Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


CALVÁRIO DE LIBERTAÇÃO / Victor Hugo
CALVÁRIO DE LIBERTAÇÃO / Victor Hugo

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

CALVÁRIO DE LIBERTAÇÃO

 

                 A TRAGÉDIA CHEGA DE SURPRESA

Os sortilégios do Destino — incoercível Lei de Causa e Efeito — mediante a movimentação hábil de múltiplos fatores, fez incidir maior soma de aflições sobre a alquebrada paralítica, excruciada no grabato de acerbas dores com que expungia, lentamente, as torpezas pretéritas.

Sucediam-se as amarguras num recrudescer de volumosas desditas, enleando os familiares desalentados, quando, então, mais contundente desar lhe agravou as penas, ferindo-a, irremissivelmente, nas entranhas da alma.

A venerável Maria Leonor sentiu a asfixia agônica da morte, face ao impacto da tragédia que lhe tomava o exíguo lar, onde a escassez de tudo se enriquecia de maus augúrios, seguidos por disgras e gravâmes.

Agitada por seguidos pesadelos, os sonhos malfazejos, a noite fora-lhe uma peregrinação intérmina pelo submundo das alucinações de difícil descrição. Despertara sob o açodar de incoercível melancolia, triturada, intimamente, por apreensões de catalogação impossível.


Aprisionada ao leito por todo um lustro de desconforto e limitação, arrimava-se a confiança em Deus, essa última estância de uma jomada entre abrolhos e acúleos cravados nos sentimentos, na emotividade, já que somente Ele poderia auxiliá-la.

Percebia o lento deperecer das próprias forças, na razão direta em que se consolidavam e degeneravam as articulações sob o rude atritar e desgastar do artritismo déformante, que a vencia, dolorosa, incoercivelmente.

As intérminas horas de prisão à cama, lenidas pelo temperamento resignado, ensinaram-na a esperar, embora o futuro lhe estivesse sombreado por nimbos borrascosos, sempre prenunciadores de tempestades ruidosas, prestes a desabar...

A dor que a trespassava, agora, fulminava-a, como se a lança de Netuno, momentaneamente eletrificada, se lhe cravasse no coração, revolvendo-o e estilhaçando-o.

Há menos de um ano Almiro seguira à Capital, iniciando-se no ministério público, enquanto, simultaneamente, estudava. Embora compreendesse a necessidade de progresso do filho, as saudades eram muitas e soberanas.

Telêmaco, o filho jovial, o doce Benjamim do seu ninho destroçado, incapaz de superar a iniunção que o esmagava sem saída, como ele supunha, desertara pelo trampolim inditoso do suicídio, mediante o desgraçado salto no abismo das incessantes mortes que não produzem o aniquilamento da vida nem do sofrimento...

Vencida pelas forças em fúria que a vergastavam, Maria Leonor não pôde sopitar as superlativas pressões dos corceis do desespero, que ela tentava conduzir e deter. Foi, então, vitimada por contínuos vágados dos quais despertava mais exaurida, menos resistente para a continuação da luta sem quartel: titãs em combate contra débil pigmeu!

O dia rumava alto, quando o ribombar da realidade eclodiu chocante, incompreensível, mais parecido a um sonho mau que ao impositivo da verdade; ficção trágica assumindo aspecto de realidade impossível.

O habitual, o dia-a-dia com a dor era, também, o ósculo dos filhos em cada manhã, antes das atividades a que se entregavam. Não naquela nefasta ocasião.

Como de costume, o jovem Agenor se desobrigou dos deveres, informando que o outro dormia.. . A casa, invadida pelo silêncio ante a saída dele para os deveres normais, deixara estranho, peculiar bafio de mausoléu por toda a

Í>arte. Impossibilitada de locomover-se, e estranhando o etargo que vencera o jovem, acompanhou, à distância, o suceder das horas, em crescente preocupação, num aumentar de expectativa dominante e triste, representativa de tragédia que se espera e não se pode evitar.. .

As horas lentas, mornas, exaustivas e, à entrada de Agenor, retomando do serviço, o grito e a constatação da desdita.

— Telêmaco, Deus meu! — gritara, em desalinho, a sair do quarto —, está morto!

A higidez cadavérica traduzia a largueza do tempo em que sucedera a inominável ação destrutiva da morte.

Sobre a mesinha de cabeceira a carta cuidada, pensada, a caligrafia nobre, em despedida, a confirmação simples e pura da loucura suicida.

— Quem o diría? — reflexionou a genitora, trucidada pelos tridentes da insuportável realidade.

Aos apelos angustiantes do jovem, a vizinhança acorreu e a corroboração do fato já não deixava margem a qualquer ilusão ou incerteza.

A deformação do corpo sob a droga violenta traduzia a luta estoica, inglória da vida física contra os agentes destrutivos ingeridos.

Providencialmente, Agenor ocultou a missiva ante o alarme e os comentários dos curiosos atraídos.

Notificada, a polícia do pequeno burgo, longe dos centros de maior movimentação e cultura, apareceu para as providências simples, encerrando o seu dever ligeiro, diante do corpo vencido, ipso-facto a consumação do auto- cidio. Dispensada a necrópsia, por impossibilidades locais de fazê-la, restando ao pobre clã a inumação do ser tres- loucado que, não obstante, fora tanto amado.

Seguindo as pegadas da pobreza, o infortúnio conseguira vencer a distância. Junto à dor, porém, se encontrava a ruína econômica, que impedia o levantamento dos recursos para o sepultamento, embora de pequena monta.

Nesses momentos a solidariedade dos humildes sempre se ergue e, unindo as mãos, resolve os problemas humanos quando não lobriga solucionar as dores do espírito, sem dúvida as mais importantes.

Assim, foi levantada uma colaboração modesta e, ao cair do crepúsculo, entre o soluçar das saudades e a pun- gitiva angústia dos que ficaram, realizaram-se os últimos | contributos humanos ao tombado Telêmaco, sepultando-lhe os despojos vencidos.

Amparada pelos braços da caridade, Maria Leonor contemplou o filho inerte nas tábuas nuas do improvisado leito, antes de ser inumado, colorido pelas flores singelas do campo com que a ingenuidade dos aldeões o adornou. . . Não pôde, porém, contemplá-lo e afagá-lo como desejava. As forças exauridas cessaram e ela foi vencida por novo, demorado desmaio...

Agora mergulhava nas sombras densas da angústia que se arrastaria pelos dias, ora mais longos; porque feitos de saudades pungentes e interrogações para as quais não encontraria respostas prontas.

Longas, sem dúvida, são as horas de quem padece sem 1 luz da alegria, clareando à frente, em sinal de estímulo para o prosseguimento da jornada.

Nos filhos, pensava a mulher angustiada, com a alma flébil, depositava as ansiedades do futuro, sempre incerto que, dia-a-dia, a descoroçoava.

Abrasada na fé religiosa, simples e espontânea, lúcida e racional, sempre se entregara às mãos do Pai Criador, nEle confiando, no entanto. Prosseguiría, inobstante, confiando com toda a alma.

A tragédia, que chegara de surpresa à cidadezinha interiorana, sacudiu a população, mediante comentários controvertidos e maledicentes, como sóe acontecer em todo lugar, mergulhando, porém, no silêncio da noite morna, que se abateu estrelada, em misteriosa quietude sideral.

 

                     ROBERTO DOMÊNICO MATOSO

O suicídio de Telêmaco fora o desfecho inditoso de uma tragédia longa, em continuo fluxo de dores que assolavam o lar sofredor dos Matosos. ;

O pai, o chefe do clã Matoso, Sr. Roberto Domênico, era um caráter enfermo. Desde jovem se lhe manifestaram as síndromas esquizofrênicas, fazendo-o, ora deprimido sem causa justa, ora excitado, quase violento. Vivendo numa comunidade interiorana, suas distonias psíquicas eram tidas, na época, como esquisitices, inda mais se considerarmos sua ascendência, cujos membros haviam sido os fundadores da Cidade.

Nascido em família relativamente abastada, era, em casa, considerado um excêntrico. Consultas médicas redundaram em diagnóstico frágil, sem profundidade. É verdade que as suas crises não chegavam a gravidade maior. Amo- lentado na fuga dos deveres, fez-se caprichoso, e, de caráter tíbio, tomou-se dependente do álcool. Não se fizera um dipsomaníaco, no sentido lato da palavra, todavia, não se sentia seguro sem a ajuda dos aperitivos, que consumia antes de qualquer atitude que desejasse assumir


Quando conheceu a jovem Maria Leonor, de peregrina beleza clássica, apaixonou-se literalmente, não sopitando os impulsos que o aturdiam.

Utilizou-se de todos os estratagemas por seduzir a donzela que, de origem humilde, terminou por afeiçoar-se ao folgazão.

De compleição robusta e estatura alta, era uma aparência fascinante, apesar de apresentar na face, ligeiramente entumescida, os primeiros sinais do alcoolismo dominador.

Aos vinte e cinco anos de idade já somava experiências de vulgaridades muito complexas.

Acostumado a constantes sortidas à capital, tornara-se habituée das noitadas fortes, nos bordeis elegantes, dos quais retomava mais consumido, logicamente mais perturbado.

A paixão que lhe estrugiu na alma viciada pela mo- çoila simples e encantadora, transtornou-o a ponto de ameaçar o suicídio, caso não lograsse o consórcio matrimonial com que desejava retê-la.

Impetuoso, logo se inteirou da sensibilidade e aquiescência de Maria Leonor, notificou os seus sentimentos aos pais, asseverando que o casamento era o que lhe faltava para o exercício de uma conduta reta.

Atitude, aliás, desculpista, em que se estribam os frívolos e irresponsáveis: a da mudança de comportamento mediante a conquista deste ou daquele capricho. Aludem que lhes falta o estímulo adequado para uma conduta sadia, de responsabilidade, escusando-se por meio da acusação de que o mundo lhes é hostil ou de que não são compreendidos.

Certamente que a hostilidade não é da sociedade para com eles, porquanto, deslocando-se do modus operandi comportamental a que todos se impõem, são eles os que hostilizam o chamado status quo, rebelando-se. Têm o direito de fazê-lo e o fazem, não, porém, se devem propiciar a curiosa fuga psicológica no arrimo de que a marcha dos acontecimentos deveria mudar a rota. a fim de os seguir. . .

Outrossim, a compreensão que insistem por merecer, resulta de um enfoque falso da realidade.

O homem, colocado no contexto social, se o descobre deficiente ou incompleto, tem o dever de compreender a situação, empenhando-se por modificar-lhe as estruturas, a expensas de esforços e atitudes realmente válidos, com que motivará outros a segui-lo.

Eis porque os que vivem na comodidade e na fuga aos compromissos relevantes não merecem maior respeito, antes piedade, e, quando não, a indiferença. O mesmo sucede em relação aos precipitados que se utilizam da violência e do crime, apoiando-se em falsos conceitos para a mudança da vigente ordem social — a qual se faz presente em qualquer tempo, desde que o homem, por instinto, é um agressivo, pela razão, um experimentador de mecanismos novos, esquecido de que a máquina da destruição enfurece os que lhe padecem o espezinhar e respondem através da repressão violenta, até que o ódio combura, na mesma fornalha, os contendores, ambos celerados em desenfreada alucinação egoísta.

Metodologia eficaz para as mudanças que sempre se pretende, en passant, a própria transformação moral do indivíduo, influenciando o seu meio social, adquirindo valores éticos-culturais-profissionais com que interfira positivamente no comportamento da comunidade, armando-se de experiência para os graves cometimentos que a vida lhe concederá, quando chamado ao exercício das posições que ora combate, não se deixando anestesiar quando lá se encontre, ou sucumbir sob a títere dominação dos grupos chamados de “primeira linha”...

O problema da Humanidade, antes que sócio-econômico é sócio-moral. O homem, deslocado de um meio social


corrupto ou primário, necessita de educação para adquirir hábitos que o capacitem a uma vida consentânea com o ambiente onde será colocado a viver. Mesmo quando o índice monetário per capita é de alto nível, observam-se os calamitosos resultados morais, se lhe faltam os valores espirituais imprescindíveis para um padrão médio de vida em clima de felicidade e de paz.

Observe-se, por exemplo, o alto índice de suicídios nos modernos países de elevado nível econômico, gerador de frustrações e inutilidade nos seus membros.

É óbvio que os fatores criminógenos das favelas insalubres, dos bairros da miséria, dos amontoados grupais, nos guetos da vergonha mais facilmente proliferam na revolta, na agressividade, quando as condições de sobrevivência infra-humana reduzem os seres a coisas sem valor, desrespeitados na sua integridade de criaturas de Deus...

Os promotores da miséria e os seus fomentadores, os que mantêm o comércio da ilicitude, os pugnadores dos explorados “direitos humanos” que se nutrem da humana carne das vítimas dos seus establishments não se furtarão à amargura e ao açodar da consciência em acrimoniosas acusações, embora se escudem na aparência de poderosos e de gozadores.

O olhar das criancinhas misérrimas e esfaimadas, a viuvez decorrente da tuberculose e da escassez de pão, a farta multidão dos desempregados e a dor dos mutilados do corpo, da mente e da alma compõem uma patética que lhes cantará aos ouvidos da alma torpe a litania lamentosa e acusadora da traição que praticam contra Deus, o próximo, a humanidade e eles próprios..

Por isso, a importância do homem-espiritual, do ho- mem-ético forjado no Cristo, cuja mensagem, sempre atual e revolucionária, prossegue um desafio gritante aos ouvidos moucos dos utilitaristas e hedonistas gananciosos, esperando por ser atendida.

Claro está que, a breve digressão, objetiva desjustifi- car as escusas e promessas em que se estribam os fátuos como os levianos, a fim de manterem a conduta irregular.

Naturalmente, conhecendo por pinceladas rápidas as origens da diva, os pais de Roberto Domênico, a priori, se recusaram aceitá-la na condição de nora.

A moça, quiçá, serviría para uma aventura do filho, sem maior compromisso. Para a responsabilidade matrimonial, todavia, anelavam por “uma filha de família" com quem se pudessem somar interesses, em detrimento dos valores mais importantes: os da dignidade, da unção moral, das virtudes cristãs.

Estabeleciam-se as dificuldades às quais o moço dissipador não estava acostumado.

Atritos e démarches contínuos transformaram o lar Matoso em sítio de belicosidades, em que pais e filho se descompunham amiúde, envenenando-se, reciprocamente, ante os dardos da ira, do ódio em lenta e rude consunção orgulhosa.

Maria Leonor, inteirada e ameaçada veladamente pela família do pretendente, acusada com insistência de ser exploradora e interesseira, procurou desencorajar o rapaz que, espicaçado pelos caprichos familiares, mais se convencia do que desejava, impondo-se com dura rebeldia ou derrapando em carraspanas contínuas, vergonhosas.

Como o assédio de Roberto Domênico fosse contínuo, a genitora de Maria Leonor, inescrupulosa, desejando, de certo modo, liberar-se da responsabilidade para com a filha, resolveu aceitá-lo como genro, de comum acordo com ele programando o esponsalício.

Acirrados os ânimos, o Sr. Matoso, em incontida crise de orgulho ferido, conseguiu a alto preço um documento taxando como irresponsável o filho, em razão dos seus distúrbios de comportamento, com o fim de prejudicá-lo, o que logrou sem maior dificuldade. Como este insistisse no casamento, considerado em família como desonroso, o pai culminou por expulsá-lo do lar, relegando-o ao próprio destino.

Não habituado ao ritmo de uma atividade nobre, o rapaz conseguiu a penates um emprego de pequena renda, alojando-se no lar da noiva, ante a aquiescência da futura sogra, casando-se, modestamente, dois meses depois...

Nesse clima de ansiedades e antagonismos, as resistências morais descontroladas favoreceram o desbordar de mais graves conjunturas para o futuro...

O capricho dos pais e a insània do filho foram os elementos para as urdiduras dos desatinos que se sucederiam por largos anos, em etapas de dor, vindo culminar no suicídio de Telêmaco, aos quase quinze anos de idade...

  1. Maria Leonor perdera a beleza física, sob o fardo das provações, e ao viço da juventude, embora a mocidade orgânica, sucederam-se o descalavrar da face, o degradar das forças e da alegria de viver, as enfermidades demoradas, a paralisia...

As incessantes vergastadas do sofrimento produziram o dilacerar da esperança e as tempestades da incúria aniquilaram as expressões do amor.

 

                     DESESPERO CADA SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO

A responsabilidade é uma das características fortes dos espíritos nobres.

O homem são os seus esforços de fidelidade, dever, equilíbrio — valores escassos no comportamento de Roberto Domênico.

Quando a consorte lhe notificou os sinais da primeira gestação — era o período da tradicional Semana Santa —, sem saber-se explicar, ele foi tomado de súbito horror e, possesso, agrediu-a com ferocidade, sendo-lhe arrancada das mãos pela interferência da genitora, que o enfrentou, palavrória e selvagem. Os gritos e cenas atraíram as atenções da vizinhança, que interveio, prestamente, enquanto as expressões de “excomungado” e ‘ endemoninhado” eram repetidas, à socapa, em considerando-se o respeito tradicional que se devia à data.. .

Olhar esgazeado, flébil, colérico estava tomado pelas Fúrias, somente a custo sendo detido pelos circunstantes.

A esposa, ferida e trêmula, socorrida e agônica, não podia compreender a erupção da calamitosa ocorrência.

Não houvera sequer discussão. Como um raio fulminante que o atingisse, ele se erguera, congestionado, em face da notícia, aplícando-lhe certeiro golpe no rosto que se rompera, deixando escorrer pelo canto da boca o rubro filete de sangue...

Passada a bestial cólera horrenda, ele caiu em pesado torpor de inconsciência, vindo a despertar com a mente turbada, horas mais tarde.

Recordava-se, vagamente, de que ao impacto da notícia, que lhe deveria constituir alvíssaras, percebera estranha, volumosa forma em atitude agressiva e gargalhante que o dominou, truculenta. Pela mente em alvoroço, as ideias turbilhonavam e chispas flamejantes lhe atearam um desconhecido incêndio interior, que o levou à agressão infame.

É verdade que cessada a embriaguez dos sentidos, no matrimônio, o amor de débil vitalidade de que se dizia dominado, desapareceu, fazendo-o retomar aos hábitos nefários do passado. Volvera, assim, ao álcool e às noitadas alegres, entre comensais da mesma insânia. Sob a ação dos vapores tóxicos decorrentes da ingestão da aguardente, teve início a deteriorização do sistema emocional, simultaneamente sincronizando a mente enferma com outras desencarnadas de semelhante teor vibratório. Digamos sem rebuços: Roberto Domênico era um obsidiado, avançando, em largas passadas, para a subjugação irreversível...

Os distúrbios de que era objeto, a índole apaixonada, o caráter fraco, a personalidade instável eram expressões da sua baixa posição espiritual, revelando-lhe a procedência e as vinculações que mantinha com comparsas e adversários desencarnados. En raccourci[1]: era um algemado às trevas donde procedia por impositivo das vidas arbitrariamente gozadas no passado...

Sem nos determos no exame dos fatores sócio-psicoló- gicos causais do alcoolismo generalizado, de duas ordens são as engrenagens que o desencadeiam, observado o problema do ponto de vista espiritual.

Antigos viciados e dependentes do álcool, em desencarnando não se liberam do hábito, antes sofrendo-lbe mais rude imposição.

Prosseguindo a vida, embora a ausência do corpo, os vícios continuam vigorosos, jungindo os que a eles se aferraram a uma necessidade enlouquecedora. Atônitos e sedentos, alcoólatras desencarnados se vinculam às mentes irresponsáveis, de que se utilizam para dar larga à continuação do falso prazer, empurrando-os, a pouco e pouco, do aperitivo tido como inocente ao lamentável estado de embriaguez. Os que lhes caem nas malhas, tomam-se, por isso mesmo, verdadeiros recipientes por meio dos quais absorvem os vapores deletérios, caindo, também, em total desequilíbrio, até quando a morte advém à vítima, ou as Soberanas Leis os recambiam à matéria, que padecerá das dolorosas injunções constritoras que lhe impõe o corpo perispiritual...

Normalmente, quando reencarnados, os antigos viciados recomeçam a atividade mórbida, servindo, a seu turno, de instrumento do gozo infeliz, para os que se demoram na Erraticidade inferior...

Outras vezes, os adversários espirituais, na execução de uma programática de desforço pelo ódio, induzem os seus antigos desafetos à iniciação alcoólica, mediante pequenas doses, com as quais no transcurso do tempo os conduzem à obsessão, desorganizando-lhes a aparelhagem físio-psíquica e dominando-os totalmente.

No estado de alcoolismo faz-se muito difícil a recomposição do paciente, dele exigindo um esforço muito grande para a recuperação da sanidade.

Não se afastando a causa espiritual, torna-se menos provável a libertação, desde que, cessados os efeitos de quaisquer terapêuticas acadêmicas, a influência psíquica se manifesta, insidiosa, repetindo-se a lamentável façanha destruidora...

A obsessão, através do alcoolismo, é mais generalizada do que parece.

Num contexto social permissivo, o vício da ingestão de alcoólicos toma-se expressão de status, atestando a decadência de um período histórico que passa lento e doído.

Pelos idos de 1851, porque enxameassem os problemas derivados da alcoolofilia, Magno Huss realizou, por vez primeira, um estudo acurado da questão, promovendo um levantamento dos danos causados no indivíduo e alertando as autoridades para as consequências que produz na sociedade.

Os que tombam na urdidura alcoólica, justificam-lhe o estranho prazer, que de início lhes aguça a inteligência, faculta-lhes sensações agradáveis, liberando-os dos traumas e receios, sem se darem conta de que tal estado é fruto das excitações produzidas no aparelho circulatório, respiratório com elevação da temperatura para, logo mais, produzir o nublar da lucidez, a alucinação, o desaparecimento do equilíbrio normal dos movimentos. . .

Inevitavelmente, o viciado sofre uma congestão cerebral intensa ou experimenta os dolorosos estados convulsivos, que se tomam perfeitos delírios epilépticos, dando margem a distúrbios outros: digestivos, circulatórios, nervosos que podem produzir lesões irreversíveis, graves.

A dependência e continuidade do vício conduz ao delirium tremens, resultante da cronicidade do alcoolismo, gerando psicoses, alucinações várias que culminam no suicídio, no homicídio, na loucura irrecuperável.

Mesmo em tal caso, a constrição obsessiva segue o seu curso lamentável, já que, não obstante destrambelhadas as


aparelhagens do corpo, o espírito encarnado continua a ser dominado pelos seus algozes impénitentes em justas de difícil narração...

Além dos danos sociais que o alcoolismo produz, engendrando a perturbação da ordem, a queda da natalidade, a incidência de crimes vários, a decadência econômica e moral, é enfermidade espiritual que o vero Cristianismo erradicará da Terra, quando a moral evangélica legítima substituir a débil moral social, conveniente e torpe.

Ao Espiritismo cumpre o dever de realizar a psicoterapia valiosa junto a tais enfermos e, principalmente, a medida preventiva pelos ensinos corretos de como viver-se em atitude consentânea com as diretrizes da Vida Maior.

Embora procedesse de outro grupo espiritual, Maria Leonor, por imprevidência de largo porte e insensatez pretéritas, em reencarnação anterior agrilhoara-se ao atual companheiro que se comprazia hoje em atormentá-la.

Realmente, as leis sábias que regem o universo dispõem de recursos superiores para fomentar o equilíbrio e recuperar os infratores, reajustando-os aos códigos severos da harmonia geral, não necessitando da descabida interferência humana negativa, infligindo dores ou penas a quem quer que seja, sob pretexto algum. O egoísmo, fator vitalizante do orgulho, desborda, no homem primário, na escalada evolutiva, e inspira-o, impulsiona-o a reações improcedentes, mediante as quais se faz instrumento de purgação para o seu próximo, consumindo-se, também, na aquisição de dívidas inecessárias.

Quando o amor abençoar as almas e o perdão exteriorizá-lo, mediante a vivência da fraternidade sem jaça, a recuperação de um endividado não ocorrerá através do débito de novo insensato cobrador.

Em face das suas experiências progressas, Maria Leonor granjeara, outrossim, valores morais relevantes, forjando vigorosa fibra moral em que se amparava para os cometimentos redentores.

Quando jovem, aprendera a caminhar à borda do abismo sem tombar nele; a transitar pelo paul das viciações humanas sem chafurdar nas suas águas pútridas; a ver a miséria e compadecer-se dela; a ouvir o riso do prazer sem o aceitar, em razão de poder discernir entre o júbilo real e o esgar agônico da sensação animalizante...

A genitora, que costurava, de modo a manter o precário orçamento doméstico, mantinha sua melhor clientela entre as courtisanes[2], cujos lares, os infectos quartos de bordeis miseráveis, se encontravam em parte insalubre e malsinada da pequena cidade.

Embora fosse um local notoriamente conhecido, era Maria Leonor quem levava os vestidos para as entregas esporádicas. Tão habituais se fizeram as rápidas incursões por aqueles sítios, onde não raro surpreendia espetáculos deprimentes, que criou uma repulsa íntima ao local e aos seus frequentadores.

Oportunamente, uma sofredora residente do triste reduto explicou-lhe quanto à gravidade das suas jornadas por ali, mesmo que com finalidade compreensível, e lhe pediu não mais voltasse. Prometeu falar diretamente à sua progenitora, elucidando sobre os riscos desnecessários para a pulcra donzela, o que lograra com êxito, embora a contrariedade da astuta e irresponsável senhora...

Encolhida e amedrontada, após a ríspida e violenta lampana, Maria Leonor sequer se atreveu a chorar. Com o choque da absurda reação do esposo, lampejara-lhe na mente a visão hedionda do ser espiritual que o tomara, investindo, bestial, contra a sua fragilidade. Naquele átimo pareceu-lhe recuar a um tempo, sem tempo definido, além [3] da imaginação, onde identificava a expressão furibunda do olhar despejando chispas de ódio, de que jamais se esqueceria ...

Em sucessão rápida, assomaram-lhe à mente, em tropel avassalador, as recordações que lhe pareciam mortas e que foram, na infância solitária e triste, uma constante, nos sonhos terríficantes que a venciam, durante o repouso físico, quanto nos receios da solidão, em vigília... Nesse comenos, sem poder-se explicar, deu-se conta das inomináveis amarguras que a aguardavam.

Se, por um lado, as cenas de pavor afloravam do inconsciente à zona motora, encarregada das conquistas do eu pensante atual, descortinava-se em precognição rápida, a antevisão dos testemunhos supremos que lhe estavam reservados em dores e renúncias, sacrifícios e dificuldades. Sentindo-se débil e porque não dizer, abandonada, no báratro em que sempre vivia, exceção feita aos ilusórios dias de corte antes do matrimônio, pela enferma argúcia do esposo, ali mesmo desfaleceu...

Algumas vizinhas prestimosas e a mãe aturdida levaram-na ao leito, assistindo-a com substâncias caseiras de odor forte, a fim de despertá-la.

Enquanto isso, parcialmente desdobrada, sentia-se correr por imenso túnel em sombras, seguida por sicários de sentimentos empedernidos que a ameaçavam e a perseguiam, inclementes, protestando desforço e morte.

A injunção desesperadora parecia esmagá-la, quando se recordou da oração, o divino lenitivo dos infelizes e humildes, sublime refúgio dos perseguidos e abandonados no mundo. Apesar das circunstâncias afligentes, orou sem palavras, essa prece de amor e confiança, que é mergulho do ser dependente no oceano da misericórdia do Ser Doador.

Arrimada ao bastão forte e luminoso da rogativa afervorada, teve a impressão de que se desfaziam as trevas e, repentinamente, despertou.


O dia murchava no ósculo da noite. A preocupação estampada no rosto dos circunstantes que a assistiam se desvaneceu e, a pouco e pouco, assenhoreou-se dos insucessos ocorridos.

O esposo infeliz, algo hebetado, após o gesto covarde, logo se pôde locomover, buscou refúgio numa gargote de clochards[4], embriagando-se, perturbado.

Avançadas horas retomou ao modesto lar, encontrando desperta a consorte sofrida. Cambaleante, desequilibrado, entre blasfêmias, vociferou:

— Matar-te-emos, infeliz. Não através de um golpe certeiro, porém lentamente... Beberás conosco a taça sem fundo dos sofrimentos até além das tuas forças...

Olhar de esgar, fácies alterada, gargalhou, enlouquecido. Nele se confundiam o estado do espírito perturbado, alcoolizado, e a presença dominadora do verdugo desencarnado, sedento de vingança.

Exausto e comburido na própria fúria caiu sobre o leito e entrou em pesado sono, atormentada viagem pelas regiões infernais...

À primeira gestação, Maria Leonor experimentava rude expiação, diluindo-se, na dor, os sonhos e esperanças.

Era a sua primeira Semana da Páscoa depois do matrimônio. A partir de então, todas Sextas-Feiras da Paixão se fariam de crescente dor e superlativo padecer, quando o esposo a agredia para matá-la...

 

                   RECRUDESCE A BORRASCA

A cidadezinha de M. se espraiava pelo vale verdejante com os seus quase 5.000 habitantes. A terra, de um vermelho escuro, fértil, era luxuriante, graças à vegetação em abundância.

O casario de madeira pintada em cores alegres punha contrastes agradáveis aos olhos e, a regular distância, o coleante rio T. na sua dolência continua enriquecia de bucolismo o local ameno, durante o verão, porém, frio e úmido, na quadra hibernai.

As terras seguiam até às bordas do espinhaço de rochas, que se erguiam altaneiras como gigantes em perpétua vigilância, culminando num planalto aberto em campos de ondulantes capinzais.

O trigo abundante, em cachos de ouro, à época da colheita, e as ilhas de pinheiros em tons verde-escuros, com suas taças voltadas para cima, colocavam manchas de sombra fascinante, na imensidão da gleba rasgada por córregos cantantes.

O Sr. Matoso era proprietário de largos tratos de terras devolutas, onde árvores de alto porte estavam sendo derrubadas para venda a elevados estipêndios. De origem humilde, fizera-se possuidor de fortuna, a esforço hercúleo.

Enrijara o caráter no trabalho rude, anelando para os filhos uma posição de relevo na sociedade. Lograra que o primogênito André e a jovem Zulma se projetassem através do estudo, conseguindo situação invejável. Domênico, ao invés de esforçar-se por adquirir independência econômica, tornara-se parasita desagradável, que a sucessão das torpezas culminara por fazer antipatizaao, sejamos franco: detestado. Com a escolha de Maria Leonor para um matrimônio precipitado, fora desprezado pelo genitor, igualmente caprichoso, de gênio irascível.

  1. Lídia, sua mãe dedicada, interferia junto ao esposo para uma mudança de atitude, sem lograr convencê-lo do erro em que incorrera e se demorava.

A princípio, ela também estivera com animosidade declarada contra a nora, motivo indireto que somava para a consunção da arbitrariedade do consorte.

A sucessão do tempo fê-la mudar de opinião. Embora sem privar das relações com Maria Leonor, passou a simpatizar com ela, imaginando os problemas que suportava em silêncio, como também graças às informações que recebia a respeito das qualidades morais excelentes da jovem ...

Onde se encontra a criatura humana aí ressumam suas imperfeições. Em todo lugar são habituais os mexericos e indiscrições por parte de pessoas frívolas, médisantes, que se comprazem em ser veículo de notícias, algumas das quais sabem complementar a soldo da própria irresponsabilidade.

Nas pequenas cidades, nos burgos interioranos, quiçá por tempo descuidado e ausência de maiores atrações, a maledicência assume proporções, às vezes, alarmantes...

A cidadezinha de M. não fugia à regra. Uma mistura de raças: poloneses, italianos, sírios e brasileiros, os primeiros ali chegaram, inicialmente, abrindo as clareiras na mata virgem, onde plantaram os alicerces da comunidade ora próspera.


Seus habitantes eram católicos militantes, que se aterravam todo domingo ante as ameaças infernais costumeiras, ouvidas no sermão de cada hebdômada, sem modificarem, todavia, o comportamento.

Não obstante os pavores das geenas infernais, as pessoas se permitiam bisbilhotar a vida alheia, como verdadeiro espairecimento.

Desse modo, a Sra. Lídia inteirou-se da gestação da nora, experimentando inusitada satisfação, de que não participou o Sr. Edmundo Matoso.

À socapa, encarninhou uma serva, a fim de informar-se de Maria Leonor quanto a qualquer necessidade que desejava suprir, já que não ignorava a situação dos consortes, face à indolência de Roberto.

A nora agradeceu comovida, explicando que o trabalho estafante de costuras dava para os compromissos mínimos e que, agradecida, saberia recorrer à sua generosidade espontânea, caso surgisse necessidade mais premente.

Pelo mesmo processo, ficara sabendo da aberrante ação do filho, no dia evocativo da morte de Jesus.. .

Roberto Domênico, tido moralmente como irresponsável, sem qualquer direito a reclamar os bens paternos ou ajuda do genitor, não o perdoou, pois que o considerava desalmado inimigo, de quem prometia vingar-se.

Quando nasceu Almiro, esperava Maria Leonor que diminuíssem suas angústias. Um varão como primeiro filho, invariavelmente constitui grande júbilo para a vaidade do genitor o que, infelizmente, não sucedeu ao chefe do seu atormentado lar.

O inditoso obsesso não ocultou a animosidade pelo pequeno ser, que lhe chegava, providencialmente, com o fim de minorar-lhe a desdita, devendo constituir-lhe emulação para a luta e a superação das paixões.

A grande fraqueza, porém, dos débeis é a sua contumaz ojeriza a tudo que lhes pareça dever, esforço ou renúncia...

De cedo, a sofrida esposa se descoroçoou da ideia de que usufruiría alguma paz, ante a chegada do filhinho delicado, magoando-se mais, ainda, por antecipar as chagas que se lhe abriríam nalma...

O ser rosado, todavia, dependente e dócil, por outro lado, fez-se-lhe refúgio e conforto, um oásis de amor nos breves momentos que lhe podia dedicar, face à pesada azáfama que a estiolava, para a modesta manutenção da família através do ofício humilde, exaurinte.

Com a chegada do inverno rigoroso, o lar singelo passou a sofrer mais do que habitualmente. Aquela quadra surgira mais violenta do que as últimas recordadas. A friagem e a umidade intensa penetravam os corpos até aos ossos, dilacerantes.

Nesse ínterim, em que a quase miséria já era lugar comum no lar, D. Maria Leonor enfennou, apresentando os sintomas dolorosos da artrite infecciosa crônica, que lenta, mas seguramente, a prostraria ao leito, no suceder dos anos.

Atormentada pelas dores e inflamações nas articulações, não encontrou no esposo dipsomaníaco senão reproche e descaso.

Utilizando-se de medicação caseira, inócua, a jovem senhora adicionava às aflições morais as novas provações de natureza física, que lhe iriam minando o organismo carente ao largo do tempo.

As nuvens da aflição agora despejavam borrasca avas- salante, enquanto o tempo, esse tecelão da vida, seguia no seu mister infatigável.

Para um ser sensível como Maria Leonor, muito pior do que as dores físicas era o contubémio gerador das aflições morais, particularmente aquelas que decorriam da


indiferença afetiva, em que a soledade sofrida pesava mais ao lado de alguém que se utilizava da palavra apenas para agredir e magoar, conforme lhe sucedia no lar.

Matrimônios de provação! — eis a grande maioria das uniões conjugais, em que o amor inicial se apoia no imedia- tismo dos desejos infrenes, que logo cedem lugar ao tédio e depois ao desprezo, responsáveis por inumeráveis crimes não necessariamente catalogados ou conhecidos.

O amor, nas suas bases legítimas, que une duas criaturas verdadeiramente, é o que se faz trabalhado pelo suceder dos tempos, produzindo harmonia e entendimento gerado na argamassa da renúncia e do devotamento em que melhor se estrutura.

Quando ele vige nos cônjuges em tarefa de edificação, o casamento se converte em experiência de felicidade. Porque, todavia, o egoísmo seja o vigoroso senhor dos homens, não viceja na grande maioria senão o interesse pessoal com que a si mesmo se satisfaz, dando margem aos conflitos geradores dos dramas para justa regularização nos compromissos futuros, onde a leviandade arma, normalmente, ciladas graves para os que lhe dão acesso e mordomia.

A fé religiosa é o grande antídoto para essas uniões provacionais, oferecendo alento, inspiração para o entendimento recíproco, particularmente quando existem os filhos, que exigem maior soma de esforço dos genitores, que devem renunciar às paixões infelizes, pensando na prole e por ela lutando. Esse esforço de ambos nubentes coroa-se de ternura efetiva, donde nascem os sentimentos de elevação que lhes propiciam realização íntima, tranquilidade.

O jovem Domênico não tinha estofo moral para tanto ou negava-se esforço pelo tentame, por acumpliciamento com o erro e acomodação na luta, dando margem a infaus- tosos acontecimentos.

 

                   A ESTRANHA PERSONAGEM

Na década dos anos 40, durante e logo após a Segunda Guerra Mundial, as oportunidades de fazer-se fortuna rápida eram muitas. Inicialmente, o grande esforço dos países envolvidos na calamidade facultava a valorização de recursos antes quase desprezados.

Com o desmatamento do Estado sulino e o consequen- te surgimento de expressivas serrarias em locais anteriormente desabitados, o fluxo de migrantes fez-se muito grande; uns em busca de serviço e liberação econômica, outros à la bonne franquette[5] eram exploradores, aventureiros, libertinos.

Os carregamentos de pinho que venciam as estradas poeirentas expressavam o progresso, atraindo, simultaneamente, a anarquia e o banditismo.

Os homens, desacostumados à súbita prosperidade, se desbordavam em luxúria e dissipações, tomando-se vítimas inermes, nas hábeis mãos de jogadores, cáftens e meretrizes inescrupulosos, sempre à espreita quais animais selvagens feridos, em guarda...

A cidade de M. esfervilhava com a onda crescente de espertalhões e oportunistas, que lhe chegavam de procedência vária.

Aos primeiros dias do inverno, instalara-se ali, convidada pelas facilidades, desconhecida mulher, atraente e fescenina, que alugara elegante e luxuosa vivenda logo transformada em lupanar.

Acompanhava-se de uma corte extravagante quanto ela própria, que logo se tornou centro de convergência dos comentários e interesses da comunidade. As pessoas sensa- satas lamentavam a transformação porque passava o lugar, enquanto outros, os imponderados, exultavam com as mudanças súbitas e apetecíveis para o prazer.

Madame Poliana, assim se chamava a estranha, galvanizou as atenções gerais, tomando-se o seu bordel o local favorito da fanfarronice, das ilusões e extravagâncias. Experiente e habilidosa, encontrava-se no período entre deux âges[6], não apresentando ainda o desgaste do corpo lascivo nem da alma atormentada, há muitos anos atirados a explorações e torpezas.

Mantendo aparente compromisso com um dos membros da sua corte particular, verdadeiro rufião, procurava não se vincular a mais ninguém, de modo a manter o melhor relacionamento geral donde auferia amplos resultados de todos.

Com acento europeu carregado, fazia-se mais rica de sex-appeal, encantando os comensais do seu ninho de prazer. Todavia, era brasileira, descendente de imigrantes poloneses, dos primeiros chegados ao país. Fugira do lar humilde seduzida pela comucópia de uma abundância e riqueza que jamais fruiria, tendo em vista que os valores externos sem o alto conteúdo de uma filosofia existencial superior para o homem, apenas constituem fardo de difícil condução.

Ela detinha, é certo, alguns haveres, sem ter paz. Possuía várias quinquilharias e objetos de alto preço, esvaziada, porém, no íntimo, de outros recursos de enobrerimento e harmonia. Era uma embriagada, infeliz. Realmente detestava a vida que se permitia, antes anelando por uma existência menos ataviada e quimérica, na qual a presença do amor se lhe constituísse élan de entusiasmo e paz para uma família ditosa.

Não mais acalentava, todavia, a esperança de ser feliz, do ponto de vista de equilíbrio e elevação íntima...

A malsinada vida fácil que a imaginação dos trêfegos decanta e a frivolidade de moçoilas levianas inveja, permitindo-se tombar nas suas malhas, graças à poderosa rede de traficantes e sedutores profissionais, desnaturados, é dos mais hediondos cárceres que estiolam vidas e degradam sentimentos.

Mortas-vivas escravizadas a vícios superlativos de miséria moral; sonâmbulas que vagueiam dependentes, sem mais lucidez, à cata de incautos que também se aprisionam e de cada vítima lucram parcela mínima; fantasmas descarnados que ao dia dormem para colorir-se, à noite, e saírem dos lugubres pardieiros — e por mais luxuosos sejam os ambientes onde se exaurem, não passam de bafiosas furnas —; as mulheres de alma mutilada por homens que se transformaram em chacais dos seus irmãos, padecem as extremas exulcerações no corpo, na mente e na alma...

Quase todas trocariam as facilidades do comércio ne- fando pela migalha de entendimento ou pela quota reduzida de dignidade que pudessem conquistar, com o conse- quente ensejo de um lugar ao sol, entre as criaturas que se não entredevoram.

Diz-se que muitas delas, as inditosas sofredoras, ali se demoram pelo desejarem.

Tal asseveram os que da vida apenas conhecem as informações, não as experiências; o puritanismo, não a pureza; as comodidades, não as lutas que ferreteiam e desgastam; os que, vendo o pântano, acusam-no de depositário de peste sem recordarem de que o charco tem, no homem que o despreza, o responsável pelas suas águas paradas, já que ele permanece como um desafio ao lavrador, aguardando drenagem e trato; os que vociferam contra as sombras, todavia, não fazem lume...

Aquelas excruciadas que parecem felizes na abjeção em que chafurdam, apenas parecem... Retiram da desdita os momentos raros de sorrisos, mais esgares que júbilos, a fim de sobrenadarem na amargura, antes de devoradas pela loucura, pelas enfermidades sem nome, pelo suicídio ou homicídio sem retumbância jornalística...

A vida fácil que exercem esses seres do submundo, vitalizados pela opulência dos seus hediondos mandatários, que se disfarçam noutros submundos elegantes, porém não menos soezes, é sustentada pelos próprios cadáveres donde retiram o fluxo decomposto da preservação do habitat, que os nutre e os mata...

Madame Poliana sabia que a sua libertação da engrenagem a que se submetia era quase impossível. Envenenara-se ao longo dos anos, matando, a pouco e pouco, os sentimentos, que se asselvajaram, considerando pessoas e circunstâncias apenas como meios de que necessitava para sobreviver, se é que aquilo era sobrevida.

No exercício da inditosa profissão sua folha corrida assinalava infaustosas ocorrências.

Anos antes, na cidade do Rio de Janeiro, infortunado cliente fora encontrado morto no seu quarto, nunca se

esclarecendo se por homicídio ou suicídio, como teimava Madame por afirmar...

Por falta de evidências e provas, após ouvida várias vezes, na Polícia, foi declarada inocente e o processo arquivado. Todavia, na região do bas-fond, sabia-se que o crime ocorrera em sociedade com o homem que a explorava, objetivando apossarem-se de vultosa soma em dinheiro, que o infeliz trouxera à Capital, e de joias valiosas que possuía, nunca mais encontrados.

A sede do poder e da fortuna arbitrariamente alentada, não se sacia.

Madame Poliana esperava um ancião rico, a quem pudesse explorar, a fim de afastar-se do ambiente que mantinha, ou um tipo outro de oportunidade qualquer para amealhar uma sólida fortuna e evadir-se...

Naquela ora turbulenta comunidade, passou a constituir um status social, fazer parte do círculo de Madame Poliana.

Os cavalheiros se confidenciavam durante o dia as excelências da noite anterior e os homens de parcos recursos invejavam os que lá se podiam adentrar.

Roberto Domênico, na pujança dos vinte e cinco anos de idade, apesar dos primeiros sinais que evidenciavam a alcoolofilia contumaz, era um moço bem apessoado, atraente, capaz de inspirar alguma paixão em colaços de caráter e temperamento.

Ouvia, çagno toda a cidade, as referências ao novo e distinto antro de prazer, ficando vivamente impressionado, somente lamentando a situação econômica que lhe não permitia participar das noitadas alegres, um já ritual, naquele inverno úmido e frio !

Recordava-se da atitude paterna, abandonando-o em vida, e facultava-se agasalhar na mente e no coração os incoercíveis demônios do ódio e da inveja.

Se possuísse dinheiro, pensava, Madame lhe seria tm bon tour[7], abrindo-lhe portas ao triunfo e ao gozo.

Passou, desse modo, a aninhar o desejo de ser recebido pela estranha mulher, que o fascinava.

Ao vê-la, casualmente, deixou-se flagrar, não retirando o pensamento da diva singular.

Por sua vez a mulher lhe percebera o olhar inflamado e comovera-se, perturbadoramente, embora o aspecto e a indumentária dele não lhe fossem, no momento, favoráveis.

As mãos invisíveis do Destino apertavam os laços dos reencontros espirituais, enquanto a espada de Dâmocles oscilava ao alto das cabeças dos envolvidos nas tramas das injunções redentoras, raramente aproveitadas com sabedoria.

A vida, na Terra, é feita de primeiros encontros, de reencontros e de desencontros. Almas se encontram para cometimentos fraternos ou não, se reencontram para saldar dívidas sob a colocação das dores ou dos sacrifícios e se desencontram por nonadas, enquanto se ferreteiam, açodadas pelas próprias paixões.

Há, por isso mesmo, uma emanação magnética que faz identuicarem-se os Espíritos já afins quando se encontram. Desse modo há encontros que são reencontros. Necessário saber se ditos reencontros levam a ações felizes ou se propiciam o espicaçar dos sentimentos inferiores, que levam aos crimes, aos desequilíbrios, tomando-se verdadeiros desencontros, em razão das suas consequências. . .

Eis como os portadores de virtudes ou os execrados pelos vícios facilmente se unem, se identificam. Esse magnetismo especial, portador de vibração própria se exterio- riza de uns como de outros, sincronizando nas sensações e emoções que lhes são peculiares, propiciando perfeita identidade de inspirações, de gostos, de tendências.

Madame Foliana sentiu a aima de Roberto Domênico, ao primeiro lampejo do seu olhar, e este reencontrou-a para um tormentoso desencontro espiritual, já que nenhiun dos dois possuía estrutura moral para vencer as condições indi- tosas daqueles dias...

 

                      SONHOS DO PASSADO CORPORIFICAM-SE EM PESADELOS DO PRESENTE

Estimulado pelo pensamento que agora o castigava — o desejo de privar da intimidade da mulher ambicionada —, Domênico deu campo à imaginação, buscando um meio de alcançar a meta que, nas circunstâncias, lhe parecia impossível. Temperamento irascível, sentindo-se defrauda- do pela vida, passou a infligir maior soma de desgostos à companheira enferma, cada dia mais debilitada. Acusava-a, sem motivo, mortificando-a com a injusta culpabilidade da perda das regalias familiares.

Maria Leonor passou ao recolhimento da prece e do silêncio, temerosa de mais graves consequências, considerando a agressividade do companheiro atormentado.

Sentia-se mais só do que antes, quando vivia com a mãe que, embora de índole perniciosa, de alguma forma a consolava, auxiliando-a na manutenção do lar e na assistência ao pequeno Almiro.

Colhida por inesperada desencarnação, um mês antes, deixara a filha e o neto algo desamparados, num mundo hostil, em mãos escravocratas, impiedosas.

Quando os fortes acúleos morais e as dores físicas a maceravam, no colóquio da oração, mediante as fórmulas tradicionais embora, lenia-se, auferindo forças e ânimo, sentindo-se encorajada para prosseguir, a fim de sustentar o filhinho cuja guarda Deus lhe confiara.

Apoiada no formoso recurso, deu-se conta de pressentir com relativa exatidão alguns acontecimentos e registar presenças espirituais que a amparavam, apesar de, em algumas ocasiões, sofrer dos Espíritos infelizes doestos e agressões. Não escutava nem via através dos órgãos competentes, mas de uma forma especial, interiormente, o que lhe proporcionava um mundo novo, sem a necessidade dos equipamentos físicos.

Da genitora ficara com a casa modesta, os móveis e outros objetos domésticos diminuindo-lhe os problemas, pois que, sem tais valores, mais difíceis seriam as conjunturas da existência material, em si mesma desprovida de outros recursos. Felizmente, o filhinho gozava de saúde e desenvolvia-se a contento, para sua tranquilidade espiritual.

Roberto Domênico, desde o dia em que vira Madame Poliana, começou a viver curiosas experiências oníricas, pesadelos que o fustigavam durante a noite, fazendo-o despertar mais fatigado, desfeito, ansioso.

A esposa o interrogava inutilmente, dele recebendo sempre como respostas monossílabos mal-humorados.

Num desses sonhos, parecia identificar-se em conúbio amoroso com a bela cortesã, planejando insensato e criminoso golpe, que terminara em traição por parte dela e cárcere para ele. As imagens eram-lhe confusas, no entanto, atormentantes. Outras vezes, sentia-se prestes a tomá-la de poderoso conquistador violento que a explorava, tombando, miseravelmente assassinado, aos pés de ambos, por certeiro golpe de cimitarra, que o outro lhe aplicara, implacável...

O acontecimento não fora exatamente assim.


O certo é, que sem paz antes de a reencontrar, pois que, sem dúvida foram comparsas noutra vida, ao reve-Ia, sentia-se alucinar.

Desde que não lograria honestamente conseguir ha- veres, deixou-se empolgar pela possibilidade de alguns tour de bâton[8], com os quais se acercaria do grupo de adoradores da amadurecida Afrodite.

Com pensamentos de tal sorte, eclodiu-lhe na mente uma ideia sórdida. Sentia-se credor de parte dos bens, que o genitor lhe negava conceder no momento.. . Sabia, porém, que, às vésperas do pagamento dos madeireiros, o pai guardava no cofre da Serraria somas vultosas, que recolhia do Banco para atender aos compromissos e salários com empregados e fornecedores... A ideia foi-lhe tomando corpo na mente e parecendo-lhe cada vez mais viável. Recordava-se de que o progenitor, após despedir os auxiliares, permanecia a sós até avançadas horas, na Empresa, organizando papeis e recibos para ter facilitada a tareia, no dia imediato...

Quem suspeitaria, interrogava-se, do próprio filho, embora a diferença existente entre ambos? Seria questão de tempo para acurar observações, estudar detalhes e dar o golpe seguro. Pior do que Caim, pôs-se a espreitar os movimentos do velho pai, acompanhá-lo a regular distância, a planejar.. !

Empurrado pelos fatores que geram as provas e ex- piações, travou conhecimento com o jovem Etienne — leão- -de-chácara do famoso bordel, mantendo grande identificação moral e mental, por serem da mesma procedência espiritual —, que prometeu introduzi-lo no lupanar.

Ao primeiro ensejo, numa noite em que a clientela se fizera reduzida, Etienne o levou, apresentando-o às recepcionistas, ato contínuo a Madame Poliana.

Seria muito complexo o sentimento da astuta mulher. Já desacostumada às impressões e emoções fora dos valores que supunha poderem dar segurança futura, experimentou uma onda de alegria percorrer-lhe a alma, ao mesmo tempo um certo desprezo pelo homem, talvez porque não estivesse cuidadosamente vestido, quiçá pelas reminiscências estranhas que lhe afloraram à mente, produzindo constrangimento e receio.

Os dois olhos gázeos, grandes, traduzindo desejo ardente, fizeram-na baixar a cabeça, ligeiramente perturbada.

Intímamente procurou-o nas telas da memória, sem conseguir localizá-lo. Verdade se diga, diferente sentimento dominou-a, fazendo-a recolher-se aos aposentos do andar superior, não mais saindo àquela noite sob alegação de repentina indisposição.

O imprevidente esposo de Maria Leonor percebeu a ocorrência, ficando sem saber qual a impressão causada, se apenas negativa ou num sentido mais amplo, se perturbadora.

O primeiro passo fora dado, com o que se- alegrava. Aguardaria o tempo e o momento próprio para declarar-lhe o de que se sentia consumir.

A intimidade com Etienne fez-se maior, passando a uma identificação de sentimentos surpreendente, o que facultava confissões recíprocas.

Num dos dias de maior bebedeira, Etienne, depois de explicar que anelava por posição e poder, além da defesa de um lupanar, explodiu:

— Aguardo, apenas, ocasião para dar um golpe. Um golpe que me dê liberdade e independência. Não pretendo viver como capacho desprezível e dispensável para quem pode pagar. Terei, eu próprio, os meus pelegos. Já não me fascina Madame Poliana. Saturei-me. De amante desci a leão-de-chácara...

  • — O campo aqui — redarguiu Domênico — não oferece vez.
  • Não é tão mau assim — retrucou o outro. Tenho feito minhas observações e pelo que se gasta nas noitadas alegres, eu calculo o que se pode colher com um desses ricos ignorantes.
  • Eu também aguardo oportunidade...

Depois de uma pausa, Domênico prosseguiu:

  • Sabe o que meu pai conseguiu para mim? (E gargalhou, colérico.) Um atestado de insanidade mental... Com isto, não tenho direito a um níquel do que o velho miserável e avarento amealhou em todos estes anos, pelo menos por enquanto. Perdi os direitos... Isto mesmo, meu amigo, sou um desgraçado...

Fez nova pausa, ingeriu uma talagada, pigarreou e aclarou:

  • Por causa do meu desditoso casamento. Apaixonei- -me por uma infeliz, que agora está enferma e com quem ele não queria o matrimônio... Já nos desaviéramos antes, mais de uma vez... O velho queria que eu trabalhasse sendo ele rico... A moça pobre foi a gota d’àgua que o fez transbordar. Expulsou-me de casa e odeia-me.

Calou por um momento, para continuar:

  • ódio, aliás, bem recíproco.

Depois de uma meditação, acentuou.

  • Isto, porém, não ficará assim...
  • E por que não toma a sua parte à força? — atalhou o amigo. — Você é filho, tem necessidade, e é um direito que ninguém lhe pode tirar. Inda mais que de louco você não tem nada...

Abraçaram-se e gargalharam demoradamente. Os dois silenciaram de súbito e se olharam. Não necessitavam de quaisquer palavras para se entenderem. Os pérfidos, comungando os mesmos pontos de vista, se identificam sem o verbo articulado.

Quebrando a mudez, concluiu, Domênico:

  • É o que farei, mais cedo do que ele pensa.
  • Conte comigo. Sou seu amigo e não tenho nada a perder.

Selavam um pacto de hediondez, sem se darem conta da trama espiritual que os envolvia e das mentes vingadoras que os utilizavam, procedentes da Erraticidade inferior.

Nada mais falaram, nem se fazia próprio ou necessário. Separaram-se, acalentando um sonho louco que se converteria em pesadelo de curso longo.

  • Não é tão mau assim — retrucou o outro. Tenho feito minhas observações e pelo que se gasta nas noitadas alegres, eu calculo o que se pode colher com um desses ricos ignorantes.
  • Eu também aguardo oportunidade...

Depois de uma pausa, Domênico prosseguiu:

  • Sabe o que meu pai conseguiu para mim? (E gargalhou, colérico.) Um atestado de insanidade mental... Com isto, não tenho direito a um níquel do que o velho miserável e avarento amealhou em todos estes anos, pelo menos por enquanto. Perdi os direitos... Isto mesmo, meu amigo, sou um desgraçado...

Fez nova pausa, ingeriu uma talagada, pigarreou e aclarou:

  • Por causa do meu desditoso casamento. Apaixonei- -me por uma infeliz, que agora está enferma e com quem ele não queria o matrimônio... Já nos desaviéramos antes, mais de uma vez... O velho queria que eu trabalhasse sendo ele rico... A moça pobre roi a gota d’àgua que o fez transbordar. Expulsou-me de casa e odeia-me.

Calou por um momento, para continuar:

  • ódio, aliás, bem recíproco.

Depois de uma meditação, acentuou.

  • Isto, porém, não ficará assim...
  • E por que não toma a sua parte à força? — atalhou o amigo. — Você é filho, tem necessidade, e é um direito que ninguém lhe pode tirar. Inda mais que de louco você não tem nada...

Abraçaram-se e gargalharam demoradamente. Os dois silenciaram de súbito e se olharam. Não necessitavam de quaisquer palavras para se entenderem. Os pérfidos, comungando os mesmos pontos de vista, se identificam sem o verbo articulado.

Quebrando a mudez, concluiu, Domênico:

  • É o que farei, mais cedo do que ele pensa.
  • Conte comigo. Sou seu amigo e não tenho nada a perder.

Selavam um pacto de hediondez, sem se darem conta da trama espiritual que os envolvia e das mentes vingadoras que os utilizavam, procedentes da Erraticidade inferior.

Nada mais falaram, nem se fazia próprio ou necessário. Separaram-se, acalentando um sonho louco que se converteria em pesadelo de curso longo.

 

                   ESCABROSIDADES DALMAS

Quando o homem dá guarida ao vírus da insatisfação, mui fácil se toma a sua vinculação com Espiritos de mente atribulada, que se comprazem nos ásperos processos das obsessões de largo porte.

Pervertidos e insanos quanto aos valores éticos, obedecem a uma direção mental distorcida da realidade, supondo-se ou fingindo-se ser as forças diretoras da vida. Acreditam ou parecem crer nos recursos negativos de que se utilizam pela violência, tomando-se, sem o perceberem, instrumentos da Lei, que menoscabam, e de que se tomam vitimas, simultaneamente.

Acontecimentos históricos lamentáveis, ocorrências sociais desditosas, insucessos humanos expressivos, tragédias do lar em alto porte, descalabros individuais frequentes, alucinações de pessoas ou grupos desavisados, crimes de alto índice de perversidade têm origem quase sempre nas mentes enfermas de desencarnados impiedosos, que conspiram contra a paz dos homens e as suas relações de fraternidade. Vitimados em si mesmos, desforçam-se, ora por inveja, ora por necessidade psíquica de manutenção, inspirando aqueles que os agasalham, quando a soberba e o orgulho, filhos legítimos do egoísmo, os induzem ao desbordar das outras paixões inferiores que explodem em volúpia de insensatez, no ódio, na vingança, no desvario...

Armam esquemas de perseguições e planejam técnicas de desequilíbrio em urdiduras diabólicas com que investem contra os seus cômpares encarnados, açulando-lhes os apetites primários e utilizando-os em vampirizações seguras, de que se nutTem, com que os exaurem.

Quando não se fazem promotores de agravos e sandices, aumentam-nos, vítalizando as animosidades com bem elaborado esquema de ação mental, usando a hipnose, que manejam com mestria, através da telepatia, da inspiração direta, da percepção psíquica ampliada, que logram nos seus hospedeiros em face da constância, e, de certo modo, da afinidade de interesses.

Ê mais fácil estimular uma tendência do que fazê-la surgir. Desse modo, conforme o caráter daquele que se lhes converte em veículo, exploram-lhe os sentimentos, perturbando a real visão e o perfeito entendimento dos fatos, de tal modo que interferem no raciocínio da personalidade obsidiada, fazendo crer que o fluxo inspirativo é do próprio indivíduo.. .

Desarmados, por prazer, por presunção e por ignorância da realidade imortalista, que refutam, refugam, desprezam, os homens não se dão ao exercício dos fatores antialie- nantes, que são as leituras edificadoras, a prece, o exercício do bem, a vivência moral superior, sendo vítimas fáceis para os cometimentos desastrosos.

Insistentes, esses Espíritos espreitam e aguardam ocasião, minando a largo prazo as resistências morais dos que as têm e lançando desconsideração por elas, mediante comportamento cínico naqueles que não as possuem, expressivas, de forma que, no momento próprio, se imantam ao consorte mental e o embriagam, intoxicando-o com as vibrações perniciosas que emitem, incessantemente,, fixando as matrizes da dependência psíquica, tomando-o fácil presa das suas paixões bizarras.

Par dessus le marché[9], o atraso de que padecem tais entidades é apenas de natureza moral, desde que, intelectualmente, são frias e conhecedoras de inúmeros mecanismos da vida, contra os quais se nebelam, por não desejarem submeter-se às leis da ordem e da evolução que regem o Universo. São os Lucíferes simbólicos da tradição bíblica.

O comércio mental com esses seres inditosos, nossos irmãos da retaguarda espiritual, no processo evolutivo, é muitíssimo maior do que supõem mesmo aqueles que estão informados a tal respeito.

Permito-me repetir Eneias: “Animus meminisse hor- ret”[10], considerando a teimosa insistência em que se persévéra, na Terra, contra as realidades espirituais. Quando os fatos já as atestam em abundância, buscam-se mecanismos desculpistas de negação e apressadas, complexas explicações nulistas para manter-se o estado em que se preferem demorar as criaturas.

Dia virá, porém, e não distante, em que ao amor sucederão as dores, infelizmente mais volumosas, despertando, ensinando, realizando pelo cadinho da aflição, o que se não preferiu conhecer pela sementeira da bondade e da humildade de coração.

Roberto Domênico, após o desabafo com Etienne — seu antigo comparsa e vítima — tombou, desarmado, na cilada que os adversários ocultos da sua e da paz alheia lhe prepararam. Seria necessário, agora, um esforço moral hercúleo para retroceder, agravado o problema com a adesão espontânea de um cômpar, igualmente desequilibrado em espírito, que passava a constituir elemento de segurança para o plano macabro arquitetado pelos obsessores.

O Sr. Edmundo, digamo-lo de uma vez, na austeridade em que se refugiava, padecia de tormentosas constrições mentais e limitações morais. Havendo crescido economicamente, olvidou-se de que o trabalho, na aquisição dos valores amoedados, é meio — uma bênção relevante —, mas não é a razão única da vida, especialmente se não vai canalizado para o bem geral... Acumular haveres, conseguir prestígio, na comunidade, eram as metas do madeireiro. Naturalmente, cumpria com os seus deveres em rela ção aos empregados. Não ia, contudo, além. Pagava o qufora estipulado e nada mais, fossem quais fossem os lucros. Gozava de poder econômico, no entanto carregava a chaga moral que abrira nalma, em relação a Domênico, deixando-a crivada de espículos de revolta, de azedume, por saber o estado de miséria em que se demoravam o filho rebelde e sua família. A seu turno, a esposa não mais conseguiu superar a fácies de dor, desde os dias lamentável1 das discussões passadas, que culminaram na ruptura dos vínculos afetivos, dando campo à inimizade improcedente.

Ninguém é dono de nada, na Terra. Chega a hora em que se e obrigado a deixar tudo, mesmo os preconceitos contra os descendentes, que enxovalham os pais de vergonha e os esbordoam... Enfermos, são mais carentes de afetividade e de perdão, do que de desprezo e expulsão do lar, métodos enganosos do egoísmo espúrio e avaro.

Com a morte mudam-se as paisagens, a forma de ver-se a vida, a escala de valores... Quando se deseja retroceder no erro, refazer o caminho, eis passada a oportunidade, agravada a situação, a que se transfere para reajuste noutra reencarnação !..

Bem o sabe, por experiência pessoal, quem escreve estas notas...

Mais amor poderia haver modificado o quadro do clã Matoso, certamente evitando a complicação dos acontecimentos que sucederiam.

Caprichoso o pai, indisciplinado o filho, não foi difícil que as farpas da cólera os ferissem profundamente.

Ao amanhecer brumoso daquele dia frio de julho, Maria Leonor, embora a medo, notificou ao esposo em ressaca — aliás, quando assim não se encontrava, excepcionalmente, sofria a exaltação do alcoolismo —, que se acreditava em segunda gestação, apesar de ser, por enquanto, apenas, uma suspeita.

Havia na sua voz e na expressão do seu rosto triste, tal exteriorização de ternura e sofrimento, que Roberto, s°mpre agressivo, se comoveu. Tocado nos recessos dalma, como que recobrou por momentos a antiga docilidade e, fazendo esforço para ordenar as ideias, abraçou-a, osculan- do-lhe a cabeça dorida...

  • Mais um filhol — disse, melancólico — para sofrer privações e misérias... Lamento muito havê-la envolvido na minha vida cigana, dissoluta. Você me pode perdoar?
  • O amor não perdoa — ripostou, igualmente emocionada, a jovem senhora —, porque nunca se magoa. Deve ser por isso que Deus não perdoa, já que o Seu amor, está por cima dos nossos erros e fraquezas, compreendendo-os sempre e auxiliando-nos a recuperar-nos... Você prossegue sendo a aspiração dos meus sentimentos e...
  • Mas você tem sofrido demais. Prometo-lhe que...
  • Nada prometa, meu bem. Sairemos da dificuldade, quando o Senhor nos permitir...

Prometo-lhe que sairemos desta situação mais cedo do que pensávamos. Tenho meditado ultimamente. Suas dores, esse artritismo excruciam-me, vendo-a em processo de de formação das articulações, necessitada de assistência médica, de uma casa mais saudável, o nosso filho requerendo melhores coisas, e eu fugindo para a bebida... Há de modificar-se esta situação, creia-me, desta vez.

Ao impacto da emoção, o esposo acreditava no que dizia. Não fosse a ideia que animava e o plano de dignifi- cação se faria abençoado, tornando-se ditoso. Seria inspirado à reconciliação com o pai; à mudança de atitude em relação à vida; à ação opérante com que se liberaria dos fatores pretéritos negativos e das perturbações disso decorrentes.

Alongaram-se os dois em conversação que não ocorria há muito tempo, prometendo e jurando Roberto um esforço que desenvolveria em prol de uma vida nova.

Dali saiu a buscar Etienne para consertar os planos do roubo à Serraria do pai, programando a ação para a noite da próxima sexta-feira, quando o cofre deveria estar abarrotado.

O comparsa, pretextando uma futura compra de tábuas, deveria procurar o Gerente da Firma, adentrar-se no escritório, colher informações, observar... Dir-se-ia em viagem, em tomada de preços para uma Empresa da Capital. Bem falante, não lhe seria difícil conseguir os dados que facultassem resultados exitosos, quando do assalto audacioso.

Etienne sugeriu que se usasse um revólver, com o fim exclusivo de assustar o proprietário, no ato do roubo, asseverando que o mesmo de forma alguma seria utilizado, a fim de não se envolverem em provável complicação de maior porte.

Roberto Domênico, para despistar, simularia uma via gem, ocultando-se em qualquer lugar, até a hora aprazada, e também depois, enquanto se acalmassem os ânimos, evitando ingerir álcool durante os próximos dias, a fim de estai lúcido e ágil para as circunstancias.

Foram sendo arquitetados os planos com segurança e frieza.

Posteriormente, o esposo de D. Maria Leonor explicou em casa que recebera oferta para um trabalho, em cidade próxima, no norte, onde surgiam excelentes oportunidades para o café, um verdadeiro El Dorado, no país, face à fertilidade das suas terras escuras, atraindo capitais e homens procedentes de toda parte.

Retomaria, asseverou, dentro de uma semana, aproximadamente, trazendo-lhe boas novas e prometendo levá- -los, a ela e ao filho com ele...

Realmente, o infeliz dilapidador, cessada a emoção do reencontro rápido consigo mesmo, desejava evadir-se, para não mais voltar, deixando a família, supunha, para sempre.

Combinara com Etienne conquistar Poliana, ao acenar-lhe segurança futura e independência.

Cria poder apossar-se de uma soma vultosa, porque soubera da venda de uma imensa propriedade por parte do genitor e cuja importância deveria estar no cofre do escritório.

O assecla concordava com todo o plano, enquanto pensava apropriar-se de todo o fruto do assalto, deixando Roberto Domênico nas malhas do crime, abatido, como se o fora pelo dono da Serraria... A ideia lhe turbilhonava na alma espúria e já se via antecipadamente desfrutando o regalo da farta rapinagem.

Envolvidos na mesma faixa vibratória do processo criminoso, eram explorados pelos vigorosos carrascos que os dominavam do outro lado da vida.

Ouvindo as promessas do esposo, que se tomara jovial e loquaz, Maria Leonor encontrou novamente a claridade da esperança, que se lhe adentrava pelo lar em sombras, por ignorar as escabrosidades das almas, quando ainda em trânsito pelas faixas inferiores da individualidade humana.

 

                     CAPRICHOS E INJUNÇÕES DO DESTINO

A Serraria e Madeireira Matoso, embora fosse uma empresa de grande poder econômico, à semelhança das muitas que proliferavam, à época, era um imenso barracão, onde se concentravam as máquinas, e um escritório, este na parte frontal da construção, simples e ampla, onde se encontravam os móveis, o cofre, uma máquina datilográ- fica, uns que outros apetrechos próprios... Um pequeno balcão separava a clientela dos funcionários internos. A parede do fundo tinha uma estante feita à pressa e o piso não passava de um tabuado acima do solo.

Exteriormente, eram pilhas de madeiras serradas, troncos vetustos atulhando o imenso pátio e, na ribanceira, ma- ravalhas, serradeiras que fumegavam interminavelmente.

Aspecto pobre que não traduzia o poder do proprietário, nem a um golpe de vista despertaria qualquer cobiça alheia...

A rotina das atividades diminuída, graças ao rigor do inverno, mantinha, embora, os empregados em serviço.

A noite caíra como tantas outras, sem qualquer diferença digna de nota.

A lua imensa, com os raios coados pela neblina, espiava do alto e o vento cortante sibilava, passando pelo campo crestado.

Às 21 horas os dois homens mascarados se adentraram pelo escritório pouco iluminado, cuja claridade provinha de uma lâmpada pendente do forro.

O Sr. Eduardo Matoso, no pleno vigor dos sessenta anos, era de estatura mediana e compleição forte, enrijado nas asperezas das lutas cotidianas, de vontade dominadora e temperamento voluntarioso. Sabia o que desejava da vida e conseguira, até então, o quanto ambicionava. Não se fazia temente a nada, antes um temerário. Cumpria rigorosamente o mesmo hábito de trabalho, quando na cidade, atitude rotineira a que se adaptava bem o seu caráter.

Encontrava-se acocorado, o cofre com a porta aberta, enquanto arrumava alguns maços de dinheiro, recibos e notas de importância.

Ao estrépito da porta, abruptamente arrombada, voltou-se assustado e defrontou, a uma distância de pouco mais de três metros, com os dois assaltantes, que traziam um lenço cobrindo a parte inferior do rosto e chapéu de aba larga, caida, sombreando os olhos.

Relâmpago em noite escura, compreendeu, num átimo, o que se passava, empalidecendo para, de imediato, resfo- legando, pelo assomo da cólera natural, a custo controlar as emoções desordenadas que o tomaram, por pouco não o fulminando.

— Mantenha-se calmo — falou, rouquenho, Etienne — e não tente nada, para o bem estar da sua saúde.

O revólver apontado na sua direção era um bom argumento para a obediência sem recalcitramento.

Domênico, um passo atrás, carregava um trocho, vigorosamente, em atitude ameaçadora.

Tremia, num misto de receio e raiva, com a mente tur- bilhonada.

Saira da cidade conforme combinado, aparecendo à bora marcada. Embora não houvesse tomado bebida alcoólica, nos dois últimos dias, antes daquele momento, ingerira boa dose de aguardente, “para acalmar-se”, segundo pensava.

Esfogueado e primário no crime, sem a frieza profissional dos dilapidadores dos bens alheios, somente agora se dava conta da gravidade do cometimento.

Acordou intimamente, naquele momento do roubo, que aquele era o seu próprio genitor a quem ia agredir, e sentiu ligeiro horror de si mesmo.

Algo insubornável e sempre vigilante, a consciência — Deus em nós — gritou-lhe que desistisse, mesmo porque era tempo ainda de recuar. Não dispunha dos recursos da lucidez total para uma reflexão tão valiosa ser recebida automaticamente.

Estava a ponto de descontrolar-se, com as pernas bam boleantes, transpirando frio e em abundância.

Nesse estado, recebeu a vigorosa impulsão e dominio da mente obsessora, que lhe projetou a lembrança dos antigos atritos com o pai, a expulsão do lar, o desprezo de que fora vítima por aquele...

Sucediam-se os clichês mentais, habilmente encarninhados, enquanto lhe exumava a ira, enterrada nos sentimentos, há algum tempo.

Foi invadido, então, pela força do ódio, e caiu. totalmente vencido pela chusma de Espíritos empedernidos no mal que partilhavam da ação desditosa. Tudo foi muito rápido, a partir daquele instante, os sucessos ocorriam, agora, fulminantes.

Etienne atravessou o balcão pela portinhola com o olhar esfogueado pela cobiça, ante o dinheiro empilhado sobre a mesa e vociferou:

  • Abra mais o cofre e ponha todo o dinheiro para fora. Rápidol Não temos a noite toda.

A vitima, não obstante parcialmente paralisada, dobrou-se, respondendo, ofegante:

  • A porta está aberta...
  • Então, seja rápido. Retire tudo e coloque sobre a mesa.

Olhou em derredor e viu uma sacola de pano escuro, pendurada nas tábuas laterais do escritório.

  • Retire o saco da parede e dê-me. — Pediu a Roberto, que obedeceu.

O Sr. Matoso, com o cérebro em labaredas de rancor, levantou-se com alguns maços de notas, que haviam sido retiradas do banco e depò-las no local indicado.

  • Retire tudo, não vai ficar nada — bradou o bandido. — Pensa que somos idiotas, velho egoísta e avarento. Vamos fazer uma limpa total... Isto não lhe fará falta alguma. O resto, vamos, temos pressa!...

O pobre homem, espumando dissabor, olhar injetado, curvou-se outra vez e, lampejo entre sombras densas, recordou-se do revólver, na paute superior do cofre, que guardava, num pressentimento acerca de rima ocorrência de tal natureza...

O ladrão, parecendo adivinhar-lhe o pensamento numa telepatia, em que as mentes obsidentes vigiavam o madeireiro, estertorou, violento:

  • Não tenho nada a perder, se o matar, portanto resguarde a vida e não faça asneira. Não me ..
  • Demos-lhe uma paulada, para que ele aprenda a pensar. — Propôs Domênico, e riu, descontrolado.

O genitor voltou-se e fitou o vulto mascarado. Reconhecera o timbre da voz e não quis acreditar.

Não pôde deter-se, gritou, trêmulo de raiva e desespero:

  • Meu próprio filho: ladrão e monstro! Excomungado miserável! Isto não ficará assim.

Domênico avançou para agredi-lo, sendo detido pelo comparsa.

  • Calma! — baldoou, encolerizado. — Aquiete-se. Não sabemos de quem o miserável fala...
  • Pergunte ao infame — protestou o Sr. Matoso —, meu desgraçado filho. Antes o houvesse morto ou eu próprio tivesse morrido sem ter que ver esta cena.
  • Nada de sentimentalismos, que não nos interessa — reagiu — Os problemas de família são resolvidos em casa. Agora, o dinheiro, vamos!

Planejava o ladrão prostrar a cacetadas o madeireiro, depois disparar contra Domênico, armando a cena com o revólver, na mão da vitima, como a indicar que ele fizera justiça antes de perder a vida.

Aguardava a conclusão do furto para culminar o plano audacioso.

O Sr. Matoso, turbilhonado pelos graves acontecimentos e com as lágrimas em abundância descontrolada a escorrerem pelos olhos ardendo, ato contínuo, sem pensar, vencido pelo desespero, num gesto rápido, agarrou a arma no cofre e tentou detoná-la, o que não logrou, porque o gatilho emperrou.

Tomado de surpresa, Etienne disparou, automaticamente. A bala acertou o coração da vítima e o corpo tombou em sangue, pesadamente, para a frente.

O celerado tomou o saco e atirou os maços de notas dentro, febrilmente, proferindo baixas expressões.

Roberto Domênico vendo o pai caído, fulminado pela bala fatal, como que despertou, correndo a ampará-lo, tardiamente.

Não compreendendo o que se passava, Etienne voltou a disparar, agora contra o comparsa, que não foi atingido.


Alucinado, com o olhar esgazeado, Domênico atracou- -se com o parceiro, tomado inimigo. Alcançando o trocho que deixara cair e furioso, descarregou inúmeras pauladas no adversário, prostrando-o por terra, ensanguentado.

Fora do juízo, tomou a cabeça do progenitor, estreitou-a de encontro ao peito e adentrou-se pelo corredor escuro da loucura total...

Atraídas pelos estampidos, diversas pessoas acorreram ao escritório, deparando com a cena dantesca: Etienne, com o crânio espatifado, em sangue, e ao lado, o cadáver do Sr. Edmundo Matoso, abraçado pelo filho, visivelmente dementado.

Consummatum est[11]! Com a tragédia inesperada, encerravam-se aquelas vidas.

O Destino caprichoso oferecera um desfecho inesperado às maquinações diabólicas dos insensotos, gerando terríveis novas injunções.

 

                   ACONTECIMENTOS SOMBRIOS E REALIDADES DOLOROSAS

Um rastilho de pólvora ateado fogo, eis o que foi a notícia da tragédia. A cidadezinha despertou e, esquecida do frio, afluiu em peso para a Madeireira... O comando e tropa do pequeno destacamento policial, um cabo e três praças, acorreu, armado, dando voz de prisão ao desvairado Roberto Domênico.

Alguns afoitos, diante da cena horripilante, perturbados pelo choque, desejaram promover justiça com as próprias mãos, numa tentativa brutal de linchamento, vigorosamente repelida pelos policiais que, não obstante, algemaram o enfermo e o arrastaram miseravelmente, enquanto o mesmo vocifevara expressões desconexas e vertia pranto volumoso.

Os comentários tomaram conta da noite agitada e o magote exaltado postou-se diante da cadeia pública, em atitude ameaçadora.

  • Monstro! Assassinar o pai para roubar.— diziam uns.
  • Surpreendido pela consciência, o parricida ali mesmo enlouqueceu... — adiantavam outros.

Outro grupo tratou de remover o extinto Sr, Matoso para o lar, que foi tomado de pânico. A pobre Sra. Lídia, inteirada da desgraça, desvairou numa crise nervosa, sendo contida à força. O médico foi chamado a prestar socorros e o gerente da Serraria despachou um empregado para trazer da Capital os outros filhos do desencarnado. Enquanto o desespero, num crescendo, tomava conta das pessoas vinculadas ou não ao crime, não se podia identificar Etienne, pelo estado que apresentava: crânio e face esmagados, transformados numa pasta com parte do encéfalo esparramado pelo escritório em sangue. Irreconhecível!

A notícia correu até D. Maria Leonor, que não podia acreditar, argumentando que o esposo viajara para o norte e inocentando-o com todas as forças do espírito sensível.

— É um poltrão — esclarecia —, não um bandido. Jamais se aventurou numa rapinagem, nunca se atreveria a assassinar o próprio pai... Ele é inocente, juro! Deve haver uma outra explicação. Por Deus, piedade!

Colhida pelo absurdo da situação não sabia que fazer, para onde correr. Abraçou o filhinho e deixou-se ali ficar, nesse abandono sem limite nem definição, estrangulada pela dor selvagem, esmagada pelas perspectivas truanescas, crendo sem crer, pensando sem raciocinar...

Embora assistida por idosa vizinha viúva, D. Armin- da, que lhe compartia a taça das aflições, Maria Leonor hebetou-se. Pareceu-lhe recuar pela memória a uma situação semelhante, embora as circunstâncias diferentes..

Via, mentalmente, qual se no seu mundo interior houvesse instalada uma aparelhagem cinematográfica em pleno funcionamento, uma bela mulher, ataviada e vaidosa, em carruagem brilhante e rica, viajando acolitada por um nobre e um clérigo. Os dois comentavam a política do momento e sorriam maliciosos, num prelibar de absurda felicidade..

LõgOf depois, pareceu ver o fogoso e afortunado castelão discutindo com outro mais idoso, um tanto desvariado,


cm espaçosa peça de suntuoso solar, em que ambos destilavam azedume e se acusavam retiprocamente, o primeiro o ameaçava, enquanto o outro zombava, cínico e seguro dos trunfos que guardava para os cometimentos futuros. A cena terminou em um gesto de violência; o jovem agredindo-o, enquanto a famulagem os acudia receosa...

Viu uma jovem correr a abraçar o tombado, no crime insensato, e a seu turno desvariar.

Maria Leonor deu-se conta de que a jovem mulher era ela mesma com outra aparência, identificando, no agressor, Roberto Domênico, e na outra personagem alguém amado a perder-se em névoa pardacenta...

Não se recobrara, quando pareceu estar num campo a cavalgar e o animal por ela acionado pisoteava o nobre indefeso.

já não se tratava de um cinemascópio interior que projetasse as cenas violentas e fortes, mas de uma experiência psíquica vivida.

Com o choque, destravaram-se os centros da memória anterior onde se arquivam as realizações e vivências das reencarnações, num somatório de grande complexidade, fazendo-a recuar pelos dédalos das reminiscências gravadas e arrojando-a aos locais onde sucederam os seus próprios compromissos infelizes, promotores dos testemunhos e resgates atuais.

Maria Leonor passou a experimentar náuseas e despertou para a realidade objetiva. Transpirava em abundância e tinha crises de vômitos.

A velha companheira acudiu-a.

— Cuidado, menina — confortou-a, bondosa —, para não agravar o seu estado de saúde; pense no anjinho de Deus que carrega no ventre. É necessário coragem. Isto tudo passará e o futuro é nova oportunidade que o Senhor nos dará.

Não refeita do que supunha um pesadelo, Maria Lco- nor teve a impressão de escutar, não saberia dizer se dentro ou fora da cabeça, numa voz terrificante, a sentença:

— Pagar-me-ás, miserável! Isto é apenas o começo (E gargalhou, num metal de zombaria e impiedade inesquecível).

"Estaria louca?” — pensou, receando que o choque lhe houvesse roubado a razão. Esforçando-se por ordenar as ideias e equilibrar-se, identificou o filhinho que choramingava nos braços de D. Arminda, a vizinha, que fora a sua accoucheuse[12] ", quando do nascimento de Álmiro, toman- do-se-lhe amiga devotada e sensível.

Não pôde alongar-se em reflexões, porque um estranho torpor tomou-a, fazendo-a desfalecer.

Ao amanhecer do dia nublado chegaram, apressadamente, à residência enlutada dos Matosos, os filhos e outros familiares que residiam na capital. No semblante desfigurado todos estampavam o efeito das notícias aniquilantes, a surpresa insuportável das ocorrâncias fúnebres. Tudo lhes pareciam sonhos tenebrosos.

Os infaustosos acontecimentos sempre se manifestam numa feição de realidade e ficção, quando desabam, im- previsivelmente.

Ao seu impacto se revelam os estados espirituais, as conquistas morais de cada criatura, por constituir o sofrimento uma forma de radiografia que desvela o ser por dentro, indo além das controladas aparências que, não raro, o verniz social, a educação doméstica e cultural encobrem.

O fórceps da dor, ao adentrar-se pelas carnes da alma, arranca as realidades íntimas e as expõe desnudadas, com que nos revelamos uns aos outros dentro das dimensões pessoais legítimas.

Conhecem-se, portanto, os homens, nos seus instantes de grandeza, se conseguem permanecer humildes e amigos, mas, sobretudo nos seus grandiosos momentos de aflição; se logram submeter-se, resignados, aos testemunhos, mantendo-se nobres diante das circunstâncias.

Zulma e André não aceitavam as explicações ouvidas, não queriam acreditar.

A presença de Roberto alucinado, segurando o pai morto, ficava difícil de ser explicada, se se desejasse inocentá-lo. A morte e a loucura silenciaram as testemunhas da lutuosa ocorrência, dificultando as diligências. Os fatos, portanto, acusavam-no com o caudal da realidade infor- tunada.

Encarcerado, o demente não demonstrava quaisquer sinais de possível, de próxima recuperação. Falava, chorava, lamentava-se desconexamente, alheado a tudo e a todos.

Cuidando do competente atestado de óbito e da preparação do féretro, André não controlava as lágrimas, ardendo de indignação face às circunstâncias do ocorrido, não conseguindo encontrar lógica que elucidasse a hedionda ação criminosa. (Como se alguma lógica existisse na execução de qualquer crimel ) Parecia-lhe impossível a participação do irmão, autor ou co-autor do latrocínio ino minável.

Não houve dificuldades de monta para que se desembaraçassem os documentos sobre a liberação cadavérica e o sepultamento foi marcado para o cair da tarde...

O corpo de Etienne fora transportado para o posto policial, enquanto se aguardava a identificação, que se fez mediante a presença de Madame Poliana a qual, não o tendo durante a noite e até ao meio-dia, sabedora do criminoso desconhecido, resolveu apresentar-se para a lamentável tarefa. Constatada a identidade do desafortunado, paradoxalmente quando o féretro do Sr. Matoso dava entrada no Cemitério, para as últimas exéquias religiosas e a inumação, o corpo destroçado do aventureiro era jogado na cova rasa da indigência, na parte posterior do Campo Santo.

  1. Lídia não se pôde erguer do leito para a tradicional Missa de corpo presente, aparatosa quão inócua, e o posterior sepultamento do companheiro querido.

Exigente e introvertido, ele fizera-se amar. Cumpridor dos deveres, vivia para o lar, exceção aos deslizes dos tempos jovens, que não lhe diminuiram os valores morais. Seus inimigos mais vigorosos eram o temperamento irascível, o caráter duro e rígido para com o perdão. Os que lhe caíam em desgraça ou em simples antipatia pagavam o preço da sua animosidade sem descoroçoamento. Graças a essa forma de ser, granjeara alguns adversários tenazes.

A esposa paciente amava-o com ternura, tomando-se, com o tempo, um pouco mãe, gentil e compreensiva. Sabia quando abordar quaisquer assuntos mais delicados contra os quais ele estivesse em guarda.

Todas tentativas de reconciliação com o filho, por ela pretendidas, porém, redundaram inúteis. Ele reagia com ferocidade, desequilibrando-se.

A esposa convidava-o à fé religiosa, sem maior êxito, e quando aconteciam essas desagradáveis ocorrências oníricas, dificilmente o acalmava, não conseguindo que se lenisse através da oração.

A verdade é que inimigos desencarnados sitiavam-lhe a casa mental e manipulavam métodos para que se coli- masse o desenlace estúpido, daquela absurda forma.

Desde há muito que o Sr. Matoso padecia de estranhos pesadelos, despertando apavorado e criando apreensão na consorte. Referia-se a viagens intermináveis, a situações perigosas, indefinidas, como se estivesse na contingência de constantes perigos...


Não que Espíritos vigilantes e caridosos não o assistissem. Às suas inspirações calmantes, reagia, obstinado; às ideias de sacrifício pessoal pelo próximo além do lar, escusava-se...

Sempre há socorros para aqueles que se predispõem a receber ajuda.

A misericórdia divina é amor e o amor é o hálito de Deus vitalizando o universo.

Afirmamos que os processos obsessivos são meticulosamente planejados e que, na trama dos acontecimentos humanos, sempre há a ação das mentes desencarnadas; a que protegem e guiam a Humanidade, como aquelas qu conspiram contra o bem estar do homem. Não restam dúvidas quanto à vitória final dos construtores dos povos e do homem integral, pela vinculação mantida com a Divindade que os inspira e, a seu turno, os conduz.

Os outros, os que ainda se estribam na violência, recebem, igualmente, os nobres impulsos para a perfeição, demorando-se nos propósitos inferiorès, enquanto lapidam as arestas e adquirem as experiências da razão e da intuição, liberando-se das altas cargas das sensações e paixões animalizantes, que os asselvajam.

Lamentável é a falta de siso dos espiritualistas em geral e de alguns espiritistas em particular, porque, informados da sobrevivência do Espírito ao túmulo, bem como da sua preexistência ao berço e das naturais interferências que consegue nas atividades humanas, não se conscientizam em definitivo, assumindo uma atitude mental e moral que os precate, os imunize contra a agressão desses infelizes espirituais, cuja psicosfera que produzem de par com as emanações dos seus obsessos, gera a poluição mental que vem vitimando milhões de incautos em trânsito pelo mundo.

Nos seus variados processos de perseguição, utilizam* -se das horas do repouso físico dos seus desafetos do passado ou antagonistas do presente, a fim de os surpreenderem, no parcial desdobramento pelo sono, atemorizando-os, quando não os conseguem conduzir aos antros de sombra onde vivem, exaurindo-lhes as resistências pela insidiosa e constante vigilância, mediante absorção vampirizante, com que impossibilitam o repouso necessário ao equilíbrio físico e à harmonia mental.

Aparecem-lhes com aspecto pavoroso, assumindo personificações bizarras de demônios com figurações além da" mais férteis imaginações, produzem hipnoses de profundidade, instalam matrizes nos centros cerebrais — onde se encontram os registros psíquicos das dívidas e erros —, que desconectam a pouco e pouco, mediante pertinaz perseverança ...

... £ os pesadelos atormentam os futuros obsessos, infligindo-lhes pavores à hora do sono, desanimando-os nos processos de paz.

Somente as ações da beneficência, a vigilância nos atos morais, a prece ungida de fervor constituem antídotos a tais estratégias do mal, por situarem o espírito que se enobrece em faixa vibratória superior, inacessível às suas interferências, proporcionando uma sintonia com as mentes engrandecidas dos Instrutores e Guardiães da criatura humana.

Enquanto não se consiga uma conscientização geral, através da educação espiritual do ser, feita nas bases e métodos da razão, do esclarecimento e do amor, a Terra e a sua quase totalidade de habitantes sofrerão os revezes da própria incúria, até quando ao Senhor aprouver mudar as estruturas vigentes através de metodologias outras que nos escapam ao entendimento.

O Sr. Edmundo Matoso fora um atormentado em espírito e a esposa, com a acuidade feminina desenvolvida através de uma vida de sacrifício e dedicação, sabia-o.

Agora sofria a pobre senhora dupla infelicidade: o esposo vilmente assassinado e o filho, culpado ou não, irremissivelmente condenado desde logo, encarcerado e acorrentado aos fortes grilhões de torpe loucura... Esposa e mãe se debatiam em agonia demorada no seu ser, sem poder-se evadir do superlativo desconforto moral que a asfixiava.

Assim mesmo, sob o truculento desespero recordou-se da nora, à sua semelhança, de alma estraçalhada e sem recursos para viver.

Estranha sensação dominou-lhe o íntimo. Num ímpeto, quase incontrolável, que lhe vinha do âmago mais profundo dos sentimentos, chamou uma serva da casa e encarninhou-a a Maria Leonor mandando ajuda em dinheiro e palavras de conforto, com que desejava alentá-la.

Sentia-se responsável pela sua e pela vida do netinho inocente, a iniciar a jomaaa sob augúrios tão funestos.

Ao sepultamento do madeireiro acorreu a cidade, lamentando-o, enquanto o ignóbil suspeito de homicídio somente inspirou revolta e asco...

Naquela noite fria, o salão de Madame Poliana não se abriu à clientela. Aliás, naquela situação, sob o choque dos episódios rudes, não havia clientes para a casa onde se homiziara o assassino.

Os sombrios acontecimentos que provocaram as realidades dolorosas ficariam inscritos como página negra na história da cidadezinha de M., que despontava para a prosperidade...

 

                     DIA NOVO DE REDENÇÃO

A inexorabilidade do tempo, que transforma as coisas, modela a pedra e estrutura a vida, na condição de instrumento de Deus, se encarregou, no suceder das horas, de acalmar os ânimos, lentamente forcejando a rotina naquelas criaturas, inobstante as chagas abertas a purularem. . .

A acrimônia surda com que algumas pessoas censuravam Madame Poliana e o seu bordel espocou, em pleno fragor dos delitos, quando o sacerdote, no sermão domingueiro, invectivou contra a conduta corrupta dos seus pa- roquianos, profligando asperamente a situação e asseverando, anti-evangélico, que tudo não passava de um castigo divino, recurso drástico do Pai Criador a fim de punir a luxúria, | perversão das pessoas licenciosas.

Arrematando a catilinária, algo estentórico, ameaçou os frequentadores da Casa de pecado, e propôs:

— Expulsemos desta Cidade respeitável a moralmente ulcerada pecadora.

“O Senhor abate, implacável, os que O desagradam, como fez a Caim... Exijamos providências das autoridades, quanto antes, de modo que não venhamos a pagar maior soma cie sofrimentos que a nossa incúria e conivência com o Demônio nas suas astúcias, nos imponha.

“Ê perfeitamente perdoável perseguir os maus, dependendo das condições, até mesmo justiçá-los. (Era uma indireta furibunda contra o infeliz Domênico, afinal, um quase ladrão.)

“O verdadeiro religioso detesta a corrupção dos sentidos e os seus fomicadores. Imperioso, portanto, que nos rebelemos contra a treva e ateemos o incêndio da nossa sagrada revolta, pondo em fuga os portadores do pecado ...”

O verbalismo contundente e anticristão insuflava ódios em relação a quem se deveria oferecer piedade e amor; estimulava a violência nos espíritos fracos, que poderiam receber orientação e medicamento para a paz...

Ao religioso não ocorria atender a pecadora, liberando-a do pecado como fez Jesus; socorrer a doente e eliminar as causas geratrizes da doença; amparar a desordenada moral e corrigir a desordem, pois que é fácil e cômodo arremeter contra os caídos, os infelizes, antes que os amparar, mudando-lhes ou os auxiliando a mudarem o rumo da existência, fazendo cessar os efeitos perniciosos dos males que os vergastam e perturbam.

Os problemas morais são de profundidade, por dizerem respeito ao espírito antes que ao corpo, exigindo cuidados, terapêutica especial, a fim de os erradicar nas causas latentes, que procedem dos acumpliciamentos pretéritos da alma enferma, em processo reencarnatório de reeducação para a liberdade.

Aquela comunidade, genericamente de poucas luzes intelectuais, ao invés de sair do culto religioso pacificada, confiante na esperança do reino dos Céus, apartou-se do templo traumatizada, remoendo animosidades e cultivando pessimismo com atitude profundamente negativa, em relação ao ensino do Evangelho.

Sabendo-se sob a alça-de-mira do perigo que a ameaçava, Madame Poliana conferenciou com a sua troupe, organizou seus pertences e, sem maiores alardes, transferiu-se para o norte do Estado, onde as lavouras do café atraíam pessoas probas e aficionadas do prazer, da aventura. Nômade pelo exercício da vida amarga, adaptava-se às ocorrências a fim de sobrenadar no mar das vicissitudes, quase por instinto.

Os filhos do Sr. Edmundo Matoso concordaram em que D. Lídia deveria trasladar-se para a Capital, deixando os negócios entregues ao Gerente da firma, transitoriamente, até que novas providências mudassem os rumos dos acontecimentos.

  • Ali — argumentaram com a mãe desolada, incapaz de qualquer reação pelo estado que lhe abatera o ânimo —, tudo eram recordações dolorosas e angústias.

“Os netos — asseverou André — diminuir-lhe-iam as saudades, alegrando-a, com as suas azáfamas e brincadeiras infantis. Além disso, o aconchego e os cuidados dos demais familiares, não podendo apagar a amarga memória ou superar as preciosas perdas, minimizariam as supremas amarguras.”

A sofrida senhora aquiesceu, por ser esta a medida recomendável para o momento.

A mágoa, por deixar o filho demente, encarcerado, foi apresentada ao filho que a confortou, elucidando:

  • Tentarei removê-lo para o Manicômio Judicial, já que ele nem sequer será julgado. Em casos que tais, o processo corre à sua revelia, embora seja nomeado um Curador .. . E como não temos interesse em descobrir os culpados, já punidos, não haverá dificuldade. Talvez, um dia, ele recobre a saúde e venhamos a decifrar este tormentoso enigma que destruiu duas vidas e nos martiriza.

O alvitre fora judicioso, com o que a venerável senhora concordou.


  • Desejava, todavia — confidenciou ao filho, Dona Lídia —, ter uma conversa com a esposa dele... Ela é esposa sem culpa e eu não a conheço nem ao meu neto...
  • Mas, mamãe — redarguiu André —, receber essa mulher em nossa Casa? Isto será um novo escândalo. De minha parte, não a desejo conhecer, nem tão-pouco ao rebento indigitado.
  • Filho, este é um momento de perdão, de vida nova. Se o meu Edmundo houvesse agido diferentemente, talvez, neste momento, as ocorrências fossem outras.

Depois de uma breve reflexão, aditou:

  • Maria Leonor, que eu saiba, até hoje mantém-se digna, na sua pobreza resignada e numa conduta reta. Ser esposa de Domênico não deve ser-lhe uma fácil tarefa, ainda mais nas condições atuais. Apiado-me dela... Instei com seu pai pelo abrandamento da decisão sem alcançar resultados. Já que o momento é diferente, façamos as coisas corretamente, não acha?
  • Está bem, se é assim que você deseja. Pessoalmente, é verdade, nada tenho contra a aventureira.
  • Não diga assim, meu filho. Que tem lucrado com o casamento, além de amargura, vergonha e dor? Maria Leonor me inspira simpatia e piedade.

“Vá buscá-la, você mesmo, no seu automóvel... Persuada-a a vir aqui, pois que se se negar...”

  • Você não irá lá.
  • Então, traga-a.
  • Não sei onde mora. Como encontrá-la?
  • Isto não será problema. Mandarei alguém com você.

Maria Leonor recebera a serva da sogra com gentileza,

na sua humildade e dor sem conforto. Ficara muito reconhecida pelo auxílio financeiro para aqueles dias difíceis e pelo apoio moral. Desdobrara-se em expressões de reconhecimento que a serviçal transmitiu à ama com riqueza de detalhes, sem esquecer de referir-se ao seu debilitado estado de saúde e à quase superlativa pobreza do lar, ao encanto de Almiro, rosado e de olhos garços como o pai...

Na noite de penas que abatia a avó, as noticias do pequerrucho a sensibilizaram, a par das informações concernentes à jovem nora.

Sucede que o amor produz milagre em qualquer lugar e situação. Quando se ama é mais fácil vencer as vicissitudes e até mesmo o sombrio “vale da morte” arrebenta-se em luz, onde flui a beleza da esperança falando de vida.

A partir desse momento Dona Lídia desejou um encontro com Maria Leonor e o netinho.

Uma semana após o hediondo assassinato, depois da celebração da Missa de Sétimo Dia, a instâncias da geni- tora, acompanhado pela servente que conhecia a casa humilde de Maria Leonor, André foi buscá-la.

Recebido pela cunhada, emocionou-se. Não podia imaginar um quadro tão comovedor. Pálida e descarnada, apresentando algumas articulações inflamadas, Maria Leonor era o protótipo do sofrimento sem queixa. Frágil e desgastada pela penúria, pelos trabalhos e provações, conservava os olhos negros e uma certa graça provinciana, porém pura, quase angelical.

— Venho em nome de mamãe — apresentou-se com delicadeza —, convidá-la a ir até nossa casa, o que nos dará muito prazer a todos.

Maria Leonor, que já conhecia a acompanhante, que ali estivera em duas vezes outras diferentes, ficou estática pela surpresa.

Tentando recuperar a calma e agradecida, escusou-se, explicando:

— Ando muito doente, mesmo antes... antes de tudo isto... Encontro-me também em gestação, correndo o risco

de perder a criança, face às últimas emoções. Agradeço muito à nobre e generosa senhora sua mãe. Nunca me esquecerei deste momento, Sr. André.

A voz doce e assinalada por incoercível melancolia, parecia uma música triste, sofrida, que chegasse de longe.

O interlocutor segurou-lhe as mãos, que estavam frias, e, compungido honestamente, indagou-lhe:

  • Você nos pode perdoar? Por favor, venha. Será por pouco tempo. .. Mamãe está mudando-se daqui e não deseja fazê-lo antes de a conhecer. Dê-nos esta oportunidade ... a que lhe não concedemos.
  • Não diga assim. Os senhores sempre foram pessoas nobres e tinham suas justas razões. Nada tenho que perdoar, porque nunca tive pela famOia do meu marido outros sentimentos, que não fossem simpatia, amizade e compreensão.
  • Então, venha conosco. Traga o filhinho.
  • Não podemos ir... O dia está muito frio, e... não temos roupa própria para uma ocasião desta.

Num gesto espontâneo o cunhado despiu o sobretudo, envolveu o corpo frágil e enfermo de Maria Leonor, pedindo à serviçal que agasalhasse a criança.

Envolvida pela onda de natural e elevado sentimento, quase desfalecendo, deixou-se conduzir.

Neste momento, Dona Arminda, atraída pelo veículo à porta, veio ver o de que se tratava, encarregando-se de guardar o lar singelo até o retomo da tutelada espiritual.

Quando André se adentrou pelo lar, conduzindo a cunhada, a genitora, que os aguardava, veio-lhes ao encontro com os braços abertos.

Marta, a servente, carregava a criança, que não estranhara a movimentação.

Estreitando-a com lágrimas e sentindo aquele corpo trêmulo e fraco, Dona Lídia não saberia dizer o tipo de emoção que a tomava. Era uma filha que retomava, desde há muito aguardada.

“Donde a conhecia? Por que demorara tanto em assumir aquela atitude?” — perguntava-se sem palavras.

Maria Leonor, sentindo esse calor humano que tanta falta faz ao coração, por pouco não foi vítima de uma síncope.

Percebendo-lhe o estado, a cunhada, igualmente penalizada, propôs que todos se sentassem, na sala-de-visitas, quebrando o impacto emocional do momento.

  • Minha filha — iniciou, comovida, a conversação, a anfitrioa — como você deve ter sofrido por todos estes meses, e agora, mais ainda! Ambas somos viúvas, embora de diferente forma... Eu perdi o esposo e o filho...
  • Não posso compreender ainda — respondeu a visitante, hesitando —, tudo isto que aconteceu. . Roberto Domênico, dias antes me informara que ia viajar para o norte, para tentar um trabalho, sabendo que eu espero o nosso segundo filho... E viajou... Não posso acreditar. É impossível! Ele nunca faria o de que o acusam.

“Tinha o vício que o consumia, no entanto, era de bons sentimentos, de índole generosa. Creio que os amava: ! senhora e ao pai. Do contrário, não beberia tanto, procurando esquecer, sabendo-se inútil. Por Deus, ele não é o que dizem. Pobre marido!”

  • Também eu assim penso — obtemperou a viúva. — Creio que ele foi vítima do outro, o que morreu. . .
  • Disseram-me que ele estava muito sujo de sangue, o que se tem explicado como sendo resultado de haver morto o estranho.
  • No entanto — interrompeu André —, sem desejar acusá-lo, a Polícia vê nisso uma agravante. Que eles te- riam morto papai e ele, na ambição de ficar com tudo, teria assassinado o comparsa...
  • Impossívell — reagiu, automaticamente, Maria Leo- nor. — Ele nunca faria uma coisa dessas, com esse propósito, nuncal
  • Não o estamos condenando — elucidou a genitora de Doménico —, apenas tentando clarear o problema. Esta tarefa não é nossa e não foi este o motivo porque desejei recebê-la e ao meu netinho.

A senhora tomou a criança no regaço e não pôde conter a emoção:

  • É o meu Robertinho outra vez... Como o recordo!

Ninou-o, mimoseando-o com pequenos objetos e, por

fim, explicou à nora:

  • Estou-me mudando, temporariamente. Aqui prosseguiría sofrendo sem necessidade. Ficarei com os filhos, distante destas terras que nos foram tão caras, a ele e a mim! Todavia, é a melhor solução para o momento.

"Desejo afiançar-lhe que é do meu desejo auxiliá-la durante estes dias e anos mais difíceis. Posteriormente, veremos o que se poderá fazer.”

  • Não se preocupe conosco, senhora — interceptou-a Maria Leonor. A verdade é que nossas despesas são mínimas e, embora um tanto alquebrada, exerço a profissão de costureira, donde retiro com honra o sustento do nosso lar.. . A estima da senhora nos basta e é uma grande força de estimulo para prosseguirmos na luta, até a saúde e comprovação da inocência de Roberto Doménico.
  • Permita-nos, minha filha — insistiu a Dama —, auxiliá-la com um pouco, já que isto não nos sobrecarregará. O mais importante perdemos, que era a vida de Edmundo. Tudo mais é de reduzido valor...
  • Aceite nossa afeição — interveio Zulma, que se mantinha calada. — Por favor, compreenda-nos e ajude-nos na reparação de um erro.

Maria Leonor não pôde dizer qualquer palavra, embargada pela emoção do momento feliz.

Conversaram algum tempo.

A sogra proporcionou-lhe algum agasalho, por sugestão do filho. Foram providenciados lã e cobertores para ela e a criança, alguns víveres, dinheiro. ..

À porta da saída, ao abraçá-la, Dona Lídia indagou, a meias palavras:

  • Já o viu?
  • Não, senhora. Está amarrado, conforme me falou D. Arminda, minha vizinha, que tentou visitá-lo e foi obs- tada, por encontrar-se, segundo lhe disseram, na prisão, “incomunicável”.
  • Louvado seja Deus! Até breve minha filha!
  • Deus vos recompense a todos!

Quando André deixou os parentes no humilde lar, en- contrava-se menos tenso, aliviado da responsabilidade, quase em paz.

Maria Leonor, dialogando com a parteira, não podia compreender a reviravolta.. . Tudo sucedera repentinamente e ela, atônita, não se dava conta dos novos sucessos.

  • Providência divina, minha filha! — pontificou a amiga. — Deus vela pelos seus filhos, principalmente os inocentes.

Conquanto o drama perdurasse cruciante em todos os partícipes, as atitudes novas criaram um clima de esperança prenúncios de paz.

A roda da vida continuava em ação.

Seis meses depois, Maria Leonor, que se mudara do casebre, a instância da família do esposo, para local mais salubre, tomava-se mãe pela segunda vez, dando ao filhi- nho varão o nome de Agenor.

Conforme se referira André, o processo correra normalmente. Roberto Domênico, tido como doente mental irrecuperável, foi transferido para o Manicômio Judiciário, na Capital.

A ascensão das almas após as quedas excruciantes é longa e penosa, num quadro de reeducação abençoada pela dor de largo porte. Todavia é necessário crescer, subindo a montanha da redenção sem receio nem protelamento.

Após a noite das atribulações surge o dia de bênçãos.

Era a Semana Santa de 1946.

 

                   UM LUSTRO DEPOIS...

Legalmente inimputável, o Ministério Público nomeou um Curador para zelar e responder por Roberto Domênico. A Promotoria Pública, no uso das suas atribuições e tendo em vista as circunstâncias e consequências do crime, concordou com os resultados do julgamento, após a competente tramitação do Inquérito Policial e o decorrente processo, não recorrendo da sentença do Merítíssimo Juiz, que condenara o pseudo parricida e carrasco do comparsa ao confinamento, no Manicômio Judiciário da Capital, para o indispensável tratamento da loucura, classificada como parafrenia...

Tendo em vista que as famílias dos extintos não reivindicavam outras punições ou exames mais profundos da desdita, o julgamento ocorreu sem alarde e o processo foi encerrado após a condenação do réu.

Roberto, lentamente, passou da alucinação e da agressividade, que exigia “camisa de força”, a um mutismo com consequente abatimento que o deixava prostrado num estado catatônico, doloroso.

A verdade é que, desde o momento em que tombara na urdidura da vindita dos Espíritos responsáveis por toda a tragédia, com os nervos em desordem e a consciência em tumulto, perdera os controles frágeis da personalidade enferma, caindo, visceralmente, em profundo estado de subjugação.

Pela tela mental, agora sob estranho comando, descortinava cenas cruéis de espezinhamento e rapina, de agressão e morte em flagrante desrespeito à pessoa humana, que desenvolvera no passado. A instância dos espetáculos deprimentes levava-o à alucinação sem que se pudesse evadir da casa mental desorganizada. Simultaneamente, sentia-se ora algoz, responsável pelos trucidamentos, ora vitima das maquinações de que era objeto nas fortes garras dos seus atuais perseguidores.

A linha do equilíbrio mental é muito sensível e oscilante, variando de pessoa a pessoa.

Uma das maiores dificuldades dos modernos estudiosos da psique humana diz respeito à colocação da linha da normalidade mental. O conceito clássico de que saúde é ausência de doença, vem seqdo vigorosamente combatido, em se considerando o que seja doença. No contexto da Psiquiatria atual, a simples mágoa pode ser classificada como um fator psicopatológico, gerador de distúrbios de profundidade no comportamento do homem, em realidade, uma forma de doença. No sentido mais lato da conceitua- ção e em face das estatísticas, os “sãos” seriam uma colônia minoritária, um pequeno paraíso, onde a individualidade possuísse uma plasticidade tão maleável que eximisse o sadio de qualquer dos característicos nóxios básicos. Em tal configuração, a débil e oscilante linha da normalidade mental seria fiou, sem contornos, de difícil identificação.

Desse modo, definir o indivíduo normal, diferentemente do psicopatológico constitui grave dificuldade.

Alguns consideram como "anormal a pessoa que se comporta de maneira diversa dos outros indivíduos, sucedendo com essa titude despertar a atenção.” Ora, dentTO desta colocação, o fato de dois indivíduos serem sociologicamente situados em meios culturais diversos daquele em que formaram o seu comportamento, toma-os diferentes do grupo, despertando atenção, sem qualquer comprometimento da sua personalidade. Logo, o conceito carece de profundidade.

Outros estudiosos afirmam que “normal é o indivíduo equilibrado e perfeitamente ajustado no grupo ou meio social onde vive”. Todavia, se examinarmos o indivíduo entrosado ou ajustado ao seu meio em relação com o acomodado ou displicente, que não reage aos fatores mesológicos, teremos um homem psicologicamente vencido, o que não é sinal de normalidade desde que o “reacionário” ou “insatisfeito” é que promove o progresso, impulsionando a ética à atualização dos seus padrões morais, ao mesmo tempo fomentando o equilíbrio no estudo dos comportamentos, constituindo-se protótipos, modelos.

Digamos então, que o louco é o indivíduo possuidor de comportamento especial temporário (exceção aos portadores das alienações graves, dos distúrbios psicossomáticos, de desajustes funcionais promovidos pela micro, macro, hidro- cefalia, mongolismo, sequelas da epilepsia, de excepcionali- dade e outros ) em certas ocasiões, passível de mudança para o equilíbrio sob certas condições terapêuticas ou não.

Hipócrates, no período greco-romano, foi quem primeiro se interessou por aprofundar a questão da terapia para com os loucos, ao deter-se na “doutrina dos humores”. Das suas observações e estudos às modernas conquistas no campo das ciências psíquicas vai um pego.

Os golpes violentos contra os sensores cerebrais, as cenas torpes fixadas, os gravâmes dissolventes da razão, a incidência da ideia má que sobrepuja e domina a boa terminam por desorganizar o equilíbrio psicossomático do ser, empurrando-o aos estados psicopatológicos de vasta complexidade, no campo da emoção.

Essa foi a técnica utilizada pelos verdugos de Domêni- co, até exaurir-lhe as resistências orgânicas, o que conseguiram a prazo calculado, quando tombou na total indiferença, no nefando estupor. Semidesdobrado do corpo, por um natural processo de dilatação dos liâmes períspirituais que o prendiam à matéria, passou a ter vida mais espiritual intema, num estrugir de lutas hercúleas com os seus antagonistas, do que a participar do mundo exterior através dos registros sensoríais, o que o conduzia, literalmente a la folie[13]... '*

À época, não obstante a terapêutica psiquiátrica estivesse em franco progresso, principalmente o conhecimento neurológico, o tratamento habitual, inda mais nos Manicômios Judiciários superlotados, era o da convulsoterapia pela insulina, pelo eletrochoque, sistemáticos, indistintamente...

Não nos cabe o direito de considerar a validade ou examinar os danos de tal terapêutica... Os estudiosos modernos dos problemas psicopatológicos profligam os excessos e até mesmo a aplicação do eletrochoque como da insulina, tendo em vista os danos, às vezes irreparáveis, que se dão nas engrenagens do cérebro humano. Sem embargo, substituem este procedimento pelo abuso da utilização das drogas e das substâncias aditivas que hebetam os pacientes, cujos resultados duvidosos vêm merecendo acerbas críticas dos denominados psiquiatras-antipsiquiatras, que recorrem a processos psico-sociológicos e de outras classes para colima- rem os resultados almejados no tratamento dos seus pacientes.

Roberto Domènico, como seria de esperar-se, classificado como parafrênico, foi submetido ao eletrochoque, simples e sumariamente, passando largos períodos sob o aturdimento da terapêutica, impossibilitado de contatos lúcidos com o mundo exterior.

Lentamente ficou dementado, na condição de “incurável”, enquanto transitava pelos dédalos sombrios das remi- niscéncias das ações nefastas do passado próximo e remoto dos gravâmes complexos.

Os seus inditosos verdugos, diga-se en passant, não desejavam extinguir-lhe a vida de momento, no infeliz desforço empreendido, desde que muito conscientes das possibilidades obsessivas em que eram azes, preferiam cleperecê-lo, obrigá-lo a tragar ácidos e fezes, em longa expiação punitiva, com que, desastradamente, se permitiam fazer justiça, qual se a vida transcorresse em caos e as soberanas leis padecessem de tempestades que deixem o homem à matroca...

Dona Maria Leonor, agora residindo em modesta “casa de material”, que lhe ofertara a sogra como parte da herança que, pelo impositivo da Lei pertencia ao esposo, então no cárcere, acompanhou, sucessivamente, o desenrolar de outras dores surpreendentes. . .

Após o torpe latrocínio e cessadas as crueis impressões da tragédia, nasceu-lhe o segundo filho, Agenor, graças à providencial assistência de D. Arminda a quem convidara para residir na próspera cidade para onde transferira o domicílio. Na anterior, tudo lhe eram sofridas recordações, que contribuíam para seu maior padecimento. Com extremo espírito de humildade e de renúncia, característica, aliás, das almas enobrecidas pela dor, a sogra anuira, respeitando-lhe os sentimentos.

A seu turno, os filhos de Dona Lídia procuraram diminuir a lacuna deixada pela ausência do senhor Matoso na sensibilidade da viúva, cercando-a de carinho, de devota- mento.

Os negócios da Serraria e Madeireira ficaram entregues ao antigo Gerente, até que se decidisse a partilha dos bens


c qual seria o destino a ser dado à Empresa. Ulteriormente, à medida em que se regularizavam os trâmites da fortuna, inorosamente, se pôde constatar que o patrimônio vinha sendo dilapidado pela usura e descalabro moral do funcionário encarregado, o que resultou em novo desastroso escândalo com consequente pTocesso-crime contra o servidor inescrupuloso.. .

Não obstante, foi determinada uma pequena quota mensal para Dona Leonor e seus filhos menores, com que se permitia uma existência modesta, digna, facultando-lhe receber assistência médica correspondente ao seu estado de saúde em delicado processo de paulatina imobilização. As mãos assinalavam as primeiras deformações e as articulações dos membros inferiores se apresentavam doloridas, com visíveis sinais de degeneração.

As quadras hibernal e estivai eram-lhe maceradoras... O frio funcionava como punhais cravados nas junções ósseas, nos nervos; o calor tomava-se-lhe quase insuportável.

Os impositivos das superiores determinações da vida, que regem o Universo, não permitem que os infratores dos seus códigos soberanos fiquem impunes, mesmo quando olvidados dos gravâmes e delitos perpetrados. Não utilizando necessariamente de pessoas ou circunstâncias para a regularização e reeducação do delinquente, com que imporia a indispensabilidade de novo responsável, possui recursos hábeis para que se possam reparar os enganos e corrigir os crimes praticados mediante o expungir seguro, o excruciar-se, sublimando as más tendências e vencendo as inclinações delituosas, com o que o espírito se ala nas viagens de ascensão aos páramos da luz.

Sem mais rodeios asseveremos que a enferma, moralmente vencida, se regenerava sob o estrugir das fortes vergastadas do sofrimento, reparando vis delitos transatos e reeducando-se na bigorna dos padecimentos sob os malhos da aflição, a fim de recompor as desorganizadas paisagens morais da alma, trabalhando o solo dos sentimentos onde refloresceriam a esperança, a paz e a felicidade perdidas desde há muito...

Bendita Dor!

Sob as tuas eonstrições fortes e ao impositivo do teu látego, buriladora das arestas e modeladora das formas, trans- mudas o diamante bruto, que é o espírito imperfeito, em lucífera estrela na noite das paixões numanas, apontando rumos!

Por todas injunções de santificação que propões aos cal- cetas, que outra voz ou diferente metodologia não escutariam, conforme não ouvem as santas e formosas convocações do amor ao exercício do bem; pelas incontáveis interferências que operas positivamente no abismo dos seres, concitando-os I elevação e à plenitude; pela presença vigorosa e indispensável com que, operária paciente da evolução, do inadiável progresso, logras; pela insuperável lição de perseverança no burilamento do ser espiritual, amiga e benfeitora excelente, precursora das virtudes dos anjos, desde que, após a tua passagem, seguindo-te as pegadas, transitam e se instalam as expressões de equidade, de justiça, de beneficência e amor, de caridade e perdão; pelo que realizas, incompreendida e perseverante, eu te louvo, irmã dos desafortunados!

Infortunados, sim, aqueles que marcham desavisados, correndo na alucinada consunção dos ideais de enobreci- mento com que exaurem a vida, aturdidos e extenuados, transformados em verdugos alheios, sicários de si mesmos...

No entanto, aqueles que experimentam o salgado paladar das lágrimas com resignação; o trucidar das alegrias com esperança; o impositivo da renúncia com humildade; o extenuar das ambições com fé no futuro; o desconectar das ilusões materiais com certezas íntimas de venturas espirituais; os esquecidos pelo olhar do mundo, mas não olvidados por Deus, os vencidos nas refregas ordinárias dos destaques e das glórias vãs, todavia fortalecidos na fé; os que se viram se vêem espezinhados, caminhando em soledade e com os sentimentos asfixiados sem desanimarem; os que não encontram amigos nem compreensão entre os seus — eis os afortunados do Senhor, porque se repletarão de alegrias e se refarão após as longas e exaustivas fadigas da evolução.

És tu que inspiras os artistas, facultando que eles arranquem da pedra bruta a beleza; da argila asquerosa a forma; das tintas esparsas a cor harmônica; das notas separadas a magia sinfônica; das palavras sem sentido o poema, o discurso, a página rutilante; da soledade o estoicismo; da renúncia a abnegação; da confiança a fé...

Elaboras o sacrifício e engrandeces os humildes; plasmas o ideal e vitalizas a ação; incansável operária do amor, és a segurança dos fracos que se fortalecem e a missionária que os brutos dulcificas.

Que seria do homem sem o teu concurso e do progresso sem a tua presença?

O gênio, o santo, o artista, o homem de ciência e de pensamento, o eremita e o dinâmico, o camponês e o cita- dino todos te conhecem, reprochando-te, às vezes, e, às vezes, bendizendo-te o nome.

A verdade é que ninguém te ignora ou te dispensa no afã incessante de produzir, promovendo a vida e a vida dignificando.

Dor-irmã, Dor-educadora, Dor-anônima, Deus te ajude na indeclinável tarefa de conduzir as criaturas no rumo da Vida Abundante!

Um lustro é pouco tempo e são muitos anos na estruturação dos destinos. Esse tecelão implacável da vida, que é o tempo, deixara feridas abertas nos corações e as que pareciam cicatrizadas, facilmente voltavam a ulcerar-se em face de qualquer novo acontecimento.

A cidade de P. dormitava em longa modorra por esta ocasião. Os empreendimentos industriais ainda não lhe haviam chegado e, embora a vasta presença de imigrantes europeus, estes mais se dedicavam à agricultura, não impulsionando necessariamente a comunidade ao progresso.

A política local, escravizada ao então vigente padrão do coronelismo, defraudava as aspirações do povo, desde que o poder se detinha praticamente nas mesmas mãos em conciliábulos funestos para o bem geral, já que os haveres e posses transitavam sempre pelos seus membros habituais.

Quando a fortuna se detém sob as rédeas da cobiça, a miséria galopa infrene, ao redor.

Alguns poucos administradores e hábeis avaros negociantes somavam estipêndios e recursos vultosos, impossibilitando tentativas alienígenas, em face de se haverem tomado os membros-donos da comunidade.

Embora fadada a grande arrancada para o desenvolvimento, essa marcha, somente mais tarde seria encetada ao impositivo do avanço tecnológico do país e, também, porque se pode retardar o progresso de um povo nunca, porém, impedi-lo. Ninguém detém o amanhecer!

O bairro onde residiam Dona Leonor e sua amiga se assinalava pela pobreza. Os problemas sociais nas grandes cidades, criam seus guetos miseráveis em meio aos núcleos centrais, onde as necessidades estorcegam suas vítimas e as trituram até exaurir-lhes a esperança. . . Nas cidades médias, aglutinam, nas regiões periféricas das urbes, os seus membros em lugubres casebres — que não são raros nas agitadas metrópoles da atualidade, em forma de favelas, que são as “cidades da vergonha” dentro das cidades do poder e da indiferença — onde a escassez de tudo confraterniza, de certo modo, com a inoperância e a indiferença dos que aí sobrevivem.

Ao tempo desta narrativa, os conglomerados humanos menos populosos, ainda não haviam estrugido nas tremendas dificuldades sócio-econômico-morais da atualidade, que se agravam em forma de agressividade e violência pelos lo-


gradouros públicos e redutos privados do mundo, rebaixando a criatura humana às suas antigas expressões primeiras da "struggle for Ufe[14]” aqui no sentido da sobrevivência do espécime mais forte sobre o mais fraco.

A vida nas megalópolis transformou-se em razão disso, num mergulho-aventura na selva onde os homens, atônitos, se entredevoram, anulando as conquistas do conhecimento pelo desprezá-las. A utopia supera a realidade e a fantasia desregrada substitui os cometimentos enobrecidos.

No grupo social onde Dona Maria Leonor se sediava, a sua era das pouquíssimas “casas de material”, destacando-a dos casebres de madeira barata e frágil.

Entre os problemas que avultavam no bairro, os de saúde e higiene não ficavam à margem. A “délivrance” das gestantes pobres, que não eram poucas, recebia de D. Arminda assistência fraterna e dedicada, compensada com migalhas, mais com a gratidão humana dos sofredores locais.

Auxiliando-a, quando se tratava de problema mais grave, a esposa de Roberto Domênico, apesar das dores que lhe causavam as movimentações, foi adicionando à arte aa costura o conhecimento prático da obstetrícia empírica.

Seu espírito valoroso aí encontraria um leitmotiv[15] para diminuir os sofrimentos ásperos e crescer no bem auxiliando o próximo, enquanto se superava a si mesma. Afinal, a dor que nos punge, melhor nos ensina a avaliar a extensão da alheia dor e nos impele a contribuir para sua diminuição, já que somos membros do mesmo organismo da aflição geral. Quando a melhoramos em alguém, em nós próprios ela se torna mais suportável.

A psicologia dos que sofrem sob o amparo da fé cristã, estimulados pela confiança em Deus e a resignação dessa confiança decorrente, é solidária aos demais seres que lhe compartem a vida ou de cuja vida se fazem apoio.


Oona Maria Leonor. dulcificada pelos problemas suces- sivos, far-se-ia irmã da desdita do seu próximo, avançando pela senda da ascensão.

Amanhecia em plena noite de parcas estrelas para a nossa personagem.

 

                   CECÍLIA, MÁRTIR E MENTORA

Adquirindo experiências valiosas, no dia-a-dia da existência, Dona Maria Leonor, por não admitir a filosofia de viver em sens dessus dessous[16] conforme a recomendação médica de impor-se repouso, evitando excessos que mortifi- cariam o seu organismo debilitado, foi acometida de rude pneumonia.

A gravidade da doença ameaçava roubar-lhe a vida a cada momento, fazendo-a delirar na exacerbação da febre e sofrer no intercurso das quedas bruscas de temperatura. Não obstante a assistência médica utilizando-se dos precários recursos competentes da época, a paciente se debilitava a olhos vistos.

A boa amiga Arminda, desdobrando-se em atendê-la e às duas crianças, contava com a ajuda espontânea dos vizinhos a quem tanto beneficiava com a prodigalidade do seu amor fraternal.

Solidariedade dos humildes! Enquanto escasseiam os haveres amoedados nas arcas dos seus corações, multiplicam-se neles os tesouros do devotamento com que repartem auxílios, que são mais preciosos do que os valores que adquirem coisas sem conquistarem realmente a afeição e o carinho.

Esse contributo não faltou às duas senhoras, no bairro onde residiam.

A terapêutica utilizada, de forma alguma encontrava resposta orgânica. Ela compreendeu a singularidade da hora, deixando-se aturdir pelo receio da morte, prevendo o destino das crianças arrojadas à orfandade e anelava por expressar à amiga todo o tumulto dos sentimentos que a avassalavam.

A debilidade das forças e os estertores produzidos pela moléstia, a forte dispneia impediam-na de exteriorizar os desejos, apesar da total lucidez do espírito. Ante o desespero que se lhe avizinhava, ameaçador, recordou-se do lenitivo da oração e embrenhou-se pela senda luminosa da prece, vencendo, a princípio, a escuridão das dificuldades.

Infelizmente, para muitas pessoas, a oração é um despropositado recitativo de palavras sonoras, destituídas de qualquer significação para a criatura.

Organizada por mentes mais intelectualizadas, a prece, geralmente, não responde em conteúdo emocional nem em compreensão das necessidade do ser.

Por isso que, na sua expressiva totalidade, a oração deve ser espontânea, para que produza sintonia entre quem busca a paz e a fonte geradora da harmonia. Sendo apenas uma fórmula esvaziada de significação pessoal, não corresponde aos anseios do sentimento nem às necessidades da mente.

A oração é o mecanismo-ponte que une a criatura ao seu Criador através do infinito abismo da evolução. Constitui recurso sem palavras, em que o homem se libera das paixões, esquecendo-se da trivialidade para agigantar-se, enriquecendo-se de valores de alto porte.

Sendo o homem um transceptor, sua mente tanto recebe como emite raios e vibrações, ondas e ideias que se irradiam na direção dos fulcros nos quais fixam os seus interesses, dali recebendo as respostas compatíveis com os desejos, a intensidade do apelo e a coordenada mental.

Justo, portanto, como apregoou Jesus, que se dê a “cada um conforme as suas obras”, já que o problema da sintonia resulta da vinculação que se prefira, na mesma faixa hau- rindo o que se vitaliza. Todavia, não considerando as deficiências do orante, os Centros de Registros e Avaliação das rogativas humanas, espalhados pelas Províncias próximas da Terra, recebem as solicitações que até ali chegam, consideram a urgência e a significação das mesmas, respondendo conforme as circunstâncias e as vantagens de profundidade eterna para o ser, mediante o dulcificar, o lenir da angústia, a esperança, a renovação do apelante, o intercâmbio psíquico com as mentes generosas e sublimes em nome da providencial misericórdia de acréscimo do Pai, que a todos e a tudo vitaliza, socorre e sustenta.

É certo, que nem sempre são atendidos os apelos consoante as formulações enviadas, desde que, na infância espiritual da vida, genericamente os homens somente conhecem o que os interessa do ponto de vista egoístico e atender-lhes as súplicas vasadas nas questiúnculas da mesquinhez, seria dilatar-lhes a ignorância atual para uma aflição mais demorada neles mesmos, posteriormente...

O ato de orar é um conúbio de amor.

O espírito que ora emite vibrações teledinâmicas que se dirigem à máxima Entidade do Universo e retomam carregadas de peso específico, nele penetrando com vigor e dominando-o.

O grande benefício da oração se patenteia no momento mesmo da prece, pelo soerguer-se da situação penosa e aflitiva, a fim de planar-se nas ondas benéficas, reconfortantes do pensamento otimista, que passa a receber inspiração conforto e apoio.

Condicionados negativamente, os homens oram vez que outra, apenas quando açodados por problemas, distantes do hábito de comungar com as forças vivas e pulsantes da Vida.

Nesses momentos, a mente desajustada não ora, antes reclama, exige, desconserta-se mais, vitimada pela irritação, pela ansiedade, em detrimento das necessárias condições para o êxito, tais como: confiança, amor, submissão à vontade superior.

A oração é fonte de inexauríveis recursos, cuja ação se desenvolve em tomo daquele que os busca.

Quem prefere o regato cristalino para o banho se renova e asseia com a linfa reconfortante.

Orar é banhar-se de luz.

A vibração da mente em oração sincroniza com as ondas teledinâmicas do Mundo Espiritual Superior, articulando benefícios insuspeitáveís quanto atraindo atenção e interesse dos Espíritos encarregados do equilíbrio na Terra.

O sintonizar com as ondas do bem produz benefícios físio-psicossomáticos surpreendentes, desde que a ideia mental, geradora da prece, se mantenha em frequência constante e intensidade harmônica, do que resultam mudança de psicosfera e aquisição de forças específicas próprias para a vida humana.

Ainda não tem sido valorizada a oração nem colocada no seu devido significado, mesmo entre os religiosos.

Não se trata de “orar muito”, mas de orar bem, despojando-se a criatura da arrogância e da presunção para, desnudado de ambições pueris, anelar pelo equilíbrio ante as leis do amor universal.

A prece propicia resultados imunológicos e profiláticos, quanto terapêuticos por harmonizar o tom vibratório do indivíduo, impedindo o contágio de bactérias perniciosas, de

gérmens deletérios que náo encontram campo para a erupção dos males que propiciam, como gerando uma aura de energia específica que envolve o homem, constituída de vibrações especiais próprias para rechaçar as “formas-pensa- mento”, os “vibriões-mentais”, as “larvas-psíquicas”, ao mesmo tempo em que revitaliza o metabolismo, no peris- pírito, rearmonizando o campo das moléculas, no que redunda em ação salutar.

A oração harmoniza o ambiente onde se manifesta e é exercida, criando uma psicosfera balsâmica, agradável, calmante.

Orar é inundar-se de forças poderosas do mundo invisível para atuar com segurança no mundo das formas visíveis.

  1. Maria Leonor deixou-se arrastar pela blandícia da prece, mergulhando no oceano vibratório da serenidade.

A temperatura febril amainou, a constrição respiratória diminuiu, ela desdobrou-se em espírito, liberando-se parcialmente do casulo carnal.

Sentiu-se leve, tranquila, fruindo uma sensação de bem- -estar que há muito tempo não experimentava. Cria estar flutuando, tão agradavelmente se sentia, sem o impositivo do corpo sofrido.

Não se dera conta da realidade nova, quando percebeu presença de uma personalidade portadora de beleza indescritível.

Jovem e bela, a Entidade espiritual fazia-se aureolar de intensa luminosidade que, no entanto, não perturbava a visão, antes a beneficiava.

O rosto perfeito, rico de juventude, parecia traduzir, no sorriso franco, a plenitude da felicidade. Os cabelos ane- lados e negros caíam-lhe gráceis sobre os ombros e a túnica alvinitente, dava a impressão de tecida com miríades de pequeninas estrelas.

Um aroma balsàmico perpassava, enquanto suave melodia em back groutul[17] inundava de sons harmônicos I ambiente ditoso.

A luminosa aparição distendeu os braços num gesto de doçura. Antes, porém, de qualquer exteriorização, Dona Maria Leonor, recordando-se das oleografias religiosas, subitamente dominada por superlativa emoção, arrojou-se ao solo, exclamando:

  • Mãe de Deus! (Recorde-se que a esposa de Domê- nico era católica, vinculada aos dogmas romanos, com informações incorretas, qual a de que Maria seria a mãe de Deus, decorrência natural da afirmação errônea de serem Deus e Jesus uma mesma pessoa, conforme a lenda do “Mistério da Santissima Trindade”.)

As lágrimas abundantes transbordavam pelas comportas dos olhos. Automaticamente cerrou-os na sua humildade, não se considerando digna de contemplar a face da Santíssima. Experimentava desconhecida felicidade e estranho desconectar de todas as fibras sensíveis da alma.

A venerável Entidade acercou-se e, envolvendo-a em gesto incomum de ternura ergueu-a, esclarecendo :

  • Não sou K sublime Senhora, a mãe do nosso Salvador. Sou, somente, tua irmã!

Fez uma pausa natural, para logo prosseguir:

  • Tuas preces têm sido ouvidas pelo Senhor das nossas vidas, e venho, em seu nome, auxiliar-te a prosseguir na jornada redentora, sem desfalecimento nem receio.

A visitante espiritual abraçou carinhosamente a enferma e sentou-se, auxiliando-a a fazer o mesmo.

Nessas esferas vibratórias que se interpenetram, dentro e fora da estrutura terrestre a realidade suplanta a fantasia. ..

Como se houvesse acontecido um toque mágico, o local se metamorfoseou, transformando-se num recinto em plena mãe natureza, em festivo amanhecer.

Uma pérgula de feitio romano, adornada de roseiras- -trepadeiras em flor, ao lado de um córrego cantante, fazia a tela paisagística da qual a gramínea verde e o amanhecer longínquo do Astro-rei se tomavam moldura de infinita beleza.

  • Quem sois, então, anjo de Deus?! — interrogou, timidamente, a sofrida senhora.
  • Ainda não me posso permitir a felicidade dos anjos — redarguiu, doce e afável —, desde que muito me falta em crescimento para lograr a posição de eleita. Chama-me, apenas, Cecília... Sou tua irmã de antigas lutas, companheira de experiências redentoras.
  1. Maria Leonor recordou-se do culto que dedicava a Santa Cecília, evocando a pintura da antiga mártir, conforme a concepção de algum desconhecido artista do passado. Animada ante a evocação, arguiu:
  • Sois a Santa mártir, protetora da música e dos artistas?[18]
  • A santificação, minha irmã — elucidou, paciente —, é patrimônio dos justos e herois da abnegação, excepcionais virtudes de que não me

Dando mais ênfase às palavras, prosseguiu:

  • Sim, nasci, vivi e morri em Roma, fascinada por Jesus que, desde então, passou a abrasar-me a vida. Isto, porém, ficará para falarmos depois, em oportunidade prépria . . .

Dando curso diferente à conversação, elucidou •.

  • Somos uma única família espiritual procedente da paternidade divina, vinculados por profundos liâmes do amor que nos gerou. Diferenciados pelas conquistas morais, que nos assinalam a marcha evolutiva, crescemos identificados ao ideal comum, que é a fatalidade do bem geral que nos está destinado.

“A vida é única e indestrutível, em cujo desdobramento o berço e o túmulo constituem marcos transitórios, acessos de entrada e de saída do corpo, antecedendo e sucedendo a ambos. Em consequência, na sua perpetuidade espiritual, o ser experimenta fases de liberdade, na sua condição original — como Espírito — e períodos de aprendizagem ou de reeducação — no corpo físico —. De acordo com o comportamento em cada período humano, corporal — processo das reencarnações —, terá abreviados ou alongados, pela repetição disciplinante, os estágios físicos. Se aceita o impositivo da conjuntura orgânica, usufruindo as lições de amor e sabedoria que lhe são facultadas, no mister fraternal, tem diminuídas as expiações e provações, passando à condição de espírito puro, sem necessidade de novos renascimentos.

Se desajustado ou rebelde, conforme o gravame perpetrado, retorna à liça em provação liberadora — qual estudante em recuperação dos valores da aprendizagem, em clima de relativa liberdade, com franquia de escolha, discernimento e possibilidade de ação pessoal —, se, todavia, perdido em si mesmo, sob pesada carga de delitos repetidos e graves, vem expungir em dolorosas expiações — qual criminoso revel, tornado galé sob o látego de forte sofrimento, mediante o qual se depura e se renova.

Dona Maria Leonor ouvia “com o coração”, tocada nas fibras mais sensíveis da personalidade dócil. Apesar de ser a primeira vez que escutava tais conceitos, identificava-se com os mesmos, qual se os conhecesse e estivesse de certo modo familiarizada com eles, em considerando a simplicidade e lógica de que se revestiam, num encadeamento perfeitamente racional, justo.

Assim pensando, concluiu que ao homem cabe o destino que elege, através dos seus próprios atos, deixando, dessa forma, de ser um joguete da arbitrariedade do fatalismo, do absurdo.

Facultando que a ouvinte raciocinasse com clareza, durante a pausa que se fez espontânea, Cecília deu prosseguimento às oportunas informações:

— Cada ser é semeador e ceifeiro do campo da vida. Conforme sua ação de ensementar, assim segará.

Trahit sua quemque voluptas[19], selecionando os indivíduos pelo que lhes apraz viver e realizar. Não é responsabilidade da lei divina as diferenças entre os homens, já que todos procedem do mesmo amor, simples, sem experiências, facultando-lhes a aquisição de valores pelo esforço pessoal, na condição de alunos da Escola abençoada da vida.

Oportunidade todos gozam, responsabilidade assumem os que preferem seguir o “gosto” do dever que “os arrasta" para as cumeadas da harmonia, que é o primeiro porto, no mar encapelado da viagem evolutiva.

Esta conceituação ético-filosófica dá a dimensão da grandeza e da sabedoria do Pai Criador, enobrecendo a experiência da criatura na sua ascensão dignificante.

Nem imerecidas faculdades, privilégios para uns, nem absurdas e complexas punições para outros, pelo destituí, rem-nos dos recursos hábeis para o mesmo formoso processo da evolução.

Il riy a pas à dire[20]! "

Antes que o Espírito alcance as faixas da razão — aduziu a venerável amiga —, atravessa milênios nos estágios da insensibilidade, a princípio, para alcançar as sensações, e, sucessivamente crescendo, mediante a inevitável fatalidade divina.

“Somos, portanto, jomaleiros que temos transitado por muitos caminhos no suceder dos evos. Tombando para levantar, demorando para avançar, errando e corrigindo, aprendemos a experiência da evolução.

“O conhecimento de Jesus ensejou-nos o pleno discernimento do que se deve ou não fazer, como e quando fazê-lo”.

À medida que falava, Cecília magnetizava a irmã deslumbrada, infudindo-lhe ânimo vigoroso, vitalizando-a com forças ignotas, que se lhe transformavam em energia retificadora nas debilitadas engrenagens do psicossoma sacudido, desajustado pelos sucessos pretéritos, remotos e próximos.

Seria de crer-se que, não fosse a providencial interferência da elevada benfeitora espiritual e Dona Maria Leonor não resistiría ao desarticular da enfermidade soez.

Ao ouvi-la atentamente experimentava uma profunda emoção, qual se fora criança dependente, amparada por carinhosas e fortes mãos, que a defendiam de amarga situação, enquanto a preparavam para prosseguir com segurança, nos passos vacilantes da caminhada que se lhe desdobrava à frente, convidativa.

Cecília, que sabia da grandiosidade e da significação do momento, bem quanto conhecia o que fora necessário movimentar nas Esferas Superiores para que se concretizasse nesse clima de elevação o encontro, alongou-se nos esclarecimentos:

— Vivemos inúmeras vezes, habitando outros corpos que se consumiram sem nos aniquilarem.. . Utilizumo-nos deles como instrumentos de trabalho, roupagem especial para os cometimentos de que necessitávamos, e os deixamos, quando desgastados... Retomamos para valorizar as oportunidades perdidas e aproveitar, com sabedoria, as novas que se nos depararem, favoráveis ou não. Tudo são lições! O homem sábio, prudente sempre recolhe o bem em toda parte, desde que consegue converter as circunstâncias adversárias em rendimentos de humildade e experiências propícias para o amor.

“Viver é conquistar sabedoria. O fenômeno orgânico, vegetativo, é automatismo natural, que deve ser conduzido pela vida e não se subordinar a ele. Malgrado os seus impo- sitivos e limitações, o espírito tem o compromisso de crescer e comandar a maquinaria de que se utiliza, a fim de fazer- -se sábio.

“Poucas pessoas, porém, tèm sabido valorizar esta realidade. . . Não fomos exceção. Malogramos mil vezes e mil vezes recomeçamos.

“Foi Jesus quem nos chamou ao amor, amando-nos desde há quanto tempo! Não Lhe temos concedido a necessária atenção, conferindo-Lhe o respeito que nos merece. Os que se dizem cristãos, asseveram amá-lÕ, sem, contudo, O seguirem ou sequer O imitarem.

"A derrocada não tem sido pequena nestes dois últimos milênios de experiência cristã no Ocidente. Não obstante, Ele vela, apoia e nos governa os destinos, amoravelmente...

“Chega, porém, o momento de cada um despertar para a verdade, consorciar-se com ela, arrancar-se definitivamen- te da acomodação, do marasmo e extrair as matrizes morti- ficantes da insensatez que retarda u marcha para o progresso.”

Maria Leonor, totalmente embevecida, tentava identificar a melodia doce daquela voz. Temia que cessasse. Embora lhe esfervilhassem inúmeras interrogações, não se atrevia a fazê-las, receando se rompesse aquele mágico encantamento. Desejava beber e guardar com sofreguidâo cada palavra, cada pensamento e os insculpiría a fogo, se necessário, nos refolnos do ser, a fim de nunca os olvidar. Parecia diminuir o ritmo respiratório, conquanto nada perturbasse a elevação daquele momento que lhe valeria para toda a vida.

Sentindo a impressão que causavam suas palavras, adiu!

— Este é o teu momento de identificação profunda com a verdade. As tuas dores resignadas credenciam-te à plena percepção da vida em suas realidades parafísicas, além das contingências transitórias do corpo putrescível. Facultado é que se te alarguem os horizontes do entendimento, de modo a adquirires resistência para os futuros testemunhos que te alcançarão no compromisso restaurador do bem.

“Ainda não te adentraste no dédalo das expiações mais acerbas, de que te liberarás somente se ungida de renúncia completa com total espírito de devotamento e confiança no Senhor.

“Por ausência de identificação perfeita com a vida e dela somente preferindo os deleites imediatos, o ser, pelos conseguir, desborda-se em extravagâncias que o aturdem e o levam a delitos em que se enreda, já que o eu sublevado pelas paixões inferiores tem primazia sobre todos os alheios interesses. Sentindo-se ameaçado, o egoísmo não trepida em ferir e submeter quanto lhe constitua empeço às arremetidas doentias. Geram-se os compromissos nerários, que arrastam os seus áulicos a retornos dolorosos, já que as leis divinas impõem o procedimento das retificações em todos gravâmes ultrajantes.

"Vitorioso é o homem que investe contra as imperfeições pessoais e as supera. Isto é: aquele que a si mesmo se vence. Desfilam os dominadores de um dia pelas páginas da História, afinal dominados pela incúria, pela impulsividade, pela morte que a nada, a ninguém poupa...

“Os impetuosos e arbitrários passam temidos e odiados. A bajulação compra-lhes favores e a traição aplaude-lhes a queda, gritando-lhes acrimônias como desforço imediato — a vingança dos fracos! Todavia, os campeões da humildade, cingidos pela força do amor e da lídima coragem de combater as deficiências, inspiram a fé e arrastam na passagem as multidões famélicas, que neles encontram o pão da paz com que se repletam. Eles, os combatentes sem glória no mundo, são os fomentadores do progresso e promotores da felicidade humana. Mesmo quando morrem, o seu legado de vida toma-se a diretriz e o apoio para os posteras. São eles os demarcadores dos períodos de evolução do pensamento, da ética, da ciência, da tecnologia. Doam-se para que outros fruam, modificam as más estruturas, afirmando a vitória do bem, retomando mais tarde para participarem das conquistas que realizaram.. .

“Dádiva da reencarnação, essa lei de gravitação soberana da soberana justiça de Deus!

“Da mesma forma que os ambiciosos e arbitrários volvem aos pélagos do oceano carnal para sofrerem as perturbações asfixiadoras que os purificam, aqueloutros que articularam com lágrimas a felicidade geral, repassam pelos mesmos caminhos, ora em condição de diferente dita”.

Calou-se por momento a antiga mártir da fé. Toda ela era um amanhecer de bênçãos, traduzindo a glória de que se via investida.

“A vaincre sans péril, on triomphe sans gloire!"[21]exclamou Corneille, num verso épico, do seu O Cia. A coragem ante o perigo, isto é, o nobre valor de enfrentar as arremetidas que ameaçam a integridade da vida, dá glória às empresas, quando vitoriosas. O desafio da dificuldade enfrentada com estoica serenidade, em que o batalhador se esquece de si mesmo, tendo em vista os benefícios que resultam para os outros, eis como entender-se o pensamento de Corneille, não a impulsividade arrogante, filha do despotismo e do orgulho que fazem bravos pela impetuosidade, num momento de arrojo e loucura, com que massacram inocentes e descompromissados, que lhes tombam à frente, exangues, para que, no silêncio dos seus cadáveres, os triun- fadores se coroem de louros e cantem o panegírico da sua glória.

Suportar as vicissitudes em longo prazo, afrontar serenamente o perigo das humanas paixões desregradas, perse- verando nos propósitos do bem comum, sem recear sofrer os riscos, pagar o ônus que seja exigido, qual o da própria vida — assim se apresentam os herois, os reais triunfadores, os que se ornam de glórias.

  1. Maria Leonor vinha, sim, concordemos, vencendo com glória, no seu lutar e sofrer sem queixas, arriscando-se no exercício do bem não pensando em si.

— O extenuar-se sob as rodas do carro da aflição — acrescentou a nobre mensageira — concede ao réprobo que tem consciência do erro e se propõe liberação, o júbilo e entusiasmo que dão força e conduzem à felicidade, caindo no êxtase dos místicos e dos santos, na harmonia dos justos, na alegria dos mártires.

“Sofrer com uma resignação dinâmica, mantendo o entusiasmo pela vida, ao mesmo tempo convertendo as dores em estímulos úteis para o próximo, resulta numa atitude edificante, da qual sempre se sai vitorioso, no processo repetitivo das existências.

“Os fardos mais pesados, quando suportados com otimismo, têm diminuídos os seus contingentes de aflição, o que não ocorre quando conduzidos sob chuvas de rebeldia, de desesperação...

"És alma grandemente comprometida perante a Consciência Cósmica. Renteando e defrontando o sofrimento por onde estejas, deverás encontrar na cruz superlativa dos testemunhos a tua via libertadora de santificação.

“Na atualidade te encontras em acrisolamento benéfico. A aparente adversidade constituir-te-á formoso método para a aquisição da paz. As expressivas angústias ser-te-ão o medicamento eficaz para o largo tratamento das feridas íntimas que a tua invigilância abriu nos corações amigos, em tempos idos. . . A soledade, a carência de afetos e a agrura como resposta de muitas esperanças, significar-te-ão o recolhimento de como procedeste junto a amizades que antes te distendiam mãos fraternas e sentimentos nobres, e que trucidaste enceguecida pela ambição sem método.

“Tudo volta conforme a direção do arremesso e o impulso inicial. Nossos atos são bumerangues morais, que retornam. Se edificantes, trazem o perfume da ação encetada; quando pérfidos, mesquinhos, criminosos, fazem-se assinalar pelas características próprias, não raro golpeando-nos com vigor.

“Ninguém perturba a ordem, o equilíbrio das leis de amor, tendo curso incólume, porquanto a desordem desencadeia um processo de desarmonia que tem por centro de gravitação o irresponsável que a gera, atraindo para o seu tulcro — a sua pessoa — os fatores desorganizados, estimulando os que lhe são afins à agressividade, à violência.

“É muito comum ouvir-se dizer: — “Tudo de mal me acontece. Onde me encontro os sucessos infelizes tomam corpo, atingindo-me. A antipatia me persegue; a má sorte faz-me companhia”.

“Isto resulta dos efeitos negativos que se insculpem no mundo psicossomático do devedor, atraindo por equivalência as cargas vibratórias destrambelhadas, que ele mesmo desencadeou a golpes de irresponsabilidade moral.

“No agressor se encontram as razões da necessidade de depuração que o automatismo da divina justiça fixa para os devidos fins.

“O tempo de purificação pode ser um largo período, um breve tempo dependendo de cada qual. Varia de temperamento para temperamento, de personalidade para personalidade. Quem se conscientiza da necessidade de alcançar as estrelas, não teme galgar as alturas. Quem prefere as sombras das fumas, não se esforça pela ascensão no rumo da claridade. .

“.. .Não seguirás a sós! Unidas, avançaremos! Ser-te-ei irmã dedicada em nome do Amor, recordando nosso amor de ontem. Inspirar-te-ei nos momentos mais agros, sustentar-te-ei na debilidade e seguirei contigo no martírio da confiança.

“O martirológio de um minuto é qual relâmpago sublime. Todavia, passa breve, enquanto o sacrifício de longo prazo g qual sol divino dourando as sombras e absorvendo-as num ósculo de fascinação soberana.

“Tem bom ânimo e não desistas de amar. Em todo lugar o sofrimento espera quem ame e as criaturas anelam por afeto, quando não a moeda vital da amizade. Ama sempre, quanto possível, sem medida.

"O amor não extenua, vitaliza; não produz aflição, acalma; não exaspera, suaviza; não punge, balsamiza...

“Ama e confia. Por mais tenebrosa seja a noite há estrelas fulgindo além da tormenta. Espera que se diluam as sombras e raiará a claridade da paz.

“Voltarei sempre. Até o momento, o grande momento da nossa libertação gloriosa. Deus te abençoe, irmã querida!”

O rosto angélico, emoldurado por diáfana luminosidade, sorria, diluindo-se a visão confortadora, enquanto o ambiente balsâmico prosseguia magnetizado por vibrações elevadas.

  1. Maria Leonor desejou reter tudo, naquele átimo de eternidade do tempo, no infinito espaço do sentimento.

Embargada pela profunda emoção que a dominava, estava em lágrimas, sem palavras, aliás, desnecessárias.

Num relance, num abismo de tempo imensurável, grande, diminuto, não poderia configurá-lo, despertou, en plein midi[22]

A fiel Arminda ali estivera vigilante, em prece, receando um colapso, a chegada da morte.

A paciente apresentava agora os sistomas primeiros da convalescença, da recuperação da saúde. Solicitou alimento, o que constituiu notícia alvissareira para a amiga, que se apressou por providenciá-lo.

"Ad augusta per angusta"[23],

 

                   “ABYSSUS ABYSSUM INVOCAT[24]

A recuperação de D. Maria Leonor se fez com brevidade, recuperação apenas da problemática do aparelho respiratório, não da artrite reumatoide.

A primavera gargalhava flores em toda parte. A natureza era um painel verde, que as mãos do artista divino salpicaram de cores e entornaram ânforas de perfumes nas vagas dos ventos tépidos.

O Sol em ouro incendiava a terra, emoldurando de luz a paisagem formosa a perder-se de vista nos campos ondulantes do primeiro platô, entre as manchas escuras dos vetustos pinhais...

O reduto da pobreza é campo de contínuas tragédias que surgem na escassez de tudo e se acumulam no excesso da desesperação.

Nem mesmo a quadra das flores, decorando os casebres toscos conseguia diminuir as tristezas gerais. Aqui e ali um estouro de cores balouçantes ao vento era um poema de bucólica beleza, produzindo alegria visual Transpostas as portas dos lares, os dramas e torpezas confraternizavam em renhida sobrevivência.

As duas senhoras eram, sem dúvida, o símbolo da esperança no reduto do desencanto, com que o dissabor diminuía seus golpes e a miséria se fazia menos tensa.

Desde o formoso fenômeno do desdobramento medi- único da personalidade, em que Cecília confabulou com o seu ser, Dona Maria Leonor pareceu adquirir mais amplos recursos de discernimento, maior soma de desconhecida força.

A amiga, inteirada de todo o acontecimento — que a memória fixara com entranhada fidelidade —, asseverava tratar-se de assistência carinhosa da santa protetora, toda se entusiasmando ante a perspectiva de melhor sorte para ambas.

Aliás, as criaturas sempre fazem a conexão: interferência divina — melhora de resultados, da sorte, sem dar-se conta que o melhor resultado que se colhe na vida é a vitória sobre ela e não as pequenas conquistas de valores de somenos importância, às quais se atribuem excessiva significação e benefícios relevantes.

O triunfo perante as coisas triviais nem sempre representa vitória, antes aumento de compromisso.

A verdade, diga-se de pronto, é que, desde aquele evento, o lar modesto se tomara risonho, quase ditoso e as pessoas que o frequentavam, para visita fraterna ou incumbência de couture, diziam-se surpreendidamente aliviadas de suas penas.

Criaturas problematizadas experimentavam estranho alento na convivência com a modesta costureira, enfermos se beneficiavam. . .

Como esses fatos não se calam nas pessoas sequiosas de benefícios, a notícia circulava e doentes acamados solicitavam a presença da senhora, que se surpreendia em face de tais acontecimentos, associando-os à promessa que lhe fizera Cecília.

Divagando, mentalmente, em torno dessas insólitas ocorrências, evocava o marido internado no Manicômio Judiciário da Capital, cujas notícias, sempre desanimadoras, vez que outra lhe chegavam enviadas pela sogra.

A boa familiar não mais voltara a ser a mesma desde o estrugir da incrível tragédia. A presença, o devotamento dos filhos, do genro, da nora e dos netinhos não apagaram de todo as fundas marcas da angústia que a envelheceu, rapidamente, no martírio que a trucidou.

Não podia sopitar as lágrimas de saudade do esposo nem as de piedade pelo filho enjaulado. .

Suas cartas eram gentis, embora repassadas de melancolia.

Por sua vez, a nora alentava-a, recordando-lhe Maria, a sofrida mãe de Jesus. E a envolvia no dúlcido refrigério da prece intercessória.

Dizíamos que a esposa de Roberto Domênico, evocando o extraordinário evento espiritual de que fora objeto, lamentava não ter solicitado ajuda para o desditoso consorte. É certo que o tinha na mente, conquanto não se atrevesse à abordagem por pudor, por medo de perturbar o ditoso momento. Pensara nele, apesar de tudo. Não o deixara de amar. Era o pai das suas crianças, que a interrogavam amiúde pelo genitor, com perguntas embaraçosas, difíceis de respondidas. Ela justificava, inclusive, aos vizinhos, que o marido enfermo se encontrava internado na Capital e calava-se. . . Não o esquecia, dirigindo-lhe o pensamento em formosas rogativas a Deus pela sua recuperação e paz. Igualmente não aceitava a culpa total nele imposta como autor do duplo homicídio. Sentia psiquicamente que ele era responsável por algo da desdita, mas não totalmente.

Dona Arminda viajara, deixando a amiga com as crianças. Fora visitar familiares no litoral.


Não se tornariam a ver fisicamente.

Na descida da serra o veícuJo tombou num dos muitos abismos, por imprudência do motorista, com excesso de velocidade ... A idosa parteira não resistiu ao acidente, perecendo, ali mesmo, sem qualquer possibilidade de receber assistência.

A informação chegou ao lar somente dois dias depois, através do noticiário dos jornais. Sua identificação encontrada não localizava a residência e o corpo aguardava no Necrotério.

Strampanowisky, um polaco muito amigo de ambas, foi o mensageiro da dor, por identificai a extinta, nas fotografias publicadas pelo periódico da Capital, que ali chegara, W dois dias após o desastre...       

O novo dissabor chegou à brava senhora como um raio certeiro, ferindo-a em cheio. Agora se multiplicariam as dificuldades, exigindo-lhe maior esforço junto aos dois filhos, ao modesto lar e à atividade profissional. Mais do que o sentido utilitarista, estava o sentimento de amor, feito de gratidão e companheirismo.

Dona Arminda fora a própria bondade do céu que se lhe adentrara no lar, em forma de socorro, no auge das cruciantes dores. Viveram como raras irmãs, completando- se no auxílio mútuo, no amparo recíproco.

Sem qualquer discussão, eram almas afetuosas que se haviam reencontrado na complexa encruzilhada das decisões, no rumo a escolher. Souberam auxiliar-se, repartir ansiedades, distribuir a fortuna da esperança.

As mortes violentas, por acidentes e acontecimentos funestos, inesperados, produzem grande perturbação nos Espíritos, que se sentem expulsos à força da roupagem orgânica.


Fortemente impregnados pelos fluidos materiais, adormecem, sofrendo pesadelos torvos, em que a vida não cessa, apesar das agonias alongadas que produzem sucessivos desmaios para contínuos despertamentos, nas mesmas angustiantes situações.

Provações severas fazem-se instrumento de depuração para os que assim partem da Terra, enleados pelas vibrações vigorosas do domicílio carnal.

Quando destituídos de conquistas morais mais expressivas, os recém-desencarnados acompanham e sofrem os processos da decomposição celular, enlouquecendo de inquietação e, por desconhecimento total dos mecanismos que regem o fenômeno da morte, aferram-se ao apego do corpo que intentam reviver, manter, dar continuidade. ..

Tal turbação, sempre dolorosa, varia de intensidade e de duração conforme o grau de adiantamento de cada indivíduo.

A senhora Arminda, todavia, amealhara significativas conquistas morais que lhe diminuíram o processo doloroso de desvinculação da matéria.

Unida por pesada injunção cármica ao grupo que pereceu no acidente — magote de vândalos de antigos crimes coletivos, reunidos pelo determinismo superior para o resgate em igualdade de condições —, foi socorrida de imediato por amoráveis benfeitores espirituais que a retiraram do local, em estado de choque, para despertamento posterior numa Estância de paz, dentre as muitas que se multiplicam nas proximidades da psicosfera terrestre, abençoados reduto de refazimento, albergues de amor, lares de misericórdia que a abnegação de verdadeiros herois da beneficência e da caridade ergueram através dos tempos, a fim de hospedarem os irmãos recém-chegados do mundo físico, em trânsito para outras empresas pelas rotas do aperfeiçoamento espiritual.

Sr. Strampa, como abreviadamente o chamavam, o polaco era homem turbulento, que amava as bebidas alcóolicas e de pronto se desbordava em excessos de todos matizes, não poucas vezes chegando às raias da agressão física com os desafetos gratuitos, nas tascas imundas que frequentava.

De compleição robusta, que o alcoolismo começava a consumir, aos quarenta anos não conseguira fixar-se em qualquer trabalho. Temperamento irascível, era, todavia, possuidor de caráter paradoxal, desde que dava lugar igualmente a gestos de larga generosidade, quando passavam as carraspanas mortificadoras.

Prometia-se, e à jovem companheira, abandonar o vício.

Viúvo, vinculara-se a uma moçoila com vinte anos menos, a quem amava, se é que os seus altos-e-baixos afetivos podiam ser considerados como expressão de amor.

Nascera em Brest-Litowsk, região pertencente à Rússia Branca e viera para o Brasil com os colonizadores agrícolas que se haviam transladado, mediante o convênio estabelecido entre os governos dos dois países. De procedência humilde, em chegando à terra prometida, que era anunciada ao imigrantes como uma verdadeira Canaã — Canaã que é este país continental de dádivas povoado — foi arrojado como os seus compatriotas numa região bravia do sudoeste paranaense, onde se desvaneceram as muitas esperanças diante das ásperas dificuldades a superar.

A esposa, não suportando os rudes embates, faleceu dois anos depois, entregando-se ele, então, ao desvairar da revolta, iniciando a dependência dipsomaníaca.

Vivia de expedientes — souffler le chaud et le froid[25] —, nem sempre nobres, lutando como náufrago desorientado no imenso oceano do desespero.

Sua afeição pelas duas senhoras resultava dos socorros que ambas lhe ministraram à companheira, quando esta esteve à morte ante um parto difícil.

Sem qualquer recurso de que pudesse dispor, antes delas fora consultar um médico, em considerando as peripécias da saúde da gestante, e aquele informara da necessidade de interná-la em Hospital para uma cirurgia cesariana a que atribuía urgência.

O esculápio não abria mão dos altos estipèndios, de que se considerava merecedor, negando-se a orertar qualquer auxílio!

Alucinado ante o evento afligente, refugiou-se na bebida, retornando ao consultório médico visivelmente embriagado e provocando uma altercação lamentável, improcedente, donde nasceu uma grave animosidade.

Sentindo-se moralmente agredido, o profissional apresentou queixa à polícia e o infortunado foi severamente repreendido, ameaçado de prisão caso se repetisse qualquer fato menos feliz com a sua pessoa envolvendo outrem.

O rancor armou-o de ódio, tecendo as malhas da rede criminosa nos seus sentimentos atordoados.

Nesse momento, as senhoras se acercaram do seu lar, ministrando carinhosa assistência à jovem companheira.

Tendo a gestante impossibilidade para um parto normal por deficiência da constituição orgânica, numa noite de maior angústia em que ambas as vidas périclita vam — a da parturiente e a do feto — sem mais saber como proceder, Dona Arminda apresentava-se desesperada...

Foi então, nesse momento, que Dona Maria Leonor de súbito vislumbrou a figura espiritual de Cecília concitando-a a intervir. Automaticamente dirigiu-se à accouchée[26] e ouvindo a superior inspiração indicou o nome de um produto farmacêutico para aplicação imediata, enquanto lhe impunha as mãos.

Visivelmente transfigurada, foi obedecida pela amiga que partiu, célere, para adquirir o medicamento, também acionada por vigorosa confiança.

Logo retomou, foi providenciado o equipamento próprio e aplicada a substância salutar. Menos de uma hora transcorrida e os evidentes sinais do parto facultaram o resultado feliz.

O genitor exultou com o filho varão e a companheira em paz, ambos salvos por interferência do Mundo Espiritual.

Quando se deu conta do que houvera sucedido, a inexperiente médium ficou estarrecida, emocionada, sem palavras.

Era o começo de um sagrado ministério de amor entre provanças, que se iniciava.

A gratidão dos humildes é pérola de alto valor, que resiste aos rudes golpes.

O Sr. Strampa afeiçoou-se às duas solitárias benfeitoras, tomando-se-lhes fiel cão de guarda.

A gratidão não tem limite.

Nunca retribui devidamente.

Não deve cessar jamais.

Gratidão é amor que devolve a messe e não o faz conforme recebeu, na alta significação do momento fruído.

Muito natural que a notícia aterradora do passamento de Dona Anninda também abalasse o polaco, sua companheira e o bairro dos sofrimentos coletivos.

Prantearam-na com sentimento e gratidão.

Como a inumação cadavérica exigisse antes a identificação do corpo e a sua retirada do Necrotério para as providências compatíveis, foi realizada uma coleta entre os seus muitos beneficiários, seguindo o Sr. Strampa à Capital, no dia imediato, para as necessárias medidas, evitando que o corpo fosse entregue às pesquisas estudantis nas aulas de Anatomia...

Ao retornar, após desincumbir-se com rara sobriedade do compromisso assumido, o intermediário confirmou a lu.- tuosa ocorrência, ficando a presença imorredoura de todo p bem praticado, nos corações dos sofredores reconhecidos.

Três meses transcorridos depois desses sucessos, após adormecer Agenor e Almiro, D. Maria Leonor sentou-se junto a janela contemplando a noite rutilante de estrelas, em festa argêntea.

No silêncio da sala mergulhada em sombras, que as esplendorosas constelações salpicavam de tênue e envolvente claridade, a nossa protagonista recordou-se da amiga desencarnada, como antes não lhe sucedera, tal a intensa força da saudade a assenhorear-se-lhe do espírito.

Sem poder-se dominar, foi vencida pelas lágrimas.

Repassou mentalmente todos os lances — agora lhe pareciam providencialmente programados por uma sábia inteligência superior — da convivência de ambas, desde o primeiro encontro, e, passo-a-passo, evocou os acontecimentos que lhes envolveram as existências de acerbas lutas.. . Em todos os estágios a amiga desencarnada fora-lhe a mãe carinhosa e vigilante que lhe cumulara as horas de assistência, de ponderação, de socorro. Sem ela, quiçá houvesse soço- brado na luta desigual contra os titãs do desespero, que por pouco não a venceram ...

As evocações dominavam-na toda e a saudade, embora dorida, se lhe apresentava ao mesmo tempo reconfortante, sem os golpes da agonia nem do desânimo.

Não se apercebia do tempo.

As reflexões profundas superam as dimensões de tempo e espaço, suplantando o mundo mental, a razão, para merguIhar nessa outra dimensão que penetra a realidade objetiva, imanente — transcendente, em cujas vibrações a alma volita em ditosas experiências místicas, difíceis de traduzidas na linguagem tradicional humana.

Um insólito clima de vibrações sutis inundava a sala modesta.

“Como seria a morte? — interrogava-se a saudosa amiga. — Encontrar-se-iam aqueles que se amavam? O túmulo e o seu mistério, que representavam para a alma? O amor se diluiría com o aniquilamento do corpo, desde que os seres ditosos marchariam para Deus e os reveis para Satanás, como afirmavam as religiões?”

Mil outras perguntas desde há muito formuladas esfervilhavam-lhe na mente.

Nesse excogitar íntimo, sentiu-se envolvida por dúlcida emoção que a dominava, quando percebeu no meio da sala a querida amiga rediviva, tão real — que digo eu? —, mais real do que antes, quase tangível, desenhando no rosto, agora mais formoso, um sorriso de infinita tranquilidade.

  1. Maria Leonor supôs que sonhava. Não teve tempo, porém, para qualquer divagação, porque o Espírito feliz, percebendo-lhe a dúvida, antecipou-lhe respostas às inquirições não formuladas.
  • Sim, sou eu — anunciou, afável — que retorno à sua convivência, irmã querida.

“Não há morte, ninguém se consome no decompor ca- davérico. Só existe vida palpitando, exuberante, em toda parte.”

  • Mas você morreu! — exclamou a interlocutora.

— Não, não morril — replicou, argumentando. — A vida não se extingue. O corpo se transmuda ao impositivo de fatores biológicos que cessam de atuar, dando lugar a outras diferentes combinações no campo da matéria. Esse processo, todavia, não afeta a vida em sua plenitude, em sua grandeza. Decompõe-se a massa, liberta-se a essência. O Espírito vive sem o corpo, não obstante este não possa viver sem aquele.

“A semente germinando na madre da terra, morre, a fim de libertar a planta que se agiganta, em triunfo.

“Para as pessoas que cumprem com os seus deveres no mundo, a morte é a grande libertadora, enquanto que, para os que entorpeceram a consciência ou malversaram os valores adquirindo dívidas, estimulando vícios, cometendo delitos, a morte se toma clausura de dor, penitenciária de rígidas punições. E assim é, porque ninguém foge de si mesmo. Onde cada ser esteja conduz suas aquisições íntimas, escra- vizantes ou liberativas, consoante a procedência donde se originam.”

  • Você está viva, Deus meu! — tornou a sensitiva, interessada. — Sofreu em face do acidente? Como despertou?
  • Morrer é dolorido para quem vive desesperado. “Tal vida, tal morte”, afirma o refrão popular, o que é grande verdade. Cada um se transfere de um lugar para outro de acordo com a preparação emocional e física que se apresta a fazer. Também no que concerne à transferência pelo veículo da morte, o mecanismo é semelhante sem mais complexas implicações...

“A princípio experimentei um grande choque . . . Acompanhei, de certo modo, o acidente. Vi o ônibus tombar, ribanceira abaixo. Devo ter gritado, Foi tudo muito rápido, sem tempo para maiores cogitações. Senti uma pancada, quando o corpo foi arrojado do assento, e perdi a consciência. Dava-me a impressão de um pesadelo repentino e de curta duração. Escutei os gritos e os gemidos gerais por um momento, adormecendo de todo ... Não posso ainda atinar o tempo que transcorreu, e isso não é importante.

“Uma doce voz chamou-me pelo nome e despertei.”

“Uma sensação de geral fraqueza me dominava todo o ser. Ao averiguar quem estava comigo, não me contive de alegria, de felicidade e bradei: — “Mamãe! Mamãe querida! ’ Ela sorriu tema e doce, como no passado, quando eu era pequenina. Não enunciou uma palavra. A sua presença bastava.

“Repentinamente considerei em alta voz: “Mamãe, você está mortal Como estou a vê-la?”

"Ela respondeu, sem alterar a expressão do surpreendente tranquilidade: Você também minha filha, já

morreu...”

"Antes de sair da surpresa que me assaltou, ela completou: "Mas não há morte, querida. Estamos vivas e não nos separaremos outra vez. Sua mãezinha aqui está vigiando Repouse..."

“Fui tomada por um confortável bem-estar que me acompanha até este momento. O que sucedeu depois, faz recordar os estágios de um pós-operatório em que a lucidez vem a pouco e pouco ..

  • Lembrou-se de mim — arguiu a saudosa amiga —, nessa região ditosa em que se encontra? Aí, os afetos são recordados?
  • Natural! O amor é o elo divino que une as almas. Procedente do Pai Criador, é a excelsa presença nos dédalos sombrios do ser como claridade vencendo as trevas dominantes.

"Meus primeiros pensamentos foram feitos de preocupação por você e nossas crianças. Mamãe transquilizou-me, asseverando que a visitava com frequência e que eu poderia fazê-lo também, em ocasião própria. Concitou-me a ajustar- me à condição nova, transmitindo-me encorajamento e esperança no futuro.

“Logo depois, transcorrido algum tempo, passei a escutar sua voz orando por mim ;.. Seu pensamento me chega como um telefonema nítido e agradável. Ansiava por respondê-la, afirmando-lhe sobre o triunfo da vida, mas não tinha como e resolvi esperar.

“A paciência é uma virtude filha da humildade, porque nos ensina a reconhecer a própria pequenez e a aguarda."

  1. Maria Leonor recordou-se do esposo encarcerado, mas não formulou a indagação, porque a mensageira espiritual a esclareceu:
  • Ainda não pude vê-lo, o que farei, assim me seja facultado. Esta é a minha primeira visita sob a guarda e orientação de mamãe. Não estou adestrada. Por enquanto ignoro o mecanismo da locomoção... Não se absorvem as diretrizes daqui com rapidez, como não se pode conhecer os hábitos e costumes de um país, na Terra, senão antes de expressiva convivência com os seus habitantes, submetendo-se à sua legislação ...

“Aqui também há leis e organizações que supervisionam os acontecimentos e governam os seres. Em tudo a presença do equilíbrio em disciplinas regulamentadoras do progresso.

“Venho lenir ao seu lado as saudades do coração e dizer-lhe da necessidade de você prosseguir de ânimo lorte por mais perturbadores se apresentem os acontecimentos. Em qualquer transe, sob qual for a condição, a fé não pode enfraquecer.

“Nossa união fraterna prosseguirá e o trabalho em conjunto selará nossa comunhão espiritual. Em planos diferentes atuaremos juntas no ideal do bem comum, reparando nossos delitos e ascendendo para a Suprema Perfeição.”

  1. Maria Leonor percebeu que a entrevista chegava ao termo final. Quis alongá-la como a perpetuar a felicidade do momento.

A visitante, porém, concluiu, afirmando:

  • Não estaremos separadas. Isto não é o fim, antes o início de um longo ministério, um intercâmbio demorado entre dois mundos de vibrações diferentes num mesmo mundo.

“Até novo encontro. Fique na paz e sob a guarda de Deus!”

A formosa aparição diluiu-se como uma névoa tênue sugada por um beijo de luz.

Na sala tranquila permanecia o silêncio.

No alto lucilavam as estrelas, salpicando a noite com mil luzes.

A ausência de um ofício habitual, de uma profissão, constitui fator criminógeno.

Entre as vítimas da delinquénda, ao lado do alcoolismo e da loucura, a desocupação ocupa lugar de destaque nas estatísticas criminais.

O Sr. Strampa, infelizmente, reunia esses elementos geradores da desgraça num todo desesperador. O alcoolismo, minando-lhe o organismo, levava-o a frequentes alucinações, ao mesmo tempo impedindo-o de fixar-se num serviço honrado.

Causas da sua desídia, fizeram-se responsáveis pelò seu supremo infortúnio.

A descompostura moral que resulta do desequilíbrio social, dele fez um pária.

Motivo de somenos importância, ou nenhuma, constituía-lhe razão para discussão infindável, bravatas chãs e violências calamitosas.

Discutia, como de hábito, na taberna infecta com outro infeliz, quando da fanfarronice passou às ofensas desmedidas, gerando agressões recíprocas.

No pandemônio que se fez hórrido, o opositor tomou de uma garrafa e aplicou-lhe certeiro golpe no crâneo, derrubando-o, literalmente, encharcado em sangue. Na queda bateu a cabeça no solò cimentado, o que lhe produziu imediata concussão cerebral, vindo a falecer na mesma noite, na Santa Casa de Misericórdia, para onde fora levado às pressas, sem recobrar a lucidez.

A noticia sacudiu o bairro pela alvorada, deixando a companheira em penúria e o filho em dura orfandade.

Dona Maria Leonor, que acompanhava, triste, a desagregação moral do amigo, pôde, somente, balbuciar na oração entre lágrimas, ungida de imensa piedade:

— Tem misericórdia da sua alma, meu Pai, como do seu agressor! Melhor para ele haver perdido a vida como vítima, do que mantê-la na condição de algoz.

“O abismo chama o abismouma falta chama outra.

 

                   O AMOR QUE ENFLORESCE AS ALMAS NOBRES, ENFURECE OS HOMENS MESQUINHOS

O sofrimento — forja acionada pelos Hércules da evolução, encarregada de modelar os caracteres nobres, no metal dificilmente maleável dos sentimentos humanos — consegue domar os impulsos selvagens e plasmar nos instintos desarvorados as engrenagens que alam o ser para as vitoriosas arremetidas da angelitude.

Rigoroso disciplinador, submete os temperamentos in- dômitos, vencendo-lhes todas resistências até o extenuamen- to, após o que, trabalha febrilmente os destroços, arrancando o meigo querubim que jaz latente para o ministério da plenitude espiritual.

Nos sentimentos nobres inspira o ideal da beleza, fomenta a solidariedade, impregna de estesia, dulcifica ao embalo das renúncias que se impõem, alçando-os aos píncaros da harmonia mediante a superação dos mesmos.

O sofrimento, que tensas coloca as cordas da sentimentalidade, permite que os artistas transcendentais tanjam esse violino precioso em que o homem dócil se transforma, a fim de que a música divina se espalhe pelo mundo em carência, convidando à harmonia superior.

Criatura alguma passa pelos caminhos terrenos sem conhecer-lhe a cáustica presença, que decanta as imperfeições ou provar-lhe o ácido comburir, com que se purifica das gangas e impurezas que lhe afeiam a intimidade.

Seu rude cinzel despedaça, às vezes, o granito da vontade forte, a fim de arrancar do seio onde dorme a estátua perfeita, enriquecida de forma elegante, grácil.

Incompreendido, malsinado, prossegue o ministério, haja tumulto, rebelião ou se manifeste o entendimento.

Mãos modeladoras da virtude do amor por excelência, toma o barro imundo das paixões e o transforma em delicado gral para o doce licor da felicidade.

Os que o infligem aos outros, não lhe escapam à companhia; quantos o programam para submeter as massas, do- bram-se, a seu turno, sob o seu impositivo; aqueles que o determinam como única solução nas suas atitudes arbitrárias, sofrem-lhe a constrição ...

Não tem qualquer pejo, já que convive no casebre, como em palácio, ao relento ou sob dosseis de cetins e casi- miras finas; apoia-se nos fracos morais e combate os poderosos; faz-se o mesmo nas vítimas das guerras infames e nos seus triunfadores apressados; segreda sua presença na alma delicada do esteta e grita seu domínio na insensibilidade do bruto; submete todos num dia ou num milênio, logrando o desiderato de mudar a face escura da individualidade, até que esta possa refletir a pujante luz do bem, nas avançadas regiões da liberdade plena.

Nossa personagem suportava o estridular do sofrimento macerando-a, física e moralmente, nela insculpindo as asas de anjo que deveriam sair das grilhetas com que imobilizara seus inimigos na hediondez onde os tomara réprobos . ..

A escada de ascensão dos seres faz-se pavimentada com o material da sua reabilitação, arrancado das jazidas do passado escabroso para o roteiro do futuro feliz.

A presença da tragédia nos redutos de dores coletivas toma-se rápida, cedendo lugar aos novos insucessos que superam os anteriores num ir-e-vir constante. Hoje bate às portas de um tugúrio; logo concluiu seu estágio, parte no rumo doutro, numa sucessão surpreendente. Por um instante todos se unem nas mesmas lágrimas para logo depois se agredirem nas mesmas acusações, irmanando-se em novas dores...

Comete-se um crime ab irato[27] ", salva-se uma vida, doando a própria sem refletir no gesto.

As ocorrências tém curso naturalmente. Agora um fato choca; repete-se, toma-se natural. Ê a facilidade da adaptação do homem, até mesmo com o que o desarvora num instante para logo fazer parte do seu cotidiano, sem o que sucumbiría nos primeiros tentames.

Com a mesma rápida ebulição com que estrugiu no conglomerado do bairro o assassinato do Sr. Strampa, os comentários cessaram dando lugar aos problemas habituais, caindo no olvido, no esquecimento, ficando o drama da jovem mãe sem amparo nem possibilidade de sobrevivência, à mercê daquela escancarada da prostituição que vicejava no paul onde se alojava ...

Indivíduos inescrupulosos se homiziam sob o teto da ignorância e da indolência de mulheres igualmente irresponsáveis, denegrindo-as mais, arrastando-as pelas sendas das escabrosidades morais, a soldo, a princípio, de minguadas moedas, para logo depois serem arrojadas ao comércio ne- fando com que passam a sustentar os pérfidos poltrões que as exploram.

Antes que lhes caísse nas garras impiedosas para sofrer- lhes a constrição destruidora, D. Maria Leonor manteve demorada entrevista com Vivianne, alertando-a quanto aos perigos que a espreitavam, na sordidez do local onde viviam. Motivou-a à aquisição de um emprego doméstico, humilde e digno, com cujos resultados poderia educar o filhinho. alma sob sua tutela, dependência que a Divindade lhe concedia temporariamente para o milagre do amor, no processo da evolução. Propôs-se atender a criança, no seu domicílio, de início, enquanto ela alugaria seus serviços em algum lar, na cidade, até que lograsse levar o pequenino para o local de trabalho, se viesse a conseguir o emprego. Esclareceu-a de que a sua opção definiria o próprio e o futuro do filhinho, cabendo-lhe a felicidade da escolha naquele momento.

A doçura e energia da dedicada senhora produziram favorável entendimento na aturdida mulher, que se prontificou a aceitar a sugestão e a sair de imediato à procura de labor.

Por experiência, a costureira sabia que o amor e a bondade são as molas que acionam o mundo, apesar de ainda escassearem. Todavia, há muito amor e bondade que aguardam apenas estímulo para que desabrochem. O botão da flor, prenhe de perfume, espera o calor do Sol para arrebentar-se em realização ...

— Se você se fizer digna e credora de confiança para com os seus patrões, conquistá-los-á — argumentou, lúcida. — E eles retribuirão ao seu devotamento permitindo que n seu filhinho passe a viver com você no local do trabalho.

“De começo, engaje-se num serviço que a libere para estar com o nenen à noite, a fim de que se não afrouxem os laços do amor nem se deteriorem os vínculos do dever.”

A bondosa senhora tinha visão a respeito da fragilidade humana e de como os vapores da ilusão entorpecem o discernimento e embriagam com sonhos impossíveis, afastando a criatura dos deveres retos.

Ficou concertado que seriam tomadas providências, a fim de que o pequeno Rubens não viesse a sofrer desnecessárias agruras, ante o empenho de sua genitora em conferir- se vida honrada.

Não raro, muitas vidas se decompõem nos abismos morais da insensatez e da perversão por lhes faltarem diretriz e orientação.

Malgrado o impulso do bem seja inerente a todas criaturas em sua generalidade, somente poucos o identificam e se sobrepõem forças por vivá-lo. Para cair, basta deixar-se ... Para erguer-se ou para prosseguir de passo firme são necessários esforços contínuos, decisão irreversível, coragem persistente.

IO comum, normal é a tácita aceitação de todos, ante o que denominam socialmente nas altas esferas como péche mignon[28], fresta moral que se converte em sorvedouro para as quedas brutais nos abismos da degradação.

Um bom conselho, um al vitre otimista, um convite ao dever nunca são demais, sempre encontrando receptividade, principalmente quando a incerteza, a dubiedade impedem a diretriz a definir.

IH tempo premiaria Vivianne, que se dispunha a empreendimento relevante, exercendo seu lugar de pessoa digna no contexto social.

u pequeno Rubens ficaria com a costureira e seus filhos. Almiro já era um garoto de oito anos, frequentando o Grupo Escolar das proximidades e Agenor, com seis, recebia da atarefada genitora a orientação sobre as primeiras letras e a identificação dos algarismos, facilitando a tarefa da educadora pública.

Àqueles dias escasseavam os Jardins de Infância, muito importantes na criação de hábitos dos pequeninos educandos, no processo de formação da sua personalidade.

Dóceis, as crianças Matoso eram verdadeiro exemplo de bom procedimento e cuidadosa educação, respondendo ao devotamento materno com dedicação, auxiliando-a nos pequenos quefazeres do lar, desde a desencarnação de D. Arminda.

Cientificados da decisão matema prontificaram-se a atender ao irmãozinho espiritual enquanto se tomasse necessário, o que muito alegrou a senhora, que os instava ao bem incessante, lecionando para eles as excelências da caridade, levando-os quando de alguma incursão de socorro, a fim de que se exercitassem no culto dos sentimentos nobres e das virtudes. Afinal, fazer o certo ou o errado é decorrência do hábito, pelo exercício a que se amolda a personalidade.

Nesse cometimento, o ministério de atender as gestantes pobres prosseguia sem qualquer dificuldade.

No transcurso do tempo e sob a inspiração de Cecília, e agora também orientada por Arminda, ela se adestrou, conseguindo feitos expressivos, vitoriosos.

As informações dos seus atendimentos saíram do estreito gueto de miséria e passaram a circular entre as demais pessoas das ruas próximas, alongando-se até à Cidade...

Surgiram as primeiras clientes menos sobrecarregadas de problemas financeiros.

Nossa accoucheuse não se utilizava dos serviços em caráter de profissionalismo para os que não podiam retribuir.

Às primeiras novas clientes alegou a escassez de tempo e as dificuldades de locomoção, em considerando as distâncias a vencer, caso tivesse que atender na urbe, o que era verdade. Além disso, não se considerava capacitada para experiências mais difíceis ou para as surpresas que ocorrem amiúde, exigindo habilidade e conhecimentos acadêmicos ...

Buscava escusar-se quanto possível. Todavia, como se os bons fados conspirassem, outro acontecimento no mesmo campo veio trazer-lhe maior soma de responsabilidades.

Uma cliente do Dr. Hernandez, obstetra e proprietário de um dos Hospitais da Cidade — o mesmo que negara assistência a Vivianne, porque esta não lhe pudesse retribuir os serviços profissionais —, que recebera cuidadoso acompanhamento durante todo o período de gestação, como já estivesse ultrapassando o período previsto para o parto, dele recebeu 1 notícia de que se fazia necessária uma intervenção cesa-


riana, apavorando-se e exigindo que o esposo fosse buscar D. Maria Leonor...

Les-on-d.it[29]!" A força dos boatos exagerava, naturalmente, os recursos da modesta servidora, adomando-a de excessivos prodígios, que não correspondiam à verdade.

Esclareciam uns que, à sua simples presença, mudava o estado de uma problemática de parto; informavam outros que o seu toque possuía uma ação curadora; diversos, ainda, afirmavam que ela jamais perdera um caso, ou uma febre, sequer, atacara uma das suas puérperas...

Não é fácil carregar a auréola de santo ou de prodígio, tanto quanto muito pesa a acusação de maldito, o epíteto de endemoninhado sem sê-lo...

Solicitada pelo cavalheiro ansioso que lhe bateu à porta, a fim de que fosse atender a esposa, após tomar conhecimento dos fatos precedentes, recordou-se de Vivianne, e, com justos receios, escusou-se atendê-la, alegando dificuldades de locomoção e outras, que o visitante foi solucionando à medida que se faziam apresentadas.

Sem outra alternativa prometeu visitá-la logo fosse possível. No íntimo, anelava em favor de uma solução sem a sua presença.

O distinto cidadão saíra a procurá-la por causa das informações da própria Vivianne que trabalhava como serviçal no seu lar e que minudenciara o seu caso, ao ver aflito o patrão.

Tais foram as referências igualmente fornecidas por outras pessoas distintas, que ele não titubeou na conjuntura, indo pessoalmente solicitar ajuda a D. Maria Leonor.

Naquela mesma noite, porém, o senhor retomou, não escondendo a aflição e o desespero.

— Minha mulher passa mal! — explodiu, ansioso. — O médico deseja operá-la, enquanto ela se recusa. Crê que morrerá na mesa cirúrgica. O seu estado é desesperador. Suplica pela sua presença. Estou com o automóvel à porta. Por Deus, senhora, atenda-nos!

  • Não posso assumir tal responsabilidade, cavalheiro — ripostou a humilde — Sou apenas uma prática, uma auxiliar, alguém quando não existe ninguém. Confesso- lhe meus receios ...
  • Assumo a responsabilidade por qualquer consequência. Sou pai e esposo, posso avaliar os riscos, no entanto, não tenho outra alternativa . . . É uma caridade! Ao menos persuada minha esposa em atender ao médico, já que ela confia desesperadamente na senhora ...
  • Santo Deus! Quanta responsabilidade!

Lutando contra os escrúpulos pessoais, o que era per- feitamente justo, em considerando a sua condição de não habilitada legalmente para o exercício que se lhe impunha, e apiedada da situação, Dona Maria Leonor sentiu a angústia daquele homem em pranto e o drama da sua atormentada esposa, no grave momento.

Abstraiu-se do ambiente, nas asas da oração, entregando-se nas mãos do Altíssimo.

“Eis aqui a vossa serva! Fazei de mim instrumento do vosso amor” — balbuciou, resignada.

Não saíra do enlevo da prece quando se sentiu dominada pelo estranho vigor e confiança que lhe advinham da Esfera da Imortalidade, ouvindo na acústica da alma as instruções ditadas por Cecília, quanto às providências a tomar, inclusive à orientação do medicamento injetável, que se fazia necessário.

Recompondo-se, pediu licença para apresentar algumas recomendações ao filho mais velho, tomou a modesta valise com alguns parcos instrumentos e anuiu segui-lo.

Pelo caminho passaram numa farmácia para a aquisição do remédio, por fim demandando o lar.


Tratava-se de ampla e confortável mansão da classe rica, que de imediato constrangeu a pobre senhora. Tudo transpirava bom gosto, facilidades econômicas, posição de relevo. Móveis, tapetes e cortinas de apurada qualidade faziam destacar pinturas, porcelanas e estatuetas originais em função de adorno bem distribuído...

A alcova ampla, rasgada por largas janelas resguardadas por cortinas leves, o largo leito de madeira esculpida e reluzente, em tom negro, harmonizado-se com o dossel de seda escarlate, que caía, drapeada à meia altura...

Várias empregadas davam assistência à senhora ansiosa, inquieta, que o descontrole emocional atormentava.

Dona Maria Leonor locomovia-se com alguma dificuldade, tendo em vista as dores que se lhe impunham, não obstante suportáveis.

Acercou-se gentil, apresentada pelo esposo à dama, que não ocultou o alívio que passou a experimentar, incontinente.

A recém-chegada solicitou que se retirassem as pessoas desnecessárias, ficando acompanhada pela genitora da anfi- trioa e uma auxiliar para alguma ajuda.

Procedeu a cuidadoso exame, enquanto se mantinha em atitude interior de sintonia espiritual. Os seus centros psíquicos dilatavam-se, favorecendo-lhe a percepção paranormal com que se ligava às Entidades benéficas que se encarregam de repartir amor em toda parte.

Não concluirá as observações, quando experimentou a agradável sensação que a dominava, característica dos fluídos salutares e superiores de Cecília, cuja figura hierática se lhe delineou na tela mental, a comandar-lhe as atividades do momento.

Também não lhe passou despercebida a querida Arminda, vigilante e operosa, como auxiliar dedicada da Mensageira espiritual.

Telecomandada, preparou a seringa e aplicou o conteúdo medicamentoso, alentando a senhora a que se deixasse

ficar em relaxamento, sem expectativa, auxiliando o organismo na desincumbência do seu sagrado mister.

Convidou os presentes a uma oração silenciosa, apo- o que, otimista, deu início a uma conversação edificante, amena, de que todos pudessem participar sem qualquer afetação ou constrangimento.

À medita que o medicamento agia, a maquinaria orgânica reagiu favoravelmente, como que por milagre, aumentando a dilatação do colo uterino enquanto as contrações para expulsão do feto, que corrigia a posição, na madre, se faziam rítmicas, contínuas, produzindo júbilos gerais e os compreensíveis sofrimentos na puérpera . . .

Menos de transcorridas três horas após a sua chegada, e já se encontrava ao lado da mamãe o saudável garoto, a dormir, trazendo felicidade para toda uma família expectante.

O genitor não se furtava à explosão dos risos, exagerando seu entusiasmo.

Como era habitual, à época, a accoucheuse ficou de retornar, acompanhando a criança nos seus primeiros dias de vida e a senhora, até que se encontrassem em perfeitas condições.

O acontecimento foi como um rastilho de pólvora aceso no então café society a que pertencia a dama ditosa.

Todas pessoas queriam conhecer a excelente senhora e tê-la entre os amigos da sua roda para alguma emergência. O fato mais surpreendente teve lugar quando o pai feliz perguntou-lhe a quanto montavam os seus honorários.

Declinando de receber qualquer retribuição, D. Maria Leonor explicou que de profissão, era somente costureira, atendendo naquele mister, fortuitamente, por amor, sem outro interesse.

— Eu, porém, a posso remunerar regiamente — propôs- lhe o Sr. Gutemberg Lustosa, próspero engenheiro civil, descendente de abastada família. — Uma soma expressiva não é retribuição digna do bem que a senhora nos fez.

  • Declino de qualquer benefício, senhor — respondeu com humildade sincera. — Para mim, tem sido um grande prazer recebeT a honra do seu lar e servir a pessoas distintas como esta família.
  • Mas a senhora, os seus filhinhos têm necessidades que o dinheiro poderá suprir — insistiu, sensibilizado. — Desculpe-me teimar contra os seus princípios. Sucede que, beneficiados como temos sido, é uma satisfação, mais do que um dever, retribuir-lhe com um pouco do muito que nos ofereceu.
  • Conceda-me, então, o favor da amizade da sua família ... (E sorriu, humilde, superando-se a si mesma).

Só o amor retribui com alta significação a grandeza de um ato de amor.

O casal Lustosa estava sensibilizado.

“Ainda existem casos desses, no mundo egoístico de hoje? — pensou o engenheiro, sem compreender. — Os interesses menos nobres campeiam, vitoriosos; a astúcia abraça a desonestidade em luta contra o equilíbrio; as ações de bondade aparente disfarçam jogos inconfessáveis, no entanto, aquela sofrida mulher se permitia servir por amor, ajudar por prazer, dedicar-se a alguém sem receber ou anelar nada em troca!”

A senhora Lustosa beijou-lhe a destra, elucidando que o seu seria a continuação do lar de D. Maria Leonor inteiramente à sua disposição, enquanto o Engenheiro Gutemberg se dispôs a conduzi-la de volta.

Haviam-se passado cinco dias desde a noite da aflição caridosamente socorrida.

A bondade exercida com desinteresse imediatista penetra como lição viva naqueles que são aquinhoados com a sua dádiva.

A família Lustosa não esqueceria o exemplo que lhe tocou os sentimentos. Vivendo os padrões do prazer vigente e embora as vinculações com um meio egoista, se caracterizava pelos princípios que dignificam o ser humano. Alguns jaziam adormecidos, aguardando despertamento, enquanto outros frutesciam por espontâneo eclodir de vitalidade. Aquela renúncia fora motivação para o desencadeamento de deveres naturais, que pareciam, em face do inusitado, como altas expressões de altruísmo. De qualquer forma a sega do bem são as flores da alegria.

O Engenheiro e Senhora Lustosa, sabendo do esforço de Vivianne para manter-se digna e com sacrifício atender ao filhinho que passava os dias sob a custódia de D. Maria Leonor, resolveram convidar a servidora a transladar-se em definitivo para uma pequena casa, no amplo terreno da Mansão, trazendo o filhinho para sua companhia, retribuindo, desse modo, uma parte do benefício auferido, àquela que os encarninhara à costureira, enquanto lhe diminuíam, ao mesmo tempo, a soma de responsabilidades e a carga de preocupações.

Como consequência, o ato nobre tocou profundamente os interessados, que foram surpreendidos com a larga doação do concurso fraterno.

Há, no mundo, muito amor que aguarda ser despertado, a fim de realizar o mister para cujo fim se destina. No labirinto dos jogos da ganância repontam vez que outra as expressões de nobreza, que se envergonham de disputar lugar na ribalta das sensações.. . Desde que se levantem os ideais intemeratos, outros se erguem em coro, comprovando a divina procedência do homem, igualmente fadado à luz.

Simultaneamente à divulgação dos dons da intermediária da esperança, chegaram os apelos ao mercantilismo, os convites ao desvio, a apresentação das vantagens que entenebrecem o coração.

O Dr. Hernandez sentindo-se frustrado e prejudicado pela segunda vez, em face da interferência da humilde par-

teira, buscou-a, no seu próprio lar, apresentando-se e indo direto ao assunto.

  • Pretendo contratar os seus serviços para aplicá-los no meu Hospital — propôs sem preâmbulos.
  1. Maria Leonor que lhe conhecia a fama, graças aos les-on-dit, de homem impetuoso e apaixonado, procurou com humildade declinar da honra sem lne ferir os brios.
  • Deve haver um equívoco, caro doutor — contrapôs ela —, em tomo da minha pessoa. De profissão exerço a arte modesta de costureira, não possuindo outra atribuição que me faculte prestar serviços num Hospital, exceto na faxina ou em labores equivalentes ...
  • A senhora — revidou ele —, segundo me informaram, é uma bem dotada obstetra prática que, apesar de não diplomada, vem conseguindo resultados surpreendentes na profissão ...
  • Como disse, permito-me repetir ao doutor que não exerço outra atividade remunerada. Quando solicitada e as circunstâncias me permitem, ofereço minha insignificante colaboração a pessoas muito pobres daqui desta área mesma. (E fez um amplo gesto com o braço e a mão distendidos como a abraçar a sofrida região onde operava).
  • Não me venha com modéstia dispensável, porquanto estou muito bem informado da ocorrência no lar do Engenheiro Lustosa, cuja esposa é minha cliente ... Não me houvesse dito o amigo, com riqueza de detalhes, sobre a sua interferência por ocasião do nascimento do seu rapaz e eu concluiría por mim próprio, considerando saber das dificuldades para um parto normal, já que eu lhe acompanhara todo o período da gravidez ... Não se justifica a sua escusa sob a alegação apresentada. Insisto no meu convite.
  • Não tenho condições técnicas nem saúde física, bondoso doutor. Tenho sido acometida, nos últimos anos, de dolorosa e pertinaz enfermidade que muito me martiriza, ameaçando-me, a prazo médio, com uma paralisia total.


  • Não lhe tomarei todo o tempo. Reservar-lhe-ei alguns dos meus muitos casos e a remunerarei compensadoramente.
  • Agradeço-lhe, sensibilizada, tanta nobreza de senti No entanto, não disponho de recursos técnicos que me induzam a aceitar essa grata responsabilidade . . . Além disso, tenho as duas crianças em idade que me exige assistência, não tendo como deixá-las a sós.
  • Ora, com o que lhe pretendo pagar, a senhora poderá transferir-se deste ambiente sórdido para um lugar respirá- vel ... (Ele olhou em derredor, fitando os casebres fronteiriços e as crianças misérrimas que se encontravam na rua, se é que aquilo poderia ser chamado rua ).
  • O doutor se equivoca outra vez. Este é o meu meio. A casinha é própria e todos me Nunca fui molestada por vizinho algum ...
  • Deve ser por medo.
  • De que, doutor?
  • Ora, a senhora deve passar como feiticeira, graças à sua técnica de embuste, que eu gostaria de estudar, para E se os seus proclamados dons são verdadeiros, desejo utilizar-me deles, orientando-a em como aplicá-los de forma proveitosa ...
  • Rogo ao doutor o favor de deixar esta casa. É pobre e honrada. Pois saiba que aqui ninguém me teme, nem nunca me explora (Carregou o acento na palavra). Neste pântano, talvez abjeto, onde vivem muitas criaturas de Deus, há a dignidade que escasseia noutros lugares e pessoas. .

Ele quis reagir, mas sentiu-se impossibilitado. Aquilo lhe parecia à presunção dourada uma extrema humilhação. Não pôde arredar-se. Ela continuou:

  • Os meus são os bons da compaixão pela dor alheia, que são raros naqueles que ganham para curar; da caridade fraternal, que supre de amor o que o conhecimento não pode oferecer; da solidariedade humana, que nos devemos uns

aos outros, não nos negando ao compromisso de servir, quando faltem as moedas miseráveis; da dedicação desinteressada, cuja ausência gera crimes e é fator de muitos males... São os dons do Evangelho de Jesus, de que o mundo necessita e os que poderiam esparzi-los se negam, fechando-se nas suas prisões reluzentes onde também se estorcegam em dores sem o lenitivo de presenças afetuosas.

Fez uma pausa, dominada por inspiração superior, para logo concluir:

  • O Pai de Misericórdia faz-me perceber a presença e receber a ajuda de Seres Espirituais que sobreviveram à Não entendo esse mecanismo nem me parece importante sabê-lo. Tenho sido aquinhoada com esse concurso poderoso, que reconheço não merecer, e é para manter a limpidez e santidade dessa concessão que não exerço o profissionalismo ultrajante, nem faço alarde deles. Se se trata de bruxaria não sei, o que sei é que eles vêm de Deus.
  • Pois esteja certa — conseguiu ele articular, furibundo, pondo-se de pé —, que eu a processarei legalmente por intromissão no meu trabalho, por prática do curandeirismo e exercício da Medicina sem o diploma competente. Não permitirei que a superstição e a ignorância me roubem proventos, ameaçando a vida da minha clientela ...
  • O doutor aja conforme sua consciência, enquanto eu continuarei atuando conforme a minha. A entrevista está encerrada.

O obstetra resfolegava de cólera. Bateu a porta e saiu vociferando palavras iradas.

Não receava ele perder a clientela é certo, mas os lucros que auferia com a mesma. O seu era o problema da competição. Se podia comprar os serviços da senhora, tomar-se-ia lícito o seu ministério, se recusando servi-lo, transformava- se em “exercício ilegal da Medicina”. Paradoxo dos trêfegos e ambiciosos!

  1. Maria Leonor ficou prostrada, quase em estado de choque. A desagradável surpresa fora superior às suas forças*

Cessada a inspiração que a dirigira com convicção, repudiando o ultraje à altura, caiu em si e foi acometida de justificados receios.

Encontrava-se à borda da depressão, quando experimentou o rocio de Arminda, animando-a sem palavras, conferindo-lhe coragem e valor.

A humildade não prescinde dos valores morais que lhe servem de base de sustentação. Ser humilde não implica em tornar-se vulgar, derrapando na covardia que lhe é o oposto.

 

                     AS MÃOS DO DESTINO TRABALHAM

() Dr. Hernandez não se atreveria a levar adiante a ameaça proposta a D. Maria Leonor.

As almas atormentadas alardeiam virtudes que não possuem, procedendo com falsa honestidade, porém receosas das próprias falhas.

A boa senhora a ninguém nada comentou, sobre a infeliz altercação. Naquele lugar, porém, qualquer elevação de voz chamava atenção pela exiguidade de espaço entre as casas.

Algumas pessoas, assim, acompanharam a explosão final do médico e se colocaram em posição de socorrer a senhora caso se complicasse a situação, felizmente cessada com brusquidão. Como não se queixasse, respeitaram-lhe os sentimentos silenciosos...

Nesse ínterim, chegou-lhe uma carta do cunhado, nar- rando-Ihe o agravamento da saúde de D. Lídia. Explicava que a cada dia mais se lhe abatia o ânimo. Envelhecida e triste, acompanhava o desmoronar dos bens. Estes haviam sido miseravelmente dilapidados por funcionários inescrupu- losos, sendo realizada uma Hasta Pública do espólio, cujo resultado foi dividido entre os herdeiros. A parte pertencente a Roberto Domênico encontrava-se depositada em Juízo, à disposição do Curador.

A esposa do presidiário não tocou em qualquer moeda, desde quando informada de tal providência, aguardando a recuperação do marido ou a maioridade dos filhos. Enquanto tivesse forças permaneceria no trabalho para manter o lar. Tal propósito vinha sendo mantido com régio escrúpulo. Dignidade dos humildes!

O cunhado, André, instava em mandar buscá-la, a fim de atender ao anseio da genitora moribunda. Antes, ela havia externado o desejo de visitar a nora, inteirar-se dos seus problemas, socorrê-la ... Adiando a viagem, que não se concretizara, tombara impedida de fazê-la. Demonstrara imenso carinho com entranhado interesse de dialogar com ela, receber-lhe a visita...

Ele solicitava o esforço da sua locomoção. Iria buscá-la e aos sobrinhos, assim fosse marcado, telegraficamente, o dia, que não podia ser postergado. O assunto era urgente.

A destinatária meditou no conteúdo da missiva com atenção. Sempre dedicara imenso respeito à progenitora do marido, que lhe foi um elevado atestado de grandeza moral. Repassou as cenas e a altivez de que se fizera objeto por ocasião dos lúgubres acontecimentos e resolveu-se por visitá-la, naquela hora de despedida terrestre.

Os últimos sete anos haviam-se passados lentos e assinalados pelas dores. As alegrias únicas eram os filhos, o conforto das amizades que conquistara e o tesouro dos contatos espirituais que a sustentavam.

Compreendendo que urgia aquiescer, telegrafou ao cunhado, aprontando-se para seguir com ele dois dias depois.

A viagem, relativamente longa — cinco horas de automóvel pela estrada poeirenta —, exaustiva para sua fragilidade, foi um encanto para as crianças. Ela própria também se beneficiou, apesar das dificuldades.

André, muito gentil modificara o conceito que formulara negativo contra a cunhada, desde que a conhecera), admirava o estoicismo da senhora, assinalada pelos vários marcos dos sofrimentos e da escassez de recursos. Nunca se aproveitara dos vínculos familiares para solicitar ajuda alguma, jamais se beneficiara de qualquer posse dos parentes. Sua atitude discreta, o devotamento e a cuidada educação que ministrava aos filhos, desnudavam-lhe as elevadas conquistas morais de que se exornava.

Parando aqui e ali para auxiliá-la no refazimento, apontando atrativos na rocha erosada ou nos campos ondulantes, ele fez questão de demonstrar-lhe apreço e amizade.

Não se referiu ao irmão encarcerado, nem ela, com a discrição habitual, formulou qualquer indagação perturbadora.

A chegada ao lar dos familiares foi comovedora. A cunhada Zulma, esposo e filhos, a senhora de André e filhos enlaçaram-na com muita simpatia, enquanto as crianças facilmente se identificaram nos seus interesses comuns.

A respeitável enferma tivera os seus padecimentos agravados após a saída de André e o médico fora convocado de urgência. Aguardava a nora com iniludível ansiedade.

O filho adentrou-se pela recâmara para preparar a mãe- zinha, de modo que não se emocionasse em excesso, no reencontro com Maria Leonor.

Esta, depois de instalada com os filhos em uma ampla peça interior, banhou-se e aguardou o momento de visitar a querida sogra. Enquanto esperava, entregou-se à oração. Aquele momento significava muito para ambas.

No pórtico exterior da imortalidade, devem ser expressos todos os tormentos que possam perturbar aquele que se apresta a se adentrar pelo país da Vida Maior. Para quem fica por mais algum tempo, faz-se imprescindível contribuir com o melhor disponível, preparando-se por sua parte para no momento porvindouro que ninguém se exime de enfrentar.

A prece deu-lhe calma. Sentia-se em condições de falar com a benfeitora e mãe do seu marido com tranquila convicção sobre a sobrevivência do Espírito. Sentia que lhe poderia ser útil naquele importante momento da vida.

O nascimento é de alta magnitude para o ser que recomeça a jornada humana. O morrer, despojar-se dos condicionamentos e dependências, demoradamente vivenciados, não é de somenos importância, devendo merecer cuidadosos esforços para que se colime o fenômeno sem amarras constritoras que se demorem nem tarefas que, se não concluídas, se transformem em prisões de remorsos desnecessários.

A recâmara ampla, alcatifada, se iluminava parcimoniosamente, a fim de que a claridade não inquietasse a enferma, necessitada de repouso, de refazimento.

Recostada em grandes almofadas forradas de alvinitente linho, a senhora, muito pálida, com dispneia, recebeu a nora com emoção compreensível.

A recém-chegada dobrou-se e abraçou-a com meiguice, envolvendo-a em forte magnetismo de entranhado amor.

Com os olhos marejados de pranto e a voz embargada, D. Lídia segurou a mão da familiar. O rosto adquiriu positiva tranquilidade, refletindo a luminosidade interior, a gratidão da enferma!

  • Eu não poderia partir da Terra sem vê-la por última vez — confessou a mãe de Domênico. — Felicidade, portanto, tê-la aqui com os meus netos (Havia-os osculado naquele momento), trazendo-me de volta a lembrança querida do meu inditoso filho encarcerado na loucura . . .
  • Mamãe! — exclamou Zulma, preocupada. — Você não pode nem deve emocionar-se. Recorde-se das recomendações do Abraão. Com a sua saúde, quaisquer dificuldades encontrarão respostas e soluções . . .
  • Não desta vez, minha filha. Eu sei que o meu tempo se encerra. Concluída a minha tarefa, sabendo-os ditosos,


nos seus deveres, cumpre-me liberá-los das preocupações em relação a mim ...

  • Mamãe, não diga isso! — interrompeu-a, a filha, realmente comovida. — Você é a luz dos nossos dias, que jamais nos causou problemas. A preocupação, o zelo são as flores do amor que vicejam no coração vigilante de quem se devota ao anjo da sua existência.
  • Eu sei, eu seil As saudades, porém, de Edmundo são Ficarei com ele, aguardando vocês, depois de suas tarefas, quando nos voltaremos a reunir, numa família ditosa. Eu sei que morrer não é destruir-se. Creio que os nossos mortos nos aguardam, se é que cumpriram bem na Terra os seus deveres. Que lhe parece, Maria Leonor?
  • Estou de pleno acordo, Também eu tenho essa certeza, a de que os nossos afetos não se desintegram com a morte. Mais ainda: que eles nos ajudam, tanto quanto os inimigos nos prejudicam. Dar à morte outra interpretação é negar a vida.
  • Eis porque lhe desejava .. Gostaria de partir com a consciência tranquila em relação ao meu filho pros- crito e a você ... Rogar-lhe perdão pelas aflições que lhe causamos por preconceito infeliz e por precipitação indesculpável. A presença da morte concede visão de profundidade e claro discernimento das ocorrências. A fatalidade desse fenômeno inadiável, como que impõe reexame e reconsideração de atitudes ...
  • Desculpe, amiga querida — atalhou a — A senhora sempre me constituiu modelo de virtudes, que gostaria de imitar, jamais me causando qualquer dano ...
  • ... Porém combati-a por orgulho, antes de a conhecer.
  • Era natural. Qual a mãe que o não faria? O nosso desejo de mães é ofertar aos filhos o que seja de melhor e, como é compreensível, além do santo amor, que poderia a minha pobreza ofertar a Domênico?!
  • O que lhe deu: honra, fidelidade, devotamento, sacrifício esses valores inestimáveis e raros. Doou-lhe filhos sadios e belos, que a sua vigilância e dedicação farão homens de bem... Por isso, lhe rogo perdoar-me pelo quanto eu lhe poderia ter feito de bem e não o fiz. Não só o arrependimento me balbucia ao coração e põe-me nos lábios estas palavras, mas também a certeza íntima de que você amparará o meu filho infeliz, sendo-lhe a porta aberta para o retorno, se algum dia Deus lhe permitir essa felicidade.
  • Quanto ao perdão, nada lhe posso conceder por muito amá-la, nunca havendo guardado ressentimento, pois jamais houve motivo para tal. Sobre o retomo de Domênico — Deus o salve! —, o quanto desejo! Em minhas orações à Santíssima Senhor^, suplico-lhe a bênção de favorecer-me oportunidade de ajudar ao meu esposo. Ele nunca me saiu da mente ou do coração ...
  • Eu sei — prosseguiu a enferma, que apresentava melhor facilidade de expressão, qual se a saúde lhe houvesse minorado de súbito os sofrimentos — que os meus filhos não lhe negariam guarida e proteção. Seria, porém, mais difícil para ele ajustar-se... Não o inocento de todo. Algo me diz no santuário da maternidade que aquelas desditas do passado nunca poderão ser explicadas na Terra. Qual um quebra-cabeças, aqui não se encontram todas as peças para armar-se o quadro corretamente... E temo que o anjo encarregado dos destinos maus não encerrou a sua tarefa ... Olho em relação ao futuro | o vejo sombrio, cheio de amarguras. Apiado-me de você, minha filha. . .

A mão de D. Lídia comprimiu a destra da nora, emocionada, invadida por álgido suor.

Também ela pensava assim. No recôndito dalma pressentia que a sua taça de amargura possuía muito líquido a ser sorvido. Desconfiava de que a assistência espiritual de que se via objeto, constituía-lhe mais um socorro preventivo

do que outra coisa, porque reconhecia a própria pequenez e a falta de méritos.

Meditando, descobria-se vivendo duas vidas. Interpenetrava-a, ou dos bastidores da consciência, naquele mundo profundo de arquivos, levantava-se outra mulher que a aturdia, arbitrária e orgulhosa com a qual se identificava, como se fora ela própria, noutra circunstância, que lhe parecia fantástica, difícil de entendida na sua significação real e profunda.

Cecília lhe falara sempre sobre os infortúnios que lhe sucederiam. Neles a presença de Roberto Domênico fazia-se verdadeira obsessão.

Não se pôde alongar nas reflexões. A voz débil da enferma trouxe-a de volta à realidade:

  • Providenciei para que lhes não falte nada: a você e aos meus netos. André se responsabilizará por prover suas vidas do necessário para a manutenção dos três.
  • Não necessitamos de muito, amada benfeitora. Perdoe-me, mas nada nos falta. O trabalho humilde nos tem provido do indispensável e, depois, o futuro das crianças está cuidado, conforme a dedicação da família e os haveres que o Sr. Edmundo lhes legou ...
  • Não bastam, minha filha. As moedas foram postas no mundo para diminuírem o sofrimento, resolverem alguns problemas, ajudarem nas trocas a que se destinam ...

Encontrava-se muito pálida. Sentia-se que a morte se lhe acercava do leito e o tempo fugia, rápido.

  • Depois disto aqui (Olhou em derredor, abarcando o espaço do dormitório), quando tudo estiver encerrado e antes de você retomar à casa, visite Domênico... Eu lhe peço . . . Faça-o por mim, que nunca me atrevi a tentar...
  1. Maria Leonor experimentou um choque quase fulminante. No inconsciente ela sabia que a moribunda lhe faria tal solicitação. Emudeceu, vencida por desordenadas emoções.
  • Eu sei o fardo que lhe deponho sobre os ombros frágeis ... Deus a fortalecerá ... Sua presença o ajudará ... André providenciará com o Curador... Apenas um momento ... Quem sabe?!

A enferma agitou-se. Zulma pediu ao irmão para buscar | médico com urgência.

  • Não desta vez — balbuciou, ofegante —, não será necessário. Falta pouco tempo... Que horas são? Já amanhece?
  • Não, mãezinha santa, — respondeu a filha, que se controlava com hercúleo esforço. — São onze horas e pouco; antes da meia-noite.
  • Meu Deus, amanhece!

Os servos começaram a chorar baixinho.

  • Ouvem a música, que vem de Cima? Que bela! As vozes cantam ... Quem são?
  • Mamãe, você está delirando. Mamãe, não nos deixe! j.

As pessoas ajoelharam-se em volta do leito, orando em silêncio. André comprimiu o peito. D. Maria Leonor percebeu a claridade diamantina que inundava o recinto e viu destacar-se a nobre Cecília.

A veneranda benfeitora, sem dizer qualquer vocábulo, revelou que aquele era o momento da desencarnação de D. Lídia.

A sensitiva acarinhou a mão da amiga e falou, bondosa, com segurança:

  • Essas são as vozes de seres felizes, recebendo-a na Pátria ... Esteja tranquila! Deus a abençoe!
  1. Lídia adentrava-se nas vibrações do além-túmulo embora ainda imantada ao corpo.
  • Como são belas!
  • Que, mãezinha?!


  • A música, a claridade!...
  • Não nos abandone, na Terra, mamãe! Que será de nós?!
  • Deus cuidará, minha filha ... Ouça a música ...

André segurou a irmã, igualmente comovido, sem palavras. As crianças maiores desataram em pranto.

Uma serenidade dominadora invadiu o ambiente. O choro era natural. Não havia desespero, mas dor, saudade, gratidão, amor no momento superlativo e final da vida no corpo...

  • Salve Rainha!... (A moribunda, de convicção católica, tentava repetir uma oração tradicional do seu culto.) Eu a vejo! Edmundo está com ela ... Vêm buscar-me... Oh! meu Deus!

Nenhum estertor, nenhuma desesperação.

Estava morta. Morrera com a dignidade e a nobreza com que sempre vivera. Mors ultima ratio[30].

Passados os momentos mais difíceis de preparação do cadáver e sua imediata transferência para a ampla sala de entrada, iniciou-se o velório.

Servos foram despachados para notificar, pessoalmente, outros familiares e amigos íntimos, e, ao raiar do dia, foram tomadas as providências para a inumação.

O sacerdote celebrou uma Missa de corpo-presente, na Catedral, e o féretro com grande séquito foi conduzido ao Cemitério.

A família enlutada soube honrar a memória da extinta, mantendo o equilíbrio possível.

Modernos psiquiatras e psicólogos apoiando-se em experiências em tomo da questão da neurose, instam para que

  1. Mors ultima ratio — A morte é a razão final de tudo.

as exéquias fúnebres não percam o aparato ritualístico a que se fixam diversas facções religiosas.

Afirmam que os mesmos, às vezes, excêntricos, redun dam salutares para os que ficam, os familiares e amigos mais afetuosos. Segundo tal opinião, as pessoas durante os cerimoniais, têm tempo de se acostumarem com a ideia da morte, liberando-se do trauma decorrente do choque, através da catarse pela dor e desespero, que devem ser exterio- rizados.

Os ofícios laudatórios, o embalsamamento para postergar a cerimônia do sepultamento, alongando-a, teriam um alto valor terapêutico preventivo em face de prováveis futuras depressões, frustrações e angústias que se originam a partir desses momentos.

Se colocada a questão do ponto de vista nulista, em torno da sobrevivência do espírito — e é o que ocorre neste conceito de natureza materialista —, a justificativa e o método de encarar-se a morte seriam válidos, por esta significar o ato final, o fechar da cortina da vida.

Diante da sua inevitabilidade, do seu inexorável consumir, quanto se fizesse por adaptar a mente a aceitar o seu fatalismo destruidor, deveria ser investido, como também tranquilizando os familiares de que haviam oferecido o melhor, repartido, inclusive, as penas, como realmente acontece ..

Todavia, mesmo em tal caso, o programa da morte deveria ser encetado muito antes da sua consumação, em cada dia da vida. Desde que esta não fosse eterna, justo que se criassem condições de encarar-lhe o termo como fato normal, sem a emoção das surpresas traumatizantes.

Se posto o problema sob a angulação espiritualista, cujo desdobramento se refere à vida, não há como concordar com a colocação da validade das exéquias e da vazão do desespero dos que ficam no corpo. Duas questões fundamentais assomam: primeiro, a da certeza do reencontro, como decorrência da própria sobrevivência; segundo, o estado emocional dos que permanecem no corpo físico contribui para a tranquilidade ou o desespero de quem parte, considerando- se que a comunicação psíquica entre os seres não cessa com a morte, antes mais se intensifica. As mensagens mentais de angústia, de revolta, de acusação ou serenidade, alegria e esperança chegam aos desencarnados, produzindo efeitos equivalentes ao conteúdo dirigido. Tomam-se ditosos ou desventurados em face ao que a sua memória inspira, aos resultados da sua ação terrena realizada.

É incontestável que a aceitação da sobrevivência não anula a dor imposta pela separação física, a saudade, às vezes, lancinante, a necessidade de contato ... Apesar disso, alenta com a esperança, ameniza a angústia ante a expectativa dos reencontros ditosos, encoraja em face da inspiração e do intercâmbio que se pode manter com os desencarnados.

As exéquias lúgubres, os sermões exaustivos, o cerimonial automático funcionam negativamente, aturdindo, desesperando os recém-desencarnados que, a seu turno, não se prepararam a tempo para a viagem que todos são obrigados a empreender.

De real e profícuo bem o considerar-se a morte como parte da vida, que e toda uma estrutura única a expressar-se em formas orgânica e espiritual, transitória e contínua.

A morte só é solução para quem não sabe o que é a vida, até o momento de despertar para a realidade do existir.

À instância dos familiares, D. Maria Leonor, para não ser indelicada, ficou mais alguns dias, na residência de André, onde vivia sua sogra.

Procurando enfrentar sem mais adiamento a visita ao Manicômio, a senhora solicitou ao cunhado que fossem tomadas providências com o Curador de Domênico, concertando-se o compromisso para o dia imediato.

0 homicida encontrava-se em total desequilíbrio, numa enfermaria coletiva, recebendo assistência mínima, por força das circunstâncias.

A família, através do Curador, buscava suprir quaisquer deficiências, impedindo que ele tombasse, inerme, nos pátios superlotados, onde a criatura retornava, pela força mesma da enfermidade e pelo abandono a que era arrojada, à condição primitiva de animal irracional.

O irmão, André, preferiu ficar nas dependências administrativas, recusando-se visitar Domênico, a quem não conseguia perdoar. Receava, talvez, o encontro com a dor, com a condição lastimável do familiar e poupava-se, refugiando- se em desculpa imprópria.

A esposa preparara-se mediante a prece, para o reencontro, transcorrido o largo período. Conservava a imagem vigorosa do esposo, que não voltara a ver, insculpida nos paineis mentais.

Ansiedade e receio se alternavam e se uniam na sua emotividade. Interrogações que não tomavam corpo bailavam na mente em rigorosa disciplina, fixada na prece de socorro a Jesus.

O Frenocòmio imenso ficava guardado atrás de altos muros, um pouco afastado do centro da cidade. Fora construído especialmente para acolher os alienados mentais. Todavia, encontrava-se em lamentável estado de conservação. As duas amplas alas — masculina e feminina — eram separadas por dois pátios cada, de altas paredes, infectas, onde se aboletavam os casos mais graves. Além das quatro enfermarias, na parte inferior de cada bloco, ficavam os quartos- fortes, verdadeiras celas solitárias onde eram arrojados e quase sempre esquecidos os “violentos”, os “agitados” . . .

Na promiscuidade dos pátios, onde enfermeiros irresponsáveis e cansados pelo aturdimento geral, agrediam e eram agredidos, como nas “solitárias”, o asseio vivia desleixado e os pacientes chafurdavam nos dejetos.

Nas enfermarias, ao menos, havia alguma assistência.

Ali, se encontrava, no leito, o inditoso marido de Dona Vtaría Leonor.

Ela se acercou e, por pouco, não o reconheceu. A face escalavrada, pálida, na auréola negra da barba maltratada e da cabeleira basta, cortada rente à testa larga, e os olhos grandes, parados, inexpressivos, fitando coisa nenhuma, o abandono do corpo... Muito magro e debilitado, provocou um choque rude na sensível senhora.

O ambiente psíquico era pestilencial, compatível com o recinto físico.

Ela não pôde sopitar as lágrimas. Sentiu-se opressa, por pouco não desmaiando. Segurou-se ao leito de metal onde ele jazia respirando, hebetado, inconsciente (ou semi-consciente?), alheado a tudo, a todos.

O médico que os acompanhava, a ela e ao Curador, me- neou a cabeça, desanimado, confirmando que o paciente ouvia, sentia, via, sem compreender nem raciocinar. Ali, a vida era vegetativa, toda bloqueada, quase morta... (Do ponto de vista psiquiátrico, talvez o fosse, mas não da posição real, como veremos em momento próprio.)

A esposa compungida aproximou-se vacilante e cha- mou-o com a doçura que só o amor pode lograr.

  • Roberto, meu bem! Sou eu, Maria Leonor...

Não houve reação.

Ela segurou-lhe a mão esquelética, acarinhou-a e repetiu:

  • Roberto, lembra-se de mim? Roberto, eu sou sua esposa, Maria Leonor.

Ela viu, então, Cecília aplicando vigorosas energias no enfermo e percebeu que aquelas forças o penetravam, enquanto um fumo escuro, fétido, espesso dele era expelido.

Subitamente, ele estremeceu, pestanejaram os olhos, resmungou algo ininteligível e fitou-a com os grandes olhos claros, parecendo identificá-la.


  • Maria Leonor, Roberto. . . Maria Leonor, sua mulher . . . Estou aqui...

O alienado movimentou-se no letargo, balbuciou algumas palavras desconexas, os olhos nela cravados, tentou er- guer-se e caiu, novamente, no estado anterior.

Ante a surpresa, o psiquiatra explicou, terminante:

  • Crise de delírio que, às vezes ocorre, sem mais amplas perspectivas de melhoras.
  • Houve alguma antes, doutor, com ele? — perguntou a esposa, emocionada, gentil.
  • Deve ter havido, é claro. (Ele não o sabia, supunha-o. )

Dona Maria Leonor estava certa, porém, de que fora ouvida e identificada. Relâmpago abençoado, acudiu-lhe a ideia de que havia possibilidade de uma recuperação. No íntimo ela o sabia.

Foi, portanto, com a esperança que se renovava, que ela se retirou do Hospital. Sucintamente deu ciência do fato aos cunhados, que embora não acreditassem numa recuperação — nem o desejassem, reconheçamos, preferindo que tudo permanecesse sepultado, a pouparem-se perspectivas de novos sofrimentos — de alguma forma se rejubilaram. Era tão remota a possibilidade, que eles já não a temiam mais.

Por ignorarem-se as determinações divinas, os prognósticos humanos são sempre passíveis de equívocos, mesmo quando apoiados em aparentes concretas realidades.

A vida é constituída de surpresas de vários portes e diferentes matizes. A roda dos seus acontecimentos sempre volta ao lugar de origem, apesar de noutras condições, em circunstâncias outras.

 

                   DON HIDALGO DESPERTA DO PASSADO

Não só apenas pelo aspecto físico o Manicômio Judiciário inspirava horror. A construção pesada, com janelas gra- deadas e portas espessas de madeira reforçada, as chaves trancando as passagens de acesso, os muros altos, os pátios nus compunham antes o cenário de um presídio do que o de um hospital.

A atividade rude, mal remunerada, a indolência de quem de direito pela administração haviam transformado a quase totalidade dos funcionários em sicários dos pacientes.

  • Hoje mais um “bateu as botas”, na enfermaria A. — comentava um servidor com outro.
  • Aquele que foi recolhido após o “acontecimento”? — inquiriu o ouvinte. (O “acontecimento” fora uma grande sova que lhe aplicaram.)
  • Sim, aquele... Também serviu-lhe de lição.

Ambos riram, prazerosamente.

  • Algum outro desgraçado virá para o seu lugar. Aqui nunca se tem direito a uma folga ;..
  • Nem por isso deixaremos de aplicar-lhes a terapia da força. Na loucura destes miseráveis, a pancada é remédio para muitos. E na falta de outro medicamento...

Comentários que tais, desbordando cinismo, se tornaram naturais.

Corretivos deste e de outros mais infames jaezes eram normalmente utilizados.

Afinal, o guardador de um paciente mental é prisioneiro que vigia outro prisioneiro, sofrendo-lhe a injunção carcerária ...

Lúgubre o conglomerado humano, horrenda se tomara a comunidade espiritual, puisante e viva, num truanesco intercâmbio vital. Naquele recinto de redenção pelo impo- sitivo da reeducação na dor superlativa, a população de Espíritos suplantava expressivamente a física.

Seres degenerados, caricaturais, Quasímodos disformes, animalescos, licantropos, uns desfilavam, arrastando-se ou sendo arrastados pelos êmulos humanos, que lhes refletiam a hediondez, em estreito conúbio psico-físico. . . Semblantes alvares, terríficos, patibulares exteriorizando o estado de alucinação profunda em consórcio com pacientes que lhes pareciam cópias em cera, regorgitavam. . . Blasfemos, agressivos, violentos, frios e calculistas outros tantos estorcega- vam-se nos seus delírios de vingança com que se locupletavam nas vítimas, a elas atados em parasitismo aterrador... E incontáveis misérrimos, ociosos, caídos subjugados por outros de condição dominadora, fádes impiedosa sem qualquer registro emocional. Periodicamente, vândalos passavam bulhentos, apavorados e apavorantes, produzindo alarido na mole de desventurados de ambos planos da vida.

Verdugos acolitados por seres de forma animal inferior deambulavam como fiscais impiedosos, intermediários de almas secularmente aferradas ao mal, em refúgios no próprio Averno. Eram feitores dirigentes-dirigidos encarregados do mettre le feu[31] para apavorarem e explorarem as forças das vítimas, nas vampirizações irrecuperáveis com que se vingavam dos impénitentes algozes do pretérito.

Não que ali todos se encontrassem à mercê do divino olvido. Não que ali deixasse de luzir o amor de Deus. Não que faltasse a misericórdia do Céu.

Grupos de enfermeiros espirituais vigilantes — que, por se encontrarem em estágio edificante, se movimentavam em faixa diversa dos atormentados, que os não percebiam, salvadas algumas poucas exceções —, operavam em socorros, minimizando as excessivas desditas a que se arrojaram pelo derrocar das obrigações morais superiores; graças ao abusarem das atribuições humanas; por perverterem os valores inalienáveis do espírito; em subverterem as diretrizes do amor; através do extravasarem de paixões aniquilantes e avassaladoras; no repudiarem, orgulhosamente, os impositi- vos espirituais, causais da organização fisiológica... Árbitros insensatos do destino alheio, condutores de consciências, comandantes de comunidades, criminosos todos que malversaram as transitórias atribuições que os faziam mordomos das fortunas da ordem, do dever, do progresso, que transformaram em caos, anarquia, degradação, embora o corretivo da Justiça não permaneciam ao desamparo, quanto, a seu tempo, também não permaneceram em desleixo as suas vítimas passadas...

Espíritos nobres buscavam estagiar naqueles pélagos vorazes do sofrimento geral, exercitando a caridade indiscriminada, sob a tutela das Leis..

A loucura é marca profunda no homem, desde a mais longínqua página da história da evolução. Temidos e endeusados, perseguidos e adorados, os alienados mentais sempre assinalaram com sua presença o suceder dos tempos.

Na História Antiga adivinhos e feiticeiros já lhes con- juravam a enfermidade, expulsando os demônios que os martirizavam e os engrandeciam aos olhos do poviléu, mediante a usança de práticas exóticas e sortilégios vários...

Jesus os enfrentou inúmeras vezes nas várias expressões em que se apresentaram, fossem portadores de Espíritos infelizes ou houvessem sido, eles próprios, os seres enfermos, espíritos doentes.

Na Idade Média a ignorância os levou à fogueira pelo crime de possuírem uma enfermidade dirigida por Satanás.

A partir somente da metade do século XVUI é que a doença mental deixou de sofrer a oficial perseguição. Não equivale isto dizer que os alienados deixaram de ser odiados, encarcerados e perseguidos ostensivamente pelos chamados sadios.

Foi Philippe Pinei quem deu início à mudança de comportamento geral, em relação aos alienados mentais.

A gDeclaração dos Direitos do Cidadão”, promulgada pela Revolução francesa, inspirou-se a libertar os loucos parisienses em La Salpétrière, o hediondo hospital que rivalizava pelas suas misérias com o de La Bicétre.

Nos dias do Terror, enquanto a guilhotina ceifava centenas de vidas, o Dr. Pinei se tomou diretor de ambos Hospícios; em 1793 liberou os infelizes esquizofrênicos ali encarcerados, sem qualquer mínima possibilidade de receberem misericórdia.

O Hospital da Salpétrière era considerado uma “cidade dentro da cidade de Paris". Erguido no século XVU era, realmente, uma cidade, se considerarmos que possuía quarenta e cinco pavilhões espalhados por diversas ruas e praças, com a sua própria Igreja. Posteriormente Luiz XVI transformou-o num “recolhimento” para mendigos, meretri- zes e vagabundos que ali enxameavam em estreita convivência com os doentes mentais. No último quartel do século XIX, quando o neurologista Jean-Marie Charcot assumiu a direção de uma das suas enfermarias, em 1862, havia cerca de cinco mil pessoas depositadas em infame promiscuidade

e em celas infectas, individuais... Antes o Asilo fora reduto dos célebres e sanguinários “massacres de setembro”.

Seguindo as pegadas de Pinel, Charcot deu dignidade humana aos alienados, iniciando a era nova da Psiquiatria e da Neurologia...

A partir de então modificou-se a paisagem da loucura.

Infelizmente, porém, ainda se multiplicam hospitais para a saúde mental onde os pacientes prosseguem experimentando os horrores do passado. Superlotados com pacientes de várias alienações, recebendo tratamento coletivo por falta de recursos, de pessoal técnico (e misericordioso) e de terapêutica especializada, os que neles se recuperam, temporariamente, têm alta encharcados e hebetados por drogas psi- cotrópicas e barbitúricos, cujos efeitos danosos ainda não foram necessariamente estudados, motivo de acirradas controvérsias entre os seus experimentadores.

Claro está que existem expressivas e dignas exceções, nobres esforços e diligentes missionários das ciências da alma, que lutam com acendrado sacrifício, empenhando-se na mudança de comportamento dos seus colegas, a benefício dos pacientes. São eles os apóstolos de todos os tempos, nascidos para o milagre do progresso e da felicidade humanos.

O Manicômio Judiciário onde estagiava Roberto Do- mênico, vivia os dias do passado entre sombras e indiferenças.

Desde o eclodir da tragédia, o homicida caiu nas garras vigorosas dos desafetos que o perseguiam e que, de certo modo, utilizando-se da sua fraqueza de caráter inspiraram- -no ao roubo, urdindo o insucesso em que tombou...

O choque, por ver o genitor assassinado pelo comparsa que ele escolhera, produziu a perfeita sintonia e imediata dominação psíquica por parte do seu perseguidor desalmado.


A distonia emocional desarticulou-lhe as engrenagens dos controles mentais que passaram ao ser mais vigoroso, conquanto o seu estado de encarnado. O espírito frágil perdeu- -se nos mecanismos bem dominados pelo odiento inimigo que lhe sitiava a casa mental, há muito tempo, num incessante hipnotizar...

A presença de D. Maria Leonor, claridade abençoada entre sombras dominadoras, foi de inestimável resultado para ele.

Credora de valiosos títulos de amor e de enobrecimento, tomada um dínamo de energias benéficas, graças às orações a que se entregava e pela compreensível sintonia mental com as Entidades Superiores que a acompanhavam — enquanto ela estagiou nas Regiões dolorosas antes de reencarnar, renovou-se para o bem, mudando de comportamento e granjeando afetividade —, ela foi o instrumento da Providência para contribuir favoravelmente junto ao esposo — o Senhor “não deseja a morte do pecador mas a sua salvação”, conforme ensinou Jesus —, ao mesmo tempo modificando a psicosfera ambiente.

A pequenina e não vista violeta perfuma onde se encontra.

A sua aura irradiante desprendia um teor vibratório que rechaçava os perniciosos vibriões ideoplásticos, as deletérias formas-pensamento, mudando a psicosfera em sua volta.

Ao mesmo tempo, a caridade de Cecília aplicando no enfermo energias benéficas em socorro de compaixão, afugentando com a sua presença as Entidades viciosas, aproveitadoras, não pessoalmente envolvidas na conjuntura, fez afrouxarem os vigorosos controles dos obsessores impénitentes. Enquanto isso, a tônica do amor envolvente da esposa, I articulação do seu nome com doçura mui diferente das exprobrações que sofria na esfera psíquica, a insistência obrigaram o espírito subjugado a retomar à realidade física, despertando-o por um momento para o mundo exterior, donde fugira a medo ou dele fora expulso pelos arbitrários co- mensais do seu plasma psíquico.

A modulação da voz carregada pela vibração de amor e ungida de piedade repercutiu nas telas da memória do obsesso como uma música amada, quase esquecida, atraindo para a sua direção os clichês mentais felizes arquivados, que responderam ao apelo de fora e vibraram nas engrenagens da memória, fazendo Domênico reagir, beneficiado pelo que lhe parecia um sonho bom nos azares do infindo pesadelo.

Muito rápida, a ação positiva, mas de grande resultado, de salutar efeito para o enfermo.

Domênico fora trazido à reencarnação por intermédio do Sr. Edmundo Matoso, por uma necessidade de reparação em caráter de urgência. Por ser um espírito endividado e muito perturbado em si mesmo, em face da presença da culpa na consciência, possuía uma casa mental receptiva às ondas psíquicas emitidas pelas suas vitimas pregressas. A própria maleabilidade para o erro resultava da pobreza do caráter moral, pela larga convivência com os hábitos sórdidos da ambição e da impetuosidade antigas.

O processo comportamental do indivíduo gerando condicionamentos profundos se transfere de uma para outra vida, impondo que se repitam os gravâmes, as atitudes costumeiras que devem ser superados mediante os máximos investimentos dos valores íntimos. Tais condicionamentos, que são as imperfeições morais, desgastam as defesas da individualidade porque vinculando o homem às energias perniciosas, em cujo campo se movimenta, produzem desequilíbrios e equivalentes que o tomam alienado em si mesmo, renascendo distônico, impressionável, agressivo ou rebelde, receoso, estigmatizado por suspeitas e desconfianças que procedem dos arquivos dos atos passados, impelido a repetir as experiências malogradas, deparando os antigos comparsas ou vítimas que lhe completam o quadro perturbador, diante do qual se aturde e enferma sob a alta carga das emoções descontroladas... São os pacientes cuja alienação se encontra nos dédalos do ser e se exterioriza obedecendo ao processo legal da reparação espiritual.

Outros, todavia, que conseguem transitar em aparente normalidade, mas que conduzem cargas emocionais similares, avançando com dificuldade, ao serem reencontrados pelos adversários, caem sob a injunção deles por lhes faltarem a decisão e a resistência para superarem a constrição mental e fisica que aqueles exercem sobre a sua frágil constituição psico-fisiológica. Era o caso da nossa personagem.

Predisposto à loucura, faltavam-lhe, apenas, os fatores que lhe desbordassem a capacidade de resistência para arrojar-se ao desespero de retomo difícil. O plano trabalhado pelos inimigos espirituais contava com o contributo da consciência que, se descobrindo em falta, ralar-se-ia no remorso inútil, impedindo o reequilíbrio pelo sentir necessidade de flagelar-se com os espículos da culpa.

Dando-se conta do que acabava de suceder, o impacto profundo, vigoroso da cena sanguinolenta abriu-lhe os censores das lembranças e ele reviu acontecimento semelhante, no qual se encontrava envolvido... Turbilhonando-lhe as ideias numa violência e celeridade que ultrapassam a dimensão habitual do tempo, o seu eu consciente — o Espírito — tornado revel e sentindo-se asqueroso Caim, ansiou por fugir à realidade ou por punir-se num arrojar-se sobre as pedras do rochedo de Sísifo[32]...

Os autores-inspiradores do infortúnio que aguardavam esse momento de estupor, assenhorearam-se-lhe vibratoriamente dos departamentos psíquicos, imantando-se ao peris- pírito maleável à sua constrição, por cujo intermédio impediam mais ampla ação do espírito encarnado nos comandos do corpo, portanto, do cérebro, da mente...

Não titubearam na ação deletéria, utilizando-se da técnica de lhe despertarem as reminiscéncias espirituais semi- -adormecidas, nas quais eles mesmos surgiam, de modo a comporem a teia da prisão bem engendrada.

  • Homicida! — gritaram as diversas vozes das testemunhas espirituais, no cenário do crime e naquele momento em ensurdecedora agressão. — Homicida abjeto! Não podendo matar o pai assassinou o sequaz, a fim de apropriar-se sozinho de toda a rapinagem. Miserável! (O motivo não fora esse, mas a acusação em tais termos objetivaria os resultados que lhes apraziam.)
  • Não sou assassino! — redarguira Domênico, alucinado, sem identificar a procedência das acusações, supondo tratar-se de pessoas que haviam ocorrido ao local do hediondo desfecho. — Tentei defender meu desgraçado pai. Não esperava que o miserável me fosse trair. Meu Deus, que fiz?!
  • Matou, sim, desventurado! Nós vimos e seremos testemunhas de acusação, traidor covarde — troaram com agressividade.

No desespero em que se debatia psiquicamente, apenas ouvia sem ver, confundindo as duas realidades. O mundo exterior, o da matéria, perdia os seus contornos e a evasão dele, em fuga à justiça, era o mecanismo natural, que funcionava automaticamente para o espírito culpado.

Nesse comenos, o obsessor que se atribuía o direito da vingança, utilizando-se de um relho, semelhante aos chicotes terrestres em couro fino e curtido com uma lâmina en- crustrada na ponta, tendo-o dobrado em duas voltas e seguro pelo cabo, agitou o açoite no ar, produzindo um sibilar específico, que apavorou a malta de perturbados.

Rosto patibular, trajando-se esquisitamente, à antiga fidalguia espanhola, do século XVUI, acolitado por dois


mastins de aspecto feroz, chicoteou o corpo-alma de Domê- nico, bradando, estentórico:

— Então, Sr. Don Hidalgo Meléndez de Aragón y dei Pilar?!

O metal da voz, calculadamente vibrante e impressionável, penetrou na acústica do delinquente aturdido, sacudindo-o ainda mais, como se fora vitima de estranho choque elétrico. Não sabia traduzir se fora a dor da violenta chibatada ou se o desespero que lhe produziu a enunciação daquele nome.

— Não responde, Sr. Don Hidalgo? — voltou a arguir, enquanto impunha o látego no submisso infeliz, que se estarrecia mais. — Responda-me, Sr. Conde. Por que o silêncio culpado e não a audácia altaneira? Receia a verdade? Há alguma coisa que o atemorize? A consciência? Ora, os nobres matam a consciência para conservarem a nobreza, não é certo?

O jovem tremia incontrolavelmente. Somavam-se o horror dos minutos anteriores, não assimilados ainda, com a evocação de mais tenebrosos acontecimentos, que o acusador lhe arrancava dos lôbregos labirintos da alma, onde pareciam sepultos embora vivos.

Escarnecedor, prosseguia, dominando a situação, o execrável algoz:

Espero este encontro há algum tempo. A desforra sabe aguardar um milênio desde que se locuplete no desforço é se beneficie, saciando a sede e a fome da vingança bem cultivada... (E estrugiu o relho.) Não creio que o meu bom amigo me haja olvidado. Somos de uma região onde o sangue lava a honra ultrajada e o olvido como o perdão à ofensa não são respeitados, não mesmo? Diga-me alguma coisa, fidalgo!...

Domênico, no extremo sofrer, sentiu-se recuar no tempo ou teve a impressão de que o passado lhe galopava infre- ne pelas recordações, trazendo de volta páginas vivas das

ações arquivadas, plenas de colorido, exuberantes, revendo-se, agigantar, dominado pelo ser que se evocava.

Na projeção psíquica que eliminava o tempo — o momento da realidade que vivia —, sentiu desdobrar-se ante a visão interior a cidade de Saragoça, com seu rio luminoso tão querido ao seu coração, identificando-se, quando despertou a açoites e acusações.

  • Recorda-se, não, Sr. Don Hidalgo? Eu sabia que o faria recordar-se.
  • De que me acusam?

Gargalhadas estridularam, sarcásticas, zombeteiras.

Em verdade o acontecimento transcorria ante grande malta de Entidades errantes, de vagabundos espirituais sob o comando do verdugo seguro do efeito das suas palavras, na vítima, e da ressonância, da repercussão no público...

Na esfera física sucediam-se os fatos já conhecidos do leitor, enquanto o criminoso se apresentava em crise de irracionalidade, estado esse que decorria da falta de intercâmbio consciencial do espírito com o corpo, em face da exe- cranda prebenda.

  • Ora, não acusamos o nobre aragonês — zombou o vingador. — Despertamo-lo para que confesse espontaneamente suas culpas, se é que as tem. Eu sou a sua consciência, que o vigia.
  • Eu o conheço, sim, recordo-me, agora... O Ebro... Significa-lhe alguma coisa, o Ebro... ?
  • Recorde-se, mais, Sr. Don Hidalgo. Não só o Ebro, mas também a nossa veneranda Catedral de La Seo. Ela é muito importante no mapeamento da nossa

A ironia rilhada entre dentes produzia o contínuo estremecimento do enfermo, aumentado pelo açoite que lhe despedaçava as carnes da alma.

  • Um nobre descendente dos poderosos condes de A., não pode olvidar nunca — asseverou, cínico.

Subitamente, como se tomado de assalto por toda uma informação coletiva, que lhe irrompera, interiormente, Do- mênico bradou:

  • Você é o infame tarazonés... Ê verdade, sim, re- cordo-me da Catedral de La Seo... Eu vivi muito lá e o meu melhor amigo, o Bispo...
  • Muito bem, agora que nos reencontramos passaremos à prestação de contas... Não desejei ser injusto, cobrando dívidas a quem delas não se recordava. Isto seria um crime e a justiça não se enreda na delinquência. Agora não haverá dificuldade para que nos entendamos.. .

Domênico estava a sofrer o tumulto das ideias e re- miniscências hediondas. Abstraíra-se dali pelo milagre das recordações passadas, volvendo aos dias do Conde Hidalgo Meléndez de Aragón y dei Pilar.

O recuo intempestivo fazia-o sonhar; só que a evocação se dava no momento do conciliábulo mantido entre ele e eminente prelado, que consertavam a morte de Don Fernando de Alcalá y Concepción, o tarazonés. . .

“Nessum maggiore dolore che ricordare dei tempo felice nella miséria[33]”, dizia Francisca de Rímini, ao narrar os seus amores infelizes pelos quais expiava.

 

                   O PASSADO RESPONSÁVEL

Saragoça, a cidade espanhola bimilenária, pode ser considerada como a “Senhora das quatro culturas . Através do seu passado rico de experiências históricas, quando os romanos conquistaram a península ibérica, já encontraram traços culturais dos povos que viviam esparsos pela ampla região.

Antes de dominada pelos romanos, aproximadamente no ano 25 a. C., era uma colônia celtíbera de nome Salduba, que já cunhava moedas, atestando o seu grau de cultura. Mais tarde se tomou estação militar romana e centro comercial, passando a chamar-se César-Augusta, também denominada de “cidade da paz”, em razão dos muitos legioná- rios veteranos das guerras que ali buscaram tranquilidade. Posteriormente, capturada pelos visigodos, no século VUI, deu nascimento à Sarakosta árabe, quando esplendeu em arte e se desenvolveu. Por fim, no ano de 1118, quando Afonso I, de Aragão, a tomou dos mouros, teve início o seu período cristão, surgindo um próspero reino medieval que se fundiría com o de Castela, através do rei Don Fernando...

Foi cenário de lutas encarniçadas na guerra entre os ingleses e os franceses, na qual venceram os últimos em 1710, e experimentou o ferro em brasa e o fogo cerrado dos exércitos franceses entre 1808/09. . .

A sua Catedral de La Seo, em puro estilo gótico do século XU, é uma das mais belas joias herdadas da governança da Casa de Áustria, quando esta a submeteu ao seu tal ante.

Praticamente situada nas margens do cantante rio Ebro, a sua Província fica toda na bacia desse rio e dos seus generosos afluentes.

Saragoça ainda hoje se ufana de haver cooperado com os “reis católicos” por ocasião da empresa de Colombo, quando um certo Luís Santángel adiantou uma boa e considerável parte do dinheiro que se fazia necessário.

É verdade que lhe não falta História.

Partes das imponentes muralhas romanas e a grandiosa ponte que estes lançaram sobre o Ebro ainda permanecem de pé, atestando a notável técnica de engenharia de que se utilizaram aqueles conquistadores.

Domênico viu-se, então, arrojado ao recinto que identificou como sendo a velha Catedral de La Seo, a esplêndida construção de cinco naves, com decorações variadas e de períodos que a enriqueceram, quais o gótico, o renascentista, o prateresco, o barroco mantendo um conjunto imponente, ao mesmo tempo, harmonioso.

Assomando-lhe à mente aturdida as inquietações em ciclópico tumulto, assumiu a personalidade do Conde Don Hidalgo, num natural processo de volta ao passado.

O conde era um homem orgulhoso, dado a crises temperamentais. Descendente dos nobres de A., possuía extensos tratos de terra e propriedades valiosas. Além do palacete citadino, verdadeira joia, mantinha uma casa de campo nos arredores de Saragoça, às margens do Ebro, e se engalfinhava pela posse de imensa herdade em Borja, que ao lado de problemas afetivos dera início à contenda com Don Fernando, o tarazonés...

Borja era a antiga Bursao dos iberos, Belsium dos romanos, já então grande produtora de vinhos. Desde a primeira vez em que ali estivera, experimentara um entranhado fascínio pela região.

O Ebro coleante que o inspirava, sofria a rivalidade dos Pirineus, que lhe pareciam misteriosos conglomerados graníticos, quais houvessem sido colossais Hércules belicosos que Júpiter transformou em pedras, num momento de cólera, jungindo-os uns aos outros para sempre...

Fora estes amores, a magia das terras borjanas e as ruínas do seu castelo feudal passaram a obsessioná-lo.

Portador do tormento da posse, era insaciável no desejo da cobiça. Sem dúvida, trazia na alma enferma os grilhões do poder forjados nos metais das existências pregressas, quando transitara por aqueles sítios em vidas anteriores...

O homem repete as experiências fracassadas numa im- pulsão irresistível, que somente a esforço muito grande consegue superar, liberando-se da contínua constrição moral, que provém da consciência culpada, necessitando de reparar o delito.

O reencontro do local onde antes vivera, nele exerceu poderosa influência, que o próprio desequilíbrio transformou em martírio.

A propriedade pertencia a Don Fernando de Alcalá y Concepción, que a herdara dos ascendentes e atravessava um difícil período econômico, resultado das dissipações exageradas que se permitia.

O fidalgo dei Pilar, no estuar dos trinta e poucos anos, era viúvo, sofrendo a angústia da perda da esposa e do pri-


mogênito, vítimas de afogamento no Ebro, de cujo golpe não se refizera convenientemente.

Para fugir às grandes dores que o assaltaram, no início, entregou-se a excessos de vária ordem e a viagens de es- pairecimento, quando, por primeira vez, foi a Borja, relacionando-se com Don Fernando mediante as graças de um amigo comum a ambos.

O nobre tarazonês, que residia na cidade, era homem de pouco mais de meio século de existência, licencioso, todavia, muito vinculado aos valores que se atribuía, apaixonado e vingativo, com um passado algo reprochável...

Nascera em Tarazona, também conhecida como a Ibéria Turiaso, considerada a “Toledo aragonesa”, graças aos seus monumentos e cultura, havendo desempenhado papel importante, no século XIV, durante a guerra entre Castela e Aragão.

Situada praticamente numa alta colina, era senhorial. Competia com Borja, igualmente plantada num morro e espraiando-se pela margem esquerda do rio Huesca, fator da fertilidade do seu solo.

Desde o primeiro encontro com o nobre viúvo, que teve lugar na Casa senhorial de Don Fernando, em Borja, este experimentou um estranho pressentimento, um misto de interesse e surda animosidade pelo visitante.

Naturalmente que se sensibilizou com o drama sofrido pelo conde, oferecendo-lhe o obséquio da hospedagem por algum tempo, logo aceita, sem delongas.

A residência elegante e tradicional era um dos centros da vida social do burgo de costumes morigerados. A família era jovial, generosa e muito conhecida pelo fervor religioso, exceção, bem se recorde, do chefe do clã que sabia disfarçar a postura quando necessário. Duas belas jovens e um mancebo constituíam as joias de Don Fernando e de Dona Dolores. A filha mais velha, Margarida, aguardava o consórcio, que os pais anelavam se desse com alguém que lhes pudesse dispensar um dote expressivo, ao mesmo tempo somando a sua à decadente fortuna da família.

Alta, bela, de olhos e cabelos negros, fora educada com capricho, sendo muito prendada, em tudo excelente candidata a senhora de um rico e formoso lar, pelo que a jovem também ambicionava. Aos dezoito anos sentia-se envelhecida, temendo a solidão, que lhe parecia ameaçar a existência risonha.

Planejava um lar e faria qualquer esforço pelo atingir e à glória numa cidade agitada, onde pudesse brilhar. No íntimo diferia profundamente da jovem donzela que aparentava, havendo urdido plano de hábil evasão daqueles sítios, tout doux[34].

A jovem Margarida sabia inspirar paixão sensual sem deixar-se vencer pelo sentimento que ela domava sob a força do interesse que perseguia. Dessa forma dissuadira os pais a respeito de alguns prováveis candidatos, num período em que a mulher não era considerada para tais decisões.

A verdade é que o genitor lhe devotava um amor especial nos sentimentos controvertidos, não desejando cede-la a qualquer galante aventureiro que aparecesse. Aquiescen- do ao desejo da filha, atendia-se a si mesmo, no que se ufanava.

Embora o traço negativo do caráter de Margarida, ela dedicava legítimo carinho à irmã, dois anos mais jovem, Carmencita, enferma e dependente, constante martírio para os genitores. Aos dois anos de idade fora vítima de uma queda, por negligência da ama para com a criança. Esta se lhe desvencilhou do cuidado e tombou, degraus abaixo, advindo-lhe a cruel enfermidade, que constituía verdadeira desgraça para a família e uma desonra. A epilepsia vitimava-a como consequência do traumatismo craneano, e as convulsões, à época de uma contraditória cultura, eram tidas como possessão demoníaca, remanescente superstição da ignorância medieval. Os progenitores haviam recorrido aos melhores médicos ao alcance, inutilmente, ficando a criança fadada ao ingrato destino... Acreditando-a, por consequên- cia natural, uma deficiente mental, ficara em plano secundário, recebendo, apenas, cuidados físicos sem maiores atenções além da piedade que inspirava.

Margarida se lhe afeiçoara, auxiliando-a, amorosa, e participando dos seus folguedos, com o que lhe preenchia as horas intermediárias em forma de inocentes alegrias entre as rudes crises.

Mateo, o mancebo de vinte anos, era o orgulho da família. Herdeiro do clã, possuía um caráter irascível e violento, sabendo controlar a fúria que atroava no mundo íntimo, enquanto esperava a cornucópia da fortuna recheada, derramando-lhe os favores. Cobiçava viajar a Paris, mais para fruir os prazeres da cidade famosa, do que para beneficiar-se com os seus tesouros culturais, frutos do Iluminismo[35] e da Enciclopédia, embora lá se vivessem horas difíceis naqueles anos noventa. . .

O hóspede foi aceito no solar de Alcalá y Concepción por emoções e em condições contraditórias. . .

A essa época o trabalho, para a nobreza e a alta burguesia, constituía uma desonra. Quanto mais ociosidade e maior desprezo pelo operário, pelo camponês mais se destacava o homem. Media-se a fortuna de uma família pelo número dos parasitas que enxameavam em volta da sua mesa, nas festas extravagantes. O sacrifício do povo, o arrocho dos tributos exorbitantes eram lançados fora nas frivolidades e dissipações com que se consumiam os parcos valores morais a derraparem na descida das consunções pessoais.

Funcionários inescrupulosos representando a Coroa se compraziam nos excessos da mesa e do sexo desregrado, verdadeiros abutres explorando os pobres, que se tomavam cada dia mais pobres, sob a aquiescência da Igreja que cerrava os olhos ante os crimes sucessivos, disputando o poder temporal com os mandatários da arbitrariedade terrena...

Don Fernando representava a Coroa espanhola in loco e usufruía os bens resultantes das altas taxas que impunha, em nome do rei, à população submissa.

O Conde de Aranda, primeiro-ministro na época, era o seu protetor em Madri.

Invejado e temido, se tomara detestado, única forma de que dispunham as vítimas para reagirem aos abusos, execrando-o e, ato contínuo, a toda a família.

Àqueles dias multiplicavam-se os problemas na Europa. A Revolução Francesa influía na estrutura política e social dos países onde dominava a monarquia absolutista.

Carlos IV havia reunido as Cortes (que governavam diversas regiões, inclusive a de Aragão) e proibira a importação das publicações francesas, receando a influência, que considerava perniciosa, nos ânimos do povo revoltado[36]. Ato contínuo, substituiu o seu primeiro-ministro, o Conde Florindablanca, pelo Conde de Aranda, considerado o verdadeiro benfeitor de Manuel Godoy, que mais tarde viria a ser o generalíssimo dos exércitos espanhois, a instâncias de Maria Luísa, mulher enérgica e dominadora da Casa de Parma que, praticamente, dirigiu o rei até a sua morte em quase total penúria, em Roma, posteriormente...

A traição e a desvergonha constituíam as armas do triunfo, junto às cortes da época. O Conde de Aranda, não se podendo furtar à influência francesa, apaixonante, liberal, tombou no desfavor real, sendo substituído por Manuel de Godoy, num momento de rara energia do rei, . .

É nesse período que nos fixamos para a nossa narrativa, entre os Condes de Aranda e de Godoy, que dirigem o reino...

Don Hidalgo, recebido cortesmente no velho Solar de Alcalá, para apagar as fortes lembranças da tragédia que o enlutara, não se furtou ao fascínio aragonês de Margarida. Um olhar mais demorado e adveio-lhe a erupção vulcânica das paixões soterradas pelo impacto das dores inesperadas. Sentiu-se renascer, inda mais quando, na festa de sua apresentação à comunidade, se deu conta de ser bem recebido pela jovem arrebatadora.

Mateo, a seu turno, sonhador e ocioso, na sua irascibilidade, detestava Tarazona e Borja, considerando monótona e sem atrativos a vida local. Sabia que o genitor, pretextando negócios, se evadia com regularidade a Madri, onde se locupletava em licenças e despautérios, que invejava. Impossibilitado pelo pai de seguir à França face às razões políticas indesejáveis, passou a manter surdo rancor contra a vida, o progenitor, sentindo-se obrigado a dissimular por depender totalmente dos seus bens.

O viúvo Conde dei Pilar passou a interessá-lo pelas oportunidades que se lhe abririam favoráveis, em Saragoça, uma cidade mais puisante, porta de acesso a centros mais agradáveis e licenciosos. Estabeleceu-se um vínculo de amizade rápida mais pela conivência do que pela afetividade, na qual, em breve, se podiam permitir o exteriorizar dos planos íntimos de cada qual.

Da conversação frívola inicial aos assuntos mais sérios os amigos, nas cavalgadas pelos arredores, culminaram falando francamente.

— A vida, aqui — explodiu, iracundo, o jovem Mateo —, para mim, é um deperecer a caminho da morte inevi-

tável. Venho tentando persuadir papai a mandar-me a Paris, sem lograr resultado favorável. É certo que a situação política, por lá, não é das melhores, segundo narrativa dos eva- didos, que retomaram. Os ódios explodem fáceis e os remanescentes do Terror prosseguem ainda insaciáveis. No entanto, outro lugar mais amplo do que este, qual Barcelona, Saragoça ou Madri, me facultaria mais largos horizontes felicidade...

Olhos postos no dia em festa de luz, parecia um visionário do prazer.

  • Por que não Viena — indagou o Conde dei Pilar —, substituindo Paris? Estou informado de que os prazeres noturnos, por aqueles sítios, podem alongar-se até depois da madrugada, para quem suporta a exaustão das forças.

“Que eu saiba, grande parte do povo francês, receando incômodos dispensáveis, transferiu-se para a Bélgica e para a Áustria, enquanto os ânimos libertadores amainem. Porque se demoram as loucuras revolucionárias, esqueceram-se dos bens que ficaram, para salvarem as vidas. Sabe-se que Bruxelas e Viena substituem a Paris do passado...

  • De fato, gostaria — assentiu o jovem — de ir-me para qualquer parte onde o ruído das festas e os vinhos capitosos me embriagassem a alma. Mas, e o dinheiro? Eis o grande impedimento. Não disponho dos recursos hábeis e papai não mos facultará. Inda mais agora que está saindo de graves problemas, graças ao Sr. Conde de Aranda...

Depois de ligeira pausa e com voz que denotava a amargura que nutria, acrescentou:

  • Imagine, o amigo, que solicitei ao primeiro ministro levar-me para Madri, contra o que, no momento, papai se opôs terminantemente..
  • Por qual motivo?
  • Se não me apresso no juízo, em razão da vida que leva, na Corte, quando vai a negócios. A negóciosl...

“Alega que me deseja à frente das propriedades precariamente nossas, em razão das suas dividas de jogo e outras. .. Pois que corremos o risco de perdê-las. . . Não fosse o apoio do Conde de Aranda e nos encontraríamos à borda da falência total, no que muito concorreu o famigerado Conde Florindablanca. Que o diabo o carregue para os infernos!

“Perseguiu-nos quanto pôde, no que papai contribuiu sem dúvida pelas suas leviandades. O primeiro ministro era excessivamente “carola” e o comportamento do meu proge- nitor desagradava-o. Sem embargo era uma ave de rapina infeliz...”

Compreendendo o drama que se desenrolava no rapaz em febre, Don Hidalgo, com disfarçada insinuação maliciosa, inquiriu:

  • E por que não lhe afronta a autoridade, indo em busca do que lhe apetece?
  • Porque eu perderia o direito ao que me pertence pelo nascimento, não podendo viver somente da mendicância entre os meus rivais... Mas isto não está fora de cogitações. Eu sei esperar o momento, que agarrarei contra tudo e contra todos que se me oponham, quando este chegar.

Com um gesto que pretendia ganhar a simpatia do estúrdio, alardeou o visitante:

  • Conte comigo em qualquer situação. Ajudá-lo-ei!
  • Mesmo contra papai?
  • Não é o caso de estar contra o seu pai, mas a seu favor, na qualidade de jovem ambicioso — contestou com habilidade.

A partir de então fizeram-se comparsas.

Margarida, ao perceber que fascinara o hóspede viúvo, fez-se-lhe esquiva a fim de o espicaçar, precipitando os acontecimentos.

Provocava-o com olhares incendiados e evitava um encontro a sós.

Amparo, sua criada pessoal, foi abordada pelo conde que lhe rogou uma entrevista, enviando-lhe uma pérola solitária, ovalada, delicadamente engastada como pedantif.

A hábil servente, que não ignorava os sentimentos da ama, prometeu interferir e acompanhá-la, quando a casa mergulhasse em silêncio.

Na parte posterior da vivenda ampla, antes do pomar, havia um repuxo cantante, no centro do jardim de rosas. Sob a pérgula florida se deveriam encontrar.

A serviçal desincumbiu-se perfeitamente da empresa, ganhando algumas moedas como retribuição ao confirmar o encontro perigoso.

As horas não passam quando se espera.

Don Hidalgo não pôde dissimular a ansiedade, percebida pelo anfitrião, ao qual se desculpou sob a justificativa de um problema orgânico.

Fazia somente uma semana que era persona grata dos Alcalá, contudo sentia-se presa de augúrios difíceis de explicados, como se os conhecesse desde há muito, possuído por emoções paradoxais de ódio sem justificativa e de amor sem motivo.

A jovem Margarida arrebatava-o, devorando-lhe as entranhas. Sobrepunha-a à tragédia e desejava o encontro para traçar rumos. A Condessa Dolores tocava-o com singular ternura, enquanto sentia surda repugnância pela enferma e desconfiança em relação a Mateo.

Não podendo sopitar os infrenes anseios saiu a sós, a galopar pelas largas terras, enquanto chegava a noite.

Sob a mesma alegação do problema orgânico não desceu ao jantar, temendo trair-se.

O verão estava ameno. Os dias cálidos e as noites varridas por aragens frescas eram agradáveis.

Às vinte e três horas mais ou menos, a sous cape[37], acolitada por Amparo e resguardada em um largo agasalho de veludo azul com capuz, Margarida acorreu ao encontro concertado.

A noite sem luar estava clara, em face da fulguração dos miríades de astros lucilando ao longe. O aroma das rosas embriagava o ambiente.

Amparo permaneceu a regular distância, em posição de vigília, para impedir alguma sortida do imprevisível.

Assustados e discretos saudaram-se. Margarida iniciou o diálogo com voz receosa:

  • Sede breve, senhor conde! Creio que esta não é uma solicitação que se faça a uma jovem donzela, concitando-a a desmerecer a confiança e a dignidade da família para um encontro furtivo nos jardins.
  • Não desejo comprometer-vos — protestou o viúvo sensibilizado —, ainda mais tratando-se da mulher amada que desejo para esposa...
  • O senhor conde é muito direto — redarguiu, aparentando surpresa, porém antegozando a situação. — Nos meus planos atuais o matrimônio não está incluído, principalmente se considerarmos que o nosso hóspede é-me um homem desconhecido. Não tenho em mente unir o meu destino a alguém a quem não ame...
  • O amor virá facilmente — interrompeu-a, ansioso, o fidalgo. — Estou enfrentando a dor decorrente da perda de dois seres amados, sendo poupado da loucura após encontrar-vos, lenindo a minha desesperação na expectativa de consorciar-me convosco.
  • Não posso negar que me encontro sensibilizada por vós. Embora eu tenha rejeitado outros candidatos com anuência dos meus pais, não sei como seria vista, por eles, qualquer possibilidade de união entre nós.
  • Deixemos ao futuro as respostas do amanhã e vivamos as emoções de agora.

Num gesto audacioso segurou-lhe a mão delicada e beijou-a, incontinente.

Colhida pela surpresa a jovem não teve tempo de protestar. Quis retirar a destra, mas o contato forte do viúvo produziu-lhe uma sensação dantes não experimentada. Sentiu-se invadida por uma onda de frio, tour à tour[38] de calor. Estremeceu. Balbuciou, emocionada:

  • Desculpai-me, mas não podemos continuar aqui. A noite avança e corremos o desagradável perigo de sermos surpreendidos por alguém, envolvendo-nos em desgostos não desejados.
  • Amanhã falarei ao vosso pai sobre os meus sentimentos em relação à vossa pessoa.
  • Não, por favor! — protestou ela. — Ê cedo. Ele não o consentirá. Aguardai um pouco.
  • Quando voltaremos ao diálogo?
  • Irei pensar, irei meditar. Até amanhã, Don Hidalgo . ..

E desapareceu com a serva, adentrando-se ao Solar mergulhado em sombras e silêncios.

Invadido por emoções contraditórias o viúvo dei Pilar deixou-se ali ficar em meditação sob o velário da noite, ordenando as ideias confusas.

Pela mente em inquietação passaram as múltiplas ocorrências da sua vida, num retrospecto caleidoscópico de difícil definição.

As figuras da esposa e do filhinho tragados pelas águas do Ebro assomaram-lhe à consciência, sentindo-se miserável por tentar substituí-los de imediato. Afinal, menos de três meses haviam passado da tragédia, e já se sentia enamorado, ressumando desejos e paixão.

O corcel do pensamento desatrelado fê-lo peregrinar por demoradas excogitações, chegando à conclusão, pela alva em surgimento, que Margarida lhe pertenceria fosse qual fosse o alto preço que tivesse de pagar.

Buscou o leito, cansado e receoso, como se desconhecidas sombras se adensassem sobre o seu porvir.

Amanhecia o futuro de rudes aflições.

 

                   AS TRAMAS DA DESGRAÇA EM DELINEAMENTO

Don Hidalgo não compareceu ao repasto matutino, o que motivou o anfitirão ir buscá-lo nos seus aposentos, preocupado com a sua saúde.

O aspecto do homem apaixonado era desolador. Exteriorizava uma expressão de face cava, contrastando as olheiras com a palidez mortal de quem houvera padecido as alternâncias de uma febre devoradora.

A verdade é qúe ele não conseguira dormir, menos repousar. A vigília decorrente da ansiedade, assinalada pelos receios e perturbações que lhe assomaram nas últimas horas, respondia através do estado assustador do hóspede.

Don Fernando, colhido pela aparência do seu convidado, despachou um serviçal a trazer o médico da família, a fim de o atender.

Justificando tratar-se de uma récidiva das emoções em desordem, tentou tranquilizar o conde. Ansiava, todavia, por romper o dique que lhe represava os sentimentos, dando largas ao temperamento impulsivo.

Examinando de soslaio o proprietário do Solar, que se acercara de ampla janela envidraçada, que olhava para o jardim onde tivera a entrevista com Margarida, percebeu- -lhe o cenho carregado, a respiração irregular, compreendendo que teria de enfrentar uma forte luta com aquele homem vigoroso, tirânico, apaixonado. Percebeu-lhe o ricto de sarcasmo e de cólera na expressão rubicunda. Não se atemorizou, porém. No silêncio de ambos, a mente o inimizava com o outro ante a possibilidade de uma negativa. A psi- cosfera ambiente fez-se pesada, irrespirável, embora o ar do dia que varria o aposento.

  • Enquanto aguardamos o médico — propôs Don Fernando —, mandarei servir-lhe aqui mesmo o desjejum e conversaremos...
  • Não se dê ao incômodo, nobre amigo — redarguiu, aparentando tranquilidade. — Embora a indisposição posso movimentar-me. Aliás, já me considero melhor...
  • Não concordo — interrompeu-o com aparência gentil o anfitrião. — O senhor conde guardará o leito até refazer-se de todo, exceto se há algum outro motivo que eu não deva saber, com o que lhe respeitarei a discrição.
  • Em absoluto, amigo. Não haveria entre nós qualquer motivo que não o pudéssemos expor um para o outro.,.

O riso discreto em Don Fernando perturbou o enfermo, que o interrogou, resolvendo levar a questão a termo:

  • Há alguma coisa que eu possa ou deva esclarecer?
  • Sabe-o o senhor, não eu — contestou com um pouco de rispidez. — Sucede que minha menina Margarida está também enferma, não tendo descido para o desjejum em família. Pode ser que o mal tenha algum contágio...

Don Hidalgo assustou-se. Interrogações assomaram-lhe à mente, sem resposta. Não se pôde deter em reflexão por sentir o olhar perquiridor de Don Alcalá penetrando-o.

  • Advém-me o desejo de esclarecer ao meu caro convidado o quanto amo a minha família. Sinto-me arbitrário, muitas vezes, ein relação aos negócios da Coroa e aos meus próprios, mas sou tirânico, no que tange aos que me Contrariado, sou capaz de qualquer desagravo, inclusive com o risco da própria vida...

Depois de uma pausa:

  • É claro que o meu amigo sabe como somos os aragoneses e nós, principalmente, de Tarazona, na defesa da honra e do lar, por ser também de Aragão... Tudo quanto envolve os que me cercam e fazem parte da minha consanguinidade me aflige, me
  • Não vejo — permita-me o amigo — o porquê da confissão com que me Se a minha presença traz a este lar algum problema ou lhe perturba a paz, rogo licença para viajar imediatamente. Sou muito reconhecido à gentileza do nobre Conde de Alcalá e dos seus familiares. Não pretendo ser-lhes uma carga, ainda mais que as minhas propriedades, após esta ausência e os dramas que vivi, requerem minha assistência...

Com dissimulação na voz, prosseguiu:

  • Ignorava que a nobre Margarida esteja enferma ou indisposta. Não identifico o que a sua delicada saúde tem a ver com o meu problema orgânico.
  • É claro, que nada — apressou-se o outro a responder. — Os meus conceitos são fruto de divagação e do desejo de nossa Casa que aqui o caro conde recobre a paz. Peço desculpas, se coloquei mal as palavras, fazendo-o concluir erroneamente sobre o meu pensamento. Rogo-lhe o favor de conceder-nos a honra de demorar-se por mais largo tempo. Este Solar está às suas ordens, pertence-lhe como já o disse antes.

Recompôs a fisionomia, que volveu à expressão formal, à aparência generosa.

O médico examinou o paciente e nada diagnosticando que lhe parecesse grave, receitou-lhe uma poção para o ajudar no repouso. Concordou tratar-se de cansaço e que um bom sono lhe faria muito bem.

O paciente alimentou-se parcamente, tomou o medicamento e adormeceu.

Logo depois Margarida foi encontrada ao lado de Car- mencita, jogando com esta, no pátio interno da vivenda, o que tranquilizou o pai, liberando-o das reações do mau humor, de que se encontrava possuído.

Ao almoço o lar havia recuperado a sua costumeira aparente paz e alegria, ante a presença do hóspede à mesa, dos parasitas habituais e dos dois truões encarregados de divertirem a ociosidade doméstica.

À tarde, o Conde dei Pilar solicitou uma entrevista ao seu anfitrião, objetivando revelar suas posses e tomar-se simpático, se possível fasciná-lo com o dinheiro que possuía. Oportunamente falaria sobre a jovem Margarida, planejava.

O encontro deu-se na pequena biblioteca de janelas estreitas e ogivais com vitrais coloridos, atulhada por larga mesa de carvalho e pesadas cadeiras envemizadas, de alto espaldar, sobre tapeçaria com motivo mourisco.

  • Aceita uma taça do nosso vinho rosado? — ofereceu Don Fernando, agradável.

O outro aquiesceu com um sorriso.

Bebericando, descontraídos, o viúvo explicou o motivo da entrevista.

  • Possuo alguns recursos em dinheiro e ouro — falou com calculado propósito — e desejaria aplicá-los em terras. Vivemos horas muito difíceis, de inseguranças e de roubos que se sucedem, lamentáveis. Gostaria de estender minhas propriedades por esta região. Não posso sopitar o anelo de aconselhar-me com o generoso amigo, mais vivido, mais experiente do que eu.

“A morte súbita da minha esposa e filhinho, tragados pelo Ebro, quando a carruagem tombou da ponte, levando-os e ao cocheiro, que conseguiu salvar-se, trouxe-me desalento e revolta incontida.

“Tenho vivido uma grande angústia ... No entanto, um sopro de renovação me invade e constato que a vida deve continuar. O tempo é um grande e paciente enxugador de lágrimas.

“O Bispo Don Manuel de Santamaria, responsável pelos ofícios religiosos da Catedral de La Seo, em Saragoça, meu confessor e conselheiro espiritual, quase um pai, buscou tranquilizar-me, absolvendo os meus extremados extintos, na Missa de corpo presente, oficiada por ele e concedendo-lhes o céu eterno.

“Posteriormente, sugeriu-me a mudança de ares e quiçá de residência, até esquecer a desgraça ...”

Rompendo o silêncio natural, e interessado na conversação, Don Fernando retrucou:

  • Não me parece que haja terras nesta Província, que possam ser adquiridas. Sou dos maiores, senão o maior, proprietário local, e embora confesse necessitar de algum dinheiro para resolver problemas, na Capital, não me encorajo a desfazer-me dos bens de raiz que procedem dos meus ancestrais.

Levantou-se e alongou o olhar pelo parque arborizado, prosseguindo, qual se pensasse em alta voz:

  • Na época em que o ex-Ministro Florindablanca me perseguiu, quase conduzindo-me à ruína, por motivos que não vêm ao caso recordar, pensei vender tudo e transferir-me para a Corte, com o que os meus filhos concordavam, felizes ... Depois da sua queda, que muito desejei, as circunstâncias penosas se alteraram e creio que morrerei neste Solar dos meus antepassados.
  • Se o amigo necessita, digamos, não de uma ajuda, mas de um empréstimo, pode contar com os meus recursos, no momento sem aplicação.

Era o que o Conde dei Pilar desejava. Abrir o alçapão para agarrar e comprometer o genitor de Margarida, con- 1,85

quistando-a e apossando-se das suas propriedades, quando as circunstâncias o permitissem.

O dinheiro, em face dos que o têm, quando portadores de caráter enfermo, é sempre ou quase sempre um fator de desditas. Estimulando à cobiça, destroi os que o possuem, por se deixarem estes possuir pela força das suas aquisições,

Repetindo a taça de vinho e fazendo um brinde àquele momento, Don Femando abraçou o hóspede, respondendo que se não preocupasse com os problemas ali abordados. Voltariam ao assunto, em oportunidade própria.

Aplicou-lhe gentis palmadas nas costas como a abrir-lhe as expressões da alma simpática e divagar o assunto, dando- lhe menos importância.

  • Não posso negar que aumentei as minhas propriedades — falou, em tom de justificativa —, utilizando-me de um direito legal, que sempre produz reação no poviléu. Todos os bens são do Rei, que em circunstâncias próprias pode tomá-los e doá-los a quem lhe aprouver ...

“Em razão disso, desfruto do prazer de possuir alguns amigos, inclusive na Corte... A minha fidelidade ao rei e I Coroa são incontestáveis. Não obstante a amizade que me une ao primeiro ministro, sei que sou antipatizado pelo seu pupilo de Godoy, cujas intimidades com a Infanta e nossa rainha, já não são mantidas em grande segredo, para desgraça do reino ..

Silenciou por alguns momentos, exteriorizando sua animosidade na expressão facial, e, coordenando as ideias, prosseguiu:

  • Para alargar os meus domínios em Borja, contratei alguns empréstimos vultosos que se somaram a dívidas de outra procedência... Ê claro que se eu fosse chamado a regularizá-los neste momento não poderia fazê-lo. Confio na safra deste ano e na bênção destas terras, oferecendo-nos o vinho de que necessitamos...
  • Sem qualquer presunção — interrompeu-o o hóspede — compraz-me afirmar-lhe que me será um prazer se eu for convidado a despreocupá-lo, especialmente na questão em tela, desde que a finalidade do dinheiro é comprar a paz, resolver problemas, enfim ... para isto mesmo.
  • Sinto-me feliz com a sua oferta e é possível que, em se agravando a situação, eu lhe recorra à .. Sem dúvida que mediante um contrato, um qualquer veículo de segurança ...
  • Não tenha em mente, o amigo, que eu lhe suspeite o valor moral, o caráter ...
  • Não se trata de suspeição. Morre-se de-um para outro momento e faz-se necessário que os negócios fiquem regularizados, a fim de se minimizarem as preocupações familiares.

“Passeemos um pouco. Andemos até ao repuxo.”

A tarde estivai bordava-se com o rubor do poente. Havia estesia em a Natureza e uma certa afinidade se estabeleceu entre os dois homens, intranquilos.

Enquanto a criatura prefere ser lobo do seu irmão o desequilíbrio é-lhe a hiena voraz a lacerá-la por dentro. Só a perfeita fraternidade conseguirá o desiderato de harmonizar os seres, tomando-os pacíficos, felizes.

Na larga área ajardinada os dois se encontraram com Mateo e seu palafreneiro. O jovem estroina retomava de uma incursão pelos arredores, onde se refugiava, tentando evadir-se à monotonia, ao enfado.

O genitor solicitou-lhe assistir ao hóspede, enquanto seguia a atender compromissos outros urgentes.

Vestido a rigor para cavalgar, o jovem dissipador atirou- se sobre um banco de mármore, convidando o amigo a acompanhá-lo e ordenando ao serviçal que trouxesse uma jarra de vinho com as respectivas taças. .

Os olhos de Don Hidalgo procuraram o recanto da véspera e fixaram-se nas janelas do aposento de Margarida, no andar superior.

Embevecido na recordação do encontro da noite passada, não se deu conta de que Mateo o observava com acuidade, desatando a rir, logo comentando com cinismo:

  • Não posso crer que o Conde dei Pilar esteja apaixonado pela minha irmã!

Surpreendido pelo desvelar do segredo de forma repulsiva, não pôde dissimular a emoção, fazendo-se pálido e exsudando em abundância.

  • Por favor, caro jovem — tentou desviar o assunto —, não me tenha em conta de lobo ingrato . ..
  • E por que, não? — interrompeu-o Mateo. — É um homem guapo e jovem; viúvo, portanto, livre, e Margarida ! bela, solteira e ambiciosa. Fariam um excelente par não fosse... — Interrompeu bruscamente a frase e cerrou o ce- nho, tornando-se sombrio. Logo prosseguiu:
  • A mim me cabe romper as algemas do nosso cativeiro. Há momentos em que o odeio, mesmo sendo ele meu pai.
  • Não compreendo nada do que diz.
  • Pois fá-lo-ei entender-me.

Após tragar um expressivo gole do vinho, o irresponsável desatou as mágoas:

  • Não ignoramos, em casa, a preferência que papai exterioriza pela filha e que a ela não passa despercebida, de que se utiliza para atender aos próprios caprichos. É claro que ela não compreende o que o velho pensa ou deseja e talvez nem ele mesmo. Vários candidatos à sua mão, alguns dos quais renunciando a qualquer dote, foram despachados ora por ela, ora por ele ...

“Diz-se aqui em casa que ela está reservada para um grande destino. E nisso é que minha observação confirma minhas suspeitas. Como encontrar esse príncipe, aqui enjaulada? Nunca foi à Corte, nem a outras Províncias. Seria ne-


cessário que sua beleza estonteasse a ponto de os cantores a levarem por outras terras trazendo os encantados pretendentes até aqui... E mesmo que viessem, não creio que lograriam o intento, não agora pelo menos.”

O jovem, muito rubro, já afetado pelo álcool, ingeriu nova taça, prosseguindo, animoso, contra o pai:

  • Imagino que se ele o surpreender ...
  • Todavia, nada existe entre mim e a jovem ...
  • Você não me Somos do mesmo naipe. Caso ele o surpreenda, teremos tragédia ao certo.

Espicaçado, Don Hidalgo reagiu, imprudente:

  • Respeito o seu nobre genitor, todavia, não sou um campesino ... Digo mais: tenho titulo igual ao dele; provenho de elevada estirpe e possuo uma fortuna que lhe falta. Caso elegesse sua filha a tomaria com relativa facilidade, se ela o desejasse ...
  • É lógico que o desejará. Minha irmã sonha com o poder, a evasão deste inferno, a glória num local mais elegante onde se faça cortejada e a inveja lhe siga os passos. Somos iguais: ela e eu! A vitória e o brilho da fortuna nos fascinam. Se sente algo por ela, conforme notei, não postergue ... Conte com a minha ingerência amiga, já que eu lhe necessito da ajuda... Serão permutas de favores, especialmente se considerarmos o parentesco que existirá entre nós. Como dizem os franceses, será um payer de retour[39].

Don Hidalgo não esperava uma reação de tal natureza. A franqueza rude do jovem Mateo e o cinismo encontraram receptividade no seu temperamento intempestivo. Resolveu auxiliar o doidivanas, a fim de comprar-lhe o caráter para os objetivos que anelava. De um só golpe, enfraqueceria as resistências do pai e subornaria a anuência do irmão. Teve ímpetos de denunciar-se, porém refreou a impulsividade, insistindo para que Mateo se desnudasse mais.


Visivelmente excitado, o jovem fez-se fácil presa da urdidura do amigo ambicioso.

  • Desnecessário asseverar-lhe — informou, ardiloso, — que você poderá contar comigo para qualquer empresa ... O que o dinheiro consegue eu posso dispor e franqueio-lhe a ajuda própria.
  • Estou vivendo um grave problema — ripostou Mateo, agora ofegante, os olhos injetados. — Envolvi-me com uma mulher e não consigo desembaraçar-me dela.. . Tornei-a minha confidente, nos arroubos da paixão. Agora que me saturei, não consigo liberar-me, porque ela me ameaça com torpe intriga, junto a meu pai. Afirma-me que será mãe logo mais, e o filho me .. Isto afinal, é de somenos importância, constituindo-me verdadeiro fardo a sua insuportável exploração dos meus sentimentos. A princípio comprometi-me com alguns amigos, assumindo dívidas ... Mulher libertina, no começo, passou às minhas ex- pensas e ameaça-me, ligada a um antigo amante, a quem devo e me exige o dinheiro de volta. Evado-me daqui ou o escândalo estoura e papai não me perdoará, ante o orgulho ferido...
  • Examinemos por etapas o problema — alvitrou o conde. — Resgata-se a dívida, que é o mais urgente, e elimina-se a mulher depois. Qual é a sua posição social?
  • Ignoro-a! Deve proceder da ralé. Segundo ela, nasceu na Catalunha, em Gerona, onde foi desencarninhada aos catorze anos. De experiência em experiência chegou até Huesca, onde a conheci, trazendo-a para cá. A princípio não lhe exigia fidelidade por motivos óbvios, principalmente por eu ser muito jovem e não poder economicamente assumir as responsabilidades. Mulher vivida, logrou granjear alguns clientes, culminando por emaranhar-me inteiramente nas suas teias, quando tombei, inerme, nas primeiras dívidas que foram tomando vulto.
  • Não me parece grave o problema. Quando eu daqui me for para Saragoça, a pretexto de visitar-me convide-a a uma viagem de recreio por aqueles sítios. Lá, com a anuência do meu conselheiro espiritual, o sábio Don Manuel de Satamaria, interná-la-emos numa Casa de arrependidas, salvando-lhe a alma e salvando-o de qualquer incômodo.
  • E a criança que vai nascer?
  • Nascerá e seguirá um destino qualquer, que se pensará, na época, qual seja. Como vê não há problema insolúvel, senão para quem não tem amigos...

Mateo, semi-embriagado, abraçou o aparente benfeitor e desatou a rir.

  • Parece-me um sonho — alardeava, estonteado. — Livrar-me de Felipa, de um filho que ninguém deseja e de papai. Foi Deus quem o mandou, foi Deus! Como retribuir- lhe tanta ajuda?l
  • Veremos, meu amigo, no momento próprio.

A noite caíra sem preâmbulos.

Abraçados, os cômpares dos crimes em delineamento adentraram-se pela casa iluminada e buscaram suas habitações como a tourner les talons[40] das estrelas que testemunharam o nefasto conciliábulo.

                   OS PRELÚDIOS DAS TRAGÉDIAS

Conforme o declarara Mateo, a jovem e irrequieta Margarida fazia-se difícil a Don Hidalgo, usando uma hábil técnica de sedução que surtia vigoroso efeito. Espicaçava-o com olhares arrebatados e retraía-se, aparentando grande pudor. O viúvo aturdia-se e ansiava-a.

Voltou ao repuxo, noite após noite, acobertada pela leviandade de Amparito, a serva fiel, estimulando a ligação afetuosa, que se transformou numa volúpia em rápido crescimento.

Passou uma semana, após o diálogo entre os dois condes, resultando maior abertura e simpatia do anfitrião pelo hóspede, que mais se informava da real situação da família, graças aos exageros verbais do jovem herdeiro.

Conforme prometera e concertara, Don Hidalgo emprestou ao moço a importância para desembaraçar-se dos credores, estimulando-o a disfarçar a reação negativa que lhe trazia a presença da desafortunada concubina, que logo lhe percebeu a transformação, rejubilando-se com o acontecimento.

Margarida terminou por confessar ao apaixonado que receava uma reação paterna, negativa, às pretensões de am-

bos, quanto ao anelado consórcio, o que bem se fundamentava. Não se apercebendo do jogo perigoso em que se envolvia, a moça enieou-se perdidamente, já não podendo sofrear os impulsos que a perturbavam.

Don Hidalgo a conquistara literalmente, dominando-lhe os sentimentos.

Neste comenos, Margarida recebeu a visita do irmão, que lbe falou com franqueza:

  • Admiro-lhe a coragem! Desafiar a tirania de papai diante dele é um grande risco.

A jovem, colhida pelo inesperado do momento, enru- besceu, mas tentou desviar o assunto:

  • Que o traz aos meus aposentos, além da acusação que não tem cabimento?
  • Auxiliar a ave prisioneira — respondeu com certo sarcasmo — e>socorrer o visitante apaixonado, se é que o necessitam. Além do mais, pressinto que a velha raposa já suspeita e qualquer indiscrição dos empregados, que já comentam o romance a bocca chiusa, os surprenderá no repuxo, como sucedeu a mim próprio. Afinal, pombinha, nossa casa não é um Castelo indevassável, um lugar onde nos possamos ocultar longe dos noctívagos, embora as sombras dominantes ...
  • Muito bem — reagiu Margarida, revoltada —, que deseja de nós pelo seu silêncio?
  • A maninha está nervosa e soberba — acrescentou com troça. — Por enquanto, nada. Somente desejo ajudá-los. Há muitas formas para forçar uma anuência do dominador. Uma delas será precipitar os acontecimentos... ( Sorriu, cínico. ) Ele prefere perder a vida a ter a honra, ora que honra!, exposta aos comentários do poviléu, dos amigos, ao reproche do Clero, que, diga-se de passagem, ele e eu detestamos. Sugiro que lhe comuniquem os sonhos depois de consumados ...

E pigarreando, vulgar, acrescentou:

  • Feito o pedido, se negado, venha a apresentação do irreversível... Eu gostaria de ver-lhe a cara arroxeada pela ira e a explosão colérica.
  • Mateol — exclamou, com lágrimas, a irmã, surpresa. — Você nos deseja e a papai lances de tal monta?
  • Ora, vamos lá. Quem o está traindo não sou eu... Somente que o detesto, em razão da sua avareza, do seu domínio sobre os outros, a mim me incluindo no seu egoísmo desmedido. Mamãe, embora finja não lhe conhecer as dissi- pações, é mais uma das suas vítimas inermes. Tenho-a surpreendido chorando ... Os motivos, sabe-os Deus!

“Você é jovem e ambiciosa quanto eu. A sua felicidade com o conde, que é um homem rico e generoso, abrir-me-á, também, as portas da libertação.

“Sairemos daqui, Margarida ... Viveremos em locais sedutores, gozaremos a vida.”

O moço irradiava as emoções da frivolidade que o dominava, numa antevisão da felicidade, que não passava do jogo grosseiro dos prazeres físicos, no caminho da exaustão dos sentidos.

Fez-se um silêncio natural, grave, comprometedor.

Margarida, dominando as emoções em descontrole, ante o olhar penetrante do irmão, fez um esforço para rentrer en soi-même[41], tomando a atitude mais compatível com o momento.

Pediu a Mateo que a deixasse a sós, mergulhando em profundo ensimesmamento.

Nesse ínterim, ao cair da tarde, em conversa informal com o hóspede, após cavalgada pelos arredores da Cidade, Don Fernando referiu-se ao diálogo anterior, esclarecendo:

  • Tenho meditado na sua oferta, quanto pensado no seu interesse por estas terras vinícolas preciosas. Como me

agrada corresponder à sua nobreza, poderiamos firmar um contrato, no qual o caro amigo me emprestaria certa soma que, se não paga em tempo hábil, que determinaremos, nossa propriedade será avaliada e resgatará a dívida, sendo- me ressarcida a importância que exceda ao compromisso. Ante o acontecimento, que espero não suceda, mas que o destino decidirá, transladar-me-ei com a família para a Corte, agradando a todos ...

  • Não se fará necessário um sacrifício de empenhar a propriedade, meu caro, porquanto me bastará a sua amizade, a sua palavra ...

Don Hidalgo desejava exatamente o que lhe era proposto, por confiar nesse destino que se forja pela traição e se logra pela compra das consciências ominosas, todavia, para mais implicar na trama o incauto, fingia dispensar a herdade cobiçada.

O orgulho do fidalgo era, porém, maior do que o senso de equilíbrio, empurrando-o para o abismo. Sentindo-se li- sonjeado — e a lisonja é como gás mefítico que envenena os que lhe sofrem a influência —, apertou a mão do consócio, visivelmente satisfeito.

Expôs a vultosa soma de que necessitava, no momento, referindo-se ao valor aproximado das terras e propriedades. Acertou que seria encomendado um documento, que se faria sigiloso, selando o compromisso de alta monta.

Don Hidalgo prometeu levantar a importância, em Sa- ragoça, rogando ao amigo que se celebrasse o feito naquela Cidade, evitando-se comentários desagradáveis ou algum inconveniente da indiscrição de funcionários do pequeno burgo.

  • Em Saragoça — concluiu, jovial —, contaremos com o apoio de Don Santamaria, que em face das exigências do amigo firmará como testemunha, apresentando-nos mais alguém de inteira confiança.

A vrai dire[42] o envolvimento do prelado no negócio produziu em Don Fernando uma reação negativa, um presságio nefasto. Fitando o sócio e surpreendendo-lhe um ar tranquilo, ameno, desanuviou-se de imediato, voltando ao otimismo.

Como a noite começasse a descer o véu de sombras, os cavaleiros retomaram ao Solar.

No encontro habitual, Margarida confessou ao viúvo suas apreensões e este ocultou-lhe o plano em curso com o temido genitor.

Ele falou-lhe da necessidade de viajar com Don Fernando, a Saragoça, para negócios, explicando que retomaria pouco tempo depois, quando enfrentaria a questão do matrimônio.

Sentia-se, agora, seguro, para os intentos porque anelava e impulsionado a prosseguir num plano cujas consequências não podia definir. Uma volúpia desconhecida impelia-o a prender o anfitrião, que lhe abrira as portas do lar em amizade, numa rede de fortes malhas, assenhoreando-se da filha, comprometendo mais o varão irresponsável e tomando-lhe as propriedades cobiçadas.

Algo de nobre que existe em toda criatura fazia-o sentir- se repugnante. Ele, entretanto, reagia, emulado pelo desejo do poder.

O trauma, decorrente da perda dos familiares, fê-lo odiar a dita alheia e comprazer-se, na loucura que tomava corpo na mente atribulada, em sobressair, dominar, tomar-se tirano também. No íntimo, era covarde, maneiroso, e a impulsividade, a violência de que se sentia possuído era antes decorrência dos conflitos psicológicos do que de uma coragem máscula, gerada na nobreza de um caráter reto.

Mateo, informado da viagem do genitor com o saragoçano, percebeu ser aquele o momento feliz de completar o plano para liberar-se de Felipa. Recorreu ao amigo, sugerindo que propusesse ao genitor a sua ida, propiciando-lhe um pouco de regalo à juventude ...

Don Hidalgo não teve dificuldade em convencer o tarazonês, partindo os très, dois dias após, em carruagem, aco- litados por alguns aúlicos a cavalo, para impedirem alguma sortida de bandidos e para prestar-lhes os serviços habituais.

A viagem, àquela época, apesar dos péssimos caminhos, fez-se agradável. À véspera, o Conde dei Pilar despachara um servo que o acompanhava, para preparar a residência, comunicar o seu retorno, a presença dos amigos ao conselheiro espiritual e serem tomadas as providências compatíveis com a circunstância.

Os viajantes, acalentando suas próprias ambições, todas filhas do egoísmo pernicioso de cada um, ansiavam pela chegada à Capital, a fim de se sentirem compensados e livres dos vários incômodos que os afligiam.

Mateo antecipava a volúpia do prazer, antegozando os benefícios da fortuna do futuro cunhado, que lhe abrira a bolsa recheada sem maiores exigências. Ignorava, na sua auto-satisfação desmedida, as ambições do outro, sobre quem não se dera ao trabalho de aprofundar observações ...

O Conde de Alcalá y Concepción fruía paz, em face da cornucópia da fortuna derramar-lhe nas mãos as moedas que lhe solucionariam os problemas. Suspeitoso, porém, se interrogava quais os móveis que teriam levado seu hóspede a tal generosidade. Tranquilizava-se, entretanto, por considerar- se hábil nos negócios e bem amparado pelas autoridades da Corte...

O viúvo, por sua vez, encontrava nos dois, que se emaranharam nas suas teias bem distendidas, a oportunidade de conquistar a mulher amada e, em qualquer época, tomar-lhes os bens... Tinha, agora, certeza do amor da escolhida e planejava consoreiar-se pouco depois, logo se tomasse credor do futuro sogro, que lhe não negaria a solicitação pretendida.

Mergulhados em suas reflexões perderam-se em silencioso ensimesmar, enquanto as animálias disciplinadas arrastavam a carruagem pelas terras semi-áridas, de quando em quando explodindo em vegetação luxuriante nos vales, ás margens dos regatos e do Ebro em suas sinuosidades majestosas.

Don Manuel de Santamaria e a criadagem receberam os viajantes com régio cuidado.

O palácio do Conde dei Pilar, em três pisos, próximo à torre da Madalena do Arco do Deão, nas cercanias da vene- randa Catedral, era uma joia do período mouro, qual acontecia com as construções dos arredores, verdadeiro rendilha- do de cerâmica cozida, trabalhada e colunas esguias, sustentando abóbadas ladrilhadas em cores harmônicas com vários pátios internos e repuxos cantantes, caprichados.

A criadagem vestida a caráter recebeu o amo e os convidados com visível satisfação, disputando-se serví-los.

Os hóspedes ocuparam amplas peças, rasgadas por janelas externas e sacadas interiores, além dos corredores feitos em ladrilhos e tijolos sem reboco, com combogós rendados por onde o sol do amanhecer era filtrado em jogos de luz e sombra...

O conforto, na abundância quase extravagante dos móveis pesados e tapetes antigos, produziu, em Don Fernando, um misto de satisfação vaidosa e inveja que lhe passou a espicaçar o sentimento atormentado.

O primeiro dia foi dedicado mais ao repouso e à recepção das boas vindas por pessoas gradas ao palácio e religiosos de destaque na Cúria. O elegante bairro de La Seo hospedava o que era de mais distinto e nobre na Cidade, embora outros palácios se espalhassem por bairros diversos da formosa comunidade.

O Bispo de Santamaria chefiava a Diocese com a destreza e disciplina jesuítas. Maneiroso, dissimulava os sentimentos num permanente sorriso sem emoção, estereotipado para aparentar gentileza e bondade que estava longe de possuir. Era, todavia, Son Ëminnence grise[43] da Cúria e da Infanta, de quem fora confessor, em Madri.

Temido, se fizera decerto detestado, embora aparentemente recebesse o respeito e a obediência dos fieis e do clero menor. Seus pares conheciam-no, por isso toleravam-no.

Don Fernando, de imediato, por possuir uma percepção aguçada e ser do mesmo metal moral, antipatizou com ele à primeira vista, antipatia, digamos sem rebuços, que foi recíproca.

O bispo percebeu, com o seu acurado senso psicológico, com que desnudava as almas no confessionário, o caráter dissoluto de Mateo e detestou-o, tratando-o com frieza apesar de cortês.

Nesse clima, as hábeis mãos do Destino trançam as tor- pezas e vilanias que se consumarão em tragédia.

O Conde dei Pilar, ao primeiro ensejo, minudenciou-lhe os fatos e sucessos que lhe aconteceram, inclusive relatando o plano que lhe fustigava a mente, em tomo dos empréstimos, a Mateo já concedido e ao genitor do jovem em andamento ... Afirmou que planejava tomar-lhe a filha e, quando oportuno, o resgate das dívidas ou as terras vinícolas, das quais repartiría vasto quinhão com a Cúria.

O ouvinte atento tinha fulgurante brilho nos olhos grandes, algo fora das órbitas, enquanto esfregava, maquinal- mente, as mãos alvas e magras, prelibando estranho prazer.

O diálogo se iniciara na sacristia da velha catedral e se alongara até a antiga ponte romana sobre o Ebro, que se espreguiçava dolente em sua correnteza clara.

— Parece-me um excelente empreendimento — afirmou o bispo. — Dispensa-se o dote tradicional, que chegará depois, de forma menos convencional. Todavia...

— Todavia? — inquiriu o conde. — Qual a restrição que o amado mentor apresenta?

Havia entre os dois um largo passado de erros e conivências, por diversas existências atribuladas que lhes assinalavam o processo evolutivo.

Essas simpatias que geram confidências e irmanam as almas nos atos heroicos ou as levam aos sórdidos porões da criminalidade, quanto essas outras aversões imediatas, espontâneas, que Fomentam animosidades e inspiram traições, suspeitosas, procedem do ontem espiritual de que ninguém se encontra indene.

O homem é hoje o seu ontem inevitável. Necessário que se predisponha a analisar esses sentimentos em relação ao próximo, mantendo uma atitude fraternal sem arroubos nem antipatias, enquanto o suceder dos dias coloca as disposições emocionais nos seus lugares e cada um melhor se desvela. Seja porém, qual for o sentimento, a fraternidade é o excelente método de comportamento.

O bispo e o conde, quanto ambos em relação a Don Fernando e a Mateo, reagiam sob o efeito de reminiscências inconscientes que afloravam, predispondo-os, aos primeiros, a uma perfeita identificação, em relação aos outros, e reciprocamente, às hábeis manobras da rapina e da delin- quência.

  • Todavia — prosseguiu reticencioso o astuto prelado —, tem sindicado os sentimentos da jovem em relação ao genitor? Como se portará no momento de uma definição? A quem elegerá, a você ou ao pai?
  • Posso afirmar-lhe que conto com a sua fidelidade. É ambiciosa e sedenta de liberdade. Ama-me e já depende, emocionalmente, de mim... Está ansiosa por livrar-se do pai, da família, embora nutra grande piedade pela irmã enferma, o que me parece um sinal positivo da sua personalidade.
  • Claro, meu filho! Sem querer prognosticar algo pessimista, desde que a não conheço, apraz-me adverti-lo que a mulher ambiciosa é mais sedenta do que o homem. Quando o ser feminino se revela as qualidades negativas e dissolutas, sempre é mais perigoso do que o delinquente masculino. É como se todo o natural potencial de beleza e santificação, que jaz inato, se convertesse em peçonha esti- muladora de forças nefandas que o toma venal, impiedoso, impudico...
  • Saberei domá-la. Acenarei uma liberdade, que não fruirá, ainda mais comigo, que considero a mulher um adorno necessário, um objeto de uso... Se me conceder um filho varão, ser-lhe-ei mais tolerante. Do contrário ...

Ambos sorriram, numa plena comunhão ideológica vulgar e absurda.

  • Quanto ao problema de Mateo? — interpelou Don Hidalgo.
  • Pretextaremos apoiar a mulher, no parto, após o que a recolheremos, para que se arrependa da vida dissoluta e ganhe absolvição com indulgência plenária. Em nossa Província dispomos de Mosteiros próprios, donde ninguém se evade com vida...
  • Assim — concluiu o outro —, teremos pai e filho em nossa dependência.
  • Para quando pensa em consorciar-se?
  • Por ocasião das festas da Virgen dei Pilar, em outubro, homenageando a Senhora Soberana de nossa “muy noble; muy leal y muy heroica; siempre heroica; muy benéfica e inmortal Zaragoza”!
  • Bravosl Muy bien! De acuerdo.

Abraçaram-se e retomaram à Igreja, donde o viúvo volveu, a sós, ao palácio, para a convivência com os hóspedes.

Ficara concertado que o sacerdote se incumbiría dos termos do sigiloso contrato de empréstimo, compromisso realizado por um Notário que exercia, igualmente, a função de secretario de atas e outros documentos da Diocese de Sua Excelência. Discutidos os termos do documento, foi o mesmo firmado pelos contratantes e as testemunhas apresentadas pelo bispo.

Don Fernando recorreu a dois amigos saragoçanos, explicando-lhes tratar-se de um documento sigiloso de caráter comercial, cujo texto não se fez necessário ser conhecido. Todos eram cavalheiros distintos e a presença da Igreja dava-lhe indiscutível caráter legal.

Entre taças de claretes transparentes, trazidos da adega do palácio, de safra superior, a operação selou os destinos dos seus participantes, por mais tempo do que eles desejavam e supunham viría a ocorrer.

Enquanto isso, Mateo esbanjava a mocidade, vinculando-se aos jovens irresponsáveis da cidade, descendentes dos condes de A. e de L., dissipadores e extravagantes, como soi acontecer com as mentes ociosas e exploradoras, que vivem da escorcha dos menos favorecidos a si se atribuindo direitos e privilégios que não possuem nem merecem.

O religioso se dava conhecimento das leviandades do borjano e mantinha-o sob vigilância, graças aos informantes loquazes que com ele compartiam as noites alegres, quando habilmente interrogados.

Levantada a soma de que necessitava, Don Fernando seguiu a Madri, a fim de regularizar os compromissos pendentes, deixando o filho e prometendo retornar logo se de- sincumbisse das suas e das responsabilidades da Coroa que lhe eram afetas.

Ressumavam pelo país os resultados negativos das atitudes do Conde de Aranda[44], desde a expulsão dos jesuítas da Espanha e da América do Sul, bem como da sua interferência, diminuindo os poderes da Inquisição.

As intrigas, na Corte, multiplicavam-se, fomentadas por Maria Luísa e o seu pupilo, Manuel de Godoy, então favorito da Infanta. O militar e diplomata que era, passou a ser rechaçado em face das suas reações ante os acontecimentos. Apoiada pelo Clero, Maria Luísa prosseguiu na teia perigosa contra os que se lhe opunham.

Um clima desagradável e de tensões dominava na capital do reino.

Don Fernando inteirou-se dos problemas, através do próprio primeiro-ministro, que não abdicava dos seus direitos nem das suas responsabilidades ou prerrogativas.

A intriga é sempre a arma dos tíbios e covardes, que se acobertam na pusilanimidade, apunhalando suas vítimas com o instrumento que os vencerá... Fomentada pela ambição desmedida, é mantida pela inveja que retrata o caráter dos seus ativistas.

Como era natural, o tarazonês percebeu a gravidade do momento, que o envolvia, já que sabia ser pessoa suportavelmente detestada pelo favorito de Maria Luísa, que não trepidaria em persegui-lo, qual ocorrera na época do ministro anterior...

Exultou, intimamente, com o negócio contratado com Hidalgo, que o colocaria a cavaleiro de algum escândalo ou de outra situação canhestra.

Logo pôde, procurou os seus credores liberando-se da tenaz compressora das dívidas e aguardando os acontecimentos.

Não obstante os graves problemas que aturdiam o reino, a capital madrilenha era um encanto permanente. A Casa Real se desbordava em prazeres e excessos, procurando es- pairecer as preocupações que ainda teimavam, como decorrência da vida francesa, que não lograra encontrar o timão para conduzir o país, sacudido por governos ineptos, que não correspondiam aos ideais da Revolução ...

A chama da liberdade, que ali, em França, fora acesa, ardia em milhares de almas, fomentando os ideais superiores do homem, que haviam explodido nas ruas de Paris e lograram vitória na queda da Bastilha — o hediondo símbolo do absolutismo e do abuso do poder, no memorável 14 de julho de 1789.

As risonhas cabeças coroadas de toda parte temiam os ecos do idealismo francês, que ameaçava sua inépcia, sustentada pelo hediondo princípio da arbitrariedade nascida no conceito infame que era “o direito divino dos reis".

Todo surgir de pensamento liberal ou amanhecer de ideal de liberdade era apagado com o cárcere e a morte, sob o epíteto vergonhoso de “crime de traição”.

Ninguém, jamais, conseguirá asfixiar a liberdade do homem nem esmagar-lhe os direitos por tempo indeterminado. Ser livre, embora responsável pelos seus atos, é dos mais sagrados impositivos do progresso, da evolução do espírito, no seu trânsito pela Terra. Essa liberdade muito discutida e pouco vivida tem sido banhada de sangue sempre, mas se levanta vitoriosa dos rios e pântanos da humana dor para clarear os rumos do cidadão, na meta do futuro ditoso.

Procurando silenciar os pensadores espanhois, os abutres que detinham o poder expropriavam os inimigos e também os amigos que lhes caíam em antipatia, sob a torpe acusação de “simpatia pelos franceses”, resvalando em crime de conspiração contra o rei.

Sob o luxo desregrado e os abusos exaurintes, escondia-se o medo que minava as energias da inutilidade alçada ao poder.


Don Fernando, ardente e apaixonado, no apagar das antigas emoções juvenis, sempre fizera da Capital o palco e os bastidores da sua natureza atormentada.

Embora não se excedesse pública, notoriamente, não passavam despercebidos os seus abusos, como, diga-se de uma vez, o dos decadentes da nobreza, que sabem desbordar paixões, quando fremem entre os que são da “mesma classe” como se afirmam, nas suas extravagâncias.

O primeiro-ministro solicitara ao amigo e pupilo que aguardasse os acontecimentos, antes que retomasse aos seus sitios.

Assim foi despachado um mensageiro para pôr Don Hidalgo informado dos fatos, bem como Dona Dolores, em Borja, a respeito da demora do seu amado consorte que se alongaria.

Aquele ano de 98 seria responsável, não apenas pelas radicais mudanças na governança do país, como pelos sucessos e desgraças das nossas personagens.

Cela va sans dire[45] que Mateo, inteirado do impedimento paterno exultou, já que isso lhe daria tempo de levar adiante o plano concertado com o Conde dei Pilar a respeito de Felipa. Desse modo, voltou a Borja pretextando assistir | mãe, devendo retomar uma semana depois com a amante indesejada.

Don Hidalgo, que mal sofreava as saudades de Margarida, planejou visitá-la, no que foi desaconselhado pelo mentor e amigo que o inspirou escrever à diva, convidanuo-a a uma visita ao seu palácio, sendo portador da missiva o irmão, que a deveria entusiasmar, dele fazendo comparsa para, nalguma possível reação paterna, haver um membro da família comprometido.

O viúvo explodiu com festa na alma, gritando:

— Que faria eu sem a sua sabedoria, meu amado benfeitor?!


  • Para tanto são os mestres — retrucou com empáfia, mal disfarçada. — Auxiliar os pupilos no desembaraçarem-se dos seus problemas.

Mateo, a princípio, não soube como conciliar, unindo na mesma viagem a Saragoça, a irmã e a concubina de passado gravemente reprocnável.

O Conde dei Pilar solucionou a questão sugerindo que ele acompanharia a mana e um seu serviçal, a meretriz que seria encarninhada a uma casa de campo nos arredores, onde o aguardaria para culminar os trâmites do problema.

O retorno do filho diminuiu no coração da respeitável Condessa de Alcalá y Concepción as preocupações e angústias de que se via prisioneira.

O filho, porém, não tinha sensibilidade nem valor para ater-se, por pouco tempo que fosse, nos problemas e aflições alheios. Ególatra, pensava primeiro na satisfação dos próprios desejos, para depois, o que não era sempre, atender aos outros.

Assim mesmo, na noite da chegada, a genitora buscou-o nos aposentos, procurando um diálogo que lhe diminuísse as inquietações mal sopitadas. Como o rapaz estava animado pelo prelibar dos sucessos, que tinha em mente executar, foi acessível e simpático à conversação materna.

A matrona, que era o exemplo do equilíbrio no Solar, depois de divagar em comentários secundários, passou ao tema real que a interessava.

  • Mateo, meu filho — falou com voz emocionada —, ultimamente sinto uma aziaga impressão, como se nosso lar estivesse invadido pela trama de tragédias em curso, que logo se consumarão ...
  • Mamãe, lá vem a senhora — interrompeu-a o filho, interessado em tranquilizá-la.
  • Ouça-me, Mateo, por favor, com um pouco de paciência, pelo menos desta vez ...
  • Está bem, querida! — concordou o jovem, tocado pela sinceridade daquela nobre mulher.

Vendo-a, talvez por primeira vez, apesar da convivência dos vários anos, encontrou-a grandiosa e superior como dantes nunca notara. Parecia haver um halo de desconhecida claridade envolvendo-a e mais fulgurante ao redor da negra mantilha rendilhada que lhe caía, graciosa, da cabeça forte bem penteada.

A senhora acercou-se da janela e abriu-a. Um sopro de paz, da noite em festa de estrelas, invadiu a recâmara, refrescando-a.

Dali, emoldurada, Dona Dolores, prosseguiu:

  • Como eu dizia, uma sombra de desgraça penetra,

esgueirando-se, em nossa Casa, e algo me afirma que um luto sem termo nos envolverá           

“Não me preocupam os problemas políticos, que sempre os tivemos nestes últimos anos, em razão das mudanças, em Madri, mas sim as questões morais, que não consigo identificar e as agitações paralelas em decorrência das novas circunstâncias ...

“É algo impalpável, vivo e puisante, que está conosco, que nos ameaça, sorrateiro e cruel. Digamos que o Destino tomou corpo e passou a coabitar em nossos íntimos, conosco, mas não controlável por nós ... Um demônio que se insinua e se predispõe a destruir-nos. Filho ...”

  • Mamãe, não prossiga! — exclamou, impressionado, Mateo. — Nada nos ameaça. Você está sentindo a falta de papai, mas nós estamos em casa. Não se preocupe.

A verdade é, que ele, naquele momento percebeu a gravidade dos seus planos e a intuição materna, certeira, atingindo o alvo.

Ninguém que, à borda do crime, não haja sido auxiliado a desviar-se, que não receba a ajuda divina. A rebeldia teimosa, o temperamento caprichoso enceguecem e ensurdecem o homem que se faz revel, atirando-o no abismo que ele busca. Nunca, porém, lhe falta a luz para caminhar com segurança e sair do precipício que o atrai.

— Como não me preocupar? — insistiu a condessa. — Pressinto que você e Margarida correm perigos muito grandes e que este terrível acontecimento que se aproxima levará o seu pai e todos nós a lutuosa destruição.

“Sou, meu filho, como você sabe, afervorada devota da Senhora dei Carmen. Se não me houvesse consorciado com seu pai, ter-me-ia entregue à religião, tomando votos no Carmelo, para seguir ao lado das filhas descalças de Santa Teresa ... Pois bem, nestes últimos dias, dominada por estas apreensões, busquei a nossa Capela e acendi lamparinas à Virgem, rogando-lhe ajuda e inspiração. Curioso é que não me vem ao pensamento, qualquer coisa com a nossa pobre Carmencita, como seria natural.

“Sonhei que me encontrava numa cidade em sombras, que não pude identificar, onde dois homens, um nobre e um religioso tramavam um conciliábulo desventurado contra nós, entre sorrisos maquiavélicos e certezas de vitória. Ou- via-os, mas não lhes compreendia as palavras ...

“Despertei assustada e não mais dormi.

“Na noite seguinte repeti a oferenda e novamente fui acometida do mesmo sonho, agora mais pesadelo terrifican- te, pois que o via prisioneiro e a seu pai, tresloucado ... Oh, meu Deus, piedade!”

A senhora prorrompeu em copioso pranto, que a sacudia, quase convulsivamente.

Mateo, vivamente impressionado com a fidelidade da revelação onírica, de pronto identificou os maquinadores da tragédia, como sendo o Conde dei Pilar e o Bispo Don Manuel de Santamaria... Sentiu-se perturbado. Todavia, teve a lucidez de chamar uma das amas, e acudiu a mãezi- nha, enlaçando-a num legítimo abraço de ternura e amor, falando-lhe com doçura, buscando tranquilizá-la.

A serva, que atendeu, pressurosa, retomou trazendo um liquido calmante, que a condessa sorveu com os olhos enevoados pelas lágrimas.

O filho asseverou-lhe nada haver que merecesse preocupação, muito embora lhe prometia redobrar vigilância e cuidados.

Levou-a aos seus aposentos particulares, solicitando que repousasse.

Ato contínuo, desceu aos jardins defronte do Solar e mergulhou num profundo cismar, de que muito necessitava.

A noite luminosa respirava onomatopeias da Natureza, como pano de fundo para os acontecimentos que ainda não haviam sucedido e poderiam ser evitados, se os envolvidos o quisessem.

 

                       AMANHECER DE UM DIA BRUMOSO

Mateo sentia a necessidade de espairecimento, a fim de liberar-se da depressão que o dominava, ante os augúrios infelizes de que sua mãe lhe dera notícia.

Não havendo recebido uma educação mais refinada, ou tendo-se negado a assimilar os tesouros da cultura, ficara em Borja, cujos horizontes intelectuais eram limitados.

Ele acusava o pai de sovinice, por havê-lo arrancado do Colégio, enquanto o pai lamentava a sua necedade e desinteresse pelos estudos.

A verdade é que o jovem não se apoiava na leitura, a fim de embrenhar-se pelas paisagens do saber, em conse- quência derrapando nos dislates e nas vulgaridades.

Sexólatra já dependente das libações alcoólicas, as suas resistências morais, mínimas, não suportavam pressão nem ansiedade. Seus caprichos exigiam atendimento imediato, no que atritava com o pai, que se orgulhara do filho varão e ambicionara prepará-lo para herdar o latifúndio.

Não o logrando como desejava, resolveu domá-lo pela retenção monetária, com que o subjugava. O pai sabia que sua reação era submissa, por faltar-lhe coragem para o trabalho e para o esforço pessoal.

Inquieto, mas sentindo necessidade de levar o plano adiante, resolveu apagar as impressões negativas, na casa de Felipa, onde o bom vinho e a sensualidade da mulher pervertida seriam um refúgio.

Não obstante houvesse prometido a Margarida um diálogo importante, mandou preparar o corcel e disparou para a dissipação.

Felipa recebeu-o com efusão de entusiasmos.

Ela não o amava, conforme entendemos o amor. Amava a segurança que o futuro conde lhe poderia propiciar e dependia dele nos desvarios da luxúria que a fixou na posse do desesperado.

Tinha dúvidas quanto à paternidade da criança que esperava, no entanto, a gravidez foi-lhe um trunfo para prendê-lo o que, infelizmente, se tornava uma cartada para perder-se.

Mateo gostava dos enleios e da convivência excitante com a mulher irrequieta. Desde que lhe descobrira a ambição e se percebera dependendo dos silêncios da amante, que passara a nutrir uma estranha reação. A notícia de que iria ser pai tomou-se-lhe um choque, um coice de mula na face: despedaçou-se interiormente, cedendo ao impulso de liberar-se da situação ...

O certo é, que sentia a constrição impositiva de desbor dar mais as paixões, experimentando outras orgias, outras companhias ... Sabia-a ciumenta, ardilosa, e reconhecia que outros homens a cobiçavam, o que lhe era um perigo, caso não agisse com arguta cautela.

Naquele momento, porém, revê-la, foi um refrigério. Ao seu lado, por alguns instantes, pensou em abandonar o plano, apoiando-se no futuro cunhado e deixando-a ao seu próprio destino.

O medo — esse terrível inimigo dos covardes —, de ser perseguido por ela ou algum amante, de o pai descobrir-lhe

toda a pusilanimidade, deu-lhe ânimo para prosseguir com a ideia nefasta.

Falou à infeliz, de que se iria transladar para Saragoça por largo período, a negócios, ao lado de Don Hidalgo, e certamente não a poderia visitar por alguns meses ...

Felipa reagiu, conforme ele o esperava.

  • E ficaria eu a sós — rugiu, colérica —, a fim de unires-te a outra? Nunca! Se eu souber de algo que me infelicite, cairei, é certo, levando comigo outros desgraçados... Não nascí para silêncios absurdos e sou capaz de tudo, quando ferida no meu orgulho de mulher, particularmente se for desprezada. A jovem comprazia-se na explosão da amante. Ela marchava para a armadilha que lhe estava preparada.
  • Não lhe estou dizendo que a pretendo abandonar. Informo, apenas, que estarei fora por largo período. Pensando em você, aluguei uma casa de campo para o seu repouso e para nós ... Dependendo de você.

A moça atirou-se-lhe ao pescoço, lisonjeada, e cumu- lou-o de carícias.

  • Eu sabia — afirmou, convicta — que o meu jovem príncipe não me
  • Há uma condição importante.

-     Qual?

  • Que você possa ser discreta com os seus Revelar-lhe os nossos planos, é o mesmo que mandar recado a papai.. ! E onde, ou com quem arranjarei dinheiro para manter-nos?
  • Que farei, então?
  • Comunicará que se afastará daqui para visitar parente moribundo, em suas terras, prometendo voltar . ..
  • Para quando será a viagem?
  • Dentro de três ou quatro dias, antes que papai retorne de Madri, onde se encontra em funções do Estado...

(Dava-se importância e impressionava a companheira com a declaração de "funções do Estado”).

"Mandá-la-ei com o meu escudeiro, que é capaz de dar à sua pela minha vida. Informá-lo-ei das providências a tomar, quando lá se encontrem”.

Silenciou por pouco e arrematou:

  • Um ou dois dias depois chegaremos, Margarida e eu ...

Ele percebeu que informar a viagem da irmã, reforçaria o programa em tela, no que tinha razão.

  • A jovem senhorita também se transfere para Sa- ragoça?
  • Naturalmente, por algum tempo, a fim de aumentar o seu círculo de amigos, melhorar relacionamentos, concertar bodas, ora, tantas coisas!...

O ar de importância que se dava e de indiferença, atingia a ingênua com certeira pontaria.

Os humildes gostam da gabolice dos a quem consideram. Como a ingenuidade facilmente se deslumbra, os vãos entusiasmam aqueles com a exibição de respeitabilidade e valores que não possuem.

Açodada pela perspectiva do triunfo que a aguardava, Felipa deixou-se encantar pelo fanfarrão e viveu a alucinação mentirosa da noite de sensualidade.

Somente pela alva Mateo buscou o lar para o repouso.

Margarida esperou-o quanto pôde sem resultado. Após o desjejum, pôs Amparo à espreita, a fim de levá-lo à sua presença logo aparecesse.

O dia avançava alto, quando Mateo despertou cansado, vitimado pela ressaca alcoólica e pelo despautério. No mergulho do sono viu-se perseguido por estranhas sombras demoníacas, que lhe impediam o refazimento das forças al- quebradas.

Depois de melhorar a aparência e ingerir algum alimento, mandou chamar a irmã para um passeio, quando conversariam.

Margarida não sabia refrear as emoções. Estava ansiosa.

  • Não lhe conversei que poderia ser útil? — interrogou, jovialmente. — Trago-lhe valioso presente. (E exibiu a carta lacrada com o sinete dei Pilar).

A moça procurou arrebatá-la, mas ele correu. Ela tentou segui-lo, terminando, ofegante, por solicitar:

  • Dê-me, Mateo, que estes vestidos me impedem alcançá-lo.

Os irmãos se deram as mãos, buscando um local agradável onde sentar-se e conversar.

Margarida rompeu o selo e leu a missiva, emocionando- se vivamente e caindo em silêncio apreensivo.

  • Más notícias, ratura do namoro?
  • Nada disso. Antes é bem diverso o conteúdo da carta.
  • Que diz?
  • Convida-me a passear em Saragoça, hospedando-me no seu lar. Deus meu!
  • E que fará?
  • Não sei. É inesperado demais. Eu supunha que ele me mandaria dizer quando volveria... Mas eu ir até lá... Jamais cogitaria de uma audácia destas. Sem a anuência de papai nem a presença de mamãe, eu nunca me Isto seria uma tremenda loucura.
  • Por que? Não estarei lá, acompanhando-a, ou ele não se refere ao fato?
  • Sim, refere-se. No entanto, Mateo, é quase um escândalo.
  • Não o vejo assim. Convidaremos mamãe, que certamente não irá por causa de Carmencita... Iremos nós, que retornaremos quando papai esteja de volta de Madri.


Margarida levantou-se e, andando de um para o outro lado, esfregou as mãos pensando alto:

  • Mamãe não será problema. Ela reagirá com toda autoridade, mas nós dois a convenceremos. Ela simpatiza com o conde ... O problema será papai, quando souber ... Como reagirá?
  • Ele terá que engolir, mesmo que não goste. Já estará a situação vigente. Talvez isso lhe quebre as resistências.
  • E a minha honra?
  • Você estará em viagem com o seu irmão, na casa de um querido amigo, hóspede recente da família, que nos retribui as gentilezas, recebendo-nos em seu palácio. Nada mais justo e digno, não lhe parece?
  • Não sei, Mateo, não sei. É bom demais para ser verdadeiro e muito perigoso para ser enfrentado. Tenho que pensar...
  • Pois, então, pense com rapidez antes que papai retome e nos cerceie a alegria de viver. Com o que vem acontecendo, na Corte, teremos que lhe sofrer o mau-humor, as pressões. Eu estou por explodir e creio que a nossa hora é chegada..

“Liberdade e posses, na velhice? Para que? Agora é o meu momento, caso você se recuse a que seja o nosso.”

  • Terei que levar Amparo comigo ... Tudo é tão surpreendente! Não estou preparada...
  • Sem dúvida, aonde formos, levaremos os nossos fâmulos. Além dos serviços pessoais que nos prestam, podem auxiliar-nos em muitos outros misteres. Quem não enfrenta surpresas com coragem, não colhe os frutos bons das oportunidades inesperadas.

“Não pense duas vezes, para que não conclua com atraso”.

A manhã foi por eles absorvida entre planos e fantasias, de certo, juvenis, irresponsáveis.

Amparito, informada por Margarida, passou, da temeridade inicial ao júbilo da novidade. Não tentou dissuadir a jovem, apesar de a ter recordado quanto aos perigos da empresa. Pôs-se-lhe, todavia, solidária.

Ao cair da tarde, os filhos buscaram a condessa, que bordava com algumas auxiliares domésticas, na larga varanda do pátio interno do refeitório.

A dama exteriorizou larga alegria por ver os filhos de -mãos entrelaçadas. Carmencita estava próxima, num mergulho ensïmesmado, ausente do recinto ou aparentemente fora do ambiente...

  • Sente-se melhor, mamãe? inquiriu Mateo com real interesse.
  • Sim, meu filho. O calmante fez-me bem, diminuindo minha apreensão e deixando-me despertar bem disposta.

Passeando a conversa por frivolidades, Margarida solicitou à genitora dispensar as servas, porquanto gostaria que ficassem a sós.

Sem muitos preâmbulos, expôs:

  • Estou amando, mamãe!

A frase curta foi dita de propósito. A senhora ergueu os olhos negros de longos cílios escuros e perguntou com um sorriso temo:

  • E quem é o felizardo? Escolheu-o bem?
  • É o senhor Conde Don Hidalgo Meléndez de Aragón y dei Pilar, que até há pouco esteve como hóspede em nossa Casa.
  • E o senhor conde sabe ou corresponde ao seu amor?
  • Sim, senhora! Foi ele quem me desvelou os sentimentos.
  • E quando o fez?
  • Por diversas vezes, enquanto aqui esteve.
  • Seu pai o sabe?
  • Não me parece possível.

Margarida narrou com lealdade à genitora os encontros e diálogos que manteve com o saragoçano, suas promessas e as perspectivas com que ele lhe acenou em relação ao futuro. Teceu considerações justas sobre os seus interesses pessoais e as suas ambições de mulher. Desejava um lar, fora do teto paterno, filhos, uma família... Anelava por maior fatia de felicidade.

Dona Dolores cessou de bordar, a fim de ouvir a filha com interesse e atenção.

  • Quando Don Hidalgo — indagou, motivada — nos comunicará o fato, oficialmente?
  • Por ocasião do retomo de papai, previsto para breves dias.
  • Alegro-me com isso, milha filha, e passarei a rogar à Virgem suas bênçãos para vocês ambos.
  • Recebi carta dele, mamãe, hoje, por Mateo...
  • Muito bem. Há alguma novidade?
  • Sim, senhora. (Era o momento culminante do diálogo.) Ele nos convida a todos para aguardarmos papai, no seu palácio, em Saragoça, buscando retribuir as gentilezas que recebeu em nossa casa.
  • Hospedarmo-nos no seu lar, sem o Conde de Alcalá? Não pense, ele, isso, que não o conseguirá.
  • Mamãe — interferiu Mateo —, que tem isso demais? Ele apresentou-me o plano, ao qual anuí, por parecer-me um gesto nobre e galante. Imagine que seria uma oportunidade de breve recreação para todos nós. Quando papai regressar, trazer-nos-á com ele. Quiçá, ali, seja feito o pedido para os futuros esponsalícios, que poderão realizar-se aqui, em Borja.
  • Meu filho, revidou a senhora —, isso, nunca! Seu pai jamais concordaria com uma anuência minha em tão audaciosa empresa. Não falemos nisso. Escreva ao Sr. Conde Don Hidalgo, dissuadindo-o com amabilidade, e agradecendo com cortezia...
  • Não podemos, mamãe. Eu concordei com ele e pro- meti-lhe ser o intermediário da sua pretensão — argumentou Mateo.
  • Está sendo o intermediário, o que, certamente não o credencia a decidir por seu pai nem por mim.

Os ânimos se exaltavam. Margarida, prevendo um desfecho irreversível, abraçou a genitora, e se referiu, bondosa:

  • Nunca saímos daqui, mamãe, porque papai não o permite. Recusei os pretendentes anteriores para agradá-lo. Faço-lhe as vontades, mato os meus sonhos, sou submissa... Não serei digna de confiança por acaso?
  • É, milha filha, credora de nossa confiança. O problema não é esse...
  • Eu o sei, mãezinha. Se você não puder ir, delegue-me sua coragem e dê-me sua confiança. Será uma surpresa para papai, quando voltar... Retomaremos juntos, formando um séquito e alegrando-nos com ele. Sei que ele compreenderá. É uma grande oportunidade. . .

“Além disso, eu gostaria de conhecer o conde, nos seus domínios, para saber identificar melhor o homem ao qual irei unir o meu destino para sempre. . . Mateo estará comigo. Ele levará o seu escudeiro e eu, Amparito.

. “Don Hidalgo é digno e nunca se atreveu a qualquer atitude menos correta em relação à minha pessoa. Soube respeitar-me e ao nosso lar”.

  • Todavia, você agora será quem dependerá dele, como sua hóspede.
  • E o respeito que se deve manter pelos convidados?

A senhora sentia-se aturdida. Os filhos terminaram por vencê-la sem a convencerem.

Apreensiva e receosa, a boa dama anuiu à viagem dos filhos, a Saragoça, sem raciocinar com clareza o passo que se permitia dar, naquelas circunstâncias.

Assentada a viagem para daí a três dias, as horas foram tomadas pelos preparativos do cometimento entre arrumações apressadas e bagagens volumosas.

No dia aprazado, muito cedo, a carruagem, atulhada de malas, partiu, conduzindo os jovens de Alcalá, enquanto a condessa, mais solitária, assumia a alta responsabilidade pensando no que atribuía ser a felicidade dos filhos.

Na manhã anterior, dos arredores de Boija, Felipa e o escudeiro de Mateo seguiram com destino à Capital da Província.

Em Madri, o rei Carlos IV demitiu o Conde de Aranda e nomeou como seu primeiro-ministro Manuel de Godov, num raro momento de coragem, sob o domínio da vontade férrea de D. Maria Luisa.

Raiava novo dia para a Espanha...

Amanhecia, brumoso, para Don Fernando de Alcalá y Concepción, bem quanto para sua família...

 

                           SUCESSOS E DESDITAS

Os acontecimentos precipitaram-se na Corte resultando na atitude do rei, considerada corajosa, ao demitir o Conde de Aranda e nomear o antigo pupilo do mesmo, na condição de primeiro-ministro.

O gesto esperado, mas não acreditado, colheu de surpresa a todos, inclusive a Don Pedro Paulo Abarca de Bolea, que sequer foi recebido, posteriormente, pelo monarca..

A força ignóbil da intriga, vitalizada pela calúnia, atingia o objetivo e a Infanta exultava, cavilosa e feliz.

Imediatamente, o novo ministro passou a providenciar as modificações que planejava por antecipação, a fim de remover das funções régias quantos pertencessem à militância anterior.

Como era natural produziu-se uma larga inquietação pelos corredores palacianos a exteriorizar-se por toda a capital, alargando-se através do reino. . .

Don Fernando, que acompanhava os acontecimentos in loco, por princípio de fidelidade ao amigo demitido, não apresentou ao novo homem forte as congratulações esperadas, no justo momento em que outros se transferiam de amizade para auferirem os lucros habituais, gerando uma

animosidade, que se tomava pública, já que era existente em caráter privado.

Não havendo perdido as prerrogativas que usufruía na sua região, continuando a merecer fé, pelo menos até quando se encontrasse um substituto para as suas tarefas, retomou, receoso, contrariado, preferindo seguir diretamente a Borja, sem descansar em Saragoça como ficara estabelecido.

Esperava que, do lar, despacharia um emissário com o fim de inteirar o Conde dei Pilar dos acontecimentos e desculpar-se, ao mesmo tempo chamando Mateo de volta.

Pressentira os nimbos carregados que se acumulavam e, como hábil político, não ignorava que a perseguição desencadeada pelo vencedor seria a arma infame com que se apoiaria na posição.

Desejava reunir a família, tomar providências, fazer uma longa excursão, talvez ao estrangeiro, enquanto se acalmassem os tumultos e desavenças.

Fez a larga viagem com pouco repouso desejando ganhar tempo. Todo o percurso foi realizado sob alta tensão emocional, vitimado pela cólera.

Esquecem-se os arbitrários dominadores que os ventos favoráveis à sua pretensão, sem qualquer motivo mudam de direção, soprando, às vezes, no sentido oposto e derruindo suas frágeis construções. Fátuos e arrogantes, sempre supõem que o Sol brilha exclusivamente para eles sem cuidarem de que a noite é também mensagem da vida...

A jornada, normalmente modorrenta, foi apressada e ansiosa, enquanto a mente esfervilhava de planos e ressentimentos.

Don Hidalgo anelava pela presença da amada em seus sítios, mas não aguardava que ela enfrentasse as circunstâncias, vindo ao seu encontro. Na época, só excepcionalmente a mulher tomava decisões e assumia responsabilidades. Necessitava de ser dotada de caráter vigoroso e coragem que a levasse ao destemor. Margarida era assim, de tal fibra constituída.

Ao receber os viajantes cansados, o anfitrião movimentou a ágil criadagem para a prestação de serviços e amabilidades. O conselheiro espiritual foi chamado às pressas e tudo respirava felicidade. O apaixonado ardia de contentamento e lubricidade.

A jovem, a seu turno, deslumbrou-se com o palácio e todas suas utilidades e adornos. Cobiçosa, prelibava o prazer de sentir-se possuidora de tudo aquilo. E justiça seja feita, não tinha exata ideia ou informação da fortuna do amado. Nesse frenesi do primeiro impacto prometeu-se a si mesma que não renunciaria, por motivo algum, à oportunidade feliz que os bons Fados lhe traziam ao coração.

Apesar de aguardados os jovens, a sua chegada parecia repentina. Não obstante as providências tomadas, fez-se uma imediata movimentação na casa, sendo despachados serviçais em várias direções, assinalando a presença da bela, gentil e nobre convidada dei Pilar.

O conde, logo pôde, tomou o futuro cunhado pelo braço e, eufórico, agradeceu-lhe as gentilezas, prometendo que saberia compensá-lo, na condição de amigo e quase familiar reconhecido.

Mateo afirmou que lograra trazer Felipa, que deveria haver chegado às vésperas.

  • Tudo será conforme combinado — tranquilizou-o o amigo. — Sua Reverendíssima nunca falha. É homem reto como uma lâmina de espada...
  • E frio quanto ela? — interrogou Mateo, que lhe devolvia a animosidade gratuita.
  • E frio — concordou sem mais amplos esclarecimentos, aliás, desnecessários.

Os dois primeiros dias foram tomados por festas, recepções, apresentações sociais e passeios agradáveis pela movimentada cidade e seus recantos de bucólica beleza.

Os enamorados se apaixonavam cada vez mais, devorados pela chama crépitante dos desejos infrenes, sem qualquer recato como por falta de vigilância.

A moça inexperiente deixou-se inebriar pelo encanto dos presentes, recebidos das circunstâncias, e desatou os sentimentos perigosos com que enrodilhava o viúvo em salero e sensualidade, a fim de o reter sem margem de libertação.

  • Casemo-nos quanto antes — pediu-lhe, arrebatado, o Conde dei Pilar.
  • Não há pressa, querido. Esperemos papai e tomemos as providências compatíveis, para que o nosso esponsalício marque época nesta encantadora cidade. Somos jovens e temos tempo.
  • Mas eu não poderei esperar muito. Abraso-me e enlouqueço.
  • Paciêncial Se a minha presença o perturba poderei antecipar o retomo... (Falou, espicaçando-o, a sorrir).
  • Não se trata disso... — ripostou o anfitrião apaixonado. — Pensemos que você será minha esposa em muito breve, não necessitando de tempo para arrumações, enxovais ... O dinheiro antecipa alegrias e resolve problemas. Quanto a recepções, ora, nossa vida será uma contínua festa.
  • Esperemos papai, que se não demorará, em Madri, e veremos como reagirá a essa minha viagem intempestiva, audaciosa... Quando penso nesta minha atitude leviana, reconheçamos, e imprevidente, temo pela sua explosão de ira, não imaginando como se comportará. Homem violento e orgulhoso, nunca simpatiza com atitudes que lhe são comunicadas depois. Não abdica dos seus direitos, e no que tange à família...
  • Pois ele terá que aceitar com calma — rugiu Don Hidalgo, entre dentes. — Suas mãos dominadoras nunca nos alcançarão. Você estará protegida e os seus interesses terão que ser respeitados por todos, inclusive por ele.
  • Todavia, sou sua filha, e ele tem direitos sobre mim...
  • Não nos meus domínios. Além do mais contaremos com o apoio da Igreja e motivos muito sérios fá-lo-ão acalmar-se. Não se preocupe. Confie em mim!

Vendo-o congestionado, Margarida, por um momento assustou-se. Descobriu o homem igualmente voluntarioso e possessivo que era aquele. Num átimo viu-se transferida de uma para outra jaula dourada. Teve ímpeto de recuar, na empresa, no entanto, a ambição desmedida iludiu-a com a ideia de que, oportunamente, em razão dos próprios encantos, o submeteria à sua vontade e caprichos, no que, de certo, se equivocava.

O fogo da paixão arde e destroi. Os que lhe tombam na pira, sempre se consomem. No jogo da lúxuria o amanhã sempre se antecipa, precipitando ao despertar sofrido num futuro sombrio.

Mateo, no dia imediato à chegada, foi visitar Felipa, a fim de manter-lhe o clima de confiança, passando algumas horas de espairedmento e prazer ao seu lado.

A casa de campo, de propriedade do Conde dei Pilar, ficava próxima ao Ebro, nos arredores da cidade. Arborizada e agradável, constituía um regalo a quem a fruía.

Felipa trouxera uma serva de confiança e Don Hidalgo mandara providenciar ajudantes para os misteres domésticos.

A astuta mulher era bela e sabia utilizar dos seus recursos — seus tesouros, conforme dizia —, providenciando o futuro, quando suas atrações perdessem o valor. Ajaezava-se

com joias e conduzia um pequeno cofre particular onde guardava moedas de ouro e outros valores.

Mateo se encantava ao seu lado e se saturava em sentimentos contraditórios, tumultuados. Desejava prazer, não responsabilidade, compromisso...

Na terceira noite, Felipa despertou com a angustiante presença de um embuçado, na alcova, que remexia coisas e abria, sutil, as gavetas dos móveis. Quis gritar, mas a voz morreu na garganta, quando se sentiu agarrada por vigorosa mão, que a crivou de punhaladas, sem motivo, terríveis, fatais.. .

Quando a ama veio vê-la pela manhã, encontrou-a trucidada, caída ao solo, na direção da porta, como se, exangue, tentasse pedir ajuda. Tudo em volta demonstrava o latrocínio: roupas rasgadas e ensanguentadas, gavetas derrubadas, o pequeno cofre desaparecido, um caos...

Desesperada, a auxiliar bradou por socorro, a cujos gritos acorreram os demais fâmulos, que nada mais puderam fazer, senão dar a notícia funesta aos amos.

Mateo foi acometido de real desespero. Desejava liberdade, não, porém, a tal preço. Chorou copiosamente, no que foi consolado pelo amigo e, posteriormente, pelo bispo, que buscou confortá-lo ante o determinismo indevassavel do Criador, como afirmou.

No sepultamento da infeliz, depois das palavras sacramentais recitadas por Don Santamaria, quando se abaixava o corpo, na campa, trocou um olhar de indefinível significação com o Conde dei Pilar...

Nunca se pôde esclarecer, exatamente, o que aconteceu naquela noite de horror, mesmo que as competentes autoridades houvessem sido formalmente notificadas.

Como Felipa não tinha quem exigisse maior interesse, na averiguação dos fatos — em verdade os envolvidos indireta ou diretamente desejavam que tudo permanecesse em

silêncio — o crime passou ao olvido e os homicidas nunca foram encontrados.

Digamos que o Destino foi auxiliado a solucionar, em definitivo, um incômodo que seria perigoso noutras circunstâncias.

Mateo deprimiu-se e tombou numa tremenda carras- pana, sendo recolhido aos seus aposentos.

A irmã de nada foi informada, exceto que ele se encontrava indisposto.

Don Manuel de Santamaria experimentou um violento choque emocional, ao defrontar Margarida pela primeira vez.

A bela jovem, de cabelos negros, longos e sedosos, parecia-lhe alguém familiar. Um estranho e inusitado sentimento de peculiar afetividade irrompeu-lhe do íntimo, aturdindo-o.

Sofreando severamente a emoção que o desconcertava, não pôde suportar o olhar ardente da moça e baixou a vista, enruoescendo.

Todo o ascetismo, ferreamente cultivado, afrouxou suas tenazes e ele atordoou-se. Não obstante perturbado, buscou dissimular as emoções, mantendo a gentileza, no momento, com espontânea alegria.

Inconscientemente, detestou a sua situação religiosa e experimentou uma especial forma de ciúme do amigo que arrebatava a jovem, visivelmente enamorada.

Demorou-se pouco com ela e fugiu-lhe da presença, a fim de ciliciar-se, reconquistando a aparência convencional.

Uma semana após a chegada dos borjanos a Saragoça, Don Santamaria mandou chamar o conde ao seu próprio solar.

Exteriorizando uma alegria não habitual, narrou ao amigo que um correio especial de Madri trouxera-lhe a noticia da queda do famigerado Conde de Aranda e a consequente ascensão de Don Manuel de Godoy...

A Infanta, pessoalmente mandou informá-lo dos pormenores dos acontecimentos e propunha a sua volta à Corte...

— Claro está — concordou, embriagado de felicidade e orgulho — que este ainda não é o meu momento de retomar. Ambiciono algo mais junto a Roma... Mas, confesso, que é muito confortador o convite honroso e nos agradam muito tais acontecimentos. . . Agora daremos curso a vários planos que se encontravam sustados...

E ria alto, estuando de incontido gáudio.

Don Hidalgo congratulou-se com o mentor e ambos se repletaram de esperanças numa antevisão de felicidade e poder terrenos sem termo.

Don Fernando, após a apressada e fatigante jornada chegou ao Solar, em lamentável estado de ânimo.

Surpreendendo a todos pelo aspecto de cansaço e de- perecimento nervoso, após o banho, deu ciência dos fatos à Condessa Dolores, pintando os sucessos madrilenhos com as pesadas tintas da revolta.

Cada um, como é natural, vê o problema conforme e através da cor e do grau da lente dos interesses pessoais.

A boa senhora surpreendeu-se penosamente, recordando-se dos sonhos premonitórios. Buscou animá-lo e conci- tou-o ao repouso. Como ele desejasse ver a filha, a esposa sugeriu-lhe o descanso e refazimento das últimas atribula- ções, terminando por convencê-lo pela persuasão gentil.

Ela, no entanto, não conseguiu dormir. Em face do estado de ânimo do marido, pensava como noticiar-lhe a viagem da filha sem o seu consentimento.

Mergulhou na oração e entregou-se à proteção da Senhora dei Carmen.

A oração é a ponte que mantém a ligação entre a necessidade humana e a abastança divina.

Uma longa noite, no entanto, se estendia em sombras, prenunciando um difícil amanhecer brumoso.

 

                   VIOLÊNCIA EM SUCESSÃO DESCONTROLADA

A perspectiva da aflição, na espera dos acontecimentos sombrios que se aguardam, é dor presente antes da chegada dos sofrimentos futuros. A alegria porque se anela faz-se tormento da ansiedade. Muito importante a calma e a irrestrita confiança em Deus no jour-le-jour da existência, porquanto essas disposições superiores predispõem ao equilíbrio emocional ante quaisquer acontecimentos.

A Condessa de Concepción, não obstante serena, ou melhor, submissa às circunstâncias a que se amoldara em atitude passiva, aguardou o amanhecer na oração, sem saber como explicar ao esposo amargurado a ausência da filha, que lhe somaria desagrado a mais.

Ela conhecia o entranhado amor paterno pela jovem, amor que, às vezes, a afligia, fazendo-a buscar espaireci- mentos mentais para não mergulhar em suspeições absurdas que a martelavam interiormente. Temia "pecar por pensamento", todavia o desvelo exagerado do marido por Margarida, a forma especial como a tratava, extrapolavam os limites da progenitura pura e simples.

Ao desjejum, antes de ser inquirida para chamar à presença do pai a jovem, sem mais complexidades, abordou a questão com sinceridade.

  • Mateo, na sua ausência esteve aqui — referiu-se em tom natural.
  • E por que não ficou, já que volveu ao lar? — indagou mal humorado.
  • Ora, você sabe como são os jovens — respondeu, justificando o filho. — Têm ânsias de movimentação.
  • Qual o motivo, então da viagem?
  • Trazer um convite do Conde dei Pilar. . .
  • Para quem? Não sabia o sr. conde que eu não me encontrava no Solar?
  • É certo que sim. Todavia, generoso e amável como é, planejou oferecer-lhe uma agradável surpresa, quando retornando da Corte você passasse por Saragoça.
  • Não compreendo... Que surpresa me poderia fazer?
  • Homenageá-lo (disse-o com palavras bem medidas) com a presença da nossa Margarida no seu palácio...
  • Certamente, ela declinou do convite, e você, gentilmente agradeceu, adiando a homenagem, não é mesmo?

Don Fernando rilhou os dentes, enrubescendo pela súbita ira.

Dando à palestra um ar de tranquilidade, a Senhora Dolores respondeu:

  • Pelo contrário. A princípio a solicitação pareceu-me improcedente e neguei-me a concordar, principalmente por causa da sua ausência. No entanto, ante os argumentos aos filhos, seu interesse por surpreenderem o pai, aquiesci sem maior delonga...
  • Pois não tinha o direito de permiti-lo...
  • Como não? A maternidade dá-me a permissão de cuidar da felicidade da prole, e o respeito que tenho devotado ao meu marido, com total acatamento às suas ordens, sem nunca permitir-me ser ouvida, credencia-me a agir com correção e ser considerada nas minhas atitudes sempre ina- tacadas.
  • Não desta vez. Exagerou nos seus cuidados. Margarida não poderia nem deveria sair daqui sem a minha anuência. Ê um atrevimento dele formular tal convite e um descaramento da sua e da parte de Margarida. Não tolero insolência de ninguém, nem mesmo do rei... Isso não ficará assim.
  • Acalme-se, Fernando. Você é um pai, não um dominador. Os filhos não são propriedade nossa. Além disso, Mateo, Amparíto e mais dois servos seguiram com ela, a fim de a atenderem com dignidade e lhe resguardarem a honra.. .
  • Não tente persuadir-me com vãs palavras. Não a perdoarei por tomar atitudes que a mim me competem, nem desculparei Margarida pela imprevidénda... Quanto ao Senhor Conde dei Pilar, teremos uma conversa grave e lhe exigirei um comportamento como desagravo à desonra que lança sobre nossa Casa.
  • É um exagero, Fernando! Você não está em condições emocionais...
  • Não prossiga, não se atreva. O assunto está encerrado. Recolha-se aos seus aposentos até a minha volta, quando decidiremos a respeito do seu comportamento.

A senhora estava lívida. Ele vociferava, em desequilíbrio. Misturava blasfêmias às ameaças, agitando-se, lamentavelmente.

  • Fernando — tentou a esposa trespassada de amargura —, por Deus...
  • Forai Já disse. Para os seus aposentos, imediatamente. Não me force a tomar uma atitude drástica.

Dona Dolores, muito trêmula, afastou-se cambaleante, atordoada.

Aos gritos, ele passou a dar ordens, mandando preparar os animais e dois auxiliares para seguirem a Saragoça, naquele momento.

Meia hora depois partia furibundo a galopar, vencendo as distâncias. A mente em febre projetava-lhe imagens extravagantes e o ódio esfervilhava os nervos, quase produzindo-lhe um estupor.

Don Hidalgo, totalmente esquecido da tragédia que o enlutara, transformou-se em adolescente apaixonado. Não media esforços para agradar a amada. Passeios e recreações pelos arredores, jantares e recepções em casa, ofícios religiosos e presentes eram movimentados para que aqueles se tornassem dias inesquecíveis na memória da bela diva.

Mateo facilmente esqueceu a desgraçada amante, logo substituída por jovens outras licenciosas quão irresponsáveis. Silenciando o drama íntimo, refugiou-se nos licores e vinhos capitosos que o amolentavam, deixando a irmã à própria sorte.

Margarida, a seu turno, sentia-se totalmente dominada pelo anfitrião. Os seus sentimentos estavam dilacerados pelo punhal das ardilosidades do conde. Mimada como nunca e antevendo-se condessa, proprietária de valiosos recursos e bens, estava a ponto de tombar, em definitivo, nas garras do prazer, antes do consórcio matrimonial.

O Bispo de Santamaria extasiava-se ante a jovem e cili- ciava-se longe dela. Um estranho sentimento o dominava. Eram desejo e raiva que se mesclavam, obrigando-o a estar presente no palácio mais amiúde, ao mesmo tempo fazendo-o sofrer por constatar a felicidade do pupilo.

Mistérios da reencarnação! Encontros que fazem reencontrar-se as almas para acertos de dívidas, para realizações enobrecedoras, para treinarem fraternidade legítima. E encontros outros que trazem tristes desencontros com tragédias de permeiol

Aqueles seres volviam ao proscênio terrestre para corrigirem erros e acertarem deveres com vistas ao futuro libertador. Insensatos e orgulhosos, pelo contrário, resvalaram na rampa das quedas graves.

Somente quando o homem compreender a pequenez de ser pensante que é, ante a grandeza e majestade do Ser Criador, tomando-se humilde, logrará ascender, rompendo os grilhões que o retêm na retaguarda das paixões primevas.

À noite, após o jantar opíparo, com o corredor esplen- dente de luzes, Don Fernando chegou à casa, mandando anunciar-se ao Conde dei Pilar.

Quando o mordomo notificou a inesperada presença do tarazonês, um frio percorreu o dono da casa e Margarida. O Bispo Santamaria não pôde esconder um certo prazer, num riso fino, escamecedor.

Don Hidalgo ergueu-se e foi receber o amigo, bem, digamos melhor, o seu devedor.

Abrindo os braços, à porta, exdamou, forçando alegria:

  • Bem-vindo ao lar, meu caro conde! Mas, que surpresa! Por que não despachou um serviçal para avisar-nos?

Sem poder conter a onda de revolta que o molestava, respondeu grave:

  • Venho buscar minha filha. Favor chamá-la e informar que viajaremos imediatamente.
  • Margarida ficará feliz por vê-lo. Entremosl Ainda estamos à ..

Don Hidalgo passou a dar ordens para que os animais fossem recolhidos e os servos atendidos, mandando providenciar aposentos para o hóspede, que o surpreendia.

  • Não se tome trabalhos — falou ríspido, o recém-chegado. — A minha presença será por breve tempo. Chame minha filha!
  • Adentremo-nos até o corredor. Vamos ao lavabo. Repouse, meu amigo. Que se passa? Por que a exasperação?
  • Serei franco e breve.
  • Muito bem.

O anfitrião antegozava os acontecimentos que se desenhavam, embora a aparência funesta de que se revestiam. De repente o ar fez-se pesado.

Na ampla ante-sala atapetada, atulhada de móveis escuros e pesados e iluminada por um candelabro central que descia do teto de carvalho envemizado, o diálogo prosseguiu, num crescendo desconcertante.

  • O meu nobre amigo — falou Don Fernando com a voz pastosa, enrouquecida pela emoção mal contida — não tem o direito de atrair a ingenuidade da minha filha e o meu leviano filho ao seu palácio sem a minha expressa autorização. Punirei a ambos como convém e não posso deixar de reprochar o seu comportamento, que estranho.
  • Meu desejo — retrucou o saragoçano — é o de retribuir as gentilezas de que fui objeto em Borja.
  • Tais gentilezas são devidas a mim, não aos meus filhos, mais ainda arriscando de mácula o nome da nossa família, trazendo uma donzela para um lar onde a sombra da extinta condessa paira, dizendo-a, porém, ausente... É um grande, desnecessário risco para sua honra, que não posso desculpar.
  • O amigo insinua que meu palácio ou a minha pessoa não são dignos de receber uma jovem bela e nobre? Aceito suas palavras como um agravo. Já que o assunto assume graves proporções e num momento não esperado, notifico- -lhe que Margarida, desde o primeiro instante, me inspirou entranhado amor, com ela desejando consorciar-me.
  • Maior razão esta, para merecer-me menos consideração o sr. conde, por expor minha filha aos seus sentimentos sob o seu teto, arriscando-lhe a dignidade, sem ao menos saber se a recíproca afetiva é verdadeira. . .

A altercação atraiu as pessoas que se encontravam no refeitório. O sr. bispo e Margarida adiantaram-se e ouviram as palavras do Conde de Alcalá.

Dominada por estranho sentimento e receando o genitor, também não desejando perder a oportunidade, adiantou, numa atitude irresponsável:

  • São recíprocos, meu pai, os nossos sentimentos... Desejo casar-me com o Conde Don Hidalgo, e aguardáva- mos, apenas, sua presença, a fim de organizarmos o espon- salício.
  • Como se atreve!? — reagiu o pai, espumando de raiva. Desorientado, aplicou-lhe um tapa na face. — Saiamos deste palácio infeliz! Não há porque ficarmos neste antro de vícios...

Segurou pelo braço a filha, que lhe escapou, num gesto brusco.

A cena chocante surpreendeu, pelo inesperado, a todos. O bispo acudiu a jovem, que se adentrou chorando, a correr para a intimidade doméstica.

Alguns criados se apressaram para evitar algum agravamento da situação, porquanto de um salto, Don Hidalgo avançou, dispondo-se a retribuir o golpe.

O visitante tomou da luva empoeirada e aplicou-a na face do outro, dizendo:

  • Escolha as armas e as testemunhas para decidirmos a ominosa questão.
  • Eis aqui minha resposta, covarde — avançou, tres- loucado —, agredindo-o, a bofetões.

Os litigantes perderam o controle e se engalfinharam em luta feroz.

Aos gritos da criadagem os convidados separaram os nobres, que vociferavam, usando baixas expressões vulgares.

Don Fernando, atendido pelos seus serviçais, enfurecido, não sabia como fazer. Explodindo de cólera, ameaçou:

  • Matá-lo-ei e a essa vil megera, nem que seja a última coisa que farei, mesmo que me desgrace, desgraçado que já estou.
  • Será, sim, miserável, a última coisa que fará! — re- darguiu o viúvo. — Levá-lo-ei ao cárcere e depois à loucura ... Verá, canalha e mistificador!

Amparado pelos serviçais, Don Fernando rumou para a casa de Amigos, enquanto se recompunha. O azedume tisnava-lhe o discernimento e o ódio tornava-o inditoso.

Os comensais, que participaram do infeliz acontecimento, deixaram-se agitar pelo exagero dos comentários, hipotecando solidariedade ao anfitrião.

L’un et l’autre[46] eram responsáveis pela desavença per- feitamente evitável. Coléricos e extravagantes, apaixonados e orgulhosos acionavam-se com facilidade pela violência, que neles irrompia vulcânica sob pretexto de somenos importância.

Após acalmar a jovem, que foi acometida por uma crise nervosa, e deixando-a aos cuidados da aflita Amparo, o bispo desceu, asserenou os ânimos dos convidados aos quais mandou servir licor digestivo, conduzindo o pupilo à biblioteca para parlamentar com tranquilidade. Don Hidalgo estava mortalmente pálido e trêmulo.

  • Não será duelando — iniciou o assunto —, a correr desnecessários riscos, que faremos justiça, limpando a honra do ultraje. Testemunharemos a agressão e amanhã despacharemos um correio a Madri, a fim de tomarmos providencias legais junto à

“A calma, na ação bem planejada — acentuou —, é o melhor estratagema para o destorço”.

Alisando a face macilenta e cava, pigarreou, prosseguindo:

  • Primeiro destruí-lo-emos politicamente, já em desgraça como se encontra, o que será muito fácil. Ato contínuo, aniquilá-lo-emos economicamente.. . Nesse ínterim, serão realizadas as bodas com a menina Margarida, o que lhe constituirá bem aplicado corretivo moral, um golpe de mestre no seu orgulho.
  • E quanto à ofensa, ao ultraje? — inquiriu Don Hidalgo deperecido pelo acesso da cólera. — Nunca fui desrespeitado, menos agredido, em minha própria casa.
  • Tenhamos serenidade — justapôs arguto.

A vida é um patrimônio valioso demais para ser desperdiçado, num tentame indigno. Duelará, sim, com as nossas armas: as da leil Obrigá-lo-emos a saldar o débito e como não pode fazê-lo...

  • Que dirão os que participaram desta cena?
  • Induzi-los-emos a concordarem conosco... Mais do que isso: faremos que a filha o odeie, técnica que a impedirá de escapar-nos.
  • Realmente é um excelente plano — aquiesceu o viúvo.
  • Voltemos à sala e demos curso à nossa estratégia.

Conforme programado, Don Santamaria exculpou o Conde dei Pilar, colhido pela cena, não pelo inesperado, isto porque, acentuou, o Sr. de Borja é um viciado nos jogos, inescrupuloso, que depende da alta dívida com o proprietário do palácio. Sabendo do amor que une o viúvo à sua filha, num plano de nobreza, a caminho de um consórcio feliz, porque recentemente caído em desgraça política, tentou uma chantage com o futuro genro, que a rechaçara, honrado...

A cavilosa colocação dos fatos atendia agradavelmente à sua urdidura para a etapa final.

  • Recusado pela altivez de Don Hidalgo — explicou com hábil acento de voz — passou à agressão, num gesto tresloucado, arriscando perder a vida, que já nada vale, porque sem honra; ou liberar-se do credor, reter a filha, não pagar a dívida... Um cuidadoso ardil de sua parte.
  • O duelo — concluiu ante a anuência dos parasitas que, palradores, se encarregariam de levar o infame escamo- teamente da verdade às demais pessoas —, nas bases do desespero, somente lhe trará vantagens. Na condição de padrinho, já nomeado por Don Hidalgo, mandarei devolver-lhe a luva imunda, acompanhada da carta de cobrança da dívida com o apoio da justiça. Duelaremos com a arma de nossa escolha, segundo seu desejo, e esta é a Lei.

— Bravos! — aplaudiram, risonhos, os frívolos dependentes da abastança alheia.

A reunião se encerrou sem maiores acontecimentos.

Quando Mateo se inteirou do fato, rebelou-se contra o pai, correndo a apoiar o futuro cunhado, por ser-lhe também um devedor já inveterado e sem compostura.

A moça adormeceu depois de uma dose de calmante que a serva lhe ministrara.

Os Montoyas, amigos de Don Fernando, receberam o conde surpresos e ato contínuo, angustiados, ante a narração breve do acontecimento, feita pelo amigo.

Eram uma família da alta burguesia, abastados, de tradição, que se instalaram na cidade há três ou mais gerações. Os seus ancentrais procediam da Província de Navarra, e quando ali chegaram, certamente não foram bem aceitos pela comunidade que sustentava a vaidade de haver sido a capital do país, perdida para Madri...

As altas doações para a Igreja, os benefícios prestados à comunidade deram-lhes cidadania honorária, ratificada pelos descendentes que ali nasceram e construíram famuia.

Don José Montoya — Pepe, na intimidade — era homem probo, de costumes austeros e profundamente religioso, muito vinculado a la Virgen dei Puar, consequentemente ao seu santuário, do qual se fizera espontâneo benfeitor.

Portador de gosto artístico, cultivava, na sua propriedade, a popular Jota[47], as elegantes Zarzuelas e a Tonadilla[48] então adotadas na Província, simultaneamente com o melodrama e a música de cravo de Soler y Ramos. Digamos que Don Pepe era um protetor da música e do teatro, de que se fazia um grande aficionado.

Fora ele quem firmara o documento do empréstimo para o amigo, sem exigir conhecer-lhe o conteúdo.

Tomadas as providências para alojar o amigo e os seus áulicos, após a higiene e acalmada a ira, inteirou-se, porme- norizadamente, do desagradável incidente, não sopitando preocupações.

Ele conhecia o caráter do Bispo Santamaria par-oui- -dire[49], e por informações seguras sabia-o um homem temível.

Prontificou-se a apresentar desculpas, em nome do amigo, restabelecendo as relações com que se poderiam evitar maiores danos, no que, o conde, em absoluto, não concordou.

— lrei até as últimas instâncias — afirmou o tarazonês com o rictus de vingança.

Ele tentou dissuadi-lo, inutilmente. Apesar disso, prontificou-se a auxiliá-lo, a atendê-lo em todas as necessidades, rogando-lhe repouso, e que aguardasse, agora, em calma, o suceder dos acontecimentos.

No dia imediato, um portador de confiança do bispo seguiu a Madri conduzindo uma carta minuciosa ao primeiro-ministro e documentos outros. O prelado rogava que o conde fosse destituido da função de confiança que ocupava em Borja, no seu lugar nomeado Don Hidalgo e seus bens confiscados, pela impossibilidade de resgatar a dívida, passando-os, após o pagamento dos impostos à Coroa, para o seu legítimo proprietário, que era o credor confiante.

Muito habilmente rogava ao rei, em face das circunstâncias, autorização para o consórcio da jovem Margarida com o seu pupilo, desde que o genitor, revoltado com as mudanças, em Madri, tombara em crise de loucura, produzindo escândalo e desacato a quem tanto devia, impondo um duelo absurdo..

Referendava os fatos com testemunhas, claro que venais, no entanto de valor, em circunstâncias que tais, apresentando gratidões e recomendando-se ao próprio rei, à Infanta de Parma e a S. Exa. o sr. primeiro-ministro.

Dialogando com Don Pepe, no outro dia, Don Fernando embora não arrependido do gesto e disposto a levar adiante a disputa, reconhecia não dispor de recursos para arrancar I filha do palácio, já que a mesma, acompanhada pelo irmão, ali estava espontaneamente, a convite do conde, com a aquiescência da genitora que permitira a viagem.

— Ah! se fora há poucos dias atraz, quando ministro o Conde de Aranda! — lamentou-se, realmente infeliz. — Iria ali, agora, e a arrancaria a força, com auxílio das autoridades locais. Nestas circunstâncias...

Em Borja, a Condessa Dolores, amargava as expectativas tristes entre orações à Virgen dei Carmen, de sua devoção, e presságios atemorizantes.

A violência desencadeada, numa reação indomada, seguia o curso da desesperação.

 

                   DIAS DE TRAGÉDIA E DE DOR

A sucessão dos acontecimentos infaustosos se não encontra a resistência pacífica de um caráter equilibrado, prossegue com força indômita, acarretando, a cada passo, maior soma de desconfortos, de desaires. A própria ação mental sobre os insucessos do cotidiano, responde pela pa- ralização ou multiplicação dos mesmos, considerando-se que a onda gerada pela cólera destroi sutis centros da resistência emocional, desarticulando o mapeamento das atividades psíquicas.

Outrossim, a projeção da ideia otimista, tranquilizadora, funciona como carga positiva, que aumenta as potencialidades da casa mental, resultando em harmonia e ajustamento. Por outro lado, mediante um processo natural de sintonia psíquica, as vibrações resultantes da desordem emocional da ira, da revolta, das paixões inferiores atrai e sincroniza com radiações semelhantes que propiciam novos desastres e desacertos, num repetir exaurinte até a consunção do seu agente.

A recíproca é igualmente verdadeira, quando a ação procede das faixas nobres do pensamento atuando nos campos de forças da vida, espalhados por todo o Universo,

afinal, matrizes energéticas da vida mesma no seu efeito organizada.

Os dissabores, perfeitamente contornáveis e de somenos importância que chegavam ao Conde de Alcalá y Concep- ción como à sua família, encontrando uma resistência negativa desencadearam contínuos e renovados infortúnios em face da constituição espiritual e moral deficiente dos seus envolvidos.

Quando o homem se resolver por modificar o curso do destino, há que se apoiar nos valores espirituais, gerando, pela ação do bem e da paz, os fatores propiciatórios à felicidade.

Não era tal o comportamento do homem caprichoso, temperamental como se exteriozava Don Fernando.

Déspota e dissipador, a sua era a única válida verdade. Anestesiado pelo orgulho descabido quão injustificado, viciara-se em ser temido, com o que se supunha obedecido, so- breestimando-se e derrapando nas alucinações da prepotência, cujo efeito ora experimentava.

No mundo sempre há pessoas mais e menos fortes, melhor e pior dotadas do que nós próprios.

O indivíduo significa a soma das suas aquisições e deficiências, no que resultam a especificidade e a originalidade de cada um. Nunca dois iguais. Os que sabem sacar dos seus valores positivos os recursos para uma proveitosa aplicação, crescem e se realizam no concerto da comunidade onde se encontram localizados, postos para evoluir. Pelo contrário, aqueles que estimulam as expressões perniciosas da personalidade consomem-se nas chamas da imprevidência que articulam.

Don Pepe e Senhora Esperanza, face à boa formação religiosa e ao apurado senso de equilíbrio, tentaram acalmar o amigo, estimulando-o a aguardar um pouco de tempo, antes que precipitar a eclosão de novos desatinos. A muito custo o amigo logrou acompanhá-lo a Borja, onde lhe cumpria aguardar o desenrolar dos fatos.

Ofereceu-se, mais de uma vez, a interceder junto a Don Hidalgo por uma reconciliação, mediante a justa alegação dos distúrbios e surpresas advindas, em Madri, conduzindo a posteriori Margarida e Mateo de volta ao lar e deixando que seguissem o seu curso normal os dias porvindouros.

Impedido de fazê-lo, pelo conde, este asseverou não mais confiar na integridade física nem moral da filha, assumindo odiosa atitude contra o filho, que considerava grave e miseravelmente envolvido na trama perturbadora, no que, aliás, tinha razão.

Aquiesceu retomar ao Solar, aceitando a companhia sensata do companheiro com a alma despedaçada pelos petardos do ódio, do despeito, da necessidade de uma vindita não conseguida.

Menos de três dias de desgostos e apreensões e a Condessa de Concepción se convertera em um frangalho humano.

Desde a precipitada viagem do esposo violento caíra fulminada pela dor e justos receios, em cama, negando-se alimentação, embora a fé que a sustentava e o carinho das abnegadas serviçais que a amavam.

A pobre Carmencita, deslocada das fustigantes realidades que se faziam tormentas, no lar, de certo modo experimentava a densa psicosfera ambiente, mergulhando num mutismo e ensimesmamento não habituais. A princípio todos supuseram que estranhava a ausência da irmã, o que de fato sucedera nos últimos dias, acrescidos então, dos augúrios funestos que pairavam sobre o lar.

O conde não quis visitar a esposa, negando-se a um diálogo, apesar do estado de saúde, périclitante, em que a mesma se apresentava.


Não podia suportar a ideia de justificá-la, ferido na vaidade absurda de que ela tomara decisões sem sua anuência, o que lhe causava tantos infortúnios.

Na manhã seguinte, carinhosamente assistida pelas servas e o hóspede que muito a respeitava, a nobre senhora solicitou o confessor, asseverando que não suportaria os golpes que a dilaceravam.

  • A Virgen dei Carmen — explicou com debilidade na voz — apareceu-me, em sonho, não me reprochando o comportamento. . . Afirmou-me que minhas dores, no mundo, seriam breves, e que me . .

Depois de uma pausa, prosseguiu:

  • Receio pela vida do meu esposo, pelo seu equilíbrio mental. Em consequência, por Carmencita, que agora estará mais desamparada do que nunca. .. Fernando sempre desejou arrojá-la numa Casa Pia com o que jamais concordei... Creio que, agora, a pobrezinha não encontrando apoio nem amor, necessitará de piedade, de caridade. . .

A respiração fazia-se débil. O sacerdote fora chamado.

  • Amigo — falou com esforço a enferma, sem diagnóstico —, depois que eu me for, diga a Fernando que eu o amei até o momento final e prosseguirei amando-o.. j que eu perdoo aos meus filhos, sempre amados. . .

Não terminara de falar e asserenou-se, estranhamente. Uma parada cardíaca e tudo estava consumado.

O sacerdote, ao chegar, nada mais pôde fazer, senão orar o “Ofício de Nossa Senhora”, acompanhado pelos ser- viçais que acorreram comovidos e as carpideiras que se entregaram às tradicionais lamentações . ..

O orgulho nefasto do esposo mais o congestionou, numa revolta cruel, na qual se reclusava, participando, a distância, das exéquias da silenciosa e devotada companheira que acabava de sucumbir, esmagada pelo caráter impulsivo e impiedoso do marido.

Logo pôde, expressou recomendações de que nenhuma notícia fosse encarninhada aos filhos, em Saragoça, impondo rijo luto no Solar.

Uma semana de desconcerto e toda uma vida em desarticulação.

Em Saragoça chegaram os documentos de Madri, autorizando ao Conde dei Pilar cobrar as dívidas e, em caso de não pagas, confiscar os bens que lhe serviam de garantia.

Um mensageiro real seguiu a Borja para anunciar ao Conde de Concepción a sua destituição do cargo oficial que exercia na Região e, como ato contínuo, sua substituição pelo agora adversário insaciável.

Margarida só a pouco e pouco tomou conhecimento, pelo amado, do que ocorria, naturalmente não se inteirando da realidade total.

Concordou em marcar bodas, quando o bispo lhe apresentou uma aquiescência real e, por ele orientada, programou o matrimônio para daí a três semanas.

Tomado oficial o noivado, foram despachados informantes e convites, nos dias posteriores, para o que prometia ser um dos mais comentados acontecimentos da sociedade local.

Mateo desbordava-se em excessos, irrefreável. As qualidades negativas de que era portador, estimuladas pela pusilanimidade geral, davam-se campo, degradando-o a olhos vistos.

O bispo não o perdia de vistas. Informava-se dos seus desmandos, acompanhava-o à distância.

Don Fernando somou às ulcerações morais que sofria, em reclusão no lar, a humilhante demissão do cargo oficial que, de alguma forma, esperava, sem perceber que esta fora precipitada a expensas dos inimigos saragoçanos.

Mergulhou em silêncio cruel e deixou-se consumir pelo ódio, jurando, prometendo íntima vingança.

Quando, porém, poucos dias depois foi notificado a pagar a dívida ao Conde dei Pilar, sob pena de confisco dos bens e cientificado do próximo consórcio deste com Margarida, sentiu-se fulminado nas últimas forças, sendo tragado pelo descontrole mental em que mergulhou de um salto, desequilibrado que vivia no mundo íntimo aturdido, numa vivência neurótica, desarticuladora da personalidade a longo prazo..

Inteirados da desdita do adversário recente, os amigos de Saragoça concordaram que a noiva deveria ignorar os funestos sucessos, de modo a não ser adiada a boda.

No dia aprazado, conquanto magoada pela ausência dos pais — mandara uma longa missiva à mãe e um pedido de perdão ao pai, em cujo momento insistia para que viessem honrá-la com a presença, carta essa que jamais chegou ao destino —, estava concretizando o sonho de felicidade que anelara por toda a vida.

Por imposição do cunhado, Mateo foi convidado a manter-se sóbrio, para que nada tisnasse a risonha vitória dos nubentes.

Conquanto os cuidados para manter a noiva ignorando as desditas que desabaram sobre sua família e continuavam a pesar, em prenuncio de mais acerbas dores, a tagarelice, na cidade, comentava as atitudes do noivo, que culminaram no falecimento de Dona Dolores, na perda dos bens e conse- quente loucura de Don Fernando. . .

Na Catedral de La Seo, enquanto o bispo oficiava o matrimônio, amigos de Mateo punham-no ao corrente do que havia acontecido em Borja.

O mancebo dissipador por pouco não enlouqueceu ali mesmo. Desejou gritar, interromper a cerimônia, porém ficou vencido pelo estupor da surpresa, da dor, da consciência responsável, que o inculpava de conivente e co-gera- dor do infortúnio dos seus pais.,.

Abandonou a Igreja e demandou o palácio, embriagando-se, solução absurda para aquele momento grave da sua existência.

Altas horas da noite, em total desequilíbrio, no quarto a que fora recolhido pelos criados, recebeu a visita do cunhado e do bispo, em cujo momento, descontrolado, tentou agredir Don Hidalgo, descarregando as informações que recolhera, entre blasfêmias e ameaças que não se consumariam . . .

Uma troca de olhar entre os dois nobres e o destino do jovem irresponsável estava selado...

  • É uma ameaça! — afirmou Don Hidalgo.
  • Que deverá ser silenciada... — concluiu o infeliz sacerdote.

A exaustão, logo após, venceu o jovem borracho, que tombou amolentado pelo sono.

Quando o silêncio desceu sobre o palácio do Conde dei Pilar, dois estranhos encapuçados — os mesmos que atacaram Felipa —, saíram carregando Mateo estremunhado e o atiraram da ponte, nas águas tranquilas do Ebro. Após o baque, ouviram-se alguns gritos pedindo socorro logo afogados pelas águas, um pouco mais de ruído e o silêncio total depois.

Encontrado o cadáver, no dia seguinte, foi aceita a versão que veiculou pela cidade, de que o excesso dos vinhos ingeridos fizera-o cair da ponte. Houve mesmo quem o “visse caminhando cambaleante ’, naquela direção, a horas silenciosas e ermas da noite...

Margarida estava, no seu vestido de noiva, deslumbraiv te. Usava o traje com que se casara a velha Condessa dei Pilar, pouco mais de quarenta anos antes. Bordado a pérolas, o véu, em estilo de mantilha aragonesa destacava-lhe o rosto de madonna e a auréola dos cabelos cacheados.

O noivo, em veludo e seda, negro e branca, com a camisa em renda fina e as insígnias da nobreza, não cabia em si de felicidade.

A Igreja regorgitava com o melhor de Saragoça e dos arredores. A Infanta e o primeiro-ministro mandaram representação e presentes valiosos.

O coro, entoando músicas religiosas, e a nave da Catedral decorada caprichosamente com o imenso tapete escarlate desde a escadaria da porta até ao altar, eram a moldura do poder terreno para uma glória trabalhada na traição, na mentira, no ódio, na ignóbil maldade dos espíritos malsi- nados.

O banquete e a festa que se alongariam até quase ao amanhecer, os fogos de artifício que celebravam o evento, provocando comentários e elogios dos convidados, não foram suficientes, no entanto, para servir de razão à felicidade que se pretendia usufruir.

Quando o noivo estreitava a amada, na alcova alcati- fada e bela, Mateo estava sendo carregado para ser arrojado às águas silenciosas do romântico Ebro.

Não raro, a felicidade, na Terra, tem um sabor agradável com travo de forte amargor.

Aquele momento, acalentado por ambos cônjuges, ocultava a tragédia bem urdida lado a lado entre os sorrisos.

A taça do capitoso vinho do prazer que sorviam, não diferia da que fora erguida minutos antes, no conciliábulo criminoso com os sequazes da ação ignóbil consumada.

A ilusão de felicidade da jovem começaria a cobrir-se com as sombras ominosas do sofrimento, em prenúncios de futuras desditas, quando, após o desjejum, Don Manuel de Santamaria, simulando um pesar que não experimentava, informou-a do desenlace do irmão, cujo corpo fora conduzido à Catedral para as exéquias fúnebres...

Acolhida pelo esposo carinhoso, que a confortava, ouviu o prelado com falsa piedade explicar a ocorrência.

  • O excesso de alegria — elucidou quase convicto — motivou-lhe a perda da vida. Além de comemorar em palácio o evento feliz do matrimônio, saiu a expandir o júbilo, sucedendo que, conforme uma testemunha não identificada, subiu à mureta e tombou, desequilibrado, no rio, nada podendo ser feito para salvar-lhe a vida àquela hora da noite- -madrugada.

Margarida, tomada pela dor e surpresa, prorrompeu em pranto copioso, exclamando:

  • Este é um sinal de futuras desgraças... Uma tragédia de tal monta, na noite da minha felicidade, é prenuncio de divino castigo...
  • Não blasfeme, minha filha! — interrompeu-a o sacerdote. — Em nome de Deus, a Igreja abençoou sua aliança.. . A invigilância e os excessos a que o jovem se vinha entregando, como não ignoramos, foram os responsáveis únicos pelo acontecimento lutuoso.

“Já tomamos as providências, e o sepultamento será simples, após a celebração da Missa de corpo presente e da absolvição dos seus pecados..

Acalmada pelo conde. Margarida deixou-se abater fundamente.

A ausência dos pais lhe prognosticara infelicidades, todavia conseguira superar tal expectativa.

Lamentava a perda do irmão, enquanto Amparito, não obstante comovida, reafirmava o acidente, do qual Mateo seria o único responsável, em considerando o estado de excessiva embriagues em que se encontrava, conforme fora relatado pelos serviçais do palácio.

Ao cair da tarde, enlutada sob pesados crepes, a nova Condessa dei Pilar saía da Catedral de La Seo, onde se con- sorciara no dia anterior, acompanhando o cadáver do irmão assassinado por ordens do cunhado e por inspiração do religioso que traía a fé que fingia esposar, a caminho do se- pultamento.

Em vinte e quatro horas apenas, o díptico do matrimônio e da morte. Em um dia, muitos futuros dias de sombras que se delineavam ameaçadores para os participantes e promotores do próprio destino.

 

                     CREPÚSCULO DE LOUCURA E DE SANGUE

Don José e senhora Esperanza de Montoya não participaram das bodas do Conde dei Pilar, todavia estiveram presentes ao funeral de Mateo, visivelmente abatidos. Conquanto não se aproximassem dos nubentes para parabenizá-los, igualmente não se acercaram para apresentar pêsames pelo passamento do mancebo leviano. Mantiveram-se distantes, cabisbaixos, o que não passou despercebido da moça nem do seu nobre consorte...

Margarida deu-se conta da ausência deles, na véspera, e ficou intrigada...

O suceder dos dias, a embriaguès dos sentidos, as novidades e regalos de que fora objeto, as homenagens enganosas diminuíram na jovem senhora o drama aa perda, da desventura que tivera lugar em Borja.

Apesar de ser assunto notório nas rodas sociais e comentários da cidade, o suceder de misérias provocadas por Don Hidalgo, ninguém se atrevia informar à equivocada condessa os infortúnios que lavravam no seu antigo lar.

Don Pepe, tomando conhecimento do desalinho mental em que caíra irremissivelmente o Conde de Concepción,viajou a Borja, constatando, in loco, o alheamento, a sotur- nidade em que, hebetado, se encontrava o amigo, antes detentor de tantos recursos e da relevante posição agora desaparecidos...

O confisco dos bens seguia o trâmite normal. Ninguém se atreveu a expulsar o conde, a filha enferma, nem seus servos, do imenso e elegante Solar.

Concluído o processo legal o Conde del Pilar deveria tomar posse da rica herdade como efeito natural que anu­laria a imensa dívida.

Defrontou-se com o problema de como informar à es­posa. Resolveu conversar com o mentor religioso.

Numa larga jornada a pé, como era habitual entre os dois compares dos crimes, no lugar aonde fora atirado Mateo à morte, sob o intenso véu prateado do luar concertaram ser o tempo hábil de concluir os programas em andamento, inclusive apresentando à moça conveniente versão dos fatos, antes que ela viesse a conhecer a verdade prejudicial.

Sugiro que Margarida viaje a Borja — propôs o pre­lado, enfático.

“Antes da viagem, informá-la-emos de que a genitorá faleceu repentinamente e só então, neste momento, tomamosj conhecimento do fato desagradável. A sua morte teria mo­tivo nas atitudes da Coroa, o que, também, conduziría o genitor ao desequilíbrio... Por impositivo, ainda, de determinação real, adveio o confisco dos bens que independeu da sua vontade, justificando, é claro, que você planejara um adiamento, não permitido pela justiça...

“Ao fazê-lo — aduziu, maliciosamente —; teve em mente resguardar os direitos dela, antes que o patrimônio voltasse à Coroa... Quem poderá dar uma explicação mais convin­cente desde que se ignoram nossas providências junto ao rei?.


  • O meu benfeitor quase me convence do acerto das suas palavras — assentiu Don Hidalgo com um toque de jovialidade irreverente.
  • De fatol.. . Ainda mais considerando-se que os mortos não falam. Desequilibrado, se Don Fernando resistir ao internamento, no Manicômio, ali não sobreviverá por muito tempo...
  • Pediría ao meu pai espiritual — acentuou o conde com astúcia — providências para a irmã enferma da minha esposa, de quem já lhe falei noutra oportunidade.
  • Não haverá dificuldade para tanto — assentiu o bispo, em cujos olhos brilhavam a cobiça e a auto-satisfação dos planos que se coroavam de êxito.

Entreteceram, naquela noite, outros comentários, selando compromissos nefastos e recordando os programas consumados, que haviam sido trabalhados nas ocasiões passadas.

Eram duas estranhas sombras na claridade da noite enluarada, como tecelões desditosos dos destinos humanos, que tivessem o poder de conduzir ao seu talante impunemente aquelas vidas...

Don Hidalgo propôs ao amigo que o acompanhasse a Borja, a fim de não somente estarem juntos, como também de dar, com a sua presença, o apoio e a honorabilidade necessários às transações culminadas com o selo real, vindo de Madri.

Mesmo sabendo que o Conde de Concepción, ora vencido, não era pessoa querida no burgo, pela sua altivez e prosápia, Don Hidalgo não ignorava que, naquela conjuntura, sofrendo tantos infortúnios, contava com a piedade do povo, consequentemente sendo a sua uma posição equívoca, desagradável, de abutre sobre a presa em desorganização celular.

Acertados os pormenores, os amigos despediram-se afe tuosamente, satisfeitos pelos planos exitosos que haviam desenvolvido.


Chegando ao lar, como a esposa estivessè desperta, as sistida por Amparito, que lhe cantava uma dolente canção, assinalada pela magia de sua doce e clara voz, o esposo pediu vinho ao criado particular e deleitou-se um pouco com o concerto improvisado.

Havia algo de estranho e pacificador no ar, produzido pelo canto. Por um momento ele se tornou uma criatura normal.

Porque soubesse dos vínculos entre a senhora e a serva, serva que muito os auxiliara nos antigos encontros fortuitos, no repuxo do solar de Borja, preferiu ali mesmo dar ciência à esposa, conforme já conhecemos, do combinado com Don Santamaria, em tomo dos seus pais e da necessidade de irem-se até lá, a fim de assistirem ao genitor e à irmã, ambos em processo de desequilíbrio pungente.

Margarida ficou mortalmente pálida ao escutar o esposo, desmaiando, em seguida. Amava os pais, a seu modo amava-os muito. Ambicionava o poder, a glória, nunca, porém, a preço tão alto de dor e angústia.

Despertada sob a ação de aromas e fricções aplicados pela serva devotada, caiu em desespero compreensível, chegando a afirmar-se responsável por tais transtornos danosos, no que, digamos francamente, estava com a razão.

Ante a possibilidade de retomar ao lar paterno, pediu à auxiliar que arrumasse apenas o indispensável para a viagem, no dia imediato, deixando-se vencer pelo desalento, em doloroso cismar...

O esposo sabia por experiência pessoal que a solidão em momentos desses é o melhor recurso para a aquisição da paz. Deixou-a aos cuidados da ama e foi repousar noutro aposento, de certo modo tranquilo pelo curso dos acontecimentos.

Pela manhã, em carruagem com o brasão eclesiástico, Don Manuel se apresentou em palácio e a comitiva rumou a Borja.


O Conde e a Condessa dei Pilar, tendo ao lado Amparo, seguiram numa lustrosa carruagem, enquanto o bispo e um capelão noutra, apoiados por seis soldados» formando um elegante e vistoso cortejo.

A viagem foi feita com todas recordações vivas em Margarida, que por ali passara menos de três meses antes, embriagada de esperanças e sonhando ambições, que se tornaram realidade, sem dúvida. O retomo, agora, no entanto, era bem diverso. Apesar do luxo e da posição de que desfrutava, experimentava dores dantes não sofridas e inusitado receio suspeitoso, que teimava por aninhar-se na sua mente, no seu coração.

Vez que outra chorava, consolada pela solicitude do esposo, certamente devotado.

Don Hidalgo era homem de múltiplas personalidades; afirmemos: um psicopata! Mudava de uma para outra postura, assumindo personalidades às quais aava vida com muita naturalidade, sem esforço ou constrangimento, quase crendo, ele mesmo, nos ardis e atitudes que assumia.

Um gentleman, sem dúvida, naquele momento, todavia um frio e calculista bandido, que se homiziava nas cavilosi- dades do seu mentor espiritual, que era perfeito êmulo de Torquemada[50], aliás, seu modelo.

Embora o aparato da viagem, a chegada a Borja se fez discretamente.

Antes, foram despachados servidores, a fim de informarem ao mordomo e criados do Solar, quanto à chegada da condessa e do novo proprietário das terras, como do insigne prelado que se deveria hospedar na Casa Paroquial, a fim de se evitarem suspeitas desnecessárias.

Don Fernando, quase imobilizado, vivia numa ala do andar térreo da esplêndida mansão, dedicadamente atendido, não obstante se houvesse transformado numa sombra macilenta e descuidada, antípoda do homem soberbo que havia sido,..

O retorno da jovem senhora ao lar foi comovedor.

  • Se a senhora condessa aqui estivesse — falou, em lágrimas, o mordomo, beijando-lhe a destra — a venerada senhora sua mãe não teria morrido e o seu pai...

Não pode continuar, embargado pelo volume das emoções duramente represadas.

  • Deus me perdoe, dedicado Federico — respondeu Margarida, muito trêmula —, a minha leviandade! Não tenha Ele em conta o que jamais desejei. . .

A jovem Margarida mal podia falar, no choque das emoções experimentadas.

As servas e auxiliares outros vieram saudá-la, sem dissimularem receios e a dor, apesar da ausência de qualquer ressentimento.

  • Onde está o meu anjo Carmencita? — inquiriu, interessada, tentando furtar-se ao desespero que ia em crescendo.
  • A menina — esclareceu o mordomo — deperece de saudades e dores silenciosas, certamente mais de saudades.
  • Leve-me até ela.
  • Por aqui, senhora.

As sedas chiantes e pesadas se agitavam sob o movimento da dama, que se apoiava ao braço do velho mordomo que a vira nascer, naquele vetusto Solar dos seus antepassados. Venceu o pátio interno pela varanda assinalada de recordações e parou à porta de carvalho velho envernizada. O coração estava opresso.

Uma débil voz trauteava uma canção antiga lá dentro.

A enferma, alheada no seu mundo de poucas claridades, não se deu conta à entrada da irmã querida.

  • Carmencita — falou Margarida com expressivo acento de ternura. — Vim buscá-la para brincarmos juntas outra vez.

A enferma se voltou, surpresa, correndo a abraçar a irmã, qual animal ferido que estertorasse no aconchego do seu protetor.

  • Não se desespere mais! — infundiu-lhe confiança a companheira de folguedos. — Tudo já passou. Estamos juntas outras vez.

Carmencita possuía dois olhos negros profundos, adornados por cílios longos que os emolduravam com estranha beleza. Pairava no rosto uma vivacidade infantil e quem a não conhecesse, dificilmente nela identificaria uma epiléptica com expressivo retardamento mental.

  • . . mãe ... morreu! ... — tentou a jovencita expressar a soledade.
  • Eu sei, querida. Também eu estou destroçada pelas saudades.

Abraçadas, choravam sob emoções diferentes, ante os acúleos do mesmo profundo amor.

Àquele instante, evanescente e amparada pelo seu Anjo Guardião, a velha condessa, em espírito, apoiava as filhas, também tocada pelo pranto, ao mesmo tempo orando, como a defendê-las de novas, contínuas dores.

A desolação era geral. Apesar de se encontrarem em ordem os móveis, os arranjos e o asseio do Solar, a ausência de vida dinâmica era palpável.

O silêncio se fazia interrompido pelas palavras, em baixa voz, das necessidades e quefazeres como pelo canto das aves, no bosque próximo, em derredor da herdade.

Anteriormente convocado a prestação de contas, o ve. lho escrevente, que se encarregava dos valores do Conde de Concepción, como dos impostos recolhidos e dos soidos dos empregados, o senhor Avelino, não dissimulando o desagra­do, esclareceu os métodos de recolhimento dos valores, apre­sentou escrituras e recibos, todos documentos que lhe pare­ceram necessários e, abrindo o cofre, entregou ao cobiçoso os poucos dinheiros e moedas ali depositados.

Concluída a tarefa, alegou o cansaço da idade e, rogan­do escusas, pediu demissão do cargo, para funda surpresa do conde.

— Servi a esta Casa — disse, a desculpar-se — por quase quarenta anos. Mesmo quando não concordava com alguma atitude ou decisão do Sr. Conde Don Fernando, expunha-lhe com lealdade o meu ponto de vista, que sempre foi ouvido com respeito, embora nem sempre acolhido. Como servidor segui-lhe à risca todas as diretrizes com fidelidade.

O senhor poderá continuar na sua função — afirmou Don Hidalgo —, porquanto ninguém melhor credenciado ja- ra este mister digno, igualmente, da minha irrestrita con­fiança. ..

  • Agradeço, sensibilizado, ao nobre fidalgo del Pilar — interrompeu-o, Avelino, pausadamente.
  • A idade é um empeço, em face do cansaço e dos achaques decorrentes dos anos vividos, das lutas e dissabores pessoais. Acrescentando a isso os dolorosos transes que ocorreram neste Solar, não me sinto em condições de prosseguir...

Logo após a pausa, que se fez espontânea, adiu:

  • Prestarei serviços e assistência até que o meu subs­tituto se inteire do que deve fazer e como proceder após o que, com a aquiescência de sua excelência me afastarei, transferindo-me para um pequeno trato de terra, nos arre­dores da cidade.

Havia uma nobreza no servidor a que Don Hidalgo não estava acostumado. Habituara-se a comprar serviços, subornar fidelidade, submeter amigos... A grandeza e o estofo moral dos simples e retos nunca lhe despertaram tanta consideração quanto naquele momento.

Tinha, ou acreditava tê-los, servidores fieis, amigos devotados, todavia, sob o alto preço da corrupção, do caráter venal comprado... Ocorre que os seus eram serviços da ilicitude e da avareza que se locupletam no permutar das torpezas de que se constituem.

Agradecendo-lhe a hombridade, ofereceu-lhe algumas moedas de ouro, como retribuição aos seus serviços, que Avelino declinou de receber, explicando estar muito bem remunerado, especialmente pelo prazer de desincumbir-se totalmente da confiança de que sempre foi objeto pelo amo, infelizmente enfermo.

Don Hidalgo, noutra circunstância, se encolerizaria, em face da recusa.

Quando se está acostumado a manipular o caráter alheio, o homem não se conforma em enfrentar os que se não dobram a cerviz, submissos aos valores sem valor das quinquilharias sonantes.

A compostura do funcionário inspirou-lhe respeito e ele agradeceu com palavras amigas a cooperação que o mesmo se prontificava oferecer.

A tarde era uma fímbria de ouro no poente com re- vérberos preciosos nas nuvens passantes.

Tudo convidava à paz, à reflexão. O novo proprietário das terras borjanas sentia-se ufano.

Dando o braço ao bispo que se acabara de refrescar, dirigiu-se, num impulso incoercível, à dependência em que se encontrava Don Fernando recluso.

Margarida acalmara a irmã e, à força da mesma desconhecida impulsão, com os olhos vermelhos pelo pranto, seguida por Federico, dirigiu-se no rumo do aposento confortável em que a devoção do servo alojara o nobre. Ainda pôde ver o esposo e o sacerdote atravessarem a aduana da porta, adentrando-se no amplo recinto iluminado pelo entardecer.

Aproximava-se de peito opresso. Tudo, porém, foi tão rápido, um relâmpago entre sombras densas, que se precipitou sem forças, acionada pelo mecanismo nervoso, e deparando uma cena superior à sua capacidade de resistência, desmaiou.

Subitamente desperto do alheamento, Don Fernando reconheceu os seus sicários. Como na primeira crise, ele deu um vigoroso grito, em que o pavor e o ódio se misturavam, avançando tresloucado, olhar fuzilante, contra os invasores do seu lar.

Agarrou com mãos férreas, que a fúria fortalecia, o responsável pelas suas desditas, vociferando:

— Mato-te, miserável ladrão!

Atracando-se ao conde, que não esperava a agressão, estava por trucidá-lo, tomado gigante na loucura que o vencia.

O bispo tentou socorrer o amigo, sendo literalmente atirado ao solo, enquanto Federico segurava o enfermo e o afastava com palavras e atitudes enérgicas.

Margarida estava paralisada, encostada ao portal.

A gritaria atraiu os empregados que estacaram à porta, ante a cena bestial, horrenda.

Livre da constrição das mãos que o estrangulavam, o Conde dei Pilar, tossindo e congestionado, sacou de pequeno punhal que trazia sob a véstia de veludo e, também alucinado, golpeou o adversário repetidas vezes, antes de ser detido tardiamente pelos que o seguraram.

Margarida caiu fulminada pela dor.

Don Fernando tombou das mãos de Federico sujas de sangue, e o bispo, colhido pela inesperada e covarde reação do pupilo, vendo que o nobre morria começou a arengar um arremedo de oração entre as blasfêmias e desesperos que tomaram corpo no Solar.

Retirado a força do recinto, o Conde dei Pilar justificava-se:

  • Todos viram, o maldito ia matar-me...
  • Todavia — afirmou alguém —, ele já havia deixado Sua Excelência e não era necessário aquilo...
  • Faria outra vez, mil vezes, já que não tenho responsabilidade nas desgraças que o vitimaram, antes, pelo contrário... Vim aqui ajudá-lo. Salvei-o da desonra do jogo e do vício, emprestando-lhe uma alta soma, que o ingrato não me pôde pagar. Miserável!

O pânico foi imediato. A jovem condessa foi carregada para os seus aposentos, no andar superior, enquanto o pai, o Conde Don Fernando de Alcalá y Concepción, temperamental e arbitrário, tombava sem vida, vitimado pela loucura da própria impulsividade.

A vida conjugal de Margarida com Don Hidalgo jamais seria a mesma.

Por mais ela tentasse esquecer, nunca se apagaria da memória a visão hedionda do pai dementado, tentando estrangular o marido e deste, livre e atônito, apunhalando-o, inerme, nas mãos do mordomo atoleimado...

A fomentação do mal ceifara o homem mau e os máus estímulos arrojavam no abismo das leis incoercíveis da Criação, os novos comprometidos com o crime.

Após o sepultamento do Conde de Concepción, Don Hidalgo tomou posse, legalmente, do espólio, e de todos os bens da sua vítima.

Reconfortava-se por haver-se liberado do inimigo, de forma inusitada, quando estava sendo vítima da sua alucinação.

No ínterim, Margarida despertava e sofria novo delí- quio. Assistida pelo antigo médico da família, a desafortunada havia perdido em pouco tempo quase todos família, res. Sentia-se sem rumo no dédalo dos acontecimentos descobrindo-se sem forças para prosseguir.

A noite de tenebroso horror faz-se sucedida, não obstante, pelo dia novo da esperança risonha.

 

                   A JUSTIÇA DOS VINGATIVOS E A DESGRAÇA DOS CRIMINOSOS

O organismo jovem de Margarida suportou os golpes, a pouco e pouco fazendo-a readquirir a saúde que ficara abalada com as cenas dolorosas.

A tragédia repercutiu com informações desencontradas. Os que detestavam o extinto davam razão ao homicida; os mais prudentes comentavam, horrorizados, o comportamento da nova autoridade, fazendo ilações com os sucessos infaustosos anteriores.

Ao féretro compareceram a cidade e arredores que prantearam demoradamente o falecido.

O bispo aconselhou o pupilo a demorar-se em Borja, até que diminuísse o impacto da tragédia, demonstrando haver sido vítima das circunstâncias — e acreditava no que dizia — com cujo comportamento se faria desde o início, senão amado, ao menos respeitado e tido em alta consideração.

A sua posição na Igreja fê-lo simpático ao sacerdote local e uma generosa doação ao Templo apagou os últimos vestígios de qualquer dificuldade.

Carmencita não tomou conhecimento pleno do que tinha curso no Solar.

Ficava por tempo demorado acompanhando a irmã convalescente sem noção real da sua enfermidade.

Nesse comenos, Margarida repassava, mentalmente, todas as ocorrências desde a chegada do esposo àquela casa como hóspede, aos primeiros encontros, à sucessão dos feitos até o irromper das inexplicáveis desventuras.

Várias lacunas surgiram na evocação dos acontecimentos: a morte da mãe, a loucura do genitor, a morte de Mateo, e agora, a culminante cena de sangue em que se envolviam o esposo e o pai.

O marido desfazia-se em desculpas, em justificativas, cumulando-a de gentilezas. No entanto, ela não podia compreender-lhe o gesto de apunhalar o doente, quando este já se encontrava afastado dele e seguro por Federico, o que facilitou a reação agressiva e homicida.

A lembrança fazia-a retornar à depressão, ao desalento.

O infame conselheiro espiritual lia, para confortá-la, a vida dos santos, o Evangelho, que ele tão bem conspurcava com a conduta hedionda; dialogava, propunha-lhe interpretação dos textos, auxiliando-a a espairecer. . .

Lentamente a lavagem cerebral em feição jesuítica passou a surtir efeito.

Aceitou receber visitas, passear de carruagem pelas cercanias. O ar, o Sol, a juventude completaram o restabelecimento.

Muito dolorosa a desventura, sem dúvida — falou-lhe, oportunamente, o sacerdote, num momento de diálogo tran- quilizador. — Todavia menos cruel do que se ele houvesse logrado, na sua alucinação, ceifar a vida de Hidalgo e ser encarcerado num Manicômio até à morte por abandono, como um animal abjeto...

- É certo. Mas não seria necessário matá-lo - ela alvitrou.

  • Hidalgo havia perdido o raciocínio, no momento — ele argumentou, completando, ardiloso:

“A fúria da loucura com a ideia fixa poderia levá-lo a tentar outra vez, até conseguir o resultado nefando.”

  • Qual o motivo desse ódio, padre?
  • Quem pode imaginar o que se passa num cérebro doente? A mente, povoada de imagens torcidas, agitada por fantasmas e demônios, o demônio do ciúme principalmente, excede em perversidade e desalinho qualquer coisa que se possa pensar.
  • "Demônio do ciúme"? — inquiriu Margarida, interessada — Ciúme de mim com Hidalgo? Mas ele era meu P"
  • Como não? — Contestou com hábil insinuação. — Recorda-se do sucedido em Saragoça, da atitude dele? Todas reações eram do macho ofendido, que havia perdido a fêmea cobiçada, embora, talvez, não se desse conta do sentimento torpe que o asseivajava. . . Teria ele outro motivo para esbofeteá-la?

Percebendo o efeito das palavras, fez breve pausa, a fim de que Margarida melhor assimilasse a insinuação, certamente verdadeira, e logo concluiu:

  • Somando a esse desgosto o peso dos dramas vividos em Madri, a vida dissoluta que mantinha na Corte...
  • Dissoluta, a vida de meu pai?
  • Ê verdade! As suas frequentes viagens à Capital tinham outros objetivos... Suas dívidas eram muito altas e, não há muito, Hidalgo fomeceu-lhe polpuda importância para pagá-las, após o que advieram esses infortúnios...

“Na alucinação que o tomava, transferiu para o nosso querido amigo as responsabilidades dos desvarios que o venceram, acalentando surdo desejo de vingança. De tal porte foi-lhe a fixação, que a nossa presença inintencional, arrancou-o do estupor em que caíra pelo ódio mal contido.


arrojando-o como um animal ferido contra o seu suposto algoz.

“Qualquer um teria feito o que Hidalgo foi obrigado — carregou bem as duas palavras — a realizar.

“Ele tem sofrido muito. Como, porém, proceder?”

  • Tem razão, padre — concordou a jovem enganada.
  • Se assim é, mude de comportamento para com ele, que a ama extremamente, e busque reagir às lembranças más, procurando esquecê-las.

“Ore, filha, rogando a divina inspiração, e tudo isto, pronto passará, você verá.”

Era um atrevido! Sugerir a prece, a fim de lograr a superior inspiração do Céu, ele que preferia o Inferno dos crimes abomináveis e das atitudes reprocháveis, era mais de que um despautério, antes um blasfemo inconfessável.

Infelizmente, as religiões não escapam aos homens que lhes vivem às expensas; que as exploram e aos crentes, mantendo um comportamento venal e afivelando à face a máscara da humildade como da fé, ensinando uma filosofia e agindo diametralmente de forma oposta ao conteúdo que dizem aceitar.

São eles os prevaricadores, os parasitas da crença, os falsos profetas, a que se referiu com clareza Jesus, usurpadores da alma alheia em todos os tempos.

Em período passado, graças à aparência de falsa piedade e às vestes que lhes não dissimulavam as vilanias, foram cognominados: “Os homens da triste figura”.

São todos inconfundíveis pelo maneirismo, pelo acatar o puritanismo em detrimento da pureza, pela aparência antes que pela vivência, exsudam hipocrisia.

O tempo trouxe a Borja o ar e a tranquilidade pachor- renta de sempre. Cessados os comentários que se gastaram pela bisbilhotice, permaneceram a sombra da maldição pairando sobre Don Hidalgo e uma indisfarçada animosidade por parte dos que o serviam.

As famílias mais tradicionais evitavam aproximação social que as pudesse comprometer na comunidade, enquanto os parasitas e ociosos que cercam as mesas fartas fingiam ignorar os dramas que haviam sucedido.

Porque os deveres religiosos o chamassem de retomo, Don Santamaria resolveu-se partir. Recebera correspondência reclamando sua presença na Corte, a instância da Infantaria de Parma, pelo que ele tanto anelava.

Como não se fizesse necessário estar ali, em Borja, desde que fora nomeado um funcionário para os misteres antes exercidos por Avelino e porque a criadagem desejasse continuar no Solar, Don Hidalgo também volveria a carragoça com a esposa e esta levaria Carmencita e sua ama

Quando a carruagem contornou o outeiro, ganhando a estrada de ciprestes, Margarida sentiu que nunca mais voltaria aos sítios da sua infância, experimentando uma saudade imensurável, que a sensibilizou e pungiu como aguda lâmina que a trespassasse.

Simultaneamente, percebeu-se modificada nos sentimentos. Certo é que se fazia leviana, todavia sabia-se gentil e de constituição nobre. Os acontecimentos rudes, os desgostos, no auge das glórias, como que lhe modificaram o mundo interior. Pouco tempo de dores e sentia-se alterada na estrutura íntima. Um laivo de rancor passou a tomar volume na sua mente, que não a deixaria, a partir de então, num crescendo lamentável.

Amava o marido, no entanto, uma insinuante repulsa decorrente do aturdimento em que se encontrava, levava-a a evitá-lo. Uma sombra se projetava no radioso processo do triunfo da bela borjana, ofuscando o brilho da felicidade cobiçada.

O Bispo Santamaria, como sabemos, não era amado em Saragoça. Temido e surdamente detestado, não tinha um relacionamento afável, na Corte, além da Infanta e do primeiro-ministro. Ele ambicionava um Arcebispado em Madri, pelo que lutava tenazmente.

Com um expressivo legado em dinheiro feito pelo pupilo à Igreja, mediante as recomendações dos legítimos governantes do país, sentia que chegara o seu momento máximo, o degrau para a futura aquisição do chapéu e anel cardinalícios, seu coroamento para a insaciável cobiça.

Várias dioceses, no entanto, disputavam a distinção e a guerra surda que extrapolava a discrição do meio religioso, se fazia conhecida na Catedral metropolitana da Capital como nos corredores do Palácio real. ..

A verdade é que o Bispo Don Manuel de Santamaria não representava o interesse do Cardeal madrileno nem de outras autoridades eclesiásticas.

À época, muitas dificuldades políticas e religiosas encontravam soluções inesperadas, que permaneciam envoltas em silêncios homéricos mesmo que escandalosas.

O hábil político e astuto sacerdote, em manipulando as armas da traição e do crime com tão grande destreza, não fugiu I sanha dos seus inimigos, perecendo no Palácio real, sob um travesseiro de plumas, vigorosamente aplicado sobre o seu rosto.

Não houve testemunhas, e sua morte, para alívio de muitos e aflição da Infanta, passou como sendo apoplexia, em razão do arroxeamento cadavérico, resultado da ignóbil asfixia...

Para o Conde dei Pilar foi um rude golpe, de cujos efeitos não se desvencilharia com facilidade. O seu mentor espiritual pensava por e com ele, sendo-lhe o braço direito da prosperidade e o avalista da sua honradez enganosa.

A notícia da morte do prelado chegou a Saragoça, quase agradavelmente, com o corpo que veio para ser aí inumado.

A vingança dos simples se reflete na justiça da vida pue alcança todos hediondos exploradores das suas forças.

Para evitar-se escândalo nas hostes da própria Igreja, apesar do murmúrio de homicídio, nenhuma investigação comprometedora, ainda mais considerando o local da ocorrência fatal, foi iniciada ou mesmo proposta.

A morte não poupa a ninguém. Ë a grande mestra ni- veladora das diferenças das vidas, igualando-as no túmulo, a fim de que liberados os seres do casulo carnal, rumem a distintas regiões a que se vinculam pelos atos praticados.

Face à perda do mentor, Don Hidalgo passou ao uso dos licores e vinhos que libava em contínuo, levando-o a excessos prejudiciais.

A ausência de um herdeiro irritava-o, fazendo que as relações conjugais entrassem em deterioramento.

Um ano depois dos lamentáveis homicídios já relatados, Carmencita pereceu, vitimada pela febre palustre, mais amargurando Margarida que, aos vinte anos, somava transes e rudes pelejas correspondentes a uma larga existência.

Nas discussões que se fizeram naturais e constantes com o marido, ambos se acusavam mutuamente. Ele a culpava da falta de um filho e ela o execrava pelo comportamento dissoluto e vulgar...

No terceiro aniversário do matrimônio, Don Hidalgo tomou-se pai, para a própria desgraça: um filho teratogê- nico, deformado, monstruoso.

Não pôde sopitar o horror e fugiu do aposento, quando se deparou com o rebento disforme, que inspirava horror antes que afeição ou piedade.

Alucinado pelo desespero, foi acometido de uma crise mental, que se repetiria doravante, fruto da consciência culpada e resultado dos nervos esfrangalhados pela maldade largamente cultivada, como dos excessos a que se submetia.


Margarida, por sua vez, humilhada pela criança horrenda, que a afligia, foi dominada por estranho ódio pelo filhinho, dependente e frágil, acariciando a ideia de o matar.

Não era mais a ambiciosa e ingênua menina em flor. Tomara-se fria e indiferente à dor alheia, cultivando o despeito da perversidade como forma de desforço contra a vida que tanto lhe deu e praticamente tudo lhe tomava.

Somente Amparo gozava de regalias e liberdades, passando a ter uma vida licenciosa, em Palácio e fora dele, sendo a inspiradora de muitas atitudes contraditórias da patroa.

O pequenino pária espiritual não encontrou alma sensível que o amparasse no retomo à came...

Menos de uma semana após o seu nascimento, Margarida sonhou que lhe aparecia o Bispo de Santamaria, em estado deplorável, suplicando-lhe ajuda, apoio...

Apavorada, desprendeu-se da sua presença e despertou em crise de desespero, acudida pela criada que a acompanhava.

O esposo mudara de aposento desde a chegada do filho, que se negava aceitar.

Foi então, que ante a evocação revoltante do pesadelo e a visão do recém-nato que choramingava, Margarida ordenou que Amparo desse à criança uma dose de calmante para toda a vida, envenenando-a...

A jovem condessa iniciava o processo de loucura criminosa, hedionda, em que tombou, irremissível.

A morte do infante foi recebida pela manhã com alívio geral, cada um aclarando haver sido melhor assim, os mesmos que afirmavam ser a criança um castigo divino...

Sem alarde, o pequenino corpo foi sepultado e o antigo bispo que volvera à Terra, fugindo das suas vítimas, no além-túmulo, para os braços amigos, retomava, expulso pela mesma maldade ardilosa que semeara antes nos corações...


Um lustro depois, estando Don Pepe às vésperas da morte, pediu ao seu confessor que lhe trouxesse ao leito de moribundo a Condessa dei Pilar, com quem desejava manter uma confabulação final.

Informada pelo sacerdote, um velho pastor virtuoso, que amava as criaturas e as servia com abnegação, a sofrida senhora deixou-se levar ao lar da família amiga e estacou sensibilizada, ante aquele homem nobre e honrado que fora companheiro leal do Conde de Alcalá, preparando-se para a viagem inevitável.

O venerando cavalheiro agradeceu o atendimento ao seu apelo e como sentisse as forças esvaírem-se, confidenciou o drama da sua consciência em silêncio, expondo à surpresa senhora os fatos que lhe aniquilaram a família, conforme haviam sucedido.

A ouvinte passava da surpresa ao estupor, à medida que o relato aclarava e preenchia as lacunas que sempre a inquietaram no desenrolar das desditas sofridas.

O moribundo com claridade mental afirmava ser a única forma de homenagear a memória do conde extinto, seu amigo, miseravelmente assassinado pelo próprio genro, sob o pálio complacente e conivente do famigerado prelado..

Rogava-lhe perdão por torná-la mais infortunada, em face do conhecimento dos fatos, na sua versão verdadeira, mas como não ignorava as dificuldades domésticas que ela sofria, não quis transferir para além da morte o que poderia esclarecer em vida..

“O rancor que se lhe imiscuira na alma — pensou Margarida —, desde a saída de Borja, agora se justificava, trans- formando-se em sede de vingança, que saberia exercer oportunamente.”

Terminada a confissão que iria atear o fogo de novos dissabores e largos compromissos espirituais infelizes, a jovem osculou a mão gelada do amigo dos seus genitores, retornando ao lar, visivelmente transtornada, com a mente em febre.


Em Borja, desde criança, Margarida aprendera a cavalgar, sendo uma perfeita amazona, quando percorria as cercanias com o pai ou o irmão.

Depois do matrimônio deixou dê exercitar-se sem motivo aparente.

Uma ideia malsinada se delineou na mente, que pôs em prática a largo prazo.

Recuperou o gosto, ou fingiu recuperá-lo, pela equitação, saindo a passeio com Amparo e alguns empregados, tentando interessar o marido dipsomaníaco e violento.

A ninguém inteirou do conhecimento que tivera da confissão de Don José de Montoya, nem sequer a Amparo, a confidente e sequaz.

Seu plano não poderia falhar nem mesmo deveriam ser do conhecimento de quem quer que fosse os seus motivos...

Insistindo e fazendo-se romântica, terminou por conseguir do companheiro lúbrico a sua aquiescência e participação nos passeios, à troca de carinhos e concessões que lhe negava sistematicamente.

O decadente nobre passou a acompanhá-la, dispensando os serviçais e interessando-se pela equitação sob nova motivação.

Quando o fato se tomou natural e os passeios habituais, Margarida passou a montar fogoso corcel apesar de aconselhada a não fazê-lo, por todos, menos pelo esposo que via no ato um gesto de coragem e valor.

Numa das vezes em que se encontravam no campo, em momento azado, a mulher magoada que anelava por uma vindita de louca, pediu ao marido que examinasse a ferar- dura do animal, que lhe parecia folgada. . .

O infortunado consorte não se apercebendo do plano da esposa, apeou do seu ginete e foi examinar a outra animália.

Ao aproximar-se da pata dianteira direita do fogoso cavalo, Margarida acionou as rédeas e esporeou o animal fustigando-o, o qual reagiu, derrubando o conde e pisoteando-o, em desespero. . Ela fez a volta e arremeteu contra o marido caído, ensanguentado, a bradar, desvairada:

— Cobro-te os crimes de morte contra os meus, bandido desalmado!

Na fúria, que subitamente a possuiu, dirigiu o animal sobre o corpo que se rebolcava em estertores, despedaçado diversas vezes, até vê-lo desfalecido, uma imensa pasta de carnes rasgadas e ossos quebrados...

Vencida por uma crise histérica tombou da sela, desmaiando em seguida.

O animal excitado disparou na direção do Palácio, atraindo a criadagem que acorreu ao bosque, deparando o conde morto e a condessa desfalecida, com um corte na face, igualmente ensanguentada pela queda.. .

Nada mais foi possível fazer-se pelo Conde Don Hidalgo Meléndez de Aragón y dei Pilar, que sucumbira de forma horrenda...

A condessa esteve em coma por dois dias e duas noites, despertando sob os cuidados do médico e inteirando-se da morte do esposo, a esta altura já sepulto.

Margarida de Alcalá y Conception dei Pilar condessa pelo berço e pelo matrimônio, estava a sós, na Terra, possuidora de uma grande fortuna e viúva aos vinte e cinco anos de idade.

Jamais se soube o que aconteceu naquela tarde aziaga, nem ela nunca o disse.

Aceitou-se a hipótese de acidente, nunca, porém, esclarecido como de necessidade.

A jovem viúva por segunda vez adentrou-se pela selva sombria das paixões dissolventes, que respondem pela infelicidade da criatura humana.

Posto à margem o amor, todo crime atrai o seu corretivo específico, toda sombra se adensa com mais espessas sombras, porque só o amor perdoa e ilumina, ajuaa e edifica a vida.


O futuro surgiría do estranho e hediondo passado, reeducando na dor e libertando, mediante longos padecimen- tos, os implicados nas teias ominosas dos sucessivos atentados às soberanas leis de Deus. Ninguém avançaria enquanto não arrebentasse as grilhetas do férreo passado a que se fixara.

 

                   DEPOIS DA TORMENTA A BONANÇA

O mergulho profundo de Domênico, no passado espi- tual, sob ã poderosa indução hipnótica do seu inimigo desencarnado, fez que as cenas gravadas retomassem, assomando-lhe à consciência, ao mesmo tempo aturdindo-o, desgraçando-o mais.

O despertar da razão nas almas fracas mais lhes adensa a aflição.

Por um sortilégio que não compreendia, ou talvez inspirado pelo implacável inimigo, podia fazer algumas oportunas ilações.

O genitor, Sr. Matoso, fora o temperamental amigo, o Conde Manuel de Godoy que volvera ao proscênio da vida física e que, na sua pusilanimidade, estimulara o homicídio por parte de Etienne, a quem ele próprio abatera.

Estranho enredo lhe tomava a mente, percebendo que o assecla criminoso era Mateo, assassinado, que planejava liquidá-lo, não fosse a loucura que nele assomara, levando-o ao destrambelho hediondo.

Podia identificar, em Leonor, que o conquistara, à primeira vista, a mesma sedutora Margarida, que o despedaçara sob as patas do ginete esfogueado.

O cinemascópio misterioso que rodava as cenas vivas na sua tela mental, ressuscitando lembranças, ao mesmo tempo atualizando as personagens, fê-lo identificar sua ge- nitora atual como a nobre Condessa Dolores, gentil e humilde, a quem ele magoara com as torpes ardilosidades, sendo o indireto responsável pela sua morte. .

No incontrolável suceder de cenas identificava, em Zulma, sua atual irmã, a infortunada primeira esposa, cuja morte o levara a Borja, onde se desdobraram as tendências criminosas e se multiplicaram os erros já iniciados.

O filhinho afogado também volvera ao torvelinho da vida, na pessoa do atual descendente Almiro, a quem não havia sabido oferecer senão desconforto e necessidades...

Naquele caleidoscópio mágico, em que ele era agente de tantos males, ao mesmo tempo espectador estuporado, Domênico prorrompeu em lamentoso e abundante pranto...

Um silvo no ar trouxe-o de volta à realidade e ele defrontou o sicário que gargalhava escamecedor:

  • Então, meu amigo e genro, não me é lícito ajustar as contas?

O açoite bem manipulado desceu sobre o dorso do obsidiado, que se pôs a bradar com mais força, na enfermaria, despertando o funcionário que acorreu a ver o de que se tratava... As reminiscências duravam na cronometragem terrestre um largo tempo, desde a cena do crime ao internamento hospitalar.. .

Don Fernando e asseclas ameaçavam:

  • Nunca mais nos fugirás. Não sairemos daqui. Pagarás, infame., .

Nova chibatada, e ele se agitou dolorosamente, tombando da cama, literalmente, no solo.

O demorado mergulho no passado sob o comando da mente desarvorada do inditoso cobrador, arrancou o eu consciente de Roberto Domênico da realidade objetiva da vida atual, arrojando-o no dédalo dos horrores por ele perpetrados no pretérito, todavia impressos nos paineis mentais do ser espiritual pela força da sua própria vitalização. Ficaram aqueles atos estampados no tempo ontem, a refletir-se no tempo hoje, porque vivos, em face dos distúrbios produzidos no equilíbrio das soberanas leis da vida.

Esse reviver contínuo daquilo que gostaria de esquecer, esse trucidar-se pelo arrependimento, em considerando o desejo de não haver praticado os delitos, os crimes em si mesmos, funcionavam como necessário corretivo para a consciência culpada, ao mesmo tempo fornecendo o campo vibratório propício para que o outro, o atual perseguidor, o jungisse ao rude carro da aflição, na conjuntura do processo de subjugação espiritual.

Raramente o obsesso sentia-se lenir pela paz. Arbitrário ontem, atrabiliário hoje, somava gravâmes, sem a bênção de qualquer ação meritória que lhe servisse de crédito para diminuir o volume dos atentados perpetrados.

Elucidemos, mais uma vez, que a Divina Consciência não necessita de cobradores, que a tais se arvorem para regularização dos desmandos cometidos pelos homens. Quando, porém, a insânia arma os ultrajados, que se creditam valores para a justiça por conta própria, desarvoram-se e inconscientes, tomam-se látego para corrigir o delituoso, ao mesmo tempo falindo e passando à condição de devedores que, a seu turno, responderão pela imprevidência perpetrada. Isto porque, ninguém sofre sem que esteja manietado a débitos que exigem regularização, para o fim superior da ascensão individual e do progresso coletivo. Inditosos aqueles que obram mal, atuando na falsa condição de justiça- dores.

No caso em pauta, consideremos o processo de renovação espiritual de Dona Maria Leonor, a leviana e criminosa Margarida que, além da torva aflição imposta pela conivência com o antigo esposo, igualmente sua vítima, trazia, na


artrite reumatoide, os preciosos cobradores da sua falácia, ajustando-a ao mecanismo do equilíbrio geral, da vida superior. ..

Entretanto, as orações ungidas de piedade pelo enfermo, endereçadas por Dona Lidia como por Dona Maria Leonor eram, ao fado da sempre presente misericórdia de Deus, os únicos recursos positivos dirigidos ao subjugado Roberto Domênico.

A partir da visita que a esposa lhe fizera, no Manicômio, por um momento breve, no entanto muito valioso, ele pareceu registrar a compaixão e o amor com que ela o en- envolveu, afrouxando a terrível constrição que o despedaçava sem o destruir. Simultaneamente, a assistência espiritual de Cecília, naquele instante, e a partir de então, propiciou o lento desalgemar do déspota do poste das suas arbitrariedades.

Um sentimento de dor e uma ansiedade de paz se lhe infiltraram no dédalo em que estorcegava, a instância psíquica da nobre Entidade, interferindo no programa nefando de Don Fernando.

Numa como noutra existência, sejamos franco, Domênico vivera sans foi ni loi[51] sem o hábito salutar das reflexões ou dos pensamentos -edificantes, o que se tornava um grave impedimento para o acesso à sua casa mental por parte dos Espíritos Benfazejos.

Desencarnando, a genitora do enfermo, que fora a antiga Condessa Dolores — sua sogra trucidada pelas dores, que ele lhe infligira à família e a ela própria —, logo despertou, amparada pelos Obreiros do Bem, recordou do esposo sofrido e do filho infeliz. Tão pronto se ajustou ao novo habitat buscou orientação dos Mensageiros Espirituais, a fim de ajudar esses amores, cuja felicidade seria a sua própria felicidade.

Oportunamente elucidada em torno da indispensabilidade da reencarnação — o antigo primeiro-ministro Manuel de Godoy, responsável por incontável número de desditas e pela desgraça inicial de Don Fernando, fora o seu atual esposo Edmundo —, soube que Don Fernando não volvera à Terra, desde então, sendo hoje o cruel verdugo do antigo genro. . .

A pouco e pouco, se inteirou de como o crime sucedera, à inspiração de Don Fernando que odiava o antigo primeiro-ministro, utilizando-se de Etienne — seu filho Mateo, a quem passou a detestar, por ocasião dos insucessos pretéritos —, ao mesmo tempo vingando-se de Don Hidalgo e o enleando nas malhas da sua inconcebível perversidade.

Deu-se conta das razões porque reagira de inicio contra Maria Leonor — remniscências da antiga mágoa — e porque, sob o látego das ultriz es aflições, a amara, com acentuada ternura, qual filha — que o era de ontem — retomando-lhe aos braços...

Quanto se instruiu no complexo mecanismo das reen- carnações e das obsessões desejou colocar à disposição desses Espíritos amados que se estiolaram sob os tropeis da incúria, da revolta decorrente do orgulho ferido.

Adestrando-se na movimentação socorrista, amparada por Cecília — anjo benfeitor do atormentado clã familial — visitou Dona Maria Leonor, logo foi possível, sendo registada, psiquicamente, pela médium que se devotava ao bem, no compromisso que assumira antes de renascer: o de reparar os males e erguer do caos os que nele tombaram por sua loucura ou pela própria insensatez.

É natural que a sofrida senhora não fosse informada, por enquanto, das razões que a martirizavam, adentrando-se no conhecimento das causas. Sabia que cada efeito provém de uma justa causa que o precede.

Ver em espírito e dialogar com Dona Lídia foi-lhe abençoado refrigério, verdadeira dádiva de réconforte.

A este tempo, Arminda inspirava a amiga a procurar o apoio de uma Sociedade Espírita, na cidade de P., onde residia, a fim de melhor instruir-se no sublime legado de “O Consolador”, ao mesmo tempo adestrando-se no exercício fecundo e bem dirigido das suas faculdades mediúnicas.

O estudo de “O Livro dos Espíritos", de Allan Kardec, a primeira Obra que lhe veio às mãos, foi um amanhecer em noite escura.

Meditando no seu profundo conteúdo, compreendeu a razão das suas aflições, o programa dos destinos e as incomparáveis possibilidades que são facultadas à criatura para o seu aprimoramento e felicidade espiritual.

A pouco e pouco, o conhecimento espírita fez-se-lhe o apoio e a fortaleza ante as provações liberadoras.

A convivência com o grupo dos novos discípulos do Evangelho abriu-lhe dantes nunca suspeitadas possibilidades de alegria, embora a presença das dores físicas e morais.

Ê certo que o conhecimento espírita não muda o programa dos resgates espirituais, nem poderia fazê-lo, o que seria o gerar de uma nova casta de privilegiados — os espi- ritistas! — pelo fato de tomarem contato com as realidades da vida. Entretanto, faz que o homem mude o conceito sobre a dor, veja de maneira otimista as provações e arme-se dos expressivos recursos da oração, da paciência, da coragem com que enfrenta as vicissitudes e as suporta, transitando com nobreza pelos mais lôbregos caminhos que conduzem ! recuperação moral, à paz. O próprio conhecimento das causas das dores funciona como lenitivo delas.

Quando o homem se conscientiza das responsabilidades que lhe cabem, os pesados compromissos tornam-se-lhe graves, porém, de amena desincumbência.

A grei espírita da cidade recebeu Dona Maria Leonor com legítima amizade, envolvendo-a em justa ternura, porque quem semèia bondade pela senda, recolhe alegria no termo da jornada.

Era um mundo realmente novo que se abria à sua mente ávida de informações e ao seu sequioso sentimento de mu- lher-mãe que anelava por afeições puras. Nenhuma de melhor conteúdo que a amizade cristã.

As crianças passaram a participar das aulas de moral evangélica, aos domingos pela manhã, nas quais devotado seareiro ministrava os recursos doutrinários para a formação do caráter, preparando homens probos para o futuro, cidadãos nobres para a vida.

Participando das reuniões mediúnicas, transcorrido o tempo hábil necessário para a formação do seu comportamento espírita, na base da convicção doutrinária, amplia- ram-se-lhe as percepções em admiráveis recursos na psico- fonia, no desdobramento espiritual, na vidência e audiência de salutares benefícios para o grupo decididamente cristão.

A Sociedade acorriam os “filhos do Calvário", da expressão evangélica. Eram as pessoas sofridas e sofredoras dos bairros pobres que, enfermas, pediam a ajuda da orientação homeopática, recebendo, inclusive, o medicamento de atuação profunda, nas engrenagens moleculares do perispí- rito; portadores de distonias psíquicas e alienados por obsessões que se beneficiavam com o amparo da doutrinação, nas sessões públicas em que eram esclarecidos e se elucidavam os seus desafetos desencarnados, aplicando-lhes os socorros magnéticos através da fluidoterapia pelos passes e pela água beneficiada; pessoas em abandono social, que recorriam à caridade material, colhendo, igualmente, o concurso moral e o pão espiritual; mães e criancinhas ao abandono que encontravam a família ampliada e o auxílio que lhes diminuía a carência; criaturas probas que anelavam por aprofundar-se nas lições do modemo espiritualismo, que lhes forneciam o conforto moral diante dos problemas-desafio, simultaneamente a prova incontesté da sobrevivência do espírito à morte orgânica...

Todo este vasto programa de assistência social e de caridade granjeava simpatias espirituais relevantes, atraindo


os Benfeitores desencarnados que ali edificaram o santuário vivo do amor e da beneficência por Jesus e para Jesus.

Nesse abençoado campo de trabalho, a modesta costureira que apresentava maior soma de dores físicas em razão da irreversível enfermidade martirizante, passou a oferecer à Casa as suas disponibilidades de tempo e toda a dedicação possível.

Prosseguia, no bairro atormentado, no seu mister de obstetra prática, atendendo e esclarecendo as parturientes, agora com a informação religiosa hábil para destrinçar os aparentes enigmas do sofrimento humano.

Era perfeitamente natural que, no afã do auxílio ao próximo, não olvidasse o esposo algemado à obsessão sub- jugadora. Intercedia, mediante a prece, suplicando que lhe fosse diminuído o carma, a fim de reparar os delitos na condicional da convivência social.

Os seus rogos e méritos pelo bem que praticava sensibilizaram os Céus, que providenciaram recursos de amor a benefício do atro Domenico, que expungia os crimes do passado e os delitos do presente.

Auxiliar Domênico, do ponto de vista da justiça superior, implicaria em socorrer ao espírito Don Fernando, mi- norando-lhe as dores'extremas e amparando o irmão Matoso em estado de profunda perturbação, visceralmente alucinado.

A identificação do filho, à hora do crime, produziu no genitor rebelde tal estupor que, ao seu pensamento desa- trelado, somente ocorreu a ideia de destruí-lo.

O antigo primeiro-ministro espanhol, arbitrário e feroz, assomou do passado e dominou o homem rude, que se preparava longe do proscênio dos antigos gravâmes para as suas próprias recuperações.

O ímpeto homicida precipitou a tragédia, mediante o disparo de Etienne, colhido pela surpresa.


O projétil, que lhe abateu o corpo, fê-lo tombar desacordado em espírito e, ao despertar, dominado pela fúria desmedida, caiu em sintonia com os irresponsáveis e vândalos do além-túmulo...

Tudo lhe era confuso e perturbador, somando à aflição a dor física decorrente da morte violenta do corpo somático.

Repleto de vitalidade para o processo da reencarnação, a expulsão drástica do envoltório material significava-lhe superlativo sofrimento que não sabia compreender.

O Espírito Lídia defrontava-se com um problema da própria emotividade ante os dois esposos desencarnados, de uma e de outra existência corporal.

A verdade é que, Don Fernando, a quem muito amara, em razão do seu temperamento irascível, fez que ela asfixiasse no silêncio toda a emotividade, transferindo para os filhos o abençoado caudal do devotamento e do sacrifício, nele vendo o companheiro necessitado, o cobrador violento, embora, à época, ignorasse porque assim ele se tomara.

O Senhor Matoso, por sua vez, aferrado ao interesse material, jamais lhe fora o esposo gentil e afetuoso. Certamente que era cumpridor dos deveres com retidão. Mais um dever do qual se desobrigava do que vivesse uma comunhão afetiva e tema...

O Espírito dedicado compreendeu, então, que ambos, antes de serem alma da sua alma, haviam sido irmãos do processo evolutivo, que as injunções superiores colocaram ao seu lado a fim de que pudessem reencarnar amigos e adversários, auxiliando-se pela dor, na ascensão individual quanto geral. Ela, talvez, por mais endividada, aceitara a incumbência de estar ao lado de ambos, na transitória condição de esposa, a fim de os auxiliar e auxiliar-se a si própria, no cadinho purificador.

Cecília anuiu com estes raciocínios, adicionando outros esclarecimentos, demonstrando que o ser espiritual a quem

ela realmente amava e capaz de preencher-lhe as lacunas do sentimento, estagiava em província de bênçãos mais elevada, aguardando que ela se liberasse dos compromissos com a Terra, e fortalecendo-a, à distância, com o potencial de amor que a ambos unia.

Cabia-lhe abraçar em Don Fernando e no Senhor Matoso os filhos do coração, necessitados de apoio e de socorro imediato, a princípio isoladamente, confiando os resultados ao Senhor a quem compete as decisões e diretrizes finais.

As Entidades envolvidas no affaire de profundas aflições programaram as tarefas de reabilitação dos comprometidos, nas quais a mediunidade de Dona Maria Leonor seria posta a serviço da caridade socorrista.

Cecília superintenderia o ministério da desobsessão, face à aquiescência dos Mentores da Sociedade Espírita, cujos técnicos desse mister seriam convidados a dirigir a mecânica da assistência, ao tempo em que, Lídia e Arminda — que se reencontraram como mãe e filha, a deficiente Carmencita do passado —, se adestrariam com a equipe, auxiliando, em face dos vínculos da afetividade pessoal que as unia a Don Fernando, e a primeira ao Senhor Matoso.

Esquematizada a tarefa, Cecília desdobrou em corpo espiritual a sua pupila e expôs-lhe o projeto em andamento, rogando-lhe o recolhimento da oração e a vigilância da fé, no trabalho...

Elucidou-a quanto às explícitas responsabilidades que dizem respeito ao médium de desobsessão, considerando as agressões de que passa a ser vítima pelos déspotas sem corpo físico e pelos vagabundos espirituais que, em malta, acorrem e fogem de tais atividades.

A princípio, atraídos pela curiosidade, porque informados por outros sobre a ocorrência, e depois, evadindo-se por não desejarem a mudança de atitude mental e moral, voltando-se contra o intermediário humano...

Adiu a Kenfeitora que, no caso em pauta, não obstante a vin cul ação pessoal da intermediária mediúnica, fosse evitado o excesso de entusiasmo ou de pressa, considerando que o recurso socorrista estava sendo ministrado a irmãos em agonia, como nos labores habituais que se realizavam na Casa.

Não olvidou de esclarecer que o provável afastamento do perseguidor desencarnado de Domênico, mudaria, parcialmente, o seu estado mental, não o moral, prosseguindo incurso nos artigos da Lei que fora desrespeitada, ele próprio volvendo à personalidade rebelde e tumultuada que lhe era peculiar.

Dele dependeriam os resultados felizes ou desventura- dos, conforme seu livre-arbítrio, sua conduta, suas disposições, caso se liberasse da árdua constrição da sua antiga vítima. . .

O grupo de desobsessão foi informado do empreendimento futuro e todos se comprometeram a assumir responsabilidades, a orar, a participar efetivamente das tarefas.

Post nubila Phoebus![52]

 

                   0 AMOR APAGA O FOGO DO ÓDIO E AS LABAREDAS DO RESSENTIMENTO

Abençoada escola das almas, o ministério de desobsessão funciona como momento superior para incursões de profundidade nas mentes desencarnadas, ajustando-as ao programa de edificação íntima a que nos vinculamos. Enquanto se desdobram as tarefas socorristas entre Espíritos e homens, abnegados Cirurgiões das Esferas mais nobres atuam por processos sutis e graves, nas fixações infelizes dos que se demoram nas torvas disposições, mudando-lhes os mapeamentos enfermiços e abrindo-lhes as percepções do entendimento para as realidades superiores.

O mesmo ocorre em relação aos homens que, nesses momentos, porque receptivos à ajuda divina, são beneficiados com terapêutica específica para a alma, renovando-se- -lhes os quadros e programas para a marcha evolutiva.

Enfermidades de largo porte são revistas, obsessões crueis são minoradas, distúrbios de comportamento se fazem minimizados, distonias psíquicas são reajustadas, provações rudes recebem apoio, e inumeráveis problemas que dizem respeito ao ser em depuração são aquinhoados com expressivos suportes de amor, abençoando o caminho e a experiência do viandante com a dádiva da paz.

Igualmente são concertadas incursões reencarnatórias e labores de santificação que se destinam aos trânsfugas do dever, em estágio na Erraticidade inferior.

A luz da oração e a atividade beneficente produzem energias de vital importância que, aglutinadas por diversos corações que amam, podem ser canalizadas eficazmente a favor dos necessitados pelos Instrutores que operam no transcurso das realizações mediúnicas.

Não causem surpresa os resultados espirituais, emocionais, psíquicos, fisiológicos obtidos em reuniões de tal porte.

A ação, invisível para a maioria dos homens, no entanto, reai e viva, é realizada com eficácia, obedecendo a planifi- cação adrede traçada com vistas aos resultados que se colimam.

Não quer isto dizer, porém, que se logrem milagres, que tais não existem. Outrossim, não equivale a resultados gerais, favoráveis do ponto de vista humano, desde que a visão de felicidade é definida pela colocação do observador e tal é daqui para aí, e não como do interesse imediatistã do homem. Eis porque nem sempre sucedem as respostas agradáveis, conforme o desejo dos pacientes e seus familiares ou dos candidatos a resultados específicos que lhes comprazem.

Na primeira oportunidade viável em que os adeptos da Doutrina Espírita se reuniam para o ministério desobsessivo, Cecília, utilizando-se de Dona Maria Leonor, informou ao grupo sobre a presença de Don Femando, que receberia, a partir daquele instante, socorros especiais com que, igualmente, se objetivava beneficiar Roberto Domênico, amenizando-lhe a prova dolorosa...

Foi exposto, em breves palavras, o programa de assistência, rogando que todos se considerassem membros do mesmo drama, com qual comportamento poderiam melhor contribuir espiritualmente para o tentame.

Quando a Entidade se deu conta de estar numa reunião mediúnica estertorou, agressivamente, exteriorizando o mau humor de que se encontrava possuído, em momentoso fenômeno de xenoglossia, falando em castelhano antigo, graças à maleabilidade psicofônica da médium.

Vários fatores contribuíram favoráveis para o cometimento, dentre outros, os vínculos entre a médium e o desencarnado, que inobstante não a identificando, no momento, experimentava a afinidade fluídica existente entTe ambos.

De raciocínio rápido, o comunicante percebeu que se encontrava sob forças poderosas que o conduziam, sentindo-se ferido no orgulho exacerbado que exteriorizava sob protestos veementes e acusações descabidas.

A fácies macerada da médium e os estertores respiratórios traduziam os choques fluídicos que espocavam no seu organismo, embora a cuidadosa assistência dos técnicos naquela modalidade socorrista.

  • Ninguna circunstancia me impondrá el perdón a la infamia! Exteilnou, colérico. — Esta venganza irá a término con mi Victoria!

Enquanto o recolhimento e a oração geravam ondas vibratórias que agiam sobre a psicosfera pestífera exteriori- zada pelo comunicante, a piedade fraternal promanada de todos envolvia o calceta em ondas de paz e ternura de que se ressentia pela escassez há mais de um século...

O doutrinador seguro, calmo e confiante, em palavras breves mas saturadas de compreensão, redarguiu:

  • O perdão é sempre melhor para quem o cede e a vingança constitui desgraça para quem a conduz.

Incapaz de um raciocínio lógico, desde que monoideado pela fixação do ódio que o consumia, não dava margem a qualquer diálogo, repetindo, alucinado, as objurgatórias e acusações em que se apoiava para justificar-se a desdita alongada pela própria incúria.

Transcorridos alguns minutos entre imprecações, does- tos e desequilíbrios, largamente beneficiado, sem dar-se conta Don Fernando afastou-se do médium e Cecília veio explícita, jubilosa. . .

— O que objetivamos — elucidou — é beneficiar ao irmão atormentado, que teima na consecução da sua infelicidade demorada. Beneficiá-lo, significa-nos tê-lo sob controle. mantendo, a partir de agora, que se deram as primeiras brechas mentais, um intercâmbio psíquico, até encontrar nele receptividade e compreensão para os nossos propósitos quando, sensibilizado, se voltará para a auto-renovação, o crescimento espiritual.

“A incorporação faculta uma descarga de energias deletérias, de que o médium se faz absorvente, eliminando-a, ao mesmo tempo diminuindo a alta tensão do estado de loucura do comunicante. O que se convencionou chamar choque anímico, na psicofonia atormentada dos sofredores, é-lhe de salutares resultados.

“A repetição destes momentos, o esclarecimento cristão, o ambiente saturado pelos fluidos bons e as técnicas de ação no perispírito conturbado, terminarão pelos efeitos felizes para todos nós.”

Detendo-se em ligeira reflexão, concluiu:

— Quando o Espírito que se inimiza é trazido ao esclarecimento evangélico grande parte da peleja está atendida satisfatoriamente, aumentando as probabilidades da paz.

A reunião seguiu seu curso normal sob a natural alegria dos seus membros, que se sentiam renovados, exultantes.

No Manicômio, por primeira vez, Roberto Domênico foi visitado, após vários anos, por lampejos de lucidez. Subitamente sentira-se despertar de um intérmino pesadelo, embora sem os contatos corretos com a realidade objetiva.

A demorada constrição que lhe minava as forças, transformada numa simbiose quase, tal a parasitose espiritual, avassaladora, cedeu, e ele experimentou incoereível fraqueza orgânica, assenhoreando-se um pouco do ambiente em que se encontrava, do seu estado de debilidade caindo num sono reparador que muito lhe fazia falta.

Dormiu, então, como não ocorria há largo tempo, despertando aturdido no dia imediato, sob o controle anterior, obsessivo.. .

Don Fernando, por sua parte, logo se liberou dos fortes liâmes que o levaram à comunicação com o grupo de companheiros encarnados, não se pôde furtar a reflexões diferentes das que se lhe haviam tomado únicas.

Interrogações irromperam-lhe na mente e, embora volvesse de imediato para o lado do seu inditoso verdugo-víti- ma, graças à impulsão das circunstâncias, não ficou insensível ao acontecimento.

Ocorreu-lhe, como é natural, que as suas forças estavam a outras subalternas, que o movimentavam contra a própria vontade. . . Não se sentira odiado, nem ninguém lhe exprobrara o comportamento : . . Nenhuma pergunta lhe foi apresentada nem explicação alguma lhe deram. . .

Tudo parecia estranho!

“Quem seriam as pessoas daquele círculo — pôs-se a indagar — e que desejavam dele?”

Não ignorava a existência das Forças do Bem. Todavia, tão senhor de si se sentia que já não as considerava, em face da soberba que o dominava e da auto-confiança nos resultados dos seus planos, na supervisão feita por outros verdugos inferiores aos quais se vinculara.

Nesse estado de ânimo, sem atinar com as causas reais da ocorrência, sentiu-se impregnado do magnetismo superior da médium, do ambiente onde estivera, da fraternidade envolvente de que se vira objeto. Percebera-se visitado por agradável brisa que, apesar de breve, lhe minorara a ardência que o devorava sem consunção.

Habituado ao longo acumpliciamento do ódio volveu, por adaptação mental, ao comércio obsessivo, na fúria insana contra o seu desditoso parceiro.

A obsessão tem sutilezas que passam despercebidas de muitos estudiosos devotados.

Sendo os seus agentes desencarnados — quando se trata de subjugação, como no caso em tela —, dificilmente o observador que lhe examina os efeitos pode perceber o complexo emaranhado em que tombam ambos litigantes.

A vítima atual, em considerando a injunção do abuso aos códigos soberanos da vida, possui verdadeiras matrizes vibratórias, no perispírito, que facultam a assimilação do pensamento, da vontade do seu opositor — o antigo ludibriado —, a seu turno transitando na mesma faixa de onda mental, que lhe favorece com uma perfeita sintonia.

Mesmo nos Espíritos ignorantes dos mecanismos da subjugação, atraídos pelos condicionamentos da consciência culpada, que se não perdoa, esta atrai aqueles, cuja simples emanação psíquica altera a psicosfera ambiente, assimilada pelo devedor, que entra em deterioramento da personalidade. Invariavelmente, o futuro paciente já reencarna com os centros perispirituais lesados pelas ações da violência praticada, tomando-se predisposto à alienação, por distonias, digamos, congênitas — a presença da culpa —, que se agravam com a parasitose espiritual posterior.

Quando essas Entidades perseguidoras se adestram nos recursos hábeis das induções parasitárias, o quadro se faz muito mais grave e as ciladas, as ardilosidades tomam aspectos difíceis de uma rápida erradicação. Isto ocorre, porque o próprio verdugo, com o passar do tempo, e enfermo que é, igualmente, da alma, em processo de degenerescência do patrimônio da vida, quase sempre tomba, inerme, nas malhas da própria rede, passando a depender da vítima, em quem se apoia.

Os quadros da lamentável perturbação espiritual estão a merecer mais acurados estudos. No entanto, em qualquer circunstância, o esforço do paciente — antes de cair na alucinação inconsciente —, dos familiares e acompanhantes - igualmente envolvidos no problema —, o exercício e a vivência do amor geram forças positivas que diminuem a agressão do adversário, ensejando ao incurso na imposição reabilita- dora meios de liberar-se, ao menos, ter atenuado o resgate.

Nesse intercâmbio existente entre as mentes, consciente ou inconscientemente, grassam os processos de dependência psíquica, de obsessão, em número muito mais expressivo do que se pode avaliar.

Ninguém marcha a sós. Onde, em quem situa suas aspirações e interesses, se fixa psiquicamente, arrastando ou sendo arrastado pelo agente-fulcro da sua eleição.

Concluído o ministério socorrista, os membros do Círculo prosseguiram no envolvimento vibratório ao Espírito infeliz, projetando-lhe pensamentos otimistas e intercedendo aos Agentes da Vida, mediante a oração, em favor dos envolvidos na trágica façanha. Em consequência, as vibrações emitidas chegavam ao destino, atuando favoravelmente sobre os comprometidos no desforço.

Na próxima reunião, utilizando-se de recursos vigorosos, a que o obsessor não se podia furtar, foi este conduzido à incorporação mediúnica.

Descobrindo-se mergulhado no psiquismo da médium e compreendendo a própria fraqueza, Don Fernando extravasou cólera e blasfêmia até a exaustão.

Sem ser interrompido, já que o objetivo era exauri-lo e demonstrar-lhe a impotência mental da força que acreditava poder manipular à vontade, foram aplicados passes restauradores na sensitiva, que ele também absorvia, terminando por acalmar-se.

  • Que desejam, afinal, de mim? — interrogou com arrogância e acidez. — Não creio que tenhamos qualquer vínculo que justifique esta violência para comigo. Que se passa, então?

Sem qualquer irritação, o diretor das tarefas explicou o a que se dedicavam, as razões do ministério, concluindo por esclarecer:

  • É o amor cristão que nos induz a estas incursões sob a superior governança dos Espíritos Benfeitores da Humanidade, interessados em nossa felicidade. Como o nosso caro amigo é paciente de gravíssimas ulcerações da alma, candi- datamo-nos a participar das suas dores, buscando minorá-las,

“Não o fazemos porém, com violência. Esse recurso não entra em nosso programa, que é trabalho pelo amor e pela misericórdia.”

A voz, repassada de real interesse pela recuperação do comunicante, e as irradiações naturais de afeto fraternal atuavam nele de forma lenificadora, de algum modo dimi- nuindo-lhe o impacto da agressividade.

  • Conhecem, os senhores, o meu drama? — arguiu, revoltado. — Que pretendem?
  • A sua paz, pura e simplesmente — confessou o dou- trinador. — Ignoramos, sim, o seu drama, que no entanto, podemos avaliar pelo desconforto que exterioriza, o que mais nos punge. Seja ele, porém, qual for, o Senhor dos nossos destinos agora interfere, diminuindo os efeitos sobre a sua desmedida aflição. Ê tempo de mudança de atitude em relação à ..
  • Fui covardemente traído — interrompeu, excitado, a elucidação — por um bandido que agasalhei na família. Roubado no que possuía de mais caro e santo, tombei nas garras de um falcão malsinado que me estraçalhou... Desonrou o meu lar, voltou os meus filhos contra mim, tomou os meus bens e levou à morte a minha esposa, terminando por assassinar-me! Desforço-me, apenas. . Ao constatar a vida depois da morte, venho caçando-o e vencendo-o até a destruição total...

Cada alma, cada emoção. Os acontecimentos haviam sucedido, sendo que os móveis, as circunstâncias e ocorrências eram bem diversos de como foram expostos.

  • Ninguém se toma vítima — expôs o orientador - sem que esteja incurso nos dispositivos da Lei do Amor, que rege a vida. A Consciência Divina supervisiona tudo com critério de justiça e dádiva de misericórdia. O que você considera como um crime praticado contra sua pessoa, família 1 propriedade, eram os braços da Justiça alcançando-o... Não necessitava ela, compulsoriamente, de um cobrador por possuir seus próprios critérios e meios, qual ocorre, neste momento, em que você se faz o justiçador, sem credencial para tanto, derrapando em crime equivalente ou mais covarde do que aquele que o tomou revel. A sua atitude incorreta de utilizar-se da sua situação de despido do corpo para atacar, é sumamente infeliz.. . O seu adversário não transitará incólume à Justiça, que o alcançará onde esteja, sem a necessidade da sua perniciosa intromissão...
  • Intromissão? — voltou a interromper. — Estamos no mesmo barco, aqueles que agora nos engalfinhamos no acerto de contas...
  • Incidindo no mesmo erro, que o chamará a recuperação mais tarde — tomou-lhe a palavra com acerto. — Repete você o equívoco que levou o seu opositor a afligi-lo e consideremos que ele, na sua ambição e desar, ignorava o funcionamento das Leis Divinas, o que não sucede com o amigo...
  • Não o posso perdoar!
  • Não o quer perdoar.. . Não lhe pedimos que perdoe, neste momento, mas esperamos que não se atribua o direito


de fazer justiça, desde que está cometendo injustiças e arbitrariedades. . .

  • Por que me julga?
  • Não me atrevo a tal. Apenas raciocino com os dados que me são fornecidos, tendo em vista saber que o equilíbrio cósmico independe da nossa mesquinha interferência, portanto, que Deus coordena a vida com sabedoria e justeza.
  • Você ignora o meu drama.
  • E o respeito muito, não justificando todavia, o seu comportamento arbitrário.
  • Cobro, pela loucura, o mal de que fui objeto e pela dor sem limite, a traição de que me tomei vítima...

O semblante da médium, congestionado, traduzia a magnitude do sofrimento de Don Fernando.

Fez-se uma pausa oportuna, natural. O Espírito, como se repassasse os insucessos tormentosos, narrou em síntese compreensível os acontecimentos ocorridos em Borja, Sara- goça e Madri, as interferências do Conde dei Pilar e do Bispo Santamaria. . . Anotava com pungente amargura os lances mais infelizes, chorando copiosamente.

Cecília e os dirigentes espirituais da Casa, interessados na problemática, inspiravam-no à catarse, com que se libertava do ressumar de tanto ódio.

O pranto de dor diminuía a ardência da revolta, corrigindo a extenuante tensão.

Por largo tempo, em colorido castelhano. Don Fernando reviveu as lutas, naturalmente apresentando-se como homem respeitável, de conduta sem reproche... Não foi interrompido, senão quando justificava a sua peçonhenta vingança.

O diretor conclamou-o à reflexão, à mudança de atitude mental, incitou-o a pensar na felicidade pessoal, não adiando sine-die o momento de libertação.

Os conceitos felizes bem colocados, a ambientação amiga, a interferência de Cecília e dos Mentores atuando-lhe nos centros coronário e cerebral, criaram um clima de menos rancor, quase favorável ao bem.

Aturdido, em perplexidade. Don Fernando exclamou de inopino:

  • Dios, mio! Es Dólores que me surge, bella y noble, como en el posado!...

Lágrimas saltavam dos olhos da médium e uma súbita mudança se lhe operou na face, traduzindo a insopitável emoção. Distendendo os braços, parecia dispor-se a envolver alguém.

  • Perdona-me, amada mia! Perdona mi locura y mal- dad! Perdona-me!...

A veneranda Senhora Lídia, assomando na personalidade da Condessa Dolores de la Concepción, irisada por luzes que a embelezavam, acercou-se do antigo esposo e o abraçou com doçura, dizendo-lhe:

  • Não há porque perdoar. Todos nos equivocamos e o amor, acima de tudo, é a esperança do nosso amanhã, sem as sombras tormentosas do ontem ou quaisquer outras incertezas maceradoras da felicidade. . .

Dona Maria Leonor, em desdobramento espiritual, acompanhava a cena comovedora, em que sua antiga mãe dulcificava o ser amado, por quem, igualmente, sentia irromper o afeto que dormia em gérmen, anestesiado pela roupagem atual.

Don Fernando não cabia em si de surpresa.

Sur le fait[53] colhido pela alegria de rever a esposa- -mártir, de quem sentia infinita saudade, não controlava as emoções.

Eis que ódio algum consegue vencer a dádiva do amor.

A veneran da Entidade acalmou-o, tema, generosa, completando:

  • Ignoras que Maria Leonor é nossa filha infortunada de ontem, trucidada pelas rodas da desarmonia que gerou para si mesma? Vemo-la deperecer e sofrer sem trégua, orando a Deus, na cruz das renúncias e dos sacrifícios, abraçando a pobreza e a enfermidade. . . (Não havia qualquer censura contra ele.)
  • Sim, eu sei. . . — afirmou, envergonhado.
  • Pois bem, na sua imensa abnegação emprestou-te os órgãos materiais para este momento, abrindo-nos o ensejo para este ditoso reencontro.
  • Não o sabia...
  • É ela a medianeira de que te utilizaste nestes dois últimos cometimentos para a redenção. Pensa nela, descul- pa-a, se não a podes perdoar. O mais virá depois.

Don Fernando, fruindo o inefável bem-estar daqueles instantes, ainda atribulado, assentiu:

  • Ajuda-me a esquecer, ampara-me, tu que crês e recebes a ajuda dos anjos...

“Eu sou por demais desgraçado para pensar no bem."

Nesse comenos, enquanto Cecília elucidava os companheiros, em tomo do que sucedia fora da esfera física, Dona Arminda, assumindo a antiga forma de Carmencita, lúcida, no entanto, acercou-se com Dona Maria Leonor e as quatro personagens se abraçaram, naquele momento esquecendo todo o amargor para viver as alegrias e esperanças do amor num futuro que se desenhava radioso para todos.

Ao terminar a reunião e tomarem aos lares, os seareiros de Jesus se encontravam com a alegria do trabalhador da terra dos corações, em que após semeada a boa semente, já viam as verdes plântulas erguerem-se, abençoadas, do solo umedecido pelo suor e lágrimas, prometendo um porvir de flores e de mitos...

A noite fria, transparente, sorria estrelas cintilantes no firmamento.

 

                   DONA MARIA LEONOR E A FÉ VIVA

Iniciando uma etapa de compromissos edificantes, a benefício próprio, Don Fernando, necessariamente atendido pelos Amigos Espirituais e pela ex-esposa, se libertaria da impulsão vingativa com compreensível dificuldade.

Instado à felicidade de cuja falta se ressentia, já que o mal produz mais danos no homem mau, empenhou esforços por cuidar-se, submetendo-se com disposição renovada a competente tratamento que o iria dignificar, auxiliando-o na recuperação.

Do recinto espírita foi conduzido a ambiente próprio, onde melhor se adaptaria ao programa novo de elevação, reaprendendo o dever e despertando para os empreendimentos legítimos.

Era natural que, sem a constrição do sicário, que possuía ascendência sobre Domênico e o martirizava, o paciente passasse a apresentar, para surpresa dos médicos e enfermeiros, expressiva melhora, que se acentuava a pouco e pouco.

Os vários anos da subjugação implacável deixaram danos graves.

O enfermo passou, então, das crises de alucinação ao mutismo e deste a momentos em que a loquacidade deixava transparecer lampejos de lucidez, que se acentuava.

Embora o afastamento da Entidade, que se atribuía autoridade de cobrança dos delitos, outros Espíritos desocupados e aturdidos, que completavam o quadro da obsessão, entre os quais Edmundo Matoso, passaram a receber caridosa assistência dos Instrutores interessados na recuperação do celerado.

Não que ele já houvesse expungido toda a culpa, mas os títulos de enobrecimento dos intercessores encarftados ou não, colocados a seu benefício, sensibilizaram os programadores do destino, digamos assim — embora cada um seja o autor da sua própria realidade evolutiva e do seu porvir —, facultando ao revel a oportunidade de, pelo amor e pelo bem que viesse a fazer, saldar as dívidas, mediante a liberação da consciência para as etapas ditosas do futuro.

Lentamente Cecília, Lídia, Arminda e outros trabalhadores espirituais enobrecidos deram curso à assistência especializada ao internado, interferindo psiquicamente no seu comportamento mental com energias regivorantes e inspirações contínuas, que funcionavam positivamente na recomposição da sua paisagem interior em desconcerto.

Roberto Domênico, apesar de não recordar, ainda, as cenas lamentáveis que culminaram na tragédia, começou a ter instantes de raciocínio com crises prolongadas de choro, num despertar da consciência para a realidade atual.

Os contatos com as balizas da objetividade faziam-se confusos ante os clichês mentais das lembranças da reencarnação anterior despertados pelos golpes da subjugaçao.. . Tudo, porém, favorável ao processo aa recuperação.

Mui difícil para ele uma conquista da saúde plena, tendo-se em vista o comprometimento da sua casa mental, do sistema emocional, que a sua reeducação, a esforço pessoal poderia, para maior conquista, contribuir mais tarde.

No momento, era o sair dos lôbregos sitios da alienação obsessiva para a porta da claridade psíquica, donde poderia vislumbrar os caminhos da realização espiritual e seguir adiante, se o desejasse...

Da surpresa inicial pelo incidente que, tecnicamente parecia provável em casos que tais, o médico de Domênico constatou que milagres também se dão, isto é, podem ocorrer e ocorrem inesperados resultados desconcertantes, nos alienados mentais irreversíveis, embora raras vezes, para os quais não têm os especialistas mais amplas explicações, exceto a constatação do próprio fato. Em razão disso, mandou, pela Diretoria do Frenocômio, notificar ao Curador e familiares do enfermo, quanto às persepectivas que se delineavam favoráveis para ele, passando a dar-lhe melhor assistência.

Entusiasmado com os resultados, prescreveu a terapia do eletrochoque, então em muita voga, numa série de seis, que esperava completaria o reajustamento do psicopata.

Sem nos adentrarmos na questão das vantagens ou prejuízos dessa terapêutica, que o paciente recebera aos primeiros dias de internamento e que mais lhe agravara o estado, levando-o à quase total hebetação — recordemos que o mesmo estava sendo seviciado, na ocasião, pelo perseguidor desencarnado e pelo açodar das reminiscências que o alucinavam — o eletrochoque, no momento, passou a auxiliá-lo do ponto de vista físico-psíquico e espiritual. . .

As Entidades levianas, que se demoravam em vampirizações esporádicas sobre o enfermo, colhidas pelo tratamento, em razão da sua ligação estreita com a organização somático-psíquica de Domênico, eram alcançadas pelas descargas elétricas sendo expulsas e tendo os liâmes rotos pela violência dos choques, que as atoleimavam, assustando-as. . .

Como prosseguissem os misteres da doutrinação aos demais ociosos que, irresponsáveis, se afastavam, porque desinteressados do processo de evolução, somente algum


tempo depois, Edmundo Matoso, mais inditoso que vingador, continuava desconcertando, a golpes de violência e azedume, o filho infeliz.

Nesse comenos, André, em minuciosa correspondência, deu conhecimento a Dona Maria Leonor quanto ao andamento da saúde do esposo, convidando-a a visitá-lo, já que, por estranho sortilégio, desde a sua breve estada com ele, se teria iniciado o processo de regressão do mal. . .

No carta, André não dissimulava de todo a mágoa que mantinha em relação ao irmão; dos receios que o assomavam em face dos prognósticos novos, inesperados.

A gentil senhora, que acompanhava, psiquicamente, o desenrolar dos acontecimentos sob a inspiração da sua mentora espiritual exultou, apesar do receio inicial experimentado, quanto a volta de uma convivência conjugal.

Ê certo que o amava, todavia, nestas circunstâncias, de uma forma superior, enobrecedora, sem os vínculos da atração física de que se libertara desde há muito. . Sem dar-se conta, fez um rápido escorço dos antigos sucessos e assustou-se. . . Imediatamente, recompôs a atitude mental, ante a presença da meridiana claridade da fé espírita que lhe lecionava conhecimentos bem opostos do imediatismo, do utilitarismo materialista. Mudando a linha de reflexões, considerou as vantagens da presença do pai ao lado dos filhos, das probabilidades dele simpatizar e aderir ao Espiritismo, completando a sua recuperação e dedicando-se ao bem do próximo...

André asseverava, na missiva, que o psiquiatra esperava conceder-lhe, a título experimental, a oportunidade de passar um fim-de-semana com a família, numa tentativa de reajustamento à vida social.

Não obstante ele fosse um criminoso sob pena, naquele Manicômio Judiciário, poder-se-ia tentar um recurso legal para a experiência terapêutica, ficando para posterior exame o comportamento da Lei a ser-lhe aplicado, caso recuperasse a saúde,..

A dedicada médium apresentou a epístola ao diretor da Casa Espírita, homem sábio e bom, que se lhe fizera verdadeiro irmão e conselheiro, alvitrando, o abnegado confrade, que ela deveria anuir a visitar o marido, ao mesmo tempo propondo-se acompanhá-la, já que a viagem se lhe tomaria fatigante.

Escrevendo ao cunhado, Dona Maria Leonor expressou a gratidão que a possuía, assinalando um fim-de-semana, quando se dispunha viajar à Capital, com o fim estabelecido de visitar o esposo e rever os demais familiares.

Ela granjeara o respeito, e depois, o afeto dos cunhados e sobrinhos.. . Sua humildade espontânea, decorrente da dor resignada, sua generosidade desinteressada, fruto da necessidade de crescimento espiritual aureolavam-na de um magnetismo envolvente e agradável que a todos cativava.

Agora, mais do que antes, o exercício correto da me- diunidade fizera-a granjear inúmeras afeições radicadas no Além, que a cercavam de fluidos restauradores, beneficiando os que dela se aproximavam.

Sem embargo, a artrite reumatoide prosseguia no seu curso constritor, cobrando as rudes pelejas malogradas no passado.. . Eram visíveis as deformações articulares, o edemaciamento dos membros inferiores e os movimentos por vezes lhe causavam dores lancinantes. Ela não reclamava, e não raro estava a sorrir... Conhecia as causas dos sofrimentos, espontaneamente gerados, que lhe cumpria carpir e o fazia através de uma atitude otimista, confiante, com que estimulava os amigos e “clientes”, eis que continuava no seu ministério de obstetra prática, no bairro pobre, inspirada e conduzida por Cecília e Arminda...

Confirmando a viagem, André prometeu-lhe ir buscá-la com as crianças e trazê-los de volta, desde que todos anelavam para que se demorassem um pouco com a família, refazendo-se da incômoda jornada.

Na data aprazada, em clima de festa para as crianças, o cunhado veio tomá-los, chegando à hora do almoço e viajando após a refeição e breve descanso, ao começo da tarde, a fim de alcançar o destino antes de colhidos pelas brumas das horas noturnas, na região das serras. . .

O inverno estava rigoroso, frio e úmido, o que aumentava o calvário da serva do Cristo.

A viagem, no entanto, foi calma, ante um céu de esplendente azul e um solo de capim crestado, em tons de ouro-velho, num contraste chocante com as árvores em cores verde-escuras, nas suas ilhas vegetais primitivas e vetustas.

Conversando, quando as oportunidades se faziam próprias, respondendo as perguntas amigas de André, a respeito da educação e instrução dos filhos, das suas lutas pela sobrevivência, da sua resistência a tão volumosas vicissitudes, o assunto, inevitávelmente, chegou às questões da fé, do espirito, da religião.. .

Dona Maria Leonor, sem qualquer alarde ou precipitação, narrou o desabrochar das suas faculdades mediúnicas, as visitas espirituais que recebia e sem minudenciar, expôs com tranquilidade honesta que abraçara o Espiritismo, em cuja fonte consoladora hauria conforto e esperança, coragem para viver e otimismo em relação ao futuro.

O familiar, interessado, propôs-lhe várias interrogações, que ela esclarecia com simplicidade e lógica, firmada nas elucidações de Allan Kardec, produzindo mui simpáticas reações em André.

Tudo quanto ele conhecia sobre o Espiritismo, eram informações eavilosamente deturpadas, inexatas, que primavam pelo absurdo, pelo ridículo ou pela chocarrice. Muito se admirou que este fosse uma Ciência de experimentação, uma Filosofia existencial e uma Religião calcada nos fundamentos básicos de todas religiões, principalmente estruturada no Evangelho de Jesus.

Suas informações ainda possuíam o contexto de que espiritista, médium, bruxo e feiticeiro eram uma só e a mesma coisa. Outrossim, que eram ateus e adversários da fé cristã...

Os esclarecimentos da cunhada, que lhe surgia numa performance nova, mais detentora de conhecimento do que ele julgava possuísse, ensejavam-lhe uma visão diferente. Com essas luzes encontrou resposta para interrogações que ele se fazia em tomo de vultos eminentes da Humanidade que, a partir do século XIX, passaram a interessar-se pelo Espiritismo, a estudá-lo e ate mesmo a tomar-se adeptos dessa Doutrina.

O tempo, com a conversação edificante, transcorreu célere, os quilômetros foram vencidos e a viagem fez-se agradável.

Os familiares de Dona Maria Leonor receberam-na com demonstrações de verdadeiro carinho.

Fazia quase um ano que ela estivera na Capital, quando da enfermidade da Senhora Lídia, que culminara na sua de- sencarnação.

As crianças facilmente se reuniram aos primos e, após a higiene e alimentação da noite, se integraram às brincadeiras por algum tempo, antes do repouso.

Após o café, na sala, André referiu à esposa a confissão religiosa da cunhada, demonstrando respeito e narrando sucintamente a conversação que mantiveram durante a viagem.

Zulma e familiares vieram ao lar do irmão a darem boas-vindas à viajante e filhos e, ante a informação, a palestra passou a girar em tomo da Doutrina dos Espíritos.

Lara os leigos no assunto fazia-se agradável e fascinante adentrar-se pelos comentários, mediante perguntas ingênuas umas, descabidas outras, mais sérias diversas.

As respostas, objetivas e sem floreios da sensitiva fortemente inspirada, caiavam fundo nos ouvintes. Para cada questão ela sobrepunha uma colocação lógica, bem fundamentada, sem fugir à tônica evangélica.

O Espírito Lídia, maternal, compreensivelmente emocionada pela felicidade que fruía naquelas circunstâncias, envolvia os filhos de ontem e de hoje numa mesma vibração, agradecendo a Deus a dádiva misericordiosa do momento significativo.

“Quando os homens assumirem suas responsabilidades religiosas — expôs, sem afetação, a visitante —, não as transferindo para sacerdotes e pastores, que nos são guias e amigos, não respondendo eles pelos nossos atos, mediante absolvição nem condenação, teremos modificada a vida social na Terra.

“O amor, que decorre de uma fé raciocinada, resiste às vicissitudes, emulando a criatura ao serviço da caridade fraternal, de que se enriquece, para prosseguir sem mágoas do passado nem tormentos de ansiedade para o futuro.

“Compreendendo a razão dos sofrimentos, graças à re- encarnação, toma-se mais fácil ao homem enfrentá-los e vencê-los, por adotar uma atitude otimista e confiante em relação à vida, assumindo uma posição dinâmica com que se encoraja para crescer e alcançar a meta prioritária da sua salvação. Entendamos salvação, aqui, como encontro consigo mesmo, paz de espírito, felicidade interior.”

Silenciando, desculpou-se de imediato, por estar palradora, aduzindo que isso se dava em razão do assunto ser tão interessante e absorvente.

Utilizando-se do momento breve de descontração, André inquiriu-lhe com gentileza, sem ferir diretamente o problema, que se detinha, muitas vezes, a meditar nos trágicos acontecimentos do passado, em sua família, não se conformando com o exame deles ante a justiça de Deus, conforme o ensino das religiões.

“Isto se deu — referiu-se, sem descaso —, porque era a vontade de Deus”, conforme lhe declararam alguns clérigos amigos. Como o Espiritismo elucidava a intrincada questão?”

  • Também a mim mesma fiz esta pergunta mil vezes - informou a médium com sinceridade. — Parecia-me um absurdo que a Divina Paternidade quisesse o nosso amor, nossa dedicação, utilizando-se de recurso e método tão arbitrários, escolhendo, ao acaso, aqueles que deveriamos sofrer-lhe a sanha injustificável. Desarmada, porém, dos conhecimentos hábeis para tanto, afligia-me, mas submetia-me a essa vontade, contando que deveria haver razões, que não estas, as quais me

“No excruciar das minhas dores físicas e morais, ao longo do tempo, não que me queixe delas, desde que as tenho na condição de abençoadas educadoras para a minha evolução, fui acometida de repetidos sonhos, nos quais generosa Entidade me afirmava haver sobrevivido à morte, não ser o túmulo o portal do nada e, consequentemente, que cada um é legatário dos seus próprios bens morais, não havendo concessões divinas especiais para uns, em detrimento dos outros.

“Inúmeras vezes sentia-me perfeitamente lúcida, nos estados oníricos, ouvindo e aprendendo, qual se estivesse sendo adestrada por mestra paciente, numa classe de formação cultural.

“Não saberia dizer por quanto tempo ou quantas vezes o fato se deu. A verdade é que nas horas mais angustiantes da aflição ou durante os labores de socorro às parturientes necessitadas, passei a ver e a ouvir com nitidez crescente o ser espiritual, que se me transformou em devotada benfei- tora de toda hora...”

  • Formidável! — exclamaram as senhoras presentes.
  • Lentamente — continuou, tranquila, a narração — fui aprendendo que, não sendo a morte o fim da vida, o nascimento físico não significava o começo da existência.. .


“Nesse ínterim, com a desencarnação de Dona Arminda, que me foi, na Terra, desvelada protetora e amiga, acen- tuaram-se-me as percepções e se amiudaram os diálogos com esses habitantes do Além, nem todos necessariamente felizes. . .

"Por orientação desses Espíritos generosos, passei a participar de uma Sociedade Espírita, onde me iniciei na leitura das Obras de Allan Kardec e outras que lhe são complementares, formando a convicção em tomo da justiça divina através dos muitos renascimentos corporais do ser espiritual, que na Terra encontra um educandário para o seu processo evolutivo."

A gentil senhora calou-se por um instante, a fim de coordenar as ideias, para uma resposta clara, simultaneamente sintonizando mais com os seus Amigos Espirituais.

André, preocupado, interveio:

  • Desculpe-nos estar cansando-a, sem lhe conceder repouso, após a jomada estafante.
  • Pelo contrário — redarguiu, sorrindo —, sinto-me renovada e disposta. A palestra edificante é tônico de réconforte para a alma.

O clima de jovialidade e respeito recíproco tomara favorável o ambiente à presença de Cecília, Arminda, Lídia e outros amorosos Instrutores Espirituais que participavam da conversação com vivo interesse, operando psiquicamente em prol do bem-estar, pela saturação do ar com fluidos revigorantes.

  • Detendo alguns conhecimentos em tomo da reencarnação — prosseguiu com naturalidade —, fácil foi aperce- ber-me de que não sendo as causas dos dramas vividos originadas no presente, estas se encontrariam no passado. Reflexionando mais detidamente, concluí que, somente assim — mediante as causas anteriores que fomentam as aflições —, se fazia verdadeira a Justiça, não deixando que o infrator fugisse de si mesmo...


“As almas, segundo esta teoria, renascemos em grupos, nos quais favorecemos afinidades e aversões, reunindo amigos ou separando-os, cujos resultados das nossas ações somos compelidos a defrontar em etapas futuras.

“A reencarnação é método de educação e reeducação, conforme o estado de cada aprendiz da vida. Cometido o erro, como ensinava Buda, este se toma semelhante a uma “sombra que acompanha o corpo”, constituindo uma mancha na alma, de que o réu se deve purificar. Normalmente o amor propicia a depuração, graças ao bem que se pode investir no próximo, ao auto-aprimoramento sacrificial, pelo esforço de renovação íntima. . . Quando tal não sucede a dor faz a sua parte, objetivando despertar o homem para a realidade mais nobre da existência, para a utilização do corpo e da vida com mais altas finalidades. Mesmo assim, nem todos se dão conta da oportunidade, e não poucos, rebeldes, em face ao desmedido orgulho de que dão mostra, mais se afundam no desespero, complicando o próprio estado, até que volvem ao palco humano, em rudes expiações de que se não podem furtar, aprisionados em limitações e dores excrucian- tes que os dobram, neles plasmando as necessidades evolutivas, a fome do progresso, o desejo da paz...”

Calou-se por um pouco.

Respirava-se a ambientação agradável enquanto se bebiam as suas palavras.

Logo depois, continuou:

— Os seres envolvidos em dramas infelizes, em tragédias, como em realizações de enobrecimento, reencarnamos juntos, ou nos voltamos a encontrar. Os primeiros, para se perdoarem, ajudando-se, mutuamente, amparando-se e se reabilitando dos gravâmes; os segundos, para darem curso às tarefas interrompidas ou iniciarem cometimentos superiores que resultem em benefícios gerais.. .

“É claro que nem todos se saem felizes, qual ocorre com um grupo de educandos que chegam juntos às provas parciais e finais, sendo avaliados, promovidos ou reprovados de acordo com o cabedal de conhecimentos e experiências que armazenou cada um no transcurso das aulas. .

"Muitos agravam o próprio estado, pelas paixões que os desequilibram, reincidindo nos gravâmes ou tombando em mais perigosos arranjos, que os infelicitam mais demorada- mente.

“Tudo, porém, sob o controle de Leis inelutáveis, justas, igualmente, para todos, e de vigilantes Operários do progresso humano que, da Espiritualidade, acompanham a marcha dos homens, gerando meios de apressar o crescimento moral da Terra e dos seus habitantes.

“Disse Jesus: — “Até os cabelos todos das vossas cabeças estão contados”, em feliz alegoria, ensinando que nada se encontra ao azar, ao abandono dos soberanos códigos que regem a vida.”

Sem parecer muito bem informada quanto ao passado espiritual da família, em especial, em tomo dos mais diretamente colhidos pelas ocorrências passadas, mantendo a discrição e humildade, a natural reserva e equilíbrio, que devem caracterizar os médiuns honestos, desinteressados de aplauso e eneòmios, ela fez as ilações doutrinárias à luz da reencarnação, com argumentos bem elaborados, que lhe eram ministrados pelos Espíritos presentes, respondendo às perguntas que melhor aclarassem o entendimento do assunto, deixando límpidas explicações que a todos contentaram.

Um entusiasmo espontâneo como decorrência dos ensinamentos vivos tomou conta dos ouvintes, que se não percebiam da hora, avançando sem qualquer controle.

O encantamento sadio sorria nos semblantes sem cansaço.

A Senhora Celina, esposa de André, interrompeu os entusiasmos com ligeiro lanche, convidando a concunhada ao repouso necessário.

O Consolador que Jesus prometera adentrava-se naquele lar, através da fé raciocinada e do amor sem disfarces de Dona Maria Leonor.

 

                   “0 AMOR — A CARIDADE — COBRE A MULTIDÃO DE PECADOS” 1 PEDRO: 4-8

No dia determinado, André e Dona Leonor dirigiram-se ao Sanatório.

O diligente psiquiatra recebeu-os com efusão de júbilos, considerando os resultados favoráveis da terapia com o eletrochoque em Roberto Domênico.

Asseverou que o paciente progredia surpreendentemente. É certo que uma assistência demorada fazia-se ainda necessária, já que, num mecanismo de defesa do inconsciente, ele parecia com amnésia em tomo da tragédia de que fora parte importante. O que se fazia de relevante magnitude era o seu estado geral, a lucidez mental, o interesse que demonstrava por inteirar-se dos acontecimentos, as indagações sobre a família...

O médico inquiriu dos familiares quanto à viabilidade de experimentar-se uma tentativa de reajustamento social, passando alguns dias no lar.

Ante o silêncio e aturdimento do cunhado, Dona Maria Leonor elucidou que muito lhe comprazia auxiliar na reçu* peração do paciente, estando, inclusive, disposta levá-lo à casa pelo período que se fizesse necessário.

Esclarecida quanto à medicação que lhe deveria ser ministrada e a um ambiente calmo, jovial, sem as emoções e choques mais violentos, convencionou-se que ela poderia vir buscá-lo após mais dois ou três dias.

Ato contínuo levou-a à enfermaria para o reencontro com o consorte. André escusou-se visitá-lo sob alegação de não se encontrar preparado para o cometimento, no instante.

O enfermo reconheceu, de imediato, a esposa, apesar do tempo transcorrido.. .

Ambos se encontravam muito marcados pelas dores suportadas na jornada de aflições. Ele se apresentava depauperado em forças orgânicas, macilento, a dentadura muito prejudicada — uma sombra do jovem sedutor, vigoroso, de alguns anos passados. Ela já claudicava, em face das dores, a cabeça prematuramente encanecida, os zigomas da face perfurantes. . Os olhos, todavia, eram dúlcidos, luminosos, pacificadores.

Domênico cerrou as pálpebras e deixou-se sufocar pelas lágrimas da surpresa, envergonhado, emudecido.

A um sinal do médico, ela tomou a mão do esposo nas suas e como se toda a vida se expressasse naquele momento de alta significação, envolveu o marido em uma onda de inefável ternura e falou-lhe, inspirada:

  • Aprouve à Divindade ofertar-nos estes instantes de real felicidade. . . Nada mudou. Modificaram-se as circunstâncias, em tempo e lugar, não o amor e o devotamento que nos unem.. . Tudo está bem.

Após alguns segundos de silêncio, prosseguiu:

  • Nossos filhinhos pediram-me abraçar-te por eles. Necessitas vê-los; estão crescidos, são inteligentes e gozam de muita saúde, o que me dá grande tranquilidade... São obedientes e dóceis, trabalhadores e amigos. Sentem a tua falta.. !
  • Lembram-se de mim? — indagou, a meia voz, o enfermo.
  • Como não?! jamais te olvidaram. Sabem que o pai está em tratamento e voltará ao lar de um para outro momento. Aguardam-te com ansiedade e júbilo. Ficarás feliz ao abraçá-los.

“Almiro parece-se muito contigo e Agenor tem as minhas características.”

  • Tenho vergonha de todos. . . Jamais sairei daqui, onde os demônios me lapidam em rudes pelejas. Sinto-me confuso, idiotizado...
  • Não é justa essa tua atitude.. . Agradece a Deus a tua melhora e à breve recuperação total. A lamentação e a queixa são borralho e ácido colocados na esperança e no espírito de luta. Ninguém é culpado por enfermar...
  • Eu sei. No entanto, eu sinto que algo muito pior do que a doença me trouxe para cá. . . Tenho uma recordação vaga, imprecisa...
  • O passado nunca é importante para quem dispõe do futuro pela frente. Pensa no amanhã, no nosso porvir, no dos teus filhos. Necessito, precisamos de ti. . . Sinto-me um pouco cansada...

A voz tinha uma melodia indefinível. Todavia, a extraordinária mulher não pertencia ao grupo dos que se permitem jeter le manche après la cognée[54]. Sua fibra cristã dava-lhe resistência para novos e porvindouros embates. Naturalmente que estava desgastada e disso se utilizava para emular o companheiro, auxiliando-o a sair da depressão.

Ele compreendeu. Viu-a em toda a sua grandeza, sentindo, então, um grande desejo, pela primeira vez, de reerguer-se, de recuperar-se para a luta.

Naquele comenos, Cecília ministrava-lhe o concurso de energias benéficas, refazentes, enquanto o Espírito Lídia orava com profunda unção.

Interrompendo o silêncio que se fizera natural, o psiquiatra, que acompanhava a cena espontânea, à margem, interveio, oportuno:

  • Que te parece, Domênico, passar alguns dias com a família? Estou certo de que a experiência te fará bem. cooperando com o teu reajustam en to social.

“É claro que deverás retomar ao Hospital para o prosseguimento da assistência especializada.

“A tua família está de acordo e anseia por ter-te em casa. Gostarias de tentá-lo?”

  • Sim, doutor. Tenho medo que me advenha uma crise com aqueles pesadelos horrendos...
  • Não creio que retomem. Já não se repetem há algum tempo, não é mesmo?
  • .. E se voltarem? Serei capaz de cometer algum crime contra os meus?
  • Não voltarão! Acontece, o que permitimos. Agora já podes controlar a imaginação, evitando tais estados alucina- tórios. (O médico, por ignorar a Doutrina Espirita, atribuía a perturbação mental do seu paciente, exclusivamente a fatores sócio-psicológicos e outros de disposição esquizofrênica. )
  • Quando isto se dará?
  • Dentro de dois ou três dias, ao tempo em que te recuperarás organicamente mais um pouco, de modo a poderes viajar com boa disposição física.

O obsidiado sorriu, deixando-se iluminar pela esperança.


Conversaram algo mais e despediram-se com espontaneidade.

O médico explicou a Dona Maria Leonor quanto à conveniência de não o conscientizar a respeito dos acontecimentos passados. O tempo se encarregaria de fazé-lo recordar. No momento próprio ele reagiría com disposição positiva, conquanto isso não se daria naquela oportunidade.

Ela o tranquilizou, calma e confiante, inspirando-lhe uma grande simpatia.

A irradiação psíquica da boa senhora gerava bem estar e amizade, envolvendo todos aqueles que dela se acercavam em psicosfera agradável.

De retomo ao lar de André, ela expôs as excelentes condições do esposo, explicando quanto ao esquecimento de que ele se via objeto em relação ao duplo homicídio. . .

— Confio em que os acontecimentos daquela noite trágica serão esclarecidos ainda e Domênico terá diminuída a culpa ! . . Não o inocento, já que estava presente na cena do crime. Todavia, sei que ele jamais assassinaria o pai...

André permaneceu silencioso, meditativo. Acolhera a animosidade contra o irmão por largos anos, sendo-lhe difícil liberar-se do azedume e da mágoa que lhe devotava.

Na intimidade doméstica, nas noites em que ali se demorou Dona Maria Leonor, o tema foi sempre o Espiritismo. O ar de mistério que envolvia, então, a palavra, cedeu lugar ao exame franco da questão e à conceituação mágica se colocou o posicionamento natural em torno das leis ignoradas, no entanto, existentes, a regerem a vida, sua mecânica, suas realizações.

À véspera da viagem quando deveria retomar à cidade de P., encerrando os agradáveis serões de edificação, a hóspede sugeriu que se reunissem a orar, suplicando ajuda para Domênico, no seu recomeço, e para aqueles que haviam, aparentemente, sido suas vítimas.

A solicitação foi bem recebida.

Sinceramente concentrados, Dona Maria Leonor rogou ao cunhado que exorasse as bênçãos do Criador, com o que o mesmo concordou sem maior insistência.

A rogativa, repassada de sinceridade, a todos sensibilizou, a ele mesmo emocionando até às lágrimas.

O ambiente, saturado de alto teor vibratório, estava repleto de Entidades ditosas, que participavam daquele culto de fé e amor, em que a família se unia para comungar com o Pai de todas criaturas.

Na pausa natural e na penumbra que se propiciara para a oração, Dona Maria Leonor, em transe espontâneo, por psicofonia, trouxe à família a palavra da genitora desencarnada, facilmente identificada ao proferir os primeiros conceitos, naquele inolvidável conúbio espiritual.

Após uma saudação carinhosa e nominal a cada um dos presentes, a querida Lídia, considerou:

— Jesus disse que “o seu reino não é deste mundo”, como a afirmar que felicidade plena e total não se encontra na Terra. E isto se justifica, por ser a nossa generosa mãe-Terra uma Escola de provações onde evoluímos sob a metodologia do sofrimento, por desconsideração aos currículos sábios do amor.

“Há, no entanto, ocasiões em que a felicidade nos domina, dando-nos uma pálida ideia do que será a dita perfeita, a que Ele se referiu. Esta é uma das oportunidades ditosas, em que a alma estua de júbilos, neste reencontro de vida, num estreitar de sentimentos, num destruir de obstáculos, preencher de abismos e fruir coragem na fé, para prosseguir de alma confiante.

“Onde a morte, meus filhos? Foi devorada pela vitória da vida, que prossegue em triunfo, após a destruição e a transformação do corpo...

“No mundo físico nenhuma dor se compara à da saudade do ser amado que parte no veículo da morte, deixando soledade e interrogações. O interromper das atividades, quando não se espera, apesar de sabermos que um dia ocorrerá, a sensação de incapacidade e fraqueza, de abandono e insignificância, levam os que amam ao desespero e à alucinação ante o cadáver de quem parece estar aniquilado... Não obstante, a plenitude da vida não se dilui na noite da partida, antes se engrandecendo numa madrugada feliz e sem brumas, na sobrevivência do Espírito.

“Morrer é, portanto, mudar de estado vibratório, saindo de uma faixa densa para outra mais sutil, mais vital que a anterior.

“Graças a esse deslindar de liâmes mais grosseiros o amor triunfa após o túmulo, reunindo as famílias, os amigos, os conhecidos num imenso clã de esperança e felicidade difíceis de explicar.

“Da mesma forma não destroi o ódio — que é o amor selvagem enlouquecido pela fúria do desequilíbrio — gerador de problemas e dificuldades de pequenos e grandes portes.

“Eis porque é tão importante a vida física, pelas oportunidades que enseja, pelas lições que doa, facultando a lapidação íntima da alma.

"No exaurir-se pelos testemunhos de amor o ser espiritual evolui e avança, crescendo para Cristo e Deus que a tudo presidem e amparam.”

A generosa Entidade silenciou, facultando que o seu pensamento fosse assimilado em profundidade, para logo após dar prosseguimento:

— Anelei por este momento, que reconheço não merecer, com todas as forças dalma. Orei, na esperança de lográ- -lo, sem desesperação ou pressa, e ao consegui-lo pela ní- mia misericórdia dos Céus, comovo-me de felicidade.

"Nenhuma força destroi o amor, porque ele é a matriz da Criação, donde o Pai retira a grandeza da Sua Obra. Não poderia, desse modo, estar fadado ao fim, à destruição, por ser alimento e vida em tudo e para todos.


“Imantados por ele, nunca nos separamos. Apesar de não nos encontrarmos circunstancialmente juntos, prosseguimos unidos, porque amando.

“Deste lar saiu, no passado, o cadáver, não a vida de quem jamais os deixou de amar. , Entretanto, em razão do nosso imenso afeto, fui em busca de Edmundo, que necessitava de carinho, a fim de ganhá-lo para Jesus, para a felicidade.

“Morrer não é transformar-se interiormente, quanto uma viagem não pode ser considerada como receita de modificação legítima. . . Cada um alcança a meta conforme é estruturalmente, em realidade.. .

“Para que a nossa alegria se fizesse plena, era necessário que ele participasse da mesma... O Senhor nos permitiu estar com ele e acenar-lhe o amanhã de bênçãos, que já começa.”

Houve uma nova pausa. Os ouvintes estavam sinceramente comovidos e sentiam em cada palavra a inesquecível senhora.

— Olvidar o mal — volveu à conversação edificante — com legítimo sentimento de perdão, constitui triunfo que a todos nos cumpre experimentar. O ressumar de evocações tristes conduz aos estados infelizes já vividos, fixando-os, desnecessariamente, nas paisagens do espírito, que se deve despojar de tudo que lhe é pernicioso para mais e melhor identificar-se com o pensamento divino em toda a parte.

“Quem engana aos outros a si próprio se engana, porquanto a consciência vigilante, mesmo que se demore por algum tempo anestesiada, recupera discernimento e impõe as “leis de Deus” que nela vigem...

“Como é certo que não devemos ser conivente com o mal, o erro, o crime, não nos permitamos ser o instrumento do escândalo.

“Favoreçamo-nos com a bondade e a misericórdia, a não violência, a caridade para com os outros, impondo-nos austeridade, retidão, disciplina e dever, que são caridade para conosco..."

Depois de novo intervalo, em que se sintonizava com a ideia ao bem, a mãezinha desencarnada, entretecendo outras considerações valiosas, concluiu:

— Nunca nos separaremos. Nosso amor é o sinal da nossa vitória, que deveremos repartir com o nosso próximo em carência, seja quem for e onde estiver.

“Acendendo a luz da compreensão fraterna, jamais caminharemos em solidão ou sob fardos de aflições insuportáveis.

“A oração será sempre para nós a doce linguagem de entendimento e união, quanto a caridade nos constituirá a ponte de perfeito intercâmbio, apontando-nos o rumo da recilidade plena que aspiramos.

“Rogando ao Senhor que nos enriqueça de paz, eu os abençoo em Seu nome, para mim própria suplicando Sua misericórdia.”

Silenciando a comunicação, o ambiente demorou-se dominado por indefiníveis vibrações de bem estar e emoções superiores.

Aquela noite se inscreveria na família como o marco de luz de uma vida nova.

No dia imediato, André, que assimilara o conteúdo da palavra da genitora desencarnada, seguiu ao Sanatório com I cunhada e os sobrinhos, a fim de conduzir Roberto Do- mênico ao lar, na cidade de P. conforme a recomendação psiquiátrica.

Superando-se a si mesmo e sobrepondo à inferioridade animal a força do espírito, atendeu ao irmão combalido com emoção e piedade, tornando-se-lhe cireneu gentil e anjo benfeitor da família em sofrimento.

“O amor — a caridade — cobre a multidão de pecados.”

 

                   CALVÁRIO ACIMA

No dia da viagem, possivelmente pelas emoções novas que o evento ensejava, Roberto Domênico não se encontrou em boa disposição psíquica. Foi acometido pelo mutismo em que se refugiava, numa atitude de fuga da realidade, como se a temesse, após os graves tormentos padecidos. Apesar disso, o psiquiatra instou para que a viagem tivesse curso. Ele pareceu não reconhecer a esposa nem o irmão, alhean- do-se dos acontecimentos, embora sem reagir a eles.

A viagem transcorreu silenciosa, exceto pela bulha das crianças que, não obstante recomendadas para que não inquietassem o pai com perguntas descabidas, já que o mesmo ainda não havia recobrado a saúde totalmente, nem por isso deixaram de abordá-lo. Num momento lhe apontavam a paisagem contrastante na variação dos tons verdes, ora lhe propunham inquirições.

Fosse como fosse, o genitor, sacudido pelo interesse dos dois jovens, rompeu a couraça em que se encarcerava e passou a participar da jornada para gáudio de todos.

Dona Maria Leonor, acostumada aos demorados soliló- quios da oração, havia permanecido em prece, enquanto André, mesmo sem trair uma atitude antipática, demorava-se retraído, discreto.

O lar modesto e agradável recebeu os viajantes, enquanto a anfitrioa lhe dava alguma ordem, auxiliada por Almiro, e preparava um ligeiro repasto.

Os irmãos, após as vicissitudes, não tinham uma boa disposição para o diálogo. Foi Roberto quem inquiriu sobre D. Lídia, sendo informado da sua desencarnação.

Os olhos se lhe nublaram de pranto e uma onda de tristeza lhe tomou o rosto magro.

Desejando auxiliá-lo, André falou da irmã, dos demais familiares, evitando recordar o genitor. Ato contínuo, expôs- -lhe o interesse de todos quanto à recuperação da sua saúde e da própria necessidade de retomar à Capital por impositi- vos superiores. Noutro ensejo, propôs, gostaria de recebê-lo no lar, para a alegria geral.

Domênico assentiu com a cabeça, deixando trair as emoções que o dominavam.

Felizmente, não poderiam ser-lhe facultados melhores recursos para o refazimento: o perdão das graves ofensas e o amor fraterno ensejando motivações para o recomeço.

Quando o cunhado retomou, após ter-se oferecido para auxiliar em todas as necessidades — Zulma procurara preencher as deficiências de roupas e agasalhos, tudo providenciando para que os familiares se sentissem amparados e atendidos —, inclusive deixando uma importância, que Dona Maria Leonor aceitou com muita relutância, a família passou a viver as experiências que lhe deveriam nortear o futuro.

Na tarde do dia imediato, o irmão Jacó, que dirigia a Sociedade Espírita, veio visitar o enfermo acompanhado de mais dois confrades, num gesto de espontânea fraternidade.

O Sr. Jacó Holback descendia de uma família alemã que se estabelecera na cidade há mais de cinquenta anos, e cujos membros haviam exercido grande influência na comunidade.

Seus pais haviam-se integrado na Doutrina, nos “tempos heroicos”, quando ouviram a verve inflamada de infatigáveis pioneiros que expunham a mensagem entre doestos e acrimô- nias, superando-se a si mesmos nas árduas lutas da verdade contra a ignorância e do conhecimento contra as sombras da intolerância. Nessa oportunidade, o periodismo exaltado facultava as polêmicas arrebatadoras com as quais os lídimos servidores do Evangelho reagiam às calúnias do despotismo religioso vigente e às suas agressões descabidas.

Cada época traz os lidadores próprios para os seus cometimentos e eles sempre estiveram em grupo, na Terra, no momento hábil das grandes mudanças.

Não receiam quaisquer problemas, entregando-se com afã até ao sacrifício da vida se se faz necessário. Arrojados, quão estoicos, entregam-se à luta, sacrificando conforto, honra e saúde com que se tomam os pioneiros dos ideais do enobrecimento e da libertação da criatura humana.

Armados pela fé que resulta do apoio da razão, sem o fanatismo detestável, mas dotados de uma convicção enobrecida, ampliam os horizontes mentais do mundo para a compreensão dos objetivos da existência, abraçados ao progresso, que apoiam e estimulam com as suas doações.

Sofrem perseguições sem queixa; experimentam combates sem quartel; padecem soledades e incompreensões sem remoques.. . Se sucumbem, fazem-no em holocausto de doação total, mas não cedem à intrujice nem à absurda dominação decorrente de qualquer arbitrariedade.

Porta-vozes dos veros ideais são a ideia do bem e do progresso humanizada nas suas carnes e alma. ..

... O Espiritismo, à semelhança dos grandes ministérios de libertação numana, que promoveram a aliança com a vida melhor e mais feliz da criatura, não ficaria sem esses vates, estros e herois da abnegação, da renúncia e da caridade.


Uns deram o testemunho silencioso entre lágrimas de fogo e com espículos que os crivaram de dores íntimas; outros se fizeram notabilizar pela dinâmica e coragem na pro- pugnação dos ensinos de que se tomaram apóstolos; diversos mais perderam tudo a fim de não se perderem, sem tergiversarem nem conciliarem desgraçadamente, permanecendo ignorados.

Não passaram, entretanto, esses tempos de heroísmo, porquanto a luta prossegue e é necessário que a luz do bem e do amor se sobreponha aos fogos-fátuos da impertinência, da jactância e da presunção.

O labor da família Holback, nos diversos ramos da comunidade local, se caracterizava pela honradez, por extensão pelo comportamento espírita de que davam inequívocas provas.

O Sr. Jacó, de temperamento dócil e alma humilde, fizera-se a esperança dos tombados e o apoio dos que estavam por cair. Suas mãos caridosas estavam sempre ricas de dádivas de amor com que a palavra gentil amparava a dor e o sorriso cordial animava o sofrimento a bater em retirada.

Possuidor de nobres títulos espirituais reencarnara-se para promover a Doutrina pela palavra e, sobretudo, pelo exemplo de que dava exuberantes provas de incontestável elevação.

Simples, modesto, conquistava ao primeiro encontro, exceção se faça àqueles que vibram e agem em outras faixas morais e mentais do processo evolutivo.

Apresentado por Dona Maria Leonor ao esposo, passaram-se minutos muito agradáveis, sem que se abordassem diretamente pontos doutrinários, para os quais não se podiam prever as reações do paciente. Temas otimistas e encoraja- dores foram discorridos em conversação afável de grande rendimento emocional para todos.

A pouco e pouco, sem afetação, nas oportunidades próprias, a dedicada senhora, deu ciência ao marido quanto às suas atuais convicções religiosas, esclarecendo com delicadeza as bases em que se fundamenta o Espiritismo e respondendo com simplicidade as perguntas que lhe eram propostas.

Explicou os motivos que a levaram a tal decisão, sem uma abordagem mais direta em tomo da mediunidade, antes aclarando que a necessidade de conforto moral e espiritual bem como de amigos dedicados, foram os responsáveis pelo estudo e reflexão aos postulados espiritistas.

No domingo, pela manhã, convidou o marido a participar da palestra, que teria lugar na Sociedade Espírita, acrescentando que os filhinhos eram habituais frequentadores do programa de evangelização para a Infância e a Juventude.

Para sua surpresa, embora sentindo-se canhestro, Roberto Domênico aceitou a invitação, acompanhando a família ao ministério doutrinário.

A oportunidade era dadivosa. Embora a discrição do Grupo nunca se aventurasse intromissão na vida da médium, os membros das atividades de desobsessão conheciam algo do seu e do drama espiritual do esposo. Com espontânea alegria íntima receberam o visitante, envolvendo-o em vibrações cordiais de entemecimento fraterno. O tema do dia referia-se à sempre atual “Parábola do bom samaritano”, de o Evangelho, assunto de amplas conotações morais e sociais que fluíam e refluíam na caridade, a inapagável estrela polar dos viandantes que transitam aturdidos pela via da amargura.

Após leitura do texto, como era de hábito na Casa, o irmão Jacó, visivelmente inspirado, entreteceu considerações muito felizes, que pareciam dosadas para o convidado Matoso.

Nous vaincrons quand mème’[55]— deveria ser um slogan para a criatura humana. Quando alguém se resolve pelo triunfo, as dificuldades constituem-lhe emulação de que se deve utilizar para avançar. Incompreensões, problemas são fenômenos naturais, na marcha de quem aspira pela paz e objetiva a felicidade em qualquer tentame. O homem é a luta que trava para a sua afirmação e triunfo.

O expositor colocou a questão muito bem, quando analisou a caridade do ponto de vista de quem ajuda, não indagando das causas que criaram o problema, nem fazendo um levantamento dos danos, antes amparando a vítima e pensando em como resolver as ocorrências futuras.

Por sua vez, o homem pilhado não se detém a relatar o insucesso, a considerar, lamentosamente, a desgraça. Aceita a ajuda sem condições, fazendo-se dócil ao socorro com que sairá da situação, a fim de prosseguir no afã dignificante da vida.

Muito importante que os pruridos de escrúpulos posteriores, portanto, inoportunos, não encontrem acesso nas mentes que despertam para o reajustamento, a reabilitação. 0 compromisso com a vida é o esforço empreendido pelo alcançar os resultados positivos.

Apesar de não poder acompanhar o raciocínio integral do pregador, Domênico se situava nas colocações apresentadas, renovando-se, beneficiando-se, em face da visão mais larga sobre a questão em pauta.

Ele não era o samaritano... De alguma forma sentia-se o salteador — como de fato! —, muito embora a ausência de acrimônia contra o bandido fosse uma ensancha para a sua reabilitação. Não se discutia que punição aplicar contra o criminoso, porém como auxiliar-lhe a vítima.. .

Tentando uma reflexão mais acurada — desacostumado a raciocinar com acerto — sem lográ-lo, adveio-lhe a ideia, naquele salão modesto e sem atavios onde se respirava o fluido da fé, de orar, de entregar-se a Deus.

Nunca tivera antes maiores experiências religiosas, que ultrapassassem a craveira comum do ritual tradicionalista, mesmo assim, apenas nos anos juvenis. Cerrou as pálpebras e tentou a oração dominical que lhe brotou do âmago da alma estúrdia, natural e generosa, como linfa que sai da lama, coada, cristalina.

A emoção auxiliava-o a encontrar-se, a encontrar Deus.

Nesse ínterim, porque se elevasse em pensamento, sua genitora e seus Amigos Espirituais acorreram pressurosos inspirando-o e desenovelando-o dos fluidos densos de que ainda se encontrava imantado, mentalmente intoxicado.

Num lampejo poderoso a memória despertou e ele recordou-se da cena do crime...

Foi sacudido pelo choque, qual se um projétil o alcançara, certeiro. Quis gritar, no entanto, a voz se deteve reclusa. Tremeu, acometido por forte mal-estar que o atordoava, sentindo-se execrável, odiento. . .

A esposa, que o seguia com discrição, segurou-lhe a destra, infundindo-lhe ânimo e apoiando-o. Ele voltou-se e defrontou-lhe o rosto sereno onde a ternura vicejava e a bondade falava sem palavras. Enquanto isso, energias bem aplicadas pelos Benfeitores Espirituais invadiam-no, acalmando-o, mantendo-lhe o equilíbrio.

Terminados os comentários evangélicos e encerrada a reunião, diversos companheiros vieram saudar a devotada trabalhadora e conhecer-lhe o esposo.

Nenhum alarde, curiosidade nenhuma.

Na Casa Espírita deve reinar sempre o espírito cristão disposto a ajudar. Os problemas das almas pertencem-lhes, não merecendo a exibição nem o comentário vão do próximo, destituído de significação útil.

Domênico estava abalado emocionalmente.

Como as saudações fossem breves e a este tempo as crianças já houvessem concluído seu mister, a família retornou ao lar.

Conquanto não estivesse em pauta a abordagem dos dramas passados, o paciente, muito sofrido, perguntou à esposa:

  • Como enfermei? Poderia dizer-me?

Sem fugir ao momento, ela respondeu:

  • Quando fui notificada, você já se encontrava doente.
  • Que aconteceu a papai?
  • Sabe-se como ocorreu a sua morte?
  • Não, exatamente. As autoridades policiais crêem que ele foi vítima de alguém que o roubou.
  • E o criminoso, não foi justiçado?
  • Não se sabe como aconteceu a desdita, portanto, não foi identificado o assaltante.
  • Se você soubesse...

Não concluiu a frase. Caminhava com alguma agitação, na sala das refeições.

A esposa, com muita calma, enfrentava a situação com a fibra moral que as circunstâncias exigiam. Não aditava esclarecimentos, não os omitia.

  • Eu não o matei! — Exclamou com desespero.
  • Sempre acreditamos na sua inocência.
  • Foi Etienne, a quem abati a golpes de uma acha de lenha, furiosamente. Tudo me voltou à mente, como se houvesse sido arrancado de uma sepultura. Quis evitar o crime, e fiz-me homicida. Que horror!...
  • Não se atormente, Domênico, haja o que tenha havido. Os largos anos de hospital funcionaram como o seu resgate pela morte involuntária do seu amigo. Confie em Deus. Agora tudo está bem e volverá à Louvemos a Deus pela felicidade de você não haver ferido a seu pai.


  • Nunca o faria... !

Deixando extravasar toda a dor que o fulminava, Roberto Doménico narrou à esposa os antecedentes do brimé e a sua execução. O móvel da invasão noturna, na Serraria e Madeireira era, apenas, roubo, mas o assecla pensava diversamente.

Como já do conhecimento do leitor, todos os detalhes foram expostos com ungido arrependimento, já que a espontânea confissão da culpa desalgema a alma de mais complexas desditas, roganao à esposa perdão e ajuda.

Banhado pelo suor e pelo pranto, ele atingiu o momento da loucura, quando investiu contra Etienne e explicou que mergulhara num estranho mundo de alucinação e dores, em que pesadelos infernais tomaram conta da sua mente.

A esposa o fez sentar-se e o impediu que derrapasse pela auto-exprobação e lamentos inoportunos, acalmando-o com palavras de fé e consolo.

  • Agradeçamos a Deus este momento de vida e de amor. Felizes somos quando despertamos para a realidade dos deveres e nos damos conta dos compromissos e realidades assumidos, que nos cumprem regularizar.

“Sempre soube intimamente que algo muito grave motivara as mortes, mas, também, que você era mais uma vitima das circunstâncias... Orei muito, rogando a Jesus a sua paz, a sua saúde e, consequentemente, a revelação dos insucessos, naquela noite fatal, acontecidos.”

Silenciou, emocionada, acariciando as mãos do esposo infeliz. Depois, adiu:

  • O que nos importa, agora, é o futuro. Deus o proverá. Quando lhe parecer próprio, você narrará ao médico o que ora me diz, a fim de que ele, informado, possa melhor ajudar-nos na conjuntura difícil. Sempre contaremos com o apoio de Deus e dos Bons Espíritos que velam por nós. Estou segura de que já estamos sendo agraciados por eles, esses anjos tutelares da Humanidade, que tudo empenham pelo progresso e felicidade das suas criaturas.

Roberto Doménico saía das trevas da loucura e da amnésia para as recuperações, calvário acima, na direção da paisagem de luz e paz.

 

                   MUDAM OS CENÁRIOS E VOLVEM AS MESMAS PERSONAGENS

Os dias transcorreram em clima de paz, considerando-se as oscilações no comportamento do paciente que, amparado pelo devotamento da esposa e a ternura dos filhinhos, conseguiu não reincidir na torpe alucinação, agora consciente dos trágicos acontecimentos de que fora responsável.

A segurança da palavra de Dona Maria Leonor infundia-lhe esperança no futuro e disposição para prosseguir nos embates aa elevação.

Concluído o prazo, retomou ao Sanatório, em companhia do irmão Jacó, que se lhe tomara amigo interessado na plena recuperação.

O médico constatou de imediato o acerto da providência, assinalando outra data para que retomasse à família.

Ao primeiro diálogo com o especialista, Doménico lhe narrou a tragédia, informando sobre as circunstâncias, nas quais lhe volvera a memória dos mesmos.

O Dr. Castelar era destituído de crença religiosa. Homem de excelente formação moral, preferira os filósofos cépticos do século XIX e as experiências científicas, na busca do esclarecimento para as incógnitas do ser e os dramas da coletividade humana.. . Não desconsiderava, todavia, o esforço das Doutrinas religiosas, quando destituídas dos dogmas e das arbitrárias imposições do seu fatalismo caótico.

Oportunamente travara breve contato com a Teosofia e o Hinduísmo, sensibilizando-se com a sua filosofia moral, embora reagindo a muitos dos seus postulados doutrinários.

O Espiritismo não lhe merecera qualquer exame, em face do preconceito geral contra “o Consolador”, fruto arraigado dos dois inimigos que se levantaram, no passado, para tentar-lhe obstaculizar a marcha: a calúnia pseudo-cultural, de que a mediunidade e síndroma de distonia emocional e psíquica, lançada por alguns acadêmicos apressados e a acusação religiosa de que em suas expressões práticas se exerciam cultos satânicos, de luxúria e demonopatas...

A experiência dos fatos, que mui facilmente pode desarticular as engrenagens de ambas impertinentes e improcedentes acusações, normalmente não é considerada, ficando muitas pessoas, digamo-lo honestamente, distanciadas, em face dos pressupostos absurdos, antes, todavia, por comodidade e conveniência cultural.

A sua observação acurada de muitos e contínuos fatos que tinham lugar no Sanatório, facultaram-lhe algumas interrogações, para as quais não encontrava resposta nos argumentos de então sobre o inconsciente, a memória genética, a telepatia, em que apoiava as suas teorias, que a ele explicavam os mais complexos fenômenos da meaiunidade intelectual como sendo de alucinações visuais, auditivas...

Por isso, ouviu Domênico narrar o tremendo crime com riqueza de detalhes, os motivos que o levaram a convidar Etienne para o furto, seus planos com o dinheiro e o desesperado gesto do cômpar desejando abocanhar tudo e assassiná-lo, após fazê-lo com o Sr. Edmundo Matoso...

O paciente revelava inaudito sofrimento moral ante o acontecido — que mais atestava a excelência da sua recuperação mental —, sem saber qual o destino que o aguardava a partir de então.

Compreensivo e profundo conhecedor da aima humana, o psiquiatra tranquilizou-o, assinalando que se encarregaria da parte legal junto ao seu Curador e às autoridades responsáveis pelo caso.

A convulsoterapia pelo eletrochoque resultara salutar para Domênico. Não olvidemos, porém, que Don Fernando, depois de afastado do seu verdugo, deixara o campo mental do mesmo em completa desorganização. Ao lado da assistência físio-psíquica da Ciência e a fluidoterapia procedente da cidade de P., em face do auxílio dos Mentores Espirituais, esses recursos constituíram os valores positivos para o retomo do enfermo ao reequilíbrio.

Quando se aliarem, sem as suspeitas que ainda dominam, a Ciência e a Religião; quando os profitentes de ambas se conscientizarem que demandam ao mesmo fim: que é a felicidade pessoal e a do seu próximo, resolvendo-se trabalhar juntos, cada um ofertando o seu melhor contributo, mudar-se-á a paisagem vigente, na Terra, em tomo dos problemas do enfermo mental.

Oxalá que não tarde muito, em se considerando o volume maciço de estropiados da razão, aturdidos da emoção e déambulantes do “corredor da loucura”, dependentes dos tóxicos e do sexo sem diretriz destes dias em que o homem, sentindo-se defraudado e carente de valores mais elevados, se deixa arrastar pelas enfermidades da alma e do sentimento.

Roberto Domênico volveu ao lar, nos dois meses consecutivos, demorando-se, de três dias a uma semana, revelando ótima disposição psíquica, tendo-se em vista a gravidade do seu caso.

O Dr. Castelar, mediante minucioso relatório, igual - mente examinado pelo diretor do Frenocômio, fez-se favorável à alta do paciente, outrossim, optando pela inimputabilidade do mesmo, em relação aos delitos, aos homicídios cometidos...

Reexaminado o caso, em face da judiciosa opinião do médico, e considerando inimputável, Roberto Domênico retomou ao lar, em definitivo.

Quase dez anos haviam transcorrido desde a noite lu- tuosa, num semelhante inverno passado.

André veio, pessoalmente, buscar o irmão e conduziu-o ao lar, onde a família o recebeu, agora melhor informada da ocorrência, de que o médico e o Curador deram ciência, com espírito cordial e alguma simpatia.

Em verdade, na partilha dos betts não havia expressiva parte que coubesse aos familiares Matoso, no entanto, André fez questão de orientar o irmão para que recebesse a quota que, por justiça, lhe cabia.

Diante dos familiares, o ex-enfermo, dando mostras de superior lucidez, elucidou que, no passado, derrapara no crime, em razão da desconcertante cobiça e da indolência infeliz que o comandavam. Não mais hoje isto se repetiría. A soma de sofrimentos que obrigara os familiares de um e do outro lado a experimentar, as suas terrificantes alucinações haviam-no predisposto ao bem.. . Quanto ouvira da esposa, frágil e enferma, em tomo do Cristo e da fé, compeliam-no a renunciar a quaisquer interesses a que, porventura, tivesse direito, desejando, somente, começar vida nova, renascer dos escombros, trabalhar... Que lhe não negasse a família a caridade da compaixão e da amizade de que muito carecia, a fim de ter forças para não reincidir nos males donde procurava agora sair...

André acompanhava a emoção do irmão disposto à dignidade. Mentalmente considerava o valor da crença racional que a cunhada infundira no esposo, o poder da argumentação pelo exemplo e da fé mediante os fatos.

Sem mais delongas levantou-se e abraçou-o de coração e espírito abertos, oferencendo-lhe o lar e o quanto necessitasse em qualquer conjuntura. Reportou-se ao amor que Dona Maria Leonor conquistara de todos pela sua fibra moral e nobreza diante da dor, da miséria econômica e da viuvez quase, no período em que ele esteve internado. Concomitantemente falou-lhe da gratidão por ela haver trazido àquele lar as dádivas do Espiritismo, nos serões do passado, conclamando-os a estudar a doutrina que vence a morte e toma a vida uma perene madrugada de bênçãos.

Do lado de cá, naquela confissão de propósitos, Dona Lídia conduzira o esposo desafortunado, para que ele, em se conscientizando das realidades lídimas da vida, mudasse de atitude interior em relação ao filho, perdoando-o, por fim.

O espírito Edmundo Matoso, atendido conforme as possibilidades, sentindo-se no reduto familiar, clarificado pela esperança e a luz do amor, a necessidade de serem esquecidos os dias maus para que tivessem início novos e abençoados períodos, não pôde sopitar o pranto, deixando-se pleurer à chaudes larmes[56].

As lágrimas nascidas no sentimento de renovação, que expressam as disposições de enobrecimento da vida, tém o poder de arrebentar as fortes represas da maldade, da paixão, do egoísmo para lavarem o ser, interiormente, predis- pondo-o para as realizações de enobrecimento.

As superiores disposições morais de Doménico não o dispensavam dos gravâmes cometidos e das pesadas responsabilidades que lhe sobrecarregaram na economia espiritual.

Ninguém tem, em circunstância alguma, o direito de destruir a vida do seu irmão.

A leviandade, o caráter reprochável, a indolência, no cumprimento dos deveres sócio-morais, abriram-lhe as portas à obsessão simples, em que açoitava a inspiração perniciosa dos adversários desencarnados, por ser ele próprio da mesma estirpe de sentimento.

A relutância contra o bem e os valores edificantes deixou-o, no passado, desarmado de forças para lutar e vencer as insinuações malévolas em que, afinal, se comprazia, facultando que se enredasse nas fortes malhas que o prenderiam na alucinação subjugadora.

Na conduta irresponsável nasceram as tramas obsessivas e as ocorrências desditosas futuras, foram o natural efeito do comportamento irregular, inicial. Os longos anos de manicômio não lhe significavam depuração dos delitos, antes um prosseguimento das desgraças engendradas e desencadeadas.

Uma débil rachadura numa represa responde pela insegurança da obra, quanto um pequeno erro de cálculo é responsável pelo desastre de qualquer projeto matemático.

Tributo pesado de reajustamento à ordem e à lei devem pagar os incursos nos seus soberanos códigos.

Toda a interferência favorável, que auxiliara o enfermo na programática da recuperação da saúde, fez-se-lhe débito a resgatar pelo amor e pelo sacrifício, nos quais deveria pautar a existência, o comportamento.

Não padece qualquer dúvida, que a ascensão exige volumosa carga de abnegação e de esforço bem dirigido.

O cometimento da renovação é tarefa de sacrifício.

Qualquer conexão com o erro onera o homem que, para libertar-se, deve percorrer a senda difícil que se negou vencer antes, ora agravada com os problemas gerados pelo abandono a que foi relegada e pelos pedrouços e espinhos deixados a esmo.

A aprendizagem pela dor é sempre mais penosa do que a realizada pelo amor.

Para Roberto Domênico as lutas ainda não haviam começado, no que diz respeito à sua recuperação.

Entre as muitas recomendações judiciosas feitas pelo dr. Castelar tinham primazia a do trabalho, evitando excessos,


naturalmente, mas sobretudo a hora vazia, que é causa de muitos males; uma periódica visita ao Hospital para um diálogo e o esforço por superar os infelizes transes do passado.

Para D. Maria Leonor os deveres conjugais lhe constituíam um grande esforço.

O tempo sublimara o amor pelo esposo, dele fazendo um irmão, no sentido profundo da palavra.

Cónscia das suas responsabilidades cumpria com todos os compromissos amparando e emulando o marido para os cometimentos porvindouros.

A princípio, ante a afetividade espontânea de todos, Roberto encontrava, na Sociedade Espírita, a extensão do lar.

Espírito fraco, passou a agasalhar as insinuações do desânimo, resvalando para a agressividade doméstica.

Os esforços conjugados da esposa, que lhe confidenciou estar em gestação, não lograram sustentar-lhe a coragem.

Etienne, desencarnado, que se recusava à renovação, encontrou no desafeto de ontem — quando personificando Mateo —, e de hoje — que o assassinara, alucinado —, oportunidade para perturbar-lhe a aturdida casa mental.

Dizia-se saturado das reuniões consoladoras, que se negava a assimilar, dando guarida à inspiração maléfica do inimigo espiritual.

Não que os Benfeitores Desencarnados deixassem de atendê-lo. Instavam, pela intuição, nos estados oníricos, pela palavra da médium excelente, para que permanecesse otimista, confiante.

Ele próprio, rebelde, quatro meses depois, tomara-se irascível, raiando pela brutalidade em relação à esposa e aos filhinhos que começaram a temê-lo.

Tenhamos em conta, que a aura de Don Fernando de Alcalá, igualmente o afetava, já que o mesmo retornava pela dádiva da reencarnação ao proscênio das provas terrestres.


A convivência com o antigo genro e a filha do passado deveria apagar todas as mágoas e dar início ao amor puro, em que o metal das almas se funde para amoldar-se às diretrizes divinas da destinação soberana da vida.

O irmão Jacó, convocado para auxiliar Domênico, dispôs a socorrê-lo com passes e a terapia da palavra con- tortadora.

Logrou conseguir um trabalho de emergência para o pupilo, objetivando reajustá-lo e reconduzi-lo ao exercício da oração.

O orgulho do antigo conde, que predominava no espírito aturdido, era-lhe, igualmente, um tremendo adversário.

Dona Maria Leonor viveu uma gestação dolorosa.

Não lhe faltaram o apoio, a devoção dos confrades e dos familiares, exceção feita ao esposo, que volvera a ser arredio, silencioso, ensimesmado, cultivando o azedume e a amargura.

Os familiares da Capital vieram visitá-los, trazendo-lhes presentes e testemunhando afeição.

Como Roberto Domênico se evadisse do lar, ao saber da presença deles, e, pelo silêncio da cunhada, André compreendeu o recrudescer das dificuldades. Possuía, agora, uma visão correta dos valores espirituais que dizem respeito às almas. Não entreteceu qualquer comentário nem se fazia necessário.

Os meses se dobraram sem alterações dignas de nota, além das silenciosas provas domésticas.

A délivrance, assinalada por lances de dor e inquietação, deu-se no lar, sob a assistência de um médico amigo e o carinho de Cecília.

Ante o evento, profundamente perturbado e desgostoso, Roberto Domênico Matoso ingeriu grande quantidade de aguardente, embriagando-se pela primeira vez, desde que saíra do hospital.


A Dona Maria Leonor estavam reservados muitos sofrimentos ainda, a fim de liberar-se dos gravâmes cometidos, quando se deixara empolgar pela louçania e descontrole moral, na personificação de Margarida..

Retomava, entre lágrimas de sofrimentos, ao cenário terrestre, Don Fernando de Alcalá y Concepción domo filho do antigo Don Hidalgo Meléndez de Aragón y dei Pilar, que passava a chamar-se Telémaco Matoso.

O passado volvia ao presente, buscando perspectivas de difícil paz e de improvável redenção.

 

                     RUMOS NOVOS E IMPREVISÍVEIS

Desde o começo não houve qualquer afinidade entre Telêmaco e o genitor. Este último sentia entranhada repulsa pelo filhinho dependente e frágil.

Não obstante ignorasse o impositivo reencarnacionista, que trouxera o antigo adversário ao palco das recuperações, as reminiscências inconscientes identificavam o desafeto apesar da roupagem nova. A seu turno, a criança era assus- tadiça, ansiosa, de compleição orgânica débil, incapaz de conseguir o sono tranquilo nas noites de refazimento.

Amado e atendido pela mãezinha vigilante, sobreviveu, mais nutrido pela ternura e auto-doação daquela, que o vita- lizava com as próprias energias, hauridas nos dulçurosos e constantes períodos de oração lenificadora, do que pelas próprias forças.

O tempo, antes que modificasse a situação, mais aumentava | área de recíproca antipatia entre o genitor e o filho, embora as instâncias da sofrida senhora, rogando ao marido apoio e paciência para com o pequenino.

A animosidade entre membros do mesmo grupo familial ou não, procede das vidas anteriores, quando os Espíritos se embrenharam nas lutas inglórias do ódio, do desespero e


du vingança. Não gerando a carne senão a carne, os Espíritos que habitam os corpos não procedem do mesmo clã donde se originam os pais, isto explicando as crueis desavenças familiares, as disputas encarniçadas dentro do lar, as exau- rintes pelejas que se transformam em lúrídas batalhas de consunção e de morte.

Filhos que odeiam pais e estes que detestam aqueles; irmãos que se antagonizam sem atual causa justa, como se justa fosse qualquer causa para que se esteja a brandir as armas das rixas e contendas; paixões enlouquecedoras entre irmãos ou reciprocamente entre genitores e filhos, que se transformam em luxúria e incesto; perseguições e suspeitas contumazes separando membros de uma mesma casa; descabidos atritos por coisas de somenos importância; crimes hediondos e dilaceradores se iniciam nas vidas pretéritas, que a reenearnação abençoa com oportunidades formosas de ^ reparação e olvido ao mal, à inimizade, mas que as fixações H caprichosas do egoísmo destruidor, teimam por crivar de v mais ácidas reações, até que as expiações pungentes se encarreguem de mudar as situações teimosas dos pugnadores infelizes.

Toda antipatia espera ajuda e todo ódio necessita do algodão do olvido, umedecendo na água do perdão.

Enquanto a resistência pacífica não assuma a diretriz V das vidas, soçobram as melhores naus em que se apoiem os À que tentam a vitória sem a renúncia e a paz sem a doação do bem.

O retomo de Don Fernando era concessão da mais alta magnitude do investimento divino, objetivando auxiliar aos partícipes dos velhos males, concedendo-lhes auspiciosas en- sanchas para a retificação dos desaires, ao mesmo tempo facultando a edificação da felicidade neles e à sua volta, com cujos resultados se enriqueceriam para tentames ditosos futuros.


Roberto Domênico insistia em não compreender a alta significação da oportunidade que desfrutava, reconheçamos, sem qualquer merecimento da sua parte.

A esposa, excruciada nas dores, era um exemplo que o comovia, não porém ao ponto de fazê-lo mudar de atitudes. Suas palavras, repassadas de sabedoria, alcançavam-no para, de imediato, esmaecerem, perdendo a tônica, o alento.

Ela instava para que volvesse ao médico e ele recalci- trava, afirmando estar perfeitamente bem. Não discutia acri- moniosamente, é verdade, refugiando-se na depressão ou evadindo-se do lar sem maiores explicações em busca de amigos do mesmo naipe.

Refugando a psicosfera alentadora e a convivência das pessoas que se edificavam no exercício de uma temática salutar, na Casa Espírita, volveu ao conúbio de Entidades viciosas, experimentando a constrição mental deletéria de Etienne, que lhe assenhoreava a sede psíquica a largo prazo.

Cecília e Dona Lídia insistiam na sua recuperação, sem resultados mais expressivos.

A esposa acolhia-o no carinho da prece e da doutrinação indireta, tentando alcançar os seres que o acompanhavam, todavia, a mente bloqueada pela indolência e dirigida pelas paixões inferiores revidava, negativamente, comprazenao-se na situação em que se demorava.

Todo processo de saúde tem, no paciente, o seu melhor colaborador. No que tange aos problemas morais e espirituais, não havendo violência por parte do bem, a cooperação do enfermo é de vital importância.

Se este se resolve pela luta da libertação, canalizam-se em sua meta os recursos mais valiosos a fim de que logre os resultados anelados. Se se nega a fazê-lo, embora toda a ajuda que lhe é dispensada, afasta-se da área de defesas e quando tomba, fá-lo por preferência nas fundas brechas da aflição, até que os imperativos do progresso, do qual ninguém foge, mudem-lhe os rumos a percorrer.


O calceta, por mais rebelde, não fica à margem da superior ajuda dos Céus.

As faculdades mediúnicas de Dona Maria Leonor eram- -lhe os lenitivos para os embates redentores. Pelo exercício da mediunidade correta, e o esposo não lhe opunha qualquer obstáculo, granjeava mais credenciais na caridade espontânea e na iluminação de consciências.

Roberto Domênico poderia ser considerado como o sedento que, à borda da fonte de água cristalina, se recusa sorvê-la, deixando-se arder na desesperação.

As crianças já auxiliavam no lar de maneira mais eficaz e os dois mais velhos, Almiro e Agenor exigiram que a mãe- zinha deixasse a costura remunerada, assumindo o compromisso de satisfazer as responsabilidades disso decorrentes.

Telémaco completara cinco anos e a situação prosseguia. Os irmãos atendiam-no com carinho e o genitor com desprezo.

Pela visão de profundidade a mãezinha identificava nele o antigo genitor, do período borjano de sua vida, e o amparava, amando-o com devoção.

Conhecia, quanto lhe era permitido, em razão dos créditos granjeados, as ocorrências passadas, afanando-se cada vez mais para ressarcir todos os compromissos que lhe sobrecarregavam a alma ora voltada para as tarefas do amor.

Lograra identificar, em Agenor, o antigo amigo Don José de Montoya, que lhe havia aclarado quanto às sandices do esposo, fator esse que, auxiliando-a na equação de muitos problemas, a levara à vingança desesperada... Compreendia, desse modo, a surda animosidade do rapaz contra o pro- genitor e a sua dedicação protetora para com ela.

O Bispo Santamaria, em comunicações muito dolorosas, fora trazido, repetidas vezes, à psicofonia atormentada, onde recebeu a caridade do esclarecimento e o perdão dos a quem tanto prejudicara... Preparava-se para o retomo sob altas


imposições que o limitariam, no corpo e na mente, a fim de meditar e aprender respeito pelas soberanas leis, como o amor às criaturas humanas, das quais iria depender e necessitar ...

De alguma forma, no lar, não faltavam o necessário nem o indispensável a uma existência digna. André fazia questão de auxiliar os familiares, não obstante os protestos da cunhada, e Domênico lograra, pela inconstância aos trabalhos que lhe eram conseguidos, tomar-se um biscateiro acomodado.

A enfermidade progredira na dedicada servidora de Jesus, dificultando-lhe a locomoção. Os compromissos, na Sociedade Espírita, em razão disso, foram diminuídos, a sua frequência limitada e, em breve, a cadeira de rodas foi a solução-paliativo para as circunstâncias.

Ela não reclamava, antes agradecia a Deus a situação, encontrando a forma de auxiliar os “filhos do Calvário”, que também o era, através da palavra de segurança, do esclarecimento correto.

O irmão Jacó fez-se-lhe o anjo guardião encarnado, participando da sua luta estoica e estando sempre presente no seu calvário de libertação.

Nesse ínterim, o esposo resolveu-se por tentar ajustar-se num lugarejo de população menos densa, onde, dizia, desconhecido, sem as marcas dos fracassos atuais, poderia recompor a vida.

Iniciou, viajando, adentrando-se pelo interior do Estado, situando-se em um lugar aprazível de temperatura mais amena, onde esperava propiciar à esposa alguma melhora.

À sua maneira atordoada e infeliz ele a amava.

Os Amigos Espirituais da dedicada médium deixaram- na decidir, em comum acordo com os filhos.

— Seria mais uma tentativa — expôs aos dois jovens - de auxiliar ao marido e pai, na aquisição da paz.


Não se descartava do dever de o amparar, embora não estivesse certa dos resultados positivos.

Cecilia lhe confidenciara que a taça de amarguras não estava esvaziada. Fazia-se indispensável, ainda, sorvé-la toda, com amor e paciência.

Os confrades e amigos, respeitando-lhe o livre arbitrio, não tentaram dissuadi-la. O irmão Jacó, emocionado, compreendendo a grandeza da abnegação da mulher cônscia das suas responsabilidades, anuiu ao seu propósito.

Ela escreveu aos familiares, na Capital, notificando as novas providências que tomava, na expectativa de resultados mais eficazes para a plena recuperação do esposo.

Algum tempo depois, a família se transferia para a cidadezinha de E., mais ao norte do Estado.

O local, na parte superior do planalto, era dotado de doce bucolismo e as suas gentes simples, o pequeno comércio em enflorescimento pareciam ser o ideal para o recomeço.

Graças às aptidões de que davam mostras, os rapazes lograram colocação, enquanto o pai se ajustava às possibilidades do trabalho rude que o aguardava ...

Com o precipitar do processo evolutivo a nossa enferma tinha cada vez mais agravado o estado de saúde.

Quando já se fazia difícil o esforço para acomodação na cadeira de rodas, tarefa que os filhos com entranhada dedicação haviam assumido, ela começou a preparar-se, emocionalmente, para a paralisia no leito.

Numa noite de maior soma de dores físicas e morais, quando Roberto Domênico, alcoolizado, agredira a Telê- maco, com oito anos, que o enfrentara, enraivecido, a ca- roável Cecília trouxe-lhe o sustento da palavra consoladora.

— Aqueles que assumem compromissos de libertação, marcham sempre calvário acima, buscando o aeume.

“Rogaste que todas as dores te chegassem, agora que conduzes no velador do coração a chama da fé abrasadora.


"Pediste que te fossem concedidas as oportunidades de amar entre dificuldades sem nome aos que normalmente receberiam repulsa e revide.

"Empenhaste os sentimentos na esperança de ajudar aqueles que, de algum modo, se atiraram aos lôbregos sítios do crime, em que também te encontravas.

“Quiseste que a dor fosse a presença de uma chaga viva em advertência, em silêncio, para não reincidires no erro.

"Suplicaste a maternidade para o antigo genitor de forças depauperadas, oferecendo o puro amor com que lhe edificarías a paz no imo ...

“Não estranhes, portanto, o forte aguilhão.

“A tua ! | parte da doação integral e plena, da renúncia sem limites e da abnegação contínua.

"A deles é o esforço pessoal pelo aproveitar o ensejo para a felicidade ou a ruína donde se devem evadir. Êxito ou queda são realização pessoal de cada um.

"Empenha, se necessário, a vida, mas não esperes um triunfo prematuro, que a ocasião não pode oferecer.”

Cecília silenciou, meditativa e prosseguiu:

— Os desatinos que hoje se convertem em pranto e dor demorados têm uma gênese profunda, complexa, antiga.

“Os acontecimentos em Borja, Saragoça e Madri são o prosseguimento de destrambelhos anteriores. Mudam-se as paisagens e prossegue o drama. Hoje tens a visão profunda e o entendimento da mensagem de Jesus, que te iluminam a existência, fazendo-te confiante de alguma forma feliz, porque desgraça é a falta da fé no coração e na mente e o impo- sitivo da marcha em plena tempestade.

“As almas são as suas forças.

"Jesus aludiu que “mais se dará a quem mais dá”, demonstrando que o único privilégio da vida é dar amor e distribuir caridade, a fim de receber paz.

“Os nossos pupilos têm recebido quanto está ao nosso alcance. Os celeiros divinos estão-lhes abertos de par em par. O uso que façam, pertence-lhes ao arbítrio próprio.

"Familiares, afetos e adversários são todos irmãos nossos, filhos de Deus, colocados em nosso caminho e nós no deles para o milagre da evolução.

"Os aparentes insucessos, que a precipitação possa considerar como fracassos são terapêuticas que os beneficiarão mais tarde. Por isso não lamentes nada. Ao infinito de Deus, tudo está certo, e assim deve ser, ao menos, na atual conjuntura.

“Não são perdidas as sementes do Evangelho que colocamos no solo das almas. Têm o seu momento de germinar, que não nos cumpre precipitar a hora.”

No intervalo que a Benfeitora fez, Dona Maria Leonor relacionou o último período com a difícil aceitação do Evangelho por parte do esposo, quanto de Telêmaco.

O filhinho, afável para com ela, reagia às lições doces da Boa Nova. Recusava-se a orar e não assimilava os ensinamentos pertinentes à humildade, ao perdão... De organização física débil mantinha, aos oito anos, um porte altivo, soberbo e reacionário à situação em que se encontrava.

Reagia à pobreza até à cólera e, periodicamente, lhe assomavam rudes alucinações ou crises semelhantes à epilepsia, quando contrariado nos caprichos de pequena monta.

Ela se sentira descoroçoar, mais de uma vez, na tentativa de falar-lhe sobre o amor e a simplicidade, o perdão e a doçura.

O seu olhar se fazia frio e penetrante, indiferente e longínquo, fazendo-a recear pelo seu futuro.

Todavia, insistia, repetia e não cedia no dever de ensinar-lhe corretamente o sagrado compromisso evangélico.

“O mundo tem ouvido oradores inflamados — continuou Cecília —, profligando o erro e o crime, porém, logo cessam os seus discursos tombam, eles próprios, nos delitos que combatem.

“Páginas de rutilante beleza são escritas com entusiasmo candente, todavia, seus autores, justificando-se como criaturas necessitadas, engrossam as filas dos desassisados.

“Rígidos observadores moralistas estabelecem linhas de comportamento ético lavradas na austeridade, na retidão, apesar disso resvalam, às ocultas, no desbordar das paixões que combatem.

“Há quem acuse, apontando as feridas morais que merecem extirpadas do organismo social, no entanto, se facultam outras enfermidades do sentimento, que neles vicejam dominadoras.

“Sobram palavras e escasseiam exemplos.

“Muitos discípulos do Evangelho almejam pelo martírio, em praça pública, antes por vaidade e exibicionismo do que por amor ao Crucificado sem culpa. A dedicação sem alarde e a abnegação sem aplauso da multidão fazem-se expressões positivas do lídimo martirológio dos tempos novos, testemunhados pelas almas que seguirão a Terra edificadas pelo exemplo dos que se dão ao Cristo, no Gólgota dos silêncios eloquentes.

“As dores enrijam as fibras da alma e fortalecem as disposições do sentimento.

“A grande meta a atingir: amar mesmo não amado, im- põe-te exaustão e esquecimento de ti mesma.

“Quanto mais rude a tormenta mais rápido cessam as forças do seu desgoverno.

“A carga de aflições que conduzes não significa abandono a que estejas relegada, e sim recordação de que não és esquecida.

“A fé não libera a alma dos resgates que lhe cumpre atender, como esperam e supõem alguns crentes apressados.

Ela é a fonte de energia e o dínamo de força, o penso que balsamiza a ferida e o conforto que ampara a coragem, não um mecanismo de evasão das responsabilidades ou documento para chantagear o equilíbrio da justiça.

“Assim, prossegue! O Senhor conhece o teu drama, as nossas necessidades. A tua é a Sua família amada e tudo Ele fará para que o êxito seja logrado, não do ponto de vista imediato e terreno, mas médiate e divino.”

A veneranda Amiga Espiritual adentrou-se em considerações outras, deixando a tutelada sob forte apoio moral e redobrado ânimo para enfrentar as vicissitudes. Ela compreendeu que lhe iriam recrudescer os testemunhos, entretanto, dando-se a Deus, aguardou-os com atitude confiante.

 

                     O ACUME DAS DORES

A indolência responde por males sem conto, na economia sócio-moral dos homens. A mente que se não fixa em responsabilidades e compromissos relevantes derrapa nas torpes acomodações do vício e da insensatez. Igualmente o corpo que se não deixa acionar pelas atividades nobres, que o mantêm dinâmico, amolenta-se na insana preguiça, dando guarida a distúrbios psicossomáticos de crescente degene- rescência.

Roberto Domênico, dando expansão ao temperamento ocioso caiu, inerme, em outro tipo de obsessão, mais penoso do que aquele do qual se liberara a penates de muito amor dos que o assistiam.

As libações alcoólicas permitiam-no não ter em que pensar, deixar de lutar, enfrentando as deficiências do caráter, para enfileirar-se no grupo dos lidadores em favor da própria paz.

Estabelecido o vínculo pernicioso entre a sua e a mente do desencarnado Etienne, dava-lhe campo, cedendo à urdidura do perverso còrnpar, responsável pelos danosos e trágicos acontecimentos passados.