazer mais perguntas, mas a expressão de Rafael não apela a que o faça. O melhor é aguardar que aquilo passe, se passar, esperemos que sim, Deus ajudará.

As dúvidas dissipam-se quando James Phelps vê os faróis do per­seguidor quase colados à carrinha, o que o deixa apreensivo e em pânico. A velocidade dos dois veículos não é grande, não chega sequer aos cem quilómetros percorridos por cada hora que passa e de cada vez que fita Rafael não nota qualquer vontade em acelerar o andamento.

Não acha que devemos acelerar? — acaba por perguntar com a voz um pouco embargada pelo medo.

Não há perigo.

Não?

— Não. Quem vigia não se deixa ver.

Quer dizer que não nos estão a seguir?

O veículo de trás emite sinais de luzes para a carrinha. James Phelps cada vez percebe menos do que se está a passar. E ainda mais quando Rafael trava a viatura até à imobilização total.

O que está a fazer?

A parar.

— Não é perigoso?

Não — tranquiliza Rafael desapertando o cinto e abrindo a Porta. — Deixe-se ficar aqui.

James Phelps quer protestar com veemência mas Rafael já fechou a porta, deixando-o sozinho a estrebuchar consigo mesmo. Usa os espelhos retrovisores para tentar compreender minimamente os eventos a decorrer. As luzes do carro da retaguarda apagam-se e vê saírem dois homens na direcção de Rafael, que agiarda calmamen­te encostado à traseira da Mercedes. Cumprimentam-se com um aperto de mão, o que o deixa muito mais aliviado. Vilões não cumprimentam as futuras vítimas. A não ser que seja um embuste. Rafael conversa com os dois homens dt rante alguns instantes. Pouco depois, um deles entrega-lhe um objecto que Phelps não con­segue identificar. Rafael volta-se para regressar ao volante e o britâ­nico consegue ouvir os homens a cumprimentarem-no com um a bientôt. Estranho.

Rafael sobe para o seu lugar, liga o motor e retoma o caminho sem proferir qualquer palavra ou explanação.

O silêncio constrange Phelps até se tornar ensurdecedor. Mas quem julga Rafael que é? Um sujeito que não é capaz de mostrar a mais pequena amostra de confiança em si. É um digno herdeiro das obscuras manigâncias e intrigas do Vaticano. Dará um excelente membro da Cúria e tem tudo para o conseguir. Guarda sempre o melhor para si mesmo, mede conscientemente as palavras que pro­fere, cria, efectiva ou ilusoriamente, um ascendente sobre os outros, inflamando uma hipotética ou real vantagem que confunde aliados e inimigos, como um puzzle em que só ele sabe a disposição de cada peça no todo que o forma. É um sacana, só pode, se é capaz de pôr um cavalheiro como James Phelps a blasfemar, ainda que somente em pensamentos conspurcados.

Afinal ninguém nos estava a seguir — comprova Phelps com os olhos postos na estrada. Uma afronta à sua dignidade de homem e prelado que não convém esporear para não chamar a atenção sobre eles.

Nunca disse que nos estavam a seguir — elucida Rafael. — Disse que vinha alguém atrás de nós.

Consigo é preciso ter muito cuidado com a língua — atesta Phelps arreliadamente contido. — Nem tudo o que parece é.

Nada mais acertado de dizer. O silêncio toma conta do habita­culo durante o resto do caminho, desconfortável, incómodo, pre­sente. Entram na grande cidade de Londres que se abre à frente deles com um pouco mais de trânsito. Aqui parece mais confuso o volante da Mercedes instalado do lado da berma da estrada, contra­riando a afável sensação de segurança que se deve ter quando se anda na estrada. Mesmo assim, Rafael não se coíbe em ultrapassar os mais ronceiros.

O telemóvel de Rafael toca nesse preciso momento. Ele olha o mostrador que identifica o chamador e atende.

Alors — diz para o aparelho demonstrando conhecer o anun­ciador. Escuta a mensagem pela qual aguarda há algum tempo. Não esboça qualquer interjeição cognitiva ou de assentimento. Segundos depois, desliga o telefone celular e, sem aviso, vira a Mercedes 180 graus, fazendo que James Phelps embata com a cabeça no vidro da sua porta. Finda esta manobra, podemos vê-los a grande velocidade em sentido contrário.

Está doido? — protesta Phelps.

Faz mais sentido quando se tem o volante deste lado — afir­ma Rafael contornando os veículos que vêm no sentido inverso, do lado correcto e que protestam buzinando com veemência, desvian­do-se conforme podem. Alguns veículos acabam por embater nas viaturas anódinas estacionadas na berma da estrada.

— Cuidado — brada Phelps agarrado ao assento. — Você é doido.

Rafael continua a conduzir com perícia, indiferente aos insultos pudibundos. Phelps fecha os olhos e nada mais diz. Ben-ze-se e ora mentalmente, Senhor Pai, Todo-Poderoso, livrai-me desta ovelha negra, tresmalhada do rebanho e colocai-a no trilho do bem...

Muitas buzinadelas e insultos depois, a carrinha detém-se na entrada de um prédio vitoriano em declínio. Rafael olha para todos OS lados possíveis em jeito ajuizador. James Phelps tenta descortinar o quê e o onde, mas ainda está demasiado alterado para poder racio­cinar com serenidade e paz. Além disso, ele é britânico do Norte, Perto de Newcastle, não tem obrigação de saber onde é onde na capital do império.

Onde estamos? — pergunta a Rafael.

Este ignora a pergunta e tira o embrulho entregue pelos dois homens desconhecidos, algumas dezenas de quilómetros atrás, num pequeno matagal a coberto da noite.

O que é isso?

Rafael responde rasgando o invólucro que tapa um objecto no seu interior.

Meu Deus. Para que quer isso? — pergunta Phelps chocado. Rafael verifica o carregador da Glock e desbloqueia-a antes de fitar Phelps.

Nem tudo o que parece é. — E sai da carrinha em direcção à porta do prédio devoluto.

O que mais doeu foi o safanão, do tipo projéctil direccionado com as costas da mão, que o atirou ao chão. A dor física não significou nada, comparada com o sangramento do coração e o quebrar dos sonhos de um amor lindo, de belos contornos idílicos, favorecido pela primavera ingénua da vida, destruído pela sempre dura realidade. Para Simon Lloyd o lema «a vida é bela» terminou com aquele estalo de Hugh ou James ou a puta que o pariu. A raiva pairou sobre ele mas um pontapé no estômago fá-lo repensar as suas prioridades, enquan­to a dor se espalha pelo corpo. A raiva pode esperar.

Sarah não teve tratamento idêntico porque eram essas as ordens chegadas a Templar e comparsa, via telefone.

— O Herbert está a chegar. Disse para não lhe tocarmos — advertiu Templar quando James ou Hugh ou a puta que o pariu, segundo as dúvidas de Simon Lloyd, lhe ia conferir uma dose de estalos.

— É bom que se despache — protestou James. — Ou...

Sarah e Simon Lloyd encontram-se agora fechados num peque­no compartimento, sem janelas e completamente submerso na escu­ridão claustrofóbica. Antes, Simon ainda levou mais alguns sopapos do ex-amado e descobriu o quanto enojava o outro, e vice-versa. A orelha cortada pela garrafa que Sarah partiu na cabeça de James é Pouco, muito pouco sofrimento para quem o manipulou com tanta mestria e frieza. E uma vez que o vilão não podia descontar em Sarah pelo ultraje, aprestava-se a fazê-lo em Simon com amor. Ele era apenas um trabalho, uma tarefa que garantia, um meio de paga­mento ao tal James ou Hugh ou...

Sarah ouve Simon a fungar e a tentar disfaj ar o choro em surdi­na, o que a deixa completamente desalentada. Mais uma vítima que sofre por sua causa.

O que é que vão fazer connosco — pergunta Simon, desfa­zendo o silêncio confrangedor.

A ti, nada — afirma com confiança. Fará tudo para que ele não sofra as consequências de andar na companhia errada. Ninguém deve pagar por isso.

Que desilusão. Que desilusão. — Um fundo húmido denuncia as lágrimas que ainda escorrem pelo seu rosto mas não se vêem.

Simon tem Hugh como alvo daquelas palavras, contudo, Sarah prefere transferi-las para si mesma, pois reitera e assina por baixo tal sentimento. Considera-se uma desilusão para todos, pondo as pessoa de quem gosta permanentemente em perigo, apoquentadas, feridas, mortas. Por isso, repete. — A ti, nada — pois está ferreamente dis­posta a não colaborar com o tal Herbert ou quem quer que venha, enquanto não acederem à libertação lógica de Simon. Pode ser tortu­rada, física e psicologicamente, mas só falará quando Simon estiver fora de perigo. Nem que seja a última coisa que faça, o que é provável; tentará salvar Simon. O pior é se o tal Herbert não quer nenhuma informação dela e vá lá somente para concretizar, pessoalmente, a sua eliminação terrena. Se assim for, Simon que a perdoe mas a impotên­cia não permitirá actos heróicos. É um ponto primacial haver dispo­sição negociai por parte do tal Herbert, só assim um deles poderá sobreviver. É a dura realidade, dificilmente trasladada para livros policiais ou filmes do mesmo calibre. Os bons morrem antes do fim.

O que é que está a passar-se? O que fizemos para merecermos isto? — lamenta-se Simon na escuridão do compartimento que se coa­duna com a escuridão mental que dele se apodera desde que rodou a chave na maldita porta da casa de Redcliffe Gardens e evocou o des­conhecido.

Não fizeste nada, Simon — aclara Sarah envergonhada. — Isto... tem tudo a ver comigo e só comigo — confessa.

Nada se diz durante alguns momentos mas não é um mutismo daqueles coactivos, antes um ordenar de palavras e vivências, especulações e realidades. Os espaços de cada um oferecidos, a um e a outro mesmo nesta hora má. Além disso, é tempo de ser Sarah a prosseguir, sem pressões, se assim o desejar. Conforta-a, na medida do possível, urna vez que tem a cabeça a prémio, saber que nada daquilo é irracional, sem sentido. Há urna lógica, urna poten­cial falta de alguém, de Sarah. Não foram eleitos pela gratuitidade da morte.

No ano passado puseram-me a cabeça a prémio sem ser tida nem achada — começa a explanar.

Não dá para ver, mas Simon endireita as costas contra a parede fria do compartimento, aguça os ouvidos e aguarda.

Um padrinho, de quem eu mal me lembrava, enviou-me uma lista de nomes pertencentes a uma seita secreta italiana. Nela figu­ram nomes muito importantes a nível internacional da política, poder judicial, religioso. Até o nome do meu pai lá está. Soube mais tarde que essa lista estava nas mãos de João Paulo I na noite da sua morte... e soube também que ele foi assassinado.

O quê? — Simon mal consegue acreditar no que acaba de ouvir.

Isso mesmo. A organização, que se chama P2, ordenou que me capturassem e deu-se início a urna perseguição que incluia a própria CIA.

— Meu Deus — exclama Simon. — São eles que nos querem mal? — Não. Isto é outra coisa qualquer que ainda não consegui perceber. Simon cala-se como que a consentir que Sarah continue a abrir o coração da sua triste vida.

As coisas precipitaram-se numa catadupa tal, que não conse­guia processar toda a informação que me era dada. Ainda hoje não compreendo o alcance de tudo o que sei. Não só por serem assuntos tão escabrosos como a morte de um papa e tantos outros inocentes, mas também porque, ao mesmo tempo, andava no fio da navalha, com a vida em perigo permanente, com o coração na boca, e olha que isto não é um artifício narrativo para dar mais/emoção à história.

Sarah, estamos presos numa despensa ou o que quer que isto seja. Estão dois homens armados lá fora preparados para nos limpa­rem o sebo. Sei muito bem ao que se refere.

Não obstante tudo o que está a acontecer, Simon parece mais senhor da situação. O poder da conformação tem essa consequên­cia, o que está feito, feito está, há que aguardar momentos melhores, se estes vierem. Claro que o medo do que possam fazer contra eles está sempre presente. Uma morte rápida é preferível à tortura vicio­sa, ainda que o melhor fosse abrirem a porta e libertá-los, com as respectivas desculpas pelo mal feito, lamentando o terrível engano identificativo, acompanhado de um vale de refeição descontável num qualquer restaurante da moda. Ah, o poder da imaginação, invencível, mesmo sob a iminência do fim.

Acabamos por conseguir chegar a um acordo entre as partes — prossegue Sarah.

Que acordo?

Nós não os denunciámos e eles não nos importunam.

Podem-se ter arrependido — sugere Simon.

Tinham muito a perder. Além disso, é a Santa Sé quem tutela este acordo — afirma Sarah pensativa. Tenta juntar as peças desca­sadas a ver se fazem algum sentido. — Isto é outra coisa.

O que não faltam por aí são malucos com poder — desabafa Simon com um suspiro. — Será que nos vão deixar aqui o resto da noite?

— O tempo suficiente para nos amolecerem. — É a vez de Sarah suspirar. — São especialistas nisso.

— Eu... quanto a si não sei, mas estou mais mole que uma alface.

Duas gargalhadas apavoradas enchem o acanhado compartimento, completamente deslocadas, dada a precária situação em que se encon­tram, enchem o acanhado compartimento. O medo também faz rir.

O som do mecanismo da fechadura a actuar reprime o que resta do riso. Alguém está a abrir a porta. Segundos depois, a claridade artificial do corredor invade a despensa, cegando Sarah e Simon, que escudam a luz com as mãos.

Que bom ver-vos tão bem-dispostos — escarnece James, cuja silhueta se perfila na abertura da porta. — Levantem-se. Está na hora.

Simon engole em seco. O coração ainda sangra por este ser frio e mortal que o fita com uma indiferença cortante.

Sem aguardar que cumpram o mandado, James levanta Simon por um braço com brutalidade, reflectindo nele um desaguisado preconceituoso, uma tarefa menos avalizada pelo seu próprio juízo de valor, nunca entendida como um fardo aos olhos do jornalista estagiário, o que resulta num trabalho executado exemplarmente.

E se Simon prefere canalizar a sua imaginação para a elabora­ção de um cenário mais doce, a ilusão de uma brincadeira de imenso mau gosto mas tão perdoável como as de boa índole, logo se retrai com os dois estalos fortes que James faz questão de lhe aplicar no rosto surpreso, marcando-o, ainda que de forma extem­porânea, libertando novamente a raiva impotente que se engole em seco, frustrando qualquer tentativa de embate titânico. Afinal de contas, James é quem tem a arma que agora aponta à cabeça do ex-amado, felizmente nunca amante.

Deixe-o em paz — grita Sarah, chamando sobre si a atenção.

O resultado é imediatamente visível pois James desvia o olhar para ela com desprezo. Mira-a de cima a baixo com um olhar tão execrável, que Sarah dá por si a desviar os olhos, repleta de asco por esse ser hediondo, capaz de manipular os sentimentos alheios a seu bel-prazer a fim de saciar as vontades dos outros. James dá meio passo na direcção dela e enfia o cano da arma debaixo do queixo para a obrigar a levantar a cabeça. Um vilão sabe reconhecer o ódio que emana do globo ocular, a raiva aspira-a no cheiro fétido que lhe passa pelos canais do odor.

A tua hora está a chegar — comenta com desprezo. Culmina com um estalo na cara de Sarah que lhe rebenta um lábio, ao mesmo tempo que a cabeça quase se desprende do corpo.

— Filho de uma puta — ouve-se Simon dizer de rompante, indig­nado com o acto de James. — Sem a arma já não eras tão valente, meu cabrão. — A revolta toma conta dele.

— Simon, cala-te — pede Sarah, mais em jeito de ordem. Nunca se deve irritar um homem destes, especialmente este James, que apa­renta ter algo de temperamental dentro de si. Por favor, Simon.

James vira-se lentamente para Simon ortí uma expressão escar­ninha. Guarda a arma na parte detrás das calças, cobrindo-a com a parte de baixo do casaco, para não dar ideias furtivas a Sarah.

Abre os braços em modo ilustrativo.

Sem arma — diz. — E agora? O que fazes?

Simon queda-se encostado contra a parede, a mesma posição em que James o deixou quando Sarah solicitou a sua atenção. O vilão aguarda mais alguns instantes, a enorme estrutura de braços abertos à espera de Simon e da demonstração física da verbalização valente e corajosa.

Acaba por soltar uma gargalhada gutural, imprópria nestes casos, algo maquiavélica, uma factura triunfal sempre boa de rece­ber. Apostou e venceu, como sabia que venceria de uma maneira ou de outra.

- És um maricas, Simon — profere, libertando ainda mais o riso egocêntrico da piada por si inventada.     

Simon limita-se a baixar os olhos na tentativa de evitar uma ver­gonha maior. Não ver James a rir-se de si, é como se ele estivesse a rir de outra coisa qualquer. Só lhe apetece chorar e inundar o mundo com as lágrimas da sua vida cruel.

A seguir, quase de uma forma maquinal, James interrompe a sua própria gargalhada, como se ela própria, genuína e verdadeira, fosse algo fabricado, manipulado, um actor em causa própria.

Chega de divertimento. Vá, à minha frente — ordena James com uma voz de comando militar.

Simon e Sarah não podem fazer mais nada a não ser cumprir o ordenado para não levantarem ondas e, mesmo assim, levam vários empurrões ao longo do corredor, não em jeito de mensagem no sentido de andarem mais depressa, simplesmente porque sim. São maneiras de os homens mostrarem quem manda... e quem tem de obedecer.

Avançam pelo corredor com o coração pesado, a esperança ténue a desvanecer-se a cada passo, os empurrões boçais nas costas, ora de um, ora de outro, por vezes com o cano frio da arma a servir de impulsionador, de catalisador de emoções más, o medo, o pavor.

Esquerda — ordena James cutucando com o cano no ombro de Sarah.

Nessa direcção encontram uma porta branca fechada. A meio, um aviso informa que a entrada só é permitida a pessoal devida­mente autorizado.

— Isto nem parece um hospital — diz Simon em surdina. — Não se vê ninguém. Onde param os médicos e o resto do pessoal?

Deve ser assim que funciona durante a noite — supõe Sarah num murmúrio.

E os seguranças? — prossegue Simon. — Isto não tem segu­ranças?

É melhor que ninguém apareça, acredita — adverte Sarah.

— Caluda — resmunga James. — Entrem e bico calado.

Sarah empurra a porta daquilo que será um quarto de interna­mento não utilizado. O espaço é grande, uma cama de corpo e meio encostada a um canto, enormes janelas a todo o comprimento de uma parede, noutro canto um armário aberto, branco, com tudo, a revelar a falta de utente no momento. O ambiente asséptico há muito que se impregnou nos narizes criando habituação. Bem no centro, sentado numa cadeira de plástico, Simon Templar de arma em punho fita-os sisudamente. Chegou o momento. O tal Herbert deve ter chegado.

Cá estão os nossos pombinhos — escarnece James. — Estou ansioso por poder brincar com eles — diz com a boca bem perto do ouvido de Sarah, que fecha os olhos. O homem deita a língua de fora e vagueia com ela a milímetros da pele dela. Apesar de não demons­trar, Sarah sente um asco convulsivo apoderar-se dela. Se James não recuasse, seria provável que as entranhas se revolvessem ainda mais e isto resultasse num vómito.

E agora? — quer saber James, virando-se para Templar, que continua com a mesma expressão séria, como se tivesse acabado de ter conhecimento de uma má noticia.

Templar ignora a pergunta do parceiro e continua a focar o seu olhar vítreo para Sarah, ou pelo mens assim parece, o que a inco­moda sobremaneira.

— E agora, pá? — volta a perguntar James, a quem não agrada o olhar penetrante de Templar.

O comportamento do colega de ofício, carniceiro ou mercenário, operacional de quem é mais generoso a abrir a carteira, é anormal também aos olhos dele. Acerca-se do companheiro, sentado na cadeira de plástico, e coloca-lhe a mão no ombro, abanando-o.

Então, pá? — chama. — Estás a dormir acordado?

A arma empunhada por Templar dispara-se. Por sorte, atinge o tecto para onde estava apontada, não criando qualquer perigo. Acto contínuo, o abanar vigoroso faz que ele caia, inerte, no chão, de bar­riga para baixo. James debruça-se sobre ele, pasmado. Dois furos no casaco deixam subentender o resto. Olha para a cadeira onde se repetem os dois orifícios e uma mancha de sangue de Templar, ver­melho escuro, anunciadora de morte.

O pânico toma conta de James.

— Não se mexam — grita para Sarah e Simon. — Ninguém se mexe.

Desorientado, empunha a arma ao acaso, virando-se para todo o lado, alerta, procurando a fonte do perigo, a origem dos tiros. Não consegue encontrar os invólucros das balas, o que significa que foram recolhidos ou que os tiros não foram dados ali dentro.

Ninguém se mexe — grita novamente. — O primeiro a respi­rar leva um tiro nos cornos.

Okay. Okay — acata Simon incomodado com o pânico espe­lhado nos olhos do ex-amado. — Cuidado com isso.

Sarah inspecciona a divisão com o olhar a tentar perceber o que se está a passar. Quando se perde o controlo, perde-se qualquer dig­nidade que se pudesse ter, pensa ao ver as figuras de James.

James aproxima-se da enorme janela devagar e perde-se a olhar para o vidro.

- Oh, merda — exclama.

Segundos depois, cai no chão. Simon dá um grito, mais em tom de guincho, e vê, assim como Sarah, um fio de sangue a escorrer da testa. Os olhos gelados, na expressão de pânico com que morreu.

Foda-se — desabafa Simon, que olha para Sarah. — Viu isto? Sarah não responde, um sorriso deslocado invade-lhe o rosto enquanto olha para a janela.

O que se passa? — pergunta Simon, que olha também para a janela procurando ver a fonte da boa disposição.

No vidro, três orifícios pequenos.

 

         O POLACO E O TURCO, 27 DE DEZEMBRO DE 1983

O Santo Padre nunca mais exibiu o fulgor de tempos idos. Deus dá o fardo, mas também a força para o carregar. Pensa nas palavras veiculadas por Franz Kõnig, o austríaco empreendedor, responsável confesso pela sua eleição em Outubro de 1978, enquanto sobe as escadas do estabelecimento prisional em direcção à cela. Acompanha-o o fiel Stanislaw, o sempre-presente, para além do director, alguns padres e guardas. Um perímetro rigoroso de segu­rança está montado. Não há lugar a facilitismos desde o acontecido dois anos antes, não muito longe dali, em território estrangeiro à Itália. Deus dá o fardo... volta a frase à sua mente. Tem meditado longamente sobre isso e chegou à conclusão sentencial de que o importante não é carregar, antes suportar. É o pastor dos pastores do inundo católico há cinco anos e pode confirmar melhor que qual­quer homem vivo, que o papado envelhece e mata lentamente. É um peso constante, incomparável a qualquer outra coisa que exista e tem de o suportar, não carregar, sozinho até que...

Sobe as escadas a custo, amparado por Stanislaw. A idade tam­bém é um outro género de peso, mas nada que possa interferir, pelo menos para já, na subida dos degraus. Foram os tiros que o debili­taram desta maneira, dificultando outros tantos afazeres e prazeres, imperfeições provocadas pelo mau íntimo do homem, debeladas pela cirurgia mas impossíveis de corrigir na totalidade, de limpar e curar de forma a que o 13 de Maio de há dois anos tivesse a importância de um dia normal, sem confusões nem atritos, e os homens fossem capazes de dialogar em vez de discutirem a tiro as suas diferenças.

O último degrau perfila-se como uma vitória sem sabor particu­lar, marca o início da recuperação do esforço, da recuperação do fôlego. Wojtyla deixa que o conduzam pelos corredores cinzentos e feios em direcção à cela onde o jovem turco paga pelo hediondo crime de atentar contra a vida de um papa. Deste papa que caminha esforçadamente para o ver.     

Está bem, Santo Padre? — pergunta o fiel secretário, Stanislaw. Dziwisz, cuja vida lhe tem sido dedidcada desde desde há muitos anos.

Sim, estou — responde o Sumo Pontífice, arquejante.

Quer parar, Santidade? — pergunta o director ao seu lado.

Prossigamos — diz Wojtyla com bonomia. Um ligeiro sorriso ilustra a vontade expressa, que será acatada com veemência.

Algumas dezenas de metros mais à frente, param diante de uma porta cinzenta blindada, junto à qual dois guardas estão de vigia, um de cada lado. O director ordena a um deles que abra a porta. O subalterno cumpre o requisito com prontidão, não sem antes se ajoelhar perante o Santo Padre e beijar-lhe a mão, como manda o respeito clerical sobre a fé dos homens comuns. Roda a chave na fechadura e é o primeiro a entrar na cela, enquanto o com­panheiro permanece em sentido.

Por favor, Santidade — convida o director estendendo a mão a indicar a entrada.

Wojtyla entra seguido de Stanislaw Dziwisz, o director é o último, deixando o resto da comitiva à porta.

Lá dentro encontramos o jovem turco, de pé, com o olhar inse­guro e envergonhado pousado sobre o polaco. Não o consegue man­ter por muito tempo. Baixa-o em seguida como um menino de coro que fez asneira e aguarda o superior castigo.

Santidade, fique o tempo que entender — instrui o director. — Ficará aqui um guarda com a arma destravada, preparado para agir caso seja necessário.

— Perfeitamente — anui o secretário, manifestando a compreen­são das instruções de segurança.

Wojtyla já entrou noutro plano, olhando para o jovem turco com indulgência. Os intervenientes aguardam que o director se retire da cela. Ouve-se a fechadura a trancar do lado de fora, segue-se um silêncio constrangedor para alguns mas não para Wojtyla, que mira o turco de alto a baixo. Este tem o rosto baixo em jeito de submissão. O papa aproxima-se dele e, sem cerimónia, leva a mão enrugada à cara dele e levanta-a. Os olhos mortiços do jovem não têm onde se escudar, nem as pálpebras obedecem. Ficam ali, despidos perante o homem que devia estar morto há dois anos, chorado, enterrado e substituído, pois a vida continua e só importa quem cá está, como estes dois que agora têm de ultrapassar as diferenças culturais, as religiosas, as dos ideais e outras, mais mortíferas.

De súbito, os olhos mortiços do turco deixam que alguma vida os invada, marejam com água e parecem sucumbir à perscrutação, porém a mão de Wojtyla a levantar-lhe o queixo é mais firme, como pedra. Não há censura ou reprovação na sua expressão, nenhuma forma de condenação visível, apenas um homem, o mais santo de entre eles, a ver o fundo da alma do outro e a entender tudo, sem pronunciar uma palavra ou desferir uma emoção.

Assim que Wojtyla o liberta, o jovem turco ajoelha-se aos seus pés com tal devoção, que o guarda quase atira sobre ele. O papa levanta a mão como que a dizer para baixar a arma e o guarda acata o pedido sem pensar uma segunda vez.

Perdoe-me, Santo Padre — suplica o turco a chorar, com a cabeça declinada entre os pés do estimado sucessor de Pedro. Wojtyla abaixa-se para o levantar e coloca a mão sobre a cabeça dele.

Levanta-te, meu filho. O que há para perdoar já o foi há muito tempo.

Ajuda o turco a levantar-se e condu-lo à cama.

Agora senta-te — ordena. — Respira fundo e conta-me tudo, meu filho.

 

Harvey Littel entra na sala que faz as vezes de gabinete de crise com a confiança de um soberano a legislar sobre o seu povo. É certo que Harvey Littel não cria leis, tão-pouco executa as regu­lamentadas. O mundo dele é um mundo à parte, o da informação e contra-informação, da espionagem militar, civil, industrial e política. Só existe urna regra neste ramo, vencer a qualquer custo, mas de forma inegável. Imbuído deste espírito, Harvey Littel toma o seu lugar na cabeceira da mesa ao mesmo tempo que os vidros das portas ficam automaticamente baços para ocultarem a visão para o interior.

Boa noite mais uma vez, meus senhores. Há novidades? — pergunta, tomando assento na confortável poltrona de couro. — Temos os contactos russos em alerta permanente — informa o coronel Garrison, tirando um charuto do bolso e levando-o à boca.

Perfeito. Perfeito — agradece Littel levantando uma mão. — Agradeço que não fume na minha presença. Obrigado. — Claro que é uma ordem e não um pedido polido.

Stuart Garrison fica a olhar para ele com o charuto cubano por acender e uma expressão de quem não esperava aquele reparo. Acaba por guardá-lo novamente no bolso do casaco à espera de horas melhores.

E Barnes? Já deu notícias?

Está em linha neste preciso momento, Dr. Littel — presta-se a informar Priscilla, sentada na cadeira junto à parede com um caderno em permanente rabisco.

Óptimo — responde Littel. — Não o vamos fazer aguardar mais — decide. — Coloquem-no em alta voz.

Geoffrey Barnes? — chama Priscilla, cujo diminutivo cari­nhoso é apenas para ser usado pelo seu patrão e mais ninguém.

Sim? — ouve-se a voz gutural de Barnes encher a sala atra­vés de altifalantes colocados no tecto. O aparelho telefónico está perto de Littel, em cima da grande mesa.

Barnes, meu caro, como estás? — É Littel quem cumprimen­ta com audível afabilidade.

Littel, bem, obrigado. E tu? Enfiado no menos dois, sem ver a lua cheia? — Denota uma grande segurança na voz, o que, por si só, tranquiliza toda a audiência.

Sabes como é. Por cá o trabalho é sofrido. Aposto que estás sentado na tua secretária, no sexto andar, a ver as luzes da cidade e de faca e garfo na mão, pronto para comer um faisão.

Enganas-te na parte da comida, mas não deixa de ser uma boa ideia.

Pois muito bem. Como é que foi morrer um dos nossos em Amesterdão? — opta por inferir um tom grave de repente.

A minha gente esteve lá. Eu próprio também, na noite pas­sada, e posso afirmar que a vítima de nome Solomon Keys estava no sítio errado à hora errada.

Solomon Keys. Confirma-se. — Littel compara a informação dada por Barnes com a que já possui.

Ouvem-se alguns suspiros pela sala, devido ao reconhecimento do nome ouvido, a maior parte de ouvir falar, um ou outro por conhecer pessoalmente o indivíduo em causa. Paz à sua nobre alma.        1

Sim. Portanto, ele morreu porque estava na estação de Amsterdam Centraal, numa das casas de banho, mais precisamen­te, quando entrou um casal inglês para satisfazer o desejo carnal.

Alguns ouvintes começam a rir-se timidamente. Não deixa de ter graça ouvir Barnes relatar urna cena desse teor com um profis­sionalismo a toda a prova.

Alguém entrou para eliminar esse casal e o Keys levou por tabela — conclui Barnes.

Okay. De qualquer maneira, vamos solicitar a folha de servi­ço dele para confirmar se os motivos da viagem eram lazer ou ope­ração. — Littel diz isto e, ao mesmo tempo, gesticula para Priscilla como que a atribuir-lhe essa tarefa. Ela anui e rabisca no seu caderno.

Ele tinha oitenta e tal anos — argumenta Barnes no sentido de desculpabilizar totalmente o antigo operacional da Companhia.

Não seria o primeiro, Barnes — esclarece Littel. — Às vezes, eles voltam ao activo para mais uma missão ou duas.

Ainda que separados por milhares de quilómetros, ambos se vêem a fazer o mesmo. Velhinhos, de bengala, cheios de artrite, arfantes, mas se a Agência precisar... Aquilo é a vida deles, o maior casamento que alguma vez realizaram, até que a morte os separe.

Tudo bem — concorda Barnes. — Mas não é crível que encontres alguma coisa. Os alvos desta operação eram dois jorna­listas ingleses, Natalie Golden e Greg Saunders.

Quem são eles?

Jornalistas prestigiados.

Já se conhece o móbil? — quer saber Littel.

Estamos no terreno. Em breve saberemos mais alguma coisa.

Natalie Golden e Greg Saunders — repete Littel para a sala. — Quero que levantem a vida toda deles, desde que nasceram até que patinaram. O mínimo pormenor é importante. Tratem disso.

Vê-se um conjunto de pessoas abandonarem a sala a fim de cumprirem o estabelecido.

Barnes, que mais tens para mim?

Houve uma explosão ao fim da tarde, aqui em Londres.

Em... — Consulta os seus apontamentos em cima da mesa. -- Redcliffe Gardens. Estamos ao corrente — completa Littel.

Pois bem, a explosão foi de origem criminosa e dela resultou um ferido e um morto.

Um burburinho desconfortável invade a sala.

Já estamos a tratar de interrogar o ferido.

E o morto?

Um agente do SVR, um tal Nestov.

-Nestov? — exclama o coronel Stuart Garrison.

— Por isso é que não atende o telefone. — O coronel fica branco.

De quem é a casa? O que estava ele a fazer lá?

Barnes não responde. O burburinho aumenta cada vez mais na sala.

Silêncio — pede Littel. — Barnes, estás em linha?

Estou.

Então faça o favor de me responder. O que estava ele a fazer na casa?

Barnes volta a não esboçar qualquer resposta. Quando isso acontece, só pode significar uma coisa e só uma. Littel compreende e levanta o auscultador do telefone, desligando o alta voz.

Pronto, Barnes. Somos só tu e eu.

É claro que aos restantes ouvintes não agrada a ideia de fica­rem de fora da conversa pois, tal atitude, significa um aumento no arquétipo de secreto, multiplicando a curiosidade dos espectado­res.

Harvey Littel escuta com atenção o que Barnes delega em cima dos seus ombros. O rosto começa a ficar conturbado, carregado, dando lugar a uma expressão de irritação e desassossego.

O auditório apercebe-se dessa variação de humor e fica cada vez mais frustrado, pois só consegue ouvir as parcas palavras de Harvey Littel, sem o contexto conexo em que elas se inserem.

É essa a posição da presidência?

Ao ouvirem falar em Washington, todos distendem os ouvidos em vão. Continuam a escutar o mesmo. Nada.

Segundos depois, Harvey Littel pousa o auscultador do telefo­ne, desligando-o por completo. Conseguem avistar-se algumas gotículas de suor a escorrerem pela testa a baixo. Não serão com certeza efeitos do ar condicionado que mantém a temperatura con­fortavelmente amena em todo o edifício. Algo incomoda Harvey Littel, e se algo o incomoda, em breve incomodará a todos.

Tamborila os dedos no tampo da mesa durante alguns momen­tos, oprimindo os outros, que se mantêm calados na sua frustração.

— Acordem o co-director — ordena por fim. — E mandem pre­parar um avião.

 

Isto está muito turvo — protesta Staughton no banco de pas­sageiro, enquanto a viatura conduzida por Thompson desemboca na Montpelier Street e vira à esquerda para Bromton Road.

É assim que funcionam as instituições. Se fosse tudo às claras, não tínhamos emprego — explica Thompson.

É uma verdade — concorda Staughton. Respira fundo, des­confortável. — Mas um gajo até se pode enganar.

Não pode nada.

Não?

Não — repete Thompson. — Eles para nós são parceiros. Colaboramos enquanto for de interesse mútuo. Nós compreende­mos isso e eles também.

Sim mas segundo o presidente.

— O presidente age segundo os interesses dos Estados Unidos da América. É só nisso que ele tem de pensar. E segundo esses interes­ses que ele jurou defender, opta, na conjuntura actual, por ajudar quem dá mais.

Parece-me injusto — confessa Staughton.

Tu és novato em questão de trabalho operacional no terreno por isso deixa-me dar-te um conselho: existem os Americanos, que somos nós, e os outros. Nunca te afeiçoes aos outros porque um dia poderão ser nossos inimigos, percebes?

Não é por aí que deixa de ser injusto.

Esquece a injustiça. O mundo é injusto por natureza. Usa esse conselho e nunca terás problemas quando as peças mudarem de lado, simplesmente porque são os outros e esses outros — Faz urnas aspas gestuais com uma das mãos ao pronunciar a palavra — são meros acessórios e os primeiros a cair quando a coisa dá para o torto.

Já percebi.

Os dois homens continuam a viagem em silêncio. Staughton assi­mila a lição moral dada pelo colega de trabalho, já devia ser amigo, dadas as horas diárias de convivência, porventura até o serão sem saberem, capazes de dar a vida um pelo outro se for caso disso... ou não, só o momento o dirá se acaso vier a acontecer um dia. É curio­so como passam inúmeras noites juntos, viajam, vigiam, escutam, mas continuam a ser dois desconhecidos, talvez por cada um colo­car urna barreira protectora que escuda qualquer aproximação, até porque urna das coisas que este emprego ensina e não se cansa de relembrar aos dois é que, ao contrário da guerra, em que a nossa vida é confiada ao homem que está ao lado, e assim sucessivamen­te, aqui ninguém é de confiança. Há que desconfiar da própria som­bra que não terá qualquer problema consciencioso em delatar-nos.

— Voltamos a ouvir falar em Sarah Monteiro, Jack Payne. Não te lembra nada? — perquire Staughton.

A ti também te devia lembrar, ou será que a pancada que te deram em St. Patricks te deixou amnésico? — A irritação na voz é evidente. Não é matéria que goste de relembrar.

Não me deixa orgulhoso, convenhamos, ninguém gosta de ficar inconsciente. — Aponta para Thompson. — Mas não fui o único, não digo nomes, mas aponto. — Sorri a tentar quebrar o mau ambiente que a lembrança criou. — Por outro lado, prefiro que as coisas tenham corrido assim.

Assim? Porquê? — Thompson até se dá ao trabalho de tirar os olhos da estrada e fitar o parceiro, tal o espanto em ouvir a alarvidade.

Porque podíamos ter de prestar contas acerca de três ou quatro cadáveres sem necessidade. As partes acabaram por chegar a um bom entendimento através do diálogo e ninguém morreu — conclui.

Thompson fita-o sem saber muito bem o que dizer, até que recu­pera o raciocínio lógico e a irritação.

Chegaram a acordo devido a uma chantagem. Ou ficam quie­tos ou publicamos isto. E devo lembrar que a autora dessa chan­tagem morreu a foder numa casa de banho em Amesterdão, junta­mente com o colega, que não tinha culpa nenhuma, provavel­mente ignorava o que ela fez e levou por tabela. — Quase saliva de raiva.

E agora, alguém que nem sequer é tido nem achado nesta merda toda, lembrou-se de acertar contas com eles. E o Tio Sam...

Deixa o Tio Sam em paz — interrompe Thompson. — O Tio Sam sabe sempre aquilo que faz, embora às vezes não pareça, aca­bamos sempre por lhe dar razão.

Staughton cala-se ao ouvir aquilo. Não vale a pena continuar a discutir, é um diálogo irritado, de surdos que jamais vão entender­-se. Thompson é um agente construído com os vícios do terreno, das operações multifacetadas, habituado a desenvolver personagens que nada têm que ver com a sua identidade. Um verdadeiro espião, camaleão das mil e uma cores, capaz de convencer a mãe, se ela ainda fosse viva, de que é o seu marido.

Staughton é um caso muito diferente. Recrutado para a secção informática de cruzamento de dados, sempre operou a partir do interior, com um rato e um telefone não havia adversário que lhe fizesse frente. As operações adquirem o dom da fantasia quando tudo é feito com os olhos postos num monitor, que vai ditando o resultado como um jogo de computador, e que paga um ordenado real ao fim de cada semana. Agora, desde que está ao serviço de Geoffrey Barnes, no terreno, percebeu, finalmente, que os contor­nos no ecrã significam lugares verdadeiros e os pontinhos de cores diferentes ilustram pessoas de carne e osso, como ele e Thompson, que conduz embirrento ao seu lado, e a missão cumprida descreve somente uma das fracções. Há sempre alguém que perde e, por norma, muito mais do que aquilo que antecipava.

Thompson acelera mais um pouco, reflexo da irritação, entrando na Rilham Road um pouco mais depressa do que o permitido por lei. Contudo, não está nenhum polícia nas imediações preparado para usar da autoridade e autuar o prevaricador. Guina à direita e acelera ainda mais. Staughton respira fundo, sabe que a qualquer momento o hospital aparecerá no seu campo de visão, do lado esquerdo.

Assim acontece, um quilómetro e meio mais adiante, quando o edifício se faz anunciar, Chelsea and Westminster Hospital, duas ambulâncias estacionadas na frente, sem ninguém, mais uma carri­nha Mercedes parada na estrada, com os faróis ligados e o motor a trabalhar. Thompson vira cento e oitenta graus para se colocar atrás da Mercedes.

Olha ali — aponta para a entrada.

Staughton também está a ver. Uma mulher que logo reconhece sai do interior do hospital, acompanha-a um velho aloirado e um jovem vestido de pijama.

Thompson pára o carro e sai de pistola em punho.

Sarah Monteiro — chama com uma voz forte e controladora, apontando a arma à portuguesa sem cerimónia. — Não se mexa.

Staughton sai também do carro, atabalhoadamente, mas não puxa da sua arma. O parceiro tem a situação controlada e está mais do que habituado a apontar armas às pessoas e até... a disparar sobre elas, sem pejo nem objecções de consciência.

Sarah e os outros obedecem prontamente e até põem as mãos no ar, como mandam os guiões cinematográficos, sem que tal ordem tivesse sido emitida.

Thompson sorri ao ver a cena que se desenrola sob a sua ba­tuta e olha para Staughton com ar confiante, como um mestre a mostrar ao aluno condescendente a arte de bem prender um ou vários indivíduos, mas o seu semblante altera-se radicalmente assim que volve os olhos para o parceiro e vê um ponto vermelho a subir­-lhe do peito para a testa.

O que foi? — quer saber Staughton. — Que se passa? — O medo embarga-lhe a voz.

— Não te mexas — ordena Thompson olhando para o outro lado da rua, o provável poiso do atirador. Vários prédios com as luzes apagadas tornam a identificação praticamente impossível.

Thompson continua com a arma em punho, apontada aos três indivíduos e não faz menção de a largar enquanto perscruta os pré­dios em frente, visivelmente incomodado.

— Sarah Monteiro — grita. — Aproxime-se.

Pode ser que a consiga usar como escudo, alcançando uma pre­ponderância sobre o atirador, cuja identidade matuta na sua mente. Só pode ser Jack Payne, o tal Rafael Santini.

Sarah caminha em direcção a Thompson, um passo de cada vez, sem pressa, esta detenção não estava nos seus planos, tudo parecia resolvido com a eliminação de Templar e James. Que noite esta. Um baque no vidro da porta do condutor do carro de Thompson esti­lhaça-o em mil pedaços e faz que Sarah dê um grito e se deite no chão. Thompson sacode do casaco os vestígios do que outrora fora um vidro e corre para alcançar Sarah, a sua última oportunidade que se encontra a cerca de 15 metros, deitada no chão, fácil, fácil. O asfalto, porém, salta por duas vezes rente aos seus pés. Dois tiros, sem dúvida, que o fazem estacar e compreender a mensagem, não te quero matar, mas se tiver de ser... Pousa a arma no chão e põe as mãos atrás da cabeça... sem que ninguém lho tenha ordenado. Perdeu. Nesse momento, vê Rafael sair da casa em frente e atraves­sar a rua com a arma apontada a ele.

O teu colega que se desarme — ordena Rafael.

Ao ouvi-lo, Sarah levanta-se e olha para ele com os olhos lumi­nosos. Um ano depois, o reencontro nas mesmas circunstâncias. Será que não podem ver-se de outra maneira? Mais normal? Um jantar, uma ida ao cinema ou a uma casa de chá?

Faz o que ele diz — pede Thompson a Staughton com a mesma voz vigorosa de sempre, sinal de que não é a primeira vez que se encontra sob a mira de uma arma. O estofo do guerreiro, pensa Staughton com respeito, enquanto atira a sua arma para longe de si. Se o conhecessem bem, saberiam que jamais dispararia sobre alguém.

Rafael atravessa a estrada sem nunca deixar de fitar os dois homens. Jamais facilita, nem um olhar desviado na direcção de Sarah, que já sabe do que a casa gasta. Primeiro o trabalho, depois o trabalho, e depois disso mais trabalho. Não existe divertimento na vida de Rafael Santini, outrora agente duplo da P2, que adoptava o nome Jack Payne.

Assim que Rafael chega junto de Thompson encurva os lábios num sorriso sarcástico.

Como está o Geoffrey Barnes?

Nenhum dos agentes responde, como é óbvio. Thompson enfrenta o olhar de Rafael, enquanto Staughton o baixa para não chamar atenções indesejáveis sobre si. Nos computadores é tudo muito mais fácil.

Transmitam-lhe os meus cumprimentos — pede num tom neutro, na expectativa de que eles entreguem o recado ao director. Claro que jamais o farão. Para Staughton é aprazível saber que Rafael não pretende fazer-lhes nada de mal, o plural implica que sejam os dois a transmitir a mensagem.

— Você é completamente doido? — protesta Phelps. — De arma em riste, aos tiros às pessoas? — Está completamente possesso. — Onde estamos, meu Deus? E estes senhores também? — Aponta para Staughton e Thompson, que o fitam incrédulos.

Meu caro Phelps — chama Rafael. — Acomode os nossos dois novos companheiros na carrinha. Vão um pouco apertados, mas onde há boa vontade... — E mais não diz.

Phelps quer continuar a expor a sua indignação, mas a mão de Sarah sobre a sua chama-o à terra e logo se vê a encaminhar Simon e a senhora ou menina à carrinha, onde têm de ir três no lugar de dois. Nada que não possa ser feito, com a Graça de Nosso Senhor.

Rafael, sempre atento, pega nas armas de Staughton e Thompson largadas à sorte no chão, desmonta-as com mestria e deixa cair as peças, guardando os carregadores para futuro uso, dada a compati­bilidade do modelo.

Voltaremos a ver-nos — informa Rafael encaminhando-se para a carrinha. — Até à próxima.

Antes de entrar na carrinha aponta uma caneta que liberta um feixe vermelho aos olhos de Thompson. Nem tudo o que parece é.

Agora sim, arranca a toda a velocidade.

Os dois homens quedam-se embasbacados a ver a viatura partir pela Fulham Road em direcção a Fulham Broadway. A reacção vem depois, quando Thompson abre a porta do carro.

Vamos.

Onde?

Atrás deles, onde querias que fosse?

Entram no carro e aceleram na mesma direcção ou pelo menos era essa a intenção, contudo Thompson sente algo na direcção e trava o veículo. Põe a cabeça de fora e repara no que não vira antes, vá-se lá saber como os dois pneus do seu lado estão vazios. Rafael deve ter atirado sobre eles.

O que foi? — pergunta Staughton.

Pneus furados — explica Thompson, saindo do carro.

É — profere Staughton com um suspiro.

É o quê? — O tom irritadiço de Thompson não é para brinca­deiras.

O gajo é bom — confessa com admiração.

Justamente quando Thompson vai exprimir a sua revolta ao parceiro, detém-se um táxi londrino junto ao carro deles. Um homem ainda jovem sai do carro com um just a moment e olha-os com desdém.

O que aconteceu aqui? — pergunta com rispidez.

Siga o seu caminho — responde Thompson com maus modos. — Isto não lhe diz respeito.

Um sorriso escarninho e irritante aparece no rosto do homem.

Vocês devem ser os pacóvios do Barnes.

E você quem é? — quer saber Staughton descontente com o insulto.

— Sou o vosso patrão nas próximas horas. Tenho dois homens lá dentro. O que aconteceu aqui?

Estamos a falar com o tal Herbert?

O homem anui com um cortês aceno de cabeça.

— Os seus homens devem estar mortos. Não conseguimos impe­dir que levassem a mulher — confessa Staughton.

Quem?

Já ouviu falar de Rafael Santini ou Jack Payne?

Um esgar de reconhecimento apodera-se do seu rosto. É eviden­te a raiva que sente por ele.

Herbert dirige-se à porta do condutor do táxi e desembainha um 4 revólver.

Estou sem paciência por isso vou dar-lhe cinco segundos para abandonar o veículo.

O condutor fica atónito e imóvel, mas quando Herbert olha para o relógio e começa a contar, um, dois, três, quatro, é vê-lo a sair do carro e a correr o mais que a idade permite.

— Vamos embora — ordena Herbert. Vira-se para Thompson: — Você conduz. — Depois para Staughton: — Você, ligue para o Barnes. Eles não podem deixar a cidade, ele que ponha o presiden­te atrás deles, se necessário for. Não podem e não vão deixar esta cidade com vida.

 

Credo. Quem será a estas horas? — protesta a pobre irmã, que teve de se vestir à pressa para ir atender o impaciente desconhecido que bate à porta do Convento das Religiosas do Sagrado Coração de Jesus com veemência há mais de cinco minutos. Até se benzeu quando olhou o relógio ainda deitada na cama e leu nos ponteiros que faltavam dez minutos para as cinco da manhã, cinquenta e cinto minutos antes da hora do seu despertar a fim da primeira oração, antes do pequeno-almoço.

Quem quer que seja vai ter de ouvir uma reprimenda das suas, pois é de muita má-criação incomodar o descanso das irmãs, ainda para mais quando na véspera foi noite de procissão de velas em honra de Nossa Senhora. O Santuário Mariano ergue-se a algumas centenas de metros deste local e são esperados neste dia milhares de peregrinos que vêm demonstrar a sua devoção à Virgem e ao fruto concebido sem pecado.

A irmã desce a escada mal-humorada, pudera, devia ser crime punido com coima acordar alguém a menos de uma hora do início da obrigatoriedade diária. São ordens de a madre superiora abrir a porta a qualquer hora, todos os fiéis devotos têm o direito a uma palavra amiga, refeição ou mesmo guarida em caso de necessidade. O certo é que não é a madre quem tem de se levantar a esta hora e abrir a porta, sujeita a ser assaltada por um qualquer malandro, pois ela dorme nos andares cimeiros e reza a primeira das orações do dia no conforto do seu cómodo, descendo apenas para tomar o pequeno-almoço e dar as ordens da jorna, sempre iguais a todas as outras.

Já chegou à porta a irmã, composta com os puros trajes da ordem de cor azul, ponteada com um lenço branco que agora compõe para não aparecer mal apresentada a quem quer que seja.

Abre um pequeno postigo quadrado, à altura da cabeça de uma freira alta, para isso tem de subir para um pequeno caixote que, em tempos, serviu para carregar fruta, para ganhar a altura da abertura, pouco mais larga que a sua cabeça.

Quem está aí? — pergunta numa voz quezilenta a não dar azo a veleidades da parte de quem está lá... do outro lado da porta.

Boa noite — ouve-se um homem dizer. — Perdoe a minha aparição a uma hora tão tardia — começa por se desculpar numa voz melosa. — Era para ter chegado mais cedo, mas sofri um atraso.

Quem é o senhor? — pergunta a irmã esforçando os olhos para vislumbrar o homem que lhe fala.

Sou o padre Marius Ferris. Deveria ter chegado a noite passa­da para pernoitar sob o tecto santificado deste convento.

A irmã comove-se ao ouvir o nome dele e muda por completo de atitude.

Marius Ferris? Discípulo de Escrivá? Meu Deus.

O prelado não vê a irmã saltar de cima do caixote de frutas que lhe dá a altura, nem tirá-lo da frente da porta com um pontapé cer­teiro, ouviu, no entanto, todos os ruídos que compõem todos esses actos, mais o da chave a accionar a sólida fechadura no sentido da abertura, com vigor, para revelar a prazenteira irmã, trinta centíme­tros mais baixa do que esperava. Nem tudo o que parece é, pensa o homem de cabeleira branca que é convidado a entrar no convento pela derretida irmã, entenda-se derretida como uma devota da Virgem que vê uma celebridade do sacerdócio à sua frente, no mesmo sentido em que uma admiradora vislumbra uma qualquer estrela de Hollywood, salvaguardando os devidos pensamentos pecaminosos que, como é óbvio, esta irmã não tem.

Faça o favor de entrar. Seja bem-vindo.

Sobem as escadas que dão acesso ao convento propriamente dito, Marius Ferris mais expedito que a irmã, cuja idade já não permite subidas intempestivas, efeitos de metade da vida enclausurada nes­tas quatro paredes, orando ao Senhor, preparando as três refeições diárias e dormindo as oito horas da praxe. Já em Marius Ferris vê-se o resultado das caminhadas diárias que dispensava em Nova Iorque, desde o número 38 da Avenida das Américas, a Sexta avenida, até Central Park e de regresso ao sétimo andar do supracitado número.

A madre superiora pediu que a avisasse assim que chegasse — informa a irmã a braços com a falta de fôlego.

Não há necessidade — afirma Marius Ferris. — Deixe-a des­cansar. Indique-me os meus aposentos e a irmã também pode ir des­cansar mais um pouco. — A voz amistosa conquista-a por completo.

Obrigada. Estou bem. Vou pedir que não o incomodem até à hora do almoço para descansar mais um pouco.

Marius Ferris sorri.

Não se incomode, irmã. Dormi na viagem. Só preciso de um banho, fazer uns telefonemas e desço para o pequeno-almoço.

Hoje espera-se grande enchente por estas bandas — noticia a irmã de forma prestável. Afinal de contas, não é todos os dias que temos connosco um dignitário com tal importância. Somente o papa, em pessoa, pode superar esta visita; de entre os humanos, bem entendido, pois Jesus Cristo, Filho Unigénito, está sempre presente nas almas de quase todas as sorores, bem como a Mãe de todas as mães a quem o convento é consagrado.

Neste conceito sagrado, eis que chegam à porta que dá acesso aos aposentos temporários de Marius Ferris. Uma pequena porta casta­nha, semelhante às que se alinham ao longo do corredor, com uma cruz fixada a meio, sem o Cristo crucificado esculpido, mas que se subentende, como em muitas outras cruzes noutros lugares a lem­brar a amplitude religiosa, por mera razão decorativa e não por necessidade intrínseca, uma vez que as irmãs são todas devotas res­ponsáveis e não precisam que se lhes avive a mente sobre o que é o certo e o errado naquela santa casa.

— Bem sei, irmã - evoca o prelado em jeito agradecido - Todos os dias 13. Ontem foi dia de procissão, se bem me lembro.

Ai se a irmã não fosse freira. Que palavras tão doces ou - pelo menos assim soam aos seus ouvidos encantados.

- Correctíssimo. Foi uma pena que se tivesse atrasado. A ceri­mónia foi belíssima.

Imagino que sim. Imagino que sim. Já a vi noutros tempos... Há muitos anos, mais de vinte. — Os seus olhos denunciam alguma nostalgia, que tenta esconder em vão. O passado tem o poder dos anos, não há como não vergar mesmo os mais afoitos.

Haverá outras alturas, decerto — pressagia a irmã de bom humor. Será um bom dia com certeza. Abre a porta e apõe um gesto incitador com a mão, indicando a Marius Ferris que entre. — Já sabe, Eminência, de 12 para 13, entre Maio e Outubro, desde 1917, graças à Virgem Maria. — Baixa-se com o intuito de beijar a mão do clérigo em busca de bênção superior, o que ele não declina.

Deus a abençoe, irmã — profere em tom magnânimo. — Descerei em breve.

Bem-vindo a Fátima, Eminência.

E assim se despedem sem mais graças. Marius fecha a porta atrás de si e pousa a pequena mala que transporta em cima de uma pequena mesa encostada a uma das paredes da cela. Apesar de diminuta, deve ser a maior divisão de repouso do convento, parca em decoração, como deve ser: apenas uma cama de solteiro, a mesi­nha mencionada, que também pode fazer as vezes de escrivaninha, uma cadeira de aparência antiga e urna estante de minúsculas dimensões com alguns livros autorizados pela Santa Madre Igreja. Sorri ao analisar o cubículo. Como adora ser tratado com deferên­cia, quase como um soberano, e o certo é que não deixa de o ser, à sua maneira, com as suas regras, secretamente. Tudo bem, não fica­rá na História como Marius I ou II, mas quem sabe se daqui a umas décadas não será apelidado de S. Marius, protector do bom nome da Igreja Católica? A visão dos fiéis a rezarem à sua imagem, lar­gando a esmola, fazendo o pedido encarecido, quase o deixa em êxtase.                                  

Verifica o sinal do Nokia, os traços revelam a força máxima — valha-nos a Cova da Iria, seja lá quem for a Iria a quem pertencia a cova — onde tudo começou há noventa anos quando Lúcia, Jacinta e Francisco viram a Mãe de Jesus revelar ao mundo os três segredos mais importantes, começando pelo final da Primeira Guerra Mundial, que ocorreu no ano seguinte, o declínio da União Soviética, que tanto mal devia fazer ao Cristo e à Mãe para Eles a quererem ver declinar e, por último, aquele que permaneceu omis­so por mais tempo e assim continua com o aval de Marius Ferris: o assassínio de um papa, personificado na pessoa do célebre Albino Luciani, o Papa João Paulo I, de boa e má memória, sendo a boa o sorriso e o carácter vertical oposto à Igreja que representava e a má, a noite de 29 de Setembro de 1978, em que veio a falecer em cir­cunstâncias que Marius tão bem conhece. Não é homem para vali­dar o mal feito, no entanto, adopta um lema que a Igreja muito apre­cia: o que está feito, feito está, ao que acrescenta que não adianta cho­rar pelo leite derramado. Deve é limpar-se o joio com tino e correc­ção, sem deixar que os vestígios passem para a opinião pública, qualquer que seja o credo que represente e, nisso, Marius Ferris é mestre. Deita-se na cama sem a desfazer, não sem antes deliberar que será apenas por dez minutos para desanuviar o cansaço. Depois rezará pela alma de Clemente, pedirá a Santiago Maior que releve a falta e o resgate das chamas do Inferno para junto da sua compa­nhia. Todos merecem uma segunda oportunidade, se não for cá, que seja lá... do outro lado da vida.

Cerra os olhos a fim de procurar a imagem da paz dentro de si, a rosa ou a pomba branca, tanto faz, qualquer ser vivo da cor da pure­za de espírito e dos nobres valores que transmita bondade, sereni­dade e todos os substantivos do género.

Quando a primeira pomba sacode as asas silenciosamente, no tecto, um canto gregoriano invade a cela eclipsando o torpor a que Marius Ferris se entregara. O telemóvel, largado sobre a pequena mesa, exulta o Pater Noster com as vozes másculas de uma ordem que não a deste convento. Outra pessoa, provavelmente, sentir-se-ia mais embalada com a melodia e embarcaria no sono dos justos, mas não, claro, Marius Ferris, que sabe do empreendimento que lançou e que cada canto gregoriano antecede um relatório de suma impor­tância da operação no terreno.

Levanta-se de um salto e pega no terminal telefónico que atende de imediato.

Pronto — diz para o aparelho.

O resto do tempo passa-o a escutar acerca do ponto da situação nos diversos locais da operação a que decidiu apelidar «Obra de Deus». Uma das notícias acirra-lhe o humor.

Como é que é?

Algo está fora dos eixos.

Como é que isso foi acontecer?

O silêncio no cubículo é entrecortado pela respiração alterada de Marius Ferris e pelas passadas frenéticas a que se impõe para expul­sar a energia negativa, acumulada com este telefonema.

Ouça-me bem. É imperativo que eles não abandonem a cida­de. Vou certificar-me de que terá os meios necessários para que isso aconteça. — A voz é dura e encerra em si uma frieza cortante. O líder a pôr o comboio novamente nos carris. — Quem foi o autor dessa proeza?

Escuta o nome com impaciência.

— Tem a certeza do que está a dizer? — Dá tempo ao serviçal de responder. — Então temos um problema grave. Mantenha-se atento e preparado para tudo. Não quero atrasos na operação. — E, sem mais, desliga o telefone para logo percorrer a lista de contactos memorizada no aparelho e marcar outro destinatário logo que o encontra. Dá tempo a que a ligação internacional se conclua e,,,. mesmo antes do primeiro bip, alguém atende do outro lado.

Senhor Barnes, boa noite — cumprimenta. — Pois, a minha também não tem sido nada por aí além. Será que preciso de lhe lem­brar o lado que tem de servir neste imbróglio? — Dois segundos de pausa a consentir a resposta a Barnes. — Perfeitamente. Sei que não estamos a lidar com uma força qualquer. Mas o meu dinheiro tam­bém não olha a facções quando se trata de eleger os amigos. Por isso, dou-lhe esta ordem e espero... — Pausa momentânea a repensar os vocábulos a utilizar. — ... sei que a vai cumprir. Assim que localize a mulher e todos os acompanhantes, elimine-os sem pensar duas vezes, entendido? — Aguarda por uma reacção do outro lado. — Não se preocupe com o JC. Esse está controlado. — Mais uns ins­tantes de pausa, os silêncios são muito importantes de gerir. — Trate disso. Deus assim o quer. — E desliga o telefone.

Está na hora de rezar pela alma de Clemente.

 

Alguém me explica como é que tivemos os filhos da puta na mão e os deixaram voar? — quer saber Barnes, quase a gritar, na cabeceira da enorme mesa da sala de reuniões, lotada pelos agentes de serviço.

Ah... — começa Staughton.

Tu, cala-te, ninguém te perguntou nada — explode Barnes batendo com os punhos em cima da mesa, intempestivamente. — Tenho a Casa Branca e Langley a foderem-me a cabeça porque vocês — aponta para todos — são uma cambada de incompetentes de merda que não sabem fazer o vosso trabalho.

E porque o presidente deve favores aos sacanas dos padres

murmura Thompson, sob o olhar perscrutador de Herbert que, à excepção de Barnes, é o único que está de pé, encostado à parede.

— Querem saber o que o vosso mau trabalho originou? Querem?

A sala mantém-se em suspenso, atenta ao chefe.

O Littel está a caminho. Esse mesmo que estão a pensar, o Harvey Littel, secretário do co-director. Vem avaliar a qualidade dos agentes que tenho. E sabem o que lhe vou dizer? — Barnes faz uma pausa: — Que vocês são uma m-e-r-d-a. Não servem nem para lim­par o cú — soletra com os dentes arreganhados.

O que é que o Littel vem cá fazer? — sussurra Staughton para Thompson, que está mesmo ao seu lado.

O parceiro encolhe os ombros como que a dizer que não faz ideia e, ao mesmo tempo, chama atenções indesejáveis.

Tens alguma coisa a acrescentar, Thompson? — inquire Barnes com maus modos. — Estou disposto a ouvir.

Thompson não se faz rogado, levanta-se e pigarreia a limpar a . garganta.

Compreendo a irritação do chefe.

Alguém sentado na mesa tosse e não deixa de ser interessante que o som proferido pela evacuação das vias respiratórias soe a algo parecido com gra.x-ista, contudo, Thompson permanece firme e não se deixa afectar.

Mas penso que sou mais útil à Agência vivo do que morto - continua Thompson.

Barnes bufa de impaciência, está farto de explicações, mas a razão fundamental da sua efervescência não é Langley, nem mesmo o presidente, tão-pouco o telefonema inconveniente que recebeu há minutos do discípulo de Escrivá. O seu mau humor chama-se Jack Payne ou Rafael Santini, como desejem chamá-lo, um traidor que serviu algumas vezes a CIA a empréstimo da P2, ambas incapazes de ver a duplicidade dele, as suas verdadeiras cores enquanto membro da Santa Aliança ou como quer que se chamem os serviços secretos do Vaticano... se é que alguma vez existiram. Para Geoffrey Barnes, Jack Payne será sempre um inimigo, mesmo que, vade retro tal pen­samento, um dia actuem do mesmo lado. Já viu o suficiente deste mundo para estar ciente de que essa possibilidade pode ser uma probabilidade.

Para melhor visualizarem o que aconteceu, imaginem um jogo de futebol europeu, um avançado que, sem querer, recebe uma bola, completamente isolado, quando não tinha qualquer esperan­ça que ela lhe chegasse aos pés. Só estão ele e o guarda-redes, o golo é garantido mas, de repente, o avançado é abalroado por um defe­sa que surge não se sabe de onde e leva a bola consigo, deixando o avançado prostrado no chão sem qualquer hipótese de recupera­ção.

A audiência, incluindo Barnes, escutam-no em silêncio.

Foi isto que aconteceu no Chelsea and Westminster Hospital, antes de este senhor chegar — aponta para Herbert e senta-se. Só falta o tenho dito, para terminar o discurso com pompa.

É o argumento necessário para Barnes procurar outro alvo, Herbert, de pé, encostado à parede, imóvel, frio como pedra.

Consegue explicar-me o que é que os seus homens fizeram para deixarem um ferido e uma mulher saírem incólumes?

Ainda está a ser apurado — aclara o homem, perfeitamente apático, numa voz indiferente, insensível a variações de humor.

— Na verdade, já está apurado. — É a vez de Staughton se levan­tar, entre o confiante e o tímido, devido às dezenas de cabeças que para ele olham. Os mais próximos poderão até perceber um certo rubor a queimar-lhe a face. — Havia três corpos no interior do hos­pital, relacionados com este caso. Um no quarto piso referente a um agente do SIS de nome John Cornelius Fox, os outros dois no pri­meiro andar, Simon Templar, cujo verdadeiro nome era Stanishev Yonsheva, antigo quadro da KDS...

KDS? — ouve-se alguém interrogar. — Onde é que isso já vai.

Primeiro um agente do SVR russo, agora um do antigo KGB búlgaro — reflecte Barnes. — Qual é o caminho disto? — Senta-se no cadeirão, pensativo. Tem uma vontade enorme de folgar um pouco o nó da gravata, mas um chefe não pode dar ar de desconforto. Vira­-se para Herbert: — Onde é que vocês vão buscar esta gente?

O búlgaro estava ao nosso serviço, confirmo. Quanto a esse russo de que fala, não tenho a menor ideia de quem seja —, infor­ma Herbert.

— Continua — ordena Barnes para Staughton.

Bem, esse búlgaro levou dois tiros nas costas da mesma arma que deu um tiro na testa a James Hugh Cavanaugh, um mercenário americano que não tinha qualquer filiação ou interesse partidário.

Era um viciado em armas e dinheiro — completa Herbert. — Um actor falhado que decidiu experimentar o mundo real. — Não emana qualquer espécie de compaixão pelas perdas sofridas.

Segundo o MI6 — prossegue Staughton —, o vidro da janela tem três orifícios que os técnicos forenses ainda estão a analisar, mas

que confirmam terem sido provocados por um impacto vindo do exterior, do prédio em frente, que está convenientemente abando­nado.

E o do quarto piso? — pergunta Barnes. — Como é que foi morto?

Esse foi retalhado a bisturi — explica Staughton. — Não levou nenhum tiro. O indivíduo de nome James tinha vários nos bolsos, pelo que dá um bom suspeito de quem terá feito isso ao homem.

No local errado, à hora errada — alvitra Barnes.

— Segundo a recepcionista, John Fox e Sarah Monteiro entraram às quatro, para visitarem o ferido da explosão que já tem nome, é Simon Lloyd.

Bom trabalho — elogia Barnes. Sabe que naquilo é que Staughton é bom. No cruzamento e gestão da informação. A evolu­ção no terreno será lenta e complexa, mas uma vez bem-sucedida, dará um agente com grande capacidade, um bom substituto. Há tempo. — Que sabemos sobre ele?

— É estagiário no The Times, assistente de Sarah Monteiro. Nada de extraordinário.

Barnes volta a levantar a sua imponente estatura para deliberar as ordens. É isso que se espera de um chefe. Escuta os relatórios e deci­de sobre eles para levar os objectivos a bom porto.

É este o ponto da situação, minhas senhoras e meus senhores. Temos quatro pessoas a monte... — interrompe-se a si mesmo. — Quem é o quarto? — apresenta a questão à sala.

É Staughton já sentado quem responde novamente.

Ainda não foi identificado. É um velho, na casa dos sessenta anos, mas mais não se sabe. Recebemos há minutos as imagens de segurança do exterior do hospital e já estamos a trabalhar na iden­tificação.

Não é importante — adverte Herbert com os olhos vítreos.

Eu é que sei se é ou não — interpõe Barnes. — Continuando, é este o ponto da situação, quatro pessoas numa Mercedes. Dê lá por onde der, não podem, sob hipótese alguma, abandonar este país. — Um olhar profundo invade a sala, logo continua a voz gutural e séria.

— Todas as pistas são importantes. Se os avistarem, repito, se os avistarem, disparem primeiro, perguntem depois.

— O mais certo é largarem a carrinha — sugere Thompson. — Não podem — contesta Staughton.

Não podem porquê? — pergunta Barnes curioso.

Por causa dos corpos — esclarece o subalterno.

— É verdade, os corpos. — Barnes já não se lembrava deles. Todos se entreolham enquanto Barnes raciocina, a olho nu, na busca de soluções plausíveis. — Mas para que raio quer ele os corpos?

 

A alvorada atiça o canto do galo como nas histórias de encantar, não fosse esse um dado confirmado pelos mais devotos investigado­res do ramo, que o bicho tem a mania de fazê-lo às primeiras horas da manhã a fim de acordar os que o rodeiam. Estando num lugar rural, propício à existência de galos e galinhas, porcos, coelhos e outras espécies afins, é natural que se ouça o potente canto num raio de centenas de metros.

O velho dorme no sofá, com o cobertor a escudar do frio que, habitualmente, abraça as noites nesta região.

A poltrona onde esteve o manco está agora ocupada por um Raul Brandão Monteiro mal dormido, de olhos cerrados, numa sonolên­cia letárgica muito ténue, despertada ao mínimo cricri de um grilo ou canto de galo, como este. O manco, esse, deve andar em mais uma das disciplinadas rondas, pois todo o cuidado é pouco quando os inimigos são poderosos.

Raul levanta-se, meio trôpego, calça os chinelos que lhe fugiram dos pés enquanto se debatia no dorme não dorme de final de noite e assiste ao amanhecer de um novo dia. Passou horas a olhar para o telefone à espera de notícias, parecendo ignorar que o aparelho ape­nas se faz ouvir quando quer ser atendido. Percorreu as formas que dele exalam, o teclado alfanumérico de borracha, o visor policro­mático, certificou-se milhentas vezes de que estava a funcionar na perfeição. Tudo normal, só era preciso que alguém ligasse para pôr à prova a robustez tecnológica do terminal.., mas ninguém ligou.

Dirige-se ao quarto onde Elizabeth descansa, mas a porta trancada impede-o de ver o estado da mulher. Não precisa de a ver com os pró­prios olhos para saber que ela não pregou olho durante toda a noite e, por certo, revolveu-se na cama quando ele tentou abrir a porta, sem sucesso. Não importa, ela irá perguntar-lhe pela filha daqui a pouco e ficará danada quando souber que ele não tem o que responder. Toca, telefone, toca, anseia Raul de regresso à sala onde o velho JC o aguarda, sentado no sofá, com o cobertor sobre as costas em jeito de agasalho.

Já acordado? — comprova o velho, sorridente.

— Não sei como consegue dormir como se nada estivesse a acon­tecer — revolta-se Raul sem papas na língua.

O corpo habitua-se a tudo, meu caro capitão — explica. Onde é que você fez a sua campanha?

No Cuanza-Norte, em 63 — responde o capitão, falando sobre a sua incorporação no exército e na comissão de dois anos que fez no Ultramar, na guerra entre Portugal e os guerrilheiros indepen­dentistas das colónias.

E diga-me uma coisa, deixou de dormir enquanto esteve lá?

Percebeu onde quer chegar JC, para ele é mais um dia rotineiro da sua longa vida. Nada de anormal, está adaptado a períodos des­tes em que tem de mudar de poiso ou em que é o alvo de forças tão grandes ou superiores a si. Não perde o sono por causa disso, por­que não conhece outra realidade, outra maneira de viver. A calma e a serenidade é que lhe devem tirar o sono.

— Ainda não há notícias — avisa Raul, preocupado.

Haverá — afirma o velho tranquilamente.

JC levanta-se com a ajuda da bengala e caminha até à mesa onde ainda restam os vestígios do jantar da noite anterior. Senta-se na cadeira e mira Raul.

O que vai ser o pequeno-almoço?

Com um suspiro, Raul, o cozinheiro de serviço, ausenta-se em direcção à cozinha para preparar o mata-bicho, normalmente bas­tante condimentado e forte, para sustentar o dia no campo. Hoje, a fome é pouca, a dele, por isso fará apenas o essencial, para tapar o buraco no estomago do velho.

Born dia, meu caro. Tudo calmo? — pergunta JC ao manco, que acaba de entrar.

Nada a apontar — relata o mais novo de forma profissional, sentando-se também à mesa.

O velho aproveita uma garrafa de água em cima da mesa para encher um copo. Tira do bolso uma caixa de comprimidos de onde escolhe dois para levar a lingua e empurrar corn o liquido. 0 manco olha para ele sem nada dizer.

Ainda não é hora — responde o velho a pergunta nao proferi­da — Vamos continuar por cá.

0 manco levanta-se, sem demonstrar contrariedade ou assenti­mento. 0 velho sabe sempre aquilo que faz.

Nesse caso, vou tomar banho — avisa. — Esta poeira dá cabo de mim.

Vai, vai — concorda JC com uma certa bonomia na voz. A velhice parece estar a ter um efeito amolecedor nele, mas não no espírito combativo do carácter, somente nestes pequenos episódios domésticos a que, noutros tempos não muito longínquos, não daria importância ou confianca.

0 manco sai da sala que já se tornou o centro operacional daque­le trio e deixa JC entregue as suas elaboraciies estrategicas, que nao evoluirdo muito, pois ndo e homem que goste de agir de barriga vazia, a nao ser que seja imperativo, o que nao é o caso.

0 Raul? — ouve uma voz feminina perguntar.

JC vira-se para a fonte emissora de timbre tão melodioso e depa­ra-se com Elizabeth. Agora, a primeira luz da manha, tern oportu­nidade de a ver na sua verdadeira essência, sem mascaras, e aperce­be-se de ódio que dela emana. Uma reacção perfeitamente natural, dadas as circunstâncias.

0 seu marido está na cozinha a tratar do pequeno-almoco — informa enfatizando o parentesco que os une, para denotar que se apercebeu de que o facto de ela ter dito Raul e não o meu marido demonstrativo de divergência.

Elizabeth não faz menção de ir para a cozinha. Em vez disso, dá por si a vaguear pela sala, sem nunca tirar os olhos dele, como se estivesse a proferir em silêncio o mar de insultos que lhe vai na alma. Acaba por se sentar ao seu lado e desviar o olhar.

É mesmo mãe da sua filha — elogia JC, ainda que possa nao ser entendido como tal.

Há noticias da minha menina? — 0 coração apertado e angustiado é perceptivel. Não é preciso ser pai ou mãe para enten­der o que ela esta a sentir.

Haverá — limita-se a responder.

Uma lágrima contida rola pelo rosto de Elizabeth, transportando toda a sua mágoa de mãe que pariu uma filha para viver a alegria do mundo e não as agruras da morte perene e ingrata. Nasce-se para viver e depois morrer, não se nasce para se ser morto. E nunca, sob hipótese alguma, um pai deve ter de enterrar um filho, pois não existe dor maior do que essa. JC, sem ponta de vergonha, estica-se para limpar a lágrima que cai sem vida, sem rumo.

0 meu pai costumava dizer que a água dos olhos guarda-se para os mortos. — Não exibe qualquer condescendência ou pena por ela. — Pode não parecer, mas também eu tive um pai em deter­minada fase da minha vida.

Elizabeth olha para ele desnorteada, sem o ver inteiramente, como uma névoa que lhe tolda a visão.

Aqui ninguém morreu — profere ele em alto e bom som.

Mas pode morrer. — A certeza dele, por alguma razão, con­vence-a, atenuando a dúvida expressa na frase.

— Podemos todos, minha querida. — Essa é uma daquelas grandes verdades, inultrapassáveis, inegáveis, imutáveis.

Não consigo perceber se a culpa disto tudo e do pai, se sua...

Ninguém tem culpa, minha senhora — afirma com um jeito decidido, como se já fosse um assunto amplamente ponderado por si próprio na busca de respostas. — Alguém tem culpa de nascer pobre ou com uma doença ou de ter pais negligentes ou abusadores? Ou de nascer num país sem condições ou num bairro com má fama? São as cartas do jogo e temos de as aceitar e ir jogando conforme as nossas possibilidades. Ninguém e culpado por isso. Ou, se é, teremos de ir procura-lo bem ao inicio da hist6ria da humanidade. São estas as regras e não podemos fazer nada quanto a isso. Não há culpados ou somos todos culpados e daqui a 50, 100, 200 anos alguém nos culpa­rá pelo mal da sua vida. — Uns instantes de pausa para que Elizabeth apreenda o que e dito. Podemos dar graças por termos nascido na Europa, na parte mais civilizada do mundo, mas mesmo aqui existem coisas demasiado podres. Considere que herdamos um pouco dessa podridão e temos de sacudi-la, expulsa-la de n6s, mas ela agarra-se com força. S6 a nossa persistência a vencera e a enterrara. Porém, mais focos de podridão começarão a aparecer e teremos de os enfrentar mais cedo ou mais tarde.

Elizabeth escuta-o com redobrada atenção. Aquele homem fala de certezas, não de conjecturas ou especulações irrisórias. São metáforas inteligentes que ilustram fielmente a realidade como lhes compete.

— Quando e que vamos ter noticias dela? — 0 tom de snplica na voz intensifica a confianca que tern nas respostas do anoso desco­nhecido, de quem apenas ouvira falar corn enorme temor na voz do pronunciante.

JC mantem-se em silencio durante alguns segundos, sem pesta­nejar ou deixar passar qualquer indicio de incerteza.

Daqui a pouco — assegura.

Acho que vou para a casa da minha sogra, no Porto. — E urn pedido de ajuda, uina mocao a ser aprovada ou rejeitada pela direc­cdo, neste caso pelo homem ao seu lado.

Deixe-se ficar connosco, minha querida. — A voz torna-se mais amistosa. — Alem disso, não podemos deixá-la a solta pelo pals, fragilizaria a nossa posicao. Connosco está melhor, mais segu­ra e, em breve, poderá falar com a sua filha.

Raul entra na sala corn um tabuleiro nas mãos. Em cima, uma chaleira fumegante, pão alentejano, manteiga, queijo caseiro, leite e café quentes.

Mas que maravilha. 0 seu marido está a ver se me mata com excesso de colesterol — diz jocosamente. — E confesso que é a melhor das mortes. Sinal de que se comeu e bebeu bem em vida.

Raul nada diz. Não esperava a presenca da mulher ali, muito menos em conversa serena com o velho. Mas está comprovado que ele tem o dom de fazer que o admirem. A aparência de velhinho frá­gil para isso contribui.

Estás bem? — E ela quem pergunta. Pelos vistos ele também tem o dom de resolver os arrufos entre marido e mulher.

Agora estou melhor — confessa Raul passando uma mão terna pelo ombro dela.

0 telefone toca, finalmente, sobressaltando Raul e Elizabeth. 0 primeiro corre para o telefone, não vá de desligar-se antes do tempo.

Raul — apresenta-se com um guincho histérico que deixou escapar extemporaneamente. Escuta sem nada dizer e fecha os olhos enquanto o faz. — Obrigado. — E a primeira coisa que diz quando o interlocutor acaba de falar. — Muito obrigado — a segunda. — Tenho plena confiança em ti. Sei que não vai ser fácil. Têm meio mundo atrás de vós, por isso, age com extremo cuidado. Liga a noite para delinearmos um piano comum. E obrigado, mais uma vez.

A ligação termina com o pressionar de um botão de borracha no telefone de Raul.

Então? Quem era? — pergunta Elizabeth, impaciente.

0 Rafael. Ela está com de. — Um sorriso de orelha a orelha.

Esta bem. Não foi possível falar com ela porque esta a dormir. Mas está bem, é o que importa.

Elizabeth fita JC relembrando a previsão profética de há minutos.

Isto é apenas uma pausa, minha querida. Nada está resolvido

alerta o idoso.

Ah, mas já é qualquer coisa — diz Raul.

Onde é que eles estão? — inquire a mãe, visivelmente aliviada do peso que lhe esmagava o coração.

Num lugar seguro — returque Raul com um sorriso. — Num lugar bem seguro.

 

Lembra-se de terem estacionado na garagem de uma casa, mas parece outra época, antiga, não, medieval, quando as televisões começaram a fazer a transição do preto e branco para aquilo a que chamavam a cores e que hoje, sempre que se apresentam imagens de arquivo, transparece como algo que veio do fundo de um baú onde repousaram mais do que uma eternidade. Havia um carro estacio­nado nessa mesma garagem, qualquer coisa de deja-vu, ele pediu a todos que entrassem na viatura. Pois, há essa diferença, não estão sozinhos desta vez, acompanham-nos mais duas ou três pessoas, não se importou de contar. Voltaram a sair da garagem, nesse outro carro, novo em folha, sabe-o pelo cheiro que os automóveis exalam quando não tem ainda quilómetros que o maturem. Ia no banco de trás com mais um ou dois, talvez somente um, encostou a cabeça para trás e descansou. Embalada pela oscilação da viatura, posta a prova pelas ruas da cidade, e pelas luzes que passavam, criando uma aura entre o amarelo e o escuro, deixou-se dormir profundamente, caída para o lado do vidro da porta, e deixou de sentir o ruído do motor, dos pneus colados ao asfalto, da respiração, da vida a decor­rer em seu redor.

Não sabe precisar durante quanto tempo andaram no carro, se minutos ou horas, mas recorda um afagar suave nos cabelos numa qualquer parte do caminho que a fez sentir levitar e pairar a alguns metros do chão. Abriu os olhos, por instantes, e viu que levitava sobre umas escadas de madeira escura, familiares, no interior de uma casa, o que fez com que um arrepio lhe percorresse a espinha. Sentia um corpo contra o seu, braços fortes que a contornavam e, por fim, O colchão macio e os lençóis a deixarem o frio do lado de fora. Vozes em surdina, ao longe, esquivavam-se ao entendimento, só por uma vez, mais perto, mas distante ao mesmo tempo, uma delas se deixou compreender, Esta a dormir, devia ser sobre si e, depois, voltou a ser conquistada pelo repouso absoluto dos membros e da mente, des­cansa, corpo, porque a luta apenas começou. Renova as energias, esvazia os nervos, cura as chagas e afronta os fluidos do medo, obri­gando-os a recuar para as entranhas obscuras de onde provem. Ao fim de poucas horas de reconstituição interior, Sarah Monteiro abre os olhos e acorda.

Já é de manhã, os raios de sol invadem o quarto através das frin­chas da cortina vermelha. Olha a sua volta a tentar reconhecer o espaço, um quarto de medidas generosas, de decoração antiga, um enorme roupeiro de madeira escura com linhas conhecidas ocupa toda uma parede. Senta-se na beira da cama e pousa um pé na fofa alcatifa verde que encobre o chão de madeira. Arrisca levantar-se e leva a mão a boca, incrédula. Uma lágrima escapa-se do olho, sinali­zando a emoção que a atinge. Este é o seu quarto na antiga casa de Belgrave Road. Não há a menor dúvida. Há um ano, ou quase, que não pisava aquele espaço. Os seus passos inseguros fazem a madeira condoer-se do peso, não que seja muito, nada disso, mas é natural que traves com tantos anos se ressintam ao mínimo toque que tem de suportar.

Bom dia — ouve a voz de Rafael, está encostado a ombreira da porta do quarto. — Melhor?

0 que estamos aqui a fazer? — inquire com rispidez.

Estamos seguros. Aqui ninguém vira procurar — responde com segurança. — Tern o pequeno-almoco preparado la em baixo. — E vai-se embora.

De quem é esta casa? — ainda pergunta Sarah, alteando a voz para o volume necessario para o atingir.

— Minha — ouve-o dizer antes de os passos anunciarem a desci­da ao andar inferior.

A informação deixa-a atónita e boquiaberta. Respira fundo e ins­pecciona o quarto. Esta tal qual como o deixou naquela noite, quan­do a vida a elucidou que o controlo 6 puramente ilusório e, se mui­tos vivem sem nunca serem incomodados pelo destino terreno e mais ainda aqueles que, inconscientemente, o tentam modificar sem resultado, existem outros, como ela, que sabem que esse destino depende de inúmeros factores, sendo o principal não estar em rota de colisão com algum interesse vital ou estratégico de alguma instituição ou seita que não tenha escrúpulos em eliminar ou afastar efec­tiva ou sub-repticiamente aquilo que se atravessa no seu caminho.

Reflecte um pouco na revelação de Rafael e decide que ele optou por dar a resposta mais fácil, a que não impõe mais explicações mas, se pensa assim, está muito enganado. Não lhe vai sair assim tão bara­ta a história.

Ele aparece novamente na sua vida numa hora crucial. Desta vez não se vai render as evidências, quer saber tudo... e já.

Sai do quarto de rompante, com a roupa do sono, que por acaso a do dia anterior, e depara com a porta do quarto de banho aberta. Encostada a janela de vidro fosco, uma banheira que atenta contra a sua expressão decidida de ir tirar satisfações IA abaixo. Detêm-se por uns momentos e acaba por decidir que pode não ter outra oportuni­dade de tomar um banho como deve ser. E melhor aproveitar enquan­to pode do que lamentar mais tarde, arrependida do que deixou esca­par. Regressa ao quarto e abre o roupeiro. Espanta-se ao reconhecer a roupa que não voltou a usar desde que abandonou a casa e a vendeu com todo o recheio mobiliário e afins por não querer mais contactar este ambiente traumático. Agora, obrigada, mas grata ao mesmo tempo, escolhe por entre as suas roupas antigas o que vai usar. Algo prático, como é obvio, por isso, afasta vestidos, saias, tops curtos. Escolhe umas calcas e uma blusa, nada de muito vistoso, tira umas pecas de roupa interior da cómoda, recuperando aos poucos o hábito e os gestos que o quarto demandava quando IA vivia, como se nunca de lá tivesse saído. Falta apenas uma toalha, da última gaveta, e entra no quarto de banho, deleitada com a perspectiva. Põe a água a correr e a partir daqui não se narrarão os factos higiénicos que se sucedem, por razões de privacidade que são tão boas como outras quaisquer.

Vinte minutos depois, Sarah envolve-se na toalha e sai da banheira, rejuvenescida, sorridente. O olhar escapa-se para o vidro fosco e num ápice sente um arrepio de medo. Dois orifícios como os que viu no Chelsea and Westminster Hospital, avivam o passado e confirmam a sua lucidez. Não foi um pesadelo, antes tivesse sido, olha o resto da divisão com apreensão, bem mais iluminada nesta manhã do que naquela noite. Consegue ver o corpo do homem, tombado sobre ela.

Esquece. Esquece. Já passou, obriga-se a pensar.

Sai do quarto de banho envolta na toalha e, depois de devida­mente enxugada, veste a roupa que escolheu e deixou em cima da cama e desce.

Em baixo, tudo está conforme deixou, o que não deixa de ser estranho. Ela deixou a casa há algum tempo. Não é normal que nenhuma modificação tenha sido feita desde então, ainda para mais porque o interior é constituído apenas pelo mobiliário essencial, para quem é pouco exigente e está em início de carreira ou num poiso temporário e quer poupar uns trocos para comprar algo melhor, como tinha sido o caso dela. É tudo muito esquisito.

O piso inferior é composto pela sala e cozinha. Na sala, onde desemboca a escada, um sofá grande, encostado à parede que tem a janela. Nele está deitado o simpático homem mais velho que acom­panha Rafael e a quem ainda não foi apresentada. Na cozinha, um Simon Lloyd mais relaxado a ler o jornal, debruçado sobre a mesa. Não há sinal de Rafael.

— Estás melhor? — pergunta Sarah sentando-se num dos bancos.

Oh, bom dia. — Levanta os olhos do jornal. — Estou muito melhor. E você?

Menos mal — replica ela, olhando em redor.

— Ontem apaguei completamente. Desculpa — escusa-se Sarah.

Fez bem. Depois da noite que passámos... — Muda de assun­to: — Quem é esta gente? — pergunta Simon em surdina como um menino de coro que não quer ser apanhado a fazer uma diabrura.

São amigos — limita-se a dizer. — Dormiste alguma coisa? — perquire, mudando de assunto, uma alteração de foco é sempre útil quando não se quer revelar mais.

Dormitei — replica, coçando a cabeça. — Depois estive mais de uma hora a responder às perguntas do John. Foi um interrogató­rio como nos filmes.

Do John? Quem é John? — Será o velho deitado no sofá?

O John Doe, aquele que nos safou no hospital.

Aquele que está deitado no sofá?

Não, tonta. Então você não os conhece? Esse chama-se James Phelps. É um tipo porreiro. O outro, o que a levou para o quarto, o mais novo que anda armado.

E questionou-te sobre o quê?

Ui, digamos que percorremos toda a minha vida, desde que nasci, com mais ênfase sobre a noite passada. Verdadeiramente tera­pêutico.

Não aparenta ter sido pressionado de alguma forma. Até está bas­tante bem-disposto, como indica o sorriso patente nos lábios.

Qual é a graça?

Quem raio é que se chama John Doe? — E ri com gosto. — Chá, café, leite? —, ouve-se Rafael perguntar ao entrar na cozi­nha sem se fazer notar, o que provoca um engasgo no riso de Simon.

Café com leite — diz Sarah, um dos seus gostos alimentícios matinais. Rafael dirige-se prontamente à banca onde tem tudo pre­parado. Pega numa xícara que havia previamente passado por água e despeja nela um pouco de café. Em seguida enche-a com leite até cima. Segura no pires sob ela e transporta-os, sem tremuras, até à mesa onde os pousa à frente de Sarah. Aproxima o açucareiro, ofere­ce-lhe uma colher limpa e depois vai buscar um tabuleiro repleto com muffins de noz e chocolate, scones frescos, pão, manteiga, sumo de laranja, umas tiras de fiambre e queijo.

De onde veio tudo isto? — inquire Sarah, curiosa e abismada com tanta oferta de qualidade.

Da padaria, três números abaixo, do outro lado da rua — res­ponde Rafael. — É tudo fresco.

Pode confiar. Já comi e confirmo — coadjuva Simon, sentin­do-se mais à vontade. A presença de Rafael não parece causar-lhe qualquer temor.

Por seu lado, em Sarah ele cria um misto de sensações inexplicá­veis. Há quase um ano que não o via, como não se cansa de repetir para si mesma e, simultaneamente, sente nervos, medo e calafrios na barriga que podem significar muita coisa. Mas o que mais a impressiona é a ideia de que sempre esteve com ele neste período de tempo e de que não houve qualquer ausência. Amigos de café ou pub que se vêem todos os dias ou quase.

Acalma-te, pensa para si. Vê se travas. Ele é padre.  

Temos de falar. Tenho muitas perguntas a querer respostas... verdadeiras — reclama de supetão na tentativa de afastar os pensa­mentos lúbricos.

Tome o pequeno-almoço com calma e depois conversamos todos em conjunto — informa ele num tom sereno. — Ah, e se recuar alguns meses na sua cabeça e analisar tudo o que aconteceu, chegará à conclusão de que nunca fiz ou disse alguma coisa que não fosse verdadeira. — E sai da cozinha, deixando-a novamente com Simon e com o banquete pronto a ser devorado.

Porém, Sarah nem pensa na comida, antes nas últimas palavras dele. Está ciente de que o que ele disse é verdade. Nunca o apanhou a mentir. Omitia algo, porventura, quando considerava que não devia ser ele a transmitir certas informações, mas isso está a léguas de urna falsidade. Ele tem razão, talvez tenha sido demasiado dura com ele.

Simon levanta-se e pega em talheres lavados.

Acho que vou ajudá-la. Isto é muito para si e não vai dar conta do recado.

Ele levou-me para o quarto? — quer saber Sarah, debicando um muffin de chocolate, com uma aparência deliciosa.

Ao colo — afirma Simon com malícia, com a boca entupida com um scone. — Não se lembra?

Não, pensa sem verbalizar.

Tenho uma vaga ideia.

E agora? Qual é o próximo passo? — A boca cheia mal deixa perceber as perguntas dele.

Não penses nisso — adverte Sarah, sorvendo o café com leite preparado por Rafael, o que provoca nela um sorriso tímido. Simon solta uma risada que a deixa ruborizada.

— O que foi? — pergunta encabulada. — O que foi? — reformu­la à falta de resposta.

— Vocês não enganam ninguém — acaba por responder Simon.

Quem? — Não tem muito jeito para fazer de conta que não percebe.

A Sarah e o John. — Nova risada.

— Ora, por favor — escandaliza-se enfaticamente, tentando deixar transparecer urna afronta genuína.

— Bom dia — cumprimenta uma voz bondosa que se arrasta pela cozinha. Os calmos estudos teológicos de James Phelps não se coa­dunam com esta vida rebelde a que foi obrigado a entregar-se por imposição do destino clerical.

Bom dia — respondem Sarah e Simon em uníssono, como manda a boa educação.

Descansou? — perquire Simon abafando a risada do tema anterior para não confundir o homem ou fazer que ele pense que estava a gozar com a sua figura.

Alguma coisa. Se bem que aquele sofá esteja a pedir a reforma. Aquelas molas... — queixa-se Phelps, adornando as costas doridas com a mão. — Mas quem tem um tecto que o abrigue não pode pro­testar, não é verdade?

Isso é conversa de padre — diz Simon na brincadeira, enquan­to continua a comer como um alarve.

Não sejas inconveniente, Simon — admoesta Sarah, que já percebeu as origens deste homem que se intimida perante a obser­vação. — Há comida para mais um. Sente-se — convida em tom amigável.

Ah, muito obrigado — agradece, sentando-se ao seu lado. — De facto, estou com fome. Já não como há algumas horas. — Nem se atre­ve a dizer que há mais de um dia que não põe sustento na boca.

Há scones, pão, manteiga, queijo... — À medida que vai dizen­do, Sarah aproxima-os de Phelps, que ainda não se sente à vontade.

Quer leite, café ou chá?

Chá, por favor.

Boa escolha. Ainda está quente. — Verte um pouco do líquido numa chávena. — Chamo-me Sarah — acaba por se apresentar.

James Phelps. — Levanta-se com formalidade e estende a mão.

Encantado.

Sarah levanta-se por simpatia e estende também a sua a fim de cum­prir um preceito tradicional, o de não deixar o outro com a mão no ar. — Muito prazer.

Foi duro ontem — atesta Phelps numa tentativa canhestra de fazer conversa circunstancial.

Se vocês não aparecessem tão depressa, ia dar um grande des­gosto à minha mãe — intui Simon pegando na conversa.

De onde conhecem o Rafael? — questiona submisso o mais velho, sorvendo um pouco do chá e dando uma pequena dentada num scone.

Não conheço ninguém com esse nome — resolve Simon ime­diatamente, quase sem deter um pensamento sobre o assunto.

É uma longa história, James. Desculpe-me, posso tratá-lo por James?

— Certamente, Sarah — assevera.

Quem é o Rafael? — pergunta Simon sem perceber. — Terei todo o prazer em ouvi-la, se ma quiser contar — interpõe

Phelps, deixando-a à vontade e ignorando por completo a pergunta de Simon.

Mais tarde — interrompe Rafael, encostado à ombreira da porta. — Vejo que estão todos apresentados. Agora é necessário pôr os pontos nos is e atribuir as tarefas que cada um de nós terá de desempenhar.

Que tarefas? — perguntam Phelps e Sarah praticamente aa mesmo tempo.

Pensam que o perigo passou? Isto foi apenas o início.

 

Chegou a hora à qual Barnes exigira ter Sarah e Rafael no seu gabinete, prontos para um interrogatório pouco cordato, nada sen­sível, invariavelmente cansativo, muito aprazível para si, especial­mente no que toca a imaginar Rafael a sofrer. Porém, essa hora che­gou e passou sem que mais ninguém, a não ser ele, permanecesse no interior do gabinete. Essa solidão foi pontuada com escassas entra­das de Staughton e 'Fhompson para apresentarem o evoluir da situa­ção, que era nenhum e, à medida que as horas passavam, começava a ser preocupante. Priscilla passou para perguntar do seu estado físi­co, e foi-lhe pedida uma dose de cabrito assado e batatas com oré­gãos, desejos de um corpo sedento de vitórias.

Neste momento, entra Herbert com a mesma expressão desafec­tada de que nada o atinge, ainda que seja de suma importância para a sua causa que se encontrem os alvos.

Não me diga que se enfiaram num buraco?

Não me chateie — grita irritado em resposta. — Se fossem melhores, não precisavam de andar à nossa pala para fazermos o vosso trabalho de merda.

— Não tenha dúvidas que, se fosse eu a mandar, fá-lo-ia sozinho, sem qualquer ajuda. Tem centenas de agentes sob a sua supervisão e nenhum conseguiu localizá-los. Quanto a nós, já podem ter saído do país.

Não saíram — afirma Barnes com firmeza.

Que garantias pode dar em relação a isso? — pressiona Herbert, que o julga com o rabo preso.

A minha palavra é garantia suficiente. Não saíram do país. Digo-lhe mais, ainda estão na cidade.

Até o sorriso do mais jovem é apartado de qualquer sentimento. Algo entre o esgar e o arreganhar, lívido, sem vida, sem sentido.

Baseia-se num palpite, senhor Barnes. Vocês americanos são muito crentes na sorte e no destino.

Isto não tem nada a ver com sorte. Conheço muito bem os alvos — diz. Para além disso, sei que ele vai arranjar maneira de nos avisar quando sair do país. Não verbaliza este pensamento. Há que manter alguns trunfos na manga, sem os dar a conhecer aos outros, ainda que parceiros.

Herbert levanta ambas as mãos como que a dizer que não servem de nada os argumentos de Barnes, mas se este prefere acreditar neles, tudo bem.

Tenho de reportar a situação ao meu superior daqui a meia hora. O que espera que lhe diga? Que não alargamos o raio de pro­cura porque o senhor tem um palpite?

Estou-me a cagar para o que lhe vai dizer. Os meus homens estão a fazer o trabalho deles. Não tenho a menor dúvida de que a qualquer momento entrarão por essa porta com algo palpável. Se quer que lhe diga, não me parece que tenhamos novidades antes de anoitecer, por isso, prepare-se e prepare o seu chefe. A espera vai ser longa.

Quem é o homem que apareceu no hospital? Esse Rafael que parece mexer com os seus nervos? — sonda.

Barnes faz uma pausa pensativa antes de responder.

— Um traidor. Infiltrou-se na P2 para a minar por dentro e quase conseguiu.

Conseguiu enganar o JC e a CIA? — Um sorriso escarninho.

Não está em condições de troçar de nenhum de nós — avisa Barnes aviltado. — Tanto quanto sei, limpou o sebo aos seus homens em três tempos. Aposto que nem deram conta do que lhes aconteceu. — Impõe urna risada ofensiva que parece não ter qual­quer efeito no outro. Congratula-se por pensar que, interiormente, deve tê-lo afectado. Ninguém consegue ser tão frio durante tanto tempo.

A porta do gabinete abre-se para deixar entrar Staughton e toda a parafernália de ruído que advém da sala de operações. Ao fechá-la atrás de si, veda o som exterior, deixando que um filme mudo se desenrole do outro lado do vidro, uma agitação sem nexo para quem desconhece, mas que se baseia no rigor e exigência.

Novidades? — quer saber Barnes, refastelado no cadeirão a dar uma imagem de calma e controlo perante o jovem parceiro.

Estamos a analisar as imagens de CCTV, mas é corno procu­rar uma agulha num palheiro. Não encontramos nenhuma Mercedes com características continentais ou com a matrícula em questão. Também não há movimentos, bancários nas contas de Sarah Monteiro nem de Simon Lloyd...

Uma risada seca de Barnes.

Querias que ele te fizesse a papa toda? Não será por aí.

Será por onde então? — inquire Herbert solícito e malicioso.

Convençam-se de que estamos a lidar com alguém que sabe como nós trabalhamos. Irrita-me, tira-me do sério, deixa-me fodi­do, mas temos de ser racionais.

O que quer dizer com isso?

Que ele vai aparecer quando e se entender.

Isso não é opção. Tem de haver maneira de os localizar. — Denota-se, pela primeira vez, urna certa apoquentação na voz de Herbert, para gáudio de Geoffrey Barnes, que não se coíbe em demonstrá-lo.

Tudo o que pode ser feito está posto em prática — informa Staughton. — Temos as CCTV em processamento constante, não só em Londres, mas em todo o país. Todos os ramos da polícia, servi­ços de fronteira, etc., têm fotografias deles e sabem o que têm a fazer se os avistarem. O MI6 está a trabalhar em coordenação conosco.

É bom que colaborem — irrompe Barnes —, gosto pouco que eles pensem pela sua cabeça.

Não podemos fazer mais do que isso — atesta Staughton.

E se os pusermos a prémio? — sugere Herbert.

Não seja doido — protesta Barnes. — Tornar a coisa pública? Ter os jornalistas e a opinião pública à perna? O que ganhamos com isso?

Apanhamo-los mais depressa. As pessoas são capazes de tudo por dinheiro.

Pode não ser uma boa ideia — contrapõe Staughton. Herbert cruza os braços e enuncia uma expressão de porquê.

Identificámos o homem que conduziu Sarah e Simon à carri­nha.

Capta a atenção de Barnes e Herbert.

— Chama-se James Phelps e é um padre inglês, adido no Vaticano.

O quê? — resmunga Barnes. — Filho da puta.

Os três calam-se durante uns segundos. Neste ofício é tudo uma questão de análise estratégica. Decidir que caminho se vai seguir para atingir determinado objectivo, especular sobre o que os outros farão para levarem a cabo os seus planos. Quantos mais dados tive­rem para preencher as lacunas, mais acertada será a especulação, quando há escassez de informação, trata-se de pura adivinhação e palpite. Fiarem-se na sorte nunca é bom, mas, por vezes, não há mais nada a fazer.

E se excluirmos o padre e lançarmos um aviso somente sobre os outros? — volta Herbert a tentar.

— Não dá. — É Barnes quem fala. — A mulher tem uma posição influente no The Times. Só serve para nos prejudicar.

Mais alguns segundos de silêncio.

A que horas chega o Littel? — pergunta Barnes.

— Daqui a duas horas — responde Staughton.

Barnes suspira.

Muito bem. Duas horas. Até lá não se faz nada. Quando ele chegar, decidimos o que fazer — bufa mais uma vez. — Arranja-me qualquer coisa nas próximas duas horas, Jeronimo. Estamos a ficar mal perante os nossos amigos do Opus Dei. — Aponta na direcção de Herbert, a quem não escapa o tom sardónico.

A porta volta a abrir-se para deixar entrar Thompson.

— Temos qualquer coisa.

Desembucha. — Barnes levanta-se de rompante.

Entre as cinco e as seis um agente da polícia metropolitana regressava a casa, depois do turno, e viu uma Mercedes com as mes­mas características da do nosso alerta entrar na garagem de uma casa em Clapham.

De que estamos à espera, meus senhores? — pergunta Barnes, pegando na sua arma.

 

                             MIRELLA, 7 DE MAIO DE 1983

Aos dezasseis anos há uma renovação da libido a cada segundo que passa. O despertar das sensações sensuais, lascivas, que são col­matadas com um simples olhar másculo sedento, ávido de toque que nunca é permitido. Iniciam-se os primeiros passos na arte da sedução, os olhares, os sinais que um corpo dá a outro, pouco con­trolados nesta fase — ou não — afectados com uma imaturidade pungente, que se saciam com um simples sorriso, uma língua sequiosa que a cumprimenta à distância, um piropo lançado de uma lambreta ou de um carro que a faz corar sub-repticiamente, quanto mais directo melhor, um apalpão à socapa, malcriado, na nádega coberta com uma saia de ganga justa a salientar os atribu­tos. O triunfo chega em forma de um convite para namorar, o pedi­do de um beijo na boca, com ou sem língua, conforme a preferên­cia dela, é sempre ela quem manda ou, a medalha de ouro, um con­vite para jantar de um homem mais velho. Não de um qualquer ter­ceiranista universitário a tirar Arquitectura ou Direito, o que tam­bém seria uma vitória probante, mas sim de um macho a rondar os trinta e sete ou os quarenta anos, com carro, casa, vida organizada, talvez divorciado, separado de facto, um ou dois filhos que não importa nomear, necessitado de sentimentos novos, de urna mulher juvenil, mas mulher, capaz de o fazer recuar no tempo a lembrar a velha época da loucura.

Mirella ajeita-se frente ao espelho pela milésima vez. Não se podem correr riscos estéticos num encontro deste género. Qualquer erro é dispendioso, capaz de abalar as estruturas psicológicas do púbere que se considera adulto. Claro que não perde tempo a cogi­tar nestas matérias técnicas. Funciona tudo de um modo incons­ciente, instintivo, a preservação animal a que os humanos não podem fugir, por mais inteligentes que se considerem. Para Mirella é um manto de odores corporais que emanam carnalidade, concu­piscência, calculismo, o ensejo de endereçar a mensagem de forma a não deixar dúvidas ao alvo e, ao mesmo tempo, não parecer dema­siado acessível à primeira cortesia que, decerto, precederá as várias que ele lançará ao longo da noite.

É óbvio que, aos dezasseis anos, nenhum pai autoriza uma saída deste género, um jantar romântico, à luz das velas, como ela imagina, com um homem que tem idade para ser seu progenitor, Deus a livre, encantado com a sua feminilidade, pronto para a cobrir com presen­tes caros e galanteios infindáveis, beijos na mão, no rosto e um nos lábios, pleno de volúpia e paixão, quem sabe. Por isso, aceitou a sugestão dele de que dissesse aos pais que ia encontrar-se com um antigo colega de escola. Assim não levanta dúvidas nem desconfian­ças. É legal sair com um antigo colega de carteira, da mesma idade ou um ou dois anos mais velho. Mais do que isso implica, e bem, um interrogatório parental intensivo que culminará, ou culminaria, já que se contornou essa figura jurídica com uma mentira anódina, numa reprovação sem direito a recurso, lágrimas por parte de Mirella, fechar-se no quarto durante horas a lamentar a má sorte e a amaldiçoar os maus pais, e uma cara torta durante dias até que encontrasse urna nova fonte de divertimento que fizesse esquecer a precedente. Porém, nada disso é necessário, como já foi dito, pois pensou-se oportunamente e de modo irrefutável numa solução pací­fica e que não dará origem a qualquer reprimenda preventiva.

Onde vão jantar? — pergunta a mãe, que acaba de entrar no quarto onde Mirella se vislumbra, elegante e linda, ao espelho.

Ao Campo de' Fiori. Ainda não sei onde — responde Mirella sem tirar os olhos do espelho e do que parece ser o indício de uma erupção cutânea inoportuna no queixo. — Que chatice. Está a nas­cer-me uma borbulha.

É um dos dramas da adolescência. Certos assaltos corporais que não se podem prever nem evitar.

Não te importes com isso. Ele também deve ter muitas.

Fica mesmo mal — protesta Mirella.

A mãe pega-lhe no queixo e vira o rosto para si, como um objec­to da sua propriedade, o que não deixa de corresponder à verdade, segundo o seu ponto de vista. Analisa a cútis enervada da cara da filha com uma expressão maternal. Um pequeno ponto vermelho desponta do lado direito do queixo, nada de grave.

Isto não é nada. Ainda vai levar algum tempo até rebentar — afirma a mãe. — Tens de aprender a conviver com elas.

Corno é que fizeste para te livrares das borbulhas? — perqui­re Mirella interessada na fórmula mágica que, às vezes, as mães for­necem.

— Deixei de me importar — limita-se a responder a mãe. — dia também farás o mesmo — remata com um sorriso.

Mas é sabido que as palavras sábias de pai e mãe, ainda que nem sempre o sejam, caem em saco roto no que toca aos dramas da sobrevivência da puberdade. Alguma vez Mirella há-de deixar de se preocupar com as biltres borbulhas que lhe invadem o rosto, sempre que lhe precede o cataménio? Jamais. Claro que não está, neste momento, na posse de toda a informação do que será a sua vida futura, ninguém está, são as regras do jogo, caso contrário, saberia que nunca mais terá de se preocupar com erupções cutâneas, nem com menstruações, aulas, invenções, seduções sensuais, pensamen­tos jocosos e libidinosos, preocupações de conquistadora, de se sen­tir admirada, contabilizar as erecções que a sua simples presença provoca, o sorriso atraente calculado, jantares com homens mais velhos, nem com pai e mãe... nem com a vida.

A hora combinada aproxima-se e Mirella acerca-se da janela para ver se o carro dele já a aguarda. Desenha-se-lhe um sorriso fasci­nante ao ver que sim. Ele já está lá em baixo. Chegou mais cedo cinco minutos. É muito bom sinal. Os romanos não são nada pontuais. Está no seu espírito chegarem atrasados a todos os compro­missos. Entre quinze minutos a meia hora, ninguém leva a mal, nem pode, senão perderia muito em termos sociais.

— Já vou — grita para a cozinha. — Até logo.

— Não te esqueças: o mais tardar em casa à meia-noite — lem­bra a mãe, ainda que a porta já tenha batido, deixando sair em liber­dade uma Mirella livre para amar.

O coração zeloso de mãe ordena a que se aproxime da janela e olhe, por detrás da cortina, para o carro em que a filha entra neste momento, sorridente, cheia de uma luz e brilho intenso. Sente um aperto no motor do corpo, uma ansiedade corroída, pensamentos funestos, nada a que deva dar importância. Não consegue ver o rosto do condutor devido ao negrume da noite sem lua que se ins­talou na rua. Bate no peito para aliviar a tensão. Segundos depois, sente a tranquilidade a chegar, o desaperto da alma, a impressão já passou, está tudo bem, novamente.

Afasta-se da janela para servir o jantar e deixar a filha e o amigo seguirem o seu caminho na privacidade do BMW.

 

É a hora da Procissão do Adeus na Cova da Iria, quando o andor da Virgem Maria desfila por entre as centenas de milhares de peregri­nos, de regresso à Capela das Aparições, onde permanece até à próxi­ma celebração litúrgica aniversária. Um ligeiro chuvisco marca a bên­ção do acto, neste lugar central do mundo católico, a par de São Pedro, no Vaticano, mãe e apóstolo, onde nada acontece por acaso. Centenas de milhares de lenços brancos agitam-se no ar marcando a despedida imaculada, chorada com preces e súplicas, pedidos de ajuda, implora­ções sofridas ou gratuitas, genuínas ou excêntricas, porque ninguém está ali de graça, pela pura manifestação da fé e do sentir da mãe de Cristo, há sempre um preço a pedir, uma graça, Salva a minha filha, Ajuda-me neste negócio, Dá-me dinheiro e fortuna...

Será, decerto, injusto generalizar as disposições de cada um dos presentes, uma vez que, à direita da colunata, do ponto de vista de quem olha a Basílica de frente, ergue-se a capela do Sagrado Lausperene, onde a Congregação das Religiosas Reparadoras de Nossa Senhora das Dores de Fátima ora ao Sagrado Coração de Jesus nos sete dias da semana, durante as vinte e quatro horas do dia, desde 1960, não precisamente nesta capela, que data de 1987, mas nas diver­sas que o local tem visto crescer ao longo dos anos. É um acto valero­so de remissão dos pecados mundanais, conforme o apelo da Virgem aos pastorinhos em 1917 sem necessidade de qualquer troca, somente pela paz no mundo, se for possível, o que, só por si, já não é um feito de pouca monta, equiparado a um milagre do céu. São estes os pre­ceitos das discípulas do padre Formigão, às quais a Virgem pediu que reparassem os pecados através da oração. Tudo isto pode verificar Marius Ferris, ajoelhado no último banco da capela, com a irmã repa­radora, lá à frente, a cumprir o seu turno.

Depois do sinal da cruz, Marius Ferris levanta-se e sai da capela. Dali, de debaixo da colunata, consegue ver o mar de gente que esgota o vasto recinto, o andor ao fundo, a caminho do poiso, o preciso local onde se encontrava a azinheira que deu guarida às aparições maria­nas, fundadoras de todo este cortejo a que assiste.

Acreditas que na coroa da Virgem de Fátima está uma das balas que dispararam contra o polaco em 1981, irmão? — ouve-se uma voz dizer, atrás de Marius Ferris.

Isso é público — replica Ferris. — Sabemos como Wojtyla era crente em Maria. — Apressa-se a curvar-se perante o homem que se desloca numa cadeira de rodas. — Sua bênção, Eminência. — Beija­-lhe uma das mãos.

— Deus te abençoe, meu filho — recita o outro concluindo o ceri­monial de cumprimento.

O homem é bastante mais velho que Marius Ferris, andará na casa dos noventa anos, conjectura-se, veste um fato negro, uma grande cruz de ouro amarelo pende de uma volta grossa no pescoço. Um jovem clérigo, envergando uma batina negra, porventura um assis­tente, empurra a cadeira conforme a vontade do anoso.    

Marius Ferris levanta-se após uns instantes de oração e fita o velho à sua frente.

Invejo a tua forma física — elogia o homem.

— Não inveje, pois não chegarei à sua idade. — Um sorriso pere­ne arreganha-se na boca.

— Isso somente Ele sabe — adverte o outro. — Faz o favor de empur­rar a minha cadeira, irmão. — É uma afirmação, não um pedido. Com um gesto dispensa o jovem. A conversa é privada daqui em diante.

Ferris põe-se a jeito e faz deslizar a cadeira, suavemente, ao longo da colunata, em direcção à Basílica.

Ouve-se a voz de um prelado ecoar nos altifalantes do recinto. Um agradecimento poliglota a todos os peregrinos, directamente do altar colocado em frente à Basílica, no cimo da escadaria, que é usado nas eucaristias internacionais.

— É o enviado de Roma? — pergunta Ferris.

— Sim, o Sodano.

— O preterido do papa? — Um certo escárnio na voz, algum entejo.

Ele tem sempre maneira de fazer valer a sua posição. Além disso, o alemão escolheu muito mal o seu secretário de Estado.

Escolheu ou foi a única opção que lhe deram? — contrapõe Ferris.

Ou isso. De qualquer maneira, o papa actual sabe o que foi combinado na sua eleição. Se tentar fugir à prerrogativa...

Qual é a prerrogativa? — interrompe Ferris.

Qual haveria de ser, irmão? Fechar a Igreja, retomar os velhos dogmas, debelar qualquer ameaça de reforma liberal. Deixar de pas­sar esta imagem de circo constante nos média. Cristo não é um par­que de diversões. — Um certo rubor e o tom inflamado asseveram a concordância do homem com estas posições.

Uma Igreja virada para dentro.

E que outra pode existir? — prossegue o homem, não baptizado aos olhos da narração. — Se seguissem os preceitos da nossa Igreja, a única, a verdadeira, não existiria metade dos problemas com que hoje se debatem as sociedades. Desmancho? Preservativo? Preservativo de quê? Da vida não é com certeza, porque aquilo não a preserva, evita-a. — A irritação aumenta a cada tópico. — Ecumenismo? Para quê? Diálogo inter-religioso? Eles são eles, nós somos nós. Não há conversa. Se, de algum modo, nos atacarem, saltamos em cima deles. Sempre assim foi, porque estamos agora com diplomacias bacocas?

Isso vai mudar — pressagia Ferris.

Acho bem que mude. Caso contrário, teremos de fazer algo em relação ao alemão.

Não creio que venha a ser necessário.

Está tudo a correr conforme o que planeaste? — Uma mudan­ça de assunto quase imperceptível.

Até ao momento... sim — mente Ferris. Uma intrujice peque­na. Não o quer preocupar com ninharias que serão resolvidas em breve, porventura já o foram.

Óptimo, óptimo — rejubila o outro. — Vais culpar os Russos e os Búlgaros?

Foram eles próprios que se culparam há muito tempo — asse­vera Ferris.

Sabes onde estava no dia 13 de Maio de 1981? — inquire o prelado.

— Em Roma? — arrisca Ferris.

— Em Roma, certamente. Na cripta de Belém.

Na Basilica di Santa Maria Maggiore?

— Essa mesmo — confirma. — A expiar os meus pecados junto às tábuas do Jesus Menino — confessa.

O Pio ainda lá está a rezar? — sorri Ferris, referindo-se à está­tua do papa a rezar perante as sagradas tábuas do presépio.

E estará. Mas esse era um papa a sério. Não estava com pani­nhos quentes, agia, tomava decisões e mantinha tudo na linha.

Os tempos eram outros — justifica Ferris.

— Os tempos são o que nós fizermos deles. Há 50 anos que temos estrelas de cinema no trono de São Pedro.

Marius Ferris pára de empurrar a cadeira. Contempla o andor da Virgem que já está no lugar de recato onde repousa diariamente e é adorada por milhões de pessoas anualmente, em comparência ou à distância. A cerimónia terminou e levará horas até que o recin­to de asfalto esvazie e retome a normalidade. Em breve tornar-se­-ão a ver os pagadores de promessas a acenderem velas, a rezarem o terço submissamente, a percorrerem o caminho de joelhos em ferida, dando as voltas prometidas em redor da capela para agrade­cer à Virgem a graça concedida ou a conceder, pois há quem pague adiantado.

No momento em que o polaco era alvejado em São Pedro eu rezava por ele. Quis o Senhor que ele durasse mais vinte e tal anos e eu acato sempre as designações Dele, mesmo quando não concordo, porque Ele, sim, é infalível.

De qualquer maneira, ele acabou por portar-se bem — alude Ferris.

Conseguimos controlá-lo, graças a Deus. Pelo menos, até finais dos anos 80. A partir daí deu largas à imaginação.

Sim, mas não correu muito mal. Afinal de contas, não podia remar contra as suas próprias palavras.

— É certo. É certo. Mas não esqueço quem lhe proporcionou essa independência em 90. — A voz crispa-se novamente.

Nem eu. Estamos a tratar disso.

É bom que tratem — adverte o clérigo com um tom ameaça­dor. — Quero-o morto.

O homem tira a volta onde se prende uma chave de ouro do pes­coço, procura a mão de Marius Ferris e deposita-a nela.

Na cripta de Belém, junto às tábuas do presépio, encontrarás o que precisas. Está lá há 26 anos à tua espera — conta.

Marius Ferris guarda a oferta no bolso com tanto cuidado como se se tratasse de um tesouro dos céus, o que, em certa medida, cor­responde à realidade. Retomam o andamento suave, primaveril, de um passeio entre amigos.

Mesmo na hora em que o polaco estava a ser alvejado eu reza­va por ele em Santa Maria Maggiore — repete o velho. — E agora a bala está ali, a poucos metros de distância, na coroa da Virgem. Parece urna maldição que me persegue — confessa.

Isto é um armazém de relíquias — atesta Marius Ferris. — Temos os três pastorinhos sepultados na basílica e alguns passos daqui um pedaço do Muro de Berlim.

Um testemunho da nossa obra — observa o clérigo.

Com certeza. Todos os locais santos são avalizadores da capa­cidade de realização da Igreja — assevera Ferris sorridente.

E quanto a Mitrokine? — pergunta o velho, sério.

O que ele deixou está controlado pelos Britânicos. Também é do interesse deles.

Deixam-se cair num silêncio indigente enquanto observam a debandada dos fiéis. Ao fundo, um pouco à esquerda, ergue-se um novo santuário, o da Santíssima Trindade, com capacidade para albergar quase nove mil pessoas no seu interior. O poder construti­vo da Igreja, também aderente à moda do betão.

O jovem serviçal aproxima-se e toma conta das operações de condução da cadeira de rodas. Ninguém o chamou, mas pressentiu que tudo o que havia para dizer estava esgotado

Leva o nosso barco a bom porto — pede o velho, mais calmo, com um semblante meditabundo e letárgico, cansado daquela expo­sição.

Já o estou a ver — afirma um Marius Ferris confiante. — Só falta aportar.

Sabes onde me encontrar no fim.

Separam-se com um aceno de despedida. Desta vez, Marius Ferris não se abaixou a pedir a bênção, tudo tem a sua moderação, os excessos são inimigos da fé.

Apesar dos sinais espalhados por todo o lado que indicam a proi­bição do uso de telefones celulares, Ferris não hesita em iniciar uma chamada. São avisos para os fiéis, não para os clérigos, benefícios do traje e do mester.

— Pronto.

O relatório é dado sem interrupções. Marius Ferris sabe ouvir. O fácies desenfada-se.

Perfeito. Ataquem essa localização. Vai-me mantendo infor­mado.

Desliga o telernóvel e retira do bolso a volta de ouro com a chave. Observa-a com nítido respeito, a personificação do corpo de Jesus Cristo gravada no ouro, os filamentos de energia e história que penetram bem fundo na sua alma e o fazem vergar de comoção. Dá por si ajoelhado, virado para a Virgem, Mãe de Cristo, ao longe, na capela, e baixa a cabeça, enquanto uma lágrima rola pela face.

Eles já foram localizados. Em breve estarão nas nossas mãos. Eu te vingarei — promete. — Eu te vingarei e ao teu filho.

Atrás de si, na capela do Sagrado Lausperene, a irmã reparadora continua a rezar até à eternidade.

 

Quantas vezes vou ter de repetir? — irrita-se Sarah à milioné­sima pergunta de Rafael. — Está a ver se me apanha em alguma con­tradição? Estou aqui sob custódia, é?

De certa forma, está. Não me parece que possa andar livre­mente pela rua, neste momento — adverte Rafael em tom neutro. — A minha única razão ao pressioná-la é somente para reunir o maior número de elementos que nos possam ajudar.

E estou a portar-me bem? — O tom sardónico é evidente.

Perfeitamente. — Passa a expor. — O seu colega Simon foi vítima de uma explosão desencadeada ao entrar em sua casa. Você teve a sorte, entre aspas — assinala a locução — de ser intimada, minutos antes, por Simon Templar.

Correcto — afirma Sarah na mesma entoação.

Significa que eles controlaram sempre os seus passos e apenas decidiram agir no hospital.

Mas eu é que decidi ir ao hospital. Ninguém me obrigou. Fui de livre vontade.

É irrelevante. Até lhes fez um favor. Assim podiam apanhá-la a si e ao Simon.

Sarah fita Simon. Não tinha pensado nisso. Talvez tenha razão.

O Templar foi contra a minha ida ao hospital.

Isso vale o que vale — refuta Rafael. — Pode simplesmente tê­-la feito pensar isso. Estou certo que nunca desconfiou dele.

Sarah reflecte por momentos. Ele tem razão. Aliás, ele sabe do que fala. É a sua arte.

Isso levanta uma questão — continua Rafael.

Que é... — incentiva Sarah impaciente.     

Quem pôs a bomba? O comportamento de Templar revela‑nos que ele nada sabia sobre o engenho, apesar de ser um camaleão.

Como tu, pensa Sarah, embora não verbalize. Acaba por se envergo­nhar de tal pensamento. Ele não merece esse desrespeito. O seu lado ale­górico salvou a vida dela, várias vezes, como não se cansa de relembrar.

Não esqueçamos o agente russo que foi encontrado, mais o tal Herbert, de quem eles estavam à espera no hospital, mas que não chegou a aparecer — adverte Sarah, um pouco mais cooperante.

— O agente russo será tratado mais logo. Quanto a esse Herbert, não há nada a fazer de momento. É apenas um nome...

Como Jack Payne? — atira Sarah. Afinal a cooperação é cir­cunstancial.

— Como Jack Payne — corrobora Rafael.

— Quem é o Jack Payne? — perguntam James Phelps e Simon em simultâneo. — Já vi que ninguém é apologista do uso do nome ver­dadeiro — verifica Simon.

É uma longa história — acode Sarah. — Não é o momento.

Tempo é o que mais temos. — O interesse de Phelps é visível.

- Estou muito interessado em ouvir a história do Jack Payne.

O Jack Payne está morto — observa Rafael. — Pertence a outra história. Não há nada para dizer.

Sarah aproveita o apoio para mudar de assunto.

Mencionou um eles há pouco. Os que me controlaram... quem são eles? O Barnes?

Não — refuta Rafael prontamente. — O Barnes é um joguete nas mãos de outros interesses. Tomara ele que o deixassem em paz.

Um pigarrear tímido de Phelps indica a sua vez de entrar na con­versa.

— Tenho reparado numa certa derivação da história, e não estou de maneira alguma a censurar, para assuntos que somente a Sarah e o Rafael dominam. Personagens que, segundo percebi, provêm de outras andanças. — Apesar do discurso diplomático, a entoação censória é evidente. Vira-se para Rafael. — Julgo que está na hora de pôr tudo em pratos limpos. Não estou a cobrar a vossa história con­junta, longe de mim invocar a vossa privacidade, têm direito a ela, 'porém, quando fiz uma pergunta ao Rafael, na noite passada, fiquei estarrecido com a resposta, ainda que tenha sido evasiva.

Qual era a pergunta? — quer saber Simon, curioso.

Andamos atrás de quem? — relembra Phelps terminante.

E qual foi a resposta? — pergunta Sarah com os olhos fixos nele.

De João... Paulo... II... — responde Phelps, pausadamente, para que cada componente do nome pese sobre eles.

O silêncio torna-se constrangedor e as atenções viram-se, imedia­tamente, para Rafael, que não esboça qualquer reflexo reprovador em relação a James Phelps, tão-pouco aparenta qualquer mal-estar.

Meu Deus. O dossier do turco — deixa escapar Sarah ao relembrar o caderno que JC lhe deixou no Grand Hotel Palatino, em Roma, e que estava por trás da defunta garrafa de porto vintage.

Aquele que eu ia buscar? — perquire Simon com os olhos bem abertos.

Sim.

Não se preocupe com isso — apazigua Rafael. — Já lá não estava há muito.

Sarah indigna-se ao ouvir aquilo.

O que quer dizer com isso?

Que já lá não está há muito tempo — repete Rafael sem res­quício de emoção.

Não está onde? — Sarah sente que vai perder o tino se ele der a resposta que antevê.

Na sua casa que explodiu em Redcliffe Gardens, por trás da garrafa de vinho do Porto vintage, colheita de 1976 — afirma com a maior lata do mundo. — Estive para trazê-la também, mas receei que desse pela falta dela.

Sarai] levanta-se da mesa da cozinha onde a reunião decorre, car­minada, chocada com o entra e sai da sua vida, de forma desafora­da e, pior, sem que ela tenha dado por isso.

Como foi capaz? — quase que vocifera com ele.

Alguém tinha de ler aquilo — professa Rafael em jeito de sal­vatério. É um argumento plausível aos olhos dele.

— Não tinha esse direito — continua Sarah, magoada, ainda que, de outra perspectiva e vistas as coisas de forma mais fria, o que ainda não é o caso para ela, deve sentir-se congratulada por saber que ele sempre esteve presente e atento ao desenrolar da vida dela. Volta a sentar-se.

— Estamos a afastar-nos, novamente, do tema — admoesta Phelps.

De maneira alguma — alude Rafael. — O dossier do turco é um registo importante para este caso — explica.

De que forma? — insiste Phelps.

É um relato competente de como tudo aconteceu, o que levou ao planeamento da morte do polaco, quem foram os autores morais e materiais, o que sucedeu nos anos seguintes, as consequências e o desfecho. Um autêntico relatório pormenorizado.

E onde é que isso anda? — inquire Phelps como um inspector de polícia. — Gostaria de ler.

Devia estar na minha casa — protesta Sarah, ainda que bem mais calma agora.

Rafael sorri. É a segunda vez que Sarah vê o seu sorriso.

Não prestou atenção àquilo, Sarah. Fugia dele como o Diabo da cruz.

James Phelps benze-se ao ouvir a menção do demo, o que provo­ca o riso em Simon, que tenta disfarçar.

E onde está isso? — volta a perguntar Phelps.

Num lugar seguro. É bom que não tenham conhecimento da sua localização para vossa segurança.

Para nossa segurança? Qual é o problema? — É Phelps quem" volta a inquirir.

Rafael enfrenta os três olhares inquiridores sem pestanejar.

A que julgam que se deve tudo isto?

Porque não nos elucida? — O tom de Sarah é grave e frontal.

Eles querem esse relatório e exterminar todas as ameaças rela­cionadas com ele. Mesmo que não o tenham lido — esclarece.

Outra vez por causa de papéis, pensa Sarah com uma sensação notória de déjà vu.

Esta gente não sabe que não deve deixar nada escrito? — lamenta. — Então isto não tem nada que ver com o Albino Luciani e o que sabemos sobre o que lhe aconteceu? — Começa a sentir um certo temor. Isto é muito mais complicado do que pensava.

Não. É sobre João Paulo II e o que não sabemos sobre ele.

Mas quem são eles? — pergunta Simon, as dores começam a regressar ao corpo. Precisa de repouso.

Os salvadores das causas da Igreja. Os donos da Igreja.

O Papa? — perquire Simon.

Não. Claro que não. O que o leva a pensar que o Papa manda na Igreja?

Os conclaves, a escolha do sucessor, os Guardas Suíços, ser o chefe de Estado do país dele — Simon apresenta uma ínfima lista de razões.

O dono da Igreja é e sempre foi o dinheiro — elucida Rafael. James Phelps sente-se afrontado pela observação.

— Ora, ora, Rafael...

Rafael levanta uma mão autoritária a mandá-lo calar.

O dono da Igreja é o dinheiro. Imaginem o sistema bancário.

Phelps suspira constrangido com a ideia. Que sacrilégio. Sarah, por seu turno, não está a ver onde ele quer chegar com aquela con­cepção.

Existem os bancos que têm de obedecer às directrizes do Banco Central. Sobem ou descem o preço do dinheiro, são os estra­tegas, os reguladores...

Onde pretende chegar com isso? — E Sarah quem se impa­cienta.

Ao óbvio. Existe a Santa Madre Igreja, o Vaticano, que é o rosto e o agente regulador, que administra os bens, que tem a tutela sobre as decisões a tomar, que gere a fé.

Por amor de Deus — irrita-se Phelps, que se levanta e põe as mãos sobre a mesa. — Está a falar de quem? Com certeza do Vaticano.

Engana-se. Estou a falar da organização de Escrivã.

Virgem Santíssima. — Phelps volta a benzer-se, três vezes seguidas. — Heresia.

A organização de Escrivã? — Siinon está a leste.

O... Opus Dei... — precisam Sarah e Rafael em uníssono.

Isso parece-me uma tese sem fundamento — interpõe Sarah. — Um ultraje — acrescenta James Phelps. A voz treme de indignação.

Infelizmente não é uma tese nem uma especulação teórica. É uma certeza. Funciona desta forma.

James Phelps senta-se, completamente arrasado.

Não pode ser. Não acredito, meu Deus.

Os três ouvintes deixam-se ficar prostrados nos bancos, debru­çados sobre a mesa, como se tivessem enfrentado uma provação que tivesse exigido muito esforço físico. Passam minutos sem que tro­quem palavra, ouvem-se apenas os sistemas respiratórios a actua­rem, arquejantes, fatigados, nervosos.

— Okay. — É Sarah quem interrompe o silêncio assimilativo, que relembra algumas conversas deste género mantidas com Rafael no passado. — Penso que estamos todos de acordo a que se unam todas as pontas soltas. Queremos saber tudo.

Os outros dois limitam-se a acenar em concordância. Sim, que­rem saber tudo... Agora. Sarah fita Rafael seriamente. Queremos saber tudo... Agora.

Pode começar por falar dos corpos — pede Phelps benzendo­-se ao mesmo tempo.

Que corpos? — Sarah fica com pele de galinha.

Isto está a ficar cada vez mais interessante — afirma Simon com um sorriso amarelo.

Os corpos que esse senhor foi buscar a Amesterdão. Percorremos quinhentos quilómetros com eles até aqui — incrimi­na Phelps.

Natalie? — profere Sarah, timidamente. — Os corpos da Natalie e do Greg? Você trouxe-os? — Nem consegue conceber esse gesto hediondo de arrebatar dois corpos, seus conhecidos, ao des­canso eterno.

Rafael acena positivamente.

Porquê? — quer saber Sarah. Este homem não deixa de a sur­preender. Nem tem a noção de como há-de sentir-se. Se ria, se chore, se considere bem ou mal feito.

Entre outras razões... por isto. — Rafael exibe um objecto diminuto, negro, do tamanho do botão de um casaco, circular, raso.

O que é isso?

Um CD.

Isso é um CD? — Simon fita o objecto pasmado. — Fazem­-nos desse tamanho?

Fazem-nos do tamanho que for necessário.

E o que tem? Quem o trazia? — É o que importa a Sarah. — Informações que Natalie perseguia há algum tempo — limita­-se a dizer.

Sobre o quê?

A Emanuela e a Mirella.

— As meninas? — questiona James Phelps, nervoso. — Meu Deus, isto é um martírio. Não posso crer.

Que meninas?

Meu Deus. As meninas. — James Phelps tapa o rosto com ambas as mãos, constrangido.

Informações sobre o pior, suponho — intenta adivinhar.

Que meninas? — torna a perguntar Sarah. As pontas ficam cada vez mais soltas em vez de se unirem em explicações plausíveis. Não há um desfecho visível. De momento, a conversa que pretende ter sobre a casa parece descabida.

Duas adolescentes que desapareceram em Roma, em 1983 — esclarece Rafael finalmente, ignorando o quesito de James Phelps.

E o que têm elas a ver com isto? Para que queria Natalie saber informações sobre elas?

— Estava a fazer uma investigação sobre o atentado a João Paulo II. Valeu-lhe a morte.

A imagem arrepia-a, impedindo a formulação da pergunta seguinte. Leva ainda algum tempo a recuperar.

Mas quem são essas miúdas? — interpela Simon.

É um assunto melindroso. Basta que saibam que foram rapta­das em Roma por pessoas ligadas à Igreja da altura. Apesar de terem feito passar a ideia de que queriam trocá-las pelo turco, elas foram mortas pouco depois do rapto por outras razões.

E que razões foram essas? — insta Phelps.

O que disse é suficiente. — A expressão de Rafael patenteia que não dirá mais nada sobre esse assunto.

E quanto à outra vítima que morreu com eles? — Phelps muda de tema. — Tinha alguma coisa a ver com o caso ou foi apanhado pelos imponderáveis da vida? — Lembra-se do artigo que leu no aeroporto de Schiphol que apontava para um casal e outro homem, ainda não identificados.

Há mais mortos? — Simon sente que penetrou num mundo desassisado.

Foi ele quem desencadeou tudo. Estava ao serviço da CIA, aliás, era um dos fundadores, chamou a morte sobre si ao seguir os movi­mentos deles. O irónico é que ele fora dispensado do caso no dia ante­rior. O seu trabalho terminara. Relatara algo que Natalie tinha ido buscar à Bulgária. O homem, de nome Solomon Keys, ia passar uns dias a Londres, antes de regressar aos Estados Unidos. A Natalie deci­diu saciar o seu desejo precisamente no local onde Solomon, que já não tinha nada a ver com o assunto, estava. Provavelmente nem fazia ideia que era ela. O atirador nunca chegou a saber que era Solomon Keys que ocupava o outro privado.

Como assim? — Phelps está siderado com tanta dose infor­mativa e atento.

— Os tiros foram desferidos com a porta fechada por dentro.

Meu Deus — exclama Sarah, imaginando a cena.

Você está muito bem informado — comprova James Phelps com alguma reserva na voz.

Rafael nada diz.

As autoridades holandesas não detectaram o CD? — pergun­ta Sarah desconfiada.

Claro que sim — comunica. — E entregaram a quem tinham de o fazer.

— Não estou a perceber. — Sarah quer tudo muito bem explica­do. Está no seu direito.

São jogadas de bastidores entre serviços de informação que não importam para aqui.

Como teve conhecimento de tudo isto? — insiste Sarah.

Nada é invisível aos olhos do Vaticano — responde conclu­dente mas, ao mesmo tempo, evasivamente.

E essas meninas? O que têm a ver com o atentado a João Paulo II?

Rafael mira-a fixamente para ter a certeza de que é compreendido. — Tudo.

A história está cada vez mais confusa na mente dela. Esperava respostas e obteve-as, em parte, porém, cada uma encerra em si um leque de novas perguntas, dúvidas, mistérios horrendos, daqueles que não se deviam esconder das pessoas. Como é que se chega a este estado tenebroso em que não se pode confiar em ninguém, muito menos nos promíscuos homens que, alegadamente, tratam da segu­rança das pessoas e bens de cada país, para não mencionar os reli­giosos, pouco dados aos desígnios da fé e cada vez mais entregues aos terrenos?

Em resumo — começa o calado Simon —, uma instituição religiosa, supostamente o Opus Dei, não quer que se tenha conheci­mento dos meandros que envolveram o atentado a João Paulo Il em 1981. — Parece a apresentação de uma peça jornalística. — Por isso, inicia uma operação, julgo que é o termo mais adequado, que tem por objectivo silenciar todos os intervenientes que tenham ou pos­sam ter conhecimento acerca dessa matéria, bem corno apoderar-se de todos os documentos que a abordem.

Todos escutam a síntese de Simon. Sarah fica até perplexa. Basta uma cabeça fria para que tudo se encaixe.

Têm a ajuda de uma grande organização governamental norte-americana e nós estamos aqui a adiar o inevitável, é isso? — conclui em jeito de pergunta.

— Parece-me que é isso — defende Sarah. — Falta explicar tanta coisa. Sinto-me mais confusa do que quando cheguei aqui.

Há uma pergunta, no entanto, que ainda não foi feita — pro­fere Simon, analisador, mirando a equação interrogativa dos outros com alguma timidez. — Qual o interesse do Opus Dei? Estamos a falar de uma operação dispendiosa, com bastantes meios. Aliás, são duas perguntas, e, para mim a mais preocupante, o que tem a CIA a ver com isto?

Isso fica para mais tarde — decide Rafael. — Agora temos de tratar do futuro.

Um som vibratório interrompe a explanação. É o telemóvel de Rafael. Atende sem proferir uma palavra e desliga da mesma forma.

Por acaso, preciso de ligar para casa. Posso? — pede James Phelps acanhado. — Tenho de tranquilizar a família. Falo com eles todos os dias.

Claro — acede Rafael. A entoação é séria, profissional.

Não se preocupe, sei muito bem aquilo que não posso dizer.

Também eu — adverte Rafael. — Mas antes a Sarah tem de fazer um telefonema.

Eu? — Não está à espera desta intimação.

Sim. Convém tranquilizar o seu pai. Disse-lhe que a Sarah lhe ligava mais tarde. — Põe o telemóvel na mão dela. — E, já agora, ele que diga ao colega que precisamos de um avião para esta noite.

 

             EMANUELA, QUARTA-FEIRA, 22 DE JUNHO DE 1983

Não é difícil pressupor a origem deste brilho nos olhos e do sor­riso patente nos lábios finos e rosados. É a alegria dos quinze anos a desfilar perante as maravilhas da vida, das promessas, do futuro risonho que se assemelha a um ramo de rosas, odorantes, preclaras, assentadas ao longe, a distância que falta percorrer para que ela se torne senhora dele, triunfal, vencedora. O destino é cor-de-rosa.

A razão do entusiasmo prende-se com a primeira oportunidade laboral em vias de se efectivar. Um pequeno trabalho, esporádico mas honesto, uma porta que se abre, as primeiras liras, suas, só suas, espe­vitadas pelo seu suor prazenteiro. Não vê a hora de chegar a casa e confidenciar à família. Agora tem de se apressar pois a aula de Flauta já começou no instituto. Ah, como Roma é bela, a eterna, como tudo é gracioso aos olhos do bem-estar. Promotora da Avon Cosmetics na feira de moda. Quem diria que esta conjunção a escolheria a ela.

— A Emanuela tem o perfil adequado à função. É o que procu­ramos — elogiou o representante, minutos antes, na esplanada, ao sabor de uma água com gás.

A pasta preta nunca a abriu, pousada aos seus pés, com a pega para cima, nova ou estimada, o cheiro do couro a imiscuir-se com o do Verão fresco, acabado de iniciar. A idade acima dos quarenta, pouco mais ou pouco menos, olhar seguro de quem sabe o que faz na sua fun­ção de recrutamento para a empresa francesa de embelezamento do ser.

O rubor estampado no rosto dela, os sinais do corpo inocente, sensações novas de realização interior, como nunca havia sentido.

Terei de falar com a minha família — avisou. Mas a vontade era aceitar, sem olhar a permissões parentais. Os quinze anos a cla­marem por independência. — Mas, em principio, poderá contar comigo — concluiu com uma expressão sorridente.

Óptimo. Óptimo. Mas não se esqueça de que a autorização dos pais 6 fundamental. Sem ela não a poderei empregar — proferiu em tom sério.

0 homem bebeu a última réstia de líquido do copo e levantou­-se, pegou na pega pregada A mala por obrigação, estendeu a mão, com profissionalismo.

Foi urn prazer, Emanuela. Espero poder contar consigo. A menina reciprocou o gesto com o sorriso colado no rosto, constante, delicado, apaixonado.

Acha que me pode dar a resposta amanha? — indagou ainda o homem.

Com certeza — retorquiu ela. — Ligo-lhe para o número do escritório?

Não — apressou-se ele a regular. — Podemos combinar aqui amanha, A mesma hora. — Não é urna pergunta e Emanuela perce­beu a falta de entoação que as distingue.

Claro. Cá estarei a mesma hora — atendeu a menina.

Amanhã — especificou ele para não dar azo a equívocos de datas, já que a hora estava perfeitamente acordada, a mesma.  

Amanhã. — 0 mesmo sorriso cândido. — Então até amanhã. Já estou atrasada.

A despedida foi rápida. 0 homem ficou de pé, na esplanada, de ar sisudo, o tempo a passar rumo a outra reunião, a chave do BMW estacionado em frente na mão, mais uma entrevista de emprego, quem sabe, a vê-la virar a esquina a correr para o Instituto Pontifício da Música Sacra.

Não é difícil pressupor a origem deste brilho nos olhos e do sor­riso patente nos lábios finos e rosados. E a alegria dos quinze anos a desfilar perante as maravilhas da vida... 0 destino é cor-de-rosa.

Não lhe apetece muito ir à aula, a excitação é demasiada, mas não pode pedir autorização aos pais depois de faltar, isso nem pensar. É melhor ir cumprir com as suas obrigações para não arranjar pro­blemas com os pais e depois, quem sabe este trabalho não será o iní­cio de um futuro no mundo da moda? É o mais acertado a fazer.

Entrou na aula com alguns minutos de atraso, pelos quais pediu desculpa e foi desculpada. O trânsito romano é um inferno, com o perdão da má palavra, todos o sabem.

A lição decorreu com regularidade, novas práticas e pautas para praticar em casa, além dos três dias por semana nos quais tem de se deslocar a este edifício para beber mais matéria para a flauta, indul­tem-se as indevidas insensibilidades narrativas ao pouco importan­te tema sacro musical para o fundamento da história.

Depois das sete horas da tarde, Emanuela ligou para casa e falou com a irmã, a quem confidenciou a proposta do representante da Avon Cosmetics. O entusiasmo era evidente. Prudente, a irmã pediu­-lhe que não tomasse qualquer decisão sem falar com os pais. Facto que, como comprovamos, jamais lhe passou pela cabeça, nem podia. A autorização deles é fulcral para a legalidade da sua contratação e a multinacional não é empresa para cometer actos escusos.

Caminhou até à paragem do autocarro que a vai levar à Praça de São Pedro e depois à sua casa, ao seu país, no interior do território vaticano, onde reside desde que nasceu. Nota-se o crescer tímido dos dias, o sol que vai quedando um pouco mais, caindo, lentamente, para além dos prédios, num esforço alaranjado, incandescente, ao qual Emanuela não presta atenção, pelo menos não conscientemente, mas que contribui, em parte, para o contentamento dela. Tão-pouco perde tempo a olhar para os cartazes que se espalham pela rua com a foto­grafia de uma adolescente, um ano mais velha, de nome Mirella, desaparecida da casa de seus pais há quarenta dias, desde 7 de Maio, em plena Primavera, da estação e da vida, e da qual não há rasto ou pista desde então. Os pais anseiam por retornar a vê-la ou, em últi­mo caso, pois a incerteza arruína, que o seu corpo apareça, sem vida mas palpável. O bom tempo e as boas notícias afastam os maus anúncios da visão púbere de Emanuela.

Na paragem está apenas uma mulher, agardando o veículo transportador, entregue à sua vida, à sua existência, a quem nada importa o carro que buzina e pára em frente à paragem, como que tenha a certeza que o chamamento não é para si.

Emanuela — ouve-se chamar do interior do veículo. Ela só ouve à segunda vez, absorta com as suas idealidades e o sorriso pasmado a corroborar o espírito inventivo dos jovens.

Olá — cumprimenta.

Quer boleia? — oferece a voz masculina.

Não se preocupe. Não quero dar trabalho — escusa-se com pusilanimidade sincera. — Vou para o Vaticano.

Vou lá ao pé, ao Borgo Pio, fazer mais uma entrevista. — O ho­mem retira urna mala de couro negra do banco do passageiro para deixar o lugar vago e coloca-a atrás. — Entre.

Emanuela leva dois segundos a pensar e, com o mesmo sorriso casto, abre a porta, decidida, e entra.

A mulher que aguarda na paragem, agora sem Emanuela, nem sequer cede um olhar para o BMW que avança na direcção do Coliseu. Não existem sentimentos oblíquos, conspurcados pela mente suja dos passantes ou dos quedados, ignorados do que passa à sua frente, agarrados ao seu presente, alheios ao que os rodeia. Passam metade da vida a olhar para dentro, sem dar uma hipótese ao mundo de se revelar. Ele fá-lo constantemente, a cada hora, a cada segundo, confessa tudo, sem escusas ou omissões. Aposta na franqueza, na aberta probidade. E os passantes e os quedados conti­nuam a vida sem o ver, ainda que seja aquilo que mais almejam.

O carro já dobrou a via dei fori imperiali e deixou de se ver.

Adeus, Emanuela. Adeus... Para sempre...

 

Saem três pessoas deste carro negro que estacionou em frente à entrada do Holliday Express. Entram no hotel para turistas de baixo orçamento e estadas curtas, passam a recepção, sem pedir nenhuma autorização ou chave de quarto, sobem as escadas até ao primeiro andar, onde uma porta aberta revela uma parafernália de monitores, câmaras, computadores e outros tipos de aparelhos não convencionais, alguns dos quais confidenciais ao olhar civil, pelo que nos privamos de os identificar, controlados por cerca de urna dezena de agentes que se acotovelam no espaço exíguo. Indiferentes, os três que chegaram no carro negro prosseguem o andamento até ao quarto ao lado, cuja porta está encostada, e não se coíbem em abri-la e entrarem.

Boa tarde, meus senhores — cumprimenta o recém-chegado Harvey Littel, acompanhado de Priscilla, a assistente, e Wally Johnson no seu traje militar. — Vejo que há evolução.

Barnes cumprimenta Littel com um aperto de mão firme, pouco importado em disfarçar o ar sisudo.

Bem-vindo.

Esta é a minha assistente, Priscilla Thomason, e o adido mili­tar Wally Johnson. — Aponta para os dois, que Barnes cumprimen­ta da mesma maneira, com cara de poucos amigos.

Os meus assistentes, Staughton e Thompson — apresenta ele por sua vez, uma troca de apresentações para não haver desconhecidos. — Este é o Herbert — aponta para o visado —, mas deves conhecê-lo melhor do que eu.

O que há de novo? — pergunta Littel acabando com a etiqueta.

— Descobrimos a carrinha em que eles se faziam transportar em Clapham, numa residência privada. Estavam lá os corpos em falta, mas nem sinal da mulher ou dos...

— E depois? — pergunta Littel, interrompendo o relato dos even­tos que ali conduziram.

— Avançámos para a identificação do proprietário da casa e des­cobrimos...

O quê? — volta a interromper Littel.

— Vais calar-te e deixares-me explicar ou queres descobrir por ti? — Jogo limpo de Barnes na admoestação. Não está para brincadeiras, em­bora Littel não estivesse a brincar, é uma particularidade inerente ao fei­tio, assim como a comida é a perdição se atentarmos ao lado de Barnes.

Priscilla e Wally Johnson olham-no como um displicente mal­-educado, sem respeito pela hierarquia. Desconhecem o que os dois homens já viveram.

— As minhas desculpas. A investigação é tua. Prossegue. — Littel está a ser sincero.

Descobrimos que a casa está registada no nome de uma mul­tinacional do ramo das telecomunicações chamada Hollynet. Não foi preciso ir muito longe para percebermos que essa empresa não existe. É uma fachada dos nossos amigos do Vaticano.

Do Vaticano? — É Wally Johnson quem pergunta. — Qual é a deles? Estão de que lado?

Barnes ignora a questão do recém-chegado.

Fizemos um apuramento dos bens registados em nome da empresa e demos com um carro, um Volvo com apenas três meses. Emitimos um alerta. Mas os homens aqui do nosso parceiro Herbert deram com ele.

Barnes pede a Littel que se aproxime da janela, Staughton, Thompson e Herbert abrem alas para o deixar passar. O quarto é muito apertado. Barnes aponta para uma viatura, estacionada do outro lado da rua, um Volvo.

É aquele carro. — Levanta a mão para a casa em frente. — E naquela casa morou Sarah Monteiro.

Então estamos no caminho certo. — Littel esfrega as mãos. — Vamos acabar com isto. Informo o co-director e regressamos a casa ainda hoje.

Ele não era para vir? — pergunta Barnes.

A cama é uma grande adversária quando acordamos alguém às quatro da manhã. Quer que o mantenha informado e confia que eu seja capaz de resolver isto. O que é o mesmo que dizer que não me podes deixar ficar mal.

É sempre a mesma merda — protesta Barnes.

Littel assente com o olhar e volta a fitar a casa.

— Há movimento?

Sim. Especialmente no rés-do-chão.

Então não protelemos mais. Manda avançar — ordena Littel, que baixa os olhos quando Barnes o observa do alto da sua estatura. — Quando quiseres.

Barnes leva o rádio à boca e carrega num dos botões.

Atenção, Alfa Líder, autorização para avançar, repito, autoriza­ção para avançar.

Alguns segundos depois, começam a ouvir pelo rádio o desen­rolar da operação. São três equipas, a Alfa, a Beta, que será a núme­ro dois, e a Gama. A Alfa avançará pela frente, a Beta por trás e por cima e a Gama fica de reserva para o caso de haver necessidade de reforço. É evidente que este género de operação não obedece às mesmas regras das forças especiais, ainda que, em parte, o princí­pio seja o mesmo. Não esqueçamos que se trata de forçar a entrada numa casa, em plena luz do dia, por um organismo governamental estrangeiro, sem qualquer jurisdição, autorização ou conhecimento do país hospedeiro. Assim, que melhor disfarce do que operários da construção civil para abordarem a casa pela frente, a equipa Alfa, e electricistas de alta tensão para entrarem pelas traseiras, através do telhado, a equipa Beta? Uma operação organizada em tempo recor­de, sem grande análise à planta do edifício, o que é um mau princí­pio, mas ao qual terão de fechar os olhos. A verdade é que não esperam grande resistência por parte dos habitantes. A equipa Gama está disseminada pela rua, no interior de carros, leitores de jornais na paragem do 24, um almeida a varrer o passeio, um carteiro, turistas a puxarem as malas, de mapa na mão, à procura do hotel.

Barnes e os restantes escutam o desenrolar do ataque pelas equi­pas Alfa e Beta em suspenso. Entram sem qualquer dificuldade ou alarido. Tudo termina em poucos minutos. À medida que as equi­pas vão percorrendo as divisões, alertam Barnes para o seu estado, proferindo a palavra «livre», que significa não haver ninguém, a área está limpa. Somente na sala mencionam a presença de um indivíduo.

Detenham o suspeito — ordena Barnes.

Littel assiste sem se intrometer.

Sujeito detido sem resistência — anuncia o agente, poucos segundos depois. — Diz que tem um recado para o mestre-de-obras.

Repita, Alfa Líder — solicita Barnes.

O detido tem uma mensagem para o mestre-de-obras. Barnes abandona a janela e encaminha-se para fora do quarto.

Aguardem, Alfa Líder. Vou descer.

Recebido — informa o agente.

Dois minutos depois, Geoffrey Barnes está na sala da antiga casa de Sarah Monteiro, acompanhado de toda a comitiva que enchia o seu quarto no hotel em frente.

Quem é você? — pergunta com maus modos.

O meu nome é Simon Lloyd. Sou jornalista do The Times e o meu jornal tem conhecimento da minha presença aqui.

Barnes mira-o de alto a baixo, e vice-versa, avaliando o jovem que tem pela frente. Parece nervoso e deve estar. Todas as atenções viradas para si, pessoas tão influentes, poderosas, que com um gesto acabam com a vida dele sem pensar duas vezes e depois encenariam uma qualquer razão ficcional para escusar. A realidade é uma gran­de ficção.

Simon, por seu lado, enfrenta um turbilhão de pânico que se preocupa em não demonstrar na totalidade, sem êxito. Foi esta a tarefa que lhe foi atribuída, é desta forma que tem de contribuir

para que Sarah e Rafael cumpram o plano elaborado. Ele garantiu­-lhe que tudo correria bem, mas agora, sob tantos olhares furtivos, não tem tanta certeza. Talvez fosse uma desculpa para o convencer. Sarah avisou-o do quão manipuladora esta gente pode ser. Seja. A tare­fa será concluída.

Qual é a mensagem? — pergunta o americano gordo com ris­pidez.

Simon entrega-lhe um disco do tamanho de um botão.

O que é isto? — perquire olhando para o objecto.

Não sei, mas o Jack Payne pediu que lhe dissesse que se encon­trará consigo lá. — Tarefa cumprida.

Os olhos de Barnes enchem-se com ódio, enquanto olha para o pequeno disco.

 

O automóvel avança pelo terreno acidentado a velocidade mode­rada para não ferir a comodidade dos ocupantes. Ainda falta percor­rer alguns quilómetros por este caminho particular até que alcancem a estrada nacional, aí viram à direita e seguem em frente. São cin­quenta e três quilómetros até à auto-estrada que os levará a Lisboa e à base aérea de Figo Maduro, onde devem chegar dentro de duas horas e meia, mais minuto, menos minuto, onde os aguarda um Learjet privado.

Dentro do carro encontramos JC, no banco de trás, com Elizabeth a seu lado, o capitão Raul Brandão Monteiro no banco de passageiros fronteiro e o manco encarregado da condução, como compete a um assistente.

Não percebo porque temos de ir consigo — protesta Elizabeth, impotente com a mudança de rotina e o coração um pouco mais pesa­do devido à lembrança de Sarah.

Minha querida, não podem ficar porque não teria como defen­dê-los. Se fossem apanhados, podiam usá-los como moeda de troca para chantagear a sua filha. Isso criaria um ascendente sobre nós. Inaceitável. Inaceitável. O inimigo deve negociar com as armas que tem ao seu dispor e não com as que nós lhes facultamos.

Mas vocês passaram a noite em minha casa. Não houve qual­quer problema — argumenta Elizabeth insistente.

Nunca ouviu falar naqueles fugitivos da justiça que nunca dormem duas noites seguidas no mesmo local? — Aguarda que ela confirme. — É o nosso caso, neste momento. O sedentarismo e a previsibilidade são inimigos da estratégia. Temos de nos manter em movimento.

Para onde vamos? — quer saber o capitão, virando-se para trás.

Logo verão.

A viatura perfaz mais alguns quilómetros sem que nenhuma pala­vra seja proferida. Ainda estão nas terras de Raul e Elizabeth. Cada um pensa na sua vida e no trajecto comum que o presente exige. Excepto o manco, que ainda não engoliu a raiva de ter Rafael na mesma fileira e, por isso, mastiga-a, lentamente.

Raul reza para que a filha e Rafael consigam chegar a tempo e sãos e salvos. Isso é o mais importante.

O que é que João Paulo II tem a ver com tudo isto? O homem já morreu, coitado. Sofreu como um desgraçado. — É Raul quem per­gunta, recuperando a conversa da noite anterior.

Nunca ouviu dizer que sofremos na medida do mal que faze­mos? É o tal carma. Não que eu acredite nisso, evidentemente.

O homem era um santo — defende Elizabeth chocada com a menção maldosa.

Um homem pode ser santo e pecar. O pecado não invalida a santidade. Existem milhares de exemplos na Igreja.

Mas qual é o assunto com ele? — insiste Raul.

JC ajeita-se no banco. O terreno acidentado ficou para trás, agora é estrada boa até Lisboa, rectas a perder de vista.

Digamos que tínhamos um acordo.

— Você e ele?

Eu e ele.

— Que tipo de acordo? — questiona Elizabeth.

Isso é uma história muito longa.

Nós não vamos a lado nenhum — argumenta Raul. — Estamos por sua conta. Tempo é o que não nos falta.

JC vislumbra a paisagem verde e amarelada do fim da tarde que desfila ao longo da estrada. A imensidão do Alentejo, polvilhada de choupos, videiras, campos infindáveis de centeio. A beleza da nature­za, em alguns pontos intocada.

Wojtyla meteu-se numa grande confusão quando foi eleito papa. A Igreja vinha de um evento traumático, do qual levou muitos anos a recuperar. — Olha para Raul nos olhos sem um pingo de contrição. Ambos sabem ao que se refere o trauma, contudo, JC é um avaliador nato de pessoas e tem a certeza, somente com um olhar, de que Elizabeth não conhece os meandros da situação. — Claro que ele ignorava o que havia de vir. Até fez uma homenagem ao seu antecessor, recuperando o nome. João Paulo, o segundo — proclama triunfalmente. — Mal imaginava que a sua querida Igreja decidira não correr mais riscos como com o João Paulo I. Vocês conhecem certos... deixem-me procurar o termo mais acertado... certas manias que descem sobre os eleitos nos primeiros tempos, após a eleição canónica. Munem-se de uma santidade balofa, enquanto tentam, por todos os meios, fazer esquecer o antecessor.

Ora, Wojtyla estava numa situação excepcional. O veneziano não chegou a aquecer o lugar. — Nova troca de olhares com Raul. — Por isso, relembrá-lo e homenageá-lo tornava-se um benefício para a sua imagem.

Está a acusá-lo de se aproveitar de João Paulo I ? — interroga Elizabeth melindrada.

Estou apenas a mencionar o deve e o haver. De qualquer forma, foi bem feito e útil para ele. O polaco era um homem dinâ­mico, empreendedor, pronto para trabalhar, para lutar. — Um sorri­so sarcástico invade o rosto nostálgico. — Mal sabia o que o espera­va. Cometeu o mesmo erro que o seu predecessor.

Qual? — Raul está totalmente absorvido pela narrativa.

Meteu-se com Marcinkus.

Marcinkus? — interrompe Elizabeth. — Quem é Marcinkus?

Era o director do IOR, o Banco do Vaticano, à época, e ainda durante largos anos, durante o papado de Wojtyla. Um bispo ameri­cano que João Paulo promoveu a arcebispo, mas nunca a cardeal, embora isso não tenha acontecido por um fio. Só via o seu lado e nunca o dos outros, mas quem sou eu para acusar? — Pausa, por momentos, a solidificar o que foi dito. — Ele bem o queria ser. Imagine, cardeal Marcinkus. O vosso Deus teria muito que fazer só para lhe tirar a empáfia do rosto.

E então? — pressiona Elizabeth incitando-o a prosseguir.

E então chegamos a 89 e o polaco havia adiado, sucessiva­mente, a tão ansiada promoção à categoria dos eleitos. Não o podia fazer por mais tempo. Por razões mais ou menos complicadas, que resumirei se for do vosso interesse, Marcinkus tinha-o bem preso... ou pelo menos assim pensava.

Ao Papa? — Elizabeth está escandalizada. É um cenário difí­cil de conceber. Desconhecia estas jogadas políticas nos bastidores da Igreja. Uma luta pelo poder, pelo controlo, igual ao do seu pró­prio país e a todos os outros. Pensava que o Vaticano, como imagem de fé, estava imune a estes vícios... enganou-se.

Sim — confirma o narrador.

O homem que, se pusesse um pé fora do Vaticano, um dedo até, seria imediatamente detido pelas autoridades italianas, que o consideravam um criminoso, ia ser cardeal? - É a vez de Raul alcançar o grau de imperfeição dos sistemas políticos.

Em política, como em tudo na vida, é a vantagem que conta. O presidente americano foi obrigado a invadir o Iraque porque tem o rabo preso em relação aos seus patrões... os Sauditas, que, para não darem nas vistas, impediram que o ataque procedesse do seu país. Todos temos compromissos com alguém e estamos sempre sujeitos a sofrer o ascendente desse alguém sobre nós.

Qual era o trunfo de Marcinkus? — quer saber Raul.

A vida de Wojtyla — limita-se a dizer JC.

Nota-se que nenhum deles esperava aquela observação. Como é que alguém pode ter como ascendente a vida de um Papa? Não estão cientes de que outros trunfos pudesse ter, mas nunca um tão decisivo.

Como é que isso pode ser? Um homem que tem centenas de pessoas a cuidar da sua segurança — questiona Elizabeth.

O sol crepuscular irrompe pelo interior do carro com uma luz alaranjada, forte, o último fulgor da estrela reinante até mergulhar no horizonte, vencida pela escuridão da noite que se espalhará pelos campos alentejanos até os cobrir de negro. Escusem-se nesta parte as explicações astronómicas, astrológicas e cientificas de que o Sol não mergulha, pois é ele o centro do nosso universo. O mundo é como a religião, a metáfora é sempre mais bela. O que importa é acreditar.

— O atentado de 1981 é ameaça suficiente — atesta JC. — O que quer dizer com isso?

— Repare, Marcinkus perdeu um dos seus braços direitos no inte­rior do Vaticano, o defunto secretário de Estado, o cardeal Jean Villot, que morreu em Março de 1979. Por si só, isto foi uma perda de mobi­lidade enorme para quem pretende manipular um Papa ou, pelo menos, sondar o que ele anda a planear.

Um certo dia recebe a visita de um cardeal alemão, do círculo de confiança do polaco, que o informa, sem reservas, que o seu tra­balho está a ser escrutinado com muita atenção...

— E o que tinha o trabalho dele? — interrompe Elizabeth. — Não era director do Banco do Vaticano? Não agia com honestidade?

Raul e JC entreolham-se, com algum mal-estar por parte do por­tuguês.

Claro que não. Conhece algum banco que não vise o lucro?

— Os bancos visam ou devem visar o lucro honesto. Mas com cer­teza esse Marcinkus tinha de prestar contas a alguém. Ao Papa, por exemplo?

Tem alguma razão, no sentido em que o banco pertence ao Sumo Pontífice, mas Marcinkus não prestava contas a ninguém senão a ele mesmo. Por causa dessa falta de inspecção hierárquica, os negó­cios do banco roçaram o escandaloso...

Roçaram? — interroga Raul. Tem algum conhecimento de causa para o tom de protesto que usa.

É uma forma simpática de abordar o assunto. Não os quero maçar com engenharia financeira, legal ou ilegal. Afinal, quem é que decide o que se pode ou não fazer? Baseado em que pressupostos? Quem é que se pode insurgir contra o facto de o IOR, sob gerência de Marcinkus, ter sido proprietário de empresas de produção e venda de material pornográfico? Ou empresas de fabricação de con­traceptivos ou armamento ou ainda que financiasse operações que visavam estimular a economia com genocídios em África? Quem é que pode condenar?

Os valores que a Santa Sé defende contrariam esse género de negócios — adverte Raul, chocado, ainda que não seja a primeira vez que ouve falar disto. — Compreendo que João Paulo I fosse fechar o banco. Aquilo é um antro.

Aquilo é um negócio — contrapõe JC. — Não se iluda com o nome oficial de Instituto para as Obras de Religião. É um banco, tem de gerar lucro, serve para fazer dinheiro.., muito dinheiro. O que move o mundo não é a fé... é o dinheiro. Nisso a Santa Sé sempre esteve na vanguarda. É natural que se imiscuam nos negócios mais rentáveis.

— É a favor, presumo — alvitra Raul.

Não sou a favor nem contra... Entendo, é diferente. O capi­talismo não é um sistema perfeito. Nada que seja inventado pelo homem o é. É um sistema de reacção. Precisa de estimulantes, de vez em quando, para os mercados reagirem e o dinheiro circular. O dinheiro tem de estar sempre a trocar de mãos. É essencial. Uma explosão num oleoduto para o preço do barril de petróleo subir, uma ameaça de guerra, uma guerra efectiva. Tudo isso é calculado. Não é fruto do acaso.

Nunca me tinha apercebido disso — noticia Elizabeth espan­tada e aterrada.

Pois. Ninguém se apercebe. Marcinkus não percebia nada de economia, mas tinha um saldo quase infinito à sua disposição, para não falar da bênção de Deus. Logo, não faltaram candidatos para o ajudarem a investir. As jogadas económicas de Marcinkus custaram mais de um bilião de dólares aos cofres do Vaticano, e ele foi o res­ponsável pelo atentado a João Paulo II.

Foi ele? E os Búlgaros? E os Soviéticos? Não foram eles? — pergunta Raul, aparvalhado.

Sabe como o Licio sempre foi mestre em desinformação.

Licio? Quem é o Licio? — é a vez de Elizabeth perguntar.

— Licio era o grão-mestre da ordem a que eu presido. O que quer que fosse necessário, Licio resolvia. É necessário um novo governo na Argentina. Para quando? Seria a pergunta de Licio. São necessá­rias armas para enfrentar os Britânicos na Guerra das Malvinas... façam a lista, dizia Licio. Este juiz está em cima de mim, dizia outro... Deixa que amanhã esse peso sai-te das costas, avisava Licio. — A voz alteava à medida que enumerava as variadas sugestões e alusões da memória. Um homem a conviver com o seu passado. — Tinha sempre solução para tudo. E também teve para João Paulo II.

Para grande defensor do Licio, você parece pouco contente — provoca Raul.

A idade começa a cobrar descanso, meu caro. O passado fica mais claro, e persegue-nos. Vocês também são a prova disso.

O silêncio toma conta do habitáculo do veículo. É muita coisa para assimilar de uma só vez.

Porque decidiu confidenciar-nos tudo isso? — quer saber Elizabeth, cortando o mutismo.

JC fita-a com ar superior.

Vocês não podem fazer absolutamente nada com esta infor­inação, por isso não tenho nada a perder... nem vocês a ganhar. Considerem-na urna gentileza da minha parte.

Penso que é daquelas coisas que todos querem saber, mas rezam para que não seja verdade — confessa Elizabeth.

Ah, mas esta é verdade.., a mais pura verdade.

Então não existiu nenhuma grande conspiração dos Búlgaros nem dos Soviéticos para matar o papa. Partiu tudo de Marcinkus — conclui Raul.

Ao fim e ao cabo, tudo se resume a um grupo restrito de menos de cinco pessoas. É a única maneira de garantir que tudo permanecerá estanque.

E no caso de João Paulo I? — pergunta Raul, corrosivamente. — Quantos foram?

Segundo ouvi dizer, foi o coração que conspirou contra ele — limita-se a dizer sem problemas de consciência. — Não acredite em tudo o que lê. Essa gente quer é vender.

Então esse Marcinkus está por trás disto tudo — remata Elizabeth ignorando as indirectas entre os dois homens.

Marcinkus entregou a alma ao seu Deus em 2006 — informa JC. — Para terminar, Licio providenciou tudo para o dia 13 de Maio de 1981.

Mas Wojtyla não morreu — verifica Elizabeth.

É certo. Houve muitos erros na concretização do plano. E isso levou a uma alteração profunda. Mas não foi difícil convencer o pola­co de que aquilo podia voltar a acontecer a qualquer hora, em qual­quer lugar.

Ele ameaçou-o?

Não propriamente.

Não compreendo.

— Aí é que entram os Búlgaros, os Soviéticos, os Alemães de Leste e, ainda, os Polacos. Foram todos informados, através deste vosso amigo, de que um ataque à vida do papa estava iminente. É por isso que existem inúmeros relatos que apontam para a presença de agen­tes do KGB, do KDS, dos STASI e dos polacos na Praça de São Pedro, nesse dia. Foi uma jogada de mestre — elogia orgulhoso.

Ele pensava que estava a ser ameaçado pelo bloco de Leste — conclui Raul em tom pensativo.

E estava. Mas não de uma forma directa. Por isso, Marcinkus, Licio e eu, durante algum tempo, fabricámos um cenário constante de ameaça. Inventámos o contacto de um homem que se apresentou como Nestor, agente do KGB, e que usava Marcinkus para contactar o papa e apresentar as exigências soviéticas.

Mas a União Soviética acabou por cair no final de 1991.

Sim, mas isso deveu-se à ajuda que o polaco teve a partir de determinada altura. Sabe que neste ramo não se pode confiar em nin­guém demasiado tempo.

De quem? — perguntam Raul e Elizabeth, quase ao mesmo tempo.

O velho olha para ambos e esboça um sorriso ténue.

Minha.

 

Londres é a cidade mais vigiada do mundo. Existem câmaras em todas as ruas, becos, prédios, transportes públicos, em gravação constante, pois o excesso de zelo será sempre deficiente e o carácter dos homens, mais os inimigos criados, estarão sempre prontos a tes­tar as defesas de todos e de cada um.

Há um pequeno jardim, o Saint Paul's Churchyard, anexo à obra­-prima de Christopher Wren, acessível através da Paternoster Row, que costuma estar fechado depois das oito da noite. Hoje não deve­ria ser excepção, mas o portão negro cede à pressão de Rafael, e nem sequer guincha quando este o abre totalmente, o que denuncia o uso frequente e a manutenção atenta dos prelados da Catedral de São Paulo, um dos ex-líbris desta bela cidade.

— O que viemos fazer aqui? — protesta Sarah. — Devíamos ir a caminho do aeródromo. Ainda é longe.

— Temos tempo. São só dez minutos.

- Dez minutos para quê? — questiona James Phelps. Rafael ignora a pergunta e toca numa campainha colocada na ombreira de uma sólida porta de madeira. Aguarda.

Para chegarem aqui apanharam três transportes diferentes. Entraram no autocarro com o número 24, cuja paragem ficava mesmo em frente à casa de Belgrave Road. Saíram em Lupus Street e entraram na estação de metro de Pimlico até Euston. Depois táxi até à Tower of London. O resto do caminho foi feito a pé pela Cannon Street num plano de despiste que só Rafael compreende. Pelo caminho, Sarah recebeu uma chamada de JC a confirmar o avião. Não há nada que ele não consiga? Falou um pouco com o pai e com a mãe, tranquilizando-os, ainda que o pedido pouco ortodo­xo do avião tenha deixado Elizabeth apreensiva.

Não ouviram — diz Sarah, impaciente. — Toque novamente.

Ouviram, não se preocupe. Temos de aguardar.

Sarah aproveita a deixa e senta-se num dos bancos de madeira que se espalham pelo pequeno mas bem tratado jardim. Compreende­-se que, nesta pausa, os nervos comecem a apoderar-se dela, assim como as dúvidas, corrosivas, conspiratórias, alarmantes. Infelizmente, alcançou a experiência necessária para saber que não se pode dar tempo à mente nestas horas, caso contrário...

Será que o Simon está bem? — A pergunta é mais para si do que para os dois homens. Uma apoquentação que extravasou os pensamentos e se verbalizou.

Melhor do que nós, pode ter a certeza — afirma Rafael com segurança.

E se eles o torturam... ou pior? — insiste Sarah. — Não o devia ter visitado no hospital — declara, arrependida.

Não diga disparates. Se você não tivesse ido, aí sim, ele estaria pior. Ou então estaria melhor, mas a família...

Eu percebi — interrompe Sarah, levantando uma das mãos para o mandar calar. — Eu percebi.

Como sabe que eles não lhe fizeram mal? — inquire James Phelps, auxiliando Sarah e, ao mesmo tempo, saciando a sua própria curiosidade.

Da mesma forma que soube que tínhamos sido localizados em Belgrave Road.

Você tem alguém a espiar o Barnes? — Sarah levanta-se com o empolgamento. — Não acredito. Não pode ser. — Mostra-se incré­dula e apossada pela curiosidade jornalística, típica. — Quem é?

O olhar de James Phelps gira, ansioso, entre Rafael e Sarah.

Confirma, Rafael?

A porta abre-se, finalmente, depois de se ouvir uma chave a rodar na fechadura e, pelo menos, dois trincos a movimentarem-se para permitir a abertura.

Existem várias maneiras de conhecer os passos do inimigo — limita-se a dizer Rafael.

A entrada revela um homem calvo, gordo, trajando um pijama branco com bolas azuis, pequenas.

Que querem? — pergunta com maus modos.

Perdoe a hora tardia, irmão — desculpa-se Rafael com uma entoação submissa.

Hora tardia?, pergunta-se Sarah. São oito e meia.

Viemos falar com o irmão John — prossegue Rafael.

O irmão John, é? John quê? — Não desarma os maus modos. Devia estar a dormir.

John Cody.

E quem é você?

— Desculpa a minha distracção. Sou o irmão Rafael... de Roma.

E porque não disse logo? — resmunga o irmão porteiro. É injus­to quando se é arrebatado do sono dos justos. — Entrem. Entrem.

Uma vez no interior do edifício, Sarah sente-se transportada para outra época, entre os finais do século xvii e o início do xvnr, bem depois do grande incêndio de 1666, que deixou a catedral em ruínas, para não falar do resto da cidade. Essa tragédia transparece neste edifício monu­mental, neste corredor de aparência medieval que Sarah percorre com respeito e admiração, ao contrário dos outros que apenas vêem um cor­redor, como muitos outros, escuro, algo sinistro, fechado ao público em geral. As pessoas que aqui habitam necessitam da merecida privacidade.

Vou levá-los até à sacristia, onde podem aguardar o irmão John Cody — informa o irmão porteiro que, apesar do rosto car­rancudo, se exprime agora num tom de voz mais amistoso.

Agradeço — profere Rafael, na mesma entoação submissa, própria de quem não quer ferir susceptibilidades ou gerar confusões desnecessárias.

O irmão abre uma pesada porta que dá acesso a um lugar de visi­ta e oração.

— Magnífico — sussurra James Phelps. — Não deixa de me pare­cer magnífico. E olhe que já entrei aqui muitas vezes. — É para Sarah que ele fala, num murmúrio abafado, na tentativa de não ofender o lugar sagrado.

Detêm-se na Cancela, o centro da majestosa catedral. Ao fundo, a oeste, a imensa nave coberta da história dos séculos, testemunha de casamentos reais e funerais de Estado. Abrigo de muitas das grandes personalidades do reino, entre as quais o duque de Wellington, de nome Arthur Wellesley, o grande arquitecto da der­rota de Napoleão, Lord Nelson, o malogrado almirante, vencedor de Trafalgar, Thomas Edward Lawrence, mais conhecido como Lawrence da Arábia ou Florence Nightingale, só para nomear alguns. Ah, e claro, o grande mestre que idealizou o sonho, Christopher Wren, em cuja tumba se pode ler: Lector, si 11101114- mentum requiris, circumspice. Acima, o domo magistral, com a lanterna de 850 toneladas, sob a cúpula gigantesca, onde se podem admirar os frescos de Thornhill e cujo exterior figura nos obriga­tórios postais da cidade ou nos directos televisivos dos canais ingleses. É inconfundível. Os seus 110 metros de altura são somen­te superados pela cúpula de Miguel Ângelo, na Basílica de São Pedro, ainda que não tenha existido qualquer competição entre o mestre italiano e o inglês.

Fiquem aqui — ordena Rafael a Sarah e a James Phelps.

Porquê? — perquire Sarah indignada.

Porque eu digo — replica Rafael com alguma arrogância à mistura. — Admirem o lugar. Tem muito que ver — acrescenta, sempre de costas para eles, seguindo no encalço do irmão porteiro.

Sarah e James Phelps acatam a ordem, antes por não quererem desafiá-lo do que por qualquer outro motivo. Vê-se que não estão contentes por serem forçados a alhearem-se do que vai acontecer. Sarah não descansará enquanto Rafael não lhe responder a tudo. Ele que espere pela volta e vai ver.

— E agora? — indaga James Phelps, visivelmente incomodado.

Ternos a catedral só para nós. Porque não me faz uma visita guiada?

Com certeza, mas deixe-me primeiro encontrar uma casa de banho.

— Tudo bem. Eu espero. — Que remédio.

James Phelps afasta-se da Cancela, o vasto espaço aberto debaixo da cúpula, mas ao terceiro passo agarra-se à coxa direita e agacha-se com dores agudas. Sarah corre em seu auxílio.

Que se passa, James? — pergunta preocupada.

Não se preocupe. Isto já passa.

Venha sentar-se — sugere, pegando-lhe no braço e amparan­do-o até ao banco mais próximo, do lado norte do transepto. James Phelps acata o conselho e deixa-se ser ajudado.

Isto dá-me de vez em quando.

E sabe o que é?

— Por acaso, não. — Sorri como uma criança que fez uma asneira.

Devia ir ver o quanto antes. Com a saúde não se brinca — assevera Sarah, complacente, maternal.

Sentam-se no grande banco de madeira, envernizado. James esti­ca a perna dorida, ainda agarrado à coxa.

Isto já passa — repete, mais para a tranquilizar do que outra coisa. Há muito que se acostumou a conviver com esta dor acutilante.

Aguardam alguns minutos, em silêncio, Sarah encostada a James Phelps, esquecida dos afazeres futuros e dos segredos de Rafael, algures na sacristia com o tal irmão John Cody, a falar de assuntos privados, mas que lhe dizem respeito, a ela e a James Phelps e a Simon Lloyd. Que Deus os proteja... se puder.

— Já estou melhor — declara James Phelps, erguendo-se, ainda a custo. Sarah não evita ajudá-lo a levantar-se.

— Tem a certeza?

Sim. Isto vai-se embora tão depressa como vem. — Exercita um pouco a perna, pousa o seu peso sobre ela para testar a resistên­cia. — Está a ver? Já passou.

Ainda bem, mas prometa-me que vai ver isso quando tiver oportunidade.

Com certeza. Obrigado pela preocupação. — Um sorriso sela O compromisso. — Vou procurar uma casa de banho.

Estarei por aqui.

Aproveitamos esta separação voluntária entre pessoas para seguirmos no encalço de Rafael, que já deixou a sacristia, sozinho. O tal irmão Cody não apareceu no lugar combinado, mas o irmão porteiro que mudou o semblante carregado assim que se apanhou sozinho com Rafael lembrou-se, de súbito, que ele devia ir procurá­-lo à Galeria dos Sussurros, na base da cúpula, um local nada ideal para encontros secretos. De qualquer maneira, foi esse o local esco­lhido e podemos testemunhar que Rafael sobe as escadas em cara­col que o levarão à mencionada galeria. São algumas centenas de degraus, mas ele está em forma, como sempre, preparado para tudo e, de preferência, dois ou três passos à frente dos inimigos.

Uma vez alcançado o estrado e o varandim que compõem a fami­gerada Galeria dos Sussurros que circundam a totalidade do diâme­tro da base da cúpula, Rafael procura. Não é difícil localizá-lo, a cerca de setenta metros, debruçado sobre a varanda, mirando a Cancela, em baixo, no centro, nada preocupado em que o vislumbrem. Rafael percorre a distância que os separa até ficar a meio metro.

Este não é propriamente o melhor local — protesta o recém­-chegado. A galeria deve o nome à acústica atípica que faz que um sussurro se ouça em toda a cúpula.

Não te preocupes. Não está ninguém lá em cima a esta hora. Certifiquei-me disso.

Os dois homens abraçam-se.

Rafael — cumprimenta o outro, dando-lhe palmadinhas no ombro.

— John Cody — reciproca Rafael.

— Que raio de nome me arranjaste — lamenta o outro sorrindo, desenganchando o abraço. — Estive a investigar, John Cody foi arcebispo de Chicago, nos anos 70.

Eu sei.

Um cabrão de um putanheiro.

Eu sei.

Ladrão e corrupto.

Eu sei — repete Rafael. — O que tens para mim?

— Pouca coisa. Está tudo mais ou menos controlado. .. — Mais ou menos? John Cody encolhe os ombros.

— 'remos sempre de contar com os imponderáveis. Aparecem sem aviso e nunca sabemos o que podem ser.

Desculpas.

A única coisa que tenho é um nome. Andam especialmente interessados num homem.

Quem?

Um tal Abu Rashid.

O que tem de especial?

Segundo parece, sabe mais do que devia.

E quem lhe proporcionou essa sabedoria?

Não faço ideia. Não deixam que muita gente tenha conheci­mento do assunto.

Rafael esfrega os olhos, meditabundo.

Qual é o poiso dele?

A última e única residência conhecida fica no bairro muçul­mano, em Jerusalém. Mas há alguns dias que ninguém o vê por lá.

O que quer dizer que alguém lhe pôs a pata em cima.

Não sei dizer. Mas se puseram, não fomos nós — escusa-se John Cody. — Achas que vale a pena ir a Jerusalém?

Rafael acena negativamente.

Seria uma perda de tempo.

O que fazemos então?

Prosseguimos. Já sei para onde vou — declara Rafael, decidido.

E Abu Rashid?

— Tenta saber o máximo sobre ele e quem lhe dá essas informa­ções. E que informações são, já agora.

Um aperto de mão, mais uma palmada no ombro, é a despedida entre os dois homens. Rafael vira-lhe as costas. Sairá primeiro. John Cody aguardará cincq.minutos e descerá depois.

Faz o que ten‘a fazer — ordena Rafael antes de sair pela aber­tura que dá para a escada de caracol.

— Tens a certeza?

A falta de resposta valida a decisão anterior.

Cinco minutos.

Podem parecer urna eternidade, mesmo com a imensidão da cúpula a sobrelevar-se acima da sua cabeça numa magnificência engenhosa. Dá tempo para a noite cair completamente, deixando a penumbra inundar o local, combatida pelas lâmpadas, estrategica­mente colocadas, que dão um ar utópico a tudo aquilo.

Cinco minutos.

Não quedaremos com John Cody todo esse tempo, por muito boa pessoa que possa parecer. Avançamos, no entanto, com uma antevisão do que acontecerá findo esse prazo.

Cinco minutos passaram, mais trinta segundos, por zelo profis­sional, inerente em todo o funcionário que se declare competente. Leva o rádio à boca e pressiona o botão.

— Atenção a todas as unidades. O grupo foi localizado. Repito, o grupo foi localizado. Número dois de New Change. Catedral de São Paulo. Repito, Catedral de São Paulo.

 

Hoje é um daqueles dias em que mais vale telefonar para o emprego e dar uma qualquer desculpa achacadiça ou funérea, inculpar a falta num familiar, tio, avó ou mesmo um sobrinho que se lembrou de dei­xar esta terra, nada de muito chegado, como pai, irmão, mulher, não vá o castigo chegar efectivamente, qualquer coisa para deixar que os pro­blemas sejam resolvidos por outros. Mas este não é um emprego vulgar, nem Geoffrey Barnes homem de fugir aos azares. Pelo contrário, toda esta corrida lunática, o fluxo da informação, a próxima jogada estraté­gica, faz que a adrenalina flua em consonância com o espírito alteroso. Não trocaria a sua posição por nada... mesmo nos dias maus.

A azáfama no centro de operações manifesta-se sempre do mesmo modo. O caos aparente de dezenas de pessoas de um lado para o outro com papéis na mão, a atender telefones, a olhar moni­tores, a clicar nos botões de teclados escravos é apenas ilusório. Tudo se rege por regras invisíveis, mas omnipresentes, para que nada passe incólume. Alguém, no meio deste mar intempestivo> dará por algo fora do sítio, um movimento anormal, uma onda des­casada das outras e dará o alerta.

— Alguém feche essa porta — ordena Barnes para ninguém em particular, sentado no cadeirão do seu gabinete.

É Priscilla quem a fecha, selando o compartimento do ruído exterior. Não é normal estar pejado com tanta gente como hoje, mas

falamos de um dia anómalo. Sentado na cadeira em frente à secre­tária de Barnes encontramos Littel. Priscilla, de pé, ao seu lado, após ter fechado a porta, qual guarda-costas. Herbert, atrás de Barnes, olhando a janela e o entardecer londrino.

Onde estão os outros? — pergunta Barnes.

A analisar o disco — informa Priscilla. É a sua função res­ponder a este género de perguntas.

— O teu compincha está com eles? — Menção de Barnes a Wally Johnson, dirigida a Littel, que permanece sentado e se limita a con­firmar com uni aceno de cabeça.

Espero que despachem isso — suspira. — Que raio está a pas­sar-se?

Quer que lhe faça um desenho? — profere Herbert de supe­tão, sem virar as costas à janela.

Se não se importar — contrapõe Barnes, sarcasticamente. Herbert enfrenta os presentes pela primeira vez. Um olhar terrífico, repleto de ira, não está habituado a perder o controlo das situações.

É óbvio que tem um rato na sua equipa.

Littel levanta-se agastado.

— Tenha tento na língua, meu caro.

Por constatar o óbvio? — arremete retoricamente. — Meus senhores, será que tenho de realçar o facto de que ele estava à nossa espera? Ou melhor, deixou alguém para nos dar as boas-vindas como se estivesse a gozar connosco?

Ninguém refuta a observação. Mantêm-se em silêncio, autorizan­do a reprimenda do espírito interventivo de Herbert, primaz da Obra naquela sala e, porventura, de toda a organização, um dia.

Não me agrada que ele esteja à nossa frente e a enviar-nos mensagens. Temos de dar a volta ao texto e, acima de tudo, encon­trar o rato.

Littel enverga a sua pose de chefe máximo deste gabinete, o que corresponde inteiramente à verdade, visto ser o superior hierárqui­co, como bem sabemos.

O... como se chama? — pergunta ao homem da Obra de Deus.

Herbert Ross.

— O Herbert tem razão. Isto não é trabalho. — Desvia o olhar para Barnes. — Temos de apanhar o rato o mais rapidamente possível.

— E como pretendes fazer uma coisa dessas? Um rato não se apa­nha de uma hora para a outra — argumenta Barnes. — A não ser que conheças alguma maneira inovadora, o máximo que posso fazer é abrir um inquérito.

_ Isto não vai lá com inquéritos — protesta Herbert dirigindo­. -se à porta e abrindo-a, deixando reentrar a adrenalina ruidosa do centro de operações.

Onde vai? — perquire Barnes.

Fazer o meu relatório. O mestre não vai gostar das notícias. — E fecha a porta com estrondo.

Estou farto de mestres — resmunga Barnes. — Farto até à ponta dos cabelos.

Não sei se foi boa ideia libertar o jornalista — confessa I,ittel, pensativo, mudando completamente o assunto em discussão.

— Não tem interesse, acredita. Não sabe nada que o Rafael não queira que ele saiba.

Rafael. Este nome ainda soa a falso e custa a atravessar-lhe a gar­ganta, sempre que o verbaliza. Esse e Jack Payne, um e outro a mesma pessoa.

Mesmo assim... — Littel não parece convencido.

Além disso, o Roger está do nosso lado. Fará o que for neces­sário. E controla o jornalista — alega Barnes.

Quem é o Roger?

Roger Atwood — repete Barnes, escandalizado com a igno­rância. — O director do jornal.

Este sim, é, sem dúvida, um argumento válido que compra Littel e o convence da boa atitude de Geoffrey Barnes em ter libertado Simon Lloyd. É da velha guarda, este Barnes, não dá ponto sem nó.

E quanto ao rato? O que fazemos? — perquire Littel.

Não te preocupes. Varijos acabar por encontrá-lo — afirma confiante. — Sempre assim foi e será.

Priscilla, vai buscar dois cafés, por favor — pede Littel.

É sabido da suprema dedicação e competência de Priscilla Thomason, por isso, não é de admirar que não leve um segundo, após o final da frase daquele a quem assiste, para ela pronunciar um «com certeza» e sair, deixando os dois homens fortes da Agência sozinhos.

Como estás a lidar com tudo isto? — quer saber Littel.

Nunca pior — responde o outro com um suspiro. Espreguiça­-se, pondo as mãos em forma de concha atrás da cabeça. — Tudo acaba por se resolver.., de uma maneira ou de outra.

Isso é verdade — comenta Littel, olhando o vazio durante segundos, até voltar a focar em Barnes. — Diz-me uma coisa, já ouviste falar de Abu Rashid?

 

Abu Rashid continua no seu calvário pessoal, a sua missão sobre­natural, cativo do estrangeiro intransigente, cujo peso na consciên­cia é relegado para um patamar inferior. Em primeiro lugar está e estará sempre o bom nome da Igreja Católica Romana.

São os lados que cada um escolhe, baseado nos factos que dis­põem no momento, assim funciona a vida, uma roda de selecções, de sorte e lotaria, onde a inteligência e o talento têm a sua quota­-parte, mas diminuta.

Não, nunca a Virgem apareceria a um muçulmano, revelando-lhe o que quer que fosse. Isto é um caso de psiquiatria, de internamen­to num estabelecimento hospitalar para doidos da cabeça, comple­tamente varridos, sem rei, nem roque, nem norte. É legítimo e nor­mal que se confunda religião com esquizofrenia, visões com aluci­nações, revelações com imaginação. E o melhor de tudo isto é que poderá prová-lo daqui a instantes, urna vez que já se encontram, novamente, com os pés em terra. O estrangeiro agarra-se a essa esperança, servirá de argumento perante os superiores e não haverá necessidade de eliminação física, falamos da de Abu Rashid, obvia­mente. Nunca foi o seu forte, jannais o fez, mas conhece quem tenha suprimido uma vida humana' ou mais por muito menos razões do que as que Abu Rashid forneceu. Mas isso são outros feitios e per­sonalidades, homens com mais estaleca e menos paciência. É fulcral que a imagem e o bom nome da Igreja sejam sempre salvaguarda­dos, daí a existência destes protectores, sem direito a vida própria, anjos que percorrem milhares de quilómetros para minarem as ameaças que se levantam por esse mundo. São chamados santifica- dores e, para todos os efeitos, não existem, nunca existiram ou virão a existir. Entregam desde muito cedo a alma à Igreja, a Cristo e mais não sabem fazer. Por vezes, encontramos almas mais brandas entre os santificadores, corno este estrangeiro, mas desiludam-se os espe­rançosos e defensores da vida humana. Não hesitará se decidir que Abu Rashid é, na verdade, uma ameaça ao tão amado catolicismo, ou se receber ordens nesse sentido. Premirá o gatilho ou partir­-lhe-á o pescoço, sem pestanejar. Cristo estará sempre em primeiro, segundo e em terceiro. Não existe prioridade maior na sua vida.

Assim que aterraram em Balice, o avião recolheu a uma parte recatada do aeroporto internacional João Paulo II, própria para o parqueamento de aviões privados, onde um carro aguardava, sem motorista, conforme ordenado. Não um topo de gama, de alta cilin­drada, chamativo, antes um Lada com mais de vinte anos, branco, sem nenhum dos confortos dos automóveis actuais, mas que passa totalmente despercebido neste imenso território polaco, coberto pelo manto da noite.

A viagem foi pequena, apenas cinquenta quilómetros para sul de Cracóvia, ainda que no Lada tenha demorado mais do que o previs­to. O que importa é que chegaram e, por essa razão, os vemos a seguirem pelo carreiro de terra batida, a pé, Abu Rashid à frente, mãos atadas, empurrado, de vez em quando, pelo estrangeiro, não por andar demasiado devagar, mas para o lembrar da sua condição de cativo em posição de inferioridade. Mais uma cutucada nas cos­tas, outra, nada de muito forte nem incisivo.

As algemas prendem a mala preta ao seu pulso como se fosse um prolongamento do seu corpo.

Qualquer um se sentiria tentado a perguntar sobre o destino final da viagem, mas não Abu Rashid, quase conseguimos ver, no meio do negrume da noite sem lua, um sorriso de satisfação, ema­nante do rosto suado e maltratado.

Sobem o trilho do monte, apoiados no foco de uma lanterna que mal consegue penetrar no tecido da escuridão. O estrangeiro apon­ta a luz ligeiramente para a frente dos pés de Abu Rashid.

 

Estamos a chegar — avisa cordialmente, se assim nos é per­mitido dizer.

Eu sei — responde o muçulmano.

Alguns metros adiante, nova cutucada nas costas de Abu Rashid que, desta vez, cai ao chão, assustando o estrangeiro, que se põe em posição defensiva. Não imprimiu força suficiente para causar aque­la reacção, disso tem a certeza. Alguma coisa provocou a queda... Ou alguém.

Abu Rashid está ajoelhado com a cabeça baixa. É difícil saber se está virado para a Caaba, em Meca, dada a desorientação espacial, o coberto da noite sem estrelas e a falta de um mihrab apontador, mas o certo é que o muçulmano adopta a posição de oração, estranha àquela hora da madrugada, no entanto, quem pode censurar um crente que se prostra em hora de aflição?

O estrangeiro pode. Não só devido à sua posição dominante de captor, qual ave de rapina, mas outrossim porque aquela posição sempre lhe provocou algum asco. Toda aquela submissão incontida, demonstração abrasiva da fé em Alá, Deus Todo-Poderoso, provoca repulsa no estrangeiro. Nem as promessas mais aberrantes dos fiéis católicos equivalem a esta consagração enfática e inadequada nos tempos que correm, tão-pouco o ritual de ordenação de novos padres se equipara a este desplante, quando os seminaristas estão deitados de barriga para baixo, a lamber o chão, quase pisados pelos seus comparsas e entregam a vida à Igreja Católica Romana, a única verdadeira, não outra. Nada disso é tão hediondo para o estrangei­ro como este gesto enrodilhado de Abu Rashid, com os braços esti­cados a tocar o chão e a cabeça a acompanhá-los.

O estrangeiro deseja acabar coM-aquilo o quanto antes, mas hesi­ta, talvez porque aquela não é a hora típica do Sabah islamita, mas é sabido que pode variar de locai para local. Decide aguardar alguns instantes, não por respeito pela crença errada, antes por receio.

Ainda bem que estão só ele e Abu Rashid aqui presentes no meio deste matagal polaco, uma brisa fria a corroer os ossos, mais os dele do que os do muçulmano, o que também é irritante.

Durante um minuto nada acontece. Abu Rashid ajoelhado e debruçado sobre o chão e o estrangeiro de pé a contemplá-lo com impaciência.

Ainda há esperança — profere Abu Rashid sem se mexer.

Esperança de quê?

Para ti — responde o outro na mesma posição. — Há sempre dois caminhos, já te disse.

Vá, despache-se. Temos de continuar. Não são horas de rezar — resmunga o estrangeiro, ignorando a observação e cutucando-o ao de leve nas costas, com a lanterna, como se se tratasse de um bicho de comportamento imprevisível. A outra mão sempre agarra­da ao punho do revólver, enfiado no coldre que está por dentro do casaco. Nunca se sabe, todo o cuidado é pouco.

Todas as horas são horas de rezar. Mas tranquiliza-te, não estou a rezar.

Então o que fazes?

Escuto-A — declara o velho.

O estrangeiro olha para todo o lado com uma sensação descon­fortável. Não sente nem pressente vivalma. Dá por si a fincar os dedos com mais força no punho da arma, inseguro. Sacrilégio. Sacrilégio.

Não está aqui mais ninguém — afirma, disfarçando o receio de estar enganado e de que Ela o esteja a ver e a censurar.

Não te incomodes. Ela amar-te-á sempre, faças o que fizeres. Se te censurasse, não havia razão para a existência do livre-arbítrio. A beleza do mundo está em podermos escolher sempre.

Cala-te. Levanta-te e continua — ordena.

Abu Rashid ergue o tronco, permanecendo ajoelhado. Os seus olhos estão abertos, brilhantes, a fitarem o vazio.

Não ouviu? — insiste sobranceiramente.

— Tu é que não queres ouvir — diz Abu Rashid.

O silêncio cai sob a cobertura da noite, aliado aos bichos que dei­xam de contribuir com os seus gemidos e cantos neste mesmo instante, corno se todos sentissem a presença de uma entidade superior. Só o estrangeiro não consegue sentir nada, apesar de apiedado e crente na Virgem. Não, Ela não pode estar ali. Vai contra tudo aqui­lo em que acredita.

— Acalma-te, Tom. Deixa entrar a boa energia do Universo. Não vivas sob esse manto de pressão, frustração, dúvida.

O estrangeiro está atónito. Será que ouviu bem?

Nunca lhe disse o meu nome — é só o que consegue articular.

Eu sei, Tom. Conheço-te desde muito antes de nasceres.

Quem é que lhe disse o meu nome?

Ela, quem havia de ser? — Abu Rashid está imperturbável.

Deixe-se de merdas. Quem o avisou?

O outro fez exactamente a mesma pergunta.

O estrangeiro, baptizado de Tom, tira a arma do coldre e aponta-a à cabeça do muçulmano, pressionando com alguma força. As estri­beiras estão-se a perder.

Qual outro?

Abu Rashid vira-se para ele, apesar do cano frio encostado à cabeça.

Ainda não é o momento, Tom.

 

Geoffrey Barnes é um homem aparvalhado pelo que acaba de ouvir da boca de Harvey Littel sobre esse indivíduo apelidado de Abu Rashid, israelita de nacionalidade, muçulmano de origem, resi­dente em Jerusalém.

Isso é demasiado surreal — acaba por dizer, depois de alguns segundos de mutismo introspectivo. — Há certezas?

— As possíveis, tendo em conta as fontes.

— Temos de saber mais.

Ele desapareceu — informa Littel.

Pois e o outro morreu — acrescenta Barnes. — Achas que alguém lhe deitou a mão?

Littel encolhe os ombros.

É difícil dizer. Sei que não há sinal do homem. Temos gente em vigia permanente, mas nada.

Imagino que muita gente que lhe queira deitar a mão — pro­fere Barnes pensativo. — E ainda mais quem se queira desfazer dele.

Isso é verdade — concorda Littel. — Mas supõe que ele se escondeu e um dia aparece por aí e dá com a língua nos dentes?

Ninguém acreditaria nele — assevera Barnes.

À excepção do seu povo.

Barnes faz uma interjeição com os lábios anunciando uma opi­nião duvidosa, de quem não acredita em consequências graves.

Acredita que não é preciso muito para se iniciar um choque de religiões. Daí a provocar uma guerra calamitosa é um instante — adverte Littel.

Isso é um cenário um pouco apocalíptico.

É para isso que nos pagam, Barnes. Para analisarmos e pro­jectarmos cenários. É isto que vejo.

— Temos de arranjar maneira de lhe deitar a mão. Ele tem de dar sinais de vida.

Se estiver vivo — alega Littel.

Se não estiver, melhor para nós. Caso encerrado.

Mas temos de ter a certeza.

Os dois homens entreolham-se numa atitude respeitosa e cir­cunspecta. Até aparecer o corpo está tudo pendente.

Um muçulmano que faz milagres e tem revelações. Essa não lembra a ninguém — desabafa Barnes suspirando. — Como é que eles souberam?

Quem?

Os comunas.

Os gajos sabem tudo.

E o que lhes interessa?

A esses gajos tudo interessa... Mesmo o que não interessa.

Pode interessar aos ortodoxos — sugere Barnes.

Para quê? Chantagearem o Vaticano? Já deram para esse pedi­tório. Pertence ao passado.

Nunca se sabe. Um padre mais ambicioso. Ouve aqui e acolá. Um muçulmano milagroso que detém segredos da Igreja Católica.

Presume-se que possua segredos.

É suficiente. A presunção sempre serviu de desculpa para muita coisa. Torturar e matar, inclusive.

Não creio que parta daí.

Se tens gente em cima disso, só nos resta aguardar que algu­ma coisa aconteça. Além disso, temos assuntos mais prementes.

Precisamos de resolver este imbróglio o quanto antes. Estão a acontecer coisas muito estranhas — alude Littel.

A quem o dizes.

É nesta hora que o burburinho do centro de operações, exterior ao gabinete, se volta a fazer ouvir. Os dois homens olham na direc­ção da porta e vêem Staughton com a mão no puxador.

— Temos uma localização — avisa frenético.

Os dois homens levantam-se.

Até que enfim — protesta Barnes, mais aliviado. — Onde?

Catedral de São Paulo.

— É preciso ter lata — queixa-se Barnes, vestindo o casaco. — Irem para um local sagrado depois de tanto sangue. Esta gente é hipócrita.

Tu és crente? — pergunta Littel, acompanhando Barnes para o exterior do gabinete, em passo apressado.

— Na nossa linha de trabalho não nos podemos dar a esse luxo. — Porque não?

É óbvio, Harvey. Não matarás é o primeiro mandamento.

Passam pelo centro de operações, ignorando os funcionários ata­refados, as corridas desenfreadas, os gritos desconexos que se entre­laçam no ar da sala e formam o substrato ruidoso de vozes e equi­pamento que se ouve.

Staughton e Herbert juntam-se aos dois homens, assim como Priscilla, mais um grupo de oito agentes.

O disco? — pergunta Barnes a Staughton.

— Ainda está a ser processado. 4 — Manda despachar isso. , — Não dá para ser mais depressa.  

   — O Thompson?

Já foi na frente — informa Staughton, expedito.

E o Wally? — quer saber Littel.

Também.

Alcançam o átrio dos elevadores, os quatro que servem os pisos que a Agência usa, secretos, que descem até a uma garagem privada, com espaço para dezoito viaturas. Existem outros três ascensores, comuns a todo o prédio, mas que só param nos andares ocupados pela instituição americana através do uso de um cartão detido por cada funcionário que automatiza a paragem. Nestes elevadores não figura sequer a identificação desses pisos. As portas estão abertas e as cabines à espera de serem ocupadas. São-no prontamente e logo descem até à garagem.

É tudo muito bem organizado, pois mal as portas dos ascensores se abrem na garagem, podemos ver quatro carros negros, alta cilin­drada, vidros fumados, blindados, com as portas abertas, motores a trabalhar e os motoristas ao volante, prontos para acelerarem. A efi­ciência americana em todo o seu esplendor. Vale tudo quando se trabalha em nome do presidente dos cinquenta estados.

A porta da garagem abre-se quando todos os ocupantes se distri­buem pelas viaturas. Harvey Littel e Geoffrey Barnes viajam em car­ros separados, evidentemente, regras lógicas e protocolares. Em caso de ataque é mais fácil e provável que um deles consiga escapar, evitando desta forma crises de liderança ou promoções inesperadas. Outro factor de não somenos importância é o de circularem no meio do grupo, escudados pelas viaturas exteriores, ocupadas pelos restantes agentes. Assim funciona a democracia e a ditadura, capita­lismo e comunismo, o fraco e o forte, inteligente e idiota, proteger sempre quem verdadeiramente importa com o corpo, a vida, a alma. Todos os outros, Staughton, Priscilla, os oito agentes e motoristas, mais Thompson, Wally Johnson e os restantes agentes no terreno, são dispensáveis. Barnes e Littel ou Littel e Barnes são quem tem de ser protegido a todo o custo, neste caso, ainda que não seja provável que alguma coisa possa acontecer a estes dois. Os generais fazem a guerra longe da frente, não há diferenças neste campo.

Barnes assume a sua condição de generalíssimo, pois Littel deu­-lhe a primazia, e comunica através do microfone colocado na manga da camisa. Tem também um auricular sem fios enfiado no ouvido.

Qual é a tua posição, Thompson?

Ouve-se apenas o ruído da estática, das ondas hertzianas.

Thompson, qual é a tua posição?

Os... num... a direcção... Luton — são as palavras descone­xas que se ouvem no aparelho. A voz é a de Thompson.

Estamos com interferência. Repete, Thompson — ordena Barnes.

Os alvos entraram num táxi e tomaram a direcção de Luton — noticia Thompson. — Estou no encalço deles, perto de Hemel Hempstead, na Ml.

Okay. Ouviram, meus senhores? Sigam para lá depressa e bem.

No carro de Barnes seguem Herbert e o assistente Staughton, que logo começa a matutar sobre os planos dele.

Será onde ele o aguarda? — pergunta.

Quem?

O Rafael.

Onde ele me aguarda como?

Não se lembra do que o jornalista disse? — rememora. — Ele espera lá por si.

Geoffrey Barnes matuta durante alguns instantes. Coça a cabeça e o queixo e respira fundo.

Charadas. Estou farto de charadas — rezinga. — Tens alguma coisa sobre o CD?

Tenho gente a trabalhar nele. Assim que saibam alguma coisa, dizem-me.

Porque é que isso está a dar tanto trabalho? Ele não tem tan­tos meios e conseguiu decifrar o conteúdo.

Deparámo-nos com um código. Suponho que tenha sido ele a colocá-lo para nos atrasar — responde Staughton, desculpando os homens que labutam sob a sua alçada.

Filho da puta — pragueja Barnes. — Quanto tempo pensas que levará a quebrar o código?

Em Langley já tinha sido quebrado no computador. Cá, mais uma ou duas horas — prevê Staughton.

Faz a coisa por três quartos de hora — delibera Barnes. E não se fala mais nisso.

Aqui Thompson, acabam6s de perder os alvos.

Barnes leva o microfone eséondido na manga do casaco à boca.

Como é que isso foi acontecer?

Estamos aqui no aeroporto de Luton e quase éramos abalroa­dos por um camião. Entretanto, perdemo-los de vista — explica

Thompson com a voz contraída pela frustração. Odeia falhar, corno toda a gente.

— Continua à procura. É óbvio que estão no aeroporto. Procura em todos os cantos. Aviação comercial e privada.

Sim, senhor — acata Thompson. Esperava uma maior des­compostura.

Meus senhores, acelerem para Luton — ordena Barnes.

Eles não podem deixar o país, Barnes — adverte Littel através do transmissor. Estão todos em comunicação directa e a ouvirem tudo o que se diz entre cada um. É uma verdadeira partilha.

Eu sei, Harvey. Eu sei. — Não sabe outra coisa.

Será complicado se os despistam, novamente, e deixam o país. Porém, há qualquer coisa no meio disto que o deixa assaz inquieto.

Quem é que os localizou em São Paulo? — pergunta para Staughton.

Não faço ideia. Emitimos um alerta, penso que foram os homens da Metropolitana — responde, sem certezas.

Isso é irrelevante — protesta Herbert, sentado no banco de passageiro fronteiro. — Já os perdemos outra vez — ataca incisivo.

Você quer ir a pé? — chegou a mostarda ao nariz de Barnes. Não foi um grito, antes urna afirmação desprovida de sentimento, mas, ao mesmo tempo, repleta de raiva, se é que isso é possível.

Decerto chegaria lá mais depressa — murmura o da frente, não se atrevendo a responder no mesmo tom.

Thompson, relatório da situação. — Barnes a falar para o diminuto aparelho.

Aqui, Thompson. Continuamos à procura.

Acelera-me isso. — A instrução é para Thompson e não para o condutor do automóvel. — Vai para a pista e manda parar os aviões, se for preciso — di-lo em sentido figurado, é claro, mas se o pudesse fazer...

Roger that — acata o outro, ciente do que é possível e não.

Quarenta e dois minutos e dezoito segundos é o tempo preciso que Barnes, Littel e companhia levam a chegar ao aeroporto de Luton, noite cerrada, ventosa, fria. Mais três minutos e quarenta e três segundos para chegarem junto de Thompson no departamento da direcção do LCDL. Um homem escanzelado, trajado com um fato demasiado largo para a sua estatura. Cigarro na mão com a cinza pendente a corroer o tabaco. Escusado será dizer que ali não se pode fumar... A não ser ele.

Apresento-lhe o director do London Lutou Airport, Mctwain — diz Thompson. — Pôs o aeroporto e todos os funcionários à nossa disposição — acrescenta.

Que remédio, pensa Barnes. Mas não está interessado em iniciar outra quezília. Já bastam as que tem.

Obrigado — limita-se a dizer.

Thompson passa para as mãos de Barnes um maço de folhas de papel.

É o manifesto dos voos de hoje — explica.

Nada de anormal? — quer saber Barnes.

Mctwain, para além de magro e fumador, treme como varas ver­des. Não de medo, pois não seria director se não soubesse lidar com os pânicos, mas de stress. Um aeroporto deve arruinar os nervos de qualquer um.

— Os meus subordinados estão a passar isso a pente fino, mas, ao que parece, está tudo legal.

— Algum voo pedido à última hora?

- Diariamente temos cerca de quatro ou cinco pedidos. Entre os privados, claro.

Algum em cima da hora?

Defina em cima da hora.

O tremeliques deve ter a mania que é comediante, diz Barnes a si mesmo.

Só autorizamos voos privados com pedido mínimo de 5 horas de antecedência. A não ser que sp trate de um caso grave — esclare­ce Mctwain com os predicados de um tutor.

Precisamos de saber todos os touch and go requisitados nas últimas vinte e quatro horas — ordena Herbert.

Não estamos a descurar os voos comerciais? — alerta Staughton.

Tenho a equipa toda espalhada pelo aeroporto. Se embarca­rem num voo comercial, ainda estão no terminal e serão avistados

avisa Thompson.

Porque será que tenho a sensação que estamos a ser gozados?

Barnes mostra-se irritado, mais uma vez, nada de novo.

Que queres dizer, Barnes? — perquire Littel.

Parece-me que estamos onde ele quer que estejamos. Wally Johnson chega junto do grupo a esbracejar um papel no ar.

Acho que os localizei — diz.

Onde?

Um Learjet 45 de uma companhia de aluguer italiana aterrou há menos de duas horas — informa.

Deixa cá ver isso. — Herbert arranca o papel das mãos de Wally Johnson sem olhar a modos nem educação. Não é hora de olhar a essas virtudes. Corre o dedo indicador pela página. — Em nome de Joseph Connelly?

Exactamente.

E o que tem o cú a ver com as calças? — pergunta Barnes impaciente.

O que me chamou a atenção não foi o nome, mas o código de voo.

Herbert olha novamente para a página e identifica o código. Passa-a a Barnes.

Filhos da puta — vira-se subitamente para Mctwain. Contacte a torre e veja se já descolou.

O director, solícito, pega no rádio.

Atenção, torre. Daqui Mctwain. Código 139346.

Código 139346, Mctwain, daqui torre, escuto.

Torre, qual é o estado do voo JC1981?

Um momento.

Todo o grupo está em suspenso, com os ouvidos colados, em sen­tido figurativo, àquele rádio. Passam apenas cinco segundos, mas parecem minutos infindáveis. Por fim...

Código 139346, Mctwain, autorização de descolagem do voo JC1981, em aceleração na pista 26.

Torre, abortar autorização de descolagem. Repito, abortar autorização de descolagem.

Código 139346, Mctwain, entendido — responde a torre. Barnes encara o magrelas tremeliquento com outros olhos.

Percebe-se que seja director. Decisão e reacção rápida, uma qualidade louvável em qualquer profissional, seja de que área for. Mais alguns segundos de espera. Um martírio.

Código 139346, Mctwain, abortar descolagem do voo JC1981 na pista 26, negativo. Voo JC1981 a mil e duzentos pés com instru­ção para subir aos onze mil pés.

Torre, daqui Código 139346, Mctwain, ligação terminada — vira-se para Barnes. — Não está nas minhas mãos, senhor. Como sabe, o meu poder termina quando eles levantam. Terá de contactar a NATS.

Barnes vira-lhe as costas frustrado, mas não rendido.

Charadas. Estou farto de charadas.

Mande abater o avião — sugere Herbert.

Não seja doente. — É a vez de Littel se interpor. — Qual é o destino do aparelho?

Barnes mostra-lhe o papel com a informação. Littel cora quando o lê e enfrenta o olhar de Barnes.

Ele sabe.

 

                 O NEGÓCIO, FEVEREIRO DE 1969

São dois homens muito diferentes estes que partilham a mesma sala de estar na residência papal de férias, em Castel Gandolfo.

Giovanni Battista Montini é contido e reservado, deixa mais espaço ao pensamento do que à palavra. O outro tem o coração perto da boca e deixa-o expandir-se livremente. Veste bem, faz questão disso, se tem algum defeito, embora não o considere, é o da vaidade. Gosta do que é bom, extraordinário, e tem sempre tudo o que quer. Adora ser elogiado, lisonjeado, homenageado. Não são todos os homens que conseguem alcançar numa vida tudo o que ele adquiriu. É dono de um império, em nome de Deus, é Obra de Deus. Tem milhares de seguidores e milhões de oferendas financei­ras, diariamente. Transformou-se na maior e mais influente prelatu­ra de sempre, caso contrário não estaria aqui, nesta casa, a falar informalmente com Paulo VI, um amigo.

— Josemaría, as coisas não são tão lineares.

Claro que são. Foste tu mesmo quem disse que aquilo está cheio de teias de aranha. Nem sabes o que tens.

Não são meus. Tem de se inventariar os bens da Igreja — res­ponde Giovanni Montini, comedido.

Os bens da Igreja pertencem ao papa. Sabes disso muito bem. São teus. Podes pôr e dispor. — Ao mesmo tempo que fala, Josemaría gesticula efusivamente, o que, aliado ao vozeirão, o torna em alguém que tem de ser ouvido. — Dinheiro gera dinheiro, Giovanni. Podes ser dono de um património ilimitado, tão podero­so, que podes vergar qualquer um à vontade da tua Igreja.

A Igreja não é minha. Sou o seu mais alto representante e não me parece bem andar a investir os bens em operações financeiras que podem correr mal. Não é esse o papel da Igreja.

Por amor de Deus, Giovanni. É dever da Igreja aplicar o dinheiro que os fiéis depositam nas caixas de esmola. Eles não espe­rariam outra coisa. Só te peço que dês oportunidade ao homem. Deixa-o inventariar e organizar a casa. Depois vê-se.

Bebem vinho do Porto Burmester, colheita de 1963, ano em que Giovanni Battista Montini foi eleito papa, adoptando o nome Paulo pela sexta vez na história da Igreja. O conclave foi diferente dos outros, pois o moribundo Angelo Roncalli, mais conhecido como João XXIII, havia pronunciado o seu nome para sucessor. É sabido que a vontade do papa dever ser cumprida sempre... Ou quase.

Josemaría Escrivá trouxe a garrafa nesta manhã, um agrado ao senhor seu pastor e de todos os outros.

Quem é o homem?

Um bispo que te tem servido noutras funções. Competentíssimo.

Como se chama?

Paul Marcinkus.

Paul Marcinkus? É meu amigo pessoal. Tradutor principal e guarda-costas.

Escrivá sorri em jeito afirmativo.

Não sei. Não sei se ele tem qualificações para um cargo destes — pronuncia o papa em tom desconfiado.

— Tem, podes confiar. É o homem certo.

E o que vai dizer a imprensa? Papa contrata membro do Opus Dei para gerir o Banco do Vaticano? Não me parece.

Aí é que está a vantagem, Giovanni — sublinha Escrivá. — Ninguém sabe que ele é Opus Dei. Só eu e tu. Mais ninguém neces­sita de saber. — Um sorriso de criança invade-lhe os lábios. Tão fácil.

— Se eu concordar, tem de ser tudo muito claro. Ele não poderá investir a seu bel-prazer.

Claro que não — concorda Escrivá.

— Terá de elaborar um plano concreto e elucidativo da potencia­lidade dos negócios — levanta um dedo a ressalvar. — Só depois de limpar as teias de aranha à casa.

Claro. Tu és o dono, não te esqueças.

Não digas isso — pede Paulo incomodado.

Mas é a verdade. Podes não te aperceber ou não querer ver, mas é tudo teu. Este palácio, todo o recheio, o Estado do Vaticano... Caramba, uma simples palavra tua e fecham a Praça de São Pedro até nova ordem.

Paulo prefere não pensar nessas coisas. Há assuntos bem mais importantes do que a administração do Estado e dos seus bens. Contudo, vê com bons olhos que alguém que perceba trate dessas coisas mais mundanas e ponha ordem na casa.

Diz-lhe que me venha ver — acaba por dizer Paulo. Escrivá sorri.

Com certeza.

Marca uma hora com o meu secretário. Vou pedir ao Villot para vir também. Será bom ter um amigo a tratar disso.

Perfeito, Giovanni. Ainda me vais agradecer — declara com segurança.

E o que vais querer em troca do agradecimento? — pergunta Paulo com bonomia. j

— Uma estátua dehtro do Vaticano, depois da minha canonização. Paulo dá uma gargalhada sonora, enquanto Escrivá permanece sisudo.

Estou a falar a sério.

 

Depois de uma noite bem dormida, os corpos acordam revigora­dos, aptos para aceitar novos desafios, mais atentos e expeditos. É o que acontece com Raul e Elizabeth, depois de uma viagem de alguns milhares de quilómetros sobre o Mediterrâneo, num avião tão luxuo­so, que até tem dois quartos com camas de casal para o respectivo repouso. Sentem-se um pouco culpados, como se tivessem pecado pelo simples facto de terem descansado.

Como estará a nossa menina? — pergunta Elizabeth, verda­deiramente preocupada. O coração volta a contorcer-se num aperto empancado, sofrido, de angústia materna.

Está tudo bem — responde Raul, pousando uma mão tímida sobre o ombro dela.

Onde estamos?

Raul olha por uma das pequenas janelas. Já amanheceu, o sol bri­lha, mas ainda voam a altitude de cruzeiro.

Não faço ideia.

A porta do quarto aéreo abre-se ligeiramente, o suficiente para deixar entrar uma voz, a do manco, que não quer interferir com a privacidade dos hóspedes.

O pequeno-almoço está servido — informa.

Já vamos, obrigado — responde Raul.

A porta fecha-se sem bater.

Se alguém me dissesse que hoje ia tomar o breakfast a bordo de um avião privado que até tem quartos, a caminho não sei de onde, eu ia chamar-lhe doido — confessa Elizabeth. — Até me sinto mal com tantas mordomias, sem notícias da Sarai].

Raul abraça-a.

Descansa. Esta gente sabe o que faz. E ela está protegida. O Rafael é de confiança.

Sim, mas as pessoas falham. Quem anda atrás deles também deve ter os seus meios. Se calhar, mais.

Pensamento positivo, querida.

Eu tento, mas sinto um aperto no coração.

Vamos comer qualquer coisa — sugere Raul dirigindo-se para a porta.

Não tenho fome — avisa Elizabeth.

Raul recua para junto da esposa e abraça-a com uma mão, como um casal de namorados em plena lua-de-mel.

— Tens de te alimentar, querida. Não nos podemos deixar enfra­quecer. A nossa filha precisa de nós em condições para a ajudar — argumenta.

— Que podemos nós contra esta gente? — observa Elizabeth sem esperança.

Raul conduz a esposa até à cama e sentam-se na beira. Uma ligei­ra turbulência começa a agitar o avião, desconfortavelmente.

— Eu também pensava assim, Liz. Mas no ano passado a tua filha deu-nos a todos uma lição — conta Raul com pusilanimidade. — As coisas só acabam no fim e nunca antes disso. Podemos sentir-nos completamente estafados, derrotados, sem esperança, com a morte a assobiar ao nosso ouvido, mas Deus, ou o que quer que tenha sido, dotou-nos de algo precioso, a inteligência. E tudo pode mudar no último segundo. — O seu discurso é sentido, quase comovente. — Foi isso que aconteceu no ano passado, graças à nossa filha. Nunca podemos baixar os braços. Ela vai ficar bem.

As lágrimas rolam pelo rosto de Elizabeth, que só consegue pen­sar na idade juvenil da filha, pois para os pais os filhos são sempre pré-púberes, e nas provações que tem enfrentado, sem procurar.

Talvez seja o destino, alguma ordenação divina que ponha ao cami­nho dela o lado mais letal e desavergonhado da piedosa Igreja.

Vamos? — insiste Raul, mais uma vez.

Vamos — acede Elizabeth, levantando-se. Há que reagir, por Sarah.

Retiram-se do quarto para a cabine comum, onde estão instala­das seis poltronas de couro, amovíveis e manobráveis. Neste momento, quatro delas formam dois pares, um de frente para o outro, separados por uma mesa da mesma cor, carregada com as iguarias do pequeno-almoço. Pratos de brioches, muffins, pão inte­gral e normal, saloio e de forma, tudo para todos os gostos, um misto de pequeno-almoço continental e inglês, em que não faltam as salsichas, o bacon, feijão e ovos escalfados e cozidos. Provavelmente, feito a pensar em Elizabeth e no seu sangue saxão. Tudo isso acom­panhado de chá Darjeeling e Earl Grey, leite, café, sumo de fruta da época, a laranja, como sempre, e, para coroar, um prato com quatro sfogliatellas napoletanas, uma pérola de folhado de difícil confecção, mas degustação primorosa, em honra dos viajantes italianos. Não falta o mordomo, trajado com um fato negro e branco, adoptando as funções de chefe de sala.

JC senta-se numa das poltronas e come uma sfogliatella. Ao seu lado, o manco barra um naco de pão com manteiga.

Vários plasmas estão espalhados pelo compartimento, sintoniza­dos nos canais de notícias e economia mais prestigiados. Elizabeth atenta no da Sky News.

Bom dia — cumprimenta JC. — Espero que gostem do que mandei preparar para nós.

Raul cumprimenta os presentes e senta-se. Elizabeth permanece colada ao plasma.

Venha sentar-se, minha 9uerida. Não há notícias — avisa JC. — Vá. Venha comer. Mandei escalfar uns ovos e fazer feijão, justa­mente para si.

Elizabeth senta-se na únká poltrona vazia junto à mesa.

— O que pretende beber, signora? — pergunta o mordomo.

Chá com leite, por favor.

E voi, signore? — pergunta a Raul.

Café.

O mordomo prepara os pedidos, num carrinho igual ao usado pelas hospedeiras ou comissários de bordo, travado ao lado da mesa.

Obrigada. Não precisava ter-se incomodado — agradece Elizabeth a JC.

Ora, querida Elizabeth. O que se leva desta vida é o conforto. Dormiram bem?

Dentro do possível — responde Raul trincando um brioche com queijo.

Tempos houve em que me podia deitar em qualquer lado e não levava mais de dois minutos a adormecer — queixa-se JC. — Agora tudo me incomoda. Não sei é o barulho dos reactores ou a altitude.

O mordomo pousa as bebidas em frente a Raul e Elizabeth.

Onde estamos? — quer saber Raul, na pretensão de saciar também a curiosidade da mulher.

No ar, meu caro.

No ar de quem? — insiste. Odeia evasivas.

No ar do dono — responde JC na mesma moeda.

— Onde vamos? — é a vez de Elizabeth perguntar.

Ver um amigo — informa o outro.

Tem sempre a resposta pronta, pensa Elizabeth com algum receio. — Também falava assim para o papa? — Raul muda de estratégia.

Um papa não é superior a qualquer um de nós — responde JC com desplante.

É alguém muito especial — profere Elizabeth convencida.

Com certeza que sim, minha querida. Estou certo que a rece­berá com chá e bolinhos. — O sarcasmo é mais do que evidente na locução de JC.

Não era bem recebido pelo polaco? — insiste Raul em saber pormenores.

Tinha demasiado medo de mim para me receber mal. O que não quer dizer que me mimasse com mordomias.

Quantas vezes falou com ele?

Pessoalmente? Três. O suficiente para mudar o mundo. — Não demonstra qualquer mal-estar com a pretensão. Deve ser como ele se vê, um salvador, alguém com tanta importância que pode pôr e dispor a seu bel-prazer, arruinar governos, Estados e substituí-los por outros, aliados.

Isso é um pouco exagerado — atenta Elizabeth.

Acha? — pergunta JC ajeitando-se no banco e sorvendo o Darjeeling. — Pergunte aos Soviéticos e à RDA.

Já não existem Soviéticos nem RDA — observa Raul.

Precisamente — conclui o velho com uma pose triunfal, um brilho de menino orgulhoso nos olhos, que subiu à mais alta mon­tanha para contemplar os seus feitos.

Não posso crer — manifesta Raul, completamente siderado.

Então não creia — responde o outro com simplicidade. — O facto de não crer não significa que não seja verdade.

Ambos sabem que assim é. E o contrário também se pode enca­rar como verdadeiro.

Porque é que não podemos saber para onde vamos? — arris­ca perguntar Elizabeth, um pouco a medo.

E quem disse que não podem? Não se sintam cativos.

Que amigo é esse que vai ver? — Parece um interrogatório combinado entre Raul e Elizabeth. Esta última pergunta foi fei­ta pelo marido, mas o velho está habituado a manobrar na linha de fogo.

Terão a oportunidade de o conhecer também.

Sentem-se os reactores a abrandar a rotação e o avião a descer da altitude de cruzeiro. Um ruído estático faz-se ouvir, seguido da voz do comandante.

Signore Dottore, iniciamos a descida para Atatürk.

JC pressiona um botão.

Perfeitamente, Giovani. Obrigado.

Atatürk? — Raul reconhece Ó local.

Onde é que isso fica?

O mordomo começa a levantar a mesa com vigor. Razões de segurança que medeiam as descolagens e aterragens, ainda que leve

mais de vinte minutos a tocarem na pista. Em pouco tempo conse­gue tirar tudo o que ocupava o tampo creme.

— O que é o Atatürk? — torna a perguntar Elizabeth, visivel­mente preocupada.

— É um aeroporto — responde JC apertando o cinto. — Apertem os cintos... — avisa — e sejam bem-vindos a Istambul — acrescenta com um dos seus raros sorrisos.

 

Existe urna barbearia na Ulitsa Maroseyka, perto da estação de metro de Kitay Gorod, que remonta ao início do século xix, primei­ra década, no tempo em que os barbeiros desempenhavam outras funções como tirar dentes, resolver problemas familiares, no campo da terapia e do planeamento, organizavam motins, manifestações, revoltas políticas, golpes de Estado, entre muitas outras coisas. Pode não parecer, mas um simples barbeiro, de tesoura e lâmina na mão, tinha mais poder do que um presidente.

Ivanovsky, o dono do estabelecimento, herdado nos anos 70, em plena Guerra Fria, de outro Ivanovsky, o pai, não deixa de seguir a inovação da tecnologia. Criou um site na Internet, no qual os clien­tes podem marcar a sua próxima visita, escolher o tipo de corte, bem como seleccionar o funcionário que o executará, se tiver preferên­cia. Contudo, apesar das diversas remodelações que os vários Ivanovskys efectuaram, desde o primeiro que criou a barbearia, neste mesmo local, a este último descendente nunca deixaram que o edifício perdesse a identidade. Talvez devido a isso possamos com­provar um encantador ri tleo museológico no interior da grande barbearia, composto por peças que vão desde a primeira cadeira usada pelo primeiro Ivanovsky, aos acessórios peculiares que foram usados ao longo do tempo. É um testemunho valioso que qualquer pessoa pode visitar, mesmo que não vá cortar o cabelo ou a barba.

A entrada é facilitada, sem que para isso se incomodem os atarefa­dos funcionários e clientela exigente, pois essas peças antigas estão expostas numa sala própria.

Verdade seja dita que, apesar da história tumultuosa da cidade de Moscovo, o clã Ivanovsky nunca teve de se preocupar com assaltos, incêndios, ajustes de contas ou algo idêntico. Sempre souberam pôr­-se do lado da História e colher os benefícios dessa escolha. Um dos antepassados Ivanovsky foi barbeiro privado do czar Nicolau I, o avô foi-o de José Estaline, o pai tinha sido o responsável pelo aspec­to capilar de Kruchev e Brezhnev e o actual proprietário tinha cor­tado o cabelo de Ieltsin e agora de Putin. Essa preferência da classe política pelos barbeiros da família Ivanovsky já provocou algumas celeumas entre os mais curiosos, especialmente no ramo cabeleirei­ro. As invejas naturais da concorrência e não só, que sempre termi­naram na anulação dessas curiosidades de forma muito discreta e escorreita. A sua localização, na Ulitsa Maroseyka, pertíssitno da Praça Vermelha e do Kremlin, também é um factor de popularida­de, pois, para além de ser o centro político, é também o primeiro lugar turístico da Rússia, onde passam milhares e milhares de pes­soas por dia.

O que é que estamos aqui fazer? — pergunta James Phelps a Rafael pela milésima vez, fatigado, sentindo-se sujo e deslocado, como um refugiado retirado do seu lar, ainda que voluntariamente.

Rafael, Sarah e Phelps estão na Ulitsa Maroseyka, junto de uma loja de recordações, em frente à barbearia Ivanovsky. Sarah já nem se dá ao trabalho de fazer perguntas. É esta a maneira de Rafael agir. Não há nada a fazer.

Eu vou fazer a barba. Vocês fiquem aqui. Podem entrar nessa loja e comprar algumas recordações para levar — decide.

Sem pronunciar mais nenhuma palavra, Rafael atravessa a rua e entra na barbearia. Ouve-se o tilintar de um pequeno sino, que anuncia a entrada de clientes na loja.

Sarah e Phelps não tiveram tempo de reagir e, apesar de ele intentar um passo no sentido da barbearia, ela trava-o, puxando­-lhe um braço.

Deixe-o ir. Se ele quis ir sozinho, é porque tem de ser — diz­-lhe.

Não pode ser, Sarah. — A voz dele denota irritação. — Não podemos ficar fora de tudo. Isto também nos diz respeito.

Se quiser ir, vá. Eu dispenso — Prefere não saber o que ele foi fazer, mesmo que tenha alguma coisa a ver consigo.

Sentindo-se autorizado, Phelps avança para a barbearia, deixan­do-a sozinha. Já não existem cavalheiros corno antigamente e, mesmo esses, era preciso cuidado com eles.

Surpreende-se como ainda ninguém os interceptou desde que che­garam, não só por terem Barnes à perna, mas, principalmente, devi­do ao agente russo que morreu em sua casa. É mais do que provável que a agência secreta russa esteja de olho nos seus movimentos e nos de Rafael e Phelps, por acréscimo. Mas porque é que ninguém se mos­tra? Já fez essa pergunta a si própria mais vezes do que as que Phelps formulou a Rafael sobre a razão da viagem a Moscovo. São três da tarde, viajaram toda a noite, está cansadíssima, fizeram uma escala em Sófia para reabastecimento, onde o misterioso Rafael aproveitou para se ausentar durante meia hora. Retomaram o voo assim que ele che­gou e aterraram no Domodedovo pouco passava do meio-dia. Foi este filme do seu dia que a trouxe até à porta desta loja de recordações, em frente à barbearia Ivanovsky. Só espera que Rafael não demore muito.

Dentro da barbearia, podemos ver James Phelps à procura de Rafael, mas não há sinais dele. O estabelecimento é comprido e estreito, com espelhos e cadeiras de corte dos dois lados. A maioria delas estão ocupadas com os clientes masculinos que a barbearia serve, não se lhe chame preconceito, antes tendência ou preferência. Em cada uma ouve-se o abrir e fechar da tesoura ou máquina que desbasta a maior parte do cabelo, segundo os desejos dos clientes. Phelps não vislumbra Rafael em lado nenhum.

Deseja cortar o cabelo, senhor? — pergunta um funcionário, em russo, quando acaba de ver a sua cadeira desocupada.

Desculpe. Não falo russo — responde Phelps em inglês.

Não há problema. Todos os funcionários falam inglês — entrepõe o herdeiro Ivanovsky, um homem da idade de Phelps, muito bem conservado, de tesoura em punho, fazendo um corte direito na cadeira em frente. Pode ser o dono, mas trabalha como os outros.

Ah sim? — Phelps não sabe bem o que dizer.

Deseja cortar o cabelo? — volta a perguntar o funcionário, agora em inglês.

Na verdade, procuro um amigo que veio cortar o cabelo. Uni europeu, italiano, para ser mais preciso.

O que há mais aqui são europeus — volta a intrometer-se Ivanovsky. Nada no seu salão passa impune aos seus olhos. Excêntrico, com um bigode estreito e pose altiva, rosto cheio de pó-de-arroz, rosado nas bochechas. — Até a maioria dos funcioná­rios são franceses, recrutados nos melhores coiffeurs de Paris — acrescenta.

Pois. Voltarei quando necessitar de cortar. Prometo — afirma Phelps, evasivo e inseguro.

Próximo — grita o funcionário farto da conversa. Cadeira vazia é dinheiro por entrar. Phelps assusta-se com a convocação imprevista. Dois segundos depois, a cadeira está ocupada com um anafado aristocrata de fato às riscas pretas e brancas, cabelo casta­nho-escuro, preso num rabo-de-cavalo que o funcionário despren­de, uma pêra pontiaguda e um bigode russo.

Procure, senhor. Dê uma vista de olhos — autoriza Ivanovsky a Phelps.

Obrigado.

O inglês percorre o estreito corredor, olhando para os espelhos de ambos os lados. É mais fácil identificar Rafael se os olhar de frente. Cria-se unia certa confusão na sua mente, provocada pelo excesso de espelhos e reflexos de pessoas até ao infinito. Contudo, tem o discernimento necessário para conjugar todas as existências que por ali andam e, exceptuando os funcionários, Rafael não ocupa nenhuma das cadeiras de corte, nem as da sala de espera da sala ao lado.

Ao fundo do salão encontra uma escada que desce algures para uma cave e um elevador antigo, com porta de grade, aberta. Deixa-se ficar durante alguns segundos entre a escada e o elevador, deci­dindo se entra ou se desce.

— Não o encontra? — É Ivanovsky quem pergunta. Deve ter des­pachado mais um cliente.

Por estranho que pareça, não — responde Phelps com um sor­riso tímido.

Se calhar desceu ao museu — sugere o russo.

Acha? — pergunta, mal disfarçando um certo temor.

Se não o encontra no salão e tem a certeza que está aqui... - explica o outro. — Só pode ser. — Pega num dos braços de Phelps e empurra-o, gentilmente, para dentro da cabine do elevador. — Vá por aqui que é mais rápido.

Sem tempo de reacção, Phelps vê-se no interior da caixa elevató­ria e leva algum tempo até reparar que não existe nenhum painel com comandos para ordenar. Ivanovsky fecha a grade e fita-o do lado de fora, como um carcereiro.

Tenha cuidado. Há pouca luz lá em baixo.

A caixa inicia uma descida lenta. Phelps vê Ivanovsky subir, embora seja ele o único a mover-se e repara num sorriso sardónico que se imiscui nos lábios, antes de desaparecer e o inglês cair numa escuridão completa.

O motor ruge e todo o ascensor range à medida que penetra no subsolo. A falta de luminosidade não deixa perceber a velocidade a que desce, mas Phelps, com o coração aos pulos, pode afiançar que passam trinta segundos. Por muito lento que o elevador seja, desceu, à vontade, alguns vinte ou trinta metros.

Trava de rompante, quase fazendo cair Phelps, que esqueceu a fadiga e apenas se preocupa com o desconhecido. Abre a porta de grade timidamente, a iluminação é medíocre, dá um primeiro passo para o exterior, segundo, terceiro e detém-se num corredor. Dá para ver alguma coisa, pouca, mg o suficiente para não andar a bater nas paredes. Os corredores, saliVo excepções decorativas, arquitectóni­cas, são todos iguais de coMprimento e largura. Correm os edifícios, aportando as várias divisões principais. Este não é diferente, várias portas agregam-se nele, somente de um lado.

Isto é que é o museu?

Um estalido acende umas luzes fluorescentes, brancas e fortes, mesmo por cima de si. Assusta-se e pára a marcha, já de si lentís­sima.

Devem ser células fotoeléctricas, pensa. Dá mais dois passos, sain­do do alcance da lâmpada e outra se acende. Confirma-se. As pare­des são cinzentas e despidas. Para além de quatro portas, não existe mais nada, nem quadros, nem tapeçarias, nem mesas, nada de nada.

Phelps avança mais um pouco e as luzes à sua frente vão acen­dendo, enquanto as detrás se apagam automaticamente, criando um ambiente tenebroso.

Mais adiante, Phelps começa a ouvir vozes provindas do interior de um dos compartimentos anexos ao corredor. Identifica de ime­diato a de Rafael, desconhece as outras duas. Falam em russo, ou em alguma língua de Leste, isso é certo. Este Rafael é surpreendente. O Vaticano não brinca em serviço. Prepara os seus homens de maneira a poderem controlar tudo no terreno, sem falhas, máculas, nem imperfeições.

Acerca-se da porta em questão, encontra-se apenas encostada, mas nem adianta atentar e ouvir, pois não domina a língua russa. Não percebe patavina, para sermos mais precisos. Tenta espreitar o inte­rior da divisão, mas a frincha é demasiado pequena. Só consegue ver sombras.

De repente, a porta abre-se, revelando um homem loiro, cheio de rugas no rosto, encobertas pela barba de urna semana. Segura uma Kalashnikov e inicia uma discussão unilateral em russo com James Phelps. Grita, lançando perdigotos em todos os sentidos. Phelps tem a veleidade de conjecturar a desnecessidade da arma, pois o hálito empesta de tal maneira, que manieta qualquer inimigo.

Ele não percebe russo — ouve-se Rafael dizer em inglês. O homem suspende a algaraviada e olha para dentro.

Porque é que não disseste logo?

Sem modos, o russo arrasta Phelps para o interior do comparti­mento. Urna lâmpada de 60 watts pende de um fio preso ao tecto, bem no centro, incidindo sobre urna mesa quadrada, em mau estado, com borrões de sangue seco no tampo de madeira laminada. Vislumbra outro homem com outra Kalashnikov apontada a Rafael, sentado, mas, ao que parecia, sem ferimentos. Encostado à parede vemos um armário aberto. Dentro, três prateleiras cheias de vários tipos de armas, granadas, rádios, um telefone-satélite, uma máquina de rçanimação ou tortura, dependendo do objectivo traçado. Phelps sente pânico ao ver tudo aquilo.

Estamos todos? — pergunta o homem que aponta a automá­tica à cabeça de Rafael. É mais forte e mais velho.

Falta a mulher — diz o enrugado, empurrando Phelps contra a parede e espetando-o com o cano da arma. Em seguida, revista-o minuciosamente.

Está limpo.

O mais velho pega no rádio e pressiona um botão.

Tudo limpo. Falta a mulher.

Não se ouve qualquer resposta nos primeiros segundos. Somente o silêncio incómodo da incerteza.

Bom trabalho — ouve-se uma voz masculina dizer por fim. — A mulher está comigo. Tratem deles.

 

Ele sabe.

É sabido que um dos trunfos cruciais dos serviços de informação, pelo menos daqueles que se possam designar como de competentes e na vanguarda da evolução tecnológica, é a capacidade adaptativa de construírem uma base de comando ond