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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


CANÇÃO DO RIO / Sue Harrison
CANÇÃO DO RIO / Sue Harrison

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio "SEBO"

 

 

 

 

Fim do Outono, 6480 a. C.

A oeste do Lago do Avô (atualmente lago Iliamna, Alasca)

ALDEIA DE INVERNO DO POVO DE RIO PRIMO

A dor foi terrível, mas não era disso que K’os se lembrava. Lembrava-se do seu desamparo.

Lutou, arranhou, deu pontapés, mordeu o lóbulo da orelha de um homem, vazou o olho de outro.

Sabia os nomes deles: Asa-de-Gaivota, Raposa-Que-Ladra e Dorminhoco. Tinham vindo da aldeia de Rio Próximo para negociar. Raposa-Que-Ladra tinha o olhar mesquinho dos homens que mentiam, e Dorminhoco mexia-se devagar, como se estivesse acostumado à preguiça, mas Asa-de-Gaivota comportava-se como um caçador. K’os observara-o nessa noite, na cabana da mãe, e lhe teria sorrido se ele tivesse olhado na sua direção.

Na manhã seguinte, foi atrás deles até ao Lago do Avô e escondeu-se atrás do Rochedo do Avô. Aquela rocha era um local que dava sorte às mulheres. As que estavam grávidas iam ali sentar-se, na esperança de que a magia do rochedo passasse para os filhos que esperavam no seu ventre. Falavam dos seus anseios em voz alta: para um filho, que fosse caçador, para uma filha, que olhasse pelos pais quando estes fossem velhos, e que o parto fosse fácil.

Os animais sabiam que aquele lugar era benigno. Os caribus, os linces e os ursos iam ali beber. Os ratos-almiscarados construíam as tocas nas margens dos ribeiros que corriam para o mar do Norte. No Verão, havia pássaros mergansos e mergulhões. No Inverno, o lago era um belo local para apanhar pescada-preta, aqueles peixes pequenos e tenros que eram bons comidos crus, cheios de óleo. Bastavam alguns para encher a barriga de gordura no Inverno.

O caminho da aldeia para o Lago do Avô era difícil, através de pântanos cobertos de musgos e juncos, sobre tufos de erva que chegava até aos joelhos. Eram difíceis de contornar, aqueles tufos, e traiçoeiros para as canelas de quem resolvesse passar por cima deles. As mulheres que iam ao Lago do Avô viam-se aflitas para lá chegarem. Mas a boa sorte valia o esforço.

Contudo, nesse dia, o local não dera sorte a K’os.

Agora, doente e ensangüentada devido à luta, contornava a aldeia em vez de a atravessar. A entrada das cabanas estava virada para leste, para o sol da manhã. K’os aproximou-se da cabana da mãe pelos fundos, onde se encontravam os montes de lixo. Puxou o capuz da sua parka de pele de esquilo para cima e escondeu o rosto no rufo de pele de carcaju.

Afastou a aba da entrada para o lado e entrou no túnel engatinhando. A cabana era grande: três homens altos conseguiam dormir uns a seguir aos outros no chão e ainda havia espaço para uma mulher passar entre eles e a parede. Seixos do rio, alisados pela água, tinham sido trazidos para a aldeia de Inverno, talvez pelo avô ou pelo pai de K’os, para revestir as paredes do buraco aberto no solo, com vários palmos de profundidade. Os postes, amarrados numa ampla cúpula acima do chão, estavam cobertos por duas camadas de peles de caribu, para impedir que o vento roubasse o calor produzido pelo fogo de lenha.

As paredes de peles de caribu estavam todas bem costuradas e o chão encontrava-se coberto de peles de caribu. As camas eram de peles quentes e macias de lobo, lince e raposa.

A mãe de K’os, Marta, suspirou de alívio ao ver a filha, mas limitou-se a dizer:

Demoraste muito.

K’os esperava uma reprimenda maior. A boca sorridente da mãe escondia uma língua afiada.

Eu te disse que ia ao Lago do Avô, respondeu K’os.

As suas próprias palavras pareceram-lhe estranhas, como se saíssem da boca de outra mulher. K’os levou a mão ao rosto. Sentiu o mesmo em relação aos lábios, ao nariz e aos olhos. Deixou-se ficar onde estava, tendo o cuidado de desviar o olhar das armas do pai. Sangue era sangue. Apesar de o seu fluxo mensal ainda não ser regular, podia ter poder suficiente para amaldiçoar as lanças, as facas, os arpões e os anzóis do pai.

Onde estão as raízes?

K’os respirou fundo, depressa e a custo. Disse à mãe que ia ao Lago do Avô apanhar raízes de abeto. Os abetos negros que cresciam na turfeira escura e úmida a oeste do lago tinham raízes compridas que pareciam cordas fortes, mas eram fáceis de cortar. K’os levara um dos cestos favoritos da mãe para as trazer. Devia ter deixado lá o cesto, depois de os homens a terem descoberto.

Não as tenho, respondeu ela.

Não as tens? Onde estão?

K’os percebeu a irritação na voz da mãe e esteve quase a contar-lhe o que sucedera. Para quê guardar aquele problema só para ela? A mãe e o pai que partilhassem a sua dor. Mas a língua da mãe não só era forte como nunca estava parada. Dali a pouco, todas as mulheres da aldeia saberiam o que se passara. Não só as mulheres como os homens. Depois, quem a quereria como esposa?

Comecei a sangrar, disse K’os. Precisamente quando o cesto estava quase cheio. Não sabia o que fazer com as raízes. Tive medo que o meu sangue lunar lhes desse demasiado poder e por isso deixei-as lá. Eu sei onde está o cesto. Escondi-o. Se dizes que as raízes são boas, irei lá buscá-las. Caso contrário, deixo-as lá.

A mãe começou a lamentar-se, mas o pai disse:

O que ela fez foi sensato. Deixa-a em paz. E se te servisses dessas raízes para tecer um sael e mais tarde um caçador comesse dele? Ela pode ir buscar o cesto quando terminar o sangue lunar.

O pai franziu a testa a K’os e depois apontou-lhe para a cara com o queixo.

Precisas de água. Tens sangue na cara.

K’os levantou de novo a mão e levou-a ao rosto.

Era uma bela mulher, todos o reconheciam, e descobrira que era bom ser bela. Isso dava poder. Podia mentir para se livrar de embaraços, podia pedir coisas, que elas lhe seriam concedidas.

Pensava muitas vezes na sua beleza. O que era? A distância entre os olhos? Um nariz aquilino, a boca nem muito grande nem muito pequena? Cabelos brilhantes. Havia mais alguma coisa, algo que estivesse ligado à sorte? Com certeza nesse dia, perdera toda a sorte que tinha.

Olhou para a mãe.

Caí, explicou.

Foram as moitas observou a mãe, abanando a cabeça. Eu te disse que não fosses.

Tinhas razão respondeu K’os.

Marta inclinou a cabeça para o lado da cabana em que havia montes de peles empilhadas à espera de serem costuradas.

Tens ali muito que fazer disse ela. E vou dizer à minha irmã que leve a tua priminha Gguzaakk para o tikiyaasde. O espaço chega para as duas. Podes olhar por ela enquanto nós trabalhamos.

K’os não gostava de Gguzaakk. A criança tinha apenas dois verões; era chorona e trepava para cima de tudo. Mas K’os fez um sinal afirmativo. Sim, enquanto estivesse na cabana da menstruação olharia por Gguzaakk. E dessa vez a mãe de Gguzaakk não teria razões de queixa.

Marta trouxe um cilt’ogho de água feito de casca de bétula. K’os pegou-o. Tinha sangue seco na palma da mão. Marta, de olhar pregado ao rosto da filha, não reparou.

No queixo e no olho, também disse ela, com a mão encostada à face. Nódoas negras.

K’os sentou-se. Tapou a boca para abafar um gemido. Qualquer movimento lhe era doloroso. As dores tinham-na obrigado a abrandar o passo na viagem de regresso, e ela receara não conseguir chegar à cabana da mãe antes do anoitecer. Além disso, que hipótese teria, sozinha e sem sorte?

Os homens tinham-na machucado tanto que o espírito lhe saíra do corpo, e por isso ela não percebeu tudo o que eles lhe haviam feito. Enquanto percorria o longo caminho de regresso do Lago do Avô, era como se não tivesse nada na barriga que a amparasse; tinha a certeza de que eles lhe haviam rasgado qualquer coisa lá dentro. Quando urinou, sangrou.

Colocou a mão no sael. Tinham sido estúpidos, aqueles três homens, ao deitarem-se ali, na relva à volta do Lago do Avô, com ela ainda viva. Deviam ter julgado que ela morrera, ou pelo menos que não voltaria a si durante muito tempo.

Ela deixara-se ficar deitada ouvindo-os, às suas fanfarronices, primeiro sobre o que lhe tinham feito, e depois acerca de outras mulheres de que se haviam servido. Iam possuí-la outra vez, concluíram, e depois partiriam, voltariam para a aldeia de Rio Próximo, para junto das mulheres e dos filhos.

Tinham levantado a parka de K’os, desnudando-lhe a barriga e os seios, mas nem se incomodaram em despi-la. Puxaram-lhe o capuz para a cara e enfiaram-lhe uma parte do rufo na boca, empurrando-o até à garganta, até ela quase não conseguir respirar. Tinham descoberto a faca de mulher enfiada na bainha, à cintura, mas não a lâmina que ela trazia escondida no braço esquerdo, debaixo da manga da parka.

Aquela faca fora um presente de um dos irmãos mais velhos. Ele a oferecera antes de ir viver com a família da mulher na aldeia de Quatro Rios. Era uma faca de homem para a proteger, porque todos os irmãos dela viviam noutras aldeias com as mulheres.

K’os agarrara a faca com as duas mãos e rolara do rochedo, com ela entre os seios, o gume virado para fora, segurando no cabo e apertando-o ligeiramente contra o peito. Asa-de-Gaivota estava deitado junto do rochedo. K’os caiu sobre ele e enfiou-lhe a faca no coração antes que o homem pudesse reagir. Tirou-a e enterrou-a num dos olhos e depois no pescoço. Os gritos gorgolejantes do homem obrigaram os outros a levantar-se. K’os retirou a faca da garganta de Asa-de-Gaivota e apontou-a para eles.

Qual é que eu mato a seguir? perguntou ela, passando por cima de Asa-de-Gaivota, que se contorcia com os espasmos da morte.

K’os enfiou o dedo no sangue do homem e lambeu-o.

Ficou à espera que os outros dois a atacassem. Mas eles deram meia volta e fugiram.

K’os conseguiu levantar-se, gemendo e sentindo a barriga ardendo. Em seguida, desatou também a correr, afastando-se do lago, do rochedo e de Asa-de-Gaivota, já morto.

Caindo e levantando-se sucessivamente, só parou quando sentiu o sangue correndo-lhe pelas pernas como um rio. Então, escondeu-se num tufo de salgueiros e encheu a vagina de musgo e de folhas, para estancar o sangue.

Ficou ali, como um animal ferido. A princípio, teve medo de que a encontrassem, medo de morrer, mas depois receou não morrer, destruída como estava.

Por fim, resolveu continuar a andar para a aldeia; porém, quando se levantou, os pés não seguiram nessa direção. Viraram-se para o Lago do Avô. E levaram-na de novo para junto do corpo de Asa-de-Gaivota.

Aí, K’os arrancou o coração de Asa-de-Gaivota e ofereceu-o ao Rochedo do Avô.

 

 

 

 

                               Quatro dias depois

 

ALDEIA DE INVERNO DO POVO DE RIO PRÓXIMO

Era o quarto filho de Mulher Diurna. O parto não devia ter sido tão longo, tão complicado. A velha Ligige’ ficara preocupada com o que isso poderia significar. Mulher Diurna quebrara algum tabu? De qualquer modo, parecia ser uma pessoa respeitadora, apesar da sorte a ter abandonado nos dois últimos anos. O primeiro filho morreu afogado quando estava pescando com o pai; uma filha nasceu morta.

Perante aquelas mortes, a velha Pena Amarela afirmara ter ouvido um corvo crocitando à noite, o que, evidentemente, significava morte. Mas Pena Amarela não era tia nem avó de ninguém da família de Mulher Diurna. Então, se fora Pena Amarela a ouvir o grito da ave, porque atingira a morte os filhos de Mulher Diurna?

Alguns velhos diziam que o problema residia em Asa-de-Gaivota, o marido de Mulher Diurna. O próprio marido de Ligige’ não ia à caça nem à pesca com o homem. Todo mundo sabia que ele não tinha cuidado com os animais. Não cortava as articulações dos lobos que matava, e ria quando algum homem depositava um osso na boca de uma raposa morta. Se a dádiva não era feita, como sabia a raposa que era respeitada? Porque havia ela de voltar no ano seguinte para se entregar ao Povo?

Todos acreditavam que iria acontecer alguma coisa, e aconteceu. Três dias antes, dois dos caçadores da aldeia, Raposa-Que-Ladra e Dorminhoco, tinham regressado de uma visita à aldeia do povo de Rio Primo. Asa-de-Gaivota, irmão de Raposa-Que-ladra e marido de Mulher Diurna, também fora com eles. Tinha sido morto por um urso junto do chamado Lago do Avô. O urso levara o seu corpo arrastando-o, e fora impossível encontrá-lo; por isso não restara nada nem os ossos para trazer para a aldeia.

Ninguém se admirou. Um homem como Asa-de-Gaivota atraía problemas.

Na noite em que começou o luto, o filho de Mulher Diurna resolveu vir ao mundo, e agora, três dias depois, continuava tentando. Três dias, quando os outros filhos de Mulher Diurna tinham nascido com tanta facilidade que a mulher até riu das dores.

Ligige’ entregou-se aos seus pensamentos, sentada, com os braços bem apertados em volta dos joelhos. Como gostaria de aliviar as dores de Mulher Diurna! Levou uma mão deformada à barriga. Estava mole e engelhada desde o nascimento do último filho. Esse filho morreu, como todos os outros, mas ela tinha Mulher Diurna, que era uma boa sobrinha, sempre levando-lhe comida, coisas que faziam as delícias da língua de uma velha, como a carne delicada do mergulhão-de-pescoço-vermelho, aquele pássaro desajeitado cuja carne podia abrandar o passo de uma criança ou de um caçador. Mas porque havia uma velha de se preocupar com tal coisa? As velhas andavam sempre devagar.

Quando Ligige’ se lembrou do que sofrera com a perda dos seus próprios filhos, admitiu que, se aquele bebê morresse, talvez Mulher Diurna resolvesse ir atrás dele. Contando com este, já lhe tinham morrido três filhos e o marido. Não era preferível ir com eles do que ficar com Sok, o único filho que ainda era vivo? Era difícil dizer, evidentemente.

Sok era um rapaz grande e saudável. Veloz na corrida e forte no arremesso. Os homens da aldeia diziam que ele seria um bom caçador e um guerreiro hábil.

Talvez Mulher Diurna resolvesse viver um pouco e ver crescer aquele rapaz. E depois, quando ele fosse um homem, com a sua vida própria, talvez ela fosse fazer companhia aos mortos. Afinal, os que estão vivos podem sempre optar por se tornarem espíritos. Aos mortos é que não restam mais escolhas.

Com um aceno de cabeça, Ligige’ virou-se para os sonhos, obrigando-se a ver aquelas imagens que se acumulavam debaixo da pele aveludada das suas pálpebras. Suspirou e quase sorriu. Então, Mulher Diurna deu um grito que acordou Ligige’ e lhe fez pele de galinha desde o pescoço até aos pulsos. Talvez fosse algo mais do que uma criança tentando sair. Talvez o desrespeito de Asa-de-Gaivota tivesse amaldiçoado o ventre de Mulher Diurna.

Ligige’ levantou-se e virou-se para a porta, pronta a correr se saísse algo horrível da carne rosada e inchada entre as pernas de Mulher Diurna.

Mulher Diurna gritou outra vez. Ligige’ viu o cabelo negro e reluzente da cabeça de um bebê. Respirou fundo. Pelo menos, a coisa era uma criança. Se fosse deformada, não seria o primeiro bebê deformado que ela ajudara a nascer.

Mulher Diurna pôs-se de cócoras, de pernas abertas, agarrando-se a uma tira entrançada de couro cru que estava pendurada nos postes da cabana. Fez um esgar. Fez força, gemendo com o esforço, e Ligige’ ajoelhou-se entre as pernas da sobrinha e pôs as mãos à volta da vulva quando esta se dilatou para deixar sair o bebê.

Primeiro apareceu a cabeça, e depois os ombros. Ligige’ pegou-a e pousou-a no ninho de musgo que Mulher Diurna estendera por baixo do corpo.

Ah! Tens sorte! exclamou Ligige’.

A criança era um rapaz, a minúscula saliência do pênis anunciava. Irrompeu num choro forte.

Mulher Diurna riu, susteve o fôlego para deixar sair a placenta e depois soltou outra gargalhada.

Outro rapaz cacarejou ela.

Ligige’ estendeu o bebê à mãe. Mulher Diurna o pôs ao peito e, apesar de a maioria dos recém-nascidos não se mostrar muito interessada em comer no seu primeiro dia de vida, a criança abriu a boca, agarrou-se ao mamilo da mãe e começou a mamar. Mulher Diurna fez um esgar ao sentir o leite saindo, mas depois riu, deliciada.

Ligige’ envolveu a placenta em casca de bétula, deu um nó no cordão umbilical e depois cortou-o com a sua faca de obsidiana. Levou a placenta lá para fora, caminhando com todo o cuidado com a casca de bétula bem alta, não fosse algum caçador cruzar-se com ela e arriscar-se a perder o poder. Depois de a enterrar, regressou à cabana.

Mulher Diurna adormecera. A criança descansava no seu peito, com a pele escura pelo sangue do parto. Ligige’ pegou o menino com cuidado e levou-o para o cesto de casca de bétula que forrara de peles de esquilo amaciadas pelas suas próprias mãos. Tirou uma bexiga de caribu cheia de água dos postes da cabana e, puxando a rolha de chifre, derramou um pouco de água numa pele de caribu raspada que amaciara com gordura. Lavou o rosto do bebê, servindo-se de uma unha para lhe retirar o muco das pequenas narinas, e depois esfregou-lhe o peito e a barriga até ficarem brilhantes e rosados. Mergulhou a pele na água e lavou-lhe as pernas e um pé, e depois o outro. Parou.

Desolada, sentiu uma dor na barriga. Os últimos três dedos dos dois pés estavam unidos por uma membrana, e o pé esquerdo do menino era tão deformado que a planta se virava para dentro. Pousou o pé no chão e forçou-o até o bebê começar a chorar. Já vira uma deformidade como aquela. Os pais tinham resolvido deixar morrer o filho. Com um pé tão torto, como é que ele poderia acompanhar o Povo quando este fosse atrás dos caribus ou saísse da aldeia de Inverno para o pesqueiro de Verão? E o que aconteceria às outras mães que traziam nos ventres os seus bebês? Ao verem aquele, poderiam passar a deformidade aos filhos que tinham na barriga. Seria possível deixar viver uma criança como aquela? Como é que Mulher Diurna arranjaria um marido quando passasse o seu período de luto? Qual o homem que queria uma mulher cujo filho podia amaldiçoar os seguintes?

Ligige’ olhou para Mulher Diurna, que dormia, tranqüila e feliz. Seria preferível desembaraçar-se da criança naquele momento, mas Ligige’ não era a mãe. Não lhe competia tomar a decisão. Embrulhou o bebê em várias peles de esquilo e colocou-o sobre a lama endurecida do chão da cabana, fora do alcance da mãe. Seria preferível que Mulher Diurna não se habituasse a pegar-lhe ao colo e que o bebê não levasse recordações da mãe para o mundo dos espíritos. Talvez, então, ele não a incitasse a deixar a companhia dos vivos.

Ligige’ atravessou a aldeia adormecida em direção à cabana do irmão. Este era um velho respeitado e o que era mais importante o pai de Mulher Diurna. Desde jovem que tinha visões em sonhos. Ele saberia o que havia a fazer.

A voz era suave, um som que parecia o grito de um mocho. Dizia a Tsaani que se preparasse para a morte. O velho estremeceu, sabendo que os mochos só se pronunciam com segurança, e perguntou a si próprio se a ave se referia à sua morte ou à de outra pessoa da aldeia. A sua própria morte não seria uma perda terrível afinal, ele era um velho. Vivera muitas noites estreladas, muitos dias de sol. Mas o mais provável era que o mocho se referisse à sua filha, Mulher Diurna.

Quantas mulheres sobreviviam a três dias de trabalho de parto? Perdê-la não seria tão grave como perder um caçador, apesar de ela ser jovem e ainda poder gerar filhos, porque era forte. Era um caso invulgar no Povo: ela não tinha medo da água. Era ela que mergulhava no rio para consertar as armadilhas de pesca, e uma vez salvara uma criança que ia sendo levada pela corrente nas inundações da Primavera.

Dizia-se que a família dela possuía o sangue dos Caçadores Marinhos, que viviam nas ilhas do mar do Norte. Mas quem podia ter a certeza?

O grito ouviu-se de novo, e dessa vez Tsaani percebeu que não fora a voz de um mocho que o acordara do seu sono, mas sim a da sua irmã Ligige’. Desembaraçou-se do monte de peles que era a sua cama e enrolou uma manta de pele de lebre à volta dos ombros nus. Sentiu as pregas brancas e macias a fazerem cócegas nas solas dos pés.

Estou acordado, irmã disse ele. Entra. Ligige’ entrou e, à luz tênue das brasas da lareira, Tsaani reparou na sua expressão crispada e inquieta.

A minha filha? perguntou Tsaani, tendo o cuidado de não lhe pronunciar o nome. Se a filha tivesse morrido, ele não queria invocar o seu espírito para a cabana. Para quê lembrar à morte que ele era um velho?

Mulher Diurna está bem. É a criança.

Nasceu morta?

Está viva e forte, e é um rapaz.

Era uma boa notícia, mas Tsaani percebeu que a irmã estava triste.

Então o que há? perguntou ele.

A criança é aleijada.

Como?

Tem um pé torto. Poderia aprender a andar. Mas nunca poderá correr.

Não há nada a fazer? Ligige’ ergueu as mãos.

Os ossos de um bebê são moles. Se o pé fosse torcido e reposto no seu lugar, talvez ajudasse, ou talvez não.

Ele pode atrair má sorte para a mãe, ou, o que é pior, para o irmão. Até para toda a aldeia.

É verdade.

Se o deixarmos morrer, a mãe pode ser tentada a segui-lo comentou Tsaani em voz baixa, quase como se falasse sozinho. Ela é jovem. Seria mau perdê-la.

Ligige’ ergueu a sobrancelha em sinal de assentimento.

O que diz a mãe?

Nada. Ela não sabe. Está dormindo.

Já o amamentou?

Já.

Tsaani assobiou e Ligige’ censurou-se pelo seu descuido. Devia ter reparado na deformidade no instante do nascimento. O leite era forte como uma corda de tendão, que ligava a mãe ao filho.

Tsaani olhou para o teto da cabana. O fumo da lareira elevava-se atrás dele, como se transportasse as suas preces.

Traz-me a criança, mas tenta não acordar a mãe disse ele por fim.

Quando a irmã saiu, Tsaani virou-se e ficou observando a fumaça na escuridão. Em seguida, aproximou-se do seu saco dos remédios, uma pele de lontra do rio, ainda com a cauda, as pernas e a cabeça agarradas e com a barriga cheia de plantas secas, cada uma com o seu dom. Encontrou um pacote atado com um nó. Folhas de amora-da-silva-salmão, secas e reduzidas a um pó fino. Desfez o nó e deitou cuidadosamente uma pitada na mão em forma de concha.

Jogou o pó sobre as brasas, e em seguida falou em voz baixa, pronunciando as palavras uma por uma à medida que a fumaça se elevava no ar. Pediu sabedoria, força, não só para si próprio como também para Mulher Diurna e Ligige’.

Quando terminou as suas preces, sentiu Ligige’ a arranhar de novo a aba da porta de pele de caribu. Foi ao seu encontro, mas ordenou-lhe que ficasse lá fora. Para quê arriscar-se a que a sua cabana fosse amaldiçoada?

Desembrulhou a criança. À luz da lua cheia, viu que o menino era forte, com a cabeça e a face bem torneadas e os ombros largos. Tsaani enfiou cuidadosamente as mãos entre as pernas da criança. Os ossos eram direitos mas, como em todos os bebês, a planta do pé inclinava-se para dentro. Tsaani puxou-lhe ligeiramente o pé direito e espalmou-o na sua mão. Empurrou-o e a criança, com uma força surpreendente, ofereceu resistência. Em seguida, Tsaani pousou a mão na planta do pé esquerdo. Apesar de este se dobrar um pouco, manteve-se curvo na ponta.

Tsaani respirou fundo e deixou escapar um suspiro.

O pé desta criança é torto como a pata de um urso a espantar o peixe da água disse ele a Ligige’. A mãe dele deve ter visto um urso a apanhar salmões.

Por que motivo é que as mulheres nunca aprendiam a venerar aqueles animais que exigiam veneração?

Reparaste que ele tem os dedos unidos por membranas? perguntou Tsaani à irmã.

Ligige’ fez um sinal afirmativo.

Isto não é uma maldição observou ela.

Sim, mas o pé...

Tsaani abanou a cabeça. Quando falou, foi com a voz trêmula de um velho.

Vou levá-lo para o Rochedo do Avô. Quando Mulher Diurna acordar de manhã, a criança já terá desaparecido.

Mulher Diurna chamou Ligige’. Doíam-lhe os seios, disse ela. Estavam cheios de leite. Onde estava a criança?

Durante algum tempo, Ligige’ fingiu que não ouvia. Estava tecendo um recipiente de casca de bétula. Era do comprimento do seu braço, desde o pulso até ao ombro, e tão largo como a coxa de um homem. Ela apertara o recipiente no fundo e fechara-o com raízes de abeto. Agora costurava-o de lado, abrindo orifícios na casca sobreposta com um furador de osso de pássaro e dando grandes pontos cruzados em todo o comprimento. Seria útil para levar às costas quando fosse colher plantas na floresta.

Eu preciso do meu filho afirmou Mulher Diurna e, servindo-se da tira de couro que ainda pendia sobre o seu corpo, conseguiu levantar-se.

Apalpou a cama de casca de bétula da criança, com o seu ninho de peles de esquilo, e depois soltou um grito abafado.

Não chames por ele ordenou Ligige’ tranqüilamente. Os espíritos levaram-no. Era necessário.

A velha explicou o que se passava com o pé da criança. Mulher Diurna pegou as peles de esquilo, encostou-as ao peito e deixou-se cair no chão de terra batida.

Falei com o teu pai disse Ligige’. Ele está rezando. O espírito da criança está a salvo. Eu prometi ficar junto de ti durante estes dias, para que os teus poderes não ponham em risco os dotes dos caçadores.

Eu posso optar por ir atrás do meu filho disse Mulher Diurna.

Ligige’ rosnou:

És jovem. Virão outros bebês.

Mas baixou os olhos para que Mulher Diurna não se apercebesse da sua compaixão.

Mulher Diurna soltou um gemido e perguntou:

Como é que isso é possível? Não tenho marido.

O irmão do teu marido, Raposa-Que-Ladra, diz que te aceita.

Ele concordou?

O teu pai falou com ele ontem à noite. Ele concordou.

Durante muito tempo, Mulher Diurna não disse nada, e Ligige’ viu que o seu rosto era o de alguém que tomava uma resolução. Por fim, Mulher Diurna começou a entoar um cântico fúnebre. Fechou os braços sobre os seios inchados, inclinou-se para a frente e encostou o rosto ao chão de terra batida. Ligige’ pôs de lado o seu recipiente de casca de bétula e procurou qualquer coisa no cesto de pele de peixe que levava consigo quando ia para as cabanas de partos. Tirou um pente feito de madeira de bétula e começou a pentear devagarinho os cabelos de Mulher Diurna. Ao mesmo tempo, cantava, pronunciando em voz baixa as palavras que o Povo usava para encaminhar os bebês recém-nascidos para o mundo dos espíritos.

 

LAGO DO AVÔ

Os liquens que cobriam o rochedo espetavam-se na pele nua da criança, que arqueava as costas. Apesar de se aproximar o Inverno, o sol era forte e quente. O bebê piscava os olhos e esbracejava, mas não havia ninguém por perto que o protegesse, e ele assustou-se, reagindo como se fosse a escorregar. De súbito, um cobertor macio caiu sobre ele, impedindo a passagem da luz e concentrando o calor no seu rosto. O cobertor encostou-se à sua boca, e a criança deixou de chorar. Mexeu a cabeça e a boca, à procura do seio da mãe. Mordeu uma ponta do cobertor e chupou, mas não saiu leite. Com fome, a criança encostou as gengivas na pele e depois chupou com força, arrancando um tufo de pêlo que lhe escorregou para a garganta. Engasgou-se, virando a cabeça para tentar respirar. O seu rosto adquiriu um tom escuro e os lábios ficaram arroxeados.

Por fim, tossiu e conseguiu que o pêlo que tinha na garganta lhe passasse para a boca. Empurrou-o com a língua, depois respirou e começou a chorar.

O velho afastou-se; o choro perseguia-o. Tapou os ouvidos com as mãos e rezou, pedindo proteção para o espírito da criança.

Era de tarde quando K’os chegou ao Lago do Avô. Não queria ir, mas a mãe obrigara-a. Esperava conseguir encontrar o cesto depressa.

Procurou-o primeiro à beira da água. Talvez o cesto tivesse caído para ali durante a luta.

Encontrou penas de narceja, pegadas de urso e nada mais. Por instantes, deixou-se ficar de cócoras, descansando. Sangrara durante quatro dias. Depois a hemorragia parara, mas ainda lhe doía a barriga. Olhou para o lago. A água estava imóvel; só a ondulação provocada pelos saltos dos peixes agitava a superfície.

Manteve-se de costas para o monte onde se erguia o Rochedo do Avô. Mesmo àquela distância, sentia o rochedo a empurrá-la, e parecia ouvir os seus próprios gritos e sentir a dor causada pelas mãos dos homens nos seus pulsos e tornozelos, entre as pernas.

Não seria sempre assim, prometeu a si própria. Exultou ao pensar em Asa-de-Gaivota. Mataria os outros, também. Apesar de ser mulher, havia de arranjar maneira de os matar. Se tivera forças para fazer aquilo, teria forças para enfrentar o Rochedo do Avô, e o corpo de Asa-de-Gaivota, que apodrecia junto dele.

Virou-se e começou a subir o monte, mas sempre desviando o olhar do rochedo e perscrutando o solo, à procura do cesto. Era um cesto de pele de salmão, feito com seis peles cortadas da barriga, esfoladas e cosidas, com a cauda para baixo, para formarem uma base estreita. As peles tinham sido tão bem raspadas que se via a luz através delas. A mãe cortara as cabeças do peixe e as curvas das fendas branquiais na extremidade superior do cesto pareciam uma série de ondas, umas a seguir das outras.

K’os fez um esgar e levantou a cabeça para ver o rochedo. As ervas cobriam-no quase todo, e algures jazia o que restava do corpo de Asa-de-Gaivota. As recordações sucederam-se, comprimindo-lhe a carne até já não haver lugar senão para a raiva e para o sofrimento.

K’os gritou, dirigindo-se ao rochedo:

Dá-me uma vida longa. Deixa que o meu ódio se torne forte e escuro como um abeto. Que ele me acompanhe durante toda a minha existência.

Repetiu as palavras até estas se transformarem numa canção, e cantou até lhe doer a garganta. Subiu ao cimo do monte e depois parou.

Havia um cobertor de pele de lebre, branco como a neve, enrodilhado em cima do rochedo. Quem teria ali deixado uma coisa tão bela? Com as primeiras chuvas, começaria a apodrecer. K’os caminhava devagar, com cautela, à procura dos ossos de Asa-de-Gaivota. Mas não viu nada, nem ossos, nem carne. É claro que um urso poderia tê-lo levado. Ou os lobos. Julgou ver um espaço entre as ervas, um nivelamento, mas não tinha a certeza. Um caçador saberia, um homem habituado a seguir os trilhos dos animais.

Talvez os amigos de Asa-de-Gaivota tivessem vindo buscá-lo, ou o tivessem levado para o rochedo e tapado o seu corpo com o cobertor.

Apeteceu-lhe levantar o cobertor para ver como o cadáver apodrecera, para se rir da pele e dos músculos a soltarem-se dos ossos, dos olhos arrancados pelos corvos e da carne devorada pelas raposas. Mas hesitou. Como podia saber ao certo o que estava debaixo do cobertor? Que maldição a aguardaria?

Era melhor encontrar o cesto da mãe e ir-se embora.

Desceu a encosta virada a norte e depois encaminhou-se para o terreno escuro e molhado onde cresciam abetos grossos e altos. Não tirou os olhos do solo e por fim avistou o cesto, virado. A mãe ficaria zangada se ele estivesse estragado. K’os apanhou-o. Estava intacto, mas agora ela teria que enchê-lo de raízes de abeto.

Inclinou-se, ignorando as dores lancinantes que a trespassavam ao fundo das costas, e começou a escavar o chão com o seu pau. Quando o sentiu preso, empurrou-o de lado e levantou-o até trazer uma raiz à superfície. Servindo-se do pau e das mãos, puxou-a até ela atingir o comprimento de dois braços. Em seguida, cortou-a e afastou-se da árvore, enrolando-a e puxando-a ao mesmo tempo, até a raiz se partir. Aproximou-se de outra árvore, tirou outra raiz e mais uma terceira. Repetiu a operação até as raízes enroladas encherem o cesto.

Sabia que devia deixar uma oferenda às árvores. A mãe insistira para que ela levasse folhas-de-caribu secas, mas ela deixara as ervas na bolsa que trazia atada à cintura. As árvores tinham visto chegar os homens, tinham visto eles levarem-na para o Rochedo do Avô, mas nada haviam feito para a ajudar. Porque havia ela de lhes deixar alguma coisa?

Iniciou o caminho de regresso à aldeia, mas depois resolveu voltar ao Rochedo do Avô. Espreitaria debaixo do cobertor e entoaria cânticos de louvor aos animais que tinham comido a carne de Asa-de-Gaivota. A meio da encosta, cheirou-lhe a carne putrefata. O cheiro não vinha do rochedo. Saiu do carreiro e descobriu o monte de ossos e os restos de carne que tinham pertencido a Asa-de-Gaivota.

Soltou uma gargalhada, chamou-o, levantou a parka e disse-lhe que a possuísse, se considerava que isso era tão bom. Depois, sempre a rir, continuou a subir na direção do Rochedo do Avô. Se Asa-de-Gaivota não estava debaixo do cobertor, seria um disparate deixá-lo ali. Porque não juntá-lo aos cobertores que já pusera separados para o dia em que se tornasse esposa e tivesse uma cabana só dela?

Pousou o cesto de pele de peixe no solo, junto do rochedo, e por instantes examinou o cobertor. Era feito de peles de lebre, todas de um branco imaculado, e estava em monte, Como se cobrisse qualquer coisa. K’os levantou uma ponta. Ouviu um ruído, como uma ave a pipilar. Deixou cair o cobertor e recuou.

Não passa de uma ave, pensou, impressionada. Podes matá-la com o teu pau e levá-la para casa, para a panela. Ergueu o pau, disposta a bater, e depois afastou o cobertor.

Em cima do rochedo encontrava-se um bebê.

K’os fechou os olhos rapidamente, com medo de descobrir qualquer grande deformidade na criança. Por que outro motivo deixavam ali as crianças?

O bebê começou a chorar. K’os quis vê-lo, saber o que se passava com ele. Entreabriu os olhos e espreitou por entre as pestanas.

A criança estava inteira e era gorda, um rapaz, comprido e perfeito. K’os agachou-se junto do rochedo. Donde viera ele? Pelo menos há duas luas que ninguém que ela conhecesse tivera um bebê, e aquela criança não tinha mais de um ou dois dias. O toco do cordão umbilical ainda se via na barriga. Talvez ele fosse do povo de Rio Próximo, ou de um dos grupos do Povo Caribu que andavam de um lado para o outro, atrás das manadas. K’os aproximou-se dele lentamente e tocou-lhe no rosto. A criança virou a cabeça para os dedos dela.

K’os lembrou-se de Gguzaakk quando ela era pequena e fazia o mesmo, à procura do seio cheio de leite da mãe. Era uma pena que a tia não estivesse ali. Poderia amamentá-lo.

Os lábios do bebê estavam gretados e secos. A criança precisava de leite. K’os deixou cair o pau, cuspiu na palma da mão e esfregou-lhe a saliva nos lábios. Ele tentou chupar-lhe os dedos, mas ela afastou-os.

Abanou a cabeça. Era uma pena que não tivesse sido outra pessoa a encontrá-lo. Havia muitas mulheres que receberiam um filho de boa vontade. Ela não. Não o faria. Encostou a mão à barriga. No dia seguinte, iria ter com Irmã Velha e dir-lhe-ia que fizera um disparate. Dormira com um dos filhos da irmã da mãe e não queria que o pai soubesse. Irmã Velha teria alguma coisa que ela pudesse tomar? Com certeza que havia mezinhas... K’os olhou para o bebê, que tremia. Os braços e as pernas da criança agitavam-se em espasmos. Sim, era uma situação péssima.

Fechou os olhos e lembrou-se do coração de Asa-de-Gaivota, ali no meio do rochedo, precisamente no local em que o bebê se encontrava agora.

De súbito, K’os imobilizou-se. Ela deixara o coração como oferenda. E se o Rochedo do Avô lhe tivesse dado um presente em troca? Não havia sinais do coração; contudo, ali estava aquela criança. K’os inclinou-se sobre ela e examinou o seu rosto. Havia qualquer coisa nele que lhe fazia lembrar Asa-de-Gaivota. Seriam os olhos, as sobrancelhas? Não, que disparate. Olhou para os dedos compridos das mãos da criança. Os de Asa-de-Gaivota eram curtos e grossos. Os dedos dos pés da criança também eram compridos e... K’os parou de novo. Estavam unidos por uma membrana; cada um dos últimos três dedos estava unido ao seguinte.

Então, K’os percebeu.

Era uma criança doada por um animal. Como nas histórias. Não era verdade que os maiores caçadores, os mais célebres xamãs do seu povo, doados pelos animais, tinham nascido de um coágulo de sangue ou de um pedaço de carne?

Aquela criança era um deles. O Rochedo do Avô moldara uma criança, talvez a partir do sangue de Asa-de-Gaivota, mas mais provavelmente do sangue de um animal. Agora o rochedo oferecia-lhe a criança de presente, para lhe dar poder. Para lhe devolver a sorte.

K’os pegou no cesto de raízes da mãe e depois o bebê. Embrulhou-o no cobertor de pele de lebre e depois cuspiu-lhe na boca. Não tinha leite nos seios, mas conseguiria mantê-lo vivo até chegarem à aldeia. A mãe logo encontraria uma mulher que o amamentasse.

K’os sentia o seu poder a aumentar a cada passo. Não conseguiu conter o riso na garganta. Ele saiu-lhe pela boca e dançou à sua frente, enquanto ela levava o bebê oferecido pelos animais para a aldeia.

 

 

                 Vinte anos depois. Inverno, 6460 a. C.

 

Olhem! O que vejo eu? Os ossos golpeiam-lhes os pés.

Apresentei este enigma ao Povo antes de abandonar a minha aldeia. Pronunciei estas palavras e contei-lhes muitas histórias. Continuei a falar até de madrugada, e o Povo ouvia o que eu dizia, mas eu tinha pouca esperança que eles compreendessem.

Os ossos são os de Primeiro Salmão, Caribu Andante e Mãe Urso, e de todos os animais que regressam ano após ano para se oferecerem, para que o Povo possa viver. Os pés pertencem às pessoas que já não demonstram o respeito que aqueles animais merecem.

Os velhos cochicharam entre si e eu ouvi as suas palavras.

Vejam o que a falta de respeito nos custou diziam eles. Vejam o que acontece quando as pessoas deixam de seguir os costumes antigos. O salmão abandona os nossos rios. Os jovens anseiam pela guerra.

Por isso agora, eu, Chakliux, tenho de orientar os meus pensamentos para a luta, não uma luta de facas e de lanças, mas uma luta do espírito. Vou lutar pela paz. Para que mais fui treinado como contador de histórias? Para que mais fui oferecido ao Povo pelos animais?

 

ALDEIA DE RIO PRÓXIMO

Os pensamentos de Chakliux tinham o sabor amargo do chá de casca de salgueiro, e ele abanou a cabeça, impacientando-se subitamente com a sua autocomiseração. Pelo menos ela era bela. Ele podia consolar-se com isso. Se não a olhasse nos olhos e não visse o vazio que eles encerravam. Se não desse ouvidos ao riso tolo dela, aos seus pequenos queixumes.

O que era mais importante? A sua felicidade ou a segurança das pessoas da aldeia e a sua?

Vira a tempestade a aproximar-se, vira-a quando ela era apenas um movimento das estrelas, um monte de nuvens, mas a cada incidente o roubo de uma armadilha, a recusa de um dote a pressão ia aumentando e bastava uma pequena coisa para que os caçadores se atirassem uns aos outros.

O que era melhor do que unir as aldeias através do casamento? Qual o casamento mais forte do que aquele que unia um filho dzuuggi e a filha do xamã de Rio Próximo?

Os caçadores mais velhos da aldeia invejavam-no. Ele ria-se das suas piadas, do desejo nas suas vozes quando falavam dela, dessa bela mulher de Rio Próximo. Mas Chakliux não a desejava. Como podia ela comparar-se à sua Gguzaakk?

Gguzaakk trazia a alma nos olhos. Ainda agora ele sentia o espírito dela a pairar. Não tinha medo dela, que ela tentasse chamá-lo para o mundo dos mortos, que ele a seguisse e ao filhinho de ambos. Gguzaakk compreendia o que ele foi obrigado a fazer, e Chakliux sentia o seu desgosto.

Lembrou-se de que Neve-no-Cabelo era jovem. Gguzaakk tinha mais de quatro mãos-cheias de Verões quando morrera. A sabedoria vem com a idade. Neve-no-Cabelo tornar-se-ia sábia à medida que os anos fossem passando.

Chakliux observava-a enquanto ela falava com a mãe, como se ria e fazia olhinhos aos jovens guerreiros que davam uma ou outra desculpa para se aproximarem dela. Vestia uma parka com capuz de pele de castor branco, e cada pele esguia fora cosida de modo a ficar com a cauda de ponta negra solta. A parka era de cortar a respiração, mas Chakliux consolou-se ao admitir que fora Neve-no-Cabelo quem costurou-a. Sorriu ao lembrar-se como Gguzaakk ficava desajeitada com o furador e a agulha na mão. Mas o que importava isso? Gguzaakk compreendia as coisas do espírito. Observava os olhos de uma pessoa e sabia o que devia dizer.

Mas, pensou Chakliux, seria bom ter uma mulher que soubesse costurar. Que melhor maneira tem uma mulher de venerar os animais do que criando beleza com as suas peles?

Chakliux também vestia uma parka especial. Era feita de peles de lontra-marinha compradas dos Caçadores de Morsas para lembrar os seus poderes ao Povo do Rio. Fora a mãe que lhe fizera. Era uma mulher habilidosa no manejo da agulha e com rapidez nos dedos das mãos. Chakliux vestia perneiras de pele de caribu, mas estava descalço. Sabia que as pessoas quereriam ver os seus dedos unidos por uma membrana, e o seu pé torto na ponta, um sinal de que tinha sangue de lontra. Quem podia duvidar de que ele era lontra quando vissem aquele pé sempre pronto a nadar?

Se não fosse Inverno, lhes teria mostrado que sabia nadar.

Ainda agora ele ansiava pelo frio sereno dos abismos, pela luz clara e prateada que penetrava na água. Queria ensinar os outros a nadar, mas eles nem tentavam, e todos os anos crianças que poderiam se ter salvo se soubessem nadar eram levadas pelo rio. Até Gguzaakk tinha medo de nadar...

Ah, ele não podia dar-se ao luxo de pensar muito em Gguzaakk. Dentro de pouco tempo teria outra esposa. Seria um bom marido para ela.

Orientou os seus pensamentos para a cabana, para as peles de caribu que estavam estendidas nos postes, para as esteiras grossas do chão. Era uma boa cabana de Inverno. Seria um local confortável para ficar, e o pai de Neve-no-Cabelo parecia ser um homem sensato. Não seria difícil viver com aquela família.

Neve-no-Cabelo levantou-se para receber mais um presente: um cesto de salgueiro, feito de raízes entrelaçadas. Lá dentro estava uma pele de pica-pau. As penas malhadas da ave que um homem só via uma ou duas vezes na vida dar-lhes-iam sorte no casamento.

Chakliux agradeceu a quem o trouxera uma velha de que ele ouvira falar, chamada Ligige’. Tinha as costas deformadas e curvas e por isso ele não conseguiu ver-lhe a face, mas reparou no respeito com que as outras pessoas que se encontravam na cabana tratavam a mulher, no lugar de honra que lhe reservavam junto da lareira.

Ela balbuciou qualquer coisa quando ele lhe agradeceu e depois começou a virar-se. De súbito, parou. Olhou-lhe para os pés, e Chakliux sentiu o calor dos olhos dela, como se ao olhar ela ateasse um fogo. Endireitou-se com esforço, olhou de frente para ele e ficou sem fôlego. Não disse nada; limitou-se a desviar o olhar e a tapar a boca com a mão. Mas, à medida que ela se afastava, Chakliux sentia o espírito de Gguzaakk a deslocar-se como um vento caprichoso, soprando de todas as direções.

Sok observava Neve-no-Cabelo, e deixava que o seu olhar lhe acariciasse os braços longos e graciosos e as pequenas saliências dos seios por baixo da parka. Nessa noite, ela tornar-se-ia esposa do caçador de Rio Primo, do homem com pés de lontra. Apreciaria ele a sua beleza? Sok observara o homem com cuidado, e não vira grande alegria nele ao olhar para Neve-no-Cabelo. Talvez ele fosse mais lontra do que homem. Talvez ele quisesse uma mulher como Boca Feliz, que parecia uma lontra.

A primeira vez que Sok se lembrava de ter visto Neve-no-Cabelo, era ela criança e estava a brincar na terra à porta da cabana da mãe. Reconhecera logo a sua beleza e inclinara-se para brincar com ela, até que um dos seus companheiros de caça o vira e soltara uma gargalhada trocista.

Podia ter esperado dez anos, poupado um dote que nem um xamã recusaria, mas o seu corpo ardia de desejo. Mesmo quando caçava, só conseguia pensar em mulheres. Os animais sentiam o seu desrespeito e recusavam entregar-se às suas lanças. Por fim, até o padrasto reparou e ordenou-lhe que arranjasse uma esposa. Sok aceitara Folha Vermelha, uma boa mulher. Dera-lhe dois filhos belos e fortes, mas sempre que ele via Neve-no-Cabelo lamentava não ter esperado.

Pensara em pedi-la como segunda esposa, mas era raro um homem do Povo ter uma segunda esposa, a menos que a primeira fosse estéril ou enfermiça, e Folha Vermelha não era uma coisa nem outra. A única esperança de Sok era tornar-se chefe dos caçadores ou um guerreiro famoso. Muitas vezes, os guerreiros e os chefes dos caçadores tinham duas ou mesmo três esposas. Mas depois surgira aquele homem-lontra. Ainda trazia nele o cheiro da aldeia de Rio Primo. Neve-no-Cabelo merecia melhor.

Não deixes que ela o veja disse Ligige’ ao irmão. Pelo menos até esta noite, até eles selarem com os corpos o que foi dito por palavras, e o pai ter aceitado os presentes do homem.

Isso está certo? perguntou o irmão. A verdade não pode ser alterada.

Este casamento abre esperanças de paz. Bem sabes que os nossos jovens caçadores procuram qualquer pretexto para lutarem com o povo de Rio Primo. Danificam as suas próprias armadilhas para arranjar um motivo.

Tsaani concordou. A irmã tinha razão. E não seria a primeira vez que haveria luta entre a aldeia do Povo e a de Rio Primo. Apenas com dois a três dias de caminho separando as aldeias de Inverno e menos entre os pesqueiros de Verão, as pessoas viam-se umas às outras com muita freqüência, pensavam em muitas razões para se odiarem umas às outras, sobretudo desde que o salmão começara a escassear nos últimos anos.

Mas só os mais velhos desta aldeia a irmã, Ligige’, Pato-de-Cabeça-Azul e ele próprio é que se lembravam da última luta. As palavras não tinham força suficiente para descrever o horror: jovens mortos, dias de luto e Invernos duros com poucos caçadores nas duas aldeias para sustentar os velhos e os muito novos.

Para evitar mais mortes, ele e Ligige’ eram obrigados a guardar aquele segredo, em especial de Mulher Diurna.

Tsaani ouvira o povo de Rio Primo a gabar-se do filho que lhe fora oferecido pelos animais, mas por qualquer motivo julgara que ele ainda era uma criança. Até o povo de Rio Próximo voltara para contar histórias dos seus dotes natatórios. Uma pessoa que sabia nadar? Como é que alguém conseguia suportar as águas frias dos rios do Povo? Mas Tsaani lembrou-se de que a sua própria filha não tinha medo da água, e dizia-se que a família deles trazia sangue dos Caçadores Marinhos nas veias. Este povo insular afirmava ser irmão das lontras-marinhas. Talvez os talentos do homem não passassem disso, de uma recordação dos antepassados mortos há muito.

Se assim era, Ligige’ tinha razão. O jovem que chegara para casar com a filha do xamã não era uma dádiva dos animais, mas sim o filho de Mulher Diurna, descoberto antes de morrer no Rochedo do Avô.

 

ALDEIA DE RIO PRIMO

K’os espreguiçou-se e enrolou os dedos dos pés. Estava deitada nas esteiras da sua cama e observava Caça-Ursos ajustar a tanga e atar as perneiras. Ela era uma velha, diziam. Riu-se. Caça-Ursos olhou para ela e inclinou a cabeça.

És feliz? perguntou ele.

Sou feliz respondeu ela.

Velha, sim. Velha, mas com a pele flexível e sem barriga, como uma moça. Sete mãos-cheias de Verões, e ainda era uma moça. Tinha o cabelo preto, sem um fio branco, e a face era macia e os dentes fortes. Só as mãos lhe denunciavam a idade, mas os homens não lhe olhavam para as mãos. Ela tinha outras coisas que eles preferiam ver.

Caça-Ursos agachou-se no túnel de entrada e afastou a aba da porta com cautela.

K’os manifestou o seu descontentamento.

Se tens medo do meu marido, não devias ter vindo aqui advertiu ela.

Ele saiu do túnel e vestiu a parka. Ela viu-lhe a face corada, mas ele não disse nada. Voltaria. Eles voltavam sempre. E o que podia Bate-no-Chão fazer? Expulsá-la? Matá-los? Ele era um velho. Ela podia dizer-lhe tudo, que ele acreditava. Sobretudo agora que o filho dela, Chakliux, partira. Para quê preocupar-se?

Chakliux. K’os perguntou a si própria como ele estaria se dando na aldeia de Rio Próximo. Sorriu. Teriam descoberto quem ele era? Talvez não. O povo de Rio Próximo não era conhecido pela sua mente veloz. Ela estava satisfeita por ele ter partido, mas sentia a sua falta. Ele era tão ajuizado. Sabia fazê-la rir... Ou pensar. E os seus enigmas! Qual deles era o melhor?

Porém, Chakliux também a assustava. Sabia quem ela era: talvez o soubesse desde criança. Mas ela também conhecia os seus segredos, coisas que ele desconhecia acerca de si próprio. Coisas que ninguém sabia na aldeia.

Gguzaakk exigira o coração dele, mas não estivera à altura de K’os. Qual a esposa que podia substituir uma mãe? Sobretudo uma esposa que tivera a infelicidade de morrer de parto.

Ah, bem, Chakliux estava agora na aldeia de Rio Próximo. Diziam que a filha do xamã era bela. Em breve ele esqueceria a sua rechonchuda e insignificante Gguzaakk.

Os poderes de Chakliux eram grandes, mas eram como os poderes do mocho. Ninguém queria ser alvo do olhar de Chakliux. Ele não trazia boa sorte. Ninguém estava a salvo. Nem sequer a mãe dele. Nem sequer a mulher.

K’os atirou a cabeça para trás e deu uma gargalhada. A aldeia de Rio Próximo que se entendesse com a sorte de Chakliux.

 

ALDEIA DE RIO PRÓXIMO

Os anos tinham enfraquecido as pernas de Tsaani. O velho ainda caçava, mas tudo o que fazia era devagar. Agora, ao dirigir-se para a cabana da filha, pousava cuidadosamente os pés nos caminhos cobertos de neve. A lama escorria do gelo no meio do caminho, e o cheiro úmido da terra enchia as narinas de Tsaani. Na grande luta entre o Sol e a noite, o Inverno saía mais uma vez derrotado.

Dirigia-se para a cabana no centro da aldeia onde vivia a filha. Era uma cabana pequena; o telhado de pele de caribu precisava ser substituído, mas como ela era segunda esposa, Tsaani tinha pouca esperança de que tal viesse a acontecer.

Talvez ele apanhasse alguns caribus nas caçadas desse ano. A sua mulher não precisava das peles. A cabana dela era nova. Ele não permitiria que a filha vivesse envergonhada por ser segunda esposa e porque o marido preferia dormir em vez de caçar.

Raspou na aba, mas ninguém lhe respondeu. Por fim, entrou engatinhando no túnel, uma coisa que ele nunca teria feito a não ser na cabana da filha. A cabana estava vazia.

Raposa-Que-Ladra, o marido de Mulher Diurna, era um homem cujos pensamentos estavam sempre voltados para si próprio. Levara as duas esposas ao dzuuggi de Rio Primo, pensando que o dzuuggi o consideraria uma pessoa importante. Se um homem era demasiado preguiçoso para caçar, de que serviam as esposas? Se ele deixava a mulher viver numa cabana que tresandava a mofo, quem poderia considerá-lo importante?

Tsaani tinha dores nos joelhos e nos tornozelos, mas fez o possível por andar mais depressa. A cabana do xamã ficava no outro extremo da aldeia. Os seus sapatos de pele de caribu pareciam escorregar mais do que era necessário, mas por fim aproximou-se da cabana e da multidão que a rodeava.

Quando as pessoas o viram, afastaram-se para o deixar passar.

A cabana estava quente, demasiado quente, com gente a mais, e cada pessoa aumentava o calor com as suas palavras e os seus risos. Tsaani ficou à beira do grupo, apesar de várias pessoas lhe indicarem os confortáveis tapetes de pele e os espaldares de madeira de salgueiro reservados aos mais velhos. Mas ele manteve-se onde estava, à espreita e à escuta.

Os seus olhos caíram em primeiro lugar sobre o dzuuggi de Rio Primo, e nesse momento Tsaani não percebeu por que motivo Ligige’ lhe pedira que fosse lá. Não havia nada que ele pudesse fazer. O jovem estava descalço, com o pé de lontra e os dedos unidos descobertos para todos verem. Mas mesmo que o homem estivesse calçado, como poderia esconder a testa alta, os malares salientes e os olhos bem delineados? Aquele era o filho de Asa-de-Gaivota. O jovem riu-se, e era o riso de Asa-de-Gaivota. Eles eram cegos? Ou surdos?

Tsaani olhou para o rosto das pessoas que se encontravam na cabana. Não havia ninguém da aldeia de Rio Primo. O homem viera sozinho? Talvez, como Tsaani e Ligige’, ele pensasse que muitos jovens caçadores ansiavam por ser guerreiros e se tivesse resolvido a arriscar a vida.

Tsaani observou o homem durante algum tempo e ouviu-o falar ao povo. Talvez fosse parecido com o pai, mas ultrapassava em muito a sabedoria de Asa-de-Gaivota. Devia ser essa sabedoria que levava toda a gente a não perceber quem ele era.

Tsaani examinou devagar o rosto dos homens e das mulheres da sua aldeia, velhos e novos, sábios e tolos. Eles ouviam o dzuuggi falar dos laços que uniam as duas aldeias, e contar histórias das lutas e das caçadas, dos antepassados e dos guerreiros que faziam deles um só povo.

Então, Tsaani descobriu a filha e percebeu que ela sabia. Havia dor no seu rosto, e a tristeza manifestava-se nas longas rugas que lhe sulcavam a face. Mulher Diurna abriu a boca e Tsaani receou que ela falasse, que dissesse alguma coisa que quebrasse o encanto do dzuuggi, mas nenhum som saiu da sua boca, apesar de esta se ter mexido.

Tsaani começou a abrir caminho entre as pessoas, na direção da filha, para a avisar, para lhe explicar que não podia revelar que aquele homem era seu filho, que tinha de fazer um sacrifício, como fizera quando o filho nascera, para proteger a sua aldeia.

Entraram mais pessoas na cabana, empurrando Tsaani, e era como se ele estivesse num sonho e cada passo o conduzisse a lado nenhum, mas por fim encontrava-se apenas a três mulheres de distância dela, depois a duas. Estendeu o braço para lhe agarrar no ombro, mas antes de conseguir tocar-lhe ouviu-se um grito, um grito lancinante e prolongado.

Como se o grito fosse uma parede, Tsaani sentiu-se afastado. Mulher Diurna atirou-se aos pés do jovem, agarrou-o pelos tornozelos e exclamou:

Meu filho, oh, meu filho, voltaste para mim!

Julgas que eu quero um marido que foi rejeitado? exclamou Neve-no-Cabelo. Julgas que eu quero filhos que estão amaldiçoados? Os meus filhos podem já estar amaldiçoados só por eu ter olhado para ti. Só porque me sentei ao teu lado.

Ninguém da aldeia de Rio Primo foi amaldiçoado por minha causa disse Chakliux em voz baixa.

Isso é porque eles não sabem quem tu és!

Nada mudou. Eu sou a mesma pessoa que sempre fui afirmou Chakliux, mas, ao falar, a dúvida atormentava-lhe o coração.

Gguzaakk morrera ao dar à luz. Fora ele que a amaldiçoara? Chakliux abanou a cabeça. Não. Ele sabia por que motivo ela morrera. Era por isso que estava ali. Como podia ele suportar ficar na sua própria aldeia com esse pensamento a destroçá-lo?

Depois, sentiu o conforto do espírito de Gguzaakk junto do seu, e lembrou-se que até o seu filho nascera perfeito. Sem deformidades, sem sinais de maldição.

Lobo-e-Corvo e a mulher, Flor Azul, mantiveram-se sentados, sem dizerem uma palavra. Observavam a filha como se ela fosse uma bailarina, a dançar. Por fim, quando Neve-no-Cabelo se sentiu cansada, desatou a chorar, com o rosto escondido no regaço da mãe.

Pouco depois, Lobo-e-Corvo pigarreou. Chakliux esperou que o homem falasse e, entretanto, foi reunindo palavras para a sua resposta. Tinha de convencer Lobo-e-Corvo que nem ele nem o velho Falador, o xamã da aldeia de Chakliux, tinham tido a intenção de prejudicar Neve-no-Cabelo nem qualquer outra pessoa da aldeia. Só queriam viver juntos e em paz.

Há quem diga que o povo de Rio Primo te enviou para nos amaldiçoares disse por fim Lobo-e-Corvo. Era um homem de rosto alongado e pele flácida, e a sua boca era demasiado grande para as suas palavras, engolindo-as, de tal modo que Chakliux teve que apurar o ouvido para perceber o que ele dizia. Eu não acredito nisso.

Chakliux ergueu as sobrancelhas para mostrar que concordava com o homem.

Vi a tua surpresa quando Mulher Diurna se dirigiu a ti. Creio que vieste trazer a paz. Precisamos dela. Não me lembro da última vez em que as nossas aldeias lutaram, mas há quem se recorde. Se o que eles dizem é verdade, não quero que volte a acontecer o mesmo.

”Também conheci o teu pai, o teu verdadeiro pai. Tens a cara dele, apesar de me parecer que não tens o seu espírito. E Mulher Diurna não é pessoa para mentir. Nem Ligige’.

Calou-se neste ponto e apontou com o queixo para os pés de Chakliux.

Ela diz que os teus pés são iguais aos de um bebê que ela deu à luz há muito tempo... O filho de Mulher Diurna. A criança foi levada para o Rochedo do Avô. Até a tua mãe de Rio Primo diz que foste encontrado no Rochedo do Avô.

Sim, pensou Chakliux. Encontrado pela mãe. Ele conhecia bem a história. Como podia não a conhecer, sendo dzuuggi?

Mas nós precisamos de paz insistiu Lobo-e-Corvo. Falei com o teu avô, Tsaani. Ele concorda comigo. Neve-no-Cabelo não será tua mulher. Não posso obrigá-la. Não conheço os costumes da tua aldeia, mas aqui uma mulher não é oferecida como esposa contra a sua vontade.

É o mesmo na minha aldeia declarou Chakliux tranqüilamente.

Pedimos que fique. Para caçar e pescar conosco, para passar este ano conosco, para que o nosso povo veja que não és uma maldição. Os jovens caçadores têm de compreender que, se optarem por lutar, matarão boa gente, homens como eles.

”Por agora, viverás com o teu irmão. O marido da tua mãe não te quer na cabana dela até ter a certeza de que não estás amaldiçoado. Mas o teu irmão é um caçador robusto. Ele e a mulher dizem que serás bem-vindo na cabana dela.

Como ele se chama?

Sok. Tu viste-o. A mulher dele é que faz a forma do Sol com pedaços de pele nas parkas e nas botas dele.

Sim, pensou Chakliux. Conhecia o homem. Tinha um aspecto forte; não era alto mas era grande. Falava alto e ria-se muito. Parecia ser um homem que procurava atrair as atenções, que gostava de ser invejado pelos outros. Era estranho pensar nele como irmão.

Pela minha filha, eu gostaria que fosse uma dádiva dos animais disse Lobo-e-Corvo. Por mim, não me importo. Oferecido ou não pelos animais, precisamos que fique na aldeia, que una o nosso povo pela amizade. Muitos morrerão se nos tornarmos inimigos.

As palavras do homem lavaram Chakliux como água cristalina. Se havia homens na aldeia de Rio Próximo que ansiavam pela paz, então havia uma hipótese.

Ficarei prometeu Chakliux.

Baixou a cabeça para que Lobo-e-Corvo não visse a dúvida a escurecer o seu olhar. Tinha um irmão que não conhecia e uma mãe que parecia não ter consciência de nada, além das suas próprias necessidades. Porque o reclamava agora, quando outrora o abandonara para morrer ao frio, ao vento e aos dentes dos animais? Porque lhe retirara a sua honra de dádiva dos animais?

Mas ela não teria qualquer coisa a dizer? Ele não era uma dádiva dos animais. Fora apenas uma criança rejeitada, uma maldição.

Então ouviu a voz de Gguzaakk no seu coração, lembrando o motivo por que ele se encontrava na aldeia de Rio Próximo. Ele tinha de descobrir como havia de convencer as pessoas a passarem do ódio para a compreensão. Não importava que ele fosse uma dádiva dos animais. Não importava que o seu pé fosse um sinal de que possuía sangue de lontra nas veias. Se ele não conseguisse trazer a paz, muita gente morreria naquela aldeia e na sua.

 

ALDEIA DOS PRIMEIROS HOMENS

BAÍA DOS COMERCIANTES

(Atual Baía de Herendeen, Península do Alasca)

Aqamdax olhou para a enseada coberta de gelo, a norte, na direção do mar, e depois para leste, para o território do Povo Rio. Talvez no Verão seguinte a mãe dela voltasse. Partira há quatro anos com o comerciante, mas prometera a Aqamdax que voltaria, e todos os Verões ela esperava e observava.

O vento soprava forte do oeste, obrigando Aqamdax a avançar e a proteger o corpo. Não havia mais ninguém na praia e por isso ela podia gritar, dirigir as palavras ao vento e enviar a mensagem que conseguiria chegar à mãe.

Deixaste-me no ulax de Cantador disse Aqamdax, como que a cantarolar. A sua prancha de arremesso é forte. O seu arpão é afiado e há comida que chegue para todos. As suas mulheres continuam a odiar-me, mas eu faço o que posso para as ajudar.

Há dois Verões que o meu sangue seguiu a Lua. Dentro em pouco serei esposa. Volta e partilha a minha alegria.

Aqamdax teria dito mais coisas, mas avistou pelo canto do olho a segunda mulher de Cantador, que chegara à praia. A mulher dirigiu-se a ela, inclinada pelo vento, com a boca a abrir-se e a fechar-se como a de um peixe. Arrastava a filha mais nova pela mão. A criança gritava, mas o vento afastava o ruído, e Aqamdax só percebeu os seus protestos ao olhar-lhe para o rosto.

Quando Leva-Peixe se aproximou, pôs as mãos no meio das costas da menina e empurrou-a na direção de Aqamdax.

Eu disse-te esta manhã que tens de tomar conta dela. Como acabarei a parka do meu marido se esta anda sempre a trepar para o meu colo?

Ela estava dormindo disse Aqamdax à mulher.

Acordou.

Leva-Peixe voltou-se para os ulaxs com telhado de grama, deixando a menina com Aqamdax. A criança ainda não tinha idade para se recordar, mas sabia falar e andar. Aqamdax ajoelhou-se a seu lado, abrigando-a do vento com o seu corpo.

Pássaro Pequeno, porque choras?

Quero comer pediu ela. Levantou a mão enluvada para limpar o muco do nariz e deixou escapar um soluço.

Toma, tenho aqui uma coisa.

Aqamdax tirou uma tira de peixe seco da manga do seu sax de pele de pássaro.

Aqamdax comia bem no ulax do chefe dos caçadores, mas não se esquecera do Verão posterior à morte do pai, antes de Cantador ter aceitado sustentá-las, a ela e à mãe. Agora, trazia sempre carne ou peixe seco e escondia até uma parte no local em que dormia.

Pássaro Pequeno estendeu a mão para agarrar no peixe, mas Aqamdax tirou uma parte, aqueceu-a na boca e depois deu-a à criança.

Temos de voltar para a aldeia. Está muito frio na praia disse Aqamdax.

Pegou na criança ao colo, apoiou-a numa anca e depois subiu a ravina da praia pelo carreiro aberto na neve. Levou Pássaro Pequeno para a cabana de Dá-Lanças. Dá-Lanças era um velho, e nunca se importava que alguém se sentasse no abrigo do vento do seu ulax. Além disso, era um dos poucos caçadores da aldeia que nunca freqüentara a cama de Aqamdax. Mesmo que a esposa de Dá-Lanças visse Aqamdax sentada junto do ulax do marido, não haveria problema.

Aqamdax agachou-se e puxou Pássaro Pequeno para junto dela. Sentaram-se, encostadas uma à outra, comendo. Pássaro Pequeno tagarelava como um bebê, usando palavras incompletas que Aqamdax não compreendia, mas a menina não parecia importar-se com o fato de não obter respostas.

Aqamdax deixou que os seus pensamentos regressassem à noite da véspera. Não ficara admirada ao ouvir alguém raspando na cortina da sua cama. Muitos caçadores iam ter com ela à noite, embora fossem poucos os que tinham coragem de entrar no ulax de Cantador, quando o homem voltava para casa depois de uma das suas muitas caçadas.

É Salmão, pensara Aqamdax. O homem visitava-a muitas vezes. Mas quando ela afastou a cortina, era Rompe-o-Dia, o filho mais velho de Cantador, que estava ali. Ficou imediatamente sem fôlego e nem conseguiu dizer nada; limitou-se a abrir-lhe os braços e a recebê-lo no calor dos seus cobertores de pele de foca.

Ele possuíra-a à pressa, com movimentos bruscos, e ela ficara satisfeita ao sentir a força da sua necessidade, mas não era disso que se lembrava quando estava sentada junto de Pássaro Pequeno.

Lembrou-se do que ele lhe dissera ao sair da sua cama:

Dá-me um filho, que eu te aceitarei como minha esposa segredara ele.

 

ALDEIA DE RIO PRÓXIMO

Nesse dia, a caçada resumira-se a ficarem olhando, vendo além dos montes abertos, longe das moitas de salgueiros e amieiros que cobriam as margens do rio.

Verás o vapor elevando-se, como se fosse água fervendo disse Tsaani a Chakliux. Num dia de nevoeiro ou de neve não o verás, mas, numa manhã calma e fria como esta, ele estará lá, vindo do solo, e saberás que um urso está à espera, no calor da sua toca.

Este tipo de caça exigia cânticos diferentes, preces diferentes das que Chakliux sabia, mas durante a lua em que vivera com o irmão, Sok aprendera muito. O avô até lhe oferecera dois dos seus cânticos de caça ao urso, um presente tão valioso como qualquer daqueles que Chakliux contava receber.

Mas apesar da sua observação, não viram nada, e por fim resolveram voltar para a aldeia. Os homens discutiram, atirando-se uns aos outros como cães famintos, evitando olhar para Chakliux, envergonhados por ele ter assistido à sua derrota, mas também furiosos, murmurando à boca pequena que ele lhes trouxera azar.

Que boa maneira de trazer a paz, pensou Chakliux com amargura. Que boa maneira de afastar os jovens caçadores dos seus sonhos de luta. Então, de súbito, Tsaani parou. Chakliux olhou para ele e o velho apontou com o queixo para a sua cadela, Nariz Preto.

O animal estava agitado e nervoso e soltou um latido forte. Tsaani ajoelhou-se junto dele e Chakliux reparou que a cadela tremia.

Tsaani estava velho, mas ainda caçava, sobretudo graças aos seus cães, Nariz Preto, Cauda Comprida e o mais novo, a que nunca dera verdadeiramente um nome, exceto Cão um nome tão bom como qualquer outro, pensou Chakliux. Os três animais estavam agora tensos e com pêlo do pescoço eriçado.

Chakliux pensou que os dois machos iriam atirar-se um ao outro, tentando roubar comida um ao outro ou lutando para montar Nariz Preto, mas, quando Tsaani os levava à caça, eles trabalhavam em conjunto, como se cada um conhecesse o que se passava na cabeça do outro. Tsaani contou-lhe que eles tinham derrubado ursos-pardos maiores do que um homem.

Tsaani fez sinal aos caçadores que estavam atrás dele e apontou com a cabeça para um monte de terra coberto de neve que se via numa colina à esquerda. Os homens subiram sem fazer barulho. Cauda Comprida começou a escavar a terra gelada junto do extremo do monte, atirando pedaços de neve e de lama para trás, por entre as pernas.

Nariz Preto rosnou. Tsaani pôs-lhe a mão no cimo da cabeça e apertou-lhe a cúpula do crânio. Treinara-a para se manter em silêncio nas caçadas até os homens avançarem a matar, mas a cadela estava prenha e era mais difícil de controlar.

Sok, com uma faca de lâmina curta na mão, avançou e agitou-a no ar um pouco acima do nariz da cadela. O animal agachou-se. Furioso, Tsaani agarrou no pulso de Sok. Qual o cão, treinado para ter medo, que reagia com coragem quando esta era necessária? Os cães de Sok, se Tsaani tivesse permitido que eles viessem naquela caçada, estariam agora amedrontados atrás dos homens em vez de escavar a toca em silêncio.

Sok lançou um olhar furioso a Tsaani. Chakliux destacou-se do grupo e pôs-se atrás da cadela, pousando as mãos no seu dorso. Nariz Preto voltou a levantar-se, de focinho empinado e orelhas encostadas à cabeça.

Chakliux olhou para Tsaani, apontou para a toca e depois abanou a cabeça. Tsaani percebeu o que ele queria dizer. Havia qualquer coisa que não estava certa. Nariz Preto não rosnava sem motivo. Era estranho, pensou Tsaani, como caçava bem na companhia daquele neto, apesar de o conhecer só há uma lua.

Tsaani fez sinal aos caçadores para que cercassem a toca. De repente, Nariz Preto deu um salto, e um ronco que mais parecia de um urso do que de um cão saiu-lhe da garganta. Chakliux quis agarrá-la pelo cachaço mas falhou, caindo para a frente antes de conseguir equilibrar-se.

De repente, a encosta do monte como que explodiu. Um urso irrompeu da terra com tal força que tanto Cauda Comprida como Cão foram projetados para trás.

A princípio, os homens nem reagiram. Nem Tsaani, com toda a sua experiência de caça, vira um animal a sair da terra daquela maneira.

O poder está funcionando, pensou Tsaani. Por instantes, hesitou, sem saber se deviam desistir do urso. Haveria ali algo sagrado que os homens não tinham o direito de destruir? Talvez um dos seus caçadores tivesse quebrado um tabu ou tratado qualquer coisa com desrespeito.

Os pensamentos de Tsaani retardaram-lhe os movimentos das mãos, mas Nariz Preto atirou-se ao urso. Tsaani perdeu o fôlego. O urso era capaz de lhe abrir a barriga. Mas a velocidade da cadela pareceu apanhar o urso de surpresa. Nariz Preto enterrou os dentes na garganta da fera e não a largou, deixando um longo rasto branco no pêlo negro do urso.

O urso abanou a cabeça, sacudindo a lama e a poeira do focinho e depois atacou Nariz Preto, arranhando-a no dorso com as garras. O sangue manchou o seu pêlo e Tsaani soltou um gemido. Apesar das feridas, a cadela não largou o urso e logo a seguir Cauda Comprida e Cão atacaram-no também, mordendo-lhe os membros posteriores.

O urso virou a cabeça e atirou-se aos cães. Aproximou-se do grupo dos homens, ainda com Nariz Preto agarrada ao pescoço. Virou-se para Chakliux, que estava de quatro no local onde caíra, com a lança e o pau no chão a seu lado.

Chakliux agarrou a lança e conseguiu levantar-se, aliviando a perna mais fraca e o pé aleijado. Sok pôs-se ao lado do irmão, ambos de frente para o urso. Sok agarrou-se ao lançador e puxou o braço para trás. Atirou, e a lança atravessou o quarto dianteiro direito do urso, abrindo uma ferida profunda.

O urso reagiu à lança, abocanhou-a e partiu o cabo, mas a ponta continuava espetada no seu corpo.

Nariz Preto largou o pescoço do urso e fugiu por entre as suas pernas. O urso atirou-se a ela, mas só conseguiu apanhar um tufo de pêlo. A cadela foi juntar-se a Cauda Comprida e a Cão, que atacavam os quartos traseiros da fera.

Tsaani atirou a sua lança e os outros caçadores fizeram o mesmo. O urso empinou-se pela última vez nas patas traseiras, com as lanças espetadas na cabeça e nos flancos, e depois caiu para a frente e ficou imóvel.

Os caçadores deram um grito quando o urso caiu mas, assim que Tsaani se aproximou do animal, calaram-se. O velho ordenou aos cães que recuassem e eles obedeceram.

Os caçadores esquartejariam e esfolariam o urso ali mesmo. Como podia um caçador ter esperança de caçar mais ursos se levasse um de rastos para a aldeia, como se ele não fosse mais do que um fardo de mulher a ser levado para o pesqueiro?

Durante algum tempo, os homens mantiveram-se em silêncio, como que recolhidos numa prece de ação de graças, mas por fim Tsaani ergueu a voz, primeiro num cântico de caça e depois proferindo a velha bênção:

Honramos-te, a ti, que nos honraste com a tua vida.

Deu um passo em frente, tirou da manga uma faca sagrada de jade e arrancou os olhos do urso com todo o cuidado. Se por qualquer descuido, um dos caçadores quebrasse um tabu ao esquartejar a carcaça, era preferível que o urso não visse. Servindo-se da sua faca longa de caça, Tsaani cortou as patas do urso para conservar o espírito do animal e depois fez sinal aos outros caçadores para que se aproximassem.

Quando acabaram de esquartejar o urso, comeram a carne da cabeça e a que envolvia as primeiras costelas. Partilhariam o resto com as suas famílias, mas deixariam a pele na toca, para que nenhuma mulher fosse tentada a tocar-lhe, destruindo assim a sorte do marido na caça.

Tsaani soltou um gemido de prazer. O que havia de melhor do que uma barriga cheia e uma boa esposa? Encostou-se ao espaldar que Mirtilo fizera com salgueiro entrelaçado. A madeira estalou quando ele apoiou as omoplatas. Tsaani fechou os olhos e reviveu a caçada. Fora um belo dia.

Tsaani era um velho tão velho que perdera a conta aos Verões que vivera, catorze mãos-cheias, pelo menos. Desde que Estrelas-na-Boca morrera, no Inverno, que ele era a pessoa mais velha da aldeia. A irmã, Ligige’, tinha menos três ou quatro Verões do que ele, embora às vezes, quando estava de mau humor, afirmasse que era a mais velha.

Tsaani ouviu a aba a abrir-se e depois os passos leves da mulher. Sentia-se particularmente contente por não ser mulher. Uma mulher não podia comer carne da cabeça nem das costelas do urso, nem sequer podia chamá-lo pelo nome. O animal era demasiado sagrado. Pelo menos tinha gordura suficiente para que cada família pudesse receber o seu quinhão, e as velhas podiam comer o bitaala’, a camada de gordura que fica entre o estômago e o fígado do urso. Isso abafaria os queixumes de qualquer velha.

Eram um problema, essas velhas. Tsaani recordava-se de uma época em que elas não abriam a boca senão para contar histórias ou dar um conselho. Mas as velhas de agora!... É claro que eram influenciadas por Ligige’, cuja boca fazia barulho desde que ela saíra do ventre da mãe.

Tsaani abriu os olhos e fitou Mirtilo. Aceitara-a pouco depois do seu primeiro período de sangue lunar, há menos de um ano. Ainda não engravidara, mas Tsaani freqüentava muito a cama dela, esperando fazer um filho na velhice. Era o seu único e verdadeiro desgosto, que os filhos tivessem morrido todos na infância.

Mirtilo sorriu-lhe, erguendo a sobrancelha.

Julgava que estavas dormindo observou ela, falando com a delicadeza devida por uma esposa ao marido, pelos jovens aos velhos. Sok está lá fora. Pede para falar contigo.

Diz-lhe que entre ordenou Tsaani. Seria uma boa maneira de acabar o dia, um momento para discutir a caça ao urso, fixando-a na sua mente com palavras.

Mirtilo agachou-se para falar através do túnel de entrada. O Povo ainda se encontrava no acampamento de Inverno, nas fortes cabanas de Inverno. Cada uma era formada por um círculo cavado na terra, com quatro ou cinco palmos de profundidade, coberto por camadas duplas de peles de caribu unidas por costuras sobrepostas e depois besuntadas de gordura para não deixarem entrar a água. O telhado tinha um orifício ao meio, e as suas abas estavam munidas de paus que podiam ser retirados para evitar a entrada da chuva ou para escoar a fumaça da lareira.

Tsaani permitiu-se demorar o olhar na curva das costas de Mirtilo, no ponto em que estas se estreitavam e davam lugar às ancas. Passara muitos anos sozinho depois da morte da última esposa, entregue aos cuidados de Ligige’. Era bom ter de novo a sua esposa, conhecer a alegria nos cobertores dela. Também era bom estar afastado da língua afiada de Ligige’. Houvera momentos em que Tsaani julgara ser mais fácil fazer o trabalho das mulheres do que viver com a irmã.

Sok entrou na cabana, desviando respeitosamente o olhar de Mirtilo e baixando-o na presença do avô, mas Tsaani reparou no sorriso disfarçado de Sok e sentiu o mesmo sorriso na sua boca. Qual o caçador que não sorria naquele dia? Um urso durante a Lua das Barrigas Vazias. Era um sinal favorável, sobretudo depois de um terceiro Verão sem muitos salmões.

Sok sentou-se em frente de Tsaani, e as brasas da lareira aqueciam o espaço que os separava. Mirtilo pegou no seu sael de casca de bétula e saiu da cabana. Talvez fosse às lareiras, que ficavam no centro da aldeia, buscar qualquer coisa, para o caso ele ou Sok terem fome. Apesar de estar convencido de que não comeria mais, tentaria fazê-lo para que Mirtilo soubesse que ele apreciava os seus esforços.

Por delicadeza, Sok não falou e ficou à espera que ele iniciasse a conversa. O calor do fogo e a barriga cheia deixavam Tsaani sonolento, mas por fim o velho perguntou:

Tens a barriga cheia?

Sok respondeu erguendo a sobrancelha e dando uma gargalhada.

Prepara-te para comer mais disse Tsaani, e apontou para o lugar vazio da esposa da zona da cabana reservada às mulheres.

Quando Mirtilo voltou, ofereceu primeiro o seu sael a Tsaani, que, satisfeito, viu que ela não trouxera mais carne, mas sim que fora buscar bolos de frutos secos e gordura de caribu na despensa. Tsaani tirou um bolo e mostrou-o a Sok. Este soltou um grunhido de satisfação e serviu-se de dois. Surgiram duas covinhas na face de Mirtilo, que olhou para Tsaani por cima do ombro, como uma criança que procura a aprovação do pai.

Tsaani correspondeu-lhe com um aceno de cabeça. Mirtilo era uma mulher útil. Quem lhe pusera o nome sabia o que fazia.

Pato-de-Cabeça-Azul contara a Tsaani que, nesse dia, aparecera um comerciante na aldeia. O gelo do rio era resistente e continuaria a sê-lo pelo menos durante mais uma lua, e o homem viera a pé, atravessando os rios gelados do último Inverno. Talvez ele trouxesse qualquer bugiganga que fizesse uma mulher feliz, sobretudo se Tsaani lhe desse uma unha de urso.

E Nariz Preto? perguntou Sok, dando uma dentada no bolo de fruta.

As feridas não são profundas respondeu Tsaani. Tens gálio-boreal?

Tenho disse Sok. A minha mulher secou algum no Verão passado. Não é tão bom como o fresco, mas...

Ergueu as mãos e olhou para as paredes da cabana como se visse a neve lá fora através das peles de caribu.

Amanhã trago-te um bocado, ou esta noite, se quiseres.

Não respondeu Tsaani. Traz amanhã.

Fez uma pausa, comeu o seu bolo e afastou Mirtilo quando ela lhe ofereceu mais. Sok inclinou-se e tirou outro.

Nariz Preto é uma boa cadela, mas nunca fez uma coisa destas comentou Tsaani.

Agora, há muitos caçadores que esperam ficar com um dos cachorros dela. Ainda bem que ela não morreu.

Não era o seu dia de morrer. O pretalhão entregou-se a nós. Quando um homem e os seus cães são respeitosos, um urso percebe.

Sok mexeu-se, como se as palavras de Tsaani o tivessem incomodado. Abriu a boca duas vezes para falar, mas voltou a fechá-la. Fizera Sok alguma coisa para destruir aquela boa sorte que bafejara o Povo?, perguntou Tsaani a si próprio. Sok era um homem duro, rude treinando os cães e no trato com as outras pessoas, mas agia como lhe tinham ensinado. Quem poderia esperar outra coisa de alguém criado por Raposa-Que-Ladra?

Morreu outro cão disse Sok por fim.

Outro? Dos teus?

Meu. O macho jovem, o preto com a mancha branca na cabeça.

Sok passou a mão pela face.

Tsaani abanou a cabeça. O melhor dos cães novos de Sok. Dois tinham morrido, um macho e uma fêmea, ambos da mesma ninhada. E outros três cães da aldeia também haviam morrido na lua anterior. Um era velho, apesar de forte, mas os outros eram como os cães de Sok, novos e sem sinais de doença.

Há alguma maldição disse Sok.

As pessoas desta aldeia são cuidadosas respondeu Tsaani. Todos os homens respeitam a vida; todas as mulheres observam os tabus. Que maldição poderíamos ter? O que fizemos nós? Sabes quem poderia ter provocado tal coisa?

Durante muito tempo Sok não disse nada. Depois falou em voz baixa, tão baixa que Tsaani reparou que Mirtilo, que costurava à entrada da cabana, virara a cabeça para o ouvir melhor.

Há poucas mudanças na nossa aldeia. Só Estrelas-na-Boca é que morreu, e não era mulher que gostasse muito de cães. Por isso não creio que seja a falta das suas preces. Parece ser qualquer coisa que sucedeu na lua passada. Perdemos cinco cães saudáveis e vários cachorros de duas ninhadas diferentes nasceram mortos. Talvez não devêssemos ter deixado viver os cachorros saudáveis. Talvez devêssemos tê-los matado todos.

Quantos cachorros restam das duas ninhadas?

Cinco.

Quem é que os tem?

Um foi-me oferecido e outro foi para o marido da minha mãe. Outro para Dorminhoco e dois para Pato-de-Cabeça-Azul.

Vai falar com esses homens ordenou Tsaani. Diz-lhes que cada um pode ficar com um cachorro da ninhada de Nariz Preto se matarem esses outros cães. Também ficarás com um dos cachorros de Nariz Preto.

Sok fez um sinal afirmativo.

Dizes que esses problemas surgiram depois da última lua? perguntou Tsaani.

Sok fitou Tsaani.

Sim assentiu ele.

Durante algum tempo, ficou conversando com Tsaani acerca da caçada. Por fim, levantou-se e virou-se para o túnel de entrada. Parou e, erguendo o que restava de um bolo, disse a Mirtilo:

São bons.

Ela baixou a cabeça em sinal de reconhecimento quando ele saiu e depois foi para junto de Tsaani. Este passou-lhe a mão pela cintura. Sem dizerem nada, foram para a cama de Mirtilo. Ela despiu o vestido solto de pele de caribu que usava na cabana e ficou diante do marido só com as perneiras atadas ao meio das coxas. Tsaani deixou cair a sua manta de pele de lebre entrelaçada, pegou-lhe as mãos e encaminhou-as para a sua tanga. Ela ajoelhou-se para desatar o fio e Tsaani passou as mãos pelo rio escuro e macio do cabelo dela.

Uma lua, pensou Tsaani. Quando é que Chakliux chegara à aldeia? Um homem como Chakliux um homem criado como dzuuggi se trouxesse uma maldição, poderia destruir uma aldeia inteira. Mas, naquele dia, tinham apanhado um urso. Isso era certamente um sinal de boa sorte.

Sim, pensou Tsaani. Não teríamos apanhado um urso se estivéssemos amaldiçoados.

A felicidade provocada pela caçada voltou a Tsaani, que afastou todos os pensamentos exceto os que celebravam a alegria das mãos pequenas e hábeis da mulher.

Sok atravessou a aldeia. Anoitecera e as peles de caribu que cobriam todas as cabanas de Inverno tinham um tom amarelado, iluminadas por dentro pelas lareiras.

Ainda não falara ao avô daquilo que mais o pressionava, o seu desejo por Neve-no-Cabelo, mas pelo menos o velho Tsaani começaria a pensar no problema de ter Chakliux naquela aldeia. Fora um disparate encontrar aquele irmão. Sok nem sequer sabia que tinha um irmão. Porque saberia? Ninguém falava dos mortos. Para quê correr o risco de invocar os seus espíritos? Para quê recordar a sua perda àqueles que os amavam?

Ao conceder a Chakliux um lugar na cabana da esposa, Sok esperara alcançar os favores de Lobo-e-Corvo, mas o homem parecia tratá-lo como de costume. Pelo menos não obrigara Neve-no-Cabelo a tornar-se esposa de Chakliux. E depois dele, Sok parecia ser uma boa escolha.

Agora, muitos caçadores nem se atreviam a olhar para ela. Estavam inquietos com a má sorte que ela atraíra ao recusar Chakliux. Bem, mesmo assim, Sok estava disposto a aceitá-la, embora Chakliux tivesse de arranjar outra cabana para viver. Mas porque havia de se preocupar? Ele poderia sempre regressar ao povo de Rio Primo.

Chakliux falara-lhe várias vezes da raiva que grassava entre os jovens das duas aldeias, mas Sok não podia preocupar-se com essa loucura. Sempre fora assim, desde que ele se lembrava. Uma rixa entre dois caçadores, algumas palavras de irritação, o que era isso? E se houvesse um verdadeiro ataque, de uma aldeia à outra... Sok não conseguiu manter o sorriso. Qual a melhor oportunidade de um homem mostrar o que valia? Neve-no-Cabelo ficaria orgulhosa por ter um marido que também era guerreiro.

Se Chakliux estava tão preocupado com a luta entre as aldeias, devia voltar para o povo de Rio Primo e avisá-lo. Devia dizer-lhes que aquela aldeia albergava caçadores fortes. Se os de Rio Próximo iniciassem uma luta, não sairiam vencedores.

Sok caminhava de cabeça baixa, e os seus olhos só viam os seus pensamentos. Por pouco não chocou com Daes. Ambos ficaram surpreendidos e a mulher pediu desculpa em surdina.

Sok correspondeu com um gesto de cabeça e, desejoso de saber o que fazia ela lá fora de noite, com o filho de três anos apoiado numa das ancas, escondeu-se na sombra de uma cabana e ficou observando-a. Ela encaminhava-se rapidamente para as moitas no extremo da aldeia, onde as mulheres faziam as suas necessidades.

Porque levava o filho com ela numa noite tão fria?, pensou Sok. A criança devia estar dormindo. Talvez Água-Castanha, a esposa-irmã de Daes, não tivesse autorizado o menino a urinar na cabana. Quase todas as mães guardavam a urina dos filhos em baldes de madeira. A urina era boa para muitas coisas: desengordurar o cabelo e as peles, fixar as tintas nas peles raspadas. Daes era terceira esposa de um velho, e toda a gente sabia que a primeira esposa, Água-Castanha, era uma mulher dada a fúrias e a exigências insensatas. Mas talvez Água-Castanha tivesse razão ao pedir-lhe tal coisa.

Daes viera daquele povo que vivia nas ilhas do mar, lá longe, a oeste. Talvez o menino, que era dos Caçadores Marinhos, tivesse qualquer poder na urina que Água-Castanha não queria na sua cabana.

Os contadores de histórias falavam de épocas em que os Caçadores Marinhos e o Povo negociavam muito, chegando a trocar esposas e filhos, mas havia sempre histórias de lutas e de ódios. Por que confiar em homens que ora eram parceiros de negócios, ora eram inimigos? Era melhor deixá-los sozinhos. Os homens assim não eram bem gente.

Daes tivera muita sorte em arranjar um marido. Fora trazida por um comerciante, grávida. Sok nunca percebera por que motivo é que o comerciante a deixara. O filho era dele, até as velhas o diziam, mas talvez o comerciante não quisesse uma esposa dos Caçadores Marinhos, que não era totalmente humana.

Ele voltara uma ou duas vezes desde que o filho nascera. Agora o homem estava lá outra vez. Sok sorriu. Talvez Daes fosse mais humana do que ele julgava. Talvez saísse à socapa da cabana de Água-Castanha para ir ter com o comerciante. Porque não? Era uma bela mulher. Ele não ficaria admirado se o comerciante a recebesse na sua cama.

Sok pensou em Neve-no-Cabelo, e o seu desejo era como um fogo que lhe consumia as entranhas. Era um caçador respeitado e, até à chegada de Chakliux, os seus cães eram os mais saudáveis da aldeia. Até o velho Tsaani lhe pedia conselho quando precisava de remédios para os seus animais.

O poder de Sok e os seus dotes de caçador deviam ser suficientes para satisfazer Neve-no-Cabelo, sobretudo se Tsaani oferecesse a Sok os seus hinos de caça ao urso e lhe transmitisse a sua sorte. Esse dia não tardaria a chegar. Sok era o único verdadeiro neto de Tsaani... Quem contava Chakliux?

Então, talvez Neve-no-Cabelo quisesse ser a sua segunda esposa. Sok a respeitaria como se fosse primeira esposa. Até lhe ofereceria peles de caribu para ela ter a sua própria cabana. Que mais podia uma mulher desejar?

Tsaani dormiu um sono pesado e sem sonhos, como acontecia sempre que possuía a sua jovem mulher. Quando Mirtilo o despertou, Tsaani, julgando que ela queria mais, acordou rindo, mas depois ouviu o que ela estava dizendo e viu que tentava vestir-se. Estava alguém a raspar na aba da porta.

Mirtilo soprou as brasas, juntou alguns gravetos para alimentar o lume e depois mandou entrar quem estava à espera. Era o xamã, Lobo-e-Corvo. Tsaani pôs rapidamente aos ombros a sua manta de pele e disse a Mirtilo que fosse para a cabana da mãe, passasse lá a noite e voltasse de manhã para fazer a comida.

Espera gritou Tsaani, sem olhar para Lobo-e-Corvo.

O homem não ficaria satisfeito por vê-lo perdendo tempo falando com a mulher, mas Tsaani não se importava. Não queria que o pai de Mirtilo pensasse que ela não lhe agradara e que ele a devolvia aos pais. Procurou um pequeno amuleto feito de uma pata de ptármiga e deu-o a Mirtilo.

É para o teu pai disse ele. Para lhe agradecer a filha, que é uma boa esposa.

Mirtilo baixou a cabeça, mas o sorriso transformou-lhe a face em duas bolas cheias e redondas. Saiu, e Tsaani virou-se para Lobo-e-Corvo, fazendo sinal ao homem para que tomasse o seu lugar na parte de trás da cabana. Lobo-e-Corvo sentou-se. Durante muito tempo não falou, e Tsaani sabia que ele estava reunindo poder. Fosse o que fosse que o homem tinha a dizer era importante, e talvez fosse algo que Tsaani não gostasse de ouvir.

Por fim, Lobo-e-Corvo falou:

Vim por causa dos cães.

Os teus cães estão bem? perguntou Tsaani. Oferecera a Lobo-e-Corvo uma bela cadela, de ossos largos. Dentro de pouco tempo teria filhotes.

Os meus cães estão de boa saúde. Mas ouvi dizer que há outros cães na aldeia... muitos... que estão morrendo. Diz-se que foram amaldiçoados. Tu é que tens poder quando se trata de cães. O Povo não consegue sobreviver a um Inverno rigoroso sem os seus cães. Como iremos à caça? Quem levará as nossas coisas quando formos atrás dos caribus? O que comeremos num Inverno de míngua se perdermos os nossos cães?

Não preciso que me digas como os cães são importantes. Geralmente sou eu a lembrar-te de que lhes deves respeito.

Lobo-e-Corvo empertigou-se e encheu o peito de ar, mas Tsaani viu que o homem era mais vento do que músculo, sustendo o fôlego para aumentar a sua estatura, como um cão de pêlo eriçado antes de uma luta.

Quando Chakliux veio para a nossa aldeia, não sabia quem era, mas falou de paz entre os nossos povos prosseguiu Lobo-e-Corvo. Resolvi que ele ficaria conosco e que trabalharia pela paz. Agora penso que ele nos trouxe uma maldição. Se os nossos cães morrerem, ficaremos fracos. O povo de Rio Primo vencer-nos-á com facilidade.

Então, diz-lhe que volte sugeriu Tsaani. Se foi ele o causador desta situação, obriga-o a partir. Qual é a dificuldade?

Algumas pessoas ainda acreditam que ele é uma dádiva dos animais. Viram-no nadar no pesqueiro de Rio Primo. Há quem diga que ele é uma lontra.

Tsaani encolheu os ombros.

Tu és xamã. Devias saber quem é que tem razão. Lobo-e-Corvo fez um ar carrancudo. Tsaani conhecia-o há muitos anos. Não era pessoa para tomar decisões. Mas se ele queria a honra de ser xamã, também tinha de assumir as responsabilidades.

Se ainda não sabes o que está certo, porque estás aqui? perguntou Tsaani. Vai para a cabana da tua mulher. Reza. Faz o que tens a fazer. És um xamã. Bem sabes. Não precisas que eu te diga.

Lobo-e-Corvo olhou para Tsaani e encarou-o com um ar furioso.

Ou és uma criança? perguntou Tsaani em voz baixa. Lobo-e-Corvo levantou-se de um salto.

Tem cuidado com a língua, velho advertiu ele. As palavras eram curtas e agudas como o regougar de uma raposa. Eu sei mais de espíritos e de cânticos do que tu. Já vimos que as tuas preces não têm força suficiente para proteger os nossos cães. Dá graças por eu estar aqui para lutar contra esta maldição.

Lobo-e-Corvo encaminhou-se para a saída e afastou a aba da porta.

Diz a Sok que se afaste da minha filha. Ele foi à cabana da minha mulher ontem à noite. Neve-no-Cabelo merece melhor do que ser segunda esposa do teu neto.

Tsaani levantou-se e dirigiu-se para a porta. Prendeu a aba, para o caso de ventar durante a noite, e depois foi para a cama, cansado. Deitou-se e embrulhou-se nos cobertores de pele.

Sok, disse ele em voz baixa, dirigindo-se à noite. Porque tornas sempre tudo tão difícil para ti próprio? Tens uma boa esposa. Se julgas que precisas de outra, escolhe uma viúva, alguém que agradeça a tua proteção e que seja suficientemente jovem para gerar filhos.

Todavia, quando o sono lhe cerrou as pálpebras, Tsaani viu Neve-no-Cabelo, o ondular gracioso das suas ancas ao andar e os seus seios redondos e cheios. Sentiu uma tensão nas virilhas.

Ah, Sok! Ah, Sok... murmurou.

 

Alguém decidiu que um velho não tem autorização de dormir? gritou Tsaani, mas levantou-se da cama e desatou a aba. Ah, também tu saíste à noite? perguntou ele ao ver Raposa-Que-Ladra.

Raposa-Que-Ladra entrou, mas Tsaani não lhe ofereceu o lugar almofadado na parte mais recuada da cabana; nem sequer espevitou as brasas da lareira. Virou-se para a cama e sentou-se nas peles.

Como está à minha filha? perguntou ele.

Está bem.

Sok esteve aqui, depois veio outro homem e agora vens tu. Porque estás aqui?

Para falar contigo acerca do filho da tua filha.

Sok ou Chakliux?

O seu verdadeiro filho, Sok.

Segundo a minha irmã, Chakliux é tão filho de Mulher Diurna como Sok.

Raposa-Que-Ladra agachou-se e tirou o capuz da parka. Esta estava muito bem feita. Estreitava tanto na frente como nas costas, tinha caudas de castor de ponta preta penduradas nos ombros e pele de carcaju costurada à volta do capuz. Raposa-Que-Ladra não merecia uma parka como aquela, pensou Tsaani. Acima de tudo, não merecia Mulher Diurna. Diziam que Raposa-Que-Ladra fora corajoso ao casar com ela, mas Tsaani não concordava. Raposa-Que-Ladra era um homem indolente e um caçador sofrível. Aceitara Mulher Diurna não por ser corajoso, mas porque ela trabalhava muito e era de bom trato.

Raposa-Que-Ladra era magro e tinha umas mãos demasiado grandes para o tamanho dos braços. Na opinião de Tsaani, estas tinham crescido daquela maneira para agarrar tudo aquilo que ele queria mas de que não precisava. Agora, o homem estava de mãos abertas, com as palmas viradas para cima, e perguntou:

Sok esteve aqui?

Esteve.

Porque ele veio?

Tsaani virou a cabeça perante a indelicadeza de Raposa-Que-Ladra. Até uma criança sabia que não devia fazer perguntas acerca das conversas de outra pessoa.

Como Tsaani não respondeu, Raposa-Que-Ladra perguntou:

Já sabes o que se passa com os cães?

Já respondeu Tsaani.

Sabes da filha de Lobo-e-Corvo?

Sei que ela dará uma bela esposa para qualquer homem respondeu Tsaani.

Sok a quer, mas o pai não deixa que ela seja segunda esposa disse Raposa-Que-Ladra.

Achas que Sok vai rejeitar Folha Vermelha?

Não disse Raposa-Que-Ladra. Um homem pode rejeitar a mulher, mas dois filhos e uma boa cabana? Não.

Sok não precisa de outra mulher declarou Tsaani. É um ganancioso. Ainda parte as costas ao carregar tudo o que quer. Quando eu morrer, ele fica com os meus cães. Já lhe dei muitos dos meus hinos de caça. Se ele os usar com sensatez, será um homem poderoso. Talvez mereça duas esposas.

Raposa-Que-Ladra esfregou as mãos e aproximou-as do lume.

É noite. Devias estar na cabana da tua mulher disse Tsaani, mas Raposa-Que-Ladra não fez menção de se ir embora. Sou um velho. Fica, se quiseres, mas eu tenho de dormir.

Tsaani enrolou-se nos cobertores de pele e virou as costas a Raposa-Que-Ladra.

A cabana do comerciante era apenas uma tenda de Verão. O telhado de pele de caribu estava preso por um círculo de pedras e protegido do frio por ramos de abeto e neve. Uma pequena fogueira ardia ao meio. O seu calor era engolido antes de chegar às paredes da cabana, mas Daes não tinha frio. Encostou-se ao corpo de Cen. Sabia que ele faria amor à pressa, mas era melhor do que aturar o velho, que era lento e às vezes chorava quando não conseguia ficar suficientemente duro para entrar nela. Isso não tinha importância, dizia ela, e era verdade. Era bom homem. Oferecera-lhe um lar quando ela tinha apenas um filho amaldiçoado no ventre.

Não, isso não tinha importância, nem com o seu velho marido, nem com aquele comerciante. Ela morrera há mais de quatro anos, quando o seu marido dos Primeiros Homens se afogara. Daes levantou a cabeça das peles da cama do comerciante para se certificar de que o filho, Ghaden, ainda estava deitado na esteira do outro lado da lareira. A criança mantinha-se acordada, de olhos abertos, mas estava quieta e bem embrulhada em cobertores de pele de lebre. Daes julgou ouvi-lo a trautear uma canção do Povo Rio. Era um bom filho, mas ela não gostava tanto dele como da filha, Aqamdax. Como era isso possível? Ghaden era filho de Cen.

Cen puxou-a para o seu lado.

É um belo rapaz observou ele, olhando depois para a criança como que para se certificar que o que dizia era verdade. Será um bom comerciante, um dia, mas antes farei de ti minha esposa. Quando o teu velho marido morrer, aceito-te e um dia levo-te a visitar o teu povo.

Sim disse Daes em voz baixa. Sim.

É claro que seria esposa dele. Seria esposa de um qualquer desde que isso implicasse regressar aos Primeiros Homens e voltar a ver Aqamdax. Quando voltasse à sua aldeia, nunca mais a deixaria. Até lá, seria o que Cen quisesse que ela fosse.

Durante algum tempo, Raposa-Que-Ladra falou da ganância e do egoísmo de Sok, mas de súbito pareceu mudar de opinião. Elogiou a habilidade de Sok na caça, os seus cães e os seus dois filhos. Disse que Tsaani lhe passaria a sua sabedoria e o seu lugar ainda antes de morrer; daria a Sok todos os seus hinos de caça ao urso. Quem sabe? Talvez Sok viesse a ser chefe dos caçadores de ursos e depois Lobo-e-Corvo suplicar-lhe-ia que aceitasse a filha.

Apesar de Tsaani estar deitado de costas voltadas para ele, a princípio ainda deu algumas respostas. O que mais podia fazer um homem que não sabia o que era a indelicadeza? Por fim, Tsaani calou-se, embora Raposa-Que-Ladra começasse a falar dos cães da aldeia e da maldição trazida a todos eles por Chakliux. Como Raposa-Que-Ladra não se calava, Tsaani fingiu que estava a ressonar. Então ouviu Raposa-Que-Ladra levantar-se e sair, mas não sem antes remexer nos sacos de comida de Mirtilo.

Pelo menos, o homem não iria embora com fome, pensou Tsaani, contendo o riso e mergulhando nos seus sonhos.

Quando acabou de fazer amor, Cen limpou-se nas peles da cama, endireitou a tanga e vestiu as perneiras e a parka. Observou Daes enquanto ela se vestia, com um olhar sombrio e terno. Ela não conseguiu olhar para ele. Há tempos, acreditara que ele conseguiria preencher o vazio criado pela perda do marido. Fora uma tola, mas o desgosto tornara-se tão grande que ela teria feito quase tudo para lhe escapar. Entregara-se a Cen, quebrando os tabus do seu luto. Por castigo, concebera um filho.

Sabia que não podia ficar com o seu povo, por isso saíra da aldeia. De que outra maneira poderia proteger a filha dos espíritos furiosos com o que ela fizera?

Descobrira tarde demais as dificuldades da vida de um comerciante. Como podia ela ficar com ele, aventurar-se nas tempestades, atravessar os rios e a tundra e ainda cuidar de uma criança? Pedira a Cen que a levasse para uma aldeia onde pudesse dar à luz o bebê de ambos e suplicara-lhe que lhe arranjasse um marido, um caçador, que tomasse conta dela.

Desolado, ele fizera-o e deixara-a, mas voltava todos os anos, vezes duas vezes por ano. Daes dissera-lhe que era preferível para o filho. Por fim, naquele Verão, Ghaden já era suficientemente forte para fazer a viagem até à aldeia dos Primeiros Homens. Naquele ano, Daes não permitiria que Cen partisse sem ela. Pôs as mãos nas costas e acariciou-lhe a parka de pele de lobo.

Sim proferiu ela em voz baixa. Ficarei contente por passar a ser tua mulher. Depois, regressaremos à minha aldeia. Voltarei a ver a minha filha. Podes construir uma cabana lá e, quando não andares a trabalhar, terás um sítio quente para ficar e uma mulher à tua espera.

Cen virou-se e olhou-a nos olhos.

Diz ao teu marido que tem que morrer depressa.

Ele não viverá outro Inverno retorquiu Daes, sentindo uma tristeza repentina e sabendo que estava dizendo a verdade. Mas eu partirei quando disseres. Se quiseres que eu vá agora, eu vou.

Cen semicerrou os olhos, inclinou a cabeça e olhou para as paredes de pele de caribu.

Daqui subirei o rio até à aldeia de Monte Rochoso e seguirei viagem. Na época do degelo, estarei de volta. Prepara-te para ires comigo nessa altura.

Vai embora gritou Tsaani, e com a sua necessidade de sono nem lamentou a sua indelicadeza. Já tive gente suficiente nesta cabana. Vai embora e volta só de manhã.

Tsaani virou a cabeça para a aba da porta, mas a cabana estava tão escura que ele não via nada. Até o lume da lareira, cujas brasas deviam estar incandescentes nas pontas, escurecera.

Não abafaste as brasas, velho, pensou ele. Mas tinha a certeza de que se lembrava de o ter feito de deitar cinza por cima das brasas para abrandar a combustão durante a noite assim que Lobo-e-Corvo saíra. Talvez estivesses sonhando, pensou.

Olhou pela última vez para a lareira e viu uma ponta de luz, e mais outra, e depois a escuridão abateu-se de novo sobre a luz. O coração de Tsaani batia com força, passando do ritmo lento do sono para a rapidez do medo. Havia um espírito na cabana, algo entre ele e o lume.

O urso, pensou Tsaani. O urso. Tsaani mostrara desrespeito? Esquecera algum hino de louvor? Comera carne sem se sentir grato? Não. Fizera tudo o que tinha a fazer para o venerar. Tirara-lhe as patas e a cabeça; cortara-lhe a pele em tiras para que fosse usada pelas aves e outros animais para comer e forrar as tocas, e não se desperdiçasse. Tudo isto fora feito com respeito, segundo os costumes dos antepassados de Tsaani e dos antepassados destes.

Depois, viu que o urso tinha a cabeça de uma pessoa. Tinha mãos e pés, e o pêlo escuro era apenas uma parka.

O coração de Tsaani abrandou, aliviado. O velho abandonou-se às peles da cama, mas depois a raiva apoderou-se dele.

Porque está aqui? Porque vem ver um velho de madrugada? Tu não precisas dormir, mas eu preciso! disse ele.

Aquele que estava sobre ele não disse nada, e, quando Tsaani viu a faca no meio das sombras negras, era tarde demais.

Daes agachou-se à entrada do túnel da cabana de Água Castanha. Era de madrugada. Ela não iria lá para fora com roupas que usava apenas nas melhores ocasiões. Água Castanha odiava-a. Estava sempre dizendo-lhe que o marido devia rejeitá-la.

Eu devia ter pedido uma cabana só para mim, pensou Daes. Boca Feliz e a filha, Yaa, teriam ido comigo. Água Castanha que se encarregue sozinha de manter a sua própria cabana.

Mas não era tarefa fácil para uma mulher construir uma cabana quando o marido já não caçava há muito tempo. Onde iria ela arranjar as peles de caribu, sobretudo quando Água Castanha exigia tudo de valioso que ia parar na cabana do marido? Além disso, porque trabalharia mais? Dentro de uma lua, talvez duas, partiria da aldeia do Povo Rio e regressaria aos Primeiros Homens.

Daes inclinou a cabeça e pôs-se à escuta. Ouvia o marido ressonando, mas não vinha qualquer ruído da zona das mulheres, e geralmente Água Castanha ressonava mais do que outra pessoa qualquer. Água Castanha estava à espera que ela voltasse. Acusaria Daes de ter estado com Cen. Como poderia ela se defender? A melhor coisa a fazer era esperar que Água Castanha adormecesse e depois trepar para a cama do marido. Daes diria que voltara cedo que Água Castanha estava dormindo e se esta acordasse mais tarde à espera de Daes, seria tola, porque Daes passara a maior parte da noite na cama do marido.

Contudo, se Daes queria esperar que Água Castanha começasse a ressonar, tinha que acomodar Ghaden. O rapaz era pesado e ela tinha o braço dormente do seu peso. Olhou para o filho, mas na escuridão não lhe viu os olhos. Passou-lhe os dedos pelas pálpebras. Levou-lhe um dedo aos lábios e segredou-lhe que não fizesse barulho. Em seguida, disse que precisava que ele se levantasse, por pouco tempo.

Quando se inclinou para o deitar, viu qualquer coisa mexendo-se no escuro. Ia alguém passando pela cabana. Um espírito. O que mais podia ser? Até o Povo Rio sabia que os espíritos se deslocavam entre as cabanas, de madrugada.

Recuou até ao túnel de entrada, mas Ghaden fugiu e foi lá para fora, para o caminho que o espírito seguia. Daes esteve prestes a deixar-se ficar escondida, na esperança de que o espírito, ao ver uma criança inocente, passasse sem lhe fazer mal, mas depois sentiu a dor da perda de Aqamdax e percebeu que sentiria o mesmo se perdesse o filho. Saiu do túnel e levantou-se.

As estrelas estavam perto, como sempre nas noites em que os espíritos andavam por ali. À sua luz, avistou Ghaden, e depois susteve a respiração ao perceber que ele apanhara o espírito entre as pernas.

O menino é meu disse ela baixinho, tentando que a voz não lhe tremesse.

Daes estendeu os braços a Ghaden e pareceu-lhe que o movimento lhe puxava o corpo, como se ela não andasse mas flutuasse sobre o caminho coberto de gelo. Agarrou no filho e pegou-lhe ao colo. Manteve-se cabisbaixa, sem olhar para o rosto do espírito. À luz das estrelas viu as botas de pele, com guizos de cascos de caribu atados nos tornozelos.

Depois, Ghaden encostou qualquer coisa longa e dura ao seu peito. Era uma faca, e Daes tirou-a das mãos dele.

Cheirava a sangue.

Ghaden disse ela. Onde...

Levantou a cabeça e viu que quem estava em frente dela não era um espírito.

Matou alguma coisa? perguntou Daes. Precisas de ajuda?

Mas ao fazer a pergunta, pensou: Quem é que caça de noite? Só os animais. Então talvez isto seja um mocho ou um lobo, e os meus olhos enganam-me e levam-me a acreditar que é alguém da aldeia.

Se precisares de ajuda, eu e a minha esposa-irmã Boca Feliz iremos contigo disse Daes à pressa.

O caçador estendeu o braço e tirou-lhe a faca da mão. Daes entregou-a com facilidade, como se não tivesse mais do que uma pena na palma da mão. Virou-se para a cabana de Água Castanha, mas, apesar de os seus pés flutuarem quando Daes se afastara dela, agora pareciam enterrar-se a cada passo.

Primeiro os pés enterraram-se no gelo, e depois no solo. A terra estava fria e colava-se à carne, ao mesmo tempo que a sugava. Retirava-lhe o calor do corpo como medula sugada de um osso.

Então Daes sentiu a faca. Não houve dor; apenas a força da lâmina a enterrar-se-lhe na carne. Empurrou-a cada vez mais para o chão até ela ficar apenas com os olhos e o cimo da cabeça fora da terra. Daes viu que Ghaden também estava a ser sugado. Os pés dele já estavam enterrados, e com as suas pernas, pálidas à luz das estrelas, ele parecia uma bétula a crescer. Mas foi então que a faca o atingiu. Ele tombou no chão e o sangue que jorrou da sua ferida caiu nos olhos de Daes, até que ela deixou de ver.

 

A respiração de Chakliux era uma nuvem no ar frio. Os abetos-negros que cresciam à volta da aldeia estavam orlados de geada, mas o céu matinal estava límpido. Por volta do meio-dia, o sol transformaria em lama os caminhos abertos no gelo.

Chakliux caíra mais do que uma vez nesses caminhos imundos, mas, apesar de o pé deformado lhe afetar o equilíbrio, ele só coxeava quando estava cansado ou corria. Nessa manhã, levava um grande sael cheio de peixe seco para os cães do avô.

Chakliux gostava de ir visitar Tsaani. Só com alguns comentários ou uma simples história, o velho permitia que Chakliux embarcasse numa viagem mental que durava o dia inteiro.

Ao passar pela cabana de Mulher Diurna, Chakliux baixou a cabeça, esperando não a ver. O olhar dela traía os seus sentimentos e ele não conseguia encará-la sem sentir que recuava aos seus tempos de criança, do bebê que ela abandonara à morte. Cada dia que passava naquela aldeia parecia retirar-lhe um pouco mais do seu poder. Gostaria de regressar ao seio do seu povo e de aprender a ser ele próprio outra vez, mas tinha de ficar na aldeia de Rio Próximo. Tanto Tsaani como Lobo-e-Corvo tinham começado a confiar nele, a saber que ele trabalhava para a paz.

Os gritos roucos dos gaios chegaram até ele, quebrando o silêncio do fim do Inverno. Por instantes, Chakliux ficou olhando para as aves e não reparou no monte de pelo senão quando tropeçou nele. Deixou cair o sael mas apoiou-se nas pontas dos dedos. Ao levantar-se, percebeu que a pele não era um cobertor deixado à toa no exterior de uma cabana, mas sim uma jovem. Reconheceu-a Daes, a mulher dos Caçadores Marinhos e também viu que ela estava morta, com os olhos esbugalhados e a face embranquecida pela geada. Encontrava-se deitada de borco, com a cabeça virada para trás, como se tentasse espreitar por cima do ombro o que lhe provocara a morte.

Uma maldição, pensou Chakliux, e fechou os olhos, apercebendo-se de repente de que o povo de Rio Próximo o acusaria, tal como o acusara do que acontecia aos cães. Até o irmão, Sok, embora o tratasse com respeito, não conseguia esconder a sua preocupação crescente à medida que os cães morriam.

Chakliux ajoelhou-se ao lado da mulher e depois viu-lhe o sangue nas costas, as feridas. Não era uma maldição. Desde quando é que as maldições usavam facas?

Oh, que podia ele fazer? Chamar o xamã? Avisar Sok? Cada aldeia tinha os seus hábitos. O que fazia o povo de Rio Próximo?

Avisar o marido, pensou Chakliux. Os homens aqui falavam mais alto do que na sua aldeia. Esperavam saber as coisas primeiro e tomar a maior parte das decisões.

Chakliux levantou-se e, ao fazê-lo, ouviu um gemido débil. Primeiro, julgou que era Daes, talvez o seu espírito, mas quando se agachou viu que o filhinho dela estava debaixo da mãe. Chakliux não se lembrava do nome dele. Ouviu de novo um gemido e, apesar de não querer tocar na mulher morta com medo de que ela amaldiçoasse os seus dotes de caça, empurrou o seu corpo para o lado e puxou a criança.

Ao morrer, a mãe devia tê-lo puxado para debaixo dela, impedindo-o assim de morrer gelado, pensou Chakliux. Mas o rapaz estava frio, lívido e com as pálpebras e as sobrancelhas cobertos de geada. Chorou, e Chakliux viu a faca espetada nas costas da criança, com o cabo escuro de sangue.

Não, não era uma maldição, pensou Chakliux. Era algo pior.

Yaa foi a primeira a ouvir na cabana o choro de Ghaden. O som vinha lá de fora. Porque estaria o irmão lá fora?, perguntou Yaa a si própria, cujos pensamentos ainda mal se distinguiam dos sonhos. Olhou para a mãe, mas Boca Feliz estava dormindo, e Água Castanha, mesmo que estivesse acordada, nunca se incomodaria com Ghaden. Daes, a mãe de Ghaden, não estava na cama dela. Devia estar lá fora com ele, pensou Yaa, mas embrulhou-se num dos cobertores e levantou-se.

Inclinou-se para espevitar as brasas, mas ouviu chorar outra vez. Até parecia que Ghaden estava ferido. Yaa foi para junto da mãe e abanou-a até ela acordar. Ia a explicar o que se passava quando ouviu outro som uma voz de homem pedindo socorro.

Boca Feliz quase derrubou a filha ao sair da cama e, apesar de fazer sinal a Yaa para ficar ali, a menina foi atrás dela até ao túnel de entrada.

Ghaden! gritou Yaa ao ver o rapaz nos braços de Chakliux. Deu a mão à mãe. Mãe, ele está ferido disse ela, correndo para Chakliux, mas parou ao ver Daes, lívida e enregelada, no chão.

Yaa já vira pessoas mortas. Reconheceu a rigidez e a palidez da morte. O estômago subiu-lhe à garganta e ela começou a vomitar, vômitos secos que pareciam dar-lhe a volta na barriga.

Vai buscar Água Castanha ordenou-lhe a mãe, em voz baixa. Não acordes o teu pai.

Yaa levou as mãos à boca e, aspirando por entre os dedos, encheu o peito de ar até os vômitos pararem e entrou na cabana. Tanto Água Castanha como o pai estavam acordados.

Mãe, a tua esposa-irmã precisa de ti disse ela, dirigindo-se a Água Castanha com delicadeza.

Água Castanha embrulhou-se num cobertor e repreendeu-a:

Foste imprudente. Eu disse-te que ficasses aqui dentro.

A princípio, Yaa julgou que Água Castanha estava a falar com ela, mas depois percebeu que a mulher inclinara a cabeça e olhava à sua volta como se falasse com alguém através do orifício da chaminé.

Julgas que nós não sabemos que foste se encontrar com o comerciante? insistiu Água Castanha.

Yaa olhou para o cimo da cabana. Teria Água Castanha visto o espírito de Daes a pairar lá em cima?

O que aconteceu? perguntou o pai de Yaa, Rosto de Verão, com a voz rouca da idade e do sono.

Yaa aproximou-se da cama dele, um lugar onde não devia estar, mas isto era diferente. Ninguém precisava de lhe dizer que Daes era a esposa favorita dele e que, de todos os seus filhos, mesmo dos crescidos que viviam noutras cabanas, Ghaden era também o seu predileto, mas isso não incomodava Yaa. Ela era a preferida da mãe. Daes, a mãe de Ghaden, apesar de o ter amamentado e de lhe costurar a roupa, não queria pegar ele no colo nem cantar-lhe ou contar-lhe histórias. Ainda bem que o pai gostava mais dele.

Yaa ajoelhou-se ao lado do velho. Ele apoiou-se num cotovelo e olhou para a porta.

O que aconteceu? perguntou ele outra vez. Onde estão todos?

Estão lá fora, mas eu estou aqui contigo respondeu Yaa. Eu não te abandonarei. Não te preocupes.

Rosto de Verão pestanejou e olhou à sua volta. A cama onde Boca Feliz e Água Castanha tinham dormido ainda estava amarrotada, mas os cobertores de pele de Daes estavam intactos.

Daes, minha esposa disse o velho baixinho. Depois, levantando a voz, perguntou: Onde está Daes, filha?

Lá fora com a minha mãe respondeu Yaa, sustendo a respiração. O coração batia-lhe no peito como se fosse um tambor. Queres água ou comida? Posso ir buscar-te qualquer coisa acrescentou ela, mais alto para não ouvir o coração.

Sim disse o velho, recostando-se nos cobertores. Água. Daes que me traga de comer mais tarde.

Yaa afastou-se do pai e levantou-se para ir buscar um dos odres de água feitos de bexigas de caribu que estavam pendurados nos postes da cabana. Esperava que o pai não visse o suficiente e não reparasse que ela tinha as mãos tremendo. Levou-lhe a água e esperou que ele se levantasse para beber do bocal de madeira. Quando ele acabou de beber, reclinou-se e fechou os olhos.

Yaa não sabia o que havia de fazer a seguir. Era estranho, pensou. Em certos aspectos, o pai fazia-lhe lembrar Ghaden, não muito o Ghaden de agora, mas quando era bebê, os cuidados que ele exigia e o muito que dormia. Ao pensar em Ghaden, sentiu os olhos a arder e virou a cara para o lado. O pai não podia vê-la chorar, mas como evitaria ela as lágrimas? O irmão estava ferido e Daes estava morta.

Havia sangue, muito sangue... E Ghaden parecera-lhe tão pequenino e pálido. Era o homem de Rio Primo que o tinha ao colo. Algumas das outras crianças diziam que o homem de Rio Primo estava amaldiçoado. Talvez ele tivesse matado Daes e ferido Ghaden. Mas não, talvez não. Porque havia ele de pedir ajuda se tivesse sido ele próprio a atacá-los?

Yaa fechou os olhos com a ponta dos dedos e tentou afastar as lágrimas das pálpebras. Como se sentiria Ghaden quando soubesse que a mãe tinha morrido? Talvez resolvesse morrer também.

Yaa lembrou-se das vezes em que tirara os melhores bocados de carne, antes que Ghaden conseguisse pegar-lhes com as suas mãos lentas de bebê. Lembrou-se de lhe gritar quando ele estava brincando com os primos. Nem sempre fora a melhor das irmãs, mas passaria a ser. Daí em diante, passaria a ser...

Água Castanha tentou afastar o rapaz de Chakliux, mas este agarrou-o ainda mais.

Eu vou levá-lo ao xamã disse ele.

Água Castanha empurrou a perna mais fraca de Chakliux, servindo-se da sua corpulência para o desequilibrar.

Se me fizeres cair, a ferida do rapaz pode começar de novo a sangrar avisou ele em voz baixa, embora lhe apetecesse gritar com a mulher pela sua estupidez.

Tira a faca. Tira a faca ordenou ela, num tom sibilante.

A faca pode estar a estancar o sangue. Eu levo-o ao xamã. Ele é curandeiro? Ou há mais alguém?

A pergunta pareceu acalmar Água Castanha, que se afastou, pensativa.

Lobo-e-Corvo sabe orações informou ela. Sim, leva o rapaz à cabana dele, mas eu vou buscar a velha Ligige’. Ela é curandeira e faz remédios à base de plantas. Talvez saiba alguma coisa que Lobo-e-Corvo não saiba.

Ótimo disse Chakliux, e encaminhou-se para a cabana do xamã com pequenos passos.

Viu Água Castanha ajoelhar-se ao lado de Daes e depois, com gestos bruscos, dizer qualquer coisa à esposa-irmã. Boca Feliz entrou na cabana. Chakliux calculou que a tivessem incumbido de falar ao velho da morta.

Daes fora assassinada. O pensamento metia medo. Chakliux estava há pouco tempo na aldeia e prestara pouca atenção à mulher, mas nunca percebera que ela causasse discórdia. Mas, tal como ele, ela era de outra terra. Talvez houvesse alguém que pensasse que também ela estava amaldiçoada. Ou talvez... Não, ele não podia pensar que alguém da sua própria aldeia tivesse feito tal coisa. Nem a Daes, nem a Ghaden.

Por um momento, Chakliux desviou o olhar do caminho para observar o cabo da faca que saía do ombro do rapaz. O cabo era de chifre, tosco e envolvido em longos fios de cabelo preto. De repente, percebeu que a faca era muito parecida com aquelas que ele e vários caçadores tinham comprado na véspera. Era uma das facas do comerciante. A lâmina não era comprida, mas servira para matar.

De súbito, o rapaz gemeu e torceu o ombro ferido. Tentou abrir os olhos por instantes, e Chakliux inclinou-se para ele, esforçando-se ao mesmo tempo por continuar a andar sem cair.

Fique quieto disse ele em voz baixa à criança. Fique quieto. Fique quieto agora. Tenta dormir.

O rapaz respirou fundo e uma gota de sangue avivou a ferida. Depois, a sua voz ergueu-se de repente num choro lancinante. O som levou algumas pessoas a sair das cabanas, mulheres com paus de mexer a comida na mão e homens ainda embrulhados nos cobertores.

A maior parte deles limitou-se a olhar, mas um dos homens gritou:

Tu, da aldeia de Rio Primo. O que se passa?

O rapaz está ferido. Vou levá-lo a Lobo-e-Corvo respondeu Chakliux.

De quem é a criança? gritou uma mulher, mas Chakliux baixou a cabeça e inclinou-se sobre o rapaz, desatando a correr, apesar de coxear.

Ghaden continuou chorando e Chakliux disse-lhe com uma voz firme:

És um homem. Não chores. Fique calado.

O rapaz calou-se tão depressa que Chakliux teve receio de que ele tivesse morrido. Olhou para ele. O espírito do rapaz ainda lhe espreitava nos olhos, assustado e dolorido.

Fique calado. Dói menos se não te mexeres avisou Chakliux, apesar de saber que a sua corrida desajeitada sacudia a ferida.

O rapaz abriu a boca e arfou, mas não chorou. Então, a velha Ligige’ apareceu a seu lado e fez sinal às outras pessoas para que se afastassem.

Ele ainda está vivo? perguntou.

Está respondeu Chakliux. Apontando com o queixo para o ombro, acrescentou: Uma ferida feita por uma faca.

Mais duas cabanas disse Ligige’, como se lesse os pensamentos de Chakliux e percebesse que ele precisava saber até onde tinha que levar o rapaz. Reconheces a faca?

Foi o comerciante que a trouxe. Pode ser de qualquer um respondeu Chakliux

Achas que o comerciante... adiantou a mulher, mas entretanto chegaram à cabana de Lobo-e-Corvo.

Sem raspar na aba da porta, sem pigarrear e sem ter a delicadeza de chamar, Ligige’ entrou no túnel engatinhando e fez sinal a Chakliux para que a seguisse.

Lobo-e-Corvo ainda se encontrava na cama e a mulher dava-lhe uma tigela de madeira cheia de comida. Carne de urso, pensou Chakliux, reconhecendo o odor suculento e a gordura derretida no caldo. Apesar de estar preocupado com a criança, o seu estômago resmungou, lembrando-lhe de que ele ainda não comera nessa manhã.

O que estás fazendo? perguntou Lobo-e-Corvo, com uma voz irritada.

Cale-se e ajuda-nos, priminho, disse Ligige’ dirigindo-se ao xamã, não com respeito mas como se fossem duas crianças falando.

Chakliux esperava uma explosão de raiva do homem, mas viu-lhe a ternura no olhar. Com que então eram primos, pensou Chakliux, filho e filha de irmãos, a avaliar pelo termo de parentesco que Ligige’ usara.

A criança está ferida. Com uma faca disse Ligige’. A velha inclinou-se e segredou qualquer coisa ao ouvido de Lobo-e-Corvo, sem dúvida algo que ela não queria que o rapaz ouvisse, talvez que a mãe tinha morrido.

A mulher de Lobo-e-Corvo apressou-se a fazer uma cama de um monte de peles de lebre, e Chakliux deitou o rapaz em cima das peles. A velha ajoelhou-se ao lado da criança, mas Lobo-e-Corvo virou-se para Chakliux.

Viste isto acontecer? perguntou ele.

Estúpido! disse Ligige’.

A violência da palavra assustou o rapaz, que desatou de novo a chorar, mas Ligige’ ignorou-o e continuou a falar em voz alta.

A maior parte do sangue à volta da ferida é antigo, está escuro. Isto aconteceu ontem à noite. A criança perdeu muito sangue e tem frio. Expulsa os espíritos da dor enquanto eu tiro a faca e o aqueço.

Apesar de Chakliux estar à espera que Lobo-e-Corvo reagisse mal, tal não aconteceu. O xamã dirigiu-se ao fundo da cabana e aí destapou várias bolsas de pele de caribu, cada uma enfeitada com a pele de um animal protetor pica-paus e pequenas doninhas. De uma tirou vários embrulhos dobrados, cada um cheio de um pó de cor diferente. Misturou os pós com gordura, fazendo tintas para pintar a cara e os braços. De outra bolsa tirou chocalhos e folhas, penas e conchas. Chakliux começou a ficar preocupado, talvez algumas coisas fossem demasiado sagradas para ele ver. Para se proteger e a Lobo-e-Corvo, desviou o olhar e observou Ligige’.

A velha embrulhara o rapaz em cobertores quentes de pele e estava misturando folhas e raízes em pó num cilt’ogho de água. Colocou uma parte da água numa pele de esquilo raspada e depois, com um movimento rápido, tirou a faca do ombro do rapaz e aplicou a pele dobrada sobre a ferida. A criança soltou um gemido fraco.

Segura nisto rosnou ela a Chakliux, que se ajoelhou junto do rapaz, segurando na pele de esquilo. Aperta com força ordenou ela.

Ligige’ mergulhou os dedos no cilt’ogho e deitou umas gotas na boca do rapaz.

Vai aliviar a dor disse-lhe ela.

Deitou um pouco mais de líquido à volta da ferida, servindo-se de outra pele amaciada para limpar o sangue. Por fim, fez sinal a Chakliux para mexer a mão. Continuou a limpar a ferida e depois preparou outra pele que aplicou sobre a ferida e atou com longas tiras de couro cru.

Lobo-e-Corvo acabou os preparativos e começou a cantar, arrastando os pés ao ritmo do cântico. Chakliux entendia uma parte do que ele dizia, mas outras palavras pareciam-lhe embaralhadas, como se não fizessem parte da língua do Povo. Pouco depois, a testa de Lobo-e-Corvo estava brilhando de transpiração. O xamã era quase um velho, já com as pregas na barriga e os braços magros daqueles que passavam a maior parte do tempo sentados, mas os pés não estavam parados, e o homem continuava cantando alto e com clareza. Se as suas preces conseguissem afastar aqueles espíritos que provocavam dores, que infectavam as feridas e que as enchiam de pus, talvez a criança vivesse se a mãe não o chamasse para ir atrás dela na morte.

Se tal acontecesse, Chakliux duvidava que qualquer xamã tivesse grande préstimo. Qual a criança que não iria com a mãe se esta a chamasse?

Se quiseres ficar, és bem-vindo, mas se quiseres ir... segredou Ligige’ a Chakliux.

Chakliux fez-lhe sinal que compreendia.

O meu avô está à minha espera disse ele. Tenho que ir.

Por instantes Chakliux observou a velha acariciando o cabelo do rapaz com as suas mãos deformadas e tapando-o com outro cobertor.

A criança parecia um monte de gelo nos braços de Chakliux. O frio levaria muito tempo a sair do seu corpo. Talvez nunca saísse, depois de ele ter estado deitado debaixo do cadáver da mãe. Quem sabia o que isso faria a uma criança? Contudo, ao ver Ligige’ trabalhar, Chakliux sentiu aumentar a sua esperança. As mãos dela eram rápidas e sem hesitações quando preparavam cataplasmas e chás.

Chakliux saiu. Lá fora, a manhã estava luminosa. Voltou à cabana de Água Castanha. Lhes diria que o rapaz ainda estava vivo, sem a faca, e que a hemorragia parara. Encontravam-se muitas pessoas à entrada da cabana que se afastaram ao verem Chakliux, recuando como se ele levasse o espírito da morte consigo. Chakliux baixou a cabeça e viu o sangue que lhe manchava a parka desde o meio do peito até ao rufo de pele de lobo que lhe chegava aos joelhos. Depois, Água Castanha apareceu à entrada e disse a Chakliux com uma voz firme:k

O meu marido quer falar contigo.

Chakliux inclinou-se para entrar na cabana atrás de Água Castanha. O interior era espaçoso e estava asseado. Uma panela de pele de caribu cheia de sopa fervendo pendia junto de uma lareira central. A criança que ele vira quando encontrara o rapaz uma menina de seis ou sete verões estava embrulhada até à cintura num cobertor de pele de lebre, sentada ao lado de um velho, com as mãozinhas nos seus ombros aconchegados pelas peles.

Era filha do velho; tinha os mesmos malares fortes por baixo dos olhos em meia-lua. Tinha o mesmo torvelinho de cabelo no meio da testa alta.

Ela engoliu e Chakliux viu-lhe a covinha ao canto da boca, a mesma que valera à mãe o nome de Boca Feliz. Era um rosto feito para alguém que se ria muitas vezes e que via as coisas boas do mundo, e Chakliux ficou satisfeito por o velho ter uma filha assim.

O rapaz está vivo informou Chakliux, apesar de as mulheres não terem perguntado nada e de o velho não ter dado mostras de perceber o que tinha acontecido.

A faca? perguntou Água Castanha, olhando para o lado.

Chakliux seguiu o seu olhar e viu que a morta estava ali deitada. Haviam-lhe lavado a cara e retirado o sangue e a geada. A mulher tinha longas tiras de babiche atadas com nós à volta dos pulsos e dos cotovelos e algumas a seu lado.

A faca era uma das que o comerciante trouxe afirmou Chakliux.

Eu disse-lhe que ela não devia ir ter com ele repetiu Água Castanha.

Depois virou-se para o marido com os olhos muito abertos, mas o olhar do velho vagueava como se ele não a tivesse ouvido.

Não se pode saber se o comerciante... começou Chakliux.

Água Castanha, porém, apontou com a cabeça para o velho e Chakliux concluiu dizendo:

Muitos homens trocaram coisas ontem. Arregaçou a manga da parka para as mulheres verem a faca embainhada que trazia no braço. Era semelhante àquela que se encontrava agora na cabana de Lobo-e-Corvo.

Eu comprei esta.

Encontraste-a quando ias para...

Para a cabana do meu avô. Sou eu que dou de comer aos cães dele todas as manhãs.

Sim. Eu te vi. Não sabes mais nada?

Mais nada respondeu Chakliux, olhando em seguida para a morta. Apontou com o queixo para as tiras de babiche. Façam o que puderem para manter o espírito dela aqui.

Tanto Água Castanha como Boca Feliz ergueram as sobrancelhas em sinal de assentimento. Em seguida, Boca Feliz ajoelhou-se ao lado da morta, pegou numa tira de babiche e atou-a à articulação do ombro. Depois de todas as articulações estarem atadas, o espírito perdia poder. Então talvez a criança não fosse chamada a seguir a mãe na morte.

Chakliux saiu da cabana. O sael do peixe estava junto da parede. Perguntou a si próprio se o barulho e os choros teriam acordado Tsaani.

Talvez não, pensou. Ainda era cedo, e os velhos tinham o sono pesado.

 

Cen estava dormindo quando eles chegaram.

Não entraram pela porta da sua cabana, mas pelas paredes de pele de caribu, rasgando as peles com facas e pontas de lança. Antes que ele conseguisse desembaraçar-se dos cobertores, os homens caíram sobre ele, amarrando-lhe os braços, batendo-lhe e dando-lhe pontapés. Em seguida, entraram as mulheres, arranhando-lhe os olhos com as unhas e deixando-lhe longas marcas no rosto e no peito nu.

Ele afastou as mulheres ao pontapé enquanto os homens o agarravam e depois começou a gritar, perguntando porque estavam a atacá-lo. Era um comerciante respeitado. Há muitos anos que ia àquela aldeia. Alguma vez enganara alguém? Alguma vez abusara da hospitalidade deles?

A sua última pergunta pareceu despertar-lhes de novo a fúria, e uma das mulheres gritou-lhe:

E a minha esposa-irmã? E o filhinho dela? Tu mataste-os e dizes que mostras respeito?

Ele reconheceu a mulher, o seu vozeirão e os seus modos bruscos. Era Água Castanha. As palavras dela atravessaram-lhe os ouvidos como agulhas de osso de pássaro. O que dissera ela acerca de mortes? Referia-se a Daes? A Ghaden?

Quem é que morreu? gritou ele, mas a sua pergunta provocou ainda mais gritos e mais raiva. Vários homens bateram-lhe: socos duros, pesados, no rosto e na barriga, que o obrigaram a enrolar-se para se proteger. Os seus pensamentos rodopiavam como se ele vivesse um sonho. Por instantes, levantou a cabeça para olhar para a cama, quase na esperança de se ver ali dormindo, sonhando com a dor.

Chakliux viu os caçadores de Rio Próximo e várias mulheres, com Água Castanha à cabeça, saírem da aldeia. Sabia que eles se dirigiam ao acampamento do comerciante. Vários homens lhe fizeram sinal para que ele se lhes juntasse, mas Chakliux abanou a cabeça. Lá porque Daes fora assassinada com uma faca de comerciante, eles julgavam que fora Cen que a matara? Que homem seria tão estúpido ao ponto de deixar um vestígio tão claro?

Chakliux observara o comerciante, vira a sua habilidade a negociar e apreciara o modo como ele julgava os homens. Se tivesse assassinado alguém, não teria deixado ficar a faca. Chakliux não queria tomar parte no que eles iam fazer ao homem.

Já sabes o que aconteceu?

Chakliux virou a cabeça ao ouvir a voz do irmão.

Fui eu que a encontrei respondeu Chakliux.

Tu?

Sim.

Ela estava morta quando a encontraste?

Estava, e o rapaz estava quase morto.

Achas que ele viverá?

Ligige’ estancou a hemorragia e o xamã está rezando. Talvez ele escape, ou talvez não.

Eles estão convencidos de que foi o comerciante?

Uma das facas do comerciante ainda estava espetada no ombro do rapaz.

Sok resfolegou.

Cen não é estúpido observou ele. Se matasse alguém, não deixaria ficar a faca.

Achas que eles vão matá-lo? perguntou Chakliux. Sok levantou as mãos, afastando os dedos.

Quem sabe? Talvez o tragam para a aldeia até resolver o que vão fazer.

Devemos esperar por eles? perguntou Chakliux. Um homem não deve ser morto por aquilo que não fez. Se falarmos com eles...

Eu fico à espera deles. Tu não o deves fazer aconselhou Sok. Bem sabes o que alguns dizem acerca dos cães.

Chakliux fez um gesto de concordância.

Sim.

Quantos cães tinham morrido desde que ele chegara à aldeia? Sete, oito? Acusavam-no do sucedido. Os cães de Rio Próximo eram fortes e saudáveis até ele chegar.

Se eles te acusam por causa dos cães, também podem acusar-te de outras coisas. comentou Sok. Eu espero por eles e tentarei falar com eles.

Chakliux virou-se para a cabana do avô e, depois de dar alguns passos, a voz do irmão obrigou-o a parar.

Aonde vais?

Dar de comer aos cães do avô.

Ainda não deste de comer aos cães?

Não.

Sok deu um estalido com a língua, como se estivesse a repreender uma criança.

Eu encarrego-me disso afirmou ele. Vai. Sai da aldeia durante o dia de hoje. Faz o que te apetecer, mas sai da aldeia.

Chakliux viu a irritação no olhar do irmão. Em geral, dar de comer aos cães era tarefa de rapaz. Chakliux fazia-o porque gostava da companhia de Tsaani. De que outra maneira podia demonstrar a sua gratidão pela paciência do homem, pela sua disponibilidade em aceitá-lo sem compaixão nem medo da sua diferença?

Chakliux voltou à cabana de Folha Vermelha. O irmão tinha razão. Ele devia sair da aldeia, andar por fora até à noite. Folha Vermelha não ficaria triste ao vê-lo partir só por um dia. Ele era mais um a quem tinha de dar de comer e costurar as roupas. Era uma boa esposa para Sok e uma boa mãe para os filhos deste, mas não fazia qualquer esforço para esconder o seu ressentimento perante Chakliux.

Folha Vermelha era uma mulher corpulenta, tão alta como Chakliux e larga de ancas e de ombros uma mulher que daria filhos grandes e robustos a um homem. O seu rosto era tão quadrado como o seu corpo, e a pele era escura e macia. Quando Sok entrava na cabana, os olhos de Folha Vermelha nunca mais o largavam. As mãos dela, em geral capazes e fortes, flutuavam quando ele falava, e, ao sacudir-lhe a neve da parka, os seus dedos apenas afloravam a pele. Ao ver Chakliux, fazia um esgar ou semicerrava os olhos, mas dessa vez sorriu e estendeu-lhe uma tigela de carne e caldo e depois rodeou-o para lhe sacudir a neve da parka.

Foste tu que a encontraste disse ela, nas suas costas. Achas que foram os espíritos que a mataram?

Chakliux levou a tigela à boca e bebeu. Limpou os lábios com a mão e respondeu:

Os espíritos não usam facas.

Não viste ninguém? Alguém que a possa ter matado? Chakliux agachou-se junto da lareira. Folha Vermelha ajoelhou-se a seu lado e disse em voz baixa:

Raposa-Que-Ladra diz que pode ter sido a própria Água Castanha.

Eu não vi ninguém respondeu Chakliux. Ela estava morta há muito tempo quando eu a encontrei.

Folha Vermelha não disse nada.

Chakliux pousou a tigela em cima das peles de caribu raspadas que cobriam o chão.

Hoje vou à caça afirmou ele, sem olhar para a mulher.

O que se passava com ela? Aquilo não era nenhuma celebração. Daes estava morta; o filho dela estava gravemente ferido, talvez a morrer. E o pior de tudo é que alguém cometera o assassinato.

Na sua aldeia, Chakliux aprendera as histórias do seu povo, histórias que passavam de umas pessoas para as outras a fim de que determinadas coisas não fossem esquecidas. Em várias dessas histórias, as pessoas matavam outras, mas isso fora há muito tempo, quando os homens e os animais falavam uns com os outros. Aquele assassinato era recente.

Chakliux pegou as suas armas e na sua bolsa de caça. Aconchegou o capuz da parka ao rosto e saiu da cabana. Quando chegou ao extremo da aldeia, ouviu o ruído súbito de vozes alteradas e os choros das mulheres. Os cânticos eram como gelo nos seus dentes. A criança tinha morrido, pensou ele, e sentiu a raiva aumentar contra quem fizera tal coisa.

Espreitou entre as cabanas. Uma multidão reunira-se no outro extremo da aldeia. Tinham apanhado o comerciante. Chakliux apertou o passo na direção do rio. Sok tinha razão. Ele não devia ficar ali. Quando voltasse à aldeia nessa noite, se ouvisse cochichar contra ele, regressaria ao seu próprio povo. Que esperança podia ele ter de levar a paz àquela aldeia se eles o julgavam capaz de matar uma mulher e uma criança?

Depois de regressar à aldeia de Rio Primo, estaria atento e vigilante e, se descobrisse que as mortes tinham sido planejadas ali, lhes provaria que a vida se pagava com a vida.

Quando Boca Feliz foi à procura de Ligige’, perguntou primeiro por Ghaden.

Não morreu respondeu Ligige’.

A velha limpara a ferida muitas vezes, cantando enquanto tirava a cataplasma, para que os espíritos não entrassem no corpo do rapaz através do orifício aberto pela faca.

Ghaden choramingou e Ligige’ pegou as mãos do rapaz para mostrar a Boca Feliz que ele tinha as pontas dos dedos rosadas, apenas com algumas queimaduras provocadas pela geada. Afastou-lhe o cabelo preto da testa. A pele do rosto também estava boa e só duas linhas estreitas de sangue seco lhe marcavam os lábios, rachados pelo frio. Daes fora uma boa mãe. Mesmo na morte, lutara por manter o filho quente durante a longa noite.

E os pés? perguntou Boca Feliz.

Ligige’ afastou os cobertores. Também os pés de Ghaden estavam rosados, sem manchas brancas nem dedos enegrecidos.

Dizem que devias vir agora afirmou Boca Feliz. Havia um estranho tremor nos seus lábios, como se ela fizesse o possível para não chorar.

Sim, pensou Ligige’. O rapaz merecia as lágrimas de uma mulher. Agora que Daes morrera, era muito provável que Boca Feliz o criasse como se fosse seu filho.

Eu posso ficar aqui disse Ligige’. Não tenho ninguém na minha cabana a quem dar de comer. Agora o meu irmão tem a sua mulher.

Ligige’... chamou Boca Feliz em voz baixa.

Ligige’ olhou para a cara da mulher e percebeu que o sofrimento não era por Ghaden mas sim por ela. Sentiu um aperto no coração, como se este tentasse esconder-se no seu peito.

Quem foi?

O teu irmão respondeu Boca Feliz. Mais uma vez, os seus lábios tentaram conter as lágrimas. Morreu.

Ligige’ inclinou-se para aconchegar Ghaden. Depois, levantou a cabeça e suspirou.

Ele era velho observou ela, apesar de não o considerar como tal nos seus pensamentos.

Boca Feliz abanou a cabeça.

Foi morto com a mesma faca disse ela num sussurro.

A princípio, Ligige’ não percebeu as palavras. Com certeza que o irmão fora chamado por um daqueles espíritos que levavam a morte aos mais velhos, um daqueles que param o coração ou abrandam a respiração, roubam a fala ou a razão. Mas uma faca? A mesma faca que matara Daes?

Alguém matou... A voz dela fraquejou. Por quê?

Boca Feliz não respondeu. Ajudou Ligige’ a levantar-se e a sair da cabana. Ligige’ mal ouviu Boca Feliz chamar a filha, Yaa, mas percebeu que ela lhe disse para ficar junto de Ghaden, e que a fosse chamar ou a Água Castanha se o rapaz acordasse e aquecesse ou arrefecesse de repente.

Ligige’ olhou para a luminosidade da manhã. O espírito do irmão estava ali, à espreita, tinha a certeza. Viu a cara dele, suave e sorridente, rindo-se com ela, partilhando histórias.

Sou a mais velha afirmou ela em surdina e olhou para cima, para que o irmão a ouvisse.

Cen observou a cara dos homens que o agarravam. Tinha um olho fechado de tão inchado que estava e parecia-lhe que a cabeça latejava ao ritmo do coração. Tinha a certeza de que eles lhe haviam partido o nariz, várias costelas e talvez o pulso esquerdo.

Desde que era comerciante vira muitas vezes a morte à sua frente. Uma vez o seu iqyax fora destruído pela rebentação. Outra, caíra num poço quando ia de uma aldeia para outra. Muitas vezes, fora apanhado no meio de tempestades de Inverno.

Conseguira chegar à costa nos destroços do seu iqyax, apesar de o frio das ondas o ter deixado moribundo. No poço, falara com as ervas que o rodeavam, pedira-lhes que lhe dessem força e conseguira sair a pulso. Sobrevivera às tempestades abrigando-se em grutas abertas na neve que cavara com as suas próprias mãos. Mas isso era diferente. Com os ventos e a água, um comerciante tinha uma oportunidade se se mantivesse respeitoso. Com os homens...

Arrastaram-no para o centro da aldeia. Aí, obrigaram-no a levantar-se, deixando-o nu, exceto a tanga, entregue ao vento frio. As mulheres gritavam-lhe, atiravam-lhe pedras e batiam-lhe com paus.

Veio-lhe à mente a imagem de Daes. A mulher estava à frente dele com a sua nova parka, a que ele lhe trouxera dos Caçadores de Morsas. Abriu a boca. Em vez de palavras, saiu sangue, e ele percebeu que ela estava morta. A consciência desse fato teve o efeito do gelo no seu coração, e de repente Cen não se importou que o Povo Rio o matasse. Daes e ele ficariam juntos. Longe daquela aldeia, longe daquela gente. E se Ghaden estivesse vivo, poderia Cen entregar-se à alegria de Daes? Quem havia de proteger o filho de ambos? Quem se importaria que ele viesse ou não a ser um homem bom e forte?

Cen reuniu forças e endireitou-se como pode.

Digam-me gritou ele. Digam-me. O meu filho ainda está vivo?

A sua pergunta foi recebida com ódio, com homens de punhos erguidos e lanças apontadas ao seu corpo. Cen foi obrigado a enrolar-se como uma bola, com a cara enfiada entre os joelhos e os braços cruzados sobre a nuca.

Por fim, um dos homens obrigou-o a levantar-se. Era grande, tinha a cabeça larga e cheia de cicatrizes e o lado esquerdo da cara arrepanhado como se em tempos tivesse sofrido queimaduras da testa até à boca.

Perguntas pelo rapaz disse ele. Por quê?

Eu não o matei respondeu Cen, com os lábios cortados pelos dentes partidos. Porque havia de matar o meu próprio filho? Algum de vocês mataria um filho? Então porque julgam que eu o faria? Sou parecido com um daqueles que não têm povo e que vivem no sopé das Montanhas Distantes?

Cen fez uma pausa para ganhar fôlego e a dor parecia uma lança a trespassar-lhe o peito. Cuspiu sangue e esperou que fosse apenas dos golpes que tinha na boca.

Eu não matei o meu filho acrescentou.

A gritaria diminuiu e os homens rodearam-no. Cen sentiu os olhos deles no seu rosto. Encorajado pela atenção deles, disse:

Quase todos vocês sabem que, quando eu trouxe a mulher dos Caçadores Marinhos para aqui, ela trazia o meu filho no ventre. Mas como pode um comerciante ter uma esposa? Eu não podia caçar para ela, nem ensinar um filho a caçar. Por isso os trouxe para cá, para esta boa aldeia. Todos os anos eu vinha cá, negociar convosco e ver o meu filho. Espero que, um dia, ele venha comigo e também seja comerciante.

Um homem alto e magro reagiu a estas palavras, gritando-lhe que ele não viveria para ver o filho crescido.

Então ele está vivo disse Cen, e uma mulher escondida pelos homens que o rodeavam assobiou àquele que falara.

Ele está vivo repetiu Cen.

Está afirmou o homem das cicatrizes.

Um jovem abriu caminho e pôs-se ao lado de Cen. O comerciante já o vira. Sim. Chamava-se Sok e comprara-lhe várias coisas na véspera.

O rapaz está vivo, mas o espírito da mãe está a chamá-lo, assim como o espírito do meu avô, que também foi morto declarou Sok.

O comerciante ficou a olhar para Sok. Dizia ele que mais alguém morrera? Tinham sido atacadas três pessoas?

Morto com uma faca que eu vi ontem nas tuas mãos.

Tens a faca?

Tenho.

Muitos de vocês compraram facas ontem observou Cen. Julgas que eu tinha alguma razão para matar a mulher e o meu filho e um velho que não conheço, que eu seria estúpido ao ponto de usar a minha própria faca? De a deixar?

Fez-se um silêncio interrompido apenas pelos gemidos de várias mulheres e pelo murmúrio dos homens. Uma onda de dor arrasou Cen, mas ele conseguiu enfrentá-la.

Tragam-me a faca. Deixem-me vê-la. Talvez eu me lembre de quem ma comprou disse ele.

Cen olhou para os homens que o rodeavam. Era medo o que via em alguns rostos?

Tragam a faca ordenou Sok. Tenho que me vingar daquele que matou o meu avô.

Chakliux encaminhou-se para o rio. Ainda estava gelado. Uma parte do gelo estava nua e outra coberta de neve endurecida pelo vento. Daí a uma lua, ou talvez duas, o gelo enfraqueceria e uma torrente de água, gelo e terra vindos de montante precipitar-se-iam no mar. Ainda agora, Chakliux via as cicatrizes dos degelos anteriores, lugares em que árvores inteiras tinham sido arrancadas pelas raízes e grandes extensões da margem haviam sido arrastadas e levadas.

Se ele não tivesse visto isso acontecer, seria difícil imaginar. O rio debaixo do gelo e da neve parecia tão calmo, como se nunca tivesse sido mais do que um caminho branco para os pés de Chakliux.

Chakliux sentia falta da sua aldeia, do seu povo. Tinha saudades de contar histórias, mas pelo menos esta aldeia tinha um rio. Desde que se lembrava, Chakliux gostava da água. Em criança, no pesqueiro, diziam-lhe muitas vezes para se afastar do rio, mas ele continuava a brincar e a chapinhar nos baixios. Pouco depois, aprendera a nadar, apesar de a água fria lhe fazer doer os ossos.

Ele era uma lontra, concluíra finalmente o xamã. Quem podia negá-lo? Quem não via o seu pé de lontra? Não fora ele um bebê oferecido pelos animais, que nascera de um coágulo de sangue de um animal? Além disso, todos sabiam que as pessoas não nadavam.

Depois disso, K’os não tentara afastá-lo da água. Os seus dotes eram úteis para construir e reparar as armadilhas de pesca da aldeia e para recuperar linhas e anzóis perdidos. Chakliux ocupava um lugar especial na sua aldeia e era venerado pela sua diferença.

Não era propriamente uma lontra que nadasse no mar, mas já vira mais do que uma vez comerciantes a servirem-se de barcos construídos pelos Caçadores Marinhos. Iqyan, chamavam-se esses barcos, esguios como uma lontra e revestidos de peles de leão-marinho ou de morsa. Como eram diferentes das jangadas desajeitadas e dos postes que o Povo usava para se fazer transportar no rio no Verão!

Uma vez, um comerciante dissera-lhe que esses Caçadores Marinhos se consideravam irmãos das lontras-marinhas. Uma vez, um dos seus caçadores aparecera no pesqueiro para negociar. Era mais baixo e tinha a pele mais escura do que o Povo, braços compridos e grossos e ombros fortes. Chakliux vira-o enrolar o iqyax e sair do rio, com água a escorrer da sua boca grande e sorridente. Trazia uma parka de pele de pássaro. Algumas mulheres diziam que ele não era um homem mas sim uma ave marinha e lutaram entre si para o convidarem para a sua cama, na esperança de conceberem uma ave marinha mágica.

Chakliux e os outros homens tinham-se interessado mais pelo casaco de pele que ele trazia por cima da parka. Segundo explicara o homem dos Caçadores Marinhos, era feita de intestinos de foca, todos eles cortados e achatados e depois tão bem raspados que até se via a luz à transparência. As tiras eram costuradas de modo a não deixar entrar a água. Quando o homem enrolava o seu iqyax, a parka protegia-o e a água não lhe passava para as roupas, nem lhe fazia parar o coração com o frio.

Um dia, Chakliux teria o seu próprio iqyax. Não queria ser comerciante. Não era cômodo conhecer outras pessoas quando ele era diferente e via interrogações e preocupação nos olhos de todos aqueles que o observavam. Sentia-se feliz por ser caçador. Se aprendesse a caçar de um iqyax, a sua família não viveria apenas de peixe, de caribus ou mesmo de ursos. Também poderia contar com a gordura e o óleo dos mamíferos marinhos, focas, leões-marinhos e morsas, porque ele desceria o rio no seu iqyax até ao mar do Norte para caçar.

Sim, era um caçador. Ficava radiante quando um animal resolvia entregar-se para que o Povo pudesse viver, mas era difícil acompanhar o ritmo dos outros caçadores, transportar a sua parte, manter o equilíbrio em trilhos pantanosos e atravessar os arbustos à beira dos rios. As suas pernas eram feitas para a água, não para a terra.

No passado, segundo os velhos contadores de histórias da sua aldeia, os Caçadores Marinhos tinham mesmo caçado baleias. Como dzuuggi, haviam-lhe sido confiados segredos, histórias raramente contadas à volta de fogueiras no Inverno, mas que deviam ser recordadas, pelo menos por alguns. Essas histórias diziam que havia uma ilha, quase do outro lado do mundo, onde os homens ainda caçavam baleias. O homem dos Caçadores Marinhos informara-os de que esses caçadores de baleias tinham morrido há muito, quando uma montanha enfurecida os destruíra por qualquer motivo de que ninguém se lembrava.

Desde que conhecera o homem dos Caçadores Marinhos, Chakliux sonhava em comprar um iqyax só dele, ou talvez mesmo em aprender a fazer um. Agora, ao olhar para o rio, pensava pela primeira vez em ir procurar esse povo antigo que caçava baleias. Ainda estaria lá, naquela ilha distante? Seria preciso uma vida inteira de Verões para chegar ao outro lado do mundo?

O povo de Rio Próximo considerava-o amaldiçoado. A mulher que o dera à luz dissera que ele fora abandonado para morrer. Talvez, na sua aldeia, o Povo já soubesse a história e não o quisesse como dzuuggi, aquele que lhes recordava o seu passado. Se isso fosse verdade, porque ele ficaria? Não poderia fazer a paz se ninguém o respeitasse nas aldeias.

Chakliux protegeu os olhos da claridade do sol do meio-dia. A neve estava derretendo. Ele comprara coisas, o dote de peles rejeitado por Lobo-e-Corvo que talvez desse para comprar um iqyax. Depois, o que o impediria de encontrar esses caçadores de baleias, irmãos das lontras?

As dores eram muitas para que Cen pudesse ignorá-las, mas o homem fez um esforço.

Já lhes disse que vão buscar a faca incitou ele outra vez.

O homem grande saiu do grupo e, quando voltou, trazia a faca ainda coberta de sangue seco. Cen cerrou os lábios e tentou não mostrar o seu desapontamento. Havia várias facas de que ele se lembrava bem distinguiam-se pelo comprimento da lâmina e pela cor ou pelo formato do cabo, mas aquela era de um caçador dos Caribus que ele encontrara no caminho, no Verão anterior. As suas facas eram todas iguais, com variações tão pequenas que um homem mal distinguia umas das outras. Cen vendera cerca de duas mãos-cheias daquelas facas ao povo da aldeia.

Fez sinal ao homem para que aproximasse mais a faca e examinou-a com cuidado. Devia ter havido luta. Alguns dos cabelos que envolviam o cabo estavam partidos. Pendiam como uma franja negra do cabo de chifre esculpido. Os pensamentos de Cen misturavam-se uns com os outros. Por instantes, não se lembrou de nada do que lhe tinham dado em troca das suas facas. Peles? Sim, tinha a certeza. Talvez cestos de pele de peixe.

Como vêem, o cabo está solto observou Cen, apontando com o queixo para a faca. O caçador que me vendeu estas facas pertencia ao Povo Caribu. Eles colam o cabo à lâmina de pedra com resina de abeto.

O que é que isso nos interessa? perguntou o homem mais novo.

Não, a cola não lhes interessava, mas as palavras acalmavam as pessoas, faziam-nas pensar. Quando os homens ocupavam o tempo a pensar, tinham menos probabilidades de se deixarem levar pela ira. As palavras de Cen também pareceram acalmar os seus próprios pensamentos, e de repente ele lembrou-se daquilo que precisava de saber.

Tu compraste uma faca assim afirmou ele fixando Sok e detectando no seu olhar um ligeiro assomo de surpresa.

Virou-se para outro homem.

E tu disse ele. Apontou para vários e inclinou mesmo a cabeça para um dos que o agarravam. E tu também.

Sim anuiu o homem que o agarrava, largando o ombro de Cen. O caçador arregaçou a manga e mostrou uma faca numa bainha atada acima do pulso. Ainda a tenho.

Eu também ainda tenho a minha disse outro homem, e mais outro.

Sok, que ainda estava à frente do comerciante, exibiu uma faca. Surgiram outras, mais do que Cen vendera àqueles homens, muitas mais. Noutro sítio, noutro momento, ele teria dado uma gargalhada.

Mas porque não mostrar uma faca? Era preferível mostrar que tinha uma do que ser acusado de matar.

O homem corpulento, que ainda tinha na mão a faca assassina, virou-se para os caçadores, para as suas lâminas apontadas para o céu. Nesse momento, com um braço livre e já sem ninguém a olhar para ele, Cen tirou-lhe a faca da mão com um movimento rápido. O homem deu um berro, mas Cen apontou-lhe a faca e depois ao outro homem que continuava a agarrá-lo. Este, um dos velhos da aldeia, largou-o.

No entanto, os homens eram muitos, e tinham muitas armas. Cen nunca conseguiria fugir. Além disso, como podia ele correr muito com as costelas partidas e os olhos quase fechados de tão inchados que estavam? Os homens mostravam-se cautelosos. Porquê ser o primeiro a atirar-se ao comerciante? Porquê ser o primeiro a sentir a sua lâmina? Se ele tivesse matado uma vez, não hesitaria em voltar a fazê-lo.

Um de vocês comprou esta faca declarou Cen. Continuava a apontar-lhes a lâmina, aproximando-se lentamente. Os homens estavam calados, mas todos o observavam, na expectativa, com as facas em riste.

Um de vocês matou a mulher e o avô deste homem prosseguiu Cen, erguendo o queixo para Sok. Um de vocês tentou matar o meu filho. Vou matá-lo por isso, seja ele quem for. Se eu não o descobrir durante a minha vida, o encontrarei quando morrer, quando eu for espírito e puder deslocar-me sem ser visto.

”Digo isto a todos vós. Não matei ninguém. Não feri o meu filho."

Cen fincou os pés na terra. De que serviam as palavras se a vertigem se apoderava dele?

De repente, surgiu-lhe uma imagem, algo que ele tentara expulsar da sua mente há muito tempo uma cerimônia fúnebre a que ele assistira lá para o Norte, no seio de pessoas a quem já nem conseguia dar nome. Uma mulher perdera o marido, um pai e o filho. Tinham retalhado o corpo com facas para mostrar o seu desgosto. Este fato em si mesmo não era tão invulgar, mas a mulher também cortara um dedo e o homem um pedaço de carne do tornozelo. Sangue em troca de sangue, pensou Cen, e exclamou:

Ergo a minha própria voz em sinal de luto. E virando-se para Sok, acrescentou: Choro o homem a quem chamas avô. Choro a mulher que foi mãe e esposa entre vós.

Ficou à espera, mas ninguém avançou para ele; ninguém falou.

Eu não os matei insistiu ele outra vez. E não feri o meu filho. Ergo a minha voz aos espíritos que possam chamar o meu filho para o seu mundo. Ofereço sangue em troca de sangue. O meu em troca do dele.

Cen cerrou os lábios. Eles queriam sangue, como cães ansiosos pelos pulmões de caribus acabados de matar. Via-o nos olhos deles. Aqueles homens esperavam que isso lhes aliviasse o sofrimento? Ou precisavam de exibir a sua própria força? Acreditavam que, se controlassem o poder de matar, este não poderia ser usado contra eles.

O sangue pelo sangue disse Cen outra vez. Enterrou a fina lâmina de sílex na perna e extraiu um grande pedaço de pele. A dor foi maior do que ele imaginava. A escuridão fechou-se à sua volta. Cerrou os dentes e esperou que a mente clareasse. Em seguida, levantando o bocado de pele, separou-o da perna e atirou-o para o chão.

Para mostrar o meu desgosto disse ele. Inclinou-se e tirou uma pedra do tamanho de um punho fechado da lareira mais próxima. Sok fez menção de se aproximar dele, mas Cen empunhou a sua faca.

Um negócio com os espíritos explicou ele. Deixou escorregar a pedra para a mão esquerda e depois apertou-a contra o peito. Agarrou na faca e, com toda a força que tinha, cortou o dedo mindinho, acima da articulação intermédia. A lâmina enterrou-se na carne, provocando-lhe uma dor lancinante, e depois no osso. Cen sentiu a dor profunda quando a faca se enterrou e se partiu. Só parou quando a lâmina atingiu a pedra.

O dedo decepado caiu ao chão e Cen apanhou a pedra.

Um negócio com os espíritos declarou ele outra vez. Com a lâmina ensangüentada, apontou para o dedo. Pela vida do meu filho.

Sok apanhou o homem quando ele caiu.

 

ALDEIA DOS PRIMEIROS HOMENS

Salmão inclinou-se para a frente e passou os dedos pelo rosto de Aqamdax. Cheirava a peixe, mas o seu toque era quente e ela sentiu um leve aperto na barriga. Ele baixou a mão e agarrou-lhe o seio esquerdo.

Já lá vai muito tempo afirmou ele num sussurro Aqamdax desviou o olhar dele. Salmão viera procurá-la a meio do dia, interrompera o cesto que ela estava fazendo e quando viu que ela se encontrava sozinha no ulax, começou a falar com palavras ternas e atraentes. A sua primeira esposa estava no quinto mês de gravidez do terceiro filho. A sua outra esposa, uma mulher que tinha tantos Verões como Aqamdax, acabara de lhe dar uma filha. A bem da sua caça. Salmão devia mostrar-se disciplinado e esperar.

Mas para quê preocupar-se com a caça de Salmão ou pensar nas suas mulheres? Ainda há dois dias Aqamdax pensara que seria esposa dentro de pouco tempo. Acreditara nas promessas sussurradas de Rompe-o-Dia, mas nessa manhã, quando estava sentada com Cantador e as suas quatro esposas, Rompe-o-Dia fora para junto deles e anunciara-lhe que ia casar-se com Sorridente, uma mulher cujos pais viviam na aldeia, uma mulher com quatro irmãos robustos. Mais tarde, quando Rompe-o-Dia e Cantador foram visitar o pai de Sorridente, Aqamdax ouvira Olhos-de-Erva e Leva-Peixe cochichando. Riam tapando o rosto com as mãos, dizendo que Sorridente já trazia o filho de Rompe-o-Dia na barriga, e que lhe faltavam três luas de sangramento.

Então Aqamdax percebeu que as promessas de Rompe-o-Dia não passavam de mentiras para ele ter acesso à sua cama.

Nesse caso, porque havia ela de hesitar em gozar com Salmão, mesmo em pleno dia? As mulheres da aldeia já a desprezavam e cuspiam quando ela passava. Aqamdax não se importava. Elas só invejavam a sua beleza. Viam o desejo no olhar dos maridos quando ela passava. Sabiam que os filhos a procuravam nos longos dias de Verão, ao entardecer. Salmão afastou a tanga e deitou-se sobre Aqamdax, encostando-a às esteiras de erva entrelaçada que cobriam o chão do ulax. Os seus dedos procuraram as fitas que atavam os seus aventais de erva, os grandes painéis entrançados que ela trazia pendurados à cintura, um à frente e outro sobre as nádegas, o único vestuário que as mulheres dos Primeiros Homens usavam no interior do ulax.

Os dedos de Salmão eram grandes e desajeitados, e ainda ele não conseguira desatar os aventais quando Aqamdax ouviu um grito e percebeu que era Olhos-de-Erva.

Aqamdax censurou-se pela imprudência de não ter levado Salmão para a sua cama. Embora Olhos-de-Erva soubesse o que eles estavam fazendo, pelo menos não teria visto nada e Aqamdax poderia ter negado as acusações da mulher. Salmão conseguiu levantar-se, pegou na parka e desatou a correr. Esperou que Olhos-de-Erva saltasse do tronco cheio de nós enfiado numa fenda do chão do ulax que dava acesso a um orifício de entrada situado no telhado. Em seguida, trepou pelo tronco e saiu, antes que os gritos de Olhos-de-Erva dessem lugar às palavras.

Aqamdax nem sequer olhou para ela. Endireitou os aventais e empurrou os longos cabelos negros para trás, cobrindo as orelhas. Depois, fez aquele sorriso que sabia que Olhos-de-Erva detestava, levantando um dos cantos da boca. Olhos-de-Erva pegou o cesto que Aqamdax estava fazendo. Era um cesto grande e de malha larga, utilizado para apanhar coisas. A mulher atirou-o a Aqamdax.

Não prestas para nada gritou ela. Todas as mulheres desta aldeia ficam envergonhadas quando te vêem. És pior do que a tua mãe. Não percebes que os homens se riem de ti? Como podes ser tão estúpida? Desaparece da minha vista. Maldito o dia em que a tua mãe te deixou!

Aqamdax pegou o cesto.

Olha para este cesto ordenou ela com uma voz serena. É melhor do que qualquer das coisas que tu sabes fazer, mas me dizes que eu não presto para nada. Ninguém nesta aldeia tece tão bem como eu. Teço até me doerem os olhos e ficar a sangrar dos dedos. Tu vendes os meus cestos e ficas com o que recebes em troca, e depois dizes-me que eu não valho nada. Já esqueceste que Leva-Peixe é tão preguiçosa que não raspa as pontas das peles e as deixa imperfeitas e tesas? E Folha Malhada? Os dedos dela são tão vagarosos que levaria um ano a fazer um sax, mesmo de peles de cormorão. E não preciso de te dizer que Dá-a-Volta é uma criança. O que sabe ela fazer além de agradar ao teu marido na cama? Talvez sejas tu a única que não vale nada Por que outro motivo precisaria Cantador de mais três esposas? Tu não deves saber como lhe agradar. Terei muito prazer em ensinar-te concluiu Aqamdax sorrindo.

Olhos-de-Erva curvou os dedos como se fossem garras e correu para Aqamdax. Esta agarrou o seu sax de pele de pássaro que estava no chão, onde o deixara, e fugiu, subindo o tronco. Deixou-se

escorregar pelo lado do ulax, ignorando a queimadura provocada pelo gelo e pela erva gelada nos pés nus, e depois correu para a praia.

O solo estava frio debaixo dos seus pés descalços. Fora um disparate não ter trazido as botas de barbatana de foca. Não gostava do toque delas. Lhe faziam doer os ossos, tentando sempre estreitá-los como gostava Folha Malhada, a terceira esposa do chefe, mas era preferível tê-las trazido do que andar descalça na neve. Aqamdax vestiu o sax. Era comprido, à maneira tradicional dos Primeiros Homens. Caía solto e tapava-lhe os joelhos. Aqamdax agachou-se junto de um tufo de erva da praia, de costas para o vento, enrolou o sax nas pernas e prendeu-o debaixo dos pés.

Detestava viver no ulax do chefe, mas que alternativa tinha? Sem o pai nem os avós vivos, e com a mãe ausente da aldeia, tinha que ficar onde os velhos decidiam.

Aqamdax tentou pensar na noite em que a mãe partira, mas, à medida que os anos passavam, a recordação esfumava-se e agora parecia quase um sonho.

Daes aproximara-se da cama que partilhava com a filha. Falara-lhe em voz baixa do seu amor e depois dissera-lhe que se ia embora da aldeia, que ia viver com o Povo Rio. Aqamdax, chorando, suplicara-lhe que a levasse consigo, mas a mãe explicara-lhe que o comerciante não levava as duas. Prometera voltar e trazer presentes. Por isso Aqamdax ficara na cama e só mais tarde percebera que não sabia qual o comerciante a que a mãe se referia, nem para que aldeia de Rio é que eles iam.

Durante o primeiro ano, mesmo no Inverno, Aqamdax fora todos os dias para a praia e esperara, atenta. Perguntava a todos os comerciantes que iam à aldeia se sabiam da mãe. Nenhum sabia.

Ouvira o falatório das mulheres da aldeia. Elas diziam que ela fugira com esse comerciante, mas Aqamdax conhecia o verdadeiro motivo que levara a mãe a partir.

Uma lua antes, o pai de Aqamdax morrera afogado quando andava caçando. Depois da sua morte, a raiva criara raízes no peito de Aqamdax, que tratava mal toda a gente, inclusivamente a mãe, até que Daes partira com o primeiro homem que demonstrara algum interesse por ela.

Aqamdax sentiu um nó na garganta, mas não cedeu ao choro. As lágrimas não devolveriam a vida ao pai nem trariam a mãe de volta do Povo Rio. As lágrimas nem sequer a ajudariam a viver mais um dia com as esposas do chefe dos caçadores.

Elas odiavam-na, aquelas quatro mulheres. Cada uma julgava-se a mulher mais importante da aldeia: Olhos-de-Erva porque era a primeira esposa do chefe; Leva-Peixe porque fora a que gerara mais filhos; Folha Malhada pela sua beleza; e Dá-a-Volta porque era a favorita do chefe.

Nos dois primeiros anos em que Aqamdax vivera no ulax de Cantador, teve esperança de que ele a considerasse sua filha. Tinham-lhe garantido que lhe arranjariam um marido. Quem hesitaria em aceitar a filha do chefe dos caçadores como esposa? Mas quando tudo corria mal, acusavam-na. As esposas-irmãs erguiam as sobrancelhas e faziam estalar a língua, cochichando e olhando-a de esguelha.

Por fim, quando Aqamdax percebera que não podia ter esperança de vir a agradar-lhes, passava as noites pensando como as irritaria. Porque não se divertiria fazendo travessuras se a culpavam sempre de tudo?

Como é que o colar de Folha Malhada fora parar ao fundo do cesto da costura de Leva-Peixe? Porque é que Dá-a-Volta comera os frutos que Olhos-de-Erva andava guardando para o marido? E a bela parka que Olhos-de-Erva fizera, como é que se rasgara quando o chefe a vestira pela primeira vez?

Todos os anos, Aqamdax garantia a si própria que um caçador a pediria em casamento talvez um dos velhos, ou talvez alguém muito jovem e que depois ela poderia sair do ulax do chefe dos caçadores. Todas as meninas com quem ela crescera, as suas companheiras de infância, eram esposas. Quase todas tinham bebês, mas nenhum homem queria Aqamdax.

Fora então que Rompe-o-Dia começara a atraí-la para a cama, à noite...

Aqamdax levantou a cabeça para ver a baía. Pedaços de gelo juncavam a praia e o vento soprava de oeste, eriçando as penas do sax de Aqamdax. Levantou os ombros para que a gola alta lhe tapasse as orelhas. Precisava de uma parka, de uma parka de pele de lontra com um capuz, como aquelas que os Caçadores de Morsas usavam, mas onde iria arranjar as peles para a fazer?

Podia pedir aos homens que dormiam com ela, mas eles podiam zangar-se e deixar de a procurar. Depois, como é que ela havia de suportar a solidão? A sua única esperança era engravidar, afirmar que a criança pertencia ao caçador mais capaz de a aceitar como esposa. No entanto, apesar de todos os homens a quem dava prazer, nunca falhara um período de sangue lunar.

Pôs a mão na barriga. Às vezes, a velha Qung contava histórias de mulheres que, como castigo por terem quebrado um tabu, não tinham filhos. Talvez Aqamdax devesse tratar as esposas do chefe com mais respeito.

Suspirou. Não seria fácil; cada uma delas tinha um espírito tão diferente, mas se ela começasse por lhes oferecer um presente talvez elas acreditassem que ela tencionava modificar-se. Olhou para a praia. Era pouco provável encontrar alguma coisa com a baía ainda gelada. Até os caçadores da aldeia estavam em casa com as suas mulheres.

É claro que havia madeira flutuante, se ela se desse ao trabalho de a apanhar. Desde a segunda tempestade do Inverno que um grande pedaço de madeira, comprido como o seu braço e largo como a coxa de um homem, se encontrava na praia, debaixo do gelo. Depois da tempestade, várias mulheres tinham tentado soltá-lo, mas acabaram por desistir. Aqamdax podia levá-lo a Olhos-de-Erva. Talvez a mulher o aceitasse como uma oferta de paz e se esquecesse de que a encontrara com Salmão.

Aqamdax voltou para o ulax e pegou nas suas botas de barbatana de foca. As duas filhas pequenas de Olhos-de-Erva estavam sentadas, choramingando, ao lado da mãe, que tentava ensiná-las a fazer cestos.

Eu já venho ajudar-te disse Aqamdax.

A mulher olhou para ela mas não disse nada.

Aqamdax calçou as botas e voltou a sair. Subiu a camada de gelo que cobria a praia até chegar junto do tronco. Cerca de metade deste estava enterrado no gelo, mas Aqamdax pensou que talvez fosse capaz de o tirar. Aproximou-se de um monte de seixos rolados do tamanho de um punho, gastos ao longo do tempo pelo vento e pela água. Com um pontapé, soltou um e levou-o para junto do tronco. Pegou a pedra com as duas mãos e deixou-a cair com força em cima do gelo que cobria o tronco.

Repetiu várias vezes a operação até lhe doerem as mãos e ficar com os dedos sangrando. Por fim, encostando-se em peso a ele, conseguiu deslocar o tronco, menos que a largura de um dedo da mão, mas mesmo assim ele mexeu-se. Enfiou as mãos nas mangas para aquecer os dedos. Estavam dormentes e, quando recuperou a sensibilidade, doíam-lhe tanto que as lágrimas lhe saltaram dos olhos. Aqamdax limpou a cara à manga e atirou-se contra o tronco até ele se soltar o suficiente para ela o puxar.

Pegou-o, o pôs no ombro e iniciou o caminho de regresso no gelo, passando pelos tufos de erva gelada que assinalavam a linha da maré alta, em direção à aldeia.

Havia dez dezenas de ulaxs na aldeia, todos eles suficientemente quentes e resistentes para suportar o ataque dos ventos agrestes que vinham do mar. A maior parte deles albergavam famílias numerosas: caçadores e esposas, filhos, por vezes avós, tias e tios. Os ulaxs eram cavados na terra, cobertos de troncos de madeira flutuante ou de vigas de mandíbula de baleia e depois de esteiras de erva, colmo e várias camadas de grama com terra e raízes.

Lá dentro, ardia uma ou duas grandes lamparinas seixos com a parte de cima escavada para receber óleo, ou lamparinas de pedra mais pequenas, orladas de pavios de musgo e cheias de óleo de foca. O seu calor era suficiente para aquecer o ulax, mesmo no Inverno.

O ulax do chefe dos caçadores era dos maiores. Tinha sete camas, cada uma das quais dava para duas ou três pessoas e estava almofadada com peles de lontra-marinha e de raposa e separada do quarto principal por painéis de erva entrançada. Na parede tinham sido cavadas despensas para os alimentos e espaços para armazenar peles e óleo de foca, estômagos de leão-marinho cheios de carne de foca seca, peixe seco, búzios e moluscos. Estômagos e bexigas de caribu, equipados com bocais de osso esculpido e cheios de água, estavam pendurados nas vigas do ulax.

A aldeia era um bom local para viver. Os caçadores eram quase sempre bem sucedidos; as crianças eram bem alimentadas e saudáveis. Até no Inverno a comida era suficiente. Os caçadores que não eram mortos por tempestades súbitas ou animais marinhos enfurecidos e as mulheres que sobreviviam aos partos podiam ter esperança de chegar à velhice e serem respeitadas, tratadas e alimentadas.

Era freqüente aparecerem comerciantes na praia. Os caçadores dos Primeiros Homens tinham sempre carne e óleo. Quem fazia melhores cestos e melhores parkas de pele de pássaro do que as mulheres daquela aldeia dos Primeiros Homens?

O vento empurrava Aqamdax. Pôs um ombro à frente do corpo, baixou a cabeça e só viu a velha quando ia a chocar com ela. De repente, as penas escuras de cormorão do sax da mulher apareceram à sua frente, e Aqamdax parou tão depressa que o tronco lhe escorregou do ombro, atingindo-lhe o tornozelo antes de cair ao chão.

Aqamdax ia a refilar, mas conteve-se. A velha era Qung, a contadora de histórias da aldeia, respeitada por toda a gente.

Das pessoas que diziam mal de Aqamdax, as velhas eram as piores, mas desde que ela começara a receber homens na sua cama, nunca ouvira Qung pronunciar uma palavra contra ela.

Este pensamento fez nascer nela uma súbita onda de gratidão. Aqamdax inclinou-se para olhar para a mulher, pois a artrite afetara-a verdadeiramente, deformando-lhe de tal modo o corpo que a corcunda das suas costas tinha quase a mesma altura da cabeça.

Desculpe, tia, disse Aqamdax, dirigindo-se à velha com delicadeza.

Ah, os meus olhos não prestam, filha, respondeu Qung. Virou a cabeça para o lado e depois para cima, pestanejando ao olhar para o rosto de Aqamdax. És Aqamdax, não és? A filha de Daes?

Sim, tia.

Qung deu uma palmadinha na mão de Aqamdax.

Pobre criança.

As suas palavras surpreenderam Aqamdax. Qung, velha e curvada, é que era digna de dó.

Deixaste cair qualquer coisa disse Qung.

É um tronco trazido pelo mar respondeu Aqamdax.

Depois, ansiosa por mostrar a Qung que conseguia afastar as coisas desagradáveis e não merecia compaixão, acrescentou:

Eu não preciso dele. Quere-o para si?

Aqamdax ficou à espera que a velha se inclinasse ainda mais, estendesse a mão deformada e tocasse na madeira. O mar do Norte levara-lhe a casca, deixando-a macia ao tacto mas áspera à vista. Era densa, estava gelada, mas a água não a apodrecera.

Junto da aldeia dos Primeiros Homens havia árvores, sobretudo salgueiros raquíticos e abetos-negros esculpidos pelo vento, mas se os contadores de histórias estavam certos, os Primeiros Homens vinham de ilhas onde não havia árvores, onde a madeira de que precisavam para as vigas dos iqyan ou ulax tinha de ser procurada nas praias, como dádiva do mar. Ainda assim, era mais fácil trazer madeira das praias do que ir ao interior cortar árvores vivas.

Achas que Cantador não precisa dela? perguntou Qung.

Não.

Então fico-te agradecida por ela disse Qung.

Sorriu-lhe e Aqamdax reparou que os dentes dela já estavam gastos quase até às gengivas. Era uma velha, aquela mulher. Não era de admirar que soubesse tantas histórias.

Aqamdax pegou a madeira e levou-a para o ulax de Qung. Era o ulax mais pequeno da aldeia, novo, construído para a velha pelas filhas, e quando Qung contava histórias as pessoas da aldeia podiam ir para ali, sentar-se e escutar, passar longos dias, longos serões, sem se intrometer na vida dos filhos de Qung. A velha vivia ali sozinha, apesar de as filhas a visitarem com freqüência.

Às vezes, a própria Aqamdax ia ouvi-la falar. Devia ser maravilhoso ter o seu próprio ulax, um lugar onde não tivesse esposas que lhe ralhassem, mas ela não tinha nem marido nem irmãs que a ajudassem a construí-lo, e como podia uma mulher fazê-lo sozinha? Talvez conseguisse cavar um local para ele nas colinas sobranceiras à praia e apanhar pedras para reforçar as paredes, mas não tinha força para erguer as vigas.

Mesmo que a tivesse, os velhos da aldeia não permitiriam que uma jovem tivesse o seu próprio ulax.

Aqamdax levou a madeira para o telhado e depois voltou para ajudar Qung a subir. A velha convidou-a a entrar e prometeu dar-lhe de comer e contar-lhe uma história.

Aqamdax aceitou com alegria. Como podia Olhos-de-Erva zangar-se quando ela lhe dissesse que passara o dia com Qung e que lhe oferecera um tronco de madeira flutuante?

O ulax estava quente. Os pavios de musgo da lamparina libertavam fiozinhos de fumaça branca e as paredes estavam macias e secas, bem revestidas de esteiras entrançadas. Sim, aquele devia ser um bom local para viver.

Qung foi buscar comida e água e depois, pegando um bocado de peixe seco, agachou-se junto de Aqamdax e começou a contar histórias. Começou por histórias do antepassado Shuganan e em seguida falou de uma mulher e do irmão que se tinham transformado em lontras-marinhas.

As histórias eram boas. Aqamdax perdeu-se nelas e deu consigo a desejar ter a força daquele povo antigo; o homem só com uma mão, a mulher que salvara os filhos das travessuras do Corvo.

Aqamdax deixou-se ficar, até a luz do dia dar lugar à noite, e depois voltou para o ulax do chefe dos caçadores, para o vozerio das mulheres e dos filhos dele.

Regressou à fúria e às acusações de Olhos-de-Erva e das filhas e ao silêncio solene das esposas-irmãs.

Passaste o dia inteiro longe do trabalho que havia para fazer, repreendeu Olhos-de-Erva. Deixaste as peles de foca que havia para raspar, os cestos que havia para tecer, a comida que havia para fazer. Mas não nos trouxeste nada da praia.

Em geral, Aqamdax retrucava, lembrava a Olhos-de-Erva que era ela que fazia a maior parte do trabalho no ulax perguntava-lhe o que era possível trazer da praia no Inverno. Mas desta vez Aqamdax limitou-se a sorrir.

Nessa noite, Aqamdax não se deixou adormecer. Esperou que todos saíssem do aposento principal do ulax, mesmo Leva-Peixe, que muitas vezes ficava à espera de apanhar algum caçador que ia visitar Aqamdax à noite. Quando todos adormeceram, Aqamdax afastou um canto da cortina, ergueu a voz num lamento e ficou à espreita, à espera que as esposas saíssem das camas.

Leva-Peixe foi a primeira a sair, seguida por Folha Malhada. Quando Olhos-de-Erva apareceu, Aqamdax saiu também da cama, de braços erguidos e olhos fechados. Contou a história de Shuganan com uma voz suave e cantante.

As esposas começaram a discutir, cada uma acusando as outras de a terem acordado, mas Aqamdax ignorou-as, continuou a contar a sua história e divertiu-se com a confusão delas. De repente calou-se, parou a meio de uma palavra, abriu os olhos e olhou à sua volta como se estivesse admirada.

As esposas estavam engalfinhadas umas nas outras e batiam-se; a lamparina que ficava acesa durante a noite projetava as suas sombras, longas e escuras, na parede. Aqamdax olhou para a cama de Dá-a-Volta. Ela e Cantador tinham afastado a cortina. Estavam ambos olhando para ela.

Oh! exclamou Aqamdax. Estou aqui. Onde está Qung?

Qung? perguntou o chefe dos caçadores. Como havemos de saber?

Julguei que ela estava aqui junto de mim, ensinando-me. Julguei que eu era uma contadora de histórias.

Dá-a-Volta desatou a rir, mas Olhos-de-Erva endireitou-se e, com um gesto de cabeça, voltou para a cama. Folha Malhada e Leva-Peixe fizeram o mesmo.

Nessa mesma noite, mais tarde, Olhos-de-Erva, Leva-Peixe e Folha Malhada tiveram todas o mesmo sonho. De manhã, depois de Dá-a-Volta pensar nisso, lembrou-se que também sonhara.

Quatro esposas-irmãs com o mesmo sonho na mesma noite. Quem podia negar o que havia de sagrado naquilo? Não havia dúvida de que Aqamdax devia ir para junto de Qung. Tinha de ir viver para o ulax de Qung para aprender as histórias antigas dos Primeiros Homens.

Num dia de neve e de ventos de tempestade, mandaram o marido falar com Qung.

 

ALDEIA DE RIO PRÓXIMO

Ao anoitecer, a luz dourada das lareiras via-se através das paredes das cabanas e o céu ostentava o tom azul-escuro que era próprio do crepúsculo. Chakliux tinha apanhado duas lebres nas suas armadilhas. Levou-as para a cabana de Folha Vermelha e deixou-as do lado de dentro da porta. Folha Vermelha se encarregaria de as esfolar e de juntar a carne e os ossos ao guisado que fervia na panela.

A cabana estava vazia. Era natural que Sok tivesse ido a qualquer lado, mas onde estavam Folha Vermelha e os filhos, Leva-Muito e Chora-Alto?

Chakliux despiu a parka e as perneiras e descalçou as botas. Sacudiu a neve da pele antes que ela derretesse com o calor da cabana e depois vestiu uma camisa de pele de caribu macia. Quase todos os homens da aldeia de Rio Próximo usavam aquelas camisas quando estavam nas cabanas. Os caçadores da aldeia de Chakliux não as usavam e preferiam as parkas interiores nos dias mais frios, ou então apenas as tangas. Chakliux ainda não se habituara completamente à camisa, mas Folha Vermelha tivera a amabilidade de lhe fazer uma, e por isso ele usava-a.

Um grito agudo, um grito fúnebre, atravessou as paredes da cabana. Foi o rapaz, pensou Chakliux, suspirando. Ainda sentia o peso da criança nos seus braços quando a levara para a cabana do xamã. Pelo menos a sua morte seria chorada. O velho Rosto-de-Verão aceitara-o como filho, e por isso o rapaz tinha pai, irmãs, tias e tios. Quanto a Daes, só se fariam os preparativos necessários. Ela não tinha ninguém, exceto um marido velho que não tardaria a juntar-se a ela na morte. No ano seguinte, quando as ossadas dela fossem retiradas das armações fúnebres, quando fossem atadas e enterradas, quem se lembraria dela?

Chakliux pegou a tigela e, servindo-se de uma concha feita de uma omoplata de caribu, encheu-a de guisado quente. Um ruído no túnel de entrada obrigou-o a virar a cabeça Sok entrou e por instantes não disse nada.

O rapaz? perguntou Chakliux. Ouvi os choros fúnebres.

Mas quando o homem se aproximou do clarão da lareira, Chakliux viu que ele cortara o cabelo em madeixas toscas por cima das orelhas e que tinha a cara coberta de cinza

Quem foi? perguntou Chakliux. As palavras arranharam-lhe a garganta como uma lâmina.

O nosso avô respondeu Sok em voz baixa.

O nosso avô? repetiu Chakliux, como se a sua dúvida alterasse o que Sok dissera.

Com a mesma faca.

O som da voz de Sok entrou nos ouvidos de Chakliux e a luz e os odores da cabana ribombaram de súbito na sua cabeça. Sentiu um tal peso no peito que lhe custava a respirar, como se tivesse feito uma longa corrida.

Por quê? perguntou por fim Chakliux. Quem queria vê-lo morto? Quem queria matar a mulher e o rapaz?

O rapaz ainda está vivo disse Sok, mas a princípio Chakliux ouviu-o sem compreender e com uma inércia que não lhe deu alegria nem alívio.

Chakliux deu a sua tigela de comida a Sok.

Come disse ele. Eu não consigo. Sok pegou a tigela.

Alguém sabe quem foi? perguntou Chakliux.

Uns dizem que foi o comerciante, outros dizem que foi alguém de outra aldeia.

Sok não se referiu à aldeia de Rio Primo, mas Chakliux viu a acusação nos seus olhos.

Da aldeia de Rio Primo? perguntou ele.

Sok baixou os olhos sobre a tigela e respondeu com a boca cheia:

É o que alguns dizem.

Porque alguém da aldeia de Rio Primo mataria o nosso avô, ou a mulher? O que teriam a ganhar?

Honra, respondeu Sok e, ao levantar a cabeça, os olhares de ambos cruzaram-se. Honra de guerreiros.

Para começar a luta, queres dizer disse Chakliux.

Sim.

Então porque não deixaram um sinal, um amuleto ou uma faca, para mostrar quem o fez?

Sok encolheu os ombros.

Os jovens dizem que ficou alguma coisa, mas que tu a escondeste.

Estúpidos! exclamou Chakliux. Eu só encontrei o rapaz. E quem é que encontrou o nosso avô? Foi Mirtilo? Ela disse que não ficara nada para se saber quem fora?

Não foi Mirtilo disse Sok, com um ar triste. Chakliux disse baixinho:

Foste tu que o encontraste porque levavas o peixe para os cães.

Fui eu que o encontrei afirmou Sok.

Havia alguma coisa que indicasse quem o matou? Sok abanou a cabeça.

Nada. Nada.

Os velhos e os caçadores sabem isso?

Sabem, mas dizem que eu escondi qualquer coisa. Fez uma pausa e depois acrescentou: Para te proteger, irmãozinho.

Como é que os homens daquela aldeia podiam ser tão estúpidos?, pensou Chakliux. Agora, por sua causa, o lugar de honra de Sok, o respeito que os mais velhos e os outros caçadores lhe tinham, estava ameaçado.

Desculpa, irmão disse ele a Sok. Farei o que puder para lhes mostrar...

O que podes fazer? perguntou Sok, com palavras ásperas, eivadas de raiva. E se tivesses encontrado alguma coisa? Nos dirias? Dizes que vieste para trazer a paz. Se alguns homens da tua aldeia matassem alguém daqui... apenas um velho e uma mulher... as suas mortes justificariam a perda de caçadores? Justifica-se a perda de crianças e de velhos num Inverno de fome porque não há caçadores suficientes que tragam carne?

As palavras de Sok dilaceraram o coração de Chakliux. Se fossem caçadores de Rio Primo, ele os teria protegido? Talvez, se isso salvasse vidas... Mas se tinham matado uma vez, porque não voltariam a matar?

O comerciante. O que lhe fizeram? perguntou Chakliux.

Deixaram-no partir.

Chegaram à conclusão de que não foi ele?

Quase todos pensam que ele não mataria o próprio filho. Daes, talvez. Ela era uma mulher muito lamurienta Pelo menos é o que diz Água Castanha, e Folha Vermelha também. Mas mesmo por isso, porque um homem que era comerciante... e que não tinha de viver com ela, a mataria? Porque não a deixaria? Há outras mulheres em outras aldeias.

Sok continuou a falar, mas Chakliux não conseguia concentrar-se nas palavras do irmão. Pensou no avô, nas gargalhadas que tinham partilhado, nas anedotas e nos enigmas. Porque alguém quereria matar Tsaani? Era um velho, forte na sabedoria, generoso nas dádivas e ainda capaz de alimentar o Povo com o que caçava.

Seria possível que Chakliux tivesse trazido uma maldição ao avô? E se Neve-no-Cabelo tivesse razão? E se o seu pé torto fosse sinal não do seu parentesco com as lontras mas de azar?

Ele teve uma vida boa, uma vida longa, com muita felicidade observou Sok, e as palavras distraíram Chakliux dos seus pensamentos. Duas boas esposas, uma que envelheceu com ele e outra que lhe devolveu a juventude. Filhos robustos, segundo dizem, apesar de terem morrido novos, e a nossa mãe... a filha dele, uma boa mulher. Dois netos. Ele estava contente contigo. Falou-me muitas vezes nisso.

Chakliux esfregou a testa com a mão.

Julgas que foi alguém desta aldeia? Julgas que havia aqui alguém que fosse capaz de tal coisa?

Durante muito tempo, Sok não disse nada. Por fim respondeu:

Passei o dia inteiro perguntando o mesmo a mim. Outros passaram o dia inteiro a fazer a mesma pergunta. A minha resposta é não. Não creio que haja alguém nesta aldeia que fizesse tal coisa.

Achas que foi o comerciante? Sok ergueu as mãos.

Quem sabe? Ninguém viu o que aconteceu.

O rapaz viu, disse Chakliux.

Sok inclinou a cabeça e pareceu ficar pensando.

Talvez, mas ele é uma criança. Chakliux fez um sinal afirmativo.

Alguém diz que fui eu? perguntou ele.

Não, irmãozinho respondeu Sok. Mas se eu ouvir dizer alguma coisa, aviso-te.

Devíamos ir ver a nossa mãe.

Sim disse Sok, suspirando. Folha Vermelha está lá, e os meus filhos. A nossa mãe não é fácil de consolar. Teve muitos desgostos na vida.

Chakliux vestiu as perneiras e a parka e calçou as botas. Depois, saiu da cabana na companhia do irmão. Lembrou-se da última vez que vira o avô. Desde que chegara à aldeia de Rio Próximo que ensinava enigmas ao velho uma tradição da sua aldeia, mas não daquela.

Olhem! O que vejo eu? Torna-se castanho quando antes era branco, dissera Chakliux a Tsaani.

Tsaani rira-se e dissera:

É um enigma para crianças, esse. Quando o Verão se aproxima, as penas da ptármiga deixam de ser brancas e passam a ser castanhas.

Fora o primeiro enigma a que o velho respondera sem os palpites nem as explicações de Chakliux, que sentira um estranho orgulho, como se o avô fosse a criança e ele o professor.

Começara a nevar, grandes flocos que se colavam ao caminho lamacento. Caíam nas pestanas de Chakliux e derretiam-se nas suas pálpebras.

Um enigma para ti, avô, pensou Chakliux quando se dirigia para a cabana da mãe, atrás de Sok. Olhem! O que vejo eu? Sangra mas ninguém vê a ferida. Depois, Chakliux deu a resposta em voz alta:

O coração do teu neto.

Yaa observava Água Castanha quando esta cumprimentava outra mulher e aceitava um cesto de pescada-preta fresca e um sael de vacínios secos. Yaa adorava vacínios secos, mas reparou na pressa com que Água Castanha escondeu o sael e percebeu que ela não queria que Yaa os visse. Virou a cabeça e fingiu que não sabia o que Água Castanha fizera. Descobrira que era mais fácil fingir que era estúpida, como Água Castanha julgava que ela era.

Mas Yaa iria contar à mãe, e ambas provariam alguns dos preciosos frutos, embora poucos, para que Água Castanha não desse pela falta deles. A mãe de Yaa também daria alguns ao marido, uma boa parte e como podia Água Castanha queixar-se disso?

Yaa olhou para o local onde se encontrava o pai. O velho parecia estar dormindo, mas Yaa estava convencida do contrário. Tinha os olhos fechados, mas só para não ver a cabana sem a mulher e o filho predileto.

Pelo menos, talvez Ghaden voltasse, pensou Yaa. Quando ela fora espreitá-lo pela última vez, ele não lhe parecera melhor nem pior. Até Ligige’, com a face mascarrada de cinza em sinal de luto pelo irmão, se mostrara aliviada ao pôr a mão na testa de Ghaden e ao ver a ferida no ombro.

Tivera vontade de perguntar: Porque estás admirada? Eu já tenho idade para tratar do meu irmão.

Mas preferira não ser indelicada e por isso mantivera-se cabisbaixa em sinal de respeito enquanto o xamã e Ligige’ falavam do rapaz.

Yaa aproximou-se do pai, sentou-se a seu lado e acariciou-lhe a cabeça. Ela sabia que ele gostava que lhe acariciassem o cabelo, que lhe coçassem o couro cabeludo. Daes sempre lhe fizera isso. O homem entreabriu os olhos por instantes e olhou para Yaa. Fez menção de sorrir, mas parecia estar cansado demais. Fechou os olhos e Yaa acariciou-lhe os longos cabelos brancos com as duas mãos. Ele suspirou e Yaa não percebeu se o suspiro era um sinal de preocupação, de tristeza ou de contentamento, mas viu-o esboçar de novo um sorriso, e uma parte do peso que tinha no coração desapareceu.

Ele está velho demais para estes problemas, pensou Yaa. Tem os ossos muito fracos. Se o coração lhe doesse tanto como o dela, talvez até as costelas se partissem. Debaixo do cobertor, pareciam finas como paus.

Yaa! gritou Água Castanha, assustando de tal maneira a menina que ela se agarrou aos cabelos do pai, empurrando-lhe a cabeça. És uma inútil. Olha à tua volta. Preciso de lenha. Vai buscar alguma e põe aqui dentro. Bem sabes que a neve se derrete todos os dias e que a lenha tem de ficar aqui dentro secando.

Yaa sabia que havia lenha suficiente lenha seca mas não valia a pena discutir. Olhou para o pai e leu na sua boca a palavra ”Vai”.

Acariciou os cabelos do pai mais uma vez e depois levantou-se. Tinha apenas sete Verões, e portanto na cabana usava apenas um avental curto para limpar as mãos e enfiar entre as pernas quando se sentava em peles de caribu ásperas. Água Castanha usava peles felpudas no chão, que largavam pelo na comida e na cama.

Yaa decidira que, quando tivesse a sua própria cabana, rasparia as peles todas, apesar de isso implicar mais trabalho. O seu marido nunca teria pelos de caribu na comida.

És preguiçosa, ralhou Água Castanha. Mais valia que aquela faca tivesse atingido a ti e não o teu irmão. Pelo menos um dia ele seria caçador.

Yaa estava habituada aos insultos de Água Castanha, sobretudo quando a mãe não se encontrava na cabana, mas aquelas palavras como que lhe ficaram enroladas na garganta. Afastou as lágrimas, mantendo a cabeça virada para Água Castanha não ver. Depois, sentiu os dedos rijos e secos do pai no seu rosto.

Boa filha disse ele.

Yaa deu-lhe uma palmadinha na mão e ficou admirada ao ver que ele estava chorando. Depois percebeu. O pai tirara-lhe as lágrimas do rosto e pusera-as nos seus próprios olhos para que Yaa pudesse enfrentar os insultos de Água Castanha sem o embaraço do choro.

Yaa levantou a cabeça. Fitou Água Castanha com os olhos secos como pedras. Sem deixar de encarar a mulher, vestiu a parka e as perneiras e calçou as botas de pele. Água Castanha tentou virar a cabeça, mas Yaa usou o poder do seu olhar para atrair a atenção da mulher. Por fim, Água Castanha começou a guinchar. Atirou uma tampa em Yaa, mas a menina foi mais rápida. Escapou para o túnel e saiu da cabana.

Não gostava de sair quando estava escuro, mas nessa noite sentia-se satisfeita por se afastar de Água Castanha. Passou na ponta dos pés pelo local em que Daes morrera. O cadáver estava dentro da cabana, mas era mais provável que o espírito dela estivesse ali, onde fora assassinada.

Durante algum tempo, Yaa ficou olhando para a mancha escura junto da entrada da cabana onde Ghaden e Daes tinham caído, misturando a neve com o próprio sangue.

Yaa quase falou em voz alta. Quase pediu a Daes que deixasse Ghaden ficar com eles naquela aldeia, mas teve medo do espírito da mulher, da sua raiva por ter morrido.

Por isso, não disse nada e correu para o caminho que ia dar ao centro da aldeia. Mais tarde levaria a lenha a Água Castanha, tirando-a de baixo da neve que cobria os ramos que ela, a mãe e Daes tinham empilhado à volta da cabana no início do Inverno.

Agora iria às lareiras. Já não era um bebê, já não era uma criança a quem as velhas avós dessem estalos com a língua e escolhessem um pedaço de carne tenra. O mais provável é que erguessem uma concha, que a ameaçassem com histórias daqueles seres de cauda, os cet’aeni, que levavam as crianças com eles para as suas casas nas árvores. Mas ela tinha muito jeito para arranjar comida, e nesse dia talvez as avós lhe dessem alguma coisa, sobretudo por o irmão estar tão doente. Talvez não lhe doesse tanto o peito se tivesse a barriga cheia.

O meu pai, chorava a mãe de Chakliux. Quem matou o meu pai?

A primeira vez que ela fizera a pergunta, Chakliux tentara dar uma resposta, consolá-la, mas naquele momento, depois de lhe ouvir aquelas palavras cinco mãos-cheias de vezes, deixou-se ficar sentado, de olhos em alvo, deixando que o seu espírito vagueasse para além das paredes de pele de caribu.

Reuniu mentalmente os seus pertences, as suas peles e até as poucas coisas que deixara na sua própria aldeia. Dava tudo aos Caçadores de Morsas em troca de um iqyax. Quanto é que os Caçadores de Morsas quereriam por um iqyax! Mais do que um homem daria por uma mulher, com certeza.

Não sabia há quanto tempo estava ali sentado quando começou a sentir o calor dos olhares fixos nele. A princípio olhou para Sok e viu que o irmão o fitava, com um ar de censura e com os olhos entreabertos. Sok cerrou os punhos.

Tenho que matar quem fez isto proferiu Sok, cujas palavras caíram entre ambos como pedras aguçadas.

Quando souberes quem foi, te ajudarei respondeu Chakliux, reparando que também cerrara os punhos.

Ele era um bom pai, um bom avô disse Raposa-Que-Ladra. Eram as primeiras palavras que dirigia a qualquer dos enteados desde que estes tinham entrado na cabana. Apontou para a mãe deles. Ele era um bom pai para ela.

Sok empurrou a palma da outra mão com o punho cerrado, fazendo estalar os nós dos dedos. Ouviu-se raspar à porta e entraram várias mulheres. Traziam uma panela. Folha Vermelha levantou-se para as ajudar a pendurá-la nos postes. Por instantes, elas ficaram olhando para Mulher Diurna e depois saíram, sem lhe dirigir palavras de esperança ou de conforto.

Folha Vermelha foi buscar três tigelas. Deu a primeira a Raposa-Que-Ladra, outra a Sok e outra a Chakliux. Chakliux abanou a cabeça, mas o padrasto disse:

Comam.

Vocês os dois. Tenho que dizer uma coisa. Uma coisa que o vosso avô me contou na véspera de ser assassinado.

Esperou que eles comessem, sem tocar na sua tigela, observando-os como se fosse uma velha à espera de lhes voltar a encher as tigelas. Chakliux foi o primeiro a acabar. Pousou a tigela no chão. Raposa-Que-Ladra olhou para Sok e depois virou-se de frente para Chakliux.

O vosso avô pediu-me que vos dissesse isto... começou Raposa-Que-Ladra. Lambeu os lábios como que para atrair à boca as palavras de que precisava. Foi ele que resolveu... Calou-se, inclinou a cabeça e rolou-a de ombro a ombro. Depois olhou de novo para Chakliux e prosseguiu: Sabes, quando nasceste, não foi a tua mãe que te abandonou. A velha Ligige’ foi ter com o teu avô e perguntou-lhe o que havia de fazer.

Chakliux ficou admirado com as palavras de Raposa-Que-Ladra. Com o avô morto, um padrasto ou um tio materno seriam os únicos a tomar decisões em relação à sua vida. Não havia nenhum tio. De repente, teve uma sensação estranha no peito, como se os ossos roçassem uns nos outros, como se se apertassem e desgastassem.

O teu avô disse que tomou a decisão errada. É por isso que foste encontrado pela jovem de Rio Primo. É por isso que eles resolveram criar-te como filho, como dzuuggi. Ele disse-me que um dia faria qualquer coisa para melhorar a tua vida.

Chakliux olhou para Sok. O irmão tinha as bochechas cheias de comida mas não mastigava.

Ele deu-me o que eu precisava afirmou Chakliux tranqüilamente. No pouco tempo que passei nesta aldeia, aprendi muito. Tudo graças à sabedoria do meu avô e aos dotes de caça do meu irmão.

Raposa-Que-Ladra levantou as mãos, como que para mostrar que não guardava ressentimentos em relação a Chakliux. Depois, olhando para Sok, declarou:

Sok, és tu que deves receber as armas do teu avô. As suas lanças e dardos, o seu lançador, os seus anzóis, redes de pesca e pau de arremesso, tudo o que a sua mulher não ponha junto dele na armação fúnebre. Tudo isso é teu. A cabana, a comida que está na despensa, os cestos e tigelas, a cama e as peles, tudo isso pertence à mulher dele.

Evidentemente, pensou Chakliux. Até era estranho que Raposa-Que-Ladra se referisse a essas coisas. Todos sabiam que a mulher era a dona da cabana, de todos os utensílios de cozinha, da cama e dos cestos. Era o mesmo na sua aldeia, mas talvez Raposa-Que-Ladra desconhecesse os hábitos da aldeia de Chakliux e tivesse dado aquela explicação para ele compreender.

Tu, o filho mais novo da minha mulher, terás aquilo de que precisas para reclamar um lugar nesta aldeia. O teu avô quer que a mulher dele, Mirtilo, passe para ti disse Raposa-Que-Ladra a Chakliux.

Estas palavras provocaram um golpe duro e frio no peito de Chakliux. Mirtilo seria sua mulher? Era uma boa mulher, fora uma boa esposa para Tsaani, mas era jovem. Seria livre de escolher qualquer homem da aldeia. Não havia de querer Chakliux.

Ela disse que seria minha mulher? perguntou Chakliux.

Ela concordou. Raposa-Que-Ladra pigarreou e depois prosseguiu: Esta não foi a maior honra que Tsaani te concedeu.

Chakliux reparou que Sok engolira toda a comida que tinha na boca, pousara a tigela e se inclinara para a frente.

Ficarás com os cães dele. Ele pensa que tu serás um grande caçador. Crê que farás com que os ursos continuem a vir para esta aldeia.

Ouviu-se um ruído vindo da garganta de Sok, como se ele estivesse a sufocar. Quando conseguiu falar, indagou:

O nosso avô deu os cães a Chakliux?

Sim respondeu Raposa-Que-Ladra, mas as suas mãos mexeram-se numa dança rápida e nervosa.

Chakliux olhou para o irmão e depois para o padrasto. Os dois homens olhavam fixamente um para o outro.

Se Sok quiser os cães, pode ficar com eles, pensou Chakliux. E também com Mirtilo. Uma esposa? Cães? Não preciso deles. Se não for bem-vindo aqui, voltarei para a minha aldeia e verei o que os homens de lá pensam. Se me considerarem amaldiçoado, deixarei o Povo e irei viver com os Caçadores Marinhos. Como posso eu fazer isso se tiver uma esposa e cães?

Olhou para Sok. O rosto do irmão estava negro de cólera e a crispação da boca denunciava o seu sofrimento.

Durante todos estes anos, fui eu que tratei dos cães. Durante todos estes anos, ele ensinou-me.

São teus disse Chakliux a Sok. Os cães são teus. Não os quero. Nem quero uma esposa.

Chakliux olhou para o padrasto. A boca do homem estava aberta como se quisesse engolir as palavras de Chakliux.

Arranja outra pessoa para Mirtilo. Diz-lhe que está livre. Sok, és um bom caçador. Podes sustentar uma segunda esposa. Mirtilo já tem a sua própria cabana. Talvez nem precises de dote para a reclamar.

Sok e Raposa-Que-Ladra olharam para Chakliux como se ele fosse uma criança tola.

Tu não podes recusar aquilo que o teu avô te deu por sua morte salientou Raposa-Que-Ladra.

Alguns dizem que tu estás amaldiçoado insistiu Sok, com uma voz áspera como pedra. Se recusares Mirtilo e os cães, serás amaldiçoado. Não podes envergonhar o nosso avô dessa maneira.

Porém ao falar, Sok fazia grandes gestos no ar, como se quisesse expulsar Chakliux da cabana da mãe.

Mirtilo deve fazer luto durante uma lua afirmou Raposa-Que-Ladra. Depois, irás ter com ela. Se ela te desagradar, podes mandá-la embora. Se tu lhe desagradares, ela pode mandar-te embora, mas tu não podes recusá-la. Nem recusar os cães.

E os filhotes? Posso ceder os filhotes? perguntou Chakliux olhando para Raposa-Que-Ladra.

Todos eles já estão prometidos respondeu Sok. Um vai para Dorminhoco, outro para Raposa-Que-Ladra, dois são para Pato-de-Cabeça-Azul e um é para mim.

Ficarás com esse e com os outros. De todas as ninhadas prometeu Chakliux. Não quero o cargo de chefe dos caçadores do nosso avô. Deves ser tu o chefe dos caçadores. Tu é que tens as suas armas.

E tu tens os seus cães contrapôs Sok, e abriu as mãos como se fosse fazer uma pergunta. Veremos qual de nós é que os espíritos escolhem.

Pode não ser nenhum de vocês proferiu Raposa-Que-Ladra em voz baixa, mas riu-se quando Sok e Chakliux olharam para ele. Quem sabe o que os espíritos farão? O que mais podemos pedir senão que a aldeia tenha carne? Agora que o vosso avô morreu, temos de pensar primeiro na nossa barriga.

Yaa desatou a correr ao chegar à cabana de Ligige’. Era preferível não se aproximar muito. O espírito do velho podia estar à espreita, tentando encontrar alguém que o acompanhasse ao mundo dos mortos. Anoitecia e era então que os espíritos se descuidavam, atraídos pelos belos odores que vinham das chaminés e das lareiras.

Já mais à frente, Yaa olhou para trás por cima do ombro, para se certificar de que nenhum espírito a seguia. De repente, empurraram-na, com força.

Estúpida! Onde tens os olhos? gritou alguém. Yaa nem precisou de levantar a cabeça. Conhecia aquela voz. Era Dança-no-Gelo, um rapaz um pouco mais velho do que ela e com o dobro do seu tamanho. O rapaz debruçou-se sobre ela, que ficara sentada no chão. Yaa não disse nada. Ia distraída, mas ele também ia. Se ele a tivesse visto, a teria evitado. Ela era pequena; não ocupava o caminho todo.

Então aonde vais?

Yaa não respondeu. Levantou-se e sacudiu a neve das nádegas.

Dança-no-Gelo era mau. Obrigava outras crianças a fazer coisas perigosas com ameaças e desafios, e depois, quando alguém se aleijava, ia fazer queixa às velhas.

Não era bom corredor nem lançador. Não era hábil com a lança nem tinha jeito para pescar, mas sabia usar o medo. Era o que ele fazia melhor.

Não falas comigo? perguntou ele.

Yaa tentou contorná-lo, mas ele bloqueou-lhe o caminho.

Julgas que podes safar-te?

Me deixa em paz disse Yaa. A minha mãe pediu-me para ir buscar uma coisa.

O quê?

Uma coisa de que precisamos para o luto.

Yaa empurrou-o, mas ele agarrou-a pela manga e puxou-a para trás.

Não me toques. Posso ter alguma maldição disse ela.

Dança-no-Gelo deu uma gargalhada.

Não me importo que apanhes a minha maldição disse Yaa.

Dança-no-Gelo largou-a, mas aproximou o rosto do dela e disse.

Acho que tens razão. Tu tens uma maldição. Deves sair à Da... À morta, por ter morrido assim.

Yaa sorriu.

Por pouco não disseste o nome dela. Por pouco não te amaldiçoaste.

Dança-no-Gelo empurrou-a com força, com as duas mãos, mas Yaa estava preparada e conseguiu equilibrar-se.

Estavas na cabana quando ela morreu? perguntou Dança-no-Gelo.

Ela morreu lá fora respondeu Yaa.

Ouviste alguma coisa? Dança-no-Gelo não lhe deu tempo para responder e acrescentou em voz baixa: Acho que foi a tua mãe que fez aquilo. Foi ela, a esposa feia. Foi ela que a matou.

As palavras dele deixaram um nó na garganta de Yaa, que começou a sufocar. A mãe era uma mulher bondosa e terna. Nunca faria mal a ninguém. Furiosa, Yaa encarou Dança-no-Gelo e cerrou o punho.

Dança-no-Gelo fez um sorriso trocista e cuspiu-lhe na cara. Yaa bateu-lhe com toda a força que tinha. O murro acertou-lhe em cheio no nariz.

Dança-no-Gelo gritou e foi como se o seu grito tivesse feito jorrar o sangue, que lhe saiu das narinas e lhe chegou a boca e ao queixo.

A minha mãe é boa! gritou-lhe Yaa.

Deu meia volta e desatou a correr, sem olhar para trás, até chegar às lareiras. O seu coração batia tanto que ela o sentia nos ouvidos, e doía-lhe o pulso, mas estava radiante com o que fizera.

Encontrou um lugar no grupo de crianças que aguardavam comida. Cinco lareiras formavam um grande círculo no centro da aldeia. Junto de cada uma, viam-se grandes panelas de pele de caribu penduradas em tripés e espetos feitos de madeira verde enfiados no solo. Lebres e ptármigas, a pingar gordura, assavam em cada espeto.

Várias avós davam pedaços de comida às crianças mais pequenas, mas as mais crescidas eram ignoradas. As mulheres estavam atarefadas demais cozinhando para as famílias enlutadas.

Yaa pensou na carne que as mulheres já tinham levado para a cabana de Água Castanha, mas sabia que pouco receberia.

Subitamente, um vulto escuro atirou-se às crianças. O primeiro pensamento de Yaa foi para Dança-no-Gelo, e depois para os espíritos, mas, quando as outras crianças à sua volta começaram a gritar, ela percebeu que se tratava apenas de um cão. Arrastava a corda quando se aproximou correndo das lareiras. As mulheres, de conchas em riste, correram atrás dele, tentando afastá-lo das cabanas e dos cães dos maridos.

O cão atirou-se a um macho corpulento que estava preso ali perto. Os dois animais engalfinharam-se, tentando alcançar o pescoço um do outro numa mistura de pêlo branco e preto.

A maioria das crianças foi atrás das mulheres, gritando e rindo, mas Yaa deixou-se ficar para trás. Por um momento, as lareiras permaneceram sem ninguém. Ela desatou a correr como uma seta e agarrou num espeto em que assava uma lebre gorda.

O espeto estava quente, mas Yaa segurou-o bem e desatou a correr. Atravessou as sombras da aldeia, com a lebre agarrada ao corpo e mudando o espeto de uma mão para a outra até ele esfriar.

Só abrandou quando se aproximou dos abetos-negros que assinalavam um trilho estreito feito pelos animais e escondido debaixo dos ramos de uma árvore. Meteu-se debaixo do abeto e, agachando-se, conseguiu chegar à toca que descobrira há vários anos. Pegou no pau que deixava sempre à entrada e enfiou-o lá dentro. A toca estava vazia.

A entrada era tão estreita que ela teve de se arrastar de barriga para baixo, mas, já lá dentro, sentou-se de pernas cruzadas, com os cabelos roçando no teto de rocha e nas raízes das árvores.

Respirou fundo e enterrou os dentes na carne quente. Engoliu-a. Tinha o estômago tão vazio que nem podia esperar para mastigar. Sentiu a carne escorregar e um calor confortável por baixo das costelas.

Quem me dera que Ghaden estivesse aqui comigo proferiu ela, no caso de Daes estar ouvindo-a. Há comida que chegue para dois. Podíamos fazer um banquete.

Ao pensar em Ghaden, sentiu um nó na garganta que não a deixou engolir. Pensou em Dança-no-Gelo, no murro reconfortante que lhe dera no nariz. Riu-se. Depois a garganta abriu-se e ela conseguiu comer.

 

Cen abriu caminho no mato cerrado que crescia na margem e depois agachou-se até o coração abrandar. Não fazia sentido esconder-se. Com a neve macia, as suas pegadas eram fáceis de seguir mas, quando descansava, sentia-se mais seguro longe do rio. Aspirou o aroma limpo dos salgueiros à sua volta. A casca amarelada estava ganhando o tom verde-acinzentado da Primavera e os rebentos das folhas tinham começado a inchar, apesar de a neve ainda não se ter derretido nos pequenos ramos do tamanho de um dedo da mão.

Com uma necessidade premente de dormir, fechou os olhos, mas pouco depois acordou sobressaltado. Tinha que se afastar da aldeia o mais que pudesse. Com a mão direita, agarrou uma pequena faca. Trazia ao ombro o que restava de uma lança. Se eles tentassem agarrá-lo, mataria pelo menos um.

Depois de o Povo Rio o deixar partir, Cen limpara as feridas, mas sabia que ainda cheirava a sangue. Os lobos são mais perigosos do que o Povo Rio, pensou. Qual a alcatéia que hesitaria em atacar um ferido? Cen trazia amuletos pendurados ao pescoço, o amuleto que o tio lhe dera ao nascer e outros que ele comprara em aldeias tão distantes como Rio Grande. Talvez eles fossem suficientes para afastar os animais.

Gostaria de ter um amuleto dos Primeiros Homens, do povo de Daes. Eles eram poderosos, aqueles Caçadores Marinhos.

O Povo Rio mantivera-o preso o dia inteiro e obrigara-o a esperar no centro da aldeia que os velhos decidissem se ele podia partir. Estúpidos! Ele nunca mataria Daes nem o seu próprio filho. Já era duro sair da aldeia sem saber se o rapaz vivia ou morria. Mas para quê arriscar-se a que os velhos mudassem de opinião ou que mais alguém fosse encontrado morto? Fora um deles que matara Daes e o velho.

Durante o dia em que esteve preso, ninguém lhe dera nada para comer. Sem comida, o frio enterrara-se em seus ossos, mas, aproveitando qualquer distração, Cen aproximara-se cada vez mais das lareiras. Não teve oportunidade de roubar comida, mas o calor aliviou-lhe as dores, e ele conseguiu inalar o vapor que saía das panelas. Os xamãs diziam que os próprios espíritos viviam do fumo que a gordura fervente libertava. Se os espíritos conseguiam, os homens também conseguiriam.

Finalmente, quando o soltaram, os rapazes pequenos e os cães foram correndo atrás dele até os limites da aldeia. Antes de se aproximar das árvores, caíra duas vezes e sentira os golpes provocados pelos paus dos rapazes nos braços e nas pernas. Fora mordido numa mão e num tornozelo, mas por fim eles tinham voltado, permitindo que Cen se aproximasse da sua cabana. Aí verificou que os seus fardos estavam espalhados, que a maior parte das suas mercadorias e armas fora levada e que o cabo da única lança que restava estava partido. Tinham-lhe deixado uma mão-cheia de carne seca que ele enfiou na boca ainda antes de se servir do seu arco para acender de novo a fogueira.

Haviam levado os cobertores e as roupas mais quentes, mas não tinham tocado nos seus pacotes sagrados nem nas peles de pica-pau. As suas melhores parkas haviam desaparecido, tanto a mais pesada de pele de lobo, como a mais leve de pele de esquilo. O capuz da parka de pele de esquilo era feito de pedacinhos de pele da cabeça, cada uma das quais tinha apenas o comprimento de um dedo mindinho.

Quem levara as parkas deixara-lhe uma velha parka de pele de carcaju. Estava desgastada pelo bolor e cairia do corpo se ele não se mexesse com cuidado, mas era quente.

Cen, derretera neve numa panela assente num tripé e bebera a água gelada. Em seguida, dirigira-se aos fundos da cabana, levantara uma velha esteira cheia de mofo que pusera deliberadamente naquele local. Derretera o solo gelado com fogo e passara a primeira noite acordado para manter as brasas acesas até que o solo amaciasse o suficiente para ele cavar. Fizera um buraco, enterrara um saco de carne e de bolos de fruta e uma pequena reserva de obsidiana num cesto de erva.

Cen voltou para junto da fogueira, debruçou-se sobre ela e comeu dois bolos. Tinha a sola dos pés latejando e sempre que respirava era como se lhe enfiassem uma faca no peito. O pulso esquerdo estava inchado e tinha quase a largura da mão. Cen cobriu o pulso e a cara de gelo, na esperança de reduzir o inchaço que quase o obrigava a fechar os olhos. As dores confundiam-lhe os pensamentos, mas Cen forçou-se a decidir o que faria a seguir.

Tinham-lhe levado quase toda a mercadoria, mas tendo em conta os seus ferimentos, ainda era muito o que havia para transportar.

Cen era forte e capaz de puxar cargas pesadas num trenó feito dos postes da sua cabana. Tinha feito grampos de madeira que lhe permitiam unir os postes para construir um trenó e revestira alguns de tiras de osso para fazer os patins. Naquele momento não poderia puxar um trenó. Já lhe era difícil andar. Era obrigado a deixar tudo, até a cabana, levando apenas comida e os seus amuletos.

Cen reunira tudo o que levaria e embrulhara a carga numa das esteiras que lhe tinham deixado. Prendeu o fardo com vários atilhos, enroscou-se junto da fogueira e deixou-se dormir. Porque não? Se eles viessem à sua procura, o que ele faria?

Acordara ao sentir o fogo apagando-se. Pôs uma brasa na concavidade de um nó de madeira, pendurou-o ao pescoço e depois atou o fardo às costas. Ainda era noite quando saiu da cabana, apesar de já se avistarem os primeiros raios de sol por cima das árvores.

Fazia pequenas paradas, comia, até dormiu uma vez e depois esforçava-se por continuar andando.

De vez em quando, aliviava os pés e abria caminho por entre a vegetação até chegar à margem do rio. Caminhou até a exaustão o impedir de pensar, até os pés pareceram coisas que não lhe pertenciam nem sentir as dores nos ossos do pulso. De repente, viu-se de joelhos, sem se lembrar como caíra.

Fez um esforço para se levantar e pensou em Daes. Fora uma boa mulher, demasiado boa para morrer na aldeia de Rio Próximo, onde não tinha ninguém que a chorasse.

A raiva deu-lhe forças. Os seus passos recuperaram a firmeza na neve. Se vingaria e desse modo Daes seria lamentada. Ela tinha uma filha. Falava dela muitas vezes. Cen julgava lembrar-se dela. Era uma moça com dez ou doze Verões, nesse tempo. Agora devia ser uma mulher e talvez já tivesse filhos.

Cen tinha que ir lhe dizer que a mãe morrera. Recordou a imagem dela. Era muito parecida com Daes. Sim, ele tinha que ir aos Primeiros Homens, tinha que lhes contar o que acontecera a Daes e a Ghaden. Talvez alguns dos caçadores estivessem dispostos a ajudá-lo a vingar a morte da mulher.

Um dia depois da cerimônia fúnebre, Chakliux foi falar com Mirtilo. Sem Tsaani, a cabana parecia vazia e gelada.

Mirtilo não olhou para ele. De cabeça baixa, fez-lhe sinal para que fosse para o outro lado da lareira, para o lugar em que Tsaani se sentava sempre, mas Chakliux não quis assumir uma honra que não lhe pertencia. Mirtilo levou-lhe uma tigela de carne quente e de caldo cheio de gordura derretida e temperado com folhas de azeda. Chakliux levou a tigela à boca e empurrou a carne com os dedos.

É bom. Muito bom, afirmou ele.

Então, ela olhou para ele e Chakliux viu que os olhos dela estavam inchados e vermelhos e que ela cortara o cabelo de tal modo que este formava tufos irregulares à volta das orelhas.

Doeu-lhe o peito ao ver o sofrimento da mulher.

Partilho o teu desgosto disse ele. Mirtilo franziu a testa.

Porquê? perguntou ela. A morte do teu avô deu-te uma esposa. Julgas que eu não ouço as gargalhadas das mulheres? Julgas que me sinto orgulhosa por receber aquilo que Neve-no-Cabelo não quis?

Chakliux não conseguiu responder. Vivia há pouco tempo na aldeia de Rio Próximo mas fora muitas vezes àquela cabana. Mirtilo sempre lhe parecera uma mulher silenciosa, incapaz de insultar fosse quem fosse.

É do desgosto, pensou Chakliux.

Não pretendo ser o que o teu marido era, mas sempre fui um caçador. Trarei alimento para a cabana. Tu e os teus filhos terão o suficiente para comer prometeu ele.

Esses filhos serão lontras ou gente? perguntou Mirtilo.

Subitamente enfurecido, Chakliux disse:

Ninguém te obriga a seres minha esposa.

Julgas que desagradarei ao meu marido, que o desonrarei recusando o que ele pede?

Como é que honras o teu defunto marido se tratas o neto dele com desprezo?

Ela semicerrou os olhos e abriu a boca para falar, mas nesse momento alguém raspou na aba da porta.

Entre! gritou Mirtilo, ainda com a raiva na voz. Sok entrou. Por instantes, ficou agachado ao fundo do túnel, olhando para ambos. Mirtilo virou as costas aos homens e foi para a zona das mulheres.

Sok fez um esgar como se ela não estivesse ali e disse a Chakliux:

Está frio aqui. O que aconteceu à mulher a quem pertence esta cabana? Não consegue manter uma lareira acesa?

Sok pegou alguns pedaços de lenha, acendeu o lume e depois fez sinal a Chakliux para que se sentasse a seu lado. Chakliux agachou-se.

Deixa-a chorar o marido disse ele em voz baixa.

Ela não quer ser esposa outra vez? perguntou Sok.

Não comigo.

Muitas vezes as jovens são estúpidas, comentou Sok, falando em voz alta e virando a cabeça para que Mirtilo ouvisse as suas palavras.

Há comida, disse Chakliux, apontando para a panela.

Sok pegou uma tigela e encheu-a. Depois agachou-se ao lado do irmão. Comeu durante pouco tempo e depois disse:

Isto não me parece certo sem o nosso avô.

Subitamente, Mirtilo virou-se, de olhar carregado e dentes cerrados. Com um gesto indelicado, apontou para Chakliux e disse-lhe num tom de desafio:

Chakliux, há uma coisa que tens de saber. Foi o teu avô que resolveu abandonar-te. Foi ele que te tirou da tua mãe e que te deixou entregue à tua sorte. Sabes isso?

Sei, respondeu Chakliux em voz baixa.

Ela levantou-se, boquiaberta. Em seguida, agarrou um cobertor de pele de lebre e embrulhou-se nele.

Na opinião dele, tu não devias viver observou ela. Ele queria que tu morresses. Porque ele me diria para eu ser tua esposa?

A mulher pronunciou as últimas palavras por cima do ombro e saiu da cabana.

Sok estendeu o braço e pousou a mão no ombro de Chakliux.

Não posso ser marido dela declarou Chakliux.

Serias capaz de desonrar o nosso avô recusando-a? perguntou Sok. Deixa-a em paz. Não entres nesta cabana senão para trazer carne. A seu tempo, ela reconhecerá que o nosso avô tinha razão.

Chakliux não disse nada. Naquele momento, mais do que nunca, desejava regressar à sua aldeia, ao seu povo. Ficaria onde não era desejado, amarrado a um lugar por cães e por uma mulher que o odiava?

Há outro assunto em que temos que pensar, disse Sok, e as suas palavras foram tão arrastadas e tristes que Chakliux susteve o fôlego enquanto aguardava o que o irmão tinha a dizer. Morreram mais cães.

De quem eram? perguntou Chakliux.

De Pato-de-Cabeça-Azul. Chakliux passou uma mão pela face.

Os velhos estão reunidos neste momento para resolver o que há a fazer. Pediram-me que fosse falar com eles ao meio-dia. Para saber o que eles têm a dizer.

Diz-lhes que eu partirei desta aldeia decidiu Chakliux. Estou farto. Ficarei muito satisfeito por voltar para junto do meu povo.

Chakliux não olhou para Sok, nem quis ver se havia mágoa no olhar do irmão.

Sok encontrava-se no meio dos velhos. Cada um era respeitado à sua maneira, por qualquer habilidade, pelo que sabia.

Foi Treina-Cães quem falou. Tinha mais cães do que qualquer outro homem da aldeia. Agora que Tsaani morrera. Treina-Cães era considerado o mais sabedor na matéria

Têm morrido muitos cães, muitos que não estavam doentes ou feridos, nem eram velhos. Os filhotes nascem mortos ou fracos demais para sobreviver. Nunca tivemos problemas destes até o teu irmão chegar. O xamã de Rio Primo disse-nos que Chakliux era um homem com poderes animais, uma dádiva dos animais. Mas nós, os desta aldeia, lembramo-nos do dia em que a tua mãe deu à luz, lembramo-nos do seu desgosto por ter de desistir de um filho, porque ele não seria capaz de andar nem de correr

Pensamos que ele deve sair da aldeia. Admitimos que ele seja a causa do nosso azar com os cães. Também dizem que foi alguém da aldeia dele, algum caçador que queria levar os nossos jovens a atacar, que matou o teu avô e a mulher dos Caçadores Marinhos.

O meu irmão sabe de tudo o que acabas de dizer respondeu Sok. Ele não quer levantar problemas aqui. Ele veio trabalhar pela compreensão, para que a sua aldeia e a nossa pudessem continuar a viver em paz.

Alguns de nós pensam que o teu irmão tem que sair da nossa aldeia, insistiu o velho que dizia chamar-se Pato-de-Cabeça-Azul. O homem tinha muitos filhos, todos vivos. Olhou para Treina-Cães, apesar de ele estar falando com Sok.

Mas alguns de nós consideram que ele tem poder. Uma criança que foi abandonada para morrer e que não morreu, tem algum favor dos espíritos. Uma criança que não conseguia andar, mas que cresceu e pode andar, ultrapassou de certo modo a sua maldição.

Mas os cães estão morrendo repetiu Treina-Cães. Julgas que esta aldeia sobreviverá se os nossos cães morrerem? E, se tivermos um Inverno de míngua, o que comeremos? Como iremos para o pesqueiro? Queres que sejam as nossas mulheres transportando tudo?

Bem sabes que eu quero que os nossos cães vivam disse Pato-de-Cabeça-Azul com um ar paciente. Mas porque desperdiçaríamos poder?

O meu irmão é diferente de todos nós afirmou Sok. As suas palavras eram cautelosas e lentas. Ele tem poderes que não compreendemos. Isso é motivo para o acusarmos do que aconteceu? Devíamos antes pensar como é que ele poderia ajudar-nos. Vocês sabem que muitas vezes tentamos que o povo de Rio Primo nos vendesse um dos seus cães, aqueles de olhos dourados que os antepassados deles compraram dos seguidores de caribus que vivem lá para o Norte. E se Chakliux conseguir um desses cães para nós? Talvez isso bastasse para anular a sua maldição.

Durante muito tempo, ninguém falou. Por fim, Treina-Cães proferiu:

Diz ao teu irmão que venha falar comigo. Lhe pedirei para ir visitar a aldeia de Rio Primo e para fazer bons negócios.

Raposa-Que-Ladra desviou o olhar do lume.

Esse plano parece-me um disparate observou ele, roncando. O que tem Chakliux para negociar? Ele não tem nada exceto os cães e a esposa do avô.

A minha neta não sairá daqui disse outro dos velhos, pai da mãe de Mirtilo.

Então Chakliux irá sozinho e todos nós lhe daremos coisas para negociar, para que cada um de nós tenha o seu quinhão de sorte disse Treina-Cães.

Era uma boa idéia, pensou Chakliux. Se ele fosse bem sucedido, voltaria dali a uma lua, e traria cães da sua aldeia para os homens de Rio Próximo. Os cães criados na sua aldeia eram maiores e mais fortes do que aqueles, embora não tão dados à luta. Os poucos que possuíam olhos dourados eram conhecidos por terem poderes especiais, mas os caçadores da sua aldeia não se separariam deles com facilidade.

Um homem conseguia quase tudo em troca de uma ninhada de cães de olhos dourados. Tudo exceto um iqyax como os dos Caçadores Marinhos, pensou Chakliux. Os comerciantes diziam que os Caçadores Marinhos não tinham cães. Porque teriam? Não eram como o Povo Caribu, que ia atrás das manadas quando estas se deslocavam, na Primavera e no Outono; não eram como esta aldeia de Rio Próximo, onde os cães serviam para caçar ursos. Eles não morriam de fome no Inverno nem comiam os seus cães Quem morreria de fome onde havia baleias para caçar?

Os velhos de Rio Próximo disseram-lhe que ficariam satisfeitos com um cão de olhos dourados. Macho ou fêmea, velho ou novo, desde que não fosse velho demais para acasalar. Agora que Chakliux estava na cabana de Sok, escolhia as mercadorias que lhe tinham dado, todas embaladas em cestos de pele de peixe, cujas costuras haviam sido reforçadas com debruns de pele de caribu e enfeitadas com penas verdes da cabeça de um merganso macho. Alguns cestos estavam cheios de peles de castores apanhados no começo do Inverno, quando o seu pelo era espesso e brilhante, outros levavam bolos de fruta, carne seca ou peixe defumado.

Pato-de-Cabeça-Azul enviara três belas parkas de pele de lobo debruadas de pele de carcaju; Sok oferecera perneiras de pele de caribu, contas de conchas e uma mão-cheia de lâminas estreitas de sílex que se podiam enfiar num cabo afiado de osso ou de marfim para fazer uma ponta de lança que provocaria um grande derramamento de sangue e uma morte rápida. Outros tinham levado redes de pesca de casca de salgueiro e cobertores de pele de lebre, lâminas de jade, óculos para a neve de chifre de caribu, raspadores, facas de mulher, armadilhas de pesca de osso e marfim e até um arco incendiário. O suficiente para comprar vários cães, Chakliux tinha a certeza disso.

Sok emprestara-lhe o trenó. Era grande e resistente, com a estrutura e os patins de madeira de bétula e a carcaça feita de raízes de salgueiro entrelaçadas. Os patins estavam revestidos de marfim de morsa que Sok comprara. Nos dias mais frios, quando a neve parecia areia, ou nas épocas mais quentes, quando se tornava pegajosa, um homem podia urinar nos patins. Quando a urina gelava, formava uma fina camada de gelo que deslizava facilmente em qualquer tipo de neve.

Chakliux atou tudo o que lhe fora oferecido ao trenó e depois juntou as botas, a parka, as perneiras e as lanças de que precisaria para a viagem. Também juntou um embrulho com as suas próprias coisas para negociar. Talvez conseguisse trazer um cão só para ele.

Topa-Nuvens, primo de K’os, tinha vários cães de olhos dourados. Talvez estivesse disposto a trocá-los, e essa seria uma maneira de Chakliux conseguir um iqyax, pelo menos se negociasse com os Caçadores de Morsas. Diziam que os iqyax deles não eram tão bons como aqueles que eram feitos pelos Caçadores Marinhos, mas, ao contrário destes, os Caçadores de Morsas tinham cães.

Estás pronto? perguntou Sok assim que ele entrou na cabana.

Estou. Tenciono partir de manhã.

Folha Vermelha está na lareira da comida. Ela e muitas das velhas prepararam um banquete. Todos comerão juntos. Anda, que haverá tambores e danças. O que vais fazer dá-nos motivos para festejar.

Chakliux foi atrás de Sok para as lareiras da comida. Ficaria lá durante algum tempo e depois iria ver Mulher Diurna antes de partir. E também Mirtilo. Nenhuma das visitas seria fácil.

Uma velha ofereceu a Chakliux uma tigela de comida, mas a maior parte das pessoas manteve-se à distância, observando-o pelo canto do olho. Chakliux pegou na tigela e depois foi se juntar a Sok.

Este encontrava-se no meio de um grupo de homens, contando histórias de caça. Calou-se ao ver Chakliux e fez-lhe sinal para que fosse ao seu encontro. Depois, começou a gabar-se das habilidades do irmão.

Por delicadeza, Chakliux ficou ouvindo-o, mas descobriu que não conseguia olhar para os que estavam à sua volta enquanto Sok falava. Não estava habituado a ouvir falar das suas caçadas. Mas era bom ser conhecido como caçador. Era hábil no manejo da lança; praticara muito em criança, convencido de que um braço forte compensaria uma perna fraca.

Por fim, Sok terminou. Os homens olharam para Chakliux e ele percebeu que estavam à espera que ele contasse uma história acerca de Sok.

Fora várias vezes à caça com o irmão, e Sok saíra-se bem, mostrara coragem, apesar de ser duro com os cães. Chakliux sabia falar dessas caçadas mas, ao contar tais histórias, havia muitas formas de um homem ser apanhado em desrespeito. Cada aldeia possuía a sua maneira própria de elogiar.

Era melhor falar com sinceridade, pensou Chakliux, do que arriscar-se a amaldiçoar o irmão.

Alguém sabe que o irmão é um caçador respeitado... começou ele, sorrindo para Sok.

Sok devolveu-lhe o sorriso e vários homens teceram elogios ruidosos.

Um dia continuou Chakliux, alguém o honrará com histórias que ficarão na língua dos homens durante um Inverno de noites, mas, quando um homem ainda não conhece todos os costumes de uma aldeia, é muito fácil amaldiçoar quando está elogiando.

Chakliux encarou os homens, enfrentou o seu olhar e viu-os erguer a sobrancelha em sinal de concordância.

Na aldeia de Rio Primo há uma tradição iniciada pelos contadores de histórias, afirmou Chakliux. São os enigmas. Eu digo-vos o que vejo e cada um tem de procurar adivinhar em pensamento de que falo eu. Até os avós ensinam os netos através de enigmas. Por isso, escutem, e tentem adivinhar do que eu estou falando.

Chakliux olhou para o círculo de homens. Tinham-se aproximado mais, aos dois e aos três, com ele e Sok no meio. Quase todos traziam tigelas de comida na mão e vestiam parkas, mas alguns vinham embrulhados em cobertores de pele, como se fossem apenas buscar comida e regressassem depois ao calor das suas cabanas. Chakliux olhou para o rosto de todos, não para mostrar desrespeito mas para que soubessem que ele se sentia igual a eles, um caçador na presença de caçadores.

Olhem! O que vejo eu? disse ele, começando à maneira tradicional da sua aldeia. Vai longe, cantando, e Sok é o primeiro a encher-lhe a boca de carne.

Chakliux ficou à espera. Na sua aldeia, havia homens que sabiam desvendar um enigma e a resposta seria rápida. Qual o caçador que nunca ouvira a voz da sua lança depois de ela deixar o lançador?

Vários homens começaram a falar em voz baixa e quase raiando a irritação, de tal modo que Chakliux perguntou a si próprio se, ao evitar uma maldição, não teria caído noutra.

Há um segredo para cada enigma explicou Chakliux, tentando ultrapassar o mal-estar dos caçadores de Rio Próximo. Vou dizer-vos este e vocês serão dos poucos homens que sabem.

Então, da mesma maneira que Chakliux ouvira os avós falarem com os netos por enigmas, explicou a sua adivinha aos homens de Rio Próximo.

Todos os homens conhecem a voz da sua lança quando ela sai das suas mãos.

Vários homens riram-se, com o riso ruidoso da compreensão súbita.

E quem come primeiro? perguntou Pato-de-Cabeça-Azul. Ainda antes do caçador.

A sua lança! gritaram vários homens.

Então a resposta é a lança de Sok disse Narceja. Um por um, os caçadores começaram a rir, um riso que indicava que os seus corações estavam satisfeitos com o que tinham aprendido. Então Chakliux esgueirou-se e segredou a Sok que ia visitar a mãe e Mirtilo.

Leva comida disse-lhe Sok.

Chakliux dirigiu-se a uma das mulheres mais velhas, aquela que parecia dizer às outras o que tinham a fazer. Pediu-lhe comida, qualquer coisa para levar à mãe e algo mais para Mirtilo. A mulher encheu dois pequenos sacos de pele de caribu de carne e caldo e deixou cair uma pedra quente em cada um. As pedras assobiaram e estalaram ao enterrarem-se na carne.

Chakliux levava os sacos à sua frente. Quando chegou à cabana da mãe, raspou e gritou e depois agachou-se para entrar no túnel.

A mãe estava sentada às escuras, apenas com umas brasas na lareira e a cara negra de fuligem de outros fogos.

Virou a cabeça quando ele pendurou os sacos de pele de caribu num poste. Chakliux tirou uma tigela de carne e deu-a a ela.

Come disse ele. Até durante o luto uma pessoa tem que comer.

A mãe pegou na tigela mas não a levou à boca.

Não é o luto que afasta a comida da minha boca. É o medo. Por ti, disse ela levantando a cabeça.

Ele agachou-se junto dela, meteu dois dedos na tigela e tirou um pedaço de carne. Meteu-a na boca. Ela começou a comer devagar.

Bem sabes que eu vou apenas à aldeia de Rio Primo, explicou ele. Nada me acontecerá lá.

Do olho esquerdo de Mulher Diurna caiu uma lágrima que lhe rolou pela face.

E se eles descobriram que tu és... Calou-se, limpou o rosto ao ombro e depois continuou:

Disseste-me que eles julgam que és uma dádiva dos animais. E se eles descobrirem...

Se eles ainda não souberem, eu lhes direi, respondeu Chakliux. Sou a mesma pessoa. Ainda sei as histórias do Povo; ainda sei nadar, ainda tenho a marca da lontra E se o que eu lhes disser os irritar, voltarei para cá. Se não me quiserem aqui, encontrarei outra aldeia. Há muitas aldeias. Mais do que aquelas que um homem poderia visitar durante a vida.

Chakliux meteu-lhe outro pedaço de carne na boca.

Julgas que ficarei mais forte sabendo que a minha mãe está matando-se de fome na sua cabana? Julgas que isso tornará a minha viagem mais fácil?

Mulher Diurna parecia ter envelhecido desde que Chakliux chegara à aldeia. Tinha mais cabelos brancos. Mas apesar das rugas na face e dos cabelos grisalhos, ainda era uma bela mulher, com os ossos salientes debaixo da pele.

Na aldeia de Rio Primo fazemos isto declarou Chakliux. Arrancou vários cabelos da cabeça, enrolou-os nas mãos e depois deu um nó. Comprimiu o nó na palma da mão da mãe.

Põe isto no teu amuleto. Deixa-o lá ficar. Isto me fará voltar.

Ela agarrou nos cabelos com as duas mãos. Chakliux levantou-se.

Agora tenho de ir ver Mirtilo disse ele, percebendo o ar de preocupação da mãe.

Sim, qual a mãe que não ficaria inquieta, pensou Chakliux, quando em pouco mais de uma lua duas mulheres diziam ao filho que não o queriam para marido?

Depois de Gguzaakk, ter morrido, Chakliux parecia não sentir nada, nem sequer a necessidade de uma mulher. Porém, à medida que as luas iam passando, a dor transformava-se num sofrimento monótono, algo com que ele conseguia viver. Voltou a comer e a gostar da sua comida; caçava e festejava cada matança; por fim, sentiu de novo a necessidade de uma mulher.

Tanto Neve-no-Cabelo quanto Mirtilo eram agradáveis à vista. Ele não podia negar que as desejava, mas ainda assim o desejo não era tão forte como nos seus tempos de juventude. Agora, ele podia esperar. Não se casaria só para ter uma mulher na sua cama.

A cabana de Mirtilo estava bem iluminada e, quando Chakliux raspou, ela respondeu com uma voz alegre. Ao vê-lo, mostrou-se surpreendida.

Tinha o rosto limpo e vestia boas roupas; nada roto nem sujo que indicasse o luto.

Então, era porque esperava alguém, pensou Chakliux ao pendurar o saco da carne num poste da cabana.

As mulheres mandaram comida disse Chakliux apontando para o saco.

Queres comer? perguntou ela. Chakliux ficou olhando para ela.

Está mais alguém para chegar? perguntou. Não, respondeu ela.

Já não estás de luto pelo teu marido?

Chakliux olhou para o rosto limpo e para os cabelos penteados e entrançados da mulher.

Mirtilo cobriu a face com as mãos e depois levou os dedos às tranças. Mordeu o lábio e disse:

Esta noite tive um sonho. Com o teu avô. Ele disse-me que não queria a mulher dele suja. Disse que a queria bonita para que todos vissem que ele tinha uma boa mulher.

Chakliux ouviu-a, reparou nos movimentos frenéticos das suas mãos e na freqüência com que a língua lhe saía da boca para lamber os lábios.

Tenho fome disse Chakliux, agachando-se enquanto ela enchia uma tigela. O caldo caiu-lhe nos dedos quando ela lhe deu.

Chakliux não disse nada. Limpou as mãos às perneiras e sorriu. Comeu, esvaziou a tigela e estendeu-a para que ela a voltasse a encher.

Ouviste dizer que eu vou à aldeia de Rio Primo? perguntou ele.

Ouvi respondeu ela, com uma alegria furtiva no olhar.

Chakliux pegou a tigela para beber o caldo. Levantou-se e aproximou-se de um monte de peles que se encontrava na cabana. Tirou várias e fez uma cama ao fundo da cabana.

Entre o meu povo, antes de uma viagem, é costume dormirmos na cama com a pessoa que esperamos que volte.

A... Aqui não é costume gaguejou ela. Chakliux, porém, deitou-se nas peles, tapou-se com uma e fechou os olhos. Pouco depois, ouviu alguém a raspar na aba da porta. Abriu os olhos e viu Mirtilo correr para o túnel de entrada, mas desembaraçou-se rapidamente das peles e foi o primeiro a chegar.

Busca-Raízes encontrava-se lá fora, boquiaberto. Chakliux lembrava-se dele durante a caçada ao urso.

Mirtilo está à tua espera disse Chakliux ao homem, mas Busca-Raízes recuou, falando em voz baixa. Escorregou na neve e ficou de quatro.

Chakliux entrou na cabana. Mirtilo estava de costas para ele.

Julgas que eu sou parvo? perguntou-lhe Chakliux. Percebi o que estavas a tramar assim que entrei na tua cabana.

Mirtilo não disse nada.

Não dormirei aqui esta noite declarou Chakliux. Não creio que me apeteça voltar a esta cabana nem à tua cama. Julgas que Sok não gostará de saber o que aconteceu? Bem sabes que ele anda à procura da pessoa que matou o teu marido. Pergunta a Busca-Raízes se ele perdeu uma faca.

Chakliux saiu da cabana e contornou a aldeia para não ter de passar pela multidão que se aglomerava junto das lareiras da comida. Os tambores já rufavam; estava a escurecer. Se ele quisesse partir de manhã cedo, seria melhor ir dormir do que ir dançar.

Dirigiu-se à cabana de Folha Vermelha. Estava vazia. Desenrolou a sua cama e estendeu as peles. Tentou descontrair-se e dormir, mas os pensamentos afastavam-lhe os sonhos.

Mirtilo fora uma boa esposa para o avô, ou andara a meter Busca-Raízes às escondidas na sua cabana quando o velho não estava?

Se assim fosse, Chakliux esperava que Tsaani não tivesse sabido. Suspirou. Se preocuparia com ela mais tarde, depois de regressar. Pelo menos, tinha um motivo para a rejeitar. Desse modo, havia menos uma coisa a ligá-lo àquela aldeia. A mulher nem merecia que pensassem nela.

A ida à sua aldeia era mais importante. Estava ansioso por ver o pai, Bate-no-Chão, e precisava de falar com a mãe, K’os. De manhã, antes de partir, iria ter com Pato-de-Cabeça-Azul. Talvez o homem soubesse alguma coisa que ajudasse Chakliux a lidar com a mãe. Tinha que saber se ela estava por trás dos assassinatos da aldeia de Rio Próximo. Não lhe passava pela cabeça que tivesse sido ela a matar Tsaani ou Daes. Se o quisesse fazer, seria mais provável que tivesse convencido algum jovem a fazê-lo por ela. Mas quem saberia ao certo?

Afinal, ela matara Gguzaakk.

 

Yaa levantou a cabeça e ficou olhando para o orifício da fumaça. Talvez o céu estivesse clareando, pelo menos um pouco. Passara a noite acordada, oscilando entre estranhos arremedos de pensamentos que não eram exatamente sonhos.

Tentara tudo aquilo que costumava fazer quando não conseguia dormir: contar, nomear as amigas, recordar-se de brincadeiras e contar histórias a si própria. Por fim, esgueirara-se da cama e aproximara-se da panela. Se tivesse alguma coisa que comer, talvez fosse útil, pensou. Mas até na escuridão Água Castanha a vira.

A mulher saltara da cama, pegara a concha e batera nos nós dos dedos de Yaa. Por isso Yaa estava deitada, não só tentando dormir como tentando ignorar o latejar da mão.

Só numa lua, houvera muitas mudanças na cabana. Primeiro Daes fora assassinada e Ghaden fora viver com Lobo-e-Corvo. Depois, há cinco dias, o pai de Yaa morrera. A dor desta morte estava ainda tão fresca que era mais forte que a da mão.

Na primeira noite depois da morte dele, Yaa sonhara com o pai e com Daes. Eles tinham-na chamado. Desde então, custava a adormecer e, quando adormecia, acordava sobressaltada e em pânico, com o coração batendo com tal força que parecia saltar-lhe do peito.

Durante o dia, Yaa fazia os seus trabalhos a custo, o que lhe valia surras e repreensões até lhe doerem as costas e já não poder ouvir os gritos de Água Castanha. Mas na véspera, Lobo-e-Corvo fora à cabana e comunicara a Água Castanha que Ghaden estava pronto para voltar. Depois de uma noite de cânticos e de preces, o homem levaria Ghaden para a cabana de Água Castanha.

As palavras de Lobo-e-Corvo animaram o mundo cinzento de Yaa. De repente, conseguia fazer as coisas como no passado, sem se embaraçar nem tropeçar.

Ajudara a mãe a preparar a cama de Ghaden. Tinham arejado os seus cobertores de pele de lebre e enfiado amuletos para dar sorte debaixo das esteiras de erva da cama.

Quando acabaram, a mãe de Yaa virou-se para ela e ordenou:

Agora vai buscar a tua cama e põe-na aqui ao lado da de Ghaden. Água Castanha e eu decidimos que tens de ser tu a tratar dele. A Primavera não tarda e nós teremos muito que fazer.

Sorrira-lhe e Yaa ficara com um nó na garganta. Nessa noite, teve a certeza de que iria dormir mas, apesar de querer sonhar, parecia que os músculos lhe dançavam debaixo da pele. Agora faltava pouco para amanhecer e Yaa tinha a certeza de que passara a noite acordada.

Ouviu Água Castanha tossindo por causa da fumaça da lareira e, entreabrindo os olhos, viu a mulher levantar-se e espevitar as brasas na escuridão da cabana. Fechou os olhos para se proteger do clarão do lume e nesse momento devia ter adormecido porque, pouco depois, Água Castanha abanou-a até ela acordar, chamando-lhe gaivota, uma ave preguiçosa que roubava as lareiras da comida e os estrados da carne.

Yaa abriu os olhos e levantou-se de um salto, vestiu a parka e saiu correndo para ir buscar lenha. Batia com os pedaços no chão para sacudir a neve. Três dias antes, houvera uma tempestade mas, desde então, só espessas camadas de geada se tinham acumulado nos telhados de pele de caribu das cabanas, estalando e refletindo a luz clara da manhã.

Todos os dias o Sol nascia mais cedo. Yaa detectava as diferenças na atmosfera, como se dos ramos nus e quebradiços das árvores se libertasse o primeiro aroma das folhas prometidas.

Yaa levou seis braçadas de lenha para a cabana e ia a sair para ir buscar mais quando Água Castanha gritou:

Chega!

Apontou com a cabeça para a panela, dando a entender a Yaa que podia comer.

Yaa comeu uma tigela de carne e depois sentou-se para fazer uma esteira. Tecer não era o seu trabalho favorito. Parecia-lhe sempre que a erva seca se colava aos dedos, e o ambiente fumacento da cabana fazia-lhe arder os olhos. Mas era melhor do que costurar, pensou.

A sua tarefa matinal favorita era ocupar-se de uma das panelas nas lareiras da aldeia. Gostava de ouvir as mulheres conversando. Falavam dos maridos com risinhos, e Yaa sabia segredos de muitos caçadores, de homens que caminhavam de queixo empinado, envergando parkas enfeitadas com conchas e penas.

O velho Pato-de-Cabeça-Azul, respeitado por caçar muitos caribus, gostava que lhe coçassem as nádegas à noite, antes de adormecer, e Narceja, cujo má aparência levava as crianças a afastarem-se dele, tinha medo de ratos-silvestres.

Todavia, nessa manhã Yaa tinha que ficar na cabana. Se ia tomar conta de Ghaden, tinha que lá estar quando ele voltasse para casa.

Ghaden acordou ao som de Flor Azul fazendo a comida. Cheirava bem. Estava esfomeado. Rolou o corpo para o lado e conseguiu levantar-se.

A dor estava lá, agarrada a ele com dedos de unhas aguçadas, mas o pior já passara. Ainda lhe custava respirar fundo. Todos os dias a velha Ligige’ ia vê-lo, obrigava-o a levantar-se e a encher o peito de ar até ele ser obrigado a tossir. Às vezes, quando a ouvia chegar, fingia que estava dormindo. A princípio, o truque dera resultado. A velha fora-se embora, prometendo voltar no dia seguinte, mas agora, quando ele fingia, ela limitava-se a abaná-lo até ele concluir que assim era pior do que respirar fundo.

Aquilo ajudava-o, afirmava Boca Feliz, dizendo-lhe que ele tinha que obedecer a Ligige’ e comer, mesmo que não tivesse fome. Depois, recuperaria as forças e poderia voltar para a sua cabana. Sim, ele queria ir para casa, mais do que tudo, ainda mais do que ver-se livre das dores.

Ghaden, estás acordado? perguntou Flor Azul.

Ghaden sorriu. A mulher fazia-lhe lembrar a mãe.

Tenho fome disse ele.

Fome? Ótimo!

Flor Azul encheu uma tigela de comida e entregou-a. Ghaden cruzou as pernas e pousou a tigela no colo. Meteu os dedos no caldo e tirou um pedaço de carne.

É hoje? perguntou ele a Boca Feliz. Ela ergueu as sobrancelhas e respondeu:

Sim, é hoje.

O seu riso aumentou de tom e saiu-lhe da boca como as bolhas de saliva que Yaa e ele faziam com os lábios. Nesse dia poderia voltar para a cabana de Água Castanha. Nesse dia veria a mãe.

Lobo-e-Corvo chegou quando o Sol já ia alto no céu. A espera arrepiara Yaa. A menina deu um salto ao ouvir raspar na porta, mas Água Castanha fez-lhe sinal para que se deixasse ficar sentada. Ela suspirou e voltou a por a esteira no colo, fez mais uma volta na erva entrançada e serviu-se de um osso de pássaro com nódulos para a puxar.

Água Castanha cumprimentou Lobo-e-Corvo. Yaa ficou desapontada ao ver que Ghaden não vinha com ele mas, depois de algumas palavras de cortesia, o homem enfiou a cabeça no túnel de entrada e chamou a mulher, que entrou com Ghaden ao colo.

O rosto de Ghaden era um círculo pálido enfiado em peles. Yaa achou-o mais magro, apesar de o ter ido visitar muitas vezes.

Água Castanha apontou para a cama do rapaz e Flor Azul levou-o para lá e instalou-o no meio dos cobertores.

Yaa disse Água Castanha, e levantou o queixo na direção do rapaz.

Agradecida, Yaa enrolou a esteira e foi-se sentar ao lado do irmão. Flor Azul acariciou-lhe a cabeça, deixou-os e foi juntar-se aos adultos junto da lareira. Água Castanha ofereceu-lhes comida e Boca Feliz encheu as tigelas. Em seguida, virou-se para Ghaden e perguntou-lhe se ele tinha fome.

O rapaz abanou a cabeça mas tentou sentar-se. Atrás dele, Yaa apressou-se a ampará-lo pelos ombros.

Ele diz que não, disse ela à mãe, inclinando-se em seguida para ouvir o que Ghaden estava dizendo em voz baixa.

A minha mãe. Onde está a minha mãe? Onde está? perguntou ele.

Yaa abriu a boca mas não soube o que responder. Ninguém lhe dissera que Daes morrera? Ninguém lhe explicara que ela não estaria ali? Yaa olhou para Lobo-e-Corvo, para as penas imponentes que ele trazia na cabeça e para os amuletos que tinha ao pescoço. A mulher estava muito bem vestida, com uma parka de pele de carcaju enfeitada nos ombros com aplicações de pele de doninha-branca. Estava contando uma anedota. Água Castanha e a mãe de Yaa riam.

Yaa teve vontade de lhes gritar, de as interromper indelicadamente e de lhes perguntar o que haviam dito a Ghaden. Talvez não tivessem dito nada. Talvez esperassem que fosse ela a dizer-lhe que Daes morrera.

Eu quero a minha mãe disse Ghaden outra vez, e Yaa viu o brilho das lágrimas nos olhos dele.

Inclinou-se para a frente, encostou os lábios ao ouvido de Ghaden e proferiu:

A tua mãe foi ferida, como tu, irmãozinho. Ferida demais para melhorar. Teve de ir viver com os espíritos. Agora está lá.

Ghaden virou a cabeça e olhou para ela.

Quando é que ela volta? perguntou.

Durante muito tempo não poderá voltar respondeu Yaa, esperando estar falando a verdade, esperando que Daes estivesse contente por os deixar.

Ghaden arregalou os olhos. Meteu o polegar na boca e começou a chupá-lo, uma coisa que Yaa não o via fazer desde bebê.

Não te preocupes. Continuarás a viver aqui conosco prometeu Yaa.

Ghaden tirou o dedo da boca, com um estalido. Cerrou os lábios e, por instantes, o seu pequeno rosto de criança fez lembrar o de Daes. Olhou para o círculo de pessoas que rodeavam a lareira. Várias outras tinham entrado na cabana. Neve Preguiçosa, que morava na cabana ao lado, trouxera um cesto de vacínios secos. Talvez tivesse visto Lobo-e-Corvo levando Ghaden para casa, pensou Yaa, e sacrificasse alguns dos seus preciosos vacínios para ver o que estava se passando. Pato-de-Cabeça-Azul, tio de Água Castanha, também aparecera, sem dúvida convidado por ser um velho respeitado.

Água Castanha é que é agora a minha mãe? perguntou Ghaden em voz baixa e trêmula.

Água Castanha estava sentada, muito direita, com o pescoço esticado e um ar importante. O que poderia haver de pior do que ter Água Castanha como mãe?, pensou Yaa.

Não disse ela a Ghaden. Água Castanha não é tua mãe. Eu serei a tua mãe.

Ghaden suspirou e depois encostou-se a Yaa, descontraído. Voltou a enfiar o dedo na boca e Yaa inclinou-se para a frente e apoiou a face na cabeça dele. Ghaden estendeu o braço e afagou-lhe os cabelos. Depois fechou os olhos e continuou a chupar o dedo sem fazer barulho.

 

ALDEIA DE RIO PRIMO

Chakliux examinou o homem que estava sentado à sua frente. Topa-Nuvens era grande, mas o seu corpo flácido e gordo lembrava o de uma velha que tivesse muitos filhos dando-lhe de comer. Contudo, o seu olhar era vivo e astuto.

Topa-Nuvens era considerado um velho, uma honra concedida mais pela sua sabedoria do que pela sua idade. Era um bom caçador e um homem honesto.

Quando os comerciantes vinham comprar cães, visitavam Topa-Nuvens em primeiro lugar. Os seus animais raramente lutavam, nem se encolhiam ou uivavam quando os homens se aproximavam. Os músculos dos animais eram firmes e bem definidos debaixo do pêlo luzidio. Se Chakliux conseguisse levar cães como aqueles para a aldeia de Rio Próximo, talvez os velhos acreditassem que ele trabalhava para ajudar as pessoas.

Com que então, durante os dias que passaste conosco, percebeste que os jovens da nossa aldeia estão fartos de estar sentados disse Topa-Nuvens. Eles consideram que a melhor maneira de provar o seu valor é através da guerra. Dizes que isso também está a acontecer com o povo de Rio Próximo? Estou admirado. Os jovens deles são caçadores de ursos. Na tua opinião, basta-lhes terem a honra de caçar. Se os nossos homens soubessem descobrir tocas no Inverno, ficariam mais satisfeitos.

Topa-Nuvens encolheu os ombros.

A Primavera é uma época má. Os nossos jovens... até os meus quatro filhos... estão fartos do Inverno, das vozes das mulheres e das cantigas das crianças. Estão famintos de carne fresca e de honra.

Isso é verdade, mas talvez os homens de Rio Próximo já não queiram lutar quando eu lhes levar bons cães.

Aqui há uma coisa mais importante do que os cães disse Topa-Nuvens. Os velhos de Rio Próximo querem luta ou procuram a paz?

Tal como a maior parte dos velhos desta aldeia, querem a paz respondeu Chakliux. O que lucra um velho em lutar? Um pai quer perder os seus filhos? Bem sabes que Falador me mandou à aldeia de Rio Próximo para casar e assim fortalecer os laços que unem os nossos dois povos, mas a mulher não me quis. Teve medo que os nossos filhos nascessem com pés iguais ao meu.

O que há de tão terrível nisso? perguntou Topa-Nuvens. Ela não queria um homem com o poder de uma dádiva dos animais?

Chakliux levantou os braços.

Quem sabe o que uma mulher quer? disse ele. Os cães estão morrendo na aldeia deles. Cães fortes e saudáveis. Alguns jovens tentam fomentar o ódio ao nosso povo e dizem que eu os amaldiçoei. Os velhos esperam que, se eu levar cães pretos de olhos dourados, as pessoas compreendam que eu não fui lá para amaldiçoar mas sim para ajudar.

Topa-Nuvens inclinou-se para a frente e encarou Chakliux.

Há mais alguma coisa, disse ele.

Durante muito tempo, Chakliux ficou pensando no que diria ao homem. Por fim, acrescentou:

Menos de um mês antes da minha partida para cá, foram assassinadas duas pessoas do povo de Rio Próximo. Uma foi um velho, um caçador respeitado, e a outra foi uma mulher. Além disso, foi ferida uma criança. O velho foi morto na sua cabana, enquanto dormia. A mulher estava lá fora e ia entrando na cabana da esposa-irmã. A criança era filho dela. Os assassínios foram cometidos com uma faca.

Julgas que foi algum dos nossos jovens que fez uma coisa dessas?

Não sei. O xamã de Rio Próximo diz que foram os espíritos que os mataram.

Topa-Nuvens soprou, mostrando a sua discordância.

Qual o espírito que se serve de uma faca? perguntou ele.

Havia um comerciante na aldeia. Alguns julgam que foi ele disse Chakliux.

O que pensas?

Porque havia ele de matar um velho da aldeia? O rapaz era filho do comerciante. Porque tentaria ele matar o próprio filho? A faca ainda estava no ombro da criança quando ela foi encontrada. Era uma das facas que o comerciante tinha levado para a aldeia. Porque ele deixaria a sua faca?

É estúpido, esse homem?

Não no seu negócio.

Então julgas que talvez um dos nossos jovens.

Não tenho certeza. Se um caçador desta aldeia quisesse dar aos de Rio Próximo um pretexto para lutar, porque mataria uma mulher ou uma criança, ou um velho?

Quem é que mais precisa de proteção? perguntou Topa-Nuvens. Quando os jovens lutam é pela sua honra e para proteger os que não podem combater: os velhos, as crianças e as mulheres.

Isso é verdade, mas porque deixariam uma faca do comerciante? Porque não dariam a entender que fora um caçador de Rio Próximo a matar?

Topa-Nuvens fez um sinal de concordância.

Sabes de alguns caçadores que se tenham ausentado desta aldeia por um período de tempo necessário para fazer tal coisa? perguntou Chakliux. Talvez seis, oito dias pelo menos.

Topa-Nuvens franziu a testa, olhou para o teto da cabana e fez um esgar.

Os meus filhos, Homem Noturno e o irmão, Tikaani, passaram dois dias caçando disse ele devagar. Trouxeram um lince, algumas lebres e uma raposa. Topa-Nuvens calou-se e depois acrescentou: Não sei de mais nenhum. Tens ficado na cabana dos caçadores, não tens?

Tenho.

Muitas vezes, os jovens gabam-se. Ouviste alguma coisa?

Tenho me deitado vestido e finjo que estou dormindo. Não ouvi nada.

Então se algo foi feito por algum dos nossos, por qualquer motivo foi em segredo. Há uma pessoa que seria capaz disso, mas não seria ela própria a fazê-lo. Mandaria alguém.

Topa-Nuvens ergueu a sobrancelha a Chakliux, que sentiu um aperto no estômago. K’os. Quem mais podia ser? E se tivesse sido ela, para quê dizer ao povo de Rio Próximo? Seria um pretexto para os jovens lutarem. Era melhor esperar e estar atento, pronto para o que ela resolvesse fazer a seguir.

Compreendo disse Chakliux tranqüilamente.

E tu sabes que é preferível esperar?

Sei.

Topa-Nuvens respirou fundo.

Temos que estar de olhos e ouvidos bem abertos, tu e eu disse ele. Vamos impedi-la.

O velho levantou-se e encheu de novo a tigela até cima. Apontou com o queixo para a tigela de Chakliux. Chakliux abanou a cabeça. Topa-Nuvens sentou-se. Com a boca cheia, disse:

Entretanto, precisas de cães. Porque vieste falar comigo?

Tu tens os melhores cães. Topa-Nuvens riu.

É bom ser conhecido por qualquer outra coisa além da gordura comentou ele, apesar de todos saberem que o homem se orgulhava do seu tamanho.

Se um homem estava gordo, mesmo na Primavera, era porque escolhera bem a mulher e era hábil na caça. Ou por isso ou por ser voraz, e quem ia à cabana de Topa-Nuvens nunca o acusara de voracidade. Chakliux olhou para a grande tigela de madeira que ele tinha no regaço. Estava comendo desde que ele chegara e a tigela ainda estava meio cheia.

Propões então um negócio? perguntou Topa-Nuvens.

Tenho mercadorias minhas, e também coisas do povo de Rio Próximo: peles e parkas, cobertores de pele de lebre, um sael de gordura de ganso, cestos de pele de peixe, redes de pesca, anzóis e pontas de lança. Tenho um arco de fogo feito por um dos velhos. Muitas coisas.

E em troca disso tudo queres um cão?

Uma cadela que tenha parido há pouco tempo.

E as crias?

Sim. Tu tens mais do que uma cadela. Há várias que acabaram de parir.

Não é fácil para mim desistir de um dos meus cães. Eles são como meus filhos. Tenho que saber se serão bem tratados.

Conheces-me desde criança, Topa-Nuvens. Sabes que eu tratarei bem dela.

Topa-Nuvens inclinou a cabeça.

Eu nem pensaria nisso se fosses apenas um homem à procura de um bom cão, mas não quero ver a nossa gente lutando. Somos primos dos de Rio Próximo. Temos os mesmos antepassados. E se algum inimigo se mete entre nós? Há desconhecidos que vivem a duas, três mãos-cheias de dias daqui. Usam armas que nós não sabemos fazer e não respeitam as coisas sagradas. Ninguém percebe a língua deles. E se eles atacam as nossas aldeias? E se eles vêm roubar as nossas filhas e as nossas mulheres? O que faríamos se não pudéssemos aliar-nos ao povo de Rio Próximo? Topa-Nuvens suspirou e depois pediu:

Mostra-me o que trouxeste. Talvez eu faça negócio.

Com que então ele resolveu dar-te um cão? perguntou K’os, fazendo um esgar.

Chakliux evitara a mãe desde que estava na aldeia, mas um caçador tinha de ir às lareiras da comida. Senão, como comeria?

Naquele momento, K’os encontrava-se sozinha junto das lareiras, mexendo uma das panelas, como se fizesse sempre o seu turno a cozinhar como outras mulheres da aldeia. Apontou para a tigela vazia de Chakliux.

Já comeste? perguntou.

Esta manhã, com Topa-Nuvens respondeu Chakliux.

Então porque comes aqui? perguntou ela.

Aliás, se tens fome outra vez, eu tenho comida melhor na minha cabana.

A comida dela era boa. Muitas vezes, os caçadores levavam-lhe a melhor carne pelos favores que ela fazia. Era raro K’os partilhá-la com outras famílias e servir-se das lareiras da aldeia, exceto durante as festas em que os homens estavam perto, e não tinha que recear que as mulheres da aldeia atirassem conchas de comida quente naquela que se deitava com os maridos e os filhos jovens.

Não posso. Tenho que voltar para a cabana dos caçadores. Eles estão à minha espera.

Estás enganado. Eles estão cansados dos teus pedidos de paz, das tuas histórias sobre o bom e generoso povo de Rio Próximo. Eles não esqueceram que o povo de Rio Próximo amaldiçoou a nossa pesca. Disseste-lhes que as filhas de Rio Próximo não te querem? K’os ergueu as sobrancelhas e deu uma gargalhada. Não, claro que não. Que respeito despertarias tu nesta aldeia se soubessem o que o povo de Rio Próximo sabe?

Se ele fosse mais novo e não estivesse tão habituado a lidar com a mãe, a raiva o teria feito proferir palavras imprudentes. Lhe teria dito que os jovens caçadores não se importavam com as honras que recebiam ou não, na aldeia de Rio Próximo. Estavam mais interessados em saber os segredos da caça nas tocas durante o Inverno. Mas calou-se, ocultando os seus pensamentos. Quanto menos ela soubesse, melhor seria para todos.

É claro que ela possuía muitas maneiras de descobrir o que queria saber. Nas suas mãos, um jovem depressa responderia às suas perguntas. Em criança, Chakliux ouvira conversas da sua cama e reconhecera a astúcia da mãe.

Uma velha encaminhou-se para a lareira. Quando viu K’os, enrolou os braços à volta do corpo como que para afastar as pontas da parka do contato com ela. A mulher tirou o capuz e despejou uma mão-cheia de frutos secos numa das panelas. Chakliux aproximou-se dela e estendeu-lhe a sua tigela. Ela ergueu as sobrancelhas e olhou para K’os, com um sorriso ao canto da boca. Encheu a tigela de Chakliux, que se afastou sem olhar para a mãe, apesar de sentir o seu olhar a queimar-lhe as costas.

Já decidi afirmou Topa-Nuvens.

O velho estava sentado com Chakliux na parte de trás da cabana dos caçadores, um lugar de honra que lhes fora concedido pelos mais jovens.

Chakliux susteve a respiração e depois deixou escapar um sopro de desapontamento quando Topa-Nuvens disse: Isto não é suficiente. Não posso ceder os meus cães em troca do que ofereces.

Chakliux lutou contra a raiva que lhe empurrava palavras insensatas para a boca. Topa-Nuvens dissera que compreendia, e parecia desejar tanto como Chakliux a paz entre as aldeias. Então porque pedia mais coisas? Chakliux não tinha mais nada. Em três dias de negociação, pedira peles emprestadas ao pai para juntar às mercadorias.

Os meus cães, não só me pertencem como a todas as pessoas desta aldeia disse Topa-Nuvens. Como é que eu posso dá-los a outra aldeia sem pedir algo para os outros caçadores além de mim?

Chakliux estendeu as mãos vazias.

Sabes que eu ofereci tudo o que tenho, até o meu segundo par de botas. Não há mais nada. Sabes que a minha mulher e o meu filho morreram, por isso não posso prometer dar um filho em casamento.

Não te peço mais nada declarou Topa-Nuvens. O que eu peço é ao povo de Rio Próximo.

Chakliux enfrentou o olhar do homem. Não viu nele ganância mas sabedoria, e ficou à espera que Topa-Nuvens falasse.

O povo de Rio Próximo precisa dos nossos cães robustos de olhos dourados, mas também tem algo de que nós precisamos.

Topa-Nuvens fez uma pausa e virou a cabeça para os homens que os rodeavam.

Cada um estava ocupado fazendo alguma coisa; aparando o cabo de uma lança, afiando uma lâmina, retocando a ponta de uma lança. Apesar de não se encontrarem olhando para Chakliux nem para Topa-Nuvens, Chakliux sabia que eles estavam ouvindo a conversa e que iriam contá-la aos pais, aos tios e às mulheres que cortejavam. Por isso, dentro de pouco tempo, toda a aldeia saberia.

Qual o animal que é mais venerado do que o urso? perguntou Topa-Nuvens. Qual o animal que tem mais poder? Mas no fim do Inverno e no começo da Primavera, quando o nosso povo está desejoso de carne gorda, não podemos caçar ursos porque não conseguimos encontrá-los.

Os cães são teus, a cadela e as cinco crias, em troca das mercadorias e de outra coisa. Tens de me levar contigo à aldeia de Rio Próximo. Enquanto eu lá estiver, ensinarei o Povo de Rio Próximo a tratar dos meus cães, e os caçadores deles me ensinarão a encontrar ursos. Depois voltarei e contarei o que sei a estes jovens propôs Topa-Nuvens apontando com o queixo para os caçadores do outro lado da lareira.

Chakliux sentiu a esperança a brilhar no seu coração. Era um bom plano, que podia resultar. Gostaria que Tsaani fosse vivo para partilhar a sua sabedoria, mas Sok era um caçador hábil e enviara mercadorias para trocar. Um dos cachorros seria para ele. Talvez ele quisesse ensinar a Topa-Nuvens o que Tsaani lhe ensinara.

Topa-Nuvens era inteligente. Porque não fazer qualquer coisa por si próprio, ao mesmo tempo que comprava a paz para a sua aldeia? Poderia voltar com os conhecimentos que todos os caçadores desejavam. Depois de matar alguns ursos, poderia exigir o título de chefe dos caçadores. Naquele momento, não havia nenhum verdadeiro chefe dos caçadores na aldeia. Bate-no-Chão, o pai de Chakliux, ainda tinha o respeito da maioria dos homens, mas havia outros caçadores que traziam mais carne. Chegara o momento de um homem ser considerado chefe, de ocupar o lugar de honra.

Sim, anuiu Chakliux, sentindo que os caçadores jovens se aproximavam dele. O seu entusiasmo era visível no interior da cabana.

Me levas contigo?

Parto amanhã.

Tão cedo? hesitou Topa-Nuvens. Estarei pronto. Chakliux fez um sinal afirmativo. Se não voltassem tão depressa, não haveria ursos nas tocas. O tempo quente os obrigaria a sair. Além disso, era preferível partir antes que a mãe soubesse, era preferível mantê-la na ignorância enquanto fosse possível. Ela não queria que Topa-Nuvens fosse o chefe dos caçadores. Ele não a visitava, e como poderia ela induzi-lo a seguir os seus planos?

É claro que Chakliux vira a maior parte daqueles jovens caçadores a entrar na cabana da mãe, numa ou noutra vez. Era melhor mantê-los ali durante a noite até que ele e Topa-Nuvens se pusessem a caminho da aldeia de Rio Próximo.

Quando Topa-Nuvens saiu da cabana, Chakliux levantou-se e declarou:

Qualquer homem que queira aprender os cânticos sagrados e que tenha respeito no seu coração pode caçar ursos nas tocas. Fiquem aqui esta noite. Vos ensinarei cânticos que me foram transmitidos pelo chefe dos caçadores de ursos do povo de Rio Próximo. Apesar de velho, a sua força foi uma lenda. Quando Topa-Nuvens voltar a esta aldeia, vocês estarão prontos para aprender o que ele vos ensinar, e depois poderão caçar.

Vários homens agitaram-se com nervosismo. Chakliux percebeu que eram eles que queriam lutar com o povo de Rio Próximo. Agora diziam-lhes que o honrassem aprendendo os seus cânticos, mas quase todos falavam com excitação. Faziam perguntas e Chakliux respondia de tal maneira que até os homens de olhos baixos começavam a escutá-lo. Quando Chakliux se ofereceu de novo para lhes ensinar cânticos, todos os homens ficaram e cantaram com ele até conhecerem as palavras que Tsaani ensinara ao neto.

De manhã cedo, Chakliux dirigiu-se à cabana de Topa-Nuvens. Foi recebido à entrada por Estrela, filha de Topa-Nuvens. Chakliux ouvira dizer que ela era estranha e que umas vezes parecia uma criança, por não deixar a mãe, e outras se comportava como uma mulher, inteligente em todas as situações.

Ao ver os seus olhos grandes, Chakliux sentiu-se atraído por ela.

Estrela inclinou-se para a frente e segredou-lhe:

Toma conta do meu pai. Ele julga que ainda é novo. Neste momento, a minha mãe está escondida na nossa cabana, com vergonha das suas lágrimas.

O teu pai é um homem inteligente respondeu Chakliux, permitindo que o seu olhar se detivesse no rosto da jovem, na sua pele macia e no tom rosado da face. A sua inteligência velará pela sua segurança, e talvez também pela minha, mas farei o que puder para protegê-lo.

Ouvi dizer que as mulheres de Rio Próximo usam perneiras enfeitadas com contas feitas de conchas.

Chakliux, admirado com o atrevimento dela, ficou pensando, tentando lembrar-se do que usavam as mulheres.

Sim, algumas usam disse ele. Olhou para a filha de Topa-Nuvens e sentiu-se de novo atraído pelos olhos dela. Se me sobrarem mercadorias depois de eu fazer negócio com o teu pai, tentarei arranjar-te umas perneiras.

Ela sorriu, mostrando uma covinha ao canto da boca. Nesse momento, o pai chamou-a do interior da cabana e ela enfiou-se lá dentro. Topa-Nuvens saiu. Com a sua parka de pelo comprido, era tão grande quanto um urso. Como é que um homem daqueles tinha uma filha tão pequena e bela?, perguntou Chakliux a si próprio. Depois, afastou o pensamento da jovem e viu Topa-Nuvens a prendendo a cadela, Falcão da Neve, ao trenó de Sok.

Ficou satisfeito ao ver que Topa-Nuvens resolvera levar Falcão da Neve. Era um animal forte, de peito largo e pernas bem torneadas. Ao contrário dos outros cães, sabia puxar um trenó e nunca tentava libertar-se do arnês. Além disso, acabara de dar à luz uma ninhada de cachorros saudáveis.

Topa-Nuvens entregou-os a Chakliux. Estavam enfiados em bolsas de pele de caribu penduradas numa alça.

Põe-nos lá dentro ordenou-lhe Topa-Nuvens, apontando para o peito de Chakliux.

Colocou-lhe a alça ao pescoço e enfiou-lhe os cachorros debaixo da parka. Os animais ainda eram pequenos, do tamanho da mão de Chakliux, que sentiu as suas línguas quentes na pele quando os acomodou.

Topa-Nuvens calçou as raquetas, tiras de salgueiro atadas em círculo com uma trança de couro cru. Eram mais compridas e mais largas que as de Chakliux. Ao ouvir o seu sinal de comando, Falcão da Neve encostou-se em peso ao trenó de Sok.

Quatro fêmeas e um macho disse Topa-Nuvens, apontando para a saliência formada pelos cachorros na parka de Chakliux.

Chakliux ergueu a sobrancelha para mostrar que compreendia. Quatro fêmeas, cinco, contando com Falcão da Neve, e um macho. E Topa-Nuvens, para ensinar o povo de Rio Próximo a criar cães fortes. Um negócio melhor do que ele esperava.

Topa-Nuvens pegou o arnês de Falcão da Neve quando ela passou pelos cães presos atrás da cabana da mulher. A cadela levantou o nariz e uivou. Nervoso, Chakliux olhou para a cabana de K’os. Ficava do outro lado da aldeia, mas a mulher tinha o ouvido apurado. Inclinou-se para Falcão da Neve e tapou-lhe o focinho com a mão. A cadela calou-se, mas empinou-se quando Topa-Nuvens soltou um dos seus machos maiores.

Pescoço Grande, disse ele a Chakliux. Chakliux lembrava-se do cão. Era o mais pequeno de uma ninhada tão grande que a mãe tivera dificuldade em amamentar todos. O dono resolvera matar o cachorro e juntar a sua carne às panelas da aldeia, mas Topa-Nuvens percebera o valor do cão e trocara-o por alguns adornos insignificantes. Agora, qualquer homem da aldeia se orgulharia de possuir Pescoço Grande.

Pescoço Grande empinou a cauda, de orelhas arrebitadas, e as suas patas dançaram quando ele viu Falcão da Neve. Os cães tocaram nos narizes um do outro e depois, obedecendo à ordem de Topa-Nuvens, encaminharam-se para a saída da aldeia.

Estão ansiosos por conhecerem os cães de Rio Próximo comentou Topa-Nuvens, soltando uma gargalhada.

Chakliux sorriu mas não falou da sua alegria. O que podia haver de melhor? Tinham Falcão da Neve e os cinco cachorros. Talvez Pescoço Grande cobrisse as fêmeas de Rio Próximo enquanto Topa-Nuvens visitava a aldeia. Depois, até os jovens caçadores seriam obrigados a reconhecer a generosidade do povo de Rio Primo.

Caminharam durante todo o dia e pararam apenas para retirar as bolas de neve que se formavam entre as almofadinhas das patas dos cães e para que Falcão da Neve amamentasse os seus filhotes.

Nessa noite, acenderam uma fogueira com lenha que Topa-Nuvens trazia no trenó. Comeram gordura endurecida, bolos de frutos e carne seca que a mulher de Topa-Nuvens tinha acondicionado para eles. Depois, viraram o trenó de lado para se abrigarem do vento e protegerem o lume e falaram dos tempos que tinham partilhado na aldeia. Por fim, Topa-Nuvens pediu:

Fala-me desse povo de Rio Próximo. Tenho ido muitas vezes à aldeia deles, tenho dormido com algumas das suas mulheres, mas não os conheço como tu.

São pessoas muito trabalhadoras respondeu Chakliux. Os seus costumes são muito parecidos com os nossos. São caçadores hábeis, mas os seus cães não são tão bons como os nossos nem as suas mulheres são tão belas.

Topa-Nuvens riu em voz alta na atmosfera fria.

Disseste-me que a filha do xamã não te quis, mas falaste com outras mulheres? perguntou ele.

Não respondeu Chakliux.

Tirara os cachorros da parka. Os animais estavam agora mamando, deitados numa cama de ramos de abeto coberta por uma pele de caribu. Chakliux inclinou-se e acariciou o flanco de Falcão da Neve. Pensou em Mirtilo, mas disse:

Não tenho mulher na aldeia deles. Topa-Nuvens não disse nada, mas Chakliux percebeu que o homem estava à espera de uma explicação. Por fim, Chakliux prosseguiu:

Há uma coisa que tenho de te dizer, uma coisa que eu só soube depois de visitar a aldeia de Rio Próximo. Chakliux endireitou-se e virou-se para Topa-Nuvens. Há uma mulher na aldeia de Rio Próximo que afirma ser minha mãe. Diz que me rejeitou, que me abandonou por causa do meu pé.

Então, para o povo de Rio Próximo, tu não és uma dádiva dos animais. Eles consideram-te amaldiçoado? perguntou Topa-Nuvens.

Alguns. Outros não. Lembram-se de que eu sei nadar. Consideram que o meu pé prova que eu tenho sangue de lontra.

Durante muito tempo, Topa-Nuvens ficou observando as chamas da fogueira e depois disse:

É assim que eu te vejo, como uma lontra. Um homem que trabalha para fazer a paz é bom, seja qual for a sua mãe.

E Chakliux percebeu que ele não se referia à sua mãe de Rio Próximo, mas a K’os.

Acordaram com a tempestade. Os cães estavam enroscados para se proteger do vento, com a cauda por cima do nariz. Os filhotes tinham dormido com a mãe durante a noite, e Chakliux saiu engatinhando do abrigo feito de peles felpudas e de neve endurecida para os ir espiar.

O vento projetava neve e gelo, duros como pedras. Chakliux falou com os cães, apesar de a tempestade afastar as suas palavras. Não queria assustar Falcão da Neve, nem enfrentar os seus dentes quando ela saltasse para proteger os filhos. Mas a cadela não se mexeu. Com cuidado, Chakliux enfiou a mão no monte de neve que a cobria, tentando não o deslocar por saber que lhe conservava o calor, mas o animal levantou a cabeça. Chakliux tirou a luva de pele de caribu e pôs a mão debaixo da barriga de Falcão da Neve.

Encontrou o primeiro cachorro, agarrado a uma das tetas da mãe. O coração do filhote batia com força. Chakliux tocou em cada um dos outros. Estavam quentes, secos e vivos. Voltou para o seu lugar e enfiou-se debaixo do trenó virado. Sentiu que lhe tocavam no braço e respondeu à pergunta de Topa-Nuvens.

Falcão da Neve e os cachorros estão bem. Não vi Pescoço Grande.

Ele assistiu a muitas tempestades disse Topa-Nuvens. Não te preocupes com ele.

Deu a Chakliux um bocado de carne seca. Chakliux segurou a ponta com os dentes e cortou um pedacinho com a faca que trazia na manga. O sabor defumado aqueceu-o, como se ele possuísse uma pequena fogueira na boca.

A tempestade deixou-os na noite seguinte, e eles partiram sob o brilho límpido das estrelas. Falcão da Neve parecia inquieta, encostando-se ao arnês do trenó, até que Chakliux a deixou começar a andar.

Ao caminhar, Chakliux escutou o som de estalido, primeiro no espírito e depois nos ouvidos. Olhou por cima do ombro para o céu alto e escuro do Norte e sorriu ao ver os yaykaas a aurora boreal a inclinar-se e a brilhar em tons verdes e rosados.

Olha disse Topa-Nuvens, apontando para as luzes que se moviam como bailarinas sobre a terra. Os nossos antepassados dizem-nos que estamos procedendo bem. Os yaykaas são os antepassados das duas aldeias e não querem ver os seus filhos matando-se uns aos outros.

Sim assentiu Chakliux.

Sentiu os cachorros contorcendo-se debaixo da parka e uma força súbita apoderou-se do seu corpo. Fosse o que fosse que o povo de Rio Próximo pensasse dele, quando visse os cães não poderia negar que ele tentara levar-lhes qualquer coisa boa.

Olhou para Falcão da Neve. Nenhum dos cães da aldeia de Rio Próximo se comparava com ela, nem sequer os belos cães de Tsaani que participavam na caça ao urso. O animal parecia não fazer grande esforço a puxar o trenó. Pescoço Grande caminhava ao lado dela, de cabeça erguida e olhar atento, como se fosse o único responsável pela segurança de todos.

De repente, Pescoço Grande parou, de nariz no ar. Topa-Nuvens deu uma palmada no ombro de Chakliux e apontou para o cão com a mão enluvada. Chakliux reagiu com um aceno de cabeça quando o animal se empinou, nervoso, descrevendo um círculo, e depois olhou para trás. O cão ergueu de novo o focinho e rosnou baixinho.

Lobos disse Topa-Nuvens. Devem estar com fome depois desta tempestade.

Falou a Pescoço Grande com rispidez. O cão uivou e depois juntou-se a eles, aproximando-se de Falcão da Neve. A cadela olhou para ele mas continuou puxando, virando a cabeça de vez em quando para olhar para o peito de Chakliux, onde iam os seus cachorros. Topa-Nuvens fez-lhe sinal para continuar a andar e ela obedeceu, mas soltou um ganido agudo que se sobrepôs ao som dos patins do trenó.

Topa-Nuvens inclinou-se sobre a cadela e disse:

Não te preocupes. Eles estão a salvo.

Mas o animal continuou a ganir e aumentou a velocidade de tal maneira que Chakliux quase tinha de correr para manter o ritmo dela.

Faça ela abrandar gritou Topa-Nuvens. Vai deixar-nos transpirando.

Sim, pensou Chakliux, sabendo que o suor formaria uma estreita camada de gelo na pele que os faria gelar antes de chegarem à aldeia de Rio Próximo. Agarrou na parte de trás do trenó, obrigando Falcão da Neve a abrandar sob a pressão das suas mãos. Virou-se para trás e olhou para Topa-Nuvens. Este fez-lhe sinal e depois levantou a mão esquerda, mostrando a Chakliux que desembainhara a faca que trazia na manga.

Sok oferecera a Chakliux uma faca com uma longa lâmina de obsidiana na manhã em que ele partira da aldeia de Rio Próximo; não era para trocar, dissera-lhe Sok, mas para ele se proteger. Chakliux tirou-a da bainha atada à parte de fora do tornozelo direito. A lâmina negra provocou um gesto de admiração de Topa-Nuvens.

É do meu irmão afirmou Chakliux.

Queres trocá-la? perguntou Topa-Nuvens.

Não posso.

Então a tua visita ao povo de Rio Próximo já teve uma coisa boa. O teu irmão disse Topa-Nuvens.

É verdade.

Talvez essa faca nos dê sorte contra os lobos. Pescoço Grande parou e virou o focinho para trás. Por fim, Topa-Nuvens também parou e espreitou o caminho. Chakliux continuou andando e, quando Topa-Nuvens o alcançou, ele perguntou:

Viste alguma coisa?

Nada, mas não guardes a tua faca. Andaremos máximo que pudermos. Talvez consigamos chegar à aldeia de Rio Próximo sem parar.

E os cães?

Será mais fácil para eles do que para nós observou Topa-Nuvens, e tentou rir, mas foi uma gargalhada oca na abóbada do céu noturno.

É muito longe, pensou Chakliux, sentindo já o pé doendo e ouvindo a respiração irregular de Topa-Nuvens. Se ele tivesse dois pés fortes, se Topa-Nuvens fosse magro e ágil, talvez conseguissem, mas assim não. Teriam de parar e enfrentar os lobos.

Passaram a noite andando e continuaram durante o dia. O sol brilhava, atravessando as frestas dos seus óculos de neve feitos de chifre de caribu. Continuaram a andar depois do por do sol. Ainda não tinham chegado a Rio Próximo, e Chakliux perguntou a si próprio se, com a tempestade, não estariam andando em círculo, perdidos na tundra. Pelo menos, os cães já não estavam inquietos. Os lobos tinham-se cansado de os seguir, concluiu Chakliux.

Por fim, pararam. Até os cães tinham as pernas rígidas. Os olhos de Chakliux ardiam do sol, e no escuro tudo parecia manchado, com as nesgas de luz que o impediam de ter certeza do que via. As suas mãos, agora acostumadas ao arnês de Falcão da Neve, soltaram o cão sem a ajuda dos olhos. Chakliux meteu as mãos na parka para lhe dar os filhotes para amamentar, mas o animal deu um salto quando Topa-Nuvens lhe atirou pedaços de salmão e a Pescoço Grande.

Chakliux começou a cavar até chegar ao solo nu e depois espalhou uma camada de ramos de abeto e dispôs a lenha para fazer uma fogueira. Tirou erva-do-fogo e lascas de casca de bétula seca de um pacote que trazia ao pescoço e dispôs em volta de um pedaço de madeira. Em seguida, pegou seu arco incendiário. Enrolou o fio em volta do pau, depois enfiou-o na madeira e empurrou com o queixo a parte de cima do pau. Serviu-se do arco para enrolar e desenrolar o fio, virando-o até o movimento e a pressão criarem calor suficiente para atear o fogo. As chamas atingiram a erva-do-fogo e depois espalharam-se à casca de bétula e à madeira.

Topa-Nuvens agachou-se ao lado dele e alimentou pacientemente a fogueira até conseguir um bom lume. Em seguida, pôs um tripé por cima em que pendurou uma pequena panela com guisado feito pela mulher. Durante a viagem, a comida gelara na panela. Topa-Nuvens quase a deixara ficar, lembrando a Chakliux que tinham carne seca e bolos de frutos suficientes para comer. Agora, depois de passarem um dia inteiro e a maior parte da noite andando, depois de dois dias de tempestade, Chakliux sentia-se satisfeito por ter oportunidade de provar comida quente. Os dois homens colocaram neve nas tigelas de madeira e puseram-nas à beira da fogueira para derreter o conteúdo.

Chakliux começou a ver melhor e sentiu-se descontraído. A tensão nos ombros e nas costas deu lugar a uma dor. Se tivessem sido perseguidos por lobos, eles atacariam naquele momento, pensou Chakliux, na escuridão, mas os cães não davam mostras de nervosismo. Falcão da Neve dava de mamar aos filhotes e Pescoço Grande estava dormindo. É claro que a fogueira ajudaria a afastar os lobos, mas o cheiro da comida poderia atraí-los. Chakliux enfiara a faca na bainha quando pararam para acampar, mas espetara a lança na neve, de ponta para cima, ao alcance da mão.

Remexeu a neve que tinha na tigela até ela se derreter. Bebeu a água e depois esperou que Topa-Nuvens mergulhasse a sua tigela na panela e a enchesse de guisado. Foi Chakliux que encheu a sua. Ainda estavam comendo quando Pescoço Grande levantou a cabeça e rosnou.

O cão levantou-se, com as pernas retesadas e o pelo do dorso eriçado. Chakliux agarrou na lança e pôs-se em pé de um salto.

Ouviu-se um grito vindo da escuridão, uma voz de homem.

Topa-Nuvens atirou a cabeça para trás e soltou uma gargalhada.

Salta-no-Rio apareceu à luz da fogueira, e Chakliux sorriu também.

Tens vindo atrás de nós? perguntou Chakliux.

Ah, a minha mulher expulsou-me outra vez respondeu ele, cujo rosto era apenas um círculo negro enfiado no rufo da parka. Tive que vir até aqui para arranjar comida.

Topa-Nuvens mergulhou a tigela na panela e estendeu-a ao homem.

Então foi isso que aconteceu aos nossos lobos disse ele. Eles vinham atrás de nós. Devem ter sentido que tu vinhas atrás e afastaram-se do nosso caminho. São espertos demais para serem apanhados entre dois grupos de caçadores.

Salta-no-Rio pegou a tigela que Topa-Nuvens lhe estendia.

Vi as pegadas deles afirmou ele. Eram cinco.

Ainda bem que eles não te atacaram disse Topa-Nuvens.

Não devias ter vindo sozinho. É um caminho perigoso para um homem sem amigos.

Salta-no-Rio apontou para Chakliux com a tigela da carne.

Este jovem o fez. Eu sabia que também seria capaz. Mas pensei que vos alcançaria antes. Quero ajudar-vos a fazerem um bom negócio com os de Rio Próximo. Eles são pessoas de palavras brandas, mas eu também sou concluiu ele, rindo-se.

Chakliux pousou a lança, pegou a tigela e afastou-se do clarão da lareira. Tirou a faca da bainha que tinha na manga e espetou-a na neve endurecida. Sabia que Salta-no-Rio devia ter sede.

Ouviu Topa-Nuvens rindo, o vozeirão de Salta-no-Rio e depois um som abafado, como se tivesse caído alguma coisa na neve. Virou-se, com a tigela na mão e a faca na outra.

A princípio, não percebeu o que viu: Salta-no-Rio encontrava-se na sua frente com uma faca na mão. O sangue escorria da lâmina. Chakliux deixou cair a tigela, agachou-se e procurou os lobos, julgando que tinham sido eles a atacar. Depois, viu Topa-Nuvens caído junto da fogueira, e percebeu que não havia lobos. Apenas Salta-no-Rio.

Falcão da Neve recuou, e alguns dos cachorros tentaram manter-se agarrados às suas tetas. Chakliux ia a chamá-la, mas não o fez. Para quê alertar Salta-no-Rio?

Pescoço Grande rosnou e Salta-no-Rio virou-se para ele. O homem gritou e Pescoço Grande atacou. Salta-no-Rio enfrentou-o com a lança de Topa-Nuvens, atirando-a à barriga do cão no momento em que este saltou. O cão ganiu e caiu. Latiu ao embater no chão e depois ficou imóvel.

Salta-no-Rio tirou a lança do corpo de Pescoço Grande. Falcão da Neve colocou-se entre o homem e as suas crias com as orelhas encostadas à cabeça e os dentes à mostra.

Não te preocupes, mamã disse Salta-no-Rio. Eu não te faço mal.

Inclinou-se devagar e apanhou a lança de Chakliux. Depois levantou-se, ergueu as duas armas e gritou:

A tua mãe, K’os, manda-te cumprimentos.

 

Porquê? gritou Chakliux a Salta-no-Rio, apontando para Topa-Nuvens. O homem estava deitado no chão, e o seu sangue entranhava-se na neve.

Olhem! O que vejo eu? disse Salta-no-Rio, respondendo sob a forma conhecida de um enigma. O Inverno envelhece e, furioso, envia o vento.

Tu és o vento? perguntou Chakliux. Salta-no-Rio riu-se.

Respeita-me disse ele, abanando a cabeça. És uma criança, Chakliux. Não tentes compreender.

Falcão da Neve estava ao lado dos filhotes, e o seu olhar desviou-se de Chakliux para as lanças que Salta-no-Rio tinha na mão. Agachou-se, e Chakliux viu-a retesar os músculos dos flancos. Conhecia Falcão da Neve; observara-a junto dos cães da aldeia. Ela lutaria até à morte, mas não por ele. Chakliux ainda não conquistara essa lealdade. Ela lutaria pelos seus filhos. Se atiraria ao pescoço de Salta-no-Rio, mesmo depois de ver que Topa-Nuvens e Pescoço Grande estavam mortos.

Chakliux passou a faca para a mão esquerda e desembainhou cuidadosamente a lâmina de obsidiana. Era uma bela faca, equilibrada, e ele era bom em facas, mas quem sabia se as facas feitas na aldeia de Rio Próximo tinham a mesma visão daquelas com que ele fora criado? Cada arma, assim como cada homem, era diferente. Chakliux concentrou-se no triângulo por baixo do queixo de Salta-no-Rio, no espaço deixado pelo rufo da parka. Naquele sítio macio e vulnerável.

Falcão da Neve rosnou, com um som baixo vindo da garganta. Salta-no-Rio desviou o olhar para o animal. Nesse breve instante, Chakliux atirou.

Viu a surpresa no rosto de Salta-no-Rio, ouviu o silvo vindo da garganta do homem e viu o sangue borbulhando. Salta-no-Rio deixou cair os braços e largou as lanças. Depois, antes que Chakliux conseguisse impedi-la, Falcão da Neve atacou o homem, deitando-o ao chão com o seu peso, enterrando-lhe os dentes no pescoço e rasgando-lhe a carne.

Chakliux gritou-lhe e ela parou, mantendo-se por cima de Salta-no-Rio, com a boca ensangüentada.

Vai disse ele, em voz alta mas controlada. Deixa-o.

Ela arreganhou os dentes, guardando a sua presa.

Chakliux contornou-a cuidadosamente até se aproximar da cama de ramos de abeto em que se aninhavam os filhotes. Tirou-os um por um e os pôs na neve. O mais pequeno, uma fêmea preta e branca, começou a chorar.

Falcão da Neve olhou para o corpo de Salta-no-Rio. Levantou a cabeça, rosnou para Chakliux e depois aproximou-se dos filhotes.

Chakliux não se mexeu enquanto Falcão da Neve levava as crias de novo para a cama de ramos de abeto. Depois, passou lentamente pelo corpo de Salta-no-Rio e aproximou-se de Topa-Nuvens.

Devia estar morto, pensou. Ninguém conseguia sobreviver a uma lança espetada no peito. Mas para sua surpresa, Topa-Nuvens abriu os olhos. Chakliux sentiu a esperança a nascer. Talvez a lança tivesse sido desviada por qualquer arma que Topa-Nuvens trazia debaixo da parka. Então, Topa-Nuvens tentou falar. O sangue espumava na sua boca e a esperança de Chakliux morreu.

Vai disse Topa-Nuvens, sufocando.

Não retorquiu Chakliux.

Ajoelhou-se junto de Topa-Nuvens e abriu-lhe a parka, tentando encontrar a ferida e estancar o sangue que jorrava.

Estúpidos! exclamou Topa-Nuvens. Salta-no-Rio... Não viria.. Sozinho. Outros... Ali.

As suas palavras foram abafadas por um espasmo.

Chakliux levantou a cabeça de Topa-Nuvens para lhe facilitar a respiração. Soltou o capuz da parka e afastou-o do pescoço do homem.

Vai! disse Topa-Nuvens outra vez. Não pares senão quando...

Respirou fundo e estremeceu, proferindo em voz baixa:

Deixa-me. Estou morto.

Um lamento forte elevou-se no ar e Chakliux percebeu que era Falcão da Neve. Estava deitada com os filhotes, mas observava Topa-Nuvens.

Traz-me o meu cão segredou Topa-Nuvens, apontando para Pescoço Grande.

Chakliux pegou o cão e depositou-o ao lado de Topa-Nuvens. Este acariciou o pelo espesso do animal e, olhando para Chakliux, tentou sorrir.

Vai, proferiu ele pela última vez.

Falcão da Neve caminhava de orelhas murchas e o pelo do pescoço eriçado. Chakliux abandonara o trenó, que só os atrasaria, e levava apenas um pequeno fardo com alguns mantimentos.

Desembainhara a faca que Topa-Nuvens trazia na manga e enfiara na mão direita, mas, quando estava pronto para partir, o homem já tinha morrido.

Atirou a lança de Salta-no-Rio para a escuridão da noite. Não cabia no seu lançador. Para quê correr o risco de que a lança contaminasse os seus utensílios de caça, o lançador, as facas e as lanças? Mas não queria deixar a arma à mercê de quem o seguia. Trocara todas as suas lanças na aldeia de Rio Primo exceto uma, e por isso resolvera levar consigo a de Topa-Nuvens.

Pensou que Rio Próximo não podia estar longe. Não sabia se deveria seguir pelo rio gelado ou acompanhar as pegadas dos animais na neve e na vegetação das margens. Era menos provável que o vissem no meio das árvores, mas estas iriam atrasá-lo. Não chegaria à aldeia de manhã, e à luz do dia as suas pegadas seriam fáceis de descobrir. Se seguisse pelo rio, talvez chegasse à aldeia de manhã, antes de eles o apanharem. Além disso, era muito provável que os outros homens parassem durante a noite. Era perigoso caminhar na escuridão.

Sim, concluiu Chakliux. Eles deviam ter parado para passar a noite e enviado Salta-no-Rio à frente para espiar o seu acampamento. Talvez, quando resolvessem ir ver por que motivo é que Salta-no-Rio não voltava, Chakliux já estivesse na aldeia de Rio Próximo.

Falcão da Neve rosnou, mas Chakliux pensou que os cães não sabiam tudo. Talvez fosse por causa do vento.

Puxou o capuz da parka bem para os olhos, mas mesmo assim sentiu o frio cortante da noite na cana do nariz.

O Inverno envelhece, pensou ele, lembrando-se do enigma de Salta-no-Rio. Fora a mãe que os enviara. Talvez tivesse sido ela a insistir com o velho xamã, Falador, para que ele oferecesse Chakliux para marido da filha de Lobo-e-Corvo. Mesmo que Mulher Diurna não tivesse percebido que Chakliux era seu filho, bastaria segredar à pessoa certa para que alguém da aldeia de Rio Próximo descobrisse quem ele era uma maldição devolvida ao seu povo. Talvez tivesse sido ela que matara Tsaani.

Mas porquê? Talvez ela precisasse saber que ainda controlava os jovens, que conseguia obrigá-los a lutar ou a morrer conforme os seus caprichos.

Até a morte de Gguzaakk, Chakliux mantivera-se cego à extensão da maldade de K’os. Gguzaakk tentara avisá-lo, mas qual o homem que dava ouvidos ao que a mulher dizia da mãe? Eram coisas de mulheres, disparates que os homens nem se davam ao trabalho de entender. Mesmo depois de Gguzaakk e o filho terem morrido, ele não queria acreditar...

A minha mãe pronunciou Chakliux em voz alta, de tal modo que Falcão da Neve virou a cabeça e olhou para ele. A minha mãe.

Chakliux cuspiu as palavras, atirando-as para longe.

A minha mãe é Mulher Diurna disse ele, dirigindo-se à noite. O meu povo é o povo de Rio Próximo. Sou um caçador da aldeia de Rio Próximo. Não sou uma dádiva dos animais nem um dzuuggi.

Segredou estas palavras à luz esverdeada que espalhava dedos ondulantes em direção ao céu do Norte. Depois, virou-se e disse o mesmo virado para Rio Próximo, ao Sul.

Um caçador. Qual o homem que precisava ser mais do que isso?

O frio da noite entranhava-se nas articulações, tornando-lhe o andar rígido e desajeitado. Os joelhos gemiam como árvores ao vento. Chakliux parou para tirar as bolas de neve das almofadinhas das patas de Falcão da Neve. O animal farejou-lhe a parte da frente da parka.

Ainda não disse ele à cadela. Ainda não. Daqui a pouco.

Então avistou a estreita nesga escura que sobressaía na neve, as árvores que assinalavam o curso sinuoso do rio. A visão deu-lhe força nas pernas, e Chakliux estugou o passo. Falcão da Neve parecia sentir o seu entusiasmo e desatou a correr, mas ele conseguiu apanhá-la, pegou-lhe na cauda e obrigou-a a abrandar. Com aquele frio, não podia arriscar-se a correr.

Atravessaram a vegetação até chegarem a um trilho feito por animais que descia suavemente até ao rio. O gelo do rio estava bem firme debaixo dos pés e coberto por uma crosta dura de neve polida pelo vento. Chakliux descalçou as raquetes. A neve estava suficientemente dura. Atou os sapatos às costas e começou a andar. A dor no seu pé de lontra abrandou. Era bom caminhar sobre o rio. Até Falcão da Neve se deslocava com mais segurança, como se já tivesse feito aquele caminho, como se soubesse aonde ia dar.

Chakliux levantou a cabeça. No Verão, àquela hora da noite, o céu estava claro, mas naquele momento o Sol escondia ainda a sua face, envergonhado por deixar que o Inverno passasse tanto tempo com o povo, segundo diziam os mais velhos. Quando chegasse à aldeia, o Sol estaria alto no horizonte, descrevendo a sua curva no céu. Chakliux ainda tinha que andar, mas encontrava-se suficientemente perto para ter esperança de que, se os homens de Rio Primo viessem atrás dele, voltassem para trás em vez de se arriscarem a enfrentar os caçadores de Rio Próximo.

Só viu a água quando era tarde demais. Ouviu-a, primeiro o cântico estaladiço do gelo debaixo dos seus pés. A água devia ter-se escoado por uma fenda durante o dia e inundado o gelo. Depois gelara. Quem passasse por ali ficaria molhado e, se não agisse depressa, com os pés gelados.

Chakliux conhecera caçadores que tinham feito tal coisa e lembrou-se do que haviam sofrido. Em geral, mesmo que os pés e os calcanhares fossem amputados, a putrefação provocava uma morte lenta e dolorosa. Os que sobreviviam, como o velho Faz-Redes, ficavam aleijados e eram um fardo para o povo, quando este ia para o pesqueiro ou seguia os caribus.

Mas às vezes o gelo avisava, como acontecera com ele, uma voz que salvaria um caçador se ele fosse atento, se ele continuasse a andar sem parar. Chakliux estugou o passo, apoiando os pés com cuidado e empurrando Falcão da Neve à sua frente. Era uma grande inundação. Muitas tinham apenas alguns passos de largura, mas esta estendia-se a toda a largura do rio.

Depois, mais à frente, Chakliux viu a escuridão clara do gelo sólido, no local em que o vento varrera a neve. Gelo ou uma fenda através da qual se via a água. Era gelo, pensou Chakliux. Era gelo, não água. Deu mais dois passos rápidos e saltou.

Falcão da Neve ia a seu lado, farejando a parka, e ganiu. Chakliux olhou para a cadela e depois ajoelhou-se para lhe tirar a neve das patas. Enquanto lhe verificava as patas dianteiras, afastou todos os pensamentos da mente, como se pudesse alterar o que acontecera, recusando-se a pensar nisso. Pousou uma pata e levantou a outra. Estavam ambas secas.

Se não parares, morres, pensou ele. As palavras saíam-lhe da boca como se fossem pronunciadas por outra pessoa. E esta não é uma boa maneira de morrer.

Um homem tem sempre a sua faca respondeu Chakliux. Posso viver sem um pé.

Além disso, que alternativa tinha ele? Se parasse, fizesse uma fogueira e secasse os pés e as botas, os homens da aldeia de Rio Primo apanhavam-no. E que hipóteses tinha Chakliux contra eles? Matavam-no, levavam Falcão da Neve e as crias e não haveria esperança de paz. Morreriam muitos homens, mulheres e também crianças. O que era a vida dele comparada com a de tantos?

Vamos, Falcão da Neve incitou ele a cadela, pousando a pata da frente e levantando a traseira do lado esquerdo.

O animal ganiu outra vez. Chakliux passou-lhe os dedos pelo pêlo espesso que almofadava a pata. Levantou a da direita e de novo as duas da frente.

Também tu, disse ele, apertando-lhe levemente as patas traseiras. Estavam molhadas.

Chakliux continuou a andar até o declive da margem se esbater. Depois atravessou a vegetação com Falcão da Neve até chegar a uma clareira onde a neve formava uma crosta dura e brilhante. Cortou galhos de abeto e salgueiro, servindo-se da faca da manga para abrir os ramos até chegar ao coração seco da madeira. Fez uma fogueira e alimentou-a cuidadosamente. Em seguida, procurou no fardo. Tinha algumas peles de lebre. Descalçou a bota e embrulhou o pé nas peles. Pôs a bota ao pé do lume e observou a água evaporando-se.

Falcão da Neve enrolou-se numa bola e começou a lamber a pata traseira esquerda. Chakliux tirou um pedaço de pele de caribu do seu fardo. Embrulhou-a no outro pé, esfregando-o até sentir a pele seca debaixo dos dedos. Quando tinha os dois pés secos, tirou os filhotes da alça e deixou-os mamar. Depois, os pôs de novo debaixo da parka.

Virou a bota, aproximando-a mais do fogo e esfregando-a como esfregara as patas de Falcão da Neve. Em seguida, comeu, partilhando a carne seca com a cadela. Comeu à pressa e esfregou a bota pela última vez. Não estava seca, mas ele não queria esperar mais. Pelo menos tinha o pé quente. Talvez o andar o impedisse de enregelar antes de chegar à aldeia de Rio Próximo.

Voltou a enrolar o pé numa pele de lebre e atou-a ao tornozelo com uma tira de babiche. Quando ia pegando a bota, Falcão da Neve rosnou. Chakliux desembainhou a faca comprida que trazia junto à barriga da perna e virou lentamente a cabeça para olhar para o animal, que tinha as orelhas espetadas para a frente.

Homens? Não são lobos? perguntou Chakliux em voz baixa.

Falcão da Neve voltou a pousar a cabeça nas patas e ficou de olhos muito abertos observando a escuridão. Chakliux levantou-se e descreveu um círculo lentamente, desviando o olhar da fogueira até se habituar à noite. Não viu nada.

Rápido, golpeou a neve endurecida com a faca e escavou-a com as mãos enluvadas.

Falcão da Neve levantou a cabeça para ver, enquanto ele fazia um monte de neve e o cobria com um cobertor de pele de lebre. Sim, pensou. Aquilo podia ser um homem. Se alguém acreditasse nisso. Colocou mais lenha na fogueira. Em seguida, pegou sua lança e a de Topa-Nuvens e recuou. Embrenhou-se com cautela nos trilhos que fizera quando viera do rio, até chegar a um local onde a vegetação era densa. Falcão da Neve levantou-se para ir atrás dele, mas Chakliux ordenou-lhe que ficasse. A cadela deitou-se, com o nariz virado para o lugar em que ele se escondera.

Chakliux pôs os braços à volta das pernas e fingiu que não sentia o frio que vinha do solo e que se lhe entranhava na sola do pé. A pele não era suficiente para impedir que o pé gelasse, mas daria jeito durante algum tempo. Sobretudo se ele se levantasse de vez em quando para aliviar o corpo.

Como todos os jovens, desde bebê que Chakliux fora deixado ao relento, nu, por alguns momentos, em noites muito frias, para endurecer o corpo. Sabia combater o frio. Mexeu os dedos das mãos e dos pés, puxou o rufo da parka bem para os olhos e deixou que a sua mente vagueasse para outras coisas.

Enfiara o lançador na manga esquerda. Sentia o calor dele na sua pele, como se emprestasse força ao seu corpo. Fora Chakliux que fizera o lançador como a maior parte dos homens para caber na sua própria mão. Abrira uma concavidade na parte lateral que se adaptava confortavelmente à almofada de carne na base do polegar. O indicador esticava-se por baixo do lançador e subia até chegar a um buraco; o polegar agarrava-se a um dos lados do lançador e os outros três dedos ao outro.

A lança encontrava-se numa ranhura, na parte de cima, com a ponta virada para o alvo. A arma era manuseada com o braço levantado, a mão estendida para trás, ao contrário da direção em que a lança seria atirada. Com o lançador, Chakliux podia atirar a lança mais longe e com mais força.

A noite passou lentamente. Por fim, Chakliux virou-se para leste e olhou para o céu. Era imaginação sua ou o céu clareara? Levantou-se, viu Falcão da Neve virando a cabeça subitamente e ouviu-a rosnar. Chakliux agarrou-se à lança e abaixou-se para desembainhar a faca de obsidiana.

As lanças deles surgiram rapidamente, duas, espetando-se na neve coberta pela pele ao lado da fogueira. Falcão da Neve deu um salto quando quatro homens penetraram no estreito clarão.

Homem Noturno, Tikaani, Caribu e Silencioso, os filhos de Topa-Nuvens. Por um momento, Chakliux ia gritar-lhes, mas depois lembrou-se que os vira, um por um, na cabana da mãe. Estariam a agir por instruções de K’os? Se assim era, talvez julgassem que ele matara Dança-no-Rio e o pai.

Os quatro homens avançaram lentamente para o monte de neve coberto pela pele. Chakliux gostaria de ter tido mais tempo para o tornar mais verossímil, com uma luva ou uma madeixa de cabelo de fora. Falcão da Neve levantou-se, rosnando.

Homem Noturno tocou no monte com um dedo do pé; depois gemeu e afastou o cobertor. Gritou:

Chakliux, viemos porque aquele caçador que mataste disse que tu tencionavas matar o nosso pai. Choramos os dois homens. Vamos matar-te e a quem quer que se diga teu amigo.

Até este cão vai morrer ameaçou o irmão chamado Silencioso.

O homem virou-se, ficou de costas para Chakliux e ergueu a lança como se fosse atirá-la ao peito de Falcão da Neve.

Falcão da Neve rosnou e agachou-se, arreganhando os dentes.

Topa-Nuvens, meu amigo, perdoa o que vou fazer proferiu Chakliux em voz baixa.

Puxou do lançador e ajustou a extremidade saliente da sua lança na placa de marfim que a mantinha firme. Ergueu-a acima do ombro e atirou. A lança aterrou com um baque surdo no meio das costas de Silencioso. O homem caiu de joelhos com um gemido. Os irmãos mexeram-se lentamente, como se não acreditassem no que os seus olhos viam.

Chakliux ajustou a lança de Topa-Nuvens na sua tábua de arremesso e atirou outra vez. O seu lance foi alto e atingiu Homem Noturno no ombro direito. O homem gritou, virou-se e depois caiu, contorcendo-se.

Falcão da Neve começou a latir alto e com frenesi.

Cala a boca, cão! gritou Homem Noturno, com a dor na voz.

Arrancou a lança do ombro e depois caiu de costas, ainda com a arma nas mãos.

Assim que atirou, Chakliux percebeu que o lançamento fora demasiado alto, mas esperava que a lança tivesse atingido o osso do ombro de Homem Noturno, o que não aconteceu. Homem Noturno tirara-a com facilidade.

Homem Noturno ergueu-se, servindo-se para tal do cabo da lança de Topa-Nuvens. Tossiu e engasgou-se, vomitando na neve. Cuspiu e depois tentou falar, mas não conseguiu. Por instantes, Chakliux teve vontade de dar meia volta e correr. Todos eles eram rapazes. Talvez tivessem vindo a pedido da mãe dele, julgando proteger o pai e encontrar a honra no assassinato. Até essa noite, Chakliux nunca matara um homem. Não era como abater um animal para comer. Qual o animal abatido que não se oferecia voluntariamente? O Povo cantava, dançava e rezava. Os espíritos dos animais compreendiam e aceitavam essas coisas como dádivas, e depois voltavam no ano seguinte para se oferecerem de novo, e para receberem outra vez.

O que se ganhava com a morte de um homem? Ofereciam-se presentes? Alimentavam-se crianças?

Chakliux! gritou Tikaani. Julgas que te deixaremos viver depois de teres morto o nosso pai?

Chakliux não se mexeu. Atirara as duas lanças e agora só dispunha das facas para se defender. Que opção tinha? Eles eram dois. Três, se Homem Noturno não estivesse gravemente ferido. Até Falcão da Neve se pusera ao lado deles, de dentes arreganhados ao olhar para o tufo de árvores e de arbustos em que Chakliux se escondia. Pelo menos, a escuridão estava do seu lado. Se ficasse imóvel, se não se mexesse nem gritasse, eles não saberiam onde ele se encontrava até o amanhecer.

Além disso, eles não sabiam que ele não tinha mais lanças.

Sobressaltavam-se com as rajadas de vento e os estalidos dos ramos.

Homem Noturno sentou-se junto da lareira e pôs uma mão-cheia de neve no rasgão ensangüentado da parka.

Ele pode ver-te aí, ao pé da fogueira avisou Caribu o irmão.

Ele vê-nos a todos afirmou Tikaani. Tirou a sua lança do cobertor de pele de lebre. Julga que somos parvos.

Temos sido parvos disse Caribu.

Afastou-se do lume e Chakliux viu-lhe apenas a aplicação branca nos ombros da parka, duas linhas brancas que se moviam na escuridão.

Passaste uma noite na cabana de K’os e depois prontificas-te a fazer tudo o que ela te manda, a acreditar em tudo o que ela te diz continuou Caribu. Julgas que o povo de Rio Próximo enviou Chakliux para nos amaldiçoar? Se isso é verdade, porque é que K’os o criou? A maldição está nela, não no filho. Bem sabes o que as mulheres dizem. Eu ouvi a minha mãe dizer em voz baixa que K’os matou a mulher de Chakliux, porque não queria que a prima tivesse um filho, quando ela não podia ter nenhum. O nosso pai está morto, e o nosso irmão!

E foi uma faca de mulher que os matou? rosnou Tikaani. Foi a própria lança de Chakliux. No entanto, acusas K’os. Esquece-a. Chegou o momento de matar aquele que trouxe a morte a tanta gente. Acho que ele não tem mais lanças. De outro modo, teria acabado com Homem Noturno. Ele é um alvo fácil, sentado ao pé da fogueira.

Homem Noturno começou a choramingar e Tikaani virou-se para ele, puxando-lhe o capuz da parka para o esbofetear. Homem Noturno tirou a faca da manga e apontou-a até Tikaani lhe voltar as costas.

Talvez Chakliux vá já rio acima para a sua aldeia gritou-lhes Caribu da escuridão. Não fica longe do povo de Rio Próximo. Enquanto vocês os dois brigam, ele foge.

Acho que não queres matá-lo comentou Tikaani, saindo também do círculo de luz e dirigindo-se para a escuridão até Chakliux não ver para onde ele fora. Temos que acabar o que começamos, ou todos os homens da aldeia de Rio Próximo virão atrás de nós. Saberão quem somos só pelas nossas pegadas.

Sim, pensou Chakliux. As mulheres de Rio Próximo faziam botas com solas duplas, dobradas à frente com costuras mais próximas da ponta. Quando a neve estava mole, era possível perceber se as pegadas tinham sido feitas por caçadores de Rio Próximo ou por homens da aldeia de Rio Primo.

Eles saberão pelo nosso irmão que morreu afirmou Tikaani.

Julgas que eu abandonarei o meu irmão? perguntou Caribu do meio da escuridão.

Chakliux mexeu-se e desviou a cabeça, tentando ver donde vinha a voz. Os homens pareciam aproximar-se dele. Chakliux recuou, com todo o cuidado, devagar, para não fazer barulho. Se conseguisse chegar ao rio, esgueirar-se ao longo da margem, talvez pudesse distanciar-se dos homens. Eles não iriam muito mais longe. A aldeia de Rio Próximo estava perto demais. Era mesmo possível que Falcão da Neve o seguisse até à aldeia. Ele é que levava os filhotes.

Chakliux meteu a mão na parka e acariciou a cabeça dos cachorros. Depois apalpou um tronco de árvore. Deu mais alguns passos e parou de novo, à escuta.

Ouviu a faca antes de a ver, o silvo da lâmina, quando esta se dirigia a ele. Sentiu a ponta raspar-lhe no peito e depois ouviu o latido agudo de um dos filhotes. Pegou a faca e depois avançou com ela na mão esquerda e a sua na direita. Surgiram braços à sua frente, na escuridão, e ele sentiu a faca que tinha na mão esquerda a enterrar-se na carne. Ouviu alguém ofegando, e depois os braços desapareceram, assim como a faca. Esbracejou com a faca na mão direita, mas foi impedido pelos ramos.

Chakliux recuou e tropeçou. Caiu num emaranhado de salgueiros e perdeu a faca, mas saltou sobre o seu atacante. Era Caribu. Um homem baixo e possante, mais forte do que ele e mais esperto que os irmãos.

Caribu tinha uma faca. Chakliux agarrou-lhe no pulso, mas Caribu rasgou-lhe o capuz da parka com a mão livre até lhe aproximar o polegar da garganta. Os braços de Chakliux começaram a fraquejar à medida que ele deixava de respirar, até ser deitado ao chão, partindo ramos de árvores ao cair e ficando com a cabeça debaixo da neve enquanto o peso do corpo de Caribu o empurrava para baixo. Então ouviu rosnar. Era Falcão da Neve.

Ao cair, Chakliux agarrara o pulso de Caribu. Nesse momento, quando Caribu tentava virar-se para a cadela e apontar-lhe a faca, Chakliux enterrou a unha do polegar no pulso do homem, obrigando-o a largar a arma.

Chakliux libertou o braço, levantou as pernas para afastar Caribu e depois passou os dedos pela neve até encontrar a faca.

Apanhou-a e, com um movimento rápido, enterrou a lâmina na pele macia por baixo do queixo do homem. Uma golfada de sangue caiu-lhe nos dedos, fazendo escorregar a faca que tombou no capuz da parka. Então, Falcão da Neve atirou-se ao pescoço do homem e os gritos de Caribu deixaram de se ouvir.

Chakliux procurou as suas facas e por fim encontrou a de obsidiana enterrada na neve, no local em que Caribu o atacara pela primeira vez. Encostou-se a uma árvore, tentando recuperar o fôlego e espreitou para a fogueira. Só lá estava Silencioso, caído de borco na neve. A lança de Chakliux desaparecera.

Onde estavam Tikaani e Homem Noturno?, perguntou ele a si próprio. Regressaram à aldeia ou esperavam-no na escuridão?

 

ALDEIA DE RIO PRÓXIMO

Ghaden estendeu o braço e apalpou o monte de cobertores a seu lado. Passou a mão por eles até encontrar o rosto de Yaa, que estava dormindo. De outro modo, teria pegado a mão.

Agora ela era a mãe dele, uma boa mãe. Contava-lhe histórias e brincava com ele, e quando ele começava a ter dores ela esfregava-lhe as costas. Nunca gritava com ele como fazia Água Castanha, mas mesmo assim Ghaden tinha saudades da primeira mãe, tantas que às vezes não conseguia fazer mais nada senão chorar.

Yaa não sabia as canções da outra mãe nem as palavras secretas que ela ensinara a Ghaden palavras dos Primeiros Homens que ele não devia repetir a ninguém.

Às vezes, também, Yaa parecia não ser suficientemente grande para ser uma mãe. Não podia levar-lhe comida sempre que ele queria. Sobretudo, tinha que a tirar às escondidas da panela, quando Água Castanha estava distraída. E o colo dela era tão pequeno que, quando pegava em Ghaden no colo, parecia-lhe sempre que ia escorregar. Mas preferia tê-la como mãe do que a Água Castanha. Ela ainda era melhor do que Boca Feliz. Por isso ele tentava conter as lágrimas e não pensar na sua outra mãe. Chorava principalmente quando Yaa estava lá fora. Depois lembrava-se do que acontecera à primeira mãe e receava que alguma coisa pudesse suceder a Yaa. Quem passaria a ser a mãe dele se isso acontecesse?

Agarrou uma das longas tranças de Yaa, enfiou o dedo na boca e esfregou a trança nas pálpebras. Era macia e cheirava a fumo de lenha. Ghaden sentiu as lágrimas a nascerem-lhe na garganta até quase o sufocarem.

Era melhor estar ali do que na cabana do xamã. Tinha Yaa, e a velha avó Ligige’ aparecia muitas vezes. Ele sabia que Ligige’ tentava apenas curá-lo, mas os chás dela tinham um gosto tão ruim; e, quando ela punha mezinhas na ferida que a faca lhe fizera nas costas, aquilo ardia. Ela obrigava-o a tossir, e isso doía. Se ele chorava, ela chamava-lhe bebê e dizia-lhe que tinha de ser forte como um homem. Ele sabia que ela tinha razão. Ele tinha de ser forte, mas às vezes era difícil fingir que uma coisa não doía ou não caia mal.

Uma vez, Ghaden pedira-lhe um remédio para acabar com a dor interior. Ele não sabia ao certo donde vinha a dor. Talvez a faca lhe tivesse cortado qualquer coisa no fundo do peito que não se via de fora.

Ligige’ examinara-o de cima a baixo, batendo-lhe nos ossos com os dedos duros e deformados e encostando o ouvido ao corpo dele, na frente e nas costas. Mas apesar de a dor da ferida ir passando a pouco e pouco, a dor interior continuava, doendo sempre, sempre.

Algum tempo depois, Ghaden concluiu que Ligige’ sabia que a dor estava lá, mas não tinha remédio para ela. Pediu a Lobo-e-Corvo que cantasse para ele, mas nem isso ajudou. Um dia, quando a mulher de Lobo-e-Corvo estava brincando com ele com ossos, a dor desapareceu, só por um bocadinho, e isso deu esperanças a Ghaden de que ela não o acompanhasse para sempre. Mesmo assim, doía-lhe quase sempre, sobretudo à noite ou quando estava sozinho.

Ghaden suspirou e esfregou a ponta da trança de Yaa no nariz. A dor aliviou um pouco. Ghaden fechou os olhos e tentou dormir, com a trança bem fechada na sua mão.

O puxão nos cabelos acordou-a. Yaa sorriu. Deixou-se ficar quieta até ouvir a respiração de Ghaden abrandando ao ritmo do sono. Depois, virou-se com cuidado para não lhe tirar a trança das mãos.

A velha Ligige’ convidara Água Castanha para ir à cabana dela de manhã. O rapaz estava mais ou menos bem, dissera Ligige’. Não era preciso ela ir vê-lo todos os dias. Ensinaria água Castanha a dar-lhe os remédios.

Para surpresa de Yaa, depois de Ligige’ sair, Água Castanha pedira-lhe que fosse também.

Tu é que passas a tratar do rapaz ordenou ela. Tens que ouvir todas aquelas instruções. Eu não tenho tempo para essas coisas.

Yaa guardara a felicidade para si própria. Se sorrisse muito, Água Castanha poderia mudar de idéia. Além disso, na cabana, ainda estavam todos de luto pelo pai de Yaa. Muitas vezes, a própria Yaa tinha necessidade de se refugiar na sua toca para chorar, recordando os modos ternos do pai, sem que mais ninguém visse as suas lágrimas.

Encostou-se muito a Ghaden. Ele estava deitado de costas, com o rosto iluminado pela luz dourada das brasas da lareira. A sua face estava ficando de novo redonda e gorda, e as pestanas escuras contrastavam com o tom mais claro da pele. Apesar de ele ser pouco mais do que um bebê, o osso do nariz já tinha uma pequena saliência no meio. Como o nariz do comerciante, pensou Yaa, lembrando-se da cara do homem.

Então, teve uma idéia: talvez o comerciante fosse o pai de Ghaden. Fora ele que trouxera Daes para a aldeia. Yaa era pequena quando eles chegaram, mas lembrava-se. Por isso é que, todos os anos, ele vinha ver Daes e Ghaden, e talvez fosse por esse motivo que Daes saía da cabana às escondidas para o ir visitar. Também era por isso que ela suportava os murros que Água Castanha lhe dava por fazer tal coisa.

Apesar de Lobo-e-Corvo dizer a toda a gente que fora um espírito enraivecido que matara Daes e o velho Tsaani, algumas das mulheres continuavam pensando que fora o comerciante. Yaa ouvira-as a cochichar acerca dele junto das lareiras da comida, mas porque havia um homem de tentar matar o seu próprio filho? Porque havia de matar a mãe do seu filho? Ele trazia sempre presentes a Daes e a Ghaden. Às vezes, também dava presentes a Yaa, e dizia-lhe para olhar por Ghaden, para ser uma boa irmã para o irmãozinho. Se ele estava tão preocupado com o filho, porque havia de feri-lo ou à mãe?

Yaa recordou a noite em que Daes fora assassinada. Qualquer coisa a acordara. Um som, tinha a certeza. Talvez fosse Daes ou Ghaden chorando, mas ela estava a sonhar e julgara então que o barulho fazia parte do sonho.

Estivera sonhando com Dança-no-Gelo. Ele estava a arreliá-la, com um pau na mão. Um pau. Sim. E de repente o pau transformara-se em... Em quê? Numa boleadeira. Ele agitava-a. As pedras formavam um grande círculo por cima da cabeça dele e depois caíam ao chão. De repente, as pedras não eram pedras mas sim pedaços de chifre, a chocalhar uns nos outros. A chocalhar ao ritmo do andar de uma pessoa, como se ela tivesse chocalhos de casco de caribu no cimo das botas. Sim, botas cerimoniais, daquelas que se usavam nas danças.

Havia muitos homens com chocalhos de caribu nas suas botas de dança, mas aquele som era diferente. Era o som dos chocalhos, mas algo mais... Algo mais.

O esforço de memória deixou a cabeça de Yaa a latejar.

Ghaden gemeu e virou-se. Yaa tirou as mãos do calor dos cobertores de pele e abraçou o rapaz.

Estaria Ghaden acordado quando a mãe fora atacada? Se não estava, com certeza que o ataque o acordara. Lembraria ele de alguma coisa?

Mesmo que se lembrasse, talvez não tivesse dito nada a Ligige’ nem a Lobo-e-Corvo. Sempre fora tímido, mas talvez falasse com Yaa, e depois talvez ela conseguisse descobrir quem matara Daes.

O assassino tinha de ser alguém forte. Não só matara Daes como Tsaani. Tsaani era um velho, mas ainda caçava. Com certeza que devia ter lutado para salvar a vida. Então Yaa lembrou-se de uma coisa que lhe fez gelar os ossos. E se o assassino tivesse medo que Ghaden se lembrasse?

Na cabana de Lobo-e-Corvo, Ghaden estivera a salvo. Quem tentaria matar alguém na cabana de um xamã? Mas ali, só com mulheres e crianças, o assassino não teria ninguém para lhe fazer frente. O coração bateu-lhe com força debaixo das costelas.

Se eu já fosse crescida, pensou ela, casaria com um jovem forte e o traria para esta cabana para nos proteger a todos. Mas uma menina de sete Verões ainda não tinha idade para casar.

O melhor era que a mãe de Yaa ou Água Castanha voltassem a casar, mas ninguém queria Água Castanha. Era muito velha e estava sempre de mau humor. Talvez alguém quisesse a mãe de Yaa. Pelo menos como segunda esposa, mas ela tinha de esperar pelo fim do luto antes que algum homem a aceitasse. Quanto tempo faltaria? Yaa não se lembrava. Uma lua, ou talvez duas.

Até lá, a melhor forma de se proteger seria Yaa descobrir quem matara Daes e contar a toda a gente. No dia seguinte, quando a mãe e Água Castanha estivessem lá fora, ela falaria com Ghaden. Talvez ele lhe contasse o que sabia.

De manhã, Yaa não quis deixar Ghaden. Os seus receios noturnos atormentavam-na, e ela imaginou um homem de faca em punho entrando na cabana à força.

Yaa pensou que o assassino não faria tal coisa durante o dia, quando todos o vissem, mais ainda assim ficou inquieta. Disse à mãe que olhasse por Ghaden, que ficasse com ele. Disse-lhe tantas vezes que, por fim, Água Castanha deu-lhe uma palmada na cabeça e a pôs para fora da cabana.

As lágrimas fizeram-lhe arder os olhos, mas Yaa afastou-se. A palmada de Água Castanha não lhe doera tanto assim, mas o medo nos olhos de Ghaden que ela vira ao sair parecia uma faca no seu coração. Seguiu Água Castanha pelos estreitos caminhos da aldeia até chegar à cabana de Ligige’, e depois sentou-se como uma sombra ao lado da mulher.

Ligige’ e Água Castanha começaram por falar delicadamente de coisas sem importância e depois Ligige’ serviu-lhes tigelas de caldo que tirou de uma pequena panela pendurada nos postes da cabana. Por fim, depois de comerem, Ligige’ começou a mostrar ervas e pedaços de coisas secas, gravetos e pós, casca de amieiro moída, fervida e arrefecida para aplicar no local da ferida, raiz amarela para dar forças e casca interior de salgueiro contra a febre.

Enquanto explicava como se devia usar cada remédio, olhava muitas vezes para Yaa, para que esta soubesse que a velha compreendia que seria ela a dar os remédios, que seria ela a responsável.

Por fim, a sessão terminou e voltaram para a cabana de Água Castanha. Estava tudo como elas tinham deixado. Não havia golpes nas paredes da cabana, nem sangue nem cadáveres lá fora.

Vês? És uma tola, pensou Yaa, entrando no túnel atrás de Água Castanha. Mas esta parou ao fundo do túnel e não deixou entrar Yaa. A mulher fez um estranho ruído, como se estivesse sufocando, e Yaa sentiu-se de repente sem força nos braços, com o medo.

Devias ter-me avisado que vinhas disse Água Castanha. Onde está Boca Feliz?

Yaa empurrou Água Castanha e a mulher entrou, permitindo que Yaa a seguisse. O medo de Yaa desvaneceu-se tão depressa que ela ia perdendo os sentidos. Era o velho Pato-de-Cabeça-Azul. Estava de cócoras ao lado de Ghaden. Tinha nas mãos um cachorrinho castanho e branco. Ghaden sorria. Desatou a rir quando o animal se inclinou para lhe lamber o nariz.

É o meu cãozinho disse Ghaden a Yaa. Depois, muito sério, olhou para a cara de Água Castanha e acrescentou: Mãe, este é o meu cão. Este avô diz que vai ensinar-me a tomar conta dele.

Boca Feliz foi buscar comida na lareira disse Pato-de-Cabeça-Azul a Água Castanha. Ela não se demora.

Água Castanha fez um aceno de cabeça, tirou o capuz da parka e disse a Yaa que abrisse vários odres de água. Yaa pousou o cesto dos remédios de Ligige’ junto das suas esteiras dobradas e correu a fazer o que Água Castanha lhe dissera.

E se Pato-de-Cabeça-Azul fosse o assassino?, pensou ela ao dar-lhe um dos odres. Com um cãozinho ao colo, quem desconfiaria dele? Ele podia ter morto Ghaden antes de a mãe voltar.

Pato-de-Cabeça-Azul bebeu um bom gole e depois, baixando o odre, olhou para Água Castanha.

Este cachorro é bem constituído observou ele. Será um bom cão para a caça e para carga. Devia ficar cá dentro.

Lá dentro, pensou Yaa. Quem tinha um cão dentro de casa? Olhou para Água Castanha, esperando que ela tivesse um ataque de fúria. Nem um velho podia ordenar a uma mulher que tivesse um cão dentro da cabana. Mas água Castanha não se enfureceu. Deitou um olhar demorado e pensativo ao cachorro.

Ele late muito? perguntou ela.

Late.

Será um bom cão para esta cabana.

Então, Yaa percebeu que não era a única pensando que Ghaden estava em perigo.

Ghaden fez uma bola da tira de pele e atirou-a. O cachorro foi atrás dela, latindo. Ghaden sabia que estavam fazendo muito barulho. Se Água Castanha estivesse na cabana, já lhes teria ralhado, mas Ghaden, Yaa e o seu novo cão estavam sozinhos.

Ghaden chamaria Mordedor ao cão, apesar de ainda não ter dito a ninguém. Quando Mordedor crescesse, seria um cão grande, com dentes compridos e fortes, e toda a gente teria medo dele. Se Mordedor estivesse junto deles naquela noite, talvez tivesse salvo a primeira mãe de Ghaden.

O cachorro era castanho-claro, com o pêlo mais escuro à volta dos olhos. Tinha uma pequena mancha branca, em forma de estrela, no queixo, e o peito e a barriga eram brancos.

Como vais chamar-lhe? perguntou Yaa. Ghaden olhou para o rosto redondo de Yaa e mostrou os dentes.

Mordedor respondeu ele, rosnando.

Mordedor!

Ghaden rosnou outra vez, olhando de soslaio para Yaa e com a boca entreaberta.

Ele é um cão feroz afirmou Ghaden.

Uma vez tive um cãozinho. Chamei-lhe Caça-Caudas disse Yaa. Inclinou a cabeça e olhou bem de frente para Ghaden. Caça-Caudas é um bom nome.

Caça-Caudas, pensou Ghaden. Quem teria medo de um cão chamado Caça-Caudas.

Ele chama-se Mordedor. Yaa levantou os braços.

O cão é teu. Põe-lhe o nome que quiseres. Ghaden foi engatinhando atrás de Mordedor, agarrou a bola de pele e atirou-a outra vez.

Agarra, Mordedor!

O cão agitou a cauda felpuda e correu atrás dela.

O que aconteceu a Caça-Caudas?

Comemos respondeu Yaa. Foi no fim do Inverno e o nosso pai já não podia ir caçar.

Yaa esfregou as mãos, pensando nas articulações inchadas que tinham transformado o pai num velho.

Ninguém comerá o Mordedor declarou Ghaden. Ele os comerá primeiro.

Yaa ergueu a sobrancelha.

Precisamos de um cão que nos proteja nesta cabana disse ela. Talvez Mordedor seja um bom nome para ele.

Yaa olhou para o cachorro. Tinha a tira de pele na boca e abanava a cabeça. Teria uma boa altura, pensou ela. Água Castanha e a mãe estavam nas lareiras da comida e Ghaden estava mais falador do que nunca desde que a mãe morrera.

Agora estás seguro afirmou Yaa, olhando para Ghaden.

Ele ergueu a sobrancelha em sinal de concordância.

Ninguém me apanhará retorquiu ele com uma voz firme.

Ghaden, ninguém sabe quem matou... Quem te feriu... começou Yaa.

Ghaden foi atrás do cachorro, pegou-o no colo e pôs a tira de pele em cima da cabeça dele. Mordedor trepou pelas pernas de Ghaden e chocou com o nariz do rapaz. Levantou-se outra vez, atirou-se à pele e apanhou-a. Ghaden riu.

Sabes quem te feriu? perguntou Yaa.

Foi como se Ghaden não tivesse ouvido a pergunta dela. Continuou brincando com o cão, fazendo dançar a tira de pele à volta da cabeça do animal.

Ghaden, sabes?

Yaa aproximou-se do irmão, pegou-lhe no braço e olhou de frente para ele.

Ghaden, perguntei-te se sabias quem te feriu insistiu ela, com determinação.

Ghaden fechou os olhos e abanou a cabeça até Yaa lhe agarrar nos dois lados da cara e o obrigar a parar.

Ghaden disse ela baixinho. Se nós soubermos quem te fez mal, podemos dizer aos mais velhos. Eles expulsam-no e nunca mais te fará mal.

Ghaden olhou para ela, espantado, tentando conter as lágrimas.

Eu vi... Eu vi... murmurou ele, dando pancadinhas nas pernas.

Viste-lhe as pernas?

Sim, vi-as.

Julguei que era... Julguei que era... Cen.

O comerciante? Ghaden ergueu a sobrancelha.

Mas não era?

Não.

Sabes quem...?

Ele abanou a cabeça outra vez.

Eu vi a faca disse ele. Tinha sangue. Ghaden enfiou o dedo na boca e puxou as pernas para junto do corpo. Agarrou uma das tranças de Yaa e depois afastou a mão. Mordedor deu um salto e começou a lamber a face de Ghaden. O rapaz afastou-o. O cão inclinou a cabeça, arrebitou as orelhas e sentou-se tranqüilamente ao lado de Ghaden.

Ghaden passou um braço à volta do cachorro e enfiou os dedos no seu pêlo espesso.

Lembras-te de alguma coisa a respeito dele? perguntou Yaa.

Era alto respondeu Ghaden, sem tirar o dedo da boca.

Ouviste algum barulho? As botas dele tinham chocalhos?

Ghaden tentou recordar aquela noite. As botas eram diferentes, mas ele não se lembrava porquê. Estava escuro e ele tinha sono. Quisera ficar com Cen. Havia sempre fartura de comida e coisas para brincar nos fardos do comerciante. Mas a mãe dissera que tinham que voltar para a cabana de Água Castanha.

Quando voltaram, Ghaden estava pronto para se deitar mas, por qualquer motivo, a mãe não entrou. Esperaram no frio até que a atmosfera gelada se entranhou nas suas roupas.

Ao baixarem-se para entrar no túnel, Ghaden espreitara por cima do ombro e vira alguém. Julgou que era Cen que viera buscá-los para os levar para a sua cabana aquecida.

Ghaden afastou-se da mãe e correu a agarrar-se às pernas de Cen para ele não fugir.

Eles estavam no meio das sombras. Cen podia ter continuado a andar, e Ghaden tinha frio.

Não era Cen. Quem quer que era trazia uma faca. Mesmo às escuras, Ghaden viu o sangue na lâmina. Não sabia ao certo porque lhe pegara, mas lembrava-se de estar assustado. Correra para a mãe com a faca na mão, e assim encaminhara o assassino para ela...

Ghaden deitou-se de lado e enroscou-se como se fosse uma bola. Mordedor lambeu-lhe a face e Yaa fez mais perguntas. Ghaden tapou os olhos com a mão para não ter de olhar para ela. Yaa era como a mulher de Lobo-e-Corvo, como a velha Ligigge’, como o homem que fora à cabana de Lobo-e-Corvo quando Ghaden lá estava sozinho. Todos eles faziam perguntas demais.

Por fim, as perguntas de Yaa transformaram-se numa cantilena, numa canção em surdina.

Não voltarei a falar disso, Ghaden prometeu ela. Não tenhas medo.

Mordedor deitou-se ao lado dele, e encostou o nariz frio e molhado à face de Ghaden. Este acariciou o cão e Yaa cantou até ele adormecer.

 

A manhã estava quente, e um vento sul amolecia a neve debaixo dos pés de Chakliux. As ervas do ano anterior formavam tufos escuros à beira da margem. A fumaça estendia-se numa camada fina sobre as cabanas de Rio Próximo. Os cães latiam alguns satisfeitos por estarem comendo; outros cheirando o peixe que davam aos vizinhos e reclamando a sua parte.

Falcão da Neve arrebitou as orelhas e parou. Ganiu e olhou para a parka de Chakliux onde se encontravam os seus filhotes. Um morrera, trespassado pela faca de Caribu. Chakliux tirara o cachorro da parka, mostrara-o a Falcão da Neve e depois abrira um pequeno buraco na neve endurecida do rio. Deixara que Falcão da Neve amamentasse os outros cachorros, depois enfiara-os de novo na parka e continuara o caminho até a aldeia de Rio Próximo. Às botas do morto que Chakliux calçara estavam secas e quentes.

As crianças foram as primeiras a avistá-lo, os rapazes que estavam dando comida aos cães. Gritaram ao vê-lo aproximar-se e depois calaram-se quando perceberam quem era. Chakliux não percebeu se o consideravam uma maldição ou apenas um caçador que regressava.

De quem é o cão? perguntou um dos rapazes mais velhos. É uma cadela e pertence aos velhos respondeu Chakliux.

O rapaz aproximou-se e olhou para os companheiros para ver a reação deles à sua coragem.

Sua crias estão na parka disse Chakliux ao rapaz, pondo a mão no peito. Ela é capaz de lutar para as proteger.

O rapaz obedeceu e depois, examinando o animal, gritou:

Ela tem olhos dourados. Olhem! Ela tem olhos dourados.

Chakliux meteu a mão no fardo que trazia às costas e tirou um pedaço de corda feito de casca de árvore entrançada. Atou-a à volta do pescoço de Falcão da Neve e atravessou a aldeia com ela, passando pelos cães que se atiravam à cadela, presos às suas trelas junto das cabanas.

Passou primeiro pela cabana da mulher do irmão, entrou e levou o animal consigo.

Folha Vermelha estava fazendo uma parka muito bonita que devia ser para Sok. Levantou a cabeça quando ele entrou e ficou um pouco sobressaltada ao ver o cão. Apontou rudemente para a porta e gritou:

Tira esse cão da minha... Depois calou-se. Um cão de olhos dourados disse ela. Conseguiste um...

Cinco, tenho cinco respondeu Chakliux e, metendo a mão na parka, pôs os quatro cachorros, dois pretos e os outros quase todos brancos, no chão. Três fêmeas e um macho afirmou Chakliux, pegando-lhes para mostrar os olhos a Folha Vermelha.

Falcão da Neve farejou cada um deles e parou para lamber o sangue escuro do pelo preto e branco do mais pequeno.

Está ferido? perguntou Folha Vermelha.

Não respondeu Chakliux, sem dizer mais nada. Não queria que ela espalhasse a história da sua viagem pelas mulheres da aldeia antes de Sok e os velhos a ouvirem.

Folha Vermelha encheu uma tigela de caldo quente e deu-a a Chakliux. Ele não despiu a parka. Graças ao filhote de Falcão da Neve, o bico da faca de Caribu fizera-lhe apenas uma ferida pouco profunda no peito, mas Folha Vermelha não precisava vê-la.

Chakliux pegou a tigela e bebeu um bom gole de líquido quente. Este aliviou-lhe a dor na barriga e espalhou-lhe o calor pelas pernas e pelos braços. Chakliux esvaziou a tigela e depois perguntou:

Onde está Sok?

Foi com os meus filhos dar comida aos cães do av... Foi dar comida aos teus cães.

Sim, aos cães dele. Quase se esquecera. Durante a viagem, o mundo reduzira-se apenas a ele próprio, a Falcão da Neve e aos filhotes. Ali, tinha cães e uma esposa.

Folha Vermelha voltou a encher-lhe a tigela. Ele bebeu vários goles e depois a pôs no chão para Falcão da Neve beber. O animal estava deitado a seu lado, com os cachorros amontoados junto da barriga, mamando. Folha Vermelha protestou quando a cadela começou a beber o caldo, mas Chakliux disse:

Falcão da Neve bem o mereceu.

Porque julgas que eles vieram atrás de ti? perguntou Treina-Cães.

O homem tinha o rosto crispado, e a luz trêmula da lareira acentuava-lhe as rugas na face e na testa.

Longe da fogueira, a cabana estava tão escura que Chakliux quase se esquecera que ainda não anoitecera. Os olhos ardiam-lhe como se tivesse areia debaixo das pálpebras e, enquanto explicava aos velhos o que acontecera, foi obrigado a disfarçar um bocejo várias vezes.

Chakliux abanou a cabeça.

Não sei. Topa-Nuvens vendeu-me os cães. Como era um dos mais velhos da aldeia de Rio Primo, veio comigo para falar a todos vocês, para vos dizer que os velhos de Rio Primo queriam paz e que só os jovens caçadores, cansados dos dias escuros de Inverno, é que falavam em lutar.

Então foram mortas três pessoas? perguntou Narceja.

Estava sentado ao lado de Treina-Cães, num dos lugares de honra nos fundos da cabana. Sok estava ao lado de Chakliux, virado para o semicírculo formado pelos velhos da aldeia.

Três ou talvez quatro. Houve outro caçador que ficou ferido respondeu Chakliux.

Mas eles mataram o velho que te vendeu os cães?

Mataram. Foi um dos caçadores que o matou.

Não nos aconteceu nada disse Sok. Nenhum dos nossos jovens foi morto. Este velho era um dos deles. O meu irmão também é da aldeia deles. Talvez este problema não nos diga respeito e tenham de ser eles a resolvê-lo.

Mas nós não sabemos o que os caçadores de Rio Primo disseram ao seu povo salientou Treina-Cães. Talvez eles lhe tenham dito que Chakliux roubou os cães, que o negócio não foi limpo e que foi ele que matou o velho e os caçadores para ficar com os cães para nós.

Chakliux sentiu o olhar dos velhos cravado nele. O que Treina-Cães dissera era verdade. Talvez os filhos de Topa-Nuvens estivessem convencidos de que ele matara o pai. Seria justo que aquela aldeia sofresse por algo que se passara entre as pessoas da aldeia de Rio Primo?

Voltarei para eles. Contarei o que aconteceu sugeriu Chakliux.

Não disse Sok, mas foi interrompido pelo padrasto.

E os cães? perguntou Raposa-Que-Ladra. Trocaste todas as nossas mercadorias por esses cães. Não os podes levar outra vez.

Se ele não os levar, o povo de Rio Primo ficará sabendo que eles estão aqui lembrou Treina-Cães. Pensará que matamos para ficarmos com os cães.

Espera disse Vê-Luz, avô de Mirtilo. Apontou para Chakliux com o queixo. Agora, este homem é marido da minha neta. Se ele regressar à aldeia de Rio Primo, vocês julgam que eles o deixarão viver?

Calou-se, mas os outros homens não disseram nada.

E se ele não tivesse voltado com os cães? O que diria disso o povo de Rio Primo?

Então para onde teria ele ido? perguntou Sok.

Talvez ao encontro dos Caçadores de Morsas para lhes vender este cão de olhos dourados.

O que beneficiaremos nós com isso? indagou Raposa-Que-Ladra. Enviamos Chakliux à aldeia de Rio Primo na esperança de que um cão de olhos dourados quebrasse a maldição que se abateu sobre os nossos animais.

Ela tem quatro crias, não tem? perguntou Vê-Luz. Quantas das vossas fêmeas é que têm novas ninhadas?

Vários homens tartamudearam, acenando com a cabeça e erguendo as sobrancelhas, entre eles Raposa-Que-Ladra.

Talvez algumas fêmeas aceitem um novo filhote. Esses cachorros, se viverem, ainda nos dão uma oportunidade de quebrar a maldição. Se o povo de Rio Primo enviar homens à procura de Chakliux, escondemos os cachorros. Isso não será difícil. Eles são pequenos.

E Chakliux? perguntou Sok.

Ele foi uma maldição entre nós afirmou Vê Luz. Gostaríamos que ele regressasse para a sua aldeia. Gostaríamos que ele nunca mais voltasse.

 

ALDEIA DE RIO PRIMO

Então vocês deixaram-no fugir? perguntou K’os, com uma voz imperturbável. Ele tem a cadela e os filhotes e não está ferido?

O homem engoliu em seco e respondeu:

Ele matou o meu pai.

Então o velho morreu, mas o meu filho salvou-se?

Ele não se safa rosnou Tikaani.

Ele matou Salta-no-Rio, Silencioso e Caribu. Homem Noturno está quase morto e esperas que eu acredite que tu vais matar Chakliux?

K’os deu uma gargalhada e percebeu que Tikaani julgara que ela se rira dele, mas ela rira-se da ingenuidade do filho. Ele era mais desembaraçado do que ela julgava. A situação revelara-se um belo jogo. Melhor do que ela esperava. Quem podia acreditar que o velho louco Topa-Nuvens e o seu filho aleijado tinham qualquer hipótese contra Salta-no-Rio e quatro dos melhores jovens caçadores da aldeia? É claro que Chakliux ficara com os cães.

A cadela não está ferida?

Não me parece. Não vi os filhotes. K’os encolheu os ombros.

Os filhotes morrem com facilidade afirmou ela.

Foi a cadela que matou o meu irmão Caribu. Atacou-o. Então talvez não fosse a perícia mas a sorte que salvara Chakliux, pensou K’os. Ou o poder. A idéia incomodava-a. Ele fora a sua brincadeira, uma brincadeira terrível, terrível...

Recordou a época em que era nova. Agora era bela. Mas fora muito mais. Todos os homens da aldeia a tinham desejado. Os jovens caçadores... Ah, os seus corpos gritavam pelo dela, mas o pai só via a honra que alcançaria se a entregasse a um velho.

Os presentes de Dá-Nomes tinham sido maravilhosos, mas ele parecia um pau seco e velho. K’os queria alguém mais jovem.

Lembrou-se da manhã em que o pai lhe comunicara a sua decisão. Ela espreitara pela aba da porta e vira Bate-no-Chão e Salta-no-Rio lá fora. Tinham montado um alvo de pele de caribu, esticado à volta de uma estrutura de rebentos de árvores, e atiravam setas de ponta romba para praticar. Como se fossem rapazes pequenos. Ela observava-os de trás da aba e tossira uma vez para eles saberem que ela estava ali. Depois, o pai afastara-a.

Tu julgas que, porque és bela, podes ter todos os jovens da aldeia, disse-lhe ele. Julgas que, porque encontraste uma criança doada pelos animais, deves ter tudo quanto queres. Não és melhor do que outra mulher qualquer. Tens de ter um único marido; tens de fazer filhos para honrares o teu marido. Eu escolhi Dá-Nomes.

As palavras foram como pedras que caíssem no estômago de K’os. Ela suplicara-lhe, mas ele não mudara de opinião. K’os enrolara-se nos cobertores e chorara até o pai sair da cabana, saturado. Furiosa, amaldiçoara Dá-Nomes. Porque havia um velho de querer uma jovem? Havia viúvas na aldeia. E Três Pássaros? Não era feia. E Mulher Matinal?

Mais tarde, K’os fora ao Lago do Avô, com Chakliux atado às suas costas. Não lhe apetecia ver as outras jovens da aldeia, os seus risos ocultos atrás das mãos, o seu olhar deliciado ao saberem que K’os seria a mulher de Dá-Nomes. No lago, gritou a sua fúria ao Rochedo do Avô, fez oferendas e até prometeu devolver Chakliux aos espíritos do Avô se, quando regressasse à aldeia, Dá-Nomes tivesse morrido. O lago e o rochedo não a ouviram. Dá-Nomes estava vivo e ela tornou-se sua esposa, oferecida pelo pai em troca da promessa de caribus mortos e de peixe seco.

Dá-Nomes não conseguiu fazer nada na cama dela. K’os disse à mãe e ao pai, e perguntou-lhes se podia expulsá-lo e voltar para a cabana da mãe, mas eles responderam-lhe que não. Explicaram-lhe que era por causa da honra que ela perderia, mas K’os sabia que eles não se importavam com a sua honra, mas apenas com os presentes de Dá-Nomes. Pior, quando Chakliux tentara levantar-se pela primeira vez, K’os reparara na deformidade do seu pé. Fora mais um motivo de raiva a juntar aos que lhe atormentavam a vida. Concluiu que Chakliux não era uma dádiva dos animais, mas apenas uma criança que alguém abandonara. Através de perguntas cautelosas feitas a homens que haviam ido negociar à aldeia de Rio Próximo, K’os descobrira que tinha razão. Um dia, quando Dá-Nomes fora visitar outro velho, Bate-no-Chão aparecera na cabana de K’os e ela falara em levá-lo para a sua cama. Mais tarde, quando estava nos braços de Bate-no-Chão, rejubilando com a saciedade que lhe aquecia o corpo, ele dissera-lhe que ia casar com Três Pássaros. Ela ficara furiosa e expulsara-o da cabana.

Foi então que K’os começou a visitar Velha Irmã. Velha Irmã era uma curandeira, muito conhecedora de mezinhas feitas com plantas. Deu a conhecer a K’os as plantas e as ervas que garantiriam a saúde de Dá-Nomes. Ensinou-lhe aquelas que deviam ser evitadas. Durante um ano, K’os visitou Velha Irmã todos os dias. Todos os dias aprendia qualquer coisa até Velha Irmã não ter mais nada a ensinar.

Era uma tristeza quando uma doença desconhecida surgia na aldeia. K’os fazia muitas mezinhas mas, por qualquer motivo, elas não resultavam. Cortou os cabelos em sinal de luto quando a doença ceifou Velha Irmã. Confortou Bate-no-Chão no seu desgosto quando este perdeu Três Pássaros. Usou farrapos e cinzas de viúva quando o próprio Dá-Nomes sucumbiu.

Desde então, muitas coisas tinham mudado. K’os virou-se para Tikaani. Ele era pouco mais do que um rapaz. O seu peito ainda não se enchera e os seus braços ainda não eram grossos e fortes, mas as pernas bem musculadas faziam prever o homem que ele seria, e ela ainda não se cansara dele na cama.

Volta para a cabana dos caçadores aconselhou ela. Teremos a nossa vingança, mas não será nada que tu faças sozinho. Espera. Eu aviso-te quando chegar a altura certa. Então a aldeia de Rio Próximo ficará em ruínas e o povo de Rio Próximo servirá de alimento a corvos e raposas.

K’os foi falar primeiro com os tios e depois com os primos. Disse-lhes que Silencioso e Caribu eram jovens demais para terem morrido por causa do egoísmo do filho e da ganância do povo de Rio Próximo. Homem Noturno estava deitado na cabana da mãe, quase morto, com o ombro infectado. Era um milagre que Tikaani tivesse conseguido trazê-lo para a aldeia. Salta-no-Rio fora um dos seus melhores caçadores. Agora, quem daria de comer aos filhos dele? Depois, havia Topa-Nuvens, um homem sábio, um velho respeitado por muitos.

K’os baixou a cabeça, envergonhada, sabendo que o filho o matara. O que podia ela dizer à jovem filha de Topa-Nuvens, Estrela, que ainda vivia na cabana da mulher dele?

A culpa era sua, disse-lhes K’os. Ela trouxera Chakliux para a aldeia, pensando que ele traria honra e poder ao povo.

Convidou os homens a irem à sua cabana e, ao deixar cada um pensar que ficaria a sós com ela, sabia que eles iriam.

Trabalhou bastante para preparar a chegada deles, enchendo panelas de carne e água, levando-as para as lareiras para cozinhar, e vigiando-as para que outros não tirassem uma parte. Ignorou o falatório das outras mulheres quando lhes empurrou as conchas ávidas da sua carne.

Quando viu o rosto furibundo de Esquilo e a palidez amuada de Caça-Mochos, desafiou-as dizendo:

Não se preocupem. Os vossos maridos ficarão convosco na cama esta noite. Esta comida é para as famílias que estão de luto.

Então elas deixaram-na em paz, e até a ajudaram a afastar as crianças da comida.

Quando a carne estava quente, a borbulhar no seu próprio suco, cheia de gordura e temperada com frutos secos, K’os levou as panelas para a sua cabana, pendurou-as nos postes e esperou que os homens chegassem.

 

ALDEIA DE RIO PRÓXIMO

Chakliux sentou-se no chão de pele de caribu da cabana de Folha Vermelha e esfregou o seu pé de lontra. Doía-lhe, desde a luta com Tikaani e os irmãos, mas nesse dia a dor parecia ter abrandado.

Folha Vermelha entrou na cabana com os braços cheios de lenha. Ele levantou-se, tirou-lhe a lenha das mãos e empilhou-a junto do túnel de entrada enquanto ela despia a parka.

Isso ainda te incomoda? perguntou ela.

Ainda.

Tenho aqui uma coisa disse Folha Vermelha mostrando um pequeno embrulho. Foi Ligige’ que me deu. É uma coisa de que a mulher dos Caçadores Marinhos lhe falou. Chama-se sixsiqax. Ligige’ disse que as folhas frescas são melhores, mas ela só tinha secas. Eu mergulhei-as em água quente.

Apontou para as traseiras da cabana, na direção das lareiras da aldeia. As mulheres tinham sempre uma pele de caribu cheia de água quente, aquecida com pedras tiradas das extremidades das lareiras.

Senta-te disse ela a Chakliux.

Ele sentou-se e Folha Vermelha ajoelhou-se a seu lado. Aplicou-lhe as folhas molhadas e quentes no pé. Aparentemente, elas tiraram-lhe as dores nos ossos.

Sixsiqax? perguntou Chakliux. A palavra arranhava-lhe a garganta e era desconhecida. É um nome dos Caçadores Marinhos?

Folha Vermelha encolheu os ombros e depois perguntou:

Onde está Sok?

Com os cães.

O que aconteceu com os velhos?

Chakliux sabia que ela não faria tal pergunta a Sok, mas era mais atrevida com ele.

Estão satisfeitos com os cães.

Devem estar.

Folha Vermelha ficou à espera, e Chakliux percebeu que ela esperava que ele dissesse mais alguma coisa, mas as mulheres não tinham de saber o que se passava na cabana dos velhos.

O que pensas dos nossos jovens? perguntou Folha Vermelha. Alguns querem atacar a aldeia de Rio Primo.

São estúpidos observou Chakliux.

Durante muito tempo, Folha Vermelha não disse nada. Chakliux ficou à espera. Ela era uma mulher que passava muito tempo nas lareiras, a ouvir e a contar. Não ficaria calada para sempre. Por fim ela disse:

Não tem havido mortes desde que saíste da nossa aldeia, nem de cães nem de pessoas.

Então as mulheres julgam que fui eu que matei o meu avô e a mulher dos Caçadores Marinhos?

Chakliux sentiu um aperto na garganta ao fazer a pergunta.

A maioria concluiu que foi o comerciante que os matou disse ela. A maioria julga que ele morreu. Estava gravemente ferido quando saiu da nossa aldeia. Alguns dos jovens julgam que tu é que foste o assassino, mas Pato-de-Cabeça-Azul disse-lhes que, se fosses, não terias regressado a esta aldeia.

Chakliux respirou fundo.

Não sou eu o assassino declarou ele.

Agora que trouxeste os cães, ninguém da aldeia pensa que foste tu disse Folha Vermelha, mas desviou o olhar ao pronunciar estas palavras.

Chakliux fez um aceno de cabeça. Sabia que ela não lhe estava a dizer toda a verdade. Ainda havia os que tinham medo dele.

Umas mulheres dizem que tu sairás da aldeia. Outras dizem que ficarás aqui e que aceitarás Mirtilo como esposa. Outras pensam que a rejeitarás.

Há mulheres que falam de mais respondeu Chakliux.

Folha Vermelha pegou a parka que estava fazendo. Começou a passar uma linha de tendão pelos orifícios que abrira com um furador.

Se não aceitares Mirtilo, pensas que Sok a aceitará? A pergunta surpreendeu Chakliux. Era uma coisa que Folha Vermelha não devia perguntar.

Não sei respondeu ele. Pergunta ao teu marido. Folha Vermelha rosnou.

Mirtilo é melhor do que Neve-no-Cabelo afirmou ela, levantando a parka para Chakliux ver o complicado desenho do Sol nas costas. Mas nenhuma sabe fazer uma parka como esta.

 

ALDEIA DE RIO PRIMO

K’os convidou não só os tios e os primos que já eram caçadores, como também os jovens primos que ainda se consideravam rapazes. Precisava dos jovens, talvez mais do que daqueles que eram caçadores experientes. Todos os homens ficaram admirados ao entrar na cabana dela primeiro ao verem o marido, Bate-no-Chão, e depois ao verem os outros, entre os quais os pais, os filhos ou os irmãos.

K’os riu internamente ao ver a cara deles, a passagem da avidez ao embaraço, e depois o ar carrancudo que denunciava a sua fúria. Serviria bem o objetivo de K’os, essa fúria.

Fez o papel de esposa, servindo a cada homem uma tigela de carne. A dos mais velhos fora temperada com a raiz da planta alta de flores roxas que ela descobrira, algo que Velha Irmã nem sequer conhecera. Eles mal dariam pelo seu gosto suave, mas ela os deixaria calmos, descontraídos. Eles ficariam sentados em silêncio e não fariam nada enquanto ela atuava junto dos jovens, estimulando a sua raiva.

Os caçadores comeram em silêncio, olhando de esguelha uns para os outros. Zanguem-se, disse K’os aos jovens, em silêncio. Zanguem-se. Astuta, K’os procurou o olhar de cada caçador, ergueu a sobrancelha e fez um esgar. O marido estava atento, ela tinha certeza. Ele sabia demais. Que pena. O momento não era bom para lutos, mas havia coisas que não podiam ser evitadas.

Por fim, K’os pigarreou e olhou para Bate-no-Chão. Pelo menos ele concordara com aquilo. Ela sorriu, sem abrir a boca. Talvez ele pensasse que a idéia fora sua.

Pedi a todos vocês que viessem cá começou ele. K’os viu a surpresa no olhar dos homens. Ela não lhes dissera nada quanto ao fato de o marido os querer ali, mas que melhor maneira havia de alimentar a raiva dos jovens?

Todos vocês estão de luto. A minha mulher e eu queremos que saibam que partilhamos o vosso desgosto. Temos presentes.

Bate-no-Chão apontou para uma pilha de objetos que estava ao canto da cabana, coisas que ele e K’os tinham reunido em dois dias, desde o regresso de Tikaani à aldeia. Quase todos os objetos lhe haviam sido oferecidos pelos homens que iam visitá-la à cabana. Ela guardava os presentes nos fundos da despensa, por baixo de fardos de peixe seco, carne congelada e intestinos de caribu recheados de gordura e frutos. Pouco se preocupava que Bate-no-Chão encontrasse aqueles tesouros. Qual o homem que resistia a um bom naco de carne?

K’os dissera a Bate-no-Chão que trocara carne por outros objetos com as amigas, com a tia, com uma prima.

Os homens deitaram um olhar ávido às mercadorias.

Com estes presentes, estamos a honrar-vos declarou Bate-no-Chão. Sabemos que o nosso filho é a causa do vosso luto e por isso também estamos de luto.

O marido estava saindo-se bem, pensou K’os, apesar de ter uma voz fina que às vezes parecia fraquejar quando ele elogiava cada um dos mortos e entoava um cântico pela cura de Homem Noturno.

Ele não fora uma má escolha como marido. Depois de Dá-Nomes ter morrido, quando K’os era nova, ainda acalentava a esperança de ter filhos e não sabia que uma mulher não precisava de um marido para a sustentar, chegara a desejá-lo. O manteria por pouco tempo. Mas ele não queria lutar com o povo de Rio Próximo, e como fora o chefe dos caçadores da aldeia durante muitos anos, outros tinham seguido a sua decisão, pelo menos os mais velhos. Os jovens fariam o que Tikaani dissesse. Afinal, ele era o verdadeiro chefe dos caçadores da aldeia. Trazia mais carne do que Bate-no-Chão alguma vez trouxera, e Tikaani estava sempre ansioso por ir se juntar com ela à cama.

Por isso, talvez ela lhe desse o que ele mais desejava, o reconhecimento como único chefe dos caçadores da aldeia. Depois, juntos, continuariam a sua vingança contra o povo de Rio Próximo por aquilo que eles lhes tinham feito.

 

ALDEIA DE RIO PRÓXIMO

Chakliux aproximou-se da lareira da cabana e espalhou a gordura de ganso na pele. Vestiu-se lentamente: uma tanga nova que Folha Vermelha lhe fizera, as perneiras interiores de pele de lebre macia, a camisa de pele de caribu bem limpa com areia fina, depois as botas interiores de pele de esquilo, as perneiras exteriores de pele de caribu, a parka de pele de esquilo e as botas de pele de foca.

Ele tinha presentes, coisas que uma mulher iria apreciar: uma pele de lobo, um agulheiro de marfim, um pente de madeira, peixe seco, frutos secos, uma faca de mulher de jade e uma armadilha de pesca de dente de morsa. É claro que não seriam suficientes como dote, mas como Mirtilo lhe fora oferecida pelo avô, os presentes não eram necessários. Talvez isso facilitasse a noite que tinham que passar juntos.

Chakliux não se deitara com nenhuma mulher desde que Gguzaakk morrera e ainda antes disso. Ela morrera pouco depois de o filho nascer, e qual o homem que aceita uma mulher grávida na sua cama?

Um homem que não consegue disciplinar-se para esperar por uma mulher, não terá a paciência de que precisa para caçar bem. O que era a caça senão observar e esperar? Um movimento no momento errado podia fazer a diferença entre uma família que sobrevivia a um Inverno rigoroso e outra que sucumbia.

Mirtilo era uma mulher bela muito mais bela do que Gguzaakk, mas Gguzaakk era bela por dentro, bela e inteligente. Chakliux não sabia ao certo se Mirtilo também era, apesar de ter tratado bem o avô. Pelo menos, a avaliar pelo que ele vira.

Só uma noite, pensou Chakliux. Tenho de lhe dar uma noite. Isso era o suficiente para honrar Tsaani. O fato de a ter encontrado com Caça-Raízes quando ainda estava de luto era motivo suficiente para a rejeitar mas, por respeito ao avô, não faria referência a isso. Chakliux iria quebrar os laços do casamento só pela viagem que tinha que fazer a Caçadores de Morsas. Quem sabia se voltaria? Talvez os Caçadores de Morsas o recebessem bem, e nesse caso Chakliux ficaria e aprenderia a caçar animais marinhos e a construir um iqyax só para ele. Talvez resolvesse até ir visitar algumas aldeias dos Caçadores Marinhos.

Sentia um certo mal-estar sempre que pensava na sua viagem. O que sabia ele dos Caçadores de Morsas? Conseguiria aprender a caçar animais marinhos? Podia um homem aprender a fazer qualquer coisa que levava uma vida inteira a dominar?

Talvez. Se ele estivesse disposto a ser rapaz outra vez, se o seu orgulho não se interpusesse no caminho da sua aprendizagem.

Guardou os presentes num cesto de pele de peixe. Nessa noite teria a sua primeira lição. Nessa noite aprenderia a viver sem orgulho.

Partimos amanhã disse Sok a Vê-Luz. Vou com o meu irmão.

Quanto tempo estarás ausente? perguntou o homem.

Não te preocupes disse Sok. O meu irmão arranja outro homem que aceite a tua neta como esposa. Ela não morrerá de fome.

Vê-Luz fez um sinal de assentimento e depois apontou com o queixo para Sok.

E a tua mulher?

Tem irmãos. Por instantes, a voz de Sok endureceu. Ela é uma mulher que sabe tomar conta de si própria. Além disso, eu voltarei quando tiver feito os meus negócios.

Chakliux só voltará se o povo de Rio Primo não o procurar. De outro modo ficará com os Caçadores de Morsas. Talvez eles compreendam a honra que ele lhes concede por ser lontra e homem ao mesmo tempo.

Vê-Luz desviou o olhar e Sok percebeu o embaraço do homem. Deixa ele ficar embaraçado, pensou Chakliux. Esperava que Vê-Luz tivesse recordado à neta o respeito que uma esposa devia ao marido, em especial a alguém como Chakliux.

Chakliux tinha poder. Se assim não fosse, como teria ele conseguido aparecer, como filho mais novo, e receber todas as coisas que Sok queria? Mas como podia Sok queixar-se? Como podia ele guardar rancor a Chakliux se este conquistara o seu respeito de tantas maneiras? Pela sua caça, pela sua destreza no manejo das armas e até pelo modo como tratava os filhos do irmão. E até Folha Vermelha abrandara nos seus sentimentos para com o homem.

Uma vez, Chakliux dissera a Sok que o seu sonho era ter um iqyax e aprender a caçar animais marinhos. Se ele conseguisse fazer uma coisa dessas, talvez ficasse com os Caçadores de Morsas. Ou fosse viver com os Caçadores Marinhos. Então, um dia poderia regressar à sua aldeia e ensinar Sok a caçar animais marinhos. O pensamento animou Sok, mas este tentou não imaginar como seria voltar àquela aldeia sozinho, sem Chakliux, o irmão que exigia demais, o irmão favorecido pelos espíritos desde o nascimento, o irmão que ele aprendera a amar.

Mirtilo levantou-se quando Chakliux entrou na cabana. Não usava ornamentos, apenas uma camisa de pele de caribu e meias de pele de lebre até aos joelhos. Chakliux lamentou não ter trazido colares, penas ou caudas de doninha. Há muito tempo que estava afastado das mulheres. Esquecera-se do que elas gostavam.

Deu-lhe o cesto de pele de peixe.

É para ti disse ele.

Ela pegou o cesto sem dizer nada, baixando a cabeça ao pegar-lhe para que Chakliux visse a longa risca branca que lhe dividia o cabelo. Era uma mulher pequena e estreita de ancas, como Gguzaakk. Chakliux sentiu um aperto no coração ao pensar nisso e depois lembrou-se de que ela seria sua mulher apenas por uma noite. Nunca sentiria a alma dilacerada pelo medo quando ela estivesse dando à luz.

Mirtilo pousou o cesto no chão e trouxe-lhe uma tigela de comida. Ele sentou-se comendo, observando-a pelo canto do olho enquanto ela via os presentes que ele lhe levara. A mulher soltava exclamações ao ver cada um, com palavras discretas mas satisfeitas, e Chakliux sentiu que o seu coração se enchia também de alegria. Com certeza que ela já recebera presentes. Com certeza que uma mulher tão bela como Mirtilo sabia o que era receber boas coisas.

Ele entregou-lhe a tigela vazia e ela deitou um olhar para a panela que estava pendurada nos postes da cabana.

Estava muito bom, afirmou Chakliux.

Os presentes também são muito bonitos, retribuiu Mirtilo, tão baixinho que Chakliux teve que se inclinar para a ouvir.

Há mais um presente para ti esta noite. Ela ficou admirada e olhou para o sexo dele.

Não disse Chakliux, sem conseguir deixar de sorrir. Apontou com o queixo para a tigela. Enche outra vez a minha tigela, e mais outra.

Não tenho fome disse Mirtilo.

Não é para ti.

Alguém raspou na aba da porta e Chakliux gritou:

Entre.

Mirtilo virou-se para o túnel, de olhos arregalados, e, quando Caça-Raízes entrou, ela deixou cair a tigela de Chakliux e cobriu o rosto com as mãos.

Mulher, o nosso convidado precisa de comer proferiu Chakliux.

Mirtilo pegou a tigela de Chakliux, encheu-a e entregou-a. Encheu outra para Caça-Raízes. Chakliux fez sinal ao homem para se sentar ao lado dele.

Caça-Raízes estava nervoso. Os seus dedos compridos e esguios tremiam ao receber a tigela das mãos de Mirtilo.

Mirtilo trouxe um odre de água, o pôs junto de Chakliux e depois foi para o canto dos cestos, enfiando-se entre os juncos e as ervas e as pilhas de cestos de pele de peixe que lá tinha. Pôs um molho de ervas secas no colo e começou a cortar uma folha com a unha do polegar.

Chakliux comeu. Não disse nada a Caça-Raízes nem a Mirtilo, apesar de reparar que, de vez em quando, ambos o espiavam pelo canto do olho.

Quando acabou de comer, pousou a tigela no chão. Mirtilo levantou-se de um salto para a encher, mas ele levantou a mão e ela voltou a instalar-se no meio dos cestos.

Chakliux esperou que Caça-Raízes acabasse de comer. O homem comia mais devagar do que era necessário, pensou Chakliux, mas depois lembrou-se de que Caça-Raízes era um homem vagaroso, nos pés e no pensamento. Porque não seria também vagaroso para comer?

Reparei que vives na cabana da tua mãe começou Chakliux, virando-se para olhar de frente para Caça-Raízes. Como eu estou nesta aldeia há poucas luas, não sei tudo acerca de toda a gente, mas ouvi dizer que não tens mulher.

Não, não tenho retorquiu o homem, com uma voz esganiçada como a de um rapaz.

Precisas de uma esposa disse Chakliux.

Sim anuiu Caça-Raízes, empalidecendo.

Há muitas mulheres nesta aldeia, jovens e viúvas, que não estão comprometidas. Há a filha de Lobo-e-Corvo, Neve-no-Cabelo; há Erva Quebrada, uma viúva ainda suficientemente nova para ter filhos. Há a neta de Treina-Cães, que acabou de celebrar os seus rituais de mulher.

Chakliux calou-se e debruçou-se para passar um dedo pela tigela, chupando o molho da carne.

Já pensaste nalguma destas mulheres? perguntou Chakliux.

Só em Erva Quebrada respondeu Caça-Raízes.

Chakliux olhou para Mirtilo e viu a surpresa no seu rosto. Acreditaria ela que aquele homem só pensava nela? O marido morrera apenas há uma lua.

Caça-Raízes seguiu o olhar de Chakliux até este pousar em Mirtilo. Depois baixou a cabeça, corando de repente.

Como sabes, tenho que aceitar Mirtilo como esposa prosseguiu Chakliux, olhando outra vez para Caça-Raízes.

Chakliux virou-se para Mirtilo.

Compreendes, mulher? perguntou ele.

Compreendo.

Mas há uma coisa que eu tenho a dizer-vos. Chakliux encostou-se ao espaldar que pertencera ao avô. Acabei de regressar da aldeia de Rio Primo, do meu próprio povo. Negociei de modo a trazer, de boa-fé, uma cadela de olhos dourados e as suas crias. Trouxe os cães para cá na esperança de quebrar a maldição que está matando os animais desta aldeia. Os jovens caçadores da aldeia de Rio Primo não querem bons negócios entre nós. Procuram alcançar a honra tornando-se guerreiros. Depois de eu sair da aldeia, eles atacaram-me.

Chakliux olhou para Mirtilo e viu que ela o ouvia de olhos arregalados e boca aberta. Caça-Raízes também o observava.

Porquê? perguntou ele.

Quem sabe? A honra é uma coisa para um homem e outra para outro.

Vi a fêmea e os quatro cachorros que trouxeste, disse Caça-Raízes.

Os cachorros eram cinco afirmou Chakliux. Eles mataram um, e um cão que eu trazia para acasalar com as fêmeas. Também mataram um velho de Rio Primo que veio comigo. Três desses caçadores morreram. Três de cinco. Outro ficou ferido. Depois, eles regressaram à sua aldeia e eu vim para cá.

Eles virão à tua procura salientou Mirtilo, dirigindo-se para o lugar deles à lareira, ajoelhada entre ambos, como se se tivesse esquecido da sua posição de mulher.

Eles virão e, se não te entregarmos, eles atacarão disse Caça-Raízes.

Isso é o que os velhos pensam respondeu Chakliux. E o que eu e o meu irmão pensamos, também. Por isso, tencionamos deixar a aldeia amanhã. Iremos negociar com os Caçadores de Morsas; talvez iremos ainda mais longe e negociemos com os Caçadores Marinhos.

Chakliux olhou para Mirtilo, viu-lhe as rugas na testa e percebeu que ela estava pensando.

Estarás ausente durante muito tempo concluiu ela tranqüilamente.

Posso não voltar retorquiu Chakliux, e as suas palavras pairaram, frias e ocas, na cabana. Posso não conseguir voltar. Os velhos resolveram dizer que eu não voltei com os cães de olhos dourados. Assim, o vosso povo não será acusado da morte dos caçadores de Rio Primo. Que culpa têm vocês que um homem de Rio Primo mate outro homem de Rio Primo? Como é que os jovens caçadores podem servir-se de tal pretexto para começar uma guerra?

Então levas os cães e vais embora? perguntou Mirtilo.

Para quê levar os cães? Ele trouxe-os para nós, disse Caça-Raízes.

Mirtilo olhou para o homem, desolada.

Se os guerreiros deles vierem, reconhecerão a fêmea disse ela.

E os filhotes? perguntou ele.

Ainda falta decidir o que se fará com os filhotes, disse Chakliux.

Os velhos ainda não tinham decidido quais os homens para quem iriam os cachorros. Um seria para Treina-Cães e talvez outro para o padrasto, Raposa-Que-Ladra. Mas para quê divulgar a sua decisão? Quanto menos homens soubessem o destino dos cachorros que ficariam na aldeia, melhor.

Tenho uma cadela com uma nova ninhada. Ela pode amamentar mais uma informou Caça-Raízes.

Chakliux mordeu o interior da face.

É uma decisão que serão os mais velhos a tomar. Vai falar com Treina-Cães. Talvez eles concluam que não é seguro deixar aqui os cachorros.

Como é que um homem reconhece um cachorro depois de crescido? perguntou Caça-Raízes.

Pelos olhos respondeu Chakliux.

De vez em quando nasce um cachorro de olhos dourados nas nossas ninhadas.

Talvez fosse verdade, pensou Chakliux. Ainda vivia na aldeia há pouco tempo para saber.

A minha preocupação não é com os cães disse ele a Caça-Raízes. A minha preocupação é com a minha mulher. Não posso levá-la comigo. Não sei se voltarei. Aceita-a como esposa? Assim, terá um caçador que olhe por ela, e eu não me preocuparei a pensar se ela terá a carne de que precisa para o próximo Inverno.

Mirtilo voltou a esconder a face.

Aceito-a se ela me aceitar retorquiu Caça-Raízes, apertando a tigela que ainda tinha no colo.

Mirtilo?

Sim, eu vou com ele disse ela, com a voz abafada pelas mãos.

Eu fiz a pergunta por tua causa, disse Chakliux a Caça-Raízes. Eu não te daria Mirtilo se não fosses um bom caçador nem um bom homem.

Caça-Raízes inclinou a cabeça e engoliu em seco. Tinha o pescoço comprido e a cabeça saía-lhe da parka como se fosse o rebento encaracolado de uma planta nova.

Vai então ordenou Chakliux. Vem encontrar-nos de manhã, quando ainda estiver escuro. É quando Sok e eu tencionamos partir.

Virou-se para Mirtilo e disse-lhe, tirando-lhe as mãos do rosto:

Bem sabes que eu tenho que te rejeitar. De outro modo, não serás livre de vires a ser esposa de Caça-Raízes.

Sim.

Se fizermos isto de manhã cedo, ninguém nos verá. Não enfrentarás a desonra.

Chakliux respirou fundo. Não tinha mais nada a dizer. Não era fácil ceder a mulher a outro homem, mesmo que não a desejasse.

Caça-Raízes levantou-se, inclinou a cabeça para Chakliux e depois fitou Mirtilo. A mulher baixou a cabeça e olhou para Chakliux. Caça-Raízes saiu e a cabana ficou de repente grande demais, silenciosa demais.

Chakliux levantou a tigela na direção de Mirtilo, apesar de ter o estômago cheio. Tinha que comer, e lembrou-se que, durante a viagem, sentiria a falta da boa comida de Mirtilo. Depois, recordaria esta segunda tigela de comida.

Serve-te de uma também disse ele.

Mirtilo pousou a mão na barriga e ele julgou que ela ia dizer que não tinha fome, mas ela encheu a tigela, depois sentou-se do outro lado da lareira e começou a comer. Manteve a tigela inclinada para esconder a face.

Quando acabou de comer, baixou a tigela, olhou para ele e disse com um ar tranqüilo:

Obrigada.

Chakliux não teve a certeza se ela lhe agradecia pela comida ou por Caça-Raízes. Perguntou a si próprio se Mirtilo quebrara tabus com Caça-Raízes ou se o recebera na sua cama quando Tsaani ainda era vivo, mas pensou que não tinha nada a ver com isso. Se ela tivesse quebrado tabus e promessas, a sorte a abandonaria e o êxito de Caça-Raízes na caça ficaria ameaçado. Agora, como eles passariam a pertencer um ao outro, as maldições recairiam essencialmente sobre eles próprios, o que era melhor.

Em seguida, Chakliux afastou todos os pensamentos de Caça-Raízes e levou Mirtilo para a cama. Despiu-se e ficou apenas de tanga. Mirtilo tirou a camisa pela cabeça. Ficou de costas para a brasa da lareira e, na penumbra, Chakliux não a via com clareza; distinguia apenas as saliências dos seios, mais escuros no meio, e a sombra do sexo entre as pernas.

Ela era mais magra, tinha os ossos mais finos do que Gguzaakk. Ao olhar para ela, Chakliux começou por reparar apenas nas diferenças entre as duas mulheres; depois, foi como se as visse lado a lado e elas começassem por fim a confluir, como dois ribeiros que se juntavam, o escuro e estreito Mirtilo e o Gguzaakk, mais claro e mais largo, que se juntavam pouco a pouco até se tornarem um só. Chakliux abraçou Mirtilo e acariciou-lhe as costas, os ombros e os braços.

Então as mãos de Mirtilo pousaram no seu corpo, leves e ternas, e Chakliux sentiu os calos pequenos e ásperos na sua pele. Esquecera-se do gozo do corpo de uma mulher, do seu calor. De repente, ficou satisfeito por já a ter prometido a Caça-Raízes. Não sabia ao certo se o teria feito depois de a aceitar como esposa.

 

ALDEIA DE RIO PRIMO

K’os guardou cuidadosamente o pó num pedaço de pele de caribu. Tingira a pele com cinco-folhas e a cor vermelha constituiria um aviso para ela. Fechou-a com muitas fitas de tendão e depois guardou-a no fundo da sua bolsa dos remédios feita de pele de castor. Bate-no-Chão conquistara uma suspensão temporária da execução. Surgiria outra oportunidade, pensou ela, acariciando a bolsa. Por agora, aceitaria a sugestão do marido.

Havia um risco. Eles eram conhecidos na aldeia de Rio Próximo. O marido caçara com alguns dos seus homens e, evidentemente, negociara com eles. K’os também conhecia alguns dos caçadores de Rio Próximo. Conhecia-os muito bem. Mas isso era algo que talvez eles quisessem esconder, sobretudo quando ela estava na companhia do marido.

Bate-no-Chão levantou a aba da porta no túnel de entrada e gritou:

Estás pronta?

Ela puxou o capuz da parka bem para o rosto. Era de manhã cedo, uma boa hora para partir, quando o solo estava duro e gelado. Não podiam esperar mais para decidir o que iriam fazer. A Primavera estava chegando. Depois ninguém conseguiria atravessar o rio senão quando as águas das inundações descessem. Partiriam agora e enfrentariam o filho da aldeia de Rio Próximo.

Cada cão levava um fardo. Eram três animais: uma fêmea e dois machos, todos de olhos dourados. Se o povo de Rio Próximo estava ansioso pela paz, talvez ficasse menos ao ver aqueles cães. Quando os seus jovens percebessem que podiam vir a ter cães como aqueles, concluiriam que também queriam lutar.

O marido de K’os inclinou-se sobre cada um dos animais e verificou os atilhos que seguravam os fardos. K’os afastou-se dele e aproximou-se de Tikaani e de Quebra Neve, os dois jovens caçadores que iriam com eles.

A voz dela era calma e suave, amaciada pelo rufo de pele que lhe emoldurava a face.

Ele julga que vai falar de paz àquela gente de Rio Próximo. Não creio que haja qualquer hipótese de paz. Vigiem-no. Quando eles virem os cães, creio que tentarão matá-lo. Dirão que foi um acidente, mas...

K’os levantou as mãos enluvadas.

Bate-no-Chão olhou para trás e fez-lhes sinal para avançarem. Cada um dos homens ia acompanhado de um cão. K’os seguia atrás. A aldeia estava silenciosa ao princípio da manhã. A fumaça elevava-se no ar e formava uma camada fina sobre as cabanas. As estrelas ainda brilhavam no céu.

A neve chiava debaixo das botas de pele de foca de K’os. A mulher calçara raquetes e transportava um pequeno fardo com mantimentos às costas. À cintura, levava facas de mulher embainhadas e atara uma faca de lâmina curta ao pulso esquerdo. Debaixo da parka, encostada à pele quente, encontrava-se a bolsa dos remédios. K’os acariciou-a e sentiu o coração bater com força como se reagisse à carícia. K’os sorriu, espreitando pelo túnel do capuz. Seria uma longa caminhada, mas estava ansiosa por voltar a ver o filho. Sentia a falta dele.

K’os tirou os óculos de neve. Eram feitos de chifre de caribu ocos e adaptados ao tamanho dos seus olhos. As estreitas fendas e o carvão esfregado no interior ajudavam a cortar o brilho do sol na neve, mas mesmo assim doía-lhe a cabeça e via manchas. Pelo menos, tinham caminhado a maior parte do dia sobre o rio gelado em vez de atravessarem as densas moitas de salgueiros ou a tundra, onde a neve começava a derreter-se.

Há três dias que caminhavam e, quando chegaram ao local em que o rio descrevia uma curva larga, Bate-no-Chão virou-se para trás e gritou a K’os:

Lá está a aldeia de Rio Próximo.

Um caminho aberto na neve estendia-se desde a margem até um trilho pedregoso que era fácil de subir, visto que uma pessoa carregada não tinha de se agarrar às árvores nem escalar engatinhando. Quando chegaram ao topo da margem, K’os verificou que a aldeia era maior do que ela pensava.

As cabanas estavam mais próximas umas das outras do que na sua aldeia. K’os perguntou a si própria onde armariam eles os estrados de seca. Não havia espaço para eles entre as cabanas. Talvez fosse nos limites da aldeia, onde estariam mais expostos ao sol, mas também mais à mercê dos animais.

K’os inclinou-se para Tikaani e disse em voz baixa:

A aldeia é mais pequena do que a nossa. Ele fez um sinal afirmativo.

Mas o número de homens que havia naquelas cabanas é que era importante. Quantos eram? Quantos seriam capazes de lutar?

Um grupo de crianças constituído por rapazes e moças embrulhados em parkas e perneiras foi ao encontro deles. Tinham o rosto redondo e os olhos límpidos.

Ali não havia falta de comida, pensou K’os. As crianças eram sempre as primeiras a mostrar a fraqueza ou a força de uma aldeia.

Somos da aldeia de Rio Primo e vimos visitar-vos disse-lhes Bate-no-Chão.

Uma das crianças mais velhas, um rapaz, deu um passo em frente. Era bem constituído e tinha um aspecto forte, com o queixo tão saliente que os dentes do maxilar inferior não se ajustavam aos de cima. As outras crianças mantiveram-se à distância dele, deixando um pequeno espaço vazio.

K’os observou a criança. Talvez conseguisse servir-se de um rapaz como aquele.

O rapaz abriu a boca, mas antes que ele conseguisse falar, K’os perguntou:

Como te chamas?

A raiva ensombrou-lhe o olhar. Não era uma pergunta própria de um desconhecido, e muito menos de uma mulher. Um nome era uma coisa demasiado sagrada. Quando uma pessoa sabia o nome de outra, tinha poder sobre ela.

Eu sou K’os disse ela, dando-lhe a saber o seu nome para que ele sentisse necessidade de fazer o mesmo. A troca não era igual. Era reduzido o poder que o rapaz poderia exercer contra ela.

Eu vou levar-vos aos velhos afirmou ele, virando as costas a K’os e dirigindo-se a Bate-no-Chão.

K’os sorriu. Ele não era estúpido. Fanfarrão, talvez, mas não estúpido. Tanto melhor. Quantas vezes é que os seus planos tinham sido destruídos pela estupidez? Salta-no-Rio! Bem merecera o que lhe acontecera.

Sim, diz-lhes que viemos visitar os nossos irmãos em sinal de respeito anunciou Bate-no-Chão.

As crianças deram meia volta e desataram a correr para o centro da aldeia.

Diz-lhes que trazemos cães de olhos dourados gritou-lhes Tikaani.

Eles não são cegos comentou Bate-no-Chão. Bem vêem o que nós trazemos.

K’os levantou a cabeça e olhou para as cabanas que os rodeavam. Daí a pouco, nem uma ficaria de pé, pensou. Nem uma. Daí a um ano, só haveria esquilos e ptármigas na aldeia. K’os conteve o riso. O povo de Rio Próximo merecia morrer. Atraía maldições e depois, sem pensar, estendia-as aos outros.

Pouco depois, as crianças voltaram. Vinham acompanhadas por dois velhos. K’os examinou o rosto dos dois homens mas não os reconheceu. Ainda bem, pensou. Depois, baixou a cabeça e pôs-se atrás do marido. À espera, como as mulheres deviam fazer.

A cabana dos velhos era grande. Os postes estavam cheios de peles de animais sagrados doninhas-brancas, pica-paus, marmotas, esquilos e muitos carcajus. Os homens estavam sentados em círculo à volta da lareira. Concederam a K’os um lugar atrás do marido. As mulheres acorreram, trazendo comida das lareiras no exterior. Comeram bem e em seguida o marido de K’os mostrou os presentes que trouxera: facas de jade e de obsidiana para todos os homens. Eles aceitaram-nas com uma expressão séria, como era costume na aldeia, mas não conseguiram esconder um lampejo de alegria no olhar. Pelo visto uma idéia do marido de K’os acerca da qual ela não tinha certeza fora uma boa decisão.

Os homens falaram de muitas coisas, de caçadas e do degelo da Primavera, e até dos filhos e das mulheres, o que surpreendeu K’os. Na sua aldeia, era raro os homens falarem das suas famílias. Era bom que aquela gente de Rio Próximo desse tanto valor aos filhos, pensou K’os. Estariam mais dispostos a lutar por eles, mas a dúvida pairava sobre outros pensamentos, uma dúvida que ela não conseguia afastar. Da última vez que fora à aldeia de Rio Próximo, K’os ainda era uma menina. Fora o pai que a levara. Se bem se lembrava, o povo de Rio Próximo estava de luto por um grupo de homens que tinham morrido afogados no rio. Ela não sabia como isso acontecera muito provavelmente devido ao degelo e às inundações da Primavera mas recordava-se que a aldeia de Rio Próximo era muito mais pequena nessa época. Apesar de ser apenas uma criança, ficara contente por viver na aldeia de Rio Primo e pedira ao pai que não a prometesse como esposa a nenhum homem de Rio Próximo.

Percebera-se que a aldeia mudaria com o passar do tempo, que poderia tornar-se mais forte. Agora, enquanto os homens falavam, ela pensava como é que a aldeia poderia ser tomada pela força. Não seria fácil. Até os velhos pareciam bem alimentados.

Estava tão absorta nos seus pensamentos que quase nem ouviu a pergunta do marido.

Viram o nosso filho? perguntou ele. Ele trouxe vários cães de olhos dourados da nossa aldeia para todos vocês. Ele esperava trazer mais, e nós conseguimos assegurar mais dois machos depois de ele partir. Viemos trazer-lhes.

K’os estava quase escondida pelo marido e assim, na penumbra da parte de trás da cabana, conseguia mudar de posição para ver o rosto de todos os velhos. Estes olharam uns para os outros, mordendo os lábios e erguendo as sobrancelhas, até que um disse:

Ele não veio para cá. Não o vemos desde que ele saiu da nossa aldeia e regressou à vossa, quase há uma lua.

Vários velhos mudaram de posição, pouco à vontade, mas a maioria fez um sinal afirmativo e empinou o queixo, num gesto de concordância.

Não competia a uma mulher falar numa reunião de velhos. Já era invulgar que eles a tivessem convidado para estar ali naquele momento, mas K’os era curandeira e conhecia vários daqueles homens o velho Gaio Azul e Faz-Tendas. K’os tinha a certeza de que eles não a tinham esquecido. Além disso, era uma mulher assustada por causa do filho. Quem poderia culpá-la se falasse?

Pigarreou. Depois pôs as mãos na cara e gemeu.

Ele não está aqui? perguntou ela. Ele saiu da nossa aldeia há seis ou sete dias.

Com os olhos marejados de lágrimas, debruçou-se para eles lhe verem a cara à luz da lareira.

Há outras aldeias disse um dos velhos, o homem a quem chamavam Treina-Cães. Talvez ele tenha ido à aldeia de Quatro Rios, na esperança de encontrar mais cães para trocar aqui.

K’os abanou a cabeça.

Ele sabia que nós estávamos tentando arranjar mais cães para ele. Ele sabia que nós poderíamos vir uns dias depois.

K’os desatou a chorar, sacudida pelos soluços, e Gaio Azul perguntou:

Não viram sinais de ele ter acampado quando vinham para cá?

Um, respondeu Bate-no-Chão, e K’os olhou para ele, cerrando os dentes.

Ele falava verdade. Tinham encontrado um dos acampamentos de Chakliux e dois cadáveres o que restava deles mas ela queria que Bate-no-Chão estivesse calado, que a deixasse falar. Ele julgava que andavam apenas à procura do filho de K’os, para o avisarem do ódio que crescia contra ele na aldeia e para lhe levarem mais cães para que ele pudesse assegurar um lugar naquela aldeia ou noutra.

K’os baixou a cabeça, refreando os soluços.

Gaio Azul levantou-se e aproximou-se dela.

Ela pode ir para a cabana da minha mulher afirmou ele em voz baixa a Bate-no-Chão, e depois ajudou K’os a levantar-se.

Já iam no túnel quando Treina-Cães disse:

É triste que o jovem caçador não tenha regressado à nossa aldeia.

K’os virou-se e olhou para o homem, vendo que o seu olhar era duro e estava fixo no rosto de Gaio Azul.

Sim, é triste tartamudeou Gaio Azul.

Por agora não ficarei sabendo nada, pensou K’os, mas há mais gente nesta aldeia além dos velhos, e as mulheres nem sempre fazem o que os maridos dizem.

A mulher de Gaio Azul chamava-se Canção, pura e simplesmente. Um nome estranho, pensou K’os, mas pouco depois percebeu. A velha não fazia nada sem cantar. A sua voz fina e rouca feria os ouvidos de K’os até lhe doer a cabeça.

Canção dirigiu-se a ela em voz baixa, exprimindo-lhe a sua compaixão, e observando-a com os seus olhinhos negros, cujas pálpebras tão engelhadas levaram K’os a perguntar a si própria como é que a mulher conseguia abri-las para ver.

O teu filho deve estar bem cantarolou a mulher. Ele é forte e saudável. A mãe não se deve preocupar.

Sim, Chakliux estivera ali, pensou K’os, enquanto a mulher repetia as mesmas palavras, sempre a cantarolar. Por qualquer motivo, o povo não queria que eles soubessem. Talvez Chakliux lhes tivesse dito que os caçadores da aldeia de Rio Primo procuravam um pretexto para atacar. Se assim fosse, ela e Bate-no-Chão tinham tido a sorte de os velhos os receberem. É claro que, como pais de Chakliux, talvez fossem considerados mais como amigos do que como inimigos.

Entretanto, a cabana não era má. Estava limpa e cuidada. Havia cestos de pele de peixe e de erva empilhados num lado e camas dobradas noutro. As peles de caribu do chão estavam bem raspadas. K’os conhecia mulheres da sua aldeia que fariam roupas daquelas peles em vez de as usarem para forrar o chão. Mas, ao olhar para a parka da mulher, pendurada numa cavilha junto da entrada, K’os compreendeu. Era de lontra-marinha, de certeza, com um rufo de pele de carcaju e os punhos debruados de pele de caribu, raspada e amaciada até ficar quase branca. As costas da parka terminavam numa cauda ampla de uma estranha pele malhada, de pêlo rijo, diferente de todas as que K’os conhecia.

Numa parte da cabana estavam penduradas as armas e as roupas dos homens, embrulhos sagrados de penas de pica-pau e uma bolsa de pele de castor muito parecida com a que ela trazia por baixo da parka, em que a cabeça fazia de aba e se fechava sobre uma abertura no pescoço.

Viam-se vários arcos incendiários, um maior do que todos os que K’os vira. Como é que um homem conseguia fazer fogo com um arco tão comprido? Quanto mais olhava para ele, mais intrigada ficava. A parte de madeira era muito forte, reforçada, ao que parecia, por tendões entrançados.

Ah, tens fome disse a velha.

Cantarolou qualquer coisa em voz baixa e depois, coxeando, aproximou-se da panela que estava pendurada nos postes da cabana, sobre uma pedra escavada.

K’os já vira uma pedra como aquela. Tinham-lhe dito que servia para fazer fogo lá dentro e que era usada por um povo a que chamavam Caçadores Marinhos. Aquilo parecia-lhe um disparate. Que calor é que uma pedra podia fornecer? E como é que a lenha cabia lá dentro? Agora, ela verificava que a pedra estava cheia de óleo, no qual se viam bocados de musgo torcido boiando. Canção foi buscar lume na lareira e tocou fogo no musgo. Este ardeu mas, por qualquer motivo, não foi consumido pelas chamas. A pedra não era mais larga do que a distância entre o cotovelo e o punho de K’os, e só se viam algumas pequenas labaredas saindo do musgo, mas K’os sentia o calor libertado pela pedra no local em que estava sentada, do outro lado da cabana.

A velha tirou uma tigela de comida e levou a ela.

Isso, o que é? perguntou K’os, apontando com o queixo para a pedra escavada.

Um qignax respondeu a velha. Os Caçadores Marinhos usam-nos para aquecer óleo de foca. É mais limpo do que uma lareira e uma boa maneira de usar gordura velha que já esteja rançosa para cozinhar. O meu marido foi comerciante quando era novo.

Cantarolou outra vez, sem palavras.

Sim, pensou K’os. Lembrou-se que Gaio Azul comprara os seus favores com um belo colar de pedra-sabão, de contas finamente esculpidas.

Ele comprou aquele arco de fogo? perguntou K’os, olhando para o arco que estava pendurado no meio das armas.

A velha riu.

Não é um arco de fogo observou ela. É um estranho modelo de lançador. Ele recebeu-o daquele povo que vive perto das Montanhas Distantes, à beira do mar do Sul.

K’os ouvira contar histórias desse povo.

Disseram-me que eles não são humanos, contrapôs ela.

A velha encolheu os ombros.

O meu marido diz que a língua deles é diferente e que os costumes deles também são diferentes. Vivem em cabanas de terra e de árvores mortas. Ele diz que ainda bem que nós não vivemos perto deles. São guerreiros e, com as suas armas, teríamos grande dificuldade em sobreviver a um ataque.

Armas como aquele arco de fogo? O que faz ele? perguntou K’os.

Não posso tocar-lhe explicou a velha. Até o meu marido raramente lhe toca. Não o levamos para o pesqueiro nem quando vamos atrás dos caribus. Deixamo-lo aqui no acampamento de Inverno. Ele tem muito poder, mas o meu marido mostrou-me como funciona e eu vou explicar-te.

A velha foi buscar um pequeno arco de fogo, agachou-se ao lado de K’os e puxou a corda até ela dobrar a parte de madeira do arco. Deu-o a K’os e depois vasculhou na pilha da lenha até encontrar um pau. Cortou a ponta do pau com a sua faca de mulher e colocou o pau na corda, puxou-a para trás e largou o pau. Este atravessou a cabana de um lado ao outro e foi espetar-se na parede de pele de caribu.

Eles fazem isso com as lanças? perguntou K’os.

É o que diz o meu marido. Pequenas lanças com penas na ponta, como os nossos homens põem nas suas lanças de ponta de osso. Os cabos não são mais compridos do que isto disse ela, afastando as mãos à altura dos ombros. As pontas das lanças também são pequenas, do comprimento de um dedo da mão, e finas e leves, feitas de osso e de pedaços de sílex.

E porque é que as pessoas usam uma arma dessas? perguntou K’os.

É fácil de transportar. Um homem pode levar uma mão-cheia, duas mãos-cheias de pequenas lanças e atirá-las rapidamente, e muito longe.

Mais longe do que um homem atirando uma lança com o lançador?

Sim respondeu a mulher, mas devagar, como se não tivesse a certeza do que estava a dizer. Estou tentando lembrar-me do que o meu marido me disse.

Calou-se por alguns momentos e depois olhou para K’os de sobrancelha erguida.

Um homem fraco consegue atirar a sua pequena lança quase tão longe quanto um caçador forte. Essa é a vantagem. Isto ajuda um rapaz ou um velho a trazer carne para casa, para a família.

Isso é mesmo bom observou K’os, levando a tigela à boca.

O guisado de carne e raízes da velha aqueceu-a desde a boca até à barriga. K’os não tirava os olhos do arco, acariciando-o em pensamento. Lembrou-se de todos os jovens que recebera na sua cama durante o ano anterior rapazes de braços magros, que ainda não tinham a força de um adulto. Com aqueles arcos, eles seriam tão bons como os guerreiros mais velhos? Isso seria possível?

K’os acabou de comer a carne e depois meteu a mão na parka, acariciando os muitos colares que trazia junto da pele. Os colares não eram tão bons como certas coisas. Não se podiam comer, nem aqueciam as pessoas, mas tinham a sua utilidade.

Foste simpática comigo disse ela a Canção. Toma isto para te lembrares da minha gratidão.

Por instantes, viu o brilho de uma jovem nos olhos mortiços de Canção, e depois uma mão deformada agarrou no colar. K’os levantou-se e pô-lo sobre a camisa de pele de caribu da velha. Depois, recusou-se a ouvir a sua pobre canção de louvor.

Aceitarias um cão de olhos dourados? perguntou K’os.

Não respondeu o velho. Como é que eu posso trocá-lo? Ele é que me dá sorte. Não há nada que possas dar-me por ele, nem sequer um cão de olhos dourados. Ainda vou à caça, velho como estou. Esse arco dá força ao meu lançador. Este ano matei um urso. E também apanhei muitos caribus. Olha para a minha cabana. Repara nas peles e nos cestos de carne seca. A minha despensa ainda está quase cheia. Daqui a pouco tempo, vou oferecer uma parte. É demais para mim e para a minha mulher, portanto vou partilhá-la com os outros. Faremos um banquete. Posso fazê-lo antes de partires. O teu marido e os caçadores da tua aldeia verão a sorte que eu tenho.

K’os semicerrou os olhos e calou-se. Gaio Azul era estúpido. Para que precisava de sorte? Estava velho.

Se eu resolvesse oferecê-lo, seria para ti. Mas um homem não pode perder a sua sorte. Sobretudo um velho.

Ela percebeu a súplica na sua voz e concluiu que Gaio Azul era como todos os homens, desejoso de agradar. Levantou-se.

Compreendo disse ela. Não te pedirei uma coisa dessas. Nem o meu marido.

O velho sorriu, aliviado.

Pediram-me que fosse visitar a mãe do meu filho em Rio Próximo, disse K’os.

Gaio Azul olhou para as mãos.

Sei que julgas que o teu filho é uma dádiva dos animais, disse ele. Alguns de nós nesta aldeia também acreditamos nisso. Não deixes que essa mulher te roube o coração.

K’os sorriu.

Chakliux é uma dádiva dos deuses, mas se Mulher Diurna julga que ele é o seu filho perdido, talvez essa convicção a conforte. Também não lhe roubarei o coração.

És boa afirmou Gaio Azul. Depois, apontou para a parka de Canção. A minha mulher vai indicar-te o caminho.

K’os fez um sinal afirmativo e saiu da cabana atrás de Canção.

Ele é um bom homem, preocupa-se com toda mundo disse a velha.

É verdade respondeu K’os.

Era uma pena que a sorte dele tivesse acabado, pensou ela.

Depois de Canção as deixar a sós, K’os percebeu-se o nervosismo de Mulher Diurna. Não conseguia levantar a cabeça e as mãos tremiam-lhe quando deu a K’os um prato de carne. K’os pousou a comida no chão, a seu lado.

Mulher Diurna arregalou os olhos.

Preferes comer outra coisa qualquer? perguntou ela.

Já comi o suficiente respondeu K’os.

Sorriu ao ver o ar ofendido de Mulher Diurna e perguntou:

És a verdadeira mãe de Chakliux?

Não esperava que a mulher lhe respondesse. Vira tantas esposas assim, conhecera tantas. Viviam sempre tentando agradar os outros. Um dia ouvira um ditado que dizia. ”Quem anda à chuva molha-se." Mulher Diurna molhava-se, sem dúvida.

A sua cabana era a prova disso. Os postes eram tortos e pequenos, as peles da cama estavam velhas e o cheiro de mofo era forte. As peles de caribu do chão tinham sido bem raspadas mas estavam rompendo-se.

Sim, sou a mãe de Chakliux, respondeu Mulher Diurna.

K’os ficou admirada mas satisfeita com a frontalidade de Mulher Diurna. Apreciava sempre um desafio.

Não, não és a mãe dele. Ele é uma dádiva dos animais, a mim. Os poderes dele são para o povo da minha aldeia.

Mulher Diurna ficou boquiaberta, e K’os viu que os olhos dela se enchiam de lágrimas.

Chorar não altera a realidade.

Não choro pelo que estás dizendo respondeu Mulher Diurna, mais alto do que falara até aí, como se as lágrimas dessem força à sua voz. Choro pelo tempo em que não fui mãe dele, e agradeço-te por teres sido a mãe que eu não fui.

K’os encolheu os ombros. Depois pegou a tigela e começou a comer. Ao levantar a cabeça, reparou que Mulher Diurna parecia mais descontraída ao vê-la comer. A hospitalidade era muito importante para aquele povo de Rio Próximo, recordou K’os. Até os homens de Rio Próximo que iam à aldeia dela negociar, e à cabana dela por outros motivos, levavam sempre presentes e palavras amáveis. Aborreciam-na, falando de coisas que não tinham interesse. Ela tinha olhos na cara; nada a impedia de olhar lá para fora e ver o céu, para saber se chovia ou não, se nevava ou se estava bom tempo. Porque tinham eles que falar dessas coisas como se ela dependesse das suas palavras?

K’os baixou a tigela e fitou Mulher Diurna. Sim, ela parecia-se um pouco com Chakliux, a curva da boca, o olho direito um pouco maior do que o esquerdo.

Se és a mãe dele, compreendes o que eu sinto, afirmou K’os, falando devagar. Há mais de duas mãos-cheias de dias que ele saiu da nossa aldeia. Vinha para cá.

Encontramos o cadáver do homem que o acompanhava. Não há sinais do meu filho e os vossos velhos dizem que ele não voltou a esta aldeia.

K’os olhou para Mulher Diurna e depois para o teto da cabana. Manteve os olhos bem abertos e nem pestanejou até o fumo da lareira os fazer arder. Depois levantou a mão para limpar as lágrimas que lhe corriam pela face.

Não posso suportar que ele tenha...

Mulher Diurna inclinou-se para a frente, abanando a cabeça.

Não chores, irmã. Não chores.

De quatro, aproximou-se de K’os e abraçou-a.

K’os ficou tesa ao sentir o contato da mulher, mas forçou-se a permanecer imóvel. Mulher Diurna acariciou-lhe os cabelos como se ela fosse uma criança.

Os velhos têm medo dos jovens guerreiros da tua aldeia declarou Mulher Diurna. Têm medo que os caçadores de Rio Primo pensem que Chakliux roubou os cães de olhos dourados para nos dar.

Voltou a acariciar os cabelos de K’os e embalou-a, de joelhos.

Cala-te, agora. Chakliux está vivo. Não te preocupes. Neste momento, ele vai ao encontro dos Caçadores de Morsas. Neste momento, ele está a salvo, ele e o irmão, o meu filho Sok.

 

A gritaria acordou Yaa, e a princípio ela pensou que era Ghaden. Quando viu que ele estava dormindo, tocou-lhe. O rapaz acordou, sobressaltado. Yaa pegou-lhe ao colo e ele retraiu-se quando ela o abraçou com muita força.

O que é? O que se passa? gritou Água Castanha.

É qualquer coisa lá fora respondeu Boca Feliz. Na semiobscuridade das primeiras horas da manhã, Yaa viu Água Castanha sair da cama, embrulhar-se num cobertor de pele de lebre e enfiar-se no túnel de entrada.

Yaa, Ghaden, estão acordados? perguntou a mãe de Yaa.

Sim. Estamos acordados respondeu Yaa.

Calcem as botas mas fiquem na cama ordenou Boca Feliz.

Água Castanha enfiou a cabeça lá dentro e disse:

Há fogo na cabana de Canção.

Yaa ficou sem fôlego. Quando deflagrava um incêndio, propagava-se rapidamente, de uns telhados para os outros. As peles de caribu engorduradas ardiam tão depressa que muitas vezes as pessoas ficavam presas lá dentro.

Essa era uma das razões pelas quais as mulheres da aldeia faziam a maior parte da comida lá fora e mantinham um pequeno lume aceso na cabana para se aquecerem no Inverno e para afastar os mosquitos no Verão. Fora uma das coisas que Yaa aprendera, a acender o lume e a controlá-lo.

Na cabana de Canção, dissera Água Castanha. Era muito freqüente os incêndios começarem nas cabanas das velhas.

Yaa vestiu a parka em Ghaden, acabou de lhe calçar as botas e depois arrastou-o para o túnel. O cachorro bocejou, encaminhou-se a custo para o túnel e alçou a perna, e por pouco não caiu ao urinar na parede da cabana.

Maroto! gritou-lhe Yaa, mas não teve tempo de fazer mais nada. Pegou o cesto de costura de Água Castanha, a bolsa de facas da mãe e os utensílios de raspar as peles e os pôs junto de Ghaden.

Fica aqui até eu vir buscar-te ordenou ela. Não voltes para a cama.

Em seguida, vestiu a parka, agarrou as três maiores tigelas de madeira e saiu. A mãe e Água Castanha estavam acumulando neve junto da cabana. Yaa deu uma tigela a cada uma, encheu a sua tigela de neve úmida e pesada e começou a aplicá-la nas paredes de pele de caribu.

O meu marido soluçou K’os. Ele tentou impedir aquilo. Têm que tirá-lo de lá. Por favor! Canção está lá dentro com o marido dela. Eles estão todos lá dentro.

A sua voz transformou-se num grito. Ao ver Tikaani, caiu-lhe nos braços, ajoelhou-se e agarrou-se às pernas dele.

Bate-no-Chão, meu marido, Bate-no-Chão! gritava ela.

Tikaani ajudou-a a levantar-se.

K’os, tem calma. Eles vão tirá-lo de lá. Eu vou lá buscá-lo.

Afastou-se dela e dirigiu-se para a cabana em chamas, mas K’os agarrou-se a ele e obrigou-o a parar. Ele gritou, pedindo que alguém a levasse dali. Aproximou-se um velho, um dos homens mais idosos de Rio Próximo. Agarrou as mãos de K’os e manietou-a.

As chamas passaram da cabana de Canção para a outra ao lado. O vento não era forte, e por isso era pouco provável que toda a aldeia ardesse, pensou K’os.

Empurrou os cabelos para trás. Tinha a cara e a parka cheias de fuligem, e as mãos também. Viu Tikaani enfiar-se no túnel de entrada. Susteve a respiração, esperando que ele não ficasse queimado. Não queria regressar à sua aldeia sem ele, nem queria ficar na aldeia de Rio Próximo além do que era necessário. Já seria mau permanecerem ali durante o período do luto, embora o povo talvez não esperasse que ela se demorasse uma lua inteira, mas que aguardasse apenas o momento em que o marido fosse amortalhado e deposto numa armação fúnebre.

O fogo estava quase extinto na cabana do lado. Só uma parte do telhado de pele de caribu é que ardera. Até os postes pareciam intactos. Na aldeia, algumas pessoas já tinham começado a entoar cânticos fúnebres. K’os juntou-se a elas.

Tikaani saiu da cabana de Canção puxando um cadáver. Era de Bate-no-Chão. K’os respirou fundo, soltou um grito lancinante e libertou-se do homem que a agarrava. Naquele momento, os postes da cabana ruíram, arrastando as chamas. Com um estrondo, o fogo consumiu o interior da cabana.

K’os lançou-se sobre o corpo do marido, ignorando o cheiro desagradável de carne queimada. Tirou uma faca de mulher da manga e golpeou o braço. O sangue vermelho-escuro derramou-se no rosto queimado de Bate-no-Chão.

Durante cinco dias, K’os ficou com o povo de Rio Próximo, chorando, fazendo o luto. Ofereceu um dos cães de olhos dourados ao filho mais velho de Canção e outro aos velhos. Abanou a cabeça ao pensar que era um milagre estar viva, agradeceu àqueles que lhe encheram um trenó de presentes e de comida e não aceitou que os caçadores de Rio Próximo a acompanhassem até a sua aldeia.

O povo de Rio Próximo prometeu-lhe que respeitaria Bate-no-Chão, dissuadindo-a com histórias de lobos de levar o cadáver.

No sexto dia, K’os levantou-se cedo, acabou de acondicionar a bagagem e desculpou-se dizendo que ia à latrina das mulheres no extremo da aldeia.

Yaa estava deitada à entrada da toca, com uma perna de lebre assada nas mãos. Roubara-a a uma das velhas nas lareiras da comida, metade de uma lebre, magra e dura por causa do Inverno, mas saborosa. Embrulhou a maior parte num bocado de pele de caribu para a levar a Ghaden, para lhe dar quando estivessem sozinhos, mas não conseguira esperar e estava comendo a seu parte.

Encontrava-se deitada de barriga para baixo, apoiada nos cotovelos, espreitando por entre os ramos baixos dos abetos-negros que escondiam a toca. Era bom estar ali. Ainda não tivera oportunidade de voltar àquele local desde que Ghaden regressara à cabana. Mas ele bem o merecia e dentro de pouco já teria forças para a acompanhar. Era um belo esconderijo.

Yaa gostava especialmente de estar na toca ao amanhecer, quando as mulheres iam fazer as suas necessidades. Era ainda muito cedo e só algumas mulheres, aquelas a quem competia acender o lume e as grávidas, cuja barriga as obrigava a madrugar se viam no caminho. Yaa enterrou os dentes na lebre e encheu a boca de carne.

Quando viu as botas, percebeu que se tratava da mulher de Rio Primo. Eles faziam mal as botas, com as costuras muito em cima do pé. Yaa chegou-se mais à frente com a ajuda dos cotovelos e espreitou-a. Água Castanha dissera que a mulher golpeara o braço em sinal de luto, mas mantivera os cabelos compridos; não os cortara. Partia nesse dia, segundo lhe dissera Dança-no-Gelo, que lhe batera várias vezes em troca da informação.

Ainda bem que a vi, pensou Yaa, ansiosa por contar às amigas.

Yaa pousou a carne no tapete feito de agulhas de abeto que cobria a neve endurecida e aproximou-se mais do caminho. Agarrou num ramo com a mão e baixou-o para esconder a cara. Pouco depois, a mulher passou. Yaa observou-lhe os pés, tentando ver os pormenores das botas para poder contar à mãe. Boca Feliz fazia as melhores botas da aldeia, quentes e secas, com as costuras nos seus devidos lugares para não fazerem bolhas nos dedos.

Quando a mulher ia a descer o caminho, Yaa saiu de baixo da árvore e pegou de novo na carne. Já chegara a perder comida por ser descuidada. Os animais pequenos surgiam depressa. O caminho fazia uma curva por trás de um denso tufo de salgueiros e depois descia na direção da aldeia. Por isso, quando Yaa se pôs de pé, perdeu a mulher de vista, mas manteve-se atenta ao local em que ela surgiria dos arbustos. Esperou durante muito tempo, mas não viu nada. Sim, era a mulher e os dois jovens caçadores que a haviam acompanhado. Só tinham um cão. Um dos outros dois.

Então a mulher não voltaria para a aldeia. Devia ter ido fazer as suas necessidades lá acima, por uma questão de pudor. Dança-no-Gelo dissera que eles levariam três ou quatro dias a chegar à aldeia de Rio Primo. Muitas vezes, em campo aberto, a pobre mulher seria obrigada a agachar-se na presença daqueles caçadores, que nem sequer eram filhos dela. Yaa detestava quando o seu povo ia atrás dos caribus e não havia privacidade, apesar de as meninas seguirem em grupo. Os rapazes ora! Não se importavam com nada. Alguns paravam e faziam ali mesmo no caminho. É claro que para eles a coisa era mais fácil.

Yaa deu uma dentada na carne, vendo os jovens caçadores saudando a mulher. Ela deu qualquer coisa a um dos homens. Um arco de fogo, concluiu Yaa, mas depois abanou a cabeça. Não. Era demasiado comprido para ser um arco de fogo. Ah, já sabia o que era. Era aquela arma estranha daquele povo que não era humano. Aquele objeto sagrado que pertencia ao velho Gaio Azul. Ele devia ter-lhe oferecido antes do incêndio. A mulher tivera sorte em conseguir retirá-lo a tempo. Podia ter ardido.

Yaa observou as pessoas de Rio Primo até elas desaparecerem no declive da margem e depois enfiou-se de novo debaixo da árvore. Tinha que se apressar a comer. Já saíra há muito tempo, só para ir buscar lenha. Deu mais algumas dentadas e depois guardou o resto da carne dentro da parka.

Saiu de baixo do abeto e enfiou os pés nas pegadas deixadas pela mulher de Rio Primo, em direção à aldeia. Suspirou. Era triste a situação daquela mulher. Pelo menos o velho Gaio Azul dera-lhe um presente, mas não era muito em troca de um marido.

 

                             Verão, 6460 a. C.

 

Furiosa, trouxe-a para a minha cabana para o calor das minhas lamparinas de óleo de foca, para a segurança das paredes grossas do meu ulax. Digo isto para que compreendam que eu não queria o caminho aberto para nós. Por isso não me venham dizer como é que uma velha consegue o que quer com lamúrias.

O nosso caminho foi escolhido pelo chefe dos caçadores da nossa aldeia e pelas mulheres do seu ulax. Elas tiveram o mesmo sonho, todas essas esposas-irmãs, na mesma noite. Quatro mulheres com o mesmo sonho. Quem pode negar que tal acontecimento é sagrado?

Os seus sonhos diziam que Aqamdax, filha de Daes uma das que eram veneradas como netas de Shuganan devia vir comigo, que sou irmã da avó do pai dela, para aprender a ser a contadora de histórias seguinte.

Durante cinco dezenas de anos, contei as histórias antigas e sagradas do nosso povo. De outro modo, como poderia alguém conhecer o avô Shuganan e o guerreiro Samiq? Da minha boca saíram apenas as histórias de Chagak, aquele que chamava as lontras, do Corvo Manhoso e do escultor Kiin, e do neto de Kiin, Ukamax, que deu aos Primeiros Homens as suas danças sagradas. Estas histórias foram passadas de uns contadores de histórias para outros, desde uma época tão recuada que ninguém sabe contar os anos.

Essas esposas-irmãs diziam que os espíritos lhes tinham anunciado que Aqamdax era a escolhida. Hii! O marido pode acreditar nelas, mas não eu.

Ele é bom homem, e levou a mãe e a filha para o seu ulax. Quem mais os levaria depois de o marido e pai ter morrido, amaldiçoado pelos animais marinhos na sua caçada? Mas a mulher mostrou-se agradecida? Não.

Pouco depois de o luto ter acabado, ela aceitou um nome do Povo Rio, Daes, e fugiu com um comerciante. Dizem que vive agora com o Povo Rio. Gente que come peixe e que nem sequer sabe caçar animais marinhos!

Hii! O que seria de esperar da filha de Bate-na-Água?

Portanto, escutem o que eu digo, porque é a verdade: aquelas esposas, as mulheres do chefe dos caçadores, estavam fartas das brigas de Aqamdax e dos seus truques. Que melhor maneira de se verem livres da moça do que me entregarem? Eu não passei anos a rezar para que o contador de histórias seguinte fosse revelado? Eu não olhava para cada bebê que nascia e não suplicava para que fosse ele? Como posso discutir a decisão dos espíritos? Afinal, Aqamdax é uma bela mulher.

Vocês não saberiam ao vê-la que ela é apenas uma nayux de barbatana de foca, que a pele dela foi moldada pelo sopro do seu ódio.

 

ALDEIA DOS PRIMEIROS HOMENS

Chamariz estremeceu e largou-a. Aqamdax agarrou-se a ele na escuridão, ansiando pelo peso e pelo calor do seu corpo, mas ele levantou-se da cama sem dizer uma palavra. Não era diferente dos outros. Assim que estavam satisfeitos, iam embora.

O que lhe interessava que a velha os ouvisse? Era preciso gritar para que alguma coisa lhe entrasse nos ouvidos.

Havia outros homens. Aqamdax podia preencher as suas noites com eles. A moça enrolou-se nos cobertores e cruzou os braços sobre o peito. Sim, faria isso. Numa noite qualquer, faria isso. Arranjaria seis homens, ou talvez sete, e durante toda a noite teria alguém junto dela, alguém que a abraçasse. Então o frio sairia dos seus ossos e ela conseguiria aquecer como acontecia quando o pai era vivo, quando a terra era tão boa e luminosa como o sorriso do pai.

O jovem atravessou o ulax e dirigiu-se para o poste de escalar, mas Qung fingiu que não o via. Julgavam que ela era estúpida por ser velha, mas ela sabia quem ia se encontrar com Aqamdax e com que freqüência.

Era quase noite. Qung perguntou a si própria se viria mais algum homem ou se Aqamdax se contentaria só com um. A moça era tal e qual a mãe. Seria uma bênção para toda a aldeia se aparecesse algum comerciante que a levasse. Qung suspirou e enrolou a esteira de erva que estava tecendo. Era uma esteira grosseira, muito diferente das que ela fazia quando era nova, mas as articulações estavam inchadas e doíam-lhe tanto que ela já não conseguia entrelaçar erva.

Até que Aqamdax fizesse alguma coisa, arranjasse um marido ou saísse da aldeia, Qung tinha que a ensinar, e ela não gostava de ser ensinada. Era rápida; não levava muito tempo para aprender uma nova história. Mas não conseguia estar parada. Andava de um lado para o outro enquanto Qung a ensinava, e a velha, que tinha de virar a cabeça para acompanhar os movimentos da garota, muitas vezes ficava tonta.

Aqamdax representava as histórias; Qung tinha que admitir que assim era. Até aprendera a projetar a voz, como se esta viesse do buraco no telhado ou da cama, de uma lamparina ou de um estrado, e era quase tão boa como a própria Qung. Mas Aqamdax tinha tendência a irritar-se quando não havia motivo para isso, a atirar coisas e a amuar.

Aqamdax vivia com ela há mais de três luas e Qung ainda não se habituara aos destemperos da garota. Nos primeiros dias, Qung tinha esperança, sempre que um jovem caçador ia visitar a moça. Aqamdax tinha quinze Verões. Nessa idade, quase todas as mulheres estavam casadas e tinham filhos. Agora Qung percebia que era pouco provável que Aqamdax encontrasse um homem.

Porquê confiar numa mulher que dormia com todos os homens que a solicitavam? Além disso, qual o caçador que quereria uma mulher que, depois de ter tido tantas oportunidades, ainda não engravidara? E quem havia de querer uma mulher que estava sempre zangada, sempre discutindo?

Qung suspirou. Estava velha mas ainda era forte. Ainda poderia viver mais alguns Invernos, mas como podia alegrar-se com a sua longa vida se partilhava o seu ulax com uma pessoa como Aqamdax?

Qung levantou-se devagar e a custo, apagou vários pavios da grande lamparina de óleo e deixou apenas um aceso. Arrastou-se para a cama. A lamparina projetou na parede as longas sombras dos seus ombros corcovados e dos seus braços magros. Ao arredar as cortinas de erva da cama, ouviu um barulho e virou-se. Vinha alguém descendo o poste. Era Salmão. Porque ele estaria ali? Tinha duas esposas.

Qung deu um estalo com a língua em sinal de desagrado e ficou à espera que Salmão a visse. Abanou-lhe a cabeça e ele baixou a sua, desviando o olhar. Como é que aqueles homens esperavam ter sorte na caça se tinham tantas mulheres para lhes satisfazerem o desejo? Os animais marinhos respeitavam aquela fraqueza? Como é que Salmão esperava que o seu iqyax não tivesse ciúmes se todas as manhãs lá entrava com o cheiro de uma mulher nas mãos? Um dia, o barco ainda o atiraria ao mar. Depois quem iria à caça para alimentar as suas mulheres e os seus bebês?

Qung instalou-se na cama, tendo o cuidado de embrulhar os pés na pele de foca mais grossa. O passado estava sendo esquecido. Os tabus estavam sendo ignorados. De que servia ser contadora de histórias se as pessoas não as ouviam nem aprendiam com elas?

Qung virou-se de costas para a cortina de erva. Talvez as pessoas estivessem cansadas de ouvir uma velha dizendo-lhes como deviam ser as coisas. Talvez tivesse chegado o momento de ouvir contar as histórias de novas maneiras, por uma voz jovem e forte. Mas o que aconteceria àquelas histórias sagradas quando saíssem da boca de Aqamdax? Seriam suficientemente fortes para se manterem puras, ou o desrespeito de Aqamdax as torceria como uma mulher torce o pescoço a uma ptármiga?

Esta noite é a festa do Sol anunciou Qung.

Eu sei respondeu Aqamdax, mordendo a língua para impedir a troça que lhe vinha com facilidade à boca. Toda a gente sabia que era a festa do Sol.

Preparaste comida? perguntou Qung. Aqamdax levantou a sobrancelha, admirada, e apontou para o peixe seco e para os talos de iitikaalux descascados que dispusera em esteiras de erva.

Qung fez um sinal afirmativo, como se tivesse visto o que Aqamdax fizera.

Leva alguns dos nossos ovos ordenou ela.

Aqamdax ficou de novo surpreendida. Os ovos conservados em óleo de foca e enterrados na areia eram o alimento preferido de Qung. A velha não os repartia com ninguém, e até Aqamdax tinha de se esconder para ir buscar um na despensa, apesar de ser ela que subia aos rochedos para ir apanhá-los.

Ovos? repetiu ela, para se certificar de que ouvira bem o que a velha dissera.

Ovos. Eu disse ovos respondeu Qung, enfadada. Leva ovos.

Sim, tia

É uma festa, como sabes. Aqamdax sorriu.

Eu sei.

O dia do Sol trazia sempre esperança, e os Primeiros Homens tentavam mostrar ao Sol que apreciavam o fato de ele nascer todas as manhãs. Se não o fizessem, se não o louvassem, o que poderia acontecer? Talvez o Sol optasse por ficar no local para onde ia todas as noites e nunca mais voltasse.

Os Primeiros Homens vão ter um novo contador de histórias.

Aqamdax abriu a boca mas não disse nada. Um novo contador de histórias. Qung devia estar referindo-se a ela, mas saberia ela bem as histórias? E se as pessoas não a ouvissem quando ela falasse? Como podia ela ter esperança de conquistar o seu respeito como Qung conquistara?

Os homens corriam voluntariamente à cama dela, mas Aqamdax sabia o que diziam nas suas costas. Percebia a fúria das esposas e das mães. Uma coisa era um homem procurar uma mulher disponível durante uma longa viagem, mas ter uma mulher dessas na aldeia, sempre pronta a substituir uma esposa... Se Aqamdax fosse esposa, também ficaria ressentida.

No entanto, nunca fora reclamada como esposa, e continuava a sangrar todos os meses. Então, como podia ter esperança de vir a ser esposa? Para quê pagar um dote por uma mulher estéril se ela receberia um homem na sua cama de qualquer modo? Para quê ter o trabalho de a alimentar?

Por isso, dariam as pessoas ouvidos a alguém como ela? O que sentiriam quando as suas histórias sagradas saíssem da boca dela?

Estás pronta. Eu sei. Estás pronta afirmou Qung, com uma segurança que reduziu a ansiedade de Aqamdax.

Eu estou pronta respondeu Aqamdax, tentando que a sua voz fosse tão segura como a de Qung. Sorriu à velha, cujo rosto tinha tantas rugas que mal se viam os olhos. Achas que o nosso povo está pronto para me aceitar?

Aqamdax riu ao ver que Qung não lhe respondia e depois levantou a cabeça. Seria diferente quando ela fosse apanhar moluscos com as outras mulheres ou se juntasse às esposas do chefe para pescar savelha. Era perita em ignorar farpas, sorrisos maliciosos e olhos semicerrados. Se contasse bem as histórias, talvez eles se esquecessem de quem as contava e pensassem apenas nas palavras.

No ulax às escuras, acendendo apenas alguns pavios numa lamparina de óleo, Aqamdax perguntou a si própria se a velha teria feito aquilo na esperança de que as pessoas se esquecessem de quem estava falando.

 

Aqamdax saíra com o seu sax de penas, o casaco comprido que lhe dava pelos tornozelos e que quase todos os Primeiros Homens usavam no exterior do ulax. Preferia usar uma parka de Inverno, cujo capuz a protegia dos pensamentos das outras pessoas. Pelo menos o sax escondia-lhe o ventre e os seios, acariciados por tantos homens.

Não participara na dança e comera muito pouco durante a festa. Era como se as pessoas das suas histórias estivessem vivas na sua mente, dançando, cantando e gritando, fazendo a sua própria celebração, segredando-lhe ao ouvido e empurrando as suas canções para a boca dela, até Aqamdax ficar tão cheia que não suportasse a companhia dos que a rodeavam.

Escondera-se lá fora, na sombra do ulax, ao abrigo do vento, o mais longe possível da festa, ouvindo a tagarelice no interior da sua cabeça, até perceber que estava encostada no ulax dos mortos.

Aqamdax levantara-se para ir embora, mas depois resolvera ficar. Ali estaria sozinha. Ninguém a interromperia quando ela voltasse a contar as histórias. Talvez aquelas ossadas que estavam no ulax gostassem de ouvir as velhas histórias mais uma vez.

Começou pelas histórias do Criador, explicou como todas as coisas tinham sido criadas o mar e o céu, a terra, os animais e o homem. Falou de tempos passados em que as lontras-marinhas e os Primeiros Homens eram irmãos. Contou como um irmão e uma irmã, amaldiçoados por dormirem juntos, tinham se tornado o Sol e a Lua. Ainda era possível vê-los no céu, perseguindo um ao outro. Contou histórias e mais histórias mais recentes, de caçadores e guerreiros, de Invernos rigorosos e de Verões amenos. Por fim, quando o Sol tinha mergulhado na terra, regressou ao ulax de Qung.

A velha estava à espera. As estreitas nesgas dos seus olhos brilhavam quando Aqamdax desceu o poste do ulax.

Aqamdax perguntou a si própria se Qung também contaria histórias ou se queria que fosse apenas ela a contá-las. Em geral, quando uma aldeia tinha mais de um contador de histórias, estes revezavam-se, contando um, depois o outro, e cada um inventava histórias a partir das que já tinham sido contadas.

Durante algum tempo, ficaram sentadas em silêncio. Depois, Qung disse:

Vou contar a primeira história. Quando acabar, será a tua vez. Se alguém objetar, não pares. Eu farei o que tiver a fazer.

Alguém sabe que eu...

Eu disse ao chefe dos caçadores. Talvez ele diga às suas esposas. Ou talvez não, mas quem sabe? Foram elas que sonharam contigo.

Aqamdax riu. Sim, elas tinham sonhado com ela. Que outra coisa podiam fazer? Ela precisava ser esposa. Se não era, porque não seria contadora de histórias?

Tem calma, Aqamdax, recomendou Qung, e Aqamdax percebeu que andava de um lado para o outro no ulax, com passos compridos e rápidos.

Fez o possível para se sentar, mas os pés e os joelhos não estavam quietos e os músculos das pernas dançavam-lhe debaixo da pele.

Toma disse Qung, pondo qualquer coisa na mão de Aqamdax.

A moça abriu os olhos. Era um dente de baleia, esculpido nas espirais de uma concha. Liso e frio, como se tivesse sido feito para caber dentro de uma mão. Os dedos de Aqamdax acompanharam as curvas da espiral, acariciando-a. Parecia que o nervosismo lhe saía do corpo à medida que os seus dedos se mexiam, devagarinho, nos sulcos da concha de dente de baleia.

Agora é teu. Não preciso dele disse Qung. Aqamdax ficou admirada. Tinha certeza de que não dera motivos a Qung para esta lhe oferecer presentes.

Era de Shuganan? perguntou Aqamdax.

A mãe tinha várias esculturas antigas do homem, mas levara-as quando abandonara os Primeiros Homens.

Não, não era de Shuganan respondeu Qung. Era de uma das netas dele.

Obrigada agradeceu Aqamdax, percebendo que não agradecia a ninguém há muito tempo, desde que a mãe partira.

Faço-o como se fosse um favor a mim própria respondeu Qung, esticando um braço na direção dos pés de Aqamdax. Agora não tenho que aturar o teu mau gênio.

Cacarejou, como fazem as velhas quando se riem; depois levantou-se e aproximou-se do poste. Olhou para cima e ficou à espera.

Ela não ouve tão mal como dá a entender, pensou Aqamdax, e prometeu não se esquecer disso. Depois, as pessoas começaram a descer para o ulax, homens seguidos pelas mulheres e pelos filhos. Os bebês vinham em alças às costas e as crianças que mal sabiam andar vinham apoiadas nas ancas das mães. As mais pequenas desciam com todo o cuidado; as mais crescidas saltavam para dentro do ulax quase do topo do poste.

Qung sentou-se ao lado de Aqamdax e inclinou a cabeça. Aqamdax reparou e fez o mesmo. Era uma atitude acertada, concluiu ela. A cabeça baixa pareceu desencorajar fosse quem fosse de iniciar uma conversa, e ajudou Aqamdax a concentrar-se nas histórias que iria contar.

Quando Qung começou a contar a primeira história, Aqamdax levantou a cabeça e olhou para as pessoas. Todas elas estavam de olhos postos em Qung; todas se inclinavam para a frente como se estivessem prontas a agarrar as palavras que saíam da boca de Qung. Olhariam para Aqamdax da mesma maneira ou assobiariam para exprimir o seu desagrado?

Aqamdax reconheceu todas as esposas do chefe. Estavam sentadas atrás dos homens, mas à frente de quase todas as outras mulheres. Aqamdax viu a prima, Kittiwake, e o filhinho desta. Peixe Azul, a melhor amiga da mãe, estava lá, assim como a tia de Peixe Azul, já com pouco tino e sempre se babando.

Aqamdax olhou para os homens, viu o chefe, Salmão e aquele que fora o companheiro de caça do pai, Com-Medo-da-Mão, o homem que não conseguira salvá-lo das águas do mar.

Os dedos dos pés de Aqamdax começaram a agitar-se e ela sentiu Qung apertar-lhe o braço e mexer na concha de osso de baleia que ela ainda segurava na mão.

Aqamdax esfregou os dedos na concha e depois respirou fundo. Qung continuou a contar a história como se nada tivesse acontecido e Aqamdax inclinou a cabeça, fez o possível para estar quieta e atenta, até se deixar arrebatar pelas palavras, como se o antigo escultor Shuganan estivesse de novo vivo nos montes e nas praias que ela via na sua mente.

Quando a história acabou, Qung apertou a mão de Aqamdax e acariciou com os seus dedos deformados a escultura a que Aqamdax se agarrava.

A mulher Chagak andava nos montes apanhando frutos quando chegaram os guerreiros começou Aqamdax.

Calou-se para ganhar fôlego, com o coração acelerado pelo medo. E se as pessoas se levantassem e se fossem embora? Ouviu várias mulheres assobiando. Qung apertou-lhe de novo a mão e Aqamdax lembrou-se do que a velha lhe dissera. Continua falando, não pares. Continua contando a história.

Aqamdax abriu a boca e as palavras saíram, parando a princípio, mas depois fluíram. Eram palavras belas, buriladas por muitos contadores de histórias e que transportavam a mente para lugares e épocas muito recuados.

A princípio, falou baixinho, mas à medida que a história unia os Primeiros Homens, parecia também dar-lhe forças. Quando Chagak falou à lontra, Aqamdax serviu-se dos ensinamentos de Qung para levantar a voz, como se fosse a lontra a chamar do topo do ulax, como se o animal estivesse sentado acima deles.

Várias crianças olharam para o orifício do teto e algumas mulheres murmuraram em sinal de aprovação. O elogio silencioso brilhou no peito de Aqamdax, enchendo-a de alegria. A sua voz ganhou força, e a história rodeou-se de toda a sua magia, tal qual uma lontra-marinha se embrenha nas algas, em segurança.

 

ALDEIA DOS CAÇADORES DE MORSAS

O contador de histórias falou cantarolando, usando fiadas de nós de tendão esticados entre os dedos rápidos para ilustrar as suas palavras, mas estas eram muitas vezes rápidas demais para que Chakliux as entendesse, com alusões a outras histórias, a caçadores e a guerreiros que Chakliux não conhecia. Quando as pessoas riam, Chakliux não podia fazer coro com elas, e quando faziam gestos de cabeça, juntando comentários próprios, concordando ou discordando do que o contador de histórias dizia, Chakliux sentia-se como uma criança que compreendia apenas fragmentos do mundo que a rodeava.

Olhou para o círculo de pessoas que rodeavam o contador de histórias. Estavam ao ar livre, nos limites da aldeia de Verão dos Caçadores de Morsas, e as mulheres e as crianças estavam ao lado dos homens. Chakliux viu Sok com os braços descaradamente enfiados debaixo da parka de Orelhas Pequenas, e a mulher escondendo o riso atrás das mãos.

O pai de Orelhas Pequenas já sondara Sok, pedindo um preço pela mulher. Sok fizera promessas vagas, deixara hipóteses em aberto, mas Chakliux sabia que ele só queria a mulher enquanto eles permanecessem na aldeia dos Caçadores de Morsas. Era pouco provável que Sok aceitasse Neve-no-Cabelo como segunda esposa. Como poderia ele conquistá-la se ela fosse terceira esposa? E quem suportaria a fúria dos Caçadores de Morsas quando Sok partisse? Chakliux, evidentemente. Se Chakliux não voltasse à aldeia de Rio Próximo, talvez ficasse ali, convivendo com as conseqüências dos erros de Sok.

Chakliux passou o olhar pelo círculo de pessoas, evitando Sok e Orelhas Pequenas. Havia Mata Morsas, o chefe dos caçadores, as suas duas esposas e os seus muitos filhos. Dente Velho, um caçador que nada tinha de velho, estava sentado ao lado deles. Estava ajudando Chakliux a construir o seu próprio iqyax. Juntos, já tinham apanhado madeira flutuante para fazer a estrutura. Dente Velho fora generoso ao vender a Chakliux o marfim de que ele precisava para embutir nas juntas da madeira. Ensinara-o a fazer com ocre vermelho uma tinta para impedir que a estrutura do iqyax apodrecesse e também para mostrar aos animais marinhos que o iqyax era um deles, que a estrutura de madeira eram os seus ossos, que as cordas eram os seus tendões e que o ocre era o seu sangue.

Dente Velho oferecera-se para ensinar Chakliux a remar e já o levara num velho iqyax. Agora Chakliux sabia inclinar o corpo com o barco, mexer as pernas como se elas fossem os músculos do iqyax e os remos como se fossem as barbatanas e a cauda. Chakliux ainda tinha muito que aprender, como o conhecimento das marés e das correntes, das nuvens e dos ventos, mas chegara à fase em que tinha que aprender a ser o verdadeiro irmão do iqyax, e como podia ele ser um verdadeiro irmão se não construísse a estrutura com as suas próprias mãos, se não lhe desse o comprimento das suas pernas e dos seus braços?

Agora a estrutura estava quase pronta, mas como podia ele acabar um iqyax sem uma mulher para costurar a cobertura? Orelhas Pequenas tinha-se oferecido, mas Chakliux não podia aceitar, sabendo as intenções de Sok.

Os pensamentos de Chakliux concentraram-se no contador de histórias. Tentou acompanhar as suas palavras, atentar nas tiras de tendão a que o homem deu primeiro a forma de uma cabeça de raposa, fazendo depois uma série de nós a que chamou pássaros. Chakliux perguntou a si próprio se conseguiria aprender a fazer tal coisa para dar mais força às suas próprias histórias, para ajudar os homens de Rio Próximo a decifrar os seus enigmas.

Era a festa do Sol, um período de celebração e de ação de graças, mas Chakliux não se sentia à vontade na aldeia nesse dia. O que estaria o seu próprio povo fazendo? Quem contaria agora histórias se eles não tinham um dzuuggi. Os costumes sagrados estavam sendo respeitados? Ou os espíritos estavam zangados porque o Povo se esquecera do que tinha a fazer?

E estes Caçadores de Morsas? Não faziam as coisas como deviam. Chakliux sabia venerar o Sol; conhecia os cânticos adequados, as histórias antigas, e no entanto estava ali sentado como uma criança ouvindo o contador de histórias dos Caçadores de Morsas. Devia levantar a voz e dizer-lhes o que tinha a dizer? Mas como podia ele fazê-lo sem as palavras dos Caçadores de Morsas suficientes para falar com clareza e de maneira que as pessoas o entendessem?

Os Caçadores de Morsas pareciam fortes e saudáveis. As suas despensas estavam cheias de comida; as suas mulheres eram felizes. Talvez o que eles faziam estivesse certo para a sua praia, para a sua aldeia, mas estaria certo para Chakliux e para Sok? Deviam os dois irmãos fazer a sua própria festa, recordando os costumes do Povo, em vez de confiarem nas tradições dos Caçadores de Morsas?

Havia muitos problemas para ele na aldeia dos Caçadores de Morsas, mas a sua vida seria melhor com Mirtilo... Ou com K’os?

Então Chakliux recriminou-se. Então, lamentas o teu mal-estar como se fosses uma velha? Choras quando tens a barriga cheia e as mãos ocupadas, quando esta boa gente faz o que pode para te ajudar? Tem calma. Não quero ouvir as tuas lamentações. Não és nenhuma criança.

Voltou a prestar atenção ao contador de histórias, observou os dedos encantados do homem, que, com os seus nós, transformava os pássaros no focinho de uma lontra com uns longos bigodes. O contador de histórias levantou a lontra no ar para que todos vissem. Depois, virou-se e sorriu a Chakliux, o homem-lontra que fora viver com eles.

 

ALDEIA DOS PRIMEIROS HOMENS

Aqamdax libertou-se dos dedos trêmulos de Salmão quando ele lhe acariciou o braço. Pelo menos as esposas tinham saído do ulax e não o viram. Estava admirada consigo mesma. Por que motivo que uma coisa que lhe dera prazer na véspera a fazia estremecer naquele momento? Ele era o mesmo homem. De todos os caçadores, era o único que ficava na cama dela e a abraçava depois de estar satisfeito. De certo modo, as histórias tinham-na preenchido, tinham-na feito sentir completa, como se não precisasse de ninguém para a proteger da noite.

Não, Salmão disse ela, tentando afastar o tom ríspido da voz.

Porque havia de ofender o homem? E se no dia seguinte as histórias tivessem desaparecido e ela voltasse a sentir-se só? Talvez precisasse que Salmão a abraçasse para não voar para os céus escuros nem se perder no imenso vazio que separava a terra das estrelas.

Estou cansada lamentou-se ela baixinho. As pessoas cujas histórias contei parecem ter-se apoderado de uma parte do meu espírito, e por isso pouco ficou para me encaminhar para os sonhos.

Salmão ficou atrapalhado, mas Aqamdax não lhe deu mais nenhuma explicação. Como o poderia fazer? As histórias não só a enchiam, como transportavam a sua alma para lugares em que ela nunca estivera. Parecia-lhe uma traição levar um homem que não era seu marido para a cama dela. Pelo menos nessa noite era o que lhe parecia. Amanhã, quem poderia dizer?

Salmão saiu, tal como outros homens que ouviram o que ela lhe disse. Depois das histórias, eram muitos os que queriam partilhar a cama dela, uns que nunca a tinham procurado; outros que era raro aparecerem. Por fim, o último homem foi-se embora e Aqamdax e Qung ficaram sós.

A velha sorriu.

Procedeste bem, disse ela.

Aqamdax, que não estava habituada a cumprimentos, baixou a cabeça, sem saber o que havia de responder. Qung apontou para o ulax vazio.

Não há homens esta noite? perguntou.

Esta noite, não.

Qung ergueu a sobrancelha. Aqamdax encolheu os ombros e Qung virou-se para a sua cama. Disse qualquer coisa em voz baixa, mas depois falou mais alto.

Talvez aquelas mulheres do chefe não tenham mentido disse a velha. Talvez elas tenham mesmo sonhado.

Durante alguns momentos, Aqamdax ficou no ulax vazio, imaginando que as pessoas ainda lá estavam. Com a sua voz e as suas palavras, levara-as daquele ulax para locais onde nenhuma delas estivera. Transformara-as em guerreiros e velhos, crianças e comerciantes. Elas tinham-se transformado em Caçadores de Baleias, em homens dos Caçadores de Morsas, até no Povo Rio. Ela conseguira essa proeza.

Abanou a cabeça, incrédula. Fizera isso só com as palavras saídas da sua boca.

 

ALDEIA DOS CAÇADORES DE MORSAS

As pessoas da aldeia dos Caçadores de Morsas contaram histórias durante toda a noite, esperando que o Sol mostrasse o seu rosto de manhã. Depois voltaram a festejar, celebrando a luz. Sok e Chakliux observavam os homens dos Caçadores de Morsas servindo-se do peixe seco e da carne de morsa amontoada em esteiras dispostas junto das lareiras exteriores.

Sok e Chakliux não comeram senão depois de os velhos e os caçadores da aldeia se servirem, mas quando os rapazes começaram a trazer as tigelas, Chakliux e Sok também se aproximaram. Uma velha foi ao encontro deles com uma concha de osso e encheu a tigela de Sok. Ele agradeceu-lhe e depois tirou vários bocados de peixe seco e os pôs em cima da tigela, para o vapor do caldo os amaciar.

Chakliux ficou à espera, partindo do princípio de que a mulher também o serviria de caldo, mas ela encaminhou-o para uma panela, como se ele fosse uma criança. Era uma mulher pequena, com a pele escurecida pela idade, mas de olhos brilhantes, e magra e direita como uma jovem.

Ainda antes de chegares, ouvi histórias a teu respeito disse ela, e Chakliux percebeu que ela falava a língua do Povo Rio. As suas palavras, embora sincopadas por uma língua habituada a falar a língua dos Caçadores de Morsas, eram claras.

Falas a minha língua disse Chakliux.

E qual é a dificuldade? perguntou ela. Até as crianças pequenas falam a língua do Povo Rio, não falam?

Riu, e Chakliux riu com ela.

Chamo-me Tutaqagiisix.

Chakliux tentou repetir o nome, mas os sons embrulharam-se como se ele tivesse uma bola na garganta, e não conseguiu.

A velha riu outra vez.

As crianças chamam-me Tut. Sou dos Primeiros Homens. Há muito tempo, trouxeram-me para esta aldeia como noiva de um Caçador de Morsas. Mantive o meu nome dos Primeiros Homens, apesar de o meu marido não ter ficado satisfeito com isso. É um sinal do meu dom, que me foi concedido em criança. Aprendo a falar línguas com facilidade. Ouço os sons e pouco depois compreendo. Tutaqagiisix quer dizer ”ouvir”.

Mergulhou a concha numa panela e tirou-a cheia de carne e de ossos pequenos.

Ossos de barbatana de foca disse ela, continuando a falar na língua de Rio. Eles vêm para a minha concha para me lembrarem o que tenho para te dizer.

A velha mordeu uma das pontas amolecida pela fervura e chupou-a. Ficou com o queixo besuntado de óleo e de caldo e limpou-o com as costas da mão. Em seguida, despejou o resto da carne e dos ossos na tigela de Chakliux.

Tu também tens um dom. Tut olhou para as botas de pele de caribu de Chakliux. És um dzuuggi, uma dádiva dos animais.

Chakliux ficou surpreendido com as palavras dela. Sok e ele tinham contado poucas coisas acerca do seu passado. Eram apenas caçadores, que andavam fazendo negócio, tentando obter um dote para uma esposa, e à procura de cães robustos para o Povo Rio.

Como se lhe tivesse ouvido os pensamentos, a velha disse:

Lembra-te do meu nome. Eu ouço muita coisa. Dizem que és uma lontra.

Uns dizem que eu sou uma lontra. Outros dizem que não.

O que dizes tu?

Chakliux desviou o olhar da mulher. Onde estava Sok? Porque se encontrava ele sozinho com aquela velha e as suas perguntas?

A velha fitou-o como se ele fosse uma criança, à espera da sua resposta, mas o que podia Chakliux dizer se ele próprio não sabia o que era? Um dzuuggi, sim, mas uma lontra? Uma dádiva dos animais?

Sou um dzuuggi, treinado para ser contador de histórias e para saber as muitas tradições do meu povo, as recordações das guerras, os invernos rigorosos e as boas caçadas.

Tut levou de novo o osso à boca, chupou-o e depois olhou para Chakliux de esguelha.

E não és uma dádiva dos animais?

Se sou uma dádiva dos animais, sou uma lontra afirmou por fim Chakliux. Não sei mais do que isso. Quem me encontrou disse-me que eu era uma dádiva dos animais. Umas vezes, acredito nisso; outras não.

As tuas palavras são honestas, como devem ser as palavras de um dzuuggi observou a velha. Dizem que tens um pé de lontra. Mostra-me.

O pedido dela surpreendeu-o, mas Chakliux satisfê-lo, mostrando-lhe primeiro os três dedos unidos do pé direito e depois o pé de lontra, torto e curvo. Ela inclinou-se, tocou-lhe no pé e depois disse:

És lontra.

As palavras atravessaram Chakliux como uma chuva quente, dissipando as dúvidas. Depois, lembrou-se de que ela era apenas uma velha. O que sabia ela? Mas ouviu uma vozinha, como se fosse Gguzaakk a falar: Porque duvidas? Tutaqagiisix também fora contemplada com um dom. Quem mais consegue reconhecer o mesmo nos outros?

Então, onde estás construindo o teu iqyax? perguntou Tut.

Deu a tigela a Chakliux e, como se fossem irmão e irmã. nascidos da mesma mãe, partilhando a mesma comida, meteu a mão lá dentro e tirou outro osso de barbatana de foca.

Junto do rochedo da morsa, ao abrigo do vento, para lá do sinal da maré alta respondeu Chakliux.

Vai à minha tenda amanhã, de manhã cedo. Podes levar a pele de morsa. É pesada para uma velha como eu

Então, como de irmão para irmã, Chakliux ofereceu-lhe de novo a sua tigela para que ela metesse os dedos lá dentro.

 

Chakliux dirigiu o seu iqyax para as ondas e dobrou a parte superior do corpo para manejar melhor o remo, empurrando a proa para a frente, resistindo aos espíritos da água que queriam que o seu iqyax fosse de novo para a costa.

Os seus braços eram fortes, endurecidos pelas quatro luas que ele passara com os Caçadores de Morsas, e agora ele tinha o seu próprio iqyax. Os pontos minúsculos de Tut uniam a cobertura de pele de morsa como se esta fosse feita de uma única peça, da pele de um único animal.

Tut também fizera um resguardo para o convés, e o chigdax de Chakliux, uma parka impermeável feita de tripas de leão-marinho, com atilhos nos punhos e no capuz. A velha fizera tudo aquilo e dera-lhe de presente, contrariando os protestos dele com os seus: Para quem havia ela de costurar, agora que era viúva? Como queria ele que ela passasse os dias? Sentada, resmungando com as outras velhas?

O iqyax deslocava-se sobre as ondas como uma lontra. Os atilhos de tendão nas juntas permitiam que ele se dobrasse e inclinasse quando Chakliux remava. Este servia-se do corpo e das pernas dentro da estrutura de madeira como se o iqyax fosse a pele e o esqueleto e ele próprio os músculos.

Dente Velho trouxera bexigas de foca cheias de ar e amarradas umas às outras, cada uma com um lastro de pedra numa longa linha de algas, para não se perder nas ondas. Em cada extremidade da linha, Dente Velho atara bóias de pele de foca.

Tu primeiro gritou Dente Velho.

Chakliux puxou a amarra que prendia o seu lançador ao convés do iqyax. Enfiou um arpão no lançador e levantou o braço, puxou-o para trás, com a mão bem firme e os dedos aflorando o cabo do arpão para o manter no seu lugar. O lance tinha que ser rigoroso, tinha que atingir o meio do alvo, caso contrário, a bexiga se soltaria do arpão. Chakliux atirou e o seu arpão acertou; a bexiga rebentou. A amarra cedeu ao peso do lastro de pedra, já sem a bóia, e as bexigas chocaram uma com a outra.

Dente Velho atirou o seu arpão. Também acertou. Chakliux ergueu a voz em sinal de ação de graças, mas Dente Velho exclamou:

Fazes muito barulho, irmão. Lembra-te de que onde houver um animal pode haver muitos mais. Tenta outra vez.

Chakliux recolheu o arpão, o pôs no lançador e atirou de novo. Dessa vez falhou. O lance limitou-se a empurrar a bexiga para o lado. Dente Velho atirou outra vez e voltou a acertar.

Vê o que acontece quando fazes muito barulho, irmão exclamou ele. Os animais afastam-se de ti.

Chakliux recebeu a censura com bom humor. Dente Velho tinha razão. Caçar animais marinhos era muito diferente de apanhar caribus ou ursos. Recolheu o arpão e atirou. Atingiu a bexiga e, antes de puxar o arpão, retirou outro do convés do iqyax e atirou-o. Voltou a atingir o alvo.

Dessa vez, foi Dente Velho quem elevou a voz, elogiando-o, e Chakliux não pôde deixar de sorrir. Começou a recolher os seus arpões. Além das peles de foca, havia duas mãos-cheias de bexigas ainda flutuando. Chakliux e Dente Velho só apontavam às bexigas para a linha não ir ao fundo, custando-lhes as bóias, as linhas de algas e os lastros. Chakliux atou um arpão ao seu iqyax e ajustou o outro ao lançador. Levantou o braço e depois viu que Dente Velho tinha erguido o seu lançador no ar.

Como todos os homens dos Caçadores de Morsas, Dente Velho pintara o seu lançador de preto em cima e de vermelho em baixo. Quando punha o lado vermelho para cima e o virava para Chakliux, isso significava que o arpão atingira o alvo. Dessa vez, o lado preto estava para cima, um sinal de que ele avistara um animal. Teria ele visto uma foca ou uma lontra, apesar do barulho dos exercícios?

Dente Velho apontou com o lançador para oeste, para a linha do horizonte, e Chakliux viu-os. Eram três iqyan, talvez quatro. Apressou-se a atar o arpão e o lançador ao seu iqyax e agarrou no remo, pronto a voltar para a aldeia, mas Dente Velho gritou:

São dos Caçadores de Morsas.

Começou a remar na direção dos iqyan. Chakliux foi atrás dele. Quando se aproximaram, viu as marcas amarelas e vermelhas e percebeu que os homens eram comerciantes. Lembrou-se do grupo que partira da aldeia dos Caçadores de Morsas pouco depois de Sok e ele terem chegado. Compreendera que eles tencionavam negociar com os Caçadores Marinhos.

Chakliux atirou o seu remo ao mar e foi ao encontro deles, para ver os comerciantes e os iqyan que tinham estado na presença de homens-lontras. Talvez um dia ele fosse àquelas costas distantes e aprendesse o que os Caçadores Marinhos tinham para lhe ensinar.

Sok sorriu. Foi um sorriso forçado, para disfarçar a sua raiva. As suas ofertas eram mais do que suficientes para ficar com a máscara e a bolsa do xamã. Yehl era um velho que se escondia atrás do poder dos seus cânticos e das suas mezinhas.

Os seus prazeres já não vinham dos corpos das mulheres nem da acumulação de objetos; agora, encontrava alegria em sonegar aos outros o que ele não podia ter.

Os Caçadores de Morsas consideravam-se um povo forte, mas quanto tempo duraria essa força com um xamã como Yehl? Com certeza os espíritos sabiam que ele estava enfraquecendo. Em breve, esses malvados começariam a pregar as suas peças. Os animais marinhos continuariam a entregar-se aos arpões dos homens cujo xamã não tinha poder?

Sok perdera quatro luas naquela aldeia, decerto o suficiente para saber se o povo de Rio Primo procurava vingança, mas também o suficiente, mais do que o suficiente, para acumular as mercadorias de que precisaria para mudar a opinião de Lobo-e-Corvo e convencê-lo a dar-lhe Neve-no-Cabelo em casamento.

Mas fora ganancioso demais e caíra na asneira de trocar Falcão da Neve durante os primeiros dias de estada na aldeia. Chakliux dissera-lhe que aguardasse, mas Sok, ao ver os objetos que lhe propunham, não o fizera. Desde então, tanto ele como Chakliux tinham sido obrigados a dar muito do que tinham recebido pelo cão em troca de comida, alojamento e óleo. Como é que ele saberia que as coisas que aceitara em troca, apesar de serem raras para o Povo Rio, eram usadas diariamente naquela aldeia? Como é que ele saberia que ao devolver essas coisas aos Caçadores de Morsas, receberia tão pouco em troca?

Mesmo assim, tinha dois dentes de morsa e várias pontas de lança de obsidiana. Com certeza Lobo-e-Corvo encontraria algum valor naquelas coisas, mas talvez não o suficiente para pagar o preço de Neve-no-Cabelo.

Yehl mexeu-se nas esteiras de pele em que estava sentado, levantou-se e pegou a sua parka de pele de caribu, outra coisa que Sok dera ao homem por troca. Sok levantou-se, ainda não habituado aos modos rudes dos Caçadores de Morsas. Qual o homem que abandona aquele que o foi visitar? Lembrou-se da voz calma de Chakliux: cada aldeia tem os seus hábitos.

Nesse caso, como devia reagir?, perguntou Sok a si próprio. Por fim, levantou-se também, puxou o capuz da parka para a cara e, quando Yehl saiu da cabana, foi atrás dele. Os seus olhos ainda não tinham se adaptado ao sol quando Chakliux se aproximou dele correndo, lhe agarrou o braço como se ambos fossem ainda crianças e começou a falar tão depressa que Sok não entendeu o que ele disse.

Sok afastou o braço.

O que aconteceu? perguntou ele.

Os comerciantes dos Caçadores de Morsas voltaram. Sok olhou para o irmão. Tinha os olhos brilhantes, o rosto corado e a pele caindo devido aos longos dias que passara no iqyax. Talvez tivesse chegado o momento de Sok sair daquela aldeia. Aparentemente, Chakliux gostaria de ficar. Até aprendera muitas palavras dos Caçadores de Morsas. Sok só conseguia comunicar com um dos filhos de Yehl, um homem que falava a língua de Rio, embora mal, e com uma velha chamada Tut.

Pelo menos havia Orelhas Pequenas. Ela sabia poucas palavras do Povo Rio, mas o que ele precisava dizer quando estava com ela?

Eles têm coisas dos Caçadores Marinhos: peles de lontra, obsidiana, cestos de erva, contas de conchas, botas de pele de foca...

A lista de Chakliux continuou, até que Sok se acalmou e percebeu que o irmão estava sugerindo que ambos negociassem aquelas coisas. Por que não? Qualquer coisa trazida das praias distantes do povo dos Caçadores Marinhos teria mais valor para Lobo-e-Corvo do que simples objetos dos Caçadores de Morsas. Sok deu uma palmada no ombro de Chakliux. O irmão ainda trazia a parka até aos joelhos que os caçadores usavam para se proteger da água quando iam nos seus iqyan.

Foste praticar hoje? perguntou ele a Chakliux.

Foi uma pena que as bexigas não fossem focas respondeu Chakliux.

Sok deu uma gargalhada. Abriram caminho entre as crianças e as mulheres na direção do grupo de homens dos Caçadores de Morsas que rodeavam os comerciantes.

Os comerciantes puxavam fardos da proa e da popa dos seus iqyan. Vários velhos já tinham aberto os fardos, retirando nódulos de obsidiana do tamanho de punhos, cordas de algas entrançadas, pacotes de conchas, dentes de baleia e anzóis. Várias crianças que tinham conseguido atravessar a multidão em direção aos iqyan haviam aberto a barriga de um leão-marinho cheia de peixe seco. Desataram a correr e a rir, com as mãos cheias de pedaços de peixe, quando um dos comerciantes foi atrás delas.

Chakliux reparou em várias peles de foca inteiras viradas do avesso, nos locais das barbatanas frontais e nas peles esticadas e inchadas com o que tinham lá dentro.

Óleo informou Tut, aproximando-se dele. Eles fazem como nós. Viram a pele do avesso, com o pelo e tudo e deitam as tiras de gordura lá para dentro para derreterem sozinhas.

Não gosto do pelo disse Chakliux.

Tut encolheu os ombros.

É saboroso observou ela.

Eles também derretem uma parte em poços ou em panelas, mas isso leva muito tempo. É preferível costurar o chigdax do marido do que esperar pelo óleo, não achas?

Sok agarrou no braço de Chakliux e apontou com o queixo. Um dos comerciantes exibia uma parka feita de pedaços de pele de pássaro. Ao sol, as penas pretas tinham o brilho da obsidiana. Possuía umas faixas bordadas com pelo e tiras penduradas com contas de conchas iridescentes.

Então o que achas? perguntou ele. Lobo-e-Corvo queria uma coisa daquelas?

Qual o homem que não queria? respondeu Chakliux.

Não penses que a vais conseguir disse Tut. Os Caçadores de Morsas não se afastam dessas coisas com facilidade.

A raiva provocada pela frustração perante Yehl e a impotência que sentia ao viver com aqueles Caçadores de Morsas levou Sok a responder com rispidez:

O que sabes tu, velha? Virou-se, para ela ver o que Folha Vermelha aplicara nas costas da sua parka. Nem sequer por isto?

Tenho ouvido os homens gabarem a tua parka. Devias ter trazido mais.

Sok já pensara muitas vezes no mesmo, mas quem havia de adivinhar que uma coisa feita por uma mulher teria mais valor para aqueles Caçadores de Morsas do que armas ou alimentos?

Sok virou-se para Tut.

Diz a esses homens que não se desfaçam de muitas coisas. Diz-lhes que este caçador do Povo Rio tem muita coisa para oferecer.

Direi, mas não esperes que eles te dêem com facilidade o que lhes custou muitas luas de viagem dura.

Aceitara o nome de Yehl, Corvo, quando era novo e forte, ainda não tão poderoso nas suas lidas de xamã como viria a ser, mas, ao contrário de muitos xamãs, era um caçador hábil, tanto na terra como no mar. Agora, os seus braços estavam magros como os de um velho. A sua voz, que em tempos se ouvia a cantar em toda a aldeia, parecia fraca, assim como os seus olhos.

Alguém raspou na parte lateral da sua tenda, e Yehl levantou-se com dificuldade.

Estou aqui gritou.

Reconheceu a mão grande e quadrada que afastou a aba de pele de morsa. Era Bate-no-Sol. A mãe dele afirmava que ele era filho de Yehl. Quem sabia ao certo? A mulher nunca fora sua esposa. Não era de confiança, e Yehl nunca acreditara verdadeiramente na sua afirmação.

Yehl tratava bem o rapaz, levando-o às caçadas com os filhos das irmãs, partilhando carne e óleo com a mãe de Bate-no-Sol sempre que ela não tinha marido, mas guardava as coisas importantes, cânticos, armas e amuletos para os filhos das suas esposas.

Pai, venho contar-te a minha visão disse Bate-no-Sol ainda antes de Yehl ter voltado a sentar-se nas peles macias.

Yehl suspirou. Ele não era parvo. Sabia que Bate-no-Sol queria suceder-lhe como xamã, e como podia ele negar-lhe tal pretensão? Nenhum dos seus filhos pretendia verdadeiramente seguir os passos do pai, nem tão pouco os filhos das irmãs. Contentavam-se em ser caçadores. Mas Bate-no-Sol não tinha paciência. Queria que Yehl o ensinasse depressa, para ele poder vangloriar-se de poderes que não conquistara. Era muito parecido com a mãe. Queria uma coisa, e outra, e nunca estava satisfeito com o que tinha.

Há comida na panela disse Yehl, apontando para a aba da porta, pois o tripé estava lá fora.

Bate-no-Sol abanou a cabeça e agachou-se.

Eu estava dormindo sem dormir, vendo sem ver, declarou ele, palavras que Yehl se lembrava de lhe ter dito há muito tempo, quando lhe explicara um dos seus sonhos. Uma mulher veio ao meu encontro. A voz dela era a voz de uma lontra, e quando ela falou, era como o vento partilhando os segredos que a terra lhe contara.

Os olhos do jovem brilharam, e por uma vez Yehl acreditou nele. Houvera um sonho. Yehl sabia quando alguém estava mentindo. Mas um sonho podia significar muitas coisas talvez apenas que alguém tinha medo ou queria alguma coisa. Talvez apenas que o espírito vivia a sua própria vida enquanto o corpo descansava.

Essa mulher... quem é? perguntou Yehl. Bate-no-Sol abanou a cabeça.

Por isso é que eu vim te ver. Talvez tu saibas.

Lembras-te como ela era?

Nova, com a cara redonda como uma lontra. Com uma boca grande, e vestia uma parka de pele de pássaro, muito parecida com aquela que os comerciantes trouxeram da aldeia dos Primeiros Homens.

Sonhaste isso antes ou depois de veres a parka! perguntou Yehl.

Antes. Esta noite, antes de os comerciantes voltarem. Yehl ergueu a sobrancelha. Então o sonho não era porque Bate-no-Sol quisesse a parka. Talvez fosse porque ele precisava de uma mulher.

A tua mulher está no período de sangue lunar? Bate-no-Sol franziu a testa.

Não.

Quando é que visitaste a cama dela pela última vez?

Esta noite respondeu Bate-no-Sol.

Yehl fechou os olhos por um momento e depois disse a Bate-no-Sol:

Talvez haja qualquer coisa relacionada com esse sonho. Como ela trazia uma parka de pele de pássaro, talvez essa mulher seja dos Primeiros Homens. Talvez devêssemos ir falar com os nossos comerciantes e ver se eles encontraram lá uma mulher assim. Se ela tem algum poder especial...

Yehl olhou para Bate-no-Sol e virou a cabeça. Com a sua idade avançada, às vezes falava muito depressa, falava demais. E se aquela mulher tivesse poderes espirituais? Talvez ele pudesse recebê-la como esposa, talvez a força dela compensasse a sua própria fraqueza.

Disseste que ela tinha uma boca grande? perguntou ele.

Grande demais. Tinha um rosto bonito, exceto a boca.

Yehl vestiu uma parka e fez sinal a Bate-no-Sol para que o acompanhasse.

Talvez fosse melhor eu comer sugeriu Bate-no-Sol, olhando para o saco da comida quando iam saindo.

A comida estará aqui quando voltarmos retorquiu Yehl. Não tarda que esses comerciantes se lembrem das suas mulheres e fechem a porta a todos nós. Depois, nem um xamã será bem-vindo.

Yehl deu uma gargalhada e Bate-no-Sol acompanhou-o no seu riso.

Chakliux foi com Sok às tendas dos comerciantes. Tut explicara que os comerciantes eram irmãos, quatro, e que partilhavam a mesma cabana na aldeia de Inverno. Naquele acampamento de Verão à beira do mar do Norte, tinham construído as suas tendas perto umas das outras. Tut dissera-lhes que deviam dirigir-se à tenda do irmão mais velho. Era ele que fazia a maior parte dos negócios. Tut aconselhou Sok a levar outros artigos para troca, objetos pelos quais o Povo Rio era conhecido, cestos de casca de árvore e de pele de pássaro, perneiras de pele de caribu bordadas com espinhos de ouriço-cacheiro e os quentes cobertores de pele de lebre que as mulheres faziam. Mas Sok rira-se das sugestões de Tut.

Ela dá valor a todas essas coisas porque é uma mulher disse ele a Chakliux. O que daria um comerciante dos Caçadores de Morsas por um cesto que não tem mais poder do que aquilo que uma mulher põe lá dentro?

Optou por levar fisgas, armadilhas e anzóis para pescar no rio, óculos e raquetes de neve, facas de sílex com cabos de osso de caribu e pontas de lança com uma base de osso própria para lâminas de pedra, qualquer delas não maior do que o dedo mindinho de um homem e com metade da largura da ponta de uma pena de águia. Vestiu a parka, como Tut sugerira, e levou um cobertor de pele de lebre.

Ela não percebe nada de negócios comentou Sok. Qual a mulher que percebe?

A maioria não percebe, pelo menos as do Povo Rio, mas talvez aqui... disse Chakliux.

Foste tu que me disseste que cada aldeia tem os seus hábitos recordou Sok.

Chakliux baixou a cabeça e tentou não discutir com o irmão. Às vezes, as palavras só dificultavam as coisas.

Estavam quase tantas pessoas reunidas à volta das cabanas de Verão dos comerciantes como tinham estado à chegada dos seus iqyan à praia. Tantas mulheres quantos homens, reparou Chakliux, e muitas vezes as mulheres levantavam a voz, fazendo ofertas para conseguir um ou outro objeto. Sok abriu caminho entre a multidão até se aproximar de um dos comerciantes. Estava negociando um arpão de ponta de osso com outro homem. Ao contrário dos arpões dos Caçadores de Morsas, este tinha uma ponta com maior número de farpas num dos lados. O comerciante levantou o arpão, desenrolou os tendões que cobriam a parte em que a cabeça do arpão se juntava a um cabo de osso e mostrou a pequena língua chanfrada de marfim que estava inserida numa ranhura feita no cabo.

Como um homem dentro de uma mulher gracejou o caçador.

Sim, e tal como um homem dentro de uma mulher, isto funciona bem disse o comerciante. Não falharás uma foca nem um leão-marinho com este arpão.

É pequeno demais para morsas observou o caçador.

Eles não caçam morsas, esses Primeiros Homens.

Então, para que preciso dessa pequena lança, que só serve para caçar focas? Talvez seja um disparate eu estar olhando para ela.

Eles também caçam baleias afirmou Chakliux em voz baixa, falando na língua dos Caçadores de Morsas.

Ouviu Tut assobiar. Ah, talvez ele tivesse quebrado algum tabu.

O caçador deu meia volta e olhou com desprezo para Chakliux, mas o comerciante riu e levantou uma mão em sinal de cumprimento.

Aí está, amigo disse o comerciante ao caçador. Até o Povo Rio sabe que os Primeiros Homens caçam baleias.

Com isso? perguntou o caçador, apontando para o arpão.

O comerciante olhou para Chakliux e ergueu as sobrancelhas.

Não retorquiu Chakliux. Mas sei de histórias que falam de Caçadores Marinhos apanhando baleias.

Então, as mesmas mãos fazem arpões para baleias e para focas. Não vez o poder que há nisso? perguntou o comerciante.

Outro caçador deu um passo em frente.

Se ele não vê, vejo eu disse ele.

O primeiro caçador agarrou no arpão e apontou com o queixo para uma tenda de Verão construída na zona da aldeia virada para o mar.

Vou dar-te o que pediste. Duas peles de foca de óleo. Dois arpões para caçar morsas. A minha filha está naquela tenda. Ela vai fazer-te um cesto de raízes de salgueiro.

O homem afastou-se do comerciante, deitou um olhar de desprezo a Chakliux e foi-se embora.

Agora, homem do Povo Rio, é a tua vez. O que pretendes trocar? perguntou o comerciante a Chakliux.

Chakliux pôs a mão no ombro de Sok.

O meu irmão é que veio para negociar disse ele. Sok avançou, inclinou-se e depois segredou a Chakliux.

Não me ajudes a negociar. Explica-me apenas o que eles dizem. Não quero seguir as passadas daquele último caçador.

A minha boca está fechada afirmou Chakliux, mas não pôde deixar de sorrir.

Tut aproximou-se de Chakliux e, quando o comerciante começou a falar, ela traduziu as partes mais difíceis das suas palavras, aquelas coisas que Chakliux não conseguia entender.

Ele pergunta o que queres disse Chakliux a Sok.

Sok apontou com o queixo para a parka de penas. Ouviu-se um sussurro de admiração entre a multidão, e o comerciante deu uma gargalhada. Disse uma série de palavras, tão depressa que Chakliux não conseguiu segui-lo.

Ele diz que o teu irmão deve ser um grande caçador, com peles e carne suficientes para oferecer em troca do sax explicou Tut.

O quê?

O sax, uma palavra dos Primeiros Homens. Significa ”parka”. Aquela peça de vestuário que vês ali no chão é um sax.

Sok virou-se para Chakliux.

Diz-lhe que negociarei de igual para igual. Esta bela parka que tenho vestida em troca daquela parka de penas. Diz-lhe que esta parka é de pele de caribu, lobo e doninha, muito mais forte do que uma feita de peles de pássaro. E mais quente, também.

Oferece menos primeiro disse Tut a Sok.

Velha, deixa os negócios para os homens ordenou Sok.

Tut levantou a cabeça e encolheu os ombros.

De igual para igual disse ela em língua do Povo Rio, e depois repetiu as palavras na língua dos Caçadores de Morsas.

Sok virou-se e disse as mesmas palavras ao comerciante. O homem riu-se de novo.

E o que tens tu que seja igual? perguntou ele. Chakliux traduziu as palavras e Sok estendeu os braços e virou-se para o comerciante para ele ver o desenho do Sol aplicado nas costas da sua parka.

Isso vale qualquer coisa observou o comerciante. Mas qual a mulher que não sabe fazer parkas de pele de caribu? No entanto, peles de pássaro são uma coisa diferente. Há aqui alguma mulher que saiba trabalhar com peles de pássaro?

Sok virou-se para Chakliux e ergueu as sobrancelhas, perguntando o que o homem estava dizendo.

Vai-te embora aconselhou Tut a Sok. Já perdeste. Vai-te embora. Não tens nada que ele aceite.

Sok cuspiu no chão.

Não me digas o que fazer, mulher, insistiu ele.

Em seguida, virou-se para o comerciante e mostrou o cobertor de pele de lebre que trazia no braço. O comerciante abanou a cabeça.

Como se diz pontas de lança? perguntou Sok a Chakliux, sem olhar para trás. E óculos de neve? E armadilhas de pesca?

Tut disse-lhe quais eram as palavras e Sok repetiu-as ao comerciante.

Mais uma vez o homem abanou a cabeça.

O teu irmão não sabe negociar, segredou Tut a Chakliux. Ele não tem mais nada?

Não.

Eu tenho cestos de erva, perneiras e um pouco de óleo.

Ele não precisa do sax, Tut. Não ofereças as tuas coisas para ele satisfazer os seus caprichos. Ele não é nenhuma criança. Além disso, não se deu ao respeito nesta troca de palavras na presença de todas as pessoas da aldeia. Ele não apreciaria a tua ajuda.

Com um irmão como Sok, como é que te tornaste tão sensato?

Chakliux respondeu sorrindo:

Através de coisas que não desejo a ninguém.

Sok virou as costas e abriu caminho entre a multidão. Ia a descer o caminho para a praia quando Bate-no-Sol saiu da cabana do comerciante e o chamou. Sok olhou para ele, admirado. Depois, voltou a atravessar a multidão e segredou a Chakliux ao passar:

Espera por mim.

Tem cuidado com aquele disse Tut a Sok. Ele quer mais do que deve.

Eu não sou nenhuma criança, mulher, repetiu Sok, empurrando-a.

Tut viu-o afastar-se e depois virou-se para Chakliux. Não disse nada, mas Chakliux reparou no seu olhar sombrio e preocupado, e por instantes foi como se estivesse outra vez com Gguzaakk, ganhando sabedoria com a sabedoria dela.

 

ALDEIA DOS PRIMEIROS HOMENS

Aqamdax cortou o caule de azevém, pegando no limbo de seis folhas com a mão esquerda enquanto cortava com a direita. A planta nova brotava do que restava de muitos Verões anteriores, como se cada tufo fosse uma família e os pais e os avós empurrassem as novas folhas verdes na direção do sol. Pousou o caule no molho que tinha aos pés. Qung dizia que as plantas daquela colina eram as melhores para fazer cestos. Não eram tão ásperas como as que cresciam junto das praias. Aquele azevém crescia no meio dos fetos e tentava imitar as suas folhas recortadas, formando plantas altas, fortes e graciosas, ao ponto de as folhas exteriores serem mais compridas que o braço de uma mulher.

Os salmões abundavam no rio mais próximo da aldeia, e todas as mulheres se cansavam limpando e secando o que os homens traziam, mas Qung era uma especialista em cestos e insistia que, como já estava muito velha para andar no meio daquela vegetação particularmente forte, devia ser Aqamdax a ir. Tinha que ser naquela época, quando os grãos começavam a espreitar dos caules e antes que as primeiras tempestades dobrassem e torcessem as plantas, antes que a neve e o gelo arrancassem as folhas exteriores e tornassem aquelas descoradas folhas do meio quebradiças e cortantes.

Aqamdax discutira com ela. Não poderiam comer cestos quando chegassem as duras luas de Inverno. Era preferível terem peixe seco e armazenado do que cestos de ervas.

Outros trariam a comida, dissera-lhe Qung. Faziam-no sempre, e a velha fora tão segura na sua afirmação que Aqamdax acabara por se deixar convencer. Por isso, ali estava cortando plantas, a um quarto de dia de caminho da aldeia, quando devia estar ajudando Qung a arranjar o peixe.

O sol dissipara a névoa da manhã e aquecia-lhe a cabeça. De vez em quando, Aqamdax olhava para os montes em que cresciam a erva-das-ptármigas e a erva-do-fogo de flores vermelhas; onde a cor escura dos talos duros do iitikaalux contrastava com as outras plantas e as campainhas amarelas e as piloselas alaranjadas se inclinavam ao vento. Ela sabia o que diriam as mulheres da aldeia. Não só que ela era uma ladra de maridos, como também que era preguiçosa, deixando uma velha sozinha apanhando peixe.

Hii! Deixá-las falar. Ela estava sendo agradável a Qung e isso era o mais importante. Nunca conhecera ninguém que fosse tão meticuloso fazendo cestos de erva, mas também não conhecia ninguém que os fizesse tão bem como Qung.

Qung cortava a planta em tiras finas como todas as mulheres faziam, mas em vez de as juntar num rolo e de as costurar com pontos bem apertados para cobrir o rolo à medida que ele ia formando o cesto, atava várias tiras no meio e abria-as em leque como se fossem uma folha de chuhnusix. Depois, servindo-se de duas tiras da planta como se fossem teares, enfiava-as para dentro e para fora entre as tiras atadas, formando um círculo que seria o fundo do cesto.

Era algo que não podia ser feito sem a planta adequada, seca como devia ser, explicara Qung a Aqamdax. Em seguida, mandara-a apanhar as plantas. Em troca, prometera contar-lhe duas histórias antigas que a maior parte dos Primeiros Homens não sabiam. Aqamdax não dissera a Qung que iria apanhar a planta para ela de qualquer maneira, mesmo sem a promessa das histórias.

É claro que as mulheres da aldeia, em especial as velhas, iam falar, usar palavras sutis para a envergonhar, mas, mesmo assim, iam ouvir as histórias dela. Sim, ouviam e concordavam com um aceno de cabeça, ou às vezes interrompiam-na para lhe dizer que já tinham ouvido contar a mesma história de outra maneira. Mas isso era bom. Como é que uma pessoa aprendia se não fosse a ouvir as idéias dos outros, a escolher a melhor?

Em geral, no Verão, havia pouco tempo para histórias, exceto algumas que uma avó ou uma tia ensinavam e que faziam parte da vida de todas as crianças. Era preferível guardar os serões de histórias, em que a maior parte das pessoas da aldeia se reunia num único ulax, para as longas noites de Inverno. Nesse Verão, os salmões eram poucos. Não era que as pessoas morressem de fome, havia fartura de focas, leões-marinhos e linguados mas algumas preocupavam-se com as pragas e as maldições, talvez como castigo pelo abandono de costumes antigos.

Agora, para ajudar as pessoas a lembrarem-se desses costumes, Cantador pedira serões de histórias. Nessa noite e nas duas seguintes, Qung e Aqamdax contariam histórias. Falariam até que os velhos tivessem certeza de que todas as coisas eram feitas com respeito.

Nos últimos dias, enquanto Aqamdax apanhava salmões, cortava plantas, costurava e tecia, contava histórias a si própria em silêncio, que lhe coloriam os pensamentos como as plantas e as flores coloriam os montes.

Enquanto praticava, parava às vezes para rezar, e cada prece era um pedido para que as pessoas não percebessem que a maior mudança da aldeia era a nova contadora de histórias, uma mulher que, no passado, levara caçadores para a sua cama sem se preocupar com os tabus da caça nem com os corações das esposas.

 

Chakliux mudava o remo de um lado para o outro: três movimentos à esquerda e depois três à direita. O ritmo parecia-lhe tão natural como respirar.

Quando Dente Velho começou a ensiná-lo, o iqyax era estranho, como se fosse um homem que ele não conhecia, alguém para quem olhava de braços cruzados, com a mão direita bem agarrada ao cabo duro de osso de uma faca na manga. Agora o iqyax era-lhe tão familiar como o seu próprio corpo. Quando ele remava, era uma verdadeira lontra, e o mar era a sua casa, como qualquer monte coberto de vegetação.

Chakliux olhou para trás, para o irmão, Sok, pensando se ele teria se arrependido do acordo com Yehl, o xamã dos Caçadores de Morsas. A parka de pele de pássaro, uma máscara de xamã, um tambor, um apito, um saco de remédios e o iqyax em que Sok seguia era mais do que eles teriam dado por um cão de olhos dourados, mas em troca tinham que trazer de volta a contadora de histórias dos Primeiros Homens. Como esperavam eles convencer uma aldeia a desistir da sua contadora de histórias para ela desposar um velho xamã dos Caçadores de Morsas? Mesmo que a convencessem a ir com eles, quem sabia se Lobo-e-Corvo estaria disposto a dar a sua filha como segunda esposa em troca de todos os poderes da parka de penas, da máscara e do tambor?

Havia quatro iqyan nesta viagem: o de Chakliux, o de Sok e os dos comerciantes dos Caçadores de Morsas, Cormorão e Pena Vermelha. Tut também os acompanhava. A velha pedira para ir fazer uma última visita à sua aldeia, onde poderia ficar ou talvez não. Ia no iqyax de Cormorão enquanto Pena Vermelha levava quase todas as mercadorias, um dote para oferecer ao pai, aos irmãos ou aos tios da contadora de histórias. Chakliux, Cormorão e Pena Vermelha receberiam cada um o seu quinhão de objetos por acompanharem Sok, mas para Chakliux o maior presente era a viagem propriamente dita, a oportunidade de visitar uma aldeia dos Primeiros Homens, de conhecer aqueles caçadores que eram irmãos das lontras-marinhas.

Apesar de Sok levar menos carga do que Chakliux, apesar de ser mais largo de braços e de peito do que os outros homens, era sempre o último. Às vezes, quando olhava para trás, Chakliux nem o via. Então dava a volta no seu iqyax e remava até se certificar de que o irmão não estava ferido nem capotara. Sok não aprendera a servir-se da sua força para remar. Em vez disso, lutava contra o mar, usando o remo como se este fosse uma lança, como se cada onda fosse um inimigo a abater. O seu rosto estava inchado do sal mais do que o de Chakliux, Cormorão ou Pena Vermelha como se o mar reconhecesse a sua inimizade.

Depois de alguns dias de viagem, aproximaram-se da aldeia dos Primeiros Homens. Já tinham virado os seus iqyan para a barra larga que ia dar à Praia dos Comerciantes. De vez em quando, Cormorão levantava o remo para apontar para um rio ou para uma faixa de terra onde os Primeiros

Homens pescavam, caçavam ou erguiam acampamentos de Verão. Não tardariam a chegar lá, um lugar que Chakliux sempre tivera esperança de conhecer e sonhara em visitar, e Sok começaria a negociar para conseguir a contadora de histórias.

Chakliux sentiu um arrepio na espinha, apesar de o sol de Verão ser quente. Sok não era um comerciante. Não compreendia o uso sutil das palavras e dos olhares. Talvez ele desse ouvidos a Cormorão e a Pena Vermelha. Talvez ele lhes desse ouvidos e aprendesse como é que um homem conseguia o que queria.

 

Qung dissera a Aqamdax que levasse as plantas com cuidado, nos braços estendidos. Ao regressar à aldeia, Aqamdax ainda não andara muito quando se arrependeu de não ter cortado menos azevém. Em geral, o regresso era mais fácil, quase sempre descendo, mas, quando avistou a aldeia, doíam-lhe tanto os braços e os ombros que lhe deu vontade de jogar fora a planta e dizer a Qung que não conseguira descobrir o local onde ela crescia. Mas como poderia fazer tal coisa se Qung fizera tanto por ela?

Qung estava velha. Todos os dias tinha dores nos braços; todas as noites as dores nas articulações a roubavam aos seus sonhos. Como podia Aqamdax queixar-se por dar mais alguns passos?

Começou a recitar uma das histórias que iria contar nessa noite, tentando encontrar as palavras que lhe soavam melhor, repetindo frases enquanto andava e ouvindo o som da sua voz. Na crista do monte atrás da aldeia, parou, agachou-se por instantes e apoiou os braços nos joelhos. Fechou os olhos e voltou a abri-los, contemplando a baía. O monte estava coberto de plantas, de amoras-da-silva-salmão e de tufos densos de salgueiros raquíticos, mas os caçadores mantinham aquele sítio limpo para que os rapazes pudessem observar a baía, procurando vestígios de salmões, focas e leões-marinhos.

Nesse dia, a baía estava cheia de homens em iqyan, uns a pescar, outros treinando com dardos e arpões. Várias mulheres pescavam à linha na praia, mas a maioria encontrava-se concentrada na foz do rio apanhando salmões.

Aqamdax reparou nos iqyan de vários comerciantes que estavam sendo puxados para a praia. Não era raro. Pelo menos daí a uma lua, ou talvez mais, as tempestades impediriam as viagens. Quando se sentiu mais aliviada das dores nas costas, levantou-se e continuou o caminho para a aldeia.

Era freqüente os Caçadores de Morsas irem negociar na aldeia. Desde criança que Aqamdax aprendera muitas das suas palavras, como todas as crianças dos Primeiros Homens. Às vezes, os Caçadores de Morsas arranjavam esposas dos Primeiros Homens, mas em geral, quando o faziam, viviam na aldeia dos Primeiros Homens. Aqamdax gostaria que a mãe tivesse partido com um comerciante dos Caçadores de Morsas. Talvez tivesse voltado agora, pelo menos para a visitar.

Aqamdax levou a erva para o topo do ulax de Qung e pousou-a ali. Viu que Qung não estava lá dentro e correu para a praia. Iria ao riacho dos salmões e faria o que pudesse para ajudar Qung. Bem alto, para as outras mulheres ouvirem, diria à velha que apanhara um bom molho de erva. Assim elas ficariam sabendo que não fora a preguiça que a afastara dos salmões.

Dirigiu-se para a praia e parou ao ver um grupo de homens reunidos à volta dos iqyan dos comerciantes. Sempre que estes chegavam, ela tinha esperança de que fossem homens do Povo Rio, mas, no fim do Verão, sabia que as hipóteses eram poucas, e não ficou desiludida ao ver as marcas dos comerciantes dos Caçadores de Morsas nas proas dos iqyan. Encaminhou-se para o rio dos salmões. Ajudaria Qung até chegar a hora de contar histórias, e depois se ajudariam uma à outra, tentando que as pessoas voltassem aos hábitos antigos e sagrados.

Sok percebeu que ela era filha de Daes. Era tão parecida com ela que tinha que ser. Mas era mais forte do que Daes. Na voz, e até nos ossos do rosto, era mais forte. A princípio, ela falara devagar, com palavras espaçadas. Outras vezes, falava tão baixinho que Sok mal ouvia o que ela dizia, mas, à medida que a história evoluía, a mulher parecia também crescer, ao ponto de sobressair de tal modo pela sua estatura que ele tinha de levantar a cabeça para lhe ver o rosto.

Nesse momento falava com outra voz, algo que vinha do cimo da cabana. A princípio, Sok julgou que havia alguém lá fora que os chamava pelo buraco da chaminé. Depois, percebeu que era a filha de Daes que fazia as duas vozes.

Ah, aquela mulher conquistaria o coração de Lobo-e-Corvo ainda mais do que uma parka de penas ou uma máscara de xamã. Quem não a desejaria como esposa? Depois, Neve-no-Cabelo lhe pertenceria, se ele conseguisse afastar a filha de Daes do seu marido dos Primeiros Homens. O lugar dela como contadora de histórias dava-lhe tal prestígio que nenhum marido a rejeitaria voluntariamente. Talvez o marido fosse um homem fraco, alguém que não percebesse o verdadeiro valor das coisas, e admitisse um certo tipo de negócio, sobretudo quando Sok lhe mostrasse os objetos que levava.

Sok estava ansioso por que as histórias acabassem, mas elas continuaram. A filha de Daes alternava com uma mulher tão velha que o seu rosto era castanho como o de uma lontra do rio. Tut estava sentada entre Sok e Chakliux, traduzindo o que as contadoras de histórias diziam, mas, com o esforço exigido pelos remos, o encontro na praia com os caçadores e o chefe dos Primeiros Homens e o tempo passado fazendo um abrigo tosco com peles de caribu e com os iqyan virados ao contrário, Sok estava ansioso por ir dormir. Quando a velha contava algumas das últimas histórias, ele chegara a fechar os olhos e a deixar que os sussurros de Tut o atraíssem para os sonhos.

Acordou quando os que o rodeavam começaram a levantar-se, e a princípio nem sabia onde estava. Depois viu Tut. Chakliux estava falando com Cormorão, e Pena Vermelha juntara-se a um grupo dos Primeiros Homens, mas Sok procurou a filha de Daes. Tentou identificar o marido, mas ninguém parecia reclamá-la, apesar de vários caçadores a assediarem, com o desejo no rosto. Por fim, quando todas as mulheres e crianças tinham saído da cabana, dois homens aproximaram-se dela. Ela falou com eles, com um ar carrancudo, à luz da lamparina. Tut também a observava e Sok perguntou-lhe:

Qual deles é o marido dela?

Ficou à espera que Tut fizesse a pergunta a um caçador na língua gutural dos Primeiros Homens.

Ele diz que ela não tem marido disse Tut a Sok. Sok não escondeu a sua surpresa. A filha de Daes não era feia. Tinha o rosto redondo, o queixo pequeno, uns olhos grandes e um nariz bem feito, e quando sorria, o que era raro, via-se que tinha bons dentes.

Ela é viúva? perguntou ele, e quando Tut repetiu a pergunta ao caçador dos Primeiros Homens, o homem riu-se.

É uma mulher que todas as noites tem um homem diferente na sua cama disse Tut a Sok, traduzindo as palavras do caçador. Ele diz que, se tu a quiseres, talvez a consigas, mas que, na opinião de todos os homens que a conheceram, ela é estéril.

Sok fez um aceno de cabeça, mas tentou disfarçar o seu interesse. O caçador dos Primeiros Homens falou outra vez e Sok, impaciente, ficou à espera que Tut o esclarecesse.

Ela chama-se Aqamdax. O pai morreu. Ela vive com Qung, a velha contadora de histórias.

O caçador dos Primeiros Homens apontou para a velha com o queixo. A mulher tinha as costas tão curvadas que era obrigada a inclinar a cabeça para olhar para alguém que estivesse na sua frente. Contara muitas histórias e, apesar de Sok não perceber as suas palavras, sentira a força na sua voz e o respeito que ela despertava naquela gente.

O caçador dos Primeiros Homens falou de novo. Dessa vez falou na língua dos Caçadores de Morsas, com palavras sincopadas e lentas que, curiosamente, Sok percebeu muito melhor do que quando Cormorão e Pena Vermelha falavam.

Qung muito poder. Despensa. Riu-se e descreveu um grande círculo com os braços. Muito cheia.

Voltou à sua própria língua e falou com Tut durante muito tempo. Sok virou-se para Cormorão e Chakliux, que falavam na língua dos Caçadores de Morsas. Chakliux falava quase tão bem como qualquer deles, e Sok ficou um pouco irritado.

Por fim, Tut puxou o braço de Sok e disse:

Ouve, este caçador diz que a jovem contadora de histórias se chama Aqamdax. Há uns anos, a mãe partiu com um comerciante que dizia pertencer ao Povo Rio. Conhece-lo?

Sok encolheu os ombros.

Há muitos comerciantes. Como se chama ele?

Tut virou-se para o caçador dos Primeiros Homens e fez a pergunta de Sok.

O caçador abriu os braços, encolheu os ombros e depois foi falar com Aqamdax, mas Sok ficou escondido nas sombras da cabana. No dia seguinte, quando as histórias a tivessem deixado e ela fosse apenas uma mulher, iria falar-lhe.

 

Preciso de saber como se diz ”avó” na língua dos Primeiros Homens disse Sok a Tut.

Tut sorriu-lhe.

Tencionas fazer algum negócio? perguntou ela.

O que te interessa isso, velha?

Talvez interesse de muitas maneiras respondeu ela.

Começara a usar o cabelo como as mulheres dos Primeiros Homens, solto ou preso atrás num espesso rolo encostado à nuca. Era uma mulher orgulhosa uma coisa de que Sok percebera assim que a vira pela primeira vez e empinou a cabeça. Por alguma razão, parecia quase uma jovem nesse momento. Chakliux disse que ela descobrira os seus três irmãos ainda vivos, além de muitos sobrinhos e sobrinhas.

Não quero que enganes a minha família.

Eu não vou enganar ninguém.

Por instantes, ela inclinou a cabeça e examinou-o. Por fim, disse:

Acredito em ti.

Diz ”kulax”. Significa ”avó”, mas cuidado com o modo como usas esta palavra. Algumas mulheres não gostam de ser avós para um homem do Povo Rio.

A velha afastou-se, sorrindo-lhe por cima do ombro, e Sok percebeu que ela estava prestes a desatar à gargalhada.

Eram os únicos comerciantes que estavam de visita aos Primeiros Homens, apesar de Tut ter dito a Chakliux que muitas vezes aldeias inteiras de comerciantes ficavam nas suas tendas junto da praia.

É uma baía abrigada explicara ela. Um bom ponto de paragem entre as aldeias dos Primeiros Homens nas praias a oeste e as aldeias dos Caçadores de Morsas a leste.

Ouvi dizer que os Primeiros Homens vivem em ilhas que vão até ao extremo da terra dissera Chakliux.

Tut encolhera os ombros.

Quem sabe? Sabemos de aldeias aonde se leva uma lua a chegar, sempre viajando para oeste. Os contadores de histórias dizem que viemos de uma ilha muito distante, no meio do mar, e que os nossos caçadores matavam baleias. Se isto é verdade, é porque perdemos esses poderes.

Cormorão e Pena Vermelha dispuseram as mercadorias em esteiras junto dos iqyan virados ao contrário. Em voz baixa, reconheceram que não tinham tido oportunidade de se reabastecer desde a sua última visita aos Primeiros Homens. Tinham parado numa aldeia entre o acampamento de Verão dos Morsas e esta, mas as pessoas tinham poucas coisas, apenas peixe e esteiras de erva. Chakliux conseguira negociar vários pescoços secos de leão-marinho, que não eram suficientes para um chigdax, mas constituíam um começo. Fora o melhor negócio feito por qualquer deles, e Sok não trocara nada, guardando tudo o que tinha para pagar o dote da contadora de histórias.

Chakliux agachou-se e olhou para o mar. O vento era fraco e a baía quase não tinha ondas. Dois jovens haviam ido para a praia cedo, tirando os seus iqyan das armações e levando-os para a água. O nevoeiro cobria a barra e estendia-se em longas faixas até à praia e aos vales baixos entre as cordilheiras. Chakliux observou os homens até eles serem engolidos pela mancha cinzenta. Gostaria de levar o seu próprio iqyax e ir com eles, mas não queria fazer nada que quebrasse tabus ou mostrasse desrespeito.

Quando eles voltassem, iria a eles e lhes perguntaria se podia ver os seus iqyan, para verificar o tamanho das balizas que eles usavam e ver como ligavam o rebordo do convés à armação. Cormorão dissera-lhe que eles usavam peles de leão-marinho em vez de morsa para revestir os iqyan. Como Chakliux gostaria de saber falar a língua dos Primeiros Homens! Tinha tantas perguntas a fazer mas, quando os homens voltassem, talvez ele conseguisse que Tut traduzisse o que ele dizia.

Estavam ali apenas há uma noite, e parecia que a velha já pertencia à aldeia. O irmão mais velho oferecera-lhe um lugar na sua cabana. Não, não era uma cabana, era um ulax. Era assim que os Primeiros Homens chamavam às suas cabanas. Chakliux não se admiraria se ela resolvesse ficar com os Primeiros Homens, mas iria sentir a sua falta. Era sincera como uma criança, e como uma criança parecia deliciar-se com tudo.

Como se os pensamentos dele a tivessem atraído, Chakliux viu Tut saindo do nevoeiro, acompanhada por uma velha curvada. Tut acenou-lhe para que fosse ao encontro dela, e Chakliux desatou a correr, retardado pela areia debaixo dos pés.

Lembras-te de Qung? perguntou Tut, quando ele se aproximou delas. Ela quer ver o teu pé de lontra.

De súbito um ramo de gavieiro enrolou-se nos tornozelos e ele tropeçou, mas endireitou-se antes de cair. Sacudiu a areia das palmas das mãos e tentou apresentar-se com dignidade, mas Tut desatou a rir e ele seguiu-a.

Sim, lembro-me de Qung. É contadora de histórias respondeu ele.

Tut disse qualquer coisa à mulher na língua dos Primeiros Homens e Qung respondeu com uma rispidez que levou Chakliux a pensar se ela estaria zangada.

Ela está a ralhar comigo pela minha indelicadeza disse Tut. Está dizendo-me que os Caçadores de Morsas me fizeram esquecer a educação dos Primeiros Homens. Por isso, daqui em diante, serei educada. O que pensas do nevoeiro? Aqui é sempre assim. Já me esquecia. O que pensas da aldeia? É grande e as pessoas são fortes, não são? Gostaste das histórias desta noite? Tut não deu tempo a que Chakliux respondesse e por fim acrescentou: Agora acabemos com as delicadezas. Mostra-lhe o teu pé.

Rindo-se dos modos estranhos de Tut, Chakliux descalçou a bota e tirou as peles de lebre com que costumava aconchegar o pé. Qung inclinou-se tanto que Chakliux teve medo que ela tropeçasse. A mulher disse qualquer coisa, elevando a voz como se fizesse uma pergunta.

Ela quer tocar-lhe disse-lhe Tut.

Diz-lhe que o pode fazer.

A mão de Qung estava fria. A velha voltou a falar; mais uma vez, Tut traduziu:

Ela quer saber se tu cantas, se és versado em preces e cânticos.

Diz-lhe que sou dzuuggi. Sabes o que é um dzuuggi?

Sei. Um contador de histórias, tal como Qung. Também és xamã?

Não tenho poderes espirituais. A minha força vem das histórias que aprendi e dos enigmas do meu povo.

Tut disse a Qung e a velha fez mais perguntas, sem tirar as mãos do pé de Chakliux. Por fim, endireitou-se o mais que podia, gemendo com o esforço, e Tut disse:

Ela quer um enigma. Nada acerca do Povo Rio, mas qualquer coisa que uma mulher dos Primeiros Homens consiga adivinhar.

Chakliux ficou pensando, tentando lembrar-se de algumas informações que Tut lhe dera acerca dos Primeiros Homens e das suas praias, de qualquer coisa simples que pudesse ser transformada num enigma. Por fim, disse:

Olhem! O que vejo eu? Um louco segue o seu caminho.

Tut disse a Qung, e a velha levantou a cabeça, ergueu as sobrancelhas e sorriu.

Ela quer a resposta?

Deixa-a pensar no enigma durante um tempo disse Tut. Os Primeiros Homens são um povo silencioso. Utilizam quase todas as suas palavras nos seus pensamentos. Ela pergunta-te se quiser saber.

Qung apontou com a boca para o pé de Chakliux e Tut disse:

Ela agradece-te por a deixares ver o teu pé.

Em seguida, Qung deu meia volta e embrenhou-se de novo no nevoeiro.

Eles perguntam por ti afirmou Qung descendo lentamente o poste do ulax.

Aqamdax levantou a cabeça da pele de foca em que estava trabalhando com um furador de osso de pássaro.

Quem?

Aqueles comerciantes dos Caçadores de Morsas.

São os mesmos que estiveram aqui há uma lua?

Dois são.

Talvez lhes tivessem dito que ela levava muitos homens para a cama. Aqamdax perguntou a si própria quais as bugigangas que eles lhe ofereceriam e depois abanou a cabeça para se livrar de tais pensamentos. Ainda havia períodos em que não conseguia dormir, mas estavam diminuindo, e agora que a aldeia estava prestes a ter três noites de histórias, ela não queria que os homens interferissem nas novas histórias que a sua mente lhe ensinara.

Não quero que eles venham aqui declarou Aqamdax.

Mesmo os dois que são do Povo Rio?

As palavras de Qung fizeram erguer a cabeça de Aqamdax, como se esta fosse uma bexiga cheia de ar e presa a um fio.

Dois são do Povo Rio? Eles entendem a nossa língua? Falaste com eles? Eles sabem alguma coisa da minha mãe?

Fazes perguntas demais comentou Qung, descendo o último degrau do poste. Instalou-se numa almofada de pele de raposa cheia de penas de ganso e prosseguiu: O grande e o pequeno são irmãos. São do Povo Rio. O pequeno tem um dom especial. Um dos pés parece a barbatana de uma lontra, com os dedos ligados por uma membrana, e é um contador de histórias do seu povo. Cantador diz que o homem é quase tão bom num iqyax como um caçador dos Primeiros Homens. Não sei muita coisa acerca do alto. Algumas mulheres dizem que ele quer uma esposa. Guarda Cestos disse que ele perguntou por ti.

Nenhum perguntou pela minha mãe?

Quem perguntaria pela tua mãe a não ser tu?

Então eles entendem a língua dos Primeiros Homens?

Não. Eu falei com o lontra. A mulher que veio com eles, Tutaqagiisix, é uma das nossas, casada com um dos Caçadores de Morsas antes de tu nasceres. O irmão dela é Lago Pequeno. Ela voltou para ficar com ele. Traduziu as palavras do homem para eu entender, e as minhas para ele. Apresentou-me um enigma. Queres ouvir?

Aqamdax dobrou a pele e enfiou o furador e o dedal no seu agulheiro de marfim.

Os homens do Povo Rio estão na praia? perguntou ela.

Não queres ouvir o enigma?

O enigma?

O homem do pé de lontra ensinou-me um enigma. É uma charada de palavras.

Sim, mas não agora. Guarda-o para mim. Aqamdax vestiu o sax e começou a subir o poste.

Devias levar alguma coisa para trocar. Os comerciantes não dão nada de graça, nem sequer informações.

Mas parecia que os ouvidos de Aqamdax tinham se fechado a tudo exceto aos seus próprios pensamentos.

 

Dois, disse o comerciante dos Caçadores de Morsas. Mais nada. Olha, a pele de lontra é velha. Levou-a ao nariz e cheirou-a. Posso vendê-la ao Povo Caribu. Eles não sabem distinguir, mas os Caçadores de Morsas, outros Primeiros Homens e até o Povo Rio sabem. Como posso eu dar-te mais se fico com tão pouco para mim?

Cabelo Branco baixou a cabeça. Aqamdax já vira comerciantes negociando com velhas. Os caçadores da aldeia não as deixavam morrer de fome, mas como os maridos delas não podiam caçar, as melhores peles nunca iam parar em suas mãos. Pouco a pouco, as mulheres desfaziam-se das suas melhores peles, mesmo daquelas que tinham guardado para si. Se tivesse sido bem raspada e amaciada e guardada com todo o cuidado, uma pele velha valia quase tanto como uma nova, mas para quê dizer isso ao homem? Se ele era comerciante, bem o sabia.

E, evidentemente, não mentira. Os Caçadores de Morsas e os Primeiros Homens sabiam ver que a pele era velha, mas também conheciam o seu valor.

Comes bem, avó? perguntou o comerciante.

A mulher esfregou as mãos na superfície do pêlo escuro e denso mas não respondeu.

Nem por isso disse o comerciante. Duas barrigas de foca cheias de óleo dão-te para muito tempo. Mais do que quando eras nova.

Eu tenho marido, disse Cabelo Branco.

Aqui está. O comerciante tirou um pequeno alfinete de nariz de marfim de um dos seus fardos. Leva isto também. O teu marido vai ficar satisfeito.

A mulher pegou o alfinete de nariz, mas Aqamdax agarrou-lhe primeiro. O comerciante fitou-a.

Sim. O meu tio vai gostar disto disse ela. Pegou o alfinete e deixou-o cair nas mãos da velha. O que te ofereceu ele em troca dessa pele, tia?

Duas barrigas respondeu Cabelo Branco. Aqamdax resmungou:

Consegues quatro ou cinco peles de caribu por isso, não consegues? perguntou ela ao comerciante.

É velha respondeu ele, mas recuou, afastando-se da verdade das palavras dela.

Aqamdax pegou a pele. Levou-a ao nariz e depois virou-se para as mulheres que estavam mais perto dela.

Cheira a podre?

Não, disse Grita-Alto.

Era uma mulher ousada, e em geral era a primeira a chamar-lhe nomes feios quando Aqamdax passava pelo seu ulax, mas naquele momento sorriu, com um misto de astúcia e de alegria no olhar, empinando levemente o queixo para lhe mostrar a sua aprovação.

Aqamdax aproximou a pele da cara do homem e encostou-a no nariz dele.

Cheira a podre?

O comerciante afastou a pele.

Leva-a. Não a quero disse ele.

Eu diria que esta é uma das melhores peles que tenho visto observou Aqamdax. Eu diria que esta pele vale alguma coisa.

Olhou por cima do ombro para Grita-Alto, para Olhos-de-Erva e para Folha Malhada. Elas concordaram.

Aqamdax aproximou-se do comerciante e encostou-lhe de novo a pele na cara.

Duas barrigas de óleo só para a ver, diria eu, insistiu ela.

Mais uma vez, as mulheres concordaram em voz baixa e várias exclamaram:

Duas barrigas, sim. Duas barrigas.

Aproximaram-se outras que juntaram a sua voz à de Aqamdax.

O comerciante abriu a boca para falar, mas depois olhou para as mulheres.

Somos muitas disse-lhe Aqamdax. E todas trouxemos coisas para trocar. Tenho certeza de que, se tratares bem os nossos velhos, continuarás a ser bem recebido na nossa aldeia.

Duas barrigas? perguntou o comerciante. Aqamdax fez um sinal afirmativo.

Ele diz duas, tia. E também o alfinete de nariz?

O que se passa aqui?

Aqamdax reconheceu a voz de Rompe-o-Dia. As outras mulheres afastaram-se para ele se aproximar do comerciante, mas Aqamdax ficou onde estava.

Este homem é um bom comerciante disse ela a Rompe-o-Dia. Ofereceu à nossa tia duas barrigas de óleo e um alfinete de nariz pela oportunidade de ver esta pele de lontra.

Rompe-o-Dia olhou para o comerciante e depois para Aqamdax.

Isto é verdade? perguntou ele.

Sim, respondeu o comerciante com uma voz débil. O homem pigarreou e acrescentou:

Sim. Duas barrigas. O alfinete de nariz é um presente.

Rompe-o-Dia fez um aceno de cabeça mas cravou os olhos em Aqamdax e ergueu uma sobrancelha, um olhar que a atingiu o coração, um olhar que ele reservava geralmente à mulher.

Vou mandar outras pessoas falar contigo, comerciante, disse ele.

Em seguida, pegou a pele e as duas barrigas de óleo e acompanhou Cabelo Branco até a aldeia.

Chakliux e Tut estavam sentados junto das armações dos iqyan, abrigados do vento, observando e ouvindo como Aqamdax, a contadora de histórias, negociava com Cormorão, primeiro ajudando uma das velhas e depois negociando dois saels de casca de bétula, duas peles de caribu, colares e alguns espinhos pintados de ouriços-cacheiros.

Várias vezes, Chakliux foi obrigado a conter o riso quando Tut traduzia as palavras da contadora de histórias. Era uma mulher que sabia o que queria.

Quando ela acabou de negociar, chegou Qung, a outra contadora de histórias. Cormorão e Pena Vermelha propuseram-lhe bons negócios. Uma pele de caribu e peixe seco em troca de uma pequena pele de foca e de um rolo de tendão. Um colar de presente, que o próprio Pena Vermelha lhe pôs no pescoço.

Depois de a velha ir embora, Chakliux concentrou o seu pensamento em Aqamdax. As suas histórias eram um dom. Perguntou a si próprio se ela saberia como era boa. Sok gabara-se a Chakliux que, se Yehl não a aceitasse, ele ficaria com ela. Porque não? Talvez ele conseguisse negociar com aqueles que vinham ouvi-la. Negociar em troca das palavras que saíam da boca de uma mulher. O que havia de mais fácil?

Os comerciantes dos Caçadores de Morsas tinham exposto os seus produtos mais cedo do que Sok julgava. Acordou ao som dos homens e das mulheres pechinchando, das vozes elevando-se ou esmorecendo, fazendo ofertas, rejeitando e aceitando. Foi correndo apresentar os seus produtos, as poucas coisas que lhe pertenciam e que ele não pusera de lado para o dote de Aqamdax coisas que não teriam grande significado para o Povo Rio, mas talvez tivessem algum valor para os Caçadores Marinhos.

As primeiras a examinar alguns dos seus produtos foram várias jovens, todas com muitos risos e sem nada para trocar, mas pouco depois a mãe de uma delas aproximou-se. Chamou as outras e por fim a multidão à volta de Sok era quase tão grande como a que rodeava os comerciantes dos Morsas.

A velha contadora de histórias chegou, acompanhada por Aqamdax. Sok tentou não olhar para a jovem, mas deu consigo observando os movimentos graciosos das suas mãos quando ela pegou um cobertor de pele de lebre. Inclinou-se para segredar ao ouvido da velha, e ambas examinaram a textura do cobertor.

Era uma mulher de aspecto agradável. Não era de admirar que os homens acorressem à sua cama. Sok perguntou a si próprio se eles lhe dariam os seus produtos em troca do seu prazer. Em certas aldeias, as mulheres conseguiam muitas coisas assim, peles e colares, óleo e carne. Segundo os Caçadores de Morsas, a prática não era habitual entre os Primeiros Homens. Os homens não partilhavam as suas mulheres exceto com companheiros de caça ou com um irmão que não tivesse mulher, e os maridos nem sequer podiam obrigar a mulher a deitar-se com um homem que ela não desejasse. Mas Aqamdax não era mulher de ninguém. Não tinha irmão, nem pai, nem tio para falar por ela. E o pior é que era estéril.

Então o que aconteceria se Sok lhe pedisse que fosse com ele para desposar o xamã dos Morsas? Qual a mulher, mesmo uma contadora de histórias, mesmo uma que partilhava prontamente a sua cama, que conseguiria sobreviver sem ser esposa? Não tardaria a envelhecer. E depois? Quem a quereria? Além disso, o que perdia Sok ao perguntar?

Pelo canto do olho, Sok observou-a. Ela acariciava as peles de doninha e examinava um sael de casca de bétula cheio de espinhos. Pegou um cesto de pele de pássaro e depois juntou o seu riso trocista ao de várias mulheres. Sok ignorou a troça.

Servira-se de pedras para fazer um estrado e colocou os produtos em cima das pedras. Apesar de estas serem irregulares, era melhor do que ter as coisas no chão. Os homens e as mulheres tinham cuidado, mas as crianças, com o entusiasmo da negociação, muitas vezes desatavam a correr para ir brincar. Cormorão contara-lhe que perdera mais de um cesto de pele de pássaro debaixo dos pés de uma criança.

Por fim, Aqamdax aproximou-se dele. Ofereceu um colar de conchas por uma mão-cheia de contas esculpidas de pedra-sabão. Era um bom negócio para ele. O Povo Caribu daria muito por um colar de conchas.

Quantas? perguntou ele, falando em língua dos Morsas.

Ela levantou cinco dedos duas vezes.

Leva mais, disse ele.

Sok sorriu quando ela ergueu as sobrancelhas, admirada. Aqamdax tirou mais três contas e ele, com um aceno de cabeça, aceitou o colar.

Tut atravessou a multidão e, contornando as mercadorias, aproximou-se de Sok.

Precisas de ajuda para perceber o que eles dizem? perguntou ela.

Sim, sim, respondeu Sok, olhando de novo para Aqamdax.

Ela já lhe virara as costas e, nas pontas de pés, espreitava os produtos dos outros comerciantes por cima da cabeça das outras pessoas. Ele não podia cometer a indelicadeza de lhe agarrar o braço. Por isso falou, inclinando-se sobre as suas mercadorias.

As tuas histórias são muito boas, afirmou ele, levantando a voz acima da tagarelice das mulheres.

Tut também se debruçou e falou na língua dos Primeiros Homens.

Aqamdax virou-se e olhou para Tut e depois para Sok. O seu sorriso embelezava-a, atenuava-lhe as rugas entre as sobrancelhas e transformava-lhe os olhos em quartos crescentes brilhantes. Sok considerava que Daes era bela. Mas esta mulher superava-a. Sim, o xamã dos Morsas ia ficar satisfeito, sobretudo se ninguém lhe dissesse que ela era estéril.

Eu não deixei nenhum presente ontem à noite. Posso ir levar-te alguma coisa mais tarde, quando acabar o negócio?

Quando Tut falou, Sok viu a surpresa no rosto de Aqamdax. Ela abriu a boca e depois hesitou.

Há alguma coisa de que tu ou o teu marido gostem, do que vês aqui? perguntou Sok apontando para as suas mercadorias.

O meu marido? perguntou ela. Ah, ele sempre quis um bom cesto de pele de pássaro disse ela.

Aqamdax riu-se e várias mulheres junto dela também se riram.

Quando Tut traduziu, Sok sentiu uma ponta de raiva no peito, mas disse:

Vou guardar um para ele.

Pegou o cesto maior, agachou-se e encheu-o de peles e colares. Depois levantou-se e declarou:

Levá-lo-ei esta noite. Vives no ulax da contadora de histórias?

Vivo respondeu Aqamdax, olhando primeiro para Tut e depois para Sok.

Disse mais qualquer coisa, e Tut traduziu, explicando que Aqamdax não tinha marido, mas Sok ignorou-a e olhou para os caçadores que estavam à espera. Cormorão dissera-lhe que eles só se aproximariam quando as mulheres fossem embora, e que depois Sok deveria expor as armas e os objetos de sílex. Sok fingiu não ouvir o que Tut estava dizendo e voltou a arranjar o sílex e as bóias de pele de foca que trouxera da aldeia dos Caçadores de Morsas.

Aqamdax apertou as contas contra o peito e passou entre as mulheres, deixando que outras ocupassem o seu lugar. Tinha mais do que esperava, belas contas do comerciante do Povo Rio, colares e recipientes de casca de bétula dos homens dos Morsas, e o comerciante do Povo Rio ia levar-lhe um presente, embora uma parte dele fosse um cesto de pele de pássaro uma coisa que ela merecia, por ter troçado do homem. A maioria dos outros homens teria reagido com palavras desagradáveis ou mantido um silêncio raivoso.

Já ia regressando à aldeia quando se lembrou que Qung ainda estava negociando. Aqamdax devia ter esperado por ela, devia estar lá para trazer o que a mulher tivesse trocado. Os comerciantes haviam sido generosos com os velhos desde que Aqamdax enfrentara aquele a quem chamavam Cormorão. Aqamdax disfarçou um sorriso. Era bom fazer qualquer coisa para ajudar os outros.

Apressou o passo e dirigiu-se para o ulax. Levaria as suas coisas para casa e depois voltaria para ajudar Qung. Cortou caminho subindo a pequena duna que separava a aldeia da praia. À sua frente iam quatro mulheres Guarda-Cestos e a irmã mais velha, uma tia e outra mulher chamada Boca. Era aconselhável não ter Boca como inimiga. As suas palavras eram afiadas como as ervas da praia ressequidas pelo Inverno.

Aqamdax abrandou o passo para não ter que acompanhá-las.

O vento aumentara de intensidade desde o princípio da manhã, empurrando uma faixa de nuvens cinzentas e espessas do horizonte. Moldava-lhe o sax de pele de pássaro às pernas e, quando ela ia a descer a encosta da duna, também lhe fez chegar aos ouvidos as palavras das mulheres.

Guarda-Cestos lamentava-se, como era habitual, do muito que tinha para fazer. Aqamdax abanou a cabeça. Comparada com a maioria das esposas, até tinha pouco. Só dera um filho ao marido, e todas as mulheres da aldeia sabiam que era a esposa-irmã que se ocupava da maior parte da costura e da comida.

A irmã de Guarda-Cestos riu.

Tu és preguiçosa. Se vivesse com o meu marido, então saberias o que é trabalho, disse ela.

Ou se apanhasse um ano em que houvesse abundância de salmão, acrescentou a tia. Há tão poucos este ano. Ainda só enchi dois estrados de seca.

Boca resmungou:

O que esperam vocês? Nós temos uma maldição. Até temos sorte em apanhar alguns salmões.

Há anos bons e outros que não são tão bons, disse a tia.

Eu não discuto isso, mas ninguém, nem sequer os mais velhos, se recorda de um ano com tão pouco peixe, observou Boca. Há sempre uma razão para estas coisas.

Guarda-Cestos concordou.

O Povo Duas Praias tem um xamã forte... A mulher apontou para a outra aldeia. Talvez ele nos explique porque é que isto aconteceu.

Hii! Não preciso de um xamã para uma coisa tão simples como essa retorquiu Boca. Só houve uma coisa que mudou desde o Verão. Uma mulher que é respeitada e que não devia ser. Uma mulher...

Tenho sido uma boa esposa disse Guarda-Cestos. Pergunta ao meu marido. Tudo o que eu faço para respeitar...

Boca cortou-lhe a palavra.

Estúpida! exclamou ela, inclinando-se para olhar para Guarda-Cestos. Julgas sempre que é tudo a teu respeito? Quem vive agora com Qung? Quem foi honrada com conhecimentos que nem os nossos velhos têm?

As palavras de Boca tiveram o efeito de facas na alegria que as mercadorias haviam despertado em Aqamdax. De súbito, as contas esculpidas pareciam cortar-lhe as mãos e os novos colares como que lhe arranhavam a pele.

Ah! exclamou Guarda-Cestos.

Ah! exclamou a irmã.

Aqamdax teve vontade de responder, mas dobrou a língua. Por pouco não gritou às mulheres e não lhes disse o que pensava. Mas de que serviria a sua raiva? Talvez servisse apenas para provar a acusação de Boca. O que havia de mais indelicado do que ouvir as conversas dos outros? O que havia de mais indelicado do que interromper os outros?

Optou por apertar o passo, passando por elas e cumprimentando-as. Virou-se, com os braços cheios de objetos que trocara, e disse, sorrindo:

Está um lindo dia, não está?

Elas pestanejaram ante a boa disposição dela e por fim Guarda-Cestos gaguejou:

O sol, o sol está quente.

O vento arrasta a chuva, disse Boca. Aqamdax encolheu os ombros.

Já tivemos chuva, respondeu ela. Somos mesmo uma aldeia abençoada pela sorte.

Em seguida, virou para o ulax de Qung e continuou a andar, recusando-se a ouvir o que diziam atrás dela.

Eu te disse que ele vinha aí disse Aqamdax, espalhando mais peixe e outro monte de ouriços-do-mar. Vem ver o meu marido. Não me deu ouvidos quando eu lhe disse que não era casada.

Qung ficou atenta, sem perceber o motivo do nervosismo de Aqamdax. Muitos homens tinham entrado naquele ulax. Aqamdax nunca lhes oferecera comida nem se preocupara por não ter marido. Porque se preocuparia agora? Ele comeria, iria para a cama dela, iria embora e, de manhã, Qung veria o que Aqamdax ganhara por ter aberto as pernas a outro homem.

Tia, eu... Agora sou contadora de histórias afirmou Aqamdax.

Deitou a cabeça para trás e suspirou. Os cabelos brilhantes chegavam-lhe às ancas e, por instantes, Qung invejou a beleza da jovem.

Não o quero na minha cama disse ela por fim.

As histórias bastam. Agora não preciso dos homens. As histórias alteraram a minha situação. Não consigo explicar, mas...

O que te leva a pensar que ele vem pela tua cama?

Todos os homens querem ir para a minha cama. Bem sabes.

Há homens que não te procuram. Disseste que ele trazia um presente para o teu marido. Ele não espera nada de ti, se tenciona ver o teu marido.

Pensas que nenhum dos homens lhe falou de mim?

Imaginas que os homens falam das mulheres? Têm muitas outras coisas que lhes enchem a boca. A pesca, a caça e as armas. Fui casada durante muitos anos. Nunca ouvi o meu marido falar acerca de mim nem dos nossos filhos. Os homens não são como as mulheres. Não se interessam muito pelas pessoas.

Deitarem-se com uma mulher é diferente, retrucou Aqamdax. Para um homem, isso não tem a ver com as pessoas.

Qung levantou as mãos.

Quem sabe? Nunca compreendi os homens e não creio que eles compreendam as mulheres. Aqui está ele, disse ela, apontando com o queixo para o buraco do telhado.

Aqamdax endireitou o sax, ajeitou os colares que trazia no pescoço e susteve a respiração quando o homem começou a descer para o ulax. Reconheceu os pés que desciam o poste e de súbito sentiu-se impaciente.

Então agora que a tua mulher está grávida, vens me ver outra vez? perguntou ela.

Rompe-o-Dia pousou os pés no chão do ulax e virou-se lentamente para ela.

Não estou interessado na tua cama, disse ele.

Como se reparasse pela primeira vez que Qung o observava, acenou à velha, tartamudeou um cumprimento e chamou-lhe avó por respeito para com a sua idade.

A minha mulher ouviu dizer que um dos comerciantes vinha visitar-te.

A tua mulher ouve muitas coisas, respondeu Aqamdax.

Rompe-o-Dia ficou carrancudo, o que divertiu Aqamdax.

Ele prometera-lhe que ela seria sua esposa. Ela acreditara nele, apesar de as mulheres do chefe terem rido quando ela lhes contara. Agora, Aqamdax entendia os seus risos. Como é que Rompe-o-Dia poderia casar com uma mulher que não tinha pai, nem tios, nem irmãos, nem sequer um avô?

Foi o comerciante chamado Sok?

Sim. O alto respondeu Aqamdax.

Vi-o tentando enganar uma velha.

Esse pertence aos comerciantes dos Morsas. Sok não enganou ninguém, disse Aqamdax.

Ele deu-me uma pele de caribu inteira e peixe seco em troca de uma pequena pele de foca e de um rolo de tendão. Não me enganou, disse Qung.

Vim dizer-te que tenhas cuidado, avisou Rompe-o-Dia. O meu tio disse-me que ninguém deve confiar num comerciante.

O teu tio não confia em ninguém porque é desonesto, declarou Qung. Aqamdax aprendeu muitas coisas na vida. Já teve homens que lhe fizeram promessas. Ela sabe ser cuidadosa.

A velha aproximou-se de Rompe-o-Dia e olhou-o fixamente até ele dar meia volta e começar a subir o poste.

Não julgues que és o único sábio, gritou-lhe Qung.

Depois olhou para Aqamdax e riu como uma menina.

Encontraram-se no telhado do ulax de Qung, e por isso foi difícil fingir que não se viam um ao outro, mas nenhum deles falou. Sok teve um acesso de fúria. Aquele era um dos homens que freqüentava a cama de Aqamdax? Mas censurou-se. O que tinha ele com isso? A mulher não lhe pertencia.

O homem dos Caçadores Marinhos saltou do telhado do ulax e Sok viu-o aproximar-se de outro ulax maior. Agarrou com força o cesto de pele de salmão que trazia na mão e depois parou junto do buraco do telhado. Não sabia os hábitos dos Primeiros Homens quanto às visitas. Devia gritar? Servir-se de um pau para raspar na madeira da armação do buraco? Tut dissera que ela se encontraria ali com ele. Devia esperar por ela?

Por fim, Sok gritou do buraco do telhado e depois desceu. Era um ulax pequeno, com metade do tamanho de muitos que havia na aldeia. É claro que a maior parte dos ulax albergava várias famílias. Aquele, tanto quanto ele percebera, pertencia à velha Qung, e só ela e Aqamdax é que lá viviam. Tut dissera-lhe que era raro uma mulher dos Primeiros Homens ser dona de um ulax. Quase todos pertenciam aos homens.

O que lhe parecia mais difícil na vida de um comerciante, além de viajar, era aprender os hábitos de cada aldeia. Era fácil um homem ofender sem perceber. Cormorão recomendara-lhe que falasse baixinho e pouco, sobretudo quando fosse convidado para a cabana de alguém da aldeia.

As duas mulheres estavam junto da base do poste, e Qung disse qualquer coisa que Sok entendeu como um cumprimento. Pegou o cesto, tirou dois colares de osso de pássaro e ofereceu um a cada mulher. Depois, virou-se e olhou à sua volta como se procurasse o marido de Aqamdax.

Trouxe estas coisas em sinal de respeito pelo teu marido. Ele não está? perguntou ele na língua do Povo Rio. Como elas não lhe respondessem, Sok falou na língua dos Morsas:

Marido?

Não há marido disse Qung, falando também na língua dos Morsas.

Alguém chamou pelo buraco do telhado e, aliviado, Sok reconheceu a voz de Tut.

A velha desceu o poste, falou com Qung e depois disse a Sok:

Elas sabem que eu estou aqui para traduzir. O que queres que eu lhes diga?

Diz-lhes que eu já sei que Aqamdax não tem marido. Diz-lhes que eu quero que elas fiquem com estas coisas.

Tut explicou demoradamente o que ele dissera. Qung sorriu, pegou o cesto e pousou-o no chão. Agachou-se junto dele e tirou os seus presentes, soltando exclamações de alegria ao ver cada um como se fosse uma criança.

Sok observava-a, e depois sentiu uma mão na manga da parka.

Queres comer alguma coisa? perguntou Aqamdax, imitando uma tigela com uma mão e levando dois dedos da outra à boca.

Sim. Tenho fome. Sok apontou com os lábios para Qung e para o cesto. Não queres ver o que eu trouxe?

Tut repetiu a pergunta e, com uma expressão sorridente, traduziu a resposta de Aqamdax:

Ela diz que Qung não é gananciosa. Que dará a Aqamdax uma boa parte.

Aqamdax encheu uma tigela de comida que tirou de uma panela pendurada sobre uma lamparina de óleo e estendeu-a a Sok. Ele agachou-se e comeu. Quase todas as mulheres teriam arranjado qualquer coisa para fazer, costurar ou entrelaçar ervas mas Aqamdax agachou-se ao lado dele e ficou observando-o. Aquilo incomodava-o. Continuou a olhar em frente e, quando acabou de comer, deu-lhe a tigela.

A mulher não era delicada. Não lhe ofereceu mais comida nem esperou que ele falasse primeiro. Virou-se e disse qualquer coisa a Tut.

Tut riu outra vez.

Ela diz que não é parva. Ela percebe pelos teus presentes que tu sabias que ela não tinha marido. Por isso pergunta porque estás aqui, já que não vieste para falar com o marido.

Ele reagiu à indelicadeza dela com a sua e respondeu:

Ainda estou com fome.

Tut disse a Aqamdax e Sok ficou à espera de uma carranca ou de palavras desagradáveis, mas Aqamdax não se mostrou ofendida. Levantou-se, encheu-lhe a tigela e entregou-a. Mais uma vez ficou vendo-o comer; mais uma vez ele a ignorou.

Por fim, quando ele terminou, ela falou. Tut afastou-se de Qung, sem se dar ao trabalho de se levantar, arrastando-se como um papagaio-do-mar, com as pernas encolhidas debaixo do corpo.

Aqamdax diz que a mãe dela vive com o Povo Rio disse Tut a Sok.

Antes que Sok pudesse dizer fosse o que fosse, a velha Qung gritou qualquer coisa.

Qung diz que tu não respondeste à pergunta de Aqamdax, traduziu Tut. Ela quer saber porque estás aqui. Porque trouxeste estes presentes?

Gostei das vossas histórias, respondeu Sok.

Isso vale uma barriga de óleo, ou talvez uma pele de foca continuou Qung, parando de vez em quando para Tut traduzir. Ofereceste coisas demais. Isso não se usa nesta aldeia. Aceitamos uma coisa e podes ficar com o resto para negociar.

Um povo rude, aqueles Primeiros Homens, pensou Sok. Depois perguntou a si próprio se seria mais rude dizer o que pensava ou esconder as suas intenções sob um manto de palavras ou um cesto de presentes.

Vim pedir a Aqamdax que volte comigo para a aldeia dos Caçadores de Morsas para ser esposa, explicou ele.

Tut traduziu, e quer Qung quer Aqamdax ficaram boquiabertas. Sok esperou que uma delas falasse, mas nenhuma disse nada.

Por fim, ele disse:

Sei que não é uma decisão fácil. Agora vou-me embora e volto amanhã.

Sem esperar que Tut traduzisse, Sok levantou-se, agradeceu-lhes a comida e saiu do ulax.

O que disse ele? perguntou Aqamdax.

Que volta amanhã para saber a tua decisão, respondeu Tut.

Aqamdax olhou para Qung com um ar preocupado.

Deixarias de ser contadora de histórias para seres mulher de um comerciante? perguntou-lhe Qung.

Aqamdax não conseguiu responder.

 

Aqamdax entrou na baía, primeiro com a água pelos joelhos e depois mais acima. A água cobriu os escassos pelos negros que lhe protegiam o sexo e depois a barriga, até chegar aos seios pequenos e redondos. Por instantes, uma onda a fez desequilibrar-se e o medo obrigou-a a suster a respiração, mas a água pousou-a de novo. Nunca tinha ido tão longe e, como a maioria dos Primeiros Homens, não sabia nadar. Em geral, todas as manhãs ia ao rio, ao pequeno lago que ele escavara no local em que desaguava na baía. Aí, ela e as outras mulheres podiam ficar, com água até aos joelhos, viradas para o sol, jogando água, para se lavar e fortalecer.

Nesse dia fora para a baía, como faziam os caçadores, para desafiar a água mais profunda e o frio agreste que lhe fazia doer os ossos. Escolhera as águas da baía para se preparar para o que tinha que fazer a seguir, não só para endurecer a carne como a alma. De outro modo, como poderia ter esperança de sobreviver? Com certeza que o seu espírito a abandonaria e voltaria àquele sítio que ela amava, às rochas, às plantas e às praias que eram a sua casa.

Então fizeste-lhe a pergunta? Sok fez um sinal afirmativo.

Chakliux viu Sok a dar estalidos com os nós dos dedos da mão esquerda e depois com os da direita.

E então?

Há uma hipótese. Dizem que ela é estéril. Apesar de os seus poderes serem grandes como contadora de histórias, não consegue dar um filho a um marido.

Talvez ela se contente em ser apenas contadora de histórias.

Qual a mulher que não quer ser esposa? Nem uma contadora de histórias pode esperar que os caçadores da aldeia forneçam tanta comida como um marido ou os filhos.

Talvez isso seja verdade, mas às vezes basta um presente. Vale mais do que carne ou óleo, respondeu Chakliux.

Eu disse-lhe que lhe ofereceria muitos presentes, respondeu Sok.

Chakliux desviou o olhar, e nem tentou explicar ao irmão o que quisera dizer com aquilo.

Estavam sentados nas armações dos iqyan, de costas viradas para o vento, e os capuzes protegiam-lhes as orelhas do frio.

Não esperes demais, irmão, recomendou Chakliux.

De súbito, o vento fustigou as armações, jogando-lhes um jato de areia na cara. Chakliux fechou os olhos e apertou o capuz. Tut dissera-lhe que o vento era mais forte ali do que no local em que os Caçadores de Morsas viviam, e os comerciantes afirmavam que ele ainda era mais forte para oeste. Chakliux piscou para afastar a areia dos olhos e depois reparou em alguma coisa que se deslocava na água.

Uma lontra, pensou, empurrando o capuz para trás para ver melhor. A cabeça escura da lontra saiu da água, ergueu-se e transformou-se numa mulher, cujos cabelos negros e brilhantes pareciam obsidiana, moldados como uma peça de roupa aos ombros e aos seios.

Ouviu Sok arfando atrás de si e depois sentiu a mão rija do irmão no braço.

Vira a cabeça, irmão ordenou Sok.

E Chakliux percebeu que as palavras dele não eram por causa de a mulher estar nua. Os Primeiros Homens não se davam tanto ao trabalho de esconder o corpo uns dos outros como fazia o Povo Rio. Era por a mulher estar concluindo algum banho sagrado, uma tradição dos Primeiros Homens, como Tut lhe explicara uma vez.

Mesmo assim, a graciosidade da mulher prendeu-lhe a atenção, e de repente ele percebeu que se tratava da contadora de histórias, Aqamdax. Ela levantou as mãos para o céu e depois baixou-se de novo e enfiou-se na água, onde aparentemente se transformou de novo numa lontra. Sok tinha razão; aquilo tinha algo de sagrado.

Chakliux virou a cabeça e fechou os olhos.

Qung nem levantou a cabeça quando Aqamdax entrou no ulax. A velha estava fazendo um dos seus cestos de erva entrelaçada. Era pequeno, não maior do que um punho fechado. Não era para apanhar nem para guardar nada, era um cesto para os olhos, como diria Qung.

Senta-te aqui, ordenou ela sem desviar o olhar do seu trabalho.

Aqamdax sentou-se ao lado dela.

Presta atenção, disse Qung.

Aqamdax concentrou-se nos dedos hábeis de Qung. O corpo do cesto repousava na sua mão esquerda, e ela segurava as tiras finas da planta cortada entre o indicador e o dedo médio da mão esquerda, enquanto a mão direita as torcia e entrelaçava. Em geral, depois de Qung lhe dizer que prestasse atenção, as duas mulheres ficavam sentadas em silêncio, mas dessa vez Qung começou a falar, e os seus dedos trabalhavam ao ritmo das suas palavras.

Fazer um cesto não é muito diferente de tecer uma história disse ela. As tiras de erva são como as palavras. Cada uma tem o seu lugar; cada uma contribui para reforçar o conjunto. Eu escolho as ervas com cuidado... folhas interiores fortes, secas, lentamente... tal como escolho as minhas palavras. A velha mergulhou os dedos numa pequena tigela de água. Mantenho-as molhadas, para elas se lembrarem como a chuva as fortalece, e assim ficarem fortes quando eu as entrelaço, tal como as histórias se fortalecem com as recordações.

Calou-se de novo, e Aqamdax inclinou a cabeça para ver os dedos de Qung. A velha teceu durante algum tempo; depois parou e virou o cesto sobre uma forma de madeira escavada do mesmo tamanho e formato do cesto. Procurou entre as tiras de erva que tinha a seu lado, escolheu duas, cruzou-as ao meio, enrolou-as uma sobre a outra, entrelaçando-as. Agora eram uma trama. Inseriu uma tira entre elas, enrolou-as sobre ela e continuou a juntar ervas entrelaçadas. Olhou para Aqamdax.

Resolveste ir com os comerciantes, não é verdade? Aqamdax torceu os dedos no colo.

A minha mãe vive com o Povo Rio. Talvez eu a encontre.

Não se referiu ao que Boca e as outras mulheres tinham dito.

Qung fez-se numa bola, pondo os braços em volta dos joelhos erguidos e baixando a cabeça para Aqamdax não lhe ver o rosto. Por fim falou, quase num murmúrio:

Se casares com um comerciante, talvez voltes.

Talvez, todos os anos afirmou Aqamdax. Qung levantou a cabeça.

Não te esquecerás das histórias?

Nunca me esquecerei das histórias.

Fez-se de novo silêncio. Qung passou os dedos pelo cesto que começara e depois, de repente, atirou-o a Aqamdax.

Tens muito que aprender. Observa-me e segue as minhas mãos.

Qung pegou o cesto e começou a tecer. Aqamdax, com os dedos ainda entorpecidos pelo nervosismo, observou, tentando imitá-la. A erva era tão fina, o círculo da trama era tão frágil nas suas mãos. Qung pousou o seu próprio cesto para observar, abanou a cabeça, tirou-lhe o trabalho das mãos e ordenou-lhe que recomeçasse.

Teceram durante toda a tarde, e Aqamdax continuava onde começara. Por fim, Qung verificou o trabalho dela e fez um sinal afirmativo, deixando que Aqamdax continuasse. Em seguida, mostrou-lhe como devia acrescentar mais tiras. Aqamdax continuou trabalhando, apesar de já lhe doerem o pescoço e os ombros e de lhe arderem os olhos.

Chega, disse por fim Qung. Larga isso. O teu homem do Povo Rio não tarda a chegar.

Aqamdax pôs de lado o pequeno círculo entrelaçado que concluíra. Penteou-se, oleou a pele até ficar brilhando e trocou os aventais de erva por aqueles que guardava para as festas, com tiras de cores vivas e que lhe chegavam aos joelhos, um na frente, outro nas costas.

Quando entrou no ulax, Qung olhou para ela, piscou os olhos e disse:

Deram-te um nome apropriado. Aqamdax, amora-da-silva-salmão. Essa planta dá um único fruto bem no cimo do caule. Desse modo, vê tudo, mas também é a primeira a morrer com as geadas do Inverno. Tal como a amora-da-silva-salmão, tu levantas muito a cabeça, tentando sempre ver uma grande parte do mundo à tua volta. Devias ter mais cuidado como o empetro, que se aninha em segurança nos seus ramos de urze.

Aqamdax esperava os cumprimentos de Qung, ou até algumas sugestões sobre o modo como devia lidar com o comerciante do Povo Rio. Depois de ouvir as palavras da velha, ia caindo nos comentários que fizera às esposas de Cantador, mas cerrou os lábios, evitando palavras duras, e respondeu:

Mas, tia, o que é mais saboroso do que a amora-da-silva-salmão depois da primeira geada?

Qung não respondeu.

Ele chegou acompanhado pela velha Tut, uma mulher que Qung não estava ansiosa por ter no seu ulax. Afinal, ela optara por deixar os Primeiros Homens por um Caçador de Morsas, que nem sequer era um bom caçador, segundo Qung ouvira dizer, mas quem podia ter certeza de que os cochichos eram sempre verdadeiros? Ela tinha bom aspecto. Estava velha, mas quem não envelhecia? Só aqueles que morriam cedo.

Era uma mulher de vozes, essa Tutaqagiisix, com uma certa magia na boca que lhe permitia falar as línguas dos comerciantes apenas uns dias depois de os ter ouvido. Qung sempre invejara esse dom. Uma vez, quando era pequena, tentara mesmo trocar uma bugiganga de que muito gostava pelo saber de Tut. Mas esta dissera que não sabia como o fazia como se isso pudesse ser verdade e desse modo Qung também ficara conhecendo a ganância da mulher.

Era bom que ela tivesse ido para os Morsas. Quando uma pessoa permite que a ganância entre na sua vida, ela depressa se espalha. Ninguém precisa de uma mulher que leva mais do que a sua parte de óleo ou de comida, com boa ou má sorte.

Além disso, se Tut tivesse ficado, Qung poderia não ter sido escolhida como contadora de histórias. Como teria ela vivido depois de o marido morrer? Devia muito à decisão de Tut sair daquela aldeia, recordou Qung, e por isso deu-lhe um lugar de honra junto da lamparina a óleo, ao lado do comerciante do Povo Rio que viera tirar-lhe Aqamdax.

Sok perguntara a Tut quais os hábitos de delicadeza seguidos pelos Primeiros Homens. Silêncio, dissera-lhe Tut. Sossego. A princípio, Sok sorrira, julgando que ela estava gracejando. Qual o homem que entra numa cabana e se mantém calado? Para que se juntavam as pessoas senão para comer e falar? Mas Tut repetira a sua afirmação e depois acrescentara:

Que melhor maneira de mostrar respeito pelos pensamentos de outra pessoa do que através do silêncio? Achas que é delicado cobrir esses pensamentos com as tuas próprias idéias? O que há de delicado nisso?

Era uma estranha maneira de pensar, mas Sok compreendia que um povo acabasse por acreditar em tal coisa. Houvera momentos em que ele precisara sair da sua própria cabana, nem que fosse para se afastar das muitas palavras de Folha Vermelha, da sua necessidade de preencher todo o espaço que o rodeava com as suas canções, a sua tagarelice e os seus contatos físicos constantes.

Por isso naquele momento, ao ocupar o lugar indicado por Qung, ele deixava-se conduzir por Tut, esperando que o olhar dela lhe dissesse quando devia falar. A princípio, o silêncio o fez sentir-se pouco à vontade. Sok ouvia-o melhor do que a alguém que estivesse gritando. Depois, começou a observar o ulax, as lamparinas de pedra onde ardia óleo, fazendo uma chama quase sem fumaça que deixava o ambiente do ulax mais nítido do que nas cabanas do Povo Rio. Examinou as esteiras de erva entrelaçada que estavam penduradas em armações de madeira à volta do grande espaço central. Segundo Tut lhe explicara, por trás daquelas esteiras havia lugares separados para dormir. O teto estava coberto de erva e de esteiras de erva seguras por ripas de madeira flutuante e ramos de salgueiro. O chão estava atapetado com erva. Nos sítios em que as cortinas das camas não lhe impediam a visão, Sok verificou que fora cavada uma vala no chão, com um palmo de profundidade, junto das paredes de terra, e perguntou a si próprio se durante o ano, talvez na Primavera, quando a neve derretia, as paredes não deixariam entrar água.

Agora, no Verão, o ulax parecia seco e quente, bastante resistente para suportar os ventos fortes que muitas vezes varriam a praia.

Por fim, Qung falou, pronunciando algumas palavras. Tut respondeu, mas não se incomodou a traduzir. Tut dissera-lhe que falariam do tempo, de acontecimentos insignificantes na aldeia, tal como o Povo Rio fazia quando alguém o visitava. Depois se sentariam comendo e, quando terminassem, Tut abordaria o assunto do dote.

Aqamdax sentou-se tranqüilamente num lugar que parecia cheio de montes de ervas secas. Aquilo que as mãos dela estavam fazendo era tão pequeno que Sok nem conseguia ver. Talvez ela estivesse começando um dos cestos de erva em que as mulheres da aldeia trabalhavam, mas aquele parecia muito pequeno. Sok calculava que todos os cestos começassem por ser pequenos, evidentemente, apesar de não prestar muita atenção às mulheres nem aos seus cestos.

Aqamdax era alta, mais alta do que Folha Vermelha, mas mais pequena e estreita de ossos, embora a maior parte das mulheres dos Primeiros Homens fosse entroncada. Usava os cabelos compridos e soltos por trás das orelhas. Tinha um rosto redondo e uns olhos grandes.

Qung e Tut conversaram durante muito tempo. Por fim, Qung disse qualquer coisa a Aqamdax. A jovem levantou a cabeça e Sok sentiu o calor dos olhos dela na sua face. O seu corpo endureceu de desejo, mas ele lembrou-se de que ela estava destinada a ser esposa de Yehl.

Aqamdax levantou-se e encheu uma tigela de carne escura e adocicada de leão-marinho. Qung ofereceu comida a Tut e em seguida as duas mulheres dos Primeiros Homens serviram-se e sentaram-se a comer. Tut dissera-lhe que, em certas aldeias, os homens comiam primeiro e as mulheres depois, mas ali as mulheres comiam muitas vezes com os seus homens e isso não era considerado uma indelicadeza. Tal não seria possível com o Povo Rio, sobretudo durante as luas de escassez do fim do Inverno, quando a vida das pessoas dependia da força dos seus caçadores.

Depois de todos acabarem de comer, Tut falou com Qung e depois disse a Sok:

Agora tens de fazer a pergunta.

Por instantes, ele não viu as mulheres sentadas a seu lado, mas apenas o rosto pequeno e os olhos grandes de Neve-no-Cabelo. As palavras que ensaiara vieram-lhe à mente e Sok falou de Yehl, do xamã dos Morsas, da força e da sabedoria do homem. Falou dos presentes que Aqamdax e Qung receberiam e do lugar de honra que Aqamdax ocuparia na aldeia dos Caçadores de Morsas como contadora de histórias, e, enquanto ele falava, Tut traduzia as suas palavras para Qung e Aqamdax.

Chakliux caminhava à beira da praia. Nessa noite, Sok iria saber se a contadora de histórias iria ou não com eles. Chakliux abanou a cabeça. Porque ela iria? Tinha todos os motivos para ficar ali, com o seu povo, a sua família. Sok era estúpido ao pensar que poderia conquistá-la, mas para quê queixar-se da estupidez de Sok? Ele dera a Chakliux uma oportunidade de ir àquela aldeia dos Primeiros Homens estudar os seus iqyan, observar o modo como remavam e pensar na maneira de tornar o seu iqyax mais resistente e de aperfeiçoar as suas técnicas. Dois homens tinham-no mesmo levado à caça de lontras-marinhas. Haviam lhe emprestado dardos especiais para usar no seu lançador e tinham-no deixado ser o primeiro a atirar quando encontraram um grupo de lontras. Haviam voltado com duas e oferecido generosamente a Chakliux os dentes dos animais.

Eram boa gente, aqueles Primeiros Homens, cheios de anedotas e de risos, com vozes ricas e fortes que cantavam quando eles estavam nos iqyan. Chakliux ouvira dizer que não eram totalmente humanos, mas, agora que os conhecia melhor, pensava que os que faziam tal afirmação estavam errados. Talvez outros Primeiros Homens, mais para oeste, nas ilhas do fim do mundo, não fossem tão humanos, mas aqueles eram tão humanos como ele. Olhou para o seu pé de lontra e depois riu. Quantos julgariam que ele não era humano? Até Mirtilo. Até as crianças da aldeia em que crescera.

O céu estava escurecendo, anunciando a curta noite de Verão. Chakliux deu meia volta e regressou ao abrigo que Sok e ele partilhavam com os comerciantes dos Morsas. Avistou a fogueira à entrada. Perguntou a si próprio se Sok já voltara do ulax da contadora de histórias. Fosse o que fosse que tivesse acontecido, em breve partiriam da aldeia e regressariam aos Caçadores de Morsas. Suspirou. Que estranho! Apesar de não saber a língua deles e de não ter mulher nem família ali, tinha vontade de ficar.

Aqamdax franziu a testa. Disse algo coisa a Qung e esta falou com Tut.

Sok inclinou-se para Tut. Ela está zangada? perguntou ele. Tut apontou para ele. Sok cerrou os punhos. Por tudo o que Tut estava dizendo-lhe, ele podia nem sequer estar ali. Apontou mais uma vez para a pilha de mercadorias que trouxera como dote. Tinha coisas que ainda podia oferecer, presentes que guardara para o caso de Qung e Aqamdax precisarem de mais persuasão.

Começou a levantar-se. Tenho mais coisas. Na minha tenda. Tut, ainda falando com Qung, olhou para ele. Senta-te e fica quieto ordenou ela, como se ele fosse uma criança.

Sok teve que morder as bochechas para manter a boca fechada apesar da sua fúria. Havia um problema, mas como podia ele evitá-lo se Tut não lhe dissesse do que se tratava? Julgaria ela que sabia mais do que ele? Era um homem habituado a regatear nos negócios, a lutar com as palavras. O que sabia ela? Era apenas uma velha.

Gostaria de ter levado Chakliux com ele. O irmão aprendera depressa a língua dos Morsas e, apesar de não conseguir manter uma longa conversa, sabia o suficiente para dar a conhecer as suas necessidades. Talvez, durante os poucos dias que ali tinham passado, ele também tivesse aprendido algumas palavras dos Primeiros Homens, pelo menos para adivinhar o que estava se passando. Mas Sok receava que, se Chakliux viesse, contasse com uma parte do pagamento do xamã dos Morsas, e depois talvez Sok não ficasse com o suficiente para dar a Lobo-e-Corvo por Neve-no-Cabelo.

A mãe de Aqamdax saiu desta aldeia com um comerciante do Povo Rio. Aqamdax pergunta se podes ajudá-la a encontrar essa mulher. Ela chama-se Daes.

Posso tentar.

Tut falou com Qung durante muito tempo, mas Qung pouco disse, cerrando os lábios como que para poupar as palavras.

Por fim, Tut suspirou e disse a Sok:

Não posso fazer melhor.

Eu disse-te que tenho mais coisas. Tut abanou a cabeça.

Qung diz que o que ofereceste é suficiente. Ela diz que guardes o resto para tomares bem conta da tua mulher.

Falaste-lhe de Folha Vermelha? perguntou Sok. O sorriso lento de Tut fê-la mexer apenas um lado da boca.

Aqamdax irá contigo, mas não como esposa de Yehl. Irá apenas como tua esposa explicou ela a Sok.

Sok não conseguiu disfarçar a surpresa. Olhou para Aqamdax e esta levantou-se. A luz da lamparina brilhava na sua pele untada, projetando um clarão vermelho nas pontas escuras dos seios e na cascata macia do cabelo. Os seus olhos cobertos de sombras eram buracos escuros no círculo suave do rosto.

Ela estendeu-lhe o braço. Lentamente, ele pegou-lhe a mão e sentiu os seus dedos longos e esguios.

Não há cerimônia? perguntou Sok a Tut.

Não há cerimônia? Ela abanou a cabeça.

Basta ir com ela respondeu a velha.

Fitou-o, e Sok viu as perguntas no rosto da velha, mas olhou para Aqamdax e afastou essas perguntas da sua mente. Teria tempo de pensar em Yehl, de decidir o que faria.

Foi atrás de Aqamdax para a cama dela.

Aqamdax não conseguiu olhar para Qung quando levou o comerciante do Povo Rio para a sua cama. Talvez Qung pensasse que ela aceitara ser esposa só para levar aquele homem para o meio dos seus cobertores. O que mais ela pensaria, considerando o modo como Aqamdax vivera antes de ser contadora de histórias?

Mas aquilo não era a mesma coisa. Agora ela podia ser respeitada como esposa. Era também a sua oportunidade de encontrar a mãe e, como a sua intenção era honesta, talvez um dia conseguisse gerar filhos.

Qung teria de escolher outra pessoa para lhe suceder como contadora de histórias. Seria com certeza mais respeitável do que Aqamdax, e, se os salmões tivessem sido ofendidos por ela, veriam agora que os Primeiros Homens estavam de novo fazendo as coisas de um modo respeitável.

O comerciante do Povo Rio chamava-se Sok. Tut disse-lhe que o nome significava ”crocitar do corvo”. Era um bom nome para ele, um nome forte. Ele era um homem possante, com os músculos dos braços e do peito grossos e pesados. Tinha o nariz grande e bicudo que ela vira noutros comerciantes, lábios cheios e olhos profundos, cabelos escuros e espessos que ele usava em duas tranças curtas e espetadas. As vezes, punha ornamentos nos lobos das orelhas mas, ao contrário dos Primeiros Homens, não usava alfinete no nariz.

Sok pronunciou ela em voz baixa, tocando-lhe no rosto. Os seus olhos ainda não tinham se adaptado à escuridão do lugar, mas ela sentiu-o sorrir.

Chamo-me Aqamdax disse ela. Pôs a mão no peito e pronunciou outra vez: Aqamdax.

 

 

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Ficou à espera que ele repetisse o seu nome, mas Sok não o fez, e por qualquer motivo ela ficou desapontada. És parva, disse ela consigo própria. Agora és esposa; porta-te como tal. O pensamento a fez estremecer de alegria. Inclinou-se para a frente e meteu as mãos debaixo da parka dele. Era uma parka bem feita, tão boa como outras que ela vira, e Aqamdax perguntou a si própria se ele teria outra esposa. Segunda esposa seria melhor do que nada, pensou ela. É claro que, como ele era comerciante, talvez a tivesse comprado numa aldeia onde as mulheres se orgulhassem dos seus dotes de costura.

Aqamdax passou-lhe as mãos pelos lados do corpo e depois em volta do peito. A pele dele estava quente. De repente, ele cruzou os braços, pegou a parte de baixo da parka e despiu-a pela cabeça. Ficou sentado, sem se mexer. Em seguida, deitou-se de costas nos cobertores de pele de raposa e puxou Aqamdax. Encostou o seu rosto ao pescoço dela e começou a lambê-la. Aqamdax fechou os olhos e perdeu-se no prazer do seu contato. Pôs-lhe as mãos nas coxas e ouviu a respiração suave dele. Depois, sentiu as mãos dele no seu corpo, mexendo-se muito depressa, com uma grande premência.

Mais uma vez, Aqamdax não se entregou ao desapontamento. A maioria dos homens tinha pouca paciência para as carícias suaves e lentas que ela apreciava. Ele desejava-a nesse momento, e era seu marido. Ela levantou o corpo e montou-o. As mãos dele agarraram-lhe as ancas e empurraram-na para baixo. Ela começou a mexer-se, esperando dar-lhe prazer, esperando dar-lhe alegria.

Qung tentava escutar Tut em vez do barulho que Aqamdax e o comerciante faziam atrás das cortinas da cama. O que havia de mais respeitável do que a união de marido e mulher?, perguntou a si própria, enquanto a tagarelice de Tut enchia o ulax. O que havia de melhor para Aqamdax do que ter um marido só dela? Talvez ele até a ajudasse a encontrar a mãe. Não era, evidentemente, que Daes merecesse ter tal filha, não, mas todos os filhos precisam de uma mãe, e, apesar de Aqamdax ser crescida, qual a mulher que às vezes não era uma criança?

Sim, era melhor. E seria bom ficar com o ulax só para ela outra vez, saber que aquilo que ela punha na despensa ainda estaria lá quando voltasse. Como era agradável não ter receio do falatório das mulheres! Quem criticaria Aqamdax por se tornar esposa e quem criticaria o belo dote que Sok oferecera por ela? Era mais do que Rompe-o-Dia dera por Sorridente. Sim, era bom, muito bom.

Agora, se Tut fosse embora e a deixasse sozinha para ela verter umas lágrimas tontas...

Na manhã seguinte, Chakliux entrou no mar da baía até a água lhe chegar às coxas. Já se banhara em água fria. Rio Primo nunca estava quente e muitas vezes ele nadava até às profundezas. Lembrou-se que a diferença que sentia era a mesma de uma lontra do rio entrando no mar pela primeira vez. Mergulhou rapidamente, agachou-se e depois meteu a cabeça debaixo d'água, embrenhando-se no frio com braçadas fortes até atingir o fundo, sentindo o impulso das ondas quando passavam por ele e a força da corrente paralela à costa. Nadou até os pulmões lhe doerem e depois regressou à claridade.

A sua cabeça saiu da água a uma certa distância do local em que mergulhara, mais perto da praia, onde dois caçadores dos Primeiros Homens andavam com a água pelos joelhos. Um disse qualquer coisa a Chakliux, mas ele não o entendeu. Pousou os pés no fundo e pôs-se de pé.

Não entender, disse ele na língua dos Morsas.

Tu falas a língua dos Morsas, afirmou o outro caçador.

Pareciam irmãos, mas Chakliux não tinha certeza. Muitos dos Primeiros Homens pareciam iguais.

Um pouco, disse Chakliux.

Tu és aquele a quem chamam lontra, observou o caçador.

Chakliux ficou admirado. Não sabia o que os Morsas ou os Primeiros Homens lhe chamavam.

As pessoas não nadam. Tu deves ser uma lontra.

Qualquer pessoa pode nadar.

Os homens riram e começaram a dirigir-se para a praia. Chakliux foi atrás deles. Quando chegou junto das suas roupas, esfregou os braços e as pernas com o forro de pele de lebre de uma das suas botas e reparou que os Primeiros Homens só tiravam a água do corpo com as mãos, e ele fez o mesmo.

Vestiu as perneiras. O couro colou-se à pele molhada. Calçou as caneleiras e as botas e vestiu a parka. Alguém o chamou. Era Sok. Tut acompanhava-o; não, não era Tut. Tut não vestia roupas dos Primeiros Homens. Era Aqamdax, a contadora de histórias.

Quando Chakliux se aproximou, Sok pôs o braço por cima dos ombros da mulher. Chakliux olhou bem de frente para o irmão. Sok passara toda a noite fora e agora comportava-se como se a contadora de histórias fosse sua mulher. Em muitas aldeias, as pessoas ficariam ofendidas por ter entre si um homem tão descuidado nos seus contatos físicos.

Ela é minha, declarou Sok, sorrindo.

Ela aceitou vir conosco para os Caçadores de Morsas?

Sok riu.

Ela é minha esposa.

Quando Cormorão e Pena Vermelha, os comerciantes dos Caçadores de Morsas, viram a mulher, ficaram encantados.

E quando Cormorão e Pena Vermelha souberem que ela é tua mulher? Quando a levares para a tua cama, agora ou esta noite? Estás preparado para as facas deles? perguntou Chakliux a Sok, enquanto os comerciantes festejavam e Aqamdax olhava, sorrindo e rindo.

Eu fiz a minha parte, respondeu Sok. Comprei a mulher e ela prometeu vir conosco para a aldeia dos Caçadores de Morsas. Julgas que foi fácil? Tu é que vais ter que participar aos comerciantes dos Caçadores de Morsas. Afinal, como é que eu posso falar com eles? Não sei a sua língua.

Chakliux ficou irritado. A estupidez de Sok podia custar-lhes a vida.

Nesse caso, irmão, talvez eu lhes diga o que eles querem ouvir disse Chakliux. Que tu conseguiste a mulher para o xamã deles. Serás tu a decidir se te deitas ou não com ela. É a ti que cortarão o pescoço se o fizeres.

Não podes dizer-lhes isso. Tut ouve e vai contar-lhes. Chakliux encolheu os ombros.

Mesmo assim, antes a tua vida do que a minha. Sok pôs as mãos nos ombros de Chakliux.

Pedi-lhe para ser mulher do xamã e ela recusou. Só aceitaria vir como minha esposa.

Pelo menos isso nos dá um ponto de partida, disse-lhe Chakliux. Eu vou à procura de Tut. É melhor pedirmos-lhe conselho e confiarmos nas palavras dela e não nas minhas para explicar tudo isto. Tenta não tocar na Aqamdax até eu voltar.

Ao afastar-se, julgou sentir o olhar da contadora de histórias nas suas costas, mas talvez fosse apenas Gguzaakk à espera de ver o que iria acontecer.

Foi encontrar Tut no ulax do chefe dos caçadores. A voz da velha sobrepunha-se à tagarelice das esposas. Chakliux chamou-a pelo buraco do telhado. Tut convidou-o a entrar e ele aceitou, admirado com o tamanho do ulax ao descer o poste. Estava limpo e bem tratado, com o chão coberto de longas faixas de ervas secas e os pavios da lamparina a arder com pouco fumo. Folhas e raízes entrançadas, e por vezes plantas inteiras, pendiam das altas vigas do teto.

Eles sabiam construir cabanas, aqueles Primeiros Homens.

Chakliux ficou à espera junto da escada, tentando chamar a atenção de Tut, mas ela não olhou para ele. Ela sabe que eu quero que ela venha comigo, pensou ele, mas não quer abandonar as mulheres. Porque quereria?

Chakliux pensou nas vezes que se lembrara da sua aldeia, do seu povo. Sentia a falta da sabedoria dos velhos, das suas histórias de caçadas e de Invernos rigorosos. Tut também devia ter sentido a falta do povo daquela aldeia.

Por fim, a mulher mais velha disse qualquer coisa a Tut e apontou com o queixo para uma zona do ulax separada por uma cortina. Tut abanou a cabeça. Em seguida, levantou-se e aproximou-se do poste.

Olhos-de-Erva quer saber se tens fome.

Preciso que venhas comigo disse ele.

Agora?

Sim. Desculpa, mas o meu irmão fez uma coisa que pode causar-nos problemas.

Aceitou a contadora de histórias como esposa.

Já sabias?

Eu estava lá quando ele lhe fez o pedido.

Há mais alguém na aldeia que saiba isso?

Julgas que uma coisa como essa poderia manter-se secreta durante uma noite inteira?

Essas mulheres, o que pensam?

Estão contentes, respondeu Tut. Dizem que ela será uma boa esposa. Querem saber se vocês a levam para junto do Povo Rio ou se o teu irmão ficará aqui vivendo conosco.

Ele tenciona levá-la. Tut encolheu os ombros.

Então, qual é o problema? Chakliux baixou a voz.

Tut, sabes que os comerciantes dos Caçadores de Morsas vieram buscá-la para ela ser esposa do seu xamã.

E Sok ainda não lhes disse que é o marido dela?

Não.

Tut atirou a cabeça para trás e deu uma gargalhada.

E eu é que tenho de me preocupar com isso?

Tut, vem, por favor.

Tu falas a língua. Diz-lhes.

Tu arriscavas uma coisa como esta aos meus fracos conhecimentos da língua deles?

Tut lançou-lhe um olhar carrancudo. Depois suspirou e virou-se. Disse qualquer coisa às mulheres dos Primeiros Homens e depois fez sinal a Chakliux para que subisse o poste. Ele ficou à espera no topo do ulax, e por fim ela apareceu. Ele ajudou-a e depois ela afastou-se dele, batendo com os pés no chão como uma criança amuada. Por fim, perguntou:

E o que queres que eu lhes diga?

Diz-lhes a verdade respondeu Chakliux. Diz-lhes que ela não iria se não fosse esposa de Sok e que fica ao cuidado do xamã dos Morsas conquistá-la com presentes e promessas quando chegarmos à aldeia deles.

Tut fez um sinal afirmativo e não disse nada até chegarem à tenda dos comerciantes.

Chakliux ouviu a voz de Aqamdax quando se aproximaram da tenda e, apesar de ela falar na língua dos Primeiros Homens, percebeu pela cadência das suas palavras que estava contando uma história. A sua voz aumentou de tom quando eles entraram, apesar de a contadora de histórias não sair do centro do abrigo. Os comerciantes dos Caçadores de Morsas estavam sentados, escutando-a, tal como Sok, com o rosto enrugado por um sorriso. Quando viu Chakliux, explicou:

Ela está contando-nos uma história. Vê a força que ela tem. Escuta.

Ela falou com muitas vozes, e o seu rosto brilhava com as suas palavras; o seu corpo mexia-se ao ritmo da conversa. Admirado, Chakliux sentiu o sexo endurecer de desejo, e por fim fechou os olhos para não a ver. Era um disparate desejar a mulher do irmão.

Depois, na escuridão, ouviu Tut falar aos comerciantes dos Caçadores de Morsas do casamento de Sok. Para sua surpresa, os homens pareciam pensar que Sok agira bem. Chakliux não percebeu se eles esperavam que Sok a desse a Yehl assim que regressassem à aldeia dos Caçadores de Morsas. E Sok? Estaria disposto a cedê-la depois de ela lhe pertencer?

Durante duas noites, Sok e Aqamdax ficaram no ulax de Qung e dormiram na cama de Aqamdax. Nessas noites, Aqamdax acordou muitas vezes, umas para corresponder ao amor do marido do Povo Rio, mas quase sempre porque algo nos seus sonhos lhe lembrava que era esposa. Acordava e ouvia a respiração de Sok, o ruído que ele fazia a dormir. A palavra ayagax esposa? vinha-lhe à mente, e parecia-lhe que Sok respirava ao ritmo dela: ayagax, ayagax.

Depois, o seu coração encheu-se como se fosse um wyux, mantendo o seu espírito na superfície, erguendo-a da escuridão dos anos desde a morte do pai.

No terceiro dia, Tut chamou-a de lado, sentou-se com ela no exterior do ulax de Qung, ao abrigo do vento, e ambas rasparam peles de leão-marinho. Trabalhavam em silêncio, gozando o sol do Verão, o som do vento na erva do telhado do ulax, o ruído das crianças brincando. O raspador de Aqamdax estalava no meio do silêncio que reinava entre elas, e ela tinha a certeza de que Tut também ouvia e compreendia a sua alegria: ayagax, ayagax. Por fim, Tut perguntou:

Sabes que eles tencionam partir amanhã?

A pergunta pareceu prender-se na ponta entalhada do raspador de Aqamdax, e as suas mãos foram obrigadas a parar.

Amanhã?

Regressam aos Caçadores de Morsas, e depois o teu marido e o irmão vão para o Povo Rio.

Aqamdax pensou na mãe, foi buscar a recordação difusa do seu rosto, e as suas mãos começaram de novo a mexer-se. Encostou-se em peso ao raspador, tirou uma tira fina de membrana da pele e viu-a afastar-se a pairar, apanhada pelo vento.

Então talvez eu encontre a minha mãe, afirmou Aqamdax, falando com convicção para Tut não pensar que ela lamentava ter resolvido casar-se.

Durante muito tempo, Tut não disse nada, e Aqamdax deixou que o seu olhar abandonasse o que as mãos estavam fazendo e pousasse nas pequenas coisas familiares que via daquele lado do ulax de Qung. O tufo de amoras-da-silva-salmão junto do ulax de Chama-Peixe; as rochas vulcânicas negras que Cantador guardava como recordação dos avós e dos bisavós; a longa fila de cestos de erva de Qung, virados ao contrário, nos estrados de seca.

Aqamdax falou com os seus olhos, disse-lhes que vissem e recordassem, disse aos seus ouvidos que não se esquecessem do som do mar naquela praia. Depois, com palavras suficientemente duras para afastar a tristeza, lembrou a si própria: És uma esposa! Um dia, voltarás. Trarás os teus bebês para ouvirem as histórias de Qung.

Qung está velha, solta, insistiu o pensamento, mas Aqamdax afastou-o. Qung era forte, apesar da sua idade. Viveria para ver os filhos de Aqamdax. Não seria fácil despedir-se da velha, mas Aqamdax tinha que se lembrar do que lhe fora dado. Um marido forte, uma nova casa e a oportunidade de voltar a ver a mãe.

Se tens perguntas a fazer, faz agora, ordenou Tut. Não terás ninguém a quem as fazer depois de saíres daqui. Na aldeia dos Caçadores de Morsas ninguém fala bem a língua dos Primeiros Homens. Sempre foram os Primeiros Homens falando as duas línguas. Apesar de nenhum comerciante a saber. Por isso pergunta, e eu farei o que puder para responder.

Aqamdax pousou o raspador e olhou para a mulher. Tut estava velha, mas mantinha-se direita e as mãos não denunciavam a artrite que prende as articulações e entorta o corpo. Aqamdax julgava que a mulher voltaria para a aldeia dos Caçadores de Morsas com eles, e ao saber da sua decisão sentira um súbito mal-estar no estômago.

Não regressas aos Caçadores de Morsas? perguntou ela.

O meu marido dos Caçadores de Morsas morreu. A minha filha casou com um caçador dos Primeiros Homens e vive numa aldeia um ou dois dias a oeste daqui. É melhor eu ficar aqui, com os meus irmãos, com a minha família dos Primeiros Homens.

Nesse caso, ficarei sozinha afirmou Aqamdax, em voz baixa, como se falasse consigo própria.

Vais gostar da aldeia dos Caçadores de Morsas, disse-lhe Tut. As pessoas são boas. Serão uma nova família para ti.

Talvez eu não fique lá muito tempo declarou Aqamdax. O meu marido em breve voltará à sua aldeia do Povo Rio.

Sabes que o xamã dos Morsas pediu que fosses esposa dele? perguntou Tut.

Sei, mas agora Sok é meu marido. Não ficarei com os Morsas respondeu Aqamdax.

Eu digo-lhe isso por ti. Tenho certeza de que ele vai compreender.

Aqamdax pegou o raspador e depois largou-o outra vez.

Não o acompanharei, se ele tenciona entregar-me ao xamã dos Morsas.

As suas palavras eram determinadas, mas Aqamdax sentiu uma náusea interior, como se alguma coisa estivesse a devorar-lhe o coração. Sok a teria aceitado só para que ela o acompanhasse e depois ele se visse livre dela, quando ela estivesse longe do seu povo e já não fosse a contadora de histórias da aldeia? Lembrou-se das mãos dele no seu corpo, da força dos braços dele à sua volta. Não, ele não a trocaria. Já tinham criado aquele vínculo forte que se forma entre marido e mulher. Ela não tinha motivos para se preocupar.

Há mais alguma coisa que eu possa perguntar-lhe?

Sabes se ele tem outras esposas? Tut ficou pensando.

Ele tem dois filhos, afirmou ela. Fala muitas vezes deles. Ainda são pequenos mas já vão à caça.

Então eu sou segunda esposa.

Talvez.

Perguntas-lhe o que espera o Povo Rio de uma segunda esposa? Não quero ofender ninguém.

Eu faço-lhe essas perguntas por ti. E pergunto-lhe que outras coisas deves saber acerca dos costumes do Povo Rio.

Aqamdax fez um sinal afirmativo mas não disse nada. Trabalharam em silêncio, as duas juntas. Aqamdax tentou pensar noutras coisas para perguntar a Tut, mas os seus pensamentos eram como os pequenos farrapos de carne que ela raspava da pele de leão-marinho, levados rapidamente pelo vento.

 

ALDEIA DE RIO PRÓXIMO

Ghaden ouviu o ruído das botas do assassino, o tilintar dos chocalhos de casco de caribu como aqueles que as bailarinas usavam nas festas. Abriu a boca para gritar, mas não teve palavras, nada lhe saiu a não ser um gemido silencioso que mais parecia o vento do que a sua voz. De repente, um cão ladrou, foi no encalço daquele que tinha a faca e, em vez do tilintar, Ghaden ouviu a voz de Água Castanha, alta e irritada.

Yaa, põe esse cão lá fora.

Ghaden respirou fundo. Estivera sonhando. Estava a salvo na cabana de Água Castanha. Yaa desembaraçou-se dos seus cobertores de pele de lebre. Ghaden sentiu o calor do corpo dela afastando-se do seu e ouviu-a ralhando em voz baixa com Mordedor quando abriu a aba para deixá-lo sair. Pouco depois, sentiu o cão voltar. Yaa aconchegou-se a seu lado nas esteiras da cama, trazendo com ela uma corrente de ar frio, o cheiro fresco lá de fora e o zumbir dos mosquitos.

Mordedor deixou-se cair aos pés de Ghaden. O rapaz sentou-se e acariciou a cabeça do animal, deixando que ele lhe lambesse a mão com a língua quente. Durante muito tempo, Ghaden ficou sentado às escuras, afagando a cabeça do cão. Quando por fim se deitou, adormeceu facilmente e, nessa noite, não voltou a sonhar.

Ghaden abanou a fiada de contas de osso e depois bateu no chão da cabana com um pau até Mordedor começar a latir.

O rapaz latiu também, fazendo a expressão mais feroz de que foi capaz e tentando mostrar a Mordedor que tinha de se preparar para a luta.

Abanou as contas mais uma vez e depois atirou-as para o chão, rosnou-lhes e bateu-lhes com o pau. Mordedor saltou sobre as contas, abocanhou-as, atirou-as para trás da cabeça e latiu.

Parecia um latido feroz, mas Mordedor não tinha um aspecto ameaçador. Era como se estivesse brincando. Era um cão que parecia estar sorrindo, se é que os cães sabiam sorrir. Latir seria suficiente para assustar o assassino se ele voltasse outra vez, fazendo tilintar os chocalhos de osso?

Ghaden e Mordedor faziam tanto barulho que o rapaz nem ouviu Água Castanha entrar na cabana, nem reparou que ela estava atrás dele senão quando a mulher o agarrou pelo ombro. Ficou tão assustado que a princípio julgou tratar-se do assassino. Gritou e voltou-se, com o pau na mão, pronto a bater. Ao mesmo tempo, Mordedor atirou-se a Água Castanha, de dentes arreganhados. De repente, Yaa aproximou-se, com as mãos no pescoço de Mordedor, com os dedos enfiados no pêlo do cão, afastando-o de Água Castanha.

Quando Ghaden percebeu que fora Água Castanha que o agarrara, deixou cair o pau e agachou-se, protegendo a cabeça com as mãos.

O que estavas fazendo? perguntou ela, levantando a mão, mas sem lhe bater.

Ensinando o Mordedor respondeu Ghaden com uma voz débil, tentando sufocar um soluço que ameaçava entrecortar-lhe as palavras.

Estás fazendo tanto barulho que Neve Preguiçosa veio ver o que se passava. Ela tem o nariz comprido. Não precisamos dele cá dentro da nossa cabana. Brinca sem fazeres barulho disse Água Castanha, baixando a mão.

A mulher olhou para Yaa.

Onde estavas?

Disseste-me para ir buscar madeira.

Bem, onde está ela?

Lá fora.

Traz para dentro, disse ela a Yaa. Quando acabares, leva o rapaz e vai fazer qualquer coisa com ele. Creio que já tem forças para passar mais tempo lá fora. Leva também o cão.

Yaa saiu e Ghaden encolheu-se para fugir da mão pesada de Água Castanha, mas ela limitou-se a apontar com o queixo para as esteiras enroladas da cama e ordenou:

Senta-te até Yaa acabar o que tem para fazer. Ghaden aproximou-se do cobertor da sua cama e sentou-se. Estava tão bem enrolado que parecia um toro grosso e felpudo. Mordedor sentou-se ao lado dele e Ghaden começou a acariciar as orelhas do cão. Ia a colocar o dedo na boca, mas depois arrependeu-se. Porque havia de dar a Água Castanha motivos para gritar?

Yaa levou tempo buscando a madeira. Sabia que Água Castanha iria para as lareiras da comida dentro de pouco tempo e então ela e Ghaden poderiam ficar com a cabana só para eles. Mas Água Castanha também parecia não estar com pressa. Yaa já levara quase toda a lenha para dentro quando a mulher saiu. Pegou outra mão-cheia e viu Água Castanha desaparecer na direção das lareiras da comida. Depois entrou.

Ghaden estava sentado com um braço por cima de Mordedor. O cão já atingira quase todo o seu tamanho, apesar de ter ainda a flacidez de um filhote. Yaa reparou que, assim que Água Castanha saíra da cabana, Ghaden colocara o dedo na boca.

Então, Ghaden, Água Castanha diz que podes sair. Há muito tempo que não brincas com os teus amigos. Não queres ir à procura de Peixe Pequeno e de Lança?

Não.

Porquê?

Ghaden encostou a cabeça em Mordedor.

O Mordedor também pode ir?

Se ele se afastar dos outros cães.

Ele afasta-se.

Porque vocês estavam fazendo tanto barulho? Ghaden tirou o dedo da boca e sorriu.

Eu estava ensinando o Mordedor a ser feroz.

Com isto?

Yaa apanhou a fiada de contas do chão. Agitou-as e Mordedor rosnou.

Ghaden riu e abraçou o cão.

O velho dos ossos não nos apanhará, declarou ele.

Quem é o velho dos ossos? Ghaden enfiou o dedo na boca.

É segredo disse ele, quase imperceptivelmente. Não posso dizer-te.

Ghaden sentiu-se pequeno ao chegar lá fora. Mais pequeno do que era dentro da cabana. E a aldeia parecia-lhe estranha, demasiado silenciosa. Quase todas as pessoas estavam no pesqueiro, mas Água Castanha resolvera não ir nesse ano. Dizia que era uma longa caminhada para ela. Ele ainda não tinha forças e ela obrigava-o quase sempre a ficar lá dentro. O Verão não fora bom.

Até Yaa o tratava como se ele fosse um bebê. Quando saíam, ela besuntava-lhe a cara com gordura de ganso para afastar os insetos e obrigava-o a calçar as botas de pele de caribu, apesar de ele querer ir descalço como ela.

Ghaden foi atrás dela até aos limites da aldeia. Pararam numa clareira junto da margem íngreme que descia até ao rio. Os rapazes mais velhos estavam jogando com uma bexiga de caribu que passavam uns aos outros, tentando evitar que ela tocasse no chão. Ghaden observava-os, extasiado. Tanto ele como Yaa tinham que segurar Mordedor para ele não se intrometer no jogo.

Vários dos rapazes mais pequenos foram ao encontro de Ghaden, tentando convencê-lo a ir brincar, mas Yaa não podia deixá-lo ir. Ghaden virou-lhes as costas e Primeiros Pés, um rapaz com cerca de cinco Verões, começou a chamar-lhe nomes.

Olha que o meu cão te morde! gritou Ghaden Mordedor arreganhou os dentes, mas Yaa tapou-lhe o focinho com a mão. Depois, levou Ghaden e o cão para as lareiras da comida, onde a mãe deu a ambos um pedaço de carne.

Queres voltar para a cabana? perguntou Yaa a Ghaden.

Não.

Queres ficar vendo os rapazes?

Não.

Yaa ajoelhou-se em frente de Ghaden. Às vezes, quando ela queria que ele lhe respondesse, tinha mais sorte se o olhasse bem de frente.

Diz-me o que queres fazer. Ele virou a cara para o lado.

Está bem. Vamos para a cabana. Tu podes ficar lá com Mordedor. Eu vou encontrar as minhas amigas. Tu podes ficar sozinho.

Ele agarrou-lhe a mão.

Não, Yaa. Fica comigo.

Já sei o que faremos, disse Yaa, pensando em voz alta. Há um lugar onde eu te quero levar.

O Mordedor pode ir?

Se se portar bem.

Ele porta-se sempre bem.

Ghaden, este local é secreto. Não podes dizer a ninguém, declarou ela devagar.

Ghaden olhou-a fixamente.

Não direi.

Como a maior parte das crianças estava no acampamento de pesca, era uma boa oportunidade para ela ir mostrar a sua toca a Ghaden. Não queria que pessoas como Dança-no-Gelo descobrissem o seu esconderijo. O rapaz poderia destruí-lo. Além disso, a grande vantagem de ter uma toca era ninguém saber que ela existia.

Yaa pegou a mão de Ghaden e saiu da aldeia com ele, na direção da latrina das mulheres, e depois virou para um carreiro que ia dar na toca. Levou um dedo aos lábios, ajoelhou-se em frente dos abetos-negros e meteu-se debaixo dos ramos inferiores. Ghaden e Mordedor foram atrás dela. Yaa pegou o pau e enfiou-o na toca. Depois entrou lá dentro de quatro. Adorava a escuridão e o cheiro adocicado da terra. Recuou e empurrou Ghaden lá para dentro. As duas crianças riram ao ver Mordedor rastejando.

Somos raposas? perguntou Ghaden. A idéia fez Yaa sorrir.

Sim, somos raposas. Eu sou a mãe. Tu és o pai e o Mordedor é o bebê.

Ele é o cão disse Ghaden com um ar solene.

As raposas não têm cães disse Yaa.

Nós temos.