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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


CAMINHO DOS CONDENADOS / Roger Zelazny
CAMINHO DOS CONDENADOS / Roger Zelazny

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

CAMINHO DOS CONDENADOS

 

   A gaivota levantou vôo perto dali, parecendo planar por um momento.

   Hell Tanner atirou a bituca do cigarro nela, um tiro certeiro.

   O pássaro soltou um grito rouco e, de repente, bateu as asas.

   Subiu aproximadamente quarenta metros e, se gritou uma segunda vez, nunca saberia.

   Desaparecera.

   Uma única pena branca balançava no céu, além da borda do penhasco. Descia bailando para o oceano. Tanner riu, através de sua barba, sob o rugido constante do vento e do martelar da ressaca.

   Então, tirou os pés do guidom, ajeitou-se no banco e trouxe sua motocicleta de volta à vida.

   Desceu lentamente o declive até a trilha, então aumentou a quase trinta milhas quando alcançou o asfalto. Inclinou-se para a frente e acelerou de novo. Tinha toda a estrada para ele, deu o máximo que a máquina podia dar. Ajustou seus óculos de proteção e olhou o mundo através das lentes baratas e coloridas, e que era muito bonito de se ver, mesmo sem elas.

   Todos os velhos pinos e ponteiras haviam caído de sua jaqueta e sentia falta do botton da suástica, da foice e do martelo e do dedo médio ereto, especialmente.

   Perdera seu velho emblema.

   Talvez pudesse conseguir outro lá em Tijuana, ou não.

   Melhor não.

Tudo aquilo já era. Seria traição e não duraria um dia.

   O que devia fazer era vender a Harley, ir para a costa, endireitar a vida e ver o que podia encontrar para si na outra América.

   Costeou uma colina e subiu rugindo outra.

   Rasgava o asfalto em velocidade através de Laguna Beach, Capistrano Beach, San Clemente e San Onofre. Reabasteceu em Oceanside e passou por Carlsbad e todas aquelas pequenas praias desertas que ficavam antes de Solana Beach Del Mar.

   Mas era fora de San Diego que o esperavam.

   Viu o bloqueio de estrada e virou. Não esperavam que pudesse reagir nessa velocidade.

   Mas agora estava se afastando. Ouviu os tiros de espingarda e continuou.

   Então ouviu as sirenes.

   Tocou sua buzina duas vezes em resposta e se inclinou.

   A Harley saltou pra frente.

   Continuou acelerando por dez minutos e não podia mais ouvi-los.

   Seguiu assim por mais quinze.

   Chegou ao topo de outra colina e viu o segundo bloqueio adiante, ao longe.

   Estava cercado.

   Olhou ao redor para as laterais da estrada e não viu ninguém.

   Então traçou um curso reto para o segundo bloqueio.

   Com sorte conseguiria passar.

   Aquilo não era bom. Havia carros alinhados cruzando a estrada inteira, até mesmo fora dela.

   Freou no último minuto possível, e quando sua velocidade estava correta, elevou a moto sobre a roda traseira, dirigindo direto para seus perseguidores.

   Havia seis carros vindo na sua direção e outras sirenes surgiram às suas costas.

   Freou outra vez, inclinando para a esquerda, soltou o acelerador e pulou do assento.

   A motocicleta manteve-se na direção, e então bateu no chão capotando.

   Ele ficou de pé e começou a correr.

   Ouviu o cantar dos pneus e uma batida.

   Então mais tiros de espingarda, e continuou correndo.

   Estavam atirando por sobre sua cabeça, mas ele não sabia.

   Queriam-no vivo.

   Após quinze minutos foi colocado contra um muro, o cercaram, alguns com rifles apontados na sua direção.

   Deixou cair a barra de ferro que pegara e levantou as mãos.

   “Vocês ganharam, cidadãos,” disse. “Façam o que têm que fazer.”

   E eles fizeram.

   O algemaram e o levaram de volta aos carros.

   O empurraram no banco de trás de um deles e um oficial se sentou de cada lado.

   Outro se sentou ao banco junto do motorista com a espingarda no colo.

   O motorista ligou o motor, engatou uma marcha, voltando para a rodovia 101.

   O homem com a arma virou-se e olhou fixamente com os bifocais que faziam seus olhos parecerem ampulhetas cheias de areia verde.

   Olhou direto para ele por talvez dez segundos e disse:

   “Aquilo foi uma coisa muito estúpida!”

   Hell Tanner olhava para trás quando ele falou.

   “Muito estúpida, Tanner.”

   “Oh, não sabia que estava falando comigo!”

“Eu estou olhando para você, filho.”

   “E eu estou olhando para você! Olá!!”

   Então o motorista disse, sem tirar os olhos da estrada:

   “Você sabe o que é ruim? Temos que te entregar em bom estado e olhe o que você fez, atirando a maldita motocicleta contra o outro carro.”

   “Ele bem que podia sofrer um acidente, cair e quebrar umas costelas” disse o homem ao lado esquerdo de Tanner.

O homem à direita não disse nada, mas o da espingarda balançou a cabeça concordando.

   “Nada vai te acontecer a não ser que você tente escapar. Los Angeles quer você em bom estado!”

   “Por que não tenta fugir, camarada? Você sabe que a gente te pega de novo.”

   Tanner grunhiu. “Por que vocês querem me pegar? Não fiz nada!”

   O motorista riu. “É por isso. Você não fez nada e eles querem que você faça uma coisa. Tá lembrado?”

   “Não devo nada a ninguém. Eles me deram o perdão e me deixaram sair!”

   “Você tem uma memória muito ruim, garoto. Você fez uma promessa à nação da Califórnia, uma promessa quando foi solto ontem. Já se passaram mais de vinte e quatro horas do prazo que pediu para resolver seus assuntos. Você pode recusar o trabalho e ter o seu perdão revogado. Ninguém está te forçando a nada. Você pode passar o resto da vida fazendo pedronas virarem pedrinhas. A gente não se importa. Ouvi falar que já tem gente pronta para fazer seu trabalho neste exato momento mesmo.”

   “Me dá um cigarro”, disse Tanner.

   O homem à direita acendeu um e passou para ele.

   Hell tragou e soprou a fumaça para o chão.

   Corriam pela auto-estrada, e quando atravessavam povoados ou encontravam trânsito, o motorista ligava as sirenes e as luzes vermelhas e azuis acendiam piscando no teto.

   Quando isso ocorria, as sirenes dos outros dois carros que seguiam atrás também gritavam.

   O motorista não diminuiu nem freou por todo caminho até LA e de tempos em tempos falava no rádio.

   Então ouviram um barulho como o estrondo da quebra da barreira de som; uma nuvem de poeira e pedregulhos caiu sobre eles como granizo.

   Uma pequena fissura apareceu no canto esquerdo do pára-brisas à prova de balas, e pedras do tamanho de bolas de sinuca acertaram o teto do carro.

   Os pneus fizeram um barulho de trituração ao passar sobre os pedregulhos que cobriam a superfície da estrada.

   A poeira era como uma névoa pesada, mas dez segundos depois haviam já saído dela.

   O céu estava ficando púrpura atravessado por linhas negras, de oeste para leste.

   Essas linhas sinuosas se uniam e formavam algumas figuras, movendo-se rapidamente.

   O motorista acendeu os faróis.

   “Tem uma das boas vindo por ai”, disse o homem com a pistola.

   O motorista assentiu:

   “Parece pior ao norte”.

   Surgiu um som, como um lamento alto, no ar acima deles, e as faixas escuras continuaram a alargar-se.

   O som aumentava de volume, perdendo sua qualidade aguda, transformando-se em um rugido constante.

   As linhas no alto tornaram o céu escuro como uma noite sem estrelas e sem lua e a poeira caía sobre eles em pesadas nuvens.

   Ocasionalmente um sibilo e um fragmento mais pesado golpeava o carro.

   O motorista havia ligado as luzes de fora e a sirene outra vez e pisava fundo no acelerador.

   O rugir e o som da sirene lutando um com o outro e distante, ao norte, uma aurora azul começaram a se espalhar pulsando.

   Tanner terminou o cigarro e o homem lhe deu outro. Todos estavam fumando com ele.

   “Sabe, você tem sorte da gente te pegar, garoto”, disse o homem à esquerda. “Você gostaria de estar empurrando sua moto através dessa coisa?”

   “Gostaria”, Tanner disse.

   “Você é maluco!”

   “Não, já fiz isso antes.”

   Quando chegaram a Los Angeles a aurora azul tomava metade do céu, tingida de cor de rosa com manchas amareladas que se pareciam com pernas de aranha.

   O rugido era ensurdecedor, uma coisa física que enchia os ouvidos e os deixavam zunindo.

   Assim que deixaram o carro e atravessaram o estacionamento em direção a um grande prédio com pilares na frente, tiveram que gritar para ser ouvidos.

   “É uma sorte termos chegado aqui” disse o homem com a pistola. “Vamos subir!”

   Seus passos tornavam-se maiores à medida que subia as escadas.

   “A gente podia ter quebrado a qualquer instante.” gritou o motorista.

   Assim que entraram no hall, o prédio pareceu ser um enorme pedaço de uma escultura em gelo com as luzes coloridas do céu brincando nas superfícies e criando sombras frias.

   Como se fosse feito de cera, esperando para derreter.

   Seus rostos e a carne das mãos sem cor, parecendo cadáveres.

   Apressaram-se para subir as escadas e um patrulheiro estadual deixou-os entrar pela pequena abertura na portas duplas de grosso e pesado metal que eram a entrada principal do prédio, trancando assim que eles passaram. Abriu o fecho do coldre ao ver Tanner.

   “Pra onde?” perguntou o homem com a espingarda.

   “Segundo andar”, disse o patrulheiro apontando a escadaria à direita. “Siga direto quando chegar lá. É um escritório grande no final do corredor.”

   “Obrigado.”

   Ali o rugido era consideravelmente menos agressivo e os objetos tinham recuperado sua aparência natural sob as luzes artificiais.

   Subiram e seguiram pelo caminho até encontrarem o escritório fechado.

   O homem com a arma disse para o motorista bater na porta.

   Uma mulher atendeu e começou a dizer alguma coisa, parando quando reparou em Tanner.

   Deu um passo para trás e segurou a porta.

   ‘Por aqui” ela disse, então foi até a mesa, pressionou um botão e falou:

   ‘Mister Fiske? Eles estão aqui e trouxeram o sujeito, senhor.”

   ‘Mande-os entrar.’

   A mulher os guiou para uma sala ao fundo, com as janelas cobertas.

   Um homem grisalho e corpulento, atrás da mesa de vidro, empurrou as costas contra o encosto de sua cadeira enquanto trançava seus dedos curtos frente ao queixo e os observava atentamente com olhos tão cinzentos quanto seus cabelos.

   Sua voz era suave e um tanto desagradável.

   “Sente-se” disse para Tanner, pedindo para que os outros esperassem do lado de fora.

   “O senhor sabe que este cara é perigoso, Mister Denton”, disse o homem com a arma, apontando Tanner que se sentava confortavelmente naquele instante.

   Persianas metálicas cobriam as três janelas do recinto e, mesmo que o homem não pudesse ver o lado de fora, podia imaginar o que acontecia devido ao som semelhante a metralhadoras disparando sem cessar.

   “Eu sei.”

   “Bom, ele está algemado. O senhor está armado?”

   “Sim.”

   “Ok. Estarei do lado de fora.” E deixou a sala.

   O homem chamado Denton aguardou até que a porta fosse fechada e disse:

   “Resolveu todos os seus problemas particulares?”

   Tanner fez que sim, então...

   “Qual diabos é seu primeiro nome? Os registros dizem...”

   “Hell” disse Tanner. “É o meu nome. Sou o sétimo filho e, quando nasci, a enfermeira me pegou no colo e perguntou ao meu velho qual era o nome que ele queria na certidão de nascimento. Meu pai disse, Hell (Inferno) e foi embora. Foi o que meu irmão me contou. Nunca encontrei meu pai para lhe perguntar se foi mesmo assim. Ele desapareceu naquele mesmo dia.”

   “E sua mãe criou os sete?”

   “Não, ela morreu algum tempo depois. Fomos criados por alguns parentes.”

   “Sei. Bem, você tem uma escolha, você sabe. Quer arriscar ou não?”

   “Afinal, qual é o trabalho?”

   “Sou o Secretário de Trânsito da Nação Californiana.”

   “E o que eu tenho com isso?”

   “Estou coordenando a coisa toda. Podia ser responsabilidade do Ministro da Saúde ou dos Correios, mas este trabalho vai de encontro à minha responsabilidade. Conheço a coisa melhor do que qualquer um, sei das particularidades...”

   “Do que você está falando?”

   Pela primeira vez, Denton fechou os olhos.

   “Bem, existe um risco neste trabalho...”

   “Ninguém nunca fez isso antes, exceto aquele maluco que nos trouxe as novidades e ele está morto.”

   “Eu sei” disse Denton devagar, “você acha que é um trabalho suicida, e provavelmente está certo; Nós estamos mandando três carros, com dois motoristas em cada um. Se qualquer um deles conseguir chegar perto o suficiente de Boston, será o bastante. Mas você não precisa ir, você sabe.”

   “Sei, estou livre para passar o resto da minha vida na prisão.”

   “Você matou pessoas. Poderia ter sido condenado à pena de morte.”

   “Não fui. Por que falar sobre isso? Ouça Mister, eu não quero morrer e nem quero ficar preso.”

   “Dirija ou não, é sua a escolha. Mas lembre-se, se escolher dirigir, tudo será esquecido. Você será perdoado e poderá seguir seu rumo. A Nação pagará pela moto que você roubou e destruiu e até mesmo pelos danos no carro de polícia.”

   “Grato.”

   O rugir do vento os fez lembrar do que se passava do lado de fora.

   “Você é um bom motorista” disse Denton, depois de um tempo. “Você já dirigiu todo veículo que possa ser dirigido. Até em corridas. Quando você era apenas um traficante, costumava ir mensalmente a Salt Lake City e são poucos os motoristas conseguem fazê-lo, mesmo hoje em dia.”

   Hell Tanner sorriu, lembrando-se de algo.

   “...e no seu único e legítimo emprego, só você conseguia levar o correio até Albuquerque. Poucos, depois de você ter sido demitido, conseguiram esse feito.”

   “Aquilo não foi culpa minha.”

   “Você também era o melhor na rota de Seattle.” continuou Denton, “Seu supervisor me disse. O que eu estou tentando lhe dizer é que, embora possamos escolher qualquer outro, é você quem tem a maior probabilidade de conseguir fazer o trabalho. É por este motivo que sou indulgente com você, mas não podemos esperar muito mais. É sim ou não, agora mesmo! E você parte dentro de algumas horas se for sim.”

   Tanner levantou suas mãos algemadas em direção à janela e disse:

   “No meio dessa coisa?”

   “Os carros estão preparados para vencer a tempestade.”

   “Cara, você deve estar louco.”

   “Pessoas estão morrendo enquanto estamos conversando.”

   “Alguns mais não vão fazer diferença. Não dá para esperar até amanhã?”

   “Não. Um homem deu a sua vida para nos trazer aquelas notícias. E temos que fazer esta jornada através do continente agora ou então não adianta mais. Com tempestade ou sem tempestade, os carros devem partir! Seus sentimentos não importam se comparados à situação. Tudo que quero de você, Hell, é uma palavra. Então, o que será?”

   “Quero comer alguma coisa. Faz tempo que eu não…”

   “Tem bastante comida nos carros. Qual é sua resposta?”

   Hell parou olhando para a janela fechada.

   “Ok” disse. “Vou fazer o Caminho dos Condenados por você. Mas não saio daqui antes que tudo esteja preto no branco, assinado no papel!”

   “Já está pronto!”

   Denton abriu uma gaveta e puxou um envelope de onde tirou uma folha com o carimbo da Nação Californiana. Deu a volta à mesa e entregou a Tanner.

   Hell leu com atenção por alguns minutos e então falou:

   “Aqui diz que se seu fizer a entrega em Boston receberei total perdão por qualquer crime que cometi neste país...”

   “Está certo.”

   “Aqui não inclui aqueles que talvez você não saiba e que podem aparecer mais tarde...”

   “Hell, está escrito, ‘qualquer crime’.”

   “Ok, gordão, você está certo! Tire estas algemas e me mostre meu carro.”

   O homem chamado Denton passou para o outro lado de sua mesa.

   “Deixe-me dizer mais uma coisa, Hell. Se você tentar escapar em algum trecho do Caminho, os outros motoristas tem ordens de disparar contra você e de queimá-lo até não sobrar nem as cinzas. Pegou a idéia ?

   “Sim. Isso significa que eu posso fazer a mesma coisa com eles?”

   “Correto.”

   “Pra mim está bom. Vai ser divertido!”

   “Achei que você gostaria.”

   “Agora, se você me soltar, tenho um trabalho a fazer.”

   “Não até eu acabar de dizer tudo o que eu quero.” disse Denton.

   “Ok, se vai perder seu tempo me passando sermão enquanto gente inocente está morrendo...”

   “Cale a boca! Você sabe que não se importa com esta gente! Eu só quero dizer que eu acho que você é o sujeito mais baixo que já encontrei. Você matou homens e estuprou mulheres. Arrancou os olhos de um sujeito apenas para se divertir. Foi condenado duas vezes por uso de drogas e três por exploração sexual. Você é um bêbado, um degenerado e acho que nunca tomou um banho desde que nasceu. Você e sua gangue aterrorizaram e molestaram gente decente que só queria tentar começar uma nova vida depois da guerra! Você roubou, espancou, extorquiu bens e dinheiro com ameaças de violência física. Eu queria que tivesse morrido naquela noite, como o resto do seu bando. Você não é um ser humano! Você tem um buraco aí dentro, onde as outras pessoas têm algo que as permite viverem em sociedade com os seus vizinhos. A única virtude que você possui, se é que pode se chamar assim, é ser forte, ter bons reflexos e saber dirigir qualquer coisa por qualquer parte. E é por isso que a Nação da Califórnia está perdoando sua desumanidade! Basta você fizer uso da sua virtude para ajudar e não para ferir alguém. Saiba que eu não concordo com isso. Não quero depender de você por que você não é confiável. Queria que você morresse nesta viagem, espero que alguém te mate. Eu te odeio! Agora você tem seu perdão. Seu carro está pronto! Vamos!”

   Tanner estava a menos de cinco metros de Denton, olhando para baixo e rindo.

   “Eu vou dar conta.” disse. “Se aquele homem de Boston conseguiu e depois morreu, eu vou conseguir e continuar vivendo. Já fui mais longe que isso, até Missus Hip.”

   “Mentira.”

   “É verdade. E tenho um pedaço de papel em meu bolso que diz “qualquer crime”, e eu gosto disso. Não foi fácil, mas eu tive sorte. Só eu consegui, ninguém mais. Bom, eu me garanto pelo menos pela metade do caminho. E se eu passar da metade, eu chego até lá.”

   Foram em direção à porta.

   “Eu não devia dizer isso... mas... boa sorte” disse Denton, “mas espero que se dê mal.”

   “É, eu sei.”

   Denton abriu a porta e disse “Deixem o homem ir. Ele vai dirigir!”

   O oficial passou a arma para o sujeito que havia dado cigarros a Tanner e puxou um pequeno molho de chaves do bolso da camisa.

   Abriu as algemas de Tanner, deu um passo para trás e as pendurou no cinto.

   “Vou com vocês, a garagem fica lá embaixo” disse Denton.

   Saíram do escritório, e a Sra. Fiske abriu sua bolsa e tomou um rosário em suas mãos e curvou sua cabeça. Rezou por Boston e rezou pela a alma dos mensageiros que partiam.

   Inclusive por Hell Tanner.

  

   O sino estava tocando. Seu bater implacável, ilimitado, enchia o quarteirão. À distância, outros sinos eram ouvidos, e juntos compunham a sinfonia do demônio que parecia estar lá desde o início dos tempos, ou pelo menos era o que parecia.

   Franklin Harbershire, presidente de Boston, engoliu seu café frio e acendeu seu charuto.

   Pela sexta vez, pegou o relatório de fatalidades, leu os últimos números e jogou-o na mesa, coberta com papéis cinzentos. Isso não era nada bom.

   Após setenta e seis horas sem dormir nada parecia fazer sentido.

   Ainda mais toda e qualquer tentativa de quantificar a taxa de mortalidade.

   Inclinou-se para trás em sua cadeira de couro, espremeu seus olhos fechados e abriu-os outra vez. Estava ciente que os quadros eram agora obsoletos. Tinham sido igualmente imprecisos no início e já era ruim ter tantos mortos não descobertos, ele sabia.

   Os sinos disseram-lhe que sua nação estava afundando lentamente na obscuridade que se encontra sempre uma meia polegada distante da vida, esperando a crosta se enfraquecer.

   “Por que você não vai para casa, senhor presidente? Pelo menos, tire pelo menos um cochilo. Nós cuidaremos das coisas pelo senhor.

   Piscou os olhos e olhou fixamente o homem pequeno cuja a gravata tinha desaparecido há muito tempo, junto com o revestimento escuro do terno, e cuja cara angular carregava diversos dias de barba por fazer. Peabody não estava lá há um segundo atrás.

   “Obrigado, Peabody. Eu não conseguiria dormir nem mesmo se tentasse. Eu sou assim. Não há nada para fazer a não ser esperar...”

   “Bem, então, o senhor quer um café?”

   “Sim, obrigado.”

   Peabody pareceu ter ido por somente alguns segundos.

   Harbershire piscou seus olhos e um copo do café fresco estava fumegando ao lado da sua mão direita.

   “Obrigado, Peabody.”

   “As estatísticas mais recentes acabaram de chegar, senhor. Parecem diminuir.”

   “Provavelmente um mau sinal. Há pouca gente para fazer o relatório, e menos ainda para apurar…. A única maneira de sabermos os números reais será fazer uma contagem dos vivos, se houver qualquer vida, quando tudo isso acabar, e então subtrair do que tínhamos antes. Eu não confio nestes quadros sem valor.”

   “Realmente, nem eu, senhor.”

   Harbershire queimou a língua no café.

   “Os motoristas devem estar prontos, a ajuda deve estar a caminho.”

   “Possivelmente,” disse Harbershire.

   “Então, porque não me deixa trazer um cobertor e um travesseiro? O senhor pode se deitar um pouco e dormir. Não há mais nada a fazer.”

   “Eu não posso dormir.”

   “Se quiser, posso encontrar algum uísque. Uns tragos poderiam ajudá-lo a relaxar.”

   “Obrigado, já tomei dois...”

   “Mesmo se os motoristas não conseguirem completar a missão , esta coisa tem que acabar algum dia, o senhor sabe.”

   “Talvez.”

   “Todos estão esperando. Finalmente chegamos à idéia de que se reunir é ruim.”

   “É.”

   “Alguns estão deixando a cidade.”

   “Não é uma má idéia. Seguir para as montanhas. Pode salvar seus pescoços, ou alguns dos nossos, já é alguma coisa...”

   Tomou um outro gole do café, morno desta vez. Estudou as estruturas da fumaça que se dobrava acima de seu cinzeiro.

   “E sobre a pilhagem?” perguntou.

   “Ainda continua. A polícia matou uma dúzia esta noite.“

   “É tudo que nós precisamos, mais mortes. Mande uma mensagem ao chefe. Tentem prendê-los, ou machuque-os somente, se possível. Deixe porém o público pensar que ainda estão disparando para matar.”

   “Sim, senhor.”

   “Eu queria poder dormir. Realmente, Peabody. Eu não posso agüentar muito mais...”

   “As mortes, senhor?”

   “Isso, também.”

   “Quer dizer a espera, senhor? Todos lhe admiram pela maneira que suportou…”

   “Não, não é a espera, raios!”

   Engoliu mais café e soprou uma grande nuvem de fumaça do charuto no ar.

   “São estes malditos sinos” disse gesticulando em direção à noite além da janela. “Estão me deixando louco!”

  

   Desceram para o porão, para o subsolo e para um nível abaixo dele.

   Quando chegaram lá, Tanner viu três grandes veículos prontos para partir e cinco homens sentados junto à parede.

   Um deles ele reconheceu.

   “Denny,” disse, “vem cá!” e foi na direção do jovem magro e loiro que segurava um capacete velho debaixo do braço direito.

   “O que diabos você tá fazendo aqui?” perguntou Tanner.

   “Sou o segundo motorista do carro três.”

   “Você tem sua própria garagem e está longe de problemas! Por que entrou nessa?”

   “Denton me ofereceu cinqüenta pacotes”, disse Denny, e Hell respondeu:

   “Droga! Não vai te adiantar nada se você morrer!”

   “Preciso da grana.”

   “Por quê?”

   “Quero me casar e vou precisar dele.”

   “Achava que você estava bem de vida.”

   “Estou, mas quero comprar uma casa.”

   “Sua garota sabe disso?”

   “Não.”

   “Eu sabia que não. Presta atenção: eu vou fazer isso porque é minha única escolha. Você não precisa disso.”

   “Isso quem sabe sou eu.”

   “Então vou lhe contar uma coisa. Dirija para fora de Pasadena, para aquele lugar aonde a gente ia quando era garoto, com as pedras e aquelas três grandes arvores, entendeu?”

   “Sei, me lembro.”

   “Na árvore grande, do meio, do lado onde eu entalhei minhas iniciais, conte sete passos pro sul e cave uns quatro metros. Entendeu?”

   “Entendi. O que tem lá?”

   “É meu tesouro, Denny. Você encontrar uma caixa de metal. Agora deve estar toda enferrujada. Pode abrir. Está cheia de canos de seis polegadas dentro. Estão selados nas pontas e dentro deles tem pelo menos 5 mil em notas. É dinheiro limpo.”

   “Por que está me dizendo isso?”

   “Agora essa grana é sua.”, disse Tanner, acertando um gancho no queixo de Denny.

   Quando ele caiu, Hell o acertou nas costelas, três vezes, antes que os outros o segurassem.

   “Idiota!” gritou Denton. “Você é um louco idiota.”

   “Hm-hm” disse Tanner. “Nenhum irmão meu vai para o Caminho dos Condenados enquanto eu estiver por aqui! Ache logo outro motorista logo, por que eu quebrei algumas costelas deste aqui. Se preferir, me deixe dirigir sozinho.”

   “Então você vai dirigir sozinho” disse Denton. “Nós não podemos esperar mais. Tem pílulas no porta-luvas para manter você acordado e é melhor tomar, porque se você tentar mais alguma besteira eles vão te queimar vivo. Lembre disso!”

   “Não vou esquecer, mister. Não se preocupe!”

“Melhor ir para o carro dois e colocá-lo na direção da rampa. Os veículos estão abastecidos e o compartimento de carga está na traseira.”

   “É, eu sei.”

   “E se eu vir você de novo, será por pouco tempo. Saia da minha frente, escória!”

   Tanner deu as costas para o Secretário de Trânsito da Nação Californiana.

   Alguns policiais estavam ajudando seu irmão e um deles saiu para buscar o médico.

   Denton fez dois times com os motoristas remanescentes e os mandou para os carros um e três.

   Tanner entrou na cabine, deu partida e esperou.

   Olhou para a rampa e imaginou o que estava por vir.

   Procurou no porta-luvas e encontrou cigarros.

   Acendeu um.

   Os outros motoristas posicionaram seus veículos blindados à frente e atrás.

   O rádio apitou e então uma voz foi ouvida.

   “Carro um pronto.”

   Uma pausa e então “carro três pronto” disse uma voz diferente.

   Tanner agarrou o microfone e apertou o botão lateral.

   “Carro dois pronto” disse.

   “Podem seguir!” veio a ordem e todos foram para a rampa.

   Uma grande porta foi aberta à frente deles e, então, entraram na tempestade.

  

   Sair de Los Angeles pela rodovia 91 foi um pesadelo.

   A chuva torrencial e as pedras do tamanho de bolas de basquete colidiam com o escudo do seu carro. Tanner ligara as luzes especiais. Usava óculos infravermelhos e a noite e a tempestade o maltratavam. O rádio muitas vezes apitava e então parecia ouvir um murmúrio de uma voz ao longe, porém nunca entendia o que ela dizia.

   Seguiram pela rodovia o mais longe possível e então os grandes pneus reforçados encontraram o caminho de terra que começava ao final da rodovia.

   Tanner olhou para o carro à frente e depois para o detrás.

   Seguiam pela velha trilha dos contrabandistas que traziam doce para os mórmons.

   Possivelmente, ele era a única pessoa viva que sabia disso. Possível, mas havia sempre alguém procurando por rotas de fuga em L.A. Era possível que mais gente soubesse.

   Um relâmpago caiu, não sozinho, mas em camadas. O carro tinha sido isolado, mas depois de algum tempo seu cabelo estava em pé. Achou ter visto um monstro Gila gigante, mas não poderia ter certeza. Manteve seus dedos perto do controle de disparo. Conservaria a calma até que a ameaça fosse iminente. No scanner retrovisor pareceu que o carro atrás dele tinha disparado um foguete, mas não poderia ter certeza: havia perdido todo o contato de rádio com eles assim que deixaram o edifício.

   A chuva que descia contra ele, lavava todo o carro.

   O céu parecia com uma carga de artilharia.

   Um pedregulho do tamanho de uma lápide caiu na frente dele, e mesmo assim ele passou por cima.

   Luzes vermelhas piscaram através do céu, do norte para o sul. Percebeu muitas faixas pretas indo do oeste ao leste. Não era um espetáculo encorajador.

   A tempestade podia continuar por dias.

   Continuou contornando um bolsão de radiação que não desaparecera por quatro anos.

  

   Chegaram a um lugar onde as areias foram fundidas em um mar vítreo, e ele reduziu a velocidade, observando adiante as crateras e as falhas.

   Mais três pedregulhos o acertaram antes que o céu se rachasse e abrisse, revelando uma luz azul e brilhante, quase violeta. Cortinas escuras rolaram para trás para os Pólos, e o rugir diminuiu.

   Um fulgor de alfazema permaneceu ao norte e um sol verde mergulhou no horizonte às suas costas.

   Desligou o infra-vermelho, tirou seus óculos e ligou as lâmpadas noturnas normais.

   O deserto já era ruim o bastante só por existir.

   Algo grande, parecido com um morcego, atravessou o túnel formado por suas luzes e se foi. Ele ignorou. Cinco minutos mais tarde fez uma segunda passagem, desta vez muito mais próxima, e soltou uma chama de magnésio.

   Uma forma escura, talvez dez metros, foi iluminada, e Hell deu-lhe dois disparos de cinco segundos das armas de calibre cinqüenta. A coisa caiu e não retornou.

   Para os novatos, aquilo era o Caminho dos Condenados.

   Para Hell Tanner, este ainda era o parque de estacionamento.

   Tinha estado ali umas trinta e duas vezes, e para ele o Caminho começava no lugar que antes era chamado de Colorado.

   Agora ele liderava os carros e a noite era como um abrasivo.

   Nenhum avião podia mais voar. Não desde a guerra.

   Nenhum avião poderia se arriscar acima de trezentos metros, o lugar onde os ventos começavam. Os ventos, os poderosos ventos que circundavam o globo, rasgando as partes superiores das montanhas e das sequóias, destruindo edifícios, matando pássaros, insetos e qualquer outra coisa que se movesse acima desse limite, os ventos que rodavam sobre o mundo, atando os céus com linhas escuras, ocasionalmente se encontrando, fundindo, deixando cair toneladas de dejetos onde quer fosse.

   O transporte pelo ar estava definitivamente fora de discussão em qualquer lugar no mundo.

   E estes ventos circundantes nunca cessavam.

   Em vinte e cinco anos (que Tanner lembrasse) nunca houve sequer uma melhoria.

   Tanner conduzia o comboio numa diagonal ao verde pôr do sol.

   Nuvens de poeira continuavam a cair, grandes nuvens, e o céu era violeta e então púrpura uma vez mais. Então o sol se foi e a noite veio com as estrelas que era pontos de luz muito distantes e fracos acima deles.

   Depois de um tempo, uma lua cor de rosa, pela metade, mostrou seu brilho e a noite tornou-se da cor de um copo de chianti diante de uma vela.

   Ele acendeu outro cigarro e começou a dizer maldições, lentamente, sem emoção.

   Encontrava seu caminho entre montões de entulho, rocha, metal, fragmentos de maquinaria, a proa de um barco. Uma serpente, tão grande e larga quanto uma lata de lixo, verde escura sob a luz dos faróis, atravessou o trajeto e Tanner freou o veículo com tudo que pôde. Talvez uns trinta e seis metros de serpente passaram perto antes de Tanner remover seu pé do freio e o tocar delicadamente em cima do pedal do acelerador.

   Olhando de relance para a tela junto da mão esquerda, onde prendeu uma tela infra-vermelha , pareceu ver dois olhos incandescentes dentro da sombra de um montão das vigas e de alvenaria.

   Tanner manteve a mão perto da tecla do disparo e não a tirou dali por muitos quilômetros.

  

   Não havia nenhuma janela no veículo, apenas as telas com vistas de cada direção, incluindo em linha reta acima e debaixo do carro.

   Tanner estava sentado dentro de uma caixa iluminada que o protegia da radiação.

   O “veículo” que conduzia tinha oito pneus preparados e dez metros de comprimento. Montados sobre ele, oito metralhadoras automáticas calibre cinqüenta e quatro lançadores de granada. Carregava trinta foguetes anti-blindados que poderiam ser disparados à frente ou num ângulo de até quarenta graus. Cada um dos quatro lados, assim como o teto do veículo, abrigava um lança-chamas. Lâminas de aço de dezoito polegadas de largura em suas bases e afiladas nas pontas podiam ser movidas através de um arco completo de cento e oitenta graus ao longo dos lados do carro e paralelo à terra, em uma altura de sessenta centímetros do chão.

   Podiam ser usadas como lanças durante um ataque.

   O carro era à prova de balas, com ar condicionado, e tinha sua própria unidade sanitária.

   Um .357 magnum cano longo foi preso por um grampo na porta perto da mão esquerda do motorista. Um 30.6, um .45 calibre automático e seis granadas de mão ocuparam a cremalheira acima do assento dianteiro.

   Mas Tanner mantinha, a seu próprio gosto, um punhal longo e fino da SS dentro da bota direita.

   Removeu suas luvas e limpou as palmas nos joelhos de sua calça de sarja.

   O coração perfurado tatuado nas costas da mão direita parecia vermelho na luz do painel.

   A faca que o atravessava era azul escura, com seu nome tatuado na mesma cor abaixo dela, uma letra em cada junta do dedo, começando na base de seu dedo menor.

   Abriu e explorou os dois compartimentos próximos, mas não encontrou nenhum charuto. Então esmagou seu cigarro no assoalho e acendeu outro.

   A tela adiante mostrava a vegetação, e ele diminuiu a velocidade.

   Tentou usar o rádio, mas não podia dizer se qualquer um o ouviu, recebendo somente a estática de resposta.

   Olhou fixamente adiante. Diminuiu mais ainda.

   Colocou as luzes dianteiras no máximo de intensidade e estudou a situação.

   Uma pesada muralha de arbustos de espinho estava adiante, alcançando uma altura de talvez quatro metros. Varreu com a luz sobre a sua direita e a sua esquerda, desaparecendo fora da vista em ambos os sentidos. Era densa, e também devia ser profunda, não poderia dizer. Não estava lá alguns anos antes.

   Moveu para a frente lentamente e ativou os lança-chamas.

   Podia ver na tela do retrovisor que os outros veículos tinham parado cem metros atrás dele e tinham escurecido suas luzes.

   Conduziu até onde poderia ir e não mais adiante e a seguir pressionou a tecla para a chama dianteira.

   Disparou uma língua de fogo, lambendo quinze metros e a manteve assim por cinco segundos e parou.

   Então disparou uma segunda vez e manteve-se afastado enquanto as chamas queimavam.

   Começou com um fulgor minúsculo depois espalhou lentamente à direita e à esquerda, crescendo em proporção e brilho.

   Enquanto Tanner aguardava afastado, teve que escurecer sua tela, o fogo espalhou-se por quase cinqüenta metros antes e mais cem e saltava dez metros no ar.

   A chama alargou, a trinta, quarenta… Enquanto Tanner estava longe, podia ver um rio do fogo fluir à distância e a noite brilhava.

   Prestou atenção no que parecia estar vendo, um mar derretido.

   Então procurou o refrigerador, mas não havia nenhuma cerveja.

   Abriu um refresco e o tomou enquanto olhava a queimada.

   Após uns dez minutos o ar condicionado ligou sozinho.

   Hordas de criaturas escuras, quadrúpedes, do tamanho de ratos ou gatos fugiam do inferno com seu pêlo em fogo.

   Eles o cercaram, chegando a cobrir a tela traseira e pôde ouvir o ruído das suas garras nas placas e no teto. Apagou as luzes e desligou o motor, atirando a lata vazia no lixo.

   Apertou o botão para reclinar o assento e encostou-se fechando os olhos.

  

   Foi acordado pelo som de buzinas. Ainda era noite e o relógio no painel indicava que havia dormido por quase três horas.

   Ajeitou o banco e se sentou. Os outros carros haviam se movido e um deles estava bem ao lado. Hell buzinou duas vezes e ligou o motor, acendeu as luzes dianteiras e vestiu as luvas.

   Muita fumaça ainda pairava sobre o campo e à direita, ao longe, ainda havia uma luz como se o fogo continuasse, distante. Num lugar antigamente conhecido como Nevada.

   Coçou os olhos e o nariz então tocou a buzina mais uma vez e engatou a marcha.

   Movia-se lentamente.

   A área queimada parecia nivelada sob os grossos pneus.

   Assim que entrou no campo negro suas telas foram obscurecidas por cinza e fumaça de todos os lados. Continuou ouvindo o som dos pneus sobre os restos queimados.

   Ajustou as luzes para o máximo de brilho.

   Os veículos que o flanqueavam ficaram oito metros para trás e ele diminuiu as telas para que não refletissem as luzes dos outros.

   Pressionou o acelerador e os carros atrás dele se distanciaram um pouco, fugindo da nuvem de cinzas que levantava.

   Seu rádio continuava a picotar sons, ouviu uma voz, mas não entendeu as palavras.

   Tocou a buzina e acelerou ainda mais. Os outros veículos o acompanharam.

   Dirigiu por uma hora e meia antes do fim do campo negro e das cinzas até voltar à terra. Quinze minutos depois estava rodando sobre o deserto novamente. Checou a bússola e apontou para o oeste. Os carros um e três o seguiam e ele dirigia com uma das mãos ao volante e a outra segurando um sanduíche de rosbife.

   Veio a manhã.

   Muitas horas depois daquilo, tomou uma pílula para manter-se alerta ao gemido do vento.

   O sol se erguia em um banho de prata à direita e três partes do céu eram de um cinza âmbar com linhas finas e escuras como teia de aranha.

   O deserto cor de topázio e a cortina marrom da poeira pendurada continuamente atrás dele, perfurada somente pelos oito pontos luminosos dos outros carros.

   Um tom róseo tomou o deserto enquanto o sol crescia como uma coroa vermelha brilhante e as sombras fugiram no oeste. Escureceu suas luzes enquanto passava próximo a um cacto alaranjado na forma de cogumelo de talvez quinze metros de diâmetro.

   Morcegos gigantes voavam para o sul e adiante, na distância, viu uma cachoeira descer dos céus. Foi antes que alcançasse a areia úmida daquele lugar, onde um tubarão morto jazia à esquerda, e algas, algas e mais algas, e peixes mortos jaziam por toda parte.

   Engoliu um frasco de água gelada e sentiu-a chegar em seu estômago.

   Passou por mais cactos, e um par de chacais sentados na base de um deles, prestando atenção. Pareciam rir. Suas línguas eram muito vermelhas.

   Enquanto o sol brilhava, escureceu as telas.

   Fumou e encontrou uma tecla que ligava a música ambiente.

   Checou os níveis de radiação lá fora e estavam apenas um pouco acima do normal.

   Da última vez que passara por ali estavam consideravelmente muito acima.

   Passou por alguns veículos abandonados, parecidos com o seu.

   Cruzava a planície de silício onde, ao centro, havia uma gigantesca cratera que ele margeava.

   O róseo do céu foi escurecendo cada vez mais até que um tom avermelhado o substituiu.

   As linhas negras continuavam lá e ocasionalmente tornavam-se um rio negro que despencava no leste. À tarde, uma dessas linhas eclipsou o sol por quase onze minutos.

   Quando partiu, deixou uma tempestade de areia em seu lugar e Tanner teve que ligar novamente as luzes e o radar.

   Sabia que havia um precipício em algum lugar à frente e antes de entrar na tempestade, tomou a esquerda por quase dois quilômetros antes que desaparecesse.

   Os outros veículos o seguiram e Tanner novamente fez uso da bússola.

   A poeira foi substituída por um vento forte e, mesmo com as telas com o brilho reduzido, Tanner colocou os óculos escuros para se proteger da luz refletida do sol no solo o qual atravessavam.

   Passou por formações que pareciam ser quartzo.

   Nunca havia parado para investigar no passado e não desejava começar agora.

   Uma luz espectral dançava na base destas formações refletindo a luz para bem distante.

   Afastando velozmente da cratera, chegava novamente onde as areias eram claras, depois marrons, depois brancas, depois traiçoeiras depois vermelhas.

   E mais cactus e enormes dunas de areia.

   O céu continuava a mudar até finalmente ficar azul como os olhos de um bebê.

   Tanner estava cantarolando por um tempo quando viu o monstro.

   Era um lagarto Gila, maior que seu carro e se movia rápido.

   Saiu das sombras do vale de cactus e veio correndo na sua direção; seu corpo brilhava com diversas cores ao sol, os olhos negros que não piscavam, movendo-se sobre suas pernas rápidas de lagarto, deixando uma nuvem de poeira atrás de sua cauda, que era grande como a vela de um barco grande e pontuda como um espinho.

   Não poderia usar foguetes, pois vinha lateralmente.

   Acionou as calibre cinqüenta e as lâminas enquanto apertava o acelerador até o chão.

   Quando se aproximou Tanner acionou o lança-chamas, mandando uma nuvem de fogo na sua direção. Os outros carros também abriram fogo.

   O monstro balançou sua cauda e fechou as presas e muito sangue foi ao chão.

   Então um foguete o acertou e ele foi atirado de lado, tombando sobre um dos carros.

   Fez-se então um som enorme de metal se retorcendo. Vinha do carro número um.

   Tanner freou, num cavalo-de-pau.

   O carro três fez o mesmo, alinhando-se ao seu lado até ambos pararem.

   Tanner saltou da cabine e correu até o veículo destroçado.

   Tinha o rifle na mão e atirou seis vezes na cabeça do monstro antes de se aproximar.

   A porta do carro um estava aberta, pendurada em uma única dobradiça inferior.

   Tanner viu os dois homens desacordados dentro do carro e havia algum sangue no painel e no assento. Outros dois motoristas vieram e olharam fixamente. Então o mais baixo dos dois rastejou para dentro e aguardou até escutar a pulsação e a respuração deles.

   “Mike tá morto” disse, “mas Greg está acordando.”

   Uma mancha começou a crescer no chão junto da traseira do veículo e continuou crescendo e crescendo e o cheiro de gasolina encheu o ar.

   Tanner pegou o cigarro da boca, apagou e guardou no maço.

   Podia ouvir o som dos tanques rompidos derramando combustível.

   O homem ao lado de Tanner disse:

   “Eu nunca vi uma coisa dessas... já tinha visto fotos, mas... nunca vi nada parecido com aquilo...”

   “Eu já” disse Tanner e então o outro motorista saiu das ferragens, puxando o homem que chamara de Greg.

   “Greg está bem. Só bateu com a cabeça no painel.”

   O homem junto de Tanner disse:

   “Leve ele com você, Hell. Ele pode te substituir, depois, quando estiver melhor.”

   Tanner riu e deu as costas para eles e acendeu o cigarro.

   “Eu penso que você não deve...” começou a dizer um deles.

   “Dane-se” disse Tanner e soprou a fumaça bem na sua cara.

   Greg tinha olhos e cabelos negros e era bem bronzeado, um tipo índio ou algo assim.

   Era tão grande quanto Tanner, mais de um metro e noventa de altura, mas não tão forte.

   Vestia um macacão de oficina.

   Greg ficou de pé, respirando profundamente.

   “Temos que enterrar o Mike”, disse o baixinho.

   “Detesto perder tempo” disse seu companheiro “mas…”

   Então Tanner atirou seu cigarro aceso, pulando quando o cigarro encontrou a piscina de gasolina que saia do carro danificado.

   O carro explodiu, chamas e mais explosões.

   Os foguetes armazenados explodiram e riscaram o céu de fumaça, tornando mais quente o ar da tarde. A munição das calibre cinqüenta explodiu em seguida, assim como as granadas de mão e Tanner se enfiou na areia cada vez mais, cobrindo a cabeça e os ouvidos contra o barulho e os destroços.

   Assim que a coisa toda acalmou, esticou sua mão para o rifle.

   Alguém apontava uma pistola para ele.

   Levantou-se lentamente com as mãos para o alto.

   “Maldição! Por que fez uma coisa estúpida dessas?” Disse um dos motoristas, o que apontava a pistola.

   Tanner sorriu e respondeu:

   “Agora não precisamos enterrá-lo. Cremação também é bom e já acabou.”

   “Você poderia ter nos matado se aquelas metralhadoras ou os lançadores estivessem apontados para a gente!”

   “Não estavam. Eu vi.”

   “Um pedaço de metal poderia... droga. Pegue a porcaria do rifle e deixe ele apontado pro chão. Tire as balas e ponha no bolso!”

   Tanner fez o que mandou enquanto o outro falava:

   “Você tentou matar a gente, não foi? Então ia porde fugir, como tentou ontem. Não é?”

   “É você quem está dizendo” disse Tanner “não eu.”

   “É verdade, eu sei. Você não dá a mínima para aquela gente lá em Boston.”

   “Minha arma está sem balas, cara” disse Tanner.

   “Volte então para seu maldito carro e vamos embora! Eu vou ficar bem atrás de você!”

   Tanner voltou pro carro. Ouvia os outros falando, mas não achava que atirariam nele.

   Quando estava prestes a entrar na cabine, viu uma sombra se aproximar.

   Era o homem chamado Greg, alto e calado, como um fantasma de macacão.

   “Quer que eu dirija um pouco?” Perguntou a Tanner sem nenhuma expressão no rosto.

   “Não, descanse. Estou bem. Quem sabe mais tarde, talvez, se você estiver legal.”

   O homem concordou com a cabeça e deu a volta para subir pelo outro lado.

   Ao entrar, reclinou seu assento.

   Tanner bateu a porta e ligou o motor.

   Ouviram o som do ar condicionado voltando a funcionar.

   “Quer recarregar isso?” Perguntou com o rifle numa mão e as balas em outra.

   O outro pegou o rifle e as balas. Tanner tirou as luvas e disse:

   “Tem um monte de refrigerantes na geladeira. Não tem mais muita coisa não.”

   O carro três estava se movendo.

   “É melhor a gente começar a rodar!” Disse Hell engatando uma marcha e tirou o pé da embreagem.

  

   Charles Britt estava ouvindo o sino. Seu escritório ficava na diagonal da catedral, do outro lado da rua e cada repique do grande sino fazia com que as paredes tremessem; contemplava o livro fiscal, que para ele havia perdido seu sentido e estava lhe causando apenas mal estar. Penteou uma mecha do cabelo branco para trás e ajustou os bifocais.

   Virou uma página do calhamaço e abaixou a cabeça para ler o rodapé.

   Perdas apenas.

   Se ao menos tivesse comprado uma farmacêutica.

   Patentes medicinais e aspirinas pareciam ser as únicas coisas que davam retorno financeiro certo. O negócio de roupas estava fora. Todos se viravam como podiam. O ramo de alimentos era suspeito. Ferramentas e material de reparo não tinham saída.

   Quem fazia reparos hoje em dia? Quem se importava?

   Soltou uma praga e virou a página.

   Ninguém estava trabalhando, ninguém estava comprando.

   Três cargueiros aguardavam no cais, incapazes de serem descarregados, por conta da quarentena.

   E a pilhagem? Tinha perdido três lotes para os malditos saqueadores. Era certo que as companhias de seguros encontrariam uma maneira de reembolsá-lo.

   Muito de seu dinheiro foi pelo seguro. Pelo menos a polícia estava atirando para matar aqueles saqueadores. Sorriu.

   Uma chuva leve lavou sua janela, escondendo a catedral além.

   Sentia um pouco de pena do pregoeiro debaixo de chuva, que gritava pelo quarteirão, competindo com o monótono chamado do sino da morte.

   Charles Britt fora uma vez também pregoeiro, muitos anos atrás, quando suas calças eram curtas e seus olhos não dependiam de lentes. Naqueles dias ele odiava a chuva.

   Ninguém estava usando dos seus táxis. Carros fúnebres e ambulâncias ficavam com todo o negócio e ele não possuía nem um nem outro.

   Ninguém estava comprando armas ou munição. Com a população reduzida, não havia gente o bastante para ser ofendida ou se defender.

   Ninguém ia aos seus cinemas, pois já havia drama o bastante para preencher a vida de cada ser vivo.

   E ninguém, ninguém mesmo estava comprando a última edição do seu jornal, edição especial, feita de forma heróica com um décimo do pessoal, para não mencionar o extra que pagara pela produção da coisa.

   A Edição da Praga saía com uma chamativa primeira página de bordas pretas, com um exclusivo artigo intitulado ‘A praga através da história’ escrito por um professor de Harvard, um artigo médico sobre os sintomas das pestes, deixando-o saber que variedade da praga estava o matando; seis páginas e meia de obituários, cem entrevistas de interesse humano, com pais, mães, irmãos e irmãs, viúvos e viúvas e um excitante editorial sobre os heróicos motoristas dos seis veículos que seguiam para a costa oeste.

   Quase chorava ao lembrar das pilhas de jornais envelhecendo nos estoques, para nada, tão inúteis quanto notícia velha, mesmo com a atraente primeira página de bordas negras

   A única coisa que ainda o fazia sorrir era a última pagina do livro fiscal.

   Ele conseguira colocar as mãos, no último minuto, em sessenta por cento dos caixões da cidade, duas floriculturas (que custavam caro para manter abertas) e algo como cinco mil sepulturas.

   ‘Compre na baixa’, sempre fôra sua filosofia, para não dizer sua religião, sexo, política e ética. De alguma forma, servia para equilibrar a situação, possivelmente não lhe dando nenhum lucro. Se a morte era o negócio do futuro, ele estava garantido.

   Aguçou a audição e ouviu novamente os gritos, meio abafados pelo sino.

   ‘…para serem queimados!’

   Aquilo o incomodava.

   Enquanto ouvia o anúncio ser repetido, lembrava-se do artigo exclusivo ‘A praga através da história.’ do professor de Harvard.

   As casas funerárias, hospitais e necrotérios ocupavam o papel das antigas casas sepulcrais. Naqueles tempos eles tinham que... sim.

   ‘...cremação em massa para evitar que a doença se espalhe’ gritou o garoto na rua.

   ‘Os seguintes lugares foram escolhidos e os mortos devem ser entregues nestes locais para serem queimados! Número um, O Parlamento de Boston...’

   Charles Britt fechou o livro, tirou as lentes e começou a limpá-las.

  

   Depois de quase meia hora o homem chamado Greg disse:

   ‘É verdade o que o Marlowe falou?’

   ‘Quem é Marlowe?’

   ‘O cara que está dirigindo o outro carro... que você está querendo nos matar? Você quer mesmo dar no pé?’

   Hell gargalhou e disse ‘É verdade, você está certo.’

   ´Por quê?’

   Hell ficou quieto por um minuto então falou:

   ‘’Porque não? Não tenho pressa de morrer. Quero viver um pouco mais.’

   Greg disse ‘Se a gente não conseguir, a população do continente pode ser reduzida pela metade.’

   ‘Se for uma questão de eles ou eu, prefiro que sejam eles.’

   ‘As vezes eu penso como é que existe gente como você.’

   ‘Do mesmo jeito que todo mundo, duas pessoas se divertem um pouco e então a confusão começa.’

   ‘O que eles fizeram com você, Hell?’

   ‘Nada. O que fizeram pra mim? Nada. Nada. O que eu devo a eles? Nada!’

   ‘Por que você fez aquilo com seu irmão?’

   ‘Por que eu não queria que ele fizesse uma idiotice como essa e acabasse morto. Algumas costelas quebradas podem ser consertadas. A morte é um problema mais permanente.’

   ‘Não foi o que eu perguntei. O que eu quero saber é porque se importa dele se dar mal?’

   ‘Ele é um bom garoto, é por isso. Ele tem um lance com uma garota, entende, e não consegue enxergar direito agora.’

   ‘E o que isso tem a ver com você?’

   ‘Como disse, é meu irmão, um bom garoto. Eu gosto dele.’

   ‘Como pode?’

   ‘Diabos, nós passamos por muita coisa juntos, é tudo! O que você está tentando fazer? Me analisar?’

   ‘Só curiosidade.’

   ‘Agora você sabe. Se quiser conversar, fale sobre outra coisa qualquer, certo?’

   ‘Ok. Você já passou por aqui antes, certo?’

   ‘Certo.’

   ‘O quanto você chegou na direção leste?’

   ‘Até Missus Hip.’

   ‘Sabe então o caminho pra lá?’

   ‘Acho que sim. A ponte para Saint Louis permanece lá.’

   ‘’E por que não a atravessou da outra vez?’

   ‘Tá brincando? A coisa está cheia de carros cheios de ossos. Não valia a pena!’

   ‘Pra começar, por que foi tão longe?’

   ‘Só pra ver como era lá. Eu tinha ouvido umas histórias e queria dar uma olhada...’

   ‘E como era?’

   ‘Um monte de lixo. Cidades queimadas, grandes crateras, animais esquisitos, algumas pessoas...’

   ‘Pessoas? Tem gente viva ainda?’

   ‘Se você puder chamar de gente... São uns selvagens fudidos. Usam trapos ou peles de animais ou estão nus. Me atiraram pedras e tive que matar dois deles. Então me deixaram em paz.’

   ‘Quando foi isso?’

   ‘Seis, sete anos atrás. Eu era só um garoto.’

   ‘Como você nunca contou isso pra ninguém?’

   ‘Eu contei. Prum monte de amigos. Ninguém me perguntou mais nada. A gente ia até lá, pegar umas garotas e trazer pra cidade, mas os caras amarelaram.’

   ‘E vocês iam fazer o quê com elas?’

   ‘Sei lá... transar e vender depois, eu acho.’

   ‘Caras como você faziam coisas assim, lá para Barbary Coast, vendiam pessoas, não é?’

   ‘Era. Antes da Grande Batida.’

   ‘E como você conseguia viver por lá? Achei que tivessem limpado o lugar.’

   ‘Cumpria pena’, disse Hell - ‘A.M.A’.

   ‘O que é isso?’

   ‘Assalto a mão armada.’

   ‘E depois que te deixaram sair, o que você fez da vida?’

   ‘Fui reabilitado. Me deram um emprego nos correios.’

   ‘Ah sim, ouvi falar. Não sabiam quem você era. Eles acharam que você era um cara legal, pronto para uma promoção. Então você acertou seu chefe e perdeu o emprego. O que aconteceu?’

   ‘Ele estava me enchendo por causa da minha ficha e sobre a minha velha gangue na Costa. Até que um dia eu disse pra ele se danar e ele riu, aí eu o acertei com uma cadeira. Arranquei os dentes da frente do filho da puta. E faria de novo.’

   ‘Isso é ruim.’

   ‘Eu era o melhor motorista que ele tinha. Ninguém mais fez a corrida de Albuquerque até hoje. A não ser que estejam precisando muito da grana.’

   ‘Você gostava do trabalho, quer dizer, quando trabalhava?’

   ‘É, gosto de dirigir.’

   ‘Você devia ter pedido uma transferência quando o cara começou a te encher.’

   ‘Eu sei. Se acontecesse hoje era o que eu provavelmente faria. Mas eu era bravo e costumava enlouquecer mais rápido do que hoje. Acho que estou mais esperto do que naquele tempo.’

   ‘Se você conseguir fazer esta entrega, pode conseguir de volta seu emprego. Já pensou nisso?’

   ‘Em primeiro lugar’ disse Tanner ‘Não acho que a gente vai conseguir. Em segundo, se a gente chegar lá e tiver gente viva ainda, seria melhor ficar lá do que voltar.’

   Greg concordou.

   ‘Esperto. Você seria um herói. Ninguém lá conhece a sua ficha. Vão achar que você é um cara muito bom.’

   ‘Que se danem os heróis’ disse Tanner.

   ‘Quanto a mim, vou voltar, se tudo der certo.’

   ‘Pra Cape Horn?’

   ‘Isso aí.’

   ‘Vai ser divertido. Mas voltar prá quê?’

   ‘Tenho minha velha mãe e um monte de irmãos e irmãs pra cuidar e tenho uma garota por lá.’

   Tanner acertou o brilho da tela conforme escurecia.

   ‘Como é a sua mãe?’

   ‘Uma boa senhora. Criou nós oito. Mas está sofrendo com artrite.’

   ‘E como você era quando garoto?’

   ‘Ela trabalhava durante o dia, mas cozinhava nossas refeições e algumas vezes nos dava doces. Fazia nossas roupas também. Contava histórias pra gente, como as coisas eram antes da guerra. Brincava conosco e quando conseguia, nos dava brinquedos.’

   ‘E seu velho?’ Perguntou Tanner depois de algum tempo.

   ‘Bebia de montão, teve vários empregos mas nunca batia em nós. Ele era legal, foi atropelado por um carro quando eu tinha uns vinte anos.’

   ‘E então você ficou tomando conta de todos?’

   ‘Isso. O filho mais velho.’

   ‘E o que você fazia?’

   ‘Peguei o seu antigo trabalho. Eu entregava o correio em Albuquerque.’

   ‘Tá me gozando?’

   ‘Não.’

   ‘Maldição! O Gorman ainda é supervisor?’

   ‘Aposentou-se ano passado por incapacidade.’

   ‘Maldição! Isso é muito engraçado! Olhe, em Albuquerque você ia a um bar chamado Pedro?’

   ‘Estive por lá.’

   ‘Eles ainda tem uma garota loira que toca piano? Margaret?’

   ‘Não.’

   ‘Oh.’

   ‘Tem um cara agora. Um gordo com um anel enorme na mão esquerda.’

   Tanner assentiu e acelerou assim que começaram a subir uma colina.’

   ‘Como está sua cabeça agora?’ perguntou quando chegaram ao topo e começaram a descer pelo outro lado dela.

   ‘Está bem. Tomei uma aspirina com soda.’

   ‘Sente-se bem para dirigir um pouco?’

   ‘Claro, posso sim.’

   ‘Ok. Tanner buzinou algumas vezes e freou. ‘Apenas siga a bússola por cem quilômetros e então me acorde. Certo?’

   ‘Certo.’

   Trocaram de assentos e Tanner reclinou o seu, acendeu um cigarro, fumou a metade dele e caiu no sono.’

  

   O sino abafava cada sétima palavra sua, mas desde que tinha dito suas palavras mais de sete vezes, nada foi perdido pelos oito ouvintes atentos que ocupavam os bancos à frente dele: cinco mulheres e três homens de idades diversas. Outros vieram, parando à distância próximos à luz da entrada, escutaram por um tempo, depois partiram apressados, debaixo de uma chuva leve que começava a cair. O que ele dizia não era uma novidade para eles.

   Seu colarinho de padre estava frouxo e tinha uma bandagem na mão direita que lhe parecia mais suja cada fez que gesticulava, o que era freqüente.

   Sua barba era recente, seu traje negro e tradicional.

   ‘As marcas estão no meu corpo...elas me dizem que meus dias estão...’ disse, seus olhos negros e úmidos como a noite e a chuva e brilhantes como a luz à entrada. ‘e eu digo que isso é o julgamento. Nós todos ...cada um de nós, homem...e criança, julgados aqui...os dias, culpados!... e isso causou esta coisa...sobre nós, podem estar certos disso! ...nada mais... Nossas vidas! E agora... fúria por aqueles… cada palavra… correndo como bestas... e a corrupção tornando os homens... com sete cabeças e sete chifres... quem vai... seguir... o final, os selos quebrados... os quatro cavaleiros... estarão aqui esta noite... para nos julgar, e somente... pode nos salvar... é a resposta! A verdade... pode ainda nos salvar... podemos...? Está em seus corações!’

   Ele baixou a cabeça, juntou as palmas das mãos, e continuou lutando contra o sino.

   ‘Quanto tempo mais? Quanto tempo mais? Ó meu…’ gritou ‘Até que a humanidade perceba que…’

   E os céus estavam cheios de sinais criptografados e indecifráveis, como aquela luz azul que saltava de um pólo a outro do planeta.

  

   Quando Greg o acordou já era noite. Tanner tossiu e bebeu um gole de água gelada e foi até a latrina. Quando voltou de lá, sentou ao assento do motorista e checou o contador de quilômetros e a bússola.

   Corrigiu o curso e disse ‘Chegamos em Salt Lake City antes da manhã. Se tivermos sorte... você teve algum problema?’

   ‘Não, foi fácil. Vi algumas cobras, mas deixei quieto. Só isso.’

   Tanner engrenou outra marcha.

   ‘Qual era o nome do sujeito que trouxe as noticias sobre a praga?’ perguntou Hell.

   ‘Brady ou Brody, algo assim’ respondeu Greg.

   ‘O que foi que o matou? Ele pode ter trazido a praga para Los Angeles, você sabe.’

   Greg mexeu a cabeça negativamente.

   ‘Não. Seu carro estava todo quebrado e ele deve ter ficado exposto à radiação por grande parte do caminho. Eles queimaram seu carro e seu corpo e todos que tiveram contato próximo com ele receberam injeções de haffikine.’

   ‘O que é isso?’

   ‘É o que estamos carregando, haffikine antiserum. É a única cura para a praga. Desde que foi descoberta, uns vinte anos atrás, nós a produzimos. Boston não, por isso está morrendo.’

   ‘Parece doentio, que a outra nação do continente, talvez do mundo, não tenha procurado se proteger.’

   ‘Provavelmente tentaram. Eles te deram umas injeções antes te soltar?’

   ‘Sim.’

   ‘Era haffikine.’

   ‘Fico imaginando como ele passou por Missius Hip. Ele não disse, não é?’

   ‘Ele mal conseguiu falar. Ficamos sabendo da coisa toda por uma carta que ele levava.’

   ‘Ele devia ser um motorista dos infernos para atravessar o Caminho dos Condenados.’

   ‘É sim. Ninguém nunca tinha feito isso, não é mesmo?’

   ‘Ninguém que eu saiba.’

   ‘Gostaria de ter conhecido este cara.’

   ‘Eu também.’

   ‘É uma pena não podermos nos comunicar através do rádio, como antigamente.’

   ‘Por que?’

   ‘Por que ele não precisaria ter feito isso e nós não estaríamos aqui. Devem estar mortos de qualquer jeito.’

   ‘Você pode estar certo, mister, e em um dia ou mais nós chegaremos a um ponto onde será mais difícil voltar do que seguir em frente.’

   Tanner ajustou o visor.

   ‘Olha aquilo!’

   ‘Não vejo nada!’

   ‘Coloque seu infravermelho!’

   Greg colocou e então viu.

   Morcegos. Enormes morcegos enchendo o céu sobre eles, como nuvens negras.

   ‘Deve ter centenas deles, talvez milhares.’

   ‘Acho que sim. Acho que tem muito mais deles do que quando eu passei por aqui anos atrás. Devem estar trepando por toda Carlsbad.’

   ‘Nunca vi isso em L.A. Talvez sejam inofensivos.’

‘Da ultima vez que estive em Salt Lake ouvi falar que eles foram coelhos. Algum dia, um de nós vai estar extinto, ou eles ou nós.’

   ‘Você é um cara encantador como companhia, sabia?’

   Tanner riu e acendeu um cigarro. ‘Por que não faz um café pra gente?’

   Greg encheu a cafeteira e a conectou no painel. Depois de algum tempo, ela passou a borbulhar e a assoviar.

   ‘Que diabo é isso!’ Tanner enfiou o pé no freio. O outro carro, dezenas de metros atrás também o fez. pegou o microfone e disse ‘Carro três! O que isso parece para vocês?’

   E aguardou prestando atenção naquilo.

   Elevando-se, as partes superiores afiladas que giraram entre a terra e o céu, balançando dum lado pro outro, varrendo o chão para a frente e para trás, aproximadamente um quilômetro adiante. Pareceu que haviam quatorze ou quinze dessas coisas. Agora pareciam colunas, e elas dançavam. Furavam a terra e sugavam a poeira amarela. Havia uma tempestade de poeira sobre elas. As estrelas acima delas não brilhavam ou desapareciam por detrás.

   Greg ficou olhando e disse ‘Ouvi falar de tornados, enormes, girando e girando, mas nunca tinha visto um, mas parecem do jeito que me descreveram.’

   O rádio fez um barulho e uma voz abafada do homem chamado Marlowe foi ouvida:

   ‘Diabos gigantes de poeira’ disse ‘Tempestades de areia rodopiantes. Sugam tudo para o cinturão da morte e não vi nada cair de volta.’

   ‘Já tinham visto um antes?’

   Não, mas meu parceiro disse que sim. Ele diz que a melhor coisa a se fazer é prender as âncoras e ficar por aqui.’

   Tanner não respondeu de pronto. Prestou atenção neles, pareciam crescer, ficando maiores.

   ‘Estão vindo pra cá!’ disse. ‘Não vou estacionar aqui e ser um alvo. Quero manobrar se for preciso. Vou tentar atravessar!’

   ‘Acho que não vai conseguir!’

   ‘Ninguém te perguntou! Mas se você tiver miolos, vai fazer o mesmo!’

   ‘Meus foguetes estão apontados para o seu traseiro, Hell!’

   ‘Você não vai atirar! Não por uma coisa assim, posso estar certo e você pode estar errado e você não vai atirar com o Greg aqui.’

   Houve um silêncio com estática e então ouviram:

   ‘Ok, você venceu. Vá em frente, nós vamos observar. Se você conseguir, nós te seguimos, senão, ficamos por aqui!’

   ‘Vou disparar o lança chamas quando chegar do outro lado’ disse Tanner ‘então você vão ver e farão o mesmo, ok?’

   ‘Ok.’

   Tanner desligou e olhou estudando as gigantescas colunas negras.

   Algumas camadas de luz rompiam a tempestade, e o ar era nevoento na obscuridade de seus troncos. ‘vamos lá’ disse Tanner acendendo todas as luzes no máximo.

   ‘Prenda as correias, menino’ e Greg obedeceu enquanto o veículo saltou para a frente.

   Tanner prendeu seus cintos de segurança enquanto avançavam lentamente.

   As colunas cresciam conforme avançavam, e ele pode ouvir o coro do vento cantando.

   Ele desviou do primeiro que tinha uns trezentos metros de largura e continuou à esquerda, evitando outro que vinha crescendo. Assim que o fez, surgiu outro e depois um espaço vazio de talvez duzentos metros à frente, à direita. Acelerou por ali passando entre duas torres semelhantes a pilares de ébano de cem metros de largura. Assim que o fez, um pneu quase foi rasgado e pareceu ter penetrado o habitar de um trovão eterno. Virou a direita e desviou de outro ainda acelerando ao máximo.

   Então viu sete outros, tomou o caminho entre dois deles e passou. Aquele que ficou para trás pareceu se mover e persegui-lo. Mais um outro veio à esquerda.

   Foi surpreendido pelos últimos quatro e freou, as tiras do cinto lhe feriam os ombros, e dois torvelinhos se chocaram violentamente. Um passou adiante e outro por trás e a frente do carro foi atirada pro alto.

   Hell apertou o acelerador de novo e ultrapassou os últimos dois, deixando-os para trás.

   Continuou por uns trezentos metros e então virou o carro sobre uma pequena elevação e estacionou.

   Acionou o lança-chamas em uma chama única, como uma estrela cadente, por quase meio minuto. Acendeu o cigarro e recostou-se esperando.

   O cigarro chegou ao fim.

   ‘Nada’, disse ‘talvez eles não puderam ver o sinal ou nós não conseguimos ver o sinal deles.’

   ‘Espero que sim’ disse Greg.

   ‘Quanto tempo você quer esperar?’

   ‘Vamos beber aquele café.’

  

   Uma hora se passou, e então duas.

   Os pilares começaram a enfraquecer, até só sobrarem três deles, bem mais finos.

   Moveram-se para o leste e sumiram de vista.

   Tanner disparou outra chama e ainda assim nenhuma resposta.

   ‘Melhor a gente voltar e procurar por eles.’ disse Greg.

   ‘Ok’.

   E o fizeram.

   Não havia nada lá, nada que indicasse o destino do carro três.

   A alvorada chegou antes de terminarem as buscas e Tanner virou o carro, checou a bússola e tomou a direção norte.

   ‘Quando você acha que chegaremos a Salt Lake?’ perguntou Greg depois de um longo silêncio.

   ‘Talvez em duas horas.’

   ‘Você teve medo lá atrás quando atravessamos aquelas coisas?’

   ‘Não. Mesmo assim, não me senti bem.’

   Greg concordou.

   ‘Quer que eu dirija?’

   ‘Não. Não vou conseguir dormir. Vamos abastecer em Salt Lake, conseguir algo pra comer enquanto um mecânico verifica o carro. Então, voltamos prá estrada e você pode dirigir enquanto eu descanso.’

   O céu estava púrpura novamente, com faixa negras.

   Tanner dirigia rápido.

   Disparou duas vezes o lança-chamas em dois morcegos que decidiram atacar o carro.

   Eles caíram e Greg lhe ofereceu café.

  

   O céu já estava escuro quando chegaram a Salt Lake City.

   John Brady, era seu nome, havia passado por ali alguns dias atrás e a cidade estava aguardando por um carro de resposta.

   Quase todos os duzentos habitantes da cidade apareceram na avenida e antes que Hell e Greg saltassem do carro no primeiro posto-garagem que encontraram, a tampa traseira do carro dois foi aberta e três mecânicos já verificavam o motor.

   Um deles veio falar com eles.

   Era baixo, queimado de sol e sujo de graxa, fazendo seus olhos parecerem mais brilhantes do que eram. Sorriu revelando os dentes encapados de ouro.

   ‘Olá, sou Monk’ disse ‘vocês devem ser os caras que vão pra Boston, não?’

   ‘É.’

   ‘Mandarei os rapazes verificarem tudo. Vai levar umas das horas. Quais são seus nomes?’

   ‘Sou Greg.’

   ‘Hell’ disse Tanner.

   ‘Hell?’

   ‘Hell’ ele repetiu. Onde podemos fazer um lanche?

   ‘Tem um restaurante do outro lado da rua. Mas julgando pela multidão lá fora, nunca vão chegar lá. Por que eu não mando um dos rapazes pegar algo pra vocês? Podem comer no meu escritório!’

   ‘Ok’.

   ‘Achei que iriam mandar mais do que um carro.’

   ‘Mandaram. Perdemos dois.’

   ‘Oh, sinto muito. Sabem, falei com aquele sujeito, Brady, quando esteve aqui. Disse que Boston havia mandado seis carros. Ele parecia bem mal, e seu carro parecia que tinha saído de uma guerra. O presidente pediu que ficasse, dissemos que poderíamos mandar outra pessoa fazer o resto do caminho. Mas Brady não quis ouvir. Ele disse que conseguiria e por Deus, conseguiu mesmo!’

   ‘Maluco’ disse Tanner.

   ‘Ele puxou uma arma quando tentamos levá-lo para ver um médico. Não deixou o carro. Eu acho que estava meio louco. Por isso, mandamos um carro dos nossos atrás dele, para garantir que ele entregaria a mensagem.’

   ‘Que carro?’ perguntou Greg.

   ‘Ele não...?’

   Greg fez que não, com a cabeça.

   Monk puxou um maço de cigarros do bolso do peito do macacão. Ofereceu aos outros antes de tirar um para si e acender.

   ‘Achava que o nosso mensageiro tinha conseguido.’

   ‘Só o Brady chegou’ disse Grag ‘mais ninguém.’

   ‘Como está Brady?’

   ‘Morto.’

   ‘Seus escudos estavam em mau estado quando revisamos seu carro’ disse Monk ‘o sujeito ficou irado quando tentamos entrar. A gente queria que ele pegasse outro veículo, mas ele nos apontou a arma. Por Deus, ele levaria aquele carro até o fim, mesmo quente pela radiação. Então tentamos arrumar os escudos, mas não era fácil descontaminá-lo tão rápido. Quando saiu daqui, parecia estar sentado em um forno. Foi por este motivo que mandamos Darver... vamos entrar no escritório.’ fez um gesto apontando uma porta verde.

   ‘Hei, Ruivo!’ chamou. Um rapaz ruivo deixou de trabalhar no pára-choques e se aproximou, limpando as mãos num pano com gasolina.

   ‘Que é, Monk?’

   ‘Vá se limpar e depoisvá até o outro lado da rua. Traga para estes rapazes um café da manhã. Estaremos no escritório.’

   ‘Ok. Cadê o dinheiro?’

   ‘Pegue cinqüenta na caixa registradora e deixe uma nota.’

   ‘Certo!’ disse antes de ir.

   Assim que entraram no escritório, Monk fechou a porta e puxou algumas cadeiras.

   ‘Sentem-se, fiquem à vontade.’

   Fechou a veneziana, cortando a visão de quatro caras que espiavam pela janela.

   ‘Queria desejar-lhes melhor sorte’ disse ‘Caras, vocês deviam ter visto o estado do tal de Brady quando chegou aqui!’

   ‘Tudo bem’ disse Greg ‘não precisa ficar nos lembrando disso’.

   ‘Desculpe. Não quis… você sabem…’

   ‘Tá bem. Vamos falar de outra coisa!’

   Tanner riu e soprou a fumaça do cigarro em forma de anel.

   ‘Acha que vai chover hoje?’ perguntou.

   Greg abriu a boca e então a fechou e engoliu o que quer que fosse dizer.

   Monk levantou uma beirada da persiana e espiou pela janela.

   ‘Um par de policiais está mantendo o pessoal lá fora’ disse ‘ e tem outro carro chegando, pode ser o presidente, mas não estou bem certo.’

   ‘O que ele quer?’ perguntou Tanner.

   ‘Dar boas vindas e desejar sorte, eu acho’.

   Greg puxou uma cadeira e sentou-se.

   ‘Qual é a desse presidente?’

   ‘Que se dane!’ disse Tanner.

   ‘Somos celebridades’ disse Greg.

   ‘Quem precisa disso?’

   ‘Não faz nenhum mal.’

   ‘Sim, é o presidente’ disse Monk soltando a veneziana ‘vou lá fora falar com ele. Ele estará aqui num minuto.’

   ‘Eu prefiro que venha a comida.’ Completou ao ver Monk sair.

   ‘Por que você é assim desse jeito?’ reclamou Greg.

   ‘Que jeito?’

   ‘Detestável! O cara é o todo poderoso local e está vindo para dizer algo agradável pra gente! Por que você quer arrebentar com ele?’

   ‘Quem disse que vou arrebentar com ele?’

   ‘Só estou dizendo.’

   ‘Bem, você está errado, cidadão, serei a criatura mais doce, gentil e o herói mais bajulável que o bastardo já viu, desde que é claro isso sirva para reelegê-lo, é claro. Ok?’

   ‘Não dou a mínima.’

   Tanner riu.

   Em algum lugar do prédio o som de uma porta abrindo foi ouvido.

   Tanner apagou o cigarro pisando-o no chão e acendeu outro.

   ‘Quem ia querer ser presidente?’ perguntou, enquanto em algum lugar uma porta era fechada.

   Greg atravessou a sala indo até um bebedouro. Pegou um copo e serviu-se.

   Ouviram passos e a porta do escritório se abriu.

   O presidente era um homem magro, careca, nariz de gancho e sorria com dentes brancos e pequenos como pérolas. Estendeu a mão direita e disse:

   ‘Sou Travis. Estou muito contente em vê-los e recebê-los em Salt Lake.’

   ‘Este é o presidente’ disse Monk sorrindo com as mãos nos bolsos.

   Tanner levantou e estendeu sua mão.

   ‘Meu nome é Tanner, senhor. Estou honrado em conhecê-lo. Este é meu amigo Greg. Estou feliz em voltar a Salt Lake novamente. Está cada dia mais bela!’

   ‘Olá Greg… ah, você então já esteve aqui?’

   ‘Um número grande de vezes. Foi por este motivo que outros jovens motoristas foram preteridos e eu fui escolhido para o trabalho. Eu dirigia um pouquinho antes de me aposentar, sabe?’

   ‘Mesmo?’

   ‘Sim. Eu tenho um rancho pequeno e alguns poucos empregados e passava a maior parte do meu tempo ouvindo musica clássica e lendo filosofia. Algumas vezes escrevia poemas. Quando ouvi falar sobre este serviço, pensei, sei que devo à humanidade e à nação californiana, serei um voluntário! Afinal, eles têm sido muito bons para mim. Então por este motivo aqui estou eu visitando a sua cidade mais uma vez.’

   ‘Eu admiro seu espírito, mister Tanner... o que o levou a ser voluntário, Greg?’

   ‘Eu, bem, eu sou voluntário por que... sou motorista; levava o correio para Albuquerque. Tenho bastante experiência.’

   ‘Entendo. Bem, ambos serão condecorados. Se tudo sair como esperamos, vocês passarão na volta por aqui, não é mesmo?’

   ‘É o que eu planejo, senhor!’ disse Tanner.

   ‘Muito bom. Ficarei feliz em recebê-los a qualquer hora na minha cidade. Talvez possamos jantar e poderei ouvir um relato da viagem.’

   ‘Seria um prazer para nós, senhor. E se algum dia estiver por Los Angeles, espero que pare na cidade e passe algum tempo no meu rancho.’

   ‘Seria delicioso.’

   Tanner sorriu e deixou um pouco de cinza ir ao chão.

   ‘Estou um pouco receoso quanto a nossa rota após sairmos da cidade’, disse Tanner.

   ‘A US 40 parece boa à distancia, no entanto, ninguém pode afirmar. Nunca houve razão para nossos motoristas dirigirem naquela direção.’

   ‘Eu entendo. Mas isso basta. Estava planejando mesmo utilizar a 40 e isso me ajuda bastante. Obrigado.’

   ‘Fico contente por ajudar. Já comeram?’

   ‘Um companheiro que aqui trabalha está nos providenciando algo. Estará de volta em breve. Temos que nos apressar, o senhor sabe.’

   ‘É verdade. Bem, se existir alguma coisa que eu possa fazer por vocês, basta pedir.’

‘Obrigado.’

   Apertaram as mãos novamente.

   ‘Como disse, boa sorte para ambos. Nosso povo estará rezando por vocês.’

   ‘É muito gentil, mister Presidente.’

   ‘Nos veremos, então.’

   ‘Bom dia.’

   ‘Adeus’.

   O presidente saiu junto com Monk que o seguia. Tanner começou a rir.

   ‘Pra que aquela conversa toda, Hell?’

   ‘Por que eu sabia que ele acreditaria nela.’

   ‘Por quê?’

   ‘Ele quer que tudo dê certo. Então eu só lhe falei coisas boas e ele acreditou. Por que não? O bastardo imbecil acreditou mesmo naquela historia de voluntários!’

   ‘Alguns caras foram voluntários, Hell.’

   ‘Então por que não deixaram eles dirigirem?’

   ‘Não eram bons o bastante.’

   ‘Este é o motivo pelo qual foram voluntários. Agora eles podem se gabar disso. Viu como ele me olhou quando eu falei da humanidade? Odeio sujeitos assim. São apenas um bando de empoados.’

   ‘Pelo menos ele se foi com uma boa impressão.’

   Tanner riu de novo.

   Então a porta abriu e Monk entrou seguido de Ruivo que carregava um grande saco de papel.

   ‘Trouxe o café de vocês’, disse e para Monk, ‘Aqui está o troco!’.

   Enquanto abriam o pacote, Monk que guardava o troco disse:

   ‘Vou dar uma ajuda nos acertos do carro enquanto vocês comem. Aliais, tem um sujeito lá fora chamado Blinky, que diz conhecer você Hell’.

   ‘Nunca ouvi falar.’

   ‘Ok, vou mandá-lo embora.’

   Depois que saiu deixando a porta um tanto aberta, um homem muito alto, com óculos de leitura, com um tufo de cabelos brancos entrou por ela.

   ‘Oi Hell’ disse.

   ‘O que você quer?’

   ‘O que eu posso fazer por você?’

   ‘Nada. Vá embora!’

   ‘É deste jeito que você fala com o cara que vai fazer você rico?’

   ‘Rico?’

   ‘Ouvi o presidente falando sobre a sua propriedade lá na costa. Muito legal! Você fez a maior parte da sua fortuna negociando comigo, você sabe.’

   ‘Esqueça.’

   ‘O que você tem aí?’

   ‘São coisas para Boston.’

   ‘Um cara como você não estaria fazendo esta viagem a não ser que houvesse um lucro considerável nisso. O que mais você carrega?’

   ‘Se você não tiver sumido assim que eu terminar esta torrada, vou te ensinar outras formas de dor’.

   ‘Você não vai fazer negócios com qualquer outro aqui nesta cidade, Hell. O que está carregando? Doces e maconha como sempre? Heroína, quem sabe?’

   Tanner atirou a torrada na boca e da bota, tirou o punhal SS que carregava.

   ‘Acho que está ouvindo tão mal quanto vê, Blinky’. Disse brincando com a adaga no ar, entre os dedos da mão. A mão esquerda de Blinky segurou a maçaneta.

   ‘Você não me mete medo, Hell. Precisa de mim nesta cidade.’

   Hell levantou e o esbofeteou.

   ‘Por que fez isso?’ Blinky perguntou sem inflexão.

   ‘Por que foi engraçado’ disse Tanner e chutou suas canelas.

   Quando o homem caiu de joelhos, Tanner se preparou para furá-lo, mas Greg o segurou:

   ‘Por Deus! Pare!’ disse enquanto Tanner acertava um soco no estômago de Blinky.

   ‘Dê uma surra no sujeito, mas não precisa matá-lo!’

   ‘Tanner soltou-se de Greg e usou o joelho para acertar violentamente Blinky.

   Blinky rolou no chão gemendo.

   Greg segurou Tanner antes que este pudesse chutar o homem.

   ‘Para com isso, diabos! Não existe um nome para isso que você está fazendo!’

   ‘Certo! Mas tire ele daqui!’.

   ‘OK, eu cuido disso se você guardar esta faca!’

   ‘Ele é todo seu!’

   Greg o soltou e levantou o homem do chão. Tanner guardou seu punhal e voltou ao café.

   Greg arrastou o homem para fora do escritório.

   Voltou depois de alguns minutos.

   ‘Menti sobre o que aconteceu’ disse ‘e acho que eles acreditaram em mim, talvez por que o sujeito tem um passado criminoso. Mas por que você fez aquilo?’

   ‘Ele me encheu.’

   ‘’Por que?’

   ‘Ele é um traficante miserável, não iria aceitar um não como resposta.’

   ‘Isso era motivo de fazer o que você fez com ele?’

   ‘Também foi divertido.’

   ‘Você é um maldito miserável!’

   ‘Sua torrada está esfriando.’

   ‘O que você teria feito se eu não o detivesse? Matava ele?’

   ‘Não. Provavelmente arrancaria alguns dentes dele com aquele alicate ali na mesa.’

   Greg sentou-se e olhou os ovos.

   ‘Você deve ser louco ou coisa assim.’

   ‘Quem não é?’

   ‘Talvez. Mas aquilo foi tão...’

   ‘Talvez você não tenha entendido, Greg. Eu sou um anjo. Sou o último anjo vivo. Sou um anjo desde antes que trocamos nossas roupas boas por estas de couro, por conta das malditas tempestades. Sabe o que isso significa? Que eu sou o último, e tenho uma reputação a manter! Ninguém mexe com a gente ou nós mostramos pra eles! É isso! Agora, este traficante otário vem me pressionar só por que ele tem um carro envenenado em algum lugar lá fora e ele pensa que eu estou indo fazer a entrega pra alguém. Então ele vem aqui e tenta me tratar como se eu fosse um daqueles quadradões lá fora. Eu tinha que lhe dar uma lição, entende? Dei uma chance para ele se calar e ele não quis. Então era uma questão de honra. Tinha que mandar ver.’

   Mas você não está mais numa gangue. Você é apenas um homem.’

   ‘O ultimo católico não era o Papa?’

   ‘Acho que você não vai durar muito tempo, Hell.’

   ‘Também acho. Mas você também não vai viver muito mais do que eu.’

   Tirou a tampa da cafeteira e bebeu um gole e arrotou.

   ‘Felizmente acertamos as contas também. Nunca gostei do desgraçado!’

   ‘Por que ele escolheu você?’

   ‘Por que eu era um bom motorista. Eu trouxe a gente até aqui, não foi?’

   Greg não respondeu e Tanner levantou e foi até a janela. Afastou as persianas e olhou para fora.

   ‘A multidão diminuiu. A maioria está agora do outro lado da rua.’

   Olhou para o relógio e disse ‘Era melhor que a gente já estivesse a caminho. Odeio perder a luz do dia nesta cidade.’

   Greg não disse nada então Tanner abriu a gaveta de um arquivo, olhou dentro e a fechou.

   Tomou um copo de café e acendeu um cigarro.

   ‘Eu imagino o que eles estão fazendo com nosso carro...’

   Greg finalmente acabara de comer e atirou os restos na cesta de lixo.

   Pegou os de Tanner e atirou no lixo também. ‘Você é um porcalhão.’ disse.

   Tanner olhava de novo pela janela.

   ‘Eu vou achar o responsável.’ disse Greg e saiu.

   Tanner ainda ficou um tempo ali e só deixou o lugar depois de acabar de fumar.

   Foi até onde os homens trabalhavam no carro.

   ‘Como está?’

   ‘Tudo está ok! Viu o sujeito que se feriu?’

   ‘É.’

   ‘Parecia mal, com todo aquele sangue...’

   ‘Vai trocar o óleo?’

   ‘Vou.’

   ‘Quanto tempo até ficar pronto?’

   ‘Talvez uma hora.’

   ‘Este lugar tem uma porta dos fundos?’

   ‘Vá até aquele carro vermelho e vire à esquerda, então vai ver.’

   ‘Sabe se tem alguém lá fora?’

   ‘Acho que não. É só mato e o nosso ferro velho.’

   Tanner grunhiu e foi para o fundo da loja. Abriu a porta, olhou lá fora então saiu.

   O ar estava quente, com cheiro de graxa e óleo de banana e gasolina, e não era noite de verdade, mas já estava escuro. Ficou algum tempo parado esperando a visão se ajustar.

   Viu um velho assento de carro e foi se sentar nele, com as costas contra o concreto cinza, ouvindo os ruídos dos gafanhotos no mato e acendeu outro cigarro.

   Atirou o fósforo contra uns pára-choques e eixos de motor enferrujados, ouviu o pio de um pássaro acima dele e matou um mosquito. Sentiu a brisa fria tocar-lhe o rosto e chegar com uma promessa de chuva, que não era de todo bem vinda e inalou a fumaça do cigarro.

   Atirou uma pedra num rato que saia do lixão, mas errou. Ele tramava mentalmente entre as lembranças violentas do passado e o medo de saber dos problemas que ainda estavam por vir.

   Por trás de seus olhos, a visão de chamas, chamas partindo do seu carro, como uma flor da morte, dois esqueletos enegrecidos dentro dele e toda a munição sendo consumida em explosões espantosas e todos aqueles quadradões que uma vez o odiaram, ou seja, todo mundo, gritando, bebendo, batendo seus canecos num circulo dançando ao redor do fogo.

   ‘Malditos todos vocês’ disse suavemente e um risco de branco no céu tornou-se largo como um dedo em riste e então veio um trovão como um riso.

   Permitiu-se lembrar dos dias em que tinha sido o número um, e os pensamentos o incomodaram. Lembrava do fogo e dos tiros daquela noite em que eles tinham atacado a costa e matado quase a turma toda. Depois disso, ele era como um país sem homens.

   Agora um outro destino especial, um outro fogo especial tinha caído sobre ele, servir aqueles que o fizeram assim. Sentia falta do seu amor, o farol de um único olho de sua vida, seu porcão, com sua embreagem de quatro velocidades, da transmissão da Harley-Davidson, os dois carburadores grandes explodindo o poder entre suas coxas, os manetes do guidão nas mãos, o perfume infernal de borracha queimada e a fumaça expelida pelos canos de descarga ardendo suas narinas. Tinha se ido. Pra sempre.

   Desmontada e vendida para pagar as dívidas dos estragos.

   O caminho de tudo quanto é metal.

   Agora no ferro velho às suas costas.

   Quem sabe.

   A máquina tinha sido sua esposa, maldição, e devia merecer algum pranto em sua morte, em seu lugar e não tão ao leste.

   Xingou e pensou no irmão.

   Tinha passado mais de um ano desde que o vira. E tinha uma grade entre eles e tinha um guarda na sala, que permitiu que apertassem as mãos e fumassem, pois tinham, diabos, muita coisa para conversar. Provavelmente seu irmão agora estava amarrado numa cama em algum lugar. Salvo do fogo e do ferro velho, já era alguma coisa, de todo jeito.

   Ele era o único quadradão que valia a pena ser salvo, decidiu Hell.

   Acendeu outro cigarro e atirou a velho alem de um entulho.

   Um rato correu.

   Lembrou de sua iniciação.

   Tinha dezesseis naquela época.

   O balde era passado e ele, alto e orgulhoso em sua jaqueta e seus metais e ponteiras e bottons e totalmente bêbado, ele não se deixava mandar. Um por um, eles urinaram no balde.

   Quando terminaram, o viraram sobre sua cabeça.

   Este fora seu batismo de anjo.

   Manteve aquele fedor por quase um ano e aos dezenove ele era o Número Um.

   Ele os liderava nas lutas, todos sabiam seu nome e não ficavam em seu caminho.

   Ele era Hell e sua turma era dona de toda Barbary Coast.

   Iam onde queriam ir e faziam o que queriam fazer, até o dia em que se envolveu em sérios problemas e depois disso, foram dias sombrios para a Costa.

   A cidade estava sempre pegando fogo por conta daquela coisa que caia do céu.

   Sua gangue era a maior, mas um dia se acabou.

   Sua cela tinha seis por oito e a dividia com um homem que havia assassinado garotinhas, bem, isso não foi muito prudente. Depois de tentar matá-lo, o trancaram numa solitária.

   Ao menos era preferível ao ficar junto ao maníaco de olhos azuis com quem o haviam colocado. Craig às vezes espumava pela boca, até que um dia Hell o acertou e a espuma virou sangue. Agarrou seu pescoço passando seus dedos com força ao redor até quebrar.

   Eles pensavam que Hell ficaria louco na solitária, contaram depois de transferi-lo para uma cela só sua, meses depois.

   Pensavam que por ser um homem de gangue precisaria de companhia.

   Eles não entendiam.

   Pensaram que a gangue era de anjos e que um anjo sozinho era um vagabundo.

   Eles estavam errados, pensou. Ele não ficou louco ou ao menos não admitiria ter ficado.

   Apenas se sentou. Não inventou jogos nem contou números, só ficou sentado.

   Sabia que eles não podiam feri-lo. E ele esperou. Pelo que, não sabia.

   Por isso, pensou.

   Por isso ele esperou, o dia em que estaria sentado ali, pensando na grande máquina.

   O que era aquilo? Fogo? Provavelmente era fogo, olhou para o céu e inalou fundo.

   Matou outro mosquito. Ainda tinha o cheiro de chuva e queria um drinque.

   Os gafanhotos emudeceram assim como o pássaro.

   A luz se derramou do céu sobre o mundo uma vez mais, branca e brilhante.

   O céu se abriu, como um mar de fósforo lavando e tudo se encheu com um brilho pouco natural, cada pedaço de lixo no ferro velho atrás dele pareceu voltar à vida, e ele quase podia ouvir a conversa sobre os detalhes de sua vida sem sentido pelas estradas restantes neste mundo. Os ferro-velhos falavam sobre ele, quando ouviu a voz de Greg;

   ‘Tá quase pronto Hell’

   ‘Ótimo!’  

   ‘O que você está fazendo aí?’

   ‘Pensando.’

   A porta bateu.

   Tanner sentou-se lá por minutos mais e uma chuva leve começou a cair, levando aquele brilho estranho do mundo, silenciando o ferro velho, os pássaros e os ratos em seus buracos, apagando seu rosto, manchando as botas, semeando um odor de cinzas sobre a Terra.

   Levantou-se e entrou na garagem, sacudindo gotículas da barba.

   ‘Tudo pronto’ disse Monk apontando o carro ‘Não quer esperar até a chuva parar?’

   ‘Não. Vai começar a escurecer logo.’

‘Provavelmente.’

   Foram para um das janelas, respirar e observar a chuva.

   Lá fora as pessoas ainda permaneciam nas ruas.

   ‘Bando de imbecis’ disse Tanner ‘Será que não sabem que devem sair da chuva?’

   ‘Estão determinados a ver vocês.’

   ‘Bem, nós vamos dar um show para eles, queimando os pneus pra longe daqui. Pode ir abrindo os portões agora, Monk.’

   ‘Obrigado pelo café.’ disse Greg.

   ‘Era o mínimo que podia fazer.’

   ‘O que aconteceu com aquele cara?’ perguntou Greg.

   ‘Quem?’

   ‘Blinky. Aquele que sofreu o acidente.’

   ‘Oh, está no hospital. Os policiais os levaram para os primeiros socorros e ele teve um ataque do coração por lá. Estão lhe dando oxigênio agora. Ele é um pequeno vigarista, tem uma ficha do tamanho do seu braço, não vale um centavo!’

   ‘Isso é ruim.’

   Monk riu ‘É o que se ganha bebendo e caindo por aí. Então, vocês vão pegar a 40?’

   Greg olhou para Hell.

   ‘É isso aí’ Tanner disse ‘Quem come os Monstros Gila?’

   ‘Huh?’

   ‘Temos grandes cobras que os Gilas comem, além de outras coisas como bisões e coiotes e Deus sabe o que mais e tem estes morcegos gigantes que comem frutas das árvores por todo caminho até o México, algumas aranhas esquisitas que se alimentam de qualquer coisa que caia na suas teias. Mas quem come os Gilas? Um rapaz chamado Alex lá em Los Angeles, dizia que desde que tudo come outra coisa, então algo deve comer os Gilas. Não pude responder. Você sabe?’

   ‘As borboletas’ disse Monk ‘foi o que eu ouvi dizer.’

   ‘Borboletas?’

   ‘É! Você vai ter sorte se nunca as encontrar. São maiores que filhotes de gato, pousam no pescoço dos Gilas e dão ferroadas até atordoá-lo. Então depositam seus ovos. Depois de chocados, as lagartas se alimentam dos lagartos paralisados.’

   ‘Sei.’

   ‘Então quem se alimenta das borboletas?’ perguntou Greg.

   ‘Diabos me levem se eu sei! Talvez os morcegos. Existe um mundo inteiro lá fora, onde outro existiu por centenas de anos e as coisas continuam mudando rapidamente. Duvido que alguém saiba o que cada um come.’

‘Huh’.

   ‘Tenho um pressentimento que qualquer um que for procurar vai encontrar rapidamente o que aguarda os humanos.’

   ‘Obrigado’ disse Greg ‘por tudo, foi um prazer conhecê-lo, Monk!’

   ‘Até logo.’ Apertaram as mãos.

   ‘Duvido disso’ disse Tanner ‘Acho que nunca mais irei vê-lo, mas obrigado pela bóia. Talvez você ouça falar da gente algum dia.’

   ‘Boa sorte. Todos estamos torcendo por vocês.’

   Tanner atravessou o caminho até o veículo, abriu a porta e subiu para o assento do motorista. Logo depois, Greg sentou ao seu lado.

   ‘Você nem apertou a mão dele’ disse.

   ‘Não gosto de apertar mãos’ disse Tanner ‘a maioria dos cidadãos se preocupa menos quando faz isso. Você estica uma mão vazia e isso significa que não tem uma faca nela, isso é tudo, se for canhoto, estão ferrados. E vice-versa. Agora, eu sou canhoto, então poderia fazer isso, mas não dou a mínima. Se a pessoa for amiga, não precisa apertar minha mão para provar. Ele saberá e eu saberei também. Você encontra alguém e de repente sabe que algo aconteceu. Não precisa de mais nada. Nada. São amigos. Não precisa de todo aquele protocolo que vai desaparecer com os velhos. É isso.’

   Fecharam as portas e Tanner ligou o motor.

   Ficou ouvindo-o por um tempo então ligou os visores.

   O grande portão da garagem fora aberto e ele buzinou uma vez.

   ‘Vamos rodar!’

   Houve uma ovação quando saíram para a rua e aceleraram em direção leste.

   ‘Podia ter tomado uma cerveja’ disse Tanner ‘maldição!’.

   E alcançaram a entrada que uma vez foi conhecida como a rota US 40.

   Tanner trocou de assento e esticou-se no assento de passageiro.

   O céu continuava sombrio sobre eles, mudando pouco de aparência daquele que encontrara em LA um dia antes.

   ‘Talvez possamos escapar dele’ Disse Greg.

   ‘Espero que sim.’

   Um pulso azul começou ao norte, inflamando-se como uma brilhante aurora.

   ‘Corra!’ gritou Tanner ‘Corra para o alto daquelas colinas à frente. Talvez possamos encontrar um abrigo ou uma caverna.’

   Mas aquilo desabou antes que pudessem chegar nas colinas. Primeiro veio o granizo depois o bombardeio pesado. As grandes rochas se seguiram e o scanner da direita pifou. As rochas o arrancaram e ficaram sob aquela cachoeira celestial que fez o motor tossir e engasgar.

   Conseguiram chegar aos morros e acharam um lugar, um vale rochoso onde as paredes possuíam saliências que serviam para quebrar a força da tempestade de vento, areia, pó, pedras e água. Pararam ouvindo os ventos gemendo e gritando ao redor.

   Fumaram e ouviram.

   ‘Não vai dar’ disse Greg ‘você tinha razão, eu achei que que a gente tinha uma chance, mas não, tudo está contra nós, até o clima.’

   ‘Temos uma chance’ disse Tanner ‘Talvez não seja boa, mas tivemos sorte de chegar tão longe. lembre-se disso.’

   Greg cuspiu dentro da lixeira.

   ‘Por que este otimismo repentino?’ Logo de você?’

   ‘Eu estava doido e falei muita coisa. Bem, continuo louco, mas me sinto com sorte.É só.’

Greg riu.

   ‘Uma sorte dos infernos. Dê uma olhada lá fora’ disse.

   ‘Já vi’ disse Tanner ‘Este veículo foi feito para isso e está dando conta. Além disso, estamos apenas a dez por cento do caminho.’

   ‘Ok, mas que diferença isso faz? Aquilo lá fora pode durar dias.’

   ‘Então vamos esperar que se vá.’

   ‘Se esperarmos demais seremos esmagados. Se esperar demais e mesmo se não formos esmagados, não haverá como sair daqui.’

   ‘Levarei de dez a quinze minutos para consertar o scanner... Precisamos de olhos de reserva, e se a tempestade durar mais de seis horas, nós iremos de qualquer modo.’

   ‘Nós quem?’

   ‘Eu’

   ‘Porquê? Você é aquele cara que está louco para se safar. Como é que de repente resolveu se colocar em risco por minha causa?’

   Tanner deu uma tragada e disse ‘Estive pensando’ e então não disse mais nada.

   ‘Sobre o quê?’ Greg perguntou.

   ‘Estas pessoas em Boston’ Tanner disse. ‘Talvez valha a pena, não sei. Nunca fizeram nada por mim, mas diabos, eu gosto de ação, e odiaria ver o mundo inteiro morrer. Acho que também gostaria de ver Boston, ver como ela é. E deve ser divertido ser um herói, só pra ver como é. Não me leve a mal, não dou a mínima praquela gente de lá, só não gosto da idéia de tudo ficar como o Caminho aqui, tudo queimado e ferrado e cheio de porcaria. Quando perdemos o outro carro lá nos tornados, isso me fez pensar... eu odiaria ver todos acabarem daquele jeito. Eu deveria fazer algo se eu tivesse uma chance, mas só estou te falando como eu me sinto agora. É tudo.’

   Greg olhou para longe e riu um riso, um pouco mais vigoroso que o de sempre.

   ‘Nunca achei que fosse tão filosófico.’

   ‘Nem eu. Estou cansado. Me fale dos seus irmãos e irmãs.’

   ‘Certo.’

   Quatro horas depois, a tempestade deu folga e as rochas se tornaram chuva de poeira.

   Tanner repôs o scanner direito e saíram dali, passando pouco depois pelo Parque Nacional Rocky Mountain. A poeira e a neblina combinadas limitavam a visibilidade.

   Pela tarde passaram à margem do que foi Denver e Tanner assumiu a direção após cruzarem aquele lugar que um dia fora o Kansas.

   Dirigiu a noite inteira e pela manhã o céu estava mais claro do que havia estado em dias.

   Acordou Greg e experimentou seus pensamentos e seu café.

   Era um sentimento estranho que o invadira, sentado lá, com o perdão em seu bolso e as mãos no volante. A poeira levantada atrás da passagem do carro. O céu era da cor de botões de rosa e as listras e linhas escuras reapareceram. Ele lembrava do dia em que os mísseis caíram, queimando tudo de norte a sul, o dia em que os ventos chegaram e as nuvens desapareceram e o céu perdeu seu azul, os dias quando o canal do panamá foi destruído e os rádios deixaram de funcionar. Quando os aviões não podiam mais voar.

   Lamentava, pois sempre quisera voar, alto, como um pássaro, subindo e planando.

   Sentiu frio e as telas exibiam uma claridade cristalina, como piscinas de água transparente.

   Em algum lugar à frente, bem distante, estava o que poderia ser chamado de o outro resto de humanidade no mundo. Ele poderia salvá-los se chegasse a tempo.

   Viu as pedras e a areia e parte de um barracão garagem destroçado que viera de alguma forma até ao sopé de uma montanha. Lembrava que muito tempo antes ele tinha passado por ali. Partida e demolida, meio coberta de entulho, assumia uma forma monstruosa e inflexível, como um crânio que ocupara certa vez o lugar sobre os ombros de um gigante; apertou mais o acelerador, porém não podia ir mais rápido. O céu brilhava e ele não tocou nos controles das telas. Por que justamente ele tinha que ser o escolhido. Viu uma massa de fumaça subindo à frente e à direita. Conforme dirigia mais e mais próximo, viu que subia de uma montanha que acabara de perder seu topo e que estava repleta de focos de incêndio em seu lugar.

   Pegou a esquerda, afastando-se quilômetros, muitos quilômetros da rota que havia escolhido. Ocasionalmente o chão tremia sob as rodas. Cinzas caiam sobre eles, mas agora o cone de fumaça estava longe à traseira, na tela da direita. Lembrava-se dos dias passados e das poucas coisas que realmente sabia a respeito. Decidiu que precisava aprender sobre a história.

   Costurava seu caminho entre canyons coloridos no traçado feito por rios.

   Ninguém nunca antes lhe pedira para fazer algo tão importante e esperava que nunca mais o fizessem.

   Agora, pensou, estava sendo levado pelo sentimento de que podia dar certo.

   Ele queria fazer o serviço. O Caminho dos Condenados o cercava, queimando, fumaçando, tremendo e se ele não o fizesse, metade do mundo morreria e isso dobrava as chances de que o mundo inteiro virasse o Caminho dos Condenados.

   Sua tatuagem nas articulações diziam ‘HELL’ e ele sabia que era verdade.

   Greg dormia, um sono de exaustão e Tanner apertava os olhos e coçava a barba e nunca, nunca pisava no freio, mesmo quando viu as encostas perigosas se aproximarem.

   Passou por elas como se nada fossem, sem sequer um arranhão.

   Sua mente era como uma bolha inflando, registrando tudo, as telas e tudo mais.

   Sentia a brisa do ar que atravessava a cabine e a pressão do pedal sob seu pé.

   Sua garganta estava extremamente seca mas não importava. Os olhos doíam dentro das órbitas, mas não os fechava. Cruzava as planícies do Kansas e sabia que estava absorvido pelo momento.

   Maldição, Denton estava certo. Tinha que ser feito.

   Ele parou ao chegar próximo da borda do precipício e virou norte.

   Trinta quilômetros depois o caminho terminava e virou sul.

Greg resmungava dormindo. Soava como uma maldição.

   O sol se pendurava no alto e Tanner sentiu que se afundavam sobre o solo marrom pontilhado por espinhos verdes.

   Fechou os dentes e sua mente o levou até Denny, talvez no hospital neste momento.

   Melhor do que estar onde os outros estavam.

   Esperava que o dinheiro, conforme dissera, ainda estivesse no lugar.

   Então sentiu a dor começar, entre seu pescoço e os ombros. Se estendendo para baixo pelos braços e percebeu estar apertando o volante com força.

   Piscou e inspirou profundamente e sentiu os globos oculares doendo.

   Acendeu um cigarro e provou-o com desagrado mas continuou fumando.

   Bebeu água e diminuiu a sensibilidade das telas traseiras conforme o sol baixava atrás dele.

   Então ouvi um som distante de trovão e ficou alerta mais uma vez.

   Sentou-se ereto e apertou o acelerador.

   Era tarde.

   Freou e parou.

   E ele viu. Sentado ali, observou-os passando, a quase meio quilômetro dali.

   Uma manada de bisões monstruosos.

   Levou boa parte de uma hora até todos passarem.

   Imensos, pesados, escuros, as cabeças abaixadas, aspirando o pó, correndo sem parar, com o estrondo de um trovão rumando norte foi diminuindo e morreu.

   A poeira levantada ainda permanecia quando Tanner acendeu as luzes.

   Considerou a idéia de tomar uma pílula, mas desistiu.

   Greg em breve acordaria e logo poderia dormir quando trocassem de lugar.

   Tomou rumo por uma rodovia, sua superfície permanecia boa e pode então seguir velozmente.

   Depois de algum tempo, passou por uma placa caída, que dizia ‘TOPEKA, 100km’.

   Greg esticou-se espreguiçando.

   ‘Que horas são?’

   Tanner fez um gesto apontando o relógio no painel.

   ‘Da manhã ou da noite?’

   ‘Da tarde’ respondeu Hell.

   ‘Meu Deus! Devo ter dormido umas quinze horas!’

   ‘Quase isso.’

   ‘Você dirigiu este tempo todo?’

   ‘Isso ai’.

   ‘Deve estar acabado. Você parece horrível. Deixe-me arrumar e eu assumo em um minuto.’

   ‘Boa idéia.’

   Greg arrastou-se para o fundo do veiculo.

   Depois de cinco minutos, Tanner viu ascercanias de uma cidade morta se aproximando.

   Dirigiu pela rua principal e passou por carcaças de carros por todo o caminho.

   A maioria dos prédios havia ruído sobre si mesmos e alguns aposentos ficavam expostos onde se via água escura acumulada. Esqueletos estavam caídos por todo parque.

   Não havia árvores, apenas o mato que crescia selvagem.

   Três postes telefônicos permaneciam de pé, porém as linhas estavam enroladas como macarrão negro. Muitos bancos envoltos pelo mato ao longo das calçadas e um esqueleto deitado em um deles. Encontrou um poste derrubado, barrando o caminho e precisou contornar.

   A rua seguinte estava aparentemente melhor conservada.

   As janelas quebradas e um manequim nu fazia pose com o braço esquerdo faltando.

   As luzes de trânsito continuavam apagadas quando Tanner atravessou o cruzamento.

   Tanner ouviu Greg chegando dos fundos assim que virou à direita na esquina seguinte.

   ‘Eu assumo agora’ ele disse.

   ‘Primeiro eu quero sair desse lugar’ e ambos ficaram em silêncio pelos quinze minutos seguintes enquanto deixavam a cidade morta.

   Tanner então parou e disse ‘Estamos a algumas horas de um lugar chamado Topeka. Acorde-me se algo estranho acontecer.’

   ‘Como foram as coisas enquanto eu dormia? Teve algum problema?’

   ‘Não’ disse Tanner e fechou os olhos e começou a roncar.

  

   Greg dirigiu afastando-se do pôr do sol, comeu três sanduíches de presunto e bebeu meio litro de leite antes de chegarem a Topeka.

   Tanner acordou ao primeiro disparo dos foguetes.

   Esfregou o sono dos olhos e acordou rapidamente.

   Como gigantescas folhas secas, nuvens desabavam sobre eles.

   Morcegos, morcegos e morcegos.

   O ar estava repleto deles.

   Tanner ouviu seus chiados e guinchos e o carro foi sacudido pelo choque com seus corpos pesados.

   ‘Onde estamos?’ perguntou.

   ‘Kansas City. O lugar parece repleto deles’ e Greg disparou outro foguete que abriu um caminho de fogo no ar, antes de desaparecer.

   ‘Guarde os foguetes, use o lança-chamas’ disse Tanner trocando para manual o controle da metralhadora e trazendo a cruz do visor de disparo para o centro da tela de mira.

   ‘Atire em todas as direções, por cinco ou seis segundos e então eu abro fogo.’

   A chama surgiu à frente do carro em tons de laranja e nuvens de combustível incendiado. Então Tanner puxou o gatilho, movendo a arma em rajadas e eles tombaram.

   Os corpos feridos caiam ao redor e outros novos tomavam o lugar no céu.

   ‘Passe por eles’ gritou quando os pneus saltaram e pularam sobre os morcegos.

   Tanner aqueceu o ar com a metralhadora e quando tombaram, ele os metralhou de novo e disparou uma chama.

   Na bola de magnésio iluminada, milhares de faces dos vampiros atrás e acima deles.

   Trocou de arma e de novo e eles caíam como frutas por toda parte então Tanner gritou:

   ‘Freie e dispare o fogo pro alto’ e Greg obedeceu.

   ‘Agora para os lados! Em frente e atrás!’

   Corpos queimados por todo canto, empilhando-se tão alto sobre o capô e Greg colocou o carro em marcha lenta e Tanner gritou ‘Agora para trás’ e uma tonelada de carne queimada desabou como um muro. Tanner continuou metralhando.

   Os morcegos permaneciam lá fora, mas agora um pouco mais distantes, circulando e atirando-se do alto. Tanner recolheu as armas e esperou, mas eles não atacaram mais, pelo menos não em grande grupo como antes. Alguns poucos se atreviam a dar rasantes e Tanner os abatia.

   Dez minutos depois Tanner disse: ‘Aquele é o rio Missouri, à nossa esquerda. Se nós o seguirmos pela sua margem, chegaremos a Saint Louis.’

   ‘Eu sei. Você acha que estará cheia de morcegos também?’

   ‘Provavelmente. Mas se nos apressarmos e chegarmos de dia, eles não nos incomodarão. Então poderemos pensar num jeito de atravessar Missus Hip’

   Seus olhos caíram na tela retrovisora, onde a silhueta negra dos prédios de Kansas City e seus morcegos era delineada por pálidas estrelas e tingida pela luz de uma lua sangrenta.

   Tanner dormiu um pouco mais. Sonhou que estava em sua moto, descendo lentamente a rua larga e as pessoas, na calçada, começavam a saudá-lo conforme ele passava.

   Jogavam confete, porém, com o passar do tempo, se transformava em lixo, fedorento. Ele acelerava mas a motocicleta não obedecia e as pessoas agora gritavam com ele. Gritavam obscenidades.

   Gritavam seu nome, de novo e de novo.

   A Harley começava a falhar, mas seus pés pareciam estar colados nela. Então achou que estava caindo. Tombando para o lado e eles vieram pegá-lo e sabia que estava acabado.

   Acordou com um solavanco e viu o sol lá fora, uma moeda brilhante no meio de uma toalha de mesa azul escura.

   ‘É isso ai’ disse Greg, ‘Missus Hip’.

   Tanner de repente estava faminto.

  

   Depois de se refrescarem, foram até a ponte.

   ‘Não estou vendo seus selvagens com lanças’ disse Greg. ‘É claro que podemos ter passado por eles durante a noite, se ainda estiverem por aí.’

   ‘Melhor assim’ disse Tanner ‘nos poupa munição.’

   A ponte apareceu nos visores, curva e negra ao longe, onde o sol escurecera seus cabos e esticada sobre a extensão brilhante d’água. Moveram-se lentamente na sua direção, pelas ruas semelhantes a desfiladeiros cobertos de rochas e entulho, virando aqui ou ali quando encontravam um bloqueio ou então colunas de máquinas quebradas e muros derrubados.

   Levou duas horas para atravessarem quase meio quilômetro e já era de tarde quando chegaram ao pé da ponte.

   ‘Parece que Brady pode ter passado por aqui’ disse Greg observando o que parecia ser uma passagem em meio aos destroços que enchiam o vão. ‘Como você acha que ele fez?’

   ‘Talvez ele tivesse algo para içar estas coisas e atirá-las além da borda. Tem uns destroços lá embaixo, onde a água é mais rasa.’

   ‘Onde eles estavam da última vez que passou por aqui?’

   ‘Não sei. Eu não estava tão perto da ponta. Eu subi aquelas colinas lá atrás’ e fez um gesto apontando a tela retrovisora.

   ‘Bem, olhando daqui, parece que vai dar para passar. Vamos lá!’

   Foram na direção da ponte, começando a atravessar lentamente a gigantesca Missus Hip. Às vezes a ponte gemia e rangia debaixo deles, fazendo com que achassem que ela se movia.

   O sol começou a se pôr e ainda seguiam em frente, acertando os limpa-trilhos contra as pilhas de destroços, usando as asas laterais como arados. Levaram três horas para chegar ao seu fim.

   Quando os pneus finalmente chegaram no lado oposto, Greg, que respirava pesadamente acendeu um cigarro.

   ‘Não quer dirigir um pouco, Hell?’

   ‘Quero. Vamos trocar.’

   Trocaram e Greg exclamou ‘Deus! Como estou exausto!’ e esticou-se.

   Tanner dirigia através das ruínas a leste de Saint Louis, apressado para deixar a cidade antes do cair da noite. O nível de radiação aumentava conforme avançavam e as ruas estavam rachadas e atravancadas. Checou a radioatividade dentro da cabine e estava tudo bem.

   Horas depois o sol desaparecera lá atrás e viu a aurora azul estendida ao céu do norte, mas o céu permanecia limpo, com estrelas e sem as linhas negras até onde podia ver.

   Logo uma lua cor de rosa apareceu à sua frente. Ligou a música, uma música suave e olhou de relance para Greg. Não iria incomodá-lo, então continuou dirigindo.

   Seus olhos iam e vinham do painel de instrumentos.

   A radiação continuava a subir no monitor dianteiro. Então viu a cratera e parou o veículo.

   Devia ter pelo menos meio quilômetro de extensão e não conseguia calcular sua profundidade.

   Disparou uma chama e, com essa iluminação, usou as lentes telescópicas para examinar a direita e a esquerda.

   O caminho parecia mais plano à direita, então escolheu aquela direção.

   O lugar estava quente! Quente, tão quente!

   Ele acelerou.

   Pensou, deixando o lugar para trás, como aquilo aconteceu. O que importava?

   Naquele dia em que um minúsculo sol desceu e escureceu qualquer outro brilho do céu.

   Tentou imaginar a cena, sem conseguir.

   Como se concebe um fogo que nunca pára de queimar, ardendo eternamente? Queria saber. Havia tanto para conhecer, tantos lugares para ir. Nos velhos tempos, um homem podia subir na sua motocicleta e sair por aí, conhecer uma cidade nova, ir aonde quisesse.

   Ninguém despejava um monte de porcarias do céu.

   Pensar certas coisas o deixava mais aborrecido, o faziam odiar, mais do que o normal.

   Acendeu um cigarro quando finalmente deixou a margem da cratera e sorriu pela primeira vez em meses, vendo a radiação diminuir aos poucos.

   Quilômetros depois, ele viu grama alta, balançando no vento e então algumas árvores pequenas e torcidas, mas conforme se afastava, passando rapidamente pelo local do massacre, mais e mais altas e estranham ficavam.

   Eram árvores como nunca havia visto antes, trinta, quarenta metros de altura e que graciosamente colhiam estrelas, lá na planície de Illinois.

   Encontrou uma estrada cuja pista larga e limpa era tudo que ele queria. Podia viajar nela para sempre, até a Flórida, aos pântanos e musgos espanhóis e os pomares cítricos e as praias de areia branca e ao Golfo, até a fria Cape, onde tudo é cinza e marrom e as ondas quebram sob os faróis e o sal queima as narinas e os cemitérios estão repletos de lapides centenárias e você ainda consegue ler os nomes nelas, onde eles dizem que a grama é azul, seguindo até o Golfo novamente, cheio de ilhas pequenas, onde velhos bucaneiros escondiam os saques e através das montanhas estranhas das quais ouvira falar, os Smokies, Ozarks, Poconos, Catskill; dirigir através da floresta de Shenandoah, estacionar e pegar um barco pela Chesapeake Bay, ver os grandes lagos e Niagara Falls.

   Dirigir para sempre pela grande estrada, ver tudo, engolir o mundo.

   Sim. Talvez tudo não seja apenas o Caminho dos Condenados.

   Alguns daqueles lugares devem ter sobrevivido, como o campo que vira.

   Ele queria muito aquilo, muito mesmo.

   Riu, apenas um pouco, pois parecia que agora ele conseguiria ter o que queria.

   A música era suave e algo doce e acabou aborrecendo-o.

  

   O sino que batia e batia não abafava completamente o som do vidro quebrando.

   Era verdade, o silêncio vinha profundo e intensificado pela memória, o que dizia muito sobre aquele momento doloroso que já sobrecarregava o sistema nervoso da cidade.

   Uma garoa leve caía e o céu se iluminava com relâmpagos.

   Um aguaceiro de peixes mortos durou quase quinze minutos, enchendo partes da cidade e as linhas telefônicas, com algas marinhas e as janelas com areia.

   Percebendo esta provisão, os ratos surgiram dos porões e celeiros, das aléias e becos, dos montões de sucata e das valas, para se alimentar do maná, os rabos excitados, olhos brilhando, o pêlo lustroso e molhado; e quando terminavam, deixando esqueletos brancos como marfim, alguns deles permaneceram, como borrões de tinta sobre a relva, sobre os pavimentos, lambendo os pingos de chuva.

   O sargento Donahue, que estava dirigindo, virou-se para o tenente Spano à sua direita.

   ‘Sem sirene?’ perguntou.

   ‘Sem’.

   O Tenente Spano retirou o fecho do coldre, que levava alto na cintura.

   ‘Desligue as luzes’.

   O sargento obedeceu.

   O mundo escureceu diante deles e pequenas formas escuras surgiram diante do carro de patrulha da policia.

   Viraram a esquina e diminuíram, ambos estudando as vidraças das lojas daquele quarteirão da cidade.

   ‘Prepare o farolete’.

   ‘Está pronto’.

Um soar de trovões veio do norte, com um flash de luz que tornou o céu um pergaminho amarelo coberto de hieróglifos. Por um momento, todo o quarteirão se iluminou, carros, cabos, hidrantes, lojas, árvores, casas e ratos.

   ‘Lá está ele! Do nosso lado da rua. Acerte-o com o farolete!’

   Donahue ligou o farolete e moveu o foco luminoso sobre o homem frente a uma janela quebrada, curvado à frente, sacola à mão, congelado no meio do ato.

   ‘Não se mexa! Você está preso!’ gritou pelo alto-falante.

   O homem virou-se para a luz, então soltou o saco e pulou pra rua.

   Tenente Spano disparou seis tiros de seu 38 especial e o homem se dobrou sobre si mesmo e caiu como um saco de lixo, seu sangue misturou-se na calçada úmida.

   ‘Você o matou.’ Disse Donahue freiando o carro.

   ‘Ele tentou escapar’ justificou Spano.

   ‘Nós tínhamos ordens de levá-lo.’

   ‘Mas ele tentou fugir!’.

   ‘Nos supostamente tínhamos que prendê-lo, se conseguíssemos.’

   ‘Sim, mas ele tentou fugir depois da ordem de prisão.’

   Donahue encontrou os olhos do outro homem e desviou os seus.

   ‘Tá, ele tentou escapar.’ Concordou.

   Saíram do carro e se aproximaram do corpo. Spano o virou.

   ‘Era só um menino’ disse Donahue, então pegou o saco na calçada e o abriu.

   ‘Material esportivo. Bolas, duas raquetes, uma luva de beisebol, duas bolas de futebol… alguns halteres pequenos... era só um garoto.’

   Spano desviou o olhar e depois de algum tempo disse: ‘Ele estava roubando.’

   ‘É, e ele tentou fugir.’

   ‘Vá ver se consegue ligar para a delegacia.’

   ‘Vou, mas eu...’

   ‘Donahue, cale a boca! Você viu o que aconteceu!’

   ‘É.’

   Spano acendeu um cigarro e a noite tornou-se vermelha e irreal, e as batidas sangrentas do sino estremeceram o mundo.

   Nove ratos rastejantes passaram correndo atrás de coisa alguma, confusos e molhados.

  

   Pela manhã chegaram a um lugar chamado Indiana e continuaram seguindo pela estrada.

   Passaram por fazendas que pareciam em bom estado.

   Poderiam ter gente morando por lá.

   Ele gostaria de investigar, mas não se atrevia a parar.

   Depois de uma hora era novamente zona rural e degeneração.

   A grama baixa e murcha tinha sumido. Uma árvore retorcida, ocasionalmente tombada ao chão. A radiação começava novamente a subir. Os sinais lhe diziam que estavam se aproximando de Indianápolis, o que ele pensava ser uma cidade das grandes e que, depois de bombardeada, desaparecera.

   Também não estava errado.

   Teve que pegar um desvio para o sul, contornando um lugar chamado Martinsville para poder atravessar o White River. Então assim que tomou caminho novamente do leste, o rádio passou a chiar de volta a vida.

   Uma voz débil repetia ‘Veiculo não identificado, pare!’ e ele passou todos os scanners para a distância telescópica. Bem longe, ao alto de uma colina, viu um homem com binóculos e um walkie-talkie. Não manifestou conhecimento da transmissão e continuou seguindo.

   Estava a quarenta milhas por hora na parte mais decente da rodovia e gradualmente foi aumentando a velocidade ate cinqüenta e cinco, apesar do protesto dos pneus contra o pavimento ser o bastante para acordar Greg.

   Tanner estava preparado para um ataque e o rádio permanecia repetindo a ordem, agora mais alto conforme se aproximavam da colina.

   Freou antes de uma longa curva e não respondeu a Greg que perguntou: ‘Qual o problema?’

   Quando viu que o caminho estava bloqueado, agiu instantaneamente.

   Um tanque ocupava o meio da estrada e seu enorme canhão apontava diretamente para eles.

   Encontrou rapidamente uma passagem ao lado do tanque e sua mão direita rapidamente bateu no interruptor que acionou três foguetes anti-blindados acima do veiculo.

   Apertou pesadamente o acelerador com o pé esquerdo.

   Estava saindo da estrada, arrancando a mureta de segurança da direita quando o tanque disparou e errou.

   Então o som de disparos de metralhadoras, ao voltar para a estrada, que vinham do tanque.

   Greg atirou duas granadas e acertou as metralhadoras calibre cinqüenta.

   Continuaram à frente por um quarto de quilômetro então Tanner pegou o microfone e disse:

   ‘Desculpe, mas meus freios não funcionam!’ e desligou.

   Não houve resposta.

   Assim que chegaram numa planície, com boa visão em todas as direções, Tanner parou o veiculo e Greg veio para o assento do motorista.

   ‘Onde você acha que eles conseguiram aquele tanque?’

   ‘Quem sabe?’

   ‘E por que queriam nos parar?’

   ‘Imaginavam o que estávamos carregando, ou então queriam o veículo.’

   ‘Que inferno!’

   ‘Se eles não podiam ter, por que não nos deixar em paz?’

   ‘Sabe como eles pensam, não sabe?’

   ‘Sim.’

   ‘Pegue um cigarro.’

   Tanner aceitou.

   ‘Isto é uma droga, uma droga!’

   ‘Não posso dizer o contrário.’

   ‘..e ainda temos um longo caminho pela frente.’

   ‘É melhor continuar a viagem.’

   ‘Você achava antes que a gente não conseguiria.’

   ‘Eu mudei de idéia. Agora acho que a gente consegue.’

   ‘Depois de passar por tudo isso?’

   ‘Depois de tudo que passamos.’

   ‘O que mais nos espera pela frente?’

   ‘Não sei.’

   ‘Mas, de outra forma, sabemos tudo que há atrás de nós. Agora sabemos como evitar problemas.’

   Tanner concordou.

   ‘Você já tentou fugir. Eu não o culpo.’

   ‘Está ficando com medo, Greg?’

   ‘Não sirvo para minha família se estiver morto.’

   ‘Então por que concordou em vir?’

   ‘Não sabia que seria assim. Você tinha uma idéia do que te esperava.’

   ‘Não tinha não.’

   ‘Ninguém pode nos culpar se a gente falhar. Pelo menos, a gente tentou.’

   ‘E toda aquela conversa sobre o povo de Boston, todo aquele seu discurso?’

   ‘Estão provavelmente mortos agora. A praga não dá tréguas, você sabe.’

   ‘E aquele cara, o Brady? Ele morreu para nos trazer as notícias.’

   ‘Ele tentou, e Deus sabe que respeito seu esforço. Mas já perdemos quatro homens, que poderiam ser seis. Apenas para provar que tentamos?’

   ‘Greg, agora estamos mais próximos de Boston do que de Los Angeles. Os tanques têm combustível o bastante para nos levar até onde queremos, mas não para voltar.’

   ‘Podemos reabastecer em Salt Lake.’

   ‘Não tenho certeza se conseguiremos chegar lá.’

   ‘Bem, leva só um minuto para descobrirmos. Além disso, podemos usar as motocicletas pelos últimos quilômetros, elas consomem menos gasolina.’

   ‘E você é aquele sujeito que me xingou de todos os nomes. Você é o cidadão que estava imaginando como gente como eu nasce. Você me perguntou o que fizeram por mim e eu te contei. Nada. Agora talvez eu queira fazer algo por eles, só por que eu quero. Tenho pensado bastante na coisa toda.’

   ‘Você não tem família para cuidar, Hell.’

   ‘Você arranjou um belo jeito de colocar a coisa quando quer bancar o covarde. Você diz que não está com medo, mas tem a mamãe e irmãs e irmãos pra se preocupar e tem uma guria pela qual é louco.’

   ‘Tá certo Hell, eu não te entendo, não entendo mesmo! Foi você quem pôs esta idéia na minha cabeça.’

   ‘Então esqueça e vamos em frente.’

   Viu a mão de Greg correr para a arma na porta então ele amassou o cigarro na cara dele e acertou-o em cheio no estômago, um cruzado e mais outro, o melhor que podia.

   Greg acusou os golpes e virou-se no assento.

   E lutaram. Os dedos de Greg foram ao rosto de Tanner, que envolveu a cabeça de Greg com um aperto entre seus braços, empurrando-a.

   Greg foi contra o painel, e parou duro e sem vida.

   Tanner acertou sua cabeça mais duas vezes, apenas para certificar que não estava fingindo.

   Então o puxou do assento do motorista.

   Enquanto recuperava o fôlego, checou as telas.

   Nada nas proximidades que fosse uma ameaça.

   Pegou uma corda e amarrou as mãos de Greg atrás, nas costas.

   Empurrou-o para o banco do passageiro.

   Passou uma marcha e tomou o caminho de Ohio.

  

   Duas horas depois Greg começou a gemer e Tanner aumentou o volume da música para não ter que ouvir.

   A paisagem voltara a ser como antes, grama e árvores, campos verdes, pomares de maçã, maçãs pequenas e verdes; fazendas e celeiros marrons e vermelhos, distantes da estrada, plantações de milho se balançando, o cabelo de milho marrom dourado já aparecendo, pronto para ser colhido por alguém; cercas e vigas, sebes verdes, suntuosos bordos, telhados de madeira e um campanário, de onde vinha o som de sinos.

   As linhas no céu estavam dilatadas, mas ainda não estava escuro, como normalmente ficava antes de uma tempestade. Então ele dirigiu até o abismo Dayton.

   Olhou para baixo, para a névoa que preenchia a garganta profunda que o obrigou a parar.

   Usou dos scanners para verificar o lado direito, esquerdo e o norte.

   Mais uma vez a radiação era alta. Com pressa, mas cauteloso, seguiu de olho nas fendas e brechas do terreno, em direção ao centro, profundo e escuro. Vapores amarelos envolveram o veículo e encheram o ar. Em certo ponto, era tudo que via, como um blecaute em meio a uma nuvem sulfurosa e uma brisa veio e a afastou. Involuntariamente ele pisou no freio, o carro saltou e estacou e Greg gemeu de novo. Lentamente seguiu adiante.

   Embora sua visão não estivesse prejudicada, não era fácil tirar aquilo da sua cabeça ou explicar o que vira. Amarelo, pendurado e sorrindo, ele viu um esqueleto crucificado lá junto do abismo. Gente, pensou, isso explica tudo.

   Quando deixou a região de neblina, o céu já estava escuro. Não se dera conta do tempo de que estava em campo aberto novamente. Levou quase quatro horas para atravessar os limites de Dayton e agora, depois de vencer um maldito pântano, estava indo para leste de novo.

   Por pouco tempo, viu um pedaço de sol, como uma foice, brigando, a noroeste, contra um rio negro que cruzava os céus.

   Ligou as luzes ao máximo e percebeu que deveria procurar por uma proteção em qualquer direção.

   Havia um velho celeiro numa colina e ele rumou veloz para ele. Um dos lados estava enfiado na areia e as portas abertas. O interior estava cheio de coisas abandonadas sob as luzes do veiculo, viu o esqueleto do que pensou ser um cavalo e um estábulo ruído.

   Estacionou, desligou as luzes e esperou.

   Logo, o lamento do vento voltou, encobrindo os sons ocasionais que Greg fazia, ainda desacordado. Então ouviu um outro som, não tão alto quanto um disparo de canhão como ouvira uma vez em Los Angeles, mas constante e quase um murmúrio.

   Abriu a porta para ouvir melhor.

   Nada aconteceu, então ele pulou da cabine e caminhou para a traseira.

   O nível e radiação era quase normal, então não teria que se preocupar em vestir o traje de proteção.

   Caminhou para as portas abertas e olhou para fora.

   Carregava a pistola enfiada atrás, no cinto.

   Algo cinzento descia em gotas e o sol se achava parcialmente livre, mais uma vez.  

   Era chuva, simples e pura chuva. Nunca tinha visto uma tão pura e simples como aquela.

   Então acendeu um cigarro e ficou observando.

Ocasionalmente ouvia um trovão e nada mais.

   O céu era levemente róseo por detrás da escuridão.

   A chuva molhou parte de seu rosto, o vento empurrava gotículas na sua direção e ele percebeu que era água e nada mais do que água.

   Largas poças começavam a se formar no chão.

   Atirou um pedaço de pau em uma delas e o viu flutuar.

   De algum lugar de dentro do celeiro, ouviu o som de pássaros. Sentiu o cheiro adocicado das escoras de madeira podre.

   Nas entranhas da escuridão, os restos enferrujados de uma empilhadeira.

   Algumas penas caiam do teto e ele pegou uma delas para estudá-la.

   Muito leve, escura e nervurada. Nunca tinha observado uma antes tão atentamente.

   Soltou-a e o vento se encarregou de levá-la para algum lugar distante.

   Voltou pelo caminho.

   Ele poderia provavelmente dirigir através da chuva sem problemas, mas se deu conta de que estava bastante cansado. Encontrou um tambor e sentou-se nele, acendendo outro cigarro.

   Tinha sido uma boa corrida até então, pensou lembrando no que passara.

   Ele não podia mais confiar em Greg, não por enquanto.

   Não até que estivessem distantes o bastante para não poderem mais voltar.

   Precisavam muito um do outro, não podia perdê-lo agora.

   Esperava que não tivesse perdido seu juízo de todo.

   Ele não sabia o que mais o Caminho guardava para eles.

   Se as tempestades daí em diante fossem menos freqüentes, já seria de grande ajuda.

   Ouviu um barulho e ficou de pé, com a arma à mão.

   Ninguém à vista.

   Não parecia vir do carro ou de Greg, de qualquer forma.

   Vinha de dentro do celeiro, pensou.

   Explorou com os olhos, cada palmo de sombras.

   Nada.

   Ouviu o som novamente e desta vez vinha de cima.

   Havia um sótão.

   Com a pistola erguida, saiu pela porta dos fundos e subiu.

   Apontou para a escuridão e disse secamente:

   ‘Saia daí!’

   Não houve resposta, não até ele atirar duas vezes e então ‘Espere, estou saindo!’.

   O homem cabeludo que veio de lá estava coberto de trapos.

   Quase um palmo menor que Tanner. Encostou contra a parede, tremendo.

   As mãos ao peito e os dedos fechados, como garras.

   ‘Quem é você?’

   O homem olhava para a arma e depois para o rosto de Tanner, várias vezes.

   ‘Eu perguntei, quem é você?’

   ‘Kanis’ disse ele. ‘Geofrey Kanis, eu não sou um cientista.’ completou.

   ‘Quem se importa? O que estava fazendo lá em cima? Me observado?’

   ‘Vim pra cá quando a chuva começou, pra fugir dela.’

   ‘Qual era a graça?’

‘O que?’

   ‘Porque você estava rindo?’

   ‘Oh, porque você não seguiu as regras do mimetismo Batesiano, e você deveria, você sabe.’

   ‘Do que diabos está falando?’

   ‘Eu não sou um cientista.’

   ‘Você já disse isso.’

   O homem riu e então começou a recitar:

   ‘Aquilo aconteceu na mesma região e na mesma época, de acordo com Bates, as espécies mimetistas não conseguiram se proteger e se tornaram raras, segundo Bates, e começaram a diferir de sua própria espécie por características externas claramente visíveis e capazes de criar uma ilusão. Bates disse que suas características miméticas eram superficiais e não produziam mudanças fundamentais nas espécies. Bates escreveu. Ele trabalhava com borboletas, você sabe.’

   ‘Você é doido?’

   ‘Sou, mas eu sigo as regras.’

   ‘Venha para a luz, onde eu posso te ver melhor.’

   O homem veio.

   ‘É, você parece mesmo doido. Que porcaria era aquela de Bates?’

   ‘É algo que certas criaturas possuem com o propósito de auto-proteção: Mimetismo batesiano. Eles se parecem com algo que não são, então nada pode incomodá-los. Agora, se você fosse esperto, nunca deixaria esta barba crescer, lavaria o rosto e pentearia o cabelo, vestiria-se de um terno preto e camisa branca e gravatas e carregaria uma valise. Você ficaria igual a todos e ninguém lhe incomodaria se parecesse com eles. Poderia fazer o que quisesse sem ser molestado. Se pareceria com as espécies protegidas. Nunca correria perigo.’

   ‘Como sabe que estou em perigo?’

   ‘É esta sua aparência, um cheiro irritadiço.’

   ‘Quer dizer que se eu parecesse um quadradão, eu ficaria bem?’

   ‘Provavelmente.’

   ‘E qual é a sua desculpa?’

   O homem riu parecendo relaxar.

   ‘Você odeia cientistas?’

   ‘Não mais do que qualquer um.’

   ‘E o que aconteceria se eu fosse um cientista?’

   ‘Nada.’

   ‘Ok. Sou um cientista.’

   ‘E dai?’

   ‘Eles pensam que somos todos iguais. Sou um biólogo.’

   ‘Eu não o culpo.’

   ‘Foram os físicos que fizeram isso conosco e alguns químicos e matemáticos. Não os biólogos!’

   ‘Você quer dizer, a guerra?’

   ‘Sim. Não. Quero dizer, o mundo do jeito que está agora!’

   ‘Eu não era nascido quando aconteceu. Eu não sei. Nem me importo. O que você está querendo dizer afinal?’

   ‘Vocês não deviam culpar todos os cientistas de todas as disciplinas por conta do que aconteceu.’

   ‘Eu não culpo ninguém. Eu não. Nem sei direito o que aconteceu. Como foi?’

   ‘Guerra, foi isso. Loucura e devastação. Muitas bombas e foguetes com um resultado que ninguém nunca imaginou. Isso!’ Fez um gesto mostrando tudo a volta. ‘Sabe então o que aconteceu? Os sobreviventes foram até as universidades remanescentes e mataram todos os professores. Sociólogos, linguistas, físicos, não interessava o que ensinavam, por que obviamente eram responsáveis, por que eram professores. É por isso que o mimetismo batesiano significa tanto pra mim. Eles os mataram, cortaram em pedaços, crucificaram. Mas não a mim. Não, não comigo. Eu estava entre eles, eu era o povo. Então sobrevivi. Sou um biólogo, laboratório sessenta e quatro, prédio Benton’.

   E riu de novo.

   ‘Quer dizer que os ajudou a matar seus colegas?’

   ‘Não eram meus colegas. Eram de disciplinas diferentes. Mal os conhecia.’

   ‘Mas ajudou?’

   ‘Claro. É por isso que estou vivo.’

   ‘Então, como é sobreviver?’

   O homem levou as mãos ao rosto e começou a coçá-lo com as unhas nas bochechas.

   ‘Não consigo esquecê-los!’ Disse finalmente.

   ‘Então, isso é o que este seu maldito mimetismo te deu, andar por aí fingindo ser outra coisa, pra sempre. Não, obrigado. Eu sei o que eu sou.’

   ‘O que você é?’

   ‘Eu sou eu. Sou um Anjo. Não preciso parecer outra coisa. Se não gostam de mim, eles tentam me derrubar, se conseguirem. Então, se não conseguirem, que se danem todos! Não engulo este seu mimetismo. Não obrigado. Não mesmo. Pode ir pro inferno com ele!’

   ‘As espécies não pensam assim.’

   ‘Que se danem. Estou me lixando pra preservação.’

   ‘Esta é uma atitude errada.’

   ‘Quem diz?’

   ‘Não sei.’ Ele continuava a coçar as bochechas até o sangue manchar sua barba.

   ‘Pare com isso. Está me enchendo. Onde você vive afinal?’

   ‘Lugar nenhum e em toda parte, acho. De todo jeito, eu tento ficar e eles me expulsam depois de um tempo. Não é mais sagrado ser um louco, não mais.’

   ‘Existem acampamentos por aqui? Gente?’

   ‘Alguns, alguns...’

   ‘Vai se mimetizar junto deles então.’

   ‘Não posso. Sou louco.’

   ‘Faça a barba e tome um banho, vista um terno preto e uma camisa branca e gravatas, carregue uma valise...’

   ‘Eles não são mais assim, eu esqueci. Tudo mudou.’

   ‘Bem, vá parecer do jeito com que parecem, diabos!’

   ‘São sujos e barbados e se vestem com roupas velhas.’

   ‘Então você já está pronto para se mimetizar com eles. Eu também.’

   ‘Não.’

   ‘Qual a diferença então?’

   ‘Nós somos loucos.’

   ‘Eu não!’

   ‘Mas é verdade! Quem mais além de um louco estaria num celeiro velho no meio de uma tempestade que poderia virar um holocausto? Um homem normal ficaria em casa, num lugar seguro.’

   ‘Ok, você tem razão. Sou louco também. Quer um cigarro?’

   ‘Sim, por favor.’

   Tanner puxou um pacote e ofereceu-o, depois os fósforos.

   Apesar disso, ainda segurava a arma.

   Kanis acendeu seu cigarro e devolveu o maço e os fósforos.

   Tanner o observou cuidadosamente, sem tirar os olhos do homenzinho.

   ‘Estou curioso’ disse o homenzinho ‘nunca vi um veículo como o seu. Aquilo é um escudo contra radiação, não?’

   ‘Sim. Estou indo para Boston.’

   ‘Muito estúpido. É perigoso.’

   ‘Eu sei. Mas existe uma praga por lá e estou carregando Haffikine antiserum.’

   ‘A praga? Eu soube! Eu sabia que viria!’

   ‘Por que?’

   ‘Malthus e Darwin sabiam também. Vamos todos morrer! Guerra e doença tomam conta das taxas populacionais. Não estamos mais preparados para sobreviver. Vai ser assim até o nosso fim.’

   ‘Maluquice! Eles conseguiram parar a praga em Los Angeles. É pra isso que serve o soro.’

   ‘Outra praga vai aparecer.’

   ‘Não me importo com eles.’

   ‘Você é um deles!’

   ‘Não sou. Você mesmo disse isso.’

   ‘Estava errado. Sou um louco.’

   Tanner fumou em silêncio por um instante.

   ‘O que vai fazer comigo?’ Kanis perguntou para Hell.

   ‘Nada. Vou continuar apontando esta arma para você até a tempestade passar, por que não confio em você. Então irei embora no meu carro.’

   ‘Não confia em mim por que sou um cientista?’

   ‘Por que você é louco!’

   ‘Ponto pra você! Você poderia me matar, acho.’

   ‘Por que me incomodar?’

   ‘Talvez eu mereça estar morto.’

   ‘Então se mate.’

   ‘Não posso.’

   ‘Isso é ruim.’

   ‘Por que não me leva para Boston com você?’

   ‘Talvez. Se você realmente quer ir e se eu puder confiar em você.’

   ‘Deixe-me pensar.’

   ‘Foi você quem perguntou. Achava que você queria.’

   Tanner ouviu a chuva acertar mais forte o telhado.

   Então Kanis disse: ‘Não, obrigado. Eles provavelmente me matariam, já que sou um cientista.’

   ‘Acho que não. Eles não matam cientistas em Los Angeles, mas acho que você quer morrer.’

   ‘Às vezes sim, às vezes não. Tem algo pra comer? Estou com uma fome terrível!’

   Tanner lembrou do estoque, remexera antes no refrigerador e nos armários.

   ‘Ok’ disse ‘ande na minha frente até o carro e não faça nenhum movimento brusco. Acho que sobrou alguma ração.’

   Kanis fez como foi mandado.

   ‘Lembre-se que tem uma arma nas suas costas.’

   Kanis fez um gesto concordando.

   No carro, Tanner removeu algumas latas de ração dos compartimentos e trouxe-as para fora.

   ‘Aqui está seu banquete’ disse jogando os ao chão.

   Olhou Kanis comendo até não acreditar que pudesse estar tão faminto assim.

   ‘Como se sente?’ perguntou.

   ‘Muito melhor, obrigado.’

   ‘Tenho certeza de que não te matariam em Boston. Se quiser, te levo comigo. O que diz?’

   ‘Não obrigado. Estou melhor agora.’

   ‘Por Deus, por que?’

   ‘Por que comi.’

   ‘Quero dizer, por que não quer vir comigo?’

   ‘Eles me odeiam.’

   ‘Não odeiam não.’

   ‘Eu os ajudei, você sabe, quando puseram fogo nas universidades.’

   ‘Então não fale nada sobre isso.’

   Ele balançou a cabeça:

   ‘Eles saberão.’

   ‘Como, seu idiota? Me diga como?’

   ‘Eles saberão, eu sei.’

   ‘Cara, você tem que largar esta culpa toda, já tinha ouvido falar disso, mas nunca acreditei que fosse verdade. Esqueça! Eu levo você até lá, você vai poder fazer o que quiser com suas borboletas e ninguém dará a mínima.’

   ‘Não obrigado.’

   ‘Tudo bem. Como queira.’

   Então viram um raio azul. A força do aguaceiro aumentou até soar como milhares de martelos acertando o telhado. Um brilho anormal cercou o celeiro por um instante.

   ‘Como é seu nome?’ perguntou Kanis.

   ‘Hell.’

   ‘Eu sabia. Acredita em Deus, Hell?’

   ‘Não.’

   ‘Eu também não, mas hoje eu acredito. “Perdoa meus pecados...”’

   ‘Não me venha com essa história.’ disse Tanner

   ‘Desculpe. Eu...’

   Então veio o trovão que engoliu suas palavras.

   Então o homenzinho disse:

   ‘Me mate.’

   Tanner pisou na bituca.

   ‘’Você vai?’ perguntou

   ‘O que?’

   ‘Me matar?’

   ‘Não.’

   ‘Por que não?’

   ‘Por que deveria?’

   ‘Eu gostaria.’

   ‘Vá pro inferno.’

   ‘Já estou.’

   ‘Como disse, você é louco.’

   ‘Não vem ao caso.’

   ‘Quer outro cigarro?’

   ‘Não obrigado.’

   A chuva diminuiu um pouco e os trovões pararam.

   As sombras voltaram a parecer sombras como antes.

   ‘Ok, deixe pra lá’ disse Kanis.

   ‘Já deixei.’

   ‘Não quero ser um aborrecimento.’

   ‘Sei. O que biólogos fazem?’

   ‘Sou doutor em ciência biológica. Sou botânico...’

   ‘Doutor?’

   ‘Sim.’

   ‘Tem um sujeito dentro do carro que precisa de cuidados médicos, você poderia dar uma olhada nele?’

   ‘Não sou este tipo de doutor.’

   ‘Como assim?’

   ‘Sou doutor, mas não um médico. Tudo que sei é sobre botânica.’

   ‘Biologia tem a ver com cortar gente e coisas assim não? Isso não ajuda?’

   ‘Não realmente. Nada sei sobre medicina.’

   ‘Ok, eu acredito. Iso é mau. Ele está bem ruim.’

   ‘Desculpe-me.’

   Lá fora parecia que um novo dia brilhante.

   ‘Parece estar melhorando.’

   ‘Sim.’

   ‘Acho que vou indo.’

   ‘Agora?’

   ‘Por que?’

   ‘A tempestade pode voltar.’

   ‘Pode voltar ou não. Vou me arriscar.’

   Tanner começou a andar para o carro.

   ‘Espere!’

   ‘O que?’

   ‘Nada.’

   Kanis deu o bote, colocando a mão dentro da camisa e Tanner atirou duas vezes nele.

   ‘Maldito! O que você fez?’ gritou para o homem caído de lado.

   Kanis tossia sangue.

   ‘Por que não?...sou um louco, lembra?’ e deu um suspiro final diante dos olhos de Tanner.

   ‘Louco, louco!’ disse Tanner e agarrou Kanis pelos braços, puxando-o para o curral.

   Deitou-o ao lado do esqueleto do cavalo.

   Vasculhou-o mas não encontrou nenhuma arma.

   ‘Queria que não tivesse feito isso’ disse voltando-se a sentar no barril e acender outro cigarro.

   Sua mão ainda sentida pelo impacto da arma ao disparar.

   ‘Maluco, doido! Absolutamente sem juízo! Maluco! Era o que ele era’

   Ele estava certo.

  

   Ficou sentado por bastante tempo até começar a sentir frio, brisas úmidas e a chuva que diminuía e voltou para o carro e o ligou.

   Greg ainda estava inconsciente.

   Tomou uma pílula que o deixaria alerta e comeu um resto de ração e dirigiu para fora.

   A chuva continuava a cair levemente e por todo o caminho através de Ohio, o céu ainda coberto e cinzento.

   Cruzou por West Virginia, um lugar chamado Parkersburg, e então seguiu para o norte.

   O dia cinza virara noite escura e ele continuou dirigindo.

   Não havia mais morcegos para incomodá-lo, mas passou por diversas crateras e o contador de radioatividade disparava e, em certo ponto, uma matilha de grandes cães selvagens o perseguiu ruidosamente por minutos até desistir.

   Sob as rodas pode sentir um tremor assim que passou por outra montanha e vislumbrou nuvens brilhantes à frente e a esquerda. Cinzas começaram a cair e dirigiu através delas.

   Uma inundação repentina caiu sobre ele e por duas vezes o motor morreu, mas ele sempre ligava novamente e seguia em frente, com as águas batendo nas laterais e acima.

   Então chegou a um lugar mais alto e seco e um homem com rifles tentou barrar seu caminho.

   Tanner desviou dele e deixou cair uma granada na sua direção e continuou sem olhar para trás.

   Quando a escuridão começou a ir embora e uma lua turva apareceu, pássaros negros voaram ao seu redor, mas os ignorou e depois de minutos eles se foram.

   Dirigiu até se sentir novamente exausto e então comeu mais alguma coisa e tomou outra pílula. Já chegavam a Pensilvânia e pensou que, se Greg estivesse acordado, ele poderia convencê-lo a ajudar e seguir dirigindo em seu lugar.

   Por duas vezes parou o carro para usar da latrina, molhar o rosto e assoar o nariz e se coçar.

   Então comeu um pouco e voltou ao volante e continuou a dirigir.

   Seus músculos começavam a doer, todos eles, queria parar e dormir mas tinha receio do que poderia aparecer enquanto dormia.

   Dirigia através de outra cidade fantasma quando a chuva voltou.

   Não tão pesada, fria e estéril, tamborilando nas telas.

   Parou no meio da rua e ficou ali parado.

   A princípio pensou que eram linhas escuras no céu.

   Parara porque elas pareciam ter surgido muito subitamente.

   Era uma teia de aranha, fios grossos como seu braço, pendurada e esticada entre dois prédios.

   Acionou a tocha e ela começou a queimar.

   Quando o fogo se foi, viu uma forma se aproximando, descendo de cima.

   Era a aranha, muito maior do que ele, vindo se certificar do que ocorria.

   Tanner guiou os lançadores de foguete para o alto, armou-os e disparou um foguete.

   A aranha permaneceu lá, mesmo após atingida, parecendo não ter sentido nada.

   Tentou o lança-chamas, carga plena por dez segundos e quando terminou, havia um caminho

   aberto à sua frente.

   Seguiu em frente, acordado e esquecido das dores.

   Dirigiu o mais rápido que pôde, tentando esquecer da visão da aranha vindo em sua direção.

   Outra montanha queimava na distância e mais cinzas caíam sobre ele.

   Fez café e bebeu uma caneca.

   Logo amanheceria e ele voltaria para a estrada.

  

   Estava preso na lama, em algum lugar ao leste da Pensilvânia e xingava.

   Greg parecia muito pálido.

   O sol quase no meio do céu. Inclinou-se para trás e fechou os olhos.

   Aquilo era demais.

   Foi dormir.

   Ao acordar, sentia-se pior.

   Algo batia na lateral do carro.

   Suas mãos foram direto para o controle de disparo e os olhos para as telas.

Viu um homem velho e dois garotos com ele.

   Estavam armados, mas estavam sentados sobre a asa direita e sabia que podia cortá-los a qualquer momento.

   Ativou o sistema de som e o microfone.

   ‘O que querem?’ perguntou ouvindo sua voz distorcida e amplificada lá fora.

   ‘Você está bem?’ perguntou o homem velho.

   ‘Não. Eu estava dormindo e você me acordou.’

   ‘Está atolado?’

   ‘Pode apostar!

   ‘Tenho umas mulas que podem tirá-lo. Posso estar de volta amanhã pela manhã.’

   ‘Ótimo’ disse Tanner ‘Eu gostaria bastante.’

   ‘De onde veio?’

   ‘Los Angeles.’

   ‘Onde fica?’

   ‘Costa oeste.’

   Houve algum murmúrio entre eles e o velho disse:

   ‘Está bem longe de casa, moço.’

   ‘Como se não soubesse. Olhe, se está falando sério sobre estas mulas, eu gostaria muito de sair daqui, é uma emergência.’

   ‘Que tipo de emergência?’

   ‘Conhece Boston?’

   ‘Sei onde fica.’

   ‘Bem, tem gente morrendo por lá, por conta da praga. Tenho alguns remédios que podem salvá-los, se eu conseguir chegar lá.’

   Mais murmúrios.

   ‘Vamos te ajudar. Boston é bastante importante e não queremos perdê-la. Quer vir conosco?’

   ‘Onde? E quem é você?’

   ‘O nome é Samuel Potter e estes são meus filhos Roderick e Caliban. Minha fazenda fica a uns seis quilômetros e você é bem vindo para passar a noite.’

   ‘Não é que eu não acredite em você. É que eu não acredito em ninguém, se é que me compreende. Quase fui baleado recentemente e não quero dar chance de acontecer de novo.’

   ‘E se a gente largar as armas? Você deve ser capaz de acertar a gente, não é?’

   ‘Certo.’

   ‘Então nós estamos tentando te ajudar. A gente só tem a perder se os negociantes de Boston pararem de vir até Albany comprar nossos produtos. Se você tem alguém com você ai dentro, ele pode te cobrir.’

   ‘Espere.’ disse e abriu a porta, saltando para fora.

   O velho estendeu a mão e Tanner a apertou, assim como os filhos.

   ‘Vocês tem algum doutor por perto?’

   ‘No povoado, uns trinta quilômetros ao norte.’

   ‘Meu parceiro está ferido, acho que precisa de um médico.’ disse apontando a cabine.

   Sam moveu-se e espiou lá dentro.

   ‘Por que está amarrado daquele jeito?’

   ‘Ele perdeu o controle e tive que acertá-lo. Precisei amarrar para que ficasse seguro. Mas ele não parece estar bem.’

   ‘Vamos fazer uma maca e levá-lo daqui. Amarramos bem e meus meninos vão levá-lo para casa. Mandaremos alguém buscar o doutor. Você também não parece bem. Acho que precisa de um banho, de se barbear e uma cama.’

   ‘Não me sinto bem’ disse Tanner. ‘Vamos fazer rápido esta maca, antes que precisemos de duas.’

   Enquanto os garotos de Potter foram cortar alguns galhos de árvore, Tanner sentou-se e fumou um pouco com o velho.

   Ondas de fadiga o alcançavam e sentia dificuldade de manter abertos os olhos, seus ombros doíam e seus pés pareciam endurecidos.

   O cigarro escapou dos dedos e ele caiu de costas na lama.

   Alguém mexia em sua perna. Forçou-se a abrir um olho.

   ‘Olhe’ disse Potter ‘Colocamos seu amigo na maca. Quer levantar e partir?’

   Tanner concordou e levantou-se.

   Fechou a cabine do carro e passou a seguir o velho de calças de couro curtido.

   Depois de um tempo atravessando o campo, seus movimentos tornavam-se mecânicos.

   Samuel Potter abria o caminho, o cano do rifle pousado ao braço, talvez para manter Tanner alerta.

   ‘Não estamos muito longe e estaremos bem em poucos minutos. Como disse que é o seu nome?’

   ‘Hell’ disse Tanner.

   ‘Perdão?’

   ‘Hell. Meu nome é Hell. Hell Tanner.’

   Sam Potter riu.

   ‘É um nome danado de bom moço. Se estiver bom pro senhor, eu o apresentarei para minha esposa e família, como o Senhor Tanner. Tudo bem?’

   ‘Está ótimo pra mim.’

   ‘Nós certamente sentiríamos falta dos negociantes de Boston. Espero que consiga chegar a tempo!’

   ‘O que eles fazem?’

   ‘Eles tem lojas em Albany e duas vezes por ano fazem uma feira, na primavera e no outono. Tem todo tipo de coisa que a gente precisa, agulhas, linha de costura, pimenta, chaleiras, panelas, sementes, armas e munição, todo tipo de coisa e as feiras são divertidas também. Espero que você consiga.’

   Alcançaram um terreno seco, mais alto.

   ‘Acha que o caminho vai ficar melhor depois daqui?’

   ‘Bem, não, mas vamos te ajudar com um mapa e podemos lhe falar o que vai encontrar pela frente.’

   ‘Já tenho o meu aqui’ disse Tanner apontando para sua jaqueta.

   Viu uma fazenda à distância.

   ‘É a sua?’

   ‘Certo. E não está muito longe agora. Pode se apoiar no meu ombro se estiver cansado.’

   ‘Eu consigo’ disse Tanner. ‘Tomei tantas daquelas pílulas para ficar acordado que acho que agora está voltando todo o sono que eu perdi. Mas eu ficarei bem.’

   ‘Você vai poder dormir logo, logo. E quando acordar, vai poder me mostrar este seu mapa e vai poder escrever nele todos os lugares que vou lhe contar.’

   ‘Parece bom.’ disse Tanner. ‘Parece bom’ e colocou a mão no ombro de Sam, apoiando-se nele, sentindo-se meio bêbado.

   Depois de uma eternidade finalmente ele viu a casa à sua frente e uma porta.

   A porta se abriu e ele caiu pra frente e foi isso.

  

   Sono.

   Escuridão, vozes distantes e mais escuridão.

   Por toda parte, era macio, para onde quer que fosse, de um lado pro outro.

   Quanto tudo finalmente emergiu para tornar-se coerente ele abriu os olhos.

   Pouca luz entrava por uma janela a direita, e a luz em retângulos se dispunha sobre a colcha de patchwork que o cobria.

   Gemeu, esticou-se, coçou os olhos e a barba.

   Cuidadosamente estudou o quarto, piso de madeira polida, um armário de roupas com um vaso esmaltado sobre ele, um espelho na parede a frente dele, uma cadeira de balanços delgada perto da janela, com uma almofada bordada no assento, uma pequena mesa contra a outra parede com uma cadeira junto, livros e papel, caneta e tinta sobre a mesa, um quadro entalhado a mão na parede pedindo as benções de Deus e uma pintura em azul e verde de uma queda d’água na outra parede.

   Sentou-se e descobriu que estava nu, procurou pelas roupas ao redor.

   Não as viu.

   Ainda sentado, decidia se chamaria alguém ou não quando Sam entrou.

   Carregava as roupas de Tanner, limpas e passadas, sobre o braço. No outro braço tinha as botas e que pareciam brilhantes como uma meia noite molhada.

   ‘Ouvi você acordando’ ele disse ‘Sente-se bem?’

   ‘Muito melhor agora, obrigado.’

   ‘Estamos te preparando um banho. Só tem que pular na água quente e é toda sua. Meus garotos trarão sabão e toalha.’

   Tanner não queria ser descortês com seu benfeitor então concordou e forçou um sorriso.

   ‘Ótimo.’

   ‘Tem uma navalha e tesouras no aparador, se quiser.’

   Concordou de novo.

   Sam colocou suas roupas na cadeira de balanço e as botas no chão ao lado dela e deixou o quarto. Logo Roderick e Caliban entraram carregando um barril de banho, colocaram alguns panos no chão e a tina sobre eles.

   ‘Como se sente?’ perguntou um deles. Tanner não sabia quem era quem, ambos pareciam graciosos como corvos e as bocas cheias de dentes brancos.

   ‘Muito bem.’

   ‘Deve estar faminto!’ disse outro. ‘Você dormiu a tarde inteira de ontem, toda a noite e a maior parte da manhã de hoje.’

   ‘Pode acreditar...como está meu parceiro?’

   O rapaz mais perto dele balançou a cabeça e disse ‘Dormindo ainda, está bem mal. O doutor vai chegar em breve, nosso irmão mais novo foi buscá-lo ontem à noite.’

   Se viraram para sair e aquele mais falante adicionou:

   ‘Assim que tiver se limpado, a mãe vai fazer algo pra você comer. Cal e eu vamos tentar tirar seu carro do atoleiro. O pai vai te falar sobre o mapa e as estradas enquanto come.’

   ‘Obrigado.’

   ‘Bom dia para você.’

   Fecharam a porta ao sair.

   Tanner se levantou e foi até o espelho se olhar.

   ‘Bem, só por esta vez’ murmurou.

   Lavou o rosto, fez a barba e cortou o cabelo.

   Então escovou os dentes, entrou na tina e se ensaboou. A água ficou cinza e turva.

   Terminado de se lavar, saiu da tina, enxugou-se e vestiu-se.

   Estava limpo e enrugado, cheirando a desinfetante. Sorriu para seu reflexo e acendeu um cigarro. Penteou seu cabelo estudando o estranho no espelho.

   ‘Diabos! Como sou bonito!’ riu e saiu do quarto para procurar a cozinha.

   Sam estava lá sentado na mesa de jantar e tomando café e sua esposa, uma dona gorda e baixinha vestindo uma camisola comprida e cinzenta que tomava conta do forno.

   Ela se virou quando ele entrou, tinha o rosto largo, bochechas vermelhas e uma cicatriz branca bem no meio do rosto. Seu cabelo era castanho, um pouco grisalho.

   Balançou a cabeça e sorriu um ‘Bom dia’ para Hell.

   ‘Bom dia.’ ele respondeu. ‘Acho que fiz uma bagunça no seu quarto.’

   ‘Não se preocupe’ disse Sam ‘Sente-se e nós lhe daremos algo para comer em um minuto. Os garotos lhe falaram do seu amigo?’

   Tanner fez que sim.

   Ela colocou um copo de café na frente de Tanner e Sam disse que o nome da mulher era Susan.

   ‘Como vai?’ Ela disse.

   ‘Oi.’

   ‘Agora, eu tenho seu mapa aqui. Eu o achei olhando sua jaqueta. E a arma pendurada na porta também. De qualquer modo, acho que o melhor caminho para você é por Albany e então pegar a velha Rota nove, que está em boa forma.’

   Apontou no mapa o ponto que falava.

   ‘Agora, não vai ser um piquenique’ disse ‘mas parece o caminho mais tranqüilo e rápido que há.’

   ‘Comida’ disse sua esposa empurrando o mapa de lado e deslizando pela mesa o prato de ovos, bacon e salsichas, e outro prato com quatro torradas.’ Também tinha geléia, marmelada, gelatina e manteiga sobre a mesa e Tanner não se fez de rogado, bebeu o café e atracou-se com a comida enquanto Sam falava.

   Contou sobre as gangues que viviam entre Boston e Albany com suas motocicletas, assaltando e roubando e por este motivo a maior parte das cargas seguiam em comboios com atiradores a bordo.

   ‘Mas não precisa se preocupar com aquela sua carroça, não é mesmo?’ ele disse.

   ‘Espero que não’ respondeu Tanner jogando mais comida na boca.

   Ele imaginava se eles eram algo parecidos com a sua antiga turma e ele esperava que não,

   para o bem de todos.

   Tanner terminava o café quando ouviu um barulho vindo de fora.

   A porta da cozinha se abriu e um menino entrou na cozinha correndo.

   Devia ter dez, no máximo doze anos.

   Um sujeito bem velho o seguiu, carregando a maleta negra tradicional de médico.

   ‘Chegamos, chegamos’ gritava o menino e Sam levantou para apertar a mão do homem.

   Tanner achou que deveria fazer o mesmo e levantou-se.

   Limpou a boca e apertou a mão do homem também.

   ‘Meu parceiro parece que perdeu a cabeça. Pulou encima de mim e tivemos uma briga. Eu o empurrei e ele bateu com a cabeça no painel do carro.’

   O doutor, um homem de cabelos bem negros, nos seus quarenta anos, vestia um terno escuro e sua face era taciturna, séria, apesar do olhar cansado.

   Sam disse ‘Eu levo o senhor até ele’ e saíram da cozinha.

   Tanner voltou a sentar-se pegando a ultima torrada, Susan encheu novamente seu copo e ele a agradeceu com um movimento de cabeça.

   ‘Meu nome é Jerry’ disse o menino sentando-se na cadeira do pai ‘Seu nome é mesmo Hell?’

   ‘Calado!’ disse sua mãe.

   ‘ Acho que sim…’

   ‘E dirigiu através do país todo? Pelo Caminho dos Condenados?’

   ‘A maior parte.’

   ‘E como é?’

   ‘Como?’

   ‘Você viu o quê?’

   ‘Morcegos do tamanho desta cozinha, alguns até maiores, do outro lado de Missus Hip. Muitos em Saint Louis...’

   ‘E o que você fez?’

   ‘Atirei neles. Queimei alguns. Atropelei outros.’

   ‘O que mais cê viu?’

   ‘Monstros Gila. Grandes. Lagartos em technicolor, do tamanho de celeiros. Demônios de areia, gigantescos tornados que sugam seu carro, montanhas com o topo pegando fogo, grandes, realmente grandes moitas de espinhos que nós incendiamos. Dirigimos através de tempestades, fomos a lugares que o chão parecia vidro. Dirigimos com terremotos, perto de imensas crateras e muita radioatividade...’

   ‘Espero poder fazer isso um dia.’

   ‘Talvez algum dia, quem sabe.’

   Tanner terminou a refeição e acendeu um cigarro, bebericando o café.

   ‘Boa a sua comida’ ele disse ‘A melhor que comi em muito tempo. Obrigado.’

   Susan sorriu e disse ‘Jerry, não amole o moço.’

   ‘Não se preocupe madame, ele é ok.’

   ‘O que é esta coisa no seu anel?’ perguntou Jerry. ‘Parece uma cobra.’

   ‘E é o que é’ disse Tanner ‘Ela é prateada, com olhos vermelhos e eu a comprei em um lugar chamado Tijuana. Aqui! Fique com ela.’

   ‘Não posso’ disse o menino olhando para a mãe, com os olhos pedindo para que deixasse.

   Ela olhou para ele, balançando sua cabeça da esquerda para direita e Tanner ao ver disse:

   ‘Seu pessoal foi bom pra mim, me ajudou, arranjou um médico para meu parceiro, me alimentou e me deu um lugar para dormir, estou certo de que não se importariam se eu demonstrasse meu agradecimento um pouco, dando a você este anel.’

   Jerry olhou de novo para a mãe, que desta vez concordou.

   Jerry pulou de onde estava, pegou o anel e colocou-o no seu dedo.

   ‘É grande demais pra mim.’

   ‘Me dê aqui um pouco, eu o acerto, basta apertar um pouquinho aqui e ali.’

   Ele apertou o anel e devolveu ao guri que o experimentou.

   Ainda estava grande, então Tanner o apertou de novo até que coubesse.

   Jerry saiu correndo contente.

   ‘Espere’ disse sua mãe ‘ o que a gente diz?’

   Ele virou-se para Tanner e falou um ‘Obrigado, Hell.’

   ‘Mister Tanner’ disse a mãe.

   ‘Mister Tanner’ repetiu o menino e saiu batendo a porta atrás dele.

   ‘Foi bondade sua’ ela disse.

   Tanner sorriu.

   ‘Gostei dele’ disse ‘Espero poder encontrá-lo de novo.’

   Terminou o café e o cigarro, bebeu outro copo, fumou outro cigarro.

   Algum tempo depois Sam e o doutor vieram e Tanner começou a pensar onde a família teria dormido na noite anterior.

   Sentaram-se todos à mesa e Susan serviu um café.

   ‘Seu amigo teve uma concussão’ disse o médico ‘não sei dizer o quanto sua condição é séria sem um raio-x, e não tem como fazer ele aqui. Eu recomendaria levá-lo até lá.’

   ‘A cidade fica muito longe?’ Perguntou Tanner.

   ‘Alguns dias, talvez uma semana. Deixei alguns medicamentos com Sam e ele sabe o que fazer. Sam disse que tem um praga em Boston e você precisa se apressar. Meu conselho é que siga sozinho. Deixe-o aqui com os Potters, ele terá cuidados necessários. Ele poderá ir depois até Albany, na feira de primavera e depois pegar uma carona para Boston com um dos cargueiros comerciais. Quando estiver bem.’

   ‘Ok’ disse Tanner ‘ se este é o único jeito, então está decidido.’

   ‘É a minha recomendação.’

   Beberam o café em silêncio.

  

   Hell Tanner e Jerry Potter caminhavam através da manhã fria.

   Gotas de orvalho cobriam a grama e ela brilhava como se cromada.

   Uma neblina leve estava no ar e a respiração de Jerry cristalizava-se conforme espirava e ele disse: ‘Olha Hell, tô fumando!’

   ‘É’ disse Tanner ‘Será que meu carro já está livre?’

   ‘Provavelmente’ disse Jerry ‘Temos umas mulas muito boas’ então falou ‘Hell, o que você faz de verdade, quando não está dirigindo?’

   ‘Eu estou sempre dirigindo. Sou um motorista, é só.’

   ‘Você vai ter que fazer alguma coisa, depois que chegar em Boston.’

   Tanner limpou a garganta e cuspiu em direção a uma arvore.

   ‘Não sei. Talvez tenham um trabalho pra mim, arrumando carros ou motocicletas.’

   ‘Você sabe o que eu quero ser?’

   ‘Não. Me diga.’

   ‘Um piloto. Eu quero voar.’

   Tanner sacudiu a cabeça ‘Você não pode. Já viu os pássaros? Eles não sobem muito alto, eles têm medo. Se você subir muito em um avião, os ventos te matam.’

   ‘Eu posso voar bem baixo.’

   ‘O terreno é irregular e os ventos variam em altitude. Tem morros e você não vai conseguir ultrapassá-los, nem contorná-los, você pode ver a turbulência, as ondas são visíveis por conta de toda porcaria que carregam e além do fato que depois de um certo ponto, só tem rochas por lá.’

   ‘Eu poderia arranjar um jeito de...’

   ‘É, e os ventos mudam. Eles sobem e descem, sem previsão de quando ou por quê.’

   ‘Mas eu quero voar.’

   Tanner encarou o menino e sorriu.

   ‘Tem um monte de coisas que a maioria das pessoas quer fazer, e por um motivo ou por outro, elas nunca vão poder. Voar é uma dessas coisas. Você precisa procurar outra coisa.’

   O lábio de baixo de Jerry ficou protuberante a partir daquele instante, assim como passou a chutar toda pedra que encontrava pela frente.

   ‘Todo mundo tem algo especial que gostaria de poder fazer, quando se é jovem’ disse Tanner ‘Só que nunca é como a gente gostaria que fosse.’

   ‘O que você gostaria de fazer se não dirigisse?’

   Tanner parou dando as costas para o vento, protegendo o cigarro aceso do vento, então deu uma baforada e atirou-o longe e disse:

   ‘Eu queria ser o cara que cuida da máquina.’

   ‘Que máquina?’

   ‘A Maquina. É difícil de explicar...’

   Fechou os olhos por um momento então os abriu e disse:

   ‘Eu tinha um professor, quando estava ainda na escola, que disse que o mundo era uma grande máquina, que tudo estava conectado, que tudo acontecia por ser uma reação a uma ação. Então eu comecei a pensar nisso, nessa grande máquina, todo tipo de engrenagens, pistões, correntes, todo tipo e medidores e cabos e polias e eixos e que ela existia em alguma parte, essa máquina, quero dizer, e de acordo com quem a operava, de forma suave ou não, as coisas podiam ser boas ou ruins no mundo. Então eu cheguei à conclusão de que ela não estava sendo bem operada, e que precisava de alguém que desse a devida atenção a ela, que ficasse de olho e que a consertasse quando fosse preciso. Eu sentava na classe e tinha estes sonhos acordado sobre isso, ficava pensando nisso toda noite antes de dormir. Costumava pensar que um dia eu iria procurá-la e a encontraria. E eu cuidaria dela, seria o cara que colocaria óleo nas partes sem óleo, reporia as peças, poliria, ajustaria os controles. Então tudo funcionaria bem. O clima seria sempre bom, todos teriam comida para comer, não haveria brigas, nem gente doente ou drogas, eu queria aquele trabalho. Podia me ver lá, naquele enorme prédio ou na gigantesca e velha caverna, trabalhando duro para manter o tic-tac perfeito e todos felizes.

   E eu me divertiria muito, também, tipo, saindo de férias, fechando o lugar. Então tudo pararia, entende? Exceto eu. Como a gente vê nas fotografias, tudo parado, congelado feito estátua, parando o que estavam fazendo, tipo comendo, trabalhando, namorando, tudo iria parar. E eu poderia sair pela cidade e ninguém saberia que eu estava lá. Poderia tirar a comida dos pratos das pessoas, surrupiar roupas das lojas, beijar as garotas, ler seus livros, pelo tempo que quisesse. Quando me cansasse daquilo, bastava voltar até a máquina e ligá-la e tudo voltaria a ser como sempre, e ninguém se importaria por que eu faria tudo funcionar bem e todos seriam felizes. Isso é o que eu queria ser, o cara que cuida da máquina. Só que eu nunca a encontrei.’

   ‘Você ainda está procurando?’ perguntou Jerry.

   ‘Não.’

   ‘Por que não?’

   ‘Por que eu não vou achar.’

   ‘Como você sabe?’

   ‘Por que ela não está lá. Não existe uma máquina assim. Era só uma comparação. O professor estava tentando dizer que a vida é como uma grande máquina, não que era uma de verdade. Eu não tinha entendido, passei anos pensando na maldita máquina.’

   ‘Como sabe que não tem uma máquina assim?’

   ‘Ele me explicou depois, quando eu fui perguntar onde ela estava. Garoto, como me senti estúpido!’

   ‘Ele não pode estar enganado?’

   ‘Sem chance. Agora que sou mais velho, eu entendi o que ele queria dizer. Mas acho que estava errado mesmo assim. É confuso demais para ser uma máquina. Mas eu entendi...’

‘Então eles não são tão sabidos, os professores, se podem estar errados.’

   Jerry olhava para o anel.

   ‘Eles são sabidos de um outro jeito. Como um biólogo que eu encontrei certa vez. Ele era esperto com as palavras. Meu professor sabia o que dizia e hoje eu sei disso. Mas leva tempo para entender do que estavam falando.’

   ‘Mas e se ele estiver errado? Se a coisa estiver lá? E se você encontrar algum dia? Você ainda iria querer ser o cara que a conserta?’

   Tanner pegou um cigarro.

   ‘Não tem uma máquina assim.’

   ‘Mas se tiver?’

   ‘É, eu acho que ainda quero aquele emprego.’

   ‘Legal, por que eu ainda quero voar, mesmo que você me diga que não posso. Vai ser legal. Talvez os ventos desapareçam um dia.’

   Tanner colocou uma mão sobre o ombro do menino e disse: ‘Seria legal.’

   ‘Espero que um dia você a encontre e conserte tudo, então eu vou poder voar também.’

   ‘Se eu puder, será a primeira coisa que consertarei.’

   ‘Obrigado, Hell.’

   O sol estava um pouco mais alto e a neblina se dissipava.

   Tanner encontrou seu veículo livre e disse:

   ‘Acho que vou indo’ e virou-se para os Potters e agradeceu.

   Destrancou a cabine, subiu no veiculo e ligou o motor.

   Encaixou uma marcha e tocou a buzina duas vezes antes de começar a rodar.

   Na tela retrovisor, três homens acenavam.

   Acelerou até que eles desapareceram.

   O caminho à frente estava limpo e o céu estava pintado de rosa salmão.

   A terra escura e marrom e ainda havia bastante grama verde.

   O sol prendia o dia em uma teia prateada.

   Aquela parte do país parecia intocada pelo caos que maculara todo o restante do Caminho dos Condenados.

   Tanner ouvia música.

   Passou por dois caminhões na estrada e buzinou para eles.

   Eles buzinaram de volta.

   Dirigiu o dia todo e pela noite até chegar a Albany.

   As ruas estavam escuras e apenas poucas luzes acesas nos prédios.

   Parou em frente a um luminoso vermelho que dizia ‘Bar e Grill’.

   Estacionou e saiu.

   Era um lugar pequeno, com jukebox ligadas tocando umas musicas que nunca ouvira antes e a luz era fraca, e havia bastante poeira no chão.

   Foi até o bar e puxou a magnun para baixo do cinto onde não aparecesse.

   Então tirou a jaqueta, por que fazia calor, e atirou-se num banco.

   Quando o sujeito de branco se aproximou dele, Tanner disse:

   ‘Me dê um uísque e uma cerveja e um sanduíche de carne.’

   O homem limpou as mãos no avental, coçou a careca e foi pegar um copo pequeno que colocou na frente de Tanner. Encheu-o de uísque e serviu-lhe uma cerveja.

   Tanner jogou a bebida dentro da boca e bebeu a cerveja em seguida.

   Minutos depois, um prato branco com um sanduíche apareceu na sua frente.

   O barman escreveu algo num talão verde e prendeu-o debaixo do prato.

   Tanner mordeu o sanduíche e lavou-o com bastante cerveja.

   Estudava as pessoas a sua volta e concluiu que faziam os mesmos ruídos que as pessoas fazem em bares em que tinha estado.

   O velho a sua esquerda parecia amigável, então perguntou:

   ‘Sabe alguma novidade de Boston?’

   O peito do homem estremecia a cada palavra e parecia normal para ele.

   ‘Sem notícias. Parece que os negociantes vão fechar as lojas até o fim da semana.’

   ‘Qual foi a última notícia que teve deles?’

   ‘O povo continua morrendo, outros continuam fugindo. Dúzias deles passam por aqui a cada dia. Tem um bloqueio na estrada, avisando para não vir para cá. Então eles seguem e vão parar no primeiro povoado que encontram. E um monte deles está acampando nas montanhas naquela direção’ e apontou norte ‘são três ou quatro quilômetros fora da cidade, mas dá pra ver as luzes deles.’

   ‘Como é esta tal de praga?’

   ‘Nunca vi ninguém morrer disso. Mas ouvi falar que dá uma sede enorme e a pessoa começa a suar nos braços, no pescoço e aqui embaixo, então os pulmões ficam cheios de liquido e ele morre afogado.’

   ‘Mas ainda tem gente viva em Boston?’

   ‘Ainda.’

Tanner engoliu o sanduíche e pensou na praga.

   ‘Que dia é hoje?’

   ‘Terça-feira.’

   Terminou de comer e fumou enquanto tomava o resto de cerveja.

   Olhou para a conta e dizia ‘0,85’.

   Largou um dólar no balcão e virou-se para sair.

   Quando estava quase na porta, o barman o chamou:

   ‘Espere senhor!’

   ‘O que foi?’

   ‘O que você está tentando me empurrar?

   ‘Como assim?’

   ‘Como você chama esta porcaria?’

   ‘Que porcaria?’

   O sujeito balançou o dólar e Tanner foi inspecioná-lo.

   ‘Não tem nada de errado com ele. Qual o problema?’

   ‘Isso não é dinheiro! Não é nada!’

   ‘Está dizendo que meu dinheiro não serve?’

   ‘É o que estou dizendo! Nunca vi dinheiro assim!’

   ‘Olhe direito. Leia o que está escrito embaixo dele.’

   O lugar ficou bastante silencioso.

   Um homem saiu de seu banco e aproximou-se, esticou a mão e disse: ‘Deixe-me ver isso Bill!’

   Bill passou para ele que o examinou atentamente.

   ‘Isso foi feito pelo banco da nação da Califórnia.’

   ‘Bem, é de onde eu venho.’ disse Tanner.

   ‘Desculpe, mas não vale por aqui.’ respondeu o Barman.

   ‘É o melhor que eu tenho.’

   ‘Bem, ninguém vai aceitar isso por aqui. Tem algum dinheiro de Boston?’

   ‘Nunca estive lá.’

   ‘Então, como diabos chegou aqui?’

   ‘Dirigindo.’

   ‘Não me enrole filho, de onde roubou isso?’ disse o homem velho.

   ‘Vai aceitar meu dinheiro ou não?’ perguntou Hell.

   ‘Não vou ficar com esta porcaria.’ respondeu o barman.

   ‘Então dane-se!’ disse Tanner se virando e caminhando para a saída.

   Como sempre, em circunstâncias como essa, Hell estava alerta a qualquer som as suas costas.

   Quando ouviu um passo, virou-se rápido.

   Era o homem que antes examinara o dólar, estendendo o braço na sua direção.

   A mão direita de Tanner agarrou seu casaco e puxou. O homem foi lançado ao chão.

   Chutou-lhe a cabeça e ele ficou caído sem se mover.

   Então veio o murmúrio de várias vozes e outras pessoas ficaram de pé e foram na sua direção.

   Tanner puxou a pistola do cinto e disse: ‘Desculpe, gente’ e assim que apontou a arma para eles, todos pararam onde estavam.

   ‘Vocês provavelmente não vão acreditar em mim’ disse ‘quando eu disser para vocês que Boston está sendo dizimada por uma praga e eu dirigi até aqui, desde a nação da Califórnia com um carro cheio de Haffikine antiserum. Mas esta é a verdade. Mandem aquela conta para o grande banco de Boston e eles vão te pagar, e você sabe disso. Agora eu vou sair e ninguém deve tentar me parar. Se vocês acham que estou mentindo, dêem uma boa olhada naquilo que eu estou dirigindo. É tudo que eu tenho a dizer.’

   Saiu pela porta e manteve os olhos nela enquanto subia na cabine.

   Dentro, colocou o motor para funcionar e foi embora.

   Na tela retrovisor, ainda viu um montículo de gente saindo do bar, vendo-o partir.

   Então riu sonoramente e uma lua parecida com uma maçã mordida no céu.

  

   Evelyn ouviu.

   Tinha a ver com o badalar dos sinos? Não. De novo, uma batida na porta.

   Foi até a frente do quarto e espiou pela janela pequena.

   Então destrancou e abriu a porta.

   ‘Fred!’ disse ‘Esse...’

   ‘Pra trás!’ gritou ele ‘Rápido! Vá pra lá!’

   ‘O que está errado?’

   ‘Faça o que eu digo!’

   Moveu-se dez passos para trás

   ‘Seus pais estão em casa?’

   ‘Não.’

   Ele entrou e fechou a porta atrás de si.

   Tinha dezoito anos e seu cabelo negro estava despenteado e comprido. Seu queixo anguloso projetava-se para fora e sua respiração era acelerada, os olhos inquietos, indo de um lugar para outro.

   ‘Qual o problema, Fred?’

   ‘Como se sente?’ ele perguntou.

   ‘Eu... oh, não!’

   Ele aquiesceu. ‘Acho que peguei! Tive febre hoje cedo e agora estou sentindo arrepios. Minha axila dói e minha garganta está ferida. Não importa o quanto bebo, continuo com sede e é por isso que eu não quero você perto de mim.’

   Evelyn juntou as mãos ao peito.

   ‘Depois da última noite eu também não tenho me sentido bem.’

   ‘É. Eu acho que matei você na noite passada.’

   Evelyn tinha dezessete, cabelos ruivos e sua cor favorita era verde.

   ‘Como...o que vamos fazer?

   ‘Nada’ ele disse ‘Se a gente for até uma clínica, vão colocar a gente numa cama e olhar enquanto a gente morre.’

   ‘Não! Talvez o soro chegue a tempo!’

   ‘Tá! Eu vim dizer adeus, é só. Eu te amo. Lamento ter passado para você. Talvez se a gente não tivesse feito… oh, eu não sei! Desculpe, Evvie!’

   Ela começa a chorar.

   ‘Não vá!’

   ‘Tenho que ir. Talvez você só esteja resfriada. Espero que sim. Tome um aspirina e vá pra cama!’

   Ele agarrou a maçaneta.

   ‘Não vá!’ ela pediu.

   ‘Tenho que ir.’

   ‘Vai para a clínica?’

   ‘Tá brincando? Eles não podem fazer nada. Só vou embora, por aí…’

   ‘O que você vai fazer?’

   Ele não olhava para os olhos azul-esverdeados dela.

   ‘Sabe’ ele disse ‘Vou fugir desta miséria. Já vi gente morrendo disso e não vou esperar.’

   ‘Não faça isso! Por favor!’

   ‘Você não sabe como é!’

   ‘O soro vai chegar. Você só tem que esperar um pouco mais.’

   ‘Não vai chegar. Você ouviu como estão as coisas lá fora. Eles não vão conseguir!’

   Eles estão ao centro da sala, e ele passa os braços à volta do corpo dela.

   ‘Não tenha medo’ ela diz ‘Não tenha medo’ e ele a abraça por um longo tempo então ela pega sua mão e diz ‘Fique aqui. Não tenha medo. Eles não vão voltar pra casa tão cedo!’ ela o leva para o seu quarto no andar de cima e diz ‘Tire minha roupa’ e ele obedece.

   Vão para a cama sem trocar palavras e ele a possui durante minutos, depois ela o ouve suspirar e sente um calor úmido vindo dele.

   Ela se estica de costas e diz ‘Foi bom.’

   ‘Sim.’ e rola de lado na cama e se senta e então começa a tremer.

   Ela coloca um cobertor sobre seus ombros.

   ‘Você está com sede?’

   ‘Sim.’

   ‘Vou pegar algo para você beber.’

   ‘Obrigado.’

   Ele engole a água que ela lhe traz.

   Sua cabeça está cheia de sinos tocando e diz ‘Eu te amo’ e depois ‘Me desculpe.’

   ‘Não se desculpe. Foi bom.’

   Silenciosamente ele começa a chorar. Ela só percebe quando o ouve soluçar e vê então sua face molhada de lágrimas.

   ‘Não chore, por favor’ e secou seu rosto na colcha.

   ‘Nós vamos morrer.’

   ‘Estou com medo.’

   ‘Eu também.’

   ‘E como será?’

   ‘Não sei, acho que não vai doer tanto. Acho. Mas não pense nisso.’

   ‘Não consigo.’

   ‘Preciso me deitar. Você tem outro cobertor?’

   ‘Vou pegar.’

   ‘E outro copo de água, por favor.’

   ‘Certo.’

   Ela voltou e o cobriu com mais um cobertor.

   ‘Acho que vai servir.’

   Ele esticou-se para pegar o copo de água.

   ‘Como isso foi acontecer com a gente?’

   ‘Não sei. Acho que foi falta de sorte.’

   ‘Você ia se matar, não ia?’

   Ele concordou ‘Ainda vou, assim que me sentir um pouco melhor. Há! É até engraçado, não?’

   ‘Não. Talvez você tenha razão, talvez fique pior daqui pra frente.’

‘Pare com isso.’

   ‘Não consigo. Nós vamos morrer e sabemos disso. Devemos tentar tornar isso mais fácil. O que você estava pensando em fazer?’

   ‘Ia até a ponte e ficaria lá até que ficasse tão mal que o melhor seria saltar dela.’

   ‘É complicado’ ela disse olhando para as sombras na parede.

   ‘Tem uma idéia melhor?’

   ‘Não’ disse virando-se para ele. A luz que vinha das venezianas caiam sobre seu rosto e seu peito. Dava a ela uma expressão de zebra, indecifrável. ‘Não’.

   ‘Você tem certeza?’

   ‘Não, quer dizer, talvez, minha mãe tem pílulas de dormir.’

   ‘Oh.’

   Ele esticou-se sob o cobertor.

   ‘Pegue’ disse ‘por favor’.

   ‘Tem certeza?’

   ‘Não, mas pegue.’

   Ela saiu do quarto e retornou depois de algumas batidas do coração com um pequeno frasco escuro na mão.

   ‘Aqui.’

   Ele pegou a garrafa com uma mão, depois passou para a outra.

   Abriu, removeu uma pílula e a colocou na palma, estudando-a.

   ‘Então é isso?’

   Ela fez que sim com a cabeça ruiva e mordeu os lábios.

   ‘Quantas eu devo tomar?’

   ‘Eu li algo sobre alguém que tomou vinte delas...’

   ‘Quantas tem aqui?’

   ‘Não sei.’

   Gotas de suor apareceram em sua sobrancelha e ele afastou as cobertas.

   ‘Me dê um copo d’água’ disse se sentando abraçado aos joelhos.

   ‘Certo.’

   Ela levou o copo até o banheiro e o encheu, depois o colocou na mesinha ao lado da cama.

   Pegou o frasco que havia caído entre os cobertores.

   ‘Vamos então!’

   ‘Tem certeza?’

   ‘Tenho. Será como ir dormir, não?’

   ‘É o que dizem.’

   ‘Parece um jeito melhor de partir.’

   ‘Sim.’

   ‘Então me dê vinte pílulas.’

   Ela passou para ele o copo e ele o segurou coma mão direita, então estendeu a mão com a palma para cima.

   Ela colocou as pílulas nela.

   Ele colocou duas na boca e bebeu um gole.

   Fez uma careta. ‘Sempre tive problemas em engolir pílulas.’

   Então colocou duas mais e depois mais cinco vezes.

   ‘Agora são dezoito.’

   ‘Eu sei’ ela disse.

   ‘Você falou vinte.’

   ‘É só o que temos.’

   ‘Cristo! Não sobrou nenhuma para você?’

   ‘Tudo bem, eu acho outro jeito. Não se incomode.’

   ‘Oh, Evvie!’ e então a abraçou e ela sentiu seu rosto molhado contra sua barriga ‘Desculpe Evvie’ disse ‘Eu não queria que acontecesse. Eu juro!’

   ‘Eu sei, não se preocupe. Tudo vai se resolver logo. Vai ser bom, como dormir. E estou feliz que eu tenha feito isso por você, te amo Fred.’

   ‘Eu te amo Evvie. Desculpe...’

   ‘Por que não deita e descansa agora?’

   ‘Tenho que esvaziar primeiro. Aquela água toda...’ Ele ficou de pé, segurando-se a parede com uma das mãos e assim foi se segurando até sair do quarto para o corredor.

   Ela ouviu o som de água correndo no banheiro e a descarga. Mordia os lábios.

   A água continuou correndo e ouviu um sino e outro sino e pensou nos seus pais, mas teve medo de ir lá para ver.

  

   Albany para Boston. Uns bons duzentos e tantos quilômetros.

   Já tinha cuidado da pior parte.

   A maioria ds terrores do Caminho dos Condenados ficava para trás.

   A noite caiu sobre ele. As estrelas pareciam mais brilhantes do que o de sempre.

   Ele conseguiria e as estrelas pareciam dizer isso.

   Passou entre dois morros, a estrada não era má. Surgia entre árvores e grama alta.

   Passou por um caminhão vindo em sua direção e baixou a intensidade das luzes ao se aproximar. O caminhão fez o mesmo.

   Por volta da meia-noite chegou a uma encruzilhada e as luzes de repente o atingiram vindo de duas direções.

   Eram talvez trinta faróis da esquerda e o mesmo número vindo pela direita.

   Empurrou o acelerador até o chão e ouviu o motor vivo na traseira.

   Ele reconhecia aquele som.

   Pertencia a motocicletas.

   Tomaram a estrada bem atrás dele.

   Ele poderia ter aberto fogo. Poderia ter freado e disparado uma nuvem de fogo.

   Era óbvio que não sabiam o que estavam perseguindo.

   Poderia ter lançado as granadas.

   Mas se deteve.

   Poderia ser ele na moto líder, pensou.

   Sentiu uma triste semelhança quando pousou a mão no controle de tiros.

   Tentou primeiro fugir deles.

   Seu motor rugia dando seu máximo, mas não conseguia bater as motos.

   Quando começaram a disparar, sabia que tinha que retaliar.

   Não podia correr o risco deles acertarem um tanque de combustível ou estourar um dos pneus. Seus primeiros tiros foram obviamente um aviso.

   Se ao menos eles soubessem...

   O sistema de som!

   Apertou o botão e disse ao microfone:

   ‘Ouçam-me rapazes’ disse ‘Tudo que tenho são remédios para os cidadãos doentes de Boston. Deixem-me passar ou vocês vão se dar mal!’

   Um tiro seguiu-se imediatamente então ele abriu fogo com a calibre cinqüenta da traseira.

   Viu alguns caírem, mas os outros continuavam atirando. Lançou as granadas.

   Os tiros diminuíram, mas não cessaram.

   Então usou dos freios e depois dos lança-chamas. Manteve-o por quinze segundos.

   Então foi só silêncio.

   Estudou as telas.

   Estavam caídos por toda estrada, as máquinas viradas, os corpos fumegantes. Alguns sentados e ainda segurando os rifles e apontando para ele.

   Poucos se moviam, espasmodicamente, viu um deles se levantar, dar alguns passos e cair.

   Parou. Sua mão hesitou na alavanca de mudança.

   Era uma garota.

   Pensou por isso por uns cinco segundos, então saltou da cabine e correu na direção dela.

   Assim que o fez, um homem ficou de pé apoiado no rifle.

   Tanner atirou nele duas vezes enquanto corria com o revolver à mão.

   A garota se contorcia ao lado de um homem cuja face fora arrancada.

   Outros corpos se torciam ao redor de Tanner, na estrada.

   Sangue e couro preto, gemidos e o odor de carne queimada.

   Quando se inclinou ao lado dela, ela o amaldiçoou baixo e então parou de se mover.

   Nem um pouco do sangue sobre ela parecia ser dela.

   Seus olhos cheios de lágrimas.

   Todos os outros estavam mortos ou a caminho, então Tanner a pegou nos braços e a carregou de volta ao veículo.

   Reclinou o encosto do assento do passageiro e a deitou ali, colocando as armas no banco de trás, longe de seu alcance.

   Ligou o motor e seguiu em frente.

   Na tela retrovisor viu dois deles ainda caírem depois de tentar ficar de pé.

   Era uma garota alta, cabelos longos despenteados e da cor da sujeira.

   Um queixo forte e uma grande boca, com círculos escuros a volta dos olhos.

   Uma cicatriz tênue atravessava sua testa e tinha todos os dentes. O lado direito do rosto avermelhado, parecia queimado de sol. Imaginou que ela caíra da moto antes de ser atingida pelo fogo.

   ‘Você está bem?’ perguntou ao ouvi-la fungar.

   ‘O que aconteceu?’ perguntou levando uma das mãos ao rosto.

   Tanner deu de ombros ‘Eu só estava querendo ser amigável.’

   ‘Você matou a maior parte da minha gangue!’

   ‘E eles teriam feito o mesmo comigo.’

   ‘Eles queriam pará-lo, mister, apenas pelo seu belo carro.’

   ‘Na realidade não é meu.’ Disse ‘Pertence ao povo da Nação Californiana.’

   ‘Esta coisa não veio da Califórnia.’

   ‘Do inferno é que não foi. Eu vim de lá dirigindo.’

   Ela sentou-se ereta e começou a coçar a perna.

   Tanner acendeu um cigarro.

   ‘Me dê um.’ Ela disse.

   Ele deu um para ela e o acendeu em seguida, fazendo o mesmo para si.

   Os olhos dela não saíam da sua tatuagem.

   ‘O que é isso?’

   ‘Meu nome.’

   ‘Hell?’

   ‘Hell.’

   ‘Onde você conseguiu um nome desses?’

   ‘De um homem velho.’

   Fumaram um pouco e ela falou ‘Por que está atravessando o Caminho?’

   ‘Por que foi o único jeito deles me deixarem livre.’

   ‘Livre do que?’

   ‘Do lugar com barras na janela. Estava cumprindo pena.’

   ‘Deixaram você sair? Por quê?’

   ‘Por causa da grande praga. Estou carregando Haffikine antiserum.’

   ‘Voce é Hell Tanner.’

   ‘Huh?.’

   ‘Seu ultimo nome é Tanner, não é?’

   ‘Certo. Quem te falou?’

   ‘Ouvi falar. Todos achavam que você tinha morrido na Grande Batida’.

   ‘Estavam errados.’

   ‘Como foi?’

   ‘Eu não sei. Na época já estava vestindo um pijama de zebra. Por isso ainda estou por aqui.’

   ‘E porque você me pegou?’

   ‘Por que você é uma menina e não queria ver você virar defunto.’

   ‘Obrigado. Tem algo para comer aqui?’

   ‘É, tem comida ali.’ Disse apontando o refrigerador. ‘Sirva-se!’

   E ela o fez e ainda comia quando Tanner perguntou: ‘Como se chama?’

   ‘Corny.’ Respondeu. ‘É diminutivo de Cornélia.’

   ‘Ok, Corny’ disse. ‘Quando terminar de comer, comece a falar sobre a estrada entre aqui e Boston.’

   Ela concordou, mastigou e engoliu e disse:

   ‘Tem um monte de gangues. Esteja pronto para cuidar delas!’

   ‘Estou.’

   ‘Estas telas mostram pra você todas as direções?’

   ‘Sim.’

   ‘Bom. As estradas parecem melhor vistas daqui. Tem uma grande cratera logo em frente e alguns vulcões pequenos depois.’

   ‘Entendido.’

   ‘Você não tem com tem com que se preocupar, fora os Regentes, os Demônios e os Reis e os Amantes. É só.’

   ‘Eles são muito grandes?’

   ‘Não sei ao certo, mas os Reis são os maiores. São quase cem.’

   ‘E qual era o seu grupo?’

   ‘Tachas.’

   ‘E o que você vai fazer agora?’

   ‘O que você quiser.’

   ‘Ok, Corny, vou deixar você no caminho, onde quiser ficar. Se não quiser, pode vir até a cidade comigo.’

   ‘Você que manda, Hell. Pra onde você for, irei com você.’

   Sua voz era intensa, as palavras vinham lentamente e o tom um pouco árido e áspero. Tinha pernas longas debaixo dos jeans apertados. Tanner umedeceu os lábios e observou as telas. Seria bom tê-la por perto.

   A estrada logo ficou molhada. Estava coberta por centenas de peixes e mais deles caiam do céu. A seguir ouviram um sonoro estrondo do alto. A luz azul começava ao norte.

   Tanner acelerou e subitamente havia muita água a sua volta. Podia senti-la sob o carro.

   Aumentou a sensibilidade das telas.

O céu negro novamente e sons mal assombrados o cercaram.

   Derrapou feio numa curva mais aguda. Acendeu todas a s luzes.

   A chuva cessou, mas as lamúrias continuavam por quinze minutos até se transformarem num rugido.

   A garota que olhava para as telas ocasionalmente encarava Tanner e dizia:

   ‘E agora, o que vamos fazer?’

   ‘Escapar, se a gente puder.’

   ‘Está escuro todo o caminho à nossa frente, tão longe quanto dá para ver. Acho que não vai dar.’

   ‘Nem eu, mas o que a gente pode fazer?’

   ‘A gente pode se esconder em algum lugar.’

   ‘Se souber onde, me mostre!’

   ‘Tem um lugar, poucos quilômetros à frente, uma ponte que atravessa a estrada, podemos ficar debaixo dela.’

   ‘Ok, perfeito. Me avise quando a enxergar.’

   Ela tirou as botas e coçou os pés. Ele lhe deu outro cigarro.

   ‘Ei, Corny, estava pensando, tem um estojo médico à sua direita... aí mesmo...deve ter alguma coisa que possa usar para tratar seu rosto um pouco.’

   ‘Ela achou um tubo de pomada e a passou na vermelhidão, sorriu e o guardou de volta.

   ‘Sente-se melhor?’ Ele perguntou.

   ‘Sim. Obrigada.’

   As rochas começaram a cair, o brilho azul cresceu e o céu pulsava, cinzento e brilhante.

   ‘Não gosto do jeito deste aí.’

   ‘’Não gosto de nenhum deles.’

   ‘Parece terrível, como o da semana passada.’

   ‘É. Ouvi falar que talvez os ventos estejam diminuindo, que o céu talvez esteja se purificando.’

   ‘Seria bom.’ Disse Tanner.

   ‘Então a gente poderia ver o céu sempre azul, como costumava ser, com nuvens. Sabe sobre as nuvens?’

   ‘Ouvi falar delas.’

   ‘Eram brancas, umas coisas macias, por todo o céu, algumas vezes cinzentas. Não largavam outra coisa a não ser chuva e não era sempre.’

   ‘É, eu sei.’

   ‘Já viu alguma em Los Angeles?’

   ‘Não.’

   As estrias amarelas recomeçaram e as linhas negras desenharam-se como cobras contorcidas.

   A chuva de pedras permanecia sobre o teto e os escudos.

   Mais água veio e então uma neblina grossa subiu.

   Tanner precisou diminuir a velocidade e logo parecia que todos os martelos do mundo acertavam o carro.

   ‘Nós não vamos conseguir!’ Ela disse.

   ‘O diabo que não! Esta coisa foi feita para resistir! Ainda estamos muito longe?’

   ‘A ponte! É ela! Saia da estrada à esquerda e desça, tem um leito seco de rio abaixo.’

   Os relâmpagos então começaram a cair. Descargas luminosas por toda parte.

   Passaram por uma árvore em fogo e ainda havia peixe pela rodovia.

   Tanner virou à esquerda e se aproximou da ponte, seguindo para debaixo dela.

   Estavam sós ali. Um rio passava por eles e os relâmpagos continuavam.

   O céu era um caleidoscópio inconstante e trovejante.

   Ouviu um som como se fosse granizo acertando a ponte sobre eles.

   ‘Estamos a salvo.’ Disse desligando o motor.

   ‘As portas estão fechadas?’

   ‘Se fecham automaticamente.’

   Tanner desligou as luzes externas.

   ‘Queria poder te pagar uma bebida, além de café.’

   ‘Café está bom.’

   ‘Ok, está saindo.’ E ele limpou a cafeteira, encheu com café e a ligou.

   Ficaram lá sentados, fumando enquanto a tempestade rugia e ele disse:

   ‘Sabe, é uma sensação boa esta de estar num buraco como um rato, enquanto tudo vai para o inferno lá fora. Ouça o mundo se acabando! E a gente nem se importa.’

   ‘Acho que sim.’ Ela disse. ‘O que vai fazer depois que fizer a entrega em Boston?’

   ‘Não sei... talvez arranjar um emprego, ralar um pouco e quem sabe eu consigo abrir uma loja de motocicletas ou uma oficina. Uma destas duas coisas já estaria bom.’

   ‘Parece bom. Vai ser uma mudança para você?’

   ‘Pode apostar. Acho que eles não tem nenhum bom clube de motos por lá.’

   ‘Não.’

   ‘Foi o que pensei. Talvez eu organize o meu próprio.’

   Ela se esticou e segurou a mão dele, e a apertou.

   ‘Posso lhe pagar uma bebida.’

   ‘O que quer dizer?’

   Ela pegou um cantil de plástico do bolso direito da jaqueta. Abriu-o e passou para ele.

   ‘Aqui.’

   Ele tomou um gole, tossiu e devolveu.

   ‘Sensacional. Você é uma mulher com potencial e eu gosto disso. Obrigado.’

   ‘Não por isso’ ela disse, tomou um gole e colocou o cantil sobre o painel.

   ‘Cigarro?’

   ‘Obrigado. Vou gostar de ajudar você a terminar seu trabalho.’

   ‘Como?’

   ‘Não tenho nada mais para fazer. Meu grupo não existe mais. Não tenho mais ninguém para seguir agora. Além do mais, se você conseguir, vai se tornar um homem famoso. Como aqueles nomes nas marquises. Pense, você ia querer que eu ficasse por perto depois disso?’

   ‘Talvez. Como você é?’

   ‘Ah, sou uma pessoa bem legal. Posso inclusive massagear seus ombros quando ficarem doloridos.’

   ‘Estão doendo agora.’

   ‘Eu imaginei que sim. Vem para cá.’

   Ele curvou-se e ela começou a massagear seus ombros. Suas mãos eram ligeiras e fortes.

   ‘Você é boa nisso, garota!’

   ‘Obrigada.’

   Ele se esticou de costas, pegou o cantil e bebeu um pouco mais. Ela pegou o cantil, tomou um gole e devolveu para ele.

   As Fúrias rondavam o carro, mas a ponte sobre ele resistia.

Tanner desligou as luzes da cabine.

   ‘Vamos transar’, disse e virou-se sobre ela, puxando-a para ele.

   Ela não resistiu, ele achou seu cinto e o soltou, então passou para os botões, depois reclinou o assento.

   ‘Você vai ficar comigo?’

   ‘Claro.’

‘Eu vou te ajudar. Faço tudo que você quiser.’

   ‘Bom.’

   ‘Além disso, se Boston cair, nós todos cairemos juntos.’

   ‘Pode apostar.’

   Havia violência nos céus e depois ficou quieto e escuro.

  

   Quando Tanner acordou, era manhã e a tempestade havia desaparecido.

   Foi se arrumar nos fundos do veículo, depois voltou para o assento do motorista.

   Cornélia não acordou quando ligou os motores e partiu para cima da vegetação infestada de ervas daninhas no declive lateral.

   O céu estava limpo uma vez mais e a estrada polvilhada de pedregulhos.

   Tanner dirigia através dela, na direção contrária a um sol pálido e logo Cornélia acordava.

   ‘Umn’ gemeu e Tanner disse ‘Meus ombros estão bem melhor.’

   Tanner seguiu para a colina e uma enorme e negra linha construía uma estrada demoníaca dividindo metade do céu.

   Quando dirigia por um vale repleto de árvores, a chuva começou.

   A garota acabara de voltar de trás e preparava um lanche quando Tanner viu o pequeno ponto no horizonte, nas lentes telescópicas e tentou fugir do que via.

   Cornélia viu também.

   Motocicletas, mais e mais motocicletas na sua trilha.

   ‘São a sua gente?’ perguntou Tanner.

   ‘Não. Você acabou com eles ontem.’

   ‘Isso é mau.’ disse e afundou o acelerador ao chão e desejou uma tempestade.

   Fizeram uma curva e subiram outra montanha. Seus perseguidores se aproximavam.

   Passou as lentes telescópicas para visão normal e mesmo assim tudo que via era o tamanho tremendo da turba que se aproximava.

   ‘Devem ser os Reis’ ela disse ‘São o maior grupo destas bandas.’

   ‘Muito ruim.’

   ‘Para eles ou para a gente?’

   ‘Ambos.’

   Ela sorriu. ‘Quero ver como você se livra deles.’

   ‘Você vai ver. Estão vindo como loucos pra cima da gente.’

   A chuva diminuiu, mas a neblina ficou mais forte.

   Tanner via suas luzes, cem metros atrás. Estimou em cem ou cento e cinqüenta deles.

   ‘Quanto falta para Boston?’

   ‘Uns cem quilômetros.’ Ela respondeu.

   ‘Infelizmente estão atrás de nós ao invés de vindo na nossa direção’ disse enquanto

   ajustava a mira do lança-chamas através da tela retrovisora.

   ‘Como é isso?’ ela perguntou.

   ‘Está vendo a cruz no centro da tela? Vou crucificá-los, querida.’ E ela sorriu e apertou o braço dele.

   ‘Posso ajudar? Eu odeio estes monstros.’

   ‘Logo.’ disse pegando seis granadas do assento de trás e passando o rifle para a garota.

   ‘Segure isso’ e tirou a .45 do seu coldre ‘Sabe como usar esta coisa?’

   ‘Sim’

   ‘Ótimo.’

   Continuou olhando os faróis dançando na tela.

   ‘Por que diabos esta tempestade não chega?’ disse, vendo as luzes mais e mais próximas até que as formas ficassem definidas através da névoa.

   Quando estavam a uns trinta metros, atirou a primeira granada.

   Desapareceu no ar cinzento e cinco segundos depois houve um brilho rápido lá atrás.

   As luzes persistiam e ele acionou as calibre cinqüenta, movendo-as de um lado para outro.

   As armas fizeram-se ouvir e lançou outra granada.

   Após um rápido flash, começaram a subir uma colina.

   ‘Eles pararam?’

   ‘Por um tempo, talvez. Ainda estou vendo algumas luzes, mas ficaram mais para trás.’

   Chegaram ao topo após cinco minutos, um lugar sem neblina e com o céu escuro sobre eles.

   Então começaram o caminho para baixo mais uma vez, com um paredão de pedras e sujeira margeando à direita. Quando a estrada nivelou e parecia que tinham alcançado o fim, Tanner virou-se para ver a tela do retrovisor.

   Nela, havia colunas de luzes descendo pela estrada da colina.

   Achou um lugar onde a estrada era larga o bastante e fez uma volta de 180 graus, tomando rumo do rochedo, agora à esquerda e de onde vinham seus perseguidores.

   Ergueu os foguetes e disparou o primeiro, subiu mais quinze graus e disparou o segundo, mais cinco graus e disparou o terceiro.

   Então baixou a plataforma em quinze graus e disparou outro.

   Houve o brilho através da neblina e ouviram as pedras rolando pela estrada, sentindo a vibração do desmoronamento começar.

   Virou o veículo e acelerou fugindo dali.

   ‘Espero ter segurado a gangue por lá’ disse, acendendo dois cigarros e deu um para a garota.

   Depois de cinco minutos estavam subindo outra colina e os ventos limparam a névoa e longe ainda dava para ver algumas luzes.

   Assim que alcançaram o topo, os ponteiros dos medidores de radiação começaram a registrar uma leitura além do normal.

   Olhou em todas as direções até encontrarem a cratera, bem em frente.

   ‘Olha lá.’ Ouviu a moça dizer. ‘Deixe a estrada, pegue a direita e vá seguindo ao redor e vai conseguir.’

   ‘Ok.’

   Ouviu tiros de armas atrás dele, pela primeira vez naquele dia e, mesmo tendo ajustado a mira, não disparou. A distância ainda era grande.

   ‘Você deve ter liquidado a metade deles’ ela falou olhando a tela ‘Ou talvez mais. Eles são um bando difícil.’

   ‘Eu deduzi isso’ disse checando o suprimento de granadas e viu que sobravam poucas.

   Assim que saiu da estrada pela direita passou a rodar sobre concreto partido. O nível de radiação estava bem alto. A cratera tinha um diâmetro de mil metros ou mais.

   As luzes na traseira aumentaram de brilho. Ele apontou para a mais brilhante e atirou.

   Ela desapareceu.

   ‘Outro que já era.’

   As chuvas voltaram mais pesadas e ele mirou em outra das luzes e disparou.

   Esta também se foi. Agora foi a vez dele ouvir o disparo das armas contra ele.

   Três delas vinham pelo flanco: abriu fogo e os fez sumir. Mais disparos vindos de trás.

   ‘Contei vinte e sete deles’ disse Cornélia.

   Tanner pegou o caminho sobre um campo de seixos. Acendeu um cigarro.

   Em cinco minutos eles estavam dos dois lados. Tinha parado de atirar, conservando a munição para ter certeza de seus alvos. Disparava apenas contra as luzes enquanto acelerava.

   ‘Mais cinco no chão’ ela disse, mas ele não ouviu, pois prestava atenção nas armas.

   Soltou uma granada e quando tentou lançar outra, ouviu apenas um clique seco.

   ‘Se chegarem muito perto, vou mandar um pouco de fogo.’ disse mantendo o veículo na beira da cratera.

   Disparava apenas em alvos individuais, apenas quando tinha certeza. Assim derrubou mais dois, antes de chegar à beira da estrada destruída.

   ‘Fique paralelo a ela.’ disse ela ‘Tem uma trilha aqui. Pode dirigir por ela por um quilômetro ou mais.’

   Balas ricocheteavam de ambos os lados dos escudos laterais e continuou a devolver os tiros.

   Corria através de um caminho mais estreito, entre árvores retorcidas, como aquelas que havia visto próximas da última cratera. Ouvia o chacoalhar da chuva aumentando.

   Quando chegou a estrada novamente, viu as luzes atrás dele e perguntou:

   ‘Quantos você contou agora?’

   ‘Uns vinte. Como estamos nos saindo?’

   ‘Estou preocupado com os pneus. Podem agüentar bastante, mas não um disparo. A única outra coisa que me preocupa é que algum tiro possa acertar nossos ‘olhos eletrônicos’. Fora isso, somos à prova de balas. Mesmo se nos fizerem parar, não nos farão sair do veículo.’

   As motos se aproximavam novamente e viu os faróis e ouviu as armas funcionando.

   ‘Segure firme’ disse e acertou os freios, derrapando no pavimento molhado.

   Quando as luzes ficaram maiores, ele liberou o lança-chamas traseiro.

   Assim que algumas das motos passaram pelos lados, eles as acertou.

   Tirou o pé do freio e pisou fundo o pedal do acelerador sem se preocupar em verificar os danos que causara.

   Acelerava quando ouviu Cornélia rir.

   ‘ Por Deus! Você está acabando com eles! Já deu conta de quase todo o grupo!’

   ‘E não foi tão divertido assim’ disse ‘está vendo alguma luz?’

   Ela observou por minutos e disse ‘Não’ e depois ‘Três’ e então ‘Sete’ e finalmente ‘Treze.’

   Tanner praguejou.

   A radiação caia e trovejava acima deles.

   Uma chuva leve de cascalhos desceu sobre ele por meio minuto, junto com a chuva.

   ‘Estamos ficando sem.’ ele disse.

   ‘Sem o que?’

   ‘Sem tudo. Sorte, combustível e munição. Talvez você estivesse melhor se eu tivesse te deixado onde te encontrei.’

   ‘Não. Estou contigo agora, até o fim.’

   ‘Menina, você é maluca! Ainda não fiquei bravo. Quando fico, posso ser outra pessoa.’

   ‘Talvez’ ela disse ‘Espere e veja como eu reajo.’

   Ele se esticou e apertou sua coxa.

   ‘Ok, Corny, você vai ficar bem. Agüente e vamos ver o que vai acontecer.’

   Ele buscou outro cigarro no maço vazio e xingou. Fez um gesto para um compartimento, ela o abriu e pegou um maço novinho ainda fechado. Abriu e acendeu um para ele.

   ‘Obrigado.’

   ‘Por que eles estão mantendo a distância?’

   ‘Talvez estejam apenas nos acompanhando, não sei.’

   A neblina começou a dissipar.

   Quando Tanner terminou de fumar, a visibilidade já era boa. Podia ver as formas escuras sentadas nas motos, apenas seguindo-o, seguindo-o e nada mais.

   ‘Se querem apenas minha companhia, não me importo.’ disse ‘Podem vir.’

   Mas então vieram mais disparos e ele ouviu um pneu explodir.

   Ele reduziu, mas continuou.

   Mais tiros vindos de trás. Outro pneu se foi e ele freou e derrapou forçando uma curva.

   Quando estavam de frente, ele soltou as âncoras, a fim de manter no lugar o carro e disparou os foguetes, um depois do outro, ao nível paralelo ao chão da estrada.

   Disparou as armas conforme se aproximavam, primeiro para a esquerda e depois para direita. Esvaziou a da direita então passou para a da esquerda.

   Fez uso também das granadas que restavam.

   Os tiros cessaram, exceto por cinco deles, três à esquerda e dois à direita, vindo pelas árvores direto na sua direção.

   Motos destruídas e corpos tombados ficavam para trás, alguns ainda se movendo.

   O pavimento estava repleto de partes e pedaços.

   Virou o carro e continuou, mesmo com seis pneus.

   ‘Estamos sem munição, Corny.’

   ‘Bem, conseguimos dar conta de vários.’

   ‘É.’

   Viu as cinco motocicletas tomando a estrada.

   Ficaram a uma boa distância, mas continuavam a seguir o veículo.

   Tentou o rádio, mas não teve resposta.

   Parou e as motos pararam também lá atrás.

   ‘Bem, ao menos eles tem medo de nós, ainda acham que temos dentes.’

   ‘E temos.’ Ela disse.

   ‘Sim, mas não aqueles que eles pensam que temos.’

   ‘Melhor até.’

   ‘Foi um prazer te conhecer’ disse Tanner ‘Eu preciso mesmo de uma otimista.’

   Ela concordou e ele passou a marcha e seguiu adiante.

   As motocicletas moviam-se a frente também, guardando distância.

   Tanner os olhava pelas telas e os amaldiçoava pela perseguição.

   Depois de um tempo começaram a se aproximar de novo.

   Tanner deu o máximo do veículo por quase meia hora e ainda assim os cinco chegavam mais e mais perto.

   Quando estavam bem perto, começaram a atirar com seus rifles.

   Tanner ouviu o ricochetear e outro pneu se foi.

   Parou mais uma vez e as motos fizeram o mesmo, ficando a uma distância segura dos lança-chamas.

   Xingou-os e acelerou seguindo de novo o caminho.

   O veículo oscilava e a direção tendia para a esquerda.

   Uma picape enferrujada jazia esmagada contra uma árvore à direita, seu motorista era um esqueleto e os vidros estavam quebrados e os pneus haviam sido roubados.

   Meio sol agora se pendurava ao céu, quase nove horas, fantasmas da neblina vagavam a sua frente e uma linha negra ondulava no céu e mais chuva chegava, misturando-se à poeira e pequenas pedras e pedaços de metal.

   Tanner disse ‘Bom’ assim que o som sibilante recomeçou ‘Espero que fique pior’ e seu desejo tornou-se realidade quando o chão passou a tremer e a luz azul acendeu-se ao norte.

   Um estrondo chegou trovejante e cinzas e pilhas de cascalho.

   ‘Espero que a próxima caia sobre aqueles caras lá atrás.’ disse.

   Viu um brilho laranja crescer à direita, ficando lá por minutos, mas não teve idéia do que se tratava até chegar bem perto.

   ‘Vulcão’ ela disse quando ele apontou a coisa. ‘Significa que faltam uns sessenta ou setenta quilômetros para chegar.’

   Não podia dizer mais de onde vinham os disparos.

   As cinco luzes mantinham-se longe.

   ‘Por que não desistem? Estão apanhando bastante.’

   ‘Eles estão acostumados.’ ela disse ‘E querem vingança, o que faz toda a diferença.’

   Tanner tirou a .357 Magnun da presilha da porta e passou para ela.

   ‘Segure esta também.’ disse e pegou uma caixa de balas de um segundo compartimento.

   ‘Coloque no bolso.’

   Carregou a .45 e a enfiou dentro da jaqueta. No cinto pendurou granadas de mão.

   Então as cinco luzes se tornaram quatro e ficaram mais distantes.

   ‘Um acidente, eu espero.’

   Viram uma montanha, o topo cortado queimando e incendiando o céu.

   Deixaram a estrada, pegando um caminho da direita, uma trilha bem usada.

   Levaram quase vinte minutos para ultrapassarem a montanha e quando viram seus perseguidores novamente eram quatro luzes, avançando lentamente.

   Voltou para a estrada e acelerou pelo chão que tremia.

   Luzes amarelas se moviam no céu e grandes e pesados objetos sem forma, alguns com dezenas de metros, acertavam a terra ao redor.

   O carro era atingido por ventos e não podia ir além das quarenta milhas por hora.

   No rádio, apenas estática.

   Tanner fez uma curva longa, usou os freios, apagou as luzes e puxou um dos pinos da granada de mão e esperou com a mão para fora da porta.

   Quando os faróis apareceram na tela, ele soltou a granada através da chuva abrasiva.

   Estava em movimento novamente quando ouviu a explosão e viu o flash de luz nas telas.

   A garota riu histericamente.

   ‘Você pegou eles, Hell. Pegou sim!’ gritou.

   Tanner tomou um gole do cantil e ela o esvaziou enchendo a boca.

   Acenderam cigarros.

   A estrada mostrava-se rachada, perfurada e escorregadia.

   Chegaram ao topo de uma subida e começaram a descer.

   A névoa ficava fina conforme desciam.

   Luzes surgiram a frente e Tanner usou os lança chamas.

   Mas não se tratavam de mais perseguidores e sim um caminhão seguindo na direção contrária. Nos próximos trinta minutos, passaram por dois mais.

   Então mais luzes e rochas de tamanhos de punhos acertaram o veículo.

   Tanner saiu da estrada e procurou abrigo entre altas árvores.

   O céu completamente negro perdera sua aurora azul.

   Esperaram por três horas, mas a tempestade não deu sinais de seu fim.

   Uma por uma, as telas ficaram sem sinal, até que a última passou a mostrar a escuridão abaixo do carro.

   A ultima visão de Tanner fora pela tela retrovisora: um enorme galho de árvore que parecia prestes a cair sobre eles.

   Houve alguns choques terríveis ao teto e o carro tremeu com cada um deles.

   O teto sobre suas cabeças mostrava três grandes amassados.

   As luzes diminuíram um pouco antes de voltarem a brilhar.

   O rádio nem sequer produzia estática.

   ‘Acho que terminamos aqui.’ ele disse.

   ‘É.’

   ‘O quanto ainda falta?’

   ‘Talvez uns cinqüenta quilômetros.’

   ‘Ainda temos uma chance, se conseguirmos sobreviver.’

   ‘Que chance?’

   Reclinaram as cadeiras e fumaram e esperaram até que as luzes todas se apagaram.

   A tempestade continuou por todo o dia e por toda noite. Dormiram usando o veiculo quebrado como proteção. Quando se foi, Tanner abriu a porta e olhou para fora.

   ‘Vamos esperar até a manhã chegar.’ disse e ela segurou sua mão tatuada e eles dormiram.

  

   Henry Soames, M.D.(Doutor em medicina), sabia quando estava perdendo.

   Os sinos continuavam dizendo-lhe isso.

   Cobriu um rapaz com um lençol e disse para Miss Akers, toda de branco:

   ‘Morto. Faça o registro para que eu possa assinar.’

   ‘Cremação?’ Ela perguntou.

   ‘Sim.’

   Então, andou até perto e com carinho olhou para a moça.

   ‘Evvie?’

   ‘Sim?’

   ‘Como se sente?’

   ‘Posso beber algo?’

   ‘Claro. Aqui.’

   Segurou um copo de água e passou para ela, que o levou até os lábios.

   Logo ele também estaria infectado, pensou. Não havia como não. Muita exposição.

   ‘Onde está Fred?’ Ela perguntou.

   ‘Dormindo.’

   Então ela fechou os olhos e ele passou para outro paciente.

   ‘Quanto tempo ela ainda tem?’ perguntou Miss Akers, toda de branco.

   ‘Um dia ou dois.’

   ‘Ela tem alguma chance, se o soro chegar?’

   ‘Sim, se ele chegar.’

   ‘Você não acha que ele virá?’

   ‘Não. É muito longe, muito mesmo. Os perigos são muitos.’

   ‘Eu acho que eles vão conseguir.’

   ‘Ótimo!’ disse ‘Uma verdadeira crente.’ Depois disse ‘Desculpe, Karen, eu não quis dizer isso. Estou cansado.’

   ‘Eu sei, você não dorme faz duas noites.’

   ‘Tirei um cochilo faz pouco tempo’

   ‘Uma hora não é o bastante quando se está tão fatigado.’

   ‘É verdade.’

   ‘Existe uma chance’ ela disse. ‘Você pode achar que não, mas meu irmão é um dos motoristas e ele acha que pode atravessar o Caminho.’

   ‘Em ambos os sentidos? A tempo? Acho que não. Teria que ter muita sorte e o melhor dos motoristas para fazê-lo. E não sabemos realmente se eles ainda tem o soro.’

   ‘Talvez...’

   Ele bateu a prancheta contra a coxa.

   ‘Pra que especular? Aquela garota poderia ser salva. Seria fácil. Pegue um pouco de Haffikine e comece a tratá-la. De outro jeito, apenas estaremos apenas fazendo a contagem.’

   ‘Eu sei. Ele vai chegar, eu sei.’

   ‘Espero que sim.’

   Parou para tomar um pulso.

   ‘Ok...’

   Saía para o corredor quando ela o segurou pelo braço.

   ‘Não fique magoado’ ela disse, toda de branco.

   ‘Eu não posso ajudar muito. Não é culpa de ninguém, mas não há nada que possa fazer.’

   ‘O quarto cento e trinta e seis está vazio.’ ela disse.

   ‘Ele parou um pouco e então concordou.

   Ela tinha razão. Enquanto se deitavam, ele pensou no Caminho mas não pôde dizer o que sentia.

   ‘Chegará logo, não se preocupe.’

   Ele segurou o ombro dela.

   ‘Lembra-se dos Três Dias?’ perguntou.

   ‘Não.’

   ‘Eu lembro. Colocamos pessoas na lua, em Marte e Titã. Conquistamos o espaço. Perdemos tempo. Tínhamos as Nações Unidas e então o que aconteceu? Três dias infelizes e tudo foi por água abaixo. Eu estava lá quando os mísseis caíram, Karen. Estava lá e ouvi pelo rádio até que o rádio emudeceu. Jogaram bombas por toda parte. Nova Iorque virou um alvo, como a maioria das grandes cidades. Talvez só as ilhas tenham escapado disso, o Caribe, o Hawai, o Japão, as ilhas gregas, continuaram transmitindo de lá por bastante tempo, você sabe, depois que todos se foram. Talvez ainda exista gente vivendo no Japão, no Mediterrâneo. Você sabe que alguns caribenhos sobreviveram. Não sei. Mas eu estava lá quando aconteceu. Foi terrível, o sentimento do Juízo Final. Recentemente andei pensando que nós fizemos por merecer. E imagino se as pessoas em Marte ainda estão vivas. Ou em Titã. Será que voltarão à Terra? Duvido que possam, acho que estão mortas também, Karen. Acho que chegou a hora de todos admitirem isso. Talvez ainda tenha alguém em algum lugar, numa ilha ou na costa oeste, mas eu duvido também. E se conseguiram sobreviver, devem ter se tornado o que? Homens podem ter deixado de ser homens, por Deus!’

   ‘Nós conseguiremos. As pessoas sempre estragam tudo. Mas agora somos poucos e alguns vão viver.’

   ‘Espero que você esteja certa.’

   ‘Ouça os sinos. Cada um significa uma morte. Costumavam tocá-los nos dias de festa também, significando vida. Acho que alguns homens irão vir até aqui através do Caminho, mas se não acontecer, nem todos vão morrer. Os Três Dias foram ruins, eu sei. Ouvi falar deles. Mas não desista, por favor.’

   ‘Não consigo, me sinto… perdido.’

   Ela então o abraça e diz ‘Tudo que podia fazer você já fez. Não me lembro dos Três Dias, mas sei que não foi o fim. Ainda estamos aqui.’

   Ele a beija. A sala está escura e cheirando a anti-sépticos.

   ‘Você é o tipo de gente que a gente precisa’ ele diz.

   ‘Sou apenas uma enfermeira. Por que você não dorme? Farei a ronda por você, descanse. Quem sabe amanhã...’

   ‘É, amanhã.’ disse ‘Eu não acredito, mas obrigado.’

   Depois de minutos ela o ouviu ressonando e levantou-se da cama.

   Deixou o quarto 136, toda de branco e fez a ronda por ele.

   Os sinos pareciam fazer o ar vibrar, pois a clínica estava próxima de três igrejas.

   Mesmo assim, fez a ronda, tomou pulsos e temperaturas, ferveu água, sorriu e ainda não se lembrava dos Três Dias, mas sabia que ainda estava vivendo-os, cada vez que entrava na enfermaria.

   Mas ainda sorria, o que talvez, fosse a última arma do homem.

  

   Pela manhã Tanner caminhou através da lama, entre os galhos partidos, as pedras e os peixes mortos e foi abrir o compartimento traseiro, onde as motocicletas estavam guardadas.

   Abasteceu-as, checou e desceu-as pela rampa de trás do veículo.

   De volta a cabine, arrancou o assento de trás. Debaixo dele, no compartimento de armazenamento, estava a maleta de alumínio que era sua carga.

   Tirou-a de lá e foi prendê-la na sua moto.

   ‘É esta coisa?’

   Ele fez que sim.

   ‘Não sei como esta coisa é armazenada, se está refrigerada lá dentro ou sei lá.’ disse ‘mas não é tão pesada que eu não possa levá-la na traseira da minha moto. Tem algumas tiras lá, pegue-as para mim e me ajude e apanhe também o meu perdão, no compartimento do meio. Está num envelope.’

   Ela retornou com tudo que pedira e ajudou-o a prender com firmeza o container.

   Prendeu algumas fitas extras à volta do bíceps esquerdo e levou as motos até a estrada.

   ‘Teremos que ir um pouco mais devagar’ disse e passou o a cinta do rifle por sobre o ombro direito, vestiu as luvas e chutou o pedal de partida de sua moto, ligando-a.

   Ela fez o mesmo com a sua e, lado a lado, seguiram pela auto-estrada.

   Depois de quase uma hora, dois carros passaram por eles em direção ao oeste.

   Nos bancos de trás havia crianças, com os rostos pressionados contra o vidro e eles os viram ao passar por eles.

   O motorista do segundo carro usava uma camisa sem mangas e um coldre negro preso ao ombro.

   O céu cor de rosa tinha três linhas negras atravessando-o e parecia merecer alguma preocupação. O sol era uma rosa tingida de prata pálido, mas Tanner ainda usava dos óculos de proteção.

   Com a carga segura, Tanner rumava para o alvorecer com o pensamento em Boston.

   Uma névoa ligeira era vista ao pé das colinas e ar estava frio e úmido.

   Outro carro passou por eles. A superfície da estrada ficava cada vez melhor.

   Era quase meio dia quando ouviu o primeiro tiro, superando o rugir dos motores.

   A princípio pensou que fosse o escapamento, mas veio outro e Corny gritou e repentinamente deu uma guinada saindo da estrada, indo chocar-se contra uma pedra.

   Tanner inclinou-se para a esquerda, freando, quando dois tiros passaram sobre ele e inclinou sua moto contra uma árvore, deixando-a deitar.

   Um tiro passou bem perto de sua cabeça e ele pôde perceber a direção de onde viera.

   Atirou-se numa vala e tirou a luva direita.

   Podia ver a garota caída no local onde tombara e havia sangue em seu peito. Não se movia.

   Puxou a 30.06 e disparou.

   Atiraram de volta e ele rolou para esquerda.

   Vinham de uma colina,a cento e poucos metros dali e ele pensou ter visto um rifle.

   Apontou naquela direção e atirou novamente.

   Devolveram o tiro e ele, agachado, conseguiu avançar pela esquerda uns dez metros até alcançar uma pilha de pedregulhos onde pode se esconder. Puxou o pino de uma das granadas, esperou e então a arremessou. Atirou-se ao chão, já com outra granada na mão.

   Ouviu-se um estrondo surdo, um flash de luz e um punhado de lixo choveu sobre ele e, sem perder tempo, ergueu-se e atirou a segunda granada, mirando melhor desta vez.

   Depois da segunda explosão, correu com o rifle à mão naquela direção, mas não foi necessário usá-lo.

   Encontrou apenas pequenos pedaços de um homem, mas nem sinal da sua arma.

   Foi então ver Cornélia.

   Ela não respirava e seu coração parara de bater e ele sabia o que significava.

   Carregou-a de volta até a vala em que havia se escondido e a aumentou, cavando com as próprias mãos.

   Deitou-a lá, de costas contra o chão e cobriu-a com a lama.

   Então trouxe a moto dela até o local onde estava enterrada deixando-a sobre a cova.

   Com a faca, escreveu no para-lamas:

   “Seu nome era Cornélia e não sei que idade tinha ou de onde veio ou seu último nome, mas ela era a garota que Hell Tanner amava.”

   Voltou para sua moto, deu a partida e seguiu em frente.

   Boston estava a menos de trinta quilômetros.

  

   Pense num lugar sem cenário ou pessoas.

   Ponha uma moldura ao redor se você quiser e pode chamar aquilo, se você quiser, de Caos, Criação, Pesadelo, tabela periódica ou qualquer outro nome.

   Era algo assim:

   Havia milhares de pilares, como aqueles que o galante aviador Mermoz viu quando atravessou o Atlântico sul em um hidroplano e transpôs aquela região chamada de Buraco Negro da costa africana, gigantescos pilares retumbantes irrompendo do mar e da terra, caudas de tornados, como Saint-Exupéry descreveu como ‘levantando-se da maneira que se constroem paredes’... oscilando lá, como peças de arquitetura, suportando os ventos que cincundavam o mundo sem parar, alimentando-os com a colheita dos mares e terras, as vezes sacudidos por raios que pulsam, como aranhas de muitas patas ou caracteres chineses que rabiscam e se reescrevem em vermelho maligno, profundo amarelo ou gélido azul, branco cegante, ocasionalmente em verde e místico violeta, de acordo com as mudanças que ocorrem enquanto se movem pelo espaço, se você estivesse lá para ver e provavelmente nunca estaria, como os céus se apropriam da terra e da água, separados desde o início da criação, transformados em plasma, espremidos como rios que correm escuros, se dispersam em nuvens como nebulosas, fustigados do alvorecer ao pôr do sol e ainda dentro da noite, mergulhando as estrelas nas suas profundezas, seqüestrando a lua, escurecendo o domo do mundo, movendo-se em grandes altitudes, inconstantes, sempre mudando, num malabarismo de bilhões de partículas sólidas, líquidos e gases, por órbitas que só os ventos conseguem manter por algum tempo, as vezes decepando o topo de montanhas, altas árvores ou prédios, devastando a terra e tornando-a plana e chata, arruinando tudo, fertilizando-a com raios, pedra, madeira, coisas mortas do mar e da terra, alvenaria, metal, fogo, vidro, coral e água também, disciplinando a terra e os mares, que às vezes abusam um pouco, trazendo para aqueles que não respeitam os pactos entre os elementos básicos, aqueles que encheram os céus com poluentes e medo.

   Aqueles que encheram o ar de radiação de quinhentas mil ogivas nucleares detonadas prematuramente, gerando radiação em um nível tão alto que alcançou o ponto de parti-las espontaneamente numa reação em cadeia durante aqueles Três Dias, quando pactos foram quebrados e as altas nuvens se partiram em protesto, quando talvez o mundo tenha gritado que era violentado ou talvez gritado por Deus ou por socorro.

   (...)

   Uma imagem, nada mais, sem lugar nem gente.

   Por conta disso, ponha uma moldura à sua volta se você quiser, e chame do nome que quiser.

   Mas os ventos irão gritar com as sete vozes do julgamento, se você estiver por lá para ouvi-las e mesmo se nunca esteja e mesmo assim, vai parecer que nenhum nome serve para aquilo.

  

   Dirigiu por bastante tempo antes de ouvir o som de outra moto.

   Uma Harley subiu na estrada vinda de um caminho de terra a esquerda e ele não podia tentar correr mais do que ela devido a sua carga.

   Então permitiu ser alcançado.

   O homem da outra moto, um sujeito magro e alto com uma bandana flamejante emparelhou com ele a esquerda. Sorriu e fez um gesto para que diminuísse a velocidade.

   Tanner freiou até parar.

   O barba ruiva estava bem ao seu lado. Disse:

   ‘Pra onde está indo, cara?’

   ‘Boston.’

   ‘O que tem na caixa?’

   ‘Remédios.’

   ‘Que tipo?’

   ‘Para a praga que está por lá.’

   ‘Ah, achei que era outra coisa.’

   ‘Desculpa.’

   O homem apontou-lhe uma pistola e disse: ‘Sai da moto.’

   Tanner desmontou e o homem fez um sinal e outro sujeito apareceu vindo do mato que cercava a estrada.

   ‘Empurre a moto desse cara uns duzentos metros estrada acima’ ordenou ‘ e deixe-a bem no meio do caminho.’

   ‘Qual é o problema?’ Tanner perguntou.

   O homem o ignorou.

   ‘Quem é você?’

   ‘Meu nome é Hell, Hell Tanner.’

   ‘Vá pro inferno! Você não é Tanner!’

   Tanner tirou a luva direita e estendeu o punho.

   ‘Este é meu nome.’

   ‘Não acredito’ disse o homem depois de estudar sua tatuagem.

   Tanner deu de ombros.

   ‘Problema seu, cidadão.’

   ‘Cale-se!’

   O outro homem tinha estacionado a moto distante na estrada e voltava para algum lugar entre as árvores à direita.

   Em resposta a um gesto, houve mais movimento no mato e motos, empurradas por seus pilotos, apareceram ao longo da estrada, umas vinte ou trinta de cada lado.

   ‘Meu nome é Grande Irmão.’

   ‘Prazer em conhecê-lo.’

   ‘Sabe o que deve fazer, senhor?’

   ‘Posso imaginar.’

   ‘Vai andar até a sua moto e reclamá-la.’

   Tanner sorriu.

   ‘Vai ser difícil.’

   ‘Sem problema. Só comece a andar. Me dê o rifle primeiro.’

   Grande Irmão esticou a mão de novo e uma por uma, as motos ligaram seus motores.

   ‘Ok’ disse ‘agora!’

   ‘Você acha que sou louco?’

   ‘Não. Comece a andar. E seu rifle...’

   Tanner o retirou e no mesmo movimento acertou Grande Irmão no meio da barba vermelha e então viu uma bala acertar o chão ao seu lado.

   Largou o rifle e o cinturão de granadas, mas antes escondeu uma delas que logo teve o pino arrancado. Largou-a bem ao lado da moto de Grande Irmão.

   Antes que explodisse, já tinha puxado o pino de outra e a arremessado para a direita.

   Todas as motos então começaram a se mover, vindo em sua direção.

   Jogou-se ao chão recuperando o rifle e em posição de tiro já mandava bala, quando a segunda explodiu. Derrubou três deles. Correu para trás da moto incendiada de Grande Irmão que estava ainda caído. Quando o rifle ficou vazio, sem tempo para recarregar, puxou a .45 e disparou quatro vezes antes de o atropelarem.

  

   Acordou com o som dos motores.

   Estavam circulando à sua volta.

   Assim que ficou de pé, uma barra de ferro o derrubou de novo.

   Duas motos davam voltas ao seu redor e vários corpos mortos estavam caídos na estrada.

   Tentou se levantar de novo e chutaram seu joelho.

   Grande Irmão estava em uma das motos e um cara que nunca tinha visto na outra.

   Tentou arrastar-se, mas uma das motos passou sobre sua mão.

   Viu uma pedra e esperou até o outro estar bem perto.

   Correu, pegou a pedra e atirou-a contra o homem derrubando-o da segunda moto.

   Toda a lateral do seu corpo era apenas dor, e sentia que quebrara algo, mesmo assim conseguia andar.

   Antes que tivesse dado dez passos, puxou a lâmina da bota, mas foi de novo atingido por um muro de metal e sentiu o cheiro de gasolina.

   Tinha conseguido, sabe-se lá como, furar o tanque da motocicleta do Grande Irmão , que despejava seu conteúdo na estrada. Enfiou a mão na jaqueta e puxou o isqueiro Zippo.

   Trinta metros a frente, Grande Irmão estava fazendo a curva para voltar ao ataque.

   Tanner segurou firme o isqueiro, o isqueiro com o crânio com asas esmaltado, seu polegar achou a roda de fricção e a chama surgiu.

   Atirou-o na trilha de gasolina diante dele e chamas correram pelo chão, traçando um caminho no concreto.

   Grande Irmão vinha na sua direção quando viu o que acontecia.

   Seus olhos se arregalaram e seu sorriso desapareceu.

   Tentou virar, mas era tarde.

   A explosão do tanque atirou-o para cima com um pedaço de metal cravado na sua cabeça.

   Pedaços incandescentes dele caíram sobre Tanner que os apagou com suas mãos.

   Levantou sua cabeça acima da carnificina a sua volta e deixou-se cair.

   Sangrava muito e estava fraco e exausto.

   Viu sua moto, aparentemente intacta na estrada.

   Começou a arrastar-se na sua direção.

   Quando chegou nela, esticou-se sobre o banco e ficou ali por alguns minutos.

   Vomitou duas vezes e a dor começou a pulsar em todo seu corpo.

   Depois de talvez uma hora, montou e ligou o motor.

   Rodou por quase uma hora até que a fadiga o pegou.

   Saiu da estrada para o acostamento no mato, escondeu a moto da melhor maneira que pode.

   Deitou-se ao chão e dormiu.

  

   Dentro do teatro da agonia, no palco do delírio, sob o cenário quente e iluminado da noite e do sonho, sobre o vai e vem das memórias, tocado por paixões breves ou vagarosas, assexuadamente ou não, o profundo ou o absurdo, raramente se fazia coerente, bonito, feio, ou mundano, geralmente vazio de reflexão, estranhamente triste ou feliz, colorida na obscuridade ou iluminada na escuridão, era tudo que podia ser dito dele, exceto sobre aquela faísca que o inflamava, que é também desconhecida.

  

   Um homem de preto move-se ao longo da estrada partida, debaixo de um céu incandescente.

   Sou o Padre Penúria, de fora de Albany, fazendo minha peregrinação à catedral em Boston, indo rezar pela salvação do homem. Sobre as montanhas, através do vale, por um córrego manchado, de além das montanhas ardentes e sobre as pontes em ruínas, pesadamente meu passo soa.

   No mato ao lado da estrada, lá eu esperarei o alvorecer, lá onde o orvalho se adensa.

   Veio o som, o burburinho constante de um motor, mas nem aumenta nem diminui de volume.

   Alguém se aproxima do mato, vestido em cinza e usando uma mascara vermelha com círculos concêntricos no lugar dos olhos, uma fina linha como boca, bochecha rosadas e três ‘v’s no meio da testa.

   Queria lhe falar, Padre, parece dizer.

   O que me diria?

   Queria lhe pedir para orar por um homem.

   Este é meu ofício. Por quem eu rezaria?

   Não há nenhuma necessidade de saber seu nome. Encontra-se longe de aqui. Está enterrado em uma outra terra.

   Como posso orar para ele se eu não sei seu nome?

   Reze, não importa. Todas as criaturas receberão a sua prece sem distinção.

   Isto eu não posso fazer.

   Então vem comigo a meu repouso e passe a noite, padre.

   Levanta um ramo, e há uma entrada.

   Que lugar é este? Um santuário? Parece com o interior de um carro, somente muito maior.

   É.

   Aquela da máscara senta-se diante do volante e coloca suas mãos em cima dele. Olha fixamente para a frente e não se move.

   Quem são vocês?

   Não importa. Eu dirijo.

   Para onde? Por quê? Que é a razão disso?

   Você deve saber que quando eu comecei minha missão eu não queria morrer. Eu estava receoso, mas eu dirigi. Através de todas as coisas que estiveram em meu caminho, eu dirigi. Dos céus caíram raios sobre mim, e eu continuei dirigindo e o sono empilhou-se por trás de meus olhos depois que meu camarada morreu, e eu lutei com as drogas e a minha vontade, sabendo que, enquanto eu dirigia, fogos invisíveis de radiação queimavam meu corpo, vindos de além do meu protetor danificado. Eu me transformei em uma peça do carro, e ele em mim, de modo que nós éramos um único ser em nossa missão. Fui ferido repetidas vezes agora por este fogo, e minha cabeça fica mais pesada.

   Lentamente, abaixa sua cabeça ao volante e descansa lá, sem se mover.

   Rápido, dirigindo rápido e rapidamente indo e vindo. Uma noite, duas noites, três noites.

   Eu talhei minha trilha sobre o Caminho, meus olhos brilhando e a loucura que me possuiu.

   Minhas chagas me cobrem e não há fim para a estrada na qual conduzo.

   Levanta sua cabeça uma vez mais.

   Eles me matam, os monstros na terra e no céu. Eles me matam.

   Dirijo, dirijo, eu alcanço meu destino, entrego minha mensagem, adoeço e morro.

   Mas eu devo fazer isso ou o alvorecer me encontrará ainda falando.

   Atravessa a porta.

   O padre o segue, o carro desaparece embora o som do motor continue.

   Eu vi coisas estranhas. Eu não posso dormir. Eu vou rezar.

   O padre curva sua cabeça e está imóvel por um momento.

   O da máscara aparece uma vez mais, com uma atadura sobre sua cabeça.

   Os ventos estão aumentando, parece dizer, as nuvens se deslocam, e a noite é escura.

   Um vento selvagem penteia o mato da colina.

   A lua não aparece até o alvorecer, e então será invisível. Sem paz, nem descanso.

   Diga seu nome.

   O homem levanta a mão para sua máscara e a cobre.

   Brady.

   Dê-me o descanso.

   Então a máscara e a atadura caem a terra, e o vestuário cinzento desmorona assim como o dia desmaia no leste.

   As palavras são feitas dentro de burburinho e das batidas.

   Foi ferido, até que a força de seu espírito se enfraqueceu, como o orvalho que mesmo agora se desvanece.

   Um galo está cantando, e uma palidez se inicia no céu.

   Escondera-se sob a sombra das árvores; sob a sombra das árvores tem-se escondido.

   O sonho desaparece agora; para onde vai, não é sabido também.

  

   Quando despertou, sentiu o sangue seco no lado do seu corpo.

   Sua mão esquerda doía e estava inchada. Quatro de seus dedos não tinham vida e sentiu muita dor ao tentar dobrá-los. Sua cabeça doía também e sentia um gosto de gasolina na boca.

   Estava dolorido demais para mover-se. Sua barba estava chamuscada e o olho direito não abria de todo.

   ‘Corny’ murmurou ‘maldição.’

   Tudo voltou, como o conteúdo de um sonho derramando em sua consciência.

   Começou a tremer em meio a névoa que o encobria. Estava escuro e suas pernas estavam frias, pois sua roupa estava encharcada.

   Distante ouviu um veiculo passar. Pareceu com um carro.

   Conseguiu se virar, descansando a cabeça no antebraço. Parecia ser noite, mas também poderia ser um dia negro.

   Deitado lá, sua mente o levou para o passado, para sua cela da prisão.

   Pareceu quase o paraíso agora, e pensou em seu irmão, Denny, que também devia estar sentindo dor aquela hora. Imaginou se ele também tinha quebrado alguma costela.

   Parecia que sim.

   Lembrou dos monstros do sudoeste e dos olhos negros de Greg que tinha se acovardado.

   Será que estava vivo? Lembrou de Los Angeles e a velha costa que já não mais existia, depois da Grande Batida. Então lembrou-se de Corny, o peito ensangüentado e fechou os olhos com força. Podiam ter conseguido chegar em Boston. O quanto ainda faltaria?

   Ficou de joelhos e tateou até achar algo sólido e alto. Uma árvore.

   Sentou-se com as costas contra ela e a mão procurava o maço no bolso da jaqueta.

   Puxou um cigarro e o cheirou e lembrou que o isqueiro ficara para trás em algum lugar na estrada. Vasculhou os bolsos e encontrou uma caixa de fósforos molhada.

   O terceiro fósforo acendeu.

   Um arrepio atravessou seus ossos quando aspirou a fumaça e uma onda de febre o varreu.

   Tossiu e pareceu sentir gosto de sangue.

   Sua armas tinham desaparecido a não ser por uma única granada ao cinto.

   Acima dele, na escuridão, veio o trovão. Depois de seis tragadas o cigarro escorregou dos seus dedos e afundou na lama. Sua cabeça pendeu para frente e a escuridão o preencheu.

  

   Uma tempestade deve ter vindo e partido.

   Ele não se lembrava.

   Acordou caído sobre o lado direito, com a árvore as costas.

   Um sol róseo brilhava sobre ele e a névoa se dissipara.

   De algum lugar o som de um pássaro.

   Quis xingar, mas percebeu como sua garganta estava seca. Queimava com uma sede terrível.

   Havia uma poça, uns trinta metros dali.

   Arrastou-se até lá e bebeu dela. A lama subiu assim que o fez.

   Então, foi até onde a moto estava escondida e sentou-se ao lado.

   Conseguiu fumar um cigarro e quase uma hora depois estava de volta à estrada, ofegando bastante.

   Seu relógio estava quebrado de modo que não sabia a hora. O sol já estava baixo as suas costas. O vento o chicoteava, fazendo com que se sentisse queimando.

   A carga ainda seguramente amarrada na traseira.

   Tivera visões com alguma coisa abrindo-a e encontrando um monte de vidros partidos.

   Riu e praguejou, alternadamente.

   Alguns carros passaram por ele, em direção contrária. Nenhum deles ia na mesma direção que a sua. A estrada estava em perfeitas condições e aos poucos começou a encontrar algumas construções em bom estado, outras abandonadas.

   Não parou.

   Estava decidido a não parar por nada a não ser que o parassem.

   O sol desapareceu distante e o céu escureceu atrás dele. Duas linhas negras oscilavam no céu e então cruzou com um sinal que lhe disse que faltavam dezoito quilômetros.

   Dez minutos depois acendeu o farol.

   Alcançara o topo de uma subida e diminuiu ao começar a descer.

   À distância viu luzes acesas lá embaixo.

   Enquanto avançava os ventos trouxeram o som de um único sino batendo, dentro da escuridão. Sentiu no ar um cheiro familiar e reconheceu como sendo da maresia, do mar.

   O sol se escondera. Uma única estrela aparecia no horizonte, entre duas cintas negras.

   Agora havia luzes dentro das sombras por onde passava e prédios próximos e juntos.

   Inclinado contra a barra de direção, os músculos das costas endurecidos sob a jaqueta, desejou ter um capacete e sentiu-se inseguro.

   Devia estar quase lá. Para onde iria, uma vez que chegasse lá? Ninguém tinha lhe dito o que fazer! Balançou a cabeça tentando limpá-la de pensamentos.

   A rua pela qual atravessava estava deserta, nenhum transito que pudesse ouvir.

   Tocou a buzina e o eco o respondeu.

   Tinha luz no prédio à esquerda.

   Parou, atravessou a calçada e bateu em uma porta. Sem resposta.

   Tentou abri-la, mas estava fechada.

   Um telefonema poderia significar que terminara sua jornada bem ali.

   E se estavam mortos lá dentro? E então ocorreu o pensamento de que todos poderiam ter morrido. Decidiu quebrar a porta.

   Voltou até a moto para pegar uma chave de fenda e então começou a trabalhar na porta.

   Ouviu quase ao mesmo tempo um tiro e o motor.

   Deu as costas para a porta virando-se rápido, a mão pegou a granada e rápido arrancou o pino.

   ‘Parado ai!’ ouviu o alto-falante da lateral do carro negro que se aproximava.

   ‘Este tiro foi um aviso, o próximo não será!’

   Tanner ergueu as mãos até a altura das orelhas.

   O carro subiu no meio fio e parou.

   Haviam dois policiais no carro e o do banco de passageiro apontava uma 38 para o peito de Tanner.

   ‘Você está preso.’ disse ‘Saqueador.’

   Tanner concordou e o homem saltou do carro.

   O motorista veio pela frente do veiculo com as algemas na mão.

   ‘Saqueador.’ repetiu o oficial armado. ‘Você se deu muito mal.’

   ‘Mostre suas mãos garoto.’ disse o outro e Tanner mostrou a granada sem o pino na sua mão.

   O homem olhou sem entender e seus olhos se arregalaram.

   ‘Deus! O cara tem uma bomba!’ gritou o que estava com a arma.

   Tanner sorriu e disse ‘Calem-se e me escutem! Ou você atira em mim ou vamos juntos onde precisamos ir. Eu tentava achar um telefone. Aquela mala na traseira da moto está cheia de Haffikine antiserum. Eu trouxe de Los Angeles.’

   ‘Você não veio pelo Caminho naquela moto!’

   ‘Não, não vim. Meu carro quebrou em algum lugar entre aqui e Albany e alguns malucos tentaram me parar. Agora, é melhor pegar aquele remédio e levá-lo para onde quer que suponho, estão precisando dele urgentemente.’

   ‘Você está bem, senhor?’

   ‘Estou muito cansado e não estou em boa forma.’ Tanner inclinou-se na moto ‘Aqui.’

   Puxou a valise e a entregou ao policial com as algemas.

   ‘E aqui está o meu perdão.’ disse ‘É de uma semana atrás e pode ver que foi redigido na Califórnia.’

O policial pegou o envelope e o abriu. Olhou para o que estava escrito e disse:

   ‘Parece de verdade. Quer dizer então que Brady conseguiu fazer a travessia...’

   ‘Ele morreu. Olhe, estou ferido e encrencado’ e mostrou a granada. ‘Me ajude está certo?’

   ‘Meu Deus! Segure! Sente-se no carro e levaremos um minuto para livrar-se desta coisa no rio e vamos dar um jeito em você.’

   Eles colocaram o container no banco de trás e Tanner sentou junto dela, com o braço para fora da janela.

   Ligaram as sirenes e uma dor subiu pelo braço de Tanner até seu ombro.

   ‘Onde fica o rio?’ perguntou.

   ‘Logo em frente. Estaremos lá em breve.’

   ‘Rápido.’ Disse Tanner.

   ‘Tem uma ponte logo acima. Vamos passar por ela e você atira a coisa o mais longe que puder.’

   ‘Homem, estou cansado. Não sei se consigo...’

   ‘Rápido Jerry!’

   ‘Estou indo o mais rápido que posso! Não tenho asas...’

   ‘’Acho que estou meio tonto...’

   Pararam ao lado na ponte e os pneus deixaram marca da freiada.

   Tanner abriu a porta vagarosamente. Eles o ajudaram a sair.

   ‘Acho que não conseguirei...’

   Então ele baixou o braço e soltou a granada em direção as águas.

   Sorriu e a explosão ouviu-se longe e por um tempo as águas ficaram bem agitadas.

   Os policiais suspiraram aliviados e Tanner riu-se.

   ‘Eu estou bem’ disse ‘ Só estava fingindo para assustar vocês um pouco.’

   ‘Seu...!’

   Então ele desmaiou e viram a palidez de seu rosto no facho das luzes do carro.

  

   Na primavera seguinte, durante a inauguração do parlamento de Boston, quando descobriram que alguém havia escrito palavras obscenas na estátua de Hell Tanner, ninguém perdeu tempo pensando quem o teria feito ou por que ele tinha ido embora sem dizer para onde ia.

   Muitos carros foram roubados naquele dia e nenhum deles foi visto de volta em Boston.

   Então eles cobriram sua enorme estátua, com Hell montado numa Harley de bronze, a limparam e a preservaram para a posterioridade.

   Mas, sobre o prédio do parlamento, os ventos ainda faziam estragos e os céus ainda despejava lixo.

 

                                                                                Roger Zelazny  

 

                      

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