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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


Caleidoscópio / Danielle Stel
Caleidoscópio / Danielle Stel

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

Caleidoscópio

 

          

 

Primeiro momento tremeluzente da vida, como um diamante no mar, cintilando ao sol do meio-dia, uma chama luminosa e ardente, UM nome novo, uma luz brilhante, depois leve virada e a noite mais escura chega, pela primeira vez, depois rimas felizes e doces canções, corações que se entrusam até que a gente fica só, da aurora mais vívida até o crepúsculo mais profundo, do sol da manhã aos sonhos do entardecer, planos fantásticos e vidas que às vezes dão em nada, esperando tão fulgurantes, voltas tão repentinas, do claro para o escuro, do sombrio para o grandioso, da alegria para a tristeza, sempre à espera do amanhã e de uma virada do destino, um raio de esperança... com um gesto mínimo, a alteração de todos os planos da vida e de todo o seu objetivo... tudo com uma pequenina volta do caleidoscópio da vida.


As chuvas eram torrenciais a nordeste de Nápoles no dia 24 de dezembro de 1943, e Sam Walker encolhia-se dentro de sua trincheira, apertando a capa de chuva junto ao corpo. Tinha 21 anos e nunca estivera na Europa antes da guerra. Era um jeito infernal de conhecer o mundo, e ele já vira mais do que pretendia. Estava no exterior desde novembro de 1942, combatendo na África do Norte e tomando parte da Operação Tocha até maio de 1943. Ele achara a África ruim, com o terrível calor, os ventos do deserto e as tempestades de areia que deixavam qualquer um quase cego, com os olhos vermelhos e ardendo durante dias, e as lágrimas escorrendo constantemente pelas faces, mas isso era pior. As suas mãos estavam tão entorpecidas que mal conseguia segurar, muito menos acender, o cigarro que seu colega lhe dera de Natal.

O vento das montanhas atravessava os ossos das pessoas, era o pior inverno que a Itália já enfrentara, pelo menos era o que diziam, e ele ansiou subitamente pelo calor tórrido do deserto. Chegara à Sicília em julho, com o 45.o de Infantaria, anexado ao V Exército de Clark; e depois da Sicília eles tinham tomado parte na batalha de Nápoles, em outubro. E na batalha de Termoli logo depois, mas há dois meses que se arrastavam sobre pedras e através de fossos na direção de Roma, escondendo-se em celeiros, quando os encontravam, roubando a comida que podiam, lutando contra os alemães a cada palmo do caminho, e sangrando a cada passo dado.

- Merda... - Seu último fósforo estava ensopado e a essa altura a guimba, seu único presente de Natal, também estava. Quando os japoneses atacaram Pearl Harbor, ele estudava em Harvard. Harvard... só de pensar nisso tinha vontade de rir, e riria se não estivesse tão exausto.

Harvard... Com a sua vida perfeita e seu pátio imaculado, os rostos jovens e vivos tão certos de que algum dia governariam o mundo. Se eles soubessem... Era difícil acreditar agora que algum dia fizera parte de tudo aquilo. Esforçara-se tanto para chegar lá. Morava na cidade universitária de Somerville, e o seu sonho era estudar em Harvard. A irmã rira dele; a ambição dela era casar com um de seus colegas de segundo grau - qualquer deles serviria - e dormira com muitos deles para se candidatar ao papel. Era três anos mais velha do que Sam, e já se casara e divorciara quando Sam, por fim, conseguiu ingressar em Harvard, depois de fazer todos os biscates possíveis durante um ano, após o término do segundo grau. Ficaram órfãos de pai e mãe quando ele tinha quinze anos, num acidente de carro numa viagem a Cape God. Ele fora então morar com Eileen e seu "marido" de dezoito anos. Sam abandonara-os quatro meses antes do cônjuge de Eileen e eles mal se haviam visto desde então. Fora vê-la uma vez, para se despedir, três dias após sua convocação. Ela estava trabalhando num bar, pintara o cabelo de louro, e ele mal a reconheceu na penumbra, logo que a viu. A princípio ela pareceu embaraçada, e tinha o mesmo olhar ladino de que ele se lembrava e que sempre detestara. Eileen só se preocupava consigo mesma, o irmão caçula pouco significava para ela.

- Bem, boa sorte... - Ela o fitava constrangida, num canto escuro do bar, enquanto ele se perguntava se deveria dar-lhe um beijo de despedida, mas a irmã parecia ansiosa por voltar ao trabalho e não parecia ter mais nada a dizer a ele.

- Mande noticias...

- Sim... claro... se cuide...

Ele se sentira como se tivesse outra vez doze anos ao se despedir dela, e se lembrou de todas as coisas de que não gostava na irmã. Era difícil lembrar de alguma de que gostasse: Os dois sempre pareceram duas pessoas de mundos diferentes, de vidas diferentes, quase de planetas diferentes. Ela o torturara em criança, dizendo-lhe que era adoptado, e Sam acreditara nela até que sua mãe a surrara certo dia e dissera a Sam, no seu jeito patético de bêbada, que aquilo tudo era mentira de Eileen. A irmã sempre mentia, sobre tudo, e vivia culpando Sam pelo que tinha feito. Na maioria das vezes o seu pai acreditava nela, Sam sempre se sentira um estranho em relação à família, o pai grandão e rude, que trabalhara num barco de pesca a vida toda; a mãe que bebia demais; e a irmã, que passava as noites na farra. Às vezes ficava deitado na cama, imaginando como seria fazer parte de uma família "de verdade", com refeições quentes na mesa e lençóis limpos na cama... uma família de Beacon Hill, quem passava os verões em Cape Cod... uma família com filhos pequenos e cachorros, e pais contentes. Não se lembrava de ver os pais rindo ou de mãos dadas, e às vezes se perguntava se alguma vez agiram dessa forma. Odiava-os, em silêncio, pela vida miserável que levavam, e a vida a que o haviam condenado. Queria muito mais do que aquilo. E em troca eles o odiavam por suas boas notas, sua inteligência, seus papeis principais nas peças escolares, e pelas coisas que lhes contava sobre outras vidas, outros mundos, outras pessoas. Certa vez confidenciara ao pai que queria ingressar em Harvard algum dia, e o pai o fitara como a um estranho. E o era, para todos eles. Quando finalmente foi para Harvard, era um sonho que se tornava realidade, e a bolsa de estudos que conseguira fora o maior dos presentes... o maior dos presentes... e então aquele primeiro dia mágico, depois de ter se esforçado tanto, e então de repente, três meses mais tarde, tudo se acabara.

A chuva caía-lhe sobre as mãos congeladas, e ele escutou uma voz ao seu lado pela primeira vez, enquanto olhava por sobre o ombro.

- Quer fogo? 

Ele anuiu com a cabeça, voltando ao presente, ergueu os olhos e deparou com um louro alto, de olhos azuis, e com a chuva escorrendo pelas faces magras. Todos pareciam estar chorando.

- Quero... obrigado... - Sam sorriu, e por um momento os seus olhos brilharam, como no passado. Ele fora cheio de vida, séculos atrás. Sonhara em ser o centro das atenções no clube de teatro em Harvard. - Que belo Natal, hem? 

O outro sorriu. Parecia mais velho do que Sam, mas até Sam aparentava ser mais velho do que realmente era, hoje em dia. Depois da África do Norte e da Campanha da Itália, todos se sentiam velhos, e alguns aparentavam ser.

- Arthur Patterson - apresentou-se formalmente.

Sam riu alto quando uma rajada de vento jogou os dois contra O lado da trincheira.

- Que lugar encantador a Itália, não é? Sempre tive vontade de vir para cá. Umas férias maravilhosas. - Correu os olhos ao seu redor, como se visse belas garotas de maiô, e praias repletas de corpos encantadores enquanto Patterson sorria e soltava uma risadinha abafada, mesmo a contragosto.

- Está aqui há muito tempo? 

- Ah, faz uns mil anos. Passei o último Natal na África do Norte. Um lugar fantástico. Fomos convidados por Rommel. - Aceitou agradecido o fogo que o louro alto oferecia, acendeu a guimba e deu duas boas baforadas antes de queimar os dedos. Gostaria de tê-la oferecido ao novo amigo, mas não deu tempo antes que a chuva apagasse o que sobrara, e olhou com ar de desculpas para o seu benfeitor. - A propósito, sou Sam Walker.

- De onde você é? 

Teve vontade de dizer Harvard, pelos velhos tempos, mas isso teria parecido maluquice.

- Boston.

- Nova York.

Como se isso agora tivesse importância. Nada importava agora, eram só nomes de lugares inexistentes. A única coisa real era Palermo, Sicília e Salerno, Nápoles e Roma, o objetivo final, isso se chegassem lá. O louro alto lançou um olhar à sua volta, os olhos apertados contra o vento e a chuva, e comentou: - Eu era advogado antes disso tudo.

Sam teria ficado impressionado, mas assim como os lugares de onde vinham, as pessoas que tinham sido já não importavam mais.

- Eu queria ser actor. - Contara isso a pouquíssimas pessoas, não aos pais, antes de morrerem, ou à irmã, depois disso, mas apenas a alguns amigos, e mesmo eles tinham achado graça. E seus professores aconselhavam-no a estudar algo que valesse mais a pena. Mas nenhum deles entendia o que representar significava para ele, e o que acontecia quando pisava num palco. Era como a magia que vinha da sua alma, transformando-o no personagem que representava. Os pais que odiava sumiam, a irmã que detestava, e todos os seus medos e inseguranças com eles. Mas ninguém parecia entender isso. Nem mesmo em Harvard. Os estudantes de Harvard não eram actores, mas sim médicos, advogados, empresários, chefes de firmas e fundações, embaixadores... Riu baixinho mais uma vez. Sem dúvida, era um embaixador agora, com uma arma na mão e a baioneta preparada o tempo todo para poder enfiá-la nas entranhas dos inimigos, como o fizera repetidas vezes neste Ultimo ano. Ficou imaginando quantos homens Patterson matara, e como se sentia a respeito agora, mas esta era uma pergunta que não se fazia a ninguém, vivia-se com os próprios pensamentos e as lembranças dos rostos retorcidos e olhos fixos enquanto se retirava a baioneta e a limpava no chão. Olhou para Arthur Patterson com os olhos de um velho e se perguntou por um instante se algum dos dois estaria vivo para ver outro Natal.

- O que o levou a querer ser actor?

- Hen? - Ficou espantado com a expressão séria dos olhos de Patterson, enquanto ambos se sentavam sobre uma rocha plantada na lama, junto aos pés deles, enquanto a água na trincheira rodopiava à sua volta. - Ah, bem... não sei... me pareceu uma coisa interessante para fazer.

Mas era mais do que isso, muito mais, era a única vez em que se sentia inteiro, que se sentia poderoso e confiante. Mas não podia contar isso a esse sujeito. Era ridículo falar de sonhos sentado numa trincheira na véspera de Natal.

- Fiz parte do orfeão em Princeton.

Era um comentário absurdo, e de repente Sam Walker soltou uma risada.

- Percebe como somos malucos? Falando de orfeão, clube de teatro e Princeton, sentados nesta maldita trincheira? Percebe que provavelmente nem estaremos vivos na semana que vem, e cá estou eu lhe contando que queria ser acto... - De repente sentiu vontade de chorar no meio da própria risada. Tudo era tão terrível, mas real, tão real que podiam sentir-lhe o gosto, a textura e o cheiro. Não sentia outro cheiro que não o da morte há um ano, e estava farto daquilo. Todos estavam, enquanto os generais planejavam o seu ataque a Roma. Afinal, quem estava preocupado com Roma? Ou Nápoles ou Palermo? Pelo que estavam lutando? Pela liberdade em Boston, Nova York e San Francisco? Já eram livres, e em casa as pessoas estavam indo para o trabalho, dançando na USO e indo ao cinema. Que sabiam de tudo isso aqui? Nada. Droga, absolutamente nada. Sam ergueu os olhos para o louro alto e sacudiu a cabeça, os olhos cheios de sabedoria e tristeza, sem a risada repentina. Queria ir para casa... para qualquer um... até mesmo a irmã, que não lhe escrevera nem uma única vez desde que Saíra de Boston. Escrevera para ela duas vezes, e depois decidira que não valia a pena. Pensar nela sempre o deixava zangado. Ela o encabulara durante toda a sua adolescência e vários anos anteriores, assim como a mãe... e o pai rígido e taciturno, Detestara-os a todos, e agora estava aqui, sozinho, com um estranho ex-integrante do orfeão em Princeton, mas já gostava dele.

- Onde estudava? 

Patterson parecia querer apegar-se desesperadamente ao passado, lembrar os velhos tempos, como se pensar neles fosse levá-los de volta, mas Sam não se iludia. O presente era aqui, na imundície e na chuva gelada da trincheira.

Sam olhou para ele com um sorriso retorcido, desejando ter outro cigarro, um de verdade, não apenas uma guimba do que pertencera a outra pessoa.

- Em Harvard.

Em Harvard ele tinha cigarros de verdade, na hora que quisesse... Lucky Strikes. Só de pensar nisso sentiu vontade de chorar de saudade. Patterson parecia impressionado.

- E você queria ser actor?

Sam deu de ombros.

- Acho que sim... eu estava me formando em literatura inglesa. Talvez acabaria ensinando em alguma parte e organizando as peças escolares para os calouros aborrecidos.

- Não é uma vida ruim. Eu cursei St. Paul's, e lá tínhamos um clube de teatro danado de bom. - Sam fitou-o, perguntando-se se ele era de verdade. Princeton, St. Paul's... o que estavam todos fazendo aqui? O que estava qualquer um deles fazendo aqui, especialmente os rapazes que tinham morrido?

- Você é casado?

Agora Sam estava curioso a seu respeito, como se um anjo de Natal lhe tivesse aparecido; ele parecia diferente de todas as maneiras possíveis e, no entanto, tinham alguma coisa em comum.

Arthur sacudiu a cabeça.

- Eu estava ocupado demais fazendo carreira. Trabalhava para uma firma de advocacia em Nova York. Estava lá há oito meses quando me alistei. - Tinha 27 anos e seus olhos eram sérios e tristes, enquanto os de Sam pareciam maliciosos. O cabelo de Sam era tão negro quanto o de Arthur era louro, e ele tinha uma compleição média com ombros fortes, pernas longas para o seu tamanho e uma espécie de energia que parecia faltar a Arthur. Tudo em Arthur Patterson era mais contido, mais tateante, mais quieto. Mas, afinal, Sam também era mais jovem.

- Tenho uma irmã em Boston... se a essa altura ainda não foi morta por um sujeito num bar. - Parecia importante partilhar informações sobre si, como se pudessem não ter outra chance, e cada um deles queria que outra pessoa os conhecesse. Queriam ser conhecidos antes de morrer, fazer amigos, ser lembrados. - Nunca nos demos bem. Fui vê-la antes de partir, mas ela não me escreveu nem uma vez. E você? Tem irmãos?

Arthur sorriu pela primeira vez desde algum tempo.

- Sou filho único, de filhos únicos. Meu pai morreu quando eu estava estudando fora, e minha mãe não tornou a casar. Isto é bem duro para ela. Dá para eu perceber nas suas cartas.

- Aposto que sim. - Sam assentiu, tentando imaginar a mãe de Arthur, tentando visualizá-la: uma mulher alta e magra com cabelos brancos que já tinham sido louros, provavelmente da Nova Inglaterra. - Meus pais morreram num acidente de carro quando eu tinha quinze anos. - Não contou a Arthur que não sentira a perda, que os odiava, e que jamais o haviam compreendido. Seria muito piegas agora, e não havia mais importância. - Ouviu alguma coisa sobre o lugar para onde vamos, depois daqui? - Era hora de pensar na guerra de novo, não fazia sentido ficar se prendendo muito ao passado. Não os levaria a parte alguma. A realidade estava aqui, a nordeste de Nápoles. - Ouvi falar alguma coisa sobre Cassino ontem, fica do outro lado das montanhas. Deve ser divertido chegar até lá.

Então agora teriam que se preocupar com a neve, não com a chuva. Sam se perguntava que outras torturas os aguardavam nas mãos dos generais que agora eram os donos de suas vidas.

- O sargento falou alguma coisa sobre Anzio ontem à noite, fica no litoral.

- Óptimo. - Sam deu um sorriso perverso. - Quem sabe a gente pode ir nadar?

Arthur Patterson sorriu. Gostava desse garoto extrovertido de Boston. Sentia que por trás da amargura nascida da guerra havia um coração leve e uma inteligência viva, e pelo menos era alguém com quem podia conversar. A guerra fora dura para Arthur de muitas maneiras. Mimado quando menino, superprotegido quando rapaz, especialmente após a morte do pai, e criado por mãe amorosa num mundo altamente civilizado, a guerra representara um choque brutal para ele. Nunca conhecera o desconforto na vida, ou o perigo, ou o medo, e agora vivia às voltas com eles interminavelmente, desde que chegara à Europa. Admirava Sam por ter sobrevivido tão bem.

Sam pegou as rações de campanha que estivera guardando como guloseima de Natal e abriu-as com uma careta de nojo. Já tinha dado as balas para umas crianças da localidade.

- Quer um pouco de peru de Natal? O molho está um pouco gorduroso, mas as castanhas estão óptimas.

Ofereceu a latinha patética com um floreio, e Arthur achou graça. Gostava muito de Sam. Gostava de tudo nele e pressentia instintivamente que possuía a espécie de coragem de que ele próprio carecia. Só queria sobreviver e voltar para casa, para uma cama quente com lençóis limpos, e mulheres louras de pernas bonitas que haviam estudado em Wellesley ou Vassar.

- Obrigado, já comi.

- Mmmm - murmurou Sam convincentemente, como se estivesse comendo faisão em conserva. - Que cozinha fabulosa, hem? Eu não sabia que a comida era tão boa na Itália.

- O que há, Walker? - O sargento acabava de passar rastejando por eles, e parou para fitar os dois. Não tivera ainda problemas com Sam, mas ficava de olho nele. O garoto tinha fogo demais para o seu próprio bem, e já arriscara a vida tolamente mais de uma vez. Com Patterson eram outros quinhentos. Não tinha garra e era instruído demais. - Está com algum problema?

- Não, sargento. Eu só estava comentando como a comida aqui é boa. Quer um biscoito quente?

Estendeu a lata semivazia enquanto o sargento resmungava.

- Pare com isso, Walker. Ninguém o convidou para cá para uma festa.

- Droga... devo ter entendido mal o convite.

Sem ligar para as insígnias do sargento ou para sua carranca, riu e terminou de comer, enquanto o superior passava por eles sob a chuva contínua e depois olhava por cima do ombro.

- Vamos seguir caminho amanhã, cavalheiros, se é que vocês podem arranjar um tempinho nas suas agendas sociais.

- Faremos o possível, sargento... todo o possível...

Sorrindo a contragosto, o sargento seguiu o seu caminho e Arthur Patterson estremeceu. O sargento admirava a capacidade de Sam de rir e de fazer os outros rirem também. Era algo de que todos pensavam desesperadamente, em especial agora. E ele sabia que tempos mais duros os esperavam. Talvez até Walker deixasse de rir.

- Aquele cara está pegando no meu pé desde que cheguei aqui - queixou-se Arthur para Sam.

- Faz parte do charme dele - resmungou Sam, tateando os bolsos atrás de outra guimba, para o caso de ter se esquecido de algum e então, como o presente dos Reis Magos, Arthur tirou do bolso um cigarro quase inteiro. - Meu Deus, rapaz, onde arranjou isso? - Seus olhos se arregalaram de desejo enquanto Arthur o acendia e o passava para ele. - Não vejo tanto fumo desde aquele que tirei de um alemão morto na semana passada.

Arthur estremeceu à ideia, mas imaginou que Sam era capaz daquilo. Era em parte a insensibilidade da juventude, e em parte o facto de que tinha coragem. Mesmo sentado sossegadamente na trincheira, fazendo piadas infames e falando em Harvard, dava para se sentir isso.

Eles dormiram encolhidos lado a lado naquela noite e a chuva estiou de manhã. Na noite seguinte, dormiram num celeiro capturado numa pequena escaramuça, e dois dias mais tarde se dirigiram para o rio Volturno. Foi uma caminhada brutal que lhes custou mais de uma dúzia de homens, mas a essa altura Sam e Arthur já se haviam tornado grandes amigos. Foi Sam quem literalmente arrastou Arthur e, por fim, até o carregou, quando ele jurou que não podia mais andar. Foi Sam quem o salvou de um atirador de tocaia que os teria matado a todos.

Quando as invasões em Nettuno e Anzio falharam, a tarefa de romper as linhas alemãs em Cassino coube à divisão de Sam e Arthur. E desta vez Arthur foi ferido. Acertaram-lhe um tiro no braço, e a princípio Sam pensou que o amigo estivesse morto ao se voltar para ele quando ouviu o zunido da bala. Arthur jazia com o peito coberto de sangue e os olhos vidrados, enquanto Sam lhe rasgava a camisa e descobria que fora atingido no braço. Levou-o para trás das linhas até os médicos e ficou com ele até ter certeza de que estava bem, depois andou de um lado para o outro até a última retirada, mas foi uma provação deprimente para todos eles.

Os quatro meses seguintes foram um pesadelo. Cerca de 59 mil homens morreram em Anzio. E Sam e Arthur sentiam como se tivessem se arrastado por cada centímetro de lama e neve na Itália enquanto as chuvas continuavam, e eles se dirigiam para o norte, para Roma. Arthur logo voltou à ação, e Sam ficou radiante por tê-lo por perto de novo. Nas semanas antes de Arthur ser baleado, eles haviam criado um elo do qual nenhum dos dois falava, mas que ambos sentiam profundamente. Os dois sabiam que era uma amizade que suportaria o teste do tempo. Estavam passando pelo inferno juntos e aquilo era algo que nenhum dos dois jamais esqueceria. Significava muito mais do Que qualquer coisa no passado deles e, no momento, até mais do que qualquer coisa no seu futuro.

- Como é, Patterson? Levante essa bunda daí. - Eles estavam descansando num vale ao sul de Roma, na marcha contínua para derrotar Mussolini. - O sargento falou que vamos seguir caminho daqui a meia hora. - Patterson gemeu, sem se mexer. - Seu babaca preguiçoso, você nem teve que lutar em Cassino. - Enquanto Arthur se recuperava do ferimento, eles haviam lutado por Cassino, e combateram até que a cidade inteira ficasse reduzida a escombros. A fumaça tinha sido tão espessa que levara várias horas para se ver que o imenso mosteiro fora totalmente destruído e virtualmente desaparecera sob o bombardeio. Desde então não houvera grandes batalhas, mas sim escaramuças constantes com os italianos e os alemães. Desde 14 de maio, porém, seus esforços tinham se acelerado, quando se juntaram ao VII Exército para cruzar os rios Garigliano e Rápido, e na semana seguinte todos os homens estavam exaustos. Arthur parecia capaz de dormir durante uma semana, se Sam permitisse. - Levante, homem, levante! - Sam cutucava-o com a bota. - Ou está esperando um convite dos alemães?

Arthur fitou-o através de um olho apertado, desejando poder cochilar mais um momento. O ferimento ainda o incomodava de vez emquando e se cansava com mais facilidade do que Sam, mas isso também acontecia antes de ser baleado. Sam era incansável, mas Arthur dizia a si mesmo que também era mais jovem.

- Cuidado, Walker... você está começando a ficar parecido com o sargento.

- Os cavalheiros estão com algum problema? - O sargento sempre surgia nos momentos menos oportunos, e parecia adivinhar quando os homens falavam a seu respeito em termos pouco lisonjeiros. Como de hábito, ele se materializou atrás de Sam, e Arthur se pôs rápida.mente de pé com ar culpado. O homem tinha uma queda invulgar para encontrá-lo nas situações menos favoráveis.

- Descansando de novo, Patterson?

- Merda. Não conseguia agradar ao sujeito.

Há semanas que estavam marchando, mas, como Sam, o sargento nunca parecia se cansar.

- A guerra está quase acabando. Você poderia ficar acordado o tempo suficiente para ver a gente ganhar. - Sam abriu um sorriso e o sargento irritadiço o fitou, mas havia um pacto entre os homens, um respeito mútuo que excluía Arthur. Ele o achava um filho da puta perfeito, mas sabia que, secretamente, Sam gostava dele. - Você também está pretendendo tirar um cochilo, Walker, ou podem ficar de pé o tempo suficiente para se juntarem a nós em Roma?

- Vamos tentar, sargento... vamos tentar.

Sam sorriu docemente enquanto o sargento gritava por sobre a cabeça dele para os outros:           

- Vamos andaaaando!!!

Ele seguiu adiante para reuni-los, e dali a dez minutos dirigiam-se de novo para o norte. Arthur teve a impressão de que nunca pararam até o dia 4 de junho quando, inexprimivelmente exausto, ele se viu literalmente cambaleando pela Piazza Venezia, em Roma, sendo bombardeado com flores e beijado por italianos eufóricos. Ao seu redor havia barulho, risos, cantoria e os gritos dos seus próprios homens. Sam, com uma barba de uma semana, gritava radiante para ele e para todo mundo:

- Conseguimos! Conseguimos! Conseguimos!

Havia lágrimas de alegria nos olhos de Sam, igualadas pelas lágrimas nos olhos das mulheres que o beijavam, gordas, magras, velhas, jovens, mulheres de preto e andrajos e de avental e sapatos de papelão, mulheres que, numa outra época, poderiam ter sido belas, mas que não o eram mais, depois dos estragos da guerra, só que para Sam todas pareciam belas. Uma delas colocou uma imensa flor amarela no cano da arma dele e Sam a abraçou por tanto tempo e com tanta força que Arthur ficou encabulado só de olhar.

Jantaram aquela noite numa das pequenas trattorias que foram abertas para eles, juntamente com uma centena de outros soldados e mulheres italianas. Foi um festival de emoção, comida e canção, e por algumas horas representou ampla recompensa pelas agonias que tinham passado. A lama, a imundície, a chuva e as neves quase foram esquecidas. Mas não por muito tempo. Eles tiveram três semanas de folia em Roma e depois o sargento os avisou que iam embora. Alguns homens ficariam em Roma, mas Sam e Arthur não estavam entre eles. Em vez disso, se juntariam ao I Exército de Bradley perto de Coutances, na França, e durante algum tempo eles disseram a si mesmos que não poderia ser uma missão muito difícil. Era início de verão e na Itália e na França a região rural estava linda, o ar tépido. As mulheres lhes deram as boas-vindas, juntamente com alguns tocaieiros alemães.

O sargento salvou a pele de Sam desta vez, e dois dias mais tarde Sam impediu que o pelotão inteiro caísse numa emboscada. De um modo geral, porém, foi uma movimentação fácil, com o exército alemão em franca retirada, em meados de agosto. Eles deviam cruzar a França, se reunir à divisão francesa do general LeClerc e seguir para Paris. Enquanto a notícia corria pelas fileiras, Sam comemorava discretamente com Arthur.

- Paris, Arthur... puta que o pariu! Sempre tive vontade de ir Para lá!

Era como se ele tivesse sido convidado para se hospedar no Ritz e ir à Ópera e ao Folies-Bergère.

- Não fique tão esperançoso, Walker. Você pode não ter notado, mas estamos em guerra. Talvez a gente não viva o bastante para ver Paris.

- É isso que adoro em você, Arthur. Você é sempre tão otimista e animado!

Mas nada desanimava Sam. Só conseguia pensar na Paris sob a qual lera e com a qual sonhara durante anos. Na sua cabeça nada mudara, e tudo estaria ali, esperando por ele e por Arthur. Não falava noutra coisa enquanto marchavam por cidades e aldeias cheias de excitamento pelo fim de quatro anos de amarga ocupação. Sam estava obcecado pelo sonho de toda uma vida, e até a emoção de Roma ficou esquecida enquanto abriam caminho até Chartres nos dois dias seguintes. Os alemães estavam se retirando metodicamente na direção de Pa ris, como que conduzindo-os à sua meta e ao que, Arthur estava certo, seria a destruição total.

- Você é maluco. Alguém já lhe disse isso, Walker? Maluco. Totalmente louco. Você age como se fosse sair de férias.

Arthur fitava-o, totalmente incrédulo, enquanto Sam tagarelava no intervalo de matar alemães. Até mesmo esqueceu de revistar os bolsos deles em busca de cigarros, de tão excitado que estava.

Nas primeiras horas de 25 de agosto, o sonho de Sam se tornou realidade. E num silêncio sinistro, com olhos a observá-los de todas as janelas, entraram em Paris. Foi totalmente diverso da marcha vitoriosa sobre Roma. Aqui as pessoas estavam amedrontadas, cautelosas, saindo devagar das casas e esconderijos, e então, aos poucos apareceram, e de repente houve gritos, abraços e lágrimas, bem parecido com Roma, mas tudo levou mais tempo.

Às duas e meia daquela mesma tarde o general von Choltitz se rendeu e Paris foi oficialmente libertada pêlos Aliados, e quando eles marcharam pêlos Champs-Elysées na parada da vitória, quatro dias mais tarde, a 29 de agosto, Sam chorou abertamente enquanto marchava com seus camaradas. Só de pensar até onde tinham chegado e o quanto haviam realizado, libertando a Paris dos seus sonhos, ficava sem fôlego. E os gritos das pessoas postadas nas calçadas só faziam com que chorasse mais, enquanto as tropas marchavam do Arco do Triunfo até Notre-Dame para uma missa de ação de graças. Sam percebera que jamais se sentira tão grato por uma coisa na vida como se sentira por ter sobrevivido à guerra até então, e por ter vindo para essa cidade admirável a fim de trazer a liberdade ao seu povo.

Depois da missa em Notre-Dame, Arthur e Sam, profundamente emocionados, deixaram a catedral e desceram lentamente a rue d'Arcole. Estavam livres pelo resto da tarde, e por um momento Sam nem pôde pensar no que desejava fazer; queria apenas andar, absorver tudo aquilo e sorrir para o povo. Pararam para um café num minúsculo bistrô de esquina, receberam uma pequena xícara fumegante da chicória que todos bebiam e um prato de biscoitinhos das mãos da mulher do proprietário, que os beijou em ambas as faces. Quando chegou a hora de partirem ela não permitiu que pagassem, embora insistissem. Arthur falava um pouco de francês, e Sam pôde apenas gesticular em agradecimento e beijar a mulher de novo. Eles sabiam muito bem que a comida andava escassa, e o presente dos biscoitos era como barras de ouro oferecidas a um estranho.

Sam estava mudo de assombro quando deixaram o bistrô. Talvez a guerra não tivesse sido tão ruim, afinal de contas. Talvez tudo tivesse valido a pena. Ele tinha 22 anos e sentia como se tivesse conquistado o mundo, ou pelo menos a única parte que importava. Arthur sorria para ele enquanto caminhavam. Por alguma razão, Roma o emocionara mais. Talvez porque tivesse passado algum tempo ali antes da guerra e Roma fosse um lugar especial para ele, tal como Paris parecia ser para Sam, muito embora nunca tivesse estado ali.

- Eu não quero ir para casa, sabia, Patterson? Parece doideira, não é?

Enquanto falava, reparou numa jovem que caminhava à frente deles, e ficou distraído quando Arthur respondeu. A moça tinha cabelos ruivos flamejantes presos num coque, e trajava um vestido de crepe azul-marinho que estava lustroso de tão velho, mas que deixava ver todas as curvas generosas do seu corpo. Inclinava a cabeça orgulhosamente, como se não devesse nada a ninguém - sobrevivera aos alemães e não devia agradecimentos, nem mesmo aos Aliados que haviam libertado Paris. Tudo que sentia era manifestado pelo seu porte, e Sam fitou as suas pernas bem torneadas e o bamboleio dos seus quadris enquanto a acompanhava rua abaixo, a conversa com Arthur encerrada.

-... não acha? - perguntou Arthur.

- O quê?

Sam não conseguia se concentrar no que o amigo dizia. Só tinha olhos para o cabelo ruivo e os ombros esguios, e o modo orgulhoso como ela caminhava. Ela parou na esquina e depois cruzou a ponte sobre o Sena e dobrou no Quai de Montebello, enquanto Sam a seguia, inconscientemente.

- Aonde está indo?

- Ainda não sei.

A sua voz era intensa, os olhos azuis sérios, como que se algo terrível fosse acontecer caso a perdesse de vista por um momento.

- O que está fazendo?

- Ha? - Ele olhou para Arthur por um breve instante e depois estugou o passo, como que apavorado de perder a moça. E então, de repente, Arthur também a viu. Olhou-a bem a tempo de ver o seu rosto voltado para eles, como se tivesse subitamente pressentido a presença deles atrás de si. Tinha um rosto de camafeu, com pele branca e cremosa, feições delicadas e imensos olhos verdes que fitaram um de cada vez, e seu olhar pareceu se deter em Sam, como que advertindo-o para manter distância.

Ele ficou paralisado por não falar francês e pelo olhar arrasador que ela lhe lançara, mas quando ela recomeçou a caminhar, ele a seguiu com determinação ainda maior.

- Já viu um rosto como aquele? - perguntou a Arthur, sem olhar para ele. - É a mulher mais linda que já vi.

Ela possuía uma aura que chamava facilmente a atenção, além duma força que dava para se sentir mesmo à distância. Não era momento de ficar jogando flores para as tropas aliadas, ou pronta a abraçar o soldado mais próximo. Era uma mulher que sobrevivera à guerra e não pretendia agradecer a ninguém por isso.

- É uma moça bonita - concordou Arthur, percebendo a inadequação das próprias palavras, mas se sentindo um pouco encabulado pela perseguição obstinada de Sam. - Mas não acho que esteja muito satisfeita por estarmos seguindo-a.

Era óbvio que aquilo era minimizar a realidade.

- Diga alguma coisa para ela.

Sam estava completamente hipnotizado pela jovem, à medida que a distância entre eles diminuía.

- Está maluco? Não foi exactamente um olhar amistoso o que nos lançou, ainda há pouco.

E os dois ficaram vendo quando ela desapareceu dentro de uma loja, enquanto eles permaneciam na calçada, impotentes.

- E agora?

Arthur parecia embaraçado por estar perseguindo uma mulher numa rua de Paris. Libertação ou não, parecia uma coisa constrangedora para se estar fazendo, e ele não estava gostando.     ,

- Vamos esperar por ela. Vamos convidá-la para tomar um café.

Desejou de repente ter guardado o prato de biscoitinhos. Ela estava muito magra. Provavelmente há anos que não via nada. Tudo o que ele fizera fora se arrastar de barriga pela África do Norte e a Itália, e marchar pela França de joelhos. Que diabo, o que era isso em comparação com sobreviver à ocupação nazista, especialmente sendo mulher? De repente, desejou salvá-la de tudo o que já lhe havia acontecido, e de qualquer coisa que pudesse acontecer agora, com milhares de soldados aliados correndo enlouquecidos por Paris. Ela saiu da loja carregando dois ovos numa cesta e uma bisnaga. Olhou-os com irritação evidente ao vê-los esperando do lado de fora por ela. Seus olhos chamejavam quando falou algo directamente a Sam, que ele não entendeu. Ele se voltou rapidamente para Arthur.

- O que foi que ela disse?

Era óbvio que não fora uma coisa simpática, mas nem mesmo isso importava agora. Pelo menos falara com eles, e havia um leve rubor nas faces de Arthur quando olhou para Sam, irritado. Isso não era do feitio dele. Ele se comportara bem em Roma e em todos os outros lugares por onde tinham passado, com exceção de alguns beliscões e abraços e beijos, mas esse comportamento era novo, e Arthur não estava gostando.

- Disse que se dermos um passo na sua direção, irá até o nosso comandante e fará com que sejamos presos. E francamente, Walker, acho que está falando sério.

- Diga a ela que você é um general. - Sam abriu um sorriso, parecendo recobrar um pouco da sua pose e bom humor, enquanto o desespero o abandonava. - Puxa... diga que estou apaixonado por ela.

- Devo oferecer-lhe um chocolate e meias de seda, para não perder o embalo? Pelo amor de Deus, Sam, crie juízo e deixe a moça em paz. - Ela entrava em outra loja naquele momento, e ficou evidente que Sam não pretendia ir embora. - Vamos... - Arthur tentou induzi-lo a partir, mas em vão. Ela saiu da loja enquanto eles ainda discutiam, e agora se aproximou directamente dos dois, ficando tão perto Que Sam pensou que ia desmaiar. A pele da moça era tão cremosa que ele teve vontade de estender a mão e tocar-lhe o braço, enquanto ela se enfurecia no seu inglês muito limitado.

- Saiam! Voltem! Vão embora! - ela falou, mas a despeito da escolha estranha de palavras, os dois entenderam o que queria dizer, parecia que ia esbofeteá-los, especialmente Arthur, como se esperasse que ele fosse o mais sensato e tomasse alguma providência quanto a Sam. - C'est compris?

­- Não... - Sam imediatamente começou a conversar freneticamente com ela. - Não compris... não falo francês... sou americano.. Meu nome é Sam Walker e este é Arthur Patterson. Só queríamos dizer alô e... Ele lhe lançou o seu sorriso mais cativante e algo nos olhos deu estava mais zangado e magoado do que Sam jamais poderia compreender, do que ele jamais sentira ou experimentara, e aí sentiu uma pena imensa dela.

- Non! - Ela agitou os braços. - Merde! Voilà! C'est conpris?

- Merde? - Sam ficou perdido e se virou para Arthur buscando a tradução. - O que é "merde"!

- Quer dizer merda.

- Que simpático. - Sam sorriu como se ela os tivesse convidado para tomar chá. - Quer tomar um cafezinho conosco... un café? - Ele ainda sorria para ela enquanto falava com Arthur. - Puxa, Peterson, como é que a convido para tomar um café? Diga alguma coisa, por favor!

- Je m'excuse... - disse ele, em tom de desculpas, tentando se lembrar do seu francês de escola, a maior parte do qual parecia ter-| escapado diante dessa francesa de aparência incrível. Sam tinha razão. Ela era a moça mais bela que já vira. - Je regrette... mon ami est trés excite... voulez-vous un café? - disse ele, sem graça no fim, subitamente também não querendo deixá-la partir. A reação dela foi de ultraje imediato.

- Quel sacré culot... bande de salopards... allez-vous faire...

E então, com lágrimas nos olhos, ela sacudiu de repente a cabeça e passou rapidamente por eles, voltando por onde viera, de cabeça baixa, mas com os ombros tão orgulhosos quanto antes, caminhando mais depressa com sapatos que eles podiam ver que eram bem gastos e grandes demais para ela, como o vestido azul-escuro que parecia pertencia à sua mãe.

- O que foi que ela disse, Arthur?

Sam já estava partindo atrás dela, tendo de passar entre um bando de soldados que parecia ter brotado do nada.

- Acho que estava prestes a nos mandar para o inferno, não percebi o resto. Acho que era argot.

- O que é isso? Um dialecto?

Sam pareceu instantaneamente preocupado. O francês já era bastante complicado sem ter que se preocupar com dialectos, mas ele estava mais interessado em não perdê-la no meio da multidão.

- É a gíria de Paris. - Ela tinha se metido numa rua curta, a rue dês Grands-Degrés, parado subitamente diante de uma porta e depois desaparecido, batendo a porta com força às suas costas, enquanto Sam parava e suspirava com um sorriso vitorioso. - Por que está com essa cara tão satisfeita? - indagou Arthur.

- Agora sabemos onde ela mora. O resto seria fácil.

- Como sabe que não está fazendo uma visita?

Arthur estava fascinado pela intensidade da paixão de Sam. Ele próprio nunca sentira algo parecido, mas também nunca vira ninguém como ela. Era verdadeiramente linda.

- Ela vai sair mais cedo ou mais tarde. Vai ter de sair.

- E você pretende ficar aqui e esperar por ela o dia todo? Walker, você é maluco! - Arthur sacudiu a cabeça, desalentado. Não pretendia passar todo o seu tempo em Paris fazendo hora diante da porta de uma garota... uma garota que evidentemente não queria falar com ele, quando havia mil outras que ficariam encantadas em lhes demonstrar todo o tipo de gratidão e paixão. - Eu não vou ficar aqui parado o dia todo, pelo amor de Deus... se você pensa...

Sam não se abalou.

- Então pode ir. Encontro com você mais tarde. Naquele lugar onde tomamos café.

- E vai ficar aqui esperando?

- Acertou.

Ele acendeu um cigarro e se encostou todo feliz na parede do que imaginava ser o prédio dela. Estava pensando em entrar, mas isso podia esperar. Presumivelmente ela tornaria a sair - teria que sair - e ele tinha toda a intenção de esperar.

Arthur ficou de pé na calçada, furioso, tentando convencê-lo a fazer algo de mais construtivo com o seu tempo, mas de nada adiantou. Sam não tinha a menor intenção de ir embora. E, com irritação total, Arthur desistiu e resolveu esperar junto com ele, em parte porque não queria deixar Sam e em parte porque também a achara fascinante. Ela saiu em menos de uma hora, carregando uns livros numa sacola. O seu cabelo agora estava solto, e parecia mais linda do que há uma hora atrás. Ela os viu imediatamente logo que saiu de casa, começou a recuar por um momento, depois mudou de ideia. De cabeça erguida ela passou por eles, e então Sam lhe tocou muito suavemente no braço para chamar sua atenção. A princípio pareceu que ela ia ignorá-lo, mas depois parou, os olhos verdes chamejantes, e olhou para ele. O olhar que lhe lançou foi significativo, mas ela também parecia entender que não fazia sentido tentar dizer alguma coisa porque ele não compreenderia e, o que era pior, não queria compreender.

- Gostaria de ir comer alguma coisa conosco, mademoiselle? - Ele fez o gesto de comer e seus olhos não deixaram de fitá-la. Havia algo de muito insinuante no jeito como olhava para ela, como se quisesse que compreendesse que não ia machucá-la nem se aproveitar dela. Só queria olhar para ela... vê-la... e talvez até estender a mão e tocá-la. - Oui?

Parecia esperançoso, como um garotinho, e ela sacudiu a cabeça.

- Non. Okay? - O seu sotaque francês nessa única palavra era encantador e ele sorriu enquanto Arthur observava o diálogo, sem conseguir se manifestar no seu francês limitado. Havia algo na moça que o deixava sem fala. - Não...

Ela repetiu o gesto que Sam fizera para indicar comer e sacudiu a cabeça.

- Por quê? - Ele se esforçou para encontrar a palavra em francês. - Pourquoi? - Lançou um súbito olhar de pânico à mão dela. Talvez fosse casada. Quem sabe o marido dela ia matá-lo? Mas não havia nenhuma aliança. Ela parecia muito jovem, mas também ser viúva.

- Parce que - disse ela lentamente, se perguntando se ele compreenderia, mas quase certa de que não - je ne veux pas.

Arthur traduziu, num sussurro.

- Ela disse que não quer.

- Por quê? - Sam parecia magoado. - Somos bons sujeitos. Só almoço... comida. - Repetiu o gesto de comer. - Café... okay?... Cinco minutos? - Ele mostrou cinco dedos de uma das mãos. - Ok

Ele ergueu as duas mãos, com as palmas para cima, num gesto de impotência e paz, e ela pareceu subitamente exausta enquanto sacudia a cabeça. Parecia ter enfrentado anos disto, anos de soldados perturbando-a, de estranhos na sua pátria.

- Nada de alemão... nada de americano... não... nada de café... não... - Ela repetiu o gesto familiar de comer.

Sam juntou as mãos em sinal de súplica, e por um momento pareceu que ia cair no choro. Mas pelo menos ela ainda estava parada ali, ouvindo-o. Ele apontou para si mesmo e para Arthur.

- África do Norte... Itália... agora França... - Fingiu atirar, imitou o braço ferido de Arthur e olhou para ela, implorando. - Um café... cinco minutos... por favor...

Ela parecia quase lamentar desta vez, quando sacudiu a cabeça e depois começou a se afastar.

- Non... je regrette...

E então ela se afastou rapidamente enquanto eles ficavam olhando. Nem mesmo Sam quis segui-la desta vez. Não fazia sentido. Mas quando Arthur começou a se afastar, Sam não o acompanhou.

- Vamos, rapaz, ela foi embora e não quer ver a gente.

- Não me importo. - Parecia um garoto de escola desapontado. - Quem sabe ela vai mudar de ideia quando voltar?

- A única coisa que vai ser diferente é que dessa vez ela pode chamar o pai e sete irmãos para nos quebrarem os dentes. Ela disse não e falava sério, não vamos desperdiçar o dia todo parados aqui. Há um milhão de outras mulheres em Paris, morrendo de vontade de demonstrar a sua gratidão para os heróis libertadores.

- Estou pouco ligando. - Sam não se mexia. - Esta moça é diferente.

- Pode apostar que é. - Arthur estava começando a ficar zangado. Muito zangado. - Ela nos mandou plantar batatas. E eu, pessoalmente, pretendo não incomodá-la mais, não importa o quanto suas pernas sejam bonitas. Você vem ou não?

Sam hesitou por um momento e depois o acompanhou, mas com pesar evidente. E onde quer que fossem naquele dia, só conseguia pensar na bela moça da rue d'Arcole com os olhos verdes cheios de fogo e tristeza. Havia algo nela que o atormentava e, depois do jantar naquela noite, ele deixou Arthur à mesa com três moças e se afastou discretamente para caminhar devagar pela rua dela, só para ficar perto dela. Era uma coisa maluca, e ele mesmo se dava conta disso, mas nada podia fazer. Queria vê-la mais uma vez, mesmo que fosse só de longe. Não era só pela beleza dela, havia algo mais. Algo que não conseguia definir ou compreender, mas queria conhecê-la... ou pelo menos vê-la. Tinha de fazê-lo.

Parou num pequeno café do outro lado da rua e pediu uma xícara de café amargo que todos tomavam puro e sem açúcar. Ficou fitando a porta da moça e depois observou espantado sua chegada, caminhando pela rua com a sacola ainda cheia de livros. Ela se dirigiu até os degraus da casa e parou ali por um momento, procurando uma chave na bolsa e olhando por sobre o ombro, como que para se certificar de que ninguém a seguia. Sam se ergueu de um salto, largou um punhado de moedas na mesa e atravessou a rua correndo. Ela ergueu os olhos, espantada. Parecia que ia fugir, mas depois ficou no mesmo lugar, desafiadora. Na Paris ocupada ela se defrontara com homens piores do que Sam, e parecia pronta para enfrentar mais um. Mas agora seus olhos estavam mais cansados do que irados quando se voltou para ele.

- Bonjour, mademoiselle.

Ele agora parecia meio encabulado e ela sacudiu a cabeça, como uma mãe ralhando com um garotinho.

- Pourquoi vous me poursuivez? - Ele não tinha ideia do que ela dissera, e desta vez não podia se apoiar em Arthur, mas ela falava mais inglês do que ele imaginara anteriormente. Ela repetiu a pergunta na sua voz suave e rouca. - Por que faz isto?

- Quero falar com você.

Ele falou suavemente, como que acariciando os braços graciosos que se arrepiavam de leve ao ar fresco da noite. Ela não usava suéter, apenas o feio vestido azul.

Ela fez um aceno vago na direção das pessoas na rua, como as estivesse oferecendo.

- Muitas moças em Paris... felizes falar americanos. - Os olhos dela ficaram duros. - Felizes falar alemães, felizes falar americanos...

Ele a compreendeu.

- E você fala apenas com franceses?

Ela sorriu e deu de ombros.

- Povo francês também fala alemães... americanos...

Ela teve vontade de lhe contar como a França se atraiçoara, como fora horrível, mas não conseguiria fazê-lo com o pouco inglês que sabia e, afinal de contas, ele não passava de um desconhecido.

- Como se chama? Eu me chamo Sam.

Ela hesitou por muito tempo, achando que ele não precisava saber, e depois deu de ombros, como se estivesse falando consigo mesma.

- Solange Bertrand. - Mas não estendeu a mão para cumprimentá-lo. - Você vai? - Olhou esperançosa para ele e ele indicou o café do outro lado da rua.

- Uma xícara de café e depois eu vou. Por favor?

Por um instante pensou que ela ia ficar zangada de novo, e então seus ombros relaxaram pela primeira vez e ela pareceu hesitar.

- Je suis très fatiguée. - Apontou para os livros. Ele sabia que ela não podia estar frequentando a escola. Tudo estava parado.

- Você costuma ir à escola?

- Ensinando... garotinho em casa... muito doente... tuberculose.

Ele anuiu. Tudo nela parecia nobre.

- Não está com fome?

Ela pareceu não entender e ele repetiu o gesto de comer. Dessa ela riu, exibindo belos dentes e um sorriso que fez o coração dele dar cambalhotas.

- D'accord... d'accord... - Ela ergueu a mão espalmada. - Cinq minutes... cinco minutos!

- Você vai ter que beber depressa, e o café deles é bem quente...

Ele sentia como se estivesse voando enquanto tomava a sacola das mãos dela e a conduzia para o café do outro lado da rua. O proprietário a cumprimentou como se a conhecesse, e parecia interessado no facto de que ela estava ali com um soldado americano. Ela o chamou de Julien e conversaram por um momento antes que ela pedisse uma xícara de chá. Mas Solange se recusou a pedir qualquer coisa para comer até que Sam pediu para ela. Pediu um pouco de queijo e pão e, mesmo a contragosto, ela os devorou. Então ele notou pela primeira vez como era magra, vista assim de perto. Os ombros orgulhosos eram em sua maioria ossos, e tinha dedos longos e graciosos. Sorvia o chá quente com cuidado e parecia grata pelo líquido fumegante.

- Por que faz isto? - perguntou ela depois de sorver o chá. Sacudiu a cabeça devagar. - Je ne comprends pás.

Ele não conseguiu explicar por que se sentia tão compelido a falar com ela; só sabia que, no momento em que a vira, sentira que tinha de fazê-lo.

- Não tenho certeza. - Ficou pensativo e ela pareceu não compreender. Ele ergueu as mãos espalmadas para demonstrar que nem ele mesmo sabia. E então tentou explicar, tocando o coração e depois os olhos. - Senti algo diferente na primeira vez em que a vi.

Ela pareceu não aprovar e lançou um olhar às outras moças no café com soldados americanos, mas ele logo sacudiu a cabeça.

- Não, não... assim não... mais...

Ele indicou "maior" com as mãos, e ela o olhou com ar triste como se não tivesse ilusões.

- Ça n'existe pás... isso não existe.

- O que não existe?

Ela tocou o coração e indicou "maior", como ele o fizera.

- Perdeu alguém na guerra?... - Detestava ter de perguntar. - Seu marido?

Ela sacudiu a cabeça lentamente e então, sem saber por quê, contou-lhe.

- Meu pai... meu irmão... os alemães matam eles... minha mãe morre de tuberculose... Meu pai, meu irmão, dans Ia Résistance.

- E você?

- J'ai soigné ma mère... eu... mãe doente...

- Você cuidou da sua mãe?

Ela fez que sim.

- J'ai eu peur... - Ela fez um aceno de mão, irritada consigo mesma, depois indicou medo - de Ia Résistance... porque minha mãe ela precisa muito de mim... Meu irmão tinha dezesseis anos...

Os olhos dela se encheram de lágrimas e, sem pensar, Sam estendeu a mão e tocou a de Solange e, milagrosamente, ela deixou que fizesse, pelo menos por um instante, antes de retirá-la para tomar outro gole de chá, o que lhe deu a pausa de que precisava nas emoções do momento.

- Tem mais família? - Ela pareceu não entender. - Mais irmãos? Irmãs? Tias e tios?

Ela sacudiu a cabeça, os olhos sérios. Há dois anos que estava sozinha. Sozinha contra os alemães. Dando aulas para ganhar o suficiente para sobreviver. Muitas vezes pensara na Resistência depois que a mãe morrera, mas tinha muito medo, e o irmão tivera uma morte tão sem sentido... Não morrera com glória, morrera traído por um dos vizinhos franceses. Todos pareciam colaborar e ser traidores. Excepto por um punhado de franceses leais, e estes estavam sendo caçados e chacinados. Tudo se modificara. E Solange também. A garota risonha e efervescente se transformara numa mulher reprimida, irada, distante, no entanto, este rapaz conseguira tocá-la, e ela sabia. O que era pior, estava gostando. Aquilo a fazia sentir-se humana de novo.

- Quantos anos tem, Solange?

- Dix-neuf... - Ela pensou por um minuto, tentando achar a palavra certa em inglês. - Noventa - falou, e ele riu e sacudiu a cabeça.

- Não, acho que não. Não serão dezenove? - De repente, percebeu o que tinha dito e riu também, parecendo jovem de novo e mais bela do que nunca. - Você está fabulosa, para noventa anos.

- Et vous? - Ela lhe fez a mesma pergunta.

- Vinte e dois. - De repente era como um diálogo entre um rapaz e uma moça em qualquer parte, Excepto que os dois já tinham tanto da vida. Ela em Paris, e ele com a sua baioneta, matando alemães.

- Vous étiez étudiant?...

Ele fez que sim.

- Num lugar chamado Harvard, em Boston.

Ele ainda se orgulhava disso, mesmo agora. Estranhamente, isso ainda parecia importar em relação a ela, e ficou duplamente orgulhoso ao notar a luz do reconhecimento em seus olhos.

- 'Arvard?

- Já ouviu falar?

- Bien sûr... claro!... como a Sorbonne, não?

- Provavelmente. - Ficou satisfeito por ela conhecer Harvard e trocaram um sorriso. O chá, o pão e o queijo já tinham acabado há muito, mas ela não parecia mais tão ansiosa para ir embora. - Posso encontrá-la amanhã, Solange? Para dar um passeio, quem sabe? Ou almoçar?... jantar?

Ele agora percebia como ela tinha fome, e sentiu que era seu dever alimentá-la.

Ela começou a sacudir a cabeça e apontou para os livros na sacola.

- Depois... ou antes?... por favor... não sei quanto tempo ainda vou passar aqui.

Já se comentava que eles sairiam de Paris e seguiriam para a Alemanha, e ele não conseguia suportar a ideia de deixá-la. Não agora... ainda não... e quem sabe nunca. Era a sua primeira paixonite e ele estava totalmente dominado por ela enquanto fitava os olhos verdes que pareciam tão mais meigos agora, tão cheios de sabedoria.

Ela soltou um suspiro. Ele era persistente. E, mesmo a contragosto, estava gostando dele. Durante toda a Ocupação não fizera amizade com um único alemão, muito menos com um soldado, e não via por que a Liberdade devesse ser diferente e, no entanto... no entanto este rapaz era diferente. E ela sabia disso.

- D'accord - falou, com relutância.

- Não fique tão empolgada - brincou ele, e Solange pareceu confusa quando ele sorriu e segurou de novo a sua mão. - Obrigado.

Levantaram-se lentamente e ele a acompanhou até à porta, do outro lado da rua. Ela lhe deu um aperto de mão formal e agradeceu pelo Jantar. E então, com um som resoluto, a porta pesada se fechou atrás dela. Enquanto Sam caminhava lentamente pelas ruas de Paris, sentia como se a sua vida inteira tivesse se modificado numas poucas horas. Não sabia ao certo como, mas sabia que esta mulher... esta moça... essa criatura extraordinária... tinha entrado na sua vida por algum motivo.

 

- Onde esteve ontem à noite?

Arthur bocejou enquanto tomavam o café da manhã no refeitório do hotel onde estavam alojados. Era o Hotel Ideal, na rue Saint-Sebastien, e as tropas estavam sendo alojadas em acomodações semelhantes por toda Paris. Arthur tivera uma noite especialmente agradável, que terminara com vinho em demasia, mas não mulheres em demasia.

- Jantei com Solange - revelou Sam com naturalidade terminando o seu café, tentando fazer com que parecesse um encontro comum, coisa que ambos sabiam que não era.

- Quem é ela? Alguém que você encontrou depois que me deixou?

- Neca. - Sam olhou-o bem nos olhos, com o famoso sorriso cheio de malícia. - Lembra-se dela... nos conhecemos ontem na rue d'Arcole... cabelos ruivos, olhos verdes... Belas pernas... bamboleio...

- Está falando sério? - Pareceu aturdido, e depois riu. Era óbvio que Sam estava brincando. - Por um minuto cheguei a acreditar em você. Falando sério, onde esteve?

- Já lhe disse. Com Solange.

E desta vez parecia falar mesmo sério.

- Walker, não está brincando? Aquela garota? Que diabo, onde a encontrou?

- Diante da casa dela. Voltei, por via das dúvidas, e ela estava voltando para casa. Dá aulas para um garoto tuberculoso.

- Que diabo, como sabe disso? Ao que me lembre ela só falou francês conosco, e argot, ainda por cima. - Arthur parecia aturdido.

- Fala um pouquinho de inglês. Não muito, mas o bastante. Tirando o facto de que me disse que tinha noventa anos, nos demos muito bem.

Deu um sorriso de proprietário para Arthur. Estava claro que Solange já era a mulher dele e, olhando-o, Arthur sentiu uma pontada de arrependimento por não ter insistido. Havia algo em Sam, em gente como ele. Costumavam, invariavelmente, ganhar todos os prémios da vida.

- Quantos anos ela tem?

Estava curioso, agora. Como Sam, queria saber tudo a respeito da moça.

- Dezenove.

- E o pai dela não veio atrás de você com um facão de açougueiro?

Sam sacudiu a cabeça suavemente.

- O pai e o irmão dela foram mortos pêlos alemães. A mãe morreu de tuberculose. Está sozinha.

Arthur parecia impressionado. Eles tinham mesmo conversado.

- Vai encontrar com ela de novo?

Sam fez que sim e depois sorriu significativamente para o amigo.

- Sim, vou, e ela ainda não sabe, Patterson, mas depois da guerra vamos nos casar.

Arthur quase ficou de queixo caído ao fitar Sam, mas nem se deu ao trabalho de lhe dizer que era maluco, pois pressentiu de repente que Sam não estava brincando.

Sam e Solange foram jantar juntos naquela noite, e desta vez ela lhe contou como era viver em Paris sob o jugo alemão. De um modo sutil, era pior do que aquilo por que ele passara, e ela estivera indefesa. Tivera que se virar, evitando ser presa ou torturada ou simplesmente violentada pelos alemães que se julgavam donos de Paris e de todas as mulheres na cidade. Após a morte do pai, tivera que sustentar a mãe. Praticamente não tinham comida, e ela dava quase toda a que tinham para a mãe. Acabaram perdendo o apartamento, e a mãe morreu nos braços dela num quarto alugado, o quarto em que ainda morava estava cheio de lembranças feias e fantasmas tristes, mas ela não tinha outro lugar para onde ir agora. E depois do que vira durante a guerra não confiava em mais ninguém. A traição que o irmão sofrera fora o golpe final em quaisquer sentimentos que pudesse ter tido pela França ou seus compatriotas.

- Gostaria que algum dia você viesse para os Estados Unidos - disse ele, como que testando, observando-a comer. Ele ficava mandando servir mais e sentia-se gratificado porque ela comia.

Ela deu de ombros em resposta ao convite, como se fosse um sonho impossível que nem valia a pena ter.

- Muito longe... - Ela fez um gesto e depois explicou em francês - C'est três loin.

De todas as maneiras, era o que ela estava pensando.

- Não é tão longe.

- E você? 'Arvard de novo depois da guerra?

- Talvez. - Se ainda tivesse importância. Era difícil imaginar a volta aos estudos. Talvez decidisse ser actor, afinal. Ele e Arthur conversavam muito sobre isso, à noite, na trincheira. Ali fazia sentido. Mas era difícil saber o que faria sentido depois que voltassem para casa. As coisas seriam bem diferentes. - Quero ser actor - falou, para ver a reação dela. Pareceu interessada.

- Um actor?

E então ela meneou a cabeça como se aquilo fizesse sentido para ela, e Sam teve vontade de beijá-la. Sorriu para ela e Solange não soube ao certo por quê; depois pediu uma vasilha de frutas para ela, as primeiras que comia em muitos meses e com as quais nem sonhava. A generosidade dele a embaraçava. No entanto, por outro lado, parecia natural, como se fossem velhos amigos. Era difícil imaginar que esta era apenas a segunda vez em que jantavam juntos.

A amizade deles pareceu florescer à medida que davam passeios à margem do Sena e paravam em pequenos bistrôs e cafés para conversar e comer e, por fim, ficar de mãos dadas. Há dias que Sam mal via Arthur, e quando se encontraram na hora do café, Sam não gostou do que ele tinha a dizer. Patton cruzara o Meuse dois dias após o desfile da vitória pelos Champs-Elysées, e no dia seguinte estava em Metz, às margens do Mosela, a caminho da Bélgica. Era improvável que fosse permitir que eles permanecessem em Paris por muito tempo mais. E no dia 3 de setembro Bruxelas foi libertada pelos ingleses, e no dia seguinte a Antuérpia.

- Qualquer hora dessas vão nos mandar de volta à luta, Sam, escute o que estou dizendo - falou Patterson sombriamente enquanto tomavam café, e Sam sabia que o amigo tinha razão, mas estava desesperado para ficar com Solange agora. E no dia em que Bruxelas caíra ante os ingleses, ele fora até o quarto dela, tirara com meiguice o velho vestido azul que fora da mãe dela e fizera amor com ela pela primeira vez. E, para seu espanto e encantamento, descobrira que ela era virgem. Depois ficara deitada nos braços dele com lágrimas de felicidade inundando-lhe as faces enquanto ele a beijava. E Sam ficara ainda mais desesperadamente apaixonado por ela.

- Eu o amo tanto, Sam. A voz dela era rouca e meiga enquanto pronunciava cuidadosamente as palavras.

- Eu também, Solange... eu também...-  Não podia suportar a ideia de deixá-la, e sabia que ela também detestava isso. Parecia tão mais dependente dele agora, mais confiante e aberta. Duas semanas mais tarde, porém, ele recebeu as suas ordens. Iam seguir para a Frente Alemã. Havia uma guerra em andamento, afinal, mas pelo menos o fim parecia próximo. Todos estavam certos de que, com o resto da Europa libertado, a Alemanha logo cairia - quem sabe até antes do Natal, prometeu-lhe ele certa noite, enquanto esculpia seu corpo exótico com dedos famintos. Ela tinha a pele de um cetim que ele jamais tocara antes, e cabelos que lhe desciam pelos ombros e cobriam os seios como um fogo benigno enquanto ele a beijava.

- Eu te amo, Solange... ah. Deus, como te amo. - Jamais conhecera alguém como ela. Com certeza não em Boston, ou em outro lugar qualquer desde então. - Quer se casar comigo quando a guerra tiver terminado? - Os olhos dela se encheram de lágrimas quando ele fez o pedido, e ela não respondeu. Ele obrigou-a a olhar para ele e as lágrimas foram escorrendo pelas suas faces, como se soubesse de algo que ele não sabia. - O que foi, querida?

Ela mal se podia forçar a pronunciar as palavras, e ainda era mais difícil em inglês.

- Muitas coisas mudam na guerra, Sam... - Ele adorava o jeito com que ela dizia o nome dele, adorava o seu jeito de respirar e o seu cheiro. Adorava tudo nela com uma paixão que parecia aos céus. Nunca sentira antes qualquer das emoções que ela lhe proporcionava. - Você vai para 'Arvard de novo... après... e... - de ombros, impotente - vai esquecer Paris.

O que ela realmente queria dizer é que ele a esqueceria, e ele a fitou, assombrado.

- Acha mesmo que eu poderia esquecer? Acha mesmo que isto é uma espécie de esporte de soldado? Droga, eu te amo! - Pela primeira vez ela o viu zangado, e Sam fez amor com ela, desta vez furiosamente. - Eu te amo. Está entendendo? Isto é que é importante! E, quando a guerra acabar, vou levar você para casa comigo. Você vai?

Ela assentiu lentamente, ainda incapaz de crer que ele fosse de facto desejá-la quando a guerra acabasse... se é que ele sobreviveria a ela. Não pôde suportar essa ideia. Perdera a família na guerra e se arriscava agora a perdê-lo. Era o bastante para deixá-la temerosa de amá-lo e, no entanto, como ele, não podia deixar de fazê-lo. Era uma paixão maior que eles dois.

Sam sentia como se sua alma estivesse sendo arrancada da dela. No dia em que saiu de Paris Solange veio se despedir, e estavam ambos mudos e em lágrimas quando ele finalmente a deixou. Arthur nunca o vira daquele jeito enquanto as tropas marchavam pela Porte Saint-Cloud. Sam teve que se forçar a não olhar para trás de novo, ou poderia ter desertado. Não podia suportar vê-la parada ali enquanto se afastava marchando. Ela soluçava da última vez em que a vira.

Quando chegaram às Ardenas, Sam lutou ainda mais furiosamente do que antes. Era como se, quanto mais se esforçasse em combate, tanto mais cedo poderia voltar para Solange e levá-la para a América. Lá pelo fim de setembro, porém, o sonho começou a se desfazer; não o sonho de Solange, mas o sonho de ver a guerra terminar até o Natal. Os alemães não estavam tão enfraquecidos como todos pensaram, e lutavam implacavelmente. Foi só no final de outubro que Aachen caiu, devolvendo alguma esperança para Sam e Arthur e seus companheiros. Em Arnhem eles não tiveram a mesma sorte, e a essa altura o inverno já tinha chegado. Os ventos cortantes e o frio enregelante começaram a lembrar Sam e Arthur do inverno anterior passado nas trincheiras italianas.

De novembro a dezembro eles lutaram em meio ao frio cortante e à neve, e sentiam como se não estivessem chegado a parte alguma. Hitler havia acrescentado novas divisões Panzer e os tanques pareciam continuar a vir interminavelmente.

- Cristo, dá para acreditar nesta merda?

Sam parecia exausto enquanto ele e Arthur se sentavam no escuro certa noite, as mãos congeladas, os pés entorpecidos, os rostos tinindo de frio, e era a primeira vez que Arthur o via tão desanimado. Só falava em passar o Natal com Solange, e era bem evidente para todos eles agora que isso não ia acontecer.

No dia 16 de dezembro começou a Batalha do Bolsão e durante uma semana inteira os alemães surraram os Aliados. Foi só quando os céus clarearam, no dia 23, que os Aliados puderam começar a tentar fazê-los recuar, e mesmo assim a vitória aliada era incerta. Foi ainda mais desalentador saber que, no dia 17 de dezembro, noventa prisioneiros de guerra tinham sido mortos pêlos alemães em Mamedy, num gesto singularmente cruel que violava toda a ética da guerra, se é que tal coisa ainda existia.

E na véspera de Natal Arthur e Sam se sentavam lado a lado numa trincheira cheia de neve, tentando se aquecer e partilhando as suas rações.

- Não sei, Patterson... acho que o peru estava melhor no ano passado. Acha que devemos procurar um novo cozinheiro?

Mas, a despeito dessas palavras tão típicas de Sam, os olhos dele estavam vidrados de exaustão e tinha uma barba de uma semana nas faces magras. Parecia ter envelhecido dez anos desde que deixara Paris, talvez porque agora tivesse tanto em jogo.

O sargento morrera na travessia das Ardenas, e de repente Sam sentiu saudades dele... de Solange... até da irmã em Boston, de quem ainda não tivera notícias.

- O que será que ela está fazendo em Paris? - Sam falou quase consigo mesmo, pensando em Solange, e, se Arthur não estivesse enregelado até os ossos, teria sorrido para ele.

- Pensando em você, provavelmente. Seu sacana sortudo.

Ainda recordava como ela era bonita, e desejou ter sido tão insistente quanto Sam. Afinal de contas, ele falava francês, mas... isso era bobagem. Ela agora era a garota de Sam.

- Quer um pouco de bolo de chocolate? - Sam estendeu um pedaço de biscoito duro como pedra que levava no bolso há uma semana. Arthur recusou com uma careta de nojo. - Está esperando pelo suflê? Não o culpo.

- Pare com isso, está me dando fome.

Mas, na verdade, eles estavam com frio demais para comer, com frio demais, cansados demais e assustados demais.

Os alemães só começaram realmente a recuar dali a dois dias, e a Batalha do Bolsão por fim acabou. Em março eles tomaram a ponte em Remagen perto de Bonn, e em abril encontraram o IX Exército em Lippstadt e depois fizeram 325 mil prisioneiros alemães perto do Ruhr, e finalmente parecia que o fim estava chegando. E no dia 25 de abril, em Torgau, uniram forças com os russos. Roosevelt morrera duas semanas antes e a notícia deixara todos tristes, mas os homens na frente estavam preocupados em vencer e voltar para casa. A Batalha de Berlim começara e, no dia 2 de maio, a capital finalmente caiu. No dia 7 de maio a Alemanha se rendeu e Arthur e Sam ficaram se olhando com as lágrimas escorrendo pelas faces. Tinha acabado? Era verdade? Da África do Norte à Itália, à França e agora à Alemanha... parecia que tinham atravessado metade do mundo, e tinham. Tinham-na libertado.

- Meu Deus, Sam... - sussurrou Arthur, quando ouviram a notícia. - Acabou... não acredito.

Eles se abraçaram como os irmãos em que tinham se transformado. Sam teve uma estranha sensação de nostalgia de que aquele momento jamais voltaria, e um momento mais tarde ficou grato por isso. Jogou o capacete para o alto, soltou um berro tremendo, mas não era em Artur que estava pensando agora. Era em Solange. Ele ia para casa. E, como lhe prometera oito meses antes, ia levá-la.

 

O Exército lhe dera uma licença de três dias antes de mandá-lo de volta aos Estados Unidos em maio de 1945, e Sam seguira directo para Paris, onde encontrara Solange como a tinha deixado. Havia um tal alívio no rosto dela quando o viu que era fácil ver quais eram os seus sentimentos, e os três dias passaram voando, muito mais rápido do que qualquer um dos dois poderia sonhar.

E desta vez ela chorou copiosamente quando ele a deixou na estação para retornar a Berlim, e dali para os Estados Unidos para dar baixa. Ele pensara em casar com Solange antes de deixar Paris, mas havia muita burocracia envolvida, e seria mais fácil casar com ela nos Estados Unidos. Prometera mandar buscá-la até o final do verão. Mas precisava primeiro ganhar algum dinheiro. Já decidira não voltar para Harvard, e queria tentar a sorte como actor. Mas estava disposto a fazer qualquer coisa para ganhar o necessário para pagar a passagem de Solange. Ia mandar que ela viesse para os Estados Unidos como turista, e se casaria com ela no minuto em que chegasse. Mal podia pensar na ideia dos meses que o esperavam sem ela.

Em Nova York, Arthur convencera Sam a ir morar com ele até que arranjasse um apartamento, e Sam só conseguia pensar em se instalar direito.

- Não chore, meu bem. Prometo... o mais tardar em setembro.

Aquilo lhe dava quatro meses para organizar tudo e ter dinheiro Suficiente para sustenta-la. Estava com 23 anos, sobrevivera à guerra e era o dono do mundo agora.

- Eu te amo, Sam! - ela gritou enquanto o trem se afastava, e ficou acenando até ele sumir de vista.

- Que garota engraçadinha a sua, soldado - comentou um sargento, cheio de admiração, enquanto se acomodavam no trem. Sam apenas assentiu. Não tinha vontade de falar sobre Solange com ninguém, e não gostava especialmente dos constantes olhares de admiração dos outros soldados. Ela era uma bela jovem, porém era mais que isto. Era dele, agora.

O trem entrou na Estação de Berlim à meia-noite, e Sam voltou para seu alojamento a fim de procurar Arthur. Este ficara ocupado com as moças alemãs, e parecia ter uma preferência declarada por louras altas. Estava no sétimo céu na Alemanha, e Sam implicava com ele constantemente. Mas quando chegou, naquela noite, Arthur não estava. Sam foi para a cama, a cabeça cheia de pensamentos sobre a futura esposa e a vida que teriam em Nova York. E, antes que se desse conta, eram oito horas da manhã seguinte. Deixou a Alemanha dali a dois dias, com Arthur programando para regressar dentro de duas semanas.

Sam voou até Fort Dix, Nova Jersey, para dar baixa, e tomou o trem para Nova York. Quando saltou do trem em Penin Station foi como se tivesse pousado na lua. Após três anos na Europa, lutando na imundície e na lama e na chuva e na neve, parecia incrível estar em casa e ver as pessoas levando vidas normais. Não conseguia se adaptar a nada daquilo, nem ao hotelzinho em que se hospedara no West e sentia uma falta desesperada de Arthur e Solange enquanto ia percorrendo agentes e escolas de teatro, e procurando empregos para sobreviver nesse meio-tempo.

O Exército lhe dera 154 dólares ao dar baixa, e seus fundos estavam acabando rapidamente. Foi um enorme alívio quando Arthur voltou para casa dali a duas semanas, e Sam pode se mudar para a casa dele e da mãe. Não desejara incomodá-la antes. Mas era uma alegria estar com ele de novo, não apenas por causa do dinheiro que estava economizando, mas porque, finalmente, tinha alguém com quem conversar. Conversavam durante horas no quarto que partilhavam, como dois garotos. Embora a mãe de Arthur vivesse se queixando que não podia ouvi-los e ostentasse um ar de reprovação quando se dirigia a Sam, o que não era frequente. Era como se a guerra tivesse sido culpa de Sam, e as risadas deles e histórias lembradas só ajudavam a provar que eles tinham estado se divertindo, e que ficaram ausentes só para lhe causar angústia. Ela parecia encarar Sam como um lembrete constante e infeliz de uma época difícil, e foi um alívio quando Arthur decidiu morar sozinho e deixou Sam ficar na sua casa. A essa altura, Sam arranjara um emprego como garçom na P.J. Clarke's da Terceira Avenida, e se matriculara numa escola de teatro na rua 39, mas não recebera oferta de nenhum papel. Já começava a se perguntar se era tudo um sonho sem esperanças quando alguém finalmente quis contratá-lo para uma peça off-Broadway. Fez o teste e não conseguiu o papel, mas  se sentia um pouco mais perto do que antes, e sabia onde errara. Discutiu o assunto com o seu professor de teatro e, quando fez um teste pela segunda vez, no final de julho, conseguiu um papel sem falas em outra peça off-Broadway. Escreveu para Solange contando, e era como se fosse uma grande vitória. Mas foi muito mais emocionante para ambos quando, em setembro, ele finalmente lhe mandou dinheiro suficiente para a viagem. O dinheiro era a conta para a passagem e para comprar umas roupinhas, e ele lhe explicara longamente que iriam viver do salário dele como garçom e das gorjetas, e que as coisas seriam difíceis por um bom tempo. Mas ele não tinha dúvidas de que a queria ao seu lado.

Ela chegou no dia 26 de setembro, classe turística, no De Grasse, que ainda era o único navio que partia do Havre desde o termino da guerra. E Sam ficou olhando para os tombadilhos com o par de binóculos que Arthur lhe dera. Vasculhou cada rosto que enxergava e por um momento entrou em pânico, temendo que ela não tivesse feito a viagem... e então, num convés inferior, viu um vestido branco e um chapeuzinho branco, e por baixo dele o cabelo ruivo que tanto amava e o rosto pelo qual ansiava. Acenou freneticamente, mas havia gente demais no cais e sabia que ela não o havia visto.

Solange levou horas para passar pela alfândega, enquanto ele esperava com impaciência. Era um dia de sol claro e fazia calor no cais, com uma leve brisa. Um dia perfeito para ela vir para ele. Então ela ficou livre e voou para os braços dele, o chapéu enviesado e as lágrimas escorrendo pelas faces enquanto ele a beijava e abraçava com força e chorava também. Era o momento que desejara tão desesperadamente. Sam ria de alivio e alegria e a beijava.

- Ah, Deus, Solange, como te amo! 

Era uma paixão que quase transcendia a razão ou as medidas. Não suportava se afastar dela, a ponto de perder a maior parte das aulas de teatro logo após sua chegada. Mal aguentava ir trabalhar todos os dias as cinco horas. Achara um minúsculo conjugado para eles no perímetro das ruas 40, sob o metro de superfície, e todas as tardes, não importava o frio que fizesse, ela caminhava com ele até o trabalho.

E às duas e meia, quando voltava para casa, Sam trazia comida e a encontrava ainda esperando-o. Comiam depois de fazer amor, às vezes às quatro da manhã. Por fim, na época do Natal, ela insistiu que Sam devia começar a levar a sua carreira a sério, a pensar seriamente no teatro. Aquilo ainda lhe parecia um sonho remoto e Solange se mostrava bem mais realista, porém sabia que estava certa. Às vezes acompanhava Sam às aulas de teatro e ficava impressionada com o talento dele, assim como ficavam todos na classe. Mas o professor era impiedoso e exigia cada vez mais. Na parte da manhã ele lia peças e vasculhava os jornais em busca de papéis.

Viam Arthur de vez em quando, porém com menos frequência do que Sam gostaria. Era difícil porque Sam trabalhava à noite, e agora Arthur tinha uma namorada firme. Uma moça que se formara em Vassar antes da guerra, com uma voz anasalada e cabelos louros macios que usava no estilo pajem. Não se encantara particularmente por Sam, e sempre parecia procurar a chance de mencionar que Sam era um "garçom". Ainda mais, deixava evidente para todos que detestava Solange, para grande embaraço de Arthur. E, quando estavam a sós, sempre se referia a Sam e Solange como "os ciganos". Chamava-se Marjorie, e não se emocionava com as histórias de guerra que Arthur contava, ou com o facto de que Solange sobrevivera à ocupação da França e que perdera toda a sua família. Ela passara a guerra trabalhando como voluntária para a Cruz Vermelha e a Junior League, o que considerava certamente bem mais nobre. E era óbvio que, aos 28 anos, estava receosa de nunca se casar. Havia muitas moças como ela depois da guerra, moças que teriam se casado anos antes se todos os melhores homens não estivessem além-mar, como elas alegavam. E ela se esforçava para Arthur mudar o seu estado civil. Mas Arthur tinha seus próprios problemas. A mãe não andava passando bem, confidenciara a Sam, e ficava preocupada em pensar nele se casando com Marjorie. Ele estava trabalhando na sua antiga firma de advocacia e se saindo bem, mas receava enervar a sua mãe, que achava que ele devia encontrar alguém mais jovem - ou diferente - ou não encontrar ninguém. Sam a a observava bem quando se hospedara com eles, e tinha pena de Arthur, das pressões que permitia que todos exercessem sobre ele. A mãe queria soltá-lo e queria viver indirectamente através dele. E via todas as mulheres na vida do filho, e até mesmo os seus amigos, como correntes. Queria Arthur para si e tentava fazê-lo sentir-se culpado cada momento que não passava com ela.

- Il manque de courage - dissera Solange sem rodeios sobre Arthur após ter chegado aos Estados Unidos, agitando as mãos enquanto conversavam certa noite, depois de um jantar às três da madrugada. - Ele não tem... fibra... - Parecia vitoriosa ao encontrar a palavra certa. - Não tem ânimo... não tem... coragem.

- Tem muito ânimo, Solange. Só que não é enérgico como devia ser.

E a mãe o agarrava como um torno, mas isto Sam não disse.

- Voilà. - Ela concordou. - Não tem coragem. Devia se casar com Marjorie, se quiser, ou dizer au revoir ou, quem sabe - falou maliciosamente -, devia bater nela. - Sam achara graça na ideia, mas não podia discordar dela. - E devia dizer para a mãe... merde! Sam riu ainda mais com essa. Eles se davam esplendidamente, dentro e fora da cama. Partilhavam a maioria dos pontos de vista e Solange tinha um coração de ouro, era dedicadíssima a ele; e até mesmo gostava de Arthur, o que significava muito para Sam. Arthur fora o padrinho do casamento deles, realizado no civil três dias depois da chegada no De Grasse, e cuidara de toda a documentação de Solange. Ela o chamava de "grand frère", irmão mais velho, e olhava para ele carinhosamente com seus imensos olhos verdes, e o rapaz sempre parecia disposto a morrer de bom grado por ela.

No final das contas, porém, Marjorie conseguiu seu objetivo, e na primavera de 1946 eles se casaram em Filadélfia, sua terra natal.

Aos olhos de Sam, Arthur trocara uma mulher difícil por outra. Mas nada comentou. A mãe de Arthur estava doente demais para comparecer, alegando que seu coração simplesmente não era forte o bastante para lhe permitir viajar. Preferira ficar em casa seguindo os conselhos médicos. Solange e Sam também não foram, mas no caso deles era porque não tinham sido convidados. Arthur explicara interminavelmente que era um casamento simples, restrito à família, aos amigos mais chegados de Marjorie. E era longe demais... complicado demais... eles não teriam gostado... ele dissertava todas as vezes em que via Sam, mas Solange leu o comunicado nos jornais. Era um casamento para quinhentos convidados na St. Peter's Episcopal Church em Filadélfia, com uma recepção no Philadelphia Club. Arthur também vira o comunicado e rezava para que os Walkers não o tivessem visto.

- Não foi nada simpático da parte dele, Sam.

Solange estava magoada e desapontada por Sam, mas este parecia surpreendentemente compreensivo.

- É culpa de Marjorie, não dele.

- Quand même... - Mesmo assim... isso só confirmava o que dissera anteriormente. Arthur não tinha fibra e Sam, desconfiava Marjorie iria atrapalhar seriamente a amizade deles.

O tempo não provou que estava errado. Ele e Arthur se encontravam para almoçar, às vezes com Solange, mas esses encontros não incluíam a mulher de Arthur, que havia anunciado, agora que estava de aliança na mão esquerda, que queria cursar a faculdade de Direito, que pretendia ter filhos bem mais tarde. Arthur ainda se recuperava do golpe. Desejara ter filhos o mais cedo possível, e Marjorie alimentara essas esperanças durante todo o período de namoro e noivado.

Mas Sam e Solange tinham o bastante para preencher suas próprias vidas, sem se preocupar com Arthur e Marjorie. Solange estava totalmente envolvida com Sam, noite e dia, e vivia encorajando-o a levar a sério sua carreira. No outono de 1947, ela conhecia todas as peças da Broadway, tinha penetrado nos ensaios sempre que possível e lia todos os jornais de teatro e comunicados publicados, enquanto Sam ia à escola de teatro todos os dias e fazia testes para todos os papéis que ela indicava. Foi um esforço comum que deu frutos, mais  cedo que esperavam.

 A grande chance dele veio logo depois do Natal. Obteve o papel principal numa peça off-Broadway e conseguiu críticas óptimas e o respeito dos críticos. A peça saiu de cartaz após quatro meses e meio, mas a experiência fora valiosíssima. E naquele verão ele fez teatro de repertório em Stockbridge, Massachusetts, e enquanto o grupo esteve ali ele resolveu procurar a irmã. Era embaraçoso se dar conta de que, nos três anos desde que voltara da guerra, nunca tentara encontrá-la, e Solange o censurava por sua falta de devoção familiar. Isto até conhecer Eileen e Jack Jones. Então compreendeu um pouco melhor por que Sam preferia ignorá-la. Ele conseguiu descobri-la a partir do antigo bairro onde moravam, e a encontrou casada com um ex-fuzileiro naval, que os recebeu com um fluxo constante de piadas obscenas. Eileen falou muito pouco e provavelmente estava mais do que um pouco bêbada enquanto todos se sentavam na sua sala de visitas numa rua feia, num subúrbio decrépito de Boston. O cabelo ainda era oxigenado, com raízes escuras, e seu vestido era tão justo que bem poderia não estar usando nada, o que sem dúvida agradaria ao marido. Era difícil crer que ela e Sam fossem sequer remotamente aparentados, e foi um alívio quando finalmente foram embora. Sam inspirou fundo o ar puro e olhou para a mulher com um sorriso de pesar misturado com desapontamento.

- Bem. querida. essa é a minha irmã.

 - Não entendo... o que aconteceu com ela? - Aquilo ainda espantava Solange, que ficava mais linda ao passar dos anos, e se vestia decentemente, apesar dos recursos limitados. Ela própria parecia uma actriz, ou uma modelo bem-sucedida.

- Ela foi sempre assim - explicou Sam. - Nunca nos demos. - Soltou um suspiro. - Para ser sincero com você, jamais gostei dela. 

- Que pena.

Foi um alivio deixá-los. E ambos sabiam que ela não faria falta na vida deles. Mas a perda de um contacto mais frequente com Arthur era o que ambos lamentavam. Ele veio ver Sam no teatro de repertório naquele Verão, e ficou muito impressionado com o seu desempenho. E, é claro, deu todas as explicações apropriadas para a ausência de Marjorie, que sentia demais não ter podido acompanhá-lo. Supostamente fora visitar os pais na casa de verão deles perto de Filadélfia. Ela ingressaria na Faculdade de Direito de Columbia no outono, e estava ansiosa para tirar umas férias antes de começar o ano lectivo. E, naturalmente, Sam e Solange não fizeram mais perguntas.

Em setembro, porém, Arthur e Marjorie se tornaram bem menos importantes. Sam obteve seu primeiro grande papel, e Solange ficou tão empolgada que comprou uma garrafa de champanha, que beberam juntos em total descontração. Era o papel principal em Wilderness, que prometia ser uma das peças mais importantes da Broadway. Era um papel fabuloso para Sam, e ambos estavam histéricos de excitação. Arthur tratou dos contratos, Sam avisou à P.J. Clarke's que não voltaria ao trabalho no outono e eles começaram a ensaiar quase que imediatamente. A peça tinha um bom apoio financeiro e era produzida por um dos mais bem-sucedidos produtores da Broadway. A carreira de Sam Walker deslanchou, e ele estaria em boa companhia naquele inverno. Rex Harrison ia trabalhar em Ana dos Mil Dias no Schubert, com Joyce Redman. Henry Fonda e David Wayne já estavam em Mister Roberts no Alvin, e Anne Jackson estrelava no dia 6 de outubro no Music Box, com Summer and Smoke, de Tennessee Williams. Este seria um ano de que sempre se lembrariam.

Arthur os levou para almoçar no "21" para comemorar. Explicou que Marjorie já estava ocupada com a faculdade e que não poderia lhes fazer companhia, e Solange também tinha um comunicado a fazer. Já havia contado a Sam na véspera, e ele estava eufórico. De repente, tinham tudo o que desejavam. Ele e Solange iam ter um bebé. Devia nascer em abril, e a essa altura Sam já estaria enfronhado na peça. Tudo era perfeito. Arthur olhou-os melancólico durante o almoço. Tinha apenas 32 anos, mas ultimamente parecia bem mais velho. Também queria filhos, mas quando Marjorie terminasse a faculdade de Direito, ela já estaria com 33 anos e ansiosa para começar sua carreira. Realisticamente, ele sabia agora que nunca teria um filho, o que pareceu tornar o bebé de Solange e Sam ainda mais importante.

- Invejo vocês dois.

 Não apenas o bebé, mas tudo o que tinham: o amor tão evidente, a empolgação dela com a carreira de Sam. Tudo parecia estar começando para eles. Sam tinha 26 anos, e Solange 23. Parecia ter decorrido um século desde que se encontraram pela primeira vez, na Paris libertada. Solange era tão elegante e charmosa! Estava ainda mais bonita e parecia estudante de vida e emoção.

E a emoção não diminuiu naquele outono, enquanto Sam ensaiava a peça dia e noite, burilando seu papel até a perfeição. Ele chegava em casa exausto à noite, mas nunca demais para fazer amor com Solange, ou lhe falar do elenco ou das modificações na peça. A atriz principal era Barbara George, uma grande estrela da Broadway, e estava aprendendo muito com ela. Contava tudo a Solange com olhar empolgado e uma risada que a fazia amá-lo ainda mais.

A peça estreou no dia 9 de dezembro, no dia seguinte à estréia de Rex Harrison na peça de Anderson, e as críticas de Sam foram ainda melhores do que as recebidas anteriormente. Era difícil acreditar... mais do que isso... era incrível... Ele chegara lá! 

 

O bebé nasceu enquanto ainda curtiam o enorme sucesso de Sam na Broadway. Solange calculou a hora à perfeição. Entrou em trabalho de parto após o espetáculo de sábado à noite, e o bebé nasceu às dez horas da manhã seguinte, no Doctors Hospital, na East End Avenue. 

Foi uma menina, em parto normal. Estava aninhada nos braços da mãe, com os cabelos escuros do pai e os olhos verdes da mãe, da primeira vez em que Sam a viu. Ficou encantado com a beleza da filha e com Solange, que estava linda, cansada mas orgulhosa, como se soubesse agora um segredo importante, e tivesse dado duro para ficar sabendo. 

Arthur foi o primeiro visitante no dia seguinte, e ficou de olhos húmidos ao olhar para o bebé através do vidro. Tinham lhe dado o nome de Hilary, que Solange adorava, muito embora fosse difícil para ela pronunciá-lo. Nunca aprendera a falar o "H" aspirado dos americanos e chamava o bebé de "Ilary" e murmurou em francês para ela quando lhe trouxeram o bebé para amamentar. Arthur foi convidado para padrinho e ficou profundamente emocionado. Mas, ao invés de Marjorie, Sam convidara a sua co-estrela, Barbara George, para ser a madrinha do bebé. 

O batizado realizou-se na Catedral de São Patrício, com toda a pompa e cerimónia a que tinham direito. O bebé usava uma bela camisola de renda que a madrinha comprara para ela na Bergdorf Goodman. E Solange usava um casaco novo de vison e um anel de brilhantes, presente de Sam. A situação financeira melhorara muito desde o papel dele em Wilderness. Tinham se mudado para um apartamento maior "a Lexington Avenue, não luxuoso, mas bem melhor do que o outro da Terceira Avenida. O bebé tinha o próprio quarto, que dava para um jardinzinho de fundos, Sam e Solange ocupavam outro, muito aconchegante, e havia uma sala de visitas espaçosa para receber os amigos. Agora havia um fluxo constante de gente no seu novo apartamento, novos amigos, actores, na sua maioria, e pessoas ligadas à peça de Sam. Solange não se importava de tê-los por perto, ao contrário, até que gostava. 

A peça ficou um ano inteiro em cartaz e encerrou sua temporada depois do Natal de 1949. Em um mês Sam já tinha recebido várias ofertas, e quando finalmente escolheu a de sua preferência, mal teve tempo de tomar fôlego com Solange e Hilary antes de começar os ensaios. A essa altura Hilary estava com nove meses de idade e engatinhando por toda parte. Aparecia junto aos pés de Sam no banheiro, quando estava fazendo a barba, e debaixo da mesa enquanto ele tomava o seu café da manhã, com um coro constante de "pa-pa-pa" que o encantava. Ele queria ter logo outro filho, de preferência um menino, mas Solange preferia esperar. Estava satisfeita com a pequena Hilary e queria dedicar-lhe toda a sua atenção. Era mãe devotada e parecia ainda mais carinhosa com Sam desde o nascimento do bebé. Era como se tivesse aumentado dez vezes o seu estoque de amor por ele. 

E a maternidade não lhe prejudicara a beleza. Era uma moça incrivelmente bonita, agora mais do que nunca, e a imprensa já começava a comentar sobre a esposa extremamente bonita de Sam Walker. Fora entrevistada mais de uma vez, mas sempre conduzia as atenções para Sam, realçando o actor importante que ele era. E os críticos concordaram com ela mais do que nunca após a estréia da nova peça. Ela ficou dois anos em cartaz e, quando finalmente encerrou a temporada, Sam resolveu tirar umas férias. Solange engravidou quase que imediatamente. E dali a nove meses uma outra filha, ruiva desta vez, como a mãe, nasceu na noite de estréia da nova peça de Sam. Solange teve de sair correndo para o hospital com Arthur ao começar a peça. Ela lamentava perder a noite de estréia de Sam, porém mal teve tempo de chegar ao hospital, apertando a mão de Arthur enquanto ele pedia ao motorista para correr mais. Alexandra nasceu dez minutos depois que eles chegaram, numa padiola do lado de fora da sala de parto. O bebé soltou um grito vigoroso e Solange se recostou com um débil gemido, exausta pelo esforço. Arthur veio vê-la tão logo foi colocada num quarto, e implicou com ela sobre voltarem a tempo para o final da peça, junto com o bebé. Solange adorou a ideia e desejou realmente poder fazer aquilo. Mas, em vez disso, pediu que ele trouxesse Sam, e Arthur partiu prometendo revê-la no dia seguinte. Sam só apareceu no hospital pela manhã. Explicou que ficara retido em intermináveis festas do elenco, fingindo não notar a mágoa nos olhos dela. Solange o esperara acordada a noite toda, e Sam nem sequer telefonara. Trouxe-lhe uma pulseira de esmeraldas espetacular, mas mesmo assim ela perguntava em silêncio onde ele estivera, tão desesperadamente magoada porque não tinha vindo vê-la. Sam desculpara sua falta de atenção ultimamente alegando que a peça exigia muito dele, e ela sabia que aquele papel era o mais difícil de todos. Mas, mesmo assim... para ela, o bebé era mais importante. Contudo, ele só falava na sua co-estrela. Parecia obcecado por ela. E foi Arthur quem levou Solange e Alexandra do hospital para casa, enquanto Sam ensaiava. Parecia sair constantemente, e ela nada dizia quando ele chegava tarde em casa. Mas sempre reparava. Reparava especialmente no cheiro forte do perfume de outra mulher. Sabia que o casamento deles estava diferente. Sentia um vácuo na sua própria vida como consequência, um vazio que era uma dor constante, e apenas Arthur parecia entendê-lo. Era a única pessoa com quem podia falar. Ele também tinha seus próprios problemas. Ainda queria filhos, e Marjorie nem queria ouvir falar no assunto. Arthur, por sua vez, considerava Sam um tremendo idiota, mas nunca o expressava. Fazia apenas o máximo possível para levantar o ânimo de Solange durante os seus almoços frequentes. Não era justo magoar uma mulher tão apaixonada pelo marido. E muitas vezes ele se pegava desejando ter ganho de Sam anos atrás, mas agora era muito tarde. Solange estava casada com Sam, e adorava o marido. 

- E você, Arthur, e quanto a você? Está feliz? Não, claro que não. - Ela mesma respondeu por ele, e Arthur não discordou. Como alguém poderia ser feliz com uma mulher como Marjorie? Era um iceberg egoísta e ambicioso. - Você devia forçá-la a ter bebés, se é que os deseja mesmo. 

Estava séria e ele achou graça. Era impossível forçar Marjorie a fazer qualquer coisa que não quisesse. Impossível para ele, de qual- quer forma. Não era esse tipo de pessoa. 

- Não se pode forçar uma mulher a ter um bebé. - Sorriu pesaroso. - Isso só acarretaria uma mãe infeliz e, futuramente, uma criança infeliz. Não como as suas. - Eram uns querubins perfeitos, as meninas Hilary e Alexandra, e ele as adorava. Hilary era morena como Sam, de olhos verdes, e Alexandra tinha cabelos ruivos e grandes olhos azuis. 

Então ele sorriu para Solange e viu a tristeza em seu rosto. Sabia o que Sam estava aprontando, assim como todos em Nova York. Ouvira os boatos e havia notas constantes sobre ele nos jornais.

- Ele é um tremendo idiota. Tem 31 anos e se acha o dono do mundo... e tem uma esposa pela qual a maioria dos homens daria o braço direito. 

- O que eu iria fazer com um braço direito? - Sorriu para ele filosoficamente, parecendo muito gaulesa. - Quero o coração dele não o seu braço... ou todas aquelas jóias caras. Sempre sei quando alguma coisa está errada... ele chega em casa com caixas cheias de diamantes. 

- Eu sei. 

Arthur franziu o cenho. Ainda aconselhava Sam sobre os seus negócios, e já há algum tempo vinha insistindo com ele para economizar dinheiro. Mas Sam ainda estava aproveitando o impacto inicial do seu sucesso. Comprava sem parar: brinquedos para as meninas, peles e jóias para a esposa, roupas para si próprio e presentes caros para as mulheres com quem se envolvia. Arthur sabia de várias e desaprovava todas elas, sempre esperando que Solange nada soubesse sobre elas. Mas pressentia que agora era diferente. Era a primeira vez que tinha a sensação de que Solange era realmente infeliz. 

- Não sei o que fazer, Arthur. Não sei se faço um escândalo se conto a ele que sei o que está se passando, ou se fico sentada calmamente esperando que tudo acabe. Porque logo vai acabar. Sempre acaba, com Sam... e então ele volta para casa, para mim. - Ela deu um sorriso que teria feito Arthur se ajoelhar caso estivesse de pé, e se fosse dirigido a ele; mas não o fora. 

- Você é uma mulher muito sensata, Solange. A maioria das americanas não é. A maioria das mulheres neste país enlouquece se acha que o marido está tendo um caso. Contratam detetives, pedem divórcio, tiram dele tudo o que podem...

Ela era espantosa. 

Mas ela limitou-se a sorrir para ele de novo, aquele sorriso sábio que dizia ter mil anos de idade, embora aparentasse apenas vinte.

- Eu não quero "coisas", Arthur. Quero apenas o meu marido. 

Era óbvio que ela o adorava. E Arthur invejou o amigo, e não pela primeira vez. Sempre imaginara o que teria acontecido se tivesse ido atrás de Solange, se tivesse falado com ela naquele dia na rue d'Arcole. E se... era algo que ele se perguntaria tolamente a vida toda. Mas agora não importava. Sam era o sortudo. Mais sortudo do que se dava conta, o sacana. 

- Acho que ele logo vai sossegar. - Solange soltou um suspiro e terminou seu vinho. - Sempre temos um probleminha com cada co-estrela, até que ele se cansa dela. É duro para ele, envolve-se tanto na peça... o teatro é uma vida dura para ele, exigente demais.

Ela parecia acreditar genuinamente no que dizia, mas Arthur sacudiu a cabeça. 

- Não é tão exigente assim. Ele é mimado. Mimado pelo sucesso, pelas mulheres que conhece... e por você, Solange. Você o trata como a um deus, faça-me o favor! 

- Ele é... para mim. Ele significa tudo para mim. - Fitou Arthur com seus olhos imensos e as suas palavras o correram até o âmago. 

- Então aguente firme. Ele vai voltar para casa. Está só se divertindo, Solange. Enquanto você puder compreender, talvez não seja tão importante. 

Ela concordou. Era um bom conselho. E ela estava sempre preparada para esperar a coisa passar. Preferia morrer a perdê-lo. 

O caso continuou por seis meses, para terminar brutalmente com a tentativa de suicídio da sua co-estrela. Depois disso ela deixou a peça, por questões de "saúde", e a vida de Sam voltou ao normal. Era desumano da parte dele, de certa forma, mas Solange ficou aliviada com isso. Pelo menos a ameaça acabara. A essa altura já estavam em 1954, e ele ficou com a peça mais um ano e, como sempre, retornou para a mulher e as filhas. Foi a peça de maior duração em que trabalhara até então, e ambos ficaram tristes quando saiu de cartaz. Depois disso ele levou Solange e as meninas para a Europa, para um verão em Saint-Tropez. Era algo em que sempre falava. Estivera ali durante a guerra, embora somente por um dia, e sempre desejara voltar. 

Mandaram a Arthur um postal de Saint-Tropez e outro de Cannes, e depois foram fazer uma pequena peregrinação a Paris, e Solange mostrou às filhas onde vivera em criança. Voltar a emocionava. Dez anos se passaram desde que se fora. Havia lembranças dolorosas para ela, mas lembranças felizes também. Hilary tinha apenas seis anos, mas Solange esperava que apreciasse a viagem. Alexandra não passava de um bebé. Tinham trazido uma babá para ajudar com as crianças. Era bem diferente do modo como Solange deixara a França, com o bilhete do vapor na bolsa e dinheiro que mal dava para comer. Partira levando três vestidos, dois pares de sapatos, o chapéu na cabeça e um casaco surrado que pertencera à mãe. E agora cá estava ela com baús cheios de roupas. Tinham chegado viajando de primeira classe no Liberté e se hospedaram no Ritz de Paris. Sam a levou à Givenchy, Chanel e Dior para comprar roupas, e à Cartier, onde insistiu em lhe comprar uma pulseira de brilhantes nova. 

- Mas eu não preciso, Sam! - protestou ela, toda risonha, enquanto ele a colocava à força no seu braço. Estava tão carinhoso como sempre fora, e a mimava como se fosse uma nova amante. Sam adquirira hábitos dispendiosos nos últimos anos, e às vezes aquilo assustava Solange. Como Arthur, ela queria que ele começasse a economizar para as meninas.

- Toda moça precisa de uma pulseira de brilhantes, Solange.

- Mas já tenho três! - Ela retirou o braço com um sorriso e sacudiu a cabeça. - Non, chéri! Je ne veux pas ! Quero que economize o nosso dinheiro.

Ele parecia irritado quando olhou para ela.

- Você está parecendo o Arthur!

- Bem, ele tem razão. Temos que começar a pensar nas crianças.

- Óptimo. - Ele apontou para uma outra pulseira no estojo, indicando à vendedora que a pegasse. - Vamos levar duas delas.

- Ah, non, Sam! Quand même voyons!

Desde que voltaram a Paris ela recomeçara a falar francês, e ficava satisfeita ao ver Hilary conversando com as pessoas com facilidade. Ela falava somente em francês com as duas meninas, e Hilary era completamente bilíngue. Alexandra ainda não falava, mas quando aprendesse, falaria francês também. De certa forma, Solange não renunciara totalmente à sua terra natal. E era gostoso estar de volta. Havia lugares e lembranças que ainda lhe aqueciam o coração, e enquanto caminhavam pela Place Vendome à noite, com as suas luzes e a estátua de Napoleão, ela sentiu o coração alçar voo como nunca sentira desde que deixara Paris.

Jantaram no Maxim's naquela noite, e no La Tour d'Argent na noite seguinte. E no dia da partida de Paris Sam lhe deu as duas pulseiras de brilhantes e um anel novo. Solange tentou desencorajá-lo, mas sabia que era inútil, e quando retornaram de navio para os Estados Unidos ela achou que havia sido uma bela viagem. Fora gostoso voltar, e era gostoso voltar para casa. Nova York agora era o seu lar. Há dez anos que morava ali e a cidade significava muito para ela. Agora tinham um apartamento em Sutton Place, com uma magnífica vista do rio e lindos quartos para as meninas. Era um apartamento de vários níveis, que lhes permitia receber com exuberância. Marilyn Monroe tinha um apartamento nas proximidades. Ela era uma boa amiga de Sam e sempre passava algum tempo com ele quando estava em Nova York, mas Solange sabia que eles nunca tinham tido um caso. E Solange gostava muito de Marilyn, uma moça divertida que vivia lhe dizendo que devia fazer cinema.

- Um astro na família é suficiente! - dizia sempre Solange, com o seu sotaque francês ainda pronunciado.

Ofereceram a Sam um papel numa nova peça naquele outono, mas ele o recusou. Não achava que fosse desafio suficiente para ele. E surpreendeu a todos concordando em fazer um filme. Foram para Hollywood para as filmagens, e Solange achou o lugar completamente espantoso, cheio de gente admirável que não conseguia distinguir entre a fantasia e a vida real. Eles foram morar num bangalô no Beverly Hills Hotel, com outro menor para as crianças e a babá. Durante um ano viveram uma existência totalmente irreal. Solange achou o filme muito bom, mas Sam não se satisfez e ficou aliviado em voltar para Nova York e começar os ensaios para uma nova peça em janeiro de 1956. Envolveu-se totalmente na sua arte, e dentro de dois meses também estava envolvido com a atriz principal. E, desta vez, Solange ficou seriamente aborrecida. Almoçava regularmente com Arthur e, com mais frequência do que lhe agradava, via-se chorando no ombro dele.

O casamento de Arthur não passava de aparência. Marjorie vivia ocupada noutra parte qualquer, e a mãe dele morrera no ano anterior, enquanto estavam na Califórnia. Ele parecia terrivelmente só, tão só quanto Solange se sentia, a despeito das negativas de Sam e seus presentes constantes, mostrando-se sempre gentil para com as filhas quando se sentia culpado.

- Por quê? Por que faz isso comigo? - Ela lhe mostrou a coluna de mexericos do jornal, certo dia no café da manhã.

- Está imaginando coisas de novo, Solange. Você faz isso sempre que começo a trabalhar numa nova peça.

- Ah... - Ela jogou o jornal na pia. - É porque você dorme com a atriz principal todas as vezes em que começa a trabalhar numa peça nova! Também tem que trabalhar na atriz principal? Será que um dos outros actores não poderia fazer isso? O seu substituto, quem sabe. Este não poderia ser um dos deveres dele?

Sam riu e a puxou para junto de si, sentando-a no colo e enterrando o rosto na resplendente cabeleira ruiva que estava mais linda do que nunca.

- Eu te amo, sua maluca.

- Não me chame de maluca. Conheço você bem demais, Sr. Walker. Não pode me enganar. De jeito nenhum!

Apontava-lhe o dedo, mas acabava sempre perdoando. Sam andava bebendo demais, e às vezes ficava hostil e ameaçador ao chegar em casa. Era impossível para ela zangar-se com ele, pois o amava demais. Demais para o seu próprio bem, dizia Arthur, e talvez tivesse razão. Mas aquela era a única coisa que teria modificado em Sam. As suas outras mulheres. O resto ela amava do jeito que era. Na primavera engravidou de novo e o bebé nasceu pouco depois do Natal, quando

Sam estava na Califórnia. Era outra menina, e recebeu o nome de Megan. Mais uma vez foi Arthur quem a conduziu até ao hospital e Solange levou dois dias para localizar Sam na Califórnia. Ouvira novos boatos e sabia o que ele andava fazendo em Hollywood. Agora ela estava farta, dizendo-lhe isto quando ele voltou para Nova York, quando o bebé tinha três semanas de vida. Chegou mesmo a ameaçar divorciar-se dele, o que não era do seu feitio.

- Você me humilha na frente do mundo inteiro... me faz de idiota e espera que eu fique aqui sentada e aceite. Quero o divórcio, Sam.

- Você perdeu o juízo. Está imaginando coisas. Com quem andou conversando de novo? Com Arthur?

Mas ele parecia preocupado.

- Arthur não tem nada a ver com isso. E basta ler os jornais. Está em todas as colunas daqui até Los Angeles, Sam. Todos os anos, todos os meses, todos os filmes, todas as peças, e uma nova corista, uma nova co-estrela, uma nova mulher. Você já fez isso tempo demais. Não fez outra coisa a não ser aproveitar, e está tão impressionado consigo mesmo que acha que se deve isso. Então tudo bem, mas eu também me devo algo. Me devo um marido que me ame e que também esteja disposto a ser fiel.

- E você? - Ele tentou virar as coisas, embora soubesse como ela fora desesperadamente dedicada. - E todos aqueles seus malditos almoços com Arthur?

- Não tenho mais ninguém com quem conversar, Sam. Pelo menos ele não vai telefonar para os jornais e contar o que eu digo. - Ambos sabiam que qualquer outra pessoa o faria. Não estava errada. Afinal, era a mulher de Sam Walker. E ele agora era um astro. - Pelo menos posso chorar no ombro dele.

- Enquanto ele deita na sua sopa. Vocês formam o par mais patético que já vi. E lembre-se do que eu lhe disse, Solange. Não lhe darei o divórcio. E saudações. Portanto, não me peça de novo.

- Não tenho que lhe pedir. - Era a primeira vez que ela o ameaçava abertamente.

- Ah, não? - Havia um leve vestígio de medo na voz dele, cuidadosamente disfarçado, mas ela sabia.

- Basta que eu mande segui-lo. Já poderia ter-me divorciado de você umas cinquenta vezes, a essa altura.

Sam saíra de casa batendo a porta sem dizer mais uma palavra e partira de volta à Califórnia no dia seguinte. Isto atrasara os ensaios da sua peça em um mês, mas eles sempre perdoavam Sam Walker.

Quando voltou, as coisas com Solange continuaram tempestuosas. Ela sabia quem ele havia levado para a Costa Oeste e, finalmente estava farta dele. Certa noite, Sam chegou e a encontrou à sua espera. Quando Solange o confrontou, brigaram tão violentamente que Hillary acordou. O quarto de Alexandra ficava um pouco mais longe, descendo o corredor, e Megan tinha só oito meses. Mas Hilary estava com oito anos. E se lembrava de tudo. Das ambulâncias e da policia... das sirenes... e da mãe sendo levada embora envolta num lençol... ela se lembrava do que eles tinham dito... e do pai chorando enquanto o levavam. Ele nem mesmo a vira parada junto à porta, observando. E depois ela se lembrou da babá chamando o tio Arthur.

Ele viera quase imediatamente, o rosto sombrio. Não podia crer no que ouvia. Devia haver algum engano... tinha que haver... não era possível. Sabia que Sam e Solange estavam tendo problemas há algum tempo, mas Sam a adorava, assim como ela o amava. Era um amor que muitas vezes transcendera a razão, um amor em que ela o perdoava de tudo, um amor que fizera com que ele a seguisse obstinadamente pela rue d'Arcole desde o começo. Era um amor que tocava todos que se aproximavam deles. Um amor que... ele simplesmente não conseguia entender, sentado ali no apartamento enquanto o dia nascia e o porteiro trazia o jornal lá para cima, batendo discretamente na porta da frente. Mas estava tudo ali, enquanto Arthur estendia a mão trémula e pegava o jornal. Estava tudo ali... o fim de um sonho... o fim de uma vida... Sam a matara.

 

A porta da cela de detenção bateu com força nas costas de Arthur enquanto ele esperava para vê-lo. Sam estava preso na 17ª DP na rua 51 Leste e passava do meio-dia quando deixaram Arthur entrar para vê-lo. O haviam interrogado até então, durante horas e horas, embora não fosse necessário. Ele admitira tudo. Soluçara. Fitara-os de olhos vidrados... se lembrara de cada minuto daquelas primeiras horas em Paris. Não compreendia por que o havia feito... sabia que estava bêbado... ela o assustara dizendo que ia abandoná-lo. Mas, mesmo assim... ele não podia entender por que o fizera, Excepto que não queria perdê-la e ela dissera... ela dissera... Com uma expressão de desespero ele ergueu os olhos para Arthur quando o fizeram entrar. E Sam mal parecia vê-lo. 

- Sam... 

A voz de Arthur estava rouca. Passara a manhã toda chorando. Estendeu a mão para tocar o braço de Sam, como que para tirá-lo da beira do abismo. Sam parecia querer morrer também. Ficou parado no centro do aposento depois que o deixaram ali, fitando Arthur. 

- Eu a matei, Arthur... eu a matei. - Parecia quase não enxergá-lo, somente o rosto dela quando a estrangulara... o cabelo ruivo que tanto amava... por quê?... por que o fizera?... por que ela dissera todas aquelas coisas terríveis para ele? Olhou cegamente para o amigo enquanto, lágrimas voltavam a escorrer pelas suas faces. 

- Sente-se, Sam... vamos. - Ajudou-o gentilmente a se sentar numa das duas cadeiras de espaldar reto da sala, uma de frente para a outra, separadas por uma mesa estreita e gasta. - Temos que conversar. - Sam mal parecia coerente, mas eles tinham que conversar. 

- Quer conversar sobre o que aconteceu? 

Sam apenas o fitava. Era tudo simples demais. 

- Eu a matei. 

- Sei disso, Sam. Mas o que aconteceu antes? Ela o provocou? - Precisava arranjar um bom advogado de defesa, mas antes de fazê-lo, tinha de saber o que o esperava. Agora Sam não era apenas o seu melhor amigo, era indirectamente um cliente. - Ela bateu em você?

Sam sacudiu a cabeça, o olhar distante e vago.

- Ela falou um bocado de coisas terríveis... estava muito zangada.

Arthur suspeitava do motivo, mas, mesmo assim, perguntou:

- Por que estava zangada?

Sam ficou olhando para o chão, recordando a fúria de Solange. Nunca a vira daquele jeito. Sabia que tinha ido longe demais, desesperado para não perdê-la. Mas a perdera, mesmo assim... a única mulher que amara... Ergueu os olhos para Arthur, em desespero.

- Ela sabia que eu estava tendo um caso de novo... não significava nada... nunca significava...

- Excepto para Solange, Sam. - A voz dele era suave, e tinha que ficar se lembrando de que era Sam quem defendia agora, não Solange.

Sam olhou-o de modo estranho, em resposta, e ficou calado por um longo tempo.

- Ela o ameaçou com o divórcio?

Ele assentiu e então teve que ir em frente. Teve que lhe perguntar. Teve que saber. Num certo sentido, fora por isso que a matara. Excepto que também estava bêbado e perdera o controle. E as coisas que ela dissera eram tão terríveis, e ele temia tanto que ela estivesse falando sério e que a perderia...

- Solange falou que você e ela estavam tendo um caso. É verdade?

Os olhos dele penetravam nos do amigo, e Arthur olhou para ele cheio de tristeza.

- O que você acha?

- Nunca pensei nisso antes. Sabia que você era ligado a ela, costumavam almoçar juntos muitas vezes...

- Mas ela alguma vez procurou esconder isso? - Como todos os bons advogados, ele sabia a resposta antes de fazer a pergunta.

- Não... ela sempre me contou... pelo menos acho que sim...

- Não acha que ela só estava tentando lhe dar o troco dizendo isso, por toda a dor que você lhe causava? De que outra maneira o faria?

Agora, à luz do dia, ele sabia disso. Mas na noite anterior, no calor da paixão, Sam não acreditara nela... ficara maluco... e a matara. Só de pensar nisso o pânico lhe subiu à garganta como uma mão que vinha às entranhas para estrangulá-lo, e ele sabia que merecia. Merecia morrer pelo que fizera a Solange. Recomeçou a chorar e Arthur lhe segurou os ombros.

- O que vai acontecer agora às meninas? - Olhou subitamente para Arthur com nova onda de pânico.

Arthur estivera pensando naquilo a manhã inteira.

- Estou certo de que você tem dinheiro bastante para cuidar delas enquanto tudo está pendente.

E havia a babá e uma empregada no apartamento. Eles viviam extremamente bem no apartamento em Sutton Place.

Sam parecia desolado enquanto fitava o amigo.

- Quanto tudo isto vai me custar?

Custara a vida de Solange, e agora... Arthur precisava combater os seus próprios sentimentos, repetidas vezes. Como Sam pudera fazer aquilo com ela! E, no entanto, Sam era seu amigo; mais do que isso, quase seu irmão. Tinham sobrevivido à guerra lado a lado, e Sam carregara-o pelas montanhas, levando-o até os médicos quando fora ferido perto de Cassino. Tinham libertado Paris e Roma... Paris... e rue d'Arcole, onde a tinham visto pela primeira vez. Estava tudo tão firmemente entrelaçado, e agora não se tratava mais só de Sam e Solange, também havia as filhas deles a considerar. Hilary, Alexandra e Megan. Mas Arthur tentou forçar seus pensamentos de volta para responder à pergunta de Sam. Este queria saber quanto lhe custaria sua defesa.

- Depende de quem vai contratar para defendê-lo. Quero pensar em alguém para recomendar. Mas você deve ter o melhor. Vai ser um julgamento de peso, e haverá muita simpatia por Solange. Você recebeu muita cobertura da imprensa com as suas amiguinhas nos últimos anos, Sam, e isso não vai ajudá-lo.

Mas Sam estava sacudindo a cabeça com determinação.

- Não quero outra pessoa. Quero que você me defenda. - Ergueu os olhos para Arthur e este estremeceu quase visivelmente.

- Não posso fazer isso.

A voz dele era um grasnido na sala cheia de ecos.

- Por que não?

- Por que sou seu amigo. E não sou advogado criminalista.

- Não me importa. Você é o melhor. Não quero outra pessoa. Quero você. - Seus olhos se encheram de lágrimas. Era tudo tão horrível, era inacreditável, mas estava acontecendo, era real. Ele o tornara real. Fizera de um pesadelo uma realidade.

O rosto de Arthur ficou subitamente coberto por uma leve camada de suor. Tudo já era ruim o bastante, mas defendê-lo, ainda por cima! Não podia.

- Não creio que possa fazê-lo, Sam. Não tenho experiência nesse ramo. Seria uma tremenda desvantagem para você. Não pode fazer isso... - A nenhum de nós dois... Ah, Deus, por favor. Ele tinha vontade de chorar. Mas Sam estava inflexível e olhava para ele com olhos súplices.

- Você precisa. Por mim, pelas meninas... por Solange... por favor...

Por Solange? Meu Deus, ele a matara! Mas o pior de tudo é que Arthur sabia que Solange desejaria que ele fizesse qualquer coisa que Sam quisesse. Ele sabia, melhor do que qualquer outra pessoa, quão desesperadamente ela o amara.

- Nós dois vamos ter que pensar no assunto, mas estou convencido de que seria um erro terrível. Você precisa do melhor, Sam, não de um advogado fiscal que você convocou por uma noção de lealdade mal orientada. Eu não posso fazer isso! Simplesmente não posso! - Sam nunca o vira assim tão emotivo, mas mesmo assim queria que Arthur o defendesse. - Mas, o que é mais importante agora: existe alguém que você queira que eu chame para as meninas?

Sam pensou no assunto, e sacudiu a cabeça. Não havia ninguém a quem fossem chegados, excepto Arthur. e os milhares de conhecidos que tinham no teatro. Mas Solange não tinha amigos íntimos. Estivera totalmente envolvida com a vida de Sam, suas filhas e sua carreira. Nunca teve tempo para mais ninguém, nem para algum interesse particular.

- Há algum membro da família para quem eu deva ligar? - Ele sabia que devia estar a par disso, depois dos anos que tinham passado na Europa juntos, mas de repente não conseguiu se lembrar. Sabia que os pais de Sam estavam mortos, mas não conseguia se lembrar se havia mais alguém, algum parente remoto para quem devia telefonar, mas Sam limitou-se a sacudir a cabeça.

- Ninguém que seria importante para as meninas. Há a minha irmã em Boston, mas, pelo amor de Deus, não ligue para ela.

- Por que não?

- Há anos que não a vejo, desde antes do nascimento de Hilary. Ela é uma vagabunda. Esqueça-a.

Mas Arthur não podia se dar ao luxo de esquecer ninguém. Talvez uma tia fosse exactamente o que as meninas iam precisar.

- Como é o nome dela? Por via das dúvidas. Nunca se sabe, numa situação destas.

- Eileen. Eileen Jones. É casada com um ex-fuzileiro naval chamado Jack. E eles moram em Charlestown. Mas você os detestaria, acredite. - Sam se levantou e caminhou pela cela a fim de olhar pela janela de grades.

- Não estou pretendendo convidá-los para passar o fim de semana, pelo amor de Deus. Mas, a essa altura, um parente ou dois poderiam ser úteis.

Sam tinha três filhas, duas delas praticamente bebés, e não havia ninguém para tomar conta delas, excepto uma babá e uma empregada... e Arthur...

E então Sam se virou para Arthur de novo.

- Posso vê-las? - Ficou com os olhos cheios de lágrimas ao pensar nelas... os seus anjinhos... os seus bebés... como pudera fazer isso com elas? Ele lhes tirara a mãe, a mãe que lhes asseguraria uma infância feliz e uma vida perfeita, a mãe que nunca lhes falhara sob aspecto algum, que estava sempre presente, que lhes dava cada beijo, cada abraço, cada banho, que brincava de cada jogo, lia cada história e sussurrava junto com elas quando as punha na cama, à noite, com risadas, cócegas e abraços, e que agora... Só de pensar nisso ele estremeceu. Ficou imaginando se saberia tomar conta delas quando saísse dali. Mas não fazia sentido pensar nisso. Teria que tomar conta delas.

Arthur estava olhando para ele agora.

- Você quer mesmo vê-las aqui?

- Acho que não. - A voz de Sam não passava de um murmúrio. - Só pensei... queria tentar explicar... a Hilary, pelo menos...

- Pode fazer isso mais tarde. Agora, temos que tirá-lo dessa situação.

- Acha que pode?

Era a primeira vez que Sam lhe perguntava isso, e Arthur não gostava da ideia.

- Acho que outra pessoa teria uma chance melhor de fazê-lo do que eu.

- Não me importa. Já lhe disse, Arthur. Quero somente você para me defender.

- Acho que vai ser uma briga difícil... para qualquer um... falando francamente, Sam. - Detestava dizer tais palavras, mas devia-lhe a verdade, afinal de contas. - Você terá que alegar insanidade, crime passional... já admitiu tudo. Está tudo bastante claro, e nestes últimos anos você adquiriu uma tremenda reputação.

Era verdade, ambos sabiam disso, e Arthur sempre desejara dizer-lhe que idiota ele era, mas por um motivo diferente. Ele o detestara por magoar Solange, e tão desnecessariamente. Mas, por outro lado eram amigos e o sucesso de Sam chegara com tanta rapidez e força que Arthur desconfiava que o amigo não soubera lidar com ele. Estava com apenas 35 anos agora, e se tornara um grande astro ainda na casa dos vinte. Era um bocado para digerir e um bocado para acompanhar, e ele pagara um preço por isso. Mas Solange também... mais do que Sam podia imaginar. Havia muita coisa em Solange que ele nem reparava. Andava tão absorto em si mesmo e em sua carreira, que nos últimos anos se tornara egocêntrico e mimado. Até mesmo as filhas pareciam saber disso. A pequena Alexandra dissera para Arthur, recentemente: "Temos que paparicar muito o papai quando ele está em casa, senão, ele fica muito zangado. Nosso papai precisa de muita atenção".

Era verdade, e Solange lhes explicara isso, ensinando como ficar longe dele quando estava cansado, ou como lhe levar guloseimas, como os chocolates que adorava, ou um prato de frutas frescas, e uma bebida gelada, ou como cantar uma cançãozinha que ela lhes ensinara só para ele. A casa inteira fora treinada para girar em torno do papai.

E agora elas tinham perdido tanto Solange quanto Sam. Arthur ficou pensando nisso enquanto voltava para o escritório naquela tarde, após deixar Sam. E, por sua própria conta, resolveu telefonar para os padrinhos a fim de ver se despertava algum interesse. Com Sam na cadeia e Solange morta, elas agora não tinham mais ninguém, excepto Arthur. Mas os padrinhos foram escolhidos pelos seus nomes importantes e belos rostos, a maioria actores famosos, e nenhum deles tinha um interesse real pelas crianças. Estavam muito mais interessados em discutir a notícia com Arthur, por que Sam fizera aquilo, se tinha enlouquecido, se Solange fizera alguma coisa para provocá-lo, o que ia acontecer agora, quando era o julgamento - mas nem uma palavra sobre as crianças, o que o deixava no ponto de partida como a única pessoa de quem podiam depender, na ausência de Sam. Por via das dúvidas, decidiu anotar o nome da tia, mas, nesse meio-tempo, ia seguir as instruções de Sam e não telefonar para ela.

A próxima coisa que fez foi verificar os extratos bancários de Sam para poder cuidar dos negócios. E ficou horrorizado com o que encontrou. O saldo era infinitamente menor do que ele esperava. Sam gastava tudo o que ganhava, principalmente com o seu estilo de vida e as suas namoradas. Na verdade, fizera um empréstimo por conta do seu salário na próxima peça e, tirando uma pequena quantia na sua conta corrente, estava endividado até à raiz dos cabelos. Mal havia para pagar os salários da empregada e da babá pelos próximos meses, até o julgamento terminar. Era uma situação dificílima para as crianças, e Arthur se lembrou das reclamações de Solange alguns anos antes. Ela sempre quisera que Sam pensasse nas meninas, que guardasse algum dinheiro. Mas em vez disso ele lhe comprava pulseiras de brilhantes e casacos de pele, e sabia lá Deus quanto gastava com as suas outras mulheres. Era conhecido como um homem generoso e nunca regateara coisa alguma, depois que começou a ganhar dinheiro. Mas agora isso o deixava com dez mil dólares no banco e dez vezes esta quantia em dívidas. Era espantoso o quão pouco se sabia sobre os amigos, e Arthur desejou ter falado com ele com mais severidade anos atrás. Nunca se dera conta de que Sam era irresponsável até esse ponto, e agora isso representava um desastre para as suas filhas. 

Arthur tentara conversar com Marjorie a respeito, lamentando o destino das crianças e esperando despertar a sua simpatia por elas. Mas ficou desapontado ao descobrir que sua mulher tinha somente palavras ásperas para as meninas, comentando que eram indubitavelmente ciganas, como os pais. Parecia não ter a menor compaixão por elas. 

Nos dias que se seguiram, porém, ele mal viu a esposa. Estava atarefado com Sam e as meninas, a imprensa constantemente a aborrecê-los, sem poupar sequer as crianças, além de assumir as providências para o enterro de Solange. Não havia mais ninguém para fazê-lo. 

O funeral foi marcado para três dias após a prisão de Sam. Ela foi velada durante dois dias, e no terceiro eles realizaram a cerimónia. E Arthur ficou espantado com a quantidade de pessoas presentes, principalmente, em deferência a Sam, mas havia muita gente que conhecera Solange e gostava dela. "Ela era uma linda moça...", ele ouviu inúmeras pessoas dizerem. "Belíssima... ele não sabia a sorte que tinha... ela também devia ter sido actriz... sempre quis que ela posasse para mim... maravilhosa com as filhas... uma garota e tanto... que homem de sorte em ter uma esposa como ela... era francesa até à alma... moça incrível... não compreendo por que ele fez aquilo... ela era louca por ele." 

Os comentários se sucediam, e Arthur se sentava na primeira fila com as meninas e a babá, tentando não chorar quando fecharam a tampa do caixão. Hilary estava sentada muito rígida ao lado dele, e houve uma vez em que se levantou e se dirigiu ao caixão e ficou olhando para Solange, depois a beijou e voltou para o seu lugar com uma expressão fixa de dor, como se entorpecida pela imensidão do seu sofrimento, mas não permitiu que Arthur a tocasse. Na verdade, não deixava ninguém se aproximar dela. Ficava apenas segurando com força a mão de Alexandra, respondendo a todas as suas perguntas sobre por que mamãe estava dormindo na caixa coberta com as rosas brancas. Arthur pagara todas as flores do próprio bolso, não quisera diminuir ainda mais os fundos das meninas, nem mesmo para o enterro da mãe.

Alexandra achava que Solange estava parecendo a Branca de neve depois de comer a maçã, e ficava perguntando a Hilary quando ela ia acordar... e se papai ia chegar e beijá-la.

- Não, ela vai continuar dormindo desse jeito, Axie. - A sua voz era muito suave enquanto o organista tocava a Ave-Maria na igreja.

- Por quê?

- Porque sim. - Fez-lhe sinal para se calar. - Agora fique quieta. - Apertou com mais força a mão da irmã, e o seu rosto ficou mortalmente pálido quando viu o caixão da mãe passar lentamente por ela. Ficou olhando, calada, depois estendeu a mão e retirou duas rosas brancas do pesado manto de flores que cobria o caixão, e entregou uma para Alexandra. A menina começou a chorar e murmurar que queria que a mamãe acordasse e que ela não podia respirar daquele jeito, com a caixa fechada. Era como se soubesse que a mãe estava morta, mas nenhum deles conseguia enfrentar isso. Até a pequena Megan começara a chorar, como se também compreendesse, e a babá teve que levá-la para fora, onde poderia chorar sob o sol de inverno. Parecia incongruente enterrá-la num dia tão bonito, mas talvez não... tudo em Solange sempre fora cheio de luzes, flores e sol, desde o cabelo ruivo chamejante aos olhos verdes brilhantes, até o corpo flexível sempre em movimento.

Arthur levou as crianças de volta ao apartamento na limusine, depois foi ao cemitério ver se tudo estava em ordem. A seguir visitou Sam em Ríkers Island. Trouxe-lhe uma rosa branca do caixão, como a que Hilary dera a Axie.

Arthur parecia muito alto e magro e pálido ao entrar na cela de detenção, de terno escuro e chapéu na mão. Parecia o mensageiro de morte, e de certa forma o era. Sam ergueu os olhos para ele e tremeu.

- Achei que gostaria disto. - Estendeu a rosa branca e, com mão trémula, Sam a pegou.

- Como estão as meninas?

- Muito bem. Hilary está mantendo todas intactas. É como se tivesse assumido o papel de Solange, como mãe delas.

Sam se largou numa cadeira e enterrou a cabeça nas mãos, ainda agarrando a rosa que Arthur lhe trouxera, mas a flor tinha cheiro de morte, de tristeza e de enterros. Não sobrara alegria no seu amor por ela, ou a sua vida. Sentia-se como se tudo tivesse acabado. E, de uma maneira importante, estava. Ele ficava na sua cela dia e noite, pensando apenas em Solange. Até mesmo as filhas pareciam remotas, agora. Ficou imaginando o quanto elas o odiariam no futuro, quando descobrissem que ele havia assassinado a mãe delas. Isso tornaria impossível qualquer tipo de relacionamento com elas. Tudo era impossível agora. E a vida não valia mais a pena ser vivida. Já dissera isto a Arthur, que replicara que agora tinha de pensar nas meninas. Mas o que tinha para dar? Suas dívidas? Sua culpa? Seus maus hábitos? O seu remorso avassalador por ter matado a única mulher que amava... tinha certeza de que elas jamais compreenderiam.

- Tenho pensado nas meninas, Sam. - Arthur pigarreou, rezando para que Sam não ficasse contra ele. - Gostaria de vender todas as jóias de Solange para que elas tenham um fundo de reserva, e você vai precisar de muito dinheiro para os honorários dos advogados, especialmente se eu puder convencê-lo a arranjar outro advogado. No meu caso, a única coisa que precisamos fazer é compensar a firma pelo meu tempo. Não quero ganhar nada com isso, pessoal ou directamente. - A última coisa que ele queria era ganhar dinheiro para defender Sam. Mas ainda não desejava fazê-lo, de jeito algum. Sam havia matado a única mulher que ele amara e admirara, na verdade quase adorara, e não importa o quanto fossem ligados, e quão grande fosse o elo, seria quase impossível para Arthur defendê-lo. Tentara explicar isso a Sam, mas este não queria nem ouvir. - O que acha de vendermos as jóias?

Olhou para Sam, que se voltou para ele com um rosto mortalmente pálido com a barba por fazer.

- Óptimo. Se vai ajudar as meninas, livre-se das jóias. Quer as chaves do cofre individual no banco?

- Já as encontrei. Solange mantinha tudo admiravelmente em ordem.

Sam apenas assentiu, sem conseguir responder. Não era de surpreender que fosse assim. Ela era uma mulher admirável. Mas ambos sabiam disso, e não tinha importância agora. Ela se fora... no caixão que Arthur vira baixar ao solo algumas horas antes. Ele ainda pensava nisso, e Sam podia senti-lo, assim como sentia a aura de tristeza que o cercava.

- Vou cuidar disso ainda essa semana.

Queria o máximo de dinheiro possível à mão, para as meninas para o fundo de defesa de Sam.

O julgamento fora marcado para junho próximo. Ainda faltavam alguns meses, e Arthur queria se certificar de que não haveria problemas para as meninas. E também, iam precisar de dinheiro para as extensas avaliações psiquiátricas de Sam. Arthur ia alegar insanidade temporária, que era a única defesa possível, dadas as circunstâncias e a sua confissão.

Foi um período de tempo interminável. A babá que tinham não era especialmente agradável para elas; Solange nunca escolhia as suas babás com muito cuidado porque estava por perto o tempo todo, de qualquer maneira, e era ela quem cuidava das meninas sempre que possível, portanto o encanto e a habilidade da babá nunca eram muito importantes. O Natal foi um dia pavoroso. Com os dois pais ausentes, as meninas já pareciam umas orfãzinhas.

Arthur levou Alexandra e Hilary para almoçar no Natal, mas foi mais deprimente do que alegre. E Alexandra percebeu. Seus olhinhos se moviam com seriedade de um para o outro, e depois fitaram Hilary com tristeza e confusão.

- Por que está zangada com o tio Arthur?

- Não estou.

Hilary manteve os olhos fitos no prato, depois lançou um breve olhar zangado à irmãzinha.

- Está, sim, Você tirou a mão quando ele quis segurar ela.

- Coma o seu peru, Axie.

Hilary parecia indiferente às canções de Natal tocadas pelos violinos na Palm Court do Plaza. Estava imersa em seus próprios pensamentos, e Arthur lamentou que Marjorie não tivesse vindo com ele. Ao invés disso, estava almoçando no Colonv Club com outra advogada. E ele suplicara que ela viesse, mas ela se recusara, sem rodeios.

- Não estou interessada nessas crianças, e você também não as devia estar convidando para sair. Você não é a família delas, elas simplesmente têm que se adaptar à realidade da sua situação.

- Com oito e cinco anos de idade? É Natal, pelo amor de Deus! O mínimo que podemos fazer é...

- Não quero nem escutar. Se quer bancar o Nobre Salvador, não me arraste junto. - E com essas palavras ela saíra do quarto. Então ele viera sozinho, com Hilary e Alexandra.

Na verdade, a postura inflexível de Marjorie quanto às meninas era apenas uma extensão do seu desagrado pelos Walkers em geral, e mais especificamente da sua desaprovação por seus frequentes almoços com Solange. Não que sentisse ciúmes. Era mais por desaprovar o jeitinho francês de Solange, e o facto de Sam ser um actor, não importa o quanto fosse bem-sucedido.

Sam não teve o menor contacto com as meninas naquele Natal. Não tinha permissão para ligar para elas, e nem o teria feito, de qualquer maneira; estava deprimido demais para pensar em qualquer pessoa, excepto em Solange e por que a matara. Nem suportava pensar nas meninas.

Arthur tentara trazer fotos delas para Sam, mas ele andava totalmente retraído falando apenas em Solange e no passado, e recitando sem parar os seus pecados, erros e transgressões. Era como um velho, cuja vida inteira estava no passado. E Arthur tinha muita dificuldade em interessá-lo no caso. Parecia não se empolgar com a sua defesa, e muitas vezes dizia que merecia ser punido, o que não era encorajador para Arthur.

O resto do inverno passou de modo agoniante. Hilary parecia estar dirigindo a casa mais do que adequadamente, e as meninas mais novas iam bem, embora Hilary tivesse um ar de constante dor e angústia em torno dos olhos que assustava Arthur. Mas ela não queria consolo por parte dele, na verdade, desde a morte da mãe, não chegava perto dele. Ele lhe lembrava que era o seu padrinho e que a amava muito, ela escutava polidamente e não tinha reação. Era uma menina estranha, distante, invulgarmente quieta agora que Solange se fora, e falava no pai como se não mais o conhecesse, como se ele tivesse morrido anos antes da mãe. Era óbvio que ficara profundamente abalada com o que acontecera, e era difícil lembrar que tinha apenas oito anos. Parecia marcada demais pela tragédia, e era doloroso perceber o quanto aquilo a envelhecera.

Arthur tentava jantar com elas o maior número de vezes possível e estava ficando preocupado com o pagamento das empregadas, da escola, da comida e do apartamento. A pequena Megan ficara doente várias vezes, e havia contas de médicos e sapatos novos. A maior parte da quantia arrecadada com as jóias de Solange fora gasta na defesa de Sam, e o que sobrara mal dava para fazer diferença. E seus fundos escassos estavam minguando. Por vezes ele se perguntava se Hilary sabia disso. Ela forçava todos a fazer economia e até aprendera a consertar as próprias roupas, para espanto de Arthur. Megan já começava a encarar Hilary como a sua mãe.

Na primavera Sam já emagrecera treze quilos e todas as avaliações psiquiátricas tinham sido completadas. Os médicos que o examinavam foram unânimes em dizer que ele estava sofrendo de uma profunda depressão. Também estavam dispostos a dizer que ele agira na paixão do momento, ao matar Solange, e que talvez estivesse insano ao fazê-lo, embora todos o achassem são, normal e inteligente. O seu único problema era a depressão perfeitamente compreensível. Arthur quase sentia que não podia alcançá-lo, e Sam nada fazia para ajudar a preparar a própria defesa. Parecia desinteressado em todos os esforços de Arthur, que trabalhava todas as noites na sua defesa durante meses, pesquisando casos semelhantes no passado, procurando detalhes técnicos impróprios e buscando desesperadamente novos ângulos.

O julgamento propriamente dito, porém, foi um pesadelo. O promotor era rápido e certeiro, e descobrira cada vagabunda, piranha e aspirante ao estrelato com quem Sam já dormira. Houve um desfile de mulheres, testemunhando que ele bebia demais, às vezes era violento quando estava bêbado e não tinha moral alguma. E Arthur dificilmente poderia discordar do retrato de Solange pintado pela promotoria. Ele descrevia uma mulher inteligente, espirituosa e encantadora, com uma devoção quase de santa pelo marido, ansiosa por fazer todo possível por ele, por ajudá-lo a promover a sua carreira e manté-lo feliz, enquanto cuidava extraordinariamente bem das suas três filhas. Dizia-se também que cuidava muito bem da casa e que se mantinha distante das trapalhadas em que a maioria das mulheres de astros da Broadway e Hollywood parecia se meter, e dizia-se francamente que, a despeito de ampla pesquisa a respeito, a promotoria fora incapaz de encontrar qualquer pessoa que pudesse dizer que achava que Solange alguma vez traíra o marido. A opinião geral era de que ela fora inteiramente fiel a ele; na verdade, todos os consultados disseram que Solange Walker adorava o marido. A promotoria também ressaltara que ele não tinha motivo absolutamente algum para matá-la. Não havia crime passional, não havia justificativa dada por ela para que ficasse enlouquecido ou temporariamente insano, ele simplesmente a matara, de modo caprichoso e leviano. Chegaram até a pedir uma acusação de assassinato em primeiro grau, sugerindo que fora premeditado, que ele queria se livrar dela para poder correr atrás de todas as suas piranhas. Enquanto Arthur, por sua vez, tentava conseguir uma acusação de homicídio involuntário, indicando que tudo fora um infeliz acidente. No final, porém, depois de menos de um dia de deliberação, e mais de três semanas de julgamento, o júri o condenou por assassinato. Arthur sentiu como se uma parede de pedra tivesse desabado sobre a sua cabeça, e Sam foi levado para fora do tribunal com um olhar vidrado e vago. Era óbvio que estava em estado de choque, e sua depressão piorara consideravelmente durante o julgamento. Fora difícil obter dele um sentimento real, quando estava depondo, ou acreditar que amara verdadeiramente a esposa. Ele estava tão atolado na própria culpa e depressão que não conseguia mais transmitir nada semelhante a uma emoção verdadeira, e Arthur temia que aquilo o prejudicasse terrivelmente com o júri.

Arthur pediu para ver o seu cliente na cela de detenção logo após o veredicto, mas Sam se recusara a vê-lo. Arthur foi embora em total desespero e frustração, achando que falhara terrivelmente. Contudo, tinha avisado a Sam, suplicara-lhe que arranjasse um advogado criminalista. Enquanto voltava para o seu apartamento, Arthur punia a si mesmo por ter permitido que Sam o forçasse a defendê-lo. Tomara dois drinques puros, pensara em ir ver as meninas, depois concluíra que não estava em condições. Marjorie havia deixado um recado dizendo que não voltaria para o jantar. Sentado à sua escrivaninha, na escuridão, ele concluía que era melhor assim. Ela jamais gostara mesmo de Sam, e o que Arthur estava precisando era do toque carinhoso e do amor incondicional de Solange. Era o que todos estavam precisando, e fora isso que Sam roubara deles. Por um longo momento Arthur se viu imaginando se o júri teria razão, e estremeceu ante seus próprios pensamentos. Foi então que o telefone tocou. Era o sargento da cadeia, dizendo que tinha notícias do seu cliente. Talvez Sam estivesse pronto para vê-lo, afinal de contas, pensou Arthur enquanto olhava o seu relógio de pulso ao crepúsculo de verão. Eram 8:15, e ele estava exausto e mais do que um pouco bêbado. Mas iria até lá, por Sam.

- O seu cliente se suicidou na cela há uma hora, Sr. Patterson. Acabamos de encontrá-lo.

Arthur sentiu o coração parar, depois o gosto de bilis na boca. Ia vomitar, ou desmaiar,.ou talvez morrer.

- O quê? - Sua reação mal passava de um sussurro. O sargento repetiu as mesmas palavras enquanto Arthur desabava numa cadeira, estremecendo, o corpo inteiro tremendo.

- Meu Deus, por que não o vigiaram?

Há meses que estava deprimido, deviam ter pensado nisso. Na verdade, um dos psiquiatras os prevenira. Mas ninguém imaginou realmente... e agora estavam ambos mortos. Era insuportável para Arthur... o seu único amigo... e a única mulher que ele amara realmente... e agora tinha que pensar nas meninas. Em nome de Deus, o que ia fazer com relação a elas? Teria que discutir isso seriamente com Marjorie quando ela chegasse em casa. Elas não tinham mais ninguém. Sam e Solange estavam mortos, e as filhas deles agora eram verdadeiramente órfãs.

 

- Você perdeu o juízo, Arthur? - Marjorie fitava-o, incrédula. Olhava-o como se ele tivesse acabado de se despir em público. Ele estava esperando por ela quando chegou em casa. E ela mal tivera uma reação ao saber do suicídio de Sam. O que a deixara atordoada fora a sugestão de Arthur para que acolhessem Hilary, Alexandra e Megan. Era a única solução em que ele podia pensar. Elas não tinham dinheiro e não tinham família, e com um apartamento maior e uma empregada permanente ele e Marjorie dariam conta de tudo facilmente... se ela permitisse que ele o fizesse. - Está maluco? Em nome de Deus, o que iríamos fazer com três crianças pequenas? Nem quisemos ter os nossos próprios filhos, por que iríamos tumultuar as nossas vidas pelos filhos de estranhos?

Ele engoliu em seco, tentando desanuviar a cabeça e desejando ter esperado até de manhã. Já havia bebido demais quando ela chegou em casa, e receava que os seus argumentos não fossem convincentes.

- Sam Walker era o meu melhor amigo. Salvou a minha vida durante a guerra... Aquelas crianças não são estranhas para nós, Marjorie, mesmo que você queira pensar assim.

- Mas você nem tem ideia da responsabilidade de se cuidar de uma criança, que dirá de três!

- Hilary é como a mãe delas. Tornaria tudo fácil para você, Marjorie. De verdade. - Sentia-se como se tivesse dezesseis anos de novo, implorando à mãe por um carro, e perdendo a batalha. - E eu sempre quis ter filhos. Foi você quem decidiu que não poderia ter filhos, para dar atenção à sua carreira...

Tentou olhar para ela com ar de reprovação, mas ela parecia não se importar. Não sentia culpa, apenas uma indignação justificada.

- Não vou pegar três crianças para criar. Não temos espaço, nem tempo, nem estilo de vida. Você é tão atarefado quanto eu. E, além disso, criar três meninas custaria uma fortuna. Não! Pode se esquecer disso, Arthur. Coloque-as numa instituição. - E a tragédia, pensou Arthur enquanto a escutava preparar-se para ir dormir, era que falava sério.

Ele tentou de novo, na manhã seguinte, enquanto tomavam café, mas em vão. Ela estava decidida, e ele não tinha nem forças nem engenhosidade para fazer com que mudasse de ideia.

- Não quero ter os meus próprios filhos, por que iria querer os de outra pessoa? E deles! Meu Deus, Arthur, sempre soube que você era cego, mas nunca pensei que fosse burro. O homem era um assassino, sem falar no resto, você pode imaginar as características que essas crianças vão herdar? E a mãe delas... - Arthur fez uma cara sinistra quando ela recomeçou, mas Marjorie estava envolvida demais na sua fala para reparar. - Sempre me pareceu uma puta francesa. Só Deus sabe o que ela fazia durante a guerra, antes de ter apanhado Sam Walker.

- Agora chega, Marjorie. Você não sabe do que está falando. Eu estava presente quando Sam a conheceu.

- Num bordel? - ela perguntou maldosamente, e ele teve vontade de esbofeteá-la. Mas não adiantaria. Ela vencera. Ele não ia poder acolher as filhas de Sam.

- Não vou discutir bordéis com você, Marjorie, e posso lhe dizer com toda a certeza que Solange Walker nunca esteve num. Só lamento que você não esteja disposta a ser mais compassiva nesta situação, Marjorie. Fico muitíssimo desapontado.

Mas ela pouco estava ligando. Foi trabalhar sem dizer mais uma só palavra para Arthur.

No que lhe dizia respeito, era problema dele. E era. Os pais das meninas tinham sido os seus maiores amigos. Ele era padrinho de Hilary. Aquelas crianças não eram estranhas para ele, não importa o que Marjorie desejasse. Eram de carne e osso, e ele as amava.

E Sam e Solange tinham-nas amado também. Era desesperadamente importante para Arthur que elas não se esquecessem disso, ou achassem que estavam sendo abandonadas. A ideia de entregá-las para adoção lhe parecia bárbara, mas não sabia o que poderia fazer. E as coisas se complicaram ainda mais na semana seguinte, quando a empregada e a babá anunciaram que iam embora. Já tinham permanecido tempo suficiente, em condições terríveis. Queriam uma casa de verdade com pais para as crianças, e um casal em casa, não uma mulher assassinada e um marido que estivera na cadeia. Ambas pareciam ofendidas com o escândalo que acabara sobrando para elas, e tinham pouquíssima compaixão pelas crianças. E para Arthur significava encontrar novas pessoas para cuidar delas, o que parecia ainda mais complicado agora. E então, no fim de semana, ele pegou o nome da irmã de Sam, Eileen Jones. Ficou imaginando se poderia encontrá-la em Boston. Mas pensou que, se a encontrasse, talvez conseguisse induzi-la a cuidar delas por algum tempo. Aí ele poderia entregar o apartamento de Sutton Place, o que seria uma grande economia. Já estavam praticamente sem fundos. Mas se elas ficassem com a tia, Arthur ganharia algum tempo para tomar outras providências, ou convencer Marjorie mudar de ideia. Mais do que qualquer coisa, queria fazer Marjorie entender que o que desejava era certo, e não uma loucura, como ela ficava insistindo. Seria preciso fazer algumas adaptações, é claro, mas elas eram três seres humanos, e valiam a pena as adaptações mesmo que ela não achasse. Mas, e depois? E se não ficassem com elas, quem ficaria? Era isso o que preocupava Arthur.

Mas primeiro era preciso encontrar a tia delas, e ver se ela as receberia, ao menos durante o verão. Ela não podia ser tão ruim quanto Sam dissera. Era a irmã dele, afinal, e a voz de sangue falava alto. Mandou a secretária ligar para o serviço de informações de Boston, e finalmente localizaram um Jack e uma Eileen Jones em Charlestown, um subúrbio onde se situava um estaleiro e que, segundo a secretária, ficava à beira d'água. Parecia perfeito para umas pequenas férias de verão, e Arthur ligara para ela, sem preâmbulos. Pareceu aturdida com o telefonema, e disse que tinha lido sobre o julgamento e o subsequente suicídio do irmão nos jornais. Não parecia especialmente emocionada com a morte dele, e perguntou a Arthur, sem rodeios, se Sam deixara algum dinheiro.

- Não muito, infelizmente, e é por este motivo que estou telefonando. - Resolveu ir directo ao assunto e ver se ela o ajudaria. Não tinha mais a quem apelar, agora. - Como a senhora talvez saiba, Sam e Solange tinham três filhinhas, Hilary, Alexandra e Megan e, no momento, não há literalmente ninguém para acolhê-las. Quero lhe falar sobre a possibilidade de... de ver se estaria interessada em lhes dar um lar, temporária ou permanentemente, o que melhor lhe convier.

Fez-se um silêncio aturdido do outro lado. E então soou a voz aguda, que não tinha nada do refinamento da do irmão.

- Puta merda! Está brincando, moço? Três crianças! Eu nem mesmo tenho filhos. Por que iria querer as três pirralhas de Sam?

- Porque elas precisam da senhora. Se ficasse com elas durante o verão, isso me daria tempo de achar um outro lar adequado para elas. Mas no momento elas não têm para onde ir. - Ele tentava conquistar a simpatia dela, mas outra ideia ocorrera a Eileen Jones.

- O senhor me pagaria para ficar com elas?

Arthur fez uma pausa, mas somente de um segundo.

- Posso lhe dar dinheiro suficiente para atender às necessidades delas enquanto estiverem com a senhora.

- Não era o que eu queria dizer, mas aceito isso também.

- Entendo. - Arthur podia ver por que Sam não gostava dela, mas não havia mais ninguém a quem apelar. - Trezentos dólares serviriam como remuneração, Sra. Jones? Cem por cada criança?

- Por quanto tempo?

Ela parecia desconfiada. Desconfiada e gananciosa.

- Até eu achar uma casa para elas... algumas semanas, um mês, talvez o verão.

- Não mais do que isso. Não estou dirigindo um orfanato aqui, o senhor sabe. E meu marido não vai gostar.

Mas ela sabia que ele ia gostar dos trezentos dólares e estava torcendo para poderem arrancar mais de Arthur.

- Tem espaço para elas, Sra. Jones?

- Tenho um quarto de sobra. Duas delas podem dormir numa cama, e a gente arranja qualquer coisa para a outra.

- Esta seria Megan. Vai precisar de um berço. Tem pouco mais de um ano. - Teve vontade de lhe perguntar se ela sabia como cuidar de um bebé. Teve vontade de perguntar um bocado de coisas, mas faltou-lhe coragem. Não tinha escolha. Teria de confiar que ela faria o melhor possível, em nome de Sam. E as crianças eram tão adoráveis que tinha certeza de que se apaixonaria por elas no minuto em que as visse.

Mas não foi exactamente amor à primeira vista quando Arthur levou as três meninas para Charlestown. Ele explicara para Hilary, na véspera, que iam passar o verão com a sua tia Eileen. Mandou a empregada arrumar todas as coisas delas, e explicou em voz baixa que ela e a babá estariam livres para ir embora depois que as meninas partissem, na manhã seguinte. Sugeriu que Hilary e Alexandra levassem os seus brinquedos favoritos. E não contou a ninguém que ia fechar o apartamento e vender tudo, tão logo as crianças o deixassem. Elas estariam mais bem servidas com qualquer quantia que ele conseguisse com a venda dos móveis, e sem ter os fundos reduzidos pelo pagamento do aluguel de um apartamento em Sutton Place. As dívidas de Sam ainda eram astronómicas e não havia dinheiro entrando de fonte alguma para elas. Ele ficou satisfeito por se livrar do apartamento e das duas empregadas.

Hilary o fitara, desconfiada, quando ele lhes falara da viagem a Boston Muito da sua afeição por ele parecia ter diminuído desde a morte da mãe, mas era difícil dizer se esta era a sua maneira de expressar dor, ou se havia algum outro motivo.

- Por que vai nos mandar embora?

- Porque lá vai ser melhor para vocês do que aqui. A sua tia mora perto do mar, em Boston. Será mais fresco, pelo menos, e vocês não podem passar todo o verão aqui em Nova York, Hilary.

- Mas vamos voltar, não e?

- Claro que sim.

Sentiu uma onda de culpa e terror inundá-lo. E se ela percebesse que estava mentindo?

- Então por que mandou Millie arrumar todas as nossas coisas?

- Porque achei que poderiam precisar delas. Vamos, Hilary, seja razoável. Vai ser bom para vocês todas ficarem conhecendo a irmã do seu pai.

Hilary estava parada, muito quieta, no centro da sala, num vestido de organdi amarelo debruado de pique branco, o cabelo preto lustroso - como o de Sam - perfeitamente penteado em duas tranças, os grandes olhos verdes tão sábios quanto tinham sido os de Solange, as meias soquetes brancas imaculadas, os sapatos de verniz brilhando. E ela o estudava, como se soubesse que lhe estava escondendo alguma coisa. De certa forma, ela o assustava. Era sagaz e serena, e tão ferozmente protectora das irmãs. Recebera com estoicismo a noticia do suicídio do pai. Mal tinha chorado e consolara Alexandra, explicando que papai fora para o céu para ficar com mamãe. Tudo parecia terrivelmente difícil para Alexandra entender, tinha apenas cinco anos, afinal, mas Hilary tornava tudo mais fácil para ela, como fazia para todas elas. Era como se Solange estivesse ali para cuidar de todas elas, na sua ausência.

- Por que nunca conhecemos a tia Eileen antes? Meu pai não gostava dela?

Era perceptiva, exactamente como Solange o fora, e não engolia qualquer coisa. Os olhos dela que o percorriam, cintilando, faziam-no lembrar tanto da sua mãe.

- Acho que não eram muito ligados, Hilary, mas isto não quer dizer que ela não seja simpática.

                     Hilary assentiu. Estava disposta a suspender o seu julgamento. Temporariamente. Mas era fácil ver o que pensava quando chegaram a Charlestown.

Era uma casinha com vigamento de madeira numa rua escura, com persianas despencadas com os ventos fortes de invernos anteriores. A tinta descascava por toda parte, o jardim estava cheio de ervas daninhas, e havia dois degraus da frente quebrados. Era uma acolhida menos do que auspiciosa, enquanto Hilary subia a escada segurando a mão de Alexandra e Arthur carregava o bebé. A babá viera com eles na viagem, mas voltaria para Nova York com Arthur.

Ele tocou a campainha em vão, até se dar conta de que também estava quebrada. E então bateu com força na janela. Podia sentir os olhos de Hilary fitos nele, e a sua pergunta muda, indagando-lhe por que tinham vindo para cá. Não tinha coragem de olhar para ela agora, não suportaria ver os olhos de Hilary fitando-o, cheios de muda reprovação e de fúria contida.

- Sim? - A porta se abriu, afinal, e uma mulher de cabelos louros pegajosos a escancarou, usando um roupão de banho sujo e esgarçado. - O que vocês querem?

Ela fitou a turma nos degraus com irritação evidente, um cigarro pendendo do canto da boca, os olhos apertados para se defenderem da fumaça que subia, e então percebeu quem eram. Sorriu meio sem graça e, por uma fração de segundo, pareceu-se com Sam, mas quase imperceptivelmente. Era preciso estar procurando a semelhança.

- Sra. Jones?

O coração de Arthur lhe caía lentamente aos pés, e não se sentiu melhor ao entrarem na sala de visitas. Havia um sofá quebrado, três cadeiras surradas com o estofo aparecendo, uma mesinha de centro que já conhecera dias melhores e um pequeno conjunto de jantar de fórmica, com uma televisão a todo volume à distância. Por dentro, a casa parecia ainda pior do que por fora. Aparentemente, Eileen Jones não passava muito tempo cuidando da casa para o marido.

Era sábado à tarde, e o rádio transmitia em altos brados um jogo de beisebol, competindo com a voz de Gabby Hayes na TV. O barulho era ensurdecedor, e as crianças pareciam aturdidas. Todos estavam parados no meio da sala, constrangidos, entreolhando-se.

- Quer uma cerveja? - Ela olhou para Arthur, ignorando as crianças. E era difícil acreditar que esta era a irmã de Sam Walker. Ele sempre fora tão arrumado, impecável, um homem tão bonito, tivera tanta presença, poder e magnetismo. As pessoas se sentiam instantaneamente atraídas por Sam, ele e Solange haviam formado um casal estonteante. Mas esta mulher era uma paródia de tudo que era vulgar, surrado e feio. Parecia ter muito mais do que os seus 39 anos, e a bebida produzira seus estragos bem cedo. Talvez tivesse sido atraente no passado, mas qualquer coisa de agradável na sua aparência já não existia mais. Parecia apenas vulgar, amarga e feia. O seu cabelo tingido era ralo, sujo e malcuidado, cortado logo abaixo das orelhas, e pendendo mole e engordurado. Tinha os olhos azuis brilhantes de Sam, mas os dela eram meio embaçados, com olheiras terríveis de tanto beber. A pele era sem vida, a cintura engrossada pela cerveja, enquanto as pernas pareciam dois palitinhos. Era totalmente estranha à realidade das meninas, e Arthur se deu conta de que Hilary a estava fitando, chocada e horrorizada.

- Esta é Hilary. - Ele tentou encorajá-la a se adiantar para apertar a mão da mulher, mas ela nem se mexeu. - E Alexandra - que farejou a cerveja choca que parecia pairar no ar e fez uma careta, enquanto erguia os olhos para Hilary com reprovação evidente - e Megan.

Apontou para o bebé, que olhou para a loura fanada com seus olhos grandes. Era a única que não parecia preocupada com a sua casa de veraneio ou a sua anfitriã. As outras duas pareciam apavoradas, e Hilary teve que lutar contra as lágrimas quando viu o quarto que lhes tinha sido destinado. Eileen Jones levou-os até ele sem a menor cerimónia, fazendo um gesto na direcção da cama estreita e bamba que ficava num canto, ainda por fazer. O quarto em si era uma cela estreita, sem janelas, no qual mal cabia a cama, com um berço dobrado de encontro a uma das paredes, dando a impressão de ter sido achado numa caçamba de lixo que foi precisamente onde Eileen o encontrara, pouco depois de Arthur lhe telefonar.

- A gente bota os lençóis na cama mais tarde. - Sorriu artificialmente para a sobrinha mais velha. - Quem sabe você pode me ajudar?- E então, sem nenhum interesse especial, lançou um olhar para Arthur. - Ela tem os olhos da mãe.

Arthur ficou intrigado.

- Conhecia Solange?

Solange jamais lhe mencionara esta mulher.

- Eu a vi uma vez. Sam estava trabalhando numa peça aqui por perto ou coisa parecida.

E então Arthur se lembrou de repente. Solange a detestara. Mas Sam também a detestava. Eles tinham vindo visitá-la quando ele estava trabalhando no teatro de repertório em Stockbridge, depois da guerra. Parecia que séculos tinham decorrido, mas tudo aparecia agora. Arthur olhou à sua volta com um bolo na garganta, detestando deixar as meninas ali. E, por um momento, odiou Marjorie por condenar as meninas a tal destino. Como podia fazer uma coisa dessas? Mas ela não sabia, ele lembrou a si mesmo, enquanto abafava a própria culpa e ressentimento. Teve que se forçar a não pensar nisso e a se lembrar de que o arranjo era só para o verão. E depois... aí é que estava o verdadeiro problema. E depois o quê? Marjorie continuava intransigente. E ele já procurara por toda a parte gente que podia ajudar, gente que podia acolhê-las, gente com famílias grandes, ou gente sem filhos mas disposta a tê-los. Falara com todos os sócios da sua firma de advocacia.

Hilary permanecia parada, sem jeito, à porta do que seria o quarto delas, fitando com desalento onde iriam morar. Não havia um armário, nem uma cómoda para as coisas delas, não havia nem mesmo uma cadeira ou um abajur ou uma mesa. Havia uma lâmpada nua pendurada no tecto, que se balançava nas proximidades da porta.

- Trouxe o dinheiro? - Eileen voltou-se para ele. Sentindo-se constrangido em entregar-lhe o dinheiro na frente das meninas, ele meteu a mão no bolso para retirar um envelope.

- Isto inclui uma quantia razoável para as despesas delas.

Sendo bem menos sensível do que Arthur, ela abriu o envelope e contou rapidamente o dinheiro. Ele lhe dera mil dólares, incluindo a remuneração, e se ela não bobeasse e lhes desse apenas macarrão para comer durante os próximos dois meses, faria um bom pé-de-meia. Sorriu feliz para as meninas, tomou um gole de cerveja e saudou Arthur enquanto jogava o cigarro na pia com mira perfeita. Fazia-o com frequência.

- Está óptimo, Sr. Patterson. Se tivermos algum problema, ligo para o senhor.

- Pensei em dar um pulo até aqui dentro de algumas semanas se a senhora e seu marido não se importarem, para ver como elas estão passando. - Hilary fitou-o incrédula. Ele ia realmente deixá-las neste lugar, com a sujeira, as garrafas de cerveja e a cama por fazer... e aquela mulher horrível! E se fora retraída antes, agora estava gélida, quando ele as deixou. - Vou ligar daqui a uns dias, Hilary, e não tenha medo de me ligar, se precisar.

Ela só conseguiu assentir. Não podia acreditar que ele estivesse fazendo isso com elas, depois de tudo que já fizera. Por um momento teve vontade de matá-lo. Em vez disso, porém, virou-se para fitar Alexandra, que estava chorando baixinho.

- Não seja boba, Axie. Vai ser divertido. Lembre-se de que o tio Arthur falou que poderíamos ir até o oceano.

- É mesmo! - Eileen riu asperamente enquanto ouviam o carro se afastar. - Onde vai fazer isso? No estaleiro? - Riu de novo. Mil pratas era um preço danado de bom para alguns meses de inconveniência, e com sorte elas não seriam muito ruins. O bebé podia ser um pé no saco, e a de cinco parecia chorona, porém a mais velha aparentava ter tudo sob controle. Com sorte, cuidaria de tudo. Quem sabe até cozinharia e cuidaria da casa? Eileen desabou no sofá em frente à TV com outra cerveja e acendeu um cigarro. Talvez ela e Jack saíssem para jantar fora.

- Com licença. - Hilary estava parada ao lado da televisão, sem jeito, segurando o bebé. - Onde estão os lençóis da nossa cama?

- Na varanda do fundo, acho. Se você puder achar eles.

Não falou mais uma única palavra para elas, enquanto Hilary as organizava, em silêncio. Encontrou lençóis rasgados, mas pelo menos limpos, e colocou-os na cama. Mas não havia travesseiros nem cobertores. E ela colocou um lençol improvisado no berço do bebé, encaixando-o entre a sua cama e a parede, com medo de que fosse cair, se não o fizesse. Como desconfiara, o berço estava quebrado.

Lavou o rosto de Alexandra e levou-as ao banheiro, trocou a fralda de Megan e pegou água para as três, depois ficaram sentadas no seu novo quarto, olhando ao redor.

- Aqui é tão feio - sussurrou Axie, com medo que a senhora com o cigarro e a cerveja a escutasse. - Ela é mesmo irmã do papai?

Hilary fez que sim. Era difícil acreditar, e não muito agradável de considerar, mas era tia delas e não havia outro jeito: tinham de passar o verão com ela. Não havia lugar para botar os brinquedos, e os vestidos que a babá arrumara para elas e tinham que permanecer nas malas. Já eram cinco horas quando Eileen tornou a vê-las. Como imaginara, Hilary tinha tudo sob controle.

- com licença. - Ela estava parada diante dela com o seu cabelo negro lustroso e os grandes olhos verdes, como uma porta-voz em miniatura. - Será que podia-nos dar alguma coisa para as minhas irmãs comerem? As duas estão com fome.

Eileen nem tinha pensado nisso. Não havia nada na casa. Ela abriu a geladeira e lá só havia cerveja, alguns limões apodrecidos e pão velho. Eileen e Jack nunca comiam em casa, se podiam comer fora. Só o que faziam era beber em casa.

- Claro, garota. Qual delas é você?

- Hilary. - Havia algo de muito distante nos olhos dela, como se estes últimos nove meses a tivessem quebrado. Tinha apenas nove anos e já suportara mais dor e sofrimento do que a maioria das pessoas suporta numa vida inteira.

- Pode ir até à loja para mim, e comprar alguma coisa para vocês comerem? Umas duas latas de atum devem ser o bastante.

- Atum? - Hilary parecia nunca ter ouvido a palavra antes. Estava acostumada com refeições quentes preparadas pela empregada em Sutton Place, e pela mãe, anteriormente. Sopas grossas, ensopado, bifes ao ponto, e bolo de chocolate com sorvete de baunilha. - Atum? - repetiu.

- É. Tome algum dinheiro. - Entregou-lhe alguns dólares como se esperasse que ela fosse criar um jantar inteiro com dois dólares. Até mesmo Hilary sabia que era impossível. A babá lhe dava mais do que isso quando ia comprar sorvete. - A loja fica na esquina, você não pode errar. E me compre também outra cerveja, tá?

Estava sempre com medo da cerveja acabar, mesmo quando ainda tinha muito.

Hilary levou as irmãs consigo, só porque tinha medo do que aconteceria se não levasse. E a loja parecia tão desagradável quanto todo o resto à volta delas. A maioria das casas era de tijolo caindo aos pedaços ou de madeira com tinta desbotada e descascada. E tudo no bairro parecia gasto, surrado e quebrado. Hilary comprou duas latas de atum, um vidro de comida de bebé, um pão de forma, um pouco de maionese, manteiga, meia dúzia de ovos, um pacote de leite e uma lata de cerveja para a sua anfitriã. Hilary achava que poderia fazer uma refeição quase decente de tudo aquilo, e poderia usar o resto dos ovos e o pão para fazer o desjejum na manhã seguinte. Mas quando entrou pela porta da frente, lutando para carregar a sacola e Megan e ainda segurar a mão de Axie, Eileen lhe perguntou:

- Onde está minha cerveja?

- Está na sacola.

- Então pegue - gritou ela para Hilary, e Axie começou a choramingar. Detestava gente que gritava com ela, ou com as irmãs. A mãe jamais o fizera, e até mesmo a babá não gritava com elas, muito embora não a estimassem muito porque dizia coisas feias sobre seus pais.

Hilary entregou a cerveja para Eileen o mais depressa que pôde e Eileen olhou para ela com cara feia e fez a segunda pergunta.

- Cadê o troco?

Hilary entregou-lhe três cents e Eileen os jogou de volta, atingindo o bebé perto do olho com uma das moedas.

- O que foi que fez, comprou um filé? Isto aqui não é Park Avenue, você sabe. Que diabo, onde está o resto do dinheiro?

Parecia ter-se esquecido dos 1.000 dólares que Arthur lhe dera para este propósito.

- Tive que comprar o jantar para elas - explicou Hilary. - E não tinha nada para o café de amanhã.

- Quando eu quiser que você compre coisas para o café, eu aviso. Entendeu? E da próxima vez não gaste tanta grana.

Hilary ficou aturdida com o que estava ouvindo, e as suas mãos tremiam enquanto preparava o jantar. Com perícia, colocou a comida diante delas em dez minutos. Um ovo quente, torrada e alimento infantil para Megan, e sanduíches de atum com maionese para si e para Axie, e grandes copos de leite para as três. Estavam famintas e exaustas depois da viagem desde Nova York e do choque emocional de Eileen e Charlestown.

Hilary não ofereceu à tia nada para comer, e Eileen não demonstrou interesse no que estavam fazendo. Hilary levou-as para comer no quarto. O ruído alto e simultâneo do rádio e da televisão tornava impossível conversar, e Eileen amedrontava todas elas, até o bebé. Mas quando Hilary colocava os pratos na pia e começava a lavá-los, o marido de Eileen chegou, e Hilary teve ainda mais medo quando o viu. Ele era um homem imenso, robusto, com braços enormes e ombros possantes, e usava calças de trabalho e uma camiseta sem mangas. A nuvem de bebida que o cercava chegou até ela, na cozinha. Ele começou a gritar com Eileen quase no instante em que cruzou a porta, mas antes que pudesse bater nela, a mulher acenou com o envelope e mostrou-lhe o que ele imaginava ser todo o dinheiro. Quinhentos dólares. Ele abriu um grande sorriso idiota, sem desconfiar que a mulher tinha escondido uma quantia igual numa pilha de meias velhas onde guardava o seu dinheiro.

- Puxa... benzinho! Olhe só para isso. Não é bonito? - Hilary o observava, muito antes de ele enxergá-la. - Para que e isso?

- Elas. - Apontou vagamente para os fundos da casa e Jack enxergou Hilary na cozinha.

- Quem é aquela? - Parecia não estar entendendo nada. Hilary notou que ele tinha um rosto incrivelmente estúpido e olhos que lembravam os de um porco. Ela o odiou à primeira vista. Era ainda pior do que Eileen, e parecia mais malvado.

- Lembra-se das filhas do meu irmão de quem lhe falei?

- Aquele que "apagou" a patroa?

- É. Ele. Pois e, elas chegaram hoje.

- Quanto tempo vamos ter que ficar com elas?

Não parecia nem um pouco satisfeito, enquanto olhava para Hilary como se fosse um pedaço de carne. Não parecia encarar a chegada delas como uma boa notícia, a despeito do dinheiro inesperado.

- Algumas semanas, até que o tal advogado encontre um lugar para elas morarem.

Então era isso. Hilary ouviu a noticia com um arrepio. Arthur nada explicara antes de partirem, e ela se perguntou de repente o que aconteceria ao apartamento delas.

Eileen sorria para o marido, enquanto Hilary os observava. Estava completamente indiferente às crianças no quarto dos fundos, assim como ele. Era como se não existissem.

- Ei, benzinho, vamos sair para dançar hoje!

Ambos estavam bêbados demais aos olhos de Hilary, mas Jack Jones pareceu gostar da ideia. Ele tinha um rosto oleoso e cabelos ralos, e mãos grossas que pareciam rosbifes.

- A gente pode deixar as crianças?

- Claro, por que não? A mais velha faz tudo.

- Tudo? - Ele sorriu maliciosamente para a esposa e se aproximou mais dela. Hilary pressentiu, com um arrepio, que o que ele estava insinuando era impróprio, mas Eileen apenas achou graça e puxou-o mais para perto de si.

- Qual é, seu velho marujo tesudo... ela só tem nove. Vê se te manca... - Eileen ria para Jack, enquanto ele apertava com força a boca contra a dela e enfiava a mão gorda pela abertura do roupão.

- E você, quantos tinha da primeira vez?

- Treze - ela respondeu recatada, mas ambos sabiam que estava mentindo. E então, com uma risada estridente, ela se levantou para ir buscar outra cerveja e viu que Hilary observava.

- Que diabo está fazendo aqui? Espionando a gente, sua pirralha?

- Eu só estava... lavando a louça do jantar... desculpe... eu...

- Vá para o seu quarto! - berrou ela, batendo com força a porta da geladeira. - Malditas crianças!

Sabia que iriam ser um grande aborrecimento, antes que se livrasse delas. Mas, contanto que Jack não se importasse demais, elas valeriam pelo dinheiro.

Os Jones saíram às oito horas da noite. Megan e Alexandra já estavam dormindo no quarto estreito e abafado, mas Hilary permanecia deitada no escuro, pensando na mãe. Ela jamais teria deixado que algo assim lhes acontecesse. Jamais. Teria esbravejado com Eileen, levado as filhas e, de algum jeito, arrumaria um lar para elas. E era exactamente isto que Hilary tinha que fazer. E ela sabia. Tinha que arranjar um jeito, um lugar para ir... e dinheiro suficiente para isso. Não permitiria que nada acontecesse às suas irmãzinhas. Faria qualquer coisa para protegê-las. E, nesse meio-tempo, tinha que mantê-las afastadas de Jack e Eileen, mantê-las entretidas, lá fora no quintal cheio de ervas daninhas, ou no quarto. Prepararia as suas refeições, lhes daria banho, cuidaria de suas roupas. Ficou deitada planejando tudo até que pegou no sono. Só acordou de manhãzinha, quando Megan a despertou às 6:15, com a fralda suja. Era uma criança de bom génio, com os cabelos ruivos da mãe, que caiam em cachos acobreados; e tinha os grandes olhos azuis do pai, assim como Hilary tinha os cabelos escuros do pai e os olhos verdes da mãe. Mas era Alexandra quem se parecia realmente com a mãe, e às vezes Hilary ficava de coração partido ao ver como era tão parecida com Solange, rindo igualzinho a ela.

Ela preparou o desjejum das meninas antes de Jack e Eileen acordarem e as levou para brincar lá fora, após vesti-las com vestidinhos azuis riscadinhos. Ela usava um vestido vermelho com um aventalzinho. A mãe o comprara para ela antes de morrer, e era o seu preferido. E consolava-a vesti-lo agora, e pensar na mãe.

Foi só ao meio-dia que Eileen Jones apareceu na porta, olhando-as com cara feia. Parecia doente e, se fossem mais velhas, saberiam que estava com uma tremenda ressaca.

- Não podem calar a boca, suas fedelhas? Fazem barulho por um bairro inteiro. Cristo!

A porta de tela bateu e ela entrou. Só tornaram a vê-la depois do almoço. Ela ficava dentro de casa o dia todo, vendo televisão e bebendo cerveja. Jack aparentemente bebia em outra parte. A única modificação durante a semana era que Jack saía mais cedo e usava roupas de trabalho. Raramente falava com elas, excepto que de vez em quando fazia uma pilhéria com Hilary, dizendo que ela seria bonita algum dia, e ela nunca sabia o que responder. Eileen nem se dirigia a elas. E pareceu levar séculos até Arthur dar notícias. Ele ligou exactamente uma semana depois e perguntou como estava indo tudo. Hilary falou mecanicamente e disse que estavam bem, mas era óbvio para qualquer um que não estavam. Axie começara a ter pesadelos e Megan acordava durante a noite. O quarto era insuportavelmente quente e a alimentação inadequada. Hilary fazia o possível para compensá-las por tudo aquilo, mas havia um limite para o que podia fazer. Afinal de contas, era uma criança de nove anos e estava lentamente se afogando em águas profundas.

Mas não contou nada disso para Arthur.

- Estamos bem.

- Telefono de novo daqui a alguns dias.

Mas não telefonou. Estava ocupadíssimo no escritório com um caso difícil, e ainda tentava resolver os negócios de Sam e encontrar alguém para ficar com as crianças, mas em Agosto ficou bem evidente que isso não ia acontecer. E ele desistira de tentar convencer a mulher. Ela lhe dissera, de uma vez por todas, que era ela ou as crianças. A sorte estava lançada. Arthur não ia ficar com elas.

 

No final do verão dois dos sócios de Arthur o procuraram, inesperadamente, e ofereceram-se para solucionar seu problema.

O primeiro a fazê-lo foi um dos sócios mais antigos da firma. George Gorham estava quase se aposentando, mas no ano anterior se casara com uma jovem socialite extremamente atraente, de vinte e poucos anos. Margaret Millington fora uma das mais belas debutantes do seu ano, e depois disso impressionara a todos pelo seu belo desempenho em Vassar. Mas, então, abandonara o invólucro costumeiro e, em vez de se casar com um dos jovens que seus pais aprovavam, envolveu-se com George Gorham. Viúvo, ele era quarenta anos mais velho do que ela, e perfeito para ela de todas as maneiras. Só que não podia ter filhos. Fora honesto com ela, e Margaret insistira que não tinha importância. Mas ele temia que algum dia pudesse ter, e não queria perdê-la. E a pequena Alexandra preencheria o único vazio entre eles. Ele chegara a discutir com Margaret a adoção de todas as meninas Walker para manter a família intacta, mas, embora fosse um gesto nobre, parecia um pouco excessivo para eles. Não se sentia jovem o bastante para acolher uma criancinha da idade de Megan, e uma criança da idade de Hilary, ao ser adotada, poderia apresentar problemas. Mas uma menina de cinco anos parecia o ideal para eles, e Margaret estava eufórica.

No mesmo dia em que George procurara Arthur com a ideia de adotar Alexandra, David Abrams viera conversar com ele em particular. David tinha apenas 34 anos, e ele e a mulher, Rebecca, eram advogados, só que Rebecca trabalhava para outra firma com tendências mais liberais. Estavam casados desde o seu último ano de colégio e tentavam ter um bebé desde o seu último ano na faculdade, sem êxito. Por fim disseram-lhe que o caso era sem esperanças. Rebecca não podia ter filhos. Fora um golpe tremendo para ambos, especialmente porque esperavam ter vários filhos, mas agora achavam que já se dariam por satisfeitos com um, que era, na verdade, o que podiam sustentar no momento. Como os Gorhams, tinham pensado brevemente em adoptar todas as três, mas não se sentIram capazes de assumir um compromisso tão grande. O que eles queriam era adoptar Megan, o bebé.

O que deixava Hilary sobrando. E Arthur com uma enorme decisão a tomar. Deveria separar a família? Tinha o direito de fazer isso? Mas, afinal, Sam tinha assassinado Solange e, ao fazê-lo, destruíra a vida de todos eles. Quem sabe Arthur poderia salvar cada uma em separado? Os Gorhams eram gente maravilhosa, e os dois imensamente ricos. Não havia dúvidas na cabeça de Arthur de que Alexandra teria tudo que precisasse. E pelo que George dizia, era óbvio que a amariam profundamente. Ainda mais: estariam por perto, e Arthur poderia ficar de olho nas coisas - não que isso fosse necessário com George e Margaret Gorham.

E embora Rebecca e David Abrams não tivessem a mesma situação financeira de George, eram dois jovens esforçados e trabalhadores, com carreiras promissoras pela frente, com famílias de Nova York, portanto era improvável que se afastassem muito dali, e mais uma vez, Arthur poderia bancar o anjo da guarda de Megan.

Mas era Hilary quem mais o preocupava. O que aconteceria com ela agora? Era uma pena que nem os Gorhams nem os Abrams estivessem dispostos a aceitar uma segunda criança, mas quando ele perguntou novamente, ambos foram enfáticos na negativa. Ele tocou no assunto com Marjorie mais uma vez, e a resposta dela foi um "não" inflexível. E sentia que o relacionamento deles corria um grande risco caso insistisse. Ele lhe prometera, semanas antes, não mencionar mais aquele tópico. Mas isso deixava Hilary sem ter para onde ir, excepto ficar onde estava, com os Jones em Boston, se eles quisessem ficar com ela. Depois de tudo liquidado, sobraria no espólio de Sam uns dez mil dólares, e Arthur pensou na possibilidade de oferecê-los aos Jones para a manutenção de Hilary, enquanto o dinheiro durasse. Era melhor do que nada, porém não muito, e ele não estava feliz com a solução enquanto tomava as providências finais para as outras. Os papéis de adoção ficaram prontos, com os dois casais loucamente excitados. Rebecca pretendia tirar um mês inteiro de férias e Margaret e George planejavam uma viagem à Europa no outono com a nova filha. George já vasculhara as lojas, e o novo quarto de Alexandra parecia uma casa de brinquedos, além de Rebecca ter comprado suéteres, macacões e roupa de baixo que dariam para quíntuplos. Elas eram duas garotinhas de muita sorte, esperadas com emoção e entusiasmo. Mas era Hilary quem continuava a preocupar Arthur.

Em meados de agosto, ele teve uma rápida conversa com Eileen Jones e lhe explicou a situação. E ela respondeu, francamente, que por dez mil dólares ficaria com a garota para sempre, mas não via motivos para adotá-la. Hilary podia simplesmente morar com eles. E cozinhar e lavar, embora não desse esses detalhes para Arthur. Era como ter uma empregada permanente. A garota já estava fazendo tudo, e Hilary tinha tanto medo de Eileen que fazia tudo o que mandava. Uma vez ela esbofeteara Alexandra com força, por uma pequena infração que nunca explicou, e batera em Megan mais de uma vez, quando ela mexia na televisão ou no rádio ou saía do quarto delas, o que era difícil não fazer. Era um quarto minúsculo para as três, especialmente para um bebé que ainda não tinha dois anos, e não compreendia porque devia ficar preso naquele cómodo.

Eileen concordou em ficar com Hilary, contanto que recebesse os dez mil dólares em espécie. Ela estava se tornando um empreendimento muito lucrativo para Eileen. E, desta feita, ela falaria a Jack de dois mil e guardaria oito para si, contando-lhe uma história fantasiosa de que estaria fazendo aquilo em memória do irmão.

- Pensei que você não gostava dele.

- Ele ainda era meu irmão... e ela ainda é a filha dele. Além disso, é uma criança legal, trabalhadeira.

- As crianças são um pé no saco. - Jake sabia disso por experiência própria. A sua última mulher tinha três, que quase o deixaram maluco. - Mas se quiser cuidar dela, é problema seu, não meu. Desde que ela não me encha o saco.

- Se encher, meta-lhe a mão.

- É - Isto pareceu amolecê-lo, e Jack concordou em deixar que Eileen ficasse com ela. E naquela noite ela se trancou no banheiro, verificou se o seu dinheiro estava todo ali e concluiu que, com os oito mil que guardaria do que ia receber por Hilary, teria perto de dez mil dólares escondidos entre as ligas e as meias. Aquilo a fazia sentir-se bem, para o caso de algum dia resolver abandonar o marido. E talvez levasse a garota junto, talvez não. Tudo ia depender se ela seria de alguma utilidade ou não, do contrário Jack que se preocupasse em alimentá-la, ou então o advogado que a pegasse de volta. Ela não devia nada à garota. Mas a garota lhe devia. Afinal de contas, concordara em ficar com ela, não é mesmo? Ela lhe devia muito, do ponto de vista de Eileen. E Eileen nada lhe devia.

Arthur apareceu com ar sombrio, trazendo uma babá que contratara para aquele dia, e ficou abismado ao constatar a magreza de Hilary e a palidez das outras, após o tempo passado ali. Pareciam crianças abandonadas e ele pediu a Deus que estivessem com saúde. Pediu a Hilary que fosse lá para fora com ele, para conversarem um pouco. Queria saber como estavam realmente, mas ela nada lhe disse. Era como se tivesse colocado uma distância ainda maior entre eles, e Arthur nem suspeitava o quanto ela o odiava por deixá-las naquele inferno. Passara dois meses tentando arranjar sustento para as irmãs, mal conseguindo alimentá-las, o que dirá a ela mesma, com a quantia mínima que Eileen lhe dava. Ela lavara, esfregara, cozinhara e tomara conta das meninas, sempre as protegendo das ameaças de surra dos tios. E, à noite, cantava para elas dormirem e as abraçava quando choravam pedindo a mãe. E Arthur não sabia de nada disso enquanto observava o rosto de Hilary e se perguntava por que estava tão distante.

E agora tinha que lhe dar a notícia para a qual ninguém a preparara. As irmãs iam embora, mas ela não. Nunca mais ficariam juntas excepto em visitas, se os novos pais o permitissem, e Arthur já sabia que os Abrams não permitiriam. Não queriam que Megan soubesse coisa alguma sobre a sua vida passada, os pais, ou até mesmo as irmãs. Ela ia desaparecer numa vida nova. Para sempre.

- Hilary... - ele começou, constrangido, sentado nos degraus dos fundos da casa dos Jones, junto à lavanderia, com as ervas daninhas arranhando as suas pernas e as moscas zumbindo ao redor. - Eu... eu pensei... eu tenho... umas coisas para lhe dizer.

Gostaria de poder lhe dizer qualquer outra coisa, excepto o que era preciso. Sabia como era apegada às irmãs, mas não era culpa dele que as coisas tivessem dado nisso, ele ficava repetindo consigo mesmo. Fizera o máximo possível... se Marjorie tivesse tido a boa vontade de acolhê-las...

- Algum problema, tio Arthur?

Quem sabe ele ia lhe contar agora que não iam mais voltar para o apartamento, mas Eileen já lhes contara que ele não existia mais, e Hilary tinha se conformado. Contanto que estivessem juntas, era só o que importava, mesmo aqui. Virou para ele os grandes olhos verdes e ele sentiu como se Solange tivesse aparecido e tocado nele, mas agora isso só o fazia sentir-se pior.

- Eu... as suas irmãs vão embora por algum tempo. - Não havia outro modo de lhe dizer, excepto directamente.

- Megan e Axie? - Ela pareceu espantada e confusa enquanto voltava para ele novamente o olhar de esmeraldas: familiar. - Por quê? Por que vão a alguma parte?

- Porque sim. - Ah, Deus, por favor, não me deixe fazer isso com ela. Ele sentia um soluço de angústia preso no peito. Mas tinha que lhe dizer. - Porque, Hilary, não há mais jeito de manter vocês juntas. A sua tia acha que não pode e mais ninguém achou que podia. Megan e Alexandra vão para duas famílias muito simpáticas em Nova York, vão morar com elas. E você vai ficar aqui com a sua tia em Boston. - Teria sido mais fácil enfiar uma faca no coração dela, e quando ele viu as lágrimas caírem dos seus olhos, invejou Sam pela saída fácil que escolhera, e odiou-o por ela. - Hilary, por favor... querida, eu tentei, tentei de verdade...

Estendeu a mão para ela, mas a menina lhe escapou, correndo por entre as ervas daninhas para a frente da casa, como se elas já pudessem ter ido embora, e gritando para ele.

- Não! Não! Eu não vou deixar!

Ela entrou correndo e, sem oferecer explicação, entrou logo no feio quarto e puxou as duas meninas para junto de si. Tinha deixado as duas brincando na cama, com Axie tomando conta de Megan. Apertou-as de encontro ao corpo com as lágrimas escorrendo pelas faces, sentindo-se desesperada e impotente, e sabendo que não havia como lutar contra ele. Ela não tinha para onde ir, não tinha dinheiro, ninguém para ajudá-la, e tinha apenas nove anos de idade. Mas não podiam fazer isso com ela... não podiam... as irmãs eram tudo o que tinha... a mãe e o pai a haviam atraiçoado... e o tio Arthur... e a tia e o tio a odiavam e ela os odiava... só tinha no mundo Megan e Axie.

- O que foi, Hillie? - Alexandra a fitava com os seus grandes olhos azuis, e Megan chorou quando Hilary a apertou com muita força. Então, ela a soltou e se agarrou com Axie.

- Eu amo vocês... só isso... eu amo vocês... de todo o coração. Vai sempre se lembrar disso, Axie?

- Vou. - A pequena voz soou séria, como se soubesse que alguma coisa importante estava acontecendo. Elas haviam passado por muita coisa juntas, as três, e tinham um elo invulgar em comum, como se pressentissem os estados de espírito de cada uma, e o possível perigo. - Vai acontecer uma coisa ruim de novo, Hillie? Como a mamãe e o papai? Você também vai embora numa caixa?

Ela começou a chorar e Hilary apressou-se a sacudir a cabeça.

- Não, não. Não tenha medo, Axie. Tio Arthur quer levar você e Megan numa viagem de volta a Nova York, para visitar uns amigos dele. - Sabia que precisava tornar as coisas fáceis para elas, não importa quanta dor lhe causasse. Mas podia tolerar qualquer coisa por elas. Mas, para Megan, seria mais fácil. Ela ia chorar quando a afastassem das irmãs, mas nunca se lembraria... nunca... e Hilary nunca as esqueceria. Iria carregá-las na lembrança pelo resto da vida, e algum dia as encontraria. Prometeu isso para si mesma enquanto abraçava Alexandra e, dali a um momento, Arthur e a babá que contratara apareceram na soleira da porta.

- Está quase na hora de irmos, Hilary.

Ela assentiu, cega pelas lágrimas, e de repente Alexandra começou a chorar.

- Não quero deixar a Hillie.

Agarrou-se à mão dela e, enxugando as próprias lágrimas, Hilary a beijou suavemente.

- Você tem que ir para ajudar a tomar conta de Megan, se não ela vai ficar com medo. Está bem? Toma conta dela para mim?

Alexandra anuiu, no meio das lágrimas. Não importa o que lhe dissessem, sabia que algo terrível ia acontecer, e enquanto Hilary arrumava suas coisas, ela teve a certeza. Eileen nem estava por perto. Ficara tão empolgada com as verdinhas que Arthur lhe dera que se trancou no banheiro e as ficou contando. Ia esconder a maior parte delas de Jack, mas queria olhar para todas juntas primeiro.

Assim, Hilary ficou sozinha quando ajudou a pôr Alexandra e Megan no carro. As meninas se sentaram no banco traseiro com a babá, Megan estendendo os bracinhos para Hilary, em prantos, e Alexandra soluçando. Arthur se sentou ao volante com um último olhar para Hilary.

- Logo voltarei para vê-la.

Ela ficou calada. Ele a atraiçoara. E o choro vindo do banco de trás quase a derrubou, enquanto lutava para se controlar e se afastava, acenando para elas, gritando para o carro até quando elas a pudessem ouvir:

- Amo você, Axie... amo você, Megan... amo vocês... - Sua voz se transformou num soluço enquanto ficava ali parada no meio da rua, acenando para o carro, até que ele dobrou uma esquina e desapareceu, levando toda a sua vida. E quando o carro sumiu ela caiu de joelhos, soluçando o nome delas, desejando que alguém a matasse. Não teve consciência de mais nada até que sentiu alguém sacudi-la e dar-lhe uma bofetada. Ergueu os olhos, cega pelas lágrimas, e viu Eileen parada ao seu lado, segurando a bolsa gasta sob o braço com ar vitorioso.

Ela falou com aspereza com a criança, como sempre o fazia.

- Que porra está fazendo? - E então percebeu que elas deviam ter ido embora. - Chorar não vai adiantar nada. Entre e vá se arrumar, sua idiota. Os vizinhos vão pensar que estamos te maltratando.

Puxou-a até colocá-la de pé e empurrou-a para dentro de casa enquanto Hilary soluçava incontrolavelmente, e outro tapa na cara não a ajudou em nada. Foi cambaleando até o quarto e se jogou sobre a cama, que ainda tinha o cheiro das duas meninas que acabavam de deixá-la. Ainda podia sentir o cheiro do talco que usara há momentos em Megan quando mudara a sua fralda, e o xampu dos cachos ruivos de Axie. A agonia era insuportável.

Ela ficou ali deitada durante horas soluçando, até que finalmente pegou no sono, exausta, esgotada, castigada pelas realidades da sua existência. E caiu num sono profundo e inquieto onde estava correndo... correndo... correndo atrás de um carro... tentando encontrá-las... procurando em toda a parte... e só o que podia escutar à distância era a risada de bêbada de Eileen.

 

Naquele ano, depois de arrancar carne da carne, Arthur ligou para Hilary diversas vezes, mas ela se recusava a atender ao telefone e falar com ele, e a sua própria culpa acabou fazendo com que ele telefonasse cada vez menos. Ele sabia que as outras meninas estavam bem. Os Gorhams estavam eufóricos com Alexandra, ela era uma garotinha encantadora, e os Abrams estavam apaixonados pelo "seu" bebé. Mas ele nada sabia de Hilary, não tinha noção de como ela estava. 

Ele foi a Boston vê-la uma vez, pouco antes do Dia de Ação de Graças. Mas Hilary ficou sentada na sala como se entorpecida. Não tinha nada para dizer a ele, e Arthur foi embora com um sentimento de culpa e de desespero. Sentia-se como se tivesse destruído a criança, no entanto, que outra opção tinha? E Eileen era tia dela, afinal de contas. Ele falou mil coisas para acalmar a sua consciência enquanto guiava de volta para casa. No Natal tornou a ligar, mas desta vez ninguém atendeu, e depois disso ele ficou ocupado com a sua própria vida. George Gorham morrera de repente e, inesperadamente, David Abrams resolvera se mudar para a Califórnia, o que significava que uma parcela bem maior de trabalho coube a Arthur. Claro que havia vários outros sócios na firma, mas Arthur era dos mais antigos e muitas decisões lhe cabiam, especialmente com relação ao espólio de George, com o qual se envolveu muito. Ele viu Margaret no enterro, é claro, mas resolvera não levar Alexandra. 

Já era primavera quando Arthur reviu Hilary. Achou-a ainda mais retraída, com uma expressão desolada de desespero. A casa estava impecável, o que pelo menos causou-lhe um certo alívio; isso queria dizer que Eileen estava se esforçando um pouco mais. Ele não tinha ideia de que ela estava usando Hilary como empregada em horário integral. Aos dez anos de idade, fazia todo o serviço, inclusive tirar as ervas daninhas do quintal, lavar e passar as roupas, arrumar, cozinhar e cuidar da própria roupa. Era notável que pudesse tirar notas decentes na escola, mas ela sempre dava um jeito, apesar de tudo. Não tinha amigos, nem vontade de fazer amizade. O que tinha em comum com as outras crianças da escola? Elas viviam em lares normais, tinham mães, pais e irmãs. Hilary tinha uma tia e um tio que a detestavam e bebiam demais, e mil obrigações a cumprir antes de terminar o dever de casa e ir dormir, lá pela meia-noite. E, ultimamente, Eileen não estava se sentindo bem. Falava na sua saúde o tempo todo, estava emagrecendo, mesmo com toda a cerveja que bebia, e já consultara diversos médicos. Hilary ouvira Jack falar alguma coisa sobre a Flórida. Ele tinha amigos que trabalhavam num estaleiro ali e eles achavam que podiam lhe arranjar um emprego civil. Ele achava que o clima quente talvez fizesse bem a Eileen, e eles podiam se mudar antes do próximo inverno.

Mas Hilary não mencionou nada disso a Arthur. Aquilo não lhe importava. E ela não ligava mais para ele, ou para coisa alguma. Só se preocupava em reencontrar Axie e Megan, e sabia que algum dia isso aconteceria. Só o que tinha a fazer era esperar até completar dezoito anos. Sonhava com isso à noite e ainda podia sentir os macios cachos ruivos de Axie na face, na cama ao seu lado, e o hálito suave de bebé de Megan quando a punha no colo... e algum dia... algum dia... ela as encontraria.

Mudaram-se para Jacksonville, Florida, no mês de outubro, e nessa altura Eileen estava muito doente. Mal podia comer ou caminhar e pelo Natal já estava presa ao leito, e Hilary soube, instintivamente que ela estava morrendo. Jack parecia não se interessar por ela e saía constantemente para beber e farrear, e às vezes ela o via pelas vizinhanças, saindo da casa de alguém e beijando outra mulher. E cabia a ela cuidar de Eileen, fazer tudo o que devia ser feito por uma moribunda. Ela não queria ir para um hospital, e Jack falou que não tinham dinheiro, mesmo. E então Hilary fazia tudo, desde a hora em que chegava da escola até a manhã seguinte. Às vezes nem mesmo dormia. Ficava deitada no chão ao lado da cama de Eileen e cuidava dela quando precisava. Jack já não dormia mais no quarto, de qualquer maneira. Ele agora dormia numa varanda fechada nos fundos da casa, e ia e vinha sempre que lhe dava na telha, sem sequer ver a mulher durante dias seguidos, às vezes. E Eileen chorava e perguntava onde ele estava à noite. Hilary mentia para ela e dizia que estava dormindo.

Mas nem mesmo na doença Eileen demonstrou alguma bondade, alguma gratidão pelas tarefas difíceis que Hilary realizava. Esperava isso dela e, mesmo fraca como estava, se achasse que Hilary podia fazer mais, ameaçava bater nela. Era uma ameaça vã agora, mas Hilary ainda a odiava, tal como no primeiro dia em que a vira.

Eileen ainda viveu por mais um ano e meio depois que chegaram à Flórida, morrendo quando Hilary estava com doze anos. Na hora da morte, fitou Hilary como se quisesse lhe dizer alguma coisa, mas a menina tinha a certeza de que não seria nada gentil.

E a vida ficou mais simples de certas maneiras, depois disso, e mais complicada de outras. Ela não precisava mais fazer serviços de enfermagem. Mas tinha que evitar Jack e as mulheres que ele trazia para casa. Ele lhe dissera, sem rodeios, no dia seguinte à morte de Eileen, que estava disposto a deixar que permanecesse sob o seu tecto enquanto não criasse problemas. Também mandara que ela arrumasse as coisas da tia, que guardasse o que quisesse e jogasse fora o resto. Não parecia querer nada que lhe lembrasse a mulher. Ela fizera a tarefa devagar, achando que Eileen poderia voltar e castigá-la por estar mexendo nas suas coisas, mas por fim arrumou tudo. Deu as roupas para um bazar de igreja e jogou fora toda a maquiagem barata. Já ia jogar fora também as roupas íntimas quando percebeu uma sacolinha de pano numa das gavetas e abriu-a só para se certificar de que não era nada importante. Havia mais de dez mil dólares ali, a maioria em notas pequenas, e algumas de cinquenta, como se ela as tivesse reunido ao longo dos anos, ocultando-as de todos, e provavelmente também de Jack.

Hilary ficou fitando a sacola por muito tempo, depois enfiou-a no bolso, e naquela noite escondeu-a no meio das suas próprias coisas. Era daquilo que precisava para fugir algum dia, e encontrar Megan e Alexandra.

Durante o ano seguinte, Jack mal tomou conhecimento dela. Estava ocupado demais correndo atrás de todas as mulheres da vizinhança. A essa altura já havia perdido vários empregos, mas sempre parecia capaz de arrumar outro. Não ligava para o que fazia, contanto que tivesse um tecto em cima da cabeça, uma mulher na cama à noite e meia dúzia de garrafas de cerveja na geladeira. Mas quando Hilary fez treze anos, ele repentinamente se tornou mais exigente. Parecia se queixar o tempo todo e ficava lhe pedindo que fizesse as coisas para ele. Não achava que a casa estava bastante limpa e quando vinha jantar em casa, o que era raro, reclamava que a comida estava horrível. De repente, não havia jeito de agradá-lo, e ele agia como se ligasse para essas coisas. Agora até mesmo criticava o modo dela se vestir, dizendo que suas roupas eram muito folgadas e as saias compridas demais. Estavam em 1962, e as minissaias estavam na moda. Jack lhe disse que ela devia se vestir como as moças que via nas revistas ou na televisão.

- Não quer que os rapazes olhem para você? - perguntou com voz pastosa, certa tarde. Tinha acabado de chegar de um jogo de softball com alguns amigos, a maioria ex-fuzileiros como ele, mas estava com 45 anos e três décadas de bebida tinham feito os seus estragos nele. Tinha excesso de peso e um barrigão de cerveja que se projectava sobre o cós dos jeans. - Não gosta de rapazes, Hilary?

Ele a ficava perseguindo e ela estava farta. Não tinha tempo de reparar nos rapazes. Estava ocupada demais indo à escola e cuidando da casa para ele. Ia para o nono ano no outono, estava um ano adiantada. E agora tinha dez mil dólares escondidos na gaveta. Tinha tudo de que precisava.

- Não especialmente - respondeu ela, por fim. - Não tenho tempo para rapazes.

- Ah, é? E quanto aos homens? Tem tempo para homens, Hillie?

Ela não se deu ao trabalho de lhe responder. Em vez disso, foi para a cozinha preparar o jantar, pensando em como ele se tornara sulista, depois de poucos anos. Falava arrastado, e com um sotaque que o fazia parecer natural da Flórida. Ninguém diria que era de Boston. E, ao pensar nisso, ela se lembrou da época passada em Boston com eles - ainda se lembrava de lá como o lugar em que perdera Megan e Axie. Nunca mais tivera notícias de Arthur Patterson, desde que se haviam mudado para a Flórida. Não que ela estivesse se importando. Odiava-o. E nunca lhe ocorreu que o motivo de não ter telefonado era que Jack e Eileen não tinham deixado endereço, quando se mudaram. Haviam desaparecido sem deixar vestígios e Arthur não tinha como encontrá-los. A essa altura também estava ocupado com seus próprios problemas. Mais ou menos na época em que os Jones se mudaram para a Flórida, Marjorie o abandonara.

- O que vamos ter para jantar? - Jack apareceu na cozinha com uma lata de cerveja na mão e um cigarro. Parecia estar olhando para ela com um maior interesse atualmente, e ela não estava gostando. Sentia-se constrangida, parecia que ele a estava despindo com os olhos.

- Hambúrgueres.

- Que bom. - Mas estava fitando os seios firmes dela enquanto falava. Hilary tinha pernas longas e bem torneadas e uma cinturinha fina, e o cabelo negro e farto que herdara de Sam lhe caia numa camada negra até a cintura. Era uma bela mocinha, e estava ficando difícil esconder isso. Parecia mais velha do que era, e seus olhos continham a dor de uma vida inteira.

Jack deu-lhe uma palmadinha no traseiro, roçou nela sem necessidade, e pela primeira vez ficou ao seu lado enquanto preparava o jantar. Deixou-a tão pouco à vontade que ela não conseguiu comer depois que os hambúrgueres estavam prontos. Ela ficou brincando com a comida no prato e deixou a cozinha o mais rapidamente possível, após lavar a louça. Logo depois, ela o ouviu saindo de casa, e ela já estava dormindo na sua cama no quarto que dava para a cozinha muito antes dele voltar, lá pela meia-noite. Chovia forte, uma chuva tropical, com relâmpagos e trovões, e ele cambaleou casa adentro, extremamente bêbado, mas com a intenção de fazer alguma coisa, mas sem se lembrar o quê. Ainda estava praguejando quando passou pelo quarto dela, e então se lembrou de repente. Soltou uma risada, parando diante da porta por um longo momento, não se deu ao trabalho de bater; em vez disso girou a maçaneta e entrou no quarto, os sapatos molhados soltando água no chão de linóleo e a respiração pesada. Mas ela não o ouviu. A camada de cabelo negro estava espalhada sobre o rosto dela e um dos braços estava jogado sobre a cabeça, enquanto ela dormia sobre as cobertas numa camisola de algodão infantil.

- Liiiindaaa... - Ele ronronou e tossiu, o que quase a despertou. Ela se mexeu e se virou, revelando um quadril gracioso e uma longa perna, dormindo a curta distância dele. E Jack começou lentamente a desabotoar a camisa, até que ela caiu no chão e ficou ali num monte molhado. Abriu as calças e tirou-as juntamente com os sapatos, ficando ao lado dela apenas de cuecas e meias. Dali a um momento, elas jaziam com o resto das suas roupas junto à cama. E somente a vasta quantidade de álcool que ingerira o impedia de obter uma ereção maior. Ele se intumescia lentamente, observando-a, ardendo de desejo e da lascívia que escondera durante anos. Mas agora Hilary tinha idade bastante... porra, podia tê-la por vários anos, a sua trepada bem à mão, antes de ela crescer e sair de casa. E, quem sabe, depois disto talvez ela nunca quisesse sair. Gemeu enquanto se deitava na cama ao lado dela, e o hálito de bebida que exalava junto com o cheiro fétido de suor a despertou.

- Hmmm...

Ela abriu um dos olhos, sem ter muita certeza de onde estava, depois soltou uma exclamação abafada e saltou da cama. Jack foi mais rápido, porém, e agarrou-lhe com força a camisola, que se rasgou nas mãos dele, expondo o corpo alto, nu e trémulo. Jack jazia na cama e a observava.

- Ora, ora... não é bonita, a pequena Hillie? - Ela tentou cobrir sua nudez e queria chorar, ou correr, mas não sabia ao certo o que fazer. Ficou parada ali, apavorada. Sabia que, se tentasse fugir, ele a agarraria. - Venha para a cama, ainda não é hora de levantar. Primeiro o tio Jack tem umas coisas para lhe mostrar.

Ela podia vê-lo, sinistro e excitado, onde ela estivera deitada. Tinha idade suficiente para saber o que ele pretendia, e preferia morrer antes de permiti-lo.

- Não me toque! - Ela correu pela porta aberta até à cozinha. Jack a seguiu na escuridão, tropeçando, escorregando nas peças que deixara no chão momentos antes.

- Venha cá, sua vagabundinha... você sabe o que está querendo, e eu vou dar para você.

Enquanto falava, agarrou-lhe o braço e tentou arrastá-la de volta para o quarto. Mas ela lutava como uma gata, arranhando-lhe o rosto e o braço, tentando chutá-lo enquanto ele a arrastava.

- Me solte! - Ela se libertou e quase alcançou a porta dos fundos antes que ele a alcançasse de novo, mas por um instante ela teve tempo de pegar uma coisa no escorredor. Escondeu-a com cuidado e, parecendo tornar-se dócil, deixou que ele a conduzisse de volta ao quarto. Era uma atitude audaciosa, mas preferia matá-lo a permitir que a estuprasse.

- Que boa menina... agora você quer o velho Tio Jack, não é, Hillie...

Ela não deu resposta e ele não pareceu reparar enquanto a empurrava rudemente de volta à cama e se preparava para montá-la. Mas com um súbito clarão prateado, ele sentiu algo frio, pontudo e feio apontado para a sua barriga.

- Se me tocar, corto fora os seus colhões... estou falando sério... - Tudo no seu tom de voz confirmava isto, e ele acreditou. Recuou e ela o acompanhou com a ponta da faca. - Saia do meu quarto.

- Tudo bem, tudo bem... - ele resmungou, recuando para fora do quarto e quase tropeçando na soleira. - Quer guardar essa coisa, por favor, porra?

- Só depois que sair daqui. - Ela o seguiu com a faca ainda apontada, o que parecia preocupá-lo enormemente.

- Sua putinha... é isso o que ensinam na escola hoje em dia? No meu tempo as meninas eram muito mais dadas. - Ela não respondeu e ele recuou. Então, de repente, deu um tapa na mão dela, derrubando a faca, e esbofeteou-a com tanta força que ela caiu de encontro à parede oposta. Ela não sabia ao certo o que doía mais: se o nariz sangrando profundamente pelo rosto todo, ou a parte de trás da cabeça, que parecia estar esmagada. - Então, sua putinha, como é que se sente?

Ela gemeu e se pôs de pé, ainda decidida a proteger a sua virtude, mas ele não estava mais interessado nela, só queria puni-la por tê-lo humilhado. Sabia que podia abusar dela a qualquer hora. Porra, ela não tinha para onde ir. Era dele, agora. Ele era praticamente o dono dela.

- Como é, vai se comportar para o tio Jack da próxima vez? - Ele a esbofeteou novamente, os olhos brilhando de perversidade, e desta vez ela caiu de encontro a uma cadeira, machucando as costelas, cortando profundamente um dos seios. Hilary pôde sentir o sangue escorrendo ali, também. Os ouvidos zumbiam, o lábio estava partido. Achava que talvez tivesse quebrado o maxilar, e tinha ainda um corte imenso num dos seios. Ela se arrastou para longe de Jack, que já apagara no sofá, ainda despido, totalmente bêbado e satisfeito com seu trabalho. Ela não ia resistir na próxima vez, tinha certeza. Dera-lhe uma boa lição. Tão boa que ela foi se arrastando, nua sob a chuva torrencial, até desmaiar na porta da casa do vizinho. Ficou ali durante horas, inconsciente sob a chuva, sangrando dos diversos ferimentos até que a Sra. Archer a encontrou no dia seguinte, ao abrir a porta para pegar o jornal.

- Ah, meu Deus!... ah, meu Deus! - gritou ela, recuando para dentro de casa e correndo à procura do marido. - Meu Deus... Bert, tem uma mulher morta na nossa porta, e está nua!

Ele correu para a porta e a encontrou ali, metade para dentro e metade para fora da porta, ainda sangrando e inconsciente.

- Meu Deus... é aquela garota do vizinho, aquela que a tia morreu... aquela que a gente nunca vê. Temos de chamar a polícia.

Mas Mollie Archer já estava discando. A polícia chegou quase imediatamente após a ambulância. Levaram-na para o Brewster Hospital e ela acordou dali a meia-hora, com os Archers fitando-a na sala de emergência. A Sra. Archer começou a chorar. Hilary lembrava muito a sua filha. E era óbvio que havia sido espancada, estuprada e depositada na porta deles. Mas um exame posterior mostrou que não fora estuprada, apenas espancada violentamente. Tinha pontos em vários lugares e o corte exigia cuidados, mas o pior foi a concussão que sofrera quando lançada contra a parede, da primeira vez. Ela vomitou quase imediatamente depois de acordar e perdeu a consciência várias vezes, mas os médicos asseguraram à Sra. Archer que ficaria boa. O casal só se retirou várias horas mais tarde. Ela não quis contar quem a havia espancado, mas a polícia não concluíra a investigação.

- Quem você acha que faria uma coisa dessas a ela? - perguntou a Sra. Archer ao marido enquanto voltavam para casa, mas só dias mais tarde é que a verdade veio à tona, e Hilary não lhes disse nada. Foi o próprio Jack quem deixou escapar a verdade na terceira vez em que prestou depoimento. Foi acusado formalmente, mas Hilary pediu que retirassem a acusação.

- Ele vai me matar se fizerem isso. - Ela agora estava apavorada. Ele a mataria, sem dúvida alguma, ou coisa pior.

Mas a polícia mudou tudo.

- Hilary, você não precisa voltar, sabe. Poderia ir para um lar de adoção.

- O que é isso?

Seus olhos estavam arregalados de medo, mas o que podia ser pior do que o inferno em que estava vivendo?

- É um lar temporário, às vezes de longa duração, onde podem morar as crianças que não têm para onde ir.

- Quer dizer... como uma instituição?

O guarda sacudiu a cabeça.

- Não, é gente de verdade que acolhe garotas como você em casa. O que você acha?

- Acho que gostaria.

Para que isso fosse arranjado, ela tinha de ser considerada pelos tribunais da Flórida como menor sem lar. E acabou sendo muito mais fácil do que se pensava, quando explicou que era órfã e que jamais fora adotada pelos tios. Ela voltou a ver Jack só uma vez. Mollie Archer foi com ela e ficou parada, constrangida, na soleira da porta. Hilary queria pegar suas coisas e temia o encontro com Jack. Era a primeira vez que o via desde a noite do espancamento, e ela estava apavorada com o que ele lhe poderia fazer. Mas Jack limitou-se a fitá-la com fúria venenosa e pouco ousou dizer na presença da Archer.

Ela arrumou os seus poucos pertences na única mala que possuía e meteu a sacolinha de pano com muito cuidado atrás do forro. Sabia que tinha de cuidar muito bem dela agora, pois era a única amiga que tinha no mundo: continha o dinheiro que a ajudaria a encontrar as irmãs... os seus dez mil dólares. Se Jack soubesse daquele dinheiro que estava com ela, sem dúvida a teria matado.

Jack bateu a porta atrás dela e trancou-a ruidosamente. Hilary atravessou o quintal até a casa da Sra. Archer, onde ficou esperando que as autoridades do juizado de menores viessem buscá-la. Tinham um Lar de adoção para ela e viriam buscá-la esta manhã. Fora bem simples, e por um momento ela se permitiu pensar que agora tudo seria fácil. Nenhum problema. Depois voltaria a Nova York para procurar Axie e Megan, e algum dia elas estariam morando juntas e cuidaria delas de novo. Poderia fazer isso, graças ao dinheiro que encontrara escondido entre as meias de Eileen. Fora a única coisa boa que a tia fizera por ela na vida, e nem mesmo tivera esta intenção. Mas agora não importava. O dinheiro estava na mala e Hilary pretendia defendê-lo com a própria vida. Para ela, era uma verdadeira fortuna.

A assistente social veio buscá-la, como prometera, pela manhã, e depois de uma breve aparição no tribunal, levou-a até uma família numa casa muito maltratada, num subúrbio pobre de Jacksonville. A mulher abriu a porta com um sorriso simpático e de avental, e havia cinco outros garotos lá dentro, cujas idades variavam de dez a catorze anos, pelo que Hilary pode ver. O lugar lembrou-lhe instantaneamente a casa de Eileen e Jack em Boston. Tinha o mesmo cheiro fétido, a mesma mobília gasta e aparência decrépita. Mas isso não era de surpreender, com meia dúzia de garotos morando lá.

A mulher se chamava Louise, e levou Hilary ao quarto que dividiria com três outras garotas, todas dormindo em camas de lona estreitas que Louise comprara na loja de excedentes do Exército. Havia uma garota negra sentada numa delas. Era alta e magra, com grandes olhos negros, e lançou um olhar curioso a Hilary quando ela entrou no quarto e largou as suas coisas, e a assistente social fez as apresentações.

- Hilary, esta é Maida. Está aqui há nove meses. - A assistente Social sorriu e desapareceu, voltando para Louise e o bando de crianças na cozinha. A casa parecia cheia e movimentada, mas não era acolhedora. Hilary teve a sensação de ter sido largada num canteiro de obras.

- Hilary... que espécie de nome é esse? - Maida olhou-a com hostilidade, agora que a assistente social tinha ido embora, e a examinou da gola do vestido feio aos sapatos baratos que Eileen lhe comprara. Não era uma roupa bonita, nada tinha a ver com os organdis e veludos da sua infância, luxos já esquecidos a essa altura. E, com os seus olhos verdes compenetrados, ela olhou para a garota negra e imaginou como seria a vida ali. - De onde você é, garota? 

- Nova York... Boston... estou aqui há dois anos. 

A garota negra assentiu. Era magérrima, e Hilary podia ver que roia as unhas até o sabugo. Era alta, zangada e nervosa. 

- É? Então por que veio para cá? Sua mãe e seu pai estão na cadeia? 

Os dela estavam. A mãe era prostituta e o pai cafetão e traficante. 

- Meus pais morreram. - A voz de Hilary estava sem vida quando falou, e seus olhos desconfiados enquanto se postava perto da porta. 

- Tem irmãos e irmãs? - Ela não percebia que diferença aquilo faria, e já ia dizer que sim, mas mudou de ideia e simplesmente balançou a cabeça. Maida pareceu satisfeita com a resposta. - Você vai penar com a Louise, queridinha. É uma parada trabalhar para ela. 

Não era uma informação inteiramente agradável, mas Hilary já havia desconfiado, ao cruzar a porta, que não seria tão fácil quanto lhe disseram. 

- O que é que se tem para fazer? 

- Arrumar a casa, cuidar dos filhos dela, do jardim, da horta lá atrás... lavar e passar... tudo o que ela mandar você fazer. É como a escravidão, só que você dorme na casa principal e ela deixa você comer aqui. - Havia um sorriso perverso nos olhos de Maia e Hilary não soube se devia rir ou não. - Mas ainda é melhor do que o centro. 

- O que é isso?

Era uma neófita nesse assunto de lares de adoção, juizados de menores e pais que estavam na cadeia, muito embora o seu pai tivesse morrido numa. Era difícil absorver as modificações que Sam provocara em sua vida numa noite de fúria incontida. Muitas vezes, tarde da noite, Hilary pensava - quando se permitia pensar nisto - que seria melhor se ele a tivesse matado juntamente com a mãe. Teria sido bastante mais simples, em vez desta morte lenta a que ele a condenara, longe de casa e daqueles a quem amava, abandonada entre estranhos. 

 - Por onde tem andado, garota? - Maida parecia aborrecida. - Você sabe, o centro de detenção juvenil... - Pronunciou as palavras pausadamente, enquanto Hilary anuía. - É a cadeia para os menores. Se não te encontram um lar de adoção, você vai para lá, eles te trancam lá e te tratam como merda. Prefiro trabalhar feito um burro de carga para Louise até a minha mãe ser solta de novo. Ela não demora a ser solta e aí eu posso ir pra casa. - Na última vez ela fora presa numa batida antidrogas, junto com o "marido". 

- E você? Quanto tempo acha que vai ficar aqui? Vai para a casa de parentes? 

Ela imaginava que os pais de Hilary tinham acabado de morrer e que este talvez fosse um arranjo temporário. Havia algo de diferente em Hilary, o jeito como falava, o modo como se movia, a maneira silenciosa como examinava tudo, como se ali não fosse realmente o seu lugar. Mas ela sacudiu a cabeça em resposta à pergunta de Maida, bem na hora em que a assistente social entrava. 

- Então fazendo amizade, meninas? - A mulher sorriu, como que totalmente alheia a selva em que trabalhava. Para ela, era uma garotada simpática, e ela estava encontrando óptimos lares para eles e todo mundo estava feliz. 

As duas garotas fitaram-na como se fosse maluca. Maida foi a primeira a falar. 

- É. É o que a gente está fazendo... fazendo amizade. Não é Hilary? 

Hilary assentiu, imaginando o que deveria dizer. Ficou aliviada quando a assistente social a levou de volta para a cozinha. Havia algo em Maida que lhe provocava medo. 

- Maida está se saindo muito bem aqui - confidenciou-lhe a assistente social, enquanto desciam por um corredor lúgubre até à cozinha. 

As crianças já tinham ido para fora, e Louise esperava por elas, mas qualquer sinal de alimento que estivessem comendo havia desaparecido. Hilary sentiu o estômago roncar, perguntando-se se haveria algo para comer, ou se teria que esperar até a hora do jantar. 

- Pronta para o trabalho? - perguntou Louise e Hilary assentiu, tendo recebido a resposta à sua pergunta. A assistente social pareceu desaparecer, e Louise mostrou-lhe uma pá e alguns ancinhos, do lado de fora. Mandou que Hilary cavasse um fosso e prometeu que alguns dos meninos a ajudariam, mas eles não apareceram. Estavam fumando, atrás do celeiro, e Hilary teve de manejar sozinha a pá, gemendo e suando. Ela dera duro nos últimos quatro anos, mas nunca fizera este tipo de trabalho braçal. Limpara a faia de Eileen e Jack, e passara a roupa deles, preparara as refeições e cuidara de Eileen até ela morrer, mas isto era pior do que qualquer coisa que já fizera antes. Havia lágrimas de exaustão nos olhos dela quando Louise finalmente os chamou, mandando que saíssem do calor tórrido e fossem jantar. Encontrou Maida ali, com um ar vitorioso junto ao fogão. A ela coubera a tarefa refinada de preparar o jantar, se é que se podia dar este nome. Não passava de pedaços de carne e sebo boiando num mar de gordura aguada, que Louise alegremente chamava de ensopado, enquanto servia pequenas porções para cada um deles e se sentava para dar graças pela comida. E, apesar das pontadas de fome que sentia e sede da tonteira por estar debaixo do sol quente o dia todo, Hilary não conseguiu se forçar a comer.

- Vamos, coma, precisa conservar as forças. - Louise sorria horrivelmente para ela. Parecia um terrível conto de fadas sobre uma bruxa que ia comer as crianças. Hilary se lembrava de histórias assim da sua infância, mas elas nunca pareceram tão reais, e a bruxa sempre morria e as crianças voltavam a ser príncipes e princesas.

- Desculpe... não estou com muita fome...

Hilary se desculpou debilmente enquanto os garotos riam dela.

- Você está doente? - Louise parecia aborrecida. - Não me disseram que estava doente.

Parecia prestes a mandá-la de volta para um destino desconhecido, e Hilary se lembrou da descrição desagradável que Maida fizera do centro. Cadeia para menores. Era só o que lhe faltava. Mas agora não tinha mais para onde ir. Não podia voltar para Jack. Sabia o que ele faria com ela desta vez. Então, era Louise ou o centro.

- Não, não, não estou doente... foi o sol... estava quente lá fora

- Ahhh... - Os outros garotos logo debocharam dela e Maida beliscou-a com violência enquanto ela ajudava a lavar a louça. Era um arranjo estranho, Hilary percebeu novamente. Não eram como amigos ou uma família, Louise não fingia bancar a mãezinha para eles, eram apenas como um grupo contratado para fazer o trabalho dela, e era assim que eles também a tratavam. Tudo parecia muito temporário e muito distante. O marido de Louise parecia ir e vir. Perdera uma das pernas na guerra e a outra era aleijada. Consequentemente, não podia trabalhar, e Louise acolhia aquelas crianças para fazer a parte do trabalho dele, e a sua própria, e pelo dinheiro que entrava. O Estado lhe pagava por cada criança que acolhia. Ela não ficava rica, mas recebia o seu bom dinheirinho. O máximo que podia acolher eram sete, e eles sabiam que em breve viria mais uma, já que com Hilary formavam apenas seis. Havia uma loura pálida de quinze anos chamada Georgine, além de Maida, e três garotos arruaceiros no começo da adolescência. Dois deles fitavam Hilary maliciosamente desde a hora do jantar. Nenhuma das crianças era bonita, e poucas pareciam sadias. Seria difícil, com o regime de fome que passavam. Louise economizava em tudo o que podia, mas Hilary já se acostumara com isso na sua vida com Eileen e Jack, embora Louise parecesse ter aperfeiçoado ainda mais essa arte.

Às sete e meia ela gritou para as crianças se prepararem para dormir. Elas estavam sentadas nos quartos, conversando, reclamando, trocando histórias sobre pais na cadeia, e as suas próprias experiências no centro. Tudo aquilo era totalmente estranho para Hilary, que se sentava na sua cama num silêncio amedrontado. Os meninos ocupavam um quarto ao lado. Georgine e Maida conversavam como se Hilary não estivesse presente. Depois passaram por ela de camisola, e bateram a porta na sua cara quando foram ao banheiro.

Eu posso aguentar, disse consigo mesma... é melhor do que Jack... não é tão ruim assim... Lembrou-se do dinheiro escondido na mala e rezou para que ninguém o encontrasse. Ela só precisava aguentar mais cinco anos disso... cinco anos de lares de adoção ou cadeia para menores... ou Jack. Sentiu as lágrimas ardendo nos olhos quando por fim fechou a porta do banheiro, e se sentou e soluçou silenciosamente na toalha rasgada e áspera que Louise lhe dera pela manhã. Era impossível acreditar que a sua vida tivesse chegado a esse ponto. E dali a minutos os meninos estavam socando a porta e ela teve de sair do banheiro, quando uma fila de baratas corria pela banheira.

- O que está fazendo aí, dona? Quer uma mãozinha? - perguntou um dos meninos negros, e os outros riram do seu encantador senso de humor. Hilary passou por eles e voltou para o seu quarto, bem na hora em que Maida estava apagando a luz. E, dali a um momento, Hilary ficou aturdida quando Louise apareceu no vão da porta, com um molho de chaves numa das mãos. Tinha um jeito de quem ia trancá-las no quarto, mas Hilary sabia que era impossível, pelo menos era o que pensava. Podia ouvir risadas estridentes vindas do quarto dos meninos.

- Hora do trancamento. - Maida ofereceu a informação e, diante dessas palavras, Louise bateu a porta e elas ouviram a chave girando na fechadura. As duas outras garotas pareciam achar tudo perfeitamente normal, e Hilary as fitou na penumbra do quarto iluminado pela luz que vinha de fora.

- Por que ela fez isso?

- Para a gente não ir se encontrar com os meninos. Ela gosta de tudo legal, limpo e sadio. - E então Maida começou a rir como se aquilo fosse uma piada muito engraçada, e Georgine também. Pareciam rir interminavelmente, enquanto Hilary as observava.

- E se a gente tiver que ir ao banheiro?

- Você mija na cama - falou Georgine.

- Mas você limpa tudo amanhã de manhã - acrescentou Maida, e as duas soltaram uma risada abafada.

- E se houver um incêndio?

Hilary estava apavorada, mas Maida riu de novo.

- Então você frita, benzinho. Como uma batatinha frita, com a sua pele branquinha ficando marrom como a minha.

Na verdade, elas podiam quebrar a janela e escapar, mas Hilary não pensou nisso, enquanto sentia as ondas crescentes de pânico. Deitou-se na cama e cobriu-se, tentando não pensar em todas as coisas terríveis que podiam acontecer. Ninguém jamais a trancara num quarto antes, e a experiência era mais aterradora do que qualquer outra coisa que tivesse imaginado.

Ficou deitada, em silêncio, fitando o tecto, a respiração irregular. Sentia-se como se alguém a estivesse sufocando com um travesseiro. Ouvia as duas outras garotas sussurrando e depois o barulho dos lençóis e uma série de risadinhas. Virou-se para ver o que acontecia, mas não estava absolutamente preparada para o que viu. Maida estava nua na cama de Georgine, e esta tinha jogado ao chão a sua camisola gasta, e elas estavam acariciando o corpo uma da outra ao luar, beijando-se e bolinando-se, enquanto Maida gemia e revirava os olhos. Hilary queria desviar os olhos, mas estava tão apavorada que nem se mexeu. A garota mais velha a viu e falou bruscamente:

- O que foi meu bem? Nunca viu duas garotas transando antes? - Hilary sacudiu a cabeça, em silêncio, e enquanto Maida aninhava a cabeça entre suas pernas, Georgine ria roucamente. E então afastou-a com nova risada. - Espere um minuto. - Voltou-se para Hilary. - Quer experimentar? - Hilary sacudiu a cabeça de novo, apavorada. Não havia como escapar delas. A porta estava trancada, e tinha de ficar ali escutando, mesmo que não olhasse para elas. - Pode gostar.

- Não... não... - Na verdade, fora isso o que a trouxera para cá, excepto que fora o Jack e não duas garotas. Hilary nem podia imaginar o que iriam fazer com ela, mas as duas logo a esqueceram e continuaram com o seu prazer de todas as noites. Elas gemiam e contorciam, e Maida gritou uma vez, tão alto que Hilary temeu que Louise viesse e batesse nas três, mas não havia sons no silêncio, excepto os de Maida e Georgine, o som de respiração entrecortada e arquejos e gemidos. Finalmente, enquanto Hilary chorava baixinho na cama, elas acabaram e pegaram no sono uma nos braços da outra. Hilary ficou acordada até de manhã.

No dia seguinte, trabalharam muito. Hilary voltou a cavar no jardim e recebeu ordem de limpar a parte de dentro de um barracão. Os meninos a perturbaram, como da outra vez, e agora coube a ela preparar o almoço. Tentou fazer algo decente para todos, mas era impossível com os escassos suprimentos que Louise separara. Comeram fatias finas de presunto e sobras de batatas fritas congeladas. Mal dava para sobreviver, trabalhando ao sol quente do verão, e à noite ela teve de escutar Maida e Georgine gemendo e arquejando. Desta vez ela virou as costas, puxou as cobertas sobre a cabeça e tentou fingir que não ouvia. Porém, dali a dois dias, Georgine se meteu na cama dela e começou a acariciar-lhe as costas suavemente, por baixo da camisola. Era o primeiro toque gentil que recebia desde a morte da mãe, mas isso era diferente, Hilary sabia, e não era bem-vindo.

- Não, por favor... - Hilary se afastou dela, quase caindo da cama, mas a garota a segurou com força, passando um braço parecendo aço ao redor da sua cintura e apertando-a contra si, deitada atrás dela. Hilary podia sentir os seios da garota mais velha contra as costas, e depois a sua mão livre acariciando-lhe os mamilos.

- Como é, querida, isso não é bom... é... não é bom... Maida e eu estamos cansadas de nos divertir só uma com a outra, queremos que você também participe... você podia ser nossa amiga, agora.

E, com essas palavras, a mão que acariciava os seios firmes e jovens de Hilary começou a descer para as suas coxas, apertadas com força uma contra a outra, de terror.

- Ah, por favor... por favor... não!

Ela estava choramingando e chorando, e de certa forma aquilo era pior do que Jack. E não tinha como fugir, nenhuma faca, não tinha para onde correr. Não podia escapar dessas garotas, trancada num quarto com elas, e Georgine a segurava com tanta força que ela não conseguia se libertar. E enquanto a mantinha presa, com as pernas envolvendo as de Hilary como cobras de aço, Maida veio se esgueirando da outra cama e começou a alisá-la, enquanto Georgine forçava as suas pernas a se abrirem o máximo que os esforços desesperados de Hilary permitiam.

- Assim... está vendo? - Maida lhe mostrava coisas que ela não queria saber e tocava em lugares em que a própria Hilary jamais tocara, e ela começou a gritar de terror. Mas Georgine tapou a sua boca com firmeza e deixou que Maida a ficasse acariciando. Parecia que a alisavam interminavelmente, e com suavidade a princípio, depois com mais força e brutalidade, enquanto ela soluçava sem parar. Por fim cansaram-se dela, mas quando Georgine saiu da cama, Hilary sangrava profundamente.

- Merda, está incomodada? - Parecia aborrecida ao ver a sujeira na cama e nas pernas dela. Dava para se perceber, mesmo à luz da lua. Mas Maida sabia o que era, pois tinha feito tudo o que gostava de fazer. Sorriu para Georgine e para a menina arrasada.

- Não... ela era virgem.

Georgine abriu um sorriso perverso. Ela cederia, sabia. Todas cediam. Depois da primeira vez. E, se não cedesse, elas engrossariam um pouco e ela ficaria com medo de não ceder.

No dia seguinte, Hilary lavou os seus lençóis tão logo Louise destrancou a porta e pediu desculpas quando a mulher gritou com ela por causa da sujeira. Os meninos riram quando a viram esfregando a roupa. Era como se toda a dor e humilhação do mundo estivessem acumuladas sobre a sua cabeça, como se alguém, em algum lugar, a quisesse destruir. Ficou imaginando onde estariam as irmãs, e rezou para que nada disso estivesse acontecendo com elas. Mas sabia que não estava. Elas tinham ido para a casa de amigos de Arthur Patterson, e pessoas assim não faziam essas coisas... não conheciam as torturas que gente como Eileen e Jack, e Louise, Maida e Georgine era capaz de infligir. Enquanto lavava os lençóis e cavava o fosso que Louise queria mais fundo, Hilary rezava para que a sua tortura fosse suficiente, para que Axie e Megan estivessem a salvo deste tipo de vida. Prometeu a Deus que Ele podia fazer o que quisesse com ela, contanto que as outras estivessem a salvo. Por favor, Deus... por favor... murmurava ao sol escaldante quando Georgine se aproximou.

- Oi, benzinho, falando sozinha?

- Eu... não... - Virou o rosto depressa para que Georgine não a visse enrubescer.

- Ontem foi gostoso... você vai gostar mais da próxima vez.

Mas Hilary virou-se violentamente para ela e, embora não o soubesse, parecia igualzinha à mãe.

- Não! Não vou! Não me toque de novo, está ouvindo? - Agarrou a pá, ameaçadora. Georgine riu e se afastou. Sabia que Hilary não teria armas no quarto, à noite. Elas fizeram a mesma coisa, e no dia seguinte Hilary estava com o olhar vidrado. Não havia como fugir delas, e quando a assistente social voltou, dali a uma semana, olhou para Hilary e perguntou se estava trabalhando demais. Hilary hesitou e depois sacudiu a cabeça. Georgine lhe dissera que, caso se queixasse, iria terminar na cadeia para menores, onde todo mundo fazia aquilo, às vezes até usando canos de chumbo e garrafas de soda. E Hilary acreditou nelas. Tudo era possível agora. Qualquer angústia. Qualquer tortura. Ela apenas assentiu e disse para a assistente social que tudo estava bem, e continuou a viver seu pesadelo silencioso.

Aquilo continuou por sete meses, até que Georgine fez dezesseis anos e foi solta como menor emancipada, e a mãe de Maida obteve liberdade condicional e a levou, o que deixou Hilary como a única garota com três garotos, enquanto esperavam duas novas garotas para substituir as outras. Durante vários dias, Hilary ficou sozinha com os garotos no quarto ao lado, mas Louise calculou que uma garota e três garotos não era uma combinação perigosa, portanto não se deu ao trabalho de trancar a porta de Hilary, o que a deixou sem proteção. Os garotos vieram sorrateiramente, certa noite. Hilary estava totalmente desperta, apavorada, quando os viu entrar no seu quarto e fechar a porta às suas costas, sem ruído. Ela lutou como uma gata, mas perdeu para a força deles, que fizeram exactamente o que tinham vindo fazer.

Na manhã seguinte, Hilary ligou para a assistente social e pediu para ser transferida para o centro de detenção juvenil. Não deu explicação e Louise pareceu não ligar quando a levaram embora, dali a dois dias. Hilary havia roubado uma faca e um garfo da mesa de jantar e, na segunda vez, estava bem preparada para os seus visitantes noturnos. Um dos garotos quase perdeu a mão, e eles fugiram, aterrorizados. Mas ela ficou feliz por sair da casa de Louise e não contou nada do que acontecera à assistente social.

No centro de detenção juvenil foi posta na solitária, porque estava apática e não respondia a nenhuma pergunta. Levaram duas semanas para concluir que não estava doente. Estava magérrima, e fraca por se recusar a se levantar, mas eles achavam que, tão logo fosse colocada junto com as outras meninas, poderia se reanimar. E sua "doença" foi rotulada de "psicose adolescente".

Ela foi designada para trabalhar na lavanderia e colocada num dormitório com quinze garotas, e à noite ouviu os mesmos gemidos e gritos que aprendera com Maida. Porém, desta vez, ninguém a incomodou, ninguém falou com ela, ninguém a tocou. E. dali a um mês, foi colocada num outro lar de adoção com três outras garotas. A dona da casa era agradável, desta vez; não carinhosa, mas educada, religiosa num estilo sério e sem alegria, e falava frequentemente de um Deus que as castigaria se não o abraçassem. Esforçaram-se para romper a sua concha protectora, e sabiam que era uma menina inteligente, porém os seus silêncios gélidos acabaram por desencorajá-los. Ela não conseguia se dar para ninguém. E, depois de dois meses, mandaram-na de volta para o centro e a "trocaram" por outra garota, uma simpática menina de onze anos que batia papo e sorria e fazia todas as coisas que Hilary não fazia.

Hilary voltou para o centro de detenção juvenil, desta vez definitivamente, e não fez amizades ali. Estudava, trabalhava, e lia tudo em que podia pôr as mãos. Já chegara a uma conclusão. Ia sair dali e se instruir, e quanto mais se esforçava, mais sabia que aquela seria a sua única salvação. Entregou-se aos estudos e se formou aos dezessete anos, com distinção, e no dia seguinte a assistente social encarregada do seu caso a chamou ao seu escritório.

- Parabéns, Hilary, soubemos como se saiu bem.

Mas ninguém estivera presente. Ninguém estivera presente para Hilary, não em nove anos, e agora ela sabia que jamais alguém estaria. Este era o seu destino, e ela o aceitava. Excepto se pudesse encontrar Megan e Alexandra... mas até mesmo essa esperança agora era vaga. Ela ainda tinha os dez mil dólares, escondidos no forro da sua mala, mas a sua esperança de encontrá-las era muito débil... a não ser que fosse procurar Arthur. Mas será que ainda se lembrariam dela. Alexandra estaria com doze anos, e Megan só com nove; seria uma estranha para elas. Só lhe restava mesmo ela própria. Sabia disso agora, enquanto olhava para a assistente social encarregada do seu caso sem demonstrar a menor emoção.

- Obrigada.

- Agora você tem uma escolha a fazer.

- Tenho?

Sem dúvida nada agradável. Hilary já aprendera isso, ao menos, e estava sempre pronta para se defender contra os sofrimentos que alguém pretendia infligir-lhe. Tinha aprendido muito desde o seu primeiro lar de adoção, e seus primeiros dias no centro.

- Normalmente, nossos tutelados ficam aqui até atingirem os dezoito anos, como você sabe, mas num caso como o seu, quando elas se formam na escola secundária antes dessa idade, têm a opção de sair daqui como menor emancipada.

- O que quer dizer isso? - Hilary olhava para ela, desconfiada, por trás de muros de aço.

- Quer dizer que você está livre, Hilary, se quiser. Ou que pode ficar aqui até decidir o que quer fazer depois de sair. Já pensou nisso?

Somente durante quatro anos.

- Um pouco.

- E aí? - Conversar com ela era como arrancar dentes, mas muitos deles eram assim, machucados demais pela vida para confiar em qualquer pessoa. Era uma tragédia, mas não havia como modificar isso. - Quer me contar os seus planos?

- Tenho que lhe contar, para poder sair?

Era como a tal liberdade condicional de que tanto tinha ouvido falar. Todo mundo que conhecia no centro tinha pais na cadeia, esperando para serem soltos sob liberdade condicional. Isso não era diferente. Mas a assistente social sacudiu a cabeça.

- Não, não tem, Hilary. Mas eu gostaria de ajudar, se pudesse.

- Vou ficar bem.

- Para onde quer ir?

- Nova York, provavelmente. É de onde sou. É o que conheço. - Embora estivesse ausente de lá por mais de metade da sua vida, ainda parecia ser a sua casa. E, é claro, havia as irmãs...

- É uma cidade grande. Tem amigos lá?

Ela sacudiu a cabeça. Se tivesse, teria passado quatro anos no centro de detenção juvenil de Jacksonville? Que pergunta burra. E, pelo menos, ainda tinha os seus dez mil dólares. Aquilo ia ser a sua salvação. Não precisava de amigos. Precisava apenas de um emprego, e um lugar para ficar. Mas uma coisa era certa, não ia ficar aqui.

- Acho que vou embora logo. Quando posso ir? - Seus olhos se iluminaram pela primeira vez, ante a perspectiva de partir.

- Podemos ter os seus papéis de soltura prontos na semana que vem. Está bom para você? - A assistente social sorriu com pesar. Tinham falhado lamentavelmente com ela. Aquilo ocorria às vezes, era um azar tremendo quando acontecia, mas era difícil dizer quem sobreviveria ao sistema, quem não. Ela ficou de pé e estendeu a mão, que Hilary apertou cautelosamente. Não confiava em nada e em ninguém. - Nós a avisaremos logo que possa partir.

- Obrigada.

Ela saiu da sala suavemente e foi para o quarto em que morava, sozinha. Não precisava mais ficar num dormitório ou dividir o quarto com ninguém. Conquistara antiguidade, e dentro de alguns dias estaria indo embora. Deitou-se na cama com um sorriso e fitou o teto. Estava tudo acabado, a agonia, a dor, a humilhação, o horror da sua vida nos últimos nove anos. Agora seria dona do seu nariz. Ficou deitada ali, sorrindo como não sorria há anos. E, exactamente uma semana depois, ela estava num ónibus, sem arrependimentos, sem tristeza, sem amigos deixados para trás. Seus olhos eram frios, duros e verdes, sonhando com um mundo que ainda não conhecia. E o passado era um pesadelo que ficava para trás. 

 

O ónibus parou em Savannah, Raleigh, Richmond, Washington e Baltimore, e levou dois dias para chegar a Nova York. Hilary olhava pela janela o tempo todo, silenciosamente. Outros passageiros disseram uma ou duas palavras quando pararam para almoçar, ou quando esticaram as pernas à noite, dois marinheiros até tentaram paquerá-la, mas ela os tratou rispidamente, e depois disso ninguém mais se aproximou dela. Era uma figura solitária ao saltar do ónibus em Nova York, e tremia toda por dentro. Estava em casa... depois de nove anos... partira dali em criança, uma semana após o pai cometer suicídio, para ir ficar com a tia em Boston. E levara todos aqueles anos até voltar para casa, mas voltara.

 O juizado de menores da Flórida lhe dera 287 dólares para começar a vida, e tinha os dez mil dólares de Eileen. A primeira coisa que fez foi ir a um banco na rua 42. A segunda foi ir para um quarto de hotel. Hospedou-se num hotel pequeno e surrado nas ruas 30 Leste, mas seu quarto era simples e despretensioso e ninguém a incomodava quando entrava ou saía. Comia numa lanchonete da esquina e lia os classificados à procura de emprego. Tomara aulas de datilografia na escola secundária, mas não possuía outras habilidades e não tinha ilusões sobre o que a esperava. Teria de começar por baixo. Mas também tinha outros planos. Não ia parar ali. Os espectros das mulheres que conhecera nos últimos nove anos a marcaram. Não ia ser como elas. Trabalharia e faria faculdade à noite, e faria tudo que fosse preciso. E algum dia seria importante, prometeu a si mesma. Algum dia seria alguém.

 No seu segundo dia em Nova York ela foi à loja de departamentos Alexander, na Lexington Avenue, e gastou quinhentos dólares em roupas. Parecia uma porção aterradora da sua fortuna, mas ela sabia que teria de se apresentar bem para conseguir um emprego. Escolheu cores escuras, estilos simples, saias e blusas e scarpins de verniz e bolsa combinando. Parecia uma mocinha bonita enquanto experimentava as suas coisas no seu quartinho no centro, e ninguém jamais desconfiaria dos horrores por que passara desde a morte dos pais.

Ela foi à sua primeira entrevista de emprego e lhe disseram que era jovem demais; e depois mais três que exigiam estenografia, coisa que não sabia, e por fim foi ver um emprego num escritório de contabilidade, onde foi entrevistada por um homem calvo e obeso que suava profundamente e segurava um lenço úmido numa das mãos.

 - Bate à máquina? - Olhava para ela maliciosamente, enquanto ela o observava. Já lidara com tipos piores, e ele não a assustava. E também precisava do emprego. Não poderia seguir vivendo para sempre dos seus fundos cada vez menores. Precisava achar emprego logo, e estaria até mesmo disposta a trabalhar para ele, se soubesse se comportar. - Também é estenografa? - Ela fez que não, e ele pareceu não se importar. - Quantos anos tem?

- Dezenove - mentiu. Aprendera ao menos isto, na sua primei­ra entrevista. Ninguém queria contratar uma garota de dezessete anos. Então mentia para eles.

- Fez curso de secretariado? - Ela fez que não de novo e ele deu de ombros, depois se levantou com uma pequena pilha de papéis numa das mãos e rodeou a mesa, como se fosse mostrá‑la para a moça, quando chegou junto dela acariciou‑lhe o seio. Ela se pôs de pé com a velocidade de um raio, esbofeteando‑o antes mesmo de se dar conta. Ambos soltaram uma exclamação abafada, simultaneamente, e dum canto ele a fitava.

- Se me tocar de novo, grito tão alto que a polícia virá até aqui - ela avisou, os olhos verdes faiscando, todo o corpo tenso, as mãos trémulas enquanto olhava para ele. - Como ousa fazer uma coisa dessas?

Por que todos eles faziam essas coisas com ela? O seu tio Jack. e as meninas no lar de adoção... e os meninos na casa de Louise... aquilo vivia acontecendo com ela. Não entendia que era porque era bonita, Achava que era alguma espécie de castigo, algo que fizera em criança e pelo qual estava sendo torturada agora. Não parecia justo que vivesse lhe acontecendo, e ela recuou lentamente para a porta, sem desviar os olhos do rosto dele.

- Escute, desculpe... não foi nada demais. Senhorita... com se chama? Vamos... - Ele se dirigiu desajeitado para ela, que bateu a porta na cara dele e desceu as escadas o mais rápido que pôde e caminhou até o seu hotel, sentindo‑se suja e deprimida, e imaginando se iria conseguir um emprego.

Mas por fim conseguiu, como recepcionista de uma agência de empregos. Gostaram da sua aparência, desconfiavam de que tinha menos idade do que dizia, mas era inteligente, limpa e arrumada, batia à máquina regularmente e sabia atender ao telefone, e aquilo era o suficiente para eles. Ofereceram‑lhe 95 dólares por semana, o que lhe pareceu uma fortuna. Aceitou o emprego e voou para o hotel a fim de se preparar para o trabalho no dia seguinte. Conseguira o seu primeiro emprego! E dali por diante seria uma ascensão rápida. Ainda não sabia o que queria fazer, mas já decidira onde queria estudar. Estivera lendo todos os anúncios de jornal e dera alguns telefonemas. Já fizera a sua inscrição e aguardava noticias, e aí então o futuro estaria à sua espera.

Agora só restava fazer uma coisa, e ela resolveu tratar dela naquela mesma tarde. Depois, não sabia quando ia ter tempo, e não queria ligar para ele. Queria vê‑lo pessoalmente. Só uma vez. Obteria dele a informação e então só precisaria telefonar. Só de pensar nisso ficou toda trémula, enquanto trocava de roupa de novo. Pôs um vestido azul-marinho simples, meias escuras e sapatos de verniz. O vestido era curto, como estava na moda, mas era respeitável. E prendeu o cabelo num coque simples que fazia com que parecesse mais velha. Lavou o rosto, secou‑o numa das toalhinhas ásperas do hotel e desceu novamente. Desta vez não tomou ónibus. Não queria perder tempo. Pegou um táxi, e ficou parada olhando para cima quando chegou à rua 48 com Park Avenue. Era um prédio de vidro enfeitado com cromados, e parecia subir até os céus, enquanto olhava para ele.

O elevador estremeceu enquanto subia até o 38 andar, e ela prendeu a respiração, imaginando se enguiçaria. Jamais estivera num lugar assim antes, pelo menos não que se lembrasse. Mas havia outras coisas de que se lembrava: uma viagem a Paris com os pais no Liberté... o apartamento em Sutton Place... chá no Plaza com Solange, com bolinhos e chocolate quente com montanhas de creme chantilly... e se lembrava da noite em que a mãe morrera e das coisas que ela e Sam tinham dito...

As portas do elevador se abriram suavemente e ela se viu numa ante‑sala com carpete verde e espesso e uma jovem à escrivaninha. Ela usava um costume de linho rosa e tinha cabelos louros e curtos, e ostentava o ar eficiente que se supunha que todas as recepcionistas deviam ter. Aquilo lembrou a Hilary o emprego em que ia começar no dia seguinte. Mas sabia que jamais teria aquele jeito. Não era "engraçadinha", não era loura, e não parecia pronta a saltar da cadeira se alguém mandasse. Em vez disso, Hilary parecia quieta e séria ao se aproximar e fitar directamente os olhos da moça.

- Quero falar com o Sr. Patterson.

- Ele a está esperando? - A moça sorriu, mas Hilary não sorriu de volta. Sacudiu a cabeça com sinceridade e falou com voz contida. No fundo, estava intimidada por aquele ambiente, mas externamente nada demonstrava. Parecia bem à vontade e totalmente controlada.

- Não, não está. Mas gostaria de falar com ele agora.

- Seu nome? - refulgiu a Senhorita Sorriso.

- Hilary Walker. - E depois acrescentou, como se fosse fazer alguma diferença: - Ele é meu padrinho.

- Ah. É claro - disse a lourinha e depois apertou uma série de botões e pegou no telefone, falando nele inaudivelmente. Aquilo fazia parte do serviço, falar ao telefone para que ninguém mais pudesse escutar: O Sr. Fulano está aqui para falar com o senhor... ah, não está?... dizer‑lhe o quê?... Era uma arte que Hilary teria de aperfeiçoar na agência de empregos. E então a garota deixou Hilary atónita. Olhou para ela com aquele sorriso perfeito e indicou uma porta à sua direita. - Pode entrar. A secretária do Sr. Patterson irá recebê‑la e levá‑la ao escritório dele.

Parecia impressionada. Não era fácil falar com Arthur Patterson, mas a moça era a afilhada dele, afinal de contas.

Hilary entrou e olhou para um longo corredor acarpetado. A firma ocupava o andar inteiro e ela enxergava, do outro lado do corredor, uma sala de canto a uma quadra de distância. Era um corredor impressionante, forrado de livros de direito encadernados em couro, e povoado por secretárias nas suas mesas diante das salas dos advogados. Ela nunca estivera ali, nem em criança.

- Senhorita Walker? - Uma mulher idosa, de cabelos curtos e grisalhos e sorriso bondoso se adiantou e apontou para a distância, corredor abaixo.

- Sim.

- O Sr. Patterson está à espera.

Como se tudo tivesse sido planejado, como se ele soubesse que ela viria, como se estivesse esperando há nove anos. Mas o que ele podia saber, sentado ali? O que podia saber de vidas como as de Eileen e Jack, de cuidar dela enquanto estava morrendo, de se defender dele com uma faca, de quase morrer de fome na casa deles durante todos aqueles anos, e do lar de adoção em Jacksonvìlle, e de Maida e Georgine... e do centro de detenção juvenil e até do homenzinho suarento que a "entrevistara" há dias? O que ele sabia de tudo aquilo? E só o que ela sabia era que ele matara sua mãe, tão seguramente quanto se o tivesse feito com as próprias mãos, e o pai também, finalmente. E agora ele estava ali, e Hilary só queria uma coisa dele, depois o deixaria e jamais tornaria a vê‑lo. Nunca mais queria pôr os olhos nele, depois de hoje.

A secretária parou diante da porta e bateu. Uma placa discreta em latão e couro na porta dizia Arthur Patterson. Então ela ouviu a voz dele. Ainda lhe era familiar. Ainda podia lembrar‑se dele mentindo para ela há oito anos: "Vou levá‑las só por pouco tempo, Hilary... volto para buscar você." Nunca voltou, mas ela não se importava, ela o odiava, de qualquer maneira. Ainda podia se lembrar de ficar ajoelhada na rua depois que ele se foi, chamando os nomes das irmãs, e teve que lutar contra as lágrimas de novo, mas agora estava quase tudo acabado... quase. Fazia quase exactamente oito anos desde que o vira pela última vez.

- Pode entrar. - A secretária sorriu e se afastou ao abrir a porta. Hilary entrou suavemente. A princípio não notou a escrivaninha, e então a viu, um bloco simples de vidro e cromado, na frente de uma janela que oferecia uma vista plena de Nova York, e lá se sentava ele, incongruente na decoração moderna. Tinha cinquenta anos e parecia ter no mínimo mais dez, alto, magro, calvo, de olhos tristes e rosto pálido. Contudo, estava mais pálido do que de costume quando se levantou e olhou para Hilary. Era como se tivesse visto um fantasma parado na sua frente. Ela era bela e alta, com os cabelos negros e brilhantes de Sam. Mas aí a semelhança com ele terminava. Hilary tinha os olhos de Solange, e o mesmo jeito de mexer a cabeça. Estava parada diante dele do mesmo modo orgulhoso com que Solange caminhara pela rue d'Arcole, em Paris, 22 anos atrás. Era como enxergar um fantasma, se pudesse mudar o cabelo preto para ruivo. Era Solange de novo, mas com olhos irados e amargos, com algo feroz no rosto que Solange jamais tivera, algo que dizia: se chegar perto de mim, eu o mato antes que me toque. Arthur temeu instantaneamente o que podia ter acontecido a ela, o que causara tal agressividade. E, no entanto, estava sã e salva, obviamente, e parada diante dele no seu escritório, crescida e muito linda. Era um milagre e ele se dirigiu lentamente para ela, estendendo a mão, sonhando em recapturar o passado. Era um modo de ter Sam e Solange de volta, de soltar a partilhar a magia deles. Hilary ia trazer tudo de volta para ele. Mas, ao se aproximar, pôde sentir o muro erguido em torno da moça. Hilary começou a recuar quando ele se aproximou e, instintivamente, ele parou.

- Hilary, você está bem? - Era um pouco tarde para perguntar, e ela odiou a fraqueza que viu nos olhos dele. Não compreendera até então como ele fora totalmente sem coragem. Não tinha colhões, ela se deu conta então. Por este motivo as abandonara, depois de atraiçoá‑las. Não tinha fibra, algo de que Solange o acusara toda uma vida atrás, embora Hilary não o soubesse.

- Estou bem. - Não perdeu tempo com ele. Não viera participar de uma reunião cálida com um amigo de família, viera perguntar-lhe a única coisa que lhe interessava, a única coisa que lhe interessara durante oito anos. - Quero saber onde estão minhas irmãs.

Os olhos dela estavam gélidos e nenhum dos dois se mexeu enquanto ela observava o rosto dele, sem ter certeza do que via, terror ou sofrimento. E ela esperou, a respiração presa, pelo que ele diria.

Mas, se estava pálido antes, agora ficara fantasmagórico. Ele percebeu que não poderia iludi‑la, que ela não queria nada, nada dele, excepto saber onde as irmãs estavam. Ela as queria e ele não as poderia dar, não importava o quanto desejasse fazê‑lo.

- Hilary... por que não nos sentamos...

Ele apontou uma cadeira e ela sacudiu a cabeça, os olhos fitos nos dele.

- Não estou interessada em me sentar com você. Você matou meus pais, destruiu minha família. Não tenho nada a lhe dizer. Mas quero saber onde estão Alexandra e Megan. É só o que quero. Quando me disser eu vou embora. - Ela esperou pacientemente, a mesma inclinação orgulhosa da cabeça que fizera Solange tão única... tão extraordinária. Ele fitou‑a, enxergando outra pessoa, mas não havia como fugir de Hilary. Ela era uma força que teria de enfrentar, e entendia isso inteiramente agora. Também pressentia que ela sabia mais do que ele imaginara, no passado, mas não lhe fez nenhuma pergunta. Contou‑lhe a verdade, os olhos cheios de pesar, úmidos de lágrimas pelo que fora e não era mais. Uma família morrera pelas suas mãos: Hilary tinha razão. E ele nunca superara o facto. Não tivera sua própria família, e Marjorie o abandonara anos atrás. A mulher que amara estava morta, suas filhas lançadas aos ventos. E ele se considerava responsável pelo que acontecera a todos, até mesmo a Sam. Mas não havia como explicar isto a essa garota, ou como se desculpar. Só Deus sabia o que ela havia passado nos últimos oito anos.

- Não sei onde elas estão, Hilary. Não sei nem onde você estava. Quando fui a Boston para vê‑la, há sete anos, vocês tinham sumido... os Jones não deixaram o novo endereço com ninguém. Não consegui encontrá‑la. - A voz dele foi sumindo, cheia de pesar, porque a sua própria culpa fora tão grande, que ficara secretamente aliviado por não ter que enfrentá‑la de novo, e desconfiava agora que ela estava ciente disso. Tinha olhos que tudo viam, e parecia ter também um coração que não perdoava. Não havia nada de cálido nessa moça, nada de meigo ou bondoso. Era feita inteiramente de granito e arame farpado, lâminas de aço e vidro partido. Havia coisas feias dentro da moça, ele podia enxergar nos seus olhos, e por um instante teve medo dela, como se, tendo oportunidade, ela pudesse lhe fazer mal. E, dadas as circunstâncias, não estava certo de culpá‑la.

- Não precisava ter se esforçado muito para me achar. - A voz dela era dura. Não estava interessada em suas explicações ou suas desculpas. - Fomos para a Flórida.

- E depois? - Precisava saber o que lhe tinha acontecido, por que estava daquele jeito. Tinha que saber. Sentiu um soluço preso na garganta e rezou para não chorar na frente dela. - O que lhe aconteceu? - Queria que ela se sentasse, que pudessem conversar, que ela o escutasse. Podia conversar com ela, agora. Podia explicar sobre Marjorie, que agora era juíza do Supremo Tribunal. Podia contar por que não pudera levá‑las para morar com ele... por que ninguém queria as três juntas... por que fizera o que fizera. - Jack e Eileen, ao menos... foram bons para você?

Ela soltou uma risada amarga, parecendo muito velha, e seus olhos ficaram mais verdes. Estava pensando em Jack e naquela noite... e no fiapo de gente patético em que Eileen se transformara antes de morrer.

- Eileen morreu e fui tutelada do juizado de menores nestes últimos quatro anos. Estive em lares de adoção e no centro de detenção juvenil e agora estou livre, Sr. Patterson. Não devo nada a ninguém, e muito menos a você. Agora só quero minhas irmãs. - Seu coração batia com força ao perceber que ele as perdera.

- Por que não ligou para mim quando ela morreu? - Parecia horrorizado. - É claro que não precisaria ir para lares de adoção ou centros de detenção juvenis. - Aqueles eram lugares em que ele nunca pensava, não suportava pensar neles agora. - Hilary, lamento...

Mas os olhos dela faiscaram com um fogo verde de novo, e ela fez um gesto com a mão.

- Não me venha com essa merda. Você nunca ligou a mínima. É fácil para você bancar o santinho e me dizer o quanto lamenta. Para dizer a verdade, estou me lixando. Isso não muda nada do que me aconteceu. O que quero de você são os endereços de minhas irmãs, e você vem me dizer que não sabe. Mas tem que saber. Levou-as para lá!

Nunca lhe ocorrera que ele poderia perdê-las de vista, assim como perdera Hilary. Isso era impossível. Ele tinha de saber, e ela perscrutou-lhe os olhos, mas o que viu ali foi assustador. Viu remorso e culpa e um homem que tinha medo dela, de verdade.

Ele se sentou numa cadeira e sacudiu a cabeça em desespero, e depois ergueu para ela os olhos tristes e vazios.

- Alexandra ficou com um dos meus sócios aqui na firma. Tinha uma esposa bela e jovem, de boa família, que era muito mais moça do que ele. Não tinha filhos e estavam loucos para adotar Alexandra quando lhes falei sobre ela. E adotaram... eles a adoravam. - Olhou para Hilary como se esperasse amolecê-la um pouco, mas não adiantava, os olhos dela eram como fogo verde e suas mãos tremiam enquanto se sentava silenciosamente numa cadeira e ouvia o que ele tinha a dizer. - Levaram-na para a Europa, iam com ela a toda parte... mas depois de seis meses George teve um enfarte e morreu. Margaret ficou em estado de choque e levou Alexandra embora com ela. A última notícia que tive delas era que estavam no sul da França. Mandamos os papéis do espólio para ela em Paris há anos... e não soube de nada depois disso. Acho que ela ficou por lá, mas não tenho certeza. Não havia motivo para ficarmos em contacto com ela, e... - a voz dele foi; sumindo, enquanto duas lágrimas escorriam pelas suas faces.

- Então quer dizer que não sabe onde Alexandra está. - Hilary parecia entorpecida. - E o nome da mulher?

- Gorham. Margaret Gorham. Mas ela podia ter-se casado novamente a esta altura... diversas coisas podiam ter acontecido com ela, Poderia estar de volta, em algum lugar dos Estados Unidos. Não creio que esteja de volta a Nova York, acho que eu ficaria sabendo se estivesse.

Olhou sem jeito para ela.

- E Megan?

- Foi adotada por David e Rebecca Abrams, logo depois que eu... depois que ela... - Mal conseguia se controlar, e Hilary tremia da cabeça aos pés. -... depois que a trouxe de volta a Nova York. Ele não tinha sociedade na firma, simplesmente trabalhava para nós, e alguns meses mais tarde eles foram embora. Ela também era advogada e receberam uma oferta de uma firma de Los Angeles que queria os dois. Estavam ansiosos para começar uma nova vida, e foram enfáticos ao me dizer que não queriam ficar em contacto. Queriam dar a Megan uma nova vida, longe de tudo que lhe acontecera. Não tive notícias deles desde que se mudaram. Se ele pertencer à Ordem dos Advogados da Califórnia eu talvez possa localizá-lo, se ainda estiver lá... não sei...

- Seu filho da puta. - Ela o fitou cheia de ódio no rosto. - Nos deixou todas à deriva. Nos botou à deriva como se livrar-se de nós fosse livrá-lo de sua própria culpa, mas não livrou, não é? - Ela percebera tudo nitidamente. - Destruiu a sua vida também, e você merece isso. Você merece tudo o que lhe aconteceu. Que você apodreça no inferno, Arthur Patterson. Vai viver com isso pelo resto da sua vida. Você matou duas pessoas e destruiu outras três vidas. São cinco pessoas na sua consciência. Dá para viver com isso? Caminhou até onde ele se sentava e olhou para ele com um desprezo geralmente só encontrado em pessoas mais velhas. - Você consegue dormir à noite? Acho que não consegue... e só Deus sabe o que aconteceu às outras duas. Só Deus sabe a que tipo de vida você as condenou. Eu sei como foi a minha. Mas ela ainda não acabou. Não vou deixar que estrague a minha vida. Ainda vou ser alguém... e quem sabe algum dia eu encontre as minhas irmãs... quem sabe... Mas, nesse meio tempo - ela se dirigiu lentamente até à porta, com as lágrimas escorrendo pelas faces; tinha esperado tanto dele, e o seu desapontamento agora era tão grande -, nunca mais quero vê-lo, Arthur Patterson. Nunca. Não vai acalmar a sua consciência comigo. Não vamos ser "amigos" de novo, caro padrinho. - Ficou olhando para ele por muito, muito tempo, antes das suas palavras finais, e pronunciou-as num sussurro que o perseguiu pelo resto da vida. - Nunca o perdoarei pelo que nos fez... nunca... e o odiarei pelo resto da minha vida. Lembre-se disso... lembre-se do que fez e de quanto o odeio.

E então, como o fantasma do Natal passado, fechou a porta da sala e se foi, e ele não teve coragem de segui-la. Ficou desabado na cadeira, como um velho, lembrando-se de Solange e chorando pelo que lhe fizera. Hilary tinha razão, ele não seria absolvido pelo que fizera a todos eles. Não podia se perdoar e, como Hilary, ficou se perguntando onde estariam as outras duas.

Mas não havia respostas. Hilary saiu do escritório da Park Avenue para a Biblioteca Pública e fez a única coisa que podia fazer. Abriu a lista telefónica de Manhattan e não encontrou ali nenhum George ou Margaret Gorham. Encontrou apenas cinco Gorhams, e quando telefonou, nenhum deles sabia coisa alguma sobre Margaret ou Alexandra, e era óbvio que nunca tinham ouvido falar nelas. E uma listagem da Ordem dos Advogados da Califórnia foi igualmente desencorajadora. Não havia nenhum David Abrams nela, o que significava que ele devia ter deixado a Califórnia há muito tempo, e só Deus sabia para onde tinha ido. Ela não tinha recursos para fazer mais do que aquilo, não podia caçá-las. Não podia fazer nada. Esperara que Arthur soubesse, e ele não sabia de nada. As.suas irmãs tinham sumido. E, desta feita, para sempre. E o sonho que a mantivera viva deslizou suavemente do seu coração, como uma rocha caindo aos seus pés. Caminhou de volta ao hotel, as lágrimas correndo pelas faces. Era como se elas tivessem finalmente morrido, pensou, lembrando-se das rosas brancas no enterro da mãe. Elas não mais existiam na sua vida, há anos, não existiam... e rever Arthur a fizera lembrar-se daquele dia terrível quando as meninas foram tiradas dela. Axie, eu a amo! - ainda podia se lembrar de gritar as palavras enquanto o carro se afastava, e de cair de joelhos na poeira. Parecia-lhe que nunca mais se poderia levantar. Mas agora se levantaria, tinha que fazê-lo. Venceria sozinha, como tinha sobrevivido todos esses anos... mas sempre se lembraria delas. Sempre.

Sentiu que as irmãs fugiam dela, enquanto entrava no seu hotel, como pessoas que amara, e que tinham finalmente morrido. Estava sozinha, como sempre estivera.

 

A casa da Avenue Foch era protegida por uma sebe alta, impecavelmente cortada, que protegia tudo o que ficava por trás dela das vistas dos pedestres. Havia jardins perfeitamente tratados e um hotel particulier de tijolos construído no século XVIII, com portas lindamente entalhadas, maçanetas e aldravas de bronze, belas persianas pintadas de verde-escuro, com cortinas de seda e damasco pendendo das janelas. 

Era uma casa isolada do mundo mais público, protegida de toda a publicidade, uma casa na qual reinava a perfeição, cheia de objetos de Fabergé e lustres de cristal e antiguidades impecáveis. Era a casa do barão e baronesa Henri de Morigny, uma das famílias mais antigas da França. A sua casa era de grande nobreza e fortuna reduzida, até que ele se casou com a linda filha do velho conde de Borne, catorze anos atrás. A casa da Avenue Foch fora presente de núpcias do conde e, como presente para Henri, Alexandra restaurara a casa de sua família, um belo château em Dordogne, assim como o seu pavilhão de caça em Sologne. E, desde então, tinham comprado uma casa de verão em Saint-Jean-Cap-Ferrat, para onde iam todos os anos com as filhas. Era uma vida de luxo considerável e graça interminável. Era a única vida que Alexandra de Morigny conhecera, e ela desempenhava o papel de esposa perfeita para o marido, a todas as horas. Dirigia a casa dele, planejava seus jantares, recebia seus amigos, obedecia às suas instruções e criava as duas filhas, Axelle e Marie Louise, à perfeição. As meninas eram a maior alegria da sua vida, e ela estava sentada à sua escrivaninha com um sorriso sereno, pensando nelas aquela tarde. Logo chegariam da escola, e ela levaria os cachorros para passear com elas no Bois. Era uma boa oportunidade de conversar, de descobrir O que se estava passando, de quem elas gostavam, a quem "detestavam" quem estaria em dificuldades na escola, e depois voltariam para casa para as meninas fazerem os seus devoirs, tornarem banho, jantarem, brincarem e irem para a cama. Alexandra sempre ficava com elas até a sua hora de jantar com Henri. Elas tinham seis e doze anos, diferentes como a noite e o dia, e eram a alegria e os risos da vida dela. Mane‑Louise era séria e muito parecida com Henri, mas Axelle era exactamente como ela fora em criança, um pouquinho tímida, totalmente confiante e enormemente afetiva. Era simplesmente maravilhoso estar cem ela, acariciando os cabelos ruivos claros e fitando aqueles imensos olhos azuis. O coração de Alexandra cantava só de pensar nisso. E ela se sentava sorrindo, fitando o espaço, e não ouviu os passos dele no piso de paquete muito bem encerado quando ele entrou na sala e a observou. Estava quase diante dela quando acordou do seu devaneio. Ergueu os olhos para deparar com o homem alto e bonito com quem se casara. Ele tinha 59 anos e um físico vigoroso, com linhas definidas no rosto e olhos duros que a fitavam, como sempre o faziam, como se ele estivesse prestes a lhe fazer uma pergunta muito importante. Era um rosto que não se descontraía com frequência, mas ele era um homem em quem podia confiar e de quem podia depender. E ela o respeitava. Tinha se apaixonado por ele aos dezenove anos, e foram noivos durante dois anos. O pai dela queria se certificar de que ela não estava cometendo um erro ou agindo por impulso. Afinal, Henri era 25 anos mais velho do que ela, mas ela estava absolutamente certa. Queria alguém igualzinho ao pai, o velho conde de Borne. Ele estava com sessenta anos quando ela nasceu, ou estaria. Ele a adotara quando tinha seis anos, e ele a adorava. Nunca tivera filhos, e acabava de perder a esposa de quarenta anos de casados quando se casou com a mão dela. Ele fora para o Sul da França chorar suas mágoas e, ao invés disso, encontrara Margaret Gorham, que fazia precisamente a mesma coisa, depois da morte do seu marido. Tinha 27 anos e fora um romance rapidíssimo. Dali a seis meses estavam casados e Pierre de Borne adotou Alexandra. E apenas ele e Margaret partilhavam o segredo de que ela já fora adotada uma vez, quando veio para Margaret e George Gorham aos cinco anos, em Nova York. Não era algo que todo o mundo precisasse saber, e não era mais importante. Ela era Alexandra de Borne, e tão cara ao coração do conde como se fosse sua filha natural Talvez ainda mais. Ela cresceu protegida, mimada e adorada como poucas crianças o são, e em troca idolatrava o homem que conhecia como pai. Era para Pierre que se voltava com todo pesar, ou desejo, ou sonho, partilhando com ele todos os seus segredos, confessando as suas más ações, que eram bem poucas, enquanto Margaret os observava, satisfeita de todas as maneiras, cheia de amor pelo marido e filha, e muito brincalhona. Margaret era, na verdade, a criança da família, pregando peças nos outros dois, escondendo‑se inesperadamente, vestindo fantasias ridículas para os fazer rir. Ela era uma criança grande que gostava de rir e de aproveitar cada minuto. E Alexandra, estranhamente, era mais parecida com Pierre, afetuosa, tímida, e cheia de admiração pelos planos malucos e risada irresistível de Margaret. Alexandra era protegida e muito amada, e todos se surpreenderam quando ela se apaixonou aos dezenove anos e disse que queria se casar. Pierre de Borne não ficou satisfeito com a ideia da filha se casar com Henri de Morigny, principalmente porque ele era tão mais velho. Também o achava sério demais e um homem difícil, ainda por cima. Morigny nunca se casara antes e o velho conde sabia que estivera esperando pela garota certa, com uma família importante, uma fortuna igualmente importante e, se possível, um título. E Alexandra, sem dúvida, tinha tudo isso a lhe oferecer. Porém o que ele oferecia para ela? Quis saber o pai. Era suficientemente carinhoso, seria bom para ela? Pierre falava nisso constantemente com Margaret, e ela estava tão preocupada quanto ele. Mas Alexandra tinha certeza de que queria Henri, e nunca vacilou. Casou‑se aos 21 anos na igreja da propriedade rural deles, em Rambouillet. Havia setecentas pessoas presentes, de todas as melhores famílias da Europa. E passaram a lua‑de‑mel no Taiti, tomando ponches exóticos e fazendo amor na praia particular da casa que Henri alugara para ela. E quando voltaram para Paris, Alexandra o amava com uma paixão ainda maior do que antes, e só o que queria era ter os seus filhos. Ela levou mais de um ano para conceber, a despeito dos esforços mais românticos de Henri. Pierre viveu o bastante para pôr no colo a primeira neta, dois anos depois do casamento de Alexandra. E então morreu serenamente durante o sono, aos 83 anos de idade. Margaret ficou desolada e Alexandra aturdida. Não podia imaginar uma vida sem ele, não podia imaginar não ter a sua mão para segurar, seus olhos sábios para fitar. Aquilo a tornou, de súbito, extremamente dependente de Henri, a quem adorava, e também a deixou com um pouco de medo dele. De repente, ele se tornou de total importância para ela, e ficou obcecada por seus temores de perdê‑lo também, pois sabia que não o suportaria. Alexandra sempre tivera um medo irracional de perder as pessoas que amava e que a amavam. E aquilo preocupava Margaret consideravelmente, porque ela achava que Henri se aproveitava disso para controlá‑la. E, de certa forma, ele tratava Alexandra como se fosse uma criança, alguém com quem se devia ralhar, falar com firmeza e ensinar o que fazer, como se ela própria não soubesse. Aos olhos de Margaret ele era mais um pai do que um marido, e Alexandra tudo fazia para agradá-lo, não importa o quão trivial e tolo fosse. Ele tinha aspirações políticas, o que o tornava maníaco por aparências. Tudo tinha de ser perfeito, constantemente circunspetos, Alexandra devia ser impecável em todas as horas, as meninas tinham que ser dez vezes mais educadas do que as outras crianças. Margaret achava exaustivo até tomar chá com eles, e ficava preocupada ao ver que Alexandra parecia achar tudo aquilo normal. Tudo estava certo, desde que agradasse o marido.

- É o jeito dele, mamã. Não tem má intenção. É um homem sério e quer que tudo seja perfeito.

 O pai de Alexandra nunca fora tão exigente com a filha, ou com a mulher, e possuía um senso de humor maravilhoso. Margaret achava Henri um chato de galochas, em comparação com o seu falecido marido, mas nunca verbalizou isso. Desejava apenas a felicidade de Alexandra, e era só o que Pierre também quisera para ela. E lhe deixara a maior parte da sua fortuna ao morrer, legando a Margaret mais

do que o suficiente para continuar se divertindo por mais uns quarenta anos. Ela estava apenas com 45 anos quando ele morreu, e parecia bem, - mais jovem, principalmente porque curtia tanto a vida. E ainda era, muito atraente. Era três anos mais moça do que o marido de Alexandra.

Margaret de Borne sempre se divertia, sempre tinha algo engraçado para dizer, algo exótico e fascinante para fazer. Todos os homens casadouros da Europa a disputavam, e ela não tinha o menor desejo de voltar a se casar. Fora feliz com George anos atrás, e tivera tudo o que queria com Pierre. Não fazia sentido tentar superar aquilo. Ela sabia que jamais conseguiria e nem queria tentar. Mas Alexandra é outra história, e Margaret se preocupava com ela mais do que a filha imaginava.

Henri esperava demais dela. Tanto que Pierre e Margaret haviam decidido nada lhe contar das origens de Alexandra, de que ela mesma nem se lembrava. Ela somente se lembrava de "papa", como chamava Pierre, embora Margaret soubesse que tinha também outras lembranças vagas, mas estavam enterradas há muito tempo. Ela não parecia guardar a menor lembrança de George Gorham. Profundamente enterrado na sua memória, estava o facto de ter sido adotada por Pierre depois que seu pai morrera, um homem de quem não mais se lembrava. E jamais lhe ocorrera, nem eles lhe tinham contado, que ela nascera de outros pais, e que Margaret não era sua mãe, que já havia sido adotada uma vez, após a morte trágica dos próprios pais. Pierre fora inflexível com Margaret antes de morrer. Não queria que o marido de Alexandra soubesse coisa alguma de quaisquer das suas adoções. Mas nada falara a respeito para Alexandra, não querendo despertar as lembranças ou a sua consciência. Era uma moça tão honesta que poderia se sentir na obrigação de contar ao marido. Seria muito mais fácil se não se lembrasse. O pai conhecia Henri o suficiente para saber que era um maníaco sobre a sua linhagem.

E Margaret não discordava do marido com relação ao genro, assim, pelo bem de Alexandra, também ficou calada. E, depois de tantos anos, ninguém sequer se lembrava de que Alexandra era adotada. E Margaret se regozijou quando Marie-Louise nasceu, e depois chorou quando Alexandra perdeu um menino, um ano mais tarde. E depois veio Axelle, após uma gravidez cruciante e um trabalho de parto interminável. Depois disso, o seu médico insistiu com ela para que não tentasse de novo. Disse-lhe que não poderia ter mais filhos sem pôr em risco a própria vida. E ela ficou satisfeita com as duas meninas que tinham. Somente Henri ficou amargamente desapontado, e rancoroso por muito tempo, por que ela não lhe dera um filho. E por vários anos, depois do nascimento de Axelle, ele lhe dizia isso quando estava zangado. E sempre fazia com que ela se sentisse vagamente culpada com relação ao marido, como se, de alguma forma, o tivesse ludibriado e lhe devesse algo mais pelo seu fracasso.

A perda de um filho era uma cruz que Henri tinha de carregar, e ter Margaret de Borne como sogra era outra. Ela o enfurecia com as suas compridas pernas americanas, as suas passadas intermináveis, que ele considerava pouco femininas, e sua risada ruidosa (alta demais), seu sotaque terrível em francês, que, para ele, era como unhas riscando um quadro-negro. Odiava as peças que pregava, detestava o seu senso de humor, e se crispava quase visivelmente quando ela chegava, trazendo pistolas d'água sob a forma de batom para as meninas, brinquedos baratos que elas adoravam ou, no extremo oposto, caixas e caixas e caixas de roupas de Nova York, inclusive casacos azul-marinhas combinando, com pequenos regalos cor-de-rosa, que ele dizia para Alexandra serem extremamente vulgares. Detestava tudo o que ela trazia e tudo o que dizia, e dava graças por Alexandra não se parecer em nada com ela. Não podia imaginar por que o velho conde se casara com uma mulher daquelas. E agradecia a Deus diariamente por Alexandra ser muito mais contida do que a mãe. Alexandra era inteligente, bondosa e discreta, e ainda muito tímida, e obediente, uma das qualidades que mais apreciava nela.

Olhou para ela, sentada ali à escrivaninha, e sorriu-lhe de um jeito sereno, distante. Não era homem de demonstrar suas emoções, mas embora esperasse muito de Alexandra e não se mostrasse romântico, tinha profundos sentimentos por ela. Sabia que, sem ela, sua vida não seria mais a mesma, não apenas financeiramente, mas de modos sutis ainda mais importantes. Dirigia a casa muito bem, tinha elegância e classe, e sua origem impecável se revelava de inúmeras maneiras. Alexandra de Borne de Morigny era uma verdadeira dama.

- Parece estar sonhando, Alexandra. - Falou com ela suavemente, com apenas uma leve reprovação. Nunca erguia a voz para ela ou qualquer outra pessoa, não precisava. As pessoas corriam a obedecer às suas ordens com um único olhar, como fazia Alexandra. Era distinto e vigoroso, com olhos escuros e cabelos grisalhos. Fora extremamente bonito e viril e atlético na juventude, e envelhecera de modo admirável. Ainda tinha um corpo vigoroso e um belo rosto, e não aparentava os seus 59 anos, assim como Alexandra não aparentava os seus 35 com os seus grandes e inocentes olhos azuis e o cabelo louroa-vermelhado sedoso que geralmente usava preso em coques elegantes. - Já organizou tudo para o jantar da semana que vem?

Entregou-lhe uma lista de coisas para ela voltara examinar. Alexandra tinha uma secretária para ajudá-la com essas coisas, porém preferia fazê-las pessoalmente.

- Está tudo providenciado.

Sorriu para ele com olhos respeitosos cheios de admiração, e ele parecia sério, como sempre, e um pouco distante.

- Por favor, certifique-se disso. - Olhou para ela com uma advertência, como se faria com uma criança, e ela sorriu com ele. Às vezes ele a assustava, mas não com frequência. Ela sabia como tinha coração bondoso, por sob as constantes exigências de perfeição. - Vamos jantar no Elysée amanhã à noite - ele informou.

- Que bom. Algum motivo particular? - Sorriu para ele, sem se impressionar. Jantavam ali com frequência.

- Vão anunciar o novo ministro da Defesa. - Aquilo não pareceu fascinante, mas os jantares no Elysée nunca eram. Mas Henri os achava extremamente importantes. Ainda considerava a possibilidade de uma carreira política ao se aposentar do banco, o gire só daria dali a alguns anos.

- Vou almoçar na casa de mamãe amanhã. Mas chegarei em casa com tempo de sobra para me aprontar. - Ela desviou o olhar, fitando os papéis sobre a mesa, sem querer enxergar a reprovação nos olhos dele. Detestava isto, sempre detestara. Sempre torcera para ele aprender a gostar da mãe dela, mas desistira nos últimos anos, e era um segredo aberto que Henri não aprovava Margaret.

Quase como uma vingança, a voz dele pareceu ficar fria quando voltou a falar.

- Vou jantar fora hoje. - Não ofereceu motivo ou desculpa, nem ela lhe pediria, de qualquer maneira. - Suponho que vai querer jantar com as crianças.

Ela assentiu, voltando a fitar-lhe os olhos, imaginando aonde iria. Sabia que ele tivera uma amante há alguns anos, e torcia para que não estivesse começando um novo caso. Era algo que aceitava nele. Não era incomum, na França.

- Vou avisar a cozinheira. - Adorava comer com as meninas, contanto que não significasse problemas entre eles, e desta feita não tinha muita certeza - Jantar de negócios, querido?

Tentou manter a voz despreocupada, observando-o.

Ele fechou a cara, com reprovação. A pergunta era imprópria, e ele fez que sim com a cabeça, enquanto as filhas irrompiam sala adentro, sem esperar encontrá-lo. Houve gritinhos de prazer. Marie-Louise, as pernas longas e flexíveis na sua curta saia azul-marinho, os olhos tímidos e cheios de admiração na presença de Henri, foi dar um abraço carinhoso na mãe, enquanto ele as observava. Jamais demonstrava afeição por Alexandra na frente delas. Mas Axelle era a mãe escrita, parecia uma miniatura, sentando-se toda feliz no colo da mãe, brincando com as coisas sobre a escrivaninha, e quase derrubando um vidro de tinta enquanto Henri se crispava na expectativa do desastre.

- Axelle! - falou com severidade, enquanto ela o fitava, despreocupada, sem medo, os olhos prometendo travessuras. Às vezes ele temia que puxasse à avó materna, e era rígido com ela por causa disso. - Tome cuidado com o que faz no gabinete da sua mãe.

- Estou tomando, papa. - Sorriu para ele com seus angelicais olhos azuis. Sua boca formava um "biquinho" natural, as bochechas ainda eram redondinhas, e ainda era gorduchinha como uma criança ao contrário de Marie-Louise, que era longilínea, alta e elegante, e já se parecia mais com o pai. - Hoje me mandaram para fora da sala, na escola - anunciou Axelle com orgulho para todos na sala, e Alexandra riu. Lamentava que o pai não estivesse vivo para vê-las, sabia que ele ficaria totalmente apaixonado por Axelle e, é claro, teria muito orgulho de Marie-Louise, também. Ambas eram lindas meninas, e Alexandra tinha muito orgulho delas.

- Isso não é motivo para contar vantagem, senhorita. O que foi? Que fez? - indagou Henri, observando-as com orgulho oculto. Ele amava as duas, embora nunca o dissesse e ainda lamentasse não ter tido um filho para levar seu nome. Muitas vezes pensava que fora uma pena Alexandra não ter podido lhe dar um, considerando-o o único fracasso importante dela. E ela sentia isto.

- Posso mascar chiclete? - sussurrou Axelle audivelmente, e Alexandra enrubesceu. Era uma gulodice que, às vezes, dava às meninas quando Henri não estava por perto, porque o pai a proibia. Mas Axelle sempre a entregava. Marie-Louise preferia alcaçuz e chocolates, mas Axelle adorava soprar bolas imensas com grandes pedaços de goma cor-de-rosa.

- Claro que não.

Henri fechou a cara para as três, lembrou a Alexandra a lista que deixara sobre a sua escrivaninha e foi para o seu próprio gabinete adjacente, fechando com firmeza a porta atrás de si. Depois, abrindo-a só uma frestinha, observou com um largo sorriso a mulher dando doces e chiclete de bola para as meninas. Adorava ver Axelle com a cara toda besuntada com aquela massa pegajosa, mas achava que não ficava bem para ele admiti-lo. Fechou a porta em silêncio e foi para a sua escrivaninha com um suspiro, enquanto as meninas se divertiam com a mãe.

- Papa chegou em casa cedo - observou Marie-Louise enquanto afundava graciosamente num fauteil Luís XV perto da escrivaninha da mãe, mordiscando um pedaço de alcaçuz. Tinha olhos grandes, escuros, expressivos e uma elegância natural. Ia ser uma bela moça dali a alguns anos, e já o era, de muitas maneiras. Mas Axelle era a mais impressionante das duas, e seu cabelo tinha a cor ruiva natural da mãe, embora Alexandra usasse uma rinsagem para atenuar o vermelho e o tivesse usado louro por muitos anos porque Henri assim o preferia. Achava o cabelo ruivo "impróprio", mesmo sendo natural, como era o caso dela. Mas ela o usava louro, para agradar ao marido.

- Ele vai sair hoje - falou Alexandra com naturalidade, entregando a Axelle um outro pedaço de chiclete e a Marie-Louise um chocolate.

- Você também?

Os olhos de Axelle se encheram instantaneamente de lágrimas, embora se apressasse a tirar o chiclete da mão da mãe. Alexandra riu e sacudiu a cabeça, em resposta.

- Não, eu não. Ele vai a um jantar de negócios hoje e vou jantar com vocês hoje.

- Oba! - exultou Axelle, com a boca cheia de chiclete, e Marie-Louise sorriu. Adorava quando a mãe comia com elas, especialmente quando o pai saía. Elas sempre riam muito e ela lhes contava histórias de quando era garotinha, e das peças maravilhosas que a avó a ajudava a pregar no pai.

- A babá sabe que vocês estão em casa? - perguntou às meninas, mas podia ver pelas mãos e rostinho sujo de Axelle que tinham vindo procurá-la sem o conhecimento da governanta. A babá sempre as mandava entrar imaculadamente vestidas e impecavelmente arrumadas, e ela as preferia como estavam agora, um pouco mais naturais, bem descontraídas na sua presença.

- Acho que esquecemos de dizer à babá que chegamos em casa - confessou Marie-Louise enquanto Axelle soprava uma bola fantástica com o chiclete cor-de-rosa e as três riram juntas.

- É melhor não deixar que ela veja isso - sorriu Alexandra, tirando Axelle do colo. - É melhor avisar a ela que já chegaram. - O chofer geralmente as trazia da escola no Citron, embora Alexandra gostasse de ir buscá-las sempre que podia. - Agora tenho umas coisinhas para fazer.

Queria verificar as listas de Henri para se certificar de que não tinha esquecido nada para o jantar na semana seguinte. Já sabia quem seriam os convidados. Tinha convidado todos eles três semanas antes, nos seus cartons formais, e lembretes tinham sido enviados, gravados e margeados em ouro, avisando aos convidados que o barão e a baronesa de Morigny os estavam esperando no n.o 14 Avenue Foch, para um jantar a rigor, às oito horas. Ela já sabia o que ia usar, as flores tinham sido encomendadas, o cardápio escolhido. Tudo estava em ordem, verificou ela, quando as meninas saíram do quarto e ela leu a lista cuidadosamente. E sabia que Henri ofereceria os seus melhores vinhos nessa oportunidade. Provavelmente um Château Margaux 61, ou um Lafite-Rothschild 45. Haveria champanha Cristalle e Château d'Yquem depois e, finalmente, poire e uma variedade de outros licores. As senhoras se retirariam para outra sala reservada, enquanto os cavalheiros curtiriam seus charutos e conhaque e contariam histórias supostamente vulgares. Era um costume que pouca gente ainda usava, mas Henri gostava de velhos costumes. Alexandra sempre fazia as coisas do jeito que Henri gostava. Nunca lhe ocorreria sugerir-lhe algo diferente. Sempre fizera as coisas à moda dele. Sempre. E à perfeição.

Ficou sentada no seu gabinete, depois que as meninas saíram, pensando no marido e imaginando aonde iria naquela noite, e depois pensando nas filhas. Ouviu as vozes no jardim e soube que estavam brincando com a babá. As aulas logo acabariam e elas iriam para Cap Ferrat passar o verão. Ali era bom para as crianças e Henri se reuniria a elas dentro de algumas semanas, após acertar seus negócios no escritório de Paris. Sem dúvida se reuniriam a amigos no seu iate, e talvez fosse à Itália ou Grécia por alguns dias, deixando as crianças com a babá e os outros empregados. Era uma vida dourada, a única que Alexandra conhecera e, no entanto, às vezes, lá uma vez ou outra, Alexandra se permitia imaginar como teria sido a sua vida caso tivesse se casado com um homem diferente, alguém mais fácil, ou talvez mais moço. E então, sentindo-se culpada por aquele pensamento, ela o afastava da cabeça e sedava conta de como fora afortunada em casar-se com Henri.

Quando reviu Henri aquela noite, pouco antes de ele sair, parecia bonitão e impecável num terno muito bem cortado, com uma camisa branca perfeitamente engomada e gravata azul escura, com abotoaduras de safira cintilando discretamente nos punhos, seus olhos brilhantes e cheios de vida. Sempre parecia cheio de energia, de alguma reserva e força secretas que negavam os seus quase sessenta anos, fazendo com que parecesse muito mais moço.

- Está bonito, como sempre - sorriu ela para ele. Vestira u robe de cetim cor-de-rosa com chinelos de salto alto da mesma cor com o cabelo preso no alto da cabeça com uma cascata de cachos frouxos. Estava linda, mas era evidente pela expressão de seus olhos que era totalmente inconsciente disso.

- Obrigado, querida. Não volto tarde. - As palavras eram banais, mas a expressão de seus olhos parecia meiga e carinhosa. Sabia que ela o esperaria acordada, como sempre fazia, no seu próprio quarto, de luz acesa, e se ele quisesse poderia ir vê-la. Na maioria das vezes ele batia de leve à porta e vinha lhe fazer uma visita antes de ir se deitar, no seu próprio quarto contíguo ao dela. Ele preferia quartos separados. Insistira nesse ponto quando se casaram. Ela chorara por causa disso durante semanas, a princípio, e tentou fazê-lo mudar de ideia nos primeiros meses, se não anos. Mas Henri foi firme. Precisava do seu próprio espaço, da sua privacidade, e assegurava-lhe que ela também viria a precisar dos dela. E falava sério. Era só um hábito que tinha, como tantos outros. Com o tempo, ela acabara se acostumando. Tinham portas de ligação que davam fácil acesso aos quartos e a porta entre eles não o impedia de aparecer no quarto dela, de robe, tarde da noite, com uma frequência que sempre a agradava. E ainda sentia desejo ao olhar para ela, como agora. Mas havia outras mulheres que também o atraíam. Sempre tentava ser discreto, mas desconfiava que ocasionalmente ela sabia, nem que fosse apenas por instinto. As mulheres tinham uma queda incrível para esse tipo de coisa. Descobrira-o na sua juventude e tinha um grande respeito por isso.

- Divirta-se. - Ela o beijou de leve no rosto, e desceu à sala de jantar menor para comer com as meninas. Escutou o carro dele se afastar dali a momentos e se virou para ajudar Axelle a cortar a carne, tentando não pensar no que ele ia fazer.

- Por que o papai sai sozinho? - perguntou Axelle com naturalidade, e boca cheia, e Marie-Louise franziu a testa, reprovadora.

- É falta de educação perguntar - repreendeu, mas Alexandra sorriu.

- Tudo bem. Às vezes ele tem uns jantares de negócios, e prefere ir sozinho.

- Eles são muito chatos?

Interessava-se por tudo.

- Às vezes. - Alexandra riu. - Prefiro estar aqui com vocês duas.

- Que bom.

Axelle abriu um sorriso e anunciou que estava com um dente mole. Marie-Louise fazia uma careta de nojo para a irmã mais moça. Já havia passado por tudo aquilo, e a oferta de Axelle de mexer com o dente para todas verem a revoltou ainda mais.

- Pare com isso! Está me deixando enjoada! - Fez uma careta e Alexandra sorriu para elas. Nunca se sentia mais feliz do que quando estava com as filhas. Passou algum tempo no quarto de Marie-Louise aquela noite e descobriu que ela tinha uma nova amiga na escola, depois leu histórias para Axelle, beijou as duas e rezou com elas antes de se retirar para o seu próprio quarto. Era estranho. Às vezes Marie-Louise lhe lembrava outra pessoa, mas ela nunca tinha certeza de quem. Henri, talvez... é, quem sabe era isso. Depois afastou o pensamento da cabeça e tirou o penhoar. Tomou um banho quente e depois foi para a cama com um livro.

Passava da meia-noite quando Henri afinal chegou em casa. Ela o escutou no seu quarto antes que ele viesse lhe dar boa-noite.

- Ainda está acordada? Ela assentiu, com um sorriso. Gostava de esperar por ele. Ele costumava ser mais descontraído à noite, mais propenso a se abrir com ela sobre as suas ideias, planos ou problemas. 

- A noite foi agradável? - Correu tudo bem. - Os olhos dele pareciam perscrutar os dela, e então falou algo que não era comum, algo que a deixou mais aliviada do que ele poderia imaginar. Talvez ele não tivesse uma nova amante, afinal de contas, pensou com imenso alívio. - Devia ter levado você junto. Fiquei entediado sem você. 

Não era do feitio dele fazer-lhe um elogio assim. Ela sorriu e deu uma palmadinha na cama para que ele se sentasse e, quando ele o fez ela se inclinou e o beijou. 

- Obrigada, Henri. Também senti saudades suas... - Sua voz era meiga e o seu sorriso, aquele sorriso particular que sempre o excitava. - Eu me diverti com as meninas hoje. Marie-Louise é tão Séria e tão crescida, e Axelle ainda é... bem, ainda é um bebé. 

Ele sorriu. Também tinha orgulho delas, embora não o demonstrasse. 

- São boas meninas. - Henri se inclinou e beijou-lhe o pescoço. - Como a mamã delas... você também é uma boa menina, minha querida. - Eram palavras meigas que ela adorava ouvir, e lhe fizera bem. 

- Sou? - Sorriu maliciosamente para ele. - Que pena... 

Ela riu e ele se deitou ao seu lado, tocando-lhe o seio com uma das mãos, e beijando-a com toda a medida do seu desejo. Não tencionava fazer amor com ela aquela noite, mas ela estava tão linda, deitada na cama com a camisola de cetim rosa... às vezes era bem difícil para ele dizer o quanto gostava dela. Era mais fácil mostrar-lhe aqui, na penumbra do seu boudoir. Ele adorava as suas horas na cama, as suas noites lado a lado até que ele ia pé ante pé para o seu quarto, de manhãzinha. Gostava profundamente dela e das meninas, mas sempre era difícil para ele demonstrá-lo. E esperava tanto dela... de si mesmo... queria que ela fosse tudo aquilo com que sonhara, e de certa forma tinha sido por isso que se casara com ela. Jamais poderia ter se casado com alguém que fosse menos do que Alexandra. Mas a filha do conde de Borne era de uma linhagem digna da dele, sua criação a adequava perfeitamente para se tornar esposa dele e, nestes últimos catorze anos, ela provara que tinha razão. Orgulhava-se de quem ela era e de tudo que ele lhe havia ensinado. Era perfeita sob todos os aspectos, e ele jamais se contentaria com algo menos que Alexandra. Ele a queria num pedestal... excepto por estas raras vezes... nos seus braços... na cama dela... então ele podia permitir-lhe ser outra pessoa, ao menos por alguns momentos. E com um suspiro satisfeito e um último olhar para ela depois, sorrindo feliz para ele, virou-se para o outro lado e pegou no sono, totalmente saciado. 

 

O chofer guiou o Citroen pela Ponte Alexandre III até a Rive Gauche e dali a momentos, passando pelos Invalides, chegou à rue de Varenne. Ela sempre se sentia como se estivesse indo para casa. Tão linda quanto o hotel particulier na avenue Foch, tão faustosamente decorada, depois de todos esses anos a mansão dos pais na rue de Varenne ainda era como se fosse a sua casa, para Alexandra.

O seu coração sempre parecia dar um salto feliz quando ela via a casa e o caseiro abria os portões para que pudessem entrar no pátio. E então ainda havia aquele momento de tristeza, aquela pequena pontada, quando ela percebia que o pai jamais estaria presente de novo. Depois de todos esses anos, ainda sentia muito a ausência dele. Mas a perspectiva de ver a mãe era um consolo e uma alegria, uma volta ao lar cada vez que a via.

O velho mordomo sorria ao lado da porta da frente, escancarando-a num gesto de boas-vindas. E, para além dele, Alexandra podia ver as peças de valor inestimável que os pais tinham colecionado. Móveis lindamente marchetados, arcas Luís XV cobertas com mármore rosado e ornamentadas com belos bronzes. Umas que haviam comprado nos leilões de Londres. E os Renoirs, Degas, Turners e Van Coghs e Cassats de que a mãe tanto gostava. Era uma casa cheia de coisas belas, que seriam todas suas algum dia, uma perspectiva que ela nem sonhava pensar, mas a única que consolava Henri pela exasperação de ser aparentado com Margaret.

- Querida, já chegou? - A voz familiar chamou, vinda do andar de cima, da sala de estar que dava para o jardim, de que tanto gostava. Alexandra subiu rapidamente a escadaria de mármore, sentindo-se de novo como uma criança, com um sorriso feliz, ansiosa para ver a mãe. Encontrou-a sentada num sofá, bordando com os óculos na ponta do nariz, e um copo de vinho na mesa ao lado, a cadela Lavrador estendida na frente do fogo. Axelle e Marie-Louise adoravam a cadela, que era velha e simpática, mas Henri sempre se crispava quando, ela babava, lambia e beijava e soltava pêlo em cima de todas as pessoas que a tocavam. - Querida! - Margaret largou o bordado e ficou de pé, com toda a sua altura, uma bonita mulher de cabelos louros e olhos azuis que não diferiam muito dos de Alexandra, num costume V de Chanel rosa-vivo com blusa azul-marinho e sapatos combinando, e brincos de rubi do tamanho de maçanetas. - Meu Deus, quem morreu?

Ela recuou de repente, após beijar Alexandra. Olhou para a filha de cenho franzido e Alexandra abriu um sorriso. A mãe sempre usava roupas alegres, vistosas, de estilistas maravilhosos - Chanel, Givenchy, Dior e de Ribes - e quase sempre em cores vivas. Também combinavam com ela, mas Henri preferia Alexandra de preto, azul-marinho e bege e, no campo, de flanela cinza. Ela fora à casa da mãe num novo pretinho de Dior, com casaco da mesma cor.

- Ora, pare com isso. Esta roupa é nova e Henri a adora. - Ao contrário dos seus diálogos com o marido e as filhas, Alexandra sempre falava com a mãe em inglês e, embora falasse bem, tinha um sotaque francês pronunciado.

- Está horrível, você devia queimá-la. - Margaret de Borne sentou-se de novo no sofá, fez um sinal para o mordomo servir um copo de vinho a Alexandra e retomou o seu bordado, enquanto sorria contente para a filha. Sempre adorava as visitas dela e as conversinhas particulares que tinham. Também gostava de sair com ela, mas isto sempre era um pouco mais especial. As duas saíam mais do que precisavam, portanto não precisavam uma da outra como desculpa para frequentar os lugares da moda. Em vez disso, preferiam uma refeição simples de salada e queijo e frutas em bandejas na sala de estar de Margaret, que dava para o jardim. Ela olhou para a filha e sacudiu a caça com pesar evidente. - Gostaria que você parasse de pintar o cabelo nesse tom, meu bem. Parece uma daquelas louras desbotadas da Califórnia. Se eu tivesse essa cor de cabelo, eu a exibiria. Ficaria ainda mais ruiva! - Sacudiu os óculos para enfatizar as palavras, antes de colocá-los para bebericar seu vinho. Sempre adorava o ruivo do cabelo de Alexandra antes que ela começasse a usar a rinsagem loura. Parecia um desperdício enorme de um dos grandes dons da natureza. Ela própria tinha de retocar o cabelo duas vezes por mês no Alexandre's.

- Sabe que Henri detesta esse ruivo. É espalhafatoso demais. E acha que assim é mais refinado.

- Henri... o pobre homem tem pavor de fugir um pouco ao comum. Até me surpreende que ele não a mande usar uma peruca preta para cobrir tudo. Falando sério, querida, Deus lhe deu cabelos ruivos, e você devia curti-los.

- Para mim está bom assim.

Sorriu serenamente e sorveu o vinho. Estava acostumada com as queixas da mãe sobre o marido. As dele eram bem piores, sobre Margaret. E, Alexandra vivia com aquilo há catorze anos. Só lamentava que eles não gostassem um do outro, mas já desistira dessa ideia há muito tempo. Era óbvio que não iam se apaixonar um pelo outro.

- Você é acomodada demais. A propósito, o que achou destes? - Sorriu satisfeita, apontando para os novos brincos de rubi que usava. Podia se dar ao luxo dessas extravagâncias, em parte graças à generosidade de Pierre quando morreu, em parte graças à sua própria fortuna considerável. - Acabo de comprá-los.

- Foi o que imaginei. - Alexandra achou graça. A mãe estava sempre comprando belas roupas e jóias fabulosas. Aquilo lhe fazia bem, ela ficava bonita com o que comprava, e feliz, a despeito do que Henri dizia sobre uma mulher gastar "tanto dinheiro". - São lindos, e lhe ficam muitíssimo bem.

- Van Cleef. - Margaret parecia satisfeita consigo mesma. - E uma grande pechincha.

Alexandra riu gostosamente ante essas palavras, enquanto deixava de lado o copo de vinho.

- Posso imaginar.

- Não, na verdade! Custaram menos de cem mil.

- Dólares ou francos?

- Está brincando? Dólares, é claro.

Margaret sorriu sem o menor vestígio de culpa, enquanto Alexandra ria dela.

- Foi o que pensei. - Alexandra sorriu. Não era exactamente o tipo de pechincha que Henri aprovaria. E depois de mais de trinta anos na França, a mãe ainda falava mais inglês do que francês, e calculava tudo em dólares. - O que mais andou aprontando?

- O de sempre. Almocei com Mimi de Saint Bré ontem. - Era outra americana que se casara com um nobre francês e, como Margaret, era inteligente e tinha um senso de humor maluco. - Vamos juntas para Nova York na semana que vem.

- Para quê?

- Para fazer o cabelo e fazer umas comprinhas. Há meses que não vou lá, e achei que seria divertido, antes do verão. Depois, vou me encontrar com alguns amigos em Roma, e pensei em passar algumas semanas em San Remo. Ainda não resolvi.

- Por que não passa umas semanas com a gente, depois disso?

Alexandra parecia encantada com a ideia, mas a mãe fez um ar cauteloso.

- Não quero deixar o seu marido nervoso.

- Basta não trazer para as meninas almofadas que gemem e cigarras de mão e tudo dará certo.

As duas riram. Henri quase tinha desmaiado ao se sentar na sala com visitas, indo parar bem em cima de uma das almofadas que gemiam que Margaret e as crianças tinham colocado ali.

- Lembra como foi horrível? - Margaret não conseguia parar de rir ante a lembrança e havia lágrimas nos olhos de Alexandra de tanto rir. Fora horrível para Henri, mas na verdade engraçado, e elas tinham sido todas mandadas para o quarto mais tarde, inclusive Margaret, que ensinara Marie-Louise a arrumar a cama dobrando o lençol, de tal forma que o ocupante não pudesse esticar as pernas, o que complicara ainda mais as coisas. Ninguém duvidava de que ela não era a hóspede favorita de Henri. - Na verdade, pensei em procurar alguma novidade para elas em Nova York... nada tão escandaloso, é claro...

Mas os olhos dela cintilaram maliciosamente ante a ideia. Costumava comprar aqueles brinquedos tolos para o seu falecido marido, e ele sempre os adorava. Para ele, estar casado com Margaret era como ter uma outra filha. Alexandra sempre fora um pouco mais séria, mesmo em criança, e especialmente depois que se casou.

- Vou avisar a Henri que você virá.

Margaret abriu um sorriso.

-Espere até eu estar com vontade de aborrecê-lo de verdade.

- Mamãe! -Alexandra achou graça. A mãe tinha tão poucas ilusões. - Você faz com que ele pareça horrível, mas ele não é!

Sempre defendia o marido, mas diante de Henri defendia a mãe. Era leal a ambos.

- Ele não é horrível, querida, a besta.

A tarde passou voando, como sempre acontecia quando estavam juntas. Às quatro e meia Alexandra olhou para o relógio de pulso e se espreguiçou, pesarosa. Sentia-se à vontade na sala aconchegante, olhando para o jardim, e na companhia da mãe. Sempre se divertiam - sorriu Margaret. - Só metido muito juntas. Margaret ainda era a sua amiga mais intima, e sempre fora.

- Tenho de ir... embora sem vontade. - Alexandra se levantou com pesar evidente, enquanto Margaret a observava.

- Por quê? Vai dar uma festa esta noite?

- Não, na semana que vem. Hoje vamos jantar no Elysée, e Henri vai ficar nervoso se eu não voltar para casa cedo e começar a me aprontar.

- Você devia fazer alguma coisa maravilhosa para surpreendê-lo, tal como botar um vestido grudado na pele coberto de lantejoulas, e eriçar todo o cabelo. Isso lhes faria bem, no Elysée. - Soltou uma risadinha abafada ante a ideia e Alexandra sorriu. A mãe provavelmente eria feito algo assim, e Henri estaria ligando para os seus advogados na manhã seguinte. Com ele, sempre havia essa implicação. É só sair da linha e... Alexandra nunca o punha à prova naquele sentido. Amava-o demais para arriscar tudo em peças como as que a mãe pregava. E, além disso, não era do seu feitio.

- Você é muito mais corajosa do que eu, mamã.

- É só porque não sou casada com o seu marido. Posso fazer exactamente o que quero, agora. E, antes disso, seu pai sempre me deixava aprontar o que eu quisesse. Tive muita sorte. - Sorriu com meiguice para a filha.

- Papa também tinha sorte. E sabia disso - lembrou-lhe Alexandra. As duas se abraçaram e desceram devagar as escadas, enquanto o mordomo esperava para abrir a porta com o seu sorriso cálido habitual. Estava com eles desde que ela era menininha e chamava-a de "Madame Alexandra" enquanto a ajudava a entrar no carro e fechava a porta com firmeza. Acenou para a mãe enquanto o chofer a levava para casa no Cirtron, e sentiu a mesma tristeza que sempre sentia ao se apartar da mãe. A vida era tão simples na rue de Varenne, morando com os pais... antes... mas isso também não era justo. Amava Henri e, é claro, as crianças. Eram a força vital da sua existência. Mas ver a mãe sempre a fazia ansiar por uma vida simples, e uma época em que não precisava corresponder a tantas expectativas.

Ainda pensava naquilo enquanto tirava o vestido e corria para o banho, e pegava um traje de noite preto, sóbrio e sem decotes para o jantar daquela noite no Elysée Palace.

As meninas vieram cumprimentá-la na banheira, e ela ouviu Henri entrando no seu gabinete na hora em que se vestia. Mas ele não veio falar com ela, e não o viu até que se encontraram no saguão de entrada, prontos para sair. O vestido dela tinha mangas compridas e gola alta, e uma saia longa e estreita bordada de dourado. Era muitíssimo bem-feito e fazia parte de uma antiga coleção de Saint Laurent. Usava-a com uma jaqueta curta de zibelina e um par de fabulosos brincos de brilhante que o pai lhe dera.

- Está linda hoje. - Os olhos dele expressavam admiração, a voz era contida e os modos impecavelmente formais.

- Obrigada. - Voltou-se para ele com a sua beleza loura, o cabelo preso num coque retorcido igual ao que Grace Kelly usara anos antes. Ficava bem em Alexandra, e Henri o aprovava. - Passou um bom dia?

Os olhos dela pareciam solitários, e ela desejou de repente que ele a beijasse, mas ele não o fez.

- Muito agradável, obrigado - respondeu ele. Havia ocasiões em que pareciam dois estranhos, e as intimidades da véspera pareciam quase inteiramente esquecidas na formalidade do momento. Ele a ajudou a entrar no carro e o chofer arrancou, com os dois imersos em pensamentos, em mundos separados no banco de trás, e duas garotinhas de camisola espiando da janela do andar de cima.

 

No dia seguinte ao encontro com Arthur Patterson, quando ele lhe dissera não saber como localizar suas irmãs, Hilary sentiu como se o mundo tivesse acabado. Tinha dezessete anos e sentia como se a sua vida chegasse ao fim. Há anos que só vivia para encontrar Megan e Axie. E agora não havia esperanças. Elas estavam perdidas para sempre.

Começou no primeiro emprego no dia seguinte, com um vazio doloroso no peito, mas seu rosto estava calmo, os olhos tranquilos, e ninguém adivinharia a agonia de desespero que sentia. A única coisa que a impulsionava era a sua determinação de sobreviver a despeito de tudo, e seu ódio por Arthur.

Sentia‑se como uma máquina enquanto passava pelos dias e noites, mas fazia o seu serviço bem. Melhorou a sua datilografia, estudou estenografia num livro, e cursava a faculdade à noite, como prometera fazer anos atrás. Fez tudo que dissera que faria, mas o tempo todo não havia uma sensação de realização, mas sim de determinação implacável. Ia vencer a todo custo, mas nem ela mesmo sabia por que queria vencer. Não havia ninguém a quem gravar alguma coisa. Ninguém que se importasse. Ninguém para amar ou que a amasse.

Ficou no emprego um ano, depois conseguiu um melhor. Soubera dele antes de qualquer outra pessoa, na agência de empregos onde trabalhava, e foi à entrevista antes que qualquer outra pessoa ficasse sabendo dele. Era como recepcionista da CBA‑News. Era um emprego fabuloso que pagava quase o dobro do atual. E tinha de ser rápida, esperta e eficiente, três qualidades que possuía. A mulher que a entrevistou ficou muito impressionada com ela. Conseguiu o emprego e ainda continuou estudando. E obteve aumentos constantes dali em diante. Acabou virando secretária, depois assistente de produção e, dentro de cinco anos, produtora. Era incrivelmente inteligente, e a essa altura já se formara na faculdade. Tinha 23 anos e estava embalada para seguir uma carreira de verdade. Era respeitada por seus superiores, temida por alguns dos subordinados (a maioria, na verdade), e parecia ter poucos amigos no trabalho. Mantinha‑se distante e trabalhava muito, ficando depois da hora na maior parte do tempo e apresentando projetos merecedores dos elogios que ganhava. Era uma moça admirável, e quando se tornou uma das principais produtoras do noticiário da noite, aos 25 anos, Adam Kane, o encarregado dos noticiários da rede, convidou‑a para sair para comemorar. Ela hesitou, depois decidiu que não seria sensato, politicamente falando, recusar o convite. Aceitou graciosamente e foi jantar com ele no Brussels, bebendo champanha e falando de negócios, discutindo a importância da rede e até onde pretendia chegar. Ele ficou surpreso ao ver que tinha metas de longo alcance, especialmente porque eram mais ambiciosas do que os seus próprios planos para o futuro.

- Ei, calma aí... o que é isso?... reunião de equipe para o Movimento de Libertação da Mulher? - Ele era um homem atraente, de cabelos e meigos olhos castanhos e um jeito filosófico de encarar a vida. ‑ Por que planos tão grandes? ‑ Ela era a primeira mulher que conhecia que admitia suas ambições para ele, e revelou a ela que achava aquilo assustador. Ele e a mulher tinham acabado de se divorciar porque ela achava que não queria "mais ser uma esposa", o que o abalara até o âmago. Tinham dois filhinhos e uma casa em Darien, e agora, de repente, ele se viu morando sozinho no West Side, e as mulheres vinham lhe falar sobre "metas dentro da administração da companhia". Riu baixinho enquanto olhava para ela. Era tão bela, jovem e intensa e, no entanto, faltava alguma coisa. - O que aconteceu às mulheres que querem ter filhos e morar longe do centro? Isto está totalmente fora de moda?

Ela sorriu para ele, consciente de que podia ter sido enfática demais, mas é que raramente saía com homens. Esquecia de que era preciso ser discreta, e este homem era simpático. Gostava de trabalhar para ele.

- Acho que isso nada tem a ver com algumas de nós.

Não se desculpou pelo seu modo de ser. Sabia onde queria chegar e nada a deteria. Ainda fugia dos demónios do passado, depois de dezesseis anos, e sabia que provavelmente fugiria para sempre. Aceitava isto agora, embora não o explicasse para ele. Não contava nada a ninguém. Morava sozinha e ia trabalhar e, fora isso, não tinha interesse em nada. Ele o pressentiu e temeu por ela. Sabia o quanto mais existia na vida. Tinha 38 anos e se casara aos 23. E agora estava descobrindo intermináveis novos horizontes.

- Não quer um marido e filhos, algum dia?

Ela sacudiu a cabeça. Achava que podia ser sincera com ele.

- Isso não é muito importante para mim. - Era mais do que isto, ela não queria ninguém que pudesse perder... ainda mais duas menininhas... duas criancinhas que alguém podia tirar dela... Sabia que nunca deixaria que tal lhe acontecesse. Queria ficar sozinha, e ficava. Só doía ocasionalmente, como agora, enquanto olhava para esse homem e imaginava como seria ficar junto dele. Ou quem sabe era só o champanha?

- Meus filhos são a melhor coisa na minha vida, Hilary. Não se prive disso.

Ela não podia dizer‑lhe que, de certa forma, já tivera filhos. Jamais contava a ninguém, e sabia que jamais contaria. Jamais.

- Por que todo mundo pensa que é preciso ter filhos para se completar?

- Hoje em dia não pensam. A maioria das mulheres pensa como você, mas estão erradas. Hilary, as mulheres que não têm filhos agora vão entrar em pânico daqui a dez ou quinze anos, escute o que estou dizendo, vamos ver toda uma geração de mulheres lutando contra a sua biologia antes que seja tarde demais. Mas agora estão tranquilas, acham que têm anos pela frente. Mas é um erro pôr isso de lado. - Você nunca se casou?

Fitou‑a nos olhos e gostou do que viu: coragem, honestidade, integridade e inteligência. Mas também percebeu o medo. Ela estava fugindo de alguma coisa e ele não conseguia adivinhar o que a magoara. Talvez tivesse tido uma experiência ruim com alguém... parecida com a dele com Barb. Ainda não conseguia acreditar que ela o deixara e levara os filhos.

Hilary sacudiu a cabeça em resposta.

- Não, nunca me casei. - E então soltou uma risada. - Tenho só vinte e cinco anos. Para quê a pressa?

- Hoje em dia não há nenhuma. Só estava curioso. Eu tinha vinte e três anos quando me casei, e minha mulher, vinte e um. Era um bocado importante para a gente. Mas isso faz quinze anos, as coisas mudaram à beça desde então. Estamos em 1974. Nós nos casamos em 59. - E então sorriu para ela enquanto tomavam o resto do champanha. - O que fazia nessa época? Provavelmente não passava de uma criança.

Os olhos dela se turvaram, recordando. 1959... ela estava em Boston, com Eileen e Jack... ou será que estavam em Jacksonville, àquela altura?... só de pensar nisso quase se sentiu mal. Axie e Megan já tinham partido.

- Ah, nada de importante. Eu morava com uma tia em Boston, nessa época.

Tentou fazer com que parecesse normal, quase divertido.

- E os seus pais?

- Morreram quando eu tinha oito... nove anos...

- Separadamente? - Ela fez que sim, ansiosa para voltar a falar de trabalho. Não queria falar sobre isso com ele. Com ele ou com qualquer outra pessoa. - Que terrível. Em acidentes? - Ela assentiu displicentemente e terminou o seu champanha de um gole só. - Você era filha única?

Ela o olhou nos olhos, então, com uma dureza que ele não compreendia, fez que sim.

- Era, sim.

- Não me parece muito divertido.

Sentiu pena dela, e Hilary detestava isso. Não queria a piedade dele ou de outra pessoa qualquer. Tentou sorrir para ele a fim de modificar o ambiente, mas ele a fitava com tanta intensidade que a deixava nervosa.

- Talvez seja por isso que amo tanto o meu trabalho. É o meu lar.

Aquilo lhe pareceu patético, mas ele ficou calado.

- Onde estudou?

- Universidade de Nova York. - Mas não lhe contou que estudara à noite, enquanto trabalhava de dia.

Ele assentiu.

- Barb e eu estudamos em Berkeley.

- Deve ter sido divertido.

Sorriu e ele mudou de assunto, sem querer mais falar na ex‑mulher, mas só nela.

- Que bom que viemos jantar juntos hoje. Há muito tempo que quero conversar com você. Faz um trabalho danado de bom na rede.

- E devia fazer. - Abriu um sorriso. - Já estou na CBA há muito tempo. Anos.

Seis anos de abrir caminho e empurrar até subir a produtora. Tinha o direito de sentir orgulho de si mesma, e sentia. Percorrera um longo caminho desde a casa para menores de Jacksonville, ou dos lares de adoção em que estivera, ou mesmo da sua vida com Jack e Eileen, em Boston.

- Acha que vai ficar?

- Na CBA? Por que iria para outro lugar?

- Porque, nesse ramo, as pessoas circulam um bocado. - Fora o que acontecera com ele.

Ela sacudiu a cabeça, com uma expressão de determinação nos olhos que o espantou.

- Não vou a lugar algum, meu amigo. Estou de olho num gabinete beeeem lá em cima.

E ele sentiu que falava sério, mais sério do que falara a noite toda.

- Por quê? - Aquele tipo de ambição o intrigava. Era bem sucedido e gostava do seu trabalho, mas nunca aspirara a grandes voos, e não conseguia imaginar alguém desejando isso, especialmente uma bela jovem.

- Porque é importante para mim. - Estava sendo sincera com ele. - Significa segurança. E realização. E é algo tangível que posso levar para casa à noite.

Mas ele não tinha ilusões.

- Até que a despeçam e contratem outra pessoa. Não se entregue exclusivamente ao trabalho, Hilary. Vai acabar sozinha algum dia, e desapontada.

- Isso não me assusta. - Estivera sozinha a vida toda. Estava acostumada. Na verdade, preferia que fosse assim. Ninguém podia magoá‑la, desapontá‑la ou atraiçoá‑la daquele jeito.

Era uma garota estranha, ele pensou, e nunca conhecera alguém tão independente. Levou‑a em casa no fim da noite e esperou que o convidasse a subir, mas ela apertou‑lhe a mão com um sorriso cálido e agradeceu pela noite agradável. E ele foi para casa tão excitado, que ligou para ela logo ao chegar. Nem se importava se ia acordá‑la, e duvidava que já estivesse dormindo.

A voz dela estava rouca quando atendeu e ele fechou os olhos, escutando‑a. Era um bom sujeito, e detestava morar sozinho. E ela era tão linda... sabia que os filhos também iam gostar dela...

- Alô?

- Oi, Hilary... só queria lhe dizer como a noite de hoje foi gostosa.

Ela riu baixinho, e ele gostou do som da risada.

- Para mim também. Mas não tente me distrair durante o trabalho, Sr. Kane. Não pretendo perder o emprego por causa de ninguém. Nem mesmo de você.

- Entendido. Quer almoçar comigo essa semana?

- Claro. Se não estiver muito cheia de trabalho.

- Que tal amanhã?

Ela riu de novo, uma deliciosa mistura de cálido e frio.

- Por que não relaxa, Adam? Já lhe disse, não vou a lugar nenhum.

- Óptimo. Então vamos aproveitar isso. Pego você na sua sala ao meio‑dia e quinze, tá? - Ele parecia um garotinho e ela sorria na escuridão, deitada na cama, e por mais que detestasse admiti‑lo, até para si mesma, ele mexia com ela como nenhum outro homem até então. E confiava nele. Talvez não fizesse mal... só um ou dois almoços... que mal haveria nisso? Não se permitira mais do que isso desde a sua vinda para Nova York e, estranhamente, nunca desejara ninguém. Outras pessoas tinham namorados, casos, e corações partidos. E Hilary só queria promoções, aumentos, e trabalho. Este era o seu amante, o trabalho, e até agora a tratara bem. - Meio‑dia e quinze? - repetiu ele, diante do silêncio dela.

- Mimo. - A voz dela fluiu pela única palavra e ele se sentiu flutuando, quando desligou.

Havia uma única rosa na mesa dela no dia seguinte. Eles almoçaram no Veau d'Or e ela só voltou à sua sala às três horas.

- isto é terrível, Adam. Nunca faço essas coisas. - Jogou o longo cabelo negro por sobre o ombro e enrolou as mangas da blusa. Era um dia belo e quente e ela não sentia vontade de voltar ao trabalho. - Você é uma péssima influência. Acabo de ser promovida e você vai fazer com que me botem no olho da rua.

- Óptimo. Então você casa comigo? Podemos nos mudar para Nova Jersey e ter dez filhos.

- Que deprimente. - Ela o fitou com seus gélidos olhos verdes e ele sentiu algo que jamais sentira antes. Ela se tornou um desafio. Havia um muro à sua volta que ele teria feito tudo para escalar, mas ainda não tinha certeza até onde ela o permitiria chegar. Ainda estavam se rodeando cautelosamente, mas ele tinha muito a lhe dizer, e Hilary era uma companhia.inteligente. E ele a atraía como ninguém antes dele. Era uma combinação perigosa, e às vezes a assustava, especialmente quando atrapalhava o seu trabalho. Mas, afinal de contas, ele era o seu chefe.

Adam a convidou para jantar no sábado, mas ela recusou, como recusou também os dois convites seguintes para almoçar, mas ele parecia tão infeliz quando parou para conversar com ela que Hilary finalmente cedeu e concordou em sair com ele na sexta‑feira à noite. Foram comer um hambúrguer no P.J. Clarke's, depois subiram a Terceira Avenida até o novo apartamento dela na rua 59.

- Por que mantém tanta distância entre nós? - Ele parecia sinceramente infeliz. Estava louco por ela, e morrendo de vontade que ela o deixasse se aproximar mais.

- Não tenho certeza se é uma boa ideia. Poderia tornar as coisas muito complicadas no trabalho. Você é meu chefe, Adam.

Sorriu para ele e, embora muito atraída por ele, receava as repercussões no escritório.

E então ele sorriu, pesaroso.

- Não por muito tempo mais, se é que faz alguma diferença para você. Vou ser transferido para Vendas dentro de duas semanas. Soube hoje.

- E como está se sentindo?

Estava preocupada por ele. Não era exactamente uma promoção e, no lugar dele, ficaria arrasada, mas ele não parecia muito perturbado enquanto dava de ombros e sorria para ela.

- Não é nada de especial. Posso até gostar mais do que de onde estou... excepto por você, é claro. Você vai me ver mais vezes, depois?

As coisas certamente ficariam mais fáceis para ela, mas ainda não tinha certeza se devia se envolver com ele. A vida era muito mais fácil vivida como celibatária.

O celibato se tornara um meio de vida para ela, e desistir dele significava arriscar uma parte de si mesma.

- Hilary? - Olhava para ela enquanto caminhavam, e tomou-lhe a mão com meiguice. Parecia muito jovem, sorrindo para ela, e ainda o era, de algumas maneiras. - Quero ficar com você... significa muito para mim...

- Adam, você nem sabe quem sou... eu podia ser qualquer pessoa... La femme aux yeux verts... - As palavras lhe escaparam, e ela riu.

- O que quer dizer isso?

- É francês. - Ela recordara o seu francês na faculdade, e ficara surpresa ao descobrir que ainda existia, adormecido mas não morto, um presente final da mãe. - Quer dizer a mulher de olhos verdes.

- Como aprendeu a falar francês?

Ele queria saber tudo a seu respeito, e havia tão pouco que ela lhe queria contar

- Eu falava há muito tempo... quando era criança. Depois estudei de novo na faculdade.

- Os seus pais falavam francês?

Ela poderia ter‑lhe dito, então, poderia ter começado a se abrir, poderia ter dito algo sobre Solange, mas decidiu que era melhor não o fazer.

- Não, aprendi na escola, acho.

Ele assentiu, satisfeito com a resposta. Quando chegaram ao seu apartamento, depois de um momento de hesitação, ela o convidou a subir. Escutaram Roberta Flack na vitrola, conversaram horas enquanto tomavam uma garrafa de vinho. Ele se levantou pesaroso por volta de uma hora e olhou para ela com um sorriso melancólico.

- Gostaria de passar a noite com você, Hilary, mas tenho a impressão de que ainda não está pronta para isso... está? - Ela sacudiu a cabeça, sem ter certeza se algum dia estaria. As pessoas tinham tentado se aproximar dela, mas ela não se sentira tentada, nem de longe. - Você está envolvida com alguém? - Já há algum tempo que pretendia fazer essa pergunta, mas ficava protelando. Ela sacudiu a cabeça em resposta, olhando para ele de modo estranho.

- Não, não estou... há muito tempo... que não estou...

- Por algum motivo especial?

- Por muitos. A maioria complicada demais para explicar.

Ele se sentou no sofá e olhou para ela suavemente.

- Por que não experimenta me explicar? - Ela deu de ombros outra vez. Não queria lhe contar pelo que passara. Não era da conta de ninguém. Agora levava uma vida diferente, em outro lugar, outro mundo. Não queria arrastar essas coisas consigo, no entanto arrastava-as, a despeito de todos os seus esforços para negá‑las.

- Desculpe, Adam... não posso...

- Por que não? - Estendeu a mão e tomou a dela na sua. Não confia em mim?

- Não é isso. - Sentiu que estava com os olhos rasos de lágrimas e se detestou por isso. - Não quero falar sobre isso... verdade... - Ficou de pé e se afastou, os ombros orgulhosos empertigados contra o mundo e tudo o que ele lhe fizera. E, sem saber, ela parecia exactamente a mãe.

- Hilary... - Ele se aproximou dela por trás e a abraçou. - Por que não se solta? Sei como você é forte, já vi no trabalho, mas isto é diferente... isto é a gente... isto não é uma zona de guerra.

A voz dela soou cansada quando falou com ele, de cabeça baixa:

- A vida é uma zona de guerra, Adam.

- Não precisa ser. - Ele era tão meigo, tão inocente. Ela lhe invejava a vida simples. A coisa mais difícil que já lhe acontecera fora a mulher decidir que queria ser livre e abandoná‑lo. Mas ele nada sabia das agonias que Hilary suportara. Nem podia começar a entendê-las. - A vida pode ser tão doce... se você deixar...

- Não é tão fácil assim. - Ela soltou um suspiro e olhou para ele. - Acho que você não compreende a vida que tive e acho que eu não poderia explicá‑la.

- Então por que não recomeçar daqui? Não é possível fazer isso, e deixar o passado para trás?

- Talvez.

Ela não tinha certeza se podia ser feito, mas estava disposta a tentar. Ele a tomou nos braços e a beijou, docemente a princípio, depois com mais paixão. Há semanas, meses, que ele a desejava, desde a primeira vez em que a vira, e agora não conseguia se conter. Despiu‑a, tirou as próprias roupas e levou‑a para a cama, onde começou a fazer amor com ela. Contudo, ela jazia distante e fria, e secretamente amedrontada. Algumas das coisas que ele fazia com ela eram as mesmas coisas que Maida e Georgine tinham feito... e algumas das outras coisas lembravam‑lhe os garotos que a tinham estuprado no dia seguinte à partida de Maida e Georgine. Era coisa demais para superar, mesmo com um homem bom como.Adam. E ele não demorou a perceber que ela não queria continuar. Afastou‑se, ainda ardendo de desejo por ela e sem conseguir entender o que tinha acontecido.

- O que foi? - A voz dele estava rouca, os olhos turvos de paixão não consumada. - Eu a quero tanto.

- Desculpe... - sussurrou ela, e se deitou de lado, fitando a parede oposta, perguntando‑se se algum dia seria normal. Talvez nunca conseguisse superar o passado. )estava com 25 anos, e começava a desconfiar disso. Havia gente demais a quem odiava... Arthur Patterson... Jack Jones... os garotos que a estupraram... Maida e Georgine... Eileen... as pessoas no centro de detenção juvenil... e, na distância, até mesmo o pai. Era um fardo grande demais para carregar e ainda permitir que funcionasse como mulher. - Não é você - tentou explicar. - Só que não posso.

- Por quê? Tem de me contar. - Ele procurava se sentar calmamente na beira da cama, tentando aceitar, compreender. E ela se sentou e se virou. Talvez fosse melhor chocá­-lo do que magoá‑lo.

- Fui estuprada há muito tempo... - Não queria dizer mais, e esperava que aquilo fosse o suficiente, mas claro que não era.

- Como?... por quem?

- É uma longa história. - E qual delas devia lhe contar? Maida e Georgìne, que foram as primeiras, ou os garotos que as sucederam? Ou Jack, que se esforçara ao máximo para precedê‑los e depois a espancara violentamente, quando não conseguira o seu intento? Todos eram possíveis candidatos ao papel, mas ela não podia imaginar Adam capaz de suportar a verdade que ela lhe dissesse.

- Quando aconteceu?

- Quando eu tinha treze anos... - Pelo menos isso era verdade. - Tudo acontecera antes de fazer catorze anos. - Ela respirou fundo. - E nunca mais houve ninguém, desde então - .Acho que devia ter‑lhe contado.

- Cristo! - Ele parecia profundamente abalado pelo que acabava de ouvir. - Teria ajudado, sem dúvida. Como é que eu podia saber de uma coisa dessas?

- Não pensei que tivesse importância.

- Ah, verdade? Você foi estuprada há doze anos, nunca mais teve relações com ninguém, e pensou mesmo que não faria diferença? Como pode fazer isso a você, e a mim, pelo amor de Deus? E quanto à terapia? Fez muita, desde então? - Imaginava que sim, é claro, todo mundo que conhecia fazia terapia. Ele próprio voltara ao seu psiquiatra tão logo a mulher o abandonara.

- Não. - Ela falou muito calmamente, e se levantou para vestir um roupão de banho. Tinha um corpo longo e lânguido, e pernas belas e graciosas que o faziam doer de desejo, mas tentou se forçar a não pensar em sexo.

- O que quer dizer com "não"? Você obteve ajuda depois do estupro, não? Sim? Certo?

Ela sorriu para ele. Pois sim.

- Não. Errado. Achei que não precisava.

- Está maluca?

- Está bem, digamos que não estava ao meu alcance na época.

- Onde estava? No Pólo Norte? Em que lugar no mundo moderno a terapia não está ao nosso alcance?

Ah, Deus, ele não entendia nada do que fora a vida dela. Terapia? Onde? Na casa de Louise ou no centro?

- Já lhe disse, Adam. - Ela estava ficando irritada, mas ele se desesperava. - Não quero discutir o assunto. É complicado demais.

- Complicado demais ou doloroso demais?

Ela desviou os olhos para ele não enxergar a dor que já lhe infligira.

- Por que simplesmente não esquecemos isso?

- Isso o quê? O relacionamento? Por quê? Você não é mulher de desistir, Hilary.

Agora ele estava sinceramente zangado. Ela teria feito qualquer coisa pelo seu emprego, Mas não por ele, ou pelo relacionamento que poderiam ter, se estivesse disposta.

- Por que não esquecemos o problema, Adam? Ele passará, com o tempo.

- Verdade? Quanto tempo faz? Doze anos, você falou, e eu não diria exactamente que está curada. Quanto tempo quer esperar para que "passe"? Trinta anos, quem sabe? Ou que tal 50? Você deve estar se sentindo muito melhor, a essa altura e, Cristo!, estará apenas com 63 anos, poderá ter uma óptima vida sexual. Hilary, fale sério! - Tomou a mão dela e a fez sentar na cama ao lado dele, mas queria demais dela, e Hilary já sabia que não lhe poderia dar. Ele queria tudo: coração e alma, compromisso, casamento e filhos. Podia sentir isso nele, queria tudo o que a esposa tinha levado e ainda mais. E ela sabia, com toda a segurança, que não tinha. Não sobrara nada para dar a ele. Só podia aceitar, ou talvez se estender por algum tempo, se ninguém pedisse demais, porém o resto não existia. Todo o seu amor fora dado há muito tempo, e todas as suas energias eram reservadas para o seu futuro na rede. - Quero que faça terapia.

Ele a fitava, como que anunciando que queria que ela fizesse uma cirurgia no cérebro, e ela não pretendia fazer o que pedia. Só Deus sabia o que iriam encontrar.

- Não posso.

- Besteira. Por que não?

- Não tenho tempo.

- Você está com vinte e cinco anos e tem um problema.

- Não é um com que não possa viver.

- Você não está vivendo, está existindo.

Aos poucos, ela também estava ficando zangada. Ele não tinha o direito de ficar julgando o seu modo de vida, só porque não quisera fazer amor com ele.

- Talvez melhore. - Mas ela não parecia se importar, e aquilo o deixou perturbado.

- Por si só? - Ela fez que sim. - Duvido.

- Me dê um tempo, Adam. Esta é só a primeira vez.

Ele ficou calado por um longo tempo, observando‑a. Enxergou mais do que ela queria.

- Tem muita coisa que não está me dizendo, não é?

Ela deu um sorriso de esfinge.

- Não é assim tão importante, Adam.

- Não acredito. Acho que você vive a sua vida toda por trás dos muros de uma fortaleza.

- Costumava viver... há muito tempo...

- Por quê?

- Porque havia muita gente disposta a me magoar.

- E agora?

- Eu não permito.

Ele parecia penalizado e se inclinou para beijá‑la com a mão pousada de leve no seu ombro, os dois sentados na beira da cama desfeita, onde a sua paixão fora tão malsucedida.

- Não vou magoá‑la, Hil... juro... - Havia lágrimas nos olhos dele e ela desejou poder sentir alguma coisa por ele, mas não podia. Não podia sentir nada por ninguém, e agora sabia disso, excepto se talvez ele despertasse nela alguma paixão desconhecida, mas também não podia imaginar isso. - Eu te amo...

Ela não tinha resposta para essas palavras e apenas olhava‑o com tristeza. E então ele sorriu e a beijou de novo. Ele compreendia, e aquilo a emocionava.

- Tudo bem... não precisa dizer nada... apenas deixe que eu a ame... - Ele a deitou nos travesseiros e esculpiu suavemente o seu corpo com um dedo, levando‑o para perto do seu centro, e depois afastando-o, rodeando os seios e descendo pela barriga, e subindo de novo, tocando‑a com a língua, o coração e os dedos, nada mais, e depois de horas desse exercício, ela se contorcia e implorava algo mais, porém ele não o fez. Em vez disso, deixou que ela o sentisse, e tocou‑a de leve com o seu membro latejante. Percorreu‑lhe o corpo com ele, como uma mão de cetim, e ela se inclinou e começou a beijá‑lo, e a tocá-lo suavemente até que ele também se contorcia como ela, e então, com os lábios e depois com os dedos, ele a tocou e sentiu que ficava assustada e rígida. - Está tudo bem, Hil... tudo bem... não vou machucar você... eu... por favor, meu bem... me deixe, por favor... por favor... Ah, Deus, você é tão linda... - Falava com ela como a mãe com um bebé, e lentamente a penetrou e a tranquilizou até gozar, mas sabia que ela não havia acompanhado, mas, pelo menos, já era um pouco melhor. - Sinto muito, Hil...

Queria mais para ela, queria tudo o que ele próprio sentia, mas era pedir demais.

- Não sinta. Foi lindo. - Ela ficou deitada ao lado dele e Adam acabou dormindo. Ela o observava, imaginando se algum dia sentiria por ele o que ele desejava, se seria capaz de senti‑lo por alguém, ou se seu corpo estava cheio demais de ódio.

Ele foi embora na manhã seguinte, antes de Hilary se vestir para ir trabalhar, e a convidou para almoçar, mas ela alegou estar muito ocupada. Quis se encontrar com ela à noite, mas Hilary tinha uma reunião. Desesperado, pediu que ela saísse com ele e os filhos, no domingo. Ela pareceu estranhamente hesitante ante o convite, como se prestes a dizer não, mas Adam parecia tão magoado que acabou concordando.

- São uns garotos óptimos, você vai adorar.

- Estou certa que sim.

Ela sorriu, mas estava com receio. Há anos que evitava crianças e não ansiava conhecer as dele, ou se apegar a elas. Há muito tempo que se fartara de crianças. As duas únicas que amara lhe tinham sido tiradas.

Marcaram o encontro no Central Park e, no domingo de manhã, ela vestiu jeans e uma camiseta e foi se encontrar com ele. Adam prometera trazer as bolas de beisebol, a cesta de piquenique e as crianças. E quando ela os enxergou debaixo de uma árvore, o menorzinho no colo e o de seis anos sentado ao seu lado, sentiu algo se agitar no seu coração, que estava tão entorpecido que ela quase não conseguiu suportar. Parou de chofre e teve vontade de sair correndo, mas não podia fazer isso com ele. Mas, à medida que se aproximava, a coisa só piorava. O que viu nos olhos dele foi o tipo de amor que tivera por Megan e Axie.

Não aguentou até à hora do almoço. Ficou vendo os três arremessando bolas de beisebol por meia hora, depois alegou que estava com uma tremenda dor de cabeça. Saiu correndo do parque em lágrimas e voltou ao seu apartamento sem parar para um sinal, carro ou pessoa.

Ela ficou na cama o dia todo, soluçando; depois forçou‑se a aceitar novamente que Megan e Alexandra tinham saído da sua vida para sempre. Precisava forçar‑se a entender isso. Não fazia sentido continuar apegando‑se às irmãs. Ninguém sabia onde estavam, de qualquer maneira, e teria sido praticamente impossível encontrá‑las. Não fazia sentido torturar‑se agora. E elas não eram mais crianças, eram mulheres. Alexandra estaria com 22 anos a essa altura, e Megan com 18. Mas não adiantava pensar mais nelas. Não eram mais crianças perdidas e ela jamais voltaria a vê‑las. Mas também não queria ver outras crianças. Não suportava.

E quando o telefone começou a tocar naquela noite, ela o tirou do gancho e assim o deixou. No dia seguinte, agiu como se nada tivesse acontecido. Foi agradável, formal, amável e distante, e Adam nem soube direito o que acontecera. Como previsto, ele foi transferido para Vendas na semana seguinte e nunca mais saiu com Hilary. Ela providenciou para que nunca mais se encontrassem casualmente. E nunca atendia aos telefonemas dele. Foi como se nada daquilo tivesse acontecido. E o que ela não sabia era que ele sentia pena dela. Mas, finalmente, se deu conta de que não a podia ajudar.

Nos anos que se seguiram, Hilary se concentrou ainda mais na sua carreira. Tinha sido alçada a uma posição mais elevada ainda na produção. Estava com 27 anos e evitava cuidadosamente todo tipo de ligação desde o seu caso com Adam. Ocupava‑se demais subindo na vida e não queria qualquer outra coisa a perturbá‑la, e todos os homens que conhecia pareciam ser divorciados e ter filhos. Até que conheceu William Brock, o novo noticiarista da CBA. Alto, louro e bonitão, fora um importante astro de futebol americano e tinha sido contratado recentemente pela rede. Divorciado duas vezes, não tinha filhos, nem vontade de tê‑los. Saía com todo mundo que podia na estação, até que ficou conhecendo Hilary, e seus olhos verdes gélidos o fascinaram. Tratou‑a com cautela e respeito, e enviou‑lhe desde flores a um casaco de pele.

- Que gracinha, Bill. - Ela o largou na mesa dele, com caixa e tudo, enquanto se dirigia para a sua própria sala.

- Não é o seu tamanho, querida?

- Não é o meu estilo, Sr. Brock, de todas as maneiras possíveis. - Ela não era dada a romances no escritório, ou em qualquer outro lugar, diga‑se de passagem, e virar mais uma marca no cinto de Bill Brock era a última coisa que desejava. Ele a convidou para passar uma semana em Honolulu, um fim de semana na Jamaica, para esquiar em Vermont, jantar no Côte Basque e qualquer outra coisa em que pudesse pensar. Mas não teve a menor chance, até que numa noite em que nevava, quando ela não conseguia pegar um táxi para ir embora, ele lhe deu uma carona na sua Ferrari. Começou a se dirigir para o centro e Hilary deu‑lhe uma palmadinha no ombro.

- Foi uma boa tentativa, Bill. Moro na rua 59.

- Moro na Quinta Avenida com a 11.

- Parabéns. Agora me leve para casa, ou será que tenho que saltar e ir a pé?

Ela não estava brincando e ele freou o carro, mas antes que ela pudesse dizer alguma coisa, beijou‑a.

- A sua casa ou a minha, Madame Produtora, ou será que devemos fazer uma maluquice e ir ao Plaza? - Ela riu do seu humor chocante e exigiu que a levasse para casa, porém não ficou mais surpresa quando ele parou para comer hambúrguer num dos seus locais prediletos, e ela se surpreendeu ao ver como ele era inteligente por baixo do verniz de playboy e do corpo másculo e superdesenvolvido. - E você, linda senhorita? O que a motiva, por trás desses olhos verdes que parecem esmeraldas?

- A ambição. - Era a primeira pessoa com quem era assim tão franca, mas imaginou que ele seria capaz de compreender.

- Eu também já provei isso. E vicia com facilidade.

- Eu sei. - Mas era só o que tinha para impulsioná‑la... chegar ao topo para que nada pudesse afetá‑la. Só se sentiria segura quando chegasse lá. Mas isso ela não lhe explicou. - Não há nada parecido, não é? Você lamentou ter largado o futebol, Bill?

- Mais ou menos. É um jogo e tanto, mas me cansei de me chutarem os joelhos e quebrarem o nariz. A gente não aguenta esse tipo de abuso para sempre. - Sorriu para ela daquele jeito que derretia os corações da maioria das mulheres, pagou a conta e acompanhou‑a de volta à Ferrari. Deixou‑a em casa sem discutir, e ela quase o lamentou, enquanto entrava no apartamento. Tinha esperado um pouco mais do que isso, pelo menos uma tentativa. Já estava de camisola, dali a meia hora, quando tocou a campainha.

- Quem é? - perguntou pelo interfone.

- Bill. Esqueci de lhe perguntar uma coisa sobre o programa de amanhã,

Ela franziu o cenho, depois achou graça. Ele parecia sincero, mas era provavelmente um truque. Decidiu deixá‑lo parado na neve enquanto falava com ela.

- O que é?

- O quê?

- Eu falei o que é.

- Não consigo ouvir. - Ele começou a apertar o interfone freneticamente e ela tentou gritar mais alto, mas por fim desistiu e o deixou entrar. Se fosse um truque, ela o poria no seu lugar, e bem rapidinho. Estava esperando na porta quando ele subiu, o rosto vermelho, sorridente, e coberto com a neve que ainda caía. - Tem alguma coisa errada com o seu interfone. - Ele estava sem fôlego e devastadoramente bonitão.

- Não diga! Que gentileza sua aparecer. Nunca ouviu falar em telefone, Sr. Brock?

- Não, minha senhora, não ouvi. - Sem mais delongas ele a tomou nos braços como se fosse uma boneca de pano, entrou no apartamento e fechou a porta com um chute. Ela ria dele enquanto Bill agia. Era uma cena tão incongruente e havia nele algo de infantil e maravilhoso, mas não tão maravilhoso que ela fosse querer se envolver com ele, não importa o quanto fosse bonitão e atraente. - Onde fica o seu quarto, Senhorita Walker? - Ele era toda inocência enquanto ela ria dele. Parecia um garotinho lhe pregando uma peça. Mas também era extremamente sensual.

- Ali. Por quê?

- Vai ver num minuto.

Depositou‑a sobre a cama, entrou no banheiro enquanto ela o fitava e saiu dali a cinco segundos, nu em pêlo. Ela ficou tão aturdida que apenas o fitou. Era o homem mais abusado que já conhecera, mas também o mais atraente. E, sem perda de tempo, começou a fazer amor com ela. Apesar da sua resistência inicial, a perícia de Bill derreteu qualquer reserva que tivesse, e logo estava gemendo, querendo‑o, e dentro em pouco ele a atendeu. Ficou sem fôlego nos braços dela, e depois rolou para o lado e sorriu enquanto ela fitava-o, espantada. Tivera sensações que sequer soubera que existiam, e antes que pudesse dizer alguma coisa, ele recomeçou a fazer amor com ela. Hilary pensou que enlouqueceria enquanto ele fazia amor com ela sem parar, até de manhã. Era uma experiência que ela nunca tivera antes e tinha certeza de que jamais voltaria a ter, mas convenceu‑a de que nem tudo dentro dela estava inteiramente morto, e quem sabe algum dia o homem certo podia aparecer e encontrá‑lo. Porém, nesse meio tempo, Bill Brock fizera algo com ela que jamais esqueceria. E, quando foi embora na manhã seguinte, ela ficou olhando pela janela, melancólica, enquanto ele se afastava na sua Ferrari vermelha.

Ela soube então que se lembraria de Bill pelo resto da vida, mas não esperava nada mais dele. Ele não estava procurando um relacionamento, ou uma namorada, ou uma amante ou uma esposa, ou até mesmo uma amizade. A vida para ele era um fluxo constante de moças bonitas, e fazer amor era para ele algo como comer, dormir e beber. Pouco se importava com quem o fazia, ou com que frequência, ou se o fazia de novo com a mesma pessoa. Só queria poder fazer quando, onde e com quem desejasse.

Quando enviou a Hilary no dia seguinte um enorme ramo de rosas e uma pulseira de brilhantes de Harry Winston, ela devolveu a pulseira com um sorriso e Bill não pareceu ficar surpreso. Mas também não a convidou para sair de novo. Tinha outras coisas em que pensar, e ela era apenas uma num universo de mulheres bonitas. Hilary ficou desapontada, mas não surpresa. A única surpresa que teve foi quando visitou o médico dali a dois meses. Estava gripada há semanas, e em vez de melhorar, piorava. E sentia‑se completamente exausta. Só queria dormir, pensar em comida lhe dava náuseas, nem conseguia suportar o cheiro do café quando chegava ao escritório, de manhã. Então, depois de seis semanas, ligou para o médico e marcou uma consulta. Ele sugeriu uma série de exames de sangue, um exame físico completo e, depois dos exames de sangue, estava pensando em lhe dar antibióticos.

- Pode ser algum tipo de vírus estomacal, Senhorita Walker. Esteve em algum lugar exótico recentemente?

Ela sacudiu a cabeça, deprimida por estar se sentindo tão mal. Sentia como se tivesse duzentos anos de idade e só o que desejava era deitar a cabeça e dormir o dia todo. Era deprimente se sentir tão mal. Porém, dali a dois dias, ficou sabendo a razão. Os resultados dos exames chegaram e o médico não sugeriu antibióticos. Estava grávida. Ele fizera um teste de rotina de gravidez e um de sífilis, também. Quando soube a notícia, achou que teria preferido ter a última do que a primeira. Largou o telefone em estado de choque, correndo os olhos pelo seu escritório. Sabia exactamente de quem era. Era o único homem com quem tinha dormido em dois anos, e ela não tomara nenhuma precaução, e nem ele. Aquilo nunca lhe ocorrera, ela nem tinha o que usar. Ele era o segundo homem com quem dormira na sua vida adulta, desde as tragédias da sua juventude. E agora estava grávida.

Só havia uma solução para o problema. E ela ligou para o médico dali a uma hora e marcou a consulta. Saiu do escritório na hora do almoço em estado de choque, e foi para casa pensar sobre a situação em que se encontrava. Devia contar a ele? Não devia? Ele acharia graça? Acharia que era exclusivamente problema dela? E quanto ao aborto? Era errado? Era pecado? Uma parte dela queria livrar‑se disso instantaneamente, e outra parte se lembrava de Axie quando bebé, e da pequena Megan... aquele cheiro doce de talco e do cabelo sedoso aninhado nos seus braços à noite. Lembrou‑se dos barulhinhos que fazia antes de pegar no sono e, de repente, Hilary achou que não poderia fazê‑lo. Já tinha perdido duas crianças que amara, como poderia matar esta? Talvez esta fosse o meio de Deus recompensá-la pelo que sofrera, de acertar as coisas de novo, de devolver‑lhe um dos bebés que perdera, de preencher os anos vazios à sua frente com algo mais do que trabalho... e o bebé seria lindo com um pai como Bill Brock, e ele não precisava saber... podia ser todo dela... só dela... e de repente, com cada parcela do seu ser, teve vontade de protegê-lo.

Compreendeu de repente por que as suas saias estavam ficando apertadas, muito embora estivesse perdendo peso. A sua cintura estava crescendo, e ela sentiu uma pequena saliência no estômago. O médico lhe dissera que estava grávida de oito semanas. Oito semanas... dois meses... e dentro dela havia um bebezinho. Não podia se permitir matá-lo. No entanto era preciso. Que espécie de carreira poderia ter com um bebé para atrapalhar, quem a ajudaria? Mas aquele cheiro... e o doce grito... ainda se lembrava da primeira vez em que vira Axie... Mas e se alguém também tirasse este bebé dela, como tinham tirado Axie e Megan, e se Bill Brock descobrisse e quisesse o seu filho? Durante o restante da semana Hilary ficou dilacerada pelo pânico crescente. Não tinha com quem falar, para onde se voltar. Ficava só com a sua culpa, confusão e pânico. Queria desesperadamente ficar com o bebé, mas não conseguia imaginar como poderia e, o que era mais importante, estava apavorada de perdê‑lo algum dia, de que alguém, de alguma forma, viesse tirá‑lo dela, e ela nunca mais queria amar alguém tanto assim. Esse medo foi o factor de decisão. Era demais para se pedir dela. Do resto podia dar conta, mas não do medo terrível da perda, sabia muito bem a agonia que aquilo lhe causaria. Não podia correr aquele risco outra vez, quer com seus próprios filhos, quer com os de outra pessoa. Sacrificaria esta criança em memória de Megan e Axie. Nunca mais haveria crianças na sua vida e seu coração. E quando entrou no consultório do médico naquela sexta à tarde, pensou que ia desmaiar ao cruzar o vão da porta.

Deu o nome à enfermeira e assinou um formulário com mãos trémulas. A seguir ficou sentada na sala de espera por uma hora. Tirara a tarde de folga no escritório e passara acordada a noite anterior. Uma parte dela lhe gritava para salvar a vida do bebé. Mas a voz do passado era importante demais para ela. Abafava todo o resto e lembrava-lhe da dor terrível da perda de Megan e Alexandra. Ficava pensando no dia em que foram afastadas dela, da agonia insuportável... Mas a agonia de arrancar esta criança de dentro de si não era menor.

Quando a enfermeira a levou pelo corredor até um quarto pequeno, ela sentiu os joelhos amolecerem. Recebeu ordens de tirar a roupa, vestir uma camisola e chinelos de papel e se apresentar à enfermeira do outro lado do corredor.

- Obrigada - sussurrou Hilary quase inaudivelmente, desejando que alguém a detivesse antes que fosse tarde demais. Mas não havia ninguém para fazê‑lo.

A enfermeira do outro lado do corredor olhou para ela como se tivesse cometido um delito federal e entregou‑lhe uma prancheta com mais formulários para assinar. Só de olhar para eles, Hilary se sentiu mal e desabou num banco estreito de madeira.

- Você está bem? - a mulher perguntou, desinteressada.

- Estou um pouco tonta.

Ela assentiu, despreocupada, e mandou que se deitasse na mesa.

- O médico deverá chegar daqui a alguns minutos.

Uma hora e meia mais tarde, porém, Hilary ainda estava esperando. Começara a tremer da cabeça aos pés mais de uma hora antes, e por fim vomitara de puro nervosismo. Não comia nada desde de manhã. A enfermeira com a prancheta finalmente voltou, olhou para ela, cheirou o ar e Hilary corou.

- Desculpe, eu... não me sinto bem.

- Provavelmente vai acontecer de novo depois - disse ela, com naturalidade. - Ele não demora. Tivemos um probleminha num outro quarto.

Hilary só podia pensar no bebé ainda vivo dentro dela. Quanto mais demorassem mais ele viveria, e logo teriam que matá‑lo. Sentiu o desespero sufocá‑la, mas não havia saída, ela não se podia permitir amar este bebé, não podia passar por tudo outra vez. Uma parte dela tentava dizer‑lhe que isso era diferente, mas o resto sabia que não era. Amara Megan e Alexandra como se fossem suas filhas... e as perdera. E algum dia alguém também lhe tomaria este bebé. Não podia deixar que isso acontecesse. Tinha que impedi­lo agora... antes que a destruísse.

- Pronta, mocinha?

O médico invadiu o quarto como um furacão, vestido para a cirurgia, com um gorro verde cobrindo o cabelo e uma pequena máscara pendendo do pescoço. Ela quase podia sentir o sangue pingando dele do seu último aborto.

- Eu... estou... - A voz dela era um grasnido que mal se ouvia, e ela sentia como se fosse vomitar de novo ou começar a chorar. - Vai me dar alguma coisa para me fazer dormir?

Não lhe tinham dito nada a respeito.

- Não vai precisar de nada disso. Tudo estará terminado dentro de alguns minutos.

Quantos? Quanto tempo vai demorar? O que iam fazer com o seu bebé?

Ela estava deitada na mesa e a enfermeira colocou os seus pés nos suportes. Eram mais largos que de costume, e a enfermeira os amarrou. Hilary não podia mexê‑los e sentiu uma súbita onda de pânico.

- Por que está fazendo isso?

- É para você não se machucar.

Já ia amarrar também as mãos de Hilary, mas ela suplicou que não o fizesse.

- Prometo que não vou tocar em nada... juro... por favor...

Era como uma tortura medieval e a enfermeira se virou para o médico e ele assentiu enquanto colocava uma máscara nova.

- Relaxe. Não vai demorar muito, e então você estará livre disso.

Livre disso... tentou achar conforto nas palavras, mas não achou. Disse a si mesma que estava fazendo a coisa certa, mas tudo dentro de si gritava que estava matando um bebé. Eles apenas tinham levado Megan e Axie embora, ninguém as matara. Era errado, era um pecado, era terrível... ela queria... sentiu a picada da anestesia local e teve vontade de chorar e de pedir à enfermeira que lhe segurasse a mão, mas ela parecia desinteressada. E de repente Hilary ouviu uma máquina terrível, parecia que ia derrubar as paredes. Era o aparelho de sucção.

- O que é isso?

Deu um salto e ficou meio sentada, sem conseguir mexer as pernas, e ainda sentia uma dor aguda onde tinham enfiado a agulha no colo do útero.

- É o que parece ser. Um aparelho de sucção. Agora deite‑se. Estaremos prontos num minuto. Conte até dez. - Ela sentiu uma dor incrível quando uma coisa pontuda e metálica abriu caminho por dentro dela. Nenhuma tortura imaginada por Maida e Georgine se igualava a isso... nem mesmo os garotos com seus corpos rijos apertados contra o dela... isto era terrível, era insuportável, era... Ela soltou um grito e a peça de metal dentro dela parecia estar fazendo‑a em pedaços. Estava forçando o seu útero a se abrir, dilatando‑o para poderem retirar o bebé. - Você está mais adiantada do que imaginávamos, Senhorita Walter. Vamos ter de abrir um pouco mais. - A anestesia local parecia não ter feito nada por ela e a dor era cruciante enquanto as pernas tremiam violentamente. O médico soltou um resmungo de satisfação.

- Pronto.

Ele falou qualquer coisa para a enfermeira enquanto Hilary se vomitava toda, mas a enfermeira estava ocupada demais auxiliando o médico para reparar ou ajudá‑la. E então, de repente, Hilary soube que esta era a coisa errada... não podia fazê‑la... tinha que ficar com o bebé, e levantou a cabeça outra vez, tentando não vomitar para poder dizer a ele.

- Não, por favor... não... por favor... Pare!

Mas ele falou tranquilizadoramente com ela. Era tarde demais para parar agora. Tinham de terminar o que haviam começado.

- Está quase acabado, Hilary. Só mais um pouquinho.

- Não, por favor... não aguento... não quero... o bebé... - Estava se sentindo tonta de novo, e o seu corpo todo tremia convulsivamente.

- Haverá muitos outros bebés na sua vida... você é jovem, e algum dia será o bebé certo. - Ele soltou outro resmungo sinistro, que, ela sabia agora, significava que ia lhe infligir mais dor. De repente, introduziu o aparelho de sucção. Ela sentia como se cada parcela do seu corpo estivesse sendo sugada por aquela máquina e vomitou de novo enquanto a máquina continuava interminavelmente, e afinal fez‑se o silêncio.

- Agora vamos fazer uma pequena raspagem - explicou ele, e ela viu o quarto girar enquanto o sentia raspar o que sobrara, mas o bebé já estava morto... ela perdera as outras crianças e agora matara esta. Só conseguia pensar nisso enquanto jazia ali, querendo morrer como o seu filho. Agora era uma assassina, como o pai. O pai matara a mulher, e agora ela matara o próprio filho.

- Pronto. - Escutou a voz que aprendera a detestar, e eles retiraram todos os seus instrumentos e a deixaram deitada ali, ainda tremendo e amarrada à mesa. Podia sentir algo quente e molhado escorrendo de dentro de si e soube que estava sangrando profusamente, mas não ligava mais para o que fizessem com ela. Não se importava de morrer. Na verdade, torcia para que isso acontecesse. - Descanse um pouquinho, Hilary. - Olhou para o rosto dela, deu uma palmadinha no seu ombro e deixou o quarto batendo a porta, enquanto ela jazia amarrada à mesa, soluçando numa poça do próprio vômito.

Eles voltaram dali a uma hora, entregaram‑lhe um pano úmido e uma folha com instruções. Ela devia ligar para eles se o sangramento parecesse forte demais; tirando isso, devia permanecer de cama por 24 horas e ficaria boa. Pronto. Tudo terminado. Ela cambaleou porta afora logo que se vestiu, ainda tremendo violentamente e chamou um táxi e deu o endereço. E ficou chocada ao perceber que já eram seis horas. Estivera no consultório por quase seis horas.

- O que é que há, moça, está doente? - perguntou o chofer. Ela parecia terrível mesmo aos olhos dele, mesmo na escuridão. Estava com olheiras, o rosto esverdeado, e tremia tanto que mal conseguia falar. E apenas assentiu, em resposta:

- É... estou... gripada... - Batia os dentes e ele assentiu.

- Todo mundo está. - Abriu um sorriso para ela, provavelmente era bonita quando não estava doente. - É só não me beijar.

Ela tentou sorrir para ele, mas não pôde. Sentia como se jamais fosse sorrir de novo, para ninguém. Como poderia? Como poderia fitar-se nos olhos de novo? Matara um bebé.

Meteu‑se na cama quando chegou em casa, sem sequer se despir, e dormiu até as quatro horas no sábado de manhã. Acordou com cólicas, mas quando foi verificar, nada parecia fora de ordem. Sobrevivera. Fizera aquilo. E sabia que nunca o esqueceria.

Na segunda‑feira foi trabalhar, pálida e abatida, e fez o seu trabalho. Voltou para casa com uma pilha de papéis. Ia se atolar no trabalho, ia fazer qualquer coisa para se entorpecer, e fez. Trabalhou feito máquina pelos seis meses seguintes, e por mais um ano depois disso. Tornou‑se a menina‑prodígio da rede CBA. Tornou‑se o tipo de mulher que as pessoas admiravam e todos temiam, o tipo de pessoa com quem ninguém queria se parecer.

- Apavorante, não é? - disse uma das secretárias no dia em que Hilary fez trinta anos. - Ela vive e respira exclusivamente essa rede, e Deus a ajude se a contrariar. Pelo menos, é o que dizem. Pessoalmente, ela me mete medo.

A outra moça concordou e elas foram para o banheiro discutir os dois novos funcionários da casa. Mas Hilary também era imune a isso. Não parecia se interessar por ninguém, só pelo trabalho, pela carreira e pela rede.

Aos 32 anos se tornou vice‑presidente, e dois anos mais tarde recebeu outra promoção. Aos 36 anos era a mulher de posição mais elevada na administração e aos 38 era a número três de toda a rede, e não havia dúvidas para ninguém que algum dia iria dirigi‑la. E provavelmente mais cedo do que se esperava. The New York Times publicou um grande artigo sobre ela pouco depois, discutindo a sua política de trabalho e seus planos, e The Wall Street Journal publicou outro artigo logo a seguir. Hilary Walker chegara lá.

 

O ar da Park Avenue parecia esmagá‑lo quando deixou o consultório do seu médico, duas horas depois. Não estava surpreso. Já estava esperando e, no entanto... Secretamente, Arthur Partterson esperava algo diferente. Mas a dor era muito grande. Os comprimidos mal ajudavam, neste último mês e, no entanto ele tentara se iludir que era outra coisa. Parou para recobrar o fôlego quando chegou à esquina. Eram quatro e meia e estava totalmente exausto enquanto a dor lhe rasgava o peito de novo, e ele tossia pateticamente. Um transeunte parou para olhar, perguntando‑se se devia ajudar, mas Arthur recobrou o fôlego e entrou no carro, mal falando com o motorista.

Ainda estava pensando nas palavras do médico e da sua previsão nefasta. Não tinha o direito de pedir mais, racionalmente falando. Tinha quase 72 anos, e tivera uma vida cheia... mais ou menos. Casara-se uma vez - Marjorie morrera três anos antes e ele fora ao seu enterro, surpreso ao descobrir que ela voltara a se casar, com um deputado aposentado. Ele se perguntara, parado ali na penumbra de St. James, se ela se sentira satisfeita com a sua vida, se fora verdadeiramente feliz.

E agora ele também ia morrer. Era estranho que aquilo não o assustasse mais. Só tinha pena. Tinha tão pouco para deixar ao mundo, uma clientela que ficara bem menor nos últimos anos, embora ele ainda fosse ao escritório todos os dias, ou quando se sentia suficientemente bem. Ficou imaginando se os sócios sentiriam sua falta quando morresse. Ninguém mais repararia na sua ausência, excepto possivelmente a sua secretária, que passaria simplesmente a trabalhar para um dos outros advogados.

O porteiro ajudou‑o a sair do táxi e ele tomou o elevador, conversando fiado, como sempre fazia, com o ascensorista de serviço. Discutiram o calor prematuro e os resultados do beisebol, e ele entrou no seu apartamento com um suspiro de exaustão. Era tão estranho pensar nisso agora. Logo tudo deixaria de existir... e então, quando entrou na sala de visitas, começou a chorar. Sem motivo aparente, pensara em Solange... Solange com os seus cabelos ruivos e olhos de esmeralda. Amara‑a tanto, há tanto tempo. Perguntou‑se se a veria agora, quando morresse, se havia uma vida além da morte... um céu e um inferno, como aprendera em criança. Fechou os olhos e desabou pesadamente numa cadeira. Solange... sussurrou o nome dela enquanto as lágrimas lhe rolavam pelas faces, e quando reabriu os olhos sentiu um súbito desespero. Desapontara‑a tão desesperadamente, e Sam... as filhas que tinham amado tanto foram lançadas aos ventos e desapareceram totalmente. Ele deixara que desaparecessem. Fora tudo culpa sua. Poderia tê‑las acolhido, se tivesse tido coragem. Mas agora era muito tarde. Tarde demais. Solange morrera há mais de trinta anos... e Sam. E, no entanto, ele sabia sem dúvida alguma o que tinha de fazer agora. Tinha de fazer uma última coisa. Precisava encontrá‑las.

Ficou sentado na mesma cadeira até que o quarto escureceu, recordando o passado, até as trincheiras perto de Cassino, o seu ferimento e aquela vez em que Sam o salvara... e a libertação de Paris e a primeira vez em que a vira. Não havia como voltar atrás. Nem como modificar o que acontecera. E talvez não fizesse diferença alguma agora. Mas ele sabia que, antes de morrer, precisava encontrá‑las, explicar a elas... reuni-las de novo, pela última vez, e com a agonia esmagadora da lembrança, recordou aquele dia em Charlestown em que fora buscar Megan e Alexandra, e Hilary suplicara tão penosamente que não as levasse.

Passou a maior parte da noite acordado na cama, pensando nas garotinhas, imaginando como as encontraria, ou se poderiam ser encontradas a tempo. Havia só uma coisa que poderia deixar para elas. O resto era só ações e apólices. Mas talvez a casa em Connecticut pudesse significar algo para elas. Ele a comprara há alguns anos, como casa de verão, mas raramente a usava. Era uma casa vitoriana antiga, grande, espaçosa, e ele gostava de ir para lá, porém conservara‑a mais como uma casa para os seus anos crepusculares. E agora o crepúsculo estava chegando. Não haveria tempo para a aposentadoria, para a jardinagem, para longas caminhadas à beira‑mar. Para ele, estava tudo acabado. O médico dissera que era tarde demais para operar. Os raios X contavam a sua própria história. O câncer se espalhara, e ele estava doente demais para suportar qualquer tratamento de choque. Era difícil calcular quanto tempo tinha. Três meses, talvez seis, ou menos, se a doença se espalhasse muito depressa.

Levantou‑se à meia‑noite para tomar uma pílula para dormir, mas já era dia quando pegou no sono, um sono inquieto, cheio dos soluços de Hilary enquanto ele guiava o carro para longe dela, agarrado a alguma coisa, ele não tinha certeza do quê, e então, de repente, o rosto de Hilary se transformou no de sua mãe, e era Solange chorando nos braços dele, perguntando‑lhe por que a matara.

 

Arthur Patterson saiu do escritório ao meio‑dia do dia seguinte, exausto pela noite insone, mas determinado a ir ao escritório. Conversara com um dos seus sócios às onze horas e obtivera o nome de um homem considerado o melhor no ramo. Não explicou por que precisava dele, e o sócio não fez perguntas.

Arthur deu o telefonema pessoalmente, e ficou surpreso por John Chapman estar disposto a recebê‑lo naquele mesmo dia, quando explicou que era urgente. Mas Chapman sabia quem ele era, e era raro o sócio mais antigo de uma importante firma de advocacia telefonar pessoalmente, e com um desespero tão evidente. Disse que o receberia logo depois do meio‑dia, embora tivesse apenas uma hora à disposição.

E Arthur lhe agradeceu profusamente e saiu às pressas do escritório, dando uma palmadinha no bolso para se certificar de que estava levando os seus comprimidos. Não podia se dar ao luxo de andar sem eles.

- O senhor vai voltar depois do almoço, Sr. Patterson? - indagou a secretária quando passou por ela, tossindo, como agora era o seu hábito.

- Acho que não - disse numa voz que mal se ouvia, e ela sacudiu a cabeça quando ele entrou no elevador. Estava com uma aparência terrível e velho demais para vir trabalhar todos os dias. Desejou que alguém o forçasse a se aposentar.

Era uma viagem curta de táxi do escritório de Arthur ao de Chapman, e ele ficou impressionado ao ver como Chapman estava bem instalado nas suas salas da rua 57, perto da Quinta Avenida. Era um prédio menor do que aqueles em que funcionava Brokaw, Miller e Patterson, mas era respeitável e bem‑tratado, e Chapman ocupava a maior parte de um andar, com uma placa discreta na porta que dizia apenas JOHN CHAPMAN. Uma recepcionista anotou o nome dele, e havia outras pessoas que pareciam esperar pelos sócios de Chapman. A maioria das pessoas na sala de espera parecia ser formada de advogados.

- O Sr. Chapman o receberá agora - disse a jovem, fazendo‑o entrar na outra sala. Chapman tinha seu escritório bem acima da rua 57, com carpetes espessos e antiguidades inglesas e, como o escritório de Arthur, estava cheio de livros de direito. Era reconfortante estar num ambiente que lhe parecia tão familiar. A princípio receara que o lugar para onde estava sendo mandado fosse meio vulgar, e foi um alivio ver que não o era.

A porta se abriu para revelar um homem louro e bem‑apessoado de paletó de tweed e calças cinzentas, com olhos cinzentos vivazes e o ar de quem cursara Princeton ou Harvard. Na verdade, cursara os dois. Estudara primeiro em Princeton e cursara a faculdade de direito em Harvard.

- Sr. Patterson? - Ele rodeou a mesa com naturalidade e veio apertar a mão de Arthur, espantado ao ver como parecia frágil em contacto com a sua. Ele jogara futebol na faculdade e, embora sendo alto, Arthur ficava pequeno em comparação com o jovem advogado que era trinta anos mais moço do que ele. - Sente‑se, por favor. - Apontou para uma cadeira com um sorriso simpático, e sentou‑se na cadeira ao lado de Arthur.

- Sou‑lhe muito agradecido... - Arthur tossiu, tentando recobrar o fôlego -... por me receber assim tão em cima da hora. É um assunto de urgência e importância, e infelizmente eu... não tenho muito tempo. - Ele estava falando literalmente, enquanto tossia de novo, mas John Chapman supôs que estivesse se referindo a um prazo a vencer numa ação judicial.

- Fiquei impressionado ao saber que estava cuidando do caso pessoalmente, senhor.

- Obrigado.

Era muito incomum que o sócio mais antigo da firma contactasse pessoalmente um serviço de investigações, não importa o quanto este fosse ilustre, e o de John Chapman era um dos mais famosos do país. Funcionava mais como uma firma de advocacia do que apenas um escritório de investigações, e a formação universitária dele fazia com que fosse extremamente útil. Ele pegou um bloco e uma caneta enquanto Arthur tossia de novo, e se preparou para tomar notas sobre o que Arthur desejava.

- Quer me explicar agora, Sr. Patterson, para eu poder ter uma ideia de como posso ajudá‑lo? - Ele era discreto e profissional e tinha a dicção precisa das classes superiores e, no entanto parecia estranhamente despretensioso, quase despreocupado, e Patterson se sentiu curioso a seu respeito. Por que não fora trabalhar na firma do pai? O pai era chefe da firma de advocacia mais importante de Boston, e dois dos seus irmãos eram advogados de destaque em Nova York. E, no entanto, ele optara por essa carreira pouco ortodoxa. Era curioso, mas Arthur não tinha tempo para pensar naquilo agora. Tinha que poupar as forças para lhe dizer o que queria.

- É um assunto... pessoal. - Ele resfolegou e depois tomou um gole da água que Chapman lhe servira enquanto esperava. - Do máximo sigilo e importância. Não deve discutir isso com ninguém.

Os olhos de Arthur faiscaram, mas isso não impressionou Chapman.

- Não discuto os meus casos com ninguém, Sr. Patterson. Ponto final.

- Também gostaria que cuidasse disso pessoalmente, se possível. Um dos meus sócios me disse que é o melhor no seu ramo. Quero contratar esse talento, e o de mais ninguém.

Chapman franziu os lábios, querendo escutar o resto, sem assumir nenhum compromisso com Arthur.

- Isso vai depender do que o caso envolve. Eu tento me envolver em todos os nossos casos, até o máximo que posso.

- Quero que faça isso pessoalmente. E não temos muito tempo. - Tossiu e tomou mais um gole d'água. - Estou morrendo.

Chapman observou‑o atentamente, curioso agora. O velho tremia de expectativa e agarrava uma pasta que retirara da maleta. Talvez fosse um velho caso sem solução que estava determinado a resolver antes de morrer. As pessoas faziam coisas estranhas quando estavam morrendo.

- O médico acha que posso ter três meses, talvez seis, talvez menos. Acho que três meses é o mais provável. Quero encontrar três moças. - Chapman pareceu surpreso. Era um pedido estranho da parte de um velho, a não ser que fossem suas filhas. - Eram as filhas de amigos íntimos meus, e os meus amigos mais íntimos. Os pais morreram há trinta anos, e duas delas foram adotadas logo depois, a terceira ficou com os tios. Tinham respectivamente um, cinco e nove anos quando perdi contacto com elas, e não tenho a menor ideia de onde estão agora. Sei quem adotou as duas mais moças, e sei que a mais velha acabou em Jacksonville, Flórida, e depois veio para Nova York, há 21 anos, mas é só o que sei. Nesta pasta estão todas as informações que tenho, inclusive recortes sobre os pais delas. O pai era um actor de renome da Broadway.

- Os pais morreram simultaneamente, num acidente?

Era apenas curiosidade da parte dele. Até agora era uma história interessante.

- Não. - Arthur inspirou penosamente e continuou: - Ele matou a mãe delas, ninguém soube ao certo por quê, excepto que discutiram e ele pareceu enlouquecer. Eu o defendi em 1958. - O rosto de Arthur ficou um pouco mais cinzento enquanto Chapman o observava, surpreso por ele ter aceitado um caso criminal. Ali havia mais do que ele estava contando. - Ele foi condenado e se matou na sua cela na noite da condenação. Eu tentei achar um lugar para as meninas ficarem juntas. - Parecia prestes a desabar, enquanto John Chapman o observava, sentindo pena dele. Era obviamente doloroso para ele se lembrar disso, e pior ainda ter que discuti‑lo com um estranho. Qualquer advogado teria se sentido responsável... mas não responsável bastante para sair em busca das crianças trinta anos mais tarde. Ou será que se sentia culpado? - Mas ninguém quis ficar com as três. Tive que colocá‑las em lares separados e deixar a menina mais velha com os tios. - Não contou que pensara em ficar, ele mesmo, com as meninas, mas que não o fizera porque a sua esposa não permitira. - Também tenho um recorte recente sobre uma moça na CBA - prosseguiu ele ‑,com o mesmo nome da menina mais velha. Acho que existe uma possibilidade de vir a ser ela, mas podia ser apenas coincidência. Incluí o recorte, e acho que você deve investigar. - Chapman assentiu. Arthur lembrou‑se de quando encontrou o artigo no The Times, semanas atrás, e de como rezou para que fosse a Hilary Walker certa. Sua mão tremera ao segurar o artigo que recortara e fitara a foto. Ela não se parecia com ninguém que ele conhecia, mas isso não precisava significar nada. As fotos de jornal costumavam ser assim. - É só, Chapman. Quero que encontre essas três moças. - Moças para ele, pensou Chapman consigo mesmo. Calculou rapidamente e se deu conta de que deviam estar com 38, 34 e 30 anos de idade. Não ia ser fácil encontrá-las. E Arthur confirmou: - Os pais adotivos das duas mais moças se mudaram há anos, e não sei para onde foram... só espero que possa achá‑las.

- Eu também. - Chapman segurou a pasta e pareceu sombrio ao indagar de Arthur: - E quando achar?

- Primeiro, quero que as localize e que depois venha me procurar avisando que as encontrou. Depois quero que explique a elas quem são, quem eu sou, que sou um velho amigo da família e que quero promover a reunião delas com as irmãs. Gostaria que ela ocorresse na minha casa em Connecticut, se possível. Infelizmente não posso mais viajar... elas terão que vir para cá.

- E se recusarem? - Era possível. Qualquer coisa era possível. Chapman já tinha visto de tudo nos dezessete anos em que exercia essa actividade.

- Não pode deixar que isso aconteça.

- Elas podem nem se lembrar de que têm irmãs, duas delas, pelo menos, e pode ser um choque e uma perturbação muito grande para elas. - Ficou imaginando se havia uma herança considerável ligada ao caso, mas não queria forçar Arthur a falar.

- Devo a elas reuni‑las novamente. Foi culpa minha a sua separação... que não consegui arrumar uma casa para as três juntas. Quero saber que estão bem, que não precisam de nada... devo isso pelo menos aos seus pais.

John ficou tentado a dizer‑lhe que agora era um pouco tarde, mas não quis ser desrespeitoso. Aos 38, 34 e 30 anos, não podia importar muito para elas por que tinham sido separadas, se é que se lembravam de ter irmãs. Mas não cabia a ele questionar a sabedoria dos desejos finais de Arthur Patterson. Arthur fitava‑o com um desespero quieto.

- Você o fará? - Era um sussurro que mal se ouvia.

- Vou tentar.

- Mas o fará pessoalmente?

- Na maior parte, se for possível. Quero ler a pasta primeiro, antes de me comprometer. Posso ter agentes já operando no campo, nas áreas que nos interessam e que poderão fazer o serviço com mais rapidez e melhor do que eu poderia. - Arthur assentiu. Aquilo fazia sentido para ele. - Vou ler a pasta o mais rapidamente que puder, e ligarei para o senhor depois de avaliar a situação.

Arthur foi penosamente sincero com ele:

- Não há muita coisa aí, Chapman. Não muito mais do que eu já lhe disse.

- Tudo bem. Posso enxergar alguma coisa que tenha passado despercebida. - Olhou discretamente para o relógio que podia ver por sobre o ombro esquerdo de Arthur. Era quase uma e quinze, e ele detestava fazer Sasha esperar. - Ligarei para o senhor dentro de um ou dois dias.

Ficou de pé e Arthur o acompanhou, trôpego.

- Sou‑lhe profundamente agradecido, Chapman.

- Tudo bem, Sr. Patterson. Espero que não fique desapontado. - Arthur assentiu, pensativo, não querendo levar em conta essa possibilidade. Chapman tinha de encontrá‑las. - Devo avisá‑lo, também por que este poderá ser um projeto dispendioso.

Arthur ergueu os olhos para ele com um sorriso sem vida.

- Não tenho mais com que gastar dinheiro agora, não é?

Chapman sorriu para ele. Era uma pergunta difícil de responder, Ele acompanhou Arthur gentilmente até a ante‑sala, apertou‑lhe a mão, agradeceu‑lhe por ter vindo e depois voltou rapidamente para o escritório para trancar a pasta fina no cofre e correr porta afora. Sasha ia matá‑lo.

 

John Chapman saiu voando do prédio do seu escritório na rua 57 e correu as duas longas quadras para oeste, olhando o relógio e enxergando o seu reflexo nas vitrines das lojas. Tiffany... I. Miller... Henri Bendel... parecia levar horas para chegar lá, e ele sabia como ela detestava quando ele se atrasava, mas não podia enxotar Arthur Patterson para fora do escritório, afinal de contas. O homem era velhíssimo e estava morrendo, e o caso despertara a curiosidade de Chapman. Mas também sabia que Sasha não compreenderia.

Tinha 28 anos, vigor da cabeça aos pés, e cada parcela da sua pessoa era disciplinada até a perfeição. Usava o cabelo louro tão repuxado para trás que parecia pintado na cabeça, seus olhos verdes tinham um toque eslavo, e os lábios viviam num "biquinho" constante que o seduzira desde a primeira vez em que a vira. Tinham se conhecido na casa de um amigo comum, um fã de balé que tecera os maiores elogios ao seu talento, contando como fora extraordinária em criança, e como o era ainda mais como adulta. Filha de refugiados russos, estudara durante anos no Ballet Russe de Monte Carlo e depois fora para Juilliard em mocinha, onde já era uma estrela no começo da adolescência. Aos vinte anos fora convidada para ingressar no American Ballet Theatre. E, aos 28, não era a primeira bailarina, mas uma excelente dançarina com uma sólida carreira da qual podia se orgulhar. Regalava‑se com os ciúmes de sua trupe e aborrecia‑se por não ser uma prima bailarina. Mas na verdade era pequena demais para ser mais do que um membro do corpo de dançarinas. Tinha o consolo de ser muito boa, e dizia isso a John todas as vezes que podia, quando não estava se queixando dos pés ou do facto de ele estar atrasado para o encontro. Mas embora não fosse uma pessoa de fácil convivência, há meses que John Chapman a achava encantadora - a sua disciplina, a sua rotina intensa, o seu talento junto com o rostinho miúdo, os pés que pareciam se mover sobre asas de borboleta quando dançava, os imensos olhos verdes ‑, havia algo de muito especial nela.

- Você está meia hora atrasado. - Ela olhou para ele com cara feia enquanto tomava uma xícara de borche, quando ele chegou, sem fôlego, à mesa dela no Russian Tea Room. A atmosfera era precisamente a mesma há cinquenta anos, e os dois adoravam blinis e o caviar. Além disso, ficava perto do local de ensaios dela, e eles se encontravam ali uma meia dúzia de vezes por semana, para almoçar ou depois dos ensaios, ou mesmo depois das apresentações, tarde da noite, para comer alguma coisa antes de irem para o apartamento dele. Ela morava com quatro outras dançarinas e era impossível conversar, que dirá fazer amor, no apartamento sem elevador do West Side que estava sempre sujo e cheio de correntes de ar. Porém os olhos dela se erguiam para ele reprovadoramente quando pediu desculpas e se sentou. - Já estava pensando em ir embora.

Ela parecia uma criancinha irada e ele se deu conta, como sempre o fazia, de quanto a amava.

- Ainda bem que não foi.

Ele tocou‑lhe na mão com meiguice e sorriu para o garçom conhecido. Era um velho russo que batia papo com Sasha na sua língua materna. Ela nascera em Paris, mas ainda falava russo com os pais.

- Eu estava com fome. - Seus olhos fitavam os dele, penetrante e impiedosamente. - Foi só por isso que esperei.

- Desculpe. Tive um caso importante. O chefe de uma grande firma de advocacia precisava de ajuda. Não podia enxotá‑lo porta afora. - Sorriu apaziguador para ela, imaginando quanto tempo levaria para voltar às suas boas graças. Geralmente não era muito... a raiva explodia violentamente, mas em geral diminuía com bastante rapidez. - Desculpe, querida.

Tocou‑lhe a mão novamente, e ela pareceu apenas ligeiramente abrandada pela contrição dele.

- Tive uma manhã muito difícil. - Parecia petulante, e mais mal humorada do que nunca.

- Algum problema? - Sabia como ela se preocupava com os pés, as pernas e os braços... não era fácil ser dançarina. Uma distensão, um ligamento rompido, e a sua vida podia se modificar para sempre.

- Estavam tentando apresentar um novo coreógrafo, e ele é impossível. Faz com que Balanchine pareça preguiçoso, em comparação. O homem é maluco. Não se pode dançar do jeito que ele pede.

- Você pode. - Chapman sorriu para ela com orgulho. Considerava‑a uma dançarina notável. Desta vez, ela sorriu para ele. Estava quase perdoado.

- Estou tentando. Mas acho que ele está tentando nos matar. - Ela soltou um suspiro e terminou o seu borche. Não queria comer muito antes dos ensaios da tarde, mas ainda estava com fome. Ele pedira blinis e ela se sentiu tentada, mas era pesado demais para ela quando estava dançando. - Talvez eu coma uma salada.

Disse ao garçom em russo o que queria, e ele assentiu e desapareceu enquanto ela contava a John as suas aflições matinais. Não lhe perguntou nada sobre o seu caso. Nunca perguntava. Só o que lhe interessava era a sua dança.

- Vai ensaiar hoje à noite? - perguntou ele, com os olhos cheios de compreensão. Era um homem bondoso, e não se importava que a vida deles girasse em torno do trabalho dela. Estava acostumado. A sua ex‑mulher era escritora, e ele se sentara pacientemente por sete anos enquanto ela produzia mistérios que acabaram se tornando grandes bestsellers. Ele a respeitara como mulher e como amiga, mas o casamento não fora lá grande coisa. Tudo vinha em segundo plano ao trabalho dela, até mesmo o marido. Ela era uma mulher difícil. O mundo inteiro tinha que parar de chofre quando começava um livro, e esperava que John a protegesse de qualquer interrupção possível. E ele se saíra bem, até que a solidão da sua vida com ela o dominara. Os únicos amigos eram os seus personagens, cada enredo que escrevia se tornava real para ela, e nem mesmo falava com ele quando estava trabalhando. Trabalhava das oito da manhã à meia‑noite todos os dias, e depois caía na cama, muda de exaustão. De manhã recomeçava tudo, mas não falava com ele durante o café porque já estava pensando no livro. Estar casado com Eloise fora uma coisa muito solitária. Ela escrevia sob o nome de Eloise Vharton. E quando não estava trabalhando num livro, estava sofrendo de depressão por não estar trabalhando, ou estava viajando por várias cidades em 45 dias, em turnês publicitárias para o seu último trabalho. Antes de pedir o divórcio, ele calculou que eles se falavam, em média, umas trinta horas por ano, o que era bem menos do que se necessitava para um casamento feliz. Eles se amavam, porém ela amava mais o seu trabalho. E ele nem teve certeza se ela compreendeu direito quando a deixou. Estava entretida com um livro e dera apenas a mais vaga das respostas quando ele se despediu e fechou a porta atrás de si. Foi um alívio, e ele descobriu que se sentia menos solitário sozinho do que com ela. Podia ouvir discos, cantar quando tinha vontade, receber amigos que podiam fazer o barulho que quisessem. Ele saía com outras mulheres. A vida era boa. E a única coisa que lamentava era que não tinham tido filhos. Há cinco anos que ele e Eloise estavam divorciados e só agora estava pensando em se casar de novo. Na verdade, pensava muito nisso, ultimamente.

Sacha tinha assentido em resposta à pergunta dele sobre o ensaio.

- Vamos ensaiar até às onze. - Ainda falava inglês como alguém que o aprendera como estrangeira e, no entanto não tinha sotaque claramente perceptível.

- Posso ir pegá‑la? - Os olhos dele se encheram de esperar e disse a si mesmo que não estava repetindo o mesmo padrão. Não estava conduzindo a sua vida inteiramente de acordo com Sacha. Além disso, ela tinha muito mais vida do que Eloise. Era tão vital e excitante. Eloise vivia num quarto escuro com uma lâmpada ardendo sobre a cabeça, atormentada por pessoas imaginárias. E não tinha mudado nos últimos cinco anos. Tivera apenas mais sucesso. Era uma das escritoras de mistério mais bem‑sucedidas do país. A nova Agatha Christie. The New York Times a aclamara, e Publishers Wee concordara. Eloise tinha 41 anos de idade e vivia num mundo de fantasia. Não era como Sasha... de jeito algum.

- Obrigada. Estarei na saída dos artistas às onze e dez. - E ele sabia que estava falando sério. Tinha a precisão de um cirurgião. - Não se atrase. - Ela franziu a testa e abanou um dedo gracioso.

Ele sorriu e tocou‑lhe o joelho por baixo da mesa.

- Não vou. Não vou trabalhar hoje à noite. - Só o que ele queria era ler a pasta que Arthur Patterson lhe deixara, e aquilo não levar mais do que uma hora, possivelmente até menos. Na verdade era isso que ele temia, que não houvesse nada de real substância. - Só vou dar uma olhada nas pastas deste novo caso.

- Não fique interessado demais.

Ela franziu a testa. Ele já fizera isso antes, e chegara atrasado uma hora, depois de uma apresentação. Não ia tolerar isso dele, ou de qualquer outra pessoa, para falar a verdade. Não precisava. Como salientava para ele regularmente, era uma artista de verdade.

- Quer que eu a leve de volta? - Parecia esperançoso, como um colegial ansioso para agradá‑la. Era um jeito que ele tinha que agradara a todas as mulheres com quem estivera envolvido, até mesmo Sasha, embora não o admitisse para ele. Nunca lhe dizia o quanto o amava, o quanto apreciava a sua companhia. Não ficava bem para ela dizer essas coisas, e ele não precisava sabê‑las.

- Vou me encontrar com alguns colegas em cinco minutos, John. Na esquina. Vejo você logo mais? - Ela se pôs de pé, miudinha e muito ereta, as costas como um bloco de mármore lindamente esculpido, e uma sobrancelha erguida sobre os olhos verde‑oliva. - Na hora, sim?

- Você é uma tirana. - Ele se levantou para beijá‑la e ficou olhando enquanto se afastava, tomando o seu chá. Depois pagou a conta. Havia nela algo que sempre o deixava enervado e excitado. Como se quisesse mais, como se nunca obtivesse o bastante, como se ela jamais permitisse que ele a possuísse. Era como se ela dançasse e se afastasse dele cada vez que estendia a mão para ela, mas, de certa forma, gostava daquilo. Gostava de correr atrás dela. Gostava de tudo nela. Era tão mais cheia de vida que Eloise e que as inúmeras advogadas e executivas com que saíra nos cinco anos desde que se divorciara. Sacha era inteiramente diferente.

Voltou para o escritório, desta vez mais devagar, pensando primeiro em Sacha, depois em Arthur Patterson e nas três mulheres que ele queria que encontrasse. Era uma história estranha, e não podia deixar de se perguntar se Arthur estava escondendo alguma coisa. Faltava uma peça para o quebra‑cabeça, talvez várias. Por que queria que elas voltassem? Que importância tinha se se encontrassem agora? Eram mulheres adultas, tinham levado vidas separadas, o que poderiam ter em comum? E por que Arthur Patterson se sentia tão culpado? O que fizera? Ou deixara de fazer? E quem eram os pais daquelas mulheres? A cabeça de John fervilhava de perguntas enquanto caminhava. Era bom no seu serviço porque tinha uma queda invulgar para enxergar os pedaços que estavam faltando e para encontrá‑los, como a proverbial agulha no palheiro. Ele encontrara mais do que alguns, e fora crucial em diversos casos importantes. O seu trabalho mais impressionante fora feito no campo do direito criminal, e ele era respeitado por advogados e tribunais do país todo. Arthur Patterson viera ao lugar certo. Porém John Chapman se perguntava se poderia encontrar as mulheres desaparecidas.

Ele levou a pasta consigo naquela noite e examinou o pouco que ali havia. Era patético ver o quão pouco havia, contudo. Arthur tinha razão. Ali não havia muito para ajudá‑lo. Apenas o que ele dissera no escritório. Havia todos os recortes do julgamento, que John leu em primeiro lugar, intrigado pelos elementos ocultos da história. Por que Sam Walker realmente matara a mulher? Fora premeditado, como alguns pensavam, ou um crime passional? O que a mulher lhe fizera, e quem ela era? De uma certa forma, não precisava saber dessas coisas, no entanto as perguntas despertaram a sua curiosidade. Leu críticas de várias peças de Walker e lembrava‑se de tê‑lo visto, certa vez, quando era menino. Só o que se lembrava era que fora uma atuação impressionante e que ele era muito bonito. Mais do que isso, não se lembrava.

 Havia um bilhete curto na caligrafia trémula de Arthur explicando que ele e Sam Walker tinham sido amigos no Exército. Havia uma lista dos lugares em que tinham estado e uma descrição do primeiro encontro deles com Solange, que era surpreendentemente lírica para um homem da idade dele ,que escrevera apenas documentos legais e citações a vida toda. E John se perguntou se ali não estavam algumas das respostas. Talvez Arthur estivesse apaixonado por ela. Ou talvez não tivesse importância. Os factos ainda eram os mesmos. Sam tinha matado Solange, fosse por que motivo fosse, deixando as três meninas órfãs.

 Amais velha fora para a casa de parentes num endereço em Charlestown, Massachusetts, uns tais de Eileen e Jack Jones, e Arthur sabia que dali fora para Jacksonville, porque ela lhe contara quando o procurara no seu escritório em 1966, atrás dos endereços das irmãs, Arthur mencionava num pós‑escrito que ela fora menos do que cordial. Dizia também que ela mencionara ter estado no centro de detenção juvenil em Jacksonville, e John se perguntava se tinha infringido alguma lei quando adolescente. Se assim fosse, talvez tivesse reincidido, e ele talvez pudesse encontrar alguma ficha criminal dela. Pelo menos isso faria com que ela fosse mais fácil de achar, especialmente se estivesse cumprindo pena em alguma prisão. Pelo menos poderia dizer a Patterson que a achara.

 A segunda fora entregue a um dos sócios de Arthur, que veio a morrer, e a viúva estava, sabe lá Deus onde, casada outra vez sabe lá Deus com quem. Este era um projeto e tanto. Ele teria que começar com os arquivos sobre Gorham na firma, e rezar para que tivessem tido de entrar em contacto com ela por algum motivo nos últimos anos. quem sabe um fundo ou outro detalhe qualquer do espólio que Arthur ignorava, já que não era um dos fideicomissários. E depois havia o bebé.

 A criança mais jovem também tinha virtualmente desaparecido mas não sem um aviso prévio. Arthur lhe contara que David Abrams insistira para que Patterson não mantivesse contacto com a criança, pois queriam que ela tivesse uma nova vida, totalmente divorciada do seu passado, e queriam se certificar de que assim fosse. John até se pegou imaginando se esse não fora parte do motivo deles para mudarem para a Califórnia, para começarem vida nova, onde ninguém sequer sabia que a criança era adotada.

E depois disso, nada mais havia. Somente um recorte no fundo da pasta, aquele que Arthur mencionara, mas, a despeito da semelhança do nome, como Arthur, John achava que era uma tentativa com pouca possibilidade de êxito. Era o artigo do The New York Times sobre a promoção de uma tal Hilary Walker na rede CBA, e era altamente improvável que fosse a mesma moça. Até mesmo Arthur não a reconheceu, era fácil e gostoso demais encontrá‑la assim tão à mão, e ainda por cima bem‑sucedida. John estava no ramo de achar pessoas há tempo suficiente para reconhecer uma esperança falsa quando a via. É claro que investigaria a possibilidade, mas tinha certeza de que seria uma outra Hilary Walker.

E era só isso. Não havia nada mais. Recostou‑se na cadeira e pensou nas três. Como encontrá‑las, por onde começar. As engrenagens já estavam funcionando. E então, com um sobressalto, olhou para o relógio.

- Puta que pariu... - resmungou. Passava das dez e meia. Pegou o paletó que estava nas costas da cadeira e desceu os três lances de escada do seu prédio. Morava no último andar de uma bela casa na rua 69 Leste. E teve sorte bastante para encontrar um táxi quase imediatamente, mas com o trânsito lento por causa da saída dos teatros, mal chegou à porta dos artistas a tempo de encontrar Sasha.

Ela apareceu exactamente às onze e dez, como ele sabia que apareceria, com ar cansado, usando jeans e tênis e carregando a sacola com o material de dança.

- Como foi?

Sempre havia a tensão de alguém que realizou uma grande cirurgia, que não diferia muito das lutas de Eloise com os desfechos difíceis do enredo. Mas isso parecia ser mais emocionante.

- Foi horrível.

Ele sabia que não devia acreditar nela, e envolveu‑a com um braço protector enquanto tirava a sacola de suas mãos.

- Você espera demais de si mesma, pequenina.

Ela era tão miudinha que ele sempre se sentia protector com relação a ela e, de qualquer forma, ele era esse tipo de pessoa.

- Não, foi terrível. Meus pés estavam me matando. Vai chover hoje à noite. Eu sempre sei.

John aprendera que os pés dos bailarinos eram uma fonte constante de agonia, e um tópico constante de conversação.

- Eu os massageio para você quando chegarmos em casa - prometeu ele enquanto entravam num táxi e voltavam para a rua 69 Leste.

O apartamento estava sereno e quieto quando eles chegaram. Só havia dois outros inquilinos no prédio, um deles um médico que nunca parecia presente. Era mais moço do que John, e quando não estava de plantão, ajudando os bebés a virem à luz no New York Hospital parecia ficar na casa de mulheres diversas. O outro inquilino era uma mulher que trabalhava para a IBM e que viajava de oito a dez meses por ano. Portanto, a maior parte do tempo ele ocupava sozinho o prédio. Tinha uma vista do jardinzinho lá fora e dos jardins maiores das outras casas da rua 68.

 - Quer beber alguma coisa? - perguntou ele, metendo a cabeça pela porta da sua cozinha bem‑organizada.

- Só um pouco de chá, obrigada. - Ela se sentou no sofá com um suspiro e esticou os braços, as costas e as pernas. Jamais preparava alguma coisa na pequena cozinha dele. Nunca lhe passou pela cabeça fazer essas coisas para ele ou para si mesma. John sempre as fazia por ela.

Ele apareceu dali a alguns minutos, trazendo‑lhe chá num copo, do jeito que ela gostava. Era uma tradição russa que ele passara a apreciar, e havia comprado canecas de vidro especiais para este fim. Era igualmente habilidoso no preparo de refeições ligeiras para Eloise quando ela estava trabalhando. Porém, em troca, ela preparara alguns jantares maravilhosos, entre um livro e outro. Adorava fazer bolos e torta e tinha uma queda toda especial para a cozinha francesa. Ao contrário de Sasha, que achava que esperarem que ela fizesse uma torrada era uma afronta ao seu talento artístico.

‑ Vai assistir ao espetáculo amanhã? - indagou ela, tirando devagar os grampos do cabelo, que começou a cascatear em longas camadas louras pelos seus ombros.

John olhou para ela com pesar. Detestava ter que lembrar‑lhe. Sabia que, sempre que o fazia, criava atritos. Ela ficava irritada quando ele tinha de ir a qualquer parte. Esperava que sempre estivesse por perto. E, na tarde seguinte, ele estaria voando para Boston.

- Vou passar o fim de semana em Cape, Sasha. Eu lhe disse isso há algumas semanas, mas você deve ter‑se esquecido. É o aniversário da minha mãe. Tentei escapulir, mas não houve jeito. Ela faz setenta anos, é importante. - Os seus dois irmãos estariam presentes, com as mulheres e filhos. Ele sempre se sentia um tanto inadequado comparecendo sem uma comitiva para exibir pelos seus anos de casamento e diversos romances. Tudo o que eles tinham era tangível e óbvio: esposas com safiras ou brilhantes em anéis de noivado ou presentes de aniversário de casamento; crianças com joelhos arranhados e dentes de leite perdidos e, no caso do seu sobrinho mais velho, até um diploma da escola secundária. Ia ser um fim de semana comprido. Mas sabia que também ia ser divertido. Ele gostava dos irmãos, um mais velho, o outro mais moço. As cunhadas eram um tanto difíceis, mas as crianças eram fantásticas. E não havia jeito de poder levar Sasha. Mesmo na sua idade, os pais teriam achado ruim se ele levasse uma mulher consigo para uma reunião de família. - Volto para casa no domingo.

- Não precisa se incomodar. - Ela endireitou as costas e pousou os pés no chão graciosamente. - Tenho ensaio no domingo à tarde. E não estou interessada em migalhas que sobram da mesa dos seus pais.

Ela parecia tão ofendida que ele pôde apenas rir da sua escolha de palavras. Às vezes o inglês dela era bizarro.

- É isso o que eu sou, Sasha? Uma migalha?

Estava mais do que evidente que ela pensava que sim.

- Não entendo o que é tão sagrado sobre a sua família. Você já conheceu meus pais, minha tia, minha avó. Os seus pais são assim tão melhores que os meus? Desaprovariam porque sou bailarina?

Ela parecia terrivelmente russa e extremamente dramática enquanto andava de um lado para o outro da sala, o cabelo esvoaçando e as mãos enfiadas nos bolsos de trás dos jeans, o corpinho tenso de emoção.

- Eles são muito reservados, só isso. - E muito bostonianos. Uma escritora já fora difícil de aceitar. Uma bailarina deixaria a mãe dele totalmente louca. Tinha respeito pelas artes, mas de preferência num palco, não no quarto do filho. - Eles não compreendem relacionamentos como os nossos.

- Nem eu. Estamos juntos ou não estamos? - Ficou parada diante dele parecendo um elfo encantador, mas um elfo que estava extremamente zangado. Sentia‑se discriminada pela família a que ele nunca a apresentava, e sem que ele nunca o dissesse, tinha consciência de que não a aprovavam.

- Claro que estamos juntos. Mas, no que diz respeito a eles, a gente não admite tal coisa até estar casado, ou pelo menos noivo.

E era ela quem resistia a isso. Não via necessidade de uma afirmação de permanência.

- Acham que somos imorais?

- Talvez. Preferem não pensar no assunto. Não querem ter que se confrontar com esse tipo de coisa, então não se confrontam. E, como filho deles, tenho de respeitar o seu modo de ser. São bem velhos, Sasha; Minha mãe vai fazer setenta anos no sábado, meu pai tem setenta e nove. É um pouco tarde para forçá‑los a aceitar os arranjos modernos.

- Isso é ridículo. - Atravessou raivosamente a sala de novo, depois ficou olhando para ele com cara feia da porta da cozinha. - E se você fosse realmente homem, me levaria de qualquer jeito, e os forçaria a aceitar a minha existência.

- Prefiro convidá‑los para vê‑la dançar da próxima vez em que estiverem aqui. Isso seria uma apresentação melhor. Não acha?

Sasha pensou no assunto enquanto cruzava a sala outra vez, apenas um pouco abrandada; depois sentou no sofá e começou a calçar os tênis. Ele sabia que isso era um mau sinal. Ela sempre estava saindo de lá intempestivamente às duas da manhã e voltando para o seu apartamento.

- O que está fazendo?

- Vou para casa. Que é o meu lugar. - Olhou para ele malévola e John soltou um suspiro. Detestava cenas, e ela as curtia. Parecia fazer parte do seu feitio artístico.

- Não seja boba. - Estendeu a mão e tocou‑lhe o ombro. Parecia uma pedra ao seu toque. - Nós dois temos coisas na vida que devemos fazer por conta própria. Você tem o seu trabalho, seus amigos do balé e seus ensaios. Eu tenho o meu trabalho e algumas outras obrigações.

- Não quero nem saber. A verdade, Sr. Chapman - ela ficou de pé e olhou furiosa para ele, jogando a sacola com os apetrechos de dança sobre o ombro -, é que o senhor é um esnobe, e tem medo que os seus pais achem que não sou boa o bastante. E sabe duma coisa? Não me importo. Pode ficar com o seu Mayflower, sua Plymouth Rock e sua Boston. Não preciso fazer parte do cadastro social, vou aparecer no Quem é Quem, algum dia. E se isso não basta... - ela fez um gesto que dizia tudo, e se dirigiu a passos largos para a porta. E dessa vez ele não a deteve. Sabia que no domingo ela estaria calma e ele não poderia abrandá‑la deixando de ir.

- Lamento que pense assim, Sasha.

Ela bateu a porta em resposta, e ele se sentou com um suspiro. Às vezes ela era tão incrivelmente infantil. E tão egocêntrica. Ele não se permitia pensar nisso com frequência, mas ela não lhe perguntou sobre o seu novo caso nem uma vez. A única vez em que reparava na vida dele era quando, por algum motivo, ele a enfurecia.

Apagou as luzes da sala e foi se deitar sem guardar os copos na pia. A faxineira o faria, pela manhã. E, deitado na cama, pensou nas acusações dela: de que era um esnobe, e de que seus pais não a aprovariam. Sob certos aspectos, tinha razão. Os pais dele não se encantariam com Sasha Riva. Achariam que era limitada demais e extremamente difícil, inadequadamente instruída e mal‑informada e, é verdade, teria importância para eles que não fosse "da sociedade". Não era algo que lhe importasse muito, mas ele sabia que, para eles, era importante. Eloise fora uma outra história. Ela e a mãe dele nunca se tinham dado bem, e achava as cunhadas dele incrivelmente chatas. Mas era de uma excelente família e tinha se formado em Yale summa cum lande. Não se podia criticar as origens de Eloise, ou a sua instrução. E ela era inteligente e espantosamente espirituosa, nada do que fizera dela uma boa esposa. Longe disso. Não que Sasha prometesse ser melhor. Pensou em ligar para Sasha depois que ela chegasse em casa, mas estava cansado demais para ir atrás dela, acordar as suas companheiras de quarto e suplicar o seu perdão porque ia a Cape Cod ver a mãe. Em vez disso, enterrou a cara no travesseiro e pegou no sono, só acordando quando o despertador tocou na manhã seguinte.

Tomou banho e fez a barba, preparou o café e saiu para o trabalho. Reparou, quando leu o jornal no metrô, que Eloise estava com um novo bestseller na praça. Que bom. Era só o que tinha na vida, e ele sabia como aquilo a deixava feliz. Às vezes a invejava. Gostaria de ser igualmente realizado, igualmente obcecado, igualmente tão fascinado com o que fazia que não importasse o que mais lhe acontecia na vida. Adorava o seu trabalho, mas queria muito mais do que isso. E, até agora, não havia encontrado. Era um dos motivos por que estava empolgado com o caso Patterson. Havia algo nele que o empolgava, e há séculos que não se entusiasmava assim com seu trabalho. A Primeira coisa que queria fazer era encontrar a mais velha, Hilary. Havia algo nela que o obcecava. E só Deus sabia o que lhe acontecera depois que Arthur a abandonara em Charlestown. Sabia, pela sua visita posterior ao escritório de Arthur, que ela acabara indo para Jacksonville, Flórida, porém como ou quando ou porquê nenhum dos dois sabia e talvez não fosse importante. E o que lhe acontecera depois também era um mistério. Nunca mais entrara em contacto com Arthur. Simplesmente desaparecera. E depois havia o recorte do The New York Times que Arthur lhe dera da mulher chamada Hilary Walker da rede CBA. Mas seria a mesma mulher? Duvidava. Parecia extremamente improvável.

 

John chegou ao escritório antes das nove. Tinha muito o que fazer antes de sair cedo para o fim de semana, havia algo que queria fazer antes de viajar. Queria tentar ligar para a Hilary Walker do recorte de Arthur. Provavelmente não era a mulher que ele queria, mas valia a tentativa. Era uma pista, e ele não podia se dar ao luxo de ignorá­-la. Ela poderia estar na CBA, bem debaixo do nariz dele, trabalhando numa posição de destaque numa rede importante.

Deu uma olhada no relógio. Eram nove e quinze, e ele mesmo pegou o telefone. Ligou para informações e depois discou o número.

- Hilary Walker, por favor. - Sentiu a boca um pouco seca, e ficou surpreso. Não sabia por que estava se interessando tanto pelo caso Walker, excepto que algo lhe acontecera quando vira a casa em Charlestown.

Uma secretária atendeu e ele pediu novamente para falar com ela.

- Posso saber quem deseja falar? - perguntou uma voz.

- John Chapman, de Chapman Associates. Ela não me conhece, é um assunto de certa urgência, se puder fazer o favor de dizer‑lhe isso.

- Só um momento, por favor. - A moça do outro lado não deixou transparecer nada. Tinha falado com Hilary pelo intercomunicador e ela não fazia a menor ideia de quem era John Chapman, e por que estava telefonando. Presidiria a uma importante reunião de produção às dez horas e não tinha tempo a perder com telefonemas fajutos.

- Pergunte se posso ligar para ele mais tarde - disse à secretária, depois modificou as próprias ordens. - Ah, deixe para lá, eu falo logo com ele. - Apertou o botão com a luz que piscava e a sua voz profunda e serena se fez ouvir. - Sim? Aqui é Hilary Walker.

E, por um estranho momento, John se lembrou da voz profunda de sua mãe. Era a única outra mulher que conhecia com uma voz tão profunda, mas ele passou logo a tratar do assunto com esta. Quer fosse a Hilary Walker certa ou não, era uma mulher muito ocupada.

- Obrigado por ter me atendido. Vou falar sem rodeios para não perdermos tempo. Meu nome é John Chapman, dirijo a Chapman Associates, e estou procurando uma mulher chamada Hilary Walker. O pai dela chamava‑se Sam, a mãe Solange, e ela morou com um casal chamado Jack e Eileen Jones em Boston. A senhora é essa mulher?

Foi sorte ele não poder ver o rosto dela, na outra extremidade. Estava branca como cal, e tremendo da cabeça aos pés enquanto se agarrava à escrivaninha com uma das mãos, mas a voz nada deixou transparecer.

- Não, não sou. Do que se trata? - O seu primeiro instinto fora negar, mas precisava saber por que ele estava procurando por ela. Seria por causa das outras? Não que tivesse mais importância. Há muito que tinham desaparecido e provavelmente nem se lembravam dela. Já desistira da ideia há muitos anos. Só o que tinha agora era a rede. E o mais provável é que fosse Arthur. O canalha.

- Faz parte de uma investigação para um cliente. Ele estava esperando encontrar essa Senhorita Walker. E viu os artigos sobre a senhora no The Times e The Wall Street Journal e estava torcendo para que fosse a pessoa certa. Foi apenas uma tentativa, lamento tê‑la incomodado.

Podia perceber pela voz dela que ela não era a mulher certa, e teve de admitir que estava desapontado.

- Lamento muito não poder ajudá‑lo, Sr. Chapman. - A voz dela era suave e serena,

mas definitivamente não se comovera com a investigação dele. Teria sido simples demais se fosse a mulher certa.

- Obrigado pela sua atenção, Senhorita Walker.

- Não há de quê. - E então ela desligou e ele fez o mesmo. Dera um fora. E não podia ver a mulher que se sentava à escrivaninha, pálida e abalada, do outro lado da cidade. Era como receber um telefonema de um fantasma. Tinha certeza de que era Arthur procurando por ela, o velho filho da puta, bem, jamais a encontraria. Não havia motivos para estender‑lhe a mão, para aliviar a sua consciência. Nunca fizera nada por ela ou pelas irmãs. Ele que fosse para o inferno. E John Chapman também. E todos eles também. Não precisava deles.

Ela foi para a reunião às dez horas e decepou cabeças pelo resto do dia. Mas ainda estava abalada quando saiu da reunião, e o restante do pessoal também. Ela despedira três produtores e ameaçara todos os outros na reunião. Era implacável, mas tinha mesmo essa fama. Fora apenas ligeiramente pior depois do telefonema de John Chapman.

 

No seu escritório, John Chapman ficou sentado fitando o espaço, desapontado. A mulher no artigo não era a Hilary Walker que eles queriam... que ele queria... Soltou um profundo suspiro e devolveu o recorte à pasta, com uma anotação. Mais tarde teria de ligar para Arthur e contar‑lhe. Nesse meio tempo, porém, dois de seus associados estavam ansiosos para falar com ele.

Três dos seus maiores casos iam ser julgados e eles tinham conseguido as provas em todos os três. Era muito compensador. Ao meio-dia, John olhou para o relógio e tomou uma decisão. Tinha cuidado de quase tudo que pretendia cuidar, o resto podia esperar até segunda. Os pais só o esperavam na hora do jantar. E se ele pegasse a ponte aérea de duas horas em La Guardia, estaria em Boston às três. Aí poderia passar em Charlestown no caminho para a casa dos pais. Ainda chegaria com tempo de sobra, e queria ver se descobria alguma coisa sobre Hilary Walker. Ele já tinha o que precisava para ir directo para Jacksonville, mas gostava de ser bem meticuloso nas suas investigações. E uma viagem a Charlestown poderia revelar alguma coisa sobre as outras duas. De qualquer maneira, valia dar uma olhada, e ele ia mesmo naquela direção.

Disse à secretária onde estaria para o caso de precisar dele e tomou um táxi para o seu apartamento. Levou dez minutos para fazer a mala. Sabia exactamente o que precisava para um fim de semana na casa da fazenda. E à uma hora já estava a caminho de La Guardia. Comprou uma passagem na ponte aérea, chegou às 3:10 e alugou um carro no aeroporto. E dali a Charlestown era uma viagem de meia hora.

Verificou novamente a informação na pasta e se certificou de que tinha o endereço certo, e se crispou intimamente ao começar a percorrer as ruas de Charlestown. Era uma das áreas que já eram feias quarenta anos antes, e não tinha melhorado com o passar do tempo. Havia outros bairros que tiveram sorte nos últimos anos e estavam sendo reformados por mãos carinhosas, mas estas casas não se incluíam entre eles. E se já eram teias quando Hilary morava ali, agora deviam ser piores. Eram verdadeiramente horríveis. Imundas, desconjuntadas, com a tinta descascando por toda a parte, e muitas das casas estavam fechadas, portas e janelas presas com tábuas, e desmoronando. Aqui e ali havia cartazes de casas que tinham sido condenadas pela cidade e John quase que podia sentir os ratos esperando para aparecer sorrateiramente ao cair da noite. Era um lugar horrível e a casa onde parou, uma das piores. Ficou parado por um momento, olhando para ela da calçada. As ervas daninhas chegavam à altura dos ombros no quintal e o cheiro de lixo pairava forte no ar. A porta da frente estava quase saindo das dobradiças.

Ansioso, ele subiu os degraus da frente, tentando se desviar de dois quebrados para não cair no buraco, e bateu à porta com força. A campainha pendia por um fio e estava obviamente quebrada. E embora ele escutasse ruídos vindos lá de dentro, ninguém veio atender por muito tempo; depois, por fim, apareceu uma velha desdentada. Fitou‑o, confusa, depois perguntou o que queria.

- Eu estava procurando Eileen e Jack Jones. Eles moraram aqui há muito tempo. A senhora os conhece? - Falou em voz alta, para o caso de ela ser surda. Mas ela não parecia ser surda, e sim burra.

- Nunca ouvi falar. Por que não pergunta a Charlie, do outro lado da rua? Ele mora aqui desde a época da guerra. Quem sabe ele os conhecia.

- Obrigado. - Um olhar lançado ao interior da casa mostrou a John que ela era incrivelmente deprimente, e ele esperava que tivesse sido mais agradável quando Hilary e as irmãs moravam ali Embora fosse difícil imaginá‑la muito melhor. A rua se tornara uma favela, mas não tinha cara de que algum dia tivesse sido bonita. - Muito obrigado.

Ele sorriu amavelmente e ela bateu‑lhe com a porta na cara, não porque estivesse aborrecida, mas apenas porque não sabia que havia outro modo de agir.

Ele correu os olhos para baixo e para cima da rua, e pensou em conversar com alguns dos outros moradores. Mas primeiro foi até à casa que ela indicara. Perguntou‑se se alguém estaria em casa às quatro horas de uma tarde de sexta‑feira, mas o velho a quem ela chamara de "Charlie" estava se balançando na varanda da frente, fumando um cachimbo e conversando com um velho cão sarnento que se deitava ao seu lado.

- Oi. - Ele parecia amistoso e sorriu para John quando ele subiu a escada.

- Alô. O senhor é Charlie? - John sorriu amavelmente. Fora bom nesse tipo de serviço, na época em que lhe coubera os contactos directos nas investigações. Agora só os determinava da sua escrivaninha na rua 57, mas havia uma certa emoção em voltar a fazer esta parte. Certa vez ele tentara explicar a Sasha o quanto gostava disso, mas ela não conseguia compreender. Para ela havia apenas a dança... e o Lincoln Center... e os ensaios. Nada mais importava. Às vezes John até se perguntava se ela se importava de saber?

- Sim, sou Charlie - respondeu o velho. - Quem é que quer saber?

John estendeu a mão.

- Meu nome é John Chapman. Estou procurando umas pessoas que moraram aqui há anos. Naquela casa. - Indicou‑a. - Eileen e Jack Jones. Por acaso o senhor se lembra delas?

Ele era sempre cortês, amistoso, simpático, o tipo do sujeito com quem todo mundo tem vontade de falar.

- Claro que sim. Certa vez arrumei um emprego para o Jack. Mas ele não ficou muito tempo nele, naturalmente. Bebia feito um filho da puta, e ela também. Ouvi dizer que ela finalmente morreu disso. - John assentiu, como se aquilo fosse algo que já soubesse. Fazia parte do esquema. - Eu trabalhava no estaleiro. Foi um trabalho danado de bom, durante a guerra. Fui dispensado do serviço militar porque tive febre reumática em menino. Passei a guerra toda aqui, perto de casa, com a minha mulher e meus filhos. Agora parece pouco patriótico, mas tive sorte.

- Quer dizer que teve filhos? - John olhou para ele com interesse.

- Já estão todos crescidos. - Ele se balançava para diante e para trás e uma expressão triste lhe surgiu nos olhos enquanto mordiscava o seu cachimbo. - E a minha mulher morreu, está fazendo catorze anos este verão. Era uma boa mulher. - John assentiu de novo, deixando o velho continuar tagarelando. - Os meus filhos vêm me ver de vez em quando, quando podem. A filha mora em Chicago. Fui visitá-la no ano passado, pelo Natal. Lugar mais frio do que uma teta de bruxa. Ela tem seis filhos. O marido é pregador.

Era uma história interessante e John deu uma palmadinha no cachorro enquanto a escutava.

- Lembra‑se de três garotinhas que vieram morar com os Jones há uns trinta anos... mais ou menos nesta época do ano... no verão de 58, para ser preciso. Três garotinhas. Uma com uns nove anos, a outra de cinco, e a menorzinha era um bebé. Devia estar com um ano.

- Não... acho que não me lembro... nunca tiveram filhos, Jack e Eileen. Menos mal. Não eram gente muito boa. Costumavam ter brigas feias, aqueles dois. Uma noite eu quase chamei a polícia. Pensei que ele ia matá‑la.

Parecia uma casa encantadora na qual deixara três crianças.

- Eram as filhas do irmão dela. Vieram só passar o verão, mas uma delas ainda ficou depois... - Ele foi deixando a voz sumir, esperando despertar a memória de Charlie, e de repente o velho olhou para ele com o cenho franzido e apontou o cachimbo para o rosto de John com um lampejo de reconhecimento.

- Agora que você está dizendo tudo isso, estou lembrando... uma coisa terrível... ele matou a mulher e as garotinhas eram órfãs. Eu só as vi uma ou duas vezes, mas lembro de Ruth, a minha mulher, me dizendo como eram engraçadinhas e como Eileen era terrível para elas, que era um crime deixar aquelas crianças com ela. Quase as matava de fome, Ruth falou, ela levou jantar para elas uma ou duas vezes, mas tinha certeza de que Jack e Eileen comeram tudo e não deram nada para as crianças. Mas eu nunca soube o que aconteceu com elas. Pouco depois eles foram embora. Eileen ficou doente e eles foram para um outro lugar. Arizona, eu acho... Califórnia... algum lugar quente. Mas ela morreu, de qualquer maneira. Morreu de tanto beber, se quer minha opinião. Mas não sei o que aconteceu com as garotinhas. Acho que Jack deve ter ficado com elas.

- Só com uma delas. As outras foram embora naquele verão. Eles só ficaram com a mais velha.

- Acho que Ruth devia saber disso. Eu esqueci. - Ele se recostou na cadeira, como que se lembrando de mais do que Jack e Eileen. Fazia tanto tempo, e a mulher dele estava viva na época - era agridoce recordar aquele tempo. Ele pareceu se esquecer de John enquanto se balançava para trás e para diante na sua cadeira de balanço, e ele dera a John aquilo que viera buscar. Não soubera de nada que precisasse saber desesperadamente, mas era um pedacinho do quebra‑cabeça. Explicava um pouco da culpa de Arthur. Ele deve ter sabido como eles eram terríveis E, no entanto deixara‑as ali... e deixara Hilary com eles... na verdade abandonara‑a com eles. Ele mal começava a imaginar o que tinha sido a vida dela naquela casa do outro lado da rua, com o tipo de gente que Charlie lhe descrevera. Só de pensar nisso John estremeceu.

- Acha que mais alguém por aqui se lembraria delas? - perguntou John, mas Charlie sacudiu a cabeça, ainda perdido nos seus devaneios, e depois ergueu os olhos para John e respondeu.

- Ninguém mora aqui há tanto tempo, excepto eu. Os outros estão aqui há dez, quinze anos... a maioria ainda menos. Eles ficam um ano ou dois, depois se mudam. - Era fácil ver por quê. - Meu filho mais velho quer que eu vá morar com ele, mas eu gosto daqui... morei aqui com a mãe dele... vou morrer aqui algum dia. - Falou filosoficamente, para ele estava tudo bem. - Eu não vou.

- Obrigado pelo tempo que me dispensou. O senhor me ajudou muito. - Sorriu para Charlie, que ergueu os olhos para ele com curiosidade indisfarçável pela primeira vez.

- Por que quer encontrar Eileen e Jack? Alguém deixou dinheiro para eles? - Não parecia provável, até mesmo para ele, mas era uma ideia interessante, porém John se apressou em sacudir a cabeça.

- Não. Na verdade, estou procurando as três garotas. Um amigo dos pais dela quer achá‑las.

- É um bocado de tempo para se perder alguém e depois sair à procura delas.

John sabia muito bem como aquilo era verdadeiro.

- Eu sei. É por isso que o senhor ajudou tanto. A gente compõe a imagem com pedacinhos do que as pessoas se lembram, e de vez em quando tem sorte, como eu tive com o senhor. Obrigado, Charlie.

Ele apertou a mão do velho e Charlie acenou para ele com o cachimbo.

- Eles lhe pagam bem por um serviço desses? Para mim parece um monte de tentativas inúteis.

- E às vezes é.

Deixou sem resposta a pergunta anterior e acenou ao descer da varanda e voltar para o seu carro. Era deprimente rodar pela rua, e era como se sentisse os olhos de Hilary pousados nele, como se ele fosse Arthur deixando‑a ali, e não pôde deixar de perguntar como Arthur fora capaz daquilo.

A viagem posterior à casa dos pais durou menos de uma hora, e o seu irmão mais velho já estava lá quando ele chegou, tomando um gim‑tónico no terraço junto com o pai.

- Oi, papai. Está com óptima aparência.

O velho parecia mais ter sessenta anos do que quase oitenta. Não havia nenhum tremor na voz dele, ainda tinha todo o seu cabelo e as mesmas pernas longas e magras de John, enquanto cruzava o terraço para rodear‑lhe os ombros com o braço.

- Bem, e como vai o meu filho ovelha‑negra? - Sempre implicavam com John, mas orgulhavam‑se dele também. Era bem‑sucedido, atraente, tinha uma vida interessante. A única coisa que os pais lamentavam é que tivesse se divorciado de Eloise, pois sempre tiveram esperanças de que os dois ficassem juntos e tivessem filhos. - Ficando longe das encrencas?

- Não se eu puder evitar. Alô, Charles. - Apertou a mão do irmão e os dois sorriram. Sempre havia uma certa distância entre eles e, no entanto John o estimava. Era sócio de uma importante firma de advocacia em Nova York, e se saíra bem na vida. Estava com 46 anos de idade, era destacado no campo do direito internacional, possuía uma esposa atraente que era presidente da Junior League e tinham três filhos simpáticos. Pelos padrões da família de John, Charles era o que mais realizara. Mas John sempre sentia que faltava algo na vida de Charles. Emoção, talvez, ou simplesmente romance.

E nesse momento Lesley, a mulher dele, saía da casa com a sogra, que deu um gritinho de alegria ao ver John conversando com o irmão e o pai.

- Chegou o filho pródigo - falou na sua voz rouca, apertando-o contra si. Ainda era uma mulher atraente aos setenta anos, e mesmo no seu vestido de linho amarelo simples possuía uma elegância inata. Usava o cabelo preso num coque elegante, um colar de pérolas ao redor do pescoço, presente do marido no dia do casamento, e os anéis que estavam na sua família há cinco gerações. - Como está bem, querido! O que andou fazendo?

- Um trabalhinho quando vinha para cá. Acabei de começar uma nova investigação.

Ela pareceu satisfeita. Apreciava os filhos. Eram todos bonitos, diferentes e inteligentes, e ela os amava a todos, mas secretamente sempre amara John um pouquinho mais do que os outros.

- Ouvi dizer que andou se metendo com o balé - disse Lesley calmamente, fitando John com atenção por sobre a beirada do copo de bloody mary. Havia algo de mesquinho nela que sempre irritava John, mas ele ficava espantado por ninguém mais reparar nisso. Ela era uma dessas mulheres que possuíam tudo e que devia apreciar o que tinha - duas lindas filhas, um filho encantador, um marido bonitão e bem‑sucedido - e, no entanto parecia invejar tudo que os outros tinham, especialmente John. De certa forma, ela sempre achara que ele se saíra melhor do que Charles, u que a irritava. - Não fazia ideia de que se interessava pela dança, John.

- Nunca se sabe, não é mesmo? - Ele sorriu com naturalidade, espantado que ela tivesse ficado sabendo de Sasha. Depois riu consigo mesmo, pensando que talvez ela estivesse se encontrando com um amante no Russian Tea Rucan.

Dali a momentos, Philip apareceu, muito bronzeado após as suas férias na Europa. Ele e a família moravam em Connecticut, e ele jogava tênis constantemente. Tinha um filho e uma filha e uma esposa de cabelos louros, olhos azuis e sardas. Ela parecia ser exactamente o que era, a namorada de infância com quem se casara na faculdade. Ele tinha 38 anos, e ela também, e vencera todos os torneios de tênis em Greenwich. Eram verdadeiramente a família perfeita, excepto por John, que nunca se encaixara direito na forma, e nunca fizera o que se esperava dele.

E trazer Sasha para cá teria complicado as coisas ainda mais. Eloise já fora suficientemente difícil. Quando ela queria ser sociável, era óptima, mas quando não queria trazia a máquina de escrever e insistia em trabalhar até à hora do almoço, u que deixava Lesley maluca e fazia a mãe achar que não estivesse se divertindo. Eloise não era nada fácil. Mas Sasha teria sido realmente um choque para eles com as suas malhas e os blue jeans grudados na pele, os seus ataques de petulância e as cenas de desafio. Só de pensar nela soaria, fitando o oceano.

- O que é tão engraçado, irmãozão? - Philip bateu‑lhe nas costas e John perguntou sobre a Europa. O mais difícil de tudo era serem todos pessoas tão simpáticas. Ele os amava, mas enchiam‑no de tédio, e quando chegou o domingo á tarde foi um alívio estar guiando para o aeroporto. Sentia‑se culpado por pensar assim, mas eles todos levavam umas vidas tão normais, tão rotineiras. No final de um fim de semana ele sempre se sentia um desajustado. Pelo menos a mãe se divertira. Cada um dos filhos lhe dera algo especial que era importante para ela. John lhe comprara um belo broche antigo de brilhantes com uma pulseira combinando, e era exactamente o tipo de coisa que ele sabia que a mãe adorava. Charles lhe dera ações, que John achou um presente estranho, mas ela pareceu satisfeita com ele, e Philip lhe dera algo que ela dizia que queria há anos, mas jamais comprara para si mesma. Um piano de cauda seria entregue na casa em Boston na segunda‑feira. Era bem típico dele fazer uma coisa dessas. John achou que era um presente fantástico e desejou ter tido a ideia. Mas ela pareceu feliz com o broche e o bracelete.

Ele devolveu o carro alugado no aeroporto e voltou na ponte aérea com um monte de gente que retornava do fim de semana, e às oito horas já estava no seu apartamento, preparando um sanduíche para o jantar e revendo a pasta de Arthur Patterson. Não sabia nada mais que não soubesse antes, excepto o tipo de lar em que Hilary fora deixada. E sabia exactamente o que faria na manhã seguinte.

Mas Sasha não ficou nem um pouco satisfeita quando ele lhe cantou, na hora em que veio ao seu apartamento, mais para o fim da noite.

- O quê? Você vai viajar de novo? - Ela estava furiosa. - O que é desta vez?

John tentou pacificá‑la da melhor maneira que pôde. Estavam indo para a cama quando ele tocara no assunto com ela, o que fora um erro, ele o reconhecia agora. Mas ainda estava esperando fazer amor com ela naquela noite. Fazia dias, e com Sasha era preciso escolher o momento certo, quando ela não estava cansada demais, quando os seus músculos não estavam doloridos, quando não tinha um espetáculo importante no dia seguinte. Era um feito e tanto conseguir levá‑la para a cama, e ele não ia pôr tudo a perder por causa da investigação de Arthur.

- Já lhe disse, meu bem, é um caso grande e eu mesmo estou cuidando dele.

- Pensei que você fosse o patrão. O coreógrafo, digamos assim.

Ele sorriu ante a comparação e assentiu.

- E sou. Mas essa é uma exceção. Concordei em fazer as pesquisas e contactos pessoalmente, se pudesse. É um caso muito importante para o meu cliente.

- Do que se trata? - Ela o olhou com desconfiança, enquanto se deitava na cama, totalmente vestida.

- Estou procurando três meninas... três mulheres, na verdade. Ele perdeu o contacto com elas há trinta anos e tem de encontrá‑las rapidamente. Está morrendo.

Não podia contar‑lhe mais. Até mesmo isso era uma espécie de violação da confiança de Arthur, mas ele queria despertar o interesse e a dedicação de Sasha.

- Elas são filhas dele? - Ele sacudiu a cabeça enquanto desabotoava a camisa. - Ex‑mulheres? - Ele sacudiu a cabeça de novo - Namoradas? - ele sorriu e sacudiu a cabeça de novo. - Então, o que são?

- São irmãs.

- E estão na Flórida? - Ela estava achando aquilo tudo muito chato.

- Uma delas esteve, há muito tempo. Tenho que começar de lá. Pensei que ela estava aqui em Nova York, mas não estava. Então agora temos de voltar ao começo.

- Quanto tempo vai ficar fora?

- Alguns dias. Devo estar de volta até sexta‑feira. Pudemos fazer alguma coisa agradável no fim de semana.

- Não, não podemos. Tenho ensaios.

Não havia como negar, os horários dela não eram fáceis.

- Tudo bem, a gente faz o programa de acordo com eles.

Já estava acostumado com isso.

- Tem certeza de que não está indo para a Flórida de férias?

- Absoluta. Posso pensar em muitos lugares melhores para ir com você, minha linda. - Ele deslizou pela cama, pegou‑a de surpresa e a beijou, e desta vez ela riu. Deixou que ele a despisse e envolveu‑lhe o corpo com as pernas vigorosas de um jeito que o deixava louco. Então quando começaram a fazer amor, ela se afastou de repente, e ele receou tê‑la machucado. Olhou‑a através do véu do seu desejo e sussurrou com voz rouca: - Você está bem?

Ela fez que sim, mas parecia preocupada.

- Sabe o que eu podia fazer a mim mesma nessas posições?

Mas pareceu se esquecer disso enquanto o ardor dele aumentava e, junto com ele, a sua própria paixão. Mas estava sempre pensando em si mesma, na sua dança, seus músculos, seus pés, seu corpo.

- Eu te amo, Sasha - murmurou ele, enquanto jaziam nos braços um do outro depois, mas ela estava estranhamente calada. Tinha os olhos abertos e olhava para a parede oposta e parecia perturbada, sob o olhar dele. - O que foi, coração?

- Aquele filho da puta gritou comigo a tarde toda, hoje, como se eu estivesse fazendo alguma coisa errada... e eu sei que não estava...

Por um momento ele se sentiu deprimido. Já trilhara aquele caminho antes, só que a última vez tinham sido os malditos personagens e os livros, e o enredo que ela não conseguia definir. Mulheres assim eram exaustivas. Preferia que Sasha fosse diferente, no entanto queria que gostasse dele, e nos momentos em que era sincero consigo mesmo, não tinha certeza se gostava. Nem mesmo tinha certeza se era capaz de gostar. Ela estava totalmente envolvida consigo mesma. E quando ele se levantou para ir buscar uma bebida na cozinha ela nem pareceu reparar na sua ausência. Ele ficou sentado por muito tempo no sofá, na escuridão, escutando os ruídos que vinham da rua, e se perguntou se algum dia encontraria uma mulher que gostasse dele, uma mulher que se importasse com o seu trabalho, sua vida, seus amigos, suas necessidades, e que apreciasse sua companhia.

 - O que está fazendo aqui? - Ela estava parada no vão da por­ta, a silhueta recortada graciosamente ao luar, a voz um sussurro no quarto às escuras, e não podia enxergar a tristeza nos olhos dele enquanto a observava.

 - Pensando.

 - Em quê? - Ela veio se sentar ao lado dele e, por um momento, quase pareceu que se importava, e então olhou para os pés e ge­meu.

- Deus, eu devia voltar ao médico.

 - Por quê?

 - Eles agora doem o tempo todo.

 - Já pensou em desistir da dança, Sasha?

 Ela o fitou como a um louco.

 - Está maluco? Prefiro morrer. Se me dissessem que não podia mais dançar, eu me mataria. - E parecia falar sério.

 - E quanto aos filhos? Não quer filhos?

 Devia ter‑lhe feito essas perguntas há muito tempo, mas era difícil desviar a atenção dela da dança.

 - Quem sabe mais tarde. - Falou sem convicção. Eloise costumava dizer o mesmo tipo de coisa para ele. Até fazer 36 anos e concluir que interferiria demais com a carreira dela e mandar ligar as trompas quando ele estava viajando a negócios. E ela provavelmente tinha razão. Era mais feliz sozinha.

 - Às vezes, se você fica adiando, o "mais tarde" não acontece.

 - Então é porque não era para ser. Não preciso de filhos para me sentir realizada - disse com orgulho.

 - Do que você precisa, Sasha? Precisa de um marido? - Ou precisava apenas do balé? Esta era a verdadeira questão.

 - Nunca pensei que tinha idade para me preocupar em casar. - Ela falou com sinceridade, erguendo os olhos para ele à luz da lua.

 Mas ele estava com 42 anos, e pensava em todas essas coisas já há algum tempo. Não queria ficar sozinho para sempre. Queria alguém que o amasse e que ele pudesse amar, não apenas no intervalo de livros, balés e ensaios.

 - Você está com vinte e oito anos. Deve começar a pensar no seu futuro.

- Penso nele todos os dias, com aquele velho maníaco berrando comigo.

- Não estou me referindo ao seu futuro profissional, e sim à sua vida real.

- Esta é a minha vida real, John.

Mas era precisamente isto que ele temia.

- E onde eu me encaixo em tudo isso?

Era uma noite para questionamentos, e ele não tinha certeza se devia ter dado inicio àquilo. Mas não se podia evitar. Mais cedo ou mais tarde teriam de falar em outras coisas que não os pés e os ensaios dela.

- Cabe a você decidir. Não posso lhe oferecer mais do que isso, no momento. Se é o bastante, maravilha. Se não é... - Ela deu de ombros. Pelo menos, era sincera. E ele se perguntou se podia fazer com que ela mudasse de ideia, se podia induzi‑la a se casar com ele... a querer um filho... mas era loucura fazer isso de novo. Ele parecia ter uma queda incrível para desafios e causas perdidas. "Você devia tentar escalar o Everest uma hora dessas", o seu irmão mais moço lhe dissera, certa vez. "Podia aliviar algumas das tensões". Ele vira Sasha duas vezes e achava que John era maluco. - Quer que eu fique aqui esta noite? - ela lhe perguntava agora. Estava perfeitamente disposta a ir embora. Não se importava com o caos do seu apartamento no West Side com os oito milhões de companheiras de quarto e os catorze milhões de sacolas com o material de dança.

- Gostaria que ficasse - Na verdade, gostaria de muito mais da parte dela. Mais do que tinha para dar, e ele começava a compreender.

- Então vou me deitar agora. - Levantou‑se displicentemente e voltou para o quarto dele. - Tenho ensaio amanhã cedo.

E ele tinha que voar até Jacksonvìlle. E, mais do que tudo queria fazer amor com ela de novo, mas ela falou que estava cansada demais e com os músculos doloridos, quando ele entrou na cama com ela e fez uma tentativa.

 

O voo até Jacksonville foi curto e deu tempo a Chapman de ler alguns de seus papéis. Assinou uma meia‑dúzia de coisas que tinha de ler, mas seu pensamento ficava voltando para Hilary... e a vida que devia ter levado com Eileen e Jack Jones, segundo a descrição daquele velho em Charlestown.

Em Jacksonville, ele foi directo para o centro de detenção juvenil, perguntou pelo administrador‑chefe e explicou sua investigação. Não era comum em casos como esse abrir os arquivos para qualquer um, mas muitos anos tinham se passado e a menina agora estaria com 38 anos. Não podia haver mal em dar uma olhada no passado, agora. E John assegurou‑lhe a sua discrição total.

A assinatura do juiz encarregado do juizado de menores tinha que ser obtida, e mandaram que John voltasse na manhã seguinte. Nesse meio tempo, ele se registrou num hotelzinho do centro e percorreu as ruas da cidade, sem destino. Gastou algum tempo folheando a lista telefónica e encontrou cinco Jack Jones e, num impulso, decidiu ligar para eles. Três deles eram negros, e o quarto não atendeu. Mas o quinto disse que o pai crescera em Boston e que ele achava que tinha sido casado com uma mulher chamada Eileen, que morrera antes do pai se casar com a mãe. Disse que tinha dezoito anos e que o pai morrera de cirrose há dez anos, mas que teria prazer em lhe dar as informações que pudesse. John lhe perguntou se ele sabia onde o pai morava antes, há uns 25 anos. Talvez a mãe soubesse, mas a resposta para isso era simples.

- Ele sempre morou na mesma casa. Ainda moramos aqui.

O interesse de Chapman aumentou consideravelmente e ele perguntou se podia ir até lá dar uma olhada.

- Claro.

Ele deu o endereço e John não ficou surpreso ao descobrir que dava a mesma sensação que o bairro deles em Charlestown, era o mesmo tipo de área gasta, deprimente, perto de um estaleiro, só que era predominantemente negra, e havia rapazes de moto passeando pela vizinhança, o que deixou Chapman nervoso.

Não era um lugar agradável para se estar e, como o local em Charlestown, parecia nunca ter sido.

Jack Jones Jr. estava à sua espera, com uma motocicleta estacionada no seu próprio jardim, e parecia sentir que a visita de Chapman o tornava importante. Tagarelou um pouco sobre o pai, mostrou-lhe algumas fotos, e convidou‑o a entrar e conhecer sua mãe. Dentro da casa havia um fedor terrível de urina, bebida, a sujeira de toda uma vida. A casa era mais do que sombria, e a mulher que Jack Jr. apresentou como sua mãe era patética. Estava provavelmente com quarenta e tantos anos, mas já era desdentada e parecia trinta anos mais velha.

Era impossível para John determinar se o seu estado provinha de abusos ou moléstia. Sorriu vagamente para ele e fitou o espaço às suas costas, enquanto Jack Jr. se desculpava por ela. Mas ela nada se lembrava de uma sobrinha da antiga mulher de Jack. Na verdade, por várias vezes ela pareceu não saber quem era o próprio filho. John acabou desistindo e já estava de saída quando Jack Jr. sugeriu que ele talvez quisesse falar com os vizinhos. Há anos que moravam ali e até mesmo conheciam Jack Jr, quando era casado com a falecida esposa. John lhe agradeceu e bateu à porta, e uma mulher idosa veio até à porta cuidadosamente.

- Sim?

- Posso lhe falar por um momento, senhora?

Há anos que não fazia pessoalmente este tipo de serviço e lembrou-se de repente como era difícil ganhar a confiança das pessoas. Recordou de repente quantas portas tinham batido na sua cara nos velhos tempos.

- Você é tira? - Era uma pergunta familiar.

- Não, não sou. Estou procurando uma mulher chamada Hilary Walker. Ela morou aqui faz muito tempo, quando era garotinha. A senhora tem ideia de onde poderia estar hoje?

A mulher sacudiu a cabeça e pareceu examinar John.

- O que quer com ela?

- Um amigo dos pais dela quer encontrá‑la.

- Deviam ter procurado por ela há vinte e cinco anos. Pobre garota... - Ela sacudiu a cabeça, recordando, e John soube que tinha acertado em cheio. Ainda estava falando com ele através da porta de tela, mas esta se abriu lentamente, e ela ficou parada ali, de vestido de andar em cana e chinelos, fitando John, mas sem convidá‑lo a entrar. - Aquele tio dela deu­-lhe uma surra que quase a matou. Ela saiu se arrastando daquela casa debaixo de um temporal e quase morreu na soleira da minha porta. Meu marido e eu a levamos ao hospital e ela quase que não escapava. Eles disseram que ele tentou violentá‑la.

- Alguém o acusou formalmente? - Chapman a fitava, horrorizado. A história estava ficando pior. O destino de Hilary fora verdadeiramente um pesadelo.

Mas ela sacudiu a cabeça.

- Ela estava com muito medo... a pequena Hilary. - Sacudiu a cabeça. - Eu até tinha me esquecido dela.

- O que aconteceu depois?

- Ela foi para uns dois lares de adoção, e acho que depois ficou no centro. Fomos visitá‑la umas duas vezes, acho, mas era como se... bem, tinha alguma coisa faltando naquela menina, não que a gente pudesse culpá‑la. Ela não se abria com ninguém.

O que era fácil de entender, dado o que estava ouvindo.

- Obrigado. Muito obrigado.

Então aquele era o motivo para o centro de detenção juvenil, não que ela própria tivesse infringido a lei. Ou quem sabe também acabara por fazê‑lo. Às vezes era assim que acontecia.

Mas no caso dela, não acontecera. Eles lhe entregaram os arquivos logo na manhã seguinte. O juiz assinara a ordem sem problemas. Mas os arquivos sobre Hilary Walker nada tinham de emocionantes. Fora uma estudante modelo, não causara problemas para o Estado, estivera em dois lares de adoção, cujos endereços eram dados, e depois passara três anos no centro juvenil, sem nenhuma ocorrência digna de nota. Recebera 287 dólares ao terminar o seu último ano na escola secundária e fora embora dali a cinco dias, sem nunca mais dar sinal de vida. Era um arquivo sucinto, que pouco lhe dissera sobre a garota, excepto que os relatórios das assistentes sociais encarregadas do seu caso diziam que era retraída, não tinha amigos, mas também não causava nenhum problema disciplinar. As assistentes sociais que a tinham conhecido já não trabalhavam ali há muito tempo, e ele imaginava que os dois lares de adoção também haviam desaparecido. Mas, só para se certificar, foi aos endereços que constavam do arquivo. O que o espantou foi encontrar a primeira mulher, ainda viva e no mesmo endereço, e ela achava que se lembrava dela, embora não tivesse muita certeza.

- Ela era aquela tão metida à besta. Também não ficou muito tempo. Não me lembro de como era no trabalho. Começou a definhar e eles a mandaram de volta para o centro. É só o que me lembro dela agora.

Mas era o bastante, as palavras ásperas da mulher sobre outras meninas, e a casa em si, contavam a sua própria história. E o segundo lar de adoção fora derrubado para erguerem um prédio anos antes. Não é de admirar que a mulher na CBA nada soubesse a respeito dela. A garota que estivera aqui fora Deus sabe para onde, para terminar a sua vida, sua mesma espécie de miséria e sordidez em que começara ou a que fora condenada aos oito anos, quando o pai matara a mãe e depois cometera suicídio, e o melhor amigo deles a abandonara, depois de tirar‑lhe as irmãs. De certa forma, John sentia como se Arthur a tivesse levado para o matadouro. E era fácil compreender por que ela fora ao escritório de Arthur 21 anos atrás, para destilar seu ódio. A questão era: para onde fora, saindo de lá? A pista estava completamente fria e ele não tinha ideia de que rumo tomar. Onde se começava a procurar uma moça que conhecera tanta dor e sofrimento tão cedo na vida? Ele verificara se tinha ficha criminal em vários estados e FBI, e não encontrara, mas isso não queria dizer nada. Ela podia ter mudado de nome, ter‑se casado diversas vezes. Podia ter morrido nos últimos 21 anos. Podia ter feito várias coisas. Mas se ainda estivesse em Nova York, John prometeu a si mesmo que a encontraria.

Partiu de Jacksonville sem pesar, e com uma sensação de alívio por estar escapando à umidade e sordidez que ali encontrara. Podia imaginar como Hilary se sentira a caminho de Nova York para encontrar as irmãs, e acabando por descobrir que Arthur não mantivera contacto com elas, assim como não mantivera com Hilary. Que amargo desapontamento devia ter sentido.

Chegou em casa na quinta à noite e deixou recado na secretária eletrónica de Sasha. Sabia que era a noite do seu grande espetáculo, mas eram dez horas quando afinal chegou em casa, e estava exausto.

E no dia seguinte, no escritório, relatou a Arthur o que descobrira, e fez‑se um silêncio longo e triste do outro lado. John não pôde ver as lágrimas silenciosas escorrendo pelas faces de Arthur, enquanto ouvia.

- Depois que ela o visitou, a pista está fria. Não tenho ideia para onde foi, saindo de lá, mas estou trabalhando nisso. - Já tinha dado a um dos seus assistentes uma lista de tarefas: queria que ele verificasse as escolas, hospitais, agências de emprego, albergues para a juventude, hotéis, até 1966. Não era uma tarefa fácil, mas em algum lugar alguma coisa surgiria, e eles poderiam tomá‑la como ponto de partida. Nesse meio tempo, ele ia começar a procurar Alexandra. - Precisarei ir até o seu escritório na segunda‑feira. Quero examinar os arquivos do espólio de George Gorham. Quero ver se entraram em contacto com a sua viúva, recentemente.

Arthur assentiu e limpou as lágrimas que tinha derramado por Hilary. John Chapman era verdadeiramente meticuloso.

Era terrível dar‑se conta do que fora o destino de Hilary... mas como poderia ter sabido... se tivesse... começou a tossir terrivelmente ao pensar nisso, e acabou tendo que desligar. E John voltou ao seu trabalho. Havia uma montanha de pastas à sua espera sobre a escrivaninha, depois de passar a semana toda na Flórida, e ele ficou no escritório até às sete e meia, depois parou no Auto Pub para comer um hambúrguer, a caminho de casa. Eram nove horas quando chegou em casa, e o telefone estava tocando. Era Sasha.

- Onde esteve a noite toda? - Parecia desconfiada, e zangada.

- No escritório. E parei para comer qualquer coisa a caminho de casa. E como vai, Senhorita Riva? - Não houvera nenhum preâmbulo, nenhuma pergunta sobre como estava passando, e ela não ligara para ele na Flórida a semana toda, embora tivesse deixado o número do telefone na secretária eletrónica, mas ele sabia que ela estivera ocupada com os ensaios.

- Estou bem. Pensei que tinha machucado um dos tendões ontem, mas graças a Deus não machuquei. - Nada mudara na ausência dele.

- Que bom. Quer vir tomar uma bebida aqui em casa? - Uma parte dele queria vê‑la, outra parte não. A semana na Flórida fora incrivelmente deprimente e ele precisava se animar, mas, por outro lado, não queria escutar a lengalenga de sempre sobre os ligamentos e os tendões de Sasha.

- Estou exausta. Já estou no apartamento. Mas estou livre este fim de semana. Podíamos fazer qualquer coisa amanhã.

- Por que não vamos passar o fim de semana fora. Que tal os Harfiptons ou Fire Island? - O verão já começara e estava quente em toda a parte. Ia ser um belo fim de semana.

- Dominic Montaigne vai dar uma festa de aniversário no domingo, prometi a ele que iria e não posso desapontá‑lo. Lamento muito.

Balé, bailarinas, dançarinos, ensaios, espetáculos. Era interminável.

- Tudo bem. A gente pode só passar o dia. Eu adoraria sair da cidade e ir me deitar numa praia qualquer.

- Eu também. - Mas ele sabia que ela passaria deitada exactamente meia hora e depois começaria a se movimentar e flexionaria os músculos para que nada enrijecesse enquanto estava relaxando. E havia horas em que isso era extremamente enervante.

- Pego você às nove. Está bem? - Ela concordou e ele desligou sentindo‑se de súbito triste e indescritivelmente solitário. Ela nunca estava presente para ele quando precisava dela, e em vez disso ele pensando numa garota que não conhecia, que fora jogada de lares de adoção para o centro juvenil há mais de vinte anos. Era uma loucura pensando nela agora. Ele se sentia como Eloise com os seus personagens imaginários. Fazia tanto sentido quanto eles, mas ela se tornara real tão para ele na última semana. Muito mais do que desejava.

No dia seguinte, ele e Sasha foram à praia. No final das contas foram apenas a Montauk, em Long Island, e foi relaxante e gostoso. Ele correu pela praia enquanto ela fazia ginástica, e pararam para jantar lagosta no caminho de volta para casa. Já eram onze e meia da noite quando voltaram para o apartamento dele, e caíram na cama como duas crianças. Ela estava bem‑humorada e fizeram amor sem que Sasha se queixasse de que a paixão dele ia machucar‑lhe o corpo ou causar-lhe danos permanentes. E dormiram abraçados até às dez horas da manhã seguinte, quando ela saltou da cama, olhou para o relógio e um grito que o acordou.

- O que foi?... onde você está?... ‑Ele apertou os olhos contra a luz do sol que entrava pelo quarto, viu quando ela correu para o banheiro, e escutou quando ligou o chuveiro. Afastou os lençóis e entrou pesada e lentamente no banheiro. - O que está fazendo?

O banheiro estava cheio de vapor, ela estava com o cabelo preso no alto da cabeça e o rosto virado para a água que caía.

- O que é que você acha?

- O que está fazendo acordada tão cedo?

- Prometi a Dominic que estaria na casa dele às onze e meia.

- Ora, por favor! Porquê essa pressa?

- Vou fazer o almoço para todo mundo - anunciou ela, desligando o chuveiro e começando a se enxugar.

- Que interessante. Aqui você nunca cozinha. - Ele estava a aborrecido. Tinham passado um dia tão agradável na véspera, e agora estava com tanta pressa em deixá‑lo. Ele queria fazer amor com ela de novo antes que fosse embora, mas ela não parecia disposta.

- Isso é diferente - ela explicou, parecendo que o que dizia fazia sentido. - Eles são dançarinos.

- Eles comem de modo diferente que as outras pessoas?

- Não seja bobo. - Não era bobo. Já estava ficando cansado dos agravos intermináveis. - Ligo para você hoje à noite quando chegar em casa.

- Não se incomode. - Ele saiu do banheiro, pegou um cigarro na cômoda e acendeu‑o. Raramente fumava, mas quando ela o perturbava especialmente, o fumo parecia aliviar a tensão, ou aumentá‑la, nunca sabia ao certo. Mas tinha algum efeito.

- John - sorriu ela angelicalmente enquanto escovava o cabelo com a escova dele -, não seja infantil. Eu até levaria você junto, mas é que são todos dançarinos. Ninguém traz gente de fora para essas festas. Sabe - sorriu e, pela primeira vez, ele viu algo de vingativo nos olhos dela -, é mais ou menos como quando você visita a sua família em Boston. - Então era isso. Pelo menos em parte. Bem, para o diabo com os joguinhos e os dançarinos dela. - Vejo você amanhã à noite? - Ela hesitou, graciosa, no quarto.

- Possivelmente. Tenho muito trabalho para fazer na segunda.

Ela caminhou até junto dele, o corpo firme e flexível se apertando contra o dele e beijou‑o com força nos lábios, o que o excitou visivelmente.

- Eu amo você. - Tinha um jeito de provocá‑lo que ele amava e detestava ao mesmo tempo, e antes que ele pudesse dizer qualquer coisa ela já se fora, e ele queria gritar de frustração.

Por falta de coisa melhor para fazer, ele ligou para o irmão mais moço e passou o dia em Greenwich com eles, jogando duplas com Pattie, Philip e o filho deles, e nadando na piscina com a filha deles. Foi um dia sereno, descontraído, e ele sempre se sentia embaraçado em admitir para si mesmo, como o fez na viagem de volta para casa, o quão intensamente eles o entediavam. Mas eram gente decente, e constituíam sua família, afinal de contas. Além disso, fora uma fuga agradável de Nova York e das coisas que lhe lembravam Sasha.

O telefone tocava quando chegou em casa, mas não atendeu. Não queria ouvir falar de Dominic, Pascal, Pierre, André, Josef, Ivan ou qualquer um dos outros. Estava cheio deles e até um pouco de Sasha. E na manhã seguinte ele foi até à firma de advocacia de Arthur e examinou os arquivos do espólio de George Gorham depois que Arthur deu carta branca, encontrando exactamente o que desejava. O próprio Arthur poderia ter encontrado, anos atrás, se tivesse procurado. O último contacto que tinham tido com Margaret Millington Gorham foi em 1962, e nessa época ela já era a condessa de Borne e morava na rue de Varenne em Paris. Não houvera mais nenhum contacto desde então, mas ela não podia ser muito difícil de encontrar. E quando ele procurou na lista telefónica de Paris naquela mesma tarde, viu que ele ainda morava no mesmo endereço, sob o nome de Borne, P. de, e o endereço era o mesmo. Bem, se ela ainda estivesse viva e podesse lhe dizer onde estava Alexandra, seria sopa no mel.

 

- Outra vez! - Sasha parecia ofendida, mas ele não se comoveu, desta vez. Negócios eram negócios. - Como é, arranjou um emprego na companhia aérea? - Ela estava furiosa. Era a terceira viagem dele em três semanas.

- Não vou demorar. - As coisas entre eles estavam um pouco mais frias.

- Para onde, dessa vez?

Ele sorriu. Jacksonville era que não.

- Paris. Pelo menos as minhas condições de trabalho são agradáveis. - Ela não respondeu, a principio, depois deu de ombros. Quem sabe ele estava mentindo e viajando para lá e para cá com uma variedade de namoradas? Nunca viajara tanto assim antes. Parecia estranho que agora estivesse fazendo as investigações pessoalmente, como lhe dissera. - Devo estar de volta lá pela sexta‑feira, o mais tardar na segunda.

- Já se esqueceu? Viajo em turnê na semana que vem, durante três semanas. Só vou vê‑lo quando voltar. A não ser que queira pegar um avião e ir me ver uma noite dessas.

Mas ele sabia como era a coisa, um bando de dançarinos completamente histéricos e nervosos e Sasha quase incoerente, mal percebendo a existência dele.

- Tudo bem, eu também vou ficar ocupado.

Mas eles iam passar um mês sem se ver. Um ano atrás aquilo o teria preocupado. Agora estava achando que poderia ser um alívio, ao menos para ele. A obsessão dela com o trabalho começava a oprimi‑lo.

Eles dormiram juntos lado a lado aquela noite, sem fazer amor, e ele a deixou em casa na manhã seguinte, a caminho do aeroporto.

- Vejo‑a quando você voltar. - Beijou‑a na boca e ela sorriu para ele, parecendo muito inocente e pura.

- Faça boa viagem. Vou sentir saudades. - Palavras invulgarmente gentis para ela, normalmente estaria prevendo o tempo com base na dor nos seus pés. E a sua súbita meiguice fez com que lamentasse vê‑la partir. O problema com ela era que não fazia mesmo ideia de como era totalmente egocêntrica. Para ela, tudo parecia perfeitamente normal.

Acenou para ela de dentro do táxi e prometeu ligar de Paris quando o carro fez a curva. Dali a um momento estava imerso em pensamentos, imaginando o que iria encontrar em Paris. Sem dúvida não uma viagem como a de Hilary, se Margaret Gorham tinha se casado com um conde francês. Pelo menos esperava que não.

A pedido de Arthur, viajou de primeira classe, e o seu voo pousou em Paris à meia‑noite, hora local. Foi directamente para o Bristol depois de passar pela alfândega. Já estava na cama às duas horas, mas cansado demais para dormir, e já eram cinco da madrugada quando pegou no sono, ficando horrorizado ao descobrir que eram onze horas ao acordar na manhã seguinte. Saltou da cama, pediu café e croissants e discou para o número de Margaret antes de tomar o seu banho. Pediu para falar com a condessa de Borne quando o telefone foi atendido por uma voz masculina falando francês, e tropeçou no seu francês limitado quando o mordomo perguntou: "De la part de qui, monsieur?" Deu‑lhe o seu nome, mas não conseguiu traduzir as palavras "mas ela não me conhece". Porém, fosse o que fosse que fora dito do outro lado, ela veio atender dali a um momento.

- Monsieur Chapote? - ela falou em francês com um forte sotaque americano, parecendo intrigada.

- Desculpe. - Sorriu. Gostava da voz dela. - John Chapman de Nova York.

- Santo Deus. André não consegue entender os nomes americanos. Eu o conheço? - Ela era franca e directa e havia algo na sua voz que sugeria um riso pronto.

- Não, senhora. Estou aqui para tratar de um negócio que gostaria de discutir com a senhora tão logo lhe fosse possível. - Não tinha a intenção de tocar no assunto por telefone.

- Ah. - Ela pareceu um pouco espantada. - Todos os assuntos de negócios são tratados em Nova York. - Disse‑lhe o nome da firma. - Excepto os de meu marido, é claro. É sobre algum investimento?

- Não. - Não queria assustá‑la, mas tinha que lhe dizer alguma coisa. - Na verdade, é uma coisa um pouco mais pessoal. É sobre uma investigação que estou fazendo para um sócio de seu falecido marido.

- Pierre? Mas ele não tinha sócios. - Era uma conversa muito confusa.

- Desculpe. Estou me referindo ao Sr. Gorham.

- Ah, pobre George... mas isso faz tanto tempo. Ele morreu em 1959... há quase trinta anos, Sr.... há... Chapman.

- Sei disso, e essa história é muito antiga.

- Houve algum problema?

Ela parecia preocupada.

- De forma alguma. Estávamos só esperando que a senhora nos pudesse ajudar a encontrar uma pessoa. Seria uma grande ajuda para nós se pudesse. Mas prefiro não entrar em todos os detalhes por telefone. Se puder me dar alguns momentos do seu tempo, gostaria muito de vê‑la...

- Está bem. - Mas ela parecia indecisa. Gostaria de poder perguntar a Pierre, ou a outra pessoa, se achavam que devia ver esse homem. E se fosse um charlatão ou um tipo de criminoso... não que parecesse ser. - Talvez amanhã, Sr. Chapman? E o nome da sua firma em Nova York?

Ele sorriu. Estava certa em querer fazer uma verificação.

- Chapman Associates, na rua 57. Meu nome é.John Chapman. que horas gostaria de me receber?

- Às onze horas? - Queria logo ter esse encontro. Ele estava começando a deixá‑la nervosa. Mas quando verificou com seus advogados em Nova York, eles conheciam a firma, e seu advogado conhecia John Chapman pessoalmente, assegurando‑lhe que era inteiramente íntegro. Só não podia imaginar o que Chapman pretendia, falando com Margaret de Borne em Paris.

Ele chegou pontualmente na manhã seguinte, o mordomo idoso deixou entrar com uma mesura discreta, depois conduziu‑o ao andar superior para esperar no gabinete da condessa. Era uma sala cheia de belos móveis Luís XV e um minúsculo lustre russo com o que parecia ser um milhão de cristais que refletiam a luz do sol que entrava na sala E a lançavam numa infinidade de arco‑íris de encontro às paredes. Era a coisa mais bonita que John já vira, e ele nem a ouviu entrar enquanto estava as belas luzes e o lindo jardim à distância.

 - Sr. Chapman? - Ela era alta e elegante, com um aperto de mão firme e uma voz forte, e a expressão dos seus olhos eram simpática e amistosa. Usava um costume amarelo de Chanel e os seus sapatos clássicos e um lindo par de brincos de brilhantes amarelos, presente do falecido marido. Sorriu calorosamente para John e indicou uma das cadeiras maiores da sala. A maioria delas eram extremamente pequenas e não muito convidativas, o que sempre a fazia sorrir. Riu enquanto ambos se sentavam. - Receio que nenhuma dessas peças tenha sido projectada para pessoas de nossas proporções. Não uso muito esta sala. Foi projectada como um "gabinete de senhora" e nunca me acostumei com ele. A minha neta de seis anos é a única pessoa que conheço que parece confortável aqui. Minhas desculpas.

- Absolutamente, condessa. É linda. - Parecia estranho chamá-la assim, especialmente com o seu sorriso pronto e risada feliz, ele achava que ela provavelmente esperaria formalidade, e queria‑a como sua aliada. - Infelizmente estou aqui para tratar de um assunto um tanto delicado. Fui contratado por Arthur Patterson. - Ele esperou para que o nome produzisse algum efeito, mas ela não parcia conhecê‑lo. - Ele foi sócio do Sr. Gorham há muitos anos e foi quem lhes trouxe Alexandra Walker para ser adotada. - Observava os olhos dela e a condessa de repente parecia que ia desmaiar. O rosto ficou pálido enquanto o observava. Esperou que ele continuasse sem dizer uma palavra. Mas era óbvio que agora se lembrava de Arthur. - Ele está muito doente agora, e seja por que motivos forem... todos pessoais, eu lhe asseguro... está ansioso para encontrar as três meninas Walker. Os pais eram seus amigos íntimos e ele se sente na obrigação de saber que elas estão bem antes de...

Enquanto ele buscava a palavra certa, ela interrompeu:

- Não é um pouco tarde, Sr. Chapman? Elas não são mais crianças.

- Concordo. Mas ele parece ter deixado tudo para a última hora e agora quer se certificar de que tiveram uma vida boa.

- Ás custas de quem?

- Como disse?

Ela parecia zangada. E se pôs de pé e começou a caminhar pelo aposento, andando por entre a chuva de arco‑íris.

- Às custas de quem quer se certificar? Sem dúvida essas moças já não se importam com Arthur Patterson, se é que o conheceram. E se o conheceram mesmo, não se lembrarão dele agora. Eram todas muito novinhas. - Chapman ficou desalentado ao ver a expressão dos olhos dela. Era evidente que estava disposta a fazer qualquer coisa para mantê‑lo afastado da filha. - Pelo amor de Deus, que importância tem isso? Elas são todas adultas. Não o conhecem. Nem mesmo se conhecem.

John Chapman soltou um suspiro. De certa forma, a condessa tinha razão. Mas ele estava trabalhando para Arthur.

- Esse é parte do motivo para a minha investigação. - Falou com voz suave, ansioso para acalmá‑la e mostrar‑lhe que podia confiar nele. - O Sr. Patterson quer reunir de novo as irmãs.

- Ah, meu Deus. - Ela se sentou pesadamente numa das pequenas e desconfortáveis cadeiras Luís XV. E então, com intransigência: - Não vou permitir. Que necessidade há de torturá‑las? Minha filha tem trinta e quatro anos, sabe lá Deus que idade têm as outras. Por que iriam querer descobrir duas irmãs desconhecidas? Pode ser embaraçoso para elas, sem falar em doloroso. Conhece as circunstâncias das mortes dos pais delas, Sr. Chapman? - Ele assentiu e ela continuou: - Eu também. Mas a minha filha não conhece, e nem tem necessidade de conhecer. George e eu a amávamos muito, como se fosse nossa, e o conde a aceitou como sua filha. Ela cresceu como nossa filha, com todas as vantagens que lhe pudemos dar, tem uma vida feliz com um marido e filhas. Não precisa desse sofrimento.

Sem falar em como poderia ocultá‑lo do marido. Só a ideia já apavorava Margaret. Não apenas ela era adotada, mas o seu pai de verdade tinha assassinado a mãe.

- Compreendo, mas quem sabe ela gostaria de conhecer as irmãs... é possível... quem sabe ela tenha o direito de fazer essa opção pessoalmente. Ela sabe que é adotada?

Margaret hesitou, pensativa.

- Sim. E não. Nós lhe contamos... há muito tempo... mas não estou certa de que se lembre. Não tem mais nenhuma importância. Para ninguém, Sr. Chapman. Não vou falar a ela da sua visita.

- Isso não é justo para com ela. - Falou numa voz tranquila - E se a senhora me forçar a isso, eu a encontrarei. Prefiro que a senhora fale com ela e explique o motivo para minha visita. Acho que seria bem mais fácil para ela.

Os olhos de Margaret de Borne se encheram de lágrimas de raiva.

- Isso é chantagem. O senhor está me forçando a contar‑lhe uma coisa que a fará muito infeliz.

- Se ela não quiser vê‑las, não será preciso. Tem o direito de recusar a vê‑las. Ninguém pode forçá‑la. Mas tem o direito de escolher. Talvez queira vê‑las.

- Por quê? Por quê, depois de trinta anos. Que tipo de gente são elas agora? O que ela tem em comum com elas? Nada.

Sem dúvida isso era verdade no caso de Hilary, mas ele ainda não sabia sobre Megan. Enquanto Hilary estava sendo chutada daqui para lá e estuprada pele tio e morando em lares de adoção pavorosos, a irmã cavalgava pôneis em Paris. Parecia um golpe injusto do destino. Pelo menos uma delas fora abençoada, a julgar pelas aparências, aquilo apenas fez com que ele sofresse mais por Hilary. A vida não fora bondosa para com ela nem por um único momento.

- Condessa... por favor... ajude‑me a tornar a coisa fácil para ela. Ela tem o direito de saber. E eu tenho a obrigação de lhe contar.

- Contar o quê?

- Que tem duas irmãs neste mundo, e que elas talvez queiram vê‑la.

- Já as encontraram?

Ele sacudiu a cabeça.

- Não, mas acho que vamos encontrar. - Estava sendo optimista, mas não queria partilhar os seus temores com ela.

- Por que não volta quando as tiver encontrado?

- Não posso me dar ao luxo de perder um só momento. Já lhe falei, o Sr. Patterson está morrendo.

- Foi uma pena não ter morrido antes de decidir arruinar a vida de todo mundo.

Ela parecia amarga e muito zangada. Durante anos ela protegera Alexandra da verdade, e agora este estranho, este homem vinha magoá-la. Dava‑lhe vontade de matá‑lo, e John teve pena dela. Era uma mulher simpática, e era lamentável que isso a estivesse perturbando.

- Sinto muito. De verdade.

Ela o fitou intensamente, por longo tempo.

- Talvez sinta mesmo. Não pode dizer a ele que não pôde encontrá‑la?

John sacudiu a cabeça e ela soltou um suspiro, depois continuou:

- Vou ter que pensar no assunto. Será um grande choque para ela, especialmente se eu tiver que contar‑lhe sobre os pais. - Mas pelo menos, John pensou consigo mesmo, ela tinha idade bastante para suportar o golpe. Não era uma mocinha, nem uma criança. Talvez fosse bom ele ter esperado. - Vou me encontrar com ela amanhã para almoçarmos. Tocarei no assunto, se achar um momento apropriado

Ele assentiu. Não podia pedir muito mais.

- Estou hospedado no Bristol. Gostaria de falar eu mesmo a ela, depois que a senhora lhe contar.

- Ela pode não desejar vê‑lo, Sr. Chapman. Na verdade, espero que não deseje. - Margaret de Berne empertigou‑se toda e não estendeu a mão, enquanto tocava chamando o mordomo. - Obrigada pela sua visita. Bom dia, Sr. Chapman.

- Obrigado, condessa.

André o acompanhou até lá embaixo, ostentando um ar severo de desaprovação. Era evidente para ele, pelo modo como a condessa se despedira, que John Chapman era persona non grata, e ele o tratou de modo condizente, enquanto fechava a porta ruidosamente às suas costas.

 

Alexandra encontrou a mãe, como sempre, na pequena sala de estar florida que preferia, mas ela não estava bordando quando chegou e, o que não era do seu feitio, usava um vestido azul‑escuro e muito poucas jóias.

- Está muito séria hoje, mamãe. Teve reunião no banco hoje de manhã?

Alexandra beijou‑a carinhosamente e Margaret sorriu para ela, mas o sorriso parecia distraído e sem entusiasmo. Mal dormira a noite anterior, depois da visita de Chapman pela manhã.

- Não, não, estou bem - disse Margaret, perturbada, e correu os olhos pela sala como que procurando um meio de fuga. E Alexandra franziu a testa, observando­a.

- Algum problema?

Não a vira assim tão nervosa desde a morte do pai, e se perguntava se algo ocorrera para perturbá‑la.

- Não, só algumas reuniões de negócios desagradáveis ontem. - Sorriu nervosamente. - Nada com que se preocupar, querida. Ah, chegou o almoço.

Pareceu imensamente aliviada e atacou a salada, contando a Alexandra as últimas fofocas do salão de cabeleireiro, e foi um alívio para Alexandra ouvir a mãe rindo. Mas era evidente que ela estava preocupada com alguma coisa e, quando a refeição chegou ao fim, ficou estranhamente calada.

- Mamãe. - Ela fitou a mãe seriamente. - O que a está preocupando? Sinto que tem alguma coisa errada. O que é?

Esperava que não fosse a saúde dela. Era extremamente bem conservada, mas mesmo assim... E então, de repente, achou que tinha sido por isso que fora a Nova York na semana anterior. Talvez tivesse ido a um médico, e não fazer compras. Trouxera coisas maravilhosas para as meninas e um belo Galanos novo para Alexandra.

Mas Margaret apenas a olhava tristemente, desejando nunca ter ouvido falar em John Chapman. Inspirou fundo e esperou enquanto André servia o café e depois saía discretamente da sala. Não que tivesse importância, ele era terrivelmente surdo e não falava inglês. Mas mesmo assim, Margaret esperou.

- Recebi uma visita bem desagradável ontem. Uma espécie de fantasma do passado. - Olhou para a filha e seus olhos se encheram de lágrimas. Alexandra ficou chocada. Nunca vira a mãe assim tão preocupada.

- Que espécie de fantasma?

- Ahhh... - Margaret não conseguia se posicionar. E olhou para a filha e enxugou os olhos. - Não sei por onde começar. É uma história tão longa e confusa. - Assoou o nariz discretamente num lencinho de renda que enfiara na manga e estendeu a mão para Alexandra, que se acercou mais e segurou a mão da mãe com força. Era óbvio que, fossem quais fossem as notícias que esse homem trouxera, eram pavorosas. Margaret olhava para ela e lutava para conter as lágrimas enquanto Alexandra lhe acariciava a mão para tranquilizá-la. - Lembra‑se de muito tempo atrás, de muitíssimo tempo atrás, antes de eu me casar com Pierre?

- Não, mamãe. - Tudo era um borrão distante, agora. Supunha que, se se esforçasse muito, poderia lembrar de alguma coisa. - Por quê? Do que é que devo me lembrar?

- Lembra‑se de que fui casada com outra pessoa antes do seu pai? Quero dizer, antes de Pierre...

Ia ser tão difícil quanto esperava, e Alexandra estreitou os olhos pensativa, depois assentiu.

- Sim... mais ou menos... suponho que aquele foi meu pai verdadeiro... mas, para ser sincera, não me lembro dele. Só me lembro de papa.

Margaret assentiu. Era o que sempre pensara.

- Bem, fui casada antes, e isso era óbvio porque acho que você deve se lembrar de que Pierre a adotou logo depois de nos casarmos.

Alexandra sorriu ante a lembrança imprecisa. Quase tinha se esquecido, até que a mãe despertou‑lhe a memória. Mas agora lembrava vagamente. Tinha ido ao escritório de um advogado, e à Maire, e depois foram almoçar no Maxim's para comemorar. Fora o dia mais feliz da vida... e era estranho que, de uma certa forma, quase tinha se esquecido.

- É gozado. Acho que quase tinha me esquecido que era adotada. - E então corou. - Suponho que devesse ter contado a Henri, mas nunca pensei que era realmente importante. E papa disse...

As duas sabiam o que Pierre lhe dissera. E ela pressentira instintivamente que Henri ficaria muito zangado se soubesse que era adotada. Portanto, nunca lhe contara, ou se permitira recordar.

- O seu pai a considerava assim. Você era como a carne da carne dele... e mais... - acrescentou lentamente. E depois continuou com a sua história dolorosa. - Mas você foi adotada - fez uma pausa, como que tentando ganhar coragem - não apenas por Pierre... mas pelo meu falecido marido anterior. Nós a adotamos quando você estava com cinco anos, os seus pais estavam ambos mortos. Um sócio da firma de George veio nos procurar e falou de você... e nos apaixonamos por você da primeira vez em que a vimos.

As lágrimas escorriam copiosamente pelas suas faces e pingavam nas mãos juntas, enquanto Alexandra a fitava. O que ela estava dizendo? O que queria dizer? Margaret não era sua mãe? De repente, abraçou Margaret e a apertou com força, como se tivesse medo de perdê-la.

- Não me lembro nada dessa parte, eu pensei... sempre pensei que fosse minha mãe...

Como podia ter esquecido?... Como era possível?... Não que modificasse alguma coisa. Mas quem tinham sido seus pais, e quem era sua mãe?

Margaret fungou e assoou o nariz de novo. Isso ainda era mais difícil do que tinha esperado.

- Você tinha quase quatro anos quando seus pais morreram... a sua mãe pelo menos... e seu pai morreu alguns meses mais tarde. Você ficou com uma tia por parte de pai, mas ela não teve condições de ficar com todas... com você... - Tropeçou e continuou: - Então um amigo da família estava procurando alguém para lhe adotar. E você nos tornou as pessoas mais felizes do mundo e, seis meses mais tarde, George morreu e nós viemos para a França e você se lembra do resto depois.

Ela estava passando por cima de algumas coisas, mas Alexandra ainda tentava aceitar o facto de que Margaret não era sua mãe.

- Como foi que meus pais morreram? - Fez‑se um longo silêncio enquanto seus olhos se encontraram e permaneceram fitos uns nos outros, e Alexandra sentiu um calafrio na espinha. Soube, bem no intimo, que algo terrível tinha acontecido. Margaret fechou os olhos e depois os abriu, falando numa voz meiga.

- Houve uma briga terrível que ninguém nunca entendera... ele era um actor famoso da Broadway e dizem que ela era muito linda...

- Não foi isso que lhe perguntei, mamãe... - As lágrimas corriam pelas faces de Alexandra enquanto esperava. Sabia, já sabia, essa era a parte horrível, mas agora precisava ouvi­-lo de Margaret.

- O seu pai a matou.

Alexandra falou num sussurro atormentado, olhando para além da mãe, para o jardim:

- E meu pai cometeu suicídio. Disseram‑me que ele tinha se matado... - A mão dela voou até os lábios e um soluço lhe e escapou, enquanto Margaret a tomava nos braços e a deixava chorar. - E eu esqueci... esqueci de tudo... como pude esquecer? E minha mãe tinha cabelos ruivos... e falava francês, não é? Ah, meu Deus... mas é só isso que me lembro. - E então ela olhou para Margaret de novo, a dor das lembranças estampada no seu rosto devastado Ias lágrimas nascidas do que recordara subitamente. - Ela era francesa?

Margaret falou com dor evidente enquanto respondia. Era indescritivelmente terrível, e ela detestou John Chapman e Arthur Patterson por submetê‑las a isso tão desnecessariamente, tantos anos mais tarde.

- Acho que era francesa... provavelmente... - E provavelmente era ruiva, porque Alexandra o era, quando não estava se fingindo de loura para agradar o marido. E a pequena Axelle se parecia muito com Alexandra na mesma idade. Era como revê‑la do jeito que era da primeira vez em que Margaret a vira.

- Por que meu pai se matou? Por que a matou? - Queria saber. Era horrível, mas de repente ela precisava das respostas às perguntas que estavam há tanto tempo esquecidas.

- Ele se matou porque foi condenado por matá‑la. Foi uma história terrível, chocante. E deixou você e... e deixou você órfã. - Mas não podia ficar evitando o resto da história. Essa era a pior parte. Tinha que lhe contar. Segurou de novo a mão de Alexandra e alisou suavemente os dedos graciosos que em nada se pareciam com os seus. Na verdade, fisicamente, eram muito diferentes, mas Alexandra nunca ligara muito para isso. E então, de repente, compreendeu... mas só o que se lembrava era do cabelo ruivo, e nada mais... não havia rosto para acompanhá‑lo. Sentia que seu coração estava sendo arrancado do peito, como se a dor e as lembranças há muito enterradas estivessem surgindo para atormentá-la. - Você tinha... você tinha duas irmãs. As palavras atingiram Alexandra como uma facada e ela podia senti-las ecoando na sua cabeça como balas ricocheteando... duas irmãs... duas irmãs... duas irmãs... Axie, eu a amo... eu a amo... Meu Deus, como pôde ter-se esquecido? Lembrou-ser do toque, do cheiro... cabelos negros, muito negros e olhos grandes e tristes... Hillie... Hillie... e um bebé. Sem pensar, Alexandra se afastou da mãe e cruzou a sala para ir olhar o jardim. - Não podíamos ficar com vocês três... não nos sentíamos...

Alexandra não escutava a voz, as desculpas, ficava ouvindo as mesmas palavras - "sempre se lembre do quanto a amo, eu a amo, Axie" - e uma garotinha soluçando incontrolavelmente. Quem era aquela garotinha? Seria a sua irmã?

- Como elas se chamavam? - Tinha que saber. Tinha, mas Margaret sacudiu a cabeça. Sabia muito pouco a respeito das outras.

- Não sei. Só sei que uma era mais velha do que você...

Alexandra terminou a frase por ela como que em transe:

-...e a outra era um bebé. - Fitou Margaret como se estivesse sentindo muita dor. - Lembro‑me delas, mamãe... lembro de alguma coisa agora. Como pude ter esquecido?

- Talvez fosse doloroso demais para você, na época. Talvez fosse mais fácil esquecer. Você não fez nada de errado. Tinha o direito a uma nova vida. Nós a amávamos muito e fizemos todo o possível para fazê‑la feliz.

Parecia tão arrasada, de repente era como se, de um só golpe, tivesse perdido a sua única filha, e Alexandra se dirigiu a ela e rodeou com os braços a mulher que conhecia como mãe há trinta anos.

- Você é a minha mãe, mamãe. Sempre será. Nada mudará isso.

- Fala sério? - precisava escutar aquilo, e chorou sem constrangimento enquanto Alexandra a tranquilizava. - É terrível que essa gente tenha voltado para atormentá‑la agora. Eles não têm o direito de fazer isso.

- Por que voltaram - Alexandra olhou para ela com os olhos cheios de perguntas.

- Arthur Patterson, o homem que providenciou a sua adoção, era um amigo da família... de seus pais... e ele quer saber agora que você e suas... - Quase se engasgou com a palavra. -...irmãs... estão bem. E, se possível, quer reuni‑las.

Alexandra pareceu chocada.

- Eles sabem onde estão as outras?

- Ainda não. Mas estão procurando. E a encontraram, então suponho que vão encontrar as outras.

Alexandra assentiu. Era muita coisa para absorver de uma só. De repente, numa única tarde, adquirira duas irmãs e um pai matara a mãe de cabelos ruivos que provavelmente era francesa, a mãe que amara a vida toda não era mais a sua mãe, sem falar nos dois pais adotivos que descobrira, ao invés de um só. Era muita coisa para engolir de uma só vez, e ela sorriu debilmente para Margaret e tomou um grande gole de vinho com um ar de quem pede desculpas.

- Acho que estou precisando.

- Eu também. - E com tais palavras Margaret se levantou, tocou chamando André. Quando ele apareceu, disse‑lhe para trazer para ela um Bourbon duplo. - Os hábitos americanos custam a morrer, especialmente em momentos de crise.

E então se voltou para Alexandra, copo na mão, girando lentamente os cubos de gelo com um dedo.

- Quer vê‑las, Alex?

Alexandra ergueu os olhos para ela, pensativa.

- Não sei. E se nos detestarmos e formos terrivelmente diferentes? Trinta anos é muito tempo.

- Foi o que eu disse a Chapman. Na verdade, é ridículo. O que vocês podem ter em comum?

Alexandra concordou e, no entanto havia uma atração inegável em encontrar as outras. Mas havia outro problema que tinha de enfrentar primeiro, bem mais premente. O marido.

- O que você acha que Henri diria disso tudo, mamãe? - Fitou a mãe cautelosamente, mas ambas sabiam o que Henri diria. Ficaria ultrajado. - Supõe que faria alguma diferença para ele?

Margaret podia ver que ela queria desesperadamente tranquilizar-se. Mas não podia ajudá‑la. O escândalo sem dúvida seria demais para o marido de Alex.

- Não devia, se ele a ama. Mas acho que será um choque para ele. Isso é inevitável. E, francamente, ainda não veio por você deve lhe contar. Seu pai e eu conversamos a respeito quando se casou, e decidimos que não era importante. Nós a amamos, é nossa filha de todas as maneiras possíveis e o que acontece trinta anos não interessa a ninguém. Talvez nem mesmo ao seu marido.

- Mas isso é tão desonesto, mamãe. Devo a ele contar-lhe a verdade. Não é? - Os olhos dela ainda estavam cheios de perguntas.

- Por quê? Para que perturbá‑lo sem necessidade? - Margaret tentou parecer calma, mas a coisa toda estava virando um pesadelo.

- Porque o facto de eu ser filha do conde de Borne é muito importante para ele, mamãe. Ele acredita em toda essa história de linhagem, e você sabe disso. Mal consegue tolerar o facto de você ser americana, pelo amor de Deus, e só o facto de que sabe que você vem de uma família importante é que o torna disposto a superar isso. Que tal lhe contar, em vez disso, que meu pai era actor, e que matou a minha mãe, de origem desconhecida? Sou a filha de um assassino desconhecido e suicida, ainda por cima americano, com duas irmãs não identificadas. - Ela abriu um sorriso, mesmo a contragosto. Era uma situação difícil. - Francamente, acho que ele morreria de infarto. E, se sobrevivesse, se divorciaria de mim. E tiraria as minhas filhas de mim, se pudesse. Porém, se eu não lhe contar, estarei sendo conscientemente desonesta.

- Não seja tola, Alex. Não estamos na Idade Média. Ele não seria tão pouco razoável. E além do que, ainda acho que não deve contar.

- Você não conhece o meu marido. Se eu lhe contar, poderá me deixar e às meninas, mas o resto não é tão exagerado. Especialmente com as suas aspirações políticas. Meu Deus, mamãe, ele morreria... E se descobrisse de outra forma... se eu não lhe contasse e alguém descobrisse... - Alexandra estremeceu visivelmente enquanto andava de um lado para o outro da sala, e Margaret não pôde discordar dela.

- Já lhe disse. Não conte a ele.

- E se ele descobrir? E se houver um escândalo? Pelo menos, eu mesma não sabia. Mas agora que sei, como posso deixar de lhe contar? É enganoso.

Antes também era, mas agora ela estava escondendo uma montanha de informações.

- Ora, não seja tão inocente, pelo amor de Deus. - Tomou um grande gole de Bourbon e olhou para a filha. - Você não pode ser sempre a esposa perfeita. Tem de pensar em si mesma de vez em quando, não que o faça muitas vezes. E seria uma estupidez fazer uma confissão para Henri. Para que serviria, excepto causar‑lhe inúmeros problemas?

Ela não podia discordar da mãe. Havia muita coisa em jogo. Podia perder tudo. O marido. O casamento. As filhas.

- Mas e se eu decidir que quero ver as outras? Como vou explicar isso? Como posso escapar para os Estados Unidos para ir me encontrar com as minhas irmãs? Não posso dizer que venho almoçar aqui e depois desaparecer por cinco dias, não é?

- Tem certeza de que quer ir? - Margaret ficou desapontada, mas Alexandra sacudiu a cabeça.

- Ainda não tenho certeza... mas, se quisesse ir, não sei o que diria ao meu marido.

A solução de Margaret seria simplesmente não ir, mas sabia que não era justo dizer isso. Tinha seus próprios motivos para não querer que Alexandra fosse, era uma tolice, mas temia que, de alguma forma, fosse perdê‑la para o fantasma da mãe morta há muito tempo e três irmãs que ajudariam a provar que a voz do sangue falava mais alto. Era infantil, porém queria que Alexandra voltasse as costas para elas. Mas foi sensata o bastante para não dizer nada.

- Acho que não deve revelar nada a ele, Alexandra. Nada mesmo. Seria bem mais sensato ficar calada. - A seguir rabiscou algo num pedaço de papel, e entregou a ela o nome de John Chapman, e o nome e o número do telefone do seu hotel. - O Sr. Chapman quer que você ligue para ele, para poder lhe explicar tudo. Se você quiser, pode ligar para ele no Bristol.

- Por que ele está aqui?

Margaret hesitou, mas apenas por um instante.

- Veio vê‑la.

- Foi por isso que veio a Paris? - Margaret acenou a cabeça afirmativamente. - Então vou ligar para ele. Ao menos, devo‑lhe isso. - E enquanto metia o papel com o nome dele na bolsa, viu as horas. Passava das cinco, e ela ficou horrorizada. Tinha que ir para casa, para Henri e as meninas. Fora uma tarde espantosa, cheia de confissões inesperadas. E Margaret foi com ela até à porta e abraçou‑a com força e por longo tempo antes de ela partir, enquanto Alexandra a fitava nos olhos com as lágrimas rolando pelas faces de novo. - Mamãe, por favor, sabe o quanto eu a amo.

- Você sempre será a minha menininha.

As lágrimas começaram a deslizar pelas suas faces de novo e as duas mulheres ficaram abraçadas por longo tempo antes de Alexandra ir embora. Fora uma tarde chocante e ela mal podia pensar direito enquanto se dirigia para casa. Ficava escutando uma voz do passado distante... "Axie, lembre‑se sempre do quanto a amo"...

 

Alexandra continuava em estado de choque quando chegou em casa. Era difícil absorver tudo o que a mãe lhe dissera. Sentia‑se como se estivesse se movendo num sonho e ficava tentando recordar coisas que tinham sumido há anos... a mulher de cabelos ruivos... e a garotinha que chamava de Hillie.

- Você está atrasada. - Henri aguardava no gabinete dela quando Alexandra entrou no aposento, sentindo‑se como se tivesse pesos de chumbo nos ombros.

- Desculpe, eu... - Ela deu um salto ao vê‑lo, despertada do seu devaneio. Porém, aos olhos de Henri, aquilo a fez parecer culpada. - Minha mãe tinha uns papéis que precisei discutir com ela... Não pensei que fosse levar... Henri, desculpe. - Havia lágrimas nos seus olhos quando se virou para ele. Henri olhava para ela como se não estivesse acreditando.

- Onde esteve?

- Já lhe disse. - As mãos dela tremiam enquanto pendurava o casaco do costume. Ele a fazia sentir‑se como se, de alguma forma, o tivesse atraiçoado. - Estive na casa de minha mãe. - Tentou fazer com que a sua voz soasse calma, mas parecia nervosa, até mesmo aos seus ouvidos.

- Até agora? São seis horas. - A voz dele estava cheia de reprovação, e Alexandra de repente se voltou contra Henri, os nervos à flor da pele. Precisava de tempo para pensar, para absorver o que ouvira... precisava de tempo para lembrar.

- Escute, desculpe o meu atraso. Já lhe falei, estava na casa de minha mãe.

Ele se acalmou um pouco, mas ainda parecia zangado.

- Cuide para que isso não aconteça de novo. Não sei por que ela a prende até tão tarde. Sabe que você tem obrigações importantes.

Alexandra cerrou os dentes para não lhe responder. A mãe a prendera até tarde para poder lhe dizer que fora adotada duas vezes... e que o seu verdadeiro pai assassinara a sua mãe... que ela tinha duas irmãs das quais se esquecera inteiramente... coisinhas desse tipo. Nada de importante.

 Ela vestiu apressadamente um vestido de seda preto e meias pretas. Calçou scarpins de cetim preto, refez a maquiagem, penteou o cabelo e guardou o batom e o pó compacto numa bolsa de cetim preto. E dali a vinte minutos estava lá embaixo de novo, reunindo‑se a Henri no hall da frente, os dois prontos para sair. Mal teve tempo de dar boa‑noite às meninas e, quando o fez, quase chorou. Quando olhou para elas, lembrou‑se das irmãs que tinha praticamente esquecido.

- Sejam boas uma para a outra, vocês duas - sussurrou, enquanto se despedia de Marie‑Louise com um beijo. - Não sabem a sorte que têm de ter uma à outra. - E uma vida como a delas, cheia de gente que as amava, protegidas do mal. Ela tivera sorte em ser adotada por Margaret e Pierre. Agora, porém, de repente, olhando Henri, sentia‑se como se tivesse um segredo culposo.

- Por que sua mãe não leva os problemas dela a um advogado ou a um banqueiro? - indagou Henri numa voz cheia de irritação enquanto se dirigiam ao restaurante onde iam encontrar uns novos conhecidos de Henri.

Alexandra fez um ar vago enquanto olhava pela janela.

- Ela pensou que eu podia ajudar. É só.

Ele riu, como se fosse uma sugestão ridícula.

- Podia ao menos ter me procurado. Eu poderia lhe dar assistência.

Mas ela sabia perfeitamente bem que Margaret jamais procuraria o seu marido. Eles mal se toleravam.

Chegaram no Taillevent e Alexandra correu os olhos pelo ambiente familiar distraidamente. Henri levou‑a até seus convidados e fez as apresentações necessárias. A sala estava repleta com tout Paris, homens de ternos escuros e mulheres belas, elegantemente vestidas. A sala estava magnífica como sempre, com as paredes revestidas de madeira, os lustres magníficos, os vasos cheios de flores frescas. Era um lugar onde apenas a nata da elite podia entrar, e até mesmo eles tinham de esperar meses por uma reserva.

Era o restaurante favorito de Henri, e ele gostava de frequentá-lo com ela e os amigos, e até com relações de negócios, como era o dessa noite. As pessoas com quem estava jantando poderiam vir a apoiá-lo na sua carreira política, e Alexandra podia sentir que a noite era extremamente importante. Mas, não importa o quanto se esforçasse, não conseguia se concentrar, e lá pelo final da noite estava quase em lágrimas, enquanto Henri a olhava furioso e ela lutava desesperadamente para se manter à tona na conversa.

- Como disse? - falou pela décima vez durante a noite, no mínimo. Não percebera absolutamente o que a mulher dissera... fora algo sobre o sul da França?... Ou algo sobre as suas filhas? - Me desculpe...

Os olhos de Alexandra se encheram de lágrimas e ela os enxugou com o guardanapo, como se estivesse tossindo. Sentia como se a noite nunca mais fosse chegar ao fim, e Henri estava furioso com ela quando se retiraram.

- Como pôde fazer isso comigo? - esbravejou ele, a caminho de casa. - A sua atitude foi um insulto escancarado!

- Henri, desculpe... eu não estava me sentindo bem... não conseguia me concentrar... eu... - Mas só no que podia pensar era em John Chapman no Bristol, e no quanto desesperadamente queria ligar para ele.

- Se não estava se sentindo bem, não devia ter vindo. Você só fez piorar as coisas. - Ele estava lívido.

- Desculpe... eu tentei... tentei de verdade... - As lágrimas escorriam pelas suas faces. Detestava desapontá‑lo, mas estava com a cabeça cheia de outras coisas.

- Você não tem desculpa! - ele esbravejou. Mas tinha. E não podia contar para ele. - Não vou tolerar esse tipo de comportamento. - E então, o golpe final: - Você sempre fica impossível depois de visitar sua mãe! - Como se ela fosse uma criança malcriada e ele tivesse o direito de ralhar com ela.

- Minha mãe nada teve a ver com isso, Henri. - Alexandra falava em voz baixa enquanto assoava o nariz. Ele a fitou ferozmente quando pararam num sinal, a caminho de casa. Nem estava se importando que o motorista escutasse.

- Então onde esteve hoje até às seis horas? - Começou de novo. Alexandra sacudiu a cabeça e olhou pela janela, depois voltou a olhar para ele.

- Já lhe disse. Estava na casa de minha mãe.

- Havia mais alguém lá?

Ele nunca desconfiara dela antes, e a pergunta a magoou profundamente.

- Claro que não. Meu Deus, do que está desconfiando? - Teve vontade de dizer a ele que não se dedicava aos mesmos esportes a que ele se dedicava, mas não queria abrir uma caixa de Pandora que causaria problemas ainda maiores. Estendeu a mão e tocou a dele, mas ele não se mostrou disposto a abrandar. - Henri, por favor...

- Você me envergonhou demais hoje.

- Desculpe. Estava com uma dor de cabeça terrível.

Ele não lhe disse nem mais uma palavra, mas quando chegaram em casa na Avenue Foch, abriu a porta polidamente para ela, se dirigiu aos seus aposentos e fechou a porta com firmeza atrás de si.

 

Logo que Henri seguiu para o escritório na manhã seguinte, Alexandra procurou o número do Bristol e discou‑o. Perguntou por John Chapman sentindo a mão tremer ao segurar o aparelho, e a sua voz falhou ao se identificar. Era como alta espionagem, e ela estava extremamente nervosa. Se Henri imaginasse o que ela fazia, ou o que ficara sabendo, provavelmente se divorciaria dela.

- Falou com a sua mãe? - Chapman tinha uma voz calma, suave, e ela teve facilidade em falar com ele.

- Ontem... eu... eu tinha me esquecido de tudo. - Até que era adotada. Tinha se permitido negar isso a si mesma durante todos esses anus... sem falar no facto de que já fora adotada antes.., e Hillie... e a mulher com os cabelos ruivos... Mas Chapman não parecia condená‑la.

- Talvez fosse mais fácil para a senhora não lembrar. Não havia motivo para isso. - Ele fez uma pausa, depois falou com ela com suavidade: - Podíamos nos encontrar ainda hoje?... é... hem... Desculpe, não sei o seu nome de casada. Só sei o nome de sua mãe.

Ele parecia muito cortês e bem‑educado. Ela receara que ele pudesse ser um desses investigadores repulsivos que se vêem em ‑filmes de segunda classe.

- De Morigny. Alexandra de Morigny. - Não se deu ao trabalho de dizer o título. Parecia não ter importância.

- Obrigado. Eu esperava que pudéssemos nos encontrar. Quem sabe ainda esta manhã. Gostaria de lhe mostrar as pastas que tenho. Talvez a senhora tivesse algo para acrescentar a elas... ou, de qualquer maneira, tem o direito de saber tanto quanto nós sabemos.

- Muito obrigada. Poderia encontrá‑lo no seu hotel... - Deu uma olhada no relógio sobre a sua mesa e fez uns cálculos rápidos. precisava tomar banho, se vestir e deixar instruções para os criados. Henri tinha convidados para o jantar. - Às onze estaria bem?

- Perfeito. - E, com sorte, poderia pegar um avião para Nova York naquela mesma noite. Tinha muito trabalho a fazer, e não queria ficar de papo para o ar em Paris para sempre. - Eu a encontro no saguão. Tenho um metro e noventa de altura, cabelo louro repartido do lado, e estarei usando um paletó de tweed, camisa azul e cinzenta.

Parecia mais um estudante universitário do que um investigador particular, e ela sorriu ao imaginar os seus trajes. Parecia um dos primos americanos. E então percebeu que ele não sabia como ela era.

- Também tenho cabelo louro. Tenho um metro e sessenta, estarei usando um costume cinza.

Estava pensando em usar um determinado costume de seda cinza um de que Henri gostava, não que isso importasse. E, quando se vestiu, pôs uma blusa de seda rosa e um lenço rosa de Hermès e as moedas Bulgari nas orelhas, aquelas que usava quando não queria usar nada espalhafatoso. Parecia respeitável e chique ao entrar lentamente no Bristol, sentindo o coração bater com força enquanto os seus saltos batiam no chão de mármore e ela corria os olhos pelo saguão. Já ia se dirigir ao balcão para mandar chamá‑lo quando o viu sentado discretamente na cadeira, segurando uma cópia do Herald Tribune de Paris. Ele se levantou e sorriu para ela, vindo em sua direção com as pernas compridas e com um sorriso que a deixou meio sem fôlego. Tinha dentes perfeitos e olhos meigos, e ela gostou dele instantaneamente. Parecia ser o tipo que seria um grande amigo, e ela apertou a sua mão solenemente, tentando não olhar para a maleta que segurava na outra mão. Sabia que dentro dela estavam os segredos do seu passado e do de suas irmãs.

- Desculpe o meu atraso. - Sua voz mal passava de um sussurro e ele percebeu facilmente que estava amedrontada. - Eu mesma vim guiando e tive muita dificuldade em achar uma vaga. Acabei entregando o carro ao porteiro.

Ele assentiu. Sentaram‑se num canto, em duas grandes poltronas de veludo vermelho que pareciam perfeitamente adequadas à situação.

- Quer uma bebida? Ou uma xícara de chá?

Mas ela estava nervosa demais para comer ou beber, e sacudiu a cabeça enquanto ele retirava a pasta da sua maleta. Estava bem mais grossa do que quando Arthur Patterson a dera a John em primeiro lugar. Agora havia nela o que ele sabia da vida de Hilary. E logo haveria o da vida de Alexandra.

- Obrigada, está tudo bem. - Seus olhos fitaram os dele profundamente. - Estão perto de encontrar as outras?

- Esperamos que sim. O último sinal de Hilary foi quando procurou Arthur Patterson há uns vinte anos, tentando encontrar a senhora e a sua irmã mais moça, e ficou furiosa ao descobrir que ele não mantivera contacto com nenhuma das duas. Imagino que ela própria tenha tentado encontrá‑las, em vão. De qualquer forma, ela o considerou responsável pela dissolução da sua família, e imagino que o odeie. E isso não é difícil de entender, pelo que sabemos do começo da sua vida. Não sei ainda o que aconteceu com Megan, mas, sem dúvida, comparada à senhora, Hilary teve a pior sorte possível. - Contou‑lhe o que sabia e os olhos de Alexandra se encheram de lágrimas ao escutar, pensando que aquele seria um destino terrível para qualquer pessoa. Tentou imaginar aquilo acontecendo às suas filhinhas, e só de pensar sentiu‑se mal. Não era de admirar que Hilary fosse amarga. Tinha todo o direito de ser. Abandonada, espancada, esquecida. - Suponho que tenha ido procurar Patterson tão logo chegou a Nova York, e depois disso nós a perdemos. Mas mandei fazer uma investigação muito intensa esta semana, e imagino que haja informações mais recentes sobre Hilary à minha espera quando eu voltar. Já pensamos uma vez que a tínhamos encontrado, mas foi um engano. - Estava se referindo à mulher da CBA. Contudo, não importa onde estivesse, ele a encontraria. - Mas da próxima vez, não será.

- Meu Deus, que vida horrível. - Alexandra enxugou as lágrimas discretamente e ele lhe ofereceu a pasta para que a examinasse. Mal pôde suportar o que lia, e afinal ergueu os olhos para ele, a angústia estampada no rosto. - Como ela pôde sobreviver a isso? - Alexandra sentiu uma onda de culpa invadi‑la enquanto pensava na própria vida em comparação com a da irmã. - Por que isso aconteceu?

- Não sei. As voltas do destino nem sempre são bondosas, Sra. de Morigny.

- Eu sei. - Falou baixinho, mas nunca tinha visto a coisa com tanta clareza. Era como um daqueles caleidoscópios que ela dava às filhas. A gente o girava só uma fração e todas as mesmas peças caíam num padrão totalmente diferente. Num momento eram flores e no momento seguinte eram demónios soprando fogo. Parecia‑lhe tão errado que para Hilary tivessem sobrado os demónios. Com esforço, voltou os pensamentos para John Chapman. - O que posso fazer para ajudá-lo a encontrá‑las?

- No momento nada, a não ser que se lembre de algo específico que possa nos ajudar. Mas o seu conhecimento teria terminado há muito tempo, não creio que seja de muita utilidade agora. Ligarei para a senhora tão logo encontre as outras, e o Sr. Patterson gostaria que vocês viessem para a casa dele em Connecticut para se conhecerem. É a única coisa que quer fazer antes de morrer.

Parecia um desejo nobre, porém menos nobre, caso se pensasse na dor que ele lhes causara.

- Como é que ele é? É estranho, mas não me lembro absolutamente dele.

Tampouco se lembrava do pai. Dera uma olhada nos recortes de Sam na pasta de John Chapman e ficara impressionada ao ver como era bonito e bem‑sucedido. Havia apenas duas fotos da mãe, uma moça sorridente com ondas cascateantes de cabelo ruivo vivo, de um certo jeito, ela se parecia um pouco com a filha mais moça de Alexandra. E a outra foto mostrava as três meninas, Alexandra e Hilary em vestidos brancos iguais e sapatos pretos lustrosos e o bebé numa camisola comprida de babados nos braços da mãe, tirada pouco depois do nascimento de Megan, na última Páscoa que a mãe delas passou com vida. Fora tirada diante da casa deles em Sutton Place, mas Alexandra não se lembrava dela.

Chapman tentou responder à pergunta dela.

- O Sr. Patterson está muito velho, e muito doente. Não creio que vá viver muito tempo mais. Está muito ansioso para reunir vocês três antes de morrer. Significa muito para ele.

- E se ele morrer antes que o senhor as encontre? - indagou Alexandra, sem rodeios.

- Tomou providências para continuar as investigações e reunirei as três. Mas gostaria de poder estar presente.

Ela assentiu. Ele pensara em tudo. Mas era uma pena que não tivesse pensado trinta anos antes. Teria feito uma grande diferença para Hilary. E foi o que ela disse a John Chapman.

- Se ele era tão íntimo dos meus pais, por que não nos acolheu e nos manteve juntas?

John Chapman sacudiu a cabeça.

- Não sei. Falou algo sobre a esposa dele não se sentir em condições de fazê‑lo. Acho que ele se arrepende disso, agora. Às vezes cometemos erros terríveis, mas só percebemos depois de cometê‑los. - Teve coragem de lhe perguntar o que Arthur queria saber. - Você é feliz, Alexandra? Perdoe‑me por perguntar...

Mas aquilo significava muito para Arthur. E ela sorriu para John.

- Sempre fui muito feliz. Tive a bênção de ter pais maravilhosos, a quem amava profundamente. Pierre de Borne foi um homem admirável, e sou grata por ele ter vivido tanto quanto viveu. Era a alegria da minha vida - enrubesceu -, e eu da dele. - Depois deu um sorriso mais largo. - E você conheceu a minha mãe ontem. É maravilhosa, não é? É a minha amiga mais íntima e maior aliada. Isso tem sido muito duro para ela. - O rosto de Alexandra ficou sério ao se lembrar das lágrimas da mãe no dia anterior. - Foi terrivelmente duro para ela lembrar o passado para mim. Suponho que não seja fácil para ninguém desenterrar tudo isso, especialmente dada a forma como tudo aconteceu. - Ela soltou um suspiro e olhou para ele. - Alguém sabe por que ele realmente a matou?

- Não exactamente. - Sacudiu a cabeça. - Tiveram uma briga, creio. Acho que ele estava bêbado. Insanidade temporária, como alegou a defesa. O Sr. Patterson afirma até hoje que Sam, o seu pai, a adorava. É difícil compreender as pessoas cedendo a esse tipo de violência e emoções.

Ela assentiu, mas estava pensando em Hilary, e ainda não tinham descoberto nada sobre Megan.

- Espero que Megan esteja bem. Espero que as duas estejam. - ‑Era como se as conhecesse, agora, como se já tivessem voltado para ela, como as suas próprias filhas. - Tenho duas filhinhas, Axelle e Marie‑Louise. É estranho - refletiu, pensativa ‑, acho que Marie-Louise se parece um pouco com Hilary. - Também era estranho que Alexandra tivesse voltado para a terra natal da mãe.

E então Chapman lhe fez uma pergunta difícil:

- Já contou a seu marido tudo isso?

Ela sacudiu lentamente a cabeça.

- Receio que Henri não vá compreender. Acho que ficará muito abalado por meus pais não terem lhe contado quando nos casamos. E, até que você encontre as outras, não faz sentido contar‑lhe. Só o deixará infeliz. - Era uma história que ela se estava contando desde a noite anterior, da qual já estava quase convencida.

- E quando encontrarmos as outras?

- Então terei de lhe contar alguma coisa. - Sorriu, constrangida. - Não posso ir aos Estados Unidos sem motivos sérios, Sr. Chapman.

- Você não o enganou, não sabia de tudo isso.

Estava tentando acalmá‑la, mas ela sabia que a verdade era outra.

- Mas os meus pais enganaram. Ele vai ficar muito zangado. Acredita que sou a filha do conde de Borne. A linhagem significa muito para Henri. Ele conhece a árvore genealógica da família dele por novecentos anos. Não acho que um assassino e uma noiva de guerra francesa sejam exactamente o que ele idealizava para avós de suas filhas.

Talvez fosse bom não terem tido um filho. Nesse caso ele jamais a perdoaria. E talvez não perdoasse, mesmo assim. Chapman teve pena dela enquanto observava o seu rosto. Sentia que o marido não era uma pessoa fácil.

- Acho que ele vai se adaptar. É óbvio que vocês estão casados há muito tempo. E ele a ama. Isso conta muito.

- Não para todo mundo, Sr. Chapman. - Sorriu melancólica. E como ele podia estar tão certo de que Henri a amava? Ela própria não tinha certeza disso, ás vezes. Ele era seu dono, como era dono um belo móvel Luís XV ou um bom quadro. E se o quadro fosse uma falsificação? Ainda gostaria dele o bastante para ficar com ele? Sabia que algumas pessoas o fariam, mas não tinha certeza de que Henri fosse uma delas. Era obcecado por qualidade, veracidade e perfeição. E sabia agora como a sua linhagem estava danificada. Não era difícil imaginar a reação de Henri.

Chapman a fitava gentilmente enquanto se sentavam num canto do hotel, e percebeu que gostava dela. Era meiga e tímida, e tinha olhos bondosos, o tipo de olhos que sempre desejara encontrar numa mulher. Era tão graciosa, e tão meiga. Esperava que a investigação de Arthur não viesse a lhe causar dor. Ela não fizera nada para merecê‑lo.

- Posso convidá‑la para almoçar, Alexandra? E quer me perdoar por ser tão informal? - Sorriu‑lhe com jeito de garoto, e ela achou graça.

- O senhor conhece todos os segredos da minha vida. Não posso esperar que vá me chamar pelo título do meu marido.

- Ah, meu Deus... quer dizer que ele é nobre?

- Claro. - Ela riu de novo e, quando o fez, pareceu muito mais jovem, - O barão Henri Edouard Antoine Xavier Saint‑Brumier de Morigny. Belo nome, não é? - Ela estava quase soltando risadinhas. Fora uma manhã muito tensa e ela precisava do alívio. Ambos precisavam.

- Tudo isso cabe na carteira de motorista dele?

Ela riu da ideia. E depois ficou séria.

- O senhor, Sr. Chapman, o que pensa de tudo isso? É um homem inteligente. Tudo deve lhe parecer um tanto chocante.

- Nada mais me choca. Acho que foi uma pena que tantas vidas tenham sido destruídas por um acto de loucura. E de certa forma, acho uma pena mexer nas brasas. Mas não cabe a mim fazer esses julgamentos e talvez traga algum consolo a alguma de vocês essa reunião. Está curiosa quanto às outras?

Ela fez que sim. Tinha que admitir que estava.

- Lembro‑me um pouco de Hilary... um pedacinho aqui, outro ali, desde que falei com a minha mãe ontem. - E depois soltou um suspiro - Foi um choque tremendo para ela.

- E para você também. - Havia compaixão no olhar dele, e teve vontade de estender a mão e tocar a dela, mas não o fez. - Desculpe ter causado tanta encrenca.

- Ainda não causou. - Mas causaria, quando encontrasse as outras.

- Posso convencê‑la a almoçar comigo, a despeito de tudo isso? - Gostava dela e, o que era engraçado, queria conhecê‑la. Disse a si mesmo que era para poder relatar tudo ao seu cliente, mas sabia que era mais do que isso. Os pedaços do mistério estavam começando a se encaixar, ela era uma bela mulher, e gostava dela.

Ela hesitou apenas uma fração de um instante, calculando que aquilo não podia fazer mal algum.

- Eu adoraria.

- Alguma sugestão? Não tenho estado aqui recentemente e receio não estar muito atualizado quanto aos restaurantes.

- Os melhores lugares, Sr. Chapman, são os antigos. - Ela se pôs de pé e sorriu., e ele voltou a colocar tudo na maleta e trancá‑la. Por um estranho momento ela teve vontade de lhe pedir o retrato de quando era garotinha com as irmãs, mas imaginava que ele precisasse da foto para mostrar para as outras, quando as encontrasse. E então compreendeu, de repente, por que não havia fotos dela quando bebé. Pensava nisso enquanto cruzavam o saguão, e ele insistia para que ela o chamasse de John, reparando na estranha expressão dos seus olhos.

- Acabo de perceber uma coisa que nunca tinha entendido direito antes. Meus pais não têm fotos minhas quando bebé. E eu aceitava, como se fosse uma coisa normal.

- Não tinha motivos para duvidar deles. Onde vamos almoçar?

- Pensei em irmos ao Ritz, com todas as velhinhas. - Abriu um sorriso e ele riu quando ela tomou o seu braço e começaram a andar.

- Parece encantador.

- Elas fazem com que eu pareça terrivelmente jovem e atraente.

- E você é, ou não reparou nisso ultimamente?

- Tento não olhar, só vejo as rugas.

Mas era apenas conversa fiada, ela não aparentava nem trinta anos e tinha uma bela pele e cabelos sedosos, o que o fez lembrar que parecia diferente do que ele esperava.

- Sabe, é gozado, mas pensei que você teria cabelos ruivos.

 Ela deu um sorriso culpado e pareceu muito feminina e ele se impressionou de novo com a beleza dela, a seu modo sutil. Era quase como se estivesse tentando ocultá‑la, com o seu penteado refinado e roupas discretas. Ficou imaginando como ela seria se se soltasse toda. Provavelmente se pareceria muito com a mãe.

- Na verdade eu tenho cabelos ruivos. - O sorriso diminuiu, depois se apagou. - Meu marido não gosta, por isso uso uma rimagem loura. Axelle, a minha filha caçula, também tem cabelos ruivos. Mas há anos que não sou ruiva. Henri acha vulgar. - Ela falou com naturalidade e John concluiu em silêncio que Henri era um perfeito idiota.

O almoço no Ritz foi relaxado, tranquilo e agradável. Falaram sobre Boston e Nova York, e Cape Cod e Saint‑Jean‑Cap‑Ferrat, onde cada um passava o verão. Falaram sobre barcos à vela e os verões quando eram crianças e sobre como ele começara a sua carreira ao invés de exercer a advocacia, como era esperado. Eram como dois velhos amigos, e ambos lamentaram quando ela finalmente o deixou no hotel e voltou a entrar no carro que deixara com o porteiro.

- Ligue para mim logo que souber alguma coisa, John.

- Prometo. - Ele tocou‑lhe a mão pousada no volante, depois se debruçou para beijar‑lhe a face. - Cuide‑se. E espero que, da próxima vez que eu a vir, você tenha cabelos ruivos flamejantes!

Ambos riram e ela acenou e entrou no fluxo do tráfego, sentindo-se como se tivesse feito um novo amigo. Ele era bonitão, encantador e inteligente, e ela se perguntou por que não se tinha casado. Ele dissera apenas que era divorciado e que tinha uma queda por mulheres difíceis. Mas ela gostara tanto dele que não podia imaginar por que alguém não o agarrara no momento em que se divorciara da primeira mulher.

Mas logo os seus pensamentos voltaram para o motivo pelo qual ele viera a Paris. Era tudo mais do que um pouco espantoso. E ficou aturdida ao se dar conta, quando entrou em casa, que já eram quatro horas. E daria um jantar aquela noite. Verificou as flores e o vinho rapidamente, falou com o cozinheiro, olhou ao seu redor para se certificar de que tudo estava em ordem. E depois foi ver as filhas, que, brincavam no jardim com uma amiga. Estavam empolgadas porque as aulas estavam quase acabando e logo estariam partindo para Cap Ferrat.

Às seis e meia ela foi se vestir e escutou Henri no seu gabinete, mas não quis íncomodá‑lo. Em vez disso, correu para o seu banho e separou o vestido que ia usar, um longo de seda branco. Geralmente o usava com longos brincos de brilhante que tinham pertencido à falecida mãe de Henri. E estava retirando‑os da caixa de jóias quando a porta se abriu e ele entrou no quarto com expressão de fúria.

- Alô, querido. - Ela se levantou para cumprimentá‑lo, mas o sorriso se congelou no seu rosto quando o viu. - Algum problema? Verifiquei tudo para esta noite e não vi nada errado...

Porém era evidente que algo terrível tinha acontecido nesse meio tempo.

- O que está pretendendo, me fazendo de idiota por toda Paris?

- Meu Deus, Henri, do que está falando?

- Estou falando que foi vista hoje, almoçando com um homem no Ritz, achando que estava se escondendo.

O rosto dela ficou muito branco, mas permaneceu imóvel enquanto explicava:

- Se eu achasse que estava me escondendo, dificilmente iria para o Ritz. Foi um almoço de negócios. Ele veio de Nova York tratar de assuntos de negócios para a minha mãe.

- Já ouvi isso ontem, Alexandra. E você não vai se safar com a mesma desculpa duas vezes. Mas isso certamente explica o seu comportamento de ontem à noite. Você nem conseguia pensar direito. Bem, não vou tolerar um desaforo desses. Você parte para Cap Ferrat amanhã de manhã.

Ela estava sendo banida, como uma criança malcriada, e seus olhos se encheram de lágrimas ante a injustiça.

- Henri, nunca o enganei. Você tem que acreditar nisso.

Não tinha coragem de se aproximar dele, e ficaram em pontos opostos do quarto, ela desesperada, ele ultrajado.

- Acreditei nisso até agora. Mas não pode esperar que continue creditando.

- É verdade.

- Bobagem. E tenho toda a intenção de dizer à sua mãe o que penso dela ficar lhe dando cobertura. Não a quero ver em Cap Ferrat neste verão.

- Henri, isso não é justo. Ela quer ver as meninas...

- Devia ter pensado nisso antes de começar a acobertar os seus casos com os seus amantes.

- Não tenho amantes! - berrou Alexandra. - E minha mãe não tem nada a ver com isso...

- Ah... e eu pensei que isso era um assunto de negócios para ela.

Aproximou‑se lentamente, a vitória espelhada nos olhos, e Alexandra desabou numa cadeira, derrotada e desesperadamente infeliz.

- E é...

- Que tipo de assunto de negócios? - Ergueu‑lhe o queixo rudemente para que ficasse olhando para ele, mas sabia que ela não estava contando inteiramente a verdade, e ela não podia fazer nada a respeito. Contar‑lhe toda a verdade seria bem pior, sabia disso:

- Não posso explicar agora. São assuntos de negócios confidenciais dos meus pais.

Estava pálida e abatida, e ele foi saindo do aposento. Então se virou da porta para olhar para ela.

- Jamais esperaria uma coisa dessas de você, Alexandra. Cuide para que não torne a acontecer, ou você voltará para a casa da mãe, sem as suas filhas. Esteja com as suas coisas arrumadas para a Riviera até amanhã ao meio‑dia.

E com essas palavras ele bateu as portas do boudoir e ela sentada, soluçando de desespero. Divertira‑se tanto com John e fora tudo inofensivo. E agora Henri achava que ela o estava enganando. Aí ela percebeu subitamente que tinha de ligar para ele. Dirigiu‑se apressadamente para o telefone na sua mesa e ligou para o Bristol. Felizmente ele estava lá e ela pôde contar­-lhe que estavam indo para Ferrat várias semanas antes, para o caso de precisar falar com ela. Deu-lhe o número e agradeceu de novo pelo almoço, sem deixar transparecer nem por um momento a dor que isso lhe causara.

- Espero poder entrar em contacto com você brevemente.

- Eu também. - Mas ela teve vergonha de pensar nisso por diversos motivos. Ele era tão bondoso e compreensivo. Mas tinha a sua própria vida para viver, e ela também. Já tinha problemas de sobra sem se dedicar a fantasias sobre ele.

- Ligo para você logo que souber de alguma coisa.

- Obrigada, John. Faça uma boa viagem de volta.

- Farei. Vou embora amanhã de manhã.

Tinha esperado arranjar um voo para aquela mesma noite, voltara ao hotel tão tarde, depois do almoço, que não estava mais na disposição para fazer as malas e viajar. Concluiu que uma última noite em Paris não faria nenhum mal. Estava se sentindo relaxado e satisfeito depois do seu almoço com Alexandra, e quando ligou para Sasha do hotel ela estava atacada. De repente, não teve a menor pressa em voltar. Iria jantar num bistrô próximo e dar um passeio pelas ruas de Paris.

Despediu‑se de Alexandra, e ela desligou e entrou lentamente no banheiro, incapaz de crer que Henri pensara o pior dela com tanta facilidade, e imaginando como seria o verão agora. Mas teve uma ideia naquela mesma noite. Ele falou com ela em tons gélidos e até a manhã seguinte, quando ela e as meninas partiram, tratou‑a como a uma pária.

- Não receberá ninguém até eu chegar, está claro? Deve ficar na villa. Eu ligarei para você.

Tratava‑a como uma prisioneira que tentara fugir e a raiva foi crescendo lentamente quando se despediram na manhã seguinte.

- Posso ir à praia ou devo ficar no quarto usando uma bola de ferro e uma corrente?

- Lamento que você ache o nosso casamento um fardo tão grande, Alexandra. Nunca tinha me dado conta de que lhe causava tanta angústia.

Ele tinha resposta para tudo e, pela primeira vez, ela o odiou quando se afastaram. O chofer e duas empregadas iam acompanhá‑las na viagem, e botariam o Citron e a camioneta Peugeot no trem noturno para a Riviera.

- Por que o papa estava tão zangado? - indagou Axelle enquanto rodavam pelo trânsito até a estação. - Brigou com você?

- Só um pouquinho.

Alisou os cachos cor de cobre como Hilary fazia com ela há tantos anos, e sorriu agora à lembrança distante da irmã. Estava empolgada com a perspectiva de revê‑las. Só esperava que Chapman as encontrasse logo, e que pudesse viajar para vê‑las. Mas Axelle não lhe deu tempo de refletir.

- Papa não parecia "um pouquinho" zangado com você. Parecia muito zangado. Você fez alguma coisa terrível, mamãe?

Alexandra sorriu e segurou a mão de Axelle. Seria bom ir para a Riviera, e talvez bom também ter uma folga de algumas semanas do marido.

- Só fiz uma pequena tolice.

- Como aquela vez em que comprou o chapéu que ele detestou, com todas as penas e o véu? - Axelle o adorara e Henri mandara que Alexandra o devolvesse no mesmo dia.

- Foi uma coisa parecida.

- Você comprou outro chapéu?

- Hmm, sim... é... mais ou menos...

- Era bonito?

- Ah, era. - Alexandra sorriu para a filha mais moça. - Muito.

Axelle sorriu para ela com prazer evidente, quando chegaram à estação.

 

O material que tinham desencavado sobre Hilary na ausência de John foi excelente, e ele ficou imensamente satisfeito. Tinham descoberto a matrícula de Hilary na escola noturna, no seu emprego na agência de empregos e daí seguiram‑na até a CBA. Era perfeito. Tinham tudo de que precisavam e, enquanto dava uma olhada na pasta, Chapman percebeu que tinham acertado da primeira vez. Era a Hilary Walker certa com quem ele tinha falado quando ligara para a CBA, e era igualmente óbvio que ela não queria ser encontrada. Pois que assim fosse, ele geraria até encontrar Megan, depois a confrontaria pessoalmente. No momento, deixaria que ela pensasse que se livrara dele.

Ao pensar nela, porém, sentiu aquele mesmo puxão estranho no coração que sentia cada vez que lia a pasta dela. Tinha vontade de lhe dizer que estava tudo bem, que as pessoas ainda se importavam com ela, que podia parar de correr. Era terrível pensar nela zangada e sozinha, e então se deu conta de que podia haver muito mais na sua vida actual do que sabia. Mandou o seu assistente começar uma investigação completa sobre Hilary Walker na rede CBA. Ela podia ser casada, divorciada, ter seis filhos. A garotinha sofrida que ele acompanhara a Boston, Jacksonville e Nova York poderia estar levando uma vida feliz agora. E, de um modo geral, ele esperava que sim. E, no entanto, sabia que não se sentiria em paz a seu respeito até conhecê‑la. Era uma loucura, mas ele estava obcecado pelas mulheres do seu caso, suas vidas, suas sortes e azares. Tão obcecado que até ligou para a ex‑mulher e a convidou para almoçar, tentando fazer com que lhe explicasse de novo como se sentia com relação aos seus personagens quando estava escrevendo.

- Você se apaixona por eles, Ellie? - Olhou para ela, confuso, quando se sentavam junto à fonte no Four Seasons. Era onde todos notáveis do mundo editorial almoçavam, e ele sabia que era o restaurante favorito dela, embora ainda preferisse o caos sensual e artístico do Russian Tea Room. Mas Eloise era uma moça diferente. Era alta, serena e controlada, tinha administrado uma carreira bem‑sucedida de modo brilhante, e parecia mais adequada ao mármore frio e às fontes discretas do Four Seasons.

- Se me apaixono por eles? O que quer dizer? Está pensando em escrever um livro? - Parecia divertida, e ele sacudiu a cabeça.

- Não, só estou trabalhando nessa investigação maluca. Remonta a trinta anos e as pessoas são tão reais para mim que não consigo mais pensar direito. Sonho com elas à noite... penso nelas durante o dia... garotinhas que são praticamente mulheres de meia‑idade, atualmente me dilaceram o coração, e eu quero ajudá‑las.

‑ Para mim parece mais envenenamento alimentar do que amor - sorriu ela, depois estendeu a mão e bateu na dele compreensivamente. Ainda gostava de John. Almoçavam juntos umas duas vezes por ano, e ele até mesmo a apresentara a Sasha, mas Eloise lhe dissera francamente no dia seguinte, pelo telefone, que achava que ele podia conseguir coisa melhor. - Você está ruim, cara. Me parece que devia escrever um livro sobre isso.

- Ninguém ia acreditar na história. E além disso, não posso. Não tenho jeito. Você sabe disso. Só que está me pondo maluco. Como é que as pessoas no papel podem se tornar reais?

- Às vezes podem.

- Elas finalmente vão embora?

- Vão, quando você resolve a coisa - disse ela tranquilizadoramente, comendo a sua salada. - Quando termino um livro, os personagens finalmente desaparecem. Para sempre. Mas antes disso, é como estar assombrada.

- É isso aí! - Agitou o garfo para ela. - É exactamente isso aí! - Estava sendo assombrado por Hilary, e quando não estava sendo atormentado por Hilary, pensando em Alexandra. Tinha ligado para ela tão logo tivera certeza de que era Hilary na rede, e ela ficara radiante. Agora aguardava notícias de Megan e John andava pressionando os seus agentes para andarem depressa, pois Patterson parecia estar se apagando. - O que faço para me livrar dessa coisa?

- Termine‑a. Encerre o caso, faça o que for que tiver de fazer e ela irá embora. É assim que funciona comigo. É um caso difícil? - Ao contrário de Sasha, ela se mostrava sempre interessada, mas afinal vivia em busca de novas histórias.

- Muito. Mas já percorremos dois terços dele. Tenho só que encontrar mais uma peça do quebra‑cabeça e resolvermos tudo. É uma história meio exótica, eu lhe conto quando o caso estiver encerrado.

- Eu bem que podia usar uma boa história. Vou começar um livro novo semana que vem. Aluguei uma casa em Long Island para o verão. - Era espantoso. A mulher trabalhava feito uma louca, mas era óbvio que adorava. E então ela abriu um sorriso para o ex‑marido. O relacionamento deles era mais como irmão e irmã, agora que não estavam mais casados. - Como vai a sua bailarina? - Falou sem veneno algum. Desejava‑lhe tudo de bom. Não ficara encantada com a moça quando a conhecera, mas sabia que ele estava.

Ele deu de ombros quando respondeu:

- Mais ou menos. As pessoas metidas com o balé parecem viver no seu próprio mundo. Ela não se apega à realidade, pelo menos não à minha.

- Pior do que escritoras? - sorriu Eloise.

- Muito pior. Pelo menos você não se queixava dos seus pés dia e noite e não se preocupava com cada músculo do seu corpo. Respirar já é uma ameaça para elas, podem fazer algo a si mesmas que as impeça de dançar.

- Parece exaustivo. - Ela terminou a salada, tomou um gole de vinho e sorriu para ele. Era uma das pessoas mais simpáticas que conhecia, e às vezes ela lamentava não terem ficado casados. Ela se perguntava se devia ter‑se esforçado mais, porém, também era inteligente o bastante para saber que não tinha o que era preciso. Não teria sido certo para eles. Ela precisava ficar sozinha com o seu trabalho e sempre achara que ele devia ser casado e ter filhos. - Não consigo enxergá‑la como a solução final para você.

- Nem eu, mas levei algum tempo para enxergar isso. Não há muitas pessoas por aí que me interessem. A maioria não é muito inteligente, ou não é muito simpática, ou está se lixando para os outros. - Sem ter a intenção, ele percebeu que acabava de descrever Sasha. Ela já não o impressionava tanto, desde que voltara de Paris. - E quanto a você? O Príncipe Encantado vem vindo do horizonte na sua direção?

Ela deu de ombros com um sorriso tranquilo, e acenou para um editor que conhecia.

- Não tenho muito tempo para essas coisas. Nada mudou muito, no tocante a isso. É difícil ter uma carreira e uma vida de verdade.

- Mas pode ser feito - ele sempre salientava para ela ‑, se você quiser.

- Talvez eu não queira. - Era sempre sincera com ele. - Talvez eu não queira mais do que tenho. Minha máquina de escrever e as minhas camisolas velhas.

- Ei, que terrível, é um grande desperdício.

- Não, não é. Eu nunca quis de verdade todas as outras coisas, Detestaria ter filhos.

- Por quê? - Parecia‑lhe tão errado. As pessoas eram feitas para terem filhos. Há vinte anos que ele queria um. Só que não dera certo para ele.

- Exigem demais da gente. Distraem a gente demais. Eu teria que dar muito de mim. É por isso que fui uma péssima esposa para você. Queria guardar tudo para os meus livros. Acho que é loucura, mas me faz feliz.

E ele sabia que fazia. Era melhor para os dois as coisas estarem como estavam agora. E então, subitamente, ele riu.

- Você sempre foi franca demais. Eu ia lhe dizer que conheci uma mulher fantástica nesse caso. - Eloise ergueu uma sobrancelha com interesse. - Mas é casada com um barão francês, e não está exactamente disponível.

- Parece bem melhor do que a sua bailarina.

- E é. Mas está totalmente envolvida na sua vidinha. O que é uma pena... ela é linda.

- Qualquer dia desses você vai encontrar a pessoa certa. Mas fique afastado das artistas. Dão péssimas esposas. Escute o que lhe digo, eu sei! - Deu um sorriso pesaroso e se debruçou para beijar a face dele quando deixaram a mesa.

- Não se culpe tanto. Nós dois éramos jovens.

- E você era fantástico. - Ela parou para falar com o seu editor-chefe e eles saíram juntos para o sol. Depois John desejou‑lhe sorte no seu novo livro, chamou um táxi para ela e voltou a pé para o seu escritório na rua 57.

E havia uma excelente notícia à sua espera quando voltou ao escritório. Um de seus assistentes tinha encontrado os Abrams em San Francisco.

- Está falando sério? - Estava radiante. Tinham tentado tudo sem achar coisa alguma. Mas finalmente desistiram de procurar por David e, ao fazê‑lo, tinham encontrado Rebecca. Acontece que eles tinham deixado Los Angeles no começo da década de 60 e ido para o Sul para marchar com Martin Luther King e participar de passeatas e campanhas de registro de eleitores. Tinham fornecido assistência legal gratuita para os negros na Geórgia, Louisiana e Mississipi, e acabaram abrindo um escritório de assistência legal integral em Biloxi. E de lá acabaram indo para Atlanta. Foi só em 1981 que finalmente voltaram para a Califórnia, mas David se aposentou depois de uma extensa cirurgia e Rebecca ingressou num escritório de advocacia exclusivamente feminino em San Francisco, para defender mulheres envolvidas em causas femininas. Durante todas as suas vidas tinham sido liberais clássicos.

O assistente de John nada lhes explicara. John deixara ordens severas de que, logo que Megan fosse localizada, ele próprio faria o contacto. Mandou a sua secretária marcar uma hora com Rebecca Abrams e se preparou para viajar no dia seguinte, o que era perfeito. Sasha ainda estava viajando e havia algo que ele vinha querendo fazer há dias. Era algo que não fazia pessoalmente há anos, mas sabia agora que tinha de fazê‑lo. Era parte do que ele tentara explicar para Eloise no almoço... parte de estar assombrado.

Saiu do escritório pouco antes das quatro horas e tomou um táxi até a rede. Exibiu um distintivo de segurança e um passe de polícia na entrada, ambos ganhos com esforço e quase impossíveis de serem conseguidos. A segurança da rede ficou satisfeita e instantaneamente deixou que ele subisse.

Tomou o elevador e esperou discretamente na área de recepção. Pegou um telefone ali e discou para a extensão dela. A secretária lhe disse que estava numa reunião.

- Na sala dela, ou lá em cima? - Agia como alguém que estava por dentro, e a secretária apressou‑se a dar‑lhe a informação.

- Está aqui. Está com o Sr. Baker.

- Tem alguma ideia de quando vai ficar livre?

- Ela falou que vai embora às cinco e meia.

- Obrigado.

Chapman desligou o telefone interno e a secretária ficou sem saber quem telefonara, mas imaginou que fosse alguém que conhecia Hilary, obviamente alguém de posição mais elevada na rede.

Ela apareceu exactamente às 5:15, e John a reconheceu imediatamente, mesmo sem o cumprimento da recepcionista quando ela passou:

- Boa noite, Senhorita Walker.

Hilary se voltou para ela vivamente, meneou a cabeça e não pareceu notar mais ninguém na sala de espera, nem John, enquanto a seguia até os elevadores e entrava num deles ao seu lado. Quase se sentiu fraco ao vê‑la, podia enxergar cada fio do cabelo negro brilhante enrolado num coque, as mãos graciosas, o pescoço comprido, podia até sentir o cheiro do seu perfume. Ela caminhava com passo firme, passadas longas, e quando ele deu um encontrão nela, ergueu para ele os olhos verdes que penetraram directo no seu coração, olhos que diziam não me toque, não chegue perto de mim. Ela tomou um ónibus na Madison Avenue, em vez de brigar por um táxi, e saltou na rua 79. Caminhou mais duas quadras para o norte e então ele percebeu que estava indo ao médico. Esperou pacientemente do lado de fora e depois a seguiu de novo, quando ela tomou um táxi e foi para o Elaine's, onde encontrou outra mulher. Ele se sentou num reservado próximo ao delas, e ficou curioso com o que podia estar sendo dito. A outra mulher era uma apresentadora conhecida da rede, e parecia nervosa. Começou a chorar, numa certa hora, mas Hilary não pareceu se comover. Observava‑a, triste, mas não compassiva. E então John finalmente se lembrou, quando as duas mulheres se apertaram as mãos diante do restaurante, que a apresentadora fora despedida quando ele estava em Paris. Aquilo causara o maior alvoroço, e ou ela estava suplicando a Hilary para não perder o emprego, ou contando‑lhe o seu lado da história. Supostamente a ordem de demissão viera lá de cima, mas talvez ela pensasse que, conversando com Hilary, pudesse voltar ao emprego. Mas era evidente, pela expressão triste do rosto de Hilary, enquanto caminhava sozinha em direção ao centro, que não podia ajudá‑la. Parou para olhar vitrines uma ou duas vezes e caminhava com um andar decidido, mas com um movimento feminino dos quadris que o fascinava, enquanto a observava. Finalmente dobrou na rua 72 e caminhou até ao rio, para uma velha casa de pedras próxima de um pequeno parque. Era um lugar bonito, no entanto tudo o que ele sentia nela lhe dizia que era uma pessoa só. Tinha um ar solitário, e uma espécie de dureza e determinação que indicavam muros que erguera há muito tempo e que nunca mais derrubara. Do mesmo modo como, ao ter sua pasta, sentiu uma pena intensa da mulher e estava triste enquanto percorria as poucas quadras de volta ao seu próprio apartamento. Ela morava tão perto, no entanto parecia existir num universo próprio, um universo cheio de trabalho e pouco mais, no entanto não era justo fazer tal julgamento. Talvez ela fosse feliz, afinal de contas, talvez tivesse um namorado por quem estivesse profundamente apaixonada, mas tudo no seu presente e no seu passado sugeria uma pessoa solitária, sem ninguém para amar e ninguém que a amasse. E quando ele entrou no apartamento e acendeu a luz, sentiu um ímpeto avassalador de ligar para ela, de estender a mão, de ficar seu amigo, de lhe dizer que Alexandra ainda se importava... que tudo não estava perdido... ainda... ou talvez ela não se importasse. Como explicara a Eloise no almoço, sentia‑se como se estivesse sendo assombrado.

Tentou dormir um pouco, mas rolou para lá e para cá na cama e por fim, por falta de algo melhor para fazer, acendeu a luz e ligou para Sasha em Denver. Ela estava no quarto, acabara de chegar da casa de espetáculos e seus pés a estavam matando.

- Que bom que nada mudou. - Riu enquanto jazia deitado de costas, pensando nela. Perguntou‑se se não exagerara ao falar sobre ela no almoço. Ainda o excitava, de certas maneiras, e naquela noite sentia sua falta. - Quer ir me encontrar em San Francisco?

- Quando? - falou, evasivamente.

- Vou para lá amanhã. Devo acabar o que tenho que fazer nuns dois dias. Quando você encerra em Denver?

- Amanhã. Vamos para Los Angeles. San Francisco foi cancelada.

- Encontro você em Los Angeles.

- Não acho que deva.

Fez‑se um longo silêncio, e ele franziu o cenho.

- O que houve?

- Poderia perturbar alguns dos outros dançarinos - disse ela vagamente, e ele se sentou na cama. Não era bobo e já conhecia esse jogo. Mas não gostava de jogá‑lo.

- Perturbaria alguém em particular, Sasha?

- Ah, não sei. Está muito tarde para se falar nisso. - E quando ela falou, ele escutou uma voz masculina ao fundo.

- É Dominic, Pierre ou Petrov?

- É Ivan - disse ela com petulância. - Ele distendeu o tendão do jarrete hoje, e está muito nervoso.

- Diga a ele que sinto muito. Mas diga‑lhe depois de me explicar que diabo está havendo. Sou velho demais para esse tipo de babaquice, Sasha.

- Você não compreende as pressões de ser um dançarino - ela choramingou ao telefone e ele se afundou nos travesseiros.

- Bem, eu tentei, porra. O que é que não compreendo exactamente?

- Dançarinos precisam de outros dançarinos.

- Ah... agora chegamos à raiz do problema. Quer dizer como o Ivan?

- Não, não... bem... sim... mas não é o que você pensa.

- Que diabo, e como você sabe o que penso, Sasha? Está tão ocupada se preocupando consigo mesma e seus pés e sua bunda e seus tendões que não repararia no que outra pessoa está pensando se viesse escrito em gás néon.

- Isso não é justo! - De repente ela começou a chorar e, pela primeira vez em meses, ele percebeu que pouco se importava. Subitamente, no espaço de um telefonema, tudo terminara. Ele estava farto.

- Pode não ser justo, meu bem - falou ele na sua voz profunda e gentil ‑, mas acontece que é verdade. Acho que está na hora de você e eu fazermos nossos agradecimentos e recuarmos graciosamente enquanto desce o pano. Se é que li o programa corretamente, o quarto acto acaba de terminar.

- Por que não conversamos quando eu voltar?

- Sobre o quê? Os seus pés? Ou sobre como os dançarinos precisam de outros dançarinos? Não sou dançarino, Sasha. Sou um homem. Tenho um emprego que exige muito de mim, tenho uma vida cheia que quero partilhar com uma mulher que eu ame e que me ame. Quero até mesmo ter filhos. Você pode se ver fazendo isso?

- Não. - Pelo menos ela era sincera. A simples ideia a deixava horrorizada. Não tencionava abandonar a dança por um ano em qualquer período da sua vida, e depois lutar para recuperar todos os seus músculos. - Por que isso é tão importante?

- Porque é, e estou com quarenta e dois anos de idade. Não posso mais perder o meu tempo com jogos como esse. Já contribuí para a comunidade artística uma vez. Agora quero algo diferente.

- É o que quero dizer... você não entende as pressões que sofre um dançarino. John, os bebés não são importantes.

- Para mim são, pequenina. Assim como muitas outras coisas para as quais você não tem espaço. Você não precisa de mim. Não precisa de ninguém. Seja sincera consigo mesma. - Fez‑se um silêncio longo e vazio enquanto ela escutava, e de repente ele teve vontade de desligar. Não havia mais nada para se dizer. Já tinham dito tudo e esgotado as palavras há muito tempo. Só que não tinham reparado. - Adeus, Sasha... vá com calma. Vejo você quando voltar. Quem sabe almoçamos juntos, ou tomamos um drinque? - Sabia que ela ia querer as coisas que tinha deixado no seu apartamento, mas a verdade é que nem ao menos estava ansioso para vê‑la.

- Está me dizendo que está tudo acabado?

Ela parecia chocada e ele podia escutar a voz masculina ao fundo de novo. Perguntou‑se se estariam dividindo um quarto, não que realmente tivesse importância.

- Acho que sim.

- Foi por isso que ligou?

- Não. Acho que simplesmente aconteceu. Estava na hora.

- Existe outra pessoa? - Ele sorriu ante a pergunta.

- Não. - De um modo engraçado existiam três, as três mulheres que procurava dia e noite, que enchiam os seus pensamentos e o seu coração, mas não do modo que Sasha queria dizer. - Ninguém importante... cuide‑se, Sasha. - E, com essas palavras, ele desligou suavemente e apagou a luz. E sorriu enquanto voltava a dormir. Sentia-se livre pela primeira vez em meses, e ficou contente por ter ligado para ela. Finalmente estava acabado.

 

O voo para San Francisco foi tranquilo e ele chegou às duas da tarde, hora local, o que lhe deu tempo de sobra para chegar ao escritório de Rebecca às quatro horas. Quando chegou lá, era uma velha casa vitoriana num bairro em estado precário. Mas ele ficou surpreso ao entrar e ver que a casa era bem‑conservada, agradavelmente decorada e cheia de plantas, e Rebecca Abrams era uma mulher atraente. Estava com sessenta e poucos anos e usava o cabelo grisalho numa trança que lhe descia pelas costas. Usava jeans limpos e uma camisa branca engomada, sapatilhas vermelhas e uma flor vermelha no cabelo. Parecia uma hippie idosa, muito atraente, muito inteligente e bem‑conservada. Sorriu com simpatia para John e conduziu‑o à sua sala. Não tinha ideia do que ele queria e não pareceu perturbada quando ele deixou a mala na ante‑sala.

- O senhor não se parece com a maioria dos nossos clientes, Sr. Chapman. - Sorriu com simpatia e apontou para uma cozinha ensolarada que dava para o escritório. - Quer um café ou um chá? Temos cerca de uma dúzia de tipos diferentes de chá de ervas. ‑Sorriu de novo para ele, que sacudiu a cabeça. Detestava ter de perturbá‑la, mas suspeitava que iria fazê‑lo.

- Estou aqui para tratar de um assunto particular, Sra. Abrams. Há algum tempo que estou procurando a senhora e seu marido, e tive dificuldade em encontrá‑los. O último endereço que tinha de vocês era de Nova York, em 1957.

Rebecca Abrams sorriu de novo e se recostou serenamente na cadeira. Há anos que fazia ioga, e aquilo transparecia no seu jeito tranquilo.

- Andamos de um lado para o outro nesses anos todos. Passamos muito tempo no Sul e depois voltamos para cá quando meu marido ficou doente. Ele colocou quatro pontes de safem há seis anos e meio e nós dois decidimos que estava na hora de ele ir com calma e curtir a vida. Então agora estou atendendo sozinha, ou melhor, com um grupo de mulheres de que gosto muito. Mas é um tipo de advocacia diferente da que fazia com David, embora alguns dos conceitos não sejam tão diferentes. Lidamos com muitos casos que incluem discriminação e direitos civis. Há muitos anos que fazemos isso.

- E seu marido?

- Leciona duas vezes por semana, em Boalt. Faz jardinagem. Está ocupado fazendo mil coisas que curte.

- E sua filha? - Chapman prendeu a respiração.

- Está bem. Ainda está no Kentucky. Como conhece a nossa família, Sr. Chapman?

- Não conheço. Receio ter vindo procurá‑la indirectamente. Também sou advogado e dirijo uma firma chamada Chapman Associates, em Nova York. Ao contrário da senhora, nunca fui terrivelmente apaixonado pelo direito, e me encantei por investigações há anos, portanto é isso o que faço. E meu cliente, neste caso, é Arthur Patterson. Não sei se o nome lhe diz alguma coisa, mas foi ele quem lhes trouxe Megan, em 1958. Estou certo de que agora a senhora se lembra.

Ela fez que sim, e agora o sorriso desapareceu totalmente.

- Existe algum problema? Por que o Sr. Patterson iria entrar em contacto conosco agora? - Parecia amedrontada, como se ele ainda pudesse tirar Megan deles. Era isso o que sempre temera.

- Falando francamente, Sra. Abrams, ele está morrendo. E quer saber se as meninas estão bem, se estão felizes e não passam nenhuma dificuldade. E ele espera reuni‑las uma vez antes de morrer, para que possam se conhecer.

- Agora? - Ela parecia horrorizada. - Depois de trinta anos? Por que elas iriam querer se conhecer? - Parecia prestes a expulsá‑lo do escritório.

- Ele acha que poderia significar alguma coisa para elas, e posso entender como a senhora se sente. Trinta anos é muito tempo para se esperar antes de fazer qualquer contacto.

Ela sacudiu a cabeça, incrédula.

- Nós dissemos a ele quando a adotamos que não queríamos contacto com ele ou as outras meninas. Foi esse o principal motivo por que deixamos Nova York e fomos para Los Angeles. Não acho que seja justo para Megan exumar o passado dela agora.

- Talvez ela deva fazer essa escolha. A senhora mencionou que ela ainda está no Kentucky.

- Está terminando o seu período de residência ali, em Appalachia. É médica, especializada em obstetrícia. - Rebecca falava com profundo orgulho, mas encarava John com hostilidade indisfarçável.

- Posso entrar em contacto com ela?

Para ele era uma formalidade, mas para ela era uma ofensa. Ergueu‑se parcialmente da cadeira e respondeu:

- Não, não pode, Sr. Chapman. - Ela voltou a se sentar e fitou-o, ofendida. - Não posso acreditar que o senhor nos procuraria depois de todos esses anos e esperaria que expuséssemos Megan a toda essa dor e confusão. O senhor conhece a causa da morte dos pais dela?

- Conheço. E Megan?

- Claro que não. Na verdade, vou lhe falar muito francamente. Esta coisa toda está totalmente fora de cogitação. Minha filha não sabe que é adotada.

Ela o fitou nos olhos e ele sentiu o coração parar. Como podiam não ter lhe contado? Tão liberais que eram, tão livres‑pensadores, nunca lhe haviam dito que era adotada. Aquilo certamente complicava a questão para eles.

- Vocês têm outros filhos, Sra. Abrams?

- Não, não temos. E meu marido e eu achamos que ela não precisava saber. É nossa filha única, e veio para nós quando era bebé. Não havia absolutamente motivo nenhum para lhe contar, à medida que ficava mais velha.

- Estaria disposta a lhe contar agora?

Olhou fundo nos olhos dela e ficou assustado pelo que enxergou ali. Rebecca Abrams não ia tornar isso mais fácil para ele. Mas, pelo menos, ele sabia agora onde Megan estava. Se fosse preciso, iria encontrá‑la no Kentucky. Parecia uma atitude cruel, mas Megan tinha o direito de saber sobre as irmãs.

Rebecca hesitou por um longo tempo.

- Não sei, Sr. Chapman. Sinceramente, acho que não, Vou ter que discutir isso com meu marido, e com o médico dele em primeiro lugar. Ele não está bem e não quero deixá‑lo nervoso.

- Compreendo. A senhora pode me ligar em um ou dois dias? Estou hospedado no Mark Hopkins.

- Ligarei para o senhor quando puder. - Ela se levantou para indicar que a entrevista terminara, e bem que podia estar usando um costume listrado azul‑marinho. Parecia tão intimidativa como se estivesse usando um.

- Nesse meio tempo o senhor vai voltar para Nova York?

- Prefiro esperar pela resposta aqui, para o caso de seu marido querer me ver.

- Eu o avisarei. - Ela apertou‑lhe a mão, mas a expressão de seus olhos não era cálida enquanto o levava até à porta e a fechava às costas dele. E quando voltou para a sua mesa, depois que ele se foi, baixou a cabeça sobre os braços e chorou. Trinta anos tinham‑se passado, mas ainda iam tentar tirar o seu bebé. Iam despertar em Megan uma curiosidade que jamais tivera, e laços que jamais conhecera, e apresentar‑lhe parentes que jamais desejara. Não era justo, depois de tudo o que tinham feito por ela e o quanto a amavam.

Foi procurar o médico de David naquela mesma tarde, e ele achou que David estava suficientemente forte para receber a notícia. Mas ela levou dois dias para ganhar coragem para lhe dizer e, quando o fez, soluçou nos braços dele e extravasou todos os seus temores. O marido acariciou o longo cabelo grisalho e a abraçou com força, dizendo‑lhe o quanto a amava.

- Ninguém vai tirar Meg de nós, querida. Como poderiam? - Ficou comovido com a reação dela. Quando Megan era pequena ela se preocupava com as mesmas coisas. Queria que Megan fosse deles, e de mais ninguém.

- De repente ela vai querer ficar sabendo tudo sobre os seus pais biológicos.

- Então nós lhe diremos.

- Mas, e se ela se sentir diferente a nosso respeito, depois?

- Você sabe que não é assim, Becky. Por que se sentiria? Ela também nos ama. Em todos os sentidos importantes da palavra, somos os pais dela. Ela sabe o que isso significa, tanto quanto nós. Mas isso não quer dizer que não vá querer ver as irmãs. Se alguém me dissesse amanhã que eu tinha duas irmãs que jamais conhecera, eu também ia querer vê‑las, mas isso não me faria amar você menos, ou Megan.

Mas Rebecca continuava assustada e entraram pela noite conversando. Rebecca queria manter o pacto de silêncio e David achava que deviam contar a Megan. Levaram outro dia inteiro para chegar a uma conclusão. E quando finalmente ligara, John sentiu o alívio inundá-lo, estava ficando louco no seu quarto de hotel. Mas não queria ir embora até saber em que pé as coisas estavam, e não queria pressioná‑los.

Ela o convidou para ir à casa deles em Tibum naquela noite. Os três conversaram por longo tempo sobre as dificuldades de contar a Megan, depois de tantos anos, que era adotada, e era evidente que Rebecca ainda estava temerosa. Mas David era inflexível na sua opinião. Só exigiu de John que eles próprios se incumbissem de contar a Megan, e pessoalmente. Ela devia vir para casa dali a duas semanas, para umas férias curtas, e então lhe contariam. Ligariam para John tão logo ela soubesse, e depois ele teria liberdade para falar com Megan e marcar o encontro que Arthur Patterson tanto desejava. E John não teve alternativa senão aceitar. Eles tinham todas as cartas nas mãos e ele queria fazer a coisa certa para eles, e para Megan.

Voltou para casa naquele fim de semana e ligou para a casa de Arthur Patterson. Era óbvio que ele não estava passando bem, e John sabia que não ia mais ao escritório. Explicou que tinha encontrado os Abrams e que eles exigiam contar a Megan. Aquilo significava esperar duas semanas, mas Chapman achava que não havia escolha. Era a única coisa decente a fazer, e Arthur concordou relutante, esperando poder viver o tempo suficiente para completar a sua missão.

- O que mais resta fazer? - perguntou a John.

- Esperar para saber notícias deles. Depois marcar a reunião com Megan e as outras. Alexandra está disposta a vir quando eu chamar, e ainda tenho de enfrentar Hilary. Mas só quero fazer isso no último minuto. - Pressentia que, quanto mais tarde o fizesse, mais provavelmente ela viria à reunião. - Isso nos dá duas semanas de intervalo. Avisarei ao senhor se acontecer alguma coisa antes.

- Obrigado, John. - E então, inesperadamente: - Você fez um belo trabalho. Estou espantado que as tenha encontrado.

- Eu também. - John sorriu, do outro lado da linha. Não pensara realmente que o faria, mas fizera... e dentro de algumas semanas elas estariam reunidas e o seu trabalho encerrado. Parte dele sentia‑se desolado ante a ideia, e outra parte se sentia aliviada. Ele pensou no que Eloise dissera quando tinha almoçado. Ele ficaria livre quando tudo acabasse.

 

O telefonema dos Abrams chegou dali a duas semanas e meia, como fora prometido, e John pôde perceber pela voz tensa de David que contar a Megan não fora fácil.

- Ela aceitou muito bem. - A voz dele falhou. - Sentimos muito orgulho dela... aliás sempre sentimos... - E depois ele, prosseguiu, parecendo mais forte: - Ela falou que ligaria para o senhor quando voltasse para o Kentucky, se o senhor quiser falar com ela.

- Seria possível eu falar com ela agora? - perguntou John cautelosamente. David conferenciou com alguém do outro lado e depois passou o telefone a alguém cuja voz ele reconheceu dentro de momentos. Sem o sotaque francês, ela parecia Alexandra falando, tinha as mesmas entonações, a mesma voz, a mesma risada.

- Sr. Chapman?

- Sim.

- Isso tudo é uma surpresa. - Parecia descontraída e jovem, mas muito agradável.

- Lamento muito, de verdade.

- Não havia outro jeito; soube que o senhor queria falar comigo.

- É verdade. Estava esperando encontrá‑la rapidamente no Kentucky antes de marcar a reunião. Quando acha que poderia vir a Connecticut para conhecer as outras?

- Só vou saber quando voltar. Meu horário só vai ser feito no dia da minha volta. Mas eu poderia ligar para o senhor logo que souber, se quiser.

- Eu gostaria muito.

E ela ligou, pontualmente, no dia em que chegou, e John se perguntou se aquilo queria dizer que estava ansiosa para conhecer as outras ou se era apenas o seu jeito de ser.

Ela lhe disse que estaria livre para vê‑lo no Kentucky, no próximo domingo à tarde, entre uma e cinco horas. E poderia passar dois dias em Connecticut dali a três semanas, mas não antes disso.

Chapman franziu o cenho enquanto a escutava, imaginando se Arthur viveria tanto tempo, e partilhou com ela as suas preocupações. - Posso tentar trocar de folga com um dos outros médicos, mas a diferença será só de uns poucos dias. Temos muito poucas pessoas e o senhor irá ver o que estamos enfrentando quando vier para cá.

- Quer dizer que poderia vir daqui a três semanas?

- Poderia. A não ser que haja alguma emergência, mas isso eu nunca posso prever.

- Compreendo. - Ela era muito profissional e firme para uma moça de trinta anos, e conquanto tivesse a mesma voz, parecia muito diferente das outras. Tinha uma finalidade de propósito e fora criada com valores e tradições muito diferentes dos de Hilary ou Alexandra. Estava decidida a ajudar os desafortunados e a lutar na guerra contra a pobreza. Era algo em que Alexandra jamais pensara, e Hilary estivera ocupada demais sobrevivendo para se preocupar com os problemas mais esotéricos das massas. Era curioso ver como eram diferentes. E John se lembrou de algo que Alexandra lhe dissera em Paris.

O caleidoscópio dera mais uma volta e produzira uma imagem totalmente diferente. Desta vez os demónios se transformaram em montanhas cobertas de neve.

Ele concordou em ir para o Kentucky no domingo seguinte e se encontrar com ela no hospital durante as suas horas de folga. Agradeceu‑lhe por passá‑las com ele e confirmou a reunião com as irmãs. Marcaram‑na para primeiro de setembro e ele telefonou para Arthur logo que desligou. E na manhã seguinte telefonou para Alexandra na Riviera. A ligação estava horrível, mas a linha acabou limpando: e ela pôde ouvi‑lo.

- Já? - Ela parecia empolgada. - Já encontrou as duas? - Era espantoso. - Onde estava Megan?

Ele sorriu da sua voz meiga. Já falava dela como uma irmã que nunca perdera, que simplesmente tirara umas longas férias.

- Ela é médica no Kentucky.

- Ah, meu Deus. E Hilary está bem?

- Está. Eu a vi.

- Ela concordou em ir no dia primeiro? - Prendeu a respiração à espera de uma resposta, mas suas esperanças foram destroçadas logo que John lhe disse que não tinha falado com ela.

- Não quero lhe dar muito tempo para pensar no assunto. Ligarei para ela dentro de uma semana, mais ou menos.

- E se ela viajar? - Alexandra estava preocupada.

- Não se preocupe. Eu a encontro.

Os dois riram e desligaram dali a um momento, e Alexandra ligou para a mãe. Ela estava em Cap d'Antibes, no Hôtel da Cap, onde sempre se hospedava. E Henri finalmente cedera com relação ao seu exílio.

- Mamãe?

- Sim, querida, algum problema?

Alexandra parecia sem fôlego e subitamente muito jovem, como suas próprias filhas.

- Ele achou as duas.

- As duas o quê? - Acabava de se levantar e estava tomando café e lendo o Herald Tribuna. Não podia imaginar o que Alexandra teria perdido que outra pessoa achara. - Do que está falando,

- As minhas irmãs! Chapman achou as duas! - Parecia eufórica e Margaret sentiu o sangue gelar nas veias. Tinha tido esperanças de que ele não as achasse.

- Que bom. - Tentou forçar‑se a parecer feliz. - Elas estão bem?

- Uma delas é médica, a mais moça, e a outra, Hilary, trabalha para uma rede de televisão em Nova York.

- Parecem formar um grupo bem ilustre. E você é uma baronesa. Deviam fazer um filme sobre vocês. - Mas não estava achando divertido, e Alexandra sabia disso.

- Não se preocupe, mamãe. Isso não vai mudar nada. Por favor, saiba disso.

Margaret desejava poder ter certeza. Os seus temores não eram diferentes dos de Rebecca Abrams.

- Quando vai conhecê‑las?

- No dia 1 de setembro. Acabo de receber o telefonema. Vou para Connecticut.

- O que vai dizer a Henri?

- Ainda não resolvi. Pensei em lhe dizer que ia com você... ou pelo menos para tratar de negócios seus.

- Ele não vai acreditar.

- Não. Mas não posso lhe dizer a verdade. Vou pensar em alguma coisa.

Conversaram por mais um momento e depois desligaram. Cinco minutos mais tarde, Margaret voltou a telefonar e as suas primeiras palavras deixaram Alexandra aturdida.

- Eu vou com você.

- O quê?... Mamãe... não pode...

- Por que não? - Já tinha se decidido e achava que era uma excelente ideia, além de fornecer a Alexandra o álibi de que precisava. Além disso, poderia ficar de olho nas coisas e ficar junto de Alexandra. Estava com um medo desesperado desse encontro.

- É muito trabalho para você. Você só ia voltar a Paris no final de setembro, e me falou que ia para Roma durante algumas semanas.

- E daí? Eu posso ir para Roma em outubro. Ou na volta de Nova York. Só o que eu queria era visitar Marisa - uma das suas amigas mais antigas - e comprar uns sapatos decentes. Mas prefiro ir para Nova York com você. - E então, quase timidamente: - Se você me quiser.

- Ah, mamãe... - As lágrimas lhe vieram aos olhos. Sentiu como Margaret estava assustada, mas não precisava estar. Ninguém, nem parente consanguíneo, nem marido, nem amiga jamais poderia substituí‑la. - Claro que eu gostaria que você fosse. É só que parece uma imposição.

- Não seja ridícula. Eu ficaria com os nervos em frangalhos se ficasse aqui. - E então teve uma ideia totalmente maluca, mas gostou dela. - Que tal levarmos Axelle e Marie-­Louise?

O rosto de Alexandra se iluminou ante a ideia. Não lhe agradava deixá‑las no final do verão, mesmo que por alguns dias. E Henri poderia fazer objeções a uma viagem familiar como essa.

- Que ideia maravilhosa. Vocês três podem ficar em Nova York enquanto eu vou para Connecticut e depois nós todas podemos nos divertir um pouco antes de voltarmos para Paris. As meninas só começam as aulas no dia 11.

- Maravilha, vou ligar para o Pierre e fazer as reservas hoje mesmo. Você liga para a companhia aérea. Em que dia chegaremos?

- Sexta‑feira é dia 1... talvez devêssemos viajar na quinta‑feira, dia 31 de agosto.

- Perfeito. Vou fazer reservas para dez dias. Sempre podemos modificá‑las se você quiser voltar antes.

- Mamãe... - Ela sentiu um bolo na garganta do tamanho de um punho cerrado ao pensar na única mãe que já conhecera. - Eu a amo.

- Tudo vai dar certo, querida. Você vai ver só. - E, pela primeira vez desde que John Chapman apareceu na rue de Varennes, ela estava achando que sim.

Alexandra não disse nada para Henri durante uma semana. E então tocou no assunto casualmente certa tarde, enquanto estavam deitados no terraço.

- Minha mãe quer que eu vá para Nova York com ela no fim do verão.

Ela falou com naturalidade, mas ele ergueu os olhos, iradamente. Ainda estava zangado com ela por sua suposta transgressão antes de deixarem Paris. Nunca a tinham discutido de novo, mas ela sabia que ele não a perdoara.

- E que história é essa, agora?

- Nada. Ela tem uns negócios para tratar em Nova York. Alguns investimentos da família dela que precisam ser examinados, e me pediu que viesse junto e levasse as meninas.

- Isso é ridículo. Por que você iria para Nova York em agosto?

Suspeitava das duas e da trama que estavam obviamente armando contra ele.

- Na verdade é só no finzinho de agosto. E podia ser divertido para as meninas fazerem algo um pouquinho diferente.

- Bobagem. Você pode ir para Nova York outra hora, no inverno, sem as crianças.

Mas a aspereza das palavras dele fez com que um arrepio percorresse a sua espinha. Ele não estava sabendo, mas nada a impediria de ir, ou de levar as filhas.

- Não, Henri. Eu vou agora. Com a minha mãe. E as crianças.

Ele se sentou de súbito e fitou‑a iradamente.

- Não está ficando muito independente de repente, Alexandra? Posso lhe lembrar que eu tomo as decisões aqui, para você e para as crianças.

Ele nunca falara com tanta franqueza antes, mas era verdade, ou melhor, fora, até então. Mas as coisas tinham começado a mudar, desde que John Chapman viera para Paris.

- Não creio que valha a pena se aborrecer com isso, Henri. É um convite da minha mãe.

- E se eu a proibir de ir? - O rosto dele estava vermelho de fúria reprimida ante o comportamento chocante da esposa.

- Terei que ir, de qualquer maneira. Minha mãe me pediu que fosse com ela.

- Sua mãe não é uma inválida. Eu mesmo vou ligar para ela e dizer que você não vai.

Mas desta vez Alexandra se levantou e o enfrentou. Falou com voz suave, mas não havia como disfarçar o aço por baixo do veludo.

- Não quero desobedecê‑lo, mas preciso ir a Nova York com minha mãe.

- Por quê? Me diga. Me dê uma razão válida.

- É complicado demais para explicar. São assuntos de família.

- Alexandra, você está mentindo para mim. - Ele tinha razão mas não tinha escolha. A verdade era assustadora demais para partilhar com ele.

- Por favor, não diga isso. Não vou demorar. Só uns dias.

- Por quê, droga, por quê? - Ele socou a mesa de vidro e ela se sobressaltou.

- Henri, por favor, você não está sendo razoável. - E ela estava com medo de que ele pudesse forçá‑la a lhe contar. - Minha mãe quer visitar a família e quer que eu vá junto. Não há nada de errado nisso.

- O que há de errado nisso é que eu não disse que você podia ir, e não vejo motivo para que vá.

- Talvez porque eu queira ir.

- Você não toma esse tipo de decisão sozinha. Não é uma mulher solteira.

- Tampouco sou uma escrava. Você não pode decidir tudo por mim, pelo amor de Deus. Estamos no século XX, não na Idade Média.

- E você não é uma feminista moderna para fazer o que bem entende. Ou, se é isso que quer, Alexandra, não pode fazê‑lo sob o meu tecto. Por favor, não se esqueça disso antes de começar a fazer os seus planos de viagem.

- Isso é ridículo. Você age como se eu tivesse cometido um crime.

- De modo algum. Mas sou eu quem decide o que você vai fazer, e quando. Tem sido assim há catorze anos e não vejo motivo para se mudar.

- E se eu o fizer? - ela perguntou ameaçadora. Pela primeira vez na vida ela estava de facto incomodada pelo modo como ele a tratava. Sabia que era um homem bom e decente, mas dirigia a vida de tal modo que ela não estava mais satisfeita. E, o que era pior, ela sabia disso.

- Vai ter problemas comigo se quiser bancar a independente estou lhe avisando.

- E eu estou lhe dizendo, o mais educadamente que posso, que vou para Nova York com a minha mãe no dia 31 de agosto.

- Veremos. E sem eu permitir, não vai levar minhas filhas. Está claro?

Era tudo um jogo de poder, e ela o detestou subitamente por isso. Só o que lhe faltava era um chicote para completar a imagem que estava criando.

- Elas também são prisioneiras aqui?

- É assim que você se vê?

- Ultimamente é. Desde que você me mandou para cá como castigo por um crime que não cometi. Você me tratou como uma criminosa todo o verão.

- Talvez seja a sua própria culpa que a faça sentir‑se assim, minha cara.

- De modo algum. E me recuso a me sentir culpada por uma viagem com a minha mãe, ou a me curvar e me arrastar e implorar. Não preciso disso. Sou uma adulta e posso fazer uma coisa dessas, se tiver vontade.

- Ah, a jovem baronesa está abrindo as asas. Está me dizendo que não precisa que eu a sustente por causa do tamanho de sua própria renda?

- Eu jamais diria uma coisa dessas, Henri.

Estava chocada com a amargura que ele deixava transparecer. Mas ele se enfurecia porque ela não cedia aos seus desejos.

- Nem precisava dizer, minha cara. De qualquer forma, já decidi. Você não vai.

Ela olhou para ele e sacudiu a cabeça, em desespero. Henri não compreendia que estava escolhendo o assunto errado para se afirmar. Nada poderia impedi‑la de ir. Nem mesmo o marido.

 

Quando John Chapman chegou ao Kentucky, foi como pousar num outro planeta. Teve de mudar de avião duas vezes, depois um jipe veio recebê‑lo e o levou por três horas de estradas esburacadas montanha adentro, até ser depositado num "motel" num quarto de solteiro e banheiro extenso. Passou a noite encolhido no quarto, escutando as corujas lá fora e sons que jamais ouvira antes, e imaginando como seria Megan quando a conhecesse na manhã seguinte.

Dormiu mal e acordou cedo. Caminhou até ao único restaurante da cidade, comeu ovos fritos e cereal e tomou uma xícara de um café verdadeiramente horrível. E o jipe veio buscá‑lo de novo depois do almoço, com um motorista desdentado que tinha apenas dezesseis anos e o levou até o hospital, lá no alto das montanhas, sob pinheiros altos cercado por barracos onde moravam diversas famílias, a maioria com uma dúzia de crianças correndo descalças e vestindo o que só podia ser chamado de trapos, seguidas por bandos de cachorros sarnentos que esperavam encontrar algumas migalhas ou sobras de comida que as crianças pudessem ter esquecido. Parecia difícil crer que esse local lúgubre pudesse existir numa paisagem tão bonita, e apenas a horas de distância de locais como Nova York ou Washington ou Atlanta. A miséria que John viu era de arrepiar. Rapazes que pareciam velhos encurvados devido às péssimas condições de trabalho, má saúde e desnutrição aguda; moças sem dentes e com cabelos ralos. Crianças de barriga inchada por falta de comida. John se perguntou como ela aguentava trabalhar aqui, e entrou no hospital, sem ter certeza do que iria encontrar.

Indicaram‑lhe uma clínica nos fundos e ele foi para lá, deparando em vinte ou trinta mulheres sentadas pacientemente em bancos, cercadas por crianças que berravam, e obviamente grávidas de novo com o que, em alguns casos, era o seu oitavo ou nono filho, muito embora tivessem apenas vinte anos. Era uma visão espantosa, e quando ele olhou para a recepção enxergou uma cabeleira ruiva, de tranças, numa moça bonita de jeans e botas e, enquanto ela caminhava em sua direção, ele soube, sem dúvida alguma, que era Megan. Parecia-se incrivelmente com Alexandra.

- Alô, doutora. - Ela sorriu do cumprimento e conduzia uma pequena sala próxima onde podiam conversar em particular. Ele lhe entregou a pasta que mostrara a Alexandra e falou‑lhe dela também, explicando que a reunião estava marcada para 1 de setembro como ela sugerira. - Ainda pode comparecer?

Parecia preocupado e ela o tranquilizou com um sorriso cálido. Tinha alguns dos maneirismos de Rebecca, mas na verdade se parecia muito com Alexandra.

- Posso. Se puder me afastar delas. - Acenou na direcção do exército de mulheres à espera nos bancos.

-  uma visão assombrosa.

- Eu sei. - Assentiu com ar sério. - É por isso que vim para cá. Elas precisam desesperadamente de ajuda. Cuidados médicos, comida e educação. É incrível pensar que isso existe no nosso próprio país.

 Ele assentiu, sem conseguir discordar dela, e impressionada por que ela estava fazendo algo a respeito.

 Ela examinou a pasta de novo, pensativa, e depois lhe fez umas perguntas sobre os seus pais. Queria saber a mesma coisa que Alexandra lhe perguntara. Por que Sam matara Solange? E depois, o que acontecera às outras? Ficou triste com o que leu sobre Hilary, e sorriu depois que ele terminou de falar sobre Alexandra.

- A vida dela parece bem diferente da minha, não é? Uma baronesa francesa. Não tem nada a ver com o Kentucky, Sr. Chapman. - Falou com um sotaque arrastado e ele riu junto com ela, mas assim ela queria conhecer as irmãs. - Sabe, minha mãe está com muito medo dessa reunião.

- Senti isso quando a conheci. Seu pai estava tentando tranquilizá‑la.

- Acho que é muito ameaçador para qualquer pai ou mãe adotivos quando o filho adotado procura a sua família natural. Eu vi isso no meu período de residência, antes de vir para cá. Mas ela não tem com o que se preocupar. - Sorriu para ele com serenidade. Sabia exactamente quem era, aonde estava indo, e por que queria ir para lá, igual às pessoas que a tinham formado. David e Rebecca também viviam segundo as suas convicções e eram exactamente o tipo de pais de que ela precisava. Decentes, inteligentes, cheios de integridade e amor pelas pessoas e causas em que acreditavam. E Megan sabia disso. Dissera isso à mãe antes de voltar para cá. - Ela ficará bem. Prometi ligar para ela depois de tudo terminado. Se é que conheço os meus pais, eles provavelmente virão me visitar depois.

Os dois riram e John observou os olhos dela. Estavam cheios de luz, vida e empolgação. Era uma moça que adorava o que fazia e se sentia realizada, e era emocionante apenas ficar perto dela. Era tão diferente de moças como Sasha, que estavam envolvidas totalmente consigo mesmas. Essa moça não pensava em ninguém excepto nas pessoas necessitadas à sua volta. E, no meio da tarde, ela teve de deixá-lo para fazer uma cesariana de emergência. Voltou dali a duas horas e pediu desculpas pelo atraso.

- Esta devia ser a minha tarde de folga. Mas é sempre assim, é por isso que nunca posso ir muito longe.

E então ela o convidou para jantar na sua casa. Morava numa choupana simples, com móveis simples e belos acolchoados que comprara de algumas de suas pacientes. Preparou uma panela de ensopado e eles relaxaram e conversaram sobre a juventude dela, os pais e pessoas que conhecera. Parecia amar profundamente os pais e sentia-se grata por tudo o que tinham feito por ela, no entanto, ao mesmo tempo, parecia intrigada ao pensar que já pertencera a pessoas inteiramente distintas.

Ela sorriu por sobre a borda do copo de vinho, e parecia muito jovem, como uma menina.

- De um jeito engraçado, é meio emocionante.

Ele riu e deu uma palmadinha na mão dela. De certa forma, parecia a menos perturbada, a mais segura, a mais feliz das três mulheres. Estava fazendo exactamente o que queria.

E depois ela o levou até onde estava hospedado, no jipe que o pai lhe dera quando se mudara para as montanhas. John tivera vontade de ficar sentado ao luar, conversando com ela durante horas, mas Megan tinha que voltar. Retomava o serviço às quatro e meia da madrugada.

- Eu o verei em Connecticut no dia? - ela perguntou cautelosamente, enquanto ele a olhava à luz da lua.

- Estarei lá. - Sorriu. - Pelo menos por algum tempo. Prometi ao Sr. Patterson que estaria presente para recebê‑las e ajudar a botar as coisas em andamento.

- Até lá, então.

Ela acenou quando arrancou com o jipe e John ficou olhando para o vulto que se afastava, enquanto escutava as corujas piando na árvore e sentia o ar da montanha suavemente sobre as faces, e por um momento teve vontade de poder ficar com ela para sempre.

 

Alexandra já estava com as malas todas prontas. Só faltava organizar as meninas, quando Henri a confrontou no corredor e lhe agarrou o braço.

- Pensei que você tinha me compreendido. Eu lhe disse: você não vai a Nova York.

- Henri, eu preciso. - Não queria brigar com ele. Era algo que tinha de fazer e não era justo tentar detê‑la agora. Ele a seguiu de volta ao quarto, onde ficou olhando carrancudo para ela, numa fúria muda, enquanto as malas jaziam abertas sobre a cama.

- Por que está sendo tão obstinada sobre isso? - Ele sabia instintivamente que tinha de ser um homem. Não havia outro motivo concebível.

- Porque é muito importante para mim.

- Você nada me disse que explique isso. Por que uma viagem para Nova York com a sua mãe significa tanto para você agora? Quer me explicar?

Os olhos dela se encheram de lágrimas enquanto olhava para ele por sobre a cama. Ele a tratara mal o verão todo, e era tão injusto que estivesse sendo difícil agora.

- Não posso explicar direito. Tem a ver com algo que aconteceu há muito tempo.

- Algo que diz respeito a um homem? - Olhou para ela acusadoramente e, enquanto observava à luz do sol forte da Riviera, ele Pareceu subitamente muito velho, e ela se perguntou se ele estaria com medo... medo de que ela estivesse envolvida com um homem mais moço. Sentiu pena dele e, por um momento, baixou a guarda, enquanto erguia a cabeça.

- Não, não tem absolutamente nada a ver com um homem. Tem a ver com meus pais.

Isso era verdade, mas não estava se referindo ao conde e á condessa de Borne.

- O que é que tem os seus pais?.Alexandra, espero que me conte o que está se passando.

E então, de repente, como se não pudesse mais lutar contra ela se sentou numa cadeira e começou a chorar. Mas ele não se acercou dela. Não lhe ofereceu nenhum consolo. Por tudo o que sabia, ela ainda lhe devia uma explicação, e talvez muito mais.

- Não queria lhe contar isso. É... é difícil explicar. Eu só fiquei sabendo em junho. - Ergueu para ele os olhos profundamente perturbados e ele se deu conta, subitamente, de que havia muito errado, que as transgressões pelas quais a punira durante dois meses talvez não fossem o que estivera pensando. Um arrepio de culpa o percorreu, mas apenas brevemente, enquanto esperava, parado perto à janela, quando ela continuou: - Minha mãe... meus pais... havia uma coisa que deviam ter‑lhe contado... que eu devia ter‑lhe contado, só que tinha quase me esquecido, e disse para mim mesma que não era importante. Mas suponho agora que era... - Houve um estremecimento interno de horror enquanto ele esperava. Ela prendeu a respiração e prosseguiu: - Henri, eu fui adotada.

Ele a fitou, totalmente estupefacto.

- Foi? Por que alguém não me contou? O seu pai nunca disse nada. - Parecia horrorizado, mas ela prosseguiu corajosamente. Ia contar‑lhe tudo, não importa o quanto lhe custasse.

- Também fui adotada antes disso. Por Margaret e seu marido anterior.

Esperou que o impacto o atingisse e, quando atingiu, ele se sentou lentamente na cama e empalideceu, fitando Alexandra.

- Está falando sério? Não era a filha biológica de Margaret e Pierre de Borne? - Era como se alguém lhe acabasse de contar que o Renoir pelo qual pagara cinco milhões de dólares era uma falsificação. A sua linda esposa com a família impecável não era uma condessa de nascença, mas uma desconhecida. Ela assentiu. Sabia quão profundamente ficara chocada quando Margaret lhe contara, e o quanto mais Henri ficaria aturdido. - E antes disso? Margaret nem mesmo é sua mãe?

A voz dele era um sussurro e Alexandra assentiu, pronta a contar-lhe tudo.

- Não, não é.

Ele soltou uma risada amarga.

- E pensar em quantas vezes me preocupei que você ou as meninas fossem ficar parecidas demais com ela. Então quem são os seus pais?

Ela podia ser qualquer uma... uma garota das ruas... da sarjeta... de pais e linhagem desconhecidos. Só de pensar nisso quase se sentiu mal. Há dez séculos que a sua família se casava e se reproduzia com o máximo de cautela, e ele se casara com uma perfeita estranha, de origem desconhecida.

- Há dois meses que sei disso. E quis poupá‑lo. Esse é o segredo que estava guardando de você. Nada mais.

Mas ele não se abrandou, olhou para ela com raiva e cruzou o aposento com fúria, olhando‑a por sobre o ombro.

- Antes fosse um homem.

- Desculpe desapontá‑lo. - Ela falou com grande tristeza. Ele estava desapontado. Rezara intimamente para que ele a aceitasse... para que aquilo não tivesse importância para ele. Mas não se iludira. Essas coisas significavam demais para o seu marido para que ele fosse magnânimo com relação a uma surpresa desse tipo. E ela soubera disso. Somente desejara que pudesse ser diferente, mas não era.

- E seus pais? Quem são? Os verdadeiros...

Ela inspirou fundo, cheia de coragem, e lhe contou.

- Minha mãe era francesa. Sei apenas que se chamava Solange Bertrand, uma "plebéia", como você diria. Meu pai a conheceu quando libertou Paris junto com as forças aliadas. Não sei mais nada. Meu pai era actor, um actor famoso e muito respeitado, chamado Sam Walker. Todos diziam que eles estavam muito apaixonados, e tinham três filhas, das quais eu era a segunda. E então... - Ela quase engasgou as palavras enquanto lhe contava, mas, de uma certa forma, era alívio dizê‑las. -...como resultado de alguma loucura, ele a matou. E quando foi condenado pelo crime cometeu suicídio na sua cela, fixando‑me e às minhas irmãs órfãs e sem vintém. Ficamos com uma tia por alguns meses, e depois um amigo da família, um advogado, encontrou lares para nós e providenciou para que fôssemos adotadas, duas de nós, pelo menos. Eu tive muita sorte de ter sido dada para Margaret e seu primeiro marido, um advogado chamado George Gorham. Eu tinha cinco anos, na época. Dizem que tinha quatro quando meu pai matou a minha mãe, e é por isso que não me lembro de nada. Tampouco me lembro do homem chamado George Gorham. Aparentemente, seis meses mais tarde ele morreu e minha mãe... e Margaret, quero dizer... veio para a França para se recuperar e conheceu meu pai... Pierre... e você sabe a maior parte do resto. Ele me adotou logo que casou com a minha mãe, o que você não sabia e suponho que eu tenha esquecido, e vivemos felizes para sempre e então você apareceu, Henri. - Ela tentou sorrir, mas o seu rosto se congelou quando olhou para ele.

- Que historinha bem contada. - Henri olhou‑a com fúria incontida. - Como ousaram me impingir esse embuste durante todos esses anos? E mesmo que você tenha se esquecido, como diz, a sua mãe não esqueceu. E seu "pai", como você o chama. Bande de salopards.... eu podia pedir o divórcio com base na fraude... e ainda por cima com danos.

- Chama as suas filhas de "danos", Henri? Eu não tinha ideia... de verdade... - As lágrimas lhe escorriam lentamente pelas faces e caíam na blusa de seda amarela enquanto o observava, mas não via nele nenhuma misericórdia.

- Chamo toda essa charada de vergonhosa! E esta viagem a Nova York? Qual a sua finalidade? Botar flores no túmulo de seus pais?

- O advogado que nos entregou para adoção era o amigo chegado dos meus pais e está morrendo. Passou meses tentando localizar as minhas irmãs, e deseja nos reunir. Acha que nos deve isso pela dor que possa nos ter causado ao nos separar. Eu tive muita sorte, mas pelo menos uma de nós não teve.

- E o que ela é? Uma prostituta nas ruas de Nova York? Meu Deus, é incrível! No espaço de uma hora herdei uma noiva de guerra, um assassino, um suicida e sabe lá Deus o que mais! E você espera que eu agite o meu lenço e derrame lágrimas de alegria porque você vai se reunir com as suas irmãs, das quais nem pode gostar depois de todo esse tempo? E a sua mãe? Que papel desempenhou nisso tudo? É a responsável por tê‑la feito entrar em contacto com o advogado? Achou que você precisava de um pouco de emoção na vida? Sei como ela me acha enfadonho, mas lhe asseguro que esta não é a minha ideia de emoção.

- Nem a dela. - Alexandra olhou para ele orgulhosamente. Tinha‑lhe contado quem era, e se ele preferia rejeitá‑la, era perda dele, pecado dele, falta de compaixão dele. Ela fizera todo o possível para protegê‑lo e ele exigira uma resposta às suas perguntas. Agora ele a tinha. E restava ver o que faria a respeito. - Minha mãe ficou desolada ao ter que me contar. Não queria que nada disso viesse à luz. Mas eu quero ver as minhas irmãs. Eu quero ver quem são. E não, minha irmã não é uma prostituta. Dirige uma importante rede de televisão e teve uma vida trágica. Minha irmã mais moça é médica e trabalha em Appalachia. E nem sei se vou gostar delas, ou elas de mim. Mas quero vê‑las, Henri. Quero saber quem são e quem eu sou, além de ser sua esposa.

- Isso já não basta para você, não é? Teve que nos fazer passar por isso. Pode começar a imaginar o que isso faria à minha carreira, se fosse ventilado? O que aconteceria ao meu banco? Às minhas ligações políticas? Meus parentes? Pode imaginar o que suas próprias filhas pensariam se soubessem que o avô delas assassinou a avó? Meu Deus... - Ele se sentou de novo, abalado com a ideia. - Nem consigo começar a imaginar.

- Nem eu - falou Alexandra com voz débil. - Mas não vejo por que tenha de ser ventilado. Ninguém vai dar publicidade a esse encontro. As crianças nem sabem por que estou indo. Simplesmente pensam que vovó nos convidou e que vamos para Nova York. Vou passar um fim de semana em Connecticut "com amigos", enquanto as meninas e minha mãe ficam em Nova York.

- Não entendo por que as quer junto com você. Não faz sentido.

Mas fazia para ela... e para Margaret.

- Talvez precise delas para apoio emocional. - E então ela deu um grande passo, um passo que não tinha imaginado um momento antes. - Gostaria que você também viesse junto. É um pouco assustador voltar atrás, anos atrás, para ver pessoas que não se conhece, mas que se deve ter amado.

- Nem consigo começar a imaginar. E não, não irei com você. Na verdade, Alexandra... - Ele se pôs de pé e olhou para ela com tristeza. Até onde podia ver, a vida deles tinha sido destroçada de modo irreparável. - Imploro‑lhe que não vá. Não tenho ideia do que possa ser salvo do nosso casamento, se é que alguma coisa pode, mas não tem sentido ir e ver essa gente. Elas são inferiores a você. Você não deve voltar... - E então, num murmúrio: - Por favor, não vá.

Desta vez, porém, ela não podia lhe fazer a vontade. Depois de catorze anos de obediência devotada a Henri de Morigny, ela não podia mais obedecer. Precisava ir a Nova York, para o seu próprio bem, e talvez até para o bem das filhas. Tinha de ir e enfrentar essas mulheres, estender a mão e tocá‑las, talvez até mesmo amá‑las, ou não, e dar descanso a velhos fantasmas que nem soubera que existiam.

- Desculpe, Henri... tenho que ir... espero que você possa entender. É terrivelmente importante para mim. E nada disso precisa ferir o nosso casamento. Estou fazendo algo que preciso fazer... por mim... não para ferir você. - Caminhou até ele e tentou abraçá-lo meigamente, mas Henri não deixou. Tratava‑a como a estranha que, na sua cabeça, ela agora era.

- Nem sei mais quem você é.

- Será que a minha árvore genealógica faz tanta diferença?

Mas ela já sabia a resposta antes de fazer a pergunta. Ele sacudia a cabeça com tristeza e saiu do aposento, enquanto ela assoava o nariz resolutamente e descia o corredor para fazer as malas das filhas. Não importa o que acontecesse ao seu casamento, ela não tinha dúvidas, Tinha que ir para Nova York. Tinha que ir. Iria.

 

Faltavam três dias para o encontro marcado quando John Chapman voltou à rede, exibiu todos os seus passes e subiu até o escritório de Hilary. Sorriu para a secretária e fez ar de que ali era o seu lugar, enquanto perguntava se Hilary estava na sua sala.

- Vai sair daqui a alguns minutos...

Ela já ia lhe perguntar quem era, mas John passou por ela e a moça deu de ombros. Não podia controlar todos os que entravam para ver a Senhorita Walker. Era uma legião, e ele parecia legal. Na verdade, parecia muito mais do que isso. Sorriu consigo mesma, imaginando se ele seria alguém com quem Hilary estava envolvida. Ninguém sabia nada da vida particular de Hilary. E quando a porta se fechou silenciosamente atrás dele, John ficou parado na sala de Hilary, que ergueu os olhos, espantada.

- Sim? - Achou que era algum tipo de entrega, um roteiro, ou instruções urgentes. Estava acostumada a caras novas que entravam e saíam da sua sala, mas não a esta aqui. E ele a fitava serenamente, como se a conhecesse bem. Teve uma sensação estranha quando ele se aproximou, e sentiu medo, de repente. Estendeu a mão para o telefone para pedir ajuda. Porém ele sorriu e ela se sentiu uma tola. Parecia inteligente, coerente e bonitão, mas ela ainda não conseguira concluir quem diabo ele era ou o que fazia ali, quando falou com ela numa voz profunda e gentil.

- Senhorita Walker? - Mas não precisava fazer a pergunta. Sabia exactamente quem ela era, possivelmente até melhor do que ela própria. - Desculpe ir entrando assim desse jeito. Preciso lhe falar por um momento.

Ela ficou de pé atrás da mesa, como que para obter o controle da situação quando ele se aproximou. Os olhos verdes estavam frios mo gelo e a sua voz era seca.

- Estou de saída. Terá de falar comigo amanhã. De que departamento você é?

Era uma pergunta difícil e ele não sabia ao certo o que responder. Não queria que ela ligasse para a segurança e o mandasse botar na rua. Em vez disso, falou uma coisa totalmente inesperada.

- Estou aqui por causa de Megan e Alexandra... - Esperou para ver o efeito e, como um ferimento a faca profunda ou um tiro, a princípio não houve sangramento. Os olhos dela ainda eram gelo verde firme. - Elas querem vê‑la.

- Quem é você?

Desta vez a mão dela estava tremendo quando a estendeu para o telefone. Ele chegou primeiro e não a deixou tirá‑la do gancho.

- Por favor... me dê só cinco minutos. Não vou machucá-la. É uma longa história, mas vou torná‑la o mais rápida possível.

E então, de repente, ela soube que ele era o homem que lhe telefonara, e John soube que ela se lembrava.

- Não quero vê‑las.

- Elas querem vê-la. As duas. Alexandra vem da França... Megan do Kentucky... - Ele estava ganhando tempo e ela estava mostrando sinais de dor nos olhos... uma tristeza incrível...

- Aquele velho filho da puta o mandou, não foi? Porquê agora? - Ela se esticou até onde sua altura o permitia e olhou para ele, largando o telefone.

- Ele está morrendo.

- Óptimo.

- Talvez queira se arrepender dos seus pecados. Quer reunir vocês três neste fim de semana, na casa dele em Connecticut. Ele gastou meses procurando vocês...

- Babaquice. - Ela o interrompeu. - Sei que não é assim. Eu o procurei há vinte anos e ele não tinha ideia de onde ninguém estava, e nem interesse. Quem nos encontrou? Você? - Ele fez que sim, sem ter certeza se ela o odiaria ou não. Ele só estava criando mais dor para ela. E há muito tempo que ela enterrara o passado. Desistira de encontrar as irmãs depois da última vez em que vira Arthur. Depois de dez anos, o sonho tinha morrido. E agora, depois de mais de vinte anos, ela não queria revivê‑lo. Não precisava mais delas. Tinha cortado da sua vida tudo o que as pudesse lembrar. Não havia homens nem crianças, nem qualquer tipo de vida amorosa. Havia trabalho, trabalho calmante, e as pessoas a quem pisava para subir. Não precisava sentir‑se culpada ou arrependida. Estava seguindo numa direção. E estava completamente sozinha. - É tarde demais, seja você quem for.

- Chapman, John Chapman.

- Bem diga a ele que não estou interessada. Ele está atrasado vinte anos, ou melhor, trinta.

Parecia indizivelmente amarga quando se sentou. De algumas formas, ele reparou, ela parecia mais moça do que era, e de outras mais velha. Tinha olhos que eram mais velhos e mais tristes que o tempo.

- E o que digo às suas irmãs?

- Diga a elas... Diga a elas... - A sua voz falhou e ela ergueu os olhos para ele com tristeza. - Diga a elas que as amei, mas que... agora é tarde demais para mim.

Ele sacudiu a cabeça e se sentou diante dela, do outro lado da escrivaninha, rezando para poder tocar algo que ainda vivesse no seu coração, se é que qualquer coisa sobrevivera à dor interminável que sofrera em criança.

- Não é tarde demais, Hilary... não pode ser... você era tudo para elas naquela época... - Arthur dissera isso. Certa vez descrevera a John como ela cuidava das outras duas meninas, e só de falar ele se pusera a chorar. - Não pode lhes dar as costas agora.

Ela o fitou nos olhos, perguntando‑se quem era este homem, como a encontrara, e como sabia tanto.

- Elas não precisam mais de mim, Chapman. São adultas, agora. O que são? Secretárias? Donas de casa? - Era o melhor destino que podia esperar para elas. John Chapman sorriu.

- Uma é baronesa na França, com duas filhas, e a outra é médica no Kentucky. Ambas são mulheres interessantes. Acho que gostaria delas.

Mas isso não tinha nada a ver, embora estivesse curiosa a respeito.

- Quem é a médica? - Era difícil imaginar qualquer das duas garotinhas como médica.

- Megan. Ela é formidável. E Alexandra também. É simpática, compassiva e bondosa.

- Já era assim desde bebé. - A sua voz era um sussurro e então, enterrando o rosto nas mãos, ela sacudiu a cabeça. - A ideia de encontrá-las foi o que me manteve viva por dez anos de inferno. Roubei dez mil dólares da minha tia e vinha para Nova York para encontrá-las. - Riu protegida pelas mãos, e Chapman podia ver que havia lágrimas na escrivaninha. - E então ele me contou que não mantivera contacto com elas... que não tinha ideia de onde estavam... eu também não podia encontrá‑las. - Ergueu para John os olhos vazios, feridos. - De que adianta agora, excepto para nos causar dor com as lembranças do que aconteceu?

- Você é a única a tê‑las, Hilary. As outras não têm nada. Alexandra se lembra de você, Megan não sabe de nada. Só o que vocês têm agora é umas às outras. O que aconteceu aos seus pais não tem mais importância. Só vocês três... não pode dar as costas a isso agora.

- O velho sacana nos destruiu. Por que eu deveria deixar que alivie a sua consciência reunindo‑nos agora? Minha vida não vai mudar se eu não as vir. Isso tudo acabou. Elas se foram. Como os meus pais... como o passado.

- Seus pais se foram para sempre... mas suas irmãs não. São reais, estão vivas e querem conhecê‑la. Mesmo que você vá e as deteste, pelo menos poderá dizer a si mesma que tentou.

Mas ela sacudiu a cabeça lentamente e ficou de pé de novo, os olhos lançaram para ele fogo cor de esmeralda.

- Não vou fazê‑lo. Diga a Patterson o quanto o odeio... não... você nem poderia imaginar o quanto o odeio.

- Por quê? Sei que ele não manteve vocês três juntas, mas havia mais alguma coisa? - Tivera vontade de lhe perguntar isso desde a primeira vez que lera a sua pasta.

- Não tem mais importância. Ele sabe o que nos fez. Ele que viva com isso. Para mim... está acabado... tenho a minha vida... o meu trabalho... não preciso mais do que isso.

- É uma vida danada de vazia, Hilary. Eu sei, porque é só o que tenho. Com quem você conversa à noite, no silêncio? Quem segura a sua mão quando está doente ou cansada ou com medo? Tenho uma ex‑esposa e meus pais e dois irmãos. Quem você tem? Pode se dar ao luxo de dar as costas para essas duas mulheres?

- Saia do meu escritório. - Ela foi até à porta e a escancarou. Já tinha ouvido o bastante e não podia aguentar mais. Mas ele tirou um pedaço de papel do bolso. Nele estavam as instruções sobre como chegar à casa de Arthur em Connecticut no dia 1 de setembro, o telefone, o endereço. Ele a fitou nos olhos enquanto o punha sobre a mesa e depois se dirigia até a porta.

- Há meses que venho vivendo a sua vida, Hilary Walker. Chorei por você. Estive em Charlestown, em Jacksonville, falei com a vizinha que a encontrou quase morta na soleira da sua porta, estive nos seus lares de adoção. Sei como ele a magoou... sei que destino cruel você teve - e havia lágrimas nos olhos dele enquanto olhava para ela e falava ‑, mas por favor, meu Deus, por favor, não faça isso... não lhes vire as costas agora. Elas precisam de você e você delas... Hilary... por favor... vá à reunião. Estarei lá para ajudá‑la. Farei tudo o que puder. - Ela erguia os olhos para ele, espantada, perguntando‑se como ele soubera de tudo isso. - Não deixe de estar lá... por favor... - E, com essas palavras, apertou‑lhe o braço suavemente e deixou a sala. Ela ficou ali parada, vendo‑o afastar‑se, toda a velha dor do passado revivida, juntamente com uma nova confusão. Não queria ir vê-las... não queria recordar os cachos ruivos de Axie e os gritinhos de Megan dentro da noite. Elas tinham partido. Partido para sempre. E ela não podia mais voltar. Nem mesmo por John Chapman.

 

- Você vai mesmo?

Henri olhava para ela, do outro lado do quarto de dormir. Em Cap Ferrat eles partilhavam um quarto, ou tinham partilhado, até que Alexandra lhe confessara tudo. Ele se mudara para o quarto de.hóspedes naquela mesma noite. E o gesto não precisara de explicação.

- Vou.

Parecia séria e firme. As meninas estavam vestidas e prontas. As malas já estavam lá embaixo e Margaret ia encontrar‑se com elas no aeroporto em Nice. Tinham conseguido vaga num voo direto para Nova York sem voltar para Paris.

- Não vai reconsiderar?

Ela sacudiu lentamente a cabeça.

- Desculpe, querido, não posso. - Ela se dirigiu para ele na esperança de que a deixasse tocá‑lo, mas quando chegou ao seu lado Henri recuou rapidamente, o que a magoou profundamente.

- Não, por favor - disse ele em voz baixa. - Faça uma boa viagem, então.

- Voltarei no máximo no dia dez. - Ele assentiu. - E estarei no Pierre em Nova York se precisar de mim. Eu ligo para você.

- Não será necessário. Estarei muito ocupado. - Ele se virou e saiu para o terraço e, com um último olhar para as costas dele, ela saiu e desceu as escadas. Não viu que ele a observava quando se afastaram, ou as lágrimas nos seus olhos enquanto fitava o mar e pensava nela. Sabia que a amava muito e agora se sentia como se a tivesse perdido. Era incrível para ele... tudo o que tinha acontecido... simplesmente não compreendia. Como eles podiam ter deixado que acontecesse? De uma certa forma, ele percebia, ela era tão vítima das circunstâncias quanto ele. Mas para ele era tão mais importante e agora ela estava se entregando a essa viagem sem sentido para encontrar duas irmãs desconhecidas. Ele só desejava ter podido detê‑la, mas era evidente que não podia.

 

Margaret insistira para que viajassem de primeira classe e as meninas estavam encantadas ao pedirem Shirley temples e soprarem uma para a outra pelos canudinhos vermelhos.

- Meninas, por favor! - admoestou Alexandra, ainda pensando no marido. Margaret lhe disse que deixasse elas se divertirem. E, quando as meninas desceram o corredor para ver se encontravam outras crianças para brincar, Margaret perguntou como Henri recebera a notícia. Alexandra apenas lhe contara rapidamente, alguns dias atrás, que contara a ele toda a verdade antes de partir.

- Ele não verbalizou propriamente - disse Alexandra solenemente à mãe ‑, mas acho que acabou. Estou certa de que, quando voltar, verei que já entrou em contato com seus advogados.

- Mas você não precisava ter‑lhe contado. Podia ter dito que eu a estava arrastando para Nova York.

- Ele sabia que era outra coisa, mamãe. Eu tinha que lhe dizer alguma coisa, então disse a verdade. - E, a despeito do preço a pagar, não se arrependia. Pelo menos tinha a consciência limpa.

- Acho que foi um grande erro. - Não disse nada a Alexandra, mas desconfiava de que as desconfianças da filha tinham base. Era praticamente certo que Henri pediria o divórcio. Nem pediria, exigiria, e Alexandra não lutaria. Margaret só rezava para que ele lhe deixasse as crianças. Nada disso era agradável de se considerar, e distraiu‑se quando Axelle e Marie‑Louise voltaram e anunciaram que, a despeito do voo estar lotado, não havia "ninguém" no avião.

- Em outras palavras, não há crianças? - indagou Margaret com um sorriso e elas acharam graça. - Então vão ter de se contentar conosco.

Jogaram mico‑preto e sueca e ela ensinou‑lhes gin rummy, depois assistiram ao filme enquanto Alexandra ficava imersa em seus pensamentos. Tinha muito em que pensar... nos pais... nas irmãs... e no marido, se é que ainda teria um quando voltasse para a França. Mas ainda tinha certeza de ter tomado a decisão acertada, e na manhã seguinte, após uma boa noite de sono no Pierre, ela ligou para a portaria e marcou uma hora no Bergdorf's, a algumas quadras dali. Ficou muito satisfeita com os resultados. Quando se encontrou com a mãe e as meninas na hora do almoço, elas ficaram estupefatas. Ela tirara a rinsagem loura do cabelo e era novamente ruiva.

- Mamãe, você está parecendo comigo! - gritou Axelle, encantada, e Margaret riu enquanto Marie‑Louise batia palmas.

- Por que cargas d'água resolveu fazer isso? - indagou Margaret, por sobre a cabeça das meninas.

- Há muito tempo que queria fazer isso. Talvez seja que agora eu sou quem sou, para o melhor ou o pior. Mas não estou mais me escondendo.

E Margaret sentiu‑se bem, observando‑a.

- Eu a amo - murmurou Margaret, tocando a mão da filha.

Almoçaram no "21" e pararam no Schwarz's para um "presentinho" da vovó. Como sempre, ela cobriu de mimos as duas meninas. E como fora planejado, às quatro horas a limusine de Alexandra estava esperando. Tinha explicado às meninas que ia passar o fim de semana com alguns velhos amigos em Connecticut, e elas ficariam com a avó na cidade.

- Ligo para vocês hoje à noite - prometeu, entrando no carro com uma maleta e usando um vestido de linho preto muito chique de Chanel.

- Vamos ao cinema com a vovó! - gritou Axelle.

Ela abraçou a mãe com força, deu um abraço nas meninas e depois jogou beijos para as três, e seus olhos fitaram os da mãe por um longo momento enquanto se afastava. Tinha certeza de poder ver lágrimas nas faces da mãe enquanto esta acenava, e os olhos de Alexandra também ficaram cheios de lágrimas. Era assustador estar voltando para o passado e se adiantando no futuro, tudo ao mesmo tempo. Mas também era muito emocionante.

 

A viagem até Stonington, no litoral de Connecticut, levou pouco menos de duas horas, e Alexandra sentava‑se no banco traseiro, pensando nas pessoas que deixara atrás de si. Margaret e o amor que lhe dedicara por trinta anos, Axelle e Marie‑Louise, tão infinitamente preciosas para ela, talvez até mais agora... e Henri, tão zangado com a sua aparente traição. Pensara em ligar para ele de manhã, antes de sair, mas não conseguia pensar no que dizer. Na verdade, não parecia haver nada a dizer. Ela sabia como ele se sentia com relação à viagem aos Estados Unidos. Proibira que ela fosse e, pela primeira vez na sua vida de casados, ela desobedecera a ele. E de repente, enquanto viajava na limusine alugada, ela se sentiu estranhamente livre, e diferente do que se sentia há muito tempo... quase como costumava se sentir quando era uma garotinha, correndo com o pai nos prados perto da sua casa de campo, com o vento nos cabelos, totalmente segura de si e completamente feliz. Sentia como se ele estivesse aqui com ela, agora, enquanto fazia a viagem ao passado que se sentia forçada a fazer. E, sem pensar, correu a mão pelos cabelos e sorriu consigo mesma. Ela era Alexandra de Borne de novo... Alexandra Walker, sussurrou no carro silencioso. E pela primeira vez em catorze anos, era novamente ruiva.

Havia um portão eletrónico quando chegaram e uma voz desconhecida apertou a campainha para entrarem, mas tirando esse pouco de segurança, a propriedade parecia simples e despretensiosa. Havia um caminho longo e sinuoso que subia uma colina e, depois de uma curva brusca, uma bonita casa em estilo vitoriano com uma varanda ampla e um mirante no telhado. Parecia a casa da avó de alguém, ou de uma tia‑avó. A varanda estava cheia de móveis de vime, e havia um velho celeiro atrás da casa. Ela parecia aconchegante e convidativa, e Alexandra saltou da limusine com cuidado, olhando ao seu redor, admirando a beleza da propriedade e pensando como as filhas gostariam dali. E então viu um rosto conhecido observando‑a da varanda. Sorriu quando ele se dirigiu rapidamente para ela.

- Alô! Como foi de viagem? - Era John Chapman, de calças cáqui e uma camisa azul aberta no peito. Parecia totalmente à vontade. Seus olhos eram cálidos e amistosos ao se cumprimentarem. A seguir, ele tirou a sua mala das mãos do chofer.

- Foi ótima, obrigada. Que belo lugar este aqui.

- Não é mesmo? Estive xeretando por aí a tarde toda. No celeiro há umas peças antigas maravilhosas, acho que o Sr. Patterson é dono deste lugar há anos. Entre, você vai adorar a casa. - E ele a conduziu lentamente, admirando em silêncio o cabelo vermelho brilhante, que a fazia tão diferente da loura discreta que ela fora antes. E então, afinal, ele resolveu ir em frente em falar: - Seu cabelo está maravilhoso, se não é rude da minha parte dizê‑lo.

Mas ela riu e sacudiu a cabeça. Estava satisfeita porque ele gostava.

- Resolvi voltar à minha cor natural em homenagem a essa viagem. Já vai ser bem difícil para nós nos reconhecermos sem complicar ainda mais as coisas. - Ela sorriu, seus olhos se encontraram e ela finalmente tomou coragem de lhe perguntar o que mais queria saber. - As outras já chegaram?

Ele franziu as sobrancelhas e fitou‑a, tentando parecer descontraído, mas ainda estava preocupado com Hilary. Ela não dera nenhuma indicação de que viria, e ele receava desesperadamente que não viesse.

- Ainda não. Megan falou que chegaria por volta das seis horas. E Hilary...

A voz dele foi sumindo e Alexandra olhou para ele longa e intensamente, depois assentiu. Compreendia e se entristecia. Mas não era verdadeiramente de surpreender.

- Ela não concordou em vir, não é?

- Não literalmente. Mas eu disse a ela o quanto vocês queriam que viesse. Achei que era justo dizer isso. - Ela anuiu em resposta e orou mudamente para que a irmã tivesse a coragem de enfrentá‑las. Sabia que o passado era profundamente doloroso para ela, muito mais do que para as outras, e ela podia se decidir a não vir. Mas Alexandra torcia para que viesse. Bem lá no fundo, uma pequena criança esquecida precisava vê-la desesperadamente. - Vamos ficar de dedos cruzados - acrescentou Chapman, quando entraram no saguão da frente. Havia uma pequena sala de estar à direita e uma grande sala de visitas à esquerda, com uma lareira aconchegante e móveis vitorianos bem‑conservados. Ela perguntou onde estaria Arthur Patterson, o seu benfeitor, que voltara a reuni-las, e John disse que estava descansando no andar de cima.

Trouxera duas enfermeiras e quando John o viu, naquela manhã, se deu conta de que era um milagre que o homem ainda estivesse vivo. Era como se tivesse se apegado à vida apenas para isso, e não pudesse se apegar por muito tempo mais. Ele envelhecera vinte anos nos quatro últimos meses e era óbvio que agora sentia grandes dores o tempo todo. Mas estava coerente e alerta, e ansioso para ver as três mulheres que havia finalmente reunido.

- Tem certeza de que elas virão? - insistira com John, que o tranquilizara, rezando para que Hilary não os desapontasse. Mas odiando Patterson como odiava, talvez não fosse assim tão ruim que não viesse. Chapman não tinha certeza se o velho suportaria bem aquele tipo de confrontação. E depois do almoço as enfermeiras o puseram

na cama e insistiram com John para que o deixasse descansar até à hora do jantar. Ele estava resolvido a descer naquela noite e jantar com seus convidados. E o plano era que John partisse depois do jantar. A essa altura as mulheres já teriam se acomodado, ele as teria apresentado umas às outras e o resto cabia a elas... e a Arthur.

Alexandra estava espiando a sala de visitas e dali passou à sala de jantar com a comprida mesa inglesa.

- Parece que ele passou muito tempo aqui - Observou Alexandra. - O lugar parece muito amado.

Ele sorriu ante a escolha de palavras dela, e falou que não tinha certeza de quanto tempo Arthur passara em Connecticut. Não acrescentou que Arthur lhe dissera que queria morrer ali.

- Gostaria de subir?

- Obrigada. - Ela sorriu para ele, imaginando quantos anos teria. Parecia tão juvenil de certas maneiras e, no entanto tão maduro. Ele era sério e, no entanto divertido... a um mundo de distância de Henri e, no entanto parecia infantil se comparado com o marido. Ela estava tão acostumada ao jeito dominador de Henri, aos seus hábitos de comando, ao seu jeito de entrar numa sala e assumir o controle, com o rosto severo e os ombros possantes, e era estranho como sentia falta disso, repentinamente. Ele fazia com que os outros homens parecessem fracos e jovens demais, e como se, não importa o quanto fossem agradáveis, lhes faltasse algo. E não pôde deixar de se perguntar se as coisas voltariam a ser as mesmas, se ele a aceitaria de volta quando ela retornasse à França - talvez se visse forçada a viver de novo com a mãe, ou a encontrar a sua própria casa. Por enquanto, tudo era incerto.

John levou‑a a um quarto ensolarado num canto da casa; ele ainda estava quente devido ao sol da tarde, e a colcha da cama era de um branco reluzente orlado de renda, com uma aconchegante cadeira de balanço ao lado e os mesmos móveis vitorianos que pareciam encher a casa. Havia uma poltrona de dois lugares e uma pia de porcelana e alguém colocara flores no quarto. Por algum motivo o quarto a fez rejuvenescer, como se fosse uma mocinha voltando para casa. E os olhos dela estavam cheios de lágrimas quando se virou para John e lhe agradeceu.

- É tão esquisito estar aqui - ela tentou explicar, mas não conseguia achar as palavras. - É como ser muito jovem e muito velha... visitando o passado... é tudo muito confuso.

- Compreendo.

Deixou‑a arrumando‑se, e ela desceu dali a pouco num costume de linho bege, a maquiagem retocada, os sapatos bege com a ponta escura familiar de Chanel, e o cabelo ruivo dando vida a tudo. Parecia elegante e controlada, e se virou ao ouvir um burburinho de vozes na escada às suas costas. Era Arthur que descia, ajudado pelas duas enfermeiras. Estava encurvado e frágil, e gemia a cada passo que dava, porém quando a viu se deteve, soltou uma exclamação de espanto e então as lágrimas começaram a escorrer pelas suas faces, enquanto Alexandra subia a escada ao seu encontro.

- Alô, Sr. Patterson - disse suavemente e, enquanto ele tremia, inclinou‑se e lhe beijou a face. - Obrigada por me trazer até aqui.

Mas ele tremia tão violentamente que não podia falar. Apenas tomou‑lhe a mão e a apertou com força, com o restante das suas forças. Depois permitiu que ela o ajudasse a descer, auxiliada por uma das enfermeiras. Quando elas o acomodaram numa poltrona confortável na sala de estar grande, ele a fitou e falou, finalmente, numa voz que a enfermidade fazia rouca:

- Meu Deus, você se parece tanto com ela! Você é Alexandra ou Megan? - Ainda se lembrava do cabelo negro da pequena Hilary, exactamente como o do pai.

- Sou Alexandra, senhor. - Parecia séria e profundamente emocionada, e ele recomeçou a chorar quando ela falou.

- Você até tem o mesmo sotaque. Através de todos aqueles anos, ela sempre teve aquela cadência francesa... - Sacudiu a cabeça, aturdido com a semelhança entre Alexandra e a mãe. E era uma sensação estranha para Alexandra ser tão parecida com alguém que não conhecera, e que, no entanto era sua mãe.

- O senhor gostava muito dela? - Era algo sobre o que conversarem enquanto esperavam pelas outras. John reaparecera e lhe oferecera um copo de vinho, que ela recusou. Queria concentrar‑se em Arthur Patterson e esperar pelas irmãs. Estava ficando mais tensa e excitada a cada momento.

Mas ele meneou a cabeça, pensando nas perguntas de Alexandra.

- Sim, gostava dela... era uma moça tão linda... tão bela, tão orgulhosa... tão forte... tão cheia de vida... - Com um sorriso desmaiado, ele falou a Alexandra da primeira vez que ele e Sam a tinham visto em Paris. - Pensei que ela ia chamar a polícia militar, e quase chamou... só que seu pai era tão bonitão e encantador. - Sorriu, recordando Sam. Que bons amigos tinham sido e como tinham se divertido nos anos de guerra. - Ele também era um actor maravilhoso. Falou‑lhe de algumas das peças dele, enquanto ela escutava, quieta. E, então, ouviu‑se o ruído de um carro do lado de fora e John desapareceu. Dali a um momento escutaram vozes.

Arthur também parecia estar atento e, inconscientemente, estendeu a mão e segurou a de Alexandra com firmeza, na hora em que a porta da frente se abriu. E, de onde estava sentado, pôde vê-la quando entrou. Ela correu os olhos ao seu redor, como Alexandra tinha feito, e depois os viu observando‑a. Como uma criança tímida, entrou na sala parecendo subitamente uma cópia mais jovem de Alexandra.

Alexandra pôs‑se de pé devagar e caminhou instintivamente para ela com os braços estendidos. Era como encontrar um pedaço do passado e olhar no espelho, ao mesmo tempo. A única diferença era que Alexandra tinha olhos azuis e Megan, verdes. Mas, tirando isso, claro que eram irmãs.

- Megan? - perguntou numa voz cautelosa, mas sabendo quem ela era. A moça mais nova fez que sim e elas se abraçaram, com lágrimas nos olhos, muito embora tivessem ambas se prometido que controlariam as emoções. E enquanto a abraçava, Alexandra sentiu por um momento que se lembrava.

- Você se parece tanto comigo! - Megan riu por entre as lágrimas e tornou a abraçá‑la, depois se afastou para observá‑la com um sorrisinho irónico. - Só que não se veste tão bem. - Ainda estava usando os jeans, as botas e a camiseta que usara no hospital até viajar, naquela tarde. De qualquer forma, porém, era o que geralmente usava, assim como Rebecca. - Meu Deus, você é linda.

Ela riu e recuou timidamente enquanto Alexandra tomava a sua mão e a apresentava a Arthur.

- Como vai, Sr. Patterson? - Megan cumprimentou‑o polidamente, quase como uma jovenzinha, e ele a fitou com satisfação. Era quase tão bonita quanto Solange, mas não tanto, e não tinha a sofisticação de Alexandra, mas possuía algo que se destacava, uma espécie de pureza e inteligência que estavam estampadas claramente no seu rosto. Parecia ser uma bela mulher.

- Quer dizer que é a médica, não é?

- Sou sim, senhor. Quase. Estou terminando agora o meu período de residência. Estarei formada no Natal.

Ele assentiu de novo, olhando de uma para a outra. Ali não havia amargura, nem raiva. Tinham levado vidas boas, o que era evidente. Ele escolhera bem para elas... mas não para a pobre Hilary. Depois da advertência de Chapman, ele temia o que ela poderia lhe dizer, caso viesse. Mas mesmo assim queria vê-la.

Esperaram até quase oito horas, alternadamente calados e depois falando todos ao mesmo tempo, nervosos, constrangidos e estranhos, com Arthur contando‑lhes histórias do passado e Megan e Alexandra tentando partilhar as suas vidas com ele e uma com a outra. Alexandra trouxera fotos das filhas, de Henri e dos pais. Megan fizera o mesmo, trazendo fotos de Rebecca e David, da casa em Tiburon e do hospital onde trabalhava no Kentucky. Era como se quisessem se atualizar mutuamente com a maior rapidez possível. Tinham trinta anos para pôr em dia. E era evidente como as suas vidas eram diferentes. O hospital no Kentucky aparecia ao lado das meninas diante da villa em Cap Ferrar. E Henri era o típico castelão diante do seu château em Dordogne, enquanto as fotos de Margaret e Rebecca ficaram lado a lado por um momento, uma de jeans e flor no cabelo, a outra de vestido longo a caminho de um baile em Monte Carlo, no arco anterior. E Megan tocou no assunto com um sorriso tímido quando se dirigiam à sala de jantar, com Arthur caminhando lentamente às costas delas, com a ajuda de John.

- É engraçado como as nossas vidas foram diferentes, não é? E, no entanto ainda somos irmãs... ainda nos parecemos... ainda nascemos dos mesmos pais e provavelmente temos gostos, antipatias e hábitos que herdamos sem sequer saber. E, no entanto olhe só para nós, você cresceu no meio de toda a pompa e luxo na França, e passei metade da minha infância vivendo com amigos, enquanto meus pais iam para a cadeia por causas em que acreditavam.

E, no entanto ela não parecia infeliz. Parecia orgulhosa deles, e o era. Era tudo espantoso de se pensar e as duas ficaram em silêncio enquanto tomavam seus lugares de cada lado de Arthur. O lugar de John era ao lado de Megan e havia uma cadeira vazia do lado de Alexandra. Agora estava ficando evidente que Hilary não viria juntar‑se a eles. Alexandra ficou desanimada e conversou fiado por algum tempo, enquanto Arthur parecia cochilar. E então, de repente, ouviu‑se o som de um carro lá fora. John saiu da mesa discretamente. Ouviu‑se um bate‑boca irado do lado de fora e então, de repente, a porta da frente se escancarou enquanto as duas mulheres observavam, hipnotizadas. Arthur acordou, como que pressentindo que mais alguém viera vê‑lo.

- Aconteceu alguma coisa? - ele perguntou a Alexandra, confuso por um instante ao acordar, e ela deu uma palmadinha na sua mão, sem tirar os olhos da porta, e então a viu. Alta, magra e comprida como o pai fora, com passadas longas e cabelos negros retintos, e olhos verdes que de repente voltou para elas. Estava usando um costume amassado de linho azul‑marinho. Tivera toda a intenção de não vir e então de repente, depois do trabalho, resolvera alugar um carro e vir dizer a Arthur uma vez por todas o que pensava dele. E então quem sabe ficaria livre dele pelo resto da vida? Nem se importava de ver as outras. Agora eram estranhas para ela. Era Arthur que a interessava, quando entrou na sala e ficou à sua frente, mas era impossível ignorar as duas mulheres de cabelos ruivos que o ladeavam e seus olhos foram atraídos primeiro para Megan e depois para Alexandra, enquanto John se postava cuidadosamente atrás dela. Ele podia sentir a tensão na sala, a angústia da mulher que estava tão próxima dele. Teve vontade de abraçá‑la, mas ela parecia que ia explodir. E então, de repente, ela parou, quando seus olhos se encontraram com os de Alexandra, que se pôs de pé lentamente e cruzou a sala como uma sonâmbula, e as palavras foram se lhe escapando naturalmente.

- H... Hillie... - Podia ver o rosto de uma garotinha com longos cabelos negros e, no entanto cá estava essa mulher... com os mesmos cabelos negros... os mesmos olhos verdes. Sem saber por quê, ela começou a chorar, e sem querer, Hilary a abraçou.

- Axie... minha Axie... - Era a primeira vez que a abraçava desde aquele dia em que a arrancaram dela, deixando‑a sozinha com Eileen e Jack em Charlestown, chorando pelas irmãs a quem tanto amara, e ela mal podia suportar a dor agora, ao se lembrar, enquanto abraçava a mulher alta, perfumada, muito bem penteada que vinha de Paris... excepto que só via era o rosto da criança que amara no passado, e ela ficou repetindo as mesmas palavras muitas vezes, enquanto chorava... - Eu te amo, Axie... - Ficaram assim abraçadas por longo tempo, enquanto Megan observava em silêncio.

Então, de repente, Arthur começou a tossir e John se apressou a dar‑lhe um copo d'água. A governanta que servia o jantar trouxe as pílulas que a enfermeira lhe dera. Megan verificou a dose e deu‑as a John, enquanto Hilary se voltava lentamente para eles.

- Você deve ser Megan. - Sorriu por entre as lágrimas e segurou a mão de Alexandra, quando se separaram. - Mudou bastante desde a última vez que a vi. - As três mulheres acharam graça, mas os olhos de Hilary se toldaram ao ver o velho, e ela segurou com força a mão de Alexandra enquanto falava com ele. - Eu disse que não viria e falava sério, Arthur. - Ele assentiu, encontrando os olhos dela com medo e dor, e viu neles tudo o que temera. Ela o odiava, e a gente podia ver o ódio como um veneno negro. Mas ele também sabia que o merecia. Sabia disso melhor que qualquer um. - Eu nunca mais queria vê‑lo.

- Que bom que você veio, Hillie - falou Alexandra na sua voz meiga. - Eu queria tanto vê-la... às duas - acrescentou, sorrindo para Megan. Mas Hilary agora não sorria. Largou a mão da irmã quando se adiantou para Arthur.

- Por que fez isso conosco? Trazer‑nos aqui depois de todos esses anos, para nos atormentar com o que não tivemos, com o que perdemos, com quem poderíamos ter sido se tivéssemos ficado juntas?

Ele se engasgou com as próprias palavras e se agarrou à mesa com ambas as mãos, enquanto a fitava.

- Achei que devia a vocês compensá‑las pelo que fiz. - Mal conseguia respirar enquanto falava com ela, mas aquilo não a preocupou.

- E acha que pode compensar? - Riu amargamente e todos tiveram pena, mas John temia o que ela faria agora. Esperara trinta anos por isso, e ele sempre pressentira a intensidade do seu ódio por Arthur. - Acha mesmo que pode apagar trinta anos de solidão e dor com um jantar?

- As suas irmãs tiveram mais sorte do que você, Hilary. - Ele falou com sinceridade. - E elas não me odeiam tanto quanto você odeia.

- Elas não sabem tanto quanto eu sei... sabem, Arthur... sabem - ela gritou na sala vazia, as palavras ecoando pelas paredes enquanto ele tremia.

- Isso tudo ficou no passado, Hilary.

Era uma conversa apenas entre os dois. Apenas eles sabiam do que estavam falando, enquanto os outros se questionavam.

- Ficou? E quanto a você? Conseguiu viver consigo mesmo durante todos esses anos, depois de matar os meus pais? - Seus olhos verdes chamejavam e Alexandra se adiantou gentilmente para tocar-lhe o braço, mas Hilary se desvencilhou.

- Hillie, não... agora não tem importância...

- Não tem? - Virou‑se bruscamente para a irmã. - Como sabe disso? Como poderia saber, na boa vida na França, enquanto eu sentava a bunda no centro de detenção juvenil, depois de ter sido estuprada, tentando imaginar como encontrá‑las? E esse filho da puta nem sabia onde vocês estavam, não sabia onde nenhuma de nós estava. Nem mesmo se interessou por saber do nosso paradeiro depois de arrancá-las dos meus braços naquele dia, chorando e soluçando... vocês não se lembram disso agora, mas eu me lembro. Eu me lembrei disso... me lembrei de vocês duas - olhou de Alexandra para Megan - todos os dias da minha vida e chorei por vocês porque não as encontrava. E agora você vem me dizer que não tem importância? Que eu não devia odiá‑lo por ter matado nossos pais? Como pode dizer isso? - As lágrimas corriam pelas suas faces, sem nenhum constrangimento.

- Mas ele não os matou. - Alexandra falava por si e por Megan. - A sua única falha foi não nos manter juntas, ou saber do nosso paradeiro ao longo dos anos, mas talvez não tivesse culpa. - Olhou com benevolência para o velho, e Megan assentiu silenciosamente, sem conseguir entender por que Hilary o odiava tanto. Ele falhara com elas, mas não as atraiçoara como Hilary estava dizendo. Mas esta sacudia a cabeça e ria delas por entre as lágrimas.

- Vocês não sabem de nada. Eram bebés. Eu estava parada ali na noite em que mamãe morreu... na noite em que papai a matou... estava prestando atenção... ouvi o que eles diziam... - Ela começou a soluçar e John ficou a postos, pronto a ajudá‑la se desmaiasse ou precisasse dele. Estava perto dela, como vinha fazendo há meses, embora ela não soubesse. - Ouvi os gritos dela... - prosseguiu Hilary - quando ele bateu nela e depois a fez calar‑se, estrangulando‑a até a morte... - Ela engolia os soluços e agora estava parada bem diante de Arthur. - E vocês sabem por que ele fez isso? - Seus olhos não se desgrudavam do rosto de Arthur, esperara toda uma vida por isso. - Foi porque ela estava tendo um caso com ele e contou ao papai... - Ela estava escutando as vozes do passado enquanto falava, e parecia estar quase num outro mundo, recordando aquela noite em que o pai matara a mãe. - Há anos que ele a vinha enganando, ela disse com muitas mulheres diferentes... todas as suas co‑estrelas, ela falou.., e ele falou que não era verdade... falou que ela estava maluca... e ela disse que tinha provas... sabia quem ele acabara de levar para a Califórnia... com quem passara a noite anterior... e falou que agora não fazia mais diferença para ela... que agora também tinha alguém, e que se ele não tivesse cuidado, ela o deixaria e nos levaria junto. E ele disse que a mataria se o fizesse e ela riu... ficava rindo dele... e ele falou que ela nunca poderia tirar as filhas dele... e ela riu... e então contou a ele quem era... - Chorava tanto que mal podia falar, mas continuou, enquanto Arthur tremia cada vez mais violentamente na sua cadeira. Ela ficou a centímetros dele, gritando com ele e chorando. - Ela contou, não foi, Arthur... não foi? - berrou Hilary. E então ela olhou para as irmãs e lhes contou o que sempre soubera, mas elas não. - Ela estava tendo um caso com Arthur, o melhor amigo do papai... e ele falou que a mataria por isso e ela apenas riu, e quando ele lhe disse que não poderia nos tirar dele, ela lhe contou que apenas duas de nós éramos dele... - Fez‑se um silêncio estupefacto na sala. Arthur se recostou na cadeira como se tivesse sido atingido por um raio. E a voz de Hilary era serena quando falou, desta vez. Fizera o que viera fazer. - Ela contou que Megan era filha de Arthur - disse com voz monótona, fitando‑o com desprezo. - E então papai a matou.

Ela afundou numa cadeira próxima a ele, chorando baixinho, enquanto Alexandra lhe rodeava os ombros com o braço e o velho choramingava baixinho na sua cadeira.

- Eu não sabia... ela nunca me contou... - Olhou para Megan, pateticamente. - Tem que me acreditar... eu não sabia... sempre pensei que você era dele, como as outras... - Chorava abertamente e Megan parecia ainda mais chocada do que durante o resto do discurso. E Arthur parecia estar pedindo desculpas para a sala em geral. - Se eu tivesse sabido...

Mas Hilary só olhou para ele e sacudiu a cabeça.

- O que teria feito de diferente? Ficado com ela e deixado o resto de nós apodrecer? Você não teria feito nada. Não apoiou a minha mãe, ou a sua própria filha, traiu o seu melhor amigo, e o que você fez? Matou a ambos. Você tem o sangue deles nas mãos... e o nosso. Sem você nossas vidas teriam sido muito diferentes. Como pôde viver consigo mesmo todos esses anos, sabendo o que tinha feito? Como pôde defendê‑lo, depois de tê‑lo traído?

- Ele me implorou que o fizesse, Hilary... eu não queria. Implorei a ele que me deixasse chamar outro advogado. Mas ele não quis. E a verdade é que ele não queria viver depois que sua mãe morreu. - A voz dele caiu para um sussurro. - Nem eu. Aquilo acabou com a vida de nós dois... eu a amei profundamente desde o primeiro momento em que a vi. - As lágrimas lhe escorriam pelas faces enquanto Megan o fitava. Ele não era mais apenas um amigo da família. Era o seu pai.

E Hilary o fitava com olhar vazio, como se o visse pela primeira vez. Era um velho, moribundo, e não havia como desfazer o que estava feito. Para ele estava tudo acabado, não importa o sangue de quem estivesse em suas mãos. Há muito que o sangue estava seco... as pessoas quase esquecidas. Ela se pôs de pé e olhou para ele.

- Vim aqui para lhe dizer o quanto o odiava. E sabe de uma coisa estranha, Arthur? Depois de todos esses anos, não tenho tanta certeza se ainda tem importância. - Sentiu a mão de Alexandra no ombro e se virou para olhar nos seus olhos. Estava exausta com as emoções da noite e se virou para olhar para as duas moças. - Eu as amei muitíssimo há muito tempo... mas isso talvez também faça parte do passado...

Estava exaurida, gasta, não tinha mais nada para dar ou receber, mas Alexandra não a largou e Megan também a estava observando. Foi esta quem falou primeiro.

- Faz muito tempo para todas nós, mas viemos mesmo assim. Eu não me lembrava de vocês. E não sabia que o Sr. Patterson era meu pai. Viemos para prestar homenagens ao passado, mas também para prosseguir daqui em diante. Todas temos outros pais agora, outras vidas, outras pessoas de que gostamos. Não vivemos num vácuo durante trinta anos, nenhuma de nós, nem mesmo você com a sua raiva e seu ódio. - Foi uma reprimenda suave porém possante, e acertou o alvo. - Você não pode vir aqui, largar uma bomba como essa no nosso colo e depois partir. Deve a nós reparar as feridas, assim como devemos a você fazer o mesmo. E é por isso que todas viemos até aqui. - As lágrimas escorriam lentamente pelas suas faces e John Chapman teve vontade de aplaudi-la. Se Hilary fosse embora agora estragaria tudo. Isso destruiria a vida dela de uma vez por todas. Ela tinha de ficar, apesar de Arthur, e enfrentá‑los.

Hilary olhou para Alexandra como se buscando confirmação. Ela assentiu e falou na sua voz suave:

- Por favor, fique, Hillie... esperei tanto por isso. - Todos tinham corrido muitos riscos, pagado um preço tão alto. Ela desafiara Henri, possivelmente a um custo muito grande, só pelo prazer de ver as irmãs. - Foi preciso muita coragem para vir até aqui. Para todas nós. Meu marido me proibiu de vir... nem sei se ele vai me aceitar de volta. E a minha mãe... a mulher que conheço como minha mãe... veio comigo, e está com muito medo do que tudo isso vá significar. Está com medo de me perder, depois de todo esse tempo. - Seus olhos estavam cheios de lágrimas enquanto falava com Hilary e Megan estava balançando a cabeça com os próprios olhos marejados. Rebecca estava apavorada do que ver as irmãs significaria para ela. Tinham falado por telefone uma hora, na noite anterior, e ela prometera que ligaria logo que fosse possível para tranquilizá‑la. - Você perdeu mais do que qualquer um de nós, Hilary... mas não está sozinha... nós a amamos, mesmo agora. Não pode virar as costas para nós. - E então, abraçando‑a novamente, ela exclamou baixinho: - Não vou deixar.

Hilary se manteve imóvel por um longo momento, depois seus braços envolveram Alexandra... como ela poderia saber o que fora a sua vida? Mas não era culpa dela... nem de Megan... ou talvez nem de Arthur. Detestava ter de admitir agora, mas era possível. Ele fora um tolo, e pagara um preço alto por isso. Ele olhava para Hilary com tristeza, por sobre o ombro de Alexandra.

- Podem me perdoar, todas vocês? - Mas estava olhando para a mais velha das três, e Hilary levou muito tempo para responder.

- Não sei... não sei o que sinto...

Mas estava abraçada com força a Alexandra e seus olhos buscavam Megan.

- Mas estou contente que tenham vindo. Vocês três tinham o direito de estar juntas. E se eu tivesse sido um tipo diferente de homem, teria desafiado a minha mulher e ficado com vocês. Era o que eu queria, mas ela se opunha com muita veemência e eu não tinha coragem de enfrentá‑la. - Olhou pesaroso para Hilary, e depois para a criança que rejeitara, que era sua própria filha. - Cometi um erro terrível: Mas paguei por ele. Tenho sido um homem solitário a minha vida toda... desde que a mãe de vocês morreu... - Não conseguiu continuar. Sacudiu a cabeça e se pôs de pé, trémulo, enquanto John Chapman e uma das enfermeiras vinham ajudá‑lo. - Agora vou subir. Todos temos muito em que pensar. - A revelação de Hilary chocara a todos especialmente a Megan e Arthur. De uma maneira estranha, Megan ficou se questionando se seria a responsável pela morte da mãe... se não tivesse nascido, será que Sam teria matado Solange? Mas era tarde demais para pensar nisso, tarde demais para chorar pelo que acontecera trinta anos antes. Era hora de seguir adiante, da melhor maneira possível. E ele se voltou de novo para elas antes de sair da sala. - Quero que fiquem o máximo de tempo que puderem... o tempo que quiserem. Esta será a casa de vocês algum dia; vou deixá-las para todas vocês, para terem um lugar para onde vir, um lar em comum, finalmente, e um lugar para onde levar as suas famílias e seus filhos. Vou me manter longe de vocês enquanto estiverem aqui, mas quero que permaneçam e fiquem se conhecendo.

Alexandra e Megan lhe agradeceram, e Megan se levantou rapidamente para ajudá‑lo a subir, enquanto Hilary observava, calada. E quando ele desapareceu, ela se voltou para Alexandra e sacudiu a cabeça.

- Não sei se algum dia vou parar de odiá‑lo, Axie. - Ainda era tão fácil chamá‑la assim, mesmo depois de todos esses anos, e a mais jovem das duas sorriu.

- Você vai. Tem que parar. Não sobra mais nada para odiar. Ele está quase morto. - Hilary assentiu. Estava claro que o homem não ia viver muito. - Só estou agradecida que ele nos tenha reunido a tempo. Que ainda se importasse o bastante para fazer isso.

Subiram as escadas lentamente, de braços dados, e Hilary entrou no quarto de Alexandra, lembrando‑se de súbito do quarto que tinham partilhado na casa de Jack e Eileen, e das três numa só cama, enquanto ela tentava impedir o bebé de chorar para que Eileen não as espancasse.

- Como são as suas filhas? - Sentou‑se na cadeira de balanço. Era um quarto confortável, mas ela ainda não se resolvera a passar a noite. Só queria ficar conversando um pouco com Axie.

Alexandra sorriu ante a pergunta.

- Marie‑Louise se parece muito com você. Tem os seus olhos... e Axelle se parece muito com as minhas fotos de criança. Tem seis anos... e Marie‑Louise tem doze. Perdi um menino entre as duas. - E, com uma dor cortante, Hilary se lembrou do seu aborto pela primeira vez em anos. Tinha sido cuidadosa, desde então, em evitar qualquer gravidez, e agora, de repente, tinha duas sobrinhas. - Ainda se lembra do seu francês?

- Um pouco. - Hilary sorriu. - Não muito, acho.

- Mas Marie‑Louise e Axelle falam inglês, graças à minha mãe.

- Como é o seu marido? - Hilary tinha curiosidade sobre tantas coisas a respeito dela... o marido... os pais... a vida... as filhas... os hábitos... Queria saber se eram parecidas. Se, depois de todos esses anos, tinham alguma coisa em comum. E o casamento não era uma delas. Hilary evitara-o diligentemente.

Alexandra suspirou, sentindo‑se muito sincera.

- Ele é difícil. É inteligente. E exigente. Quer dirigir tudo, desde a casa ao escritório e vice‑versa. E espera nada menos do que a perfeição.

- Você não se importa? - Parecia curiosa, os olhos verdes observando Alexandra, que deu de ombros e sorriu.

- Não. Já estou acostumada. E, por baixo da aparência rígida, sei que nos ama... ou amava. - Soltou um suspiro. - Não sei o que vai acontecer agora. Ele ficou chocado quando lhe contei a nossa história... quero dizer, sobre nossos pais...

- Não é muito bonita, não é?

- Especialmente para Megan - acrescentou Alexandra baixinho, justo quando ela vinha descendo o corredor. Megan pusera Arthur na cama. Ele sofria dores terríveis, e estava chorando. E ela lhe dera uma injeção para sedá‑lo.

- Ele não vai viver por muito tempo. - Falou suavemente quando entrou no quarto e Hilary reparou, como John reparara, o quanto ela se parecia com Alexandra. - Desconfio que está em metástase por toda a parte. Mas ainda está muito alerta.

- O velho safado - sussurrou Hilary e Megan se virou para ela com olhos faiscantes.

- Não fale assim. Ele se arrependeu dos pecados... trouxe‑nos para cá. O que mais você quer dele?

- Algo que não pode nos dar - retrucou Hilary. - O passado... algo decente que podíamos ter partilhado, ao invés do sofrimento da separação.

- Nós sobrevivemos, mesmo assim... até você, Hilary. Olhe só para você, é um grande sucesso. Tem um emprego fantástico, uma vida boa.

Mas vazia, como só ela sabia e Alexandra desconfiava. Não havia ninguém de quem gostasse e ninguém que gostasse dela, ao menos que ela soubesse. E enquanto conversavam, John Chapman apareceu à porta. Tinha desaparecido discretamente por algum tempo e desconfiava de que elas ficariam conversando até tarde da noite. Tinham muitas coisas para resolver, e muito que aprender umas sobre as outras. E o serviço dele tinha afinal terminado.

- Nós vamos ver você de novo, John? - Alexandra foi a primeira a perguntar, e ele sacudiu a cabeça, com um sorriso agridoce.

- Não, a não ser que queiram procurar alguém algum dia, e espero que nunca precisem. Meu serviço acabou. - E então, em voz baixa, acrescentou: - Vou sentir falta de vocês. - Há meses que vinha vivendo com elas, caçando‑as, buscando‑as, conhecendo‑as. E de repente percebeu que ia sentir mais a falta de Hilary. Sofrera tanto por causa do passado dela, e chegara tarde demais para ajudá‑la. - Boa sorte para todas vocês.

- Obrigada. - Todos ficaram de pé e apertaram a mão dele. Megan beijou‑o suavemente na face com um sorriso tímido. Gostara muito dele.

- Se aparecer no Kentucky, me procure.

- Vai ficar por lá muito tempo? - perguntou ele, detestando ter que deixálas. Ela sorriu para ele, com o cabelo ruivo que era exactamente como o da mãe, e o de Alexandra.

- Acabo o meu período de residência em dezembro, mas tenho certeza de que vou ficar por lá. Ainda não contei a meus pais. - Deu de ombros com uma risada descontraída e pareceu muito jovem de novo. - Mas acho que já estão esperando. Meu pai está, pelo menos. Sabe como sou maluca. - Trocaram um sorriso longo e cálido e depois Alexandra o abraçou.

- Cuide‑se. - Ela tinha tendência a bancar a mãe para todo mundo, e John ficou emocionado quando ela lhe deu uma palmadinha no ombro. - Obrigada por tudo.

- Não deixe que ninguém a convença de pintar o cabelo de novo... você está linda...