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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


BENTO / André Vianco
BENTO / André Vianco

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

BENTO

 

     Abriu os olhos. O lugar estava escuro. Só isso sabia. Que estava num lugar escuro. Flexionou os dedos, sentindo e ouvindo-os estralar. Os braços estavam estendidos, rentes ao corpo. A garganta seca. As costas doloridas, como se tivesse dormido mais do que de costume. Precisava levantar e tomar água. Quis erguer os braços, mas estava fraco. Dor. Confusão mental. Onde estava? O estômago ardia e a garganta seca incomodava mais uma vez. Não estava em sua casa... Uma sensação estranha. Como aquelas de infância quando vamos dormir no sítio do tio e acordamos assustados de manhã, olhando para o teto, encontrando um cenário tão diferente do nosso habitual. Nessas horas a gente leva um instante para lembrar... Lembranças. Sentiu medo. Tentou levantar-se novamente, mas a fraqueza impedia. Sentiu espasmos musculares nas pernas e braços. Cãibras. Dor. Soltou um gemido entre dentes. Tentou pedir ajuda, mas a voz não saiu. O estômago queimava. Tinha alguma coisa espetada no braço. Uma agulha! Não podia ver, mas sabia que tinha uma agulha enfiada no braço. O medo novamente. Os olhos arregalaram e os globos dançaram nervosamente. Onde estava? Não era seu quarto! Sabia que não era! Não estava em sua casa! Respirou fundo repetidas vezes, com o peito subindo e descendo, parando de retorcer-se de dor e desespero por um momento. Tentava lembrar-se... mas não conseguia. Como eram os móveis em seu quarto? Não conseguia se lembrar de sua casa, mas sabia que estava longe de lá. Em sua casa não estaria com uma agulha espetada no braço! A mente clamou por calma. Tentava recuperar o controle da respiração. O coração batia disparado. Talvez estivesse amarrado. Por isso não conseguia mexer-se. Estava amarrado. Respirou fundo. Onde estava? Deus do céu! O que tinha acontecido com sua casa? O que tinha acontecido consigo? — perguntava-se atropeladamente. — Seqüestro? Doença? Onde estava a luz? Desespero. Os olhos começaram a lacrimejar intensamente, a ponto de ter lágrimas escorrendo pelos cantos dos olhos, descendo em direção dos ouvidos, posto que se encontrava deitado. Não conseguia nada além de flexionar os dedos doloridos das mãos. Os artelhos estralaram e também doeram na primeira flexão. Fechou os olhos. Abertos ou cerrados era indiferente. Nada tinha além da escuridão absoluta e do desprazer da consciência. Uma única coisa diferia com os olhos fechados. Uma ponta de segurança. O medo diminuía. Era como mergulhar num canto seguro. Imaginar proteção. Voltava a um lugar conhecido. Voltava para dentro de sua cabeça. O peito doía. Tentou lembrar-se da noite passada. O que tinha feito antes de dormir? O que tinha comido? Pizza da Tomanik? Um Tchê Filet? O medo voltava a crescer. Desespero. Não conseguia lembrar. Não conseguia. Não tinha memória! Não tinha vida!

    

     Despertou depois de algumas horas. Tinha tido um pesadelo horrível. Tentou levar a mão à testa. Realidade terrível. As mãos continuavam atadas à cama. E aquela dor aguda no braço. Algo na vena... vena? Não. Confusão. A palavra certa era veia, não vena. Dor de cabeça. Tossiu. Garganta seca e dolorida. Fome. Uma fome do cão. Uma fome dos infernos. Sede. Precisava de água. Puta merda! Dor nos músculos. Queria ficar de pé. Chacoalhou-se na cama. Um barulho. Passos. Um facho de luz. Fez um barulho. Um som gutural escapou da garganta... o que deveria ser um pedido de socorro soara como um resmungo. Precisava de ajuda. Calou-se. Conteve a saliva na garganta, evitou engolir. Pensou. E se aqueles passos não viessem de um amigo? Poderia ter sido seqüestrado. Podiam ser os pés do inimigo. O responsável por estar preso e com uma coisa espetada no braço. Os músculos doíam tanto. Não devia ter se chacoalhado. Agora tudo doía. Virou a cabeça e apurou os ouvidos. Passos e vozes. Eram dois ao menos. Fechou os olhos. Fingiria dormir. Talvez passassem por ele sem incomodá-lo. Precisava descobrir onde estava e o que fizera na noite anterior. Relembrar os últimos passos. Mas aí o medo voltava. O pavor. Não se lembrava de nada. Nada! Onde morava? O que fazia? Deus! Amnésia. Só podia ser isso. Não conseguia lembrar . Lembrava a droga do termo médico, mas não lembrava o nome do modelo de seu carro. Carro... Aquietou-se. Fuxicavam. Podia ter sido um acidente de carro. Falavam baixo para que ele nada ouvisse. Quem seriam? Aproximavam-se. Fechou OS olhos. Sabia que estavam parados ao seu lado. Fingir-se-ia de morto. Mas e se fossem a salvação? A resposta para as perguntas? Sentiu dedos forçando sua pálpebra. Abriam-lhe os olhos contra a vontade. Um facho de luz cegante. Explodiu num grito.

— Falei que este aqui também tava.

     A mão forçou o olho mais uma vez. A luz encheu e queimou o globo. Um gemido em protesto. Um pigarro seco.

     Abriu os olhos. Dois homens com aventais brancos. O mais baixo anotava numa prancheta. O mais alto, de bigode, ajustava um estetoscópio na orelha e colocava o espelho frio em seu peito; na outra mão trazia uma lanterna.

     — Me ajudem... — gemeu a voz fraca do homem deitado e amarrado.

Os homens pareciam ignorá-lo. Nenhuma palavra de amparo.

— O que você acha que ele é?

— Como vou saber? Ele acabou de acordar. Demora uns dias.

     —   Ah... — exclamou o outro, como se fosse novo no serviço. O de bigode estalou os dedos junto ao tímpano do examinado.

     O homem assustou-se e virou os olhos para ele rapidamente.

     — Reflexos bons. Está ouvindo, pelo menos. Tem cada um. — disse, enfadonho. — Anota aí.

O mais baixo obedeceu.

     O de bigodes olhou para o examinado. Fitou-o por uns segundos.

— Sabe teu nome? Lembra-se de alguma coisa?

     O paciente meneou a cabeça negativamente. Engoliu a seco, semicerrando os olhos, atordoado pela luz. Deus do céu! Não lembrava nem de seu próprio nome.

— Anota aí.

— Me ajuda. — clamou o recém-desperto. — Onde estou?

     — Eles vêm te buscar em algumas horas. Tu e o outro. Vão explicar tudo pra ti. Tenta relaxar. Boa sorte.

Quis reclamar, mas a voz não saiu.

     Os homens deixaram o lugar. O facho de luz desapareceu. Escuridão.

"Eles vêm te buscar em algumas horas."

     Fechou os olhos. Respirava profundamente. Deixando o peito magro encher completamente e depois esvaziar até o último litro. O que estava acontecendo? Sufocou-se com um engasgo involuntário. Lágrimas descendo pelo rosto. Droga! Não lembrava do próprio nome.

    

     Acordou com barulho novamente. Passos aproximando-se. Fachos de luz dançando no seu campo de visão. Luz de lanterna. Fatores de risco. Pensava em fatores de risco. Tentou manter os olhos abertos. Alcoolismo? Ninguém era trouxa de preencher esse campo com um sim. Ano da habilitação? Família? Apertou os olhos. As luzes perto. Moveu a cabeça, estirando-a completamente para trás. A pele do pescoço tesa. O gogó saliente. O cabelo crispado contra o leito. Tentava ver quem vinha. Pareciam dois. Dois homens. Podia ver, de ponta-cabeça, a luz batendo nas paredes. Pareciam recobertas por azulejos brancos. Do chão ao teto. Um hospital? Só podia ser. Não ouvia vozes desta vez. Eles vinham em silêncio. Seriam os mesmos homens de antes? Possivelmente. Lembrou-se que o modelo era importante. O ano. As vezes, o modelo diferia do ano, então alterava o valor. Apertou os olhos. Por que pensava nisso agora? Modelo? Ano? Tinha que se concentrar nos homens chegando. Tinha que se concentrar. Duas lanternas em seu rosto. Não conseguiu manter os olhos abertos. A claridade incomodava absurdamente. Não eram os mesmos homens. Usavam os mesmos aventais, mas não eram os de antes. Eram mais altos e mais fortes. Usavam óculos grossos... óculos de segurança, todo feito em acrílico. E tinham máscaras para respirar. O paciente voltou a respirar rapidamente, aflito. Estavam tão protegidos, tomavam tantos cuidados... logo, só podia estar doente. Só podia ser isso. Tinham os olhos diferentes. Olhos verdes. Sentiu a cama ser deslocada. Era uma maca com rodas. Passou a deslizar pela sala. Podia ver outras macas. Deus! Sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. Apesar da penumbra... podia estar certo. Pouca luz vazando do foco das lanternas, mas podia ver outros corpos! Mais gente... parecia gente morta. Quantas camas existiriam? Passou por dezenas. Dezenas. E a luz das lanternas era tão fraca, não conseguia ver muito, não conseguia ter certeza de muita coisa. Os olhos voltaram-se para o teto. Nenhuma lâmpada. As luminárias estavam vazias. Não estavam apagadas. Estavam vazias. A luz nunca chegava ali. Só por aquelas lanternas daqueles homens estranhos. Para onde estava sendo levado? Pigarreou, preparando a garganta seca e teimosamente dolorida.

— Onde estou?

     Os homens olharam ligeiramente para o recém-desperto. Voltaram a prestar atenção no caminho.

     — Pelo amor de Deus, não me ignorem. — reclamou o homem, pigarreando novamente. — Onde estou? O que aconteceu comigo?

— Não podemos falar. Ainda não é hora.

— Só queria saber onde estou... por que não podem me dizer?

— Você não está preparado. Calou-se.

     Continuou sendo conduzido por um extenso corredor, igualmente recoberto por azulejos brancos. Luz. Fechou os olhos. Dali em diante havia luz. Surgiram intercaladas uma luminária acesa e duas sem lâmpadas. Quando passava pela iluminação mais abundante era obrigado a espremer as pálpebras. Os olhos arredios rejeitavam a claridade. Dor de cabeça. O corpo fraco. Sede. Pôde ver sua pele pela primeira vez. Impressionou-se com a magreza dos braços e a brancura da derme. Estava doente, visivelmente doente. Podia ver seus ossos!

— O que eu tenho? Estou doente?

— Fica quieto que é melhor. Depois a gente fala.

— Eu vou morrer?

     Os dois riram, sem parar de conduzir a maca. Não falaram mais com o desperto, não responderam as perguntas. Apertaram um botão. Viram o paciente girar os globos oculares em todas as direções.

     Por que tinham parado? O que era aquele botão luminoso. Barulho escapando detrás da porta. Sede e dor. O estômago queimando.

— Preciso de água. Pelo amor de Deus! Só um gole. Os homens ignoraram.

     O barulho aumentou atrás da porta. A porta dividiu-se, abrindo passagem. Um cômodo apertado esperava do outro lado. Entraram com a maca. Girou os olhos. Um painel com oito círculos numerados. O mascarado escolheu um deles. O cômodo balançou. Sensação estranha na barriga. Sabia o nome daquilo. Elevação... elevativo... não... elevador. Um elevador. Os homens tiraram as máscaras. Estranhou. Se estava doente, se precisavam de máscaras lá embaixo... por que estavam tirando agora?

     O elevador abriu a porta novamente. Mais uma vez a maca trafegou por um corredor. Pararam. Uma porta foi aberta. Havia luz na sala toda. A maca foi conduzida até o centro do ambiente. Um dos condutores, sem aviso ou preparo, puxou a extensa agulha do braço do desperto. Um pouco de sangue vazou na dobra interna do cotovelo esquerdo. O homem acordado soltou um gemido breve. Estava agitado, com a cabeça girando para lá e para cá, com os olhos apertados por causa da claridade, mas tentando ver tudo.

     O quarto de azulejos brancos de cima a baixo era amplo, com paredes de cinco metros em cada face. Vigorosamente iluminado. Uma das paredes comportava um vidro grosso, formando uma espécie de janela larga. Simples. Sentiu a agulha sair do braço. Gemeu. O outro libertava seus braços e pernas das cintas de couro que o mantinha imobilizado. Respirou fundo. Que raio de hospital era aquele? Que doença ele tinha? Por que não se lembrava direito das coisas?

     Os homens de avental e máscaras cirúrgicas penduradas no queixo saíram, deixando o recém-desperto a sós. Agora era com ele.

     Ele tentou levantar-se. A cabeça parecia que ia explodir. Estava indignado com o tratamento. Por que não lhe explicavam as coisas? Por que era assim? Piscou. Os olhos acostumavam-se paulatinamente com a luz. Sentia-se fraco. Conseguiu apoiar-se nos cotovelos, deixando o tronco elevado. Sentiu tontura. Muita tontura. Veio o enjôo. Teria sido envenenado? Como podia ter ficado tão mal de um dia para o outro? Como podia ter passado uma noite tão mal dormida? Não fazia sentido. Exceto se... um calafrio ao imaginar uma terrível possibilidade. Exceto se não estivesse naquele hospital por um dia apenas. Podia estar ali há uma semana. Um mês! Teria acontecido algo com sua cabeça? Acidente. Talvez. Acidente vascular cerebral. Talvez. Não conseguia se lembrar do próprio nome... inspirou fundo. Tinha se lembrando de amnésia, da AVC, mas não lembrava a porra do nome. Sorriu nervoso. Palavrão lembrava, mas o nome, não. Olhou para a grande janela. Forçou a cabeça para frente, sentando-se no fino colchonete da maca hospitalar. As costas doeram. Estendeu as mãos diante dos olhos. Mal estar. A pele estava estranha. Impressionantemente empalidecida. As unhas pareciam grossas e estavam mais compridas do que costumava deixar. A mão era pele e osso. Horrível. Alterou o ritmo da respiração. As unhas dos pés também estavam compridas e arroxeadas. Fazia tempo que não as cortava. Estava nu. Não tinha percebido por causa da claridade, mas o lençol que cobria a parte baixa de seu corpo tinha sido levado com os carregadores de maca. Os pêlos negros sobre o peito pálido destacavam-se. A barriga afundava, juntando-se à pélvis, onde mais pêlos negros brigavam com a alvura cutânea. Tontura. Via bolinhas flutuando diante dos olhos. Alguma reação do corpo por colocar-se subitamente de pé. Tocou o chão com a planta dos pés. Um frio intenso subiu pelas pernas. Sentiu até mesmo o saco escrotal retrair-se abruptamente. Choques nos nervos. Cambaleou e não se conteve, caindo no piso branco de lajotas azulejadas. O corpo todo gelou. Engatinhou até a parede. Ia vomitar. Estava zonzo. A vista turvou. Os lábios tinham rachado com o esforço. Não em um ponto apenas. Ao menos três cortes em cada lábio. Viu adiante um catre preso por correntes finas à parede. Apoiou-se no catre acolchoado e sentou-se à beira. Não conteve o suco gástrico que verteu ralo, azedando-lhe o paladar e deixando a boca ácida. Pelo menos a boca fora umedecida. Deitou-se um instante na cama, esperando que o quarto parasse de girar e que os espasmos estomacais abandonassem seu corpo. Não queria mais vomitar. Não estava bem. Queria entender o que se passava. Que doença havia lhe acometido? Onde estava e, principalmente, quem era? Lágrimas molharam a face do homem. Ele não se lembrava da própria identidade e isso lhe desesperava.

    

     Adriano retirou o capacete de cima da poltrona. Passou a mão pelo curto cavanhaque. Olhou-se no espelho e benzeu-se. Deus! Sabia que a próxima missão não seria fácil. Já tinha feito muitas cruzadas. Muitas empreitadas como aquela. Mas sempre tinha medo. Muito medo. Faltavam poucos minutos para o nascer do sol. Teriam todo o dia para cruzar a estrada até a próxima cidade. O próximo forte. Tinha informações novas a levar. Informações para o plano. Estavam chegando perto de uma nova arma para combater o mal noturno. Precisava deixar Nova Luz naquele alvorecer. As coisas tinham que seguir em frente, independente de seus temores. Temia, porque sabia o que acontecia quando as coisas saíam errado na estrada. O mundo era outro desde a Noite Maldita, como ficara conhecida a noite daquele funesto evento. Trinta anos passaram-se desde então. Adriano era um moleque na ocasião. Um menino que queria aprender a andar de skate como o irmão mais velho. O irmão que se tornara um daqueles malditos. O irmão que nunca mais fora visto. O pai caíra em um sono profundo e a mãe tornara-se uma espécie de louca. Crescera como muitos da sua idade. Aprendendo a se virar com os sobreviventes. Arrastando a mãe para as fortificações e fugindo dos malditos durante a noite. Crescera um soldado. Um soldado bravo. Agora era peça importante na luta contra os noturnos. Era um dos escolhidos. Um dos poucos soldados a conhecer o plano. A saída alternativa para derrubar os malditos da noite.

     Pegou a mochila colocada em cima da cama. A esposa, Carina, ainda dormia. Essa era a vantagem de ser um soldado importante. Tinha a casa constantemente vigiada e, com esse luxo, podia dormir a noite toda em paz. Mesmo assim não dispensava armamento pesado deixado ao lado do leito. Outro luxo. Armas de fogo carregadas. Não eram todos que as tinham hoje em dia. Munição era um artigo valioso.

     Adriano vestiu uma jaqueta jeans. Apesar do ar morno àquela hora da madrugada, o trajeto até São Vítor seria feito em motos. Uma jaqueta sempre era proteção a mais.

     Beijou a mulher que dormia e deixou a casa. O céu já não estava mais tão escuro. Uma claridade fraca tornava-o roxo-alaranjado. Nuvens cruzavam baixas e velozes.

     O mundo estava tão diferente que, às vezes, era difícil de acreditar que se vivia no mesmo planeta. Vida: só experimentavam durante o dia, durante as horas de sol. Durante a noite, fechavam-se, protegiam-se como podiam. Defendiam-se dos malditos noturnos. Dos monstros das trevas. Fechavam-se em comunidades como aquela. Cercadas por muros altos e vigias noturnos. Olhos abertos. Só relaxavam quando o sol nascia. Mas tremiam quando o astro rei deitava no horizonte. Sabiam que a luz era a única defesa inabalável. A escuridão era a chave que libertava o mal sobre a Terra. Durante as horas noturnas, eles corriam pelas florestas, pelas matas que tomavam as cidades antigas. Os grandes centros não existiam mais. Ao menos para a humanidade. Lá os noturnos tinham se instalado, formando gigantescos e perigosos covis. Durante as noites, eles destruíam estradas. Eles destruíam hidrelétricas. Minavam as forças dos sobreviventes. Vinham para as comunidades e invadiam os recantos, atravessando os muros fortificados, buscando os vivos para deles tomarem a vida ou criarem novos escravos. Caçavam. Buscavam os adormecidos. Tramavam. Queriam os adormecidos. A força das criaturas noturnas crescia. Selvagens, comiam a tecnologia conquistada. Impediam que os sobreviventes se unissem, dificultavam estratégias conjuntas, ampliavam a separação. Não havia mais telefonia. Não havia mais rede de computadores. Não havia mais eletricidade. Raros eram os lugares seguros. Atacavam em bandos. Tomavam sangue. Tomavam vidas. A chegada da noite era o terror dos sobreviventes. Chamavam-se assim, sobreviventes, pois era o que eram. Sabiam que daqui para o fim dos dias era assim que se sentiriam. Meros sobreviventes. Gente que escapou do grande mal que dizimou o mundo conhecido. Eram agora como ratos acuados com medo de gatos gigantes. Gatos insanos, com presas afiadas e compridas, com sede de sangue. Tinham medo. A cada alvorecer oravam agradecidos ao céu por estarem vivos, por estarem sãos. A cada anoitecer muitos sucumbiam à loucura. Choravam desesperados. Com medo ou das criaturas noturnas ou de que caíssem no sono e não mais se levantassem. K se essa noite se repetisse, tinham medo de acordar feito malditos, loucos pela escuridão c com medo do sol. Era difícil acreditar naquele mundo... uma fantasia tirada dc livros antigos, de filmes perversos.

     Adriano adentrou o pátio. O chão de terra batida exalava um cheiro agradável produzido pelo evaporar do orvalho. Oito motos estavam em pé, lado a lado, esperando por seus cavaleiros. Adriano olhou para seu time. Eram bons homens. Apenas um novato. Um soldado em formação. Não importava quão estúpido parecesse o iniciado, era sempre recebido como um irmão. Poucos tinham coragem de se unir à missão dos cavaleiros. Ligar as cidades. Continuar a comunicação. Uma tarefa perigosa. Para ser cavaleiro era preciso ter coragem. E eram tão poucos os que se dispunham a cruzar as estradas que, por essa razão, aceitavam o alistamento tanto de homens quanto de mulheres.

     Adriano fez um sinal ao homem em cima do muro. Rodeou os companheiros e olhou para Paraná, em cima da moto, do lado esquerdo, enquanto prendia o capacete. O soldado de Nova Luz trazia um saco de lona, com mensagens e alguns presentes de pessoas da fortificação para o velho Bispo, o místico de São Vítor. Ia também com ele a lista de nomes de parentes e conhecidos adormecidos nos porões do Hospital Geral de São Vítor (HGSV). Paraná acionou a partida elétrica da moto. Adriano olhou para a moto à direita. Gaspar estava de cabeça baixa, olhos fechados, com os dedos pressionando as pálpebras, concentrado e movendo os lábios. Estava rezando. O asfalto esperava. A rodovia começava imediatamente após o portão. Menos nuvens cobrindo o céu. As estrelas perdendo o brilho com a chegada da manhã. Adriano respirou fundo. Apertou a presilha da mochila que vinha nas costas e checou a bainha do facão preso à cintura. Guardou o rifle no coldre especialmente preso à moto. Uma moto esportiva, mil e duzentas cilindradas. A vermelhidão persistia no horizonte. Luz do sol. Olhou para os sete acompanhantes. Sorriu-lhes. Montou na moto e deu partida. Os soldados também ligaram os motores, todos potentes. Adriano colocou o capacete e repetiu o aceno ao guarda postado em cima do muro da fortificação. O portão começou a deslizar, dando aos homens a visão tão costumeira que tinham do terreno imediato à cidade. Nova Luz era cercada por Mata Atlântica, tão cerrada e repleta de altas árvores que a luz tardava a penetrar e chegar ao asfalto negro. Os oito cavaleiros aceleravam de maneira agressiva. Mantinham a embreagem puxada para que as motos não saíssem antes do motor esquentar um segundo. Adriano era o "puxador". Somente depois que ele cruzasse o portão, iriam atrás. Adriano olhava fixamente para o soldado do muro. Lá do alto, o colega observava a mata com um binóculo. Checou o posto de vigia, trezentos metros a frente. O vigia acenou, a estrada estava livre. Do alto do muro o soldado fez um sinal positivo para o motoqueiro líder. Adriano soltou a embreagem e disparou pelo asfalto umedecido pelo orvalho. Os motores roncaram e, um a um, formando uma fila, correram atrás do puxador. O tempo era tudo. As paradas seriam escassas. Tinham que comer chão e chegar na cidade destino, São Vítor, antes do anoitecer. Suas orações, antes de dormir, tinham durado, pelo menos, uma hora e meia de intensa concentração, pedindo uma coisa: estrada segura. Ao menos durante as horas de sol não precisavam se preocupar com os malditos noturnos, mas precisavam de caminho livre para chegar em São Vítor, não existia outra fortificação naquela rota. Oitocentos e noventa quilômetros até São Vítor. Saindo da estrada, cruzando a floresta, poderiam chegar a outros abrigos... mas motos não cruzavam florestas. Diacho de posto isolado o que foram escolher para morar! Não poderiam parar. Só assim para cobrir todo o trajeto sem cair no risco de ficarem na estrada durante as horas de escuridão. Com o sol recém-desperto, o ar ainda estava fresco e agradável. A estrada estendia-se sob as sombras das árvores abundantes. Folhas secas valsavam conforme a passagem feroz das máquinas velozes. Pelo retrovisor Adriano contou, ao menos, mais quatro de seus acompanhantes. Os demais vinham mais atrás, escondidos pela curva. Os faróis das máquinas ainda eram mantidos acesos. O coração do "puxador" estava acelerado. A adrenalina sempre ia às alturas quando deixava Nova Luz para uma missão. Era sempre uma aventura incerta percorrer a gigantesca distância que separava o lar fortificado da próxima vila protegida. O medo sempre o colocava alerta. Mas sempre vinha aquela energia. Aquela energia que o fazia sorrir. Uma satisfação quase masoquista em colocar-se em perigo, em fazer o sangue ser bombeado mais rápido nas veias. Uma gratidão expressa pelos hormônios quando colocava o corpo, e a vida em risco. Era um viciado nas estradas. Um viciado na aventura. Sabia que contra isso nada podia fazer. Era um soldado. Um cavaleiro.

    

     Acordou. A sala de azulejos brancos continuava a fazer parte de sua realidade. O homem que anotava ainda estava lá, atrás da grande janela. Olhou com atenção. Era outro. Estavam se revezando para vigiá-lo. Anotando coisas em papéis. Sentia-se um experimento.

     Sentou-se no catre. Sentia frio. Quando lhe dariam algo para vestir? Mais que cobertura, queria água. Mal havia acordado e a sede transtornava-o. Esfregou os músculos doloridos das coxas e dos braços e sentiu fisgadas nas costas enquanto olhava para o maldito colchão fino, culpado de tanto desconforto. Já a palidez mórbida não o assustava, estava se acostumando com a pele branca, não se enojava tanto pela própria aparência. Há quantas horas estava sendo vigiado ali? Mais de um dia? O estômago queimava. A boca estava seca e ainda recendia o gosto azedo do vômito. Sentia-se engaiolado como um rato de laboratório. Pela primeira vez um sorriso brotou na face. Encarou o homem que olhava atrás do vidro, enquanto uma ardência chata lembrava que tinha estourado os lábios ressecados. O homem pareceu anotar mais alguma coisa. O engaiolado sorria porque se lembrava da expressão "rato de laboratório", mas não conseguia se lembrar do primeiro nome.

     Agora, mais lúcido, analisava melhor o quarto. Além da ampla janela de vidro, existiam três portas. Uma ao lado do catre e a outra na parede oposta, de frente para a primeira. A última ficava de frente para a janela de vidro, centralizada na parede. Achava que tinha entrado por ali. Então, passando aquela porta, chegaria ao corredor por onde viera. Parou de divagar e voltou a examinar as portas. Eram todas brancas, como os azulejos, mimetizando-se às paredes. A luz forte, vinda do teto, parecia refletir em todo o ambiente. Esperava sair dali logo. Parecia uma jaula de hospício. Se ficasse ali mais um dia, se ainda não estivesse, acabaria louco.

     Reparou em outra coisa. O chão, onde tinha vomitado; estava limpo A maca, que fora deixada no meio do cômodo; tinha desaparecido.

     Respirou fundo. Procurou acalmar-se. Pensava. Tentava lembrar. Lembrava-se da sala de sua casa. Uma televisão de 21 polegadas. Um tapete azul. Mas não se lembrava de muitas coisas. O endereço... morava em São Paulo, mas não se lembrava do nome da rua. Lembrava de árvores em frente ao prédio, de orelhões públicos... mas não se lembrava do nome da bendita rua. Lembrou-se de um comercial da Casa do Pão de Queijo... depois de uma revista. Revista Veja. Colocou a mão na boca. Um carro cinza veio-lhe à mente. Qual era o nome daquele modelo? Esforçava-se... os nomes. Parecia que o problema era esse. Lembrava-se de algumas coisas, mas não se lembrava dos nomes de todas as coisas. Flutuava nas frações de lembranças quando notou batidas na porta. Não na porta de frente para a janela, vinham da porta de frente ao catre. Primeiro, três batidas curtas. Levantou-se. Ainda nu. Cruzou o quarto. Novas batidas. Voltou ao catre e sentou-se, cobrindo o sexo com as mãos. Depois de "vestir-se", pigarreou e pediu que a pessoa entrasse. Silêncio. Ninguém entrou. Novas batidas. Ele olhou para o homem do outro lado do vidro. O mesmo lhe observava, silencioso... quase pôde perceber certa curiosidade no olhar do espectador. Levantou-se, mais uma vez, e foi até a porta. Novas batidas, agora em ritmo. Respondeu batendo com o punho contra a porta. Ela era feita de metal. Parecia oca. Bateu mais algumas vezes, respondendo aos batuques do outro lado. Por que não abriam aquela porta? Olhou para o observador. O homem anotava. Foi até o grande vidro e encostou o rosto na peça transparente, tentando ver mais à direita. Procurava por outro homem observador. Isso significaria que a pessoa que batia ao lado também era analisada. Que era um vizinho. Um irmão na condição. Sorriu. Viu outro homem de avental branco do outro lado. Sua suposição era certa, então. De repente, viu seu rosto refletido no vidro. A janela tinha se transformado, gradativamente, num espelho. Afastou-se do vidro. Voltou para sua cama. Quando acabava de se deitar, ouviu um chiado vindo do teto. Um chiado agudo. Desses que escapam de alto-falantes. Microfonia. Uma voz metálica. — Levante-se.

     Ele obedeceu. Olhava curioso para o teto, A luz fluorescente incomodava, fazendo apertar as pálpebras. De onde vinha a voz? Seria o observador?

— Encoste-se na parede, entre a cama e a porta branca.

     Ele sorriu. Havia alguma porta de outra cor? Falador idiota. Só tinham portas brancas naquela droga de gaiola de merda. Obedeceu, encostando-se à parede. Um barulho atrás da cabeça. Uma garra metálica enrodilhou seu pescoço. Assustou-se. O que era aquilo? Mais barulho e dois grilhões envolveram seus punhos. Estava preso. A garra apertou e puxou seu pescoço e deixou-o colado ao azulejo frio em suas costas nuas. Se não ficasse imóvel e encostado à parede sufocaria.

     Depois de minutos intermináveis, a porta de frente ao espelho abriu-se. Uma mulher de bata branca entrou. Ele a viu com o canto dos olhos. Ela trazia uma bandeja metálica. Era uma médica?

     — Bom dia. Sou a Dra. Ana. — disse a mulher, ficando de frente para o homem.

     Ele viu que a médica usava óculos de proteção, iguais aos dos homens que o trouxeram daquele lugar escuro. Aquele plástico... tinha um nome... um material plástico... no entanto não se lembrava do nome daquele produto... tinha lembrado quando viu aquilo pela primeira vez... mas agora...

     — Vim colher sangue para alguns exames. Você já lembrou seu nome?

     O homem olhou nos olhos da doutora. A boca da mulher... achou-a bonita. Fechou os olhos por um instante, como se fizesse um esforço. Estava pelado. Não poderia ficar excitado. Que vergonha...

— Lembrou teu nome? — repetiu a doutora.

     — Não. Não lembro dos nomes... nem do meu, nem de nada. Lembro do nome de algumas coisas... quase nada. Lembrei do meu carro, mas não lembro o nome do modelo. Lembrei do nome do que são feitos os óculos que vocês usam, mas agora eu esqueci.

     A doutora sorriu enquanto amarrava uma tripa de borracha no braço do paciente.

— É assim mesmo.

— O que eu tenho, doutora?

— Vamos descobrir, já, já.

— Que hospital é esse?

— Hospital Geral de São Vítor.

     — São Vítor? Não me lembro desse hospital... — balbuciou o homem. — Esta cidade...

     Ele sentiu uma fisgada no braço. Seu sangue enchia um tubo de ensaio. Uma etiqueta numerada envolvia o tubo. Sobre a cama, com o canto dos olhos, viu outro tubo, já cheio de sangue e também etiquetado. Aquilo confirmava suas suspeitas. Realmente tinha um vizinho.

     — Pronto. Já tenho o suficiente. Doeu? — perguntou com um sorriso.

— Não, senhora.

     A médica retirou a agulha. Manipulou o tubo, colocando-o junto com o outro na bandeja.

— Abra a boca.

     Ana examinou os dentes do paciente, examinou a garganta jogando luz pela cavidade bucal. Depois examinou os olhos, virou a cabeça do rapaz, segurando-o pelo queixo com a mão enluvada e examinou também os canais auriculares.

— Você teve enjôos?

O homem limitou-se a confirmar com a cabeça.

A doutora colocava agora um estetoscópio em seu peito.

— Por que estou tão pálido, doutora?

— Falta de sol.

     O homem ficou quieto por um instante, ruminando hipóteses, então tornou:

— Quanto tempo estou internado aqui?

     Ana olhou-o demoradamente nos olhos. Ele identificou alguma coisa naquele olhar. Um calafrio percorreu seu corpo. Parecia que aquela mulher estava com pena dele.

     — Ainda não é hora de falar disso, Lucas. Vamos ver esses exames primeiro. Você tem que ficar nesse quarto por mais alguns dias até poder sair e saber toda a história. Tem muito fogo e fumaça pela frente.

     O homem ficou estranhamente quieto, olhando-a. Ana notou quando os olhos dele encheram-se de lágrimas.

— Bem, eu vou indo. Volto amanhã para te ver.

— Você me chamou de Lucas...

     Ana ficou sem graça. Não era hora de ter lhe dito o nome. Ela olhou sem graça para o grande espelho. Tinha cometido um engano. Não dos graves, do tipo que a faria ser chamada à sala do diretor, mas tinha pisado na bola. Era bom quando eles lembravam sozinhos das coisas mais básicas. O empurrãozinho viria depois.

— É esse o meu nome...

     Aquilo não soou como uma interrogação, tampouco como uma afirmação. As palavras saíram incertas, como se estivesse buscando no interior de sua mente alguma intimidade com o nome revelado. Alguma simpatia pela palavra. Uma confirmação... luz para um homem que não se lembrava do próprio nome.

— Foi um acidente que me deixou assim?

     Ana já estava na porta de frente ao vidro. Bateu duas vezes. Olhou de volta para o paciente preso.

— Não, Lucas. Não foi um acidente. A porta abriu-se.

— Posso perguntar uma última coisa, Ana?

     A mulher sorriu. Diferente dos outros, aquele homem a tratava pelo nome, com intimidade, como se fossem amigos de longa data. Estava quase certa de que ele não era um deles.

— Se eu puder responder...

     O homem, com lágrimas descendo pelo rosto, ainda emocionado pela revelação do nome, olhou profundamente para a mulher. Ficou em silêncio.

Depois de alguns segundos, com a porta aberta, Ana tornou:

— Pergunte. Mas desembuche. Não posso ficar aqui o dia todo. O homem prendeu os lábios e passou a língua na pele fina, como querendo umedecê-los.

— Por que vocês têm medo de mim, Ana?

     A médica ficou quieta por um breve momento. Os olhos dançavam nas órbitas. Ela procurava palavras.

     —   Não é medo, Lucas. E prevenção. Você vai acabar entendendo.

     A médica saiu com a bandeja e a porta fechou-se automaticamente pelas suas costas.

Os grilhões libertaram Lucas.

     O homem cambaleou para frente. Olhou para o espelho. Sabia que o observador estava lá.

— Estou com sede! — gritou. Silêncio nos alto-falantes.

— Estou com sede, porra! — falou mais baixo.

     Lucas foi até o catre e deitou-se no colchão fino. Os olhos varreram o teto branco. Repetia infinitamente o próprio nome, ainda perseguindo a intimidade com a alcunha. Quem era Lucas? Apertou os olhos, tentando afundar nas lembranças. Ouvia agora o nome na boca de vários rostos. Gente apertando sua mão e dizendo "Lucas". Mulheres falando "Oi, Lucas". O nome repetido e repetido. Suspirou. Sua própria voz soando no arquivo de lembranças: "Prazer, Lucas." "Qual é sua graça?" Tinha que se acostumar. Tinha que aceitar. Mas, finalmente, voltara a ser dono de um nome. De uma identidade a se apegar na beira daquele precipício que o conduziria à loucura. Lucas.

    

     Já tinham ultrapassado a metade do caminho. Adriano enxugou o suor da testa. As motos estavam estacionadas no acostamento, onde existia uma grama rasteira que, gradativamente, avançava para a pista. Sinatra, sentado numa rocha lisa, começava a desfiar seu repertório exclusivo de flashbacks para os parceiros de estrada. Todos gostavam da voz do cantor do grupo que embalara muitos acampamentos na estrada, distraindo um pouco o medo. Os soldados tomavam água numa bica natural, que transbordava à beira do asfalto, ouvindo Sonífera Ilha, dos Titãs. A bica formava ali um tanque cristalino, com uma circunferência de quatro metros, aproximadamente. Apesar de pequeno, o lago era imensamente lindo. As pedras ao fundo podiam ser vistas, mas não chamavam tanta atenção quanto a Mata Atlântica ao redor. Não raro viam-se animais silvestres pulando entre as árvores, caçando frutas que eram encontradas com fartura naquela época do ano. A voz de Sinatra era acompanhada pelo guincho dos macacos e o piar de vários tipos de aves. O planeta todo sofrera gigantesca alteração nas últimas décadas. Sem a interferência maciça da raça humana, destruidora, a Terra respirava aliviada e retomava sua exuberância com o passar dos anos. As matas e florestas voltavam com força. Excluindo aquelas que serviam de caça para fins de alimentação. Os animais cresciam e espalhavam-se naturalmente, lutando exclusivamente contra seus predadores silvestres. Nem os homens, nem os malditos noturnos, interessavam-se pelas criaturas das florestas. As aves voltavam a reinar no céu. Alguém que tivesse vivido há trinta anos estranharia imensamente aquelas novas paisagens. Eram lindas demais... em mais de um sentido.

     Adriano também tomou água gelada da fonte natural e abasteceu seu cantil. Ainda tinham muito asfalto para comer até São Vítor. Restavam cerca de trezentos quilômetros, o que consumiria quatro horas, em virtude das condições da estrada. Até ali já haviam se deparado com cinco árvores na pista. As novas e de tronco fino eram ceifadas e davam passagem para as motocicletas. Mas, três delas eram imensas, o que consumiu mais tempo para transpor o obstáculo. Todas pareciam ter ido ao chão, em razão de tempestades com ventos avassaladores. Nenhuma parecia ter sido derrubada pelos noturnos, mas eles bem seriam capazes de plantar aqueles percalços no trajeto. Eram criaturas astutas, perversas, donas das maldades. Capazes de truques como aqueles ou piores. Tudo para prender na estrada os que se aventuravam de uma fortificação a outra. Queriam que os incautos viajantes ficassem desprotegidos na noite, que fossem presas fáceis longe dos conglomerados cercados por muros altos e vigiados por soldados acostumados a suas artimanhas. Quitutes para jogos noturnos. Sim, afinal de contas, um grupo de oito soldados não servia para o caçador ganhar prestígio no covil. Um grupo de oito soldados servia de exercício. Sabiam que os noturnos curtiam sangue dos acordados. Tinha mais sabor, mais buquê. E não eram fáceis de agarrar. Lutavam, atiravam, tornavam o sangue mais apetitoso. Que graça tinha em beber dos adormecidos? Mas, os adormecidos eram o alvo principal dos noturnos. Sim. Os caçadores da escuridão buscavam Rios de Sangue, lugares abandonados onde ainda existiam adormecidos aos montes, ou buscavam invadir fortificações que serviam de postos de armazenamento e monitoração dessa gente inanimada.

     Adriano olhou para o novato. O rapaz lavava as mãos na água fria. Parecia calmo. Talvez fosse bom na luta. Talvez viesse a ser um bom soldado. Os demais eram velhacos da estrada. Eram duros na queda. Apesar de velhos cavaleiros, só mais um sabia do plano. Gaspar sabia a razão da viagem. Conhecia os papéis que Adriano carregava junto ao peito. Os papéis continham instruções para o chamado "Grande Plano B". Uma "inteligência" formara-se na última década e, sorrateiramente, tentando crescer sem o conhecimento tanto dos noturnos quanto dos sobreviventes, buscava criar uma estratégia para eliminar os noturnos em seus ninhos. Poucos recebiam detalhes ou sequer imaginavam que um time trabalhava em busca de uma solução definitiva, uma arma letal, caso as predições do velho Bispo um dia falhassem.

     O novato chamava-se Marcel. Seu rosto de feições juvenis e cheias de vida fazia com que aparentasse por volta de vinte anos.

Adormecera na Noite Maldita, quando tinha dez anos de idade. Despertara dez anos atrás, encontrando o mundo de pernas pro ar. Adriano pouco sabia dele. Apenas que crescera na Nova São Paulo e que há três anos tinha se mudado para Nova Luz, buscando um lugar menor. Apesar de não saber muito do rapaz, sabia que era boa gente e também pouco perguntava quando encontrava alguém disposto ao alistamento, disposto a colocar o pescoço em perigo em prol do grupo. Procurava saber mais do sujeito durante as missões, durante as viagens. Dali para diante ficariam muitas horas juntos. Dormiriam algumas noites juntos. Haveria tempo mais que suficiente para entender se o novato dava ou não para o serviço de soldado. Além de Gaspar e Marcel, vinham mais cinco soldados, compondo o time básico de saída, com oito integrantes. Raul era um deles. Muito amigo de Adriano e também um soldado extremamente experiente. Adriano aproximou-se deste último. Um vento constante murmurava entre os galhos das árvores, fazendo barulho e salpicando a rodovia deserta como folhas que se desprendiam das copas.

     — Já estou na reserva. Vou colocar meu galão sobressalente, não podemos deixar de parar no quarto posto.

     — Temos que ir ligeiro. Já vai dar uma hora. Estamos com o horário justo. Aquelas árvores no caminho tomaram muito tempo. — disse Raul, dando uma cuspida na grama e secando a boca nos pêlos do braço.

     — Vamos sair agora. Sair e rezar para que não haja mais obstáculos pela frente. Mais demora e corremos o risco de ficar para fora.

—        Valha-me Deus! — retrucou o amigo, benzendo-se. Adriano assobiou, chamando a atenção do resto do grupo.

     — Vamos agora. Temos que parar no posto quatro. Vocês também devem estar ficando sem combustível.

     — O meu tá no fim. — juntou Paraná. — Se não pararmos no posto, não chego.

— Vamos parar, não tem jeito. — disse Adriano.

     Os homens montaram nas motos e deram partida, quebrando o mágico silêncio da mata.

     Uma revoada de araras-azuis decolou do arvoredo próximo à piscina de água natural.

     Adriano tomou a liderança, puxando a fila de motoqueiros. Tinham muito chão para comer e muita reza para entoar. Tinham que estar em São Vítor antes do sol baixar. O puxador enrolou o cabo na manopla até o limite, fazendo a moto disparar na reta. Se Deus quisesse, em duas horas estariam no posto quatro e as motocicletas e seus reservatórios sobressalentes seriam, mais uma vez, reabastecidos. Depois era só chegar à fortificação, entregar os papéis e dormir o sono dos justos.

 

     Adriano freou bruscamente, assustando o grupo. Uma armadilha. Logo depois da curva havia um galho estendido no meio da pista. Se estivesse distraído, chocar-se-ia contra os galhos e o acidente poderia ser fatal. Não podia se dar ao luxo de morrer antes de entregar os papéis e assegurar que mais um passo fora dado para acabar com aquelas criaturas que cultuavam a escuridão. Desejava do fundo do seu ser acabar com aqueles demônios sanguinários. Por isso, benzeu-se e agradeceu a Deus por ter lhe dado olhos e faro de guerreiro. Por ter soprado em seu ouvido que precisava frear. Não era uma árvore de caule muito espesso, mas demasiadamente frondosa. Adriano apeou da moto irritado, retirando nervosamente o capacete da cabeça. Enquanto os outros estacionavam, ele já circulava o obstáculo procurando uma passagem. Não podiam perder tempo. Cada obstáculo daquele colocava cada vez mais a travessia em risco. O sol ainda estava longe do horizonte, mas, como soldado experiente e vivido, sabia que era necessário chegar com folga de luz à fortificação. Queria ter tempo de sobra, não sentir a urgência queimando sua cabeça.

     A árvore tinha galhos espalhando-se por toda a pista e acostamento. Teriam que parti-la. Adriano já tinha retirado seu facão da guarnição quando Marcel, o novato, chamou-lhe. Dizia que podiam passar as motocicletas por cima do caule, onde ficava mais baixo num determinado ponto. Acabaram todos concordando, mas, mesmo assim, a tarefa requeria tempo e despenderia esforço do grupo. As máquinas eram potentes, portanto mais pesadas do que a média. E tinham de fazer o serviço com cuidado para não danificar nenhuma das motocicletas e prosseguirem viagem sem mais nenhum percalço.

     Os homens juntaram-se para erguer as motocicletas e atravessá-las por cima dos galhos. O equipamento extremamente quente dificultava tremendamente o manuseio, mas estava fora de cogitação aguardar que os motores resfriassem para fazer a operação. Tinham que se virar, evitar queimaduras, mas trabalhar. Não perder o precioso tempo. As horas de luz. Primeiro passaram a moto do novato. Depois, veio a moto de Gaspar. Como eram pesadas aquelas coisas! Muito pesadas. Todo cuidado era pouco. Escapamento pelando de quente. Motor irradiando calor. Sorte que todos usavam luvas de couro.

     Marcel, já do outro lado da estrada, viu que muita gente lidava com uma moto por vez e percebeu que mais atrapalhava do que ajudava. Então, afastou sua moto para o meio do asfalto e, curioso com a paisagem, resolveu caminhar.

     O sol atravessando a folhagem das copas e chegando em graciosos fachos ao chão negro montava uma imagem calma e preguiçosa. É pena que tinham que correr o trajeto todo, sem poderem desfrutar das agradáveis paisagens e locais de imensurável beleza e encantamento. O esplendor com que a Mata Atlântica desenvolvia-se chegava a invadir-lhe com o louco desejo de deixar a fortificação e fazer morada numa daquelas magníficas clareiras. Mas Marcel sabia que aquilo seria impossível. Continuou a caminhar. Estava no meio da pista. A curva em que haviam entrado continuava, portanto a floresta tapava completamente o restante do cenário. Sabia que os homens perderiam, ao menos, mais quinze minutos até atravessarem os outros veículos. Caso alguém questionasse, diria que estava fazendo reconhecimento de área. Trazia na cintura uma pistola. Balas banhadas em prata. Sabia que aquilo era veneno contra os Funestos caçadores noturnos e também servia muito bem contra os nulos. Crescera fugindo daquela raça sanguinária. Decidira alistar-se voluntariamente para ajudar o time que um dia daria um basta naquela situação. Perdera incontáveis amigos em ataques sofridos pelos miseráveis sanguessugas da escuridão. Perdera a mãe e duas irmãs. Viveram fugindo, buscando fortificações onde o trabalho da família fosse útil. Conseguir vaga numa fortificação nem sempre era fácil. Comida e água não abundavam. E, principalmente faltava espaço. Mas alguém disposto a montar guarda nos postos externos, diga-se, algum maluco disposto a entrar na boca do leão, era sempre bem-vindo e acolhido.

     Marcel terminou a curva. Sua bota estalava contra os pedriscos da estrada. A reta pela frente era longa. A paisagem, como sempre, de tirar o fôlego. Chegavam a uma região elevada do planalto, onde passariam a ver a imensidão daquele mar verde estendendo-se até o horizonte. Marcel divisou o que seria o começo de uma ponte. Pena ela estar tão distante, não teria tempo de chegar até ela e debruçar-se para observar o rio lá de cima. Certamente por causa das árvores no caminho. Os homens passariam por ela a todo vapor, ávidos por alcançarem o posto quatro e zarparem, sem paradas, para São Vítor. Marcel sentiu o sangue gelar nas veias. O que era aquilo no meio da ponte? Seus olhos estariam lhe pregando uma peça? Só podia ser. Correu em direção à plataforma. Deus! Adriano precisava ver aquilo. Um bolo formou-se no estômago. Nunca chegariam a São Vítor antes do anoitecer.

    

     Passavam a última motocicleta pelo tronco da árvore quando ouviram o som das botas de Marcel vindo pela estrada. O homem estava escondido pelas árvores que se erguiam na beira do asfalto, eclipsado pela curva que se estendia por mais de cinqüenta metros. O silêncio da mata permitia ouvir longe. Assim que conseguiram pôr a motocicleta no chão, colocaram-se de frente para a curva e sacaram suas armas. Problemas. Viram o novato surgir na estrada, pálido como um maldito noturno. Novatos assustavam-se facilmente, mas a cara de Marcel preocupava. Era coisa séria. Talvez alguma fera selvagem em seu encalço. A população de onças tinha explodido sem a intervenção humana. Até mesmo gorilas eram encontrados nas matas brasileiras, oriundos de zoológicos abandonados após a Noite Maldita. Mas, se fosse o caso, Marcel estaria com a pistola pronta para atirar...

     Os homens mantiveram as armas nas mãos até o rapaz aproximar-se.

— O que foi, Marcel? Se acalma!

— A ponte, Adriano... A ponte não está lá. Os homens trocaram olhares de apreensão.

     Raul montou em sua máquina e disparou pelo asfalto negro. Marcel falava com dificuldade, arfando, em virtude da corrida.

     —   Foram eles, Adriano. Os malditos noturnos. Eles destruíram a ponte. Não vamos chegar a tempo em São Vítor.

— Calma, Marcel.

     — O que vamos fazer, Adriano? É meu primeiro trabalho. Não quero morrer na floresta, no escuro.

     — Calma, moleque, vamos ver a coisa de perto. Pode não estar tão ruim como você pensa.

     Marcel ficou parado, estava assustado. Os homens partiram, deixando-o sozinho na estrada. O rapaz passou a mão pelo cabelo encaracolado. Sua pele negra ainda estava arrepiada, por causa do susto. Entendia que Adriano só estava falando daquele jeito para acalmá-lo, pois conhecia a estrada de cor e salteado, sabia que a ponte logo à frente passava por cima de um rio volumoso. Sem a ponte, atravessá-lo com as motos seria impossível.

     Adriano estacionou na entrada da ponte. Seu rosto refletia todo o desânimo que era possível demonstrar. Deixou o capacete cair de sua mão, escutando-o rolar no chão.

     — Puta que o pariu! Cambada de filhos de uma puta! — gritou Paraná.

     Os soldados entendiam a gravidade da situação. Raul estava estacionado no meio da ponte, na borda da seção destruída. Seu rosto personificava a apreensão em pessoa.

     —   Que horas são? — perguntou Joel, outro dos soldados. Joel, como Marcel, era um homem negro e forte, um excelente guerreiro nas horas de aperto. A diferença residia na idade, sendo o primeiro mais velho, tendo cerca de trinta e cinco anos. Adriano também estimava muito esse soldado pois era o que ficava mais calmo nas horas de maior pressão.

— Cinco para uma. — respondeu Gaspar.

     A moto de Marcel chegava, enchendo o ar com o característico ronco surdo.

     Adriano ainda estava agitado. Ficar com os papéis na floresta, durante a noite, não ia ser nada bom. E além dos papéis era responsável pela vida de mais sete homens. Agitado, debruçou-se sobre o parapeito da ponte. A descida era bem íngreme, mas, pelo menos, para facilitar um pouco, não havia árvores nas ribanceiras. Eram feitas de barro vermelho e moitas de mato.

     — Cinco para uma, Gaspar. Não vamos chegar em São Vítor nem a pau. — retrucou Raul.

— Vamos voltar para Nova Luz então.

     — Não dá tempo, Gaspar. Já estamos pra lá da metade do caminho. Tem também aquelas árvores na estrada. Também não chegamos em casa antes do pôr-do-sol. Temos que dar outro jeito. Temos que atravessar o rio. — explicou Adriano.

     — Como vamos atravessar? Como vamos descer? — perguntou Marcel, preocupado, também debruçando-se sobre a ponte e vendo a descida escarpada.

Raul voltou à seção quebrada.

     — E se colocarmos uns galhos aqui? As motos passam por cima... quantos metros são?

     Adriano, acompanhado da turma, foi até à beira da parte destruída. Dava mais de trinta metros.

     — Não dá tempo de construir essa ponte, Raul. E a queda é bem grande para arriscar. — disse, olhando para o rio, vinte metros abaixo. — Qualquer deslize, já era.

     — Mas se a gente ficar aqui à noite, na mata, já era do mesmo jeito. Eles virão nos pegar. Isso aqui é uma armadilha!

     Ouvindo as palavras de Raul, Marcel arregalou os olhos. Há anos não dormia fora de uma fortificação. Há anos não se deparava com um faminto noturno. Só de aventar aquela hipótese, a pele negra voltava a se arrepiar. Caso fossem pegos, Santo Deus! Era melhor que enfiassem uma bala na cabeça do que ficar a mercê daquelas criaturas.

     — Esperem aqui. Joel e Raul, desçam comigo. Gaspar, cuide dos outros. Esta é uma ponte estratégica. Os malditos são espertos, mas nosso grupo também é. Vamos ver o que encontramos lá embaixo.

    

     Lucas sentiu uma leve tontura. Talvez porque tivesse comido rápido demais. Comido? Bem, tinha se servido daquela sopa rala e insípida. Mas até que o estômago parecia bem cheio. Tinha bebido toda a água também. Um copo. Agora parecia sofrer os efeitos do desjejum. Além da refeição, continuava a saborear seu nome. Buscava insistentemente a familiaridade que haveria naquelas cinco letras. Absorto nesses pensamentos, foi pego de surpresa quando a porta de frente para a sua cama abriu-se. Lembrou-se imediatamente das batidas naquela porta de metal. Tinha alguém na sala vizinha. Pôde ver pela abertura entre as duas salas um catre igual ao seu do outro lado da nova sala. Assustou-se quando viu surgir um homem de cabelos longos e grisalhos pela passagem. Lucas sentou-se e cobriu o pênis nu. O visitante vestia uma calça azul-clara e uma camisa da mesma cor com as iniciais HGSV, serigrafadas em letras grossas num tom de azul-marinho.

     — Tem uma pra você. Aí debaixo da cama. — disse o homem. Lucas, ressabiado, demorou a desviar o olhar e baixar a cabeça para conferir embaixo de seu catre. Sobre o chão branco encontrou duas peças iguais as que o "vizinho" envergava. Vestiu a calça enquanto o homem de cabelos brancos e ondulados desviava o olhar, na tentativa de diminuir o desconforto da situação. Lucas não tinha se sentido tão nu quando Ana fizera-lhe a visita. Talvez, o fato da mulher representar o ofício de médica fizesse soar mais natural a nudez. Talvez fosse também um protesto mudo, expor o corpo nu, para os que o mantinham cativo naquela cela de hospital.

— Qual o teu nome? — quis saber o vizinho.

— Lucas.

O cabeludo meneou a cabeça, agora olhando-o diretamente.

— Você comeu tudo?

— Comi.

     O homem aquiesceu novamente. Andou até o espelho e mexeu no cabelo despenteando, tentando colocá-lo no lugar, assentando os fios com as mãos.

— Você ainda está com fome? O cabeludo voltou a olhá-lo.

     — Tô morrendo de fome. Fome e sede. Parece que está faltando alguma coisa aqui dentro. — disse, apontando para o estômago.

     Lucas notou que o homem também estava excessivamente pálido. As unhas tinham as mesmas cores horrorosas que as suas. Estava magro, exibindo as costelas. Era bem mais velho. Talvez tivesse uns cinqüenta anos. Deduziu que o homem sofria do mesmo mal que lhe afligia. Deveria estar no hospital nas mesmas condições.

— E o teu nome?

— Gabriel.

— Você lembrou teu nome?

     O homem balançou a cabeça afirmativamente. Parecia calmo, apesar da situação estranha em que estava envolvido. Lucas também se calou por um instante, olhando para o espelho. O que estariam anotando agora aqueles observadores? Por que tinham juntado eles dois?

— Você também está doente?

— Doente? Não sei se estou doente. Estou preso. Isso, sim.

— Sabe como veio parar aqui?

     — Não lembro de nada que fiz ontem, nem anteontem. Acho que como você, simplesmente, acordei aqui.

— Você não acha isso estranho?

Gabriel não respondeu. Ergueu os ombros.

     — A gente dormiu em casa e acordou aqui. Preso numa maca, com os braços e pés amarrados e somos tratados feitos ratos de laboratório.

     Gabriel sentou-se no chão de frente para Lucas, continuando a ouvi-lo.

— Sem contar essa falta de memória. Não consigo lembrar de nada.

     — Eu lembrei do meu nome. Mas não consigo lembrar do nome da minha esposa. — lamentou o cabeludo, fazendo uma pausa e encarando mais uma vez o interlocutor. — Eles devem ligar pra casa... ela virá me buscar. — respirou fundo e meneou a cabeça negativamente. — Você era casado?

     Lucas ficou quieto, pensando. Sentiu um calafrio. Não sabia se era casado. Uma mulher. Havia uma mulher em sua lembrança. Medo. Um rosto surgiu em sua mente. Mulher bonita, morena jambo. Depois, viu-se entrando em casa e abraçando a mulher. Mais rostos. Outras pessoas.

     — Não sei. Acho que não era casado... mas eu tinha alguém. Alguém que cuidava de mim... — balbuciou, com os olhos cerrados, como forçando a cabeça para lembrar. Pinçou o lábio inferior com os dedos, esticando-o e puxando-o para frente repetidas vezes.

— A médica veio tirar seu sangue?

     — Veio. — Lucas estendeu o braço, mostrando o esparadrapo prendendo um pedaço de algodão.

     — Eu não estou doente... acho que estou maluco ou tendo o sonho mais estranho da minha vida.

     — Ana me disse que estamos no Hospital Geral de São Vítor. — disse Lucas, puxando o beiço novamente. — Eu nunca ouvi falar nessa cidade... São Vítor.

Gabriel ficou silencioso, digerindo a última revelação.

     Ficaram quietos por mais de dois minutos, tempo que parece interminável numa situação como aquela.

     Depois de algum tempo Gabriel acabou levantando-se, reclamando de dormência na perna e dizendo que estava louco para voltar para casa e rever sua família. Deu uma volta pela cela de Lucas.

     Lucas também se levantou, sem colocar sua camisa azul. Foi até o vidro espelhado.

— Não sei o porquê, mas eles têm medo da gente. Muito medo.

— Medo?

     — Quando a médica veio, eles me prenderam antes dela entrar. — queixou-se Lucas, passando a mão no pescoço, vendo no espelho que existia ali um fino hematoma. — Apertaram minha garganta, meus braços.

— Comigo também... mas eu não tinha pensado nisso.

— Por que amarram os animais? Amarram quando têm medo.

— Medo dos loucos. Será que a gente está maluco?

Lucas sorriu para o vizinho. Ergueu os ombros.

     — Pode ser. Pra eu não me lembrar dos meus últimos dias fora daqui. A gente está há muito tempo aqui, sabia?

Gabriel meneou a cabeça negativamente.

     — É. Olha a cor da nossa pele. Estamos brancos. Não tomamos sol há muito tempo. Olha para suas unhas. Estão amarelas e compridas. Quanto tempo leva para ficarem desse tamanho? Meses.

Gabriel olhava para as unhas dos pés.

     — Estou ficando com medo, cara. Acho que estamos aqui há mais tempo do que imaginamos.

     — Mas, se fosse assim, tanto tempo... por que não estamos barbudos?

     Lucas encolheu os ombros. Não sabia responder. Uma boa observação.

     — Tem outra. Nossos músculos... a gente não conseguiria andar sem fisioterapia... isso se estivéssemos há meses numa cama... Uma vez um cunhado meu teve um derrame, ficou quatro meses de coma. Quando ele acordou precisou de fisioterapia, os músculos estavam atrofiados. Os nossos estariam também. Acho que no máximo estamos aqui há alguns dias. Estamos magros e fracos... os músculos estão menores, mas funcionam... acho que é alguma doença mesmo.

— E as unhas?

     — Remédios. Remédios as deixam dessa cor... e podem fazer crescer mais rápido.

     Lucas calou-se. Olhou para o vizinho. O homem estava com a cabeça abaixada e os cabelos caindo por cima do rosto. Parecia um bicho. Sentiu um calafrio. Que homem estranho!

     As horas avançaram e eles preencheram o tempo com conversas que traziam lembranças à tona. Depois cada um deitou em sua cela. O sono veio. Nenhuma pessoa apareceu. Em ambas as salas, as vidraças eram grandes espelhos. A ansiedade aumentava em cada um deles. O desejo de sair daquela sala branca crescia, acentuado, talvez, pelas conversas que faziam lembrar o mundo lá fora. Lucas não se lembrava de ter uma família para rever, mas tinha amigos, tinha seu apartamento. Queria ver suas coisas. Lembrar de sua vida. Seu emprego. Lembrava-se que trabalhava. Terno e gravata. Papéis. Propostas. Não se lembrava exatamente o que fazia ou qual cargo ocupava, mas ganhava bem. Lembrava-se do carro. Um carro bonito, importado. Gostava de cinema. Queria ir ao shopping, ver o que estava passando. Comer uma cocada. Sanduíche da rede Tchê's, seus prediletos... nada de fast-food. O slogan da nova campanha da rede era: "Slow food and Relax, de norte a sul do Brasil". As lembranças só aumentavam a ansiedade... e aquele ambiente branco, sem respostas, fazia perder a noção do tempo. Sabia que muito tempo tinha se passado desde a última refeição, pois voltava a sentir fome e sede e a lembrar de lanchonetes. Levantou-se do catre e caminhou até a porta da cela do vizinho. Gabriel cochilava na cama. O rosto encoberto pelos cabelos. Não sabia o porquê, mas uma crescente antipatia por aquele sujeito ia enraizando-se em seu coração. O homem exalava um cheiro ruim. Apertou os olhos. Uma imagem. Fogo e fumaça. Abriu os olhos e afastou-se dois passos. O homem inspirava repulsa. Não lhe tinha feito nada, mas esse era o fato. Antipatia nata. Rezava para que a doutora Ana aparecesse. Ele precisava de respostas. Precisava dar o fora dali antes de terminar louco como aquele vizinho cabeludo.

    

     Adriano chegou primeiro à base da ponte. Ouvia o barulho produzido por Joel e Raul, descendo o barranco, estalando os galhos das poucas árvores que se erguiam ao pé do morro. O rio descia tão vagaroso que suas águas pardacentas quase não faziam barulho. Era largo. Um rio soberbo. Uma travessia de quarenta metros. Mesmo com a correnteza suave, seria tarefa de risco levar as máquinas.

     — Raul, veja a profundidade do rio na área. Veja se há alguma chance de passarmos as bichonas por aqui.

     Adriano caminhou até o barranco. Revirou o mato em busca de alguma pista. Como os soldados sabiam que os noturnos costumavam atacar certos pontos estratégicos das estradas, destruindo pontes e produzindo crateras no asfalto, deixavam material para o contra-ataque em alguns trechos. Adriano procurava uma embarcação. Talvez uma balsa. Assim, com algum esforço, conseguiriam atravessar as motocicletas a tempo de chegarem em São Vítor com luz do dia. Não queria nem pensar na possibilidade de ficar na mata durante a noite. A região era rica em cavernas, o que aumentava as chances de um encontro com os noturnos durante a noite. Ainda estavam longe demais de algum posto de observação, onde, mesmo em menor proporção que uma fortificação, teriam, ao menos, um pouco mais de estrutura para um combate.

     Com ajuda de Joel vasculhou todo o mato na base da ponte e na margem do rio. Não encontrou nada. Procurou Raul com os olhos. Viu-o cerca de duzentos metros, rio acima. O soldado continuava buscando uma passagem possível para as motos. Vez ou outra podia ouvir as vozes dos homens lá em cima. Apesar do problema que encaravam, a região exalava uma serenidade envolvente. A natureza tinha um poder impressionante.

— Vamos atravessar o rio.

— Vai você, Adriano. Eu não sei nadar.

     Adriano examinou a margem. Apesar da água barrenta e de não poder ver o fundo, Adriano arriscou:

— Acho que não é fundo.

     Tirou as botas, a calça e a jaqueta jeans. Saltou de camiseta dentro da água. Afundou até a cintura, soltando um gemido em protesto contra a água fria.

— Acho que perdi minhas bolas! Que gelo! Joel riu.

     Raul voltava, o barulho de alguém caindo na água tinha lhe chamado a atenção.

     —   Não é fundo pra gente, mas é fundo demais pras motos. E com o peso, elas afundariam no leito... é muito lamacento aqui embaixo. — explicou, sentindo certo asco por causa da impressão que o fundo barrento do rio lhe passava.

     Levou quatro minutos para atravessar. Apenas em um trecho de dez metros, a água não dava pé. Joel teria de superar seu medo, pois tinham que atravessar.

     Chegou à outra margem. Ao ouvir braçadas, olhou para trás. Raul vinha para ajudá-lo.

     O vento que desceu pelo cânion esculpido pelo rio bateu em seu corpo. A água gelada quase o petrificou, obrigando-o a passar as mãos nos braços, procurando manter-se aquecido. Tirou a camiseta e torceu, tirando dela parte da água fria. Passou a revirar o terreno do lado oposto da ponte. Ali havia mais grama e pedras no chão. Algumas eram pontiagudas e obrigavam a caminhar com mais cuidado. Não podia se ferir. Ainda mais com a terrível possibilidade de ter de organizar o pernoite na mata, longe de uma fortificação. Ferido, sangrando, no escuro contra os noturnos. Um quadro sombrio. Chances reduzidas de assistir a próxima alvorada. O cheiro do sangue atraía aquelas criaturas como as fêmeas no cio atraem os machos na mata.

Adriano vasculhou uma touceira e um sorriso acendeu sua face.

— Você achou? — perguntou Raul, aproximando-se, arfante.

— Achei.

     Com a ajuda do amigo, Adriano conseguiu remover uma rede coberta por mato e galhos que servia para esconder um amontoado de tábuas. Uma jangada.

— É uma jangada! Vamos conseguir atravessar! — vibrou Raul. Adriano voltou a ficar sério. Já estava examinando com os olhos o achado. As cordas pareciam velhas...

— Vamos tirá-la daqui e colocá-la no sol. Preciso ver se agüenta. Raul fez força de um lado. Adriano tentou mover o outro lado.

Arquejantes, conseguiram erguer um lado da embarcação. Era grande e pesada, obrigando os bíceps dos homens intumescerem.

     — Não vai dar para arrastar! É muito pesada! — reclamou Raul. — Precisa de mais gente.

     Soltaram ao mesmo tempo. Com o peso da queda, as vigas, que estavam na lateral da balsa, soltaram-se e as ripas transversais desarranjaram-se.

— Merda! — protestou Adriano.

— As cordas estão podres.

— Puta merda.

     Adriano debruçou-se sobre a parte danificada da balsa. Uma das cordas tinha rompido. Olhou para cima. Um facho de luz escorria pela seção destruída da ponte, vindo colorir o rio logo abaixo.

     — Estamos fodidos, Raul. Não vai dar tempo de substituir essa corda e chegar a tempo em São Vítor. Vamos dormir pra fora.

— Dá tempo de chegar ao posto pelo menos? Adriano balançou a cabeça.

— Não sei. Quanta munição você trouxe?

     — O de sempre. Três caixas para a doze. Três caixas para a pistola, mais dois municiadores de dezoito tiros.

— Prata?

— Só a munição da pistola.

     Ouvindo a resposta, Adriano girou em torno de si mesmo, passando a mão na testa.

     — Deus do céu! A gente na mata... tem o novato. Ele vai pirar. Vai dar trabalho.

     — Não pode pirar, cara. Ele sabia onde estava se metendo. Tem que ser homem, porra. Tem que encarar.

     — Vamos chamar os outros para ajudar. Vamos arrumar essa jangada... ainda é mais rápido que providenciar a ponte que você falou.

     Raul concordou com o líder e os dois voltaram para o rio. A água parecia ainda mais fria. Fizeram a travessia em silêncio. Cada qual remoendo seus temores. Por mais experientes que fossem nas coisas da estrada, ficar desprotegido durante a noite nunca era tarefa fácil. Até os mais valentes calavam-se, até os mais valentes oravam fervorosamente. Caso fossem farejados pelos noturnos nunca mais veriam o sol nascer.

     Joel ajudou os companheiros a saírem da água. Pela cara de Adriano sabia que a situação não era a das melhores. Quando o líder ficava calado era sinal de problemas muito sérios pela frente.

     Levaram mais de cinco minutos para subir. Apesar da escalada não ser tão íngreme, o terreno era instável. Os pés escorregavam ou a terra cedia. Sem contar que a distância até o topo era longa e o esforço tremendo.

     Sinatra, o soldado cantor, foi quem percebeu Adriano aproximando-se. Chamou a atenção dos demais, que conversavam animadamente. Fizeram uma roda em torno do líder.

     — Vou precisar de todo mundo lá embaixo. Depois a gente desce as motocicletas.

— Vamos prosseguir então? — perguntou Gaspar.

     — Primeiro temos que consertar uma balsa que encontrei. As cordas parecem estragadas. Tragam suas mochilas. Quem trouxe corda pode trazer, vamos precisar.

     — A gente pode cortar cipós também, dá pra quebrar um galho. — juntou Sinatra.

Os homens apanharam as coisas e começaram a descida.

     Marcel olhou para os amigos que já avançavam morro abaixo. Sabia que as coisas não estavam indo bem. Sabia que já tinham perdido tempo demais com árvores caídas no caminho. Agora aquela enrascada. Torcia para que Adriano surgisse com uma solução. Seria muito azar passar a primeira noite em missão fora de uma fortificação.

    

     Juntos, com cuidado, tinham conseguido colocar a balsa na água. Joel, por causa do medo da água, era o único seco.

     Com a balsa do outro lado do rio, começaram a trabalhar nos reparos. Caso colocassem uma motocicleta em cima das ripas soltas, corriam o risco de ficar sem o veículo. O cuidado com as amarras já tinha comido quase duas horas de sol, com isso chegavam perto das três da tarde. Os braços trabalhavam rápido, executando coordenadamente as instruções de Adriano. Estavam todos calados. Só trabalhavam. Tiveram de substituir as cordas dos dois bordos da jangada improvisada. Rezavam para que aquelas velhas madeiras suportassem as motocicletas de mil e duzentas cilindradas. Apesar das péssimas condições das amarras, as madeiras, ao menos, pareciam secas, firmes e longe da podridão. Alguma sorte no final das contas. Olhavam-se e em todos os olhos encontravam a mesma coisa. Medo. Circunstância. Pressa. Todos sabiam que o sol trasladava inexorável, alheio às súplicas e à necessidade de mais tempo por parte daqueles bravos guerreiros. O salvador tornava-se carrasco. Ia permitir a escuridão. Ia libertar os noturnos. As criaturas donas da noite. Os caçadores de sangue. Os assassinos cruéis. O sol não se abalava por nada. O sol não sabia ser o que regia a hora da vida e a hora da morte na face da Terra. Ia embora em sua marcha contínua e inabalável. Implacável. Pregando aflição aos homens que lidavam com as cordas numa frágil balsa na superfície iluminada do planeta. Ele ia embora sem sequer notar a existência de oito soldados na margem do rio. Os homens, ignorados, sabiam que, por mais que orassem, o sol continuaria a mover-se. Sabiam que as mãos deviam superar o desespero e fixar as madeiras umas nas outras. Que teriam de correr na estrada. Que teriam de providenciar abrigo. E continuar rezando. Rezando para escaparem do olfato apurado das criaturas. Dos noturnos.

     Depois que terminaram as amarras, Adriano comandou o teste. Pediu que erguessem a balsa. Mesmo com sete homens lhe ajudando, era dificultoso o transporte. Parecia firme o suficiente. Devolveram o amontoado de madeiras ao rio. Uma corda prendeu o barco.

— Tragamos as motos agora.

     O destacamento de Nova Luz voltou a subir o morro. Quanto tempo mais perderiam para descer as motos? Quanto tempo levariam para atravessá-las, uma a uma? Uma por vez, pois a balsa e o bom senso não permitiam mais que isso.

     Enquanto subiam, apesar da tensão geral, Sinatra fez valer seu apelido e começou uma canção. Um clássico "pré Noite Maldita". Talvez, se o velho mundo ainda existisse, Sinatra conseguisse um bom contrato com uma daquelas imponentes gravadoras ou seria figurinha fácil no programa do Raul Gil.

     Joel sorriu quando a música lhe chegou aos ouvidos. Era fã daquela banda antes do evento. Sinatra cantava Infinita Highway, dos Engenheiros do Havaí. Uma banda que fizera sucesso no Brasil inteiro e em outros rincões do mundo. Logo, juntou-se ao amigo nos trechos mais conhecidos.

     Minutos depois, quando atingiram o topo, com o suor escorrendo em bicas e sem tempo para descansar, começaram a estudar a melhor forma de descer os monstros metálicos.

     Pensaram que em três seria possível começar a descida. Apesar da maior parte do terreno não ser tão íngreme, ele era escorregadio e as motocicletas, consideravelmente pesadas. Em três não era possível. Precisariam de cinco homens para descer cada moto com segurança. Dois de cada lado e mais um atrás, fazendo força contra a descida para manter a moto equilibrada e fazendo descer sobre as rodas, o que facilitaria enormemente a descida. Um deles ia controlando o freio dianteiro para que não fosse perdido o controle da operação. Apesar de ser possível descerem com segurança, a apreensão só fazia aumentar. Oito motos. Oito viagens. Depois atravessá-las no rio. Subir e descer aquele morro desafiador mais sete vezes. Isso ia consumir muito tempo, muitíssimo tempo. Era isso que ia na cabeça de todos. Tinham que achar um jeito de fazer aquilo mais rápido.

     — E se fizéssemos uma rampa antes do buraco na ponte? Estas motos são esportivas, a gente podia saltar para o outro lado. — sugeriu Marcel.

     Gaspar, olhando para os amigos que desciam vagarosamente metros abaixo, passava a mão no queixo. Caminhou até a pista e olhou para a ponte. Era uma idéia. Mas as motos continuariam inteiras quando batessem do outro lado? E se alguém falhasse? O rio não era fundo o suficiente para se salvar. E, daquela altura, a água lá embaixo não seria exatamente um colchão macio. Quando o corpo batesse na água, no primeiro instante, seria como cair numa tábua. Depois, a profundidade não seria suficiente para absorver todo o impacto. Poderiam perder uma moto... ou um amigo. Mas era uma hora de desespero. Tudo tinha que ser considerado. Até mesmo uma maluquice sugerida por um novato. Gaspar caminhou pela ponte, chegando à beira do abismo produzido pelos inimigos. Vendo o hiato de perto, a coragem diminuía. Cerca de quarenta metros. De quanto seria o recorde mundial de salto com motos? Quarenta metros era muita coisa. Não era um salto. Era um vôo. Loucura. Mas talvez o recordista mundial não tivesse tido a mesma motivação que eles tinham com o sol descendo. Saltar pela vida. Gaspar meneou a cabeça.

     — Impossível, Marcel. Você é um cabra muito macho se tentar, mas nem tenta para economizar tempo e vida. Se quiser arriscar me deixa as suas coisas. Sua munição, suas armas. Vou fazer bom proveito delas quando os noturnos chegarem.

— Cê acha que eles vão encontrar a gente escondido?

— Você acha que não?

— Vai ser uma noite só, Gaspar. Seria muito azar.

     — Azar e sorte se aplicam à gente, filho. Cê é novo no negócio. Se ficarmos na rua, oitenta por cento de chance de sermos encontrados antes do sol raiar. Eles sentem nosso cheiro, filho. Ainda bem que não veio nenhuma mulher.

— Por quê?

     — Porque ela poderia estar "nos dias". Quando tem sangue na parada, então, é cem por cento de chance deles nos acharem. Teríamos que nos esconder uns dez quilômetros longe da mulher "de chico" e deixá-la sozinha. Se ela conseguisse, sorte a dela.

— Sério?

     — Já tive que enfiar bala na cabeça de mulher chorando, filho. É de partir o coração, mas ou é ela, ou é a gente.

     Marcel calou-se. Tinha assumido uma responsabilidade quando se alistara. Tinha ficado verdadeiramente feliz em poder ajudar o restante da Inteligência montada para combater os noturnos. Estava lutando por uma causa. Pela salvação dos sobreviventes. Mas agora sentia medo. Trilhava a estrada com homens capazes de tudo para manterem-se vivos, para manterem-se longe dos noturnos.

     — Não é medo de morrer, Marcel. Morrer todo mundo morre um dia, filho. Mas eu não preciso dizer como esses bichos são. Você os conhece tão bem quanto eu. O cagaço é de morrer nas garras desses perversos, filho. Já ouvi cada coisa.

     Marcel continuou calado. Gaspar voltava para o acostamento, de onde podia acompanhar o progresso da descida da primeira motocicleta.

     Gaspar sentiu um calafrio quando viu os homens descendo com dificuldade, ainda na metade do caminho. Ainda estavam descendo a primeira moto! Deus! A noite chegaria e ainda estariam no pé da ponte. Coçou o rosto com a barba por fazer. Estava apreensivo. Cultivava alguma esperança em encontrar um posto de observação, um esconderijo seguro. No fundo do peito achava que conseguiriam chegar em São Vítor. Mas, como? Já eram três da tarde. Impossível! Tinham quase trezentos quilômetros pela frente. Mesmo com estrada boa acabariam chegando depois do pôr-do-sol. Inquietação. Tinha descido e subido aquele morro. Só os primeiros dez metros eram escarpados, difíceis; mas, em compensação, era o terreno mais firme. Depois a descida melhorava. Deus! Suor descendo na testa. Andou do acostamento para a pista, da pista para o acostamento, uma dezena de vezes. Escutava o som dos pedriscos prensados pela bota. Impaciência. Olhou para o extremo oposto da ponte. Aflição. Outro calafrio. Todo aquele trabalho para descer aquelas motos, depois teriam que subi-las do outro lado. Vai demorar. Fechou os olhos. A rampa era loucura, mas, talvez, se conseguisse o que pensava... ganhariam muito tempo. Julgava-se um bom motoqueiro. Era bom de equilíbrio. Talvez fosse o melhor do bando. Tinha que arriscar. A chave da moto em cima do peito, presa à uma corrente prateada. A água já tinha secado completamente. Gaspar, só de cuecas, montou no couro quente de sua motocicleta.

     Os cavaleiros desciam em marcha lenta. Cuidadosos. Tinham que chegar com a máquina inteira. Faltava metade da descida. Estavam compenetrados quando ouviram o ronco do motor poderoso. Alguém lá em cima estava impaciente. O ronco crescia e diminuía repetidas vezes conforme a manopla era impulsionada. Depois ouviram um ronco contínuo e crescente. Estacaram. Uma moto em disparada. O que pretendia o motoqueiro? Boquiabertos, viram uma moto cruzar a borda do abismo, atirando-se no ar e vindo bater no barranco. Montado na máquina, descia Gaspar, com as pernas estendidas, dominando a moto reluzente, lutando por equilíbrio, como um vaqueiro no couro de um cavalo chucro. Aquilo era loucura. Gaspar venceu os primeiros dez metros, o trecho mais inclinado. Ouviam o motor acelerando, buscando equilíbrio depois de uma inclinação. Pedras. Gaspar desviou. Freou, dominou a motocicleta. Avançava. Descia rápido. Corajoso. Bravo. Estava cometendo um ato extremado em nome do grupo. Ganharia tempo precioso. Dava esperança. Obstáculos. Mais pedras. Os pés descalços buscando o chão. Desequilíbrio. Ouviram o motor gritar quando a roda traseira girou em falso no ar. O pneu dianteiro travado por uma rocha. Gaspar arremessado sobre o guidão. A moto desceu rolando, atropelando o condutor. Gaspar gritou e desceu o resto do barranco rolando. A moto arrastou-se sobre o barro levantando uma nuvem de poeira vermelha.

     Adriano largou a moto e desceu aos saltos para socorrer o parceiro. Raul também soltou a traseira, num ato impensado, obrigando os três restantes a agarrarem a máquina com maior firmeza, arfantes.

     Gaspar abriu os olhos. O mundo estava de ponta cabeça. Poeira chovia do céu. Olhos ardendo. Puta que o pariu! Que merda! Quase tinha conseguido. Doía quando respirava. A nuvem de poeira descendo. Ouvia Adriano gritando. Sempre correndo para ajudar algum dos soldados. Não era à toa que o amigo era o líder do grupo. Gaspar bufou. Suas costas estavam ardendo Dor. Tinha quebrado alguma coisa. Sabia que tinha quebrado! Não estava bem. Sabia disso também. Merda! Tinha quase conseguido. Puta que o pariu! Tomara que não estivesse sangrando. Tudo menos isso. Ouviu cascalhos deslizando quando o amigo eclipsou o sol e parou sobre ele.

— Cê tá legal?

— Quebrei alguma coisa... tenho certeza.

A poeira assentou. Adriano crispou os lábios. Problemas.

— Puta merda, Gaspar! O que te deu, homem?

— Estou sangrando?

— Você é esperto, velho. O mais esperto. Por que fez isso?

— Fala logo! Estou sangrando.

     Adriano deixou os olhos pairarem sobre os dois gravetos espetados na barriga do amigo.

— Dois buracos...

     Gaspar soergueu a cabeça. Respirava com dificuldade. Os olhos viram os gravetos enfiados na barriga. Começou a bufar de dor e ansiedade.

— Merda, cara. Merda. Tô fodido.

     — Fica deitado. Recupera o fôlego. Vou ver o que a gente faz. Mais essa agora.

     — Desculpa, irmão. Juro que conseguia... foi azar... aquela pedra, aquele inferno de pedra. Ia ganhar tempo pra gente.

     — Fica quieto um pouco, porra. Descansa. Vamos ver se quebrou alguma coisa. Cê ta todo fodido, cara.

     Adriano afastou-se, chutando os pedriscos no chão. Mais essa agora! Queria esganar o amigo. O companheiro que compartilhava o segredo do plano. O amigo mais velho do grupo. Sabia que o desespero motivara aquela ação. Não podia culpá-lo de todo. Ninguém era culpado em tentar salvar-se dos noturnos. Mas Gaspar tinha terminado de foder tudo! Não tinha expressão polida para extravasar, Foder com tudo! Puto duma figa! Não encontrava jeito melhor para definir a circunstância. Gaspar tinha ferrado tudo. Adriano respirou fundo e olhou para os homens. A cabeça do líder estava a mil. Marcel chegava ao pé do morro agora. Apesar da pele negra, o novato tinha empalidecido.

— Eu não pude fazer nada. O cara é louco.

     Adriano aquiesceu. O que o novato faria para deter Gaspar? Teria tomado um murro no meio da boca se tivesse tentado. Olhou para o morro. Os três agarrados à motocicleta desciam metro a metro, passo a passo. Raul voltava para ajudá-los. Três e meia da tarde. Não iriam escapar daquele buraco com luz do dia na cabeça nem a pau. Estavam condenados.

    

     Lucas mordeu o meio pão que lhe fora servido. A refeição resumia-se a um pedaço daquela espécie de broa, mais um prato da mesma sopa rala e um copo de água. Tinha chegado em boa hora. Estava faminto e sedento. A sede era o que mais incomodava. Olhando através da porta aberta viu que Gabriel continuava dormindo, sem dar trela ao prato de comida. Estranhou, o homem tinha comentado que estava com sede e fome também. Talvez devesse acordá-lo. Porém, antes de levantar-se, desistiu. Para que se importar com aquele desconhecido? Nem sabia quem era o vizinho de cela. Foda-se. Talvez fosse um ex-presidiário. Talvez um maluco qualquer. Só não entendia por que, sendo ali um hospital, era tratado daquela forma. Feito um bicho. Ainda mais ter de compartilhar o tempo com aquele cabeludo estranho. Lucas meneou a cabeça. Esfriou o fluxo de pensamentos. Recapitulou suas últimas concatenações, toda aquela maçaroca de maus pensamentos. Por um segundo não se reconheceu. Por que a antipatia crescia tanto contra o vizinho? Não conseguia entender. Só de olhar para aquele amontoado de cabelos dormindo crescia uma irritação desconcertante. O homem não tinha lhe feito nada. Mas alguma coisa tinha. Por que tanta repulsa? Lembrou de uma sala de aula. Um rosto. A mesma impressão. Antipatia imediata. Um ex-colega de escola. Às vezes, somos acometidos dessas coisas. Como se tivéssemos vivido vidas passadas ao lado daqueles supostos estranhos. Desentendimentos além vida. Lucas sorriu dos pensamentos. Fechou os olhos engolindo mais um pedaço de pão. Era religioso? Não se lembrava. Tentava ver uma igreja. Lembrar-se da bíblia. Devia seguir alguma religião. Por que ainda não lembrava das coisas? Tinha que falar de novo com a Dra. Ana. Estava cheio de dúvidas e, principalmente, de vontade de sumir daquele quarto de loucos. Aquele cabeludo só podia ser um maluco. Só podia. Se chegasse muito perto tomaria um safanão. Podia ser um daqueles psicopatas. Ficam quietos na cama, como o amontoado de cabelos estava agora, mas, dc repente, levantavam-se como loucos e saíam estrangulando meio mundo. Terminou a sopa. Olhou para a colher de metal. Se aquele doente mental viesse para sua cela, veria o que era bom para tosse. Talvez conseguisse retorcer a colher, torná-la pontiaguda. Gabriel não perdia por esperar. Fogo e fumaça. Ouviu um barulho. Explosões. Algo como rojões. Um daqueles de seis tiros de canhão. Caramuru. Caramuru? O que significaria isso? Os rojões... tinha ouvido mesmo, ou o disparo fora em sua cabeça? Lucas fechou os olhos e inspirou barulhenta e longamente. Vontade de ver uma janela. Onde estaria? Onde ficava o Hospital Geral de São Vítor? Em São Paulo? Qual bairro? E o que mais atormentava era não descobrir quanto tempo estava ali. Precisava saber. Queria ver uma janela. Ver o mundo. Ver onde estava. Ibirapuera? Moema? Piqueri? Queria voltar para casa. Ligar para aquela mulher que aparecera em sua cabeça. Quem era ela? Se fosse para casa, se visse suas coisas, seus móveis, suas fotografias, lembraria de mais coisas... lembrar-se-ia dela. Seria ela sua irmã? Seria ela sua namorada? Casado não era. Olhou para o dedo anular esquerdo. Frio na espinha. Não tinha anel nenhum, nem mesmo a marca natural que se desenvolve com o uso da aliança. Ficou segurando a mão esquerda, passando o dedo sobre a falange do anular. Não era casado. Sentado na cama, fechou os olhos mais uma vez e tocou a testa no joelho. Ela podia ser sua irmã. Uma amiga. Matar o desgraçado. Passou a mão na cabeça. Levantou-se irritado. Foi para perto do vidro espelhado. Teria alguém do outro lado?

— Quero uma janela! — gritou, batendo no vidro.

     Deu uma volta pelo quarto. Gabriel não acordou com o grito. O desgraçado dormia despreocupadamente, como se merecesse estar ali. Homem idiota. Devia estar de pé para poderem unir forças para escapar dali.

Lucas voltou ao vidro.

— Quero ir embora! Vocês estão me deixando louco!

     Lucas apanhou o prato metálico e arremessou contra o vidro espelhado. Tremia. Estava agitado. E Gabriel dormindo. Como ele conseguia? Lucas deixou um olhar insano abater-se sobre o vizinho. Como podia dormir?! A sala estava tão quente. Iria acordá-lo!

     Os malditos homens atrás do vidro pareciam ler seus pensamentos, pois quando decidiu ir até o catre de Gabriel a porta que unia as celas foi fechada rapidamente. Lucas bateu contra a folha metálica, fazendo estardalhaço. Estava fora de controle. Queria acordar Gabriel. Queria espancar o vizinho. Caiu no chão, com as costas nuas tocando a parede. Estava chorando. Por que queria matar Gabriel? Era isso. Queria matar o vizinho! Estava louco! Aquilo não era um hospital comum. Era um hospício. Um manicômio para desequilibrados. Merecia estar trancafiado. Estava doente da mente. Era isso. Um doido varrido. Estava ali há muito tempo, afastado da sociedade. Devia ser isso. Devia estar vivendo à base de remédios. Alienado. Estava agora tendo um surto de lucidez... relembrando coisas, parecendo normal, com uma colher e uma faca na mão. Os remédios fazem isso. Queimam nossas lembranças. Assustou-se quando a voz metálica invadiu a sala.

— Fique de pé. Lucas resistiu.

     — Por favor, senhor. Fique em pé e encoste-se na parede, entre a cama e a porta branca.

     — Quero sair daqui. Quero olhar por uma janela. Quero ver lá fora... — murmurou.

     — Fique de pé, senhor. Encoste-se na parede, entre a cama e a porta branca.

Lucas levantou-se.

     — Aqui só tem porta branca, seu escroto redundante! Só tem porta branca! Filho da puta!

— Encoste-se na parede, senhor. Vamos ajudá-lo.

     Lucas, como um zumbi, obedeceu. Encostou-se nos azulejos brancos. Como da primeira vez, um barulho surgiu atrás de sua cabeça. Uma garra fechou-se no pescoço. Lucas sentiu medo. Iriam matá-lo. Como fora tolo em encostar-se na parede. Tinha lágrimas descendo pelo rosto. Grilhões prendendo os punhos. Era um escravo da instituição. Iam matá-lo. A porta principal foi aberta. Viu a Dra. Ana surgindo. Lucas reparou nos olhos da médica. Eram cinzas. Sempre gostara daquele tom de olhos. Ela tinha os cabelos em tom de areia... quase loiros. Ela era linda. Ela aproximou-se com a bandeja metálica. Injeções.

     — Não me mate, doutora. Eu não sou um lunático. Eu não queria matar o Gabriel. Não me mate.

     A médica parou na frente do paciente. Seus olhos pareceram ausentes, como o de uma máquina, cumprindo mecanicamente seu trabalho.

     —   O que estão fazendo comigo, doutora? Por que eu estou aqui? Ana pareceu compadecer-se. Seus olhos e gestos perderam o ar mecânico com o qual entrou na sala. Sua mão vacilou sobre a bandeja. Soltou a seringa que a mão em luvas brancas de borracha tinha apanhado.

— Já está terminando, Lucas. Tudo vai ser explicado.

— Tudo o quê, doutora? O que está terminando?

     — O processo, Lucas. Tenha calma. Vocês dois precisam passar por isso.

     Ana passou um algodão embebido em álcool no braço direito de Lucas. Depois passou uma borracha pouco abaixo da axila, prendendo a circulação. Passou o algodão em outro lugar.

— Feche a mão, por favor.

Assim que o paciente obedeceu viu uma veia intumescer.

     — Eu quero olhar por uma janela. Quero saber onde estou. Por que fiquei louco?

     — Você não está louco, Lucas. Está passando por uma fase. Encare dessa forma. É uma fase que está acabando.

     — Que fase, doutora? Quero entender minha condição. O que o sangue lhe mostrou? O que é que eu tenho?

— Nada, Lucas. Não tem nada.

     A médica ficou muda um instante, enquanto a agulha despejava a medicação dentro do corpo do paciente.

     — Durma um pouco, Lucas. Você precisa descansar. Só o tempo vai lhe dar respostas. A gente vai te contar um monte de coisas, mas essa fase precisa passar.

     — A senhora fala, fala, mas não diz nada. Me diz uma coisa, me dá uma informação. Que dia é hoje? Que horas são? É dia, é noite? Preciso me situar... sou um homem perdido. Não sei onde estou. Estou em São Paulo?

     — É dia. Quatro da tarde. Por isso que seu quarto está tão quente. Por isso que você está tão agitado. Já servimos água e sopa. Daqui a pouco anoitece. Você não vai comer mais nada. Só vai beber mais um copo de água. Precisa passar essa fase primeiro.

     — Quatro da tarde? Por que o Gabriel está dormindo? Como ele consegue? Está um calor...

— Ele está cansado. Cada um reage de um jeito a essa fase.

     — Doutora, deixe o quarto, por favor. — ordenou a voz metálica.

     — Quem são eles, doutora? Por que têm medo de mim? Eu sou um psicopata?

— Não Lucas. Tenha calma.

     —   Doutora. Deixe a sala imediatamente. Não diga mais nada. Lucas tentava olhar para o espelho. A garra apertada sobre o pomo de adão lhe engasgava, sufocava. Precisou inspirar fundo. Ana afastou-se do paciente. Tinha o olhar triste.

— Você vai ter as respostas em breve, Lucas. Durma um pouco.

     Lucas aquiesceu. A droga que circulava em suas veias era poderosa. Estava zonzo. Quando os grilhões foram soltos, não conseguiu se manter de pé. Não alcançou a cama. Apagou no chão frio. Com a calça azul e sem camisa.

    

     Adriano deu um graveto para Gaspar. Os homens estavam em volta. Todos silenciosos. O único barulho existente era o som da água descendo e dos gemidos intermitentes do velho soldado ferido.

     Gaspar colocou o graveto entre os dentes, mordendo-o firmemente. Sabia que Adriano ia tentar minimizar os ferimentos. Não traziam anestésicos... ia doer.

     Adriano via dois gravetos cravados no abdome firme de Gaspar. Provavelmente tinha atravessado a pele, os músculos abdominais e afundado para dentro. A cada respiração, o sangue esvaía pelas bordas das lacerações. Com um golpe só arrancou o primeiro pedaço de galho. Gaspar contorceu-se. O sangue jorrou abundante. Adriano balançou a cabeça. Aquilo não era bom. Com a mesma frieza arrancou o segundo. O amigo gemeu e protestou, esmagando o máximo que podia o graveto nos dentes. Mais sangue escorrendo pela barriga. Adriano tirou um pano da mochila e limpou as feridas do amigo. O subir e descer da barriga bombeava sangue para fora. Estaria sofrendo uma hemorragia? Passava uma artéria importante próximo ao umbigo? Não conseguia lembrar. Não era médico. Nenhum médico no grupo. Olhou para os soldados. Estavam com os semblantes preocupados. O tempo correndo. Novamente lembrando do tempo. Tinha que se preocupar em construir um abrigo para a noite. Tinha que pensar nisso agora. Ainda mais com esse novo contratempo. Levar um homem ferido não era fácil. Olhou para os homens. Tinha que dar abrigo para os guerreiros. Vasculhou a mochila e apanhou gazes. Retirou um estojo. Agulha e linha. Costurou os pequenos cortes para bloquear o sangramento. Os buracos eram pequenos, mas pareciam profundos. Rezar para que parasse de sangrar. Rezar para que Gaspar não morresse até o nascer do sol. Dois pontos em cada abertura. Estava fazendo a coisa certa? Era bom quando tinham um médico no grupo ou alguém que entendesse de medicina, do corpo humano. Se Francis estivesse com ele, talvez, o ferido tivesse melhores chances. Pediu que levantassem Gaspar e o apoiassem pelas axilas, afastando os braços de seu tronco. Enrolou as bandagens com firmeza, formando uma faixa de um palmo. Gaspar ainda arquejava, parecia não estar pronto para ficar de pé sem ajuda. Adriano notou que o ombro direito do soldado estava bastante inchado e que filetes de sangue também corriam nas costas esfoladas. Os fios de sangue estavam marrons, pois o corpo de Gaspar estava coberto por bastante poeira.

     — Vamos levá-lo ao rio. Lavar essa sujeira toda. Deixe-o tentar andar sozinho.

Aos poucos, soltaram Gaspar.

— Eu consigo. Pode deixar. Só tô um pouco tonto.

     Gaspar curvou-se e, mancando, tentou aproximar-se do rio. O corpo doía. Que besteira! Droga de pedra! Tinha quase conseguido. Agora estava com aqueles buracos na barriga. Olhou para trás, Adriano o acompanhava. Os outros começavam a subir o morro para trazer mais uma das motocicletas. Gaspar, com dificuldade, deixou o corpo escorregar pela beira do barranco, caindo na parte mais rasa do rio, não chegando a molhar as bandagens.

     — Não molhe o curativo. — advertiu Adriano. — Lave os braços e vá deitar no sol. Procure descansar um pouco e ver como reage. Temos que ver se esse sangue pára de vazar, senão não sei como vai ser a noite. Você não pode ficar sangrando, cara.

     — Eu sei. Eu sei, porra. Sei até no que você está pensando, Adriano.

     O líder estendeu a mão para trazer o soldado para fora da água. Era melhor poupá-lo de esforços. Apoiou-o pelo braço para conduzi-lo até um gramado banhado pelo sol. Estavam no meio do caminho, entre gemidos e arrastamento de perna, quando Adriano assustou-se mais uma vez ao olhar para o soldado. Gaspar tinha a perna, da altura do joelho para baixo, lavada de sangue.

—        Seu joelho... Gaspar parou para olhar.

— Merda! Puta merda! Sabia que tava doendo demais. Chegaram ao gramado e Adriano deitou o amigo. Correu até onde tinham juntado as mochilas procurando pelas bandagens oferecidas pelos companheiros. Pegou o estojo mais uma vez. Precisava fechar aquela ferida. Procurou pelo graveto mordido, limpou e refez a corrida até o parceiro.

— Morde isto aqui. Vou ter que costurar isto também.

— Porra, já tá doendo pra caralho. Eu não agüento mais.

     — Só mais essa. É melhor do que ficar sangrando e virar isca de noturnos.

Gaspar fechou os olhos e respirou fundo.

     — Vou ter que tomar um trago, cara. A seco não vai dar. Olha o tamanho desta merda. — reclamou, apontando para o corte aberto no joelho.

Adriano olhou calado para a ferida. Dava repugnância.

— O que é esse treco branco?

— Acho que é sua rótula, cara.

     — Não vou conseguir, velho. Toca o barco com os caras, me larga aqui. Me descola um trago.

     — A gente não trouxe cachaça, Gaspar. Não dava. Tinha que trazer gasolina, não pinga. A gente toma um bagulho quando chegarmos em São Vítor.

     — Quem você está querendo enganar? — resmungou o ferido, colocando o graveto na boca. — Mmm... que não emmm...

     Adriano limpou a ferida com uma gaze. Um corte extenso e também profundo, bem no joelho. Um rasgo. Ele tinha batido aquilo numa pedra e a pele não tinha suportado. Começou a costurar, com o joelho semi flexionado e tendo de forçar para a pele se juntar. Gaspar gemia, mas evitava mexer no ferimento. Estava agüentando. Adriano não podia esquecer de pedir um novo suprimento de analgésicos injetáveis para a Dra. Ana no Geral de São Vítor. Depois de dar os pontos, cortou a linha do carretel e enrolou faixas na altura do joelho. Gaspar parecia estar mais calmo ou ter desmaiado, uma vez que estava extremamente quieto e de olhos fechados. Como o homem respirava, Adriano não o fez acordar. Deixou Gaspar para trás. Não podia parar também. Um homem a menos já era muita coisa, que dizer dois... Colocou-se morro acima. Os homens desciam com mais uma motocicleta. Só vinte minutos mais tarde, com seis homens descendo a motocicleta é que parou para examinar a de Gaspar. Ela estava com os retrovisores quebrados, a carenagem danificada e mais uns tantos arranhões. Colocou-a de pé e deu partida. Pegou na primeira. Ao menos parecia boa para rodar. Baixou o apoio e deixou-a de pé junto às outras duas. Faltavam cinco. Olhou para o céu. O sol descendo, já próximo das árvores. Olhou ao redor. O vento frio se intensificando. A noite não tardaria chegar. A voz de Sinatra puxando mais um hit do passado chegou aos ouvidos. Era impressionante como aquele cara conseguia manter a calma nas horas mais complicadas. Por que Gaspar não estava ajudando a descer a primeira moto ao invés do Sinatra? Sinatra não teria pulado como um louco lá de cima? Não teria. Teria cantando mais um sucesso das bandas desaparecidas após a catástrofe, uma do Barão Vermelho, do Aerosmith ou do Plantação. Não teria descido aquele morro e acabado todo estropiado feito o Gaspar. Enxugou o suor da testa com os pêlos do braço.

— Não subam ainda. Vamos encontrar um lugar para passar a noite.

     Os homens encararam-no silenciosos, como que recebendo a confirmação dura do que não queriam ouvir. Passariam a noite na estrada. Passariam a noite expostos aos vampiros. Os malditos noturnos.

     — Vocês três, procurem deste lado do rio. — disse, Adriano, referindo-se a Joel, Raul e Paraná. — Vou com o novato e os outros procurar do outro lado. Estejam aqui, impreterivelmente, em quarenta minutos.

     Sinatra, Marcel e Zacarias atravessaram o largo rio a braçadas rápidas. O líder Adriano era o que demorava mais, pois levava o facão amarrado na cintura e também tomava cuidado com duas armas de fogo. Essas expedições inesperadas invariavelmente eram entremeadas por surpresas, quase sempre desagradáveis. Os últimos anos tinham dado vigor à mata. Não era difícil deparar-se com onças ou matilhas de cães famintos e raivosos, oriundos dos grandes centros urbanos abandonados. Perigo era o que não faltava.

     Até mesmo o novato sabia o que estavam procurando. Um abrigo... isso significava que tinham pouco mais de vinte minutos para localizar uma pequena gruta, ou algo que os mantivesse protegidos e cercados, para tentarem sobreviver aquela noite. Uma manilha larga, um cômodo escavado por sobreviventes, qualquer coisa. Sobreviventes do passado faziam aquilo. Escavavam cômodos nos morros. Faziam paredes de pedra com uma pequena abertura para o interior. Em geral, esses cômodos perdidos nas florestas tinham uma única entrada, um único caminho para serem atacados e defenderem-se durante a noite. Caso um noturno encontrasse o abrigo, dificilmente você escaparia vivo. Mas, se quisesse tentar, teria de estar acordado. Por isso convinha que uma sentinela passasse a noite toda acordada e, se você estivesse no relento sozinho, nem pensar em cochilar. Os vampiros eram ardilosos. Chegavam sem barulho. Eram caçadores eficientes. Assassinos rápidos. Vinham do céu, pelas árvores. Macacos do inferno. Pisavam nas folhas secas sem que elas estalassem. Muita gente morria sem se dar conta de que caía nas garras das criaturas. Zás... uma garganta cortada. E os bichos da noite alimentavam-se daquilo que jorrava das artérias. Sangue vivo. Sangue humano. Diziam que podiam até subsistir com sangue de outras espécies, mas também diziam que não era a mesma coisa para eles. O sangue humano era mais saboroso. Mais poderoso. Farejavam no ar, a centenas de metros de distância. Um sangramento durante a noite e pronto. Estavam ferrados. Eles viriam. Tão certo quanto o pio da coruja. Diziam também que os vampiros caçadores, os que saiam para as florestas durante a noite em busca de sangue fresco, eram os piores. Os caçadores eram mais fortes. Mais violentos. Eram os noturnos mais preparados. Conheciam as matas. Conheciam os esconderijos. Eram os que derrubavam árvores na estrada. Colocavam explosivos nos caminhos. Sem contar as armadilhas. Armadilhas perfurantes, que faziam a vítima sangrar. Faziam a vítima deixar um rastro. Caso o azarado tivesse que dormir na estrada, estava acabado. Diziam que os vampiros mais fracos ficavam nas tocas, nas cavernas, nos túneis gigantescos, que abrigavam uma população daquelas criaturas. Os noturnos tomavam as velhas cidades desabitadas. Contavam que a extinta cidade de São Paulo abrigava um sem número de tocas e tribos, pois os noturnos dividiam-se em tribos. Ocupavam prédios inteiros. Selavam as janelas, impedindo a entrada do sol. Escravizavam seres humanos para fazer deles sentinelas diurnos. Humanos traidores, que abriam fogo contra as tropas que buscavam desinfetar a Terra daquela raça maldita, surgida do dia para noite, sem mais nem menos. Criaturas que apareceram depois da Noite Maldita, do Evento.

     Zacarias, o soldado mais baixo e mais gordo do grupo, foi quem lembrou:

     — Depois dessa ponte não tem aquela lanchonete abandonada? Adriano refletiu um instante:

— É, tem.

     — Por que a gente não procura abrigo por lá? A gente fortifica uma sala. Fica todo mundo junto. Se aparecer alguém durante a noite, a gente manda bala.

     — Na mata é mais seguro. — replicou o líder.

     — Claro que é mais seguro, mas se a gente não achar nada em meia hora, acho melhor não perdermos mais tempo e começarmos a preparar nosso acampamento lá na lanchonete. Como é mesmo o nome daquele lugar? Rei da Pamonha?

     — Rancho. — consertou Sinatra. — Rancho da Pamonha. Zacarias sorriu. Uma imagem de infância. O pai sempre parava na estrada para fazerem um lanche no Rancho da Pamonha. Tinha um playground imenso, era muito divertido. O sorriso sumiu. Outra imagem. A casa invadida por vampiros. O pai atirando contra as criaturas. A mãe escapando com ele pelas escadas. Gritaria. Estavam invadindo o prédio todo. Zacarias apertou os olhos.

     Adriano, que ia à frente atento ao caminho, divisou uma picada dentre o mato alto. Chamou a atenção dos companheiros. Podia ser uma isca. Uma armadilha. Os noturnos eram foda. O facão ampliava a abertura. Talvez terminasse num cômodo de concreto, criado pelos soldados em passagens anteriores. Aquela luta era antiga. Uma guerra sem trégua.

     Sinatra começou a cantar o maior sucesso de Armstrong. What a Wonderfull World encheu a mata.

     Adriano arrependeu-se de não ter trazido seu par de botas. Entrar na floresta descalço era coisa de amador. Aquela região era rica em serpentes.

     Marcel era o que tinha a expressão mais tensa. Era a primeira que vez que se preparava para passar a noite na floresta. Desde que ele, ainda criança recém-desperta, e a mãe foram aceitos na fortificação de Nova São Paulo nunca precisara passar um dia fora dos muros. Já tinha entrado em confronto dezenas de vezes contra os noturnos, mas dentro dos muros de Nova Luz a coisa era diferente. Apesar de cercado por mais sete amigos, ali fora, sentia-se sozinho, desprotegido. Tinha ouvido muita história sobre Adriano e seu grupo, sabia que o líder era um guerreiro experiente, mas isso não estava fazendo diferença naquele exato minuto. Com o coração acelerado, rezava por um milagre. Torcia para acordar sobressaltado e descobrir-se na cama, respirando aliviado por despertar de um pesadelo ultra desconfortável.

     Adriano chegou ao final da trilha. Acabava numa rocha. Praguejou. Picou mais um pouco para a direita, depois para a esquerda. Balançou a cabeça. O expedicionário que estivera ali antes dele tinha desistido quando chegou naquela rocha. A picada não chegava em lugar algum. Nenhuma gruta. Nenhum cômodo preparado com uma passagem estreita. Nada.

— Vamos voltar. Estamos perdendo tempo aqui.

— Vamos tentar o Rancho?

     Adriano só resmungou, o que bastava para os veteranos saberem que a resposta era positiva.

     Em cinco minutos chegaram à beira do rio mais uma vez. Subiram em direção a ponte. Devia aproximar-se das quatro da tarde. O sol, insistente, dava um aspecto rajado à folhagem atlântica, intercalando o verde com luz e sombra.

     Chegando à ponte, Adriano foi informado que faltavam cinco minutos para completar os trinta. Tinham descido bastante. Talvez fosse precipitado decidir pelo Rancho da Pamonha, pois nem tinha vasculhado rio acima. Mas a incerteza de encontrar abrigo na mata ditava a alternativa. Não podiam arriscar perder mais tempo. Caso arriscassem, quando se dessem conta de que não tinham um canto mais seguro para pernoitar, já estariam perto das cinco da tarde, não tardaria o coaxar dos sapos e a imersão na sombra. Teriam de esconder-se na mata, tendo como proteção as árvores e a fé em Deus. Por outro lado, talvez a outra equipe tivesse tido mais sorte e viesse com a boa nova de um abrigo perfeito, impossível de ser penetrado por um noturno. Partilhou os pensamentos com os acompanhantes. Deixaram as armas de fogo e o facão na margem do rio e voltaram nadando para a outra margem.

     Enquanto os homens aqueciam-se com os braços, Adriano foi até o gramado onde Gaspar permanecia adormecido. Secou a mão nas próprias pernas e, depois, tocou a testa do amigo. Estava frio. Olhou para as ataduras. Estavam limpas. Livres de sangue. Era bom que fosse assim. Gaspar era seu segundo homem. Não queria deixá-lo para trás. Era, além de um bom soldado, um amigo. Além de um amigo, era o segundo no grupo que conhecia a missão. Conhecia os planos da Inteligência do grupo superior que lutava para construir a estratégia definitiva contra os noturnos. Gaspar não poderia ser deixado para trás. Era valioso demais. Infelizmente tinha sofrido um surto de desespero aquela tarde.

     Depois de dez minutos, avistaram o grupo de Raul descendo o rio. Vinham em silêncio. Cabisbaixos. Ao que parecia tinham tido a mesma sorte. Nenhum abrigo inexpugnável, nenhum combustível para a esperança que minguava à medida que o sol descia.

     —   Encontramos uma gruta escavada em pedra... — começou Raul. Marcel deu um tapa ligeiro no braço de Sinatra. Esperança.

     — ... mas é muito pequena. Bastante para um homem, dois, se apertar... não vai dar para todo mundo.

O sorriso que enfeitava o rosto negro do novato desapareceu.

     — O Zacarias lembrou que depois da ponte tem aquele Rancho da Pamonha. Acho que podemos adaptar uma sala para passar a noite.

     — Dá uns seis quilômetros até lá, uns três minutos de estrada. — emendou Joel.

     — Se não tiver nenhuma árvore no caminho... — resmungou Marcel.

     — Mas tô com Adriano e não abro. Se ficarmos aqui discutindo, anoitece. Vamos mexer o esqueleto e correr para o Rancho da Pamonha.

     — Temos que atravessar duas motos. Temos três aqui embaixo. Vamos esconder as outras no mato. Vampiro fareja sangue, não fareja óleo. A gente dorme no Rancho e amanhã volta para buscar o resto. Vamos subir logo essas máquinas e arrumar um canto para dormir, organizou o líder.

     Uma hora e vinte minutos depois estavam em cima do morro, do outro lado da ponte, com duas motocicletas de motores ligados.

     Marcel olhou para barranco vermelho que terminava em árvores novas e touceiras altas. Tinham demorado para subir com as motocicletas, pesadas demais e difíceis de elevar. Podia ver do outro lado do rio um corpo estirado numa parte gramada da depressão. Gaspar ficaria para trás. Tinha uma arma ao seu lado. Um reflexo luzia no metal da pistola devido a incidência do sol.

     Estavam em sete homens no topo do morro. O asfalto negro guardando o destino do pelotão.

Raul e Joel tomaram o guidão das motos.

     — Zacarias e Marcel, vão primeiro. Dêem uma olhada no lugar. Verifiquem se vai ter como montarmos um quarto para o pernoite. Estando tudo ok, voltem para pegar a gente.

     Acomodaram o máximo de bagagens com o primeiro quarteto. Se a estrada estivesse limpa, chegariam em poucos minutos, três, quatro no máximo, ao velho e abandonado Rancho da Pamonha.

     Ficaram na beira do morro o líder Adriano, o cantor Sinatra e também Paraná. Paraná era o homem mais velho do grupo. Um senhor na casa dos cinqüenta anos, mas de compleição invejável. Tinha o cabelo cortado à máquina e olhos vivos. Apesar da idade era soldado há apenas quatro anos e estava no grupo de Adriano há menos de dois anos. Tinha servido em outro pelotão, que fora exterminado pelos noturnos numa batalha no front. Diziam que Paraná se alistara depois de ter visto a família dizimada após a invasão dos noturnos à uma fortificação. Foram pegos de noite. As sentinelas não tiveram tempo de dar aviso com rojões. Um massacre.

     Adriano cofiava o cavanhaque, olhando para o corpo estirado de Gaspar. Os motoqueiros não poderiam demorar, pois planejava ir até a lanchonete abandonada para inspecioná-la com os próprios olhos e depois retornar para levar Gaspar até a gruta encontrada pelo grupo de Raul.

     Sinatra cantarolava qualquer coisa, enquanto Paraná estava debruçado na amurada da ponte, olhando para a paisagem rio abaixo.

O sol continuava sua marcha cadente trazendo o inferno.

     Depois que Sinatra calou-se, um silêncio avassalador abateu-se sobre o trio. Cada um capturado por seus pensamentos. Minutos escorreram para o passado quando foram despertos pelo som grandioso de uma revoada de araras-azuis e tucanos que cruzaram a ponte, descendo o rio. Quando o som dos pássaros afastou-se, o som dos motores chegou. Meio minuto até que avistassem as motos na rodovia. Marcel e Joel traziam as motocicletas. Capacetes reluzentes rebatendo o pouco do sol que chegava ao asfalto. O astro rei tocava a copa das árvores e o tom azul do céu começava a transformar-se. Quando os homens chegaram e retiraram os capacetes puderam ver os sorrisos.

     — O Raul achou o lugar perfeito! Disse que vamos sobreviver esta noite! — explodiu o jovem Marcel.

     Adriano resmungou, montando na garupa e pedindo a Marcel que ficasse o mais para frente possível para que Sinatra pudesse subir. A moto deles iria levar três passageiros.

     Joel e o corpulento Paraná dividiram o segundo veículo e carregaram o resto das mochilas.

Dispararam no asfalto.

Quatro minutos depois, as máquinas reduziam a velocidade.

     Adriano ergueu os olhos. O grande complexo da lanchonete estava coberto por um tipo de trepadeira, feito um cobertor herbal. Gastou um minuto olhando para o lugar. Jamais consideraria aquele lugar sombrio um abrigo, mas a ocasião não lhe permitia muito critério. Entrou no Rancho da Pamonha. Caixas registradoras, balcões, displays com o logotipo da empresa espalhavam-se pelo amplo salão, igualmente recoberto por aquela hera. Ouvia as vozes de Raul e Zacarias vindas do fundo do salão. Estavam rindo. Ao menos a tensão do grupo parecia dissolver-se. Confiantes, venceriam aquela noite. Adriano percorreu o salão. Lembranças furtando-lhe a atenção. Via seu pai retirando um litro de suco de milho de uma das geladeiras. Sua mãe costumava pedir curau. Ele detestava. O irmão mais velho... ele pedia sorvete de milho ou gritava por moedas em frente as vending-machines. Sorriu. Voltou à realidade com Paraná pedindo que fosse até a porta de onde Raul surgira.

     — Venha ver, Adriano. Acho que vamos nos virar bem por aqui. Dá até para morar aqui.

     Adriano seguiu o amigo. Passaram por uma cozinha industrial, um labirinto de corredores, velhas salas frigoríficas. Chegaram a um corredor bem estreito. Perfeito. Só passava um homem por vez. Depois uma sala com espaço suficiente para passarem uma noite. Uns quinze metros quadrados. Não era nenhuma suíte, mas serviria. Raul mostrou-lhe a grande vantagem. A sala era selada por uma espessa porta metálica que corria sobre trilhos, sem mais nenhum acesso, Era resistente.

     —   Para uma noite, basta. — disse Raul. Adriano meneou a cabeça positivamente.

     — Limpem isso aqui. Vamos nos alojar por aqui mesmo. Já são mais de cinco da tarde, logo escurece, não temos mais escolha. Vamos orar. Seja o que Deus quiser! Eu vou cuidar do Gaspar.

Os homens olharam para o líder.

     — Vou levá-lo para a gruta que vocês encontraram. Não vou largar ele naquele gramado. Também preciso que dois de vocês vão para lá e escondam as motocicletas.

Marcel e Raul ofereceram-se.

     — Vocês, depois de limpar este canto, vasculhem este lugar, de cabo a rabo, vão aos fundos, procurem indícios. Não quero dormir na boca do leão. Se isto for um ninho de noturnos, não vamos durar dois minutos depois do sol cair.

    

     Joel tinha explicado bem para Adriano como chegar até a diminuta gruta. O líder dos soldados respirava com dificuldade. Trazia, apoiado em seu ombro, o soldado ferido. Gaspar estava lúcido, mas gemia a cada passo avançado. Tinha piorado. Talvez estivesse com algum osso quebrado, uma hemorragia interna. Adriano trazia ainda nas costas a espingarda do soldado e sua mochila. Os voluntários encarregavam-se de esconder as motocicletas e tinham ordens expressas de não esperá-lo. Adriano dissera que poderia até mesmo passar a noite junto de Gaspar, para não deixá-lo completamente desamparado, sozinho na mata. A decisão de deixar Gaspar separado dos demais surgira no fato das ataduras, tanto abdominais quanto as do joelho, apresentarem grandes manchas de sangue. Gaspar representava um perigo potencial ao grupo e sabia que era medida básica de sobrevivência separar do grupo os soldados feridos nas horas escuras. Os noturnos viriam em busca do sangue. Alguém sangrando era isca para tubarões.

     Adriano rangeu os dentes, içando o corpo de Gaspar para o topo de uma rocha. Um tronco de árvore ajudava na subida. Segundo Joel, logo depois daquele ponto, na continuação da rocha, escondido pelo mato alto, encontraria um buraco escavado no duro mineral. Um abrigo improvisado, meia boca. Realmente constatava que mal dava para duas pessoas. Tinha que se esgueirar até o fundo e torcer para que os vampiros não encontrassem aquele buraco. Sem sangue até que seria possível. Estava no meio da mata. Seria muito azar ser encontrado.

     Adriano empurrou Gaspar pela abertura. Já estava escuro no fundo da gruta. O céu também perdia rapidamente a claridade. Mosquitos notívagos começavam a dar o ar da graça. Adriano estava preocupado. Será que os outros dois já tinham terminado a tarefa de esconder as motos? Tomara que sim. Tomara que já tivessem zarpado rumo a lanchonete-abrigo. Olhou para Gaspar. As faixas enroladas no abdome e no joelho já não bastavam para o sangue. Do joelho escorria um fino filete escarlate, descendo até a bota do soldado. Ele seria achado. Seria pego pelos malditos noturnos.

     Adriano recuou um passo. Apanhou a espingarda calibre doze e colocou-a no chão, fora da gruta. Gaspar não ia precisar daquilo. Seria pego pelos vampiros. Na melhor das hipóteses, seria morto. Num contexto mais sombrio, poderia ser feito escravo, poderia ser torturado e obrigado a dizer tudo o que sabia sobre o Plano B, sobre a trama para o extermínio dos noturnos, para o remédio. Adriano abaixou-se e abriu a mochila de Gaspar. Retirou documentos do homem e enfiou nos bolsos de sua jaqueta. Retirou a munição. Balas banhadas em prata. A coisa mais eficiente na luta contra os vampiros depois dos bentos. Quando atingiam a cabeça do inimigo, colocavam-no fora de combate. Se atingissem um inimigo fraco, podiam até matá-lo definitivamente. Bastante munição. Seria mais útil no Rancho da Pamonha do que ali, naquele buraco escavado na pedra. Adriano tirou sua pistola da cintura. Transpirava pela testa. O coração batia rápido. Os olhos ardiam. Era um líder. Líderes tomavam decisões difíceis como aquela. Tinha que matar Gaspar. Matar seu melhor soldado. Seu amigo. Gaspar sangrava muito. Jamais passaria incólume aquela noite. Se tivesse tempo e certeza de que alcançaria São Vítor no dia seguinte, enterraria o amigo, não o largaria ali, naquele buraco de pedra. Mas o sol já descia no horizonte. A luz começava a faltar e logo aqueles malditos estariam soltos na terra mais uma vez. Adriano ergueu o braço. Gaspar respirava com dificuldade e, apesar do silêncio, estava acordado. Cerrou os lábios. Sabia o que Adriano queria. Sabia por que Adriano fazia aquilo. Sabia que não adiantava protestar. Era a lei. Teria de fazer o mesmo se estivesse do outro lado da pistola. Mas não queria morrer. Não queria morrer naquele dia. Daquele jeito. Morrer por causa de uma decisão precipitada. Por um erro idiota. Tinha sobrevivido a tantas batalhas. Sorriu. Lembrava quando tinha enfiado um escopeta carregada de prata no rabo de um vampiro. Tinha feito o desgraçado cagar prata. Tinha dado cabo de tantos deles. Não era justo. Ele e Adriano eram unidos. Não era justo. Não queria morrer. Tinha acordado aquele dia sem suspeitar que seria o último dia dc sua vida. Tinha acordado sem receber aviso. Um dia comum. Ordinário. Um azar na estrada. A cabeça cansada. Medo da noite. Dos noturnos. Mas sabia que o amigo não podia arriscar. O homem ferido poderia ser pego. Ser obrigado a abrir o bico. Era melhor que fosse assim. Certeza de estar calado quando os sanguessugas chegassem. Certeza de que o segredo não seria proferido ao inimigo. Deus! Mesmo sabendo de tudo isso, não era fácil. Não era fácil despedir-se da vida. Faltou ar no peito. Ergueu a mão, como se pedisse um momento. Talvez tivesse como contornar aquilo. Mundo maldito! Mundo das trevas! Por que Deus tinha deixado aquilo acontecer? Os demônios escaparem pela porta do inferno e tomarem conta do planeta! Não era fácil morrer, droga! Não era fácil! Lágrimas descendo no rosto. Encostou-se o mais ao fundo que pôde, arrastando-se, fodidamente machucado. A porra do joelho doendo. Sangrando. Fodidamente sangrando. Sangrando e condenando. Maldito sangue! Gaspar respirou fundo. Via os olhos do amigo também cheios de água.

— Até mais parceiro. — disse Gaspar, com a voz embargada.

     Adriano passou rapidamente as costas da mão que segurava a pistola sobre os olhos. Não podia fraquejar agora. Santo Deus! Como era difícil fazer aquilo com um amigo... um parceiro. Merda de inferno!

— Atira logo, porra! Atira, filho da puta!

Adriano voltou a fazer pontaria. Coração ou cabeça? Porra...

     — Eu não quero morrer... não tô pronto. Me leva com você, cara. Me leva... — choramingou o soldado.

     Gaspar prendeu a respiração. Uma explosão. Expirou. O peito pesado. O céu ficando mais escuro. Adriano, seu amigo... puxando mais uma vez o gatilho. Dor de cabeça. Silêncio. O ar não entrava mais. A garganta ardendo. Frio, dor e solidão. Tristeza... muita tristeza tomando o coração. Lágrimas descendo pelo rosto. Não podia se mexer. Não conseguiu falar. Agulhas. Sentia milhares de agulhas perfurando o peito. Um barulho desconexo escapou pela boca. Queria não ter implorado pela vida. Fora tão bravo em tantas lutas... agora morrendo como um rato... tinha implorado pela vida. Tentou, mas o ar não veio. Escuro. Tudo escuro... acabado.

    

     Adriano descia correndo, rente ao rio. Enxugava pela terceira vez as lágrimas do rosto. Pensava no sol. O sol sumindo. O sol danando sua vida. Corria mais. O peso da munição de Gaspar batendo no peito. O coaxar dos sapos chegando em seu ouvido, anunciando o anoitecer. A luz, difusa, perdida no meio das árvores. O céu vermelho. O tempo acabando.

     Chegou na altura da ponte. A merda da balsa do outro lado. Tirou a jaqueta. A camiseta ainda estava úmida. Tirou as botas e as meias. Tinha que ir rápido. Os noturnos deveriam estar abrindo os olhos em suas tocas fedorentas naquele exato momento. Entrou no rio, procurando os pontos mais rasos. Estava difícil manter as armas e as roupas secas. A pressa atrapalhava tudo. Ao menos a munição tinha que passar incólume.

     Deixou o rio. A calça ensopada. Vestiu a jaqueta às pressas. balas caíram. Sem tempo de parar para juntá-las. Enfiou a pistola na cintura. Segurou a espingarda com a outra. Subiu o mais rápido que pôde o morro rente ao pé da ponte. Parou no meio do caminho ofegante. Frio. O sol escondido pelas montanhas. Lusco fusco. Urgência. Terminou a escalada com o pulmão parecendo querer sair pela garganta. Pensou em largar a arma mais pesada... resistiu. A pior parte já tinha passado. O cricrilar dos insetos vindo da mata. O escuro ganhando força. A moto parada na beira da estrada. Correu mais um pouco e montou na motocicleta. Ligou. O motor falhou. A luz da reserva acesa. Deus! Essa não. A gasolina! Não podia ter acabado. Seis quilômetros até a lanchonete. Quanto tempo a pé? Andando rápido, um homem caminha cerca de três quilômetros por hora. Seria bem mais de uma hora de caminhada. O céu estaria totalmente escuro quando chegasse... se chegasse. Apertou o botão de start mais uma vez. O motor funcionou. Deus! Que a gasolina não acabasse até estar lá! Acelerou. Torceu o cabo. Acendeu os faróis. Medo. Puta que o pariu! Crepúsculo. Por que os noturnos faziam isso com os homens? Bastava escurecer para que todos se tornassem arremedos dc sobreviventes, marionetes aparvalhadas. Para que se tornassem criancinhas com medo do bicho papão. Os mais bravos, os mais destemidos, como os soldados que rodavam de cidade em cidade, levando e trazendo as boas e más notícias, também se rendiam à falta de sol. Mesmo os mais bravos fechavam os olhos e oravam do fundo do coração, esperando que a luz do astro incandescente voltasse e tornasse a terra imune àquela praga mortal.

     Adriano gritou emocionado quando divisou os contornos do Rancho da Pamonha. A perna estava gelada, com o frio catalisado pelo jeans molhado, exposto ao vento, trazido pela velocidade da máquina. A espingarda vinha na coronha ajustada à carenagem. Uma descida longa. Uns trezentos metros. A escuridão avançando. O sol desaparecido atrás da serra. O roxo sucumbindo à noite. Crepúsculo. Estrelas infinitas tomando conta do firmamento. A lua minguante clamando sua parte. A noite instalando-se. A noite chegando. A noite trazendo pela mão um filhote... um filhote feito uma aberração que tinha uma palavra grafada a ferro quente em seu couro descarnado. Quando aquele bicho passava, todos liam: Danação.

    

     Os homens tinham ajeitado o cômodo escolhido. Tiraram o amontoado de bagunças empoeiradas abandonadas naquela sala e providenciaram escoras para a porta corrediça. Caso fossem encontrados, teriam que dificultar a passagem de qualquer invasor.

     Paraná tirou de sua bolsa de lona três garrafas de água benta e depositou-as no canto que reservara para cochilar.

     Ficaram preocupados vendo o sol descer no horizonte e o líder não retornar. Talvez ele tivesse decidido mesmo ficar junto de Gaspar e encarar a escuridão.

     Reuniram-se no salão principal da velha lanchonete. Estavam famintos e com medo. Não poderiam acender fogo para fazer carne. Teriam que se virar com os enlatados, jantar frio. Fumaça chamava a atenção dos noturnos. O último rastro de sol que enfeitava o salão esmaeceu lentamente até desaparecer por completo. Marcel benzeu-se. Raul repetiu o gesto, logo todos estavam fazendo o sinal-da-cruz.

     — Canta alguma coisa, Sinatra. Canta alguma coisa para espantar o medo. — pediu Joel.

Sinatra pigarreou.

O salão em silêncio. Marcel ouviu primeiro o som do motor.

     Todos viraram-se para o imenso vidro da frente e, apesar da sujeira grossa que resistira a tentativa de limpeza, viram o farol surgir na estrada. Olhavam para Adriano aproximando-se, quando a voz do amigo cantor encheu o salão com uma deliciosa canção antiga:

     — When the night has come, and the land is dark, and the moon is the only light we 'll see... No, I won't be afraid. No, I won't be afraid... Just as long as you stand. Stand by me... So darling, darling, stand by me, oh, stand by me, oh, stand, stand by me, stand by me...

    

     Lucas acordou no piso frio. A impressão de ouvir um sinal sonoro. Impressão. A imagem da Dra. Ana veio à sua cabeça. Estava no chão por causa de uma injeção. Por causa de um ataque. A porta que separava o quarto vizinho continuava aberta. Piscando os olhos podia ver a cama de Gabriel. Ele não estava lá. Não estava em seu campo visual. Lucas engatinhou até seu catre. Deitou-se no colchão. O pescoço dolorido. Onde estava Gabriel? Já teria sido libertado daquela gaiola de loucos? Provavelmente. Ficou deitado um tempo, esperando a tontura passar. Seria dia ou seria noite? Sentia muito sono, o que deveria ser efeito da medicação. Estava perdido sensorialmente. Notou que a calça azul estava empapada de suor. O que seria aquilo? Outro efeito da droga? Apanhou a camisa hospitalar debaixo da cama e passou sobre o peito. Estava todo suado. Ouviu um ranger. Ergueu a cabeça. Não viu nada. O ranger continuou, como um dispositivo mecânico acionado. Sentou-se e olhou para o grande vidro. Viria de trás daquele espelho? Não. Não vinha. Vinha da parede, ao lado do catre. Onde costumava se recostar para ser preso pela garganta e braços. Havia surgido ali um braço mecânico. Uma garra que sustentava uma espada curta. Que porra era aquela agora? Uma espada?! Para quê? O mecanismo parou de ranger, mantendo a espada de pé, presa num encaixe de borracha. Lucas olhava compenetrado para aquele novo personagem em sua louca aventura naquela cela de hospício. Um sinal sonoro contínuo, como os alarmes emitidos nos corredores das escolas na troca de aulas. Tomou tamanho susto que quase caiu da cama. O suor escorria em bicas. Estava sentado. As espáduas retas e tesas. Ouviu uma risada vinda do quarto ao lado. Uma risada macabra. Assombrada. Olhou para a espada presa na garra. Olhou para o vidro espelhado. O que estava acontecendo? A voz de Gabriel chegou ao seu ouvido.

     — Eles deram uma para você também? Há!Há!Há! Eles estão deixando a gente louco, sabia? Seu maluco! — gritava o vizinho.

     Lucas apertou os olhos. Aquela voz. A imagem de Gabriel vindo na sua cabeça. O vizinho estúpido. O ódio queimando no peito. Cara idiota. Lucas levantou. Gabriel surgiu na porta. Trazia uma espada curta.

— Não pega essa faca. — advertiu o vizinho.

     Lucas parou. O cabelo desgrenhado do vizinho parecia formar uma auréola no topo da cabeça de Gabriel. Um santo. São Gabriel. Lucas rilhou os dentes.

     —   Não pega essa faca, senão eu te furo com a minha. Ameaça. Lucas continuou imóvel. O suor descendo pelo rosto.

     — Cadê a Dra. Ana? Esse homem precisa de remédio. Ele está louco! — gritou para o espelho.

Nenhuma resposta.

     Gabriel avançava em direção à espada da cela de Lucas com sua lâmina em riste, pronta para atacá-lo.

     Lucas não queria arriscar-se. Mantinha uma distância segura daquele maluco. Um sorriso sarcástico tomou seus lábios finos. Quem era louco? Ele próprio? Gabriel? Ou os homens atrás do espelho? Aquilo era um reallity show? Big Crazy Brother?

     O ódio de Lucas triplicou. Odiava Gabriel. Odiava aquele maldito quarto branco. E agora aquele maluco estava lhe apontando uma espada e aproximando-se de outra. A que deveria ser a sua. A sua espada para defender-se. A sua espada para cortar a garganta daquele lunático. A espada para arrancar as tripas daquele cabeludo irritante. O adversário. Lucas apertou mais uma vez os dentes. O maxilar parecia que ia estourar e os dentes voarem da boca, tamanha a tensão que se apoderara de seu corpo. Um Lucas menor ainda lutava para manter a sanidade do ser, mas o Lucas maior e louco era mais forte. O Lucas menor ficava questionando-se, consumindo um resquício de lógica. Por que tinha tanto ódio daquele homem que nem conhecia?... Um Lucas tentando encontrar a razão. O Lucas maior pouco importava-se. O Lucas maior queria agarrar aquele homem pela garganta, com espada ou sem espada e arrancar sangue da sua pele. Fazer o vizinho cair morto. Ou melhor... torturá-lo. Tomar a espada e cortá-lo. Deixá-lo debater-se numa hemorragia letal, vendo o sangue sumir do corpo. Lucas sorriu... quase rindo. Estava doido. Era isso. O Lucas menor dizia isso. Estava doido. Por que matar um desconhecido? E talvez o desconhecido passasse pela mesma experiência. Ou talvez o desconhecido estivesse com medo dele. Será que as pessoas conseguem ver em nossa cara nossa loucura? Lucas escondeu o sorriso. E se ele percebesse que ele estava louco? Não queria que os outros soubessem... porque o Lucas menor não tinha certeza de estar louco. Só o Lucas prevalecente era que queria matar o vizinho. O Lucas menor, o verdadeiro Lucas, tentava manter o controle. O pequeno Lucas achava que se saísse daquele doentio quarto branco poderia tornar-se soberano e tornar-se o Lucas maior e acabar com aquele Lucas demente. O sorriso doente voltou sem avisar. Lucas piscou. O suor descendo pelo rosto. As drogas estavam fazendo aquilo. Só podia ser isso. As drogas criavam aquela dicotomia interna. As drogas colocavam os Lucas para brigar. Ele não se lembrava de sua vida antes daquele hospital... mas sabia que não era um louco, um pinel. Não era! Dodecaedro. Lucas sorriu. Que merda era aquela agora? Dodecaedro. O que aquilo significava? Um desenho geométrico formando-se em sua mente. Fechou os olhos. Estava louco. Estava louco. Abriu os olhos. Gabriel estava pegando a segunda espada. Gabriel, o velho cabeludo, com duas espadas. Lucas sem espada. Lucas recuou até encostar-se na parede oposta ao espelho. Será que tinha alguém lá atrás do vidro? Talvez estivessem de folga. Talvez fosse domingo e agora estavam sozinhos. Gabriel iria matá-lo. Matá-lo naquele instante. Lucas cerrou os dentes e manteve os olhos abertos, atentos. A cabeça esvaziou a loucura que o atordoava. Só via Gabriel e as espadas. Uma em cada mão, dançando na frente do peito do oponente. Gabriel, praticamente encostado na parede com o vidro, arfava cada vez mais rápido. Ia atacar.

     Lucas sentia algo mudando em seu medo. Não estava com medo de Gabriel. Nem das lâminas. Estava com medo do tempo. Com medo do combate demorar muito. Estava ansioso para começar. Ansioso para ter um bom motivo para tomar aquelas espadas do oponente e arrancar-lhe a cabeça. Se fizesse aquilo depois de um ataque, não seria culpado. Ninguém lhe acusaria. Estava defendendo-se.

     Gabriel grunhiu. Ergueu as espadas. Abriu a boca e soltou um rugido.

     Lucas assustou-se, mas manteve-se em posição de defesa, pronto para o combate. O homem tinha rugido. Estava louco ou via dentes pontiagudos escapando pelos lábios de Gabriel?

     Gabriel escancarou a boca mais ainda e seus olhos negros brilharam, tornando-se vermelhos cintilantes.

     Lucas teve certeza de estar diante de um monstro. Um monstro com dentes pontiagudos e olhos vermelhos. Seu coração pareceu pegar fogo. Não havia mais dicotomia. Era um só. Uma vontade de agarrar o oponente pelo couro e arrancar-lhe a carne, virando-o do avesso com as unhas. Uma vontade de pintar aquelas paredes de vermelho. Vermelho-sangue. Aquilo na sua frente não era Gabriel. Era um monstro. Um monstro que queria lhe atacar, que precisava ser eliminado a qualquer custo. Um bicho que soltava um cheiro. E aquele cheiro era atraente. Era irresistível. Cheiro do mal. Cheiro de fera pedindo para ser abatida. Lucas não podia resistir. Algo mudava em sua natureza. As narinas eram aprisionadas por aquela essência, sua mente entrava a dois mil por hora num terreno novo. Tinha que agarrar aquele bicho e estrangulá-lo. Apertá-lo contra as unhas, feito pulga. O Lucas menor tinha ido embora. Só havia o Lucas louco, que abriu a boca ameaçadoramente também. Gritou. Antes que Gabriel esboçasse reação, Lucas correu em sua direção. Gabriel até tentou atingir o vizinho com uma das lâminas... mas foi impossível. Lucas passou pela guarda de Gabriel e agarrou sua garganta, jogando a cabeça da criatura contra o vidro da parede. O impacto fez com que Gabriel soltasse as espadas e que o espelho fosse trincado. Lucas chutou cada uma das lâminas em direção a um canto do quarto.

— Vamos brincar sem essas faquinhas, vizinho.

     Gabriel rugiu mais uma vez. Parecia um bicho. Os olhos brilharam de novo e os caninos pareceram alongarem-se ainda mais. Foi sua vez de atacar. Fechou as mãos sobre as orelhas de Lucas que, surpreso, soltou-o. Atirou-se contra o vizinho, preocupado em recuperar as espadas.

     Lucas foi ao chão com o peso do corpo de Gabriel. Bateu a cabeça no piso. Acidente de percurso. Procurou o adversário. Gabriel debruçava-se sobre uma das espadas. Lucas levantou-se com agilidade e partiu com gana ao encontro do oponente. Gabriel, de costas e debruçado para apanhar o objeto do chão, não viu Lucas chegando. Gabriel foi empurrado pela camisa e pelas ancas até bater com o topo da cabeça na parede.

     Lucas ouviu um "crac" depois de jogar o adversário contra o obstáculo. Viu um azulejo rachado. Gabriel parecia atordoado. Aproveitou para cair com os joelhos em torno do pescoço do oponente para imobilizá-lo. Começou uma série de socos certeiros contra o rosto da criatura. O ódio consumia seus pensamentos. Queria acabar com ele. Queria matá-lo. Aquilo não era humano. Não merecia viver. Era uma peste. Era um bicho. Uma ameaça. Tinha que acabar com ele. Socou até não agüentar mais erguer o braço. Transpirava em bicas. Saiu de cima do corpo com o rosto deformado. Estranhamente, não tinha sangue escorrendo dos cortes. Era um monstro esquisito. Foi até o catre e apanhou sua camisa azul. Passou o tecido grosso na testa e no peito. O suor ainda escorria. Retomava o controle da respiração. Foi até o canto oposto e pegou sua espada. Olhou para Gabriel. Algo dizia que devia fazer aquilo. Continuar. Caminhou até o corpo inerte. Respirou fundo. Nunca tinha feito aquilo. Mirou o peito. Enterrou a espada no coração da criatura. Só então Gabriel grunhiu e um fio de sangue quase negro escapou-lhe da camisa do hospital.

— Morre, bicho dos infernos!

     Lucas deu as costas para Gabriel e foi até a cama. Agora que tinha acabado com o adversário, sua calma parecia voltar ao corpo e à mente. Queria sair dali. O que estavam fazendo ali em São Vítor? Criando assassinos?

Levantou-se e foi ao encontro do vidro espelhado.

     — O que vocês querem de mim?! O que querem?! Deixem-me sair daqui!!! Filhos da puta!!!

     Lucas calou-se e tocou o vidro trincado com a testa. Respirou fundo. Afastou a testa uns dez centímetros e abriu os olhos. Um vulto repetido nas frações do espelho. Virou-se imediatamente. Por mero reflexo desferiu um chute potente contra a barriga de Gabriel e, ao mesmo tempo, agarrou o cabo da espada e a retirou do coração da criatura. Uma criatura que resistia a uma espada no peito!

     Lucas gritou e não deu tempo ao monstro de dentes longos refazer-se. O golpe no coração não o tinha matado, mas o tinha debilitado enormemente, pois Gabriel já não exibia vigor nos músculos e mal se mantinha de pé. Lucas deixou para entender mais tarde. Avançou com a lâmina pronta para o golpe. Desenhou um arco no ar que foi seguido por um barulho grave. Um passo para trás a tempo de desviar-se da cabeça de Gabriel que se descolava do pescoço e ia ao chão. O corpo, decapitado, cambaleou e tombou para trás feito um tronco de árvore decepado caindo de uma vez só. Lucas olhou para aquele corpo bizarro. Um pouco de sangue escapou pelo pescoço aberto. Achava que um ferimento daquele faria uma cascata escarlate banhar o chão. Tinha alguma coisa de errado com o corpo de Gabriel. Tinha matado uma coisa, não uma pessoa. Isso servia para acalmar um pouco. Abaixou-se e repetiu uma série de golpes. Sua pele sujou-se daquele sangue escuro, que acabou se espalhando pelas paredes. Quando se levantou o corpo não tinha mais braços ou pernas presas ao corpo. Tinha sido retalhado de forma selvagem.

     Mais uma vez, Lucas foi até o catre e usou a camisa azul para sua higiene. Limpou também a espada curta, deixando-a originalmente reluzente. Procurou a segunda espada e juntou-as. Deitou-se, colocando-as ao seu lado. Eram suas. Nenhum bicho daqueles poria as mãos nele novamente. Fechou os olhos. A calma voltava à medida que o cheiro daquele bicho desaparecia. Queria descansar um pouco. Não tinha entendido nada. Não sabia se aquilo fora um pesadelo ou uma alucinação causada pela droga administrada pela Dra. Ana. Só tinha entendido uma coisa... que tinha que descansar, pois se voltasse a sentir aquele cheiro iria perder o controle de novo. Iria acabar com a raça daquele bicho dos infernos.

    

     Escuridão. A noite instalada. A criatura pálida abriu os olhos, despertando do transe. Estava no fundo de sua toca, Noite abençoada. Hora de sair. Hora de caçar na mata. Buscar alimento para a sociedade. Alimento para o organismo. A toca era uma confusa sucessão de corredores e galerias escavadas na rocha. Cantarzo conhecia o labirinto. Aquela tumba fétida era sua casa. Incrustados nas paredes, muitos dos seus ainda mantinham os olhos fechados, ainda tomados pelo transe que os libertava, aos poucos, do torpor. Caminhou por mais três corredores íngremes, dirigindo-se à superfície. Aproximando-se da boca da toca, grunhiu irritado. Ergueu a narina e inspirou demoradamente. Alguém passando distraído por ali assustar-se-ia com o brilho emitido pelos olhos vermelhos da criatura. Era amedrontador. O som da noite. O vampiro adorava aquilo. Seu ambiente. Conhecia os cheiros. Os animais. Saiu sozinho, preferia assim. Cantarzo habitava uma toca distante dos grandes centros vampíricos. Procurava por Rios de Sangue no interior das florestas. Seu trabalho era perseguir velhos centros rurais onde pudesse haver adormecidos. No momento, os adormecidos ainda eram a fonte de sangue mais cobiçada pelas cidades de vampiros. Depois da Noite Maldita, quando a humanidade afundara-se no desespero tentando entender o que acontecia, muitos dos sãos começaram a juntar os adormecidos. Chegavam a estocar milhares de corpos empilhados em prédios abandonados, em salões de igreja. Tentavam descobrir o que acontecia com aquelas pessoas, qual a doença que devastara a população, tirando-lhes o ânimo e a consciência. Os adormecidos não estavam mortos. Não estavam vivos. Tinham sido colocados em modo de espera. Hibernavam. Belas adormecidas. Alguns humanos sobreviventes chamavam os adormecidos de "os sortudos". Pois os acordados tinham que lutar contra eles. Combater os noturnos. Os malditos bebedores de sangue. Cantarzo sorriu. Correu, tomando velocidade. Adorava ser um vampiro. Adorava seus poderes sobrenaturais. Sortudos eram eles, os noturnos, os filhos da noite. Eles é que eram eternos. Eles é que tinham força sobre-humana e graça. Viviam do sangue dos humanos e eram temidos, temidos como pragas, temidos como o demo. No topo da cadeia alimentar, sem envelhecer um único dia. Cantarzo saltou. Parecia voar. Seu corpo agarrou-se ao tronco de uma frondosa árvore. Esgueirou-se para cima até alcançar um galho. Saltou para a árvore seguinte. O par de brasas vermelhas percorrendo a mata, voando dentre a folhagem. Cantarzo parava eventualmente. Farejava o ar. Buscava o cheiro. Cheiro de sangue. Uma pista. A toca tinha plantado armadilhas nos últimos dias. Vinha o cheiro do sangue de animais silvestres... faltava o aroma favorito. Sangue humano, o ópio dos vampiros. Subiu mais alguns metros. Os galhos finos começavam a ficar suscetíveis à carga da criatura. Cantarzo não demorava, saltando antes que o galho arrebentasse. Parecia voar. Um bicho sem peso. Um predador perigoso. Iria até a estrada. Dias atrás tinha explodido a ponte. Sabia que, cedo ou tarde, os soldados teriam de passar por ali, pois sempre iam ou vinham do centro que chamavam de São Vítor. Com alguma sorte teriam se acidentado. Teriam sofrido com as árvores tombadas, perdendo tempo e ganhando burrice à medida que o desespero consumia-lhes a sanidade. Um teria despencado da ponte, arrebentando-se contra o rio. Alguém poderia ter se cortado atravessando os morros. Por isso, visitar a estrada e a ponte era obrigação de toda noite.

     Cantarzo saltou para um imponente jequitibá. Trinta anos sem interferência humana na mata tinham feito bem à floresta. O vampiro escalou a árvore gigantesca que se erguia além das demais. Farejou. Grunhiu. Um vento forte bateu contra seu corpo. Agarrou-se mais firme ao tronco da árvore, colocando-se de pé sobre o galho forte. Passou a língua pelos caninos afiados. Sua roupa, esvoaçando, tremulava com a passagem do vento. Cerca de quatrocentos metros à frente, viu um grupo de brasas ardendo. Olhos de vampiro. Um grupo de caçadores saídos de uma toca vizinha. O grupo de Raquel. Uma das melhores caçadoras da região. Guerreira. Forte. Poderosa. Mas a mulher adorava cercar-se de bajuladores. Cantarzo achava que o bom caçador deveria sair sozinho. Não caía no jogo de disputar a liderança. Odiava cortejar vampiros antigos. Era um caçador solitário. Chamava o grupo de noturnos somente na hora necessária. Quando encontrava um Rio de Sangue. Ou quando encontrava muita gente escondida, gente viva que se arriscava a cruzar o interior durante a noite. Gente que apostava que a mãe sorte não os deixaria e faria dos olhos experientes do caçador, olhos cegos. Gente que se enganava e que esperneava quando as mãos, donas de unhas pontiagudas e afiadas, fechavam-se sobre suas gargantas, interrompendo a vida. Gente que chorava e clamava por perdão por desafiar os noturnos. Gente que antes de morrer oferecia-se para tornar-se um mulo, um escravo de vampiros.

     Cantarzo saltou do galho, descendo em queda livre. Vinte metros. Pousou no galho áspero de uma mangueira. O grupo de Raquel avançava rápido. Avançava em direção ao rio. Cantarzo grunhiu. Acelerou a marcha. Alternava entre as árvores e o chão, veloz, tornando-se um vulto não detectável para olhos humanos.

     O vampiro continuou. Era uma criatura tão sutil e perigosa que nem mesmo seus semelhantes notaram a aproximação. Cantarzo rumou para galhos mais altos. Não permitia que a folhagem fizesse barulho, esgueirando-se como lontra na água. Os olhos do bicho brilharam num vermelho mais intenso. Olhou para baixo. O grupo de Raquel também tinha parado. Eles também tinham sentido. O cheiro. Vinha de longe, trazido pelo vento, contudo dificilmente perderiam a pista. Quantos quilômetros? Difícil precisar. O vampiro continuou contra o vento. A direção sugerida pelo odor dizia que, finalmente, a armadilha da ponte surtira efeito.

    

     Cantarzo tinha deixado o grupo de Raquel passar. Queria observar. Hora de recreação. Raquel trazia alguns novatos. Dois mulos convertidos e uma vampira desperta no fundo do covil. Além destes três, vinham dois vampiros originais. Os originais eram vampiros surgidos na Noite Maldita. Pessoas que, de uma hora para outra, tinham se tornado doentes, adquirindo aversão terrível ao sol, fraqueza e uma melancolia devastadora. Morriam em poucos dias, abrindo os olhos tristes depois da morte. Gente que vagava pelos cemitérios, tentando entender o que acontecia e o porquê de não poderem mais com o sol ou o porquê de não terem direito à tumba. Gente que vomitava tudo quando, enganados pela sensação de sede, tentavam alimentar o estômago morto com pão e carne. Andarilhos da noite, para quem a vida e a morte eram proibidas. Gente que achava consolo no sangue pulsante das veias humanas. Droga. Força. Alegria. Assassinos. Logo uma legião desses monstros começou a organizar-se e entender que, para sobreviver, tinham que caçar durante a noite e esconder-se nas horas de luz. Bichos das trevas. No começo havia muito choro. Famílias separadas, vidas separadas. Filhos que viravam feras, pais que se tornavam bestas. Gente que se escondia de noite e combatia os vampiros, vampiros que fugiam na hora do sol e que combatiam as pessoas "comuns". Uma confusão danada. Uma série de suicídios. Ninguém entendia o que tinha acontecido e, até boje, perguntas para as razões da Noite Maldita continuam sem respostas. Entregam ao divino a realização de algo tão poderoso e inexplicável. Cantarzo era um original. De sua família, só ele tornara-se um vampiro, o que não chegava a ser raro. Mas, tinha visto famílias inteiras sucumbirem às trevas. Talvez fosse até melhor assim, ou tudo na luz, ou tudo na escuridão. Ao menos a família permaneceria unida. Depois que ele próprio falecera como mortal, nunca mais pudera juntar-se aos que amava. Ajudara a mulher e filhos, dando cobertura à graciosa criatura e às três crianças até uma primeira fortificação. Seu irmão, apesar da busca louca nos primeiros meses, jamais vira novamente... Depois tornara impossível os encontros com os "vivos" amados. Vampiros não podiam transpor os muros das fortificações, nem humanos arriscavam-se nas trevas. As feras eram numerosas e a loucura tremenda. Um vampiro, por mais sentimental que fosse, jamais conseguiria manter vivo os laços humanos fora das fortificações. Uma ditadura. Vampiros cá, humanos lá. Os humanos, por vezes, teimavam buscar os seus parentes vampiros... teimavam querer retorná-los ao seio familiar, atribuindo aquela loucura pelo sangue à uma doença passageira... mas a doença não passava e os vampiros, depois de um tempo, nunca buscavam a família. Os vampiros aprendiam a não confiar em si mesmos. Quando a sede invadia a lucidez... pronto! O sangue tornava-se tudo e o passado esfarelava-se, virando um nada. Quando a sede instaurava-se no vampiro, era como se a criatura entrasse em sintonia com o lado perverso de sua comunidade. Atendia aos da sua espécie. Tornava-se um ser bizarro, formiga gigante, dotada de caninos pontiagudos. Procurava levar o maior número de humanos para os covis, paras as tocas, e guardava-os feito rebanho. Os adormecidos eram disputados. Sangue eterno, ao menos enquanto durasse aquele sono mágico. Durante os primeiros meses pós-Noite Maldita, Cantarzo vira histórias maravilhosas desenrolarem-se. Histórias heróicas e apaixonadas, verdadeiros romances, épicos. Gente que não queria deixar seus parentes e amigos vampiros para trás e vampiros que tentavam permanecer junto dos seus ao redor das fortificações. Nunca terminavam bem esses casos. Nunca. Os vampiros, como dito, suscetíveis à loucura do sangue, perdiam a razão. Quando queriam sangue, aquela gente era outra. Precisavam do sangue para continuar a viver. Era repugnante para os humanos. Era perigoso. Quantos pais haviam matado os filhos? Quantos filhos tinham afugentado os pais? Cantarzo perdera a conta. Muitos. Quando tinham os filhos enrolados nos braços, quentes e cheios de sangue nas veias... muitos perdiam a cabeça. O estômago queimava, os olhos ardiam feito brasas e os dentes surgiam. O filho deixava de ser filho e passava a ser comida. Desgraça. Desespero. Desesperado... talvez o adjetivo explicasse também sua busca pelo irmão desaparecido. Sabia que irmão não tinha se tornado um noturno. Teria o encontrado, caso assim fosse. O irmão estava perdido. Talvez fosse mais um daqueles que dormiam sem nunca saber o que acontecia. Assim sendo, como a mulher e as crianças que ajudara, tinha ido para sempre. Era melhor assim. Vampiros para cá, humanos para lá. Era mais seguro.

     O grupo de Raquel andava devagar, mesmo àquela distância, com o cheiro tão forte trazido pelo vento, andava devagar. Raquel deveria estar explicando coisas aos novatos. Só podia ser. Cantarzo teria percorrido aquela distância em meia hora, mas o grupo numeroso da vampira levou duas. Só podia estar ensinando as trilhas e os segredos aos novatos. Contando causos. Gabando-se. Dizendo que muita coisa mudava depois que os olhos mudavam. A noite não era mais a mesma. Era estranho adaptar-se ao mundo da noite sem escuridão. Os olhos de vampiro viam as coisas com mais clareza. Viam as sutilezas escondidas na matéria. Alguns, poucos na verdade, podiam ver até os espíritos da floresta. Realmente os novatos tinham muito que aprender. Cantarzo ergueu o nariz. Era difícil resistir. Pelo cheiro sabia que a caça já estava morta, mas o sangue ainda estava fresco. Uma refeição ligeira. Mas não era o lanche que interessava. Talvez houvesse outros com ele. Amigos tentando guardar o cadáver para os rituais fúnebres. Eles ainda tinham essa mania. Os grupos de soldados costumavam sair em oito. Então, por certo, encontraria, ao menos, mais sete homens próximos ao corpo.

     Cantarzo cruzou o ar em direção à outra árvore. Subiu o máximo. Novamente, o vento lambendo seus cabelos longos, amarrados em tiras de couro. Avistou o reflexo da lua batendo nas águas do rio. O cheiro ficava mais forte à medida que se aproximava da ponte. Apressou seus saltos aéreos, com a roupa negra esvoaçando. Pousou num galho firme, ao lado de uma coruja que demorou em notar a presença do vampiro. Cantarzo desceu. Estava numa área rochosa. Mesmo assim, as árvores eram abundantes. O cadáver estava logo abaixo. Uma gruta escavada na pedra. Cheiro forte. Desceu até a abertura. Um homem apenas. O cadáver vestia uma jaqueta, estava de botas, mas sem calça. Talvez devido àquele inchaço em seu joelho sangrento. Ergueu as narinas e farejou. Só aquele sangue. Mais nada. Olhou a trilha aberta pelos soldados. Poucos metros para frente avistou algo de suma importância, uma caixa de munição caída no chão. Apanhou o objeto. Balas de prata. Retirou uma e devolveu a caixa ao seu lugar didático na trilha. Cantarzo virou-se repentinamente. Um barulho. Animais da noite. Voltou até a boca da gruta artificial. O rosto do defunto tornou-se vermelho devido ao espectro luminoso que escapava dos olhos da fera. Cantarzo viu as bandagens molhadas pelo sangue morto. Um buraco no peito e outro na cabeça. Raquel aproximava-se. Aninhou-se no topo da rocha escondido na folhagem. Deixou os olhos brasis abrandarem até desaparecer o brilho vermelho completamente. A noite tornou-se escura para a criatura. Esperaria Raquel incógnito. Gostava de observar a vampira, seus métodos canhestros, suas peculiaridades. A bela Raquel era uma criatura vil, um ser que criava situações, que semeava discórdia, cheia de sortilégios. Um tipo, decididamente, perigoso.

    

     Os vampiros aproximaram-se em silêncio. O cheiro do sangue era forte. Raquel tinha explicado que aquele cheiro diferente vinha do sangue de um morto. Sangue vivo era mais envolvente, irresistível.

Os novatos estavam silenciosos, limitando-se a acompanhar a veterana. Tinham medo quando ela demorava com o sinistro olho vermelho em cima de um deles. Ela parecia pronta a pular na garganta de um e acabar com sua existência. Até os dois veteranos que escoltavam o grupo de novatos tratavam-na com deferência. Raquel tinha uma aparência sinistra. Um tapa-olho de couro preso ao crânio, com a tira superior passando por cima da orelha esquerda e a inferior abaixo da orelha direita. Longos cabelos ruivos e lisos cobriam-lhe os ombros e parte das costas e revoavam com os movimentos ágeis da dona. Era uma mulher de quase um metro e oitenta. O corpo seria sedutor a um homem. Esbelta, com pernas grossas e seios deliciosamente delicados. Talvez o medo começasse quando observassem bem as unhas daquela criatura. A vampira tinha unhas longas, negras e pontiagudas, como de feras rapineiras. Olhando de perto notariam que eram estranhamente grossas, muito mais grossas que unhas comuns. Pareciam unhas de bicho. Afiadas, cortantes, fatais. Mas a atração física dos mais tolos acabaria quando encarassem o rosto de Raquel. Tinha a pele excessivamente branca, como a de qualquer vampiro veterano. Tinha traços delicados e femininos, lutando com veias escuras e repugnantes. Chegando perigosamente perto de seu rosto, um mortal notaria um corte costurado com linha preta brotando e escondendo-se logo abaixo do tapa-olho. Um ferimento no passado, resultado de uma contenda raivosa, obrigava que usasse aquele tampão sobre o olho direito, emprestando-lhe aquele manjado ar de pirata psicopata. Quando sorria, calafrios percorriam os novatos... pois os lábios espichavam-se e deixavam escapar os pontiagudos caninos, ferramenta letal quando posta em uso. E ela era rápida. Raquel era muito rápida. Sumia-lhes das vistas num piscar de olhos. Quando percebiam, ela estava no topo de uma árvore e no instante seguinte já tinha voltado ao chão forrado de folhas úmidas. Demorariam a se acostumar. A vampira tinha os braços fortes. Tinham visto ela esmigalhar a cabeça de um fugitivo num golpe só, empurrando o crânio do humano contra a rocha da caverna. Selvagem. Mortal. Assustadora. A coleção de adjetivos para cercá-la, invariavelmente, seguiria esses moldes.

     Gerson, um dos vampiros originais, e que, junto com Anaquias, sempre escoltava Raquel nas saídas, aproximou-se do rio primeiro. Ergueu as narinas. Muitos cheiros estranhos, mas o do sangue do morto sobrepunha-se a tudo naquele instante. Franziu o cenho, expondo os caninos. Os olhos vermelhos intensificaram o brilho e o vampiro pôde ver com maior clareza. Olhou para o chão. Um rastro de sangue. Aquilo não seria preciso para determinar a posição do cadáver. Bastaria aquele cheiro para, até mesmo os novatos, darem com ele. Gerson abaixou-se, tocando o chão com um joelho. Raspou o dedo numa porção do sangue estagnado e levou até à boca. Estalou a língua. Olhou para as árvores. O grupo saía da floresta e aproximava-se da margem do rio. Eram mais cinco vampiros. Gesticulou para Raquel, que se aproximou. Subiram a trilha. Entraram numa picada. Um caminho curto. Uma rocha. Raquel saltou e alcançou o topo sem esforço, um humano não faria aquilo. Percebeu a presença de Cantarzo, mas nada disse aos outros. Se aquele abelhudo estava ali para arranjar confusão, servi-lo-ia de um copo cheio.

     Raquel aproximou-se da gruta escavada na rocha. Seus olhos observaram o corpo despojado de vida. Um soldado. Viu as bandagens molhadas de sangue estagnado. A pele do homem estava cinza. Um buraco na testa e outro no peito deixava claro que a causa mortis não havia sido hemorrágica. Tinham liquidado ele. A vampira de cabelos vermelhos e tapa-olho virou-se e gesticulou para o grupo. Deu passagem a Anaquias. Os vampiros novatos acotovelaram-se para poder enxergar através da boca daquela diminuta gruta. Muitos inspiravam rapidamente e de maneira afetada. Novatos eram assim, cheios de medos e agonias.

     — Era um soldado importante, por isso foi morto e abandonado pelos colegas. — disse a vampira encarando o grupo.

     A única pessoa que fez cara de pouco entender foi Tatiana, a vampira recém-desperta. Os dois mulos sabiam o que aquilo queria dizer. Tempos atrás eram sobreviventes refugiados em algum centro fortificado e, somente agora, depois de tantos anos como escravos, eram feitos vampiros. Sabiam que aquele soldado era um dos que conheciam o plano. Caso fosse um soldado qualquer, talvez ainda estivesse vivo naquele buraco. Os companheiros permitiriam que ele tentasse a sorte, arriscasse a pele sangrenta cruzando a noite e rezando para que o sol viesse. Aquele cara sabia demais para arriscar ser pego vivo pelos vampiros. Tinha que ser calado. Talvez o comandante do grupo tivesse dado cabo da vida dele ou, aquele ali no buraco, fosse o próprio comandante do grupo e tivesse pedido que fosse abatido e largado para trás.

     — Vai, Tatiana. Entra no buraco e toma um pouco do sangue. — ordenou Raquel.

     A vampira novata deixou os olhos chamejarem e grunhiu levemente.

     Os mulos recém-convertidos agitaram-se e também grunhiram dando um passo em direção à gruta, porém, antes de darem outro, a vampira encarou-os, drenando-lhes a coragem.

     Tatiana aproximou-se do corpo frio. Passou a mão pelo rosto cinza de Gaspar e subiu levemente os dedos até a ferida na cabeça, trazendo a mão suja de sangue até a boca. Era a primeira vez que tomava sangue de um defunto. O sangue morto não era tão saboroso quanto ao dos corpos vivos, nem tão cheiroso, mas servia para alimentação. Rasgou as ataduras abdominais e aproximou os lábios dos ferimentos do morto. Precisou sugar com vontade para fazer o sangue coagulado verter para sua boca. O ardor estomacal arrefeceu.

— Saia.

     Tatiana ouviu a voz da vampira vindo pela boca da gruta, mas o desejo de sugar até a última gota era poderoso, não poderia atendê-la.

     Raquel meneou a cabeça para Gerson. O vampiro aproximou-se do buraco e estendeu o braço para agarrar o calcanhar da novata. Arrastou-a para fora, ouvindo grunhidos de protesto. Tatiana avançou as unhas pontudas para a mão do vampiro. Gerson puxou com mais força e suspendeu a garota, deixando-a de ponta-cabeça. Gerson era alto e forte. Tatiana era pequena e de aparência frágil. Contudo, debatia-se ferozmente, ora tentando libertar o pé, ora tentando alcançar o agressor, tentando feri-lo. Gerson cansou da brincadeira e, num movimento rápido, ergueu Tatiana, agarrando-a também na altura do peito e arremessando-a brutalmente contra a rocha.

     Tatiana caiu sobre os braços. A cabeça doía. Os olhos apagaram-se. O cheiro do sangue diminuía em suas narinas. Ajoelhou-se respirando rapidamente... não que lhe faltasse ar, mas estava agitada. Olhou para Gerson e mostrou-lhe os caninos.

     Gerson riu, desviando o olhar e encarando os dois mulos. Fez um sinal para que entrassem.

     A passagem era estreita, mas os dois espremeram-se enlouquecidos. Queriam logo pousar a boca no sangue do maldito cadáver e fazer aquele ardor no estômago abandonar o corpo. Arranhavam-se e empurravam-se, procurando uma posição melhor para tomar o sangue morto, soltando grunhidos, feito cães raivosos.

     Tatiana limpou os lábios sujos com as costas das mãos. Estava mais calma, mas sempre que percebia Gerson olhando para outro lugar media o soldado grandalhão. Ficava imaginando um jeito de ir à forra. Como faria para aquele vampiro dobrar os joelhos e beijar o chão? Iria descobrir, cedo ou tarde.

     Raquel fez outro sinal e seu soldado agarrou os pés dos vampiros novatos, colocando-os para fora abruptamente.

     Ambos protestaram, rugindo ameaçadoramente, mas não tentaram voltar para a gruta, nem mesmo atracar-se contra o vampiro poderoso. Diferente de Tatiana conheciam a fama de Gerson. Logo, os olhos apagaram-se e os caninos foram recolhidos.

     Raquel tinha se posicionado num ponto mais alto que os demais, em cima de uma pedra, ao lado da entrada da gruta. Olhou para o grupo. Também tinha fome, mas sabia que depois de três novatos terem visitado aquele corpo não existiria sangue o bastante para ela. Farejou profundamente. Um vento entrando pela gruta, agora leve, batia em seu rosto. Não sentia cheiro de mais sangue. A mata estava limpa por quilômetros. Poderiam voltar para a toca e abastecerem-se com sangue dos adormecidos, mas não era a mesma coisa. O sangue caçado, de gente escondida, era mais saboroso. Talvez porque o medo da morte iminente injetava hormônios na corrente sangüínea, o que temperava a "comida"; talvez porque a caça permitia que exercitassem seus poderes vampíricos. Mas, o fato é que sangue de gente viva e escondida era melhor do que o dos mortos e adormecidos.

     — Vamos andar, esse cara não estava sozinho. — disse a líder, saltando para a trilha. — Talvez estejam por...

— Talvez?

     Os vampiros assustaram-se, virando-se repentinamente para a boca da caverna. Os novatos viam um homem parado em frente da gruta. Raquel grunhiu nervosamente e balbuciou:

— Cantarzo...

     — Já que incumbiram você de ensinar os novatos, não pode deixá-los sair daqui com um "talvez", Raquel.

— Não se intrometa, Cantarzo. — grunhiu a mulher.

     Cantarzo saltou para a trilha também, ficando próximo à Raquel e Anaquias, tendo o cadáver seminu pelas costas. Via Gerson atrás dos novatos. Sorriu rapidamente para o grandalhão, voltando a encarar os dois na sua frente. O olho bom da vampira parecia querer queimá-lo como um raio de sol vermelho.

     O vampiro abriu caminho empurrando os dois pelo peito. Estava seguro, sabia que na frente dos novatos seria mais difícil de Raquel querer esquartejá-lo. A vampira era vaidosa demais para perder a pose na frente de iniciantes. Só os mais velhos conheciam a ferocidade escondida por trás das garras da vampira ruiva caolha. O vampiro impertinente passou pelos novatos e também por Gerson, parecendo que abandonaria o grupo sem maiores explicações ou interrupções.

     — Ensine-os a observar melhor. — disse subitamente, abaixando-se para colher algo no chão.

     Cantarzo exibiu uma caixa. Jogou-a para um dos mulos. O rapaz agarrou a pequena caixa, que produzia um som metálico em resposta a movimentos bruscos. Levando em consideração as dimensões, o objeto era bem pesado.

     Raquel identificou imediatamente a caixa e o tilintar característico. Munição.

     — O que há com você, Cantarzo? Só porque a toca não quer você com novatos resolveu desmoralizar os que estão aqui para ensinar.

Cantarzo sorriu.

— Ensinem direito, pois não.

     Gerson ergueu os ombros olhando para Raquel. Queria permissão para atacar o intruso. Raquel negou com um rápido meneio. Apesar de odiar Cantarzo, o vampiro era importante para a toca... tinha que aguardar um momento melhor. Não poderia atacá-lo na frente dos novatos. Gerson abriu a boca exibindo os dentes pontiagudos e voltou a olhar para Cantarzo... espantou-se. O vampiro não estava mais lá.

     Anaquias tomou a munição da mão do mulo. Era uma caixa com balas de prata.

     — Os soldados estão por perto. Se fosse vocês botava esses narizes para fungar. Eles não estão longe daqui. — tornou a voz de Cantarzo, vinda do alto das árvores.

Os novatos procuravam-no com os olhos sem encontrar.

— Como sabe? — perguntou Gerson.

— A munição, brutamontes idiota.

     Devido ao insulto, Gerson olhou de volta para a vampira, queria a autorização. Grunhiu nervoso quando Raquel negou mais uma vez.

     Raquel sorriu. Sabia que estava ganhando mais um aliado para ajudá-la a acabar com a raça de Cantarzo. Apesar do jeito falastrão e esquivo do caçador, sabiam que Cantarzo era páreo duro na hora da contenda. Era ágil e fazia uso letal de seus atributos vampíricos.

— A munição é do morto! — gritou a líder.

     — Vocês são cegos? O soldado foi assassinado. O assassino deixou o local depois da execução. Não existem armas com o defunto... Por que deixaria munição para trás?

     — Estava com pressa... Não tinha tempo para voltar e apanhá-la... — murmurou Tatiana.

     — Bravo! — berrou o caçador, com a voz forte vindo de outra direção.

     Raquel fulminou a vampira com o olho bom. Aproximou-se e murmurou:

— Se der mais um pio, arranco seus braços.

     Tatiana estremeceu da cabeça aos pés. Sabia que Raquel não estava brincando.

     — Ei, Raquel! Deixe a novata assumir a liderança. Ela pensa mais rápido que vocês três juntos! — gritou o intruso, explodindo numa gargalhada provocativa.

     Raquel via o vampiro no topo de uma árvore. Era um bravateiro. Gritava insultos de uma distância segura. Sabia que o vampiro era rápido e competente. Se tentasse alcançá-lo, ele desapareceria em segundos. Conhecia como ninguém aquelas matas.

     — Por que ao invés de ficar gritando asneiras, você não nos diz onde os soldados estão, caçador?

     — Porque é preciso encontrá-los, Raquel. E garanto que estão por perto. Balas de prata são preciosas demais para estarem soltas no barro. Prata é o único material que nos cria feridas. Explique isso aos novatos, Raquel... mostre o seu machucadinho para eles.

     Raquel grunhiu baixinho. Cantarzo estava esgueirando para um terreno perigoso. Para tudo existe um limite. Olhou para Gerson, que salivava aguardando um sim.

     — Vamos fazer um joguinho! Uma brincadeira fora da toca... — continuou Cantarzo. — Vimos procurar os soldados, quem achar primeiro toma mais sangue e ganha o coração dos novatos, no bom sentido, é claro.

Os novatos entreolharam-se. Ele estava falando sério?!

Os veteranos também trocaram um ligeiro olhar. Raquel aquiesceu.

     —   Ótimo! — gritou de volta o vampiro de cima das árvores. Antes que dissessem outra coisa, os veteranos puderam ver Cantarzo evadindo o local e começando sua caçada. Já os novatos, lentos demais, não conseguiam ver o vampiro.

     — Anaquias, você vai com os novatos. Vou com Gerson para ganhar tempo.

     — Vamos realmente fazer esse jogo? — perguntou Anaquias surpreso, erguendo as mãos.

     —   Vamos, Anaquias. Vamos jogar com Cantarzo. Vá. Anaquias curvou-se, reverenciando a líder, e saiu com os aprendizes de vampiro.

     Raquel olhou para Gerson e, no instante seguinte, saltou para o tronco de uma árvore. Cravou suas unhas afiadas no tronco, soltando lascas quando saltou mais para cima. Num segundo, saltou para outro tronco de árvore. Com dois movimentos ligeiros estava no topo de um eucalipto com cerca de vinte metros de altura. A ponta da árvore balançava suavemente, movida pelo vento. Nem um segundo passou para que Gerson estivesse ao seu lado.

     — Deixe Anaquias brincar com os novatos, Gerson. Nós vamos atrás de Cantarzo. Assim que ele encontrar o esconderijo dos soldados, acabamos com sua raça. Esse maldito vai pagar pela falta de respeito.

    

     Enquanto isso, logo abaixo, Anaquias continuava caminhando pela trilha.

     — Onde vamos começar a procurar, Anaquias? — perguntou Natan, um dos mulos.

     —

Depois de alguns passos em silêncio, Anaquias respondeu:

     — Vamos terminar essa trilha. Acho que dá naquela ponte. — apontou para a construção que cruzava bem acima do leito do rio. — Depois vamos para a estrada.

— Estrada?

— É. Para a estrada.

— Por quê?

     — Porque aquele soldado estava com roupa, jaqueta e botas de motoqueiro. Esses aí só andam nas estradas e não conhecem a mata. Quando se escondem, é perto da estrada. Morrem de medo da floresta durante a noite. Vamos para o asfalto.

    

     Uma luz forte nos olhos. Lucas levantou-se agitado. Tão repentinamente que a doutora assustou-se, dando passos desequilibrados para trás.

     Lucas, de pé, passou a encará-la com os olhos arregalados. Respiração rápida, ofegante. Aproximou-se repentinamente da médica, segurou-a firme entre os braços. Cheirou os cabelos e a pele da médica. Sem cheiro. Os olhos agitados vagaram pelo cômodo branco. Tudo limpo. Nenhum corpo, nenhum sangue no chão. Teria sofrido uma alucinação?

— Cadê o Gabriel?

A doutora Ana abaixou as mãos, recuperando-se do susto.

— Você... eles já o tiraram daqui.

— Morto? Ana aquiesceu.

Lucas passou a mão no cabelo ondulado.

— Pensei que aquilo tivesse sido um pesadelo...

— Não foi. Você teve alta. Só estava fazendo uns exames...

— Alta?

     Ana não respondeu, aproximando-se e voltando a examinar os olhos do paciente.

     — Eu mato um cara e tenho alta? Por que não me disseram antes? Tinha acabado com ele no primeiro encontro... já não ia com a cara dele mesmo.

     — Vista as roupas limpas que estão debaixo da cama. Eles virão te buscar para falar com o doutor.

— Doutora...

Ana olhou nos olhos de Lucas.

— Eu quero uma janela. Ana sorriu.

     — Você vai sair daqui, Lucas, hoje ainda. Prometo. — respondeu, indo em direção a porta.

— Doutora?

     A médica reteve-se já no corredor, voltando-se para olhar o paciente.

— Diga.

Lucas manteve-se em silêncio um instante. Parecia relutar em falar.

Ana sorriu para o rapaz.

— Quando vou te ver de novo? — ele perguntou.

     Ana abriu ainda mais o sorriso. Abriu mais os olhos, parecendo deixá-los mais verde-acinzentados. Por fim soergueu os ombros.

— Não sei, Lucas. Não sei.

     A porta deslizou, separando médica e paciente. Ana mordiscou o lábio e caminhou pelo corredor. O paciente estava com uma aparência horrível, sangue cobrindo sua calça e tórax. Magro, em conseqüência da inanição, cabelos maltratados, unhas horrorosas... mas tinha um brilho nos olhos... um furor. Balançou a cabeça negando aquele frio na barriga. Não era à toa que Lucas era o que era. Talvez só estivesse impressionada. Heróis sempre impressionam.

     Dentro da cela branca, assim que a médica saiu, Lucas obedeceu, trocando a roupa suja pela roupa limpa. Os olhos procuravam nos azulejos indícios do combate com aquele bicho que se apossara do vizinho. Não encontrou nem sangue, nem espadas.

     Terminando de vestir-se, Lucas sentou-se na cama, tirando os pés do chão e abraçando os joelhos. Sorriu ao lembrar que tinha deixado a médica sem graça.

    

     Meia hora mais tarde, dois homens de aventais brancos entraram no quarto. Lucas colocou-se de pé. Instintivamente aproximou-se e farejou o ar ao redor dos homens. Os dois trocaram um olhar curioso. Lucas afastou-se, esperando que se pronunciassem.

     —   Vamos ver o doutor, senhor Lucas. O senhor teve alta. Conduziram Lucas para o corredor. O chão estava frio para os pés descalços do paciente. Lucas passou em frente a incontáveis portas. Seriam celas habitadas como a sua estivera há pouco? Subiram e desceram escadas. Um labirinto de azulejos brancos.

     De repente, Lucas sentiu o coração acelerar. O corredor logo à frente... havia uma faixa de luz solar cobrindo parcialmente o chão. Aquilo só podia significar uma coisa. Uma janela! Adiantou-se e correu até o meio do corredor, recebendo o sol na pele. Um formigamento delicioso cobriu seu braço à medida que era esquentado pela luz do astro-rei. A luz forte ofuscou seus olhos por um breve momento. Aos poucos, a escuridão foi dissolvendo-se e os olhos adaptando-se à luz. Só então pôde contemplar a paisagem. Sorriu. Um sorriso largo. Que lugar lindo! Estava numa cidade, mas era diferente de todas que tinha visto! Nunca tinha olhado para um horizonte tão verde e exuberante. Alguma coisa diferente. Estranhamente diferente. O sorriso desfez-se. Os olhos analisavam e tentavam estabelecer uma lógica. Tantas árvores! O lugar era realmente impressionante. Pássaros! Inúmeros deles revoando em bandos. O céu limpo como nunca vira. Lindo! Um azul tão magnífico que assustava. Notou que os enfermeiros aproximavam-se. Não interromperam sua contemplação. Lucas continuou observando. Alguma coisa estranha. Estava no interior? Deveria estar bem longe de São Paulo. Em São Paulo o céu era cinza e marrom. E nem no Jardim Botânico encontraria árvores tão belas. Percebeu que estava numa espécie de passarela. Era a conexão entre dois grandes prédios. Um hospital imenso. Como nunca ouvira falar de São Vítor? Uma cidade com um complexo daquele tamanho deveria ser bastante avançada. No entanto, os olhos teimavam em dizer que estava numa legítima área rural. Olhando para o asfalto percebia que faltava algo. Onde estavam os carros? Continuaria minutos a fio contemplando e arregimentando perguntas, contudo os homens fizeram um sinal para prosseguir.

     Ao final do corredor havia uma porta de ferro. Bateram. Uma escotilha foi aberta para que alguém do outro lado pudesse observar. A porta foi destrancada e abriu, correndo lateralmente sobre rodízios. Bastante barulho. Os enfermeiros ficaram para trás, no azulejo branco. A porta foi fechada e Lucas viu-se deixado com dois soldados. Ficou quieto. Deduziu que eram soldados, pois portavam rifles e vestiam um uniforme escuro. Ali não havia a ditadura do branco. O chão tinha um carpete fino e marrom. As paredes eram marrom-claro. Um ambiente totalmente monocromático, não fossem as bromélias que brotavam em xaxins alojados em quatro grandes vasos. Estava numa sala ampla que dava acesso a três corredores. Um logo em frente, como se fosse continuação daquele pelo que viera, outro à esquerda e o último à direita.

     — O doutor te espera no final do corredor. Bata na porta. — disse o soldado da direita apontando o respectivo corredor. — Estamos contentes por você ter despertado, bento.

     Lucas olhou-o por um instante. Havia inalado forte. Eles não tinham o cheiro. Estavam limpos. Afastou-se, tentando entender o contentamento do soldado. O que ele tinha a ver com aquelas armas? Por que o sorridente homem das armas tinha trocado o seu nome?

     Bateu na porta de madeira ao final do corredor. Escutou uma voz rouca do outro lado ordenando que entrasse. Abriu vagarosamente a folha de madeira maciça e pesada. O carpete marrom continuava sala adentro. Quadros nas paredes. Persianas fechadas. Penumbra. Parecia mais um escritório do que um consultório.

     —   Venha rapaz. Sente-se. — convidou a voz rouca. Diplomas fixados nas paredes. Um médico experiente. A mesa estava limpa. Madeira clara. Lucas tentou lembrar-se do nome daquele tipo de madeira... mas a informação não se consolidava em sua mente. Sobre o tampo havia apenas um bloco de notas e uma caneta. Atrás de tudo isso, um senhor que aparentava mais de oitenta anos, com papadas imensas e uma respeitável coleção de rugas.

     — Seja bem-vindo a São Vítor. Imagino que você ainda esteja um pouco confuso com toda esta confusão.

     Lucas arregalou os olhos numa caricatura e estalou os lábios. Sentou-se numa poltrona confortabilíssima. Dava para passar uma vida inteira com a bunda naquele assento.

     O médico tirou algo da gaveta. Acendeu um isqueiro. Um charuto. De outra gaveta tirou uma garrafa oval. Dois copos. Lucas notou também as rugas na mão do interlocutor.

     — Se quiser um trago é só se servir, você terá tudo o que quiser. — ofereceu o médico, derramando um bocado no próprio copo.

— Doutor... o que aconteceu comigo? Que doença eu tenho?

     — Tinha, filho. Tinha. — ruminou o médico, dando uma longa baforada e enchendo o ambiente ao redor de fumaça.

     O médico fez uma pausa. Percebendo que Lucas inquietava-se na poltrona, fez um sinal para que esperasse enquanto puxava mais fumaça para a boca.

     — Aposto que você está totalmente confuso. — disse, fazendo dois pilares de fumaça escaparem das narinas ao final da frase. — Não conhece este lugar. Estas pessoas. Tenho certeza que não conhecia nem mesmo este hospital. Nem faz idéia de quanto tempo passou aqui, certo?

Lucas balançou a cabeça negativamente.

     — Vamos por partes. O mundo mudou muito desde que você adoeceu, filho. Mudou muito.

— O que eu tenho?

     — Teve. Teve. Você sofreu do mal da Noite Maldita. À noite em que tudo começou a mudar.

— Tudo o quê?

     — Como pode perceber, respostas simples não cabem nesta sala. Cada par de olhos que confronto aqui é a mesma situação.

— O que aconteceu, doutor? O que mudou? — insistiu Lucas.

     — Tudo, filho. A vida. A Terra. Quando você olhou por aquela janela... tenho certeza que parou lá por uns instantes, não parou? Não percebeu nada de estranho?

— O céu. O céu estava tão bonito...

— Só isso?

— As ruas... limpas, desertas...

—        Sem carros. Você viu algum carro, filho? Lucas meneou negativamente a cabeça.

     — Você tem idéia de quanto tempo está aqui ? Você se lembra do seu último dia acordado, antes de abrir os olhos neste hospital?

Lucas repetiu o gesto negativo.

     — Lucas, você deveria trabalhar num escritório ordinário como a maioria das milhões de pessoas fazia. Teve uma jornada cansativa naquele fatídico dia. Ao final do trabalho, ou pegou o metrô lotado para casa, ficando espremido como sardinha, ou ficou mofando no banco do carro, preso num congestionamento recorde e ouvindo o tamborilar da chuva no capô. Provavelmente, sintonizado na Jovem Pan, rezando para que trânsito andasse e que chegasse em casa antes da Voz do Brasil. Lembra, Heitor Villa Lobos? — o médico fez uma pausa para uma nova tragada e baforada. — E quando chegou ao seu apartamento? O que você fez, irmão Lucas? Ligou o computador, verificou os e-mails. Livrou-se daquele terno barato comprado na Colombo. Tomou um banho quente. Ficou encurvando o pescoço para aliviar a tensão do dia, relaxar a musculatura do pescoço. Colocou um congelado no microondas aguardando pelo jantar instantâneo...

     Enquanto o médico falava, Lucas via-se nas circunstâncias descritas, como se o médico pudesse ler sua mente. Como se o médico tivesse assistido seu passado, suas últimas horas de lucidez, antes de acordar naquele hospital.

     — ... com o prato feito, foi para frente da TV de vinte e nove polegadas. Ligou com o controle remoto. Amarrou um pano de prato no pescoço para que o molho não sujasse a camisa. O que estava passando? O que passava na sua época?

     Lucas, mudo, arrepiou-se. O que ele queria dizer com "na sua época"?

     — Naquela época vocês costumavam assistir o quê? Com um prato de lasanha preparado no microondas, os olhos grudados na TV... você deve ter assistido o Ratinho... a Grande Família... uma novela da Glória Perez. — jogou, erguendo os ombros. — Todo mundo gostava dessas coisas. Perdiam horas na frente da TV Se fosse uma quarta-feira, talvez, vocês estivessem vendo um dos jogos do torneio Rio - São Paulo. Que time você torce? — perguntou o médico, num tom retórico, olhando para a parede ao lado, sem olhar nos olhos de Lucas, divagando, dando continuidade às descrições — Aí veio o sono. Dia cansativo. Colocou o prato na pia. Tomou água. Escovou os dentes. Foi para a cama e dormiu. Dormiu como nunca havia dormido antes. Veio a Noite Maldita e te apanhou no meio do sono. O evento. À noite em que o mundo mudou. Muita gente desapareceu. Famílias se desfizeram e vocês, adormecidos sortudos, foram poupados. Não viram o desespero quando, após a Noite Maldita, Deus deixou nossa terra e libertou as feras da noite. Os malditos. Os noturnos. Todos sofremos, criatura. Todos. Mas, inexplicavelmente, vocês foram poupados. Dormiam enquanto nós reconstruíamos o mundo...

— Quanto tempo?

     O médico puxou fumaça para a boca e soltou uma nuvem condensada, que escondeu seu rosto por um instante.

— Você dormiu trinta anos.

Lucas sentiu a pele arrepiar. Não dava para acreditar.

     — Dormiu trinta anos, Lucas. Trinta anos sem ver o que acontecia ao seu redor. Trinta anos em suspensão. Sem envelhecer como envelhecemos. Sem enlouquecer como enlouquecemos. Protegido contra os vampiros dentro dos muros de São Vítor. Vocês, os adormecidos, são parte do fenômeno da Noite Maldita, como batizamos aquele dia.

     O doutor fez uma pausa grave, deixando Lucas digerir as últimas palavras.

     Lucas ficou calado por um bom tempo também. Procurava entender. Trinta anos era muito tempo. Ele deveria estar com quase sessenta anos agora. Mas havia passado boa parte dos últimos tempos de frente para um grande espelho. Tirando a palidez e as unhas, diria que estava com o mesmo rosto de quando adormeceu. Juntou as costas das mãos olhando-as demoradamente, procurando rugas ou alguma imperfeição. Não havia. Estava, dentro do possível, normal.

O médico, vendo o auto-exame do rapaz, prosseguiu:

     — Vocês não envelheceram. Como um milagre, um oásis, no meio de tanta tragédia. Suas unhas crescem lentamente. Em alguns os cabelos crescem bastante também. Os seus músculos não atrofiam. Seu sistema nervoso entrou em pausa. Os tecidos... tudo num estado de suspensão. Quando acordam conseguem até caminhar. Como? Não sei, filho. Este pobre médico não sabe. Ninguém sabe. Uma pessoa comum que acordasse de um coma vinte anos depois precisaria de muita fisioterapia para voltar a andar normalmente, se é que conseguisse um dia. Um milagre. Mas o milagre não pára por aí, filho.

Lucas ergueu os olhos, acompanhando a voz rouca do médico.

     — Naquela noite, filho, como você, bilhões entraram nesse sono misterioso. Bilhões. E, durante a noite, muitos, sem saber, se tornaram algo pior. Tornaram-se monstros.

— Gabriel...

     — Sim. Ele também era um deles. Logo chegaremos nele. Mas quero que tenha uma idéia do mundo que vai encontrar fora desse hospital. O motivo de você estar na minha sala agora é ser uma peça importante para nossa salvação.

— Salvação?! — o espanto não abandonava Lucas.

     O doutor levantou-se e andou pela sala. A luz intermitente entrando pelas frestas das persianas emprestava um ar sombrio àquele escritório de tons marrons. Voltou até a mesa e tomou mais uma dose de seu bourbon.

     — Nossa salvação, Lucas. Você é nossa salvação. Nosso libertador. Naquela noite, e pode apostar que eu me lembro muito bem como foram aquelas horas de terror, minha esposa e filhas já estavam dormindo. Eu estava navegando na extinta internet, buscando complementação para um trabalho literário. Quando dei por mim a manhã já vinha chegando. Ouvi gritos no apartamento do vizinho. Depois, batidas na minha porta. A mulher estava desesperada. De camisola, despenteada, gritava, dizendo que sua família estava morta. Chamava-me porque sou médico. Atendi a velha amiga entrando em sua casa e indo para o quarto de seus filhos. Dormiam. O despertador tocando estridente, com aquele "béééé-béééé" repetido. Os garotos tinham cerca de dezoito anos, a mãe tentava acordá-los para irem à faculdade. Tinha gritado, chacoalhado, batido e nada. O marido estava na mesma condição. Veio o desespero. A certeza de que estavam mortos. Apesar de não ter sentido cheiro de nada diferente no ar eu corri até a cozinha. O gás estava desligado. Perguntei o que tinham jantado. Frango, batatas. Ninguém tomava narcóticos. Acalmei a mulher quando constatei que os três estavam com a pressão regular, tinham batimentos cardíacos... abaixo da média, mas o coração funcionava. Disse que teria de levar todos para o hospital, para internação e exames clínicos. Ligamos para o 190 para chamar uma ambulância. O telefone estava ocupado. Tentei o telefone do hospital. Ocupado. Deus, que noite!

     O doutor abaixou a cabeça e pôs o dedão na testa, parecia sofrer ao reviver a situação.

     — Decidi levá-los pessoalmente. Pedi um minuto e voltei ao meu apartamento. Chamei minha esposa para avisá-la do ocorrido, para que não se assustasse. Ela não respondeu. Não respondeu. Balancei minha mulher. Lembro até hoje do arrepio percorrendo meu corpo, eriçando os cabelos que eu ainda tinha. Ela nunca mais falou comigo, Lucas. Ela também estava tomada pelo sono. — o médico chupou o charuto mais uma vez, sem tragar a fumaça. — Fui até o quarto de minha filha adolescente. Júlia estava dormindo... profundamente. Chacoalhei-a pelos ombros e ela despertou assustada. Senti um alívio momentâneo enquanto a abraçava. Depois a lembrança de minha esposa, dos meus vizinhos, todos tomados por aquele mal. Com a ajuda da vizinha e de minha filha fomos descendo os adormecidos até o subsolo. Coloquei-os no meu carro, uma Grand Silverado.

— Seguro caro. — interrompeu Lucas.

     — Fomos para o hospital, notando que havia muita confusão nas ruas. O trânsito estava um inferno. Havia fogo em alguns prédios, bombeiros, ambulâncias. Um caos. Não desconfiávamos do quadro geral, ainda. Não vimos relação até chegarmos ao hospital. Um alvoroço na entrada. Confusão. Sem vagas. Gente jogada pelo corredor. Os colegas me diziam que um tipo de epidemia tinha tomado conta da cidade durante a madruga. Falavam em armas químicas. Mas como uma arma química ia escolher um e deixar o outro? É verdade que tem gente que é mais suscetível que outra... Mas o que imperava naquele momento era o pânico, Lucas, o pânico. Quem teria atacado nosso Brasil com armas químicas?

O médico parou para outro trago e mais uma baforada.

     — O mundo acabou, Lucas. Acabou naquela maldita noite. Com a chegada do amanhecer percebemos que as surpresas não acabavam naquele fenômeno. Os adormecidos estavam por todos os lugares. Não fora um efeito regional. Os casos, aos poucos, foram sendo contados de todo o mundo. No dia, na hora, ligamos o rádio em busca de notícias na CBN, só chiado. A TV não funcionava. Sabíamos que a doença estava se espalhando pelo planeta porque algumas pessoas conseguiam ligações de telefone fixo para fora do país. Do outro lado da linha, desespero. Gente dormindo com aquela doença por todo o planeta. Com a chegada do anoitecer ninguém queria dormir. Muníamo-nos de drogas que bloqueavam o sono. Ninguém queria se tornar mais um adormecido. E realmente isso veio a acontecer com uns poucos. Quando dormiam, nunca mais abriam os olhos. Na manhã seguinte, Júlia começou com uma estranha sensibilidade ao sol. A pele queimava, os olhos ardiam. Ela ficava descontrolada quando exposta à luz. De noite, minha filha morreu. Nunca mais voltou a ser minha pequena Júlia. Ela, como milhares dos acordados, foi levada para o mundo da escuridão. Júlia abriu os olhos e não era a mesma.

Para meu assombro, o coração dela não pulsava. Era um bicho, uma aberração. Em nosso apartamento, junto com a vizinha que se uniu a nós, cuidávamos de nossos adormecidos, enquanto eu tentava cuidar também de Júlia. Entender que mal se abatera sobre minha menina. Os olhos dela se tornaram vermelhos e ela não parava de chorar. Me senti impotente. Perdido. Minha filha estava tremendamente doente e minha medicina não valia de nada. Vândalos começaram a destruir a cidade. Estavam todos loucos. As ruas ficaram perigosas. As noites passaram a ser horas terríveis, quando Júlia era tomada por uma espécie de demência. Demorou algumas semanas até entendermos o que estava acontecendo com os nossos filhos. Eles pareciam ser consumidos por um tipo de loucura. Júlia, apesar de meu carinho, tentava me atacar com objetos cortantes ou com dentes pontiagudos e afiados. Tornou-se tão perigosa que foi impossível mantê-la comigo. Acho que essa foi a hora mais triste. A hora em que tivemos que nos separar...

     O médico fez uma nova pausa enquanto era visitado pelo passado. Sorveu mais um gole do bourbon. Os olhos baços.

     Lucas, tenso com o desenrolar da narrativa, segurava firme nos encostos para os braços da confortável poltrona. O que o doutor lhe dizia era algo inacreditável.

     — Essa doença... essa loucura que acometeu metade da população livre do sono bizarro... nunca foi possível quantificar com precisão quantos adoeceram, pois não tivemos tempo de saber nem quantos sobreviveram ao sono... essas pessoas infectas, elas passaram a nos caçar, viraram nosso maior tormento. O que evitou nossa completa extinção foi o horror que estes seres têm do sol.

— Vampiros...

     — Isso mesmo, Lucas. Vampiros. Nos caçam durante a noite. Tomam nosso sangue. Têm dentes malditos. Mas morrem no sol, nosso salvador... nosso algoz. Quando a noite chega, ninguém ousa ficar nas ruas. Quando a noite chega, ninguém fica fora da fortificação. Quando a noite chega, tudo o que fazemos é orar antes de fechar os olhos. Orar e esperar pelo nascer do sol. Essas bestas que caminham no escuro tentam, noite após noite, liquidar com nossa existência. Noite após noite, tentam acabar com nossas vidas. Caçam os hospitais. Tentam tomar os adormecidos. Com os adormecidos confinados em suas tocas eles têm sangue garantido por muito tempo. Durante o dia é o nosso turno de jogo, caçamos nas velhas cidades por depósitos de gente que ainda existem por aí. Quanto menos sangue deixarmos para trás, mais enfraqueceremos o inimigo. Durante a noite é novamente a vez deles. Tentam vencer nossas cidades. Acabar com o que resta de nossa organização. Querem nos ver loucos. Acabaram com praticamente tudo o que nossa ciência ergueu... vê algum telefone em minha mesa, Lucas?

     O homem olhou para o tampo liso de madeira. Nenhum telefone.

— Vê algum telefone nessa sala? Algum telefone nesse prédio? Lucas balançou a cabeça.

     — Não viu e nem verá. Eles destruíram nossas redes de comunicação. Destruíram nossas estradas. Bloqueiam os caminhos. Evitam que nos reagrupemos. São Vítor, um dos maiores centros brasileiros da atualidade, é um dos alvos preferidos dos exércitos mais organizados desses malditos. Eles têm medo de nossa união. Sabem que essa será a chave para nossa liberdade. Não querem que juntemos vocês, os abençoados. Atacam nossas muralhas, noite após noite. Eles conhecem a profecia. Eles têm medo. Mas mesmo assim somos nós quem teme mais. Somos nós que não podemos andar livres durante a noite. Eles estão por todos os cantos. Estão em todas as florestas. Criaturas demoníacas.

     O doutor colocou o charuto na boca. Mais um instante de silêncio.

Lucas permanecia tenso. O estômago oco. Fome.

     — Você é um homem especial, Lucas. É o mais aguardado dos libertadores. Um Salvador. Um Messias.

     Lucas arqueou as sobrancelhas. A boca abriu sem conseguir dizer nada. A cabeça estava confusa. A história incrível que o médico lhe contara convergia para um ponto escuro... o que ele pessoalmente tinha a ver com toda aquela calamidade que tomara o planeta? Lembrou-se de Gabriel morto no chão branco. O que um homicida maluco podia trazer de bom? Então, outra lembrança veio-lhe à mente. Os olhos sinistros de Gabriel. Os dentes pontiagudos. Gabriel era um vampiro!

— Você é um dos bentos.

— Bentos?

     — Sim... um homem bento. Um libertador. Lucas balançou a cabeça, sem compreender.

     — Você, Lucas, é um enviado. Um escolhido... como será chamado por muitos, o trigésimo. Será muito bem-vindo. E, segundo a profecia, o mais especial deles. É o que completa o número. O pelotão dos bentos. Livrarão a gente do medo da escuridão. Levarão os números. Irão trazer o dedo de Deus para a Terra e varrerão os noturnos do planeta. Serão celebrados vila após vila, vitória após vitória, em sua marcha de salvação. Tudo isso já era esperado... eu só não esperava viver o suficiente para vê-lo acordar.

— Não entendo... eu... eu...

     — Você dormiu como um vendedor de seguros, Lucas, e acordou como um messias! Nem eu acreditaria, mas é isso que você é.

— Um vendedor de seguros? O médico da voz rouca sorriu.

— Não, filho. Um messias.

     O médico completou o copo com a bebida de cor escura e encheu um segundo copo, arrastando-o na direção do rapaz.

— É melhor você tomar um gole.

    

     Zacarias foi quem ouviu primeiro. Olhou para Raul que estava de sentinela. A porra do sentinela estava cochilando!

— Raul! — sussurrou com urgência na voz.

     Raul abriu os olhos, assustado, e ergueu os ombros como uma interrogação.

     Zacarias levou o dedo erguido para a frente do nariz, tocando os lábios e pedindo silêncio. Balançou a cabeça duas vezes no sentido da porta e apontou para o ouvido.

     Raul anuiu. Ficou calado, a respiração pesada, assustado, olhos bem abertos, ouvidos atentos. Porra! Tinha cochilado!

     Zacarias olhou para o resto do cômodo. Todos dormiam. Sinatra roncava, embalado em sono pesado. Com o pé, sem sair de seu canto, cutucou o ombro de Adriano. Antes que o líder acordasse, estacou, o sangue gelou nas veias. Passos no corredor. Santo Deus! Tinha escutado passos no corredor! Que não fossem os vampiros! Ficou quieto, olhando Raul nos olhos. Raul acabava de engolir um bocado de saliva. Segurou com firmeza o rifle nas mãos. Levou a mão até a trava da arma. O barulho indesejado repetiu-se. Alguém andando do lado de fora. Ficaram mudos. Sinatra parou de roncar, virando de lado, mas continuava dormindo. Adriano abriu os olhos. Zacarias repetiu o gesto com o dedo no nariz pedindo silêncio. Adriano colocou-se sentado. Também ouviu o barulho. A porta estremeceu. Zacarias continuou nervosamente pedindo silêncio para Raul. Talvez o intruso fosse embora.

     Insistiu na porta. Ela tremeu. Estava bem presa e uma porção de caibros firmemente encaixados impediria que a porta deslizasse com facilidade. Só passariam destruindo aquela porta.

     Um golpe mais forte contra o metal fez os outros colocarem-se de pé, sobressaltados. Os três acordados anteriormente gesticulavam pedindo calma e silêncio. Talvez a coisa fosse embora. Ninguém ali dentro estava sangrando. Não havia cheiro. Talvez tivessem encontrado as motocicletas escondidas pelo mato e desconfiassem que estariam escondidos ali. Os homens preparam as armas. Antes de dormir já tinham substituído a munição comum por balas de prata.

     Adriano empunhou seu facão prateado e manteve os olhos na porta metálica. Sabia que, fossem quantos fossem do outro lado, somente um vampiro investia contra a porta. O esconderijo era bom e antes daquela porta havia um corredor por demais estreito... só dava para um maldito por vez. Seriam picados um a um. O líder dos soldados sentiu o coração bombeando freneticamente. A pressão arterial deveria ter subido ao ser invadida por uma dose generosa de adrenalina. Adorava o combate... mas o medo era impossível de controlar. Alguém mais fraco poderia borrar as calças numa situação dessas. Gostava de decepar aqueles malditos, mas temia, cedo ou tarde, cair nas garras daqueles monstros e servir de comida para os dentes afiados dos vampiros. Por que não tinham um bento no grupo? Tinham água benta nas mochilas, poderiam produzir um falso bento. Bastava pegar as garrafas de água benta e encharcar a roupa. Se entrassem em combate e se atracassem com um vampiro, estando com a roupa encharcada de água benta, facilitava as coisas. Bastava abraçar o monstro e vê-lo se debater ao contato com a água venenosa.

     Os golpes aumentaram de intensidade. A porta de ferro resistia corajosamente. A cada pancada contra o obstáculo, uma nuvem de poeira despencava do teto, deixando as cabeças dos soldados cobertas por um pó esbranquiçado.

     Adriano passou os olhos sobre os homens. Estavam tensos. Olhos arregalados. Marcel tinha lágrimas descendo pelo rosto, mas não ousava soltar um pio.

     Depois de três minutos de golpes ininterruptos, os soldados engoliram a seco quando perceberam o ferro envergando e a parede começando a rachar, com pedaços de cimento despregando no contorno do batente. A preocupação cresceu e os olhares convergiram para Adriano. Queriam saber do líder o que fazer. Paraná sacou do peito o crucifixo e beijou a peça com ternura. Deixou-a para fora, sobre o peito. Os homens benzeram-se e em seguida destravaram as armas. Mais poeira descia do teto a cada batida tornando o ar espesso e difícil de respirar.

     Cantarzo tinha encontrado mais uma caixa de munição na outra margem do rio, próxima ao pé da ponte, há alguns minutos. Aquilo só tinha confirmado que a caça estava nas cercanias. Os soldados buscariam esconderijos perto da estrada. Não conheciam a mata. Teriam medo de arriscar. Tinham fugido próximo ao pôr-do-sol, senão não teriam deixado tantas balas de prata para trás. Foi Cantarzo que, após vasculhar as pequenas grutas conhecidas na região, lembrou-se da velha lanchonete. Grunhiu baixinho escalando árvores e cruzando o ar de galho em galho, ora parecendo um macaco ágil, ora parecendo uma ave de rapina. A boca salivava. Sabia que chegaria ao local antes de Raquel e seu bando. Parou no topo de uma árvore e farejou. Nada. Nem sangue, nem nada. Nenhum deles estava sangrando... ou talvez o vento noturno não estivesse ajudando, carregando para longe o cheiro da caça. Soldados eram especiais. Além de serem cheios de sangue como qualquer ser humano vivo, eram os inimigos mais perigosos nesse jogo de gato e rato. Faziam parte do time dos poucos que ousavam resistir. Talvez, por isso, tornavam-se mais saborosos e mais valiosos. Valiosos porque era sempre bem visto pelo ninho a captura de soldados. Algumas vezes, quando os encontravam em bando, após liquidar com a maioria, guardavam um ou dois vivos para tortura. Isto, às vezes, valia alguma revelação interessante. Às vezes, descobriam os passos dos humanos em busca de uma solução final para a ameaça vampírica. Tentavam sempre capturar o líder. Este sabia mais segredos. Era torturado, levado ao extremo do sofrimento. Depois era degolado e servido aos mais antigos do ninho de vampiros. Foi depois de sucessivas sessões de torturas, muitos anos atrás, que perceberam ser necessário começar a destruir todas as ligações das vilas. Destruir estradas. Derrubar linhas elétricas. Destruir os cabos telefônicos restantes, antenas... tudo que pudesse permitir a união de informações, a comunicação rápida. Se os deixassem tramar e conspirar livremente, sabiam que os humanos logo conseguiriam construir alguma estratégia para combater mais habilmente os vampiros. Por isso, vampiros como Cantarzo eram treinados para procurar Rios de Sangue para manter o ninho abastecido de sangue fresco e também para vigiar as florestas e estradas em busca de soldados impetuosos, que pudessem carregar mensagens de uma fortificação a outra. Qualquer soldado fora dos muros deveria ser encontrado e atacado, torturado e morto.

     Levou algum tempo até aproximar-se da lanchonete abandonada. Cantarzo apurou o olfato, mas não conseguiu sentir cheiro de sangue. Contudo, mesmo de longe, do topo daquela árvore, conseguiu ver algumas trilhas de motocicleta saindo do acostamento em direção ao local recoberto de plantas. Os olhos da criatura cintilaram. Os soldados estavam ali.

     Cantarzo desceu ao solo. Grunhiu demoradamente. Caminhou até o asfalto, vasculhando o ambiente com os olhos. Não conseguia ver as motos utilizadas pelos humanos. Nem sinal de fumaça ou fogo. Mas estavam escondidos ali dentro, isso era certo. Atravessou a rodovia. As botas Timberland começaram a estalar contra os pedriscos do acostamento. Poderia regular a pressão do corpo, para que não fizesse barulho algum, mas estava concentrando em olhar tudo, não se preocupando de imediato com o ruído. Só depois de perceber não haver nenhum indício externo dos soldados e decidir entrar no salão da lanchonete é que se concentrou em tornar-se uma criatura silenciosa. Olhou para trás, para as árvores. Sabia que Raquel e Gerson vinham atrás, mas não pôde ver dali os olhos vermelhos dos concorrentes. Subiu o primeiro degrau e já pôde vislumbrar parte do salão do que fora o Rancho da Pamonha. Quantos seriam? Talvez estivessem acordados, vigiando, esperando o primeiro vampiro surgir na porta. Olhou de novo para a estrada e depois para a mata. Nem sinal dos vampiros. Cantarzo era valente, mas ainda mais prudente. Talvez fosse melhor aguardar os outros. Estava desarmado. Gostava de caçar assim. Achava que as mãos nuas causavam ainda mais medo à caça. Sabia que poderia lançar mão de sua velocidade de vampiro e das garras afiadas para fazer sangrar as vítimas, mas poderia aproveitar a oportunidade e esperar os outros. Raquel, Anaquias e Gerson, além de trazer armas de fogo no grupo, tinham experiência na caçada de motoqueiros, compondo excelente reforço. Poderiam capturar um número maior de soldados vivos e levá-los ao ninho para a obtenção de segredos. Por outro lado, Cantarzo pensava em tirar partido de seu poder pessoal, de sua capacidade superior de assimilar o sangue ingerido. Se houvesse ali um líder, um motoqueiro veterano, poderia tomar seu sangue e absorver dele as habilidades. Envolto nessas ponderações, rodou sobre os próprios pés voltando ao chão arenoso do lado de fora.

      Desceu de cabeça baixa, analisando as pegadas de botas deixadas no chão, indo até a escadaria frontal. Quando ergueu os olhos, pôde ver dois vampiros parados no acostamento.

     — Ora, ora, ora. Não é que o bom Cantarzo venceu a aposta. — murmurou Gerson.

     Raquel deu um passo em direção ao vampiro de cabelos longos e presos por aquelas ridículas tiras de couro. Grunhiu nervosa e mostrou-lhe os dentes.

— TPM... — balbuciou Cantarzo.

— Do que você está falando, cara? — perguntou Gerson.

— Não sabia que vampira também sofria de TPM.

Raquel voou em direção ao vampiro. Cantarzo desviou e desferiu uma cotovelada na nuca da vampira, fazendo-a ir de rosto ao chão.

     Gerson investiu. Cantarzo abaixou-se e agarrou o oponente pelas costas, arremessando-o contra os degraus da lanchonete. Recolocou-se em guarda e procurava Raquel com os olhos quando sentiu o braço da vampira agarrá-lo pelas costas, imobilizando-o pelo pescoço. Ela foi hábil ao tirar-lhe o centro de equilíbrio, diminuindo assim sua força e capacidade de reação.

     —   Se eu fosse você, pararia enquanto ainda tem um olho bom. Raquel grunhiu irritada com a provocação.

     Gerson, refeito, aproximou-se dos vampiros. Estava furioso, os olhos pareciam duas brasas prontas para incendiar o inimigo.

     — Você chega e me humilha na frente dos novatos... estou farta de seu jeito desrespeitoso comigo, Cantarzo. Acha que é o queridinho do ninho, Cantarzo? Acha que já capturou soldados o suficiente para agradar aos velhos vampiros? Você sabe que o respeito é tudo que nos resta nesta vida maldita. — grunhiu a vampira no ouvido do inimigo.

     Cantarzo tinha parado de debater-se. Guardava energia para uma oportunidade concreta de livrar-se do braço forte de Raquel e ter tempo ainda de atingir Gerson, antes de ser novamente agarrado. O grandalhão era forte, mas não era tão rápido quanto ele. Precisava ganhar tempo.

     — Este lugar está cheio de soldados. Por que você não engole esse orgulho besta e não me ajuda a levar um bom número deles vivos para o ninho? Se conseguirmos arrancar bons segredos, quem sabe vocês dois também não gozem de alguns privilégios e tornam-se os novos queridinhos do covil?

     — Não preciso de seus conselhos para ser bem-vista pelos velhos, Cantarzo. Tenho meus próprios trunfos.

     Apesar do tom ríspido que soou a frase, o vampiro, preso pelo pescoço, sentiu a oponente vacilar.

     — São, pelo menos, sete soldados. Balas de prata... espadas... água benta. Sabe que o seu amigão aí é forte, mas não é tão rápido quanto nos. Será que ele vai garantir que você saia com o pescoço inteiro lá de dentro?

     Sentiu o braço afrouxar mais um pouco. Ela estava ponderando. Se Gerson chegasse um pouco mais perto...

     Gerson grunhiu e olhou para a vampira. Queria desfiar Cantarzo com as unhas. Fechou a boca numa expressão amarga. Raquel não estava autorizando o ataque. A maldita estava dando ouvidos à ladainha daquele vampiro imbecil.

Raquel afastou-se de Cantarzo e usou sua velocidade vampírica.

Cantarzo virou-se rapidamente. Raquel...

Antes que pudesse localizar a vampira, desprevenido, tomou um golpe poderoso no tórax e foi arremessando contra o peito largo de Gerson, que o agarrou pelos ombros. Raquel, a mulher ruiva com o tapa-olho negro, surgiu na sua frente e apontou-lhe ameaçadora-mente o dedo indicador. Cantarzo grunhiu de dor. As unhas de Gerson pareciam atravessar o couro de seu sobretudo negro e a pressão parecia a ponto de esmigalhar seus ossos. O dedo em riste de Raquel tocou-lhe o nariz.

     — Vamos entrar e acabar com a raça deles... mas eu juro que esta foi sua última chance, vampiro. Não quero ser sua amiga e nem busco sua consideração, não quero falar com você e nem cruzar com seus olhos, mas exijo respeito e edificação diante dos meus pupilos. Você é uma lenda dentre nossa raça, um exemplo. Falo muito bem de você aos iniciantes, quero ser tratada da mesma forma. Se fizer gracinhas na frente de meus soldados, não vou cair mais na sua conversinha de. vampiro agonizante. Cerco-te, Cantarzo... com um, com dez vampiros... você não é indestrutível e tem que se lembrar disso. — Raquel disse com a voz rouca e sensual, afastando o dedo do nariz do oponente e dirigindo a unha afiada ao rosto do vampiro, abrindo-lhe um rasgo no lado esquerdo da face.

     Cantarzo ficou livre das mãos de Gerson. Calado por um instante, levou a mão ao ferimento. Precisaria tomar mais cuidado com aqueles dois dessa noite em diante. Sabia que ambos estavam com o orgulho ferido e só o tinham libertado para terem um par de garras a mais dentro daquela lanchonete. Num ambiente fechado como aquele, sem terem tido a oportunidade de observar o grupo antes de abordá-lo, sabiam que podiam esperar de tudo dos soldados, menos deixá-los seguir impunes pela estrada. Os humanos eram cheios de artimanhas e armas carregadas com a maldita prata. Um vacilo e pronto! Você estaria liquidado. Era isso que Cantarzo mais gostava. Do perigo.

     Raquel fez outro sinal para Gerson. O vampiro foi na frente. Raquel queria dizer suas reais intenções para o parceiro, mas daquela distância, certamente Cantarzo ouviria. Raquel deixaria Cantarzo ajudá-los, mas, assim que tivessem dominado alguns dos soldados, acabaria com a raça do vampiro. Cantarzo não sairia inteiro daquela caçada, não retornaria à caverna para colher os louros da captura daqueles soldados. O orgulho da vampira falava mais alto e ainda mostrava-se muito machucado. Vingança. Primeiro os soldados, depois a vingança.

     Gerson vasculhou com os olhos o primeiro salão. Caixas registradoras, displays da Elma-Chips, velhos expositores refrigerados. O chão e o teto cobertos por um tipo de trepadeira de caule grosso. Chamou com a mão os outros dois. Passou para a segunda parte do salão. Os amplos vidros que davam para a estrada estavam cobertos de poeira. Apenas dois deles pareciam ter sido limpos muito recentemente. Naquela parte havia uma grande área do chão sem vegetação. Pegadas no piso empoeirado. Botas. Nenhum cheiro de sangue. Se alguém estivesse olhando o salão naquele instante teria a impressão de ver cinco brasas vermelhas flutuando fantasmagoricamente. Os vampiros vasculhavam o salão procurando por indícios dos soldados. Gerson chegou a um corredor estreito depois de atravessar a cozinha. As pegadas deixadas ali eram muitas e indicavam trânsito recente. Continuou em frente. Apurou os ouvidos, dotados de capacidade auditiva muito superior a dos humanos. Nada ouviu. Talvez uma pista falsa. Talvez o presunçoso Cantarzo estivesse errado. Os soldados poderiam até ter passado por ali, mas podiam estar a quilômetros de distância. Cantarzo presumia que os soldados estariam por perto por culpa de uma caixa de balas de prata. Talvez o homem tivesse sido descuidado, só isso. Humanos eram patéticos e cometiam burrices como aquela. Contava os dias para ser chamado para o ataque a São Vítor. O exército de vampiros não lograra êxito nas tentativas de invasão anteriores, mas Gerson tinha certeza que faria a diferença. São Vítor era um centro estratégico. Por meio dos humanos capturados e torturados sabiam que lá ficava o maior Rio de Sangue da atualidade. Para lá destinavam a maioria dos adormecidos. Não, não encontrariam Rios de Sangue dentro daquela fortaleza, mas um verdadeiro Mar de Sangue. Adormecidos em número suficiente para nunca mais precisarem lutar pelo sangue da alimentação. Daí para frente seria apenas questão de tempo até a extinção dos humanos rebeldes. Dali para frente lutaria pelo sangue do prazer. O prazer dos gritos de horror. O prazer da matança. Os escravos seriam marcados feito gado. Uma encenação gigante de João e Maria, onde seriam presos em jaulas e alimentados para um estoque de volume nunca visto de sangue pulsante. Gerson chegou ao final do corredor. Terminava em uma porta metálica de cor bege. Olhou para o teto. As trepadeiras acabavam ali. Rente a porta, o caule grosso em alguns ramos havia sido decepado. Inspirou profundamente. Cheiro de seiva fresca. Recuou. As botas estalando contra pedriscos. Os olhos vermelhos intensificaram o brilho, chamando silenciosamente os outros dois. Raquel e Cantarzo surgiram na cozinha. Gerson gesticulou, revelando a desconfiança. Raquel aproximou-se, passou por seu parceiro com certa dificuldade. Diacho de corredor estreito! Abaixou-se rente a porta. Empurrou-a cuidadosamente da primeira vez, mas não se moveu. Empregou mais força na segunda tentativa. Era uma porta de deslizar. Estava emperrada ou... bloqueada. Afastou-se. O corredor era apertado e não dava para dois vampiros tentarem juntos vencer o obstáculo. Deu lugar a Gerson que era o mais forte. O vampiro golpeou o metal. Os ouvidos do trio vampiro ouviram nitidamente o engatilhar de várias armas. Uma confirmação afinal! Os vampiros grunhiram. Gerson aumentou a investida, golpeando incessantemente a porta. Derrubaria se fosse preciso, mas colocaria as mãos naqueles malditos soldados.

     Cantarzo acalmou-se. O corredor era estreito e nada poderia fazer até aquela porta ir abaixo. Quantos soldados seriam? Se o morto fosse membro dessa expedição estariam em sete no mínimo. Um número irrisório para três vampiros experientes. Cantarzo recolheu às presas. Sabia que, depois do confronto, depois de acabarem com os soldados e capturarem alguns para levarem ao covil, talvez fosse alvo da fúria da dupla Raquel e Gerson. Tocou novamente a ferida. Eles estavam excitados. Raquel salivava e não via hora de atravessar aquela porta. Estavam doentes de sede. Cantarzo sorriu, aproximou-se de Raquel.

     —   Vou procurar alguma coisa para arrombar essa porcaria. Raquel mal deu atenção ao vampiro. Olhava fixamente para a porta que era esmurrada e empurrada pelo enlouquecido vampiro Gerson.

     Cantarzo atravessou novamente a cozinha e, depois de algumas portas, estava mais uma vez no salão principal. Parou na entrada da casa. O alpendre do estabelecimento era decorado de modo rústico, com muita madeira e enfeites de milho de modo a combinar com o nome da marca. Cantarzo foi até o acostamento da estrada. Olhou para o céu, onde as nuvens bailavam ligeiras ao sabor do vento. A lua já havia descido e, em um par de horas, o sol despontaria no horizonte. Raquel e Gerson estavam muito ocupados para lembrarem-se disso. Lembrarem-se que estavam longe do covil. Estavam longe de um abrigo seguro. Cantarzo sorriu mais uma vez. Não seria ele que daria o alerta. Que fizessem bom proveito da investida. Quando se preparava para disparar com velocidade vampírica para dentro da mata do outro lado da estrada, Anaquias e seu grupo de novatos aproximaram-se. Perguntou o que Cantarzo fazia ali.

— Encontramos os soldados.

— Encontramos? — estranhou o parceiro de Raquel.

     — Sim. Raquel e Gerson estão tentando arrombar uma porta fortificada. Vim procurar um outro acesso... ou algo para arrombar aquela passagem.

— Você tem granadas. Por que não usa?

     — Queremos pegá-los vivos. Vá lá para dentro e mostre aos novatos uma manobra de invasão. Apesar de serem humanos, com soldados motoqueiros, todo cuidado é pouco.

— Se assim quer...

     Anaquias não perdeu mais tempo com o vampiro, conduzindo para dentro do Rancho da Pamonha os seguidores. Sem sombra de dúvidas, era uma ótima oportunidade para aprenderem algo de útil.

     Assim que os viu desaparecer no salão, Cantarzo disparou para o outro lado da rua e saltou para cima de um eucalipto. Em segundos estava a mais de vinte metros de altura, viajando como o vento, buscando o covil, correndo contra o tempo. Mesmo com sua habilidade sobrenatural, na melhor da hipóteses, levaria, ao menos, uma hora e meia para chegar à boca da caverna. Raquel, cercada de novatos e dois capangas bobocas, só perceberia o erro tarde demais. Com alguma sorte morreria tostada pelos primeiros raios de sol. Cantarzo sabia que isso seria sorte demais, pois Raquel encontraria algum canto escuro para salvar seu rabo... mas entenderia o recado. Entenderia que jamais deveria ter rasgado sua face. Entenderia que Cantarzo era um vampiro dos melhores, cheio das virtudes e dos defeitos reservados às criaturas da noite... defeitos como aquele; deslealdade suficiente para abandonar os semelhantes à própria sorte sem peso algum sobre o peito.

    

     Gerson golpeava a porta há mais de dez minutos. Raquel percebera a aproximação de Anaquias e pediu silêncio. O corredor estava tomado por uma nuvem de poeira que descia do teto. A vampira notou que a parede trincava ao redor do batente. Mesmo assim, a tarefa levaria tempo e o barulho havia terminado com qualquer chance de surpresas. A prontidão dos soldados seria um problema, mas criassem as artimanhas que fossem, jamais escapariam daquele beco vivos. Os vampiros estavam em franca superioridade agora, pois contavam com três novatos, que por mais novatos que pudessem ser, eram vampiros. Na retaguarda ainda existiam os veteranos. Raquel olhou para Anaquias e procurou Cantarzo com o olho bom. O vampiro não estava mais lá. Urrou nervosa. Tirou Tatiana de seu caminho com um empurrão enraivecido. A novata esparramou-se no chão da cozinha com as presas expostas. Raquel alcançou o salão, seguida por Anaquias.

— Onde está Cantarzo? — vociferou a vampira.

     — Ele saiu para procurar outra entrada para encurralar os soldados...

     — Não há outra entrada, Anaquias! Você conhece este lugar melhor que eu!

     Raquel agarrou-se às trepadeiras que subiam pela fachada da casa comercial. Correu pelo telhado até alcançar o ponto mais alto. Farejou nervosamente. Saltou do telhado, pousando nos pedriscos de frente do alpendre sem fazer barulho algum, como se não tivesse peso. Urrou mais uma vez com a boca voltada para o céu.

— Ele fugiu, Anaquias. Cantarzo nos largou aqui!

— Mas...

Raquel agarrou Anaquias pelo pescoço e suspendeu-o no ar.

     —   Não tem "mas", Anaquias! Ele nos deixou aqui para morrer! Os mulos convertidos em vampiros surgiram no alpendre, deixando o salão principal.

Raquel soltou Anaquias no chão de terra.

— Chame Gerson. Temos que voltar para a toca agora.

— E os soldados?

— Vão viver. Graças a Cantarzo, vão viver.

     — Podemos destruir aquela porta, Raquel. Usaremos o esconderijo deles durante as horas de sol.

     — Podemos até conseguir derrubar a porta que aqueles homens bloquearam, mas isso vai levar tempo. Tempo que não temos. — Raquel olhou para a mata na tentativa vã de encontrar rastros de Cantarzo ou até mesmo seus olhos vermelhos. — Cantarzo evadiu porque sabia que depois dos soldados seria sua vez. Quero mais aquele vampiro do que esse bando de humanos.

     — Podemos vencer aquela porta. — insistiu Anaquias, ainda sentado no chão de terra, olhando para cima para encarar a líder.

     — Vai levar tempo, vampiro. Já falei. Gerson esmurrou aquilo... e se ele não a levou abaixo, teremos que nos esforçar mais. Tempo. Se ficarmos, perco Cantarzo... e talvez não tenhamos tempo de voltar ao covil.

     — Se não tivermos tempo, teremos, ao menos, tomado o sangue desses andarilhos, Raquel. Poderemos fazer desse abrigo, nosso abrigo para as horas de sol.

     — Você está com algum problema, Anaquias? — perguntou a mulher, estendendo a mão para tirá-lo do chão, tirá-lo daquela posição humilhante diante dos novatos. — Você é um dos mais espertos do covil. Como sugere tamanha asneira? Esse lugar é rota de soldados. Se eles eram esperados com data marcada na próxima cidade, provavelmente teremos uma patrulha buscando esses infelizes amanhã... se chegarem aqui nas horas de sol, acabam com nossa raça em dois tempos.

     Raquel andou pelo pátio, fazendo seu traje negro esvoaçar. Estava arisca, cega pela raiva. Cantarzo havia gorado seu plano. Queria que o vampiro os ajudasse a capturar os soldados com vida. Sem essa possibilidade não lhe interessava aqueles desgraçados. Se saíssem agora, talvez, ainda tivesse chance de deitar os braços no vampiro. Sabia que seria difícil, ainda mais servindo de ama seca para aqueles novatos. Grunhiu irritada. Cantarzo pagaria. Pagaria caro por aquela humilhação.

     Anaquias obedeceu a líder e foi buscar Gerson. Em instantes, o bando de Raquel estava embrenhado na mata e os novatos aprendiam com urgência uma importante lição. Brigar contra o poderoso deus Chronos. Saltar com velocidade e força vampírica, agarrando-se no galho mais alto e voando para o seguinte, metros adiante, com graça e agilidade. O prêmio? Encontrar o covil e esconder-se do sol e, assim, zelar pelo dom dos malditos noturnos... o dom da vida eterna.

    

     Os homens viram-se obrigados a controlar as emoções. O coração parecendo que ia explodir parecia atrapalhar a audição. A poeira não mais caía do teto. O som das pancadas tinha cessado. Minutos intermináveis tinham se arrastado. O único som no momento era o choro descontrolado de Marcel. O novato estava sentando no canto da sala e tinha abandonado a arma aos pés de Paraná. O lenço que trazia amarrado na cabeça estava agora na boca, entre os dentes, tentando aplacar o pranto. Zacarias voltou a estender o dedo indicador diante do nariz, clamando por silêncio. Os homens entreolhavam-se nervosamente. Adriano fez um sinal para Paraná, que se voltou para o novato descontrolado. Paraná curvou-se e pediu silêncio duas vezes. Como o rapaz não conseguia conter as lágrimas nem o soluço, Paraná acabou esbofeteando-o até fazê-lo calar-se. Ninguém pensou em conter a selvageria do parceiro, nem mesmo de fazer graça com o desespero do outro. A maioria estava a um triz de cair no mesmo descontrole. Sabiam o que os aguardava do outro lado daquela porta. Conheciam a maldade encerrada nos corpos gelados dos malditos noturnos. Sabiam como rasgavam a carne humana com facilidade, simplesmente, passando-lhes as unhas. A maioria deles não chorava, mas a maioria das armas era sustentada por mãos trêmulas, que mantinham os dedos instáveis longe dos sensíveis gatilhos. Estavam com medo. Todos eles. Estavam com medo.

    

     Há algumas horas as investidas contra a porta de ferro já tinham cessado. Os soldados, num esforço hercúleo de relaxar, no máximo haviam sentado. Marcel, o novato, era o mais calado. Com certeza muito envergonhado por causa de seu descontrole no primeiro encontro com os vampiros. Temia que fosse largado em São Vítor e destituído do posto de soldado que tanto almejara. O que faria então? Voltaria a ser horteiro? Horteiro era o jeito que chamavam os homens incumbidos das plantações para o abastecimento do povoado. A função de horteiro não era ruim, nem depreciativa, de modo algum, mas ele queria ser soldado. Entretanto, não sabia o que fariam com um soldado chorão.

     Adriano olhou para o relógio. Dez para as sete da manhã. Não havia dúvidas de que a luz solar já cobria as matas... mas o susto passado durante a madrugada pedia cautela. Fez um sinal para o seu amigo com traços de índio. Raul soltou a arma e foi até a porta. A folha metálica estava completamente distorcida por causa das pancadas recebidas. O soldado foi retirando os caibros colocados antes do anoitecer. Precisou de um bastão para servir de alavanca e conseguir retirar os mais resistentes. Graças àqueles caibros, a porta não tinha corrido pelo trilho e dado passagem aos assassinos noturnos. Após retirar o último, precisou da ajuda do grandalhão Paraná para fazer a porta deslizar. Sua estrutura havia sido completamente comprometida. Dificilmente o Rancho da Pamonha serviria como esconderijo de pernoite no futuro.

     Raul ajeitou seu cabelo liso que lhe caía nos olhos. Passou pelo corredor estreito com os olhos arregalados. Podia ver a claridade batendo fracamente no salão, mas ali na cozinha existia escuridão suficiente para manter um vampiro vivo. A arma pronta para o disparo acompanhava seus olhos. Um passo de cada vez. O resto do pessoal continuou no cômodo apertado. Tomavam coragem para sair. Raul atravessou a cozinha sem problemas. Com um movimento rápido da mão, disse que o caminho estava livre. A luz do sol entrava timidamente pelo salão principal. Não haveria ali nenhum vampiro. Tinham conseguido. Tinham sobrevivido a um ataque. Não sabia por que os monstros tinham ido embora antes de derrubar aquela bendita porta, mas graças a Deus tomaram aquela decisão.

     Zacarias, o mais baixo e gordo do grupo (só não era o mais velho por causa do Paraná), surgiu atrás de Raul. Também empunhava uma espingarda calibre doze, com balas de prata. Até que seria bom encontrar com os bastardos malditos que fizeram a visita da madrugada. Agora, com o sol forte brilhando lá fora, eram eles, os soldados, que mandavam. Atravessou o salão principal. Nem sinal dos noturnos. Saiu para o alpendre e desceu os degraus. O sol banhava o asfalto e o dia começava a esquentar.

     — Manda todo mundo sair, Raul. A barra tá mais do que limpa. Vamos pôr o comboio na estrada, não quero ficar mais uma noite me borrando nas calças.

     Zacarias foi até o esconderijo das motocicletas. Deu graças por encontrá-las intactas. Alguma coisa tinha perturbado os visitantes noturnos, do contrário encontrariam os veículos inutilizados... noturnos não costumavam dar esse boi. Com a ajuda de Marcel, que trouxe as chaves, levou as motocicletas para a frente do rancho. Trouxeram uma mangueira para passarem um pouco de gasolina para o tanque quase vazio da moto de Adriano. Suspirou. Tinham ali outro problema. Falta de combustível.

     Sinatra resolveu colaborar para a elevação dos ânimos e a descontração entoando a versão brasileira de Patches, de Clarence Carter, na voz dos imbatíveis Titãs. Logo a apropriada voz de barítono de Joel uniu-se à do cantor e, em instantes, pelo menos quatro dos soldados, enchiam a mata com o refrão: "Marvin, agora é pra valer, eu fiz o meu melhor e o seu destino eu sei, de cor".

     Quando Raul sugeriu que acendessem o fogo para preparem um café da manhã, pois estava faminto, foi Paraná quem elevou a voz, pedindo que se apressassem nos preparativos para voltar à margem do rio.

     — Além das motos temos que ver como vai nosso parceiro. Gaspar foi deixado naquele buraco e deve estar com fome como todos nós. Acho melhor prepararmos o café da manhã lá no rio. — sugeriu o grandalhão, olhando para Adriano que se aproximava do grupo do lado de fora pela primeira vez.

     Os demais olharam para o líder que, de forma incomum, estava deixando as decisões nas mãos dos soldados, calado e sem demonstrar o entusiasmo costumeiro quando obtinham sucesso mesmo nas menores vitórias. Sobreviver ao ataque de um bando de vampiros era uma vitória e tanto, contudo assistiam a um guia atípico, com um ar desmotivado e olhos entristecidos.

     — Não precisam se apressar por causa de Gaspar. Se quiserem acender o fogo agora, fiquem à vontade. Se quiserem fazer a refeição na beira do rio será mais vantajoso porque o novato prepara o rango e a gente desce as motos que estão faltando. Vocês decidem o que querem fazer, não tô muito legal hoje, não. Só me avisem o que decidirem porque quero ir na primeira moto... mas não precisam se apressar por causa do Gaspar, ele não vai tomar café da manhã com a gente... — Adriano passou a mão no cavanhaque louro e deu as costas ao grupo voltando ao Rancho da Pamonha. Fez uma pausa nas palavras com notória emoção. — ... puseram a mesa do velho Gaspar em outro lugar essa manhã.

    

     Tinha conseguido arame suficiente. A cruz, mesmo que mal alambreada, serviria para o cumprimento dos ritos. Tinha lido em algum lugar na infância que o ser humano era o único animal no planeta que sepultava o semelhante. Secou o suor da testa, o sol do meio-dia castigava o cocuruto. Tinha carregado bastantes pedras. O estômago queimava de fome, quase vinte e quatro horas sem alimento, mas decidira não comer nada, comungar com o irmão que não tinha tido direito a uma última refeição. Estava valendo a pena toda essa abnegação? Poderia estar em Nova Luz neste exato momento, do lado da mulher que amava, ocupando-se de algo diferente do que cruzar as estradas e tentar manter os centros unidos, as notícias indo e vindo e, principalmente, fazendo parte do grupo que tentava pôr o plano de libertação em andamento. Não poderiam esperar eternamente pela vinda de mais um bento. Demorava meses sem fim para um bento despertar e sempre quando se aproximavam da concretização da profecia, um ataque avassalador dos malditos noturnos acabava por azedar o andamento da carruagem, levando a vida de um bento ou dois. Os bentos eram duros na queda. Eram selvagens e destemidos. Davam cabo de mais vampiros em uma única batalha do que um simples soldados daria em toda sua carreira. Tanto sacrifício para isso: acabar dando um tiro no peito de um amigo em nome de um segredo, em nome de um plano suicida. Decididamente, não poderiam esperar pela concretização da profecia, mas valeria a pena? E se jogasse tudo para o alto e aceitasse as palavras do Bispo? O velho dizia que o que havia acontecido ao mundo era uma benção, não um mal. Adriano levantou-se e ficou calado olhando para a cova. O som do rio descendo moroso e o sol batendo no gramado seriam a companhia do parceiro de agora para todo o sempre. Chamou os soldados. Os sete homens cercaram a cova uma última vez e puxaram um pai-nosso e uma ave-maria. Despediram-se de Gaspar e desceram a margem do rio até onde aguardava a balsa. Chegando à outra margem repetiram o que tinham feito os últimos soldados que estiveram ali. Retiraram a jangada da água e a esconderam ao pé da ponte. A motocicleta de Gaspar também foi escondida debaixo da ponte, encoberta por mata e galhos frondosos. A gasolina havia sido retirada e seria repartida entre as máquinas restantes.

     Adriano, no topo do morro, olhou para baixo fixando na cruz de madeira, demarcando o sepulcro. Baixou a cabeça. Para que o sacrifício do amigo não fosse em vão sabia exatamente o que teria de fazer. Para fazer valer a pena teria que deixar toda a tristeza e incerteza para trás, na beira daquele rio. Apesar de abalado, não colocaria em xeque sua certeza na luta contra as feras noturnas. Teria de unir-se para reforçar o time de libertação. Acenou um tchau para o amigo e montou em sua moto. Deu partida e assumiu a ponta. Nos primeiros trinta segundos seguiu em baixa velocidade, depois soltou um grito e reassumiu sua função de puxador, enrolando o cabo do acelerador e rasgando o asfalto em alta velocidade. Faltavam quatro horas de estrada até São Vítor, seria mais um dia de horário apertado.

    

     Lucas tinha sido conduzido até um dormitório. Diferente da cela branca azulejada, o dormitório lhe parecia um tanto mais aconchegante. A cabeça girava com as informações recentemente adquiridas. Parecia dentro de um sonho ruim. Dentro de um roteiro de filme de ficção. Mesmo assim não pôde deixar de sentir aconchego naquele quarto médio. A luz do sol entrando pela janela e desenhando um trapézio no chão de madeira enchia o ambiente abstrato com uma sensação de realidade. Sol, chão, móveis. Barulho de crianças brincando. Lucas ficou de pé. Olhou a cama com o lençol desarrumado apenas onde estivera repousando o traseiro. Não sabia exatamente o que fazer. O doutor dissera apenas que teria de esperar o alfaiate. Coçou a cabeça. Dar-lhe-iam um terno? O doutor dissera que ele seria preparado para conhecer alguém. Usara uma palavra que não se lembrava agora... torcia para não ser outro médico, afinal de contas, depois de desperto, só havia conhecido médicos. A Dra. Ana e o "doutor". Tinha lido o nome do doutor num dos diplomas. Parecia um daqueles nomes eslovacos, que não se lembrava agora. Sua cabeça estava uma merda. Não conseguia se lembrar de muita coisa. O passado, principalmente. O passado estava submerso numa névoa tênue, mas suficiente para bloquear os detalhes cruciais para uma lembrança clara da vida. O doutor comentara que ele fora corretor de seguros de automóveis. Lucas aproximou-se da janela. Viu duas crianças brincando num pátio. O dormitório ficava num pequeno prédio de três andares e localizava-se, justamente, no último deles. Podia ver muitos pássaros, muito mais do que o habitual. O peito apertou-se. Tristeza. Nostalgia. O que seria habitual agora? Seria comum encontrar uma onça-pintada no meio da rua? E aquela história de vampiros? Mais uma vez passou a mão pela cabeça. Ah! Como queria acordar daquele sonho ruim! A cabeça doía toda vez que a voz do doutor repetia a história em seu cérebro. Mas não tinha como negar aquela realidade. Não podia duvidar sobre vampiros. Seu ex-companheiro de cela tinha lhe saltado para cima com dentes compridos e rugidos monstruosos. Gabriel tinha transformado-se num bicho... num vampiro. Não tinha como duvidar. Mas e todo o resto? Seria também verdade? Encostou a testa no vidro da janela. As duas crianças tinham sumido do seu campo de visão. O céu estava limpo e vestido num azul nunca visto. Lindo. Sorriu. Ouviu passos no corredor. Tentou enxergar quem vinha pelo vidro. Sem conseguir, foi até a porta e saiu para o corredor. A luz do sol chegava ao chão vermelho e cobria sua pele, causando um repentino formigamento. Ouviu vozes. Quem vinha, não vinha sozinho. Os olhos teimavam em procurar gente, mas a luz quase cegava. Lucas apoiou-se no balaústre. Apesar de três andares, o complexo de dormitórios era baixo. Deixando-se guiar pelo barulho dos passos, pôde divisar algumas cabeças subindo a escada. Instintivamente, Lucas ergueu as narinas e começou a inspirar rapidamente. Alguma coisa por dentro lhe dizia que não precisava preocupar-se com aqueles que chegavam... eles não tinham "o cheiro". Os visitantes atingiram seu andar e logo estavam vindo em sua direção. Notou que eram seis homens e que se ajudavam carregando alguns baús de madeira que pareciam pesados, talvez por isso não o tivessem notado parado ali, no piso vermelho encerado do corredor. Quando um deles viu Lucas, estacou. A parada brusca fez com que um dos baús fosse ao chão. Os homens olharam para o rapaz parado no corredor, depois em direção ao quarto do recém-acordado. O mais alto e forte, e que parecia ser o líder dos visitantes, aproximou-se primeiro.

— Você é o bento?

Lucas franziu a testa. Não estava acostumado com a alcunha.

     — Você é o recém-desperto, não é? Lucas? — insistiu o homem.

— Sim. Sou eu.

     Os homens benzeram-se e o líder, com passos estudados, aproximou-se ainda mais de Lucas. Chegou bem perto e colocou-se de joelhos. Fez uma reverência com a cabeça.

     — Eu sou o alfaiate, senhor. Os que me seguem são meus auxiliares. Viemos prepará-lo para o encontro com o Bispo.

— Não precisa ajoelhar-se para falar comigo.

     O homem levantou a cabeça para Lucas, estava visivelmente emocionado.

     — Desculpe, senhor, mas se o senhor é quem dizem ser, isso é o mínimo que posso fazer para agradecer tua vinda.

— Dizem que sou quem?

Um dos auxiliares aproximou-se ajoelhando-se enquanto falava:

     — Você é o salvador, senhor. Você veio para unir os bentos para a libertação dos humanos.

     O alfaiate virou-se e deu uma vigorosa bofetada no rosto do auxiliar.

     — Não diga nada, imbecil! Quer assustar o salvador?! Ele será preparado pelo Bispo.

     —   Levantem-se! Não fiquem conversando comigo de joelhos. Os homens puseram-se de pé.

     Nesse instante Lucas pôde ter uma impressão melhor do tamanho do líder. O alfaiate era realmente forte, mais alto que ele... seria mais natural vê-lo como um soldado do que como um costureiro, lidando com dedais, agulhas e linhas delicadas.

     — Vamos para dentro, senhor. Não temos tempo a perder. O Bispo lhe espera e seu aparato é um tanto demorado de ajustar.

     Dentro do quarto, um dos auxiliares pediu que Lucas sentasse numa cadeira dobrável, trazida no baú. Não entendeu por que o homem não usou a que estava em seu quarto. Assim que se acomodou, um outro auxiliar cobriu seu peito nu com um avental branco, como aqueles usados em salões de cabeleireiros.

     — Depois que um adormecido acorda, senhor, as coisas vão voltando a funcionar. O cabelo volta a crescer e a barba também. — explicou o assistente que prendia o avental no pescoço de Lucas.

     — Por isso vou fazer sua barba. Não queremos que o Bispo tenha uma má impressão... sabe como é, a primeira impressão é a que fica.

     Lucas passou a mão pelo rosto. Realmente podia sentir a pele áspera por causa da barba começando a despontar.

O alfaiate olhou com reprovação para o auxiliar.

     — Onde já se viu dizer uma coisa dessas? Como o Bispo poderia ter uma má impressão com nosso salvador? Vamos ajudá-lo a se arruinar porque essa é nossa função. Parem de falar asneira! "A primeira impressão é a que fica"... bah! Essa é boa!

     Lucas sentiu um lampejo na cabeça. Uma lembrança. Uma mulher ajustando sua gravata e passando a mão carinhosamente sobre a lapela de seu terno. Ela dizia o mesmo ditado: "a primeira impressão é a que fica". O tempo poderia ter passado, mas os velhos ditados continuavam lá, cada vez mais velhos.

     — Cada macaco no seu galho! — berrou Lucas, com um sorriso nos lábios.

     Os homens entreolharam-se. Depois de uns segundos, responderam ao sorriso do bento, voltando aos afazeres, mesmo sem entender o que o desperto queria dizer.

     Lucas viu o alfaiate abrir alguns dos baús. Peças reluzentes de metal. Peças de couro. Que diacho estavam preparando?

     Em poucos minutos Lucas viu-se de barba feita e cabelos castanhos ondulados aparados. Tudo realizado com muita habilidade e cuidado. Agora alguém cuidava das unhas de seus pés. Estava até que gostando daquele cuidado todo. Tinha dormido um "Zé Ninguém" e acordado como um rei. Não sabia se isso era bom, mas até agora estava gostando.

     Depois de ter as unhas dos pés aparadas, Lucas estendeu as mãos para o auxiliar. As unhas compridas como as de mulher e amareladas como se estivesse doente lhe causava asco. Contudo, o auxiliar fez um leve meneio, negando-se a cortá-las.

— Não convém apará-las, senhor. — disse o auxiliar.

     Foi colocado de pé e, sem ser advertido, um dos auxiliares baixou suas calças, deixando-o completamente nu.

     — O que é isso? Vão me dar banho também, vão? — perguntou, constrangido, tentando desembaraçar a situação.

     O alfaiate olhou-o da cabeça aos pés. Estendeu a mão direita para um auxiliar.

— Tudo de volume dois. Depressa!

     O auxiliar abriu um baú que estava no chão e estendeu-lhe uma peça branca. O alfaiate, por sua vez, passou a peça para Lucas.

     Lucas desdobrou o pedaço de pano. Era uma cueca de algodão. Detestava cuecas brancas, mas parecia que não estava ali para escolher, e sim para ser vestido. Vestiu o primeiro item e logo recebia uma nova peça. Uma camiseta branca de mangas longas, parecia também ser de algodão. O cheiro era bom. Cheiro de roupa nova. Do terceiro baú, o auxiliar tirou uma peça escura. Quando recebeu em suas mãos, demorou examinando-a. Parecia uma daquelas meias-calças de mulher, mas era de tecido bem grosso, quente. Vestiu. A peça terminava em alças, que iam presas aos calcanhares. Um segundo ajudante abaixou-se e colocou-as no lugar. O próximo item era um colete de couro cru e de grossa espessura, recoberto por pêlos curtos, pardacentos, e cheio de ilhoses nas costas. Pelos orifícios passavam tiras resistentes feitas do mesmo material e, ao vestir o colete, as tiras foram puxadas e ajustadas pelos assistentes. Lucas soltou o ar dos pulmões com o aperto e sentiu o tórax enrijecer. O colete tinha golas altas, que foram abotoadas na frente. Essa gola não apertava, mas causava certo desconforto ao roçar seu queixo. Colocaram-lhe meias grossas e calçaram seus pés com um par de coturnos negros. Veio então um saiote escuro, que lhe pareceu de cor preta na primeira olhadela, mas depois notou ter a tintura puxada para o verde-escuro, quase preto. Era largo e parecia com aquelas peças que via nos filmes épicos de soldados romanos, ou como nos santinhos de Santo Expedito. Lucas lamentou não ter um espelho para olhar-se. Certamente, aquela fantasia estava impagável, primeiro lugar em qualquer baile de carnaval. Até onde aqueles malucos iriam? Estavam aprontando-o para um baile a fantasia? Seria aquele Bispo interno de algum manicômio?

     Um barulho como o de correntes sendo levantadas rapidamente tirou o sorriso do seu lábio. O alfaiate deu passagem a dois assistentes que lhe traziam uma cota prateada. O alfaiate observou-a sem tocá-la, logo aquiescendo. Um terceiro auxiliar fez com que Lucas se curvasse para receber a nova parte da vestimenta. Diferente do colete, essa peça era bastante pesada, provida de mangas longas e uma espécie de touca feita do mesmo metal. Lucas sorriu. A blusa de metal acabava em seus punhos e, após um dos assistentes cobrir-lhe a cabeça, sentiu o metal frio em sua testa.

— O que é isso?

     — Acho que é uma das peças mais importante de sua veste, senhor. É uma cota de prata. Vai proteger seu pescoço, seus braços e seu coração. — respondeu o alfaiate.

     — Mas o que é tudo isso? Tudo isso para quê? — repetiu o recém-desperto, inquieto, abandonando os braços e enchendo o quarto de barulho ao mover-se com a roupa de metal.

     — É para não ser ferido em combate pelos vampiros, senhor. — interveio o assistente que tentava alcançar seu braço para adicionar mais alguma coisa ao traje.

     Lucas ficou quieto, olhando para o alfaiate, que por sua vez fulminava com os olhos o assistente linguarudo.

     — O Bispo falará sobre os vampiros, senhor... e sobre a benção da prata em seu uniforme de batalha.

     A essa altura os braços de Lucas tinham sido capturados pelos assistentes e dois deles enrolavam tiras de couro em seus punhos.

     Quando terminaram a tarefa, Lucas percebeu que aquelas tiras reduziam bastante o incômodo barulho que era produzido pela cota de prata ao mexer os braços. Agora era um "barulhinho", perto do que fazia instantes atrás. Notou que a cota descia até sua virilha e agora um terceiro assistente passava uma nova tira de couro em alguns elos maiores presos ao extremo da peça. Funcionaria como um cinto aparentemente também para conter o barulho.

— Vocês mataram quantas vacas para colocar tanto couro em mim?

Alguns dos assistentes riram. O alfaiate estalou os dedos.

— Tragam o peito.

     Os homens afastaram-se do bento e abriram o baú maior. Puseram de pé uma armadura prateada. Era impressionante o polimento do artefato que reluzia vigorosamente ao mais tímido contato com luz solar. Pelo formato, Lucas entendeu que a peça destinava-se a cobrir exclusivamente o tórax, uma espécie de colete rígido. Ficou em silêncio, admirando a cruz dourada fixada em relevo no centro da peça, enquanto os auxiliares exibiam a peça ao alfaiate. Notou também que nos cantos superiores, onde seriam os ombros, havia dois enfeites dourados, parecendo duas cabeças de animal. Depois do líder aprovar, dirigiram-se ao homem, dividindo a peça em duas partes, posterior e anterior, encerrando o tórax do guerreiro dentro da proteção. A armadura torácica era unida com facilidade, presa por seis travas de pressão. Lucas teve a impressão de que conseguiria tirar e recolocar a peça sem precisar da ajuda de terceiros. Ao contrário de quando foi apertado o colete de couro, não houve desconforto algum. A peça parecia ter sido forjada sob encomenda para seu corpo magricelo, em conseqüência da atrofia originada pelo sono prolongado.

     O alfaiate rodeou Lucas, olhando a indumentária de cima a baixo. Nas costas do guerreiro agarrou a armadura pelas aberturas axilares e chacoalhou a prata. Estava justa e firme.

— Perfeito! Parece que foi feita para você!

     Os assistentes fechavam os baús. Restava apenas um lacrado. Era o mais comprido e estreito de todos.

O alfaiate parou de frente para Lucas olhando-o nos olhos.

     — Fiz o meu melhor, senhor. Vendo o senhor nas vestes de um bento estou certo de que as profecias são de fé. O senhor transpira paz e tranqüilidade. É certo que será um bom guerreiro, nosso salvador. — o homem tinha agora os olhos marejados.

     Lucas precisava erguer um pouco o rosto para encarar o alfaiate. Estava quieto e tenso. Não seria possível que todos fossem malucos. Estavam falando a verdade. O mundo todo tinha mudado e agora buscavam um jeito de vencer a guerra contra os vampiros. Aqueles vampiros que estava acostumado a ver na televisão, no cinema. Aqueles chupadores de sangue que moravam na Transilvânia. Deus do céu! E ele era um dos guerreiros! Nunca tinha servido nas Forças Armadas. Nunca tinha dado um tiro em ninguém. Sentiu o estômago embrulhar. O único homem que tinha matado até hoje fora aquele Gabriel... um ato de loucura, uma lembrança que ocupava um canto escuro de seu cérebro. Um ato que mais parecia lembrança de um pesadelo do que lembrança de um momento. Estava encarcerado na cela branca do hospital. Estava desesperado... e Gabriel é quem tinha lhe atacado em primeiro lugar. Defendera-se instintivamente. Não era um guerreiro...

— Qual é seu nome, alfaiate?

— Meu nome é Paulo, senhor.

Lucas pousou a mão no ombro do forte Paulo.

     — Olhe para mim, Paulo. Eu... eu sou só um homem que esteve doente... não sei o que andaram dizendo por aí... mas eu nunca lutei... estou sendo honesto com vocês porque vejo que depositam uma confiança exagerada em mim. Eu nunca disparei com uma arma de fogo... não sei como vou salvar vocês dessa enrascada... eu... eu...

Paulo olhou para a mão de Lucas em seu ombro.

     — Desculpe, senhor. Como pudemos esquecer? — bateu palmas fazendo com que seus auxiliares aprumassem-se. — Tragam-me as luvas do senhor Lucas.

     Um dos assistentes já tinha o par de luvas nas mãos. Estendeu ao alfaiate.

     Paulo apressou-se em ajudar Lucas a calçá-las. Rapidamente, para que ninguém percebesse, enxugou uma lágrima que descia.

     — Não se preocupe, senhor. O senhor vai ficar pronto para a batalha. Sei que está confuso. Todos os que eu vesti estavam confusos antes de falar com o Bispo. É assim mesmo, senhor Lucas. Mas, depois de falar com o homem santo, o senhor vai entender e a confiança irá voltar. Eu... eu sei que é difícil... acordar e encontrar o mundo assim. Eu também fui adormecido, sabia? Quando a gente acorda tem um choque... mas o senhor é um bento. Vai entender o que eu estou dizendo.

Lucas murmurou algo, mas não teve tempo de responder.

     — Eu acordei faz doze anos. Nossa, que horror! Eu não queria aceitar. Imagine o senhor que quis até fugir da fortificação! Que tolice a minha. Quase fui comido pelos malditos noturnos. Mas, graças ao bento Francis, fui salvo. O senhor conhecerá o bento Francis, senhor. — o alfaiate deu um tapa nos ombros de Lucas ao terminar de ajustar as luvas. — Não precisa se preocupar. Sua vocação vai se revelar e a profecia irá se cumprir. Seremos salvos, senhor.

Lucas abria e fechava as mãos ajustando as luvas.

Paulo sinalizou para o assistente que guardava o último baú.

     O rapaz abriu e ele tirou um cinto de couro negro. Passou-o ao alfaiate que, por sua vez, atou-o na cintura de Lucas, que permanecia calado. Em seguida, Paulo foi até o baú e retirou um bastão envolto em tecido vermelho.

     — O senhor não precisa se preocupar com armas de fogo, senhor. O senhor não vai atirar em ninguém. O senhor vai usar isto.

     Lucas, curioso, viu o alfaiate desenrolar um tecido que acabou por revelar uma espada reluzente. Era linda! Não era muito comprida, como imaginava as espadas de cavaleiros medievais. A lâmina teria, no máximo, sessenta centímetros, era grossa e dotada de uma ponta aguda. A empunhadura era revestida em couro e, antes de começar a lâmina, havia uma haste de ferro negro cruzando a espada, com uns dez centímetros para cada lado e suavemente inclinada para cima em direção aos gumes afiados, fazendo a espada formar uma espécie de letra "T".

     O alfaiate ofereceu-a ao guerreiro estendendo-a em sua palma para que Lucas a apanhasse pelo cabo.

     O bento ergueu-a e mirou seu reflexo na lâmina. Podia ver-se quase que com perfeição. Não era tão pesada quanto supusera. Ergueu-a e baixou-a seguidas vezes, como descrevendo golpes e defesas imaginárias. Os assistentes em volta sorriram para o alfaiate. Todos os bentos faziam aquilo quando deitavam a mão em sua espada pela primeira vez. Era incrível!

     Assim que Lucas encarou o alfaiate novamente, este lhe indicou a bainha presa ao cinto recém adicionado à cintura. Lucas admirou não ter percebido esse item quando o cinto foi atado. A espada deslizou suavemente pela abertura e repousou na proteção.

     O alfaiate aproximou-se de Lucas mais uma vez. Retirou uma corrente do próprio pescoço. E passou-a pela cabeça do guerreiro.

     — Para que o senhor não tema o bom combate. Leva contigo a imagem do bento dos bentos.

     Lucas aparou a medalhinha na palma da mão enluvada. Não fora um católico fervoroso, mas reconheceu prontamente na figura do cavaleiro subjugando o dragão a imagem de São Jorge.

     — Obrigado, Paulo. Agradeço de coração. — disse, soltando a imagem e deixando-a guarnecer seu peito.

— Agora, o toque final.

     O alfaiate tomou da mão do assistente, que aguardava, o pesado manto vermelho onde a espada viera enrolada. Com a ajuda de mais dois, prendeu a capa vermelha sobre as costas do cavaleiro e as pontas do tecido foram engolidas pelos dois dragonetes que enfeitavam a armadura, um em cada ombro. Dessa forma, a capa foi presa à vestimenta.

     Paulo ajeitou o tecido, espalhando-o uniformemente e encobrindo parcialmente a frente da figura do guerreiro. Estalou o dedo mais uma vez e um dos baús foi reaberto, donde os auxiliares tiraram três pedaços vítreos que, juntos, compunham um espelho quase de igual altura ao recém-desperto.

     Lucas fitou demoradamente o homem desconhecido que se apresentava no reflexo de sua imagem. Aquele não era ele. Ele era um vendedor de seguros de carro, não um guerreiro bento. Passou até a respirar de modo diferente, com certa dificuldade. A cabeça estava encoberta pela touca de prata que emoldurava seu rosto e descia pelo pescoço, desaparecendo dentro da couraça prateada. No queixo via uma ponta do colete de couro. No meio do peito destacava-se a cruz dourada em relevo e a pequena medalha de São Jorge. Os braços estavam igualmente protegidos pela cota de metal, terminando nas luvas de couro. Apesar do sol que brilhava do lado de fora, não sentia calor ou desconforto dentro do inusitado uniforme. O saiote verde-escuro, quase negro, confundia-se com a grossa malha escura, que protegia suas pernas e estava longe de criar constrangimento, uma vez que parecia dentro do contexto. A capa vermelha cobria todo seu corpo, chegando a arrastar no chão. Na extremidade inferior, o tecido vermelho era revestido por uma faixa marrom. Era por inteiro feita de um tecido grosso e pesado.

— Vamos, senhor?

Lucas assentiu.

     O espelho foi desmontado e recolhido e os baús empilhados no dormitório.

    

     Lucas desceu os três andares do prédio de dormitórios acompanhado pelo alfaiate e seus assistentes. Ao chegarem ao pátio, recoberto por granito, os homens trataram de cercar o guerreiro. Paulo vinha à sua esquerda e indicava o caminho. Teriam que caminhar um bocado até chegar à residência do Bispo.

     Lucas acostumava-se ao aspecto imposto pelo traje. O colete de couro dificultava que as costas fossem arqueadas, obrigando-o a assumir uma postura ereta, altiva. Sem perceber, a mão direita foi ao cabo da espada, fazendo com que a bainha não chacoalhasse tanto. A capa vermelha ocultava ambos os braços. Lucas estava impressionado com a pureza do ar. Nada de fumaça, nenhum traço do céu marrom-cinzento de São Paulo. Observou que caminhavam sobre uma alameda larga e prédios de poucos andares, medianos, ocupavam a paisagem espaçadamente, nada daqueles prédios empilhados, um colado ao outro, como no centro urbano. Ao redor dos prédios havia bastante gramado, poucas pessoas cruzavam os caminhos cimentados. Ao que parecia, todo o conceito arquitetônico conhecido tinha sido abolido após o traumático evento que o doutor lhe descrevera. Com o colapso da sociedade, em meados do século XXI, a superpopulação planetária havia desaparecido e agora espaço não parecia ser grande problema. Como os sobreviventes tinham se virado até então? Queria era ter a sorte de encontrar com um conhecido e sentar num bar para tomar chope a madrugada inteira, perguntar tudo. Ouvir da boca de um amigo, alguém em quem pudesse acreditar, tudo o que havia se passado enquanto dormia. Uma história fabulosa, certamente. Lucas percebeu que a alameda estendia-se por centenas de metros e, na distância onde seus olhos começavam a falhar, podia ver um borrão escuro subindo ao céu. O que seria aquele prédio maior que os outros?

     — Isso aqui era o campus de uma universidade federal décadas atrás. — comentou o alfaiate, como lendo o pensamento do guerreiro. — A maioria dos grandes centros foram abandonados. Você era dc São Paulo, não era?

— Hum-hum.

Silêncio. Os passos dos homens ecoando.

     — As principais metrópoles foram abandonadas. São Paulo, Florianópolis, Rio de Janeiro, viraram redutos de malucos e de vampiros. Praticamente não dá para passar uma noite com vida nesses lugares. Sorocaba, Presidente Prudente, Salvador, Aracaju, Ribeirão Preto, Belo Horizonte, Campinas, Niterói, Campo Grande... todos esses lugares e tantos nomes quanto você possa lembrar... já eram. Viraram cidades fantasmas.

— O que é aquele prédio no final da rua?

Os homens olharam adiante. Paulo respondeu:

     — Não é um prédio, senhor. Aquilo é um muro. Se olhar ao redor do campus, verá que ele é completamente cercado, murado. Agora, para sobreviver, é assim. Os vampiros acabaram com tudo. Os sobreviventes foram empurrados para pequenos povoados. Os primeiros meses foram difíceis de acostumar, senhor. Tem gente traumatizada até hoje. A gente se juntava em lugares menores que as grandes cidades, como esses, e erguíamos muros. Tivemos que aprender a combatê-los, senhor.

— Por que não ficaram nas cidades, mesmo? Por que não...

     — Como iríamos passar um muro em volta de Sorocaba inteira, senhor?

     — Não é isso... quis dizer, por que não fortificaram hospitais, escolas por lá mesmo?

     — Aqueles dias eram pesadelos vivos, bento Lucas... e essa luta é eterna. Iríamos viver enjaulados em pequenos espaços? Ficaríamos doidos. Bem aventurado os que tiveram a inspiração de buscar centros afastados. Se ficarmos quietos, esvaziarmos a mente, até temos, dentro desses muros, a impressão de estarmos em liberdade. Ao menos, não ficamos todos claustrofóbicos. Vê... o muro está tão afastado que até podemos esquecer dele um pouco. — Paulo parou e colocou a mão em concha na altura da sobrancelha, calou-se por um segundo e molhou os lábios com a língua. — Mas basta passar das três da tarde para essa fantasia de liberdade ir por água abaixo. Quando o sol vai caindo no horizonte, senhor, só nos resta rezar... Mas, graças a Deus, o senhor veio e há de se cumprir o que foi profetizado.

— O que foi profetizado?

     — Isso o Bispo é quem lhe dirá. — rebateu o alfaiate, pondo a mão no ombro do guerreiro e fazendo-o voltar a andar.

     Depois de cinco minutos de caminhada, tomaram uma rua à direita. Lucas pôde ver o que parecia ser uma grande praça com chão de concreto queimado. Tinha habituado-se ao caminho quase deserto, estranhando o volume de gente passando por ali. Não demorou um minuto até que uma senhora parasse no meio da praça e, mesmo atrapalhada por um grupo de rapazes que empurravam um carroção repleto de hortaliças, apontasse em sua direção. Pôde ouvir a voz aguda da mulher crescer em euforia fazendo com que dezenas dos passantes parassem para olhar. A mulher soltou duas sacolas pesadas de nylon colorido e correu em sua direção. Lucas olhou para Paulo, querendo entender. Antes que o alfaiate pudesse dizer alguma coisa, a senhora, com impressionante agilidade e pressa, alcançou o homem de capa vermelha e prostrou-se aos seus pés.

     — Bendito seja Deus que te enviou para nos salvar! — gritou a mulher, levantando o tronco, permanecendo de joelhos e tomando a mão de Lucas para beijá-la. — Orei dia e noite para que esse dia chegasse, mas nem acredito que estou diante do senhor. É ele, não é? — perguntou insistente tornando os olhos para o alfaiate.

     — É ele, senhora. Estamos levando-o para ser visto e abençoado pelo Bispo.

     — Nem posso acreditar que o trigésimo despertou aqui! Em nossa cidade! Em São Vítor! — continuou a velha, eufórica, levantando-se com rapidez e abraçando inadvertidamente a armadura do guerreiro.

     Lucas permaneceu calado. Estava zonzo. Era coisa demais para um dia só. Olhou para a praça. Todos tinham parado seus afazeres, abandonado suas coisas e vinham cercar o grupo de Paulo. Se a multidão tentasse alguma coisa seriam poucos para ajudá-lo. As pessoas chegavam com sorrisos e olhos brilhantes, muitos queriam tocá-lo e, realmente, foi preciso a intervenção enérgica do gigante Paulo.

     — Precisamos levá-lo ao Bispo agora! — gritou. — Por favor, abram passagem. Não toquem na capa, ela é novinha. Pelo amor de Deus, não estraguem meu serviço.

     Como se não pudesse ouvir a voz de trovão do alfaiate, uma criança teimosa venceu a barreira e puxou repetidamente a capa do cavaleiro. Lucas, que mirava um pouco além da praça e observava uma nova face da muralha que protegia o povoado, voltou a cabeça por causa dos puxões. Sorriu e pousou a mão enluvada na cabeça da menina. Parecia ter uns onze anos. A garota de pele morena abriu também um sorriso. Lucas admirou a beleza da criança. A menina estendeu-lhe um dente-de-leão. Lucas apanhou a flor e agradeceu a menina que se retirou em desabalada carreira, provavelmente muito envergonhada de estar sendo observada por tanta gente. Lucas soprou gentilmente o dente-de-leão fazendo com que os corpúsculos desprendessem da extremidade da planta e esvoaçassem ao sabor da brisa. Paulo gesticulou para que voltassem a caminhar. Um corredor formou-se com a passagem do grupo e, cada vez mais, curiosos surgiam e engrossavam a multidão da praça.

     Ao terminar a praça, o grupo pôde caminhar com mais folga, mas não deixou de ser seguido por um bom número de pessoas que queriam ver mais um pouco se era verdade o que corria de boca em boca, que o bento salvador tinha chegado.

     Lucas notou, quando passavam junto a um prédio cercado e protegido por um grosso muro de pedra e mais duas sentinelas em extremidades diferentes, um bom número de motocicletas. Uma delas foi acelerada naquele instante, como se um mecânico operasse algum tipo de teste. Perguntou a Paulo do que se tratava e lhe foi explicado que aquele prédio sediava a base militar de São Vítor. Soube também que um bom número de soldados estava fora naquela hora, fazendo patrulhas de rotina, procurando indícios de atividade vampírica na redondeza e um outro tanto estava fora em missões em outras cidades. Paulo comentou também que os soldados estavam muito empenhados numa espécie de plano secreto para tentar pôr fim à ameaça dos vampiros antes mesmo que os bentos o fizessem. Sorriu ao falar a palavra "secreto". Todo mundo sabia que os soldados buscavam uma solução, mas os danados eram bons em esconder qual era o objetivo. Diziam que o alvo deveria ser mantido em sigilo. Quanto menos gente soubesse o segredo, menos chance os vampiros teriam de gorar o intento. Paulo explicou que, em geral, os soldados eram homens de boa índole, mas a corporação contava com um ou dois carrancudos, que, às vezes, pareciam agir com "mau caratismo". Os soldados diziam que estavam fartos de esperar pela solução divina, por isso buscavam uma alternativa. Ao que tudo indicava, parecia que caminhavam para algum avanço.

     — Vocês sofreram demais no começo, não foi? — interferiu Lucas, compadecido do tom de voz do amigo.

     — Como disse, temos traumas até hoje, senhor. Só de lembrar daquelas primeiras noites, tenho calafrios. É um pesadelo.

     — Ao menos, as crianças que vieram estão livres desses pesadelos...

— Crianças que vieram?

     — Sim. Crianças que nasceram depois do começo de tudo, dos piores dias...

— Não existem mais crianças nascendo, senhor.

     Lucas parou de caminhar mais uma vez. Baixou a touca de metal que cobria sua cabeça. A caminhada estava fazendo-o transpirar demais. Passou a luva na testa. Não sentia calor excessivo, mas suava.

     — Como não, Paulo? E a garotinha que me deu aquela flor? Também vi crianças brincando no pátio do prédio dormitório...

     — Eram como você, senhor. Eram adormecidos que despertaram e damos graças ao céu por isso ainda ser possível, senhor.

     — Desde aquela noite maldita, senhor, as mulheres não engravidam mais. Parece que a vontade de Deus é que não nasçam mais crianças.

     Lucas olhou para o chão. Depois ergueu a mão que ainda trazia entre os dedos a haste do que fora um dente-de-leão. Suspirou ainda mais entristecido.

     — Não sei o porquê, Paulo, mas tenho a impressão de que a sessão de más notícias não está nem na metade.

     — Lucas ficou parado no meio da sala. Cortinas pesadas encerravam as janelas de modo que um mirrado fio de luz invadia o ambiente. Sombras. Sentia-se estranho, parado em cima daquele tapete vermelho. Tinha pré-concebido uma imagem diferente do local de encontro com o tão reverenciado Bispo. Imaginava-se recebido no átrio luminoso de uma imponente catedral, depois conduzido pelo corredor central de um salão luxuoso. Que ficaria encarando os clássicos vitrais com a paixão de Cristo enquanto aguardava o homem santo ser apresentado. Que ficaria admirando a nave da igreja e pudesse rezar de frente a uma cruz bem-feita apropriadamente elevada no altar. No entanto, a caminhada parou em frente a uma casa pequena e sem nada de imponente. Era até feia na verdade.

     A pintura em tom de areia descascada e o piso da diminuta varanda mostrava-se já bem gasto, como muitas outras coisas dentro daquela velha casa, como pôde notar o guerreiro.

     Lucas tentava entender se a sala era muito pequena ou atulhada demais com móveis e bugigangas a ponto de tudo parecer espremido naquele cômodo. A estante tinha tanta coisa que parecia incapaz de conter um alfinete a mais. Retratos, brinquedos, peças de artesanato nordestino, infinitas quinquilharias. As paredes eram forradas com tapeçaria de gosto duvidoso e mais um tanto de enfeites típicos dos estados do Ceará, Pernambuco e região. A mesa à sua esquerda, que poderia tocar se estendesse a mão, estava recoberta por uma visível camada de poeira. Provavelmente o tal do Bispo não vivia ali. À sua direita, também ao alcance de sua mão, estava a porta fechada que lacrara os ajudantes do alfaiate do lado de fora. A imobilidade do lugar e do ar causava desconforto e o tique-taque monótono de um relógio de pêndulo encoberto em algum canto fazia a ansiedade aumentar. Começou a imaginar onde se encaixaria naquele jogo abstrato que o destino havia armado. Seria ele realmente o salvador daquela gente? Impossível que fosse! Era um cara comum. Torcia para o Santos. Gostava de cinema. Odiava literatura. Era comum. O diacho do doutor adivinhara, ele gostava de assistir o Programa do Ratinho, Jornal Nacional, Os Normais. Gostava de comprar a Playboy quando saía uma gostosa, garimpar nas bancas de revistas usadas os velhos números da Chiclete com Banana, do Angeli, Piratas do Tietê, do Laerte. Alugar filme repetido... tipo King Kong, Star Wars, Pulp Fiction e Coração Valente... tinha os brasileiros também... assistira dúzias de vezes: Sábado, A Casa, Central do Brasil e O Xangô de Baker Street. Tinha também aquele do Belline. Belline e a

Esfinge. Cara! Onde tinha uma vídeo-locadora naquela cidade? Bufou, oprimido pela espera. Era um cara comum! Não era herói! Nem religioso era. Como poderia ser santo?! Tinha algo errado. Não sabia nem se seria capaz de erguer a espada para lutar. Era mais natural visualizar-se sendo o primeiro a borrar-se todo na hora da luta e sair correndo sem olhar para trás do que sendo o bravo guerreiro que todos supunham. Salvador? Enviado? Deus! Gostava de cinema e odiava aqueles filminhos que vinham com esse papinho de que fulano era o "escolhido"... justamente o cara que parecia ser o oposto de tudo aquilo que a personagem e a platéia buscavam. Você é o "escolhido". Essa fala era sempre proferida por um cara, um oráculo. Sorriu. Lucas via-se vivendo a mesma situação... estava diante do profeta, do "Bispo". E ele diria: Você é o escolhido. Você irá nos guiar até a vitória. Bufou de novo. Achava esse tipo de argumento e diálogos uma porcaria. Só poderia ser um pesadelo. Era vendedor de seguros. Isso sabia fazer bem. Ganhava de qualquer um. Esportivo, popular, sedã, hatch, taxista, caminhoneiro, motociclista... não tinha como recusar, sabia fechar o negócio... não desistia até arrancar um sim... mas essa parada de armadura e espada... sem chance. O ponto é que não conseguia sentir-se especial. Não era mais nem menos que ninguém. Por que agora via-se no centro das atenções? Isso o deixava assustado.

     A porta na sua frente rangeu. Foi aberta vagarosamente. Das sombras surgiu a figura de um senhor muito velho, rosto encovado, sendo trazido em cadeira de rodas por Paulo. O alfaiate ajeitou a cadeira da forma que certamente o homem gostava. Soltou a cadeira e contornou-a com cuidado, esbarrando o mínimo possível nos obstáculos no caminho, nas quinquilharias decorativas. Parou de frente para Lucas e ajeitou sua capa. Segurou nos ombros do rapaz e olhou-o nos olhos.

     — Vai dar tudo certo, senhor. Pode limpar seu coração de qualquer dúvida. Você está aqui por uma razão, não por um acidente. Fique calmo e fique em paz. — disse o alfaiate antes de retirar-se.

     Um segundo depois, Lucas ouvia a porta da sala emitir um "clique" ao ser fechada por Paulo. Ao olhar para o homem na cadeira de rodas, notou que a mesma não estava de frente para ele. Não estava certo se o homem podia vê-lo. O velho, com certa dificuldade, ergueu o braço e indicou o sofá. Lucas sentiu-se burro... é claro, a cadeira estava de frente para o sofá, onde deveria sentar-se. Postou-se diante do velho, sentando-se com cuidado, sempre ereto em virtude da armadura. O sofá era coberto com um tipo de tapete de trançadinhos e estava inteiramente empoeirado. Chegou a temer que o velho principiasse um acesso de tosse. Lucas procurou relaxar diante dos olhos do velho. Estava desconfortável, mas, ao menos, estava agora no mesmo nível do seu possível interlocutor. Olhou para o rosto do Bispo. O homem tinha os olhos fundos nas órbitas e os globos oculares pareciam demasiadamente amarelados, recobertos de certa viscosidade. A pele chegava a impressionar de tantos sulcos e acreditava nunca ter visto antes alguém tão velho. Perto do Bispo, o doutor de oitenta anos parecia um garotão na flor da idade. O velho balançou o queixo fazendo a papada tremer. Era magro, como se estivesse com a saúde extremamente comprometida.

     — Não se impressione tanto com a minha aparência, bichinho, eu já estive bem pior. — disse o velho no meio de uma sucessão de pigarros.

Lucas sorriu e pediu desculpas. "Bichinho"?!

     — Sua mãe nunca lhe disse que é feio ficar encarando os mais velhos?

     Lucas riu um pouco. Achou engraçado o jeito do velho. Apesar da aparência, a voz ganhava força e firmeza e era carregada de um sotaque nordestino. Achou curioso, fazendo-o verdadeiramente relembrar de sua vida passada, o sotaque nordestino era tão presente no dia-a-dia paulistano...

— Gostou da roupa, filho?

— Gostei. Gostei, sim, senhor Bispo.

     Os olhos baços do velho ficaram movimentando-se nas órbitas como se analisassem o jovem sentado na sua frente. A cabeça e o corpo continuavam imóveis, somente as pupilas dançavam na figura do interlocutor.

     Lucas sentiu-se um tanto constrangido. Não sabia o que dizer para aquele homem. Não sabia o que fazer. Até agora só havia escutado os outros. Sentia-se perdido. Não estava mais em sua cidade, rodeado de rostos familiares.

     — Essa sensação vai passar logo, cabra. É assim quando todo mundo acorda. Seja ele um iluminado feito tu, ou um desgraçado feito eu.

— Bispo... eu não... eu estou confuso.

     — Todo mundo fica confuso, filho. É difícil abrir os olhos num lugar diferente do lugar que tu dormiu noite passada. Não é fácil, não. É porreta, como dizia meu painho. E olha que eu já vi muita coisa nesta vida, filho. Agora, deve ser pior ainda estar no seu couro. No couro de um predestinado.

— Mas eu não sei se sou mesmo o que dizem que sou.

     — Olha pro rosto desse velho aqui, menino. Eu vi cada um dos predestinados passar aqui nessa sala. Todos eles quando acordavam resmungavam a mesma coisa. "Quero não... ser um guerreiro da luz." "Quero não... ser possuidor dessa armadura. "O pai do céu tá enganado, seu Bispo." Todos vieram com a mesma ladainha, meu filho. — o velho tossiu duas vezes e fez um gesto com a mão enrugada pedindo que Lucas aproximasse o rosto, ao ser obedecido continuou num tom mais baixo de voz. — Se tão dizendo por aí que você é bento, é porque é, homem. Assuma isso. Não precisa ter cagaço, não. Nunca ouviu aquela história de que Deus não dá asas pra cobra?

     — Eu nunca fui de ir à igreja. Como é que posso ter tamanha responsabilidade? Ser um enviado de Deus?

     — Ôche, mas cale essa boca, rapaz! Quem foi que disse que tu é um enviado de Nosso Senhor Jesus Cristo? Tu não é enviado nem de Deus nem do Diabo.

     — Eu não entendi, senhor Bispo. O senhor mesmo disse que Deus não dá asas para cobra.

     — Tu é um bento. É abençoado, mas não é um enviado. Tu foi ungido, mas num foi trazido.

     Lucas não encontrou sentido no que o velho disse, mas não retrucou dessa vez.

     — Olhe, deixa eu tentar te explicar, filho... tu não ia muito à igreja, mas conhecia a Bíblia, não conhecia?

— Conhecia, senhor Bispo.

     — Pára de me chamar de "senhor Bispo", menino. Meu nome é Bispo. Só Bispo. Nem padre eu sou. O povo é que me chama assim, "Bispo", com pompa e circunstância, como se eu fosse capaz de fazer o fogo cair do céu ou dividir o mar feito Moisés. Eu só passei muito tempo pensando e andei tendo muitos sonhos que diziam coisas que iam acontecer. Mas já que o povo me dá tanta trela e me trata com tanto respeito, eu deixo. Me tratam bem. Cuidam deste esqueleto cansado. Pra mim tá bom até demais, cabra. Lucas riu.

     — Mas vamos tentar manter o fio da meada, porque essa minha cabeça cansada, às vezes, esquece umas coisas... eu tava dizendo que quando tu lia a Bíblia, aprendia as histórias do velho e do novo testamento, não é verdade?

— É verdade.

     — Aprendia o que tinha se assucedido, o que estava se assucedendo e o que ainda ia se assuceder, correto?

— Certo, senhor.

     — Em que lugar da Bíblia tava escrito que o mundo ia acabar assim?

Lucas deu de ombros, sem responder.

     — Cabra, eu te juro que em canto algum da Bíblia fala que o inundo ia acabar desse jeito. E é por isso que te digo que não vai acabar. E em canto nenhum do Livro Sagrado dizia que metade dos homens iam cair em sono misterioso e dos que sobrasse, metade ia virar aqueles malignos e o outro tanto sofrer na Terra. Então também não fala de vocês, os bentos. — concluiu o velho, dando uma risada rouca no final, misturada a mais um tanto de tosse engasgada.

     Lucas achou sentido em parte do que o velho dizia, mas um outro tanto de palavras soavam vazias. Esse papo de Deus sempre rendeu pano para muita manga.

     — Filho, todo mundo maldiz o dia em que essa desgraça começou, mas ninguém agradece pelas veredas que o destino nos apresentou. O mundo mudou depois daquela Noite Maldita. Tu, antes de cair naquele sono misterioso, tu lembra de como era a vida nas grandes cidades? Lembra de como São Paulo e Rio de Janeiro estavam se acabando na violência? Era centenas de vezes pior do que hoje em dia, filho. Nos povoados de hoje em dia ninguém faz seqüestro relâmpago. Ninguém dá tiro na cabeça do irmão por causa de droga. Hoje há união, filho. Todo mundo junto, unido. Dentro desses muros agora só existe gente de bem. Não existe morro ocupado pelo tráfico, não existe rebelião em presídio, porque não existem mais presídios... você não encontra gente passando fome debaixo de ponte. Não existe mais fome assolando um país inteiro. Tá tudo mais igual.

     — Mas a violência é da natureza humana, Bispo. Se juntar dez, sai confusão. Sempre tem alguém pensando maldade.

     — Agora não é mais assim, seu menino. E não é ditadura, não. É opção do coração. Ninguém é obrigado a ser certinho. Ninguém vai para a forca ou para a guilhotina. Aqui cada um escolhe o que vai ser. Bom ou mau. Se não entra no ciclo da comunidade, passar bem, as portas do muro são serventia da casa, vai se juntar com teus iguais. Todo mundo acha sua serventia na atualidade, bichinho. Quem erra, vai dormir fora do muro. Fica lá por cinco dias. Se achar outro caminho, boa sorte. Se for comido pelos dito cujos, azar. Se voltar, se endireita. Ninguém quer ficar lá fora, filho. Gente ruim está pra fora dos muros e correndo atrás de gente boa para tomar o sangue ou de gente ruim igual a eles que adoram aquelas criaturas da escuridão. Quem é mau acaba sendo atraído pelos malignos. Quem é do bem é atraído pelos benignos. É isso que a gente tardou a notar. Essa brincadeira que a energia fez foi para separar o joio do trigo. A água do vinho. Bondade e maldade não se misturam. Se tu fosse ruim, não teria acordado bento. Teria sido o outro.

— O outro?

—        É. Tu não arrancou o couro de um cabra lá no hospital? Lucas aquiesceu.

     — Foi, não foi? Então não precisa duvidar, filho. Tu é um cabra da molesta. É um guerreiro da gota serena. E vai lutar pela nossa liberdade. Para acabar com essa briga do bem contra o mal. Vai açoitar os malditos e preparar a terra para o recomeço. Isso é o que eu sempre digo. Não precisam ficar chorando pelos cantos. Isso não é o fim do mundo. Se fosse, estaria nas escrituras. Isso é sim um recomeço. Uma piscada do Pai lá de cima. Ele fechou os olhos e deixou a energia que rege tudo tomar conta de nosso destino. Pelo que eu sonhei, pelo pouco que essa cabeça velha pôde compreender, bichinho, essa energia não escolhe o lado... ela simplesmente está aqui, soprando no meu ouvido... está favorecendo esse velho. — Bispo mexeu a boca enrugada e piscou os olhos amarelados. — Sem ela saber o que está fazendo, tá me dizendo como fazer os cabra da molesta do lado bom acabar com os cabra malvado. Tá aqui, no meu sangue. Quando essa guerra acabar, só vai sobrar gente de boa fé. Gente de coração puro. Acabou aquela violência descabida que dominava o mundo antes daquela noite. Bendita noite, eu digo. Não existem mais traficantes, não existem mais estupradores, estelionatários... nem políticos feito os daqueles tempos existe mais. Agora é só gente e vampiro. E tu é nosso campeão. Tu será o cavaleiro da justiça. O guia da batalha.

     — Eu entendi parte da sua argumentação, Bispo... mas essa coisa de bento? Por que dizem que sou bento? Sou salvador? Sou um messias? Mas aí o senhor me diz que não sou enviado de Deus coisa nenhuma. É confuso demais.

     — Deixa teu coração em paz que a resposta vai chegar. Vai ficar claro como água. Tu vai buscar a verdade...

Lucas começou a rir.

     O velho Bispo parou de falar. Ficou com aquele rosto enrugado, imóvel, e, novamente, somente os olhos úmidos e amarelados movimentavam-se.

     — Desculpe, Bispo. Desculpe, mas não pude conter o riso. Essa coisa de falar sem dizer com clareza... me lembrou algo da minha infância.

— O quê?

     — Parece que dormi e vim parar num episódio de A Caverna do Dragão. Estou me sentindo o próprio Eric, com essa capa vermelha, sentado de frente para...

— O mestre dos magos?

— É.

    Lucas e Bispo riram juntos. O velho voltou a tossir e ficar em silêncio.

    — Isso aqui não é A Caverna do Dragão, filho. Poderia até brincar com você, derrubar alguma coisa para desviar tua atenção e depois desaparecer diante de seus olhos, mas essa cadeira de rodas é um tanto lenta e barulhenta, he, he, he.

Lucas respirou fundo.

    — Não tem confusão, filho. É que demora pra tu se posicionar nessa nova realidade. Tá tudo diferente, mas não tá tudo perdido, nem tudo tão ruim. Você tem sempre que lembrar que agora só existe em e mal e que agora é a hora da verdade. Se você vacilar, nosso lado perde, se você se firmar, ter fé no teu poder, vai virar uma rocha, a rocha mais dura do planeta, vai passar pela provação e seremos Vitoriosos. É simples. É o bem contra mal.

— O senhor mencionou uma profecia...

     — Sim. — o velho fez uma pausa e passou a língua pelos lábios, molhando a pele fina. — Eu comecei a sonhar com essas coisas... no princípio não ligava... achava que era só o meu desejo de ver essa sombra maldita sumir do céu e nos deixar em paz, mas, depois, algumas coisas com que eu sonhava começaram a acontecer, num sabe? Sonhava desde coisas simples, como a cena de um jegue fugindo do dono e indo se esconder em tal lugar até coisas mais complexas.

     — E quando o senhor acordava, encontrava o jegue? — perguntou Lucas, assombrado.

     — Encontrei. Disse ao homem onde o jegue estava e pimba! O bichinho estava lá, num canto da floresta. Isto é só um exemplo bobo...

— Não, pra mim não é. O que mais o senhor sonhava?

     — É o que eu ia dizê, cabra. Quando comecei a perceber essas pequenas coisas, sonhar e antever a queda de uma mulher na feira, a invasão dos vampiros pelo muro três, certinho; a hora e o lugar... coisa que no meu sonho só se daria na semana seguinte... eu comecei a anotar os sonhos que eu me lembrava. Fazendo tais notas comecei a montar um quebra-cabeça. Eu via vocês, Lucas. Via vocês cruzando os pastos nessas roupas maravilhosas, via vocês montando tordilhos e arrancando a cabeça dos malditos vampiros. Eu percebi que, de alguma forma, o destino soprava no meu ouvido ventos que a vida ainda não tinha soprado. O destino deixava vazar para cabeça deste pobre velho o que estava por vir. A energia me escolheu, sem eu a escolher. Ela me contou o futuro e, então, com as peças desse quebra-cabeça doido eu escrevi uma profecia mais doida ainda, filho. Eu escrevi o romance que todos queriam ler. A história dos trinta cavaleiros de coração guerreiro. A história dos salvadores. O auto do homem que lideraria esse grupo até a vitória. A sua história, filho bento.

     — Mas, se não sou enviado de Deus, por que me chama de bento?

     — Lá vem você de novo com essa pergunta, menino. Ô diacho! Parece fixação! Tu é bento porque vai nos salvar. Apesar de estarmos no meio de uma piscadela de Deus, tu é uma benção, cabra. Abençoado seja o homem que nos livrará do medo da escuridão. Abençoado seja o homem que varrerá os malditos das terras escuras. Não é abençoado por Deus. É abençoado pelo coração, filho.

     — E por que o senhor diz que Deus não tem nada a ver com o que está acontecendo aqui na Terra?

     — Porque esse período de trevas não tá lá nas escrituras, bichinho. Deus está de férias e deixou que as energias do universo tomassem conta da casa, fizessem uma limpeza. Sonhei com isso também. O universo tá limpando a sujeira espalhada por aí. Não é só aqui na Terra que isso tá acontecendo, não. As energias do universo são as faxineiras mais esquisitas que eu já vi, meu filho. Só querem reduzir a bagunça esparramada por aí. Elas não tão escolhendo amarelo ou vermelho por lógica... só foram com a cara do amarelo, aí, dentro de vocês, guerreiros da gota serena.

— E onde eu me encaixo nessa profecia, senhor Bispo?

     — Eu sonhei, filho, que quando trinta de vocês fossem reunidos, quatro milagres iriam acontecer.

— Quais?

O velho suspirou e deixou os olhos passearem pela face do bento.

     — Isso não foi revelado a esse pobre velho. Contudo, tá bem claro que quatro milagres vão acontecer. E a soma desses milagres fará com que a vitória sobre os vampiros seja possível. Sem os milagres, filho, vencê-los será impossível... balela. Sem os milagres, estamos fadados a terminarmos escravos desses peçonhentos.

     Lucas notou que o Bispo parecia cansado. Respirava com maior dificuldade do que quando entrou na sala.

— Como vamos vencer, Bispo?

O velho balançou a cabeça negativamente.

     — Não foi dito, filho. Não foi revelado. Não sonhei com glória nem com derrota... sonhei com o caminho para a entrada do horizonte dos acontecimentos. Esse dom é uma tortura. Nos sonhos, a energia me dá as receitas, não me dá o bolo pronto... tenho que tatear no escuro, misturar as coisas com jeitinho... decifrar o que essa força cósmica tá me soprando no ouvido. — Bispo sorriu e balançou a cabeça. — Sorte a nossa essa energia ter procurado o nosso lado, caso essas receitas tivessem sendo sopradas nos ouvidos de nossos inimigos, restaria a nós cavar um buraco bem fundo para tentar escapar de uma sobremesa bem das amargas.

     — Mas... o que eu tenho que fazer? Onde estão esses homens bentos agora?

     — Nos sonhos me foi dito que quando trinta bentos estivessem despertos, o trigésimo iria guiar os demais. Iria levar as trinta espadas dos guerreiros ao norte e que os milagres se apresentariam onde repousa o coração do deus Tupã. Que a guerra será dura e muito sangue será derramado até esse dia. Que os números serão importantes. Vão e lutem o bom combate, além disso nada sei.

Bispo inspirou tentando encher completamente o peito.

     — Rezarei por você, Lucas. Vocês tem que ganhar. Tem que vencer os malditos. Eu nunca botei os olhos num dos bichos, mas dizem que são feios. Nos meus sonhos são como o capeta, tenho uns arrepios, acordo gritando "Sai de retro Satanás", principalmente quando sonho com aquela de tapa-olho. Tome cuidado com ela. Uns irmãos teus já viram essa peçonhenta na floresta. É bem perigosa. Ver na minha frente, de verdade, nunca vi. Mal saio dessa casinha. Nunca saí dessa cadeira de rodas desde que acordei.

Lucas crispou as sobrancelhas.

     — Não, não fui um adormecido como você. Não tive essa sorte. É que, uns meses antes dessa benção de mudança começar, eu sofri um derrame. Fiquei em coma por semanas, depois, quando acordei, era um vegetal. Não movia minhas pernas, não movia meus lábios. Não movia nada. Respirava por meio de aparelhos, comia por meio de sonda... estava com a vida perdida. Apesar de ter perdido a visão, minha audição funcionava. Podia ouvir o sofrimento dos meus filhos, da minha esposa. Podia ouvir o drama de ter um marido inválido, atirado numa cama de hospital com o futuro incerto. O pior era ouvir o que os médicos falavam, as piadinhas na UTI... ninguém sabia que eu podia ouvir tudo. E pensar. O pior era isso, amigo. Pensar. Ter consciência de tudo o que estava acontecendo com você. Encarcerado numa cabeça viva, amontoado num corpo morto. Naqueles dias estávamos a poucos meses da grande transformação. A vida corria normal. Ninguém podia imaginar, sonhar o que estava prestes a acontecer, exceto eu. Foi nesse período macabro que meus sonhos começaram. Acho que estive à beira da morte por dezenas e dezenas de vezes. Aquele negócio de túnel de luz... não vi túnel nenhum, cabra, mas por muitas vezes estive fora do meu corpo, sentado ao lado do meu leito hospitalar, olhando para a minha casca inválida. Eu era um espectro, uma assombração no corredor daquele andar de hospital. Não conseguia ir para longe do meu corpo... ficava preso ao meu sangue. Ouvia e via os médicos... os prognósticos eram sombrios. Os médicos não acreditavam na minha recuperação e não davam muitas esperanças para meus familiares, pediam que ficassem preparados. Às vezes, tudo voltava a ser escuridão e sabia que minha parte fantasma estava de volta ao corpo. Os prantos, as lamentações, a raiva, o desespero... tudo me fazia sofrer muito. Comecei a sonhar com a grande tragédia. Milhares de pessoas mortas. Aquelas criaturas medonhas. Desespero. Achei que já estava completamente doido. Doidinho, doidinho. — O velho fez nova pausa, mexeu rapidamente as mãos, dando apertos no encosto da cadeira de rodas. Recostou a cabeça no apoio da nuca, fechou os olhos e respirou em silêncio por alguns segundos. Sua pele enrugada parecia mais seca e os olhos mais cansados.

     Lucas pensou em levantar e chamar o alfaiate, mas antes que o fizesse o velho voltou a abrir os olhos.

     — Daí chegou o dia. A bendita noite em que tudo mudou. Muitos tiveram perdas. Muita dor. Choro. Mas eu sabia que aquilo viera para um bem...

—        O senhor realmente acha que esse evento trouxe algum bem? O velho meneou a cabeça afirmativamente.

     — Tenho certeza, filho. O ser humano tem essa mania de exaltar muito mais as perdas do que os benefícios de uma grande mudança... isso quando o evento tá ligado a mortes dos entes queridos, à perda de pessoas para a escuridão. Desde aquela noite, as mulheres não puderam mais ter filhos... talvez parte do pacote ruim.

— Que pacote?

     — Eu tinha 46 anos quando tive o derrame. Tava à beira da morte. Mas agora tu tá diante de um homem de 76. Tô mais acabado que qualquer senhor de 76 anos que tu conhece, pois, por causa da antiga doença, fiquei muito debilitado. Reparou como têm muitos velhinhos andando por aí?

     Lucas anuiu. Realmente tinha notado isso. A maioria das pessoas da vila pareciam ter mais de cinqüenta anos.

     — As pessoas não morrem mais de doenças, bento. As pessoas morrem de velhice ou por causa de um trauma. Leia-se: confronto com os malditos. As pessoas não morrem. Isso não é motivo para festejar? Não basta para chamar o evento de bendito? Quem tinha câncer, curou. Quem sofria de Alzheimer voltou a desenvolver suas funções com normalidade. Quem andava de cadeiras de roda, as abandonou. O pacote de benefícios é muito mais cheio que o das mazelas. Lucas alterou a expressão.

     — Tá perguntando o que eu estou fazendo aqui, não é? Precisava ver como eu tava naquela noite. Já te disse que estive morto por alguns minutos? Pois te digo que estive morto por horas, mas ainda tava ligado naqueles aparelhos... e acho que bastou para o sopro do destino me manter do lado de cá... e talvez tenha sido isso que chamou a atenção da energia. Ela deve ter se mordido de curiosidade com o fato de um morto agarrado na beira do precipício da morte ainda estar respirando... talvez tenha ficado tanto tempo me olhado que ela se engraçou com o meu charme e resolveu dar uma colher de chá para esse esqueleto cansado. Eu fiquei anos melhorando lentamente. O primeiro dos sentidos que voltou foi a visão. Finalmente voltava a ver e ouvir com os meus órgãos de carne. Tava largado num hospital, vivendo de favores de loucos que ainda perambulavam pela cidade. Meses depois, quando os sobreviventes começaram a ser reorganizar, fui trazido por uma equipe de resgate para cá, para São Vítor, nessa lonjura que Deus me deu.

     O velho fez nova pausa na revelação. Os olhos de globos amarelados continuaram em cima do jovem salvador sentado na sua frente. Percebendo que o rapaz continuava calado, boquiaberto com a história que chegava ao seu conhecimento, continuou.

     — Ao final de quatro anos podia falar e começar a comer coisas sólidas. Eu tava doido pra comer uma buchada, daquelas bem caprichadas. Coisa boa, bichinho. — o velho fez uma pausa, sorrindo e continuou. — Já consigo, num dia bom, até dar alguns passos, três, quatro, é verdade, mas tenho fé que voltarei a caminhar e a conhecer melhor esse novo mundo, montado no lombo de um bom jegue. Nada mau pra um cabra que já teve morto. E acho que foi muito bom o que me aconteceu. Esse tempo todo de clausura me serviu para meditar. Pra pensar. Pra entender. Os sonhos voltaram e começaram a me explicar sobre as forças do espaço negro, das faxineiras do Senhor nosso Deus. O universo é cheio dessas coisas estranhas. E esses benditos sonhos trouxeram de novo a esperança aos meus irmãos. Os homens têm muito medo da morte e, por isso, lamentam tanto o acontecido. Mas, repito pela milésima vez, nada de ruim aconteceu. Agora sabemos quem é nosso inimigo. A angústia tios tementes tem hora. É a hora em que o sol se põe, porque os vampiros vêm com toda sua fúria e selvageria. É uma gritaria da gota serena quando os bichos conseguem passar as muralhas. São tantos. Vilas inteiras são engolidas nos ataques. Eles fazem a parte deles. Também buscam a vitória e vão fazer de tudo para que vocês falhem. Mas, agora, nos dias de hoje, ao menos temos medo com hora marcada. Não precisamos mais temer andar na rua. Não precisamos mais desconfiar de um semelhante que cruza nosso caminho. Agora quem é bom é bom e quem é mau é mau. Não há mais a agonia e o desespero do dinheiro. Agora temos urgência é em conversar uns com os outros, em sermos unidos e irmãos. Ninguém dá bola pra gerente de banco e contas pra pagar... a gente dá bola pra altura do muro e para o pôr-do-sol. — mais uma vez o velho interrompeu o discurso inflamado para tomar fôlego, parecia esgotado.

— Posso ajudar, Bispo?

     — Acho que esse velho já falou demais por um dia, bichinho. Chame o Paulo, por favor. Venha me visitar uma hora dessas, vou te contar mais dessas coisas incríveis que tu perdeu. Vou instruir o Paulo pra te levar aos outros meninos. Seja um bento da moléstia. Não dê descanso àqueles malditos noturnos. O alfaiate e os demais já sabem de cor e salteado o que devem fazer.

     — De cor e salteado... — murmurou Lucas, com um sorriso bobo no rosto por reconhecer mais uma expressão de sua época em uso.

     Assim que o alfaiate levou a cadeira de rodas através da porta, Lucas viu-se sozinho diante da sala atulhada de objetos. Suspirou fundo. A cabeça cheia de informação. Sentia-se afundando numa realidade que não queria aceitar de pronto. Não estava preparado. Era muita responsabilidade. Era muita informação. Era muita fantasia. Impossível crer naquilo tudo. Queria virar fumaça e desaparecer. O encontro com Bispo servira mais para confundi-lo do que para esclarecê-lo. O velhinho falante parecia tirado de uma fábula incrível, de uma produção da Pixar. Ao menos soubera da boca do velho que de infarto não morreria. Não sabia se isso era bom ou ruim.

Paulo voltou e indicou a saída ao guerreiro.

     — Vamos, bento Lucas. Vou apresentá-lo aos seus parceiros de batalha.

    

     O sol mostrava claramente seu perigoso movimento descendente e cadente para os que estavam fora do portão. Mesmo assim, os soldados mostravam-se contentes pois, apesar da gasolina de Marcel ter acabado bem antes do posto de abastecimento, os demais alcançaram a meta e puderam socorrer o novato com rapidez. O posto de reabastecimento era um lugar conhecido apenas dos soldados mais experientes. Uma rocha apelidada de "O Grande Sofá", por causa do seu inusitado formato, indicava a proximidade do local. Parando alinhado com a rocha, era ainda preciso caminhar cerca de cento e cinqüenta metros em mata fechada, sem abrir passagem com facão para não denunciar o sítio estratégico. Guiando-se ainda pela rocha e por algumas árvores características do lugar encontrariam a picada já aberta, bem escondida, que terminaria num encerado camuflado por galhos. Debaixo do encerado, três folhas de madeirite tapavam a entrada para o buraco escavado, onde eram acondicionados dezenas de galões somando centenas de litros de gasolina, que era reposta periodicamente. Depois de reabastecidas as máquinas e recuperado o soldado, os motoqueiros rasgavam pela rodovia. Continuando nessa velocidade, venceriam a descida do sol.

     A confiança dos motoqueiros desfez-se quando viram a moto do puxador parada em frente a uma muralha de folhas verdes. Um obstáculo plantado no meio do caminho. Estavam a duas horas de São Vítor e chegavam agora às quatro horas da tarde. Não precisava ser um expert em matemática para concluir que a sorte não estava do lado daquele grupo naquela missão. Mesmo sem aquela árvore, chegariam com a noite começando... agora, teriam que rezar para chegar com vida.

     Ao encostarem ao lado do líder, um após o outro, foram retirando seus capacetes. Não havia outra palavra melhor para descrevê-los naquele instante do que decepcionados. A camada verde era compacta, mostrando existir ali muito mais do que um par de árvores frondosas cruzando a pista.

     Marcel saltou da moto, tão desnorteado, que a mil e cem foi ao chão. O novato correu até a muralha e começou a chutar os galhos mais próximos.

— Merda! Merda! Malditos filhos de umas putas!

— O Chorão vai começar de novo... — brincou Joel. Zacarias e Paraná não puderam conter o riso. Ao menos para

isso serviu o desatino do novato.

— Cala a boca, novato! — berrou energicamente o líder. Todos olharam para Adriano, espantados com o nervosismo. Marcel parou de atracar-se com os galhos e com os inúteis

xingamentos.

     Adriano repetiu o sinal de silêncio. Todos entenderam. Um barulho bem alto. Uma máquina. Um zumbido de um pequeno motor. O ruído aumentou de volume como se outra máquina se unisse à primeira, depois mais outra e mais outra, até formar um ronco possante.

     Os soldados trocaram nervosos. Reconheciam aquele ronco. Eram motosserras. Adriano sinalizou de novo e o grupo se dividiu. Quatro para a esquerda da pista, três para a direita. Engatilharam as pistolas. No flanco direito, Paraná gesticulou para Sinatra, que era o mais leve do grupo. Sinatra aquiesceu e começou a escalar galhos e troncos das grossas árvores que compunham a muralha verde. Do grupo de Adriano, o escolhido foi o Joel. O jovem negro também era magro e de reconhecida agilidade em escaladas. Apesar do sol ainda iluminar fartamente o céu e impedir qualquer ação dos noturnos, os malditos poderiam ter ordenado que um grupo de mulos fosse até aquele ponto da estrada e improvisasse aquele obstáculo. Os vampiros que haviam deixado o Rancho da Pamonha sabiam que tinham deixado para trás um grupo de soldados vivos. Tentariam a todo custo emboscá-los uma segunda vez. Os escravos de vampiros, em geral, não eram muito habilidosos com armas, mas eram um risco surpresa nas horas de luz, seja plantando explosivos em pontos estratégicos das muralhas pouco antes do sol cair, seja empoleirando-se em galhos altos à beira da estrada com rifles de longo alcance ou fazendo serviços como aquele: derrubar árvores para encurralar motoqueiros às portas da escuridão. As motosserras trabalhando deveriam estar partindo mais troncos de árvores antigas e fazendo-as cair no meio do asfalto, ampliando a dificuldade do obstáculo.

     Sinatra atingiu primeiro o topo do muro de árvores. Apesar do ronco ensurdecedor das motosserras, tomava cuidado para não partir os galhos e não chamar a atenção. Quando chegou ao cume e identificou o grupo que cortava árvores abriu um sorriso e praticamente saltou lá do alto de volta ao asfalto.

— Estamos salvos! — berrou.

     — São soldados de São Vítor! Tem um bento com eles! — juntou Joel caindo ao lado do amigo, dando as boas novas ao sofrido grupo de Adriano.

     Os homens gritaram vivas e, quase que ao mesmo tempo, atiraram-se contra a barreira, escalando o obstáculo.

     — Cuidado com isso, porque a gente tá descendo! — alertou o grandalhão Paraná.

     Os soldados pararam com as serras, erguendo os óculos de proteção. Os que estavam apenas vigiando o trabalho dos companheiros dirigiram-se ao grupo de Adriano, que saltava os ramos e toras, distribuindo abraços efusivos.

— Como sabiam? — perguntou o líder de Nova Luz.

     — O velho Bispo. Ele sonhou que teu grupo precisava de ajuda. — esclareceu Társio, líder daquele grupo de São Vítor.

— Bendito Bispo! — celebrou Zacarias.

     Os soldados, amigos de longa data, ainda trocavam apertos de mãos e abraços com os companheiros.

     — O velho nos avisou às oito da manhã... mas você conhece o Bispo e a mania dele de sonhar pela metade. Tivemos que esperar um montão até ele "montar" o sonho, o presságio. — resmungou Társio, tirando um cigarro caseiro do bolso. — Realmente vocês encontrariam problemas com esse amontoado de madeira na pista, mas a gente nada pôde fazer quando chegamos aqui mais cedo. É muito tronco! Se ele tivesse dito que era isso...

Adriano riu e deu tapinhas cordiais nas costas do amigo.

     — Metade do nosso grupo teve que voltar até São Vítor para buscar as motosserras. Chegaram há pouco. Tem uns dez minutos. Começamos a cortar agora. Até livrar a pista vai mais de hora e já são quatro e cinco. Felizmente, junto com as ferramentas alguém teve a brilhante idéia de trazer o bento Francis. — explicou, apontando para o guerreiro que também ria e confraternizava com os amigos.

     Francis era um dos bentos mais antigos, despertado sete anos depois do evento. Tinha altura mediana, rosto másculo, de pele bronzeada, com bigode estilo espanhol e um filete de barba que descia do lábio inferior até o fim do queixo. Da indumentária cabida ao combatente, para bento só faltava a capa vermelha. O peito de prata, com a cruz dourada incrustada ao centro, reluzia abundante, já que o sol da tarde incidia na rodovia. O tilintar característico da cota de malha de prata seguia os movimentos do guerreiro.

     Ainda observando Francis andar dentre os homens, ouviu alguém explicando para Paraná que, naquele trecho, a rodovia era muito estreita, parte por culpa do traçado, parte pela ocupação desenfreada da mata, o que havia permitido construir ali aquela armadilha perfeita.

     — Com o bento Francis com a gente, mesmo que escureça no meio do caminho, estaremos muito bem reforçados. E duvido que o quartel não mande mais uma patrulha, caso a gente não chegue até às cinco. — concluiu o líder de São Vítor, soltando a primeira baforada do cigarro caseiro.

     Terminado os cumprimentos, Adriano reuniu os homens para ver em que poderiam ajudar. As motosserras eram cinco e aproximar-se da área de trabalho com outras ferramentas de corte mais iria atrapalhar do que ajudar. O que poderiam fazer era revezarem-se na operação das motosserras e irem retirando o entulho de galhos e folhas do meio do asfalto.

     Adriano notou que uma das motos tinha uma carreta atrelada. Aquele acessório era muito usado quando precisam transportar mantimentos a mais ou, como naquele caso, ferramentas para áreas de trabalho distantes. Olhou para o obstáculo de madeira e ficou contente ao perceber que o equipamento partia galhos e troncos com rapidez. Engenhosamente, os soldados esculpiam uma passagem em "v" invertido, de altura suficiente para que as motos cruzassem os troncos primeiro. Concluiu que deixariam para amanhã a remoção definitiva do obstáculo. O sol baixava rápido, mas certamente a presença do bento manteria o grupo calmo e seguro. Sorriu sozinho ao agradecer a presença do bento, ao menos com ele por ali seu novato não cairia naquele ridículo berreiro novamente.

    

     Lucas tivera seu primeiro almoço farto desde que despertara no hospital de São Vítor. Comera batatas e vagens cozidas, um bocado de arroz e um generoso bife de vaca bastante acebolado. Frutas frescas, doces e suculentas completara a deliciosa refeição. Comera com Paulo e os alfaiates num refeitório coletivo, mas que, àquela hora, estava praticamente vazio. Talvez a grande parte da comunidade fizesse a refeição um pouco mais cedo. Lucas estava contente, pois o estômago não estranhava mais a comida sólida e o organismo parecia ter entrado num funcionamento aproximado do regular. A sede súbita desaparecera, bem como as tonturas.

     O refeitório não havia sido o destino imediato após saírem da casa de Bispo. Tinham tentado localizar um bento chamado Francis. Souberam que ele tinha partido com o grupo de Társio para a estrada. Ouviu Paulo perguntar por um outro nome. A pessoa procurada também não estava ali. Depois de recebidas as informações é que caminharam até o refeitório.

     Feita a refeição, o alfaiate e seus auxiliares levaram Lucas pela cidade em direção a um dos muros.

     — Bento Vicente está no muro da frente. Vou apresentá-lo e ficará com os seus. Eles é que sabem o que vão fazer daqui para adiante, eu sou apenas um alfaiate.

     O muro, que à primeira vista parecia bem próximo, exigia uma boa caminhada para ser alcançado. Lucas não cansava de observar o comportamento dos moradores de São Vítor. Sem dúvida um lugar pitoresco. A maior parte da vila que fora um campus universitário, um dia mostrava-se de topologia plana. Podia-se ver longe. Notou, junto ao muro para o qual se dirigiam alguns barracões rústicos e muitos trabalhadores, que só podiam ser agricultores, a existência de diversos canteiros com todo o sortimento de hortaliças e legumes. Podia ver também um campo de futebol de boas dimensões, com traves desprovidas de redes, dotado de gramado baixo e verdejante. Sorriu. Acontecesse o que acontecesse o brasileiro seria um eterno apaixonado por futebol.

     — Quando vai ser a próxima pelada? — perguntou Lucas, apontando para o campo.

Paulo sorriu.

     — Temos campeonatos disputadíssimos por aqui. O grande clássico é Horteiros versus Vaqueiros. Junta gente pra caramba. É difícil, mas, às vezes, aparece aqui o time do Caranguejeira. O Caranguejeira é líder de um grupo de malucos que ficam perambulando de cidade em cidade, rodando pelas estradas em um comboio de carros-fortes. Quando eles aparecerem, a pelada é da boa, todo mundo quer assistir. Você escuta os rojões a quilômetros de distância. É incrível. Uma zuada que não acaba. Quando estamos em tempos de calmaria até organizamos umas partidas externas ou trazemos visitantes para cá. Chamamos de Copa, mas, por motivos de segurança, essas copas não tem data para acontecer. As fortificações montam verdadeiras seleções. Cada jogo...

     — E um bom Corinthians e Palmeiras? — perguntou Lucas, fazendo graça.

     — Ah! Bons tempos aqueles. Sou palmeirense fanático... mas isso a gente não viu mais... nunca mais.

— É... uma pena, não?

     — Às vezes, acorda um jogador de futebol conhecido, é raro, mas já aconteceu. Tem uma fortificação perto de onde foi a cidade de São Paulo, chamada Esperança. Sabe quem é soldado lá?

Lucas encolheu os ombros, achando impossível adivinhar.

— O Cafú.

     — O Cafú do penta?! — perguntou admirado, a ponto de interromper a marcha.

— O Cafú do penta.

— Grande capitão.

     Lucas continuou com o sorriso no rosto quando voltaram a caminhar. Estavam chegando, faltando cerca de cinqüenta metros para alcançarem o muro. O sorriso insistia no rosto não só pela satisfação em saber que mais um rosto conhecido e familiar habitava aquela terra dos dias de hoje. Estava contente também por, imediatamente, ter reconhecido o nome e a pessoa. Indicava que, aos poucos, como o restante do organismo, seu cérebro também ia voltando a funcionar. Chegou até a ficar emocionado. Lembrava-se perfeitamente do Cafú. Jogador brasileiro que fora uma grande estrela para o tricolor São Paulo e depois fizera carreira exemplar no exterior. Lembrar do Cafú no final da copa de 2002, erguendo o caneco para bilhões de pessoas. Quem diria, agora era um soldado!

     — Nas horas vagas dizem que ele ensina a garotada de Esperança a jogar futebol. — continuou o alfaiate. — Ele despertou dez anos depois do evento. Aposto que foi duro para ele aceitar a realidade... Ele já veio jogar aqui com a seleção de Esperança. Foi um dia divertido.

     Lucas percebia saudosismo na fala do alfaiate. Um homem daquele tamanho, forte como um touro, falando feito criança. O rosto sulcado do alfaiate mostrava que, se já não tivesse passado, estava bem perto dos cinqüenta anos.. Rosto de homem experiente e vivido. Talvez a constituição física espetacular devesse ao fato mencionado por Bispo, de que as pessoas não ficavam doentes. Realmente tinha visto pessoas de faces coradas e a grande maioria de aparência excelente, vigorosas. Ao que se lembrasse somente o velho Bispo tinha parecido tão fraco, tão débil.

     O guerreiro olhou para o muro na sua frente. Daquela distância era obrigado a erguer a cabeça para alcançar o topo. Perto deles observou um imenso portão de madeira e ferro. Correntes de extensão indeterminada, enroladas em rodas de ferro. Parecia diante de uma obra medieval ou de um cenário de Tolkien. Havia soldados no topo do muro, vigias. Andavam um pouco e paravam, olhavam, olhavam, algumas vezes para ele e o grupo do alfaiate, depois continuavam andando.

— Que altura tem isso aí?

     — Primeiro foi construído com sete metros, mas era muito baixo e os vampiros, quando alcançavam o muro, pulavam com facilidade para dentro. Era impossível detê-los. Depois aumentamos para doze metros. Já não pulam com facilidade. Mas demorou um pouquinho para chegarmos a esse resultado. Vê como as faces do muro são lisas? Vamos subir para você ver melhor.

     Subiram por um corredor estreitíssimo, passando por degraus rudes. Ficou escuro por alguns metros e logo voltou a clarear com a luz do sol atravessando na boca de saída. No topo da muralha, Lucas encontrou um corredor de três metros de largura. Ao final da escada, pela qual subira, notou uma porta metálica, prateada, que serviria para selá-la, provavelmente na iminência de uma invasão.

     — Vem ver. — chamou o alfaiate, debruçado sobre a parte externa do muro.

Lucas aproximou-se.

— Olhe como esta parede é lisa.

     Lucas passou a mão. Realmente era lisa e a julgar pela viscosidade aderida em sua mão...

     — Isto é óleo vegetal. Quando sobra a gente passa pelo muro nos pontos estratégicos, porque é difícil cobrir o muro inteiro. Mas, só pelo fato de termos alisado as paredes com essa massa, já prejudicou bastante para o lado dos noturnos. Antes, quando a gente tinha deixado no tijolo cru, aqueles demônios subiam isso como se fosse uma escada. Eles têm umas unhas duras, cravam em tudo. Tome cuidado com as unhas deles quando estiver em batalha.

     Lucas estava mais impressionado com o baque quente que tinha tomado no rosto quando se debruçou sobre a muralha do que propriamente com o obstáculo de pedra. Por cerca de um quilômetro a visão era de um Saara. A areia branca refletia a luz do sol e provocava aquela sensação de calor. Os olhos doíam com tanta luz. Enxergou dois pontos negros a longa distância. Pareciam duas árvores secas, uma no extremo esquerdo do campo visual e outra no canto direito. Muito além delas começava uma linha verde que deveria ser uma floresta. Logo entendeu a razão de ser daquela desertificação. Não haveria como não perceber a aproximação de alguém bem antes que este estivesse próximo o suficiente para oferecer risco. Aquele deserto era uma proteção. Olhando para a direita, Lucas viu uma parte coberta da muralha que serviria para proteger os soldados do sol. Próximo a eles, havia um homem apenas. Paulo conversava com esse soldado. Nesse instante, saindo das sombras, Lucas viu um outro homem, forte, de rosto rude, deixando o abrigo. Lucas ergueu-se, olhando-o fixamente. Sentiu um arrepio percorrer o corpo quando bateu os olhos na armadura prateada com a cruz dourada no meio do peito. A capa vermelha daquele homem estava bem desbotada e as bordas inferiores com a proteção marrom de couro já bem gastas. Era um bento!

     Lucas sentiu um suor frio brotar da testa. A confusão mental aumentava conforme as passadas do homem traziam-no em sua direção. Um bento de verdade! Lucas sentia-se prestes a ser desmascarado. O homem, bem mais alto e forte do que ele, parou em sua frente e cruzou os braços. Ficou olhando para Lucas, medindo-o com evidente desdém.

     Paulo aproximou-se com um sorriso nos olhos e com as mãos juntas.

— Esse é...

     — Calado. — interrompeu secamente o bento. — Fale quando eu perguntar.

     O bento contornou Lucas, que apesar de portar altura mediana, longe de ser um baixinho, media dois palmos a menos que o brutamontes encapado.

     Lucas percebeu no peito do guerreiro uma imagem de São Jorge igual a sua que, por culpa das proporções corpóreas diferentes, a do bento dava a impressão de ser uma peça bem menor do que a que Lucas carregava no traje.

     — Então, esse é o tal? O bento que vai nos guiar contra os vampiros. Que vai tornar certa nossa vitória... — o bento fez uma pausa e sorriu. — Essa eu quero ver de perto. — começou uma risada, que só foi acompanhada pelo soldado próximo.

     Lucas queria sumir dali. Se na presença de um deles já se sentia impostor e incapaz, como seria quando os outros viessem para vê-lo? Queria virar fumaça e desaparecer.

O bento enxugou as lágrimas nos olhos.

     — Ah, essa coisa de profecia me mata. Desculpe minha sinceridade, mas estou surpreso. Esperava um colosso. Um campeão. Mas você é tão pequeno que chega a ser engraçado.

     Lucas inclinou a cabeça, nervoso. Tinha uma espada na cintura. Tinha acordado numa terra estranha. Não tinha ouvido falar em cadeia. Mais uma gracinha e iria tirar a arma da bainha. Assim acabaria logo com aquilo. Com alguma sorte, seria esquartejado na primeira briga.

     — Meu nome é Vicente. Bento Vicente é como me chamam. — apresentou-se o grandalhão.

     — Eu já vou indo, bento Lucas. — despediu-se Paulo, com a voz desanimada. — Deixo-te com teu irmão, que vai te explicar como serão as coisas daqui para frente.

     Paulo precisou abaixar-se para sumir pela passagem que dava nas escadas, voltando para seus ajudantes, lugar onde não era hostilizado pelos semelhantes, onde sentia-se bem melhor do que ali, na presença de bento Vicente.

— Você já viu um vampiro, bento? — perguntou o grandalhão.

— Eu matei um vampiro.

     — No hospital, lógico. Só assim para dizerem que você é um bento. Às vezes eles erram sabe. — disse Vicente, afastando-se alguns passos. — Mas, um vampiro da floresta... você ainda não viu, não é?

     — Não. Hoje é o meu primeiro dia do lado de fora. Fui falar com o Bispo e...

     — Os vampiros do hospital não contam. Eles são novos. Não sabem usar as armas que têm. Você precisa ver um vampiro da floresta. Um vampiro antigo, criado no mundo. São o bicho. Esses são de verdade.

— O cheiro ruim é o mesmo?

     Vicente encarou Lucas por alguns segundos sem responder. Olhou fundo nos olhos do bento.

     — Então você é um irmão, mesmo? Se sentiu o cheiro, sem chance, é um filho da mãe dum caça-vampiros. Agora ferrou. Logo você? Você é muito pequeno. Estamos perdidos.

— Quer saber um segredo?

     Vicente olhou para o soldado que estava próximo e gesticulou para que o homem se afastasse. Fez um aceno com o queixo para que Lucas desembuchasse.

     — Eu também estou perdido. Não sei o que vim fazer aqui ou por que me meteram nessa roupa. Antes de acordar naquela droga de hospital nunca tinha matado um mosquito sem pedir desculpas.

     — Acho que aquele velho tá caducando. Ele nunca errou nessas paradas de sonho. O que acontece é que ele sonha pela metade direto, meu. Sonha pela metade. Mas sonhar errado nunca tinha sonhado. Acho que com você é a primeira vez. Onde já se viu mandar alguém do teu tamanho para guiar um bando de soldados? Ninguém vai te obedecer. Cê nem tem jeito de casca-grossa, parece uma bailarina, ninguém vai botar fé. Não quero nem ver.

     — Você pode ter até razão, mas não precisa ofender. Bailarina? Você já se olhou no espelho?

Vicente fechou o rosto e aproximou-se ainda mais de Lucas.

     — Escuta aqui, resto de bento, não vem com graça pro meu lado que você não me conhece. O que eu tô falando é coisa séria. O bento Francis tá fora numa missão e quando ele chegar vamos começar a arrumar as coisas para ir atrás dos outros. Tô falando que você não pode ser o cara. Não sei nem se agüenta com essa espada. Quando o bicho pegar quero ter do meu lado alguém que saiba fatiar vampiro. Se você é especial vai ter que mostrar a que veio. Lá na floresta, de noite, não pode nem piscar. Quando os vampiros descobrem um bento, juntam um bando cem vezes maior que o nosso. Nossa carne vale ouro. Sabem que atrasam nosso lado quando matam um dos nossos... e pra reunir essa galera toda que fala a profecia do velho Bispo, vamos ter que viajar de dia e de noite. Se me chamar de bailarina de novo, te quebro a cara.

     — Foi você quem me xingou primeiro. Se eu sou um bento vim para somar. Não sei brigar essa briga, mas vocês têm que me ensinar.

     — Aqui não tem professor, velho. Espera outro bento chegar pra tu ficar na bota dele, eu não gosto de ficar pajeando recém-acordado. É tanta pergunta que a gente fica tonto. Tem nego que tem paciência. Tem nego que não tem. Eu não tenho. Meu negócio é ficar nesse muro e ficar de olho em quem chega e em quem vai. Se for depois do pôr-do-sol, meu trabalho é furar quem chega, não preciso nem perguntar. Depois do pôr-do-sol, é melhor ficar longe dos muros. É só essa lição que vou te ensinar.

     Bento Vicente deu as costas para o novato e atravessou a parte coberta, de onde surgira anteriormente, para alcançar outro corredor da muralha.

     Lucas preferiu ficar ali onde estava. Qualquer lugar longe do bento Vicente seria melhor do que em sua companhia. Voltou-se para o lado da cidade. Recolocou a touca da cota de prata sobre a cabeça. O sol estava bem mais baixo e supôs aproximar-se das três da tarde. Lucas observou São Vítor mais uma vez. Sentimento estranho. A cabeça dizendo que ali era sua casa agora. Nada parecido com as movimentadas e congestionadas ruas de São Paulo. A uma hora dessas, se estivesse no trabalho, estaria voltando do almoço, pois deixava para almoçar sempre um pouco mais tarde. Poderia estar dando uma volta no Parque Trianon ou mesmo estar passando pelo vão livre do Masp. O escritório ficava na Pamplona. Apesar do estresse diário, gostava da empresa, dos amigos. Ao tentar lembrar-se do pessoal do escritório, os rostos pareciam embaçados e os que se revelavam não sabia se eram fisionomias reais ou coadjuvantes emprestados pela imaginação, mas sabia que gostava muito do pessoal do trabalho. Odiava o trânsito. Apesar do metrô a uma quadra do prédio, preferia dirigir o próprio carro, contribuindo com o crescente volume de emissão de poluentes. Como reflexo dos pensamentos, olhou para o céu. Nada daquela nuvem cinza-amarronzada no horizonte. Ar puro. Delicioso. Tudo estava diferente de fato. Rostos felizes nas pessoas. Isso também era outra diferença gritante. Em São Paulo de sua época, se parasse na rua para cumprimentar desconhecidos, era capaz de ser tachado de louco. Apesar da breve passagem no meio do povo, esse parecia muito mais fraterno. Talvez a impressão viesse do fato de Lucas ser uma celebridade. Debruçado sobre aquele muro, passou mais de meia hora observando a paisagem. Reparando no trabalho monótono, porém ininterrupto dos agricultores. Ao longe viu o que parecia um rebanho de vacas movimentando-se, pacatas. Lembrou-se da menção que Paulo fizera ao time dos vaqueiros. Viu um prédio imenso que passara despercebido em suas andanças com o alfaiate. Só podia ser o complexo do Hospital de São Vítor. Por que era tão grande e cheio de médicos se as doenças haviam sido erradicadas com o advento da Noite Maldita? Sem doenças não precisariam de médicos! Voltou a olhar para a face desértica. Reparou na estrada que cortava a areia branca. O asfalto terminava justamente nos portões de São Vítor. Voltou para a face interior. A rodovia não terminava! A alameda principal de São Vítor, por onde andara com o grupo do alfaiate e passara pela praça principal, era rodovia. Sorriu com a descoberta. Engenhoso. Mais algum tempo passou até que dois homens se aproximassem. Um mediano, da sua altura, e outro mais baixo e magro. O mais baixo era o que estivera no muro e fora afastado por Vicente. Estavam com expressões de bons amigos e logo estenderam a mão para Lucas.

     — Sou Amaro, líder de um grupo de soldados daqui de São Vítor. Satisfação em conhecê-lo.

— Meu nome é Carlos. Trabalho com Amaro.

— Lucas.

     — Não ligue para o jeito idiota do bento Vicente. Ele é assim com todo mundo. Entendemos que ele é especial, pois luta contra os vampiros como ninguém, destemido que só, duro é ter de engolir essa arrogância. — explicou com a voz calma o líder Amaro, que aparentava cerca de sessenta anos e tinha os cabelos completamente grisalhos.

     Lucas ia responder quando foram interrompidos por um burburinho vindo do portão, na parte interior da fortificação. Olharam pelo muro. Havia um grupo de trinta pessoas mais ou menos. Um homem surgiu ao final da escada e chamou Amaro.

     — Dia de escala é sempre assim. — disse Carlos, vendo Amaro descer pela escada.

— Escala?

     —   É. Toda terça-feira sai a escala semanal das torres. Lucas acompanhava interessado a explicação do soldado.

     — Tá vendo as torres? — perguntou, apontando para o par de espigões negros que Lucas julgara serem duas árvores secas. — Temos seis no total. Duas desse lado. Mais duas no muro dois. E mais duas na parte sul. Abrimos essa faixa de mil metros ao redor da fortificação toda. Com os postos avançados podemos ver tudo que se mexe sobre a areia, de dia e de noite.

     — Vocês pensam em tudo. Já teve muita briga aqui em São Vítor?

     — Pô! Essa fortificação é um dos centros estratégicos dos sobreviventes. É aqui que concentramos boa parte dos adormecidos. São trazidos para o hospital. Vêm de todo canto. Quase todo dia chega um carregamento. E os adormecidos valem ouro para os sanguinolentos. Eles também caçam os adormecidos e têm um estoque como o nosso. Sabemos onde é, mas é impossível de invadir.

— A fortificação é intransponível?

     — Quê? Esses bastardos têm o estoque deles num lugar que não é fortificado. Sabe onde os desgraçados guardam os adormecidos?

— Não tenho idéia.

— No antigo Hospital das Clínicas.

— Hã?! No HC? Na Dr. Arnaldo?

— É. O lugar tá dominado.

— Mas, e se formos de dia? Não conseguimos acabar com eles.

     — Meu, São Paulo virou um ninho de vampiros. Graças a Deus estamos bem longe daquela tumba a céu aberto. Se você entra naquela arapuca, tu não sai mais. Tem noção de quantos prédios têm em São Paulo? Cada um deles tomado por trepadeiras e verdadeiros ninhos de vampiros. É medonho. Tu olha para aqueles arranha-céus, todos ocupados por vampiros. Quando cai a escuridão você só escapa por milagre... aliás, quando escurece tu não tem para onde escapar.

— Mas de dia eles não atacam, atacam?

— Não. Mas de dia o HC é vigiado pelos mulos...

— Escravos de vampiros.

     — Isso. Os mulos ficam em posições estratégicas. Quando vêm nossas motocicletas ou tropas aproximando-se, abrem fogo sem dó. Eles querem mais é ver o circo pegar fogo. Depois que a baderna começa, tentam acertar a gente só nas pernas. A sorte é que a maioria é grossa na pontaria. Eu já tive numa emboscada dessa. As balas passavam zunindo, mas tudo longe. Os que são bons no gatilho vão para as armas de longa distância, manja aquele lance de sniper? Pois é. Eles viram snipers. Esses são os venenosos. Pegam bem no olho. Como diria o bento Vicente, com sniper é sem chance. E esses mulos, escravos, são doidos para virar vampiro. Dá pra acreditar num treco desses? Cê tem noção? Viver de tomar sangue de gente. Deve ser que nem droga. Vicia. E a maioria dos mulos é um perigo porque a maioria deles foi banida de alguma fortificação por andar fora da conduta. É gente do mal.

     — Cara, não dá pra acreditar. Vampiros e loucos dominando as cidades.

— É. E tem mais.

— O que pode ser pior que isso?

     — Quando as pessoas fugiram das cidades, deixaram para trás os cães. Cê já parou pra se perguntar quantos cachorros viviam na Grande São Paulo naquela época?

— Milhares?

— Milhões.

— Pode crer. O que aconteceu com os bichos?

     — Piraram, bento. Piraram. Não tinha ninguém para cuidar deles e, ironicamente, apesar de viverem nas cidades, tornaram-se selvagens. Comiam o que encontravam pela frente, organizaram-se em matilhas gigantescas, fazendo surgir um novo tipo de flagelo ambulante. As matilhas de cães urbanos. Eles tomaram as ruas, atacam tudo que se mexe.

Lucas balançou a cabeça. Não dava para acreditar.

     — Com o tempo, com a comida e as pessoas rareando nos arredores, os bichos começaram a atacar até mesmo os vampiros ou até mesmo as matilhas rivais. Tem hora que é pior topar com uma matilha de cães urbanos do que topar com os malditos, bento. É foda.

— De dia cães e mulos. Que fauna!

     — Ih, se eu fosse te atualizar de tudo, você pirava antes de sair daqui. A noite são os vampiros que não dão descanso. Eles são ardilosos. Tramam. Todo dia tem ataque. Se não é em São Vítor é em Éden Novo. Se não é no Éden, é em Nova Luz. É uma guerra, cara. Uma verdadeira guerra. É por isso que tá essa confusão aí embaixo.

     Lucas olhou pelo muro. Amaro conversava com a delegação nervosa.

     — Sempre que sai a escala alguém discorda e vem ter com o chefe, porque é ele que organiza a programação. Ninguém, cara, ninguém quer ir para as torres.

     — É um trabalho de responsabilidade. Tem que ficar de olho aberto.

     — É um trabalho ingrato, bento. Você vigia os muros para a coletividade e quando vê o bando dos vampiros chegando tem que dar o sinal. Pronto. Já era. Você tá indo para o sacrifício. Porque quando dá o sinal e dispara os foguetes, os vampiros sabem que na torre tem gente e já era para quem está vigiando. Acabam com a dupla que tiver lá em cima. É quase certeza que vão te apagar, são poucos que escapam nessa situação. Depende da vontade dos vampiros, não da nossa. Eles estão longe demais para a gente ajudar com eficiência. Quando recebemos o sinal disparamos o alarme, vêm todo mundo pro muro. Nossos snipers tentam salvar o pessoal da torre que deu o alerta, o resto manda bala nos invasores. Os bentos são nossa última defesa, quando o combate parte para o corpo a corpo. Aí vocês são as feras da guerra. Os vampiros têm o maior cagaço de bater de frente com vocês. Sorte suas. Conosco voam na jugular na hora. De vocês nunca tomam o sangue. É tipo um ácido para os caras. Não sobra nem o pó.

— E os bentos? Não ficam com medo? Não fogem da briga?

     — Como se vocês pudessem... — resmungou o soldado. — Vampiro e bento são iguais a gato e cachorro. Vocês querem mais é ver o oco. Nunca vi um bento bater em retirada. É por isso que a gente tem medo quando os vampiros vêm em grande número. Vocês só param depois de mortos. E toda vez que morre um bento, cara, a vila fica ruim por semanas.

— Sério?

     — Sério. Porque demora para acordar um bento. Já chegou a demorar mais de um ano. Teve semana que surgiram dois, mas é raríssimo. Demora meses. E nunca chegávamos no número. A profecia falava trinta. Já vi nego aqui dando a vida no combate para que os bentos não levassem a pior. Graças a Deus você acordou. A profecia cumpriu-se. São trinta bentos. Agora é com vocês.

     Pouco a pouco, conversa a conversa, Lucas sentia-se montando o quadro real do mundo em que se encontrava. Era um mundo cheio de sangue e batalhas. O planeta havia submergido novamente na idade das trevas.

     — O Amaro dividiu a vila em três grupos. Todo mundo, menos as mulheres e os bentos, vão para as torres. Mulher só se for voluntária. Esses três grupos correspondem a um rodízio trimestral. Então, durante três meses você tá na lista e, cedo ou tarde, acaba indo para a torre. Às vezes, passa o trimestre inteirinho sem ser agraciado, mas pode ter certeza que no próximo turno do seu grupo você vai estar no topo da lista. Com isso você fica três meses tensos, seis meses tranqüilos e assim vamos tocando o barco. Esse modelo é copiado na maioria das fortificações. Apesar de ser democrático, sempre tem discussão quando sai a lista da semana.

— Por que o Amaro não prepara a lista do trimestre inteiro?

     — Porque já é arriscado pra caramba fazer com uma semana de antecipação. Explico: a gente não sabe quem vai estar vivo amanhã, bento. Quando alguém morre numa invasão, ninguém quer substituir o cara. Dá o maior azar puxar guarita no lugar de morto.

     Lucas entendeu o problema. Desviou o assunto quando viu uma série de garrafas de vidro cheias de água empilhadas e amparadas num canto.

— O que é aquilo?

— Água benta.

     Diante do silêncio do bento que andara até perto das garrafas, Carlos continuou.

     — Água que vocês benzem. Serve para jogar na cabeça dos vampiros. Eles derretem que é uma beleza. Pena que vocês façam tão pouca água benta.

— Quanta água um bento faz?

     — Por dia? Dá um barril de quarenta litros. Se fizer mais, ela fica fraca e vai ficando fraquinha até que não funciona mais. E o bento que força a água fica uns dias sem conseguir fazer. Por isso é melhor fazer um pouquinho por dia.

— Como é que eles fazem essa água?

— Vou lá saber. Você que é bento! Não eu. Você que tem que saber.

Lucas sorriu e recolocou a garrafa de água benta no lugar. Um sino soou repetidas vezes.

     Lucas colocou as mãos em concha acima das sobrancelhas para diminuir a luz e melhorar a visão. Procurava a torre de onde o sino retinia.

     — Onde vai ser a missa? — perguntou, ao notar que algumas das pessoas haviam parado os afazeres e passavam a andar apressadas.

     — Não é missa, não. É o sino das cinco da tarde. Anuncia que falta pouco para anoitecer. Depois do bater do sino, os cidadãos, menos os soldados, claro, estão liberados das tarefas. A maioria vai para casa, tranca tudo e esconde-se debaixo da cama. Tem gente que é menos preocupada, tranca tudo e dorme em paz... particularmente, eu não durmo direito. Durmo bem depois que amanhece. Esses veados nunca vão me pegar sem luta. Quando eles passam o muro, é a pior coisa do mundo. É um deus-nos-acuda, porque nunca passa um sozinho. Passam dez, passam cem, passam mil. Não sei se é sorte ou azar, mas como aqui tem o hospital, a maioria vai para lá. Querem tomar o controle do hospital por causa dos adormecidos. A nossa sorte é que os ataques desses vampiros são muito desorganizados, porque se fossem bem comandados, bento, ninguém ia tá aqui para contar a história. Seriam imbatíveis e tu teria acordado um dia desses dentro de uma caverna escura.

     Lucas olhou para o horizonte. O sol caía rápido. A luz do dia ia mudando gradualmente. Amaro subiu as escadas, literalmente, salvo pelo gongo. Com o aviso do sino os reclamantes afastaram-se e deixaram livre o comandante.

     — Carlos estava me explicando sobre o rodízio nas torres. Se não tem remédio, por que reclamam tanto?

     — A queixa não é tanto pela responsabilidade. Como você mesmo disse, não tem remédio. O problema é que a vigília é feita em dupla, por vinte quatro horas. Começa as dezessete e trinta de um dia e termina as dezessete e trinta do dia seguinte. Os homens reclamam muito dos parceiros. Às vezes, o camarada que caiu com você no sorteio é meio dorminhoco, não ajuda muito ou morre de medo. Por conta dessas diferenças, chegam aqui irritados. É difícil agradar a gregos e troianos, mas vamos levando.

— E quanto a vocês, soldados?

     — Sabemos contra o que estamos lutando. Mesmo assim, quando estamos lá na vigia e justamente no nosso turno vemos a mancha de olhos vermelhos chegando, flutuando feito capetas alados... filho, vou te contar, dá um frio no espinhaço. Você está entre a cruz e a espada. Às vezes, os malditos ficam naquela pressão psicológica. Armam as fileiras no limiar da floresta. Você vê aquele mar de olhos em brasa queimando o escuro da mata. É feio. Você não sabe o que vai acontecer. Aí um dos vigias fica olhando, enquanto o outro vai preparando as bichonas. Tem que deixar as armas prontas pra mandar fogo. Já deixa também os fogos no esquema. Rojão de seis tiros avisa que a mancha está indo para a cidade. Rojão de três tiros coloca os guardas de prontidão no muro. Mas aí é que tem homem que vacila lá em cima. Até soldado já deu pra trás. Quando você dá o tiro de prontidão, dá tempo da vila inteira preparar-se, porque aqui dentro fica todo mundo de sobreaviso. Os soldados nos muros e nos postos estratégicos e os cidadãos todos trancados, debaixo da cama, prontos para o combate final se tudo der errado... é raro, mas às vezes dá errado. — o líder Amaro fez uma pausa, olhando demoradamente para ambas as faces do muro. — E ao mesmo tempo em que o vigia salva a vida dos que estão na vila, coloca a própria em risco. Depois do aviso é segurar o cano e rezar.

Lucas e os soldados fitaram demoradamente a torre à esquerda.

     — Como eu disse, às vezes, os malditos fazem só uma pressão, uma tortura psicológica. — continuou o líder veterano. — A mancha fica na beira da floresta e depois de minutos, horas, recua e some na escuridão. Quando decidem atacar, vão passar pela torre e em retaliação ao aviso dado, matam os vigias. Uma vez ou outra, a gente garante daqui o pessoal da vigia, mas quando os noturnos são muitos, não tem jeito.

     — Como é que se mata um vampiro... aquelas lendas que ouvíamos...?

     — Vampiros não morrem, são destruídos. É como na lenda mesmo. Já assisti coisa que até Deus duvida.

— Mas se não morrem, como vocês fazem?

     — Tem algumas formas de destruí-los. Decapitá-los com uma lâmina de prata. Já era. Por alguma razão, ferimentos feitos com a prata no corpo do vampiro não cicatrizam. O bicho tá acabado. Mas logo que você arranca a cabeça dele tem que tomar cuidado com o corpo, porque ele não está morto ainda. Mantenha-se longe das garras do vampiro decapitado, pode ser fatal. Tiros de bala de prata também apavoram bem as feras. Usamos balas que se fragmentam quando entram no corpo dos malditos, mas elas não surtem o mesmo efeito que em nós, humanos, danam bem menos os safados, talvez porque internamente eles sejam mais moles que a gente. Vem ver. — convidou Amaro.

Lucas seguiu o líder até a cobertura sobre a muralha.

     — Aqui, debaixo do telhadinho, fica o armamento extra. Cada soldado é responsável por sua arma. Quando soa o alarme já vem com o rifle e munição. No tempo de vacas gordas, a gente deixa o municiador inteiro com pontas de prata. As balas são só banhadas no metal, não carece de ser maciço em prata. No período de vacas magras os municiadores são intercalados, prata, chumbo, prata, chumbo.

     Lucas viu uma parede com duas dúzias de rifles pendurados. Uma caixa com grande quantidade de pentes de munição prontos para uso. Uma arma maior chamou a atenção. O cano de disparo tinha mais de um metro e meio. Parecia uma metralhadora. Apontou para o artefato.

— Essa é nossa "deita-corno". Lucas sorriu.

     — É o nosso trunfo. Uma metralhadora ponto sessenta. Derruba até avião. — continuou o líder de voz mansa. — Ela é que ajuda a deitar a maioria dos vampiros no areião. Quatro balas comuns, uma de prata. Um arregaço. Mas, às vezes, nem ela basta. Temos três em São Vítor. Eram dezessete. Como agora estamos na lei da sobrevivência e da solidariedade, levamos as outras para fortificações menos guarnecidas. Temos que dividir tudo, até água benta se for necessário.

— E aquela história de cruz, alho e estaca?

     — Estaca no peito funciona. Mas, depois, tem que decapitar com espada de prata porque se alguém tira a estaca do peito do bicho ele acorda de novo. Cruz eles não encostam, mas não tem medo, não. Alho não funciona. Não bebem é sangue de bento. Parece que é ácido para eles. O melhor remédio mesmo é o sol. A profecia diz que quando os trinta bentos se juntarem, vamos vencer os malditos. Acho que vamos ter sol dia e noite ou melhor, dia e dia. Deve ser isso.

     Lucas mirou o horizonte. Uma assombrosa quantidade de pássaros voava em grupos distintos, embelezando o disco rubro que se escondia atrás das árvores. O céu estava vermelho e carregado de nuvens que refletiam ainda mais lindamente a luz minguante. Emocionou-se com a força da natureza. Não se lembrava ter visto pôr-do-sol mais belo em toda sua vida. Contudo, um misto de confusão e ansiedade não o deixava aproveitar o cenário. Era a primeira vez que via o sol mergulhando no horizonte e a noite começando a chegar. Nem mesmo a variedade de aves passando, a visão de grupos imensos de tucanos, garças e mais um sortimento impressionante de aves aplacavam aquela sensação de desalento. Estaria ele aos pés do bento Vicente? Seria mesmo ele um salvador? Difícil de acreditar.

    

     Mal o sol caiu no horizonte deixando um rastro de luz vermelho arroxeada, a temperatura começou a baixar. O vento de morno passou a frio. Lucas ficou contente por estar dentro daquela roupa quente. Podia ver, de tempos em tempos, o bento Vicente na outra seção da muralha, que chamavam de muro dois, com permanente cara de poucos amigos e jeito nervoso.

     Lucas fixou o olhar no areião. Tinha visto, cinco minutos atrás, dois homens chegarem na torre da parte esquerda, quase simultaneamente com a dupla que se conduziu para a torre da direita. A guarda rendida encontrava-se agora a caminho da cidade fortificada. Vinham caminhando rapidamente, decididos, em menos de dez minutos estariam dentro de São Vítor.

     Amaro e Carlos estavam ao lado do bento e pareciam calmos, sentados em banquetas pequenas, peças rústicas feitas de duas partes de madeira, semelhantes a uma letra "T". Um terceiro soldado veio do muro dois com uma tocha acesa e começou a acender outras tochas espetadas em lanças altas acima do muro. Lucas voltou-se para a cidade e viu o ritual sendo repetido nas residências distantes do muro e notou luz em algumas ruas.

— No hospital havia luz elétrica. Não usam aqui?

     — A gente usa luz onde é mais necessário. Temos um holofote no topo da cobertura, que serve aos dois muros, mas não usamos muito. A luz é reservada para o hospital, para a escola, para o refeitório e para o quartel. Atendemos alguns pedidos especiais. Perto da fortificação, subindo o rio, mantemos uma pequena barragem onde geramos energia, mas não seria o suficiente para a vila toda. — explicou o líder Amaro.

     Neste instante, alguns soldados começaram a aparecer pela boca da escada. Estavam sorridentes e aproximaram-se em silêncio.

     — Sou Matias, líder do terceiro grupo de São Vítor. Vim assim que pude para conhecer o novo bento. — apresentou-se o homem simpático, de olhos puxados e traços indígenas.

     Matias não era muito alto, mas bastante forte, como a maioria dos soldados que Lucas tinha observado. Ao menos, confortava saber que lutaria ao lado de homens bem-feitos e que, certamente, seriam habilidosos em combate.

     Mais dois líderes apresentaram-se. Um mulato chamado Willian e um oriental apresentado como Chen.

     Todos foram simpáticos e mostraram-se contentes em finalmente verem desperto o trigésimo bento e de descobrirem, de uma vez por todas, até onde ia a veracidade da profecia. De acordo com as histórias proclamadas pelo velho Bispo, de agora em diante, os vampiros estariam com os dias contados. A conversa continuou animada. Os soldados explicavam para o incrédulo bento como eram os vampiros e tentavam imbuir-lhe de coragem, dizendo artimanhas e pontos fracos para derrubar o maior número de feras possível. O clima descontraído por parte dos soldados só foi quebrado quando ouviram o estalar de um rojão de tiro único. Como cães de caça, em um segundo estavam todos juntos ao muro, olhando em direção à floresta. Lucas olhava para a torre de onde viera o disparo, vendo a fumaça de pólvora desfazer-se no ar.

     — Um só, bento sortudo. Ainda não era hora de mostrar a que veio. — bradou a voz forte de Vicente, vinda do muro dois.

     Lucas espantou-se mais com a possibilidade de ouvir tão bem Vicente, mesmo estando ele tão longe, do que propriamente com a mensagem carregada de maldade.

     — Finalmente. — disse Amaro, debruçando-se sobre o muro e sinalizando para os soldados que haviam descido correndo.

— O quê? — quis saber o bento novo.

     — Um tiro só diz que o vigia está vendo gente nossa chegando. É a patrulha de Társio. Já não era sem tempo. Willian já estava organizando o grupo para sair atrás do Társio. — explicou Carlos.

     Não demorou muito para que o rugido das motos enchesse o ar. Amaro fez novo sinal para os soldados postados ao lado do grande portão. Os homens começaram a girar uma roda de ferro que estendia um cabo de aço que, por sua vez, tracionava o portão. A imensa peça de madeira e ferro começou a deslizar, deixando o asfalto livre para quem quisesse entrar. Notou que os soldados em cima do muro estavam tensos e seguravam as armas de prontidão. Até mesmo um deles preparava a potente metralhadora, baixando uma portinhola de madeira debaixo da cobertura. Dessa forma, o cano da metralhadora tinha na sua frente todo o deserto branco sob a mira.

     Olhando para a estrada, o bento viu o surgimento de luzes de faróis. Um comboio com mais de quinze motocicletas aproximava-se em alta velocidade. Duas vinham um tanto mais para trás, mesmo assim desenvolvendo mais que oitenta quilômetros por hora. Lucas não tinha calculado, mas desde que apontaram saindo da floresta, até cruzarem os portões, não havia se passado um minuto.

     Carlos conversou rapidamente com Amaro e retornou para o lado de Lucas.

     — Vamos até o quartel. Você vai ser apresentado ao bento Francis.

     Lucas engoliu a seco. A última apresentação a um bento não havia sido uma boa experiência. Não sabia o que o futuro lhe guardava, mas sabia que se aceitasse aquela missão, se aceitasse aquela realidade, deveria travar bom relacionamento com os bentos.

    

     Chegando ao prédio vigiado, retangular e cinzento, passaram pelo portão principal, que dava imediatamente na garagem. As motos estavam desligadas e as unidades mais próximas ao portão irradiavam calor, indicando que pertenciam ao comboio recém-chegado. Numa delas, uma Harley, vinha atrelada a um carrinho de eixo duplo e cercado de madeira. Dentro dele, em cima de um cobertor velho, viram um homem maltrapilho, desacordado.

     Carlos empurrou uma porta dupla de vaivém e conduziu Lucas pelo corredor. Os soldados que cruzavam com o novo guerreiro cumprimentavam com a cabeça. Alguns, mais animados, demonstrando simpatia, outros meramente formais, dando pouca atenção. Mais uma porta de vaivém e chegaram a um novo salão tão amplo quanto a garagem da entrada. Vários soldados conversavam e riam alto, mas a figura que capturou a atenção de Lucas foi a do homem que trazia uma armadura prateada, semelhante à sua, no peito. Diferindo de seu traje, no outro não existia a capa vermelha, nem mesmo desbotada como estava a de Vicente, e também não havia a touca. Quando o homem de peito prateado viu Lucas também parou com a conversa. Abriu um sorriso largo, de dentes bem cuidados e brilhantes, e caminhou decidido com a mão enluvada estendida para Lucas.

— Então você é o tal? O trigésimo bento? Que satisfação!

— Esse é o bento Francis. — juntou Carlos.

     Lucas não poderia ter melhor recepção por parte de um semelhante. Teve uma boa impressão a respeito daquele sujeito. Não era um brutamontes como Vicente, nem mal-humorado. Apesar desse bom sentimento, mais uma vez ficou intimidado pelo vigor físico demonstrado pelos veteranos. Lucas sentia-se raquítico, doente. Talvez, por isso, alguns dos soldados olhassem enviesado para sua figura franzina, pensava. Todos, sem exceções, pareciam bem mais fortes que ele.

     Depois do cumprimento de mão, bento Francis emendou um abraço fraterno no recém-desperto, fazendo seus peitos de metal baterem um contra o outro.

— Qual é o seu nome? — perguntou, afastando o trigésimo do peito.

— Lucas.

     — Lucas. — repetiu o bento, olhando firme nos olhos do novo bento e colocando as mãos nos ombros do rapaz. — Seja bem-vindo.

O novo bento ficou mudo.

     — Com sua chegada, tudo muda. Esta noite, que seria comum como outra, ganha importância histórica. Vamos falar com Vicente mais tarde, temos muitos preparativos para realizar. Amanhã, ao amanhecer, partiremos em nossa missão profetizada. Temos agora que reunir os trinta abençoados para que tenha início a salvação de nossa terra.

— Não sei se estou preparado...

     — A preparação é na raça, nenhum bento tem escolha. Antigamente, antes das universidades, os engenheiros, médicos, mecânicos se faziam na prática. Ninguém chega preparado para esse mundo, Lucas. Você será um bento prático. Vai aprender a dominar sua força. Medo não existe, acredite em mim... essa é nossa sina. Bater com os vampiros até a morte, a mente fica leve e vazia de temores, você fica selado na espada e a única coisa que interessa é arrancar cabeças de malditos noturnos, esquivar dos ataques e arrancar mais cabeças de vampiros, exatamente nessa ordem.

— Não sei se sou o tal salvador...

     Os soldados presentes a essa altura já haviam rodeado os dois guerreiros. Francis colocou as mãos nos ombros de Lucas mais uma vez.

     — Você é nosso salvador. Você é o trigésimo bento. Isso nunca aconteceu antes, então é você, não tem erro. Está escrito na sua testa: "Eu sou o cara". Você é o salvador, não duvide disso.

— Diga isso para o seu amigo grandalhão, o Vicente.

     — Nosso amigo grandalhão, Lucas. Nosso. — destacou Francis, rindo ao final da afirmação, mantendo as mãos nos ombros de Lucas. — Vicente tem aquele jeito mas não pode fugir de nossa sina. Pode até não querer participar, mas quando chegam os vampiros, não tem jeito. Vicente tem muito para te ensinar, já matou mais vampiros que qualquer outro bento. Temos uma contagem para incentivar. Um score. Aquele grandalhão carrancudo já abateu mais de seiscentos vampiros nesses anos. É um Pelé da espada.

Lucas sorriu.

     — Fique tranqüilo. Todos nós vamos te ajudar. Só precisamos reunir os outros.

     Os soldados juntaram-se a Francis em exclamações coletivas de incentivo. A vida de todos estava em jogo.

     — Estou indo ao hospital agora. Encontramos um ex-morador de São Vítor no caminho para cá, na beira da estrada. Eu não lembrava do sujeito, mas um dos soldados o reconheceu. Parece que foi mandado embora porque roubava coisas das casas dos outros moradores, isso não é tolerado por aqui... mas como está desacordado, e parece que vinha buscar ajuda em São Vítor, para mim não é correto largar um moribundo na estrada. Fiz votos para tratar os necessitados, não posso negar o que vai no meu caráter. Deve ter passado fome e estar desacordado de fraqueza. Por que não vem comigo? Assim conversamos mais.

     Lucas atendeu prontamente e, juntos, mais Carlos, seguiram para o pátio de entrada do quartel. É claro que estava curioso em conhecer mais daquele mundo ao lado daquele que diziam ser seu semelhante. Mas o que logo veio a cabeça de Lucas foram um par de olhos verde-acinzentados e lábios largos e sensuais. Talvez tivesse sorte de encontrar com a sua linda doutora Ana.

     Francis pediu que Carlos conduzisse a motocicleta com a carroceria até o HGSV, enquanto caminhava ao lado do novato.

     No trajeto que levou quinze minutos de caminhada pelas ruas mal iluminadas por luz que escapavam das frestas de algumas janelas ou por tochas chamejantes espalhadas aleatoriamente, Francis explicou que sete anos depois da Noite Maldita ter desencadeado os fatos ele despertou num pequeno hospital na região de Cabo Frio, Rio de Janeiro. Naquela época, os sobreviventes já viviam em pequenos povoados fortificados que começavam a montar-se em São Vítor, a dias de viagem dali. Pouco sabia-se sobre os bentos, mas já existiam seis. Os homens viravam lendas vivas por conta de atos destemidos e combates memoráveis contra as investidas vampíricas em suas vilas. Logo Francis ganhou fama igual e da germinal São Vítor chegou uma mensagem. Estavam reunindo os bentos em São Vítor e era imprescindível que estivesse lá em poucos dias. Explicou que foi nessa ocasião que o velho Bispo também começara a ganhar fama por conta de suas previsões certeiras e por conta do esboço da profecia. Começava a acender esperança entre os sobreviventes. Francis falava pausadamente e, muitas vezes, parava para olhar nos olhos do novato e passar algo com mais emoção ou então ajeitar os bigodes finos e bem aparados, que pareciam dois triângulos com as bases unidas abaixo das narinas do homem de pele morena.

     Francis revelou também que foi em São Vítor que começou a lembrar-se de sua vida passada. Parecia que o destino estava colocando-o no lugar certo. Participar da organização do Hospital Geral foi fundamental para reavivar sua memória. Francis tinha sido médico do Hospital das Clínicas, na São Paulo viva. Com o passar de mais alguns meses, lembrava-se quase de tudo. Explicou para Lucas que não deveria ter pressa em recuperar a memória. Era como mágica. Você está amarrando uma pamonha, quando de repente, záz! Vai voltando tudo. O bento veterano explicou também que, em pouco tempo, Lucas poderia ter acesso ao seu prontuário no HGSV Alguns adormecidos contavam com essa vantagem, graças a um trabalho heróico desenvolvido por uma gangue de motoqueiros, que vivia próxima à distante Osasco.

     O relato curioso e vivo de alguém que presenciou e protagonizou passagens sombrias e cruciais na recente história humana foi cortado quando chegaram ao hospital.

     Contrastando com as ruas escuras o salão era bem iluminado por lâmpadas fluorescentes c o ambiente dotado de limpeza e harmonia exemplar. Lucas viu o homem desacordado deitado numa maca. Carlos apontou para Francis quando entraram. Uma moça de roupas coloridas deu a volta no balcão e começou a fazer perguntas. Precisava saber onde tinham encontrado o homem, em que condições, nome, coisa que ninguém sabia. Francis explicou o que pôde e disse que, pela manhã, deveriam chamar o pessoal mais velho da vila para reconhecer o ex-morador e, inclusive, fazer chegar ao conhecimento do líder Amaro o exato porquê daquele homem ter sido expulso da fortificação. Disse inclusive que o homem deveria ficar sob vigilância de um guarda o tempo todo, até que o conselho decidisse o que seria feito dele após a recuperação. Francis destacou Carlos para a vigília inicial. O soldado pareceu contrafeito a princípio, pois estava escalado para o muro e não tinha falado com ninguém sobre ficar no hospital escoltando um maluco achado na estrada. Francis disse que precisava resolver coisas com Lucas e que, assim que retornasse ao quartel, pediria para alguém vir imediatamente substituí-lo. Carlos resmungou qualquer coisa e acabaram chegando num acordo. Quando um enfermeiro levou a maca para dentro, Carlos desapareceu pelo corredor, seguindo a maca. Não deveria desgrudar os olhos do paciente.

Francis virou-se para Lucas.

— Vem. Vou te mostrar o depósito.

— Depósito?

— É. O lugar onde guardamos os adormecidos.

     Lucas aquiesceu. Acompanhou por intermináveis corredores o novo companheiro. Alguns trechos menos iluminados que outros. Logo estavam em corredores cobertos do chão ao teto pelos conhecidos azulejos brancos. Um elevador. Lucas ouviu a máquina funcionar e sentiu uma leve brisa escapar pela fresta central da porta. Quase um minuto até que a luz do carro surgisse do outro lado da porta. Entraram. O novo bento notou que no painel havia oito botões. Sensação de dejavu. Oito número diferentes... estranho. Não havia oito andares no prédio. Francis apertou o último abaixo. A máquina começou A descer, pareceu acelerar. O elevador era largo e fundo. O suficiente para carregar duas macas. Parou abruptamente, forçando a flexão dos joelhos do homem surpreso. As portas abriram. Ao invés de um caminho livre, uma nova porta de metal. Um painel com um visor de cristal líquido. Francis digitou rapidamente no painel numérico. Um alarme rápido e seco soou. A porta deslizou de cima para baixo. Lucas seguiu o parceiro. As botas estalavam contra um piso metálico.

     — Cuidado! — avisou Francis. — Qualquer coisa, segure no corrimão.

     Lucas não entendeu a advertência, de toda forma andou com mais cautela. Esperava uma escada perigosa ou uma descida íngreme. Nada disso encontrou. Via só uma luz fraca quinze metros adiante e um vento forte cortante vindo dos pés, que parecia atravessar o piso metálico.

     — Aqui é o depósito. Todos os adormecidos recolhidos nessa região são trazidos para cá, para centralizarmos a operação. Como você mesmo viu, não é só gente normal e bentos que despertam do sono. Tem também os malditos. Mesmo desorientados e fracos pelo acordar recente, são bem perigosos... se conseguirem tomar a primeira dose de sangue, então.

     Chegaram no fraco ponto de luz. Francis girou um botão. Lucas ouviu um zumbido demorado, como de um flash carregando e, de repente, as luzes começaram a acender. Lucas agarrou-se ao corrimão como aconselhara o amigo. Sentiu uma vertigem inesperada. Estavam numa passarela metálica suspensa no topo de um imenso vão. Não podia mensurar a distância até o chão porque a vista não alcançava. Na sua frente, distante uns dez metros da passarela suspensa, um piso repleto de macas e sobre cada uma delas um corpo coberto por um lençol branco, deixando apenas a cabeça descoberta. Eram tantos! Não podia contar e estava olhando para um andar apenas! O piso repleto de macas repetia-se à sua direita e sua esquerda. Só não existia acesso na parede terminada no elevador, que era lisa até onde a vista alcançava.

— Quantos andares?

— Sessenta andares subterrâneos.

— Sessenta?!

     — Sessenta. Aqui vocês são hidratados e monitorados. Capacidade de mil e seiscentos adormecidos por andar. Até o vigésimo subsolo todos estão em macas. Dali para baixo todos estão em cima de colchonetes produzidos aqui mesmo. Somos responsáveis por oitenta e três mil vidas humanas aqui. Tem muito, muito mais gente aí fora ou em poder dos malditos.

— São mortos pelos vampiros?

     — Mortos? Você não tem noção... Os adormecidos tratados pelos vampiros são até melhor preservados do que aqui.

— Cê tá brincando?

     — Nada. Os adormecidos são fonte de sangue inesgotável aos malditos. Sangue vivo. Credo. — Francis fez um sinal da cruz sobre o peito metálico.

— Nossa! Tem mais gente aqui embaixo do que lá em cima.

— Tem.

     Lucas olhou para o teto. Grandes hélices giravam lentamente provocando a corrente de ar.

     — Mantemos um eficiente sistema de ventilação que garante oxigênio abundante dia e noite..

     — Nossa... é impressionante. — murmurou o novato, debruçado sobre a grade e olhando para as intermináveis fileiras de corpos deitados. — Com não morrem?

     — Ninguém sabe. Ninguém nem quer mais pesquisar. Com certeza está ligado ao fato de não adoecermos mais. Ninguém morre de gripe, de câncer ou derrame. Os corpos definham um pouco, mas você vai ver, logo vai ganhar força como nós, seus músculos voltarão à forma antiga ou até melhor. Os adormecidos não têm escaras, feridas que se formam em razão da imobilidade. Não sofrem infecções hospitalares, não têm infarto, falência múltipla, nada. Só morrem se for por falta de oxigênio. De fome só morrem os despertos. Por isso, contamos com um avançado sistema de vigilância. Luxo destinado ao subsolo apenas, pois não temos abundância em energia elétrica. Usamos câmeras com visão noturna que trafegam em trilhos fixos no teto de cada andar. Voluntários também cuidam da patrulha diária para monitorar esse exército de gente em estado de hibernação. Ao menor sinal de movimento, vêm os enfermeiros remover os recém-acordados para cima.

— É impressionante.

     — Você ainda não viu nada, Lucas. É impossível absorver todas as novidades no primeiro dia. Você vai ficar com essa cara de espanto por mais uns seis meses ainda. Estou até estudando com o conselho formar uma espécie de cartilha para o recém-desperto estudar. É muita coisa, muita informação. Todos se sentem perdidos.

     — Põe perdido nisso. Estou até tonto. E o pior é acordar e saber que você é o cara que tem que pôr um ponto final nessa desgraça.

     — Nem tudo é desgraça nessa nova vida, meu amigo. Tem muita coisa boa acontecendo também. Talvez eu sinta até saudades quando esse inferno todo passar. Quero que os vampiros acabem, só isso. Nossa vida vai bem assim... sem os dentes deles.

     Lucas balançou a cabeça anuindo, mas, pessoalmente, achava difícil que alguém realmente sentisse falta daquela vida, sem os confortos de outrora.

     — Vamos. Temos que chamar um guarda para render o Carlos. Ele tem que voltar para o muro. A escala não pode ser quebrada.

     Em cerca de seis minutos estavam fora do hospital. Francis explicou mais alguma coisa a respeito do estoque. Todos os adormecidos possuíam um prontuário anexo à maca e uma etiqueta no dedão, como corpos no IML. Os prontuários tinham quase nada de informações médicas, mas sim um histórico a respeito do paciente. Diziam onde foram encontrados, em que condições, o possível endereço residencial e informações de onde estavam os familiares. Em muitos casos, as pessoas conseguiam reencontrar a família. Uma vez a cada dois meses, eram montadas tropas para escoltar os adormecidos que tinham família até as fortificações onde seus parentes deveriam residir. Tinham direito a uma tentativa. Dali para frente deveriam se arranjar com o pessoal da cidade destino. Alguns desses prontuários eram mais recheados, contendo fotografias, documentos, agendas, CDs com arquivos de programas, DVDs, coisas que poderiam ser úteis para a memória do recém-desperto. Esses prontuários "bônus" eram conseguidos por gangues fora das muralhas, como a mencionada anteriormente pelo bento veterano.

     Em instantes voltaram para as ruas mal iluminadas. Tinha esfriado bastante. Lucas ergueu os olhos para o céu. Já tinha escurecido completamente e o firmamento encheu gloriosamente a visão do novato.

— Nossa!

     — Falei, Lucas. Esse espanto não pára. Vai ser um "Nossa!" atrás do outro.

     Lucas sorriu e apressou o passo para acompanhar o veterano. Estavam a meio caminho do quartel quando ouviram em alto e bom som três explosões repetidas. Estacaram.

     — Rojão de três tiros... — balbuciou Lucas, com os olhos demonstrando surpresa.

     — Vampiros! — bradou Francis, começando uma corrida em direção ao muro.

 

     O horteiro Feijão e o mecânico Ivan tinham chegado ao pé da torre esquerda religiosamente às dezessete e trinta. Traziam uma mochila com mantimentos para as vinte e quatro horas de vigília. A dupla rendida descia rapidamente a escada vertical de madeira. A prática fazia com que os vinte metros de altura não intimidassem mais os homens. A torre, feita uma casa na árvore, era montada no alto de um corpulento tronco de jequitibá. O posto era relativamente espaçoso, cabendo os dois homens de plantão. Enquanto um descansava sobre um colchão fino, o outro ficava sentado no chão de tábuas, atento. Tinha à disposição uma potente luneta, uma moranga de barro para a água fresca e uma rústica peça de ferro fundido, bem estreita, de um metro de altura, terminada na extremidade superior por uma caixinha ventilada, onde tentavam manter brasas acessas para a feitura do café ou qualquer coisa quente para ingerir. Os últimos dias haviam transcorrido com relativa calma nos postos de observação, mesmo assim, as primeiras horas na torre eram tensas, pouco papo e muita reza. A nova dupla sempre chegava quando sol já estava tocando a mata, em pouco menos de uma hora já seria noite fechada e os vampiros poderiam atacar a qualquer momento. Pior ainda era essa sensação para as duplas que cuidavam das torres um e dois. Por razões desconhecidas, os vampiros idiotas preferiam esse caminho. Ou iam em direção ao muro um ou corriam para o muro dois. Eram burros os vampiros, pois os muros do lado sul eram mais baixos, no entanto eram desprezados pelas criaturas. Ser vigia da torre três ou da quatro despertava alívio. Feijão sequer lembrava de ter ouvido falar de morte nas torres sul. Os malditos sempre vinham pela um ou pela dois. Dificilmente também atacavam as duas ao mesmo tempo. Feijão, corpulento, remexeu a mochila. Retirou embornais com frutas. Um com mangas rosas e outro trazendo um bom tanto de jabuticabas negras e roliças como o horteiro e algumas mexericas cheirosas. Feijão também tirou da mochila duas marmitas. Dentro dos refratários o jantar da dupla. O almoço do dia seguinte seria trazido por alguma boa alma pela manhã. Por último puxou um potinho com pó de café. Voltou-se para o braseiro e reavivou as chamas. Primeiro passaria um café do jeito que gostava.

     Ivan, um mato-grossense, habilidoso mecânico que fora acolhido em São Vítor junto com o pai e a mãe há dez anos, também foi até a mochila. Dela retirou a munição. Olhou para o canto onde o equipamento de trabalho na torre jazia. Dois rifles e duas dúzias de municiadores cheios. Balas não faltariam. Introspectivo, costumava falar somente quando lhe perguntavam, mesmo assim, caladão, gozava de boa fama com os amigos de trabalho, era tido como pessoa agradável e gentil. Uma boca fechada faz muitos amigos, pensava ele. Ivan tinha casado ali mesmo em São Vítor. Cida, sua esposa, viera também do Mato Grosso, mas de uma cidade muito a noroeste de Cuiabá, fazendo quase divisa com Rondônia. Ivan compadecera-se da mulher que tinha perdido uma criança para o lado das trevas. Um menino de nove anos tornara-se vampiro na grande mudança. Cida e o filho caçula adormeceram naquela maldita noite. Ela acordara doze anos atrás. E a alegria só veio a esquentar um pouquinho o coração da mulher quando o filho, o caçula, acordou do sono inexplicável. Ivan, que havia consolado por conversas seguidas o coração de Cida, viu-se contagiado pela felicidade da mulher. Sentia-se bem ao lado dela e do filho caçula. Não demorou muito até entender que não conseguiria mais viver sem aquelas duas pessoas em sua vida e o casamento veio como conseqüência natural.

     Feijão estendeu um copo com café fumegante para o vizinho, que terminava de checar as armas. Feijão também era uma figura quieta e dava-se bem com o parceiro de cabelos ruivos e pele sardenta. Olhou para a floresta, trezentos metros à frente. A luz minguava rapidamente. O cruzeiro de tochas no areião tinha sido aceso pela dupla rendida. Eram quatro latões cheios de óleo que queimavam e emitiam uma luz flamejante que dançava e variava de alcance de acordo com o vento. Olhou para a torre dois. O cruzeiro da dois também ardia e permitia boa visão do areião. Mas a luz das tochas acabava muito antes da floresta, o que não chegava exatamente a ser um problema para o trabalho, uma vez que os malditos vampiros possuíam olhos que ardiam feito brasas quando se preparavam para o ataque. Era impossível não vê-los. Muitas vezes, os olhos treinados na tarefa detectavam até mesmo um único par de olhos chamejantes correndo pelos galhos, feito macaco esperto, mas que de macaco não tinha nada. Esses bichos eram assassinos empoleirados, procurando um momento de distração ou de fraqueza da cidade para, mais uma vez, investir contra os muros, tentar lograr os soldados e invadir o hospital de São Vítor.

     Como não era muito de conversa, Ivan, sentado no chão de tábua, colocou a caneca de ferro esmaltado e de pintura gasta pelo uso em cima de um banquinho à sua direita. Feijão olhava pela estreita janela de vigilância. Existia uma espécie de varanda que contornava a torre quase que inteira, mas depois do pôr-do-sol a porta de acesso à área interna ficava sempre fechada. Ivan tirou da mochila um estojo de madeira. Era seu equipamento de limpeza. Fazia parte do seu "fazer hora". Como tinha que ficar vinte e quatro horas enfurnado na torre, matava o tempo limpando os rifles. Às vezes, repetia a tarefa três vezes durante a espera. Desmontava e limpava minuciosamente. Deixaria para desmontá-los depois do amanhecer, esse cuidado durante a noite não convinha. Por hora, bastava um lustro para começar a matar o tempo. Espalhou um produto de cheiro forte num paninho velho e começou a limpeza superficial da arma. Esfregava a coronha da arma para tirar a gordura aderida pelo contato com os parceiros menos prendados. Tinha estado no movimento monótono de vaivém com o pano por um bom tempo, desanuviando, quando seus olhos bateram de relance na caneca do amigo negro. A caneca não parava quieta, com respingos do líquido preto indo ao chão. O beiço proeminente do camarada subia e descia sem controle. Ivan sentiu o sangue esfriar nas veias. Feijão estava tremendo dos pés à cabeça. Colocou-se de joelhos e espiou pela janela. O coração disparou e um suor frio brotou na testa. Não no plantão deles! Não podia ser! Engoliu a seco e trocou um olhar com Feijão. O negro parecia ter retomado parcialmente o controle, posto que só a caneca chacoalhava, derrubando o café pelo assoalho. O horteiro tirou os olhos escancarados da janela e fixou-os em Ivan.

     — É agora, irmão. — balbuciou Feijão, voltando os olhos para a floresta.

     Pares de brasas rubras dançavam inquietas entre os galhos das árvores. Umas saltavam ao chão, outras pareciam voar. Em poucos segundos, o número dobrou e, no final de um minuto, a floresta em frente a torre um parecia estar em chamas.

     Feijão, ainda trêmulo, mas ciente do dever, apanhou o rojão de três tiros.

     — Espera, irmão. Espera. Pode ser que eles se vão. — pediu Ivan, segurando o braço do parceiro, que já procurava a trava no teto do cômodo para disparar o alarme.

     Feijão engoliu saliva, os olhos não desgrudavam da floresta. Mais um minuto que pareceu levar um ano. O número de brasas crescendo.

— Eles vão invadir, Ivan. Nunca vi tanto vampiro.

     — Deus do céu! Cuida do meu filho e da minha mulher, meu Deus. — pediu Ivan, fazendo o sinal da cruz. — O que a gente faz, senhor?

— Calma, homem.

— Eles vão acabar com a gente, Feijão.

     — Nunca vi tanto vampiro, Ivan. Se a gente dá o aviso antes pelo menos a vila tem alguma chance... e melhora para o nosso lado também, porque vão começar a atirar neles antes de alcançarem a torre.

     — Santo Deus! Faz o que tem que fazer, Feijão. Dispara logo essa merda! Ai, Pai do céu! Nós estamos fritos! — praguejou o mecânico, colocando o cano do rifle através da janela. Os olhos não paravam, acompanhando, arregalados, o crescente movimento dos malditos na mata adiante.

     Feijão espetou uma brasa do braseiro e levou até o pavio do rojão. Enquanto ouvia o pavio consumir-se, Ivan recolheu o rifle rapidamente. Retirou a corrente com um crucifixo do pescoço e enroscou na ponta do cano da arma. Estremeceu quando ouviu a explosão do disparo seguida de três explosões. O alerta estava dado. Voltou a colocar o cano do rifle através da janela estreita em altura, mas larga na horizontal. O crucifixo dançava de lá para cá denunciando o tremor da arma.

     Feijão apanhou seu rifle também. Estava pronto para o uso. Ivan já tinha deixado o equipamento no jeito. Retirou do saco na parede o rojão de seis tiros. O coração batia acelerado e agora os olhos estavam fixos na mancha. Os olhos negros do horteiro refletiam a floresta envolta em chamas espectrais. Nunca tinham visto tantos vampiros.

    

     Vicente ergueu os olhos para o céu. Três disparos. Vampiros. Sentiu o característico embrulho no estômago que antecedia o combate. O alvoroço começou no muro. Não precisava gritar ordens. Os líderes de tropa é que comandavam os homens, mas depois de tantos anos de confronto, todos sabiam mecanicamente o que tinham de fazer. Não se passaram três minutos até que um caminhão parasse perto do muro e de lá descessem os guardas extras de muralha. Mais um minuto até que todos estivessem em posição. Snipers nas posições mais altas e dois soldados montando a metralhadora "deita-corno".

     Vicente já tinha deixado o muro e procurava pelo bento novato. Agora era a hora da verdade. De saber se aquele magricela realmente era quem diziam ser.

    

     Ao passarem em frente ao quartel, bento Francis apanhou uma motocicleta. Lucas vinha na garupa. Pararam bem antes do muro. Enquanto saltava da moto, Lucas teve um braço agarrado por Vicente, que se aproximou com sua capa desbotada esvoaçando.

— Hora da verdade, bento.

     — Não se preocupe, Lucas. Isso faz parte de nosso ritual de iniciação. É uma brincadeira entre iguais. Uma espécie de prova final.

     Lucas viu os braços agarrados pelos bentos. Foi arrastado até o meio de duas toras de árvore enterradas na areia.

— O que é isso?

     — Relaxa, Lucas! — gritou Francis. — Se fosse para o seu mal eu não estaria fazendo isso. Você não confia em mim?

     Lucas, desorientado, disse que sim, enquanto via os pulsos serem atados em algemas de ferro. Grossas correntes davam a volta nos troncos de madeira e agora terminavam em seus punhos. Estava preso. Como queriam que lutasse assim?

— Não posso lutar assim! — bradou Lucas.

— Um bento de verdade pode! — respondeu Vicente, rindo no final.

     — A profecia diz que você é especial. Então vai ter que nos mostrar porquê. — juntou Francis.

— Eu não posso lutar assim.

— A profecia diz que você vai salvar o mundo dos vampiros.

— Eu não sei lutar contra vampiros. Vocês têm que me ensinar!

     — Pára de chorar, mocinha. Se você é especial vai tirar esse batizado de letra.

     A argumentação foi quebrada quando ouviram seis tiros espocando. Era o aviso final.

     — Rojão de seis tiros, Lucas! Hoje é seu dia de sorte! Lembra o que isso significa?

     — Significa que eles estão vindo. — respondeu o novato a Vicente.

Francis colocou-se de joelho e começou a orar. Vicente aproximou-se de Lucas e agarrou-lhe brutamente o rosto pelo queixo.

     — Todo mundo fala que você vai dar um jeito nesse inferno. Quero só ver. Aposto que você não agüenta nem erguer essa espada.

     — E se eu não for o tal? Como vou me salvar, preso nessas algemas?

     — Se você não é o tal por que deveria se salvar? Se a profecia for uma farsa, é melhor que você seja morto pelos vampiros para pagar a derrota do povo. Para sua sorte esses noturnos são rápidos.

     Vicente afastou-se, andando em direção ao muro. Francis terminou a oração e ficou de pé. O peito de prata luzia, refletindo a chama das tochas ao redor.

Disparos esparsos eram ouvidos do muro.

     — São os snipers, Lucas. Quando começar a ouvir a artilharia pesada do muro é porque eles estão por perto. Se os snipers pararem de atirar é porque os caras das torres já eram.

— E vocês, quando vão ajudar?

     — Só quando os vampiros cruzarem o portão e o cheiro dos malditos seqüestrar nossa sanidade. Aí vamos nos engalfinhar e só vamos parar quando todos estiverem mortos. Eles ou nós.

     Lucas abaixou a cabeça. Um suor frio descendo da testa, escapando da touca de prata. O cheiro. Estava sentindo aquele maldito cheiro. O fedor horrível que Gabriel exalava no hospital. Sentiu os olhos arderem. Chacoalhou as correntes. Queria sair dali. Vampiros duma figa! Tudo culpa deles! Por que tinham que estar ali? Tinha arrancado a cabeça de Gabriel. Tinha colocado as tripas do homem para fora. Ia fazer o mesmo com aqueles desgraçados! Deu um puxão na corrente. Francis olhou para trás. Sorriu para o bento agitado. Lucas passou a respirar pesado, enchendo todo o peito e depois soltando o ar lentamente. Os ouvidos captando as explosões sucessivas. O muro todo começou a atirar. Francis estava falando alguma coisa para Vicente, de costas para Lucas, mas o cérebro do novato não queria ouvi-lo. Os tiros espocando. Os olhos acompanhando os homens do muro que gesticulavam, fazendo sinais, erguendo as armas. Dor de cabeça. Aquele fedor horrendo tomando as narinas. Os olhos ardendo como se pegassem fogo. A escuridão mudou. Um brilho no céu. Os tons mais claros tornaram-se amarelados. Os guinchos e grunhidos das feras. Lucas dobrou os joelhos e também grunhiu. Francis parecia começar também a sentir a aproximação dos vampiros. O bento veterano deu alguns passos para frente. Lucas fechou os olhos e o céu amarelo, por causa da luz bruxuleante emanada pelas tochas nos muros e nas casas, desapareceu. Era como se tivesse perdendo os sentidos.

— Se prepara, Lucas, eles estão chegando!

     Vicente fez um sinal da cruz e desembainhou a espada. Ouvia os gritos dos soldados e das feras. Um soldado caiu do muro para a parte interna da fortificação. Duas flechas cravadas no peito. Maldição!

    

     Ivan não parava de atirar. A preocupação estampada no rosto. Atirava e rezava. Se ao menos Feijão pudesse ajudar. O coração quase parava quando a munição acabava e perdia segundos preciosos na substituição do cartucho vazio pelo carregado. Feijão estava imóvel, caído no chão, com uma flecha atravessada na garganta. O sangue cruzava as tábuas e escorria pelos sulcos entre as madeiras. Aquilo só servia para atiçar ainda mais a sede daqueles malditos. Por precaução Ivan tinha descido a proteção de madeira da janela estreita. Tinha ouvido ainda meia dúzia de flechas baterem na tábua. Estava com escotilha da escada aberta e metia bala para baixo, tentando, em vão, impedir a aproximação das criaturas. Uma pilha de corpos de vampiros jazia imóvel no areião. Era mais fácil acertar aqueles que tentavam subir do que se preocupar com os que já tinham conseguido e agora saltavam no telhado e no corredor da vigia distribuindo unhadas contra as tábuas, tentando descascar a proteção do humano. O mecânico procurava enfiar a bala de prata bem no meio dos olhos das criaturas, isso fazia com que não se levantassem mais e, se não fossem salvos pelos amigos de presas longas e arrastados para as tocas, morreriam definitivamente com a chegada da manhã. Enxugou o suor da testa. Não estava fácil. Os malditos não usavam necessariamente a escada e muitos escalavam enfiando as unhas no tronco do jequitibá, que servia de torre, alcançando o topo sem entrar na sua mira. Vinham rápido, rodeando a pequena casa da árvore, como marimbondos rodeando a colméia. Com os rostos voltados para cima, encarando Ivan, com as bocas escancaradas e sorrisos malditos contrastando contra as presas pontiagudas. Quando a munição terminou pela enésima vez, Ivan notou que as criaturas estavam muito perto. Tampou a escotilha do chão. Arrastou o pesado corpo de Feijão para cima dela. Por baixo não iriam entrar. Recostou-se no fundo da guarita, praticamente sem ar. O peito queimava. Todas as portas travadas. Puxou a caixa de municiadores para perto. Recolocou um pente no fuzil. Respiração entrecortada. Parecia a um instante de cair, vítima de enfarto. Era duro confrontar a morte e saber, saber mesmo, que a passagem para o outro mundo seria em questão de minutos, talvez até de segundos. Ouviu pancadas no teto da guarita. Os malditos estavam lá em cima. Disparou algumas vezes contra o telhado de madeira. Estavam batendo no teto e na porta de acesso à varanda de observação. O corpo de Feijão parecia vivo de tanto que chacoalhavam as tábuas da escotilha do chão. O negro sem vida rolou. A cabeça pálida de uma vampira demoníaca surgiu pela fresta. Ivan ergueu a arma e a cápsula explodiu. A cabeça da maldita se desfez em pedaços, sumindo pela abertura. Três segundos e outra criatura tomou o lugar da primeira. Um homem. Novo disparo. Ivan gritou desesperado dessa vez. Ia morrer! O terceiro vampiro. A arma vacilou. A dedo do homem tremeu. Uma criança. Uma menina. Os olhos vermelhos brilharam enchendo a guarita daquela luz maldita. Ivan superou o bloqueio momentâneo e fez o topo do crânio da menina desaparecer. Ossos ensangüentados cravaram-se na parede oposta. Dessa vez o corpo da criatura demorou a cair, quase forçando o homem a disparar novamente. A zoada no telhado só crescia e as batidas contra a porta lateral da guarita aumentavam. Ivan mantinha os olhos fixos no buraco. Sem chance de eles entrarem por ali. Ia morrer, mas mataria o maior número possível de noturnos. A porta lateral voou para dentro da guarita, derrubando o braseiro. Uma nova cabeça pálida e peçonhenta surgiu pelo buraco da escada. Mais um tiro. Outra cabeça. Um vampiro entrou pela porta lateral. Ivan não errou o disparo, mas o vampiro não caiu. No instante seguinte, quando puxava outra vez o gatilho, uma dor lancinante no peito. Ivan gritou. A dor aumentando. Entendia agora. Uma flecha tinha perfurado sua carne, atravessado seus ossos, prendendo-o à parede. Ainda conseguiu atingir o novo vampiro que entrava pelo buraco debaixo. Ergueu o fuzil na direção do vampiro resistente que entrava pela porta lateral. Fumaça saía do ferimento aberto no pescoço do vampiro, que grunhia enraivecido e injetava-lhe um olhar amedrontador. Disparou, atingindo o inimigo repetidas vezes, fazendo-o tombar bem na porta, com a cabeça para fora. Um novo vampiro surgiu pelo buraco da escotilha e um segundo pela porta lateral. Dor infernal! Ivan puxou o gatilho na direção do que vinha pela porta. Um estalo seco. Nenhuma explosão. Os vampiros franziram o cenho e fixaram o olhar no bravo sentinela. Ivan puxou a arma, não para recarregar, pois não havia mais tempo, mas para retirar a correntinha com o crucifixo do cano quente do fuzil. Mal teve tempo de desenroscar a peça a segurá-la contra a palma da mão, pois foi agarrado e erguido pelo pescoço, ferindo a cabeça ao batê-la contra o teto. A explosão de dor atrapalhou a visão. A cabeça latejando e o sofrimento causado pela flecha aumentando terrivelmente. O vampiro, que tinha entrado por baixo do abrigo, lambia o sangue de Feijão. Mais um entrava pelo buraco do chão, grunhindo e erguendo as narinas, embebedando-se do aroma hipnótico do sangue fresco derramado. O vampiro forte que lhe mantinha preso pelo pescoço exibia-lhe os dentes, anunciando seu final. Ivan apertou o crucifixo. Fechou os olhos. O ar faltando no peito, asfixia. A mão inimiga apertando ainda mais a traquéia. O sangue brotando do pescoço ferido pelas garras afiadas da criatura que penetravam sua carne. A haste da flecha rompida ainda estava cravada no tórax, quase na base do pescoço, sendo arrancada lentamente pela criatura. Quando achou que desmaiaria de dor, notou que os malditos estavam estáticos. Nenhum deles mexia-se. Pareciam esperar alguma coisa. Ivan fechou os olhos seguidas vezes, não porque quisesse, mas faltava-lhe forças para manter-se acordado. Os vampiros tentavam escutar algo. O humano percebeu que o barulho do lado de fora tinha cessado. Ouvia os tiros ao longe, vindos da muralha, mas as batidas no teto tinham parado e parecia ser isso que os vampiros estranhavam. E com razão. Era estranho demais. A casa da árvore estava tomada por vampiros enlouquecidos pelo cheiro do sangue. Os olhos dos vampiros iam daqui para ali, buscando explicação. Ouviram seguidos baques, como corpos caindo. De tanto estranhamento, o agressor chegou a afrouxar a garra e soltar Ivan no chão. Ao cair, a sentinela inspirou fundo, mandando oxigênio para a circulação. Deitou-se. Perderia a consciência. A flechada tinha provocado uma ferida fatal. O sangue abandonava o corpo com rapidez, agora que a haste de fibra de carbono repousava na mão de seu algoz. Estava frio. Ouviu mais três baques. Corpos indo ao chão. Ivan forçou a visão uma última vez antes de mergulhar nas trevas. Uma mancha vermelha movimentando-se na guarita. Ergueu a mão com o crucifixo pendurado para o santo salvador. — Bento... — murmurou ao desmaiar.

    

     Instantes atrás, Francis via Vicente poucos metros na sua frente, estando o grandalhão mais próximo do muro. Também segurava e espada e a balançava com ansiedade. O combate avizinhava-se. Logo os malditos estariam pulando o muro e seria a vez dos bentos baterem com as espadas. Fatiariam os invasores e lutariam com gana. Saberiam enfim porque a profecia dizia que Lucas seria especial em combate. Dependia daquele confronto colocarem em prática a seqüência do plano. Reunir os trinta bentos. Francis controlou a respiração. O odor intensificando-se. O cheiro das criaturas era inconfundível. Sentiu o suor brotar na testa. Frio na barriga. Era sempre assim. Cada um tinha uma reação. Para ele era como estar a bordo de um carrinho da montanha-russa e aquela era a hora em que o carrinho desprendia-se do cabo do elevador e entrava no trilho para o primeiro mergulho. Os tiros explodindo. Era formidável assistir o trabalho do muro. Os soldados eram bravos e derrubavam um bom número de criaturas, mesmo os malditos usando a velocidade sobrenatural da qual eram dotados. Mais três disparos de sinalizador para o céu. Os foguetes sinalizadores subiam até quase perder de vista, depois desciam vagarosamente, incandescentes, banhando de luz o deserto e permitindo maior sucesso contra as criaturas. Os disparos foram diminuindo de intensidade. Fato estranho. Muitas vezes os soldados conseguiam impedir a passagem dos malditos sem a interferência dos bentos, mas, dessa vez, estavam tão agitados e gritaram tantas vezes que a mancha era gigante. Francis conhecia esse ritual. Sabia que, pelo volume de gritos e movimentos, logo os malditos ganhariam os muros de São Vítor. Teria sido questão de poucos minutos. Alguma coisa anormal estava acontecendo. Os tiros reduziram. Depois veio uma explosão de vivas e festa por parte dos soldados. Francis estranhou mais. Buscou os olhos de Vicente. O bento estava parado, de costas para o muro, com os olhos esbugalhados em direção aos pilares onde Lucas fora acorrentado. O trigésimo bento não estava mais lá! As correntes balançavam soltas diante dos olhos espantados dos dois veteranos. Francis, lentamente virou a cabeça. Não podia ser!

    

     Lucas parou retomando o controle sobre a respiração e sobre o próprio corpo. A luz amarelada do céu tinha desaparecido. O que via agora eram pontos de luz vermelha, descendo lentamente do céu. Sinalizadores... como aqueles usados pela marinha. Olhou enojado para a espada suja de sangue negro, fedorento e podre. Desviou o olhar da espada e olhou para o chão, seus olhos encheram-se de uma visão que só poderia ser a do próprio inferno. Nem Dante desenharia cenário igual. Guardou a arma cortante na bainha e olhou para os braços feridos. As argolas da algema ainda estavam presas em seus punhos e, de ambas, pedaços das correntes que lhe aprisionaram momentos atrás pendiam com seus elos encadeados, balançando como pêndulos. Aos seus pés, o corpo moribundo de um sentinela agonizante. O bento estava tonto, mas sentia-se bem. Sentia-se muito bem.

    

     Francis chegou ao topo do muro um. Tinha que tomar cuidado com as cápsulas espalhadas pelo chão, seriam recarregadas. Colocou as mãos na borda da muralha e olhou para o areião, incrédulo. As luzes vermelhas dos sinalizadores desciam sobre um mar de corpos de vampiros aniquilados. A meio quilômetro dali, cercado por corpos decapitados amontoados, podia ver um homem com capa vermelha... um bento... o novato.

     — Eu parei de atirar só para assistir. — disse um dos soldados, dando um tapinha no ombro do guerreiro incrédulo.

— Ele é o cara, bento Francis. Ele é o cara. — juntou outro.

     Francis trocou mais um olhar silencioso com Vicente, que também chegara ao muro. Nunca tinham visto aquilo. O velho Bispo estava certo. O trigésimo bento chegaria ao mundo para acabar com os vampiros. E já tinha começado bem. Segundo os soldados, Lucas tinha acabado com metade do exército que viera com carga total. Deitados no areião deveria existir mais de dois mil corpos.

     Os homens do muro ficaram estáticos, assistindo o bento aproximar-se pela areia, trazendo um corpo sobre o ombro direito.

     

     Ao cruzar o portão, Lucas foi recebido com vivas e muita excitação. Os soldados nunca tinham visto nada igual.

     Ivan foi prontamente socorrido e levado com vida pelo caminhão até o hospital. Tinham que agir rápido se quisessem salvar o pobre homem. Bastava estancar o sangue e repor o volume perdido. Aquele mundo onde doenças não existiam estava livre de infecções, inflamações e tormentos que acompanhavam ferimentos daquela proporção.

     Lucas ainda conservava um ar de embaraço, perdido no meio da situação. Não tinha bem certeza do que tinha feito. Imagens ocupavam sua cabeça. Estivera de fato no areião. Lembrava-se do momento, investido de puro ódio, tirou a espada da bainha e traçou o primeiro arco no ar. O metal silvou e perpassou o pescoço de uma das criaturas. A cabeça gritante rolou para cima e tombou na areia. A escuridão, oportunamente, tinha abandonado o céu, que assumira uma estranha coloração amarelada. Lembrava-se de subir aquela escada vertical, de madeira. De subir destroçando o que encontrava pela frente. Pedaços de corpos caindo. Queria salvar o soldado e vampiro nenhum impediria isso. Mataria todos aqueles fedorentos. Os vampiros gritando. Via-se parando no topo da casa da árvore. Sua capa esvoaçando, belíssima. Salvando a sentinela. Descendo com o homem nos ombros. Largando-o no areião, cercado. Vampiros vindo de todos os lados. Alguns atiravam flechas. Lembrava-se de ser melhor e mais rápido. Nesses momentos, quando era o mais rápido, sentia um frio na barriga. A maioria dos vampiros parecia congelada no tempo e ele, feroz, rasgando carne pálida, removendo cabeças do lugar. Manejava a espada como se a tivesse usado a vida toda, como se fosse algo que brotara na palma de sua mão, uma extensão que fizesse parte de seu corpo. Sabia exatamente qual caminho traçar com a lâmina. Sabia como deslizar sobre o osso. Fio afiado. Corpos tombando. Fúria. A capa vermelha dançando, confundindo o inimigo, protegendo o agressor. A medalha de São Jorge sacudindo no peito. Dentes cerrados. Olhos injetados. Fúria. Ossos e restos de vampiro batendo contra seu peito de prata. Abaixava-se e levava pernas e joelhos. Aparava um golpe com a espada. Contragolpe. Precisão. Certeza. Destruição. Desespero nos olhos das criaturas. Opressores vendo-se oprimidos. Girava e a capa vermelha voava. Medo. Respirava fundo. Enchia o peito. Aparava mais golpes. Uma espada em seu braço, batendo contra a malha de metal. Nessa hora, como saindo de um transe, no meio dos soldados, já protegido na fortificação, Lucas olhou para o braço atingido. Doía próximo ao cotovelo. Mexeu o braço. A articulação funcionava bem. Uma ferida muito pequena para quem havia enfrentado e vencido um exército de demônios.

     Depois de entregar a sentinela para os soldados, cercado pelos homens que lhe rendiam exclamações de surpresa e imediata devoção, Lucas voltou para o portão. Atravessou novamente a pequena abertura, suficiente para passar um homem por vez. Viu Vicente e Francis a vinte metros de distância. Andavam entre os corpos, separando as cabeças dos vampiros que ainda se mexiam. Outros soldados também se adiantaram e puxavam pelas pernas alguns dos corpos. Lucas alcançou os bentos. Estavam calados. Francis abriu um sorriso.

— Então? O que achou?

Lucas encolheu os ombros sem dizer nada.

     — Você é especial. Não restam dúvidas. — tornou Francis. Mais soldados passaram pelos bentos. Os homens puxavam os corpos espalhados, concentrando-os junto ao muro.

     — O sol vai dar cabo desses corpos fedorentos. — explicou Vicente. — Quando amanhecer, já era. Viram pó.

     Onde estavam, poucos dos vampiros estavam decapitados. A maioria, que agonizava, havia caído vítima das balas dos exímios atiradores de muralha.

     — Se ainda existem alguns vivos, por que não estamos daquele jeito, parecendo malucos? — perguntou Lucas.

     — Não sei. — respondeu Francis, enquanto descia a espada no pescoço de uma vampira, que sofregamente levantou a mão tentando evitar o golpe. — Sei que quando estão assim, moribundos, não ficamos descontrolados. Mas basta começarem a atacar... querem nos pegar...

     — É isso mesmo, bento. Se os vampiros não atacam, não ficamos loucos. Sentimos o cheiro. Sabemos que estão por perto. Mas, se um deles pensar em levantar o dedo para nos pegar, pronto! Parece que o cão atiça a cabeça da gente e viramos marionetes assassinas de vampiro. — completou Vicente.

     Lucas franziu a testa com repugnância. Vicente tirava a espada do peito de um vampiro e abria-lhe um talho na barriga. O vampiro era um homem gordo e da ferida escapou um bolo negro e mal cheiroso, revestido por uma película brilhosa. Vicente espetou essa bolha negra e um líquido espesso, e duas vezes mais fedorento, misturou-se com a areia.

— Sangue podre... — murmurou o soldado. Lucas recuou dois passos, enojado.

     Olhou para o grupo de soldados que, com cautela, removia um vampiro decapitado de cima de um grupo que ele havia atacado. Retiraram outro corpo e, quando deram as costas, um par de braços brancos e de veias roxas levantou-se do amontoado de corpos, colocando uma flecha no arco que trazia. Um vampiro vivo e armando o ataque!

     Bento Vicente e Francis pararam com o trabalho quando ouviram o grunhido escapando da boca de Lucas. Estáticos e espantados viram os olhos do trigésimo bento mudar de cor. Eram como as brasas que queimavam os olhos dos malditos noturnos, mas em vez de vermelho maléfico, os olhos emanavam uma luminosidade amarela viva. Era assustador. Contudo, as estranhezas não terminaram. Num piscar de olhos, Lucas tinha desaparecido diante de seus olhos e ressurgia duzentos metros a frente, a tempo de evitar que a flecha armada por um maldito fosse disparada contra os trabalhadores. A espada zuniu com tamanha agressividade que a cabeça do vampiro subiu dez metros antes de cair ao chão. Viram Lucas olhar para os lados, grunhindo como uma fera da escuridão, ameaçador. Quando o corpo do vampiro desfaleceu sobre a pilha viram os olhos amarelos apagarem-se lentamente. Sinistro. Trocaram um olhar demorado.

     — Nunca, nem no céu nem no inferno, vi isso na minha vida. — murmurou Vicente.

     — É, Grandão, você vai ter que dar o braço a torcer. Esse cara é o presente de Natal que estava faltando. A profecia não tem erro. Ele vai ser a peça chave da luta contra os vampiros.

     — Você acha que com ele conseguimos invadir o Hospital das Clínicas?

     — Com ele conseguiremos invadir até a casa do capeta, Vicente. Mas essa história de HC é melhor deixar para mais tarde. A profecia diz que agora é hora de juntar os trinta bentos.

Vicente grunhiu qualquer coisa inaudível, um tanto contrariado.

— Sairemos ao amanhecer. — comunicou Francis.

    

     O mais difícil tinha sido esperar a desatenção do guarda do muro para embrenhar-se num amontoado de caibros e tábuas de madeira, onde, futuramente, seria erigido um barracão para ferramentas ou qualquer tipo de depósito. O coração batia rápido. Ainda ouvia os disparos na muralha um. Retirou do saco de pano, o pote de vidro. O líquido ainda estava morno. O velho não tinha dado trabalho. Morrera sem dar um pio. Sorrindo, contente com a perfeita execução da segunda fase de seu plano, o assassino retornou o pote ao saco de pano. Aquele punhado de sangue lhe compraria a eternidade. O vampiro tinha lhe prometido a conversão. Seria uma criatura da noite também. Seria imortal também. A vila de São Vítor lhe pagaria. Amaro pagaria. Todos pagariam. Tinha sido expulso de São Vítor por culpa de um mal-entendido, agora daria o troco. Seria o vilão que todos achavam que era. Daria razão às línguas e julgamentos daqueles cidadãos.

     Talvez já tivessem dado por seu sumiço no hospital, mas, pelo que tinha entendido nos diálogos que tinha escutado, oportunamente não fora identificado. Sabiam que ele era um degredado, contudo não sabiam exatamente quem ele era. Caso dessem por sua falta, pediriam uma patrulha comum, procurando um doente enlouquecido. Enquanto não ouvisse a explosão, sabia que as coisas estavam dentro do controle e poderia esperar pelo amanhecer para tentar escapar com maior naturalidade, pois, mesmo driblando o guarda do muro, dificilmente passaria despercebido no areião. A sentinela da torre, por ser noite, por estarem sob ataque de vampiros, poderia até mesmo matá-lo antes que conseguisse esconder-se na floresta.

     Tinha plantado um explosivo com detector de aproximação no quarto do velho. Assim que algum curioso, quando desse pela falta do homem, chegasse perto de seu leito, pronto. BUMMM! Poderia ouvir o barulho a quilômetros de distância. Depois desse alarme, não haveria volta. Fosse a hora que fosse, teria de transpor o muro e cruzar o areião. Os malditos soldados não demorariam dois minutos para ligar seu sumiço à explosão na casa do velho. Recostou-se ainda mais na madeira, desejando tornar-se invisível. Torcia para que a casa não explodisse antes do raiar do sol. Com alguma sorte, depois das oito da manhã, quando quase todos na vila já estariam metidos com seus afazeres, andando de lá para cá, um cidadão a mais perambulando no areião não chamaria tanto a atenção das sentinelas.

    

     A vermelhidão no horizonte denunciava a chegada do sol. Em poucos minutos, o disco amarelo levantar-se-ia trazendo luz ao novo dia.

     Lucas sentiu um cutucão no ombro. Estivera calado por mais de meia hora. Virou a cabeça e viu bento Francis.

— Venha. Veja o que acontece quando chega o sol.

     Subiram a escada interna da muralha. Caminharam pelo corredor de manobras. Francis apontou para o pé do muro. Lucas debruçou-se e vislumbrou o amontoado de corpos de vampiros decapitados.

     Três grupos de cinco soldados caminhavam pelo areião, cada um dos grupos arrastando atrás de si, atado por cordas, uma extensa chapa metálica.

— O que é aquilo? — perguntou Lucas.

— Você já vai ver.

     Na face oposta da cidade, a luz do sol tocava o topo das árvores e avançava. Fora da cidade, os soldados puxando as chapas, afastaram-se cem metros do muro um. Limparam a areia de cima das peças, que deveriam medir dez metros de largura por dois de altura.

     O sol ganhou altura e os benéficos raios de luz cruzaram acima da muralha. No entanto, em razão do ângulo da incidência da luz, a muralha de doze metros de altura produzia uma extensa sombra sobre o areião, protegendo o amontoado de corpos de vampiros ao seu pé.

     Assim que a luz do sol tocou a areia, distante do muro, os soldados ergueram as chapas metálicas, fazendo com que a luz fosse refletida para o pé do muro.

     — Afaste-se. — alertou Francis, puxando o ombro de Lucas para trás.

     Uma fumaça branca subiu e foi levada para o alto pelo vento, Era fétida e densa. Lucas voltou a debruçar-se e olhar para baixo, porém a fumaça fazia os olhos arderem e nada podia ver. O cheiro era o mesmo que o tirava do sério quando os vampiros aproximavam-se. Não entendia bem por que não estava enlouquecido naquele instante.

— Por que o cheiro deles queimando não tira a gente do sério?

     — Como estávamos explicando à noite, só saímos do sério quando eles querem nos atacar. Quando estão vindo contra as muralhas. Se cruzarmos no meio da floresta com um deles... sentimos o cheiro, mas podemos raciocinar. Ficamos mais ariscos, nervosos, pedindo para que os malditos cruzem nosso caminho, mas conseguimos nos controlar. Mas, se no meio da mata, na escuridão, eles também nos vêem e vêm pra cima... sai da frente! Ninguém segura a gente.

     —   É mais ou menos como um "sentido aranha"... Francis riu. Lembrava-se do homem-aranha.

— Deve ser. — respondeu.

     Depois de alguns minutos, a fumaça dissolveu-se e então Lucas conseguiu enxergar a rés do muro. Uma pilha de estátuas ressequidas, lembrando o formato de braços e pernas esqueléticos. Os vampiros tinham praticamente virado pó.

     — Assim que bater um vento mais forte, essa montanha horrorosa vira areia. — explicou o companheiro.

     Francis ficou com o olhar perdido no horizonte por um instante. Depois de um longo hiato, virou-se para o novato.

     — Vamos embora, Lucas. Temos que juntar os nossos amigos. Não podemos mais perder tempo. Quero descobrir de uma vez por todas que raios de milagres são esses que nos libertarão dos malditos.

     Lucas não havia dormido aquela noite, contudo sentia-se muito disposto, como se os músculos não se cansassem da carga constante do traje e do fato de estar alerta há mais de vinte e quatro horas. Talvez o descanso acumulado de trinta anos causasse agora uma in-sônia permanente. Sentia apenas um pouco de fome, nada muito urgente, no entanto.

     Ao chegarem ao quartel, bento Vicente e sua capa vermelha desbotada estavam no pátio.

— Já é hora! — bradou o fortão.

     Havia bastante movimentação. Soldados preparando armas. Mochilas sendo carregadas com alimento. Ao que pôde perceber contariam com a escolta de vários soldados.

— Quantos soldados vão conosco?

— Dez.

     Francis pareceu avaliar o número. Depois de um breve momento, anuiu.

     — Tudo bem. Só não podemos perder muito mais tempo. Serão muitas horas de viagem e muitos dias se passarão até que os trinta bentos estejam juntos. Cada hora perdida nos põe longe da vitória. Não podemos nos deter muito mais tempo.

     — Estou aguardando Adriano, que está falando com Társio. Amaro está preparando nossos cavalos. Os soldados vão nas monta-rias também, nada de motos.

— Você sabe montar? — perguntou Francis.

— Não me lembro.

— Vai ter que lembrar, Lucas. Vai ter que lembrar.

    

     Três horas depois de terem deixado a fortificação de São Vítor, os três bentos, acompanhados por um grupo de dez soldados, chegavam ao topo de um aclive. Em seguida adentraram uma planície imensa, com árvores garbosas espalhadas aqui e ali pelo terreno coberto por um tapete verde de tirar o fôlego.

— Nossa! — exclamou Lucas, impressionado com a beleza do lugar.

     — O senhor ainda não viu nada, bento Lucas. — acrescentou o soldado que vinha ao seu lado. — Esta terra tá linda demais. Parece que a gente só fazia maltratar esta natureza que nos cerca. Sem o homem destruindo tudo, parece que o mundo está até mais feliz.

     O jeito simples do homem falar fez Lucas refletir. O soldado parecia não ser alguém muito instruído, mas era sincero. Falava a verdade. O planeta parecia feliz pelo fato do homem ter reduzido seus domínios, reduzido sua agressão. A natureza poderosa recuperava cada vez mais seu lugar de direito, sua saúde de direito. O verde espalhava-se e tomava os rincões, espalhando vida e beleza pelos quatro cantos do mundo. Mundo. Essa palavra fez Lucas suspirar. Olhou para os outros dois bentos e depois para os soldados. Estavam silenciosos. Avançando montados em cavalos tordilhos. Os animais tinham quase a mesma cor. Pelagem marrom escura, facilmente confundida com negro. Animais belos. Lucas puxou a rédea de sua montaria e fez o cavalo dar meia-volta. Olhou para a paisagem que se estendia morro abaixo. A palavra "mundo" ganhava um novo significado em sua cabeça. Como estariam os outros lugares? Os lugares que nunca tinha estado. Como estariam os outros países? Todos viveriam assim? Entocados. Escondidos durante a escuridão. Unidos no propósito de lutar contra aquela raça maligna. Lucas fez uma pausa nos pensamentos e abriu um sorriso quando uma grande borboleta pousou na crina de seu cavalo. Tentou colocá-la em seu dedo recoberto pela grossa luva. O inseto passou para a mão do bento por breves segundos e retomou vôo, empurrado pelo vento. Ainda sorria quando um barulho surdo e distante chegou aos ouvidos. Algo como uma explosão vinda de muito longe. Um segundo depois, ouviu a reação dos animais. Era como se a floresta morro abaixo ganhasse vida. Bandos de pássaros em revoada deixavam a copa das árvores, tingindo o céu em multicores. Um bando de pombos brancos veio em sua direção, fazendo Lucas curvar-se sobre o torso do tordilho, com medo de ser atingido. Pelas suas costas ouviu o galopar dos bentos e dos soldados voltando. Pararam na beira do morro.

— São Vítor! — exclamou Francis.

     Bento Vicente segurava a rédea do cavalo, tentando mantê-lo parado. Os animais também tinham se agitado, andando para frente e para trás, empertigados.

— Vamos voltar? — perguntou Adriano.

     — Não. Não podemos voltar. Isto já é o começo. Nossa primeira distração.

     Os soldados olharam para Francis. Não sabiam o que ele queria dizer.

     — O Bispo me preveniu. Disse que seriam muitas as armadilhas no caminho. Que lutaríamos contra o que não existia antes.

     — Lutar contra o que não existia? Que merda isso quer dizer? — perguntou o bento mais truculento.

     — Não sei, Vicente. Não sei. Só sei que temos de ser velozes. Vamos continuar. Temos que unir os trintas bentos, os trinta guerreiros. Só assim a vitória contra o mal prevalecerá.

     Francis bateu com a rédea nas ancas de seu cavalo e disparou. Os soldados acompanharam o cavaleiro em seu galope.

     Bento Vicente aproximou-se de Lucas e golpeou a anca do cavalo, que disparou sobre o gramado, pegando o bento novato desprevenido. Lucas agarrou-se às rédeas, mas, para surpresa do veterano, encaixou-se na sela e encontrou equilíbrio, dominando o animal. Lucas continuou a corrida, aproximando-se da manada em disparada. Vicente ficara para trás. O bento, antes de disparar em perseguição ao grupo, olhava para o horizonte. Um fio de fumaça subia ao encontro das nuvens. Achava que deveriam voltar. São Vítor corria perigo.

     Às onze da manhã, o comboio parou na beira de um lago. Lucas, como de costume nas última horas, ficou encantado com a paisagem. Um enorme bando de capivaras correndo na margem, em disparada, provavelmente assustadas com a aproximação dos cavaleiros. O sol radiante produzia um brilho encantador sobre a água, ondulando somente sob os pés nervosos dos animais silvestres. Os homens apearam, Lucas foi o último a descer do tordilho. Logo um soldado aproximou-se tomou a rédea do animal, prendendo-o junto aos outros. Os soldados retiraram os calçados e lavavam os pés no lago. Francis e Vicente conversavam, pareciam discutir um assunto tenso. Lucas demorou um instante com os olhos na paisagem. Faltava muito para acostumar-se com a paleta do mundo novo, com o azul assustador do céu, com o número de pássaros piando nas matas e o tanto de bichos cruzando o caminho. Percebeu que os soldados que chamavam de Paraná e Joel descarregavam parte dos cavalos. Paraná era alto e, igualmente a bento Vicente, muito forte. Mais um amigo juntou-se a eles, este tinha as feições de índio, com a pele morena e cabelos escorridos. Um homem, que apesar da feição madura, na faixa dos quarenta anos, exalava vigor e juventude, atendia pelo nome de Raul. O tal Joel era um rapaz negro, magro e bem mais jovem. Vinte e dois, vinte e quatro anos, no máximo. Ao que pôde entender, estavam preparando um acampamento.

     Adriano enxugou o cavanhaque amarelo com o braço. Fitou demoradamente o lago. Não estava em seus planos estar ali. Uma hora dessas estaria voltando para Nova Luz, levando notícias de volta ao lar. Voltando para sua mulher, Carina. Tinha lá seus afazeres. Mas era um soldado. Um líder de pelotão. Não era dono de seu destino. Seu lugar era a estrada e as aventuras. A briga árdua contra os vampiros. Estar junto aos bentos era um coringa. Poderia significar proteção ou morte. Os bentos eram temidos pelos vampiros, mas, quando eram detectados pelo lado do mal, tornavam-se troféus cobiçados. Alvos ambulantes. Fariam de tudo para derrubá-los. Tudo para fazer com que a profecia não se cumprisse. Para que os bentos não fossem trinta. O soldado virou-se e olhou para o bento novato. Lucas estava afastado, longe de Vicente e Francis, que discutiam alguma coisa. Que ironia! Um dia. Um dia a mais e Gaspar teria vivido para ver aquilo. O trigésimo bento acordado.

     Talvez os soldados que conheciam o plano desistissem e finalmente se rendessem à profecia. Se duas noites atrás o maldito plano não fosse mais a coisa importante que era... talvez não tivesse que ter dado aquele tiro no meio da testa do amigo... não tivesse que ter dado um jeito em Gaspar. Adriano baixou a cabeça um instante. Olhou para o lado e viu Gaspar ali com eles, ajudando Marcel e Paraná a prepararem a bóia. Adriano não era um cara de coração mole, mas teve que apertar os olhos que estavam ficando vermelhos. Olhou de novo para o bento. Um rapaz magrelo, perdido no meio dos soldados, parecendo com medo até de pisar na bosta dos cavalos. Se não tivesse visto o estrago que aquele magricela tinha produzido ontem no areião, não acreditaria que ele fosse capaz de empunhar a espada que carregava. Balançou a cabeça. Abaixou-se e encheu o cantil com água. Antes de partir, repetiria a operação. Gostava de carregar água fresca. Caminhou sem botas pelo solo marcado, entremeado por grama e terra seca. Sentou-se no chão e recostou-se em um largo tronco. Paraná assoprava os gravetos empilhados, atiçando fogo. Os outros homens também estavam livres das botas e procuravam relaxar. Cumpriam uma espécie de ritual de início de toda jornada. Aproveitavam ao máximo as primeiras paradas, quando ainda estavam incógnitos e em área segura. A partir do pôr-do-sol estariam andando em terreno inimigo. Mesmo que não cruzassem com vampiros durante a primeira noite, poderiam cruzar com mulos pela manhã ou com banidos que viviam na mata e agora serviam aos noturnos. O problema não era a primeira briga. Era o que vinha depois. Um encontro, uma briga, durante o dia ou noite, contra mulos ou vampiros, servia de alerta. Delatava a posição do grupo e era particularmente perigoso quando carregavam bentos consigo. Troféus ambulantes. Seus soldados teriam de lutar com toda a gana para manter aquele magrelo vivo. Precisavam juntar os trinta bentos. Era isso que cada um deles repetia-se, feito um mantra. Só assim manteriam a cabeça no lugar, arriscando o pescoço por um grupo de esquisitos que andavam para lá e para cá com capas vermelhas. Um grupo que, quando fosse posto junto, desencadearia os quatro milagres. Salvação. Era por isso que aquela jornada valia a pena. Era por isso que correr risco valia a pena. O soldado líder de Nova Luz fechou os olhos. Pensou em Carina.

     Marcel tinha desembalado todo o equipamento da cozinha. Tirou o lenço da cabeça e esfregou-o no cano de sua arma. Tinha que manter o rifle sempre limpo e pronto para a ação.

     O grandalhão Paraná jogou um punhado de carne seca dentro da panela e pendurou acima das chamas. Mexeu com uma colher de pau para as ervas e temperos misturarem-se à carne e ao óleo. Despejou grãos de arroz numa outra peça. Uma panelada de legumes completaria a refeição. A comida não era abundante, por isso fazia questão de caprichar no sabor. Sorriu quando Sinatra começou a cantar. Gostava da voz do amigo, sempre presente nas andanças de soldados. Mexeu mais uma vez na panela da carne. O aroma dos temperos começava a espalhar-se e a abrir o apetite dos companheiros de jornada. A comida era racionada em função do volume a ser transportado. Os cavalos carregavam um bom peso, mas a maior parte da carga era reservada ao armamento. Como poderiam ficar vários dias na mata antes de alcançar a próxima fortificação, era preciso economizar nas refeições. Paraná olhou para Marcel, o rapaz ainda esfregava a arma com o lenço que usava na cabeça. Aproximou-se calado, sem chamar a atenção dos outros.

— Ô, Marcel.

O rapaz negro olhou para o grandalhão.

     — Desculpe o mau jeito lá no Rancho da Pamonha, mas foi o único jeito de fazer você parar.

     — Minha cabeça tá doendo até agora, mas tudo bem. Fazer o quê? Eu estava fora de controle, não estava?

Paraná anuiu, balançando repetidamente a cabeça.

     — Então deixa pra lá, Paraná. Tomara que você não perca o controle numa próxima vez. Se eu tiver que te esbofetear com esse meu muque... acho que você não vai sobreviver. — emendou o soldado, exibindo o bíceps do braço magro, caindo na risada com a própria brincadeira.

Paraná riu de volta.

     Lucas, sentindo-se deslocado, juntou-se aos bentos. Ao aproximar-se notou que ainda discutiam calorosamente. Não estavam exatamente aos berros, mas pareciam nervosos. O suficiente para fazer saber que batiam boca, comedidos para não inflar o grupo, mas ríspidos.

     Lucas olhou para o soldado que cantava, o que chamavam de Sinatra. O bento sorriu e passou a mão na cabeça. Conhecia aquela canção. Como era o nome? Não lembrava. E o cantor? Era o... Lulu. Lulu Santos!

     — Quem disse que o rádio não funciona mais? — perguntou Francis, o bento médico, aproximando-se. — É por isso que a gente gosta de andar com o Sinatra. Um rádio ambulante.

— Eu lembrei o nome do cantor dessa música.

     — Você vai lembrar um monte de coisas, bento. Tem gente que lembra a vida toda. Mas com sortudos como você, que dormiram tempo demais, talvez demore um pouco ou até nunca volte tudo.

— Quando acordei não lembrava nem do meu nome.

— É assim mesmo.

— O que vocês estavam discutindo tanto?

     — Um pouco demais para você, Lucas. Ainda não é da sua conta. — respondeu Francis.

     Lucas ficou surpreso com a resposta atravessada, mas não insistiu. Era um novato. Tinha pouca informação, até mesmo para discutir.

     Adriano olhou para o bento mais velho. Sabia que os dois veteranos discutiam por causa do plano secreto, o plano alternativo. Bento Vicente, um dos poucos bentos a engajar-se na causa dos soldados, certamente tentava convencer Francis a empurrar Lucas em direção à concretização do plano desenvolvido por um grupo de soldados inconformados. Mas, o líder dos soldados de Nova Luz sabia que o bento Francis não colocaria em risco a conclusão da profecia em troca da ação ousada que teriam de encenar, caso quisessem botar as mãos na máquina. E ainda contra o plano pesava o fato de não terem certeza de que a máquina ainda funcionaria.

     — Temos que comer rápido! — gritou Francis. — Engulam a bóia, nada de soneca, levantamos acampamento e tchau e benção. Temos muito chão para cruzar até Esperança. Lá nosso grupo aumenta. Encontraremos mais dois companheiros: bento Edgar e bento Duque. Pra chegar lá vamos passar duas noites na floresta.

     Francis andava sem capa, a armadura cobrindo o tronco refulgia com a luz do sol. O crucifixo encravado no peito fazia relembrar cavaleiros das cruzadas. A imagem de São Jorge balançava presa ao cordão encardido enquanto o bento gesticulava e falava com o grupo.

     Bento Vicente, depois da interrupção da discussão, tinha distanciado-se. A capa desbotada balançava levemente, empurrada pelo vento calmo que cruzava sobre as águas do lago.

     Fora os sete soldados do grupo de Adriano, compunham o comboio mais três soldados oriundos de São Vítor. O líder Willian e os soldados Carlos e Alicate. Carlos era o mais falante dos três, com um linguajar de malandro e sotaque fluminense. Era também o que Lucas conhecia melhor dentre todos os soldados.

     Francis voltou até onde o novato estava. Pediu que se sentasse em um dos troncos ao redor do fogo.

     — Depois que chegarmos a Esperança e apanharmos a primeira dupla de bentos, deixamos o sul e começamos a rumar para o norte. E quando eu digo norte, é norte mesmo. Temos bentos espalhados pelo Brasil. Vamos ter de subir, rumo a Bahia. Vamos refazer parte desse caminho de hoje depois de passar por Esperança, mas nos desviaremos de São Vítor. Se conseguirmos manter uma boa marcha, acelerada, acho que no máximo em trinta, trinta e dois dias, teremos todos os bentos reunidos.

— As trinta espadas.

— O quê?

     — Como o Bispo falou. Pediu para reunirmos os trinta bentos. As trinta espadas. Só nós, bentos, carregamos espadas.

     — É. Como eu dizia, acho que em um mês estaremos os trinta reunidos e teremos o início do prometido. Os milagres.

—        Quatro milagres que salvarão o mundo. Francis olhou para Lucas.

     — Lucas, eu vi o que você fez ontem. Carlos me disse que contaram por alto. Você derrubou trezentos e sessenta vampiros em um único ataque.

Lucas passou a mão na cabeça e suspirou. Trezentos e sessenta!

     — Isso é coisa pra caramba! Nunca tinha visto isso. Para você ter uma idéia, Vicente já abateu seiscentas criaturas, em todos os anos de bento. Se você repetir a façanha, você alcança o placar do bento mais produtivo na sua segunda batalha. Isso é fantástico. Isso é tudo o que precisávamos, mas estou preocupado. — Francis baixou mais a voz. — Não sei se isso será uma constante em suas lutas. Não sei até quando você continuará favorecido. Então, quero que preste muita atenção. Não se exponha a riscos desnecessários. Precisamos de você vivo. O que você fez ontem já te confere o status de herói, não precisa fazer mais nada. Quero você vivo até juntarmos os trinta bentos. Precisamos descobrir quais são os milagres que irão nos libertar dos malditos.

— Quatro milagres. — balbuciou Lucas.

     — Quatro milagres. É tudo o que precisamos. Os quatro milagres.

     — Talvez assim que nos juntemos, os vampiros peguem fogo e desapareçam.

Francis sorriu.

     — Não. Esse seria um milagre premium. Acho que não temos direito a esse pacote. Bispo disse que, mesmo depois dos milagres, ainda teremos muita luta. A vitória não estará garantida, mas o caminho será sinalizado. — proferiu o bento veterano.

— É muita responsabilidade para nós, não é?

     — Você vive uma vida diferente agora, bento Lucas. No passado, naquela terra perdida, com nossos corações cobertos pela poluição e pelo dinheiro, nossos valores estavam também confusos e sepultados. Agora, a verdade e o propósito são claros. Seja bento ou não, todas as pessoas de bem vivem em função do próximo. Todos querem proteger o irmão, ajudar o irmão, viver em comunhão. E é isso que estamos buscando, cruzando essas florestas. Um remédio definitivo contra o mal vampiro. Cuida do próximo que estará cuidando de ti mesmo.

     Lucas aquiesceu. Concordava, mas continuava achando que a missão de salvar o mundo era muita responsabilidade para trinta homens.

    

     Os cavalos soltos na planície foram reagrupados. Sinatra e Zacarias cuidaram da parafernália do almoço, enquanto Joel e Marcel carregaram os cavalos. Era hora de deixar para trás o acampamento do almoço e voltar para a floresta. Teriam de encontrar um lugar seguro para o acampamento noturno. Sabiam que estavam numa região que os favorecia. Os ataques durante a noite a grupos de soldados eram menores naquela parte do trajeto. O que preocupava os mais experientes era a noite seguinte, quando estariam em zona de grande risco. Mesmo estando com os bentos que arrebentavam com as criaturas, o medo insistia em suas veias.

     Estavam quase todos montados quando ouviram o galopar. Um cavalo aproximava-se, trazendo alguém em suas costas. O homem gesticulava. Queria que esperassem. Carlos tirou sua pistola da cintura e deixou-a pronta. Da distância que estava não podia identificar o cavaleiro. Pouco provável que fosse um desconhecido, mas o seguro morreu de velho.

     — É um mensageiro de São Vítor. — disse o líder Willian, baixando o binóculo.

     O cavaleiro precisou de mais um minuto para vencer a distância. Estava agitado.

— Graças a Deus! Graças a Deus encontrei vocês!

     Vicente circulou o cavaleiro. Mordeu os lábios. Sabia que aquela explosão que tinham escutado significava problema.

— O que aconteceu, mensageiro?

— Uma desgraça, Willian! Uma desgraça. Uma explosão.

— Ouvimos a explosão, garoto.

O rapaz olhou espantado para bento Francis.

     — Por que não voltou, senhor? Estamos em apuros. Todos estão em pânico.

— Desembuche logo, rapaz. O que aconteceu?

     — A casa do Bispo, senhor. Ela explodiu. Tudo virou fogo. O seu Fernando entrou na casa e nunca mais saiu. O fogo comeu tudo. Os dois morreram.

— Como isso aconteceu? — perguntou Willian.

     — Ainda não sabemos, senhor. Mas, graças a Deus, alcancei os senhores. Estão tentando descobrir o que aconteceu na casa do seu Bispo. Precisamos de vocês lá. Estão todos em pânico.

     Os soldados sabiam que a morte de Bispo pesaria enormemente. Não só em São Vítor, mas em todo o país. Bispo era uma espécie de guia. Uma luz. Alguém que conhecia o que os olhos humanos não viam. Era o responsável pelo renascimento da esperança. E, justamente agora, quando o trigésimo bento caminhava ao encontro do cumprimento da profecia, os olhos de Bispo iam-se embora, lançando sombras sobre o futuro. A fé seria abalada.

— Ninguém vai voltar, mensageiro.

Todos os olhares convergiram para Francis.

— Ninguém vai voltar. — repetiu. Os soldados ficaram quietos.

     O mensageiro de São Vítor permaneceu encarando o bento, como se o guerreiro lhe cravasse um golpe de misericórdia, acabando com o fio de vida em sua esperança. Sua face, de boca aberta, não escondia a surpresa e a decepção. O garoto procurou sustentação no olhar de Vicente e do líder Willian. Aquilo só podia ser brincadeira do bento Francis.

— Devíamos voltar. — disse Lucas, rompendo o silêncio. Francis encarou o novato.

 

     — Não, Lucas. Não devemos voltar. Nosso destino está na nossa frente. Devemos continuar rumando para o sul. Ao encontro dos dois bentos em Esperança. De que serviremos em São Vítor? Somos abençoados, mas não levantamos mortos. Se Bispo está morto, deve ser enterrado. Descubram o que aconteceu. Não conseguiremos fazer o velho Bispo levantar da cova. Isso é só o começo. O próprio Bispo havia me prevenido. O despertar de Lucas não é a garantia da vitória. Esses malditos vampiros e seus mulos plantarão mais armadilhas. Se deixarmos o caminho para Esperança, deixaremos o caminho para o cumprimento do que foi visto. Os trinta bentos têm que se juntar. Só depois disso veremos qual será nosso caminho.

     — Devíamos é aproveitar a força desse desengonçado e tentar colocar as mãos na máquina. — resmungou Vicente, aproximando-se do grupo mais uma vez.

O cavalo de Vicente empinou, agitando os demais.

     — Já discutimos isso, Vicente. Agora temos o trigésimo bento. Não precisaremos da máquina se formos rápido.

— Deus te ouça. — retrucou Adriano.

     Francis olhou com reprovação para Adriano, depois se dirigiu ao mensageiro.

— Vá para São Vítor e diga que nada podemos fazer.

     — Coloque os soldados em alerta. Dobrem a segurança. Peça que Amaro investigue pessoalmente o ocorrido. Peça que levem o corpo do Bispo ao hospital antes de ser enterrado. — orientou o líder Willian, mostrando-se preparado para situações de emergência. — Peça que Amaro explique ao povo por que motivo não voltamos.

     — Não podemos acordar os mortos. Bento Francis está certo. Temos uma missão de importância sem precedentes em nossa História.

     —   Sem precedentes em nossa História. — repetiu o mensageiro, vacilante, como se quisesse decorar cada palavra do líder Willian.

     —   Não percamos mais tempo. Vamos! — bradou o bento. Francis guiou o grupo, circulando na margem do rio, galopando rapidamente.

     Lucas lançou um olhar para trás. O mensageiro também galopava. Ia no sentido oposto, retornando a São Vítor. O bento olhou para frente e agarrou-se firme à rédea. Estava acostumando-se com a montaria. A capa vermelha esvoaçava e a espada batia em sua perna ao sabor do galope. Ouvia o tilintar de sua touca metálica, a cota de malha, cobrindo seus ouvidos. Seria um sonho? Aquele novo mundo assustava. Era um escolhido, no dorso de um cavalo numa cruzada inimaginável. Em busca de outros bentos. Em busca de uma profecia. Em busca de milagres e salvação.

    

     Cantarzo ergueu as narinas, deixando o vento noturno invadir seus pulmões. Cheiro de fumaça. Em algum lugar distante, na floresta, viajantes acampavam. Soldados, banidos, não importava. Nada queria com eles essa noite. Queria apenas encontrar seu soldado. Seu "pau-mandado". Cantarzo balançava no topo da árvore. O galho fino no cume não agüentaria o peso de um homem daquele tamanho, mas a criatura, há muito, não poderia ser denominada de homem. Era outra coisa. Uma coisa encantada. Um bicho da noite. A criatura, pendurada feito um animal silvestre, era um vampiro. Um vampiro caçador da melhor qualidade. Saltou do cume da árvore para outro. O esplendoroso firmamento refletindo luz branda para a Terra. A sombra do vampiro cruzou o topo de doze árvores na floresta. Curioso. Os cheiro dos viajantes convergia para o ponto de encontro. Talvez depois de tratar com lacaio... talvez fizesse uma visita. Era sua natureza. Caçar, assustar, beber vida. Quem sabe os viajantes pudessem ajudar, dando pistas sobre o paradeiro de um novo Rio de Sangue? Cantarzo saltou, cruzando o ar e parando no topo de um eucalipto. Seguiu o cheiro. Estavam longe, mas logo estaria sobre eles. Colocando suas unhas afiadas sobre a jugular da caça, impingindo medo e dominação. Seduzindo. Fazendo-os falar. Gostava disso. Gostava de sua função. Muito melhor do que viver como Raquel, ora ensinando novatos, ora lambendo as botas dos mais antigos dos moradores das sombras. Raquel cortejava e gostava de ser cortejada. Vivia em prol daqueles parasitas que temiam a mata. Os parasitas que sugavam somente os adormecidos. Ele não queria aquilo. Era um vampiro caçador. Queria a floresta, queria a noite. Queria vento mexendo com as tiras de couro que prendiam seus cabelos. Queria cravar os dentes no pescoço dos desavisados. Tomar energia direto da fonte. Do sangue humano. O mais poderoso e delicioso dentre os animais. Acelerou os saltos. As copas das árvores agitavam-se com sua presença, balançando ao sabor de sua passagem. Os pássaros desavisados disparavam em vôo quando o vampiro batia nos galhos onde faziam ninho. Agitavam outras criaturas. Era como se, em conjunto, dissessem: cuidado, é o vampiro que passa.

     Cantarzo desceu pelo tronco largo do flamboyant florido. Um trecho do chão ficava sem a cobertura verde e tornava-se de barro. Pegadas. Rastros frescos. Cavalos tinham passado por ali. Talvez seis, talvez mais. Andou pelo gramado. Os olhos de vampiro perscrutando a escuridão. Nenhuma pista adicional. Cavalos. Provavelmente soldados. Só os soldados andavam em bandos naquela região. Banidos, em geral, eram homens solitários. Homens que não se enquadravam nas regras dos acuados. Das pessoas envoltas nos muros. Eram a escória errante, pedindo pelo apadrinhamento de um vampiro, como fizera seu lacaio. Eles sempre chegavam com o mesmo pedido. Doce e maldita vida eterna.

     Cantarzo ergueu os olhos, atento. Um estalido. Correu e saltou para o tronco de outra árvore frondosa, escalando com agilidade seus primeiros galhos. Olhou para a floresta. Nada. Talvez um engano. Depois de ter abandonado Raquel e seus estúpidos seguidores à própria sorte no esconderijo dos soldados na beira da estrada, tinha que colocar um olho nas costas. Sabia que a vampira viria como raio atrás de vingança. Cantarzo sorriu. Gostava de irritar a guerreira. Achava-a petulante, sempre cercada por aqueles vampiros grandalhões. Achava-se protegida. Assim que tivesse a chance, Cantarzo rasgaria o segundo olho da vampira. Deixaria cega e perdida nas sombras. Mostraria a ela o que era agilidade na caçada. O que era esperteza. Ela e aquele vampiro Gerson pagariam caro pela arrogância que carregavam. Ainda mais se seu plano concretizasse-se. Um plano que traria a ele a proteção absoluta dos vampiros mais velhos e lhe daria poder fundamental para subjugar de uma vez por todas a raça humana. Dar-lhe-ia poder suficiente para erigir um exército de noturnos. Um exército de irmãos da noite, que mostraria aos mais antigos o quanto ele, Cantarzo, estava certo. O lugar dos vampiros era na superfície, com a raça inferior humana subjugada.

     Cantarzo saltou para outra árvore, ganhando altura. Vasculhou as redondezas. Nem mesmo Raquel conseguiria esconder-se tão bem. Raquel estava ocupada. Tinha ouvido um dos vampiros comentar que Raquel havia sido chamada num dos grandes centros vampíricos. Alguma coisa grande acontecia. Alguma coisa importante incomodava os mais velhos. Cantarzo não se interessava. Caso seu plano surtisse o efeito vislumbrado, ganharia poder inimaginável. Poder para açoitar as fortificações de forma contundente. Poder para dar-lhes a vitória contra a resistência e lhes garantir o domínio sobre todos os Rios de Sangue da Terra.

     Cantarzo ergueu mais uma vez o nariz. O cheiro de fumaça estava mais forte. Tinha uma direção segura. Caso o maldito lacaio ainda não estivesse no ponto de encontro, um pouco de ação para exercitar não seria de todo o mal.

 

     Francis ouviu o som dos pássaros em revoada. Era madrugada. Aquele som queria dizer uma coisa: perigo. Os pássaros estavam fugindo. Fugindo de vampiros!

O bento deixou sua tenda. Os olhos arregalaram.

Aproximou-se dos soldados de sentinela e perguntou:

— Quem acendeu essa droga de fogueira?

     Raul, Joel e Carlos estavam vigiando o acampamento e não tinham acendido fogueira alguma. Olharam para as cinzas mortas do fogo que usaram para preparar o jantar e voltaram os olhos para o bento. Estaria louco?

Francis, notando a indagação no olhar dos soldados, completou:

     —   Não estou falando desta fogueira, diacho! Estou falando daquela fogueira!

     Os homens tiveram que esforçar a visão. Finalmente, depois de localizarem-se com a indicação do bento, enxergaram um fio de fumaça subindo ao céu, com uma pequena parte passando ao largo do halo de luz provocado pela lua.

Raul deu de ombros.

— Não tínhamos nota...

     — Ssshhhhh! — fez o bento, colocando o dedo na frente da boca. Os homens ficaram em silêncio.

Joel apanhou sua arma.

Ouviram.

     Uma árvore balançou. Mais pássaros deixaram os galhos. Alguns passando em frente à lua.

— Silêncio. — pediu o bento.

     Raul e Carlos deitaram a mão em seus rifles. Carlos fez o sinal-da-cruz. Mesmo com três bentos, não era a hora certa de cruzar com um bando de vampiros. Se eles fossem muitos... os bentos seriam mortos!

Joel olhou para o bento.

— Eles vão nos pegar.

     — Fiquem quietos, que não virão. Estão atrás daquele fio de fumaça que algum idiota acendeu. Eles não nos viram.

— Como sabe que não viram a gente?

     — Se tivessem visto, Joel, eu já estaria louco, tomado. Estaria correndo ao encontro daquela árvore agora.

     A árvore balançou mais uma vez e a criatura passou para o outro galho. Os homens no acampamento não conseguiam ver o vampiro. Não sabiam dizer se era um ou mais.

    

     Cantarzo agarrou-se ao galho fino. Pendeu o corpo até a ponta, fazendo o ramo vergar. Olhou para a fogueira. Não parecia um acampamento. Havia uma grande pedra debaixo dela, abrigo para um homem só. Saltou da árvore. Seu corpo cruzou o ar com rapidez e bateu no chão sem fazer barulho. O homem dormia. Cheiro de sangue. Cantarzo deixou os olhos vermelhos brilharem. Emitiu involuntariamente um ligeiro grunhido. Suas unhas afiadas dançaram no ar. Seus instintos falavam alto. Queria o sangue. O cheiro tomava todo o seu ser e começava a drenar-lhe a razão. Caminhou ao encontro do homem. Um cheiro familiar tomando as narinas. O homem mexeu-se no seu sono, virando o corpo. Cantarzo viu seu rosto. Exibiu os dentes pontiagudos e grunhiu mais alto. O homem remexeu-se. Cantarzo aproximou-se e agarrou-lhe pelo pescoço, erguendo-o de uma vez e colocando-o contra a parede de pedra.

—        Você! — grunhiu o vampiro. O homem gritou aterrorizado.

     — O que faz aqui tão cedo? Por que acampa no mato, com fogo aceso? Quer ser morto por outro vampiro?!

— Não, Cantarzo. Não!

— Por que não foi ao ponto de encontro?

     — Ainda estava longe! Gasp! Está me enforcando. Cantarzo não deu ouvidos, continuando a segurar o lacaio pelo pescoço.

— Eu consegui! Eu consegui! Trouxe o que me pediu.

— Tão fácil? Não vejo feridas.

     — Eles são tolos, vampiro. Disse que eram. Não sei como vocês não conseguem tomar aquela porcaria de cidade. Vocês são tantos.

     Cantarzo grunhiu nervoso e soltou a garganta do homem, deixando-o no chão.

     — Não tomamos porque não é nossa hora, ainda. Chegará o momento de nossa raça jogar. Jogar para valer.

— Jogar?

     — Um dia será nossa vez nesse jogo, mortal, será nosso round. Será o fim de sua raça.

— Você prometeu me transformar num vampiro...

— Primeiro cumpra suas tarefas.

     O homem passava a mão no pescoço, buscando aliviar a dor do estrangulamento sofrido. Ainda tremia quando virou-se e encarou o vampiro. Tinha medo daquela face espectral, daqueles olhos que banhavam ao redor com luz vermelha.

— Onde está meu tesouro, Lúcio?

     O lacaio arrepiou-se ao ser chamado pelo nome pela criatura. Era a primeira vez que o ouvia da boca do vampiro.

     Lúcio apanhou um saco de couro e, de dentro dele, retirou um jarro de vidro.

— Aqui está, vampiro.

     — Você conseguiu... — murmurou o vampiro com os olhos brilhando.

Cantarzo estendeu a mão para apanhar o pote, mas antes que o alcançasse o humano recolheu o jarro, abraçando-o. O vampiro grunhiu.

     — Passei por maus bocados, vampiro. Não ouse me abandonar. Não ouse quebrar sua promessa. Serei o homem mais caçado nesse mundo todo por culpa do meu crime.

Cantarzo urrou e ergueu o mortal mais uma vez pelo pescoço.

Tomou o cuidado de amparar o jarro de vidro, evitando sua queda.

     — Como ousa tu, mortal, cobrar de mim alguma coisa? Não tem medo de mim, criatura?

     O homem engoliu a seco. Estava apavorado na verdade. Cantarzo era um vampiro terrível. Conhecia a fama do caçador. Era uma lenda na floresta. Os olhos vermelhos da criatura pareciam cuspir fogo.

     — Eu temo, Cantarzo. Eu temo. Con... Confio em você. Mas quero ter certeza de que me tornará um vampiro. Não gosto dos homens. Eles só me maltratam.

     Cantarzo soltou a vítima. Ergueu o jarro até a altura dos olhos. Encostou o nariz no jarro. Uma velha etiqueta de papel, com a logomarca da Cica suja de sangue humano, envolvia o vidro.

— Como conseguiu?

     — Eu fingi que estava desmaiado na beira da estrada quando ouvi as motos. Foi mais fácil do que eu esperava. Quando vi já estava dentro da cidade, sem perguntas, incógnito. Como você conseguiu incitar um ataque a fortaleza, assim que dispararam o alarme e todo mundo ficou louco e preocupado em se esconder dos vampiros, eu me esgueirei do hospital. Sei como as coisas funcionam. Com todo mundo em alerta, os soldados deixaram o quartel e tive tempo de visitar o arsenal. Apanhei um explosivo. Uma bomba com detector de movimento. Entrei na casa do Bispo, degolei o velho e enchi o jarro com o sangue. Essa parte foi fácil, porque o velho não tinha muita força, sabe. Ficou com aquele olhão arregalado, só esperando o que eu ia fazer. Como os homens me maltrataram pra caramba, eu também maltratei o velho. Espetei ele aqui, ali. Depois degolei, como a gente combinou. Plantei a bomba de aproximação e me mocozei num monte de madeira junto do muro. Sabia que ninguém ia até a casa do velho. E alguma coisa me dizia que eu saberia a hora em que encontrariam o corpo do Bispo. Ouvi uma certa explosão, sabe... — comentou ironicamente o assassino, querendo ser engraçado e exibindo um sorriso sádico. — De manhã, quando a casa do velho explodiu, a confusão foi armada toda de novo. Foi fácil passar pelo muro. A sentinela do areião me viu, mas estava tão atônito com a explosão que só perguntou se eu sabia o que tinha acontecido. Falei que foi a caldeira do refeitório que tinha ido pro saco. Ele engoliu. Mas, a uma hora dessas já devem estar atrás de mim. Isso não importa. O sangue do feiticeiro está nas suas mãos agora.

     Cantarzo olhou mais uma vez para o jarro. Incrédulo. Ajoelhou-se, segurando o recipiente com as mãos espalmadas. Um troféu. Mais valioso que a cabeça de um bento.

— Se isso for o sangue de um bento, humano. Eu acabo com você.

     — Fica calmo, Cantarzo. Juro por Deus que é o sangue do Bispo. Como você acha que ia conseguir degolar um bento? Os caras são fogo. São fortes. O Bispo, pobrezinho, era só um velho indefeso.

     Cantarzo abaixou-se e colocou a jarra no chão. Tinha que tomar o sangue conseguido e descobrir se sua trama teria efeito.

— Conta, vampiro. Quando vai me tornar vampiro?

— Silêncio.

     Lúcio não ousou abrir a boca novamente. Havia algo de bizarro na voz da criatura.

     Cantarzo desrosqueou o pote. O cheiro do sangue de Bispo infestou suas narinas. Era um cheiro bom. Um aroma adocicado... mas havia algo diferente ali. Só o cheiro já dizia. Sangue especial. Safra rara. Cantarzo aproximou o pote da boca. Sorveu o conteúdo todo a grandes goles, fechando os olhos. Baixou o vidro só depois de saborear a última gota. Passou a mão pela boca, manchando sua pele alva com o vermelho-sangue. Arremessou o jarro contra o paredão de pedra. Inspirou fundo, sentindo o cheiro da noite. O sangue do velho estava em seu estômago. O sangue do velho queimava seu órgão. Infiltrava em seu ser. Cantarzo contorceu-se, enovelando-se no chão. Urrou, sentindo dor. O sangue do velho penetrando sua carne de vampiro.

     Lúcio permaneceu estático, assombrado pelo espetáculo diante de seus olhos.

     Cantarzo apertou os olhos. Uma face. Uma mulher surgiu diante de seus olhos. Era o primeiro presente do dom maldito. Uma mulher de cabelos brancos e olhos mortos. Não era uma vampira. A mulher abriu a boca, articulando os lábios. Não era uma vampira. Cantarzo sentiu seu corpo esquentar subitamente... como se tivesse sangue bombeando nas veias! Como se tivesse um coração pulsando! Abriu os olhos e estendeu as garras para Lúcio.

O lacaio debruçou-se sobre o vampiro e aproximou-se.

— O que me deste, Lúcio?

     — O sangue do velho, senhor. Dei o sangue do velho. — disse o humano, amedrontado.

— Vá, Lúcio. Vá.

— Para onde, senhor?

— Vá para o norte. Vá para o norte.

— Para onde, senhor?

— Traga Tereza.

Lúcio puxou a mão de Cantarzo, tentando erguê-lo.

     — Não morra, vampiro duma figa! Me torne um imortal também.

     — Primeiro vá e me traga Tereza. Só conseguirei continuar depois que a bruxa me curar, lacaio.

— Onde ela está?

     Cantarzo urrou de dor e contorceu-se mais uma vez, sem conseguir levantar-se. Sentiu a cabeça doer, como se cem baionetas cruzassem seu crânio. Apertou os olhos e mais uma vez viu a bruxa. Ela mostrava alguma coisa. Mostrava um lugar. Um rio...

— Vá para onde a serpente engole a tartaruga.

— Onde ela está?

     — Eu não vejo tudo, filho-da-mãe. Eu vejo a serpente comendo a tartaruga. Vá para o norte!

     Cantarzo gritou mais uma vez e entrou em convulsão. Seu corpo estremeceu sobremaneira que Lúcio afastou-se, assustado. O vampiro parecia um peixe jogado para fora d'água, debatendo-se, agonizando. De repente, tão súbito como começou, o vampiro estacou, inerte, morto... um pedaço de carne amaldiçoada sob a luz da lua.

    

     Os cavalos chegaram à beira de uma depressão. Francis apontou para frente. Lucas viu os muros altos e largos fechando completamente o povoado. A visão do dia raiando e a vida começando a mover-se em Esperança era privilegiada. Lucas sentiu a pele arrepiar ao lembrar que ali conheceria mais dois dos homens bentos. Mais dois juntar-se-iam ao comboio, aumentando o número para cinco. Ainda teriam de correr atrás de mais vinte e cinco para juntar as trinta espadas, os trinta homens bentos, para conseguir os profetizados milagres. Quatro milagres para libertar a humanidade das garras das criaturas das trevas. Quatro milagres.

     Os soldados de Adriano desciam o morro com cautela. Ainda era recente na memória do grupo o acidente fatal vivido por Gaspar. Ao contrário do grupo de Nova Luz, Carlos e Alicate desciam com mais ímpeto, sendo os primeiros a atingir o descampado que circundava a fortificação.

     Lucas demorou um pouco mais olhando para a fortificação de cima do morro. Depois de alguns segundos, tirou os olhos dos muros e mirou o horizonte, sentindo um novo arrepio percorrer os braços. Conforme a luz do sol ganhava força, as sombras, confundidas com as árvores apontadas para o céu, tomavam forma. Prédios. Uma infinidade deles erguendo-se no horizonte, formando uma paisagem conhecida.

     Lucas bateu com os calcanhares no tordilho e colocou-se a descer o morro. Perguntou alto para Vicente:

— O que é aquilo?

Vicente olhou para o horizonte.

— Aqueles prédios?

— É.

— Era a porra de Campinas.

Lucas engoliu a seco.

     — Aquela cidade agora é um túmulo, uma terra tomada pelos vampiros. Os malditos noturnos. Cada. prédio é um covil. Cada bairro uma armadilha. De noite e de dia, um perigo.

Lucas desceu calado, ruminando as palavras do bento. Vicente, percebendo a expressão preocupada do bento escolhido, continuou:

     — Você não devia se importar com a situação da cidade, bento novo, afinal de contas você é o salvador anunciado pelo falecido Bispo.

     Lucas olhou para Vicente. Não sabia se o veterano estava lhe incentivando ou espicaçando. Provavelmente, a segunda alternativa, pois Vicente fazia pouco dele e parecia ter ciúmes.

     Um tiro de rojão espocou, anunciando à cidade a aproximação dos soldados.

     Uma parte dos cavaleiros ao pé do morro disparou em cavalgada em direção ao portão de Esperança.

     Os cavaleiros foram recebidos com muita curiosidade. Bastou cruzar os portões para que fosse de ouvido em ouvido a boa nova de que o trigésimo bento havia despertado e que, de agora em diante, a vitória contra os malditos seria questão de tempo. As pessoas cochichavam e apontavam para Lucas. Sorrisos foram pipocando aqui e ali e logo o povo junto à muralha gritava extasiado, saudando o trigésimo bento.

     Francis e Vicente ladeavam o novato. O primeiro sorria para a multidão e para Lucas, empolgado com o momento, contagiado pela emoção. Vicente mantinha a cara fechada, mantendo o cavalo emparelhado ao do novato.

     Lucas viu dois homens trajando as armaduras torácicas, com o grande crucifixo em relevo ao centro e os belos dragonetes dourados nos ombros prendendo a conhecida capa vermelha. Os dois bentos que guardavam Esperança.

     Vicente parou e desceu do cavalo. Auxiliou Lucas. Juntos com Vicente foram ao encontro dos bentos Duque e Edgar. Duque, de pele muito negra, tinha os braços fortes e o peito largo. Edgar, de pele pálida, contrastando com a do abençoado colega, tinha olhos verdes, era da estatura de Lucas, com braços mais finos, portando aparência menos truculenta que os demais guerreiros. Lucas notou no peito de ambos a medalha de São Jorge. Era uma espécie de tradição, um presente do alfaiate a todos os escolhidos pela profecia. Duque tinha a armadura amassada na parte lateral esquerda e a prata riscada. A capa presa aos dragonetes era desbotada e mostrava um reforço na barra, provavelmente arrastada por quilômetros e quilômetros atrás dos malditos vampiros. A indumentária de Edgar era igualmente "batida", revelando um traço da experiência contida na vida daqueles homens. Ambos guerreiros abriram um sorriso largo ao pararem os olhos sobre o novo irmão. Vieram em direção aos bentos e abriram os braços para Francis.

     — É este o homem? — perguntou Duque, pousando a mão nos ombros de Lucas.

     O novo bento foi invadido novamente por aquela sensação de intrusão. Apesar do revelador e impressionante episódio perpetrado em São Vítor, quando abatera com a espada que trazia na cintura mais de trezentos vampiros, não se sentia ainda igual aos outros guerreiros. Sentia-se um farsante, desconfortável.

     Edgar olhou Lucas de cima a baixo e também pousou a mão no ombro do novato por um segundo. Não disse uma palavra, mas seu sorriso aberto revelava a simpatia pelo novo irmão.

     Vicente aproximou-se e deu um tapa nas costas de Lucas, que cambaleou dois passos para frente.

     — Este magrelo é o nosso salvador. Não se baseie pelo tamanho e pelos braços murchos deste rapaz, eu vi o que ele fez em São Vítor. O bichinho é rápido na espada. Dizem que vai me passar fácil, fácil no placar... se não morrer antes.

Duque, Edgar e Francis riram.

     — Viemos para reunir os bentos, como reza a profecia. — revelou Francis. — Vocês devem nos acompanhar. Vamos fazer uma refeição e dar de beber aos cavalos. Um descanso rápido e partiremos.

     — Esperança ficará desprotegida. Temos um número reduzido de soldados e armamento. Quantos homens vão precisar? — perguntou Duque.

     — Nenhum por enquanto. Trouxemos dez conosco. O grupo de Adriano, de Nova Luz e mais três de São Vítor.

     — O Adriano. — completou Duque. — Ele é metido naquele plano. Não reclamou em ajudar os bentos?

      Francis olhou para o líder de Nova Luz. Adriano descia do cavalo e confraternizava com os soldados de Esperança.

     — Ele não fez nenhuma objeção. Está estranho. Disseram-me no acampamento que é por causa do Gaspar.

     — O que tem o Gaspar? — quis saber Edgar, o bento de olhos verdes e serenos.

     — Sofreu um daqueles acidentes estranhos, ao que parece. Aqueles acidentes que só os soldados que estão metidos nesse raio de plano sofrem. — comentou Francis, passando a mão por seus bigodes afilados.

     — Os soldados que conhecem o plano só estavam buscando uma garantia, caso nosso trigésimo bento nunca aparecesse. — resmungou Vicente. — E estão certos. Até onde sei não tem nada garantido nessa história, ainda mais agora com a morte do Bispo. Quem irá guiar nosso caminho de agora em diante? Quem vai nos dizer se estamos indo para o lado certo ou não?

     Os olhos calmos de Edgar transformaram-se e pararam sobre Vicente.

— Você diz que o Bispo morreu?

— É irmão. É isso mesmo.

— Como aconteceu?

     — Não sabemos ao certo. — intrometeu-se Francis, como se quisesse colocar panos quentes no assunto. — Sabemos que houve uma explosão e que o velho Bispo foi vítima desse acidente. É melhor isso não ser divulgado prontamente, deixe a gente sofrida saborear a chegada de Lucas.

     Edgar aquiesceu, concordando prontamente. Duque olhou mais uma vez para o novo bento, agora sem o sorriso enfeitando a face, estava analisando o novato.

Vicente balançou a cabeça, como se discordasse.

     — Deixar o povo saborear a chegada de Lucas. Bá! Que bobagem! — resmungou.

     Os soldados em missão mais os bentos foram levados ao refeitório comunitário de Esperança. O dia na fortificação ganhou ares de feriado. Ninguém queria ir aos afazeres. Todos que acordavam para o trabalho, antes de chegarem ao destino, davam com o burburinho. Uma fila começou a formar-se na porta do refeitório e os soldados de Esperança tiveram trabalho para conter os curiosos. Todos teriam chance de ver o trigésimo bento, mas, a pedido do soldado líder da cidade, dariam tempo para o recém-desperto fazer a primeira refeição do dia, antes de ser atirado aos olhos dos aldeões.

     Lucas sentou-se ao lado do soldado Carlos, que atacava as fatias de pão caseiro e bolo de cenoura com cobertura de chocolate. O bento sentiu o encorpado cheiro vindo do bule de café. O perfume não enganava, o sabor do líquido negro era tão agradável quanto o aroma. Depois de uma xícara, deitou também um pouco de leite no recipiente. Adicionou açúcar e mexeu com uma colherinha. Ficou estático por um tempo. A voz de Carlos, gastando conversa com Alicate, ecoava sem sentido em sua cabeça, tornando-se grave e pastosa. Lucas fechou os olhos. A voz do soldado foi desaparecendo gradativamente e o que chegava em sua cabeça, trazido pelos ouvidos, era o grasnar coletivo de um bando de gaivotas. Som de mar. Ondas arrebentando. Lucas sentiu-se angustiado. Estava procurando alguma coisa. Tão repentinamente quanto havia mergulhado naquela vaga lembrança, voltou ao refeitório. Nada de gaivotas, nada daquela sensação de proximidade do mar. Estava de novo em Esperança, uma cidade fortificada próxima a Campinas, com as risadas de Carlos e Alicate nos ouvidos. Estava em um mundo onde lutava contra criaturas da noite. Mexeu mais uma vez o café-com-leite, no fito de ganhar mais lembranças... recuperar aquela sensação. Talvez a memória se refrescasse... Sorveu do líquido morno, sem mais nada voltar a mente. O que fazia perto do mar, tomando café-com-leite? Quando teria feito aquilo? Estava angustiado naquela manhã longínqua. Estava. Sabia disso. Aquela pontinha de lembrança lhe dizia. Estava procurando alguma coisa perdida. Alguma coisa querida. Uma mulher? Uma paixão? Não sabia. Nada mais formava em sua cabeça. Tinha era tristeza. Lucas piscou os olhos e depois deixou a visão vagar pelo refeitório. Estava sozinho. Sozinho e triste. Aquelas pessoas? Por que iria lutar junto daqueles homens? Por que estava vestindo aquela roupa estranha, cavalgando com uma capa vermelha por terras desconhecidas? Lucas sorveu mais café. Vicente estava lhe encarando. Provavelmente, o brucutu nojento tinha percebido sua súbita mudança de estado de espírito.

     Logo depois ao desjejum, Lucas permaneceu no refeitório e recebeu a visita das centenas de aldeões que estavam acotovelando-se na porta do galpão. Queriam apenas ver o trigésimo bento, tocar o recém-desperto. Para eles, estar com Lucas já parecia um milagre realizado. Todos diziam palavras de incentivo e, um ou outro, chegavam a pedir benção ao herói aguardado.

     Lucas manteve-se calado boa parte da visita. Não sabia o que dizer àquela gente. Distribuía sorrisos, tentando não demonstrar o desconforto que sentia.

     Providencialmente, bento Duque aproximou-se de Lucas, tirando-o do refeitório, debaixo dos protestos dos remanescentes que aguardavam sua vez. O negro conduziu Lucas até os aposentos da soldadesca. Sugeriu que o novato descansasse o esqueleto junto com os demais enquanto os preparativos para seguir adiante eram providenciados.

     Lucas sentou-se na cama forrada assim que Duque deixou o alojamento. Dois soldados que o acompanhavam na jornada já roncavam, dormindo profundamente. Lucas contou doze camas. As janelas tinham cortinas pesadas. Lucas pressionou os dragonetes sobre a armadura, na altura das clavículas, liberando sua capa. Enrolou-a, colocando-a a seus pés. Seus dedos soltaram as travas laterais do peito de ferro, depois soltaram os fechos nos ombros. O tórax dividiu-se em dois, com a parte traseira caindo no colchão da cama de solteiro e a frontal sendo amparada pelas mãos de Lucas. O trigésimo desvirou a couraça, olhando demoradamente para a cruz dourada que dividia a peça em quatro partes prateadas. O que aquele símbolo significava? Por que carregavam cruzes de ouro no peito se Bispo havia lhe dito que estavam vivendo no meio de um cochilo de Deus? Lucas passou a luva de couro sobre a cruz. Símbolos. Juntou a parte de trás da couraça e colocou-a sobre a capa vermelha. Tirou as luvas marrons e apertou os dedos um instante. Soltou as tiras de couro do punho, liberando as mangas da cota de malha de ferro. O tilintar dos elos de prata ganharam volume. Soltou também a tira que percorria a barra da cota e puxou a peça pela cabeça. Foi a vez da tira de couro das costas ser desatada. Essa deu um pouco mais de trabalho, pela posição incomoda e pela largura do couro. Assim que Lucas deu um jeito no obstáculo sentiu o colete de couro afrouxar. A gola alta tinha deixado um hematoma abaixo do seu queixo e a pele tinha ficado dolorida. Teria que se habituar com aquela desconfortável vestimenta. Jogou o colete por cima da cota metálica e por último livrou-se do ridículo saiote verde-escuro. Deitou-se e cobriu-se com o cobertor marrom. Não sentia frio, sentia-se mais confortável, só isso. Era um costume. Sempre dormia coberto, independente do clima. Fechou os olhos enquanto refletia. Como podia saber que aquilo era um costume? Tinha dormido trinta anos no subsolo de um hospital, descoberto, jogado numa maca. Como poderia ter certeza de como é que dormia em seu apartamento? Não poderia. Mas sentia-se muito bem, encoberto numa manhã quente, mesmo assim.

    

     Por volta das onze da manhã, o grupo de cavaleiros cruzava novamente o portão, deixando Esperança com o reforço dos bentos Edgar e Duque. Com exceção de Francis, os outros quatro bentos faziam as capas tremularem ao sabor do vento e da cavalgada. Estavam agora indo para as fortificações ao norte. Estariam cada vez mais expostos aos vampiros e era improvável não toparem com o exército das criaturas nas próximas noites, estavam rumando para áreas de atividade intensa durante as horas de escuridão. Cedo ou tarde, seriam detectados. Seriam caçados. As espadas de prata não descansariam na bainha todo o tempo.

    

     Aproximava-se das cinco da tarde. O sol, ainda amarelo e vivo, avançava rapidamente de encontro ao horizonte. Os bentos permaneciam agrupados no centro, protegidos pelos soldados que iam ao redor.

     Bento Vicente conversava com Adriano. Sinatra entoava mais uma canção antiga, fazendo mais cinco cantar o refrão em conjunto. Lucas sentiu novamente o passado inundando sua mente. Fechou os olhos. Um bar. Os soldados fazendo coro para Sinatra. Essa música... era Andança, de Caymmi! Lucas viu-se numa mesa, erguendo um copo de chope. Risadas. Duas moças num microfone. Era um karaokê.

     Vicente afastou-se de Carlos e veio ter com Francis. Conversavam sobre o acampamento noturno. Teriam de encontrar um abrigo, Estavam em território perigoso e um confronto prematuro com as criaturas da noite deveria ser evitado a todo custo. Não temiam tanto um primeiro embate, mas a lamentável situação de ter a posição do grupo delatada. O primeiro combate poderia ser vencido. O problema seria a noite seguinte, quando os vampiros organizar-se-iam e viriam em número impressionante para cima da tropa. Não podiam pôr em risco a missão de juntar os trinta bentos. Tinham que zelar pela realização dos quatro milagres.

     Vicente, seguido por Adriano e Paraná, disparou na frente do grupo. O campo aberto e de vegetação rasteira permitiu que fossem vistos pelo grupo por um bom tempo. Cerca de trezentos metros adiante, quando suas figuras tinham transformado-se em pontos galopantes, desapareceram na mata que se erguia na frente.

     Quarenta minutos mais tarde, quando o sol já batia na linha do horizonte, tingindo o céu de púrpura, Vicente e Adriano ressurgiram. Tinham encontrado um lugar apropriado para o acampamento noturno.

     Os cavalos aceleraram, acompanhando a dupla pela mata, chegando ao local escolhido com o céu escuro.

     De um casebre colado a um riacho escapava luz tremeluzente. Paraná tinha improvisado um vassourão com folhas secas e tirava o que conseguia de pó do interior da decrépita construção.

— O que é isso? — perguntou bento Francis, ao aproximarem-se.

     — Um amontoado de tijolos que o Adriano encontrou. — respondeu Vicente.

     Os cavalos rodearam o casebre e, aos poucos, os homens foram desmontando.

     Lucas, apesar do longo cochilo da manhã, sentia-se cansado. Os olhos pesavam. Não se lembrava de ter sentido tanto cansaço algum dia em sua vida. Afagou a crina de seu tordilho marrom escuro antes de apear. As botas afundaram no mato alto que ladeava o casebre. Olhou com mais atenção a construção. Pela primeira vez concordava com o grandalhão mal encarado. Aquilo não passava de um amontoado de tijolos... prontos a desabar. Lucas adentrou o ambiente iluminado por um lampião a querosene. Velhas teias de areia, tingidas de negro pelo pó acumulado, projetavam sombras fantasmagóricas na parede. O casebre era dotado de cômodo único, sem paredes ou qualquer tipo de divisão. Na parede mais próxima ao riacho, um engenho estendia uma haste de cobre através de um buraco pela parede. Certamente usavam a força da água para a moagem de algum produto agrícola. Duas mesas grandes, também cobertas pelo pó dos anos, compunham toda a mobília existente. O teto, igual às paredes, parecia aguardar o sopro do lobo mau para desabar sobre os pobres porquinhos.

     — Não é uma suíte do Luxor, mas vai servir de abrigo para o pernoite.

     Ouvindo o comentário de Francis, Lucas voltou ao batente da porta. Sinatra, como de costume, cantarolava alguma coisa, enquanto Alicate livrava-se da bota do lado de fora da casa.

     — É melhor eu tirar isso aqui fora e ir lavar os pés no riacho, senão vocês não me deixarão dormir aí dentro. — advertiu o soldado.

     Lucas sorriu, enquanto Sinatra parou com a música para uma risada. O soldado apanhou as rédeas de dois cavalos e levou-os para perto do riacho, para que tomassem água fresca.

— Quem está com fome? — perguntou Paraná, de dentro.

     — Vai ser bóia fria. Não quero fogueira chamando a atenção de ninguém. Comam pães.

     Surgiram alguns muxoxos depois da ordem de Vicente. A maioria dos homens estava faminta, torcendo por um bom pedaço de carne no bucho antes de pregar os olhos. Contudo, tinham que concordar com o bento. Já estavam no que consideravam área de risco. Um vacilo e pronto! Estariam na mira dos vampiros.

     O trigésimo bento, ainda parado no batente da porta, vendo uma sombra fraca de sua figura ser projetada para a terra de pedriscos na frente, estava calado. Ergueu os olhos para o céu. Quantas estrelas! lira impressionante. Olhou para o seu cavalo no meio do mato alto, pastando tranqüilo. Pobres animais! Deveriam também estar cansados da corrida constante. Lucas caminhou em direção ao tordilho.

     Bento Duque, com sua couraça surrada por batalhas, surgiu do lado de fora.

Lucas afagava o pescoço de sua montaria quando ouviu aquilo. Os olhos de Duque, demonstrando surpresa, viraram para a floresta. Sinatra, ainda no riacho com os cavalos, olhou ao redor. Alicate, descalço, apanhou o rifle recostado na parede do casebre, colocando-se de pé, e destravando a arma.

     —   O que foi isso? — perguntou Lucas ao bento negro. Duque levantou o dedo, colocando-o na frente do nariz, pedindo silêncio.

     O rugido vigoroso ecoou mais uma vez na noite, mais poderoSO e mais próximo dessa vez.

—        Uma onça, Lucas. E das grandes. — revelou bento Duque. Lucas tirou a mão do cavalo e desembainhou a espada.

— Sshhh! — repetiu Duque.

     Zacarias e Joel surgiram na porta do casebre, trazendo suas armas prontas para disparar.

     — E se acendermos uma fogueira? Ela não vai chegar perto da gente com uma fogueira acesa. — sugeriu Alicate.

     Francis negou com a cabeça. Vicente também deixou o casebre c foi para o lado de Sinatra, junto ao riacho. O bento grandalhão desembainhou sua espada, com os olhos varrendo o escuro.

     Ouviram o rugido da fera mais uma vez. Estava nas árvores, para trás do casebre, depois do riacho.

— Onça... — murmurou Lucas.

     — É o que tem de monte por aqui. — rebateu Duque, em voz baixa, próximo de Lucas.

— Vocês nunca descansam, não?

Duque sorriu, exibindo sua dentição perfeita.

     Os homens voltaram-se para o riacho. Podiam ouvir a grande onça movimentar-se na mata. Estava correndo. Pássaros despertos pela fera voavam em disparada, enchendo a noite de barulhos.

     Repentinamente, um vulto saltou do meio das árvores vindo para o leito do riacho, correndo na direção de Sinatra.

     Alicate, com mira pronta, disparou. O bicho alcançou o "soldado-cantor", derrubando-o na margem do rio. Levantou-se mais uma vez, voltando a correr. Um segundo disparo do rifle de Alicate fez a criatura tombar. Uma capivara.

     Para surpresa de todos, uma onça-pintada imensa surgiu das árvores. O belíssimo animal parou na beira da mata, olhou para os soldados por um momento e esgueirou sua pelagem pintada de volta à escuridão.

     Quando o grupo descongelou, Alicate avançou até a capivara abatida e encostou o cano do fuzil no animal. Estava morto.

—        Pelo menos a bóia de amanhã tá garantida. Os homens riram, desanuviando um pouco.

     — Vamos descansar o esqueleto, macacada. Amanhã temos um dia cheio. Cinco da manhã: cavalgar. Sete da manhã: cavalgar. Nove da manhã: cavalgar. — lembrou Vicente.

     — Zacarias e Marcel pegam o primeiro turno. Depois revezam com Alicate e Sinatra. Escorem bem a porta e fiquem de ouvidos atentos. — orientou o líder Adriano, cofiando o cavanhaque. — Onça é o menor dos nossos problemas.

     Lucas recolheu a espada. A inesperada visita tinha espantado o sono, mas o cansaço ainda pesava sobre os ombros. Assim que deitasse, escorreria para a terra dos sonhos.

    

     Lucas acordou suavemente. Abriu os olhos tentando enxergar na escuridão. Uma sombra ao seu lado. Ouvia gotas caindo do teto e estalando nas poças. Alguém chamando seu nome mais uma vez. Era por isso que tinha aberto os olhos. Alguém chamando. Um sussurro. Sentou-se sobressaltado, despertando de fato. Não estava no casebre, onde havia adormecido. Estava cercado por corpos empilhados. Corpos ressequidos, cadavéricos. O coração disparou. Lucas ouviu a voz repetindo. O bento levantou-se. Procurou pela voz. Pisou sobre corpos para aproximar-se do homem que lhe chamava. Achou um corredor entre os corpos. Um ser cadavérico estendeu o braço em sua direção. Em vez de seu nome, o monstro, quase seco, balbuciava algo ininteligível. Talvez pedisse ajuda. Olhos afundados nas órbitas. Um "morto-vivo". O chamado tornou a acontecer, vindo de mais adiante, Lucas tateou as paredes de pedra. Gotas desprendendo do teto. Som de goteiras, como se tivesse chovido muito sobre o teto do casebre. As pedras úmidas, o chão liso e viscoso. Limbo. Lucas. A pele do trigésimo bento arrepiou-se. Tocou o peito, sentindo a cruz em relevo, sentindo conforto. Caminhou por todo o corredor. Por fim, um novo canal de pedras. Claridade. Estava chegando ao final. Mais pedras. Respiração entrecortada. A voz chamando.

— Venha, Lucas.

     Lucas passou a enxergar o chão. Pedras negras. Musgo nas reentrâncias. Um ar frio percorrendo o corredor. Atingiu a boca da caverna. Escalou três metros para abandonar o buraco. Eucaliptos ao redor. Um vento suave farfalhando os galhos. Folhas caindo. Uma claridade fraca. Estava amanhecendo.

— Onde você está? — perguntou Lucas.

     Olhou ao redor. A floresta plena de árvores. Um terreno acidentado. Um pano vermelho sujo e desbotado amarrado ao redor de um tronco. Lucas desequilibrou-se e caiu junto a uma pedra. Os galhos das árvores agitaram-se mais ariscos. Lucas ergueu os olhos. Criaturas. Criaturas saltando nos galhos. Criaturas leves, que transitavam com graça. Ficou imóvel. Uma delas aproximou-se. Saltou do topo da árvore e bateu em cima da pedra ao lado da qual estava caído. A criatura flexionou o tronco e farejou no ar. Grunhiu. Lucas arregalou os olhos. Aqueles seres. Eram vampiros! Posou a mão na espada. Arrancaria a arma da bainha, mas, por alguma razão, sentia-se petrificado de medo. Eram tantos. Em tantos galhos. Como uma tribo silvestre, uma tribo antiga e primitiva. Seres leves como plumas, que, de modo selvagem, preferiam caminhar sobre as árvores do que sobre o chão. O vampiro em cima da pedra ergueu o tronco e urrou. Lucas olhou fixamente para a horrenda criatura. O monstro tinha a pela branca e as veias azuis destacavam-se de maneira gritante. Tinha os lábios ressequidos e olhos vermelhos. Caninos longos, feitos para rasgar a carne da presa. Sede de sangue. As criaturas saltaram das árvores, escondendo seus olhos de brasas ardentes na boca da caverna. O último deles, o que estava cravado no topo da rocha feito uma gárgula maldita, também deu seu salto e desapareceu pela boca da toca. A floresta voltou ao silêncio e as árvores ao movimento calmo proporcionado pela brisa suave. Lucas levantou-se. O coração ainda disparado. A mão no cabo da espada. A boca da caverna morta.

— Rios de Sangue. — disse a voz.

     Lucas sobressaltou-se e virou. No meio das árvores, a imagem de um homem. Caminhou ao encontro da visão.

     — É aí que eles moram, Lucas. E são nesses buracos que escondem nossos irmãos. Escondem-nos para servirem-se de sangue.

— Você... — murmurou Lucas aproximando-se, confuso.

     O corpo espectral abandonou sua posição também chegando mais perto do interlocutor.

— Você está morto! — espantou-se o bento.

     Lucas estava com os olhos arregalados. Não acreditando no que via. O corpo translúcido do velho Bispo estava na sua frente!

— Bispo! — exclamou.

O fantasma andou entre as árvores. Lucas engoliu a seco.

      — Meu corpo tá morto, Lucas. Fui vítima de uma cilada. De uma trama maldita. — revelou o fantasma, com voz calma e baixa. — Não sei por quanto tempo estarei por aqui, menino. Mas, filho, tenho certeza de que isso não vai durar, não. Tudo arde e a luta é constante. Tá tentando me digerir, Lucas. Comer minha consciência.

     Lucas andou novamente ao encontro do fantasma. Bispo afastou-se antes de ser tocado. Caminhou em direção à boca da caverna e apontou para o buraco.

     — Tá vendo, bichinho? E aqui que os cabras se escondem. Viu aquela gente seca lá embaixo?

Lucas aquiesceu.

     — São nossos irmãos. São o que os malditos sanguinolentos chamam de "Rios de Sangue". De dia a gente roda para salvar o povo adormecido, de noite eles varrem a escuridão para prender mais gente. É a guerra, bichinho. Agora que tu tá aqui, isso vai ter um fim.

Lucas abaixou a cabeça.

— Eu estou com medo, Bispo.

O fantasma, com olhos serenos, fitou longamente o bento.

     — Ainda tá com medo? Mesmo depois de ter dado conta de uma legião do capeta nos muros de São Vítor? Ôche! Deixa de ser besta, cabra. Tua força, tua energia é tão poderosa que tu tá até aqui comigo. Ninguém mais tá, só tu. Isso não te diz alguma coisa?

— Acho que estou sonhando... deve ser isso.

     — O mundo dos sonhos rege o mundo dos vivos, filho. O mundo dos sonhos rege o mundo dos vivos. — repetiu o velho. — Tudo que é sonhado é colocado em prática.

     Lucas caminhou até a boca da caverna. O velho bispo andou mais um pouco. Só agora o bento notava que o velho "andava".

— Você está andando... Bispo sorriu.

— Aqui eu ando, filho. Não é bom isso? Lucas aquiesceu.

— Vim para te dar um aviso.

     O bento notou que a expressão do velho mudou, deixando o ar leve, chegando a escurecer de seriedade.

     — Aqui eu continuo vendo coisas. Não sei até quando, filho. Não sei. Minha essência escorreu pela garganta de um maldito e eu temo que, se ele sobreviver, vai começar a ver o que eu vejo também. Mas, vai começar a ver o que é bom pra ele. Vai querer estragar nossa vitória. Vai melar, Lucas. Vai melar.

— Nós vamos conseguir juntar os trinta bentos? Bispo não respondeu.

— O que você viu, Bispo? Diga.

     — Eu te vejo lutando contra o Demônio, bento Lucas. Tu é o escolhido. Tu vai pegar a pior parte do trabalho. É um guerreiro danado de bom, cabra da peste! Mas pra juntar os trinta, tem que despertar aquela tua teimosia. Lembra da teimosia? Obstinação, impaciência. É desse Lucas que teus bentos precisam. O Lucas que procura sem cansar.

Lucas engoliu a seco.

     — Tu vai lutar contra a fera, bento. Fogo e fumaça. O inferno, menino. E eles também vão aprender a lutar, Lucas. Vocês têm que correr, menino, têm que ter pressa. Os milagres...

     — Você viu? Você viu os milagres? — perguntou Lucas, afoito, interrompendo o espectro. — O que vai acontecer quando juntarmos os trinta bentos?

O fantasma do Bispo mudou o rosto.

     — Tu tem que tomar cuidado, Lucas. Tome cuidado. E se apressa. Põe gana nesses homens.

— O que são os milagres, Bispo?

     O fantasma falava, a boca movia-se rapidamente, mas som nenhum saía. No semblante de Bispo, estampado o medo. Um vento forte farfalhando as folhas das árvores. O fantasma apontou na direção de um eucalipto.

     Lucas sentiu um embrulho no estômago. Olhou para onde o velho apontava. O pano vermelho ao redor do tronco.

— Lucas! — um grito.

     Lucas abriu os olhos fitando as teias e as ripas do teto. Um fio de luminosidade entrava por frestas nas telhas de barro. Bento Duque o balançava pelos ombros.

     — Sono pesado, irmão. Não pode ser assim. Os malditos podem atacar a qualquer instante.

Lucas levantou-se.

— Coloque sua capa. Vamos partir.

Lucas olhou ao redor. Era o último dentro do cômodo.

— Eu tive um sonho.

Bento Duque, que caminhava para fora, estacou e virou-se.

— Teve o quê?

— Tive um sonho. Com o velho Bispo.

     Duque parou de frente para Lucas, calado. Passou a mão na cabeça.

     — Ninguém tem sonhos, Lucas. Ninguém sonha desde o dia que os malditos infestaram a terra.

     Lucas, quieto, apanhou sua espada embainhada, prendendo-a ao cordão de couro. Bento Duque virou-se, agitando sua capa vermelha e caminhando até desaparecer pela porta iluminada.

    

     Lúcio olhou para o caixote de madeira. Não sabia o que fazer. Por mais quanto tempo o vampiro permaneceria daquele jeito? Acordaria algum dia? Estaria morto? Não podia ir até algum covil devolvê-lo. Seria morto. Sabia disso. Teria de esconder o corpo inanimado de Cantarzo ou carregá-lo consigo. Lúcio passou o braço pela testa, limpando o suor. Tinha conseguido o caixão e a corda para puxar o maldito. Apesar da lama fazer o caixote deslizar mais fácil, ainda assim o corpo do noturno era pesado. Iria por baixo das copas mais frondosas, assim evitaria o sol direto sob o caixão. Não ia conseguir arrastá-lo por muito tempo. Onde encontraria a cobra engolindo a tartaruga? Teria de abandoná-lo à própria sorte. E se não estivesse morto? Poderia estar em uma espécie de transe. Hibernando. Afinal tinha ingerido sangue. Nunca tinha visto antes um vampiro alimentando-se de perto. Mas sabia que eles não caíam mortos depois de tomar o líquido da vida. Continuavam feito cães urbanos atrás da caça sangrenta. Demônios. Por outro lado, o maldito não tinha tomado sangue qualquer. Fora o sangue de Bispo. Sangue mais especial que aquele no meio dos humanos não haveria. Lúcio raspou as unhas na barba. O sol vinha chegando e nada do maldito acordar. Cantarzo era pesado. Apanhou a casca de árvore e cavou mais entre as raízes, alargando a reentrância. Depois de suar mais de meia hora na tarefa de tirar o barro úmido debaixo do raizame da velha árvore, já tinha espaço suficiente. Arrastou a caixa de madeira, contendo o corpo de Cantarzo, para o fundo e começou a recobrir com o barro revolvido. Para tornar o esconderijo ainda melhor, puxou as velhas raízes para cima e cobriu tudo com uma boa quantidade de folhas velhas. Sol nenhum atingiria a caixa. Curioso algum descobriria o esconderijo. Lúcio passou o braço sujo de barro debaixo do nariz. Demorou para recuperar o fôlego da exaustiva tarefa. Estava com fome. Queria um pedaço de pão. Não conhecia muito bem aquela região, mas, se encontrasse a casa de algum banido, talvez conseguisse comer alguma coisa. Andou entre as árvores e chegou na beira do barranco. Para baixo, mais mata. Para cima, mais mata. Teria que tomar cuidado para não perder o vampiro. Algumas espécies de bromélias jaziam logo abaixo, adornando todo o pé do barranco. Sentou-se em uma pedra para descansar mais e aproveitar para memorizar as particularidades da paisagem. Não sabia se voltaria. Tomaria essa decisão depois. Tinha feito o que o vampiro havia pedido em troca da imortalidade, agora o maldito estava daquele jeito, apagado. Não tinha garantias de que voltaria a ver Cantarzo andando pela mata novamente. Não sabia o que fazer. Começou a descer o morro. Iria procurar água e fumaça. Onde houvesse fumaça, provavelmente haveria comida. Depois colocaria o coco para pensar. Tinha que encontrar uma bruxa, uma serpente e uma tartaruga.

    

     —   Amanhã, a uma hora dessas, estaremos cruzando os portões de São Pedro, Lucas. Mais três bentos se juntarão à nossa cruzada. — disse bento Francis.

     —   Menos três bentos até os milagres. — adicionou Edgar. Os cascos dos cavalos produziam um som oco contra o asfalto. A maior parte do dia tinham cavalgado sobre a pista negra.

     Lucas olhou para o céu azul e límpido. Pássaros em abundância trocavam de lado nos arvoredos que ladeavam a estrada. Não cansava de notar a exuberância da natureza. Bem diferente do mundo que havia conhecido, o mundo cinza de aparência e atitude. O mundo aglomerado de gente que se trombava na rua sem acenar a cabeça ou dar um bom dia. Entendia cada vez mais as palavras que Bispo havia lhe dito, não no pesadelo bizarro da noite passada, mas aquelas escutadas dentro da casa do velho. Bispo tinha dito que o dia fatídico, que havia separado os vivos dos mortos, havia sido um dia de benção e não de tragédia. Havia sido um divisor de águas. Daquela noite assombrada em diante, os grandes ícones do homem iam ao chão e, agora, restavam dois sentimentos a que os sobreviventes agarravam-se: o medo e a união. O fim do velho mundo fora necessário para lembrar aos homens da real missão dos irmãos na Terra. Proteger uns aos outros. Viver uns com os outros. Todos sob o mesmo sol, sob o mesmo céu. Todos colocando em primeiro lugar o bem-estar do grupo e não a cobiça privada. O deus dinheiro não era mais importante. Os grandes bancos, com suas sedes erigidas e encravadas nos corações das metrópoles, deveriam agora ser ninho dos malditos, ocupados pelos vampiros amaldiçoados pela escuridão e sedentos de sangue. Lucas sorriu com seus pensamentos recentes. Dinheiro. Uma lembrança vaga. Uma pilha de contas em sua casa. O sorriso sumiu. Sua casa. Seu passado perdido. Não conseguia se lembrar de amigos ou parentes. Sorriu novamente rememorando os últimos dias. Dinheiro. Nem uma vez ouvira alguém falar de dinheiro. Os homens falavam em esperança e salvação. Falavam em irmandade e união. As pessoas estavam mudadas. Recebera roupas de guerreiro, cavalo, espada. Ninguém lhe havia pedido dinheiro algum. Pediam só que fosse de fato o salvador. Que fosse o homem com quem Bispo sonhara. O libertador dos humanos. O libertador que bateria os malditos vampiros para os confins do inferno e baniria o medo da noite. Lucas suspirou. Dinheiro. Apertou os olhos. Via uma valise. Uma valise cheia de notas. Muito dinheiro. Tinha tido diante de si muito dinheiro. Uma aflição crescente. Aquele dinheiro representava vida. Abriu os olhos. A luz do sol inundou sua cabeça, varrendo para baixo do tapete da consciência seu fiapo de memória.

     — Vamos cortar caminho por ali. — disse Vicente, arrancando Lucas de suas divagações.

     O bento olhou para onde o colega apontava. Um caminho largo, aberto na floresta, com chão de barro úmido. Alguns dos soldados iam na frente, averiguando a passagem. Outros cercavam os guerreiros armados.

Adriano aproximou-se com um volume nas mãos.

— Vista isto. Estamos em terreno perigoso.

     Lucas apanhou uma peça de pano da mão do soldado. Viu Adriano distribuir peças iguais aos outros. Olhou para o caminho para o qual se dirigiam. Sentiu um mal-estar. O caminho escurecia na medida que as árvores intensificavam-se. O som seco dos cascos de cavalo ia dando lugar ao barulho da lama.

     As peças eram grandes capas de cor marrom com capuzes na extremidade. Os cinco bentos puseram as capas e mais três soldados.

     — Assim não damos tanto na vista que somos bentos. Evitamos armadilhas por parte dos malditos noturnos.

     — Mas a essa hora... ainda tem sol. Eles não podem nos atacar no sol. — argumentou Lucas.

— Mas os mulos podem.

     Lucas olhou para Francis. Lembrou-se dos mulos, os escravos dos vampiros. Eles poderiam criar encrenca durante as horas de sol. Poderiam detectar um grupo de soldados em missão e delatar a posição ao inimigo noturno assim que o sol baixasse. Os banidos viviam nas matas e usavam desses expedientes para gozarem de bom relacionamento com os monstros da noite e terem seus pescoços poupados.

     — Se algum mulo vê nossas capas vermelhas e armaduras reluzentes, quando chegar a noite os malditos estarão em cima da gente. Bentos são perigosos, mas são peças importantes no jogo dos noturnos. Valemos muita coisa para esses desgraçados pularem feito loucos em cima do nosso couro, mesmo sabendo que, provavelmente, serão picados e moídos por nossas espadas de prata.

— Eles devem conhecer a profecia.

     — Conhecem, Lucas. Conhecem, sim. Esses banidos, as pessoas más que são colocadas para fora das fortificações, dão com a língua nos dentes. Selam amizade, compactuam com os malditos. Vendem informações. Assim os noturnos sabem onde guardamos os adormecidos. Por que atacam tanto São Vítor? Porque sabem que lá se concentra o maior número de adormecidos de todo o Brasil.

     — Por que não descobrem onde ficam esses mulos e não acabam com eles?

     Francis puxou a rédea do cavalo e parou o animal. Lucas fez o mesmo. O bento mais antigo suspirou fundo.

     — Não matamos gente, Lucas. Mesmo dando vontade... não matamos gente. Essa vida já é tão desgraçada, tão terrível, que fizemos um voto de não matar os irmãos, mesmo os maus, que vivem fora dos muros.

— Mas se eles prejudicam tanto a missão...

     — Viver fora da fortificação já é castigo suficiente. Mesmo com os pactos que tecem com os malditos noturnos, Lucas, esses banidos são uns coitados. São vítimas de suas atitudes... e até mesmo seus protetores da noite acabam se virando contra eles. Os noturnos são bestas sem escrúpulos e sem coração. Quando querem sangue só buscam um corpo quente e de coração pulsante. Esquecem de pactos e de relacionamento.

     O grupo de cavaleiros afastava-se. Apenas Alicate aguardava a dupla que conversava.

     — Vamos andando, Lucas. Temos que percorrer muito chão até São Pedro. E vamos orar também, pois estamos em terreno inimigo. Nessa região, a atividade dos noturnos é constante. Se descobrem um grupo de cinco bentos na mata, juntarão tantos noturnos quantos for possível para arrancar nosso couro.

     Lucas arrepiou-se, lembrando-se da visão em seu pesadelo. Dos malditos vampiros empoleirados nas árvores feitos pássaros do inferno. A pele branca com as veias negras e azuladas realçando a aparência demoníaca e asquerosa, exalando pelos poros uma névoa de perigo, alertando aos incautos: fiquem longe de mim.

     Cavalgaram vagarosamente por cerca de uma hora. Apesar do ar sombrio que sentira a princípio, o caminho revelara-se calmo e harmonioso ao bento novato. Uma brisa constante refrescava a pele, aliviando o calor proporcionado pela farda de guerreiro.

     Bento Edgar aproximou-se com sua montaria, permanecendo ao lado de Lucas. Depois de cinco minutos ao lado do trigésimo, abriu a boca:

— E aí? Como é ser o tal?

     Lucas sorriu, soltando ar pelo nariz. Continuou calado. A voz dos soldados conversando na frente e o barulho dos cavalos passando pelo chão úmido. Os cavaleiros balançando sobre as selas, acompanhando o movimento dorsal da montaria.

— Sei, lá. Dá um embrulho no estômago.

     Edgar levantou o rosto, olhando para as árvores ao redor. As copas, altíssimas, cerca de vinte metros acima de suas cabeças, peneiravam os raios de sol.

— Já, já vai escurecer.

— Como é que você chegou aqui? — quis saber Lucas.

     — Que nem você. Um dia acordei. Fui colocado numa sala e fiquei esperando o que ia acontecer.

— É estranho, não é?

Edgar concordou com a cabeça.

     — Dormi como corretor de seguros, acordei como salvador do mundo.

Continuaram em silêncio mais um instante.

— E você? Lembra da sua vida antes de adormecer?

     — Ah. Já lembrei de tudo. Faz tempo. Às vezes, demora pras coisas voltarem pra cachola... mas voltam... de uma hora pra outra, sem explicação.

— Tá difícil. Nem do meu nome eu lembrava.

     — Eu lembrei tudo. Não sei se isso é bom... às vezes, preferia ficar desmemoriado. Assim o peito não ia doer tanto na hora de lembrar da minha preta e dos meus dois bacuris.

Lucas riu da expressão.

     — Eu era policial rodoviário. Morava em Ubatuba e trabalhava em Caraguatatuba.

— Ubatuba?

— É. As praias mais lindas do litoral paulista, lembra?

— Ubatuba... — repetiu Lucas.

— O caso Roberto... o louco do asilo, lembra?

     —   Lembro... — Lucas puxou a rédea, fazendo o cavalo parar. Edgar também parou seu animal. Lucas tinha a expressão estranha.

— Ubatuba.

     — Lembra do caso do asilo? Passou no Fantástico. A Globo deu o maior apoio pra nossa causa. A ação "Desespero que Salva". O policial maluco. Era eu. Lembra?

Lucas apertou os olhos. Um flash. O som das ondas. Carros de TV

— Não tenho certeza...

     Baixou a cabeça. Tinha um folheto na mão. A foto de um rapaz. Um rapaz conhecido. Olhando para o lado, ouvindo os gritos desesperados de uma mulher. Ela tirava a filha de uma multidão de famintos.

—        ...acho que eu estava lá. Edgar abriu um sorriso largo.

— Não acredito!

— "Desespero que Salva".

— É. Foi esse o slogan idiota que eu bolei, mas que deu certo.

— O que foi que aconteceu? Eu não lembro bem.

     — É o que eu ia falar. Eu era policial rodoviário, mas nas horas vagas eu dava uma de professor de Educação Física voluntário no maior asilo de Ubatuba.

— Sei. — concordou Lucas.

     — Teve uma época que aquele asilo só funcionava na base de voluntários, daí a prefeitura cortou a verba que sustentava o pouco que restara da casa de velhinhos. Eu comecei uma campanha, pedindo aos empresários de Ubatuba e região, pedindo uma contribuição mensal para manter o asilo. Tinha muito nego que ajudava, mas chegou uma hora que não dava mais. Não tinha luz, não tinha água, tinham cortado tudo.

— Nossa.

     — E ninguém tava cagando pros coitados. Sabe, tinha um monte de gente lá que tinha sido pai e mãe de família, tinha criado três, quatro filhos e nenhum filho-da-puta aparecia pra ajudar. Os coitados estavam morrendo à míngua, nem tinha mais sentido eu continuar tentando dar aulas de educação física. Virei enfermeiro na raça. Faxineiro. Minha mulher já tava querendo me largar, porque quando eu não tava no trabalho, tava no asilo. Eu sei lá, eu simplesmente não conseguia largar aquela gente ali.

— Putz. Você não pirou? O que aconteceu?

     — Se eu não pirei? Acho que não pirei porque Deus mandou um monte de anjos pra segurar minha cabeça. Graças a Deus mais voluntários apareceram, mas tudo gente pobre, que nem eu. Não dava pra fazer milagres, mas a gente ia levando. Até o dia da merda maior...

— Que merda?

     Bento Edgar deu um toque de calcanhar na barriga de seu cavalo, fazendo-o voltar a andar. Lucas acompanhou o bento.

     — Chegou uma ordem de despejo. Cara, foi demais. Acabou com o ânimo de todo mundo. Cento e cinqüenta velhinhos, que seriam postos no olho da rua. De tanto que eu enchi o saco no fórum, consegui duas semanas de prazo, mas isso não ia adiantar. Não dava pra eu colocar cento e cinqüenta velhinhos dentro de um apê de dois dormitórios.

— O que você fez?

     — O que eu fiz? Comecei com a ação "Desespero que Salva". Juntei eu e mais três malucos e ficamos sentados na frente do asilo. Começamos uma greve de fome. Mandamos avisar jornais e rádios da região. Em dois dias tava todo mundo sabendo e indo lá pra frente do asilo ver os quatro malucos que não comiam nada.

— E deu certo?

     — Não era pra dar... mas no terceiro dia começou a acontecer. Mais dez pessoas se juntaram a mim. De quatro, passamos a quatorze, em uma semana éramos cento e cinqüenta grevistas do desespero. Não deixamos passar disso pois queríamos que cada um de nós representasse um velhinho. Tinha nego que trazia bolacha pra gente. Trazia frango, mas a gente tava unido. Não deixei ninguém fraquejar até onde agüentei. Do sétimo dia em diante, só na base da água, eu já não tava vendo mais nada. Veio o Fantástico, o SBT, a Rede TV, todo mundo querendo mostrar os cento e cinqüenta malucos. Tinha médico voluntário que vinha atender a gente, vinha hidratar e tudo o mais. Mas só assim pra esses cornos aparecerem. Quando chegou o dia de tirar os velhinhos do asilo, quem disse que tiveram coragem de tirar a gente da frente? Com a televisão lá, não passou um. No nono dia a coisa engrossou. Um monte de grevistas foi levado para os hospitais. Eu não. Não deixava. Dizia que morria se ninguém desse um jeito na situação do asilo. Dizia que aquilo não podia e que eu sozinho não podia nada. Cara! Lucas sorriu.

     — Acho que agora, você falando... eu lembro. Teve uma empresa que assumiu o asilo, não é?

     — É. Uma construtora. Pagaram as contas atrasadas, pagaram AS contas nos hospitais dos grevistas. Contrataram médico e enfermeira para os velhinhos de Ubatuba.

— Tá vendo? Tinha gente boa ainda no mundo.

     —   Tinha. Mas tive que fazer o maior auê. Continuaram atrás do grupo. A luz no céu minguando.

     — Depois de um tempo, as coisas voltaram ao normal. Eu voltei a ser um simples guarda de estrada. Até ganhei uma medalha do comando por isso.

— Legal.

     — Não sei quanto tempo passou. Uma bela noite eu dormi e alakazan! Aqui estou eu.

— Que história! Você é um cara bastante obstinado.

     — Todos nós somos, Lucas. Todos nós temos essa teimosia, essa gana por dentro, é só encontrar a chave.

O novato suspirou mais uma vez.

     Depois de completar a curva, Lucas viu bento Vicente e bento Duque apeando os cavalos. Os soldados que iam na frente já tinham descido e buscavam amarrar os animais próximos a um córrego de água limpa e fundo de pedras. As criaturas sedentas baixavam elegantemente a cabeça, deixando a crina encobrir-lhes parcialmente enquanto bebiam água.

     Lucas, sem saber o porquê, sentiu outro calafrio. Estava perturbado. Por que aquela sensação crescente de desconforto? Aquele pressentimento de perigo?

     Sinatra encheu a floresta com sua voz aveludada, cantando Exagerado, de Cazuza, descontraindo os parceiros de viagem.

     Bento Lucas parou o animal. O soldado Carlos aproximou-se para auxiliá-lo a descer do tordilho, no entanto o bento já havia se acostumado ao transporte, descendo rapidamente e sem embaraço algum. As pernas e a virilha já não incomodavam tanto e não se sentia tão desengonçado sentado ao dorso do cavalo. Carlos notou os olhos de Lucas. Encontrou neles algo diferente. Um semblante preocupado. O bento olhava para todos os lados, inquieto.

— O que foi? Que cara é essa?

     Lucas encarou o soldado por um breve segundo, como saindo de um transe. Voltou a olhar para o caminho de barro na frente, igualmente aberto por baixo da copa das altas árvores. Uma floresta de eucalipto, como tantas outras que haviam cruzado.

     — Nada, Carlos. Só não estou me sentindo bem. É só uma sensação esquisita. Uma sensação de perigo. — disse, apertando as luvas.

— Huum. Sei. — respondeu o soldado, balançando a cabeça.

     Carlos olhou em volta também. Faltava pouco para o pôr-do-sol. Ainda estava junto do bento novo quando ouviram um barulho e em seguida risadas. Os homens estavam na beira do regato. Os cavalos relincharam e ergueram as patas. Carlos correu até o meio dos colegas. Lucas, vindo atrás, viu quando bento Duque levantou-se da água. Os outros bentos e os soldados faziam gozação.

     Duque, irritado, arrancou a capa marrom, empapada pela água. Quando livrou-se do apetrecho, também sorriu. Os amigos que escarneciam não tinham culpa de seu acidente. Tinha pisado em falso ao aproximar-se do córrego e uma pequena pedra tinha rolado, levando seu pé e o resto do corpo ao fundo da água.

     — Vai chegar o dia de vocês. Pode deixar. — brincava o negro grandalhão. — Quando tiverem um vampiro nas suas costas, não gritem meu nome. Não vou ajudar nenhum de vocês. Onde já se viu? Rirem de um pobre bento que cai no rio!

Os soldados riram ainda mais alto e fizeram também suas graças.

     Bento Duque torceu a capa marrom com a ajuda de Alicate. Estendeu a capa do capuz em cima de uma pedra. A quentura da rocha talvez tirasse a umidade do tecido. Infelizmente, faltava pouco para o sol esconder-se no horizonte.

     Vicente olhava para o morro na frente, onde a hóstia rubra começava a tocar.

     — Andamos demais, Francis. O sol já vai embora e não encontramos um esconderijo decente para esta noite.

     — Vamos descansar mais um segundo, irmão. Os cavalos estão mortos. Com certeza encontraremos abrigo adiante.

— Na escuridão? Sem chance. Conhecemos pouco estes cantos.

     — Não assuste os homens, Vicente. Vamos encontrar um abrigo. Somos cinco bentos. Vampiro nenhum vai se meter a besta conosco.

     Vicente resmungou qualquer coisa e começou a andar sozinho pela estrada de barro. Ao que parecia procuraria um esconderijo por conta própria.

     Lucas, depois das risadas junto ao riacho, livrou-se daquele aperto no peito. Sentou-se junto com os soldados para descansar um pouco da jornada no lombo do cavalo.

     O grandalhão Paraná acendia fogo para esquentar água para um café. Marcel auxiliava e já tinha estendido uma toalha no chão onde havia deposto duas broas salpicadas de farinha. Uma refeição ligeira não cairia mal.

     Duque ainda ria com alguns dos soldados. Sinatra voltava a cantar, ajudando a distrair os rapazes.

     Duque pressionou os dragonetes que vinham nos ombros e liberou a capa vermelha. A peça também estava molhada e ficava colada nas costas de sua armadura e também nas batatas das pernas, causando desconforto. Retirou a capa e depois os coturnos. Com a ajuda de outro soldado, também torceu bem o manto. Olhou em volta à procura de um lugar seguro para secar o tecido.

     Vinte minutos passaram-se e todos sorviam em pequenos goles o café fumegante e saboroso preparado pelo cuca Paraná. O pão macio, apanhado em Esperança, confortava o estômago. Conversavam despreocupados. Lucas mais ouvia do que falava. As reuniões, à beira do fogo, eram excelentes para o novato descobrir mais sobre a sociedade atual. Descobrir palavras e integrar-se ao novo vocabulário. Analisava também o jeito de cada soldado. De cada bento. Tentava descobrir que tipo de pessoa existia por trás de cada rosto. Cada vez mais convencia-se que eram pessoas do bem, como Edgar mostrara-se. Gente sofrida que lutava pela sobrevivência. Não que o sofrimento as enobrecesse. Mas sofriam porque queriam sofrer. Estavam na estrada porque queriam trazer mais conforto para os irmãos, mais segurança. Livrar o mundo daquelas pestes da escuridão. Traziam cicatrizes nos braços e faces porque estavam na estrada, batendo-se contra o perigo. Não ganhavam dinheiro em troca. Ganhavam gratidão. Ganhavam irmandade e companheirismo. Esses valores pareciam a Lucas a moeda corrente do mundo novo.

     Lucas estava descontraído, observando, com a caneca de café quente na boca, quando se voltou mais uma vez para o horizonte. O disco vermelho já tinha caído para trás do morro, tingindo o céu de tons vermelhos e violáceos. Baixou os olhos vendo o caminho abaixo das copas das árvores. Vicente vinha pela estradinha de barro, onde as sombras da noite já tomavam seu lugar. O bento sorria ao aproximar-se.

— Encontrei uma gruta segura!

     Lucas olhou para o córrego. Sobre uma grande pedra, a capa marrom de bento Duque parecia quase seca. Olhou para o bento. Estava sem a capa, caminhando somente com a elegante armadura torácica de prata, trazendo nela as marcas de combates antigos. Procurou pela capa. Não estava estendida sobre pedra alguma. Olhou em volta. A caneca na boca, sorvendo mais café quente. Olhou para as árvores. Engasgou-se com o líquido fumegante. Derrubou a caneca e sentiu o coração disparar. Caiu da pedra em que se encontrava sentado. Abriu os braços ainda desequilibrado. Risadas dos soldados. Bento Francis o encarou com seriedade. Lucas apontou para as árvores. Seu coração batendo tão rápido e tão forte que poderia arrancar a armadura. Olharam na direção que o dedo indicava. Esperavam encontrar um monstro empoleirado na árvore, mas tudo que viam era a capa vermelha do bento Duque amarrada no alto, enrodilhando o tronco de um eucalipto.

 — Uhhh, cuidado com a capa! — escarneceu Vicente. Lucas levantou-se, atabalhoado.

     — Meu sonho! — gritou, lembrando-se do sonho na gruta. Durante a visão com o velho Bispo, tinha visto um tecido vermelho enrolado num tronco de árvore.

     Bento Francis aproximou-se. Também sentira um calafrio percorrer a espinha, pois o amigo bento havia lhe contado em detalhes o pesadelo e lembrava-se do bento comentar alguma coisa sobre um pano vermelho. Ninguém sonhava desde a Noite Maldita. Pensava nisso quando ouviram uma explosão.

— Todo mundo pro chão! — gritou o líder Adriano.

     Os soldados buscaram a proteção das pedras. Tinham o riacho às costas e somente as pedras como barreira. O tiro parecia ter vindo do lado esquerdo da clareira, mas não tinha garantia nenhuma de estarem no meio de um cerco. Teriam sorte se houvesse apenas um atirador.

Adriano rastejou até os cavalos.

     Outro tiro. Uma lasca de árvore saltou próxima à cabeça de bento Vicente.

— Mulo desgraçado! — urrou o grandalhão.

     Adriano arremessou um fuzil para Paraná. O soldado destravou a arma e apoiou-se em uma rocha fazendo mira na floresta. Se o maldito desse mais um tiro revelaria sua posição.

     — Sorte nossa que esses mulos são ruins de tiro. — balbuciou Francis ao ouvido de Lucas.

— A gruta... a gruta que Vicente encontrou...

— O que tem a gruta, Lucas?

— Ela está cheia de gente.

— De adormecidos?

— Gente... gente seca. Tem alguns vivos. Precisamos ajudá-los.

— E vampiros, Lucas? Tem vampiros nela. Lucas levantou a cabeça.

     — Está vendo aquela touceira logo ali? Francis levantou-se e olhou rapidamente.

— Ali é a boca de uma gruta. — completou Lucas.

     Francis ia dizer alguma coisa, mas uma explosão bem ao lado deles interrompeu a conversa.

— Eu acertei! — gritou Raul.

— Certeza? — perguntou o líder Willian.

— Certeza, cara. Pode apostar.

     Raul ergueu o rifle com mira telescópica em sinal de vitória e voltou a se proteger contra a pedra.

     Os soldados do grupo de Adriano não questionaram. Sabiam que Raul era o melhor de mira do grupo e, quando estava com aquele rifle, dificilmente perdia um tiro.

     Vicente olhou para a árvore lascada e mediu um palmo até sua cabeça. Fez o sinal-da-cruz. Aquela tinha passado raspando.

     Os homens continuaram um instante atrás das pedras. Raul olhava para a mata com a mira telescópica.

     Willian e seus soldados, Alicate e Carlos, olhavam a outra margem do riacho, procurando indícios de movimentação, sinais de inimigos nas proximidades.

     — Tudo limpo. — gritou Raul. — Acho que era um só. Um azarado.

— Se tiver mais gente por perto os tiros vão chamar a atenção.

     — Vamos nos esconder na gruta! Lá estaremos protegidos, poderemos nos defender melhor, não teremos que nos preocupar com a retaguarda.

Joel atravessou a estrada de barro e embrenhou-se na mata, buscando o corpo do atirador na direção indicada por Raul. Os soldados levantaram-se e iam em direção a Vicente.

— Na gruta não! — gritou Francis, levantando-se também.

— Por quê? — quis saber bento Edgar.

— Na gruta... tem vampiros.

O silêncio pesou sobre o grupo.

     Vicente olhou para o horizonte. Um fino fio vermelho perdia a força, entregando o céu à noite. Repetiu o sinal-da-cruz e pousou a mão no cabo da espada.

— Traga Joel. — pediu Francis ao bento Edgar.

     Edgar, o magricela de músculos definidos, saiu atrás do soldado. Um vento frio agitou a copa das árvores.

— Quanto tempo temos? — perguntou Alicate.

     — Nenhum. Preparem as armas. Balas de prata. Nós vamos sair dessa. — disse Adriano. — Defendam os bentos. Custe o que custar. Quando os malditos chegarem, eles vão ficar loucos. Não podemos perder nenhum. Ouviram? Nenhum. Os soldados aquiesceram.

     — Precisamos juntar trinta bentos. Trinta. Se um morre, bau bau profecia.

     Os soldados ouriçaram-se. Partiram para os cavalos, preparando as armas. Marcel retirou três garrafas do meio de suas coisas. Água benta, sua amiga inseparável.

Os bentos também pareciam empertigados.

     — Como sabem que tem vampiros naquela gruta? — questionou Vicente.

— O pesadelo de Lucas. Lembra?

O bento balançou a cabeça positivamente.

— Ele sonhou com esse lugar. Sonhou com as criaturas.

     — Ele sonhou com esse lugar. — repetiu Vicente, mudando a voz para um tom mais agudo, fazendo graça com a expressão. — Você vai ficar prestando atenção em tudo que esse merda fala?

     Um vento mais forte bateu na estrada. A touceira de mato alto agitou-se. Uma sombra sinistra escapou pela boca da gruta e saltou para cima de uma árvore.

     — Você vai ficar prestando atenção em tudo que esse merda fala? — repetiu bento Francis, fazendo graça na sua vez.

Bento Vicente sacou a espada.

     — Vicente, você tem que aceitar que Lucas é o homem! Ele veio para nos ajudar. Ele veio para nos salvar. Ao invés de ficar fazendo pouco, ponha sua espada ao lado dele. Morra no lugar dele. É o único caminho.

    

     O vampiro parou empoleirado no galho firme do eucalipto. Seus olhos vermelhos varreram a mata. Abriu um sorriso ao avistar quarenta metros adiante o grupo de soldados. Lutar por um pouco de sangue quente no começo da noite seria um bom exercício. Grunhiu chamando a atenção dos irmãos noturnos. As roupas negras da criatura esvoaçaram quando cruzou o ar, deixando uma árvore e partindo para outra.

     Bento Duque estralou os dedos e desembainhou a espada prateada.

     Edgar cuspiu na luva de couro e sacou sua arma também. As capas marrons com capuz confundiriam por um instante as criaturas.

     O vampiro agarrou-se firme ao galho. Parou e examinou melhor o grupo. Um homem negro trazia o tórax protegido pela armadura de prata. Um bento!

     Dezenas de vampiros saíam pela boca da gruta. A maioria saltava direto da abertura para um galho de árvore, movendo-se com grande velocidade e agilidade, cercando perigosamente o grupo de soldados junto ao córrego.

Relinchos de cavalo encheram a mata.

     — Sangue bento! — bradou o líder dos vampiros, apontando para Duque.

     O líder foi o primeiro a abandonar o galho frondoso e cruzar o ar em direção ao grupo de humanos. Os demais vampiros grunhiram, exibindo seus dentes pontiagudos e descendo para mais perto do chão. Assim que o líder tocou o solo, as criaturas saltaram das árvores, formando uma perigosa nuvem de criaturas da escuridão ao redor dos poucos soldados.

    

     Bastou o grito ameaçador da fera para que os bentos fossem tomados pela força estranha que os empurrava de encontro àqueles monstros. Bento Duque gritou e ergueu sua lâmina, indo na direção do vampiro líder.

     Bento Francis sacou a espada. Eram muitos inimigos chegando, a luta seria infernal.

— Fogo! — gritou Adriano.

     Disparos começaram a espocar ao redor dos bentos. Os soldados tentariam abater o maior número possível de criaturas, antes delas tocarem nos bentos. Tentariam a todo custo salvar aqueles homens sagrados e manter a concretização da profecia em curso.

     Assim que o vampiro líder gritou e tocou no chão, vindo de encontro à espada de Duque, Lucas começou a sentir uma queimação interna. O cheiro fétido das criaturas entrava por suas narinas, sugando-lhe o auto-controle. Lucas, com suor escorrendo da testa, abaixou a cabeça. A mão segurou firme o cabo da espada. Um grunhido gutural formando-se em sua garganta. Abriu a capa marrom e retirou o capuz, fazendo sua capa vermelha esvoaçar ao girar o corpo. O círculo de vampiros em torno deles pareceu aguardar um segundo ao perceber mais um bento revelado. Risos partiram da boca das feras. Dezenas delas estavam no chão. Mais um bom número ainda empoleirado nas árvores. Os olhos do bento encheram-se de luz, emanando um espectro amarelado. Lucas arrancou a espada da bainha provocando um chiado metálico.

     Marcel que, apesar da tensão do momento, parou para observar Lucas, sentiu a pele arrepiar. Os olhos do bento estavam amarelos! Marcel chamava a atenção de Raul, quando o bento disparou em desabalada carreira, de encontro aos malditos.

     O vampiro líder parou o ataque antes de encontrar-se com a espada de Duque. O vampiro, surpreso, percebeu uma sombra prateada e vermelha cruzando seu caminho. No instante seguinte, seu corpo vampírico perdia as forças e sua cabeça escapava do pescoço.

     Lucas continuou a corrida, ignorando os vampiros que surgiam ao seu lado. Queria alcançar as árvores.

     Adriano deu mais um tiro. Outro vampiro sentiu a carne penetrada pelas balas de prata, tombando aos gritos, ferido gravemente. O líder dos soldados de São Vítor fez nova mira. Mais um desgraçado saía do caminho.

     Os vampiros que gargalhavam em cima das árvores, observando a batalha, ficaram tensos quando perceberam o vampiro líder cair decapitado. Notaram que, debaixo daquelas capas marrons, surgiam cada vez mais bentos. No instante seguinte, um deles notou aquele homem de capa vermelha subindo rapidamente na árvore. Não teve tempo de dar o alerta. Quando flexionou o corpo, a espada afiada do bento já o tinha atingido na altura do joelho. O vampiro urrou de dor, a prata sempre exercia essa maldita reação, queimando a carne e comendo os nervos. Viu sua perna rodopiando no ar e indo ao chão. Mais um segundo e a lâmina passava em seu abdome, colocando para fora seus órgãos podres. A fera não teve mais forças e despencou das alturas com os olhos vermelhos fixos num par de gemas amarelas espectrais.

     Lucas partiu para o seguinte, saltando, igual aos malditos, de galho em galho, alcançando um a um, evitando a fuga das criaturas. No entanto, teve que voltar ao chão ao notar a massa crescente de atacantes fechando-se sobre os companheiros. Saltou de cima da árvore, cruzando o espaço com a espada acima da cabeça. Ao tocar o solo, o golpe poderoso da lâmina atravessou de cima a baixo uma vampira, dividindo-a ao meio. Lucas apertou o cabo da espada e com maior ferocidade bateu contra as criaturas que o cercavam. Usava o cotovelo e as pernas para afastá-los e a lâmina afiada para exterminá-los.

     Edgar abaixou. O cheiro horrendo que exalava dos malditos o deixava cego. Eram tantos ao redor. Não tinha medo. Queria estrangulá-los, um a um. Mas, o número gigante de criaturas noturnas impedia uma tortura mais severa. Tinha que ser breve nos golpes. O bento cruzou a espada horizontalmente, repartindo ao meio mais uma criatura. Os agonizantes, mutilados, largados ao chão, eventualmente lançavam seus braços, tentando derrubar os guerreiros.

     Os tiros dos soldados estavam sendo de grande valia. Impedindo muitas vezes que os guerreiros espadachins fossem agarrados pelas costas. Miravam principalmente na cabeça do inimigo, garantindo, dessa forma, que os corpos dos "mortos-vivos" permanecessem seguramente inanimados.

     Vendo os semelhantes caindo um a um com grande velocidade, o número reduzido de vampiros, que permanecia empoleirado nas árvores, adotou nova estratégia.

     Aos poucos, bentos e soldados perceberam as brasas circundantes em cima das árvores irem desaparecendo. Os malditos estavam fugindo!

     Lucas, percebendo que os bentos estavam investindo pesado contra o ataque em terra, voltou a sua fúria para os vampiros que tentavam fugir. Voltou a correr e atirar-se árvore acima, bailando pelos galhos tal qual faziam os malditos. Empenhava toda sua força e raiva contra as criaturas, alcançando um bom número e fazendo seus corpos caírem retalhados. Em poucos minutos havia se afastado cerca de um quilômetro do acampamento. Os malditos noturnos conheciam bem a floresta e seus esconderijos. Mesmo assim, por conta do odor horrendo que escapava das criaturas, encontrou mais meia dúzia deles, acovardados, entocados em buracos e grupamentos de árvores. Assim que o fedor desapareceu, Lucas não teve mais como perseguir os vampiros em fuga. Seus olhos voltaram à coloração normal. Voltou para o acampamento, onde os companheiros tinham dado cabo do numeroso bando de inimigos. Três soldados estavam feridos, com sangue esvaindo por cortes abertos pelas afiadas garras dos monstros da escuridão.

Os bentos olharam para Lucas.

— Alguns se foram. Não consegui acabar com todos.

— Maldição! — protestou bento Vicente.

— Eles voltarão com mais. — juntou Duque.

     — Quanto tempo temos? — perguntou Lucas. Francis, juntando-se aos amigos, respondeu:

     — Não dá pra saber. Muitos deles morreram aqui. Não vão querer se bater com nosso grupo sem uma preparação. Por outro lado, acaba de escurecer. Eles terão tempo de sobra para uma segunda investida. Mas creio que levarão, no mínimo, mais quatro horas para se reorganizar. Terão de juntar outros bandos, contar o ocorrido, voltar até aqui. Por que quer saber?

— Dentro daquela gruta... tem gente viva lá embaixo.

— Rios de Sangue... — murmurou o soldado Sinatra. Lucas aquiesceu.

— É isso mesmo. É isso que eu vi no meu sonho.

     — Mas não podemos nos deter por causa disso. Temos que levantar acampamento. Socorrer os feridos...

     — Vamos abandoná-los? Eu vi esse lugar antes, no meu sonho. Vi gente viva lá dentro! Bispo não deve ter me mostrado isso à toa!

     — Seguramente não mostrou à toa, Lucas. — continuou Francis. — Temos uma missão a cumprir. Se esses malditos voltam em número dobrado, como vamos detê-los? Esse primeiro ataque deixou Zacarias, Raul e Willian feridos... praticamente nossos melhores atiradores. Não poderemos contar com os braços deles. Seremos esmagados. E se perdermos um bento que seja, adeus quatro milagres. Mas, se nos mantivermos firmes em nossa meta, com a ajuda dos quatro milagres, com certeza poderemos voltar a essa gruta e a salvar essa gente.

     Lucas baixou a cabeça, consternado. Não estava certo. Tinha gente viva lá embaixo.

     — Caso fossemos para o fundo da gruta salvar gente, como transportaríamos eles para São Pedro? Como levaríamos essa gente para lá? Nos Rios de Sangue não encontramos uma ou duas dúzias de pessoas. Eles estocam centenas, Lucas! Centenas! Depois de entrar lá, não poderemos deixar uma sequer para trás. Eles matarão todos os restantes e mudarão para outra toca. Não é isso que você quer, certo?

— Não. Não é isso que eu quero.

     — Prometo que depois que os trinta bentos estiverem juntos, essa gruta será o primeiro lugar que visitaremos.

Lucas não discutiu mais.

     — Vou cuidar dos feridos, Lucas. Um ex-médico ainda sabe dar jeito numas feridas. Ajude os demais a preparem as coisas para nossa partida. Não podemos ficar aqui e essa noite ainda será longa. Andar por esses caminhos com três homens sangrando é chamar confusão, a noite é deles, meu bravo irmão. A noite é deles. — impôs um fim à discussão, referindo-se aos vampiros.

    

     Raquel ergueu mais o nariz, farejando. Seu olho bom vasculhou o caminho. Encontrou sobras de uma fogueira na clareira. Olhou para o chão com barro ressequido. Pegadas. Um humano. Cheiro de vampiro. Cantarzo. O maldito tinha desaparecido. Raquel grunhiu e gesticulou. Um par de brasas vermelhas saiu da mata, aproximando-se. Gerson também olhava para todos os lados. Buscavam pistas que pudessem levá-los a Cantarzo. O maldito pagaria pela traição.

     Anaquias foi o último a surgir. Era o único não obcecado pela idéia de estrangular Cantarzo. O "caçador-vampiro" não era de todo ruim. Até gostava do velho Cantarzo. Era engraçado. Mas era fiel a Raquel, sua mestra da noite. Por ela arrancaria a garganta de sua mãe, se fosse pedido. Raquel era a senhora da toca. A fera. E a ela deviam respeito, até mesmo Cantarzo.

     — Ele esteve aqui... — murmurou a vampira, chamando a atenção de seus dois escudeiros.

     — Também posso sentir o cheiro do filho-da-mãe. — emendou Gerson.

     Raquel agachou-se ao lado da fogueira. Não havia sangue ali. Sentia o cheiro de alguma coisa. Algo estranho. Encontrou marcas no barro ressequido. Abaixou a cabeça até o chão, cheirando o barro. Cantarzo tinha deitado-se ali. O que o vampiro tinha feito ali, em companhia de um humano? O que estava tramando? Cantarzo não era de travar amizade com humanos. Não gostava de mulos. Era um caçador puro, como ela.

     Anaquias caminhou até uma grande rocha que marcava o fim do descampado. Depois dela, a floresta, vigorosa, iniciava. Um odor estranho. Seus olhos acenderam, permitindo que enxergasse ainda melhor na noite. Uma mancha na pedra. Raspou com a unha. Sangue seco. Era dele o cheiro esquisito. Não cheirava sangue de gente... mas era. Anaquias baixou os olhos. Vidro estilhaçado. Encontrou uma peça menor, um círculo que revelava que aquele monte de pedaços já fora um pote. No fundo do círculo, havia mais daquele sangue estranho. Anaquias cheirou mais uma vez. Aquela porção ainda estava úmida. Anaquias lambeu o sangue. Saboroso. Lambeu novamente, com mais gana. Sangue de gente. Feriu a língua no vidro afiado. Arremessou o vidro ao chão, partindo-o em dois pedaços. Raquel estava debruçada sobre a fogueira. Gerson andava vagarosamente, buscando no chão por pistas que levassem ao vampiro.

     A "caçadora-líder" continuava sem entender. Não era natural. Alguma coisa estava acontecendo. Não via nem ouvia notícias de Cantarzo há duas noites. Não se incomodaria com o sumiço do vampiro, mas queria, ela mesma, dar cabo do vampiro. Reviraria aquela floresta de cima a baixo para encontrá-lo. Cantarzo sofreria o pior castigo impingido a vampiros inimigos. Seria estaqueado e enterrado. Definharia até que seu corpo vampírico não pudesse mais ser animado. Seria ferido e desfiado à unha. Pereceria, ciente de sua danação, de sua incapacidade, com um pedaço de madeira enterrado no peito. Nunca mais Cantarzo lhe faria de idiota na frente dos demais, nunca mais lhe diminuiria perante os velhos vampiros. Raquel agachou-se sobre as pegadas do humano. Percebeu as marcas ao redor de onde Cantarzo teria se deitado. Teria o humano dado cabo do caçador? Impossível... mas as marcas diziam isso. O chão, que estivera molhado tempos atrás, deixava claro. A maioria das pegadas do humano estavam sobrepostas por um sulco largo, algo sendo arrastado. Raquel ergueu o olho bom para o caminho. Iria atrás daquele humano. Só ele lhe daria as respostas do que teria acontecido com Cantarzo.

     Anaquias caminhava em direção a Raquel quando sentiu uma contração no estômago. Curvou-se. Merda! Como tinha sido dolorido!

Gerson percebeu o amigo dobrado, quase caindo para frente.

     Anaquias buscou equilíbrio, cambaleando. Encostou numa árvore. Sentiu um tremor, da cabeça aos pés. Apertou os olhos. Se tivesse um coração humano funcionando, o músculo cardíaco estaria disparado. O que fora aquilo?

— Está tudo bem? — perguntou Gerson, aproximando-se.

     Anaquias recolocou-se de pé. A dor, igual veio, desapareceu. O vampiro desencostou da árvore e buscou Raquel com o olhar. A vampira correu e saltou para o tronco espinhoso de uma jaqueira. Subiu e saltou para a árvore vizinha.

— Vamos. — resmungou Gerson.

     O vampiro grandalhão acompanhou a "vampira-líder". Anaquias correu para não ficar para trás. Não sentia mais nada. Mas que fora estranho, fora. Uma sensação que nunca tinha experimentado antes. Como se algo cutucasse seu corpo. Como se algo mexesse em sua cabeça. Tinha visto uma coisa... como se outros olhos mostrassem. Estranho. Não sabia o que aquilo significava. Fumaça. Uma serpente, de boca aberta, engolindo uma tartaruga.

    

     A noite angustiante passou lenta, mas, finalmente, o sol levantou-se, sem que os bentos e soldados experimentassem novas surpresas. Por volta das oito horas da manhã levantaram acampamento para que os soldados feridos tivessem os curativos revistos por Francis e para que descansassem um pouco da jornada. Com os três machucados, a marcha seria mais lenta aquele dia. Provavelmente não alcançariam São Pedro até o poente. Estavam perto de chegar na estrada novamente. Talvez fosse o caso de mandar um soldado na frente, a todo galope, para buscar ajuda na próxima fortificação e preparar a chegada dos bentos e dos homens feridos. Francis estava certo de que os três feridos não morreriam, mas precisariam, ao menos, de descanso. Willian, principalmente. O líder dos soldados de São Vítor tinha um extenso corte abdominal e não poderia fazer esforços até que a cicatrização estivesse avançada. Do contrário, o sangramento poderia voltar e a hemorragia levar embora a vida do soldado. Em outros tempos, a preocupação maior do médico seria controlar a inflamação e debelar uma provável infecção que se instalaria na ferida.

     Com o sol a pino, Paraná pediu uma parada quando alcançaram um regato. Além de água para o bando, o soldado queria descanso para os cavalos com um pouco de sombra e água fresca. Francis concordou e em menos de cinco minutos estavam todos com os pés na água, refrescando-se um pouco do sol ardido. As árvores altas filtravam os raios intensos, mergulhando a comitiva em ladrilhos de sombras e luz.

     Paraná tirou a capivara do lombo de seu cavalo e, com a ajuda de Marcel, carregou-a para junto do riacho. Tirou a faca afiada da cintura e rasgou o bucho do bicho. Pouco do sangue que tinha sobrado no corpo da criatura tingiu a água do regato. Paraná, habilidoso, passou a faca por baixo do couro da capivara, tirando a pele do bicho. Em mais alguns instantes aquele pernil gordo estaria servindo de almoço para o grupo.

     Joel, vendo os preparativos, começou a juntar pedras de bom tamanho para demarcar o fogo.

     Zacarias, apesar dos cortes no corpo, sentia-se muito melhor. Tirou a camisa e a calça e desceu a margem do riacho para banhar-se. 0 líder Adriano também tirou a camiseta. Aquele negócio de cavalo estava acabando com suas costas e com sua paciência. Queria sua moto. Se tivessem indo pela estrada, torcendo o cabo, já estariam em São Pedro a uma hora dessas. Desceu para junto de Zacarias e molhou os braços. Adriano sentia-se ansioso. Não tinha raiva por acompanhar os bentos, de forma alguma. Esse era seu trabalho. Esse era seu dever. Ainda mais agora, numa missão tão importante. Mas, a saudade de Carina falava alto no peito. De noite, dormindo no meio da "marmanjada", sentia falta do corpo macio e quente da esposa. Dos beijos quentes. Baixou as mãos em concha e jogou água no rosto. Uma porção da água fresca reteve-se em seu cavanhaque loiro. Entregou água fria nos músculos dos braços. Quantos dias ainda levariam naquele caminho. Quanto tempo levaria para juntar os trinta bentos?

     Francis, que acomodava Raul e Willian, que se queixavam de dor nos cortes, fitou o líder de Nova Luz por um instante. Abriu seu embornal e retirou um frasco com comprimidos feitos no HGSV Deu Um comprimido a cada um e estendeu o cantil. Voltou a olhar para Adriano. O soldado tinha uma marca no peito. Não era uma tatuagem... era uma cicatriz, como boi marcado. Então era verdade. Aqueles homens envolvidos com o plano tinham marcas mesmo. Bando de doidos. Tinham era pouca fé na profecia do velho Bispo. Não abriam 0 bico. Todos sabiam que tramavam alguma ação ousada, mas não revelavam os detalhes a ninguém que fosse de fora do círculo. Francis duvidava, até mesmo, que Vicente conhecesse tudo. Temiam que seu segredo salvador caísse nas garras dos vampiros. Francis desviou o olhar. O soldado Alicate aproximou-se.

— Posso ajudar, senhor?

     Francis olhou para o céu, o sol brilhava acima das árvores. Deveria ser quase meio-dia.

— Pode, Alicate.

— Como?

— Você monta bem?

     — Só não sou chamado de vaqueiro porque já me chamam de Alicate.

Francis sorriu.

     — Depois da bóia, monta teu cavalo e corre sem parar até São Pedro. Vá buscar ajuda. Vamos continuar nessa marcha lenta até o fim do dia... eu costurei as feridas dos homens, mas não podemos abusar. Se acelerarmos no lombo dos cavalos vão sofrer demais.

     Alicate olhou para Willian e Raul. Os soldados estavam com os olhos fechados, deitados junto à raiz de uma grande goiabeira.

— Estão mal assim?

     — Não vão morrer, mas esses analgésicos de São Vítor não são para isso. Mas nessa velocidade, vamos acabar dormindo fora da fortificação. Vá direto a São Pedro e peça transporte aos feridos.

     Os soldados, na beira do rio, começaram a rir. Zacarias contava alguma piada e fazia graça com os colegas.

     Lucas tirou a capa vermelha e, depois, o peito de prata para descansar o esqueleto. Apesar do calor, a vestimenta já não incomodava tanto. Bento Vicente aproximou-se e estendeu duas goiabas grandes para o colega. Lucas apanhou as frutas e acenou agradecido.

— Isso, vai enganando a barriga enquanto o grandão prepara a bóia.

     — Olha quem fala. — retrucou Lucas. — Você deve dar dois do Paraná.

Vicente sorriu. Coçou a barba.

     Lucas mordeu a goiaba. A fruta de interior vermelho estava doce e saborosa.

—        O que você fez ontem... sem dúvida você é especial. Lucas quase engasgou com a goiaba.

— Você me elogiando?

     — Elogiando o escambau! Não sou viado pra ficar agradando homem. Só tô dizendo que você é diferente. O velho Bispo devia tá certo.

Lucas sorriu.

— Nunca vi gente com o olho daquele jeito.

Lucas terminou o sorriso.

— Que jeito?

     — Seus olhos... pareciam duas brasas amarelas... pareciam com as janelas dos malditos, mas, em vez de vermelho... estavam amarelos.

Lucas mordeu novamente a goiaba.

     — Eu não tenho muito jeito pra falar com os outros... não sou bajulador... só queria dizer que pode contar comigo.

Lucas parou um instante.

     — Você é magrelo feito um grilo, mas é rápido. É que nem o Ali falava... tu parece frágil feito borboleta, mas ferroa como um zangão.

     Vicente tirou a capa surrada e soltou também o peito de prata, colocando-o no chão, sobre o tecido.

     — Esse é um mundo louco, Lucas... e agora que os milagres virão, só tenho medo de uma coisa.

     — Do quê? — perguntou o trigésimo bento, no meio de mais uma mordida.

— De tudo voltar a ser como era. Voltar a ser que nem antes.

— Mas isso não ia ser bom?

Vicente bufou e balançou a cabeça negativamente.

     — Se a gente vivesse no mundo de antes, duvido que um de vocês estivesse aqui, parado, falando comigo.

Lucas não entendeu.

— Do que você está falando, Vicente?

     — Tô falando que rezo sempre para o mundo não voltar a ser o que era antes. Não sei o porquê que fui escolhido para estar com vocês, nessa missão dos infernos, arrebentando cabeça de capetas, mas não quero que as pessoas voltem a agir como agiam antes dos vampiros.

— Não quer que os vampiros desapareçam?

     — Isso eu quero, sim. Mas depois que eles desaparecerem? O que vai ser da gente? Pra que vamos existir?

     Lucas deu de ombros. Tanta novidade na cabeça, ainda não tinha tempo de sentar debaixo de uma goiabeira para meditar sobre o futuro. Sua vida era o presente.

     Vicente tirou o colete de couro, depois a cota de malha de metal. Por fim, tirou sua camisa de mangas longas, deixando o peito largo e pálido nu.

     Lucas olhou demoradamente para Vicente. O gigante virou de costas. Lucas estava impressionando. O bento era coberto por tatuagens, nas costas, no peito, nos braços.

— Deve estar perguntado onde eu descolei esse barato, não tá? Lucas aquiesceu.

     — Fiquei sete anos guardado, velho. Puxei cadeia em tudo que é canto. Já matei. Já roubei. Já taquei fogo em malandro folgado, já cortei rola de estuprador. Já fiz de tudo.

Lucas ficou imóvel, boquiaberto.

     — Sete anos no xadrez. Era pra eu ter ficado mais. Minha pena era de trinta e dois. Mas aí veio a Noite Maldita. Todo mundo ficou louco. Até as trancas do xadrez os doidos abriram. Teve nego que entrou numa de saquear tudo. De roubar apartamento, de juntar jóias. Mas também teve nego que foi sangue bom. Que arriscou o pescoço e voltou pro xadrez pra tirar os adormecidos do buraco. Foi assim que eu saí de lá. Algum bom samaritano tirou esse sangue ruim do buraco.

— Cara... — balbuciou Lucas.

     — Teve cada história, velho. Cada coisa. Se você parar pra falar com cada nego aqui nesse acampamento. Escuta cada coisa. Dá até vontade de chorar.

— Mas você... você é um cara bom... você... Bento Vicente riu alto.

     — Cara bom? Há! Há! Há! Sou um cara bom porque acordei bento. Quando os vampiros vêm pra cima eu não tenho escolha. Saio retalhando tudo, sem chance.

Lucas sorriu.

     — Como eu arranco cabeça de vampiro, todo mundo gosta de mim. Mas eu me pergunto. E depois? Depois que os vampiros forem exterminados? Vou ser visto como um bento ou vou ser visto como um ex-presidiário?

     Lucas levantou-se e ergueu o braço, pousando a mão no ombro do colega de jornada.

     — Será visto como um guerreiro, bento Vicente. Isso eu garanto.

     Vicente, calado, fitou Lucas demoradamente. Depois de alguns segundos abriu um sorriso.

— Firmeza.

— Firmeza. — retribuiu Lucas, sorrindo de volta.

     A noite há muito tinha chegado quando os cavaleiros aproximaram-se de São Pedro. Faltavam cinqüenta quilômetros quando ouviram o ronco dos motores rasgando a estrada. Em cerca de um minuto os faróis surgiram na escuridão e mais alguns segundos até os veículos cercarem os cavaleiros. Alicate vinha em cima de uma das motos, trazendo o reforço de São Pedro para escoltar os cavaleiros até a fortificação. Um dos veículos era uma pickup Ford, com uma "deita-corno" ponto 50 acoplada a um tripé. A escolta decorreu sem aborrecimentos. Apesar das felicitações calorosas ao encontro, a maior parte do caminho foi feita em silêncio. Os cavaleiros estavam cansados do esforço depreendido e acumulado nos últimos dias de viagem. Queriam um pouco de descanso, logo ao raiar do sol voltariam para a estrada.

     Ao adentrarem os portões de São Pedro, apesar de passar das nove horas da noite, a multidão que aguardava para saudar os bentos entrou em alvoroço. Os rostos felizes davam vivas e queriam tocar as capas vermelhas dos guerreiros, em especial a do trigésimo, o prometido, o guerreiro salvador, bento Lucas.

     A fortificação contava com um refeitório comunitário, muito semelhante ao de São Vítor, para onde os cavaleiros foram conduzidos, recebendo um jantar adequado. A mesa foi colocada com fartura, com um caprichado sortimento de carnes e vegetais a fim de aplacar a fome dos guerreiros.

     Francis demorou em juntar-se aos demais, pois deixava o médico da fortificação a par da situação dos três feridos. Explicou bem a situação de Willian, o único que precisou ficar no alojamento médico em separado, recebendo atenção de uma enfermeira. Raul e Zacarias já se encontravam sentados à mesa para o jantar àquela altura.

     Depois do breve relatório médico, bento Francis dirigiu-se ao refeitório. Também sentia o estômago queimar e os músculos reclamarem da jornada. No meio da algazarra, notou algo de estranho. As pessoas contentes, ainda saudando e festejando a presença dos bentos e dos soldados. Vicente gargalhando e brincando no colo com um bebê. Mas algo estava errado naquela cena. Demorou até atinar o quê. Era como um jogo dos sete erros. Faltava algo no cenário que não era para estar faltando, algo sutil. Olhou para Duque, que notava a preocupação no semblante do amigo. Francis aproximou-se:

— Onde está o bento de São Pedro?

     A fortificação era guardada pelo bento Arthur e sua presença não era percebida no salão.

     Elton, um dos líderes dos soldados de São Pedro, aproximou-se:

— Ele partiu esta tarde, senhor. Partiu em missão.

— Missão? Que tipo de missão?

     — Acho que a mesma de vocês, senhor. Juntou os outros e partiu em missão de libertação. É por isso que a população está tão efusiva. Ninguém vai conseguir dormir esta noite.

     — Espera um pouco... Juntou os outros? Não estou entendendo. — insistiu. — Normalmente conhecemos as missões importantes com antecedência. Apenas esta jornada que começamos hoje não era conhecida e começou de sopetão. Mas se Arthur tivesse uma missão, teria mandado um mensageiro.

     — Acho que não teve tempo, senhor. Os demais chegaram hoje de manhã e, ao que pude perceber, chegaram de surpresa.

     — Você preencheu um relatório sobre essa saída extraordinária? — perguntou Duque.

— Claro, senhor.

     — Quem eram esses "demais"? — quis saber Francis, soerguendo as sobrancelhas e farejando desgraça.

     — Cinco bentos e mais um grande grupo de soldados, fortemente armados, senhor. Soldados daqui de São Pedro, de Nova São Paulo e também de São Joaquim. Saíram em missão, rumando para a Velha São Paulo, senhor.

— Quantos soldados? — insistiu Duque.

     — Vinte daqui, trinta de São Joaquim e trinta da Nova São Paulo.

     —   Oitenta soldados... — murmurou o bento negro. Francis empalideceu. Sabia o que aquilo significava. Sabia que, propositadamente, os seis bentos estavam desviando da rota traçada pela profecia. Eram os bentos descrentes. Vicente também simpatizava pela idéia desses fracos de espírito, no entanto permanecia aliado ao grupo que buscava cumprir o que fora profetizado pelo velho Bispo, ao menos era no que acreditava. Lançou um rápido olhar para o bento que ainda brincava com o bebê. Francis buscou Adriano com os olhos. Encontrou o líder de São Vítor de costas, servindo-se de um pedaço de cordeiro assado. Adriano fazia parte dos desesperados que tinham um "plano". Plano bolado pelos bentos descrentes e por líderes da soldadesca descrente. Pessoas que não tinham fé nas palavras de Bispo. Pessoas que estavam colocando naquele exato momento o futuro de todos os sobreviventes dentro de um barril de merda.

O bento caminhou rápido até o soldado e bateu-lhe nas costas.

— Precisamos conversar agora.

     Francis deu as costas ao soldado e partiu para a porta do refeitório sem esperar resposta.

     Zacarias e Marcel olharam para o líder de Nova Luz. Tinham notado seriedade na voz do bento.

     Adriano soltou o pedaço de cordeiro no prato. Levantou-se e seguiu pela mesma porta pela qual Francis saíra. Assim que pisou no calçamento externo do refeitório, banhado apenas pela luz oscilante de um trio de tochas pendurado rente à parede, foi abordado pelo bento.

     Francis, com o dedo em riste, falava com a voz carregada, visivelmente nervoso, tentando mantê-la em baixo volume para não despertar a atenção dos camaradas dentro do refeitório.

     — Nunca pressionei vocês, soldados, mesmo sabendo que tramavam às nossas costas, descrentes de nossa missão. Aconteceu algo aqui, esta tarde e eu preciso saber que merda de plano é esse. Preciso saber agora!

Adriano soltou um risinho baixo.

     — Se você acha que vai me intimidar com esse seu tom de voz, você está enganado.

     Mal terminou de pronunciar a frase, ouviu o retinir de metal e um reflexo ligeiro cruzou o ar. O fio da espada do bento pressionava perigosamente sua garganta.

     — Não quero intimidar, ninguém, valoroso soldado. Tua vida é mais preciosa que a minha. Salvou mais gente nas matas do que eu decepei vampiros com minha espada, mas o momento é delicado e estou disposto a tudo para fazer com que os trinta bentos se juntem, até mesmo encher um cemitério de mártires, se for necessário.

— Por que acha que eu sei de alguma coisa?

     — Todo mundo sabe que você é envolvido com esse tal plano. A marca em seu peito. Só os soldados envolvidos com esse plano desesperado, com essa marca, conhecem os detalhes. Se por um acaso eles foram para a velha São Paulo, quer dizer que podem não voltar. Não posso permitir isso.

     Adriano, com a lâmina ainda encostada em seu pescoço, permaneceu calado.

     — Preciso saber para onde foram, Adriano. Depois que Lucas acordou, o plano de vocês perdeu o sentido. Você não consegue enxergar isso? Vamos dar uma chance à profecia. Foram a São Paulo para quê? Para que se arriscar? Que máquina é essa que Vicente tanto fala? — os olhos faiscantes de Francis queimavam os de Adriano. Francis baixou a lâmina, recolhendo a espada. Balançou a cabeça negativamente e passou a mão no cabelo. Voltou a encarar Adriano. — Precisamos de trinta bentos. Nenhum a mais, nenhum a menos.

     Adriano passou a mão no cavanhaque. Estava cansado e estressado. Uma espada no seu pescoço não tinha ajudado em nada. O fantasma de Gaspar morto por sua pistola aparecia em sua mente. Com o despertar de Lucas, esperança enfim. E a morte em vão de um irmão... se soubesse de Lucas, poderia ter tentado salvar o amigo. Engoliu a seco.

— Eles foram para o HC. A máquina está lá.

     Francis apertou os lábios. Não haveria pior lugar para se ir na Velha São Paulo. O Hospital das Clínicas, como sabiam, havia se convertido no maior covil que se tinha notícia. Era no HC que os vampiros estocavam sua comida, corpos adormecidos, Rios de Sangue.

     — A máquina... que maldita máquina é essa? O que é que ela faz de tão importante para valer a vida de seis bentos e oitenta soldados numa missão suicida?

— Quando eles partiram?

— Elton disse que partiram esta tarde.

— Então vão tentar entrar ao amanhecer.

     — Mesmo que partamos agora, não chegaremos até a alvorada em São Paulo, ainda mais até o Hospital das Clínicas.

— Não. Chegaremos de tarde.

— Deus! Deus! Temos que partir agora.

— Eu vou. Eu ajudo vocês. Mas tem que me prometer uma coisa.

— O quê?

     — Que nunca mais vai colocar a porra dessa espada no meu pescoço. Eu estou do seu lado.

     — Às vezes, as piores surpresas aparecem daqueles que cavalgam ao seu lado, dia e noite.

     — É. Deu pra perceber. — retrucou Adriano, passando a mão no vergão formado na altura de seu pomo de Adão.

     Depois de falar com Elton, bento Francis avisou aos demais, exceto aos três feridos, que o descanso havia sido suspenso. Tinham uma missão das mais duras pela frente. Teriam que partir de São Pedro, sem descanso, na próxima hora, em uma missão desesperada de resgate. Seis bentos, mais oitenta soldados, estavam prestes a entrar no sepulcro gigante formado pela velha São Paulo. Teriam de correr, encontrá-los e trazê-los de volta a São Pedro. De volta ao curso da profecia. De volta à salvação.

    

     O líder Elton, contando com ele próprio, conseguiu reunir trinta homens para a missão de Bento Francis. Não eram todos soldados, pois uma boa parte do contingente especializado havia seguido com bento Arthur e não convinha deixar a cidade sem a cobertura de homens mais treinados. Mesmo tendo agido com pressa e urgência, o destacamento só ficou pronto três horas depois do pedido de bento Francis.

     Francis gritava, coordenando o regimento. Carregavam os cavalos. Traziam munição. Uma incursão à velha São Paulo era o pior que poderia acontecer a essa altura do jogo. A velha metrópole era infestada por mulos atiradores, soldados dos noturnos e, nas horas escuras, era o maior playground de vampiros do mundo. Francis juntara-se com Elton, Duque, Edgar e Vicente. Traçavam estratégias. Bento Lucas ficava à margem dessa tarefa... sem conhecer o cenário do novo mundo era difícil ajudar. Lucas andava perdido no meio da agitação. Sabia que ir à velha São Paulo estava longe do plano dos bentos. Sabia que a jornada corria um risco imenso, uma vez que seis bentos estavam a caminho de enterrar-se naquele inferno infestado de perigos. E se morressem?

     Francis soube de Elton que os guerreiros recrutados por bento Arthur foram os bentos Eliseu, Murilo, Tarso, André e Cosme. Guerreiros da pesada, mas insuficientes para saírem vivos de uma incursão ao Hospital das Clínicas. Se havia alguma sorte naquilo era o fato dos bentos recrutados pertencerem a fortificações da região leste e noroeste, poupando tempo precioso da jornada. Restavam agora os bentos do norte e nordeste do Brasil. Francis estacou no meio do pátio, dos cavalos e da agitação da soldadesca, que andavam para lá e para cá, fazendo os ajustes finais para a partida. O bento passou os dedos por seu bigode afilado aproximando-se de bento Duque.

     — O que você acha de fazer um passeio diferente do nosso, Duque?

O bento negro olhou para o amigo.

— O que você tem em mente, xará?

     — Os bentos que estão com Arthur são do leste e noroeste. Estão juntos e vão nos poupar um tempo precioso... se os revermos com vida.

— Vira essa boca pra lá, Francis. Vamos alcançá-los a tempo.

     — Aprecio sua fé, Duque, mas a jornada até a velha São Paulo não costuma trazer boas lembranças. — Francis fez uma pausa, voltando ao assunto. — Tirando o grupo de malucos que foi à velha capital, a maioria dos nossos irmãos está agora no norte e nordeste do país... isso vai facilitar a coisa pra nós.

— Quer que eu vá na frente?

     — Isso. Esse desvio inesperado para a Nova São Paulo vai nos tomar tempo demais. Dois dias ou três.

— Sei.

     — Junte um grupo de soldados e busque os cinco bentos do norte. Vamos ganhar tempo. Vamos nos reunir ao norte da velha Salvador, em Santa Maria, fortificação de bento Dimas. Se chegarmos primeiro, esperamos vocês lá.

       — E se eu chegar primeiro, espero você lá. — concluiu Duque. Francis pousou a mão no ombro do guerreiro.

— Vá! Que Deus lhe acompanhe!

     — Se ele ainda estiver cochilando, como dizia o velho Bispo, que sonhe comigo, ao menos. Que sonhe uma coisa boa. — respondeu o negro, sorrindo.

 

     Lucas estava sonolento. Era a primeira vez que se sentia verdadeiramente exausto depois de ter despertado no hospital de São Vítor. Percebeu os cavalos na frente reduzirem de tamanho abruptamente. Baixou sua tocha, apertando os olhos para ver se não estava sendo vítima de alucinação por causa da fadiga. Mas, longe disso, os cavalos realmente pareciam diminuir. Estavam entrando na região pantanosa, o atalho que bento Edgar lhe falara horas atrás. Os animais afundavam parcialmente, deixando a água muitas vezes cobrir o bota dos cavaleiros. Parte do grupamento tinha vindo em veículos motorizados, trazendo o que havia restado de armamento pesado deixado pela missão suicida de bento Arthur. Como previsto, os veículos não teriam condições de fazer o caminho mais rápido e perigoso. Fugiriam do terreno pantanoso, dividindo o grupo de soldados. Vinte e cinco soldados embarcados em veículos motorizados iriam pela estrada, aumentando brutalmente o percurso até a velha São Paulo. Quanto a Lucas e os cavaleiros, teriam que ter a atenção redobrada de agora em diante. A história do alagado remontava tantas batalhas sanguinárias, onde, ao cair do sol, os vampiros sempre tinham vantagem. As criaturas medonhas da noite, uma vez que não precisavam de oxigênio no organismo, podiam submergir por tempo indeterminado, criando as mais terríveis armadilhas no meio do pântano, ferindo a montaria e os soldados com crueldade e devorando grupamentos inteiros em questão de minutos. Somente em circunstâncias extremas, como experimentavam agora, os bentos cruzavam a região pantanosa durante a noite. A região que, depois do evento, tomara os arredores da gigante metrópole, ainda era vigiada pelos mulos durante o dia. Ali o perigo era constante.

     Os cavalos moviam-se habilmente pelo terreno pantanoso, a profundidade do alagado eventualmente variava, com trechos onde a água não alcançava a sola dos calçados, outras vezes chegando quase aos joelhos. Mesmo assim, fortes, os tordilhos avançavam. Além da escuridão, uma névoa constante varria a região, dificultando a visão dos soldados e impedindo que a luz da lua ajudasse. O clarão traiçoeiro das tochas era um mal necessário. Estrategicamente, o líder Elton, melhor conhecedor da região, puxava a tropa. Em alguns trechos conduzia os amigos soldados por áreas secas, cavalgavam cerca de um quilômetro por cima de mata alta, depois voltavam para a água, sendo circundados novamente pelo líquido gelado e pela névoa esvoaçante. Árvores tortas e agourentas lançavam seus ramos encurvados sobre a cabeça dos soldados. Boa parte dos cavaleiros vinha trajando o manto marrom encapuzado, para que os bentos não ficassem francamente expostos. Os vampiros conheciam aquele artifício, mas a utilização da manobra mantinha incógnito o número preciso de guerreiros abençoados, podendo, eventualmente, intimidar o ataque de um grupo reduzido de malditos noturnos.

     A marcha prosseguiu monótona madrugada adentro. Depois das três da manhã, alcançaram uma campina seca. Árvores desfolhadas cercavam a paisagem. O chão era coberto por grama verde e uma neblina intensa varria o terreno seco, carregada pelo vento frio da noite. Como, para evitar chamar a atenção, traziam poucas tochas, era difícil enxergar o grupo todo. Lucas bateu com os calcanhares na barriga de seu cavalo e aproximou-se de bento Edgar e Francis. Ambos os bentos olhavam para frente. O cavalo de Elton foi adiante, desaparecendo na neblina cerrada. Demorou dois minutos até voltar. O rosto aborrecido. Balançou a cabeça negativamente.

     — Vamos descansar meia hora. Depois continuamos. — disse Francis, com a voz abatida.

     Depois de alguns murmúrios, exclamações de satisfação e um bom tanto de insatisfeitos também, os homens desmontaram.

     Lucas desceu com facilidade de seu cavalo. Caminhou até uma árvore e enrolou a rédea do animal num galho. Estava exausto. Precisava dormir... mas Francis dissera meia hora. Isso não bastaria para descansar. Caminhou, com os olhos pesando de sono, até o bento médico.

Francis estava com a cabeça baixa. Os olhos também fundos.

     —   Por que ficou tão desanimado? — perguntou Lucas. Francis inspirou e soltou fundo. Quando exalou o ar, uma nuvem de vapor escapou com a respiração.

     — Esperava encontrá-los aqui. Este lugar é o ponto de descanso. Tinha esperança que tivessem montado acampamento nessa clareira e que pudéssemos evitar uma desgraça. Eles estão marchando e, a uma hora dessas, devem estar à margem da cidade, só esperando o raiar do sol para irem ao Hospital da Clínicas.

     — Mas e se eles conseguirem o que querem? Se conseguirem a máquina e derem o fora?

     — Você não tem idéia no que se transformou nossa cidade natal, Lucas. Não tem idéia. — murmurou o bento, virando-se de costas.

     — Eles devem ter alguma chance, Francis. Se a cidade está tão ruim assim, por que eles arriscariam?

     Francis baixou o capuz e tirou o manto marrom, arremessando-o ao chão. Não usava capa. Suas costas prateadas refulgiam a luz lúgubre das chamas alaranjadas. Virou-se para encarar Lucas.

      — Porque eles não sabiam que você despertou, Lucas. Não sabiam. Eles foram à velha São Paulo, para aquela merda de HC, porque estão desesperados. Desesperados.

     Lucas calou-se e engoliu a seco. Medo. Sentiu uma lufada de medo gelando seu peito. Baixou a cabeça envergonhado. Como poderia ele, um medroso, ser o salvador?

— Vá descansar, Lucas. Deite um pouco. Meia hora passa voando.

     Lucas aquiesceu e voltou vagarosamente para junto de seu cavalo. Tirou também o manto marrom e dobrou-o, fazendo dele um travesseiro. Não dormiria. Pensaria. Deveria haver alguma coisa dentro dele que justificasse aquele acaso. Alguma coisa nele o faria útil para aquele grupo de guerreiros. Pela primeira vez não desejava que tudo fosse resolvido apenas com um passe de mágica. Queria ser igual a eles. Queria ser um guerreiro, um soldado, não um covarde. Lucas queria ser um bento.

     O cansaço geral havia aumentado após as oito horas da manhã. O sol tinha afugentado a neblina, subindo rapidamente e ardendo contra o grupamento. O descanso de meia hora no meio da madrugada não tinha aliviado muita coisa. Apesar de Lucas desejar parar para uma hora de cochilo, ao menos não ousava colocar obstáculo contra a marcha. Francis explicara bem a situação e cada minuto ganho seria decisivo.

     Dez horas da manhã, como ouvindo as súplicas mentais dos cavaleiros, Francis ofereceu uma pausa para que os animais se refizessem e que os homens comessem e tivessem um breve repouso. Estavam cada vez mais próximos dos escombros, do que fora o coração econômico da América Latina. Francis queria seus bentos e seus quinze soldados descansados, alertas e prontos para passar fogo nos malditos mulos que perambulavam pela ex-capital.

     Lucas desmontou ágil, cada vez mais acostumado ao mundo novo. Sua capa marrom esvoaçou com a descida da montaria e sua touca de metais rilhou. Queria tirar um pouco a couraça reluzente que cobria seu peito e tomar um banho, mas parecia impossível. Levaria mais tempo tirando e recolocando a vestimenta do que dando um descanso aos olhos e ao esqueleto.

     Mais uma vez, Paraná começou a preparar o fogo para o bóia. Os soldados de Adriano juntaram-se para ajudar e bater papo. Ninguém conversava muito sobre a missão adiante. Não estava nos planos de nenhum deles deixar Nova Luz, escoltar os bentos e, de quebra, dar uma passadinha na velha São Paulo para resgatar um grupo de malucos. Adriano sabia que esse dia chegaria, cedo ou tarde, mas sentimentos ambíguos crivavam seus pensamentos. Talvez, o que mais prevalecesse fosse o de frustração. Estava feliz pelo trigésimo bento ter acordado, mas, há muito, tinha deixado de acreditar naquela profecia. Eram tantas as mortes nas fortalezas. Tantas vezes tinha ouvido das batalhas sangrentas em que os bentos acabavam estraçalhados pelos vampiros, que já não cria ser possível um dia juntar trinta santos enviados por Deus para livrar a terra daquele mal. Acreditava naquilo que bento Arthur estava fazendo. Na lógica, não na mágica. Queriam deitar às mãos na máquina de alteração genética. Teriam de extraí-la do maior covil do mundo. Mas não daquele jeito! Tinha lutado todos esses anos nas estradas, carregando soldados para lá e para cá, trocando informações, buscando uma estratégia para os comandantes. Tudo sendo jogado fora. Frustração. Uma ação tresloucada seguida de outra. Sabia que estavam indo para a velha São Paulo para, no máximo, servirem de cortejo fúnebre, de traslado de corpos. Seis bentos e oitenta soldados não dariam cabo daquilo. Respeitava bento Arthur, mas aquilo era burrice. Para tomar o HC de assalto e conseguir tirar dali alguma coisa, mesmo uma agulha, teria de invadir a velha São Paulo com, pelo menos, três mil homens. Balançou a cabeça consternado. Mesmo Arthur e seu pequeno Exército entrando na velha São Paulo no alvorecer, levariam algumas horas até alcançar o abandonado e sombrio Hospital das Clínicas. Os mulos já estariam despertos. Teriam de lutar contra os lacaios dos vampiros. Isso seria inevitável. Bastaria um disparo para chamar a atenção de todo filho-da-mãe armado que habitasse a região. Uma vez dentro do HC, não sabia predizer quantos perigos aguardariam a comitiva. Um calafrio percorreu os braços do líder Adriano. Talvez, os bentos e soldados estivessem entrando no HC neste exato momento... enquanto pensava naquilo. Talvez estivessem agora descobrindo demônios pelos corredores, demônios que passam dentes afiados nos pescoços dos soldados e capturam os bentos para preparar-lhes uma morte lenta e dolorosa. Apertou os olhos e benzeu-se.

     A voz do soldado Sinatra tomou o acampamento. A maioria dos soldados calou-se, ouvindo a aveludada voz afinada do homem cantar Crying ao estilo do bom e velho Roy Orbison.

     Um jovem aproximou-se de Lucas com bastante cerimônia. O bento desviou os olhos de Sinatra, percebendo que o rapaz queria achegar-se, fez um sinal com a mão. O rapaz abriu um sorriso e estendeu o braço para cumprimentar o guerreiro.

     — Meu nome é Matias, vivo em São Pedro, é um prazer conhecer você, senhor.

     Lucas fez um meneio e retribui com um sorriso, apertando a mão do rapaz.

     —- Acordei há nove anos, senhor. Nem imagina o desespero que foi para eu aceitar. Não dava para acreditar que o mundo que eu vivia tinha virado isso aqui. — o rapaz fez uma pausa e sentou-se ao lado de Lucas. — Aí eu conheci vocês, os bentos. Cara, que maneiro. Desde então não deixei de rezar um dia sequer para o senhor despertar. O senhor não tem idéia, não é?

— Do quê, Matias?

— Do quanto o senhor era esperado.

     Lucas balançou a cabeça negativamente. Ficaram em silêncio um instante.

     — Faço idéia... eu também ia torcer pra caramba para uma coisa dessas acontecer, um milagre... — continuou Lucas.

— Serão quatro, senhor. Quatro milagres.

— É. É verdade, soldado.

     — Ah, eu não sou soldado, não, senhor. Só vim ajudar nessa missão porque esperei isso a minha vida toda.

— O quê?

     — Estar ao lado do libertador. Ao lado do nosso salvador. Queria conversar com o senhor. Ajudá-lo. O líder Elton falou no refeitório que estavam precisando de ajuda.

     Lucas olhou para o rifle preso por uma cinta de couro no ombro do rapaz.

— Então você não sabe usar isso aí.

     — Sei, sim, senhor Lucas. Hoje em dia, praticamente, todo mundo sabe. Quando a coisa aperta, todo mundo tem que defender o muro, defender a cidade. O bom é que esses malditos, quando querem entrar numa fortificação, parecem que ficam burros, vêm sempre pelo mesmo caminho. — o rapaz fez nova pausa e cuspiu na grama ao seus pés.

     — Se você não é soldado, o que faz em sua cidade? — interessou-se Lucas.

— Na verdade eu trabalho no time da memória.

— Time da memória?

— É. Time da memória.

— O que é isso?

     — Nosso grupo trabalha depois dos soldados encontrarem adormecidos por aí. Vamos até o lugar onde encontraram as pessoas, às vezes uma ou duas pessoas, às vezes uma família inteira, outras vezes um aglomerado; como os malditos chamam: Rios de Sangue.

— Hã...

     — Nós vamos até esses lugares e tentamos resgatar a identidade daquele adormecido. Tentamos deixar alguma coisa pra que ele refresque a memória.

     — Tinha ouvido falar desse trabalho... mas não achei que ainda faziam isso. Entendi que isso era feito logo após a Noite Maldita.

     — Ainda fazemos, sim, senhor. — continuou o Matias. — Pegamos documentos, fotografias, toda informação que pudermos encontrar no local e vamos colocando dentro de computadores. Assim, alguns dos adormecidos, quando acordam, tem a chance de relembrar algo mais. É ruim lembrar tudo sozinho. Demora demais e, às vezes, a gente nem lembra de tudo.

     Lucas pegou-se num flash de memória naquele exato instante. Sua mão percorrendo o espelho do banheiro, na tentativa de livrar o vidro do vapor que aderira a superfície e dificultava a visão. Depois, viu-se fazendo a barba. Isso tudo em questão de dois ou três segundos.

     —   O senhor viu seus pertences? As anotações em sua prancheta? O bento meneou a cabeça negativamente, lenta, como se ainda estivesse sob efeito de lembranças.

     — Então acho que não tinha nada. Eles sempre mostram as coisas quando a pessoa acorda. — completou o adolescente.

     — Não se incomode, Matias. Eu vou lembrar das coisas. Aos poucos, mas vou lembrar.

— Esse fardo... não te assusta?

     Lucas encarou o rapaz. Os olhos do jovem brilhavam de excitação. Que resposta aquele menino queria ouvir? Que estava se borrando nas calças com medo de não ser o tal? Que estava afundando num mar de antagonismos, cercado por certezas recheadas de incertezas? Com medo de não trazer droga de milagre nenhum para humanidade? Não se dê utilidade alguma. Um farsante. Lucas sorriu, dissimulando:

     — Assusta, às vezes. Tem hora que sinto um fogo inflamar meu peito... uma certeza. Depois, às vezes, quando estou sozinho e pensando nas coisas e em mim mesmo, sinto um vazio... impotência. Não sei quem eu sou ao certo. Não lembro do meu passado. Fico inseguro. Mas, se me focalizo aqui, neste mundo, nesta nova realidade... é um contexto novo... me chamam de herói, de libertador. Me põem essa couraça no peito, uma espada na cintura. — Lucas baixou a cabeça e fez uma pausa. Estalou a língua e passou a mão no cabelo, continuando. — Isso, às vezes, me dá força. Quando farejo esses vampiros desgraçados eu viro outra pessoa. Não sou eu mesmo. Eu não paro para pensar. Saco a espada da bainha e faço coisas indizíveis. Eu não sou assim. Sou um escolhido. Aceito isso. Mas o que é um escolhido?

O rapaz deu de ombros. Não sabia o que responder.

     — Um escolhido é uma marionete na mão do destino, Matias. Um escolhido é forjado pela fortuna e torna-se o que os outros querem. Eu era... eu era mais um na multidão. Mais um imbecil com contas para pagar todo mês. Com fatura do cartão de crédito vencida. Com prestação do carro atrasada. Com contas de água e luz, impostos sufocando, impossibilitando viver. Minha preocupação era com meu emprego e minha aparência. Comprar roupas novas. Comprar presentes para... — um frio no estômago, estava prestes a dizer um nome. — ... comprar presentes para uma mulher. — Lucas baixou a cabeça, como se uma nova lembrança chegasse. — Eu me misturava na multidão. Trombava com milhares de rostos todos os dias a caminho do trabalho... eu ia de metrô. Tinha carro, mas quando precisava economizar combustível ou quando tinha rodízio, acabava indo de metrô. A noite a gente tinha medo uns dos outros...

— É verdade... eu lembro disso, senhor.

     — Agora, tudo mudou. O que eu sou? Você disse bem. Que fardo eu carrego? O de salvador. Alguém disse que eu serei o salvador desse novo mundo e que levarei a humanidade aos milagres que nos libertarão dos vampiros. Ufa! — Lucas bufou, arregalando os olhos.

Matias levantou-se. Ia deixar o bento descansar.

     — Mas este mundo novo, Matias, tem suas vantagens. Ao menos, quando olho ao redor, não tenho mais medo dos semelhantes. Sei que aqui estão as pessoas de bom coração e que, de alguma forma macabra, o destino separou os bons dos maus. Talvez seja até mais apropriado dizer que o sol separou os bons dos maus. Eu vejo agora gente se ajudando. Gente trabalhando junta. — Lucas olhou para bento Vicente por um instante. — Tudo é bem diferente do mundo antigo, onde trabalhávamos para sustentar nossas contas correntes. Acho que é uma benção o dinheiro não existir mais.

— O senhor tem razão, bento Lucas.

     — Ei, pode me chamar só de Lucas. Não precisa dessa coisa de senhor e de bento.

Matias sorriu e afastou-se carregando o rifle.

     Lucas reteve o olhar um instante sobre a figura do rapaz. O menino não tinha medo de lutar. Sabia que estava se engajando numa missão difícil e perigosa, mas estava ali para estar com ele, Lucas, na luta contra os noturnos. O bento benzeu-se fazendo o sinal-da-cruz. Que Deus os ajudasse a vencer aquele mal! Que os ajudasse a unir os trinta bentos e desencadear o fim daquelas criaturas!

     O bento retirou o manto marrom encapuzado que envolvia sua couraça e, novamente, fez dele um travesseiro. Deitou-se um pouco e cerrou os olhos.

    

     Eram mais de duas horas da tarde. Nesse momento, não só o novato Lucas, mas a maioria dos homens, cavalgava com os olhos arregalados e surpresos com o cenário. Há pouco haviam penetrado na velha cidade de São Paulo e viam-se cercados por incontáveis esqueletos negro-acinzentados que subiam verticalmente. O que antes eram prédios comerciais e moradias, agora eram elevações assombradas em concreto armado. As ruas da gigantesca capital do estado estavam desertas e a maioria dos prédios era coberta, em mais da metade de sua altura, por trepadeiras verdejantes. Apesar da aparente solidão, todos carregam a estranha sensação de olhos colados nas costas. Era como se vultos malditos assomassem eventualmente as janelas dos prédios fantasmas. Pressentiam que a qualquer segundo, o primeiro disparo de arma seria dado e o inferno se instalaria ao redor da tropa.

     Lucas reteve o cavalo um momento. Sensação de déjàvú. O prédio na sua frente era mais um no meio de centenas naquele bairro. Como a maioria deles, estava coberto por uma camada negra de fuligem, mostrando que se consumira em chamas sem que os bombeiros viessem em seu socorro. Por cima da camada negra queimada crescera vegetação. A velha cidade era rica em pássaros. Bandos imensos cruzavam dentre as torres de concreto. Numa loja do piso térreo tinha sobrado a fachada de alguns pontos comerciais. Podia ver restos do que fora uma Drogasil, uma loja da Casa do Pão de Queijo e uma unidade do CCAA. Talvez aquelas logomarcas trouxessem aquela sensação. Talvez tivesse feito um curso de idiomas ali ou comprado um sanduíche tropical. Vai saber.

     — Anda. Não fique pra trás. — resmungou bento Vicente, ao passar ao seu lado.

     Lucas ergueu a rédea do cavalo e cutucou-o levemente com o calcanhar. Estavam a poucas quadras da Avenida Nova Faria Lima. Dentro daqueles prédios jaziam milhares de corpos adormecidos, abandonados na fuga para as fortificações. Fora os adormecidos, um apartamento ou outro ocupado pelos serviçais dos vampiros, por humanos degredados dos novos centros ou que, por alguma razão bizarra, preferiam a companhia das criaturas da noite que dos semelhantes.

     Continuaram cavalgando. Os cascos dos cavalos estalando contra o asfalto rachado. Em diversos pontos do chão escuro, o mato selvagem vencia as brechas e erguia verdadeiras touceiras no meio do caminho. Os soldados tinham que desviar. Francis e Edgar iam na frente, tentando "ouvir" adiante. Estavam atentos. Edgar parecia ter escutado alguma coisa. Um tiro talvez.

     Lucas voltou a observar o cenário caótico e inacreditável da cidade morta há trinta anos. Os carros abandonados há décadas tinham perdido a cor original, perecendo, devorados pela ferrugem ou pelo fogo. Os pneus murchos deixavam o que restara das rodas ao nível do chão. Das sacadas dos prédios desciam samambaias gigantes e toda sorte de vegetação era encontrada.

     Lucas parou o cavalo novamente. Fixou o olhar num poste de sinalização de trânsito. Via os dois luminosos que auxiliavam os pedestres na travessia. Sentiu um calor súbito subindo-lhe pelo corpo. Apertou os olhos. Tontura. Um barulho absurdo entrou pelos ouvidos. Buzinas, risadas altas, camelôs anunciando produtos pirateados, cobradores de lotações berrando itinerários... tudo isso vinha aos seus ouvidos. Aquelas ruas, quando as olhou pela última vez, estavam abarrotadas de gente no vaivém frenético do dia a dia, hoje pareciam um cenário de algum filme surrealista, uma coisa à Jonh Carpenter.

     O bento voltou a si quando Francis gritou, chamando a atenção da tropa. Puxaram as rédeas freando os cavalos. Lucas olhou ao redor. Estavam no meio de um dos mais tradicionais cruzamentos da cidade. No meio do encontro da Avenida Rebouças com a Avenida Faria Lima.

— Estamos nos aproximando do HC! Cuidado redobrado!

Lucas sorriu. Como se fosse preciso pedir.

     Tomavam o caminho liderado por Francis quando ouviram claramente uma explosão. Não fora um disparo. Era algo maior, como uma bomba, uma granada.

     Olhando para a Rebouças acima, não viam nada de anormal ou imediatamente preocupante. Continuaram avançando em silêncio. Um minuto depois, viram uma grossa coluna de fumaça negra subindo o céu. O sinal vinha de longe, morro acima. Ainda admiravam a trilha escura, que ascendia além dos prédios, quando viram a estranha figura. Um homem cambaleando em direção ao meio da pista que descia, deixando os escombros queimados do que fora um tradicional restaurando japonês da Rebouças.

     O soldado Carlos ergueu seu rifle, fazendo mira, enquanto Edgar erguia seu binóculo.

— Eu derrubo daqui. — o soldado.

— Espere. — pediu Francis.

— Não atire. É um dos nossos. Está ferido.

     Ao ouvir bento Edgar, Vicente disparou em sua montaria. A capa vermelha do guerreiro gigante farfalhava presa aos dragonetes.

     — Iaaá. — gritou Francis, batendo os calcanhares em seu cavalo e perseguindo o amigo Vicente.

     Quando Lucas também atiçou o cavalo, os soldados de escolta dispararam atrás do trigésimo bento, como ferro atraído por um imã poderoso.

     Vicente alcançou o soldado. O homem estava vazando sangue, mal podendo manter-se de pé. O ferido, ao ver o bento aproximado-se, caiu no asfalto da Rebouças, erguendo uma mão para o alto. Vicente desmontou rapidamente e abaixou-se, desvirando o homem e encarando-o enquanto os demais também chegavam e cercavam.

     —   Eles estavam esperando por nós... — balbuciou o ferido. Com o som dos cascos de cavalos ao redor, Vicente precisou baixar mais para ouvir a voz fraca do soldado.

— O que disse?

     — Eles estavam esperando por nós, bento Vicente. Eles sabiam.

— Sabiam o quê?

     Francis baixou-se ao lado do soldado ferido. Havia bastante sangue descendo da cabeça e uns ferimentos abdominais. A roupa rasgada e chamuscada em vários pontos.

— O que aconteceu? Como ficou assim? — perguntou.

     — Estamos lá... desde de manhã. Estão acabando com todos nós. Eu... alguma coisa explodiu... fiquei encoberto por entulho... eles estão nos prédios, só esperando a gente se mexer. Vão acabar com todos.

Francis e Vicente trocaram um olhar grave.

— E quanto aos bentos?

     O soldado fez uma expressão de dor, terminando por soltar um gemido, contorceu-se nos braços de Vicente.

     — Eles... eles estavam esperando por nós. Eles nos emboscaram. Afunilaram o caminho. Só deixaram passagem pela Teodoro Sampaio... eles colocaram snipers lá. Quando nos preparávamos para entrar, eles os mataram.

     — Quem foi morto? — quis saber Francis, interrompendo o relato.

— Todos eles. Todos os bentos.

     Os rostos dos bentos e dos soldados em volta do sobrevivente esmoreceram. Não podiam crer no que ouviam. Não poderia ser verdade. A atitude precipitada daquele sexteto de bentos havia colocado a profecia abaixo. O desespero e a decepção não tardariam a tomar aquele grupo e, quando a notícia chegasse aos povoados, esses sentimentos seriam multiplicados, levando a esperança e a salvação embora.

     — Só eu consegui fugir. Mas eu não consegui voltar... meu cavalo... foi morto. Eu estou ferido... acho que não vou conseguir.

     Francis levantou transtornado. Estava tudo acabado. Olhou para o soldado ferido. Mordeu os lábios, consternado. Apanhou seu cantil e ajoelhou-se junto ao homem. Ergueu a camiseta do soldado e espalhou água sobre as feridas da região abdominal. Percebeu outra perfuração no braço esquerdo. Apanhou um pano limpo e tentou remover a maior quantidade possível de sangue. O abdome estava bastante inchado e extremamente dolorido ao toque. A hemorragia era importante. O sangue esvaía vagarosamente, mas de maneira contínua. Pelo ferimento do braço também perdia sangue. Providenciou um curativo e pressionou o ferimento maior.

     — Eles estão lá, cercados. Toda vez que tentam abandonar os esconderijos, tomam uma rajada de fogo, os que conseguem escapar da metralhadora são pegos pelos snipers. Vão mantê-los naquela ratoeira até o anoitecer. — o soldado contorceu-se mais uma vez, apertando o manto que cobria Vicente. — E quando a noite chegar, estarão liquidados. Os vampiros vão acabar com todos nós.

     Lucas engoliu a seco, olhando ao redor. Quantas daquelas criaturas malditas existiriam naquela cidade-fantasma? Quantos vampiros se esconderiam dentro daquele sem número de prédios abandonados? Mesmo sendo empossado de uma força que desconhecia, que o fazia saltar feito uma besta louca para cima dos vampiros, às vezes, tinha vontade de sair correndo. Tinha vontade de voltar ao Hospital Geral de São Vítor e voltar a dormir. Às vezes, um bolo dolorido formava-se na boca do estômago. Nessas horas, perdia a certeza, a convicção de viver num mundo real. Sentia-se refém de um pesadelo horrendo e sem fim. Fechou os olhos e inspirou fundo. Sentiu o peito apertar. Não estava ali para disseminar medo, nem aflição. Tinha que ser o oposto disso. E essa era a hora. A provação. Não adiantava ser apenas uma espada afiada. Tinha sido despertado como trigésimo bento para ser um líder, para guiá-los. Nada tinha a temer. Já estivera quieto, morto e apático por trinta anos. Algo do passado soprava em seu peito. Sabia qual combustível precisava queimar no peito daqueles homens. Esperança.

— Onde eles estão? — perguntou novamente bento Francis.

     — Já disse, senhor. Estão na Teodoro Sampaio. Estão sendo arrasados. Daqui a algumas horas vai cair a noite... não vão conseguir fugir.

     O bento médico derrubou água nas mãos limpando o sangue, secou-as apressadamente e recolocou as luvas de couro. Olhou para sua tropa. Como ele, a grande maioria tinha o semblante abatido, talvez pela marcha acelerada e cansativa que tinham enfrentado nas últimas horas, talvez pelo fato de acabarem de saber que seis bentos estavam mortos e tinham acabado de voltar a estaca zero com a profecia. Não juntariam mais os trinta bentos. Como, cada vez mais, provações desdobravam-se diante de seus olhos e sua fé rachara, as incertezas represadas há muito começavam a vazar por essas novas frestas. Tinha baixado a cabeça sem perceber. Olhando para o asfalto antigo, coberto por pedriscos, mato em pontos rachados e escombros de alguma coisa que já fora um prédio. Ergueu os olhos mais uma vez e olhou novamente para os homens. Como Duque havia partido em missão, estavam em quatro bentos e mais quinze homens.

O restante dos soldados, vinte e cinco deles, tinham se separado, pois com os veículos motorizados não conseguiriam vir pelo atalho alagado. Ruminava pensamentos. Tentava formar uma estratégia, mas a pressa era demais. Muitos pensamentos ao mesmo tempo. Sentia-se perdido e afundando, como quando despertara sete anos atrás e descobrira que tinha perdido sua esposa e seu filho de cinco anos, quando descobrira que não era mais o médico chefe do departamento de queimados onde trabalhara. Seu mundo estava se perdendo novamente. O cumprimento da profecia. Era para isso que existia. Era por isso que respirava. Por isso tinha escolhido defender São Vítor. Para estar próximo de Bispo e ouvir de sua boca, diariamente, que havia uma esperança. Com Bispo morto, com a notícia da morte dos seis bentos precipitados... tudo se dissolvia, feito castelo de areia, na beira da praia. Foi nesse momento de aflição que seus olhos viram surgir bento Lucas, do meio dos homens, caminhando decidido e com um brilho diferente nos olhos.

     — Eu sei exatamente o que temos que fazer. — disse Lucas, chamando a atenção do grupo.

     Bento Vicente, sempre carrancudo, virou-se para Lucas. O que aquele recém-acordado, metido a besta, iria fazer agora?

     — Esses atiradores, esses mulos, estão atacando os homens encurralados. Estão preocupados, se divertindo em matá-los. Não creio que tenham visto esse soldado fugir. Temos a vantagem da surpresa do nosso lado. Uma vez li um livro de Szun Tsu, e, acreditem, surpresa é meio caminho andado para se vencer uma batalha.

     — O que você tem em mente, bento Lucas? — perguntou bento Edgar.

     — Levar vocês até lá e acabarmos com aquele bando de assassinos. Vamos fazê-los se arrepender de terem mexido com a turma errada.

     Francis não sabia o que Lucas pretendia de fato com aquele teatrinho, mas talvez fosse justamente aquilo, pois o bento havia transformado o semblante daqueles dezoito homens. Apesar de ser um sujeito invejoso, que não dava o braço a torcer, notou uma mudança até mesmo no olhar do truculento bento Vicente. Lucas estava mexendo com a cabeça deles. Estava lhes dando esperança. E isso era tudo o que precisavam para entrar em terreno hostil, com inimigos escondidos em todos os cantos prontos para massacrá-los.

     — Eu vou levar vocês até lá e vou trazer cada soldado que ainda estiver vivo de volta para casa. Eu sou o trigésimo bento e nunca mais se esqueçam disso.

     Os homens começaram a gritar, erguendo as armas que traziam, como que ingressando no mundo dos fanáticos, onde bastava a fala de um líder militar e religioso para entregar a vida por um ideal. Estavam embriagados pelas poucas, contudo poderosas, palavras que Lucas proferira. Estavam inundados de confiança.

     Lucas pediu que bento Francis e o soldado Elton mostrassem o que haviam trazido de explosivos. Traçariam rapidamente uma estratégia e partiriam para dar fim ao cerco que trucidava os soldados.

    

     Gabriel tinha a respiração rápida e entrecortada. A cada espoco que escutava, seu sangue gelava nas veias. Era isso. Estava acabado. Quantos soldados tinham caído? A metade do grupo formado por bento Arthur? Talvez já fossem mais. Aqueles mulos malditos! Estavam só brincando com eles. Torturando-os. Mantendo-os apavorados e acuados. Estavam preparando o terreno para os vampiros. Em algumas horas anoiteceria e estariam liquidados. Liquidados. Quando o sol caísse no horizonte, os malditos despertariam do sono hipnótico e viriam sobre eles. Os mulos desgraçados queriam que os soldados remanescentes ficassem vivos. Sangue vivo era mais saboroso. Gabriel apertou os olhos. O soldado estava sentado, com os joelhos flexionados, abraçando seu fuzil. Via mais cinco soldados na sala, igualmente assustados. Olhos arregalados, vermelhos. Desespero. Era isso que via no rosto dos colegas. Desespero. Gabriel era soldado de São Joaquim. Conhecia o plano. Quando partiram de São Joaquim para São Pedro, dias atrás, sabia para onde estava indo, sabia de todas aquelas possibilidades, mas parecia não acreditar que terminaria daquele jeito. Enquanto discutiam com os bentos o plano, tudo parecia favorável. Há anos nenhum humano maluco tentava nada contra o Hospital das Clínicas. Há anos os mulos não temiam invasão à velha São Paulo. Estavam despreparados, rendidos. O plano era bom. A surpresa ajudaria. Era entrar e sair do covil. Só tinham que deitar a mão na bendita máquina. Em sua mente tinha se visto centena de vezes, voltando Vitorioso para casa, com a missão cumprida. Estariam com a máquina a essa hora do dia e ela seria enviada ao hospital Geral de São Vítor. Os técnicos veriam se ela estava de lato funcionando e, conseguindo colocá-la em atividade, dariam uma dor de cabeça nervosa naqueles vampiros filhos de uma puta. Mas não era isso que acontecia. Não via sorriso, nem ouvia vivas. Estava no chão, acuado, com a perna recolhida para não sujar a calça no sangue de outro soldado, estendido na sua frente, com a boca aberta e um buraco no meio da testa. Diziam que os mulos eram ruins de tiro... não que não acreditasse nos amigos, mas para ele, particularmente, aquele disparo lhe parecera perfeito. Não precisavam ser melhor que aquilo para matar gente. Um tiro no meio dos olhos. Via-se agora como um rato, acuado, no interior do que fora uma loja de instrumentos musicais. Quando fechava os olhos via o espectro de bento André tombando ao seu lado. Estava ao lado dele na hora do primeiro tiro. Não houve tempo para reação. Bento André no chão, o sangue jorrando do pescoço. Um tiro no pescoço! Aflição. Gabriel tentara abaixar para ajudá-lo. Não soubera o que fazer na hora, era um tiro no pescoço porra! Não tinha sido um arranhão no cotovelo. Não era médico. Mesmo assim não o deixaria morrer ali, no meio da desértica Teodoro Sampaio. Quando se abaixou, ouviu o segundo tiro. Pressionou com ambas as mãos a ferida no pescoço de André. O sangue insistia espirrar entre os dedos. O bento não falava. Apenas tinha virado os olhos em sua direção e os mantinha horripilantemente arregalados. Gabriel sentiu os olhos marejarem. Tudo estava acabado. Se o lendário bento André afundava nas garras da morte diante de seus olhos, o que seria dele, um reles soldado? Seria morto também. A fé era farelo. Olhou ao redor. Os outros estavam correndo. Eram oitenta soldados, mais seis bentos, e estavam correndo rua abaixo. Gabriel sentiu medo. Tinham que sair dali. Tirou as mãos do pescoço do bento caído. Um esguicho de sangue voou longe, descrevendo um arco escarlate no céu. Respingos choveram em seu rosto. Gabriel ficou hipnotizado por um segundo com aquela cena terrível. Mais um segundo, mais um batimento cardíaco, mais um arco de sangue escapando do pescoço do bento agonizante. Aquele segundo jato hemorrágico pareceu tirar o horrorizado soldado do transe. Gabriel ergueu o bento para tentar a fuga. Deu dois passos. Mais um jorro de sangue escapando da ferida. Gabriel assustou-se com o jato de sangue acertando em cheio o lado de seu rosto. O sangue entrou por seu ouvido. Escutou uma segunda explosão. Era um segundo tiro, o qual atingiu a armadura prateada de André. Gabriel soltou-a assustado com o barulho de ricochetear da bala na couraça. Deu dois passos para trás e tropeçou. Ouviu mais tiros. Os bentos, que gritavam ordens tentando organizar o batalhão e iniciar um revide, foram tombando, um a um, diante de seus olhos. Os homens começaram a atirar contra os snipers, mas não sabiam de onde os tiros dos mulos vinham. Não sabiam onde atirar! Depois de cinco minutos, os tiros diminuíram de quantidade. Seus olhos pousaram no legendário bento André, caído de cara no meio da rua. Podia ouvir os gritos dos soldados feridos, caídos no meio do asfalto da Teodoro Sampaio. Estavam encurralados. Os malditos mulos tinham preparado a cilada e obtido êxito. Mordeu os lábios. Os malditos mulos sabiam. Sabiam que viriam. Como os bentos não perceberam que as ruas bloqueadas com carros destruídos, empilhados, formando verdadeiras paredes de ferro, faziam parte de um plano maldito para exterminá-los? Depois, Gabriel lembrava-se, começara a escutar berros dos soldados, como ele, escondidos em outros estabelecimentos abandonados. Eles gritavam, tentando reger uma reação, mas sempre perdiam mais homens batendo de frente com o mesmo problema, os snipers eram muitos e estavam bem escondidos. Não sabiam ao certo para onde direcionar a rajada de fogo, não sabiam quantos eram os inimigos. Com isso perderam munição e mais vidas. Por fim, sobraram os soldados amedrontados demais para arquitetar um estratagema e colocar todos fora dali, a salvo. Para complicar, o tempo nunca parava de correr e o sol ia mudando perigosamente de lugar. Em mais algumas horas, chegaria a escuridão. Estavam fritos. Se não fossem pegos pelas balas dos mulos, seriam pegos pelas garras das criaturas da noite. Gabriel balbuciou algo inteligível. Jamais voltaria a ver a esposa. Essa certeza ia se solidificando cada vez mais e uma angústia sufocante entalava a garganta. Desesperado, largou o rifle e entregou-se às lágrimas. Queria ver Agnes pelo menos mais uma vez. Em seu pranto, colou a testa no chão, fazendo cacos de vidro e sangue colarem na sua pele. Apertou os olhos e inspirou fundo. Voltou a colar-se na parede. Outro espoco vindo dos prédios. Barulho de vidro quebrando. O tiro potente ecoando entre os prédios. Ouviu o farfalhar de asas. Um bando de pássaros voando a curta distância. Estranhou.

Não era medo o que sentia agora. Como se a rápida e repentina crise tivesse aliviado seu peito. Do bolso interno do seu colete, retirou a foto de Agnes. Ela segurando Júnior. O filho perdido. Gabriel passou a mão sobre o rosto dos dois. Passou a mão na testa, livrando-se dos cacos e sujando os dedos com o sangue de algum colega. Sentia algo estranho no peito. Um calor alentador. Sentia conforto. Coragem. Era isso; coragem! Inspirou fundo e colocou-se melhor na porta do estabelecimento. Restos do que fora um Ford Ka jaziam junto ao calçamento. Olhou em direção de onde viera o tiro. Olhou fixamente. Não havia mais vestígios de fumaça no ar. Poderia ter localizado o maldito sniper dessa forma. Outro tiro. Buscou a direção com os olhos. Vinha de outra posição. Outro assassino. Dessa vez, encontrou uma trilha de fumaça subindo para o céu. Uma janela quebrada, um cano entre as venezianas retorcidas. Setenta metros de distância. Sexto andar. O disparo do agressor passara longe. Ele não era o alvo desta vez. Ergueu mais a cabeça, no topo de dois prédios via os malditos descontraídos, tinha certeza que um deles ria ao conversar com os demais. Estavam simplesmente mantendo-os ali, naquela jaula, naquele beco construído com carros destruídos e empilhados nos cruzamentos da Teodoro. Não conseguiria acabar com todos, mas, ao menos, um deles seria morto por sua arma. Gabriel fez mira na veneziana quebrada. O cano do sniper ainda estava lá. Não apontava em sua direção, do contrário, provavelmente já estaria estirado na calçada. Quando colocou o dedo no gatilho, uma explosão nas suas costas. A parede de veículos ruiu. Um buraco largo surgiu dentro os veículos que foram ao chão. Gabriel recostou-se no carro que lhe servia de abrigo e, assim que a grande quantidade de fumaça foi se dissolvendo, abriu um sorriso. Capas vermelhas esvoaçantes! Bentos! Mais soldados! Reforços!

     Elton disparou com uma arma de cano largo. Cilindros fumegantes voaram cento e cinqüenta metros adiante, indo parar no meio da rua. Uma densa cortina de fumaça formou-se. Serviria de distração e protegeria alguns deles durante a ação. Bento Lucas havia sido preciso em sua orientação. A estratégia era uma ação de assalto. Evitar o confronto com os mulos e localizar o mais rápido possível os sobreviventes. Dos corpos, deveriam recolher somente os seis bentos, a qualquer preço. E assim fariam. Um explosivo abriu a parede de veículos improvisada pelo inimigo na altura da praça Benedito Calixto. Rápidos e objetivos, os soldados foram invadindo o perímetro.

     Da calçada, o soldado Gabriel orientava, gritando e mostrando onde estavam os homens sobreviventes. Em poucos segundos, os soldados acuados foram deixando seus esconderijos e auxiliando os que acabaram de chegar. Os soldados de São Pedro perguntavam pelos corpos dos bentos.

     Gabriel, aproveitando a cortina de fumaça, cravou o joelho direito no chão e voltou a fazer mira na veneziana. Um novo disparo escapou daquele maldito sniper. Puxou o gatilho e o rifle expeliu uma seqüência de disparos. Não poderia afirmar cem por cento que o inimigo estava morto, mas o cano do rifle desapareceu da fresta. Com sorte seria um a menos. Voltou o cano de sua arma para o topo do prédio mais próximo, onde vira o par de mulos rindo segundos atrás. Agora eram sete homens, com os pés no beirai do telhado, disparando rajadas contra o chão. Gabriel puxou o gatilho mais uma vez. Cinco caíram, estourando os corpos no calçamento. Dois desapareceram. Fez mira no prédio seguinte. Os mulos estavam recuando, buscando proteção para efetuar disparos. Isso significava que estavam com medo. Não contavam com um segundo regimento. Estavam com medo! Agora, vendo os inimigos, os soldados conseguiam revidar os disparos. Os mulos foram surpreendidos e tomavam cuidado. Gabriel puxou o gatilho mais uma vez, fazendo nova vítima. Olhou para o asfalto. Três dos bentos abatidos na operação desciam a Teodoro nas costas de soldados de São Pedro. O rosto inanimado de bento André passou diante de seus olhos. Gabriel sentou-se na calçada e recostou-se no Ka.

     Lucas comandava parte do pelotão. Havia distribuído os soldados em três quintetos. Lucas estava ocupando-se do resgate dos bentos mortos. Faltava um corpo. Bento Murilo, de Nova São Paulo. Interrogavam os soldados que escapavam. Bento Murilo tinha tentado avançar. Os mulos pareciam se refazer do susto. As saraivadas de tiros aumentavam e surgiam de forma mais organizada, mais perigosa. Subiram um quarteirão. Bento Lucas chamou oito soldados. Revidavam tiro, dando cobertura um ao outro. Recostaram-se atrás de uma pickup. Lucas sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo. Na rua transversal, quase ao final da nova quadra, um homem de capa vermelha, imóvel. Sua posição era como se sua última atitude fora rastejar, buscando proteção dentro de um sobrado comercial, mas terminara a vida em suas escadarias. Olhou para cima, para o lado oposto da rua. Nenhum sinal de mulos. Adentrou o quarteirão, seguido por sua escolta. Ouvia tiros na rua principal. Teriam de ser rápidos, pois a presença dos soldados e da fumaça distrairia os inimigos, mas, se demorassem, os soldados teriam partido e seria mais difícil escapar com vida daquela batalha. Correu até o corpo. O homem de capa vermelha e couraça metálica no peito estava de bruços, com a mão estendida, tocando os primeiros degraus da escada de mármore, onde pretendia buscar abrigo. Dois soldados mortos do seu lado esquerdo. Lucas desvirou-o.

     — Bento Murilo. — disse um dos soldados, fazendo um sinal-da-cruz.

     Lucas colocou o homem no ombro e refez o caminho sentido à Rua Teodoro Sampaio. Os soldados dando cobertura. Tiros vindo na direção do grupo. Lucas foi obrigado a abaixar-se próximo à esquina, perdendo o equilíbrio e derrubando Murilo. Arrastou o corpo do bento para perto de um carro. Os tiros ora ricocheteavam, ora arrancavam pedaços das paredes. Os soldados começaram a revidar. Estavam quase na esquina, faltando poucos metros para encontrarem-se com o grupo principal e empreender escapada, descendo a Teodoro Sampaio. Da esquina oposta vinham rajadas de projéteis. O som dos rifles em conjunto era ensurdecedor. Lucas jamais estivera no meio de uma guerra, mas algo em sua cabeça dizia que aquilo não era tão singular em sua vida. Como aquelas lembranças sem hora marcada, a sensação de já ter estado rodeado por fuzis e disparos não lhe era estranha.

     Lucas ordenou que permanecessem naquela posição mais uns instantes. Recostados aos veículos, estavam, temporariamente, protegidos. As balas arrancavam pedaços da fachada dos prédios em frente ao grupo, lançando dejetos sobre suas cabeças e enchendo o ar de poeira.

     — O que vamos fazer, bento Lucas? — perguntou Domingos, um dos soldados que o escoltava.

     — Vamos esperar os nossos amigos abrirem caminho. Eles sabem que estamos aqui e sabem o que têm que fazer.

     Bento Francis estava de volta à passagem aberta na parede de carros empilhados. Percebeu o tiroteio intensificando-se duas quadras acima. Lucas estava lá, em busca de Murilo. Só faltava seu grupo. Olhou para cima dos prédios. Havia soldados na esquina à esquerda e podia ouvir mais disparos sendo efetuados da rua onde estava Lucas. Chamou a atenção de seus homens. Elton disparou mais granadas de fumaça. Teriam de subir dois quarteirões, mas o fato é que agora não contariam mais com o efeito surpresa.

     As línguas de fumaça providenciadas pelo soldado bloquearam temporariamente a visão dos inimigos que disparavam do alto dos edifícios.

     — Procurem proteção e disparem contra os prédios. Mandem bala em tudo que se mexer. Temos que garantir a saída de Lucas! — gritou bento Francis. — Ele precisa escapar com vida!

     Os soldados deixaram os corpos dos bentos mortos abaixo da linha de carros empilhados e voltaram para atender a ordem de Francis. Buscaram posições onde houvesse o mínimo de proteção, bloqueando as balas inimigas. Abriram fogo, mas não parecia suficiente. A cada instante mais e mais mulos surgiam nas janelas e não demorou mais de um minuto para que o primeiro deles fosse atingido.

     Lucas olhou para os soldados. Atiravam contra o prédio de esquina do outro lado do quarteirão. Continuavam debaixo de fogo cerrado e, a cada segundo, os disparos adversários pareciam aumentar. A lataria do carro que lhe servia de cobertura tilintava a cada novo projétil recebido. Eventualmente um disparo ou outro varava o chassi do veículo, fazendo lascas do cimento da calçada voar para todos os lados. Lucas olhou para Domingos. O soldado disparava repetidamente com o fuzil, tentando conter os adversários.

— Eles são demais! — gritou outro dos soldados ao seu lado.

— Nunca vamos sair com vida!

— Vamos viver, sim! Tenho que juntar os trinta bentos!

     — Como vamos passar por eles, senhor? — retornou o soldado, incrédulo.

     — Tenha fé! Tenha fé, soldado! Eu vou tirar vocês daqui com vida! Continuem atirando. Não se deixem apanhar.

     Mal terminada a frase de Lucas, os soldados escutaram uma retumbante explosão. Diante de seus olhos, espantados, parte do topo do prédio na esquina oposta virou fumaça. Pedaços de concreto atingiam a calçada com um barulho ensurdecedor e uma nuvem imensa de poeira tomou a avenida.

— É a nossa deixa! Vamos correr.

     Lucas colocou Murilo nas costas novamente e abandonaram a proteção dos carros. Um silêncio nervoso instaurou-se momentaneamente. Nem soldados, nem mulos disparavam, como que hipnotizados pela explosão. Lucas lançou um olhar para cima. Do meio da nuvem de fumaça viu surgir um pedaço enorme de concreto. Era um pedaço do prédio! Sabia que aquele destroço não cairia em cima dele e dos soldados, mesmo assim era difícil não se impressionar, não sentir medo. Num relance pôde ver três ou quatro mulos ainda agarrados no que sobrara de janelas do edifício. O choque do concreto contra o asfalto foi tremendo. Lucas e os soldados abaixaram-se, buscando proteção atrás de outro veículo abandonado pelo tempo. Desta vez não se escondiam de balas, mas de uma furiosa nuvem de poeira que varreu o cruzamento da Teodoro Sampaio. Lucas e a escolta foram encobertos pela nuvem de dejetos.

— Corram! — gritou.

O acidente seria o despiste ideal.

     Assim que dobraram a esquina, os soldados gritaram rua abaixo, gritaram eufóricos. Viam Lucas e os soldados, vivos, marrons, descendo pelo calçamento.

     Seguindo a ordem de Vicente, voltaram a atirar na direção dos edifícios, mesmo ainda sem poderem enxergar claramente por causa da nuvem de poeira que ainda valsava, tampando a visão. Os tiros teriam mais efeito moral que fatal.

     Lucas e os soldados tinham entendido o que acontecia. A tropa motorizada tinha acabado de chegar e, com ela, a artilharia pesada também surgira para salvar o restante dos soldados. Nos veículos motorizados, tinham vindo armas de grande poder destrutivo e uma espécie de canhão ainda fumegante deveria ter sido o responsável pelo estrondoso incidente assistido há pouco.

     Vendo Lucas se aproximando com o corpo morto de bento Murilo, Francis regeu a retirada dos soldados. Os mulos, ainda cegos pela poeira, voltavam a efetuar perigosos disparos que cortavam o ar sobre suas cabeças.

— Vamos embora! Vamos sair daqui, agora!

     Francis tinha pressa. Os corpos dos bentos foram acondicionados nos veículos e, em instantes, retomaram seus cavalos. Apesar de terem escapado daquela emboscada com sucesso, tendo recuperado os corpos dos bentos e salvo doze soldados sobreviventes ao massacre, sabiam que a batalha ainda não tinha terminado. Tinha um inimigo gigante, que descia em sentido ao horizonte. Sobravam poucas horas de sol e, se não tivessem longe do centro de São Paulo e daqueles prédios malditos, seriam atacados por um número inimaginável de criaturas da noite.

     Cavalos e veículos começaram a descer os cruzamentos mortos da Teodoro Sampaio, afastando-se rapidamente da aglomeração inimiga. Eventualmente deparavam-se com novos disparos. Mulos escondidos nos apartamentos pelo caminho atentavam contra os fugitivos. Sorte dos soldados e bentos que os snipers competentes muito provavelmente haviam sido chamados para a armadilha.

     Bento Francis cavalgava ao lado de Lucas. Francis olhou para o novato. Era outro homem que estava montado no cavalo. Não havia traço daquele rapaz franzino, cheio de ansiedade e medo. Quem cavalgava ao seu lado era um herói altivo. Alguém que os conduziria, de alguma forma, para a libertação. Alguém que tomara o comando daquela tropa e salvara a vida de um punhado de soldados apanhados numa ratoeira. Alguém que devolvera esperança ao rosto da tropa que descia a rua naquele momento. Mesmo que seu peito lutasse com a amargura e certeza de que os trinta bentos jamais seriam unidos, posto que carregavam na frente o corpo de seis de seus amigos, uma chama queimava sua alma. Uma grande mudança havia acontecido e Francis não fazia idéia por qual estrada o destino os conduziria dali em diante.

    

     O truculento bento Vicente cavalgava mudo. Seus braços fortes vinham na rédea do cavalo, conduzindo a montaria. Seu tordilho de pelagem negra era um dos mais belos animais do comboio. Os olhos do guerreiro vagavam de rosto em rosto. Observava os soldados. Estavam cansados e preocupados. O sol descia, no seu eterno curso natural, indo para o horizonte. O fantasma da escuridão penetrava no pensamento dos combatentes. Vicente sentia-se estranho, perturbado. Lutava contra aquilo. Aquela admiração crescente. Nunca tivera heróis na vida. A infância pobre colocara-o no trabalho aos nove anos de idade. Nunca tivera um pai presente. Os parceiros da mãe iam e vinham, cada qual, feito um joalheiro, feito um ourives, deixando a sua marca na pedra bruta que era a cabeça de Vicente. A violência doméstica esculpira uma jóia rara. Preciosa e perigosa. Vicente conhecera também companhias erradas. Crescera entre bandidinhos, marginais pé-de-chinelo. Não tinha heróis. Nunca antes admirara um homem. Era essa a palavra: admiração. Gostar de um homem. Isso atrapalhava a sua cabeça. Sabia que era macho, que era espada... nunca admitiria, nem para si próprio, que estava seduzido, caído de quatro em admiração. Olhou para trás. Lucas vinha ao lado de Francis. Imponente. Um líder. Vicente mordeu os lábios e voltou a olhar para frente. Como aquele homem conseguia aquilo? Transbordar determinação e atitude. Encher o peito dos homens ao redor com esperança e bravura. Nunca vira aquele bando atirar-se tão cegamente contra os inimigos. E, nesse caso, os inimigos estavam em vertiginosa vantagem numérica. Quando Lucas avançou contra os mulos estavam em dezenove homens, os vinte e cinco motorizados chegaram depois, fazendo o papel da cavalaria. Tinham tido a notícia prévia de que os seis bentos que organizaram a expedição haviam sido mortos. Mas, toda aquela adversidade não foi capaz de ofuscar o brilho e a energia que emanavam daquele bento novato. E ele próprio, que a princípio fizera pouco da figura franzina e frágil de Lucas e fizera questão de exibir sua arrogância nata e brutalidade forjada pela mão de padrastos bêbados e marmanjos aproveitadores, sentia-se envolvido, atraído por essa nova energia, por esse novo homem. Algo tinha acontecido com Lucas, algo muito bom, que não afetara apenas o bento novo, mas todos ao seu redor. Algo que o velho e falecido Bispo tinha visto antes de todos eles com aquele olho mágico que enxergava o futuro. Algo que escapara à ele na primeira impressão. Sentia-se envergonhado por estar atraído por um homem, mas não havia outra forma de definir aquilo. Lucas atraía a todos e todos, como ele, estariam dispostos a morrer para levar Lucas adiante, rumo à concretização da profecia. Lembrando desse ponto da missão, Vicente experimentava outra sensação. Mesmo olhando agora para o veículo que metros a frente transportava os corpos dos bentos mortos, sabia que podia contar com Lucas. Isso, sim, era esquisito. Como um código secreto, todos partilhavam sem falar daquela sensação. Estavam abatidos pelo fato dos bentos terem morrido, mas de alguma forma, bento Lucas emanava um elixir calmante. Exalava uma sensação que os fazia crer que tudo se arranjaria. Sabiam que Lucas resolveria aquele impasse. Agora não duvidava nem de que o bento novo fosse capaz de ressuscitar os mortos. Vicente, de repente, viu-se reprimindo um sorriso no rosto duro, coberto por uma barba rala. Sentiu um arrepio cruzar o peito. Bateu com os calcanhares no tordilho e fê-lo disparar. Tomou a dianteira da marcha, postando-se metros na frente de bento Edgar. Não queria que os demais vissem o seu sorriso. Não queria que percebessem que também tinha gostado da batalha e que se simpatizava com a atitude do novo bento. Queria preservar seu ar marrudo e mal-encarado. Era um homem, não um babão que se encantava com outro macho.

     Marcharam mais duas horas até chegar à entrada do vale pantanoso. Edgar, novamente na ponta do grupo, parou o cavalo puxando fortemente a rédea. A visão da região pantanosa na frente provocou-lhe um calafrio. Levou a mão à testa e fez o sinal-da-cruz. Ergueu sua touca de malha de ferro, que lhe protegeria o pescoço, e desceu do cavalo. Vampiros não tomavam sangue de bentos, mas procuravam suas jugulares para abrir um talho e tirar-lhes a vida. Os cavaleiros que seguiam Edgar também pararam. Os veículos motorizados aproximaram-se lentamente. Tinham que definir uma estratégia de escapada. Se os cavaleiros decidissem ir pelo pântano, ali seria novamente o ponto de separação. Somente os cavalos conseguiriam avançar naquele terreno traiçoeiro e brumoso. Edgar aguardou até todos se reunirem. Era a primeira vez que paravam desde que debandaram da armadilha. Sabiam que não teriam muito tempo até o anoitecer, mais uma hora de luz, talvez. A temível região pantanosa teria de ser transposta na escuridão.

     Francis desmontou do cavalo com agilidade e cruzou o meio do grupo a pé. Parou na margem do terreno pantanoso. Olhou demoradamente para o atalho e respirou fundo. Depois olhou para os veículos motorizados, equipados com a artilharia pesada.

     — Acho melhor desistirmos do atalho e avançarmos pela estrada. Ao menos teremos a proteção das armas pesadas. — disse, por fim.

— Não, irmão. — interferiu Lucas.

Os olhares convergiram para o novato.

     — Não temos tempo. O atalho nos dará horas de vantagem. Horas preciosas. Precisamos unir os trinta bentos o mais rápido possível. Somente com o auxílio dos quatro milagres colocaremos fim a essa situação. Fim a esse medo da escuridão.

     Vicente olhou para o horizonte. O sol derramava a luz derradeira sobre os morros. A velha São Paulo desaparecia nas sombras, sendo dragada rapidamente pelas trevas, trazendo com a noite o desespero, libertando as feras malditas.

     Lucas também olhou para São Paulo e seu amontoado de prédios negros. A inexistência de energia elétrica não permitia que as luzes dos postes públicos fossem acesas, agravando ainda mais a má impressão que aquele mausoléu gigantesco podia proporcionar.

     A luz enviesada do poente criava sombras extensas que anunciavam a chegada da noite.

A voz preocupada de Francis cortou o silêncio.

     — Posso estar enganado, Lucas, mas perdemos seis bentos esta tarde. Perdemos seis irmãos. Se cruzarmos o pântano, podemos perder muito mais. Por que tanta urgência se os trinta bentos não serão postos juntos tão cedo? Teremos que aguardar meses... quiçá anos até que seis novos bentos despertem do sono.

     — Não. Não vamos esperar tanto. Temos que cruzar o pântano. Temos que ganhar tempo. Cada minuto é precioso. Sinto essa urgência queimando o meu peito. É um palpite, algo que não vou ignorar.

     — Desculpe a intromissão, bento Lucas, mas escute bento Francis. Esse risco é desnecessário. Durante as horas que economizarmos cruzando esse pântano, seis bentos não acordarão, posso te garantir. Se nos mantivermos unidos, teremos mais chance.

Lucas olhou para o soldado Adriano.

     — Sei que está preocupado e que preza pela vida de seus companheiros de jornada, soldado, mas te garanto que essas horas serão cruciais. Os vampiros ganharão uma arma poderosa essa noite. Se não agirmos com presteza e caminharmos de encontro à profecia, nossos dias estarão contados... precisamos reunir os bentos faltantes, o mais rápido possível. Indo com os veículos, pelo asfalto, vamos nos atrasar.

— O que serão três ou quatro horas a mais?

     — Serão tudo. Temos que ir por este caminho. — disse, apontando para o pântano e depois olhando para os veículos. — Sei que não devemos estar juntos essa noite. Os carros estarão levando os feridos. Não serão tão ágeis. Temos que ir por esse caminho. Os vampiros precisam de uma lição. Precisam temer algo além do sol.

     — Os bentos morreram, Lucas. Você é poderoso, mas não ressuscita os mortos.

     Lucas encarou Elton. De fato não poderia ressuscitar os mortos. Mas, algo dizia que tinham que ganhar as horas, que tinham que seguir por aquele pântano, e era isso que fariam. Caminhou até a pickup que levava os corpos dos bentos no compartimento traseiro.

     — Os seis estão mortos e nosso dever agora é sepultá-los. Eu sou o trigésimo bento e fui escolhido para levá-los de encontro ao que foi profetizado. Vim para as horas amargas e não para as alegrias.

     — Sepultá-los? — perguntou, incrédulo e com nítida decepção na voz, Gabriel, o soldado salvo da emboscada por bento Lucas.

     — Como Francis disse, os seis estão mortos e nada há para se fazer a esse respeito. Vamos enterrá-los e continuar nossa jornada. — Lucas aproximou-se do veículo com os corpos. Apontou para os três soldados que ocupavam o veículo. — Tirem as couraças, as capas e as espadas desses homens. Isso vai conosco.

     Diante do grupo silencioso o trio cumpriu a ordem de Lucas. À medida que as couraças e espadas eram depostas, Lucas, com cuidado, apanhava as armas embainhadas de duas em duas. Unindo o par de espadas, enrolava-as, usando um par de capas vermelhas. Com as tiras de couro que escapavam das bainhas, fechava firmemente o embrulho. Entregou o primeiro par de espadas para bento Francis. Com o mesmo cuidado uniu o segundo par e entregou-o a bento Edgar. O último par de espadas conduziu até bento Vicente, que permanecia montado em seu cavalo.

— Cuidem dessas armas com a vida.

Lucas voltou-se com serenidade e olhou para os corpos enfileirados.

— Vamos enterrá-los.

     Apesar da liderança súbita e arrebatadora que Lucas havia adquirido, os soldados olharam para Francis buscando confirmação. Havia um cerimonioso ritual a ser cumprido antes do sepultamento de um bento, que tinha o corpo tratado como um santo. No entanto, mediante as circunstâncias e urgência, o ritual deveria ser abreviado.

     Francis aquiesceu e, um segundo depois, meia dúzia de pás surgiu dos veículos. O bento juntou-se aos homens que começaram a cavar o solo, dando instruções e confirmando que não cumpririam a risca o rito de sepultamento. Tinham que correr se não quisessem virar comida de vampiros.

     Um silêncio respeitoso cresceu até que só o som dos pássaros na mata e das pás contra o solo tomaram conta do ambiente.

     Minutos mais tarde, suado com o esforço empreendido, Francis, com cerimônia, aproximou-se dos cadáveres e retirou do pescoço de cada um deles o cordão com a figura de São Jorge. Segurando as seis imagens, fechou-as na mão e fez uma longa e silenciosa oração.

     Quando as covas ficaram prontas, o sol já havia se deitado. A escuridão tomava a mata. As lanternas dos veículos foram acesas, criando uma atmosfera sombria ao redor das sepulturas. Os corpos foram depositados no fundo das covas e cobertos com pressa. De noite, naquela região, era um perigo. Ao final da operação, Vicente surgiu com cajados feitos de galhos das árvores próximas. No cume de cada cova, enterrou metade do cabo improvisado, mantendo-os firmes, cravados na terra. Lucas assistia mudo à ação. Francis passou a Vicente a primeira couraça torácica, que jazia ao pé da cova de Murilo. Vicente fixou o peito de prata com firmeza no cajado, unin-do-o à madeira com uma fita de couro. Fez o mesmo com as demais, até que a cova de cada bento estivesse representada pela respectiva armadura. Ao terminar olhou para os soldados. Apesar do bento estar calado, todos perceberam a emoção na expressão daquele gigante, que poucas vezes na vida tinha o rosto livre da carranca.

Lucas benzeu-se em frente aos túmulos e acenou para Francis.

     Francis aproximou-se de Adriano e estendeu-lhe a corrente de bento André.

— Tome, soldado. Que isto te traga proteção.

     Adriano apanhou a peça e olhou-a demoradamente, enquanto a voz de Francis, chamando todos para a marcha, entrava em seus ouvidos. O líder de Nova Luz fechou os dedos, comprimindo contra a palma da mão a pequena imagem do guerreiro São Jorge.

     Meia dúzia de soldados reclamou do cansaço, mas não tinham outro remédio, era urgente retomar a marcha. Do contrário, ficariam sozinhos na beira do pântano, com a velha São Paulo na suas costas, guardando um exército sem fim de criaturas da escuridão.

     Os motores dos veículos roncaram e as luzes dos faróis vibraram. Enquanto os carros manobravam para voltar à estrada e dividir o grupo, os soldados montavam os cavalos.

— Fogo! — bradou Vicente.

     Os soldados improvisaram uma fogueira com rapidez. Nela, tochas foram acesas para que o caminho no pântano fosse iluminado.

     Com as tochas prontas, apressaram-se em reduzir a fogueira em cinzas, enquanto os bentos e alguns dos soldados vestiam as túnicas marrons, mais uma vez buscando confundir a visão de possíveis inimigos.

     Matias olhou para o céu. Fechou os olhos, uma garoa leve balançava ao sabor do vento, molhando a face. Se aquela névoa se adensasse não seria nada bom. Cavalgar no pântano, com chuva...

     A maioria dos cavaleiros benzeu-se antes de adentrar o terreno pantanoso. Tinham a impressão de saltarem do fogo para a frigideira. Pelo menos, os que adentravam aquele temido terreno, estariam acompanhados dos bentos.

    

     Anaquias abriu os olhos abandonando o transe. Acendeu-os feito brasas e exibiu as presas afiadas. Estava cercado e seu instinto fê-lo preparar-se para o combate.

     Um vampiro voou em sua direção. Anaquias desviou-se com habilidade, deixando o agressor chocar-se contra parede. Estavam na sala do que fora um imenso apartamento em bairro chique de São Paulo. Metade do ambiente estava tomado por vampiros com ares de poucos amigos.

     Anaquias desviou-se do segundo agressor, mas sabia que não poderia fazer aquilo a noite toda. Viu Gerson e Raquel, com os braços acorrentados nas costas e presos firmemente pelas mãos de dezenas de outros vampiros.

     Quando o terceiro inimigo atacou, Anaquias saltou sobre o agressor e o agarrou pelo pescoço, cessando o ataque. Iniciou uma série de golpes, deixando os atacantes escutarem uma seqüência de "claques" e "crecs". Anaquias empurrou o inimigo para o meio da sala. O vampiro urrava de dor, não conseguindo manter-se de pé. Tinha os ossos das pernas e dos braços literalmente moídos.

     — Fui eu quem ensinou isso a ele. — murmurou sorridente a líder Raquel.

Gerson sorriu.

     — Pare, Anaquias. Renda-se. Você não pode com todos nós. — disse um vampiro cinzento e de face cadavérica.

     — Peça você que seus lacaios cessem os ataques. Vim aqui para ajudar, não para ser trucidado.

     O vampiro de face cadavérica andou pelo assoalho de madeira da sala. Suas botas estalavam a cada passo. O semicírculo de vampiros frente a Anaquias manteve-se imóvel. Não atacariam até que o líder novamente ordenasse.

     — Sei o seu nome. — disse Anaquias. — Você é o vampiro chamado César.

O vampiro de face sulcada encarou Anaquias.

— Você sabe de muitas coisas. É por isso que estou aqui.

— Eles vieram? Vocês conseguiram?

     As perguntas de Anaquias quase não foram ouvidas em razão dos gemidos de dor do vampiro ferido.

     César tirou o vampiro com os ossos moídos do chão. Ergueu-o como se não possuísse peso. Aproximou-se da sacada do prédio. Virou-se para encarar Anaquias.

— Como eu disse, você sabe de muitas coisas.

     César ergueu o ferido sobre a cabeça e virou-se para a sacada, arremessando-o metros a frente, através da vidraça. O vampiro voou junto com os cacos, caindo quinze andares até a rua. Provavelmente sobreviveria a tal atrocidade, mas, caso ainda estivesse inteiro, levaria meses até que pudesse ficar de pé.

César caminhou até Anaquias, encarando-o demoradamente.

— Você não fede a traidor, Anaquias.

— Eles vieram? — insistiu o vampiro.

César simplesmente meneou positivamente a cabeça. Anaquias abriu um sorriso e virou-se de costas. Fechou as mãos e ajoelhou-se.

— Eu sabia! — berrou, embebedado pela vitória, pela confirmação.

     Usando velocidade sobrenatural, César agarrou Anaquias pelas costas e, antes que o grito da vampira pudesse ajudar, arremessou o suspeito contra a parede.

Anaquias tombou, retorcendo-se de dor.

     — Sabia? — perguntou César, tirando o cabelo de sua testa. — Por que não nos contou que os outros viriam?

     Anaquias ajoelhou-se novamente. Nas suas costas, parte do reboco da parede ruiu. A parede estava afundada onde havia recebido o choque de seu corpo.

— Que outros?

     — Como você disse, fechamos a Teodoro Sampaio. Construímos o corredor. Preparamos a tocaia...

     César andou para a frente e para trás, olhando para os vampiros amarrados e depois de volta para Anaquias.

     — Acontece que convidados inesperados surgiram na festa. Anaquias fez nova careta de dor, tentando erguer-se.

     — Então, como sou o responsável pela segurança dessa parte de São Paulo, resolvi vir pessoalmente lhe perguntar se realmente você está do nosso lado. Está?

Anaquias grunhiu.

— Duvida?

     — Quem lhe falou que eles viriam, vampiro? Anaquias passou a mão pelo peito. Seus olhos apagaram.

— Quem lhe falou? — repetiu, impaciente, César.

— Foi a voz... a voz na minha cabeça...

A risada de César sobrepôs o murmúrio de Anaquias.

     — Ele me disse... disse que eles viriam. Não falou de outros. Disse que viriam seis bentos. Vocês os pegaram?

César parou de rir.

— Foram mortos. Os seis.

     — Guardem o sangue deles. Ele vai precisar. Ele viu isso. Viu a bruxa pedindo o sangue dos bentos...

— Ele? Bruxa? — perguntou César, com ar de deboche.

— Guardem o sangue.

     — Impossível. Os corpos foram levados com os outros. Os outros que "ele" esqueceu de dizer.

     — Mas como? Vocês prepararam o caminho... mesmo que tivessem vindo outros.

     César deu uma bofetada com as costas das mãos no rosto de Anaquias.

Anaquias dobrou-se perante o golpe. Baixou a testa no chão.

— Quem é ele? — insistiu César.

Os olhos de Anaquias acenderam-se mais uma vez.

     César abaixou-se para agarrar o vampiro pelo pescoço. No entanto, Anaquias foi mais ágil, virando-se rapidamente e agarrando César primeiro. O vampiro, surpreso, arregalou os olhos. Anaquias arremessou-o de encontro ao teto e agarrou-o novamente pelo pescoço.

— A voz... na minha cabeça...

     Anaquias segurou a cabeça de César e empurrou-a contra uma coluna no meio da sala, esmagando o crânio do vampiro inimigo.

— ... é a voz...

     Colocou César sobre os ombros e deu passos decididos em direção à janela arremessando o vampiro pela sacada.

— ... é a voz do vampiro-rei.

     Anaquias virou-se para o bando de soldados vampiros que mantinham Raquel e Gerson amarrados. Todos olhavam estáticos para o vampiro franzino.

     Quando o primeiro dos vampiros pensou em avançar contra Anaquias, teve a iniciativa contida por um brado do inimigo.

— Acalmem-se! Nem pensem em me atacar!

     O brado foi tão poderoso e cheio de razão que os vampiros sentiram-se minados, incertos. O vacilo de um instante foi suficiente para dar mais solidez ainda à impressão causada pelo vampiro vidente.

     — Durante meu sono o vampiro-rei disse mais coisas, disse que vocês viriam. Viriam e junto a mim haveriam de preparar.

Os vampiros se entreolharam.

     — O vampiro-rei precisará de nossos braços, de nosso trabalho. A voz diz coisas que estão por vir. A voz nos guiará.

     Raquel e Gerson, ainda ajoelhados e acorrentados, olhavam incrédulos para a figura transformada do pacato Anaquias.

— Libertem Raquel e Gerson.

     Mais uma vez os vampiros ficaram sem reação. César tinha armado um esquema para capturá-los. Estava desconfiando que Anaquias tinha contato com os humanos... que estava armando alguma tramóia para entregar o covil do Hospital das Clínicas aos bentos. Não deveriam confiar naquele vampiro estranho.

— Libertem-nos! — urrou Anaquias.

     Ainda boquiabertos, Gerson e Raquel sentiram as mãos soltas. De alguma forma Anaquias estava controlando aqueles vampiros.

     Anaquias caminhou de volta à sacada do apartamento. Uma coleção de trepadeiras tomava a lateral do prédio e ramos grossos espalhavam-se para todos os lados. Olhou para baixo. Na rua encontrou dois corpos. O do soldado arremessado por César ladeado pelo próprio carrasco.

     Os lacaios de César afastaram-se de Gerson e Raquel. Trocaram olhares, ainda confusos.

     — Tu acabastes com nosso líder. Não devemos voltar de mãos vazias ao covil. Tampouco podemos deixar que vão embora, como se nada tivesse acontecido aqui. — disse um deles, adiantando-se.

     Anaquias caminhou pelo assoalho de madeira, encarando o vampiro que lhe dirigira a palavra. Esse era alto e forte, tão forte quanto Gerson. Tinha o cabelo raspado e uma tatuagem tribal subia do pescoço, tomando o queixo.

— Devemos obediência aos anciãos daqui...

     — Obedeçam a mim de agora em diante. — retrucou Anaquias, cortando o vampiro. — Jamais arremessarei um de vocês janela abaixo. Não é assim que um líder impõe respeito.

Os vampiros se entreolharam.

— Obedeçam a mim e a voz dirá o que devem fazer.

     O grupo de soldados-vampiros, pouco mais de vinte deles, começaram uma discussão em voz baixa. Pareciam conferenciar acerca do pedido de Anaquias. A discussão tomou mais de um minuto.

     Raquel aproximou-se do companheiro magro e transformado e sussurrou-lhe.