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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


BELEZA MANCHADA DE SANGUE / Ella Fields
BELEZA MANCHADA DE SANGUE / Ella Fields

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

Biblio VT

 

 

 

 

A brisa fresca beijou minhas bochechas e bagunçou meu cabelo, mas não fez nada para secar as lágrimas não derramadas de medo que brotaram nos meus olhos.
Brilhando fortemente, mas não suficientemente claro, a meia-lua zombou de mim de onde estava pousada no céu profundo e escuro. Até as estrelas tinham me abandonado, caminhei fora da vista no momento em que mergulhei na densa floresta.
Talvez isso fosse culpa minha por entrar na sombra das árvores. Mas gostaria de pensar que ao correr pela vida, a coisa óbvia a ser feita, seria se esconder à vista de todos. É melhor dificultar para eles, mesmo que isso seja mais difícil para mim ao mesmo tempo.
O óbvio.
Eu sufoquei um bufo molhado.
Quantas destas porra de coisas eram óbvias desde o primeiro dia? Desde o momento em que esse monstro entrou na minha vida?
Eu estava inconsciente. Estava muito confiante. Fui uma tola.
Eu estava apaixonada.
Bem, o amor não lhe faz bem quando seu coração, esse fodido traidor, estava batendo a uma velocidade ímpia, enquanto tentava fugir da morte certa ou pior.
A adrenalina aumentou meu pulso, fez meus pés se moverem mais rápidos e espalharam meus pensamentos mais amplamente.
Não se atreva a desistir de você agora, sua idiota. Você nos colocou nessa bagunça, e serei amaldiçoada se você desistir antes de vermos o sol nascer mais uma vez.
Tempo.
Eu não conseguia me lembrar de nada além da minha visita à mercearia local. Tudo se tornou um borrão, uma cacofonia de lembranças vagas. Pneus derrapando, gritos, grunhidos e xingamentos encheram o ar e depois... silêncio.
Nada além de mim e do som dos meus pés quebrando galhos e arrastando pedras, e minha respiração ofegante.
Então outro som.
Sua voz ecoou através das árvores como se ele tivesse todo o tempo do mundo. Como se ele estivesse andando languidamente, passeando preguiçosamente atrás de mim, indiferente ao fato de que eu poderia fugir. —Você pode muito bem parar, Jemima. Nós dois sabemos que é inútil.
Eu teria zombado se não tivesse coisas melhores para fazer.
Se eu não estivesse tão petrificada.
Muito ocupada lançando um olhar para a escuridão atrás de mim, tropecei em um tronco de árvore caído e oco.
Não, eu gritei para mim mesma. Não seria assim que terminaria.
Meu tornozelo se agitou em protesto quando me forcei a ficar de joelhos. O som de folhas e galhos mastigando meu cérebro em pânico, e meu estômago revirou.
Antes que pudesse ficar de pé, uma mão envolveu meu cotovelo, arrancando-me da terra úmida e com cheiro de mofo.
Eu agi por instinto, meu joelho subiu para sua virilha enquanto eu girava, então tropecei para longe quando a mão dele caiu solta.
Mais uma vez eu corri.
Eu corri, ignorando a dor no meu tornozelo, e o medo que me fez querer bater minha cabeça contra uma das árvores borradas para acordar desse pesadelo.
Eu corri da dor no meu coração.
Ignorei tudo e consegui sorrir quando vi os faróis de um carro solitário, atravessando a cortina de árvores e folhagens.
Eu poderia fazer isso. Poderia correr pela estrada até que alguém passasse. Não importa que era tarde e vivíamos à margem da sociedade, isso aconteceria eventualmente.
O ar me escapou com pressa. Um grito se rasgou dos meus pulmões, ecoando no silêncio, quando uma mordida afiada penetrou na minha pele.
—Porra. —eu choraminguei, diminuindo a velocidade e me aproximando para pegar o que parecia ser um dardo na parte de trás do meu braço. Com o coração trêmulo, cambaleei de volta para dentro de uma árvore, enquanto o calor se espalhava pela picada, e escorria em todos os membros do meu corpo.
Perdendo o controle das minhas pernas, caí na minha bunda. Duro. Ainda não consegui sentir. Não podia sentir nada enquanto olhava para o céu e procurava pela lua através das copas das árvores gigantes, por uma última fonte de luz.
Eu a encontrei, me agarrei a ela enquanto minha respiração diminuía e minha visão se desgastava.
—Eu lhe disse que era inútil.
A lua desapareceu, suas palavras calmas me seguindo no escuro.

 

 

 

 

Capítulo um

Oito meses atrás

Não pareceu certo que, mesmo com as caixas, cama, cômoda, unidade de entretenimento, TV, e um sofá velho, meu apartamento ainda parecesse nu.

Embora vinda de uma casa cheia até a borda, e ameaçando transbordar de lembranças, eu estava fadada a isso.

—Você tem certeza disso? —Meu pai perguntou, sua voz rouca enquanto empilhava uma grande caixa em cima da outra perto da porta. —Não é tarde demais para mudar de idéia e voltar para casa.

Tentador. Era tão tentador.

Minha empolgação desde que recebi o retorno de chamada para minha primeira posição de professora estava se desvanecendo rapidamente. Passar pela caça de apartamento no mês anterior e comprar as necessidades básicas ajudou a combater os nervos. Nervos que agora estavam enrolando garras afiadas no meu peito e ameaçando fazer minha voz tremer quando eu disse: —Está na hora, papai.

O nariz do papai amassou daquele jeito quando pensava que eu tinha dito algo ridículo.

—Além disso... —eu continuei enquanto passava pelo piso de madeira desgastado até a janela e abria as cortinas quadriculadas marcadas com poeira, —...poderia ser pior. Eu poderia ter sido aceita para os três empregos que solicitei fora do estado ou aquele último em Tennille, o que significaria uma viagem de três horas. —Eu lutei contra o desejo de espirrar enquanto minha mão mexia com a poeira, quando a deslizava pela janela pintada de branco. Virando-me para meu pai, limpei a palma da minha mão no meu jeans. —Ao contrário de vinte minutos. —Eu levantei uma sobrancelha.

Ele acenou com a mão, marchando para inspecionar o alarme de fumaça com seus olhos castanhos estreitados, muito parecidos com os meus. —Só estou dizendo que viver no mundo real é difícil, menina. Eu não julgaria se você mudasse de ideia.

Sorrindo, deixei-o em suas inspeções e fui pegar as últimas duas malas na escada que dava para a movimentada rua abaixo. O apartamento era plano aberto, mas felizmente, tinha um quarto. O fato de estar acima de uma farmácia 24 horas me fez parar, mas tentei olhar para o lado positivo. Fácil, acesso rápido, se eu precisar de algo para higiene pessoal e seria útil se eu ficasse doente, o que provavelmente estava acontecendo quando eu estava prestes a começar a ensinar alunos da primeira série.

Eu tentei não pensar sobre isso.

Positivos, precisava de todos os aspectos positivos, ou então as emoções que faziam minhas mãos suarem ao redor das alças da mala podiam apenas tirar o melhor de mim.

Eu estava perto de casa, me lembrei. Tão perto, realmente poderia estar lá em vinte minutos.

Nossa casa estava situada do outro lado do rio que dividia a cidade de concreto do subúrbio das árvores e da vida selvagem. Glenning era uma pequena área rural muitas vezes ignorada devido ao seu tamanho e estradas de terra, mas possuía um enorme pedaço do meu coração. Que eu comecei a trabalhar e iniciar meu empreendimento em plena idade adulta ao alcance de casa era um sonho, na verdade.

Ugh. O jeito que eu estava ralando para encontrar razões para me tranquilizar.

Pensei que me formar na faculdade e conseguir um emprego no meu primeiro ano significava que amadureceria automaticamente para a mulher que eu me via em minha mente.

Forte, destemida, capaz.

Você é, eu tentei me lembrar. Você pode disparar uma arma, ordenhar uma vaca, ler cinco romances por semana, fazer malabarismos com um emprego de meio-período enquanto estuda, e fazer suas provas finais com uma hora de sono.

Tudo era verdade.

A confiança apagou o medo do lembrete e, com isso, aquela excitação familiar retornou.

Eu larguei as malas no meio do meu minúsculo apartamento e coloquei minhas mãos nos meus quadris enquanto soltava uma respiração enorme. Quem sabia o que essa aventura traria? O pensamento me emocionou tanto quanto me aterrorizou.

 

O sol brilhou a manhã toda, então vesti meu novo vestido de gaze creme.

Tinha babados transbordando no decote, parando sob meus seios. Elegante, discreto quando emparelhado com minhas favoritas sapatilhas pretas e profissionais.

Era a minha segunda semana trabalhando na Lilyglade Prep, que era um pouco mais estimado do que eu teria adivinhado antes do processo de entrevista. No entanto, estava grata por ter sido prevenida. Jeans, uma camiseta, cardigã bonito e minha boca grande não os convenceram.

Eles pagavam bem, então comprar um novo guarda-roupa não doía muito.

Meu novo vestido flutuou em meus joelhos quando saí da escada do meu apartamento e fui para a rua. Enquanto colocava minhas chaves e telefone na minha bolsa, alguém esbarrou em mim e resmunguei baixinho: —Rude.

A chuva começou a cair e amaldiçoei minha decisão de estacionar atrás do meu prédio em vez de esperar por um lugar vago na frente dele no dia anterior. Me virei, pensando em voltar correndo para pegar meu guarda-chuva.

Meu coração pulou e parei.

Não poderia ser...

Decidindo abandonar o guarda-chuva, olhei para frente novamente, afastando o absurdo. Mas outro olhar por cima do meu ombro quando eu estava prestes a virar a esquina no final da rua disse que minha primeira suposição errada estava correta.

Um louco sexy estava me perseguindo pela rua.

Claramente, esta vida longe de casa e me tornando uma coisa adulta completa, estava fora de um começo de clímax.

Ok, então ele não estava me perseguindo. Ele estava andando. Meio rápido. E definitivamente não era um louco, percebi quando ele gentilmente bateu no meu cotovelo fora da padaria para chamar minha atenção.

—Ei, você deixou cair isso. —Em sua mão enorme, estava meu telefone.

Hesitante e sem encontrar seu olhar, estendi a mão e peguei, colocando na minha bolsa. —Obrigada. Nem sabia que tinha caído.

Aquelas mãos grandes afundaram profundamente nos bolsos verdes de sua calça, e seu peito grande mal se moveu quando ele encolheu os ombros. —Sorte que eu vi então. Sou Miles.

—Ok, oi Miles.

—E seu nome?

—Hum —Os nervos tingiram minha risada, meus olhos se atrevendo a subir em seu peito até o rosto dele. —Jemima.

—Jemima. —ele repetiu, experimentando com um sorriso. —Bem, Jemima, me desculpe se assustei você. —Sua voz era profunda e tinha uma aspereza que parecia uma lixa roçando em meus braços.

—Tudo bem. E obrigada, —eu repeti, meus olhos presos no queixo dele. Um queixo coberto de barba espessa e escura. O restolho que salpicava seu queixo áspero e envolvia um conjunto de lábios rechonchudos e decadentes.

—Você já disse isso. —Ele riu e a campainha da porta da padaria soou, levando-o a agarrar meus ombros e gentilmente me mover para o lado para que alguém passasse.

Gotas de chuva salpicaram meu rosto e queixo, cortesia de ser movida sob uma abertura no toldo. Eu bati no meu rosto. —Desculpa. Acho difícil me comunicar como um ser humano inteligente antes do meu consumo matinal de cafeína. —Meus olhos se arregalaram depois daquele pequeno vômito verbal.

Deus, merda.

Ele riu alto, e coloquei um pouco de cabelo atrás da minha orelha quando finalmente encontrei seu olhar.

Olhos como mel olhavam para mim; um marrom dourado tão rico que quase brilhava. Cílios escuros que combinavam com seu cabelo escuro e rebelde se espalharam sobre eles quando piscou para mim, depois lambeu os lábios. —Bem, isso é meio estranho. Eu vou apenas...

—Não. —eu soltei, então me encolhi, querendo voltar para a padaria atrás de mim e desaparecer. —Eu deveria ir antes de me atrasar. —sorri e me mexi nos pés. —Novo emprego, não posso me atrasar.

Porra do inferno. Feche sua armadilha, mulher.

Quando por acaso dei outra espiada em seu rosto, seus olhos estavam sorrindo, seus dentes piscando. Ele era todo predador e eu me sentia como um ratinho tímido. —Parabéns. E espero que você não se importe, mas eu, bem... —Ele esfregou atrás da cabeça, parecendo inseguro de repente, o que eu já sabia que era uma raridade para um homem. —Eu meio que, talvez, me liguei do seu telefone.

—Mais ou menos, talvez? —A respiração se alojou na minha garganta quando voltei para a parede de tijolos.

Ele assentiu, os lábios apertando.

Meu estômago encheu-se de palpitações. —Por quê?

Outro sorriso devastador. —Porque você e eu, estaremos jantando.

Eu observei quando seus olhos caíram para o meu peito, depois, percebendo que meu lindo vestido ficava transparente quando molhado, entrei em uma teia de alegria confusa quando ele se virou e voltou pelo caminho que tinha vindo.

Eu não era aquela garota. Aquela que achava que ela não era boa o suficiente e atormentada por inseguranças. Mas esse cara, Miles, ele tinha que ter trinta anos. Finalmente. Ele segurava um ar de maturidade salpicado de travessuras enquanto eu apenas começava a pagar meus empréstimos estudantis.

E não havia como eu não ir jantar com ele.


Capítulo dois

Sete meses atrás

Relâmpagos riscaram o céu, e trovões nos fez ambos pular e rir nos assentos da caminhonete de Miles quando nós empurramos o último dos nossos cheeseburgers em nossas bocas.

Nós tínhamos o hábito de frequentar o McDonalds para a maioria de nossos encontros, mesmo que isso significasse ficar sentados sob um céu escuro e tempestuoso enquanto a chuva batia no teto da caminhonete e descia em cascata pelo para-brisa em pequenos rios ruidosos.

Se alguém tivesse me dito que eu, uma garota de cidade pequena com sonhos de tamanho médio, estaria sentada na caminhonete de um cara estranho três vezes por semana, um cara que fosse pelo menos dez anos mais velho que eu, teria rido e dito que eu sabia melhor do que isso.

Mas ele não era um estranho ou apenas um cara. Conversar com Miles, mesmo sentada com Miles, era como estar com um amigo que você conhecera a vida toda, mas que estava separada há anos. E agora, estávamos simplesmente nos aproximando.

—A primeira vez foi em um banco do parque.

—Muito impaciente para encontrar uma cama? —Eu cutuquei.

Seu lábio superior se inclinou e eu queria mordê-lo. —Mais como se não houvesse lugares melhores. Eu tinha dezesseis anos e ela também. Ele fez uma pausa, seu olhar se movendo fora da janela da caminhonete por um instante. —Não podíamos fazer exatamente sob o nariz dos nossos pais. Eles não eram do tipo que nos deixavam escapar disso. Então, foi no banco do parque.

Eu ri, balançando a cabeça.

—O que? —Ele perguntou, estendendo a mão para cutucar minha bochecha. —Nunca foi tão aventureira?

Tomei um gole de refrigerante e enfiei a xícara de volta no porta-copos. —Não, só camas.

Miles ficou quieto enquanto seus olhos se arrastavam pelo meu rosto. —Quantas vezes?

Chocada com sua franqueza, eu ri novamente. —Bem, muitas. Principalmente com o meu namorado do ensino médio.

Suas sobrancelhas franziram. —Você ainda fala com ele? O que aconteceu?

—Ele foi para a faculdade fora do estado, e nós finalmente terminamos quando percebemos que não iria dar certo.

Miles forçou um beicinho, e estendi a mão para bater em seu braço, mas apenas me machuquei. – Ouch. —Esfreguei meus dedos e ele os pegou e os beijou. —Você está comendo cimento no café da manhã?

Sua risada saltou acentuada e repentina, enchendo a caminhonete com seu volume áspero e alto. Ele deu uma risada legal; o tipo que dizia que ele fazia isso com frequência e sem restrições.

Retornando meus dedos, terminei de responder sua pergunta: —Não conversamos mais. Eu tinha outro namorado na faculdade, mas durou apenas alguns meses. É isso aí.

Miles assentiu. —Então você sempre quis ensinar?

—Isso ou possuir minha própria livraria.

Seus lábios se curvaram, seu dedo esfregando sua testa. —Posso ver isso.

—Um dia talvez. E você? Você sempre quis cortar a grama das pessoas? —Eu balancei minhas sobrancelhas.

Ele riu. —Isso não é tudo que eu faço, você sabe. —No meu encolher de ombros, ele continuou: —Na verdade... quando eu era criança, queria ser policial.

—Sim? —Eu disse, incapaz de ver isso com o gigante descontraído e tatuado sentado ao meu lado. —O que impediu você?

O telefone dele tocou e ele tirou o aparelho do console central para inspecionar a tela, depois desligou.

—Você pode atende-lo. —Fiz um gesto para o telefone que ele enfiou na porta do lado do motorista.

—Isto pode esperar. Trabalhos. —Ele virou-se totalmente para me encarar. —Onde nós estávamos?

—Policial? —perguntei.

Sua boca torceu, então ele me puxou para sentar-me montado nele e segurou meu rosto. —Eu estava com muito trabalho para seguir esse caminho.

—Eu não sei se acredito em você. —respirei.

—Acredite, baby. —ele sussurrou, seus lábios encontrando os meus.

 


Seis meses atrás.

—Você gostou dos Ursinhos Carinhosos? —Miles bufou, colocando o ursinho brilho de sol de volta em sua casa em cima da minha penteadeira. —Por que não estou surpreso e meio que excitado?

—Porque você é uma aberração. —eu disse, rindo e me recusando a sentir vergonha da minha incapacidade de abandonar um pouco da minha infância.

Ele fez beicinho brincalhão, passando por mais dos meus pertences na cômoda.

—Brincando. E me dê um tempo. Além da faculdade, esta é a primeira vez que moro longe de casa.

—Você não frequentou a faculdade em Riverstone?

Tentei me lembrar de quando lhe disse isso, presumindo que fosse provavelmente durante um dos nossos muitos encontros ou por telefone. Nós ainda estávamos nessa fase doentia de falar quase todas as noites até estarmos prontos para desmaiar. —Eu fiz, sim. —Meu livro fechou com um baque e coloquei na minha mesa de cabeceira. —Mas ainda assim, fiquei nos dormitórios por um tempo.

—Um tempo? —ele questionou.

—OK. —Eu caí de volta na minha cama, sorrindo para o teto branco. —Eu durei um semestre.

A risada de Miles ricocheteou nas paredes do meu quarto e provavelmente poderia ser ouvida na rua.

Sua camisa Henley vermelha cobria seus braços com tinta, os músculos das costas se flexionavam quando ele alcançou uma estante de livros e arrancou um deles. —Chapeuzinho Vermelho, —ele leu em voz alta.

—Um favorito.

Ele torceu o nariz para ele, então cuidadosamente empurrou de volta em seu lugar. —Não está preocupada em ser um pouco velha para contos de fadas? —Ele fez uma pausa, observando o Ursinho Carinhoso e depois os velhos bonecos que eu tinha sentado em uma poltrona perto da janela. —E brinquedos?

Um ferrão sacudiu meu coração, mas o mascarei com um sorriso. —Não estou preocupada em tudo.

Voltando meu olhar para o teto, ouvi algo bater suavemente no chão, e então ele estava rastejando sobre mim. Sem camisa. —Eu sou um idiota. —disse ele, flexionando os braços enquanto descansava em seus antebraços ao lado da minha cabeça.

Eu dei a ele meus olhos e assenti. —Um pouco, mas já ouvi isso antes da minha irmã.

—Isso é diferente. —Sua cabeça abaixou, lábios sussurrando sobre a minha bochecha. —Você não deveria ter que ouvir isso de mim, alguém que te ama de uma maneira muito diferente da sua família.

Minha respiração congelou na minha garganta, meus pulmões e olhos inchados. —Então você me ama, não é? —Tentei dizer isso de forma zombeteira, como se isso não significasse nada.

Isso significava tudo.

—Eu tentei pará-lo. —disse ele, sua testa chegando a descansar na minha, o cheiro de goma de cereja acariciando meus lábios de sua respiração. —Mas aconteceu de qualquer maneira.

Nós estávamos namorando há alguns meses. E embora parecesse um tempo relativamente curto, especialmente quando se tratava de deixar cair a palavra com A, não se sentia apressado. Parecia uma progressão natural. Eu esperaria Miles na minha vida do jeito que se esperava que o sol se levantasse. Todo dia.

—Por que você tentaria pará-lo? —Perguntei, sem saber por quê. Talvez estivesse empolgada. Talvez estivesse curiosa demais.

Um sopro de ar quente atingiu meu pescoço quando ele abaixou a cabeça, usando o nariz para empurrar meu queixo para cima e permitir-lhe um melhor acesso à coluna da minha garganta.

Eu gemi, minhas coxas apertando, quando ele disse: —Porque você é boa demais para algum bastardo como eu. Mas quero você de todas as maneiras que posso ter você, e não sou bom em ficar longe do que eu quero. O que preciso.

Minhas pernas levantaram, dedos empurrando sua calça jeans. Logo, nossas roupas estavam em uma pilha no chão, e ele estava arrastando seus lábios sobre meus mamilos apertados, suas grandes palmas engolindo meus seios.

Quando ele chegou ao ápice das minhas coxas, sua boca e nariz estavam em mim, inalando profundamente. A pressa de sua expiração fez minhas coxas tremerem e se abrirem mais quando ele começou um ataque brutal com a língua. Eu estava instantaneamente subindo alto, minhas mãos agarrando os fios castanhos de seu cabelo enquanto sua língua cavava na minha abertura.

—Miles. —eu ofeguei.

Ele se sentou e se inclinou sobre a cama, agarrando sua calça jeans e depois desembrulhando uma camisinha.

A luz atrás do pé de damasco estava desaparecendo rapidamente do lado de fora da janela do meu quarto, fazendo sua pele bronzeada e pintada em meia sombra. Ele parecia uma má notícia, e quando meus olhos alcançaram seu pau inchado, ele parecia que ele iria me dividir em duas.

No entanto, agarrei minhas pernas ao redor de sua cintura, impaciente para me empalar de qualquer maneira.

—Porra. —ele expeliu quando a cabeça violou a minha abertura, e meus quadris rolaram, desesperados para puxá-lo para mais perto, para me conectar, para me encher.

—Por favor. —eu disse, minha voz irreconhecível. Já estava sem fôlego. Eu gostava de sexo, claro, mas nunca senti essa luxúria ardente de tê-lo. Esse sentimento me consumia toda vez que nos aproximávamos, e agora que estávamos finalmente fazendo isso, era estonteante o quanto eu precisava entrar em combustão.

Suas narinas chamejaram quando ele firmou seu peso sobre mim com um braço enquanto o outro agarrou o lado do meu rosto. Meus lábios pegaram os dele assim que sua cabeça desceu, e então ele empurrou para frente, engolindo meu grito distorcido em sua boca com um gemido.

Ele me fodeu devagar, seus quadris balançando como se ele pudesse fazer isso por dias, mas logo aprendi que seu controle só se estendia até agora. Em poucos minutos, o som da nossa reunião de corpos ecoou pela sala, acompanhado pelo som da minha respiração ofegante.

Seu nariz descansou no meu, seus olhos se fecharam enquanto ele sussurrava: —Goze. Puta merda, por favor, goze.

Levou um minuto dos meus quadris encontrando os dele para procurar aquele atrito perfeito. Eu só precisava de um pouco e depois minha cabeça caiu para trás. Minhas coxas se agarraram um torno dele que tornou mais difícil para manter o ritmo que ele parecia frenético em manter.

Uma maldição estrangulada se filtrou em meu cérebro nebuloso, e então minhas coxas se abriram. Miles levantou-se sobre as ancas, usando o meu corpo para se liberar com um aperto contundente nos meus quadris.

Eu assisti em fascinação extasiada quando ele gozou, sua cabeça inclinada em direção ao teto, olhos meio abertos, e cada músculo se agarrando. Sua garganta amarrada balançou quando ele engoliu, e lentamente, soltou o aperto duro em meus quadris.

Com minhas coxas repousando sobre ele e minha bunda até seus joelhos, escutei sua respiração pesada enquanto minha própria frequência cardíaca diminuía.

Seus olhos bateram nos meus o que pareceu um minuto inteiro depois, e eu sorri, imaginando que pensamentos estavam rodando naquelas profundezas marrons. —Você é uma visão e tanto.

Ele riu, me abaixando para a cama e se movendo para sentar ao lado dela, seus dedos correndo pelos fios bagunçados de seu cabelo. —Eu poderia definitivamente dizer a mesma coisa sobre você. —Sua voz estava tensa como se ele tivesse exercido muita energia há poucos minutos. Peguei o cobertor do final da minha cama e puxei-o sobre o meu corpo rapidamente refrescante enquanto ele se livrava do preservativo no meu banheiro.

Miles voltou vestindo sua cueca e se inclinou para pegar sua calça jeans. —Eu machuquei você?

Eu cantarolei. —Não.

Ele inspecionou seu telefone, franzindo a testa enquanto olhava para a janela por um minuto, depois o colocou no bolso após colocar seu jeans.

—Você está indo? —Eu me sentei, o cobertor caindo ao redor do meu estômago.

Ele balançou a cabeça, andando até mim depois de puxar a camisa de volta. —Desculpe, alguém precisa de mim para organizar um trabalho. Pensei que poderia fazer isso amanhã, mas aparentemente eles estão esperando que eu comece amanhã. —Ele revirou os olhos, algo que raramente fazia, o que me fez rir. – Vou te ver amanhã à noite?

Embora meu coração quisesse protestar, eu assenti. —Certo.

Ele me beijou, leve e rápido, depois se endireitou e caminhou para a porta.

—Espere, —eu disse, envolvendo o cobertor em volta de mim e quase tropeçando nele enquanto corria atrás dele até a porta da frente do meu apartamento meio vazio. Eu agarrei sua mão, em seguida, peguei o lado do seu rosto, subindo na ponta dos pés para sussurrar contra seus lábios. —Esqueci de dizer que também te amo.

Seus olhos se fecharam brevemente, e uma respiração irregular cobriu meus lábios antes que ele me beijasse. Nossas línguas se encontraram e o cobertor caiu, seu corpo fundindo o meu com a parede ao lado da porta.

—E sobre o trabalho? —Eu disse entre respirações.

—Foda-se o trabalho. – Se curvando, ele agarrou minhas coxas e envolveu minhas pernas ao seu redor, então me levou de volta para o meu quarto.

 

 

 


Capítulo três

Quatro meses atrás

—Mantenha eles fechados.

—Por quê? —Eu choraminguei. —Isso não é tão divertido quanto parece nos filmes. Vou encarar a planta ou algo assim.

Uma gargalhada provocou cada um dos meus sentidos disponíveis. —Onde está a confiança, Jem-Jem?

—Na sua bunda, cortesia do meu pé se eu me machucar.

Ele parou, virando-me para o lado e levantou a venda. —É assim que você fala com o seu noivo? —Ele caiu de joelhos em uma calçada pavimentada.

Meu suspiro sacudiu meus pulmões e olhei para trás, para o lar vermelho e creme. Pitoresco, novo e cercado por pequenas sebes.

—Miles...?

—Aqui embaixo. —Ele riu.

—Merda. —Eu exalei, voltando minha atenção para ele e para o anel que brilhava ao sol da tarde. —Você está...? —Eu engoli as lágrimas invadindo minha garganta. —Você quer se casar comigo?

—Não é uma pergunta. —ele disse, a voz calma, mas resoluta. —Eu vou me casar com você. Você vai ser a Sra. Fletcher.

Eu funguei, minha cabeça balançando incontrolavelmente. —OK. —Eu balancei a cabeça novamente. —Oh, meu deus, tudo bem.

Miles riu, sacudindo a cabeça. —Isso não está indo como eu planejei. Mas Jem, eu te amo. Quero você comigo o tempo todo. Naquela casa atrás de mim, na minha cama ao meu lado, e se você concordar em receber este anel, prometo que vou apreciá-la pelo presente inesperado que você é.

Eu estava completamente chorando por aquele estágio, incapaz de ver seu rosto ou qualquer coisa ao meu redor através do borrão de lágrimas. —Pare com isso. —eu disse, fungando e esfregando as mãos sobre minhas bochechas molhadas. —Eu disse tudo bem.

Ele me puxou para o seu colo, onde eu o montei no meio da entrada de automóveis no meio da tarde e deixei-o deslizar o anel de diamantes brilhante no meu dedo.

—Desculpe. —eu disse uma vez que finalmente me acalmei um pouco. —Eu meio que tive uma explosão de emoção.

—Se você não tivesse, eu teria imaginado quem estava pedindo para ser minha esposa. —Alguma emoção sem nome percorreu seu rosto enquanto eu sorria para ele. Ele beijou o anel no meu dedo, em seguida, levantou a camiseta para limpar minhas bochechas com ela. —Eu tenho você, Jem-Jem. Eu juro.

 


—Pai, você poderia, por favor, apenas dar uma chance a ele? —Eu sussurrei na cozinha.

A mesma que eu costumava usar em minhas meias todo inverno quando o chão estava frio e escorregadio.

Ele suspirou, pegando a toalha de mim e pendurando-a. —Ele não pediu minha permissão.

Eu gemi. —Nós não vivemos mais nesse tipo de mundo.

Ele apunhalou o dedo para mim depois de abrir a aba da lata de cerveja. —Exatamente. E estamos todos condenados por causa disso.

Eu cruzei meus braços, encostando-me no balcão da cozinha com uma sobrancelha levantada.

Papai suspirou. —Jesus Cristo. Vou tentar, ok? —Ele olhou pela pequena janela da cozinha, aquela que dava vista para a sala de jantar e sala de estar depois, e nem tentou abaixar a voz. —Eu não confio nele.

Essa não foi a primeira vez que ouvi isso. Miles conheceu meu pai brevemente quando o convidamos para almoçar um pouco depois de começarmos a namorar, e Miles foi chamado para o trabalho na metade do caminho.

—Um homem que dá a mínima coloca as necessidades da mulher em primeiro lugar. Sempre —ele disse depois que Miles se desculpou antes de sair pela porta do café.

Ele tinha uma maneira antiquada de olhar para as coisas. Sempre teve. Nunca gostou do meu namorado do ensino médio, e ele nem sabia sobre o que eu tinha na faculdade, mas não tinha nenhum problema com o marido de Hope, Jace, ou os muitos namorados que ela teve antes dele.

Hope disse que era porque eu era o bebê, o que achei ridículo. Eu poderia ter sido uma sonhadora, mas sempre fui muito mais responsável do que minha irmã mais velha.

Sendo que ela era quatro anos mais velha do que eu, minha adolescência estava cheia de lembranças dela se esgueirando, voltando para casa e abandonando a escola para passear no parque de skate local nos arredores da cidade. Meio idiota, se você me perguntasse, já que papai era o xerife de Lilyglade na época, e a notícia sempre voltava para ele.

Ele havia se aposentado há dois anos para se concentrar na pequena fazenda que tínhamos. Mantê-la tornou-se um trabalho de tempo integral quando ele deixou de lado a ajuda que tinha enquanto trabalhava.

Eu pensei que iria mantê-lo ocupado o suficiente para que ele não ficasse mais cínico, mas eu deveria saber.

—Tudo certo? —perguntou Miles, entrando na cozinha com alguns pratos vazios.

—Tudo bem. —eu disse, tirando-os dele com um sorriso.

Ele se inclinou para beijar minha testa, inalando uma respiração profunda e sussurrando em uma expiração tão baixa que quase não a peguei. —Ele virá em seu próprio tempo.

Meu pai observou Miles sair da cozinha com uma torção nos lábios. —Olha, Jemmie. —Ele tomou um grande gole de sua cerveja, depois olhou para mim. —Vou esperar que esse merda exploda e estarei aqui quando acontecer. Mas, enquanto isso, ele não está tomando nada da minha porra de cerveja.

Ele saiu da cozinha, resmungando algo que soava como: —É ruim o bastante ele comer minha maldita comida.

Capítulo quatro

Três meses atrás

Eu inspecionei o preço na tábua de madeira. —Santa foda.

Miles riu. – Shhh —Ele olhou ao redor, então pegou a placa e a colocou no chão. —Não é o melhor lugar para pessoas com bocas sujas.

Eu fiz uma careta para ele, e ele passou um braço em volta de mim e nos manteve em movimento. —Você é muito pior do que eu.

—É verdade, mas eu não tenho um emprego onde preciso diminuir o tom. Você deveria saber —brincou ele.

Eu inalei o aroma fresco e limpo de sua colônia, em seguida, dei um beijo em sua mandíbula quando paramos em uma seleção de mesas de jantar. —Agora eu estou com fome.

Suas mãos pousaram nos meus quadris, apertando. —Garota safada, não aqui.

Eu me afastei, batendo levemente no peito dele. – Por comida de verdade, espertinho.

Uma mulher mais velha a poucos metros de distância, usando o cabelo em um coque apertado, franziu a testa para mim antes de sair correndo. Dei de ombros, arrancando uma cadeira de jantar branca e me sentei.

A madeira da mesa combinava com as cadeiras, a superfície lisa sob as palmas das mãos enquanto eu passava sobre a pintura. Meu anel roubou minha atenção, algo que acontecia com frequência nas semanas desde que Miles o colocou no meu dedo. Eu sonhava em felizes para sempre desde que era uma garotinha, usando livros como uma muleta para animar minha alma triste depois que minha mãe morreu.

Funcionou, tanto que o amor e o jeito que eu dependia deles nunca foram embora.

Se tivesse imaginado uma proposta mais elaborada do que a que recebi, não conseguia me lembrar. Foi encontrar o amor e estar apaixonada que realizou o meu completo e absoluto fascínio quando pensava em finais felizes. Não os gestos ostensivos.

—Eu tenho que dizer, amo o quanto você olha para isso.

Meus lábios se estreitaram enquanto tentava segurar um sorriso, depois me levantei da mesa de jantar. —É muito grande.

—O anel? —ele perguntou, sua voz alta de choque.

Eu ri. —Não, isso é perfeito. Eu quis dizer a mesa. —Um olhar para o preço ligado a ela me fez acrescentar: —E muito caro.

Miles pegou minha mão depois que enfiei a cadeira embaixo da mesa, me direcionando para uma menor que acomodava quatro pessoas, mas estendia para acomodar seis pessoas.

—Vamos precisar disso para os visitantes. —Meus ombros caíram um pouco. —Não que tenhamos muitos.

Miles me puxou debaixo do queixo, depois suspirou quando enfiou as mãos nos bolsos da calça jeans e olhou ao redor da loja quase vazia. —Vamos convidar seu pai e irmã.

Ele disse isso tão casualmente como se não se importasse nem um pouco que meu pai o odiasse e que minha irmã ainda não o conhecesse.

—Quando vou conhecer seus pais? —Perguntei novamente. Ele raramente falava deles a menos que solicitado, e quando fez, sempre foi os fatos básicos. Eles moravam em uma pequena cidade duas horas ao norte. Seu pai era carpinteiro e sua mãe administrava a biblioteca local. Para esse fato, eu realmente queria conhecê-la, certa de que teríamos algo em comum.

Os ombros de Miles ficaram tensos, seus olhos se movendo para a mesa de jantar escura de carvalho. —Logo, espero. Eu deveria ligar para eles. —Ele assentiu como se estivesse fazendo uma anotação mental para fazer isso. —Faz algum tempo.

Cantarolando, escovei a mão sobre a madeira, imaginando um almoço fofo espalhado em cima, sorrisos e risos daqueles se ajudando. —Sua mãe gosta de cozinhar?

—Um sim. Eu acho. —Ele balançou a cabeça, alguns dos cabelos caindo na testa antes de empurrá-lo de volta. —Ela gosta de ler e ouvir meu pai em sua oficina.

Isso me fez sorrir. —Eu não posso esperar para conhecê-la.

Um braço tatuado deslizou ao redor dos meus ombros, me puxando contra seu corpo duro. —Ela vai amar você. —ele murmurou para o topo do meu cabelo.

Uma vendedora se aproximou perguntando se precisávamos de alguma ajuda. Eu estava prestes a sacudir a cabeça e dizer não, obrigada quando Miles me parou. —Este. Nós vamos levar isso.


Capítulo cinco

Dias de hoje

—Sua bunda é minha esta noite.

—Uh-huh. Ei, me passe minha escova, você iria?

Miles bufou, mas fez o que pedi, observando enquanto eu passava a escova pelo meu cabelo castanho escuro. Ele estava vestindo seu short de ginástica e uma camiseta branca que envolvia confortavelmente seu peito enorme.

Eu amava o jeito que me sentia minúscula ao lado dele, mesmo que não fosse minúscula. Algo sobre isso fez arrepios na minha pele e fez meu coração inchar com antecipação.

Seu cabelo castanho ondulado estava úmido, e o assisti passar uma mão coberta de tatuagem através dele enquanto aplicava um gloss nude aos meus lábios.

—Pare com isso. —eu disse, colocando o meu gloss longe e batendo meus lábios enquanto inspecionava o resto do meu rosto.

—Parar o que? —Seu peito encontrou minhas costas, braços grossos em volta do meu corpo enquanto eu tentava sair do banheiro.

—Eu vou me atrasar, —lamentei quando ele empurrou meu cabelo, para os lábios dele deslizarem sobre a pele sensível abaixo do meu lóbulo da orelha.

—Viva um pouco, baby.

Eu revirei meus olhos. —Estou tentando, mas viver exige trabalhar para pagar a vida. Necessidades e tudo.

Ele riu, inclinando meu queixo para olhar nos meus olhos. —Foda-se o trabalho. Nós poderíamos viver fora da grade, ou, ei, tenho um pouco de poupança sobrando. Vamos tirar um ano de folga e viajar. Viver como nômades.

—Tentador.

—Sim? —Sua voz baixou quando seus lábios, pairaram sobre os meus. —As únicas necessidades com as quais teríamos que nos preocupar seriam a necessidade primordial de foder... —Seus lábios pressionaram os meus. – ...O dia todo... —Outro beijo. —...A Cada... —E um último demorado. —...Dia.

Segundos depois, ele colocou um preservativo e eu estava contra a parede. Meu vestido estava em volta da minha cintura, um dos meus sapatos chutado no chão de azulejos quando ele empurrou minha calcinha para o lado e invadiu. Uma polegada gloriosa de cada vez.

—Oh Deus. —eu assobiei através dos meus dentes.

As mãos de Miles se apertaram em volta das minhas coxas, as pontas dos dedos se contorcendo. —É isso aí, baby. Pegue meu pau.

Sua respiração se espalhou quente sobre a minha boca quando ele bateu em mim. Devagar a princípio, depois desenfreado quando ele ouviu aqueles gritos reveladores choramingando pelos meus lábios.

—Eu estou...

—Foda-se sim, você está.

Eu deixei ir, minha cabeça rolando na parede enquanto seus dentes arrastavam do meu queixo para o meu pescoço, parando no meu pulso. —Eu quero outro antes de explodir.

—Não. —eu resmunguei, incapaz de controlar minha voz ou minha respiração enquanto ondas de felicidade me agrediam. —Não mais. —Eu ficaria uma bagunça todo o dia.

Ele resmungou o que soou como —Tudo bem. —então foi profundamente, triturando enquanto trabalhava dentro e fora de mim. —Droga, nada nunca se sentiu tão bem.

Eu sorri, estrelas piscando na minha visão embaçada. Hipnotizada, observei o pomo de Adão dele se curvar à medida que ele se aproximava. Eu ainda me beliscava às vezes, maravilhada pelo fato daquele homem robusto, quente e gigante me querer. Que poderia fazê-lo amaldiçoar como um marinheiro bêbado quando ele gozava, agarrando-se a mim pela sua vida.

Sua testa caiu contra a parede ao lado da minha cabeça, e escutei quando sua respiração áspera começou a diminuir.

—Eu amo você, Jem. —Sua cabeça caiu para beijar a pele entre meu ombro e pescoço. —Tão fodidamente muito.

Ele me abaixou no chão, e fiz uma careta quando recuou enquanto eu colocava meu sapato de volta. —Então, por que ainda estamos usando preservativos? —Afofei meu cabelo enquanto ele amarrava o preservativo e o jogava na pequena lata de lixo ao lado da penteadeira. —Você sabe que estou tomando a pílula agora.

Ele ficou tenso, em seguida, levantou as mãos para passá-las pelo cabelo despenteado antes de encontrar meus olhos com os olhos tempestuosos. Um sorriso foi rápido para fazê-los brilhar.

Irritada com a facilidade que ele podia livrar minhas preocupações com apenas um olhar fodido, endireitei minha calcinha antes de inspecionar meu reflexo no espelho.

Sem tocar, ele se afundou atrás de mim. Podia senti-lo me estudando e amaldiçoei meus membros liquefeitos por estar relaxada demais para ir embora.

—Eu nunca fiz sem antes. —ele finalmente disse.

—Nunca? —Perguntei, levantando os olhos para encontrá-lo no espelho.

Suas mãos pousaram nos meus quadris, depois endireitaram meu vestido. —Jamais.

Sabendo que o meu olhar estava pensativo, abaixei meus olhos para a pia, dando-lhe tempo para conjurar seus pensamentos em palavras.

—No colégio, houve essa festa selvagem no último ano. —Ele riu, sacudindo a cabeça. —Eu estava tão bêbado e bati essa garota. —Percebendo minha carranca, ele apertou meus quadris. —não me lembrava muito daquela noite ou de nenhuma das noites que passei bebendo na minha juventude. Mas alguns meses depois, a garota disse que estava grávida e que o bebê era meu.

Minha boca se abriu e me virei para olhar para ele. As questões navegando pela minha mente evidentes em meus olhos.

Ele passou um dedo pela ponte do meu nariz. —Eu não era o pai de seu bebê; algum outro idiota era. Mas acreditei por um mês e até fui para um maldito ultrassom com ela. Até que um de seus amigos acabou me contando a verdade.

—Merda, Miles.

Ele encolheu os ombros. —Acho que o cara que a engravidou era mais louco do que eu.

—Você não é um maluco.

Seus lábios se torceram. —Jem, eu cortei gramados para viver.

Eu ri com descrença. —Mas é da sua conta, e olhe ao redor... —Eu passei um braço ao redor do banheiro. —É permitido que você compre sua própria casa bonita.

Assentindo, ele pegou minha mão, colocando um beijo nela. —Nossa casa. De qualquer forma, quando a confrontei, ela disse que sentia muito e que se lembrava de ter usado camisinha. —Ele riu. —Não importa o quão chapado estivesse, sempre me lembrava do preservativo, e por isso fiquei chocado quando achei que tinha engravidado alguém.

—Preservativos falham.

—Eles fazem. —Ele encolheu os ombros. —Mas acho que sou um bastardo sortudo porque isso nunca aconteceu comigo.

—Eu te amo. —eu disse depois de um longo minuto passado. —Mas realmente preciso ir.

Depois de dar um beijo na minha testa, ele me soltou e saí do banheiro para pegar minha bolsa e as chaves.

Eu estava quase fora da porta da frente quando ele gritou: —Baby?

Eu me virei e ele sorriu quando se encostou na parede do outro lado do corredor. —Eu quero aquilo. Contigo. só preciso de tempo para... envolver minha cabeça em torno disso por um tempo.

Eu ri, acenando para ele antes de fechar a porta em seu rosto sorridente.

 


O Lilyglade Prep parecia um museu antigo.

Talvez tenha sido. Nunca me preocupei em pesquisar grande parte de sua história.

A longa estrutura ficava em quase dois hectares, a hera rastejando sobre o exterior de arenito descolorido e arrastando sob as janelas arqueadas. Os gramados e roseiras cuidados à perfeição, cortesia de Miles, que trabalhava lá duas manhãs por semana.

Estacionei no outro extremo do terreno reservado para professores e rapidamente abaixei meu visor para verificar minha aparência, esperando que não parecesse tão desgrenhada quanto me sentia.

Depois de alisar um pouco de cabelo, peguei minha bolsa e saí do meu Corolla.

O salão dos professores estava vazio, e coloquei minha bolsa longe, pegando o planejador que preparei para esta semana antes de correr pelo corredor e subir o primeiro lance de escadas de mármore para o segundo andar.

Tinha quinze minutos antes de começar a aula e usei-a para afiar lápis, fazer cópias do teste ortográfico de hoje e endireitar mesas e cadeiras. Tínhamos limpadores que apareciam duas vezes por semana, mas os pais ainda nos responsabilizavam por qualquer coisa que pudessem.

Não hoje, pensei, voltando ao salão dos professores para fazer uma xícara de chá quando o segundo sinal tocou, sinalizando para as crianças começarem a ir para as salas de aula.

Conseguimos ir almoçar antes que qualquer briga acontecesse, e Jerimiah, um menino com um sorriso que aqueceria os corações mais frios, foi o culpado mais uma vez.

—O que aconteceu? —Eu perguntei a Lou-Lou.

Ela fungou, com a coluna reta e ombros para trás, enquanto olhava para Jerimiah com claro desgosto. —Ele é um valentão; Foi o que aconteceu.

Lou-Lou não era muito tagarela e muitas vezes só brincava com Rosie. Mas quando ela se abriu, quase me surpreendeu com seu vocabulário e esse traço de importância para seus olhos inocentes. Eu não tinha certeza se ela era apenas mimada como muitas outras crianças nesta escola, ou se ela não era como eles em tudo.

O último me puxou.

—Ela disse que meu cabelo cheira a cachorro molhado. —Jerimiah estalou, apontando um dedo acusador para Lou-Lou.

Eu abaixei para o nível dos olhos deles, meu olhar vagando da calma e colecionada menina de seis anos para o rosto corado, inquieto, e quase chorando, de garota. – Lou-Lou, por que você disse isso?

Ela pareceu surpresa por um segundo antes de dizer: —Porque é verdade.

Eu tentei conter meu bufo, beliscando meus lábios juntos. Se eu tivesse um dólar para todas as vezes em que quisesse rir dos momentos errados desde que comecei este trabalho, teria dinheiro suficiente para comprar um carro melhor.

—OK. —Eu parei quando eles apenas me encararam. —Se não há mais nada a acrescentar, vamos ter que deixar um círculo vermelho no seu cartão de comportamento por dizer coisas más, Lou-Lou.

Seus olhos se arregalaram. —O que? —Ela balançou a cabeça, seus cachos dançando. —Mas ele está sempre dizendo coisas para mim. Por que não posso me defender?

Jerimiah franziu a testa e ficou ocupado olhando para a mesa ao lado da dele. —Jerimiah.

Ele olhou de volta para mim, encolhendo os ombros. —Eu não fiz nada, não desta vez.

—Você não fez nada. —eu corrigi. Com um suspiro, disse a eles para voltarem para seus lugares para terminar suas planilhas de matemática.

Quando a campainha de término tocou, fiz o meu melhor para impedi-los de sair correndo pela porta, mas acabei prendendo minhas costas no quadro, fazendo-me estremecer.

—Você está bem, senhorita Clayton? – Lou-Lou tinha parado do lado de fora da porta, suas bochechas rosadas comprimidas enquanto ela me estudava.

—Tudo bem. —eu disse a ela. —deveria se apressar. Você não quer perder o seu ônibus.

—Eu não pego o ônibus. —disse ela. —Meu pai me encontra na frente, mas eu esqueci meu cartão de comportamento.

Eu estremeci novamente por diferentes razões. Havia algo a ser dito sobre ser colocado em seu lugar por uma criança de seis anos de idade. —Certo, vou pegar.

Ela pegou de mim um minuto depois e depositou em sua bolsa enquanto eu observava e ponderava o que dizer. – Lou-Lou, me desculpe. Você sabe que temos tolerância zero...

Um barítono gentil, mas profundo, interrompeu. – Lou-Lou.

No tempo que eu estava ensinando na Lilyglade, nunca conheci o pai dela. Como alguns outros haviam feito, ele recusara a oportunidade de uma conferência de pais e professores antes do Natal. Eu não tinha pensado em nada disso, considerando o quanto Lou-Lou era brilhante.

No entanto, agora, olhando para o homem de terno que demorava a se aproximar enquanto tirava um chapéu fedora de sua cabeça, fiquei feliz por diferentes razões.

Fale sobre intimidação ambulante.

Ele se elevou mais de um metro e oitenta e seis centímetros. Magros e longos membros moviam-se como se ele tivesse a graça de um leopardo sob o luxuoso tecido que os envolvia. Cabelos tão escuros, faziam com que você olhasse diretamente para seus olhos cobalto na esperança de um alívio. Um alívio que roubou a respiração de meus pulmões e forçou-o de volta a traqueia com intensidade selvagem, pois eles eram o azul mais frios que já encontrei.

—Pronta? Você não saiu com o resto da sua turma.

—Eu esqueci alguma coisa. – Lou-Lou murmurou, o que fez com que tanto o pai quanto eu franzíssemos a testa, já que ela não era de quem quer que resmungasse.

Olhos frios dispararam para mim. —Entendo.

Meu sorriso vacilou com os nervos quando estendi a mão e ofereci minha mão. —Você deve ser o pai de Lou-Lou. Sou a senhorita Clayton, a professora dela.

—Eu sei. —disse ele, com os olhos firmes nos meus, sem piscar, antes de deixá-los cair na minha mão.

Quando tremeu, limpei a garganta e puxei a mão para trás. —Ok, bem, tenha uma boa tarde.

Um pouco abalada e ligeiramente envergonhada, não esperei que eles se afastassem antes de me retirar para a minha sala de aula.

 


Capítulo seis

—Agora, lembre-se, você não pega moscas com...

—Frascos de biscoito! —Os garotos gritaram e saíram pela porta.

Rindo, eu coloquei o livro que estávamos dissecando naquela semana no suporte e os assisti ir, enfiando as cadeiras e coletando suéteres assim que a porta se fechasse.

Eu estava curvada, pegando um lápis caído, quando uma batida aguda me fez endireitar tão rápido, senti algo estourar nas minhas costas. —Deus, preciso começar a malhar.

Emoldurados na pequena janela oblonga da porta, havia um ombro e um braço cobertos de preto e um perfil bronzeado. Minha frequência cardíaca parou momentaneamente.

O pai de Lou-Lou entrou assim que a porta se abriu, e ele a instruiu a esperar no corredor. Eu sorri para ela, esperando que isso aliviasse a preocupação estragando suas pequenas sobrancelhas, então fechei a porta.

—Sr. Verrone, como eu posso...

—É Dr. Verrone. E parece haver um problema com o cartão de comportamento de Lou.

Eu pisquei, então me lembrei de ontem. O incidente com Jerimiah. Juntei minhas mãos, endireitei meus ombros e calmamente expliquei o que tinha acontecido.

—A criança é um incômodo. —disse ele.

Por um momento, pensei que ele estava se referindo a sua filha, então percebi que não era assim. —Bem... —eu fiz um grasnido.

—Nenhuma falsa pretensão. Você sabe que estou certo. O observei entrar e sair dessa escola todas as manhãs e todas as tardes desde que Lou-Lou me contou sobre seu primeiro encontro com ele. Eu posso pegá-los quando os vejo.

Um pouco chocada, uma risada pequena e incrédula escorregou. —Ele não é tão ruim. —Ele poderia ser um problema, sim, mas mesmo assim, era um menino lindo. —Ele só precisa de orientação, não disciplina severa.

—Discordo.

Minhas sobrancelhas quase encontraram meu couro cabeludo.

Ele acenou com a mão com desdém, depois se encostou na minha mesa com um suspiro. —Mas eu suponho que é pedir muito das escolas hoje em dia.

—Hoje em dia? —questionei antes que pudesse pensar melhor.

Ele assentiu e percebi que ainda não sabia o nome dele. Tinha certeza que tinha visto em registros e poderia procurar, mas achei que seria melhor perguntar. —Sinto muito, não peguei seu nome.

—Isso é porque não dei a você. —Olhos azuis colidiram com os meus, fazendo algo deslizar pela minha espinha antes de se encaixar no lugar. Algo estava definitivamente errado com minhas costas. —É Thomas.

Hã. —Bem, vou ter a certeza de ficar de olho nas coisas com Jerimiah, como sempre, Thomas.

Ele não estava mais olhando para mim, bem, não exatamente. Seu olhar caiu para minhas sapatilhas de ballet de cor creme que tinham pequenos laços de cetim nos dedos dos pés. —Quantos anos você tem?

Eu tossi. —Desculpa, o que?

Seus lábios se curvaram, aqueles olhos brilhando enquanto viajavam sobre minhas pernas e pararam em meu peito. —Você me ouviu. —Aqueles olhos levantaram, azul cristalino agarrando o meu e recusando-se a deixá-los procurar em outro lugar. E eu realmente precisava procurar em outro lugar. Ele cantarolou. —Você está apenas chocada, mas tudo bem. Vou esperar.

Um estremecimento beliscou meu estômago enquanto ele mantinha meus olhos prisioneiros. —Uh... —Eu ri, minha cabeça tremendo quando finalmente desviei o olhar e fingi me perder em alguns lápis em uma jarra na estação de artesanato. —Eu não sei se isso é exatamente, hum, apropriado?

Uma pergunta? Mesmo? não pude nem mesmo reunir o aço para terminar uma frase corretamente.

Escuro e vibrante, o timbre de sua voz chegou aos meus ouvidos enquanto seu olhar queimava minhas costas. —Eu te deixo nervosa?

Eu zombei, virando e cruzando os braços sobre o peito. —Isso é meio... —joguei meus braços para fora, meu dedo gesticulando entre nós —...estranho. Sim, vamos começar de novo. Você é Thomas, o pai de Lou-Lou e...

—E você é Jemima, Little Dove1, sua professora da primeira série.

Piscando de novo, perguntei: —Como você sabe disso?

Um ombro inclinado, quase imperceptível, mas eu vi. —Você deve ter mencionado em torno de Lou-Lou.

—Certo.

O relógio atrás da cabeça dele tocou.

Uma vez, duas, três e depois quatro vezes.

—Você vai me dizer?

Eu fiz uma careta. Este tinha que ser o encontro mais estranho que já experimentei na minha vida. —Minha idade? —Eu chupei meu lábio em minha boca, ponderando o estranho pedido. —É por causa dos sapatos?

Encontrei seu olhar enquanto seus lábios se contraíam. —Um pequeno sim. Mas sou principalmente apenas curioso.

—Por quê?

Outro quase sorriso. —Por que de fato.

—Bem. Tenho vinte e três anos.

—Vinte e três.

—Vinte e três. —repeti lentamente e balancei de volta nos meus calcanhares.

Quando olhei para a porta, vi que Lou-Lou estava com a cabeça inclinada para a janela, com cachos marrons por cima do ombro. Corando em um sorriso, eu levantei um dedo, indicando que seria apenas um minuto, depois olhei para Thomas. —Então, não vou ser tratada com a mesma cortesia?

Seus olhos se arregalaram, então ele riu, um som tão áspero e abrasivo que ficou claro que não fazia isso com muita frequência. Seu polegar deslizou sobre o lábio inferior. —Isso não seria exatamente apropriado, agora, senhorita Clayton? —Uma pausa pesada encheu a sala enquanto ele se levantava e então ajustou sua jaqueta, os olhos perfurando os meus. —Até a próxima vez, Little Dove.

Do lado de fora, ele pegou a mão de Lou-Lou e ela me deu um pequeno aceno enquanto eles desapareciam no corredor.

O que em nome de estranho?

 


Miles entrou na porta logo depois das sete.

Eu assisti do meu poleiro no sofá onde estava pintando as unhas dos meus pés em um verde limão enquanto ele se abaixava com o filé e legumes que eu tinha preparado antes.

—Nem mesmo vai se sentar?

—Não posso falar. —ele murmurou em um bocado. —Demasiado com fome.

Eu bufei, meu sorriso suavizando enquanto eu observava sua aparência caótica. Sua camisa estava manchada de suor e seu cabelo úmido com o trabalho do dia, e eu não tinha dúvida de que a sujeira estava embaixo de suas unhas.

—Então, algo estranho aconteceu hoje. —Eu tampei o esmalte e mexi meus dedos dos pés.

—Sim? —Ele levantou o prato, lambendo, na verdade lambendo, o molho dele.

Eu ri, girando o anel no meu dedo distraidamente. —Você poderia parar e me ouvir?

—Ouvindo. —disse ele, movendo-se para enxaguar o prato.

Eu esperei até que ele enfiou na máquina de lavar louça e pegou uma garrafa de água da geladeira antes de dizer: —Eu conheci esse pai. Um dos meus filhos, Lou-Lou...

Miles sorriu e encostou-se à porta da sala de estar. —Eu amo quando você os chama de seus filhos.

—Eles passam muito tempo comigo, então eles não são apenas crianças. —eu defendi.

Ele acenou com a mão. —Eu sei, e amo você. —Olhos escuros se colaram aos meus enquanto ele esperava por essas palavras penetrarem e atingirem sua marca. Eles fizeram, cada e toda vez.

—Amo você também. —Suspirei, endireitando minhas pernas, meus dedos dos pés se contraíram em protesto sobre os azulejos frios. Ainda tínhamos que comprar alguns tapetes, assim como muitos outros itens, para a casa. —De qualquer forma, ele veio falar comigo sobre o cartão de comportamento de Lou-Lou, o que é compreensível, já que ela é perfeita.

—Ninguém é perfeito.

—Espere até você conhecer essa garota. —eu disse, incapaz de parar de sorrir quando conjurei o rosto doce de Lou-Lou para a frente da minha mente. —Estou dando o trabalho dela do segundo ano na maioria das semanas.

Miles se mexeu, os olhos atirando no chão. —Então o pai dela?

—Certo, sim. —Eu me levantei, esticando meus braços acima da minha cabeça enquanto bocejava. —Cara engraçado, de uma forma que não é nada engraçada.

As sobrancelhas de Miles franziram-se. —Como assim?

—Ele é apenas... difícil de descrever, mas foi estranho.

Miles esperou, mas percebi que não tinha muito mais para contar a ele, uma maneira de transmitir todos os detalhes na íntegra, então apenas encolhi os ombros. —Acho que foi uma daquelas vezes em que você tinha que estar lá. Não vou fazer justiça a ele em tentar descrevê-lo.

—Não fazer justiça? —Miles perguntou com humor claro enquanto me seguia pelo corredor até o nosso quarto. —O que, ele é algum tipo de comediante?

—Ha, não. —Coloquei meu esmalte no banheiro, indo direto ao peito de Miles no caminho. —Ugh, você vai quebrar meu nariz um dia desses. Você precisa de mais cheeseburgers.

Braços me capturaram, mãos alisando minhas costas e arrastando ao redor do meu queixo para incliná-lo. Seus olhos se estreitaram quando ele disse: —Eu não sei se eu gosto de você falando sobre o pai de uma garota por mais de dois minutos.

—Dois minutos? —perguntei, um pouco ofegante enquanto seus polegares se moviam para a minha boca, provocando a pele sob o meu lábio inferior.

—Sim. Bem, vejo isso a mais de dois minutos e você está curiosa.

Eu me inclinei para ele, beliscando seu polegar. —Ciumento, somos nós?

—Inferno, porra, sim, eu estou. —ele gemeu, deixando cair seus lábios nos meus.

—Você não tem nada para se preocupar. —eu disse entre beijos. —Ele não é você, então não é meu tipo.

—Prove.

Eu o empurrei de volta, o que só serviu para me empurrar de volta. O que quer que funcionou. —Você fede. Venha me encontrar depois que você tomar banho.

Eu corri para fora do quarto antes que ele pudesse me pegar, e o som do chuveiro ligando mais tarde me fez sorrir quando abri a geladeira.

Eu tinha acabado de tomar um gole de água engarrafada quando ouvi o telefone de Miles tocando do quarto. Ignorei até que ouvi tudo começar de novo, então voltei para o quarto para pegá-lo no caso de ser um cliente. Winter demorou a sair, então Miles disse que estava assumindo qualquer trabalho que pudesse conseguir agora que as coisas haviam descongelado e começado a crescer novamente.

O toque começou de novo, mas não consegui ver onde ele colocara o celular. Segui o som até a mesa de cabeceira e abri a gaveta. Ali estava, com o interlocutor desconhecido passando pela tela. Eu olhei para ele por um segundo, então decidi responder.

—Olá, telefone de Miles? —Sim, eu não conseguia pensar em nada melhor para dizer.

Um silêncio alto infiltrou meus ouvidos e fez minhas sobrancelhas mais baixas, então quem quer que fosse do outro lado desligou.

Ainda franzindo o cenho para a tela, lancei-o de volta na gaveta enquanto um conjunto de faróis iluminava as cortinas da janela do nosso quarto, que dava para a rua.

Eu me aproximei, mudando-os a tempo de ver um carro preto fora de vista.

Foi só quando Miles me lembrou por que ele era o único tipo que eu tinha, depois desmaiou ao meu lado, que percebi que o telefone que eu havia respondido antes...

Ele tinha uma proteção de tela e um designe diferentes.


Capítulo sete

—Um segundo. —Minha irmã assobiou algo para um de seus filhos, depois voltou. —E ai, como vai?

—Só queria dar uma olhada. —olhei através do meu para-brisa, o sol destacando o quão atrasado meu carro estava para uma lavagem.

Hope riu. —Certo. Ainda não fez amigos nessa grande cidade sua?

Ela sabia a resposta para isso. Não era que eu não tivesse tentado; era que ou estava trabalhando ou com Miles. Pensando nisso, Miles não saiu com os poucos amigos que mencionou também. E meus colegas, por mais legais que alguns deles fossem, tinham mais de trinta anos. Nossas vidas estavam em estágios diferentes, tínhamos pouco em comum e eu ainda era a nova garota no quarteirão.

—Eu queria te perguntar uma coisa.

—Ok —disse Hope. —Então pergunte.

—Jace já mentiu para você?

—Claro, eu acho. —Hope ficou quieta por um minuto, o som dos meus sobrinhos rindo de algo no fundo chegando ao meu ouvido. —Mas eu estou supondo que isso não é um 'não, eu não deixei o assento do vaso sanitário abaixado ou alimento o cão com seu cereal que sobrou, que por sua vez deu a ele uma espécie de mentira?

Meu nariz enrugou. —Ele dá a Ziggy seu cereal? Cães não podem ter laticínios.

—Certo? Foi o que eu disse. De qualquer forma, o que aconteceu?

Observei os últimos membros da equipe se afastarem, restando apenas os carros do diretor e dos zeladores no lote com o meu, e um lustroso Bentley preto. Minha língua presa e colada na parte de trás dos meus dentes, as palavras que eu precisava dizer para responder sua pergunta não se moveriam.

Sim, eu tinha certeza de que Miles tinha dois telefones, mas não, ainda não tinha abordado esse fato com ele. Talvez fosse para o trabalho, mas eu nunca tinha visto isso antes.

E o carro... provavelmente era apenas alguém dirigindo pela rua. O timing disso é o que me abalou.

Eu sabia que soaria paranoica. A primeira coisa que Hope diria seria falar com Miles. Eu precisava, mas não consegui encontrar as palavras ou o momento certo. Ele estava tão ocupado com o trabalho que, quando chegava em casa, comia, tomava banho, me fodia sem sentido, e depois desmaiava apenas para repetir tudo de novo no dia seguinte.

Soltando um suspiro trêmulo, eu disse: —Não se preocupe, acho que devo estar no meu período, talvez.

Hope perguntou: —Você tem certeza? Você pode falar comigo, sabe. Deus sabe quantos segredos você guardou enquanto crescia.

—Eu sei. —Eu sorri, dizendo as palavras. —Está tudo bem, realmente.

Hope suspirou. —Ok, mas se você se sentir assim novamente em breve, me ligue. Quero dizer.

—Vou fazer. Diga aos garotos que eu disse olá.

—Venha visitar e diga a eles você mesma.

Eu ri, sentindo nostalgia por apenas isso, então desliguei e afundei de volta no meu assento, fechando os olhos.

Eu assustei ao som da luz batendo ao lado da minha cabeça e me endireitei, observando o que me cercava. O pai de Lou-Lou estava parado do lado de fora do meu carro, e rapidamente olhei para o meu relógio, notando que eram quase cinco. Eu devo ter cochilado alguns minutos.

Thomas recuou quando abri a porta. —Você costuma adormecer ao volante?

—Eu não estava dirigindo. —respondi, fechando a porta e cruzando os braços sobre o peito. Eu olhei ao redor, não encontrando nenhum sinal de Lou-Lou. —Onde está Lou-Lou?

—Em casa. Eu tive uma reunião com a Sra. Crawley.

Tentando não deixar isso me chacoalhar, assenti. —Tudo certo?

Ele pegou um pedaço de fiapos inexistente da manga de seu terno preto. —Ela vai levar Jerimiah para uma aula diferente se ele continuar incomodando Lou.

Uma parte de mim estava aliviada por ele não ter me denunciado de qualquer forma, mas eu ainda estava meio que chateada em nome de Jerimiah. —Isso não é exatamente justo. Ele é mesmo um bom garoto.

—Um bom garoto com terríveis explosões, tenho certeza. —Ele pegou um conjunto de chaves do bolso da calça. —Você vai responder a minha pergunta?

Ainda me recuperando de sua última declaração sobre Jerimiah, levei uma batida para alcançar. —Hã?

Seu rosto amassado com claro desgosto. —Eu acho que você queria dizer me desculpe.

Eu não pude evitar, e uma risada escapou.

Seus lábios se contraíram, mas, por outro lado, ele esperou que eu conseguisse algum autocontrole. —Uh, bem, não acredito que você fez uma pergunta que eu não respondi, Dr. Verrone.

—Thomas —Ele inclinou a cabeça, olhando para o meu amado Corolla antes de fixar aqueles azuis congelantes no meu rosto. —E acredito que eu estava perguntando por que você estava dormindo em seu carro duas horas depois que as crianças saíram. —Ele fez uma pausa. —Você tem uma casa, não tem?

Quem era esse cara?

E o mais importante, por que eu ainda o entretive ali parado?

Eu estava muito cansada para responder a isso, mas sabia que, cara estranho ou não, eu não era rude. E os pais aqui pagavam muito dinheiro para seus filhos comparecerem. Eu teria minha bunda chutada de volta para casa se eu não assistisse minha atitude e jogasse bem.

—Eu estava no telefone. —finalmente cedi. —Então acho que perdi a noção do tempo.

Thomas olhou, seus olhos perfurando meus marrons como se ele estivesse tentando olhar dentro dos meus pensamentos para encontrar a verdade. —Você não fala ao telefone enquanto dirige. —Ele se mexeu e eu olhei para a aparência de seus sapatos caros. – Bom.

Sorrindo um pouco, olhei para ele mais uma vez, observando as linhas bem barbeadas de sua mandíbula forte, a pele levemente bronzeada moldada sobre maçãs do rosto ressequidas, e as grossas sobrancelhas escuras que combinavam com seu cabelo perfeitamente penteado. Puxando um relógio de bolso de sua jaqueta, ele inspecionou, e foi então que percebi que ele estava sem o chapéu.

—Onde está o fedora hoje?

Ele afastou o relógio. —É quinta-feira. Muitas coisas para fazer em uma quinta-feira.

—Eu vejo, e provavelmente destruiria o que você está passando... —gesticulei com um aceno para o cabelo perfeito —...lá em cima.

Uma ruga de confusão apareceu entre suas sobrancelhas grossas, e ele franziu os lábios enquanto olhava para mim. —Indo?

—Seu cabelo. —eu disse, sentindo minhas bochechas esquentarem. —É, hum, bom é o que eu quis dizer.

—Você foi para a faculdade?

Suas palavras duras me fizeram voltar para o meu carro. —Eu fui, sim.

—No entanto, você gosta de abusar da língua inglesa.

Forcei um suspiro falso e ele inclinou a cabeça novamente, olhos curiosos.

—Estou meio ofendida. Palavras são minha droga de escolha.

—Droga de escolha. —ele murmurou como se provasse as palavras para ver se ele gostava delas.

—Você é estrangeiro? —Eu perguntei. Ele não tinha sotaque, mas a curiosidade sobre sua aversão por gírias comuns levou a melhor sobre mim.

—Absolutamente não. —ele disse tão rapidamente que quase ri.

Levantando minhas mãos, eu cedi. —Simmm, apenas perguntando.

—Você é uma mulher peculiar, Little Dove.

A ameaça do anoitecer havia pintado o céu de laranja, rosa e azul. A combinação foi tão impressionante por trás do homem enigmático que eu desejei ter uma câmera à mão para capturar o que vi na minha frente.

—Assim como você. —Eu rapidamente emendo: —Embora não seja uma mulher, claramente.

Ele sorriu. Ele realmente sorriu, e a visão foi o suficiente para ter o meu lábio inferior desconectado do topo, minha boca aberta e o batimento cardíaco saltando.

Seus dentes eram perfeitos, cada um deles e um branco brilhante. Mas foi como seus olhos mudaram de gelo para piscinas mornas de água que me dominavam, imprimindo em minhas retinas.

—Você parece ter sido chutada no estômago. —ele comentou, seu sorriso desaparecendo tão rápido quanto parecia.

Eu balancei a cabeça, incapaz de conversar mais com esse estranho fascinante. Estava fadada a ficar estranho de novo, então decidi dar uma boa nota.

—Eu gosto do seu relógio de bolso. —eu disse a ele, então voltei para dentro do meu carro. —Meu avô tinha um assim. —Eu pisquei quando fechei a porta e liguei o motor. Depois que eu dei ré, disse a mim mesma para não olhar no retrovisor.

Naturalmente eu fiz.

Ele ainda estava de pé ali, estátua ainda, seus olhos azuis observando enquanto eu saía do estacionamento.

 

Capítulo oito

O sol se escondeu atrás das copas das árvores emplumadas, e jurei que meus pulmões estavam prestes a entrar em colapso.

Miles seguiu em frente, carregando uma grande vara na mão que ele usava para caminhar no mato e no mato. Ele parecia estar andando por apenas dois minutos, em vez de quase trinta.

—Sério, por que estamos fazendo isso de novo? —Eu chiei quando nos aproximamos do topo de uma pequena crista onde as rochas ficavam em um pequeno aglomerado ao lado.

Desabando sobre eles, corri para a minha garrafa de água. Miles tinha me acordado ao amanhecer, dizendo que estávamos indo em uma de suas amadas caminhadas. Ele me fez uma marca compartilhada uma vez antes, mas caminhadas não era para mim. Eu só disse sim para essa excursão em particular porque significava que tomaríamos café da manhã com meu pai. Mas depois que ele olhou para Miles com tanto desprezo e desconfiança quando ele cobriu com ovos escorridos as torradas encharcadas, eu fiquei meio aliviada de sair e caminhar na floresta.

Estava.

Miles, sem perceber que eu parei, continuou andando, depois recuou. Ele sorriu, puxando um pedaço de cabelo que enrolou em volta do meu couro cabeludo, sem dúvida pelo esforço que eu podia sentir aquecendo cada centímetro do meu corpo fora de forma. —Você disse que fazia isso o tempo todo quando criança.

Eu engoli e tampei minha garrafa de água, empurrando-a para longe, enquanto minha língua e garganta doíam por mais. Eu precisaria salvá-la, considerando que definitivamente ainda não estávamos parando. – Correção. —eu disse quando levantei um dedo, meu ritmo cardíaco finalmente retomando um ritmo normal. —Eu não fui permitida neste momento. Ficaria em apuros toda vez que me atrevesse.

Ele fez sinal para que continuássemos nos movendo, e ao rolar dos meus olhos, ele riu e agarrou minha mão na sua, me levantando da rocha. Eu dei um olhar de saudade quando Miles me arrastou colina abaixo e mais fundo na floresta que beirava a propriedade do meu pai.

—Você sabe, os casais podem ter relacionamentos saudáveis sem fazer um ao outro entrar nos hobbies do outro.

—Não andamos juntos há meses —disse ele, depois parou, olhando para o leste antes de continuar para o norte novamente. —Achei que você gostaria de vir depois de mencionar brincar aqui quando criança.

Tirei minha mão da dele, não querendo que ele sentisse a umidade que sem dúvida reapareceria em breve. —Meus pulmões e pernas não me odiavam tanto quando eu era uma criança.

Miles bufou, segurando um galho para fora, de modo que não me desse um tapa na cara, e eu tinha que dizer, no mínimo, que era legal ver aquelas panturrilhas trabalhando. Ele era como um leão, cada movimento fluido e poderoso, e eu era apenas um pássaro magro em comparação.

Suspirando, eu refiz meu rabo de cavalo quando nos aproximamos de uma clareira familiar. Meus pés pararam, meu coração afundou no meu estômago enquanto lembranças ressurgiam.

—Você está bem? —perguntou Miles, parando mais um pouco adiante para olhar para o fraco contorno creme do castelo através das árvores. —Você parece que viu um fantasma.

—Estou bem, mas devemos voltar. Isto é propriedade privada.

Seus olhos se estreitaram, depois caíram no chão onde estávamos de pé quando ele se aproximou de mim. —Já estamos invadindo; vamos dar uma olhada.

—Bisbilhotar leva a problemas. —eu disse, em seguida, gemi. —Ugh, eu soo como meu maldito pai.

Miles gentilmente segurou meu queixo, procurando meu rosto. —Você já passou por lá, não foi? —Ele sorriu como se eu estivesse me esquivando, e isso o emocionou.

Eu recuei, fazendo com que a mão dele caísse ao seu lado. —Uma ou duas vezes.

Ele cantarolou pensativo, e minha garganta seca me fez pegar minha água novamente.

Se acalme. Se eu acabasse, beberia o de Miles para me exercitar num domingo em que eu poderia estar acompanhando os Mantendo-se com os Kardashians ou, melhor ainda, lendo.

—Hora da história. —disse ele, esfregando as mãos. —E que hora melhor do que agora.

Tomando um longo gole de água, caí no chão. —Não muito de uma história, realmente.

Miles juntou-se a mim, envolvendo os braços ao redor dos joelhos dobrados enquanto olhava através das árvores, o sol de maio insuportavelmente quente em nossas cabeças enquanto ardia através da clareira.

—Diga-me de qualquer maneira.

Pássaros chamavam do alto, e inalei o cheiro de terra úmida da chuva desta manhã. Fechando meus olhos, deixei minha mente livre para trás, então reabri os olhos e segui seu olhar para o castelo.

 


O castelo apareceu através de uma lacuna nas árvores à frente. Um creme macio com uma torre leitosa, como no meu livro.

Eu fechei o livro e guardei, excitação carregou meus pés mais rápido sobre os troncos caídos. Eu pulei em buracos, valas e me esgueirei por árvores espinhentas que prendiam meu vestido.

Este foi o mais distante que eu já tinha estado na floresta que corria ao lado de nossa pequena fazenda. Papai sempre dizia que eu não podia entrar e só brincar nos arredores, porque podia haver cobras e outras coisas horríveis lá dentro. Para não mencionar, eu poderia me perder.

Mas papai estava trabalhando em dobro na delegacia, e Hope tinha amigos, então ela estava distraída. Ninguém saberia. Além disso, eu não me perderia. podia ver a ponta do castelo da janela do meu quarto todas as noites quando contava as estrelas para me ajudar a cair no sono.

Eu sabia o caminho.

Minha mãe me ensinou isso. Contando estrelas. Não que fosse difícil ou algo assim, mas ajudava minha imaginação a se acalmar, permitindo-me adormecer mais fácil.

Ela morreu há um ano, não muito depois do meu sétimo aniversário. Eu chorei. Muito. Mas tive que parar de chorar depois de um tempo porque papai não gostou. Hope disse que era porque ele não podia chorar. Ele não podia ficar triste como nós, então tivemos que ser durões e ajudá-lo, mantendo nossas lágrimas quietas ou desligando-as.

Eu aprendi a desligá-las, mas demorou um pouco.

E minha mãe ... Antes que alguém colidisse com o carro dela, ela sempre me contava histórias inventadas sobre o castelo ao lado. Sobre um príncipe que morava lá com seus pais, um rei gentil e uma rainha má.

E finalmente, finalmente, consegui ver por mim mesma.

Parando em uma pequena clareira, limpei gotas de suor da minha testa com a manga da minha blusa e peguei minha garrafa da minha mochila. tomei um grande gole e quase engasguei quando vi um menino aparecer por trás de uma pedra gigante coberta de musgo.

—Volte, garotinha.

—Quem você está chamando de garotinha —Eu olhei para o garoto, que não poderia ter mais de treze ou quatorze anos de idade. Embora ele fosse muito alto e magro. Então, talvez para ele, eu era pequena.

Um lado de sua boca levantou quando eu coloquei minha garrafa de bebida longe. —Você é o único outro humano aqui. Bem, da variedade feminina.

Sua voz era rouca, mas não era profunda. Hope disse que um menino se torna um homem quando sua voz fica profunda. Isso fez dele tanto garoto quanto eu. No entanto, suas palavras enviaram uma mordida de medo através do meu peito. Meu coração batia forte quando minha garganta secou.

Seus olhos eram tão brilhantes, e ele ficou tão quieto, até mesmo seu cabelo, como se a brisa flutuasse ao redor dele.

—Quem é você?

Sua cabeça inclinou apenas uma fração. Então ele piscou. —Não importa quem eu sou, o que importa é que você está invadindo.

Minhas mãos pousaram em meus quadris, uma curva para o lado quando o aborrecimento derreteu qualquer medo que eu tinha. Ele era apenas um menino. Um estranho, mandão e estátua, mandão. —Esta é a terra do meu pai também.

Ele fez um som de desaprovação, que trouxe de volta memórias perdidas de minha mãe. Ela fazia o mesmo barulho sempre que eu fazia algo que ela não aprovava ou estava prestes a fazer. Como andar em casa com botas enlameadas.

—A terra do seu pai terminou uma milha atrás. Você chegou longe demais, vire-se.

De jeito nenhum. Meus olhos ardiam e meus pés doíam. Eu andei pelo que pareceu duas horas para ver o castelo.

Eu segurei lágrimas.

—Só quero ver o castelo, e então eu vou. —Eu tentei prometer. Quem era ele afinal? perguntei a ele.

—Castelo? —Outra inclinação de seus lábios, e então ele cruzou os braços sobre o peito, que estava coberto por uma camisa polo preta. —Eu sou o dono do castelo disse.

Meus olhos saltaram quando deixei cair a minha mochila e peguei meu livro. Sem pensar, eu marchei para ele, abrindo a página marcada quando fiz, e apontei o dedo para a ilustração. —É assim mesmo? Sempre me perguntei.

Ele deu um passo para trás, seu nariz se contorcendo como se tivesse cheirado alguma coisa suja. Eu levantei meu braço para verificar minha axila, me perguntando se era eu.

Ainda não, pensei. O spray floral de minha irmã mantinha os odores longe. Hope disse que os cheiros chegariam no verão primeiro, mas eles ficariam por perto quando você chegasse a uma certa idade.

Eu ainda não tinha uma certa idade, mas mesmo assim não queria feder e gostava do cheiro floral.

—Não é nada disso.

Meu coração afundou nas solas dos meus tênis gastos. – Oh —Enfiei meu livro, então empurrei minha mochila novamente.

O menino suspirou. —Mas eu acho, vendo que você andou todo esse caminho, você pode ver isso por si mesma.

Meu sorriso se esticou tanto que minhas bochechas doeram. —Você quer dizer isso?

Suas sobrancelhas se franziram. —Eu não digo coisas que não quero dizer.

Palavras tão sérias para um menino.

Ignorei-os e passei por ele através da clareira, atravessando a vegetação rasteira e as moitas de folhas até chegar à linha das árvores.

Um suspiro esvaziou meus pulmões e encheu o ar. O garoto riu, um som estranhamente musical, enquanto eu observava a beleza diante de mim.

Era gigantesco.

Uma monstruosidade perfeita.

O exterior creme brilhava sob os raios do sol, coberto de hera e outras videiras semelhantes a serpentes com minúsculas flores nelas. As janelas eram retangulares que se curvavam no topo, e as portas eram enormes e de madeira, polidas e reluzentes e rodeadas por grandes vasos de plantas.

A água gorgolejava de uma fonte no pátio e, quando me atrevi a aproximar-me, vi laranja e vermelho dentro da água. Peixe. Carpa, talvez.

—É mágico. —eu respirei. —A única coisa que falta é um fosso. Mas ainda assim... mágico. Você vive aqui? Você realmente mora aqui?

O garoto chutou algumas pedras onde estávamos no caminho de cascalho por um dos jardins de rosas. —Eu não digo coisas que...

—Você não quer dizer. —eu terminei para ele, então sorri para mostrar que estava apenas brincando com ele.

Ele não devolveu e, em vez disso, uma expressão de pânico tomou conta de seu rosto quando ouviu a voz de um homem mais velho.

A voz do meu pai

—Jack Crapper. —Eu voltei para a floresta. —Eu tenho que ir.

Eu não esperei para ver se o garoto acenou enquanto eu corria para a floresta, seguindo o som da voz do meu pai até que encontrei com ele no meio da paisagem coberta de árvores.

Ele estava vestido com seu uniforme de trabalho, e seu rosto era vermelho, linhas de preocupação vincando sua testa. —Porra do inferno, Jemima. O que na terra verde de Deus você acha que está fazendo aqui?

Sem fôlego de correr, levei um momento para responder. —Eu estava apenas explorando. Não queria ir tão longe.

Ele olhou para trás para as árvores, franzindo o rosto envelhecido ainda mais. —Você sabe que não é permitido. Sua irmã ligou para a estação em lágrimas dizendo que você estava desaparecida, e eu quase bati a caminhonete vindo em alta velocidade para casa.

—Eu sinto Muito. —Eu engoli, meus ombros caídos. —fiquei entediada e só queria olhar.

—Olhar leva a problemas, Jemmie.

—Está bem. Eu estou bem. E conheci um garoto na floresta.

O papai ficou quieto por um minuto e depois disse: —Eles são um bando de esnobes ricos e mesquinhos, essa família. Eles não querem que você ultrapasse seu território, me entendeu? Se eu disser não faça isso, digo por uma maldita razão.

—Ok, papai.

—Sem TV por uma semana, e você está fazendo o jantar hoje à noite.

Suspirei de alívio que minha punição não era pior. Ele poderia ter tirado meus livros.

Naquela noite, sentei-me no assento da janela do meu quarto, esfregando minhas mãos na camisola para livrar o cheiro de batatas cruas e cebolas dela. Mas a lua estava fraca demais e não conseguia ver o castelo através das árvores. E mesmo quando eu quebrei minha promessa ao papai, me aventurando de volta ao castelo no verão seguinte, nunca mais vi o menino.

Alguns anos depois, depois de um último empreendimento ousado, descobri que a família deveria ter se mudado.

Nada permaneceu.

Apenas beleza vazia.

 


—Parece ainda pior agora. —disse Miles quando ele se aproximou, usando o par de binóculos que ele trouxe com ele. Os destinados à observação de pássaros, dos quais não fizemos nada.

—Está abandonado há anos. —Calafrios percorreram meus braços, meu corpo se arrepiou. —Vamos voltar.

Ele ficou olhando por mais um minuto, seus ombros se soltando com um longo suspiro. Então ele se virou e pegou a minha mão, permitindo que eu andasse em um ritmo muito mais lento do que o que ele tinha estabelecido para nós chegarmos lá.

Exceto que eu não queria andar devagar, então eu acelerei meus pés.

Sede e exaustão esquecidos, tentei não correr e poder andar até que a sensação de algo rastejando sobre a minha pele se dissolveu na escuridão sombreada atrás de nós.

 

 

 

 

Capítulo nove

Miles rejeitou a chamada recebida antes mesmo de se conectar ao Bluetooth e depois desligou o telefone.

—Quem era? —Normalmente, eu não perguntava, mas algo sobre o interlocutor desconhecido da semana passada ainda estava me incomodando.

Miles segurou minha mão, entrando na rampa de acesso para se juntar à fila de tráfego que saía da rodovia. —Provavelmente apenas a minha mãe ou algo assim. —ele murmurou, em seguida, beijou minha mão. —Quanto tempo precisamos ficar nessa coisa de novo?

Depois de meses de estar noivos e morar juntos, eu ainda não conhecia os pais de Miles.

E uma parte calma de mim, aquela que começara a aparecer mais ultimamente, imaginava se eles sabiam de mim ou que estávamos noivos.

Eles não gostariam de conhecer a futura esposa de seu filho? Felicitar-nos? Inferno, talvez a mãe dele queira até mesmo planejar uma festa de noivado comigo.

Pensando na noite a frente, esfreguei meus braços nus enquanto o ar-condicionado soprava gelo sobre minha pele. —Duas horas devem fazer isso.

Miles soltou um suspiro e permaneceu quieto até estacionarmos no meio do estacionamento cheio de carros de luxo.

O cheiro pungente de dinheiro e miséria saturou a sala de concertos da cidade, onde pais, professores e garçons se misturavam. O código de vestimenta estava acima do meu salário, mas eu esperava que tivesse escondido bem com um vestido Versace preto de segunda mão. Cem dólares me compraram um vestido que se agarrava a cada curva e afundava em meu corpo, o corpete se amontoando e levantando meus seios. Emparelhado com saltos agulha prata das sandálias de tiras do meu baile de formatura do ensino médio e meu cabelo liso caindo sobre meus ombros, me senti bem o suficiente para caber dentro.

Mesmo que fosse apenas do lado de fora.

Miles estava puxando o traje desde que o vestira, como se fosse um casaco de inverno e não uma roupa boa, reclamando de coceira.

Apesar de seu claro desconforto, percebendo a maneira como o material ameaçava explodir seus volumosos braços, minhas pernas mudaram, minhas coxas tentaram esfregar.

Ele voltou do bar com uma taça de champanhe para mim e uma cerveja para si. Batendo os lábios depois que ele tomou um gole, ele fez uma careta.

Eu ri, agarrando as lapelas de sua jaqueta para içar minha boca até a dele. —Você é fofo quando está desconfortável.

—Sim? —Ele sussurrou de volta, um braço em volta da minha cintura e subindo pelas minhas costas. —Você é fofa o tempo todo. —Depois de colocar um beijo nos meus lábios, em seguida, a ponta do meu nariz, ele endireitou as costas e atirou os olhos ao redor da sala.

Decidi que era hora de fazer as rondas e o apresentar a alguns de meus colegas, acenando e sorrindo para os pais que reconheci quando passamos. Seus olhos pareciam inchar, lábios estourando, enquanto eles olhavam para o homem ao meu lado que tinha a mão colada firmemente ao meu quadril, meu lado fundido ao dele, não importava onde nos aventurássemos.

—Tão foda, —Miles resmungou depois de uma hora de conversa fiada e tomando bebidas caras. – Obrigado, foda-se a comida parece ser boa.

Ele pegou qualquer alimento de dedo que passou por nós em bandejas prateadas brilhantes, inalando-os e me fazendo rir enquanto alguns espectadores o olhavam lambendo os dedos. Tracey, a diretora de nossa escola, veio para falar sobre seu trabalho fabuloso no paisagismo da escola.

Olhei em volta quando ela corou sob o olhar dele, e quando meus olhos pousaram no canto mais distante da sala, minha risada silenciosa desapareceu, meu sorriso afundando.

Thomas Verrone estava ao lado de outro homem, conversando com as mãos vazias e os olhos firmemente fixos em mim.

Rapidamente, eu manobrei o sorriso de volta ao lugar, levantei minha mão em um pequeno aceno e ignorei o modo como seus olhos percorriam o comprimento do meu corpo.

—Quem é aquele? —Miles me tirou do feitiço de indução quando Tracey se afastou para se misturar.

—Hummm? —Tomei um gole da minha bebida; o mesmo que eu estava bebendo desde que chegamos.

—O cara no canto que está olhando para você.

Droga. —Este é Thomas Verrone, o pai de Lou-Lou.

O reconhecimento iluminou seus olhos e ele olhou para Thomas, que agora virara as costas para nós enquanto conversava com seu companheiro.

Miles olhou para mim. —O estranho que você estava me falando?

Eu o silenciei, batendo levemente o braço dele. —Quieto. Jesus.

Miles riu, pegando meu queixo e inclinando-o para encontrar seu olhar. Perguntas rodopiantes me encararam. —Você nunca disse que ele era bonito.

Meus olhos se arregalaram. —O que?

Ele inclinou os ombros, as costuras do casaco protestando contra o movimento. —Só porque sou hetero não significa que não percebo o óbvio.

Sacudindo minha cabeça para fora de seu aperto, eu recuei, nervos puxando uma risada de mim. – Não, não. —Eu alisei a mão sobre o meu cabelo já liso. —Não é isso; você acabou de me pegar de surpresa.

Miles agarrou minha mão e eu pisei nele enquanto ele sorria para mim. —Admita então.

—Aquele Thomas é bonito? —Eu olhei de volta para onde ele estava, mas apenas o espaço vazio permaneceu. Lembrando-me das maçãs do rosto, dos cabelos escuros, dos olhos azuis e daquele queixo, aceitei: —Ele é, eu acho.

Miles riu, atraindo inúmeros olhos com seu habitual tom alto e abrasivo.

Eu não me importei. Me deliciei com o jeito que meus ombros rígidos se soltaram com o som, e então passei meu braço em torno de suas costas para descansar minha cabeça em seu peito. —Você terminou com a inquisição? Porque agora eu temo que todos saibam como você é bonito.

Ele me apertou para ele, inalando profundamente antes de pressionar um beijo na minha cabeça. —Porra, eu te amo.

Eu sorri para ele, e o humor deixou seu rosto, deixando apenas uma seriedade que tornou meus membros inúteis e fez meu coração bater.

Os músicos subiram ao palco e a batida lenta de um violão entrou em meus ouvidos.

Miles colocou um pedaço de cabelo atrás da minha orelha. —Vamos assistir a essa merda, depois vá para casa e fique nua.

—Eu gosto desse plano. —Eu pressionei meu copo vazio em seu peito. —Mas primeiro preciso fazer xixi.

Depois de fazer o meu negócio, enxuguei minhas mãos e verifiquei meu reflexo, olhando para uma mulher com cabelo vermelho brilhante e um vestido dourado brilhante que saiu de uma cabine atrás de mim.

Ela congelou, depois sorriu e continuou em frente para a pia, rapidamente lavando as mãos e me deixando em uma nuvem de Coco Chanel.

Eu assobiei com aborrecimento quando percebi que tinha esquecido, mais uma vez, de usar um dos muitos perfumes que eu colecionei ao longo dos anos. Soltando um suspiro, me olhei no espelho, não conseguindo ver a mulher adulta com maçãs do rosto angulares, um penteado um pouco transitável e um vestido de grife. As embalagens externas não conseguiam esconder a inadequação que eu ainda sentia quando me afundava nessa cidade. Na maioria dos dias, me sentia bem, segura no meu relacionamento e no meu trabalho, mas em momentos como esse, cercada por pessoas que eram exatamente o oposto do que fervia em minha alma, eu desejava correr de volta para casa.

Não me esconder da responsabilidade, mas sentir o ar fresco em minha pele enquanto carregava aromas familiares e reconfortantes na brisa. Flores de maçã, feno e pasto... em casa.

Sacudindo a melancolia, resolvi colocar um sorriso quando saí do banheiro. Nós iríamos para casa em breve, e eu seria capaz de acreditar que estava me ajustando muito bem, graças ao amor de um homem bom, um trabalho que eu gostava apesar de me sentir como se eu não pertencesse, e da fuga de bons livros. .

—Little Dove. —Thomas saiu do canto meio sombreado sob a luz de saída de emergência.

Eu pulei. —Merda. —Meu coração gritou em meus ouvidos, minha mão voando para o meu peito. —Avise uma garota antes de você ir todo vampiro se escondendo nas sombras.

Para minha surpresa, ele riu. Um som áspero e enferrujado que foi rápido a desaparecer.

Ajustando suas abotoaduras, ele se aproximou, e respirei firmemente quando seus dentes deslizaram sobre o seu lábio inferior rechonchudo. Ele me observou, me estudou, esperando... mas o quê?

—Hum, você está se divertindo? —Eu interiormente revirei os olhos com a minha pergunta estranha.

—Dificilmente —disse ele, soando como se quisesse segui-lo com uma zombaria. Com os olhos presos na minha boca, ele murmurou: —Você tem algo no seu queixo. —Eu recuei contra a parede quando ele chegou com sua mão em direção à minha boca. Seu polegar era suave e seu toque era como um fantasma em sua gentileza.

Eu lutei para respirar quando o cheiro de menta e canela encheu meu nariz e causou algo para ficar na minha garganta.

Eu estava muito paralisada pelo azul dos olhos dele para me mexer. Distraída demais com suas próximas palavras.

—Você não me disse que estava noiva.

Não é uma pergunta, mas uma afirmação. Sua voz era clínica e curiosa ao mesmo tempo.

Ele deu um passo para trás, mas não o suficiente. Quando meu olhar caiu para seus lábios, percebi que se alguém andasse por este corredor, nós pareceríamos estar em uma situação bastante comprometedora.

Meu estômago virou. Eu não o conhecia, e o que sabia sobre ele me dava nos dentes e fazia meu coração bater descontroladamente de apreensão.

—Eu não me lembro de você perguntar se eu estava. —Os nervos enviaram uma risada suave saindo de mim. —Não é o tipo de coisa que acabo de anunciar para estranhos.

—Estranhos? —Suas sobrancelhas escuras se reuniram. —pensei que nós estávamos além do ponto de sermos chamados de estranhos.

—O que... —Eu lambi meus lábios, ignorando a maneira como ele assistiu, e dirigi meu olhar para a coluna de sua longa garganta. —O que você chamaria de pessoas que só se encontraram um punhado de vezes?

Sua mão se levantou para tocar uma mecha do meu cabelo, suas sobrancelhas franzindo ainda mais enquanto ele esfregava entre os dedos. Seu pomo de Adão mudou quando ele disse: —Conhecidos.

Foi o tapa no rosto que eu precisava para ir e me afastar dele.

—O que há de errado? —Ele virou. —Você não concorda?

—Não é isso. —Fingi mexer com meu vestido para manter meus olhos desviados.

—Então, o que é?

Ele parecia impaciente, o que fez a honestidade cobrir minha língua e passar pelos meus lábios. —Eu estou noiva, e você estava... —Eu limpei minha garganta. —Bem, invadindo meu espaço.

Um barulho parecido com um huff humorístico o deixou, e eu mantive meus olhos treinados na saída. —Interessante escolha de palavras.

Eu não sabia o que ele queria dizer com aquilo e não me importava. Ele me enervou de um jeito que me chocou em congelar no lugar, permitindo que ele fizesse isso. Me alarmou pensar que eu era ingênua o suficiente para deixar isso acontecer.

—Eu preciso ir. Tenha uma boa noite, Thomas. —Sem olhá-lo, percorri o corredor fresco, a música crescendo mais alto quanto mais perto chegava da sala cheia de pessoas. Para aquecer.

—Até a próxima vez, Little Dove.

Engoli em seco, tropeçando na minha próxima respiração enquanto tentava não tropeçar, e procurei freneticamente na multidão por Miles.

Eu não consegui encontrá-lo lá dentro, e depois de ficar presa em uma conversa sobre cardápios de almoço veganos com o diretor Crawley e Monica, nossa bibliotecária, retomei minha busca.

O sol havia descido do horizonte há uma hora. Estrelas pintavam o céu, brilhando ao lado de uma lua cheia atrás de edifícios altos à distância. Depois de pressionar alguns grupos tagarelas, eu finalmente o encontrei pelo corrimão do convés, conversando com uma mulher em voz baixa. Não apenas qualquer mulher, no entanto; era a mesma mulher que vi no banheiro.

Ela me viu primeiro, encarando um longo momento antes que um sorriso levantasse seus lábios vermelhos.

—Hey. —eu disse, tocando o braço de Miles enquanto andava atrás dele.

Ele se encolheu, amaldiçoando suavemente quando se virou com um gaguejar. —Ei, amor. —Ele passou um braço ao meu redor, então me apresentou a ruiva, cujos olhos ficavam indo e voltando entre nós. —Esta é Amélia; nós fomos para a faculdade juntos. —Ele riu depois de uma pausa rápida. —Não a vejo há anos.

—Parece que sim. —disse a mulher, em seguida, estendeu a mão bem cuidada para mim. Eu balancei quando ela disse: —Nós costumávamos namorar. Você deve ser a noiva que ele acabou de me contar. —Ela sorriu quando puxei minha mão de volta, então funguei e desviei o olhar.

Eu fiz uma careta. —Sim, prazer em conhecê-la. —Meu telefone tocou, e quando percebi que Miles claramente não estava falando com ela, decidi me afastar para verificar.


Número desconhecido: Little Dove, você cheira bem o suficiente para comer.

Com o meu próximo batimento cardíaco gritando em meus ouvidos, me virei, esperando encontrar Thomas. Tudo que encontrei foi um Bentley preto saindo do estacionamento.

Em transe, observei-o ir embora e desaparecer.

Contra o meu melhor julgamento, eu tive a necessidade ardente de saber e mandar uma mensagem de volta.

Eu: Thomas? Como você conseguiu meu número?

De alguma forma, sabendo que eu não receberia uma resposta imediatamente, enfiei meu celular na bolsa e caminhei de volta para Miles, que olhava para a distância como se tivesse assistido Thomas também.

A mulher foi embora.

—Eu não sei sobre você... —eu disse enquanto agarrei sua mão, desejando que isso parasse os tremores nas minhas, —...mas estou pronta para ir para casa.

—Concordo. Mais que preparado.

A viagem para casa foi em silêncio. E eu estaria mais preocupada com Miles se não fosse pela minha necessidade desesperada de silêncio. Thomas tinha me sacudido, claro, mas foi a raposa ruiva que me empurrou para uma pirueta. Algo sobre ela incomodava meu subconsciente, mas nada se adiantou para responder a isso.

A casa estava escura e apressadamente liguei a luz do corredor antes de passar pelo corredor e chutar meus sapatos no quarto. Eu limpei a maquiagem do meu rosto e escovei os dentes quando Miles trancou e foi direto para o chuveiro. No quarto, tirei a roupa e vesti uma camiseta longa, depois esperei que ele fosse para a cama.

Eu estava quase dormindo quando os lençóis sussurravam nas minhas coxas nuas e a cama caía com o peso de Miles. Sua mão veio descansar no meu quadril, seus lábios roçando a parte de trás do meu cabelo para um beijo rápido. —Boa noite baby.

Não haveria sexo esta noite, com o qual eu estava bem. Miles tinha um grande apetite, então não reclamei quando ele decidiu que não estava de bom humor. Embora fosse raro, e bastava apenas alguns toques quentes para despertar minha libido, às vezes era bom ficar apenas quieta.

Olhando pela janela, percebi que tinha esquecido de fechar as cortinas e olhei sem ver a rua além. —Boa noite.

O esgotamento me sufocou, mas a noite não tirou seus dedos da minha psique, e mesmo quando aconteceu, perseguiu meus sonhos.

E meu telefone.

Número desconhecido: nunca vou contar.

 

 

 


Capítulo dez

—Tracey, —eu falei quando a vi prestes a deslizar para dentro de seu escritório no início do recesso.

Eu não estava de plantão, então eu tentei me preparar para a nossa tarde cheia de papel machê, mas continuei me desviando.

Eu precisava saber.

Ela ergueu as sobrancelhas, parando do lado de fora da porta aberta. —Jemima, como vai você?

—Bem, obrigada. —Eu fiz sinal para a porta. —Você tem dois minutos que posso roubar?

—Claro. Vou até te dar cinco —disse ela, acenando para mim e sentando-se atrás de sua grande mesa de aço e vidro.

Passando por cima do tapete felpudo, tentei não entrar em colapso em uma das duas confortáveis poltronas de couro vermelho e cuidadosamente ajeitei minha saia xadrez sobre os joelhos enquanto cruzava as pernas.

—Está tudo bem? —Tracey perguntou, ligando o monitor. Ela tirou os óculos da blusa e os guardou. Suas mãos se moveram com destreza sobre o teclado enquanto ela entrava no servidor da escola.

Com o nome da mulher sentado na ponta da minha língua, pensei no inferno e fiz a pergunta como se tivesse todo o direito de fazê-lo. —Havia essa mulher que estava aqui ontem à noite. Você conhece ela? Cabelo vermelho comprido? Ela atende pelo nome de Amélia.

Quando Tracey continuou a olhar intrigada, fiz o meu melhor para descrever seu vestido, penteado, e perguntei se ela era uma mãe talvez.

Ela me estudou sobre a borda de seus óculos, as mãos posicionadas acima do teclado, então caiu de volta em seu assento e as removeu. —Eu me lembro da mulher que você está falando. —Ela olhou para trás para a porta fechada, depois se inclinou para frente, sua voz se acalmou. —Mas entre você e eu, não tinha ideia de quem ela era. —Rugas se contraíam enquanto ela bufava arrogantemente. —Então eu a atribui como uma das novas namoradas dos pais. Há alguns pais solteiros com filhos aqui, afinal de contas.

Não é mãe, então.

—Obrigada. —eu disse, sem saber o que dizer, agora que recebi alguma confirmação. Por que eu não sabia. Algo sobre a mulher me fez querer cavar um pouco mais fundo.

Levantando da minha cadeira, parei quando Tracey perguntou: —Tudo bem? Você a conheceu?

Mentir. Eu precisava mentir, e então eu fiz o meu melhor para parecer que estava apenas curiosa. —Eu poderia jurar que a conheci antes. Anos atrás. Isso estava me incomodando.

No princípio Crawley olhou seis segundos antes de concordar com um leve sorriso, os óculos voltando para o poleiro no nariz. —Muito bem. Eu odeio quando isso acontece.

—É bastante chato. —concordei, desocupando seu escritório com mais perguntas do que respostas.


O céu escuro me perseguiu no caminho de volta para casa.


Pensamentos de um banho, jantar e cama com um livro soaram muito atraentes depois do dia que eu tive. Algo sobre a chuva iminente parecia deixar algumas crianças hiperativas.

Estacionei em frente à garagem, observando a caminhonete azul de Miles no caminho, peguei minha bolsa e pulei para fora. Na porta, chutei meus sapatos cobertos de cola, lamentando o fato de que eu provavelmente precisaria jogá-los fora, em vez de tentar salvá-los. Cola de artesanato era uma cadela para tirar.

Isso me ensinaria a gastar mais de trinta dólares em um par de sapatos de trabalho.

Jogando minhas chaves na mesa de entrada, peguei meu celular da minha bolsa e levei-o para a cozinha, ligando-o para carregar apenas quando Miles apareceu, recém-lavado e com um olhar de pedra em seus olhos caramelo.

—Bem Olá. —Eu balancei minhas sobrancelhas em seu peito sem camisa. —Tanto quanto me mata dizer isso, eu não chegaria perto de mim. Estou coberta por uma camada de cola.

Ele não disse nada. Apenas ficou ali com os braços cruzados sobre o peito e os pés afastados como se estivesse se preparando para um impasse.

Tivemos muitas lutas ao longo do nosso relacionamento, mas eu não as chamaria de lutas. Mais como escaramuças ou brigas e principalmente sobre coisas estúpidas que me incomodavam. A caixa de leite sendo usada como uma garrafa de bebida. O correio sendo despejado no balcão todos os dias em vez de aberto. Roupas sujas ao redor do cesto, em vez de dentro dele. Você sabe, o usual.

Mas agora, bem, ele parecia chateado. E não o abandonado seja irritante tipo de puto. Mais como chateado.

—O que há de errado. —Eu não disse isso como uma pergunta, embora claramente fosse porque era evidente que eu tinha feito alguma coisa.

Minha mente pulou para trás, em seguida, para frente, rolando de dentro para fora no espaço de um minuto, tentando descobrir o que era que ele poderia parecer tão zangado —oh.

—Por que você manteve seu apartamento? —Sua voz era enganosamente calma, mas em camadas com o tipo de aviso que significava que ele poderia perder sua merda, dependendo da minha resposta.

Mas nenhuma explicação era boa o suficiente e não queria mentir. Então resolvi com a verdade. —Porque o contrato não estava acabado. Eu perderia dinheiro, e eu... —Ele esperou, os pés descalços movendo-se ligeiramente sobre o piso enquanto eu soltava um suspiro e admitia: —Eu acho que gosto de saber que está lá.

Ele invadiu o corredor, indo para a porta da frente.

Merda.

—Miles, não é grande... —a porta da frente se fechou —...coisa. —Suspirei.

Eu não sabia quanto tempo fiquei na cozinha depois que o barulho de sua caminhonete desapareceu. Poderia ter sido dois minutos, ou poderia ter sido trinta. A conversa que tive com Tracey e as perguntas que surgiram desapareceram. Nada parecia mais importante do que essa sensação de vazio no meu estômago.

Eventualmente, forcei meu lábio inferior e mãos a parar de tremer e fui tomar banho.

Quando saí, enxuguei o cabelo e vesti, ele voltou. O som de sua caminhonete nunca tinha soado tão bem, e desci correndo pelo corredor, entrando na cozinha assim como ele fez com duas caixas de pizza na mão.

—Agora... —disse ele, colocando-os no balcão, em seguida, pegando duas garrafas de água da geladeira. —Não confunda a comida com perdão. Estou fodidamente chateado, Jemima.

O uso do meu nome completo me fez balançar a cabeça lentamente, meu coração batendo mais forte enquanto o observava pegar algumas toalhas de papel e, em seguida, se sentar ao meu lado no balcão.

—Eu sinto muito. —Foi tudo que pude dizer. Eu não me livraria do apartamento. O contrato de arrendamento não duraria mais que alguns meses e o que disse era verdade. Nós nos reunimos tão rapidamente que parecia uma idéia estúpida não ter uma rede de segurança de algum tipo, e não podia confiar sempre no meu pai para isso.

Uma pequena parte de mim floresceu de orgulho, mesmo quando uma parte maior se encolheu de culpa. Era o que era.

—Você vai terminar o contrato se eu pedir a você?

Eu abri minha caixa de pizza, forçando um sorriso enquanto pegava uma fatia de pepperoni com queijo extra, meu favorito. —É em poucos meses.

Miles exalou, passando a mão pelo cabelo ainda úmido, depois arrancou um pedaço enorme de sua pizza havaiana, mastigando com força, como se quisesse que a pizza sofresse.

A tensão rolou dele em ondas quentes, e era tudo que eu podia fazer para continuar comendo enquanto tentava não me esconder atrás dela.

—Por quê? —ele finalmente perguntou, então amaldiçoou. —Quero dizer, eu sei porque. Mas o que posso fazer para você se sentir mais segura?

Eu olhei para o anel no meu dedo. —Não é tanto sobre você como é sobre mim. Mas talvez... —Eu lambi o molho do meu lábio, tentando ignorar o modo como o calor em seu olhar mudou de raiva para fome. —Nós poderíamos marcar uma data para o casamento. —Nós não tínhamos realmente discutido isso além do ponto de concordar que queríamos tempo juntos para curtir um ao outro antes de nos acomodarmos ainda mais.

Sua mão congelou. O calor em seus olhos se dissipou.

Empurrou o banquinho para trás e marchou para a pia, as costas arqueadas enquanto ele balançava a cabeça. —Você quer marcar uma data, mas não confia em mim? Não entendo.

Eu me levantei então, minha paciência começando a se desgastar. Uma garota não poderia tentar se proteger sem ser ridicularizada por isso? Eu não me mexia. Estava mantendo o maldito apartamento até que estivesse pronta para deixá-lo ir.

Eu parei ao lado dele, cuidadosamente estendendo a mão para escovar as rosas e espinhos tatuados em seu braço com as pontas dos meus dedos. Eles alcançaram as folhas que se espalharam em chamas ao redor de seu cotovelo quando ele recuou um pouco.

Ele nem olhava para mim.

—Miles, confio em você. É... —Eu não consegui descobrir como dizer isso sem parecer uma garotinha assustada, mas decidi fazer o meu melhor. —É a vida em quem não confio. Nós nos mudamos rapidamente. Não estou dizendo que não estava bem com isso. Só estou dizendo que estava bem com isso porque ainda tinha meu próprio lugar. —Silencio manchou o ar entre nós. —Mesmo que eu tenha orado, para nunca precisar disso.

Finalmente, depois de dois longos minutos, ele tirou o olhar da pia e deu para mim. —Você quer marcar uma data? Isso fará você se sentir melhor?

Eu me aproximei, meus braços enrolando em torno de sua cintura enquanto descansava meu queixo em seu peito, olhando para o rosto dele. Ele olhou para baixo, as sobrancelhas ainda gravadas com preocupação, mas lentamente, ele relaxou e passou os braços pelas minhas costas, levantando a mão para emaranhar no meu cabelo.

—Eu quero marcar uma data porque é o que você quer, não porque você se sente pressionado em um canto sobre isso.

Seus olhos diziam muitas coisas, mas tudo o que saiu de sua boca foi: —Deixe-me pensar sobre isso.

—Certo. —eu disse, colocando um beijo em seu peito, sua camisa carregando tons de suor. Ele deve ter pegado uma camisa de sua caminuonete antes de correr para pegar a pizza.

Eu fui me afastar e ele pegou minha mão. —Existe alguma outra maneira de fazer você se sentir melhor sobre isso? Sobre nós?

—Miles... —Deus, isso é uma merda. —Se não sentisse que você tinha tomado posse do meu coração, então este anel não estaria no meu dedo, e eu não estaria aqui.

Seus olhos se fecharam. —Você fodidamente me mata, Jem-Jem.

Aliviada, sorri e puxei-o para o quarto.

Não houve protestos quando tirei sua camisa. Seus olhos arregalaram quando eu tirei, então ele se livrou de suas calças. Estendeu a mão para a mesa de cabeceira, pegando uma camisinha e rolando-a enquanto se sentava ao lado da cama.

Logo antes de eu me empalar, sussurrei contra seus lábios. —Além disso, você poderia finalmente me deixar pagar por algumas das hipotecas. —Eu sabia que tinha que ser caro; essa casa era praticamente nova quando nos mudamos, e ficava do lado de fora de um subúrbio que custava uma fortuna para morar.

Miles tossiu, seu aperto nos meus quadris queimando quando ele piscou para mim. —Não, querida. Nós já passamos por isso.

Agarrando-o, parei com a ponta na minha entrada. Um arrepio correu pela minha pele, levantando o cabelo e arrepiando quando ele gemeu em tormento. —Isso me faria sentir melhor. —Eu balancei meus quadris e ele deslizou sobre o meu centro. —Muito melhor.

—Foda-se. —ele soltou, em seguida, agarrou meus quadris, batendo-me para baixo. Ele enfiou as mãos no meu cabelo, puxando e rosnando contra os meus lábios. —Você pode pagar vinte e cinco por cento.

—Trinta. —Eu sorri, mesmo quando meus olhos lacrimejaram pela picada que irradiava sobre o meu couro cabeludo devido às suas mãos ásperas.

—Combinado.

Capítulo onze

As semanas passaram rapidamente.

Flores floresciam em nosso jardim que eu nem sabia que Miles plantara ou cuidara. Embora não deveria ter me surpreendido que ele faria, sendo que era o seu trabalho e tudo.

Eu estava tirando lençóis do varal, amaldiçoando sob a respiração enquanto prendedores de roupa caíam na grama e tentava carregar minha carga sem uma cesta, quando o som fraco de conversa ecoou da garagem atrás de mim.

Curiosa, mudei-me para a porta que ficava na parte de trás, ajeitando a roupa de cama agora amarrotada para girar a maçaneta. O que ouvi em seguida teve a minha mão acalmando.

—Você não acha que sei disso? —Silêncio, então, —não posso. —Uma pausa. —Não, sei o que prometi, mas você está pedindo o impossível de mim agora, Shell.

Shell? Quem diabos era a Shell? Shell como em Shelley?

Com os olhos arregalados e a cabeça girando com perguntas, fiquei no pequeno pedaço de grama atrás da garagem, incapaz de me mover, mesmo que quisesse.

—Você sabe que não é verdade. —continuou ele. —Mas não tem sido tão simples por um tempo agora.

Um carro que passava, crianças brincando na rua e pássaros chamando uns aos outros nas árvores além do nosso quintal preenchiam o silêncio.

—Não, não posso. Você sabe porque. —Ele gemeu, assobiando algo que eu não conseguia entender, e então os segundos continuaram passando até que percebi que qualquer conversa que ele estava tendo, obviamente ao telefone, tinha terminado.

E ainda não consegui me mexer.

Não até que ouvi sua caminhonete revertendo para fora da garagem, então desaparecendo à distância.

 


—Espere. —sussurrei, incapaz de formar a palavra sobre o pânico que pesava na minha língua.

—Jem? Está tudo bem? Merda, aguente firme. —Alguns segundos depois, ouvi uma porta se fechar. —Desculpe, apenas me tranquei na despensa. Os garotos estão gritando em algum programa de TV.

Uma risada saiu de mim. —A despensa? —Eu funguei, limpando meu nariz com a ponta da minha manga. —Você não podia entrar em outro quarto?

—Eu estava pensando rápido, e além disso... —Um som rouco atingiu meus ouvidos. —Eu quero lanchar em paz.

Paz.

Eu queria isso, e foi exatamente por isso que deixei a pilha de lençóis amarrotados em nossa cama e o jantar cru no balcão, depois dirigi até chegar a Glenning. Até que cheguei em casa.

Mas a paz que eu procurava e sempre encontrara aqui ainda não havia chegado, daí meu telefonema para Hope.

Eu tinha alguns amigos na faculdade, no ensino médio também, mas acho que esses laços não eram fortes o suficiente para manter depois de seguir caminhos separados. Então, Hope foi muitas vezes sobrecarregada com meus problemas. Embora eu não achasse que ela se importasse, ela sempre me chamava para desabafar sobre os garotos, Jace, ou às vezes só para preencher o tempo enquanto dobrava a roupa.

Nosso relacionamento agora era diferente do que quando éramos crianças, era melhor.

Depois que nossa mãe morreu, Hope pareceu crescer três metros mais alta em todos os sentidos. Como se ela não pudesse mais ser uma criança e precisasse crescer mais rápido. Isso me deixou triste por ela agora. Durante aqueles anos, ela pulou entre o papel de algo que ela não estava pronta para atuar como os adolescentes deveriam fazer, só que pior. Embora naquela época eu estivesse triste ela se recusou a brincar comigo.

Eu agora sabia que sem ela assumir o papel de irmã mais velha a um nível totalmente novo, eu provavelmente não teria conhecido o mundo com um coração desprotegido. Ela protegeu o meu, sacrificando o dela, e era revoltante que nunca tivesse notado muito até que a mágoa, todas as coisas que ela tentou me proteger, começou a deslizar na minha vida.

—Eu te amo. —eu disse a ela.

—Oh meu Deus. Você está morrendo? —Ela riu e parou abruptamente. —O que há de errado? Conte-me. Agora. —Seu tom de mãe saiu para brincar.

Eu sorri pela janela suja do meu antigo quarto. —Apenas pensei que você deveria saber. Você é forte, altruísta e maravilhosa, e eu amo você.

Ela ficou quieta por um momento, sua voz mais áspera quando disse: —Também te amo, maninha.

Nós permanecemos em silêncio enquanto as memórias se infiltravam, e eu sabia que ela entendia por que estava de repente tão carinhosa quando ela disse: —Eu não tenho arrependimentos, Jem. Nenhum. Mesmo que mamãe não tivesse morrido, sempre fui teimosa. Sempre ansiava por estar no comando e ter independência.

Eu sabia disso e isso me fez sentir um pouco melhor.

Depois de alguns minutos dela me presenteando com uma descrição da bagunça que os garotos haviam feito no jantar e como Jace ia ter que limpá-lo porque ela estava se declarando de folga por um dia, voltou ao assunto em questão.

—Conte. Me diga o que se passa. —Ela parou quando afundou. —Deus, é o Miles? Depois do telefonema da outra semana, pensei um pouco e acho que deveria conhecer esse idiota.

Eu ri. —Pode não haver uma razão para isso em breve. —Isso me matou por dizer, mas algo estava acontecendo, e depois do telefonema que ouvi... bem, isso só fez minhas suspeitas se transformarem em algo real. Eu podia sentir isso rastejando mais perto quando ele estava perto. Provar quando ele me beijou. E não escutar nenhum outro som sempre que seu telefone tocasse.

—Merda, Jem, —Hope sussurrou, seguido pelo som de mastigar enquanto ela comia alguma coisa.

—Jace já traiu você?

Ela tossiu e xingou, depois resmungou: —Avise-me antes de perguntar coisas desse tipo. Santa mãe peluda, quase morri. —Ela nunca superou suas tendências dramáticas, então esperei até que ela finalmente respirasse normalmente novamente. —Ok, vamos voltar um pouco.

Contei a ela sobre o telefone, a mulher no evento de arrecadação de fundos da escola e o quanto estava confortável com Miles, como Tracey dissera que não a conhecia e, finalmente, sobre o telefonema naquela tarde.

—Pode ser porque eles namoraram, como ela disse, —Hope entrou na conversa depois de um longo período de silêncio.

Eu girei uma borla no cobertor ao meu lado. —Pode ser, eu acho. —Suspirei, retornando meu olhar pela janela para o verde que ficava na beira da nossa terra. —Você acha que estou pensando demais?

—Você não é uma de pensar demais.— Hope bufou. —Sem ofensa, mas você está meio alheia à maioria das coisas no mundo real.

—Obrigado. —murmurei. Ela estava certa, no entanto; por mais que a verdade me fizesse uma carranca de indignação.

—Mas... —disse ela em um suspiro, —...o simples fato de que você é geralmente alheia significa que poderia haver alguma coisa. Quer dizer, não estou dizendo que há ou não, mas seu instinto está dizendo para você ouvir.

—Então... —eu pensei, —...suponho que tudo que posso fazer é continuar escutando. —Eu fiquei de pé, andando de um lado para o outro no tapete azul redondo enquanto minha mão livre afundava no meu cabelo. —Isso não ajuda.

Hope amaldiçoou. —Eu fui descoberta. —O som do riso dos meus sobrinhos, quando sem dúvida abriu a despensa para encontrar a mãe, me fez sorrir. —Eu sei que não. —ela disse rapidamente, —...mas isso é tudo que você tem por agora. Confie nisso, mas não enlouqueça até precisar. Você não quer terminar sem motivo.

Tudo verdade.

Eu puxei meu lábio inferior enquanto os garotos gritavam, e então um deles começou a chorar. —Você vai, mas obrigada. Eu falo com você depois.

—Certo, certifique-se de me manter atualizada.

A linha ficou inoperante, e deixei cair meu telefone na cama, com meus olhos vagando pelo meu quarto.

Uma foto na minha cômoda chamou minha atenção, puxando meu coração e meus pés até que me aproximei e a peguei.

Hope e eu parecíamos com ela, com nossos cabelos castanhos escuros e olhos escuros. Mas enquanto Hope tinha ficado com o nariz de botão de papai, eu herdei a ponte forte de mamãe, uma que estava orgulhosamente no meu rosto. Tal coisa normalmente incomodaria a maioria das garotas, mas eu consegui um pedaço dela, e por esse fato, só podia amar isso. Amo o que via toda vez que olhava no espelho. Não de maneira vã; embora eu não fosse insegura ou autodepreciativa, sabia que não era ruim de se olhar. Não, isso aqueceu meu coração, mesmo quando ele apertou para ver um pouco dela olhando para mim sempre que eu via o meu reflexo.

—O que você faria? —Eu me perguntei em voz alta para a foto de uma mulher com longos cabelos castanhos e um sorriso brilhante que ela dirigiu para as duas meninas em seu colo. —Estou tão confusa.

A foto ficou parada. O momento perfeito capturado no tempo e selado atrás de uma parede de vidro manchado de dedo era inútil e reconfortante.

Eu a abaixei, suspirando enquanto voltava para o meu poleiro perto da janela.

Meu celular tocou com um novo texto de Miles. Ele provavelmente estava perguntando onde estava. Eu responderia a ele. E voltaria para casa.

Eu olhei para a floresta.

Apenas ainda não.

 


Cheguei em casa no escuro.

Nenhuma luz estava acesa, a não ser por uma lâmpada na sala de estar. A comida não cozida não estava mais na bancada.

Minha língua envolveu desculpas para o meu paradeiro a viagem inteira para casa, mas mesmo quando pensei que estava com ele, só me perguntava com quem ele estava falando, eu percebi que não seria tão simples assim.

Miles estava dormindo, seus membros musculosos esparramados sobre o edredom como se ele não quisesse desmaiar, a lua destacando os mergulhos e vales de suas costas largas. Seu ronco era a trilha sonora que eu precisava para apagar os acontecimentos do dia e tirar a roupa.

Eu tomei banho pela manhã, não querendo arriscar acordar Miles depois de receber uma folga.

Mas quando me deitei ao lado dele, sem tocar e olhar pela mesma janela descoberta para o céu noturno além, não consegui dormir.

Eu recebi um alerta, mas não precisei de um.

Ele fez, e eu sem saber entreguei a ele.

Capítulo doze

—E muito pessoal escolher cinco coisas de cada de sua estação de atividade para arrumar.

Voltei a arrumar minha mesa enquanto as crianças se esforçavam para pegar cinco itens e devolvê-los para seus lugares de direito. O fato de que eu só precisava fazer um jogo e eles entravam em ação, não importava o quão mal-humorados, cansados e famintos eles estivessem, fazia um sorriso tonto aparecer no meu rosto toda vez.

Depois que eles saíram, terminei de arrumar o que as mãos e olhos pequenos tinham perdido e imprimi novos testes de ortografia para segunda-feira.

O sol brilhante iluminava o mundo do lado de fora da Lilyglade Prep, e meus olhos lacrimejaram enquanto piscava com o brilho, quase tropeçando pelos degraus com minha pasta e bolsa para o estacionamento.

Depois de descarregar minhas coisas no banco do passageiro e fechar a porta, me virei e gritei.

Thomas franziu o cenho como se meu medo fosse uma peste que ele desejava que pudesse afastar. —Honestamente, Little Dove.

—É Jemima. —eu disse, minha mão tremulando em meu rosto. Me apressei-me a passar a mão pelos cabelos e olhei por cima do ombro até o carro, onde pude ver o topo das tranças de Lou-Lou através de uma janela escurecida.

—A mesma coisa. —disse Thomas, seguindo o meu olhar. —Ela está jogando um iPad, e o ar condicionado está ligado, então ela vai sobreviver.

Eu tossi sobre o riso que tentou se libertar. —Está bem então.

Ao olhá-lo, com o terno e a camisa presos, decidi matar uma das minhas muitas perguntas. —O que aconteceu com a mãe dela? —Esperei pela raiva, a bronca certamente seguiria uma questão tão pessoal.

Thomas apenas levantou uma sobrancelha. —Então ela finalmente pergunta.

—Eu sei que ela não está na foto. —murmurei. —Registros escolares e tudo.

Thomas acenou com a cabeça uma vez, mas por outro lado, nenhuma parte dele se moveu.

Meus dedos se curvaram ao meu lado enquanto deixei meus olhos encontrarem os dele.

—Ela está morta. —Sua voz não continha nenhum traço de emoção, nem seus olhos.

Ainda assim, eu disse: —Sinto muito.

Sua cabeça inclinou. —Não há necessidade de se desculpar. Ela era uma mulher podre.

Bem, merda. Eu não pude evitar, e uma risada incrédula escapou dos meus lábios. —Sinto muito. —eu disse novamente, respirando com firmeza. —Isso é só...

—É a verdade.

—É chocante.

Thomas esfregou os lábios e meus olhos seguiram o movimento. Seu lábio inferior era mais cheio que o superior, mas não de uma maneira excessivamente perceptível. Não, você tinha que estar perto o suficiente para ver, o que me fez deslizar pelo meu carro, indo para o lado do motorista.

—De qualquer forma, é melhor eu ir embora. – Não tinha ideia por que ele ficou por aqui depois de pegar Lou-Lou. Talvez ele estivesse atrasado depois do trabalho. Lou-Lou acenou quando olhei para o carro deles, e acenei de volta. —Tenha uma boa noite.

—Espere. —disse ele em um tom que não transmitia urgência, apenas comando gentil. —Minhas mensagens de texto.

De costas para ele, deixei meus olhos fecharem. Então, lentamente, me virei, agindo tão despreocupadamente quanto um elefante desajeitado. —Oh sim, sobre elas...

—Não entre em contato comigo.

Eu não estava planejando, mas suas palavras rápidas me puxaram rapidamente. —O que?

—Confie em mim quando digo que foi uma jogada tola da minha parte. Desde então descobri o erro em meus caminhos e você não pode me contatar.

Com um pouco de raiva, ainda sem saber o porquê, senti vontade de dizer que não queria. Mas encontrando seu olhar novamente, não consegui dizer nada. Ele exalava profissionalismo, um pouco demais, mas por baixo daquele exterior duro, algo fervia em que eu não confiava, algo que temia perturbar. O que quer que tenha sido.

—Não se preocupe. —Abri a porta, observando enquanto ele se virava para o carro. —Ei, mas você nunca me disse como conseguiu o meu número.

—E nunca vou. —disse ele, em seguida, subiu em seu carro. Eu estava prestes a fazer o mesmo quando a janela dele se abaixou, e suas próximas palavras me surpreenderam. —Seus olhos estão abertos, Jemima? Porque as coisas nunca são como parecem.

 


—Baby. —Miles murmurou em meu ouvido enquanto eu preparava uma salada na ilha de cozinha. —Senti sua falta. Para onde você foi ontem à noite?

Ele roubou um pedaço de cenoura, me bicando na bochecha e mastigando enquanto inclinava o quadril contra a bancada.

—Fui para o papai. —coloquei o molho e joguei a salada.

O som de sua mastigação, mesmo com a boca fechada, rangia como pregos no quadro-negro.

Minha pele arrepiou.

—Onde você foi? —Eu perguntei antes que ele pudesse me perguntar por que fui para casa.

Casa. Engraçado como isso não mudou mesmo depois de eu morar aqui com Miles por meses.

—Fui chamado para um trabalho. Alguém encontrou uma cobra no quintal deles e eu não ia recusar quinhentos dólares.

—Uma cobra? —Agarrando dois pratos, coloquei-os antes de retirar o frango do forno.

—Uh-huh.

Miles provavelmente se queixaria de que isso não era comida suficiente para ele, mas eu queria frango e salada, então era tudo que me importava. Seus olhos dançaram quentes no meu perfil enquanto eu preparava nossos pratos.

Uma vez servido, joguei o tabuleiro do forno na pia, peguei alguns talheres para mim e entrei na sala para comer.

Miles seguiu um minuto depois, carregando metade de um pedaço de pão em uma mão e o jantar na outra. Sentou-se no outro sofá e chutou os pés para a otomana.

Eu tinha acabado de comer antes de ele finalmente perguntar: —Você vai me dizer o que está incomodando você ainda?

—É você. —eu disse, chocando a mim e a ele.

Ignorando sua expressão comprimida, sua boca presa no meio da mastigação, levei meu prato para a cozinha e comecei a limpar. Ele sabiamente me deixou, ou talvez não fosse tão sábio quanto minha frustração só cresceu.

Eu bati os pratos na lava-louças, quase me cortei em uma faca, e quando joguei a comida no lixo, metade dela caiu no chão em frente a ela.

Foda-se, ele poderia pegá-lo.

Naquele momento, mal pude discernir o que estava me comendo tanto. Miles e suas mentiras, ou Thomas e suas vibrações estranhas.

Uma estranha combinação de ambos.

Eu pisei pelo corredor, arrancando meu vestido, calcinha e sutiã, em seguida, abri o chuveiro e fiquei sob o jato frio até que a água esquentou, mal sentindo.

Miles entrou quando eu estava trabalhando condicionador através do meu cabelo, seus braços em volta de mim e puxando minhas costas com cada parte dura de seu peito.

Deslizando sua língua por cima do meu ombro até meu ouvido, ele respirou, —Fale comigo.

—Eu não sei se posso. —E era a verdade nessas palavras que não havia sido registrada até então. Eu não sabia se poderia falar com ele. Não sabia se poderia lidar com o conhecimento ou se poderia sobreviver à frustração e ansiedade de não saber.

Quando suas mãos deslizaram pelo meu estômago e envolveram meus seios, ele começou a balançar os quadris e deslizar sua dureza sobre minha bunda e parte inferior das costas.

—Você precisa de mim? —Seus dentes mergulharam no meu pescoço. Eu gritei, e não totalmente em prazer, mas em dor. —Deixe-me te foder melhor.

Uma bobina enrolada com mais força do que qualquer nó se desenrolou em um instante, desgastando e estalando enquanto eu girava em seus braços, chocando-o o suficiente para que eu fosse capaz de empurrá-lo de volta para a parede do chuveiro.

—Quem é a Shell?

Eu observei seus olhos, observei o modo como suas pupilas se dilataram e os brancos se encolheram enquanto ele mantinha sua expressão apertada com confusão. —Porra? Quem?

—Eu te ouvi no telefone ontem. —Eu tinha passado do ponto de me perguntar se soava como um noiva louca e paranóica. Se isso sufocasse o terror que tremia mais alto a cada dia, minhas preocupações apodreceram, eu estava me dando um passe para ser tão louca quanto precisava.

Miles pareceu desvanecer-se na parede de azulejos, seu olhar se voltando para onde a água embaçada pelo sabão girava em torno de nossos pés.

Depois de um minuto de apenas a água corrente para abafar o meu batimento cardíaco, ele encontrou meus olhos novamente. —Ela é minha irmã.

—Sua irmã.

Ele assentiu, e pisei sob o jato para enxaguar o condicionador do meu cabelo, meus olhos nunca deixando o dele enquanto digeria sua mentira descarada.

Não seria fácil, não importa o quanto eu ansiava por isso.

Então deixei-o no chuveiro, me enxuguei e me retirei para a sala de estar.

 

 

 

 

Capítulo treze

Thomas

Os olhos da Little da Dove eram uma reminiscência de um par que tinha visto antes.

Assim que os vi pessoalmente, hesitei.

Seu corpo pequeno e ágil era inocência envolta em culpa, embora ela não tivesse feito nada para justificar essa culpa em primeiro lugar.

Ela era apenas uma mosca enroscada em uma rede de retribuição.

Então ela olhou para mim. Sorriu para mim. Conversou comigo. Riu comigo.

Inconscientemente, ela começou a achatar meus planos precariamente erguidos.

Então, embora demorasse mais tempo do que gostaria de admitir, percebi o dele.

Agora estávamos todos enroscados.

Ela me cegou para o óbvio? Ou minha mente estava me enganando para me manter afiado?

De qualquer forma, agora estava claro como um céu sem nuvens.

Era muito ruim, na verdade. Pena que eu nunca poderia ter previsto o quão difícil isso seria. E não pelas razões que deveria ter sido.

Era o que acontecia quando você era controlado pelo seu pau?

Quer dizer, eu já ouvira inúmeras vezes antes, mas nunca fui governado pela luxúria. Não importa o quão bonita seja a Little Dove. A luxúria era incapaz de me enganar e frustrar meus planos.

Não, era outra coisa. Algo inominável, mas sufocante. A maneira como ocupou espaço no meu cérebro. O jeito que ela fez.

Eu não estava preparado para isso. Não previ isso. Não podia me afastar disso.

Por mais que isso não me incomodasse, eles nunca me incomodaram, isso me envolveu.

Tudo e qualquer coisa para fazer com ela me envolveu muito.

Na verdade, tudo o que aconteceu e provavelmente aconteceria foi por minha causa.


Capítulo quatorze

Miles foi para a cama depois que eu o deixei no chuveiro, e ele acordou cedo para o trabalho na manhã seguinte.

Seus olhos estão abertos, Jemima?

Armada com um plano e cheia de tensão, ignorei as tarefas habituais que faria em casa no sábado e decidi que poderia tirar um dia para mim.

E aproveitei-o puxando gavetas abertas, arrancando cobertores e procurando entre o colchão e o estrado da cama. Embora se Miles tivesse um segundo telefone, como eu achava que ele fazia, então imaginei que provavelmente o levaria com ele.

Era hora do almoço, quando me forcei a colocar tudo de novo na ordem certa e fazer um intervalo.

Depois de comer um saco inteiro de amendoim M & M's, eu completei com meia garrafa de água, resignada com o fato de que precisava ser mais persistente em fazê-lo me dizer a verdade, ou eu precisaria desistir desta caça a bruxa e esfriar o inferno fora.

Fui ao escritório onde meus livros ainda estavam cobertos de pó e solitários em caixas.

Miles havia comprado prateleiras para eles, que ficavam em embalagens planas junto à parede, mas ele nunca conseguira instalá-las. Eu pensei em fazer isso sozinha, mas Hope havia alertado contra fazer essas coisas quando eu choramingava sobre isso, dizendo que fazia alguns caras se sentirem menos homens quando pegamos tarefas como essas deles.

Bem, foda-se sua masculinidade.

Rasguei a embalagem, mais para algo do que para qualquer outra coisa, e congelei quando alguma coisa bateu nos pedaços de madeira dentro da caixa de papelão.

Olhando para o interior escuro, vi um caroço negro perto do fundo e enviei minha mão para pescá-lo. Ele trancou em torno de um objeto de forma familiar.

Um telefone.

Meu coração se enfureceu, tanto no triunfo quanto no desespero, enquanto eu olhava para o telefone que vi pela primeira vez semanas atrás.

Eu funguei as lágrimas, virando-o para o lado para ver que estava em silêncio, para que você não pudesse ouvir o zumbido ou o toque.

Então eu não pude.

A tela se iluminou, exibindo uma nova mensagem a partir das seis da manhã.

S: Eu estarei lá em dez.

Minhas mãos tremiam, meu peito inflando enquanto respirava fundo e investigava mais, abrindo um fluxo de mensagens.

Não havia muitos, mas os poucos eram todos de alguém chamado S.

Shell.

Sua suposta irmã.

S. Parece que isso nunca terminará.

S: Eu sinto sua falta.

S: Não se atreva a esquecer de mim.

O último deles me fez jogar o telefone na parede.

Depois de deixar um amassado, o estojo voou do telefone, e tudo isso caiu no tapete bege entre duas caixas de meus livros.

O tempo passou em um silêncio misterioso enquanto eu olhava para o telefone e tentava entender tudo o que isso significava. Como absorvi a realidade que fui procurar.

Uma vez que registrou com a força de uma marreta no peito, as lágrimas chegaram, e me enrolei contra a parede.


—Jem?

Arrastando meus olhos, limpei-me a boca, quase sorrindo, quase esquecendo, enquanto Miles se ajoelhava diante de mim, preocupação enrugando suas feições.

—Ei o que aconteceu?

Eu me afastei e levantei, minhas pernas geladas por ter ficado no chão por muito tempo. Miles tentou me firmar e rosnei para ele: —Não me toque.

—Baby. —Ele deu um passo para trás com as mãos levantadas como se estivesse lidando com um animal feroz. —O que diabos está acontecendo? Fale comigo.

Seus olhos deslizaram pelo quarto enquanto ele esperava.

Ou ia dizer a ele ou deixá-lo, ou ambos. Ou... eu nem sabia o que fazer. Havia muita coisa acontecendo dentro de mim para decidir uma maldita coisa.

—Eu encontrei o seu telefone. —eu disse. —O outro.— Arrastando meu pulso debaixo da minha boca novamente, funguei. —Eu ia montar essas estantes de livros, finalmente, e você sabe o que? —Minha mão acenou para o amassado na parede, seus olhos seguindo e vendo o telefone e seu estojo em pedaços no chão. —Apareceu um telefone.

—Jem. —ele começou. —Isso não é o que você está pensando.

—Não se atreva. —Dei um passo à frente, sibilando: —Não se atreva a me dizer que sou maluca ou que estou errada, quando há semanas, semanas, estou lentamente perdendo a cabeça, imaginando se sou louca. —Uma risada enlouquecida me deixou, o que só me fez rir mais do momento irônico. —Não quero mais mentiras, Miles. Quero a porra da verdade.

Ele abriu a boca, mais mentiras prestes a derramar, e eu zombei, indo para a porta do quarto.

Suas próximas palavras me pararam. —Foi depois que nos conhecemos. Nós só estávamos no primeiro encontro...

Minha mão disparou, apertando forte ao redor do batente da porta.

O primeiro encontro.

Ele disse isso tão clinicamente como se o tempo que passamos juntos, por menor que fosse, não significasse nada para ele. Não da maneira que isso significou para mim.

Virando, levantei a mão, não ouvindo mais nada do que ele estava dizendo, e perguntei com mais calma do que pensava que jamais teria nesse tipo de situação. Não que eu já esperasse estar nesta situação, embora eu ache que tenha procurado por respostas. Eu não poderia perder minha merda ou reclamar muito sobre finalmente consegui-los. —Quantas vezes?

Com as sobrancelhas apertadas, ele deu um passo em minha direção.

—Pare bem porra aí. —Ele fez, narinas queimando e mãos em punho. Quantas vezes, Miles?

—Uma vez. Porra, eu juro. Mas é mais complicado que...

—O que você fez? —Eu não pude acreditar na minha própria pergunta. Por que queria saber detalhes? Eu não pude responder isso, mas só tinha que saber. —Beijo, apenas toque, ou... —Eu engoli, os olhos se fechando brevemente enquanto eu dizia a última palavra. —foda?

A inclinação de seus ombros e o passo hesitante que ele deu disseram tudo.

—Você fodeu alguém quando nos conhecemos? —Eu bati as mãos dele quando tentou me alcançar e saí do quarto para o corredor.

—Jem, por favor. Correndo o risco de soar como um idiota, posso explicar.

Meus braços cruzados sobre o peito. —Vá em frente então. Explique. Tenho certeza que foi um grande erro. As pessoas acidentalmente têm relações sexuais o tempo todo.

Ignorando meu sarcasmo, ele balançou a cabeça, os olhos implorando. —Eu não posso ainda. Dê-me tempo e tudo fará mais sentido.

Um ruído estranho soou e percebi que era riso. Minha própria gargalhada molhada e sufocada. —Não só você fodeu outra mulher, mas você está seriamente me dizendo que tenho que esperar por uma explicação de por quê?

Ele mordeu os lábios, mais tenso do que já tinha visto antes. Um som estrangulado arrancou dele quando ele apertou a parte de trás do seu pescoço. —Sim.

—Por que ela ainda está contatando você?

Ele não me respondeu.

Eu tentei de novo. —Por que, Miles? E essa é a mesma mulher da festa?

Ele enfiou a mão no cabelo, puxando e gemendo. —Por favor, Jem.

Lágrimas continuaram bem em meus olhos.

Ok, agora eu poderia perder minha merda. —Foda-se e vá se foder.

—Eu não vou a lugar nenhum. —ele disse, seguindo atrás de mim no corredor. —Eu não sou esse cara, prometo. Soa mal agora, mas...

No nosso quarto, me virei para ele. —Vá embora antes que te chute no lixo.

Seus lábios ousaram se esquivar.

Meu joelho encontrou suas bolas, e ele caiu como um saco de batatas, gemendo no chão e olhando para mim como se nem soubesse quem eu era.

E talvez ele não tenha.

Depois de enfiar algumas roupas em um saco, entrei no banheiro para pegar meus artigos de toalete e meu secador de cabelo.

Ele tomou a decisão, no entanto imprudente, de me deixar ir.

 


Capítulo quinze

—Jemmie? —Meu pai saiu para a varanda ao redor segurando uma xícara de chá na mão. —O que você está fazendo?

Puxando minha mochila, puxei-a para fora do banco de trás. Atingiu a terra batida com um baque e bati a porta antes de puxar e minha bolsa para a varanda.

Os olhos do meu pai se arregalaram, e ele colocou o chá nos degraus antes de se arrastar até eles para pegar a mochila de mim.

Eu agradeci, mas não disse nada enquanto entramos.

—Jem. —disse ele, arrastando-me até as escadas para o meu quarto de infância. O mesmo quarto em que me sentei há alguns dias, tentando encontrar respostas. Eu tinha conseguido o que pedi, então por que me senti ainda mais confusa do que antes?

—Jemima Dianne Clayton, me diga o que diabos está acontecendo?

Sendo que era o primeiro nome da mamãe, eu sabia que ele só usaria o meu nome do meio se estivesse realmente preocupado. – Desculpe. —eu disse, fungando e esperando que meus olhos tivessem secado. —Estou bem. Miles é um idiota, mas estou bem.

Meu pai piscou, deixando cair minha mochila na cama. —Ele é um idiota e você está bem?

Eu balancei a cabeça, não querendo falar sobre isso ainda. Eu esperava que ele entendesse isso sem ter que dizer isso.

—Ok. —ele finalmente disse. —Você comeu? Tem um ensopado de carne na geladeira que você pode reaquecer.

—Estou bem. —disse, tentando dar um sorriso tranquilizador. Ele vacilou e caiu. —Só preciso de um tempo.

Depois de um longo momento me estudando, ele foi até a porta. —Eu vou estar assistindo o jogo, se você precisar de alguma coisa.

Expirando aliviada, comecei a desembalar minha bolsa, esperando que minhas roupas de trabalho para segunda-feira não estivessem enrugadas. Eu odiava passar.

—Oh, e Jemmie? —Papai chamou do corredor.

—Sim?

—É um momento ruim para dizer que eu te disse?

Meus olhos rolaram, depois regaram. —Também te amo, pai.

 


—Senhorita Clayton?

Eu olhei para cima de onde estava olhando para as ervas daninhas que brotavam ao redor da armação de escalada e encontrei Lou-Lou, seu cabelo em duas tranças, de pé diante de mim.

—Oi, querida, —eu disse, em seguida, olhei ao redor. —Onde está Rosie? Ela não quer brincar hoje?

Lou-Lou chupou o lábio inferior e balançou a cabeça. —Não, Rosie está bem.

Sabendo que queria me perguntar uma coisa, dei-lhe minha paciência, mesmo desejando me afundar em paz antes de voltar à aula.

—Você está bem? —Ela finalmente perguntou, olhando mais perto do meu rosto.

Chocada, sorri e sorri grande. —Claro, por que você pergunta?

Eu tinha tido o cuidado de ser meu eu habitual. A escola estava quase terminando o ano, então poderia fingir até as férias de verão. Aparentemente, não tinha sido cuidadosa o suficiente. Ou talvez Lou-Lou fosse tão perspicaz quanto eu já sabia que ela era.

—Você parece triste.

Oh garota.

Suas mãozinhas se apertaram juntas e inclinando-se para frente, eu gentilmente as juntei a minha. —Eu só tenho muita coisa em mente. Prometo que estou bem.

—Você promete? —Ela baixou a voz. —Papai diz que as promessas são inquebráveis. Então você precisa dizer isso.

Isso me fez sorrir de verdade. Independentemente de parecer uma mentira, as pessoas tinham seus corações partidos todos os dias e viviam para ver outro nascer do sol. Então eu sabia, não importava o quanto doesse forçar as palavras, que não estava quebrando sua promessa, dizendo: —Eu vou ficar bem, prometo. Tudo em seu tempo.

Lou-Lou ficou olhando. A preocupação inocente, a maneira como seus olhos âmbar procuraram os meus pela verdade que minhas palavras me fizeram querer abraçá-la e apertá-la em um abraço. Em vez disso, apertei as mãos dela e soltei-as, murmurando para ela ir brincar.

Ela deu um passo para trás, me olhando outra vez antes de correr para o parquinho, onde Rosie apareceu com uma bola de futebol nas mãos.

 


Voltei para casa com fome e cansada.

Algo que estava se tornando um novo normal horrível.

A viagem não demorou muito, a menos que você tentasse fazer a viagem no trânsito da hora do rush. Mas estive no meu pai a semana toda e lambi minhas feridas tempo suficiente, então fiz planos para voltar para o meu apartamento naquele fim de semana.

Enquanto removia a poeira das molduras e colocava livros nas prateleiras, sorri.

Sorri porque, mesmo com a ferida machucada a cada respiração, fiquei orgulhosa de mim mesma. Não que ser orgulhosa ajudou muito. Mas o apartamento que eu mantinha era um sinal de que, tanto quanto eu mergulhara em nosso relacionamento com abandono imprudente, e tão estúpida quanto me fazia sentir, tinha feito uma coisa certa.

E precisava desesperadamente não me sentir uma idiota por um minuto quente.

Papai me seguiu até a cidade. Sua ajuda não era necessária, mas sua companhia foi apreciada enquanto me ajudava a limpar, livrando o apartamento de coelhinhos e teias de aranha. Ele estava em silêncio principalmente, pelo que eu era grata, sabendo que ele provavelmente estava fervendo por dentro depois que finalmente divulguei os detalhes do que aconteceu com Miles. Ele ficou quieto por mim e só por isso abracei-o dez vezes antes de entrar na caminhonete e voltar para casa.

A chuva batia na janela enquanto eu colocava alguma roupa para secar em cima de um cabide de roupas no canto da sala de estar. Drapeando um cardigã cinza sobre a última fileira de trilhos, espiei pela janela o céu coberto de nuvens. Eu me perguntava, muito mais do que queria admitir, o que Miles estava fazendo. Me perguntei por que ele não tentou me ligar, ou porque nunca apareceu.

Aquela outra mulher estava tomando todo o seu tempo agora? Ele realmente mudou isso rapidamente?

Eu me perguntei, chorei e, eventualmente, as duas coisas aconteceram com menos frequência. Foi assustador que ao longo de quase duas semanas, já pudesse sentir a diferença no meu peito. Me senti soltar mais e mais. A diferença mais perceptível quando se apertou, tornando difícil respirar, enquanto os pensamentos dele me derrubavam de lado.

Hope me disse que o truque era não pensar nele depois que cedi e liguei para ela na semana passada. Mas eu tentei isso, e o medo de sufocar as lembranças foi de alguma forma pior do que revivê-las. Então me forcei a revivê-las. Todas as noites, na segurança da minha cama de solteiro com meu ursinho carinhoso e meus bonecos me encarando dos cantos da sala, deixei escapar o que não queria mais pesar em meu coração.

 


Quatro batidas martelaram minha porta logo depois das oito da noite seguinte, e eu soube.

Eu sabia que era ele.

Eu queria ignorá-lo. Para esquecê-lo do jeito que ele parecia ter se esquecido de mim, desci do velho sofá e fui até a porta com meu short de dormir, uma camiseta e chinelos.

—Quem é. —eu disse mais do que perguntei.

—Jem, me deixe entrar. Ou pelo menos abra a porta.

—Por quê? —Eu sabia que pelo menos iria abri-la, mas ele poderia suar primeiro.

—Porque sou um imbecil enorme que sente falta de você. É por isso.

Meus cílios estavam pesados, minhas pálpebras caídas no chão arranhado enquanto suas palavras roucas deslizavam dentro do meu peito dolorido, enterrando-se em feridas que estavam curando, ou pelo menos tentando.

Eu abri a porta.

Miles olhou para mim com olhos avaliadores e a cabeça pendurada. Ele era a imagem do tormento com os braços apoiados em ambos os lados do batente da porta. Músculos se agarraram, depois se agruparam, e a energia que irradiava dele me fez dar um passo para trás. Me agarrei à porta quando seu olhar me varreu da cabeça aos pés e de volta, segurando meu olhar.

—Você não estava aqui quando vim na semana passada.

—Eu estava... —Parei de dizer em casa, não querendo machucá-lo, mesmo que não deveria dar a mínima. Foi então que percebi que você poderia odiar e amar uma pessoa ao mesmo tempo. Você poderia desejar que eles nunca tivessem existido enquanto sentia falta com uma tenacidade que queimava suas entranhas.

Ele assentiu, entendendo. —Você vai me deixar entrar?

Eu balancei a cabeça.

Ele suspirou profundamente, os braços se afastando do batente da porta quando se aproximou. Ele parou e se inclinou, não perto o suficiente para tocar, e perto o suficiente para bater na cara dele com a porta se o deixasse passar.

Tentador.

—Eu sei que estraguei tudo. Nunca vou negar isso...

—Mas você fez, —eu cortei. —Negar isso. Você mentiu todo o tempo que estivemos juntos, Miles.

Ele engoliu em seco, sua mandíbula funcionando. —Sim. A coisa é que eu estava dizendo a verdade quando disse que há mais do que isso. Mais que não posso explicar agora.

—Eu não posso esperar por isso, e se estou sendo honesta, o que seria bom mesmo? —Implorei para ele me ouvir, entender. —Não vai mudar o que você fez, vai? O que você pode fazer de novo, se ainda não o fez.

—Não, —ele disse imediatamente, movendo-se para a frente e segurando meu queixo. —Eu juro para você, isso não acontecerá novamente. Falei sério quando disse que não sou esse cara, e detesto ter feito você pensar que sou. —Sua cabeça se inclinou e seus lábios se moveram rapidamente sobre os meus, tomando, forçando, implorando.

Eu me afastei, soltando meu aperto na porta até que ela escorregou da minha mão úmida.

Ele tomou a abertura, dando dois passos largos em meu apartamento e sussurrando com veemência: —Eu te amo e sei que você ainda me ama. —Seu olhar caiu para o anel que eu ainda usava. O anel que não consegui tirar do meu dedo ainda. Foi mais do que apenas a dor que causaria. Estava dizendo adeus a um conto de fadas que eu não estava pronta para fazer.

—Isso não significa que possa apenas te perdoar. Não funciona assim.

—Então vamos fazer funcionar. —Sua voz ainda estava baixa, balançando-me em meus pés com seu olhar e sua intensidade. —É você e eu, querida. Nós vamos passar por isso. Nós só precisamos de tempo.

Precisamos de tempo.

Quantas vezes eu mesma disse essas palavras.

—Vai. Por favor. —Eu peguei a porta. – Não quero fazer isso.

—Eu não vou embora até que saiba que ainda tenho você. —Ele estendeu a mão, agarrando a parte de trás da minha cabeça e enfiando os dedos no meu cabelo. —Vou te dar espaço, mas não vou desistir de você. Me compreende?

Palavras cobriram minha língua, pesando com tudo que queria dizer, gritar e gritar. Mas não fiz nada disso.

—Eu não posso te dizer o que você precisa ouvir. E vendo que você não pode fazer o mesmo por mim, acho que entenderia isso.

Lágrimas envolveram minha voz, emplumavam minha garganta e espetavam os cantos dos meus olhos. – Estavam presas. Não saiam.

Miles baixou a mão, derrotou os ombros enquanto recuava um passo. —Não é verdade. Nos falamos em breve. —Quando não disse nada, ele pressionou: —Ok?

Querendo que ele fosse embora, tudo que fiz foi concordar.

Depois que fechei a porta, ouvi um rosnado de maldições na escada.

Segundos depois, o que soou como um punho encontrando a parede escondeu o som dos meus soluços sufocados.

 

 

 

 

 

Capítulo dezesseis

O verão ondulou ondas de calor ao redor do ar da primavera, avisando a todos que ele estava sobre nós.

Eu tinha uma semana até que pudesse fazer o que mais queria, fugir para casa ou ir para qualquer outro lugar que não fosse aqui.

Felizmente, nenhum dos meus colegas de trabalho comentou sobre a minha aparência amarrotada ou olhos famintos pelo sono. E as crianças, além de Lou-Lou, eram alheias a maior parte do tempo, desde que sua rotina permanecesse a mesma.

Armada com um balde de água e sabão e uma esponja que eu mantinha na pia no fundo da sala para limpar suprimentos de arte e acidentes de pintura, me senti confortável em frente à arte do marcador desenhada na parede. Bem, tão confortável quanto alguém poderia entrar no chão de madeira dura.

—Você realmente deveria tentar o álcool isopropílico.

A esponja caiu no balde, gotas de água morna pularam para me bater no rosto.

Olhando por cima do meu ombro, vi Thomas em pé na porta da minha sala de aula, segurando o chapéu entre as mãos. —Hã?

Ele fechou os olhos e respirou fundo. Quando eles reabriram, eles brilharam com irritação. —Me desculpe, Little Dove. E eu quis dizer álcool.

Quando ainda estava sentada, tonta, ele continuou como se eu não o tivesse entendido. Eu fiz; Estava apenas sem palavras. —Removedor de verniz, desinfetante para as mãos...

Levantei-me do chão, detendo-o ali mesmo. —Eu sei o que é álcool. —Revirei meus olhos. —Eu fui para a faculdade, lembra? —Lembrei-lhe da vez em que ele quase me acusou de ser ignorante.

—Eu suponho que eles não ensinam boas maneiras lá.

Ignorando isso, acenei para Lou-Lou, que estava atrás dele, mastigando uma maçã.

—O que posso fazer por você, Dr. Verrone?

Com as sobrancelhas franzidas, talvez pelo uso de seu sobrenome e não pela primeira vez, levou um momento para dizer: —Eu estava dizendo olá.

Agora era eu quem estava confusa. —Certo. Bem, obrigada?

—Seja bem-vinda. Posso te acompanhar até o seu carro?

Eu encarei a carinha sorridente na parede, depois encolhi os ombros. —Claro, um segundo.

Peguei o balde e a esponja no fundo da sala para esvaziar e coloquei de cabeça para baixo ao lado da esponja na pia. Quando me virei, Thomas estava estudando as equações matemáticas no quadro branco. —Isso é básico.

—Coisas tão simples para nós... —eu combati. —Esquecemos como é intrincado para a mente resolver a princípio.

Thomas olhou fixamente, seus olhos ilegíveis enquanto se colavam aos meus.

Lou-Lou limpou a garganta, e então ele disse: —Na verdade, Lou gostaria de saber se você quer brincar.

Eu olhei para ele, incerta de onde essa ideia tinha vindo.

Lou-Lou gemeu e puxou sua mão. Thomas suspirou. —Tudo bem, ela disse que você precisa vir brincar porque não sorriu adequadamente em duas semanas.

Ignorando o olhar curioso de seu pai, perguntei a Lou-Lou: —É verdade?

—Sim. Balanços sempre me fazem sorrir.

Com nada mais planejado além de macarrão e um livro inacabado, eu tranquei e os segui para fora no parquinho vazio.

—Tecnicamente, não devemos deixar ninguém usar o equipamento de brincar depois do horário de aula... —destranquei o portão e me abaixei, sussurrando para Lou-Lou, —...então terá que ser nosso pequeno segredo.

Lou-Lou imitou fechando os lábios, em seguida, saltou para o balanço, as pequenas pernas chutando assim que ela pulou no assento de borracha.

Eu abaixei para o banco de madeira, e Thomas lentamente fez o mesmo, mantendo uma grande distância entre nós. Eu estava em uma ponta, ele na outra.

—Eu cheiro? —Fui me checar, depois pensei melhor, sabendo que não. —Eu posso trabalhar com crianças o dia todo, mas acho que não.

Thomas se aproximou em resposta, mas ainda havia espaço suficiente para espremer dois corpos entre nós. Eu sorri para o chão.

—Lou diz que você vai se sentir melhor em breve. —Ele manteve o olhar nela. —Estou supondo problemas com o... noivo?

—Você adivinhou certo. Eu realmente queria te perguntar... —lambi meus lábios, suas palavras retornando. As mesmas palavras que enviaram minhas dúvidas em queda livre em busca da verdade. —Como você sabia?

Thomas colocou o chapéu na cabeça. —Como sabia o quê?

—Você sabe, que ele me traiu.

Suas mãos se juntaram em seu colo. —Eu não sabia disso.

Perplexa, passei a mão pelo meu cabelo. O que ele estava falando então?

Lou-Lou gritou de alegria enquanto se agitava no ar, seus cachos ondulando atrás dela.

—Como é ?

Suas palavras suaves demoraram a penetrar e, quando o fizeram, levei os olhos ao perfil dele. —Ser ferida, você quer dizer?

Thomas sentou-se empertigado, com os pés envoltos em couro plantados uniformemente no chão coberto de casca na frente dele. —Sim. Ele não te machucou no sentido físico. —Ele não esperou pela minha resposta. —machucou seu coração.

Palavras tão candentes mas interessantes. —Ele fez.

—Então ele estava tendo um caso? —Não houve hesitação por trás de suas palavras, nenhuma preocupação com ultrapassagens. Foi refrescante.

—Não exatamente. Mas ele dormiu com outra mulher. Nós aparentemente nos juntamos quando aconteceu.

Pela primeira vez, ouvi Thomas Verrone xingar, depois murmurei em tom seco: —Aparentemente.

Lou-Lou franziu a testa como se o ouvisse de seu novo poleiro em cima do escorregador. Ele acenou, forçando um sorriso que parecia ter quebrado as maçãs do rosto perfeito, se virou e desceu no escorregador.

—Você a chama Lou?

—Sim. —disse ele. —Dizer Lou-Lou é demais me faz sentir como eu possuo um Chihuahua em vez de uma criança.

Eu ri do uso próprio. —Ta brincando né?

Seus lábios se torceram, depois um ombro se levantou. —Claro. Então, como se sente?

—Você realmente quer saber?

—Eu não teria perguntado caso o contrário.

—Você nunca teve seu coração partido? —O estudei mais perto, admirando a forma como a luz da tarde se esgueirou sob a borda curta de seu chapéu e ricocheteou nos ângulos agudos de seu rosto. Intocável. Até para os elementos. —Nunca?

—Uma vez. —ele admitiu. —Mas não na mesma capacidade que você.

Eu gostaria de poder perguntar a ele da mesma maneira que ele me perguntou, sem hesitação, quem ou o que havia quebrado seu coração. Talvez eu pudesse, mas por enquanto, resolvi tentar descrever minha própria dor.

—É como se algo estivesse no seu peito. Pressionando. Há essa pressão que afeta tudo o que você faz. Como você come, como dorme, como respira, como fala... tudo.

Eu olhei para Thomas, que tirou os olhos de Lou-Lou e agora estava olhando fixamente para mim. Tendo a atenção total desse homem. —Não havia nada parecido com isso. —Em um instante, seu olhar só afugentou todos os sentimentos que acabei de descrever.

—Continue.

Eu balancei a cabeça, saindo do meu estupor.

—Por que você parou?

Homem curioso.

Sentindo-me arremessada, decidi ver como ele se sentia quando a verdade era atirada de volta para ele sem nenhum aviso prévio ou o adoçar. —Porque por um segundo, olhando para você, tudo desapareceu.

Se ele ficou chocado, não demonstrou. Ele piscou, varrendo longos cílios negros sobre os olhos gelados. Olhos que pareciam mais quentes do que eu pensava inicialmente. —Papai! Senhorita Clayton! Venha subir comigo.

De alguma forma, eu sabia que Thomas escolheria não responder, e precisando me afastar do calor de sua atenção, corri para a moldura de escalada, cantando com Lou-Lou enquanto ela contava seus passos para cima e para baixo na escada de corda.

A diretora Crawley espiou por cima do teto de seu carro dez minutos depois, e peguei Lou-Lou do balanço, tomando isso como uma deixa para sair. —É melhor irmos... —eu disse. —Nós não queremos ser pegos e possivelmente proibidos de usar o playground.

—De jeito nenhum. – Lou-Lou disse, pegando minha mão oferecida e balançando-a quando ela encontrou seu pai, que estava de pé com as mãos nos bolsos, o fedora inclinado sobre a testa enquanto nos observava.

Depois de trancar o parquinho, ajudei Lou-Lou na parte de trás do carro deles, certificando-me de que ela prendesse o cinto de segurança. Logo antes de fechar a porta, ela disse: —Você sorriu muito mais sorrisos. Você está melhor agora?

Eu alcancei dentro do carro para beliscar seu nariz, e ela riu. —Quase.

Com a porta fechada, virei-me e fiquei cara a cara com Thomas. Ele parecia não ter nenhuma preocupação com o espaço pessoal agora e estava a um cabelo em pé perto de mim.

Ele tirou o chapéu, mas seu cabelo escuro permaneceu perfeito. —Você quis dizer o que disse?

Eu poderia mentir e me sentir menos envergonhada, ou poderia admitir a verdade e esperar que isso não tornasse as coisas embaraçosas. —Eu não digo coisas que não quero dizer. —Seus olhos acenderam. —Sim, por um momento, você me fez esquecer. —Meu sorriso tremeu. —Então, obrigada.

Eu pisei ao redor dele, destrancando meu carro e subindo para dentro.

Antes que pudesse ligar, a porta se abriu e Thomas entrou também.

Meus olhos dispararam para os dele, minha boca prestes a perguntar por que ele estava no meu carro, mas não tive a chance.

Ele estendeu a mão, pousando sobre o lado do meu rosto com o polegar roçando minha bochecha. Todas as palavras que eu tinha, agora estavam frias e esquecidas. —Little Dove, vou te beijar.

E ele fez.

Antes que pudesse dizer qualquer coisa ou até respirar, seus lábios se fundiram com os meus. Suave, pressionando e perfeito.

Minha mão se moveu para o rosto dele, os dedos queimando quando eles se conectaram com sua pele quente. Cheguei mais longe, e eles formigaram com a vontade de puxar seu cabelo macio.

Um som de clique atingiu meus ouvidos, e meus olhos se abriram, mas então sua língua separou meus lábios, movendo-se lentamente para dentro para encontrar os meus.

Seus movimentos eram hesitantes, mas cheios de propósito. Seu polegar ainda roçando minha bochecha e seu gosto de menta corroendo o choque de ter os lábios de outro homem tocando os meus.

Outro estalo fez com que eu me afastasse e olhasse pelo para-brisa para ver se algo havia acontecido.

Nada estava lá. Apenas o balanço das árvores e um pátio de escola vazio.

E quando olhei para Thomas, minha pele corou e meu coração explodiu em meus ouvidos, ele já estava fora do carro. —Até a próxima vez, Little Dove.

Incapaz de me mover, sentei-me ali, observando enquanto seu carro deixava o terreno com meus dedos nos lábios.

Eu não tinha certeza do que sentia. Raiva pelo jeito que ele poderia ter tirado vantagem das minhas palavras honestas? Culpa por deixar os lábios de outro homem beijarem os meus? Pois mesmo que eu fosse tecnicamente solteira, ainda não tinha tirado o maldito anel. Ou foi excitação das endorfinas que rastejaram pela minha corrente sanguínea, zumbindo constantemente quando saí do estacionamento?

Em casa, parei ao ver o buraco do tamanho de um punho na escada, o único que Miles deixou para trás depois de sua visita, e decidi pela culpa.


Capítulo dezessete

Miles

Em questão de semanas, Jemima Clayton virou meu mundo inteiro de cabeça para baixo.

E eu ainda estava pendurado lá, esperando ela me puxar para cima.

Exceto que provavelmente não aconteceria.

E era tudo culpa minha.

Meu coração se tornou embrulhado em uma mulher que era todas as curvas esbeltas, olhos castanhos e cabelo macio e escuro. E mesmo que não tenha acontecido do jeito que aconteceu, não fiquei surpreso. Não por um longo tiro.

Ela tinha vinte e três anos e era jovem demais para mim. Eu era quase dez anos mais velho que ela. Embora ela agisse dez anos mais velha na maioria das maneiras, havia uma vulnerabilidade com ela que rapidamente se tornou aparente.

Minha pequena Jem nunca tinha voado longe do ninho. Mesmo com a mãe morrendo enquanto ela era criança, viveu uma vida protegida. Eu poderia ter atirado em alguém quando descobri exatamente quem estava arruinando.

Eu imaginei que era justo que eu fosse arruinado em troca.

Olho por olho.

Mas eu pensei que poderia impedir que isso acontecesse, me impedir de entrar muito fundo. E no momento em que temia que fosse tarde demais, eu já era um homem que se afogava.

Não havia como voltar agora.


Capítulo dezoito

Miles não veio novamente naquela semana.

Eu disse a mim mesma para ser grata por isso, pelo espaço que eu pedi, mas não estava agradecida.

Eu estava louca.

O que eu agradeci foi o ano letivo chegando ao fim naquela sexta-feira. Nós celebraríamos com festas de classe e filmes, em seguida, seguiríamos com uma reunião de equipe para encerrar o ano e garantir que todos estavam na mesma página quando voltássemos no final de agosto.

De pé na porta da minha sala de aula, olhei para as paredes nuas enquanto a nostalgia tomava conta de mim. Uma sala onde obras de arte, casacos, bolsas, tabelas de multiplicação e gráficos pendurados, cada item desesperado por mais espaço, agora com tudo finalizado de tornou uma concha vazia.

A porta fechou com um clique tão quieto que não deveria ter ecoado nos meus ouvidos. Esfreguei meus braços nus, então peguei as bolsas de lona cheias das minhas coisas do chão e as levei para o meu carro.

Envolta em seu traje habitual, mas desta vez com a jaqueta abandonada, Thomas marchou para longe do meu carro e na minha direção. Ele pegou as malas das minhas mãos antes que eu tivesse a chance de dizer olá e as levou silenciosamente para o meu carro.

—Obrigada. —eu disse. —Nós não vimos você hoje. —Alguns dos pais compareceram no último dia de aula, participando ou ajudando nas atividades. Foi um festival de doce, e muitas crianças brincaram depois do almoço de muitas maneiras divertidas, então a ajuda extra era apreciada.

Não me chocou que Thomas não aparecesse; O que me chocou foi que eu estava procurando uma resposta sobre por que ele me beijou apenas alguns dias atrás. E pelo rápido olhar de relance que ele me jogou quando colocou minhas malas no meu bagunçado carro, ele sabia disso.

—Eu tive que trabalhar. —afirmou, fechando o porta-malas e colocando minha bolsa em minhas mãos.

Calor infundiu minhas bochechas quando vislumbrei a pele bronzeada suave acima dos botões desfeitos de sua camisa, e seu cheiro me alcançou. Canela e hortelã. Estava se tornando algo que eu gostava, algo familiar. Vergonha espiralou raízes geladas pela minha espinha na descoberta.

—Você parece doente.

—O que? —quase gritei.

Thomas, soando confuso, explicou: —Você tem o olhar em seu rosto que Lou tem quando ela realmente precisa usar o banheiro, mas não pode.

Minha bolsa escorregou das minhas mãos quando eu dobrei, riso uivando para fora de mim e fazendo meus olhos lacrimejarem. Eu não estava nem um pouco envergonhada. estava longe disso quando a umidade escorria em minhas bochechas, e me endireitei, felicitando-me por não serem as lágrimas do meu coração. —Jesus.

—Não há necessidade de blasfêmia. —disse Thomas com tanta seriedade que mordi a língua para parar de rir novamente. Ele pegou minha bolsa no chão e, depois de limpar a terra, a devolveu para mim novamente.

Eu peguei, minha mão apertando a dele antes que ele pudesse soltar o material de couro.

Ele pareceu surpreso, seu olhos azuis se alargando com sua rápida ingestão de ar. —Obrigada.

—Por dizer algo bastante estúpido? —Ele balançou sua cabeça. —Ou por fazer você largar sua bolsa? Olha, não sou bem versado com mulheres.

—Oh. —eu disse, meu coração afundando uma fração, mas não deixei cair a mão dele.

Uma corrente irradiava entre a nossa pele, a minha formigando quanto mais tocava a dele.

—Isso não significa que prefiro homens. —Ele parou, parecendo exasperado consigo mesmo, e prendi meus lábios em minhas bochechas. —Parece que estou fazendo isso de novo.

Culpa, raiva e qualquer vergonha que eu sentia por estar perto dele evaporavam, deixando espaço para eu reconhecer o calor constante crescente em meu peito pelo que era. Curiosidade ardente. Ao contrário de qualquer outro sentimento que senti antes.

Poderia ter sido a diferença marcante entre ele e qualquer outro homem que já conheci.

Ou simplesmente poderia ser ele.

—Tome uma bebida comigo. – eu disse chocando nos dois. E eu nem bebia muito.

Ele olhou para a minha mão, e a puxei para longe, sentindo-me mortificada pela sugestão e pelo fato de que a fiz enquanto ainda usava o anel de outro homem.

—Quando? —Thomas perguntou enquanto eu girava para o lado do motorista do meu carro.

Piscando algumas vezes, engoli e encontrei seu intenso olhar sobre o teto. —Uh, quando você estiver livre, eu acho? Sou tão livre quanto um pássaro durante todo o verão. —Para enfatizar minha excitação com isso, joguei minhas mãos para fora, e minha bolsa me bateu na perna, me fazendo pular. —Merda. —Ele sorriu. —Talvez chá ou café? Eu não quis dizer uma bebida, beber. —Deus, minhas bochechas provavelmente eram da mesma cor das minhas sapatilhas vermelhas. —De qualquer forma, há um café bonito na rua do meu apartamento chamado Bernie's.

Um flash de dentes brancos me segurou grudada no lugar, seus olhos brilhando enquanto ele assentia e abria a porta do carro. —Eu tenho que ir; Lou está na aula de piano a alguns quarteirões de distância. —Ele afundou no interior escuro do carro. —Amanhã às dez, Little Dove.

 


Nove quinze.

Prata e diamantes estavam no brilho do sol da manhã enquanto eu me sentava no meu sofá. Ainda de pijama e ainda sem qualquer traço de maquiagem, eu ainda não tinha certeza.

O tempo deveria curar todas as feridas. Eu acreditava nisso, perder a minha mãe era a prova disso. Sentia falta dela todos os dias durante anos, e agora só sentia falta do que poderia ter sido tão bom com os pequenos trechos que eu lembrava dela.

Tudo se desvaneceu. As memórias desapareceram. Mágoas desaparecem. Mas, embora o tempo o torne tolerável e mais fácil de sorrir, viver, isso não apaga completamente a dor.

Nós estávamos condenados a sempre segurar uma dor em nossos corações daqueles que nos deixaram ou nos feriram?

Enquanto estava sentada lá, no mesmo lugar em que estava sentada desde as cinco da manhã depois de acordar suando frio, olhando para aquele anel e sentindo seu peso familiar no meu dedo, concluí apenas uma coisa.

Era inteiramente por mim o quanto eu deixava essa dor me alcançar.

Eu não tinha que deixar o que estava acontecendo com Thomas ficar sério. Não tinha que permitir a preocupação de seguir em frente cedo demais.

Eu só tinha que fazer o que fosse preciso para tornar o tempo suportável.

Levantando-me, fui para o meu quarto com os pés dormentes enquanto a circulação retornavam e abria a caixa de jóias que eu tinha desde criança. Os sorrisos desgastados pelo tempo das fadas, ambos zombavam e acalmavam quando tirei o anel do meu dedo e o deixei cair dentro.

Nada aconteceu. Meu peito não desabou. Minha respiração permaneceu a mesma. A única diferença era uma mão visivelmente mais leve.

Fechei a tampa e caminhei até o chuveiro, onde tirei meu suor da calcinha e sutiã, e me permiti chorar mais uma vez.

 


Nove quarenta e cinco.

Correndo pelo apartamento, puxei um vestido de algodão branco com girassóis do cabide onde ele secou durante a noite e o coloquei sobre a minha cabeça. Eu chequei e verifiquei novamente minha aparência, então decidi que não importava se eu usasse uma camada de rímel ou duas.

Thomas tinha me visto coberta de manchas de tinta, cola e desgastada por horas gastas com as crianças. Ainda assim, eu tive tempo suficiente para secar meu cabelo molhado, borrifar um pouco de perfume floral atrás das minhas orelhas e pulso, depois colocar um par de chinelos cor de rosa.

A brisa forte que atravessava as ruas da cidade terminaram de secar meu cabelo e qualquer suor que cobria minha pele de andar tão rápido.

Ele já estava lá. Vestindo um par de jeans escuro com uma polo preta combinando, ele se sentou a uma mesa na sombra com os olhos no relógio de bolso.

—Eu não acho que já vi você não vestindo um terno. —arrastei uma cadeira, as pernas de metal raspando o concreto.

Uma leitura rápida de mim teve um choque confuso com uma apreciação óbvia naqueles olhos sérios.

Sua expressão voltou impassível, e ele se inclinou para frente para embolsar o relógio em seu jeans. —É raro eu usar qualquer outra coisa, sim. —Usando o dedo indicador, ele empurrou um menu pela superfície de metal em minha direção. —Eu pedi um chá para você, mas você gostaria de algo para comer?

—Você sabe como eu gosto do meu chá?

Sua expressão não se moveu de ilegível, mas seu olhar estava pesado em meus lábios. —Eu tomei uma suposição selvagem.

Uma garçonete colocou o nosso chá na mesa e, para meu choque, ele acertou. Chá preto com dois açúcares. Peguei os pacotes de açúcar, tremendo e os rasguei para despejar no meu chá enquanto tentava descobrir como eu me sentia sobre ele conhecendo tais detalhes pessoais sobre mim.

—Obrigada. —consegui dizer enquanto mexia o meu chá.

Um aceno de cabeça foi concedido, e então ele tomou um gole do seu próprio. Sem açúcar. Apenas preto. —Eu percebi que você não era muito aventureira, então começou a diminuir a escolha, e... —No meu sorriso, ele exalou um longo suspiro. —...E vou calar a boca.

—Por favor, não. —eu disse, levantando a caneca branca aos meus lábios e tomando um gole. – Não convidei você aqui para que eu pudesse falar. Que tipo de médico você é?

—O tipo que lida com dentes. —Sorri sobre a borda da minha xícara de chá.

—Por que você me convidou aqui? —Ele não parecia aborrecido, apenas curioso.

O líquido quente deslizou pela minha garganta e eu tomei outro gole enquanto pensava na resposta. —Eu não sei... —finalmente admiti. —Por que você veio para a escola ontem, enquanto Lou estava na aula de piano?

Ele tomou um gole de chá. —Eu não sei.

Eu pisquei, correndo meu dedo ao redor do pires. —Onde está Lou-Lou?

—Com a minha assistente em casa.

—Ela é uma garota muito inteligente. —Relaxei no assento desconfortável e frio. —Eu não estou apenas dizendo isso também. Ela é... intuitiva também.

Os ombros de Thomas pareciam se elevar, minhas palavras puxando sua postura já perfeita um pouco mais alto como uma marionete em uma corda. —Ela é brilhante.

Havia mais em suas palavras do que mero orgulho paterno. Ele sabia que ela era brilhante além das maneiras que ele a amava, mas de maneiras que lhe oferecessem muitas oportunidades. Eu sorri. —Ela poderia ter o mundo.

—E eu pretendo garantir que isso aconteça.

A gravidade por trás de suas palavras me fez rir, em seguida, olhando ao redor do pequeno pátio para encontrar os olhos de todos em nós. Eles desviaram o olhar.

Thomas suspirou e olhei a tempo para ver o que parecia ser uma careta cruzando suas feições. —Eu menti.

—Oh? —Eu fiz uma careta para o óbvio desconforto dele. —Tudo bem. —Tentei rir mesmo quando queimei com o desejo de saber sobre o que ele mentiu.

Os segundos se passaram enquanto ele me observava tomando meu chá por cima da borda de sua caneca. Seu olhar era estudioso, como se estivesse aprendendo, absorvendo e memorizando. Tinha formigas sapateando sobre o meu estômago e me fez sentir como se eu nunca tivesse realmente alguém olhando para mim antes.

Vou te dar espaço, mas não vou desistir de você.

A xícara de chá quase escorregou da minha mão trêmula enquanto eu empurrava os pensamentos de Miles para longe.

Isso era cedo demais, e se tivesse que ser honesta comigo mesma, provavelmente estaria apenas usando Thomas para me sentir melhor. Talvez ele soubesse disso. Talvez não se importasse.

Thomas baniu meus pensamentos com suas próximas palavras. —Eu sei porque voltei. Foi para ver você. —Ele lambeu os lábios, e meus olhos acompanharam o movimento, então separei o meu quando ele disse, —E você acreditaria em mim se dissesse que era para te convidar para sair?

—Estranhamente, acho que sim.

Seu sorriso fez o meu aparecer de novo, e aquele calor constante crescente escorria pelos meus membros. —Lou diz que você cresceu fora da cidade.

—Glenning. Meu pai ainda está lá em nossa pequena fazenda.

Thomas recostou-se na cadeira, os dedos se encontrando sobre o estômago liso. —Me fale sobre isso?

Eu sorri. —OK.


Capítulo dezenove

Ang B, pá, pá.

—Abra, Jem!

Eu joguei meu livro na mesa de café, lentamente desdobrando minhas pernas cruzadas para ficar de pé. Eu estava em casa por uma hora, então o momento da visita de Miles tinha minha cabeça girando.

Thomas tinha me levado para casa, mas ele não me beijou, nem sequer me tocou, e saiu com um polido ‘Até a próxima vez, Little Dove.’ pendurado no ar úmido entre nós.

Eu o observei andar na rua e ficar parado ali enquanto as pessoas se movimentavam muito depois que ele desapareceu na esquina.

—Oi. —Minha saudação foi cautelosa quando abri a porta e encontrei Miles, que parecia um tanto nervoso.

Seu cabelo estava mais bagunçado do que o normal, como se ele não conseguisse manter as mãos longe dele, e seus olhos estavam vermelhos como se não tivesse dormido em dias. Sua camisa estava enrugada e era uma que ele usava apenas em torno de casa. Nunca em público.

—Baby. —ele murmurou, me puxando ao seu peito em dois passos rápidos.

Perdida no cheiro dele, o sol e o suor que permaneciam em sua pele, levei muito tempo para sair do seu abraço. Quando fiz isso, ele franziu a testa e estendeu a mão para mim novamente.

—O que você quer?

—Isso é óbvio, não é? —Ele estalou, depois sacudiu a cabeça. —Desculpa. Você, eu preciso de você. Isto está me enlouquecendo.

—Miles... —eu comecei, mas ele cortou.

—Não, não diga isso. Não diga nada do que você está pensando. Só... —Ele respirou fundo, seu corpo enorme tremendo enquanto ele libertava o ar. —Venha para casa. Eu te dei espaço, e você está em férias de verão agora. Você pode voltar para casa. Nós não precisamos conversar, tocar ou qualquer outra merda. Só quero você perto de mim.

O som de passos na escadaria o fez girar e me apoiar.

Meu periférico agarrou Thomas, que parou no topo da escada, avaliando Miles como se ele tivesse chegado ao zoológico e nunca tivesse visto tal criatura de perto antes.

Oxigênio desapareceu. Minha garganta se contraiu. E ainda assim, os dois machos olhavam.

—Hey —eu disse para Thomas.

Finalmente, ele tirou o olhar de Miles e contornou-o como se a ameaça predatória que irradiava de Miles fosse pouco preocupante.

Eu esqueci Miles. Sua raiva. Sua traição. Seus olhos em nós. Thomas engoliu o espaço sem sequer tentar, e tudo que vi foi o azul de seus olhos quando ele parou bem na minha frente, as pontas de suas botas pretas beijando meus dedos dos pés descalços.

—Você esqueceu isso. —Ele me entregou meu telefone, depois abaixou a cabeça. O calor escapou de sua boca e encontrou a pele da minha clavícula enquanto ele exalava: —Não deixe que ele a toque de novo.

As palavras foram sussurradas tão baixo que demorei alguns segundos para entender o que disse, e então ele se foi. Seus passos ecoaram pela escada, seguidos pelo som da porta abaixo fechando.

Olhando para as escadas vazias, me perguntei se ele estava falando sobre o meu telefone ou sobre mim.

Então me lembrei de Miles, que parecia pronto para perseguir e matar. Mas quando ele olhou para mim, desapareceu, e parecia que ele queria vomitar quando o medo contornou seus olhos, e eles caíram no meu telefone.

Depois de uma batida, ele limpou a garganta. —O cara da sua escola? Aquele pai?

Minha cabeça se moveu, assentindo uma vez.

Ele assentiu também, os olhos ainda no meu celular. —Eu tenho que ir, mas vou estar de volta.

Ele desceu correndo as escadas, levando dois de cada vez pelo som do baque.

Então fiquei sozinha, cambaleando, descalça e mais confusa do que jamais estivera em minha vida.

 


No dia seguinte, saí da padaria para sentir os olhos em mim, e quando olhei por cima do ombro, jurei que vi um flash da camisa vermelha de ginástica de Miles e seu cabelo rebelde.

Eu planejei ir para casa no verão, mas algo me manteve aqui, então eu fiquei.

Mas, à medida que a primeira semana de intervalo chegava a segunda, a segunda estava prestes a encontrar a terceira, desisti de ouvir Thomas, e o comportamento de Miles estava começando a me irritar. Ele nunca voltou para o meu apartamento, mas decidiu que estava tudo bem em me seguir?

Na farmácia com uma caixa de tampões na mão, poderia ter sido meus hormônios, mas decidi que já tinha o suficiente. A caixa escorregou dos meus dedos quando corri para fora e voltei pelo caminho que o vi. Alguns minutos depois, encontrei-o meio em pé em um beco.

—Você está me seguindo, não é?

Ele tentou parecer que estava relaxando contra a parede, digitando em seu telefone como se ele geralmente andasse em becos. —Hummm?

—Corta a merda, Miles.

—Ok, talvez eu esteja. —Ele se endireitou.

Eu quase rosnei. —Por quê?

—Porque... merda, Jem. —Ele gemeu. —Eu não posso explicar tudo agora, mas você precisa voltar para casa.

Revirei os olhos, prestes a voltar para a farmácia. Eu precisava dos tampões esquecidos, caramba. E uma carga de chocolate.

—Jem-Jem. —disse ele, sua mão agarrando a minha antes que pudesse sair. —Você viu esse cara de novo?

—O nome dele é Thomas e não. —Eu suspirei, minha frustração de bolhas caindo em seu toque suave. —Eu não o tenho visto. —O que me incomodou mais do que gostaria de admitir. Especialmente para o meu ex-noivo.

—Você não pode confiar nele.

—Oh, mas posso confiar em você?

Seus olhos brilharam com aviso. —Estou falando sério. Você precisa ficar longe dele. Vou explicar o por que quando puder.

—Isso está ficando ridículo, Miles. —O vento quente bateu o cabelo no meu rosto quando me virei para ir embora.

—Sim? Então, por que você ainda está aqui na cidade e não em casa com seu pai? Hã?

Uma risada vazia me deixou, e tirei meu cabelo do rosto. —O que? Você achou que eu estava andando por aí, esperando que você se ajoelhasse mais?

—Foda-se, sua boca inteligente me faz querer te curvar e te foder sem sentido.

—Bem, você não tem uma chance de isso acontecer de novo, não é? —Lágrimas se juntaram e exalei, tentando ganhar o controle do meu coração maluco.

Ele as viu. – Ei, ei. Eu sinto Muito. Você está bem? —Miles perguntou, me colocando contra a parede de tijolos.

—Bem.

Ele sorriu e eu queria dar um soco nele. —Você sabe que eu amo quando você mente para mim. —O humor caiu. —Realmente, no entanto. Fale comigo.

Eu não faria, não poderia fazer isso. —Tenho meu período. Estou cansada e mal humorada.

Seu nariz enrugou, mas para seu crédito, ele não fugiu. Se inclinou, braços enjaulados e lábios roçando perigosamente perto dos meus. O cheiro de goma de cereja bateu em todos os meus sentidos, e meu estômago revirou.

Ele mastigou a mesma goma antes de dormir com aquela outra mulher?

A suavidade de seu lábio inferior atingiu o meu, e meus olhos se fecharam, meu corpo se dissolvendo nos tijolos duros atrás de mim enquanto eu o deixava abrir minha boca.

Garras teimosas rasgaram minha psique. A necessidade de um sabor diferente pegou e fez minhas mãos empurrarem seu peito antes que o beijasse de volta. —O suficiente. Vou devolver o anel antes de ir para casa.

Enquanto ele ficou lá atordoado, abandonei seu aperto e corri de volta pela rua.

Era hora de ir para casa.

 

 

 

 

 


Capítulo vinte

—Então, esse cara estranho, Tommy, você está pensando em ir morar com ele?

Eu recuei com a palavra se agitando, meus pés parando no chão gasto. —Em primeiro lugar, seu nome é Thomas. —Embora ele deva ter um apelido, com certeza. —E em segundo lugar, não estou saindo com ele.

Hope bufou. —Claro que você não está. O que você está fazendo então? Porque eu sei que eu gostaria de me vingar do traseiro de Miles também. Não há vergonha em seu jogo de ódio, irmã.

Eu soltei uma risada incrédula. —Deus, pare com isso. Realmente, não é assim.

—Hayden! Tire isso do nariz agora mesmo. —Uma pausa, então, —Porque senão ele vai ficar preso em seu cérebro, e eles precisarão cortar sua cabeça para tirá-lo. —Hope suspirou e mordi meus lábios, mais risos borbulhando na minha garganta. —Ótimo, agora ele está chorando.

—É claro que ele está. Você assustou a merda dele.

—Papai disse para você quando você tinha quatro anos, e você ficou muito bem. —Ela parou e riu. —Eu acho.

Eu rasguei um pedaço do meu sanduíche de manteiga de amendoim, mastigando. – Cale a boca.

—De qualquer forma, o que esse cara quer com você se ele não quer estar entre suas pernas? Se ele sabe sobre Miles, então sabe que pode haver um pouco de tempo de espera.

Eu sufoquei, segurando meu peito enquanto chiava, —Jesus fodido Cristo, Hope. —Lutando para a geladeira, quebrei minha própria regra e drenei o último leite da caixa, tentando empurrar o pão para baixo. —Ok, eu estou viva.

—Muito dramática?

—Eu não posso nem com você.

—Você me ama e tenho que ir. Hayden ainda está chorando por seu cérebro.

Sorrindo, joguei a embalagem de leite na reciclagem. —Ele provavelmente vai ter pesadelos, você sabe.

—Não. —ela disse. – Eu já disse pior e ele dormiu bem. Mantenha-me informada sobre o cara estranho e Miles. Por mais que queira chutá-lo no rabo, adoro ouvir uma boa rasteira tanto quanto a próxima garota. —Ela suspirou. —Sua vida, Jem. Sério. Quer trocar por um dia?

Rindo de novo, desliguei.

Assim que saí do meu telefone, ele começou a tocar novamente.

Com o riso ainda cobrindo minha voz, eu respondi com —Oh, esqueci de te dizer, já dei uma joelhada nele nas bolas.

Silêncio.

—Olá? —Eu olhei para a tela, percebendo que era um número desconhecido e não minha irmã me chamando de volta para dizer que ela tinha esquecido algo como às vezes fazia.

Merda.

—Jemima. —Uma pergunta quieta em camadas em torno do meu nome.

—Desculpe, pensei que você fosse minha irmã.

Thomas tossiu um pouco. – Em quem você deu com o joelho, nas...?

—Bolas. —eu forneci, sentindo o contador morder minhas costas enquanto me inclinava para ele com muita força. —Em Miles, é claro.

—É claro. —ele repetiu. —E quando foi isso?

—Quando ele me disse que me traiu, então disse que teria que esperar até que fosse capaz de explicar tudo. —Eu espiei meu esmalte lascado. —O que faz total sentido.

O silêncio chegou novamente, e eu estava prestes a perguntar por que ele ligou, especialmente depois que disse para não ligar para ele. Embora suponha que isso foi antes de nos beijarmos e tomarmos chá.

Ele falou primeiro. —Por mais que adoraria ouvir histórias tão contundentes do seu ex, preciso que você me encontre em algum lugar.

—Parece sinistro. —eu brinquei.

Foi direto para a cabeça dele. —É um parque.

—Eu estava brincando.

—Oh.

Ele me disse onde e a que horas, então prontamente encerrou a ligação.

Sentindo uma sensação de chicotada, olhei para o meu telefone por um minuto sólido. Então terminei meu sanduíche e arrumei meu cabelo.

 


Lou-Lou envolveu seus braços ao redor das minhas pernas como se ela não tivesse me visto em anos, em vez de algumas semanas. Eu a apertei de volta, amando o cheiro fresco de canela em seus cabelos, então a observei correr para uma gangorra onde outro garoto estava sentado esperando. Sua mãe estava sentada do outro lado do parque, lendo um livro.

Sentei-me ao lado de Thomas no pequeno banco e ele olhou para a pequena lacuna que deixei entre nós.

—O que você faz no verão? Com o trabalho e Lou-Lou?

Seus olhos estavam em minhas pernas enquanto as cruzei, suas mãos se remexendo em seu colo um momento antes de acalmá-las e virar seu olhar para sua filha. —Eu administro muito bem. Ela sabe que quando estou ocupado, estou ocupado.

—Bem, se você precisar de alguma ajuda, estou feliz em levá-la alguns dias por semana. —Eu coloquei um pouco de cabelo atrás da minha orelha. —Estou indo para o meu pai por um tempo, mas Glenning não é tão longe daqui.

—Eu sei.

Sentindo-me meio idiota, balancei a cabeça. —OK.

Eu estava prestes a perguntar-lhe em qual parte da cidade ele morava, percebendo que ele nunca tinha dito no chá. Pensando nisso, ele tinha acabado de falar sobre Lou-Lou e me ouviu tagarelar sobre crescer em Glenning.

Ele falou antes que eu tivesse a chance. —Eu tenho uma assistente, mas obrigado pela oferta.

Algo em seu tom me fez examiná-lo novamente. Mais perto desta vez. Ele estava rígido, mais duro que o normal e com um frio. —O que há de errado?

Ele não respondeu, mal parecia respirar.

Eu perguntei novamente. —Thomas?

—Eu não gosto disso, ok? —ele finalmente estalou, mas fez isso de uma forma tranquila e controlada em comparação com a maioria. Seu peito subiu e caiu mais e mais rápido quanto mais ele olhava para mim, seus olhos selvagens e brilhantes.

—O que? —Eu perguntei o mais suavemente possível.

—Que você estava com ele.

—Oh —Eu fiz uma careta. —Espere... como você sabia?

—Isso é irrelevante. —Ele fez um som de nojo. —Eu odeio isso. Depois do que ele fez com você. Não quando ele está...

Sua boca se fechou quando coloquei minha mão sobre a dele. —Nós não estamos juntos, juntos. —Minhas bochechas ficaram vermelhas. —Não é assim. Não desde que descobri a outra mulher.

—Outra mulher. —repetiu Thomas com um sorriso irritado.

Não havia como impedir meu coração de estremecer com a lembrança, e Thomas notou, sua mão dobrando sobre a minha, dedos como veludo enquanto acariciavam. —Desculpa.

—Tudo bem.

Acenei para Lou-Lou quando ela olhou, e ela sorriu quando se virou para correr em um túnel.

—Eu precisava te ver porque... —ele fez uma pausa, gemendo —...Eu não sei como dizer isso...

—Você estava chateado? —Eu ofereci.

Seu telefone tocou e ele puxou para fora, inspecionando-o com um suspiro. —Tenho medo que tenha que esperar. Eu preciso ir. —Colocando o celular longe, ele se virou para mim, apagando o espaço entre nossos corpos. —Mas primeiro, tenho que fazer isso de novo. —Ele se inclinou, lábios capturando os meus enquanto suas mãos gentilmente agarravam meu rosto.

Eu deslizei ainda mais perto, perdendo a visão do nosso entorno e apenas o vendo, cheirando-o, saboreando-o e sentindo-o. Ele manteve a castidade, mesmo quando minha língua empurrou a costura de seus lábios suaves, mesmo quando ele fez um gemido silencioso quando ele inalou, meu lábio superior pressionando entre os dois.

Uma das crianças no parquinho gritou, depois a risada se seguiu.

Ele se afastou e praticamente caiu do banco com a rapidez com que se movia. Endireitando-se, ele murmurou: —Apenas... tenha cuidado, Little Dove.

Eu demorei para entender suas ações, suas palavras e minha próxima respiração enquanto ele passeava pela grama e pegava Lou-Lou, que acenou para mim enquanto ele a levava para seu carro.

Eu parei enquanto ele a ajudava, mas por outro lado não conseguia me mexer. Não sabia se sorria das vibrações que sua boca deixou em seu rastro ou me pergunto o que diabos eu fiz que o fez fugir como um garoto que acabou de roubar um beijo no playground da escola.

Nós fizemos isso antes, afinal.

Uma mistura de ambos se estabeleceu enquanto eu assistia seu carro acelerar pela rua lateral movimentada.


Capítulo vinte e um

Um melro grasnou alto acima da rua, escondido pelo brilho do sol poente.

Minha mochila pesava uma tonelada, então deixei por último e levei minhas outras duas malas até o meu carro. Eu destravei e empurrei-os no porta-malas, meu estômago revirando enquanto eu me virava e vi Thomas parado do lado de fora da farmácia, ao lado da mesma porta que levava ao meu apartamento.

Sua camisa branca lisa ondulou na brisa, então pressionou contra seu peito magro enquanto ele endireitava a perna que ele tinha dobrado, sua bota se unindo à outra no asfalto.

Sorrindo para longe o choque que congelou meu coração, fechei o porta-malas e caminhei até ele.

—Você está indo para casa agora?

—Sim, só tem outra bolsa para pegar, então estou fora.

Sua língua cutucou o lado de sua bochecha, seu cabelo perfeito penteado para trás mudando enquanto ele passava a mão sobre ele. À toa, eu me perguntava o quão profundos os meus dedos afundariam se eles fossem tocá-lo, cavar para baixo. Quanto tempo levaria para minhas unhas rasparem seu couro cabeludo.

Jesus, eu precisava de um copo de água ou algo assim.

Por mais que tenha flutuado ao longo do rio imprevisível que era Thomas Verrone, eu nunca realmente fantasiei sobre ele tão duro. Até agora.

—Me desculpe, eu fugi ontem. —As palavras não carregavam sinceridade, mas permiti que elas apaziguassem o núcleo de preocupação que sentava no fundo.

—Tudo bem. —Eu coloquei minhas mãos em meus bolsos curtos de jeans, encolhendo os ombros. —Acho que você tinha lugares para estar?

—Trabalho inesperado. —Seus olhos finalmente encontraram os meus. —Isso, e você simplesmente me assusta, Little Dove.

Eu engoli minha respiração trêmula, meu peito chocalhando enquanto me deliciava com as palavras honestas ajudadas pelo sério conjunto em sua mandíbula afiada e olhos duros.

—O sentimento é mútuo. —eu disse, não tendo certeza se ele tinha sequer ouvido as palavras suaves quando o barulho da rua da cidade abafou a maioria das coisas, incluindo o meu batimento cardíaco acelerado. —Mas eu, hum... —hesitei, preocupada que ele pegasse o que eu estava prestes a dizer da maneira errada, mas sabendo que tinha que deixá-lo saber. Se ele já não soubesse. —Bem, tem sido um mês louco. Preciso de um tempo, paciência, mas gostaria de talvez... —Parei de falar quando uma mulher saiu da farmácia, com enormes óculos e cabelo ruivo familiar.

Thomas tirou os olhos de mim e olhou por cima.

Amélia olhou para nós e então procurou algo em sua bolsa.

Quando Thomas ainda não olhou para mim, segui seu olhar para onde ela parou, falando ao telefone um pouco mais abaixo na rua.

Thomas sorriu para ela, fazendo-a eriçar.

—Você conhece ela? —Eu perguntei.

—Oh, ela deseja que eu não conhecesse. —Thomas deu um passo à frente, sua mão pousando no meu quadril. —Escute, eu deveria combinar isso com você ontem. —Meus pensamentos se reuniram e se dissiparam, distraídos demais pelo toque dele. Era a primeira vez que ele me segurou, mesmo que fosse um aperto solto, e ele fez isso para se abaixar e sussurrar: —Encontre-me hoje à noite, oito horas. Há uma pequena ponte em Glenning que atravessa o riacho.

—Eu conheço uma. —Meus olhos dispararam para os dele.

Vendo as perguntas neles, ele correu para dizer: —Não por isso. Eu ouvi o que você disse, mesmo que eu já soubesse. —Um suspiro o deixou. —Mas ainda assim, temos muito o que conversar.

Seu perfume rolou em minhas narinas quando ele se inclinou, seus lábios deslizando sobre a minha bochecha. Escutei o som de sua inspiração, senti o arrepio na espinha e observei quando ele se afastou e caminhou pela farmácia onde Amélia estivera a momentos atrás.

 


O tempo no painel dizia 7:15.

As palavras de Thomas tinham se encaixado dentro do meu cérebro, sem vontade de mudar, não depois que ele disse que tínhamos muito o que falar. As razões pelas quais nós tivemos que nos encontrar em tal lugar, naquele momento, passaram pela minha mente, então saíram sem deixar rastros enquanto eu as descartava como ridículas.

Eu não entendi, e a única coisa que eu poderia fazer era encontrá-lo lá.

Percebi então, enquanto me certificava de vigiar a hora, que devia confiar nele. Pelo menos o suficiente para encontrá-lo onde a água é rasa, mas alta, e a escuridão não caia pesada.

Enquanto eu olhava de volta pela janela para a casa onde eu passei meses fazendo memórias, fazendo sonhos e inventando desculpas, aquele gosto amargo e ácido da dor do meu coração retornou, enchendo minha boca e meus olhos.

Era hora de dizer adeus.

A caminhonete de Miles estava no caminho, e eu pulei do carro, rapidamente deslizando o envelope que continha meu falso feliz para sempre para a caixa de correio verde antes que a tristeza tivesse minhas mãos agarrando-o, desesperada por esperança, por mais tempo.

De volta ao carro, minha mão pousou sobre as teclas na ignição, o tsunami de pesar no por que, e se, e pelo que poderia ter sido, me abalou. Depois de todo o nosso tempo juntos, o bom, o ruim e o belo, era assim que eu ia deixar isso?

Não.

Não fui eu. Poderia ter sido tola em confiar cegamente em um homem que sempre parecia tão longe do meu alcance, mas não era uma covarde. Abri meu cinto de segurança, abri a porta e retirei o envelope da caixa de correio.

A luz da varanda piscou quando levantei a mão para bater. Percebendo que a porta estava entreaberta, minha mão caiu para o meu lado enquanto eu dava um passo para frente.

—... Pode ser assim, mas sou sua esposa do caralho. Não tenho uma palavra a dizer? —gritou uma mulher, sua voz, sua dor, correndo pelo corredor para escapar da porta rachada e trancar meus pés no lugar.

—Estou cansada, Milo. Cansada das mentiras, de sentir que estou perdendo você toda semana que passa com aquela criança. Você está chegando a lugar nenhum de qualquer maneira. Por favor, volte para o QG e termine isso.

Milo?

Lágrimas de desespero cobriram cada palavra que ela gritou, mas eu definitivamente não estava ouvindo coisas.

Virando, olhei de volta para o meu carro, na rua, apenas vendo o SUV preto estacionado algumas casas abaixo.

—Não, foda-se isso. Você sabia. Você sabia o que isso envolveria.

Minha mente gritou para eu ir embora. Ligou os pontos mais importantes, mas meu coração ainda era incapaz de compreender tal insanidade.

Então eu abri a porta e entrei.

Miles, ou Milo, rosnou: —Você me empurrou para isso tanto quanto Anthony, Shell. E não se atreva a dizer que não. —Eu nunca tinha ouvido ele soar tão bravo, tão chateado, mas isso não impediu meus pés de me levar pelo corredor até a sala de estar. Foi o que ele disse em seguida que fez isso. —Eu disse a ele que deveríamos deixá-la sozinha. Nós não precisavamos ir tão longe, e você discordou. E agora o que temos, o que tenho, você está comprometendo tudo por estar aqui.

O envelope escorregou da minha mão, flutuando para o chão de azulejos. O chão em que nunca chegamos a comprar tapetes. A mesa de jantar zombou de mim de onde ficava ao lado da janela que dava para o quintal, esperando que um dia se expandisse para mais visitantes.

E quando me viram de pé ali, do lado de fora da sala de estar, a audácia de parecer chocada com a minha presença, era evidente que eu era o visitante aqui.

Amélia, ou Shell, amaldiçoou e olhou com os olhos molhados antes de passar por mim, a porta da frente batendo em seu rastro.

—Jem, —Miles raspou, sua expressão de terror absoluto.

—Eu vim para... —Eu parei, piscando no chão para onde o envelope estava e fiz um gesto para ele. —Sim.

Então eu me virei e corri para fora da porta. Os pés de Miles bateram contra os azulejos quando ele veio atrás de mim.

Com as minhas chaves já na ignição, eu descolei sem sequer verificar os carros e lutei contra o desejo de vomitar todo o caminho de volta para o meu apartamento.

Capítulo vinte e dois

Transportei minha mochila lá embaixo, eu a lancei no tronco, enquanto as lágrimas nublaram minha visão.

Milo.

Mentiras.

Aquela criança.

Tudo ficou claro, mas ainda era tão obscuro ao mesmo tempo.

Por quê? Por que ele mentiria para mim e por que ela e essa outra pessoa Anthony o encorajaria?

Faróis iluminaram meu porta-malas enquanto arrumava minhas malas e depois as fechava.

Uma porta bateu quando quem quer que fosse que parou atrás de mim saiu, e tomei isso como a minha sugestão para dar o fora.

Antes que eu pudesse fechar a porta, fui puxada para fora do meu carro, um grito preso na minha garganta.

—Nós precisamos conversar. Agora.

—Miles, me deixe ir. —Ele bateu a porta com força e lutei enquanto ele me manobrava para a calçada. —Eu juro por Deus, vou te dar uma joelhada no seu lixo novamente.

Ele riu, mas o som estava seco e desconhecido. —Você pode tentar, Jem. Mas estou preparado desta vez.

—Sério, deixe-me ir antes que eu grite para alguém chamar a polícia.

Ele baixou os lábios para o meu ouvido. —Eu sou um agente federal, então isso não fará bem a você e só desperdiçará a porra do nosso tempo. —Eu parei de lutar e olhei para ele em descrença.

O remorso encheu seus olhos. —Eu explicarei, mas precisamos estar fora de vista. Desbloqueie a porta, por favor.

Quando eu fiquei parada ali, não inteiramente certa de que não deveria lhe dar uma cotovelada nas costelas e fugir, ele sussurrou: —Eu nunca vou te machucar... —ele fez uma pausa, —...não fisicamente. Mas eu preciso manter você segura, e não posso fazer isso se você não me ouvir, pelo menos. —Suas bochechas inflaram enquanto ele soltou um suspiro. —Eu posso entrar em um monte de merda por dizer-lhe essas coisas, por favor, acredite em mim quando digo que estou apenas tentando ajudá-la. —Ele engoliu em seco. —Porque apesar do que você pode pensar depois de tudo, depois do que você ouviu, eu amo você.

Abri a porta e ele me seguiu para cima e para dentro do meu apartamento fechado e solitário.

Precisando me sentar, esperei no meu sofá enquanto ele passeava pelo meu apartamento, arrancando coisas de armários, uma falsa samambaia em vaso no peitoril da janela, e depois desapareceu no meu quarto.

Juntando-se a mim na sala de estar, ele abriu a janela e vi um borrão de velas negras no ar, a janela trancando antes que eu pudesse ouvir onde eles pousaram.

—Insetos. —disse ele, em seguida, sentou-se na mesa de café Ikea na minha frente. Que gemeu sob seu peso, e ele amaldiçoou, empurrando-a para trás e sentando-se no chão.

—Insetos. —eu disse a palavra várias vezes antes de finalmente reconhecer a verdade óbvia. —Você os plantou no meu apartamento? —As peças continuavam clicando juntas, como um quebra-cabeça que de repente distorcia sua mente, e seus dedos não podiam coletar os pedaços com rapidez suficiente.

Miles esperou, apreensão estampada em todo o rosto.

Minha voz engatou nas palavras. —Você está disfarçado.

Um aceno de cabeça foi sua resposta.

—Você é casado. —um sussurro quebrado.

Outro aceno de cabeça.

Eu sabia então que a minha admiração inicial por esse homem mais velho e robusto era por uma razão. —Não fazia sentido. —admiti com uma risada autodepreciativa. —Seu interesse súbito e intenso em mim.

Ele arrastou as mãos pelo rosto. —Eu não era, pelo menos, não no começo. —Quando as mãos dele caíram no colo, seus olhos brilharam e então ele sorriu. —Mas você cresceu muito rápido comigo, Jem-Jem.

—Não. —eu falei. —Não me chame assim. Seu trabalho, deus, algo era real?

—Você e eu, éramos reais, e sim, eu fiz alguns trabalhos de paisagismo quando pude. E você sabe que trabalhei na escola.

O tempo passou enquanto nos encarávamos, enquanto tentava entrar em acordo com essa nova realidade.

—Por quê? —Foi tudo o que consegui resolver e, na verdade, tudo o que importava naquele momento.

Miles, ou Milo, não hesitou. Era como se ele estivesse esperando. Apenas ansioso para me dizer. —Thomas Verrone tem sido uma dor em nossas bundas há algum tempo. Nós não conseguimos dar um tempo. E então você, alguém que ele estava mostrando um grande interesse, solicitou um cargo de professor na escola preparatória de sua filha.

Meu coração afundou. —Você...

Ele assentiu mais uma vez. —Sinto muito, Jem.

Eu não teria conseguido essa posição. Foi tudo arranjado. Cordas invisíveis sendo puxadas nos bastidores. —Como?

—Um dos nossos rapazes fez acontecer com alguns endossos falsos. —Sua cabeça se abaixou. —E, bem, uma doação.

Ele deixou que isso paira-se lá, e eu deixei machucar, mas então levantei meus ombros e engoli as lágrimas quando me lembrei do nome de tudo isso. – Thomas... —eu disse. —Você está atrás dele?

—Já faz um tempo, mas o bastardo é esperto demais. —Miles lambeu os lábios. —Nós nunca deveríamos colocá-la nesse tipo de perigo. —Ele soltou uma risada. —Muito pelo contrário, na verdade. Não muito antes de você se candidatar ao cargo, descobrimos que ele estava acompanhando você.

Eu tricotei minhas sobrancelhas. —Me acompanhando?

—Ele estava fazendo algumas escavações. A fazenda da sua família, onde você frequentou a faculdade, onde sua irmã morava... e provavelmente muito mais. Você era um pato sentado, candidatando-se a empregos na época e à caça de apartamentos, então tomamos a decisão de intervir. Para tentar mantê-la segura enquanto assistíamos e esperávamos para ver o que ele faria enquanto continuávamos com a investigação.

—Você queria pegá-lo? Me usando?

—Não. Mas, em certo sentido, se ele tentasse alguma coisa, e você estivesse sob nossa vigilância, então seríamos capazes de agir rápido. Nós poderíamos mantê-la mais segura do que se você estivesse sozinha, e talvez se aproximasse dele. Dois pássaros, uma pedra.

O medo percorreu meus ombros e cerrei minhas mãos para reprimir qualquer tremor de sair. —Manter-me segura? O que ele teria feito?

Miles procurou meu olhar, hesitando.

—Eu posso lidar com isso. É o que você está aqui para me dizer, não é? —Minha voz rachou de tanta trepidação e frustração. —Então, me diga exatamente por que estou em perigo e por que você está fazendo tudo isso.

—Ele é um assassino, Jem.

Bile gorgolejou minha garganta em um instante. Imagens dos lábios de Thomas nos meus, das mãos dele tocando meu rosto, seu cheiro, seu sorriso raro, invadiram e fizeram minha cabeça latejar. —O que...? Ele...?

Miles amaldiçoou e veio se sentar ao meu lado, mas o toque de sua pele na minha mão só intensificou ainda mais a turbulência dentro do meu estômago. —Há boatos das coisas que ele faz, mas nunca nenhuma prova. Eles o chamam de escultor.

Meus olhos se fecharam, ouvidos zumbindo. —Por quê?

—Jem, você não precisa saber disso. Você sabe o suficiente para saber que ele é perigoso...

—Por quê? —Eu gritei, surpreendendo ele e eu mesma.

—OK. —Miles ergueu as mãos. —OK. —Ele respirou fundo, então assentiu, como se confirmando consigo mesmo que eu poderia lidar com isso. —Ele é... suas vítimas, se vivem, estão com cicatrizes ou desfiguradas. Ele é conhecido por torturar algumas delas, Jem.

Ouvi-lo usar o meu nome na mesma frase que ele usou para descrever esses horrores me fez chegar ao meu limite.

Eu corri, mal conseguindo chegar na pia da cozinha, vomitando, vomitando e cuspindo, mas nada saiu do meu estômago.

—Eu suponho que é estúpido perguntar se você está bem. —Miles parou ao meu lado e pôs a mão nas minhas costas. —Sinto muito, sinto muito por trazer você para essa merda.

Lágrimas se derramaram, meu peito arfou e abri a torneira, jogando água na boca e no rosto. —Você sente muito. —Eu me virei para ele. —Jesus, você me pediu para ser sua esposa, e você já tinha uma, porra!

Miles ficou congelado, e se pudesse ter visto a névoa queimando meus olhos, eu veria a que queimava a sua. —Eu não deveria me apaixonar por você. Mas depois daquela primeira vez, aqui neste apartamento com seu maldito Ursinho Carinhoso assistindo... —Ele fungou, rindo. —Tornou-se real. Tornou-se tudo o que importava, acredite, e estragou tudo.

Eu acreditei nele. Mesmo que ele tenha arrancado meu mundo debaixo de mim com suas mentiras, ouvi a verdade dele.

—Eu entendo que isso é muito para acontecer, mas precisamos conversar sobre o que acontece agora, Jem.

—Eu nunca pedi por isso. —murmurei, ignorando-o.

—Eu sei. Porra, eu sei.

Eu sempre pensei que essas coisas existissem apenas na TV. Nos livros. Pesadelos internos. Nunca, sequer uma vez, achei que a realidade que as pessoas juravam ser real invadiria minha pequena vida confortável e segura.

—O que eu faço? —chiei, passando as mãos trêmulas pelo meu cabelo. —O que diabos faço agora? Ele... —Eu parei.

Thomas.

A ponte sobre o riacho.

Ele pensou que eu estava me encontrando ele. Um olhar para o velho relógio, aquele que meu pai insistia em pendurar na minha cozinha, dizia que eram oito e oito.

Um assassino estava me esperando.

—Ele o que, Jem? —Miles puxou meus pulsos, afastando minhas mãos do meu cabelo, e notei que fios escuros haviam se entrelaçado entre meus dedos. —Fale comigo.

Eu não pude. Um pedregulho feito de todas as emoções imagináveis havia se enfiado em minha garganta, e era tudo que podia fazer para respirar. Eu olhei em volta da minha cozinha, no meu apartamento, sem saber o que fazer.

Casa.

Eu tinha que ir para casa. Onde havia armas e quilômetros de terra.

Onde Thomas Verrone supostamente estava esperando por mim.

Eu não conseguia pensar nisso. Ele não era Hércules. Ele não conseguia parar um carro em movimento e eu não podia ficar aqui.

—Lou-Lou. —Seu nome deixou meus lábios sem que meu cérebro mandasse o sinal, meu coração apertando dolorosamente. —Oh Deus. Ele tem uma filha.

As sobrancelhas de Miles se apertaram e ele passou o dedo pelo queixo. —Ela parece bem, e os registros escolares não indicam nenhuma preocupação pelo bem-estar dela. —Ele murmurou o que soou como ‘bastardo inteligente’, novamente. —Mas... ela não é dele.

—O que?

—Nós não temos provas exatamente, mas acho que ela é filha de uma de suas vítimas.

Jesus-alguém-pare-este-louco-comboio-Cristo.

Eu passei por ele, com a intenção de sair daqui, e arranquei minhas chaves da porta. Precisava de qualquer lugar que não estivesse estagnado, que não aumentasse ainda mais o pânico que me dava no meu interior.

—Jem! —Miles chamou e pegou minha mão na escada. —Merda, espere. Onde você está indo?

—Casa. —eu disse sobre um soluço crescente. —Preciso ir para casa.

Ele amaldiçoou novamente, descendo os degraus até que ele estava no de baixo de mim. —Eu tenho você, Jem. —Seus olhos imploravam aos meus que confiassem nele, mas eu não podia. Não podia confiar em ninguém neste mundo em que eu tinha entrado cegamente. —Venha para casa e falarei com meu superior. Pior cenário, vamos colocá-la em proteção...

—Oh meu Deus. —Uma gargalhada estourou. —Oh, meu maldito deus. —eu chorei e limpei debaixo dos meus olhos. —Isso é uma loucura. —As palavras foram tiradas, minhas mãos ainda tremendo, chacoalhando as teclas, enquanto eu enfiava as palmas das mãos nos meus olhos.

Miles tentou me puxar contra seu peito, mas o empurrei para longe, quase o mandando para baixo nos últimos quatro degraus. —Eu vou, e não se atreva a tentar me impedir, Milo.

Com isso, corri para a noite e entrei no meu carro. A adrenalina subiu pelas minhas veias e alimentou meu caminho para casa.

A caminhonete de Miles me seguiu, mas assim que entrei na longa pedra e na estrada de terra batida que levava a colina até minha casa de infância, ele se virou.


Capítulo vinte e três

Papai me encontrou no celeiro na manhã seguinte, xingando quando recarreguei o cano do rifle.

—Isso é sobre o quê?

—Vida. —eu disse, fechando o estojo e olhando para o rosto do sol do meu pai.

—Você parece ter nove anos de novo, correndo para casa depois de ver uma cobra no campo de trás.

A lembrança fez meus ombros se levantarem com um mau humor. Se fosse tão simples quanto uma cobra mortal.

Você pode fugir de uma cobra, atirar ou arremessar sua cabeça com uma pá. Mas o tipo de cobra que se infiltrou em minha vida, encheu-a de veneno e fez tudo virar do avesso, um núcleo de medo no interior dizia que não haveria como impedi-lo.

Não doía tentar, no entanto.

Eu olhei de volta para os buracos estragando o papel pendurado ao acaso. Papel que foi usado por anos depositados em uma prateleira de celeiro empoeirada. —Estou bem. Apenas tentando expulsar algumas coisas, eu acho.

Eu não poderia contar a ele. Não quando tinha certeza de que nem deveria saber. Policial aposentado ou não, eu não acho que importava quando se tratava de investigações federais.

—Aqui. —disse papai, me levando pelos ombros. – afaste seus pés mais, é isso.

Respirei, imaginei o rosto de Thomas, aqueles olhos, e os tremores que dispararam na minha mão estabilizaram-se quando mirei nos fardos de feno onde o olho de touro de papel pendia.

Eu exalei devagar.

Você simplesmente me assusta, Little Dove.

Eu apertei o gatilho.

E faltou três polegadas.

A bala atravessou a lenha no fundo do celeiro e papai estalou a língua. —Você nunca dominou a arte muito rápido. —Ele se moveu atrás de mim, a mão na minha parte inferior das costas. —embale como se fosse um bebê, Jemmie.

Tentando enganar a queimadura em meus olhos, mudei meu aperto e estabilizei minha respiração. Meu coração desacelerou para uma libra constante em meus ouvidos.

Assustado e maltratado, mas ainda batendo.

—É isso aí. —Com a mão ainda na parte inferior das costas, ele disse gentilmente: —Inale, bom. Dedo pronto, dois terços do caminho. Fácil.

Eu apontei, exalando como ele disse.

Eu tenho você, Jem-Jem. Eu juro.

Suavemente, eu apertei.

Alvo.

Palha choveu sobre o celeiro, o papel rasgado e flutuando no chão.

—Foda-se, sim. —Papai riu. —Mas você está limpando isso, Jemmie.

 


O som dos pneus esmagando a sujeira me fez sair correndo da cozinha para a varanda.

Eu coloquei meus chinelos quando Miles parou em sua caminhonete e pulou para fora.

Correção, Milo.

A porta de tela rangeu quando meu pai a abriu para investigar atrás de mim. —Merda. Quer que eu atire nele? Ou você tem praticado para este momento particular?

Segurando um bufo, eu gentilmente o cutuquei de volta para dentro. —Vai ficar tudo bem. Só vou mandá-lo embora.

Ele resmungou, esfregando as mãos em um pano. —Seria melhor. —Ele fechou a porta.

—Jem. —disse Milo, com os olhos vermelhos e as mesmas roupas da noite anterior.

Eu desci os degraus, fazendo ele me seguir até a caminhonete, fora do alcance da voz.

—O que você está fazendo aqui?

Ele franziu a testa para o meu tom sibilado, em seguida, sussurrou de volta: —Estou aqui para te levar a algum lugar seguro.

—Eu não preciso da sua proteção, Milo. —Meu tom mudou, arrastando seu nome verdadeiro, mas não achei alegria quando ele se encolheu. —Você é o único que me meteu nessa bagunça. Me deixe em paz. Apesar do que sua esposa disse, não sou criança.

Uma ruga aprofundou sua testa, sua voz áspera insinuando sua frustração. —Eu sei que você não é, mas o que te disse não era nenhuma piada. Você acha que nós vamos enganar a vida de alguém dessa maneira sem um bom motivo?

Eu cruzei meus braços. —Você ia deixar sua esposa antes de marcar uma data para o nosso casamento?

—Jem, vamos lá.

Eu corri o dedo do meu chinelo na sujeira. —Basta responder a pergunta.

—Eu te disse, depois daquela primeira noite, tudo se tornou real, mas Shelley...

—Shelley. —eu repeti, como se dizer o nome dela tornasse isso mais real e menos um pesadelo.

—É complicado. Estamos juntos desde o ensino médio...

—Espere, então você nunca teve aquele susto de gravidez no ensino médio.

Ele balançou sua cabeça. —Isso aconteceu com um amigo. —Meus olhos formigaram enquanto ele continuava. —Shell tem sido minha melhor amiga durante a maior parte da minha vida, e eu sabia, eu sabia que não poderia manter vocês duas, e eu disse a ela isso. Ela é... —Ele gemeu, uma mão cortando seu cabelo. —Complicada, e disposta a aturar mais do que a maioria das outras mulheres, ela não cede facilmente, se é que vai.

—Você tem esse direito. —eu disse. —Então foi com ela que você dormiu. —Eu não queria saber, mas tinha que fazer. —Você dormiu com ela mais de uma vez, não foi? Você teria, ela é sua esposa.

Ele não disse nada, e isso dizia tudo.

Inalando uma respiração ardente, afastei as lágrimas. —Isso está tão desarrumado. Você sabe disso, certo?

—Eu vou consertar isso. Vai ser só você e eu, eu juro. Mas primeiro...

Eu ri, seca e superficial, balançando a cabeça enquanto murmurei: —Idiota.

—Jem, por favor ouça. Nós não somos os monstros aqui. —Ele lançou um rápido olhar para a casa atrás de mim, depois baixou a voz. —Falei com meu superior e ele concordou que precisamos colocá-la em custódia protetora. Até lá, você vai voltar para casa comigo.

—A casa que você pagou ou os contribuintes?

Ele amaldiçoou. —Isso importa?

—Considerando que eu morei lá por meses, sim, é o que acontece. Não admira que você não me deixasse pagar a hipoteca. —Eu ri amargamente. —Oh, espere, deveria agradecer por não ter pegado meu dinheiro de qualquer maneira?

—Limite moça, Jem, e entre na porra do caminhão. —Quando eu não fiz nenhum esforço para me mover e apenas levantei minhas sobrancelhas, ele se aproximou. —Bem. Vou te pegar sozinho.

Meus punhos bateram em seu granito de costas quando ele me jogou por cima do ombro como se eu não pesasse nada. Eu gritei, chutando e socando quando ele abriu a porta dos fundos e tirou um par de algemas do bolso.

Então eu gritei mais alto.

O som de um tiro cortou o ar, jogando a poeira perto dos tênis de Milo e deixando tudo em silêncio. Até a vida selvagem.

—Maldito inferno. —Milo quase me deixou cair enquanto me soltava, com os olhos enormes quando papai marchou com uma espingarda carregada.

Eu tropecei de volta para a casa. – Não sei que tipo de inferno você engatinha, filho, mas nunca confiei em sua bunda. —Papai disparou de novo quando Milo fez a volta do caminhão, depois congelou, braços erguendo-se no ar. —Você a toca novamente, e vou explodir suas mãos.

—Eu estou indo. —disse Milo, seu peito arfando quando ele recuou em direção à porta da caminhonete. —Mas Jem, por favor. Por apenas um segundo, esqueça tudo e pense sobre isso. Você sabe que não estou mentindo para você. —Ele entrou e fechou a porta, apontando com a mão para eu ligar para ele.

—Do que no inferno ele está falando? —Papai perguntou, a arma apontada para a caminhonete enquanto Milo dava uma volta de três pontos na frente da garagem.

Eu inalei pelo nariz e deixei uma verdade livre. —Ele é apenas um escroto traidor.

Papai atirou no caminhão, apagando a luz traseira direita. Milo desviou por um segundo antes de endireitar a caminhonete e descer a ladeira para a estrada. —Bem, espero que isso dê um ingresso ao imbecil antes que ele conserte.

O riso de papai seguiu atrás dele quando ele apertou meu ombro e voltou para dentro.


Dois dias se passaram antes que meu telefone ficasse com uma mensagem de Milo, dizendo que havia um envelope esperando por mim na mercearia, fora dos limites da cidade. Aquele que os poucos moradores de Glenning e as cidades rurais vizinhas usavam quando não queriam se aventurar na selva de concreto.

Eu ignorei, empurrei meu telefone de lado e tentei continuar lendo. Quando isso falhou, limpei a casa, limpando a poeira de lugares que meu pai não viu ou preferiu ignorar e depois aspirar.

No final da tarde, meu cabelo estava encharcado de suor e precisava de um banho.

Depois, vesti um vestido de algodão cor de pêssego que não usava desde o ensino médio e joguei meu cabelo em um rabo de cavalo. Um olhar no espelho mostrou braços e pernas mais finos, os ossos das minhas bochechas duras e meus olhos grandes contra os planos mais duros do meu rosto.

Eu não estava comendo bem, mas isso era difícil quando meu estômago estava em um nó constante nos últimos dois meses.

No espelho, meu telefone me assombrou quando meus olhos se fixaram nele.

Eu estava em segurança, continuei repetindo para mim mesma. Eu estava em casa, e era difícil imaginar que coisas tão feias me alcançariam aqui.

Meus olhos se fecharam contra a memória das luzes azuis e vermelhas piscando. O carro da polícia que parou em frente a nossa casa. O colega e amigo de meu pai, Bill, entregando as notícias sobre minha mãe, que morreu a poucos quilômetros de nossa garagem.

Aquela criança.

Reprimindo um grito frustrado, peguei meu telefone, bolsa e chaves, depois disse ao papai que estava indo para a cidade.

Embora devesse fechar em breve, a pequena loja marrom estava agitada, ondas de calor ainda rastejando sobre o terreno de cascalho.

Eu estacionei entre uma caminhonete e um Fusca e saí, limpando o suor da testa.

O sol estava se pondo, laranja e roxo pintando o céu, e ainda assim, não houve alívio.

Lá dentro, Honey, a mulher que possuía a loja com o marido, sorria de orelha a orelha quando me via, depois olhou para o registrador, pegando um pacote branco ao lado.

—Você diz ao seu pai que ele ainda deve a Earl uma caixa de cerveja. —Ela me olhou, esperando até que eu sorri antes de soltar o envelope. Seu peso leve abriu buracos na minha mão e eu soube. Isso me daria os detalhes sobre o que aconteceria depois.

Tão bem.

Eu peguei um chiclete e coloquei um cinco no balcão. —Farei, Hon. Obrigado.

Antes que eu pudesse sair, ela gritou: —Aquele homem que entregou, ele é seu?

Agulhas se lançaram para o meu peito, mas as afugentei com um sorriso despreocupado. —Não.

Eu acenei adeus quando ela falou, e disse: —Que vergonha.

Que pena, na verdade, perceber que ele nunca foi realmente meu. Para perceber que a vida que estava vivendo no ano passado, nada disso, era para ser meu.

A fome chegou quando estava prestes a sair para a estrada que me levaria de volta para casa, e virei para o lado oposto, parando no drive farto antes de sair novamente.

Mastigando meu segundo cheeseburger e olhando para fora do para-brisa sujo de poeira para a estrada além, pensei em mandar mensagens para Milo de volta. Para deixá-lo saber que tinha conseguido seu precioso envelope.

Que eu não era criança.

Jogando o invólucro amassado no banco do passageiro, onde estava o envelope, decidi contra isso e liguei a ignição.

Eu tinha certeza de que ele ou um de seus companheiros iriam checar Honey.

O pensamento de deixar a minha vida, tão falsa e fodida como ultimamente, fez minhas mãos se apertarem ao redor do volante em desafio.

Quanto tempo demoraria? O que eles diriam ao meu pai? Ele estaria seguro se eu fosse embora? E quanto a Hope, Jace e os meninos?

Se eles tivessem ido tanto tempo sem coletar informação suficiente sobre Thomas, quem diria o que eles fariam? Eu ficaria escondida para sempre, concluí quando pensava em Thomas.

Conveniente, cuidadoso, calculado Thomas.

Então, novamente, escondida para sempre era melhor que morta.

Quem sabe, talvez algum tempo longe de tudo isso me faria algum bem. Isso poderia me ajudar a descobrir como começar de novo.

Assim que o pensamento chegou, a ponte onde eu deveria encontrar Thomas apareceu à frente. Meus faróis brilhavam como uma laranja opaca até que eu liguei as luzes altas, então gritei.

Um familiar carro preto estava estacionado, bloqueando a entrada da estrada. Eu pisei no freio, os pneus derrapando, em seguida, imediatamente coloquei o carro em marcha ré, tentando voltar e me virar, quando gritei de novo.

Outro carro parou atrás de mim, logo antes da ponte. Eu nem lembrava de ter visto alguém me seguindo.

Não havia saída.

Os gritos do meu coração afogaram os gritos que saíram da minha boca quando eu me atrapalhei, estendendo-me através do banco do passageiro para o porta-luvas onde eu tinha guardado uma arma a apenas três dias atrás.

Uma vez na minha mão, virei e apontei para a pessoa que estava abrindo a porta. A figura alta, envolta na escuridão, bateu em minhas mãos em uma rápida varredura, então me puxou do veículo como se eu não tivesse acabado de comer meu peso corporal em cheeseburgers e batatas fritas.

Não houve tempo para implorar, apenas fez. E então eu me contorci, minhas pernas chutando quando ele passou os braços em volta da minha barriga e me levantou do chão.

A visão de Thomas encostado em seu carro, vestindo seu terno habitual e expressão vazia, enviou uma nova onda de força passando por mim, e usei isso para abaixar a cabeça, então rapidamente bati de volta no rosto do meu sequestrador.

Ele amaldiçoou, grunhindo quando me deixou, e eu tropecei no carro de Thomas, pulando sobre as rochas perto do riacho antes de correr para a floresta.

Silêncio.

Nada além de um silêncio mortal. Nada além de mim e do som dos meus pés quebrando galhos e arrastando pedras, e minha respiração ofegante enquanto eu me empurrava mais forte, mais para o terreno desconhecido.

Então outro som.

Sua voz ecoando através das árvores como se ele tivesse todo o tempo do mundo. Como se ele estivesse andando languidamente, andando devagar atrás de mim, indiferente ao fato de que eu poderia fugir. —Você pode muito bem parar, Jemima. Nós dois sabemos que é inútil.

Eu teria zombado se não tivesse coisas melhores para fazer. Como tentar ficar viva.

Eu senti ele se aproximando.

Impossível, pensei.

Muito ocupada lançando um olhar para a escuridão atrás de mim, tropecei em um tronco de árvore caído e oco.

Não seria assim que terminaria.

Meu tornozelo se agitou em protesto e eu me forcei a ficar de joelhos. O som de folhas e galhos mastigando meu cérebro em pânico, e meu estômago revirou.

Antes que eu pudesse ficar de pé, uma mão envolveu meu cotovelo, arrancando-me da terra úmida e com cheiro de mofo. Em um borrão de movimento frenético, eu agi por instinto, levantando meu joelho para sua virilha enquanto eu girava, então tropecei quando sua mão soltou.

Mais uma vez eu corri. Eu corri, ignorando a dor no meu tornozelo, o medo que me fez querer bater minha cabeça contra uma das árvores antigas para acordar deste pesadelo, e eu corri da dor no meu coração.

Ignorei tudo e sorri quando vi os faróis de um carro que passava solitário pela cortina de árvores e folhagem.

Eu poderia fazer isso. Eu poderia correr para casa ou pelo menos correr pela estrada até que alguém passasse.

O ar me escapou rapidamente, e um grito me deixou quando uma mordida afiada penetrou na minha pele.

—Porra. —eu choraminguei, estendendo a mão para pegar o que parecia ser um dardo na parte de trás do meu braço. Com o coração tremendo, mesmo quando diminuía o ritmo, cambaleei de volta para o tronco de uma árvore, o calor se espalhando do líquido ardente, escorrendo em todos os membros do meu corpo.

Perdendo o controle das minhas pernas, eu caí na minha bunda. Duro. Ainda não consegui sentir.

Eu não podia sentir nada enquanto olhava para o céu, procurando pela lua, por uma última fonte de luz.

Eu a encontrei, me agarrei a ela enquanto minha respiração diminuía e minha visão se desgastava.

—Eu lhe disse que era inútil.

A lua desapareceu, suas palavras calmas me seguindo no escuro.


Capítulo vinte e quatro

Eu me assustei acordando, uma inspiração alta raspando meus pulmões enquanto pisquei na escuridão.

Minha cabeça parecia pesar uma tonelada enquanto tentava me sentar, mas não conseguia me mexer.

E não foi só por causa de qualquer droga que passou pelo meu corpo.

O sangue deixou de fluir, meu estômago se arrastando, meu coração em suas profundezas enquanto eu descobria o porquê.

Meus pulsos e tornozelos estavam presos a uma cadeira que parecia uma que eu tinha sentado no dentista.

O cheiro de lisol e alvejante cobria o ar que eu lutava para respirar quando soltei suspiros ofegantes. Pânico cortando acentuadamente e profundo, e fechei os olhos, tentando acalmar meu coração frenético.

Abrindo-os, tentei levantar a cabeça de novo, dando uma rápida olhada nos fechos ao redor do meu pulso, mas nada mais. Minha cabeça caiu, meu corpo muito fraco para fazer qualquer coisa além de ficar lá e ceder.

Uma luz no teto piscou, um laranja opaco que assaltou minhas retinas e fez meu batimento cardíaco aumentar ainda mais. Que quase me assustou mais do que o homem que a acendeu.

—Bom, você estava começando a me preocupar. Não deveria estar desacordada por tanto tempo.

Película de cera cobriu minha mente e os eventos que ocorreram, que me levaram para cá, incapaz de me mover, enquanto um monstro me olhava com as sobrancelhas franzidas.

—Preocupação? —Eu perguntei, a palavra rouca. Eu engoli, tentando livrar o resíduo de algodão revestindo minha boca seca.

Thomas assentiu, alcançando atrás dele para puxar um banquinho. O guincho e o arrastar de suas rodas sugeriam que o chão era duro. Madeira ou concreto. Um sopro de ar escapou do assento almofadado quando ele se abaixou e se aproximou. —Você não deveria ter desacordado mais do que uma ou duas horas. O sedativo foi suave. —Ele olhou por cima do ombro, nas sombras, ponderando algo. —Talvez tenha uma tolerância menor, sendo que você nunca esteve sob muita influência tóxica em sua vida.

Eu ignorei o óbvio, que ele havia dissecado aspectos pessoais da minha vida, que seu veneno era mais profundo do que eu poderia ter antecipado, e focado no que importava. —Você vai me matar? —Era melhor saber ou só perguntar? Eu claramente precisava saber. —É por isso que você estava me observando, olhando para mim?

—Eu percebi que eles descobriram sobre isso. —Thomas torceu os lábios em pensamento, depois suspirou. —Você só tem que se culpar por estar aqui, realmente.

—É minha culpa? —Eu ri, o som agravando minha garganta dolorida.

Outro aceno de cabeça. —Entre outras coisas, você se interessou por mim. Outros geralmente sabem o que sou, sem saber de nada e me deixam bem o suficiente. Não você, no entanto. —Seus olhos brilhavam, o azul abafando o branco. —Você não sabe o que isso faz com um homem como eu. Um pequeno sorriso, um pequeno toque, um pequeno beijo, uma série de perguntas, e era apenas uma questão de tempo antes de terminarmos onde estamos agora.

Eu sabia. Eu sabia desde que eu tinha falado com ele que era diferente, e tentei dizer a ele o quanto, mas meus lábios estavam pressionados juntos em teimosa de autopreservação.

Deus, era uma maravilha que eu não estivesse gritando. Suas palavras, meus arredores que ainda estavam nebulosos nos cantos, todos se esforçaram para mapear juntos. Nas sombras, rapidamente descobri o que parecia ser uma velha lareira e caixas empilhadas em um canto contra a parede.

Thomas continuou tagarelando, ignorando minha turbulência ou saboreando-a. —Agora, vamos jogar um pequeno jogo, vamos?

O último.

Ele alcançou atrás de si por algo, a prata brilhou sob a luz fraca da lâmpada que balançava acima de nossas cabeças. Ferramentas. Armas, talvez. Eu não precisava ver todos eles para saber que não eram decorações de Halloween.

—Não, n... não. —Eu fechei meus olhos, minhas coxas apertando juntas enquanto o desejo de fazer xixi saía do nada. —Thomas, por favor. Me deixe ir. Eu vou...

—Acalme-se, Little Dove. Você está em mãos perfeitamente capazes aqui. —Um folheado encontrou meus ouvidos, meus olhos se abrindo contra o medo que ansiava por mantê-los fechados. Para desligar tudo e desaparecer.

Ele folheou o que parecia ser pedaços de papel em uma prancheta. —De volta ao assunto em questão. O jogo é chamado de verdadeiro ou falso. —Ele tirou um lápis do topo da prancheta. —Bastante básico. Vamos começar.

—Início? —Eu gritei. —Eu nunca fiz nada. Eu nem sabia que você era um monstro assim.

O lápis fez um ruído de arranhar. —Isso responde a essa pergunta então. Próxima.

Minhas mãos se apertaram, suor úmido e grudado no interior das palmas das minhas mãos. —Desate-me, por favor.

—Não até terminarmos.

—Terminar? —Eu tentei não gritar e falhei.

Com distanciamento clínico, ele examinou meu corpo, depois trouxe os olhos de volta para a prancheta. —Não seja tão dramática. Você está bem. Mandei Murry buscar água e frutas para ajudá-la a se recuperar de sua corrida na floresta.

Fruta? —O que diabos está acontecendo?

Ele suspirou, a prancheta descansando em seu joelho. —Eu sou um homem paciente, Little Dove. Mas essa paciência só se estende até agora, especialmente depois das últimas vinte e quatro horas. —Ele se inclinou para frente, sua voz um sussurrou suave, mas encharcada de aviso: —Comece a fazer as perguntas que eu sei que são trilhas de medo pelo seu cérebro bonito, ou as coisas podem começar a ficar mais difíceis para você.

Eu não sabia como isso era possível, mas um olhar da ameaça brilhante em seus olhos para a parede cheia de instrumentos brilhantes me fez engolir e balançar a cabeça. —Bom.

Havia pouco mais que eu pudesse fazer de qualquer maneira.

Ele esperou.

Merda.

—Me disseram que você é... —Eu funguei, lambendo meus lábios secos enquanto ele levantava uma sobrancelha, esperando. —Que você matou pessoas.

O lápis arranhou o papel de novo quando ele supôs: —Suponho que foi uma descoberta recente de sua parte.

—Sim, —eu disse.

—Verdade. —Outro arranhão, que eu imaginei, foi ele riscando as coisas em uma lista.

O jeito que ele admitiu tinha gelo congelando meus pulmões.

Eu tinha que sair de lá.

—Eu preciso fazer xixi. —lamentei, minhas coxas se juntando para dar ênfase. —Seriamente.

Seu nariz se encolheu de aborrecimento. —Seu timing não poderia ser pior, honestamente.

Depois de olhar para mim por um minuto que parecia comer em qualquer reserva que eu tinha, ele se levantou e desfez as minhas restrições.

Sentando-me, esfreguei meu pulso, onde o material arranhado irritara, mas a mão dele o segurou. O toque, gentil mas firme, fez minhas pernas tremerem mais do que o resíduo do que ele tinha me drogado, mas eu estava de alguma forma ainda grata por não cair de cara quando ele me firmou.

Passos soaram nas escadas, e um homem apareceu, de costas para nós enquanto colocava uma bandeja no chão. Minha boca se abriu para gritar com ele, mas uma parte de mim rapidamente percebeu que ele trabalhava para Thomas, e seria um desperdício de energia muito necessária.

Minha língua ficou pesada e minha cabeça nadou quando vi a água e pedaços de frutas bem cortados. Eu precisaria de toda a energia que pudesse conseguir.

O homem foi embora e Thomas me acompanhou até a pequena bancada de trabalho. Eu tentei ignorar as manchas e amassados desbotados que decoravam sua superfície branca, enquanto eu engolia a água de um pequeno copo de plástico.

—Devagar, ou você pode ficar doente.

Examinando a sala por janelas, não encontrei nenhuma e tentei arrancar o seu aperto.

Thomas engoliu em seco e me puxou para um pequeno corredor que levava a um minúsculo banheiro. Havia um chuveiro aberto, um banheiro velho e a pia mais pequena que eu já tinha visto. Também não havia janelas lá, notei, quando ele me soltou e fechou a porta com um ruído silencioso.

Eu fui até o armário embaixo da pia. Bloqueado, claro.

O desejo de fazer xixi superou o desespero, e eu usei o banheiro, grata que havia pelo menos papel higiênico. Quão humano dele.

Depois, eu esfreguei minhas mãos com sabão, enxaguando-as enquanto meus olhos procuravam por qualquer coisa que pudesse me ajudar a subir as escadas. Não havia nada além de uma escova de vaso sanitário, papel higiênico, gel de banho, sabonete e um plugue.

Meus olhos voltaram para a escova do banheiro e uma batida soou na porta.

—Sente-se melhor? —Thomas perguntou quando ele abriu meio minuto depois.

Eu não esperei. Eu pulei para ele, desequilibrando-o quando ele me agarrou e tropeçou de volta para o chão.

Que era definitivamente concreto.

Eu estremeci, meu cotovelo batendo nele enquanto segurava a escova de plástico em seu pescoço, tentando cortar seu suprimento de ar.

Ele me virou em um piscar de olhos, a escova voando pela sala com um barulho, e seus olhos brilhando enquanto ele ria.

Ele riu porra.

Chocada pelo som enferrujado e musical, tudo o que fiz foi ficar lá, piscando para ele enquanto meu cotovelo morria. —Criativo, Little Dove.— Então veio a raiva. —Mas, infelizmente, isso vai te custar.

Ainda aturdida demais, eu nem sequer lutei com ele, o que me fez ferver com auto-aversão quando ele me pegou e me colocou de volta na cadeira.

Seu toque era gentil, mas sua pele vibrou com aviso, um aviso que dizia que ele não toleraria outra tentativa de liberdade enquanto ele refazia minhas restrições.

—Vamos tentar de novo amanhã. —A luz piscou quando ele subiu as escadas acima de mim. —Até lá então, Little Dove.

 


Sozinha no escuro, fui forçada a ser amigável com todas as coisas que eu poderia ignorar melhor durante a luz. Tantas coisas. Tantas coisas óbvias e insultantes.

Tudo circulou de volta para Miles.

Milo.

Qual era o seu verdadeiro sobrenome?

Uma pontada de arrependimento deslizou sobre minha pele, infiltrando-se em ossos cansados quando me lembrei da última vez que o vi e como tudo tinha acontecido horrivelmente. Quando afundou com garras cobertas de sujeira que poderia ter sido a última vez que ele me viu.

Eu o odiava, mas uma parte de mim também não tinha parado de ama-lo. E foi nos confins da masmorra do meu cativeiro, ou onde quer que eu estivesse, que deixei esse conhecimento derramar-se pelas minhas bochechas.

Milo era um bom homem com boas intenções. Mas bons homens eram claramente capazes de quebrar corações e arruinar vidas. Eu teria a chance de vê-lo novamente? Para dizer que lamentava, e que talvez um dia pudesse perdoá-lo?

A lembrança de sua esposa amortecia tais noções fantasiosas.

Talvez Hope estivesse certa em zombar de mim, pensei enquanto me esforçava para manter os olhos abertos enquanto o sono tentava me levar embora. Crescendo em uma adolescente, ela dançou para fora do meu quarto, um rolar para seus quadris e olhos, enquanto ela dizia: —Contos de fadas são para otários, Jem. Hora de se tornar real.

—Fique real. —eu sussurrei, o som rouco e úmido ecoando no escuro. —Bem, isso é tão real quanto parece.

E ainda assim fui capturada por um monstro que quebrou o último pedaço de mim.

Não foi o medo, de preocupação ou desamparo.

Dentro do meu coração, entre o tecido machucado e espancado, havia uma peça que ainda brilhava com a crença. Aquela cintilação então se apagou, se enrolou na bagunça escura e finalmente admitiu a derrota.

Contos de fada, aqueles finais felizes perfeitos, eram realmente para otários.

Otários que poderiam muito bem acabar mortos.

 


A luz clicou. —Bom dia, Little Dove.

Eu dormi pelo que parecia ser dias, mas provavelmente tinha sido apenas horas.

O movimento no andar de cima havia me acordado há um tempo atrás. O rangido do chão manteve meus olhos abertos, mesmo quando eu desejava voltar à minha fuga. Um material macio deslizou sobre mim enquanto eu me movia, verificando se eu ainda estava contida. Um cobertor. Um cobertor de malha havia sido colocado em cima de mim em algum momento enquanto eu dormia.

Eu não tinha certeza se deveria estar agradecida ou perturbada pelo fato de alguém estar aqui enquanto eu dormia.

Então, novamente, fui contida no porão de alguém ou na câmara de tortura. Ter alguém me vendo dormir deveria ter sido a menor das minhas preocupações.

Thomas, em um de seus trajes característicos, de costas para mim, mexeu nas coisas que emitiam um som estridente em uma de suas bancadas de trabalho. —Dormiu bem?

—Como um bebê. —eu disse, então fiquei tensa com a minha própria audácia de vomitar uma mentira tão ousada.

Thomas não disse nada.

Minhas pernas estavam rígidas, minha boca estava suja e minha cabeça latejava. —Posso... posso tomar uma bebida?

Thomas se virou, recostando-se no banco e cruzando um pé sobre o outro.

Chinelos. Ele estava usando chinelos.

—Você está pronta para tentar o nosso jogo de novo?

—Se me conceder outra viagem ao banheiro, comida e água, então sim.

Ele pegou sua prancheta, mas optou por ficar em pé desta vez. Por isso fiquei grata. Eu não o queria tão perto de novo. —Sempre que você estiver pronta, Little Dove.

Eu tive, o que senti serem horas para pensar sobre tudo, então eu estava mais do que pronta. Na verdade, acho que gostaria de perguntar a ele, mesmo que ele não me desse o que eu queria em troca.

Comecei com: —É verdade o que eles chamam de você?

—E o que seria?

—O Escultor.

Eu não conseguia distinguir sua expressão quando a luz brilhava apenas no meu cantinho da sala, mas mesmo assim, soube pelo silêncio dele que ele estava contemplando a questão.

—Sim. —ele finalmente disse.

Puta merda —Por que?

—Por que não está na lista. —ele cortou.

—Besteira. —eu soltei sem pensar.

Thomas franziu o cenho. —Desnecessário. Próximo.

Joguei, tentei puxar minha próxima pergunta para a superfície, então mudei de ideia e fui para outra diferente. —Você sabia que eles estavam investigando você?

O lápis deslizou sobre o papel em sua prancheta. —Eu finalmente descobri.

Ele disse isso tão casualmente como se nem se importasse. —Isso não te preocupa?

Seus olhos levantaram, encontrando os meus. – Little Dove, não é a primeira vez, e não será a última. Próxima.

—Você sempre mata suas vítimas? Quantas você matou?

Outro som de marcação. —Isso são duas, mas vou deixar você dobrar as regras. —Ele cantarolou. —Eu não continuo contando. Eu costumava. Mas depois de um tempo, ela simplesmente se torna grosseira e brega. E não, nem sempre as mato. Murry, meu assistente, é prova disso.

—O cara que me trouxe comida?

—Sim.

—Você... —eu limpei minha garganta —...o que, machucou ele?

Thomas balançou a cabeça um pouco. —Um pouco, sim. Você terá um vislumbre por si mesma em breve.

Raiva se misturou com medo, queimando quente em minhas veias. —Você é um monstro.

Thomas, escrevendo algo, fez uma pausa, seus ombros abaixando uma fração. —Isso não é uma pergunta. Próximo.

Eu não queria mais brincar, mas... minha doce menina com seus cachos dourados e sorriso com covinhas. – Lou-Lou.

Thomas olhou para mim novamente, esperando.

—Ela não é sua?

—Esse péssimo federal realmente tentou proteger você, não foi? —Ele zombou, jogou sua prancheta para o banco onde bateu na superfície de madeira, então ele agarrou seu banquinho.

Tomando um assento, ele esfregou as mãos juntas. —Ela é minha em todos os aspectos que conta.

Suas palavras tinham lágrimas picando meus olhos. Onde estavam seus pais? Eles não sentiriam falta dela?

—Você a levou?

—Eu fiz. —O som de suas palmas deslizando uma contra a outra de alguma forma acalmou meu aumento da frequência cardíaca. —Lou era filha de uma viciada em drogas. Essa mulher, mãe de Lou-Lou, foi amante de um importante cliente por um tempo, mas uma década atrás, ele a demitiu.

—Seu cliente a demitiu?

Ele assentiu. —Eu não posso te dizer detalhes como nomes, então não pergunte. Mas esta mulher, ela ficou bem por um tempo e desfrutou de sua liberdade com o dinheiro que ele lhe deu quando se separaram. Mas atraída por aqueles com corrupção em suas veias, ela logo conheceu outro homem. Um traficante de drogas do fundo do barril, aparentemente, que usou ela e o dinheiro dela, a derrubou, depois foi baleado perto da fronteira um ano depois do nascimento de Lou.

Meu coração afundou. —Então ela voltou para o seu cliente?

Thomas assentiu novamente. —Quando Lou tinha dois anos, ela tentou. Ela não parava, mesmo quando ele a afastava uma e outra vez. Ela era mais velha e não era mais tão bonita de se ver. Não depois que as drogas e o estilo de vida mais duro deixaram sua marca. E a nova esposa do meu cliente tinha tolerância zero para as amantes. —Ele encolheu os ombros. —Então ele me telefonou e eu cuidei do problema aqui.

Calafrios morderam minha pele. —Aqui? —Quando ele não disse nada, tentei novamente. —Na casa dela?

—Sim. —O silêncio caiu como uma cortina pesada, sua expressão não revelando nada. Então ele continuou: —Eu costumava fazer muitos trabalhos assim, mas desde que Lou chegou, eu tentei mantê-los no mínimo. É um risco, estar ao ar livre com muita frequência. Eu não estou atrás das grades por algumas razões, mas é principalmente porque eu sou cuidadoso, e faço alguns dos meus trabalhos aqui. —Seus olhos caíram em mim.

Ele fez o seu trabalho aqui, na mesma cadeira que eu estava presa.

—Mas como é que os policiais não encontraram este lugar?

—Sou dentista de profissão. —Quando minhas sobrancelhas se levantaram, ele sorriu. —No papel, de qualquer maneira. Assim, mesmo que recebessem um mandado, teriam dificuldade em encontrar provas concretas.

A bile subiu pela minha garganta e eu arrastei uma longa respiração pelo nariz, depois exalei devagar. – Lou-Lou... continue.

Sabendo que eu provavelmente precisava da distração, ele fez: —Ele foi um dos meus primeiros clientes, e eu costumo fazer favores para aqueles que são leais se o preço estiver correto. Mesmo que a presa nem sempre mereça isso. O nome verdadeiro de Lou é Katie. —Uma sugestão de um sorriso suavizou suas palavras. —Ela saiu dançando, mais como se estivesse realmente bamboleante, do quarto nojento no trailer onde moravam, com o polegar na boca, enormes olhos inocentes e apenas me encarando.

Lágrimas encheram meus olhos, e eu tentei furiosamente piscar de volta.

Thomas parecia roubado pela lembrança, sua voz encharcada de nostalgia e evidente afeição. —Lá estava eu, coberto com o sangue da mãe dela, a mãe dela lá fora em uma bolsa de corpo esperando para ser levada sob a cobertura da escuridão, e ela disse: ‘Quer um pouco de leite?’ Ela tinha dois, quase três anos e não dava uma única merda sobre quem eu era ou o que eu tinha feito. —Ele balançou sua cabeça. —Ela estava me oferecendo algo depois que eu tinha acabado de levar seu mundo inteiro embora.

Ouvir Thomas maldizer sentiu como se um prego estivesse passando suavemente pela minha pele. Calmante, ousado e tentador.

—Então você a levou?

Ele parecia triste quando disse: —Não, eu a deixei. Por três dias inteiros. Até que a vontade de voltar e ver se ela tinha sido tomada pelas autoridades levou a melhor sobre mim. Ela estava enrolada no sono perto da porta, seus cachos emaranhados e cercados por embalagens de comida. —Um tom rouco levou suas próximas palavras. —Então a levei para casa, disse a Murry que precisava ver se ela tinha parentes vivos e esperei.

—Ninguém. —eu imaginei instantaneamente. —Ela não tinha mais ninguém.

Thomas se levantou, indo para o jarro de água e a taça. —Eu poderia deixá-la entrar no sistema, mas eu era egoísta. sabia que poderia dar uma vida melhor, ainda que pouco convencional.

Ele colocou a xícara no banco mais próximo da minha cabeça, depois começou a soltar as algemas em volta dos meus pulsos. Eu observei seus olhos e a rigidez em sua mandíbula enquanto ele nadava à deriva em uma corrente de sentimentos que eu sabia que ele não estava bem familiarizado antes de Lou-Lou.

Naquele momento, eu estava muito chocada, com muita sede e investida demais na história de Lou-Lou para pensar em fugir.

Thomas me ajudou a levantar, a cadeira se movendo comigo, o que na verdade era ótimo, já que eu não tinha energia para me manter sentada. Então ele me passou a taça.

—Ela sabe? —Eu perguntei, tomando pequenos goles e deixando a piscina líquida na minha língua.

—Ela sabe que sua mãe está morta, mas não pelas minhas mãos. E claramente, ela não se lembra do pai.

Depois que ele soltou minhas restrições no tornozelo, eu devolvi o copo, flexionando os dedos e os dedos dos pés. —Ela acha que você é o pai dela de verdade?

—Sim. É mais seguro assim. Ela pode frequentar a escola e viver uma vida normal sem que surjam dúvidas. Ela nunca precisará mentir muito.

Eu queria perguntar sobre o que ela precisava mentir, mas meu estômago roncou e Thomas pressionou algo no alto das escadas atrás de mim. Um botão, notei quando olhei para cima.

A porta se abriu um segundo depois os passos desceram. Aquele cara, Murry, colocou outra bandeja para baixo, sua voz profunda e jovial quando ele disse: —Eu voltarei com alguns biscoitos em alguns minutos.

Biscoitos? Minha confusão cresceu infinitamente. Mas o cheiro de frango e pão atraiu e quase me fez sair da cadeira. Eu sabia que provavelmente iria enfrentar problemas, então olhei para Thomas.

Murry se foi antes que Thomas pudesse caminhar para pegar o sanduíche.

Eu mastiguei em silêncio, lutando com a advertência de Thomas sobre ir devagar quando minhas papilas gustativas ganharam vida, e minha fome tentou arrancar a comida da minha boca e forçá-la ao meu estômago.

—Ela sabe que eu estou aqui? —Eu perguntei, escovando minhas mãos sobre o prato. Migalhas caíram e se espalharam pela porcelana creme.

—Lou? —No meu aceno, ele disse: —Sim, ela sabe. Ela acha que você está dormindo com um resfriado, que você não tem seguro ou ajuda disponível da sua família e precisa da nossa ajuda. Ela está animada para ver você.

Uma risada vazia me deixou depois que engoli a última mordida de frango e pão amanteigado.

Thomas estendeu a mão para o copo de água que ele tinha enchido e, com força que eu não sabia que tinha, joguei o prato no topo da cabeça dele, depois pulei da cadeira.

Ouvindo-o amaldiçoar e gemer atrás de mim, eu tropecei, mas rapidamente me endireitei, prendendo-me no corrimão de madeira e sem olhar para trás enquanto subia as escadas e a luz ofuscante.

Capítulo vinte e cinco

Uma cozinha me cumprimentou.

Uma grande cozinha com velhos armários de carvalho, uma ilha e cheia do aroma de biscoitos recém assados.

Fiz uma pausa longa o suficiente para a minha visão se ajustar, e então corri através do piso xadrez branco e preto até a porta de tela do outro lado.

—Senhorita Clayton?

Porra.

Eu parei, a porta ao meu alcance e meu coração batendo em minhas costelas com o movimento abrupto. Ignorando minha respiração trêmula, o tremor dos meus membros como a adrenalina exigia que eu me movesse, eu fiz um sorriso. —Ei, Lou-Lou.

Lou-Lou se mexeu em seus pezinhos nus e puxou seu vestido branco com rosas vermelhas. —Onde você vai? Você está se sentindo melhor?

O som dos pés subindo as escadas me fez voltar para a porta.

Mas Lou-Lou... seus olhos, seu pai, esse lugar. Eu realmente poderia simplesmente deixá-la lá?

A porta se abriu atrás de mim, e um grito se alojou na minha garganta quando um homem entrou vestindo um terno e um avental com palavras impressas que diziam ‘o chefe mais desonesto do mundo’ olhava para mim.

Ele tinha o que parecia ser um sorriso permanente gravado em seu rosto. Cicatrizes gêmeas se encontraram e correram debaixo de seus lábios, curvando-se ao redor de sua boca e cortando suas bochechas antes de parar nos cantos de cada olho. Meus próprios olhos observaram enquanto sua mão, que estava faltando um dedo indicador, se movia atrás dele.

Santa mãe do inferno.

Meu coração, que dançava como um pássaro preso, parou de se mover quando a fechadura estalou na porta, e o painel ao lado tocou. Todos os traços de adrenalina fugiram com os sons e desviei os olhos do rosto desfigurado. – Eu.. —Eu não tinha ideia do que dizer.

—Murry. – Lou-Lou chiou. —Esta é a minha professora.

Murry, com uma mão nas minhas costas, gentilmente me direcionou de volta pela cozinha em direção à porta que eu acabara de atravessar. Olhei para ele, ignorando as cicatrizes, e implorei com meus olhos e um sussurro, —Não, por favor.

—Quer vir pintar comigo, senhorita Clayton? – Lou-Lou perguntou. Quando tudo que fiz foi piscar para ela, ela olhou para a porta aberta. —Oh, o papai está trabalhando?

—Ele está. —disse Murry, parando, então me deu um olhar que dizia: ‘O que você fez?’

Thomas apareceu no escuro no topo da escada, um dedo pressionado contra seus lábios quando encontrou os olhares de Murry e meus.

—Ei, Lou. Você se importaria de pegar o velho livro de receitas com a bandeira francesa na capa, na biblioteca?

Lou-Lou gemeu. —Mas estou com fome e está muito longe.

Murry levantou uma sobrancelha. —Você vai ter seus cookies depois, prometo.

Com isso, ela saltou para fora da sala, e Thomas saiu das sombras, um olhar de puro aborrecimento em seu rosto enquanto olhava para mim com uma mão pressionada contra sua cabeça ensanguentada.

—O que você fez? —Murry expressou seu tom seco.

Minha boca ficou aberta.

—Ela me bateu na cabeça com um prato. —Thomas respondeu por mim. —E por que você não fechou a porta?

—Eu estava voltando com biscoitos. —Murry gemeu, seus olhos escuros cheios de desânimo. —Do conjunto creme?

Thomas estremeceu, afastando a mão e franzindo a testa para o sangue. Ele esfregou entre os dedos e meu estômago revirou com a ação. —Temo que sim.

—E o status da prato?

Meus olhos ziguezaguearam de Murry para Thomas.

—Não se preocupa com a minha cabeça nem nada? —Ele revirou os olhos quando Murry continuou a esperar pela confirmação. —Morto.

Murry amaldiçoou uma violenta tempestade ao meu lado, e recuei devagar, minha bunda se conectando fortemente com a bancada.

—Eles eram vintage. —disse ele, curvando-se e puxando uma bandeja de biscoitos de um dos dois fornos. Ele jogou-os no fogão com um barulho.

—Não importa os pratos. Eu posso precisar de um ou dois pontos.

Murry suspirou, depois se aproximou para inspecionar a cabeça de Thomas. —Andar de baixo.

Atordoada como o inferno por eles apenas me deixarem lá, eu assisti enquanto eles caminhavam no escuro.

A grande porta fechou e trancou por trás deles, e notei outro painel ao lado, no alto da parede. Intercomunicador e um teclado. Presumi que a porta só poderia ser destrancada com um código.

Alimentada pelo fato de o obstáculo mais difícil ter sido arremessado, virei-me para a janela da pia. Do lado de fora, tudo que vi foi grama morta, flores silvestres e uma antiga represa cercada por ervas daninhas. Eu chequei, mas encontrei-a trancada, em seguida, vi meu reflexo quando uma nuvem se moveu sobre o sol.

Meu cabelo estava em todos os ângulos imagináveis. Meus olhos estavam manchados de rímel, e cansados de exaustão, e quando olhei para o meu vestido, encontrei-o enrugado e rasgado em alguns lugares.

Eu parecia um animal selvagem, mas Lou-Lou não se importava, voltando e batendo um livro no balcão. —Você está melhor agora?

—Hum —Eu me aproximei, alisando o cabelo o máximo que pude. —Muito melhor, sim.

Seus olhos eram brilhantes, felicidade irrestrita brilhando de volta para mim. —Quer um biscoito?

Olhei de relance para a bandeja, e a lembrança do homem que os fizera, seu rosto e a raiva que sem dúvida sentia por eu quebrar um de seus pratos me fizeram dizer: —Acho que devemos esperar. Eles podem estar um pouco quentes.

—Ok, vamos lá. —Ela veio e pegou minha mão.

—Onde estamos indo? —Eu perguntei quando ela me arrastou da cozinha. Isso era bom, eu disse a mim mesma. Poderia explorar um pouco e talvez descobrir onde eu estava.

—De volta ao seu quarto, boba. —Ela espiou para mim, seu pequeno nariz amassado. —Você realmente deve ter estado doente.

—Meu quarto? —Entramos em uma ampla sala de jantar, completa com uma mesa de carvalho escuro sem fim, cadeiras combinando, obras de arte antigas e lustre de cristal gigante.

—Sim, papai disse que você vai ficar conosco por um tempo até que você esteja melhor, porque seu pai é velho e você não quer que ele fique doente. —Nós saímos da sala de jantar e nos movemos para o que parecia ser um vestíbulo. Lou-Lou baixou a voz na base de uma gigantesca escadaria. —Porque os idosos podem adoecer mais facilmente e talvez morrer.

Eu sorri, de alguma forma, e olhei atrás de mim para as grandes portas duplas da frente. Outro painel de segurança estava na parede ao lado deles, e havia inúmeras fechaduras nas portas. Eu aposto que cada um deles estava preso no lugar.

Suspirando, deixei Lou-Lou me levar para cima.

Ela parou onde as escadas alcançaram o segundo andar, e meus olhos viajaram pelas escadas restantes enquanto nos afastávamos delas, imaginando onde elas levariam.

Continuamos por um amplo salão com piso de mármore polido, e Lou-Lou me contou sobre toda a pesca, coloração e culinária que ela já fizera nas três primeiras semanas de férias de verão.

Semanas. Era difícil acreditar que a vida pudesse mudar isso drasticamente em tão curto espaço de tempo. Mas eu sabia que era verdade. Já havia descoberto da maneira mais difícil que, em um instante, todo o seu mundo poderia deixar de existir, e você era deixada para atravessar um novo mundo estrangeiro onde nada era o mesmo.

Vasos de flores silvestres decorados em meados do século, nas mesas do salão estiloso. Tapetes orientais desbotados percorriam o comprimento de cada corredor. O lugar era como um museu. Uma casa antiga e clássica que foi restaurada para grande parte de suas origens vintage ou que foi cuidadosamente mantida.

—Aqui está. – Lou-Lou disse, abrindo uma porta no final do corredor.

A porta se abriu para revelar uma cama branca queen-size, combinando com a roupa branca e o armário correspondente. Hesitante, eu entrei e espiei minhas malas ao pé da cama, fechei os olhos e zombei.

Ele pegou minhas malas.

Alguém tinha ido à casa do meu pai.

O comentário de Lou-Lou sobre meu pai deixou os nervos em ascendência se estabelecendo. Ele não faria isso. Eu não sabia por que, mas sabia que ele não teria machucado meu pai.

Uma janela arqueada com videiras cobrindo metade das vidraças era a única fonte de luz. Um pequeno assento na janela ficava abaixo, e passei a palma da mão sobre o tecido cinza que o cobria, desejando o que eu tinha em casa.

—Você pode ver a floresta daqui, —Lou-Lou disse, me tirando das minhas reflexões e apontando um dedo para o vidro enquanto ela subia no assento.

—Você pode. —eu disse, observando as copas das árvores e o bando de pássaros que atiraram no céu acima deles.

O que eu não daria para estar entre aqueles pássaros, voando, deixando tudo isso para trás.

—Você vai ler meu novo livro para mim? Papai disse que você gosta de ler muito. – Lou-Lou puxou seu rabo de cavalo, uma pequena risada passando por pequenos lábios rosados. —E eu disse que já sabia disso, o que o fez sorrir.

—Oh sim? —Sentei ao lado dela, meus músculos doloridos gratos pelo alívio.

, Sim. Papai geralmente sempre tem razão, então quando estou certa primeiro, isso o faz sorrir.

Sorrindo de novo eu mesma, estendi a mão e torci o nariz dela. —Busque-me esse livro e vamos ler.

Ela deu um pulo. —OK.

Fiquei de pé depois que ela saiu, sabendo que meu celular não estaria na minha bolsa, mas querendo checar de qualquer maneira.

Eu afundei de volta quando ela voltou para a porta com as mãos nos quadris. —Não vá embora.

—Eu não vou, —eu menti.

Lou-Lou franziu a testa como se fosse capaz de farejar. —Promessa?

A rendição afrouxou meus membros, e assenti solenemente. —Eu prometo.

Com um sorriso, ela saiu, e mudei meu olhar para a janela, minha testa encontrando o vidro frio.

Para tantas perguntas como Thomas respondeu, novas surgiram em seu rastro.

Que tipo de monstro mata e tortura pessoas, e ainda dá a uma menina uma casa tão substancial?

Um complicado.


Capítulo vinte e seis

Thomas

-Honestamente, Murry. Quanto tempo leva para colar dois pedaços de pele juntos?

—Cerca de cento e cinquenta vezes mais do que para cortá-los, —disparou de volta. —Seja grato que você não precisa de pontos.

—Grato, —eu resmunguei sob a minha respiração, a tensão enrolando em todos os músculos quando Murry continuou esfregando na parte de trás do meu couro cabeludo. O desejo de afastar seu toque não muito gentil segurou forte, mas a necessidade de ter certeza de que eu não tinha uma ferida na cabeça me deixou no lugar.

Acho que fiquei grato.

Ela estava aqui.

Na minha casa.

E tentou me matar duas vezes.

Sorri e Murry, sempre perceptivo, percebeu. —Aquela gatinha tem garras.

—Muito mais afiada do que eu pensava, —eu supus, inspecionando o prato que estava em pedaços no chão. Minha cabeça latejava, mas o sangue vulcânico corria em minhas veias quando eu pensava nela e aquele medo violento em seus olhos me distraía.

—Você quer que eu te acorde esta noite?

—Eu não estou cansado.

—Feito. —As mãos de Murry desapareceram finalmente. —Deixe-me ver seus olhos, só para ter certeza.

—Não. —Eu me afastei e tirei meu casaco, que estava coberto de partículas de sangue.

Nada de novo lá. Exceto por ser meu em vez de outro. —Alguma atualização sobre o pai?

Depois de trancar o armário de primeiros socorros, Murry entrou no banheiro, sua voz subindo ao som de água corrente enquanto lavava as mãos. —Ele leu o texto enviado do telefone dela sobre a viagem dela para Indiana para ver uma velha amiga do colegial. Judy recebeu o telefone esta manhã e está preparada para o caso de ele ligar ou mandar uma mensagem para ela.

Judy trabalhou para mim e alguns dos meus amigos. Ela gostava de coisas caras e adorava o fato de só ter que trabalhar em tarefas simples que, às vezes, duravam apenas dez minutos e não exigiam que ela abrisse as pernas para receber um pagamento generoso.

—Ele está preocupado?

Uma pausa precedeu seu retorno pelo pequeno corredor. —Não excessivamente. Delov disse que seu cara entrou em uma conversa telefônica que o pai dela fez com a mercearia e, aparentemente, com o ex dela, mas ele logo se acomodou depois disso.

—A policia Federal? —Eu perguntei, raiva enrolando meus dedos. Meus polegares estralaram meus dedos ao pensar no idiota indigno. Com a violência, minhas mãos ansiavam por seu rosto presunçoso.

—Ele não atendeu a ligação, e duvido que o pai dela tente de novo agora que não está tão preocupado. Ele aparentemente detesta o cara.

—Excelente. Certifique-se de que Judy devolva o telefone em uma semana. —Peguei minha jaqueta no andar de cima, Murry seguindo um segundo depois e marchei direto para os biscoitos para inspecioná-los. —E precisamos substituir os telefones.

—Eu acabei de fazer há duas semanas.

—Novamente. Peça mais e faça com que Sage e Beau façam o mesmo. —Eu coloquei minha jaqueta sobre as costas de um banquinho. —Eles devem ter escutado quando eu estava discutindo os Claytons com Beau. Mesmo que tenha sido no ano passado, não podemos nos dar ao luxo de ficar desleixados. —Tinha que ser os telefonemas, como eu fiz o resto da minha escavação em privado, não deixando de a seguir, e ao longo dos últimos anos. Nunca tenho certeza do que fazer com a família que tirou tudo de mim.

Os olhos de Murry dispararam para os meus e ele assentiu. —Faz mais sentido agora, como ela acabou brincando de casinha com ele.

Cantarolando, eu peguei um biscoito, mastigando enquanto olhava ao redor da cozinha, procurando por qualquer sinal da minha Dove.

—Você acha que ela está procurando outra saída? —perguntei quando abri a geladeira de duas portas e arranquei uma garrafa de água.

—Duvidoso com a senhorita Lou mantendo-a ocupada.

Eu drenei metade da garrafa de bebida, o plástico enrugando. Um riso, fraco mas audível, soou pela casa, e meu coração inchou.

—Além disso —disse Murry, comendo um biscoito enquanto colocava vários em um prato. Um descartável desta vez. —Não há outra saída. A única razão pela qual a porta da cozinha estava destrancada foi porque tirei o lixo. —Ele colocou os pratos descartáveis de volta dentro de uma gaveta. Nós os mantínhamos para alimentar os visitantes que precisavam ficar vivos, e que definitivamente não podiam ser confiados com porcelana. —Eu vou ter certeza de trancá-la e levar as chaves da próxima vez.

—Certifique-se de fazer. —Eu tinha fé na minha pequena Dove, mas me lembrava que ela não se dava bem trancada em uma gaiola. —Vamos torcer para que ela termine logo. —Eu coloco a garrafa no balcão.

Murry bufou, interrompendo minha jornada para fora da cozinha ao som que me puxava para as escadas. —Você é excessivamente otimista sobre esta situação.

—Seu ponto? Meu tom estava frio.

Murry já estava acostumado com isso e continuou enquanto colocava o resto dos biscoitos dentro de um estranho jarro de vidro. —Eu não estou tentando incomodar você. Só estou sendo honesto quando digo que acho que seria sensato lembrar o que você é. —Seus olhos se levantaram, três dedos caindo na bancada quando ele me nivelou com o efeito total do que eu fiz para ele. —Lembre-se que nem todos, na verdade, quase ninguém aceitarão isso.

Retrocedendo, peguei os biscoitos do balcão e tentei deixar suas palavras para trás.

Eu não tive sucesso. Elas assombraram cada passo meu, atormentaram minha mente com terríveis suposições, e ameaçaram escurecendo a faísca que residia em meu peito.

A que ela colocou lá.

Ela não podia apagá-la. Não estava em sua natureza, garras ou não. Mas eu sabia muito bem que ela poderia partir, mais cedo ou mais tarde, e isso poderia ser a última vez que a veria.

Meus pensamentos fugiram com a visão das duas meninas enroladas juntas no assento da janela, Lou-Lou sorrindo e apontando para a página de um livro que estavam lendo.

Eu não queria incomodá-las.

Eu queria me juntar a elas.

E embora soubesse que Jemima não iria gostar, ainda bati na porta aberta.

Ela olhou, e o sorriso que transformou a beleza de seu rosto em perfeição murchou quando ela abaixou a cabeça.

Doeu mais do que ter um prato batido na minha cabeça. —Eu tenho uma entrega para você.

—Biscoitos! —Lou me empurrou, quase enviando-os para o chão coberto de tapete com sua excitação.

—Um minuto. Você lavou suas mãos?

Lou fez uma careta, mas nem tentou mentir. Ela saiu do quarto para usar o banheiro no final do corredor. —Faça duas vezes, —eu gritei.

Ela gemeu.

—Duas vezes? —minha Dove falou.

Ao entrar no quarto, coloquei o prato no armário branco e me sentei na cama. —Ela tem um hamster. Muitos germes.

—Bizarro. —disse Jemima. —Ela o trouxe uma vez para me mostrar e contar .

—Aquele está morto. —eu disse antes de pensar, então corri para acrescentar, —...mas eu o substituí antes que ela notasse. E ele é na verdade uma menina, mas Lou também não percebeu isso.

Jemima sorriu. Então, como se lembrasse que não deveria, voltou sua atenção para a janela.

Sentado no silêncio, escutei o som de pequenos pés, mas não ouvi nenhum.

—Sua cabeça está bem? —Sua voz estava tensa como se ela não quisesse perguntar, mas algo a obrigou a fazê-lo.

—Nada que Murry não pudesse consertar com um pouco de cola.

Ela olhou de volta para mim. A luz do sol destacava os emaranhados em seu cabelo geralmente brilhante, as manchas debaixo de seus olhos, colocavam suas emoções turbulentas em plena exposição.

E ainda assim, ela era a coisa mais linda que meus olhos já tiveram o prazer de ver.

—Se você não vai me machucar, por que estou aqui?

—Porque eu queria que você estivesse aqui. —Lutei para manter seu olhar quando eu admiti: —Eu precisava que você soubesse mais e te ver antes que seu federal te levasse embora.

Suas sobrancelhas franziram, lábios rosados se abriram. Perguntas surgiram em seus olhos escuros. Perguntas que ela visivelmente rejeitou com uma sacudida de cabeça e perguntou: —Quando posso sair?

O som dos pés de Lou trovejando pelo corredor me fez calar a boca, escondi minha decepção e levantei do sofá. —Sempre que você quiser. Meu único pedido é que você venha me encontrar antes de você partir.

Seus olhos subiram para os meus, confusão escurecendo-os.

—Lou. —Pegando-a enquanto ela tentava passar por mim até os biscoitos, inclinei o queixo e passei a mão sobre os cachos sedosos de seu cabelo. —Certifique-se de compartilhar e não importunar. Senhorita Clayton precisa de muito descanso e comida depois de estar doente.

—Claro, papai.

Com uma última olhada em Jemima, que estava mordendo sua unha enquanto ela olhava para mim, eu me forcei a sair da sala. Era a última coisa que eu queria fazer, mas muito de uma vez nunca foi bom quando alguém se acostumava a um novo ambiente.


Capítulo vinte e sete

Venha me encontrar antes de você partir.

Era um truque. Um truque cuidadosamente velado.

Ele sabia que eu lutaria para procurá-lo de boa vontade depois de tudo o que aconteceu. Ele também sabia que eu estava mais confusa do que nunca.

E foi assim que passei o dia seguinte no meu quarto, tomei banho, me troquei, me alimentei e fiquei descansando um pouco.

Lou se juntou a mim sempre que podia, mas foi chamada a intervalos de algumas horas para ajudar Murry, praticar piano com seu pai ou fazer coisas comuns como tomar um banho, almoçar e se arrumar para dormir.

Coisas tão normais em uma companhia tão bizarra.

Era como se Thomas não quisesse que sua presença me sobrecarregasse demais, mas não podia exatamente impedi-la de me ver. Eu estava feliz por isso. Por vê-la e ter tempo sozinha. Mesmo que os dois complicassem ainda mais tudo o que eu estava sentindo.

Lou trouxe quebra-cabeças, livros para colorir e até varetas para o meu quarto.

Mas às oito e meia, qualquer prova de que ela ainda estava do lado de cá da fantasia desapareceu, a casa ficando estranhamente silenciosa quando o anoitecer desceu.

Ele veio até mim então.

Vestido em seu terno e com o cabelo varrido para trás em sua perfeição habitual sem um fio fora do lugar, ele entrou, fechou a porta e sentou na cama.

Assistindo do meu poleiro preferido perto da janela, eu segui cada movimento dele enquanto ele se inclinava para frente, suas mãos se apertando entre os joelhos e seus olhos abaixados até os chinelos. Sua jaqueta estava desfeita, aberta para revelar o que parecia ser um pequeno caderno dentro de um dos bolsos internos.

Isso era algum diário fodido? Eu bufei com o pensamento e voltei minha atenção para as árvores iluminadas pela lua.

—Como você está se sentindo? —ele perguntou.

O silêncio que chegou com a sua presença era tão violento que o tique-taque do velho relógio de pêndulo no corredor podia ser ouvido através da madeira grossa da porta do quarto. —Bem.

—Little Dove, —ele começou.

—Não me chame assim.

Silencio novamente. Então, alguns momentos depois, —Mas é isso que você é.

Meu olhar se virou para ele, afiado e acusador.

Ele nem sequer recuou, mas seus olhos se levantaram, e o brilho honesto sobre eles quase me cegou tanto quanto suas próximas palavras. —Isso é o que você é para mim.

—Eu não quero ser. —disse, sem saber se era exatamente verdade, mas querendo que fosse. Desesperadamente.

Ele se encolheu então. —Você provou meus lábios e eu os seus. Pode mentir com suas palavras, mas o que isso vai custar ao seu coração?

—Meu coração não tem nada a ver com essa besteira fodida. —eu fervi.

Seu lábio enrolaram. —Mas não é? De que outra forma você acabou precisamente aqui?

Ele estava certo e eu não estava com vontade de discutir.

Depois de incontáveis minutos se passarem, passei o dedo pelo vidro frio da janela e perguntei algo que estava me comendo. —Como você acabou assim?

Quando ele não respondeu, olhei para ele, tentando de novo. —Como você pode fazer as coisas que faz e não se sentir envergonhado por isso?

—Vergonha é pessoal, Little Dove. Eu sinto vergonha como qualquer outra pessoa, dependendo do que eu fiz. Mas não vou mentir para você. Eu não perco o sono com o que faço. É só... —suas mãos se espalham —...o que eu faço.

—Você deve gostar então. —eu disse.

Ele esfregou o queixo. —Sim eu gosto. Sou bom nisso e é um bom dinheiro.

Doente, balancei a cabeça.

Quando ele finalmente falou, suas palavras eram suaves, decadentes e verdadeiras. —Há arte em sangue, Little Dove. E sou um pouco de um conhecedor. Se eu olhar de perto, posso encontrá-lo em todos os detalhes da vida. —Ele exalou asperamente. – Não estou esperando que você entenda. Estou apenas tentando me explicar e... —Ele fez uma pausa. —Estou fazendo um trabalho terrível.

—Eu percebi. —murmurei.

—Provavelmente porque não há como defende-me. Eu gostaria de dizer que só matei e feri aqueles que merecem, mas não sou juiz nem júri.

—Apenas o carrasco. —eu disse.

Ele concordou. —Correto. A maioria das minhas vítimas, se você quiser chamá-las assim, acaba sendo por uma razão, no entanto. Não é simplesmente por esporte.

—O que aconteceu com você? —sussurrei, odiando que parecesse preocupada com ele. —O que fez você decidir que acabaria por acordar um dia e matar alguém?

—Eu nem sempre mato eles.

Eu zombei. —Porque deixá-los viver como Murry é muito melhor?

Ele chupou seus dentes por um momento, e eu queria me esbofetear por admirar o jeito que suas maçãs do rosto explodiam ainda mais com a ação. —Murry tem sua própria história para contar. Quando ou se ele estiver pronto, tenho certeza que ele vai te contar.

Intriga misturada com nojo, e naquele momento, não sabia se eu estava mais enojada com ele ou comigo mesma. Por várias razões diferentes, da minha parte.

—Se você não vai me dizer como, então pelo menos me diga quando você se tornou essa pessoa.

Thomas suspirou. —Depois que meus pais morreram.

Eu caí de costas contra a parede e esperei por mais, mas não veio. Então o que Milo dissera veio à mente novamente. —Você estava procurando informações sobre mim e minha família. Por quê?

Ele me observou por um momento pulsante, sua expressão em branco. —Você já descobriu o que aconteceu na noite em que sua mãe morreu?

Meus olhos se estreitaram, o coração apertando. —Porque você está me perguntando isso?

—Me diga.

Com um suspiro, levantei meus pés para o assento da janela e estiquei o tecido da minha camisola sobre os joelhos dobrados. —Meu pai disse que foi um acidente, então eu nunca pedi mais detalhes.

Um dedo solitário esfregou a testa. —Parecia um acidente, sim.

Minhas mãos se encontraram e meus braços se apertaram ao redor das minhas pernas. —O que?

—Eu sei do seu amor por histórias, Dove. Permita-me dizer-lhe uma antes de sair.

Não foi exatamente indicado como uma pergunta, mas ainda assim, eu balancei a cabeça mesmo quando a apreensão se enrolou em torno de meus músculos.

—Um casal dirigindo para casa atingiu o carro da sua mãe.

—Eu sei disso.

—Um casal. —Thomas se levantou e caminhou pelo comprimento do tapete. —Eles estavam discutindo, veja você. O marido estava tendo um caso há mais de um ano. Ninguém sabia, exceto pelo par mal comportado, até que um dia um garotinho os viu na floresta atrás de sua casa, e ele estava tão assustado que sua mãe quase teve que bater o que ele tinha visto fora dele.

—Thomas. —eu cortei, minha garganta secando.

Ele levantou um dedo e continuou andando. —O menino era jovem e não sabia que haveria consequências por dizer a verdade. Mas ele não percebeu até anos mais tarde que os eventos que ocorreram após o caso vir à tona não eram culpa dele.

Meu peito desabou, o oxigênio na sala se tornando muito fino.

—A mãe do menino ficou enfurecida. Ameaçou deixar o pai se ele não terminasse. Então ele fez. Por um tempo, de qualquer maneira. Alguns meses depois, ela mesma os descobriu e essa foi a gota d'água. Por esse estágio, o pai do garoto decidiu que queria sair. Ele queria essa outra mulher, mesmo que isso significasse que ele perderia metade de sua fortuna para sua esposa. A esposa, quando percebeu que não poderia ganhar, fez tudo o que pôde para mantê-lo, mas foi em vão.

Thomas diminuiu seus passos, seu tom tornando-se menos factual, mais nostálgico. —O pai levou a esposa para jantar uma noite e o menino nunca esquecerá como a mãe parecia feliz. Radiante em seu vestido azul cintilante e lábios vermelhos pintados. Seus olhos brilhando de esperança.

Eu não achei que pudesse ouvir mais. —Pare por favor.

—Quase terminando. —Thomas continuou: —Mal sabia ela, o jantar era um meio de conseguir que ela assinasse os papéis do divórcio. Ele a enganou para assiná-los, sabendo que ela não iria, dobrando e deslizando a última página dos papéis com o cheque para o jantar. —Thomas riu, oco e seco. Eu não gostei disso. Eu gostava de sua risada melódica manchada de ferrugem. Sua risada real. —O pai do menino era um idiota, regozijando-se com o que fizera com sua ex-esposa perturbada prestes a estar na viagem de volta para casa. Tão perturbada era ela, que quando viu o carro de sua amante estacionado perto da entrada de nossa propriedade, esperando no escuro com os faróis apagados para meu pai contar as boas novas, ela agarrou o volante no último segundo e terminou tudo...

Thomas parou, os olhos arregalados e sem qualquer calor quando disse: —Meus pais mataram sua mãe e sua mãe matou meus pais.

 

Capítulo vinte e oito

Eu olhei a janela, a floresta, as paredes da sala e sua bela moldura de coroas, e os móveis.

O menino na floresta.

O castelo.

Minha mente e coração não parariam de pular. —Quantos anos você tem? —Perguntei, precisando de mais confirmação quando não era necessário.

—Vinte e nove.

Ele observou com olhos pacientes enquanto eu tentava contar para trás. —Eu tenho quase vinte e quatro...

—Eu não estou mentindo para você, garotinha.

Meu cérebro parou de funcionar, minha boca se abriu quando me lembrei. Eu me lembrei dele me chamando de garotinha.

Volte, garotinha.

—Então você ia me matar e a minha... minha família.

—Eu tinha planos sim, embora talvez não todos vocês. —As palavras foram ditas sem um toque de remorso. —E então eu te conheci e, evidentemente, você foi e arruinou esses planos.

—Mas a morte de seus pais não foi culpa nossa. —eu sussurrei.

—Não. —Ele inclinou um ombro. —Mas era da sua mãe.

—E do seu pai. —eu respondi.

Quando ele piscou, meu corpo balançou.

—Conhecendo seu estado frágil, eu não ia lhe contar isso ainda, mas isso me mata. É completamente desagradável que você tenha sido alimentada com mentiras sobre mentiras.

—M... meu pai... —Minhas palavras quebraram, e fechei meus olhos, reabri-os para encontrar Thomas ajoelhado na minha frente.

—Ele sabia. —disse ele gentilmente. —Ele era casado com o seu trabalho na época e, querendo manter as coisas normais, querendo mantê-la, fechou os olhos.

Memórias da minha mãe antes dela morrer se infiltraram na minha mente, mas... —Nem uma vez ela pareceu infeliz. —eu disse em voz alta.

Thomas pegou minha mão e, muito chocada, deixei que ele a pegasse, com os polegares deslizando sobre minha pele. Seu toque era reconfortante e quente, e queria tudo dele em volta de mim para livrar a sensação fria através da minha corrente sanguínea.

Eu derrubei o desejo, prestes a fazer o mesmo com as mãos dele, quando ele falou. —Ela provavelmente estava muito feliz. E como você acha que algo estava errado se fosse esse o caso?

Ele estava certo, mas as lágrimas ainda se acumulavam nos meus cílios, esperando para cair. Estendendo a mão, ele passou o polegar por cima de um dos cílios e lambeu a umidade dele. —Você é linda mesmo quando chora, mas eu ainda não gosto disso.

—Eu... —Uma inalação irregular sacudiu meu peito. —Por quê? Não entendo... porquê.

Com suas sobrancelhas se encontrando, Thomas me encarou com força por um longo momento enquanto meu queixo e lábios tremiam, então eu estava em seus braços e ele estava em sua bunda no chão. Mãos fortes e gentis subiam e desciam pelas minhas costas enquanto meu corpo convulsionava com a força de tudo que eu não conseguia mais conter.

—Shiii, Little Dove. —Eu poderia ter imaginado isso, mas jurei cada vez que ele repetia essas palavras, seus lábios roçavam no meu cabelo. – Se acalme, agora.

Naquele momento, não importava que ele fosse um monstro, ou que eu me sentisse mais perdida do que quando soube que minha mãe nunca voltaria para casa.

Tudo o que importava era que seu aroma de canela e hortelã nublava as rachaduras no meu coração, e seu toque estabilizou minha respiração, e suas palavras me fizeram sentir segura. Como se ele me seguraria, se eu deixasse.

Eu não tinha ninguém e nada mais, e foi isso que eu fiz.


Em um mar de mantas de penas e cobertores de seda, acordei no dia seguinte com os olhos bem abertos, piscando na parede.

Pela primeira vez desde que cheguei a este... castelo, eu dormi profundamente. Thomas me segurou até que meus olhos decidiram que eles tinham se cansado de ficarem abertos, então ele me enfiou na cama e sentou ao final, silencioso e imóvel, até que me afastei.

Ele se foi quando eu acordei, o que não foi uma surpresa. O que foi uma surpresa era que não fiquei com nojo de mim por permitir que ele me tocasse. Por permitir que ele me confortasse. O que senti foi gratidão e aquele calor familiar que se agitava sob as cordas emaranhadas de medo que agora se afrouxavam e não davam mais nós.

Não sabendo como colocar o que eu estava sentindo contra o que eu sabia, e o que Thomas tinha me dito sobre os nossos pais, decidi deixar de lado por enquanto.

Quando crescia, minha mãe costumava dizer: ‘Pense sobre isso.’ sempre que não entendíamos algo ou não sabíamos o que fazer.

Engraçado como ela nunca soube que suas ações um dia nos levariam a todos aqui.

Ela refletiu sobre isso?

Ela teria refletido, quando os raios do sol mudaram de bronze dourado para laranja escuro do lado de fora da janela. Ela teria, e ainda assim, ela se decidira. Eu escolhi não acreditar que ela nos deixaria. Não consegui igualar uma ação tão insensível com a mulher que conhecia. A mulher que era sabonete com aroma de rosa, massa de biscoito, sorrisos largos e chapéus de jardinagem.

Ela poderia ter feito planos para deixar o marido, ou talvez no final, ela não teria, quem sabe, mas de qualquer forma, ela nunca teria nos abandonado. Isso eu sabia.

E meu pai...

O sol caíra atrás das árvores antes de eu decidir, quando o visse de novo, porque agora sabia que o faria, não diria uma palavra. Não adiantava drenar velhas feridas e reabri-las. Ele a amava. Ele a ignorou, colocando o trabalho e outros compromissos em primeiro lugar, mas ele ainda a amava e a perdeu. Ele já havia sofrido o suficiente.

Seu ressentimento em relação aos homens que ele considerava estar reprovando suas mulheres, mesmo que de maneira mínima, agora fazia um pouco mais de sentido.

Eu planejei contar a Hope, sabendo que ela nunca me perdoaria se eu não o fizesse.

Sentando-me, estiquei meus membros duros e decidi que era hora de ir, e isso significava que eu tinha que encontrar Thomas.

Depois de tomar banho e vestir uma calça jeans limpa e uma camiseta rosa, passei uma escova sobre as mechas úmidas do meu cabelo. Com a companhia do relógio nas minhas costas, desci o corredor silencioso, encontrando alguns brinquedos abandonados em arcadas e alcovas. Barbies e bichos de pelúcia, principalmente.

A curiosidade levou a melhor sobre mim quando aquela menina dentro de mim levantou a cabeça, gritando para eu explorar. Abrindo algumas portas no andar de cima, eu descobri uma sala de estar inundada no último brilho da luz do dia, resplandecente com uma velha poltrona e poltronas combinando e cortinas pesadas.

O quarto ao lado estava trancado, e eu sabia, se não fosse por estar trancado, mas por sua posição no topo da escada, que pertencia a Thomas.

Antes que eu pudesse abrir a porta ao lado, a voz de Lou-Lou subiu as escadas. —Senhorita Clayton, venha ver o que eu fiz!

Essa exuberância era quase invejosa, e forcei em um sorriso, os passos frios sob meus pés descalços enquanto eu vagava por eles. —Você não me visitou hoje.

Lou-Lou balançou a perna atrás dela, apoiando-se na extremidade do corrimão. —Papai disse que você estava muito cansada e dormindo. —Seus olhos se estreitaram. —Isso não é chato? Dormir e descansar o tempo todo?

Tomando a mão dela, eu apertei suavemente. —Assim é. Venha, mostre-me o que você fez.

Ela me arrastou para uma pequena sala que estava banhada em tons quentes de rosa e violeta. Os brinquedos foram cuidadosamente colocados em cestos de tecido e havia uma longa mesa de cabeceira coberta com folhas de papel de arte em branco. As latas de desenhos laranjas estavam cheias de pincéis, giz de cera, lápis e marcadores. O quarto em si não era exagerado, mas um espaço que qualquer criança apreciaria perder horas a fio brincando.

Ele se importava com ela, isso era óbvio desde o começo, mas não foi até o momento em que ele explicou como ela veio parar aqui, em um covil cheio de pretensos horrores, que vi o quanto ele a amava. .

Lou-Lou olhou para mim, seu dedo apontando para um boneco desenhando no papel branco colorido. Seus olhos se encheram de inocência e antecipação enquanto ela esperava por mim para conferir sua criação e dar minha avaliação.

—Quem são eles? —Eu perguntei, observando a figura alta, a pequena no meio, e a que estava usando um vestido triangular do outro lado.

Apesar de já saber, esperei que ela explicasse: —É você, eu e papai. Naquele dia que nós brincamos no parquinho da escola. —Sua voz baixou para um sussurro alto, seus olhos âmbar contornando a sala enquanto seus lábios se contorciam. —Nós nunca tivemos problemas.

Incapaz de pará-la, mesmo que quisesse, um sorriso engatou meus lábios e passei a palma da mão sobre a trança. —Eu amo isso. Quem fez o seu cabelo?

—Murry. —disse ela com um inconfundível bufo de aborrecimento. —Papai geralmente faz isso, mas ele estava ocupado esta manhã.

—Você não gosta quando Murry faz o seu cabelo?

Seus olhos saltaram ao redor da sala rapidamente. —Não realmente, —ela sussurrou. —É sempre muito apertado.

Imaginei a visão de um homem fazendo o cabelo e descobri que o visual vinha facilmente.

Uma pequena risada levantou meu peito. —Por que você não pede para ele não fazer isso tão apertado?

Seus ombros caíram. —Eu acho que eu poderia, mas Murry, seu rosto... —Ela mordeu o lábio, e eu esperei uma batida, em seguida, acenei para ela continuar. —Ele esteve em um acidente de carro muito ruim, e não quero ferir seus sentimentos.

Fazia sentido que eles inventassem esse tipo de história, mas eu tinha que me perguntar como tudo isso aconteceria quando ela crescesse e descobrisse a verdade sobre seu pai.

Curvando-me, sussurrei: —Você não vai ferir seus sentimentos. Não se disser a ele o porquê e pedir gentilmente.

Ela se virou, pequenas mãos levantando para o meu próprio cabelo. —Seu cabelo está ficando mais comprido agora.

Eu comecei meu primeiro ano ensinando com ele na altura dos meus ombros, e agora, estava abaixo das omoplatas. – Sim está.

Lou-Lou passou os dedos por ele. —Eu gosto disso. Você ainda parece a Branca de Neve, mas ainda mais bonita.

Uma onda de puro afeto inundou meu coração. —Branca de Neve é a sua favorita?

—Bella costumava ser, mas agora gosto mais de Branca de Neve.

Eu sorri abertamente. —Bella é minha favorita. Nós compartilhamos um amor pelos livros. —E bestas, algo dentro de mim sussurrou.

Ouvindo uma garganta limpar atrás de mim, eu pulei e Lou-Lou riu. —É apenas Murry.

Endireitando, colei em um sorriso quando me virei para ver Murry limpando as mãos com uma toalha na porta.

Ele não devolveu, e imaginei que ele ainda não estivesse me perdoado, por arruinar um de seus amados pratos. —Hora do seu banho, Srta. Lou.

—Onde está o papai? —ela perguntou.

—Ocupado na biblioteca. —Murry fez um rápido gesto e Lou-Lou gemeu.

—A senhorita Clayton pode me ajudar em vez disso?

—Uh. —eu hesitei quando as sobrancelhas de Murry subiram. —Eu não sei...

Murry sorriu então, e tentei não recuar, reagir, enquanto o tecido cicatrizado lutava para se mover com o sorriso. —Se ela quiser, com certeza. Até te deixarei mostrar onde está tudo.

Sem sequer olhar para trás, ele se afastou, e minha boca abriu e fechou em incerteza.

—Pronta? – Lou-Lou enfiou os lápis de cor de volta na lata.

—Ah sim.

De mãos dadas, saímos da sala de jogos, nossas mãos balançando graças ao entusiasmo de Lou-Lou enquanto descíamos o corredor. Ela cheirou o ar, um som de prazer desenfreado deixando-a antes que ela dissesse: —Lasanha. Eu amo lasanha!

Ao inalar o aroma de dar água na boca, pude ver por que ela estava muito feliz.

Eu a segui de volta para cima e para baixo do outro lado do corredor para onde um banheiro menor ficava. Uma versão espelhada da que estava ao lado no quarto que usei, mas diferente graças ao tamanho, produtos de meninas e brinquedos.

Lou-Lou lavou-se sob a minha instrução, e a ajudei a sair antes de envolvê-la em uma toalha roxa. Quando ela puxou a camisola que Murry deve ter colocado, eu me certifiquei de tirar os brinquedos da banheira antes de esvaziá-la. Lá embaixo, seguimos o cheiro de lasanha até a cozinha, onde Murry estava colocando pratos na ilha.

Lou-Lou subiu em um banquinho, arrastando seu prato em direção a ela, então olhou para mim. Ela deu um tapinha no banquinho ao lado dela, mas olhando para as costas de Murry enquanto lavava algo na pia, eu ignorei minha fome.

Eu tinha que ir para casa, e não fazia sentido ficar normal com uma família que era tudo menos isso.

—Você come. Eu tenho algumas coisas que preciso fazer.

Lou-Lou franziu a testa, lábios rosados fazendo beicinho. —Como o quê? Você não está com fome?

—Eu vou comer mais tarde. —Com uma onda, comecei a andar para trás.

—Você vai me botar na cama hoje à noite?

Merda.

Eu não parei por muito tempo, sabendo que Lou-Lou, por mais que ela não soubesse, ainda era perspicaz. Ela não entenderia que minha hesitação não tinha nada a ver com ela e tudo a ver com o pai dela.

—Venha me encontrar quando você tiver escovado os dentes.

 


Lou-Lou me encontrou às oito horas, interrompendo a partida que eu estava tendo para a floresta além da janela.

Como uma sombra de pressentimento, Thomas apareceu na porta atrás dela.

Ele tirou a jaqueta e estava dobrando as mangas da camisa branca sobre os braços bronzeados e macios. Veias saltaram e caíram com cada enrolada do material.

Ele limpou a garganta, e meus olhos queimaram ao ser pegos, correndo para encontrar os seus divertidos. —Lou quer dizer boa noite.

—Nana, nina, não. —Lou-Lou disse, as mãos nos quadris e indignação franzindo os lábios. —Senhorita Clayton disse que ela me colocaria na cama.

Thomas parecia estar chupando os dentes por um segundo, depois suspirou. —Diga boa noite, Lou, ou não haverá história para dormir.

Lou-Lou parecia que estava prestes a chorar, e finalmente consegui tirar minha língua do céu da boca, onde estava desde que fui flagrada olhando os braços de Thomas.

—Está bem. —Eu me levantei do meu poleiro. —Eu disse a ela que faria, mais cedo.

As sobrancelhas de Thomas franziram. —Você não precisa atender a todos os seus caprichos. Eu posso ser rico, mas ela está acostumada a não seguir seu próprio caminho de vez em quando.

Suas palavras secas me fizeram querer rir. Eu engoli o impulso, atravessando o chão coberto de tapete para pegar a mão de Lou-Lou na minha. —Eu quero. —Encontrei seus olhos quando ele se mexeu para nós passarmos por ele na porta. —E eu não quebro promessas.

Com os olhos diminuindo em consideração e outra coisa que eu estava com muito medo de nomear, Thomas assentiu com a cabeça uma vez. Meu braço roçou o dele quando ele se recusou a sair do caminho completamente, e senti seu olhar quente nas minhas costas até que nós entramos no quarto de Lou-Lou perto do outro lado do corredor.

Ficava a duas portas do quarto que imaginei pertencer a Thomas e decorado com bom gosto em rosas e roxos. As paredes eram listradas de branco e rosa, o tapete, um girassol amarelo, e obras de arte eram coladas sobre cada superfície, como se ninguém tivesse coragem de jogar fora qualquer coisa que Lou-Lou tivesse criado ao longo dos anos.

Sua cama era uma gêmea e rodeada de cortinas roxas de seda amarradas a postes brancos. Ajudei-a a mudar os travesseiros indesejados e a colecionar brinquedos que ela tinha que ter com ela enquanto dormia enquanto listava suas razões.

—O senhor Hodge Podge fica solitário e eu gosto de uma boa noite de sono. —O nariz dela se enrugou de aborrecimento quando ela o cutucou e ficou confortável sob o edredom de penas. —Eu fiquei doente de ouvir seus lamentos.

Eu bufei uma risada, incapaz de contê-lo, e ela inclinou a cabeça para mim e olhou por um longo momento. —Quanto tempo você está aqui, senhorita Clayton?

A questão me libertou e me prendeu. Porque isso me lembrou que eu poderia ir embora. Aparentemente, eu não era alguma prisioneira para tortura ou morrer. E isso me prendeu porque, olhando para ela, reconhecendo o modo como meu coração despencou com o pensamento de retornar ao que restava da minha vida fora das muralhas do castelo, eu sabia que não estava pronta para a realidade.

Mudando de assunto, alisei as mãos sobre a capa do livro que ela escolhera, Branca de Neve, e disse: —Você sabe o meu primeiro nome?

—Não. —disse ela através de um bocejo.

Abri o livro na primeira página, percebendo a inscrição e parei.

Para o meu próprio pequeno anão. Que você cresça no tipo de princesa que sempre pode se salvar.

Meus olhos formigaram e passei o dedo pelas palavras perfeitamente rabiscadas.

Claro, ele tinha uma linda caligrafia , pensei antes que Lou-Lou me tirasse dela. —Qual é o seu nome?

Era hora de reconhecer o quanto tudo havia mudado. Incluindo meu trabalho. Não havia muito sentido em segurar os títulos feitos para separar quando eu não poderia retornar a Lilyglade.

E quando uma parte do meu coração pertencia às minúsculas mãos de Lou-Lou.

—Jemima. —eu disse, em seguida, limpei a garganta. —Você pode me chamar de Jem. Ou Jemma. Ou apenas Jemima.

Lou-Lou sorriu, mostrando a falta de um dente da frente que estava lá quando a vi pela última vez. —Eu gosto de Jemma.

—Jemma então. —Eu me virei para a primeira página do livro. —Quando você perdeu seu dente?

Ela parecia que seus olhos se fechariam a qualquer segundo. —Oh, depois do jantar, quando eu comi uma maçã.

Eu tentei não me encolher. —Doeu?

Ela balançou a cabeça. —Nem um pouco. —Rolando um pouco, ela levantou o travesseiro, exibindo uma pequena bolsa de ouro. —Está aqui. —ela sussurrou. —Pronto para a fada dos dentes.

A imagem de Murry brincando de fada do dente me fez sorrir até que a metade mais inteligente do meu cérebro bateu na imagem porque eu sabia quem realmente fazia isso.

Parte Monstro. Parte Fada.

Meu sorriso ficou no lugar enquanto eu lia, e Lou-Lou adormeceu antes do clímax chegar. Eu li de qualquer maneira, me confortando no conto familiar. Talvez, se eu não estivesse pronta para sair, não esta noite de qualquer maneira, procuraria por um livro para me perder.

Calmamente, fechei o belo livro de capa dura e devolvi-o para onde ele estava em suas prateleiras brancas em cubos. Depois de desligar a lâmpada, fui até a porta, mas não tinha certeza se deveria deixá-la aberta ou fechada. Eu optei por deixá-la entreaberta.

Lou-Lou se mexeu com o pequeno guincho que as dobradiças faziam, sua voz coberta de sono caindo em meus ouvidos e se infiltrando em meu peito enquanto ela murmurava: —Você deveria me chamar de Lou. —Seus lábios batiam juntos algumas vezes enquanto seus olhos se fechavam. —Como papai e Murry.

Eu sussurrei, tentando esconder a emoção que entupia minha garganta. —Boa noite, Lou.

Depois de vê-la dormir por um momento, fui em busca de um homem e uma biblioteca.

Capítulo vinte e nove

Thomas

—Localização incrível?

—Ao longo de uma série de prédios de apartamentos nas docas.

Ainda na cidade, tomei nota. —Há algo lá se esta é a segunda vez que você o rastreou até a área.

—Não há nada aqui além de apartamentos degradados e o fedor de peixe podre em armazéns antigos.

—É um daqueles dois então.

—Peixe podre? —Sage brincou.

Eu não mordi e, em vez disso, escrevi a última palavra que estava procurando. —Eles devem estar reunidos em algum lugar.

—Tom, olhe, posso estar aqui toda noite por semanas, você sabe que eu sou bom nisso, mas e se eu não encontrar nada?

Passos leves se aproximavam da biblioteca, mas não removi meus olhos da página do meu diário. —Você vai. —eu disse.

—Se você diz. —Sage suspirou e desliguei.

Trancando meu telefone sem olhar, eu o coloquei na mesinha ao lado da poltrona em que estava sentado. —Procurando por algo, Little Dove?

—Você, na verdade. —Minha cabeça subiu, os olhos estudando o modo como suas mãos se cruzaram sobre o meio dela. Com os lábios cor-de-rosa abertos, o olhar percorreu a sala. —E um livro.

—Felizmente para você, você tropeçou em dois por um.

Ela sorriu e minha caneta arranhou uma linha de tinta preta na frase que eu acabara de fazer.

Incapaz de encontrar palavras, gesticulei para ela olhar em volta e observar enquanto ela passava os dedos pelas lombadas de velhos livros de história. Ela caminhou pelo perímetro da sala e parou em uma prateleira perto da lareira, seus dedos gentis puxando e inspecionando alguns dos livros favoritos de minha mãe. Rippers de corpete2, principalmente. Mas eu não era de julgar.

O ombro de Jemima se debruçou na prateleira enquanto ela lia as sinopses de três livros, seus cílios tremulando, e eu soube quando ela encontrou um que despertou seu interesse devido à forma como seus olhos queimavam um pouquinho.

Eu reprimi a vontade de fazer um milhão de perguntas, resolvendo com o conhecimento de que, se ela estava procurando algo para ler e colocou Lou na cama, ela estava ficando mais confortável aqui.

Minha mão esfregou meu peito depois de escutar minha Dove dizer a Lou para chamá-la pelo primeiro nome, mas não ousei esperar que isso significasse o que desejava que acontecesse.

Que ela ficaria. Que ela olharia além do sangue e das cicatrizes para ver o que estava por baixo.

Era uma parte de mim, sim. Na verdade, me preocupava pensar no que eu faria sem a saída específica da qual eu passara a depender. Mas isso não me definia. Todos nós tínhamos nossas paixões quando se tratava de carreiras. A minha era apenas um pouco mais... única do que outras.

—Ela adormeceu antes que eu pudesse terminar a história. —Sua voz doce, combinada com a atenção dela caindo sobre mim, fez a caneta escorregar dos meus dedos. Internamente, fiz uma careta para mim mesmo por agir como um palhaço.

Essas coisas simplesmente não pareciam ser ajustadas ao redor dela.

—Sim, ela nunca dura muito depois das oito. —eu informei.

Jemima atravessou o tapete e sentou-se na poltrona dupla em frente à minha. Enquanto ela olhava para o meu celular por um segundo, seu lábio inferior desapareceu entre os dentes. —Como você inventou o nome Lou-Lou?

—Era da minha tia. Quando eu era jovem, ela morava conosco quando estava em tratamento para o câncer de mama.

Os cílios de Little Dove baixaram, a palma da mão roçando a capa do livro no colo. —Eu entendo que ela não sobreviveu.

—Não. —eu confirmei. —Mas ela era... diferente.

Cílios escuros subiram quando seus olhos se levantaram. —Como ela era?

Seu interesse serpenteava ramos espinhosos em meu intestino, enganchando e tentando me arrastar para mais perto. —Ela era vibrante e ousada, mas suave. Ela era mais velha do que minha mãe uns sete anos, mas eram melhores amigas, não importando o quão diferentes suas vidas tivessem sido. Minha mãe se casou com um mafioso italiano, um homem de negócios duro, enquanto minha tia permaneceu solteira e sozinha a maior parte de sua vida, viajando de mochila às costas e se aventurando de qualquer maneira que pudesse.

Na minha pausa, Jemima perguntou: —Então ela veio aqui em busca de ajuda?

Eu assenti. —Até meu pai, apesar de ser de sangue frio na maioria dos dias, não estava imune ao efeito Lou-Lou.

Um sorriso triste puxou os lábios de Jemima, pesando as sobrancelhas. —Entendo.

Inclinei a cabeça para trás contra o couro macio, esperei.

Ela fez o mesmo, ela continuou: —Sua tia trouxe vida e amor para esta casa.

—Ela fez.

—E sua Lou faz o mesmo.

Sentindo-me como se tivesse sido drogado, olhei para cada curva perfeita de seu rosto. De sua testa até as maçãs do rosto, até o queixo, ela tinha o rosto de um anjo e o coração de uma rainha.

Me privando dos olhos dela, ela arranhou uma marca de desgaste na cadeira de couro. —Como você a matriculou na escola? Sendo que ela não é realmente sua.

Tão inquisitiva. —Registros de nascimento fabricados. O nome de seu pai foi apagado das vidas dela e de sua mãe, o que não foi difícil, pois ele não estava por perto por muito tempo, e o meu acrescentou.

Seus olhos se estreitaram. —Como?

Uma gargalhada precedeu minhas palavras. —Como, ela pergunta. Little Dove, este mundo gira via moeda. E o preço certo vai te dar praticamente tudo que você precisa se souber onde procurar.

Ela torceu os lábios e eu queria alisá-los de volta. Com o meu próprio. —E você sabe onde procurar, como?

—Meu pai era um homem influente que tinha laços com a máfia, escravas e muitos outros tipos de coisas desagradáveis.

—Desagradável. —disse ela em tom de zombaria. —Porque o que você faz é absolutamente respeitável.

—Cuidado, Little Dove, —eu sussurrei, meu pau subindo quando sua língua escapou para lamber seu lábio superior.

—Ou o que? —ela sussurrou de volta. Mas, apesar das palavras superconfiantes, a apreensão ainda permanecia.

Eu apenas sorri, e ela parecia mais perturbada com isso do que qualquer coisa que eu pudesse ter dito.

—Então... —ela limpou a garganta e se endireitou na cadeira —...você disse para vir encontrá-lo antes que eu pudesse sair.

Eu propositalmente deixei cair meu olhar para o livro em seu colo. —Você está saindo hoje à noite?

—Não, mas é o que você disse que eu precisava fazer.

Contemplando o meu próximo passo, peguei meu diário e minha caneta, colocando-os na mesa lateral antes de me levantar.

Seus olhos inocentes seguiram cada movimento, e embora eu tivesse dito a ela que a deixaria ir, sufoquei a culpa, lembrando-me que nunca concordei em como ou quando.

—Você está pronta para fazer uma troca, Little Dove? —Eu segurei minha mão para ela.

Ela estudou e depois olhou para mim. —Uma troca?

—Foi o que eu disse. Você pode ir embora, mas primeiro devo pedir algo em troca de minha... hospitalidade.

Um riso angélico passou por seus lábios e transformou sua beleza em algo etéreo. Ela sacudiu o dedo para mim. —Eu deveria saber que haveria um custo.

—Eu nunca disse que não haveria.

Seu sorriso escorregou, ela colocou o livro no chão e, finalmente, colocou a mão macia na minha. —Bem. —Eu me deliciei com o toque, apertando sua carne quente dentro da minha mão, e me perguntei como seria deslizar minha língua sobre cada centímetro de sua pele cremosa. —O que é que você quer em troca?

Eu sabia que ela estava apaixonada por mim, e ela também sabia disso. Embora fingisse que isso era o que tinha que fazer para se afastar, então seria capaz de fazê-lo sem qualquer culpa.

Percebendo o calor em meus olhos, em meu toque, e a maneira como isso fazia nossos corpos se contraírem um contra o outro, ela resmungou: —Sem sexo e sem sangue.

Sua cabeça caiu para trás no olhar afrontado no meu rosto, outra risada encantou meus ouvidos e enviou sinais mistos para o órgão no meu peito.

Usando seu estado distraído, envolvi meu braço ao redor dela, minha mão subindo suavemente pela parte de trás do seu pescoço, enquanto minha outra mão esperava que seu queixo caísse, em seguida, agarrei seu rosto.

—Já fizemos isso antes. —eu disse, sentindo seu coração bater no meu peito e a batida linda e frenética de seu pulso abaixo dos meus dedos.

—Não assim. —ela murmurou, seus olhos se movendo para a minha boca enquanto ela levantava nos dedos dos pés. —E depois, eu posso sair... a qualquer hora que quiser? —Suas palavras flutuaram sobre meus lábios, o doce calor de sua respiração queimando.

—Eu prefiro que você fique, mas sou um homem de palavra.

Mãos hesitantes pousaram na minha cintura, o toque quebrando o último fio desgastado do meu controle.

E então eu a beijei.

Eu a beijei com delicadeza intencional até que sua respiração ficou pesada e seus lábios se separaram dos meus. Veludo acariciou minha língua, e gemi, sugando a dela em minha boca e nos movendo para trás.

Suas mãos puxaram minha camisa e a minha em seus cabelos, querendo mais, precisando de mais.

A madeira de uma estante bateu nas minhas costas enquanto ela envolvia as mãos em volta do meu pescoço, e a levantei do chão. Pernas se tornaram um laço em volta da minha cintura, e o empurrão de seus seios contra o meu coração trovejante me deixou cego, incapaz de fazer qualquer outra coisa além de sentir.

Seus pequenos gemidos quando eu belisquei suavemente em seus lábios me puxaram contra minhas calças. O som gutural que eu fiz quando ela se balançou sobre mim teve suas mãos segurando meu rosto, inclinando-o para mais acesso, em seguida, deslizando para o meu cabelo.

Então meu telefone tocou com uma notificação por e-mail e o feitiço foi quebrado.

Jemima quase caiu no chão com a rapidez com que ela se separou da minha boca.

—Merda. —ela respirou quando a segurei firme. Ela olhou para mim, sua pele deliciosamente rosada, os lábios cheios de água e os cabelos em emaranhados tentadores, depois engolidos e recuados em direção à porta.

Pense, pense, pense seu idiota insuportável.

Mas a cabeça inchada dentro da minha calça estava substituindo qualquer função que eu tivesse deixado daquela nos meus ombros. Passei a mão trêmula pelos meus cabelos desgrenhados enquanto ela murmurava uma boa noite apressada na porta.

Ela estava muito longe quando murmurei: —Até a próxima vez, Little Dove.


Capítulo trinta

Uma espécie de admiração pela estrutura iminente voltou quando passei meus dedos pelos trilhos e paredes, abafando quaisquer vestígios de trepidação.

Os pensamentos de minha mãe, da mãe de Thomas, me assombravam enquanto eu vagava mais fundo na gigantesca casa no dia seguinte. Não para escapar, mas para explorar.

Não importa o quanto eu tentasse, meus pensamentos sempre mudavam de volta. Meus dedos sempre tentavam subir aos meus lábios. E meu coração sempre tentaria bloquear o pensamento racional.

Dentro de uma sala, passei meus dedos pelo vidro, olhando para o casal atrás dele. Tinha que ser uma das únicas fotos deles nesta casa, porque eu não havia encontrado nenhuma outra.

Ele era cada centímetro do pai e, por isso, não podia culpar a minha mãe por ser tentada a arriscar tudo.

Exceto por seus olhos.

O raro tom de azul pertencia à mulher de cabelos loiros com um sorriso apertado de lábios vermelhos. Ela era linda de um jeito clássico. O tipo que ganhou concursos e teve homens olhando mais de uma vez.

Meu dedo deslizou, traçando o lugar onde a mão do marido segurava sua cintura, e embora eu tentasse, não consegui encontrar o espaço para odiá-la pelo que ela tinha feito. Por sua mão em roubar algo insubstituível de mim e da minha família. Havia apenas uma pontada de tristeza pelo que poderia ter sido.

Foi uma tragédia causada pelo amor.

E eu não era estranha aos riscos e perigos que acompanhavam a perda do seu coração.

—Beatrice e Antônio Verrone. —A voz de Murry me assustou e minha mão caiu quando me virei para encontrá-lo na porta.

—Eles eram lindos.

Uma sugestão de um sorriso cutucou seus lábios, seus braços cruzados sobre o peito enquanto olhava de mim para a janela do chão ao teto atrás de mim.

Atrás da janela havia um pátio, e no centro, rodeado por roseiras e bancos de arenito, havia uma piscina.

Entrancei-me, aproximei-me e parei, ainda sem fôlego ao ver Thomas dando uma volta antes de nadar metade do comprimento da piscina debaixo d'água. Mesmo quando minhas bochechas começaram a ficar vermelhas, o calor se espalhando pelo meu corpo, eu não consegui afastar meu olhar. Eu agora sabia como ele mantinha o físico daquele nadador magro enquanto o observava nadar volta após volta, seus movimentos fluidos, braços cortando a água.

Murry limpou a garganta e dei um passo para trás, abaixando a cabeça e colocando um pouco de cabelo atrás da orelha. —Você sabe, para alguém que estava decidida a sair daqui há alguns dias, está muito confortável agora.

Eu estava, e isso era um problema. Um que eu estava tentando resolver. Isso era difícil quando Thomas pareceu me manter prisioneira através unicamente de sua presença.

—E você? —Eu perguntei, saindo pela porta. —Por que ainda está aqui depois do que ele fez com você?

Mais cedo, eu descobri que o terceiro andar continha um sótão, ou uma sala de armazenamento, e uma porta aberta quebrada revelou o que eu supus ser o quarto de Murry. Eu espiei para dentro e encontrei uma sala que era do tamanho de três quartos, generosamente decorados em vermelhos e cinzas, com a torre fornecendo uma área circular.

Murry decidiu seguir. —Eu não sei se você está pronta para ouvir essa história em particular.

Jogando um sorriso por cima do meu ombro quando nos aproximamos da escada, eu disse: —Seria preciso muito para me chocar neste momento.

Murry considerou isso, então se juntou a mim enquanto eu continuava pelo corredor. —Eu não era um bom homem antes de vir aqui. —disse ele, em seguida, zombou. —Na verdade, não tenho certeza absoluta de que serei.

—Oh? —Eu não acreditei nisso. Não totalmente. —E a maneira como você administra este lugar e a maneira como cuida dele e de Lou?

—Eu recebo muito bem por tudo que faço, confie em mim.

Eu sabia que não era por isso que ele tratava Lou como um tio amoroso faria, e pelo meu silêncio, ele sabia que eu via através de suas palavras.

—Eu costumava contrabandear mulheres através da fronteira.

Eu parei de andar. —Para ajudá-las a fugir?

Ele esfregou a nuca, os olhos voando ao redor. —Não exatamente.

—Você as sequestravam. —eu disse, as palavras cortando a minha língua enquanto a culpa aumentava suas feições. Tudo, exceto por suas cicatrizes.

—Sim. A indústria de escravas sexuais, que acho que você já ouviu falar, é grande em algumas partes.

Andando de novo, para evitar um olhar acusador para ele, perguntei: —E como isso te trouxe até aqui?

—Roubando a garota errada. —disse ele secamente. —Ela era filha de um senador e estava em festa no aniversário de dezoito anos no México com o namorado e alguns amigos. Eu e o cara com quem eu trabalhei na época, perseguia pontos especiais onde uma beleza mais privilegiada aparecia, e nós a levamos e a outras três garotas.

—Você... —eu balancei a cabeça, tentando entender —...elas escaparam?

—Não. —disse ele. —Anos depois, a filha foi encontrada meio morta no quarto de um milionário de sessenta anos. Ele a comprou. E as outras... —A maneira como seus olhos se arregalaram disse tudo.

Mortas.

Eu pisquei para ele. —Como você fez isso?

Ele sabia que eu não quis dizer no sentido literal. —Quando você cresce sem nada, e sua próxima refeição não é garantida, isso... endurece você. Você precisa se tornar tão duro quanto a vida que você tem vivido para sobreviver. Quando criança, comecei a me interessar pelo tráfico de drogas, apenas tentando sobreviver. E quando fiquei mais velho, queria mais. Mais do que o trailer que eu vivia, mais do que o cheiro constante de mofo nas minhas roupas. Eu queria mais do que uma existência barata e diluída. Então, lentamente, comecei a perguntar e finalmente consegui.

—Valeu a pena?

—Nunca. —disse ele com veemência. —Eu fiz isso por dez anos, mas o dinheiro não significa nada quando você não pode provar a comida que você pode comprar ou ver o belo apartamento novo que você foi capaz de arrendar. Eu ou estava trabalhando, ou estava soprando o dinheiro que ganhava com bebida e drogas. Qualquer coisa para bloquear que eu tinha condenado centenas de garotas.

A palavra centenas envolveu meu coração como um laço, e eu queria me aproximar e arrancar seus olhos, mas quando olhei, realmente olhei, vi a umidade neles, vi o jeito que seu queixo forte tremia e relaxei minhas mãos. .

—Uma noite, eu estava andando de volta para o meu apartamento, bêbado pra caralho e drogado depois de descer de uma média alta, e lá estava ele. —Um sorriso permaneceu em sua voz. —Sentado nos degraus do meu apartamento, com uma arma na mão e sem expressão no rosto.

—Ele atirou em você?

—Não. —disse ele. —Mas eu estava além de dar uma merda se ele fizesse. Para ser sincero, alívio era a única coisa que sentia sob a dormência. Fui com ele de bom grado, o que acho que o chocou mais do que qualquer outro cliente que teve, não que ele tenha mostrado isso.

—Mas você o conhece agora. —Parei em uma janela alta e oblonga que dava para outra represa, esta decorada com ervas daninhas na altura do ombro.

Murry fez um som de concordância, parando ao meu lado e inclinando-se pesadamente contra a parede. —De qualquer forma, acordei em sua cadeira, cortesia da menina meio morta lembrando da minha aparência e que meu colega na época havia dito meu nome e logo começou. —Ele sorriu enquanto eu esperava por mais. —Não há necessidade desses detalhes. —Um arrepio visível o assaltou quando ele se endireitou da parede.

—Espere... —eu disse antes que ele pudesse ir embora. —Então o senador queria você morto?

Ele assentiu. —Mas ele queria respostas primeiro. O paradeiro dos meus colegas, meu empregador, qualquer coisa que pudesse conseguir.

—E claramente, Thomas não te matou.

—Claramente. —disse ele com um elevar de lábios, em seguida, suspirou. —Eu respondi qualquer coisa que ele tenha perguntado instantaneamente, e acho que o fato de eu não ter pedido minha vida, mas ao invés disso implorar para que terminasse, o fez parar.

—Então ele te ofereceu um emprego.

—Era isso ou a morte. —disse ele, deixando-me a elaborar os detalhes nebulosos. —O que esperaria por mim se ele me libertasse de qualquer maneira.

—Mas você não tem família? No México? Qualquer lugar?

Suas mãos mergulharam nos bolsos do paletó enquanto ele andava para trás. —Nada mais importante que esta. Eles assumem que estou morto e nunca ajudaram a garantir que eu sobrevivesse ao crescer. Então... —ele encolheu os ombros —..laços de sangue não significam muito para mim.

Pensando nisso, me inclinei contra a janela, olhando para o chão.

—Oh, e Jemima? —Olhei para cima quando Murry lançou um rápido olhar para trás e depois disse em voz baixa: —Sempre achei que ele era assexuado, então leve isso em conta antes que você corra para fora daqui.

Isso provocou uma gargalhada de mim, mas depois eu fiz uma careta. —Espere, sério?

—Nós não contamos mentiras aqui.

—Huh. —eu disse em voz alta, meu coração grudado no fundo da minha garganta. —Ei, Murry?

Sua cabeça apareceu na esquina do final do longo corredor. —Hummm?

—Eu sinto muito... sobre o seu prato.

Sua risada profunda fez a minha próxima respiração se dissipar quando ele me deixou com tudo o que ele disse.

Deixando-me absorver, refleti sobre que tipo de vida Murry deveria ter tido antes. Quão ruim deve ter sido para ele sentenciar sua alma e muitas mulheres a uma vida inteira de inferno.

No estúdio, um antigo toca-discos roubou minha visão . Indo até lá, vi uma prateleira de discos e, depois de apenas uma pausa momentânea, comecei a passar por eles.

—Valsa!

Pulando, eu soltei uma risada quando me virei e vi Lou, seu cabelo úmido e seu sorriso quente. —Você me assustou, pequena Lou.

Seu sorriso cresceu, seus pés descalços mudando no chão.

—Você tem nadado?

Lou-Lou assentiu. —Papai me ensina duas vezes por semana, mas terminei há um tempo atrás. Tive que tomar um banho, depois gastei muito tempo tentando encontrar você.

Eu sorri com esse conhecimento recém descoberto. —Bem, você me encontrou.

Ela se aproximou de mim, inspecionando os discos. —Papai diz que aqueles pertenciam a vovó e vovô.

—Você não tem permissão para tocá-los?

Ela olhou para o toca-discos, que parecia estar em perfeitas condições, e sem um grão de poeira em cima dele, então cantarolou. —Eu não tenho, mas... —ela sorriu para mim —...ele disse que você não pode?

—Não. —Normalmente, eu cumpro os desejos dos pais, mas não desta vez. —Ele não fez. Que tal você fechar os olhos e onde quer que seu dedo pousar, é esse que vamos tocar.

Lou saltou na sola de seus pés, o lábio puxou sua boca enquanto sua mão cegamente bateu no ar. Nós rimos quando eu dirigi a mão dela para mais perto, e ela puxou o primeiro disco que seu dedo tocou. Meu coração afundou e subiu ao mesmo tempo quando vi que eram rumours do Fleetwood Mac .

A lembrança da minha mãe, os quadris balançando e a voz suave sussurrando para o mesmo álbum enquanto ela limpava a casa ou o jardim infiltrando-se com garras afiadas como navalhas.

Eu puxei o disco livre quando Lou abriu o estojo de plástico em cima do tocador.

Querendo ver se funcionava, e porque eu queria livrar uma série de histórias comoventes da minha cabeça, mesmo que por pouco tempo, coloquei cuidadosamente o disco, depois coloquei a agulha no número quatro.

Um ruído áspero encheu a sala, e eu ajustei o tom do braço um pouco até que as tensões de ‘Don't Stop’ começaram.

—Ooh, —Lou cantou, batendo palmas. —Eu gosto disso!

Lágrimas ardiam e, para mantê-las afastadas, peguei as mãos de Lou. —Vamos.

No meio da sala, cercada por fantasmas de ancestrais desaparecidos e assombrados por suas histórias, eu balancei meus braços e movi meus pés com Lou, e sorri de tudo.

Sua risada era quase tão alta quanto a música e ainda mais mágica. Tinha a capacidade de secar lágrimas e afugentar fantasmas. Sua pequena alma era um presente para um homem sombrio e enigmático e para qualquer outra pessoa que tivesse a sorte de conhecê-la.

E não importava que estivesse dançando como se estivesse numa discoteca infantil. Por um minuto fugaz, nada importava, exceto fazer.

—Papai! —Lou soltou minhas mãos, e congelei ao ver Thomas na porta, seu cabelo e sua camisa branca úmidos, como se ele tivesse com apressa em puxá-lo.

Engoli em seco, esperando ver raiva por ter tocado em suas coisas, em encher sua casa de horrores de riso e música, mas engoli em seco por um motivo diferente. Ele estava sorrindo, seus dentes imprimindo seu lábio inferior enquanto tentava contê-lo.

—Venha dançar, venha dançar!

Ainda olhando para mim, ele deixou Lou puxá-lo para a sala, e um segundo depois, senti sua mão na minha. Sorrindo, abaixei a cabeça e começamos a dançar mais uma vez. Thomas era tão bobo quanto nós, piorado por seus movimentos duros e contidos. Mas por Lou-Lou, ele estava tentando, e para meu coração, isso era uma coisa perigosa.

Porque amanheceu como um sol tardio, que se Thomas Verrone amava alguém, não havia nada que ele não fizesse por eles.

A música pulou para outra, e senti a mão de Lou escorregar da minha, mas também presa na mão que a substituiu, e a lenta melodia de ‘Songbird’, não olhei para ver onde ela tinha ido.

—Little Dove. —Thomas me puxou para perto e sussurrou seus lábios sobre minha bochecha. —O que devo fazer com você?

Eu estava embaraçosamente perto de dizer algo que não deveria, então fechei os olhos. —Você é um dançarino fantástico, Monstro.

Ele riu. —Estou bem ciente de que é uma mentira, Dove.

—Tudo bem, um monte de crianças de seis e sete anos dançam melhor que você.

Sua cabeça caiu para trás, uma risada alta ecoou no quarto, deixando seu pescoço e afogando a música.

Admirada com a visão, pisquei algumas vezes enquanto sua cabeça abaixava, e então ele pressionou sua testa na minha.

—E agora? —Ele perguntou quando suas mãos trouxeram as minhas coradas entre nós. Uma se afastou para segurar minhas costas e ele nos balançou de um lado para o outro.

—Passável. —eu admiti, minha voz irreconhecivelmente suave.

Ele me ouviu, seus cílios se abanando sobre suas bochechas quando seus olhos caíram para minha boca. Seu cheiro era algo que eu estava acostumada há muito tempo, mas por mais que tentasse ignorá-lo, ainda fazia meu estômago apertar e minha boca se encharcar. —Você ainda está aqui. —ele disse, mais uma pergunta do que uma acusação.

—Eu estou. —eu disse.

Um peso se instalou no meu peito quando ele ergueu os olhos para mim, gentilmente maravilhado, se exibindo entre as profundezas cobertas de gelo. —Por quê?

Foi um sussurro e respondi da mesma forma. —Honestamente?

Ele piscou, a pele macia da testa esfregando a minha quando ele sacudiu a cabeça em um aceno de cabeça.

—Eu não sei. —Tão verdadeiro quanto poderia ter sido, o que era mais alarmante era que estava ficando menos preocupada em não ter uma razão.

Pelo resto da música, nossos corpos se agitaram com a música, mas nossos olhares nunca se desviaram.

Antes que a música chegasse ao fim, seu indicador e polegar encontraram meu queixo e ele fechou a pequena distância entre nossas bocas. Seus lábios quentes queimaram um rastro no meu coração, incendiando todas as terminações nervosas do meu corpo, e tudo o que ele tinha a fazer era descansá-los nos meus.

Pois foi tudo o que ele fez, e parei de contar os segundos depois dos vinte, seguindo as sensações de respirá-lo, saboreá-lo e senti-lo, de sentir tudo.

Era a experiência mais íntima que tive em toda a minha vida, e não foi até que ele pressionou seus lábios na minha testa e saiu da sala que me lembrei que estava com um assassino.


Capítulo trinta e um

Miles

A xícara de café se partiu, o líquido marrom escuro chovendo na parede pintada de amarelo.

—Acalme-se, Carlson.

Eu bati minhas mãos na mesa, rosnando, —Calma? Você disse para esperar até eu te ver. Você... —apunhalei meu dedo para ele, uma risada errante se soltando —...disse que teria um maldito plano.

Mas ele não chegou com nada e ninguém.

—Bem, onde está? —Eu girei em um círculo, minhas mãos bem abertas. —O que diabos está acontecendo, Pete?

O apartamento, aquele que a equipe alugou para se reconectar e permanecer na pista, estava se aproximando de mim.

Eu estive lá por dias, esperando.

Como se não tivesse a habilidade de montar um time e invadir a propriedade do fodido doente se eu quisesse.

Se ao menos eles me dessem um mandado, o que Pete disse que eles não poderiam ou não fariam.

—Nós fizemos, mas é... —Ele soltou o colarinho de sua camisa, soprando um suspiro. —Era antiético, e eles não assinaram.

—Antiético? —Eu zombei. —Eles sabem que estamos lidando com Thomas Verrone, certo? Diga a Anthony que quero uma reunião. Agora. —Endireitando, cruzei meus braços sobre o peito e esperei.

O rosto pálido e redondo de Pete estava rosa.

—O que? —Eu perguntei.

—Não sabemos nada com certeza. Não temos provas de que ela tenha sido levada. Nenhuma evidência de jogo sujo.

Minhas mãos caíram no meu cabelo, e fiz o meu melhor para não pensar sobre o que minha garota estava passando. —E você acredita que ele não a tem? Ela está lá!

Ele amaldiçoou. —Calma, Carlson. Jesus Cristo, você é pior do que trabalhar com Jamison. —Suas narinas chamejaram quando ele bufou. —O que tem você tão malditamente ligado?

—Eu quero ela segura.

Pete suspirou e recuou a cadeira, a velha madeira raspando sob seu peso e se levantou. —Ouça, você não precisa me dizer, mas onde está Shelley?

Mais pessoas do que gostaria de admitir sabiam da nossa situação. Não que isso fosse culpa dela. Eu só disse essas palavras de raiva e frustração.

Eu sabia que era o culpado.

Poderia ter dito não. Nós poderíamos ter escolhido alguém para intervir. Eu poderia ter desistido deste caso e saído meses atrás. Poderia ter mantido mais distância entre ela e meu maldito coração.

Mas não fiz nenhuma dessas coisas.

E agora, a mulher pelo qual eu ia desistir de tudo estava nas mãos de um monstro, e ninguém parecia dar muita merda sobre isso.

Eu conhecia os objetivos deles. Eles estavam esperando. Eles estavam acostumados com isso e eu também. Mas o que eu não estava acostumado era esse sentimento apertando meu peito mais forte a cada dia que passava.

Finalmente, admiti: —Shell tirou uma licença e foi para casa.

Casa, onde crescemos e nos casamos, estava três horas ao norte dessa confusão. E não a culpei por finalmente desistir.

Shelley era forte. Ela conhecia o trabalho e o que às vezes envolvia intimamente, porque trabalhavamos no mesmo ramo, mas todos tinham seus limites. Ela alcançou o dela muito mais tarde do que eu pensava.

Isso me fez sorrir por um breve segundo.

—Merda, Carlson. Isso é difícil. —Pete deu um tapinha nos bolsos por suas chaves, soltando-as. —Desculpe cara, mas preciso voltar. Entrarei em contato.

Assentindo, olhei para a parede de informações que eu tinha recolhido, sem ver, sem ver nada além da raiva que me manteve na semana passada.

Um mapa de sua casa, coordenadas e supostos vislumbres dele ao redor da cidade misturavam-se com fotografias dele em seu terno desagradável, sua filha e algumas de suas conexões.

Meus olhos voltaram para Lou-Lou.

Antiético sim.

Mas às vezes a única maneira de atrair um leão do covil era roubar seu filhote.

 

 


Capítulo trinta e dois

—Seu, ah, monstro pede sua presença no jantar —disse Murry na porta com uma boa dose de presunção em seu tom.

Com um estômago saltitante, dobrei meu suéter e enfiei dentro da minha bolsa, em seguida, procurei no quarto por outros itens. Foi a décima vez que fiz isso, mas me fez sentir melhor se pelo menos me preparasse para o momento.

O momento em que sairia daqui e nunca olharia para trás.

Era a última parte que selava as válvulas em meu coração, bloqueando minha próxima tentativa de oxigênio. E a razão pela qual eu não tinha saído do meu quarto a tarde toda.

Murry me acompanhou até o quarto no topo da escada em silêncio, e depois de bater nas grandes portas, ele as abriu e me deixou lá.

Me preparando, endireitei meus ombros e entrei.

A porta fechando atrás de mim ecoou através das pontas dos meus dedos enquanto eu inalava o cheiro de arroz e frango temperado, e deixei meus olhos se ajustarem ao espaço luminoso.

Cortinas pretas pesadas cobriam as janelas arqueadas, duas de cada lado da sala e um conjunto de portas francesas que se abriam para uma pequena sacada. Eles foram puxados para trás e amarrados com laços de cetim, permitindo que os últimos vestígios de luz do dia vazassem e alcançassem a grande cama king-size em sombras alaranjadas e cinzas.

Removendo meus olhos da monstruosidade que estava vestida com roupa de cama preta e cinza, caminhei sobre os tapetes de estilo oriental para onde Thomas estava sentado em uma pequena mesa de jantar, escrevendo naquele pequeno livro marrom dele.

Ele fechou quando me aproximei, então se levantou para puxar minha cadeira.

—Oi. —eu disse, encontrando minha voz quando me sentei.

—Boa noite. Vinho? —Sua voz rica e sombria combinada com o cheiro de frango amanteigado enquanto ele levantava as tampas das nossas refeições me deixava quase salivando.

Eu balancei a cabeça e ele se serviu de meio copo, enchendo o meu com água de uma garrafa de cristal.

O vapor subia pelo ar, arrastando-se até as portas abertas, onde a brisa do verão entrava para beijar minhas pernas e pés nus. —Seu quarto é lindo.

Ele parou de mexer nos talheres e sentou-se. —Obrigado.

Eu tinha que saber. – Foi de seus pais?

—Foi. —disse ele sem uma pitada de emoção.

—Isso não te incomoda. —Não é uma pergunta.

—Nem um pouco. —Seus olhos encontraram os meus depois de uma batida. —Dove, é apenas um quarto.

—Claro. —eu disse, esquecendo por um momento, como eu estava fazendo hoje em dia, de com quem estava falando.

A comida era boa demais para passar para os pensamentos do estômago, então quando ele gesticulou para eu comer, fiz de bom grado.

Depois que demoli metade do meu prato, olhei para fora das portas para me impedir de vê-lo comer. Era fascinante, o modo como sua mandíbula trabalhava e seu pomo de Adão se balançava, de um jeito que essas coisas normais não deveriam ser.

—Eu quase esqueci que era verão. —Thomas olhou meu vestido e eu ri. —Você sabe o que quero dizer.

Ele acenou com o garfo. —Eu suponho. Embora nunca tenha dito que você precisava ficar em casa. Ou ficar por um tempo.

Isso era verdade.

Eu comi outro bocado, embora estivesse ficando cheia para evitar responder a isso.

—Nós nunca terminamos nossa rodada de perguntas. —disse ele depois de alguns minutos.

—Pergunte o que quiser. —eu disse, tomando um gole de água.

—Não. —Ele colocou os utensílios para baixo, pegando o copo de vinho para tomar um gole. —Eu quero que você me pergunte. —Na minha testa erguida, ele rodou seu vinho. —Você e eu sabemos que você ainda tem dúvidas.

—Eu já perguntei o que quero saber e você se recusou a me responder.

Seus lábios se torceram. —Eu não diria que recusei... —Quando eu ri, ele bufou: —Tudo bem.

Eu empurrei meu prato para longe, esperando.

Tomou outro gole de vinho e depois fez o mesmo, a maior parte da comida desapareceu.

—Eu matei alguém na primeira vez quando tinha dezessete anos. Meu tio.

Eu tentei impedir meus olhos de crescer, mas a julgar pela ligeira elevação de seus lábios, não tive sucesso.

Thomas pousou o copo. Levantando-se da mesa, ele deu passos largos em direção à cama, esfregando o dedo na testa. —Meu pai deixou a Itália de vez, depois de conhecer minha mãe aqui na faculdade. Meu tio Matias, era seu meio-irmão, filho de uma das amantes do meu avô, mas ele era tudo o que tinha quando meu pai foi embora, então tentou prepará-lo para administrar os negócios da família.

Meus olhos absorveram sua expressão vazia. Sua ancestralidade explicava a pele bronzeada e os ângulos cinzelados de seu rosto.

—Meu avô estava muito doente para voar aqui para o funeral de meus pais, e morreu pouco depois do acidente. Então meu tio Matt veio para organizar tudo e ficou alguns meses. Eu nunca me lembrei muito dele crescendo, sendo que ele nunca visitava os Estados Unidos frequentemente. As poucas lembranças que eu tinha eram de quando eu era jovem, e nós visitamos a família do meu pai por um Natal ou dois. E nessas memórias, ele mal disse duas palavras para mim.

Com muita atenção, observei seus pés comerem o comprimento da sala com passos largos.

—Meu avô estava morto e minha avó era velha demais para cuidar de mim ou viajar, então fui deixado aos cuidados de Matias. Mas, em vez de se importar, ele passou o tempo aqui esvaziando nossas contas bancárias, transferindo metade da fortuna de meu pai para o exterior e arrumando um contato para a minha escola, caso precisassem fazer o check-in, e depois ele foi embora.

Um som seco e bem humorado levantou seus ombros. —Ele voltou um ano depois. Surpreso por eu ainda estar frequentando a escola e não no sistema ou morto, ele me deu um tapinha no ombro como se eu o fizesse orgulhoso. Mas sabia por que ele retornou e, embora isso me destruísse, não consegui impedi-lo.

Ele gemeu. —A raiva que eu sentia por dentro enquanto ele me alimentava depois de mentir sobre estar aqui para trabalhar, enquanto bebia o uísque do meu pai e fumava seus charutos favoritos, os que eu mantinha livre de poeira e trancava em seu escritório como se ele nunca tivesse ido embora... se tornou demais.

—Ele levou mais dinheiro.

Thomas assentiu. —E antes que ele fosse embora novamente, enquanto jogava alguns milhares aos meus pés, murmurando algo sobre colocar a casa no mercado quando ele voltasse, prometi a mim mesmo que não haveria uma próxima vez. Tomei alguns milhares e minha raiva e marchei para o porão. Lá, encontrei o cofre que meu pai havia escondido e guardei o dinheiro com o resto. Você vê, eu não conseguia nem acessar o dinheiro da conta bancária do meu pai. Não até os meus dezoito anos.

—Mas... —Não teria sobrado nada.

—Exatamente. —Seus olhos brilhavam com uma malícia que eu nunca tinha visto antes. —Então, quando ele voltou alguns anos depois com planos de vender a casa, a mesma casa que meu pai pagou por meio de ações sangrentas e selvagens, jurei que seria a última vez que ele iria fazer planos.

Ele balançou a cabeça, um sorriso se formando. —Foi fácil, realmente. Ele me seguiu escada abaixo, cifrões nos olhos e falta de uma das orelhas, que mais tarde descobri que devia-se ao dinheiro da família. Dinheiro que ele estava roubando de mim para pagar de volta.

Minha mão voou para os meus lábios enquanto meus olhos lacrimejavam.

—Seduzido pela promessa de um cofre trancado que eu disse que estava tendo problemas para abrir, o derrubei com um tijolo, amarrei-o a uma viga e subi as escadas.

Um riso escuro e nostálgico flutuou quando ele passou a mão pelo cabelo. —Eu estava tremendo tanto que pensei que iria quebrar meus dentes. Quando finalmente me acalmei, percebi que ele provavelmente escaparia e provavelmente me mataria ou morreria de fome. Uma vez que isso passou, essa estranha calma tomou conta de mim.

—Como? —Eu perguntei, minha voz um grasnido. —Como você o matou?

—Uma faca de caça. —Ele se sentou na cama, tirou os sapatos de couro e tirou as meias. —Eu poderia ter feito isso enquanto ele estava contido e facilitando para mim, mas eu estava com muita raiva. Alguma parte de mim precisava do desafio. Alguma parte de mim havia mudado. O desamarrei enquanto ele ainda estava inconsciente, destranquei a porta e esperei no topo da escada.

Perdida na visão de seus pés descalços, suas próximas palavras me tiraram do meu transe.

—Assim que ele apareceu, tropecei nele antes que ele pudesse me ver. —Outra risada seca. —Eu errei, esfaqueando-o no nariz, mas a segunda vez... —Seus olhos encontraram os meus, honestidade inabalável neles. —Eu me certifiquei de não errar a segunda vez. Ou a décima sexta.

—Puta merda. —Minha língua parecia grossa, mas não pelas razões que deveria. —Thomas... você era tão jovem.

Ele inclinou um ombro.

—O que aconteceu então?

—Eu encontrei a bateria de ácido do meu pai anos atrás. —disse ele. —Eu usei eles e os... —Ele viu minha careta e fez uma pausa. —De qualquer forma, o primo do meu pai, que agora administra o negócio, veio procurá-lo alguns meses depois. Mas em vez de me matar, ele sorriu e me contratou.

Eu balancei a cabeça. —Você tinha dezessete anos... Como você sobreviveu depois que seus pais morreram até então?

—Dinheiro, o mesmo que qualquer outro que tenha. —Um sorriso curvou seus lábios. —É muito fácil... —seus olhos baixaram para o tapete —...até que se esgote.

—Então você trabalhou para ele aqui? E quanto a escola?

Thomas olhou para os meus pés descalços, os olhos patinando pelas minhas pernas, em seguida, engoliu e dirigiu seu olhar para fora da janela. —Abandonei. Simplesmente. Eu poderia estar sozinho, mas depois de um curto período de tempo, preferia assim. Ir à escola e estar perto de muitas pessoas, pessoas com vidas comuns e problemas mundanos, me deixou louco.

—E a família da sua mãe?

Sua mandíbula se contraiu em meu tom perturbado. —A tia Lou-Lou tinha ido embora e os pais da minha mãe também.

Meus olhos se estreitaram. —Você foi para a Itália? Depois que eles te contrataram?

—Não. —disse ele. —Eu viajei ou cuidei de alguém que eles enviaram aqui. Foi bom por um tempo, mas fiquei doente de ser dito o que fazer. Isso acontece quando você não tem autoridade em sua vida por tanto tempo.

Eu sorri então, achando difícil imaginá-lo recebendo ordens de qualquer um. Não, a menos que isso fosse adequado para ele. —Como você saiu de trabalhar para sua família?

—Eu não saí; não funciona assim. Mas disse a eles que estava entrando por conta própria e, se eles quisessem meus serviços, precisavam pagar mais. Eu já tinha quase vinte e cinco anos e não sabia o suficiente sobre suas transações para ser uma preocupação muito grande. —Ele bufou. —Ou então eles pensaram. Independentemente disso, esses laços não podem ser cortados sem derramamento de sangue. Ainda estou em contato com Loren, primo do meu pai, para quando ele precisar de algo aqui e vice-versa.

Este homem... tudo o que ele passou. —Jesus, Thomas.

Ele franziu a testa para a minha blasfêmia, e fiquei de pé, minhas pernas líquidas enquanto as forçava para mais perto dele, obrigando-as a se curvarem e se sentarem.

Entorpecida, mal senti o edredom de plumas afundar debaixo de mim. —Antes de você terminar a escola, você sobreviveu com o dinheiro naquele cofre?

Thomas abriu o paletó, levantando-se para colocá-lo sobre uma poltrona ao lado da cama, depois sentou-se perto de mim na cama novamente, muito mais perto do que estivera antes. —Eu fiz isso durar. As propinas foram pagas integralmente, cortesia do meu tio. Quando fiquei cansado de andar, aprendi a dirigir o carro da minha mãe e usá-lo para chegar ao ponto de ônibus mais próximo, onde peguei uma carona para a cidade. Mas meu arranjo perfeito começou a cair depois da décima primeira série. Assim que a comida e o dinheiro ficaram escassos, meus uniformes ficaram muito apertados.

A imagem daquele garoto alto e magro na floresta avançou. —Quando te vi na floresta...

Um sorriso terno iluminou seus olhos. —Eu estava caçando. —Na minha expressão, ele riu. —Não pareça tão desamparada. Pessoas fazem isso o tempo todo. E a atividade que se originou do tédio infantil compensou.

—De que maneiras?

Ele esfregou a ponte do nariz. —Eu não sei se você quer ouvir.

—Conte-me.

Ele suspirou. —Quando comecei a ficar sem dinheiro, cerca de quatro meses antes do meu tio reaparecer pela última vez, aprendi a fazer mais do que caçar. Eu corte e estripei coelhos e veados, peguei peixes no riacho e me virei com enlatados velhos que encontrei no porão.

Meu estômago revirou, levantando minha mão para ele.

Thomas agarrou minha mão, dedos gentilmente circulando meu pulso. —Você poderia dizer que minha capacidade de derramar sangue nasceu da diversão, mas também da necessidade de sobreviver. Nenhuma das razões mudou.

Compreensão me alcançou. Não era o suficiente, mas era o suficiente para ter empatia e ver como ele tinha ido pelo caminho que tinha. – Então foi assim.

Ele soltou meu pulso, caindo de volta na cama. A ação era tão infantil, tão diferente dele, que tive que me impedir de dizer o nome dele para me tranquilizar que era ele.

—Dove, se todos tivessem uma desculpa para a pessoa que eles se tornaram, uma razão para culpar sua existência inferior ou situações terríveis, o mundo seria um lugar ainda mais miserável. —Ele chupou seus lábios, então olhou para mim. —Olhe para você. Foi levada por um suposto monstro, teve seu coração partido pelo seu suposto noivo, descobriu o que realmente aconteceu com sua mãe supostamente perfeita, mas ainda hoje, eu vi você sorrir e rir. Vi você prosperando, apesar do que aconteceu com você. —Ele deixou essas palavras afundarem. —Por que você acha que é assim?

Sabendo o que ele queria que eu dissesse, lambi meus lábios, capturados por sua voz rica e assombrando olhar azul. A beleza desse homem estava manchada de sangue, mas ainda estava lá, me puxando para mais perto com o seu implacável puxão.

Ele respondeu por mim com um sorriso conhecedor. —Porque você se escolheu.

Eu consegui fazer meu cérebro acelerar. —Entendi o que você está dizendo, mas nem sempre é assim tão simples.

Ele encolheu os ombros. —Possivelmente. Mas, afinal, não é?

Eu ri. —Agora você está apenas me confundindo.

Ele riu também, o som de um uísque amanteigado. —Eu deveria ter terminado e partido, mas eu gosto, porque ter essa parte de mim dessensibilizada, me permite garantir que nunca tenha que comer enlatados vencidos de novo?

—Eu gosto de ambos, —eu disse.

Nossos sorrisos desaparecendo, nos olhamos por um momento. Thomas parecia estar perdido no passado e eu, perdida no presente.

Descendo de volta para a cama, pisquei para a moldura da coroa e o lustre no teto. —Por cinco anos inteiros, ninguém sabia que você morava sozinho?

—O dinheiro deixa as pessoas caladas e gastei o suficiente para garantir que ficasse sozinho.

—Inacreditável. —Me mexi, apoiando-me no cotovelo para encará-lo. —Todos esses anos aninhado neste castelo. Como algum príncipe sombrio há muito perdido.

Ele bufou. —Dificilmente, Little Dove.

—Você perdeu tantas experiências. —eu disse. Mesmo se ele fosse para o ensino médio, sua vida estava tão distante de seus colegas.

—Como o quê?

—Bem, você foi a festas? Formatura? —Fiz uma pausa antes de fazer minha próxima pergunta. —Já teve uma namorada?

—Mesmo antes de meus pais morrerem, eu não era muito socializado e só tinha um punhado de amigos que suportavam meus modos excêntricos. Minha única graça salvadora era que eu estava na equipe de natação, e isso impedia a maioria das intimidações sobre minhas frequentes viagens à biblioteca.

Ele olhou para mim quando percebeu que eu ainda estava esperando. —Eu tive algumas namoradas, sim. Equipe de natação, lembra? —Ele levantou uma sobrancelha grossa. —Mas elas nunca duraram muito. Nem uma vez chegamos ao estágio de querer passar as noites do pijama ou datas adequadas.

—Então, como você, você sabe...? —Calor rastejou em minhas bochechas.

—A última namorada que tive, no último ano, foi a segunda garota com quem transei. Nós fizemos sexo cerca de três vezes. Vestiário duas vezes, atrás do carro dela uma vez. Antes dela, havia uma garota. Nós nos livramos de nossas virgindade e basicamente seguimos nossos caminhos separados.

—E depois dela? —Eu quase gritei, meu estômago se aquecendo e me fazendo sentir de novo com dezesseis anos na maneira como ele tão livremente disse sexo.

Ele balançou sua cabeça. —Quando você vive à margem da sociedade, a normalidade só toca você tanto quanto você deixa. —Ele encontrou meu olhar chocado com um frio. —E como eu disse, fiquei cansado de deixar.

Incapaz de entender como um homem que se parecia com ele, que podia beijar de uma maneira que queimava e tocava com tanta reverência que congelava o sangue em suas veias, não fazia sexo há anos, eu soltei, —Mas por quê?

—Eu me acostumei a ficar sozinho. —Um suspiro levantou seu peito. —E sendo que nunca deixo este lugar a menos que eu deva, a oportunidade raramente se apresenta, e quando isso aconteceu no passado, geralmente era na forma de uma DST em potencial. —Na minha expressão ainda chocada, ele se apressou em acrescentar: —Não se preocupe, eu ainda me masturbo, e não, não é por imagens sangrentas.

—Oh... certo. —eu ri para fora.

Se aproximando, ele girou uma mecha do meu cabelo em volta do dedo. —Aposto que eu mesmo descubro o que você gosta em questão de minutos.

—Uau. —Eu ainda estava me recuperando do fato de que esse homem, esse belo e sombrio Adônis, era muito menos experiente do que eu no quarto. —Thomas, eu não percebi que era o que você gostaria de fazer...—eu acenei com uma mão, em seguida, deixei cair na cama —...quando você me convidou aqui.

—Dove, não. —Olhos gentis, ele disse: —Eu só queria passar um tempo com você, mas agora...

—Mas agora? —Eu repeti em um sussurro.

Seus lábios se curvaram e meus dedos reagiram em formas. —Agora que posso ver o que você quer, que posso sentir o gosto no ar que estamos respirando, você não vai sair deste quarto até que me deixe estar dentro de você.

Sua incrível capacidade de me ler nunca me frustrou e me excitou mais. – Thomas... —eu comecei.

—Silêncio. —Seu dedo pressionou meus lábios quando ele se inclinou sobre mim. —Não vamos perder tempo com falsas objeções quando poderíamos usá-lo... —seu dedo arrastou pelo meu queixo, mergulhou na coluna da minha garganta e parou, girando sobre a pele acima do meu decote —...fazendo coisas muito melhores.

Minha fome por ele apimentou minhas papilas gustativas, temperou a saliva espessa em minha língua, e queimou fundo, encrostando as rachaduras do meu coração. Mas eu não podia deixar isso assumir o controle ainda. —Por que você me quer, Thomas? Por que você está confiando em mim?

Ele respondeu instantaneamente, com voz profunda e firme com convicção. —Porque eu sabia... —Sua respiração aqueceu meus lábios, seus olhos nadando nos meus. —Soube desde o primeiro momento que seus olhos encontraram os meus que você foi feita para mim. Eu lutei com isso, com querer você, e depois me rendi. Embora não soubesse com certeza, esperava que você fosse a única a me ver.

Minhas mãos alcançaram seu rosto, os polegares esfregando a cerda de um dia em sua mandíbula enquanto puxava sua boca para a minha. —Eu vejo você, e você sabe o que?

—O que? —A palavra flutuou entre meus lábios entreabertos.

—Eu não estou assustada. —Minhas coxas e lábios se abriram mais, abrindo espaço para ele cair entre eles.

O céu flutuava em minhas veias; uma mistura de formigamento de calor e arrebatamento legal quando sua língua acariciou a minha, e sua mão roçou minha coxa nua. Meu vestido subiu graças ao atrito de seus quadris friccionados. Peguei a mão dele e o guiei entre as minhas pernas, permitindo que ele sentisse a evidência por si mesmo através do algodão da minha calcinha.

Seu gemido era um fósforo aceso lançado sobre uma chama já ardente, e isso fez meu sangue ferver em necessidade.

Seus dedos estavam hesitantes no começo, mas tomando o incentivo da respiração pesada escapando do nosso beijo, os que eu não conseguia controlar, ele pressionou e provocou.

Rasgando meus lábios dos dele, ofeguei, —Mova-se para o lado, me toque.

Suas narinas farejaram enquanto ele me estudava com olhos derretidos, então ele se foi, o som de sua camisa batendo no chão, levantando a cabeça a tempo de ver seu torso bronzeado se abaixar na cama.

Minha cabeça caiu para trás enquanto seus polegares enganchavam em minha calcinha, e seus lábios seguiram sua descida, lambendo devagar, ardentemente, como se ele estivesse faminto pelo sabor da minha pele.

—Cada centímetro de você. —ele respirou uma vez minha calcinha bateu no chão. —Eu quero que meus lábios percorram cada centímetro de sua pele.

O pensamento era tentador, e arrepios subiram por minha pele enquanto eu observava seu olhar extasiado, que estava percorrendo minhas pernas, seus olhos voltados para o espaço entre as minhas coxas.

—Outra hora, talvez. —eu disse, gesticulando para ele vir até mim.

Ele me ignorou, e meus olhos se fecharam enquanto seus dedos e língua subiam tão lentamente em minhas pernas que eu estava quase ofegante quando ele me abriu. A sensação de seu olhar apreciativo e o som de sua respiração aumentada lavou qualquer embaraço que pudesse sentir por estar em exibição por tanto tempo.

—Você está brilhando para mim e é tão cor-de-rosa que mal posso respirar.

—Então não faça. Venha aqui e me beije em vez disso.

Mais uma vez, ele me ignorou, e sua respiração passando pelas minhas coxas era o único aviso que eu tinha antes de sua boca estar bem ali.

Ele lambeu para cima e para baixo, conseguindo saber o que eu gostava, como ele havia avisado, em poucos minutos.

Menos de dois minutos depois, se eu estivesse sendo honesta, minhas coxas tremiam e minhas mãos agarraram seu cabelo enquanto ele circulava e circulava, e então eu vi faíscas brilhantes.

Ele observou meu corpo tremer, eu podia sentir isso, mas isso não me incomodou. Isso só tornou mais difícil para focalizar o meu entorno.

—Incrível, —ele respirou, então disse, —Novamente, —logo antes de sua boca baixar, sua língua mais firme e suas mãos se juntando também quando ele começou com determinação renovada.

Rindo e me contorcendo, eu apertei minhas pernas ao redor de sua cabeça. – Não, pare.

Erguendo minhas coxas separadas, ele descansou o queixo na minha parte inferior do estômago. —Por quê?

Seu tom transmitiu uma confusão genuína. Sabendo que ele não tinha feito sexo há muito tempo, desde que ele entrou na idade adulta, na verdade, me atrapalhei com as palavras certas para descrevê-lo. —Você já foi capaz de se masturbar duas vezes seguidas?

—Sim.

—Oh

Ele sorriu. —Mas eu entendo seu ponto. Sensível.

Eu levantei da cama, e ele fez uma careta, pegando meu tornozelo. Eu saí de seu alcance, então me sentei e levantei o vestido sobre a cabeça. Meu sutiã foi o próximo, aterrissando em algum lugar atrás de mim no chão.

Thomas rastejou sobre a cama, os olhos no meu peito antes de subir para o meu rosto. —Posso?

—Você acabou de colocar a boca entre as minhas pernas. —eu disse com uma sobrancelha levantada. —Normalmente você toca nos seios primeiro.

Ele fez uma pausa, estendendo a mão para mim. —Eu não achei que isso importasse.

Ele estava certo. —Eu acho que não importa.

—Você prefere ter seus seios tocados de antemão?

Piscando, eu tentei não ruborizar quando admiti: —Eu gosto disso, claro. Mas...

—Mas?

Ficando de joelhos, empurrei-o para a cama, minhas mãos pegando seu zíper, depois puxando suas calças e cuecas. —Mas gosto mais de ter sua atenção entre minhas pernas.

Colocando seus braços atrás de sua cabeça, ele me viu puxar suas calças para baixo de suas coxas grossas, com o cabelo bagunçado, então me ajudou, chutando-as.

Respirando fundo, tirei meu olhar dos músculos magros de seus braços, a concentração estragando sua testa, e arrastei-os por cima de seu estômago cheio para absorver seu comprimento. Ele era comprido, grosso e perfeito, e eu não conseguia parar de envolver minha mão ao redor dele.

Thomas assobiou e olhei para sua expressão torturada. —Você está bem?

—Mais do que bem, mas...

—Mas? —Eu sorri quando ele abriu um olho.

—Receio que, se você continuar me tocando, isso acabará em breve.

Minha mão caiu, mas não antes de cair de boca na ponta. Passei a língua pela cabeça inchada, sentindo o gosto de sua própria excitação. —Santa Maria, mãe de...

Rindo, subi no corpo dele, montei-o e peguei seus lábios. —Não há necessidade de blasfêmia.

Então eu estava de costas, a língua dele penetrando furiosamente na minha boca enquanto sua mão segurava minha coxa, levantando minha perna para envolver suas costas. Ele se afastou, sua testa descansando fortemente na minha enquanto ele se balançava em mim, cada uma das minhas terminações nervosas acendendo para mais.

—Entre. —eu exigi.

Ele não precisou ser dito duas vezes, e eu esperei, pronta para ajudar se ele precisasse, mas ele se alinhou e avançou em segundos, o ajuste apertado fazendo nós dois gemermos.

Então me dei conta, quando o senti inchar completamente enfiado dentro de mim, que esta era a primeira vez que deixava um homem dentro de mim sem camisinha. Não me assustou, pelo menos, não até que me lembrei... —Merda, espere.

Thomas parou, os músculos esticando os ombros e o pescoço, a única indicação de que isso estava custando a ele. —O que há de errado?

—Eu nunca, bem, fiz assim.

Levou um momento, depois entendeu e sorriu. O branco de seus dentes atraiu meus olhos e meus dedos. Eu corri eles ao redor de seus lábios. —Você tem o sorriso mais lindo que eu já vi.

Ele bufou, mexendo dentro de mim, então gemeu. —Por mais que eu adore receber elogios de você para variar, quero saber qual é o problema.

—Eu estava tomando pílula... —eu disse, —...até você me levar.

Thomas não disse nada por um momento insuportavelmente silencioso.

—Thom...

Sua boca caiu sobre a minha, seu corpo também, quando ele começou a empurrar, lentamente encontrando um ritmo que combinava com o acasalamento das nossas línguas. Ele afastou os lábios um segundo, respirando com dificuldade, —Eu amo ouvir você dizer Tom.

Como uma droga, sua boca e seu pau me puxaram para baixo, mas eu me afastei depois de um minuto. —Espere, você não....

—Se você quer camisinha, vou pegar uma. Mas por enquanto, deixe-me ter você assim. —Suas mãos alcançaram entre nossos lábios, um dedo arrastando meu lábio inferior. Ele pressionou a boca na minha e sussurrou: —Com nada entre nós, só a pele.

Ele não durou mais do que outro minuto, o que eu pensei que era uma façanha, considerando todas as coisas. Mas se eu pensei que ele estava feito, estava errada. Eu estava meio dormindo quando os lençóis se moveram sobre a minha pele, o ar frio da noite me fazendo chegar cegamente para ele, mas eu encontrei uma cabeça de cabelo em vez disso.

—Levante sua bunda perfeita, Little Dove.

Eu obedeci instantaneamente, a exaustão evaporando.

Ele enfiou um travesseiro sob o meu estômago, então me fez levantar novamente enquanto ele colocava outro em cima daquele.

Ficando curiosa sobre o que ele estava planejando fazer, abri minha boca para perguntar a ele, então prontamente fechei, meus olhos quase se fecharam enquanto seus dedos me abriram, e um deslizou pelo meu centro, brincando com o sêmen ele tinha deixado para trás.

—Isso faz coisas estranhas para mim. —disse ele, a voz em camadas com luxúria e sono. —Me vendo dentro do seu corpo. Vazando de você.

Delícia perversa se agitava em meus braços, e eu choraminguei.

Depois de alguns minutos, ele cuidadosamente colocou um dedo grosso dentro. —Eu quero você assim, perto.

Eu acho que resmunguei alguma coisa, não tinha certeza. Eu não tinha certeza de nada além de saber que seria uma noite longa.

 


Capítulo trinta e três

Thomas

Os olhos castanhos me acolheram de volta para o mundo real.

E de repente, decidi que odiava dormir. Se ela estivesse aqui, o sono era uma barreira que eu não precisava. Embora, por mais que tentasse tirar o máximo de tê-la comigo na minha cama, minha Dove desmaiou no espaço entre as duas e as três da manhã.

Eu poderia ter tido alguma moral questionável, mas havia muitas linhas que eu me recusei a cruzar. Ter relações sexuais com uma mulher adormecida era apenas uma delas.

—Eu quero ficar aqui, mas não podemos ficar trancados aqui para sempre.

Sua voz era clara, como se ela estivesse acordada por muito mais tempo do que eu, trabalhando em seus pensamentos.

Eu me aproximei, minha mão segurando seu quadril. Nossas pernas estavam entrelaçadas, o toque de sua pele, e o fato de ela estar aqui quando pensei que ela escaparia para o quarto à primeira luz fez meu pau dolorosamente duro, e meu peito apertou.

—Thom? —Ela questionou com um pequeno sorriso, e eu percebi que tinha acabado de olhar para ela. Admirando a maneira como a luz da manhã gotejava sobre suas feições delicadas e iluminava as manchas de bronze em seus olhos escuros.

Eu bocejei e virei minha cabeça para sufocá-lo com o meu travesseiro. Voltando para trás, murmurei: —Se você está preocupada com o seu federal, não fique. Ele vai ceder como o resto deles.

A conversa me acordou, graças ao aborrecimento que resultou do assunto.

Little Dove subiu em um cotovelo, o cabelo caindo em seu rosto. Meus dedos gentilmente a cutucaram de volta.

—Miles. —ela parou, corrigindo-se, —Milo... eu não sei. Ele se esforçou muito. Não cederá facilmente, se for o caso.

Eu deixei cair a minha mão, mas ela pegou na dela. —Ele vai se sabe o que é bom para ele.

Os olhos de Jemima se arregalaram, o que me fez rir. —Nunca tema, Dove. Se você o quer vivo, mesmo que isso me mate, vou respeitar seus desejos. Embora eu quisesse tirar cada um dos dedos dele, então remover suas mãos, simplesmente por tocá-la.

—Você é um monstro doce.

Eu trouxe a mão dela aos meus lábios. —Acima de tudo. O que sinto por você se eleva acima de tudo.

Seus olhos brilhavam.

Uma série de estrondos trovejou na porta. —Tom, acorde.

Jemima se sentou, o lençol cinza pressionado contra o peito. —Tudo bem. —eu disse. —Ele não vai entrar.

Outro estrondo na porta. —Sei que você está, ah, ocupado, mas você tem uma visita. Um que estava esperando.

Sentei-me em um flash, dizendo: —Dê-me dez. —Olhando para Jemima, perguntei: —Quer tomar banho comigo?

Uma risada nervosa tilintou no quarto quando ela chutou as pernas para o lado da cama, coletando seu vestido e sutiã. —Talvez outra hora.

—Você sabe que vou ficar perturbando você para isso.

Ela deixou cair o lençol, e meu coração deslizou em minha garganta enquanto seus mamilos rosados se agitavam e ela esticava os braços sobre a cabeça. Pequena provocação. —Venha aqui.

Ela estalou o sutiã, em seguida, puxou o vestido sobre a cabeça. —Não, Tenho mal hálito matinal.

Eu bati meus lábios juntos com um arrepio. —Bom ponto.

Sua risada a seguiu para fora do quarto, e olhei para o meu pau duro, suspirando.

 


Beau e Sage estavam sentados no balcão da minha cozinha enquanto recolhi minha jaqueta e entrei na sala.

—...não pode simplesmente pegar emprestado a serra de alguém. —Beau estava dizendo, suas mãos tatuadas em volta de uma caneca de café.

—Por que diabos não? —Sage perguntou, virando a página no jornal de hoje.

Beau lançou lhe um olhar incrédulo, do qual Sage ignorou. —Isso é uma coisa pessoal, cara. Há memórias ligadas a isso.

Eu balancei a cabeça para Murry em agradecimento quando peguei a xícara de café que ele estendeu para mim, ignorando o sorriso de conhecimento em seu rosto.

—Tom, posso pegar emprestado sua serra?

—Não. —eu disse, então olhei para Beau. —Ele está lá embaixo?

Ele assentiu, olhando para a porta. —Coloquei uma mordaça para você. Ele é um filho da puta barulhento.

—Obrigado. —Eu me virei para Murry. —Lou?

—Ela está lá em cima fazendo o cabelo de Jemima.

Os olhos de ambos os homens pousaram em mim ao ouvir isso, o nariz de Beau ainda mostrando pequenos sinais de hematomas de onde minha Dove o havia acertado. —Como você pegou ele?

—Nós viemos para o check-in e vimos a velha caminhonete parada mais adiante.

—Nada como uma corrida pela floresta pela manhã. —murmurou Sage, tomando um gole de café.

—Peguei-o perto do riacho onde ele escorregou em uma pedra. —Beau tamborilou os dedos na bancada. —Ele não dirá nada.

—O que tornará tudo mais agradável. —Sage lambeu um dedo, virando outra página.

Depois de tomar longos tragos do meu café, coloquei a caneca e me movi para a porta do porão. —Mais alguma coisa que deveria saber?

Beau inclinou um ombro. Sage balançou a cabeça.

—Certifique-se de que Lou fique longe da cozinha. —Murry conhecia a broca e, embora o porão fosse à prova de som, não gostava de arriscar.

Meus passos foram lentos. Um aviso de que estava chegando e não estava com pressa.

O quarto estava banhado em escuridão, mas era meu domínio, meu lugar seguro, então cada detalhe estava impresso em minha mente. A escuridão não me incomodou nem me atrapalhou.

Mas aparentemente incomodou meu visitante.

Queixas abafadas manchavam o ar, junto com o fedor forte do suor. O medo fazia coisas estranhas para as pessoas.

Alguns desmaiavam.

Alguns urinavam em si mesmos.

Alguns tinham movimentos intestinais que não conseguiam controlar.

Alguns suavam rios.

Alguns tremiam até os dentes rangerem.

A lista continua, e a julgar pelo sujeito sentado na minha cadeira, ele estava com medo, mas tinha algum controle. O que me disse muita coisa. Ele sabia sobre mim, então sabia dos riscos do trabalho que estava fazendo.

Ainda de pé no escuro, deixei-o trabalhar mais um pouco, depois decidi que já era hora.

A luz cintilou sobre nossas cabeças, a sala iluminou-se em um amarelo baço e ondulante.

O branco dos olhos do meu visitante explodiu, e os músculos se esticaram em seu pescoço enquanto ele soltava sons instáveis em torno da mordaça enfiada em sua boca. Seus cabelos eram negros e grisalhos, seus olhos azuis estavam vermelhos e cheios de rugas, e seu lábio inferior se arrebentou. Sem dúvida, graças a um dos meus amigos no andar de cima.

Eu coloquei algumas luvas e puxei um banquinho para sentar ao lado dele.

Ele não fez nenhum som, ainda se debatia contra suas amarras. —Tenho certeza que você sabe por que está aqui.

O idiota teve a coragem de sacudir a cabeça.

—Deixe-me repetir isso. —eu disse, me inclinando para trás e pegando uma agulha da bandeja preparada atrás de mim. —Tenho certeza que você sabe por que está aqui.

Sua mão gorda estava vermelha e agarrei-a com força. Com um pouquinho de pressão, perfurei a pele sob a unha do polegar e empurrei. Ele gritou, balançando a cabeça enquanto seus olhos lacrimejavam.

Lentamente, puxei a agulha para fora. —Oh, pronto para falar já?

Ele assentiu enfaticamente.

Para ter certeza, repeti o processo em cada dedo, seus gritos abafados e o ruído branco do corpo batendo enquanto eu calmamente removia a agulha de seu dedo mindinho e a jogava no frasco de antisséptico.

Puxei a mordaça e coloquei-a ao lado dele na cadeira, depois esperei que seu rosto vermelho me olhasse, com a água ainda vazando de seus olhos vermelhos. – Seu doente fu...

—Qualquer um que já esteve em sua posição já disse isso antes. Sei o que sou, então, por favor, não me aborreça e desperdice nosso tempo. —Cheguei mais perto, minha voz ameaçadora enquanto eu fervia, —Agora, me diga quem você é e por que está aqui.

Ele me considerou um momento, um momento que estava prestes a custar-lhe muito, mas, finalmente, admitiu: —Fui contratado para segui-lo...

Eu esperei. Porque, certamente, ele sabia que não ia cortá-lo.

—Para obter qualquer informação que pudesse sobre você, e para...

—Para o quê? —Perguntei com cuidado, mesmo quando o meu sangue se enfureceu por vingança.

—Sua filha. Pediram-me para encontrar provas de que ela não era sua, mas não podia, e então me disseram para... apenas pegar ela.

Sem sequer olhar, peguei a tesoura da bandeja. Não importa que ele estivesse falando, ou que houvesse mais a ser dito, meu coração não conseguia lidar com a ideia de alguém tirar minha luz do sol.

—Es... espera. —ele gaguejou. —Porra? Eu te disse!

Ele se debateu quando enfiei a mordaça de volta em sua boca.

—Eu sei. —eu disse e envolvi o metal em torno da ponta do seu polegar. —Mas antes, eu estava curioso. Agora, bem, como tenho certeza de que você pode entender... —minha mão apertou as alças, e seus gritos, até mesmo abafados, abafaram o som do metal cortando a unha e a pele —...estou com raiva.

Eu parei logo acima do osso. Ossos eram coisas problemáticas, e eu não gostava de perder tempo. Prefiro arrancar os dentes de alguém do que cortar ossos.

Essa era uma tarefa que deixava para visitantes especiais.

Ele continuou a se contorcer e gritar, e olhei enquanto o sangue escorria por sua mão, passando por cima das amarras, e deixando gotas na cadeira.

Eu não me tornei nada além de raiva ao pensar em pessoas conspirando contra mim dessa maneira. Uma coisa era tentar me derrubar, mas outra inteiramente envolver meu coração.

Quando ele se acalmou um pouco, removi a mordaça e perguntei: —Quem te pediu para levar minha filha?

Quem quer que fosse, ele não deve o temer muito. Deu a informação com facilidade. —Ele era um agente, Milo ou alguma, foda-me... —ele gemeu, saliva escorrendo pelo queixo, apertando a mão coberta de sangue, enquanto sibilava entre os dentes, —al... algo assim.

Suspirei, sabendo que teria que, de alguma forma, quebrar minha promessa para a minha Dove, o federal tinha que morrer depois de tudo.

—Você não é um policial?

Ele balançou sua cabeça. —Não, merda. Não. Mas trabalho em pequenos empregos para homens disfarçados. Eu não ia nem aceitar esse, mas ele me ofereceu dez mil e pagou metade adiantado. Além disso, meu... meu alojamento e minha passagem aérea.

Meus dentes ameaçaram virar pó, rangendo enquanto eu gritava: —Você se ofereceu para pegar uma criança por dez mil?

Ele engoliu em seco. —Eu não a machucaria, juro. Só precisava do...

A mordaça o calou e peguei minha faca favorita.

 


Apertei o interfone e Beau atendeu com um assobio. —Terminou?

—Eu perdi a paciência.

Beau riu.

—Apenas desça aqui ou mande Murry se ele estiver livre. Este pesa uma tonelada.

Beau desceu as escadas um momento depois e lhe entreguei a caixa de luvas.

Nós colocamos o corpo em uma lona, enrolamos e colocamos no canto mais distante.

—Acha que você e Sage poderiam tirá-lo daqui?

—Porcos? —ele perguntou, manchando um pouco de sangue entre os dedos. A luva de plástico se enrugou quando ele abriu e fechou os dedos.

—Metade e metade. Os tambores foram recarregados.

Ele observou enquanto eu enrolei a tampa da cadeira e a joguei no fogo que acendi antes de ele descer as escadas.

Então fui para a pia no banheiro e liguei, despejando um monte de água sanitária, seguido pelas tesouras, faca e agulhas.

—Ele disse por que estava passeando pela floresta como um amador? —perguntou Beau enquanto eu vasculhava os suprimentos de limpeza no armário ao lado dele.

—Se ele era muito amador, por que você ou Sage não o encontraram até agora?

Beau suspirou. —É verdade que não me incomodei tanto assim. —Quando olhei, ele deu de ombros. —Eu pensei que era apenas mais um federal, e Sage sentiu o mesmo.

—Apenas outro federal?

—Vamos lá, cara. Ele estava atrás da garota do federal. Ele perdeu e o babaca não pode desgarrar. Contratar alguém para encontrá-la não ia fazer nada. —Outro encolher de ombros. —Então, não achamos que o risco fosse tão alto assim.

—Ele estava atrás de Lou.

—Porra.

—Hummm. —Eu pulverizei a cadeira, então a limpei enquanto Beau se engasgava com sua culpa.

—Tom. —ele começou.

—Não se preocupe com isso. —Eu olhei para ele então, e rosnei, —Mas saiba que não dou a mínima para quem você é, de você veio, ou o que pode fazer; você não é meu amigo, se não pode nem mesmo fazer a gentileza de me dizer que não vai caçar alguém corretamente.

Eu conheci Sage via Beau e alguns outros contatos também. Beau, eu conheci formalmente quatro anos atrás, quando nós dois estávamos caçando a mesma presa. Nós nos reconhecemos de ter frequentado a mesma escola. Ele era alguns anos mais velho que eu, o que muitas vezes confundia minha mente.

Na noite em que nos deparamos, anos depois que nossas famílias nos enganaram, em vez de competir ou matar um ao outro, dividimos o dinheiro do trabalho e mantivemos contato.

A mandíbula de Beau se apertou, sua língua patinando sobre os dentes atrás dos lábios fechados. Depois de um momento tenso, seus olhos azuis duros nos meus, eles suavizaram. —Sim, eu entendi. Não vai acontecer de novo.

Nós discutimos a que horas ele e Sage removeriam o lixo da minha casa, então ele me deixou com meus pensamentos enquanto eu limpava o chão.

Depois de algum tempo olhando para a cadeira, engoli a raiva residual e o medo que me compeliram a acabar com a vida de um estranho, e rapidamente limpei o banheiro minúsculo.

Com a toalha na mão e usando apenas as calças e cuecas do meu terno, apaguei a luz e subi as escadas. Entrei no código e empurrei a pesada porta aberta.

A luz do sol assaltou meus olhos e notei uma partícula de sangue dentro do meu pulso quando mudei minha mão para protegê-los, rapidamente limpei-a com a toalha úmida quando a porta se fechou atrás de mim.

Eu a ouvi, senti ela, antes que permitisse que meus olhos saboreassem a visão dela em um par de shorts jeans e uma camiseta amarela com mangas de babados.

O tom pálido da pele da minha Dove e a vibração de seu pulso nervoso em seu pescoço me fez parar com a toalha em volta da minha mão.

—Ótimo, —murmurei quando ela se virou e saiu correndo da sala. —Assim como ela está deduzindo, tive que matar alguém.

Capítulo trinta e quatro

Thomas veio ao meu quarto não muito tempo depois que o vi sair daquele porão com sangue manchado na toalha em suas mãos, mas não atendi a porta.

Ele ficou lá por alguns minutos, então ouvi seus passos suaves desvanecendo-se pelo corredor enquanto ele decidia me deixar só.

Eu tinha estado grata, e então estava com raiva por ter estado grata por ele ter me deixado em paz.

Minha cabeça nadou em um milhão de direções diferentes, mas a corrente mais forte continuou me levando de volta à noite anterior. Quando ele compartilhou partes íntimas de si mesmo, e depois se recusou a manter as mãos longe de mim durante a noite.

Combinar aquele homem com o de baixo era difícil, mas não era tão difícil como deveria ter sido. O que era preocupante, para dizer o mínimo.

Depois que Lou tinha trançado meu cabelo em uma corda que parecia retorcida, desci tomar café da manhã e café, e soube, depois de ver aqueles dois homens na cozinha, que me observaram com clara curiosidade, que tipo de visitante Thomas poderia ter.

Eu nem me incomodei perguntando onde ele estava. Apenas sorri e acenei com a cabeça em um olá quieto, esqueci de qualquer comida, e levei meu café para cima para encontrar Lou.

Eu não deveria ter voltado em busca de comida.

Thomas batendo na minha porta naquela tarde me lembrou que eu não estava de volta desde que o vi, e ainda não tinha comido.

A porta estava aberta, e ele entrou, seu olhar em mim quando disse: —Lou, vai me desenhar em um quadro com um sol realmente grande sobre ela?

Lou-Lou olhou de Thomas para mim e sorri em encorajamento. —E talvez um pouco de chuva.

—Um banho de sol? —ela perguntou.

Eu apertei seus quadris, colocando-a no chão. —Sim, adoro banhos de sol.

—Eu também! —Ela correu para fora do quarto.

Sozinho, Thomas fechou a porta e veio se sentar ao meu lado na cama. Sua mão se esticou e seus olhos pareciam pedir permissão, a qual eu apenas me mantive imóvel. Com o polegar alisando minha bochecha e sua palma quente pressionada contra a minha pele, quase podia esquecer o que ele tinha feito naquela manhã.

Quase. —Seu visitante ainda está aqui?

Thomas tirou a mão, como se saber sua resposta pudesse me forçar a afastá-la, e ele preferiria fazer isso do que eu rejeitar seu toque. —Não.

O silêncio desceu e me mexi na cama, enfiando o joelho sob o queixo enquanto o estudava. —Por que você usa ternos o tempo todo?

Parecendo um pouco chocado, seus lábios se separaram e seus olhos patinaram para baixo em sua roupa. —Eu sou um homem de negócios. Não me faria bem aparecer de outra forma.

—Seus amigos... —comecei a dizer, então pensei melhor.

—O que tem eles?

Eu puxei a memória para frente dos cabelos loiros na altura dos ombros em um deles, jeans e camiseta, e tatuagens. Então a cabeça quase raspada do outro, e seu short cargo e regatas. —Eles trabalham na mesma linha de trabalho que você?

Thomas franziu o nariz. —Alguns podem dizer sim, mas existem diferenças.

—Incluindo seus guarda-roupas.

Ele suspirou. —Você não gosta dos meus ternos?

Eu ri, em parte porque estávamos discutindo ternos quando assumi que ele tinha acabado de matar alguém horas antes, e em parte porque ele parecia francamente perplexo que eu estava questionando suas escolhas de roupas. —Não, não é que não goste deles. Acho que estava apenas me perguntando.

—Eu quero ser levado a sério e... —ele fez uma pausa, pesando o quanto queria admitir o que estava prestes a dizer —Eu acho que, depois de usá-los por tanto tempo, esqueci o que mais gosto.

O dia no bosque chegou e nosso encontro na cafeteria, quando murmurei: —Jeans e uma camisa polo preta.

Ele encontrou meu olhar com admiração enchendo seus olhos. —Posso beijar você?

Doeu, a palavra não ameaçou reduzir minha boca a cinzas, e então apenas balancei a cabeça.

Foram os olhos dele que revelaram qualquer ardor que minha relutância causava quando passavam de esperançosos para abatidos. Então ele se levantou, ajustando as mangas da jaqueta antes de verificar o relógio de bolso.

—Seu visitante está morto, não é?

—Sim. —disse ele de costas para mim.

Sua mão envolveu a maçaneta e fiz mais uma pergunta. —Quem era ele?

—Alguém que seu precioso federal enviou. Para pegar algo precioso de mim.

Eu suguei o ar tão forte, ele me alfinetou com um último olhar por cima do ombro. —Era matar ou arriscar tudo, Dove. Havia muito em jogo para deixar o que sinto por você adulterar meu melhor julgamento.

 


—Garota, você está testando os limites dos sentimentos daquele homem.

Eu olhei para cima de onde estava estudando as costas de uma brochura na biblioteca. —Tenho certeza que ele está bem.

A risada incrédula de Murry e minhas próprias mentiras me fizeram estremecer.

Eu coloquei o livro de volta na prateleira e peguei um diferente. —Ele mandou você para me verificar?

Ele zombou. —Não, ele preferiria te perseguir a ser um idiota perguntando onde estão seus sentimentos.

Eu sorri, abrindo o livro e folheando as páginas desgastadas pelo tempo.

—Então, onde eles se meteram?

Eu fechei o livro, colocando-o na pequena pilha que tinha recolhido na mesa lateral. —Prefiro não falar sobre isso. —Levantei meus olhos para ele, oferecendo um sorriso de lábios fechados. —Sem ofensa.

Ele levantou um ombro, depois se endireitou na prateleira contra a qual estava encostado. —Não tem problema, mas me diga isso, você tem medo dele?

—Não. —eu disse imediatamente.

—Nojo dele? —Uma sobrancelha erguida.

Isso eu era incapaz de responder tão rápido, e suspirei, me sentando na poltrona ao lado da minha pilha emprestada de livros. —Não é isso. Quer dizer, eu sabia e pensei que tinha envolvido minha cabeça em torno disso...

A voz de Murry se suavizou com compreensão. —Então aconteceu realmente.

—Sim.

Ele cantarolou, examinando o salão atrás dele rapidamente. Quando ele olhou para mim, disse com uma voz baixa, —Lou-Lou... ela causou fraturas em seu exterior. Mas você? Você cobrou e demoliu cada uma de suas defesas. —Ele inclinou a cabeça. – Não sei como, mas você mudou ele.

Minhas palavras eram todas distantes. —Também não sei.

Uma pausa pesada fez o eco do meu coração assustadoramente alto.

—Eu acho que não há como. —Seus olhos dispararam para a mesa lateral e depois de volta para mim. —Só há você.

Com isso, ele me deixou para digerir o que disse, e meu olhar seguiu para onde havia se inclinado para a mesa lateral.

Para onde aquele pequeno diário marrom estava.

Tudo me avisou para não tocá-lo, mas com o olhar fugaz de Murry, e a maneira como ficou de fora... Eu não escutei.

Meus dedos envolveram o couro liso e o abri.


Eu vou respirar por você

Quando você descongelar e segurá-lo

Quando você derreter

e esperar o momento em que

você acender e pegar fogo

em meus braços.

Pare de pensar

que a história é mais

quando você chegar ao fim

o fim é meramente um guia

de dez mandado

certo para as maravilhas

do desconhecido.


Páginas e páginas de poesia me encaravam.

Sem datas e sem carimbos de hora.

Apenas palavras.


A vergonha não tem lugar

onde seu coração deixa seu rastro

para perceber que você estava solitário

é medir o seu passado

contra o seu presente

e logo para o futuro.


Minta para mim, Dove,

então Agarre minha pele firmemente.

Minta para mim, Dove,

então sussurre seus suspiros.

Minta para mim, Dove,

então me dê seus gritos.

Minta para mim, Dove.

Minta para mim, Dove,

então faça tudo certo.

Minta para mim, Dove,

então me beije de boa noite.


Oh, querida

não exagera.

é apenas o seu coração

e meu coração

aprendendo a bater

ao som da eternidade.

você é um vício

que deixa meus pulmões

com cada inalar.

Mas não apenas palavras. Emoção sombria, assombradas e bonitas.

Eu quase pensei que ele não estava escrevendo sobre mim até que vi o da última página.

Minta para mim.

A última linha fora escrita com severidade, a ponta da caneta recuando a página com a dor.

Dor que eu causei.

Com a culpa rasgando meu peito, deixei minha seleção de livros para trás e pus de volta as lágrimas borrando minha visão quando saí da biblioteca.

—Entre, —Thomas cortou assim que bati na porta.

Ele olhou quando eu fiz e fechei a porta atrás de mim. —Lou está dormindo?

—Sim.

Suas respostas contundentes me lembraram das primeiras interações que tive com ele, e disse a mim mesma que merecia, em seguida, levantei meus ombros e pés, indo mais fundo em seu quarto.

Não havia sinal de que eu estivesse lá. Nenhum. Os restos do nosso jantar tinham sido limpos e a cama feita. O cheiro do nosso tempo juntos desapareceu do espaço cavernoso.

—O que é que você precisa, Dove? —ele perguntou, soltando as abotoaduras e jogando-as em uma bandeja de vidro na cômoda preta.

Você, tentei dizer, mas a palavra não passou pelos meus dentes.

Em vez disso, fiz o meu melhor para ignorar seu olhar glacial e puxei o diário das minhas costas. —Você... você escreveu tudo isso?

Olhos azuis gelados brilharam quando eles avistaram suas palavras, seu coração, em minhas mãos.

Seu tom era tão nítido quanto seu olhar, quando ele finalmente disse: —O que você achou que eu fazia no meu tempo livre? E com esse diário? —Quando hesitei, ele riu amargamente. —Não responda isso.

O pequeno diário pesou sobre meus ombros e meu coração quando eu disse: —Thomas, eu estou...

—Estamos de volta a Thomas agora? —Ele desabotoou a camisa, sua frustração fazendo alguns estalidos e velejando no chão, rolando e se espalhando. —Veja. —Ele suspirou, aproximando-se, mas parando a poucos metros de mim. —Nunca lhe pedi para gostar ou compartilhar meu trabalho comigo. Tudo o que esperava era... —ele parou, uma mão subindo e os dedos apertando a ponta do nariz.

Eu dei um passo à frente. —Era o que?

Sua mão bateu ao seu lado, e sua camisa branca se abriu, aquele corpo esculpido fazendo o seu melhor para me aproximar, mas fiquei parada. —Tudo o que esperava era que você gostasse de mim, que você talvez quisesse compartilhar minha vida comigo.

Sabendo que não deveria, mas não queria mentir, abri a boca. —Essas não são a mesma coisa?

—Não. Eu já te disse. Gosto do que faço, tão doente quanto isso pode me fazer parecer, mas não é a minha vida.

Eu olhei ao redor da extravagância do quarto, incapaz de impedir que meus olhos se estreitassem.

Sua risada estava escura e cheia de exaustão. —Esqueça.

Coloquei o diário no final da cama. —Eu não quero.

—Você com certeza poderia ter me enganado. —ele murmurou, arrancando a camisa e pegando o botão acima de sua braguilha.

—Tom... —eu tentei novamente.

—Apenas vá, Dove. Foi um dia longo e, francamente, não preciso ter você me atormentando ainda mais esta noite.

Seu tom não oferecia espaço para discussão e, na verdade, eu não tinha mais nada para lhe dar.

Exceto eu.

Então recuei em direção à porta, observando suas costas suaves enquanto seu corpo se levantava com respirações pesadas. E saí.


Capítulo trinta e cinco


Thomas foi chamado para um trabalho na manhã seguinte.

Ele saiu sem se despedir e ficou fora por dez dias.

No entanto, recusei-me a sair. Não por medo do que esperava além das muralhas do castelo, mas porque a qualquer momento que o pensamento tocasse minha mente, uma dor lancinante tomaria o órgão em meu peito, protelando meu coração e roubando meu fôlego.

Eu enfaixei meus sentimentos feridos, minhas preocupações e meu desejo por passar tempo com Lou. Mas depois de horas passadas dentro de casa e apesar do tamanho de sua casa, ela ficou entediada enquanto o verão se arrastava.

—Você é permitida sair?— Perguntei uma manhã enquanto ajudava Murry a limpar depois do café da manhã. Ele tentou me parar, mas desistiu dias atrás, quando não cedi.

—Claro. —Lou chupou a geleia de seus dedos, depois os soltou com um estalo alto. —Oh! Você não conheceu Jeffery, George e Babette.

Murry xingou, um prato caindo de suas mãos e na pia.

—Você está bem? —Eu perguntei.

—Tudo bem. —disse ele, pegando um pano de prato e secando as mãos. —Senhorita Lou, que tal você ir pegar o seu chapéu, e vamos mostrar a Jemma juntos?

Okie dokie.

Eu esperei até que ela saísse do quarto. —Me desculpe, eu esqueci...

—Não —interrompeu Murry, pendurando a toalha e depois desamarrando o avental. —Essa ameaça se foi, e a maioria não ousaria entrar nessa propriedade. Mas... eu vou com você.

Não foi até que vi os três enormes porcos em um chiqueiro meio acre atrás da casa que clicou.

As panquecas que Murry fez, ameaçaram dar uma cambalhota para fora da minha boca, mas pintei em um sorriso quando Murry levantou uma sobrancelha, percebendo que sua hesitação anterior não era tanto sobre a segurança de Lou-Lou.

Era sobre como eles usavam os porcos.

O chiqueiro era enorme e, ao lado dele, havia um celeiro que vira dias melhores. Provavelmente há muitos anos atrás. As portas de madeira estavam meio abertas, presas no chão coberto de terra, e a tinta branca e creme estava faltando na maior parte do exterior.

Lou jogou aos porcos um pequeno balde de sucatas, rindo enquanto bufavam e mancavam até a cerca.

Deixando-os para comer, nós caminhamos para o outro lado da propriedade, em direção à floresta que separava as terras de Verrone e Clayton, Lou-Lou correndo por ervas daninhas que eram quase mais altas do que ela.

Paramos ao lado do que eu pensava, quando olhei pela janela do meu quarto, era uma represa, mas na verdade era uma piscina negligenciada.

—Por que... —Perguntei, uma mão sobre meus olhos para protegê-los do brilho do sol, —...que o interior da casa se assemelha ao período em que foi construído, não há uma partícula de poeira ou desgaste à vista, mas aqui fora...? —Eu parei, sabendo que Murry iria pegar o que estava dizendo.

Lou-Lou pulou para um pedaço de flores silvestres.

—Para assustar as pessoas.

As palavras de Murry faziam sentido, mas parecia uma pena que um lugar em que pensava com tanta reverência em meu coração infantil parecesse ter sido abandonado.

Nós almoçamos juntos, e então Lou e eu nos retiramos para a sala de estar para uma maratona de filmes da Disney.

Foi logo depois do jantar, e Lou-Lou desmaiou com a cabeça no meu colo quando a sombra de Thomas se espalhou pela entrada em arco, seguida pelo próprio homem.

—Ei. —Eu tentei conter o alívio, a persistente queimação e saudade dançando através da minha corrente sanguínea esticando meus braços, tomando cuidado para não acordar Lou.

Thomas parou quando viu que ela estava dormindo, então franziu a testa pela comida presa em suas bochechas. —Ela tem seis anos. Ela pode ir para a cama suja de vez em quando.

—Eu posso banhá-la. —disse ele, curvando-se para escovar alguns cachos dourados de seu rosto pegajoso.

—Você não vai fazer isso. Vou passar uma toalha no rosto e nas mãos quando ela estiver na cama, se isso te deixar feliz.

Ele finalmente olhou para mim então, e sombras escuros se sentaram sob seus olhos, tornando o azul muito mais vibrante. —Murry disse que vocês foram ver os porcos.

—Nós fizemos. —Eu mordi meu lábio. —Você sabe, meu pai sempre disse para ser cautelosa com um homem que possui porcos.

Seus olhos estavam na minha boca. —Seu pai é um homem inteligente.

—Babette é o meu favorito.

Suas sobrancelhas franziram enquanto ele me estudava. Se ele estivesse esperando por mim para fazer outro comentário sobre sua razão para tê-los, ele estaria esperando um pouco.

Quando ele percebeu isso, subiu a sua altura máxima e foi embora.

—Eu senti sua falta. —soltei.

Todo o oxigênio na sala pareceu desaparecer quando seu corpo se trancou.

Então, lentamente, ele girou e caminhou para trás, segurou meu queixo e inclinou meu rosto para o dele. Depois de olhar para os meus lábios e encontrar meus olhos reforçando minhas palavras, assim como o aperto que minha mão tinha quando se envolveu em torno de seu pulso, ele pressionou sua boca na minha.

Depois de dez segundos felizes, quando senti meu coração encolher e curar um pouco mais, ele afastou os lábios e me deixou com palavras sussurradas: —Ainda bem que você ainda está aqui, Little Dove.

 

Um pouco mais tarde, depois que Lou estava deitada na cama com o rosto e as mãos limpas, para seu espanto quando ela se debateu e choramingou por mim, fui em busca do meu monstro.

A porta do seu quarto estava aberta, mas ele não estava lá. Nem estava no estúdio ou na biblioteca.

Procurando no andar de baixo, ouvi vozes se aproximando do corredor da cozinha.

—Não é esse cano. Aqui, saia do caminho —disse Thomas.

Eu assisti da porta quando Murry saiu de debaixo da pia da cozinha e fez uma careta, levantando e usando a bancada em busca de apoio.

—O que há de errado? —Perguntei.

—Alguma coisa está bloqueando o tubo. Eu tenho a sensação de que é comida triturada, mas não consigo tirar o otário.

Thomas, que vestira jeans, camiseta e chinelos, enfiou a sacola de ferramentas mais perto, já se escondendo embaixo da pia.

Murry olhou para as mãos, enojado, e saiu da cozinha.

Eu sufoquei uma risada e fui me sentar ao lado de Thomas no chão preto e branco.

—Oi, Monstro.

—Oi, Dove.

Eu sorri. —Onde você foi?

—Você realmente quer saber disso?

—Eu faço, na verdade. Também gostaria de saber por que você não se despediu de mim.

Ele demorou para responder, e observei sua camisa se elevar, expondo a mecha de cabelos escuros acima da calça jeans que tentava tocar meus dedos. —Eu tinha um trabalho no Arizona, mas não foi um achado fácil.

Assentindo, esperei que ele me contasse o resto.

—E eu não disse adeus porque estava me comportando como uma criança petulante que não conseguia seguir seu próprio caminho.

—Você não foi tão ruim. —disse, puxando as palavras.

—Mentirosa. —ele brincou, e seu pé coberto de chinelo cutucou meu pé nu. —Posso te perguntar uma coisa?

Eu o cutuquei de volta. —Claro.

—Seu federal, você sente falta dele também?

Oh.

—Hum. Bem, honestamente —seus músculos da perna pareciam tensos enquanto ele esperava -, desde que você me beijou na primeira vez na biblioteca, mal pensei sobre ele.

—E você o amava?

Isso fez meus pêlos se eriçarem. —Eu fiz.

Seu silêncio me disse que ele pensava o contrário, mas ignorei e perguntei algo que estava curiosa desde que ele partiu. —A primeira vez que você me beijou no meu carro...

—Ele grampeou seu carro.

—Certo. —Eu não sabia porque estava desapontada quando já suspeitava disso.

—Mas Dove?

—Hummm? —Eu encarei minhas unhas dos pés sem pintura.

—Eu queria, então acho que você poderia dizer que tirei vantagem. Mas essa segunda vez que te beijei? Foi só porque queria fazer isso de novo.

Um sorriso contraiu meus lábios, e meus pés balançaram quando me perdi entre as memórias, unindo todas as peças que antes pareciam tão intrigantes. —É por isso que você disse para não ligar para você, certo?

—Certo. —Um tilintar soou antes de ele dizer: —Estou curioso. Como ele atraiu você para a armadilha dele tão facilmente?

Eu queria argumentar que não, não tinha sido tão fácil, mas estaria mentindo. Eu fodi e confiei muito cedo. Era tão simples e tão complicado quanto isso. —Você realmente quer saber disso?

Ao ouvir suas palavras repetidas de volta para ele, uma risada baixa chegou até mim. —Eu quero, na verdade.

Eu sorri, mas foi rápido cair quando pensei naquelas primeiras semanas com Milo. —Ele era bonito, não sei... maior que a vida. Um sonho.

Thomas bufou. O ato raro levantou meus lábios. —Você estava apaixonada.

—Apaixonada?

—Sim. Apaixonada, impressionada. Obcecada, enamorada.

Eu fiz uma careta quando essa verdade afundou profundamente. —Eu deveria saber que era bom demais para ser verdade.

—Você não é tão insegura.

—Eu não sou. É só que nós éramos de mundos diferentes desde o começo. Não questionei, apenas corri direto para ele. Aberta. Disposta. Insensata.

Thomas ficou quieto por um momento, seu corpo ainda. Então ele murmurou: —Você pode ter sido um trabalho, mas ele não precisava concordar com isso. Ele teria dissecado tudo sobre você antes mesmo de murmurar uma palavra de compromisso. —Ele fez um gemido, então amaldiçoou, outro ato raro que apreciei. —O cara queria você. Foi uma vitória aos seus olhos.

Levantando os joelhos, inclinei-me para a frente, olhando ao redor da porta do armário. —Querer não é o mesmo que amar, é?

Seu braço se moveu, os músculos flexionando enquanto ele torcia alguma coisa de volta ao lugar antes de sair com cuidado debaixo da pia. Uma pilha de cabelos envoltos em lama atingiu o chão com um splat, seguido por uma chave inglesa.

Ele fechou a porta e recostou-se contra ela, olhando para mim. —Não é, mas alguns podem dizer que pode levar a isso.

Palavras se formaram e secaram sobre minha língua enquanto eu o observava ficar de pé e levar o lamaçal com ele para o lixo, depois lavar as mãos dele.

Chutando a caixa de ferramentas de lado, ele ficou parado por um momento, e pude sentir seus olhos no topo da minha cabeça, mas não olhei para cima. —Posso te perguntar uma coisa?

Em resposta, ele estendeu a mão e coloquei a minha nela. Sua pele quente enrolou ao redor da minha quando ele me puxou do chão sem esforço. Com as mãos emoldurando meu rosto, seus olhos saltando entre os meus, ele esperou.

—Eu sei que você disse que posso sair. —Seus cílios baixaram, então subiu quando eu disse: —Eu não quero. Ainda não, mas preciso ligar para meu pai e minha irmã.

Depois de me olhar por mais tempo, ele pressionou os lábios na minha testa, depois recuou, pegou a chave e a caixa de ferramentas e colocou um telefone na bancada.

Eu coloquei meus lábios entre os meus dentes para conter o meu sorriso e limpei a lágrima prestes a rolar pela minha bochecha.

 


—Eu peguei o seu texto. Estou feliz que a chuva tenha diminuído.

Confusa, estava prestes a perguntar do que ele estava falando, depois me lembrei.

Meu telefone. Thomas provavelmente tinha.

—Como está Cora? —Ele continuou.

Cora? —Hum, bem. —eu disse, andando no tapete em passos lentos. Vendo que eu não conhecia ninguém chamado Cora, descartei o assunto. —Então sei que você não vai querer ouvir isso, mas... —Um sorriso esticou meu rosto e tingiu minha voz. —Eu meio que conheci alguém.

O silêncio do meu pai fez meu coração bater e meus pés pararam de se mover. —Você tem certeza de que está pronta para isso? —Ele soltou uma respiração áspera. —Eu não tenho certeza se estou pronto para isso.

Espreitando a porta aberta do meu quarto para as sombras iluminadas de bronze além, continuei a sorrir. —Acho que estou pronta para ele há muito tempo, mas só precisava da vida para estragar tudo primeiro.

Papai riu. —E esse cara, ele é amigo de Cora?

Andando até o assento da janela, movi as cortinas de lado. A lua prateada cobria as copas das árvores, e podia imaginar meu pai na fazenda de dois andares do outro lado daquelas árvores, bebendo sua segunda xícara de chá para a noite em sua poltrona reclinável em frente à TV.

—Não, ele é de casa, na verdade.

Papai bocejou. —Bem, espero por Deus que ele tenha mais boas maneiras e respeito, isso é tudo que posso dizer. —Ele resmungou algo sobre Milo em voz baixa, depois suspirou. —Mas você já sabe...

—Você não vai pensar que qualquer homem é bom o suficiente. —Eu ri. —Eu sei.

Seu sorriso era evidente em sua voz quando ele disse: —Você sempre foi muito doce para o Joe comum. Quando você volta pra casa?

Sabendo o que sabia agora, sobre o caso de mamãe, queria correr pela floresta e apertá-lo em um abraço. Mas a necessidade de respeitar seus desejos anulou o desejo, não importa o quanto doesse.

—Eu não tenho certeza. —admiti. —Mas vou ligar para você assim que descobrir.

—Certifique-se de fazer. E trazer esse novo cara por aqui. Preciso de uma desculpa para polir minhas armas novamente.

Rindo, eu disse: —Amo você, papai. Boa noite.

—Boa noite, Jemmie.

Desliguei e olhei para o protetor de tela do telefone de Thomas. Era uma foto de Lou-Lou do início deste ano. Ela estava vestida como um leão para a semana do livro, orelhas minúsculas sentadas em cima de uma faixa na cabeça, e bigodes pintados em suas bochechas.

Enquanto tentava me lembrar do número da minha irmã, me perguntei brevemente que tipo de coisas encontraria no telefone em minhas mãos. Balançando a cabeça, dei o meu melhor palpite e apertei o telefone ao ouvido novamente. Ele não manteria nada incriminador de qualquer maneira.

—Olá? —a voz confusa da minha irmã soou.

—Ei, sou eu.

Ela parecia estar verificando o número. —Você conseguiu um telefone novo?

Eu liguei para o telefone da casa para falar com o meu pai, e ele não foi capaz de ver de onde eu estava ligando. Não pensei sobre isso com Hope e interiormente me chutei. —Não, está cobrando. Estou com uma amiga e estou usando a dela.

—Você vai ficar com a amiga.

—Uh-huh, —eu dirigi a conversa para a frente. —Como você está? Como estão os rapazes?

—Sendo pequenas merdas, mas bons. Com qual amiga você está ficando?

Merda. —Cora, da escola.

—Eu não me lembro de uma Cora.

Dupla merda. —Ela começou depois que você já se formou.

Meus olhos se fecharam até que Hope disse: —Ok, então. Então, o que vocês estão fazendo?

—Uh, fazendo compras e coisas assim. Principalmente apenas saindo.

Ela deu uma gargalhada. —Corte a merda, Jemima. Você raramente fala com seus velhos amigos e só compra quando precisa de coisas ou livros. Onde você está e por que mentir?

O que dizer, o que dizer, o que dizer.

Eu decidi ser a mais honesta possível. —Lembra daquele cara que eu estava falando?

—O estranho?

Eu fiz uma careta. —Ele não é... —Eu exalei um suspiro alto. —Ok, sim. Aquele.

Esperei que ela chegasse a suas próprias conclusões, sabendo que seria a maneira mais fácil de lidar com isso. —Você esteve com ele?

—Sim.

—E você não contou a ninguém porque, por quê? Sentiu que era cedo demais? Ou estava com medo que tudo explodisse de novo?

—Mais ou menos, mas há mais. —Eu lambi meus lábios, caindo para o assento da janela. —Você tem tempo para uma longa história?

—Deixe-me derramar um copo de vinho.

Quando ela estava pronta, contei tudo a ela. Tudo menos de Thomas me levando, e o que ele fazia para viver.

Depois que ela se recuperou do choque, perguntou: —Quem ele estava investigando?

—Eu não sei, ele não disse. —menti.

—Provavelmente não é permitido. Ainda assim, porra, é um idiota.

Sorrindo, concordei. Então contei a ela sobre o que aconteceu com a mamãe, como isso envolveu os pais de Thomas, e a fiz prometer não contar a papai sobre isso.

—Sim. —ela disse depois de tomar um momento para digerir tudo. —Melhor que ele não saiba que nós sabemos. Ele obviamente guardou isso de nós, pensando que era para nosso próprio bem e para o dele.

Eu mastiguei meu mindinho. —Você acha que ela teria nos deixado?

Hope pensou nisso por um minuto. —Gostaria de dizer que ela não iria, mas quando você ama alguém, faz algumas coisas malucas. —Ela grunhiu, —Como deixar seu marido fingir estar em um relacionamento com outra pessoa para um trabalho, ou mentir para sua família para se esconder em um castelo na floresta por semanas.

Eu ri, saboreando a lembrança do que Milo já não fazia.

—Sério. —Ela riu. —Sua vida. —Então a voz dela baixou. —Então, é tipo, apenas uma gigante festa de foda?

—Ele tem uma filha, e não, nós estamos nos conhecendo.

—Oh, isso mesmo. —Ela cantarolou. —Um pouco estranho, que você está com o filho do homem que mamãe não poderia ter. Meio bizarro. —Ela engoliu um pouco de vinho. —Eu gosto disso.

—Você não está chateada? —Perguntei com uma pitada de descrença.

—Sobre a mamãe? —Ela zombou. —Fiquei triste por anos, mas acabei deixando a tristeza para trás. E sabe de uma coisa? Estou feliz que eu não soube naquela época. Eu teria sido muito pior como uma adolescente, com certeza.

—Tão verdade.

—Hey. —ela zombou. —De qualquer forma, você não pode economizar nos detalhes. Espere, mande uma foto dele.

—Não, você pode conhecê-lo e ver por si mesma. —Apreensão sobre a ideia de Thomas e Hope estarem na mesma sala me fez correr para dizer: —Um dia.

—Você é tão chata. Nem mesmo uma foto de pau sorrateira...

—Você é casada, —assobiei.

—O que? Ainda posso olhar. —Ela bufou. – Não é como se Jace não faça. O casamento não deixa você cega, pelo amor de Deus.

Deixei-a divagar por mais algum tempo até que o silêncio fora do meu quarto ficou mais espesso, e minha mente começou a se mover para o homem no quarto no topo da escada. Então eu disse que ligaria para ela em alguns dias e me despedi.

Recolhendo uma camisola e uma calcinha nova, percorri o corredor até o banheiro e tomei um banho antes de chegar à sua porta com o celular, o rosto nu e os mamilos grudados no tecido preto agarrado ao meu corpo úmido.

 

 


Capítulo trinta e seis


Thomas

—Eliminado?

Suspirando, puxei os lençóis e joguei os travesseiros de lado. —Sim.

—Eliminado como?

—Cérebros salpicaram contra a parede e evidência suficiente para sugerir suicídio, eliminado. Verifique as notícias locais para a sua prova.

Ele tossiu. —Entendo. Vou transferir o resto do dinheiro agora.

—Prazer fazer negócios com você. —Eu desliguei o telefone e coloquei na gaveta do criado mudo.

O pedófilo volúvel me mandou em uma perseguição selvagem pelo deserto, mas, infelizmente para ele, ele tocou o filho do homem errado. Agora estava apodrecendo nas mais quentes profundezas do inferno.

Após o banho, puxei algumas cuecas e subi na cama. Nem um segundo depois, uma leve batida soou, e eu disse: —Entre.

Eu assisti de onde estava deitado quando ela entrou no quarto, fechou a porta e colocou o telefone na prateleira perto da janela. – Obrigada.

—Sua família está bem?

—Papai estava bem. —disse ela, caminhando com deliberada lentidão em direção ao outro lado da cama. —Hope sabia que algo estava acontecendo, então dei a ela metade da história.

Minha sobrancelha arquearam, meus olhos caindo dos dela para seus seios, seus mamilos duros contra o tecido de sua camisola. —Metade?

—A metade que não teria ela chamando a polícia. —Eu mexi, meu pau com toda a atenção, enquanto seus joelhos batiam na cama. —Posso?

—Nunca pergunte, Dove. —Eu levantei os lençóis, expondo meu peito nu e coxas. —Sempre faça.

Ela colocou um pouco de cabelo atrás da orelha, um sorriso tímido tocando em seus lábios perfeitos enquanto ela espiava minha cueca em tenda.

—É verão. —eu disse com um encolher de ombros.

—E decidi que agora é minha estação favorita. —Sua voz cheia de luxúria acariciou as partes mais duras de mim, sua camisola caindo enquanto ela se arrastava pela cama, expondo os globos ondulantes de seus seios.

Assim que ela estava a uma curta distância, agarrei em seus braços e gentilmente a puxei sobre mim. Minhas mãos foram para suas coxas, alisando-as até a bochecha da sua bunda, em seguida, empurrei sua calcinha para baixo até que ficaram sob suas bochechas. —Qual era a sua estação favorita antes?

—Primavera. —ela murmurou, seus olhos escurecendo quando olhou para mim.

Agarrando a parte de trás de sua cabeça, fiz nossos lábios colidirem, então a rolei de costas e rasguei sua calcinha por suas pernas.

—Abra para mim. —eu disse asperamente. —Mostre-me sua carne molhada.

Seus joelhos se separaram, caindo na cama, seus pés subindo quando ela subiu a camisola mais alta.

Ela me deixou olhar, então me deixou murmurar coisas incoerentes para suas partes íntimas enquanto eu brincava com ela, meus dedos logo encharcados na evidência brilhante de que ela queria a mim.

Ela era uma bagunça se contorcendo no momento em que minha língua encontrou aquele broto inchado, e ela explodiu, suas pernas me prendendo enquanto eu lambia tudo o que seu corpo sentia por mim.

—Tom. —disse ela entre respirações.

Eu belisquei sua coxa, em seguida, acalmei a dor com meus lábios e língua, nossos olhos se encontrando sobre seu estômago tenro. —Você estará aqui de agora em diante. —Levantando, chutei minha cueca, então fiz sinal para ela vir até mim no centro da cama. —Suas coisas neste quarto e você nesta cama.

A brisa levantava as cortinas, e uma coruja chamava alto no céu, mas eu não conseguia pensar, sentir, ouvir ou ver qualquer coisa além dela, enquanto ela erguia a barreira de cetim sobre a cabeça e depois me montava.

—Toda noite, para sempre. —eu disse, tomando um mamilo na minha boca e chupando enquanto olhava para ela.

Seus olhos estavam meio abertos, os restos de seu orgasmo deixando seu corpo flexível e sua voz rouca. —Nós nunca vamos dormir.

Minha língua percorreu seu pescoço, sobre o queixo. —Nós vamos dormir quando estivermos mortos. —Eu peguei seus lábios, os dela encontrando os meus com uma fome que fez meu coração bater em cada membro do meu corpo.

Seus quadris se levantaram, sua mão alcançando entre nós para apertar suavemente antes de guiar um pecador para o céu.


Capítulo trinta e sete


—Uma outra palavra para louco?

Tomei um gole da xícara de chá floral, refletindo sobre a pergunta de Thomas. —Mental.

Ele cantarolou. —Não está certo.

Eu virei a página do meu livro. – Excêntrico.

Ele fez um barulho ofegante.

Eu olhei para ele, um sorriso provocando meus lábios. – Desequilibrado.

Seus olhos brilhavam. —Perfeito.

Observando enquanto ele rabiscava a palavra em seu diário, depois mordeu a ponta da caneta, tomei outro gole de chá e voltei minha atenção para o livro no meu colo.

Fazia duas semanas desde que me mudei para o quarto de Thomas. Duas semanas de noites sem dormir seguidas de dias preguiçosos passados com ele e Lou. Alguns dias, como hoje, passaram com apenas ele. Dormimos até tarde e, sem falhar, todas as manhãs, ele apertava os braços em volta de mim e sussurrava as mesmas palavras cobertas de sono: —Minha Dove.

Eu nunca me senti mais querida, mais amada sem qualquer sussurro da palavra, e mais em paz. Como se a vida tivesse me lançado e me transformado nessa mulher que estava preparada para assumir a tarefa de amar um homem com quem a maioria gritaria.

No entanto, não parecia uma tarefa. Parecia tão natural quanto respirar.

Thomas era um paradoxo.

A ternura benevolente escorria de seu coração mesmo quando o sangue e a violência manchavam sua alma.

Nunca pensei que a combinação pudesse se misturar. Ou que faria algum sentido.

Mas aconteceu.

Ele fez.

Thomas Verrone fazia todo o sentido para mim.

Seu telefone quebrou o feitiço dos meus pensamentos, e ele procurou cegamente por ele no bolso do jeans enquanto tentava terminar o que quer que estivesse escrevendo naquela manhã.

—O que? —O alargamento de seus olhos fez minha mão parar quando levou a xícara de chá de volta para a mesa lateral.

—Como diabos alguém pode roubar uma criança de seis anos de uma festa?

Com um estrondo que mal ouvi, o chá caiu das minhas mãos, espirrando no tapete e se acumulando ao redor da porcelana quebrada.

Thomas não pareceu notar e, em vez disso, estava andando pela sala, com o diário e a caneta jogados no chão. —Não, volte aqui. Agora.

Ele desligou e foi sair do quarto, e com o coração preso uma batida, eu engasguei, —Lou?

Murry, querendo dar tempo a Thomas e a mim, levou-a para a festa de aniversário de Rosie. Murry não podia ser visto em público, não com um preço sobre a cabeça dele, mas ele a deixou e disse que a observaria entrar e esperaria na frente.

—Levada. —Thomas cortou, em seguida, desapareceu no corredor.

Querendo ir atrás dele, para tranquilizá-lo de que ela ficaria bem, tentei forçar meus membros a se moverem.

Então um estrondo soou lá embaixo, e eu sabia que a minha presença não era o que ele precisava agora. Agora, ele precisava de um plano.

 


Olhei pela janela, lágrimas silenciosas percorreram minhas bochechas até que finalmente, Murry, dirigindo o carro de Thomas, correu pela estrada, e corri escada abaixo.

—Você viu quem a levou?

—Ele andou bem na minha frente, sorriu e eu saí, pronto para persegui-lo, mas depois ele se foi. Colocou-a na parte de trás de uma caminhonete azul. —Ele passou a mão pelo rosto, perturbado. —Eu os persegui, mas os perdi quando atingimos a periferia da cidade.

Thomas amaldiçoou uma tempestade, sua mão repetidamente mergulhando em seu cabelo, puxando enquanto ele andava pelo tapete na sala de estar. Ele parecia um animal enjaulado, e se eu não estivesse tão distraída com a descrição do caminhão, iria querer envolver meus braços ao redor dele.

—Miles, quero dizer, Milo a levou?

Os dois se viraram, os olhos de Thomas se encheram de raiva fria e dura, e os de Murry de remorso. Ele puxou suas cicatrizes e achatou seus lábios quando assentiu.

As portas da frente se fecharam e, um segundo depois, Beau apareceu com o cabelo molhado e os olhos famintos enquanto patinavam pela sala. Ele esfregou as mãos tatuadas juntas. —Certo, qual é o plano do jogo?

—Nós não temos um. —disse Murry.

Beau franziu a testa, as mãos caindo. —O que?

Antes que eu pudesse abrir minha boca, Thomas estava na minha frente, pressionando uma arma sob o meu queixo. Engoli em seco, o metal frio mordendo minha pele, mas foi o abrasador de seus olhos azuis traídos que doeu mais. —O que você fez?

—O... quê? —Eu tentei falar, mas a pressão da arma prendeu minha mandíbula fechada.

—Tom, foda-se. Guarde isso, —Murry rosnou.

—Cale-se. —Ouvi a trava ser desbloqueada, e a voz de Thomas ficou tão fria que sua respiração queimava a pele do meu rosto inferior. —Você esteve esperando, não foi? Aguardando seu tempo.

Sua cabeça inclinou para o lado. —Diga-me, Dove. Este era o seu plano? Me enganar acreditando que você estava confortável, que você queria estar aqui, que se importava muito com a gente para nos trair... —suas narinas chamejaram, estreitando os olhos para fendas —...apenas para lhe dar provas suficientes, e minha filha, como alavanca. para acabar comigo?

—T... Tom. —tentei novamente falar.

Ele pressionou mais forte e estremeci quando a dor atravessou meu queixo. —Porque se eu descobrir que é verdade, independentemente do que vocês dois pensem que você pode fazer comigo, eu vou matá-lo...

—Tom. —Beau apareceu atrás dele, tom cheio de aviso. —Vamos lá, já chega.

—Eu vou matá-lo... —continuou ele, —...ao longo de uma semana, e vou me certificar de que essa bala, nesta mesma arma, só entre no seu cérebro bonito e traidor depois de ter me visto remover cada pedaço de pele do corpo dele. Cada. Fodida. Peça.

Beau o puxou de volta, e Thomas deu de ombros, os olhos nunca deixando os meus enquanto eu lutava para puxar o ar para dentro dos meus pulmões e cuidadosamente movia meu queixo.

—Eles não podem simplesmente pegar uma criança de uma festa de aniversário, Thomas. Federal ou não, o sequestro não voa, —Beau disse.

Thomas esfregou a testa, a arma pendurada na outra mão. —No caso de não ser óbvio, ele não está mais sendo um bom policial. —Seu peito subiu bruscamente quando ele tirou os olhos de mim. —Tire ela daqui. Murry, leve-a para baixo.

Murry virou-se para Thomas. —Tom, pense sobre isso um minuto.

—Tarde demais para isso. Pensar é algo que eu deveria ter feito semanas atrás.

Beau segurou meu braço, seu aperto surpreendentemente gentil enquanto me guiava para fora da sala e em direção às portas da frente.

Meus olhos molhados e coração batendo dificultavam ver. Tornou difícil colocar meus pensamentos juntos. – Espere.

Beau parou, falando baixo. —Nem tente isso. Você precisa ir a menos que queira acabar de volta naquele porão. Se você acha que ele estava brincando...

Minha mão varreu meu cabelo. – Não, eu sei. Mas Milo... ele me quer.

Beau franziu a testa e soltou meu braço. – Explique.

Minhas palavras foram apressadas, minha mão presa no meu cabelo. —Eu era o peão dele. Eu era o caminho dele. E Thomas está certo, sou a prova que ele precisa. E sei que você pode não acreditar em mim, mas isso não significa que eu conspiraria contra ele, ou que planejo contar qualquer coisa a alguém. Apenas... —Eu soltei um suspiro trêmulo. —Me leve até ele. Por favor. Vou pegar Lou de volta.

Beau se inclinou para frente. —E como diabos você sabe onde ele está mantendo ela?

—Eu sei onde ele estaria. Se esse era o seu plano, ele facilitaria para mim.

Beau chupou os dentes, olhando para mim por um longo momento. Foi um olhar que me fez dar um passo desequilibrado para trás enquanto a culpa espreitava em seus olhos, iluminando ainda mais meu coração em chamas. Eu sabia que ele não acreditava em mim, não inteiramente, mas seus ombros caíam. —Bem. Lidere o caminho.

—Mas... —Eu olhei de volta pelo corredor.

—Esqueça. Ele é muito de qualquer coisa agora para pensar claramente. Vamos lá.

Meus joelhos ameaçaram se dobrar quando entrei pela porta da frente.

Eu sabia que Thomas estava com medo, que ele estava ferido e com raiva, e no fundo, não podia nem culpá-lo por me acusar de traí-lo.

Lá no fundo.

Pois na superfície, tudo que podia sentir eram suas ameaças em camadas de gelo, e o metal frio de sua arma contra a minha pele trêmula. Pele que ele prometeu amar e adorar com palavras escritas e sussurros calorosos.

Ele não era mais meu monstro; ele era agora o monstro que precisava ser para recuperar sua garotinha.

Mesmo que isso significasse me arruinar.


Capítulo trinta e oito


—Quando você terminar com isso, ligue. Sua bolsa, telefone, tudo isso está atrás.

Pisquei pelo que pareceu a primeira vez desde que saímos de Glenning e nos viramos para pegá-lo do banco de trás.

—Não vai me perguntar como eu sei?

—Isso importa?

Beau riu. —OK. Bem, tirei do seu carro. Que está estacionado no celeiro. —Quando me lembrei de que os celeiros estavam meio abertos, ele acrescentou: —Há uma entrada traseira para aquela coisa antiga. Obrigado pelo nariz quebrado, a propósito.

Meus olhos se arregalaram com isso. —Foi você quem me agarrou?

Seu lábio superior se curvou. —Claro que sim.

—Eu não vou me desculpar pelo nariz, então.

Beau soltou uma risada e depois ligou o rádio.

—Eu sei no que você está pensando. —Beau disse depois que uma música terminou de tocar no silêncio, e então mal olhou antes de entrar nas fileiras de tráfego colorido indo para a cidade.

Meu olhar permaneceu treinado na janela. —Tenho certeza que você acha que sim.

Mais uma vez, ele riu. —Eu gosto de você e tudo. Acho que ter você por perto soltou Tom um pouco. Mas você precisa perceber que não está com um homem racional.

—Eu sei. —Rapaz, eu sabia?

Ele se virou na direção da saída da cidade. —Então, por que você soa como se pudesse chorar a qualquer minuto?

—Estou bem. Apenas preocupada com Lou.

—Uh-huh. Tom apenas ameaçou te matar e te culpa por tudo isso, mas você está bem.

Eu deixei meus cílios tremerem sobre novas lágrimas. Eu tinha que desligá-las. —Eu vou estar. Nós só precisamos recuperá-la.

Beau suspirou. —Olha, você e eu sabemos que seu idiota não vai machucá-la. É com você que deveria se preocupar.

—Ele não vai me machucar também.

—Ele já não fez?

Eu olhei para ele, e seu rosto sorridente fez minhas mãos coçarem para bater em alguma coisa.

Eu desviei o assunto. —E o que você faz para viver, Beau?

Ele falou. —Que pergunta. —Ele fez uma pausa antes de dizer: —Tudo que você precisa saber é que eu faço o que quero.

—Isso envolve matar pessoas?

Amaldiçoando, depois rindo, ele olhou para mim. —Vá direto ao ponto, por que você não faz? —Ao olhar sem graça no meu rosto, ele passou a mão pelo seu cabelo loiro sujo. —Às vezes, claro.

Eu já sabia disso, mas estava muito perdida dentro dos sentimentos rasgando minhas entranhas para me importar.

Beau desligou o rádio assim que nos aproximamos. —Então, o que você vai dizer a ele?

—Nada.

Ele fez um som de escárnio. —Isso provavelmente não vai funcionar. Você precisa de um plano de ação. Precisa dar a ele algo para dar o fora.

Ele parou e soltei o cinto de segurança e saltei duas casas abaixo da que eu compartilhava com o homem com quem pensava me casar. —Você não precisa se preocupar comigo.

—Ok então, senhora. —Beau riu em torno das palavras. —Mande-a para fora assim que puder. Vou continuar circulando o quarteirão até que a veja.

A caminhonete de Milo estava estacionado na entrada, a luz do sol refletindo no para-choque cromado. Beau se virou e foi embora.

Minhas pernas eram de concreto enquanto eu as forçava a subir. Minha mão uma pedra enquanto batia na porta o mais forte que eu podia, e meus olhos se encheram de mais lágrimas quando Lou-Lou abriu a porta. —Jemma!

—Ei, pequena Lou. —Envolvi meus braços ao redor dela, inalando seu aroma de canela, então sussurrei: —Beau está vindo para buscá-la, ok? Vá até o final do caminho e espere até que você o veja.

—Ok, mas fizemos biscoitos. —disse ela.

Eu olhei para cima, direto nos olhos de desespero.

Um pequeno sorriso surgiu nos lábios de Milo. —Ei, Jem.

—Vá. —eu disse a Lou quando ouvi a caminhonete de Beau parar algumas casas abaixo.

Ela se despediu de Milo, correu pela grama e voltei minha atenção para Milo antes que ele pudesse sair e piorar as coisas. —O que você estava pensando?

—Eu nunca machucaria uma criança, Jem. Vamos. —Ele teve a audácia de revirar os olhos. Um par de algemas foram tiradas do bolso de trás. —Mas vou precisar te convidar para fazer algumas perguntas sobre o bem-estar da srta. Lou-Lou Verrone. Você sabe, sendo que você é sua professora e tudo.

Eu assobiei. —Agora? Você está interessado em seu bem-estar agora?

Eu me afastei quando ele se aproximou, alcançando meu pulso. —Você sabe por que estou levando você. Por favor, não torne isso mais difícil do que precisa ser.

—Você não está me algemando. —eu cuspi. —Vou entrar na maldita caminhonete por mim mesma.

Quando me aproximei e abri a porta, rapidamente olhei para a rua. A caminhonete de Beau não estava em lugar nenhum e meu estômago afundou quando subi no carro.

—Jem. —Milo entrou e a caminhonete resmungou para a vida. —Fale comigo. Que porra aconteceu aí? —Seus olhos me olharam.

—Eu pareço ter passado o mês passado com um assassino?

Sua mandíbula se apertou, depois ele saiu da garagem. —Eu só quero ter certeza que você está bem.

—Não, você quer me usar para chegar a um homem que não fez nada de errado. —Era fácil mentir, descobri, quando fazer o oposto poderia destruir seu coração. O meu não aguentava mais danos.

—Você sabe que não é verdade.

Eu não disse nada enquanto ele dirigia pelas ruas suburbanas, depois seguia a estrada principal para a cidade. E resolvi fazer exatamente isso.

Até ele começar a falar sobre nós.

—Você nem ao menos sabe... —ele riu —...como eu estava preocupado pra caralho, Jem. Se algo acontecesse com você...

—O que? —Eu perguntei. —Você o que, Milo? Você não tem um casamento quebrado para consertar?

Sua boca se fechou e permaneceu assim até chegarmos à delegacia de polícia e ele me levou para dentro, passando direto pelo atendente da mesa e descendo por um corredor pintado de cinza até uma sala vazia.

Aproximando-me da mesa, sentei-me em um assento, o ar frio fazendo com que os pelos dos meus braços ficassem em pé enquanto eu observava Milo ligar um sistema de gravação na parede, depois sair do quarto.

Era surreal vê-lo fazer um trabalho que não fazia ideia de que ele fosse capaz.

Como era fácil esquecer como estava ferida por suas mentiras, quando meu coração doía mais e por diferentes razões.

Por um homem diferente.

Milo voltou com um pequeno arquivo, e empurrei a emoção desesperada para rastejar para fora da minha garganta e olhos.

—É isso? —Eu levantei uma sobrancelha.

Ele franziu a testa, puxando uma cadeira em frente a mim na mesa, em seguida, tomando um assento. —O que há com a atitude?

—O que é com o sequestro de uma criança de uma festa de aniversário só para me fazer falar com você? —Quando ele lançou um olhar preocupado para o dispositivo de gravação, eu sorri. —Opa! Sequestrar crianças não está bem? Mesmo para um agente federal?

—Jemima. —ele avisou.

—Você sabe, poderia te perdoar por ter ferido a minha vida e quebrar meu coração com suas mentiras, mas levá-la? —abaixei minha voz, empurrando as palavras com os dentes cerrados, —Isso eu nunca vou perdoar.

Eu poderia dizer quando o Miles que eu conheci se tornou Milo, sua máscara se esvaindo. —Por que você se importa tanto com ela? Ela não é apenas uma estudante?

—Eu quero um advogado. —eu disse.

Ele gargalhou. —Jem, o quê?

—Você me ouviu. —Eu olhei —Não vou responder a nenhuma pergunta sem um advogado presente.

—Você não precisa de um.

Fingi parecer interessada em minhas unhas sem pintura. —Eu decidi que gostaria de um de qualquer maneira.

Seu olhar duro ameaçou me achatar no assento, e eu poderia ter cedido alguns meses atrás. Mas isso era o agora. Antes do meu mundo virar de cabeça para baixo. Para melhor, não importa o quanto meu peito estivesse em chamas.

—Você está falando sério.

—Mortalmente.

Ele piscou, depois riu e esfregou a mão sobre o queixo de barba por fazer. —Nós não somos os bandidos aqui.

—Nós? —Perguntei, fingindo olhar em volta. —Engraçado, a única outra pessoa aqui que está mesmo remotamente interessada em mim é você.

—Jem, eu quero ter certeza de que você está bem. —Seus olhos imploravam, mas seus olhos eram mentirosos cuidadosamente treinados também.

—E como eu disse, estou bem.

—Você foi sequestrada por um assassino. Um criminoso com fortes laços familiares com a máfia siciliana. Alguém que gosta de matar os outros para viver. —Ele disse as palavras lentamente, como se minha viagem fora de casa tivesse me custado mais do que algumas células cerebrais.

—Não. —eu disse, depois retribuí, —...passei metade do verão na casa do meu namorado. Há um pouco de diferença.

Ele se acomodou na cadeira, passando a mão pelo cabelo. —Jesus, foda-se. Você está brincando certo?

Eu só olhei para ele.

—Jem, não. —Ele se inclinou sobre a mesa, o rosto empalidecendo e a mandíbula se endurecendo. —Isso está tão longe de estar bem, não é nem engraçado. —Lembrando que estávamos sendo gravados, sua voz baixou para quase um sussurro, enquanto ele acusava: —Como você pode o foder?

—Não há mais nada que você realmente precise saber, então até eu conseguir um advogado, já terminei de falar.

Ficamos sentados em silêncio, bem, por mais dez minutos. Milo atirou em pergunta após pergunta, mandando um olhar suplicante, mas acabou cedendo e saiu da sala.

Eu assisti o relógio, imaginando quanto tempo Lou estava em casa. Se Thomas estava bem, ou se, no mínimo, ele se acalmou.

Milo retornou quando o relógio bateu três. —Vamos.

Eu fiquei de pé, a cadeira quase caindo na minha pressa de sair de lá. —Eu estou livre para ir?

—Não. —ele disse, sem olhar para mim. —Você está em uma cela esta noite por impedir uma investigação federal. Mas não se preocupe, vou garantir que você consiga uma para si mesma.

Minha garganta se fechou quando ele pegou minha bolsa da mesa, mas resmunguei, —Puxa, quão cavalheiro de sua parte.

Seu toque me fez querer chegar ao redor e socá-lo, talvez acerta-lo nas bolas novamente. Mas muito chocada com o inesperado, era tudo o que podia fazer para respirar corretamente quando ele me fechou em uma pequena gaiola que cheirava a amônia e suor.

O portão verde sacudiu quando ele trancou, então apoiou os antebraços nele. —Chame quando estiver pronta. —Depois de apontar para a pequena câmera preta no teto, ele se afastou.

Recusei-me a chorar, mas, santa mãe eu deveria tê-lo chutado nas bolas, foi difícil.

Olhei para o colchão manchado que não era mais grosso do que o meu polegar e afundei no chão de concreto, com a cabeça apoiada na parede remendada atrás de mim.

Com mais nada para fazer e sem chance de dormir, sentei-me e esperei.

Ele estava bravo, mas talvez viesse por mim.

Mas depois de comer um pãozinho e ignorar a pilha de lodo que eles chamavam de sopa para o jantar, me despertei do sonho ingênuo novamente.

Ele não podia nem se quisesse.

Isso provavelmente também fazia parte do plano de Milo. Embora soubesse o que ele seria capaz de fazer se Thomas entrasse no recinto. Eu apostaria um monte de nada, ou ele já estaria sob custódia, mas aquele pequeno arquivo sugeria o contrário.

No mínimo, ele poderia acabar onde eu estava, e o pensamento dele aqui, andando de um lado para o outro com a fúria iluminando seus olhos azuis me fez sorrir, mesmo quando implorei a quem quer que ouvisse meus pensamentos para ter certeza de que não acontecer.

Passos se aproximaram de mim. —Jem-Jem.

Minha cabeça rolou para encarar Milo quando ele se abaixou para sentar no chão. —Posso ir já?

Ele balançou a cabeça e pegou as barras. – Não posso fazer isso. Eu quero, mas não posso. —Ele soltou uma respiração áspera, olhos encontrando os meus. —Por favor, apenas... me dê algo. O que você viu? O que ele te falou? Alguma coisa.

Eu me virei e continuei olhando para a tinta descascada. —O que estava no envelope que você tinha para mim na mercearia?

—Chaves para um carro que ele não saberia seguir. E direções para um hotel.

Eu falei novamente antes que ele pudesse. —Você sabia o que aconteceu com a minha mãe.

Seu silêncio foi resposta suficiente.

Alguns minutos se passaram antes que ele começasse a conversar. Eu não sabia se o plano dele era conversar até que eu dissesse algo que não deveria dizer, mas se fosse, estava pronta. —Eu não deveria quebrar seu coração desse jeito, mesmo se fosse permitido. Eu sinto Muito. —Ele suspirou quando eu não disse nada. —Senti sua falta, Jem. Esqueça todas as besteiras por um minuto. Você sabe que sinto sua falta e que eu te amo. Ou então, eu não estaria aqui ainda, tentando me certificar de que não explodiria minha vida no inferno por nada.

—Se você está esperando que eu sinto muito por você, isso não vai acontecer.

Ele bufou. —Eu não estou, mas espero que você acredite em mim quando digo que só quero que isso termine. Então podemos voltar a ser nós.

—Não há nenhum nós para voltarmos. —Minha voz era plana, entediada.

—Eu não acredito em você. Você me amou...

—Exatamente. —eu disse. —Pretérito. Eu te amei uma vez, mas esse tempo já passou.

—O que? Esta não é você, Jem. Você pode me perdoar. Sei que você pode se você...

Farta, falei para ele. —Eu posso perdoar erros, Milo. Posso perdoar a traição. Talvez até desta magnitude. —Encontrei seu olhar e minha voz suavizou. —Mas não posso fazer isso. Não é tão simples assim. Você me forçou a amar você, me forçou a entregar partes de mim mesma que eu nunca tinha compartilhado antes, enquanto me alimentava com restos. O suficiente para ganhar meu amor e sustentá-lo, mas não o suficiente para que eu lhe conceda perdão, se chegasse o dia em que você precisaria. —Um riso amargo me deixou. —Engraçado, como eu nunca percebi o quão pouco você deu até que me deparo com o que eu poderia perder.

Ele limpou a garganta. —Perder o que, Jem?

Com lágrimas ameaçando, desviei o olhar. —Seus pais ainda moram duas horas ao norte? Onde é isso de qualquer maneira?

—Lambton, que fica a três horas ao norte.

—E seu sobrenome? É mesmo Fletcher?

—É Carlson. Eu vou te contar qualquer coisa que queira saber. Apenas me diga que você não está apaixonada por ele.

Uma risada superficial foi minha única resposta. Eu sabia o suficiente.

Ele continuou tentando, continuou se desculpando, mas fingi adormecer e, eventualmente, ele me deixou em paz. Em uma cela repugnante, no chão frio e duro e com uma visão renovada.

Milo Carlson era um idiota desinteressado e egoísta.

 

Capítulo trinta e nove


Thomas

Lou esfregou os olhos. —Quando Jemma estará em casa?

Puxando o edredom até os ombros, me abaixei e beijei sua testa, fechando meus olhos enquanto sussurrava: —Logo.

—Está ficando tarde. —ela disse como se eu não soubesse.

—Ela está apenas ocupada.

Lou rolou para o lado, olhando para mim. —Ela está com aquele homem que me fez biscoitos?

Meu estômago se revoltou com a lembrança.

—Sim, ele é um velho amigo. Você os comeu? —Pensamentos dos muitos venenos diferentes que ele poderia ter misturado com eles passaram pela minha mente.

Lou riu da minha expressão, em seguida, fez beicinho. —Não, quando Jemma chegou, esqueci de pegar um.

Minha respiração seguinte estava irregular enquanto dizia a mim mesmo para me acalmar. Ele não envenenaria uma criança, mas aparentemente ele não teve problemas em tomar ela e minha Dove refém.

Passando a mão pelo meu cabelo, eu disse: —Boa noite, Lou.

—Boa noite, papai.

Nunca envelhece, ouvindo-a dizer isso. As primeiras vezes foram chocantes, para dizer o mínimo. Considerando que eu estava tão longe de ser uma figura paterna quando ela veio morar comigo, era ridículo. Mas com o tempo, ela passou por baixo da minha pele e deslizou dentro do meu coração. Pequena coisa tenaz.

Eventualmente, eu fui de ser confundido a me encolher a sorrir tanto que meu rosto doía.

De volta ao meu quarto, dei passos rápidos sobre o tapete, minha mente girando com os ‘e se’.

E se ela não me perdoasse quando a visse de novo? E se ele estivesse perseguindo ela por informações? E se ele estivesse implorando por outra chance? E se ela estivesse tão chateada com minhas ações irracionais, e aceitasse a oferta? Ou, pior de tudo, e se ele a tivesse tocado e ela o tivesse deixado?

Foi um erro colocar instantaneamente a culpa em seus ombros delgados. Eu vi isso agora, mas tudo que conseguia ver era a raiva e todo o pior cenário.

Esquecer o modo como alguém te tocou, riu com você e te amou era tão fácil quanto apertar um botão quando parte do seu coração era momentaneamente arrancado da sua cavidade torácica.

Mais e mais, os pensamentos giravam e se sobrepunham, cada um se tornando pior do que o anterior, até que Murry apareceu diante de mim, sacudindo meus ombros. – Ei, ei. —Ele deu um tapa na minha bochecha.

Eu rosnei, empurrando a mão dele.

Ele recuou, levantando as mãos. —Eu estava preocupado. Você está aqui há uma hora, resmungando para si mesmo, seus olhos se arregalaram, e arruinou seu cabelo.

—Ela não ligou. Beau não ligou... —Me virei e caminhei para as portas francesas, olhando sem ver as profundidades escuras além. —Ele disse que ligaria.

‘Eu sei’ murmurou Murry.

Beau estava esperando na cidade, não muito longe do recinto onde ela havia sido levada para interrogatório.

—Eu tenho que ir.

—Você não vai. O que pode fazer? Invadi lá e exigir que eles a libertem?

Não respondi a isso, e Murry logo me deixou com meus pensamentos carregados de ansiedade, pelos quais fiquei agradecido. Um olhar para a cama que ela tinha feito na manhã anterior me fez querer queimar os lençóis. Seu perfume estava em meus travesseiros, o olhar ferido em seus olhos em todos os lugares que eu me virei.

As últimas palavras de Murry voltaram para mim, e peguei meu telefone, rolei até que vi o último número desconhecido que Jemima havia discado, e esperei por deus não fosse seu pai quem atendesse.

—Olá? —uma voz sonolenta cumprimentou.

—Hope? —Eu perguntei.

—Sim quem é?

Respirando aliviado, eu disse: —Thomas Verrone. Sou o namorado de sua irmã, e ela está... —A palavra namorado parecia vazia. O título nada perto do reino de adequado para o que nós éramos.

Imediatamente, Hope passou de cansada para alerta. —Onde ela está? O que aconteceu?

Apertando a ponte do meu nariz, perguntei: —Quanto ela lhe contou sobre mim?

—Só que você era estranho quando se conheceu, e que ela ficou com você durante o verão. Por quê? —ela perguntou. —O que está acontecendo?

Estranho. Eu balancei isso e me preparei, passei uma mentira pela minha mente, então confirmei que faria. —Eu posso explicar rapidamente, mas então preciso da sua ajuda.

Ela ouviu, e dez minutos depois, ela disse que estava a caminho.

Eu desliguei e respirei fundo, a tensão no meu corpo se soltando pela primeira vez em horas, enquanto lentamente liberei um pouco disso.

Minha Dove, Minha Little Dove.

Eu a mandei embora, descartei-a como se ela não tivesse importância. Ameacei a vida dela sabendo que nunca poderia suportar a perder. Não importa o que ela fez ou não fez.

Mas eu estava muito tomado pela raiva e medo de lembrar que ela e Lou... uma não era mais preciosa do que a outra. Eu precisava das duas por diferentes razões, e amava as duas por diferentes razões, mas no final das contas, não poderia sobreviver sem as duas.

Elas eram as únicas coisas que me mantinham são.

Elas eram tudo o que brilhava em um mundo de cinza escuro.

Elas eram tudo o que importava.

E então eu esperei, e então peguei minhas chaves e decidi que poderia esperar mais perto.

Capítulo Quarenta


Eu devo ter adormecido porque quando acordei, com o pescoço e as costas doendo e a bunda dormente, o sol estava se arrastando através da desculpa miserável manchada por uma janela no topo da minha cela.

—Eu não dou a mínima para quem você é, deixe-a sair antes de ligar para o meu pai e ele fale com o seu superior.

Meu coração parou, então bateu forte.

Hope.

—Senhora... —alguém disse, —...com todo o respeito, o que exatamente o seu pai vai fazer?

—Oh, Doug Clayton? —Hope riu como uma maníaca. —É isso mesmo, é Doug Clayton, o cara que costumava perder meus jogos de vôlei e recitais dançantes todo fim de semana só para correr esse buraco, o que vai fazer?

A maldição foi seguida por: —Vou pegar as chaves.

—Espere. —alguém disse. —Agente Carlson disse para segurá-la até que ele volte.

—Você quer me dizer que a piada de um homem a trancou, depois foi para casa dormir em uma cama maldita?

Ah Merda.

O fato de que ele provavelmente fez isso era a única razão pela qual eu não deixei a risada que estava na minha garganta livre.

—Dê-me minha irmã antes de ligar para um advogado e meu pai.

Um minuto depois, um policial jovem abriu a cela, e Hope estava me puxando para os pés, a fúria enrugando sua testa e apertando seus lábios.

—Como você sabia que eu estava aqui?

—Explicações depois. —Ela empurrou minha bolsa no meu peito. —Vamos lá.

A exaustão e a dor fizeram com que os primeiros passos fossem penosos, mas, quando passei pelo atendente da recepção, que estava falando rapidamente com quem eu imaginava ser Milo ou seu superior, ele desapareceu e caminhei rapidamente para as portas.

Hope tirou a mão da minha para destrancar o seu SUV e abrir a porta. Eu entrei e dei a ela as direções para o meu apartamento.

Cinco minutos depois, entramos na velha casa de um quarto coberta de poeira em que eu mal havia morado e quase chorei de alívio. —Preciso de um chuveiro, agora.

—Aguarde um minuto. —Hope fechou e trancou a porta. —Você precisa explicar o que aquele idiota fez com você.

—Hope, —eu lamentei. —Dê-me dez minutos, ok? —Eu precisava de tempo para pensar em alguma versão enlameada da verdade. Ela sabia que Milo estava disfarçado, mas não sabia que ele invadira minha vida para se aproximar de Thomas.

Ela bufou, apontando um dedo para mim. —Você tem o tempo que me leva para encontrar um café decente e café da manhã.

Eu balancei a cabeça e ela trancou a porta atrás dela.

Eu levei a maioria das minhas roupas para a casa do meu pai quando eu pretendia ficar lá pelo resto do verão, mas deixei para trás alguns pares de jeans, alguns tops e camisetas, e um vestido de coquetel.

Depois de escovar os dentes com uma escova de dentes sobressalente que guardei embaixo da pia, peguei uma calcinha de algodão, um sutiã que tinha visto dias melhores, depois um top e um jeans leve. No chuveiro, eu esfreguei até sentir minha pele queimar sob a água quente. Eu não tinha deixado nenhum xampu, então resolvi molhar meu cabelo e borrifar um pouco de condicionador quando saísse.

O top estava apertado, muito ajustado, e o jeans arranhado e uma dor na bunda para puxar. Eu tinha apenas abotoado um botão quando um leve toque soou na porta.

Meu estômago revirou e minhas mãos tremiam, mas eu caminhei até a porta, perguntando através da madeira: —Quem é?

—Seu monstro.

Eu abri a porta, meus olhos formigando quando avistei Thomas com uma camiseta branca amarrotada e jeans. Ele olhou para trás, depois olhou para mim com olhos vermelhos. —Me deixa entrar?

Eu balancei a cabeça e dei um passo para trás, suas botas pesadas sobre o velho piso de madeira.

Assim que fechei a porta, ele me agarrou e me puxou para o peito, as mãos apertadas contra a parte de trás do meu cabelo molhado, e seu peito arfando debaixo da minha bochecha. —Eu vou matá-lo. Eu vou abrir o peito dele e te trazer o coração dele. EU...

—Shhh. —eu ri, tentando olhar para ele, mas ele não soltou seu aperto.

—Sinto muito, Little Dove. Não estava pensando direito. Você tem que saber que eu nunca seria capaz de... —ele parou, seus cílios se fecharam brevemente sobre seus olhos vermelhos.

Respirando fundo, me afastei, e Hope abriu a porta, quase nos derrubando quando ela entrou com xícaras de café e uma grande sacola marrom cheia de coisas que cheiravam incríveis.

—Oh. —ela disse, seus lábios se moldando ao redor da palavra. Ela fechou a porta e olhou Thomas de cima a baixo. —Você deve ser o senhor das drogas do mal.

Eu tossi. —O que?

Ela acenou com a mão e marchou para a cozinha. —Ele me ligou e explicou porque seu ex está sendo tão louco. Que ele estava atrás de Thomas porque sua família tem laços com algum tráfico de drogas.

Eu arqueei uma sobrancelha para Thomas, que levantou os ombros.

Balançando a cabeça, agradeci-lhe pelo café enquanto me sentava em um banquinho no pequeno bar.

Thomas deu um passo à frente, os olhos em mim enquanto eu olhava para longe, então ele pressionou sua frente para as minhas costas. O peso e seu calor eram reconfortantes o suficiente para ignorar a dor no peito quando me lembrei do jeito que ele olhou para mim, me acusou e me abandonou sem pensar duas vezes ontem.

—Então, ele ligou para você? —Eu perguntei a Hope, então tomei um longo gole de café.

Ela empurrou um pedaço de bolinho na boca, mastigando ao redor. —Uh-huh. Tarde da noite passada. Eu dirigi até que não consegui ver direito, depois parei e reabasteci. —Ela riu. – Não pude acreditar; minha irmãzinha acabando atrás das grades. Nunca me atreveria a imaginar uma idéia tão maluca —ela parou, sorrindo —mas lá estava você. Idiota —acrescentou ela.

—Obrigado.

—Não mencione isso. Eu precisava de uma mini ferias. —Ela sorriu acima da minha cabeça para Thomas. —E valeu a pena conhecer essa criatura alta, morena e aparentemente safada.

Confiar em Hope para encontrar a idéia de um traficante de drogas sexy, pensei com um sorriso.

—Você tem uma filha? —ela perguntou a Thomas. —Devemos ter certeza de que nossos filhos saiam, você sabe, considerando que eles são praticamente primos. —Ela lambeu o dedo e tomou um gole de café.

Eu tentei não engasgar quando abaixei minha xícara para viagem.

Thomas obviamente não tinha escrúpulos em humilhá-la. —Eu faço; ela tem quase sete anos.

Os olhos de Hope se iluminaram, caindo para mim. —Perfeito.

Jesus. —Pare de assustá-lo.

Hope sacudiu seus longos cabelos escuros por cima do ombro. —Ele não parece assustado para mim.

Thomas apertou meus ombros tranquilizadoramente em resposta e continuou a ouvi-la enquanto eu arrastava um muffin para minha boca e o demolia.

Ela saiu meia hora depois, precisando chegar em casa antes do anoitecer, então Jace não tinha muito controle cuidando dos meninos por conta própria.

—Ela é... —Thomas bateu o queixo depois que a porta se fechou nos quadris de Hope.

Eu fui para o meu quarto. —Meu oposto em todos os sentidos.

—Eu não acho que você é tão diferente quanto pensa.

Eu queria perguntar por que ele pensava isso, mas minhas pálpebras caíram junto com meu coração quando ele se sentou ao lado de onde eu estava deitada na minha cama.

Thomas moveu os cobertores do final da cama para me cobrir, então suspirou enquanto olhava ao redor do meu quarto. —Você está chateada comigo. —Ele olhou para mim. —E com razão.

A tentação de mentir, de tê-lo deitado ao meu lado e fazer desaparecer as últimas vinte e quatro horas, era forte. —Eu estou. —admiti. —Você confia em mim ou não. Eu nem sei. —bocejei. —Eu só preciso de um pouco de espaço. Uma boa noite de sono, provavelmente, e então podemos conversar sobre isso.

Thomas ficou olhando um longo momento, com os olhos brilhantes de gelo puxando minha resolução. Então ele passou a mão pelo cabelo desarrumado, com mechas caindo ao redor do rosto.

—Eu não quero deixar você. Você pode ficar chateada comigo em casa?

Em casa. O jeito que ele disse isso fez meus lábios e coração se contorcerem. —Eu poderia, mas não estou pronta para isso ainda.

Suas sobrancelhas franziram. —Você quer dizer que ainda vai ficar brava se eu te deixar, como você pediu, quando você chegar em casa e tivermos conversado sobre isso?

Eu não pude evitar. Eu ri, lágrimas vazando dos meus olhos. —Talvez. Sinto muito, —eu sussurrei.

—Por quê? Porque você está se desculpando? —Ele chegou mais perto. —Explique. Há fases de raiva para as mulheres?

Sentando-me, peguei seu rosto, pressionando meus lábios nos dele pelo tempo que meu coração pudesse suportar, depois soltei-o. —Eu sei que você estava com medo e com raiva, mas me machucou. —Sua cabeça baixou, lábios procurando os meus novamente, mas eu caí de volta para a cama. —Muito pior do que ele já fez. —Eu deixei ele absorver. —Você entende?

—Dove... —O apelido era um som doloroso.

Eu fiz o meu melhor para ignorar o duro engolir que ele tomou. —Vá para casa, Thomas.

—Thomas? —Com um gemido frustrado, ele se levantou. —Bem. Mas voltarei amanhã.

—Eu sei. —eu disse.

Ele ainda estava lá, seus pés imóveis e seu belo rosto enrugado de indecisão.

—Tempo, Thomas.

—Tempo. —Ele soltou um suspiro e assentiu. —OK.

Bocejando de novo, observei-o caminhar em direção à porta, o fio que me prendia a ele ficando tenso, pedindo para ser reunido.

Thomas parou, voltando-se. —Dove, eu sei que você confia nele, até certo ponto, mas um homem como ele claramente não se dá bem em perder. E ele perdeu muito. —Puxando uma arma de sua cintura, ele colocou na cômoda. —Isso está carregado. Sei que você sabe como usá-la, então não hesite. Seria em legítima defesa.

Eu nem sequer pisquei para a arma, apenas encontrei seu olhar, então deixei minhas pálpebras fecharem quando a porta do apartamento se fechou.

O som de um tiro fez meus olhos se abrirem, e minhas pernas me arrastando pela sala até a arma na cômoda enquanto meu coração batia.

Eu abri a porta do apartamento e, vendo Thomas encostar-se à parede no patamar abaixo dos primeiros degraus, com sangue manchando a camisa branca de vermelho, não pensei.

Clicando na trava, levantei a arma para Milo, cuja arma ainda estava apontada em Thomas, pronta para puxar o gatilho novamente.

—Você não ouse. —eu falei.

—Dove. —Thomas ofegou.

Os olhos de Milo se arregalaram, balançando para mim. —Não seja tola, querida. Guarde isso.

O metal estava frio contra meus dedos firmes, medo e raiva diminuindo minha respiração e limpando minha visão enquanto pressionava meu dedo contra o gatilho e o acertava no ombro.


Capítulo Quarenta e Um

Corri descendo as escadas para Thomas, gritei por ajuda no topo dos meus pulmões, sabendo que ninguém mais viria a esta escadaria além do proprietário, dono do edifício. Mas alguém tinha que ter ouvido os tiros da rua.

Milo amaldiçoou, dobrou-se e quase caiu da escada. Ele se segurou no corrimão, mas sua arma desceu os degraus.

Eu coloquei o meu para baixo e forcei meus olhos para o que eles não queriam ver. A visão foi o suficiente para enviar meus joelhos trêmulos para o concreto áspero e arrancar minha camisa.

Eu a pressionei na ferida em seu baixo-ventre e Thomas gemeu, seus olhos lutando para permanecerem abertos. —Tom, olhe para mim. —pedi, em seguida, gritei por ajuda novamente.

—Para a eternidade. —ele murmurou, os lábios se inclinando.

—Não seja fofo agora.

—Puta merda. —ouvi alguém dizer, seguido pelo som deles falando em um telefone. —Sim, duas vítimas e uma, ah, garota quase nua.

Thomas amaldiçoou quando pressionei com mais força a ferida que não parava de jorrar, então murmurei: —Dove, eu acho que prefiro morrer do que estranhos te verem seminua.

Eu ri, um soluço me pegou na garganta. —Então é muito ruim que não vou deixar você. Então, lide com isso.

Ele sorriu, então sussurrou palavras que fizeram meu coração disparar e despencar, pois eu sabia por que ele estava dizendo agora. Naquele exato momento. —Eu estive esperando por você. —Ele tossiu. —E o que quer que aconteça, espero de bom grado por você novamente.

—Não. —eu avisei, lágrimas encharcando a palavra.

—Olhe para mim. —ele exigiu.

Eu fiz, e toda a minha existência pareceu depender de ver aqueles olhos azuis.

—Eu te amo. Nós somos o depois de você procurar nessas páginas, Dove. Lá... —Ele parou e estremeceu. —Não há fim para nós.

Eu funguei, olhando para ele enquanto as lágrimas corriam pelas minhas bochechas.

Um sorriso desafiador me atingiu direto no peito. —Eu teria dito isso amanhã de qualquer maneira depois que você terminasse... —Ele tossiu novamente e engoliu, e eu sabia, sabia que ele tinha engolido seu próprio sangue para evitar me assustar. —De estar chateada.

—Um monstro, de fato.

Ouvi o estranho ajudando Milo e, quando a polícia e os paramédicos chegaram, cinco minutos depois, Thomas mal estava consciente e tão pálido que eu temia que logo fosse capaz de enxergar através de sua pele.

Não foi até as portas da ambulância fecharem e eu estava sendo manobrada na parte de trás de um carro da polícia que percebi que a coisa mais assustadora não era que eu poderia perdê-lo.

Era que eu poderia perdê-lo sem ele saber que eu também o amava.

 


Com a visão embaçada, fiquei parada na calçada por incontáveis minutos depois que a polícia terminou de tomar minha declaração na delegacia.

Uma vez que os paramédicos e a polícia chegaram, corri para cima para pegar uma camisa, sapatos e minha bolsa, então corri de volta para baixo antes de ser informada que eles estavam me levando em custódia.

Agora que meu cérebro havia clareado o suficiente para mover meus pés, olhei ao redor da rua e lembrei que não tinha carro. Estava no celeiro do castelo.

Chamei freneticamente um táxi, vomitei a palavra hospital quando entrei e me agarrei ao plástico que cobria o banco de trás.

Os prédios da cidade passavam em remendos irreconhecíveis. A única coisa que meus olhos procuraram poderia estar sempre fora de alcance.

Não.

O motorista estacionou na área de desembarque e joguei uma nota de vinte para ele e pulei antes que ele pudesse se preocupar com o troco. —Mantenha, obrigado.

Ele deu de ombros quando bati a porta e corri em direção às portas automáticas, quase passando por cima de um casal de idosos.

Minha agitação frenética foi em vão, considerando que a enfermeira de cara amarga me disse para sentar na sala de espera. Se eu não fosse da família, eles não revelariam nada.

Depois de meia hora sentindo como se meu batimento cardíaco fosse estourar pela minha pele, voltei e tentei não rosnar. —Ele não tem família. Por favor, tome nota disso.

A enfermeira fungou, depois de me encarar por uma eternidade, ela olhou para o computador. —Qual é o nome dele de novo?

—Thomas Verrone.

Ela mordeu o lábio, depois olhou em volta. Quando nossos olhos se encontraram, ela disse baixinho: —Ele está em cirurgia agora. Volte em uma hora.

Assentindo, tentei não deixar que isso me dominasse. Isso significava que ele ainda estava aqui, então eu aceitaria.

Depois de me sentar novamente, liguei meu telefone e comecei a pensar em como entrar em contato com Murry. Beau. Sage. Qualquer um que não fosse da família, mas também poderia ter sido. Mas eu não tinha o número de ninguém.

Apenas o do Tom.

Quando estava prestes a ir ao posto das enfermeiras para outra atualização, meu telefone tocou e, apesar de não saber o número, eu sabia que era Murry. —Murry?

—Onde ele está? —Sua voz era calma, mas uma corrente de preocupação permaneceu.

—Hospital. Ele... hum... —respirei tremendo. —...ele foi baleado.

Uma batida passou. —Quão ruim é isso?

Fechei os olhos, caindo de volta no plástico duro da cadeira. —Ruim, ele está em cirurgia.

Murry amaldiçoou. – O federal fez isto?

—Sim, ele está aqui também.

—O que você quer dizer? Contigo?

Ignorando a acusação em sua pergunta, eu disse: —Não, eu atirei nele.

Silêncio.

—Droga, Jemma.

Agulhas minúsculas de culpa, quando me lembrei de Milo, provavelmente estava em mau estado. —Foi no ombro, então ele vai sobreviver.

—Ainda assim. —disse ele. —Você está bem?

—Não.

—Honestidade, isso é bom.

Eu retransmiti o máximo que pude do que aconteceu. Como se eu estivesse falando com os policiais novamente, minha voz e explicações eram clínicas, meu cérebro com muito medo de se enredar no meu coração.

Ele se aquietou por alguns segundos. —Deixe-me fazer algumas ligações, e terei alguém com você em breve. Aguente firme, ok? Tom não vai deixar que algum aspirante a herói de ação o tire daqui. —Murry riu. Sua risada quebrou, e também o sorriso que começou a cutucar meus lábios.

Incapaz de impedir que o soluço subisse pela minha garganta, desliguei e pendurei a cabeça nas mãos manchadas de sangue.

 


Uma mão firme pousou no meu ombro e eu me assustei, levantando a cabeça.

Sonhar acordada com os melhores momentos em sua cama, em sua biblioteca, no parque, no estacionamento, no meu antigo quarto, na sala de aula, inferno, até mesmo em seu calabouço era melhor do que ficar olhando o chão branco e escutar o zumbido repetitivo do hospital em atividade.

Sem utilidade.

Sentada era inútil. Qualquer coisa que eu pudesse fazer seria inútil, e então escapei da única maneira que sabia.

Então Beau se sentou, com o joelho quicando no meu. —Ouvi dizer que você teve um dia agitado.

Eu funguei. —Você poderia dizer isso.

Ele enfiou as mãos nos bolsos de capuz, observando enquanto uma criança perseguia uma bola de basquete no chão da sala de espera. —Alguma novidade?

—Ele ainda estava em cirurgia há meia hora.

Beau olhou para o posto das enfermeiras. —Você teve a enfermeira mal-humorada lá para lhe dizer isso?

—Ela provavelmente está apenas cansada.

—Você é muito legal. —disse ele. —E os policiais? O que aconteceu com eles?

—Eu fui questionada, mas não tenho antecedentes. —Soltei um suspiro. —Defesa pessoal.

Ele assobiou ao ver minhas mãos e as agarrou. Sua pele estava calejada e quente, e mesmo que não fosse o toque que precisava, eu estava grata por tudo isso mesmo. —Olhe para você agora, Jemima Jolie.

Bufando, eu as puxei para longe e me levantei. —Eu vou lavá-las.

—Não, é uma boa olhada em você. —A julgar pelo seu sorriso e o olhar selvagem em seus olhos, percebi que ele estava falando sério.

Meu nariz enrugou. —Volto logo.

No banheiro, fui puxada pela visão do meu reflexo. Uma leve camada de sangue espalhou em minha bochecha como se eu tivesse esfregado meu rosto antes de secar em minhas mãos. Minhas pupilas estavam dilatadas, o branco dos meus olhos injetados de sangue.

Não dormir, atirar em alguém e potencialmente perder um amor que você nunca viu acontecer faria isso com você.

Água vermelha circulou a porcelana branca e paralisada, fiquei ali parada, vendo o sangue de Thomas rodopiar no ralo.

O pensamento de lavá-lo afastou minha mão para fechar a torneira, e olhei para as minhas mãos quase limpas em desânimo.

Eu não estava prestes a questionar minhas capacidades de raciocínio racional, então eu as acariciei, passei meus dedos pelo cabelo emaranhado e limpei o sangue da minha bochecha.

Passando pela mesa das enfermeiras, ouvi um ‘Pssst’.

Eu parei, retrocedendo quando a enfermeira, que descobri ser chamada de Jacky, disse: —Ele está fora.

Eu balancei a cabeça, forçando aquelas palavras para baixo, então me forcei de volta para onde Beau estava sentado, suas mãos apertadas juntas enquanto ele me observava me aproximar.

Depois de passar a informação, esperamos e, felizmente, ele não tentou mais perguntas.

Ele apenas ficou lá, esperando pelo retorno de um amigo, enquanto eu esperava pelo retorno do meu coração.

 


Era noite antes de finalmente podermos conversar com o médico, e ele nos permitiu visitar porque Thomas aparentemente estivera me chamando durante curtos períodos de vigília.

Beau deu um passo à frente, como se fosse carregar o elevador sem pensar duas vezes.

Então ele teve esse segundo pensamento e se virou para mim, fazendo careta. —Vai.

—Você tem certeza?

Ele riu, sua mão raspando o cabelo loiro desgrenhado. —Você acha que ele quer acordar com a minha voz em vez da sua quando ele está perguntando por você?

Eu sorri, em seguida, dei um passo à frente e passei meus braços ao redor dele, apertando enquanto murmurava: —Obrigada.

Demorou meio minuto, seu corpo tenso e seu coração trovejando sob a minha bochecha, mas seus braços me apertaram para trás. —Bem vinda.

No terceiro andar, saí do elevador e corri pelo corredor, quase derrapando ao ver o número do quarto. Uma enfermeira pressionou o dedo nos lábios, franzindo a testa para mim.

Ignorando-a, olhei para a pequena janela da porta, minha testa encontrando o vidro frio enquanto via tudo o que meu coração precisava para sobreviver. A forma adormecida de Thomas em uma cama.

Ele ainda estava tão pálido, e monitores iluminavam a escuridão ao redor dele, mas o médico disse que estava respirando por conta própria. Eles precisavam monitorá-lo de perto, esperar por mais resultados de testes e deixá-lo descansar.

Abri a porta, fechando-a com um baque quieto atrás de mim, em seguida, puxei uma cadeira para perto da cama e peguei sua mão fria na minha.

 


—Little Dove. —Um sussurro rouco, dedos se contorcendo nos meus.

A luz do sol corria pelo quarto, e eu pisquei, com os olhos turvos enquanto observava o meu entorno.

O bipe do monitor cardíaco e um olhar para Thomas trouxe tudo correndo de volta, e levou tudo para não me jogar sobre ele e segurá-lo com força.

Eu me acomodei apertando sua mão e sorrindo. —Oi, Monstro.

—Atirou em alguém ultimamente? —ele perguntou curiosamente.

Eu balancei a cabeça, levando a mão aos meus lábios e os roçando na pele dele. Seu polegar escapou, esfregando meus lábios enquanto eu olhava para ele. —Você me assustou.

—Mais do que quando te sequestrei e tranquei você no meu porão?

Eu ri. —Sim, muito mais do que isso.

Suas sobrancelhas se levantaram. —Você não deve estar muito chateada mais, então. —Ele se mexeu, depois gemeu. —Se eu te assustei tanto.

—Não. —eu disse, gesticulando para ele ficar parado.

Thomas franziu a testa. —Você estava certa em estar.

—Nós não precisamos falar sobre isso agora.

—Tempo, Dove. É dolorosamente evidente, você não concorda, que nem sempre está do nosso lado.

Ele estava certo, então eu assenti.

Ele lambeu os lábios, e então murmurou: —Não sou bem versado em desculpas, ou admitindo quando estou errado, mas eu estava errado em perder a fé em você, pensar o pior, e dizer e fazer o que fiz... Incrivelmente errado e idiota, e me desculpe.

—Você a ama, e eu também. Eu entendo. Mas o que você fez, do jeito que você tão facilmente...

—Eu sei. —ele disse enquanto parei. —As emoções fazem coisas estranhas para as pessoas e, suponho, apesar de sentir que sou diferente, não sou. Não tanto quanto gostaria de pensar. —Ele sorriu, e a brancura iluminou os buracos escuros que abriram em meu coração. —Mas você entende que eu te amo? —Ele balançou sua cabeça. —Eu não gosto da palavra. Muito inadequado. —Emoção, emoção doce e brutal, saturava cada palavra e cada detalhe perfeito de seu rosto. —Você é o motivo pelo qual meu coração se apaixonou, a razão pela qual ele vacila constantemente com apenas um vislumbre de você, e a razão pela qual dói quando você não está por perto. Você coloriu todo o meu mundo, e se você for, me deixar, você me deixa em preto e branco de novo.

Suas palavras se envolveram ao meu redor como um cobertor quente em uma noite fria, cobrindo rachaduras e solavancos deixados pelo frio. Um fio de umidade escorreu pela minha bochecha, caindo no meu queixo ao ver a água encher seus olhos indomáveis. —Você não precisa se preocupar ou me ameaçar em amar você, Monstro.

Ele gesticulou para que eu me aproximasse, sua mão gentilmente alcançando o cabelo atrás da minha orelha enquanto eu cuidadosamente me inclinava sobre ele. Sua respiração emplumava meus lábios. Meu coração. —Eu farei o que for preciso para mantê-la comigo, mesmo que isso signifique ser baleado novamente, Little Dove.

—Não. —eu disse asperamente, meus dedos passando por suas maçãs do rosto. Eu abaixei meu nariz para ele. —Você não pode me ameaçar porque já te amo.

—Mesmo sabendo o que sou... o que faço? —Sua respiração engatou quando seus olhos procuraram os meus, desesperados, esperançosos e assustados.

Meu monstro estava com medo, e vendo isso só fez meu coração quebrar ainda mais. Ele desmoronou em suas mãos, entregou-se a ele completamente.

Meus lábios encontraram os dele, sussurrando, —Todo tom escuro e claro. Cada peça. Todo você.


Capítulo Quarenta e Dois


Seis meses depois

—Três colisões, não duas. —Lou disse.

Ela riu quando abaixei a cabeça para bater meu nariz com o dela. Eu a beijei e puxei o edredom para cima. —Amo você, pequena Lou.

Soprei um beijo para o ursinho carinhoso ao lado dela, minhas velhas bonecas de pano no canto do quarto dela na estante. —Amo você, Jemizinha.

Sorrindo, desliguei a luz e fui para o nosso quarto para encontrar Tom.

—Você está pronto? —Eu perguntei, pegando minha escova da cômoda e puxando-a pelo meu cabelo enquanto entrava na sala. —Nós precisamos... —Eu parei, percebendo que ele não estava lá.

Meus ombros caíram, e suspirei enquanto me arrastava até o banheiro para rapidamente passar um pouco de rímel nos meus cílios. Eu tinha colocado um vestido amarelo e preto de bolinhas, borrifando perfume antes de perceber que ele estava obviamente ocupado.

Eu estava bastante nervosa, dada a história de nossa família e, portanto, meio que chateada, ele nos atrasaria.

Thomas não pôde trabalhar alguns meses depois de sua cirurgia e, embora não precisasse do dinheiro, sabia que estava ansioso pelo retorno do que considerava normalidade.

Depois que fomos ao tribunal, onde Milo foi condenado a doze anos, ele resolveu alguns, mas eu sabia que era apenas uma questão de tempo até que tivéssemos um novo visitante, ou ele fosse embora por dias ou semanas.

Milo foi preso antes que pudesse sair do hospital. Tentativas de assassinato e sequestro foram feitas contra ele por mim, e a testemunha na escada do meu apartamento solidificou sua culpa.

Nós tínhamos nos encarado nos olhos algumas vezes enquanto ele se sentava no estande. O seu queimando com um milhão de perguntas e acusação óbvia. O meu apenas olhando. Levando em conta o homem que mudou minha vida de maneira imprevisível. Vê-lo novamente, sabendo que minha declaração ajudaria a colocá-lo atrás das grades, não foi o que me arruinou de culpa. Foi vendo Shelley, sua esposa, enquanto ela estava sentada estoicamente na parte de trás do tribunal, apenas uma sugestão de emoção em seu belo rosto que fez isso.

Eu desejei ter tido isso em mim para ir embora. Não disse uma palavra, pois não poderia. Eu não fui responsável por arruinar suas vidas. Eles foram.

No entanto, uma vez que Milo foi levado e a maior parte da sala se esvaziou indo para a rua, eu a parei do lado de fora na calçada. Um pedido de desculpas silencioso estava pronto em meus lábios, mas seu sorriso, mesmo quando vacilou, me disse tudo que eu precisava ouvir.

Ela não me culpava.

E quando Thomas se aproximou e ficou em minhas costas, tudo o que ela fez foi acenar com a cabeça, em seguida, ir embora.

Eu não sabia se essa seria a última tentativa de derrubar Thomas. Tudo o que eu sabia era que se, e quando eles tentassem, estaríamos prontos.

Agarrando um par de sapatilhas rasteiras do closet, coloquei-as e corri escada abaixo.

—Oh, oi. —Murry hesitou, parando debaixo das escadas quando ele me viu. —Você está adorável.

—Onde ele está?

Os olhos de Murry dançaram em qualquer lugar e em todos os lugares para evitar encontrar os meus.

—Murry. —eu avisei.

—Ele disse que seria apenas meia hora.

—Deixe-me adivinhar, uma hora atrás?

Ele encolheu os ombros, então sabiamente foi embora.

Um minuto depois, entrei no código e abri a porta, certificando-me de que ela se fechava atrás de mim.

—Isso não é uma resposta, Gregory.

—É, eu juro, foda-se. —As palavras foram cortadas gritando enquanto eu descia as escadas.

Esperei, com as mãos nos quadris, até que Thomas deixou cair o molar na bandeja de prata atrás dele. —O que há de errado, Dove?

—O que há de errado? —Eu repeti.

O cara na cadeira, sangue jorrando de sua boca, parou de gemer e saltou seus olhos entre nós.

—Desculpe a intrusão, Gregory. Vou levar apenas um momento.

—Não, nós precisamos ir.

Tom piscou para mim, depois se levantou do banco e arrancou as luvas de cor carmesim de suas mãos.

—Você esqueceu, não esqueceu? —Eu perguntei.

O homem de meia-idade, com o suor na testa, apertou as mãos enquanto me estudava.

—Oi. —eu disse, por falta de mais alguma coisa para dizer a alguém que talvez não vivesse.

Compreensivelmente, ele não respondeu, mas seus dedos se mexeram onde sua mão estava presa ao braço da cadeira.

—Dove, o que eu falei sobre conversar com meus visitantes —disse Tom em voz baixa.

Revirei os olhos e sua mandíbula se contraiu.

Seu visitante, Gregory, sorriu e desejei que ele não tivesse mais sangue escorrendo de qualquer cratera que Tom tivesse criado nas gengivas do homem.

—E eu não esqueci... —disse ele, passando por mim para o banheiro. —Eu simplesmente perdi a noção do tempo.

Andando atrás dele, eu assobiei, —Nós combinamos isso por meses, e você simplesmente perdeu a noção do tempo?

Ele esfregou as mãos enquanto eu olhava para a parte de trás de sua cabeça. —Se eles estão falando, Dove, eles estão falando. É fácil perder a noção do tempo.

Suspirei. —Tanto faz. Por favor, apenas se apresse.

Thomas bateu as mãos na toalha, depois pegou meu pulso enquanto eu saía. —Não há necessidade de insolência, Dove. Eu sei que você está frustrada.

—Se você sabe, então precisa se apressar já.

Ele não se mexeu, e eu gemi, tentando arrancar seu aperto.

Sua risada me fez parar e fez minha frustração se enrolar em uma pequena bola. Uma pequena bola que explodiu em pó quando ele abaixou a cabeça, seu nariz roçando minha bochecha. —Quando você fica brava, tudo que quero é devorar sua linda boca. —Os lábios encontraram minha pele, deixando um rastro de arrepios quando eles arrastaram para o meu ouvido. Seus dentes gentilmente pegaram meu lóbulo, depois o soltaram. —Até que você não é nada além de carne flexível, toda minha para tomar.

Gemidos da cadeira na sala ao lado, controlou minha libido e Tom suspirou.

—Deixe-me colocá-lo para dormir, e vou estar pronto.

Com um beijo na minha testa, ele saiu e subi as escadas para esperar.

—Parece que você tem o resto da noite de folga, Gregory. Você pode agradecer a minha Dove por isso.

Sorrindo, fechei a porta e balancei a cabeça.

Sua ocupação, por falta de uma palavra mais agradável, ainda me incomoda? De certa forma, sim, ainda assim acontecia.

Eu não estava imune a esse tipo de violência. Não achei que alguma vez estaria. Mas eu respeitava essa parte dele, e sabia que ele ganhava mais do que lucro financeiro com isso.

Talvez um dia, sua necessidade desse tipo de liberação diminuísse um pouco mais. Talvez até completamente.

Mas se isso não acontecesse, eu ainda estaria lá, brilhando a luz que eu pudesse no meu príncipe sombrio.

 


Meu pai colocou duas cervejas na mesa com um baque, espuma explodindo no alto das garrafas enquanto ele olhava Thomas, em seguida, sentou-se.

—Como vai o novo trabalho, Jem?

Tomei um gole de água. —Bem. É só a tempo parcial, mas... —Thomas pegou minha mão na sua e apertou um pouco. —Acho que posso me ver ficando lá por um tempo.

Há três meses, iniciei um novo trabalho ensinando alunos da terceira série em uma pequena escola em Minnen, uma cidade vizinha de Glenning. A mesma escola que Hope e eu frequentamos quando crianças.

Havia apenas doze crianças na minha turma e eu dividia o emprego com uma mulher que acabara de voltar de uma licença maternidade, mas gostei.

E o mesmo aconteceu com Lou, que foi como comecei a me candidatar a uma posição lá em primeiro lugar. Thomas a transferira no início do novo ano letivo e, embora estivesse chateada por não ter visto Rosie com tanta frequência, a mudança foi boa para ela, e ela se adaptou rapidamente.

—Tem que ser como fazer uma viagem pela estrada da memória todos os dias. — papai comentou com um sorriso. —Muito melhor do que aquele lugar arrogante na cidade de qualquer maneira.

—É. —eu concordei.

Papai voltou sua atenção para Thomas. —Então o que é que você faz para viver?

—Eu toco meu próprio negócio... —disse Thomas. —Cirurgia dentária.

Eu cortei meu bife, dando uma mordida e mastigando devagar.

—Como foi o desfile, papai? – Perguntei para roubar seu olhar longe de Thomas.

Thomas não parecia se importar e cortar sua comida com precisão medida.

—As crianças adoraram. Levantou muito dinheiro este ano. —Ele tomou um gole de sua cerveja. —Seria ótimo ter você de vez em quando. Você não precisa ser criança para se divertir.

—Vamos levar Lou. —eu disse a Thomas.

Thomas parou com o garfo a meio caminho da boca, depois assentiu.

Eu acho que assistir a um desfile organizado pelos departamentos de polícias locais não estava exatamente no topo de sua lista de coisas divertidas para fazer. Mas, chegando debaixo da mesa, apertei sua coxa para pelo menos agir como se ele fizesse isso.

—Lou? É sobre a filha que Jem estava me contando?

Sorri quando um sorriso transformou as feições neutras de Thomas. – É sim. —Ele fez uma pausa, parecendo pesar suas próximas palavras. —Ela está animada para conhecê-lo.

Meu pai gaguejou ao redor do sorriso que tentou segurar. —Ela... sim? Traga-a da próxima vez.

Abaixando meu sorriso para o meu prato, me concentrei em comer, o tempo todo me perguntando como Thomas poderia ganhar meu pai, mesmo que só um pouquinho, sem sequer tentar.

A notícia nunca voltou para meu pai sobre minhas visitas ao departamento de polícia de Lilyglade. Suspeitei que os funcionários recebessem ordens para manter suas armadilhas fechadas, e sabia que Beau mandou seu amigo invadir o banco de dados para apagar qualquer evidência.

A conversa voltou-se para Lou, Thomas contando a meu pai sobre o recital de piano que se aproximava, e depois voltou-se para o futebol, como se acontecesse de um jogo em uma hora. Thomas não estava interessado em esportes, a não ser nadar, mas sabia o suficiente para alegrar meu pai.

Eu poderia dizer que ele atingiu seu limite quando depositou os talheres e gentilmente empurrou seu prato para longe. —Obrigado, estava delicioso.

Meu pai assentiu, agindo como se não pensasse nisso. Mas, embora soubesse que seu bife era sempre exagerado e que seu purê de batata era muito líquido, eu sabia que ele apreciava aquilo.

—Enquanto estou aqui, gostaria de pedir sua bênção pela mão da sua filha em casamento.

Minha mão quase perdeu a mesa enquanto eu colocava meu copo de volta.

Os olhos do meu pai se arregalaram, as sobrancelhas se juntando enquanto ele esfregava o queixo. Segundos se arrastaram em um minuto. Então, finalmente, ele disse: —Você vai perguntar a ela de qualquer maneira?

—Claro.

Papai balançou a cabeça de um lado para o outro. —Eu gosto da sua honestidade. —Ele olhou para mim. —Você quer se casar com este? De verdade desta vez?

Eu olhei para Tom. —Sim.

—Você tem certeza?

Eu devolvi meu olhar para papai. —Sim.

—Ele perguntou a você?

—Pelo menos uma vez por mês nos últimos seis meses.

Os olhos de papai se arregalaram ainda mais, e seu olhar se voltou para Thomas antes que ele sacudisse a cabeça, incrédulo. —Certo. Bem, merda. Não me deixe te impedir.

Eu levei nossos pratos para a cozinha e limpei-os enquanto Thomas ouvia papai tagarelar sobre o gado que ele tinha tido problemas ultimamente, e um pouco mais sobre o jogo da semana anterior.

Espionando-os através da pequena janela, vi Thomas acenar e o ouvi dizer uma palavra em resposta em todos os momentos certos.

Não foi até que eu estava empilhando pratos na lava-louças que ouvi meu pai dizer: —Diga, qual é o seu sobrenome? Eu poderia jurar que te conheci antes.

—Verrone.

Merda.

—Hã. —Uma pausa, então, —Você estava relacionado com a família que morava aqui em Glenning?

Thomas não hesitou. —Sim. Sou o filho deles.

Dupla merda.

Eu abandonei os pratos e corri de volta para a sala de jantar, onde o som dos grilos podia ser ouvido acima dos dois homens olhando um para o outro. —Tem sido tão bom ver você, pai. Nós precisamos ir...

—Espere um maldito minuto. —disse ele, empurrando a cadeira para trás e ficando de pé. —Você mora no lugar abandonado ao lado?

—Nunca foi abandonado. —disse Thomas, levantando-se lentamente e abotoando o paletó.

A boca do meu pai abriu e fechou, e eu sabia que era devido a ele não saber o que dizer. Se ele falasse demais, teria que admitir demais para mim e possivelmente para si mesmo.

Então, ele fechou e me deixou beijá-lo na bochecha. Ele até apertou a mão oferecida por Thomas antes de descermos correndo os degraus da varanda e nos dirigirmos para as árvores.

—Dove, o carro está do outro lado.

—Nós vamos pega-lo mais tarde.

Chegamos à linha das árvores antes que não pudesse mais segurar, e eu dobrei, o riso saindo de mim. O som de Thomas se soltando levantou minha cabeça, e peguei sua mão, arrastando-o para dentro da floresta. —Ele gostou de você.

Ele sorriu. —Por alguns minutos.

Eu o olhei por baixo dos meus olhos, ainda sorrindo. —Isso é mais do que ele deu a qualquer outra pessoa.

Thomas encolheu os ombros, me puxando na outra direção. —Eu não me importo.

—Não? —Eu fiz uma careta.

—Não. Porque agora... —ele parou e soltou a minha mão para recuperar o anel que eu sabia que ele guardava no bolso da jaqueta por meses —...eu posso finalmente ver você com isso.

Três diamantes agrupados brilhavam sob o brilho da lua e das estrelas. Pequeno, elegante e... —É impressionante.

—Case comigo, Jemima Dianne Clayton. —Nossos olhos se trancaram. —Case comigo porque mesmo que seja difícil às vezes, prometo que você nunca vai se arrepender.

—Coloque-o, Thomas Anthony Verrone. —eu sussurrei.

Com gentileza colocando todas as minhas terminações nervosas em chamas, pegou minha mão e colocou o anel no lugar.

Seus lábios se esticaram em um sorriso satisfeito, e me puxando para mais perto, ele levantou a minha mão para beijá-lo. —Não é digno do seu dedo, mas estou morrendo de vontade ao ver você usando apenas isso.

Me cantarolei e dei um passo para trás.

Com olhos curiosos, Thomas me observou levantar meu vestido sobre a minha cabeça.

Quando abri meu sutiã, deixando-o cair no chão, ele encontrou sua voz. —O que você está fazendo?

—Usando apenas o anel. —eu disse enquanto deslizava minha calcinha pelas minhas pernas.

Ele olhou em volta para as árvores, depois entrou em ação.

Sua jaqueta foi a primeira a ir, e ele nem sequer tirou as calças antes de eu puxá-lo para mim e tomar sua boca.

Suas mãos estavam em toda parte enquanto sua língua deslizava sobre a minha. Nas minhas costas, segurando meus seios, emoldurando meu rosto, e então, finalmente, eles se acomodaram no meu estômago, e ele cuidadosamente me girou ao redor.

Ele moveu meu cabelo para o lado, sua dureza pressionando minha parte inferior das costas. —Então, não só o nosso bebê faz você briguenta, mas ele também faz você ousar.

Descobrimos que eu estava grávida há dois meses, quando fiz planos para voltar à pílula e fazer um teste de gravidez primeiro. Era cedo; Eu tinha no máximo seis semanas quando descobrimos, mas o olhar de alegria pura e desenfreada no rosto de Thomas apagou quaisquer preocupações que eu tinha.

Ele já havia pedido mobília de berçário e informou aos seus clientes que tiraria uma licença por seis meses depois que ele ou ela chegasse.

—Ele? —Suspirei enquanto seus lábios se moviam pelo meu pescoço, sugando e lambendo.

—Ele. —afirmou com essa confiança desconcertante.

Antes que eu pudesse pressioná-lo mais, uma mão deslizou entre as minhas pernas, e minhas coxas tremiam quando elas se abriram.

—Eu te amo. —ele murmurou, os lábios quentes no meu ombro quando deslizou os dedos por mim, em seguida, levantou-os à boca.

Minhas pernas quase dobraram, minha necessidade por ele forte demais para continuar em pé.

E com as estrelas, as árvores e os olhos brilhantes da vida selvagem nos observando, ele me abaixou no chão e se acomodou entre as minhas coxas.

—Monstro... —eu disse em uma inspiração aguda quando ele empurrou para dentro.

—Hummm? —Ele moveu minhas pernas atrás dele, em seguida, embalou minha cabeça em sua mão.

—Me dê seus olhos. —O dia em que eu quase perdi algo que eu nunca soube que precisaria tão ferozmente, estava permanentemente gravado no centro do meu coração, e em noites ruins, a memória transformava sonhos em pesadelos.

Depois de algumas noites de Thomas me segurando enquanto eu acordava encharcada de medo e suor, eu disse a ele sobre isso. Que eu temia o que poderia acontecer se não pudesse ver seus olhos, vê-lo.

—Depois. —ele murmurou para mim então, assim como ele fez agora. —Não tem fim, Little Dove. Apenas para sempre.

No lugar onde eu o vi pela primeira vez com os olhos de uma menina, no lugar onde o destino primeiro enfiou minha alma na dele, eu peguei seu rosto. Peguei e segurei com as mãos de uma mulher enquanto ele fazia amor comigo debaixo de um manto de estrelas piscando, e eu não desejava nada.

Não me arrependida de nada.

Não quando cada passo que eu dava, toda decisão boa e má que eu tinha feito, me levava para ele.

Para o meu príncipe escuro, meu monstro e meu amanhã.

Fim

Sobre a Autora

Ella Fields é uma mãe e esposa que mora na Austrália.

Enquanto seus filhos estão na escola, você pode encontrá-la falando sobre seus personagens para seu gato, Bert, e cachorro, Grub.

Ela é uma notória apreciadora de chocolate e notebook que gosta de criar felizes para sempre.

Mantenha-se informado sobre as próximas novidades, novos lançamentos e vendas.


Agradecimentos


Eu quase não escrevi isso. Me preocupo com o fato de soar como um disco quebrado a cada vez, então vou manter isso curto.

Meu marido e filhos. Obrigado por aguentar uma esposa e mãe mais loucas do que o normal enquanto eu lutava contra a indecisão incapacitante sobre este livro.

Meus leitores beta. Michelle, Allie, Lauren, Brynne e Serena. Obrigada pelo incentivo, seu tempo, feedback e amor por essa história. Eu amo todos vocês.

Brynne Você precisava de um parágrafo, e você sabe disso. Eu não posso agradecer o suficiente pelo tempo, cuidado e cada fatia de informação e feedback que você me deu. O fato de você ter lido esse livro como um chefe enquanto estava insanamente ocupado e a maioria teria dito que não, inclusive eu, me faz querer chorar de gratidão. Tudo que você precisar, eu sou toda sua, baby.

Michelle Obrigado por ler esta história inúmeras vezes e ainda amar tanto, se não mais, do que eu. Mesmo se você não o fizesse, você ainda seria uma dos meus maiores amores. Obrigado por tudo que você faz por mim.

Lucia. Obrigado por ser a Lucia para a minha Ella e verificar as coisas da máfia com o seu marido. Está aqui para ser o melhor tipo de idiotas.

Allison. Muito obrigado por ser um par extra de olhos.

O resto da minha incrível equipe. Sarah Hansen, Jenny Sims, Stacey Blake, Nina Grinstead e Sarah Grim Sentz. Obrigada, obrigada, obrigada. Eu não poderia ter pedido por um grupo melhor de mulheres para trabalhar.

E meus leitores. Escrever essas histórias peculiares e meio loucas é muito do meu coração e, portanto, vocês são os que ajudam a nutri-la. Obrigado por dar uma chance em algo diferente e por me seguir onde quer que eu te leve. Vocês nunca saberão o quanto essa confiança significa para mim.

 

 


[1] Pequena Pomba.
[2] Definição de ríper corpete : um romance histórico ou gótico tipicamente apresentando cenas em que a heroína é submetida à violência sexual.

 

 

                                                                  Ella Fields

 

 

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