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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


BATALHA INCERTA / John Steinbeck
BATALHA INCERTA / John Steinbeck

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

BATALHA INCERTA

 

ERA noite, finalmente. Os candeeiros de iluminação pública acenderam-se e o letreiro a neon do restaurante da esquina começou a acender-se e a apagar-se, com a crua luz vermelha a explodir no ar e a inundar o quarto de Jim Nolan de uma suave claridade avermelhada. Durante duas horas Jim estivera sentado numa pequena e dura cadeira de balanço, com os pés em cima da colcha branca. Quando escureceu por completo, tirou os pés de cima da cama e bateu nas pernas dormentes. Ficou um momento imóvel, enquanto o formigueiro lhe subia e descia em ondas pelas barrigas das pernas. Depois levantou-se e acendeu o candeeiro sem velador. O quarto mobilado iluminou-se e mostrou o seu conteúdo: a grande cama branca, com a coberta de uma brancura de giz; a escrivaninha de carvalho dourado e a carpete encarnada, limpa, mas tão puída que estava praticamente reduzida à urdidura castanha.

Jim dirigiu-se ao lavatório, ao canto, lavou as mãos e enfiou os dedos molhados no cabelo. Olhou para o espelho, suspenso acima do lavatório, e, por momentos, perscrutou os próprios olhos cinzentos, pequenos. De uma algibeira interior tirou um pente de bolso, penteou o cabelo castanho, liso, e fez um risco ao lado, muito direitinho. Vestia fato escuro e camisa de flanela cinzenta, de colarinho desabotoado. Enxugou o pequeno sabonete com uma toalha e meteu-o num saco de papel, aberto em cima da cama, no qual já se encontravam uma gilete, quatro pares de peúgas novas e outra camisa de flanela cinzenta. Olhou em redor do quarto e depois fechou o saco, antes de apagar a luz e sair. Desceu a escada estreita e sem alcatifa e bateu à porta que ficava ao lado da entrada principal. A porta entreabriu-se. Uma mulher espreitou pela abertura e depois abriu mais a porta - era uma mulher loura e forte, com uma verruga escura ao lado da boca.

— Mister Nolan! — exclamou, a sorrir.

— Vou-me embora. — informou Nolan.

— Mas voltará. Quer que lhe reserve o quarto?

— Não. Tenho de me ir embora de vez. Recebi uma carta nesse sentido.

— Aqui não recebeu cartas nenhuma. — disse a mulher, desconfiada.

— Não, foi no meu trabalho que a recebi. Não voltarei. Tenho uma semana de renda paga adiantada.

O sorriso da mulher dissipou-se lentamente e a sua expressão pareceu tornar-se colérica, sem no entanto se modificar muito.

— Devia ter-me avisado com uma semana de antecedência. — lembrou, agressiva — É essa a norma. Tenho de ficar com a semana paga adiantadamente, porque não me avisou.

— Bem sei, não há problema. Não sabia quanto tempo poderia ficar.

O sorriso voltou ao rosto da senhoria, que declarou:

— Foi um bom hóspede, sossegado, apesar de não se ter demorado muito por cá. Se alguma vez voltar, venha logo ter comigo, pois arranjar-lhe-ei onde ficar. Conheço marinheiros que vêm cá todas as vezes que atracam no porto e eu arranjo-lhes sempre alojamento. Não querem ir para mais lado nenhum.

— Não me esquecerei disso, Mrs. Meer. Deixei a chave na porta.

— Apagou a luz?

— Apaguei.

— Bem, nesse caso só preciso de lá ir amanhã de manhã. Quer entrar e beber um copo?

— Obrigado, mas tenho de ir andando.

Os olhos da mulher semicerraram-se, manhosos.

— Não está em apuros, pois não? Se estiver, talvez o possa ajudar.

— Não, ninguém me procura. Arranjei outro emprego, mais nada. Bem, boas noites, Mrs. Meer.  

A Mulher estendeu-lhe a mão empoada. Jim mudou o saco de papel para o outro braço, apertou-lhe um momento a mão e sentiu a carne dela ceder sob a pressão dos seus dedos.

— Não se esqueça, poderei arranjar-lhe sempre onde ficar. As pessoas procuram a minha casa ano após ano, tanto marinheiros como bateristas.

— Não me esquecerei. Boas noites.

Ela seguiu-o com o olhar até o ver sair e descer os degraus de cimento, para o passeio.

Jim caminhou até à esquina da rua, e viu as horas na montra de uma ourivesaria: sete e meia. Começou a andar depressa, para leste, através de um bairro de armazéns e lojas de especialidades, a que se seguiu o da venda por atacado, silencioso àquela hora da noite, com as ruas estreitas desertas e as entradas dos armazéns fechadas com barras de madeira e rede de arame. Por fim chegou a uma velha rua de prédios de tijolo de três andares. Penhoristas e negociantes de ferramentas em segunda mão ocupavam as lojas do rés-do-chão, enquanto dentistas e advogados em maré de azar tinham consultórios e cartórios nos andares de cima. Jim foi olhando para todas as portas até encontrar o número que queria. Transpos a entrada escura e subiu a escada estreita, revestida de borracha, e com tiras de latão na borda dos degraus. No cimo da escada estava acesa uma pequena lâmpada, mas das diversas portas do comprido corredor só através do vidro fosco de uma se escoava luz. Jim aproximou-se, viu o número «16» no vidro e bateu.

— Entre! — ordenou uma voz forte.

Jim abriu a porta e entrou num pequeno escritório que continha uma secretária, um ficheiro metálico, uma cama do exército e duas cadeiras de espaldar alto. Em cima da secretária estava uma chapa elétrica, sobre a qual fumegava e fervilhava uma cafeteirinha de lata. O homem sentado à secretária olhou-o solenemente, passou uma vista de olhos pelo cartão que tinha à frente e perguntou:

— Jim Nolan?

— Sim.

O recém-chegado observou com atenção o homem baixo, de correto fato escuro. Penteava o cabelo basto para baixo, do alto da cabeça, para cada um dos lados, numa tentativa vã para disfarçar a cicatriz branca, com 1,5 cm de largura, que lhe marcava horizontalmente a orelha direita. Os olhos vivos e pretos, olhos irrequietos e nervosos que não paravam: de Jim para o cartão e deste para o calendário da parede, Para um despertador e novamente para Jim. Tinha o nariz grande, grosso em cima e estreito na ponta, e a boca poderia ser simultaneamente cheia e agradável se a tensão muscular constante não a apertasse com força e não tivesse transformado cada um dos lábios numa linha funda. Embora o indivíduo não devesse ter mais de quarenta anos, o seu rosto apresentava dois sulcos vincados, parentéticos, de resistência ao ataque. As mãos, tão nervosas como os olhos, eram grandes - quase excessivamente grandes em relação ao corpo - com dedos compridos de pontas espatuladas e unhas grossas e planas. moviam-se pela secretária como as mãos exploradoras de um cego, apalpando papéis e contornando os cantos do móvel, ou tocavam sucessivamente cada um dos botões do colete do homem. A mão direita estendeu-se para a chapa elétrica, e puxou a ficha.

Jim fechou a porta e aproximou-se calmamente da secretária.

— Mandaram-me vir aqui. — informou.

De súbito, o homem levantou-se e extendeu a mão direita.

— Sou Harry Nilson. Tenho aqui a sua inscrição. — Jim apertou-lhe a mão — Sente-se, Jim. — a voz nervosa era suave, de uma suavidade conseguida com esforço. Jim puxou a cadeira livre e sentou-se junto da secretária. Harry abriu uma gaveta e tirou uma lata de leite aberta, com os buracos tapados com fósforos, uma chávena de açúcar e duas canecas de louça grosseira. — Vai uma caneca de café?

— Com certeza.

Nilson deitou o café forte nas canecas.

— Vou-lhe explicar como procedemos com os pedidos de filiação. O seu cartão seguiu para o comitê de admissão e eu tenho de falar consigo e fazer um relatório. O comitê estuda o relatório e depois vota a sua admissão ou não admissão. Por isso, se eu o interrogar a fundo, compreenda que tem de ser mesmo assim. — deitou leite no seu café, levantou a cabeça e os seus olhos sorriram, por instantes.

— Compreendo, claro. — declarou Jim — já constou que vocês são mais seletos do que o Union League Club.

—Temos de ser, com a breca! — empurrou a chávena do açúcar para Jim e perguntou- lhe, de súbito: — Porque quer entrar para o Partido?

Jim mexeu o café e franziu o rosto para se concentrar. Baixou a cabeça, e respondeu:

— Bem, podia indicar-lhe uma quantidade de pequenas razões. Trata-se, principalmente do seguinte: toda a minha família foi destruída por este sistema. O meu velho, o meu pai, levou tanta porrada por causa de problemas laborais que acabou por se tornar malhadiço; a pancada era uma espécie de bebedeira para ele. Meteu-se-lhe na cabeça que havia de dinamitar um matadouro onde trabalhava. Bem, acabou por levar.        

Nilson puxou uma folha de papel e tomou alguns apontamentos.

— Como aconteceu isso de o prenderem por vagabundagem?

— Eu trabalhava no Tulman's Department Store, era chefe da seção de embalagem. — respondeu Jim, em tom veemente — Uma noite fui ao cinema e, ao regressar a casa, vi uma multidão na Lincoln Square. Parei para ver o que se passava, No meio do parque estava um típo a falar. Subi para o pedestal da estátua do senador Morgan, para ver melhor, e de repente ouvi as sereias. Deixei-me ficar a ver as brigadas contra desordens que avançavam do outro lado do parque... e não reparei que vinha outra pela retaguarda, também. Um chui bateu-me mesmo na nuca. Quando recuperei os sentidos já estava registrado como vadio. Estive atordoado muito tempo... o tipo bateu-me mesmo aqui. — Jim levou os dedos à base do crânio — Bem, disse-lhes que não era vagabundo, que tinha emprego, e pedi-lhes que telefonassem a Mr. Webb, o gerente do Tulmain's,. e eles telefonaram. Webb perguntou onde me tinham apanhado, o sargento respondeu que tinha sido num comício radical e o tipo declarou que nunca ouvira falar em mim. Por isso fiquei dentro.

Nilson ligou de novo a chapa elétrica. O café começou a fazer barulho na cafeteira.

— Mas você parece meio bêbedo, Jim. Que se passa?

— Não sei. Sinto-me morto. Todo o passado desapareceu. Despedi-me da pensão antes de cá vir, embora aínda tivesse uma semana paga. Não quero voltar a nada do que deixei para trás. Quero desligar-me por completo, acabar com tudo.

Nilson voltou a encher as canecas de café.

— Escute, Jim, desejo dar-lhe uma ideia do que é ser membro do Partido. Terá ensejo de votar em todas as declarações, mas uma vez a votação feita será obrigado a obedecer ao que for decidido. Quando temos dinheiro, tentamos dar aos ativistas vinte dólares por mês, para comerem.. . Mas não me lembro de termos tido dinheiro para isso uma única vez. Agora ouça em que consiste o trabalho: no campo, terá de trabalhar ao lado dos homens e, depois, de fazer o trabalho do Partido, umas vezes dezasseis, outras até dezoito horas por dia, terá de arranjar comida onde puder. Acha que consegue aguentar isso?

— Acho.

Nilson tocou com as pontas dos dedos em várias coisas da secretária.

— Na maior parte das vezes, até as pessoas que estiver a tentar ajudar o odiarão. Sabia isso?

— Sabia.

— Nesse caso, porque quer filiar-se?

Os olhos cinzentos de Jim semicerraram-se, numa expressão de perplexidade. Por fim respondeu:

— Na prisão havia alguns homens do Partido. Conversaram comigo. A minha vida inteira tem sido uma confusão, uma desordem. A deles não. Eles trabalhavam para qualquer coisa, com um fim, e eu também quero trabalhar para qualquer coisa. Sinto-me morto. Pensei que talvez pudesse voltar a viver.

— Compreendo. — murmurou Nilson, a acenar com a cabeça — Pode ter a certeza de que compreendo. Quanto tempo andou na escola?

— Frequentei o segundo ano secundário e depois fui trabalhar.

— No entanto, fala como se tivesse mais estudos.

— Li muito. — explicou Jim, a sorrir — O meu velho não queria que eu lesse, dizia que acabaria por abandonar a minha própria gente. Mas eu lia, na mesma. Um dia conheci um homem no parque e ele passou a fazer listas de coisas para eu ler. Oh, li muito e muito variado! O tipo fazia listas com: A República de Platão, e a Utopia, e Bellamy, e Heródoto, e Gibbon, e Macaulay, e Carlyle, e Prescott, e Espinosa, e Hegel, e Kant, e Nietzsche, e Schopenhauer... Até me obrigou a ler O Capital! Ele próprio dizia que era chalado, que gostava de saber coisas sem acreditar nelas. Gostava de agrupar livros que apontavam todos na mesma direção.

Harry Nilson não disse nada, durante um bocado.

— Espero que compreenda por que motivo precisamos de ser tão cuidadosos. — observou, por fim — Só temos dois castigos: reprimenda ou expulsão. É preciso ter uma vontade muito grande de pertencer ao Partido. Vou recomendá-lo, porque penso que é um bom homem. No entanto, talvez o recusem, na votação.

— Obrigado!

— Agora escute: tem alguma pessoa de família que possa ser prejudicada se você usar o seu nome verdadeiro?

— Tenho um tio chamado Theodore Nolan. É mecânico. Nolan é um apelido muito corrente.

— Sim, creio que é. Tem algum dinheiro?

— Cerca de três dólares. Tinha mais, mas gastei-o no funeral.

— Onde tenciona ficar?

— Não sei. Cortei com tudo, para começar de novo. Não quis deixar nada pendente.

Nilson olhou para a cama de campanha e disse:

— Eu vivo neste escritório. Como, durmo e trabalho aqui. Se não se importa de dormir no chão, poderá ficar alguns dias. Jim sorriu, satisfeito.

— Ficarei com muito gosto. As tarimbas da cadeia não eram mais macias do que o seu chão.

— Já jantou?

— Não. Esqueci-me.

— Se lhe apetecer pensar que me estou a pendurar, pense. — resmungou Nilson, irritado — Mas a verdade é que não tenho dinheiro nenhum e você tem três dólares.

Jim deu uma gargalhada.

— Venha daí, compraremos arenques secos, queijo e pão e o necessário para fazer um guisado, amanhã. Sei fazer um bom guisado.

Harry Nilson deitou o resto do café nas canecas e comentou:

— Está a acordar, Já está com melhor cara. Mas não imagina no que se vai meter. Poderia informá-lo. mas isso não serve de nada enquanto não passamos pelas coisas.

— Já alguma vez teve um emprego em que quando adquiria prática suficiente para ser aumentado, era despedido e substituído por outro? Já alguma vez trabalhou nalgum lado em que falassem de lealdade para com a firma, lealdade que sígnificava espiar as pessoas que o cercavam? Com mil raios, não tenho nada a perder!

— Nada exceto ódio. — disse Harry, calmamente — Ficará surpreendido quando verificar que deixou de odiar as pessoas. Não sei porque é, mas costuma acontecer isso.

 

JIM passara o dia todo impaciente. Harry Nilson, que elaborava um comprido relatório, olhara diversas vezes para ele, exasperado.

— Escute, — disse por fim — pode ir até lá sozinho, se quiser. Nada o impede. No entanto, daqui a uma hora, poderei ir consigo. Tenho de acabar esta coisa.

— Tenho estado a pensar se deverei mudar de nome. Tenho estado a pensar se a mudança de nome exerce algum efeito sobre nós...

Nilson voltou a prestar atenção ao relatório, depois de lhe dizer:

— Um tipo recebe algumas missões duras, de vez em quando vai parar à cadeia e muda de nome algumas vezes. Por isso, um nome acaba por não significar mais do que um número.

Jim parou à janela, a olhar para o exterior. Defronte erguia-se um muro de tijolo, que limitava o outro lado de um estreito terreno vago, entre dois edifícios. Um grupo de rapazes jogava handebol, contra o muro, e os seus gritos ouviam-se, embora abafados, através da janela fechada.

— Quando era miúdo brincava assim, em terrenos desocupados. — observou Jim — Parece-me que brigávamos a maior parte do tempo. Pergunto a mim mesmo se os miúdos de hoje brigarão tanto como dantes.

— Claro que brigam. — respondeu Harry, sem deixar de escrever — Às vezes vejo-os, daí. Claro que brigam.

— Tive uma irmã.. — prosseguiu Jim — Era capaz de vencer praticamente todos os rapazes. Nunca vi ninguém jogar melhor ao berlinde do que ela. Palavra, Harry, vi-a lascar uma ágata a três metros, e com os nós dos dedos para baixo.

— Não sabia que tinha tido uma irmã. — observou Harry, levantando a cabeça — Que lhe aconteceu?

— Não sei.

— Não sabe?

— Não. Foi engraçado... não, não era isso que queria dizer. Não teve graça nenhuma. Foi uma daquelas coisas que acontecem.

— Que quer dizer? Como é possível que não saiba o que lhe aconteceu? — Harry largou o lápis.

— Bem. eu conto-lhe o que se passou. Chamava-se May e era um ano mais velha do que eu. Dormimos sempre na cozinha. Cada um tinha o seu divã. Quando May andava pelos catorze anos e eu pelos treze, ela pendurou um lençol ao canto, para fazer uma espécie de armário onde se vestia e despia. Começou também a dar gargalhadinhas por tudo e por nada. Costumava sentar-se nos degraus da casa, com outras raparigas, e dava gargalhadinhas com elas quando os rapazes passavam. Tnha cabelo louro e creio que era a modos que bonita. Bem, uma noite regressei a casa depois de ter estado a jogar bola no cruzamento da 23 e da Fulton — nessa altura era um terreno vago, mas agora há lá um banco. Subi para o nosso andar e a minha mãe perguntou-me: «Viste a May na escada?» Respondi que não. Pouco depois chegou o meu velho do trabalho, e perguntou: «Onde está a May?» A minha mãe respondeu-lhe: «Ainda não veio.» É engraçado como toda esta história está viva na minha memória Harry. Lembro-me de todos os pormenores, do que toda a gente disse e do aspecto de todos. Esperamos um bocado, sem jantar, mas a certa altura o meu velho espetou o queixo, furioso, e ordenou; «Põe a comida na mesa. A May anda a armar em esperta, já se julga muito crescida para levar tareia. » A minha mãe tinha olhos azuis claros. Lembro-me de que pareciam pedras brancas. Bem, depois do jantar, o velho sentou-se na sua cadeira, junto do fogão, e foi ficando cada vez mais danado. A minha mãe sentou-se ao lado dele e eu fui para a cama. Vi a minha mãe virar a cara, para o meu pai não a ver, e começar a mexer os lábios. Creio que estava a rezar. Era católica, mas o meu pai detestava igrejas. De vez em quando, o velho resmungava, a dizer o que faria à May quando ela chegasse. Cerca das onze horas foram os dois para o quarto, mas deixaram a luz da cozinha acesa. Ouvi-os falar durante muito tempo. Acordei duas ou três vezes, de noite, e vi a minha mãe a espreitar do quarto. Os seus olhos pareciam mesmo pedras brancas. Quando acordei, na manhã seguinte, o sol brilhava, mas a luz ainda estava acesa. Causa uma sensação estranha, uma sensação de solidão, ver uma luz acesa de dia. Pouco depois a minha mãe saiu do quarto e acendeu o fogão. Tinha o rosto rígido e os seus olhos quase não se mexiam. Depois saiu o meu pai. Dir-se-ia que lhe tinham batido mesmo entre os olhos, que o tinham derrubado. Não era capaz de dizer uma palavra. Só pouco antes de sair para o trabalho é que murmurou: «Acho que vou passar pela esquadra. Talvez ela tenha sido atropelada. » Bem, fui para a escola e assim que as aulas acabaram regressei a casa. A minha mãe pediu-me que perguntasse a todas as raparigas se tinham visto a May. Entretanto, espalhara-se a notícia de que a minha irmã desaparecera. As outras raparigas disseram que não a tinham visto e o caso pareceu deixá-las a todas nervosas. Depois o meu pai chegou a casa. Tinha voltado à esquadra, no regresso. «Os chuis tomaram nota da descrição dela. — informou — Disseram que ficariam de olhos bem abertos. » Essa noite foi exatamente igual à anterior, com o meu velho e a minha mãe sentados ao lado um do outro. Só com a diferença de que o meu pai não disse nada, nessa segunda noite. Voltaram a deixar a luz acesa até de manhã. No dia seguinte o velho voltou à esquadra. A Polícia mandou um detetive interrogar os miúdos do quarteirão e um polícia falou com a minha mãe. Por fim repetiram que ficariam de olhos abertos. E pronto. Nunca mais ouvi falar dela.

Harry partiu o bico do lápis, ao bater furiosamente com ele no tampo da secretária.

— Ela andava com alguns rapazes mais velhos, com os quais pudesse ter fugido?

— Não sei. As raparigas disseram que não, e elas deveriam saber.

— Mas você não faz nenhuma ideia do que lhe poderá ter acontecido?

— Não. Um dia ela desapareceu, sumiu-se. Aconteceu a mesma coisa à Bertha Riley, dois anos mais tarde: sumiu-se também.

Jim apalpou a linha do queixo, antes de acrescentar:

— Talvez tenha sido imaginação minha, mas pareceu-me que a minha mãe ainda se tornou mais calada do que antes. Mexia-se a modos como uma máquina e raramente dizia fosse o que fosse. Os seus olhos adquiriram uma expressão apagada, sem vida. Mas o meu velho ficou mais doido furioso do que antes. Tinha de lutar contra tudo com os punhos. Foi para o trabalho e desancou o capataz do armazém frigorífico Monel. Depois foi condenado a noventa dias por agressão.

Harry estava a olhar para a janela. De súbito, largou o lápis e levantou-se.

— Vamos! Vou levá-lo à casa e livrar-me de si. Tenho de acabar o relatório. Fica para quando voltar.

Jim foi ao irradiador buscar dois pares de peúgas úmidas, que enrolou e meteu no saco de papel.

— Seco-as na outra casa. — murmurou.

Harry pôs o chapéu, dobrou o relatório e guardou-o na algibeira.

— De vez em quando os pulas metem aqui o nariz. — explicou — Nunca deixo cá nada. Fechou o escritório à chave, quando saíram.

Atravessaram o centro comercial da cidade e passaram por quarteirões de prédios de apartamentos. Por fim chegaram a um bairro de casas velhas, cada uma erguida no seu próprio quintal.

Harry meteu por um caminho de carros e anunciou:

— Cá estamos. É nas traseiras desta casa.

Seguiram pelo caminho ensaibrado e nas traseiras encontraram uma casinha pintada havia pouco tempo. Harry abriu a porta e fez sinal a Jim para entrar.

A casa constava de uma sala grande e uma pequena cozinha. Na sala havia seis divãs de ferro, com cobertores do exército. Estavam lá três homens, dois deitados e um, forte e com cara de pugilista culto, a escrever vagarosamente à máquina.

Levantou bruscamente a cabeça, quando Harry abriu a porta, e depois levantou-se e aproximou-se, a sorrir.

— Olá, Harry! Que se passa?

— Este é Jim Nolan, lembras-te? Falou-se do nome dele, na outra noite. Jim, este é o Mac. Sabe mais de trabalho no campo do que qualquer pessoa deste estado.

— Prazer em vê-lo, Jim. — declarou Mac, a sorrir.

Ao virar-se para se ir embora Harry recomendou:

— Cuida dele, Mac, põe-no a trabalhar. Eu tenho de acabar um relatório. — acenou aos dois homens deitados: — Adeus, rapazes.

Quando a porta se fechou, Jim olhou em seu redor. As paredes de madeira estavam nuas e só havia uma cadeira: a que estava defronte da máquina de escrever. Da cozinha vinha o cheiro de carne enlatada a ferver. Olhou de novo para Mac, para os seus ombros largos e braços compridos e para a sua cara, larga entre as maçãs do rosto e plana sob os olhos, como a de um sueco. Mac tinha os lábios secos e gretados. Observou Jim tão perscrutadoramente como estava a ser observado.

— É pena não sermos cães, pois resolveríamos o assunto num instante. — disse, de súbito — Ou ficaríamos amigos ou já estaríamos a lutar. O Harry disse que você era fixe, e ele sabe. Venha conhecer os rapazes. Aqui este pálido é o Dick, um radical de quarto de cama. Arranjamos muitos bolos graças ao Dick.

O rapaz pálido e de cabelo escuro, deitado na cama, sorriu e estendeu a mão.

— Está a ver como é bonito? — prosseguiu Mac — Crismamo-lo de «Chamariz». Ele fala das classes trabalhadoras às damas e elas dão-nos bolos com cobertura cor-de-rosa. Não é verdade, Dick?

— Vai para o Inferno. — replicou o outro, sorridente.

Mac deu o braço a Jim e virou-o para o homem da outra cama, cuja idade era impossível calcular. Tinha o rosto mirrado e deformado, o nariz achatado e o queixo forte torcido para o lado.

— Este é Joy. — apresentou Mac — É um veterano. Não é verdade Joy?

— Verdadíssima! — os olhos do homem iluminaram-se, mas a luz voltou a abandoná-los quase instantaneamente, enquanto ele acenava com a cabeça diversas vezes; abriu a boca para falar, mas limitou-se a repetir: — Verdadíssima! — muito solenemente, como se essa palavra pusesse ponto final a uma discussão.

Acariciou uma das mãos com a outra e Jim viu que estavam ambas espalmadas e cheias de cicatrizes.

— O Joy não aperta a mão a ninguém. — explicou Mac — Tem os ossos todos partidos e um aperto de mão faz-lhe doer.

A luz lampejou de novo nos olhos do indivíduo.

— E porquê? — gritou esganiçadamente — Porque me espancaram! Algemaram-me a uma barra e bateram-me na cabeça. Fui pisado por cavalos. — voltou a gritar: — Fui espancado a mais não poder, não fui, Mac?

— Foste, sim, Joy.

— E alguma vez me acobardei? Não continuei a chamar-lhes filhos da puta até me deixarem sem sentidos.

— É verdade Joy. E se tivesses mantido a boca fechada não te teriam deixado sem sentidos.

A voz de Joy ergueu-se, frenética: — Mas eles eram filhos da puta e eu disse-lho! Não me importei que me batessem na cabeça, enquanto me mantinham as mãos algemadas. Não me importei que me pisassem. Disse-lho! Vê esta mão? Passou-lhe um cavalo por cima. Mas eu disse-lhes, não disse, Mac?

Mac inclinou-se e deu-lhe uma palmadinha.

— Claro que disseste Joy. Ninguém te obrigará a ficar calado.

— Nunca! — afirmou Joy, e a luz apagou-se-lhe mais uma vez dos olhos.

— Venha cá, Jim. — pediu Mac, e levou-no para o outro lado da sala, onde se encontrava a máquina de escrever em cima de uma mesinha — Sabe escrever à máquina?

— Um pouco.

— Graças a Deus! Pode começar já a trabalhar. — Mac baixou a voz e aconselhou: — Não ligue importância ao Joy; está meio chalado. Bateram-lhe demasiado na cabeça. Tomamos conta dele e tentamos mantê-lo afastado de sarilhos.

— O meu velho era assim. — disse Jim — Uma vez encontrei-o na rua, a caminhar para a esquerda em grandes círculos. Tive de o guiar. Um fura-greves tinha-lhe batido debaixo da orelha com uma soqueira de metal e isso pareceu afetar-lhe o sentido da orientação.

— Agora preste atenção. Isto é uma circular e eu tenho quatro cópias a papel químico na máquina. Precisamos de vinte exemplares. Importa-se de os acabar enquanto preparo qualquer coisa para jantarmos?

— Com certeza, Mac.

— Bata nas teclas com força, pois o papel químico não é muito bom.

Mack levantou-se e, depois de arregaçar cuidadosamente as mangas da camisa branca foi atrás de Mac para a cozinha.

Jim começara a escrever à máquina, com batidas pesadas e certas, quando Joy se levantou e foi ter com ele.

— Quem produz as coisas? — perguntou.

— Bem, os trabalhadores.

Estampou-se no rosto de Joy um sorriso velhaco, um sorriso muito matreiro e sabido, e ele voltou a perguntar:

— E quem recolhe os lucros?

— Os que têm capital investido.

— Mas eles não produzem nada! — gritou Joy — Que direito têm aos lucros?

Mac espreitou pela porta da cozinha e depois aproximou-se rapidamente, com uma colher de pau na mão.

— Escuta, Joy, deixa de tentar converter a nossa própria gente. Jesus, parece-me que os nossos rapazes passam a maior parte do tempo a converterem-se uns aos outros! Vai descansar, Joy. Tu estás cansado e o Jim tem que fazer. Quando ele acabar, talvez te deixe endereçar algumas das cartas.

— Deixas, Mac? Bem, eu disse-lhes, não disse, hem? Mesmo quando me estavam a espancar, disse-lhes!

Mac agarrou-lhe no cotovelo e conduziu-o devagarinho para a cama.

— Temos aqui um exemplar do New Msses. Entretem-te a ver os bonecos enquanto trato do jantar.

Jim continuou a escrever a carta. Escreveu-a quatro vezes e colocou as vinte cópias ao lado da máquina.

— Já estão prontas, Mac. — gritou, para a cozinha.

Mac veio à sala e examinou algumas das cópias.

— Escreves bem à máquina, Jim. Quase não riscas nada. Agora mete as cartas nestes sobrescritos. Endereçá-las-emos depois de comermos.

Mac encheu os pratos de carne enlatada, cenouras, batata e rodelas de cebola crua. Os homens sentaram-se cada um na sua cama, a comer. A luz era fraca, mas Mac acendeu a lâmpada forte, sem proteção, que pendia do centro do teto.

Quando acabaram de comer, Mac voltou à cozinha e regressou com um prato de bolos caseiros.

— Aqui está parte do resultado do trabalho de Dick, que utiliza o quarto para fins políticos. Cavalheiros, apresento-lhes o Du Barry do Partido!

— Vai para o Inferno! — resmungou Dick.

Mac tírou os sobrescritos fechados de cima da cama de Jim.

— Estão aqui vinte cartas, o que significa que cada um de nós tem de endereçar cinco.

Afastou os pratos que estavam em cima da mesa para o lado, tirou de uma gaveta uma caneta e um tinteiro e endereçou cuidadosamente cinco sobrescritos, copiando os nomes e as moradas de uma lista que trazia na algibeira.

— É a tua vez Jim. Faz estes cinco.

— Para que é?

— Bem, suponho que não valerá de muito, mas talvez lhes dificulte um bocadinho as coisas. O nosso correio anda a ser aberto com muita regularidade e eu pensei que complicaria um pouco a vida aos detetives se estes endereços fossem escritos com caligrafias diferentes. Metemos um de cada num marco de correio. Não se perde nada em tentar evitar aborrecimentos.

Enquanto os outros dois homens escreviam os endereços, Jim reuniu os pratos, levou-os para a cozinha e pô-los no lava-louça.

Mac estava a estampilhar as cartas e a metê-las na algibeira quando Jim voltou.

— Dick, tu e o Joy lavam a louça, esta noite; eu lavei-a sozinho ontem. — disse Mac — Vou meter as cartas no correio. Queres vir comigo, Jim?

— Quero. Tenho um dólar. Comprarei café para bebermos quando voltarmos.

Mas Mac estendeu a mão:

— Ainda aí temos café. Empregaremos o dólar na compra de selos.

Jim entregou-lhe o dinheiro e comentou:

— Fico limpo, é o último que me resta. Saiu com Mac e caminharam pela rua fora, à procura de caixas de correio.

— O Joy é realmente chalado?

— É. A última coisa que lhe aconteceu foi a pior de todas. Estava a falar numa barbearia, o barbeiro telefonou para a Polícia e os chuis não tardaram. O Joy era um lutador muito rijo e eles tiveram de lhe partir o queixo com um bastão para o deter. Depois levaram-no para o xadrez. Não compreendo como poderá ter falado muito com o queixo partido, mas deve ter atazanado um bocado o médico da cadeia, pois este declarou que não tratava de um maldito vermelho e o Joy esteve três dias inteiros com o queixo partido e sem tratamento. Depois disso ficou chalado. Suponho que em breve terá de ser internado. Levou demasiada porrada na cabeça.

— Pobre diabo.

Mac tirou o maço de sobrescritos da algibeira e escolheu cinco, cada qual na sua caligrafia.

— Enfim, o mal dele foi nunca ter aprendido a calar a boca. O Dick, por exemplo, não tem nem uma marca e apesar do seu aspecto é capaz de ser tão duro como o Joy, quando vale a pena. Mas quando o filam começa a tratar os chuis por «Senhor» e às duas por três os tipos quase lhe pegam ao colo. Quanto ao Joy, não tem mais discernimento do que um buldogue.

Encontraram a última das quatro caixas de correio à entrada da Lincoln Square e, depois de Mac lá ter metido as últimas cartas, caminharam lentamente pelo carreiro de tijolo que os bordos começavam a atapetar de folhas. Eram poucos os bancos dispostos ao longo dos caminhos que se encontravam ocupados. As luzes do parque, muito altas, estavam acesas e projetavam no chão as sombras negras das árvores. Não longe do centro da praça, erguia-se a estátua de um homem de barba e sobrecasaca. Jim apontou-a e disse:

— Eu estava em cima daquele pedestal, a tentar ver o que se passava. Um chui deve ter levantado o braço e arriado, como quem mata uma mosca. Compreendo um pouco o que o Joy sente. Só quatro ou cinco dias depois é que consegui pensar normalmente. Desfilavam-me imagens pelo cérebro, mas não conseguia captá-las. O tipo deu-me mesmo na nuca.

Mac sentou-se num banco e observou:

— Bem sei; li o relatório do Harry. Foi só por essa razão que quiseste filiar-te no Partido?

— Não. Quando fui preso, estavam outros cinco homens na minha cela, apanhados ao mesmo tempo que eu: um mexicano, um negro, um judeu e dois vulgares americanos como eu. Falaram comigo, evidentemente, mas não se tratou disso. Eu lera mais do que eles sabiam. — apanhou uma folha de bordo do chão e começou a retirar cuidadosamente o revestimento do esqueleto em forma de mão — Em casa passávamos a vida a lutar, a lutar contra qualquer coisa. a maior parte das vezes contra a fome. O meu velho lutava contra os patrões e eu lutava contra a escola. Mas perdíamos sempre. E ao fim de muito tempo creio que passou a fazer parte da nossa estrutura cerebral a convicção de que perderíamos sempre. O meu velho lutava exatamente como um gato metido num canto com uma quantidade de cães à volta. Mais cedo ou mais tarde, um cão acabaria com certeza por matá-lo, mas isso não o impedia de continuar a lutar. Compreende a sensação de inutilidade, de desespero, que isso causa? Foi nessa atmosfera que cresci.

— Claro que compreendo. Há milhões de pessoas exatamente assim.

Jim sacudiu a folha descarnada à sua frente e depois fê-la girar entre o polegar e o indicador. — Mas havia mais do que isso. A casa onde vivíamos estava sempre cheia de ódio. O ódio pairava entre aquelas paredes como fumo. Era o ódio cansado, perverso, contra o patrão, contra o diretor, contra o merceeiro quando cortava o crédito, era um ódio que nos indispunha, que nos revoltava o estômago, mas que não podíamos evitar.

— Continua. — pediu Mac — Não compreendo aonde queres chegar, mas talvez tu saibas.

Jim levantou-se bruscamente, parou diante do banco e bateu com o esqueleto da folha na palma da mão. — Quero chegar ao seguinte: naquela cela estavam cinco homens todos criados mais ou menos nas mesmas circunstâncias. Alguns deles até em circunstâncias piores. Mas, embora neles também houvesse ódio, não era do mesmo gênero. Eles não odiavam um patrão ou um carniceiro: odiavam todo o sistema de patrões, mas isso era diferente. Não era o mesmo gênero de ódio. E havia ainda outra coisa, Mac: não existia neles a sensação de inutilidade, de desespero. Estavam calmos e trabalhavam, e na sua mente, lá bem no fundo, havia a convicção de que mais cedo ou mais tarde venceriam, encontrariam o caminho de saída do sistema que odiavam. Acredita, havia naqueles homens uma espécie de tranquilidade, de serenidade.

— Estás a tentar converter-me? — perguntou Mac, sarcástico.

— Não, estou apenas a tentar explicar-te. Eu nunca conhecera esperança nem tranquilidade e estava faminto delas. Provavelmente sabia mais acerca dos chamados movimentos radicais do que qualquer daqueles homens. Lera mais, mas eles possuíam aquilo que eu queria e tinham-no obtido trabalhando.

— Bem, datilografaste algumas cartas esta noite. — observou Mac, secamente — Sentis-te melhor?

Jim voltou a sentar-se e respondeu brandamente:

— Gostei de as datilografar, Mac. Não sei porquê. Pareceu-me que estava a fazer uma coisa boa, pareceu-me que tinha algum significado. Nada do que fizera antes tivera significado, fora tudo apenas uma chatice, uma confusão. Creio que não era o fato de alguém tirar proveito da chatice que me danava, mas detestava estar na gaiola dos ratos.

Mac estendeu as pernas à sua frente e meteu as mãos nas algibeiras.

— Enfim, se o trabalho te torna feliz, espera-te um rico tempo. Se aprenderes a datilografar stencils e a manejar um copiador, quase te posso garantir vinte horas por dia. E se detestas o sistema do lucro, também te posso garantir, Jim, que não lucrarás nem um cêntimo com esse trabalho — declarou, bem disposto.

— Mac, tu és um chefe da barraca lá de baixo, não és?

— Eu? Não. Digo-lhes o que devem fazer, mas eles não são obrigados a fazê-lo. Não posso dar quaisquer ordens. As únicas ordens que têm realmente de ser obedecidas são as resultantes de uma votação.

— Bem, de qualquer modo, tens uma certa voz ativa, Mac. O que gostaria verdadeiramente de fazer seria ir para o campo. Gostaria de entrar em ação.

Mac riu baixinho.

— O que queres é castigo, não é? Não sei, mas creio que o Comitê atribuirá muito maior importância a um bom datilógrafo. Terás de adiar o romance por uns tempos... O nobre Partido atacado pela besta do capitalismo... — Mudou subitamente de tom ao prosseguir, virado para Jim: — É sempre trabalho duro e perigoso, mas não julgues que na barraca são tudo delícias. Nunca se sabe em que noite aparecerá um magote de legionários americanos atestados de uísque e de música sectária para nos desancar. Digo-te isto porque sei por experiência própria. Não há veterano como o homem que foi recrutado para a tropa e passou seis meses num campo de treino a espetar uma baioneta num saco de serradura. Os homens que estiveram nas trincheiras são em geral diferentes. Mas para incendimento puro e patriotismo de soqueiras metálicas, não há como vinte ex-soldados de campo de treino. Vinte tipos desses são capazes de defender o seu país contra cinco miúdos, em qualquer noite escura em que tenham emborcado algum uísque. Na sua maioria, eles obtiveram as fitinhas de feridos porque estavam tão bêbedos que não foram capazes de ir a um posto profilático.

— Não gostas muito de soldados, pois não, Mac? — perguntou Jim, a rir.

— Não gosto dos ex-soldados chapéu dourado. Estive na França. Lá eram gado estúpido, sincero e bom. Não gostavam daquilo, mas eram bons tipos. — a voz tornou-se-lhe mais calma e Jim viu-o sorrir, embaraçado — Entusiasmei-me, hem, Jim? Eu explico-te porquê. Uma noite, fui desancado por dez desses valentes pulhas. Depois de me deixarem sem sentidos com porrada, saltaram-me em cima e partiram-me o braço direito, e não contentes com isso deitaram fogo à casa da minha mãe. Ela teve de me arrastar para o quintal.

— Mas que aconteceu? Que andavas a fazer?

— Eu? — o sarcasmo voltara à voz de Mac — Andava a subverter o Governo. Proferira um discurso em que dissera que havia pessoas a morrer de fome. — levantou-se — Regressemos, Jim. A esta hora já devem ter lavado a louça. Não desejava mostrar-me azedo, mas aquele braço partido ainda me faz perder a cabeça.

Retrocederam lentamente. Alguns homens sentados nos bancos encolheram as pernas, para os deixarem passar..

— Se pudesses dizer uma palavrinha para que me mandem trabalhar no campo, ficaria grato. — pediu Jim.

— Está bem... mas seria melhor para ti aprender a datilografar stencils e manejar um copiador. És bom rapaz, estou contente por te termos conosco.

 

JIM estava sentado sob a lâmpada de luz forte, crua, a datilografar cartas. De vez em quando parava e escutava de ouvido atento à porta. Tirando uma cafeteira que fervilhava na cozinha, não se ouvia mais ruído nenhum dentro de casa. O barulho abafado dos elétricos, em ruas distantes, e o som de pessoas na rua, tornavam o interior da habitação ainda mais silencioso. Jim olhou para o despertador suspenso de um prego, na parede. Levantou-se e foi à cozinha, mexeu o guisado e baixou o gás, até cada bico ficar reduzido a um minúsculo globo azul. Quando voltava para a máquina de escrever ouviu passos apressados no caminho ensaibrado. Dick entrou, de rompante.

— O Mac ainda não chegou?

— Não. — respondeu Jim — Não esteve cá. Nem ele nem o Joy. Arranjaste algum dinheiro?

— Vinte dólares.

— Palavra, não sei como consegues isso, mas a verdade é que consegues. Podíamos comer um mês com esse dinheiro, mas provavelmente o Mac gastá-lo-á todo em selos. Aquele homem parece que devora selos!

— Olha, parece que estou a ouvir o Mac chegar.

— Ou o Joy.

— Não, o Joy não é.

A porta abriu-se e Mac entrou.

— Olá, Jim, olá, Dick. Hoje conseguiste apanhar algum dinheiro aos simpatizantes?

— Vinte dólares.

— És um tipo porreiro!

— Escuta, Mac, o Joy fê-la bonita, esta tarde.

— Fê-la bonita o quê?

— Bem, começou a proferir um discurso doido à esquina de uma rua, um chui filou-o e ele espetou-lhe o canivete no ombro. Levaram-no e acusaram-no de agressão criminosa. Neste momento está sentado numa cela a gritar «filhos da puta» com toda a força dos seus pulmões.

— Efetivamente, esta manhã acheio mais chalupa do que de costume. Olha, Dick, tenho de partir daqui amanhã de manhã e agora preciso de fazer umas coisas. Vai a uma cabina telefónica e liga para o George Camp, Ottman 4211. Conta-lhe o que se passa e diz-lhe que o Joy é chalado. Pede-lhe que venha cá, se puder, e se apresente como advogado do Joy. Este tem um cadastro que é um mimo e está bem arranjado se o tomam em conta: seis incitamentos à desordem, vinte ou trinta prisões por vadiagem e umas doze resistências à autoridade e agressões simples. Fazem-no ver uma fona se o George não se apressar a fazer qualquer coisa. Diz-lhe que tente safá-lo como bêbedo. — fez uma pausa e acrescentou — Jesus, se uma junta de sanidade alguma vez lhe põe a mão, nunca mais soltam o pobre diabo! O George que tente convencer o Joy a calar a boca. Depois de telefonares, dá a volta do costume e tenta arranjar algum dinheiro para fiança, pelo sim, pelo não.

— Não posso comer primeiro? — perguntou Dick.

— Não, com os diabos! Chama o George. Olha, dá-me dez desses vinte dólares; o Jim e eu partimos amanhã para Torgas Valley. Depois de telefonares ao George vem comer e a seguir começa a visitar os simpatizantes, por causa da fiança. Oxalá o George consiga uma ordem de soltura sob fiança, ainda esta noite.

— Está bem. — disse Dick, e saiu apressadamente.

— Creio que terão de fechar o pobre do Joy muito em breve e definitivamente. — observou Mac, virando-se para Jim — O tipo está nas últimas. Foi a primeira vez que se serviu de um canivete.

Jim apontou uma rima de cartas acabadas, em cima da secretária:

— Aí estão, Mac, só faltam três. Para onde disseste que vamos?

— Para o Torgas Valley. Há lá milhares de hectares de maçãs prontas para colher. Deve haver muito perto de dois mil campos fruteiros. O diabo é que a Associação dos Produtores acaba de anunciar uma redução no preço a pagar aos apanhadores, que vão ficar pior que estragados. Se conseguirmos desencadear lá uns bons distúrbios, talvez possamos fazer com que alastrem aos campos de algodão de Tandale. E então, sim, teríamos alguma coisa! Isso é que seria um estardalhaço! — fungou, a aspirar o ar — O guisado cheira bem. Está pronto?

— Vou servi-lo.

Jim foi à cozinha e voltou com dois pratos de sopa dos quais emergia um monte de quadradinhos de carne, batatas, cenouras, nabos e cebolas inteiras fumegantes.

Mac pôs o prato em cima da mesa e provou.

— Que delícia! Precisa de arrefecer. O caso é o seguinte, Jim: eu sempre disse que não devíamos mandar novatos para áreas agitadas; cometem demasiados erros. Podem ler todas as táticas que quiserem, mas isso não muda. Bem, lembrei-me do que disseste no parque, na noite em que chegaste, e por isso, quando me confiaram esta missão - e trata-se de uma boa missão, - perguntei se te podia levar como uma espécie de substituto, em caso de necessidade. Tenho prática, percebes? Treinar-te-ei e depois tu poderás treinar outros homens novos. É assim como ensinar cães de caça fazendo-os correr com os veteranos, estás a topar? Aprende-se mais fazendo do que lendo seja lá o que for. Alguma vez estiveste no Torgas Valey?

Jim soprou uma batata quente.

— Nem sequer sei onde fica. Só saí da cidade quatro ou cinco vezes em toda a minha vida. Obrigado por me levares, Mac. — os pequenos olhos cinzentos brilhavam-lhe de excitação.

— Provavelmente amaldiçoar-me-ás antes de chegarmos ao fim, se arranjarmos por lá problemas. Não vai ser nenhum piquenique. Consta-me que a Associação dos Produtores está muito bem organizada.

Jim desistiu de comer o guisado quente.

— Como agiremos, Mac? Que faremos primeiro?

Mac olhou-o, viu a sua excitação e riu-se.

— Não sei, Jim. É esse o mal das leituras... Na realidade, temos de nos servir de qualquer material a que possamos deitar a mão. É por isso que nem todas as táticas do mundo servirão. Não há duas exatamente iguais. — comeu em silêncio até acabar o guisado e quando respirou saiu-lhe vapor da boca — Posso repetir, Jim? Estou esfomeado.

Jim foi à cozinha e voltou a encher-lhe o prato.

— Vou explicar-te como as coisas são — disse Mac — Torgas é um vale pequeno onde há principalmente pomares de macieiras, quase todos pertencentes a um pequeno grupo de homens. Claro que também há algumas propriedades pequenas, mas não são muitas. Quando as maçãs estão maduras, a malta das colheitas apresenta-se e apanha-as. Daí segue para sul e colhe algodão. Se pudermos iniciar a agitação nas maçãs, talvez ela alastre naturalmentte para o algodão. Sucede que os poucos tipos que são donos da maior parte do Torgas Valley esperaram que a maioria da malta das colheitas já estivesse presente para darem o golpe. Claro que os apanhadores gastaram quase tudo quanto tinham para lá chegar, como sempre. E depois os proprietários anunciaram a baixa do preço. Os apanhadores ficaram furiosos, com certeza, mas que podem fazer? Têm de apanhar maçãs para não perderem por completo o dinheiro que gastaram.

Jim esquecera-se do jantar. Distraído, mexia com a colher a carne e as batatas. Inclinou-se para a frente e perguntou: — Portanto, vamos tentar convencer os homens a fazer greve, não é?

— Certo. Talvez a coisa já esteja mesmo pronta para rebentar e precisemos de dar apenas um empurrãozinho. Organizamos os homens e depois colocamos piquetes nos pomares.

— E se os proprietários subirem os salários, para que lhes apanhem as maçãs?

Mac afastou para o lado o segundo prato vazio.

— Bem, não tardaremos a arranjar trabalho noutro lado qualquer. Com mil raios, não queremos apenas aumentos de salários temporários, embora nos agrade ver alguns pobres diabos mais abonados! Temos de ver as coisas de uma perspectiva mais vasta. Uma greve solucionada demasiado depressa não ensina os homens a organizarem-se, a trabalharem juntos. Uma greve difícil é benéfica. Queremos que os homens descubram a força que têm quando trabalham juntos.

— Bem, supõe... — insistiu Jim —...supõe que os proprietários resolvem satisfazer as reivindicações.

— Não creio que resolvam. O grosso do poder está nas mãos de um punhado de tipos, e isso torna-os sempre arrogantes. Começamos a nossa greve e o Condado de Torgas arranja um decreto que proíbe as reuniões. Que acontece? Nós reunimos os homens. Um grupo de tipos do xerife tenta dispersá-los e isso desencadeia uma desordem. Não há como uma luta para unir a malta. Bem, depois os proprietários organizam um comitê de vigilância, um magote de amanuenses idiotas ou os meus amigos da Legião Americana, a fingir que não são homens de meia-idade e a apertar bem o cinto, para disfarçar a barriga... Lá vou eu outra vez! Enfim, os vigilantes começam a disparar. Se abaterem alguns apanhadores, faremos um funeral público e depois disso teremos ação a valer. Talvez eles tenham, até de chamar a tropa. — a respiração acelerará-se-lhe, de tão excitado. — Jesus, claro que a tropa vencerá! Mas cada vez que um guarda espetar uma baioneta num apanhador de fruta, por esse país afora passarão mil homens para o nosso lado. Meu Deus, se conseguirmos que chamem a tropa! — estendeu-se na cama — Estou a ir demasiado longe nas previsões. A nossa missão consiste apenas em dar um empurrãozinho à nossa grevezinha, se pudermos. Mas, com a breca, Jim, se conseguíssemos que chamassem a Guarda Nacional, agora que as colheitas estão à porta, na Primavera teríamos o distrito organizado.

Jim acocorara-se na cama, de olhos brilhantes e dentes cerrados. De vez em quando levava nervosamente os dedos à garganta.

Mac continuou:

— Os grandíssimos idiotas julgam que podem solucionar greves com soldados. — deu uma gargalhada — Cá estou eu outra vez a falar como se estivesse em cima de um caixote de sabão! Entusiasmo-me todo e isso não é bom. Precisamos de pensar bem, com serenidade. É verdade, Jim, tens algumas calças de ganga?

— Não. Este fato é toda a roupa que tenho.

— Nesse caso, temos de te comprar qualquer coisa numa loja de roupa em segunda mão. Vais apanhar maçãs, rapaz, e dormir no mato... e depois de dez horas nos pomares terás de trabalhar para o Partido. Aliás, é o trabalho que querias.

— Obrigado, Mac. O meu velho teve de lutar sempre sozinho e foi vencido todas as vezes.

Mac aproximou-se e disse-lhe:

— Acaba essas três cartas, Jim, para depois saírmos e te comprarmos umas calças de ganga.

O sol acabava de subir acima dos edifícios da cidade quando Jim e Mac chegaram à via férrea, onde as linhas reluzentes convergiam, se separavam e alargavam, transformando-se na grande grelha dos desvios de comboios de mercadorias, cheios de vagões.

— Parece que às sete e meia parte uma composição de mercadorias, vazia. Caminhemos um pouco pela linha abaixo.

Atravessou, apressado, o desvio, na direção do ponto onde as muitas linhas se juntavam na via principal.

— Temos de entrar com ele em movimento? — perguntou Jim.

— Oh, não irá muito depressa! Já não me lembrava de que nunca tinhas saltado para um comboio de mercadorias.

Jim alargou a passada, para tentar pisar chulipa sim, chulipa não, mas verificou que não o conseguia.

— Parece-me que nunca fiz praticamente nada. — admitiu — É tudo novo para mim.

— Bem, agora é fácil. A companhia fecha os olhos e deixa a malta ir de boleia, mas antigamente era difícil. O pessoal dos comboios atirava os penduras das composições em movimento, sempre que os apanhava.

Ao lado da linha erguia-se um grande depósito de água preto, com a mangueira em pescoço de ganso empinada contra a parte lateral. A multiplitude de linhas ficara para trás e agora à sua frente, estendia-se apenas uma via de carris gastos e brilhantes como espelhos.

— O melhor é sentarmo-nos e esperarmos. — sugeriu Mac — Já não deve tardar.

Mal acabou de falar, ouviu-se o longo e solitário silvo do apito de um comboio e o ruído seco da fuga de vapor. Ao ouvirem tal sinal começaram a levantar-se homens da vala e a espreguiçarem-se indolentemente sob o frio sol matinal.

— Vamos ter companhia. — observou Mac.

O comprido comboio de mercadorias atravessou lentamente o desvio; vagões fechados vermelhos, vagões frigoríficos amarelos, plataformas de ferro pretas e vagões cisterna redondos. A locomotiva avançava a uma velocidade pouco superior à do andar de um homem e o motorista acenou com uma luva preta e lustrosa aos homens da vala.

— Vão para o piquenique? — gritou-lhes e, brincalhão, fez sair um jato de vapor branco por entre as rodas.

— Precisamos de um vagão fechado. — disse Mac — Olha, aquele ali tem a porta um bocadinho aberta. — começou a trotar ao lado do vagão e empurrou a porta — Dá uma ajuda! — gritou.

Jim agarrou a maçaneta de ferro e empurrou com toda a força. A grande porta de correr deslizou, emperrada e ferrugenta, algumas dezenas de centímetros. Mac apoiou as mãos no piso, içou-se, virou-se no ar e aterrou sentado à entrada. Afastou-se rapidamente do caminho, enquanto, Jim o imitava. O chão do vagão estava cheio de papel de revestimento, arrancado das paredes. Com os pés, Mac amontoou uma grande quantidade de papel junto de um dos lados.

— Faz o mesmo! — gritou — Dá uma boa almofada.

Antes de Jim ter acabado de amontoar o papel surgiu uma nova cabeça à porta e saltou um homem, ao qual se seguiram mais dois. O primeiro olhou rapidamente para o chão e depois aproximou-se de Mac, a quem observou:

— Ficou com quase todo, hem?

— Com quase todo o quê? — perguntou Mac inocentemente.

— O papel. Foi uma limpeza.

Mac sorriu-lhe, simpático. e redarguiu:

— Não sabíamos que teríamos companhia. — levantou-se e ofereceu: — Sirva-se, tire algum.

O homem olhou-o um momento de boca aberta e depois baixou-se e arrebanhou o papel todo.

Mac tocou-lhe ao de leve no ombro e dise, em tom monocórdico:

— Olha, vadio, larga tudo. Já que tens maiores olhos que barriga, não levas nada.

— E você é que me vai obrigar a não levar nada? — perguntou, largando o papel.

Mac inclinou-se indolentemente para trás, equilibrado nos calcanhares e com as mãos pendentes, abertas e frouxas, ao longo do corpo:

— Alguma vez foste ao Estádio de Luta Rosanna?

— Fui, e depois?

— És um grandíssimo mentiroso. — redarguiu Mac — Se lá tivesses ido saberias quem eu sou e terias mais cuidado contigo.

Estampou-se no rosto do outro uma expressão de dúvida.

Olhou, inquieto, para os dois homens que tinham saltado com ele. Um estava à porta, a olhar para a paisagem que parecia correr do lado de fora, e o outro limpava cuidadosamente o nariz, com um enorme lenço, e observava com atenção o que retirava. O primeiro homem olhou de novo para Mac e declarou:

— Não quero chatices. Só queria um pouco de papel para me sentar.

Mac acocorou-se e respondeu-lhe:

— Muito bem, podes tirar algum, mas deixa também algum.

O homem aproximou-se do monte e tirou uma pequena quantidade.

— Oh, podes levar mais do que isso!

— Não vamos para longe. — redarguiu o outro, que se sentou ao lado da porta, envolvendo as pernas com os braços e apoiando o queixo nos joelhos.

O comboio ganhava velocidade e o vagão de madeira ressoava como uma caixa de percussão. Jim levantou-se e acabou de abrir a porta, para deixar entrar o sol matinal. Sentou-se na soleira, com as pernas pendentes. Olhou um bocado para baixo, até o aparente deslizar veloz do chão o deixar tonto. Depois espraiou o olhar pelos campos de restolho amarelo que se estendia ao lado da via. O ar estava fresco e sabia agradavelmente ao fumo da locomotiva.

Passados momentos, Mac reuniu-se-lhe e gritou-lhe:

— Tem cuidado, não caias! Conheci um tipo que entonteceu, a olhar para o chão, e acabou por cair lá em baixo, de borco.

Jim apontou uma casa de lavoura branca e um barracão encarnado, semiocultos atrás de uma enfiada de eucaliptos novos.

— A região para onde vamos é tão bonita como esta?

— É mais bonita. Só se vêem macieiras, quilômetros e quilômetros delas. Nesta época devem estar todas cobertas de frutos, absolutamente cobertas... com os ramos pendentes sob o peso das maçãs que na cidade custam um níquel cada uma.

— Não sei porque não vim ao campo mais vezes. É estranho como desejamos fazer uma coisa e por isto ou por aquilo nunca a fazemos, uma vez, quando era miúdo, um desses acampamentos de férias levou cerca de quinhentos putos a um piquenique, em caminhões. Fartamo-nos de andar sempre à roda. Havia árvores muito grandes e lembro-me de que subi para a copa de uma delas e passei lá a maior parte da tarde. Pensei para comigo que voltaria ali sempre que pudesse... mas nunca voltei.

— Levanta-te Jim, e fechemos a porta. — disse Mac — Estamos a chegar a Wilson e não há necessidade de irritar os chuis dos caminhos de ferro.

Fecharam juntos a porta e, de súbito, o vagão ficou escuro e quente e a vibrar como o corpo de uma viola baixo. O ritmo da rodas nos carris tornou-se rápido, à medida que a composição abrandava, para atravessar a cidade. Os três homens levantaram-se.

— Saímos aqui. — disse o chefe do grupo. Abriu a porta uns dois palmos e os seus companheiros saltaram. Em seguida virou-se para Mac e disse-lhe: — Espero que não fique com ressentimentos, companheiro.

— Não, claro que não fico.

— Bem, até à vista. — Ssaltou e, quando aterrou, gritou: — Grandíssimo filho da puta!

Mac riu-se e fechou a porta quase por completo. Durante momentos o comboio seguiu devagar e, depois, o ritmo das rodas nos carris aumentou de novo. Mac escancarou de novo a porta e sentou-se ao sol.

— Foi uma beleza! — comentou.

— És realmente pugilista, Mac?

— Não, homem! Ele é que era um anjinho de marca maior. Calculou que eu tinha medo dele, quando lhe ofereci uma parte do meu papel. Claro que não se pode considerar uma regra geral, pois às vezes dá bronca, mas frequentemente quando um tipo tenta assustar-nos isso significa que pode ser assustado. -— virou para Jim o rosto pesado e risonho e acrescentou: — Não sei porque é, mas todas as vezes que falo contigo acabo a fazer comício ou a dar uma lição.

— Co'os diabos, Mac, gosto de ouvir!

— Creio que é por isso. Temos de saltar em Weaver e apanhar outro comboio de mercadorias que siga para leste. Weaver fica uns cento e sessenta quilômetros mais abaixo. Se tivermos sorte, chegaremos a Torgas a meio da noite. — tirou uma bolsa de tabaco e enrolou um cigarro, tendo o cuidado de afastar a mortalha do ar que se engolfava no vagão — Vai um cigarro, Jim?

— Não, obrigado.

— Não tens vícios, pois não? Mas também não és beato. Não costumas, sequer, andar com pequenas?

— Não. Noutros tempos, quando começava a ficar nervoso, ia a um bordel. Talvez não acredites, Mac, mas desde que comecei a crescer comecei também a ter medo das raparigas. Creio que tinha medo de ser caçado.

— Demasiado atraente, hem?

— Não, não se trata disso. Compreendes, todos os rapazes com quem costumava andar ficaram lixados. Costumavam tentar levar as miúdas à certa atrás das casas de madeira e no pátio da serração, mas mais cedo ou mais tarde uma delas aparecia de barriga à boca e então... Bem, Mac, eu tinha medo de ser caçado como a minha mãe e o meu velho: uma casa com duas divisões e um fogão a lenha. Não desejo luxo, palavra, mas também não quero levar a vida desgraçada que levam todos os rapazes que conheci. Lancheira de manhã, com uma fatia de torta espapaçada e um termo de café requentado...

— Se não é isso que queres, deixa-me dizer-te que escolheste um raio de uma rica vida! Quando acabarmos este trabalho verás.

— Isso é diferente. — protestou Jim — Não me importo de levar uns socos no queixo, só não quero é ser desancado até à morte, pouco a pouco. Há uma certa diferença.

Mac bocejou.

— Mas não uma diferença que chegue para me manter acordado. — declarou — Os bordéis não são muito divertidos. — levantou-se, voltou para o monte de papéis, espalhou-os, deitou-se-lhes em cima e adormeceu.

Durante muito tempo Jim continuou sentado à porta, a ver deslizar as quintas. Havia grandes hortas, com renques de alfaces redondas, da rama verde das cenouras e das folhas vermelhas da beterraba, e com água a correr e a brilhar entre os canteiros. O comboio passou por campos de alfafa e grandes vacarias brancas, das quais o vento trazia o cheiro rico e saudável do estrume e do amoníaco. Depois a composição meteu por uma passagem entre os montes e o sol deixou de brilhar. Fetos e carvalhos americanos, verdes, cresciam nos aterros íngremes. O barulho ritmado do comboio apoderou-se dos sentidos de Jim e tornou-o sonolento. Tentou afastar o sono, para poder apreciar mais campos, e abanou a cabeça violentamente, para despertar, mas por fim levantou-se, fechou a porta quase por completo e estendeu-se no seu monte de papéis. O seu sono assemelhou-se a uma caverna negra, cheia de ecos e gritos, e pareceu prolongar-se até à eternidade.

Mac teve de o sacudir diversas vezes para conseguir acordá-lo.

— É quase altura de saltarmos! — gritou-lhe.

Jim sentou-se.

— Meu Deus, já percorremos cento e sessenta quilômetros?

— Falta muito pouco. O ruído a modos que droga um tipo, não é? Nunca me consigo manter acordado num vagão fechado. Prepara-te, isto vai abrandar dentro de poucos minutos.

Jim apertou a cabeça entorpecida entre as mãos, durante um momento.

— Sinto-me estoirado. — queixou-se.

Mac escancarou a porta e recomendou:

— Salta no sentido em que seguimos e aterra a correr. — saltou e Jim imitou-o.

Jim olhou para o sol, que se encontrava quase a prumo, por cima deles. À sua frente viu o aglomerado de habitações e a sombra do arvoredo de uma cidadezinha. O comboio passou e deixou-os parados.

— Há aqui um entroncamento — explicou Mac — A linha que nos convém desvia aqui, na direção do Torgas Valley. Não passaremos pela cidade; atravessaremos os campos e encontraremos a linha do outro lado.

Atrás dele, Jim saltou uma vedação de arame farpado, atravessou um campo de restolho e desembocou numa estrada de terra solta. Contornaram os limites da cidadezinha e ao fim de uns oitocentos metros encontraram outro aterro dos caminhos-de-ferro.

Mac sentou-se e convidou Jim a sentar-se a seu lado.

— Este lugar é bom. Há muito movimento de comboios e não sei quanto tempo teremos de esperar. — enrolou um cigarro numa mortalha castanha — Jim, tens de te habituar a fumar. É um hábito social agradável. Terás de falar com uma quantidade de desconhecidos e eu não conheço nenhuma maneira mais rápida de amaciar um desconhecido do que oferecer-lhe - ou até pedir-lhe um cigarro. Além disso, muitos tipos sentem-se insultados se oferecem um cigarro e não o aceitamos. É melhor começares.

— Creio que tens razão. Quando era miúdo fumava com os outros. Pergunto a mim mesmo se ainda me agoniará...

— Experimenta. Eu enrolo-te um.

Jim aceitou o cigarro e acendeu.

— Sabe bem. Já quase me tinha esquecido do gosto.

— Mesmo que não te saiba bem, é um hábito útil, no nosso trabalho. É a única distração social que os tipos nas nossas circunstâncias têm. Escuta, vem aí um comboio. — levantou-se e acrescentou: — E parece de mercadorias.

O comboio avançava lentamente, pela linha fora.

— Oitenta e sete, com a breca! — exclamou Mac — É o nosso comboio. Na cidade disseram-me que seguia para sul... Deve ter largado alguns vagões e virado para aqui.

— Voltemos para o nosso velho vagão. — sugeriu Jim —- Agradou-me.

Quando o comboio se aproximou, saltaram de novo para o vagão e Mac instalou-se no seu monte de papéis — Podíamos ter continuado a dormir. — comentou.

Jim sentou-se novamente à porta, enquanto o comboio avançava entre montes redondos e castanhos e atravessava dois túneis curtos. Ainda sentia o gosto do tabaco na boca, um gosto que não lhe desagradava. De súbito, enfiou a mão na algibeira do casaco de cotim e gritou: — Mac!

— Que é, homem?

—Tenho aqui duas barras de chocolate que arranjei a noite passada.

Mac desembrulhou uma das barras, indolentemente, e comentou:

— Estou a ver que serás uma aquisição útil na revolução de qualquer indivíduo.

Decorrida cerca de uma hora a sonolência apoderou-se de novo de Jim. Contrafeito, fechou a porta e aninhou-se em cima dos papéis. Voltou quase ato contínuo à caverna preta e ressonante, cujos sons se transformaram em sonhos de água a cair sobre ele. Vagamente, via resíduos e bocados de madeira na água, a qual o empurrava cada vez mais para o buraco escuro que ficava abaixo do sonho.

Acordou quando Mac o sacudiu.

— Apostava que serias capaz de dormir uma semana, se te deixasse. Hoje choinaste mais de doze horas. Jim esfregou os olhos com força.

— Sinto-me outra vez estoirado. — queixou-se.

— Bem, arrebita, pois estamos a chegar a Torgas.

— Jesus, que horas são?

— Perto da meia-noite, suponho. Cá estamos. Estás pronto para saltar?

— Claro.

— Então, vamos.

O comboio afastou-se lentamente. A estação de Torgas ficava a pouca distancia e a luz vermelha do semáforo estava acesa. O guarda-freio fazia oscilar uma lanterna para trás e

para, a frente. À direita, os finos e solitários candeeíros de iluminação pública da cidade lançavam para o céu uma luminosidade pálida. O ar tornara-se frio e soprava um vento cortante e silencioso.

— Tenho fome. — anunciou Jim — Tens algumas ideias quanto a comermos, Mac?

— Espera até chegarmos a um candeeiro. Creio que tenho na lista um bom possível fornecedor.

Estugou o passo, na escuridão, e Jim trotou atrás dele. Chegaram num instante aos limites da cidade e, a uma esquina, debaixo de um candeeiro Mac parou e tirou uma folha de papel da algibeira.

— Temos aqui uma rica cidade, Jim. Quase cinquenta simpatizantes ativos, tipos com quem podemos contar para nos darem uma ajuda. Cá está o que procurava: Alfred Anderson, Towsend, entre a 4ª e a 5ª AI's Lunch Wagon. Que te parece?

— Que papel é esse?

— É uma lista de todas as pessoas da cidade que sabemos serem simpatizantes. Com esta lista podemos conseguir tudo, desde regalos de malha a uma caixa de cartuchos para caçadeira. Mas o Al's Lunch Wagon... Estes vagões convertidos em restaurantes costumam estar abertos toda a noite, Jim. A Towsend deve ser uma das ruas principais. Vamos. Deixa-me ser eu a dirigir a manobra.

Pouco depois meteram pela rua principal e percorreram-na até, quase no fim , onde havia lojas desocupadas e terrenos vagos entre os prédios, encontrarem o AJ's Lunch Wagon, uma carruagem pequena, de aspecto acolhedor, com vidros vermelhos nas janelas e uma porta de correr. Através da montra viram dois clientes sentados em tamboretes e um homem novo e gordo, com os braços pesados e brancos nus, atrás do balcão.

— Clientes de café e torta. — observou Mac — Esperemos que acabem.

Enquanto esperavam, aproximou-se um polícia, que olhou, desconfiado.

— Não quero ir para casa sem comer uma fatia de torta. — disse Mac, muito alto.

Jim reagiu imediatamente:

— Vamo-nos embora. Tenho tanto sono que não me apetece comer.

O polícia passou adiante, mas quase pareceu farejá-los, ao cruzar-se com eles.

— Julga que estamos a arranjar coragem para cravar a loja. — disse Mac, baixinho.

O polícia girou nos calcanhares e retrocedeu.

— Pronto, vai tu para casa, se queres. — resmungou Mac — Eu vou comer uma fatia de torta. Subiu os três degraus e abriu a porta de correr do restaurante. O proprietário sorriu-lhes.

— Boas noites, cavalheiros. Está a arrefecer, não está?

— Sem dúvida. — confirmou Mac, ao mesmo tempo que ia sentar-se na ponta do balcão, o mais longe possível dos outros dois clientes.

Uma sombra de contrariedade toldou o rosto de Al.

— Escutem, amigos, se não têm dinheiro podem beber uma chávena de café e comer dois sonhos, mas não peçam um jantar para depois me mandarem chamar a Polícia Jesus estou farto de mendigos!

— Café e sonhos será excelente, Alfred. — redargiu Mac, e deu uma gargalhadinha.

O proprietário olhou-o, desconfiado, tirou o barrete alto e branco de cozinheiro e coçou a cabeça.

Os clientes acabaram de beber o café ao mesmo tempo e um deles perguntou:

— Costumas dar de comer a todos os vadios, Al?

— Bem, que pode um tipo fazer? Se um indivíduo quer uma chávena de café, numa noite fria, não posso correr com ele só porque não tem um mísero níquel.

— Bem, vinte chávenas de café fazem um dólar, Al. — lembrou o cliente, a rir — Se continuas assim, acabas por fechar a loja. Vens, Will?

Levantaram-se os dois, pagaram a contta e saíram. Al saiu de trás do balcão seguiu-os e fechou bem a porta depois de eles saírem. Voltou para trás do balcão e inclinou-se para Mac, a quem perguntou:

— Quem são vocês?

Tinha braços gordos e brancos nus até aos cotovelos, e segurava num esfregão úmido com o qual limpava e tornava a limpar o balcão, em pequenos movimentos circulares. A sua maneira de se inclinar para a frente, enquanto falava, emprestava-lhe às palavras um tom de mistério.

Mac piscou o olho, muito sério, Como um conspirador, e respondeu:

— Mandaram-nos da cidade, tratar de negócios.

Um rubor de excitação animou as bochechas gordas de Al.

— Ah! Foi exatamente o que pensei quando entraram. Como souberam que podiam vir ter comigo?

Mac explicou-lhe:

— Tem sido bom para a nossa gente e nós não esquecemos essas coisas.

Al sorriu, desvanecido e importante, como se estivesse a receber um presente e não a ser cravado para uma refeição.

— Esperem... provavelmente ainda não comeram nada hoje. Preparo-lhes num instante uns bifes hamburgueses.

— Isso será ótimo! — afirmou Mac, entusiasticamente — Estamos a bem dizer esfomeados.

Al abriu o frigorífico e tirou dois punhados de carne picada, que espalmou entre as mãos. Passou um píncelinho pela chapa que tinha no fogão a gás e colocou-lhe os bifes em cima. Pôs cebola picada em cima e à volta da carne, enquanto um odor delicioso se espalhava pelo ar.

— Jesus, até me apetece saltar o balcão e aninhar-me nesse hamburguês! — exclamou Mac.

A carne chiava e a cebola começava a acastanhar. Al inclinou-se outra vez por cima do balcão e perguntou: — Que os trouxe até cá?

— Bem, vocês têm aí uma quantidade de belas maçãs... — respondeu-lhe Mac.

Al endireitou-se e apoiou-se na fortaleza gorda dos braços. Os seus olhinhos assumiram uma expressão muito sabida e secreta!

— Ah! — exclamou — Ah, estou a topá-lo!

— Não se esqueça de virar a carne. — lembrou Mac.

Al virou os bifes e comprimiu-os com a espátula. Reuniu a cebola, que se espalhara, repô-la em cima da carne e voltou a comprimir. Os seus movimentos eram muito certos e deliberados, tão certos e deliberados que faziam lembrar uma vaca a ruminar. Por fim virou-se e parou de novo diante de Mac.

— O meu velho tem um pomarzito e um bocadito de terra... Não lhe farão mal, pois não? Fui bom para vocês.

— Claro que foi bom para nós, e claro que não prejudicaremos os pequenos agricultores. Diga ao seu pai que não tem nada a recear de nós e que, se nos ajudar, arranjaremos maneira de a sua fruta ser colhida.

— Obrigado, dir-lhe-ei.

Al tirou os bifes da chapa, pôs colheradas de purâ de batata nos pratos aquecidos, abriu um buraco em cada montanha de batata e encheu as crateras brancas de molho castanho claro.

Mac e Jim comeram vorazmente e beberam as canecas de café que Al lhes pôs à frente. Depois limparam os pratos com pão e comeram o pão embebido em molho, enquanto Al voltava a encher as canecas de café.

— Foi ótimo, Al. — disse Jim — Estava esfaimado.

— Foi realmente ótimo. — confirmou Mac — Você é bom tipo, Al.

— Estaria a vosso lado se não tivesse um negócio e se o meu velho não fosse proprietário de terra. — explicou o rapaz — Creio que me destruiriam isto tudo se alguém descobrisse...

— Por nós nunca descobrirão, Al.

— Claro que não, bem sei.

— Escute, Al, já vieram muitos trabalhadores para a colheita?

— Sim, já chegou um grupo deles. Muitos comem aqui. Forneço uma refeição muito jeitosa por um quarto de dólar: sopa, carne, dois tipos de vegetais, pão e manteiga, torta e duas chávenas de café por um quarto de dólar. Contento-me com um lucro pequeno, mas vendo mais.

— Bom trabalho. — elogiou Mac — Olhe, Al, ouviu alguns dos tipos falar de um chefe?

— De um chefe?

— Sim, de um gajo que lhes diga onde devem pôr os pés.

— Percebo o que quer dizer. Mas não, não me lembro de nada desse gênero.

— Bem, onde estão os tipos reunidos?

Al esfregou o queixo mole.

— Que eu saiba, há dois grupos. Um está na Pao Road, ao longo da auto-estrada do condado, e outro encontra-se reunido junto do rio. Têm uma espécie de acampamento entre os salgueiros.

— É isso que nos interessa. Como se vai para lá?

Al esticou um dedo gordo e explicou:

— Metem por aquela rua transversal e seguem por ela até ao limite da cidade, onde encontrarão o rio e a ponte. Depois procuram um carreiro entre os salgueiros, à esquerda. Sigam-no durante uns quatrocentos metros, e pronto. Não sei quantos tipos lá se encontram.

Mac levantou-se e pôs o chapéu.

— É um tipo fixe, Al. Agora já nos saberemos orientar. Obrigado pelos morfos.

— O meu velho tem um barracão com uma tarimba, se lá quiserem ficar.

— Não podemos, Al. Se queremos trabalhar, temos de nos misturar com a malta.

— Bem, se precisarem de comer qualquer coisa, de vez em quando, apareçam. Mas escolham uma altura como esta, em que não esteja ninguém, sim?

— Esteja descansado, Al, nós compreendemos. Mais uma vez obrigado.

Mac deixou Jim sair à sua frente e depois fechou a porta.

Desceram os degraus e meteram pela rua que Al lhes indicara. À esquina, o polícia saiu de uma porta, e perguntou-lhes, ríspido:

— Qual é a vossa idéia?

Jim deu um salto para trás, surpreendido com o aparecimento súbito do polícia, mas Mac parou e respondeu calmamente:

— Somos dois apanhadores, mister. A nossa ideia e apanhar umas maçãs.

— Que fazem na rua a esta hora da noite?

— Co'os diabos, saltamos daquele comboio de mercadorias que passou há uma hora!

— E para onde vão agora?

— Pensamos acampar com a malta, junto do rio.

O polícia continuou parado diante deles e perguntou:

— Têm algum dinheiro?

— Viu-nos pagar uma refeição, não viu? Temos o suficiente para não sermos presos por vadios.

O polícia desviou-se, finalmente, e disse-lhes:

— Bem, ponham-se a andar... e desapareçam das ruas à noite.

— Pois sim, mister.

Afastaram-se rapidamente.

— Soubeste falar-lhe nas calmas, Mac.

— Porque não? Essa é a primeira lição: nunca discutas com um chui, especialmente de noite. Seria giro se apanhássemos trinta dias por vadiagem numa altura destas, não seria?

Aconchegaram os casacos de cotim ao peito e estugaram o passo. Os candeeiros tornaram-se menos frequentes.

— Como é que vais começar? — inquiriu Jim.

— Não sei. Temos de aproveitar qualquer pretexto. Partimos com um plano geral, mas os pormenores têm de ir sendo arranjados com qualquer material que nos apareça. Tudo serve. É a única coisa que podemos fazer. Observaremos a situação e depois logo se vê.

Jim estugou de novo o passo, num ímpeto de energia.

— Bem, deixa-me fazer coisas, ouviste, Mac? Não quero passar a vida só a fazer perguntas.

— Hás de ter que fazer, descansa. — respondeu-lhe o outro, a rir – Hás de ter tanto que fazer que desejarás estar de novo na cidade, com um emprego de oito horas por dia.

— Acho que não desejarei tal coisa, Mac. Nunca me senti tão bem como agora. Estou todo eufórico, tenho uma sensação agradável... Também costumas sentir isso?

— Às vezes. Mas geralmente tenho tanto que fazer que nem sei o que sinto.

Os prédios ao longo da rua tornavam-se mais velhos à medida que avançavam. Iam deixando para trás oficinas de soldadura, parques de carros usados e grandes montes de sucata, proveniente de desastres de viação e carros velhos. A luz dos candeeiros brilhava nas janelas vazias e mortas de casas velhas e descuidadas e projetava sombras de arbustos que tinham secado. Os homens caminhavam depressa, sob o aguilhão do frio noturno.

— Parece-me que já vejo as luzes da ponte. — disse Jim — Vês aquelas três luzes de cada lado?

— Vejo. Ele não disse que virássemos à esquerda?

— Sim. à esquerda.

Era uma ponte de betão de dois arcos e atravessava um rio estreito, reduzido naquela estação a um fio de água que corria indolentemente no meio de um leito arenoso. Jim e Mac atravessaram para a esquerda e, junto da margem do leito do rio, encontraram o início de um carreiro aberto entre os salgueiros. Mac seguiu à frente. Pouco depois estavam fora do alcance das luzes da ponte e cercados de matagal por todos os lados. Viam os ramos dos salgueiros recortados nos pontos mais claros do céu e, à direita, na margem do leito do rio, uma parede escura de grandes choupos do canadá.

— Não consigo ver o carreiro. — queixou-se Mac — Tenho de o procurar com os pés. — avançava cuidadosa e lentamente — Levanta os braços, para protegeres a cara.

— É isso que estou a fazer, pois há cerca de um minuto fui fustigado na boca.

Continuaram a caminhar ao longo do carreiro duro e batido. De súbito, Jim anunciou:

— Cheira-me a fumo. Já não deve ser longe.

Mac parou, de repente — Há luzes em frente. Escuta, Jim, mais uma vez, deixa-me ser eu a falar.

— Está bem.

 

O CARREIRO desembocou bruscamente numa grande clareira, tremulamente iluminada por uma pequena fogueira. Do lado oposto havia três tendas brancas, sujas, numa das quais estava a luz acesa e se viam grandes sombras pretas a mover-se na lona. Na clareira propriamente dita encontravam-se talvez uns cinquenta homens, alguns deles a dormir no chão, enchouriçados em cobertores, enquanto outros se sentavam à roda da pequena fogueira acesa no meio da clareira. Quando desembocaram do salgueiral, Jim e Mac ouviram um grito breve e agudo, rapidamente sufocado e proveniente da tenda iluminada. No mesmo instante, as grandes sombras negras moveram-se nervosamente na lona.

— Está alguém doente. — disse Mac, baixinho — Finjamos que não ouvimos nada. É sempre conveniente dar â impressão de que só nos preocupa a nossa vida.

Avançaram na direção da fogueira, onde os homens estavam sentados a envolver os joelhos com os braços.

— Podemos entrar para este clube? — perguntou Mac — Ou temos de ser eleitos?

Os rostos dos homens voltaram se para ele, rostos de barba crescida, em cujos olhos se refletia a luz da fogueira. Um deles chegou-se para o lado, para arranjar espaço, e respondeu: — O chão é grátis, homem.

— Donde venho não é. — replicou Mac, com uma gargalhadinha.

Um rosto magro brilhou, do outro lado da fogueira, e um homem disse:

— Chegou a um bom lugar, amigo. Aqui é tudo grátis: comes, bebes, automóveis, casas... Entre e sente-se para saborear um jantar de peru.

Mac acocorou-se e fez sinal a Jim, para se sentar a seu lado. Tirou a bolsa do tabaco e fez um excelente cigarro. Depois, como se a ideia lhe acudisse de repente, perguntou:

— Algum dos senhores capitalistas deseja fumar?

Estenderam-se diversas mãos e a bolsa passou de homem para homem.

— Acaba de chegar? — perguntou o da cara magra.

— É verdade. Conto apanhar umas maçãs e depois reformar-me e viver dos rendimentos.

— Sabes o que eles estão a pagar? — indagou, furioso, o mesmo homem — Quinze centimos, quinze miseráveis centimos.

— Bem, que quer você? — perguntou Mac — Jesus Cristo, homem, não tem com certeza o atrevimento de dizer que quer comer, pois não? Pode comer uma maçã enquanto trabalha. Há por aí tantas belas maçãs! — e acrescentou, em tom que se tornou duro: — E se não as apanhássemos?

— Temos de as apanhar! — gritou o da cara magra — Gastamos até ao último cêntimo para cá chegar.

Mac repetiu, docemente:

— Tantas belas maçãs! Se não as apanharmos, apodrecem.

— Se não as apanharmos, alguém as apanhará.

— E se não deixássemos ninguém apanhá-las? — insinuou Mac.

Os homens reunidos à volta do fogo tornaram-se tensos.

— Está a falar de... greve? — perguntou o da cara magra.

— Não estou a falar de nada! — replicou Mac, a rir.

Um homem baixo, que tinha o queixo apoiado nos joelhos, interveio na conversa:

— Quando London soube o que estavam a pagar quase teve um ataque. — virou-se para o homem que estava a seu lado e acrescentou: — Tu viste-o, Joe. Não teve quase Um ataque? Ficou verde. Apanhou um pau e fê-lo em fanicos, com as mãos.

A bolsa do tabaco voltou ao ponto de partida, mas quase vazia. Mac apalpou-a com os dedos e meteu-a na algibeira.

— Quem é o London?

Foi o da cara magra que lhe respondeu:

— London é um tipo porreiro... um tipo fixe. Viajamos com ele. É um grande tipo.

— O chefe, não?

— Bem, não. Não é o chefe, mas é porreiro. Viajamos a modos com ele. Devia ouvi-lo falar a um polícia! Ele...

O grito soou de novo, desta vez mais prolongado. Os homens viraram a cabeça na direção da tenda e depois olharam de novo, apáticos, para o lume.

— Está alguém doente? — perguntou Mac.

— É a nora do London. Está a ter um miúdo.

— Mas isto não é lugar para ter um miúdo! — exclamou Mac — Chamaram um médico?

— Não, homem! Onde iam arranjar um médico?

— Porque não a levam para o hospital do condado?

— Não querem malta das colheitas no hospital do condado — respondeu o da cara magra, em tom sarcástico — Não sabe isso? Não têm vagas, estão sempre cheios.

— Bem sei. — declarou Mac — Só queria saber se vocês sabiam.

Jim tremeu de frio, pegou numa vara e meteu a ponta no lume, até irromper em chamas. A mão do amigo aproximou-se sorrateiramente, na escuridão, e apertou-lhe o braço.

— Tem alguém que perceba alguma coisa do assunto? — perguntou Mac.

— Tem uma velha. — respondeu o da cara magra, cujos olhos se tornaram desconfiados com tanta pergunta — Mas que tem você com isso?

— Tenho um certo treino. — redarguiu o interpelado, em tom casual — Percebo alguma coisa do assunto e pensei que talvez pudesse ajudar.

— Bem, vá ter com o London. — aconselhou o da cara magra, que não queria responsabilidades — Nós não temos nada que responder a perguntas a respeito dele.

Mac levantou-se, fingindo não perceber a desconfiança, e declarou:

— É isso mesmo que vou fazer. Anda, Jim. London está naquela tenda com a luz acesa?

— Está, sim.

Um círculo de rostos iluminados pelas chamas acompanhou Jim e Mac com o olhar e depois as cabeças voltaram-se de novo para o fogo. Os dois homens atravessaram a clareira com cuidado, para não pisarem as trouxas de roupa em que se tinham transformado os trabalhadores adormecidos.

— Que grande aberta! — segredou Mac — Se me conseguir safar, estamos lançados!

— Que queres dizer? Não sabia que tinhas conhecimentos médicos.

—- Há muitíssima gente que também não o sabe.

Aproximaram-se da tenda em cuja lona se recortavam figuras negras.

— London. — chamou Mac.

Quase imediatamente a aba da tenda abriu-se e saiu um homem corpulento. Tinha uns ombros imensos e cabelo escuro, espetado, a formar uma tonsura, deixando o alto da cabeça completamente calvo. Um encordoado de músculos sulcava-lhe a cara e os seus olhos escuros raiados de sangue tinham a ferocidade dos de um gorila. Emanava dele uma força de autoridade, sentia-se que conduzia homens com a mesma naturalidade com que respirava. Manteve a aba da tenda fechada atrás de si, com uma das grandes mãos.

— Que querem?

— Acabamos de chegar. — explicou Mac — Uns tipos, ali junto da fogueira, disseram que estava uma rapariga a ter um filho.

— E depois?

— Pensei que talvez pudesse ajudar, uma vez que não tem médico.

London abriu a aba da tenda, para que um pouco de luz incidisse na cara de Mac.

— Que julga poder fazer?

— Trabalhei em hospitais, já tenho feito isto outras vezes... Não dá resultado correr riscos, London.

O homenzarrão baixou a voz e convidou:

— Entrem. Temos cá uma velha, mas desconfio de que é chalada. Entrem e deitem uma vista de olhos. — segurou a aba da tenda, para os deixar entrar.

A tenda estava atravancada de gente e o calor era muito. Ardia uma vela, num pires. No meio da tenda estava um fogão feito de uma lata de petróleo e, sentada a seu lado, uma mulher velha e engelhada. A um canto, de pé, encontrava-se um rapaz pálido e, encostado à parede do fundo, no chão, um colchão onde estava deitada uma rapariga nova, com rosto muito pálido, sulcado de sujidade escura, e cabelo empastado.

Os olhos dos três fitaram-se em Mac e Jim. Os da velha foram os primeiros a baixar-se de novo para o fogão em brasa enquanto ela coçava as costas de uma das mãos com as unhas da outra.

London acercou-se do colchão e ajoelhou-se. A rapariga desviou de Mac os olhos assustados e fitou-os em London.

— Temos aqui um médico. — disse o homem — Já não precisas de ter medo.

Mac olhou para a rapariga e piscou o olho. O rosto dela estava petrificado de pavor. O rapaz veio do seu canto e agarrou o ombro de Mac.

— Ela vai ficar boa, doutor?

— Claro que vai ficar boa.

Mac virou-se para a velha e perguntou-lhe:

— É parteira?

A mulher coçou as costas das mãos engelhadas e olhou-o vagamente, mas não respondeu.

— Perguntei-lhe se era parteira. — insistiu Mac, mais alto.

— Não... mas já aparei um ou dois bebês.

Mac inclinou-se, agarrou-lhe uma das mãos e aproximou dela a vela acesa. As unhas estavam compridas, partidas e sujas e a cor das mãos era cinzenta azulada.

— Se aparou alguns bebês estavam mortos. Que ia usar como pano?

A velha apontou para uma rima de jornais e guinchou:

— A Lisa ainda só teve duas dores. Temos papéis para apanhar a porcaria.

London inclinou-se para a frente, com a boca ligeiramente aberta num esforço de concentração e os olhos a fitarem os de Mac, perscrutadores. A tonsura brilhava à luz da vela.

— É verdade. Lisa teve duas dores. — corroborou — A segunda acabou há pouco.

Mac fez um pequeno gesto com a cabeça na direção do exterior. Saiu, seguido por London e Jim.

— Viu aquelas mãos. — disse a London — O miúdo poderá sobreviver, se for aparado por elas, mas a rapariga não se safará. É melhor correr com a velha.

— Então faz você o trabalho?

Mac ficou um momento silencioso, antes de responder:

— Claro que faço. Aqui o Jim ajudar-me-á um bocado, mas preciso de mais ajuda, de muito mais ajuda.

— Bem, eu ajudo. — prontificou-se London.

— Não chega. Alguns dos rapazes ali da fogueira estarão dispostos a ajudar?

— Pode ter a certeza de que estarão, se eu lho disser. — afirmou London, e soltou uma pequena gargalhada.

— Então diga-lho. Diga-lho já.

Dirigiu-se à frente dos outros para a fogueira, à roda da qual os homens continuavam sentados. Levantaram a cabeça, ao senti-los aproximarem-se.

— Olá, London. — saudou o da cara magra.

London falou-lhes em voz alta:

— Quero que vocês escutem aqui o «dótor».

Aproximaram-se mais alguns homens, que pararam à espera. Mostravam-se apáticos e ensonados, mas tinham acorrido à voz da autoridade. Mac pigarreou.

— London tem uma nora e a nora vai ter um bebê. Ele tentou interná-la no hospital do condado, mas não a aceitaram. Estão cheios e, além disso, nós não passamos de uma corja de miseráveis apanhadores de fruta. Muito bem. Já que eles não nos ajudam, temos nós de fazer o que é necessário.

Os homens pareceram tornar-se um pouco tensos e juntaram-se mais. A apatia começou a abandoná-los. Chegaram-se para mais perto da fogueira. Mac prosseguiu:

— Trabalhei em hospitais e por isso posso ajudar, mas preciso que vocês também ajudem. Temos de ajudar a nossa própria gente, pois se não formos nós a ajudá-la ninguém á ajudará.

O da cara magra empertigou-se e interrompeu:

— Está bem, amigo. Que quer que façamos?

Iluminado pela luz da fogueira, o rosto de Mac abriu-se num sorriso de satisfação e triunfo.

— Ótimo! — exclamou — Vocês sabem trabalhar juntos. Para começar, precisamos de água a ferver. Quando estiver a ferver, temos de lhe meter dentro pano branco e deixá-lo ferver também. Não me interessa onde ou como arranjem o pano. — apontou três homens e acrescentou: — Agora você e você acendam uma grande fogueira. E você arranje duas grandes vasilhas. Deve haver por aí algumas latas de vinte litros. Os restantes arranjem tecido. Tudo serve: lenços, camisas velhas, tudo, desde que seja branco. Quando a água estiver a ferver, metam-lhe os panos dentro e deixem ferver durante meia hora. Preciso de uma vasilha de água quente o mais depressa possível. — ao ver que o homens começavam a impacientar-se, Mac prosseguiu: — Esperem, há mais uma coisa. Preciso de uma boa lanterna. Arranjem-me uma. Se ninguém lha quiser dar, roubem-na. Preciso de luz.

Operara-se uma mudança, a apatia abandonara os homens. Acordaram-se os que dormiam, que se juntaram ao grupo depois de saberem o que se passava. Percorria o acampamento uma corrente de excitação, mas de uma excitação alegre. Acenderam-se fogueiras e puseram-se quatro grandes latas de água a ferver. Depois começou a aparecer o pano; todos os homens pareciam ter qualquer coisa para acrescentar ao monte. Um despiu a camisola interior, meteu-a na água e voltou a enfiar a camisa. Pareciam subitamente felizes e riam juntos enquanto partiam ramos mortos de choupos-do-canadá para alimentar o lume.

Ao lado de Mac, Jim observava toda aquela atividade.

— Que queres que eu faça?

— Anda comigo, Jim; podes ajudar-me na tenda. — nesse momento ouviu-se um grito da rapariga e Mac acrescentou, apressado: —Arranja-me uma lata de água quente o mais depressa que puderes. — estendeu um frasquinho e recomendou: — Deita umas quatro pastilhas destas em cada uma das latas grandes. Quando me levares a água entrega-me o frasquinho — e afastou-se a correr, na direção da tenda.

Jim contou as pastilhas e deitou-as nas latas e depois tirou um grande balde de água quente de uma delas e foi também para a tenda. A velha estava acocorada a um canto, para não estorvar. Coçou as mãos e olhou desconfiadamente enquanto Mac deitava duas pastilhas na água quente e mergulhava nela as mãos.

— Pelo menos podemos desinfectar as mãos. — murmurou.

— Que tem o frasco?

— Bicoloreto de mercúrio. Trago-o sempre comigo. Lava também as mãos, Jim, e depois traz-me mais água limpa.

Uma voz informou, fora da tenda:

— Tem aqui as suas lanternas, «dótor».

Mac abriu a aba da tenda e recebeu um candeeiro Rochester de torcida redonda e uma potente lanterna a gasolina.

— Um pobre diabo qualquer vai mungír as vacas às escuras. — disse a Jim.

Deu pressão à lanterna a gasolina e quando a acendeu os vidros coaram uma crua luz branca e o silvo da chama encheu a tenda. Do exterior chegava o estalar da lenha a ser partida e o som de vozes.

Mac colocou a lanterna ao lado do colchão.

— Vais ficar boa Lisa. — prometeu, ao mesmo tempo que delicadamente, tentava levantar a manta imunda que a cobria.

London e o rapaz pálido observavam-no e, num furioso acesso de pudor, a rapariga não deixava levantar a manta.

— Vamos, Lisa, preciso de te preparar. — insistiu Mac, em tom persuasivo, mas ela continuou a agarrar a manta.

London interveio:

— Faz o que ele te diz Lisa.

A rapariga fitou os olhos assustados no sogro e depois, relutantemente, largou a colcha. Mac dobrou-a para trás, para cima do peito da jovem, e em seguida desabotoou-lhe a roupa interior de algodão.

— Jim, vai lá fora buscar um pano e arranja-me sabão. Quando Jim lhe entregou um pano fumegante e um pequeno e duro bocado de sabão, Mac lavou as pernas, as coxas e o ventre da rapariga, mas fê-lo tão suavemente que parte do medo abandonou o rosto de Lisa. Os homens trouxeram os panos fervidos. O intervalo entre as dores tornou-se cada vez menor. O nascimento começou ao alvorecer. A certa altura, a tenda abanou violentamente. Mac olhou por cima do ombro e disse:

— London, o seu rapaz desmaiou. É melhor levá-lo lá para fora, para o ar.

Com uma expressão de profundo embaraço, London atravessou o débil rapaz no ombro e saiu com ele.

A cabeça do bebê apareceu. Mac amparou-a com as mãos e, enquanto Lisa gritava debilmente, o nascimento completou-se. Mac cortou o cordão umbilical com um canivete esterilizado.

O sol brilhava na lona da tenda e a lanterna continuava a silvar. Jim torceu os panos quentes e estendeu-os a Mac, para lavar o bebê pequenino e enrugado, e lavou também minuciosamente as mãos da velha antes de Mac permitir que ela pegasse na criança. Uma hora depois saiu a placenta e Mac voltou a lavar cuidadosamente Lisa.

— Agora leve toda esta porcaria lá para fora — disse a London — Queimem toda esta trapagem.

— Até os trapos que não usou? — perguntou London.

— Sim, queime tudo. Não prestam.

Tinha os olhos cansados. Lançou uma última olhadela em redor da tenda. A velha tinha o bebê embrulhado ao colo e Lisa, de olhos fechados, respirava serenamente, deitada no colchão.

— Vamos, Jim, precisamos de dormir um bocado.

Os homens dormiam novamente na clareira, e o sol incidia na copa dos salgueiros. Mac e Jim enfiaram-se numa pequena caverna, no meio do matagal, e deitaram-se juntos.

— Ardem-me os olhos e estou cansado. — murmurou Jim — Não sabia que tinhas trabalhado num hospital.

Mac cruzou as mãos debaixo da cabeça e redarguiu:

— Não trabalhei.

— Então onde aprendeste acerca de partos?

— Nunca aprendi nada, a não ser hoje. Foi a primeira vez que vi nascer uma criança. A única coisa que sabia era que a higiene tinha um papel importante. Meu Deus, que sorte ter corrido tudo bem! Se tivesse acontecido algum precalço estaríamos lixados. A velha sabia muito mais do que eu... e desconfio de que o percebeu muito bem.

— Atuaste com segurança.

— Que remédio! Temos de utilizar o material que se nos oferece, seja ele qual for. Tratáva-se de uma aberta feliz e tínhamos pura e simplesmente de a aceitar. Claro que foi agradável ajudar a pequena, mas, co'os diabos, mesmo que ela tivesse morrido... Temos de aproveitar tudo! - virou-se de lado e apoiou a cabeça no braço, a servir de almofada.

— Estou arrombado, mas sinto-me bem. Graças a uma noite de trabalho conquistamos a confiança dos homens e de London. Mais: fizemos com que os homens trabalhassem para si mesmos, em sua defesa, como um grupo. É para isso que estamos aqui, para os ensinar a lutar em grupo, como um todo. Sabes muito bem que não é só o aumento dos salários que nos interessa.

— Pois sei. Mas não sabia como irias atuar.

— Bem, só existe uma regra: usar o material de que dispusermos, seja ele qual for. Não temos metralhadoras nem soldados. Esta noite foi excelente; o material estava preparado e nós também. O London está conosco, é um chefe natural. Ensiná-lo-emos a chefiar, mas temos de proceder com o máximo cuidado. A chefia tem de partir dos homens. Podemos ensinar-lhes método, mas eles próprios é que terão de fazer o trabalho. Dentro em breve começaremos a ensinar método a London, que por sua vez poderá ensiná-lo aos homens sob a sua orientação. Verás como a história desta noite se espalhará num instante por toda a região. Já temos as coisas encaminhadas, e melhor do que eu esperava. Arriscamo-nos a, mais tarde, ir malhar com os ossos na cadeia por prática ilegal de medicina, mas se isso acontecer ainda ligará mais os homens a nós.

— Como foi que aconteceu? Tu não disseste muito, mas eles começaram a trabalhar como um relógio, e gostaram. Sentiram-se ótimos.

— Claro que gostaram. Os homens gostam sempre de trabalhar juntos, há neles uma fome, uma ânsia de trabalhar juntos. Sabias que dez homens conseguem erguer uma carga cerca de doze vezes maior do que um homem só? Basta uma pequena centelha para os lançar na ação. A maior parte das vezes mostram-se desconfiados, pois sempre que alguém os leva a trabalhar em grupo o lucro do seu trabalho é-lhes tirado; mas espera até trabalharem para si próprios e verás! Esta noite o trabalho dizia-lhes respeito, era deles, e bem viste como se desempenharam dele.

— Não precisavas de todos aqueles trapos. Porque disseste ao London que os queimasse?

— Não compreendeste, Jim? Cada homem que deu parte da sua roupa sentiu que participava, que o trabalho era seu. Sentem-se todos responsáveis pelo bebê. É seu, porque contribuíram com algo que lhes pertencia para ele. Devolver os trapos seria excluir os seus donos. Não há melhor maneira de conseguir que os homens se tornem parte de um movimento do que levá-los a contribuir com qualquer coisa para ele. Aposto que se sentem todos porreiros, neste momento.

— Hoje vamos trabalhar?

— Não. Esperemos que a história da noite passada se espalhe. Verás como amanhã estará transformada numa história formidável. Trabalharemos mais tarde; agora precisamos de dormir. Mas, Jesus, que bem nos correu tudo, até agora!

Os salgueiros buliam por cima deles e algumas folhas caiam-lhes em cima.

— Não me lembro de estar tão cansado, mas sinto-me ótimo. — observou Jim.

Mac abriu um momento os olhos e afirmou:

— Estás a sair-te muito bem, rapaz. Acho que darás um bom ativista. Ainda bem que vieste comigo. Ajudaste muito, a noite passada. Mas agora tenta fechar o raio dos olhos e da boca e dormir um bocado.

 

O SOL da tarde roçava pelas copas das macieiras e depois desfazia-se em faixas e camadas de luz oblíqua, de baixo dos ramos pejados, e projetava rodelas luminosas no chão. O espaço largo entre as árvores prolongava-se, até os renques de macieiras parecerem convergir num infinito visual. O grande pomar fervilhava de atividade. Escadas compridas encostavam-se aos ramos e nas alamedas amontoavam-se caixotes novos, amarelos. De longe chegava o ruído das máquinas calibradoras e dos martelos que fechavam os caixotes. Os homens, com os grandes baldes suspensos de cinturões, corriam pelas escadas acima, soltavam as enormes maçãs com um torcegão e enchiam os baldes até mais não poder. Depois desciam as escadas, também a correr, e despejavam os baldes nos caixotes. Camionetas avançavam por entre os renques. carregavam as maçãs colhidas e levavam-nas para a seção de calibragem e acondicionamento. Ao lado dos caixotes encontrava-se um conferente, que fazia um sinal a lápis no seu livrinho à medida que os homens dos baldes apareciam. Reinava enorme atividade no pomar. Os ramos das árvores tremiam, debaixo das escadas, e as maçãs demasiado maduras caíam no solo, com plops! surdos. Algures, escondido na copa de uma árvore, um virtuoso do assobio trinava.

Jim desceu apressadamente a escada, levou o balde para o monte de caixotes e despejou-o. O conferente, um homem novo e louro, de calças de belbutina branca, limpas, fez um sinal no livro e acenou com a cabeça.

— Não as despeje com tanta força, amigo. — advertiu — Assim ficam tocadas.

— Está bem. — redarguiu Jim e voltou para a sua escada a bater com o joelho no balde.

Subiu a escada e suspendeu o gancho do balde de um ramo. Nesse momento viu que se encontrava na árvore outro homem, que saíra da escada e estava de pé num grande ramo. O homem estendeu os braços por cima da cabeça, para uma pernada cheia de maçãs, sentiu a árvore estremecer sob o peso de Jim e olhou para baixo.

— Olá, rapaz. Não sabia que esta árvore era tua.

Jim levantou a cabeça e olhou para o velho magro, de olhos pretos e barba rala e espigada. As veias das suas mãos eram grossas e azuis e as suas pernas pareciam magras e tesas como paus, demasiado magras em contraste com os grandes pés metidos nas botifarras de sola grossa.

— Quero lá saber da árvore para alguma coisa! — respondeu-lhe Jjm — Mas você não será demasiado velho para andar por aí a trepar como um macaco?

O velho cuspiu e seguiu com o olhar a grande bola de saliva branca, até ela se esparrinhar no chão. Havia orgulho nos seus olhos remelosos.

— Isso é o que pensas. Não faltam catraios como tu a julgarem-me demasiado velho, mas eu sou capaz de trabalhar mais do que tu em qualquer dia da semana. Não te esqueças disso!

Imprimiu aos joelhos uma elasticidade forçada, enquanto falava, estendeu de novo os braços e arrancou o cacho inteiro de maçãs, com pernada e tudo. Tirou as maçãs para o balde e, desdenhosamente, atirou a pernada nua para o chão.

Ouviu-se logo a voz do conferente:

— Eh, aí em cima, cuidado com as árvores!

O velho sorriu maliciosamente, mostrando dois dentes de cima e dois dentes de baixo, amarelos, grandes e inclinados para fora, como os de um rato. — É um sacana muito atarefado, não é? — perguntou a Jim.

— Universitário. Aonde quer que vamos, tropeçamos neles.

O velho acocorou-se no seu ramo e perguntou:

— E que sabem eles? Vão para essas universidades e não aprendem coisíssima nenhuma. Aquele menino espertalhão, com o seu livrinho, não seria capaz de conservar o cu seco num estábulo. — cuspiu de novo.

— Lá gostar de armar em espertalhões, gostam. — concordou Jim.

— Mas tu e eu, — prosseguiu o velho — tu e eu sabemos... talvez não saibamos muito, admito, mas o que sabemos sabemo-lo bem.

Jim ficou um momento calado e depois espicaçou o orgulho do velho, como ouvira Mac fazer a outros homens. — Você não sabe o suficiente para não subir a árvores, já com setenta anos no lombo, e eu não sei o suficiente para usar calças de belbutina branca e fazer sinais a lápis num livrinho.

— Não temos influência nenhuma, é o que é. — rosnou o velho — Não temos influência para arranjar um trabalho fácil. Deixamo-nos pisar porque não temos influência.

— E que tenciona fazer para remediar isso?

A pergunta produziu no velho o efeito de uma picada de alfinete num balão. A sua cólera extinguiu-se e os seus olhos pareceram perplexos e um pouco assustados.

— Só Deus sabe. — murmurou — Nós resignamo-nos, mais nada. Andamos por aí fora como uma vara de porcos e um universitário dá-nos porrada no cu.

— A culpa não é dele. O rapaz limitou-se a arranjar um emprego e se o quer conservar tem de fazer o que lhe mandam.

O velho estendeu os braços para outro cacho de maçãs, colheu-as com torcidelazinhas e colocou-as uma por uma no balde com cuidado.

— Quando era novo, pensava que era possível fazer qualquer coisa, mas agora tenho setenta e um... — sua voz exprimia cansaço.

Passou uma camioneta, carregada de caixotes cheios, e o velho prosseguiu:

— Estive nas florestas do Norte quando os Wobblies andavam a pintar a manta. Sou lenhador, e dos bons, dos muito bons. Talvez tenhas reparado como trepo por uma árvore, com a minha idade? Bem, nesse tempo tinha esperanças... Claro que os Wobblies fizeram algumas coisas boas. Em vez de pias havia um buraco no chão e quanto a lugar para tomar banho, nicles. A carne estragava-se. Bem, os Wobblies obrigaram-nos a construir casas de banho e chuveiros mas, co'os diabos estragou-se tudo. — levantava automaticamente as mãos, para colher mais maçãs — Aderi a sindicatos. Elegíamos um presidente e, quando mal nos precatávamos, ele andava a beijar o cu do superintendente e a trair-nos. Pagávamos quotas e o tesoureiro pirava-se com o nosso dinheiro... Não sei, francamente. Talvez vocês, rapazes novos, consigam encontrar qualquer solução. Nós fizemos o que pudemos.

— Está disposto a desistir? — perguntou Jim, olhando-o de novo.

O velho acocorou-se no ramo e agarrou-se com uma grande mão escanzelada.

— Tenho pressentimentos na minha pele... Talvez penses que sou um velho doido. Aquelas outras coisas foram planeadas e delas não resultou nada, mas eu tenho pressentimentos...

— Que gênero de pressentimentos?

— É difícil dizer, rapaz. Um bom bocado antes de a água ferver começa a subir nas bordas, não é? É esse o gênero de coisa que sinto. Tenho trabalhado com apanhadores toda a minha vida. Não há plano nenhum nisto, é assim como a água a subir antes de ferver. — tinha os olhos vagos, sem ver, e endireitou a cabeça de modo que duas badanas de pele se lhe retesaram entre o queixo e a garganta — Talvez se tenha passado demasiada fome, talvez demasiados patrões tenham explorado os homens... Não sei. É uma sensação, uma coisa que sinto na pele.

— Mas de que se trata afinal? — perguntou Jim.

— Trata-se de ira! — gritou o velho — Aí está de que se trata. Quando um homem está prestes a lutar, quando está louco furioso, tem uma sensação de calor, de fraqueza e agonia nas tripas, não tem? Bem, é isso, com a diferença de que não se trata apenas de um homem. É como se todos eles, milhões e milhões, fossem um homem, um homem que tem sido espancado, que tem passado fome e que começa a sentir aquela coisa estranha nas tripas. A malta dos apanhadores não sabe o que está a acontecer, mas quando o calmeirão se danar, eles estarão todos com ele... e, meu Jesus, nem quero pensar no que vai ser! Rasgarão gargantas com os dentes e arrancarão beiços com as garras. É ira, é o que é. — cambaleou, no ramo, e agarrou-se melhor, para se equilibrar.

— Sinto-o na pele. — repetiu — Em todos os lados para onde vou, é como a água antes de começar a ferver.

Jim tremia de excitação.

— Tem de haver um plano! — afirmou — Quando a coisa estoirar, terá de haver um plano prontinho para a orientar, para que se colham alguns resultados.

O velho parecia cansado, depois do seu desabafo.

— Quando aquele calmeirão estoirar, não haverá plano capaz de o deter. O tipo desatará a correr como um cão raivoso e morderá tudo quanto se mexer. Passa fome há muito tempo, tem sido demasiado espezinhado... e, o que é pior, têm-lhe ferido demasiado as susceptibilidades.

— Mas se um número de homens suficiente esperasse essa explosão e tivesse um plano... — insistiu Jim.

— Oxalá eu morra antes disso acontecer. — declarou o velho, a abanar a cabeça — Rasgarão gargantas com os dentes, matarão uns aos outros, e depois de estarem todos esfalfados ou mortos voltará a ser tudo o mesmo. Quero morrer para ser poupado a isso. Vocês, novos, têm esperanças... — tirou o balde cheio do ramo — Eu não tenho esperança nenhuma. Sai do caminho, que vou descer a escada. Nós não ganhamos dinheiro a falar; isso é para os meninos universitários.                                              

Jim desviou-se para um ramo e deixou-o descer. O velho despejou o balde e foi para outra árvore. Embora Jim esperasse por ele, não voltou. A correia de calibragem continuava a deslizar ruidosamente nos cilindros e os martelos martelavam, na seção de acondicionamento. Na auto-estrada passavam grandes caminhões de transportes. Jim pegou no balde cheio e levou-o para a pilha de caixotes. O conferente fez um sinal no livro.                                              

— Ainda acaba por nos dever dinheiro, se não acelera. — observou.

— Trate lá do seu maldito livro e não se meta no resto. — replicou Jim, corando e deixando pender os ombros.

— Gajo duro, hem?

Jim dominou-se e sorriu, embaraçado.

— Estou cansado. — confessou, em tom de quem se desculpa — É um gênero de trabalho novo para mim.

— Eu compreendo. — disse o conferente louro, a sorrir — Uma pessoa torna-se muito sensível, quando está cansada. Porque não sobe para uma árvore e fuma um cigarro?

— Creio que é isso mesmo que vou fazer.

Jim voltou para a árvore, suspendeu o balde de um ramo e recomeçou a apanhar maçãs. «Até eu, como um cão raivoso!», disse em voz alta. Não devo fazer isso. Foi o que o meu velho fez. Não trabalhou mais depressa, mas reduziu os movimentos até adquirirem uma perfeição de máquina. Pouco a pouco, o sol abandonou por completo o solo e permaneceu apenas nas copas das árvores. Muito ao longe, na cidade, soou um apito. Mas Jim continuou a trabalhar, com movimentos seguros e certos. Começava a escurecer quando o barulho da seção de acondicionamento cessou, finalmente. e os conferentes gritaram:

— Desçam, homens! São horas de largar.

Jim desceu a escada, despejou o balde e empilhou-o junto dos outros. O conferente marcou os baldes e depois fez a soma da apanha. Os homens demoraram-se uns momentos a enrolar cigarros e a conversar em voz baixa, ao lusco-fusco. Afastaram-se devagar, por uma alameda abaixo, na direção de uma estrada onde ficavam os dormitórios do pomar.

Jim viu o velho à sua frente e estugou o passo, para o alcançar. As pernas magras moviam-se rigidamente.

— És outra vez tu? — comentou, quando Jim o apanhou.

— Apeteceu-me ir consigo.

— Bem, quem te impede? — era evidente que estava satisfeito.

— Tem aqui alguma família?

— Família? Não.

— Então se não tem ninguém porque não entra para uma instituição de caridade qualquer e não obriga o condado a tomar conta de si?

O velho respondeu-lhe num tom que o desdém gelava:

— Escuta, fedelho, se nunca estiveste nas florestas, isso não significa nada para ti, mas sou um derrubador de copas. Pouquíssimos derrubadores de copas chegam à minha idade. Conheci fedelhos como tu que quase morreram com ataques de coração só de me verem trabalhar. E agora aqui me tens a subir miseráveis macieiras. Eu aceitar caridade! Ao longo da minha vida fiz trabalho que exigia coragem. Estive empoleirado a 27 metros de altura e o topo partiu-se e rasgou-me o cinto de segurança. Trabalhei com tipos que ficaram feitos em polpa debaixo de um ramo. Eu, aceitar caridade! Dir-me-iam: “Dan, toma a tua sopa”, e eu molharia o pão na sopa e chuparia. Jesus, preferia atirar-me de uma macieira abaixo e partir o pescoço a aceitar! Sou um derrubador de copas.

Continuaram a caminhar, entre as árvores. Jim tirou o chapéu e levou-o na mão.

— Não ganhou nada com isso. — observou — Deram-lhe um pontapé no cu e correram consigo, quando ficou velho.

A grande manápula de Dan fechou-se no braço de Jim. logo acima do cotovelo, e apertou até lhe fazer doer.

— Tive proveitos enquanto trabalhei. — afirmou — Amarinhava por uma árvore acima e sabia que o patrão, o dono das árvores e o presidente da companhia não tinham coragem para fazer o que eu fazia. Era eu. Lá de cima, olhava de alto para tudo, e tudo me parecia pequeno. Os homens eram pequenos, mas eu estava lá em cima, eu era do meu tamanho. Tirei proveitos, olá se tirei!

— Mas quem lucrou com o seu trabalho foram eles. Foram eles que enriqueceram, e quando você já não podia trepar correram consigo.

— É verdade, foi isso que fizeram. Creio que estou a ficar muito velho, filho. Não me importo que o tenham feito, não me importo mesmo nada... estou-me nas tintas.

Em frente via-se já o barracão baixo e caiado que os proprietários tinham destinado aos apanhadores: uma construção baixa com quase cinquenta metros de comprimento, e uma porta e uma janelinha quadrada de três em três metros. Através de algumas das portas abertas viam-se candeeiros e velas acesas. Estavam diversos homens sentados à porta, a olhar para o anoitecer. Defronte da comprida construção havia uma torneira à volta da qual se reunira um magote de homens e mulheres. À medida que chegava a sua vez, os homens punham as mãos em concha sob o jorro, atiravam água para a cara e para o cabelo e esfregavam as mãos uma na outra, uns momentos. As mulheres enchiam latas e panelas. Ranchadas de crianças entravam e saíam do barracão como ratos desassossegados. Do grupo erguia-se um som de conversas fatigadas, em voz baixa. Homens e mulheres regressavam, eles do pomar e elas da seção de calibragem e acondicionamento. O armazém do pomar, brilhantemente iluminado, fora construído de maneira a formar um ângulo breve, na porta norte do barracão. Ali se vendia a crédito, contra a apresentação de folhas de trabalho, comida e roupas de trabalho. Uma bicha de homens e mulheres aguardava a sua vez, enquanto outra saía com alimentos enlatados e pães.

Jim e o velho Dan dirigiram-se para o barracão.

— Cá está o canil. — observou Jim — Penso que não seria tão mau que tivéssemos uma mulher que cozinhasse para nós.

— Creio que vou ao armazém comprar uma lata de feijões. Estes grandes idiotas pagam dezassete centimos por meio litro de feijões enlatados, quando pelo mesmo dinheiro poderiam comprar dois litros de feijão seco, que depois de cozinhados dariam quase quatro litros.

— Porque não faz isso, Dan?

— Não tenho tempo. Chego cansado e quero comer.

— Então e os outros têm tempo? As mulheres trabalham todo o dia e os homens também, e o proprietário leva mais três centimos por uma lata de feijões porque os trabalhadores estão tão cansados que não têm coragem de ir comprar mercearias à cidade.

— Tu móis e móis, hem? — perguntou Dan, virando para Jim â barba rala — Exatamente como um cachorrinho com um osso de tutano. Mordes e tornas a morder, mas não deixas marcas... e talvez não tardes a partir um dente.

— Se um número suficiente de tipos mordesse também, acabariam por abrir o osso.

— Talvez... mas há setenta e um anos que vivo com cães e homens e tenho-os visto principalmente tentar roubar o osso uns aos outros. Nunca vi dois cães ajudarem-se um ao outro para partir um osso, mas tenho-os visto morderem-se todos para o roubarem ao companheiro.

— Fala de uma maneira que um tipo sente que não vale a pena...

O velho Dan mostrou os seus quatro grandes dentes de roedor e desculpou-se:

— Tenho setenta e um anos... Continua às voltas com o teu osso e não te importes comigo. Talvez os cães e os homens já não sejam o que foram, noutro tempo.

Ao aproximarem-se do terreno entorroado um vulto saiu do meio da multidão que cercava a fonte e dirigiu-se ao encontro deles.

— Aquele é o meu companheiro. — informou Jim — É o Mac, um tipo formidável.

Mas o velho Dan respondeu-lhe grosseiramente:

— Não me apetece falar com ninguém. Creio que nem sequer aquecerei os feijões.

Mac alcançou-os.

— Olá, Jim! Como te sentes?

— Muito bem. Este é o Dan, Mac. Esteve nas florestas do Norte quando os Wobblies andaram por lá a trabalhar.

— Prazer em conhecê-lo. — disse Mac, em tom diferente — Ouvi falar desse tempo. Houve uma certa sabotagem...

O tom agradou á Dan, que redarguiu:

— Não fui nenhum Wobblie. Sou derrubador de copas. Os Wobblies eram um bando de velhacos filhos da puta, mas fizeram o trabalho. Cum raio. deitavam fogo a uma serração quase tão depressa como olhavam para elas!

— Bem, se eles fizeram o trabalho, creio que não se lhes podia exigir mais. — comentou Mac, sem abandonar o tom de deferência.

— Eram um bando de duros, um homem não tinha prazer nenhum em falar com eles. Odiavam tudo. Bem, mas vou andando, para comer os meus feijões. — virou-se para a direita e afastou-se.

Estava quase escuro. Jim olhou para o céu e viu um V a voar através dele.

— Que é aquilo, Mac?

— Patos bravos. Apareceram muito cedo, este ano. Nunca tinhas visto patos?

— Creio que não. Mas parece-me que li qualquer coisa a respeito deles.

— Olha, Jim, não te importas se jantarmos apenas sardinhas e pão, pois não? Esta noite temos umas coisas que fazer e não me convém perder tempo a cozinhar.

Jim, que ia a andar pachorrentamente, fatigado por aquele novo tipo de trabalho, sentiu os músculos retesarem-se-lhe e levantou a cabeça.

— De que se trata, Mac?

— Bem, hoje trabalhei ao lado de London e àquele tipo não escapa praticamente nada. Foi ele que avançou cerca de dois terços do caminho ao meu encontro... Agora diz estar convencido de poder influenciar este grupo de apanhadores. Conhece um tipo que dirige a modos outro grupo no maior pomar de todos: dois mil hectares de maçãs. O London está tão danado com a baixa do salário que fará seja o que for. O tal amigo dele, o da propriedade Hunter, chama-se Daküi, Esta noite vamos falar com ele.

— Puseste a coisa realmente em andamento, hem?

— Assim parece.

Mac entrou por uma das portas às escuras e pouco depois saiu com uma lata de sardinhas e um pão. Pôs o pão no degrau da entrada e abriu a lata das sardinhas.

— Sondaste os homens, como te disse, Jim?

— Não tive muita oportunidade disso, mas falei um bocado com o velho Dan.

Mac interrompeu o ato de abrir a lata.

— Para quê, homem? Que te interessou falar com ele?

— Bem, estivemos em cima da mesma árvore.

— Então porque não foste para outra? Escuta, Jim, há muitos dos nossos que desperdiçam tempo. O Joy, por exempo, seria capaz de tentar converter uma ninhada de gatinhos. Não percas tempo com velhos como esse, ele não presta. Se falares com velhos acabarás por te converter tu à desesperança. Os tipos já perderam toda a genica. — enrolou a tampa da lata até ao fim, com a chave, e colocou-a à sua frente — Toma, põe sardinhas numa fatia de pão. O London já está a jantar e não tardará a despachar-se. Vamos no Ford dele.

Jim tirou o canivete, colocou três sardinhas numa fatia de pão e carregou um bocadinho nelas. Regou-as com um pouco de azeite da lata e cobriu-as com outra fatia de pão.

— Como vai a rapariga? — perguntou.

— Que rapariga?

— A do bebê.

— Oh, vai bem. Mas pelo modo como o London fala dir-se-á que sou o próprio Deus. Já lhe disse que não sou médico, mas ele continua a tratar-me por «dótor». Tem-me numa alta conta. Sabes, ela ficará uma gajinha jeitosa com vestidos capazes e um bocadinho de pintura. Faz outra sanduíche.

Já escurecera por completo. Muitas das portas estavam fechadas e a luz fraca do interior dos quartinhos projetava quadrados luminosos no chão do exterior. Mac ia comendo a sua sanduíche.

— Nunca vi uma coleção de estafermos tão grande como a deste grupo. A única decente do acampamento tem treze anos. Admito que tem um pandeiro de dezoito anos, mas eu não estou tentado a cumprir uma pena de cinquenta anos.

— Parece que tens dificuldade em manter a tua economia fora do quarto de dormir...

— Haverá alguém que deseje mantê-la fora? — perguntou Mac, a rir — Sempre que o sol me bate nas costas toda a tarde fico em brasa. Há algum mal nisso?

As estrelas brilhantes, duras, começaram a aparecer. Não eram muitas, mas distinguiam-se perfeitamente no frio céu noturno. Dos quartos próximos vinha o rumor, que ora subia, ora descia, de muitas vozes a conversar, no meio das quais se erguia de vez em quando uma única voz clara. Jim virou-se na direção do som e perguntou:

— Que se passa ali?

— Jogo de dados. Começou cedo e eu não faço ideia do que lhes serve de dinheiro. Provavelmente já estão a jogar o salário da próxima semana... embora a maioria deles não tenha nada a receber depois de pagar ao armazém. Há bocado vi um homem comprar dois grandes boiões de mincemat (iguaria feita de sebo, passas, corintos e casca de frutas cristalizadas, geralmente utilizada para rechear tortas). É muito capaz de devorar tudo esta noite e amanhã está doente. Adquirem uma fome terrível de coisas boas. Já notaste que quando tens fome a tua mente se fixa numa única coisa? No meu caso é sempre purê de batata a escorrer manteiga derretida. Creio que este tipo de hoje andava a pensar em mincemeat há meses.

Defronte da construção surgiu um indivíduo forte que a luz das janelas iluminava à medida que ia passando por elas.

— Aí vem o London. — anunciou Mac.

Aproximou-se deles a balancear os ombros e com a calva tonsural a brilhar, branca, em contraste com a orla de cabelo preto.

— Já acabei de comer. — informou — Vamos. O meu Ford está nas traseiras.

Virou-se e retrocedeu na direção de onde viera. Mac e Jim seguiram-no. Atrás do barracão viram um Ford modelo T sem tejadilho. O oleado dos bancos estava gasto e rasgado de modo que se viam as molas e dos buracos saíam bocados de crina. London sentou-se ao volante e girou a chave.

— Dá à manivela, Jim. — disse Mac.

Jim apoiou todo o seu peso na manivela.

— Está a carregar no contato? Não quero ficar sem cabeça.

— Estou. Tire o regulador do ar. — respondeu London. A gasolina entrou, com um silvo, e Jim deu à manivela. O motor afogou-se e ,a manivela desandou velozmente.

— Quase me apanhou! Não largue o contato!

— Salta sempre um bocado. — informou London — Não lhe dê mais ar.

Jim girou de novo a manivela e o motor roncou. As luzinhas fracas acenderam-se. Jim saltou para o banco de trás, onde reinava uma barafunda de câmaras-de-ar velhas, aros de pneus e sacos de sarapilheira.

— Faz barulho, mas ainda anda. — gritou London enquanto saía em marcha-atrás e depois seguia pela estrada de cascalho através do pomar, até à estrada principal.

O carro roncava e chocalhava e o ar frio assobiava ao entrar pelo párabrisa partido, o que levou Jim a acocorar-se atrás da proteção do banco da frente. As luzes da cidade brilhavam no céu, à retaguarda deles. De ambos os lados da estrada havia grandes madeiras escuras, através das quais se coava por vezes a luz das casas. O Ford alcançou e ultrapassou grandes caminhões de transporte, caminhões-cisterna e caminhões de leite cor de prata, assinalados com luzinhas azuis. Um cão pastor saiu a correr de uma pequena casa e London guinou violentamente, para não o atropelar.

— Não durará muito. — gritou Mac.

— Detesto atropelar cães. — redarguiu London — Gatos não me importo. Matei três gatos no caminho de Radcliffe para cá.

O carro continuou a avançar, barulhento, a cerca de 50 quilômetros por hora. De vez em quando, dois dos cilindros paravam, o que fazia o motor «tossir» até os dois preguiçosos voltarem ao trabalho.

Ao fim de cerca de oito quilômetros, London afrouxou.

— A estrada deve ficar algures por aqui.

Uma enfíadazinha de caixas de correio prateadas indicou-lhe onde devia virar para a estrada de terra solta, na qual se via um arco de madeira com as palavras: “Hunter Bros Fruit Co. Maçãs Marca S.” O carro avançou lentamente, aos solavancos. De súbito um homem saiu para o meio da estrada e levantou a mão. London parou.

— Vocês trabalham aqui? — perguntou o homem.

— Não, não trabalhamos.

— Não precisamos de mais gente. Estamos cheios.

— Vimos apenas visitar uns amigos. — explicou London — Estamos a trabalhar no Talbot.

— Não vêm vender álcool?

— Claro que não.

O homem fez incidir a luz da lanterna na parte de trás do carro e olhou para a balbúrdia de ferro-velho e câmaras-de-ar velhas. A luz apagou-se.

— Está bem, mas não se demorem muito.

London carregou no pedal, a resmungar:

— Filho da puta espertalhão! Não há chuis mais bisbilhoteiros do que os particulares. Ratazana!

Virou brutalmente, numa curva, e parou atrás de um barracão muito semelhante àquele de onde tinham vindo. uma construção comprida e baixa, dividida em pequenos quartos.

— Está aqui a trabalhar um grupo muito grande. — informou London — Têm três dormitórios como este.

Apeou-se e bateu à primeira porta. Ouviu-se um resmungo, no interior, e passos pesados. A porta entreabriuse e uma mulher gorda, de cabelo espigado, espreitou pela fresta.

— Onde está instalado o Dakin? — perguntou-lhe London, brusco.

A mulher reagiu imediatamente ao tom autoritário da sua voz:

— É a terceira porta. Está lá ele, a mulher e dois miúdos.

London disse «obrigado» e afastou-se, deixando a mulher de boca aberta, como se quisesse dizer mais alguma coisa. Ela voltou a espreitar e observou os três homens, enquanto London batia à terceira porta. Só se meteu para dentro quando a porta de Dakin se fechou, depois de eles entrarem.

— Quem era? — perguntou um homem atrás dela.

— Não sei. Um grande calmeirão, a perguntar pelo Dakin.

Dakin era um homem de rosto magro, olhos velados e observadores e boca imóvel. Tinha uma voz aguda e monótona.

— Meu velho filho da mãe! Entra. Não te via desde que partimos de Radcliffe. — recuou para os deixar entrar.

— Estes são o «dótor» e o seu amigo, Dakin. -—apresentou London — O «dótor» ajudou a Lisa, na outra noite. Talvez já tenhas ouvido contar.

Dakin estendeu a Mac a mão comprida e branca.

— Claro que ouvi. Estavam lá dois tipos que trabalham aqui. Até parece que a Lisa pariu um elefante, pois não falam doutra coisa. Esta é a minha patroa, «dótor». Pode também dar uma vista de olhos aos miúdos; são fortes.

A mulher levantou-se. Era uma criatura simpática, de peito grande e cara cheia, com uma sombra de rouge nas faces e uma ponte de ouro, num dente que brilhava à luz do candeeiro.

— Prazer em conhecê-los, rapazes. — disse, em voz abafada — Querem uma chávena de café ou uma pinguita?

Os olhos de Dakin enterneceram-se um pouco, orgulhosos dela.

— Bem, apanhamos um bocado de frio, para vir até cá... — respondeu Mac, a deitar o barro à parede. A ponte de ouro cintilou.

— Já calculava. Uma pinga calha bem. — apresentou uma garrafa de uísque e um copo — Sirvam-se. Não poderão deitar mais do que pelas bordas.

A garrafa e o copo andaram de mão em mão. Mrs. Dakin foi a última a beber, depois do que rolhou a garrafa e a guardou num pequeno armário.

No aposento havia três cadeiras articuladas, de lona, e dois divãs também de lona para os garotos. Encostada à parede via-se uma grande cama de campanha.

— Está muito bem instalado, Mr. Dakin. — observou Mac.

— Tenho uma camioneta que me permite fazer uns transportes, de vez em quando, trazer as minhas coisas, quando é preciso. A patroa tem umas ricas mãos, nos bons tempos ganha dinheiro a trabalhar de empreitada, à peça.

Mrs Dakin sorriu do elogio.

De súbito, London abandonou o tom de conversa de caráter social e disse:

— Precisamos de ir falar para qualquer lado.

— Porque não falamos aqui?

— Queremos falar de um asunto particular.

Dakin voltou-se devagar para a mulher e a sua voz reassumiu o tom monótono:

— É melhor ires com os miúdos visitar Mrs. Schmidt, Alla.

O rosto da mulher denunciou a sua decepção. Os seus lábios esboçaram um trejeito de amuo e ocultaram a ponte de ouro. Olhou, por momentos, interrogadoramente para o marido, que por sua vez fitou nela os olhos frios. As compridas mãos brancas tremiam-lhe ao longo do corpo. De súbito, Mrs. Dakin voltou a sorrir, com o mesmo sorriso aberto:

— Podem ficar aqui, rapazes, e falar à vontade, já devia ter ido visitar Mrs. Schmidt há mais tempo. Henry, dá a mão ao teu irmão. — vestiu um casaco curto de pele de coelho, e ajeitou o cabelo dourado — Divirtam-se por cá.

Os homens ouviram-na afastar-se e bater a uma porta, mais adiante.

Dakin puxou as calças e sentou-se na grande cama, e depois apontou aos outros as cadeiras de lona. Os seus olhos estavam velados e inexpressivos.

— Qual é a tua ideia, London?

O interpelado coçou a cara e perguntou por seu turno:

— Que pensas da baixa do salário, quando já cá estávamos?

Os lábios compridos de Dakin estremeceram.

— Que queres que pense? Não dou vivas.

London inclinou-se para a frente na cadeira, e indagou:

— Tens alguma ideia quanto ao que se deve fazer?

— Não. — os olhos velados iluminaram-se um pouco — E tu?

— Já pensaste que nos podíamos organizar e conseguir alguma ação? — London olhou rapidamente e de soslaio para Mac.

Dakin, a quem o olhar não passou despercebido, inclinou a cabeça na direção de Mac e Jim e perguntou:

— Radicais?

Mac rie, explosivamente, e exclamou:

— Seja quem for que deseje um salário que lhe dê para viver é radical!

— Não tenho nada contra os radicais. — afirmou Dakin, depois de o fitar alguns instantes — Mas meta bem isto na cabeça: não estou disposto a ir parar à prisão seja por que grupo for. Se vocês pertencem a qualquer coisa, não quero tomar conhecimento. Tenho mulher e filhos e uma camioneta, não cumprirei nenhuma pena por o meu nome constar do livro seja de quem for. Agora, London, diz-me qual é a tua ideia.

— As maçãs têm de ser apanhadas, Dakin. E se organizássemos os homens?

Os olhos de Dakin não exprimiram nada, a não ser uma leve ameaça. Foi em voz sem timbre que respondeu:

— Muito bem, organizas os apanhadores e eles ficam todos inflamados por causa de um amontoado de tretas e votam uma greve. Passadas cerca de doze horas chega um comboio de fura-greves E depois?

London voltou a coçar a cara.

— Depois creio que organizamos piquetes.

— E eles recorrem a um decreto a proibir os ajuntamentos e mandam para cá cem ajudantes de xerife com caçadeiras.

London olhou interrogadoramente para Mac, a pedir-lhe que respondesse por ele. Mac refletiu um momento, antes de dizer:

— Pensamos apenas que gostaríamos de saber a sua opinião acerca do assunto, Mr. Dakin. Suponha que três mil homens de uma fábrica de aço entram em greve e fazem piquetes. Há uma cerca de arame à volta da fábrica e o patrão manda eletrificar a cerca com uma voltagem alta e coloca guardas no portão. Tudo isso é fácil. Mas quantos ajudantes de xerife lhe parece que serão necessários para guardar um vale inteirinho?

Os olhos de Dakin iluminaram-se um momento, mas voltaram a velar-se.

— Caçadeiras. — murmurou — Suponha que fazemos ver uma fona aos fura-greves e as caçadeiras começam a disparar. Esta malta de apanhadores sazonais não aguenta fogo. Se pensa o contrário, desiluda-se. Assim que alguém disparar uma calibre dez, correm para o mato como coelhos, E a apanha?

Os olhos de Jim pareciam saltar de um interlocutor para o outro. De súbito, intrometeu-se:

— A maioria dos fura-greves desistirá, se lhes falarmos.

— E os restantes?

— Bem, um grupo de homens rápidos podia resolver isso. Eu também ando nas árvores, a colher, e sei que os rapazes estão furiosos com a descida no pagamento. E não se esqueça de que as maçãs têm de ser apanhadas! Não se pode isolar um pomar como se isola uma fábrica de aço.

Dakin levantou-se, foi ao armário e serviu-se de uma pequena quantidade de uísque. Estendeu a garrafa aos outros, mas os três homens abanaram a cabeça.

— Dizem que temos direito à greve neste país e depois aprovam leis contra os piquetes. — murmurou Dakin — No fim de contas, resume-se tudo a termos o direito de nos irmos embora. Não gosto de me envolver em coisas deste gênero. Tenho uma camioneta.

— Para onde... — começou Jim, mas tinha a garganta seca e teve de tossir, para continuar a falar: — Para onde vai depois de apanhadas as maçãs, Mr. Dakin?

— Para o algodão.

— Bem os ranchos de lá ainda são maiores. Se aceitarmos uma baixa aqui, os tipos do algodão farão um corte ainda maior. — Mac sorriu-lhe, com um sorriso de encorajamento e elogio. — Sabe perfeitamente que farão isso mesmo. — confirmou — Farão todas as vezes, irão cortando, cortando, até os homens lutarem.Dakin repôs a garrafa em cima do armário, devagarinho, voltou para a grande cama e sentou-se. Olhou para as compridas e brancas mãos, que o uso de luvas conservava macias, e depois para o chão, por entre as mãos.

— Não quero sarilhos. A patroa os miúdos e eu temo-nos safado bem até agora... mas co'os diabos, vocês têm razão. Haverá uma baixa no algodão, tão certo como dois e dois serem quatro! Porque não deixam eles as coisas como estão?

— Parece-me que não temos outro remédio senão organizar-nos. — observou Mac.

Dakin estremeceu, nervosamente.

— Sim. também me parece... embora não o deseje muito. Que querem vocês que eu faça?

— Dakin, tu podes convencer este grupo e eu talvez possa convencer o meu. — respondeu London.

Mac interveio:

— Não se pode convencer ninguém que não queira ser convencido. Vocês dois têm de começar a falar, mais nada. Levem os homens a falar também. Eles já estão furiosos, mas ainda não discutiram o assunto. Temos de conseguir que se comece igualmente a falar em todos os outros lugares. Eles que discutam amanhã e no dia seguinte. Depois convocaremos uma reunião. A coisa alastrará depressa, com os tipos furiosos como estão.

— Lembrei-me de uma coisa. — disse Dakin — Se entrarmos em greve não poderemos acampar aqui e eles não nos deixarão acampar nas estradas, quer do condado, quer do estado. Para onde iremos?

— Já tinha pensado nisso e até tenho uma ideia. — respondeu Mac — Se houvesse uma boa propriedade privada, seria ótimo.

— Talvez, mas não se esqueça do que fizeram em Washington: expulsaram-nos a pretexto de constituírem um perigo para a saúde pública e depois queimaram as barracas e as tendas.

— Sei tudo isso, Mr. Dakin. Mas suponha que um médico tomava tudo a seu cargo... Nesse caso, pouco ou nada poderiam fazer.

— Você é realmente médico? - perguntou Dakin desconfiado.

— Não, mas tenho um amigo que é e que provavelmente não se importaria de aceitar o encargo. Tenho pensado no assunto, Mr. Dakin. Li muito acerca de greves...

— Tenho a impressão de que, no capítulo de greves, fez muito mais do que ler. — observou Dakin, com um sorriso gelado — Sabe demasiado. Não quero que me diga nada a seu respeito, não quero saber nada.

London voltou-se para Mac e perguntou-lhe:

— Pensa sinceramente que podemos vencer estes gajos, «dótor»?

— Escute, London, mesmo que percamos, faremos com certeza barulho suficiente para eles desistirem de diminuir o salário do algodão. Haverá pelo menos esse benefício, ainda que percamos.

Dakin acenou lentamente com a cabeça, a concordar. — Pois sim, começarei a falar aos homens logo de manhã. Vocês têm razão quanto aos rapazes estarem furiosos; estão danados, de fato, mas não sabem que fazer.

— Nós dar-lhe-emos uma ideia. — disse Mac — Tentem contactar com o maior número possível de outros chefes de grupo, sim? Agora creio que é melhor irmos andando. — levantou-se e estendeu a mão — Tive prazer em conhecê-lo, Mr. Dakin.

Os lábios finos de Dakin entreabriram-se e deixaram ver os dentes postiços, brancos e regulares.

— Sabe o que eu faria se tivesse dois mil hectares de maçãs? Escondia-me atrás de uma moita e quando você passasse estoirava-lhe a maldita cabeça! Evitaria uma data de sarilhos. Mas não tenho nada a não ser uma camioneta e algum material para acampamento...

— Boas noites, Mr. Dakin. — despediu-se Mac — Até à vista.

Jim e Mac saíram e ouviram London a conversar com Dakin:

—- Estes tipos são fixes. Podem ser vermelhos, mas são bons rapazes.

London saiu e fechou a porta. Um pouco mais adiante abriu-se outra porta e Mrs. Dakin saiu com os dois filhos e dirigiu-se para eles.

— Boas noites, rapazes. — despediu-se — Estava à coca, para ver quando saíam.

O Ford regressou aos trancos e solavancos e London estacionou-o nas traseiras do barracão. Mac e Jim despediram-se e foram para o seu quartinho escuro. Jim deitou-se no chão, enrolado num bocado de passadeira e numa manta, e Mac encostou-se à parede, a fumar. Passado um bocado, apagou o cigarro.

— Estás acordado, Jim?

— Estou.

— Foi uma boa cunha, Jim. A conversa estava a começar a arrastar-se quando tiveste aquela ideia do algodão. Foi uma cunha inteligente.

— Quero ajudar! Com a breca, Mac, esta história está a inflamar-me todo! Nem quero dormir, quero continuar a ajudar!

— Mas é melhor dormires. Espera-nos muito trabalho noctuo.

 

Na manhã seguinte, o vento assobiava entre os renques de macieiras, cujos ramos agitava, e as maçãs soltavam-se e caíam no chão com baques surdos. O vento trazia geada e entre as raadas adivinhava-se já a singular quietude do Outono. Os apanhadores trabalhavam a correr, com os casacos bem abotoados. Quando os caminhões de recolha possavam, levantavam uma nuvem de poeira, que o vento levava consigo.

O conferente do posto de carga vestia um casaco de pele de carneiro e quando não estava a conferir enfiava as mãos juntamente com o livrinho e o lápis, nas algibeiras do peito e batia friorentamente os pés.

Jim levou o seu balde ao posto e perguntou-lhe:

— Está friote, hem?

— Não tanto como estará se este vento não mudar. Gela os tomates de un macaco de latão.

Um rapaz carrancudo chegou e despejou o balde. Tinha as sobrancelhas escuras muito junto dos olhos, cabelo escuro e espetado, testa baixa e olhos raiados de sangue.

— Cuidado, as maçãs assim ficam tocadas. Basta uma amolgadela para apodrecerem.

— Ah, sim?!

— Sim, foi isso que eu disse. — o conferente riscou o sinal que fizera — Esse balde não conta. Experimente outra vez.

Os olhos raiados de sangue fitaram-o com hostilidade.

— Anda mesmo a pedir e há de levar a sua conta.

O conferente corou, furioso.

— Se tenciona armar em esperto o melhor é pôr-se a andar, ir-se embora.

A boca do rapaz cuspiu, venenosamente:

— Dar-lhe-emos a sua conta, há-de ser um dos primeiros. — olhou para Jim, com ar cúmplice, e acrescentou: — Não é verdade, camarada?

— É melhor continuar a trabalhar. — respondeu-lhe Jim — Não poderemos receber se não trabalharmos.

O rapaz apontou pela alameda abaixo e informou, antes de se afastar:

— Estou na quarta árvore, amigo.

— Que raio se passa? — perguntou o conferente — Estão todos melindrosos esta manhã.

— Talvez seja por causa do vento. Deve ser. O vento enerva as pessoas.

O conferente fitou-o, pois o tom da sua voz fora sarcástico.

— Você tambem?

— Também.

— Anda alguma coisa no ar, Nolan?

— «Alguma coisa» o quê?

— Sabe muito bem o que quero dizer.

Jim bateu ao de leve com o balde na perna. Desviou-se, quando um caminhão passou, e uma nuvem de poeira ocultou-o momentaneamente.

— Talvez o livrinho preto o mantenha na ignorância. Devia entregar o livrinho e depois ver se descobria o que se passa.

— É então isso... Estão a organizar-se para arranjar sarilho, não é? Bem, o ar anda cheio disso.

— O ar anda cheio é de poeira.

— Já vi esse gênero de poeira noutras ocasiões, Nolan.

— Então já sabe como é.

Começou a afastar-se, mas o outro chamou-o:

— Um momento, Nolan. — Jim parou e virou-se — Você é bom tipo e bom trabalhador. Que se passa?

— Não consigo ouvi-lo. Não sei de que está a falar.

— Porei o sinal preto no seu nome.

Jim deu dois passos na direção dele e gritou-lhe:

— Ponha o sinal preto e vá para o diabo. Eu não disse nada. Você inventou tudo isso só porque um rapaz armou em esperto consigo.

O conferente olhou à sua volta, cuidadosamente.

— Estava a brincar. Escute, Nolan, eles precisam de um conferente no extremo norte e eu pensei que você podia servir para o trabalho. Poderia começar amanhã. A paga é melhor.

Os olhos de Jim toldaram-se momentaneamente de cólera, mas depois ele sorriu e voltou a aproximar-se do conferente.

— Que quer? — perguntou, baixinho.

— Vou ser franco, Nolan. Está a passar-se qualquer coisa e o super disse-me que tentasse descobrir o que é. Você informe-se e diga-me e eu falarei a seu favor para o tal trabalho de conferente. São cinquenta cêntimos por hora.

Jim pareceu refletir. — Não sei de nada. — disse devagar – Podia tentar, se ganhasse alguma coisa com isso...

— Cinco dólares interessavam-lhe?

— Sem dúvida.

— Muito bem. Circule por aí. Eu assinalarei a entrada de baldes seus, para que não perca nada hoje. Veja o que consegue descobrir para mim.

— Como sei que não me pregará a partida e não roerá a corda? Poderei descobrir alguma coisa e dizer-lhe, mas se os homens sabem, esfolam-me.

— Não se preocupe com isso, Nolan. Quando o «super» encontra um bom homem como você não o deita fora, aproveita-o. Talvez até consiga aqui um emprego certo quando a apanha terminar, a tomar conta de uma bomba ou qualquer coisa do gênero.

Jim voltou a refletir. — Não prometo nada mas estarei de ouvido alerta e se descobrir alguma coisa digo-lhe.

— Excelente! Haverá cinco dólares para si e um emprego.

— Começarei por experimentar aquele tipo valentaço. Pareceu-me que sabia qualquer coisa.

Meteu pela alameda abaixo, na direção da quarta árvore. Quando chegou, vinha o rapaz a descer com um balde cheio.

— Vou despejá-las e volto já.

Jim subiu a escada e sentou-se num ramo. O vento permitia ouvir claramente o murmúrio de uma correia de calibragem, na seção de acondicionamento, e trazia consigo o cheiro da sidra nova dos lagares. Muito ao longe, Jim ouvia o apitar e o resfolegar de uma locomotiva.

O rapaz carrancudo subiu a escada a correr como um macaco e disse, furioso;

— Quando passarmos a fatos hei-de arranjar uma grande pedra e tratar da saúde daquele sacana.

Jim utilizou o método de Mac: — Porque há-de fazer uma coisa dessas a um tipo simpático como ele? E que quer dizer com isso de «quando passarmos a fatos»?

O rapaz acocorou-se ao lado dele. — Não ouviu?

— Não ouvi o quê?

— Não é alcoviteiro?

— Claro que não.

— Vamos para a greve, aí tem! — exclamou o rapaz.

— Para a greve? Com empregos tão bons? Por que raio querem fazer greve?

— Porque estamos a ser lixados, é por isso. Porque os dormitórios estão cheios de bicharada, porque o armazém está a levar cinco por cento a mais e porque eles baixaram o salário depois de cá chegarmos! E se nós consentirmos, se os deixarmos levar a sua avante será ainda pior no algodão. Seremos lá lixados também e você sabe muito bem que é assim.

— Parece razoável. — admitiu Jim — Quem vai para a greve além de você?

Os olhos raiados de sangue do rapaz semicerraram-se para o fitar. — Está a armar em engraçadinho, não está?

— Não. Estou a tentar descobrir uma coisa que você não me diz.

— Não lhe posso dizer nada, temos de guardar segredo. Ficará a saber o que se passa quando chegar a altura. Temos os homens todos organizados, temos tudo praticamente pronto e vamos pintar a manta. Esta noite haverá uma reunião para alguns de nós e depois informaremos os restantes.

— Quem está por trás disso?

— Não digo. Poderia estragar tudo, se dissesse.

— Está bem, se pensa assim...

— Dir-lhe-ia se pudesse, mas prometí que não diria. Sabe a seu tempo. Acompanhar-nos-á, não acompanhará?

— Não sei. Não os acompanharei se não souber mais do que sei agora.

— Carago, mataremos seja quem for que nos fure a greve! Isso posso-lhe dizer desde já.

— Bem, não me agradaria ser morto... -— Jim pendurou o balde numa pernada e começou a enchê-lo, devagar. — Há alguma possibilidade de assistir a essa reunião?

— Absolutamente nenhuma. Só irão os tipos importantes.

— Você é um tipo importante?

— Estou no segredo.

— E quem são esses tipos importantes?

Os olhos avermelhados fitáram-no desconfiadamente. — Está-me cá a parecer que faz muitas perguntas, mas eu não lhe direi nada. Acho-lhe ar de espião...

O balde de Jim estava cheio e ele tirou-o da pernada. — Os rapazes estão a discutír o assunto empoleirados nas árvores?

— Acha que sim? Onde esteve toda a manhã?

— A trabalhar. — respondeu Jim — A ganhar o meu pão de cada dia. É um trabalho agradável.

— Não me provoque, a não ser que queira ir lá para baixo comigo! — explodiu o rapaz.

Jim piscou-lhe o olho, como vira Mac fazer, e redarguiu: — Não se exalte, rapaz. Estarei com vocês quando a coisa começar.

O rapaz sorriu estupidamente. — Você apanha um tipo desprevenido...

Jim levou o balde e despejou-o cuidadosamente num caixote. — Tem horas?

— São onze e meia. — respondeu o conferente — Descobriu alguma coisa?

— Não, homem. O rapaz estava apenas a falar por falar. Julga que é um jornal. Misturar-me-ei um bocado com a malta, depois do almoço, e verei.

— Saiba o que se passa o mais depressa possível. É capaz de guiar um caminhão?

— Porque não?

— Talvez consigamos pô-lo num caminhão.

— Isso seria porreiro.

Jim afastou-se, pela alameda abaixo. Os homens falavam nas árvores e nas escadas. Subiu a uma árvore carregada, onde já estavam dois apanhadores. — Olá, rapaz. Junte-se à malta.

— Obrigado. — Jim começou a apanhar maçãs — Esta manhã fala-se muito. — observou.

— Pois fala. Nós estávamos a fazer o mesmo. Toda a gente fala de greve.

— Quando um número suficiente de tipos fala de greve, geralmente acaba mesmo por haver greve.

O segundo homem, que estava empoleirado mais alto, meteu-se na conversa: — Eu estava precisamente a dizer ao Jerry que não me agrada a ideia. É verdade que não estamos a ganhar muito, mas se formos para a greve não ganhamos nada.

— Neste momento, não, mas mais tarde ganharemos. — contrapos Jerry — Esta chatice da apanha de maçãs não dura muito, mas a apanha do algodão dura mais. No meu ver, os tipos do algodão estão atentos ao que se passa aqui. Se nos resignarmos como um rebanho de reles carneiros, os gajos do algodão farão um corte ainda maior. No meu ver é assim.

— Parece razoável. — concordou Jim, a sorrir.

— Bem a mim não me agrada. — teimou o outro homem — Não me agradam sarilhos, sempre que os posso evitar. Muitos homens ficarão prejudicados. Ná, não vejo benefício nenhum. Ainda não vi nenhuma greve levantar os salários durante muito tempo.

— Se os homens forem para a greve, furas? — perguntou-lhe Jerry.

— Não, não faria uma coisa dessas! Se os homens forem para a greve, irei também. Furar não furo, mas a ideia não me agrada.

— Eles já têm alguma organização? — perguntou Jim.

— Que me conste, não. — respondeu Jerry — Ainda ninguém convocou nenhuma reunião. Estamos à espera, mas se os rapazes forem para a greve, também vou.

Soou um apito fanhoso na seção de acondicionamento.

— Meio-dia. — disse Jerry — Tenho umas buchas ali debaixo daquela pilha de caixotes. Quer?

— Não, obrigado. — agradeceu Jim — Tenho de me ir encontrar com o tipo com quem viajei.

Deixou o balde no posto do conferente e seguiu na direção da seção de acondicionamento. Através das árvores distinguia um edifício alto, caiado, com uma plataforma de carregamento a um lado. A correia de calibragem estava silenciosa. Ao aproximar-se viu homens e mulheres sentados na plataforma, de pernas penduradas a almoçar. A uma das extremidades do edifício reunira-se um grupo de uns trinta homens, no centro do qual alguém falava animadamente. Jim ouvia o subir e o baixar da voz, mas não distinguia as palavras.

O vento abrandara e o calor do sol fazia-se sentir. Ao ver Jim aproximar-se Mac saiu do grupo e foi ter com ele, com dois embrulhos. — Aqui está o almoço, Jim: pão francês e fatias de presunto.

— Excelente. Estou esfomeado.

— Entre os nossos homens, são mais os que morrem de úlcera do estômago do que das balas de um pelotão de fuzilamento. Como correram as coisas pelas tuas bandas?

— Bichana-se, bichana-se à farta. Encontrei um miúdo que sabe tudo quanto se passa. Esta noite haverá uma reunião dos tipos importantes.

Mac riu-se. — Ótimo! Perguntava a mim mesmo se os homens com conhecimentos secretos já teriam começado a trabalhar. Podem ser-nos muito úteis. Os homens dos teus lados estão a ficar entusiasmados?

— Estão pelo menos a falar muito. A propósito, Mac, o conferente prometeu-me cinco dólares e um emprego permanente se eu descobrir o que se passa. Prometi-lhe conservar os ouvidos atentos.

— Bom trabalho. Talvez consigas ganhar umas massas à margem.

— Que queres que lhe diga?

— Ora vejamos... Diz-lhe que é apenas conversa, barulho, mas se dissipará sem dar nada. Diz-lhe que não há motivo para se preocupar.

Virou a cabeça, pois aproximara-se silenciosamente um homem pesado, de fato-macaco sujo e com a cara quase preta de porcaria. Chegou-se mais e olhou em redor, para se certificar de que não os ouviam. — Venho mandado pelo comitê. — informou, baixinho — Como vão as coisas?

Mac olhou-o, surpreendido, e perguntou: — De que coisas está você a falar?

— Sabe a que me refiro. O comitê quer um relatório.

Mac olhou para Jim e sorriu. — O homem é maluco. Que comitê é esse?

— Sabe a que me refiro... — baixou a voz e acrescentou: — .. . camarada.

Mac deu um passo para ele, de rosto congestionado de cólera. — Onde foi buscar essa história de «camarada»? Se é um desses miseráveis radicais, não quero nada consigo. E ponha-se a andar, antes que chame alguns dos rapazes.

A atitude do intruso modificou-se: — Tem cuidadinho, meu menino, pois temos os olhos postos em ti. — recomendou, e afastou-se devagar.

Mac suspirou. — Estes gajos das maçãs pensam depressa, embora não pensem muito bem!

— Era um detetive? — perguntou Jim.

— Com certeza. Um homem não conseguia ficar com a cara tão suja sem dar uma ajudazinha à natureza. Mas a verdade é que nos toparam depressa, hem? Senta-te e come qualquer coisa.

Sentaram-se no chão e fizeram grandes sanduíches de presunto.

— Lá se vai a tua possibilidade de um suborno. — comentou Mac, que fitou Jim, muito sério, e citou: — «Tem cuidadinho, meu menino», e olha que o conselho é bom. Agora não nos podemos dar ao luxo de desistir. Lembra-te de que uma quantidade destes tipos se venderam facilmente por cinco dólares. Faz com que os outros falem, mas tu conserva-te muito caladinho.

— Como nos terão topado?

— Não sei. Suponho que algum gajo da cidade nos indicou. Talvez seja melhor arranjar ajuda aqui, no caso de tu ou eu termos de partir. Esta coisa está a andar e precisa de orientação. É um plano muito bom.

— Achas que nos prenderão?

Mac comeu uma côdea de pão, antes de responder: — Primeiro tentarão assustar-nos. Agora escuta: se em qualquer altura em que eu não estiver presente alguém te disser que vais ser linchado, concorda com tudo. Não consintas que te assustem, mas também não recorras aos truques do Joy. Jesus, os gajos estão a andar depressa! Bem, amanhã começaremos também nós a avançar. A noite passada mandei pedir uns panfletos, que devem chegar amanhã de manhã, se o Dick acelerou. E até à noite devem chegar notícias pelo correio.

— Que queres que eu faça? Tenho-me limitado a escutar e quero fazer qualquer coisa. Mac sorriu-lhe. — Servir-me-ei de ti cada vez mais, verás. Gastar-te-ei até ao osso. Pelas aparências, isto promete ser bom. Aquela tua saída acerca do algodão foi porreira. Já ouvi meia dúzia de tipos utilizá-la como se fosse ideia deles, esta manhã.

— Aonde vamos esta noite, Mac?

— Lembras-te do Al, do tipo do restaurante? Ele disse que o pai tinha um pequeno pomar e eu pensei que talvez não fosse má ideia irmos visitar o velho.

— Era nisso que pensavas quando falaste em arranjar um lugar para onde os tipos pudessem ir, quando entrassem em greve?

— Pelo menos vou tentar consegui-lo. A coisa chegou a um ponto que rebentará de um momento para o outro. É como encher um balão. Nunca se sabe quando estoirará, pois não há dois que estoirem do mesmo modo.

— Contas com o plenário para amanhã à noite?

— Sim, é com isso que conto; mas nunca se sabe. Os tipos estão cheios de vapor e qualquer coisa poderá fazê-los descarregar antes. Nunca se sabe. Quero estar preparado. Se conseguir arranjar o lugar para os homens, mandarei chamar o Dr. Burton. É um tipo esquisito, que não pertence ao Partido, mas está sempre a trabalhar para nós. Planeará a instalação e encarregar-se-á da sanidade, de modo que a Cruz Vermelha não possa expulsar-nos.

Jim estendeu-se no chão e meteu os braços debaixo da cabeça. — Que discussão importante é aquela, ali ao pé da seção de acondicionamento?

— Não sei. Suponho que os homens têm vontade de discutir, mais nada. Nesta altura talvez já se trate de Darwin versus Antigo Testamento... Prefeririam com certeza lutar por causa disso. Quando chega ao ponto em que estão, lutam seja pelo que for. Tem muito cuidado contigo, Jim. Pode dar a algum tipo para te arriar, só por se sentir nervoso.

— Quem me dera que começasse de uma vez! Estou ansioso. Tenho a impressão de que poderei ajudar mais quando a coisa começar.

— Aguenta, tem calma.

Descansaram, estendidos no chão, até o apito fanhoso anunciar a uma hora. Quando se separaram, Mac recomendou: — Vem a correr, quando largares. Temos muito terreno a percorrer esta noite. Talvez o Al nos ofereça outro jantar.

Jim voltou ao posto de conferência, onde deixara o balde. As correias de calibragem recomeçavam a trabalhar e os motores dos caminhões roncavam, a arrancar. Por entre as árvores, os apanhadores regressavam, carrancudos, ao trabalho. Encontravam-se diversos homens parados no posto, quando Jim pegou no balde. O conferente não lhe falou, nessa altura, mas quando ele levou o primeiro balde a pergunta não se fez esperar:

— Descobriu alguma coisa, Nolan?

Jim inclinou-se para o caixote e despejou o balde à mão. — Creio que acabará tudo por ficar em nada. A maioria dos tipos não me parecem muito danados.

— Porque pensa isso?

— Sabe o que os enfureceu?

— Não. Julguei que tinha sido a baixa do pagamento.

— Não, homem. Um tipo do Hunter comprou no armazém de lá uma lata de peixe estragado e adoeceu. Você sabe como os trabalhadores são; ficaram chateados e o sentimento alastrou até aqui. Mas eu falei com alguns, ao meio-dia e pareceu-me que lhes estava a passar.

— Tem a certeza de que foi isso?

— Claro que tenho. E os meus cinco dólares?

— Arranjar-lhos-ei amanhã.

— Bem, quero a pasta e quero que não se esqueça de que me prometeu um emprego melhor.

— Tratarei disso e amanhã dir-lhe-ei.

— Devia ter exigido o dinheiro primeiro, antes de lhe dizer. — queixou-se Jim.

— Não se preocupe, recebê-lo-á.

Jim voltou para o pomar. Quando começou a subir uma escada, uma voz recomendou-lhe, de cima: — Cuidado com essa escada, que está pouco firme. — Jim viu o velho Dan de pé, na árvore. — Oh, meu Deus, é o rapazinho radical!

Jim subiu a escada com cuidado. Os degraus estavam soltos. — Como vai isso, Dan? — perguntou, enquanto pendurava o balde.

— Oh, muito bem... embora eu não me sinta grande coisa. Os feijões frios pesaram-me toda a noite no estômago como um ferro de engomar.

— Devia comer um jantar quente.

— Estava tão cansado que não tive coragem para acender o lume. Estou a ficar velho. Esta manhã não me apetecia levantar. Estava frio.

— Porque não experimenta uma das instituições de caridade?

— Não sei... Os homens andam todos a falar em greve e vai haver sarilho. Estou cansado, não quero sarilhos agora. Que farei, se os homens entrarem em greve?

— Ora essa, entre em greve com eles, conduza-os. — respondeu Jim, a tentar animá-lo através do orgulho — Os homens respeitarão um velho trabalhador como você. Podia chefiar os piquetes.

— Lá isso, creio que podia. — Dan limpou o nariz com a grande manápula e sacudiu os dedos — Mas não quero. Esta tarde vai arrefecer cedo. Apetecie-ma uma sopinha quente para o jantar... mesmo a ferver, com bocadinhos de carne e pão torrado quente para molhar. Adoro ovos escalfados. Quando regressava da floresta à cidade, com dinheiro, às vezes pedia meia dúzia de ovos escalfados em leite e punha-os em torradas, a abeberar. Depois esmagava os ovos em cima da torrada e comia-os. Algumas vezes comia até oito ovos! Ganhava dinheiro, na floresta. Podia muito bem comprar duas dúzias de ovos escalfados, se me apetecesse. Quem me dera tê-lo feito! Montes de manteiga e tudo polvilhado de pimenta...

— Hoje não está tão valente como ontem, hem, avô? Ontem era capaz de levar a palma a qualquer, a trabalhar.

A luz da recordação apagou-se dos olhos de Dan, que esticou a barbicha rala para a frente. — Ainda sou capaz de levar a palma, a trabalhar, a uma corja de miseráveis

fedelhos que passam o tempo a tagarelar.

Estendeu indignadamente os braços para as maçãs, a tatear por cima da cabeça. Depois uma das grandes mãos ossudas agarrou-se a um ramo.

— Está a exibir-se, avô. — disse-lhe Jim, a observá-lo, divertido.

— Achas? Nesse caso, vê se és capaz de me acompanhar.

— Para que havemos nós dois de trabalhar à compita, se no fim o único a ganhar alguma coisa com isso é o dono do pomar?

O velho Dan foi deitando maçãs para o balde. — Vocês, fedelhos, ainda têm alguma coisa que aprender. O trabalho tem muito mais que se lhe diga do que julgam. Como uma manada de cavalos, só o que querem é mais feno! Passam a vida a relinchar por mais feno, querem todo o feno que há! Deixam um homem doente com tanto relincho. — o seu balde estava demasiado cheio e quando ele o soltou do gancho cinco ou seis maçãs rolaram, foram batendo de ramo em ramo e caíram no chão, debaixo da árvore — Sai do meu caminho, fedelho! Vá, sai do caminho, deixa-me chegar à escada.

— Está bem, avô, mas tenha calma. Não ganhará nada com a pressa.

Jím afastou-se do cimo da escada e subiu para um ramo. Pendurou o balde e estendeu a mão para uma maçã. Atrás de si, ouviu um ruído de madeira a partir-se e um baque surdo. Olhou e viu o velho caído de costas, debaixo da árvore. Dan tinha os olhos abertos, como que pasmados, e o rosto azulado sob a barbicha branca. Dois dos degraus da escada tinham desaparecido.

— Que trambolhão! — gritou Jim — Maguou-se, avô?

O velho permaneceu imóvel, com os olhos a transbordar perplexidade e interrogação. A boca estremeceu-lhe e ele lambeu os beiços.

Jim desceu da árvore e ajoelhou-se ao lado dele. — Onde se magoou?

— Não sei. — respondeu Dan, ofegante — Não me posso mexer. Creio que espatifei a bacia. Não me dói nada, por enquanto.

Começaram a correr homens na sua direção. Jim via-os descer das árvores a toda a volta, e correr para eles. O conferente deixou também o seu monte de caixotes e acorreu. Os homens comprimiram-se em redor do velho.

— Onde se feriu?

— Como aconteceu?

— Partiu a perna?

— Velho dessa maneira não devia andar empoleiirado em árvores.

O anel de homens era empurrado para a frente pelos que continuavam a chegar. Jim ouviu o conferente gritar: — Deixem-me passar.

Os rostos mostravam-se estupidificados, carrancudos e calmos.

— Cheguem-se para trás, por favor! — gritou Jim — Não apertem.

Os homens mexeram os pés. Na fila de trás ouviu-se uma espécie de pequeno grunhido e depois uma voz gritou: — Olhem para aquela escada!

Todas as cabeças se levantaram, como que num só movimento, e todos os olhos se fitaram no ponto onde os velhos degraus soltos se tínham partido.

— É com aquilo que nos fazem trabalhar! — disse alguém.

— Reparem!

O velho Dan fechara os olhos. O seu rosto estava branco, imóvel e com sinais de choque. Nas últimas filas os homens começaram a gritar: — Olhem para a escada! É com aquilo que nos fazem trabalhar! — o rugido dos homens e o da sua cólera aumentou. Os olhos brilhavam de raiva. Numa questão de poucos momentos o seu vago desassosego e a sua vaga ira tinham encontrado um ponto em que fixar-se, em que encontrar-se. O conferente continuava a gritar: — Deixem-me passar!

De súbito, uma voz histericamente esganiçada gritou: — Desapareça daqui, seu filho da puta! — seguiu-se uma sarrafusca.

— Cuidado, Joe! Tem calma, Joe! Não o deixem! Agarrem-lhe os pés! Agora, homem,

pire-se e depressa.

Jim endireitou-se de novo e pediu: — Rapazes, afastem-se. Temos de levar este pobre homem daqui.

Os homens pareceram despertar de um sono e o circulo interno empurrou violentamente para trás.

— Arranjem duas varas. Podemos fazer uma maca com dois casacos. Isso, enfiam-se as varas pelas mangas... Agora abotoam-se à frente.

Jim recomendou: — Cuidado com ele, agora. Creio que fraturou a bacia. — olhou para o rosto branco e sereno de Dan e acrescentou: — Parece-me que desmaiou. Vá com cuidado...

Ergueram Dan para a maca improvisada com casacos.

—Vocês dois levem-no. — continuou Jim — Abram caminho, andem.

Entretanto, tinham-se juntado ali pelo menos cem homens. Os que transportavam a maca afastaram-se. Os que chegavam olhavam para a escada partida. Repetiam-se incessantemente as palavras: «Vejam com o que nos fazem trabalhar!»

Jim virou-se para um homem que olhava estupidamente para a árvore e perguntou-lhe:

— Que aconteceu ao conferente?

— O quê? Ah, sim! O Joe Teague deu-lhe. Tentou estoirar-lhe os miolos a pontapé, mas os rapazes agarraram-no. O Joe perdeu os trambelhos.

— Foi uma grandíssima sorte não o ter matado. — comentou Jim.

O grupo de homens afastou-se atrás da maca, enquanto chegavam outros a correr de todo o pomar. Quando se aproximavam da seção de acondicionamento o barulho da correia de calibragem cessou. Homens e mulheres saíram dos seus postos nas portas de carregamento. A multidão cada vez maior tornara-se silenciosa. Os homens caminhavam de corpo hirto, como num funeral.

Mac surdiu, a correr, da esquina da seção de acondicionamento, viu Jim e dirigiu-se para ele: — Que foi? Sai do magote e chega aqui.

A multidão ominosa e calada continuou a acompanhar a maca. Dizia-se em voz baixa aos que chegavam: «A escada. Uma escada velha.» O grosso da turba passou à frente de Mac e Jim.

— Que aconteceu? Conta-me depressa. Temos de bater o ferro enquanto ele está quente.

— Foi o velho Dan. Armou em valente, quis mostrar que era forte, partiu dois degraus da escada e estatelou-se de costas. Pensa que fraturou a bacia.

— Bem, aconteceu. De certo modo, esperava-o. Não é preciso muito, quando os homens se sentem como estes se sentiam; qualquer pretexto lhes serve. No fim de contas, o velho ainda serviu para alguma coisa.

— Serviu para alguma coisa?

— Claro. Pôs tudo em andamento. Agora podemos utilizá-lo.

Estugaram o passo, atrás da multidão. A poeira levantada por muitos pés formava uma nuvem castanha, que alastrava lentamente. Vindo da direção da cidade ouvia-se o ruído monótono de uma locomotiva de manobra a compor um comboio. Nas franjas da multidão viam-se algumas mulheres a correr de um lado para o outro, mas os homens seguiam firme e silenciosamente atrás da maca, a caminho dos dormitórios

— Mais depressa Jim. — gritou Mac — Temos de nos despachar.

— Aonde vamos?

— Primeiro temos de encontrar o London e de lhe dizer o que deve fazer; depois temos de enviar um telegrama. Também quero ir falar imediatamente com o velho do Al. Olha, o London está ali — Eh, London! — Mac desatou a correr e Jim correu atrás dele. — Já estoirou, London. — anunciou Mac, ofegante — Aquele velho, o Dan, caiu de uma árvore. Agora está em ponto de rebuçado.

— Era isso que queríamos, não era? — perguntou London, enquanto tirava o chapéu e coçava a tonsura.

— Pois sim, mas estes tipos darão em malucos se não tomarmos conta das coisas. Olhe, ali vai o seu compincha comprido e magrinho. Chame-o.

London levou as mãos à boca e gritou:

— Sam!

Jim reconheceu o homem da cara magra que vira sentado junto da fogueira, no acampamento.

— Escutem, London e Sam. — pediu Mac — Vou-lhes dizer uma quantidade de coisas depressa, pois tenho de me despachar. Estes tipos encontram-se num tal estado que são capazes de estoirar de um momento para o outro. Você, Sam, vá ter com eles e diga-lhes que devem fazer um plenário. Depois indicam aqui o London para presidente. Eles nome-á-lo-ão, com certeza. Farão praticamente tudo. Quanto a você, Sam, é só isso que tem a fazer. — Mac apanhou um punhado de terra e esfregou entre as mãos, enquanto os seus pés inquietos davam pontapés no chão — Agora você, London: assim que for presidente diga-lhes que precisamos de ordem. Apresente-lhes uma lista, de uns dez tipos e diga-lhes que votem neles, para formarem um comitê a fim de decidir o que há a fazer. Percebeu?

— Claro que percebi.

— Agora vou-lhe dizer como deve proceder. Quando quiser que votem a favor de qualquer coisa, digalhes: «Querem que isto se faça?», e eles votarão a favor. E se quiser que votem contra, pergunte-lhes: «Não querem que isto se faça!, pois não?», e eles votarão contra. Ponha tudo, tudo, à votação e faça-os votar, compreende? Eles estão maduros para isso.

Olharam na direção da multidão e do dormitório. Os homens continuavam silenciosos, não se detinham muito tempo num lugar e moviam os braços. Tinham o rosto tão descontraído como se estivessem a dormir.

— Aonde vão vocês agora? — perguntou London.

— Vamos tratar de arranjar o lugar para a malta se instalar quando a coisa estoirar: a pequena quinta. Outra coisa, escolha uma dúzia desses tipos mais inflamados e mande-os aos outros ranchos, falar. Escolha os que falam mais. Está pronto?

— Estou pronto.

— Deixa-nos usar o seu Ford? Temos um bocado de terreno a percorrer.

— Claro que deixo, se conseguirem fazê-lo andar. Tem os seus truques.

Mac virou-se para Sam e disse-lhe: — Vá para ali, empoleire-se em cima de qualquer coisa e grite: «Rapazes, temos de fazer um plenário!» E depois acrescente: «Proponho o London para presidente.» Vá, Sam, vá. Anda, Jim.

Sam partiu a trote na direção dos dormitórios e London seguiu-o, mais devagar. Mac e Jim contornaram o barracão e dirigiram-se para o velho Ford.

— Entra Jim, serás tu a conduzir a chocolateira. — ouviu-se um alarido de vozes, vindo do outro lado do dormitório. Jim girou a chave e retardou o contato. Os tubos zumbiram como pequenas cascavéis. Mac deu à manivela, tirou o regulador do ar e deu de novo à manivela. Ouviu-se um segundo rugido da multidão. Mac ajudou com o ombro, o motor pegou e o seu barulho abafou os gritos dos homens. Mac saltou para o automóvel, também a gritar: — Bem, creio que o London é o nosso novo presidente. Vamos.

Jim fez marcha-atrás e dirigiu-se para a auto-estrada, que estava deserta. As árvores verdes, sobrecarregadas, projetavam a sua sombra obliquamente, sob o sol que declinava. O carro ia andando, com os pistões a bater nos cilindros.

— Primeiro para o telégrafo e depois para o posto dos Correios. — gritou Mac.

Entraram na cidade e Jim meteu pela rua principal e estacionou defronte de um posto da Western Union.

— Os Correios ficam apenas um quarteirão mais adiante, estás a ver? Olha, Jim, enquanto eu mando o telegrama, vai lá perguntar se chegou correspondência para William Dowdy.

Jim voltou passados poucos momentos com três cartas. Mac já estava sentado no automóvel. Abriu as cartas e leu-as. — Raios partam! Esta é do Dick a dizer que o Joy fugiu. Não sabem onde está. Iam levá-lo para ser ouvido e ele agrediu um chui e pirou-se. Telegrafei a pedir mais ajuda e que mandassem o Dr. Burton, para se encarregar da sanidade. Espera, vou dar à manivela. Vamos ao restaurante do Al.

Quando Jim parou defronte do restaurante, viu Al através das janelas, a olhar para o passeio por cima do balcão deserto. Al reconheceu-os e levantou o braço gordo, numa saudação.

— Olá, Al! — cumprimentou Mac, depois de abrir a porta de correr — Como vai o negócio?

Os olhos de Al brilhavam de interesse. — Vai muito bem. A noite passada esteve aí um grupo enorme de tipos dos pomares.

— Tenho-lhes andado a dizer que você serve um bife excelente.

— Muito obrigado. Querem comer alguma coisa?

— Com certeza. — respondeu Mac — E até podíamos pagar. Imagine, nós a pagarmos!

— Oh, isto será a vossa parte, uma espécie de comissão por terem aconselhado os homens a vir cá! — Al abriu o frigorífico, tirou dois hamburgueses, pô-los na chapa do fogão e em seguida envolveu-os em cebola picada. — Como vão as vossas coisas?

Mac inclinou-se, confídencialmente, por cima do balcão e disse-lhe: — Sei que posso confiar em si, Al. Temo-lo nos nossos livros. Tem sido porreiro para nós.

Al corou de prazer. — Bem, eu próprio andaria com vocês, se não tivesse de tomar conta do negócio. Um homem vê o estado em que as coisas estão, as injustiças... e se tem miolos não pode proceder de outro modo.

— Claro. — apressou-se a concordar Mac — Um tipo com miolos não precisa de ser ensinado, sabe ver as coisas.

Al virou-se, para ocultar o contentamento. Voltou os bifes, comprimiu-os com a espátula, juntou a cebola acastanhada e pô-la em cima da carne, sempre a comprimir com a espátula. Raspou a gordura para o sulco que o fogão tinha ao lado. Quando conseguiu devolver ao rosto uma expressão de conveniente gravidade, virou-se de novo.

— Claro que podem confiar em mim, como aliás devem saber. Que há de novo? — encheu duas chávenas de café e fê-las deslizar pelo balcão fora.

Mac bateu delicadamente no balcão com a lâmina da faca. — É possível que apareçam por aí sabujos a perguntar por mim e pelo Jim.

— Sem duvida. Mas eu não sei nada a vosso respeito.

— Exatamente. Agora as novidades, Al. Este vale está prestes a estoirar... até já estoirou onde trabalhamos. Nas outras propriedades é possível que a coisa estoire esta noite.

— Sabem, pelo modo como os tipos estiveram aqui a falar, calculei que não devia faltar muito. — disse Al, baixinho — Que querem que eu faça?

— Não se esqueça da carne.

Al segurou dois pratos em leque, com uma das mãos, e encheu cada um deles com um bife, purê de batata, cenouras e nabos. — Molho, amigos?

— Bem salpicadinho. — respondeu Mac.

Al deitou molho por cima do monte de comida e colocou os pratos diante deles.

— Agora fale. — pediu.

Mac encheu a boca e a voz saiu-lhe abafada e espaçada, ao ritmo da mastigação:

— Disse-nos que o seu velho tinha uma quintazita.

— Tem. Querem esconder-se lá'?

— Não. — Mac apontou o garfo a Al e declarou: — Não se apanhará uma maçã neste vale.

— Bem, mas...

— Espere e ouça. Há alguma terra de lavoura na propriedade do seu pai?

— Há, ums dois hectares e meio. Tem tido lá feno, mas já o apanhou.

— Eis o que se passa: vamos ter mil ou dois mil homens sem terem para onde ir. Os patrões expulsá-los-ão dos pomares e não os deixarão ficar na estrada. Se eles pudessem acampar nesses dois hectares e meio estariam em segurança.

O rosto de Al tornou-se flácido, de medo e dúvida. — Não, amigo, não creio que o meu velho consinta.

— Ficaria com as maçãs apanhadas, apanhadas depressa e grátis. O preço subirá, com as outras nas árvores.

— E os tipos da cidade não o fariam ver uma fona depois?

— Quem?

— Enfím, a Legião, gajos desses. Viriam à socapa e espancá-lo-iam.

— Não creio. Ele tem o direito de acolher homens na sua propriedade. Encarregarei um médico de planear o acampamento e velar para que se mantenha limpo, e o seu velho terá as maçãs apanhadas de graça.

— Não sei... — murmurou Al, a abanar a cabeça.

— Podemos resolver isso depressa. — declarou Mac — Vamos falar com o seu velho.

— Tenho de manter o estabelecimento aberto, não posso sair daqui.

Jim reparou subitamente no prato que tinha à frente, e de que se esquecera, e começou a comer. Os olhos semicerrados de Mac não se desviavam do rosto de Al, enquanto ia comendo.

Al começou a enervar-se. — Julga que estou com medo... — tartamudeou.

— Não julgo nada enquanto não tenho motivos para isso. Só não compreendo que um tipo não possa fechar o estaminé durante uma hora, se lhe apetecer.

— Bem. os homens que comem cedo começarão a chegar dentro de uma hora...

— E você também poderá estar de volta dentro de uma hora.

— Não creio que o meu velho consinta. Tem de pensar nele, de ter cuidado, não é verdade?

— Ainda ninguém lhe fez mal. Como sabe o que acontecerá? — a voz de Mac começava a tornar-se gelada a exprimir uma vaga hostilidade.

Al pegou num esfregão e passou-o pelo balcão, em movimentos circulares. Os seus olhos nervosos encontraram os de Mac, desviaram-se e voltaram a encontrá-los. Por fim, aproximou-se. — Farei o que diz. — decidiu-se — Deixarei um cartãozinho à porta. Não me parece que o meu velho aceite, mas levo-os lá.

— É um gajo porreiro! — exclamou Mac, todo sorridente — Não o esqueceremos. Sempre que vir um apanhador com um quarto de dólar, hei-de mandá-lo cá comer um dos seus bifes.

— Forneço um bom jantar por esse preço. — redarguiu Al, e tirou o barrete alto de cozinheiro, desarregaçou as mangas da camisa e desligou o gás.

— Estava bom. — elogiou Mac, ao acabar de comer.

Jim teve de engolir a comida à pressa, para não se atrasar.

— Tenho um carrito no parque, aqui atrás. — informou Al — Se forem atrás de mim eu não me meterei em sarilhos e poderei contínuar a ser-lhes útil.

— Tem toda a razão, Al. — concordou Mac e acabou de beber o café — Não ande com más companhias.

— Sabe muito bem o que quis dizer.

— Claro que sei. Vamos, Jim.

Al escreveu umas palavras num cartão e colocou-o no lado de dentro da porta virado para fora. Enfiou os braços gordos no casaco e segurou a porta enquanto Mac e Jim saíam.

Mac deu à manivela do Ford, instalou-se e Jim pôs o motor em ponto morto até Al surdiu aos solavancos do parque de estacionamento, numa velha baratinha Dodge. Depois seguiu-o pela rua abaixo, para leste, atravessou a ponte de betão e desembocou no campo. O sol quase a pôr-se estava vermelho e tépido, com tons outonais. Poeira cinzenta cobria as incontáveis macieiras, ao longo da estrada.

Mac virou-se no banco e olhou para os renques, enquanto passavam.

— Não vejo ninguém a trabalhar. — gritou a Jim — Já terá começado? Há caixotes, mas ninguém a trabalhar.

À estrada pavimentada sucedeu-se outra de cascalho que fez o velho Ford saltar e estremecer todo. Cerca de quilómetro e meio mais adiante a nuvem de poeira levantada por Al virou e entrou num pátio e Jim fez o mesmo e parou ao lado do Dodge. Erguia-se do solo uma cisterna branca, encimada por um moínho de vento que cintilava ao sol. A bomba trabalhava, com um som profundo e gutural. Era um lugar agradável. As macieiras começavam perto de uma pequena casa branca. Patos chafurdavam na lama provocada pela água que vinha por fora debaixo da cisterna. Num canil com uma cerca de arame, ao lado de um grande barracão, dois gordos pointers ingleses soltaram pequenos ladridos, ao ver os homens. A casa propriamente dita estava cercada por uma sebe baixa de estacas, atrás da qual cresciam grandes sardinheiras encarnadas. Ornamentava o alpendre uma trepadeira da Virgínia, de folhas vermelhas pendentes. Grandes frangos plymouth Rock andavam por ali à solta a debicar regaladamente e inclinaram a cabeça para ver os recém-chegados.

— Reparem nos cães. — disse Al, ao descer do automóvel — São os melhores pointers do vale. O meu velho gosta mais deles do que de mim.

— Onde ficam os dois hectares e meio Al? — perguntou Mac.

— Ali, atrás das árvores, na outra estrada.

— Ótimo. Vamos então falar com o seu velho. Disse que ele gosta dos cães não disse?

— Se gosta. — exclamou Al e deu uma gargalhadinha — Tente fazer mal a um dos bichos e verá. É capaz de o comer!

Jim olhou para a casa e para o barracão caiado de fresco e declarou: — Isto é bonito. Dá a um homem vontade de viver num lugar assim.

— É preciso muito trabalho para manter tudo em condições. O meu velho trabalha do alvorecer até à noite e nem mesmo assim consegue fazer o trabalho todo.

— Onde está o seu velho? — perguntou Mac — Vamos falar-lhe.

— Olhem, aí vem ele, do pomar.

Mac olhou, um momentto, e depois aproximou-se do canil. Os desassossegados pointers atiraram-se contra a rede a gemer de amor. Mac enfiou os dedos pelas malhas e esfregou-lhes o focinho.

— Gostas de cães, Mac? — perguntou Jim.

— Gosto de tudo. — replicou o outro, irritado.

O pai de Al continuou a aproximar-se. Era baixo e vivo como um terrier, completamente diferente do filho. Dir-se-ia que possuía um reservatório interno do qual a energia lhe corria para os braços, para as pernas e para os dedos, de modo que todo dele estava contínuamente em atividade. Tinha cabelo branco áspero e as sobrancelhas e o bigode hirsutos. Os seus olhos castanhos saltitavam de um lado para o outro, irrequietos como abelhas, e os seus dedos como não podiam fazer mais nada, davam estalinhos ritmados, enquanto ele caminhava. Quando falou, as suas palavras, rápidas, nervosas e vivas, não destoaram do resto: — Aconteceu alguma coisa ao teu negócio? — perguntou ao filho.

Al pôs-se na defensiva desajeitadamente: — Bem, compreende... pensei...

— Quiseste ir-te embora da propriedade, ir para a cidade, abrir umm estabelecimento, quiseste ser um rapaz da cidade, flanar por lá. Não gostavas de caiar, nunca gostaste. Que se passou com o negócio ? — entretanto os seus olhos mediam cada um dos homens, observavam-lhes os sapatos e a cara.

Mac continuava a olhar para o canil e a acariciar o focinho dos cães.

— Bom trouxe estes tipos... — explicou Al. — Eles queriam falar consigo.

O velho tratou imediatamente de excluir o filho: —Muito bem, eles já cá estão e tu podes voltar para o teu negócio.

Al olhou para o pai com a expressão magoada de um cão a que vão dar banho e depois, relutante, meteu-se no automóvel e partíu desconsoladamente.

— Há muito tempo que não via uns pointers assim — observou Mac.

O pai de Al aproximou-se, até ficar ao lado dele, e redarguiu, num tom em que havia um certo calor de camaradagem: — Homem, você nunca viu pointers assim na sua vida!

—Caça muito com eles?

—Todas as épocas... e apanho pássaros. Há uma grande quantidade de idiotas que usam setters, mas o setter é um cão de rede e hoje já ninguém apanha pássaros à rede. O pointer é o cão apropriado para caçar com espingarda.

— Gosto do aspecto daquele com o lombo cor de fígado.

— É bom sem dúvida. Mas não chega aos calcanhares daquela querida cadelinha. Chama-se Mary e é mansa como Jesus, aqui no canil, mas no campo salta como um demônio. Nunca vi nenhum cão capaz de cobrir o terreno que ela cobre.

Mac fez mais uma festa no focinho dos cães.

— Vejo que têm buracos para entrarem no barracão. Deixa-os andar por lá?

— Não, mas têm a cama encostada à parede. É mais quente.

— Se a cadela parir, gostava que me desse um cachorrinho.

— Ela teria de parir todos os dias do ano para fornecer as pessoas que desejam cachorros seus. — resmungou o velho.

Mac virou-se, devagar, e fitou os olhos castanhos do homem. — Chamo-me Mcleod. — apresentou-se, de mão estendida.

— E eu Anderson. Que deseja?

— Falar-lhe claro.

Entretanto o sol pusera-se e os frangos tinham desaparecido do pátio. O frio do anoitecer começou a descer entre as árvores.

— Pretende impingir alguma coisa, Mr. McLeod? Não quero comprar nada.

— Desejamos impingir uma coisa como diz, mas não se trata de nenhum novo produto.

O tom em que falou pareceu tranquilizar Anderson, que convidou: — Porque não entram para a cozinha e tomam uma chávena de café?

— Não me importo. — respondeu Mac.

A cozinha era como tudo o mais: caiada, varrida. Os niquelados do fogão brilhavam tanto que pareciam molhados.

— Vive aqui sozinho, Mr. Anderson?

— O meu Al vem cá dormir. É bom rapaz.

O velho tirou de um saco de papel um punhado de aparas, cuidadosamente cortadas, que pôs no fogão e em cima das quais colocou algumas lascas de pinho e, por fim, três bocados redondos de madeira de macieira bem seca. Foi tudo feito tão bem e com tanta prestreza que as chamas írromperam mal chegou um fósforo às aparas. O fogão crepitou e irradiou calor. O velho pôs ao lume uma cafeteira e mediu café moído, que deitou nela, juntamente com duas cascas de ovos que tirou de um saco.

Mac e Jim sentaram-se à mesa, forrada de oleado amarelo novo. Anderson acabou o que tinha a fazer no fogão, sentou-se muito direito e apoiou as mãos na mesa, onde ficaram muito quietas, como bons cães mesmo quando querem ir-se embora.

— Então de que se trata McLeod? — no rosto musculoso de Mac estampara-se uma expressão de perplexidade.

— Mr. Anderson não tenho muitos trunfos. — confessou, hesitante — Preciso de os jogar com cuidado e obter todo o seu valor. Mas, não sei porquê, não me apetece fazê-lo. Creio que prefiro pôr as cartas todas na mesa. Se ganharem, muito bem; se não ganharem, paciência, acaba-se o jogo.

— Pois então ponha-as lá na mesa.

— Trata-se do seguinte: amanhã dois mil homens entram em greve e a colheita das maçãs parará.

As mãos de Anderson pareceram farejar, retesar-se, e depois imobilizaram-se de novo.

Mac proseguiu: — O motivo da greve é a baixa do pagamento. Os proprietários chamarão fura-greves e haverá sarilho. Mas há um grupo de homens suficientes para fazerem piquetes no vale e dispostos a isso. Está a perceber o quadro?

— Em parte, mas não sei aonde quer chegar.

— Então ouça o resto: muito em breve haverá um decreto municipal a proibir ajuntamentos na estrada ou em qualquer propriedade publica. Os proprietários expulsarão os grevistas das terras, alegando invasão de propriedade.

— Bem, eu sou proprietário. Que quer de mim?

— O Al disse-nos que o senhor tinha dois hectares e meio de terra de lavoura. — as mãos de Anderson continuavam imóveis e tensas, como cães à espera de caça — Os seus dois hectares e meio são propriedade privada, pode recolher homens neles.

— Está de fato a querer vender qualquer coisa, mas ainda não disse o quê. — observou Anderson cautelosamente.

— Se as maçãs de Torgas Valley não forem para o mercado, o preço subirá, não subirá?

— Claro que subirá.

— Bem, as suas maçãs serão apanhadas gratuitamente.

Anderson descontraiu-se um pouco na cadeira. A cafeteira estava quase a ferver.

— Homens desses encheriam a terra de lixo.

— Não, não encheriam. Há um comitê para manter a ordem e nem sequer será permitido o consumo de bebidas alcoólicas. Estamos também à espera de um médico para se encarregar da sanidade. Organizaremos um acampamento muito bem ordenado, por ruas.

Anderson soltou um suspiro rápido.

— Escute, rapaz, esta terra é minha, mas tenho de me entender com os meus vizinhos. Nem sei o que me fariam se eu consentisse numa coisa dessas.

— Disse que esta propriedade era sua. Mas está livre? Tem alguma hipoteca?

— Não, não está livre.

— E quem são os seus vizinhos? — apressou-se Mac a perguntar — Eu digo-lhe quem são: Hunter, Gillray e Martin. Quem tem a sua hipoteca? A Torgas Finance Company. De quem é a Torgas Finance Company? De Hunter, Gillray e Martin. Têm andado a apertar consigo? Sabe muitíssimo bem que sim. Quanto tempo aguentará? Talvez um ano. Depois a Torgas Finance fica-lhe com isto. Não é assim? Agora suponha que consegue uma colheita sem despesas e que a vende num mercado em alta. Conseguiria resgatar a hipoteca?

Os olhos de Anderson brilhavam e pareciam terem-se tornado mais pequenos. Duas rosetas de cólera animavam-lhe as faces. As mãos deslizaram-lhe sorrateiramente da mesa e esconderam-se. Por momentos pareceu não respirar, sequer.

— Afinal não as pôs na mesa, rapaz, jogou-as. — disse por fim, baixinho — Se me conseguise livrar da hipoteca... se conseguisse cravar uma faca em...

— Dar-lhe-emos dois regimentos de homens para cravar a sua faca.

— Sim, mas os meus vizinhos destruir-me-ão.

— Não destruirão nada. Se lhe tocarem, ou na sua propriedade, não deixaremos um barracão de pé em todo o vale.

O queixo magro e velho de Anderson empertigou-se. — Que ganham vocês com tudo isso?

Mac sorriu. — Pude expor-lhe o asunto francamente, mas não sei se acreditará ou não na resposta a essa pergunta. Eu e aqui o Jim levamos um soco nas trombas, de vez em quando, e cumprimos frequentemente sessenta dias de cadeia por vadiagem.

— É um desses vermelhos?

— Acertou. Somos vermelhos, como lhes chama.

— E que pretendem com a vossa greve?

— Não nos interprete mal, Mr. Anderson. Não fomos nós que provocamos a greve e, sim, Gillray, Martin e Hunter. Foram eles que lhe disseram o que deveria pagar aos homens, não foram?

— Bem, foi a Associação de Produtores. É a Torgas Finance Company que a dirige.

— Como dizia, não fomos nós que provocamos a greve. No entanto, uma vez desencadeada, queremos contribuir para que saia vencedora. Queremos evitar que os homens percam os trabalhos, ensiná-los a trabalhar juntos. Acompanhe-nos e nunca terá problemas laborais enquanto viver.

— Não sei se posso confiar num vermelho. — observou Anderson.

— Nunca experimentou, mas já experimentou confiar na Torgas Finance.

Anderson sorriu friamente. As suas mãos voltaram à mesa a brincarem uma com a outra, como cachorrinhos. — Provavelmente será a minha ruina, atirar-me-à para a rua. Mas Deus sabe que estou condenado a ir lá parar e não perderei nada se me divertir um pouco. Daria muito para tramar o Chris Hunter.

O café ferveu, veio por fora e crepitou no fogão enquanto o seu cheiro impregnava o ar. A luz elétrica brilhava nas sobrancelhas brancas e no cabelo espetado de Anderson. O velho tirou a cafeteira do lume e limpou cuidadosamente o fogão com um jornal.

— Vou deitar-lhes uma caneca de café, Mr. Vermelho.

Mac, porém, levantou-se, apressado: — Obrigado, mas temos de ir andando. Faremos tudo para que não fique prejudicado com isto. Tenho ainda que fazer um milhão de coisas, mas amanhã voltaremos a vê-lo.

Deixaram o velho de pé, com a cafeteira na mão. Mac atravessou o pátio a trote e murmurou: — Jesus, foi melindroso! Estive sempre cheio de medo de escorregar de um momento para o outro. O tipo é duro, mas eu sabia que um caçador seria duro.

— Gosto dele. — confessou Jim.

— Não comeces a gostar das pessoas rapaz. Não podemos perder tempo com isso.

— Onde obtiveste as informações a respeito dele e da Torgas Finance?

— Chegaram pelo correio. Mas graças a Deus pelos cães! Salta para o volante, Jim. Eu dou à manivela.

Partiram ruidosamente através da noite clara. Os pequenos faróis piscavam, sonolentos. Jim olhou um momento para o céu e exclamou: — Meu Deus, estou todo excitado. Olha para as estrelas, Mac. Milhões delas!

— Olha mas é para a estrada. — resmungou o outro — Escuta Jim, lembrei-me de uma coisa da conversa daquele tipo, hoje ao meio-dia, significa que nos toparam. Doravante tem cuidado e não te afastes muito do grupo. Se quiseres ir a algum lado, arramja maneira de levar uns doze homens contigo.

— Queres dizer que tentarão caçar-nos?

— Não duvides disso! Calcularão que conseguirão evitar o barulho se nos afastarem.

— E quando me darás alguma coisa que fazer, Mac? Por enquanto tenho-me limitado a seguir-te como um cãozinho.

— Estás a aprender muito, rapaz. Quando houver alguma coisa em que possas ser útil, descansa que não te pouparei. Daqui a um dia ou dois talvez tenhas de conduzir um grupo de piquetes. Vira à esquerda, Jim. Doravante não nos convém andar muito pela cidade.

Jim conduziu o carro por esburacadas estradas secundárias e só passada uma hora chegou à propriedade e meteu pela estrada às escuras entre as macieiras. Diminuiu a velocidade. Os faróis pareciam saltar e tremer. De súbito, uma luz ofuscante rasgou a escuridão e incidiu no rosto dos homens. Ao mesmo tempo, dois vultos de sobretudo apareceram na estrada, em frente. Jim deteve o Ford.

Uma voz anunciou, atrás da luz: — São estes os tipos.

Um dos homens de sobretudo contornou o carro e encostou-se à porta. O motor vibrava irregularmente. Por causa da luz da lanterna, o homem encostado à porta era quase invisível. — Queremos os dois fora de Torgas Valey amanhã ao nascer do dia, entendido? Fora!

O pé de Mac levantou-se e comprimiu a perna de Jim, ao mesmo tempo que a sua voz, transformada numa lamuria suave, perguntava: — Mas que se passa? Nunca fizemos mal nenhum.

— Deixa-te de tretas, amigo. — replicou o homem, irritado — Sabemos quem vocês são e o que são. Queremo-os fora daqui.

— Se vocês são a autoridade, nós somos cidadãos. — insistiu Mac, no mesmo tom lamuriento — Temos o direito de ser julgados. Pagamos impostos, na nossa terra.

— Pois voltem para lá e paguem-nos. Nós não somos a autoridade, somos um comitê de cidadãos. Se julgam que os malditos vermelhos podem vir para aqui armar desordem, são doidos. Ou saem daqui para fora nessa lata, ou numa caixa de madeira. Entendidos?

Jim sentiu o pé de Mac esgueirar-se sob a sua perna, até ao pedal da embraiagem e bater-lhe com a biqueira do sapato, para o avisar de que estava a compreender. O velho motor ia girando, chiando. Umas vezes falhava um cilindro, outras vezes dois.

— Estão equivocados conosco. Somos apenas trabalhadores, não queremos sarilhos.

— Eu disse fora!

— Bem, deixe-nos ir buscar as nossas coisas.

— Ouça, vão dar a volta e desaparecer.

— São uns amarelos, uns cobardes! — gritou Mac — Têm vinte homens escondidos na estrada. São uns amarelos!

— Quem é amarelo? Somos apenas três, mas se de manhã não estiverem fora do vale seremos cinquenta.

— Pisa a fundo, Jim!

O motor rugiu e o Ford saltou para a frente como um cavalo. O homem do lado rodopiou e desapareceu na escuridão e o da frente deu um pulo, para não ser atropelado. A velha geringonça galgou pela estrada fora aos saltos, com um barulho dos demónios.

Mac olhou por cima do ombro e gritou: — A lanterna desapareceu.

Jim conduziu o carro para a parte de trás do comprido barracão. Saltaram para terra, e correram para a esquina do dormitório, que contornaram. O espaço defronte da porta estava coalhado de grupos de homens, que falavam em voz baixa. As mulheres estam sentadas nas soleiras, a aconchegar as saias à volta dos joelhos. Dos grupos erguia-se um ruído monótono e abafado de vozes. Estavam ali pelo menos quinhentos homens, alguns de outros ranchos. O rapaz valentaço com quem Jim falara aproximou-se, sorrateiro, e perguntou: — Não quiz acreditar em mim, hem? E agora, que lhe parece isto?

— Viu o London? — perguntou-lhe Mac.

— Claro que vi. Elegemo-lo presidente. Agora está no quarto com o comitê. — e de novo para Jim: — Julgou que eu era chalado, não julgou? Eu bem lhe disse que estava no segredo.

Mac e Jim abriram caminho através dos grupos de homens e do murmúrio de vozes. A porta e a janela de London estavam fechadas e um grupo em bicos de pés olhava através do vidro para o quarto iluminado. Mac subiu os degraus e dois homens atravessaram-se-lhe no caminho.

— Que diabo querem vocês?

— Queremos falar com o Londom.

— Sim? E ele quer falar com vocês?

— Porque não lhe perguntam?

— Como se chamam?

— Digam ao London que o «dótor» e o Jim lhe querem falar.

— Foi você o tipo que ajudou a pequena dele a ter um miúdo?

— Fui.

— Bem eu pergunto-lhe.

O homem abriu a porta e entrou. Um segundo depois voltou e segurou a porta.

— Entrem já, rapazes, o London espera-os.

O quarto de London tinha sido apressadamente transformado em escritório, com caixotes a servirem de assentos. London estava sentado na cama, com a cabeça tonsurada inclinada para a frente. Um comitê de sete homens fumava, uns sentados nos caixotes e outros de pé. Viraram a cabeça quando Jim e Mac entraram, e London pareceu contente.

— Viva. «dótor», viva, Jim! Ainda bem que vieram. Já ouviram as notícias?

— Não ouvimos nada. — respondeu Mac, deixando-se cair num caixote — Eu e o Jim ainda não paramos. Que aconteceu?

— Parece que corre tudo como convém. O grupo do Dakin parou. Está aí um tipo chamado Burke, presidente da propriedade Gilliay, e convocou-se um plenário para amanhã.

— Ótimo, está tudo a andar bem. Mas não poderemos fazer grande coisa enquanto não tivermos um comitê executivo e um presidente-geral.

— Como correu esse assumto de que foram tratar? — perguntou London — Não disse nada aos rapazes, pois podia não resultar...

— Conseguinos. — Mac voltou-se para os sete homens e explicou: — Um tipo empresta-nos dois hectares e meio para os homens acamparem. É propriedade privada, por isso ninguém nos pode expulsar de lá, a não ser as autoridades sanitárias. Mas vem aí um médico para se encarregar disso. — os homens do comitê sorriram entusiasmados, e Mac continuou: — Prometi a esse lavrador que lhe apanharíamos as maçãs gratuitamente. Não é trabalho que leve muito tempo. Há muita água e o lugar é bom e central.

Um dos homens levantou-se excitado, e perguntou:

— London, posso ir dizer aos rapazes, lá fora?

— Sem dúvida. Onde fica essa propriedade, "dótor"? Podemos fazer lá o nosso plenário, amanhã.

— É o pomar do Anderson, a pouca distância da cidade.

Três membros do comitê correram para a porta, a fim de dar a notícia. Primeiro houve silêncio e depois um clamor de vezes, de vozes que não gritavam, mas falavam animadamente. E o clamor alastrou e aumentou de volume, até encher o ar.

— Que aconteceu ao velho Dan? — perguntou Jim.

— Queriam levá-lo para um hospital, mas ele não se daria bem lá. — respondeu London. — Arranjamos um médico para lhe consertar a bacia. Está ali em baixo e duas boas mulheres cuidam do pobre velho... que está, aliás, a passar um bom bocado. Agora ninguém o arrancaria daqui. Faz a vida negra a toda a gente, incluindo às mulheres.

— Ainda não tiveram notícias dos proprietários? — perguntou Mac.

— Já. O superintendente esteve aí e perguntou se voltávamos para o trabalho. Respondemos que não e ele disse-nos: «Então quero-os fora daqui de manhã.» Diz que de manhã terá cá um comboio cheio de trabalhadores.

— Não terá nada. — afirmou Mac — Não poderá tê-los cá antes de depois de amanhã. É preciso tempo para escolher a dedo um grupo de fura-greves. Depois de amanhã estaremos preparados para eles. Escute, London, uns tipos que se intitularam um comitê de cidadãos tentaram expulsar-nos. a mim e ao Jim, do vale. É melhor avisar os rapazes para não saírem sozinhos. Digam-lhes que se quiserem ir a algium lado levem um grupo de amigos como companhia.

London fez sinal a um dos membros do comitê e disse-lhe:

— Passa a palavra, Sam.

Sam saiu. Ouviu-se de novo o clamor de vozes, que alastrou como uma onda sobre pedras redondas. Desta vez o tom era profundo e irado.

Mac enrolou lentamente um cigarro numa mortalha castanha.

— Estou cansado. — confessou — Temos muito que fazer, mas creio que o podemos deixar para amanhã.

— Vá para a cama. — aconselhou London — Tem andado numa correria como um doido.

— Pois tenho, é verdade. Parece tudo difícil quando nos sentimos cansados. Eles têm armas e nós não as podemos ter. Eles têm dinheiro e podem comprar os nossos rapazes. Cinco dólares parecem uma quantidade de pasta a estes pobres diabos meio-esfomeados. Tenha muito cuidado antes de dizer qualquer coisa, London. No fim de contas, não poderemos censurar muito os rapazes se eles se venderem. Temos de ser espertos, velhacos e rápidos. — a sua voz entristecera — Se não vencermos, haverá que começar tudo de novo, e será uma pena. Poderemos vencer tão facilmente se os homens se mantivessem unidos! Fazíamos ver uma fona dos diabos aos proprietários. Sem armas nem dinheiro. Temos de fazer as coisas com as nossas mãos e os nossos dentes.

Endireitou a cabeça bruscamente. London sorria compreensivo e embaraçado, como acontece aos homens quando um deles abre o coração.

O rosto pesado de Mac corou de vergonha. — Estou cansado. Aguentem vocês o barco, rapazes, enquanto eu e o Jim dormimos um bocado. A propósito, London, no correio de amanhã deve chegar uma encomenda para Alex Little. São panfletos. Devem chegar por volta das oito. Mande um grupo de tipos buscá-los, sim? E trate de os distribuir. Talvez ajudem. Vamos, Jim toca para a cama.

Deitaram-se no quarto às escuras. No exterior os homens esperavam e o murmúrio das suas vozes traspassava as paredes e parecia traspassar também o mundo. Longe, na cidade, uma locomotiva de manobras andava ruidosamente de um lado para o outro, a compor um comboio. Os caminhões do leite passaram, barulhentos, na estrada ao lado do pomar. De súbito, estranhamente, docemente, alguém tocou umas melodias numa gaita de beiços e o murmúrio de vozes emudeceu, enquanto os homens escutavam. Tirando o som da gaita de beiços, reinava silêncio no exterior, um silêncio tão grande que Jim ouviu um galo cantar antes de adormecer.

 

O dia rompia, frio e cinzento, quando um ruído de vozes, do lado de fora da porta, acordou Jim.

— Estão aqui, provavelmente ainda a dormir.

A porta abriu-se e Mac sentou-se.

— Estás aí, Mac? — perguntou uma voz familiar.

— Dick! Com o diabo, chegaste tão cedo?

— Vim com o Dr. Burton.

— O doutor também veio?

— Veio, está lá fora, à porta.

Mac riscou um fósforo e acendeu uma vela colada a um pires partido.

— Olá, miúdo. — disse Dick a Jim — Como te vais safando?

— Bem. Para que vens todo apinocado, Dick? Calças vincadas, camisa lavada...

— Alguém neste buraco tem de parecer respeitável. — respondeu o outro, constrangido.

— O Dick tenciona invadir todos os salões cor-de-rosa de Torgas. — comentou Mac — Escuta, Dick, tenho aqui mesmo uma lista de simpatizantes. Precisamos de dinheiro, claro, mas precisamos sobretudo de tendas, retalhos de lona e camas. Tendas, não te esqueças! Aqui tens a lista. Tem muitos nomes, como vês. Estabelece os contatos e nós mandaremos carros buscar o material. Muitos dos rapazes têm carro.

— Está bem, Mac. Como vai a coisa?

— Como um morcego saído do Inferno. Temos de trabalhar depressa para acompanhar o ritmo. — Mac atou os sapatos — Onde está o doutor? Porque não o mandas entrar?

—Entre, doutor.

Entrou no quarto um homem novo e louro. A sua cara era quase feminina, de tão delicada, e o seus grandes olhos tinham uma expressão triste e meiga como os de um perdigueiro. Trazia na mão o estojo de médico e uma pasta. — Como está, Mac? O Dick recebeu o seu telegrama e foi-me buscar.

— Agrada-me muito que tenha chegado tão depressa, doutor. Precisamos de si imediatamente. Este é o Jim Nolan.

Jim levantou-se, ao mesmo tempo que enfiava os pés nos sapatos. — Prazer em conhecê-lo, doutor.

— É melhor começares, Dick. — aconselhou Mac — Podes apanhar um pequeno-almoço no Al's Lunch Wagon, na Town send. Não o craves com mais nada além do pequeno-almoço. Já apanhamos um rancho ao velho dele. Pira-te, Dick, e lembra-te: tendas, lona, dinheiro... e tudo o mais que conseguires.

— Está bem, Mac. Todos os nomes da lista são fixes?

— Não sei. Experimenta. Ou queres que os experimente por ti?

— Vai para o Diabo.

Dick saiu e fechou a porta. A vela e a luz do alvorecer lutavam entre si, de modo que pareciam proporcionar menos claridade do que qualquer delas poderia dar sozinha. O quarto estava frio.

— O seu telegrama não era muito explícito. — disse o Dr. Burton — Em que consiste o trabalho?

— Um momento, doutor. Espreite pela janela e veja se estão a fazer café, lá fora.

— Bem está uma fogueirita acesa e tem uma panela, ou melhor, uma lata, em cima.

— Espere só um bocadinho.

Mac saiu e pouco depois voltou com uma lata de café fumegante e mal cheiroso.

— Jesus isso parece quente! — exclamou Jim.

— E bera. — acrescentou Mac — Bem, doutor, há muito tempo que não me aparecia uma coisa tão prometedora. Preciso de assentar umas ideias, pois não quero que este barulho saia dos eixos. — bebeu um gole de café — Sente-se naquele caixote. Temos dois hectares e meio de propriedade privada e o doutor terá todo o auxílio de que precisar. Pode projetar um acampamento, um acampamento perfeito, todo em linhas retas? Mandar abrir latrinas, dispor do lixo, encarregar-se da sanidade? E inventar uma maneira qualquer de se tomar banho? E encher de tal maneira o ar de ácido fénico ou cloreto que cheire a ar saudável? É capaz de fazer com que toda a região cheire a limpo?

— Sim, é possível. Dê-me ajuda suficiente e faço tudo isso. — os olhos tristes tornaram-se ainda mais tristes — Arranje-me vinte litros de fénico bruto e perfumarei quilômetros e quilômetros deste país.

— Ótimo. Vamos transferir os homens hoje. Examine-os o mais depressa que puder e veja se nenhum deles tem nada contagioso, sim? As autoridades sanitárias vão bisbilhotar muito e se nos apanharem em falta expulsar-nos-ão. Deixam-nos viver como porcos aqui, nos acampamentos, mas a partir do momento em que iniciamos uma greve tornam-se tremendamente zelosos da saúde pública.

— Está bem, está bem.

— Parece que tenho corda, não é? — murmurou Mac, confuso — O doutor sabe bem o que é necessário. Agora vamos falar com o London.

Os três homens que estavam sentados nos degraus do quarto de London levantaram-se e desviaram-se para Mac entrar. London que estava deitado a dormitar, soergueu-se num cotovelo: — Jesus, já é dia!

— E dia de Natal. — declarou Mac — Mr. London, apresento-lhe o Dr. Burton, diretor da Saúde Pública. Precisamos de alguns homens. Quantos quer, doutor?

— Bem, quantos vão ser instalados?

— Hum... entre mil e mil e quinhentos.

— Nesse caso, é melhor arranjarem-me quinze ou vinte homens.

— Eh, um de vocês! — chamou London e uma das sentinelas abriu a porta e espreitou. — Vê se me encontras o Sam.

— Com certeza!

— Convocamos uma reunião para as dez da manhã. — imformou London — Um grande plenário. Mandei informar os outros acampamentos acerca da propriedade do Anderson. Começarão a dirigir-se para lá muito em breve.

A porta abriu-se e Sam entrou, com o rosto magro cheio de curiosidade.

— Sam, este é o Dr. Burton e precisa de ti para seu braço direito. Vai lá fora e diz aos rapazes que queres voluntários para ajudar o doutor. Arranja vinte homens bons.

— Está bem, London. Quando os quer?

— Imediatamente. — respondeu Burton — Vamos já para o local e planejamos o acampamento. Posso levar oito ou nove na minha velha carripana. Arranjem alguém com carro para levar os restantes.

Sam olhou de London para Burton e de novo para London, para obter confirmação. London acenou com a cabeçorra. — Trata disso, Sam. Tudo quanto o doutor disser.

Burton levantou-se para sair com ele. — Gostaria de ajudar a escolher os homens. — declarou.

— Um momento. — pediu Mac — Está completamente limpo na cidade, não está, doutor?

— «Limpo»? Que quer dizer?

— Enfim, não há nada que possa ser considerado prática incorreta e de que o possam acusar?

— Que eu saiba, não. Claro que eles poderão fazer o que lhes apetecer, se o desejarem muito.

— Sim, bem sei. Mas poderia levar-lhes um certo tempo. Adeus, doutor, até logo.

Quando Burton e Sam saíram, Mac disse a London: — É bom tipo. Parece larila, com a sua carinha bonita, mas é suficientemente duro e tão eficaz como óleo de cróton. Tem alguma coisa que se coma, London?

— Tenho um pão e um bocado de queijo.

— Então porque esperamos? O Jim e eu esquecemo-nos de comer a noite passada.

— Eu acordei de noite e lembrei-me. — observou Jim.

London foi buscar um cartucho, a um canto, e tirou um pão e um naco de queijo. Houve uma certa agitação, no exterior, e as vozes que tinham estado emudecidas voltaram a ouvir-se. Abriam-se e fechavam-se portas, homens pigarreavam, limpavam a garganta de mucosidades, cuspiam e assoavam-se. O dia clareara e o sol brilhava, vermelho, através das janelas. Mac, a falar com a boca cheia de queijo, perguntou a London:

— Que pensa do Dakin como presidente-geral do comitê da greve e chefe absoluto?

London pareceu um pouco decepcionado, mas respondeu: — O Dakin é bom tipo, conheço-o há muito tempo.

Mac prcebeu a decepção de London e decidiu extirpá-la de vez: — Vou ser absolutamente franco consigo. Você dava um presidente formidável se não se enfurecesse. Quanto ao Dakin, não me parece homem para perder a cabeça e enfurecer-se. Se o chefe deste barulho alguma vez perder a tramontana e se enfurecer, estamos lixados.

A tentativa foi coroada de êxito.

— Sim, eu dano-me como um raio. — concordou London — Dano-me tanto que até fico doente. E você tem razão acerca do Dakin, ele é uma espécie de jogador. Nunca abre completamente os olhos, nunca perde o domínio da voz. Quanto piores as coisas se tornam, mais calmo ele fica.

— Nesse caso, no plenário, ponha todo o seu peso a favor do Dakin, combinado?

— Combinado.

— Não sei nada acerca desse tipo, do Burke, mas creio que com os nossos rapazes e os rapazes do Dakin poderemos amaciá-lo se ele se tornar difícil. É melhor começarmos a transferir os homens em breve, pois ainda é longe.

— Quando lhe parece que os furas começarão a chegar?

— Não antes de amanhã. Não creio que os patrões daqui já estejam convencidos de que isto é a sério e estamos decididos. Não poderão ter cá furas antes de amanhã.

— Que faremos quando eles desembarcarem?

— Bem, iremos esperar o comboio e entregar-lhes-emos as chaves da cidade. Devo receber um telegrama antes de eles partirem. Alguns dos rapazes irão ver em que param as modas às agências de emprego.

Levantou a cabeça e olhou para a porta. O ruído das vozes, no exterior, mantivera-se natural e monótono, mas de repente emudecera. Nisto, o silêncio foi rasgado por um assobio, a que se seguiram diversos gritos. Travava-se uma discussão qualquer no exterior.

London foi à porta e abriu-a. As três sentinelas estavam lado a lado, à frente da porta, e diante delas encontrava-se o superintendente do pomar, de calças de fustão e botas altas, ladeado por dois homens com o distintivo de ajudantes de xerife e armados de caçadeiras.

O superintendente olhou por cima da cabeça das sentinelas e disse: — Quero falar consigo, London.

— Não há dúvida de que traz um ramo de oliveira. — comentou o interpelado.

— Deixe-me entrar e talvez possamos decidir qualquer coisa.

London olhou para Mac, que acenou afirmativamente. O grande grupo de homens estava silencioso, à escuta. O «super» avançou, com os ajudantes de xerife à ilharga, e as sentinelas não se mexeram. Uma delas aconselhou:

— Ele que deixe os seus sabujos cá fora, chefe.

— É boa ideia. — concordou London — Não são precisas caçadeiras para se conversar.

O «super» olhou nervosamente para os homens silenciosos e ameaçadores.

— Que garantias tenho de que fará jogo limpo? — perguntou.

— Praticamente as mesmas que eu tenho a seu respeito.

O super decidiu-se: — Fiquem cá fora e mantenham a ordem. — disse aos seus homens.

Desta vez as sentinelas afastaram-se, deixaram-no entrar sozinho e retomaram o seu lugar. Os ajudantes de xerife estavam nervosos, apalpavam as armas e olhavam, acossados, à sua volta.

London fechou a porta e observou:

— Não sei porque não pôde dizer o que tinha a dizer lá fora, para os rapazes o ouvirem.

O superintendente viu Mac e Jim e ordenou, furioso, a London: — Ponha esses homens lá fora!

— Ná, ná!

— Escute, London, você não sabe o que está a fazer. Ofereço-lhes a oportunidade de voltarem ao trabalho se expulsarem estes homens.

— Porquê? São bons tipos.

— São vermelhos e estão a meter em sarilhos uma quantidade de bons homens. Eles estão-se absolutamente nas tintas para vocês todos, o que lhes interessa é poder desencadear barulho. Livre-se deles e poderão voltar ao trabalho.

— Suponhamos que os expulsamos. Obtemos o dinheiro pelo qual estamos em greve? Recebemos o que receberíamos antes da baixa do preço?

— Não. Mas poderão regressar ao trabalho sem mais complicações. Os proprietários fecharão os olhos a tudo quanto aconteceu.

— Nesse caso, para que terá servido a greve?

— Vou-lhe dizer o que estou disposto a propor. — redarguiu o «super», baixando a voz. — Consiga que os homens voltem para o trabalho e terá aqui um emprego certo, como ajudante de superintendente, com o salário de cinco dólares por dia.

— E estes rapazes, estes amigos meus?

— Cinquenta dólares para cada um, se saírem do vale.

Jim olhou para o rosto pesado e soturno de London e Mac sorriu, velhaco.

— Gosto de conhecer os dois lados de uma questão. — prosseguiu London. — Suponhamos que estes meus amigos não aceitam. Que acontecerá?

— Nesse caso, correremos com vocês daqui em meia hora e depois poremos todo o maldito grupo na lista negra! Não poderão ir para lado nenhum, não arranjarão trabalho seja onde for. Disporemos de quinhentos ajudantes de xerife, se precisarmos deles. Aí tem o outro lado da questão. Encontraremos maneira de você nunca mais arranjar trabalho neste mundo e, além disso, meteremos os seus compinchas no xadrez e faremos o necessário para que apanhem a pena máxima.

— Não poderá prendê-los se eles tiverem dinheiro.

O superintendente aproximou-se mais, a tentar tirar partido da sua vantagem.

— Não seja parvo. London. Sabe tão bem como eu o que são as leis da vadiagem. Sabe que vadiagem é uma coisa que o juiz não quer que se faça,... e, se o ignora, o nome do juiz daqui é Hunter. Vamos, London, mande os homens regressar ao trabalho. Isso significará, para si, um emprego seguro, a cinco dólares por dia.

London olhou para Mac, a pedir-lhe mudamente instruções. Mac deixou que o silêncio se prolongasse.

— Então, London? Aqui os seus amigos vermelhos não o podem ajudar e você sabe isso muito bem.

Jim tremia de olhos muito abertos e serenos. Mac observou London e viu o que o superintendente não via: os ombros a retesarem-se e a alargarem, o grande pescoço musculoso a descer entre eles, os braços a arquearem e a subirem lentamente, uma cintilação perigosa a iluminar os olhos e um rubor a alastrar pelo pescoço e pelas faces.

De súbito, Mac gritou, vivamente: — London!

London estremeceu e descontraíu-se um pouco.

— Conheço uma saída, London. — disse Mac, calmamente — Enquanto esse cavalheiro aqui está, façamos um plenário e informemos os homens do que nos foi oferecido para os traírmos. Pôr-se-á à votação se você ficará ou não com o emprego de cinco dólares por dia e depois... bem, depois tentaremos evitar que os rapazes linchem o cavalheiro.

O superintendente ficou escarlate de cólera. — Foi a minha última oferta. — declarou — Aceitem-na ou vão-se embora.

— Estávamos precisamente a preparar-nos para nos irmos embora. — informou Mac.

— Terão de sair de Torgas Valley, ou correremos com vocês.

— Oh, não, não correrão! Temos parte de uma propriedade privada onde poderemos ficar. O dono convidou-nos.

— Isso é mentira!

— Escute, mesmo assim, vamos ter uma certa dificuldade em conseguir que saia daqui com os seus guarda-costas. — lembrou Mac — Não complique mais as coisas.

— Mas onde pensam vocês que vão ficar?

Mac sentou-se num caixote e a sua voz tornou-se mais fria, ao responder: — Vamos acampar na propriedade do Anderson. A primeira coisa em que vocês vão pensar, meus filhos, é na maneira de nos expulsarem de lá. Correremos o risco. A segunda coisa em que vocês, suas doninhas, pensarão, será na maneira de se vingarem do Anderson. Por isso, ouça bem o que lhe vou dizer: se algum dos seus rapazes tocar naquela propriedade ou fizer mal ao Anderson, se lhe destruírem uma só macieira, poremos mil homens em campo, cada um deles com uma caixa de fósforos. Entendeu bem, mister? Considere isto uma ameaça, se quiser: toquem no rancho do Anderson e por Cristo lhe juro que lançaremos fogo a todas as malditas casas e celeiros de todos os ranchos do vale! — havia lágrimas de fúria nos olhos de Mac e o seu peito estremecia, como se ele estivesse prestes a chorar.

O «super» virou bruscamente a cabeça para London e perguntou-lhe: — Está a ver com que gênero de homens se meteu, London? Sabe quantos anos poderá apanhar por fogo posto?

— É melhor pirar-se, mister. — respondeu London, rouco, quase sufocado — É melhor pirar-se, pois se não o fizer mato-o. Mac, faça-o ir-se embora! — gritou. — Pelo amor de Deus faça-o ir-se embora!

O superintendente afastou-se, às arrecuas, do corpo pesado e ofegante de London e estendeu a mão para trás, à procura da maçaneta da porta. — Ameaça de assassínio. — disse, em voz pastosa, ao mesmo tempo que a porta se abria.

— Para provar que existiu ameaça precisa de testemunhas. — lembrou-lhe Mac.

Do lado de fora, os ajudantes de xerife tentaram ver para o interior do quarto, por entre os corpos rígidos das sentinelas.

— São doidos, todos vocês. — disse o superintendente — Se eu precisasse, arranjaria dúzias de testemunhas fosse para o que fosse. Ouviram as minhas últimas palavras.

As sentinelas desviaram-se para o deixar passar e os ajudantes de xerife ladearam-no. Nem um som saiu da boca dos homens agrupados, que abriram espaço para eles passarem. Os homens silenciosos seguiram-nos com o olhar, com um olhar intrigado e colérico. Os três indivíduos dirigiram-se para um grande carro que os esperava a uma extremidade do edifício, instalaram-se e partiram. Depois a multidão virou a cabeça lentamente e voltou a olhar para a porta aberta do quarto de London. Este estava encostado à ombreira, desfigurado e como que sem forças.

Mac aproximou-se e passou o braço pelos ombros de London. Estavam sessenta centímetros acima das cabeças dos homens silenciosos. Mac gritou: — Escutem, rapazes. Não lhes quisemos dizer antes de eles se irem embora, pois tínhamos receio de que vocês os desancassem até à morte. Aquele canalha veio aqui tentar convencer o London a traí-los: o London ficaria com um emprego certo e vocês seriam lixados.

Começou a ouvir-se um rugido, um rugido de dentes cerrados. Mac levantou a mão e acalmou-os: — Não há necessidade de se enfurecerem. Basta que se lembrem disto mais tarde: eles tentaram comprar o London e não conseguiram. Agora calem-se um momento e prestem atenção. Precisamos de sair daqui. Temos um rancho onde poderemos ficar. Terá de haver ordem, pois só dessa mameira conseguiremos vencer. Todos nós teremos de acatar as ordens que recebermos. Todos os homens que tiverem carros levam as mulheres e as crianças e as coisas que não puderem ser transportadas de outra maneira. Os restantes terão de ir a pé. Peço-lhes que sejam decentes. Não partam nada... por enquanto. E mantenham-se juntos. Enquanto preparam as suas coisas, o London deseja falar com o comitê.

Mal se calou, estabeleceu-se uma certa turbulência. Gritos e risos, enquanto os homens dispersavam, em remoinhos. Pareciam repletos de uma alegria terrível, de uma alegria sanguinária e concupiscente. O seu riso era pesado. Entraram nos quartos, tiraram as suas coisas e empilharam-nas no chão: panelas, cafeteiras, cobertores e trouxas de roupa. As mulheres trouxeram carrinhos de mão para as crianças. Seis dos membros do comitê abriram dificilmente caminho e entraram no quarto de London.

O sol já subira acima das árvores e aquecera o ar. Atrás do barracão, velhas carripanas amachucadas começaram a arrancar, ruidosamente. Ouviam-se marteladas, enquanto os homens encaixotavam os seus haveres. Reinava uma atividade intensa, com a agitação de intermináveis idas e vindas de opiniões gritadas, de decisões tomadas e vencidas.

London deixou entrar o comitê e fechou a porta, por causa do barulho. Os homens estavam silenciosos e tinham um ar cheio de dignidade, grave e importante. Sentaram-se nos caixotes, envolveram os joelhos com os braços e lançaram olhares carregados de presságios às paredes.

— London, importa-se que fale com eles? — perguntou Mac.

— Claro que não; fale.

— Não quero armar em estrela do espectáculo, rapazes, mas tenho alguma experiência. Já passei por isto antes. Talvez lhes possa mostrar onde a coisa costuma falhar e talvez consigamos evitar algumas das dificuldades que nos tramam.

— Continue, amigo. — pediu um dos homens — Ouvi-lo-emos.

— Muito bem, agora temos fogo suficiente. Mas é esse o mal destes trabalhadores. Num momento estão cheios de vapor, como um barril de cerveja, e no seguinte estão frios como o coração de uma prostituta. Temos de reduzir o vapor e de aquecer o frio. Desejo apresentar uma sugestão. Vocês estudá-la-ão e depois talvez consigam que o grupo todo vote nela, Na sua maioria, as greves falham por falta de disciplina. Suponhamos que dividíamos os homens em brigadas e cada brigada elegia um chefe, o qual se tornava responsável por ela. Depois disso poderemos trabalhar em grupos. Um dos homens observou:

— Muitos destes tipos estiveram na tropa e não gostaram nada.

— Claro que não gostaram. Tratava-se de travar a guerra de outro gajo qualquer. Enfiavam-lhes os oficiais pelas goelas abaixo. Se tivessem elegido os seus oficiais e travado a sua própria guerra, teria sido diferente.

— Muitos destes tipos não gostam de oficiais nenhum.

— Mas terão de os ter. Levaremos uma trepa mestra se não tivermos disciplina. Se a brigada não gostar do chefe, corre com ele e elege outro. Isso deverá satisfazê-los. Além dos oficiais, precisamos de ter um chefe principal. Pensem no assunto. Haverá um plenário dentro de cerca de duas horas e temos de ter um plano elaborado.

London coçou a tonsura.

— A mim parece-me bem. Discutirei o caso com o Dakin assim que o vir.

— Entendido. — disse Mac — Vamos. Jím, não te afastes de mim.

— Dá-me qualquer trabalho.

— Não. Ficas perto de mim. Posso precisar de ti.

 

Os dois hectares e meio de terra arável da propriedade de Anderson estavam rodeados em três lados por grandes macieiras escuras e no quarto pela estrada municipal, estreita e poeirenta. Os homens tinham chegado aos magotes, a rir e a gritar uns com os outros, e encontrado preparativos feitos. À sua espera havia estacas cravadas na terra macia, a defínir as ruas do acampamento: cinco ruas correndo paralelamente à estrada municipal e, defronte do fim de cada rua, um buraco fundo, para servir de retrete.

Antes do trabalho da construção do campo começar, efetuaram o plenário com certa ordem, elegeram Dakin presidente e aceitaram o seu comitê. Aceitaram também com entusiasmo a sugestão das brigadas.

Mal tinham começado a reunir-se, cinco motociclistas da Polícia apareceram e pararam na estrada municipal. Os ocupantes encostaram as motos e observaram o trabalho. Ergueram-se tendas e planearam-se abrigos. O Dr. Burton dos olhos tristes estava em toda a parte, a orientar o levantamento do acampamento. Havia pelo menos cem velhos automóveis ao longo da estrada alinhados como carretas num parque de artilharia e todos com a frente virada para a estrada. Viam-se Fords antigos, com os estofos numa desgraça; Chevrolets e Dodges de «focinho» ferrugento, tinta caída e guarda-lamas soltos — e até sem guarda-lamas —, e Hudsons nas últimas, que faziam um barulho parecido com o das metralhadoras, quando arrancavam. Pareciam velhos soldados numa reunião. Ao fím da fila de automóveis via-se a camioneta Chevrolet de Dakin, limpa, nova e reluzente. Era de todos os veículos, o único que estava em bom estado, e Dakin, nas suas voltas pelo acampamento, rodeado pelos membros do seu comitê, raramente a perdia de vista. Enquanto falava ou escutava, os seus olhos feios e semicerrados voltavam-se vezes sem conta para a sua reluzente camioneta verde.

Erguidas as velhas tendas cinzentas, Burton insistiu em que a lona fose esfregada com água e sabão. Um veículo trouxe barris de água da cisterna de Anderson e as mulheres lavaram as tendas com vassouras velhas. Anderson aproximou-se e asistiu, com olhos preocupados, à transformação dos seus dois hectares e meio num acampamento. Cerca do meio-dia estava pronto e novecentos homens foram trabalhar no pomar, colhendo maçãs para dentro de cafeteiras, chapéus e sacas de sarapilheira. As escadas estavam longe de ser suficientes e os homens amarinhavam pelos troncos. Ao escurecer, a colheita estava feita e os renques de caixotes cheios foram levados para o celeiro de Anderson e armazenados. Dick tinha trabalhado depressa. Mandou um rapaz pedir que lhe enviassem à cidade homens e um caminhão, o qual regressou carregado com tendas de todas as espécies: tipo sombrinha, de lona castanha clara; baixas e em bico, e grandes tendas militares com espaço para dez homens. O caminhão trouxe também duas sacas de massa, sacas de farinha, caixotes de alimentos enlatados, sacas de batatas e cebolas e uma vaca já abatida.

As novas tendas ergueram-se ao longo das ruas e o Dr. Burton superintendeu às instalações para cozinhar. Mandaram-se carros à lixeira da cidade, os quais voltaram com três fogões ferrugentos, cuja parte superior esburacada foi remendada com bocados de folha. Escolheram-se cozinheiros, encheram-se recipientes de água, esquartejou-se a vaca e puseram-se a cozinhar batatas e cebolas, em colossais guisados. Cozeram-se também baldes de feijão. À noite, terminada a apanha, os homens regressaram e encontraram à sua espera tinas de guisado. Sentaram-se no chão e comeram de bacias, canecas e latas de folha.

Quando escureceu, os polícias das motocicletas foram rendidos por cinco ajudantes de xerife armados de espingardas. Durante algum tempo andaram para trás e para diante na estrada, marcialmente, mas por fim sentaram-se na valeta e observaram os homens. Havia pouca luz no acampamento. Aqui e ali uma lanterna iluminava uma tenda e as chamas de pequenas fogueiras projetavam sombras. Num dos extremos da primeira rua, que ficava mesmo atrás da sua reluzente camioneta verde, erguia-se a tenda de Dakin, uma tenda grande, com uma parede de lona ao meio, a fazer dois quartos. A mesa e as cadeiras articuladas estavam armadas e o chão coberto por um pano, e do centro pendia uma sibilante lanterna a gasolina. Dakin vivia bem e viajava com toda a comodidade. Não tinha vícios e tudo quanto ele ou a mulher ganhavam ia para a manutenção da família, para a camioneta e para a compra de novo equipamento de campismo.

Quando escureceu, London, Mac e Jim dirigiram-se para a tenda dele e entraram. Com Dakin já se encontravam Burke, um irlandês carrancudo e ameaçador, e dois italianos baixos, muito parecidos um com o outro. Mrs. Dakin recolhera-se à outra divisão da tenda. A pele rosada do crânio de Dakin brilhava, através do cabelo louro, à luz branca da lanterna. Os seus olhos reservados não paravam, inquietos.

— Olá, rapazes. Sentem-se onde puderem.

London escolheu a única cadeira que restava e Mac e Jim acocoraram-se no chão. Mac tirou a bolsa do tabaco e fez um cigarro. — Parece estar tudo a correr bem. — observou.

Os olhos de Dakin detiveram-se nele, mas desviaram-se logo. — Assim parece, de fato — concordou.

— Mandaram para cá os chuis muito depressa. — comentou Burke — Teria um grande prazer em esmurrar alguns deles.

Dakin repreendeu-o, calmamente: — Deixa os chuis em paz até não poderes aguentar mais. Eles não estão a fazer mal nenhum.

— Como vão as brigadas? — indagou Mac.

— Bem. Elegeram os chefes, mas algumas já correram com eles e elegeram outros. Devo dizer que o Dr. Burton é um tipo formidável.

— Sim, é fixe. — concordou Mac — Onde estará? Não seria mau se uma das brigadas o protegesse. Quando começarmos o trabalho, tentarão levá-lo daqui, e se conseguirem levá-lo a ele poderão correr conosco. Tudo em nome do «perigo para a saúde pública», como dizem.

— Encarrega-te disso, sim Burke? — pediu Dakin — Diz a uma boa brigada que tome conta do doutor. Os rapazes gostam dele.

Burke levantou-se e saiu da tenda.

— Diz-lhe o que me disseste, Mac. — pediu London.

— Bem, os rapazes julgam que isto é uma espécie de piquenique, Dakin, mas amanhã de manhã o piquenique acaba e começa a dança.

— Furas?

— Sim, um comboio deles. Tenho um rapaz na cidade que vai ao telégrafo por mim. Chegou um telegrama, esta noite: partiu hoje um comboio de mercadorias cheio de furas, que deve cá estar amanhã de manhã.

— Bem, acho que o melhor é irmos esperar o comboio e ter uma conversa com os novos tipos. — disse Dakin — Talvez sirva de alguma coisa, antes de dispensarem todos.

— Foi o que eu pensei. — concordou Mac — Já uma ocasião vi uma leva completa de furas passar-se para o nosso lado, quando lhe explicámos como as coisas eram.

— Nós explicaremos a estes.

— Escute, os chuis tentarão impedir-nos. Não seria possível deixar os tipos passarem-se à sorrelfa por entre as árvores, antes de nascer o dia, e deixar os chuis a ver navios, aqui?

Durante um segundo os olhos de Dakin cintilaram. — Acham que daria resultado? — os homens riram-se, encantados, e Dakin acrescentou: — Então vão informar os rapazes.

— Um momento. — pediu Mac — Se disser aos rapazes esta noite, deixará de ser segredo.

— Que quer dizer?

— Não imagina que não temos espiões no campo, pois não? Aposto que temos pelo menos cinco, disfarçados, além daqueles capazes de dizer tudo e mais alguma coisa na esperança de ganharem umas coroas. Foi sempre assim, co's diabos! Não lhes diga nada até estar pronto para partir.

— Não acredita nos rapazes, hem?

— Bem, se quer correr o risco, corra. Aposto que descobrirá que os chuis nos acompanham.

— Que pensam vocês?

— Creio que ele tem razão, Dakin. — respondeu um dos italianos.

— Está decidido, então. Temos de deixar cá um grupo para tomar conta do acampamento.

— Pelo menos cem homens. — sugeriu Mac — Se abandonarmos o acampamento, eles incendiá-lo-ão, tão certo como estarmos aqui.

— Os rapazes apanharam as maçãs do Anderson num instante.

— É verdade. — confirmou Dakin — Neste momento estão duzentos ou trezentos no pomar, aqui ao lado. O Anderson terá uma colheita maior do que imaginava.

— Espero que não causem sarilhos por enquanto. — murmurou Mac — Mais tarde não faltarão.

— Quantos furas vêm? Conseguiu saber?

— Entre quatrocentos e quinhentos, amanhã. Creio que depois virão mais! Não se esqueça de dizer aos rapazes que levem pedras com fartura nas algibeiras.

— Não esquecerei.

Burke voltou e informou: — O doutor vai dormir numa daquelas grandes tendas militares. Dormirão dez rapazes com ele, na mesma tenda.

— Onde está agora o doutor? — perguntou Mac.

— Descobriu vestígios de tinha num tipo e está a tratar dele junto dos fogões.

Nesse momento soou um coro de gritos no acampamento, e depois ouviu-se uma voz gritar, irritada. Os seis homens saíram a correr da tenda. O barulho partira de um grupo que se encontrava do lado da frente da rua voltada para a estrada. Dakin abriu caminho através dos homens e perguntou: — Que se passa aqui?

A voz irritada respondeu-lhe: — Eu digo-lhe o que se passa: os seus homens começaram a atirar pedras. Aviso-o de que, se voltarem a fazer o mesmo, dispararemos e não nos imteressará quem atingimos.

Mac virou-se para Jim, que estava a seu lado, e disse-lhe baixinho: — Quem me dera que começassem mesmo a disparar. Esta corja de idiotas é capaz de se fazer em frangalhos se não acontecer nada desagradável muito em breve. Estão a sentir-se demasiado bem. Não tarda que comecem à porrada uns com os outros.

London avançou, furioso, para o grupo de homens e gritou-lhes: — Vão-se embora! Não lhes falta que fazer, não precisam de estar com brincadeiras de garotos. Toca a andar, voltem para os seus lugares!

A autoridade de London fê-los retroceder, amuados, mas foi com relutância que dispersaram.

O ajudante de xerife gritou: — Se não mantiverem esses tipos na ordem, mantê-los-emos nós, com Winchesters.

— Pode meter a cabeça debaixo da asa e voltar a dormir. — redarguiu-lhe Dakin, friamente.

— Os chuis estão cheios de cagaço. — segredou Mac a Jim — Isso torna-os perigosos. São como cascavéis assustadas: dispararão contra tudo.

O grupo afastara-se e os homens estavam a dirigir-se para as suas tendas.

— Vamos ver como está o doutor, Jim. Disseram que se encontrava junto dos fogões.

Descobriram o Dr. Burton sentado num caixote, a ligar o braço de um homem. Uma lanterna a petróleo fazia incidir um feixezinho de luz amarela no seu trabalho e iluminava um pequeno círculo no chão. Prendeu a ligadura com adesivo.

— Pronto. Para a próxima não deixe infectar tanto, pois arrisca-se a ficar sem um braço.

— Obrigado, doutor. — agradeceu o homem, e afastou-se, a baixar a manga da camisa.

— Olá! — exclamou o médico, ao ver Mac e Jim — Creio que acabei.

— Era o da tinha?

— Não. Apenas um golpezinho, mas já com uma infecção bem lançada. Não há meio de aprenderem a tratar os golpes.

— Se o doutor detectasse um caso de bexigas e tivesse de montar uma enfermaria de quarentena, ficaria feliz da vida. — observou Mac — Que vai fazer agora?

Os olhos castanhos, tristes, olharam, fatigados, para Mac.

— Bem, creio que já fiz tudo. Mas tenho de ir ver se a brigada desinfectou as retretes como eu mandei.

— Cheiram a desinfectadas. Porque não vai antes dormir? Não dormiu nada a noite passada.

— Estou cansado, mas não tenho sono. Há coisa de uma hora que tenho estado a pensar que, quando acabasse, talvez fosse até ao pomar e me sentasse encostado a uma árvore, a descansar.

— Importa-se de ter companhia?

— Não. Até me agrada. — Burton levantou-se e acrescentou: — Deixem-me só lavar as mãos. — enfiou as mãos numa lata de água quente, ensaboou bem e passou-as por água limpa. — Vamos então.

Os três homens afastaram-se vagarosamente das ruas de tendas, na direção do pomar às escuras. Os seus pés esmagavam suavemente pequenos torrões de terra.

— Mac, você é um enigma para mim. — confessou Burton, em tom de fadiga — Adapta-se a qualquer conversa em que esteja a participar. Quando está com o London e o Dakin fala como eles. É um ator.

— Não, não sou nada um ator. Falar tem uma espécie de tom, de atmosfera... Quando os capto, a coisa sai-me naturalmente. Não tento imitar. Creio aé que não poderia deixar de fazer o que faço, mesmo que quisesse. Compreende, doutor, os homens desconfiam daqueles que não falam à sua maneira. Pode-se insultar gravemente um indivíduo pelo simples emprego de uma palavra que ele não compreende. Ele poderá calar-se, mas ficará a detestar quem assim proceder. No seu caso não é a mesma coisa doutor. Já esperavam que fosse diferente e nem confiariam em si se o não fosse.

Entraram nas alamedas abobadadas, fechadas pelas árvores, viram os cachos de folhas e os ramos recortados, escuros no céu. O sussurro abafado do acampamento já não se ouvia. Uma coruja piou estridentemente e assustou-os.

— É uma coruja, Jim. — explicou Mac — Anda a caçar ratos. — e acrescentou, dirigindo-se ao médico: — O Jim conhece pouco o campo. As coisas que nós conhecemos são novidade para ele. Sentemo-nos aqui.

Mac e o médico semtaram-se no chão, encostados ao tronco largo de uma velha macieira; Jim sentou-se diante deles, de pernas dobradas. A noite estava serena e as folhas pretas não buliam no ar parado.

— O senhor é um enigma para mim, doutor. — disse Mac, baixinho, pois a noite parecia estar à escuta.

— Eu? Um enigma?

— Sim, o senhor. Não é do Partido, mas trabalha constantemente conosco e nunca recebe nada por isso. Não sei se acredita no que estamos a fazer ou não, pois nunca o diz. Limita-se a trabalhar. Já trabalhei consigo noutras ocasiões e ainda não tenho a certeza se acredita sequer na causa.

O médico soltou uma gargalhada breve. — É difícil explicar. Podia dizer-lhe algumas das coisas que penso, mas você talvez não gostasse... tenho mesmo a certeza de que não gostaria.

— De qualquer maneira, ouçamo-las.

— Diz que não acredito na causa. Bem isso é como não acreditar na Lua, Já houve comunas antes e voltará a havê-las. Mas vocês estão convencidos de que se conseguirem instituí-las, o trabalho estará feito. Nada pára, Mac. Se você conseguisse pôr uma ideia em execução, amanhã, ela começaria imediatamente a mudar. Estabeleça uma comuna e o mesmo fluxo gradual continuará.

— Então não acha que a causa seja boa?

Burton suspirou. — Está a ver? Vamos malhar outra vez nessa velha pedra. É por isso que não gosto muito de falar. Escute, Mac, os meus sentidos não estão acima de censura, mas são tudo quanto tenho. Quero ver o quadro completo... o mais completamente que puder. Não quero pôr os antolhos do «bom» e do «mau» e limitar a minha visão. Se utilizasse o termo «bom» numa coisa, perderia a autoridade para a inspecionar, pois poderia haver mal nela. Não compreende? Quero poder olhar para o todo.

— E a injustiça social? — perguntou Mac, acaloradamente — O sistema do lucro? Tem de dizer que são maus.

O médico inclinou a cabeça para trás e olhou para o céu. — Mac, pense na injustiça fisilógica... a injustiça do tétano, a injustiça da sífilis, os métodos de gangsterismo, da disenteria amebiama... É esse o meu campo.

— A revolução e o comunismo curarão a injustiça social.

— Sim, e a desinfecção e a profilaxia evitarão as outras.

— Mas é diferente! Uma é feita pelos homens, as outras fazem-nas os germes.

— Não vejo grande diferença, Mac.

— Com a breca, doutor, há tétano em toda a parte, pode encontrar sifilis na Park Avenue. Sendo assim, porque anda conosco, se não é por nós?

— Quero ver. Quando se corta um dedo e os estreptococos invadem a ferida, há inchaço e dor. O inchaço é a luta que o corpo trava, a dor é a batalha. Não se sabe qual dos dois vai ganhar, mas a ferida é o primeiro campo de batalha. Se as células perdem a primeira batalha, os estreptococos invadem e o combate prossegue pelo braço acima. Estas pequenas greves são como a infecção, Mac. Há qualquer coisa que entrou nos homens, manifestou-se um pouco de febre e os gânglios linfáticos estão a enviar reforços. Como quero ver, vou para a sede da ferida.

— Acha que a greve é uma ferida?

— Acho. Os homens-grupo estão sempre a contrair qualquer espécie de infecção. Esta parece grave. Quero ver, Mac. Quero ver estes homens-grupo, pois parecem-me um indivíduo novo, nada semelhante aos homens individuais. Um homem no grupo não é ele próprio e sim uma célula de um organismo tão diferente dele como as células do seu corpo são diferentes de você. Quero observar o grupo e ver como ele é. Já tenho ouvido dizer: «As multidões são loucas, nunca se sabe o que farão.» Porque será que as pessoas não vêem as multidões como multidões, mas sim como homens? Uma multidão parece quase sempre agir razoavelmente, para uma multidão.

—Que tem isso a ver com a causa?

— Encaremos as coisas deste modo, Mac, pois pode ser isso que se passa: Quando o homem-grupo quer fazer qualquer coisa, arranja um chavão. «Deus quer que recuperemos a Terra Santa.» Ou: «Apagaremos a injustiça social com o Comunismo.» Mas o grupo não quer saber para nada da Terra Santa, da Democracia, ou do Comunismo. Talvez o grupo queira simplesmente atuar, lutar, e utilize essas palavras apenas para tranquilizar o cérebro dos homens individuais. Note, eu disse que podia ser isto.

— Com a causa, não é! — afirmou Mac.

— Talvez não. Trata-se apenas do modo como penso.

— O seu mal, doutor, é estar muitíssimo à esquerda para ser comunista. Leva a coletivização demasiado longe. Como explica as pessoas como eu, que dirigem coisas, põem coisas em andamento? Isso faz cair pela base o seu homem-grupo.

—Você tanto pode ser um efeito como uma causa, Mac. Pode ser uma expressão do homem-grupo, uma célula encarregada de uma função especial — como uma célula ocular — pode retirar a sua força do homem-grupo e ao mesmo tempo dirigi-lo, como um olho. Os seus olhos recebem ordens do seu cérebro e dão-lha, também.

— Isso não é prático. — declarou Mac, descontente — Que tem todo esse gênero de conversa a ver com homens famintos, com suspensões e desemprego?

— Talvez tenha muito a ver com tudo isso. Ainda não há muito tempo, o tétano e o trismo não eram relacionados um com o outro. Ainda há no mundo povos primitivos desconhecedores de que as crianças são o resultado de relações sexuais. Sim, talvez valesse a pena saber mais coisas acerca do homem-grupo, conhecer a sua natureza, os seus objetivos e os seus desejos, que não são os mesmos que os nossos. O prazer que sentimos ao coçar qualquer sítio onde temos comichão causa a morte a um grande número de células. Talvez o homem-grupo sinta prazer quando os homens individuais são dizimados numa guerra. Quero simplesmente ver o mais que puder, Mac, com os meios de que disponho.

Mac levantou-se e sacudiu os fundilhos das calças. — Quando se vê demasiado, não se faz nada. — sentenciou.

Burton levantou-se também, a rir baixinho. — Talvez um dia... Ora, deixemos isso! Não devia ter falado tanto... Mas clarifica um pensamento exprimi-lo por palavras, mesmo que ninguém ouça.

Retrocederam, a esmagar com os pés os torrões friáveis, a caminho do acampamento.

— Não podemos observar nada, doutor. De manhã temos de vencer uma corja de furas.

— Deus vult. Viu aqueles pointers do Anderson? Belos cães. Causaram-me um prazer sensual, quase sexual.

Ainda havia luz na tenda de Dakin. O acampamento dormia e apenas algumas brasas amodorradas brilhavam nas ruas. A fila silenciosa de carripanas velhas continuava no mesmo lugar e, na estrada, brilhavam espasmodicamente os cigarros dos vigilantes ajudantes de xerife.

— Ouviste aquilo, Jim? Mostra o que o Burton é. Vê um casal de belos cães, de bons cães de caça, mas para ele não são cães: são sensações. Para mim são cães. E estes tipos que dormem para aí são homens e têm estômago, mas para o doutor não são homens e sim uma espécie de Colosso coletivo. Se não fosse médico, não o poderíamos ter conosco. Precisamos da sua arte, mas o seu cérebro só serve para nos lançar na confusão.

Burton riu-se, mas como quem se desculpa. — Não sei porque continuo a falar. Vocês, homens práticos conduzem sempre homens práticos, que têm estômago. E há sempre qualquer coisa que descarrila, que não corre como se previa. Os seus homens descontrolam-se, não respeitam as normas do senso comum, e vocês, homens práticos, ou negam que é assim ou recusam-se a pensar no assunto. E quando alguém pergunta a si mesmo que será que torna um homem com estômago algo mais do que as vossas regras permitem, gritam: «Sonhador, místico, metafísico!» Não sei porque falo destas coisas a um homem prático. Não há em toda a história homens que tenham chegado a uma confusão tão tremenda, a tão grande perplexidade, como os homens práticos, condutores de homens com estômago.

— Temos um trabalho a fazer. — teimou Mac — Não podemos desperdiçar tempo com ideias complicadas.

— Sim, e por isso iniciam o trabalho sem conhecerem o meio. E a ignorância mete-lhes sempre uma rasteira.

Já estavam perto das tendas.

— Se falasse com outras pessoas desse modo, teríamos de correr consigo. — comentou Mac.

Um vulto negro ergueu-se de súbito do chão e uma voz perguntou:

— Quem vem lá? — e logo a seguir: — Ah, são vocês! Não sabia quem vinha aí.

— O Dakin montou guardas? — perguntou Mac.

— Montou.

— É um homem fixe. Eu sabia que era um homem fixe, de cabeça fria.

Pararam junto de uma grande tenda bicuda, do exército.

— Acho melhor recolher-me. — disse o médico — É aqui que dormem os meus guarda-costas.

— Boa idéia. Provavelmente amanhã terá de fazer uns curativos.

Quando o médico desapareceu no interior da tenda, Mac virou-se para Jim e disse-lhe:

— Não há motivo nenhum para não dormires também um bocado.

— E tu, que vais fazer?

— Eu? Lembrei-me de dar por aí uma vista de olhos, para ver se está tudo em ordem.

— Quero ir contigo. Limitar-me-ei a acompanhar-te.

— Não fales tão alto. — Mac dirigiu-se, devagar, na direção da fila de automóveis — Ajudas-me, Jim. Posso parecer-te piegas como uma velha, mas evitas que me assuste.

— Não faço outra coisa senão andar atrás de ti.

— Bem sei. Talvez esteja a ficar mole... Tenho um medo danado de que te aconteça alguma coisa. Não te devia ter trazido, Jim. Estou a habituar-me a contar contigo.

— Que vamos fazer agora, Mac?

— Desejava que te fosses deitar. Eu vou tentar meter conversa com os chuis da estrada.

— Para quê?

— Ouve lá, não ficaste perturbado com o que o doutor disse, pois não?

— Não. Nem lhe dei ouvidos.

— Tudo aquilo são tretas, mas o que te vou dizer não o é. Ganha-se uma greve de duas maneiras: porque os homens lutam com firmeza e porque a opinião pública está do nosso lado. Mas a maioria deste vale pertence a meia dúzia de tipos, o que significa que o resto das pessoas não tem grande coisa, seja do que for. Os poucos proprietários têm de lhes pagar ou de lhes mentir. Aqueles chuis que estão na estrada são ajudantes especiais, simples trabalhadores eventuais com uma estrela, uma arma e um emprego de duas semanas. Lembrei-me de tentar sondá-los, descobrir o que pensam desta greve. Suponho que o que eles sentem é o que os patrões lhes disseram que sentissem, mas de qualquer modo não faz mal nenhum experimentar.

— E se eles te prenderem? Lembra-te do que aquele tipo disse na estrada, ontem à noite.

— Estes são apenas ajudantes, Jim. Não me reconhecerão como um polícia efetivo reconheceria.

— Bem, quero ir contigo.

— Pois sim. Mas se alguma coisa te parecer estranha, pira-te para o acampamento e desata a berrar.

Numa tenda, atrás deles, um homem gritou, a sonhar. Um coro abafado de vozes acordou-o e interrompeu-lhe o sonho.

Mac e Jim esgueiraram-se silenciosamente por entre dois automóveis e aproximaram-se de um pequeno grupo de cigarros acesos. As brasas quase se apagaram e mudaram de posição, quando a sua presença foi detectada.

— Eh, podemos chegar aí? — perguntou Mac.

— Quantos são? — perguntou uma voz do grupo.

— Dois.

— Então venham.

Ao acercarem-se, uma lanterna elétrica acendeu-se e o seu feixe luminoso tocou-lhes momentaneamente o rosto e apagou-se. Os ajudantes do xerife levantaram-se e o porta-voz perguntou: — Que querem?

— Não conseguimos dormir. — respondeu Mac — Lembramo-nos de vir até aqui conversar.

O homem riu-se. — Esta noite não nos tem faltado companhia.

No escuro, Mac tirou a sua bolsa de Bull Durham e convidou: — Algum de vocês quer fumar?

— Temos cigarros. Que desejam?

— Eu explico-lhes. Muitos dos rapazes querem saber o que pensam da greve e mandaram-nos perguntar-lhes. Sabem que vocês são apenas trabalhadores, como eles, e desejam saber se não estarão dispostos a ajudar os vossos iguais.

As suas palavras foram escutadas em silêncio e Mac olhou à sua volta, inquieto.

— Muito bem, tansos. — disse uma voz, suavemente — Levantem as mãos. Se dão um pio disparamos.

— Mas que diabo é isto? Qual é a ideia?

— Passa para trás deles Jack, e tu Ed, e encostem-lhes as armas às costas. Se se mexerem, disparem. Agora! Toca a marchar!

Os canos das espingardas encostaram-se-lhes às costas e empurraram-nos, através da escuridão. A voz do que comandava voltou a ouvir-se:

— Julgavam-se uns grandes espertalhões, hem? Não sabiam que os polícias que estiveram aqui de dia nos disseram quem vocês são. — atravessaram a estrada e meteram por entre as árvores, do outro lado — Julgaram-se muito espertos, fazendo sair os homens antes de nascer o dia e deixando-nos a ver navios. Mas nós tomamos conhecimento da tramóia dez minutos depois de vocês tomarem a decisão!

— Quem lhe disse isso?

— Gostaria de saber, hem?

Continuaram a marchar e a cravar-lhes os canos nas costas.

— Vai levar-nos para a cadeia?

— Qual cadeia, qual carapuça! Vamos levá-los ao Comitê de Vigilância, seus vermelhos de uma figa. Se tiverem sorte, eles dão-lhes uma valente carga de porrada e largam-nos fora do condado; se não tiverem, penduram-nos numa árvore. Não queremos radicais neste vale.

— Mas vocês polícias, têm de nos levar para a cadeia!

— Isso é o que vocês pensam. Há uma agradável casinha a pouca distancia daqui e é para lá que os levamos.

Nem a pouca luz das estrelas chegava debaixo das macieiras.

— Agora calem a boca.

— Foge, Mac.— gritou Jim e, no mesmo instante, atirou-se ao chão.

O homem que o guardava tropeçou nele e caiu também. Jim rebolou à volta do tronco de uma árvore, levantou-se e desatou a correr. No segundo renque de árvores trepou por uma macieira acima e ocultou-se entre as folhas. Ouviu uma luta e um grunhido de dor. A luz da lanterna elétrica saltou de um lado para o outro e por fim a lanterna caiu e iluminou inutilmente uma maçã podre. Ouviu-se um rasgar de tecido e depois o bater firme de pés que corriam. Alguém apanhou a lanterna e a apagou. Vozes abafadas e irritadas, como se discutissem, soaram no lugar da briga.

Jim deixou-se escorregar suavemente da árvore, ofegando, apreensivo, todas as vezes que as folhas estremeciam. Começou a andar em silêncio, chegou à estrada e atravessou-a. Um guarda deteve-o junto da fila de carros.

— Já é a segunda vez esta noite, rapaz. Porque não vais para a cama?

— O Mac passou por aqui? — perguntou Jim.

— Passou, como se trouxesse o Diabo atrás dele. Está na tenda do Dakin.

Jim estugou o passo, levantou a aba da tenda castanha e entrou. Dakin, Mac e Burke estavam no interior. Mac, que falava excitadamente, parou quando Jim entrou e fitou-o.

— Jesus, que alegria! Íamos mandar um grupo procurar-te. Que grande idiota eu fui! Imagine, Dakin, que eles nos conduziam com os canos das espingardas encostados às nossas costas! Pensei que não disparassem, mas, poderiam ter disparado. Que diabo fizeste tu, Jim?

— Limitei-me a cair, o tipo caiu por cima de mim e a sua arma enterrou-se na terra. Era um truque que costumávamos empregar no recreio da escola.

Mac riu-se, constrangido. — Suponho que tiveram receio de se matar uns aos outros assim que as armas deixaram de nos tocar. Saltei para o lado e dei um pontapé na barriga do que me guardava.

Burke estava de pé atrás de Mac e Jim viu o amigo piscar o olho a Dakin. Os olhos frios quase desapareceram atrás das pálpebras de pestanas claras.

— Burke, é melhor ires fazer a ronda e ver se os guardas estão todos acordados.

Burke hesitou. — Acho que eles são de confiança, Dakin.

— Mesmo assim, é melhor ires certificar-te. Não queremos mais ataques. Com que estão eles armados, Burke?

— Com belos cacetes.

— Bem, vai dar uma vista de olhos.

Burke saiu da tenda e Mac aproximou-se mais de Dakin e disse-lhe, em voz baixa:

— As paredes da tenda são muito finas. Quero falar consigo a sós. Vamos dar um passeiozinho?

Dakin acenou com a cabeça, em dois movimentos sacudidos, e os três homens embrenharam-se nas trevas, na direção em que o Dr. Burton seguira algum tempo antes. Um guarda observou-os, quando passaram.

— Já anda alguém a atraiçoar-nos. — anunciou Mac — Os ajudantes do xerife sabiam que íamos sair à sorrelfa antes de nascer o dia.

— Pensa que é o Burke? — perguntou Dakin, friamente — Ele nem sequer estava presente.

— Não sei quem é. Alguém que andasse perto podia ter ouvido através da tenda.

— Bem, que vamos fazer a esse respeito? Parece saber tudo acerca destas coisas. — A voz fria prosseguiu: — Desconfio de que vocês, vermelhos, não nos vão ajudar nada. Esteve aí um tipo esta noite a dizer que se corrêssemos com vocês talvez os patrões concordassem em discutir o caso.

— E pensa que eles farão isso? Não se esqueça de que baixaram os salários antes de nós chegarmos. Com mil raios, dir-se-ia que fomos nós que desencadeamos a greve, mas você sabe muitíssimo bem que não fomos. Estamos apenas a ajudar. para que corra bem, em vez de o tiro sair pela culatra.

A voz monocórdica de Dakin interrompeu-o: — Que lucram com isto?

— Não lucramos nada! — replicou Mac acaloradamente.

— Como sei que é assim?

— Não poderá saber, a não ser que acredite. Não há nenhum modo de o provar.

A voz de Dakin tornou-se um pouco menos fria, ao redarguir: — Não sei se confiaria em vocês, se fosse assim. Se um homem lucra alguma coisa, sabemos que só pode fazer uma de duas coisas: receber ordens ou trair. Mas se um homem não lucra nada, não podemos saber o que ele fará.

— Está bem, deixemo-nos dessas tretas. — resmungou Mac, irritado — Quando os rapazes quiserem correr conosco deixe-os fazê-lo por votação. E deixe-nos defender a nossa causa. Creia no entanto que não ganhamos nada em brigar um com o outro.

— Que vamos fazer, afinal? Se os chuis já sabem, é inútil mandar sair os tipos à sorrelfa, ao nascer do dia.

— Claro. Temos de nos limitar a marchar pela estrada fora e a arriscar. Quando virmos os furas, e como eles agem, saberemos se teremos de falar ou lutar.

Dakin parou e virou o pé para o lado, a arrastar na terra. — Porque quis que viesse cá fora?

— Desejei dizer-lhe, apenas, que estamos a ser atraiçoados. Se houver alguma coisa que não queira que os chuis saibam, não a diga a ninguém.

— Está bem, percebi. Se toda a gente souber, é o mesmo que dizer-lhes a eles também. Vou-me deitar. Vejamos se conseguem não se meter em encrencas até de manhã.

Mac e Jim compartilhavam uma tenda pequena, sem cobertura no chão. Entraram de gatas e enrolaram-se nas mantas.

— Creio que o Dakin é fixe, mas não acata ordens. — murmurou Mac.

— Achas que será capaz de tentar correr conosco daqui?

— Capaz, acho-o, mas não creio que o faça. Amanhã à noite haverá tantos tipos feridos e furiosos que serão canja para nós. Não podemos deixar esta história desfazer-se em nada. Jim. É demasiado boa.

— Mac...

— Que é?

— Porque não se limitaram os chuis a entrar e a levar-nos, a ti e a mim?

— Tiveram medo. Receiam que os homens percam os trambelhos. Poderia acontecer o mesmo que aconteceu quando o velho Dan caiu da escada. Os chuis sabem muito bem quando devem deixar os trabalhadores em paz. Agora é melhor dormirmos.

— Ainda te quero perguntar como te safaste no pomar. Lutaste, não lutaste?

— Lutei, mas estava tão escuro que eles não conseguiam ver quem estavam a esmurrar. Eu porém sabia que podia esmurrar à vontade, fosse quem fosse.

Jim permaneceu uns momentos calado e depois perguntou: — Tiveste medo, quando nos encostaram os canos das espingardas às costas?

— Se tive! Já me vi a contas com vigilantes de outras vezes... e o pobre do Joy também. Dez ou quinze atiram-se a um homem e fazem-no em polpa. Oh, são uns gajos valentes! Usam quase sempre máscaras. Claro que tive medo. E tu?

— Suponho que sim. Ao princípio. Depois eles obrigaram-nos a marchar e fiquei todo gelado. Vi exatamente o que aconteceria se me deixasse cair. Palavra, vi o gajo cair por cima de mim, vi-o antes de acontecer. O meu medo maior era que te dessem um tiro.

— É estranho, Jim, mas quanto maior é o perigo em que nos metemos, menos nos assusta. Quando a sarrafusca começou, perdi o medo. Ainda me arrepia pensar naquela arma encostada às costas.

Jim olhou para o exterior, através da abertura da tenda. A noite parecia cinzenta em contraste com o negrume do interior. Passou alguém, esmagando com os pés os pequenos torrões de terra. — Achas que ganharemos esta greve, Mac?

— Acho que devemos dormir. No entanto, Jim, não acho que tenhamos probabilidades de a ganhar. Este vale está organizado. Começarão a disparar e ficarão impunes. Não temos nenhuma probabilidade. Penso que estes tipos são capazes de começar a desertar assim que as complicações aumentaren. Mas não te deves preocupar com isso, Jim. A coisa irá continuando, alastrará, e um dia... um dia dará resultado. Um dia venceremos. Temos de acreditar nisso. — apoiou-se num cotovelo e acrescentou: — Se não acreditássemos nisso não estaríamos aqui. O doutor teve razão quando falou de infecção, mas essa infecção é capital investido. Temos de acreditar que conseguiremos expulsá-la, antes que nos chegue ao coração e nos mate. Tu nunca mudas, Jim, estás sempre presente. Dás-me força.

— O Harry disse-me logo ao princípio o que tinha a esperar. Toda a gente nos odeia.

— Isso é o mais duro. Toda a gente nos odeia, o nosso próprio lado e o inimigo. E se ganhássemos, Jim, se levássemos a coisa a bom termo, o nosso próprio lado matar-nos-ia. Pergunto a mim mesmo porque o fazemos... Bolas, vamos dormir!

 

AINDA a noite não terminara por completo e já a voz dos homens que acordavam se ouvia através do acampamento. Rachava-se lenha e os fogões ferrugentos crepitavam. Em poucos momentos o cheiro agradável do pinho e da lenha de macieira a arder encheu o ar. A brigada de cozinheiros não parava! Os baldes de café estavam dispostos perto dos fogões crepitantes. As caldeiras cheias de feijões começaram a aquecer. As pessoas foram saindo das tendas e dirigiram-se para junto dos fogões, onde formaram um grupo tão compacto que os cozinheiros não tinham espaço para trabalhar.

A camioneta de Dakin foi a casa de Anderson e voltou com três barris de água. Depois a palavra de ordem andou de boca em boca: — O Dakin quer falar com os chefes de brigada. Quer falar com eles imediatamente.

Os chefes de brigada dirigiram-se, todos importantes, para a tenda do chefe.

A linha das copas das macieiras recortava-se já claramente no lado oriental do céu e os carros estacionados tinham-se tornado visíveis, de uma tonalidade cinzenta. Os baldes de café começaram a ferver e das caldeiras de feijões evolou-se um cheiro rico, nutritivo. Os cozinheiros deitavam conchas de feijão em tudo quanto as pessoas lhes apresentavam: frigideiras, boiões, latas e pratos de folha. Muitos dos homens tinham-se sentado no chão e, com os canivetes, afeiçoavam umas pequenas pás de madeira, para comerem com elas os feijões O café era simples e amargo, mas os homens e as mulheres que se tinham mostrado silenciosos e inquietos sentiram-se aquecidos e confortados e começaram a falar, a rir e a cumprimentar-se uns aos outros. A claridade do dia começou a romper por cima das árvores e o chão tornou-se azul acinzentado. No céu voavam grandes bandos de gansos, em plena luz.

Entretanto, Dakin, ladeado por Burke e London, estava parado defronte da sua tenda. À sua frente, os chefes de brigada esperavam, Mac e Jim encontravam-se entre eles. Mac explicara ao amigo: «Temos de proceder com muita calma durante uns tempos, pois não nos convém que os rapazes corram conosco agora.»

Dakin vestira um casaco curto, de cotim, e pusera um boné de fazenda. Os seus olhos claros fitaram sucessivamente os homens. — Vou-lhes dizer o que se passa — começou — e depois podem desistir, se quiserem. Não quero que nos acompanhe quem não nos quiser acompanhar. Está a chegar um comboio de furas e nós tencionamos ir à cidade e tentar detê-lo. Falaremos com eles e depois talvez tenhamos também de lutar. Que lhes parece?

Ergueu-se um murmúrio de assentimento.

— Muito bem, então. Mantenham os homens na ordem, sossegados e na berma da estrada. — sorriu friamente e acrescentou: — Se algum deles quiser apanhar umas pedras e metê-las na algibeira não vejo nenhum mal nisso.

Os homens riram-se, contentes.

— Pronto, se perceberam bem, vão falar com os seus homens. Quero tomar conhecimento de todas as objeções antes de partírmos. Deixarei cá uns cem homens, para tomarem conta do acampamento. Vão comer qualquer coisa, andem.

Os homens voltaram, apressados, para junto dos fogões.

Mac e Jim aproximaram-se dos chefes e ouviram London dizer: — Não creio que eles sejam capazes de brigar muito... Não me parecem nada assanhados.

— Ainda é muito cedo. — tranquilizou-o Mac — Ainda não beberam o café. Os homens são diferentes antes de comerem.

— Vocês também vão? — perguntou Dakin.

— Claro que vamos. — respondeu Mac — Mas olhe, Dakin, temos homens que andam a recolher comida e outras coisas. Dê ordem para que alguns carros vão buscar os mantimentos. quando eles pedirem.

— Está bem. Vamos precisar disso tudo esta noite, pois os feijões estão quase gastos. É precisa muita comida para alimentar uma malta destas.

— Acho que devemos provocar zaragata assim que os furas descerem do comboio. — declarou Burke — Devemos meter-lhes um cagaço valente.

— É melhor falar primeiro. — discordou Mac — Já vi meio comboio de furas bandear-se com os grevistas depois de se lhes ter falado. Se lhes caírmos logo em cima, assustaremos alguns, mas enfureceremos outros.

Dakin observava-o desconfiadamente enquanto ele falava. — Bem. vamos andando. — disse. — Tenho de escolher os tipos que ficam. O doutor e os seus homens poderão limpar o acampamento. Vou na minha camioneta e posso levar o London e o Burke. Acho melhor deixarmos ficar aqui todas esas velhas carripanas.

O sol começava a subir quando a coluna longa e irregular partiu. Os chefes de brigada mantinham os seus homens a um lado da estrada. Jim ouviu um homem dizer: «Não percas tempo a apanhar torrões. No aterro dos caminhos-de-ferro há boas pedras de granito.»

Cantou-se. O canto desafinado e irregular de homens que não estavam habituados a cantar. A camioneta verde de Dakin partiu à frente, devagar, seguida pela coluna. Os gritos de adeus das mulheres foram ficando para trás, no acampamento.

Mal tinham começado, apareceram polícias de motocicleta, que se colocaram, espaçados, ao longo da linha de marcha. Quando tinham percorrido já uns oitocentos metros, um grande carro aberto, cheio de homens, dirigiu-se para a frente da coluna e parou atravessado na estrada. Todos os homens empunhavam espingardas e usavam distintivos de ajudantes de xerife. O motorista levantou-se do banco e gritou:

— Não se esqueçam de que têm de se manter na ordem! Podem marchar quanto lhes apetecer, desde que não bloqueiem o trânsito e não interfiram com ninguém. Perceberam?

Sentou-se, passou o carro para a frente do veículo de Dakin e conduziu a coluna.

Jim e Mac marchavam quinze metros atrás da camioneta de Dakin.

— Preparam-nos um comitê de recepção. — observou Mac — Amáveis, hem? — os homens que se encontravam perto deram gargalhadinhas e Mac prosseguiu: — Dizem: «Têm o direito de fazer greve, mas não podem fazer piquetes», e sabem que uma greve sem piquetes não dá resultado.

Desta vez ninguém se riu. Os homens soltaram uma espécie de grunhido, mas sem sombra de cólera.

Mac olhou nervosamente para o companheiro e disse, baixinho: — Isto não me está a agradar. Esta malta não está estimulada. Oxalá aconteça depressa qualquer coisa que os enfureça. Caso contrário, vai tudo ao ar.

A coluna irregular entrou na cidade e seguiu pelos passeios. Os homens tinham-se calado e alguns pareciam envergonhados. Os habitantes observavam-nos através das janelas e as crianças que brincavam nos jardins olhavan-mos, até os pais as levarem para casa e fecharem as portas. Havia muito poucos cidadãos nas ruas. As motocicletas da Polícia seguiam tão devagar que, de vez em quando, os motociclistas tinham de pôr os pés no chão, para se equilibrarem. Conduzido pelo carro do xerife, o cortejo percorreu ruas secundárias até chegar ao pátio dos caminhos-de-ferro. Os homens pararam no caminho de passagem, pois a linha estava guardada por vinte indivíduos armados com caçadeiras e granadas de gás lacrimogéneo.

Dakin estacionou junto ao passeio e os homens foram-se espalhando silenciosamente, voltados para a fila de polícias especiais. Dakin e London percorreram a densa frente, para um lado e para o outro, dando instruções. Os homens não deviam iniciar qualquer recontro com a Polícia, se lhes fosse possível evitá-lo. Primeiro falava-se e mais nada.

Defronte deles estavam paradas filas de vagões frigoríficos.

— Talvez parem o comboio de mercadorias lá mais em cima e desembarquem os tipos. — disse Jim a Mac — Nesse caso não teremos possibilidade de comunicar com eles.

— Mais tarde, talvez fossem capazes de fazer isso, mas agora creio que lhes interessa uma confrontação. Imaginam que conseguem assustar-nos e levar-nos a desistir. Quem me dera que o comboio chegasse depressa! A espera é um desastre para tipos como os nossos, que se assustam e enervam quando têm de esperar.

Entretanto, um grupo de homens sentara-se no passeio. Ouvia-se um murmúrio de conversas em voz baixa. Os homens, apertados uns contra os outros, estavam como que encurralados, com os guardas da via férrea de um lado e os motociclistas da Polícia e os ajudantes de xerife do outro. Talvez por isso, mostravam-se nervosos e constrangidos. Os ajudantes do xerife agarraram nas espingardas com as duas mãos, à frente do corpo.

— Os chuis também estão acagaçados. — disse Mac.

London tranquilizou um grupo de homens: — Eles não disparam. Não se podem arriscar a disparar.

Alguém gritou: — Aí vem ele!

Ao longe, o braço do semáforo estava levantado. Via-se uma nuvem de fumo acima das árvores e os carris vibravam com a aproximação das rodas do comboio. Os homens que estavam sentados no passeio levantaram-se e esticaram o pescoço, na direção de onde vinha a composição.

— Mantenham os rapazes nos seus lugares! — gritou London aos chefes de brigada.

Já se via a locomotiva e os vagões, a avançar lentamente, e pernas dependuradas na soleira das portas abertas. A máquina aproximou-se devagar, a expelir jatos de vapor sob as rodas. Entrou num desvio e os travões funcionaram. As carruagens chocaram umas com as outras e a locomotiva parou, ofegante.

Do outro lado do caminho de passagem, com a rua de permeio, havia uma enfiada de lojas e restaurantes velhos, com quartos alugados nos andares superiores. Mac olhou por cima do ombro. As janelas dos quartos estavam cheias de cabeças de homens, a espreitar. — Não me agrada o aspecto daqueles tipos. — confessou.

— Porquê?

— Não sei, Jim. Deviam ver-se também algumas mulheres, mas não se vê nem uma. Havia fura-greves sentados na soleira das portas dos vagões fechados e atrás deles avistavam-se mais. Olhavam em frente, inquietos, e não esboçavam qualquer movimento para saltar do comboio.

London avançou, avançou tanto que o cano da caçadeira de um dos guardas se virou para a frente e visou-lhe a barriga, ao mesmo tempo que o guarda recuava um passo. A locomotiva ofegava ritmadamente, como um grande animal cansado. London pôs as mãos em concha na boca e a sua voz profunda fez-se ouvir: — Venham, rapazes! Não lutem contra nós! Não ajudem os polícias!

A sua voz foi abafada por uma descarga de vapor e um jorro branco saiu do flanco da locomotiva e abafou a voz de London e todos os outros sons, exceto o seu próprio grito sibilante. A coluna de grevistas moveu-se, impacientemente alargada no meio, na direção dos guardas. Os canos das caçadeiras apontaram, num movimento que abarcava as fileiras completas. Os rostos dos guardas retesaram-se, tensos mas a ameaça deteve a coluna. O vapor continuou a jorrar, sibilante, enquanto a sua pluma branca subia no ar e se desfazia.

À porta de um dos vagões estabeleceu-se uma certa confusão. Um homem esgueirou-se por entre os furas sentados e saltou para o chão.

Mac gritou ao ouvido de Jím: — Jesus é o Joy!

A figura disforme, quase anã, do indivíduo voltou-se para a porta e para os homens, a agitar violentamente os braços. O vapor continuava a silvar. Os homens da porta saltaram para o chão e pararam diante do frenético e agitado Joy. que se virou e acenou com os braços na direção dos grevistas. O seu rosto deformado pela pancada estava contorcido. Cinco ou seis homens colocaram-se atrás dele e o grupo avançou, direito aos grevistas. Os guardas viraram-se de lado, a tentar nervosamente vigiar uns e outros.

Foi então que, acima do barulho do vapor, soaram nítidos três estampidos. Mac olhou para trás, para as lojas. Cabeças e espingardas desapareciam rapidamente das janelas do quarto, que se fechavam.

Joy parara, de olhos muito abertos. Escancarou a boca e uma golfada de sangue rolou-lhe pelo queixo e pela camisa abaixo. Os seus olhos percorreram, num espanto louco, a multidão de homens. Os guardas olharam, incrédulos, para o corpo que estrebuchava no chão. De súbito os jatos de vapor pararam e o silêncio caiu sobre os homens como uma vaga sonora. A coluna de grevistas estava imóvel e o rosto dos homens tinha uma expressão estranha, como se estivessem a sonhar. Joy soergueu-se apoiado nos braços como um lagarto, e voltou a cair. Um regatozinho espesso, de sangue, corria pelas pedras miúdas do caminho.

Desencadeou-se entre os homens um movimento pesado, estranho. London avançou, como se fosse um boneco de pau, e os homens avançaram também. Estavam hirtos. Os guardas apontaram as armas, mas eles continuaram a avançar, cegos e alheios. Os guardas andaram rapidamente de lado, para saírem do caminho, pois as portas do vagão estavam a vomitar homens silenciosos, que se aproximavam devagar. As extremidades da coluna encurvaram-se e, lentamente, fecharam-se num círculo em redor do morto, como carneiros à volta de um núcleo.

Jim agarrou-se, a tremer, ao braço de Mac, que se virou para ele e murmurou: — Fez a primeira coisa autêntica, útil, da sua vida. Pobre Joy! Ficaria tão contente, se soubesse! Olha para os chuis, Jim. Larga-me o braço e não percas a tramontana. Olha para os chuis.

Os guardas estavam assustados. Eram capazes de impedir zaragatas e amotinações, mas aquele movimento lento e silencioso de homens de olhos arregalados como sonâmbulos, aterrava-os. Mantiveram-se nos seus postos, mas o carro do xerife arrancou e os motociclistas foram-se esgueirando imperceptivelmente na direção das suas motos.

Entretanto, os fura-greves tinham desembarcado. Alguns deles esgueiraram-se por entre os vagões e as rodas e desapareceram, apressados, do outro lado, mas a maioria aproximou-se e comprimiu-se no ponto onde Joy jazia.

Mac viu Dakin parado na franja exterior da multidão. Pela primeira vez os seus olhinhos deslavados estavam imóveis e olhava a direito, em frente. Foi ao seu encontro e disse-lhe: — É melhor metê-lo na camioneta e levá-lo para o acampamento.

Dakin virou-se devagar e redarguiu: — Não lhe podemos tocar. Os chuis terão de o levar.

— Porque não perseguiram os chuis aqueles tipos das janelas? — perguntou-lhe Mac, ríspido. — Olhe para eles. Estão mortos de medo. Já lhe disse que temos de o levar. Temos de nos servir dele para estimular os nossos homens, para os manter unidos. Isto uní-los-á, isto fá-los-á lutar.

— Você é um pulha insensível. — acusou o outro, com uma careta — Não é capaz de pensar em mais nada senão na greve?

— Dakin, este homenzinho foi abatido ao tentar ajudar-nos. — interveio Jim — Quer impedi-lo agora de o fazer?

Os olhos de Dakin passaram lentamente de Mac para Jim e depois de novo para Mac.

— Que sabem vocês acerca do que ele estava a fazer? Não ouvi nada além daquele maldito vapor.

— Conhecíamo-lo. — respondeu Mac. — Era nosso amigo.

Os olhos de Dakin encheram-se de antípatia. — Era seu amigo e agora não o deixam descansar, querem utilizá-lo. Não passam de uma parelha de pulhas insensíveis.

— Que sabe você disso? — gritou Mac — O Joy não queria descansar, o Joy queria trabalhar e não sabia como. — A voz esganiçous-se-lhe, histericamente — E agora tem uma possibilidade de trabalhar e você quer impedi-lo!

Um certo número de homens voltara-se na direção das vozes, com uma curiosidade vaga. Dakin fitou um momento Mac e depois disse apenas: — Venham.

Abriram caminho, à cotovelada e ao empurrão, através da massa compacta de homens, que só relutantemente se afastou.

— Vamos, rapazes, deixem-nos passar! — gritava Mac — Temos de levar este pobre diabo daqui.

Os homens abriram uma estreita passagem, empurrando violentamemte para trás.

London juntou-se ao grupo e ajudou a abrir caminho. Joy estava de fato morto. Quando conseguiram um pequeno espaço para se mexer, London virou-o e começou a limpar-lhe a terra suja da boca. Joy tinha uma expressão manhosa nos olhos abertos e um sorriso terrível distendia-lhe os lábios.

— Não faça isso, London. — ordenou Mac — Deixe-o como está, exatamente como está.

London levantou o frágil corpo nos braços. Joy parecia muito pequeno, encostado ao forte peito de London. Desta vez abriram facilmente caminho. London avançou e os homens formaram uma coluna tosca e seguiram-no.

O xerife encontrava-se ao lado da reluzente camioneta verde de Dakin, cercado pelos seus ajudantes. London parou e os homens que o seguiam pararam também.

— Quero esse corpo. — disse o xerife.

— Não, não o terá.

— Vocês abateram um fura-greves e responderão por isso. Quero esse corpo, para o juiz de instrução.

Os olhos de London brilharam, vernelhos, mas ele limitou-se a dizer: — O senhor conhece os tipos que mataram ese homenzinho, o senhor sabe quem foi. Tem leis e não as cumpre.

A turba escutava silenciosa.

— Já lhe disse que quero esse corpo.

— Não compreende? — perguntou London, em tom de queixume — Não compreende que se não se piram depressa daqui para fora serão mortos? Não é capaz de compreender isso? Não sabe quando não pode ir mais longe?

Da multidão subiu como que um silvo de respiração libertada.

— Isto não fica assim! — ameaçou o xerife, mas recuou e os seus ajudantes imitaram-no.

A multidão rugiu, mas tão docemente que mais pareceu um gemido. London depositou Joy na camioneta, subiu e levantou o corpo até o encostar à parte de trás da cabina.

Dakin ligou o motor, deu a volta em marcha-atrás e meteu pela rua acima, seguido pela multidão entorpecida e ameaçadora. Tudo em silêncio. Os passos pesados dos homens pareciam abafados.

Desta vez os motociclistas não ladearam a estrada. Ruas e estradas estavam desertas ao longo de todo o trajeto. Mac e Jim caminhavam um pouco ao lado da camioneta.

— Foram vigilantes, Mac?

— Foram. Mas desta vez exageraram. Correu-lhes tudo mal. Aquele vapor... Se os nossos tivessem ouvido melhor os tiros, provavelmente teriam desatado a fugir. Mas o barulho da descarga do vapor era muito forte... E terminou tudo muito depressa, os nossos não tiveram tempo de se assustar. Não há dúvida, desta vez cometeram um erro.

Continuaram a caminhar vagarosamente, ao lado da coluna de homens.

— Mac, quem diabo são afinal esses vigilantes? Que gênero de indivíduos são?

— São a escória mais reles de qualquer cidade. São os mesmos que queimaram as casas de velhos alemães, durante a guerra. São os mesmos que lincham negros. Gostam de ser cruéis. Gostam de fazer mal às pessoas, mas dão-lhe sempre um nome bonito: patriotismo ou defesa da Constituição. Não passam porém, sempre, dos velhos torturadores de negros em ação. Os proprietários utilizam-nos, dizem-lhes que têm de proteger o povo dos vermelhos, o que lhes permite incendiar casas e torturar e espancar pessoas impunemente, sem qualquer perigo. Aliás, é só isso que eles querem fazer. Coragem não têm nenhuma. Disparam escondidos ou atacam um homem quando são dez contra um. Acho que devem ser a pior escumalha do mundo. — os seus olhos procuraram o corpo de Joy, na camioneta — Durante a guerra, havia na minha cidade um alemãozinho gordo, alfaiate, e uma quadrilha desses nojentos patriotas, uns cinquenta, incendiaram-lhe a casa e fizeram-no em papas à porrada. São uns grandes valentes esses vigilantes! Não há ainda muito tempo, dispararam balas traçadoras para um depósito de petróleo e provocaram assim um incêndio num dormitório. Nem sequer tiveram a coragem de o fazer com um fósforo.

A coluna marchava através do campo, levantando grande poeira. Os homens despertavam lentamente do sonho. Falavam em voz baixa e arrastavam pesadamente os pés.

— Pobre joy! — exclamou Jim — Era um bom homenzinho. Tinha levado tanta pancada... Lembrava-me o meu velho, sempre danado.

Mac repreendeu-o: — Não tenhas pena do Joy. Se ele soubesse o que fez, estaria todo contente e arrogante. O Joy sempre desejou comandar pessoas, e agora vai fazê-lo, ainda que seja num caixão.

— E os furas, Mac? Veio um magote deles conosco.

— Sim, veio um magote deles conosco, mas muitos piraram-se. E alguns dos nossos também. Temos mais ou menos o mesmo número com que partimos. Não os viste meterem-se debaixo do comboio e fugirem? Olha para estes tipos. Estão a acordar. É como se os tivessem anestesiado com gás, durante um bocado. Não há tipo de homens mais perigoso.

— Os chuis também o perceberam.

— Claro que perceberam. Quando uma multidão não faz barulho, quando se limita a avançar de rosto inexpressivo, os polícias sabem que é altura de se afastarem do caminho.

Aproximavam-se da propriedade de Anderson.

— Que fazemos agora, Mac?

— Bem, tratamos do funeral e começamos a fazer piquetes. A coisa agora assentará. Eles trarão furas em caminhões.

— Ainda pensas que seremos vencidos, Mac?

— Não sei. Este vale está organizado. E como, meu Deus! Aliás não é muito difícil consegui-lo quando um pequeno punhado de homens controla tudo: terra, tribunais e bancos. Podem cortar o crédito, arranjar maneira de meter um tipo na cadeia e subornar a torto e a direito.

A camioneta de Dakin parou ao fim da fila de carripanas e estacionou em marcha-atrás, no seu lugar costumado. Os guardas do acampamento acorreram e a coluna dos homens que regressavam desfez-se e misturou-se com eles. Formaram-se grupos para ouvir contar e recontar a história. O Dr. Burton correu para a camioneta de Dakin e London levantou-se pesadamente. A frente da sua larga camisa azul estava manchada com o sangue de Joy. Burton lançou um olhar ao cadáver e perguntou: — Mataram-no, hem?

— Trouxemo-lo. — respondeu London.

— Levem-no para a minha tenda, para o examinar. — pediu o médico.

De súbito, ouviu-se atrás das tendas um grito rouco, prolongado, e os homens viraram-se todos e ficaram como que petrificados.

— Estão a matar um porco. — explicou o médico — Um dos carros trouxe um porco vivo. Levem o cadáver para a minha tenda.

London inclinou-se, fatigado, e pegou novamente em Joy, um grupo de homens seguiu-o e ficou reunido à volta da grande tenda. Mac e Jim entraram com o médico. Observaram silenciosamente, enquanto Burton desabotoava a camisa, que o sangue tornara tesa e revelava uma ferida no peito.

— Foi isto. — murmurou o médico — Era mortal.

— Reconhece-o, doutor?

Burton olhou com mais atenção para o rosto contorcido e respondeu: — Acho que já o tinha visto antes.

— Claro que tinha. É o Joy. O doutor consertou-lhe praticamente todos os ossos do corpo.

— Bem, desta vez não tem conserto. Valente homenzinho. Têm de enviar o cadáver para a cidade, o juiz de instrução precisa dele.

— Se fizermos isso eles enterram-no, escondem-no. — disse London.

— Podemos mandar alguns tipos acompanhá-lo, para termos a certeza de que nos será devolvido. Farão piquetes na morgue até o corpo lhes ser entregue. Os malditos vigilantes cometeram um erro e a esta hora já se aperceberam disso.

Dakin levantou a aba da grande tenda e entrou.

— Estão a fritar carne de porco. — informou — Não há dúvida de que esquartejaram o animal muito depressa.

— Dakin, pode mandar os rapazes construir uma espécie de plataforma? — perguntou Mac — Precisamos de um lugar para o caixão... e também de um lugar para falar.

— Quer dar espetáculo, não?

— Acertou. Você está, digamos, está enganado a meu respeito, Dakin. De que armas dispomos para lutar? Pedras e paus. Até os índios tinham arcos e flechas. Se nós, porém, arranjarmos uma armazinha para nos defendermos, eles chamam a tropa para deter a revolução. Temos muitíssimo poucas coisas com que lutar e somos obrigados a utilizar tudo quanto podemos. Este homenzinho era meu amigo. Pode ter a certeza de que ele queria ser utilizado de todas as maneiras em que pudéssemos utilizá-lo. Temos de o utilizar. — fez uma pausa e perguntou: — Não compreende, Dakin? Conquistaremos uma grande quantidade de gente para o nosso lado se fizermos um funeral publico. Temos de influenciar a opinião pública.

London acenava com a cabeça lentamente. — O tipo tem razão, Dakin.

— Pois sim, London se também o queres. Suponho que alguém terá de fazer um discurso, mas não contem comigo.

— Fá-lo-ei eu, se for preciso! — gritou London — Vi este homenzinho avançar para nós, vi-o ser atingido... Farei eu o discurso se tu não o quiseres fazer.

— Lembra Cock Robin. — murmurou Burton.

— O quê?

— Nada, estava a falar comigo. Agora é melhor levarem o corpo e entregarem-no ao juiz de instrução.

—Mandarei um grupo dos meus próprios homens, para não o abandonarem. — disse London.

Jim chamou de fora da tenda: — Vem cá, Mac. Anderson quer falar contigo.

Mac saiu apressado. Anderson estava ao lado de Jim e parecia velho e cansado.

— Você fez um jogo do Inferno! — gritou ferozmente ao ver Mac.

— Que se passa Mr. Anderson?

— Disse que nos protegeria, não disse?

— Claro que disse. Os rapazes encarregar-se-ão disso. Mas que aconteceu?

— Eu digo-lhe o que aconteceu: um grupo de homens deitou fogo ao restaurante do Al, a noite passada. Depois agrediram o meu filho e partiram-lhe um braço e seis costelas. Deitaram-lhe fogo ao restaurante, deixaram-no arder por completo!

— Jesus! Não pensei que fizessem tal coisa...

— Você não pensou, mas isso não os impediu de o fazerem.

— Onde está Al, Mr. Anderson?

— Está em casa. Tive de o trazer do hospital.

— Vou chamar o doutor, para o ir ver.

— Mil e oitocentos dólares! — gritou o velho — Ele arranjou algum, eu emprestei-lhe algum... e depois apareceram vocês e agora não tem nada!

— Lamento muitíssimo. — murmurou Mac.

— Claro que lamenta, mas isso não impede que o restaurante do Al tenha ardido, isso não impede que lhe tenham partido o braço e as costelas! E que estão a fazer para me proteger? A seguir deitam-me fogo à casa!

— Mandaremos guardas para a sua casa.

— Qual guardas, qual carapuça! Para que serve esta corja de vadios? Maldita a hora em que os deixei vir para aqui! Serão a minha ruína! — a voz esganiçara-se-lhe e os seus velhos olhos estavam molhados — Fez um jogo do Inferno foi o que você fez. É o resultado de nos metermos com um bando de malditos radicais.

Mac tentou acalmá-lo: — Vamos ver o Al. Ele é um tipo formidável e eu quero vê-lo.

— Está uma desgraça. Também lhe deram pontapés na cabeça.

Mac foi-se afastando lentamente com ele, pois começavam a acorrer homens, atraídos pela voz esganiçada do velho.

— Porque nos censura? Não fomos nós que fizemos isso, foram os seus simpáticos vizinhos.

— Pois foram, mas não teria acontecido nada se não nos tivéssemos metido com vocês.

— Escute, sabemos que levou um soco nos dentes. — replicou Mac, já irritado — Tipos insignificantes como você e eu estão constantemente a levá-los. Mas nós estamos a tentar conseguir que isso acabe, que tipos como você não levem murros nos dentes!

— Aquele restaurante custou mil e oitocentos dólares! E eu nem sequer posso ir à cidade sem que os miúdos me atirem pedras. Vocês arruinaram-nos.

— Que pensa o Al do que aconteceu?

— Desconfio que o Al também é vermelho como o próprio Inferno! As únicas pessoas contra quem está furioso são os homens que fizeram o trabalho.

— O Al tem uma boa cabeça, vê as coisas como deve ser. De qualquer maneira, eles correriam consigo. Agora, se for expulso, terá um grande grupo de homens atrás de si, homens que não esquecerão o que está a fazer por eles. Esta noite colocamos guardas à volta da sua casa. Vou-lhe mandar o médico daqui a bocadinho, ver o Al.

O velho virou-lhe as costas, cansado, e foi-se embora. O fumo dos fogões ferrugentos pairava, baixo, sobre o acampamento. Os homens tinham começado a deixar-se atrair pelo cheiro da carne de porco que estava a fritar.

Mac seguiu com o olhar o vulto de Anderson que se afastava e perguntou: — Que sensação te causa agora seres membro do Partido, Jim? É formidável quando lemos a tal respeito... romântico. As damas gostam de se levantar e palrar acerca da «classe dirigente» e do «trabalhador explorado». É um fardo pesado Jim. Aquele pobre diabo! Aos seus olhos, o restaurante afigura-se maior do que o mundo. E eu sinto-me responsável pelo que aconteceu. Irra, julguei que te trazia comigo a fim de te ensinar, de te dar confiança e para aqui estou a desperdiçar o meu tempo com lamúrias! Pensei que ia animar-te, encorajar-te, e em vez disso... Com mil raios, é terrivelmente difícil conservar os olhos fixos no principal, no grande fim em vista! Por que demónio não dizes nada?

— Não me dás oportunidade de dizer.

— Creio que tens razão. Diz qualquer coisa agora, ainda. Eu só consigo pensar no pobre Joy abatido a tiro. Ele não tinha muito juízo, coitado, mas também não tinha medo de nada.

— Era um homenzinho simpático.

— Lembras-te do que ele disse? Ninguém o impediria de chamar filhos da puta a filhos da puta! Gostaria de não sentir, às vezes, esta sensação de desamparo, de estar perdido.

— Um pouco de carne de porco frita talvez ajude.

— Co'os demónios, tens razão! Comi pouco esta manhã. Vamos.

Uma furgoneta comprida apareceu na estrada e parou defronte da fila de carros. Um homenzinho todo agitado desceu do lugar e entrou no acampamento.

— Quem manda aqui? — perguntou a Mac.

— Dakin. Está naquela tenda grande.

— Sou o juiz de instrução e quero o cadáver.

— Onde estão os seus guarda-costas?— inquiriu Mac.

— Para que preciso de guarda-costas? — redarguiu-lhe o homenzinho, de peito inchado como um peru. — Sou o juiz de instrução. Onde está o cadáver?

— Naquela grande tenda além. Espera-o.

— Porque não o disse já? — e afastou-se, puf, puf. como uma pequena locomotiva.

— Graças a Deus que não temos de lutar com muitos como ele. — observou Mac, a suspirar — O homenzinho é valente, veio sozinho. É uma espécie de Joy à sua maneira.

Continuaram o seu caminho na direção dos fogões. Passaram dois homens transportando o cadáver de Joy, seguidos pelo desembaraçado e empertigado juiz de instrução.

Alguns homens afastavam-se dos fogões com bocados gordurentos de carne de porco frita nas mãos. Limpavam a boca às mangas. As chapas dos fogões estavam cobertas de pequenos nacos de carne rechinante.

— Que bem cheira! — exclamou Mac. — Vamos arranjar um bocado. Estou esganado de fome.

Os cozinheiros entregaram-lhes bocados mal cortados e mal fritos de carne e eles afastaram-se, a comer.

— Come só a parte de fora. — recomendou Mac — O doutor disse que não devíamos deixar os homens comer carne de porco crua pois adoeceriam todos.

— Eles têm tanta fome que não podem esperar.

 

A apatia abatera-se sobre os homens, que se sentavam de olhos parados e fixos à sua frente. Pareciam não ter sequer energias para falar. Entre eles sentavam-se as mulheres sujas e descontentes. Estavam todos indiferentes e macambúzios, mastigavam pensativamente a carne e quando ela se acabava limpavam as mãos ao vestuário. A sua apatia e o seu descontentamento impregnavam o ar.

Mac, ao percorrer o acampamento com Jim sentiu-se também descontente. — Eles deviam ter qualquer coisa que fazer. — queixou-se — Não interessa o quê, Seja o que for. Não podemos permitir que estejam para aí sentados, desta maneira. Assim a greve escapa-nos, foge-nos por entre os dedos. Mas que raio têm eles? Viram matar um homem esta manhã, isso devia mantê-los estimulados. Pouco passa do meio-dia e já estão para aí espapaçados. Temos de os pôr a fazer qualquer coisa. Repara nos olhos deles, Jim.

— Não estão a ver nada, têm apenas os olhos fixos em frente.

— Estão a pensar neles próprios. Cada um desses homens está a pensar nas ofensas que lhe têm sido feitas ou no dinheiro que ganhou durante a guerra. Tal qual como o Anderson. Estão a ir-se abaixo.

— Façamos qualquer coisa, obriguemo-los a mexer-se. Que é preciso fazer?

— Não sei. Se pudéssemos convencê-los a abrir um buraco daria tanto resultado como qualquer outra coisa. Se consseguirmos levá-los a empurrar seja o que for, ou levantar seja o que for, ou andar numa direção, já terá alguma utilidade e a diferença entre uma coisa e outra será pequena. Desatarão à porrada, uns aos outros se não os obrigamos a mexer-se. Não tardarão a tornar-se beras.

London, que ia a passar, apressado, ouviu as últimas palavras e perguntou: — Quem é que se tornará bera?

— Olá, London. Estávamos a falar destes tipos. Estão a ficar desmoralizados.

— Bem sei. Trabalho com eles há tanto tempo que me basta olhá-los para perceber.

— Estava a dizer ao Jim que não tardarão a lutar uns com os outros se não os pusermos a trabalhar.

— Já começaram. O grupo que deixamos mo acampamento, esta manhã, armou zaragata. Um dos tipos tentou atirar-se à mulher de outro, este chegou e espetou-lhe uma tesoura. O doutor tratou-o. Creio que podia ter-se esvaído em sangue e morrido.

— Estás a ver, Jim? Eu bem te disse. Escute, London, o Dakin está chateado comigo, não quer ouvir nada do que lhe digo. Mas a você ouvi-lo-á. Temos de fazer estes tipos mexerem-se antes de arranjarem sarilhos. Façamo-los andar em círculo, façamo-los abrir um buraco e depois tapá-lo... Seja o que for, será indiferente.

— Bem sei. E se organizássemos piquetes?

— Seria excelente, embora não me pareça que já estejam muitos furas a trabalhar.

— Que nos importa isso, se obrigar os tipos a levantar o eu?

— Você tem cabeça, London. Veja se convence o Dakin a mandá-los em grupos de cinquenta, mais ou menos, e em direções diferentes. Recomendem-lhes que se mantenham nas estradas e que se virem colher maçãs o impeçam.

— Esteja descansado. — respondeu London, que lhes voltou as costas e partiu na direção da tenda de Dakin.

— Mac. disseste que eu poderia ir com os piquetes...

— Bem, preferia que ficasses comigo.

— Eu quero participar, Mac.

— Pois sim. vai com um dos grupos. Mas não te afastes deles, Jim. Sabes muito bem que somos homens marcados, aqui. Não permitas que te apanhem isolado.

Viram Dakin e London sair da tenda, este último a falar muito depressa.

— Sabes uma coisa? — perguntou Mac — Creio que cometemos um erro ao dar a chefia ao Dakin. Está muito ligado à sua camioneta, à sua tenda e aos seus métodos. É demasiado cuidadoso. O London teria sido melhor escolha; não tem nada a perder. Conseguiremos que os rapazes corram con o Dakin e elejam o London? Creio que gostam mais dele. O Dakin tem bens a mais. Reparaste no seu fogão articulado? Nem sequer come com os rapazes! Talvez seja melhor começarmos a trabalhar no sentido de o substituirmos pelo London. Pensei que o Dakin era calmo, frio, mas o gajo é gelado. Precisamos de alguém capaz de agitar um bocado os rapazes, de os inflamar.

— Anda. — pediu Jim — O Dakin está a formar os piquetes.

Jim juntou-se a um piquete de cerca de cínquenta homens. Meteram por uma estrada numa direção oposta à da cidade. Praticamente assim que começaram a andar, a apatia começou a abandoná-los. O grupo irregular foi andando, em passo rápido e firme.

O comando pertencia a Sam, o homem da cara magra, o qual recomendou aos outros enquanto caminhavam: — Apanhem pedras. Encham bem as algibeiras. E não se esqueçam de ir olhando pelas alamedas abaixo, entre os renques.

Mas os pomares pareciam desertos. Os homens começaram a cantar, desafinadamente:

— Era Natal na ilha E os forçados que lá estavam...

Mexiam os pés ritmadamente. Marcharam através da estrada interseccional rodeados por uma nuvem de poeira cinzenta.

— Como em França. — observou um homem — Se houvesse lama seria exatamente como em França.

— Deixa-te de tretas, tu não estiveste em França.

— Estive, sim. Estive lá cinco meses.

— Não andas como um soldado.

— Não quero andar como um soldado. Fiquei farto disso. Fui atingido por estilhaços, fica sabendo.

— Onde raio estão os furas?

— Parece que conseguimos detê-los. Não vejo ninguém a trabalhar. Esta greve já está no papo.

— Claro que está ganha, rapaz. — resmungou Sam — Bastou-te sentar o pandeiro no chão para a ganhares, não foi? Não seja idiota.

— Bem, esta manhã metemos um cagaço dos diabos aos chuis. Não os vês por aí, pois não?

— Ainda verás muitos, antes de te livrares desta, amigo. — insistiu Sam — És como todos os outros apanhadores eventuais... Neste momento és rei do Inferno, daqui a bocadinho começas com dores de barriga e quando mal nos precatamos piras-te. Respondeu-lhe um coro irritado e discordante.

— É assim que pensas, espertalhão? Manda-nos fazer qualquer coisa e verás.

— Não tens o direito de falar desse modo. Que raio fizeste tu, alguma vez, para te dares esses ares?

Sam cuspiu para o chão, antes de responder: — Eu digo-te o que fiz. Estive em São Francisco, na Quinta-Feira Sangrenta. Atirei um chui do cavalo abaixo e fui um dos tipos que entraram na oficina de carpinteiro e se apoderaram dos bastões que os chuis tnham mandado fazer. Tenho aqui um deles, como recordação.

— Isso é uma grandísima mentira. Não és estivador, és um miserável apanhador de fruta.

— Claro que sou apanhador de fruta. E sabes porqê? Porque estou na lista negra de todas as companhias de navegação do maldito país. Aí tens! — Sam falava orgulhosamente e as suas palavras foram acolhidas com silêncio — Já assisti a mais sarilhos do que vocês, reles vadios, jamais verão. — o seu desdém subjugou-os — Agora tratem de estar de olhos nessas alamedas todas e de acabar com a conversa.

Caminharam um bocado em silêncio.

— Olhem, caixotes!

— Onde?

— Ao fundo daquele renque, lá em casa do Diabo.

Jim olhou na direção apontada e gritou:

— Estão lá homens.

— Vamos, estivador, queremos ver-te agir. — disse um homem.

— Acatarão as minhas ordens? — perguntou Sam, parado na estrada.

— Claro que acataremos, se forem boas.

— Muito bem, então. Dominem-se. Não quero atirar-me para a frente à doida e depois vê-los desatar a fugir como se levassem fogo no rabo, quando o barulho começar. Vamos e não se afastem uns dos outros.

Saíram da estrada, atravessaram uma funda vala de irrigação e meteram pela alameda, entre as grandes árvores. Quando se aproximaram da pilha de caixotes começaram a descer homens das árvores e a jumtarem-se, nervosos, num grupo.

Junto dos caixotes encontrava-se um conferente que, quando o piquete se aproximou, tirou uma caçadeira de dois canos de um caixote e avançou alguns passos na direção dos homens.

— Querem trabalhar? — gritou-lhes.

Respondeu-lhe um coro de gritos trocistas.

Um homem levou os indicadores à boca e assobiou, nervosamente.

— Saiam desta terra. — ordenou o conferente — Não têm nenhum direito de estar aqui.

Os grevistas avançaram lentamente. O conferente recuou para a pilha de caixotes, onde os apanhadores se tinham reunido, nervosos e assustados.

— Vocês parem aqui. — ordenou Sam, por cima do ombro, enquanto ele próprio avançava mais alguns passos.

— Escutem, trabalhadores, passem para o nosso lado. Não nos apunhalem pelas costas, juntem-se a nós.

Foi o conferente que lhe respondeu: — Leve os seus homens desta terra ou mandá-lo-ei

correr à força.

Os gritos trocistas recomeçaram, assim como os assobios.

Sam virou-se, irritado, e ordenou: — Calem-se, seus sacanas sem juízo! Acabem com a música.

Os apanhadores olharam à sua volta, à procura de uma via de fuga, e o conferente tranquilizou-os: — Não se deixem assustar por ele, homens. Têm o direito de trabalhar, se quiserem.

Sam insistiu: — Escutem, rapazes, damo-lhes esta oportunidade de regressarem conosco.

— Não consintam que lhes dêem ordens. — gritou o conferente, em voz mais forte — Eles não podem dizer a um homem o que deve ou não deve fazer.

Os apanhadores permaneceram imóveis.

— Vêm? — perguntou-lhes Sam.

Não responderam e Sam começou a avançar lentamente para eles.

O conferente avançou e avisou: — Esta arma está carregada. Disparo, se não se vão embora.

— Não dispara nada, amigo. — respondeu-lhe Sam, docemente, e continuou a avançar — Poderia acertar num de nós, mas os restantes davam-lhe cabo do canastro. — falava em voz baixa e desapaixonada. Os seus homens avançavam também, três metros atrás dele. Sam parou mesmo defronte do conferente. A espingarda tremia, apontada ao seu peito. — Só queremos falar...

De súbito, Sam inclinou-se, mergulhou como um médio de futebol e puxou os pés do conferente. A arma disparou e abriu um buraco no chão. Sam virou-se, cravou os joelhos entre as pernas do conferente e depois levantou-se, deixando-o no chão, a torcer-se e a gemer de dor. Durante um segundo tanto os apanhadores como os grevistas se tinham mantido imóveis. Os primeiros só tarde de mais se viraram para fugir. Os homens atiraram-se a eles, a praguejar guturalmente. Os apanhadores ainda lutaram durante alguns momentos, mas depois foram-se abaixo.

Jim, um pouco de lado, viu um apanhador libertar-se, como uma enguia, e começar a correr. Apanhou um grande torrão e atirou-o com força ao homem que, atingido nos rins, caiu. O grupo cercou-o, aos pontapés e às pisadelas, enquanto o homem gritava, no chão. Jim observou friamente o conferente, que tinha o rosto lívido de dor e coberto de suor.

Sam libertou-se e saltou para os homens, que continuavam aos pontapés e a saltar em cima dos furas. — Parem, malditos, parem! — gritou-lhes, mas eles continuaram aos pontapés e a rugir, com os lábios húmidos de saliva.

Sam agarrou num caixote e desfê-lo numa cabeça. — Não os matem! — gritou — Não os matem!

A fúria dissipou-se tão depressa como começara. Os grevistas afastaram-se das vítimas, a ofegar ruidosamente. Jim olhou sem emoção para os dez homens que gemiam no chão e cujos rostos os pontapés tinham tornado disformes. Aqui e ali via-se um lábio rasgado, pondo a descoberto dentes e gengivas ensanguentadas. Um homem chorava como uma criança. pois tinha um braço virado para trás, partido no cotovelo. Agora que a fúria se dissipara, os grevistas estavam agoniados, envenenados pela secreção das próprias glândulas da cólera. Sentiam-se fracos. Um deles apertava a cabeça entre as mãos, como se lhe doesse terrivelmente.

De súbito, um homem rodopiou sobre si mesmo, com um grito sofocado. Ouviu-se um estampido, vindo do fundo da alameda, e aparecerem cinco homens a correr, que paravam de vez em quando para disparar. Os grevistas desataram a fugir, ziguezagueando entre as árvores para não ficarem na linha de fogo.

Jim fugiu com eles, a gritar para si mesmo: «Não podemos aguentar fogo! Não podemos aguentar fogo!» As lágrimas cegavam-no. Sentiu como que uma pancada forte num ombro e cambaleou um pouco. O grupo chegou à estrada e continuou a fugir, olhando para trás por cima do ombro.

Sam corria atrás deles, ao lado de Jim. — Pronto, eles pararam! — gritou.

Mas alguns dos homens continuaram a correr, num pânico cego, e desapareceram no cruzamento da estrada. Sam alcançou os restantes. — Acalmem-se. — gritou-lhes — Acalmem-se! Já ninguém os persegue. — os homens pararam, trêmulos, na berma da estrada — Quantos atingiram eles? — perguntou Sam.

Os fugitivos olharam uns para os outros e Jim respondeu: — Só vi um tipo atingido.

— Bem, talvez não tenha sido nada de grave... Foi atingido no peito. — olhou com mais atenção para Jim e indagou: — Que lhe aconteceu, rapaz? Está a sangrar.

— Onde?

— Pelas costas abaixo.

— Devo ter chocado com algum ramo.

— Qual ramo, qual carapuça! — Sam baixou o casaco de cotim do rapaz, no ombro. — Uma bala atravessou-lhe o ombro. Pode mexer o braço?

— Posso. Mas sinto-o dormente.

— Creio que não atingiu nenhum osso. Foi apenas o músculo do ombro. Deve ter sido uma bala de ponta de aço. Nem sequer sangra muito. Vamos, rapazes, regressemos. Não tardarão a aparecer por aí chuis aos magotes.

Estugaram o passo, pela estrada fora, e Sam ofereceu: — Se se sentir fraco eu ajudo-o, rapaz.

— Estou bem. — tranquilizou-o Jim — Não aguentamos, Sam.

— Portamo-nos nobremente quando éramos cinco contra um. — redarguiu Sam, sarcástico — Deixamos os furas num estado lastimoso.

— Matamos alguns?

— Creio que não, embora alguns nunca mais voltem a ser os mesmos.

— Foi horrível, não foi? Viu aquele tipo com o beiço rasgado?

— Eles cosem-lho. Tivemos de proceder assim, rapaz. não havia outro remédio. Quando eles não nos dão ouvidos e não se juntam conosco, a única coisa a fazer é assustá-los.

— Bem sei, não estou preocupado com eles.

Ouviram o silvo de uma sereia, ao longe, e Sam gritou: — Saltem para a vala, rapazes, e deitem-se. Vêm aí os chuis.

Observou-os, enquanto se deitavam todos na funda vala de irrigação. As motocicletas passaram, ruidosas, e atravessaram o cruzamento, seguidas por uma ambulância. Os homens só levantaram a cabeça depois de os veículos desaparecerem, para lá do cruzamento. Sam levantou-se, ágil, e ordenou: —Vamos! Temos de nos safar depressa.

Seguiram a trote pela estrada fora. O sol punha-se e uma sombra azulada envolvia tudo. Uma nuvem carregada avançou como um barco na direção do sol e a sua orla escura tornou-se avermelhada, ao aproximar-se dele. Os homens voltaram a saltar para a vala quando a ambulância regressou. Os motociclistas passaram mais devagar, desta vez, com os polícias a olharem ao longo dos caminhos entre as árvores. Mas não revistaram a vala.

Os homens do piquete chegaram ao acampamento ao cair da noite. As pernas de Jim tremiam-lhe e tinha fortes picadas no ombro, pois os nervos despertavam depois do entorpecimento causado pela bala. Os componentes do grupo dispersaram pelo campo.

Mac foi ao encontro de Jim e quando viu a sua palidez desatou a correr.

— Que te aconteceu, Jim? Feriste-te?

— Não... isto é pouca coisa. O Sam diz que levei um tiro no ombro. Não consigo ver a ferida e não me dói muito.

— Com mil raios, eu sabia que não te devia deixar ir! — praguejou Mac, muito corado.

— Porquê? Não sou nenhuma flor de estufa.

— Pois não, mas se eu não tiver cuidado contigo talvez não tardes a alimentar algumas. Anda mostrar isso ao doutor. Ele estava aqui há bocadinho... Olha, vai ali! Doutor! — levaram Jim para uma tenda branca — Esta acaba de chegar. — explicou Mac — O doutor vai utilizá-la como hospital.

A escuridão outonal alastrava depressa, acelerada pela grande nuvem preta que parecia crescer no lado ocidental do céu. Mac segurou numa lanterna enquanto o médico afastava a camisa do ombro de Jim. Burton lavou cuidadosamente o ferimento com água quente esterilizada, e comentou:

— Felizardo. Uma bala de chumbo ter-lhe-ia espatifado o ombro. Assim tem apenas um buraquinho aberto através do músculo. Vai senti-lo um pouco emperrado, durante uns tempos. A bala entrou e saiu. — as suas mãos hábeis limparam a ferida com uma sonda, pensaram-na e prenderam a ligadura com adesivo. — Ficará bom, basta ter cuidado uns dois ou três dias. — voltou-se para Mac e acrescentou: — Mais logo irei ver o Al Anderson. Quer ir também?

— Claro que quero. Mas agora quero que o Jim beba uma pinga de café. — meteu na mão do amigo uma lata cheia de café simples e pouco apetecíve. — Senta-te, anda. — puxou um caixote, sentou Jim nele e estendeu-se no chão a seu lado. — Conta-me o que aconteceu.

— Atiramo-nos a uns furas. Os nossos deram-lhes pontapés de criar bicho... deram-lhes pontapés na cabeça.

— Bem sei, Jim. — murmurou Mac, suavemente — É terrível, mas não se pode fazer outra coisa se eles se recusam a passar para o nosso lado. Temos de fazer isso. Também não é agradável matar um carneiro, mas nós precisamos da carne. Que aconteceu, afinal?

— Surdiram de repente cinco homens a correr e aos tiros. Os nossos fugiram como coelhos. Não aguentaram o fogo.

— E por que diabo haviam de aguentar, se só dispunham das mãos nuas para se lhe opor?

— Praticamente nem dei por isso quando me atingiram. Um dos nossos caiu; não sei se morreu, se não.

— Foi uma rica festa! Os outros grupos trouxeram cerca de trinta furas. Não tiveram dificuldade nenhuma, convidaram-nos e eles vieram. — estendeu o braço e tocou um momento na perna do amigo — Como vai o ombro?

— Dói um bocadinho, mas não muito.

— Sabes uma coisa, Jim? Parece que vamos ter novo chefe.

— Correste com o Dakin, tratante?

— Não, mas ele já cá não está. O Dick mandou avisar que tinha um carregamento de cobertores e o Dakín escolheu seis homens e foi buscá-los, na sua reluzente camioneta. Um dos seis tipos conseguiu pirar-se e veio contarnos o que se passou. Carregaram os cobertores e iniciaram o caminho de regresso. Já deste lado da cidade encontraram pregos espalhados na estrada e tiveram de parar para mudar um pneu. Nessa altura apareceram uns doze homens armados, que os mantiveram em respeito. Seis deles tomaram conta dos rapazes enquanto os outros seis destruíam a camioneta do Dakin, espatifavam o cárter e lhe deitavam fogo. O Dakin estava imobilizado com uma arma apontada a ele. Ficou branco, depois azul e depois soltou um uivo como um coiote e avançou para eles. Dispararam para uma perna, mas isso não o deteve. Como não podia correr, rastejou, a espumar pela boca como um cão raivoso... Endoideceu, endoideceu por completo! Creio que amava a camioneta mais do que a tudo no mundo. O tipo que conseguiu pirar-se e regressou, disse que foi horrível a maneira como rastejou para eles e tentou morder-lhes. Rosnava como um cão... como um cão raivoso. Depois apareceram uns polícias de trânsito e os vigilantes sumiram-se. Os polícias levantaram o Dakin e levaram-no. O rapaz que regressou e contou a história observou tudo do alto de uma árvore. Diz que o Dakin mordeu a mão de um polícia e eles tiveram de lhe enfiar uma chave de parafusos entre os dentes para lhos abrirem. E julguei eu que aquele tipo não perderia a tramontana! Agora está no xadrez e creio que os rapazes elegerão o London como seu substituto.

— Bem, ele a mim também me pareceu calmo. — observou Jim — Ainda bem que nunca lhe toquei na camioneta.

Mac amontoou um pouco de terra no chão, com a mão, arredondou-a e achatou-a em cima. — Estou um bocado preocupado, Jim. Hoje o Dick não mandou provisões nenhumas, não tivemos notícias dele a não ser a anunciar que tinha os cobertores. Estão a cozinhar o resto dos feijões com ossos de porco, mas não há mais nada, a não ser aveia para umas papas. É tudo quanto há para amanhã.

— Achas que terão apanhado o Dick?

Mac achatou mais o montinho de terra.

— O Dick é esperto como uma doninha, não creio que conseguissem apanhá-lo. Mas também não sei o que se passa. Temos de arranjar comida, pois assim que os rapazes tiverem fome, acabou-se.

— Talvez ele não tenha arranjado nada. Mandou o porco esta manhã...

— Claro, e agora o porco está nos feijões. O Dick sabe o muito que é necessário para alimentar esta malta e já deve ter organizado os simpatizantes.

— Que tal se sentem agora os rapazes?

— Oh, estão melhores! Levaram uma injeção de vida, esta tarde. Sei que é cedo, mas temos de fazer o funeral amanhã. Isso talvez os estimule por uns tempos. — olhou para a entrada da tenda e exclamou: — Olha para aquela nuvem!

Saiu e olhou para o céu que a nuvem densa e preta escurecia quase por completo. Começou a soprar um ventinho agreste, que levamtava poeira, arrastava o fumo das fogueiras, fazia bater a lona das tendas e sacudia as macieiras que rodeavam o acampamento.

— Parece uma nuvem de chuva. — disse Mac — Oxalá não chova! Se chover, esta malta afogar-se-á como ratos.

— Preocupas-te demasiado com o que poderá acontecer, Mac. Passas a vida a preocupar-te. Estes homens estão habituados à vida ao ar livre, uma pinga de chuva não os afetará. Preocupas-te demasiado.

Mac sentou-se outra vez no chão. — Talvez tenhas razão. Tenho tanto medo de que a greve dê em nada que talvez imagine coisas. Já participei em tantas greves que falharam!

— Pois sim, mas que te importa a ti que falhe? Solidificará a agitação, como tu próprio disseste.

— Bem sei, bem sei... Creio que não teria importância se a greve acabasse agora mesmo. Os rapazes nunca mais esquecerão como mataram o Joy e também não esquecerão o episódio da camioneta do Dakin.

— Estás a ficar como uma velha, Mac.

— Que queres, é a minha greve... Quero dizer, sinto que é minha. Não quero vê-la ir por água abaixo, agora.

— Não irá, Mac.

— Não? Que sabes tu a esse respeito?

— Esta manhã estive a pensar... Leste alguma coisa de História, Mac?

— Um bocadinho, na escola. Porquê?

—Lembras-te como os Gregos venceram a batalha de Salamina?

— Talvez tenha sabido como foi, mas não me lembro.

— Os gregos estavam aqui, com alguns barcos, encurralados num porto. Queriam fugir, pôr-se na alheta a toda a mecha mas tinham pela frente uma grande quantidade de barcos persas. Bem, o almirante grego sabe que os seus homens vão tentar a fuga e manda avisar o inimigo, para que os cerque bem. Na manhã seguinte os gregos vêem que não podem fugir, que têm de combater para o conseguir, combatem e vencem. Infligiram uma derrota tremenda a esquadra persa.

Jim calou-se. Começaram a passar homens, na direção dos fogões. Mac calcou bem o montinho de terra com a mão aberta.

— Compreendo o que queres dizer, Jim. Não precisamos disso agora, mas se precisarmos, com mil raios, é uma ideia! — e acrescentou, em tom pesaroso: — Trouxe-te para te ensinar coisas e afinal foste tu que me começaste logo a ensinar a mim.

— Não digas asneiras.

— Está bem, são asneiras. Como será que os homens sabem quando a comida está pronta? Suponho que é uma espécie de telepatia. Ou talvez possuam aquele tipo de sentido especial que os abutres têm. Lá vão eles. Anda, Jím, vamos também comer.

 

A comida constava de feijões a nadar em gordura de porco. Mac e Jim levaram as latas da tenda e puseram-se na fila, até lhes servirem um pouco da mistela. Afastaram-se e Jim tirou uma tosca colher de madeira da algibeira e provou os feijões.

— Não posso comer isto, Mac.

— Estás habituado a melhor, hem? Mas tens de comer. — provou a sua ração e despejou imediatamente a lata. — Não comas. Jim. Feijões e gordura deixam um tipo doente. Os rapazes vão fazer chinfrim por causa disto.

Olharam para os homens sentados defronte das tendas, a tentar comer. A nuvem de tempestade alastrou no céu e devorou as estrelas acabadas de nascer.

— Creio que são capazes de tentar asassinar o cozinheiro, Jim. Vamos até à tenda do London.

— Não vejo a do Dakin.

— Mrs. Dakin desarmou-a e levou-a para a cidade. Estranho gajo, o Dakin. Não chegará a velho sem ter dinheiro. Mas vamos lá procurar o London.

Seguiram, por entre as tendas, até à de London, através de cuja lona brilhava uma luz. Mac levantou a aba e entrou. Lá dentro London estava sentado num caixote, com uma lata de sardinhas aberta na mão. A rapariga morena, Lisa, estava encolhida no colchão estendido no chão, a amamentar o bebê. Ao ver os homens entrar ocultou o bebê e o seio descoberto com um bocado de cobertor. Sorriu-lhes, mas voltou logo a olhar para o filho.

— Chegamos mesmo à hora do jantar! — exclamou Mac.

— Ainda tinha para aí uns restos... — murmurou London, embaraçado.

— Provou aquela porcaria?

— Provei.

— Oxalá os outros rapazes também tenham ainda alguns restos. Temos de lhes dar melhor comida, caso contrário piram-se.

— Deixaram de chegar provisões. — explicou London — Tenho mais uma lata de sardinhas. Querem-na?

— Se queremos! — Mac aceitou sofregamente a lata que o outro lhe estendeu e começou a abri-la — Pega na faca, Jim. Vamos repartir isto.

— Como está o seu braço? — perguntou London.

— Começa a ficar rígido.

Fora da tenda uma voz informou: — É ali, aquela com a luz acesa.

A aba da tenda levantou-se e Dick entrou. Trazia um boné cinzento na mão e tinha o cabelo muito bem penteado. O seu fato cinzento estava limpo, mas amarrotado, e só os seus sapatos cobertos de poeira denunciavam que viera a pé, através dos campos. Parou à entrada da tenda, a olhar em redor.

— Viva Mac, viva Jim. — e para a rapariga — Olá, jóia! — Os olhos da moça brilharam e as suas faces coraram, ao mesmo tempo que, garridamente, ajeitava o bocado do cobertor à roda dos ombros.

Mac encarregou-se das apresentações: — Este é o London e este é o Dick.

Dick inclinou um pouco a cabeça. — Como tá? Escuta, Mac, os tipos da cidade têm andado a receber lições.

— Que queres dizer? Aliás, que raio tens tu andado por lá a fazer?

Dick tirou um jornal da algibeira e estendeu-lho. Mac abriu-o e London e Jim espreitaram por cima do seu ombro.

— Saiu antes do meio-dia. — informou Dick.

— Filhos da puta! — praguejou Mac.

O jornal tinha o seguinte cabeçalho: «Os supervisores votaram a favor de aumentar os grevistas. Numa reunião pública efetuada ontem à noite a junta de Supervisores votou por unanimidade a favor de alimentarem os homens que estão em greve contra os produtores de maçãs.»

— Não há dúvida de que andam a receber lições. — comentou Mac — Já começou a dar resultado, Dick?

— Creio que sim.

London intrometeu-se: — Não vejo razão para nos irritarmos. Se eles quiserem mandar presunto com ovos, acho muito bem.

— Claro, se eles quiserem! — replicou Mac, sarcástico — Esse jornal não fala da outra reunião que se efetuou logo a seguir e em que a votação foi revogada.

— Mas qual é o furo? — perguntou London — Que raio significa isso?

— É um estratagema velho, mas que continua a dar resultado, London. Aqui o Dick organizou os simpatízantes e nós estávamos a receber comida, cobertores e dinheiro. Mas depois saíu isto. O Dick vai fazer a sua ronda e os simpatizantes dizem-lhe: «Mas que brincadeira vem a ser esta? O condado está a alimentá-los. Dick responde: «É? O estás!» e eles replicam-lhe: «Vem no jornal, que eu vi. Diz que lhes estão a mandar comida. Que esperam vocês lucrar com isto?» É assim London. Viu chegar hoje alguma comida mandada pelo condado?

— Não...

— Pois o Dick também não conseguiu arranjar nada. Agora já sabe qual é o jogo deles: vencer-nos pela fome. E, carago, consegui-lo-ão, se não arranjarmos auxílio! Estavas a ir tão bem, Dick...

— Pois estava, era canja. Vou precisar de algum tempo para organizar tudo outra vez. Quero um papel aqui deste tipo a dizer que não estão a receber comida nenhuma. Assinado pelo chefe da greve.

— Está bem. — aquiesceu London.

— Há muitos simpatizantes em Torgas. — prosseguiu Dick — Mas claro que tudo isto está organizado pela Associação dos Produtores e, por isso, os simpatizantes escondem-se como toupeiras. Mas existem e o essencial é conseguir convencê-los.

— Estavas a sair tão bem até aparecer esta porcaria! — repetiu Mac.

— Pois estava. Tive umas certas dificuldades com uma velhota, que tinha uma vontade terrível de ajudar a causa.

— Nunca me constou que o teu pudor de donzel te afastasse da manjedoura — comentou Mac, a rir — Suponho que ela queria dar-se toda à causa?

Dick não conteve um estremecimento. — Ela toda eram dezaseis cabos de machado colocados ao lado uns dos outros.

— Bem, vamos arranjar-te o papel e depois piras-te daqui para fora. Ainda não te identificaram, pois não?

— Não sei, mas tenho a impressão de que identificaram. Escrevi ao Bob Schwatz, a dizer-lhe que viesse, pois tenho a impressão de que me filarão muito em breve. O Bob poderá substituir-me.

London procurou num caixote e tirou um bloco de papel e um lápis. Estendeu-os a Mac, que redigiu a declaração.

— Escreve muito bem. — elogiou London, cheio de admiração.

— Pois escrevo. Também quer que assine por si, London?

— Pode assinar à vontade.

— Afinal, podia ter feito isso eu próprio. — observou Dick, enquanto aceitava o papel e o dobrava cuidadosamente — Ouvi dizer que um dos rapazes tinha sido abatido, Mac...

— Ainda não sabias? Foi o Joy.

— Oh, diabo!

— Veio com um magote de furas e estava a tentar convencê-los a passarem-se para nós quando o abateram.

— Pobre diabo.

— Foi rápido, não sofreu mais do que um minuto.

— Bem, estava escrito, para o Joy. — disse Dick, a suspirar — Estava escrito que o abateriam mais cedo ou mais tarde. Vão-lhe fazer um funeral?

— Amanhã.

— Os rapazes todos vão acompanhá-lo?

Mac olhou para London, antes de responder:

— Claro que vão. Talvez consigamos atrair a simpatia do público para o nosso lado.

— O Joy gostaria disso. — afirmou Dick — Nada lhe daria maior prazer. Só é pena que não o possa ver. Bem, tenho de ir. Até breve. — virou-se para sair, ao mesmo tempo que Lisa levantava a cabeça — Adeus, jóia. Havemos de nos ver, qualquer dia.

A rapariga voltou a corar, os lábios entreabriram-se-lhe e quando a aba da tenda se fechou, depois de Dick sair, os olhos continuaram por momentos fixos na lona.

— Não há dúvida de que eles têm isto bem organizado. — observou Mac — O Dick é competente, se não consegue obter morfos é porque não é possível consegui-lo.

— A respeito da plataforma para o discurso? — perguntou Jim.

— É verdade, já tratou disso, London?

— Os rapazes ergue-la-ão amanhã de manhã. A única coisa que consegui arranjar, para a fazer, foram estacas velhas, de vedação. Terá de ser pequena.

— Não importa. Basta que seja suficientemente alta para que todos os rapazes possam ver o Joy.

— Que diabo vou eu dizer aos homens? — perguntou London, preocupado — Você disse que eu tinha de fazer um discurso...

— Descanse, acabará por se entusiasmar. — tranquilizou-o Mac — Diga-lhes que o homenzinho morreu por eles, e que se ele foi capaz de fazer isso, eles poderão pelo menos lutar por si mesmos.

— Nunca fui muito de fazer discursos...

— Também não é preciso fazer nenhum discurso. Basta que fale aos rapazes, e isso é coisa que tem feito muitas vezes. Diga-lhes apenas o que se passou. Aliás, isso será melhor do que qualquer discurso.

— Bem, assim.,, assim está bem.

— Como vai o miúdo? — perguntou Mac à rapariga.

Ela corou e aconchegou melhor o bocado de cobertor. As pestanas sombrearam-lhe as faces. — Muito bem. — murmurou baixinho — Não chora nada.

A aba da tenda abriu-se de repelão e o médico entrou. Os seus movimentos rápidos e bruscos estavam em desacordo com os olhos tristes, de cão. — Vou ver o jovem Anderson. Mac. Quer vir?

— Claro que quero, doutor. London, mandou os rapazes guardar a casa do velho?

— Mandei. Eles não queriam ir, mas eu mandei-os.

— Muito bem, doutor, vamos lá. Anda também, Jim, se vês que podes.

— Sinto-me ótimo.

— Devia estar na cama. — afirmou o médico a olhar o ferido com firmeza.

— Tenho medo de o deixar. — declarou Mac, a rir — Se o deixo um bocado sozinho arranja logo sarilhos. Até logo, London.

A escuridão era muito densa, fora da tenda. A grande nuvem alastrara até cobrir o céu todo e não se via uma única estrela. Reinava no acampamento um estranho silêncio e os homens que se encontravam sentados à roda das poucas fogueiras falavam muito baixinho. O ar estava parado, quente e húmido. O médico, Mac e Jim escolheram cuidadosamente o caminho, saíram do acampamento e mergulharam na escuridão que o cercava.

— Tenho medo que chova. — queixou-se Mac — Ver-nos-emos aflitos com os rapazes se se molharem. A chuva é pior do que tiros, para tirar a genica aos homens. Suponho que a maioria das tendas deixa passar a água.

— Ah, pois deixa! — concordou Burton.

Chegaram à entrada do pomar e continuaram a andar, entre dois renques de árvores. Estava tão escuro que tinham de estender as mãos em frente, para se orientarem.

— Que lhe parece agora a sua greve? — perguntou o médico a Mac.

— Não me parece grande coisa. Têm este vale tão bem organizado como na Itália. O fornecimento de alimentos está cortado e se não conseguimos arranjar comida estará tudo perdido. Além disso, se esta noite chover bem, os homens começarão a dar-nos o fora. Não resistirão. Há uma coisa engraçada, doutor. Você não acredita na causa, mas provavelmente será o último a partir. Não o entendo mesmo nada.

— Eu também não. — murmurou o médico, suavemente — Não acredito na causa, mas acredito nos homens.

— Que quer dizer?

— Não sei. Creio que acredito apenas que são homens e não animais. Suponho que se entrasse num canil e os cães tivessem fome e estivessem doentes e sujos, os ajudaria, se pudesse. Eles não teriam a culpa de se encontrar em semelhante estado. Não se poderia dizer: Estes cães estão assim porque não têm ambição nenhuma. Não poupam os ossos. Os cães são sempre assim. Tentaria limpá-los e alimentá-los. Suponho que é isso que acontece comigo. Tenho alguns conhecimentos que me permitem ajudar homens e quando vejo alguns necessitados de ajuda, ajudo-os e pronto. Não penso muito no caso. Se um pintor encontrasse uma tela e tivesse tintas, desejaria pintar sem perguntar a si mesmo porquê.

— Compreendo-o. De certo modo, afigura-se cruel um tipo pôr-se de parte e ver os homens dessa maneira, sem nunca se misturar com eles. Mas por outro lado, doutor, parece excelente e limpo.

— A propósito, Mac, estou quase sem desinfetante. Acabar-se-lhe-á o bom cheiro se não me arranjar fenol.

— Verei o que posso fazer.

A uns cem metros de distancia brilhava uma luz amarela.

— Não é a casa do Anderson? — perguntou Jim.

— Creio que sim. Devemos encontrar as sentinelas, em breve.

Continuaram a andar na direção da luz, mas ninguém os mandou parar. Chegaram ao portão do pátio, e nada.

— Co'os diabos, onde estão os gajos que o London mandou? O doutor siga, que eu vou ver se os encontro.

Burton seguiu por um carreiro e entrou na cozinha iluminada. Mac e Jim dírigiram-se para o celeiro, onde encontraram os homens deitados a fumar em cima do feno. Um candeeiro a petróleo pendia de um gancho, na parede, e envolvia numa claridade amarela as baias vazias e a grande pilha de maçãs encaixotadas — a colheita de Anderson à espera de ser transportada.

Mac fervia de cólera, mas conseguiu dominar-se e foi em voz suave e amigável que falou:

— Ouçam, rapazes, isto não é brincadeira nenhuma. Fomos avisados de que os malditos vigilantes se preparam para fazer uma das suas ao Anderson, para se vingarem de ele nos deixar estar na sua propriedade. Já pensaram no que teria acontecido se ele não nos tivese acolhido lá? A esta hora andariam a correr conosco de toda a parte. O Anderson é bom homem, não devemos permitir que ninguém lhe faça mal.

— Não está ninguém perto. — protestou um dos homens.

— Jesus, não podemos passar a noite inteira lá fora, de guarda. Passamos a tarde toda a fazer piquetes.

— Pois então deixem-nos atacar isto! — gritou Mac, furioso — Depois o Anderson pôr-os-á no olho da rua... e para onde diabo iremos?

— Podemos acampar junto do rio.

— Isso é o que vocês julgam. Eles expulsá-los-iam tão depressa do condado que o vosso cu até deitaria fumo, e vocês sabem muito bem que seria asim!

Um dos homens levantou-se, devagar. — Ele tem razão, é melhor saírmos daqui. A minha velha está no acampamento e eu não quero arranjar-lhe sarilhos.

— Estabeleçam uma linha e não deixem ninguém passar. — aconselhou Mac — Sabem o que eles fizeram ao filho do Anderson... Deitaram-lhe fogo ao restaurante e deram-lhe uma tareia mestra.

— O Al servia um bom guisado. — disse um dos homens. Levantaram-se todos, cansados, e quando saíram do celeiro Mac apagou o candeeiro.

— Os vigilantes gostam de disparar para a luz. — explicou.

— Correm grandes riscos desse gênero. É melhor recomendarmos também ao Anderson que corra as cortinas.

Os guardas afastaram-se na escuridão e Jim perguntou: — Achas que eles agora ficarão de guarda, Mac?

— Gostaria de acreditar nisso, mas creio que estarão outra vez no celeiro dentro de uns dez minutos. Na tropa podem fuzilar um tipo se ele adormece, mas nós não podemos fazer outra coisa senão falar. Jesus, esta impossibilidade de agir, põe-me doente! Se ao menos dispusséssemos de armas! Se pudéssemos aplicar castigos para manter a disciplina! — o ruído dos passos dos guardas dissipou-se ao longe — Voltarei a tentar acordá-los antes de nos irmos embora.

Chegaram ao alpendre da cozinha e bateram à porta. Respondeu-lhes o ladrar e o rosnar dos cães. Ouviram os animais saltar dentro de casa e Anderson sossegá-los. A porta entreabriu-se, apenas.

— Somos nós, Mr. Anderson.

— Entrem. — convidou brusco.

Os pointers saltitaram, a agitar a cauda fína e dura e a ganír de prazer. Mac inclinou-se e afagou-os.

— Devia deixar os cães lá fora para guardarem a casa Mr. Anderson. Está tão escuro que os guardas não vêem nada, mas os cães farejam a aproximação de qualquer pessoa.

Al, deitado num divã junto do fogão, estava pálido e fraco. Parecia ter emagrecido, pois tinha a pele das bochechas frouxa. Estava deitado de costas e tinha um braço ligado à sua frente. O médico sentou-se numa cadeira ao lado do divã.

— Olá, Al. — saudou Mac — Como vai isso, rapaz?

— Vai bem. — respondeu Al, cujos olhos brilhavam — Dói um bocado e o médico diz que terei de ficar na cama algum tempo. — Mac inclinou-se e pegou-lhe na mão sã — Devagarinho! — pediu o ferido, muito depressa — Tenho costelas partidas desse lado.

Anderson observava de olhos coruscantes. — Agora estão a ver, agora estão a ver o que se ganha. O restaurante incendiado, o Al ferido... Agora estão a ver.

— Pelo amor de Deus, pai, não recomece com isso! — pediu Al, em voz fraca — Tratam-no por Mac, não tratam?

— Exatamente.

— Escute, Mac, acha que eu poderia entrar para O Partído?

— Quer dizer que deseja passar a ativista?

— Isso mesmo. Acha que poderei entrar?

— Acho que sim... — respondeu Mac, devagar — Dar-lhe-ei um cartão de inscrição. Mas porque quer filiar-se, Al?

O rosto pesado franziu-se numa careta e Al abanou a cabeça de um lado para o outro.

— Tenho estado a pensar... desde que eles me espancaram que tenho estado a pensar. Não consigo afastar aqueles tipos da ideia. O meu restaurantezinho a arder e eles a saltarem-me em cima... e dois chuis à esquina, a observar tudo, sem intervir! Não o consigo esquecer.

— E por isso quer juntar-se a nós, Al?

— Quero estar contra eles! — gritou Al. — Quero lutar contra eles toda a minha vida. Quero estar do outro lado.

— Eles ainda lhe baterão mais, Al. Estou a avisá-lo francamente. Moê-lo-ão de pancada.

— Não me importarei, pois então estarei a lutar contra eles, compreende? Mas eu estava sossegadamente a explorar um restaurantezinho, e a dar um prato de comida aos vadios, de vez em quando, e eles... — a voz morreu-lhe na garganta e correram-lhe lágrimas dos olhos.

— Não fale mais, Al — recomendou o Dr. Burton, e bateu-lhe ao de leve na cara.

— Arranjar-lhe-ei um cartão de inscrição. — prometeu Mac de novo — É muito estranho! Não têm conta os tipos que são empurrados para o nosso lado pelo bastão de um chui! Todas as vezes que eles espancam um grupo de homens, recebemos uma data de pedidos de admissão. Em Los Angeles há um chui da Brigada Vermelha que nos manda mais membros do que uma dúzia dos nossos organizadores! E os idiotas ainda não foram capazes de perceber isso. Esteja descansado, Al, terá o seu cartão de pedido de admissão. Claro que não sei se será aprovado, mas se eu puder dar uma ajuda, será com certeza. — deu uma palmadinha no braço ileso de Al — Espero que seja. Você é bom tipo, não me culpa do que aconteceu ao seu restaurante.

— Claro que não o culpo, Mac. Sei de quem é a culpa.

— Tenha calma, Al.—recomendou de novo o médico.

— Descanse, precisa de descansar.

Anderson andava às voltas pelo aposento, interminavelmente seguido pelos cães, que esticavam o focinho cor de fígado, farejavam e sacudiam a cauda esticada, como se fosse um chicotezinho. — Espero que estejam satisfeitos! — explodiu por fim o velho, desanimado — Destroem tudo quanto tenho... até me levam o Al. Espero que lhes faça bom proveito.

— Não se preocupe, Mr. Anderson. — disse Jim — A casa está cercada por guardas e o senhor é o único homem do vale que tem as maçãs apanhadas.

— Quando tenciona levá-las? — perguntou-lhe Mac.

— Depois de amanhã.

— Quer alguns guardas, para os caminhões?

— Não sei...—respondeu o velho, constrangido.

— Acho que é melhor colocarmos guardas nos caminhões, não vá alguém tentar destruir-lhe a colheita. Agora vamos andando. Boas noites, Mr. Anderson. Boas noites, Al. Num certo sentido, estou contente com o que aconteceu.

— Boas noites, rapazes. — despediu-se Al, a sorrir — Não se esqueça do cartão, Mac.

— Não esquecerei. É melhor correr as cortinas, Mr. Anderson. Não creio que disparem através das suas janelas, mas são muito capazes disso. Já o têm feito noutros lados.

A porta fechou-se imediatamente, assim que saíram, e o quadro luminoso projetado pela janela no chão desapareceu, quando as cortinas foram corridas. Mac tateou o caminho até ao portão, que fechou depois de saírem.

— Esperem aqui um momento. Vou outra vez ver os guardas. — afastou-se, na escuridão.

Jim ficou à espera, ao lado do médico.

— Tenha muito cuidado com esse ombro. — recomendou-lhe Burton — Poderá incomodá-lo, mais tarde.

— Não me importo, doutor. Causa uma sensação agradável estar ferido.

— Já calculava que fosse assim.

— Assim como?

— Você tem um não-sei-quê nos olhos, Jim, algo religioso. É uma coisa que já lhe tenho visto, noutras ocasiões.

— Mas não é nada religioso! — protestou Jim — Não quero saber da religião para nada.

— Acredito que não queira. Não me ligue importância, Jim, não consinta que o confunda com as minhas expressões. Você está a viver a boa vida, seja qual for o nome que lhe queira dar.

— Sinto-me feliz... e feliz pela primeira vez. Estou eufórico.

— Bem sei. Não deixe morrer essa sensação, que é a visão do Céu.

— Não acredito no Céu. Não acredito na religião.

— Está bem, não discuto mais. Não o invejo tanto quanto deveria, Jim, porque às vezes amo os homens tanto quanto você, embora talvez de modo diferente.

— Também sente isso, doutor? É como... como soldados e soldados a marcharem para nós, e nós a cerrarmos fileiras com eles...

— Sim, qualquer coisa desse gênero. Sobretudo quando fizeram algo estúpido, quando um homem cometeu um erro e morreu em consequência disso. Sim, sinto isso... com muita frequência.

Ouviram a voz de Mac: — Onde estão? Está tão escuro!

— Estamos aqui.

Reuniram-se-lhe e penetraram os três no pomar, sob as árvores negras.

— Os guardas não estavam no celeiro. — informou Mac.

— Estavam no seus postos. Talvez lá se aguentem.

Muito ao longe, na estrada, ouviram o barulho de uma camioneta, que vinha na sua direção.

— Tenho pena do Anderson.—disse Burton, serenamente.

— Tudo quanto respeita, tudo quanto teme se está a voltar contra ele. Que fará? Eles expulsá-lo-ão daqui, evidentemente.

— Não o podemos evitar, doutor. — redarguiu Mac, ríspido — Acontece que lhe calhou a ele ser sacrificado, em favor dos homens. Alguém tem de abrir caminho para que toda a manada possa fugir do matadouro. Não podemos pensar nos sofrimentos de um homem. É necessário, doutor.

— Não estava a pôr em causa os seus motivos nem os seus objetivos. Limitei-me a dizer que tinha pena do pobre velho. O seu respeito próprio está muito em baixo. É uma pílula amarga para ele, não acha, Mac?

— Não posso perder tempo a pensar nos sentimentos de um homem! — replicou o interpelado, vivamente — Estou muito ocupado com grandes grupos de homens.

— Foi diferente com o homenzinho abatido a tiro. — insistiu o médico, como se falasse consigo mesmo — Ele gostava do que fazia, não desejaria que fosse de outro modo.

— Está a despedaçar-me o coração, doutor. — resmungou Mac, irritado — Tenha cuidado, não se perca numa confusão de patetíce sentimental. Há um fim a alcançar, um fim real, que não tem nada a ver com o fato de alguém perder o respeito próprio. Trata-se de meter pão na barriga das pessoas. É real, não se trata de nenhuma das suas ideias complicadas. Como vai o velho da bacia partida?

— Está bem, mude de assunto, se lhe agrada. O velho está a tornar-se mau como um escorpião. Logo ao princípio, foi alvo de grandes atenções e durante uns tempos sentiu-se todo inchado de orgulho, mas agora enfureceu-se porque os homens não aparecem e não o ouvem falar.

— Irei vê-lo de manhã. — prometeu Jim — Era um velho simpático.

— Escutem! — pediu Mac, de súbito — A camioneta não parou?

— Creio que sim. Parece que parou no acampamento.

— Que raio se passará? Vamos mais depressa. Cuidado com as árvores.

Tinham percorrido uma pequena distância quando a camioneta roncou, num manobrar de mudanças, e se pôs de novo em movimento. O barulho por ela produzido foi diminuindo, ao longe, até se fundir com o silêncio.

— Oxalá não tenha acontecido nada. — murmurou Mac.

Saíram do pomar a correr e entraram no acampamento. Ainda havia luz na tenda de London, perto da qual se encontrava um grupo de homens. Mac estugou o passo, levantou a aba da tenda e entrou. No chão encontrava-se um comprido e tosco caixão de pinho. London, sentado num caixote, olhou melancolicamente para os recém-chegados. A rapariga estava toda encolhida no colchão, enquanto o marido, moreno e pálido. lhe afagava o cabelo, sentado ao lado dela. London apontou com o polegar para o caixão e perguntou:

— Que raio vou fazer com isso? Quase matou a rapariga de medo. Não pode ficar aqui.

— É o Joy?—perguntou-lhe Mac.

— É. Acabam de trazê-lo.

Mac apertou o lábio inferior e olhou para o caixão.

— Creio que podíamos levá-lo lá para fora... ou senão os seus pequenos vão dormir para a tenda do hospital, esta noite, e ele fica aqui. A não ser que o assuste, London?

— Não significa nada para mim. — protestou o homenzarrão — É mais outro cadáver, e eu já vi muitos na minha vida.

— Nesse caso, deixemo-lo aqui. O Jim e eu ficamos cá, também. O tipo era nosso amigo.

O médico deu uma gargalhadinha abafada, atrás dele, e Mac corou e virou-se, brusco, para Burton.

— Digamos que ganhou, doutor. E depois? Eu conhecia o tipo.

— Eu não disse nada, Mac.

London falou baixinho à rapariga e ao rapaz moreno, os quais saíram momentos depois da tenda, ela a aconchegar bem o bocado do cobertor à roda dos ombros e do filho.

Mac sentou-se numa das extremidades do caixão e esfregou a madeira com o indicador. Os grãos ásperos do pinho ziguezagueavam como riozinhos sinuosos, na madeira. Jim estava de pé atrás de Mac e olhava por cima do seu ombro, fixamente. London andava de um lado para o outro, nervoso, e os seus olhos evitavam o caixão.

— O condado não se alargou com a despesa, antes pelo contrário. — murmurou Mac.

— Que queria você em troca de nada? — perguntou London.

— Para mim, quero apenas uma fogueira, uma boa fogueira que acabe comigo, para não ficar para aí.

Levantou-se, apalpou a algibeira das calças de cotim e tirou um grande canivete. Uma das lâminas terminava numa chave de parafusos. Mac introduziu-a na ranhura da cabeça de um dos parafusos da tampa do caixão e girou.

— Para que vai abrir isso? — gritou London — Não servirá de nada. deixe-o em paz.

— Quero vê-lo.

— Para quê? Está morto... é um matacão de esterco.

— Às vezes penso que vocês, realistas, são as pessoas mais sentimentais do mundo — observou o doutor, em tom muito suave.

Mac soltou um resmungo desdenhoso e depositou cuidadosamente o parafuso no chão.

— Se julga que se trata de sentimento, está maluco, doutor. Quero apenas verificar se será boa ideia os rapazes verem-no amanhã. Temos de lhes injetar alguma genica, seja lá como for. Estão a morrer em pé.

— A brincar com cadáveres, hem?

— Temos de utilizar todos os meios, doutor. — lembrou Jim, veementemente — Temos de utilizar todas as armas.

Mac olhou-o, apreciador, e confirmou: — É essa a ideia, é assim que tem de ser. Se o Joy puder fazer algum trabalho mesmo depois de morto, terá de o fazer. Entre nós não há essa coisa a que chamam sentimentos pessoais. Não pode haver. E também não há o chamado bom gosto. Não se esqueçam disso.

London escutava, parado, a acenar lentamente com a grande cabeça.

— Vocês têm razão. — concordou — Vejam o Dakin. Permitiu que a maldita camioneta o endoidecesse daquela maneira... Ouvi dizer que é julgado amanhã... por agressão.

Mac ia tirando rapidamente os parafusos, que colocava ao lado uns dos outros no chão. A tampa estava encravada, mas ele soltou-a com uma pancada do salto do sapato.

Joy parecia espalmado, pequeno e dolorosamente limpo. Vestia camisa azul lavada e as suas calças de ganga sujas de óleo. Tinha os braços cruzados sobre o estômago.

— Deram-lhe uma injeção de formal de íodo, mais nada. — murmurou Mac.

A barba crescera um pouco nas faces de Joy e parecia muito escura, em contraste com a pele cinzenta e cerosa. A amargura e o sarcasmo tinham-lhe desaparecido do rosto, que estava sereno e composto.

— Parece tranquilo — observou Jim.

— Sim, é esse o mal. Não servirá de nada mostrá-lo. Tem um ar tão confortável que todos os rapazes quererão fazer-lhe companhia.

O médico aproximou-se, olhou um momento para o caixão e depois foi sentar-se num caixote. Os seus grandes olhos queixosos fitaram-se em Mac, que continuava a fitar Joy.

— Era um homenzinho tão bom! Não queria nada para ele. Sabem, não era muito inteligente, mas mesmo assim conseguiu compreender que havia qualquer coisa que não estava certa. Não compreendia por que motivo se deitavam alimentos fora e se deixavam apodrecer quando havia gente com fome. Pobre tontinho, nunca conseguiu perceber isso. E meteu-se-lhe na cabeça que talvez pudesse ajudar a acabar com esse estado de coisas. Pergunto a mim mesmo em que medida terá ele ajudado... É muito difícil de dizer. Talvez nada... talvez muito. Não se sabe.

A voz de Mac tornara-se trémula. O doutor continuava a fitá-lo com um curioso sorriso, meio sardónico, meio bondoso.

— OJoy não tinha medo de nada. — declarou Jim.

Mac pegou na tampa do caixão e repô-la no seu lugar. — Não sei porque estamos sempre a dizer pobre homenzinho. O Joy não era pobre, era maior do que ele próprio. Não o sabia nem se importava, mas havia sempre nele uma espécie de êxtase, mesmo quando o espancavam. E, como o Jim disse, não tinha medo. — pegou num parafuso, meteu-o na cavidade e colocou-o com a chave de parafusos.

— Isso parece um discurso. — observou London — Talvez seja melhor ser você a discursar, amanhã. Eu não percebo nada de falar e esse foi um bonito discurso. Soou bem.

Mac levantou a cabeça, envergonhado, procurou ler sarcasmo na cara do outro e não o encontrou. — Não foi um discurso. — declarou calmamente — Creio que poderia ter sido, mas não foi. Quis dizer ao tipo que não foi desperdiçado.

— Porque não faz o discurso amanhã? Sabe falar.

— Chiça, não! O chefe é você. Os rapazes ficariam ofendidos se eu abrisse a boca. Esperam que seja você a fazê-lo.

— Bem, mas que tenho eu a dizer?

Mac colocou os parafusos, um após outro. — Diga-lhes o costume. Que o Joy morreu por eles, que estava a tentar ajudá-los e que o melhor que poderão agora fazer por ele será ajudarem-se a si mesmos, conservando-se unidos. Percebeu?

— Percebi, sim.

Mac levantou-se e olhou para a madeira áspera da tampa do caixão. — Oxalá alguém tente deter-nos, oxalá alguns desses malditos vigilantes se atravessem no nosso caminho! Oh, meu Deus oxalá eles tentem impedir-nos de atravessar a cidade em cortejo!

— Compreendo-o. — murmurou London.

— Oxalá! — replicou Jim, de olhos brilhantes.

— Os rapazes quererão lutar, sentir-se-ão todos magoados por dentro, quererão espatifar qualquer coisa... — disse Mac.

— Os vigilantes não são muito espertos. Oxalá sejam suficientemente doidos para provocar qualquer coisa!

Burton levantou-se, fatigado, do caixote e dirigiu-se a Mac. — Mac. — disse-lhe, tocando-lhe ao de leve no ombro — você é a mais louca mistura de crueldade e sentimentalismo de hausfrau, de visão clara e óculos cor-de-rosa, que jamais conheci. Não sei como consegue ser todas essas coisas ao mesmo tempo.

— Tolice!

— Está bem, digamos que é tolice.— o médico bocejou — Vou para a cama. Sabem onde me poderão encontrar, se precisarem de mim, mas espero que não precisem.

Mac olhou muito depressa para o teto da tenda. Caíam na lona pingos grossos, indolentes. Um... dois... três, e depois uma dúzia, num tamborilar suave.

— Esperava que não chovesse. — murmurou Mac, a suspirar — De manhã, os rapazes sentir-se-ão como ratos afogados. Não terão mais coragem do que um porco-da-índia.

— Mesmo assim, vou para a cama. — declarou o médico, e saiu.

Mac sentou-se pesadamente no caixão. O ritmo do tamborilar acelerou-se. No exterior, os homens começaram a chamar-se uns aos outros e a chuva abafou-lhes a voz.

— Não creio que haja no acampamento uma só tenda que não deixe passar a água. Jesus, por que diabo não podemos ter uma probabilidade, sem a vermos logo cancelada? Porque temos de levar sempre para baixo, Jim, porquê?

Jim sentou-se com cuidado ao lado dele, no caixão. — Não te preocupes, Mac. Às vezes, quando um tipo se sente mesmo nas lonas, infeliz, ainda luta com mais ardor. Foi o que aconteceu comigo, Mac, quando a minha mãe estava a morrer e nem sequer me quis falar. Senti-me tão desgraçado que naquela altura teria corrido todos os riscos. Não te preocupes.

— Apanhaste-me outra vez, hem? — perguntou-lhe Mac, virando-se para ele — Olha que me chateio a valer se me continuares a apanhar em falso com excessiva frequência! Deita-te ali, no colchão da rapariga. Esse braço já te deve doer.

— Arde um bocadinho, de fato.

— Deita-te, anda, e vê se consegues dormir.

Jim fez menção de protestar, mas depois estendeu-se no colchão. A ferida ardia-lhe e o braço e o peito latejavam-lhe. Ouviu a chuva aumentar, até varrer a lona da tenda como uma vassoura. Ouviu cair grandes pingos no interior e depois, quando a água começou a entrar pelo meio do teto, ouviu os pingos grossos esparrinharem-se no caixão.

Mac continuava sentado no caixão, com a cabeça apoiada nos braços. E os olhos de London, como os olhos insones de um lince, não se desviavam da lanterna. O silêncio voltara ao acampamento e a chuva caía, incessante, de um céu sem vento. Jim não tardou a mergulhar num sono febril. A chuva foi caindo, hora após hora. Na viga da tenda, a luz ia-se tornando amarelada. Uma chama azul brilhou, como que aos soluços, na orla da torcida e depois apagou-se.

 

JIM teve a sensação de acordar dentro de um caixote. Tinha todo um lado do corpo como que tomado por uma rigidez dolorosa. Abriu os olhos e olhou em redor da tenda. Nascia uma alvorada cinzenta e lânguida. O caixão continuava no seu lugar, mas Mac e London tinham desaparecido. Ouviu o ruído que o devia ter acordado: o bater de martelos em madeira. Ficou um bocado quieto, a olhar sossegadamente à volta, e por fim tentou sentar-se. Mas o caixote de dor não o deixou, tolheu-o. Rebolou sobre si mesmo, conseguiu erguer-se de joelhos e levantou-se, deixando descair o ombro ferido para o proteger da tensão.

A aba da tenda abriu-se e Mac entrou, com o casaco de cotím azul a brilhar de humidade.

— Olá, Jim! Dormiste um bocado, hem? Como vai o braço?

— Está rígido. Continua a chover?

— Uma morrinha lixada. O doutor não tarda, para te ver o ombro. Não calculas como está húmido lá fora! Quando os rapazes andarem por aí um bocado, o chão ficará transformado em papas.

— Que barulho é este?

— Temos estado a construir um estrado para o Joy. Até conseguimos descobrir uma bandeira velha para o cobrir.

Desenrolou um pano de aspecto miserável que trazia na mão e revelou uma bandeira americana muito puída e suja. Estendeu-a cuidadosamente em cima do caixão. — Não, parece-me que não é assim... Creio que o campo deve ficar em cima do coração, assim, não é?

— É uma miserável bandeira suja.

—Bem sei, mas servirá muito bem. O doutor deve estar a chegar de um momento para o outro.

— Tenho uma fome danada.

— Quem não tem? Vamos ter papas de aveia para o pequeno-almoço: simples, sem açúcar nem leite. Só aveia.

— Até isso me parece excelente. Não estás tão em baixo esta manhã, pois não, Mac?

— Eu? Bem, os rapazes também não estão todos nas lonas como eu receava. As mulheres fazem um chinfrim dos demónios, mas os homens estão em muito bom estado, atendendo às circunstâncias.

Burton entrou, apressado. — Como está isso, Jim?

— Muito dorido.

— Sente-se ali, para lhe pôr um penso limpo.

Jim sentou-se num caixote e preparou-se para a dor que esperava, mas o médico trabalhou com perfeição, removeu a ligadura e o penso sujos e substitui-os por outros, sem o magoar.

— O velho Dan está preocupado. — informou — Tem medo de não ir ao funeral. Diz que foi ele que desencadeou esta greve e agora todos o esquecem.

— Acha que podíamos metê-lo numa camioneta e levá-lo, doutor? — perguntou Mac — Seria uma publicidade excelente, se pudéssemos.

— Lá poder, podíamos, mas ele teria dores terríveis e poderiam surgir complicações, resultantes do choque. É velho... Esteja quieto, Jim; estou quase a acabar. O melhor será dizer-lhe que o levamos. Depois, quando começarmos a levantá-lo, creio que ele próprio desistirá. Sente o orgulho ferido, é natural. Pensa que o Joy lhe roubou o papel de estrela... — deu uma palmadiinha na ligadura — Pronto, Jim. Como se sente agora?

Jim mexeu o ombro, cautelosamente. — Melhor. Sim, muito melhor!

— Porque não vais ver o velhote depois de comer, Jim? É teu amigo.

— Acho que irei, Mac.

— Ele está um bocadinho fracote. — lembrou o médico — Não o aborreça, Jim. Toda esta agitação lhe subiu um pouco à cabeça.

— Esteja descansado, farei o jogo dele. — levantou-se e acrescentou: — Não há dúvida, sinto-me muito melhor.

— Vamos comer umas papas. — disse Mac — Desejamos iniciar o funeral a tempo de interromper o trânsito do meio-dia na cidade, se nos for possível.

— Sempre um amigo do homem! — troçou o médico — Jesus, Mac, você é um escorpião! Se eu fosse o chefe do outro lado apanhava-o e fuzilava-o.

— Bem, eles farão isso mesmo, qualquer dia. Também é só o que falta fazerem-me. O resto já fizeram tudo.

Saíram da tenda, uns atrás dos outros. O ar estava cheio de minúsculos pingos de chuva, que formavam uma morrinha cinzenta e nevoenta. As árvores do pomar só vagamente se distinguiam atrás de uma cortina de gaza cinzenta. Jim olhou para as filas de tendas ensopadas. As ruas, entre elas, já tinham sido transformadas em lama mole pelos pés das pessoas, que não paravam à procura de um sítio seco para se sentarem. Grandes filas de homens esperavam a sua vez para se servirem das retretes, ao fundo das ruas.

Burton, Mac e Jim seguiram na direção dos fogões, de cujas chaminés saía uma fumarada azul, densa, da lenha húmida. Em cima das chapas fervilhavam caldeiras de papa que os cozinheiros mexiam com paus compridos. Jim sentiu a humidade penetrar-lhe pelo pescoço abaixo. Aconchegou mais o casaco e abotoou o botão de cima.

— Preciso de um banho. — murmurou.

— Toma um de esponja; é o único que podemos tomar aqui. Olha, trouxe-te a tua lata de comida.

Foram para o fim da fila dos homens que esperavam junto dos fogões. Os cozinheiros iam enchendo as vasilhas de papas à medida que a fila passava. Jim encheu a colher improvisada e soprou.

— Sabe bem. — declarou — Creio que estou meio esfomeado.

— Se não estivesses é que seria de admirar. O London está a supervisionar a construção da plataforma. Vamos até lá.

Afastaram-se a chapinhar na lama, desviando-se do caminho sempre que aparecia algum bocado de solo ainda relativamente seco. A nova plataforma erguia-se atrás dos fogões, um pequeno estrado feito de velhas estacas de vedação e pranchas de valas de escoamento. Tinha sido erguida cerca de 1,20 metros acima do nível do solo e naquele momento London estava a pregar um corrimão.

— Viva! — saudou-os — Que tal estava o pequeno-almoço?

— Esta manhã até cascalho assado teria sabido bem. — respondeu-lhe Mac — Foi o resto, não foi?

— Foi. Não haverá nada quando essa aveia acabar.

— Talvez o Dick tenha mais sorte hoje. — disse Jim — Porque não me deixas sair e tentar arranjar comida, Mac? Não estou aqui a fazer nada.

— Ficas no acampamento. London, este rapaz está marcado. Já tentaram apanhá-lo duas vezes e mesmo assim quer sair e andar pelas ruas sozinho.

— Não seja idiota, Jim. Vamos pô-lo na camioneta, com o caixão. Com esse ferimento não poderá andar muito e por isso vai na camioneta.

— Mas que raio... — começou Jim a protestar, mas London franziu-lhe o cenho.

— Não arme em pimpão comigo, aqui sou eu o chefe. Quando for a sua vez de mandar, dar-me-á ordens; agora dou-lhas eu.

Os olhos de Jim coruscaram, num acesso de rebelião. Depois olhou para Mac e viu que ele sorria, à espera. — Está bem, farei o que disser. — resignou-se.

— Há uma coisa que podes fazer, Jim. — disse Mac — Veja lá se concorda, London: que tal se o Jim andar por aí e for falando com os rapazes? Se os for sondando, para saber o que sentem e pensam? Precisamos de saber até que ponto podemos avançar e eu creio que os rapazes falarão com ele.

— Que quer saber? — perguntou London.

— Bem, precisamos de saber o que pensam da greve, agora.

— Acho bem.

Mac virou-se para o amigo e disse-lhe: — Vai primeiro visitar o velho Dan e depois mete conversa com o maior número de tipos que puderes, uns poucos de cada vez. Não tentes convencê-los de nada, limita-te a concordar com eles até descobrires quais são os seus sentimentos. És capaz de fazer isso, Jim?

— Claro que sou. Onde está o velho Dan?

— Vês aquela tenda mais branca do que as restantes, ali na segunda fila? É a tenda-hospital do doutor. Creio que o velho Dan lá está.

— Vou vê-lo.

Rapou o resto das papas e ao passar por um dos barris de água lavou a lata e atirou-a para dentro da pequena tenda que lhes tinham destinado, a ele e a Mac. Houve um ligeiro movimento no interior da tenda e Jim ajoelhou-se e entrou, de gatas. Lisa estava lá, a amamentar o bebê, e cobriu apressadamente o seio.

A rapariga corou e disse, baixinho: — Olá...

— Julguei que tinha ido dormir na tenda-hospital.

— Estavam lá homens.

— Espero que não se tenha molhado aqui, a noite passada.

A rapariga dobrou cuidadosamente o pedaço de cobertor. — Não, a lona não deixou passar água nenhuma.

— De que tem medo? Não lhe farei mal. Ajudei-a uma vez, isto é, o Mac e eu ajudamo-la.

— Bem sei. É por isso.

— De que quer falar?

A cabeça da rapariga quase desapareceu debaixo do cobertor. — Viu-me... sem roupa. — respondeu-lhe baixinho.

Jim começou a rir, mas deteve-se. — Isso não significa nada. Não se devia sentir envergonhada por esse motivo. Tínhamos de ajudá-la.

— Bem sei. — ergueu momentaneamente os olhos — Mas faz-me sentir esquisita.

— Não pense nisso. Como vai o bebê?

— Bem.

— Não tem dificuldade em amamentá-lo?

— Não. — acrescentou, toda vermelha e em voz trémula — Gosto de amamentar.

— Claro que gosta, é natural.

— Gosto porque... sabe bem. — ocultou o rosto. — Não lho devia ter dito.

— Porquê?

— Não sei, mas não lho devia ter dito. Não é... decente, pois não? Não vai dizer a ninguém?

— Claro que não.

Jim desviou os olhos dela e olhou para fora, através da entrada baixa. A névoa descia, devagarinho, e grandes pingos escorriam pela parede inclinada da tenda, como contas de um colar. Jim continuou a olhar para fora, instintivamente consciente de que ela queria observá-lo e não seria capaz disso se ele não olhasse para outro lado.

O olhar da rapariga percorreu-lhe o rosto, um perfil escuro recortado na luz. Ao ver o volume do ombro ligado, perguntou: — Que tem no braço?

Ele virou a cabeça e desta vez os olhos dela não se desviaram. — Levei um tiro, ontem.

— Oh! Dói-lhe?

— Um bocadinho.

— Só um tiro? Quero dizer, um tipo chegou e deu-lhe um tiro?

— Lutei com uns furas. Um dos proprietários atingiu-me com um tiro de espingarda.

— Você esteve a lutar? Você?

— Com certeza que estive.

Continuou a olhar-lhe fascinadamente para o rosto, de olhos muito abertos. — Não tem nenhuma arma, pois não?

— Não.

Lisa suspirou. — Quem era aquele rapaz que foi lá à tenda, ontem à noite?

— O tipo novo? Era o Dick. É meu amigo.

— Parece bom rapaz.

— Claro que é. — confirmou Jim, a sorrir.

— Mas um bocado atrevido. O Joey - é o meu marido - não gostou nada dele. Mas eu achei-o simpático.

Jim ajoelhou-se e preparou-se para sair da tenda. — Já tomou o pequeno-almoço?

— O Joey foi-mo buscar. — os seus olhos tinham-se tornado mais ousados — Vai ao funeral?

— Vou.

— Eu não posso ir. O Joey diz que não posso.

— Está um tempo muito húmido e desagradável.. — Jim saiu, de gatas — Adeus, pequena, tenha cuidado consigo.

— Adeus. — e, após uma pausa: — Não diga a ninguém, ouviu?

Jim olhou para dentro da tenda, sem perceber.

— Não digo o quê? Ah, acerca do bebê! Esteja descansada que não direi.

— Compreende, você viu-me daquela maneira e por isso eu disse-lhe. Não sei porquê.

— Eu também não. Adeus, pequena.

Levantou-se e afastou-se da tenda. Eram poucos os homens que andavam no exterior, devido à névoa. A maior parte dos grevistas comera as papas e voltara para as tendas. Um ventinho fraco agitava a morrinha, num ângulo lento, de derivação. Quando passou pela tenda de London, Jim olhou para o interior e viu uma dúzia de homens à volta do caixão, todos de olhos baixos. Ainda pensou em entrar, mas mudou de ideias e dirigiu-se para a branca tenda hospitalar, ao fundo da fila. No interior da tenda reinava uma arrumação curiosa e eficiente: dentro de um grande caixote encontravam-se, bem arrumados, alguns remédios, ligaduras, frascos de tintura de iodo, um grande boião de sais e uma maleta de médico.

O velho Dan estava deitado num divã, amparado com almofadas, e no chão via-se uma garrafa de boca larga, que servia de urinol, e um bacio antiquado. A barba do velho crescera e tornara-se mais agressiva e as suas faces estavam mais chupadas. Os olhos fitaram Jim com um brilho colérico.

— Vieste, finalmente! Vocês obtêm o que querem, seus fedelhos dos demônios, e depois abandonam um homem.

— Como se sente, Dan? — perguntou Jim, apaziguador.

— Quem se importa com isso? O doutor é um homem simpático, é o único decente no meio desta corja de piolhosos.

Jim puxou um caixote e sentou-se. — Não esteja zangado, Dan! Olhe, eu também levei, deram-me um tiro no ombro.

— Foi muito bem feito. — resmungou o velho, ácido — Vocês, seus fedelhos, não sabem olhar por si próprios. Até admira que não estejam todos a morrer em pé. — Jim manteve-se silencioso — Deixaste-me para aqui deitado, julgando que não me lembro de nada. Lá em cima daquela macieira não falavas noutra coisa senão em greve, greve... E quem desencadeou a greve? Tu? Oh, não! Fui eu, eu é que a desencadeei! Julgam que não sei, mas fui eu que a desencadeei quando caí e parti a bacia. E depois deixaram-me para aqui sozinho.

— Nós sabemos. Dan, todos nós sabemos.

— Então porque não me ouvem? Tratam-me como um raio de um miúdo! — gesticulou furiosamente e acabou por gemer.

— Vão-me deixar aqui, enquanto a malta vai toda ao funeral! Ninguém quer saber de mim!

— Não é assim, Dan. Nós vamos metê-lo numa camioneta e levá-lo, à frente do cortejo.

A boca de Dan entreabriu-se, de espanto, e mostrou os quatro compridos dentes de esquilo. Baixou lentamente as mãos e pousou-as na cama. — Sério? Numa camioneta?

— Foi o que o chefe disse. Disse que o verdadeiro chefe era você e que tinha de ir.

Dan assumiu uma expressão muito grave. A sua boca tornou-se séria e marcial.

— Nem podia dizer outra coisa. Ele sabe muito bem. — olhou fixamente para as mãos e os seus olhos tornaram-se mais brandos e infantis — Eu conduzi-los-ei. — murmurou, suavemente — Em todos estes séculos é disso que os trabalhadores têm precisado, de um chefe. Conduzí-los-ei à luz. Eles terão apenas de fazer o que eu disser. Eu direi: «Vocês rapazes, façam isto», e eles fá-lo-ão. E eu direi: «Vocês, seus sacanas preguiçosos, vão para ali», e, por Deus, eles irão, porque eu não tolerarei sacanas preguiçosos. Quando eu falar, terão de saltar logo e obedecer! — sorriu, afetuoso, e acrescentou: — Pobres ratos! Nunca tiveram ninguém que lhes dissesse o que deviam fazer, nunca tiveram nenhum chefe verdadeiro.

— Isso é verdade. — concordou Jím.

— Bem, agora verás algumas mudanças! — afirmou Dan.

— Diz-lhes que fui eu que o disse, diz-lhes que estou a estudar um plano. Já estarei em pé daqui a uns dias... Diz-lhes que tenham paciência, até poder sair daqui e guiá-los.

— Esteja descansado que lhes direi.

O Dr. Burton entrou na tenda. — Bons dias, Dan. Olá, Jim. Dan, onde está o homem que encarreguei de tomar conta de si?

— Saiu. — respondeu o velho, lamentosamente — Disse que me ía buscar o pequeno-almoço, mas nunca mais voltou.

— Precisa do bacio, Dan?

— Não.

— Ele deu-lhe o clister?

— Não.

— Tenho de lhe arranjar outro enfermeiro.

— Ouça, doutor, aqui este fedelho diz que vou ao funeral numa camioneta.

— É verdade, Dan. Pode ir, se quiser.

Dan recostou-se na almofada, a sorrir. — Já era tempo de alguém me prestar alguma atenção. — declarou, satisfeito.

Jim levantou-se do caixote e despediu-se: — Então até logo, Dan.. — Burton acompanhou-o à saída e Jim perguntou-lhe: — Ele está a ficar chalado, doutor?

— Não. É velho, sofreu um choque e os seus ossos não soldam facilmente...

— No entanto, fala como um doido.

— Bem, o homem que encarreguei de tomar conta dele não fez o que lhe mandei e o velho precisa de um clister. Às vezes a prisão de ventre torna-nos a cabeça leve... Mas ele é apenas um velho, Jim. Você fê-lo muito feliz. Deve vir visitá-lo muitas vezes.

— Acha que ele irá mesmo ao funeral?

— Não. Os solavancos da camioneta causar-lhe-iam muitas dores. Temos de arranjar maneira de contornar essa dificuldade. Que tal vai o seu braço?

— Já nem me lembrava dele.

— Ótimo. Não o deixe arrefecer; pode ser muito desagradável, se não tiver cuidado. Até logo... Os homens não deitam terra nas retretes e o desinfectante acabou-se. Tenho de arranjar desinfectante seja como for e seja o que for... — entrou na tenda a falar baixinho consigo próprio.

Jim olhou em seu redor, à procura de alguém com quem falar. Os homens que estavam à vista caminhavam rapidamente, sob a morrinha, de uma tenda, para outra. Entretanto, a lama das ruas tornara-se profunda e preta. Ali perto erguia-se uma das grandes tendas castanhas das brigadas. Jim ouviu vozes no interior e entrou. À luz fraca viu uma dúzia de homens acocorados em cima dos cobertores. A conversa terminou, quando ele entrou, e os homens olharam-no, à espera. Jim tirou da algibeira a bolsa de tabaco que Mac lhe dera. — Viva! — saudou, mas os homens continuaram calados, à espera. — Tenho um braço ferido. Algum de vocês é capaz de me enrolar um cigarro?

Um homem que estava sentado defronte dele estendeu a mão, pegou na bolsa e fez rapidamente um cigarro. Jim aceitou-o e apontou para os outros homens. — Passe o tabaco. Deus sabe que não há muito neste acampamento.

A bolsa andou de mão em mão. Um homenzinho baixo e atarracado, de bigode curto, convidou: — Sente-se aqui na minha cama, rapaz. Foi a você que deram o tiro, ontem?

— Fui um deles. — respondeu Jim, a rir — Não sou o morto, sou o que conseguiu safar-se.

Riram-se da piada e um homem de cara chupada e maçãs do rosto lustrosas interrompeu as gargalhadas para perguntar: — Porque vão enterrar o homenzinho hoje?

— E porque não? — redarguiu-lhe Jim.

— Bem, toda a gente espera três dias...

O homenzinho atarracado expeliu um jato de fumo e comentou: — Quando um tipo está morto, está morto, acabou-se.

— Mas, supondo que ele não está morto — insistiu o da cara chupada, sinistramente — Supondo que está apenas numa espécie de desmaio e o enterramos vivo? Acho que devíamos esperar três dias, como toda a gente.

Respondeu-lhe uma voz suave e sarcástica e Jim olhou e viu um homem alto, de testa branca e sem rugas. — Podem estar descansados que ele não está a dormir. Não tenham duvidas nenhumas a esse respeito. Se soubessem o que os cangalheiros fazem aos cadáveres, teriam a certeza de que o tipo não está em nenhuma espécie de desmaio..

— Podia muito bem estar. — teimou o da cara chupada. — Não vejo razão nenhuma para corrermos esse risco.

— Bem, se ele consegue dormir com as veias cheias de fluido embalsamante, tem o sono muitíssimo pesado! — troçou o da fronte branca.

— É isso que eles fazem?

— É. Conheço um homem que trabalhou para um cangalheiro e que me contou coisas em que não acreditariam.

— Perfiro não as ouvir. — declarou o da cara chupada. — Não se lucra nada em falar dessas coisas.

— Quem era o homenzinho? — perguntou, o indivíduo baixo e atarracado — Vi-o tentar passar os furas para o nosso lado, vi-o começar a avançar e depois, bang!, foi parar ao chão.

Jim manteve o cigarro apagado nos lábios, durante alguns momentos. — Eu conhecia-o. — respondeu — Era um homenzinho fixe, uma espécie de guia laboral.

— Parece haver uma praga contra os guias laborais. — comentou o da fronte branca — Não duram muito. Aquela cascavel do Sam por exemplo... Diz que é estivador e eu aposto que estará morto dentro de seis meses.

— E o London? — perguntou um rapaz moreno — Acham que o apanharão como apanharam o Dakín?

— Não, carago. — afirmou. o da cara chupada — O London sabe cuidar de si, tem uma cabeça em cima dos ombros

— Se o London tem uma cabeça em cima dos ombros, por que diabo estamos aqui sentados? — perguntou o da fronte branca — Esta greve está lixada, há alguém que está a ganhar dinheiro com ela. Quando a coisa se tornar dura, alguém nos atraiçoará e nos deixará para sermos nós a levar porrada nos queixos.

Um homem forte e musculoso ajoelhou-se e ficou assim, como um animal. Os lábios arreganhados deixavam ver os dentes e os olhos coruscavam, injetados de sangue.

— Basta de conversa dessa, espertalhão. — ordenou — Conheço o London há muito tempo. Se o que pretendes dizer é que o London se está a preparar para nos trair, nós dois vamos resolver ese assunto lá fora, imediatamente. Não percebo nada desta greve e estou a fazê-la porque o London diz que é justa. Mas tu deixa-te de piadas desse gênero.

O da fronte branca olhou-o friamente e redarguiu: — És muito duro, hem.

— Suficientemente duro para te deixar a pão e laranja, em qualquer altura.

— Deixem-se disso. — interveio Jim — Para que havemos de brigar uns com os outros? Se lhes apetece lutar, estou convencido de que vai haver luta que chegue para fartar todos.

O homem forte resmungou qualquer coisa e voltou a sentar-se nos cobertores.

— Quando eu estiver presente, não consentirei que ninguém diga mal do London nas suas costas.

O homenzinho atarracado volttou-se para Jim e perguntou-lhe: — Como te acertaram, rapaz?

— Quando vinha a fugir. Desasaram-me quando fugia.

— Ouvi dizer que vocês deram uma tareia mestra a alguns furas.

— É verdade.

O da fronte branca observou: — Dizem que estão a chegar furas em caminhões e que cada fura traz granadas de gás lacrimogêneo na algibeira.

— Isso é mentira. — apressou-se Jim a afirmar — Eles espalham sempre mentiras dessas para assustar os grevistas.

O da fronte branca prosseguiu: — Constou-me que os patrões mandaram dizer ao London que não negociarão enquanto houver vermelhos no acanpamento.

O homem forte e musculoso voltou a ouvir-se: — Mas quem são afinal os vermelhos? Tu falas mais como um vermelho do que todos quantos tenho ouvido.

Mas o da fronte branca não se perturbou: — Bem, creio que o médico é vermelho. Que pode um médico querer daqui? Não ganha nada... Ou melhor, quem lhe paga? Sim, porque ele recebe o seu, a esse respeito não se preocupem. — sorriu, com ar sabido. — Talvez esteja a recebê-lo de Moscovo.

Jim cuspiu para o chão, muito pálido, e disse, calmamente: — Você é o mais miserável filho da puta que jámais conheci! Considera toda a gente o tipo de ratazana que você próprio é!

O homem forte voltou a ajoelhar-se e declarou: — O rapaz tem razão. Ele não te pode desancar, meu pulha, mas eu posso. E, por Deus, desanco-te mesmo a valer se não fechas essa pia que te serve de boca!

O da fronte branca levantou-se, devagar, e dirigiu-se para a entrada da tenda. Chegado aí voltou-se e acrescentou: — Está bem, rapazes, mas estejam atentos. Muito em breve o London dir-lhes-á que terminem a greve e depois terá um carro novo ou um emprego certo. Estejam atentos e verão.

O calmeirão começou a levantar-se, mas o da fronte branca apressou-se a sair da tenda.

— Quem é aquele tipo? — perguntou Jim — Dorme aqui?

— Não. Apareceu aí há bocado, apenas.

— Algum de vocês já o tinha visto?

— Eu, não.

— Nunca.

— Jesus, então foram eles que o mandaram! — exclamou Jim.

— Eles quem? — indagou o homem gordo.

— Os proprietários. Mandaram-no cá para falar daquele modo e conseguir que vocês suspeitassem do London. Não compreendem? Querem dividir os homens do acampamento. Acho melhor fazerem o necessário para ele ser expulso daqui.

O homem forte levantou-se e declarou: — Eu próprio me encarregarei disso. Nada me agradaria mais! — e saiu da tenda.

— Têm de ter cuidado e estar vigilantes. — recomendou Jim — Tipos como aquele pretendem convencê-los de que a greve está praticamente acabada. Não dêem ouvidos a mentíras.

— O que não é mentira é que a comida acabou. — observou o gordo, a olhar para fora da tenda — Também não é mentira que ração de vaca cozida não é grande coisa, como pequeno-almoço. Não são necessários espiões para espalhar essas coisas.

— Temos de aguentar. — afirmou Jim — Temos pura e simplesmente de aguentar. Se perdermos isto, estaremos tramados. .. e não só nós: todos os outros trabalhadores itinerantes do país sofrerão um bocado, por tabela.

O gordo abanou com a cabeça a concordar. — Conjuga-se tudo. Não há nada separado. Há tipos que querem conseguir alguma coisa boa, para eles próprios, mas só o conseguirão quando todos o conseguirem.

Um homem de meia-idade, que permanecera deitado no fundo da tenda, sentou-se e perguntou: — Sabem qual é o mal dos trabalhadores? Eu digo-lhes qual é: falam demais. Se arriassem mais e falassem menos, conseguiriam alguma coisa.

Calou-se e os ocupantes da tenda ficaram também calados, à escuta. Do exterior chegava o ruído de uma certa azáfama, o som de passos e o murmúrio de vozes, um som de gente, um som penetrante como um odor, mas suave. Os homens da tenda continuaram imóveis, à escuta. O ruído tornou-se um pouco mais forte. Ouvia-se o arrastar de passos na lama. Um grupo de pessoas passou pela tenda.

Jim levantou-se e foi à entrada ao mesmo tempo que uma cabeça espreitava para o interior. — Vão trazer o caixão cá para fora. Venham, rapazes.

Jim saiu por entre as abas da tenda. A humidade continuava a cair, soprada lateralmente pelo vento fraco e pairando no ar como minúsculos e leves flocos de neve. Aqui e ali o vento fazia bater a lona solta e saturada de chuva de uma tenda Jim olhou pela rua abaixo. A notícia propagara-se, pois estavam a sair homens e mulheres das tendas. Avançavam lentamente, juntos, e convergiam para a plataforma. À medida que o grupo se tornava mais e mais compacto, o som das suas muitas vozes fundiu-se numa só voz e o som dos seus passos transformou-se numa grande agitação. Jim olhou para as caras. Havia uma cegueira nos olhos e as cabeças estavam inclinadas para trás, como se farejassem qualquer coisa. Pararam junto da plataforma, apertados uns contra os outros.

Da tenda de London saíram seis homens com o caixão. Como este não tinha pegas, os homens davam-se as mãos sob ele, a dois e dois, e suportavam o peso com os antebraços. Cambaleavam, tentando acertar o passo, e quando conseguiram estabelecer um ritmo certo avançaram lentamente, chape-que-chape na lama, na direção da plataforma. Iam de cabeça descoberta e os pingos de humidade sobressaíam-lhes no cabelo como poeira cinzenta. O ventinho ora levantava, ora baixava, uma ponta da bandeira suja. A multidão abriu caminho à frente do féretro e os homens avançaram, de rosto petrificado numa expressão de solenidade cerimonial, pescoço hirto e queixo pendente. As pessoas que ladeavam o caminho aberto para eles passarem olharam para o caixão. Assistiram à sua passagem em silêncio e depois cochicharam nervosamente umas com as outras. Alguns homens benzeram-se, subrepticíamente. Os portadores chegaram à plataforma. O par da frente colocou a ponta do caixão nas tábuas e os outros empurraram, até ele ficar assente e em segurança.

Jim dirigiu-se a correr à tenda de London, que encontrou com Mac.

— Gostaria que fosse você a falar, Mac. Eu não sou capaz.

— Não, London, você sair-se-á muito bem. Lembre-se do que lhe disse, tente levá-los a reagir às suas palavras, a responder-lhe. Quando começar a obter respostas ao que perguntar. tem-nos na mão. É um velho procedimento de comício, mas dá resultado numa multidão como esta.

— Fale você, Mac. — insistiu London, assustado — Palavra, eu não sou capaz. Nem sequer conhecia o homem.

— Bem, suba à plataforma e experimente. — redarguiu Mac, irritado — Se se espalhar, eu estarei lá e substituí-lo-ei.

London abotoou o colarinho da camisa azul e vírou-o para cima. Em seguida abotuou o velho casaco de sarja preta e deu-lhe uma palmadinha, em cima do estômago. Levou a mão ao cabelo tonsurado e alisou-o, aos lados e atrás, e por fim pareceu impregnar-se de uma solenidade pesada e tensa. Sam entrou e colocou-se ao lado dele. London saiu da tenda, inchado de autoridade. Mac, Jim e Sam saíram também, mas London avançou sozinho pela rua enlameada abaixo, seguido pelo pequeno cortejo. Viraram-se cabeças, quando se aproximou, e as conversas travadas em voz baixa emudeceram. Abriu-se uma nova ala para o chefe passar e as cabeças viraram-se com ele, à sua passagem.

London subiu para a plataforma. Estava sozinho, acima das cabeças dos homens e das mulheres. Os rostos erguiam-se para ele, de olhos inexpressivos como se fossem de vidro. London olhou uns momentos para o caixão de pinho e depois endireitou os ombros. Parecia relutante em quebrar o silêncio pesado. Foi em voz distante e digna que disse:

— Vim aqui para fazer uma espécie de discurso, e eu não sei discursar. — fez uma pausa e olhou por cima dos rostos voltados para ele — Este homenzinho foi morto ontem. Vocês todos viram. Ele vinha para o nosso lado e alguém o abateu. Não estava a fazer mal a ninguém. — parou de novo, desta vez com uma expressão intrigada — Bem, que pode um homem dizer? Vamos enterrá-lo. É um dos nossos e foi morto a tiro. Que posso eu dizer? Vamos sair daqui, numa marcha, e enterrá-lo. Todos nós. Porque ele era um dos nossos. Era assim como que igual a todos nós. O que lhe aconteceu pode acontecer a qualquer tipo dos que estão aqui. — calou-se, mas a sua boca continuou aberta — Eu... eu não sei fazer discursos. — confessou, constrangido — Está aqui um tipo que conheceu o homenzinho e eu vou deixá-lo falar. — virou lentamente a cabeça para Mac. — Venha, Mac, fale-lhes do homenzinho.

Mac libertou-se da rigidez que o tolhia e quase se atírou para a plataforma. Os seus ombros pareciam ondular como os de um pugilista.

— Claro que lhes falarei! — gritou, apaixonadamente — O nome dele era Joy. Era um radical! Ouviram? Um radical. Queria que os tipos como vocês tivessem o suficiente para comer e um sítio onde dormirem sem se molharem. Não queria nada para ele. Era um radical! Compreenderam o que ele era? Um bandalho, um perigo para o Governo! Não sei se lhe viram a cara, toda desfigurada da porrada que levou. Os chuis fizeram-lhe isso porque ele era um radical. Partiram-lhe as mãos e o queixo. De uma das vezes que lhe partiram o queixo foi quando fazia parte de um piquete. Levaram-no para a cadeia e um médico viu-o. «Não trato um maldito vermelho», declarou o senhor doutor. Por isso o Joy ficou com o queixo defeituoso. Era perigoso. Queria que tipos como vocês tivessem o suficiente para comer. — a sua voz tornava-se cada vez mais suave e os seus olhos estavam atentos. Viam os rostos tornarem-se tensos, a tentarem apreender as palavras suaves que proferia, e as pessoas inclinarem-se para a frente — Eu conhecia-o. — de súbito, gritou: — Que vão vocês fazer? Metê-lo num buraco lamacento e cobri-lo de lama. Esquecê-lo.

Uma mulher da multidão começou a soluçar histericamemte. — Ele estava a lutar por vocês! — gritou Mac — Vão esquecer isso?

— Não, por Deus! — gritou um dos homens.

Mac continuou a malhar no ferro: — Vão resignar-se a que o tenham matado, vão ficar encolhidos e aguentar?

Desta vez foi um coro que lhe respondeu: — Nã-ão!

A voz de Mac baixou de novo, tornou-se monocórdica: — Vão enterrá-lo na lama?

— Nã-ão! — os corpos balançavam um nadinha, embalados.

— Ele lutou por vocês. Vão esquecê-lo?

— Nã-ão!

— Vamos marchar através da cidade. Permitirão que os malditos chuis nos detenham? Desta vez foi um rugido: — Nã-ão!

A multidão oscilava, ritmadamente, preparada para a próxima resposta.

Mac quebrou o ritmo e a ruptura foi, para eles, como que um safanão:

— Este homenzinho é o espírito de todos nós. — disse Mac, serenamente — Não rezaremos por ele, pois ele não precisa de rezas. E nós também não precisamos de rezas. Precisamos de cacetes!

Desesperadamente a multidão tentou restaurar o ritmo: — Cacetes! — gritaram — Cacetes! — e depois esperaram, em silêncio.

— Muito bem, vamos enterrar o maldito radical na lama, mas isso não o impedirá de continuar conosco. — disse Mac, secamente — Deus livre quem quer que tente deter-nos!

De súbito, desceu da plataforma, deixando a multidão faminta e irritada. Olhos mergulharam, perplexos, noutros olhos.

London desceu também da plataforma e disse aos homens que tinham transportado o caixão: — Coloquem-no na camioneta do Albert Johnson. Partiremos dentro de poucos minutos. — e seguiu Mac, que abria caminho através da multidão.

O Dr. Burton começou a andar ao lado de Mac, quando ele conseguiu sair do meio do aglomerado de gente.

— Não há dúvida, você sabe pô-los em ponto de rebuçado. — comentou o médico, calmamente — Jamais pregador algum obteve resultados mais rápidos. Porque não prolongou um pouco mais a coisa. Mais um minuto e tê-los-ia a berrar e a gingar-se.

— Deixe de me atezanar, doutor. — pediu Mac, irritado. — Tenho um trabalho a fazer e sou obrigado a servir-me de todos os meios para o fazer.

— Mas onde aprendeu, Mac?

— Onde aprendi o quê?

— Todos esses truques.

— Não tente ver demasiado, doutor. — respondeu Mac, fatigado — Eu queria-os danados, e eles estão danados. Que lhe importa como o consegui.

— Eu sei como o conseguiu. Só lhe perguntei onde aprendeu. A propósito, o velho Dan está resignado a não ir. Tomou essa decisão quando o levantamos.

London e Jim alcançaram-nos.

— É melhor deixar aqui um bom número de homens de guarda, London.

— Está bem. Direi ao Sam que fique com cerca de cem homens. Fez um bom discurso, Mac.

— Não tive tempo para o preparar com antecedência. É melhor irmos andando antes que estes tipos arrefeçam. Uma vez em movimento, não haverá novidade, mas não nos convém que fiquem para aí a arrefecer.

Viraram-se todos para trás. Os portadores abriam caminho através da multidão, equilibrando o caixão nos antebraços. O magote de gente ficou para trás e começou a dispersar. A morrinha contimuava a cair. A ocidente um rasgão na nuvem deixou ver um pedaço de céu azul-claro. Um vento alto, silencioso, esfrangalhou as nuvens, enquanto os três olhavam para cima.

— Ainda se pode pôr um dia bonito. — observou Mac — Quase me esquecia do teu ombro, Jim. Como te sentes?

— Bem.

— Não creio que seja conveniente percorreres a pé toda aquela distância. Vais na camioneta.

— Não. Vou a pé. Os rapazes não gostariam, se eu fosse na camioneta.

— Também pensei nisso. Mas os portadores do caixão irão igualmente na camioneta e assim não haverá novidade. Tudo pronto, London?

— Tudo pronto.

 

O CAIXÃO repousava no fundo plano de uma velha camioneta Dodge. Os portadores tinham-se sentado de ambos os lados, de pernas pendentes, e Jim ia na retaguarda. O motor roncou e tossiu e Albert Johnson tirou o veículo do parque e parou na estrada enquanto o cortejo se formava em filas de oito homens, mais ou menos. Depois arrancou e avançou lentamente ao longo da estrada, seguido pela enorme multidão de homens. Os cem guardas que ficaram no acampamento assistiram à partida do cortejo.

Ao princípio, os homens tentaram andar a compasso, dizendo de vez em quando «hep, hep!», mas cansaram-se depressa. Arrastavam os pés pela estrada ensaibrada. Ouvia-se um pequeno murmúrio de vozes, embora cada um deles se sentisse constrangido a falar baixnho, por respeito para com o morto. Na auto-estrada de cimento aguardavam-nos os polícias de trânsito: doze, em motocicletas. O capitão gritou: — Não estamos aqui para interferir com vocês. É costume conduzirmos sempre os cortejos.

O bater dos pés tornou-se mais nítido no cimento. As fileiras desorgamizaram-se um pouco. Só quando chegaram aos arredores da cidade é que os homens voltaram a organizar-se com mais aprumo. Nos quintais e nos passeios paravam pessoas a ver pasar o cortejo. Muitas tiravam o chapéu, à passagem do caixão. Mas o desejo de Mac não se cumpriu. Em cada esquina do trajeto havia polícias a dirigir o trânsito, a desviá-lo e a abrir caminho para o funeral. Quando entraram no bairro comercial de Torgas o sol venceu a resistência das nuvens e brilhou nas ruas molhadas. As roupas húmidas dos homens começaram a fumegar, devido ao calor inesperado. Os passeios estavam pejados de gente curiosa, que queria ver passar o caixão, e os homens aprumaram-se de novo, cerraram fileiras e começaram a andar a compasso, com ar importante. Ninguém interferiu e a estrada manteve-se livre de veículos.

Atrás da camioneta, atravessaram a cidade e voltaram ao campo, a caminho do cemitério do condado, um cemitério pequeno e invadido por ervas daninhas, a cerca de quilómetro e meio da cidade. Nas sepulturas novas havia pequenas chapas galvanizadas, com nomes e datas gravadas. Ao fundo, erguia-se uma palha de terra fresca e húmida. A camioneta parou ao portão e os portadores desceram e transportaram de novo o caixão nos braços. Na estrada os polícias de trânsito encostaram as motocicletas e esperaram.

Albert Johnson tirou dois baraços de corda de baixo do banco e seguiu o caixão. Os homens desmancharam as fileiras e seguiram-no. Jim desceu também do veículo e fez menção de se juntar aos outros, mas Mac deteve-o.

— Deixa o resto com eles. O principal era a marcha. Esperamos aqui.

Um homem novo, de cabelo ruivo, transpôs o portão do cemitério e aproximou-se.

— Conhecem um tipo a que chamam Mac? — perguntou.

— Chamam-me Mac.

— Conhece um tipo a que chamam Dick?

— Conheço.

— Conhece? Qual é o apelido dele?

— Halsing. Que lhe aconteceu?

— Nada. Ele manda-lhe este bilhete.

Mac abriu o papel dobrado e leu. — Com mil raios — exclamou. — Olha, Jim!

Jim pegou no bilhete e leu por sua vez: «A dama venceu. Tem um rancho, R. F. D. Caixa 221, Gallinas Road. Manda lá uma camioneta imediatamente. Têm duas vacas velhas, um bezerro e dez sacas de feijão-de-lima. Manda alguns tipos para matar as vacas. Dick.

  1. S. A noite pasada quase fui apanhado. P. P. S. São só doze cabos de machado.»

Mac ria à gargalhada. — Oh, Jesus! Duas vacas, e um bezerro, e feijão! Isso dá-nos tempo. Jim, vai depressa procurar o London e diz-lhe que venha cá iimediatamente.

Jim meteu por entre a multidão e pouco depois voltou, com London a correr ao lado dele.

— Ele disse-lhe, London? — gritou Mac — Disse-lhe?

— Disse que você arranjou comida.

— É verdade, com mil raios! Duas vacas e um bezerro. E dez sacas de feijão! Os rapazes podem ir lá imediatamente, nesta camioneta.

Do lado do cemitério vinha o ruído da terra molhada a cair no caixão de pinho.

— Os rapazes vão sentir-se porreiros quando encherem as barrigas de carne e feijão! — exclamou Mac.

— Eu próprio não faria cara a um naco de carne. — confessou London.

— Olhe, eu vou na camioneta. Arranje-me uns dez homens para a guardarem. Podes vir comigo, Jim. — hesitou um momento e depois perguntou: — Onde arranjaremos lenha? Já gastamos quase toda. London, diga aos homens que arranjem um bocado ou dois de madeira cada um: estacas de vedações, pranchas de vala, tudo serve. Diga-lhes para que é. Quando chegarem ao acampamento, abram um buraco e acendam lá dentro uma fogueira. Arranjarão sucata suficiente para improvisar uma grelha naquelas malditas carripanas. Tenham o lume bem esperto! — voltou-se para o jovem ruivo e perguntou-lhe:

— Onde fica essa Gallinas Road?

— A cerca de quilómetro e meio daqui. Poderão deixar-me no caminho.

— Vou buscar o Albert Johnson e alguns homens. — disse London, e desapareceu entre a multidão.

Mac continuava a rir baixinho. — Que grande sorte! É mais um adiamento! O Dick é um tipo formidável, um gajo porreiro!

Jim, que não perdia a turba de vista, via-a como que ganhar nova vida, agitar-se. Houve uma espécie de redemoinho, enquanto os homens se viravam e começavam a dirigir-se para a camioneta. London, à frente, apontava alguns homens com o dedo. A multidão cercou a camioneta, a rir e a gritar. Albert Johnson guardou as cordas enlameadas debaixo do banco e instalou-se ao volante. Mac sentou-se ao lado dele e ajudou Jim a subir.

— Mantenha os rapazes juntos, London! — gritou — Não os deixe dispersar.

Os dez homens escolhidos saltaram para a caixa da camioneta.

Depois a multidão brincou. Os homens penduraram-se nas traseiras do veículo até os pneus se enterrarem na terra mole e fizeram bolas de lama e atiraram-nas aos que se tinham instalado na camioneta. Na estrada, os polícias continuavam parados, a esperar calmamente.

Albert Johnson engatou e livrou-se da turba. O motor ofegou, cansado quando chegaram à estrada. Dois dos polícias saltaram para as motocicletas e seguiram ao lado da camioneta. Mac virou-se para trás e olhou, através da janelinha da cabina, para a multidão. Os homens saíam do cemitério como uma onda. Desembocaram na estrada, apressados, enchendo-a de lado a lado, enquanto os polícias tentavam em vão manter aberta uma passagem para automóveis. Jubilosos, os trabalhadores troçavam deles, empurravam-nos e cercavam-nos, a rir como garotos. A camioneta, com a sua escolta, dobrou uma esquina e afastou-se rapidamente.

Albert consultou, cauteloso, o conta-quilômetros. — Creio que aqueles meninos gostariam de me apanhar por excesso de velocidade...

— Tem toda a razão. — concordou Mac, que em seguida disse a Jim: — Baixa a cabeça se passarmos por alguém. — E de novo para Albert: — Se alguém tentar deter-nos, passe-lhe por cima. Lembre-se do que aconteceu à camioneta do Dakin.

Albert acenou afirmativamente e baixou a velocidade para 65 quilômetros.

— Ninguém me deterá. Toda a minha vida guiei camionetas... sempre que pude, claro.

Em vez de atravessarem a cidade contornaram uma das suas extremidades, atravessaram uma ponte de madeira sobre o rio e entraram na Gallinas Road. Albert afrouxou, para deixar o rapaz ruivo saltar. O jovem acenou-lhes alegremente com a mão, quando se afastaram. A estrada seguia entre filas intermináveis de macieiras. Percorreram cinco quilômetros até ao sopé dos montes, antes de os pomares começarem a rarear e a serem substituídos por campos de restolho. Jim ia observando as caixas de correio metálicas, ao longo da estrada.

— Duzentos e dezoito. — anunciou — Já não deve ser muito longe.

Um dos polícias voltou para trás, na direção da cidade, mas o outro continuou a acompanhá-los.

— É ali! — disse Jim — Aquele grande portão branco. Albert virou e parou, enquanto um dos homens se apeava e abria o portão. O polícia parou também e desmontou.

— Propriedade privada! — gritou-lhe Mac.

— Eu ficarei por aqui, amigo. — respondeu-lhe o polícia — Ficarei apenas por aqui.

Uns cem metros adiante erguia-se uma casinha branca sob uma enorme aroeira de ramos estendidos e, atrás dela, um grande barracão, também branco. Um camponês atarracado de bigode cor de palha, saiu vagarosamente de casa e ficou parado, a esperá-los. Alfred travou e Mac disse: — Viva, amigo. A senhora disse-nos que viéssemos buscar umas coisas.

— Sim, bem sei. Duas velhas vacas leiteiras e um bezerro.

— Podemos abatê-los aqui?

— Podem, mas tratem vocês disso. E depois limpem tudo, não façam chiqueiro.

— Onde estão os animais?

— No barracão. Mas não os matem lá. Faria chiqueiro no barracão.

— Sem dúvida. Para junto do barracão, Albert.

Quando a camioneta parou, Mac apeou-se, contornou o veículo e perguntou: — Algum de vocês já matou uma vaca?

— O meu velho trabalhava num matadouro. — informou Jim — Posso indicar-lhes como é. Tenho o braço demasiado dorido para tratar eu do assunto.

— Está bem.

O camponês aproximara-se e Jim perguntou-lhe:

— Tem uma marreta?

O homem apontou um polegar na direção de um pequeno telheiro contíguo ao barracão.

— E uma faca?

— Tenho uma boa faca, mas devolvam-ma. — e afastou-se, de novo na direção da casa.

Jim virou-se para os homens e disse-lhes: — Dois de vocês vão ao barracão e tragam primeiro o bezerro, que deve ser o mais arisco.

O camponês voltou, apressado, trazendo numa das mãos um martelo de cabo curto e cabeça pesada e na outra uma faca. Jim pegou na, faca e observou-a. A lâmina estava tão afiada que se tornara esguia e brilhante e o bico parecia o de uma agulha. Experimentou o gume, com o polegar.

— Afiada. — disse o homem — Está sempre afiada. — tirou a faca das mãos de Jim, limpou-a às mangas e fêla cintilar — Aço alemão. — elogiou, com o seu sotaque germânico — Bom aço.

Quatro homens saíram a correr do barracão, ladeando um bezerro vermelho, de um ano. Agarravam uma corda que lhe tinham passado ao pescoço e conduziam-no empurrando-o com os ombros. Enterraram os calcanhares no chão para o imobilizar, irrequieto, entre eles.

— Aqui. — disse o camponês — Aqui o sangue pode ser absorvido pelo solo.

— Devíamos aproveitar o sangue. — disse Mac — É um bom alimento, forte. Se tivéssemos qualquer coisa para o levar...

— O meu velho costumava bebê-lo. — observou Jim — Eu não sou capaz. Agonia-me. —Mac, pega no martelo — Agora bate-lhe aqui mesmo, na cabeça, com uma pancada certeira e forte. — entregou a faca a Albert Johnson e disse-lhe: — Vê onde está a minha mão? É aqui que deve cravar a faca, assim que Mac lhe der com o martelo. Há aí uma grande artéria. Abra-a.

— Como saberei se acertei?

— Esteja descansado que saberá: esguichará sangue como um cano de meia polegada. Vocês afastem-se do caminho.

Dois homens, aos lados, seguraram o bezerro, que não parava. Mac fê-lo ajoelhar, com a pancada, e Albert cravou a faca, cortou a artéria e saltou para trás, para fugir do jorro de sangue. O bezerro estremeceu e depois deixou-se cair devagar. Apoiou o focinho no solo plano e encolheu as pernas. A poça de sangue grosso, escuro, alastrou no chão molhado.

— É uma pena não o podermos aproveitar. — lamentou Mac — Se ao menos tivéssemos um barrilito...

— Tragam uma vaca. — gritou Jim — Tragam-na para aqui.

Os homens tinham sentido curiosidade, aquando do primeiro abate, mas quando as duas vacas foram mortas não se chegaram tanto para a frente para verem. Depois de abatidos os animais e enquanto o sangue lhes borbotava lentamente da garganta, Albert limpou a faca peganhenta a um bocado de serapilheira e devolveu-a ao camponês. A seguir aproximou a camioneta em marcha atrás, e os homens içaram os corpos pesados e flácidos para a caixa, deixando as cabeças pendentes para poderem sangrar para o chão. Por fim empilharam as sacas de feijão-de-lima na parte da frente da caixa e sentaram-se-lhes em cima.

— Obrigado, amigo. — disse Mac ao camponês.

— A propriedade não é minha. Nem as vacas. Sou rendeiro de uma parte.

— Bem, nesse caso, obrigado pelo empréstimo da faca.

Mac ajudou um pouco Jim a subir para a camioneta e a chegar-se para Albert Johnson que tinha a manga da camisa suja de sangue até ao ombro. Albert ligou o motor preguiçoso e meteu cuidadosamente pelo caminho irregular. O policia de trânsito esperava-os ao portão, e quando chegaram à estrada municipal seguiu-os de certa distância.

Os homens sentados nas sacas começaram a cantar: — Sopa, sopa, dêem-nos um pouco de sopa... Não queremos mais nada além de um pouco de sopa.

O polícia sorriu-lhes e um dos homens cantou, para ele: — Ai querídínhas, ai queridinhas, Até o chefe da Polícia é mariquinhas.

Na cabina, Mac inclinou-se para a frente, para falar com o motorista: — Albert, convinha-nos evitar a cidade. Temos de levar este material para o acampamento. Veja se consegue, sei lá, contorná-la, mesmo que seja mais longe.

Albert acenou com a cabeça, melancolicamente. Entretanto o sol começara a brilhar, mas estava muito alto e não aquecia.

— Os rapazes vão-se sentir ótimos com isto. — comentou Jim.

Albert acenou de novo. — Deixem-nos encher o bandulho de carne e ferrar-se-ão a dormir. — comentou.

— Estou surpreendido consigo, Albert! — confessou Mac, a rir — Não tem ideias bonitas acerca da nobreza do trabalhador?

— Não tenho nada. Nem ideias bonitas, nem dinheiro, nem nada.

— Não tem nada a perder além das cadeias que o prendem. — murmurou Jim, baixinho.

— Tretas! Não tenho nada a perder além do cabelo.

— Tem esta camioneta. — lembrou Mac — Como conseguiamos levar provisões sem uma camioneta?

— A camioneta é que me tem a mim. — protestou Albert. — A malvada suga-me até ao osso. — olhou tristemente em frente, quase sem mexer os lábios enquanto falava — Quando tenho trabalho, arranjo três dólares à maior e decido engatar uma gaja, há sempre qualquer coisa que se vai ao ar nesta campana e custa três dólares. Nunca falha. A maldita camioneta é pior do que uma mulher.

— Em qualquer bom sistema você teria uma boa camioneta. — sentenciou Jim, todo inflamado.

— Sim? Em qualquer bom sistema eu teria uma gaja. Não sou o Dakin. Se a camioneta dele soubesse cozinhar, o tipo não precisaria de mais nada.

— Estás a falar com um homem que sabe o que quer. — disse Mac a Jim — E o que ele quer é um automóvel.

— É isso mesmo. — confirmou Albert — Creio que fiquei assim depois de matar as vacas. Antes sentia-me bem.

Estavam novamente nos intermináveis pomares. A chuva escurecia as folhas e a terra. Nas valas ao lado da estrada corria um pouco de água lamacenta e agitada. O polícia de trânsito seguia-os enquanto Albert mudava de uma estrada para outra, fazendo um circuito anguloso da cidade. Através das árvores viam as casas onde moravam os proprietários ou os meeiros residentes.

— Se não fosse por deteriorar tanto o moral dos nossos homens, desejaria que a chuva continuasse. Não faria nada bem às maçãs. — observou Mac.

— Também não está a fazer bem nenhum aos meus cobertores. — resmungou Albert.

Na caixa, os homens cantavam em coro: — Oh, cantamos, cantamos, cantamos Acerca de Lídia Jnkham E da sua dádiva à espécie humana...

Albert contornou uma curva e desembocou na estrada para a propriedade de Anderson.

— Bom trabalho, Albert. — elogiou Mac — Não se aproximou da cidade. Seria uma chatice se nos obrigassem a parar e perdêssemos a carga.

— Olha para o fumo Mac. — disse Jim — Eles não se esqueceram de acender a fogueira.

O fumo azul enovelava-se entre as árvores como se tivesse dificuldade de subir acima das suas copas.

— É melhor seguir ao longo do acampamento, junto das árvores. — aconselhou Mac — Será necessário esquartejar os animais e não há onde pendurá-los, a não ser nas macieiras. Havia homens na estrada, a esperá-los. Quando a camioneta passou por eles, os que vinham sentados nas sacas de feijão levantaram-se, tiraram o chapéu e inclinaram-se. Albert afrouxou e passou devagarinho por entre os homens até ao fim do acampamento, onde se erguiam as macieiras. London com Sam atrás, abriu caminho através do grupo de homens e mulheres que gritavam histericamente.

— Pendurem os animais! — gritou Mac — Escute, London, diga aos cozinheiros que cortem a carne fina, para cozinhar mais depresa. Esta gente está esfomeada.

Os olhos de London estavam tão brilhantes como os dos homens que o cercavam.

— Jesus, que vontade de comer! — exclamou — Já quase tínhamos perdido a esperança de os ver chegar.

Os cozinheiros abriram por sua vez caminho através da multidão. Os animais foram suspensos dos ramos mais baixos das árvores, estripados e esfolados.

Mac gritou: — London, não os deixe desperdiçar nada! Aproveitem os ossos, as cabeças e as patas para sopa.

Levaram para a fogueira uma vasilha de bocados de carne e a turba foi atrás deixando aos magarefes mais espaço de manobra. Mac observava a cena do estribo da camioneta, mas Jim continuava sentado na cabina, com uma perna de cada lado da alavanca de mudanças. Mac virou-se, preocupado, para ele.

— Que se passa, Jim? Não te sentes bem?

— Sinto-me bem, mas tenho o ombro de tal maneira rígido que quase não me atrevo a mexê-lo.

— Deves ter apanhado frio. Vamos ver se o doutor pode remediar isso um bocado.

Ajudou Jim a descer da camioneta e segurou-lhe no cotovelo, para o amparar, enquanto caminhavam na direção da cova onde ardia a fogueira. Pairava por todo o acampamento o cheiro da carne a cozinhar e a gordura que pingava para as brasas fazia jorrar pequenas e ardentes labaredas, que a devoravam. Os homens comprimiam-se tão densamente à volta da fogueira que os cozinheiros, que viravam a carne com compridos paus aguçados, tinham dificuldade em movimentar-se. Mac levou Jim para a tenda de London.

— Vou pedir ao doutor que venha cá. Deixa-te ficar aqui sentado. Depois trago-te carne, quando estiver cozinhada.

O interior da tenda estava penumbrento. A pouca luz que se filtrava através da lona era cinzenta. Quando os olhos de Jim se habituaram à luz ambiente, viu Lisa sentada no colchão, com o bebê ao colo, debaixo do pequeno cobertor. Fitou-o, com os olhos escuros e interrogadores, e Jim saudou-a: — Olá! Como vai isso?

— Vai bem.

— Posso-me sentar no seu colchão? Sinto-me um pouco fraco.

A rapariga meteu as pernas debaixo do corpo e desviou-se. Jim sentou-se ao lado dela.

— Que cheiro bom é este?

— Carne. — respondeu Jim — Vamos ter muita carne.

— Gosto de carne. Creio que até era capaz de viver só de carne.

O filho magro e moreno de London entrou na tenda e parou a olhar fixamente para os dois.

— Ele está ferido — apressou-se Lisa a explicar — Não está a fazer mal nenhum. Está ferido no ombro.

— Ah! — murmurou o rapaz, suavemente — Não pensei que estivesse a fazer mal. — e para Jim: — A Lisa pensa sempre que a estou a olhar com esse sentido, mas não estou. — e acrescentou, sentencioso: — Penso que quando não somos capazes de confiar numa rapariga não vale a pena vigiá-la. Uma vadia é uma vadia, e a Lisa não o é. Não tenho direito nenhum de a tratar como vadia. — fez uma pausa — Têm carne, lá fora, muita carne. E feijão-de-lima, também. Mas o feijão não é para agora.

— Também gosto de feijão. — disse a rapariga.

— Os homens nem querem esperar que a carne esteja cozinhada. — continuou o rapaz. — Querem comê-la rosada por dentro. Ainda adoecem, se não têm cuidado.

As abas da tenda abriram-se de novo, desta vez para deixarem passar o Dr. Burton, que trazia na mão uma vasilha de água fumegante.

— Parece a sagrada família. — comentou — O Mac disse-me que o seu braço estava a ficar rígido.

— Estou muito dorido.

O médico olhou para a rapariga e perguntou-lhe: — Acha que podia deitar o bebê o tempo suficiente para aplicar uns panos quentes no ombro do Jim?

— Eu?

— Sim. Eu estou ocupado. Dispa-lhe o casaco e vá-lhe pondo água quente na parte que está rígida. Não deixe entrar água na ferida, se puder evitá-lo.

— Acha que serei capaz?

— Porque não há-de ser? Ele também a ajudou, não ajudou? Vá, dispa-lhe o casaco e a camisa. Eu estou ocupado. Pôr-lhe-ei um penso novo, quando você acabar. — e saiu.

— Quer que faça o que ele disse? — perguntou a rapariga a Jim.

— Claro que quero! Porque não? Você é capaz de o fazer.

Lisa entregou o filho a Joey e ajudou Jim a despir o casaco de cotím azul e a baixar a camisa.

— Não usa roupa interior?

— Não.

A rapariga calou-se e, em silêncio, aplicou pensos quentes no músculo do ombro, até a rigidez dolorosa abrandar. Os seus dedos comprimiam os pensos, mudavam-nos e comprimiam-os de novo, cuidadosamente, enquamto o marido observava. O médico regressou pouco depois e Mac entrou com ele, trazendo um grande bocado de carne enegrecida pelo fumo, espetada num pau.

— Sente-se melhor?

— Muito melhor. Ela fez tudo muito bem.

A rapariga recuou e baixou os olhos, constrangida. Burton ligou rapidamente o ferimento e Mac estendeu a Jim o grande bocado de carne.

— Pus-lhe sal, lá fora. O doutor acha que é melhor não voltares a sair esta noite.

Burton confirmou, com um aceno de cabeça.

— Podia apanhar frio e ter febre e então é que não poderia fazer mesmo nada.

Jim encheu a boca de carne dura e mastigou. — Os rapazes gostam da carne, Mac?

— Estão todos impacientes, acham-se capazes de dominar o mundo, agora. Vão sair e meter alguém na ordem. Eu sabia que isso aconteceria.

— Vão fazer piquete, hoje?

Mac pensou um bocado, antes de responder: — De qualquer maneira, tu não vais. Ficas aqui, no quente.

Joey entregou o filho à mulher e perguntou a Mac: — Há carne suficiente?

— Com certeza.

— Então vou buscar um bocado para a Lisa e para mim.

— Pois vá, homem. Escuta, Jim, nada de lamúrias nem de protestos. Não vai acontecer grande coisa, pois a tarde já vai adiantada. O London resolveu mandar alguns tipos, de carro, para ver quantos furas estão a trabalhar. Depois de eles verem quantos são, amanhã de manhã começaremos a fazer alguma coisa a esse respeito. Agora temos com que alimentar os rapazes durante uns dias. As nuvens estão a dissipar-se e teremos tempo frio e desanuviado.

— Ouviste dizer alguma coisa acerca de furas?

— Não, nem por isso. Alguns tipos dizem que estão a chegar furas em camionetas, com guardas, mas num acampamento destes não podemos acreditar em tudo. Não deve haver no mundo um lugar mais propício a boatos.

— Os rapazes estão muito calados, agora...

— Porque não? Têm a boca cheia. Amanhã temos de começar a pintar a manta. Creio que não poderemos fazer greve durante muito tempo e, por isso, temos de agir com dureza.

Na estrada ouviu-se o ruído de um motor, que emudeceu logo a seguir. Fora da tenda, soou um súbito alarido de vozes a que de novo se sucedeu o silêncio. Sam enfiou a cabeça na abertura da tenda e perguntou:

— O London está aí?

— Não. Que se passa?

— Chegou um filho da puta aperaltado, num automóvel reluzente, e diz que quer falar com o chefe.

— A respeito de quê?

— Não sei. Diz apenas que quer falar com o chefe dos grevistas.

— O London está junto da fogueira. Diga-lhe que venha já. O tipo deseja provavelmente discutir o assunto.

— Está bem, eu digo-lhe.

Um momento depois, London entrou na tenda seguido pelo desconhecido, um homem atarracado, de ar abastado e fato cinzento. Tinha as faces rosadas e bem escanhoadas e o cabelo quase todo branco. Dos cantos dos olhos partiam-lhe rugas de riso e todas as vezes que falava desenhava-se-lhe na boca um sorriso franco e cordial.

— É o chefe do acampamento? — perguntou a London.

— Sou. — respondeu o interpelado, desconfiadamente — Sou o chefe eleito.

Sam entrou e foi colocar-se logo atrás de London, de rosto fechado e carrancudo. Mac acocorou-se e equilibrou-se com os dedos. O recém-chegado sorriu. Tinha dentes brancos e regulares.

— Chamo-me Bolter. — anunciou, simplesmente — Tenho um grande pomar e sou o novo presidente da Associação de Produtores de Fruta deste vale.

— E depois? — inquiriu London — Tem um bom emprego para mim se eu atraiçoar os homens?

O sorriso não abandonou o rosto de Bolter, mas a suas mãos limpas e rosadas fecharam-se devagarinho, aos lados do corpo.

— Façamos um esforço para começar de maneira melhor. — pediu — Disse-lhe que sou o novo presidente. Isso significa que há uma mudança de política. Não concordo que as coisas se façam como estavam a ser feitas.

Enquanto escutava as palavras do visitante, Mac olhava para London e não para Bolter. A cólera dissipou-se parcialmente do rosto do primeiro, que perguntou:

— Que tem a dizer? Fale.

Bolter olhou em seu redor, à procura de um lugar para se sentar, e não encontrou nada.

— Nunca me pareceu que dois homens pudessem fazer fosse o que fosse rosnando um ao outro. Sempre fui de parecer de que, por muito furiosos que os homens estivessem, poderiam conseguir qualquer coisa boa desde que se sentassem juntos, com uma mesa de permeio.

— Não temos mesa. — declarou London, sarcástico.

— Sabe o que quero dizer. Na Associação toda a gente disse que vocês não dariam ouvidos à razão, mas eu afirmei-lhes que conhecia os trabalhadores americanos. Os trabalhadores americanos ouvirão, desde que se diga algo razoável.

Sam cuspiu para o chão e resmungou: — Estamos a ouvir, não estamos? Continue e diga-nos algo razoável.

Os dentes brancos de Bolter cintilaram e ele olhou à sua volta, apreciativamente.

— Vêem? Foi isso que eu lhes disse. Deixem-me pôr as nossas cartas na mesa e deixar que eles ponham as deles, e verão se conseguimos ou não uma boa mão. Os trabalhadores americanos não são animais.

— Devia candidatar-se ao Congresso. — murmurou Mac.

— Perdão?

— Estava a falar com este tipo.

O rosto de London tornara-se de novo duro.

— É para isso que estou aqui, para pôr as nossas cartas na mesa. — prosseguiu Bolter — Disse-lhes que sou dono de um pomar, mas não julguem que, por causa disso, não levo os vossos interesses a peito. Todos nós sabemos que não conseguiremos ganhar dinheiro se o trabalhador não se sentir feliz. — fez uma pausa, à espera de uma reação, mas não houve nenhuma — A meu ver, vocês estão a perder dinheiro e nós também porque nos limitamos a rosnar uns aos outros. Queremos que voltem para o trabalho. Assim vocês receberão o salário e nós ficaremos com as maçãs apanhadas. Desse modo, ambos os lados se semtirão felizes. Voltam para o trabalho? Se voltarem, não haverá perguntas nem ressentimentos. Tratar-se-á apenas de dois lados que resolveram um problema sentamdo-se a uma mesa.

— Claro que voltaremos para o trabalho. — respondeu London — Não somos trabalhadores americanos? Dêem-nos o aumento que queremos e expulsem os furas, e amanhã lá estaremos, empoleirados nas velhas árvores.

Bolter sorriu a todos, um de cada vez, deixando o sorriso repousar um instante no rosto de cada homem. — Bem, eu penso que têm de ter um aumento. E disse a toda a gente que pensava isso mesmo. A verdade é que não sou um bom homem de negócios, como o resto da Associação me explicou. Com as maçãs ao preço que estão, estamos a pagar o salário mais alto que é possível. Se pagarmos mais perdemos dinheiro.

— Creio que, afinal de contas, não somos trabalhadores americanos. — declarou Mac, sorridente — Nada do que acabei de ouvir me pareceu razoável. Até agora, pareceu-me apenas uma peúga cheia de chulé.

— O motivo por que não podem pagar o aumento é porque isso significaria que vencêramos a greve. — disse Jim — E se isso acontecesse, uma quantidade de outros pobres diabos irá também para a greve. Não é verdade, mister?

O sorriso de Bolter permaneceu imperturbável. — Pensei desde o princípio que vocês mereciam um aumento, mas não tinha poder nenhum para fazer valer o meu ponto de vista. Continuo a pensar do mesmo modo e agora sou o presidente da Associação, à qual disse o que tencionava fazer. Alguns dos membros não gostaram, mas eu insisti em que vocês tinham de receber um aumento. Ofereço-lhes vinte cêntimos, sem perguntas nem ressentimentos. Esperamo-los de regresso ao trabalho amanhã de manhã.

London olhou para Sam, riu-se da expressão façanhuda do seu rosto e deu-lhe uma palmada nas costas.

— Mr. Bolter, como o Mac disse, creio que não somos trabalhadores americanos. O senhor queria cartas na mesa e pôs as suas voltadas para baixo. Aqui estão as nossas, e como vê são um full! As suas malditas maçãs têm de ser apanhadas e nós não as apanharemos sem o nosso aumento. Não as apanharemos nós nem ninguém. Que pensa disto, Mr. Bolter?

O sorriso apagara-se finalmente do rosto do visitante. — A nação americana tornou-se grande porque toda a gente colaborou. — disse, gravemente — Os trabalhadores americanos são os melhores trabalhadores do mundo e os melhor pagos.

— Acha que darão a um china meio cêntimo por dia se isso lhe chegar para comer? — perguntou London, irritado — Que raio nos importa quanto ganhamos se temos de passar fome?

O sorriso voltou: — Tenho um lar e filhos, tenho trabalhado muito. julgam que sou diferente de vocês, mas eu quero que me considerem também um trabalhador. Tive de trabalhar para conseguir tudo quanto tenho. Ouvi dizer que estavam aqui radicais, a trabalhar com vocês, mas eu não acredito. Não acredito que homens americanos, com ideais americanos, dêem ouvidos a radicais. Estamos todos no mesmo barco. Os tempos são difíceis e nós tentamos vencer as dificuldades, mas para isso temos de nos ajudar uns aos outros.

— Pelo amor de Deus, deixe-se dessa conversa! — berrou, de súbito, Sam — Se tem alguma coisa a dizer, diga-a. Mas acabe com o maldito discurso.

Bolter fez uma cara muito triste. — Aceitarão metade?

— Não. — respondeu London — Não nos ofereceria metade se não estivessem aflitos.

— Como sabe que os homens não aceitarão, se submeter a proposta a votação?

— Olhe, os rapazes estão tão cheios de fel que o esfolarão se mostrar essa fatiota elegante lá fora. Estamos em greve para conseguirmos o nosso aumento. Faremos piquetes nos seus malditos pomares e desancaremos todos os furas que mandarem vir. Agora vomite lá o seu «senão...». Vire o raio das cartas. Que tencionam fazer se não regressarmos ao trabalho?

— Dar rédea solta aos vigilantes. — disse Mac.

— Não sabemos nada acerca de vigilantes. — apressou-se Bolter a declarar — Mas se os cidadãos indignados se reunirem para manter a paz, isso é com eles. A Associação nada sabe a tal respeito. — voltou a sorrir — Não compreendem que se atacam os nossos lares e os nossos filhos nós temos de os proteger? Não protegeriam também os seus próprios filhos?

— Que diabo julga que estamos a fazer? — gritou London — Estamos a tentar protegê-los da fome e para isso utilizamos o único meio de que os trabalhadores como nós dispõem. Não desate para aí a falar em filhos, se não quer que lhe mostremos uma coisa.

— Só desejamos arrumar este assunto pacificamente. — insistiu Bolter — Os cidadãos americanos exigem ordem, e eu garanto-vos que a teremos, ainda que tenhamos de pedir tropas ao governador.

Sam gritou, com a boca molhada de saliva: — Consegue a sua ordem disparando sobre os nossos homens de janelas, seu pulha cobarde! E em São Francisco obtiveram ordem passando com os cavalos por cima de mulheres! E depois os jornais dizem: «Esta manhã foi morto um grevista quando se atirou contra uma baioneta.» Quando se atirou!

London passou os braços à volta do enfurecido Sam e obrigou-o, pouco a pouco, a afastar-se de Bolter. — Acalma-te, Sam. Pára com isso. Vá, tem calma.

— Vá para o Inferno! — gritou Sam — Deixa-se ficar a ouvir as tretas que esse grande trapalhão lhe impinge?

O corpo de London retesou-se, de súbito. Fechou o enorme punho e esmurrou a cara de Sam, que caiu. London ficou parado, a olhá-lo, e Mac desatou a rir histericamente.

— Um grevista acaba de se atirar contra um punho fechado! — exclamou.

— Está bem, London, venceu. — disse Sam, sentando-se no chão. — Não faço mais banzé, mas você não esteve em São Francisco na Quinta-Feira Sangrenta.

— Esperava que dessem ouvidos à razão. — disse Bolter, que não se mexera de onde estava — Temos informações de que estão a ser influenciados por radicais, mandados para cá por organizações vermelhas. Eles estão a desencaminhá-los, a mentir-lhes. Só querem fomentar a agitação, são agitadores profissionais, pagos para provocar greves.

Mac levantou-se.

— As imundas ratazanas! — exclamou — A desencaminharem trabalhadores americanos, hem? Provavelmente pagas pela Rússia, não acha Mr. Bolter?

O homem olhou-o durante muito tempo e o vermelho saudável desapareceu-lhe das faces. — Creio que nos vão obrigar a lutar. — murmurou — Lamento-o. Queria paz. Sabemos quem são os radicais e teremos de agir contra eles. — voltou-se, suplicante, para London e acrescentou: — Não consintam que eles os desencaminhem! Regressem ao trabalho, nós só queremos paz.

— Estou farto dessa conversa. — resmungou London — Vocês querem paz. Mas que diabo fizemos nós? Marchamos em dois cortejos. E que fizeram vocês? Dispararam contra três dos nossos homens, deitaram fogo a uma camioneta e a um restaurante e cortaram-nos o fornecimento de víveres. Estou farto das suas malditas mentiras, mister. Permitirei que saia sem o Sam lhe pôr a mão, mas não mandem mais ninguém enquanto não estiverem dispostos a falar claro.

Bolter abanou a cabeça, tristemente. — Nós não queremos lutar com vocês, trabalhadores, queremos que regressem ao trabalho. Mas se formos obrigados a lutar, dispomos de armas. As autoridades sanitárias estão muito preocupadas com este acampamento e o Governo não gosta que entre neste condado carne que não foi inspecionada. Os cidadãos estão fartos de toda esta agitação... E, claro, ver-nos-emos forçados a chamar tropas, se precisarmos delas.

Mac levantou-se, foi à entrada da tenda e olhou para o exterior. Já começava a escurecer. Reinava silêncio no acampamento, pois os homens estavam parados, a olhar para a tenda de London. Todos os rostos, brancos na escuridão que descia, estavam voltados para a tenda. Mac gritou: — Tranquilizem-se, rapazes, não os vamos trair. — meteu-se para dentro e disse a London: — Acenda a lanterna. Quero dizer umas coisas a este amigo dos homens.

London chegou um fósforo à lanterna de folha e suspendeu-a da trave da tenda, de onde irradiou uma luz pálida, mas firme. Mac parou diante de Bolter e o seu rosto musculoso franziu-se num sorriso sarcástico. — Muito bem, menino bonito, esteve a falar como um valente, mas eu sei que, entretanto, foi molhando as calças. Admito que poderão fazer todas as coisas que disse, mas pense no que acontecerá depois. Os vossos serviços sanitários queimaram as tendas, em Washington, e essa foi uma das razões por que Hoover perdeu o voto dos trabalhadores. Mandaram chamar os guardas, em São Francisco, e quase toda a cidade se colocou ao lado dos grevistas. Tiveram de encarregar os chuis de impedir a entrada de comida para voltar a opinião pública contra a greve. Agora não estou a falar de certo e errado, estou apenas a dizer-lhe o que acontece. — Mac recuou um passo e prosseguiu: — Onde julga que obtemos comida, cobertores, remédios e dinheiro? Sabe perfeitamente onde os arranjamos. O seu vale está infestado de simpatizantes. Os seus «cidadãos indignados» estão um bocadinho indignados com vocês, meus filhos, e vocês também o sabem muito bem. E também sabem que, se se tornarem demasiado duros, os sindicatos se colocarão do nosso lado. Camionistas, empregados de restaurantes, trabalhadores do campo, todos. E como o sabem, tentam um bluff. Mas não pega. Este acampamento é mais limpo do que os malditos dormitórios que nos reservam nos ranchos. Veio aqui tentar assustar-nos, mas não pegou.

Muito pálido Bolter virou-se e olhou para London.

— Tentei conseguir a paz. — disse — Sabe que este homem foi mandado pelas organizações vermelhas para desencadear a greve? Tenha cuidado, para quando ele for para a cadeia não ir também. Temos o direito de proteger o que é nosso, e protegê-lo-emos. Tentei lidar de homem para homem consigo, mas não quis. Doravante as estradas estão fechadas. Esta noite sairá uma ordem proibindo todas as marchas e todos os ajuntamentos nas estradas municipais. O xerife nomeará mil ajudantes, se for preciso.

London olhou rapidamente para Mac, que lhe piscou o olho. — Jesus, mister, espero que possamos fazê-lo sair daqui em segurança! Quando os rapazes que estão lá fora souberem o que acaba de dizer, desejarão fazê-lo em fanicos.

Bolter cerrou os queixos, baixou as pálpebras e endireitou os ombros. — Não julgue que consegue assustar-me. Defenderei a minha casa e os meus filhos com a própria vida, se for preciso. E se me puserem a mão acabar-lhe-semos com a greve antes de amanhecer.

London arqueou os braços e deu um passo em frente, mas Mac atravessou-se-lhe no caminho.

— O tipo tem razão, London, não é dos que se assustam. Há muitos que se assustam, mas ele, não. — virou-se e acrescentou: — Mr. Bolter, garantimos-lhe a saída do acampamento em segurança. Agora entendemo-nos uns aos outros. Sabemos o que podemos esperar de vocês e vocês sabem que terão de ser muito cuidadosos quando utilizarem a força. Não se esqueça dos milhares de pessoas que nos estão a enviar provisões e dinheiro. Essas pessoas também farão outras coisas, se for preciso. Temos sido bons, Mr. Bolter, mas se tomarem alguma atitude desagradável mostrar-lhes-emos um motim de que nunca mais se esquecerão.

— Parece estar tudo dito. — declarou Bolter, friamente — Lamento, mas terei de comunicar que não quiseram ir ao nosso encontro, a meio caminho.

— Meio caminho? — repetiu Mac — Não há meio caminho para lado nenhum. — a sua voz tornou-se muito suave, ao acrescentar: — London, você e o Sam ladeiam-no e encarregam-se de que ele saia sem novidade. Depois creio que será melhor contar aos rapazes o que ele disse. Mas não os deixe perder a cabeça, diga-lhes que cerrem fileiras e estejam preparados para complicações.

London e Sam ladearam Bolter e passaram com ele através da multidão de homens silenciosos. Viram-no meter-se no automóvel e seguir pela estrada abaixo. Depois de ele partir, London gritou:

— Se quiserem ir até à plataforma, rapazes, contar-lhes-ei o que o filho da puta nos disse e o que nós lhe respondemos.

Voltou a abrir caminho pelo meio da multidão e os homens seguiram-no, muito agitados. Os cozinheiros abandonaram os fogões, onde estavam a cozer feijões e pedaços de carne.

As mulheres saíram de gatas das tendas, como roedores, e seguiram os homens. Quando London subiu para a plataforma esta estava cercada por um grande e compacto grupo de pessoas que o olhavam, envolvidas pela penmbra do anoitecer.

Durante a conversa com Bolter, o Dr. Burtton apagara-se, mantivera-se tão quieto e calado que dir-se-ia ter desaparecido. Mas quando o grupo saiu, deixando apenas Jim e Lisa sentados no colchão, saiu do seu canto e sentou-se ao lado deles, na beira da enxerga. Parecia preocupado.

— Vai ser muito duro. — murmurou.

— É isso que nós queremos, doutor. — redarguiu Jim — Quanto pior for, mais efeito terá.

Os olhos tristes de Burton fitaram-se nele.

— Você vê uma saída... Quem me dera ver, também, mas parece-me tudo sem sentido... inútil e sem sentido.

— Tem de continuar. — afirmou Jim — Só pode parar quando os trabalhadores forem senhores de si próprios e receberem o produto do seu trabalho.

— Parece simples... Quem me dera ver tudo com essa simplicidade. — virou-se, a sorrir, para a rapariga e perguntou-lhe: — Qual é a sua solução Lisa?

Ela estremeceu. — O quê?

— Quero dizer, que gostaria de ter para se sentir feliz?

A jovem olhou constrangida para o bebê.

— Gostaria de ter uma vaca. Gostaria de ter manteiga e queijo, como se pode ter com uma vaca.

— Queria explorar uma vaca?

— O quê?

— Estou a brincar. Alguma vez teve uma vaca, Lisa?

— Quando eu era pequenina tivemos uma. Bebíamos o leite quente. O velho costumava mungi-la para uma espécie de tigela, para bebermos. Era quentinho. É do que gosto. Acho que seria bom para o bebê. — Burton virou lentamente a cabeça, mas ela insistiu. — A vaca costumava comer erva e às vezes feno. Nem toda a gente as pode mungir. Escouceiam.

— Alguma vez teve uma vaca, Jim?

— Não, doutor.

— Nunca pensei que as vacas fossem animais contrarrevolucionários.

— Mas, afinal, de que está o doutor a falar?

— De nada. Creio que me sinto a modos que infeliz. Estive no Exército, durante a guerra, mal tinha acabado os estudos. Levavam-me um dos nossos homens com o peito esfrangalhado pelas balas ou um alemão de olhos muito grandes, com as pernas arrancadas por estilhaços. Eu trabalhava neles como se fossem de madeira. Mas às vezes, depois de tudo acabado, quando já não estava a trabalhar, tudo aquilo me tornava infeliz, como agora. Faz-me sentir solitário.

— Deve pensar apenas no fim, doutor. De toda esta luta há-de resultar uma coisa boa e isso fará com que tenha valido a pena.

— Quem me dera saber que era assim. Mas a minha pouca experiência tem-me demonstrado que o fim nunca é muito diferente, na sua natureza, dos meios. Com mil raios, Jim com violência só se pode construir uma coisa violenta.

— Não acredito, doutor. Todas as grandes coisas têm princípios violentos.

— Não há quaisquer princípios... nem quaisquer fins. Parece-me que o homem se lançou numa luta cega e terrível para sair de um passado de que se não lembra e entrar num futuro que não pode prever nem compreender. E o homem tem defrontado e vencido todos os obstáculos, todos os inimigos, exceto um: não se pode vencer a si mesmo. Como a humanidade se odeia a si própria!

— Nós não nos odiamos, a nós, o que odiamos é o capital investido que nos mantém na mó de baixo.

— O outro lado é feito de homens, Jim, de homens como vocês. O homem odeia-se. Os psicólogos dizem que o amor que o homem tem por si próprio é perfeitamente contrabalançado pelo ódio que se devota. Com a humanidade deve acontecer o mesmo. Lutamos contra nós próprios e só conseguiremos vencer matando todos os homens. Sinto-me só, Jim. Não tenho nada para odiar. Que vai você lucrar com isto?

Jim pareceu surpreendido. — Eu? — perguntou, apontando um dedo ao próprio peito.

— Sim, você. Que ganhará com toda esta confusão?

— Não sei... nem me interessa.

— Bem, suponha que se desenvolve uma septicémia nesse ombro, ou que morre de tétano, e que a greve acaba. Que pensa disso?

— Não tem importância nenhuma. Bem, dantes pensava como o doutor, mas afinal descobri que não tem importância nenhuma.

— Como chegou a esse estado? Qual foi o processo?

— Não sei. Costumava sentír-me só, mas já não sinto. Se eu desaparecesse agora isto não pararia. Sou apenas uma pequena porção do todo, que não cessará de crescer. Esta dor no ombro é assim como que agradável... e eu aposto que antes de morrer, o Joy se sentiu momentaneamente contente. Sim, aposto que nesse momento se sentiu contente.

Ouviram no exterior uma voz áspera e monótona, depois alguns gritos e por fim um rugido colérico da multidão, como que um berro de um animal enfurecido.

— O London está a dizer-lhes e eles estão furiosos. — observou Jim — Jesus, como uma multidão furiosa consegue encher o ar de ira! O doutor não compreende. O meu velho costumava lutar sozinho. Quando estava vencido, estava vencido. Lembro-me como isso era uma coisa solitária. Mas eu já não me sinto só e também não posso ser vencido, porque sou mais do que eu próprio.

— Puro êxtase religioso. Isso posso eu compreender. Compartilhantes do sangue do Cordeiro.

— Para o Diabo com a religião! Isto são homens, e não Deus. Isto é qualquer coisa que conhecemos.

— Bem, e um grupo de homens não pode ser Deus?

Jim virou-se, irritado. — Usa demasiadas palavras, doutor! Faz uma armadilha de palavras e depois cai nela. Mas a mim não me apanha. As suas palavras não significam nada para mim; sei o que estou a fazer. A argumentação não produz qualquer efeito em mim.

— Acalme-se. — aconselhou Burton, apaziguadoramente — Não se excite dessa maneira. Eu não estava a argumentar e, sim, a pedir informação. Todos vocês se enfurecem quando se lhes faz uma pergunta.

À medida que o crepúsculo se tramsformava em noite, a luz da lanterna parecia tornar-se mais forte, descobrir recessos mais profundos da tenda com a sua claridade amarela. Mac entrou silenciosamente, como se quisesse afastar-se, sorrateiro, do barülho e dos gritos do exterior.

— Estão bravos. — comentou — E outra vez esfomeados. Esta noite comerão carne cozida e feijão. Eu sabia que a carne os tornaria pimpões... Por vontade deles, saíam daqui e iam deitar fogo a casas, imediatamente.

— Como está o céu? — perguntou Burton — Ainda há ameaça de chuva?

— Está claro e estrelado. Haverá bom tempo.

— Bem, preciso de falar consigo, Mac. Estou mal abastecido e preciso de desinfectante. E também me faz falta Salvarsan. Se se desencadear para aí uma epidemia estaremos cheios de azar.

— Bem sei. Mandei dizer para a cidade o que se passava. Alguns dos rapazes andam a tentar recolher dinheiro, neste momento, para afiançarem o Dakin. Por mim, preferia que ele ficasse na cadeia.

Burton levantou-se do colchão. — Pode dizer ao London o que deve fazer, não pode? O Dakin não precisará de tudo quanto arranjarem.

Mac observou-o, com atenção, e perguntou-lhe: — Que se passa, doutor? Não se sente bem?

— Porque pergunta?

— O seu bom genio está a desaparecer e parece cansado. Que é, doutor?

— Não sei. — respondeu Burton, enfiando as mãos nas algibeiras — Sinto-me só, creio, terivelmente só. Estou a trabalhar sozinho, a trabalhar para nada. Para vocês há alguma compensação. Eu só consigo ouvir pulsar o coração com um estetoscópio, mas vocês ouvem-no no ar.

De súbito, inclinou-se para a frente, pôs a mão debaixo do queixo de Lisa!, inclinou-lhe a cabeça para trás e fitou-lhe os olhos receosos. A rapariga levantou a mão, devagarinho, e tentou afastar a dele, delicadamente. Burton tirou a mão e meteu-a de novo na algibeira.

— Gostaria de conhecer alguma mulher a quem o pudesse mandar, doutor, mas não conheço. — disse Mac — Sou novo nestas bandas. O Dick talvez pudesse encaminhá-lo, na cidade. Provavelmente a esta hora, já tem algumas vinte debaixo de olho. Mas você arriscava-se a ser apanhado e metido na cadeia, e se deixasse de tomar conta de nós eles expulsar-nos-iam num ápice deste acampamento.

— Às vezes compreende demasiado, Mac, outras... não compreende nada. Bem, vou visitar o Al Anderson. Ainda lá não fui hoje.

— Vá, doutor, se isso lhe faz bem. Eu não deixarei o Jim sair esta noite.

O médico olhou uma vez mais para Lisa e saiu. Os gritos tinham terminado e agora os homens falavam em voz baixa. Mas tanto bastava para impregnar a noite de vida, fora da tenda.

— O doutor não come e ninguém o vê dormir. — lamentou-se Mac — Creio que se irá abaixo, mais cedo ou mais tarde, coisa que antes nunca lhe tinha acontecido. Está muito precisado de uma mulher, de alguém que goste dele durante a noite... que goste realmente dele. Precisa de sentir alguém... com a pele. E eu também. Lisa, és uma patetinha cheia de sorte, acabas de ter um miúdo. Se não fosse isso, não te largava.

— O quê?

— Perguntei como estava o bebê.

— Está bem.

Mac acenou gravemente com a cabeça a Jim e declarou: — Gosto de uma pequena que não fala demasiado.

— Que se passou lá fora, Mac? Já estou farto de estar aqui dentro.

— Bem, o London contou o que o homenzinho sorridente lhe disse e pediu um voto de confiança. Claro que o obteve, de caras. Agora está a falar com os chefes de brigada, a respeito de amanhã.

— Que se vai passar amanhâ?

— O homenzinho sorridente disse a verdade acerca da ordem que sairia. A partir de amanhã será ilegal os rapazes marcharem pela estrada municipal. Creio que não se lembrarão dos veículos. Por isso, em vez de andarmos pelos pomares vamos enviar brigadas móveis nas carripanas. Assim poderemos atacar um grupo de furas, pirar-nos e atacar outro. Deve dar resultado.

— Onde vamos arranjar gasolina?

— Bem, tirá-la-emos de todos os carros e metê-la-emos nos que utilizarmos. Deve dar para amanhã. Talvez amanhã consigamos atacar com suficiente força, o que nos permitirá descansar no dia seguinte, até eles arramjarem uma nova leva de furas.

— Amanhã posso ir, não posso?

— De que serviria ires? — gritou Mac, irritado — Os tipos que vão têm de estar aptos para lutar. Tu, com ese braço assim, só ocuparias espaço. Serve-te da cabeça.

London abriu as abas da tenda e entrou, corado de prazer. — Aqueles tipos estão mesmo cheios de fogo! — exclamou — Jesus, estão desertos por dar uma lição a Torgas.

— Não lhes solte a rédea. — aconselhou Mac — Eles têm o bandulho cheio de morfos e se se apanham à solta, nunca mais os alcançamos.

London puxou um caixote e sentou-se. — O cozinheiro disse que a comida estava quase pronta. Quero fazer-lhe uma pergunta, Mac. Toda a gente diz que você é vermelho. Os dois tipos que vieram falar conosco disseram-no ambos. Pareciam saber tudo a seu respeito.

— Sim?

— Seja franco comigo, Mac: Você e o Jim são vermelhos?

— Que lhe parece?

Os olhos de London chisparam furiosos, mas ele dominou-se. — Não arme em engraçado, Mac. Não me agrada que os tipos do outro lado saibam mais a respeito de vocês do que eu. Que diabo sei eu? Chegaram ao meu acampamento e prestaram-nos um favor. Não lhes fiz perguntas nenhumas, nunca. Nem lhas faria agora, mas tenho de saber o que posso esperar.

Mac pareceu intrigado e olhou para Jim: — Está bem? — perguntou ao rapaz.

— Por mim, está.

— Escute, London, um tipo é capaz de gostar tremendamente de você. O Sam, por exemplo, desancará qualquer gajo que não o veja a si com bons olhos.

— Tenho bons amigos. — declarou London.

— É exatamente por isso. Eu sinto o mesmo. Suponhamos que sou vermelho. E depois?

— É meu amigo.

— Muito bem, então sou vermelho. Não há nenhun segredo nisso. Dizem que fui eu que desencadeei esta greve, mas a verdade é outra: tê-la-ia realmente desencadeado se pudesse, mas não foi preciso. Ela começou por si só.

London fítou-o, cautelosamente, como se o seu cérebro contornasse devagar o de Mac.

— Que lucra com a greve?

— Refere-se a dinheiro? Absolutamente nada.

— Então porque faz estas coisas?

— É difícil dizer... Você sabe o que sente pelo Sam e por todos os tipos que viajam consigo, não sabe? Bem, eu sinto o mesmo por todos os trabalhadores do país.

— Por tipos que nem sequer conhece?

— Sim, por tipos que nem sequer conheço. Aqui o Jim é a mesma coisa, exatamente a mesma coisa.

— Parece uma loucura, um truque qualquer. E não recebem dinheiro nenhum?

— Não vê por aí nenhuns Rolls-Royces. pois não?

— Mas... e depois?

— Depois o quê?

— Depois disto acabar, talvez cobrem.

— Não há depois nenhum. — afirmou Mac — Quando esta acabar, iremos para outra.

London fitou-o, de olhos semicerrados, como se tentasse ler-lhe os pensamentos.

— Acredito. — murmurou, devagar — Ainda não me pregou nenhuma mentira.

Mac estendeu a mão e deu-lhe uma forte palmada no ombro.

— Ter-lo-ia dito antes, se mo tivesse perguntado.

— Não tenho nada contra os vermelhos. — declarou London — Estão-nos constantemente a dizer que os vermelhos são uns filhos da puta. O Sam é uma espécie de cascavel e tem um génio dos diabos, mas não é nenhum filho da puta. Vamos comer.

— Eu trago qualquer coisa para a Lisa e para ti, Jim. — prometeu Mac.

London disse, da porta:

— A Lua está a nascer, bonita. Não sabia que era lua cheia.

— E não é. Onde está a ver a Lua?

— Olhe para ali, vê? Parece o nascer da Lua.

— O oriente não fica daquele lado... Jesus, é a casa do Anderson! London eles deitaram fogo à casa do Anderson! Chame os rapazes. Vamos depressa carago! Onde estão os guardas? Chame os rapazes depressa! — e desatou a correr na direção da luz avermelhada que começava a formar-se atrás das árvores.

Jim levantou-se do colchão de um pulo. Deixou de sentir o braço ferido enquanto corria cinquenta metros atrás de Mac. Ouviu a voz forte de London a gritar, e depois o tropel de muitos pés no solo húmido. Chegou às árvores e começou a correr ainda mais. A luz vermelha abria-se em cogumelo, atrás das árvores. Agora era mais do que um clarão. Uma lança de chamas erguia-se acima das copas das macieiras. Mais forte do que o tropel dos homens que corriam, ouvia-se um crepitar violento, gritos agudos e como que um uivar abafado. As árvores projetavam sombras, para lá da luz. O fim da vereda do pomar estava bloqueado pelo fogo e, à frente, viam-se movimentar vultos negros. Jim viu Mac, a correr adiante dele, e ouviu o crescente crepitar furioso das chamas. Alcançou Mac e correu a seu lado.

— É o celeiro! — exclamou, ofegante. — Ainda não tiniham levado as maçãs?

— Jim! Raios te partam, não devias ter vindo! Não, as maçãs ainda estão no celeiro. Onde diabo se teriam metido os guardas? Não se pode confiar em ninguém.

Aproximaram-se do fim do caminho e o ar quente bateu-lhes no rosto. Todas as paredes do celeiro estavam envoltas em fogo e grandes chamas fortes irrompiam do telhado. Os guardas encontravam-se junto da casinha de Anderson, imóveis, a observar o fogo, enquanto o velho saltava, como um boneco articulado, diante deles.

Mac parou de correr. — É inútil, não podemos fazer nada. Devem ter utilizado gasolina.

London passou por eles, desencabrestado e com uma expressão de grande fúria. Parou junto dos guardas e berrou: — Malditas ratazanas! Onde diabo estavam vocês?

Um dos homens ergueu a voz acima do ruído do fogo e respondeu-lhe: — Você mandou um gajo dizer-nos que precisava de nós, íamos a meio do caminho, direitos ao acampamento, quando isto começou.

A fúria de London esvaiu-se como por encanto. Abriu os grandes punhos e voltou-se desalentado para Mac e Jim, cujos olhos corruscavam à luz do incêndio. Anderson saltava perto deles, na sua dança louca e desengonçada. Parou diante de Mac e esticou o queixo, quase a tocar-lhe com ele na cara. — Imundo filho da puta!

Mas a voz morreu-lhe na garganta e o velho virou-se de novo, a chorar, para a torre de chamas. Mac passou-lhe o braço pela cintura, mas Anderson soltou-se. enlouquecido. Das chamas evolava-se o odor pungente e doce das maçãs a arder.

Mac, que se sentia triste e fraco, disse a London: — Como gostaria que isto não tivesse acontecido! Pobre velho, toda a sua colheita! — e, de súbito, acudiu-lhe um pensamento, que o levou a perguntar: — Meu Deus, deixou alguém a tomar conta do acampamento?

— Não. Nem pensei nisso.

Mac virou-se e gritou: — Venham, um grupo de vocês. Talvez eles nos tenham atraído aqui com alguma intenção. Fiquem alguns aqui, para evitar que a casa arda, também.

Regressou a correr pelo mesmo caminho. A sombra preta e comprida saltava-lhe à frente. Jim tentou acompanhá-lo, mas sentiu-se fraco e agoniado. Mac ganhou a dianteira e os homens ultrapassaram Jim, o qual acabou por ficar sozinho, atrás de todos, tropeçando, estonteado, no solo irregular. Não se viam homens no acampamento, em frente. Jim deixou de correr e começou a andar ao longo da vaga alameda entre os renques de árvores. Ouviu o estrondo do celeiro, ao ruir, e nem olhou para trás. Quando se encontrava a meio do caminho, as pernas dobraram-se-lhe, de fraqueza, e teve de se sentar pesadamente no chão. O fogo üunüinaiva o céu, por cima da sua cabeça, e as estelas geladas pareciam suspensas atras da luz osa e baixa.

Mac voltou atrás e encontrou-o.

— Que se passa, Jim?

— Nada. As minhas pernas enfraqueceram e resolvi descansar. Não há novidade mo acampamento?

— Não, não foram lá. Mas há um homem ferido, caiu e creio que partiu o tornozelo. Temos de encontrar o doutor. Recorreram a um maldito truque tão fácil e nojento! Um dos gajos deles diz aos guardas para irem ao acampamento, enquanto os restantes espalham gasolina à volta do celeiro e lhe deitam um fósforo. Jesus, foi rápido! Agora vamos ouvir o bonito do Anderson. Creio que teremos de sair da propriedade amanhã.

— E para onde iremos, Mac?

— Mas tu estás nas últimas rapaz! Dá cá o braço, eu ajudo-te a regressar. Viste o doutor mo incêndio?

— Não.

— Ele tinha dito que ia ver o Al e eu não o vi regressar. Vá, levanta-te. Tenho de te meter na cama.

O clarão já começava a extinguir-se. Ao fundo da alameda ainda havia fogo, mas as labaredas já não saltavam em compridas línguas.

— Apoia-te em mim. O Anderson estava quase doido, não estava? Felizmente não lhe incendiaram a casa!

London, seguido por Sam, alcançou-os. — Como está o acampamento?

— Não houve novidade. Não foram lá.

— E que tem o rapaz?

— Está fraco, do ferimento. Ampare-o desse lado.

Mac e London transportaram praticamente Jim pela alameda abaixo e através da clareira até à tenda de London. Insstalaram-no no colchão e Mac perguntou a London: — Viu o doutor, lá em cima? Um tipo partiu o tornozelo.

— Não, não o vi.

Sam entrou, silenciosamente, Músculos retesados atravessavam-lhe o rosto magro. Aproximou-se, muito direito, e parou defronte de Mac. — Naquela tarde, quando aquele tipo disse o que faria...

— Que típo?

— Aquele que nos veio falar primeiro e a quem você disse...

— A quem eu disse o quê?

— O que nós faríamos.

Mac estremeceu e olhou para London. — Não sei, Sam... O que aconteceu pode granjear-nos a simpatia do público, e nós precisamos dela. Não a queremos perder.

O ódio tornava a voz de Sam rouca: — Não se pode permitir que fiquem impunes. Não podie consentir que os grandes cobardes corram conosco pelo fogo.

— Deixa-te de enigmas, Sam. — ordenou London — Que queres, afinal?

— Quero sair com uns rapazes... e brincar com fósforos. — Mac e London observaram-no atentamente — Eu vou. — insistiu Sam — Estou-me nas tintas, Vou. Há um tipo chamado Hunter que tem uma grande casa branca. Levarei uma lata de gasolina.

Mac sorriu. — Olhe bem para este tipo, London. Alguma vez o viu? Sabe quem é?

London percebeu-o: — Não, acho que não. Quem é?

— Não faço ideia. Ele esteve alguma vez no acampamento?

— Oh. Não. Talvez seja apenas um tipo com algum ressentimento. Acusam-nos de tantas coisas!

Mac virou-se de novo para Sam e disse-lhe: — Se for apanhado, terá de se aguentar.

— Aguentarei. — replicou Sam, irritado — Também não vou levar ninguém comigo, não compartilharei nada. Mudei de ideias.

— Nós não o conhecemos. Trata-se apenas de um ressentimento da sua parte.

— Odeio o gajo porque ele me roubou. — disse Sam.

Mac aproximou-se mais dele e agarrou-lhe no braço. — Deite fogo à casa do canalha até não ficar nada. — disse, entre dentes — Deixe arder tudo, tudo, tudo! Gostaria tanto de ir consigo! Jesus, como gostaria!

— Fique aqui! Esta luta não é sua. O tipo roubou-me... e eu sou pirómano. Sempre gostei de brincar com fósforos.

— Até à vista, Sam. — murmurou London — Aparece, quando quiseres.

Sam saiu silenciosamente da tenda e desapareceu. London e Mac olharam por momentos para a aba de lona, que ficou a abanar de leve.

— Tenho o pressentimento de que ele não volta. — disse London — É estranho como conseguimos gostar de um homem violento, como ele. Sempre de queixo espetado, sempre à procura de sarilhos...

Jim estava sentado no colchão, em silêncio e com uma expressão perturbada no rosto. A claridade do fogo ainda se via vagamente, através das paredes da tenda. As sereias dos bombeiros começaram a soar, cada vez mais perto, solitárias e violentas, na noite.

— Deixaram passar muito tempo, para pegar bem, antes de as bombas saírem. — comentou Mac, em tom ácido — Com mil raios, afinal não chegamos a comer nada! Venha, London. Eu trago-te qualquer coisa, Jim.

O rapaz ficou sentado, à espera que regressassem. Lisa, ao lado dele, amamentava secretamente o bebê, sob o pedaço de cobertor.

— Nunca se mexe daqui? — perguntou-lhe Jim.

— O quê?

— Está sempre aqui sentada. Acontecem todas estas coisas à sua volta e você não lhes presta atenção nenhuma. Nem ouve.

— Quem me dera que acabasse tudo! Gostaria que vivessemos numa casa com soalho e com uma retrete perto. Não gosto desta luta.

— É uma luta necessária que tem de se travar. Acabará qualquer dia mas talvez já não na nossa vida.

Mac voltou com duas fumegantes latas de comida. — Bem, os carros dos bombeiros chegaram lá antes de ter ardido tudo, pelo menos. — declarou — Toma, Jim. Misturei a carne com os feijões. Esta é para si Lisa.

— Não devias ter deixado o Sam ir, Mac.

— Não devia porquê?

— Porque não achaste certo. Deixaste o teu ódio pessoal intervir.

— Jesus, homem, pensa, no pobre Anderson, que perdeu o celeiro e toda a colheita!

— Bem sei, e talvez até seja boa ideia deitar fogo à casa do Hunter. Mas tu não raciocinaste friamente, deixaste-te entusiasmar.

— Sim? E vais fazer queixa de mim, não? Trouxe-te para adquirires alguma experiência e afinal transformaste-te num maldito professor. Mas no fim de contas quem diabo pensas que és? Eu já fazia este trabalho quando tu ainda usavas cueiros.

— Tem calma, Mac. Não posso fazer mais nada, para ajudar, a não ser utilizar os miolos. As coisas vão acontecendo e eu aqui sentado, com um ombro ferido. Só quero que não te encolerizes, Mac. Não poderás pensar se te encolerizares.

Mac olhou-o, carrancudo, e replicou: — Dá-te por feliz por não te partir o focinho, não porque não tenhas razão, mas, pelo contrário, porque a tens. Acabamos por nos fartar de um gajo que tem sempre razão. — riu-se, de súbito — Mas agora já está feito, Jim. Esqueçamos o assunto. Estás a tornar-te um valente filho da puta. Todos te odiarão, mas serás um bom homem do Partido. Eu sei que me encolerizo; não o posso evitar. Estou preocupadíssimo, Jim. Está tudo a correr mal. Onde calculas que estará o doutor?

— Ainda não há sinais dele? Lembras-te do que ele disse antes de sair daqui?

— Disse que ía ver o Al.

— Sim, mas antes disse que se sentia muito só. Achei-o esquisito, como um tipo que tivesse trabalhado demasiado... Talvez tenha perdido a tramontana... Por outro lado, como nunca acreditou na causa, também é possível que se tenha pirado.

Mac abanou a cabeça. — Tenho lidado muito com o doutor e sei que não faria uma coisa dessas. O doutor não é homem para abandonar ninguém. Estou preocupado, Jim. Ele ía a caminho da casa do Anderson. Supõe que tomou os incendiários pelos nossos guardas e eles o apanharam? Eles não deixariam, com certeza, perder semelhante oportunidade. Interessava-lhes deitar-lhe a mão.

— Talvez ele volte, mais tarde.

— Vou-te dizer uma coisa!: se o Departamento de Saúde emitir uma ordem contra nós amanhã, podemos ter a certeza absoluta de que o doutor foi apanhado. Pobre diabo! Não sei que fazer ao homem que partiu o tornozelo. Um dos rapazes pô-lo em talas, mas provavelmente mal... Bem, esperemos que o doutor ande apenas a vaguear pelo pomar. A culpa foi minha, não o devia ter deixado partir para lá sozinho. Toda a culpa é minha. O London está a fazer tudo quanto pode, mas eu esqueço-me de coisas que devem ser feitas. Tenho um peso em cima de mim, todo o peso do celeiro do Anderson.

— Estás a esquecer o quadro geral.

— Julgava-me um gajo duro, mas tu és muito mais duro do que eu. — observou Mac. a suspirar — Só espero não vir a odiar-te. Acho melhor dormires na tenda-hospital, Jim. Há lá um divã extra e eu não quero que durmas no chão, enquanto não estiveres melhor. Porque não comes?

Jim olhou para a lata. — Esqueci-me, apesar de estar cheio de fome. — tirou um bocado de carne cozida do meio dos feijões e começou a mastigar — É melhor ires também comer qualquer coisa.

— Sim, é o que vou fazer.

Depois de Mac sair, Jim comeu apressadamente os grandes feijões ovais e dourados, espetando três de cada vez num pauzinho aguçado. Quando os feijões acabaram, inclinou a lata e bebeu o caldo.

— Sabe bem, não sabe? — perguntou a Lisa.

— Sabe. Sempre gostei de feijões-de-lima. Não precisam de mais nada a não ser de sal. O sal de carne de porco é melhor.

— Os homens estão muito calados, demasiado calados...

— Têm a boca cheia. Estão sempre a falar, exceto quando têm a boca cheia.

— Sempre a falar? Se têm de lutar porque não lutam e se despacham, em vez de falarem?

— Isto é uma greve. — respondeu Jim, na defensiva.

— Até mesmo você está sempre a falar. Conversa não faz girar rodas.

— Às vezes é preciso vapor para as fazer girar, lisa.

London entrou e parou a limpar os dentes com um fósforo afiado. A calva luzia-lhe com um brilho baço. — Tenho a região toda vigiada. — murmurou — Ainda não vi nenhum incêndio. Talvez tenham apanhado o Sam.

— Ele é um tipo esperto. — afirmou Jim — Outro dia derrubou um conferente, apesar de ele estar armado.

— Lá esperto é... esperto como uma cobra. O Sam é uma cascavel, com a diferença de que nunca se lhe ouvem os guisos. Foi sozinho, não quis levar ninguém com ele...

— Foi melhor assim. Se o apanharem, passará por maluco. Se apanhassem três tipos seria uma conjura, percebe?

— Oxalá ele não seja apanhado, Jim. É bom tipo e gosto dele.

— Bem sei.

Mac voltou com a sua lata de comida. — Tenho uma destas fomes! Só percebi quando dei a primeira dentada. Comeste o suficiente, Jim?

— Comi. Porque não acendem os homens fogueiras, para se sentarem à sua volta? A noite passada fizeram-no.

— Não têm lenha. — explicou London — Ordenei-lhes que pusessem a lenha toda junto dos fogões.

— Mas porque estarão tão sossegados? Quase não se ouve nada... Está tudo tão silencioso...

— A maneira como um grupo de homens procede é uma coisa muito complicada. — respondeu Mac — Nunca se sabe. Sempre pensei que, se um indivíduo observasse com muita atenção, talvez pudesse prever o que iriam fazer. Entusiasmam-se todos e depois, de repente parecem tolhidos de medo. Creio que todo este maldito acampamento está assustado. Já corre por aí que o doutor foi apanhado, e eles têm medo de estar sem ele. Vão dar uma olhadela ao tipo com o tornozelo partido e depois viram-lhe as costas e deixam-no. Mas passado um bocado voltam a ir vê-lo. Coitado, está todo coberto de suor e cheio de dores. — Mac agarrou um osso e limpou-o com os dentes.

— Achas que alguém sabe? — perguntou Jim.

— Sabe o quê?

— Como atuará um grupo de homens.

— Talvez o London saiba, pois tem dirigido homens toda a vida. Que diz, London?

Mas o homenzarrão abanou a cabeça. — Não sei. Já vi um grupo de homens desatar a fugir como coelhos, asustado com o barulho do escape de uma camioneta. Outras vezes, porém, parece que nada os assusta. No entanto, é possível pressentir o que vai acontecer, antes de começar.

— Bem sei. — murmurou Mac — Parece que o ar se enche de uma espécie de prenúncio. Uma vez vi linchar um negro. Levaram-no para cerca de quinhentos metros de distancia, para uma ponte de caminhos-de-ferro. No caminho, mataram um cãozito, apedrejaram-no até à morte. Toda a gente apanhou pedras e vai disto. O ar estava saturado do desejo de matar. Depois não lhes bastou enforcar o negro. Tiveram também de o queimar e de o alvejar a tiro.

— Não consentirei que comece a acontecer nada de semelhante neste acampamento. — afirmou London.

— Se começar, será melhor desviar-se do caminho. — aconselhou-lhe Mac — Escutem, não ouvem qualquer coisa?

De fato, ouve-se um arrastar de passos do lado de fora da tenda quase num ritmo marcial.

— Está aí o London?

— Esitou. Que querem?

— Temos aqui um tipo.

— Que gênero de tipo?

Entrou um homem com uma carabina Winchester e London perguntou-lhe: — Você não é um dos rapazes que deixei a guardar aquela casa?

— Sou. Só voltamos três. Vimos um tipo a andar nas imediações, cercamo-lo e apanhamo-lo.

— Quem é?

— Não sei. Tinha esta arma. Os homens queriam espancá-lo, mas eu achei melhor trazê-lo aqui e foi o que fizemos. Está lá fora amarrado.

London olhou para Mac e Mac inclinou a cabeça na direção de Lisa.

— É melhor saíres, rapariga. — disse London.

Ela levantou-se, devagar. — Para onde vou?

— Não sei. Onde está o Joey?

— Foi falar com um rapaz. Esse rapaz escreveu a uma escola que vai empregá-lo como correio, e como o Joey também quer ser correio foi falar com ele.

— Procura uma mulher qualquer e fica com ela.

Lisa empurrou o bebê para cima, com um movimento do quadril, e saiu da tenda. London tirou a carabina das mãos do homem e puxou a alavanca da culatra. Saltou um cartucho carregado.

— Trinta e três. — murmurou London — Tragam o tipo.

— Tragam-no!

Dois guardas empurravam o prisioneiro, que se desequilibrou ao entrar na tenda e depois recuperou o equilíbrio. Trazia os cotovelos amarrados atrás das costas, com um cinto, e os pulsos unidos com arame de fardos. Era muito novo, tinha o corpo magro e os ombros estreitos. Vestia calças de bonbazina, camisa azul e casaco curto, de cabedal. Os seus olhos azuis claros estavam esbugalhados de terror.

— Com mil raios, é um garoto! — exclamou London.

— É um garoto com uma trinta e três. — acrescentou Mac. — Posso falar com ele, London?

— Fale.

Mac colocou-se diante do rapaz e perguntou-lhe: — Que estavas a fazer onde te apanharam?

O rapaz engoliu em seco, com dificuldade. — Não estava a fazer nada. — respondeu, muito baixinho.

— Quem te mandou?

— Ninguém.

Mac bateu-lhe na cara com a mão aberta. A cabeça saltou para o lado e na face branca e imberbe ficou uma marca vermelha.

— Quem te mandou?

— Ninguém.

A mão aberta bateu de novo. com mais força. O rapaz desequilibrou-se. tentou aguentar-se e caiu sobre o ombro. Mac estendeu a mão e levantou-o.

— Quem te mandou?

O rapaz começou a chorar. As lágrimas escorriam-lhe pelo nariz e entravam-lhe na boca, que sangrava.

— Os rapazes da escola disseram que devíamos vir.

— Liceu?

— Sim. E os homens da rua disseram que alguém tinha de o fazer.

— Quantos eram vocês?

— Seis.

— Para onde foram os outros?

— Não sei. Palavra, perdi-me deles.

A voz de Mac tornou-se monótona: — Quem deitou fogo ao celeiro?

— Não sei.

Desta vez Mac bateu-lhe com o punho fechado. A pancada atirou o frágil rapaz contra o pau da tenda e Mac levantou-o, de repelão. O olho do jovem estava fechado e cortado.

— Cuidado com essa história do «não sei». Quem deitou fogo ao celeiro?

Os soluços sufocavam o rapaz e não o deixavam falar.

— Não me bata! Alguns tipos da sala de bilhar disseram que seria bem feito, que o Anderson era um radical.

— Muito bem. Vocês viram por acaso o nosso doutor?

O jovem olhou-o, desesperado, e voltou a suplicar: — Não me bata! Não sei. Não vimos ninguém.

— Que ias fazer com a arma?

— Dis... disparar através das tendas e tentar assustá-los.

Mac sorriu friamente e virou-se para London. — Tem alguma ideia do que lhe devemos fazer?

— Com a breca, não passa de um garoto!

— Sim, de um garoto com uma trinta e três. Posso continuar a lidar com ele, London?

— Que lhe quer fazer?

— Quero mandá-lo de volta para o liceu de tal maneira que mais nenhum garoto armado de espingarda se lembre de vir cá.

Jim estava sentado no colchão, a observar a cena.

— Jim, há bocado atezanaste-me por ter perdido a cabeça. — observou Mac — Agora não estou a perdê-la.

— Por mim acho bem, se estás calmo.

— Calmíssimo. Estás com pena do miúdo, Jim?

— Não. Ele não é um miúdo, é um exemplo.

— Foi o que eu pensei. Agora escuta, rapaz. Podemos pôr-te lá fora e entregar-te aos homens, que estão à espera, mas é provável que te matem. Por outro lado, podemos dar-te uma lição aqui.

O único olho aberto do jovem brilhava de medo.

— Estás de acordo, London?

— Não o magoe muito.

— Quero um cartaz e não um cadáver. Muito bem, meu menino, vais saber como é.

O rapaz tentou recuar e encolher-se, para se proteger, mas Mac agarrou-o firmemente por um ombro. O seu punho esquerdo movimentou-se em pancadas rápidas e curtas, uma após outra. O nariz estalou e ficou achatado, o outro olho fechou-se também e as faces ficaram negras. O rapaz parecia saltar como um fantoche, a tentar esquivar-se aos socos breves e precisos. De súbito, a tortura terminou.

— Desamarrem-no. — disse Mac, e limpou o punho ensanguentado no casaco de cabedal do rapaz — Não doeu muito e vais aparecer lindo no liceu. Agora deixa-te de choradeiras e diz aos meninos da cidade o que os espera.

— Lavo-lhe a cara? — perguntou London.

— Não, chiça! Fiz um trabalho de cirurgia e você quer estragá-lo! Julga que me agradou?

— Não sei.

O prisioneiro já tinha as mãos livres e soluçava baixinho.

— Escuta, rapaz. Não estás gravemente ferido. Tens o nariz partido, mas mais nada. Se fosse outro qualquer que tivesse feito o trabalho, estarias muito pior. Agora diz aos teus amiguinhos de brincadeiras que o próximo ficará com uma perna partida e o seguinte com as duas, etc., por aí fora. Percebeste? Perguntei-te se percebeste.

— Percebi.

— Muito bem, levem-no à estrada e soltem-no.

Os guardas agarraram o rapaz por baixo dos braços e ajudaram-no a sair da tenda.

— London, acho melhor escolher patrulhas, para verem se há mais rapazinhos com canhões.

— Está bem. — London não desviara nem um momento os olhos de Mac, a observá-lo com horror — Jesus, Mac é um tipo cruel. Posso compreender que um homem se enfureça e faça o que você fez, mas você estava calmo.

— Bem sei. — concordou Mac, fatigado — O pior é isso. o mais difícil.

Ficou imóvel, com o sorriso frio a arrepanhar-lhe os lábios até London sair da tenda. Depois sentou-se no colchão e enlaçou os joelhos com os braços. Todos os músculos do seu corpo estremeciam, percorridos por espasmos. O seu rosto estava de uma palidez acinzentada. Jim estendeu a mão do braço ileso e agarrou-lhe no pulso.

— Não teria sido capaz de fazer o que fiz se não estivesses aqui, Jim. — confessou Mac, no mesmo tom fatigado — Jesus, és um gajo duro! Limitaste-te a olhar, não te aqueceu nem arrefeceu.

Jim apertou-lhe o pulso com mais força. — Não te preocupes com o que aconteceu. — aconselhou, calmamente — Não se tratou de um garoto assustado e sim, de um perigo para a causa. Tinha de ser feito e tu fizeste-lo bem. Sem ódio, sem sentimento, desempenhando apenas uma tarefa. Não te preocupes.

— Se ao menos tivesse podido desamarrar-lhe as mãos, para que ele pudesse tentar esmurrar-me também, de vez em quando, ou proteger-se um pouco...

— Não penses nisso. Foi apenas uma pequena parte do todo. A compaixão é tão perigosa como o medo. Foi como um trabalho de médico, uma operação. Mais nada, Eu tê-lo-ia feito por ti, se não estivesse desasado. Já pensaste no que aconteceria se ficasse entregue aos rapazes, lá fora?

— Já. Chaciná-lo-iam. Oxalá não apanhem mais nenhum, pois eu não seria capaz de repetir a façanha.

— Não terias outro remédio.

Mac fitou-o, com uma espécie de medo no olhar. — Estás a ultrapassar-me, Jim, começo a assustar-me contigo. Já tenho conhecido tipos como tu e assustam-me sempre. Jesus, Jim, vejo-te mudar dia a dia! Sei que tens razão, que se deve opor à cólera o raciocínio frio, sei tudo isso. Mas, meu Deus, não é humano. Estou assustado contigo.

— Quis que me utilizasses. — observou Jim, em tom muito suave — Recusaste, porque começaras a gostar muito de mim. — levantou-se do colchão e foi sentar-se num caixote — Foi um erro teu. Depois fui ferido e enquanto tenho estado sentado, à espera, aprendi a conhecer a minha força. Sou mais forte do que tu. Mac. Sou mais forte do que tudo no mundo porque sigo em linha reta. Tu e todos os outros têm de pensar em mulheres, e tabaco, e álcool, e em agasalho e comida...

— Os seus olhos pareciam tão frios como pedras do rio molhadas.

— Quis ser utilizado. Agora utílizar-te-ei, Mac. ütilizar-me-ei a mim e a ti. Já te disse que sinto haver força em mim.

— Estás doido! — comentou Mac — Como sentes o braço? Há algum inchaço? Talvez tenhas alguma infecção que te envenenou o sangue.

— Não penses nisso, Mac. — disse Jim calmamente — Não estou doido. O que te disse é real, tem estado a desenvolver-se, a crescer, e agora está completo. Vai chamar o London, quero vê-lo. Diz-lhe que venha cá. Não procurarei irritá-lo, mas ele terá de obedecer às ordens.

— Talvez não estejas doido, não sei... Mas tens de te lembrar de que o London é o chefe desta greve, o chefe eleito. Tem conduzido homens durante toda a sua vida. Começas a dizer-lhe o que deve fazer e ele atira-te aos leões.

Mac olhou-o, constrangido, e Jim ordenou: — É melhor ires chamá-lo.

— Escuta...

— Mac, tu queres obedecer e é melhor que o faças.

Ouviram uma espécie de uivo abafado e depois o grito crescente de uma sereia, de outra e outra, ora aumentando, ora diminuindo, muito ao longe.

— Foi o Sam! — exclamou Mac — Ele ateou o seu fogo!

Jim levantou-se e Mac recomendou-lhe: — Acho melhor ficares aqui. Estás muito fraco.

Jim riu-se sem alegria e replicou: — Não tardarás a saber até que ponto vai a minha fraqueza! — dirigiu-se para a entrada da tenda e saiu, seguido por Mac.

A norte, o céu estrelado estava negro, por cima das árvores. Na direção de Torgas, as luzes da cidade projetavam uma pálida claridade no céu. À esquerda da cidade, por cima da muralha atrás das árvores o novo incêndio formava uma abóbada de luz vermelha. As sereias ora apitavam em uníssono, ora mais alto umas do que outras.

— Desta vez não perderam tempo. — comentou Mac.

Os homens saíram de cambulhada, das tendas e pararam a olhar para o fogo, que crescia. Irromperam chamas por cima das árvores e a abóbada de luz alastrou e subiu.

— Bom começo. — observou Mac — Mesmo que consigam extinguir o fogo. a casa ficará arruinada. Numa fase destas já só podem usar substâncias químicas.

London correu para eles e exclamou: — Ele conseguiu! Jesus, é um tipo danado! Eu sabia que ele conseguiria. Não tem medo de nada.

— Poderemos utilizá-lo, se voltar. — observou Jim, calmamente.

— Utilizá-lo? — perguntou London.

— Sim. Um homem capaz de dar tão bom começo a um fogo é capaz de fazer outras coisas. Está a arder lindamente. London, venha à tenda. Temos de decidir umas coisas.

— O que ele quer dizer, London... — começou Mac a explicar-lhe.

— Eu dir-lhe-ei o que quero dizer. Venha à tenda, London. — Jim entrou à frente e sentou-se num caixote.

— Qual é a ideia? — indagou London — Que quer dizer afinal?

— Esta greve está a perder-se porque não há autoridade. O celeiro do Anderson ardeu porque não conseguimos que os guardas obedecessem às ordens recebidas. O doutor foi apanhado porque os seus guarda-costas não o acompanhavam sempre.

— Claro. E que vamos fazer a esse respeito?

— Vamos criar autoridade, vamos dar ordens para serem cumpridas. — respondeu-lhe Jim — Os homens elegeram-no, não elegeram? Agora terão de obedecer, quer lhes agrade quer não.

— Com a breca, Jim, isso não dará resultado! — gritou Mac — Acabarão por se pirar passar-se-ão para o condado seguinte num abrir e fechar de olhos.

— Policiá-los-emos, Mac. Onde está a carabina?

— Ali. Para que a queres?

— Uma carabina é autoridade. Estou farto deste andar em círculo e vou pôr as coisas no são.

London avançou um passo para ele e replicou-lhe: — Mas que conversa é essa de pôr as coisas no são? Vá-se matar, homem.

Jim estava imóvel. O rosto jovem parecia esculpido, os seus olhos estavam parados e a boca sorria um pouco, aos cantos. Olhou firme e confiantemente para London e ordenou-lhe: — Sente-se e não se exalte.

London olhou, inquieto para Mac e perguntou-lhe: — O gajo está chalado?

— Não sei. — respondeu Mac, mas sem o olhar.

— É melhor sentar-se. — insistiu Jim — Acabará por fazê-lo, mais cedo ou mais tarde.

— Está bem, eu sento-me.

— Muito bem. Você poderá expulsar-me do acampamento, se quiser; eles arranjarão lugar para mim na cadeia. Mas, por outro lado, também poderá deixar-me ficar. Na segunda hipótese, porém, eu vou pôr isto em ordem; sou capaz disso.

— Já estou farto. — confessou London, a suspirar — Chatices, só chatices. De boa vontade lhe passaria o cargo para as mãos, apesar de você ser apenas um garoto. Sou o chefe.

— Exatamente por isso. Eu darei as ordens por seu intermédio. Não me interprete mal, London: não é autoridade que eu quero e, sim, ação. Tudo quanto desejo é levar esta greve ao fim.

— Que pensa você, Mac? — perguntou London desnorteado — Que se meteu na cabeça deste moço?

— Não sei. Ao princípio pensei que fosse veneno, provocado por alguma infecção do ferimento, mas ele parece estar a falar com sentido... — Mac riu-se, mas com um riso que depressa se extinguiu.

— Toda esta história me cheira a bolchevique. — resmungou London.

— Que lhe importa ao que cheira, se der resultado? — perguntou Jim — Está disposto a ouvir?

— Não sei... Está bem, dispare.

— Muito bem. Amanhã de manhã vamos desancar os furas. Quero que escolha os melhores lutadores. Dê-lhes cacetes. Quero que partam dois carros ao mesmo tempo, sempre aos pares. É provável que os chuis patrulhem as estradas e levantem barricadas, mas nesse caso o carro da frente derruba a barricada e o segundo recolhe os homens do carro avariado e segue em frente. Não podemos consentir que nos detenham. Compreendeu? Tudo quanto iniciarmos terá de ir até ao fim. Se não formos bem-sucedidos, estaremos em piores circunstâncias do que quando começamos.

— Vou passar um péssimo bocado com os rapazes se você der ordens. — observou London.

— Eu não quero dar ordens nem quero exibir-me. Os homens não precisarão de saber. Eu digo-lhe a si e você diz-lhes a eles. A primeira coisa a fazer é mandar sair alguns homens, para verem como vai o fogo. Amanhã vamos ter muitas chatices. Preferia que o Sam não tivesse feito o que fez, mas agora já não tem remédio. Também precisamos de ter este acampamento muito bem guardado esta noite. Pode ter a certeza de que não faltarão represálias. Disponha duas séries de guardas e diga-lhes que se mantenham em contato. Depois quero um comitê de polícia, constituído por cinco homens, para desancar qualquer gajo que adormeça ou se pire. Arranje-me cinco duros.

London abanou a cabeça. — Não sei se lhe dê uma tareia se o deixe continuar. Tudo isso só servirá para arranjar chatices.

— Bem, enquanto não se decide escolha os guardas. Receio que tenhamos muitas complicações antes de amanhecer.

— Está bem, rapaz, tentarei.

Depois de London sair, Mac continuou parado ao lado do caixote ocupado por Jim.

— Como sentes o braço?

— Nem o sinto. Deve estar bem.

— Não compreendo o que te aconteceu, Jim... mas apercebi-me de que vai acontecendo.

— É uma coisa que nasce de uma luta deste gênero. De súbito, sentimos em ação as grandes forças geradas por pequenas complicações como esta nossa greve. E a visão dessas forças faz-nos qualquer coisa, empolga-nos e obriga-nos a agir. Creio que é daí que provem a autoridade.

Levantou os olhos e Mac gritou: — Porque reviraste os olhos desse modo?

— Estou um bocado tonto. — respondeu e, logo a seguir, desfaleceu e caiu do caixote.

Mac arrastou-o para o colchão e pôs-lhe os pés em cima de um caixote. No acampamento ouvia-se um murmúrio baixo, de vozes, um murmúrio constante, mas que variava de tom como a voz de um regato. Passavam homens para trás e para diante defronte da tenda. Ouviu-se de novo o apito das sereias, mas desta vez depressa, pois os carros regressavam. Mac desabotoou a camisa de Jim, foi buscar um balde de água que estava a um canto da tenda e salpicou-lhe a cabeça e o pescoço. Jim abriu os lolhos e fitou-o.

— Estou tonto. — queixou-se — Quem me dera que o doutor voltasse e me desse qualquer coisa. Achas que ele voltará, Mac?

— Não sei. Como te sentes, agora?

— Apenas tonto. Creio que dei o que tinha a dar, enquanto não descansar.

— Sem dúvida. Deves dormir. Vou lá ver se arranjo um pouco do caldo em que cozeram a carne. Far-te-á bem. Deixa-te estar deitado e quieto, até eu voltar.

Quando Mac saiu, Jim olhou, de testa franzida, para o teto da tenda.

— Pergunto a mim mesmo se já terá passado. — disse, em voz alta — Não creio, mas talvez tenha. — depois fechou os olhos e adormeceu.

Mac voltou com o caldo e colocou a lata no chão. Tirou o caixote debaixo das pernas de Jim e sentou-se na beira do colchão, a observar o rosto tenso e adormecido.

A cara de Jim não estava quieta nem um segundo. Os lábios arreganhavam-se, até mostrarem os dentes e até estes secarem, e depois os lábios desciam de novo e cobriam-nos. As faces, à volta dos olhos, estremeciam nervosamente. Uma vez, como se se debatesse contra um peso, os lábios de Jim abriram-se para falar e desenharam uma palavra, mas ouviu-se apenas um murmúrio, como que um rosnido. Mac tapou o amigo com os velhos cobertores.

De súbito, a luz do candeeiro diminuiu, ficou reduzida ao aro incandescente da torcida, e a escuridão avançou para o centro da tenda. Mac levantou-se, muito depressa, pegou numa lata de petróleo, desatarraxou o bocal e encheu o depósito do candeeiro. Lentamente, a chama subiu, de novo, e as suas orlas alastraram como as asas de uma borboleta.

No exterior, ouviam-se os passos lentos dos homens de sentinela e, ao longe, o rodar pesado dos grandes caminhões de carga noturnos, que passavam na auto-estrada. Mac tirou o candeeiro da trave, levou-o para junto do colchão e pô-lo no chão. Da algibeira de trás das calças tirou diversas folhas de papel dobradas, um sobrescrito estampilhado e sujo e um bocado de lápis. Com o papel apoiado no joelho, escreveu devagar, em letras grandes e redondas:

Caro Harry:

Pelo amor de Deus arranja-me alguma ajuda para aqui. O Dr. Burton foi apanhado ontem à noite — ou pelo menos penso que foi. O doutor não era homem que nos abandonasse, mas desapareceu. Este vale está organizado como a Itália. Os vigilantes estão a fazer das suas. Precisamos de alimentos, remédios e dinheiro. O Dick tem-se safado, mas mesmo assim creio que se não arranjarmos auxílio de fora estamos perdidos. Nunca estive em lugar nenhum tão bem organizado. É muito possível que o Dick já tenha sido preso.

O Jim está a sair-se bem, tão bem que até me sinto insignificante. Receio que amanhã sejamos expulsos do acampamento. Os vigilantes deitaram fogo ao celeiro do proprietário e ele está furioso conosco. Além disso, sem o Dr. Burton, os funcionários da saúde pública do condado expulsar-nos-ão. Peço-te, portanto, que penses numa solução qualquer. O Jim e eu estamos marcados e eles andam sempre a ver se nos caçam. É necessário que esteja cá alguém, no caso de nos apanharem.

Estou a gritar por socorro, Harry. Os simpatizantes estão assustados, mas isso não é o pior.

Pegou noutra folha de papel e continuou a escrever:

Os homens estão muito sensíveis. Tu sabes como costumam ficar, em circunstâncias idênticas. Amanhã tanto podem sair e deitar fogo à câmara municipal como fugir para as montanhas e ficar lá escondidos seis meses. Por isso peço-te por tudo que digas a toda a gente que precisamos de ajuda. Vamos fazer piquetes de camioneta. Não sabemos bem o que se está a passar.

Até à vista. O Jack entregar-te-á esta carta. Pelo amor de Deus tenta mandar-nos alguma ajuda.

Mac

Leu a carta, pôs um traço num «t», de que se esquecera. dobrou as folhas de papel e meteu-as no sobrescrito sujo, que endereçou a John H. Weaver.

Ouviu uma voz no exterior:

— Quem vem lá?

— London.

— Pode passar.

London entrou na tenda e olhou para Mac e depois para Jim, que continuava a dormir.

— Pus os guardas de sentinela, como ele disse.

— Fez muito bem. Ele está estoirado. Quem me dera ter cá o doutor! Estou com medo daquele ombro. O Jim diz que não lhe dói, mas o idiota gosta de sofrer, de ser castigado. Mac voltou a colocar o candeeiro na trave. London sentou-se num caixote e perguntou baixinho: — Que diabo de mosca lhe mordeu? Num momento era um rapaz delicado e, no outro, com mil raios, deu-me um pontapé no cu e tomou conta de tudo.

— Não sei. — respondeu Mac, mas os seus olhos brilhavam de orgulho — Já tinha visto tipos saírem por assím dizer fora de si mesmos, mas desta maneira, nunca. Jesus, uma pessoa tinha de fazer o que ele dizia! Ao princípio até pensei que estivesse chalado... e ainda não tenho a certeza a esse respeito. Onde está a pequena, London?

— Deixei-a, e ao meu garoto, numa tenda desocupada.

Mac levantou bruscamente a cabeça e perguntou: — Onde arranjou uma tenda desocupada?

— Creio que alguns dos tipos aproveitaram a escuridão e se piraram.

— Talvez os homens que faltam sejam os guardas...

— Não: eu contei com eles. Creio que se foram alguns embora.

Mac esfregou os olhos com força. — Bem, acho que já era altura disso... Alguns não aguentam, pura e simplesmente. Escute, London, tenho de me esgueirar e tentar meter uma carta no correio. E também quero aproveitar para dar uma vista de olhos...

— Porque não me deixa mandar um dos rapazes?

— Esta carta tem de chegar ao seu destino e, por isso, acho melhor ir eu. Não é a primeira vez que me vigiam. Não me apanharão.

London olhou-lhe para as mãos grossas e perguntou: — Mac, é uma carta... vermelha?

— Bem, acho que sim. Estou a tentar obter auxílio, para que a greve não vá por água abaixo.

— Mac, como já lhe disse, estão sempre a dizer-nos que os vermelhos são uma corja de filhos da puta. — murmurou London, constrangido — Creio que não é verdade. Pois não?

Mac deu uma gargalhadinha abafada. — Depende do ponto de vista. Se você tivesse quinze mil hectares de terra e um milhão de dólares, eles seriam uma corja de filhos da puta. Mas se você é apenas London, um trabalhador, nesse caso eles são apenas uns tipos que querem ajudá-lo a viver como um homem e não como um porco, compreende? Claro que você lê as notícias no jornal e os jornais pertencem aos gajos que têm terra e dinheiro, por isso nós somos filhos da puta. Está a topar? Mas depois você trava conhecimento conosco e verifica que não somos o que dizem. Tem de formar a sua própria opinião.

— Um tipo como eu poderia trabalhar com vocês? Tenho passado a minha vida a fazer mais ou menos a mesma coisa, a tentar defender os rapazes que viajam comigo.

— Tem toda a razão. — concordou Mac, vivamente — Sim, tem toda a razão. Você é um chefe. É um trabalhador sazonal, mas também é um chefe.

— Os tipos fazem sempre o que lhes digo. — confessou London, simplesmente — Tem sido assim toda a minha vida.

Mac aproximou-se mais, colocou a mão no joelho de London e baixou a voz:

— Escute, creio que vamos perder esta greve, mas fizemos tanto estardalhaço que talvez não seja preciso fazer greve no algodão. Os jornais dizem que estamos só a causar problemas e agitação, mas nós estamos a habituar os homens a trabalhar juntos. Estamos a conseguir que cada vez maiores números de homens trabalhem juntos, compreende? Não terá importância nenhuma se perdermos. Estão aqui cerca de mil homens que aprenderam como se faz uma greve. Quando tivermos um grande número de homens a trabalhar em conjunto, talvez Torgas Valley, ou a maior parte da região, deixe de pertencer apenas a três indivíduos. Talvez um gajo possa colher uma maçã para comer sem ir malhar com os ossos na cadeia por esse motivo, compreende? Talvez não deitem maçãs ao rio para manter o preço elevado, quando tipos como você e eu precisam de uma maçã para manter o raio dos intestinos a funcionar. Tem de ver o quadro todo em conjunto, London, e não apenas esta grevezinha.

London fitava tristemente a boca de Mac, como se tentasse ver as palavras, à medida que ele as proferia. — Isso é a modos que revo... revolução, não é?

— Claro que é. É uma revolução contra a fome e o frio. Os três indivíduos donos deste vale farão tudo e mais alguma coisa para continuarem senhores da terra e para deitarem as maçãs ao rio a fim de subirem os preços. Um gajo que pensa que os alimentos se destinam a ser comidos é um maldito vermelho. Compreende?

Os olhos de London estavam muito abertos e com uma expressão sonhadora.

— Tenho ouvido falar muitos radicais, mas nunca prestei muita atenção. Encolerizam-se sempre e eu não tenho confiança num tipo colérico. Nunca tinha encarado as coisas da maneira que você diz, nunca.

— Pois continue a encará-las dessa maneira, London, e pensará de modo diferente. Dizem que nós fazemos jogo sujo, que trabalhamos subterraneamente. Já alguma vez pensou que não temos armas? Se nos acontece alguma coisa, nunca vem nos jornais, mas se é ao outro lado que acontece, Jesus, é um gastar de tinta! Como não possuímos nem dinheiro nem armas, temos de nos servir da cabeça. Compreende? Somos como um homem armado de cacete a lutar com uma brigada munida de metralhadoras. A única maneira de ele se safar é aproximar-se sorrateiramente e atacar os gajos das metralhadoras pela retaguarda. Talvez isso não seja leal, mas, carago, não se trata de uma competição de atletismo! Um homem com fome não pode ser obrigado a respeitar regras.

— Nunca tinha percebido. — murmurou London, baixinho — Nunca ninguém dispôs de tempo para me explicar. Gosto de ver alguns dos tipos que são todos falinhas mansas, que falam bem. Mas sempre que os ouço acabam por se danar. «Malditos chuis», berram. «O Governo que vá para o Inferno.» Ameaçam arrasar pelo fogo os edifícios governamentais. Não gosto de ouvir isso, acho os edifícios bonitos. Nunca ninguém me falou do outro aspecto.

— Se eles falam assim, não sabem utilizar a cabeça. — comentou Mac.

— Você disse estar convencido de que perderíamos esta greve. Porque pensa assim? — Mac refletiu. — Não, agora não te esquivas... — murmurou, como se falasse sozinho.

— Eu digo-lhe porquê, London. O poder, neste vale, está concentrado em muito poucas mãos. O tipo que cá esteve, ontem, veio tentar convencer-nos a desistir, mas agora sabe que não desistiremos. A única saída que lhes resta é correr conosco ou liquidar-nos. Poderíamos resistir-lhes por uns tempos se tivéssemos comida e um médico e se o Anderson nos apoiasse. Mas o Anderson está magoado. Eles correrão conosco nem que tenham de utilizar canhões. Assim que obtiverem uma ordem do tribunal, põem-nos logo na rua. Para onde iremos depois? Não poderemos acampar por aí, a monte, pois haverá ordens municipais proibindo-o. Eles dividir-nos-ão e vencer-nos-ão desse modo. Ainda por cima, os nossos rapazes não são muito fortes e eu receio que não consigamos obter mais comida.

— Então porque não dizemos aos tipos que se pirem e não fazemos todos o mesmo?

— Não fale tão alto, que acorda o rapaz. Eu explico-lhe porquê. Eles podem assustar os nossos homens, mas nós também os podemos assustar a eles. Faremos uma última tentativa e aguentaremos o mais tempo que pudermos. Se eles matarem alguns dos nossos, a noticia propagar-se-á, mesmo que os jornais não a publiquem. Outros trabalhadores ficarão furiosos e passaremos a ter um inimigo. Os rapazes trabalham melhor juntos quando têm um inimigo. Aquele celeiro foi incendiado por homens do nosso gênero, mas esses homens têm lido os jornais, compreende? Temos de os conquistar para o nosso lado o mais depressa possível. — tirou da algibeira a bolsa do tabaco, quase vazia — Tenho estado a guardar isto, mas agora preciso de fumar. Fuma, London?

— Não. Masco, quando tenho.

Mac enrolou um cigarro fininho, numa mortalha castanha e levantou o vidro do candeeiro para o acender. — Devia dormir um sono, London. Sabe Deus o que irá acontecer esta noite... Eu tenho de ir à cidade e encontrar uma caixa de correio.

— Arrisca-se a ser apanhado.

— Não serei. Irei pelos pomares e nem sequer me verão.

Olhou por cima de London para o fundo da tenda. London virou-se, para olhar na mesma direção. A lona levantou-se, junto da base, e Sam entrou de gatas e levantou-se. Estava sujo de lama e tinha a roupa rasgada. Um golpe comprido marcava-lhe uma das faces magras, tinha os lábios arrepanhados de fadiga e grandes olheiras.

— Só tenho um minuto. — disse, baixinho — Jesus que trabalho! Vocês têm uma data de guardas de sentinela e eu não quis que ninguém me visse. Alguém nos atraiçoaria, com certeza.

— Fez um belo trabalho. — elogiou Mac — Vimos o fogo.

— Sim, o raio da casa desapareceu quase toda. Mas o caso não é esse. — olhou nervosamente para Jim que dormia no colchão, e acrescentou: — Fui... apanhado.

— Diabo!

— Agarraram-me e viram-me bem.

— Não devias estar aqui. — disse London, severamente.

— Bem sei, mas quis dizer-lhes. Vocês nunca me viram nem ouviram falar de mim. Tive de fazer o que fiz... estouraram-me os miolos a pontapé. Agora tenho de ir. Se voltarem a apanhar-me, não quero nada, compreendem? Sou maluco. Chanfrado. Direi que foi Deus que me mandou fazer o que fiz, percebem? Era isso que lhes queria dizer. Não corram nenhum risco por minha causa. Não quero.

London aproximou-se e apertou-lhe a mão. — És um bom homem, Sam, não há melhor. Voltarei a ver-te, qualquer dia.

Mac, de olhos fixos na aba da tenda, disse baixinho, por cima do ombro: — Se conseguir chegar à cidade, vá à Center Avenue, 42. Diga que foi a Mabel que o mandou. Será apenas uma refeição. Não vá mais de uma vez.

— Está bem, Mac. Adeus.

Ajoelhou-se, enfiou a cabeça pela abertura e espreitou. Saiu de rastos, em menos de um segundo, e a lona voltou ao seu lugar.

— Oxalá ele se safe, Mac! — exclamou London, a suspirar — É bom homem, não há melhor do que ele.

— Não pense no assumto. Alguém o matará, qualquer dia, como ao nosso homenzinho, ao Joy. Estava escrito que seria assim. Eu e o Jim também teremos a mesma sorte, mais cedo ou mais tarde. É quase certo, mas não faz diferença nenhuma.

London ouvia-o de boca aberta. — Jesus, que raio de maneira de encarar as coisas! Vocês não encontram prazer nenhum?

— Claro que encontramos, e mais até do que a maioria das pessoas. Trata-se de um trabalho importante. Nunca se esqueça de que se encontra sempre algo de muito especial em fazer uma coisa que tem algum significado. O que tira a genica a um homem é fazer um trabalho que não conduz a nada. O nosso é lento, mas é todo feito numa direção. Jesus, continuo para aqui a dar à língua! Tenho de ir.

— Não consinta que o apanhem, Mac.

— Não consentirei. No entanto, London, acredite que nada daria mais prazer a esses gajos do que liquidarem-nos, a mim e ao Jim. Mas eu sei cuidar de mim. Importa-se de ficar aqui e de não permitir que aconteça nada ao Jim? Importa-se?

— Claro que não me importo. Não saírei daqui.

— Mas deite-se também no colchão e durma um bocado. Só lhe peço que não deixe os gajos levarem o rapaz. Precisamos dele, é valioso.

— Esteja descansado.

— Até logo. Voltarei o mais depressa que puder. Preciso de saber o que se passa. Talvez consiga arranjar um jornal.

— Até logo.

Mac saiu silenciosamente, pela abertura da tenda. London ouviu-o falar com um guarda e, mais adiante, com outro. Depois de deixar de o ouvir, London prestou atenção aos ruídos da noite. Reinava silêncio, no exterior, mas o acampamento não dava a sensação de dormir. Os guardas iam e vinham e ouviam-se as suas vozes, em breves trocas de palavras, quando se encontravam. Cantavam galos: um deles perto e, muito ao longe outro, com o cantar profundo de um galo velho. Depois ouviu-se a campainha de um comboio, um esguicho de vapor e o arranque pesado de uma locomotiva. London sentou-se no colchão, ao lado de Jim com uma perna dobrada e a outra erguida e envolta nos braços. Inclinou a cabeça, apoiou o queixo no joelho e os seus olhos interrogaram Jim, como se o sondassem.

O rapaz mexeu-se, desassossegado, estendeu um braço e deixou-o cair de novo. «Oh... e... água!», murmurou, a respirar dificilmente. «Alcatrão por cima de tudo.» Abriu os olhos e pestanejou rapidamente, sem ver. London desenlaçou as mãos, como se lhe fosse tocar, mas não tocou. Os olhos do rapaz fecharam-se de novo. Ouviu-se passar um grande caminhão de transporte. London ouviu um grito abafado, a alguma distância da tenda.

— Eh! — chamou, baixinho.

Um dos guardas acorreu ao chamamento. — Que se passa, chefe?

— Quem está a gritar?

— Ainda não tinha ouvido? É o velho com a bacia partida. Está doido. Têm de o segurar, pois ele luta como um gato bravo e morde. Meteram-lhe um trapo na boca.

— És o Jake Pedroní, não és? Claro que és. Jake, ouvi o doutor dizer que o velho ficaria assim se não lhe metessem água e sabão pelo rabo acima, para lhe limpar as tripas. Eu não posso sair daqui, mas tu vai tratar disso, sim, Jake?

— Está bem, chefe.

— Vai, anda. Não é nada bom para a fratura dele lutar dessa maneira. E o do tornozelo partido, como vai?

— Bem, a esse deram-lhe uma boa golada de uisque e está bem.

— Chamem-me se acontecer alguma coisa Jake.

— Está bem.

London voltou para o colchão e deitou-se ao lado de Jim. Muito ao longe, a locomotiva avançava cada vez mais depressa. O galo velho voltou a cantar e o mais novo respondeu-lhe. London sentiu o sono invadir-lhe o cérebro, mas apoiou-se num cotovelo e observou mais uma vez Jim, antes de permitir que o sono se apoderasse dele.

 

A escuridão começava a dissipar-se quando Mac espreitou para o interior da tenda. O candeeiro continuava aceso, na trave, e London e Jim dormiam lado a lado. Mac entrou e, no mesmo instante, London sentou-se de um pulo e perguntou a tentar ver o que se passava: — Quem está aí?

— Eu. — respondeu-lhe Mac — Acabo de chegar. Como vai ele?

— Tenho estado a dormir. — London bocejou e coçou a calva.

Mac aproximou-se e olhou para Jim. As marcas de cansaço tinham desaparecido da cara do rapaz e os músculos estavam descontraídos.

— Parece bem. Dormiu um bom sono.

London levantou-se. — Que horas são?

— Não sei. Começa a clarear.

— Os rapazes ainda não começaram a acender as fogueiras?

— Vi alguém a mexer-se lá em cima. Cheirou-me a fumo de pinho. Talvez seja o brasido do celeiro do Anderson.

— Não deixei o rapaz nem um minuto.

— Fez muito bem, London.

— Quando é que dorme alguma coisa?

— Sabe Deus. Ainda não sinto muita necessidade. A noite passada - ou melhor, a outra - dormi um bocado. Parece que já lá vai uma semana... Ainda foi ontem que enterramos o Joy, só ontem!

London bocejou de novo. — Creio que esta manhã vamos ter carne e feijão. Apetecia-me tanto uma chávena de café!

— Vamos à cidade comer presunto com ovos e beber café.

— Vá para o diabo! Vou lá fora pôr os cozinheiros a trabalhar. — saiu, sonolento e com passo pouco firme.

Mac puxou um caixote para debaixo da luz e tirou um jornal enrolado da algibeira. Quando o desdobrou, ouviu Jim: — Tenho estado acordado, Mac. Onde estiveste?

— Tive de ir pôr uma carta no correio e apanhei um jornal num jardim. Vamos saber o que se está a passar.

— Mac, a noite passada fiz papel de idiota, não fiz?

— Não, Jim. Soubeste impor-te, puseste-nos a comer-te na mão.

— Não sei o que me deu. Nunca me tinha sentido assim.

— Como te sentes esta manhã?

— Bem, mas diferente do que me sentia ontem à noite. Ontem à noite teria sido capaz de levantar uma vaca em peso.

— Bem, a nós quase nos levantaste. É boa ideia a das camionetas. O dono da que tiver de chocar com a barricada talvez não goste muito, porém... Ora vamos lá ver o que se passa na cidade... Oh, cabeçalhos para o livro de recortes! Escuta, Jim: “GREVISTAS INCENDEIAM CASAS. MATAM HOMENS. Às dez horas da noite passada o fogo destruiu a casa de campo de William Hunter. A Policia diz que os autores do crime são os homens dos pomares de macieiras, que estão em greve. Um suspeito capturado agrediu o captor e conseguiu fugir. A vítima Olaf Bingham, ajudante especial do xerife, não deve sobreviver.”

— Vejamos mais abaixo... “Também ontem, mas mais cedo, os grevistas, quer por descuido, quer por malvadez, incendiaram o celeiro da quinta de Mr. Anderson, que anteriormente os autorizara a acampar na sua terra.”

— É uma história muito comprida, Jim. Podes lê-la depois, se quiseres. — virou a página e exclamou: — Oh, escuta este editorial! “Julgamos que chegou o momento de agir. Quando trabalhadores eventuais, de passagem, imobilizam a mais importante indústria do vale, quando apanhadores sazonais de fruta, chefiados e inspirados por agitadores estrangeiros pagos [isto é conosco, Jim], fomentam uma campanha de violência e fogo posto, trazendo a Rússia vermelha para a pacífica América, quando as estradas americanas deixam de oferecer segurança aos cidadãos americanos e quando as casas desses cidadãos ficam à mercê de incendiários, quando tal acontece, julgamos que chegou o momento de agir. Este condado vela pelos seus próprios cidadãos, mas estes grevistas não são de cá. Ignoram as leis e destroem a vida e a propriedade. Estão a viver à tripa forra, abastecidos por simpatizantes secretos. Este jornal não acredita nem nunca acreditou na violência, mas acredita que quando a lei não é suficiente para se avir com estes descontentes e assassinos, os cidadãos indignados devem intervir. O incendiário não merece compaixão. Temos de expulsar esses agitadores pagos. Este jornal recomenda aos cidadãos que investiguem as fontes que têm abastecido tão prodigamente estes homens. Fomos informados de que ontem foram abatidos no seu acampamento três excelentes novilhos.”

Mac atirou o jornal ao chão. — Esta última insinuação significa que esta noite uma corja de americanos de sala de bilhar começará a atirar pedras às janelas de pobres diabos que disseram desejar que os tempos melhorassem.

— Jesus, Mac. — exclamou Jim, e começou a levantar-se — Temos de arcar com todas as culpas?

— Com todas, todinhas?

— E aquele tipo que dizem ter sido asasinado?

— Bem, foi o Sam. Apanharam-no e ele teve de fugir. O tipo tinha uma arma! e o Sam tinha os pés...

Jim voltou a deixar-se cair na cama. — Sim, eu vi-o usar os pés, outro dia. Mas as coisas parecem feias, muito feias.

— Sem dúvida. O editor soube escolher muito bem as palavras. «Agitadores estrangeiros pagos.» Eu, nascido em Mineápolis! Um avô meu combateu na batalha de Bull Run. Por sinal sempre disse pensar que ia para uma tourada, em vez de para uma batalha, até começarem a disparar contra ele. E tu és quase tão estrangeiro como a administração Hoover. Com mil raios, Jim, é sempre assim! Mas... — tirou a bolsa com o resto do tabaco — o cerco está a fechar-se. O Sam não devia ter incendiado a casa.

— Disseste-lhe que seguisse para a frente.

— Bem sei. Estava furioso, por causa do celeiro.

— E que fazemos agora?

— Continuamos para a frente. Vamos começar por utilizar as carripanas contra os furas. Aguentamos enquanto pudermos lutar e depois piramo-nos... se pudermos. Tens medo, Jim?

— N-não.

— O cerco está a fechar-se sobre nós. Jim, eu sinto-o. — levantou-se do caixote e foi sentar-se no colchão — Talvez seja por precisar de dormir. Ao regressar da cidade há pouco, até me parecia que estava um grupo de gajos à minha espera, na sombra, debaixo de cada árvore. Estava tão acagaçado que desataria a fugir se me aparecesse um rato pela frente.

— Estás cansado. — murmurou Jim — Talvez eu pudesse ser de alguma utilidade se não tivesse sido ferido. Assim, estou para aqui parado, a atrapalhar.

— Não estás nada, não digas asneiras. Todas as vezes que estou em baixo tu animas-me... e, meu filho, esta manhã tenho muita precisão de ser animado. Parece que as tripas se me transformaram em água! Beberia de bom grado um copo, se o arranjasse.

— Sentir-te-ás bem quando comeres qualquer coisa.

— Escrevi ao Harry Nilson a dizer-lhe que precisávamos absolutamente de ajuda e provisões. Mas receio que seja demasiado tarde. — olhou para Jim de modo estranho e acrescentou: — Escuta, encontrei o Dick. Presta bem atenção: Lembras-te da noite em que ele aqui esteve?

— Claro que lembro!

— E lembras-te quando viramos à esquerda, na ponte, e seguimos para o acampamento, na noite da nossa chegada?

— Lembro.

— Bem, presta atenção. Se houver sarilho e ficarmos separados um do outro, segue para essa ponte, passa-lhe por baixo do arco, do lado contrário à cidade, e encontrarás um monte de salgueiros mortos. Afasta-os, pois por baixo há uma caverna funda. Entra e tapa outra vez o buraco com os salgueiros. Podes penetrar cerca de quatro metros e meio. O Dick está a pôr lá cobertores e conservas. Se eles nos expulsarem, vai para lá e espera por mim dois ou três dias. Se não aparecer, ficas a saber que me aconteceu qualquer coisa e regressas. Viaja de noite, até saíres deste condado. Não têm contra nós nada que nos possa custar mais de seis meses, a não ser que arranjem uma acusação de assassínio, por causa daquele tipo da noite passada. No entanto, não creio que vão tão longe, pois a publicidade seria excessiva. O I. L. D. entraria em campo e poria a claro o disparo dos tiros contra o Joy, das janelas. Não te esqueces do que te disse, Jim? Vai para lá e espera dois ou três dias. Não creio que consigam descobrir-te nesse esconderijo.

— Que sabes tu, Mac? Estás a ocultar-me qualquer coisa.

— Não sei nada. Tenho apenas o pressentimento de que o cerco se está a fechar sobre nós... é só um pressentimento. Uma quantidade de tipos puseram-se na alheta, a noite passada, sobretudo homens com mulheres e filhos. O London é fixe, muito em breve será membro do Partido. Mas de momento eu não confiaria absolutamente nada no resto dos indivíduos. Absolutamente nada! Estão tão assustados e nervosos que seriam capazes de nos cravar eles próprios a faca nas costas.

— Tu também estás nervoso, Mac. Acalma-te. — Jim ajoelhou-se e começou a levantar-se devagarinho, com a cabeça inclinada, como se estivesse à escuta da dor.

Mac observou-o, assustado.

— Está ótimo. O ombro está um bocadinho pesado, mas eu sinto-me ótimo. Nem sequer estou estonteado. Hoje tenho de andar por aí um bocado.

— Precisavas do penso mudado.

— Pois precisava. É verdade, o doutor voltou?

— Não. Creio que o apanharam. Era um tipo tão decente.. .

— Era?

— Bem, espero que ainda seja. Talvez eles se tenham limitado a espancá-lo. Mas tantos homens nossos têm desaparecido, sem nunca mais voltarem a aparecer...

— És uma excelente influência!

— Bem sei, mas se não tivesse a certeza de que eras capaz de aguentar a verdade, ter-me-ia calado. Alivia-me desabafar.

— Apetece-me tanto uma caneca de café que até tenho vontade de chorar!

— Lembras-te da quantidade de café que nós costumávamos beber na cidade? Três canecas se nos apetecesse. Quanto nos apetecesse!

— É possível que o café te fizesse bem, mas acho melhor dominares-te. — observou Jim, severamente — Não tardas a ter pena de ti mesmo.

Mac contraiu os músculos do rosto. — Pronto rapaz, já estou bem. Queres sair? És capaz de andar?

— Claro que sou.

— Apaga o candeeiro e vamos buscar a nossa ração de carne e feijões.

Jim levantou a aba da tenda e o cinzento da alvorada entrou, como tinta diluída.

— Arejemos isto. — disse o rapaz, prendendo ambas as abas da tenda — Começa a ter um cheiro um bocado forte. Estamos todos a precisar de um banho.

— Verei se arranjo um balde de água morna e tomamos um banho de esponja depois de comermos.

O céu clareava. As árvores ainda se recortavam, negras, no oriente e distinguiam-se claramente uma colónia de corvos, que voavam para leste. A penumbra subsistia detrás das árvores e a terra estava negra, como se a luz tivesse de ser aspirada lentamente. Agora que podiam ver, os guardas tinham deixado de andar para trás e para diante. Estavam parados em grupos fatigados, de mãos nas algibeiras, golas levantadas e casacos todos abotoados. Falavam no tom monocórdico dos homens que só falam para não adormecerem.

Mac e Jim aproximaram-se de um grupo, ao dirigirem-se para os fog&oti