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CASA NOBRE Volume II - P.3 / James Clavell
CASA NOBRE Volume II - P.3 / James Clavell

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

CASA NOBRE

Volume II

Terceira Parte

 

Pacientemente Dunross explicou, e respondeu à pergunta sobre a sua proposta de compra de controle da General Stores, radiante porque as notícias já tinham chegado até ele. Se ha­viam chegado ao Tiptop, então chegariam a todos os jornais. "Ótimo", pensou, esperando para poder entrar no seu assunto, mas Tiptop passou-lhe a perna.

— Bem, obrigado pelo telefonema, tai-pan. Prontamente, Dunross falou:

— Foi um prazer. Ah, a propósito, confidencialmente, parece-me possível que a polícia tenha descoberto que um dos seus subalternos cometeu um erro.

— Sei. Imagino que o erro será corrigido imediatamente.

— Imagino que muito em breve, se a pessoa em questão pedir demissão e aproveitar a permissão para viajar para o exterior.

— E quando seria o muito em breve, tai-pan? Dunross escolhia as palavras com cuidado, deliberadamente vago, embora formal, agora.

— Existem certas formalidades, mas é possível que pos­sam ser cumpridas rapidamente. Infelizmente, é preciso con­sultar os vips em outros lugares. Tenho certeza de que me compreende.

— Certamente. Mas o poderoso dragão não é páreo para a serpente nativa, heya? Ao que me consta, um dos seus "su-per-vips" já está aqui em Hong Kong. Um tal sr. Sinders.

Dunross ficou surpreso com a extensão dos conhecimen­tos de Tiptop.

— Já conto com algumas aprovações — falou, inquieto.

— Pensei que muito poucas aprovações fossem necessá­rias. O verdadeiro ouro não teme o fogo.

— É. Existe algum lugar para onde possa ligar-lhe hoje à noite... para contar-lhe os progressos?

— O senhor me encontrará neste número. Por favor, li­gue para mim às vinte e uma horas. — A voz de Tiptop ficou ainda mais seca. — Parece possível que sua última sugestão sobre os bancos seja atendida. Claro que qualquer banco precisaria da documentação adequada para conseguir imedia­tamente meio bilhão de dólares de Hong Kong em espécie, mas, ao que me consta, o carimbo do Victoria, o carimbo do governador e o seu seriam as únicas coisas necessárias para garantir o empréstimo por trinta dias. Essa... quantia secun­dária estará disponível por um tempo limitado, quando se cum­prirem os procedimentos corretos. Até Iá esse assunto é confi­dencial, estritamente confidencial.

— Naturalmente.

— Obrigado pelo telefonema.

Dunross desligou o telefone e enxugou as palmas das mãos. "Por um tempo limitado" estava marcado no seu cérebro. Ele sabia, e sabia que Tiptop sabia que ele compreendia, que os dois "procedimentos" estavam absolutamente interligados, mas não necessariamente. "Santo Deus, eu amo a Ásia", pen­sou, satisfeito, enquanto se retirava.

Os corredores estavam cheios, muita gente já lotando os elevadores para ir para casa. Deu uma espiada na sua tribuna, e chamou a atenção de Gavallan.

— Andrew, desça até a tribuna dos sócios e fale com Roger Crosse... está Iá com um sujeito chamado Sinders.

Pergunte-lhes se têm um momento para vir até aqui falar co­migo! Depressa!

Gavallan se foi. Dunross cruzou apressado o corredor, passando pelos guichês de apostas.

— Tai-pan! — chamou Casey. — Lamento quanto a Noble Star! Você...

— Volto daqui a um minuto, Casey. Desculpe, não posso parar! — foi gritando Dunross, enquanto corria. Notou que Gornt estava no guichê dos vencedores, mas aquilo não lhe tirou a felicidade. "As primeiras coisas em primeiro lugar", pensou. — Como quer os dez mil? A nossa aposta?

— Em espécie estará ótimo, obrigado — disse Gornt.

— Eu mando mais tarde.

— Na segunda-feira estará bem.

— Logo mais. Na segunda-feira vou estar ocupado. Dunross afastou-se com um cumprimento polido de cabeça. No reservado lotado do Victoria, a confusão era a mesma que nos outros lugares. Bebidas, risadas, entusiasmo, alguns palavrões para Pilot Fish, mas já estavam sendo feitas apostas para a corrida do sábado seguinte. Quando Dunross entrou, houve mais vivas, condolências, e outra saraivada de pergun­tas. Ele se desviou delas com naturalidade, uma delas de Martin Haply, que estava ao lado da porta, com Adryon.

— Ah, papai, que azar danado da Noble Star! Perdi a camisa e toda a minha mesada!

— Mocinhas não deviam apostar — riu Dunross. — Alô, Haply!

— Posso lhe perguntar sobre...

— Mais tarde. Adryon querida, não esqueça os coquetéis. Você é a anfitriã.

— Oh, sim, estaremos Iá. Papai, pode me adiantar a me­sada do...

— Sem dúvida — disse Dunross, para espanto dela. Deu-lhe um abraço e foi abrindo caminho até Havergill, próximo de Richard Kwang.

— Alô, Ian! — disse Havergill. — Foi azar, mas estava evidente que Pilot Fish levou vantagem.

— É, foi, sim. Alô, Richard! — Dunross deu-lhe uma cópia da foto batida na hora da chegada. — Um azar danado pra nós dois.

Outras pessoas se aproximaram para ver.

— Santo Deus, por um fio de cabelo...

— Pensei que Noble Star...

Aproveitando-se da distração, Dunross aproximou-se mais de Havergill.

— Já está tudo assinado?

— Já. Vinte cents por dólar. Concordou e assinou os do­cumentos provisórios. Os documentos formais até o fim da se­mana. Claro que o sacana ainda tentou choramingar, mas está tudo assinado.

— Maravilhoso. Fez um excelente negócio. Havergill concordou.

— É, eu sei.

Richard Kwang voltou-se.

— Ah, tai-pan! — Baixou a voz e murmurou: — O Paul lhe falou da fusão?

— Naturalmente. Posso lhe dar os parabéns?

— Parabéns? — ecoou Southerby, aproximando-se deles.

— Um azar desgraçado, na minha opinião! Apostei uma bolada em Butterscotch Lass.

A sala ficou ainda mais animada quando o governador entrou. Havergill foi recebê-lo, seguido por Dunross.

— Ah, Paul, Ian! Um azar danado, mas numa excelente decisão! As duas. — O rosto dele endureceu Simpaticamente.

— Sábado que vem será sem dúvida o tira-teima.

— Sim, senhor.

— Paul, queria fazer um comunicado formal?

— Sim, senhor. — Havergill ergueu a voz. — A sua atenção, por favor... — Ninguém ligou até que Dunross pegou uma colher e bateu com ela no bule de chá. Aos poucos, fez-se silêncio. — Sua Excelência, senhoras e senhores, tenho a honra de anunciar, em nome dos diretores do Victoria Bank, que acaba de ser concluída uma fusão imediata com o grande Ho-Pak Bank... — Martin Haply deixou cair o copo — e que o Victoria garante totalmente cem por cento de todos os clientes do Ho-Pak...

O resto foi abafado por um grande viva. Os convidados das tribunas próximas debruçaram-se nos balcões para ver o que estava acontecendo. A notícia foi gritada de um lado para outro, enquanto outras pessoas entravam, vindas dos corredo­res, e logo houve mais vivas.

Havergill foi assediado por perguntas e levantou a mão, encantado com o efeito do seu comunicado. No silêncio que se seguiu, Sir Geoffrey disse, rapidamente:

— Devo dizer, em nome do governo de Sua Majestade, que esta é uma notícia maravilhosa, Paul, boa para Hong Kong, boa para o banco, boa para você, Richard, e para o Ho-Pak!

— Ah, sim, Sir Geoffrey — falou Richard Kwang, jovial­mente, em voz alta, certo de que agora tinha dado um gigantesco passo em direção a seu sonho de ser sagrado cavaleiro. — Deci­di, claro que junto com nossos diretores, decidi que seria bom para o Victoria ter uma participação maior na comunidade chinesa e...

Havergill apressou-se a interrompê-lo.

— Richard, talvez seja melhor eu terminar o comunicado formal e deixar os detalhes para a nossa entrevista coletiva. — Lançou um olhar para Martin Haply. — Marcamos uma entre­vista coletiva formal para segunda-feira ao meio-dia, mas todos os detalhes da... fusão já foram acertados. Não é, Richard?

Richard Kwang começou a fazer outra variação, mas mu­dou depressa de idéia, vendo o olhar de Havergill e de Dunross.

— É, claro, claro. — Mas não pôde resistir e acrescentou:

— Estou encantado de ser sócio do Victoria.

Haply se manifestou rapidamente:

— Com licença, sr. Havergill, posso lhe fazer uma per­gunta?

— Claro — respondeu amavelmente, com plena consciên­cia do que lhe seria perguntado. "Esse filho da mãe do Haply tem que sumir daqui", pensou, "de um jeito ou de outro."

— Posso lhe perguntar, sr. Havergill, como o senhor se propõe a pagar todos os clientes do Ho-Pak e os seus, os do Blacs e de todos os outros bancos, quando existe uma corrida a todos eles, e não há dinheiro suficiente em caixa?

— Boatos, boatos, sr. Haply — replicou Havergill, com ar despreocupado, e acrescentou, em meio a risadas: — Lem­bre-se: uma nuvem de mosquitos pode criar um barulho como o de um trovão! A economia de Hong Kong nunca esteve tão forte. Quanto à tão falada corrida ao Ho-Pak, acabou. O Vic­toria garante os clientes do Ho-Pak, garante a compra de con­trole da Struan-General Stores, e garante que continuará fun­cionando pelos próximos cento e vinte anos.

— Mas, sr. Havergill, não quer respon...

— Não se preocupe, sr. Haply. Deixemos os detalhes da... da proteção benevolente que proporcionamos ao Ho-Pak para serem discutidos na entrevista coletiva de segunda-feira.

— Prontamente, virou-se para o governador. — Se me dá licen­ça, senhor, vou tornar a decisão pública.

Ouviram-se mais vivas quando ele começou a abrir cami­nho entre o povo, na direção da porta.

Alguém começou a cantar "Ele é um bom companhei­ro..." Todos se juntaram ao canto. O barulho tornou-se ensur­decedor. Dunross disse para Richard Kwang em cantonense, citando uma antiga expressão:

— Quando for o bastante, pare. Heya?

— Ah, é. É, sim, tai-pan. Sem dúvida. — O banqueiro deu um sorriso amarelo, entendendo a ameaça, lembrando a si mesmo a sua boa sorte, que Vênus Poon certamente se humilharia, agora que ele era um importante diretor da junta administrativa do Victoria. Abriu mais o sorriso. — Tem razão, tai-pan. "Dentro das portas vermelhas há muito desperdício de carne e vinho!" A minha perícia trará grandes benefícios ao nosso banco, heya?

Afastou-se, com ar importante.

— Meu Deus, mas que dia! — murmurou Johnjohn.

— É, sim, maravilhoso! Johnjohn, meu velho — falou McBride —, deve sentir muito orgulho do Paul.

— Mas claro!

Johnjohn olhava enquanto Havergill se afastava.

— Está se sentindo bem?

— Estou, sim, só que trabalhei até tarde.

Johnjohn passara a maior parte da noite acordado, cal­culando como poderiam efetuar com segurança a compra de controle, com segurança para o banco e para os depositantes do Ho-Pak. Arquitetara o plano, e de manhã passara horas exaustivas tentando convencer Havergill de que era a hora de inovar. — Podemos fazê-lo, Paul, e criar um tal renascimento de confiança...

— E abrir um precedente perigosíssimo! Não acho que sua idéia seja tão importante quanto imagina!

Havergill reconsiderara somente quando enxergara o enor­me e imediato aumento de confiança decorrente do comunicado dramático de Dunross. "Não faz mal", pensou Johnjohn, can­sado, "saímos todos lucrando. O banco, Hong Kong, o Ho-Pak. Sem dúvida seremos melhores para os investidores, os acionistas, os patrocinadores deles, muito melhores do que o Richard! Quando eu for o tai-pan, usarei o Ho-Pak como modelo para futuras operações de resgate. Com a nossa nova diretoria, o Ho-Pak será uma propriedade maravilhosa. Como qualquer um de uma dúzia de empreendimentos. Até como a Struan!"

Seu cansaço desapareceu. Seu sorriso ficou mais amplo. "Oh, chegue depressa, segunda-feira... quando o mercado abrir!"

Na tribuna da Struan, Peter Marlowe debruçava-se, melan­cólico, na amurada, observando a multidão Iá embaixo. A chuva cascateava da saliência que protegia as tribunas. Os três balcões em cantiléver dos sócios não-votantes não eram assim tão protegidos. Cavalos molhados eram conduzidos ram­pas abaixo por cavalariços molhados, que se juntavam aos mi­lhares de espectadores, também molhados, que se afastavam.

— O que há, Peter? — perguntou Casey.

— Nada.

— Nenhum problema com a Fleur, espero?

— Não.

— Foi o Grey? Vi vocês dois discutindo.

— Não, não foi o Grey, embora ele seja um pé no saco, um grosso e francamente contra tudo o que tenha valor. — Marlowe deu um sorriso curioso. — Estávamos apenas dis­cutindo o tempo.

— Claro. Você estava com uma cara deprimídíssima, há pouco. Perdeu o quinto?

— Perdi, mas não foi isso. Até que saí lucrando bastante, no todo. — O homem alto hesitou, depois indicou os reserva­dos, e tudo o mais à sua volta. — Eu só estava pensando que há cinqüenta e tantos mil chineses aqui, e outros três ou quatro milhões Iá fora, e cada um deles tem uma tradição imensa, segredos maravilhosos e histórias fantásticas para con­tar, sem falar nos vinte e tantos mil europeus, superiores e inferiores, piratas, flibusteiros, contadores, donos de lojas, fun­cionários do governo... por que também escolheram Hong Kong? E sei que não importa o quanto eu tente, não importa o quanto eu leia, pergunte ou escute, nunca realmente saberei muita coisa sobre os chineses de Hong Kong ou sobre Hong Kong. Nunca. Apenas arranharei a superfície.

— É a mesma coisa em todo lugar — ela riu.

— Ah, mas não é, não. Este é o pot-pourri da Ásia. Olhe só aquele sujeito, ali, no terceiro reservado, o chinês rotundo. É multimilionário. A mulher dele é cleptomaníaca. Por isso, aonde quer que ela vá, ele manda o seu pessoal segui-la secreta­mente, e cada vez que rouba alguma coisa, os homens dele pagam o objeto roubado. Todas as lojas conhecem-nos, e é tudo muito civilizado... em que outro lugar no mundo se faria isso? O pai dele era um cule, cujo pai era um ladrão de estra­das, cujo pai era um mandarim, cujo pai era um camponês... Um dos homens que está perto dele é outro multimilionário, ópio e contrabando para a China, e a mulher dele... ah, mas isso já é outra história.

— Que história? Ele riu.

— Algumas das mulheres têm histórias tão fascinantes quanto os maridos, às vezes até mais. Uma das que você conhe­ceu hoje é ninfomaníaca e...

— Ora, Peter, qual é! É como disse a Fleur, você está inventando tudo.

— Talvez. É, mas algumas das senhoras chinesas são tão... predatórias quanto quaisquer outras da terra, "na moita".

— Chauvinista! Tem certeza?

— Bem, os boatos são... — Riram juntos. — Na ver­dade, os chineses são muito mais espertos que nós. Contaram-me que, aqui, as poucas mulheres casadas chinesas que gostam de "prevaricar" geralmente preferem arranjar um amante eu­ropeu, por medida de segurança... os chineses adoram uma fofoca, adoram um escândalo, e seria raro encontrar um chinês que transasse e guardasse um segredo desses, ou protegesse a honra de uma dama. A mulher teria medo, e com razão. Ser apanhada seria muito ruim, mas muito ruim mesmo. A lei chinesa é muito severa. — Pegou um cigarro. — Vai ver que é isso o que torna a coisa mais excitante.

— Ter um amante?

Ele a observava, imaginando o que diria se ele lhe contasse o seu apelido... murmurado para ele alegremente por quatro amigos chineses diferentes.

— É, as mulheres aqui dão as suas voltinhas, algumas delas. Olhe ali, naquela tribuna... o sujeito que está discur­sando, de blazer. Ele usa um "chapéu verde"... é a expressão chinesa que significa que é chifrudo, que a mulher dele tem um amante. Na realidade, no caso dela foi um amigo dele, chinês.

— Chapéu verde?

— É. Os chineses são maravilhosos! Têm um senso de humor espetacular! O sujeito publicou um anúncio num dos jornais chineses há alguns meses, dizendo: "Sei que uso um chapéu verde, mas a mulher do homem que o colocou em mim teve dois dos filhos dele com outros homens!"

Casey fitou-o, abismada.

— Quer dizer que ele assinou o anúncio?

— Assinou. Era um trocadilho feito com um dos nomes dele, mas todas as pessoas importantes sabiam de quem se tratava.

— E era verdade?

Peter Marlowe deu de ombros.

— Não importa. O outro sujeito ficou desmoralizado, e a mulher dele comeu o pão que o diabo amassou.

— Mas isso não é justo, não é nada justo.

— No caso dela, era.

— O que foi que ela fez?

— Teve dois filhos com outro...

— Ora, corta essa, sr. Contador de Histórias!

— Ei, olhe, Iá está o dr. Tooley!

Ela vasculhou a pista com o olhar, e então o viu.

— Ele não está com uma cara nada feliz.

— Espero que Travkin esteja bem. Ouvi dizer que Tooley foi examiná-lo.

— Foi uma queda feia.

— É. Terrível.

Ambos haviam sido submetidos às perguntas severas de Tooley sobre a sua saúde, sabendo que o espectro do tifo, talvez da cólera, e certamente da hepatite, ainda pesava sobre eles.

— Joss! — disse Peter Marlowe, com firmeza.

— Joss! — ela fizera eco, tentando não se preocupar com Linc. "É pior para um homem", pensou, lembrando-se do que Tooley dissera: "A hepatite pode escangalhar o seu fígado... e a sua vida, para sempre, se você for homem".

Após um momento, ela falou:

— As pessoas aqui parecem ser muito mais excitantes, Peter. Será por causa da Ásia?

— Provavelmente. Os costumes aqui são tão diferentes! E aqui em Hong Kong temos a nata. Acho que a Ásia é o centro do mundo, e Hong Kong, o núcleo. — Peter Marlowe acenou para alguém em outro reservado, que acenou para Casey. — Lá está outro admirador seu.

— Lando? É um homem fascinante.

Casey passara algum tempo com ele entre os páreos.

— Precisa vir a Macau, srta. Tcholok. Talvez possamos jantar juntos amanhã. Às sete e meia seria conveniente? — perguntara Mata, com o seu maravilhoso encanto do Velho Mundo, e Casey compreendera direitinho o que ele queria dizer.

Durante o almoço, Dunross advertira-a quanto a ele.

— É um bom sujeito, Casey — dissera o tai-pan, delica­damente. — Mas, aqui, para uma quai loh estranha, especial­mente tão linda quanto você, numa primeira viagem à Ásia, bem, às vezes é melhor se lembrar de que ter mais de dezoito anos nem sempre é o bastante.

— Saquei, tai-pan — dissera ela, com uma risada. Mas, à tarde, ela se deixara magnetizar por Mata, na segurança da tribuna do tai-pan. Sozinha, suas defesas estariam levantadas, como sabia que estariam na noite seguinte.

— Depende, Lando — dissera —, gostaria muito de jantar com você. Vai depender da hora em que eu voltar do passeio de barco... não sei se o tempo vai permitir.

— Com quem vai? Com o tai-pan?

— Só com uns amigos.

— Ah. Bem, se não for no domingo, minha cara, quem sabe na segunda-feira? Há várias oportunidades comerciais para você, aqui ou em Macau, para você e o sr. Bartlett, se quiserem, e para a Par-Con. Posso ligar para você amanhã às sete, para saber se está livre?

"Posso cuidar dele, de um jeito ou de outro", pensou ela, tranqüilizando-se, "embora tenha de ficar de olho no vinho, e quem sabe até no garçom, para evitar que me dêem alguma droga excitante."

— Peter, os homens aqui, os que estão a fim de uma mulher... dar-lhe-iam alguma droga excitante?

— Está se referindo ao Mata? — perguntou ele, estreitan­do os olhos.

— Não, falo de um modo geral.

— Duvido que um chinês ou um eurasiano agisse assim com uma quai loh, se é isso o que está perguntando. — Franziu a testa. — Diria, contudo, que é melhor você bancar a circuns­pecta, com eles e com os europeus. Claro, para falar sem ro­deios, você estaria no topo da lista deles. Tem o que é preciso para deixar a maioria deles numa tonteira orgiástica.

— Obrigadíssima! — Debruçou-se no balcão, curtindo o elogio. "Queria que o Linc estivesse aqui. Seja paciente." — Quem é aquele? — perguntou. — O velho olhando obscena-mente para a mocinha? Lá no primeiro balcão. Olhe, pôs a mão no traseiro dela!

— Ah, aquele é um dos nossos piratas locais... Wu Quatro Dedos. A moça é Vênus Poon, uma estrela local de tv. O rapaz que está conversando com eles é o sobrinho dele. Dizem que, na verdade, é filho dele. Tem um diploma de adminis­tração de Harvard, um passaporte americano, e é vivíssimo. O velho Quatro Dedos é outro multimilionário, dizem que con­trabandista, ouro e qualquer outra coisa, com uma mulher ofi­cial e três concubinas de idades diferentes. E agora está atrás de Vênus Poon. Ela era amante de Richard Kwang. Era. Mas, quem sabe, agora, com a compra de controle do Victoria, ela largue Quatro Dedos e volte para ele. Quatro Dedos mora num junco nojento em Aberdeen, e armazena a sua imensa fortuna. Ah, olhe ali! O homem e a mulher enrugados com quem o tai-pan está conversando.

Ela acompanhou o olhar dele para a segunda tribuna de­pois da deles.

— Aquela é a tribuna de Shitee TChung — falou. — Shitee é descendente direto de May-may e Dirk, através do filho deles, Duncan. O tai-pan já lhe mostrou os retratos de Dirk?

— Já. — Um pequeno arrepio a percorreu ao se lembrar da faca da Bruxa enfiada no quadro que representava o pai, Tyler Brock. Pensou em contar a ele, mas resolveu não fazê-lo. — Há uma grande semelhança — falou.

— Sem dúvida! Quem me dera eu pudesse ver a Galeria Longa! Bem, aquele casal de velhos com quem ele está conver­sando mora num cortiço, um prédio sem elevador, num sexto andar, num apartamento de dois cômodos, Iá em Glessing's Point. São donos de um imenso lote de ações da Struan. Todos os anos, antes de cada assembléia anual da diretoria, o tai-pan, seja ele quem for, tem que ir de chapéu na mão pedir permissão para votar as ações deles. A permissão é sempre dada, isso faz parte do acordo original, mas, mesmo assim, ele tem que ir pessoalmente.

— Por que motivo?

— Para prestigiá-los. E por causa da Bruxa. — Uma som­bra de sorriso. — Ela era uma mulher fantástica, Casey. Ah, como gostaria de tê-la conhecido! Durante a Revolta dos Boxers, em 1889-1900, quando a China estava em outra das suas confla­grações, a Casa Nobre teve todos os seus bens em Pequim, Tien-tsin, Foochow e Cantão destruídos pelos terroristas boxers, que eram mais ou menos patrocinados e certamente encoraja­dos por Tseu-Hi, a velha imperatriz viúva. Eles se chamavam de "Os Punhos Harmoniosos e Virtuosos", e seu grito de batalha era "Protejam a dinastina Tsing e matem todos os demônios estrangeiros!" Falemos a verdade, as potências européias e o Japão tinham realmente dividido muito a China. De qualquer modo, os boxers atacavam todas as empresas estrangeiras, as colônias, as áreas desprotegidas, e as dizimavam. A Casa Nobre estava enrascadíssima. Naquela época, o tai-pan nominal era novamente o velho Sir Lochlin Struan, último filho de Robb Struan, nascido com um braço defeituoso. Foi tai-pan logo depois de Culum. A Bruxa indicou-o quando ele tinha dezoito anos, logo depois da morte de Culum. Depois, indicou-o de novo, após Dirk Dunross, e o manteve preso à barra de sua saia até que ele morreu, em 1915, com setenta e dois anos.

— Onde arranja todas essas informações, Peter?

— Invento-as — disse ele, imponentemente. — De qual­quer maneira, a Bruxa precisava de um bocado de dinheiro, e depressa. O avô de Gornt comprara um bocado de ações da Struan, e tinha "baixado o pau". Não havia uma fonte normal de finanças, lugar algum onde ela pudesse pedir um empréstimo, pois toda a Ásia, todas as hongs estavam igualmente em difi­culdades. Mas o pai daquele sujeito, o pai daquele com quem o tai-pan está conversando, era o Rei dos Mendigos em Hong Kong. Mendigar antigamente costumava ser um grande negó­cio, aqui. De qualquer maneira, esse homem veio procurá-la, segundo contam:

"— Vim comprar uma quinta parte da Casa Nobre — dissera o homem, com grande dignidade —, está à venda? Ofereço duzentos mil taéis de prata.

"Era a quantia exata de que ela necessitava para salvar a pele. Para manter as aparências, eles barganharam, e ele acabou aceitando um décimo, dez por cento — um acordo incrivelmen­te justo —, ambos sabendo que ele poderia obter trinta ou quarenta por cento pela mesma quantia, pois a essa altura a Bruxa estava desesperada. Ele não exigiu outro contrato além do carimbo dela, e sua promessa de que, uma vez por ano, ela, ou o tai-pan, viria até ele ou seus descendentes, onde quer que eles vivessem, para pedir permissão para votar as ações.

"— Contanto que o tai-pan peça, o direito de voto será concedido.

"— Mas, por quê, Honorável Rei dos Mendigos? Por que me salvar dos meus inimigos? — perguntara ela.

"— Porque seu avô, o velho Demônio dos Olhos Verdes, certa vez salvou o prestígio do meu avô e ajudou-o a se tornar o primeiro Rei dos Mendigos de Hong Kong."

— Acredita nisso, Peter? — perguntou Casey, com um suspiro.

— Claro que sim. — Olhou para o Happy Valley. — Houve época em que tudo isso era um pântano cheio de ma­lária. Dirk também saneou isso. — Soltou uma baforada do seu cigarro. — Algum dia escreverei sobre Hong Kong.

— Se continuar a fumar, jamais escreverá coisa alguma.

— Deu o seu recado. Está bem, vou parar. Agora. Por hoje. Porque você é bonita. — Apagou o cigarro. Outro sorriso, diferente. — Eeee, eu podia contar algumas histórias sobre um bocado das pessoas que você conheceu hoje. Não vou contar, não é justo, não é direito. Nunca posso contar as histórias reais, embora saiba muitas!

Ela riu junto com ele, deixando os olhos vagarem do es­tranho casal idoso até as outras tribunas. Involuntariamente, soltou uma exclamação abafada. Sentada no balcão dos sócios, ao abrigo da chuva, viu Orlanda. Linc estava com ela. Muito juntinho. Os dois estavam muito felizes juntos. Notava-se até daquela distância.

— O que... — começou Peter Marlowe. Depois os viu também. — Ah, não se preocupe.

Depois de uma pausa, ela desviou os olhos.

— Peter, aquele favor. Posso lhe pedir agora aquele favor?

— O que quer como favor?

— Quero saber a respeito de Orlanda.

— Para destruí-la?

— Para proteção. Proteção para o Linc contra ela.

— Pode ser que ele não queira ser protegido, Casey.

— Juro que jamais usarei nada contra ela, a não ser que sinta que é realmente necessário.

O homem alto suspirou.

— Desculpe — falou, com grande compaixão —, mas nada que eu possa lhe dizer sobre ela daria a você ou ao Linc alguma proteção. Nada que pudesse destruí-la ou desmoralizá-la. Mesmo que pudesse, não o faria, Casey. Não seria correto, não é?

— Não, mas mesmo assim estou lhe pedindo. — Ela o fitou, forçando a barra. — Você me prometeu um favor. Eu es­tava Iá quando você precisava de uma mão. Preciso de uma mão agora. Por favor.

Ele a fitou durante longo tempo.

— O que sabe sobre ela?

Contou-lhe o que soubera; sobre Gornt sustentar Orlan­da, Macau, a criança.

— Então você sabe tudo o que sei, exceto, talvez, que deva sentir pena dela.

— Por quê?

— Porque é eurasiana, sozinha. Gornt é seu único apoio, o que é a coisa mas precária do mundo. Ela está vivendo equilibrada num fio de navalha. É jovem, bela, e merece um futuro. Aqui, não há nenhum para ela.

— Exceto Linc?

— Exceto Linc, ou alguém como ele. — Os olhos de Peter Marlowe estavam cor de ardósia. — Talvez isso não fosse tão ruim, do ponto de vista dele.

— Porque ela é asiática, e eu não sou? Novamente o sorriso curioso.

— Porque ela é mulher, e você também, mas você detém todas as cartas, e a única coisa verdadeira que tem que decidir é se realmente deseja a guerra.

— Seja sincero comigo, Peter, por favor. Estou pergun­tando. Qual o seu conselho? Estou com medo... pronto, já admiti para você. Por favor?

— Está bem, mas este não é o favor que estou lhe de­vendo. Correm boatos de que você e Linc não são amantes, em­bora seja óbvio que você o ame. Os boatos dizem que vocês estão juntos há seis ou sete anos, em grande proximidade, mas sem... contato formal. Ele é um sujeito fantástico, você é uma moça fantástica, e vocês formariam um excelente casal. A pala­vra-chave é "casal", Casey. Pode ser que você queira dinheiro e poder, e a Par-Con, mais do que quer a ele. O problema é seu. Não creio que possa ter ambos.

— Por que não?

— Parece-me que ou você escolhe a Par-Con e o poder e as riquezas, e nada de Bartlett, exceto como amigo... ou se torna a sra. Linc Bartlett e se comporta e ama e age como o tipo de mulher que, sem dúvida alguma, Orlanda seria. De um modo ou de outro, teria que ser cem por cento... você e o Linc são fortes demais, e provavelmente já se testaram mu­tuamente inúmeras vezes para se enganarem. Ele já se divorciou uma vez, portanto está com um pé atrás. Você já passou da idade de uma cegueira de Julieta, portanto está igualmente com um pé atrás.

— Você também é psiquiatra?

— Não — riu-se ele —, nem padre confessor, embora goste de saber das pessoas e goste de escutar, mas não de fazer sermão, e jamais de dar conselhos... é a coisa mais ingrata do mundo.

— Então, não há como conciliar?

— Acho que não, mas não sou você. Você tem o seu próprio carma. Independentemente de Orlanda... se não for ela, será outra, melhor ou pior, mas bonita, embora talvez não, porque, ganhe, perca ou empate, Orlanda tem classe, tem o necessário para tornar um homem satisfeito, feliz, fazê-lo sen­tir-se vivo como homem. Desculpe, não quis ser chauvinista, mas, já que perguntou, aconselharia você a se decidir depressa.

Gavallan entrou apressado na tribuna de Shitee TChung e reuniu-se ao tai-pan.

— Boa tarde — cumprimentou educadamente o casal ido­so. — Desculpe, tai-pan, mas Crosse e o outro sujeito que você queria já tinham ido embora.

— Raios! — Dunross pensou por um momento, depois pediu licença e se afastou com Gavallan. — Você vem ao co­quetel?

— Sim, se você quiser que eu vá... infelizmente não estou sendo muito boa companhia.

— Vamos entrar ali um minutinho — falou Dunross, e entraram na sala particular. O chá estava servido, além de uma garrafa de Dom Pérignon num balde de gelo.

— Comemoração? — perguntou Gavallan.

— É. Três coisas: a compra de controle da General Stores, a recuperação do Ho-Pak e o nascimento de uma nova era.

— É?

— É — Dunross começou a abrir a garrafa. — Você, por exemplo. Quero que vá para Londres segunda à noite, com as crianças. — Os olhos de Gavallan se arregalaram, mas ele ficou calado. — Quero que vá ver Kathy, visitar o especialista dela, depois levá-la, e às crianças, para o Castelo Avisyard. Quero que ocupe Avisyard por seis meses, talvez um ano ou dois. Seis meses, com certeza; ocupem toda a ala leste. — Gavallan soltou uma exclamação abafada. — Vai dirigir uma nova divi­são, muito secreta, secreta para Alastair, para meu pai, para todos os membros da família, inclusive o David. Secreta para todos, exceto para mim.

— Que divisão? — perguntou Gavallan, demonstrando o seu entusiasmo e felicidade.

— Esta noite quero que você se aproxime de um sujeito, Andrew. Jamie Kirk. A mulher dele é meio chata, mas convi­de-os para Avisyard. Quero que você se infiltre na Escócia, especialmente em Aberdeen. Quero que adquira propriedades, mas muito discretamente: fábricas, desembarcadouros, pistas de pouso em potencial, heliportos perto das docas. Existem docas ali?

— Pombas, tai-pan, e eu Iá sei! Nunca estive Iá.

— Nem eu.

— Como?

Dunross riu ante a expressão no rosto de Gavallan.

— Não se preocupe. Seu orçamento inicial é de um milhão de libras esterlinas.

— Porra, mas de onde vai sair um milhão de...

— Não importa! — Dunross girou a rolha e segurou-a, abafando a explosão jeitosamente. Serviu o vinho claro e muito seco. — Tem um milhão de libras esterlinas para empregar nos próximos seis meses. Outros cinco milhões durante os próximos dois anos.

Gavallan fitava-o, boquiaberto.

— Ao fim desse tempo, quero que a Casa Nobre, muito discretamente, se torne uma potência em Aberdeen, com as melhores terras, a maior influência nos conselhos administrati­vos. Quero que você seja o senhor de Aberdeen... estendendo-se até Inverness, a leste, e Dundee, ao sul. Em dois anos, certo?

— Sim, mas... — Gavallan se deteve, sem saber o que dizer. Toda a sua vida desejara sair da Ásia. Kathy e as crianças também, mas nunca fora possível sequer levar isso em conside­ração. Agora, Dunross lhe entregava a Utopia, e ele nem con­seguia aceitar direito a idéia. — Mas por quê?

— Fale com Kirk, encante a mulher dele, e lembre-se, meu rapaz: bico fechado. — Dunross entregou-lhe um copo e pegou um para si mesmo. — À Escócia, à nova era, e ao nosso novo feudo.

E acrescentou, muito intimamente: "E ao mar do Norte! Que todos os deuses sejam testemunhas: a Casa Nobre está pondo em execução o Plano de Contingência Um".

 

                     17h50m

As tribunas agora estavam vazias, exceto pelos varredores, os reservados às escuras. A chuva cascateava do céu, um lençol sólido de água. Era quase a hora do crepúsculo. O tráfego estava totalmente congestionado em volta do hipódromo. Milha­res de pessoas dirigiam-se com dificuldade para casa, encharca­das mas com o coração leve. No sábado seguinte haveria novas corridas, e novo quinto páreo, e "oh, oh, oh, novo desafio, e dessa vez o tai-pan montará Noble Star, sem dúvida, e talvez o Barba Negra monte Pilot Fish, e os dois demônios quai loh se matarão para nos divertir".

Um Rolls que saía da entrada dos sócios molhou alguns dos pedestres, e todos berraram um monte de obscenidades, mas nenhum dos chineses realmente se importou. "Um dia terei um desses, também", todos pensaram. "Só preciso de um pouco duma porra de sorte. Só um pouquinho de sorte no sábado que vem, e terei o bastante para comprar um pouco de terra, ou um apartamento para alugar, para permutar com um apartamento nas colinas, para hipotecar em troca de um acre na zona central. Eeee, como vou curtir andar no meu Rolls com uma chapa de sorte como aquela! Viu quem era? O chofer de táxi Tok, que há sete anos dirigia um boi-pi, um táxi ilegal, e encontrou dez mil HK no banco de trás, certo dia, e escon­deu-os durante cinco anos para prescrever o prazo de devolu­ção. Depois investiu-os na alta da Bolsa de três anos atrás, com um lucro imenso, depois pegou o lucro e comprou apartamen­tos. Eeee, a alta! Lembra-se do que o Velho Cego Tung escreveu na sua coluna, sobre a alta vindoura? Mas, e quanto ao colapso do mercado de capitais e todas as corridas aos bancos?

"Ayeeyah, tudo isso acabou! Não ouviu a notícia espan­tosa? O Grande Banco vai comprar o controle e assumir todas as dívidas do Banqueiro Kwang. Soube que a Casa Nobre vai comprar a General Stores? Duas notícias tão boas anunciadas no dia da corrida. Isso nunca aconteceu antes! É estranho!

Muito estranho! Não acha que... Fodam-se todos os deuses! Será uma trama suja daqueles demônios estrangeiros nojentos para manipular o mercado e roubar os nossos lucros de direito? Ai, ai, ai, concordo! É, deve ser uma trama suja! É coinci­dência demais! Ah, esses bárbaros terríveis e astutos! Gra­ças aos deuses me dei conta, assim posso me preparar! Bem, o que devo fazer..."

Enquanto se dirigiam para casa, as cabeças fervilhavam com entusiasmo crescente. A maioria estava mais pobre do que quando viera ao prado, mas alguns estavam muito mais ricos. Wu Óculos, o detetive da delegacia de polícia de Aber­deen Leste, era um desses. Crosse permitira que ele fosse às corridas, embora tivesse que estar de volta até as dezoito e quinze, quando o cliente devia ser interrogado de novo. Wu Óculos tinha que estar presente para servir de intérprete do dialeto de Ning-tok. O jovem estremeceu, e seu Saco Secreto ficou gelado ao pensar em como o grande Brian Kwok pusera para fora rapidamente seus segredos mais íntimos.

"Ayeeyah", pensou, cheio de temor supersticioso. "Esses bárbaros rosados são realmente demônios que conseguem nos torcer, a nós, civilizados, e nos deixar loucos. Mas, se eu entrar para o sei, isso me protegerá e me dará alguns dos seus segre­dos, e com esses segredos e outros segredos dos demônios estrangeiros, eu me tornarei um ancestral!"

Abriu um amplo sorriso. Sua sorte mudara desde que pe­gara aquela velha amah. Naquela tarde, os deuses o haviam favorecido enormemente. Havia acertado uma das loterias, a dupla diária, e três placês, reinvestindo os ganhos a cada vez, e agora estava cinco mil setecentos e cinqüenta e três HK mais rico. Seu plano para o dinheiro já estava delineado. Financiaria o Quinto Tio na compra de uma máquina usada de moldar plástico para montar uma fábrica de flores de plástico, em troca de cinqüenta e um por cento, outros mil HK pagariam a construção de duas moradias na área de recolonização, para serem alugadas, e os últimos mil seriam guardados para o sába­do seguinte!

Um Mercedes buzinou ensurdecedoramente, fazendo com que ele desse um salto. Wu Óculos reconheceu um dos homens no banco de trás: o tal Rosemont, o bárbaro da CIA que possuía fundos ilimitados para gastar. "Como são ingênuos os ameri­canos!", pensou. No ano anterior, quando os parentes dele tinham cruzado a fronteira no êxodo, eles os mandara a todos ao consulado numa base de rodízio, cada mês um nome e uma história diferentes, para se unirem ao bando constante e sempre crescente de "cristãos de arroz", ou, para ser mais exato, "não-comunistas de arroz". Era fácil conseguir refeições gratuitas e ajuda do consulado americano. Bastava fingir que se estava assustado, e dizer nervosamente que se acabara de cruzar a fron-teria, que se era firmemente contra o presidente Mao e que na sua aldeia os comunistas haviam feito tal e tal coisa pavorosa. Os americanos ficavam contentes em ouvir falar dos movimen­tos das tropas da RPC, reais ou imaginários. Ah, com que rapi­dez eles anotavam tudo e pediam mais! Qualquer informação, qualquer fragmento estúpido de informação que se tirava de um jornal era para eles, se fosse sussurrada com os olhos girando nas órbitas, muito valiosa.

Há três meses, Wu Óculos tivera uma idéia genial. Con­tando com quatro membros do seu clã, um dos quais fora origi­nariamente empregado de um jornal comunista de Cantão, Wu Óculos propusera a Rosemont (através de intermediários de confiança, para que ele e seus parentes não pudessem ser desco­bertos) fornecer um relatório sigiloso mensal, um panfleto de informações, denominado Lutador pela Liberdade, das condições do outro lado da Cortina de Bambu, dentro e ao redor de Cantão. Para provar a qualidade da espionagem, Wu Óculos oferecera as duas primeiras edições de graça. "Para pegar um tigre poderoso é bom negócio sacrificar um cordeiro roubado." Se elas fossem consideradas aceitáveis pela CIA, o preço de cada uma das próximas três seria de mil HK, e se essas fossem igual­mente valiosas, então um novo contrato seria negociado por um ano.

Os dois primeiros tinham sido tão elogiados que foi fe­chado um negócio imediato para cinco relatórios a dois mil HK cada. Na semana entrante, receberiam o primeiro pagamento. Ah, como se haviam dado os parabéns! O conteúdo do relatório fora compilado de trinta jornais cantonenses que vinham no trem diário de Cantão, que também trazia porcos, aves e comida de todo tipo, e que podiam ser comprados sem esforço nas bancas de Wanchai. Só o que tinham a fazer era lê-los meticulo­samente e copiar os artigos, depois de retirar a dialética comu­nista: artigos sobre colheitas, construção, economia, indicações de partidos, nascimentos, mortes, sentenças, extorsões e cor local... qualquer coisa que considerassem de interesse. Wu Óculos traduzia as histórias que os outros escolhiam.

Sentiu uma imensa onda de prazer. O Lutador pela Liber­dade tinha um enorme potencial. Os custos eram irrisórios.

— Mas, às vezes, precisamos ter o cuidado de cometer alguns erros — dissera-lhes Wu Óculos —, e ocasionalmente precisamos falhar um mês: "Lamentamos que nosso agente em Cantão tenha sido assassinado por ter revelado segredos de Estado..."

"Ah, sim! E logo, quando eu for membro do sei e um agente de espionagem treinado, saberei melhor como apresentar a informação da imprensa para a CIA. Quem sabe nos expandi­remos, e experimentaremos um relatório de Pequim, outro de Xangai. Podemos conseguir jornais de Pequim e Xangai da véspera, igualmente sem problemas e com pouco investimento. Graças aos deuses pela curiosidade americana!

Um táxi buzinou enquanto passava, espadanando água. Parou por um momento para permitir que ele passasse, depois abriu caminho aos empurrões, sem ligar para os xingamentos, barulho e buzinas ao longo da cerca alta que margeava o hipó­dromo. Wu Óculos deu uma olhada no relógio. Tinha tempo de sobra. O quartel-general não ficava longe.

A chuva ficou mais forte, mas ele não a sentia, o calor dos lucros no bolso tornando mais leves os seus passos. Endireitou os ombros. "Seja forte, seja sensato", ordenou a si mesmo. "Esta noite preciso estar alerta. Talvez peçam a minha opinião. Sei que o superintendente comunista Brian Kwok é um menti­roso aqui e ali, e está exagerando. Quanto às armas atômicas, o que há de tão importante nelas? Claro que o Reino Médio tem suas armas atômicas. Qualquer idiota sabe o que vem se passando há anos, em Sin-kiang, perto das praias do lago Bos-teng-hu. E, naturalmente, logo teremos os nossos foguetes e satélites. Claro! Não somos civilizados? Não inventamos a pól­vora e os foguetes, mas os deixamos de lado há milênios, por serem bárbaros?"

Por todo o hipódromo, do outro lado da cerca, as faxineiras varriam os restos molhados deixados por milhares de pessoas, peneirando pacientemente o lixo, com cuidado, para ver se des­cobriam uma moeda ou um anel perdidos, uma caneta ou garra­fas que valessem uma única moeda de cobre. Agachado perto de um monte de latas de lixo, ao abrigo da chuva, estava um homem.

— Vamos, meu velho, não pode dormir aí! — falou uma das faxineiras, não sem gentileza, sacudindo-o. — Está na hora de ir para casa!

Os olhos do velho piscaram por um instante. Ele começou a se levantar, mas parou, soltou um grande suspiro e desabou como uma boneca de pano.

— Ayeeyah — murmurou Yang Um Dente Só. Ela já vira a morte muitas vezes nos seus setenta anos de vida para reconhecê-la imediatamente. — Ei, Irmã Mais Moça! — chamou educadamente a amiga e segundo membro da equipe. — Venha cá! Este velho está morto.

A amiga dela tinha sessenta e quatro anos, era curvada e enrugada, mas igualmente forte, e também xangaiense. Saiu da chuva e veio espiar.

— Parece um mendigo.

— É. É melhor contarmos ao capataz. — Yang Um Dente Só ajoelhou-se e revistou com cuidado seus bolsos rasgados. Havia três HK em trocados, nada mais. — Não é muito — fa­lou. — Não importa.

Dividiu as moedas irmãmente. Ao longo dos anos sempre haviam dividido o que encontravam.

— O que é aquilo na mão esquerda dele? — perguntou a outra mulher. Um Dente Só abriu a mão fechada como garra.

— Só uns bilhetes. — Olhou para eles, levou-os para bem junto dos olhos e folheou-os. — É a loteria dupla... — come­çou, depois casquinou. — Eeee, o pobre idiota acertou a pri­meira parte e perdeu a segunda... e escolheu Butterscotch Lass!

As duas mulheres riram histericamente ante a traquina-gem dos deuses.

— Foi isso o que deu o treco no velho... teria dado em mim! Ayeeyah, estar tão perto e tão longe, Irmã Mais Velha!

— Joss. — Yang Um Dente Só casquinou de novo, e jogou os bilhetes numa lata de lixo. — Os deuses são os deuses, e os homens são os homens, mas, eee, dá para se imaginar por que o velho morreu. Eu também teria morrido! — As duas velhas riram de novo, o azar machucando-as, e a mais velha esfregou o peito para suavizar a dor. — Ayeeyah, tenho que ir a um médico. Vá e conte ao capataz sobre ele, Irmã Mais Moça. Mas como estou cansada hoje! Um azar tão grande, ele estava tão perto de ser um milionário, mas agora? Joss! Vá contar ao capataz. Hoje estou cansada — falou de novo, apoiada no anci-nho, a voz trêmula.

A outra mulher se afastou, admirando-se dos deuses, como dão e tiram as coisas rapidamente... se é que existem mesmo, não pôde deixar de pensar. Ah, joss!

Cansadamente, Yang Um Dente Só continuou o trabalho, a cabeça doendo, mas no momento em que teve certeza de estar sozinha, e não ser observada, correu para a lata de lixo e retirou de Iá os bilhetes, desesperadamente, o coração batendo como nunca na vida. Alucinada, verificou se seus olhos não a haviam enganado, e se os números estavam corretos. Mas não havia erro. Cada um dos bilhetes era vencedor. Igualmente alucinada, ela os enfiou no bolso, depois certificou-se de que não havia deixado nenhum no lixo. Rapidamente, empilhou mais lixo por cima, ergueu a lata e esvaziou-a dentro de outra, e o tempo todo sua mente gritava: "Amanhã posso resgatar os bilhetes, tenho três dias para resgatá-los! Oh, que todos os deuses sejam abençoados, estou rica, rica, rica! Aqui deve haver cem ou duzentos bilhetes de cinco HK, e cada um paga duzentos e sessenta e cinco HK... se houver cem bilhetes, isso significa vinte e seis mil e quinhentos HK, se houver duzentos, cinqüenta e três mil HK..."

Sentindo-se tonta, agachou-se ao lado do cadáver, apoian­do-se na parede, sem perceber. Sabia que não ousaria contar os bilhetes agora, não havia tempo. Cada segundo era vital. Tinha que se preparar.

— Tome cuidado, velha tola! — murmurou em voz alta. Depois, quase entrou em pânico de novo. "Pare de falar em voz alta! Cuidado, sua velha tola, ou a Irmã Mais Moça vai sus­peitar... Ai, ai, ai, será que está contando ao capataz do que está suspeitando? Ah, o que vou fazer? A sorte é minha, fui eu que achei o velho... ayeeyah, o que devo fazer? Talvez me revistem. Se me virem deste jeito, vão sem dúvida descon­fiar..."

Sua cabeça doía terrivelmente, e uma onda de náusea a percorreu. Havia alguns banheiros ali por perto. Pôs-se de pé com esforço e caminhou até eles. Atrás dela, outras faxineiras varriam e limpavam. No dia seguinte, todas voltariam, pois ainda havia muito o que fazer. O turno dela recomeçaria às nove da manhã. No banheiro vazio, pegou os bilhetes, os dedos trêmulos, enrolou-os num pedaço de pano, achou um tijolo solto na parede e colocou-os atrás do tijolo.

Logo que chegou Iá fora, em segurança, começou a respirar. Quando o capataz voltou com a outra velha, olhou para o homem, revistou os bolsos dele com muito cuidado e encontrou um pedaço de papel prateado que elas tinham deixado passar. Dentro dele havia uma pitada de Pó Branco.

— Vai render dois HK — disse ele, sabendo que valia seis HK. — Vamos rachar, setenta por cento para mim e trinta para vocês duas.

Para manter as aparências, Um Dente Só discutiu, e acaba­ram concordando em que ele tentaria obter três HK pelo pó, e racharia sessenta por cento para ele e quarenta para elas. Satis­feito, ele foi embora.

Quando ficaram sozinhas de novo, a mulher mais moça começou a peneirar o lixo.

— O que está fazendo? — quis saber Um Dente Só.

— Só queria examinar os bilhetes, Irmã Mais Velha. Seus olhos já não são tão bons.

— Fique à vontade — falou Um Dente Só, dando de ombros. — Já vasculhei tudo isso aqui. Agora vou para Iá.

Seu dedo nodoso apontou para uma nova fonte desperce­bida de lixo virgem sob uma fileira de assentos. A outra mulher hesitou, depois a seguiu, e Um Dente Só quase casquinou de alegria, sabendo que estava salva. "Amanhã, eu volto, recla­mando de dor de barriga. Posso apanhar a minha fortuna e ir para casa. Agora, o que vou fazer com a minha fortuna?

"Primeiro, o sinal para dois vestidos de baile quai loh para a Terceira Neta, em troca de metade dos ganhos dela, no primeiro ano. Dará uma bela prostituta no Cabaré Boa Sorte. A seguir, o Segundo Filho deixará de ser cule no prédio em construção na Kotewall Road. Ele, o Quinto Sobrinho e o Segundo Neto vão se tornar construtores, e dentro de uma semana daremos o sinal para a compra de um lote de terra e começaremos a construir um prédio..."

— Está parecendo muito feliz, Irmã Mais Velha.

— E estou, Irmã Mais Moça. Meus ossos doem, sinto a sezão, como sempre, estou com dor de barriga, mas estou viva, e o velho está morto. É uma lição dos deuses. Que todos os deuses sejam testemunhas, logo que o vi, pela primeira vez, pensei que era o meu marido, que morreu na nossa fuga de Xangai, há quinze anos. Pensei que estava vendo um fantasma! Quase morri também, pois o velho parecia gêmeo dele!

— Ayeeyah, que terrível! Que horrível! Fantasmas! To­dos os deuses nos protejam dos fantasmas!

"É, sim", pensou a velha, "os fantasmas são terríveis. Bem, onde estava eu? Ah, sim... mil irão para a loteria do sábado que vem. E com os ganhos comprarei... comprarei uma denta­dura para mim! Eeee, que maravilha será!", ela teve vontade de exclamar, quase desmaiando de prazer reprimido. Toda a sua vida, toda a sua vida desde os catorze anos, quando a coronha de um rifle nfanchu havia esmagado os seus dentes, numa das constantes revoluções contra a dinastia Tsing estran­geira, ela fora apelidada de Um Dente Só. Sempre odiara o apelido. Mas, agora... "Que os deuses sejam testemunhas! Vou comprar uma dentadura com os meus ganhos do sábado que vem... e também vou comprar e acender duas velas no templo mais próximo em troca desta sorte maravilhosa."

— Estou tonta, Irmã Mais Moça — falou, realmente tonta de êxtase. — Quer me buscar um copo de água?

A outra mulher se afastou, resmungando. Um Dente Só sentou-se por um momento, e permitiu-se um imenso sorriso, passando a língua pelas gengivas. "Eeee, quando eu ganhar, se ganhar bastante, vou mandar pôr um dente de ouro, bem no centro, para me fazer lembrar. Yang Dente de Ouro, como soa bem!", pensou, esperta demais para murmurar em voz alta, embora estivesse completamente só. "É, Honorável Yang Dente de Ouro, do Império Yang de Construções..."

 

                   18hl5m

Suslev estava encolhido desconfortavelmente no banco da frente do carrinho de Emie Clinker, e subiam com dificuldade a ladeira. Todas as vidraças estavam embaçadas, a chuva, ainda mais forte. Lama e pedras que desciam das encostas íngremes tornavam a superfície da estrada perigosa. Já haviam visto dois acidentes de pouca monta.

— Pombas! Puxa vida! Talvez seja melhor você passar a noite Iá em casa, velho amigo — disse Clinker, dirigindo com dificuldade.

— Não, hoje não — falou Suslev, com irritação. — Já lhe falei que prometi a Ginny, e esta é a minha última noite.

Desde a noite da batida, Suslev estava alucinado de raiva, alimentada por um medo a que não estava acostumado... medo da convocação para o QG da polícia, pela manhã, medo das re­percussões catastróficas do cabograma decifrado e interceptado, medo do provável desprazer do Centro quanto à perda de Voranski, de ser mandado para fora de Hong Kong, da destrui­ção do seu equipamento de rádio, do caso Metkin, e agora da chegada de Koronski e do possível seqüestro de Dunross. "Coi­sas demais deram errado nesta viagem", pensou, gelado, "estou há tempo demais no jogo para ter alguma ilusão." Até mesmo sua conversa telefônica com Crosse durante o quinto páreo não o havia acalmado.

— Não se preocupe, é apenas um pedido de rotina, Gri­góri. Só umas perguntinhas sobre o Voranski, Metkin, etc. — dissera Crosse, disfarçando a voz.

— Khristos, o que é o etcétera?

— Não sei, foi Sinders que mandou, não eu.

— É melhor me dar cobertura, Roger.

— Já está coberto. Escute, esse possível seqüestro é uma idéia muito ruim.

— Eles querem que seja feito, portanto ajude o Arthur a fazer os preparativos, certo? A não ser que você possa adiar a minha partida, poremos o plano em execução quando for ordenado.

— Eu sou contra. Esta é a minha jurisdição, e eu...

— O Centro aprova, e nós o faremos, se for ordenado!

— Suslev queria mandar que Roger Crosse calasse a boca, mas tomou cuidado para não ofender o melhor agente deles na Ásia.

— Podemos nos encontrar logo mais à noite?

— Não, mas eu ligo para você. Que tal o quatro, às dez e meia?

"Quatro" era o código atual deles para o apartamento 32 do Sinclair Towers; "dez e meia" na verdade significava nove e meia da noite.

— É prudente?

Escutara a risada seca e confiante.

— Muito prudente. Os idiotas voltariam? Claro que é prudente. Eu garanto!

— Está bem. Arthur estará Iá. Devemos fixar o plano. Clinker desviou-se para evitar um táxi que vinha forçando a passagem e soltou um palavrão, depois engrenou de novo o carro para prosseguir, espiando pelo pára-brisa embaçado. Ao lado dele, Suslev esfregava o vidro, tentando limpá-lo.

— Tempo amaldiçoado — falou, com o pensamento nou­tro lugar. "E quanto ao Travkin? Que bosta burro e sem mãe, cair depois de cruzar a linha de chegada! Pensei que tinha ven­cido, idiota decadente! Nenhum cossaco de verdade jamais seria apanhado daquele jeito. Então, agora está fora da jogada, ele e sua princesa caquética e aleijada, de ossos partidos.

"Agora, como vamos atrair o Dunross ao apartamento amanhã, ao invés de terça-feira, como Travkin combinou? Tem que ser hoje ou amanhã. No máximo até amanhã à noite. O Arthur tem que dar um jeito, ou o Roger. Eles são as chaves para o plano Dunross.

"É preciso obter aquelas pastas (ou o Dunross), antes de partir. Ou uma coisa ou a outra. São a minha única proteção real contra o Centro."

Bartlett e Casey saltaram da limusine da Struan diante do Hilton, o porteiro sikh resplandecente, de turbante, segurando um guarda-chuva desnecessário... o vasto toldo já os protegia dos lençóis de água.

— Estarei aqui, senhor, quando estiverem prontos — disse o chofer Lim.

— Ótimo. Obrigado — replicou Bartlett. Subiram os degraus e tomaram a escada rolante até o saguão.

— Está muito quieta, Casey — disse ele. Durante todo o percurso desde o hipódromo, mal haviam dito uma palavra um ao outro, ambos entregues aos próprios pensamentos.

— Você também, Linc. Pensei que não queria conversar. Parecia distraído. — Ela ensaiou um sorriso. — Talvez tenha sido a emoção.

— Foi um grande dia.

— Acha que o tai-pan vai conseguir? A compra de con­trole da General Stores?

— A segunda-feira dirá. — Bartlett foi até o balcão da recepção. — O sr. Banastasio, por favor?

O assistente de gerente eurasiano e bonitão falou:

— Um momento, por favor. Ah, sim, ele mudou de quarto de novo. Agora está no 832.

Passou a Bartlett um telefone direto, e Bartlett discou.

— Pronto?

— Vincenzo? Linc. Estou aqui embaixo.

— Ei, Linc, que bom ouvir sua voz! Casey está com você?

— Claro.

— Querem subir?

— Estamos a caminho.

Bartlett voltou para junto de Casey.

— Tem certeza de que quer que eu vá junto?

— Ele pediu que fosse. — Bartlett foi na frente, em direção ao elevador, pensando em Orlanda e no encontro deles, mais tarde, pensando em Biltzmann, em Gornt e na viagem a Taipé no dia seguinte, e se deveria ou não perguntar a Dunross se podia levá-la. "Que merda, como a vida ficou complicada de repente!" — Vai demorar só uns minutos — disse —, depois vamos tomar coquetéis com o tai-pan. O fim de semana vai ser interessante. E a semana que vem.

— Vai jantar fora hoje à noite?

— Vou. Devemos tomar café juntos amanhã. Seymour está precisando se situar direito, e, como vou passar fora dois dias, acho melhor colocarmos as cartas na mesa.

Entraram no elevador, junto com mais um monte de gente. Casey conseguiu evitar ser pisoteada e enfiou o salto do sapato no peito do pé de sua atacante.

— Ah, desculpe — disse com meiguice, depois murmurou um "Dew neh loh moh", que Peter Marlowe lhe ensinara à tarde, alto o bastante para a mulher ouvir. Notou o súbito rubor da mulher, que saltou apressadamente no mezanino, e Casey soube que obtivera uma grande vitória. Divertida, lançou um olhar para Bartlett, mas ele estava imerso em seus pensamentos, fitando o espaço, e ela se perguntou qual seria o pro­blema real. Orlanda?

Saltaram no oitavo andar. Ela acompanhou Bartlett pelo corredor.

— Sabe do que se trata, Linc? O que Banastasio quer?

— Ele disse que só queria dar um alô e bater um papinho. Bartlett apertou a campainha. A porta se abriu. Banastasio era um homem bonitão, de cabelos grisalhos e olhos muito escuros. Recebeu-os com cordialidade.

— Ei, Casey, emagreceu... está linda! Uma bebida? Fez um gesto de mão na direção do bar, que continha de tudo. Casey preparou um martíni para si mesma, depois de abrir uma lata de cerveja para Bartlett, imerso em pensamentos. "Peter Marlowe tem razão. O tai-pan também. E o Linc tam­bém. Só o que tenho a fazer é decidir. Até quando? Muito bre­ve. Hoje, amanhã? Sem dúvida até o jantar de terça-feira. Abso­lutamente, cem por cento, pra valer, e nesse meio tempo, talvez eu deva começar algumas incursões diversivas."

— Como vão as coisas? — dizia Banastasio.

— Bem. E com você?

— Ótimas. — Banastasio bebericava uma Coca-Cola, depois estendeu a mão e ligou um pequeno gravador. Dele saiu uma confusão de vozes, o tipo de ruído de fundo que se ouve num coquetel movimentado. — Só um hábito, quando quero falar em particular — disse ele, suavemente, dirigindo-se aos dois.

— Acha que colocaram escuta neste lugar? — indagou Bartlett, espantado.

— Talvez sim, talvez não. Nunca se sabe quem poderia estar escutando, não é?

Bartlett olhou para Casey, depois de novo para Banastasio.

— O que é que há, Vincenzo? Banastasio sorriu.

— Como vai a Par-Con? — perguntou o homem.

— Como sempre... ótima — falou Bartlett. — Nosso índice de crescimento será maior do que o previsto.

— Sete por cento maior — acrescentou Casey, todos os seus sentidos igualmente aguçados.

— Vai fechar com a Struan ou com a Rothwell-Gornt?

— Ainda estamos estudando. — Bartlett disfarçou sua surpresa. — Isso não é uma coisa nova para você, Vincenzo? Perguntar sobre os negócios antes de acontecerem?

— Vai fechar com a Struan ou a Rothwell-Gornt? Bartlett notou os olhos frios e o estranho sorriso ameaça­dor. Casey estava igualmente chocada.

— Quando o negócio estiver fechado, direi a você. Na mesma época em que disser aos outros acionistas.

O sorriso não mudou. Os olhos tornaram-se mais frios.

— Os rapazes e eu gostaríamos de nos envolver...

— Que rapazes? Banastasio soltou um suspiro.

— Temos um bocado de grana na Par-Con, Linc, e agora gostaríamos de participar de algumas decisões importantes. Achamos que eu devia ter um lugar na diretoria. No comitê de finanças e no comitê de novas aquisições.

Bartlett e Casey o fitaram, espantados.

— Isso nunca fez parte do acordo de compra das ações

— disse Bartlett. — Você sempre falou que era apenas um in­vestimento.

— É verdade — disse Casey, e sua voz soava fina aos seus ouvidos. — Você escreveu para nós que era apenas um investidor e...

— Os tempos mudaram, mocinha. Agora queremos parti­cipar. Sacou? — A voz do homem era dura. — Apenas um voto, Linc. Com essa quantidade de ações na General Motors, eu teria direito a dois votos na junta diretora.

— Não somos a General Motors.

— Claro, claro, sabemos disso. Mas o que queremos não é absurdo. Queremos que a Par-Con cresça mais depressa. Tal­vez eu possa...

— Está crescendo muito bem. Não acha que seria me­lhor...

Banastasio voltou a fixar o seu olhar gelado nela. Casey se interrompeu. Bartlett começou a cerrar os punhos, mas man-teve-os imóveis. Cuidadosamente.

— Está acertado — falou Banastasio. O sorriso voltou.

— Faço parte da diretoria a partir de hoje, certo?

— Errado. Os diretores são eleitos pelos acionistas na assembléia geral anual — disse Bartlett, com aspereza. — Não antes. Não há vaga.

— Talvez haja — riu Banastasio.

— Quer repetir isso? Abruptamente, Banastasio ficou duro.

— Escute, Linc, não é uma ameaça, apenas uma possibi­lidade. Posso ser útil na junta diretora. Tenho ligações. E quero dar os meus palpites sobre uma coisa ou outra.

— Por exemplo?

— Transações. Por exemplo, a Par-Con vai fechar com o Gornt.

— E se eu não concordar?

— Um cutucãozinho da nossa parte, e o Dunross estará na rua da amargura. O Gornt é o nosso homem, Linc. Fizemos as nossas verificações, e ele é o homem.

Bartlett se pôs de pé, Casey o imitou, os joelhos moles. Banastasio não se mexeu.

— Vou pensar sobre tudo isso — disse Bartlett. — No momento, ainda estou indeciso se fechamos com um ou com o outro.

— O quê? — falou Banastasio, apertando os olhos.

— Não estou convencido de que qualquer dos dois seja bom para nós. Certo, Casey?

— Sim, Linc.

— O meu voto diz que é o Gornt. Sacou?

— Vá se foder — disse Bartlett, virando-se para se retirar.

— Um momento! — Banastasio se levantou e se aproxi­mou mais. — Ninguém quer mais encrenca, nem eu, nem os rapazes, nem...

— Que rapazes?

O outro homem soltou novo suspiro.

— Qual é, Linc? Você é maior de idade. Teve a sua mo­leza. Não queremos criar caso, só ganhar dinheiro.

— Temos isso em comum. Recompraremos suas ações e lhe daremos um lucro de...

— Nada feito. Não estão à venda. — Outro suspiro. — Compramos quando você precisava da grana. Pagamos um preço justo, e você usou a nossa grana para se expandir. Agora quere­mos participar da ação executiva. Sacou?

— Apresentarei a proposta aos acionistas na assembléia anual...

— Puta que o pariu, agora!

— Puta que o pariu, não! — Bartlett estava pronto, e muito perigoso. — Sacou?

Banastasio olhou para Casey, os olhos parecendo os de um réptil.

— Você também vota com ele, srta. vice-presidente exe­cutiva e tesoureira?

— Voto — disse ela, surpresa por sua voz soar tão firme. — Nenhum lugar na junta diretora, sr. Banastasio. Se houver votação, as minhas ações serão contra o senhor, e totalmente contra Gornt.

— Quando obtivermos o controle, você será despedida.

— Quando vocês obtiverem o controle, eu já terei ido embora.

Casey caminhou para a porta, espantada ao ver que as pernas lhe obedeciam.

Bartlett ficou parado diante do outro homem, em guarda.

— Até qualquer hora — falou.

— É melhor mudar de idéia!

— É melhor deixar de se meter na Par-Con! Bartlett virou-se e seguiu Casey para fora do aposento.

— Meu Deus! — murmurou, quando chegaram ao ele­vador.

— É — concordou ela, igualmente desalentada.

— É melhor nós... termos uma conversa.

— Claro. Acho que preciso de uma bebida. Pombas, Linc, aquele homem me apavorou. Nunca me senti tão assustada em toda a minha vida. — Sacudiu a cabeça, como que para desa­nuviá-la. — Parece que foi um maldito pesadelo.

No bar do último andar, ela pediu um martíni e ele, uma cerveja; quando as bebidas haviam sido consumidas em silêncio, ele pediu outra rodada. O tempo todo a cabeça deles tinha estado funcionando, peneirando, jogando fatos contra teorias, mudando as teorias.

Bartlett mudou de posição na cadeira. Ela olhou para ele.

— Está pronto para o que penso? — perguntou.

— Claro, claro, Casey, pode falar.

— Sempre houve um boato de que ele era da Máfia, ou ligado à Máfia, e depois da nossa conversinha eu diria que isso é mais do que provável. A Máfia nos faz pensar em narcóticos e todo tipo de coisas ruins. Teoria: quem sabe também em armas?

As ruguinhas ao redor dos olhos de Bartlett se aprofun­daram.

— Também cheguei a essa conclusão. O que mais?

— Fato: se o Banastasio tem medo de que possam ter posto escuta no quarto dele, isso nos faz pensar em vigilância. O que significa FBI.

— Ou CIA.

— Ou CIA. Fato: se ele é da Máfia, e a CIA ou o FBI estão envolvidos, estamos num jogo em que não temos direito de estar, sem outra alternativa senão sair. Bem, e quanto ao que ele quer...

Casey se interrompeu, soltando uma exclamação abafada.

— O que foi?

— Acabo... acabo de me lembrar. Rosemont. Lembra-se dele, da festa? Stanley Rosemont, o sujeito alto, grisalho e bonitão do consulado? Encontramo-nos ontem nas barcas, à tarde. Por acaso. Pode ser que seja coincidência, pode ser que não, mas ele trouxe o nome do Banastasio à baila. Falou que o amigo dele, Ed qualquer coisa, também do consulado, conhe­cia-o ligeiramente... e quando eu falei que ele chegava hoje, teve um sobressalto. — Ela recordou a conversa deles. — Não dei grande importância ao caso na hora... mas o consulado e o que ele falou só podem significar CIA.

— Tem que ser. Claro. E se... — Bartlett também se interrompeu. — Agora estou me lembrando de que o Ian tam­bém falou no Banastasio, sem mais nem menos. Terça-feira, no saguão, quando você estava falando ao telefone, pouco antes de irmos para a caíxa-forte, ver o ouro.

Depois de uma pausa, ela disse:

— Parece que estamos atolados na merda! Fato: temos um assassinato, seqüestro, armas, Banastasio, Máfia, John Chen. Por falar nisso, John Chen e Tsu-yan eram amigos daquele vagabundo. — Os olhos dela se arregalaram. — Banastasio e a morte de John Chen. Haverá alguma ligação? Pelo que disseram os jornais, os Lobisomens não parecem chineses... o negócio da orelha. É muito brutal.

Bartlett sorvia a sua cerveja, imerso em pensamentos.

— Gornt? E quanto ao Gornt? Por que o Banastasio quer o Gornt, e não a Struan?

— Não sei.

— Que tal este motivo, Casey? Digamos que o objetivo final de Banastasio seja armas, narcóticos, ou as duas coisas. Ambas as companhias seriam boas para ele. A Struan tem navios e, no aeroporto, um imenso complexo que domina as cargas que saem e que chegam, excelente para contrabando. Gornt também tem navios e desembarcadouros. E tem a Ail Ásia Airways. Uma ligação com a linha auxiliar mais importante da Ásia lhe daria (lhes daria) aquilo de que necessitam. A linha aérea vai para Bangkok, índia, Vietnam, Camboja, Ja­pão... para todo canto!

— E aqui faz conexão com a Pan Arn, twa, jal e todos os locais a leste, oeste, norte e sul! E se ajudarmos Gornt a esmagar a Struan, as duas companhias juntas lhe darão tudo.

— Bem, então estamos de volta à pergunta crucial: o que vamos fazer? — indagou Bartlett.

— Não dá para esperar para ver como é que fica? A disputa Struan-Gornt terá sido resolvida no máximo até a se­mana que vem.

— Para essa escaramuça, precisamos de informações... e das forças de contra-ataque corretas. Armas diferentes, armas grandes, armas que não possuímos. — Bebeu a sua cerveja, cada vez mais pensativo. — E melhor arranjarmos conselhos de alto nível. E ajuda. Depressa. Armstrong e os tiras ingleses... ou Rosemont e a CIA.

— Ou ambos?

— Ou ambos.

Dunross saltou do Daimler e entrou apressadamente no QG da polícia.

— Boa noite, senhor — disse o jovem inspetor austra­liano de serviço na recepção. — Lamento que tenha perdido o quinto... ouvi dizer que Bluey White foi repreendido por interferência. Não se pode confiar num maldito australiano, não é?

Dunross sorriu.

— Ele venceu, inspetor. Os administradores decidiram que o páreo foi ganho honestamente. Tenho hora marcada com o sr. Crosse.

— Sim, senhor, mas honestamente, uma ova! Ultimo an­dar, terceira sala à esquerda. Boa sorte no sábado que vem, senhor.

Crosse veio recebê-lo no último andar.

— Boa noite! Vamos entrando. Quer beber alguma coisa?

— Não, obrigado. Gentileza sua me receber imediatamen­te. Boa noite, sr. Sinders.

Apertaram-se as mãos. Dunross jamais estivera antes no escritório de Crosse. As paredes pareciam insípidas como o próprio homem, e quando a porta se fechou atrás dos três homens, a atmosfera pareceu ficar ainda mais abafada.

— Por favor, sente-se — disse Crosse. — Uma pena que Noble Star... ambos apostáramos nela.

— Ela vale outra tentativa no sábado.

— Vai montá-la?

— Você não o faria? Os dois homens sorriram.

— O que podemos fazer por você? — indagou Crosse. Dunross concentrou toda a sua atenção em Sinders.

— Não posso lhe dar novas pastas... não posso fazer o impossível. Mas posso lhe dar algo... ainda não sei o quê, mas acabo de receber um pacote de Alan M. Grant.

Os dois homens se sobressai taram. Sinders perguntou:

— Por mensageiro? Dunross hesitou.

— Por mensageiro. Agora, por favor, nada de perguntas, até que eu tenha acabado.

Sinders acendeu o cachimbo e soltou uma risadinha aba­fada.

— Típico do Alan ter um ás na manga, Roger. Ele sempre foi esperto, o danado. Desculpe, por favor, continue.

— A mensagem de Alan dizia que a informação era impor­tantíssima, e devia apenas ser transmitida ao primeiro-ministro, pessoalmente, ou ao atual chefe da MI-6, Edward Sinders, segundo a minha conveniência... e se eu considerasse de boa política. — No silêncio mortal, Dunross inspirou fundo. — Já que vocês compreendem as permutas, vou fazer a troca com o senhor, diretamente, secretamente, na presença do governa­dor, sozinho, de seja Iá o que for que tenho para trocar. Sua parte é permitir que Brian Kwok seja libertado e cruze a fron­teira, se o quiser, para podermos negociar com Tiptop.

O silêncio tornou-se mais denso. Sinders tirava baforadas do seu cachimbo. Lançou um olhar para Crosse.

— Roger?

Roger Crosse estava pensando na informação... o que seria tão importante para ser transmitido apenas ao Sinders ou ao primeiro-ministro?

— Acho que deveria considerar a proposta do Ian — disse, suavemente. — Com calma.

— Nada de calma — retrucou Dunross, vivamente. — O dinheiro é urgente, e a libertação dele é obviamente considerada urgente. Não podemos passar de segunda às dez horas, quando os ban...

— Quem sabe Tiptop e o dinheiro não entrem absoluta­mente na equação — interrompeu Sinders, a voz deliberada­mente irritada. — Para o sei ou o MI-6, não importa a mínima que Hong Kong inteira apodreça. Tem alguma idéia do valor que um superintendente do sei, especialmente um homem com as qualificações e a experiência de Brian Kwok, pode ter para o inimigo, se de fato Brian Kwok está detido como você ima­gina e esse Tiptop alega? Já levou em consideração, também, o valor das informações que um tal traidor inimigo nos poderia dar sobre seus contatos, e o quanto eles poderiam ser impor­tantes para todo o reino?

— Essa é a sua resposta?

— Foi a sra. Gresserhoff quem lhe trouxe o pacote em mãos?

— Está preparado para negociar?

— Quem é essa Gresserhoff? — perguntou Crosse, com irritação.

— Não sei — falou Sinders. — Só sei que recebeu o se­gundo telefonema do assistente de Alan, Kiernan, e sumiu.

Estamos tentando localizá-la com a ajuda da polícia suíça. — Sua boca sorriu para Dunross. — A sra. Gresserhoff lhe entre­gou o pacote?

— Não — replicou Dunross. "Não estou realmente men­tindo", falou com seus botões. "Foi Riko Anjin."

— Quem foi?

— Eu lhe direi depois que tivermos concluído nosso acordo.

— Nada feito — disse Crosse. Dunross começou a se levantar.

— Só um momentinho, Roger — disse Sinders, e Dunross voltou a sentar-se. O sujeito da MI-6 bateu com o cabo do cachimbo contra os dentes manchados de fumo. Dunross man­teve a fisionomia impassível, sabendo que estava diante de peritos.

Finalmente, Sinders falou:

— Sr. Dunross, está preparado para jurar formalmente sob as condições de perjúrio da Lei dos Segredos Oficiais que não está de posse das pastas originais de Alan?

— Sim — falou Dunross prontamente, agora preparado para torcer a verdade... Alan sempre ficara de posse dos originais, e sempre lhe enviara uma cópia. Se e quando tivesse que fazer um juramento formal, aí já seria outra história. — E agora?

— Segunda-feira seria impossível.

— Impossível porque Brian está sendo interrogado? — perguntou Dunross, olhos fitos em Sinders.

— Qualquer agente inimigo capturado seria interrogado imediatamente, é claro.

— E Brian vai ser um osso duro de roer.

— Se ele é o agente, você deve saber disso melhor do que nós. Há muitos anos que são amigos.

— É, e juro por Deus que ainda acho isso impossível. Jamais Brian foi outra coisa senão um policial britânico dedi­cado e correto. Como seria possível?

— Como é que Philby, Klaus Fuchs, Sorge, Rudolf Abel, Blake e todos os outros foram possíveis?

— Por quanto tempo precisariam dele? Sinders deu de ombros, fitando-o.

Dunross devolveu o olhar. O silêncio chegava a doer.

— Destruiu os originais?

— Não, e devo admitir que também notei uma diferença entre todas as cópias que lhe entreguei e o original que vocês interceptaram. Estava planejando ligar para o Alan e perguntar o porquê da diferença.

— Com que freqüência entrava em contato com ele?

— Uma ou duas vezes por ano.

— O que sabia a respeito dele? Quem lhe sugeriu o nome dele?

— Sr. Sinders, estou disposto a responder às suas pergun­tas, sei que é meu dever responder a elas, mas hoje a hora não é apropriada, porque...

— Talvez seja, sr. Dunross. Não estamos com pressa.

— Ah, concordo. Mas, infelizmente, tenho convidados à minha espera, e minha associação com Alan não tem nada a ver com a minha proposta. Minha proposta exige um simples sim ou não.

— Ou um talvez. Dunross fitou-o atentamente.

— Ou um talvez.

— Pensarei no que o senhor disse.

Dunross sorriu com seus botões, curtindo o "gato e rato" das negociações, consciente de que estava lidando com mestres. Deixou o silêncio pesar novamente, até o momento exato.

— Muito bem. Alan disse que ficaria por minha conta. No momento nem sei do que se trata. Dou-me conta de que estou fora do meu ambiente, e não deveria estar envolvido em assuntos do sei ou da MI-6. Não foi escolha minha. Vocês interceptaram minha correspondência particular. Meu trato com Alan foi bem claro: eu tinha a declaração dele por escrito de que tinha permissão para estar a meu serviço, e que acertaria tudo antecipadamente com o governo. Eu lhe darei cópias da nossa correspondência, se quiser, através dos canais competen­tes, com as cláusulas corretas de sigilo. Meu entusiasmo pela minha oferta diminui a cada minuto que passa. — A sua voz tornou-se mais dura. — Talvez não importe para o sei ou para a MI-6 que Hong Kong inteira apodreça, mas para mim impor­ta. Portanto, estou fazendo a oferta pela última vez. — Levan­tou-se. — Ela é válida até oito e trinta.

Nenhum dos dois outros homens se moveu.

— Por que oito e trinta, sr. Dunross? Por que não meia-noite ou meio-dia de amanhã? — perguntou Sinders, serena­mente. Continuava a fumar o seu cachimbo, mas Dunross notou que o ritmo tinha sido interrompido no momento em que ele lançara o desafio. "Bom sinal", pensou.

— É quando terei que ligar para Tiptop. Obrigado por me terem recebido — disse Dunross, dirigindo-se para a porta.

Crosse, sentado atrás da escrivaninha, lançou um olhar para Sinders. O homem mais velho fez um sinal de cabeça. Obe­dientemente, Crosse apertou o botão. As trancas deslizaram silenciosamente. Dunross parou de chofre, espantado, mas logo se recobrou, abriu a porta e saiu sem fazer comentários, fechan-do-a atrás de si.

— Sacana controlado — falou Crosse, com admiração.

— Controlado demais.

— Não demais. Ele é tai-pan da Casa Nobre.

— E um mentiroso, mas hábil, e está disposto a nos levar no bico. Será que ele destruiria "a coisa"?

— Sim. Mas não sei se a hora H é oito e trinta. — Crosse acendeu um cigarro. — Estou inclinado a pensar que sim. Devem tê-lo pressionado enormemente... naturalmente presu­miram que estamos interrogando o cliente. Tiveram tempo de sobra para estudar as técnicas soviéticas, e têm também seus próprios macetes. Devem imaginar que também somos razoa­velmente eficientes.

— Estou inclinado a pensar que ele não tem mais nenhu­ma pasta, e que "a coisa" é genuína. Se vem da parte do Alan, deve ter um valor especial. O que você aconselha?

— Repito o que disse ao governador: se pudermos ficar com o cliente até segunda ao meio-dia, extrairemos dele tudo de importância.

— Mas, e quanto a eles? O que poderá contar a nosso respeito, quando se recuperar?

— Agora já sabemos da maior parte. Com respeito a Hong Kong, sem dúvida, poderemos cobrir qualquer problema de segurança, daqui por diante. É política padrão do sei jamais permitir a qualquer pessoa conhecer totalmente os planos prin­cipais e...

— Exceto você. Crosse sorriu.

— Exceto eu. E você, no Reino Unido, é claro. O cliente sabe um bocado, mas não tudo. Podemos cobrir tudo por aqui, modificar códigos, etc. Não se esqueça de que a maior parte do que ele passou adiante era rotina. O perigo real que ele repre­sentava já acabou. Foi descoberto, felizmente a tempo. Tão certo como Deus criou os peixinhos do mar, ele teria sido o primeiro comissário chinês, e provavelmente acabaria como chefe do sei. Isso teria sido catastrófico. Não podemos recu­perar os dossiês particulares, Fong-fong e outros, os planos de levantes e contra-insurreições. Um levante é um levante, e só pode haver um número determinado de planos de contingência. Quanto à Sevrin, ele não sabe mais do que nós sabíamos antes de pegá-lo. Talvez o pacote de Alan nos possa fornecer chaves, possivelmente chaves às perguntas que devíamos fazer-lhe.

Isso também me ocorreu instantaneamente. Como já disse, o sr. Dunross é controlado demais. — Sinders acendeu outro fósforo, deixou-o queimar por um momento, depois jun­tou-o ao fumo já usado. — Acredita nele?

— Quanto às pastas, não sei. Sem dúvida acredito que ele tenha "algo", e que Alan retornou dos mortos. Lamento nunca tê-lo conhecido. É. O tal "algo" bem que podia ser mais importante que esse cliente... depois da segunda ao meio-dia. Ele está praticamente no bagaço.

Desde que haviam voltado, o interrogatório de Brian Kwok continuara, na sua maior parte palavras ocas e incoerentes, mas aqui e ali detalhes de valor. Mais notícias das armas atômicas, nomes e endereços de contatos em Hong Kong e Cantão, medi­das de segurança em Hong Kong e amostras de informações sobre a Real Polícia Montada, junto com uma reiteração imen­samente interessante da vasta infiltração soviética no Canadá.

— Por que no Canadá, Brian? — indagara Armstrong.

— A fronteira setentrional, Robert... A cerca mais fraca do mundo, quase inexistente. Riquezas tão grandes no Cana­dá... ah, quem me dera! Tinha essa garota com quem quase me casei, disseram que o meu dever... se os soviéticos podem arrebentar os canadenses... são tão confiantes e maravi­lhosos, Iá... Quer me dar um cigarro?... ah, obrigado... Posso beber alguma coisa? Então temos aparelhos de contra-espionagem para destruir os aparelhos soviéticos e descobrir... e há o México, também... Os soviéticos estão agindo com força ali... É, eles têm agentes por toda parte... sabia que Philby...

Uma hora fora suficiente.

— É curioso ele ter cedido com tanta rapidez — comentou Sinders.

Crosse ficou chocado.

— Garanto que ele não está sendo controlado, não está mentindo, que está contando absolutamente tudo em que acre­dita, o que aconteceu, e continuará agindo assim até...

— Mas claro — disse Sinders, com uma ponta de irri­tação. — Eu quis dizer que é curioso um homem da qualidade dele desabar tão depressa. Diria que há anos que ele vem osci­lando, que sua dedicação, atualmente, era inexistente ou muito pequena, e provavelmente estava pronto para passar para o nosso lado, mas não sabia como se libertar. Uma pena. Poderia ter sido valioso para nós. — O homem mais velho soltou um suspiro e acendeu outro fósforo. — Depois de algum tempo, isso sempre acontece com os toupeiras deles, profundamente entocados nas nossas sociedades. Existe sempre algum gesto de bondade, uma namorada ou um amigo, liberdade ou felicidade que vira todo o mundo deles de ponta-cabeça, os pobres saca­nas. É por isso que venceremos, no final. Até mesmo na Rússia vão virar as mesas, e o KGB vai ter o que merece, dos russos, e é esse o motivo da pressão, agora. Nenhum soviético na face da terra pode sobreviver sem ditadura, polícia secreta, injustiça e terror. — Bateu o cachimbo no cinzeiro. O que restava do fumo estava molhado na base. — Não concorda, Roger?

Crosse balançou a cabeça, e ficou olhando para os olhos azul-claros e penetrantes, perguntando-se o que haveria por trás deles.

— Vai telefonar para o ministro pedindo instruções?

— Não. Posso assumir a responsabilidade por esse caso. Decidiremos às oito e trinta. —- Sinders olhou para o relógio. — Vamos voltar para o Robert. Está quase na hora de reco­meçar. Bom sujeito, aquele, muito bom! Soube que foi um dos grandes ganhadores?

 

                       20h05m

— Ian? Desculpe interromper — disse Bartlett.

— Ora, alô! — Dunross afastou-se dos outros convivas com quem estava conversando. Bartlett estava sozinho. — Vocês dois não estão indo embora, espero... isso aqui ainda vai até as nove e meia, pelo menos.

— Casey ainda vai ficar mais um pouco. Eu tenho um encontro.

— Espero que ela seja bonita, como convém — comen­tou Dunross, com um amplo sorriso.

— E é, mas isso é para mais tarde. Primeiro, tenho um encontro de negócios. Tem um minutinho?

— Mas claro. Dêem-me licença um minuto — falou Dun­ross para os outros, e foi conduzindo Bartlett para um dos terraços, saindo da ante-sala lotada. A chuva estava mais fraca, mas continuava implacavelmente. — A compra de controle da General Stores está quase certa, ao nosso preço, sem outro lance superior da Superfoods. Vamos mesmo ganhar uma nota pre­ta... se eu conseguir deter o Gornt.

— É. A segunda-feira dirá. Dunross olhou atentamente para ele.

— Estou muito confiante.

Bartlett sorriu, com cansaço e preocupação por trás do sorriso.

— Eu notei. Mas queria lhe perguntar se a ida para Taipé amanhã continua nos seus planos.

— Ia sugerir que a adiássemos até a semana que vem, o fim de semana que vem. Amanhã e segunda-feira são muito importantes para nós dois. Não acha?

Bartlett concordou com um gesto de cabeça, ocultando o seu alívio.

— Para mim está ótimo. — "E isso resolve o meu pro­blema com Orlanda", pensou. — Bem, então acho que já vou indo.

— Pegue o carro. Mande o Lim de volta quando não precisar mais dele. Vai à subida do morro, se não for cancelada? É das dez até mais ou menos o meio-dia.

— Onde é?

— Nos Novos Territórios. Mandarei o carro apanhá-lo, se o tempo permitir. Casey também, se quiser ir.

— Obrigado.

— Não se preocupe com Casey logo mais... farei com que chegue a casa em segurança. Ela está livre mais tarde?

— Acho que sim.

— Ótimo, então pedirei a ela que se reúna a nós... alguns de nós vamos jantar num restaurante chinês. — Dunross olhou-o atentamente. — Algum problema?

— Não. Nada que não possa ser resolvido.

Bartlett abriu um sorriso e se afastou, preparando-se para o próximo ataque... Armstrong. Encostara Rosemont num canto há alguns momentos e lhe contara sobre o encontro com Banastasio.

— É melhor deixar a coisa com a gente, Linc — dissera Rosemont. — No que lhe diz respeito, fomos informados ofi­cialmente. O consulado. Passarei adiante a quem de direito. Deixe tudo como está... diga a Casey, certo? Se o Banastasio ligar para qualquer um de vocês dois, encham lingüiça, liguem para nós e daremos um jeito. Eis o meu cartão... é válido du­rante as vinte e quatro horas do dia.

Bartlett estava do lado de fora da porta da frente, agora, e reuniu-se aos outros que esperavam pacientemente por seus carros.

— Ah, oi, Linc! — disse Murtagh, saindo apressadamente de um táxi, e quase derrubando-o. — Desculpe! A festa ainda não acabou?

— Claro que não, Dave. Para que a pressa?

— Tenho que ver o tai-pan! — Murtagh baixou a voz, demonstrando o seu entusiasmo. — Há uma chance de que a matriz tope, se o Ian fizer algumas concessões! Casey ainda está aí?

— Está — respondeu Bartlett prontamente, e todos os seus sentidos ficaram alertados, todo o resto esquecido. — Que concessões? — indagou, cautelosamente.

— Dobrar o período de câmbio exterior. E terá que lidar diretamente com o First Central, dando-nos a primeira opção sobre todos os futuros empréstimos, durante cinco anos.

— Isso não é demais — disse Bartlett, escondendo sua perplexidade. — Como ficou todo o negócio, agora?

— Não posso parar agora, Linc. Tenho que obter a aprovação do tai-pan. Eles estão esperando, mas é exatamente aquilo que Casey e eu planejamos. Porra, se isso der certo, o tai-pan nos deverá favores até as galinhas criarem dentes! — exclamou Murtagh, afastando-se às pressas.

Bartlett ficou olhando para ele, apalermado. Seus pés come­çaram a reconduzi-lo para dentro de casa, mas deteve-se e voltou para o seu lugar na fila. "Há tempo de sobra", disse com seus botões. "Não há necessidade de perguntar nada a ela agora. Pense no assunto."

Casey lhe havia falado da ligação do Royal Belgium com o First Central, e durante a tarde Murtagh acrescentara como era difícil arranjar uma brechinha ali com o sistema. Isso fora tudo. Bartlett notara o nervosismo do texano e de Casey. No momento atribuíra-o às corridas.

"Mas e agora?", perguntou-se, desconfiado. "Casey, Mur­tagh e o tai-pan! 'O First Central vai topar o negócio se...' e 'o tai-pan nos deverá favores até as galinhas criarem dentes..." e 'exatamente aquilo que Casey e eu planejamos.' Ela é a inter­mediária? Ora, aquele palhaço não chega aos pés da Casey, e ela não é nenhuma menina de recados. Porra, é a Casey que tem que ir puxando o cara, ele não é páreo para ela. Assim, prova­velmente foi ela quem o levou a... ao quê? Do que é que o tai-pan mais está precisando?

"De crédito, e depressa, milhões até segunda-feira.

"Pombas, o First Central vai apoiá-lo! Só pode ser isso. Se. Se ele fizer concessões, e terá que fazer algumas para se safar..."

— Quer o carro, senhor?

— Oh, sim, Lim, quero, sim. O quartel-general da polícia em Wanchai. Obrigado.

Entrou no banco de trás, a mente fervendo.

"Com que então a Casey está fazendo um joguinho parti­cular. Já deve estar em andamento há um ou dois dias, mas ela nada me disse. Por quê? Se eu estiver certo, e o golpe tiver êxito, o Ian terá os meios para rechaçar o Gornt, até para vencê-lo. Ela se esforçou ao máximo para ajudá-lo contra o Gornt. Sem a minha aprovação. Por quê? Em troca do quê?

"O dinheiro do dane-se! Os prometidos meio a meio são um pagamento... meus dois milhões... mas ela racha meio a meio?

"Claro. É uma possibilidade... uma possibilidade de que estou tomando conhecimento agora. Quais são as outras? Meu Deus! Casey independente, quem sabe bandeando-se para o lado do inimigo? Os dois ainda são o inimigo, Ian e Gornt."

A excitação dele aumentou.

"O que fazer?

"O dinheiro entregue ao Gornt está coberto. Os dois mi­lhões pagos à Struan também estão cobertos, e não vou reti­rá-los. Nunca planejei fazê-lo... estava apenas testando Casey. O negócio com a Struan é bom, de um jeito ou de outro. O negócio com o Gornt é bom, de um jeito ou de outro. Portanto, o meu plano ainda é bom... posso pular para um lado ou para o outro, embora a decisão da hora exata seja crucial.

"Mas agora existe Orlanda.

"Se escolher Orlanda, terá que ser só nos Estados Unidos, ou em outro lugar qualquer, menos aqui. É óbvio que ela jamais seria aceita no círculo dos vencedores do Happy Valley. Ou nos círculos sociais e clubes. Jamais seria convidada livremente para as grandes casas, exceto talvez pelo Ian. E pelo Gornt, mas ape­nas para debochar dela, para puxar as rédeas, para fazê-la recor­dar o passado... como ontem à noite, quando aquela outra moça subiu ao convés. Vi o rosto de Orlanda. Ah, ela disfarçou, melhor do que qualquer outra teria disfarçado, exceto talvez Casey. Ela odiou o fato de que a outra tivesse estado Iá embai­xo, na suíte principal que já lhe pertencera.

"Será que o Gornt agiu deliberadamente? Talvez a garota tenha subido por conta própria. Desceu quase imediatamente. Talvez até não devesse ter subido. Quem sabe?

"Merda! Há coisas demais acontecendo que não consigo equacionar: como a General Stores e a recuperação do Ho-Pak... coisas demais combinadas por dois sujeitos num sába­do... dois uísques aqui e um telefonema ali. É tudo dinamite, se você faz parte do clube, mas, puta que o pariu, cuidado se não faz! Aqui, a gente tem que ser britânico ou chinês para estar enturmado.

"Eu sou 'estrangeiro', igualzinho a Orlanda.

"Contudo, eu podia ser feliz aqui, por algum tempo. E podia dar um jeito de aceitarem a Orlanda, em visitas curtas. Podia cuidar da costa do Pacífico e de ter a Par-Con como a Casa Nobre, mas para ela ser aceita como a Casa Nobre pelos britânicos e chineses, ainda teria que ser Struan-Par-Con, com o nosso nome em letrinhas miúdas, ou Rothwell-Gornt-Par-Con, nas mesmas condições.

"Casey?

"Com a Casey a Par-Con poderia ser uma Casa Nobre facilmente. Mas será que a Casey ainda é digna de confiança? Por que ela não me contou? Foi envolvida por Hong Kong e está começando a fazer o seu joguinho para ser a Número Um?

"É melhor você escolher, meu velho, enquanto ainda é tai-pan."

— Sim, Phillip?

Estavam no gabinete, sob o retrato de Dirk Struan, e Dunross escolhera o lugar deliberadamente. Phillip Chen estava sentado à sua frente. Muito formal, muito correto e muito cansado.

— Como vai o Aleksei?

— Ainda inconsciente.

— O dr. Tooley falou que ficará bom se sair do estado de coma dentro de duas horas.

— Tiptop?

— Fiquei de ligar para ele às vinte e uma horas.

— Ainda nenhuma aprovação da sua oferta... por parte das autoridades?

— Conhece a proposta que ele fez? — perguntou Dun­ross, estreitando os olhos.

— Ah, sim, tai-pan. Eu... perguntaram-me. Ainda acho difícil acreditar... Brian Kwok? Deus nos ajude, mas, sim... perguntaram qual a minha opinião antes de lhe apresentarem a sugestão.

— Que diabo, por que não me contou? — perguntou Dunross, bruscamente.

— Com razão você não me considera mais o representante nativo da Casa Nobre e nem me favorece com a sua confiança.

— Considera-se digno de confiança?

— Sim. Já o provei no passado muitas vezes, o meu pai também... e o dele. Apesar disso, se eu fosse você e estivesse sentado no seu lugar, não estaria tendo este encontro. Não o receberia na minha casa, e já teria decidido as maneiras e meios de sua destruição.

— Talvez eu já tenha.

— Você, não. — Phillip Chen apontou para o retrato. — Ele o teria feito, mas não você, Ian Struan Dunross.

— Não aposte nisso.

— Aposto.

Dunross ficou calado, esperando.

— Primeiro a moeda: espere até lhe pedirem o favor. Tentarei descobrir o que é, antecipadamente. Se for demais...

— Será demais.

— O que ele irá pedir?

— Alguma coisa relacionada com narcóticos. Correm for­tes boatos de que Quatro Dedos, Yuen Contrabandista e Lee Pó Branco estão de sociedade, contrabandeando heroína.

— Ainda estão pensando no assunto. Não são sócios, na realidade — falou Phillip Chen.

— Outra vez lhe pergunto: por que não me contou? É seu dever como meu representante manter-me informado, e não anotar detalhes íntimos dos nossos segredos e depois perdê-los para os inimigos.

— Outra vez, peço perdão. Mas, agora, chegou a hora de falar.

— Porque você está acabado?

— Porque eu posso estar acabado... se não puder provar mais uma vez o meu valor.

O velho olhou para Dunross, desanimado, enxergando o rosto de muitos tai-pans no rosto do homem à sua frente, sem gostar do rosto, ou do rosto do homem que encimava a lareira, cujos olhos pareciam penetrar nele... o demônio estrangeiro pirata que havia desamparado seu bisavô por causa do sangue mestiço, metade do qual era dele próprio.

"Ayeeyah", pensou, controlando a sua raiva. "Esses bár­baros e a sua intolerância! Servimos cinco gerações de tai-pans, e agora este aí ameaça modificar o legado de Dirk por causa de um erro?"

— Sobre o pedido: mesmo que esteja ligado à heroína ou aos narcóticos, estará relacionado a alguma ação ou atitude fu­tura. Concorde com ele, tai-pan, e prometo que cuidarei de Quatro Dedos muito antes que o pedido tenha que ser con­cedido.

— Como?

— Estamos na China. Cuidarei da coisa à moda chinesa. Juro pelo sangue dos meus ancestrais. — Phillip Chen apontou para o retrato. — Continuarei a proteger a Casa Nobre como jurei fazer.

— Que outras safadezas você tinha no cofre? Já examinei todos os documentos e balanços gerais que entregou ao Andrew. Com aquelas informações nas mãos erradas, estamos expostos.

— É, mas apenas diante do Bartlett e da Par-Con, desde que ele as guarde para si mesmo e não as passe adiante para o Gornt ou outro inimigo aqui. Tai-pan, o Bartlett não me parece uma pessoa maliciosa. Talvez possamos fazer um acordo com ele para recuperar o que possui, e pedir-lhe que mantenha em segredo as informações.

— Para fazer isso, teríamos que permutar com um segredo que ele não queira que seja revelado. Conhece algum?

— Ainda não. Como nosso sócio, deveria proteger-nos.

— É. Mas ele já está negociando com o Gornt, e adiantou dois milhões de dólares americanos para o Gornt poder vender as nossas ações a descoberto.

Phillip Chen ficou branco.

— Eeee, não sabia disso. — Pensou por um momento. —

Quer dizer que na segunda-feira Bartlett nos deixará e passará para o lado do inimigo?

— Não sei. No momento, acho que ele está em cima do muro. É o que eu faria, se fosse ele.

Phillip Chen mudou de posição na cadeira.

— Ele gosta muito de Orlanda, tai-pan.

— É, ela poderia ser a chave. Gornt deve ter providencia­do isso, ou talvez a tenha empurrado para cima do Bartlett.

— Vai contar-lhe isso?

— Não, a não ser que haja motivo para tanto. Ele é maior de idade. — Dunross ficou ainda mais duro. — O que você propõe?

— Vai concordar com as novas concessões que o First Central está querendo?

— Quer dizer que também está sabendo disso?

— Deve ter querido que todo mundo soubesse que está buscando o apoio deles, tai-pan. Por que outro motivo convidar Murtagh para a sua tribuna nas corridas, por que outro motivo convidá-lo para vir aqui? Foi fácil ligar os fatos, mesmo não tendo cópias dos telex deles...

— Você tem?

— De alguns. — Phillip Chen pegou um lenço e enxugou as mãos. — Vai fazer as concessões?

— Não. Disse a ele que pensaria no assunto... ele está Iá embaixo esperando pela minha resposta, mas tem que ser ne­gativa. Não posso garantir-lhe a primeira opção para todos os futuros empréstimos. Não posso, porque o Victoria tem tanto poder aqui, e tantos dos nossos títulos, que nos espremeria até a morte. De qualquer modo, não posso substituí-los por um banco americano que já provou ser politicamente indigno de confiança. São excelentes como apoio, e será fantástico se con­seguirem nos tirar desta confusão, mas não estou certo quanto a eles a longo prazo.

— Também devem estar prontos a ceder em alguma coisa. Afinal, ter-nos dado dois milhões para firmar a compra de controle da General Stores revela um grande voto de confiança, heya?

Dunross deixou essa passar.

— O que você tinha em mente?

— Posso sugerir que você faça uma contraproposta especí­fica: todos os empréstimos canadenses, americanos, australianos e sul-americanos por cinco anos, isso cobre a nossa expansão nesses territórios, mais o empréstimo imediato para dois petro­leiros gigantes a serem adquiridos através da Toda, no esquema de venda e arrendamento, e, para um associado, pedidos da firma para mais sete anos.

— Pela madrugada! Quem tem este tipo de operação? — explodiu Dunross.

— Vee Cee Ng.

— Ng Fotógrafo? Impossível.

— Daqui a vinte anos Vee Cee terá uma frota maior do que a do Onassis.

— Impossível.

— Muito provavelmente, tai-pan.

— Como sabe?

— Pediram-me que ajudasse a financiar e providenciar uma imensa expansão da frota dele. Se pusermos os sete pri­meiros petroleiros no nosso pacote, com a promessa de mais, e eu posso, eu posso, isso deverá satisfazer o First Central. — Phillip Chen enxugou o suor da testa. — Heya?

— Pombas, isso satisfaria o Chase Manhattan e o Banco da América juntos! Vee Cee? — Então a mente tumultuada de Dunross voltou ao normal, agindo com a máxima eficiência. — Ah! Vee Cee, mais tório, mais Velhos Amigos, mais todo o tipo de ferramentas delicadas, mais petróleo, mais Velhos Ami­gos. Certo?

Phillip ensaiou um sorriso.

— Todos os corvos sob os céus são negros.

— É. — E depois de uma pausa, acrescentou: — O First Central poderá topar. Mas, e quanto ao Bartlett?

— Com o First Central você não precisará da Par-Con. O First Central terá prazer em nos ajudar a conseguir um finan­ciador, ou sócio alternativo nos Estados Unidos. Levaria algum tempo, mas com o Jacques no Canadá, David MacStruan aqui, Andrew na Escócia... Tai-pan, não sei o que está pensando sobre o Andrew e esse tal de Kirk, mas as teorias dele me parecem imaginosas, muito imaginosas.

— O que estava dizendo sobre Bartlett?

— Sugiro que rezemos para que o First Central morda a isca, que o Tiptop nos dê o dinheiro, que eu possa cobrir o First Central com uma associação de Mata, Pão-Duro e Quatro De­dos. Depois você, David MacStruam e eu poderemos facilmente encontrar uma alternativa para a Par-Con. Sugiro que abramos imediatamente um escritório em Nova York. Que o David o dirija por três meses com... talvez com o Kevin como assisten­te. -— Phillip deixou a sugestão no ar por um momento, depois continuou rapidamente: — Daqui a três meses saberemos se o jovem Kevin tem algum valor... acho que ficará muito impres­sionado, tai-pan, na verdade eu o garanto. Daqui a três meses saberemos o que o jovem George Trussler acha da Rodésia e da África do Sul. Quando ele tiver esse escritório montado e fun­cionando, podemos mandá-lo para Nova York. Ou, quem sabe, poderíamos convencer o seu outro primo, o virginiano Mason Kern, a sair da Cooper-Tillman, e colocá-lo à frente do nosso escritório em Nova York. Depois de seis meses, Kevin deverá ir para Salisbury e Johannesburg... tenho um grande pres­sentimento de que o comércio de tório e metal precioso irá se fortalecer cada vez mais.

— Entrementes, ainda temos os nossos problemas imedia­tos. Bartlett, Gornt e a corrida às nossas ações.

— Para nos assegurarmos do silêncio de Bartlett, teremos que separá-lo totalmente do Gornt e fazer dele um aliado, um aliado completo.

— E como se faz isso, Phillip?

— Deixe comigo. Há... há possibilidades.

Dunross manteve os olhos fitos em Phillip Chen, mas o velho não ergueu o olhar da mesa. "Que possibilidades? Orlan­da? Tem que ser."

— Está certo — falou. — O que mais?

— Quanto ao mercado, com o Banco da China a nos apoiar, a corrida aos bancos termina. Com a compra da General Stores e um apoio financeiro maciço, a corrida às nossas ações tem que cessar. Todos correrão para comprar, e haverá a alta. Bem — continuou Phillip Chen —, sei que você não queria fazer isso antes, mas digamos que possamos fazer com que Sir Luís retire as nossas ações do pregão até segunda-feira ao meio-dia, aí...

— Como?

— É. Digamos que ninguém possa negociar com a Struan oficialmente até o meio-dia. Digamos que deixemos o preço como estava na quarta-feira passada... 28,80. Gornt estará preso na armadilha. Terá que comprar ao preço que for, para cobrir. Se ninguém oferecer ações suficientes, abaixo dessa quantia todos os lucros dele sairão pela janela, ele pode até se arrasar.

Dunross sentiu-se fraco. A idéia de imobilizar as ações ainda não lhe ocorrera.

— Meu Deus! Sir Luís jamais concordaria com isso. Phillip Chen agora estava muito pálido, gotas de suor molhando-lhe a fronte.

— Se o comitê da Bolsa tiver decidido que é necessário para "estabilizar o mercado"... e se as grandes firmas de corretagem de Joseph Stern e Arjan Soorjani também concorda­rem em não oferecer nenhuma ação, nenhuma ação a granel abaixo de 28,80, o que o Gornt poderá fazer? — Enxugou a testa com mãos trêmulas. — Esse é o meu plano.

— Por que motivo Sir Luís cooperaria?

— Acho... acho que vai cooperar, e Stern e Soorjani nos devem muitos favores. — Os dedos do velho se remexiam ner­vosamente. — Sir Luís, Stern, Soorjani, você e eu juntos con­trolamos a maior parte dos principais lotes de ações que Gornt vendeu a descoberto.

— Stern é o corretor de Gornt.

— É verdade, mas é yan de Hong Kong, e precisa mais de boa vontade do que de um cliente. — Phillip Chen mudou de posição, ficando mais exposto à luz, Dunross notou a palidez dele e ficou preocupadíssimo. Levantou-se, foi até o bar e trouxe dois conhaques com soda. — Tome.

— Obrigado. — Phillip Chen bebeu o dele rapidamente. — Graças a Deus pelo conhaque!

— Acha que podemos convencer a todos até a abertura da Bolsa, na segunda-feira? A propósito, cancelei minha viagem a Taipé.

— Ótimo, foi sensato da sua parte. Agora irá ao coquetel do Jason Plumm.

— Vou, disse que iria.

— Ótimo. Então poderemos conversar mais. Sobre Sir Luís. Há uma boa chance, tai-pan. Mesmo que as ações não sejam retiradas, o preço deve disparar, tem que disparar... se conseguirmos o apoio de que precisamos.

"É o óbvio ululante", pensou Dunross, com azedume. "Se." Deu uma olhada no relógio. Eram oito e trinta e cinco. Sinders devia ter telefonado às oito e trinta. Ele lhe dera meia hora de lambujem antes de ligar para Tiptop. Seu estômago parecia estar se desfazendo, mas ele o controlou. "Pombas, não posso ligar para ele", pensou, com irritação.

— O que foi? — indagou, pois não tinha escutado o que Phillip Chen dissera.

— O prazo que me deu para lhe entregar o meu pedido de demissão... meia-noite de domingo, se Mata ou Pão-Duro ou... posso pedir para que seja prorrogado por uma semana?

Dunross apanhou o copo de Phillip Chen para enchê-lo de novo, gostando da sutileza asiática do pedido. Pedia-lhe que prorrogasse o prazo para uma época em que não teria valor, Pois, dali a uma semana, a crise estaria já há muito resolvida. O modo como o pedido foi feito não desprestigiava nenhuma das duas partes. "É, mas ele tem que fazer um esforço espe­tacular. Será que sua saúde agüentará? É a única coisa que estou realmente levando em consideração." Enquanto servia o conhaque, pensava em Phillip Chen, Kevin Chen, Claudia Chen, no velho Chen-chen, e no que faria sem eles. "Preciso de cooperação e serviço, e não mais de traição ou falsidade."

— Pensarei no caso, Phillip. Nós o discutiremos depois da oração matinal, na segunda-feira. — A seguir, acrescentou, cuidadosamente: — Talvez se justifiquem prorrogações.

Agradecido, Phillip Chen aceitou o conhaque e tomou um grande gole, já com uma cor melhor. Percebera o plural hábil, e sentira-se aliviadíssimo. "Só o que tenho a fazer é acertar. Só isso." Levantou-se para sair.

— Obriga...

O telefone soou irritantemente, e ele quase deu um salto. Dunross também.

— Pronto! Oh, alô, sr. Sinders! — Dunross podia ouvir o bater do seu coração abafando o ruído da chuva. — O que há de novo?

— Muito pouco, infelizmente. Discuti a sua sugestão com o governador. Se "aquilo" estiver nas minhas mãos até o meio-dia de amanhã, tenho motivos para acreditar que o seu amigo poderá ser entregue ao terminal da fronteira de Lo Wu ao entardecer de segunda-feira. Naturalmente, não posso garantir que ele queira cruzar a fronteira para a China Vermelha.

Dunross soltou a voz, com dificuldade:

— Há muitos "motivos para acreditar" e "poderá ser" nessa história, sr. Sinders.

— É o melhor que posso fazer, oficialmente. — Que garantias me dá?

— Nenhuma, infelizmente, da parte do sr. Crosse e da minha. Parece que precisa haver confiança dos dois lados.

"Filhos da mãe!", pensou Dunross, furioso, "sabem que estou encurralado."

— Obrigado, pensarei no que disse. Meio-dia de amanhã? Vou participar da subida do morro, se não for cancelada... das dez ao meio-dia. Irei ao quartel-general da polícia tão logo possa, depois que a subida acabar.

— Não precisa se preocupar, sr. Dunross. Se ela não for cancelada, também estarei presente. Meio-dia pode ser o prazo limite tanto Iá quanto aqui. Certo?

— Certo. Boa noite. — Dunross desligou, sombriamente. — É um talvez, Phillip. Talvez, até o entardecer de segunda-feira.

Phillip Chen sentou-se, horrorizado. Sua palidez aumen­tara.

— Será tarde demais.

— Vamos descobrir. — Pegou o telefone e discou de novo. — Alô, boa noite! O governador pode atender, por favor? É Ian Dunross. — Sorveu o seu conhaque. — Lamento incomodá-lo, senhor, mas o sr. Sinders acaba de ligar, e o que ele disse foi: talvez. Talvez ao entardecer de segunda-feira. Pergunto-lhe se pode garantir isso.

— Não, Ian, não posso. Não tenho jurisdição sobre esse assunto. Lamento. Terá que tomar as providências diretamente. Contudo, Sinders me pareceu um homem razoável. Não achou?

— Não me pareceu nada razoável — disse Dunross, com um sorriso duro. — Obrigado. Não faz mal. Desculpe o incô­modo, senhor. Ah, a propósito, se isso puder ser resolvido, Tiptop disse que o seu carimbo seria exigido, juntamente com o meu e o do banco. O senhor estaria disponível amanhã, se houver necessidade?

— Naturalmente. E, Ian, boa sorte.

Dunross repôs o fone no gancho. Depois de um momento, disse:

— Será que eles concordariam com o dinheiro amanhã em troca do sujeito ao entardecer de segunda-feira?

— Não creio — disse Phillip Chen, desalentado. — Tiptop foi claro: "Quando os procedimentos corretos forem cumpridos". A troca tem de ser simultânea.

Dunross recostou-se na cadeira alta, bebericou o seu conha­que e deixou a mente vagar.

Às nove em ponto, ligou para Tiptop e bateu papo, infor­malmente, até chegar o momento.

— Ouvi dizer que o subalterno da polícia será sem dúvida despedido por ter cometido um tal erro, e que a pessoa prejudi­cada poderá estar em Lo Wu ao meio-dia de terça-feira.

Fez-se um grande silêncio. A voz ficou mais fria do que nunca.

— Não acho que isso seja imediatamente.

— Concordo. Talvez eu consiga persuadi-los a antecipar para segunda. Talvez seus amigos possam ser um pouco pacien­tes. Eu o consideraria um favor muito grande.

Usou a palavra "favor" deliberadamente, e deixou-a no ar.

— Passarei adiante o seu recado. Obrigado, tai-pan. Por favor, ligue para mim às sete horas da noite de amanhã. Boa noite.

— Boa noite.

Phillip Chen rompeu o silêncio, muito preocupado.

— Esta é uma palavra cara, tai-pan.

— Eu sei. Mas não tenho opção — falou, a voz dura. — Sem dúvida haverá a exigência de um favor em troca, algum dia. — Dunross afastou os cabelos dos olhos e acrescentou: — Talvez seja com o Joseph Yu, quem sabe? Mas eu tinha que pedir.

— É. Você é muito sensato. Sensato como um homem mais velho, muito mais sensato do que Alastair e seu pai, mas não tão sensato quanto a Bruxa. — Um pequeno arrepio o per­correu. — Foi sensato em negociar o tempo, em não tocar no dinheiro, no dinheiro do banco, muito sensato. Ele é esperto demais para não saber que precisamos disso amanhã, no máximo até a noite.

— Daremos um jeito de consegui-lo. Isso tirará a pressão do Victoria de cima de nós. O Paul vai ter que convocar uma reunião de diretoria logo — acrescentou Dunross, de cara fecha­da. — Com Richard na diretoria, bem, o Richard nos deve muitos favores. A nova junta diretora votará pelo aumento do nosso fundo, assim não precisaremos do Bartlett, do First Cen­tral ou do amaldiçoado Mata.

Phillip Chen hesitou, depois falou, atropeladamente:

— Detesto ser o portador de outras más notícias, mas ouvi dizer que parte do acordo de Richard Kwang com Haver­gill incluiu o seu pedido de demissão assinado e não datado da junta diretora do Victoria, e uma promessa de votar exata­mente como Havergill desejar.

Dunross soltou um suspiro. Tudo se encaixava. Se Richard Kwang votasse com a oposição, aquilo neutralizaria a sua po­sição dominante.

— Agora, só o que nos falta é perder mais um que nos apoie, e Paul e a sua oposição nos esmagarão. — Ergueu os olhos para Phillip Chen. — É melhor tentar aliciar o Richard.

— Vou tentar, mas ele já foi aliciado. E quanto ao P. B. White? Acha que ajudaria?

— Não contra o Havergill, ou o banco. Poderia, com o Tiptop — disse Dunross, pesadamente. — Ele é o próximo, e o último, da lista.

 

                       22h55m

As seis pessoas saíram dos dois táxis na entrada particular do prédio do Victoria Bank, na rua lateral. Casey, Riko Gresser­hoff, Gavallan, Peter Marlowe, Dunross e P. B. White, um inglês magro e miúdo de setenta e cinco anos. A chuva tinha parado, embora a rua parcamente iluminada estivesse cheia de poças.

— Tem certeza de que não quer tomar mais uma bebidi-nha conosco, Peter? — perguntou P. B. White.

— Não, obrigado, P. B., está na hora de eu ir para casa. Boa noite e obrigado pela ceia, tai-pan!

Ele se afastou noite adentro, dirigindo-se para o terminal das barcas, que ficava do outro lado da praça. Nem ele nem os outros notaram o carro que parou logo mais abaixo, na rua. Dentro dele estavam Malcolm Sun, o agente do sei, e Povitz, o agente da CIA. Sun era quem dirigia.

— Esta é a única entrada e saída? — perguntou Povitz.

— É.

Ficaram vendo P. B. White apertar o botão da campainha.

— Que filhos da mãe de sorte! Aquelas duas donas são as melhores que já vi.

— A Casey é jóia, mas a outra... Há garotas mais boni­tas em qualquer cabaré... — Sun se interrompeu. Um táxi passou por eles.

— Outro "cola"?

— Não, acho que não, mas se estamos vigiando o tai-pan, pode apostar que outros também estão.

— É.

Viram P. B. White apertar a campainha de novo. A porta se abriu, e o sonolento guarda-noturno sikh os cumprimentou:

— Boa noite, sahs, memsahs.

A seguir, dirigiu-se ao elevador, apertou o botão e fechou a porta da frente.

— O elevador é meio vagaroso. Antiquado, como eu. Des­culpe — disse P. B. White.

— Há quanto tempo mora aqui, P. B.? — perguntou Casey, sabendo, pela leveza do seu passo e o brilho malicioso dos seus olhos, que não havia nada de antiquado nele.

— Há uns cinco anos, minha cara — falou, tomando-lhe o braço. — Tenho muita sorte.

"Claro", pensou ela, "e também deve ser muito impor­tante para o banco. E poderoso. Tem que ser, para ocupar um dos únicos três apartamentos em todo o imenso prédio." Ele lhes contara que um dos outros pertencia ao diretor-chefe, que estava atualmente de licença para tratamento de saúde. O últi­mo deles estava mobiliado, mas ficava vazio.

— É para membros da realeza visitantes, o chefe do Ban­co da Inglaterra, primeiros-ministros, esse tipo de personalidades — dissera P. B. White com imponência, durante o jantar leve mas condimentado de comida de Szechuan. — Eu sou uma espécie de zelador que não recebe salário. Deixam que eu more Iá para cuidar do lugar.

— É, estou acreditando!

— Mas é verdade! Felizmente não há ligação entre esta parte do prédio e o banco em si, senão eu estaria afanando alguma grana!

Casey estava se sentindo muito feliz, efeito da boa comida, bons vinhos, conversa inteligente e muita atenção por parte dos quatro homens, especialmente Dunross — e muito contente por não ter sido suplantada por Riko —, tudo na sua vida aparentemente nos lugares de novo, Linc novamente o seu antigo Linc, embora estivesse na companhia do inimigo. Como vou lidar com ela?, perguntou-se pela bilionésima vez.

A porta do elevador se abriu. Eles entraram, lotando a pequena área. P. B. White apertou o primeiro dos três botões.

— Deus mora no andar mais alto — deu uma risadinha.

— Quando está na cidade.

— Quando deve voltar? — perguntou Dunross.

— Daqui a três semanas, Ian. Ainda bem que ele não está em contato com Hong Kong... tomaria o primeiro avião de volta. Casey, nosso diretor-chefe é um sujeito maravilhoso. Infelizmente, há quase um ano que tem estado doente, e vai se aposentar daqui a três meses. Persuadi-o a tirar uma licença e ir para Caxemira, para um lugarzinho que conheço às margens do rio Jehlum, ao norte de Srinagar. O fundo do vale fica a uns mil e oitocentos metros, e Iá em cima, entre as grandes montanhas do mundo, é o paraíso. Há casas flutuantes nos rios e nos lagos, e você fica à deriva, sem telefones, sem correspondência, só você e o infinito, gente maravilhosa, ar maravilhoso, comida maravilhosa, montanhas estupendas. — Os olhos dele brilharam maliciosamente. — É preciso ir para Iá muito doente, ou com alguém a quem se ame muito. Eles acharam graça.

— Foi isso o que você fez, P. B.? — perguntou Gavallan.

— Naturalmente, meu caro. Foi em 1915 a primeira vez que estive Iá. Tinha vinte e sete anos, estava de licença do Terceiro Regimento de Lanceiros de Bengala. — Soltou um suspiro, parodiando um jovem enamorado. — Ela era da Geór­gia, uma princesa.

Todos riram baixinho junto com ele.

— Qual foi o seu verdadeiro motivo para ir para Caxe­mira? — indagou Dunross.

— Eu tinha sido destacado por dois anos para o estado-maior indiano. Toda aquela área, o Hindu Kush, o Afeganistão e o que é agora chamado de Paquistão, nas fronteiras da Rússia e da China, sempre foi perigosa e sempre será. Depois, fui man­dado para Moscou... no final de 17. — O rosto dele ficou um pouco mais tenso. — Eu estava Iá durante o Putsch, quando o verdadeiro governo de Kerenski foi derrubado por Lênin, Trótski e seus bolchevistas...

O elevador parou. Eles saltaram. A porta da frente do seu apartamento estava aberta, seu Criado Número Um Shu à espera.

— Entrem e fiquem à vontade — disse P. B. jovialmente. — O banheiro das senhoras fica à esquerda, o dos cavalheiros à direita, champanha na ante-sala... mostro a casa a vocês daqui a pouco. Ah, Ian, queria usar o telefone?

— Sim.

— Vamos, pode usar o meu gabinete. — Desceu um cor­redor ladeado por belos quadros e uma rara coleção de ícones. O apartamento era espaçoso, quatro dormitórios, três ante-salas, uma sala de jantar que acomodava vinte pessoas sentadas. O gabinete dele ficava no extremo oposto do corredor. Três pare­des eram cobertas de livros. Couro velho, cheiro de bons charutos, uma lareira. Conhaque, uísque e vodca em garrafas de cristal. E porto. Logo que a porta se fechou, a preocupação dele aumentou. — Quanto tempo vai demorar? — perguntou.

— O mínimo que puder.

— Não se preocupe... eu farei sala para eles. Se você não voltar a tempo, apresentarei suas desculpas. Posso fazer mais alguma coisa?

— Faça pressão sobre o Tiptop.

Dunross lhe contara anteriormente sobre a possível transacão envolvendo a troca de Brian Kwok, embora nada sobre os papéis de Alan ou seus problemas com Sinders.

— Amanhã falarei com alguns amigos em Pequim, outros em Xangai. Talvez eles percebam a importância de nos ajudar.

Há muitos anos Dunross conhecia P. B. White, embora, como todos os demais, soubesse pouquíssimo do seu passado verdadeiro, de sua família, se tinha sido casado e tinha filhos, de onde vinha o seu dinheiro ou qual era o seu envolvimento real com o Victoria.

— Sou apenas uma espécie de conselheiro legal, embora já esteja aposentado há anos — dizia ele, vagamente, e mudava de assunto. Mas Dunross sabia que ele era um homem de muito charme, e com muitas namoradas igualmente discretas.

— A Casey é uma mulher e tanto, P. B. — falou, com um sorriso. — Acho que você ficou gamado!

— Também acho. Ah, se eu fosse uns trinta anos mais moço! E quanto a Riko! — As sobrancelhas de P. B. subiram Iá no alto. — Encantadora! Tem certeza de que é viúva?

— Absoluta.

— Gostaria de três dessas, por favor, tai-pan.

Soltou uma risadinha, dirigiu-se à estante de livros e aper­tou um botão. Parte da estante se abriu. Uma escada levava aos andares superiores. Dunross já se utilizara dela antes para conversas particulares com o diretor-chefe. Ao que soubesse, era o único estranho que tinha conhecimento do acesso secre­to... outros dos muitos segredos que apenas poderia revelar ao tai-pan que o sucedesse.

— Foi a Bruxa que o mandou fazer — Alastair Struan lhe contara na noite em que assumira o cargo. — Juntamente com isso. — Entregara-lhe a chave-mestra dos cofres indivi­duais nas caixas-fortes. — É política bancária que os Serralhei­ros Ch'ung Lien Loh Ltda. troquem as fechaduras. Apenas os nossos tai-pans sabem que somos donos daquela companhia.

Dunross devolveu o sorriso a P. B., rezando para que pu­desse ser tão jovem quando tivesse a idade dele.

— Obrigado.

— Não se apresse, Ian — disse P. B. White, entregando-lhe uma chave.

Dunross subiu as escadas, correndo suavemente para o pa­tamar do diretor-chefe. Destrancou uma porta que dava para um elevador. A mesma chave destrancava o elevador. Havia apenas um botão. Trancou a porta externa e apertou o botão. O elevador tinha sido bem lubrificado, e era silencioso. Final­mente parou, e a porta interna se abriu. Ele empurrou a externa. Estava no gabinete do diretor-chefe. Johnjohn levantou-se, cansado.

— Mas de que diabo se trata, Ian?

Dunross fechou a porta falsa, que se encaixava perfeita­mente na estante de livros.

— O P. B. não lhe contou? — perguntou, a voz mansa, sem demonstrar nada da tensão que sentia.

— Disse que era para eu levá-lo até as caixas-fortes logo mais para apanhar alguns papéis, para por favor deixá-lo entrar, e que não havia necessidade de incomodar Havergill. Mas por que toda essa encenação de capa-e-espada? Por que não usar a porta da frente?

— Deixe disso, Bruce. Ambos sabemos que você tem a autoridade necessária para abrir a caixa-forte para mim.

Johnjohn começou a dizer qualquer coisa, mas mudou de idéia. O diretor-chefe dissera, antes de viajar:

— Faça o favor de reagir favoravelmente a qualquer su­gestão de P. B., certo?

  1. B. chamava pelo primeiro nome o governador, a maio­ria dos "super-vips" visitantes, e compartilhava da linha direta do diretor-chefe para o pessoal deles que ainda operava em Xangai e Pequim, secretamente.

— Está certo — disse.

Os passos deles ecoaram no vasto andar principal do ban­co parcialmente iluminado. Johnjohn cumprimentou um dos guardas-noturnos que fazia a sua ronda, depois apertou o botão do elevador que levava às caixas-fortes, abafando um bocejo nervoso.

— Santo Deus, estou estourado.

— Foi você que arquitetou a compra de controle do Ho-Pak, não foi?

— Foi, sim, mas se não fosse pelo seu golpe fantástico com a General Stores, não creio que o Paul... bem, aquilo ajudou muito. Um golpe fantástico, Ian, se conseguir mesmo realizá-lo.

— Já está no papo.

— Qual o banco japonês que está lhe financiando os dois milhões?

— Por que forçaram o pedido de demissão antecipado de Richard Kwang?

— Hem? — Johnjohn fitou-o sem entender. O elevador chegou. Entraram nele. — O quê?

Dunross explicou o que Phillip Chen lhe contara.

— Isso não é correto. Um diretor do Victoria tendo que assinar um pedido de demissão sem data, como uma operação de dois cents? Não é?

Johnjohn sacudiu a cabeça devagar.

— Não, isso não fazia parte do meu plano. — O cansaço dele sumira. — Posso entender por que está preocupado.

— "Puto da vida" seria a expressão mais apropriada.

— Paul deve ter planejado uma situação em compasso de espera até o chefe voltar. Toda essa operação abre precedentes, portanto dá para você...

— Se eu conseguir o dinheiro do Tiptop para vocês, quero esse papel rasgado, e que Richard Kwang tenha direito a um voto livre.

Após uma pausa, Johnjohn falou:

— Eu o apoiarei no que for razoável... Até o chefe vol­tar. Então, ele poderá decidir.

— É justo.

— Com quanto o Royal Belgium-First Central está apoiando você?

— Pensei que você tinha falado num banco japonês.

— Ora, qual é, amigão, todo mundo está sabendo. Quanto?

— Bastante, o bastante para tudo.

— Ainda somos donos da maioria dos seus títulos, Ian.

— Não faz diferença — disse Dunross, dando de ombros. — Ainda temos votação majoritária no Victoria.

— Se não conseguirmos"o dinheiro da China, o First Cen­tral não o salvará de um colapso.

Dunross deu de ombros de novo.

As portas do elevador se abriram. As luzes baixas nas caixas-fortes lançavam sombras duras. A imensa grade diante deles parecia uma porta de cela de prisão para Dunross. John­john destrancou-a.

— Vou demorar uns dez minutos — disse Dunross, com um leve brilho no olhar. — Tenho que achar um determinado documento.

— Está bem. Vou destrancar a sua porta para você... — Johnjohn se deteve, as feições delineadas sob a luz do teto. — Ah, esqueci, você tem a sua chave-mestra.

— Serei o mais rápido que puder. Obrigado.

Dunross entrou na penumbra, dobrou o corredor e foi dire­to para o grupo mais afastado de cofres individuais. Ao chegar Iá, certificou-se de que não tinha sido seguido. Todos os seus sentidos estavam agora aguçados. Enfiou as duas chaves nas fechaduras, que se destrancaram.

Tirou do bolso a carta de Alan que dava os números das páginas especiais espalhadas pelas pastas, depois uma lanterna elétrica, uma tesoura, e um isqueiro Dunhill a butano que Pe­nelope lhe dera quando ele ainda fumava. Rapidamente, ergueu o fundo falso da caixa de depósito e tirou de Iá as pastas.

"Quem me dera eu pudesse destruí-las agora e acabar com tudo isso", pensou. "Conheço tudo o que há nelas, tudo de importante, mas preciso ser paciente e esperar. Vai chegar a hora em que eles (sejam Iá quem forem, além do sei, da CIA, e da RPC) não estarão mais me seguindo. Aí poderei pegar as pastas em segurança e destruí-las."

Seguindo com grande cuidado as instruções de Alan, acen­deu o isqueiro e balançou-o de Iá para cá, por baixo do qua-drante inferior direito da primeira página especial. Dali a um momento, uma confusão sem sentido de símbolos, letras e números começou a aparecer. À medida que o calor as fazia surgir, as letras impressas no quadrante começavam a desapa­recer. Logo tinham todas desaparecido, e apenas sobrara o código. Cortou com a tesoura cuidadosamente o quadrante e botou a pasta de lado. Alan tinha escrito: "O papel não pode ser relacionado às pastas, tai-pan, nem, creio eu, as informações lidas senão pelas mais altas personalidades do país".

Um ligeiro ruído o sobressaltou, e ele olhou para o lado. Seu coração pulsava em seus ouvidos. Um rato dobrou correndo uma parede de caixas e sumiu. Ele esperou, mas não houve mais perigo.

Dali a um momento, estava calmo de novo. Agora, a pasta seguinte. Novos códigos apareceram, depois que as letras su­miram.

Dunross trabalhava contínua e eficientemente. Quando a chama começou a enfraquecer, estava preparado. Encheu de novo o isqueiro e prosseguiu. Agora, a última pasta. Recortou o quadrado com cuidado e pôs no bolso os onze pedaços de papel, depois recolocou as pastas de volta no seu esconderijo.

Antes de trancar de novo a caixa de depósito bancário, apanhou um título para servir de camuflagem, e colocou-o ao lado da carta de Alan. Nova hesitação. Depois, protegendo com o corpo a carta de Alan, tocou fogo nela. O papel retorceu-se enquanto pegava fogo e queimava.

— O que está fazendo?

Dunross virou-se bruscamente e fitou a silhueta.

— Ah, é você. — Recomeçou a respirar. — Nada, Bruce. Na verdade, é apenas uma antiga carta de amor que nem deve­ria ter sido guardada.

A chama se apagou, e Dunross transformou as cinzas em pó e espalhou os restos.

— Ian, está encrencado? Muito encrencado? — pergun­tou Johnjohn suavemente.

— Não, meu velho. É apenas o problema com o Tiptop.

— Tem certeza?

— Tenho. — Com ar cansado, Dunross sorriu para o ou­tro e pegou um lenço para enxugar a testa e as mãos. — Des­culpe toda essa trabalheira.

Afastou-se, caminhando com firmeza, seguido por John­john. O portão bateu às costas deles. Dali a um momento, o elevador se abriu e se fechou suavemente, e depois houve o silêncio, quebrado apenas pelas corridas dos ratos e o leve sibilar do ar-condicionado. Uma sombra se moveu. Silenciosa­mente, Roger Crosse saiu de trás de um grupo alto de caixas e postou-se diante da seção do tai-pan. Sem pressa, pegou uma pequena câmara fotográfica Minox, um flash e um molho de chaves-mestras. Logo o cofre de Dunross estava aberto. Os dedos longos de Crosse acharam o compartimento falso e tiraram de Iá as pastas. Muito satisfeito, empilhou-as cuidado­samente, encaixou o flash na abertura apropriada, e, com habi­lidade e prática, começou a fotografar as pastas, página por página. Quando chegou a uma das páginas especiais, exami­nou-a, e ao pedaço que faltava. Um sorriso sombrio perpassou pelo seu rosto. Logo a seguir continuou, sem fazer barulho.

 

                 Domingo, 6h30m

Koronski saiu do saguão do Hotel Nove Dragões e cha­mou um táxi, dando as instruções ao chofer num cantonense passável. Acendeu um cigarro e desabou no banco de trás, dando uma olhada profissional pela vidraça, para ver se não estava sendo seguido, o que era improvável. Na verdade, não havia risco. Seus documentos como Hans Meikker eram impecáveis, seu disfarce esporádico como jornalista estrangeiro de um grupo de revistas da Alemanha Ocidental era real, e visitava Hong Kong freqüentemente, como rotina. Seus olhos o tran­qüilizaram. Depois virou-se para olhar o povo, perguntando-se quem deveria ser interrogado por meio de substâncias químicas, e onde. Era um homem baixo, bem-alimentado, de aparência comum, óculos sem aros.

Atrás dele, a cerca de cinqüenta metros, entrando e saindo do tráfego, vinha um Mini pequeno e amassado. Tom Conno-chie, o agente da CIA, estava no banco de trás, e um dos seus assistentes, Roy Wong, dirigia.

— Está indo para a esquerda.

— Estou vendo. Fique calmo, Tom. Está me deixando nervoso, puta que o pariu!

Roy Wong era um americano de terceira geração, formado em literatura, e agente da CIA há quatro anos, designado para Hong Kong. Guiava com perícia, observado atentamente por Connochie, que estava com um aspecto amarfanhado e muito cansado. Ele passara a maior parte da noite acordado, com Rosemont, tentando destrinchar a inundação de instruções, pe­didos e ordens altamente sigilosos gerados pelas cartas intercep­tadas de Thomas K. K. Lim. Pouco depois da meia-noite, um dos seus informantes no hotel lhes dera a dica de que Hans Meikker acabara de se registrar por dois dias, vindo de Bangkok. Havia anos que ele constava da lista deles como um possível risco de segurança.

— Filho da puta! — exclamou Roy Wong, quando, de repente, houve um congestionamento de tráfego na rua estreita e barulhenta próxima ao cruzamento movimentado de Mong Kok.

Connochie enfiou a cabeça pela janela.

— Ele também está fodido, Roy. Uns vinte carros adiante. Dali a pouco, o congestionamento começou a se desfazer, depois piorou de novo, por causa de um caminhão com excesso de carga. Quando as coisas se normalizaram, a presa havia su­mido.

— Merda!

— Dê umas voltas. Talvez a gente tenha sorte e o des­cubra.

Dois quarteirões adiante, Koronski saltou do táxi e desceu um beco fervilhante de gente, dirigindo-se para outra rua su­perlotada, outro beco e o cortiço de Ginny Fu. Subiu as escadas sujas até o andar superior. Bateu três vezes numa porta suja. Suslev mandou que entrasse e trancou a porta atrás dele.

— Bem-vindo — disse suavemente, em russo. — Fez boa viagem?

— Sim, camarada comandante, muito boa — replicou Koronski, também falando baixo, por hábito.

— Venha sentar-se.

Suslev indicou uma mesa onde havia café e duas xícaras. A sala era desleixada, com poucos móveis. As janelas, cobertas por persianas sujas.

— O café é bom — falou Koronski, educadamente, achando que era pavoroso, nada que se comparasse ao café à moda francesa das exóticas Bangkok, Saigon e Phnom Penh.

— É o uísque — disse Suslev, a fisionomia dura.

— O Centro ordenou que eu fique à sua disposição, ca­marada comandante. O que quer que eu faça?

— Há um homem aqui que tem uma memória fotográfica. Precisamos saber o que há nela.

— Onde o cliente deve ser interrogado? Aqui? Suslev sacudiu a cabeça.

— A bordo do meu navio.

— Quanto tempo temos?

— Todo o tempo de que você precisar. Nós o levaremos conosco para Vladivostok.

— É muito importante obter informações de qualidade?

— Muitíssimo.

— Nesse caso, preferiria fazer a investigação em Vladi­vostok... posso dar-lhe sedativos e instruções especiais que manterão o cliente dócil durante a viagem para Iá, e que come­çarão o processo de amaciamento.

Suslev repensou o problema. Precisava da informação de Dunross antes de chegar a Vladivostok.

— Não pode vir comigo no meu navio? Zarpamos com a maré, à meia-noite.

Koronski hesitou.

— Recebi ordens do Centro para prestar-lhe assistência, contanto que não arrisque o meu disfarce. Se fosse para o seu navio, isso sem dúvida aconteceria... o navio certamente es­tará sob vigilância. Se eu sumir do hotel, hem?

Suslev balançou a cabeça, concordando. "Não faz mal", pensou. "Sou um interrogador tão bem treinado quanto Ko­ronski, embora nunca tenha feito um interrogatório em profun­didade com substâncias químicas."

— Como se faz um interrogatório com a ajuda de subs­tâncias químicas?

— É muito simples. Injeções intravenosas de um agente químico que chamamos de Pentothal-V6, duas vezes ao dia, durante dez dias, com intervalos de doze horas... depois que o cliente estiver num estado mental adequado, assustado e deso­rientado, graças ao método costumeiro de dormir-acordar, se­guido por quatro dias de ausência de sono.

— Temos um médico a bordo. Será que ele pode aplicar as injeções?

— Sim, claro. Posso sugerir-lhe que eu escreva o modo de agir e lhe forneça todas as substâncias químicas necessárias? Você fará o interrogatório?

— Sim.

— Se seguir o procedimento estabelecido, não terá pro­blemas. A única coisa séria a lembrar é que, uma vez que o Pentothal-V6 seja administrado, a mente do cliente fica como uma esponja molhada. É preciso muito carinho e um cuidado ainda maior para extrair a quantidade exata de água, a infor­mação, no ritmo exato, ou então a mente ficará permanente­mente danificada, e todas as outras informações perdidas para sempre. — Koronski soltou baforadas do seu cigarro. — É fácil perder um cliente.

— É sempre fácil perder um cliente — falou Suslev. — Qual a eficácia desse Pentothal-V6?

— Tivemos grandes sucessos e alguns fracassos, camarada comandante — replicou Koronski, cautelosamente. — Se o cliente for bem preparado e saudável, estou certo de que terá êxito.

Suslev não respondeu, apenas deixou a mente reexaminar o plano apresentado tão entusiasticamente por Plumm no fim da noite anterior, plano com o qual Crosse concordara relutan­temente.

— É uma barbada, Grigóri, tudo está se encaixando. Agora que o Dunross não vai para Taipé, virá à minha festa. Dar-lhe-ei uma bebida drogada, que o fará enjoar pra burro... será fácil fazer com que vá se deitar num dos quartos... a mesma droga o fará dormir. Logo que os outros tiverem ido embora (e a festa vai ser curtinha, das seis às oito), eu o colocarei num baú e o levarei até o carro pela entrada lateral. Quando derem por falta dele, direi que o deixei dormindo no quarto e que não tenho idéia da hora em que ele saiu. Bem, como vamos colocar o baú a bordo?

— Isso não é problema — disse ele. — Mande entregá-lo no barracão 7 do estaleiro de Kowloon. Estamos recebendo todo tipo de suprimentos a granel e mercadorias, já que nossa partida foi antecipada, e mal se examina o que sai de Hong Kong. — Suslev acrescentara, com divertimento sombrio: — Existe até mesmo um caixão, se precisarmos dele. O corpo de Voranski vem do necrotério as vinte e três horas, uma entrega especial. Filhos da mãe! Por que Nosso Amigo não apanhou os filhos da mãe que o assassinaram?

— Está fazendo o que pode, Grigóri. Está, sim, juro. Logo os apanhará... mas, o que é mais importante, este plano vai funcionar!

Suslev balançou a cabeça, concordando com seus botões. "É, é exeqüível. E se o tai-pan foi interceptado e descoberto? Não sei de nada, Boradinov não sabe de nada, embora seja o res­ponsável, e eu simplesmente zarparei deixando Boradinov levar a culpa, se for necessário. Roger dará cobertura a tudo. Ah, sim", pensou, sombriamente, "dessa vez será o pescoço do Roger no cepo britânico, se eu não tiver cobertura. Plumm tem razão. O seqüestro do tai-pan pelos Lobisomens ajudará a criar o caos completo por algum tempo, sem dúvida com quase nenhum risco... tempo bastante para cobrir o desastre do Metkin e a intercepção das armas."

Ligara para Banastasio naquela noite, para se certificar de que o projeto da Par-Con estava em andamento, e ficou cho­cado ao saber da reação de Bartlett.

— Mas, sr. Banastasio, o senhor nos garantiu que teria tudo sob controle. O que pretende fazer?

— Pressão, sr. Marshall — disse Banastasio apaziguado-ramente, usando o pseudônimo pelo qual o conhecia. — Pressão até o fim. Farei a minha parte, o senhor faça a sua.

— Ótimo. Então prossiga com seu encontro em Macau.

Garanto que um carregamento substituto estará em Saigon den­tro de uma semana.

— Mas esses palhaços aqui já disseram que não negocia­rão sem carregamento nas mãos.

— Ele será entregue diretamente aos nossos amigos viet-congues em Saigon. Pode fazer os arranjos que achar necessários para o pagamento.

— Claro, claro, sr. Marshall. Onde vai ficar em Macau? Onde posso entrar em contato com o senhor?

— Estarei no mesmo hotel — dissera-lhe, sem ter inten­ção de fazer contato. Em Macau, outro controlador com o mesmo pseudônimo cuidaria daquela parte da operação.

Sorriu consigo mesmo. Pouco antes de deixar Vladivostok, o Centro lhe ordenara que fosse o controlador daquela operação independente, codinome King Kong, que fora montada por um dos aparelhos do KGB em Washington. Só o que ele sabia do plano é que iam mandar armas avançadas, altamente secretas, para os vietcongues em Saigon, através da mala diplomática. Em troca, e em pagamento pela informação, ópio seria entre­gue a bordo em Hong Kong... a quantidade dependendo do número de armas contrabandeadas.

— Quem bolou isso merece uma promoção imediata — dissera ele ao Centro, encantado, e escolhera o pseudônimo de Marshall por causa do general Marshall e seu plano, que todos sabiam havia arruinado a tomada imediata e total da Europa pelos soviéticos, no final dos anos 40. "Esta é a nossa vingança, o nosso Plano Marshall ao contrário", pensou.

Abruptamente, riu em voz alta. Koronski esperou, atenta­mente, calejado demais para perguntar o que havia de tão divertido. Mas, sem pensar, analisara a risada. Havia medo nela. O medo era contagioso. Gente com medo comete erros. Erros prendem inocentes em armadilhas.

"É", pensou, inquieto, "esse homem cheira a covardia. Mencionarei o fato no meu próximo relatório, mas delicada­mente, para o caso de ele ser importante."

Ergueu os olhos e viu que Suslev o observava, e pergun­tou-se, nauseado, se o homem lera os seus pensamentos.

— Sim, camarada comandante?

— Quanto tempo vai demorar para escrever as instru­ções?

— Alguns minutos. Posso fazê-lo agora, se desejar, mas terei que voltar ao hotel para pegar as substâncias químicas.

— Quantos tipos diferentes deverão ser usados?

— Três: um para fazer dormir, outro para acordar, e o último, o Pentothal V6. A propósito, ele deve ser mantido em temperatura baixa até ser usado.

— Apenas o último é aplicado na veia?

— É.

— Ótimo, então anote tudo. Agora. Tem papel? Koronski fez que sim, e tirou um pequeno caderno de

notas do bolso da calça.

— Prefere em russo, inglês, ou taquigrafia?

— Russo. Não há necessidade de escrever a técnica de acordar-dormir-acordar. Eu a usei muitas vezes. Só a última fase, e não cite nominalmente o Pentothal-V6, chame-o apenas de remédio. Compreendeu?

— Perfeitamente.

— Ótimo. Quando tiver acabado, coloque-o ali. — Indi­cou uma pequena pilha de jornais usados sobre o sofá comido de traças. — Ponha-o no segundo de cima para baixo. Apanha­rei depois. Quanto às substâncias químicas, há um banheiro de homens no andar térreo do Hotel Nove Dragões. Prenda-as com adesivo à parte de dentro da tampa, no último reservado da direita... e por favor, esteja no seu quarto às nove da noite, para o caso de eu precisar de algum esclarecimento. Está claro?

— Sem dúvida.

Suslev se levantou. Imediatamente Koronski fez o mesmo, estendendo-lhe a mão.

— Boa sorte, camarada comandante.

Suslev fez um sinal de cabeça cortês, apropriado a um inferior, e se retirou. Foi até o fim do corredor, atravessou uma porta empenada e subiu uma escada até o telhado. Sentiu-se melhor ao ar livre. O cheiro do quarto e o cheiro de Korons­ki o haviam desagradado. O mar o chamava, o oceano amplo e limpo, o cheiro de algas marinhas. "Será bom estar nova­mente no mar, longe da terra. O mar, o oceano e o navio man­têm a sanidade da gente."

Como a maioria dos telhados em Hong Kong, aquele es­tava lotado das mais diversas moradias improvisadas, o espaço alugado... a única alternativa para as encostas de lama super­lotadas de favelas que ficavam nos Novos Territórios e nas colinas de Kowloon ou Hong Kong. Cada centímetro de espaço na cidade fora ocupado havia muito pelo vasto fluxo de imigran­tes. A maioria das favelas era ilegal, como todas as moradias nos telhados, e conquanto as autoridades as proibissem e deplo­rassem, essas transgressões eram sabiamente ignoradas, pois para onde mais iriam aqueles infelizes? Não havia esgotos, água, nem a mais elementar higiene, mas ainda era melhor do que nas ruas. Do alto dos telhados, o método de se desfazer das coisas era arremessá-las para baixo. Os yan de Hong Kong sempre caminhavam no centro da rua, e nunca na calçada, mesmo que houvesse uma.

Suslev foi se abaixando por sob os varais de roupa, pisan­do o lixo trazido pelo mar, indiferente às obscenidades auto­máticas que o acompanhavam, divertindo-se com os molecotes que corriam à sua frente, gritando "Quai loh... quai loh!", rindo juntos, estendendo as mãos. Ele era yan de Hong Kong demais para dar-lhes algum dinheiro, embora sua pobreza e bom humor o emocionassem; assim, apenas xingou-os cordialmente e tocou de leve algumas cabeças tosadas.

No outro extremo do telhado, a entrada para o cortiço de Ginny Fu se projetava como um funil antigo. A porta estava entreaberta. Ele desceu.

— Alô, Gregy — falou Ginny Fu, ofegante, abrindo a porta da frente para ele. Estava vestida como ele mandara, num traje desmazelado de cule, com um grande chapéu de palha cônico descendo-lhe pelas costas, o rosto e as mãos sujos. — Que tal estou? Como artista de cinema, heya?

— Greta Garbo em pessoa — disse ele, com uma risada, enquanto ela corria para os seus braços e lhe dava um grande abraço.

— Quer mais "fuque-fuque" antes de partirmos, heya?

— Niet. Tempo de sobra nas próximas semanas. De so­bra, heya? — Pousou-a no chão. Dormira com ela de madru­gada, mais para provar sua virilidade do que por desejo. "Esse é o problema", pensou. "Não há desejo. Ela é enfadonha." — Bem, você entendeu o plano, heya?

— Oh, sim — disse ela, com imponência. — Vou até o barracão 7 e junto-me aos cules, carrego os fardos para navio. No navio, vou para a porta em frente à escada, entro e dou papel. — Tirou-o do bolso para mostrar que estava em segu­rança. No papel estava escrito em russo "cabine 3". Boradinov a estaria esperando. — Na cabine 3 posso usar banheiro, vestir roupas que você comprou, e esperar. — Outro grande sorriso. — Heya?

— Excelente!

As roupas tinham sido baratas, e comprá-las evitava levar bagagem. Era muito mais simples sem bagagem. Bagagem cha­maria a atenção. Nada sobre ela devia ser notado.

— Certeza não precisa levar nada, Gregy? — perguntou, ansiosa.

— Não, só maquilagem, coisas de mulher. Tudo no bolso, compreendeu?

— Claro — respondeu, altiva. — Sou idiota?

— Ótimo. Então pode ir indo. Mais uma vez ela o abraçou.

— Ah, obrigado férias, Gregy... vou ser melhor do mun­do — falou, e foi embora.

O encontro com Koronski dera-lhe fome. Foi até a gela­deira velha e achou os chocolates que buscava. Comeu um deles, depois acendeu o fogão e começou a fritar uns ovos. Sua ansiedade começou a voltar. "Não se preocupe", ordenou a si mesmo. "O plano vai dar certo, você porá as mãos no tai-pan, e tudo será rotina no quartel-general da polícia.

"Deixe essas coisas de lado. Pense na Ginny. Talvez no mar não seja tão enfadonha. Ela ocupará as noites, algumas noites. O tai-pan, os dias, até atracarmos. A essa altura ele estará vazio, ela desaparecerá numa nova vida, esse perigo terá deixado de existir para sempre, e eu irei para a minha dacha, onde a diaba da Zergueiev estará esperando, e nós brigaremos, e ela me dirá todos os palavrões até que eu perca a paciência, e lhe arranque as roupas do corpo, talvez use o chicote de novo, e ela lutará e lutará até que eu entre nela à força e goze, goze levando-a comigo às vezes, Khristos, como eu adoraria que fosse sempre. Depois dormir, sem saber quando ela me matará enquanto durmo. Mas ela já foi avisada. Se alguma coisa me acontecer, meus homens a entregarão aos leprosos no leste de Vladivostok, com o resto da família dela."

O rádio deu o noticiário das sete em inglês:

"Bom dia. Aqui fala a Rádio Hong Kong. Espera-se mais chuva forte. O Victoria Bank confirmou oficialmente que assumirá todas as dívidas dos clientes do Ho-Pak, e pede a estes que façam fila pacificamente se necessitarem do dinheiro na segunda-feira.

"Durante a noite houve numerosos deslizamentos de terra e lama por toda a colônia. Os lugares mais atingidos foram as favelas acima de Aberdeen, Sau Ming Ping, e Sui Fai Terrace, em Wanchai, onde seis grandes deslizamentos de terra afetaram prédios naquela área. Ao todo, trinta e três pessoas pereceram, e teme-se que ainda haja muitas outras soterradas.

"Não há nenhuma novidade quanto ao brutal assassinato e seqüestro do sr. John Chen pela quadrilha dos Lobisomens. Foram oferecidas recompensas de cem mil dólares por informa­ções que conduzam à sua captura.

"Notícias de Londres confirmam que as colheitas deste ano na URSS fracassaram novamente..."

Suslev não ouviu o resto do noticiário. Sabia que as notí­cias de Londres eram verdadeiras. Previsões altamente secretas do KGB haviam revelado que as colheitas ficariam mais uma vez abaixo do que era necessário até para a subsistência.

"Khristos, por que diabo não conseguimos nos alimen­tar?", tinha vontade de gritar, tendo visto de perto a fome, a intumescência e as dores, além das histórias pavorosas que o pai e a mãe lhe tinham contado.

"Então vai haver a fome mais uma vez, mais uma vez o apertar dos cintos, ter que comprar trigo do exterior, usando a nossa moeda estrangeira ganha a duras penas, nosso futuro em perigo, perigo terrível, a comida o nosso calcanhar-de-aquiles. Nunca o bastante. Nunca técnicos, tratores, fertilizantes ou dinheiro bastante, todo o dinheiro de verdade indo para armas, exércitos, aeroplanos e navios, em primeiro lugar, muito mais importante ficarmos fortes o bastante para nos protegermos dos porcos capitalistas e dos porcos revisionistas chineses e levar­mos a guerra até eles, destroçando-os antes que nos destrocem, mas nunca comida o bastante para nós e para nossos Estados-tampão: os Bálcãs, a Hungria, a Tchecoslováquia, a Polônia, a Alemanha Oriental, as terras bálticas. Por que é que aqueles filhos da mãe podem alimentar-se, na maioria das vezes? Por que é que falsificam os dados relativos a suas colheitas e nos tapeiam, mentem e roubam de nós? Nós os protegemos, e o que fazem? Amarram a cara e nos odeiam, e no entanto, sem nossos exércitos e o KGB para manterem os dissidentes revisio­nistas nojentos na linha, eles fomentariam rebeliões (como na Alemanha Oriental e Hungria) e virariam as massas estúpidas contra nós.

"Mas a fome causa revolução. Sempre. A fome sempre fará com que as massas se sublevem contra o governo. Então, o que poderemos fazer? Mantê-los acorrentados (a todos) até esmagarmos os Estados Unidos e o Canadá e tomarmos conta dos seus trigais. Então, nosso sistema duplicará a colheita deles.

"Não se tente enganar", falou consigo mesmo, agoniado. "Nosso sistema agrícola não funciona. Nunca funcionou. Um dia funcionará. Nesse meio tempo, não conseguimos nos alimen­tar. Aqueles lavradores de merda, sem mãe, deviam..."

— Pare com isso — resmungou Suslev, em voz alta —, você não é responsável, o problema não é seu. Cuide dos seus próprios problemas e tenha fé no partido e no marxismo-leninismo.

Os ovos já estavam prontos, e ele preparou torradas. A chuva fustigava as janelas abertas. Cessara havia uma hora a torrente que durara a noite inteira, mas do outro lado da rua e acima do cortiço do lado oposto havia nuvens escuras. "Vem mais chuva por aí", pensou, "muito mais. Nesta droga de lugar ou há a maldita seca ou a maldita enchente!" Uma rajada de vento fustigou um dos barracos improvisados de papelão ensopado no telhado, fazendo com que desabasse. Imediata­mente tiveram início os consertos estóicos, crianças que mal conseguiam andar já ajudando.

Com mãos hábeis, apreciando a ordem, ele arrumou um lugar para si à mesa, cantarolando ao compasso da música do rádio. "Está tudo jóia", tranqüilizou-se. "Dunross irá à festa, Koronski fornecerá os meios, Plumm, o cliente, Roger, a prote­ção, e só o que tenho a fazer é ir ao qg da polícia por cerca de uma hora, depois voltar calmamente para o meu navio. Com a maré da meia-noite, mando Hong Kong à merda, deixando os Lobisomens a enterrar os mortos..."

Os cabelos da sua nuca ficaram todos arrepiados ao ouvir a sirene de um carro de polícia que se aproximava. Ficou para­lisado. Mas a sirene continuou o seu caminho. Logo o ruído desapareceu. Estoicamente, sentou-se e começou a comer. E então o telefone secreto tocou.

 

                   7h30m

O pequeno helicóptero Bell sobrevoou a cidade, logo abaixo da cerração, e continuou subindo as encostas para ultrapassar o funicular do Pico e os múltiplos prédios altos que pontilhavam os morros íngremes. Agora, o helicóptero estava quase na camada inferior das nuvens.

Cuidadosamente, o piloto subiu mais trinta metros, di­minuiu a velocidade e ficou pairando, depois viu a pista de pouso nublada nos terrenos da Casa Grande, perto de um grande jacarandá. Imediatamente, baixou para aterrar. Dunross já estava à espera. Abaixou-se para evitar as hélices em movi­mento, entrou no lado esquerdo do aparelho e colocou o cinto de segurança e os fones de ouvido.

— Bom dia, Duncan — cumprimentou, ao microfone. — Pensei que não fosse conseguir chegar até aqui.

— Nem eu — falou o homem mais velho, e Dunross ajustou o volume do fone de ouvido, para escutar melhor. — Duvido que consigamos voltar, tai-pan. A cerração está bai­xando muito depressa de novo. Melhor irmos logo, se é que vamos. Assuma o controle.

— Lá vamos nós.

Suavemente, a mão esquerda de Dunross torceu a garra do acelerador, inverteu suavemente a marcha e levantou a alavan­ca, enquanto a mão direita movia a alavanca de controle para a direita, para a esquerda, para a frente, para trás, fazendo um circulozinho suave, tateando e buscando o bolsão de ar que estava se formando direitinho... a mão esquerda controlando a velocidade, a subida ou a descida, a direita, a direção, os pés nos pedais do leme de direção, mantendo firme o aparelho instável, impedindo a força de torção. Dunross adorava dirigir helicópteros. Era um desafio muito maior do que pilotar aviões de asas fixas. Exigia muito mais concentração e perícia, e ele esquecia seus problemas enquanto voava, purificando-se. Mas raramente voava sozinho. O céu era para os profissionais ou para aqueles que voavam diariamente. Por isso ele sempre tinha um piloto-instrutor ao lado, mas a presença do outro homem não empanava o seu prazer.

Suas mãos sentiram o bolsão aumentando, e logo o heli­cóptero ergueu-se do chão alguns centímetros. Instantaneamen­te, ele corrigiu o leve desvio para a direita, causado por uma rajada de vento. Verificou os instrumentos, atento aos perigos, olhar Iá fora, ouvidos atentos à música do motor. Quando tudo estava estável, aumentou a inversão; enquanto erguia a alavanca esquerda, moveu a alavanca de controle um pouco para a frente e para a esquerda, compensando com os pés, e fez uma curva derrapante para a esquerda, ganhando altura e veloci­dade para descer montanha abaixo.

Logo que o aparelho se estabilizou, ele apertou o botão de transmissão da alavanca de controle, comunicando-se com o controle de tráfego aéreo em Kai Tak.

— Cuidado com a ré — disse Mac.

— Pronto. Desculpe.

Dunross corrigiu uma fração depressa demais, e se xingou, depois colocou o helicóptero em posição direitinho, voando macio, a trezentos metros acima do nível do mar, dirigindo-se para o outro lado da baía, para Kowloon, os Novos Territórios e a área da subida do morro.

— Vai mesmo subir o morro, tai-pan?

— Duvido, Duncan — falou ao microfone. — Mas queria dar o nosso passeio, de qualquer maneira. Há uma semana que espero por ele.

Duncan Maclver dirigia o pequeno negócio de helicópteros do aeroporto. A maior parte do seu comércio era local, espe­cialmente pesquisas encomendadas pelo governo. Às vezes a polícia o contratava, ou o Corpo de Bombeiros, ou a alfândega. Era um homem baixo, antigo membro da raf, com um rosto vincado, olhos muito amplos e vivos, que se moviam constan­temente.

Logo que Dunross estabilizou o aparelho, Maclver incli­nou-se para a frente e colocou círculos de papelão sobre os instrumentos, para forçar Dunross a voar apenas pelo tato e pelo ouvido, para escutar a arfagem e o tom; mais devagar significava que o motor estava dando mais de si, que estavam subindo — cuidado para não perder velocidade —, e mais de­pressa significava que estavam mergulhando, perdendo altitude.

— Tai-pan, olhe só para Iá. — Maclver apontou para a cicatriz que cortava uma das encostas logo antes de Kowloon; abria uma trilha por uma das imensas favelas. — Há desliza­mentos de terra por toda parte. Ouviu o noticiário das sete?

— Ouvi.

— Deixe-me pegar o controle um minuto.

Dunross tirou as mãos e os pés dos controles. Maclver deu um lindo mergulho para chegar mais perto da favela e examinar os estragos. Eram grandes. Talvez duzentos barracos estivessem espalhados e soterrados. Outros, junto ao desliza­mento, estavam agora mais precários do que antes. A fumaça dos incêndios que sempre acompanhavam os deslizamentos ainda pairava como uma cortina.

— Meu Deus! Que coisa terrível!

— Acordei de madrugada hoje. O Corpo de Bombeiros me pediu que os ajudasse na Colina Três, acima de Aberdeen. Há dois dias houve um deslizamento ali, e uma criança quase ficou soterrada. Ontem à noite houve novo desabamento no mesmo local. Muito perigoso. A área atingida mede sessenta metros por quinze, mais ou menos. Uns duzentos ou trezentos barracos sumiram, mas houve apenas dez mortos... uma sorte danada! — Maclver sobrevoou em círculo por um momento, tomou nota num bloquinho, depois levou o helicóptero de volta para a altitude e curso anteriores. Assim que ele ficou firme e estabilizado, falou: — É todo seu.

Dunross reassumiu os controles.

Sha Tin vinha surgindo no horizonte, no lado direito. Quando estavam perto, Maclver tirou as coberturas de pape­lão dos instrumentos.

— Ótimo — falou, verificando a leitura dos instrumen­tos. — Precisos.

— Teve algum serviço interessante, ultimamente?

— Tudo a mesma coisa. Tenho um vôo marcado para Macau, amanhã de manhã, se o tempo permitir.

— Lando Mata?

— Não, um americano chamado Banastasio. Cuidado com a ré! Olhe, Iá está o nosso destino.

A aldeia pesqueira de Sha Tin ficava perto de pistas que levavam aos morros onde se realizaria a subida. O percurso consistia em uma tosca estrada de terra batida, aberta na en­costa da montanha. No sopé das colinas havia alguns carros, alguns sobre reboques, e equipamentos de reboques, mas quase nenhum espectador. Normalmente haveria centenas, na maioria europeus. Era a única competição de carros na colônia. A lei britânica proibia o uso de qualquer parte do sistema público de rodovias para corridas, e esse era o motivo pelo qual o Grand Prix amador anual em Macau fora organizado conjuntamente pelo Clube de Carros Esporte e Rali de Hong Kong e o Con­selho Municipal Português. No ano passado, Guillo Rodríguez, da polícia de Hong Kong, vencera a corrida de sessenta voltas em três horas e vinte e seis minutos, a uma velocidade média de cento e quinze quilômetros horários, e Dunross, guiando um Lotus, e Brian Kwok, num Jaguar modelo E emprestado, disputavam palmo a palmo um segundo lugar, até que um pneu de Dunross estourou, fazendo-o entrar a toda na Curva do Pescador, e quase o matou no mesmo lugar em que o seu motor estourara, em 59, um ano antes de se tornar tai-pan.

Dunross agora se concentrava no pouso, sabendo que estariam sendo observados.

O helicóptero estava alinhado, a ré na posição correta para a descida, o vento à frente e à direita, rodopiando um pouco enquanto se aproximavam do chão. Dunross segurou o apa­relho meticulosamente. No local exato, ele corrigiu o rumo e parou, pairando, em controle total. Depois, mantendo tudo coordenado, soltou o acelerador, oh, tão de leve, erguendo a alavanca esquerda para mudar a arfagem das hélices a fim de amaciar a aterragem. As sapatas de pouso tocaram o chão. Dunross desacelerou completamente e baixou suavemente a ala­vanca até o fundo. Fora um dos melhores pousos que já fizera.

Maclver não falou nada, nem lhe fez um belo elogio, fingindo que era sempre assim, e observou enquanto Dunross iniciava o processo de desligamento.

— Tai-pan, por que não deixa que eu acabe para o senhor? — disse. — Aqueles sujeitos parecem um tanto ansiosos.

— Obrigado.

Dunross manteve a cabeça abaixada e dirigiu-se ao grupo que vestia capas impermeáveis, os pés afundados na lama.

— Bom dia.

— Está terrível, tai-pan — falou George T'Chung, o filho mais velho de Shitee TChung. — Tentei experimentar com o meu carro, e ele atolou na primeira curva. — Apontou para a pista. O modelo E estava atolado, com um dos pára-lamas curvado. — Vou ter que arranjar um trator.

Novas gotas de chuva os molharam.

— Uma droga duma perda de tempo — falou Don Nikklin com azedume. Era um homem baixo e belicoso, de vinte e muitos anos. — Devíamos tê-la cancelado ontem.

"É verdade", pensou Dunross, satisfeito, "mas aí eu não teria tido a desculpa de voar, e o extremo prazer de vê-lo, aqui, com a sua manhã desperdiçada."

— Todos concordaram em tentar hoje. Era arriscado, mas concordaram — disse Dunross, suavemente. — Você estava presente. Seu pai também, não foi?

— Sugiro formalmente que a adiemos — disse McBride, apressadamente.

— Aprovado.

Nikklin voltou para o seu caminhão de quatro rodas novinho, com o seu Porsche envenenado sob uma cobertura de oleado.

— Sujeito simpático — comentou alguém.

Ficaram olhando enquanto Nikklin pôs o caminhão em movimento e se afastou com grande perícia na estrada de terra perigosa, passando pelo helicóptero, com o motor morrendo e as hélices parando de girar.

— Uma pena que ele seja um merda tão grande — falou alguém. — É um excelente motorista.

— Que Macau chegue logo, hem, tai-pai? — falou George T'Chung com uma risada, a voz aristocrática, o sotaque de internato inglês.

— É — disse Dunross, a voz cortante, louco para que novembro chegasse, para derrotar Nikklin de novo. Vencera-o três vezes, em seis tentativas, mas jamais vencera o Grand Prix. Os carros nunca eram fortes o bastante para agüentar o seu pé direito pesado. — Por Deus, desta vez vou vencer.

— Ah, não vai, não, tai-pan. Este ano é meu! Tenho um Lotus 22, um barato! Meu velho pagou tudo. Vai ver a traseira do meu carro nas sessenta voltas!

— Vou, uma ova! O meu novo modelo. E vai... Dunross se deteve. Um carro de polícia vinha deslizando e derrapando no lodaçal, aproximando-se dele. "Por que o Sinders veio tão cedo?", pensou, o estômago se contraindo. Dissera meio-dia. Involuntariamente, a mão se moveu para veri­ficar se o envelope estava em segurança no bolso. Seus dedos o tranqüilizaram.

Na véspera, quando retornara ao escritório de P. B. White, pegara novamente os onze pedaços de papel e os examinara à luz. Os códigos não tinham sentido para ele. "Ainda bem", pen­sou. Depois, fora até a máquina copiadora que estava ao lado da mesa de tampo de couro, e fizera duas cópias de cada página. Colocou cada grupo num envelope separado e lacrou-os. Num deles escreveu: "P. B. White — por favor, entregue isso ao tai-pan da Struan, sem abrir". Este, pôs num livro que escolheu ao acaso nas prateleiras, recolocando-o com grande cuidado. Seguindo as instruções de Alan, marcou o segundo com um G para Riko Gresserhoff, e colocou-o no bolso. La­crou os originais noutro envelope e também o guardou no bolso. Com uma verificação final de que a porta secreta estava ajustada no seu lugar, destrancou a porta e foi embora. Dali a alguns minutos, ele e Gavallan saíram com Casey e Riko, e, embora tivesse havido muitas oportunidades para entregar a Riko o seu envelope particularmente, resolvera que era melhor esperar até que os originais tivessem sido entregues.

"Será que devo entregar ao Sinders os originais agora ou ao meio-dia?", perguntara-se, observando o carro da polícia. O carro parou. O inspetor-chefe Donald C. C. Smyth saltou. Nem Sinders nem Crosse estavam com ele.

— Bom dia — cumprimentou Smyth polidamente, tocan­do o quepe com o bastão, o outro braço ainda na tipóia. — Com licença, sr. Dunross, foi o senhor que alugou o heli­cóptero?

— Foi, sim, inspetor-chefe — disse Dunross. — O que houve?

— Estou com um probleminha Iá embaixo na estrada, e vi o senhor chegar. Será que pode nos emprestar Maclver e o aparelho por uma hora... ou, se o senhor vai voltar agora, talvez pudéssemos usá-lo depois.

— Sem dúvida. Já estou de saída. A subida do morro foi cancelada.

Smyth lançou um olhar à pista aberta na montanha e ao céu e soltou um resmungo.

— Diria que foi uma medida sensata, senhor. Pode apos­tar que alguém iria sair ferido. Será que posso dar uma pala­vrinha ao Maclver?

— Claro. Não é nada sério, espero.

— Não, absolutamente. Mas é interessante. As chuvas desenterraram dois cadáveres na mesma área em que o corpo de John Chen foi encontrado.

Os outros se aproximaram.

— Os Lobisomens? — perguntou George T'Chung, chocado, — Mais vítimas de seqüestro?

— Supomos que sim. Os dois eram jovens. Um deles teve a cabeça esmagada, e o outro, pobre sacana, metade da cabeça cortada fora, aparentemente com uma pá. Os dois eram chineses.

— Meu Deus! — exclamou o jovem George T'Chung, quase sem cor.

Smyth balançou a cabeça, com azedume.

— Não ouviram falar de nenhum filho rico que tenha sido seqüestrado, ouviram?

Todos fizeram que não com a cabeça.

— Não estou surpreso — disse Smyth. — É uma burrice da parte das famílias das vítimas negociarem com os seqüestradores e ficarem caladas. Infelizmente, os cadáveres foram descobertos por gente local, portanto haverá manchetes até hoje à noite, daqui até Pequim.

— Quer levar os corpos de volta de helicóptero?

— Ah, não, tai-pan. Tenho pressa de trazer para cá alguns peritos do DIC para revistarem a área antes que as chuvas vol­tem. Precisamos tentar identificar os coitados. O senhor pode partir imediatamente?

— Sim, sem dúvida.

— Obrigado. Desculpe o incômodo. Uma pena o que houve com Noble Star. Mas apostarei a minha bolada no senhor no sábado.

Smyth fez um gesto cortês de cabeça e se afastou. George T'Chung estava francamente nervoso.

— Somos todos alvos para aqueles filhos da mãe, os Lobisomens. Você, eu, o meu velho, qualquer um. Pombas, como poderemos proteger-nos contra eles?

Ninguém lhe respondeu. A seguir, Dunross disse, com uma risada:

— Não há motivo para se preocupar, meu velho. Somos todos invioláveis.

 

                           10h01m

O telefone tocou na penumbra do quarto. Bartlett acor­dou, estremunhado.

— Alô?

— Bom dia, sr. Bartlett, aqui fala Claudia Chen. O tai-pan mandou perguntar se o senhor vai precisar do carro para alguma coisa.

— Não, não, obrigado. — Bartlett olhou para o relógio.

— Meu Deus! — resmungou em voz alta, espantado por ter dormido tanto. — Obrigado, obrigado, Claudia.

— A viagem para Taipé foi marcada para a outra sexta-feira, a partida na sexta e a volta na segunda ao meio-dia. É conveniente para o senhor?

— É, é, claro.

— Obrigada.

Bartlett desligou e recostou-se por um momento, desper­tando de vez. Espreguiçou-se gostosamente, feliz por não ter que fazer nada às pressas, curtindo o raro prazer de ser apenas um pouquinho preguiçoso.

Às quatro horas da madrugada pendurara o cartaz de "Não perturbe" na porta, desligara os telefones até as dez horas e fora dormir. Na noite anterior, Orlanda o levara até Aberdeen, onde alugara um Barco do Prazer. Tinham vagado pelos canais, a chuva tornando mais aconchegante a cabine coberta, o bra­seiro aquecendo, a comida quente e condimentada.

— Em Xangai cozinhamos com alho, pimenta-malagueta, pimentões e todo tipo de condimentos — ela lhe dissera, servindo-o, os pauzinhos uma extensão delicada de seus dedos.

— Quanto mais para o norte se vai, mais picante a comida, menos arroz se come, e mais pão e talharim. No norte come-se trigo, só na parte sul da China é que se come arroz, Linc. Mais?

Ele comera bem e tomara a cerveja que ela trouxera consigo. A noite fora feliz para ele, o tempo passando sem que percebessem, enquanto ela o regalava com histórias da Ásia e de Xangai, a mente hábil e alerta. Depois, mais tarde, a chuva batendo no toldo, os pratos retirados, os dois deitados lado a lado nas almofadas, dedos entrelaçados, ela dissera:

— Linc, desculpe, mas eu o amo. Ele fora pego de surpresa.

— Não precisa pedir desculpas — dissera, não estando ainda pronto para responder adequadamente.

— Ah, mas preciso, sim. Isso complica as coisas, com­plica muito as coisas.

"É", pensou ele. "É tão fácil para uma mulher dizer 'Eu o amo', e tão difícil para um homem, tão insensato para um homem, pois você fica amarrado. Esta é a palavra certa?" Novamente, não encontrou resposta.

Agora, deitado na cama, a cabeça apoiada nos braços, ficou rememorando a noite. Tocando e largando, depois as mãos se buscando, as dele e as dela, mas sem nada concluir. Não que ela o impedisse ou detivesse. Ele simplesmente se con-tivera. Definitivamente.

— Você nunca agiu assim antes — murmurou em voz alta. — Quando deixava uma garota excitada, ia até o fim. — Desejou ter ido, lembrando do quanto se haviam desejado. Mas as palavras "Não sou transa para uma noite, nem uma vagabunda eurasiana" ecoaram em seus ouvidos.

No táxi, indo para a casa dela, não se haviam falado, apenas ficado de mãos dadas. "Essa é a parte mais cretina", pensou, sentindo-se idiota, infantil, "apenas de mãos dadas. Se alguém tivesse me dito há um mês, há uma semana, que me contentaria com isso, teria dito que era um imbecil e apos­tado nisso.

"Dinheiro. Tenho mais do que o bastante para mim e Orlanda. Mas, e quanto a Casey? E à Par-Con? As primeiras coisas em primeiro lugar. Vejamos se Casey me fala do Mur­tagh e por que 'moitou' essa transação. Gornt? Gornt ou Dunross? Dunross tem classe, e se Banastasio está contra ele, isso já é um grande voto de confiança."

Depois que contara a Armstrong a teoria deles sobre o Banastasio, Armstrong dissera:

— Vamos ver o que conseguimos descobrir, embora as credenciais do sr. Gornt sejam absolutamente impecáveis na colônia. Pode ficar descansado que Vincenzo Banastasio vai fi­gurar no topo da nossa lista negra. Mas não é nos Estados Unidos que ele constitui uma verdadeira ameaça?

— Ah, é, sim. Mas já falei com Rosemont e...

— Ótimo. Fez muito bem. Ele é um bom homem. Esteve com Ed Langan?

— Não. Ele também é da CIA?

— Nem sei se, oficialmente, o sr. Rosemont o é, sr. Bart­lett. Deixe comigo. Ele teve alguma sugestão a fazer sobre as armas?

— Não.

— Bem, não se preocupe. Passarei sua informação adian­te e entrarei em contato com ele... é realmente muito bom.

Um pequeno tremor percorreu Bartlett. "Terá que ser mesmo muito bom para acertar a Máfia, se é que o Banastasio é realmente da Máfia."

Estendeu a mão para o telefone e ligou para o número do quarto de Casey. Não atenderam. Então ele ligou para a recepção, pedindo os seus recados. O encarregado disse que tudo já havia sido colocado sob sua porta.

— Quer que mandemos subir seus telegramas e telex?

— Claro, obrigado. Algum recado da parte de Casey Tcholock?

— Não, senhor. —• Obrigado.

Saltou da cama e foi até a porta. Entre os recados tele­fônicos, havia um envelope. Reconheceu a letra dela. Todos os recados eram comerciais, exceto um deles: "O sr. Banas­tasio ligou. Por favor, responda ao telefonema". Bartlett deixou o recado de lado. Abriu o envelope de Casey. O bilhete fora escrito às nove e quarenta e cinco e dizia: "Oi, Linc... não quis atrapalhar seu sono gostoso... volto Iá pelas seis. Di­virta-se!"

"Para onde será que ela foi?", perguntou-se distraida­mente.

Pegou o telefone para ligar para Rosemont, mas mudou de idéia e ligou para Orlanda. Ninguém atendeu. Discou de novo. O telefone tocava e tocava, sem parar.

— Merda! — exclamou, afastando o seu desapontamento. "Vocês combinaram almoçar juntos, então por que está tão chateado? Vão tomar um misto de café e almoço aqui no alto do Vic, com tempo de sobra para ficarem juntos, a refeição de domingo no lugar onde 'a nata vem almoçar, Linc. Ah, é formidável, o bufê quente e frio é o sucesso da Ásia. O melhor possível!' "

— Meu Deus, com tanta comida, na semana que vem estarei pesando uma tonelada!

— Não você, nunca, nunca, nunca. Se quiser, podemos fazer uma longa caminhada, ou, quando a chuva parar, joga­remos tênis. Faremos o que você quiser! Ah, Linc, eu o amo tanto...

Casey estava apoiada na amurada do cais de Kowloon, no meio do povo. Usava calças caqui e uma blusa de seda amarela, que revelavam o seu corpo sem exibi-lo, um suéter de caxe­mira combinando amarrado descuidadamente em torno do pes­coço, tênis, e na bolsa grande levava um maio... "Não que vá precisar dele hoje", pensou, o Pico envolto em nuvens até Mid Leveis, o céu quase negro a leste, e uma linha pesada de ventania e chuva quase tocando a ilha. Um pequeno helicópte­ro passou sobrevoando para cruzar o porto na direção da zona central. Viu quando ele pousou num dos prédios. "Não é o Edifício Struan? Claro que sim. Será que o Ian está Iá?

"Será que a subida do morro vai ser realizada? Ontem à noite ele disse que seria cancelada, mas que alguns deles pode­riam fazê-la, de qualquer jeito."

Então, seus olhos depararam com a lancha a motor que se aproximava. Era grande, cara, as linhas esguias, uma insíg­nia vermelha na popa, uma flâmula colorida no mastro. Ela enxergou Gornt ao leme. Vestia-se informalmente, as mangas da camisa enroladas, calças de lona, o cabelo negro despen-teado pela brisa do mar. Ele acenou, e ela retribuiu o aceno. Havia outros na ponte do convés principal: Jason Plumm, que conhecera nas corridas, Sir Dunstan Barre, que conhecera na casa do tai-pan... usava um elegante blazer azul e calças brancas, e Pugmire estava igualmente vestido de acordo.

Gornt encostou a embarcação pesada com habilidade, as defensas para fora, dois marinheiros de convés segurando as varas com gancho. Ela se dirigiu ao longo do embarcadouro na direção dos degraus molhados e escorregadios. Cinco moças chinesas já esperavam no cais, vestidas alegremente em roupas esportivas, rindo, tagarelando e acenando. Enquanto Casey observava, saltaram desajeitadamente para dentro do barco, ajudadas por um marinheiro, e chutaram para longe seus sapa­tos de salto alto. Uma se dirigiu para Barre, outra para Pugmire e a outra para Plumm, como velhas amigas; as outras duas foram alegremente para baixo.

"Puta que o pariu!", pensou ela, enojada. "É uma dessas festinhas." Começou a virar-se para ir embora quando viu Gornt debruçado sobre a amurada, observando-a.

— Alô, Casey, lamento quanto à chuva, suba a bordo!

A embarcação mergulhava e rodopiava no mar revolto, as ondas batendo nos degraus e no casco.

— Pode subir, é seguro — chamou ele. Reagindo imedia­tamente ao que considerou um desafio, ela desceu os degraus rapidamente, recusou a ajuda do marinheiro, esperou pelo mo­mento correto e saltou. — Você agiu como se já tivesse estado a bordo de um iate antes — disse Gornt com admiração, vindo recebê-la. — Bem-vinda a bordo do Sea Witch.

— Eu gosto de velejar, Quillan, mas acho que talvez esteja meio deslocada aqui.

— É? — Gornt franziu o cenho, e ela não percebeu ne­nhum desafio ou implicância na expressão dele. — Está se referindo às garotas?

— Estou.

— São apenas convidadas dos meus convidados. — Os olhos dele a fitaram, penetrantes. — Pensei que quisesse ser tratada com igualdade.

— Como?

— Pensei que quisesse ser tratada como igual num mundo masculino, nos negócios e no prazer. Ser aceita, não é?

— E quero — disse ela, com frieza. A simpatia dele não se altetou.

— Está chateada porque eles são casados e você conheceu algumas das suas mulheres?

— É, acho que sim.

— Isso não é injusto?

— Não, acho que não — retrucou ela, constrangida.

— Você é minha convidada, minha convidada, as outras são convidadas dos meus convidados. Se você quer igualdade, então deve estar preparada para aceitar a igualdade.

— Isso não é igualdade.

— Estou colocando-a numa posição de confiança. Como igual. Devo dizer-lhe que os outros não a consideraram tão digna de confiança quanto eu considero. — O sorriso dele tor­nou-se mais duro. — Disse-lhes que podiam ficar ou ir em­bora. Faço o que quero no meu barco, e garanti sua discrição e bons modos. Estamos em Hong Kong, nossos costumes são diferentes. Não estamos numa sociedade puritana, embora tenhamos regras muito sérias. Você é sozinha. Solteira. Muito atraente e muito bem-vinda. Como igual. Se fosse casada com o Linc, não teria sido convidada, sozinha ou junto com ele, embora ele talvez tivesse sido, e o que lhe contasse ao voltar seria problema dele.

— Está dizendo que este é um costume regular de Hong Kong... as saidinhas dos rapazes com as garotas no domingo à tarde?

— Não, de maneira alguma. Estou dizendo que meus convidados perguntaram se podiam trazer convidadas para alegrar o que talvez fosse um almoço chato para eles.

Os olhos de Gornt estavam firmes.

O Sea Witch adernou sob outra onda, e Barre e a garota dele tropeçaram e quase caíram. Ela deixou cair a taça de champanha. Gornt não se mexera. Nem Casey. Ela nem sequer precisou se agarrar a coisa alguma.

— Já andou muito de barco? — disse ele, com admi­ração.

— Tenho um classe Olímpica de dezoito pés, de fibra de vidro, de um só mastro, num reboque. Costumo sair nos fins de semana, às vezes.

— Sozinha?

— Na maioria das vezes. Às vezes, Linc vem junto.

— Ele está na subida do morro?

— Não. Ouvi dizer que foi cancelada.

— Ele vai para Taipé hoje à tarde?

— Não. A viagem também foi cancelada. Gornt balançou a cabeça.

— Foi sensato. Há muita coisa para ser feita amanhã. — Os olhos dele eram bondosos. — Lamento se a ofendi. Pensei que você fosse diferente. Agora lamento que as outras tenham vindo.

Casey notou a estranha suavidade.

— E, eu também lamento.

— Ainda quer ficar? Espero que sim, embora conte com sua discrição... dei garantia dela aos outros.

— Ficarei — disse ela, simplesmente. — Obrigada por confiar em mim.

— Venha para a ponte. Temos champanha, e creio que o almoço lhe agradará.

Tendo feito sua escolha, Casey deixou de lado suas re­servas e resolveu aproveitar o dia.

— Para onde estamos indo?

— Para perto de Sha Tin. Lá o mar estará mais calmo.

— Puxa, Quillan, que barco maravilhoso!

— Daqui a pouco mostro-o todo a você.

Caiu um pouco de chuva, e eles foram se proteger sob o toldo do convés. Gornt olhou para o relógio de bordo. Marcava dez e dez. Já ia ordenar a largada quando Peter Marlowe desceu rapidamente e subiu a bordo. Arregalou os olhos ao ver Casey.

— Desculpe o atraso, sr. Gornt.

— Tudo bem, sr. Marlowe. Ia dar-lhe uns dois minu­tos... sei como é quando se têm filhos pequenos. Dêem-me licença um segundo, acredito que já se conheçam. Ah, Casey é minha convidada... respondo pela discrição dela. — Sorriu para ela. — Não é?

— Naturalmente.

Virou-se e afastou-se, dirigindo-se à ponte para assumir o leme. Ficaram olhando para ele por um momento, ambos encabulados, a brisa marinha refrescando a chuva que caía.

— Não esperava vê-lo, Peter — disse ela.

— Nem eu a você.

Ela olhou atentamente para ele, os olhos cor de avelã firmes.

— Uma das... das outras é sua? Diga a verdade. O sorriso dele foi curioso.

— Mesmo que fosse, eu diria que não era da sua conta. Discrição, e coisa e tal. A propósito, você é namorada do Gornt?

— Não, claro que não!

— Então, por que motivo está aqui?

— Não sei. Ele... ele falou que fui convidada como igual.

— Ah, entendo. — Peter Marlowe estava igualmente ali­viado. — Ele tem um estranho senso de humor. Bem, eu a avisei. Para responder à sua pergunta: pelo menos oito delas fazem parte do harém de Marlowe! — Ela riu junto com ele, que acrescentou, com mais seriedade: — Não precisa se preo­cupar com a Fleur. Ela é muito sensata.

— Eu gostaria de ser, Peter. Tudo isso é um tanto novo para mim. Desculpe a... é, desculpe.

— Para mim também é novidade. Nunca estive num passeio de barco de domingo antes. Por que você...

O sorriso dele desapareceu. Ela acompanhou o seu olhar. Robin Grey acabava de vir Iá de baixo, e se servia de uma taça de champanha, com uma das garotas estendendo a sua taça para ser servida também. Casey virou-se e fitou Gornt, observando enquanto ele olhava de um homem para o outro, depois para ela.

— Venham para cá — chamou Gornt. — Há vinho, champanha, bloody marys, ou, se você preferirem, café.

Mantinha a fisionomia inexpressiva, mas intimamente di­vertia-se à grande,

 

                     11h15m

— Repito, sr. Sinders, não sei coisa alguma sobre ne­nhum cabograma, nenhum Arthur, nenhuma pasta, nenhum americano, e não conheço nenhum major Iúri Bakian... o homem era ígor Voranski, marinheiro de primeira classe.

Suslev controlava com força o seu gênio. Sinders estava sentado diante dele, atrás da mesa na sala de interrogatório do quartel-general da polícia. Suslev esperara encontrar Roger Crosse ali, para ajudá-lo. Mas não o vira desde que chegara.

"Tome cuidado", advertira a si mesmo, "está por sua própria conta. Não vai obter ajuda do Roger. E com razão. O espião tem que ser protegido. E quanto a Boradinov, tam­bém não é de nenhuma ajuda." Lançou um olhar ao seu ime­diato, sentado ao seu lado, duro, rígido na cadeira, e muitís­simo constrangido.

— E ainda insiste em que o nome desse espião Dmítri Metkin não era Leonov, Nikolai Leonov, também major do KGB?

— É bobagem, tudo bobagem. Relatarei ao meu governo todo este incidente, eu...

— Seus reparos já estão terminados?

— Sim, ou pelo menos estarão até a meia-noite. Trazemos bom dinheiro para Hong Kong, e pagamos nossas contas...

— E não criam outra coisa senão problemas curiosos. Como o major Leonov, como Bakian?

— Está se referindo ao Metkin? — Suslev olhou feio para Boradinov, para aliviar um pouco a pressão. — Conhecia algum Leonov?

— Não, camarada comandante — gaguejou Boradinov. — Não sabíamos de nada.

— Que bando de falsários! — suspirou Sinders. — Feliz­mente Leonov nos contou um bocado de coisas sobre vocês e o Ivánov antes de vocês o assassinarem. É, seu major Leonov cooperou muito. — Subitamente, sua voz ficou cortante como um chicote. — Imediato Boradinov, queira esperar Iá fora!

O homem mais moço se pôs de pé sem sentir, muito pálido. Abriu a porta. Do lado de fora, um hostil agente chinês do sei indicou-lhe uma cadeira, fechando a porta mais uma vez.

Sinders deixou o cachimbo de lado, pegou um maço de cigarros e acendeu um tranqüilamente. A chuva fustigava as janelas. Suslev esperou, o coração doendo dentro do peito. Observava o inimigo por sob as sobrancelhas espessas, imagi­nando o que Roger Crosse teria para ele de tão urgente. Naquela manhã, quando o telefone secreto tocara, era Arthur perguntando se Suslev poderia encontrar-se com Roger Crosse por volta das oito da noite, no Sinclair Towers.

— O que há de tão urgente? Eu deveria estar no meu navio, preparando-me...

— Não sei. Roger disse que era urgente. Não havia tempo de discutir nada. Já se encontrou com Koronski?

— Já. Está tudo acertado. Pode fazer a entrega?

— Ah, sim. Muito antes da meia-noite.

— Não falhe, o Centro agora está contando com você. — E acrescentara, mentindo: — Diga ao Nosso Amigo que são ordens.

— Excelente. Não falharemos.

Suslev notara o entusiasmo. Parte do seu medo o abando­nara. Agora, estava voltando. Não gostava de estar ali, tão perto de ficar permanentemente. A reputação de Sinders era bem conhecida no KGB: dedicado, inteligente, dado a grandes intuições.

— Estou muito cansado dessas perguntas, sr. Sinders — disse, espantadíssimo ao ver que o chefe da MI-6 em pessoa viera a Hong Kong, e podia parecer tão sem importância. Levantou-se, testando-o. — Vou-me embora.

— Fale-me da Sevrin.

— Severin? O que é Severin? Não tenho que ficar e responder às suas perguntas, não tenho...

— Concordo, camarada comandante. Normalmente. Mas um dos seus homens foi pego espionando, e nossos amigos americanos realmente desejam pôr as mãos no senhor.

— Hem?

— É, sim, e temo que não sejam tão pacientes quanto nós. O medo de Suslev voltou com força total.

— Mais ameaças! Por que me ameaçam? — falou ner­vosamente. — Respeitamos a lei. Não sou responsável pelos problemas! Exijo que me deixem voltar para o meu navio! Agora!

Sinders simplesmente olhou para ele.

— Está certo. Por favor, retire-se — falou, serenamente.

— Posso ir?

— Sim, claro. Bom dia.

Atônito, Suslev fitou-o por um momento, depois virou-se e dirigiu-se à porta.

— Naturalmente, "vazaremos" para os seus superiores que o senhor nos entregou Leonov.

Suslev deteve-se, sem cor.

— O que foi, o que foi que disse?

— Leonov nos contou, entre outras coisas, que o senhor o encorajou a fazer a intercepção. Que deixou "vazar" a troca.

— Mentiras... mentiras — falou, repentinamente apa­vorado com a possibilidade de Roger Crosse ter sido apanhado, como Metkin o fora.

— Também não deixou "vazar" sobre o Bakian para os agentes norte-coreanos?

— Não, claro que não — gaguejou Suslev, imensamente aliviado ao descobrir que Sinders estava jogando verde, prova­velmente sem nenhuma informação verdadeira. Um pouco da sua confiança voltou. — Mais bobagem. Não conheço nenhum norte-coreano.

— Acredito no senhor, mas estou certo de que o Primei­ro Diretório não acreditará. Bom dia.

— O que quer dizer com isso?

— Fale-me do cabograma.

— Não sei nada a respeito. Seu superintendente se en­ganou, não o deixei cair.

— Ah, deixou, sim. Que americano?

— Não sei nada de americano nenhum.

— Fale-me da Sevrin.

— Nem sei o que é essa Severin. O que é, quem é?

— Estou certo de que sabe que seus superiores no KGB são muito impacientes com "vazamentos", e muito desconfia­dos. Se conseguirem zarpar, sugiro que o senhor, seu imediato, seu navio e toda a sua tripulação não voltem novamente para estas águas...

— Está me ameaçando de novo? Isso se tornará um inci­dente internacional. Informarei ao meu governo e ao seu, e...

— É, e nós também, oficial e particularmente. Muito particularmente.

Os olhos de Sinders estavam gelados, embora seus lábios ostentassem um sorriso.

— Posso... posso ir, agora?

— Sim. Em troca de informação.

— Como?

— Quem é o americano, e quem é Arthur?

— Não conheço nenhum Arthur. Arthur do quê?

— Vou esperar até meia-noite. Se o senhor zarpar sem me contar, quando voltar a Londres providenciarei para que chegue aos ouvidos do seu adido naval em Londres a infor­mação de que o senhor entregou Leonov, a quem chama de Metkin, assim como Bakian, a quem chama de Voranski, em troca de favores do sei.

— Mentira, tudo mentira, sabe que é mentira.

— Quinhentas pessoas o viram no hipódromo com o superintendente Crosse. Foi quando lhe entregou o Metkin.

— Tudo mentira — repetiu Suslev, tentando ocultar o seu terror.

Sinders deu uma risadinha.

— Veremos, não é? Seu novo adido naval em Londres se agarrará a qualquer oportunidade de cair nas boas graças dos superiores,

— Não entendo — disse Suslev, entendendo muito bem. Estava encurralado.

Sinders inclinou-se para a frente para esvaziar o fumo do cachimbo.

— Ouça-me claramente — falou, com um tom de decisão na voz. — Trocarei sua vida pelo americano e por Arthur.

— Não conheço nenhum Arthur.

— Será um segredo apenas entre nós dois. Não contarei a ninguém. Dou-lhe a minha palavra.

— Não conheço nenhum Arthur.

— Indique-o, e estará seguro. O senhor e eu somos pro­fissionais, compreendemos permutas... e segurança... e um acordo particular ocasional e muito sigiloso. Desta feita foi apanhado, tem que negociar. Se zarpar sem me dizer quem é Arthur, assim como Deus fez os peixinhos do mar e o KGB existe, vou denunciá-lo. — Os olhos penetrantes o fitaram. — Bom dia, camarada comandante.

Suslev levantou-se e saiu. Quando ele e Boradinov esta­vam novamente ao ar livre, na realidade de Hong Kong, come­çaram a respirar. Em silêncio, Suslev levou o outro até o bar mais próximo, do outro lado da rua. Pediu duas vodcas duplas.

A mente de Suslev estava embaralhada. "Khristos", queria gritar, "estou morto se o fizer, e estou morto se não o fizer. Aquele cabograma amaldiçoado! Se eu entregar Banastasio e Arthur, admitirei que estou a par da Sevrin, e estarei nas mãos deles para sempre. Se não o fizer, minha vida estará terminada, sem dúvida. De uma maneira ou de outra, será perigoso ir para casa agora, e igualmente perigoso voltar. De uma maneira ou de outra, agora preciso das pastas de Alan ou de Dunross, ou de ambos, para proteção. De uma maneira ou de...

— Camarada coman...

Virou-se com violência para Boradinov e xingou-o em russo. O homem mais moço empalideceu e parou, apavorado.

— Vodca! Mais duas — pediu. — Por favor. A garçonete as trouxe.

— Meu nome Sally. Qual o seu, heya?

— Vá à merda — rosnou Boradinov.

— Dew neh loh moh para o seu vá à merda, heya? Você sr. Merda? Não gosto sua cara, sr. Merda, portanto vá à merda sem dizer palavrão.

Ela agarrou a garrafa de vodca e se preparou para conti­nuar a batalha.

— Peça desculpas a ela — disse Suslev bruscamente, sem querer encrenca, sem ter certeza de que ela não era uma agente disfarçada, o bar ficando tão perto do QG da polícia.

Boradinov ficou chocado.

— O quê?

— Peça-lhe desculpas, seu bosta sem mãe!

— Desculpe — resmungou Boradinov afogueado. A garota achou graça.

— Ei, grandalhão, quer fuque-fuque?

— Não — retrucou Suslev. — Apenas mais vodca.

Crosse saltou do carro de polícia e entrou apressado no Edifício Struan, debaixo da chuva leve. Às suas costas as ruas estavam cheias de guarda-chuvas, trânsito congestionado, as calçadas superlotadas, gente que ia e vinha trabalhar, já que o domingo não era um dia de folga geral. Saltou no vigésimo andar.

— Bom dia, superintendente Crosse. Sou Sandra Yi, se­cretária do sr. Dunross. Por aqui, por favor.

Crosse acompanhou-a pelo corredor, os olhos notando o seu traseiro coberto pelo cheong-sam. Ela abriu uma porta para ele, que entrou.

— Alô, Edward — ele cumprimentou Sinders.

— Você também chegou cedo, como de costume. — Sinders bebia uma cerveja. — Velho hábito do exército, hem, a hora certa é cinco minutos adiantado?

Atrás dele, na luxuosa sala de reunião de diretoria, havia um bar bem suprido. E café.

— Quer tomar algo, senhor? Já preparei bloody marys — falou Sandra Yi.

— Obrigado, basta o café. Preto. Ela o serviu e se retirou.

— Como correu a coisa? — perguntou Crosse.

— O nosso visitante? Bem, tudo bem. Diria que o es-fíncter dele está em péssimas condições. — Sinders sorriu. — Gravei a sessão. Você poderá escutá-la depois do almoço. Ah, é, o almoço. Roger, pode-se comer peixe com batatas fritas em Hong Kong?

— Claro. É o que vamos comer.

Crosse abafou um bocejo. Passara a maior parte da noite revelando e tirando cópias do rolo de filme que usara na caixa-forte. Pela manhã, lera e relera as páginas verdadeiras de Alan com enorme interesse, entendendo por que Dunross fora tão circunspecto, e concordando com ele. Alan valia o quanto ganhava, fosse Iá quanto fosse, pensou. Não havia dúvida de que aquelas pastas valiam uma fortuna.

O relógio suspenso por argolas bateu as horas, agradavel­mente. Meio-dia. A porta se abriu e Dunross entrou.

— Bom dia. Obrigado por terem vindo até aqui. Cortesmente, os outros dois se levantaram e apertaram-lhe a mão.

— Mais café?

— Não, obrigado, sr. Dunross.

Enquanto Crosse observava atentamente, Dunross tirou um envelope lacrado do bolso e ofereceu-o a Sinders. O ho­mem mais velho pegou-o, sopesando-o na mão. Crosse notou que seus dedos tremiam ligeiramente.

— Naturalmente leu o conteúdo, não, sr. Dunross?

— Li, sr. Sinders.

— E?

— E nada. Veja por si mesmo.

Sinders abriu o envelope. Fitou a primeira página, depois folheou todas as onze. De onde estava, Crosse não podia ver o que havia nos pedaços de papel. Em silêncio, Sinders entre­gou-lhe o primeiro deles. As letras, números e símbolos do código não tinham sentido para ele.

— Parece que foram recortados de algum lugar. — Cros­se olhou para Dunross. — Não é?

— E quanto ao Brian?

— Onde os arranjou, Ian?

Crosse notou que o olhar de Dunross se alterou um pouco.

— Mantive a minha parte da troca. Vão manter a sua? Sinders se sentou.

— Não concordei com uma troca, sr. Dunross. Apenas concordei em que era possível que se atendesse ao seu pedido.

— Quer dizer que não vão soltar Brian Kwok?

— É possível que ele esteja onde o senhor quer que esteja, na hora em que quer.

— Não pode ser mais preciso?

— Desculpe.

Fez-se um longo silêncio. O tique-taque do relógio enchia o aposento. Ouvia-se também o ruído da chuva. Outra rajada de vento e chuva veio e se foi. A chuva vinha caindo esporadi­camente, desde a manhã. Os boletins meteorológicos previam que logo a tempestade passaria. Mas os reservatórios, apesar de toda a chuva, mal haviam sido tocados.

Dunross pediu:

— Quer me dizer as probabilidades? Precisamente. Por favor?

— Primeiro, três perguntas: o senhor próprio recortou estes papéis de algum lugar?

— Sim.

— De onde e como?

— Alan me dera instruções por escrito. Eu devia usar um isqueiro sob o quadrante inferior direito de algumas pá­ginas que ele me mandara, um relatório datilografado inócuo. Quando aqueci as páginas, as letras datilografadas desaparece­ram, e o que surgiu foi isso que vocês viram. Quando acabei, novamente seguindo as instruções dele, recortei os pedaços pertinentes e destruí o resto. E a carta dele.

— Guardou cópias?

— Dos onze pedaços? Sim.

— Tenho que lhe pedir que me sejam entregues.

— O senhor as receberá quando completar o nosso trato — falou Dunross, com voz agradável. — Bem, quais são as probabilidades?

— Por favor, dê-me as cópias.

— Darei, quando cumprir a sua parte. Segunda-feira, ao pôr-do-sol.

Os olhos de Sinders ficaram ainda mais frios.

— As cópias, agora, faça o favor.

— Quando o senhor cumprir a sua parte. É irrevogável. Agora, quais as probabilidades?

— Meio a meio — falou Sinders, testando-o.

— Ótimo. Obrigado. Já providenciei para que na terça de manhã todas as onze páginas sejam publicadas no China Guardian e em dois jornais chineses, um nacionalista e um comunista.

— Então agirá assim por seu próprio risco. O governo de Sua Majestade não aprecia coação.

— Eu o ameacei? Não, absolutamente. Essas letras e nú­meros são uma confusão sem sentido, exceto, talvez... talvez para um perito decifrador de códigos. Talvez. Talvez isso tudo seja apenas uma piada de um morto.

— Posso impedi-lo segundo a Lei dos Segredos Oficiais.

— Sem dúvida, pode tentar — concordou Dunross. — Mas haja o que houver, com ou sem Lei dos Segredos Oficiais, se eu quiser, essas páginas serão publicadas em algum lugar da terra esta semana. Isso também é irrevogável. Alan deixou o assunto nas minhas mãos. Mais alguma coisa, sr. Sinders?

Sinders hesitou.

— Não. Não, obrigado, sr. Dunross. Igualmente cortês, Dunross virou-se e abriu a porta.

— Desculpe, tenho que voltar ao trabalho. Obrigado por terem vindo.

Crosse deixou Sinders sair na frente e acompanhou-o até o elevador. Sandra Yi, à mesa de recepção, já havia apertado o botão para eles.

— Ah, com licença, senhor — disse ela para Crosse —, sabe me dizer quando o superintendente Kwok vai voltar à colônia?

— Não tenho certeza — respondeu Crosse, fitando-a. — Posso perguntar, se desejar. Por quê?

— Íamos jantar juntos na sexta-feira à noite, e nem a governanta dele nem o seu escritório souberam informar.

— Terei prazer em perguntar.

A campainha tocou no painel telefônico.

— Oh, obrigada, senhor. Alô, Struan — disse ao telefone.

— Um momentinho. — Começou a completar a ligação. Crosse ofereceu um cigarro a Sinders enquanto esperavam, vendo os números do elevador se aproximando. — Sua ligação para o sr. Alastair, tai-pan — disse Sandra Yi, ao telefone. A campai­nha tocou de novo no painel. — Alô — atendeu Sandra Yi.

— Só um momento, madame, vou verificar. — Consultou uma lista de compromissos datilografada enquanto as portas do ele­vador se abriam. Sinders entrou, e Crosse começou a segui-lo.

— É para as treze horas, sra. Gresserhoff.

Imediatamente Crosse parou e se abaixou como que para amarrar o cordão dos sapatos, e Sinders, com igual eficácia e naturalidade, prendeu a porta.

— Oh, tudo bem, madame, é fácil a gente se enganar com a hora. A mesa está reservada em nome do tai-pan. O Skyline, no Mandarim, às treze horas.

Crosse levantou-se.

— Tudo bem? — perguntou Sinders.

— Tudo bem.

As portas se fecharam às suas costas. Ambos sorriram.

— Quem espera sempre alcança — falou Crosse.

— É. Vamos comer peixe com batatas fritas no jantar, então.

— Não. Vamos comê-los mesmo no almoço. Não devemos comer no Mandarim. Sugiro que nós mesmos a identifiquemos secretamente. Nesse meio tempo, vou mandar descobrir onde está hospedada, certo?

— Excelente. — A fisionomia de Sinders endureceu. — Gresserhoff, hem? Hans Gresserhoff era o nome de cobertura de um espião da Alemanha Oriental que tentamos pegar há anos.

— É? — comentou Crosse, não deixando transparecer seu interesse.

— É. Era sócio de outro filho da mãe nojento, um assas­sino treinado. Um dos seus nomes era Viktor Grünwald, o outro, Simeon Tzerak. Gresserhoff, hem? — Sinders ficou cala­do por um momento. — Roger, aquela história da publicação, a ameaça de Dunross. Pode ser muito perigoso.

— Você conseguiu ler o código?

— Santo Deus, não.

— O que poderia ser?

— Qualquer coisa. As páginas são para mim ou para o primeiro-ministro, portanto provavelmente são nomes e ende­reços de contatos. — Sinders acrescentou, gravemente: — Não ouso confiá-los a telegramas, embora em código. Acho melhor voltar imediatamente para Londres.

— Hoje?

— Amanhã. Quero deixar isso tudo terminado, e gostaria muito de identificar essa sra. Gresserhoff. Será que Dunross fará o que disse?

— Sem dúvida alguma.

Sinders apertou as têmporas, os olhos azul-claros e aguados mais sem cor do que de costume.

— E quanto ao cliente?

— Eu diria...

A porta do elevador se abriu. Eles saltaram e atravessaram o saguão. O porteiro uniformizado abriu a porta do carro de Crosse para ele.

Crosse entrou no trânsito congestionado, o porto nublado, a chuva tendo parado por um momento.

— Diria que basta mais uma sessão, depois o Armstrong pode começar a recompô-lo. Segunda ao anoitecer é cedo demais, porém... — Deu de ombros. — Eu não sugeriria mais sessões no Quarto Vermelho.

— É, concordo, Roger. Graças a Deus que o sujeito é forte.

— É.

— Acho que quem está prestes a desabar é o Armstrong, pobre coitado.

— Ainda pode realizar mais uma. Com segurança.

— Espero que sim. Meu Deus, como tivemos sorte! É incrível!

A sessão das seis horas daquela manhã não apresentara nada de novo. Mas, quando já estavam desistindo, as táticas de Armstrong descobriram ouro: finalmente, o quem, o porquê e o quê do professor Joseph Yu. Da Cal Tech, Princeton, Stan-ford. Perito em foguetes e consultor da NASA.

— Quando ele deve chegar a Hong Kong, Brian? — per­guntara Armstrong, todo o time do sei na sala de controle pren­dendo a respiração.

— Eu... não... deixe-me pensar, deixe-me pensar... ah, não consigo me lembrar... ah, sim, é daqui a uma se... no fim do... desse mês... em que mês estamos? Não consigo lem... lembrar que dia é hoje. Ele deveria chegar e depois partir.

— De onde e para onde?

— Ah, não sei, não me disseram, exceto que... exceto que alguém falou que ele ia velejar em Guam, de férias no Havaí, e que devia chegar aqui dez dias... acho que eram dez dias depois... depois do dia da corrida.

E quando Crosse ligara para Rosemont e lhe contara... embora não tivesse revelado a fonte da informação... o ame­ricano ficara sem fala e em pânico. Imediatamente, ordenara que se vasculhasse toda a área de Guam para impedir a de­serção.

— Será que o apanharão? — resmungou Crosse.

— Quem?

— Joseph Yu.

— Ora, tomara que sim — falou Sinders. — Por que diabo esses cientistas desertam? Uma merda! A única coisa boa é que lançará os foguetes chineses na estratosfera, e fará arre­pios de horror correrem por todas as espinhas soviéticas. O que é danado de bom, na minha opinião. Se esses dois entrassem em choque, isso nos poderia ajudar imensamente. — Ajeitou-se mais confortavelmente no banco do carro, sentindo as costas doerem. — Roger, não posso me arriscar a que Dunross fique com cópias daqueles códigos, ou os publique.

— Sei.

— Ele é metido a espertinho demais, o seu tai-pan. Se transpirar que Alan nos enviou uma mensagem em código, e se Dunross tem a memória que dizem que ele tem, é um homem marcado, certo?

— Certo.

Chegaram ao restaurante de cobertura Skyline com tem­po de sobra. Crosse foi reconhecido imediatamente, e logo esva­ziaram uma mesa discreta no bar. Enquanto Sinders pedia uma bebida e mais café, Crosse telefonou para dois agentes, um deles britânico, o outro chinês. Chegaram depressa.

Faltando alguns minutos para uma hora, Dunross chegou, e eles o viram ser levado para a melhor mesa, o mattre seguin­do na frente, os garçons atrás, o champanha já esperando num balde de gelo.

— O sacana treinou todo o pessoal muito bem, não é?

— Você não faria o mesmo? — comentou Crosse. Os olhos dele varreram a sala, e se detiveram. — Lá está o Rose­mont! Será uma coincidência?

— O que você acha?

— Ah, olhe ali, naquele canto. É o Vincenzo Banastasio. O chinês que está com ele é Vee Cee Ng. Talvez sejam eles que Rosemont está vigiando.

— Talvez.

— Rosemont é esperto — disse Crosse. —- Bartlett tam­bém foi vê-lo. Pode ser que estejam vigiando o Banastasio.

— Armstrong lhes contara a sua conversa com Banastasio. A vigilância sobre o sujeito fora aumentada. — A propósito, ouvi dizer que ele alugou um helicóptero para Macau na segunda-feira.

— Devíamos cancelar isso.

— Já o fizemos. Defeitos no motor.

— Ótimo. Suponho que o fato de Bartlett informar sobre o Banastasio o deixa limpo, não é?

— Talvez.

— Ainda acho melhor eu ir embora na segunda. É. Inte­ressante que a recepcionista de Dunross tivesse um encontro marcado com o cliente. Puxa vida, mas que mulher espetacular! — exclamou Sinders.

A moça acompanhava o maitre. Os dois homens ficaram surpresos quando ela parou à mesa do tai-pan, fez uma curva­tura e sentou.

— Porra! A sra. Gresserhoff é chinesa? — exclamou Sinders, com voz abafada.

Crosse concentrava-se nos lábios deles.

— Nenhuma chinesa se curvaria assim. Ela é japonesa.

— Que diabo, onde ela se encaixa?

— Talvez haja mais de uma convidada. Talvez... ora essa!

— O que foi?

— Não estão falando inglês. Deve ser japonês.

— Dunross fala essa língua de amarelo? Crosse olhou para ele.

— Sim, fala japonês. E alemão, francês, três dialetos chi­neses, e um italiano razoável.

Sinders devolveu o olhar.

— Não precisa bancar o desaprovador, Roger. Perdi um filho no HMS Prince of Wales, meu irmão morreu de fome na Burma Road. Portanto, não queira me passar nenhuma merda de sermão, embora ainda ache que ela é espetacular.

— Isso pelo menos demonstra uma certa dose de tole­rância — disse Crosse, virando-se para examinar Dunross e a moça.

— A sua guerra foi na Europa, não é?

— Minha guerra, Edward, nunca tem fim. — Crosse sor­riu, gostando do som das suas palavras. — A Segunda Guerra Mundial já é história antiga. Lamento o que aconteceu com seus parentes, mas agora o Japão não é o inimigo, é nosso aliado. Na verdade, o único que temos na Ásia.

Esperaram durante meia hora. Ele não conseguia ler os lábios deles.

— Ela deve ser a Gresserhoff — disse Sinders. Crosse concordou.

— Vamos indo, então? Não há motivo para esperar. Va­mos ao nosso peixe com batatas fritas.

Saíram. Os agentes chinês e britânico do sei ficaram espe­rando pacientemente, sem conseguir ouvir o que estava sendo dito, invejando Dunross, como muitos na sala... porque ele era o tai-pan, e por causa dela.

— Gehen Sie? — ela perguntou em alemão. (Você vai?)

— Para o Japão, Riko-jtf#? Vou, sim — respondeu, no mesmo idioma —, daqui a duas semanas. Receberemos um novo cargueiro gigante das Indústrias de Navegação Toda. Conver­sou com Hiro Toda ontem?

— Ah, sim, tive essa honra. A família Toda é famosa no Japão. Antes da Restauração, quando a classe dos samurais foi abolida, minha família serviu aos Todas.

— Sua família era samurai?

— Sim, mas de um grau inferior. Não mencionei minha família para ele. Aquela era uma época antiga. Não gostaria que ele soubesse.

— Como quiser — disse, a curiosidade aguçada. — Hiro Toda é um homem interessante — falou, dando-lhe corda.

— Toda-sama é muito sábio, muito forte, muito famoso. — O garçom trouxe a salada deles, e, quando ele se foi, ela continuou: — A Struan também é famosa no Japão.

— Não é bem assim.

— Ah, é. Lembramo-nos do príncipe Yoshi.

— Ah, não sabia que você sabia.

Em 1854, quando Perry forçara o xógum Yoshimitsu To-ranaga a abrir o Japão para o comércio, a Bruxa zarpara para o norte, saindo de Hong Kong, com o pai e inimigo, Tyler Brock, atrás. Graças a ela, a Struan foi a primeira empresa a entrar no Japão, a primeira a comprar terras para um posto comercial, e a primeira de fora a comerciar. Ao longo dos anos e de muitas viagens, ela fez do Japão uma pedra angular da política da Struan.

Durante os primeiros anos, ela conheceu um jovem prín­cipe, príncipe Yoshi, parente do imperador e primo do xó­gum... sem cuja permissão nada acontecia no Japão. Seguindo a sugestão dela, e com a sua ajuda, esse príncipe foi para a Inglaterra num veleiro da Struan para conhecer o poderio do Império Britânico. Voltou para casa, alguns anos depois, em outro navio da Struan, e naquele ano alguns dos barões feu­dais — os daimios —, odiando a incursão dos estrangeiros, revoltaram-se contra o xógum, cuja família, Toranaga, gover­nara o Japão exclusivamente por dois séculos e meio, numa linhagem sem interrupção, remontando ao grande general Yoshi Toranaga. A revolta dos daimios obteve êxito, e o poder foi devolvido ao imperador, mas o país estava fendido.

— Sem o príncipe Yoshi, que se tornou um dos princi­pais ministros do imperador — disse ela, inconscientemente falando em inglês —, o Japão ainda estaria tremendo e dividido pela guerra civil.

— E por quê? — perguntou ele, querendo que ela con­tinuasse a falar com aquele sotaque encantador.

— Sem a ajuda dele, o imperador não teria êxito, não teria conseguido abolir os xóguns, abolir a lei feudal, os daimios, toda a classe dos samurais, forçando-os a aceitar uma Constitui­ção moderna. Foi o príncipe Yoshi que negociou a paz entre os daimios, depois convidou peritos ingleses para o Japão, para construir a nossa marinha, nossos bancos e nosso funcionalismo público, e nos ajudar a entrar no mundo moderno. — Uma ligeira sombra cobriu seu rosto. — Meu pai me falou muito dessa época, tai-pan, e ainda não faz cem anos que tudo acon­teceu. A transição do domínio dos samurais para a democracia foi freqüentemente sangrenta. Mas o imperador decretara um término, então houve um término, e todos os daimios e samu­rais arrastaram-se dolorosamente para o começo de uma nova vida. — Ela brincou com a taça, olhando as borbulhas. — A família Toda era senhora de Izu e Sagami, onde fica Yokohama. Durante séculos eles tiveram estaleiros. Para eles e seus aliados, a família Kasigi, foi fácil entrar na era moderna. Para nós... — Ela se interrompeu. — Ah, mas você já sabe de tudo isso, desculpe.

— Só sei do príncipe Yoshi. O que aconteceu com sua família?

— Meu bisavô tornou-se um membro de pouca importân­cia da equipe do príncipe Yoshi, como funcionário público. Foi mandado para Nagasáqui, onde minha família viveu desde então. Teve dificuldades em não usar as duas espadas. Meu avô também foi funcionário público, como meu pai, mas muito insignificante. — Ergueu os olhos e sorriu para ele. — O vinho é gostoso demais. Solta a minha língua.

— Não, de maneira alguma — disse ele; depois, cônscio dos olhos que o observavam, acrescentou em japonês: — Con­versemos um pouquinho em japonês.

— A honra é minha, tai-pan-san.

Mais tarde, enquanto tomavam café, ele falou:

— Onde devo depositar o dinheiro que lhe devo, Riko-san?

— Se pudesse me dar um cheque administrativo ou uma letra de câmbio — ela usou as palavras em inglês, pois não havia equivalente em japonês —, antes que eu me vá, seria perfeito.

— Na segunda de manhã mandarei entregá-lo a você. São dez mil seiscentas e vinte e cinco libras, e mais oito mil e quinhentas a serem pagas em janeiro, e o mesmo no ano que vem — disse-lhe ele, sabendo que a boa educação dela não lhe permitiria perguntar abertamente. Notou o lampejo de alí­vio, e ficou contente por ter decidido dar-lhe dois anos extras de salário. — Apenas as informações de Alan sobre o petróleo já valem mais do que isso. Onze da manhã seria conveniente para a "letra de câmbio à vista"?

Novamente Dunross usou as palavras em inglês.

— O que for melhor para você. Não desejo causar-lhe nenhum incômodo.

Dunross notou que ela falava vagarosa e nitidamente para ajudá-lo.

— Quais são seus planos de viagem?

— Na segunda-feira, acho que irei para o Japão. Depois... não sei. Talvez volte à Suíça, embora não tenha motivos reais para voltar. Não tenho parentes Iá. A casa era alugada, e o jardim não era meu. Minha vida como Gresserhoff terminou com a morte dele. Agora acho que devo voltar a ser Riko Anjin. Carma é carma.

— É — disse-lhe ele. — Carma é carma.

Tirou do bolso um pacote embrulhado para presente.

— Este é um presente da Casa Nobre, em agradecimento por você ter-se dado a tanto trabalho e feito uma viagem tão cansativa por nós.

— Oh! Ora, obrigada, mas foi uma honra e um prazer para mim. — Ela fez uma curvatura. — Obrigada. Posso abri-lo agora?

— Talvez mais tarde. É apenas um simples pingente de jade, mas a caixa também contém um envelope confidencial que seu marido queria que lhe fosse entregue. Apenas para os seus olhos, e não para os olhos que nos cercam.

— Ah, claro, compreendo. — Curvou-se de novo. — Sinto muito... queira desculpar a minha estupidez.

Dunross sorriu para ela.

— Nada de estupidez, nunca... apenas beleza. Ela enrubesceu, e tomou café para disfarçar.

— O envelope está lacrado, tai-pan-sun?

— Está, conforme as instruções dele. Sabe o que há nele?

— Não. Só que... só que o sr. Gresserhoff disse que você me daria um envelope lacrado.

— Ele falou por quê? Ou o que você devia fazer com ele?

— Algum dia viria alguém reclamá-lo.

— Por nome?

— Sim, mas meu marido me disse que jamais devia divul­gar o nome, nem mesmo a você. Nunca. Tudo o mais eu pode­ria contar-lhe, exceto o... o nome. Sinto muito, por favor, desculpe-me.

Dunross franziu o cenho.

— Terá apenas que entregá-lo a ele?

— Ou a ela — falou a moça, amavelmente. — Sim, e quando vierem me pedir, não antes. Depois que ele tiver sido utilizado, o sr. Gresserhoff disse que a pessoa pagaria uma dívida. Obrigada pelo presente, tai-pan-sa». Eu o guardarei com carinho.

O garçom veio e serviu o restinho do champanha para ele, e depois se afastou de novo.

— Como poderei entrar em contato com você no futuro, Kiko-s an?

— Dar-lhe-ei três endereços e números de telefone onde posso ser encontrada. Um na Suíça, dois no Japão.

Após uma pausa, ele disse:

— Você estará no Japão daqui a duas semanas?

Riko ergueu os olhos para ele, que sentiu o espírito se contrair ante tanta beleza.

— Sim, se você quiser — disse ela.

— Eu quero.

 

                   14h30m

O Sea Witch estava atracado ao largo do porto de barcos de Sha Tin, onde haviam ancorado para almoçar. Logo que chegaram, o cozinheiro, Casey e Peter Marlowe tinham ido a terra, com Gornt no comando, para escolherem os pitus, cama­rões e peixes que ainda nadavam nos aquários. Depois, tinham seguido para o mercado movimentado para comprar legumes fresquinhos. O almoço fora composto de camarões passados na manteiga com brócolos frescos, depois peixe esfregado com alho e frito, servido com salada de verduras chinesas, também al dente.

O almoço fora animadíssimo, as garotas chinesas eram di­vertidas e alegres, todas falando os mais variados níveis de um inglês picante. Dunstan Barre estivera colérico e gozadérrimo, no que foi acompanhado pelos outros. Casey achou que os homens estavam diferentes, que estavam mais soltos e infantis, e julgou aquilo muito triste. A conversa se concentrara nos ne­gócios, e naquelas poucas horas ela aprendera mais sobre as téc­nicas de Hong Kong do que em todas as leituras que fizera. Tornava-se cada vez mais claro que, a não ser que você estivesse "por dentro", o poder e as riquezas reais lhe escapariam.

— Ah, vocês se sairão muito bem aqui, Casey, você e o Bartlett — dissera Barre. — Se jogarem segundo as regras de Hong Kong, as estruturas fiscais de Hong Kong, e não as regras dos Estados Unidos, não é, Quillan?

— Depende. Se fecharem negócio com Dunross e a Struan, se é que a Struan e Dunross ainda existirão como entidade até a sexta-feira, obterão algum leite, mas nenhum creme.

— Com você nos sairemos melhor? — perguntara ela. Barre soltara uma risada.

— Muitíssimo melhor, Casey, mas ainda será leite e muito pouco creme!

— Digamos, Casey, que conosco o leite será homogenei­zado — dissera Gornt afavelmente.

Agora, o cheiro delicioso de café recém-torrado e moído subia da cozinha do barco. A conversa à mesa era geral, brin­cadeiras trocadas entre todos, especialmente para diverti-la, so­bre o comércio na Ásia, oferta e procura, e a atitude asiática em relação ao contrabando, com as moças chinesas tagarelando entre si.

Abruptamente, a voz de Grey, com uma nota cortante, interrompeu a conversa.

— É melhor perguntar ao Marlowe sobre isso, sr. Gornt. Ele sabe tudo sobre contrabando e chantagem, da nossa época em Changi.

— Qual é, Grey! — disse Peter Marlowe no súbito silên­cio. — Sem essa!

— Pensei que você tivesse orgulho disso, você e seu ami­gão ianque, o contrabandista. Não tinham?

— Vamos parar com isso, Grey — disse Marlowe, de cara amarrada.

— Como quiser, meu velho. — Grey virou-se para Casey.

— Pergunte a ele.

— Esta não é a hora apropriada para reavivar antigas rixas, sr. Grey — disse Gornt. Manteve a voz calma, não deixou a satisfação transparecer no rosto, externamente o anfitrião perfeito.

— Ah, mas não é o que eu estava fazendo, sr. Gornt. O senhor estava falando em contrabando e mercado negro. Mar­lowe é perito no assunto, só isso.

— Vamos tomar café no convés? — convidou Gornt, le­vantando-se.

— Boa idéia. Uma xícara de café sempre cai bem depois da gororoba — disse Grey, usando a palavra deliberadamente, sabendo que os ofenderia, já pouco se importando, subitamente cansado das brincadeiras, odiando a todos e ao que representa­vam, detestando ser o homem que estava sobrando ali, queren­do uma das garotas, qualquer uma. — Marlowe e o amigo ianque dele costumavam torrar os grãos no campo enquanto o resto de nós morria de fome — disse ele, a fisionomia crua.

— Aquilo nos deixava malucos. — Olhou para Peter Marlowe, o ódio agora sem disfarce. — Não é?

Depois de uma pausa, Peter Marlowe disse:

— Todos tinham café, às vezes. Todos torravam os grãos de café.

— Não como vocês dois. — Grey virou-se para Casey.

— Eles tomavam café todos os dias, ele e seu amigo ianque. Quanto a mim, era o chefe da polícia militar do campo, e só o tomava uma vez por mês, se tivesse sorte. — Voltou a olhar para Marlowe. — Como é que vocês conseguiam café e comida enquanto o resto de nós morria de fome?

Casey notou a veia saltando na testa de Peter Marlowe, e se deu conta, horrorizada, de que quem cala consente.

— Robin... — começou ela, mas Grey a interrompeu, a voz debochada.

— Por que não responde, Marlowe?

No silêncio que se seguiu, todos olharam de Grey para Peter Marlowe, que se enfrentavam. Até mesmo as garotas ficaram alerta, sentindo a tensão na cabine.

— Meu caro — interrompeu Gornt, usando deliberada­mente a nuance de sotaque que sabia irritaria Grey —, isso sem dúvida já são águas passadas e não importa mais. É domin­go à tarde e somos todos amigos.

— Eu acho que importa, sendo ou não domingo à tarde, e Marlowe e eu não somos amigos, e jamais fomos! Ele é "gen­te bem", eu não sou. — Grey imitou o sotaque que abominava.

— É, mas a guerra mudou tudo, e nós, trabalhadores, jamais nos esqueceremos!

— Você se considera um trabalhador, e a mim, não? — perguntou Peter Marlowe, a voz áspera.

— Somos os explorados, vocês, os exploradores. Como em Changi!

— Mude esse disco quebrado, Grey! Changi era outro mundo, outro local, outra época e...

— Era a mesma coisa que em todos os lugares. Havia os que mandavam e os que eram mandados, os trabalhadores e os que sugavam os trabalhadores. Como você e o Rei.

— Quanta besteira!

Casey estava perto de Grey e tomou-lhe o braço.

— Vamos tomar café, está bem?

— Claro — disse Grey. — Mas, primeiro, pergunte a ele, Casey. — Grey se manteve firme, ciente de que, finalmen­te, encurralara seu inimigo diante dos seus pares. — Pergunte a ele, sr. Gornt. Qualquer um de vocês...

Todos ficaram parados, em silêncio, encabulados por Peter Marlowe e chocados com as acusações implícitas... Gornt e Plumm intimamente divertidos e fascinados. Então, uma das moças dirigiu-se para a escada e retirou-se discretamente. As outras a seguiram. Casey também gostaria de ter-se retirado, mas não o fez.

— Agora não é hora, sr. Grey — ouviu Gornt dizer sua­vemente, e ficou feliz por ele estar ali para acabar com aquilo.

— Quer fazer a gentileza de mudar de assunto? Por favor?

Grey olhou para todos eles, fitando por último o seu adversário.

— Está vendo, Casey, nenhum deles tem peito de per­guntar... pertencem todos à classe dele, a tão falada classe alta, e cuidam dos que são iguais a eles.

Barre enrubesceu.

— Escute aqui, meu velho, não acha... Peter Marlowe falou, com voz inexpressiva:

— É fácil parar com essa bobagem. Não se pode equiparar Changi... ou Dachau, ou Buchenwald, com a normalidade. Simplesmente não dá. Havia regras diferentes, padrões diferen­tes. Éramos soldados, prisioneiros de guerra, a maioria adoles­centes. Changi foi a gênese, tudo novo, tudo de ponta-cabeça, tudo...

— Você transou com mercado negro?

— Não. Era intérprete de malaio para um amigo que era comerciante, e há uma grande diferença entre comércio e mer­cado negro, e...

— Mas era contra as regras do campo, a lei do campo, e isso o torna mercado negro, certo?

— Comerciar com os guardas era contra as regras inimi­gas, regras japonesas.

— E conte a eles como o Rei comprava o relógio, o anel ou a caneta de um infeliz por uma ninharia, a última coisa que ele possuía no mundo, e a vendia por um preço alto, e sempre roubava, sempre roubava no preço, sempre roubava, não é?

Peter Marlowe devolveu-lhe o olhar.

— Leia o meu livro. Nele...

— Livro? — Grey riu de novo, espicaçando-o. — Conte a eles, pela sua honra de cavalheiro, pela honra de seu pai, pela honra de sua família, de que você tem um danado dum orgulho tão grande... o Rei roubava ou não? Pela sua honra, hem?

Quase paralisada, Casey viu Peter Marlowe cerrar o punho.

— Se não houvesse convidados aqui — sibilou ele —, eu lhes contaria que exibido você realmente era!

— Pode apodrecer no inferno...

— Agora, chega — disse Gornt, em tom imperativo, e Casey recomeçou a respirar. — Pela última vez, vamos fazer a gentileza de mudar de assunto!

Grey afastou o olhar de Marlowe com relutância.

— É o que vou fazer. Posso arranjar um táxi na aldeia? Acho que prefiro ir para casa no bloco do eu sozinho, se não se importam.

— Naturalmente — disse Gornt, o rosto adequadamente solene, encantado por Grey ter tido a idéia ele mesmo, para que não tivesse que insinuá-la abertamente. — Mas sem dúvida — acrescentou, dando o golpe de misericórdia —, sem dúvida você e o Marlowe podiam apertar as mãos, como cavalheiros, e esquecer tudo o...

— Cavalheiros? Ora, de jeito nenhum. Já me enchi para sempre de cavalheiros como o Marlowe. Cavalheiros? Graças a Deus a Inglaterra está mudando, e logo estará de novo nas mãos certas... e o sotaque muito britânico de Oxford não será um passaporte permanente para a nobreza e o poder, nunca mais. Vamos endireitar a Câmara dos Lordes, e se as coisas saírem como eu quero...

— Esperemos que não! — disse Pugmire. Gornt falou com firmeza:

— Pug! Está na hora do café e do porto! — Afavelmente, tomou o braço de Grey. — Se nos derem licença um minu-tinho...

Foram para o convés. A tagarelice das garotas chinesas parou um momento. Secretamente satisfeitíssimo consigo mes­mo, Gornt levou o outro pela escada do costado até o cais. Tudo estava saindo melhor do que a encomenda.

— Lamento o que houve, sr. Grey — falou. — Não tinha a menor idéia de que Marlowe... Revoltante! Bem, nunca se sabe, não é mesmo?

— Ele é um filho da mãe, sempre foi e sempre será... ele e o nojento amigo ianque dele. Também odeio os ianques! Já está na hora de rompermos com esses exibidos!

Gornt achou um táxi com facilidade.

— Sr. Grey, tem certeza de que não quer mudar de idéia?

— Não, não, obrigado.

— Lamento sobre o Marlowe. É evidente que o senhor foi provocado. Quando o senhor e sua delegação comercial vão partir?

— Amanhã cedinho.

— Se houver algo que possa fazer aqui pelo senhor, basta me avisar.

— Está bem. Quando chegar a casa, ligue-me.

— Obrigado. É o que farei, e mais uma vez agradeço-lhe por ter vindo.

Pagou a corrida adiantado e acenou cortesmente enquanto o táxi se afastava. Grey nem olhou para trás.

Gornt sorriu. "Esse filho da mãe nojento vai ser um aliado útil nos anos futuros", riu consigo mesmo, enquanto voltava para o barco.

A maioria dos outros estava na coberta, tomando café e licores, Casey e Peter Marlowe um pouco afastados.

— Mas que sujeito cretino! — exclamou Gornt, ante a concordância geral. — Lamento muitíssimo o que houve, Mar­lowe, o sacana provo...

— Não, a culpa foi minha — disse Peter Marlowe, evi­dentemente muito abalado. — Desculpe. Sinto-me péssimo por ele ter ido embora.

— Não precisa pedir desculpas. Eu não devia tê-lo convi­dado ... obrigado por ter sido tão cavalheiro. É óbvio que ele o provocou.

— Sem dúvida — falou Pugmire, ante nova concordância de todos. — Se eu fosse você, teria lhe dado um murro. O que aconteceu é passado.

— É, sim — disse Casey, rapidamente —, que homem horrível! Se você não tivesse encerrado o assunto, Quillan, Grey teria...

— Chega de falar naquele cretino — disse Gornt, calo­rosamente, querendo deixar o espectro descansar. — Vamos esquecê-lo e não deixar que estrague uma tarde maravilhosa. — Deu um abraço em Casey. — Certo? — Notou a admiração nos olhos dela e sentiu, com alegria, que estava chegando de­pressa aonde queria. — Está frio demais para nadar. Que tal navegarmos devagarinho de volta para casa?

— Ótima idéia! — disse Dunstan Barre. — Acho que vou tirar uma sesta.

— Que idéia espetacular! — concordou outro, em meio às risadas. As garotas também riram, mas o riso era forçado. Todos ainda estavam abalados, e Gornt pôde notá-lo muito bem.

— Primeiro um pouco de conhaque! Marlowe?

— Não, obrigado, sr. Gornt. Gornt olhou atentamente para ele.

— Escute o que vou dizer, Marlowe — falou, com com­paixão genuína, e todos se calaram. — Todos nós já vimos coisas demais na vida, coisas demais na Ásia, para não saber­mos que, seja Iá o que você tenha feito, foi para o bem, não para o mal. O que você falou é certo. Changi foi especial, com problemas especiais. Pug ficou trancafiado na Prisão Stanley... fica na ilha de Hong Kong, Casey... por três anos e meio. Eu saí de Xangai quase que com a pele do corpo, e sangue nas mãos. Jason foi agarrado pelos nazistas depois de Dunquer-que e passou dois anos difíceis com eles. Dunstan operou na China... Dunstan sempre esteve na Ásia, e também sabe. Não é?

— Ah, é — falou Dunstan Barre, com tristeza. — Casey, na guerra, para sobreviver, a gente tem que fazer vista grossa para algumas coisas. Quanto ao comércio, Marlowe, concordo que, na maioria das vezes, é preciso equiparar o problema ao local e à hora. Agradeço a Deus nunca ter sido preso. Não creio que teria sobrevivido, sei que não teria.

Serviu-se de mais porto da garrafa, encabulado por estar revelando verdades reais.

— Conte como realmente foi Changi, Peter — pediu Casey, por todos eles.

— É difícil falar a respeito — replicou ele. — Era a coisa mais próxima de uma não-vida que se possa imaginar. A nossa ração era de duzentos e cinqüenta gramas de arroz seco por dia, alguns legumes, um ovo por semana. Às vezes... agi­tavam um pedaço de carne por cima da sopa. Era diferente, é só o que posso dizer a respeito. A maioria de nós jamais vira uma selva antes, que dirá chineses e japoneses, e perder uma guerra... eu tinha apenas dezoito anos quando Changi co­meçou.

— Santo Deus, não suporto aqueles amarelos japoneses, simplesmente não suporto! — exclamou Pugmire, e os outros concordaram.

— Mas isso não é justo, na verdade. Eles apenas jogavam segundo as regras do jogo deles — disse Peter Marlowe. — Isso era justo do ponto de vista japonês. Vejam que soldados maravilhosos eles foram, vejam como lutaram e quase nunca se permitiram ser capturados. Segundo os padrões deles, nós nos desonramos nos rendendo. — Peter Marlowe estremeceu. — Eu me senti desonrado, ainda me sinto desonrado.

— Não tem razão, Marlowe — disse Gornt. — Não há desonra nisso. Nenhuma.

Casey, de pé ao lado de Gornt, pôs a mão de leve no braço dele.

— É, sim. Ele tem razão, Peter. Toda a razão.

— É — falou Dunstan Barre. — Mas o Grey, que diabo descontrolou o Grey daquele jeito, hem?

— Nada e tudo. Virou um fanático, fazendo com que se cumprissem as regras do campo, que eram regras japonesas, o que era uma estupidez, na opinião de muitos de nós. Como já disse, Changi era diferente, oficiais e soldados trancafiados juntos, sem cartas de casa, sem comida, cercados por três mil e duzentos quilômetros de território ocupado pelo inimigo, ma­lária, disenteria, e com um índice de mortalidade terrível. Ele odiava esse meu amigo americano, o Rei. É verdade que o Rei era um negociante astuto, e que comia bem enquanto outros não comiam, bebia café e fumava cigarros já enrolados. Mas manteve muitos de nós vivos com a sua habilidade. Até mesmo o Grey. Manteve até o Grey vivo. Foi o ódio do Grey que o manteve vivo, estou certo disso. O Rei alimentava quase todo o contingente americano... havia uns trinta deles, entre ofi­ciais e soldados. Ah, eles tinham que trabalhar em troca, à moda americana, mas, mesmo assim, sem ele teriam morrido. Eu teria, eu sei. — Peter Marlowe estremeceu. — Joss. Carma. Vida. Acho que agora vou aceitar aquele conhaque, sr. Gornt. Gornt o serviu.

— E o que aconteceu a esse homem, a esse sujeito que você chama de Rei? Depois da guerra?

Pugmire interrompeu com uma risada.

— Um dos sacanas no nosso campo, que era negociante, acabou virando um danado dum milionário. Aconteceu o mes­mo com esse Rei?

— Não sei — replicou Peter Marlowe.

— Não o viu mais, Peter? — indagou Casey, surpresa. — Não voltou a vê-lo nos Estados Unidos?

— Não, nunca. Tentei encontrá-lo, mas nunca tive sorte.

— É o que geralmente acontece, Casey — disse Gornt, com naturalidade. — Quando se deixa um regimento, todas as dívidas e amizades são canceladas.

Estava muito satisfeito. "Tudo está saindo perfeito", falou com seus botões, pensando na cama de casal no seu camarote, e sorriu para ela, do outro lado do convés. Ela retribuiu o sorriso.

Riko Anjin Gresserhoff entrou no saguão do Victoria and Albert. Estava cheio de gente que tomava o chá cedo, ou que almoçava tarde. Enquanto se dirigia para o elevador, um tre­mor a percorreu, os olhares incomodando-a... não os olhares habituais de luxúria dos europeus, ou os olhares de aborreci­mento das suas mulheres... mas olhares chineses e eurasianos. Jamais sentira antes um ódio tão generalizado. Era uma sensa­ção estranha. Era a primeira vez que saía da Suíça, além das viagens para o colégio na Alemanha e duas viagens a Roma com a mãe. O marido só a levara para o exterior uma vez, para Viena, por uma semana.

"Não gosto da Ásia", pensou, abafando outro estremeci­mento. "Mas afinal, não é a Ásia, é apenas Hong Kong, sem dúvida é apenas aqui, o povo daqui. E sem dúvida eles têm razão de demonstrar antagonismo. Será que vou gostar do Ja­pão? Serei uma estranha, mesmo Iá?"

O elevador chegou e ela subiu à sua suíte no sexto andar, mas o camareiro não abriu a porta para ela. Sozinha e com a porta trancada, sentiu-se melhor. A luz vermelha de recados no telefone estava piscando, mas ela a ignorou, tirando rapidamen­te os sapatos, chapéu, luvas e casaco, colocando-os imediata­mente num amplo armário, ao lado das demais roupas, arruma­das e organizadas, assim como os três pares de sapatos. A suíte era pequena mas graciosa; uma sala de estar, quarto e banheiro. Havia flores da Struan sobre a mesa, e uma vasilha de frutas do hotel.

Ela desembrulhou caprichosamente o pacote de presente. Encontrou uma caixa preta de veludo, retangular, e abriu-a. Sen­tiu-se inundada pela emoção. O pingente vinha numa corrente fina de ouro, o jade verde com reflexos de um verde mais claro, na forma de uma cornucópia. A luz se refletia na superfície polida. Prontamente ela o colocou, examinando-o ao espelho, admirando a pedra que repousava no seu peito. Nunca recebera jade anteriormente.

Por baixo do papelão preto, coberto de veludo, estava o envelope. Era um envelope comum, não da Struan, o lacre igualmente comum, vermelho. Com grande cuidado, ela enfiou um cortador de papel sob o lacre e examinou as páginas, uma por uma, com a testa ligeiramente franzida. Apenas um amon­toado de números e letras, e um símbolo ocasional. Um sorri­sinho satisfeito tocou-lhe os lábios. Achou a pasta com os pa­péis de carta do hotel e, acomodando-se confortavelmente à escrivaninha, começou a copiar as páginas, uma a uma.

Quando acabou, fez uma verificação. Colocou as cópias num envelope do hotel e fechou-o, os originais noutro envelope, um comum, que tirara da bolsa. Depois pegou um novo pedaço de lacre vermelho, acendeu um fósforo e encostou a cera que se derretia nos dois envelopes, lacrando-os, certificando-se de que o lacre no envelope dos originais fosse de padrão igual ao que Dunross fizera. O telefone tocou, sobressaltando-a. Ficou olhando para ele, com o coração batendo forte, até que parasse. Novamente relaxada, voltou ao seu trabalho, certificando-se de que não tivessem ficado marcas reveladoras no bloco que usara, examinando-o sob a luz. Logo que ficou satisfeita, selou o en­velope que continha as cópias e endereçou-o para: R. Anjin, caixa postal 154, agência central, Sydney, Austrália. Em se­guida, colocou os dois envelopes na bolsa.

Cuidadosamente, verificou novamente se não tinha deixa­do escapar nada, depois foi até uma pequena geladeira perto do bar bem provido, apanhou uma garrafa de água mineral com gás e bebeu um pouco.

O telefone tocou de novo. Ela ficou olhando para ele, bebericando a água mineral, a mente funcionando sem parar, fazendo verificações, pensando no seu almoço com Dunross, perguntando-se se fora sensato aceitar o convite dele para to­mar coquetéis, logo mais, e depois ir jantar com ele e os amigos. "Será que haverá mesmo amigos ou vamos ficar sozinhos? Será que gostaria de ficar sozinha com aquele homem?"

Seus pensamentos se voltaram para o homenzinho desma­zelado, ligeiramente calvo, chamado Hans Gresserhoff, e para os quatro anos de vida que tivera com ele, semanas sozinha, dormindo sozinha, acordando sozinha, andando sozinha, sem amigos de verdade, saindo raramente, o marido estranhamente reservado, aconselhando-a a não fazer amigos, querendo que ela ficasse sozinha, e sempre segura, calma, paciente. Essa era a parte mais difícil de suportar, pensou ela. Paciência sozinha, paciência juntos, dormindo ou acordada. Paciência e calma exte­rior. Quando o tempo todo ela era como um vulcão, desespe­rada para entrar em erupção.

Não havia dúvidas de que ele a amava. Tudo o que ela sentia por ele era giri, dever. Ele lhe dava dinheiro, e a vida dela era serena, nem rica nem pobre... equilibrada, como o país da escolha deles. As chegadas e partidas dele nunca eram programadas. Quando estava com ela, sempre a desejava, que­ria ficar perto dela. As relações sexuais deles o satisfaziam, mas não a ela, embora fingisse, para dar prazer a ele. "Mas, afinal", disse consigo mesma, "você não tem outro homem para estabelecer uma comparação.

"Ele era um bom homem, e foi como contei ao tai-pan. Tentei ser uma boa mulher para ele, obedecê-lo em tudo, res­peitar o desejo de minha mãe, cumprir o meu giri para com ela e com ele. E agora?"

Baixou os olhos para a aliança e torceu-a no dedo. Pela primeira vez desde que se haviam casado, ela a tirou e a olhou de perto na palma da mão. Pequena, vazia e desinteressante. Tantas noites vazias, chorando, esperando, esperando, esperan­do. Esperando por quê? Por filhos proibidos, amigos proibidos, viagens proibidas. Não proibidos como o faria um japonês: Kin jiru! Mas de uma maneira tão sutil...

— Não acha, minha querida — dizia ele —, não acha que seria melhor você não ir para Paris enquanto eu estiver fora? Podemos ir da próxima vez em que eu vier...

Ambos sabiam que jamais iriam.

Aquela vez em Viena fora terrível. Fora no primeiro ano. Tinham ido passar Iá uma semana.

— Preciso sair esta noite — dissera ele, logo na primeira noite. — Por favor, fique no quarto, coma no quarto até eu voltar.

Dois dias se passaram, e quando ele voltou estava pálido e abatido, assustado, e imediatamente, na escuridão da noite, eles haviam tomado o seu carro alugado e fugido para a Suíça, indo pelo caminho mais longo, o caminho errado, subindo as montanhas do Tirol, os olhos dele vigiando constantemente os espelhos retrovisores, para o caso de estarem sendo seguidos, sem se falarem até terem cruzado novamente a fronteira em segurança.

— Mas por quê, por quê, Hans?

— Por nada! Por favor. Você não deve fazer perguntas, Riko. Foi o seu acordo... o nosso acordo. Lamento quanto às férias. Iremos para Wengen ou Biarritz, e será formidável, Iá será formidável. Por favor, lembre-se do seu gin e de que a amo do fundo do coração.

"Amor!

"Não compreendo esta palavra", pensou, de pé à janela, olhando para o porto, as nuvens escuras, a luz ruim. "É estra­nho que em japonês não tenhamos tal palavra. Apenas dever e nuances de dever, afeição e nuances de afeição. Não Liebe. Ai? Ai quer dizer na verdade respeito, embora algumas pessoas a usem no lugar de Liebe."

Riko se pegou pensando em alemão, e sorriu. Na maioria das vezes pensava em alemão, embora ao almoço, com o tai-pan, tivesse pensado em japonês. "Faz tanto tempo que não falo a minha própria língua! Qual é a minha própria língua? O japo­nês? É a língua que meus pais e eu falávamos. Alemão? É a língua da nossa parte da Suíça. Inglês? É a língua do meu marido, embora ele alegasse que o alemão era a sua língua natal.

"Ele era inglês?"

Ela se fizera essa pergunta muitas vezes. "Não que o ale­mão dele não fosse fluente. Eram as suas atitudes. As atitudes dele não eram alemãs, como as minhas não são japonesas. Ou são?

"Não sei. Mas agora vou poder descobrir."

Ele jamais lhe contara que tipo de trabalho fazia, e ela jamais lhe perguntara. Depois de Viena, fora fácil adivinhar que era clandestino e estava ligado, de alguma forma, ao crime ou à espionagem internacional. Hans não era do tipo de se me­ter com crime.

Então, dali em diante, ela fora ainda mais cautelosa. Uma ou duas vezes, em Zurique e quando foram esquiar, ela des­confiara de que estavam sendo vigiados, mas ele dissera que não se preocupasse.

— Mas esteja preparada para o caso de acidentes. Man­tenha tudo de valor, os papéis particulares, o passaporte e a certidão de nascimento na maleta de viagem, Ri-chan — dis­sera, usando o apelido dela. — Apenas por via das dúvidas.

Com a morte do marido, e com suas instruções quase to­das cumpridas, o dinheiro, o telefonema e o chamado do tai-pan, tudo seria novo. Agora ela podia recomeçar. Tinha vinte e quatro anos. O passado era passado, e carma era carma. O dinheiro do tai-pan seria mais do que suficiente para as ne­cessidades dela durante anos.

Na sua noite de núpcias, o marido lhe dissera:

— Se qualquer coisa me acontecer, você receberá um telefonema de um homem chamado Kiernan. Corte as linhas telefônicas como vou lhe mostrar, e deixe Zurique imediata­mente. Deixe tudo para trás, exceto as roupas do corpo e a maleta de viagem. Vá para Genebra. Tome esta chave. Ela abri­rá um cofre individual no Banco Suíço em Genebra, na Rue Charles. Nele há dinheiro e algumas cartas. Siga as instruções exatamente, minha querida. Oh, como eu a amo! Deixe tudo. Faça exatamente o que eu disse...

E ela o fizera. Exatamente. Era o seu giri.

Cortara os fios telefônicos com a tesoura, como ele lhe ensinara, logo atrás da caixa presa à parede, para que o corte mal fosse notado. Em Genebra, no banco, havia uma carta com instruções, dez mil dólares em dinheiro vivo no cofre indivi­dual, um novo passaporte suíço, carimbado, com a foto dela, mas um novo nome, um novo aniversário e uma nova certidão de nascimento, que dizia que ela nascera em Berna havia vinte e três anos. Gostara do nome novo que ele escolhera para ela, e lembrava-se de como, na segurança do seu quarto de hotel que dava para o lindo lago, chorara por ele.

No cofre individual também havia uma caderneta de pou­pança no seu novo nome, no valor de vinte mil dólares, e uma chave, um endereço e um título de propriedade. O título era de um pequeno chalé à beira do lago, isolado, mobiliado e total­mente pago, com uma zeladora que a conhecia apenas pelo novo nome, e que achava que ela fosse uma viúva que estivera no exterior... o título estava registrado no seu novo nome, embora o chalé tivesse sido comprado há quatro anos, alguns dias antes do seu casamento.

— Ah, patroa, que bom que a senhora finalmente veio para casa! Viajar para todos esses lugares estrangeiros deve ser muito cansativo — disse a velha simples e simpática, à guisa de cumprimento. — Ah, no último ano a sua casa foi alugada para um inglês tão tranqüilo e encantador! Pagava pontualmente todos os meses. Eis os recibos. Talvez ele volte esse ano, disse ele, talvez não. Seu agente fica na Avenue Firnet...

Mais tarde, caminhando pela linda casa, o lago vasto e limpo no bojo das montanhas, a casa limpa como as montanhas, quadros nas paredes, flores nos vasos, três dormitórios, uma sala e varandas, pequenina mas perfeita para ela, o jardim uma jóia, ela entrara no dormitório principal. Em meio a um calei­doscópio de pequenos quadros de diversos formatos e tamanhos numa das paredes, havia o que parecia ser parte de uma velha carta numa moldura com vidro, o papel já amarelecendo. Ela reconheceu a letra dele. Estava escrita em inglês.

"Tantas horas felizes nos seus braços, Ri-chan, tantos dias felizes na sua companhia! Como lhe dizer que a amo? Esqueça-me, eu jamais a esquecerei. Como imploro a Deus que lhe con­ceda dez mil dias por cada um dos meus, minha querida, minha querida, minha querida."

A imensa cama de casal estava quase convexa devido ao edredão grosso e multicolorido, as janelas abertas para o ar suave, cheio dos perfumes do final do verão, a neve cobrindo de leve os topos das montanhas. Ela chorara novamente, o chalé acolhendo-a.

Poucas horas depois de sua chegada, Dunross a chamara, e ela havia tomado o primeiro jato. E agora estava ali, a maior parte do seu trabalho terminado, nenhuma necessidade de vol­tar, o passado obliterado... se ela assim o desejasse. Parecia-lhe que o novo passaporte era genuíno, assim como a certidão de nascimento. Não havia nenhum motivo para voltar à Suí­ça... exceto pelo chalé. E o quadro.

Ela o deixara na parede, intocado. E resolvera que, en­quanto fosse dona da casa, o quadro ficaria onde ele o colocara. Para sempre.

 

                   17h10m

Orlanda dirigia o pequeno carro, Bartlett ao seu lado, com o braço apoiado de leve em seus ombros. Tinham acabado de cruzar a garganta, vindos de Aberdeen, e agora, ainda entre nuvens, desciam a montanha em Mid Leveis, em direção à casa dela, no Rose Court. Estavam felizes juntos, cheios de expec­tativa. Depois do almoço, haviam atravessado para Hong Kong, e ela guiara até Shek-O, na ponta sudeste da ilha, para mos­trar-lhe onde alguns dos tai-pans tinham casas de fim de se­mana. A paisagem era ondulante, o local escassamente povoado, colinas, ravinas, o mar sempre perto, pedras e rochedos ín­gremes.

De Shek-O haviam continuado pela estrada meridional que se enroscava e retorcia até chegarem a Repulse Bay, onde ela parará no maravilhoso hotel para tomarem chá com boli­nhos, na varanda, olhando para o mar. Depois tinham seguido, passando por Deepwater Cove até Discovery Bay, onde ela parará de novo num mirante.

— Olhe ali, Linc, aquele é o Castelo Tok! — O Castelo Tok era uma casa imensa e incongruente que parecia um cas­telo normando e ficava encarapitada nos rochedos, bem acima da água. — Durante a guerra, os canadenses, soldados cana­denses, que defendiam esta parte da ilha contra os invasores japoneses, recuaram até o Castelo Tok, para uma resistência final. Quando foram dominados e se renderam, havia cerca de duzentos e cinqüenta deles ainda vivos. Os japoneses os encur­ralaram todos no terraço do Castelo Tok e os fizeram saltar, à ponta de uma baioneta, pelo muro do terraço até as pedras Iá embaixo.

— Meu Deus!

A queda era de uns trinta metros, ou mais.

— Todos. Os feridos, os... outros, todos.

Ele notara que ela estremecera, e imediatamente estendera a mão para tocá-la.

— Não ligue, Orlanda, faz muito tempo.

— Não, não, absolutamente. Infelizmente a história e a guerra ainda permanecem conosco, Linc. Sempre permanecerão. À noite os fantasmas caminham por esses terraços.

— Você crê nisso?

— Sim, claro que sim.

Lembrou-se de como olhara para a casa sombria, o mar batendo contra as rochas Iá embaixo, o perfume dela cercando-o enquanto ela se recostava nele, sentindo-lhe o calor, e de como se sentira feliz por estar vivo e não ser um daqueles soldados.

— O seu Castelo Tok parece coisa saída de filme. Já es­teve Iá dentro?

— Não. Mas dizem que há armaduras e calabouços, e que é uma cópia de um castelo de verdade na França. O dono era o velho Sir Cha-sen Tok, Tok Construtor. Ele era um multi-milionário que ficou rico com estanho. Dizem que, quando fez cinqüenta anos, um vidente lhe disse que começasse a construir uma "grande mansão", caso contrário morreria. E assim ele começou a construir, e construiu dúzias de casas, todas mansões, três em Hong Kong, uma perto de Sha Tin, e muitas na Ma­lásia. O Castelo Tok foi a última que construiu. Estava com oitenta e nove anos, mas disposto e sadio como um homem de meia-idade. Mas, ao que consta, depois do Castelo Tok ele disse "agora chega", e parou de construir. Dentro de um mês estava morto, e a profecia do vidente se cumpriu.

— Está inventando tudo isso, Orlanda!

— Ah, não, Linc, não inventaria isso! Mas o que é ver­dade e o que é falso? Quem é que sabe, hem, meu querido?

— Eu sei que sou louco por você.

— Ah, Linc, você deve saber que sinto o mesmo. Tinham continuado o passeio, ultrapassando Aberdeen, sentindo-se bem juntos, a mão dele no ombro dela, o cabelo dela roçando-lhe a mão. De quando em vez ela indicava casas e locais, e as horas tinham passado imperceptível e deliciosa­mente para ambos. Agora, quando desciam a garganta em meio às nuvens, rompendo-as, podiam ver a maior parte da cidade Iá embaixo. As luzes ainda não tinham sido acesas, embora aqui e ali os imensos e coloridos cartazes a gás neon à beira-mar começassem a se iluminar.

O tráfego estava denso, e nas íngremes estradas das mon­tanhas a água ainda escorria nas sarjetas, com pilhas de lama, pedras e vegetação aqui e ali. Ela guiava com perícia, sem se arriscar, e ele se sentia seguro com ela, embora tivesse ficado arrepiado ao fazer as curvas do lado errado da estrada.

— Mas nós estamos do lado certo — disse ela. — Vocês é que guiam do lado errado!

— Nós, uma ova! São somente os ingleses que guiam do lado esquerdo. Você é tão americana quanto eu, Orlanda.

— Quem me dera eu fosse, Linc, ah, quem me dera!

— Você é. Fala como americana e se veste como ame­ricana.

— Ah, mas sei o que sou, meu querido.

Deixou-se ficar apenas apreciando-a. "Jamais gostei tanto de ficar apreciando alguém", pensou. "Nem a Casey. Ninguém em toda a minha vida." Então seu pensamento voltou-se para Biltzmann e teve vontade de estrangular o sujeito.

"Esqueça-se dele, meu velho, junto com toda a merda do mundo. É o que ele é... ele e o Banastasio." Bartlett sentiu uma nova pontada percorrê-lo. Recebera um telefonema pouco antes do almoço, e um pedido de desculpas que era na verdade uma ameaça adicional.

— Vamos fazer as pazes, cara, eu e você? Porra, Linc, é uma merda eu e você aos berros! Que tal irmos comer uns bifes logo mais? Há uma casa de carnes excelente na Nathan Road, a San Francisco.

— Não, obrigado, já tenho um encontro — disse, com frieza. — Além disso, você já foi bem claro, ontem. Vamos deixar assim, está bem? Nós nos veremos na assembléia anual da junta diretora, se você comparecer.

— Ei, Linc, qual é? Sou eu, seu amigão. Lembre-se de que comparecemos com a grana quando você precisou. Não lhe entregamos a grana?

— A grana em troca de ações, que foram o seu melhor investimento... o melhor investimento regular que já teve. Você dobrou seu dinheiro em cinco anos.

— Claro que sim. Agora queremos dar uns palpites. É justo, não é?

— Não. Não depois de ontem. E quanto às armas? — perguntou, seguindo uma intuição repentina.

Fez-se uma pausa.

— Que armas?

— As que foram colocadas no meu avião. Os Ml4 e as granadas contrabandeados.

— Isso para mim é novidade, cara.

— Meu nome é Linc, cara. Sacou? Outra pausa. Então, a voz veio áspera.

— Saquei. E sobre o nosso acordo? Vai mudar de idéia?

— Não. De jeito algum.

— Nem agora, nem mais tarde?

— Não.

Houve um silêncio do outro lado da linha, depois um cli­que, e ouviu-se um ruído de discar. Prontamente ele ligara para Rosemont.

— Não se preocupe, Linc. O Banastasio é um dos nossos alvos prioritários, e temos um bocado de ajuda por estas partes.

— Alguma novidade sobre as armas?

— Você está limpo. Os figurões daqui de Hong Kong retiraram a retenção que pesava sobre você. Será informado disso oficialmente amanhã.

— Descobriram alguma coisa?

— Não, mas nós, sim. Verificamos o seu hangar em Los Angeles. Um dos vigias noturnos se lembrou de ter visto dois palhaços mexendo no trem de aterrissagem. Não deu impor­tância ao fato até que perguntamos.

— Puxa vida! Pegaram alguém?

— Não. E talvez nem peguemos. Não há problema. Quan­to ao Banastasio, logo, logo vai largar do seu pé. Não se preocupe.

Agora, pensando no assunto, Bartlett sentiu-se gelado de novo.

— O que é, querido? — perguntou Orlanda. — O que houve?

-— Nada.

— Conte para mim.

— Só estava pensando que o medo é uma droga, e pode destruir a pessoa, se ela não tomar cuidado.

— Ah, é, eu sei, sei muito bem. — Tirou os olhos da estrada por um segundo, sorriu, hesitante, e colocou a mão no joelho dele. — Mas você é forte, meu querido. Não tem medo de nada.

— Tomara fosse verdade — riu.

— Ah, mas é. Eu sei. — Ela diminuiu a marcha para se desviar de um monte de lama, a estrada agora mais íngreme, a água rodopiando, entrando e saindo das sarjetas. O carro vi­nha grudado ao paredão alto que protegia a estrada, enquanto ela entrava na Kotewall Road e virava a esquina para chegar ao Rose Court. Quando chegou diante do prédio, ele prendeu a respiração, enquanto ela hesitava um momento. Depois, ultra­passou firmemente o portão e entrou na rampa íngreme que levava à garagem.

— Está na hora do coquetel — falou.

— Ótimo — disse ele, a voz rouca. Não olhou para ela. Quando pararam, ele saltou, foi para o lado dela e abriu a porta.

Ela trancou o carro, e eles se dirigiram para o elevador. Bartlett sentiu a veia latejar no pescoço.

Dois garçons chineses carregando bandejas de canapés en­traram junto com eles e perguntaram onde ficava o apartamento das Propriedades Asiáticas.

— Fica no quinto andar — respondeu ela. Depois que os homens saltaram, Bartlett quis saber:

— Os senhorios aqui são as Propriedades Asiáticas?

— São. — Acrescentou: — São também os construtores originais. — Hesitou: — Jason Plumm e Quillan são bons amigos. Quillan ainda é dono da cobertura, embora a tenha alugado depois que rompemos.

Bartlett abraçou-a.

— Que bom que romperam!

— Eu também acho. — O sorriso dela era meigo, e a sua inocência singela o comovia. — Agora acho.

Chegaram ao oitavo andar, e ele notou que os dedos dela tremiam de leve enquanto punha a chave na fechadura.

— Entre, Linc! Chá, café, cerveja ou um coquetel? — Ela tirou os sapatos e ergueu os olhos para ele. O coração dele batia com força, e os seus sentidos esforçaram-se para verificar se o apartamento estava vazio. — Estamos sozinhos — ela fa­lou, com simplicidade.

— Como é que você sabe o que estou pensando? Ela deu de ombros, ligeiramente.

— São só umas coisinhas. Ele enlaçou a cintura dela.

— Orlanda...

— Eu sei, meu querido.

A voz dela estava rouca, e ele sentiu um tremor percor­rê-lo. Quando a beijou, os lábios dela corresponderam, a parte inferior do seu corpo macia e sem oferecer resistência. As mãos dele percorreram-lhe o corpo. Ele sentiu que os mamilos dela endureciam, e que o bater do seu coração igualava o dele. De­pois as mãos dela deixaram o pescoço dele e lhe tocaram o peito, mas desta vez ele a segurou apertado, o seu beijo mais urgente. A pressão das mãos dela cessou, e mais uma vez ela lhe envolveu o pescoço, apertando mais contra ele a parte genital. Eles interromperam o beijo, mas continuaram agarrados.

— Eu o amo, Linc.

— Eu a amo, Orlanda — replicou ele, e a súbita consta­tação da verdade o consumiu.

Beijaram-se de novo, as mãos dela carinhosas e fortes, as dele percorrendo-lhe o corpo, ardentes. Ardentes, ele e ela. Quando seus joelhos amoleceram, ela deixou pender o corpo nos braços dele, e ele a carregou com facilidade pela porta aberta que levava ao quarto. As cortinas transparentes que pen­diam do teto para formar o dossel moviam-se suavemente à brisa fresca e suave que entrava pelas janelas abertas.

O acolchoado era macio, cheio de penas.

— Seja meigo comigo, meu querido — murmurou ela, roucamente. — Ah, como eu o amo!

Da popa do Sea Witch Casey acenou um adeus para Dunstan Barre, Plumm e Pugmire, que estavam no cais, do lado de Hong Kong, onde haviam acabado de ser desembarca­dos, o final da tarde agradável, mas ainda nublado. O barco cruzava a baía de novo — Peter Marlowe e as garotas já tinham sido deixados em Kowloon —, pois Gornt a persuadira a ficar a bordo para a viagem extra.

— Tenho que voltar de novo para Kowloon — dissera ele. — Tenho um compromisso no Nove Dragões. Quer me fazer companhia, por favor?

— E por que não? — ela concordara feliz, sem pressa, ainda com tempo de sobra para mudar de roupa para o coque­tel para o qual Plumm a convidara à tarde. Resolvera adiar o seu jantar com Lando Mata para um dia qualquer da semana seguinte.

No caminho de volta de Sha Tin, à tarde, ela cochilara parte do tempo, enrolada num cobertor por causa da brisa fria, enroscada nas poltronas amplas e confortáveis que rodeavam a popa, os outros convidados dispersos, às vezes Gornt ali ao leme, alto, forte e senhor do seu barco, Peter Marlowe cochi­lando sozinho numa espreguiçadeira da proa. Mais tarde toma­ram chá com bolinhos, ele, Casey e Barre. Durante o chá, Pugmire e Plumm haviam aparecido, descabelados e satisfeitos, com as garotas a tiracolo.

— Dormiram bem? — perguntara Gornt, com um sorriso.

— Muito — respondera Plumm.

"Acredito", pensara ela, observando-o, e à sua garota, gos­tando dela... olhos grandes e escuros, esguia, uma pessoa feliz chamada Wei-wei, que se grudava a ele como uma sombra.

Pouco antes, quando ela e Gornt tinham ficado sozi­nhos no tombadilho, ele lhe contara que nenhuma daquelas garotas era uma amiguinha casual, eram todas especiais.

— Todo mundo aqui tem uma amante?

— Santo Deus, não. Mas, bem, desculpe, os homens e as mulheres envelhecem de modo diferente, e depois de certa idade fica difícil. Para falar com franqueza, ir para a cama, amor e casamento não são a mesma coisa.

— Não existe fidelidade?

— Mas claro, sem dúvida. Para a mulher significa uma coisa, para o homem outra.

Casey soltara um suspiro.

— Que terrível! Terrível e injusto.

— É. Mas apenas se se quer que seja.

— Isso não é direito! Pense nos milhões de mulheres que trabalham e se escravizam a vida toda, cuidando do homem, esfregando e limpando, e hoje em dia até ajudando a sustentar os filhos, para serem jogadas de lado quando forem velhas.

— Não se pode culpar os homens, é assim que a so­ciedade é.

— E quem dirige a sociedade? Os homens! Pombas, Quillan, você tem que admitir que os homens são os res­ponsáveis!

— Já concordei que é injusto, mas também é injusto para os homens. E quanto aos milhões de homens que se matam de trabalhar para prover... que palavrinha infeliz!... para prover o dinheiro para os outros gastarem, especialmente as mulheres? Enfrente a realidade, Ciranoush, os homens têm que continuar trabalhando até morrer, para sustentar os outros, e mais do que freqüentemente, no final das suas vidas, uma mulher irritante, uma megera... olhe só para a mulher do Pug, pelo amor de Deus! Eu poderia lhe indicar cinqüenta que são desnecessariamente gordas, feias e fedem... literalmente. E ainda há aquele outro simpático truquezinho feminino das mu­lheres, que usam o seu sexo para prender os homens numa armadilha, para ficarem grávidas e os agarrarem, depois se queixarem de tudo e exigirem um divórcio altamente compen­sador. E quanto ao Linc Bartlett, hem? Que espécie de "sua-douro" lhe deu aquela sua mulher maravilhosa, hem?

— Sabia disso?

— Claro. Vocês verificaram a minha ficha, eu verifiquei a de vocês dois. As suas leis de divórcio são justas? Cinqüenta por cento de tudo, e depois o pobre coitado do homem ameri­cano ainda tem que ir aos tribunais para decidir qual a pro­porção dos seus cinqüenta por cento que pode manter.

— É verdade que a mulher de Linc e o advogado quase o deixaram na rua da amargura. Mas nem toda mulher é assim. Mas, meu Deus, não somos bens móveis, e a maioria das mu­lheres precisa de proteção. As mulheres em todo o mundo ainda acabam sempre ficando na pior.

— Nunca conheci uma mulher de verdade que acabasse ficando na pior — dissera ele. — Estou me referindo a mulheres como você e Orlanda, que entendem o que é a feminilidade. — De repente, ele abrira um amplo sorriso. — Claro que, pelo caminho, ela tem que nos dar a nós, filhos da mãe fracos, o que queremos para nos manter saudáveis.

Ela rira junto com ele, também querendo deixar de lado aquele assunto... difícil demais de ser solucionado naquele momento.

— Ah, Quillan, você é mesmo um dos que não prestam!

— Sou?

— É.

Ele se virará para perscrutar o céu à frente. Ela o obser­vava, e ele lhe parecera tão alinhado, ali de pé, oscilando de leve, o vento eriçando os pêlos dos seus antebraços fortes, o quepe de capitão num ângulo atrevido. "Que bom que ele confia em mim e me considera uma mulher", pensara, embalada pelo vinho, pela comida e pelo desejo dele. Desde que subira a bordo ela o sentira fortemente, e se perguntava de novo como lidaria com ele quando se manifestasse, o que inevitavelmente aconteceria. Seria sim ou não? Ou talvez? Ou talvez na semana que vem?

Haveria uma semana que vem?

— O que vai acontecer amanhã, Quillan? Na Bolsa de Valores?

— O amanhã pode cuidar do amanhã — dissera ele, o vento a fustigá-lo.

— Fala a sério?

— Ganharei ou não ganharei. — Gornt dera de ombros. — De qualquer maneira, estou coberto. Amanhã eu compro. Com sorte, eu o deixo na pior.

— E depois?

Ele dera uma risada.

— Tem alguma dúvida? Arranco o couro dele, e a tribuna no hipódromo.

— Ah, você realmente deseja isso, não é?

— Ah, sim! Ah, sim! Isso representa a vitória. Ele e os antepassados dele excluíram a mim e aos meus. Claro que quero isso.

"Será que eu poderia fazer um acordo com o Ian?", pen­sou distraidamente. "Será que conseguiria que o tai-pan per­mitisse que Quillan tivesse a sua própria tribuna, e o ajudasse a se tornar um administrador? É uma loucura esses dois vive­rem às turras... há lugar de sobra para ambos. O Ian me deve um favor, se o Murtagh conseguir o acordo."

O coração dela se agitara, e ela ficara imaginando o que teria acontecido com Murtagh e o banco e, se a resposta fosse sim, o que Quillan faria.

"E onde anda o Linc? Estará com a Orlanda, nos braços dela, passando a tarde?"

Enroscara-se de novo na popa e fechara os olhos. O ar salgado, o ronco dos motores e o balanço do mar a tinham feito dormir. O sono dela foi sem sonhos, como se estivesse no útero, e dali a alguns minutos acordou, recuperada. Gornt agora estava sentado diante dela, observando-a. Estavam sozi­nhos de novo, o capitão cantonense ao leme.

— Tem um belo rosto quando dorme — disse ele.

— Obrigada. — Ela se mexeu e se apoiou num dos coto­velos. — Você é um homem estranho. Parte demônio, parte príncipe, compassivo num minuto, implacável no seguinte. Foi uma coisa maravilhosa o que fez pelo Peter. — Ele apenas sor­riu e esperou, os olhos estranha e agradavelmente desafiadores. — O Linc... acho que o Linc está gamado pela Orlanda — disse ela sem pensar, e viu uma sombra passar pelo seu rosto.

— É?

— É. — Ela esperou, mas ele ficou calado, apenas obser­vando-a. Espicaçada pelo silêncio, ela acrescentou, involunta­riamente: — Acho que ela está gamada por ele. — Novo e longo silêncio. — Quillan, isso faz parte de um plano?

Ele riu baixinho, e ela sentiu o domínio dele.

— Ah, Ciranoush, você é que é estranha. Eu não...

— Não quer me chamar de Casey? Por favor? Ciranoush não soa bem.

— Mas eu não gosto de Casey. Posso usar o Kamalian?

— Casey.

— E que tal Ciranoush hoje, Casey amanhã, Kamalian no jantar de terça-feira? É quando fechamos o negócio. Certo?

Ela fechou a guarda, quase sem sentir.

— Isso depende do Linc.

— Você não é tai-pan da Par-Con?

— Não, não, isso eu jamais serei. Ele riu. Depois, falou:

— Então que seja Ciranoush hoje, Casey amanhã, e para o diabo com a terça-feira!

— Está certo! — concordou ela, encantada com ele.

— Ótimo. Agora, quanto à Orlanda e ao Linc — disse, a voz meiga —, é problema deles, e nunca comento os casos de uns com outros, mesmo com uma senhora. Nunca. Isso não é jogar corretamente. Se está perguntando se bolei alguma trama diabólica, usando Orlanda contra o Linc ou você e a Par-Con, isso é ridículo. — Novo sorriso. — Sempre notei que as senhoras é que manipulam os homens, e não o contrário.

— Essa é boa!

— Uma pergunta merece outra: você e o Linc são amantes?

— Não. Não no sentido convencional, mas é verdade que o amo.

— Ah, então vão se casar?

— Talvez. — Novamente ela mudou de posição, e viu que seus olhos a percorriam. Ela puxou o cobertor mais para junto do corpo, o coração batendo agradavelmente, muito côns-CIA da presença dele, como sabia que ele estava cônscio da presença dela. — Mas não comento meus casos com outro homem — disse, com um sorriso. — Isso também não é jogar corretamente.

Gornt estendeu a mão e tocou-a de leve.

— Concordo, Ciranoush.

O Sea Witch saiu do quebra-mar e entrou nas ondas do porto, com Kowloon logo adiante. Ela sentou-se ereta para apreciar a ilha e o Pico, quase todo envolto em nuvens.

— Como é bonito!

— A costa sul de Hong Kong é linda perto de Shek-O, Repulse Bay. Tenho uma casa em Shek-O. Gostaria agora de ver o resto do barco?

— Sim, gostaria.

Ele a levou primeiro para a proa. Os camarotes estavam arrumados, sem dar sinal de terem sido usados. Cada um deles tinha um chuveiro e uma privada. Uma pequena cabine geral servia a todos.

— Somos muito populares com as damas, no momento, porque elas podem tomar as suas chuveiradas à vontade. A escassez de água tem as suas vantagens.

— Claro — disse ela, acompanhando a jovialidade dele. Na popa, separado do resto do barco, ficava o camarote principal. Uma cama de casal grande. Arrumada, jeitosa, con­vidativa.

O coração dela agora batia alto nos seus ouvidos, e quan­do ele fechou a porta do camarote com naturalidade e colocou a mão na cintura dela, Casey não recuou. Ele se aproximou mais. Ela nunca tinha beijado um homem de barba antes. O corpo de Gornt era duro de encontro ao dela, gostoso. O ritmo da respiração dela aumentou, os lábios dele firmes, com gosto de charuto. Parte dela sussurrava: "Solte-se, solte-se", e parte dizia: "Não, não se solte", e toda ela se sentia sensual nos braços dele. Era bom demais.

"E quanto ao Linc?"

A pergunta atacou a mente dela como nunca antes. De estalo, sua mente se desanuviou, e, empolgada com a sensuali­dade dele, ela soube pela primeira vez, com absoluta certeza, que era o Linc que queria, não a Par-Con ou o poder, se tivesse que escolher. "Ê, é o Linc, apenas o Linc, e hoje à noite vou cancelar o nosso acordo. Hoje à noite vou propor cancelá-lo."

— Agora não é a hora — sussurrou, a voz rouca.

— O quê?

— Não, não agora. Não podemos, desculpe. — Esticou-se e o beijou de leve nos lábios, falando em meio aos beijos. — Agora não, meu caro, desculpe, mas não podemos, não agora. Terça-feira, quem sabe na terça-feira...

Ele a afastou de junto de si, e ela viu que seus olhos escuros a perscrutavam. Sustentou o olhar dele o quanto pôde, depois enterrou a cabeça no peito dele e o abraçou carinhosa­mente, ainda desfrutando a proximidade, certa de que agora es­tava segura. "Puxa, escapei por pouco", pensou debilmente, os joelhos estranhos, todo o seu corpo pulsando. "Quase me entreguei, desta vez, e isso não teria sido bom para mim, para Linc ou para ele.

"Teria sido bom para ele", pensou, de modo estranho.

Seu coração batia forte enquanto ela repousava de encon­tro a ele, esperando, recuperando-se, certa de que, dali a um momento, com carinho e meiguice, e a promessa da semana seguinte, ele diria: "Vamos voltar para o convés".

Então, subitamente, ela sentiu os braços dele apertarem-se à sua volta, e antes que se desse conta do que estava aconte­cendo, estava na cama, os beijos dele fortes e as mãos errantes. Ela começou a se debater, mas ele segurou as mãos dela com perícia, esticou-a com a sua grande força e deitou-se sobre ela, a parte inferior do seu corpo prendendo-a e tornando-a indefe­sa. Beijou-a ao seu bel-prazer, e a paixão dele e a excitação dela misturaram-se à fúria, ao medo e ao desejo dela. Por mais que ela se debatesse, não conseguia se mexer.

O calor aumentou. Dali a um momento, ele mudou de posição. Imediatamente ela se lançou ao ataque, agora queren­do mais, embora estivesse preparada para lutar seriamente. No­vamente, ele voltou a prender as mãos dela. Ela sentiu-se com­pletamente envolvida, desejando ser dominada, não desejando, a paixão dele forte, seu sexo duro, a cama macia. E então, do mesmo modo abrupto como começara, ele a soltou e rolou para o lado, com uma risada.

— Vamos beber alguma coisa! — disse ele, sem rancor. Ela lutava para recobrar o fôlego.

— Seu filho da mãe!

— Que nada, sou um filho muito legítimo. — Gornt apoiou-se num cotovelo, enrugando os olhos num sorriso. — Mas você, Ciranoush, é uma mentirosa.

— Vá pro inferno!

A voz dele era calma, e cordialmente implicante.

— Irei, no devido tempo. Longe de mim pedir a uma dama que prove uma coisa dessas.

Ela se lançou sobre ele, procurando unhar-lhe o rosto, furiosa por ele estar tão controlado quando ela não estava. Ele segurou as mãos dela com facilidade e prendeu-a.

— Calma, calma, gatinha — falou, afavelmente. — Acal­me-se, Ciranoush. Lembre-se, somos maiores de idade. Já a vi quase despida, e, se quisesse mesmo violentá-la, temo que você estaria perdida desde o começo. Poderia gritar até ficar rouca que a minha tripulação não escutaria nada.

— Você é um nojento maldi...

— Pare! — Gornt manteve o sorriso, mas ela parou, pres­sentindo o perigo. — A brincadeira foi só para divertir, não para assustar — disse ele, suavemente. — Só uma gozação, nada mais. Juro.

Ele a soltou, e ela saiu apressadamente da cama, ainda respirando pesadamente.

Cheia de raiva, foi até o espelho e ajeitou o cabelo; então viu-o pelo espelho, ainda deitado com naturalidade na cama, observando-a, e virou-se com violência.

— Seu filho da mãe de olhos negros!

Gornt soltou uma imensa gargalhada, contagiante, de sa­cudir a barriga, e de repente, notando a tolice de tudo aquilo, ela também começou a rir. Dali a um momento, os dois riam a valer, ele estirado na cama, Casey apoiada na cômoda.

No tombadilho, como bons amigos, tomaram um pouco do champanha que já estava aberto num balde de prata. O taifeiro silencioso e gentil serviu-os e depois se retirou.

Ao chegarem no desembarcadouro, em Kowloon, ela o beijou de novo.

— Obrigada por uma tarde muito agradável. Terça-feira, se não antes!

Foi para terra e ficou dando adeus para o barco por muito tempo. Depois, foi para casa.

Wu Óculos também estava indo para casa. Sentia-se can­sado, ansioso, com muito medo. O caminho de subida por entre o labirinto de choças e barracos na área de recolonização bem acima de Aberdeen era difícil, escorregadio e perigoso, lama e sujeira por toda parte, e ele respirava com dificuldade devido à subida. O bueiro de concreto transbordara muitas vezes, espalhando os detritos em muitos lugares, a inundação afastando estruturas de lugar e criando mais confusão. A fumaça pairava sobre muitas das moradias destroçadas, algumas ainda ardendo dos incêndios que se haviam espalhado com rapidez quando os deslizamentos tinham começado. Ele se desviou do buraco profundo onde a Quinta Sobrinha quase perecera na antevéspera, cerca de mais uma centena de choças destruídas por novos deslizamentos na mesma área.

A loja de doces sumira, e a velha junto com ela.

— Onde está ela? — perguntou.

O homem deu de ombros e continuou a vasculhar os escom­bros, procurando boa madeira, bons pedaços de papelão ou ferro corrugado.

— Como está a coisa Iá em cima? — perguntou.

— Como Iá embaixo — disse o homem num cantonense hesitante. — Uns bons, outros ruins. Joss.

Wu agradeceu. Estava descalço, carregando os sapatos para protegê-los. Saiu de perto dos bueiros e foi abrindo cami­nho por cima dos escombros para descobrir a trilha que subia. De onde estava não conseguia enxergar a sua área, embora lhe parecesse que não havia deslizamentos por Iá. Armstrong per­mitira que ele viesse para casa para verificar as coisas, quando o noticiário anunciara novos deslizamentos fortes naquela parte da área de recolonização.

— Mas volte o mais depressa que puder. Temos outro interrogatório marcado para as sete horas.

— Oh, sim, voltarei — falou em voz alta.

As sessões haviam sido muito cansativas, mas boas para ele, com muitos elogios por parte de Armstrong e do chefe do sei, seu lugar agora assegurado, a transferência e o treinamento a começar na semana seguinte. Dormira muito pouco, em parte porque as horas das sessões não tinham relação com o dia ou a noite, em parte pela sua ânsia de êxito. O cliente passava do inglês para o dialeto de Ning-tok, para o cantonense e de volta para o inglês, e fora difícil acompanhar todas as suas divagações. Apenas quando os seus dedos tinham tocado o maço de notas incomum e maravilhoso no bolso, seus ganhos nas corridas, é que uma leveza tomara conta dele e o fizera atravessar as horas difíceis. Novamente ele as tocou, para se reconfortar, aben­çoando a sua sorte enquanto subia a trilha estreita, que às vezes servia de ponte desconjuntada sobre pequenas ravinas, sempre subindo. Gente passava por ele, descendo, outras pessoas o acompanhavam subindo, o barulho de martelos, reconstrução, recolocação de telhados ecoando pelas encostas.

A área dele ficava menos de cem metros adiante, dobrando a esquina, e ele a dobrou e parou. Sua área não existia mais, era só uma funda cicatriz na terra, a avalancha empilhada de lama e entulho sessenta metros abaixo. Nenhuma habitação, onde antes houvera centenas.

Atordoado, ele subiu, desviando-se do deslizamento trai­çoeiro, e foi até a choça mais próxima, batendo à porta. Uma velha abriu-a, desconfiada.

— Com licença, Honrada Senhora, sou o filho de Wu Cho-tam, de Ning-tok...

A mulher, Yang Um Dente Só, fitou-o com ar inexpressi­vo, depois começou a falar, mas Wu não entendia o seu idioma. Por isso, agradeceu-lhe e afastou-se, lembrando-se de que aque­la era uma das áreas ocupadas pelos Yangs, alguns dos estran­geiros nortistas que vinham de Xangai.

Mais perto do topo do deslizamento, ele bateu a outra porta.

— Com licença, Honrado Senhor, mas o que aconteceu? Sou o filho de Wu Cho-tam, de Ning-tok, e minha família estava ali — falou, apontando para a fenda.

— Aconteceu durante a noite, Honrado Wu — disse o homem, falando um dialeto cantonense que ele podia entender.

— Foi como o ruído do velho trem expresso de Cantão, depois um rugido da terra, depois gritos. Então começaram alguns incêndios. Aconteceu a mesma coisa no ano passado, logo ali. Ah, é, os incêndios começaram rapidamente, mas foram logo apagados pela chuva. Dew neh loh moh, mas a noite foi muito ruim. — O vizinho era um velho desdentado, e sua boca se abriu numa careta. — Graças a todos os deuses você não estava dormindo ali, heya? — disse, fechando a porta.

Wu voltou a olhar para a fenda, depois foi descendo a colina. Finalmente, encontrou um ancião da sua área, que tam­bém era de Ning-tok.

— Ah, Wu Óculos, Policial Wu! Vários membros da sua família estão ali. — Seu dedo nodoso apontou para cima.

— Ali, na casa do seu primo, Wu Wam-pak.

— Quantos se perderam, Honorável Senhor?

— Fodam-se todos os desabamentos de terra, como vou saber? Eu Iá sou o guardião da encosta? Há dúzias de desa­parecidos.

Wu Óculos lhe agradeceu. Quando encontrou a choça, o Nono Tio estava Iá, a Avó, a mulher do Sexto Tio e seus quatro filhos, a mulher e o bebê do Terceiro Tio. O Quinto Tio estava com o braço quebrado, numa tipóia improvisada.

— E o resto de nós? — perguntou. Faltavam sete.

— Na terra — falou a Avó. — Tome chá, Wu Óculos.

— Obrigado, Honrada Avó. E o Avô?

— Foi para o Vácuo antes do desabamento. Foi para o Vácuo durante a noite, antes do desabamento.

— Joss. E a Quinta Sobrinha?

— Sumiu. Desapareceu, em algum lugar.

— Será que ainda pode estar viva?

— Talvez. O Sexto Tio está agora procurando por ela, Iá embaixo, com os outros, embora seja uma boca inútil. Mas e quanto aos meus filhos, e os filhos deles, e os deles?

— Joss — disse Wu com tristeza, sem amaldiçoar ou abençoar os deuses. Deuses cometem erros. — Vamos quei­mar incenso por eles, para que renasçam em segurança, se houver um renascimento. Joss. — Sentou-se num caixote que­brado. — Nono Tio, nossa fábrica, a fábrica ficou danificada?

— Não, graças aos deuses. — O homem estava entorpe­cido. Perdera a mulher e três filhos, saindo nem sabia como de dentro do mar de lama que os engolira a todos. — A fábrica não foi danificada.

— Bom. — Todos os papéis e material de pesquisa para o Lutador pela Liberdade estavam Iá... juntamente com a ve­lha máquina de escrever e uma antiqüíssima copiadora Ges-tetner. — Muito bem. Agora, Quinto Tio, amanhã o senhor comprará uma máquina de fazer plástico. De agora em diante, faremos as nossas próprias flores. O Sexto Tio o ajudará, e recomeçaremos.

O homem cuspiu, enojado.

— E como vamos pagar, hem? Como vamos começar? Como... — Parou e ficou olhando fixo para ele. Todos solta­ram exclamações abafadas. Wu Óculos tirara do bolso o maço de notas. — Ayeeyah, Honrado Irmão Mais Moço, estou vendo que finalmente teve a sabedoria de unir-se ao Cobra!

— Mas quanta sabedoria! — ecoaram os outros, orgulho­samente. — Que todos os deuses abençoem o Irmão Mais Moço!

O rapaz ficou calado. Sabia que não acreditariam nele se contasse a verdade. Portanto, deixou que acreditassem no que quisessem.

— Amanhã comecem a procurar uma boa máquina de segunda mão. Podemos pagar apenas novecentos dólares — disse ao homem mais velho, sabendo que tinha mil e quinhen­tos disponíveis, se fosse preciso.

Depois, saiu da choça e combinou com o primo, dono dela, alugar-lhe um canto até que pudessem reconstruir, discutindo o preço até chegarem a um acordo. Satisfeito de haver feito o que podia pelo clã dos Wus, deixou-os e desceu o morro de volta ao quartel-general, o coração chorando, toda a sua alma dese­jando gritar com os deuses pela sua injustiça, ou descuido, por terem levado tantos deles, por terem levado a Quinta Sobri­nha, cuja vida fora devolvida havia um ou dois dias noutro desabamento.

"Não seja idiota", ordenou a si mesmo. "Joss é joss. Você tem dinheiro no bolso, um vasto futuro no sei, o Lutador pela Liberdade para fazer, e a hora da morte depende dos deuses.

"Pobrezinha da Quinta Sobrinha. Tão bonitinha, tão meiga!"

— Os deuses são os deuses — murmurou, cansado, lem­brando as últimas palavras que recordava tê-la ouvido dizer. Em seguida, tirou-a da cabeça.

 

                   18h30m

Ah Tat subiu com dificuldade a larga escadaria da Casa Grande, as velhas juntas reclamando, resmungando sozinha, e atravessou a Galeria Longa, odiando a galeria e os rostos que pareciam estar sempre a observá-la. "Há fantasmas demais aqui", pensou, cheia de temor supersticioso, tendo conhecido muitos dos rostos em vida, tendo crescido naquela casa, tendo nascido naquela casa há oitenta e cinco anos. "Que coisa inci­vilizada manter-lhes os espíritos presos pendurando-lhes os re­tratos na parede. É melhor agir civilizadamente e lançá-los à lembrança, onde devem ficar os espíritos."

Como sempre acontecia, um estremecimento a percorreu ao ver a faca da Bruxa enfiada no coração do pai. "Dew neh loh moh", pensou, "aquela era mesmo uma doida, com um demônio insaciável no seu Portão de Jade, sempre lamentando secretamente a perda d'o tai-pan, o pai do marido, lamentando o seu destino por ter-se casado com o fracote do filho e não com o pai, sem nunca ter ido para a cama com o pai, o seu Portão de Jade insaciável por esse motivo.

"Ayeeyah, e todos os estranhos que subiram estas escadas ao longo dos anos para entrarem na cama dela, bárbaros de todas as nações, de todas as idades, formatos e tamanhos, para serem jogados de lado como um traste depois de a sua essência ter sido usada e esgotada, o fogo jamais tocado."

Ah Tat estremeceu de novo. "Que os deuses sejam teste­munhas! O Portão de Jade e o Monge de Um Olho Só são verdadeiramente yin e yang, verdadeiramente eternos, verda­deiramente divinos, ambos insaciáveis, não importa o quanto um consuma o outro. Graças a todos os deuses meus pais per­mitiram que eu fizesse voto de castidade, para devotar minha vida à criação de crianças, sem nunca ser rasgada por um Talo Ardente, para jamais voltar a ser a mesma. Graças a todos os deuses que nem todas as mulheres precisam de homens para elevá-las ao estágio de unidade com os deuses. Graças a todos os deuses algumas mulheres sabiamente preferem mulheres para acariciar, tocar, beijar e gozar. A Bruxa também teve mulheres, muitas, quando ficou velha, encontrando prazer, mas não satis­fação, nos seus braços juvenis. É curioso que ela se deitasse com uma garota civilizada, mas não com um homem civilizado, que sem dúvida ter-lhe-ia apagado o fogo, de uma maneira ou de outra, com instrumentos de cama ou sem eles. Que todos os deuses sejam testemunhas, quantas vezes não lhe disse isso? Eu era a única pessoa com quem ela discutia tais coisas!

"Pobre idiota, com os seus sonhos distorcidos de poder, sonhos distorcidos de luxúria, igualzinha à velha imperatriz-mãe... pesadelos de uma vida que nenhuma vara pode mitigar."

Ah Tat desviou os olhos da faca e seguiu o seu caminho. "A Casa jamais será íntegra enquanto alguém não arrancar essa faca e lançá-la ao mar... com ou sem maldição."

A velha não bateu à porta do quarto de dormir, mas entrou silenciosamente, para não acordá-lo, e ficou parada jun­to à grande cama de casal, olhando para baixo. Aquela era a hora de que mais gostava, quando o seu homem-menino ainda dormia, sozinho, e ela podia ver seu rosto adormecido e exami­ná-lo, sem ter que se preocupar com o mau humor e a irritação da Mulher Principal, com as suas idas e vindas.

"Mulher tola", pensou solenemente, vendo os vincos no rosto dele. "Por que não cumpre o seu dever como Mulher Principal e arruma outra mulher para o meu filho, uma jovem, na idade de procriar, uma pessoa civilizada, como tinha o velho Demônio de Olhos Verdes? Então esta casa seria alegre de novo. É, a casa precisa de mais filhos... é uma burrice arriscar a prosperidade nos ombros de um filho só. É uma burrice deixar este touro sozinho, burrice deixar esta cama vazia, burrice deixá-lo para ser tentado por alguma prostitutazinha bajuladora, para desperdiçar a sua essência em pastos estranhos. Por que ela não se dá conta de que temos que proteger a Casa? Bárbaros!"

Viu os olhos dele se abrirem e entrarem em foco, e depois ele se espreguiçou gostosamente.

— Hora de levantar, meu filho — disse ela, tentando soar áspera e mandona. — Tem que tomar banho, vestir-se, dar mais telefonemas, heya, e deixar a sua pobre Mãe com mais tarefas e mais trabalho, heya?

— Sim, Mãe — resmungou Dunross em cantonense, em meio a um bocejo. Depois, sacudiu-se como um cachorro, es­preguiçou-se mais uma vez e saltou da cama, dirigindo-se despi­do para o banheiro.

Ela examinou com ar crítico o seu corpo alto, as cicatrizes feias e enrugadas das antigas queimaduras da queda de avião que lhe cobriam a maior parte das pernas. Mas as pernas eram fortes, os flanços fortes, o yang resoluto e saudável. "Ótimo", pensou. "Que bom que está tudo bem." Mesmo assim, ela se preocupava com a perpétua esbelteza dele, sem a barriga subs­tancial que seu dinheiro e sua posição mereciam.

— Não está comendo o bastante, meu filho!

— Mais do que o bastante!

— Há água quente no balde. Não se esqueça de escovar os dentes.

Satisfeita, começou a fazer a cama.

— Ele estava precisando desse descanso — resmungou, sem se dar conta de que estava falando em voz alta. — Na última semana tem parecido um homem endemoninhado, tra­balhando o tempo todo, o medo no seu rosto, nele todo. Um medo desses pode matar. — Quando acabou de fazer a cama, falou mais alto: — Não fique fora até tarde hoje à noite. Pre­cisa se cuidar, e se for dormir com uma prostituta, traga-a para cá, como uma pessoa sensata, heya?

Ouviu-o dar uma risada e ficou contente. "Nos últimos dias ele não tem rido o suficiente", pensou.

— Um homem precisa de risadas e de um yin jovem para alimentar o yang. Hem, o que foi que você disse?

— Perguntei pela Filha Número Um.

— Entra, sai, sempre sai, sai com aquele novo bárbaro — disse ela, indo até a porta do banheiro espiá-lo enquanto ele se lavava. — O tal de cabelos compridos e roupas amassa­das que trabalha no China Guardian. Não o aprovo, meu filho, nem um pouquinho.

— Para onde eles "saíram", Ah Tat?

A velha deu de ombros, remexendo as gengivas.

— Quanto mais cedo a Filha Número Um se casar, me­lhor. Melhor que ela seja problema de outro homem, e não seu. Ou então deve dar-lhe uma boa sova na bunda. — Ele riu de novo, e dessa vez ela ficou imaginando por quê. — Está ficando de miolo mole — resmungou, depois se afastou. Na porta externa, lembrando-se, chamou: — Há uma pequena re­feição pronta para você, antes de sair.

— Não se preocupe com comida... — começou Dunross, interrompendo-se, sabendo que era perda de tempo. Ouviu enquanto ela se afastava resmungando, fechando a porta às suas costas.

Estava de pé na banheira e jogou mais água fria sobre o corpo. "Porra, como eu queria que acabasse esta droga de falta d'água", pensou. "Que delícia uma longa chuveirada quente!", pensou, e logo se concentrou inexoravelmente em Adryon. Prontamente, escutou o conselho de Penelope: "Não banque a criança, Ian! A vida é dela, não banque a criança!"

— Estou tentando — murmurou, enxugando-se vigoro­samente. Pouco antes de dormir, ligara para Penelope. Ela já estava no Castelo Avisyard, Kathy ainda na clínica de Londres para mais exames.

— Virá para cá na semana que vem. Espero que tudo saia bem.

— Estou em contato com os médicos, Penn. — Ele lhe falara da idéia de mandar Gavallan para a Escócia. — Ele sem­pre quis ficar aí, a Kathy também. Será melhor para os dois, não é?

— Ah, que maravilha, Ian! Que notícia maravilhosa!

— Podem ocupar toda a ala leste.

— É, sim. Ian, o tempo está maravilhoso, hoje, mara­vilhoso, e a casa tão linda! Não há mesmo chance de você vir passar alguns dias aqui?

— Estou de trabalho até o pescoço, Penn! Ouviu falar do mercado de ações?

Escutara o silêncio momentâneo, e quase pudera ver o rosto dela se alterar e escutar dentro da sua cabeça a fúria impotente contra o mercado, Hong Kong e os negócios, por mais que ela tentasse afastá-la.

— É. Deve ser terrível — dissera ela, ainda uma ligeira alteração na voz. — Coitado de você. Alastair estava recla­mando um bocado ontem à noite. Vai ficar tudo bem, não é?

— Claro que sim — dissera, com grande confiança, ima­ginando o que ela diria se lhe contasse que teria que garantir com seus bens pessoais o empréstimo de Murtagh, se viesse mesmo a sair. "Ah, Deus, permita que saia." Contou-lhe todas as novidades, depois disse que Alan tinha enviado uma mensa­gem muito interessante da qual lhe falaria pessoalmente, acres­centando que a mensageira era uma japonesa-suíça. — É uma uva!

— Espero que não seja demais!

— Oh, não! Como vai a Glenna, e como vai você?

— Muito bem. Teve notícias do Duncan?

— Tive... chega amanhã. Mandarei que lhe telefone tão logo chegue. Acho que é só, Penn, eu a amo!

— Eu também o amo, e gostaria que estivesse aqui. Ah, e como vai a Adryon?

— Na mesma. Ela e aquele tal de Haply parecem in­separáveis.

— Lembre-se de que ela não é mais criança, querido, e não se preocupe com ela. Tente deixar de ser criança também.

Terminou de se enxugar, e olhou-se no espelho, pergun­tando-se se seria velho para a sua idade, ou moço, sem sentir-se diferente de quando tinha dezenove anos... na universidade ou na guerra. Depois de um momento, falou:

— Tem sorte de estar vivo, meu chapa. Puxa, quanta sorte!

Seu sono fora pesado, e sonhara com o Tiptop; quase ao acordar, alguém perguntara, no seu sonho: "O que vai fazer?" "Não sei", pensou. "Até onde posso confiar naquele sacana do Sinders? Não muito. Mas ele ficou abalado com a minha ameaça... não, a minha promessa de publicar os onze pedaços de papel. E juro por Deus que o farei!

"É melhor eu ligar para o Tiptop antes de sair para a casa de Plumm. É melhor..."

Escutou a porta do quarto abrir-se de novo, e Ah Tat vol­tou a atravessar o quarto, parando à porta do banheiro.

— Ah, meu filho, esqueci de lhe dizer que há um bárbaro esperando por você Iá embaixo.

— É? Quem?

— Um bárbaro — falou ela, dando de ombros. — Não tão alto quanto você. Tem um nome estranho, e é mais feio do que a maioria, com cabelos de palha! — Remexeu no bolso e pegou o cartão. — Tome.

No cartão estava escrito: "Dave Murtagh III, Royal Belgium and Far East Bank". O estômago de Dunross se con-torceu.

— Há quanto tempo ele está esperando?

— Uma hora, talvez mais.

— O quê? Fodam-se todos os deuses. Por que não me acordou?

— Hem? Por que não o acordei? — perguntou ela, caus-ticamente. — Por quê? O que é que acha? Sou alguma idiota? Um demônio estrangeiro? Ayeeyah, o que é mais importante, ele esperar ou você descansar? Ayeeyah! — acrescentou des­denhosamente, e se afastou, resmungando: — Como se eu não soubesse o que era melhor para você!

Dunross vestiu-se rapidamente e desceu correndo. Mur­tagh estava largado numa espreguiçadeira. Acordou sobressal­tado quando a porta se abriu.

— Ah, oi!

— Lamento muitíssimo. Estava tirando uma soneca e não sabia que estava aqui.

— Tudo bem, tai-pan. — Dave Murtagh estava abatidíssimo. — A velhota me ameaçou com o diabo se eu soltasse um murmúrio. Mas não faz mal, eu peguei no sono. — Estirou-se, abafando um bocejo, e sacudiu a cabeça para desanuviá-la.

— Meu Deus, desculpe ter vindo sem ser convidado, mas é melhor do que falar por telefone.

Dunross não deixou transparecer na fisionomia o desa­pontamento doloroso. "Deve ser uma recusa", pensou.

— Uísque?

— Sim, com soda. Obrigado. Puxa, como estou cansado! Dunross foi até a garrafa de cristal e serviu-o, depois preparou um conhaque com soda para si mesmo.

— Saúde! — brindou, resistindo à ânsia de perguntar.

— Saúde! E o senhor conseguiu o seu negócio! — O rosto do rapaz se abriu num enorme sorriso. — Conseguimos! — quase berrou. — Eles gritaram e reclamaram, mas faz uma hora concordaram. Conseguimos tudo! Cento e vinte por cento dos navios e um fundo de cinqüenta milhões de dólares ameri­canos. A grana chega na quarta, mas o senhor pode fazer uso dela, sob palavra, na segunda às dez horas. A oferta dos petro­leiros foi o toque decisivo. Puta que o pariu, conseguimos!

Dunross precisou lançar mão de todo o seu treinamento para conter o urro de triunfo, não demonstrar no rosto a alegria, e dizer calmamente:

— Puxa, que ótimo! — Tomou mais um gole do seu conhaque. — O que foi? — perguntou, vendo a expressão chocada no rosto do homem mais moço.

Murtagh sacudiu a cabeça e se largou na espreguíçadeira, exausto.

— Vocês, ingleses, são fora de série! Jamais os compreen­derei. Acabo de lhe dar uma liberdade condicional de cem por cento, com o melhor dos acordos que Deus já permitiu a um homem, e só o que me diz é "Puxa, que ótimo!"

Dunross riu. Riu com gosto, extravasando toda a sua alegria. Apertou com força a mão de Murtagh e agradeceu-lhe.

— Como é, melhorou? — perguntou, rindo de orelha a orelha.

— Melhorou! — Ele agarrou a pasta e abriu-a, tirando um maço de contratos e papéis. — Aqui estão, conforme com­binamos. Passei a noite inteira acordado, fazendo a minuta. Este é o contrato do empréstimo principal, este é a sua garantia pessoal, estes são para o carimbo da companhia, dez cópias de tudo.

— Vou rubricar uma série, que ficará com você. Você rubricará uma, que ficará comigo, e depois assinaremos formal­mente amanhã de manhã. Pode se encontrar comigo no meu escritório, digamos, às sete e meia da manhã? Carimbaremos todos os documentos e...

O rapaz soltou um gemido involuntário.

— Não pode ser às oito, ou oito e meia, tai-pan? Preciso pôr o sono em dia.

— Sete e meia. Pode dormir o resto do dia. — Dunross teve uma idéia repentina, e acrescentou: — Deixe a noite de amanhã reservada.

— Porque?

— É. Descanse o máximo que puder, à noite vai estar muito ocupado.

— Fazendo o quê?

— Você não é casado, nem comprometido. Portanto, uma noite divertida não será má idéia, não é?

— Puxa! — Murtagh animou-se visivelmente. — Seria fantástico.

— Ótimo. Mandarei você para um amigo meu em Aberdeen. Wu Dente de Ouro.

— Quem?

— Um velho amigo da família. Perfeitamente seguro. Por falar nisso, que tal almoçar comigo nas corridas, na semana que vem?

— Puxa vida, obrigado. Ontem a Casey me deu uma "barbada" e ganhei uma nota preta. Estão dizendo que o se­nhor vai montar Noble Star no sábado. Vai?

— Talvez. — Dunross fixou os olhos nele. — O negócio está realmente fechado? Não há chance de dar para trás?

— Juro por tudo o que há de mais sagrado! Ah, tome, tinha me esquecido. — Entregou-lhe o telex de confirmação. — Conforme combinamos. — Murtagh lançou um olhar ao relógio. — São seis horas em Nova York, agora, mas o senhor deve ligar para S. J. Beverly, o presidente da nossa junta diretora, daqui a uma hora... ele está esperando o telefonema. Tome o número. — O rapaz abriu um amplo sorriso. — No­mearam-me vice-presidente encarregado de toda a Ásia.

— Parabéns. — Dunross viu que horas eram. Teria que sair logo, ou chegaria atrasado, e não queria deixar Riko espe­rando. O coração dele bateu mais depressa um pouco. — Va­mos rubricar agora?

Murtagh já estava separando os papéis.

— Só uma coisinha, tai-pan, S. J. falou que temos que manter isso em segredo.

— Vai ser difícil. Quem datilografou a papelada?

— Minha secretária... mas é americana, e não abre a boca.

Dunross concordou com a cabeça, mas intimamente não estava convencido. O operador do telex — Phillip Chen já não havia dito que tinha algumas cópias do telex? —, ou as faxineiras, ou telefonistas, seria impossível descobrir quem, mas logo a novidade estaria se espalhando, não importa o que ele ou Murtagh fizessem. Bem, e como tirar o melhor proveito de tudo, enquanto ainda era segredo?, perguntava-se, contro­lando-se para não dançar de alegria, o negócio sem precedentes, em que era quase impossível acreditar. Começou a rubricar a sua série de papéis, Murtagh, a dele. Parou quando ouviu a porta da frente abrir-se e fechar-se com estrondo. Adryon gritou com voz estridente:

— Ah Tat! — e continuou numa torrente de cantonense de amah, encerrando com: — ...e passou a minha blusa nova, por todos os deuses?

— Blusa? Que blusa, mocinha da voz estridente e sem paciência? A vermelha? A vermelha que pertence à Esposa Principal, que lhe disse...

— Ah, mas agora é minha, Ah Tat! Eu lhe falei muito seriamente para passá-la a ferro.

Murtagh também parará, escutando a torrente de guin-chos em cantonense que partia das duas.

— Pombas — falou, cansado —, nunca vou me acostu­mar à maneira como os criados agem, não importa o que a gente lhes diga!

Dunross riu e chamou-o com um gesto, abrindo a porta de mansinho. Murtagh soltou uma exclamação abafada. Adryon estava com as mãos nos quadris, soltando a língua em cima de Ah Tat, que retribuía, as duas já roucas, cada uma gritando mais do que a outra, e sem se escutarem.

— Quietas! — falou Dunross. As duas pararam. — Obrigado. Você exagera um pouco, Adryon! — disse sua­vemente.

Ela abriu um sorriso.

— Oh, alô, papai! Não acha...

Interrompeu-se, vendo Murtagh. Dunross notou a mu­dança imediata. Sentiu uma pontada de advertência a per­corrê-lo.

— Ah, Adryon, deixe que lhe apresente Dave Murtagh, vice-presidente do Royal Belgium and Far East Bank na Ásia. — Olhou para Murtagh e notou a expressão atordoada no rosto dele. — Esta é minha filha, Adryon.

— A senhorita... Bem... fala chinês, srta.... Dunross?

— Ah, sim, sim, claro, cantonense. Naturalmente. Chegou há pouco a Hong Kong?

— Ah, não, senhorita, não, já... já estou aqui há cerca de meio ano.

Dunross os observava com divertimento crescente, sabendo que, naquele momento, estava completamente esquecido. "Ah, rapaz conhece garota, garota conhece rapaz, e este talvez seja o sujeito perfeito para bagunçar o coreto do Haply."

— Quer tomar uma bebida conosco, Adryon? — pergun­tou com naturalidade, no momento em que a conversa deles esfriou e ela se preparava para se retirar.

— Ah, obrigada, papai, mas não quero incomodá-los.

— Já estamos acabando. Vamos! Como vão indo as coisas?

— Bem, tudo bem. — Adryon voltou-se para Ah Tat, que ainda continuava ali, impávida... também percebera a instantânea atração mútua. — Vá passar a minha blusa! Por favor — falou imperiosamente, em cantonense —, tenho que sair daqui a quinze minutos.

— Ayeeyah para os seus quinze minutos, Jovem Impera­triz — falou Ah Tat, com um muxoxo, e voltou para a cozinha, resmungando.

Adryon concentrou-se em Murtagh, que se reanimou visi­velmente, a sua fadiga desaparecida.

— De que parte dos Estados Unidos você é?

— Do Texas, senhorita, embora tenha passado algum tempo em Los Angeles, Nova York e Nova Orleans. Joga tênis?

— Ora, jogo, sim.

— Temos umas boas quadras no Clube Americano. Acei­taria jogar comigo na semana que vem?

— Adoraria. Já joguei Iá antes. Você é bom?

— Ah, não, srta... srta. Dunross, nível de universidade.

— Nível de universidade pode ser muito bom. Por que não me chama de Adryon?

Dunross deu-lhe o cálice de xerez. Ela lhe agradeceu com um sorriso, embora ainda se concentrando em Murtagh. "É melhor que você seja muito bom, meu caro", pensou ele, sa­bendo como a filha era competitiva, "ou vai levar uma surra." Disfarçando com cuidado o seu divertimento, voltou a se con­centrar nos documentos. Quando acabou de rubricar a sua série, ficou observando os dois com ar crítico, a filha sentada displi­centemente na beira do sofá, linda e autoconfiante, um bocado mulher, e Murtagh alto e bem-educado, um pouco encabulado, mas bem à vontade.

"Será que eu vou agüentar um banqueiro na família? É melhor eu tomar as minhas informações a respeito dele! Deus nos ajude, um americano! Bem, ele é texano, o que não é a mesma coisa, é? Gostaria que a Penn estivesse aqui..."

— ... ah, não, Adryon — dizia Murtagh. — Tenho um apartamento da firma Iá em West Point. E pequenino, mas formidável.

— Isso faz uma diferença muito grande, não é? Eu moro aqui, mas logo vou ter o meu próprio apartamento. — Acres­centou, significativamente: — Não vou, papai?

— Naturalmente. — Dunross acrescentou prontamente: — Depois da universidade! Aqui está a minha série, sr. Mur­tagh. Pode rubricar a sua?

— Ah, claro... desculpe! — Murtagh quase saiu cor­rendo, rubricou a sua série rapidamente, com um floreio. — Pronto, senhor. O senhor... bem... falou às sete e meia no seu escritório amanhã cedo, não é?

Adryon arqueou uma das sobrancelhas.

— É melhor ser pontual, Dave. O tai-pan é um chato quando se trata de pontualidade.

— Que bobagem! — disse Dunross.

— Eu o amo, papai, mas não é bobagem!

Bateram papo por um minuto, depois Dunross lançou um olhar ao relógio, fingindo-se preocupado,

— Que droga! Tenho que dar um telefonema, depois sair correndo. — Imediatamente, Murtagh pegou a sua pasta, mas Dunross acrescentou inocentemente: — Adryon, você falou que ia sair daqui a alguns minutos. Será que não dá tempo de dar uma carona ao sr. Murtagh?

O rapaz falou imediatamente:

— Ora, posso arranjar um táxi, não há necessidade de se incomodar...

— Ora, não é incômodo algum — disse ela, feliz —, não mesmo. West Point fica no meu caminho.

Dunross deu-lhes boa-noite e saiu. Mal notaram a saída dele, que foi para o seu gabinete e fechou a porta. E ao fechar a porta deixou para trás tudo o que não fosse Tiptop. De cima da lareira, Dirk Struan o fitava. Dunross fitou-o também, por um momento.

— Tenho os planos A, B ou C — falou em voz alta. — Todos vão dar em desastre, se o Sinders não fizer a parte dele.

Os olhos apenas sorriram, na sua maneira curiosa.

— Para você era fácil — murmurou Dunross. — Quando alguém se metia no seu caminho, você podia matá-lo, até mes­mo a Bruxa.

Um pouco antes discutira seus planos com Phillip Chen.

— São todos perigosos — dissera o velho, muito preo­cupado.

— Qual deles você aconselha?

— A escolha tem que ser sua, tai-pan. Terá que dar ga­rantias pessoais. Também há a questão do prestígio, embora eu lhe dê apoio em tudo, e você pediu um favor como um Velho Amigo.

— E quanto a Sir Luís?

— Já combinei encontrá-lo logo mais, tai-pan. Espero que ele coopere. — Phillip Chen parecia mais cinzento e envelheci­do do que nunca. — É uma pena que não haja nada que pos­samos dar ao Tiptop para o caso de Sinders roer a corda.

— E quanto a permutar a frota de petroleiros? Podemos fazer pressão sobre Vee Cee? E quanto aos tórios... ou Joseph Yu?

— Tiptop precisa de alguma coisa para permutar, tai-pan, não uma ameaça. P. B. disse que ajudaria?

— Prometeu telefonar ao Tiptop hoje à tarde... disse que também ia tentar um dos seus amigos em Pequim.

Exatamente às sete horas, Dunross discou.

— O sr. Tip, por favor. Ian Dunross.

— Boa noite, tai-pan. Como vai? Soube que talvez vá montar Noble Star no sábado que vem.

— É possível.

Conversaram sobre assuntos inconseqüentes, depois Tiptop perguntou:

— E aquela pessoa infeliz? No máximo, quando vai ser solta?

Dunross controlou-se, depois comprometeu o seu futuro.

— Amanhã ao anoitecer, em Lo Wu.

— O senhor garante pessoalmente que ele estará Iá?

— Garanto pessoalmente que fiz tudo o que estava ao meu alcance para persuadir as autoridades a soltarem-no.

— Isso não é a mesma coisa que dizer que o homem estará Iá. É?

— Não. Mas estará. Tenho... — Dunross se interrom­peu. Estava prestes a dizer "quase certeza", e então compreen­deu que certamente fracassaria... não ousando dar a garantia, por saber que um fracasso comprometeria para sempre o seu prestígio, a sua credibilidade... mas lembrou-se de algo que Phillip Chen dissera sobre Tiptop precisar de alguma coisa para permutar, então, subitamente, viu uma abertura. — Ouça, sr. Tip — começou, seu súbito entusiasmo chegando quase a nauseá-lo. — Estamos numa época difícil. Os Velhos Amigos precisam dos Velhos Amigos como nunca antes. Particularmen­te, muito particularmente, soube que, nos dois últimos dias, a nossa Divisão Especial descobriu que há um aparelho de espio­nagem soviética aqui, de grande importância, secretíssimo, e o codinome da operação é Sevrin. O propósito da Sevrin é a destruição do elo do Reino Médio com o resto do mundo.

— Isso não é novidade, tai-pan. Os hegemonistas sempre serão hegemonistas, Rússia tzarista ou Rússia soviética, não há diferença. Há quatrocentos anos que é assim. Desde a sua primeira incursão e roubo nas nossas terras. Mas, por favor, continue.

— Acredito que Hong Kong e o Reino Médio sejam alvos iguais. Somos a sua única janela para o mundo. O Velho De­mônio de Olhos Verdes foi o primeiro a enxergar isso, e é verdade. Qualquer interrupção aqui, e somente os hegemonistas ganharão. Alguma documentação, parte da documentação da Divisão Especial veio parar em minhas mãos.

Com absoluta exatidão, Dunross começou a citar literal­mente o que estava escrito nos principais documentos roubados do relatório de Alan, sua mente parecendo ler as páginas que lhe vinham à memória sem esforço. Deu a Tiptop todos os de­talhes relativos à Sevrin, os espiões, o agente infiltrado na polícia.

Fez-se um silêncio chocado.

— Qual a data do principal documento sobre a Sevrin, tai-pan?

— Foi aprovado por um "L. B." no dia 14 de março de 1950.

Um longo suspiro. Muito longo.

— Lavrenti Béria?

— Não sei.

Quanto mais Dunross pensava nesse novo plano, mais excitado ficava, tendo agora certeza de que essa informação e uma prova positiva nas mãos certas em Pequim causariam uma tempestade nas relações sino-soviéticas.

— Seria possível ver este documento?

— Sim, seria possível — replicou Dunross, as costas mo­lhadas de suor, dando graças à sua antevisão de tirar fotocópias dos trechos referentes à Sevrin dos relatórios de Alan.

— E o documento tchecoslovaco a que se referiu?

— Sim, a parte que possuo.

— Qual a sua data?

— Dia 6 de abril de 1959.

— Quer dizer que os nossos pseudo-aliados sempre foram coração de lobo e pulmões de cachorro?

— Parece que sim.

— Por que será que a Europa e aqueles capitalistas nos Estados Unidos não compreendem quem é o verdadeiro inimi­go no mundo? Heya?

— É difícil de entender — retrucou Dunross, fazendo agora o joguinho da espera.

Depois de uma pausa, novamente controlado, Tiptop falou:

— Estou certo de que meus amigos gostariam de uma cópia desse... desse papel da Sevrin, juntamente com qualquer outro documento de apoio.

Dunross enxugou o suor da testa, mas manteve a voz calma.

— Como um Velho Amigo, é meu privilégio ajudar no que puder.

Novo silêncio.

— Um amigo mútuo telefonou para oferecer apoio ao seu pedido para o dinheiro do Banco da China, e há alguns minutos eu soube que uma pessoa muito importante ligou de Pequim para sugerir que qualquer ajuda que se pudesse dar ao senhor seria merecida. — Novo silêncio, e Dunross quase pôde sentir Tiptop e os outros, que provavelmente estavam escutando na extensão, sopesando, concordando ou sacudindo a cabeça. — Pode me dar licença um minuto, tai-pan? Há alguém à porta.

— Quer que eu lhe telefone mais tarde? — disse, pron­tamente, para dar-lhes tempo para pensar.

— Não, isso não será necessário... se o senhor não se incomodar de esperar um minuto.

Dunross escutou o telefone sendo pousado. Um rádio tocava ao fundo. Sons indeterminados que poderiam ser vozes abafadas. O coração dele estava disparado. A espera parecia interminável. Depois, o telefone foi novamente erguido.

— Desculpe, tai-pan. Por favor, mande as cópias cedo... após a sua reunião matinal seria conveniente?

— Sim, sim, claro.

— Por favor, dê lembranças minhas ao sr. David Mac­Struan, quando ele chegar.

Dunross quase deixou cair o telefone, mas recuperou-se a tempo.

— Estou certo de que ele deseja que eu as retribua. Como vai o sr. Yu? — perguntou, dando um tiro no escuro, querendo berrar ao telefone: "E quanto ao dinheiro?" Mas estava envol­vido numa negociação chinesa da pesada. Sua cautela aumentou.

Novo silêncio.

— Bem — disse Tiptop, mas Dunross notara um tom de voz diferente. — Ah, a propósito — dizia Tiptop —, o sr. Yu telefonou de Cantão esta tarde. Gostaria de antecipar a data do seu encontro, se fosse possível. Para segunda-feira, daqui a duas semanas.

Dunross pensou um momento. Essa seria a semana em que estaria no Japão, com Toda, negociando todo o seu esquema de compra e arrendamento, que, agora que o First Central o estava apoiando, teria uma enorme chance de sucesso.

— Essa determinada segunda-feira vai ser difícil para mim. A seguinte seria melhor. Será que posso confirmar até sexta-feira?

— Sim, sem dúvida. Bem, não vou prendê-lo mais, tai-pan. A tensão de Dunross tornou-se quase insuportável, agora que haviam chegado ao estágio final. Escutou atentamente a voz agradável e amistosa.

— Obrigado pela sua informação. Imagino que aquele pobre sujeito estará na fronteira de Lo Wu ao anoitecer. Ah, a propósito, se os documentos bancários necessários forem trazi­dos pessoalmente pelo sr. Havergill, o senhor próprio e o go­vernador às nove horas de amanhã, meio bilhão de dólares em espécie poderão ser transferidos imediatamente para o Victoria.

Instantaneamente, Dunross percebeu o golpe.

— Obrigado — disse, suavemente, evitando a cilada. — O sr. Havergill e eu estaremos presentes. Infelizmente, o gover­nador recebeu ordens do gabinete do primeiro-ministro para permanecer no Palácio do Governo até o meio-dia, para consul­tas. Mas trarei a autorização e o carimbo dele, para garantir o empréstimo — acrescentou, pois naturalmente era impossível para o governador ir pessoalmente, de chapéu na mão, como um devedor comum, e assim abrir um precedente inaceitável. — Suponho que isso seja satisfatório.

Tiptop quase ronronava.

— Estou certo de que o banco estará disposto a adiar até o meio-dia para não interferir nos deveres do governador.

— Antes e depois do meio-dia ele estará nas ruas com a polícia antimotim, sr. Tip, e com o exército, dirigindo possíveis procedimentos contra levantes idiotas atiçados pelos hegemo-nistas. Naturalmente, ele é o comandante-em-chefe de Hong Kong.

A voz de Tiptop tornou-se mais cortante.

— Sem dúvida até mesmo um comandante-em-chefe pode arranjar uns momentinhos preciosos para o que é obviamente um assunto tão importante.

— Estou certo de que ele teria muito prazer — disse Dunross, sem medo, conhecendo a arte da negociação asiática, preparado para a raiva, o mel, e todos os estágios intermediá­rios. — Mas a proteção do interesse do Reino Médio, assim como o da colônia, tem prioridade. Tenho certeza, lamentávelmente, de que ele teria que recusar até que a emergência terminasse.

Fez-se um silêncio hostil.

— O que sugere, então?

Novamente Dunross desviou-se da armadilha, saltando para o nível seguinte.

— Ah, a propósito, seu ajudante-de-ordens me pediu que mencionasse que Sua Excelência vai dar uma festa para alguns dos nossos mais importantes cidadãos chineses no hipódromo, no sábado que vem, e gostaria de saber se por acaso o senhor estará na colônia, para que ele lhe pudesse enviar um convite.

Manteve-se apegado à sua esperança. Apresentando a coisa daquela maneira, dava a Tiptop a opção de aceitar ou recusar sem se desprestigiar... e ao mesmo tempo protegia o prestígio do governador, que evitaria enviar um convite tão importante politicamente, e que poderia ser recusado. Dunross sorriu con­sigo mesmo, já que o governador nada sabia, por enquanto, dessa festa importante que ia dar.

Novo silêncio, enquanto Tiptop refletia nas implicações políticas.

— Por favor, agradeça-lhe a consideração. Creio que esta­rei aqui. Posso confirmar na terça-feira?

— Darei seu recado com prazer. — Dunross pensou em mencionar Brian Kwok, mas resolveu deixar aquilo no limbo. — Estará no banco às nove horas, sr. Tip?

— Ah, não. Na verdade, não tenho nada a ver com isso. Sou apenas um espectador interessado. — Novo silêncio. — Seus representantes devem procurar o diretor-chefe.

Dunross soltou um suspiro, todos os sentidos aguçados. Nenhuma menção à presença do governador. "Será que venci?"

— Será que alguém poderia confirmar para a Rádio Hong Kong, a tempo para o noticiário das nove horas da noite, que o Banco da China vai dar à colônia um crédito imediato de meio bilhão de dólares em espécie?

Novo silêncio.

— Ah, tenho certeza de que isso não será necessário, sr. Dunross — falou Tiptop, e agora, pela primeira vez, notava-se uma risadinha na voz dele. — Sem dúvida a palavra do tai-pan da Casa Nobre é suficiente para uma simples estação de rádio capitalista. Boa noite.

Dunross desligou o aparelho. Seus dedos tremiam, sentia dor nas costas, e o coração batia com muita força.

— Meio bilhão de dólares! — murmurou, a mente pertur­bada. — Nenhum documento, nenhum carimbo, nem aperto de mão, alguns telefonemas, um pouquinho de negociação e meio bilhão de dólares estarão disponíveis para transferência por caminhão às nove horas!

"Ganhamos! O dinheiro de Murtagh, e agora o da China! É. Mas como tirar o máximo proveito deste conhecimento? Como?", perguntava-se, desanimado. Não havia motivo para ir à casa de Plumm, agora. "O que fazer? O que fazer?"

Sentia os joelhos moles, a cabeça fervia de planos e contra-planos. E então seu entusiasmo reprimido explodiu num berro enorme, que ricocheteou nas paredes do gabinete. Ele pulava, e soltou outro grito de guerra que se dissolveu numa risada. Foi para o banheiro molhar o rosto. Arrancou do corpo a camisa ensopada, sem sequer desabotoá-la, e jogou-a na lata de lixo. A porta do gabinete se escancarou, e Adryon irrompeu na sala, o rosto pálido e ansioso.

— Papai!

— Santo Deus, o que houve? — perguntou ele, estar­recido.

— O que houve com você? Ouvi-o gritar feito um touro enlouquecido. Está bem?

— Ah, sim, estou, só que... dei uma topada! — A felicidade de Dunross explodiu de novo, e ele a levantou no colo, facilmente. — Obrigado, minha querida, está tudo bem! Ah, muito bem!

— Ah, graças a Deus — disse ela, acrescentando imedia­tamente: — Quer dizer que posso ter o meu próprio aparta­mento a partir do mês que vem?

— Po... — Interrompeu-se bem a tempo. — Nada disso, dona vivaldina. Só porque estou feliz não...

— Mas, papai, não acha...

— Não. Obrigado, Adryon, mas não, vá andando! Ela o olhou de cara feia, depois desatou a rir.

— Quase peguei você, desta vez!

— É, foi, sim! Não se gsqueça de que o Duncan chega amanhã no vôo do meio-dia da Qantas.

— Não vou esquecer, não se preocupe, vou recebê-lo. Vai ser bom ter o Dunc de volta. Não jogo uma boa partida de bilhar desde que ele partiu. Para onde está indo, agora?

— Ia para a casa do Plumm, no Rose Court, para come­morar a compra de controle da General Stores, mas acho que ...

— Martin achou que foi um golpe fantástico! Se não houver o colapso da Bolsa. Disse ao bobalhão que você ia dar um jeito em tudo.

Subitamente, Dunross se deu conta de que a festa de Plumm seria o lugar ideal. Gornt estaria Iá, Phillip Chen, e to­dos os outros. "Gornt! Agora posso me livrar desse sacana para todo o sempre", disse com seus botões, o coração dis­parado.

— O Murtagh ainda está Iá embaixo?

— Está, sim. Já estávamos de saída. Ele é uma graça. Dunross virou-se para disfarçar um sorriso e pegou uma camisa de seda limpa.

— Podem esperar um minutinho? Tenho boas notícias para ele.

— Está bem. — Aproximou-se dele, fitando-o com os grandes olhos azuis. — Meu próprio apartamento de presente de Natal, por favor, por favor?

— Depois da universidade, se se der bem, solto você!

— No Natal. Eu o amarei pelo resto da vida!

Ele soltou um suspiro, lembrando-se de que ela ficara ner­vosa e assustada ao ver Gornt no salão de bilhar. "Talvez pos­sa dar-lhe a cabeça dele de presente amanhã", pensou.

— Neste Natal, não, no outro!

Ela jogou os braços ao redor do pescoço dele.

— Ah, obrigado, paizinho querido. Mas este Natal, por favor, por favor, por favor.

— Não, porque você...

— Por favor, por favor, por favor!

— Está bem! Mas não diga à sua mãe que concordei, pelo amor de Deus. Ela vai me tirar o couro!

 

                       19h15m

As cortinas que rodeavam a cama de Orlanda se moviam suavemente, impulsionadas pela brisa noturna, o ar limpo e com gosto de sal. Ela estava nos braços dele enquanto dormiam, um calor penetrante entre eles, e então, quando ela mexeu a mão, Bartlett acordou. Por um momento, ele se perguntou onde esta­va e quem era, e depois tudo voltou e o seu coração bateu mais depressa. Haviam feito amor maravilhosamente. Ele se recor­dava de que ela correspondera, gozando várias vezes, elevan-do-o a alturas que ele jamais conhecera antes. E, a seguir, o depois. Ela saíra da cama, fora para a cozinha, esquentara um pouco de água e trouxera uma toalha molhada e quente; tirara com ela o suor do corpo dele.

— Sinto tanto não haver um banho de banheira ou chu­veiro, meu querido. É mesmo uma pena. Mas se você for paciente, dou um jeitinho.

Uma toalha nova e limpa, e ele sentiu-se ótimo, nunca tendo conhecido antes a maravilha de um verdadeiro "depois" — os carinhos suaves, ternos, amorosos, sem constrangimento, o minúsculo crucifixo ao redor do pescoço como único orna­mento. Ele o notara brilhando na penumbra. Suas implicações começavam a penetrar na mente dele, mas, subitamente, ela estava afastando os pensamentos estranhos com suas carícias, mãos e toque, lábios mágicos, até que, novamente, ambos se tor­naram uma unidade com os deuses e, através da sua generosida­de, deslizaram para a euforia... e daí para o sono outra vez.

Preguiçosamente, ele ficou olhando as cortinas que caíam do teto oscilarem às correntes de ar, o abraço envolvente delas tornando a cama mais íntima, as estampas contra a luz da janela agradáveis, tudo agradável. Ficou imóvel, sem querer se mexer para não acordá-la, sem querer romper o encanto, a respiração dela suave contra o seu peito, seu rosto adormecido impecável.

"O que fazer, o que fazer, o que fazer?

"No momento, nada", respondeu a si mesmo. "O avião está liberado, você é livre, ela é incrível, e nenhuma mulher já lhe deu tanto prazer. Nunca. Mas será que vai durar, que pode durar?... e além disso, há a Casey."

Bartlett soltou um suspiro. Orlanda se mexeu de novo, ainda dormindo. Ele esperou, mas ela não acordou.

Os olhos dele estavam hipnotizados pelas estampas da cor­tina, seu espírito em paz. Não fazia nem frio nem calor; estava tudo perfeito, o peso dela era imperceptível. "O que há de tão especial nela?", perguntava-se. "O que causa o encanto? Porque, tão certo como a morte e os impostos, você está sob os efeitos de um encanto, fascinado. Fomos para a cama, é só isso, eu não fiz nenhuma promessa, e no entanto... Você está encantado, meu velho.

"Estou. E é maravilhoso."

Fechou os olhos e pegou no sono.

Quando Orlanda acordou, tomou cuidado para não se mexer. Não queria acordá-lo, tanto para o prazer dele quanto para o dela. E queria tempo para pensar. Às vezes fazia o mes­mo nos braços de Gornt, mas sabia que não era a mesma coisa, jamais seria a mesma coisa. Sempre tivera medo de Quillan, sempre estivera em guarda, desejando desesperadamente agra­dar-lhe, imaginando se teria esquecido alguma coisa. "Não", pen­sou, em êxtase, "esta relação foi melhor do que a que me lembro de ter tido com Quillan, ah, muito melhor. Linc é tão limpo, sem cheiro de fumo, só limpo e maravilhoso, e juro por Nosso Senhora que serei uma mulher perfeita para ele, serei a melhor do mundo. Usarei a cabeça, as mãos, os lábios e o corpo para agradar-lhe e satisfazê-lo, e não haverá nada de que ele precise que eu não faça. Nada. Tudo o que o Quillan me ensinou eu fa­rei para o Linc, até mesmo as coisas de que não gostava. Agora vou gostar, com o Linc. Meu corpo e minha alma serão os instrumentos do seu prazer, e do meu, depois que ele tiver aprendido."

Sorriu consigo mesma, enroscada nos braços dele. "A téc­nica do Linc não é nada, comparada à do Quillan, mas o que falta em perícia ao meu querido ele compensa sobejamente com força e vigor. E ternura. Ele tem mãos e lábios mágicos para mim. Nunca, nunca, nunca antes foi assim."

— Ir para a cama é apenas o começo do sexo, Orlanda — Gornt dissera. — Você pode se tornar uma feiticeira. Pode encher um homem de um desejo tão insaciável que, através de você, ele compreenda toda a vida. Mas para atingir o êxtase é preciso buscá-lo, lutar por ele.

"Ah, eu o buscarei para o Linc. Por Nossa Senhora, juro que dedicarei minha mente, meu corpo e minha alma à vida dele. Quando estiver zangado, eu o farei ficar calmo. Não de-tive a raiva de Quillan mil vezes, sendo meiga? Não é uma maravilha ter tanto poder? Oh, é tão fácil depois que aprendi, facílimo, perfeito e satisfatório.

"Lerei os melhores jornais e treinarei a mente, e depois das Nuvens e Chuva não falarei, apenas acariciarei, não para excitar, mas apenas para dar prazer, e nunca direi 'Diga que me ama!', mas apenas 'Linc, eu o amo'. E muito antes de o fres­cor da minha pele desaparecer, terei filhos para entusiasmá-lo, e filhas para encantá-lo, e depois, muito antes de deixar de exci­tá-lo, arranjarei com cuidado outra para o prazer dele, uma pateta com lindos seios e uma bundinha firme, e eu ficarei adequadamente divertida e benigna... e compassiva quando ele fracassar, pois, a essa altura, ele será muito mais velho e menos viril, e as minhas mãos controlarão o dinheiro, e eu serei ainda mais essencial. E quando ele se cansar da primeira eu acharei outra, e viveremos juntos até o fim das nossas vidas, yang eyin, o yin sempre dominando o yang!

"É. Eu serei tai-tai.

"E um dia ele pedirá para ir a Portugal conhecer a minha filha, e eu recusarei a primeira vez, a segunda, a terceira, e depois nós iremos... se eu tiver o nosso filho nos braços. En­tão ele a verá e a amará também, e esse fantasma repousará para sempre."

Orlanda soltou um suspiro, sentindo-se ótima, leve, a ca­beça dele repousando confortavelmente em seu peito. "Ir para a cama sem tomar precauções é tão mais glorioso!", pensou. "É um êxtase. Ah, que maravilha sentir o desejo, sabendo que se é jovem, fértil e se está pronta, entregando-se total e delibe­radamente, rezando para criar uma nova vida... a vida dele e a sua unidas para sempre. Ah, é.

"É, mas você foi sensata? Foi? E se ele a abandonar? A única outra vez na vida que você se soltou deliberadamente foi aquele único mês com o Quillan. Mas foi com permissão. Desta vez, você não a tem.

"Digamos que o Linc a abandone. Talvez fique furioso e mande que você interrompa a gravidez.

"Não o fará", falou consigo mesma, com total confiança. "O Linc não é o Quillan. Não há motivo para me preocupar. Nenhum. Nossa Senhora, por favor, ajude-me! Que todos os deuses me ajudem! Permitam que a semente dele cresça, oh, por favor, por favor, por favor, eu vos suplico de todo o coração."

Bartlett se mexeu e acordou parcialmente.

— Orlanda?

— Sim, meu querido, estou aqui. Como você é maravilhoso! — Ela o embalou, feliz, satisfeita por ter dado um dia e uma noite de folga à amah. — Volte a dormir, temos todo o tempo do mundo, durma.

— É, mas...

— Durma. Daqui a pouquinho vou pegar um pouco de comida chinesa e...

— Quem sabe você não gostaria de...

— Durma, meu querido. Está tudo providenciado.

 

                 19h30m

Três andares abaixo, do outro lado do prédio, que dava para a montanha, Wu Quatro Dedos via televisão. Estava no apartamento de Vênus Poon, diante do aparelho dela, sem sa­patos, a gravata afrouxada, esparramado na espreguiçadeira. A velha amah estava sentada numa cadeira dura ao lado dele, e os dois davam risadas das palhaçadas do Gordo e o Magro.

— Eeeee, o Gordo vai prender a porra do pé no andaime — ria —, e o...

— E o Magro vai acertá-lo com a tábua! Eeeee!

Os dois riram do número que já haviam visto cem vezes em cem reprises dos velhos filmes em preto e branco. Então, o filme acabou, Vênus Poon reapareceu para anunciar o pro­grama seguinte, e ele soltou um suspiro. Ela olhava para ele diretamente da tela, e ele (como todos os demais espectadores masculinos) estava certo que seu sorriso era exclusivamente para ele. E, embora não entendesse o seu inglês, compreendia-a muito bem. Seus olhos estavam grudados aos seios dela, que o haviam fascinado durante horas, em que os examinara bem de perto, sem sentir ou ver sinal algum da cirurgia sobre a qual toda a Hong Kong fofocava.

— Atesto que seus peitos são imaculados, sem dúvida os maiores e melhores que já toquei — dissera ele, com ar impor­tante, ainda montado nela, na antevéspera.

— Só está falando isso para agradar à sua pobre Filha empobrecida, ai, ai, ai!

— Empobrecida? Há! O Banqueiro Kwang não lhe deu aquela pele miserável ontem, e não ouvi dizer que acrescentou mil dólares extras ao seu cheque mensal? E eu, não lhe dei o nome do ganhador do primeiro páreo, do terceiro, e do segundo lugar no quinto? Isso lhe rendeu trinta mil menos quinze por cento para o meu informante... por menos esforço do que o que faço para peidar!

— Pois sim! Nem vale a pena mencionar esses vinte e cinco mil e oitocentos HK. Tenho que comprar roupas, um vestido novo por dia! Meu público o exige, tenho que pensar no meu público.

Haviam discutido veementemente, até que, sentindo que se aproximava o momento da verdade, ele lhe pedira que me­xesse as nádegas mais vigorosamente. Ela obedecera com tanto entusiasmo que o deixara no bagaço. Quando, finalmente, ele recuperara, por milagre, o seu espírito do Vácuo, falou, engas­gado:

— Ayeeyah, Meretrizinha, se conseguir fazer isso mais uma vez, eu lhe darei um anel de diamantes na... não, não, agora não, por todos os deuses! Por acaso sou um deus? Agora não, Falinha Macia, não, nem agora nem amanhã, mas no dia seguinte...

E agora era o dia seguinte. Eufórico, e cheio de expecta­tiva, ele a via na televisão, cheia de sorrisos e covinhas, en­quanto desejava a todos boa noite e o novo programa come­çava. Aquela era a noite em que saía cedo do estúdio, e com os olhos da mente quase podia vê-la sair apressada e entrar no Rolls que a esperava, certo de que estaria tão ansiosa quanto ele. Mandara Paul Choy com o Rolls acompanhá-la ao estúdio, para falar inglês com ela, para se assegurar de que chegasse em segurança e voltasse depressa. E depois do novo encontro se­xual deles, o Rolls os levaria até o restaurante bárbaro no hotel bárbaro com a sua horrível comida bárbara e odores terríveis, mas um dos lugares freqüentados por todos os tai-pans, e por todas as pessoas civilizadas importantes, com as esposas (e quando as esposas estavam ocupadas, com as suas prostitutas), para que ele pudesse exibir a sua amante e mostrar como era rico para Hong Kong inteira, e para que ela pudesse exibir o seu diamante.

— Ayeeyah — casquinou alto.

— Sim, Honrado Senhor? — perguntou a amah, descon­fiada. — Qual o problema?

— Nada, nada. Por favor, um pouco de conhaque.

— Minha patroa não gosta do cheiro de conhaque!

— Ora, velha, dê-me o conhaque. Sou Iá um id'ota? Sou Iá um bárbaro das Províncias Externas? Claro que trouxe folhas de chá cheirosas para mastigar antes da nossa contenda. Conhaque!

Ela saiu reclamando, mas ele não ligou. Estava apenas ten­tando proteger os interesses de sua patroa, o que era perfei­tamente correto.

Seus dedos tocaram a caixinha no bolso. Comprara o anel naquela manhã, de um primo em primeiro grau que lhe devia um favor. A pedra valia quarenta e oito mil, pelo menos, em­bora o custo real mal chegasse à metade dessa quantia; a quali­dade era branco-azulada e excelente, e os quilates, substanciais.

"Outra contenda como aquela última sem dúvida valerá o preço", pensou, em êxtase, embora um tanto inquieto. "Ah, sim. Eeee, na última vez pensei que meu espírito tinha desapa­recido para sempre no Vácuo, levado pelos deuses no auge de toda a vida! Eeee, como eu teria sorte de partir, naquele exato momento! É, porém é mais maravilhoso voltar para atacar o Portão de Jade de novo, de novo e ainda mais uma vez!"

Riu em voz alta, desafiando os deuses, muito satisfeito. Tinha tido um dia excelente. Reunira-se secretamente com Yuen Contrabandista e Lee Pó Branco, e eles o haviam eleito chefe da sua Nova Irmandade, o que não era mais do que o seu direito, pensou. Não fora ele quem fornecera o elo com o mer­cado através do demônio estrangeiro Ban... seja Iá que nome tenha... porque ele emprestara dinheiro ao Filho Chen Nú­mero Um, que, em troca dos favores, lhe propusera o plano das armas e do ópio, mas fora estúpido o bastante para ser seqüestrado, e agora assassinado? Ah, sim. E não ia ele encon­trar-se com o mesmo demônio estrangeiro em Macau na semana que vem, para combinar finanças, pagamentos, para pôr em movimento toda a vasta operação? Claro que ele teria que ser o Grande Tigre, claro que teria que ficar com o lucro maior! Com a perícia deles — e mais as técnicas modernas de Choy Lucrativo —, ele poderia revolucionar o contrabando de ópio para Hong Kong, revolucionar a conversão do narcótico bruto nos Pós Brancos imensamente lucrativos, e, finalmente, os meios de exportação para os mercados do mundo. Agora que Paul Choy já estava no departamento de expedição e carga aérea da Segunda Grande Companhia, e dois netos de Yuen, também treinados nos Estados Unidos, na sua operação de corretagem alfandegária... e mais outros quatro parentes de Lee Pó Bran­co, formados em universidades inglesas, colocados nas operações de depósitos da Casa Nobre em Kai Tak, e na divisão de carga e descarga da Ail Ásia Airways, as importações e exportações seriam cada vez mais seguras, fáceis e lucrativas.

Haviam discutido quem recrutariam na polícia, e especial­mente na marinha.

— Nenhum dos bárbaros, nunca um daqueles filhos da mãe — dissera Lee Pó Branco, com veemência. — Eles não nos darão apoio, jamais. Não quando se trata de drogas. Temos que usar apenas os Dragões.

— De acordo. Todos os Dragões foram procurados, e to­dos cooperarão. Todos, exceto Tang-po, de Kowloon.

— Precisamos de Kowloon, ele é importante. E a mari­nha opera de Iá. Está querendo um acordo em melhores bases, pessoalmente, ou está contra nós?

— Não sei. No momento. — Quatro Dedos dera de om­bros. — Cabe ao Grande Dragão resolver o problema de Tang-po. O Grande Dragão concordou, não há o que discutir.

"É", pensou Quatro Dedos, "passei-lhes a perna para que eles me fizessem o Grande Tigre, e passei a perna no Choy Lucrativo quanto ao meu dinheiro. Não dei ao Sacaninha o controle da minha fortuna para jogar com ela, como ele imagi­nou que eu faria. Ah, não. Não sou assim tão idiota! Dei-lhe apenas dois milhões, e prometi a ele dezessete por cento de todo o lucro... vejamos o que consegue fazer com isso. É. Vejamos o que consegue fazer com isso!"

O coração do velho bateu mais depressa, e ele se coçou. "Aposto que o danado astucioso vai triplicar a quantia dentro de uma semana", disse alegremente com seus botões, não sem um pouco de admiração... o diamante pago com a argúcia do filho, do primeiro lucro nas vendas da Bolsa, e um ano de Vênus Poon já garantido da mesma fonte, sem que ele tivesse dispendido uma só moeda do seu próprio capital! "Eeee! E os planos astutos que saem da cabeça do Lucrativo! Como o que bolou para o meu encontro amanhã com o tai-pan."

Ansiosamente, estendeu os dedos e tocou a meia moeda que estava no fio grosso à volta do seu pescoço, sob a camisa, uma moeda igual à que o seu ilustre ancestral, Wu Fang Choi, apresentara para reclamar um veleiro que se igualasse aos me­lhores na frota de Dirk Struan. Mas Wu Fang Choi, pensou sombriamente, fora um idiota... não exigira passagem em se­gurança para o navio como parte do favor, e assim o Demônio de Olhos Verdes, o tai-pan, lhe passara a perna.

"É", por todos os deuses, "foi por sua culpa exclusiva que Wu Fang Choi perdeu. Mas não perdeu tudo. Caçou aquele Corcunda chamado Stride Orlov, que governava os navios da Casa Nobre para Culum, o Fraco. Os homens dele pegaram Orlov em terra, em Cingapura, e levaram-no acorrentado para Formosa, onde ficava o seu quartel-general. Ali, ele o amarrou a um poste, bem na marca da maré alta, e o deixou morrer afogado, bem devagarinho.

"Não serei tolo como Wu Fang Choi. Não. Vou me cer­tificar de que o meu pedido ao tai-pan seja absolutamente seguro.

"Amanhã, o tai-pan concordará em abrir os seus navios para as minhas cargas... secretamente, é claro; concordará em abrir algumas das contas da Casa Nobre para eu me esconder... secretamente, é claro, embora com grande lucro para ele; concordará, também em segredo, em financiar comigo a vasta usina farmacêutica nova que, oh ko, Choy Lucrativo diz será a cortina de fumaça de narcóticos perfeita, legítima, que jamais vai ser investigada, para mim e para os meus, para sem­pre; e por último, o tai-pan intercederá com o mestiço, Lando Mata, e escolherá o meu nome e o sindicato que eu sugerir para substituir o sindicato de ouro e jogatina já existente em Macau, de Tung Pão-Duro e do Chin, e ele, o tai-pan, prometerá fazer parte dele."

Wu Quatro Dedos ficou extático. "O tai-pan terá que concordar com tudo. Tudo. E tudo está dentro das possibili­dades dele."

— Tome o conhaque.

Wu Quatro Dedos tirou-o da mão da amah e sorveu-o, sonhadoramente, com grande prazer. "Que todos os deuses se­jam testemunhas: durante setenta e seis anos eu, Wu Quatro Dedos, chefe dos Wu Marítimos, vivi a vida intensamente, e se os deuses levarem o meu espírito durante as Nuvens e Chu­va, eu os louvarei no céu (se houver um céu) eternamente. E se não..."

O velho deu de ombros, abriu um amplo sorriso e enros-cou os dedos dos pés. Bocejou e fechou os olhos, quentinho, gostoso e muito feliz. "Os deuses são os deuses, e os deuses dormem e cometem erros. Mas, tão certo quanto as grandes tempestades virão neste ano e no próximo, a Meretrizinha fará jus ao seu diamante esta noite. Agora, de que maneira deve ser?", perguntou-se, pegando no sono.

O táxi parou no portão. Suslev saltou, embriagado, e pa­gou ao chofer. Depois, oscilando de leve, passou por cima dos redemoinhos nas sarjetas e entrou.

Havia um bando de gente batendo papo e esperando o elevador, e ele reconheceu Casey e Jacques de Ville entre eles. Com passos trôpegos, foi arrotando pelas escadas até o andar inferior, atravessou a garagem e bateu à porta de Clinker.

— Alô, meu chapa! — cumprimentou Clinker.

— Továrich! — respondeu ele, dando-lhe um abraço aper­tado.

— Temos vodca e cerveja. Mabel, cumprimente o co­mandante!

A velha cadela buldogue simplesmente abriu um olho, mastigou as gengivas e soltou gases ruidosamente. Clinker soltou um suspiro e fechou a porta.

— Pobre da velha Mabel. Porra, como eu gostaria que ela não fizesse isso, a casa fica fétida! Tome. — Entregou a Suslev um copo cheio d'água com uma piscadela. — A sua pre­ferida, meu chapa. Cento e vinte de teor alcoólico.

Suslev retribuiu a piscadela e engoliu a água ruidosamente.

— Obrigado, camaradão. Mais uma dessas e zarparei feliz deste paraíso capitalista.

— Mais uma dessas — riu Clinker, continuando a fin­gir — e vai sair do porto de Hong Kong de joelhos! — Voltou a encher o copo. — Quanto tempo vai ficar hoje?

— Não podia deixar de tomar uns últimos drinques com você, não é? Contanto que saia daqui Iá pelas dez, tudo bem. Vamos, beba! — trovejou, com alegria forçada. — Que tal um pouco de música, hem?

Alegremente, Clinker ligou o gravador, bem alto. Uma triste balada russa encheu o aposento.

Suslev encostou a boca no ouvido de Clinker.

— Obrigado, Ernie. Volto em breve.

— Tudo bem. — Clinker piscou o olho, ainda acreditando na história de Suslev, que lhe dissera que ia se encontrar com uma mulher casada no Sinclair Towers. — Quem é ela, hem? — perguntou, coisa que nunca fizera antes.

— Em boca fechada não entra mosca — sussurrou Suslev, com um amplo sorriso. — Mas o marido dela é um figurão, um porco capitalista, e legislador!

Clinker riu de orelha a orelha.

— Que estouro! Meta-lhe uma por mim, certo? Suslev desceu pelo alçapão e encontrou a lanterna elétrica.

A água pingava do telhado de concreto rachado do túnel, as fendas maiores do que antes. Pequenas avalanchas de detritos tornavam o piso precário e escorregadio. O nervosismo dele aumentou. Não gostava do abafamento, nem da necessidade de ir se encontrar com Crosse, querendo estar bem longe, seguro no seu navio, com um álibi perfeito quando Dunross fosse dro­gado e seqüestrado. Mas Crosse fora intransigente.

— Puta merda, Grigóri, você tem que estar Iá! Tenho que vê-lo pessoalmente, e está claro que não vou ao Ivánov. É perfeitamente seguro, garanto-lhe.

"Garantir?", pensou Suslev raivosamente, de novo. "Como se pode garantir qualquer coisa?" Apanhou a automática de cano curto com silenciador, examinou-a e soltou a trava de segurança. Depois continuou, caminhando com cuidado, e su­biu a escada que levava ao armário falso. Tendo chegado às escadas, parou e prestou atenção, prendendo a respiração, toda a sua concentração buscando o perigo. Sem achar nenhum, começou a respirar mais suavemente, subiu as escadas em silêncio e entrou no apartamento. A luz que vinha do prédio alto logo abaixo e também da cidade entrava pelas janelas e iluminava tudo o bastante para que ele enxergasse. Examinou cuidadosa­mente o apartamento. Quando acabou, foi até a geladeira e abriu uma garrafa de cerveja. Ficou olhando pela janela, distrai­damente. De onde estava não conseguia ver o seu navio, mas sabia onde ele estava, e aquele pensamento lhe deu uma sensa­ção gostosa. "Ficarei contente por partir", pensou. "E triste. Quero voltar... Hong Kong é boa demais... mas será que posso?

"E quanto ao Sinders? Devo confiar nele?"

O coração de Suslev lhe doía dentro do peito. Sem dúvida alguma, seu futuro pendia na balança. Seria fácil para o seu próprio pessoal do KGB provar que ele denunciara Metkin. O Centro poderia obter essa informação de Roger Crosse com um simples telefonema, . . se já não houvessem chegado eles mes­mos a essa conclusão.

"Que o Sinders apodreça no inferno! Sei que vai me entregar... eu o faria, se fosse ele. Será que o Roger sabe do acordo secreto que Sinders me propôs? Não. Sinders manteria isso em segredo, até mesmo para o Roger. Não faz mal. Uma vez que eu tiver passado qualquer coisa para o outro lado, es­tarei para sempre nas mãos dele."

Os minutos passaram devagar. Ouviu-se o ruído de um elevador. Imediatamente, ele se colocou em posição defensiva. Seu dedo tocou o gatilho; uma chave girou na fechadura. A porta se abriu e fechou rapidamente.

— Alô, Grigóri — disse Crosse, suavemente. — Gostaria que não me apontasse essa maldita coisa.

Suslev travou a arma.

— O que há de tão importante? E quanto àquele bosta do Sinders? O que foi que...

— Acalme-se e escute. — Crosse apanhou um rolo de mi­crofilme, seus olhos azuis muito claros incomumente excitados. — Tome um presente. É caro, mas todas as verdadeiras pastas de Alan estão neste filme.

— O quê? — Suslev fitava-o. — Mas como? Escutou enquanto Crosse lhe contava sobre a caixa-forte, terminando com:

— ...e depois que Dunross saiu, fotografei as pastas e recoloquei-as no lugar.

— O filme já foi revelado?

— Claro que sim. Fiz uma cópia, que li e destruí pronta­mente. É mais seguro do que dá-la a você e arriscar que seja detido e revistado... Sinders está em pé de guerra. Que diabo aconteceu entre você e ele?

— Primeiro fale-me das pastas, Roger.

— Lamento, mas são iguais às outras, palavra por palavra. Nenhuma diferença.

— O quê?

— É. Dunross estava nos dizendo a verdade. As cópias que nos deu são exatas.

Suslev ficou chocado.

— Mas tínhamos certeza, você tinha certeza!

— Eis a sua prova — disse Crosse, dando de ombros e entregando-lhe o filme.

Suslev praguejou obscenamente.

Crosse observava-o e mantinha a fisionomia solene, ocul­tando o seu divertimento. "As pastas verdadeiras são valiosas demais para serem entregues — por enquanto", disse consigo mesmo. "Ora se são! Agora não é a hora. Na hora certa, Grigó­ri, meu velho, partes delas renderão um bom dinheiro. E todas essas informações terão que ser peneiradas e oferecidas com muito, muito cuidado. E quanto aos onze pedaços de código — seja Iá que diabo queiram dizer —, deverão valer uma fortuna, no seu devido tempo."

— Infelizmente, acho que desta vez demos num beco sem saída, Grigóri.

— Mas, e quanto ao Dunross? — Suslev estava sem cor. Olhou para o relógio. — Talvez já esteja no baú.

Viu Crosse dar de ombros, o rosto magro marcado na penumbra.

— Não há necessidade de interromper o plano — disse Crosse. — Pensei cuidadosamente em toda a operação. Con­cordo com Jason que será bom dar uma sacudidela em Hong Kong. O seqüestro de Dunross vai criar ondas de todo tipo. Com a corrida aos bancos e o colapso da Bolsa... é, isso nos ajudaria muito. Estou um tanto preocupado. Sinders está fare­jando muito de perto, e me fazendo todo tipo de perguntas perigosas. Além disso, há o caso Metkin, Voranski, os documen­tos do Alan, você... erros demais. É preciso tirar a pressão de cima da Sevrin. Dunross o fará admiravelmente.

— Tem certeza? — indagou Suslev, necessitando ser re-confortado.

— Sim. Ora, se tenho. Dunross vai ser excelente. Será o chamariz. Vou precisar de toda a ajuda que puder obter. Você vai entregar o Arthur, não vai?

Suslev sentiu os olhos dele penetrarem-no, e seu coração quase parou, mas não expressou o choque na fisionomia. Por pouco.

— Ainda bem que Sinders lhe falou do nosso encontro. Isso me poupa trabalho. Como vou sair da armadilha dele?

— Como você vai evitá-la?

— Não sei, Roger. Será que o Sinders vai cumprir sua ameaça?

— Ora, qual é, pelo amor de Deus! — exclamou Crosse bruscamente. — Você não o faria?

— O que devo fazer?

— É o seu pescoço, ou o do Arthur. Se for o do Arthur, então o pescoço seguinte poderá ser o meu. — Houve uma pausa longa e violenta, e Suslev sentiu os pêlos da nuca se arre­piarem. — Contanto que não seja o meu... e eu sabia anteci­padamente o que está acontecendo... tanto se me dá.

Suslev voltou a olhar para ele.

— Quer beber alguma coisa?

— Sabe que não bebo.

— Quis dizer água... ou soda. — O grandalhão foi até a geladeira, pegou a garrafa de vodca e bebeu pelo gargalo. — Ainda bem que Sinders lhe contou.

— Puta que o pariu, Grigóri, cadê os seus miolos? Claro que ele não me contou... o idiota ainda acha que foi um acordo secreto e particular, só ele e você, claro que pensa assim! Santo Deus, este é o meu território! Fiz com que ele usasse uma sala em que eu tinha posto escutas. Por acaso sou algum imbecil? — Os olhos ficaram ainda mais duros, e Suslev sentiu um aperto insuportável no peito. — Portanto, é uma escolha simples, Grigóri, é você ou Arthur. Se você entregá-lo, estou em perigo, assim como todos os demais. Se você não atender ao Sinders, está acabado. Das duas escolhas, eu preferiria você morto... e eu, Arthur e a Sevrin a salvo.

— A melhor solução é eu atraiçoar o Arthur — disse Suslev. — Mas que ele fuja antes que o peguem. Poderia vir para bordo do Ivánov, hem?

— Sinders estará à sua frente, e o deterá em águas de Hong Kong.

— É possível. Não provável. Eu resistiria a uma aborda­gem no mar. — Suslev o observava, um gosto amargo na boca. — Ou é isso, ou Arthur comete suicídio... ou é eliminado.

Crosse olhou-o fixamente.

— Deve estar brincando! Quer que mande o Arthur para a Terra dos Pés Juntos?

— Foi você mesmo que disse, é o pescoço de alguém. Ouça, no momento só estamos examinando as possibilidades.

Mas é uma verdade que você é imprescindível. Arthur não é. Nem os outros. Nem eu — falou Suslev, com sinceridade. — Portanto, aconteça o que acontecer, não pode ser você... e de preferência não eu. Nunca me agradou a idéia de morrer. — Tomou outro gole da vodca e sentiu a sensação gostosa a aquecer-lhe o estômago, depois voltou a fitar o seu aliado. — Você é um aliado, não é?

— Sim, claro que sim. Enquanto o dinheiro continuar entrando e eu curtindo o jogo.

— Se você acreditasse, viveria uma vida mais longa e me­lhor, továrich.

— A única coisa que me mantém vivo é não acreditar. Você e seus amigos do KGB podem tentar até conseguir dominar o mundo, infiltrar o capitalismo e qualquer outro "ismo" que desejarem, por qualquer propósito que admitam, ou que lhes agrade, e nesse meio tempo, eu só vou levando!

— O que quer dizer com isso?

— É uma expressão que significa "ajudar" — disse Crosse, secamente. — Como é? Vai entregar o Arthur?

— Não sei. Poderia lançar uma pista falsa até o aero­porto para nos dar tempo de fugir das águas de Hong Kong?

— Sim, mas Sinders já redobrou a vigilância Iá.

— E quanto a Macau?

— Poderia fazer isso. Mas não gosto. E quanto aos outros da Sevrin?

— Eles que se entoquem mais fundo. Vamos fechar tudo. Você assume a Sevrin, e nós a ativamos de novo depois que a tempestade passar. Será que o De Ville poderá vir a ser o tai-pan, depois de Dunross?

— Não sei. Acho que será o Gavallan. A propósito, mais duas vítimas dos Lobisomens foram encontradas em Sha Tin, hoje de manhã.

A esperança de Suslev aumentou, e um pouco do seu te­mor o abandonou.

— O que aconteceu?

Crosse contou-lhe como tinham sido encontrados.

— Ainda estamos tentando identificar os desgraçados. Grigóri, entregar o Arthur é arriscado, aconteça o que acon­tecer. Poderia entornar o caldo para o meu lado. Talvez com a queda da Bolsa, os bancos numa pior e Dunross sumindo, pudesse haver uma cobertura suficiente. Talvez.

Suslev balançou a cabeça. Sua náusea aumentou. A decisão tinha que ser tomada.

— Roger, não vou fazer nada. Simplesmente vou me man­dar, e arriscar. Farei um relatório particular para me antecipar ao Sinders, e contarei ao Centro o que aconteceu. Faça o Sin­ders o que fizer, bem, isso pertence ao futuro. Também tenho amigos em posições influentes. Talvez o desastre de Hong Kong, e o aprisionamento de Dunross... eu mesmo farei o interroga­tório com as substâncias químicas, de qualquer maneira, para o caso de estar nos tapeando e ser tão esperto quanto você diz que é... o que foi?

— Nada. E quanto ao Koronski?

— Partiu hoje de manhã, depois de ter me dado todas as substâncias químicas. Reprogramei o interrogatório para ser fei­to a bordo do Ivánov, e não em terra. Por quê?

— Por nada. Continue.

— Talvez a débâcle de Hong Kong apazigue os meus su­periores. — Agora que havia tomado a decisão, sentia-se um pouco melhor. — Envie um relatório urgente para o Centro através dos canais de costume, para Berlim. Mande o Arthur fazer o mesmo hoje à noite, por rádio. Façam o relatório a meu favor, certo? Culpem a CIA daqui pelo caso Metkin, e Voranski pelo caso do "vazamento" do porta-aviões. Certo? Culpem a CIA e o Kuomintang.

— Sem dúvida. Por um preço dobrado. A propósito, Gri­góri, se eu fosse você, limparia as minhas digitais desta garrafa.

— Hem?

Zombeteiramente, Crosse contou-lhe que Rosemont apa­nhara o copo na batida, e que, havia meses, para proteger Suslev, ele extraíra as impressões dele do seu dossiê.

O russo estava branco.

— A CIA tem as minhas impressões digitais no seu ar­quivo?

— Apenas se tiverem um dossiê melhor do que o nosso. E disso eu duvido.

— Roger, espero que você cubra a minha retaguarda.

— Não se preocupe. Vou enfeitar tanto o relatório, que o promoverão. Em troca, você recomendará a minha gratifica­ção de cem mil dó...

— É demais!

— O preço é esse! Estou tirando você de uma confusão dos diabos. — A boca sorriu, mas os olhos, não. — É uma sorte sermos profissionais, não é?

— Eu... vou tentar.

— Ótimo. Espere aqui. O telefone do Clinker está cen­surado. Vou ligar do apartamento do Jason tão logo saiba do Dunross. — Crosse estendeu a mão. — Boa sorte, farei o que puder com o Sinders.

— Obrigado. — Suslev deu-lhe um abraço apertado. — Boa sorte para você também, Roger. Não falhem com o Dun­ross.

— Não falharemos.

— E continue com o bom trabalho, certo?

— Diga aos seus amigos que continuem mandando o di­nheiro. Certo?

— Sim.

Suslev fechou a porta às costas de Crosse, depois enxugou as palmas das mãos nas calças e pegou o rolo de filme. Xin­gou-o baixinho, e a Dunross, Hong Kong e Sinders, o fantasma do KGB interrogando-o sobre Metkin a dominá-lo. "Tenho que dar um jeito de evitar isso", falou consigo mesmo, o suor frio escorrendo-lhe pelas costas. "Talvez eu deva mesmo entre­gar o Arthur, afinal de contas. Como fazer isso, sem implicar o Roger? Tem que haver um jeito."

No patamar, Roger Crosse entrou no elevador e apertou o botão do térreo. Agora sozinho, apoiou-se exausto contra as paredes oscilantes e sacudiu a cabeça para tentar afastar o medo.

— Pare com isso! — murmurou. Dominou-se com es­forço, e acendeu um cigarro, notando que seus dedos tremiam. "Se aquele sacana interrogar Dunross quimicamente, estou li­quidado. E aposto cinqüenta dólares contra um monte de bosta que Suslev ainda não descartou a possibilidade de entregar o Plumm. E se ele fizer isso, porra, todo o meu castelo de cartas pode desabar sobre a minha cabeça. Um erro, um mínimo des­lize, e estou acabado."

O elevador parou. Alguns chineses entraram ruidosamen­te, mas ele nem os notou.

No térreo, Rosemont o esperava.

— Então?

— Nada, Stanley.

— Você e seus palpites, Rog.

— Nunca se sabe, Stanley, podia ter havido alguma coisa — disse Crosse, tentando pôr a cabeça para funcionar. Inven­tara o palpite e trouxera Rosemont consigo — para esperar Iá embaixo —, apenas para despistar os homens da CIA de Rose­mont que ele sabia estarem ainda vigiando o saguão.

— Você está bem, Rog?

— Estou, sim. Obrigado. Por quê? Rosemont deu de ombros.

— Quer um café ou uma cerveja?

Saíram para dentro da noite. O carro de Rosemont espe­rava Iá fora.

— Não, obrigado. Estou indo para Iá. — Crosse apontou para o Rose Court, o prédio alto que se erguia acima deles, na rua de cima. — É um coquetel a que tenho que ir por obri­gação social.

Sentiu o medo subir-lhe pelo peito, de novo. "Porra, o que faço agora?"

— O que há, Rog?

— Nada.

— Rose Court, hem? Talvez eu devesse arrumar um apar­tamento Iá. Rosemont de Rose Court.

— É. — Crosse reuniu suas forças. — Quer vir até as docas ver o Ivánov zarpar?

— Claro, por que não? Ainda bem que você mandou aque­le filho da mãe se arrancar. — Rosemont abafou um bocejo. — Conseguimos dobrar o sacana do computador hoje. Parece que ele tem todo tipo de segredos guardados.

— Quais?

— Diversas coisinhas sobre o Corregidor, sua velocidade máxima, de onde vêm suas armas nucleares, seu código de ar­mamento, esse tipo de coisa. Conto-lhe tudo logo mais. Você me apanha à meia-noite, tá legal?

— Sim, sim, claro.

Crosse virou-se e afastou-se rapidamente. Rosemont acom­panhou-o com o olhar, de testa franzida, depois ergueu os olhos para o Rose Court. Todos os doze andares estavam iluminados. Novamente, o americano voltou a olhar para Crosse, agora uma pequena figura na escuridão, enquanto dobrava a esquina, su­bindo a rua íngreme e sinuosa.

"O que está havendo com o Rog?", perguntou-se, pensa­tivo. "Algo está errado."

 

                 20h10m

Roger Crosse saltou do elevador no quinto andar, o rosto tenso, e entrou pela porta aberta no apartamento das Proprie­dades Asiáticas. O salão estava lotado e barulhento. Ficou pa­rado à porta, os olhos percorrendo os convivas, à procura de Plumm ou Dunross. Notou prontamente que havia pouca feli­cidade ali, um ar de depressão na maioria dos convidados, o que aumentou sua inquietação. Havia poucas mulheres presentes... as poucas que ali estavam agrupavam-se constrangidas no canto oposto da sala. Por toda parte a conversa se concentrava aca­loradamente no problema da débâcle da Bolsa e da corrida aos bancos.

— Ora, qual é, pela madrugada! Fica muito bonito para o Victoria anunciar uma compra de controle multimilionária do Ho-Pak, mas cadê o dinheiro para nos manter a todos à tona?

— Foi uma fusão, não uma compra de controle, Dunstan — começou Richard Kwang —, o Ho-Pak não...

Barre ficou subitamente colérico.

— Puta que o pariu, Richard! Somos todos amigos aqui, e todos sabemos que a coisa é mais do que uma simples ope­ração de salvamento, pelo amor de Deus! Somos Iá crianças? O que quero deixar claro — disse Barre, aumentando o tom de voz para abafar as de Richard Kwang e Johnjohn —, o que quero deixar claro, meu velho, é que, com ou sem fusão, nós, os empresários de Hong Kong, não podemos nos manter à tona se todos os malditos bancos de vocês, por pura burrice, ficarem sem grana. Certo?

— Não é culpa nossa, pelo amor de Deus! — falou John­john, irritado. — É apenas uma perda temporária de confiança.

— Uma droga de uma má administração, se querem saber a minha opinião — replicou Barre com azedume, ante a con­cordância total. Então notou Crosse tentando passar. — Oh, oh, alô, Roger! — disse, com um sorriso amarelo.

Roger Crosse notou a cautela imediata, que era normal sempre que ele pegava alguém com a guarda aberta.

— O Ian está aqui?

— Não, ainda não chegou — falou Johnjohn, e Crosse soltou a respiração, molhado de alívio.

— Tem certeza?

— Tenho, sim. Tão logo ele chegue, vou embora — disse Dunstan, com azedume. — Malditos bancos! Se não fosse por...

Johnjohn interrompeu.

— E quanto aos malditos Lobisomens, Roger?

A descoberta dos dois corpos fora o assunto principal da Rádio Hong Kong e de todos os jornais chineses... já que não havia jornais ingleses vespertinos aos domingos.

— Não sei mais do que vocês — falou Crosse. — Ainda estamos tentando identificar as vítimas. — Seus olhos se con­centraram em Richard Kwang, que ficou intimidado. — Não sabe de nenhum filho ou sobrinho que tenha desaparecido ou sido seqüestrado, sabe, Richard?

— Não, infelizmente, não sei, Roger.

— Se me dá licença, tenho que ir falar com o nosso anfi­trião. — Crosse foi abrindo caminho entre as pessoas. — Alô, Christian — disse, passando pelo editor alto e magro do Guar­dian. Viu a desolação que o outro homem tentava desesperada­mente esconder. — Sinto muito por sua mulher.

— Joss — falou Christian Toxe, tentando aparentar cal­ma, e barrou o seu caminho. — Joss, Roger. Ela, bem, ela... a vida tem que continuar, não é? — O sorriso forçado dele era quase grotesco. — O Guardian tem que fazer o seu trabalho, não é mesmo?

— É.

— Posso dar uma palavrinha com você depois?

— Claro, mas confidencialmente, como sempre?

— Naturalmente.

Continuou o seu caminho, passando por Pugmire e Sir Luís, conversando entretidíssimos sobre a compra de controle da General Stores pela Struan, e notou Casey no centro de um grupo no varandão que dava para o porto, De Ville entre eles, Gornt também no grupo, com ar benévolo, o que Crosse es­tranhou.

— Alô, Jason — cumprimentou, aproximando-se de Plumm, que conversava com Joseph Stern e Phillip Chen. — Obrigado pelo convite.

— Oh, alô, Roger, que bom ter vindo!

— Boa noite — cumprimentou os outros. — Jason, cadê o seu convidado de honra?

— Ian telefonou dizendo que se atrasara um pouco, mas que já vinha. Não demora estará aqui. — A tensão de Plumm era evidente. — O... champanha está pronto, e o meu pequeno discurso também. Está tudo pronto — falou, olhando para ele.

— Vamos, Roger, deixe-me pegar uma bebida para você. É Perrier, não é? Botei no gelo para você.

Crosse o acompanhou, igualmente satisfeito pela oportu­nidade de conversarem em particular. Mas, tão logo chegaram à porta da cozinha, fez-se um silêncio repentino. Dunross es­tava na entrada com Riko, Gavallan ao lado deles. Os três sorriam amplamente.

— Ouça, Jason, eu... — Crosse se interrompeu. Plumm já se virará para o bar, e, se Crosse não o estivesse observando muito atentamente, jamais teria visto a mão esquerda dele que­brar habilmente o frasco minúsculo sobre uma das taças cheias de champanha, depois colocar os fragmentos no bolso, pegar a bandeja com as quatro taças e se dirigir para a porta. Fascina­do, observou Plumm aproximar-se de Dunross e oferecer-lhe o champanha.

Dunross deixou Riko pegar uma taça, depois Gavallan. Sem ser aparentemente induzido a isso, ele apanhou a taça que continha a droga. Plumm pegou a última delas, entregando a bandeja a um garçom embaraçado.

— Bem-vindo, Ian, e parabéns pelo golpe! — disse Plumm, com naturalidade, brindando sem estardalhaço. Os que estavam próximos acompanharam-lhe o gesto, polidamente, Naturalmente, Dunross não bebeu o próprio brinde.

— Agora, por que não brinda ao Richard Kwang, ao John­john e à sua fusão? — sugeriu Plumm, a voz soando estranha.

— Por que não? — replicou Dunross com uma risada, e lançou um olhar para Johnjohn, do outro lado da sala. — Bruce!

— chamou, erguendo a taça, e o nível geral do barulho baixou um pouco. — Ao Victoria! — A voz dele tornou-se mais forte, chamando a atenção. Outros olharam para ele e pararam no meio do que diziam. — Talvez todos devam participar do brin­de. Acabo de saber que o Banco da China concordou em em­prestar ao Vic e aos outros bancos meio bilhão em espécie a tempo para a abertura das portas, na segunda-feira.

Fez-se um silêncio vasto e repentino. Os que estavam na varanda se adiantaram, Gornt à frente.

— O quê?

— Acabo de saber que o Banco da China emprestou a Hong Kong... vai emprestar ao Vic, para emprestar aos ou-

tros bancos... meio bilhão em espécie, e quanto mais for pre­ciso. Todas as corridas aos bancos terminaram! — Dunross ergueu a taça. — Ao Victoria!

Quando o pandemônio começou e todos desandaram a fazer perguntas, Crosse começou a andar, e no exato momento em que Dunross ia tomar o primeiro gole, fingiu tropeçar e colidiu com ele, derrubando-lhe a taça da mão. Ela se estilha­çou ao tocar no chão de parquete.

— Puxa vida, desculpe-me! — falou, sem graça. Plumm fitou-o, abismado.

— Pela madrugada...

— Ah, Jason, mil desculpas — falou Crosse interrom­pendo-o, e acrescentando depressa, enquanto um garçom catava rapidamente os cacos: — Quem sabe podia pegar outra taça para o Ian.

— Sim, mas...

Atordoado, Plumm já ia obedecer quando Riko falou:

— Ah, tome, tai-pan, por favor, fique com a minha. Então Johnjohn gritou, por sobre a balbúrdia:

— Silêncio, silêncio, um momento! — e foi se aproxi­mando de Dunross. — Ian — perguntou, no silêncio absoluto —, tem certeza quanto ao dinheiro?

— Claro que sim — replicou Dunross serenamente, sor­vendo a bebida de Riko, gozando aquele momento. — Tiptop me ligou pessoalmente. Vai sair no noticiário das nove.

Houve um súbito viva ruidoso, mais perguntas e respos­tas, e Dunross viu que Gornt o fitava do outro lado do apo­sento. Seu sorriso tornou-se mais duro, e ele ergueu a sua taça, ignorando a barragem de perguntas.

— À sua saúde, Quillan! — exclamou, zombeteiramente. Rapidamente a conversa cessou de novo, a atenção de todos concentrada neles.

Gornt retribuiu o brinde, igualmente zombeteiro.

— À sua saúde, Ian. É verdade que temos mesmo o di­nheiro da China?

— É, e a propósito, acabo de conseguir um novo fundo de cinqüenta milhões de dólares americanos. Agora a Casa Nobre é a hong mais forte da colônia.

— Com que garantia? — perguntou a voz cortante de Gornt, no silêncio abrupto.

— A honra da Casa Nobre! — Com uma displicência que não sentia, Dunross virou-se para Johnjohn. — O emprés­timo é do Royal Belgium, uma subsidiária do First Central de Nova York, e bancado por eles. — Deliberadamente evitou olhar para Gornt enquanto repetia a notícia, saboreando o som das palavras: — Cinqüenta milhões de dólares americanos. Ah, a propósito, Bruce, amanhã vou suspender o ^eu empréstimo para os meus dois navios. Não preciso mais do empréstimo do Vic... o Royal Belgium me ofereceu melhores condições. Johnjohn simplesmente o fitou.

— Está brincando!

— Não. Acabo de falar com o Paul. — Momentanea­mente, Dunross olhou para Plumm. — Desculpe, Jason, foi por isso que me atrasei. Naturalmente, tinha que ir vê-lo. Bru­ce, meu velho, Paul já está no banco tomando as providências para a transferência do dinheiro da China a tempo para a aber­tura do banco... pediu que você fosse para Iá imediatamente.

— Como?

— Imediatamente. Desculpe.

Johnjohn fitou-o, abobalhado, começou a falar, interrom­peu-se, depois explodiu num viva que todos acompanharam, e saiu às pressas, ao som de vivas.

— Pombas, tai-pan, mas você...

— O Tiptop? Isso quer dizer que é verdade! Não acha...

— O First Central de Nova York? Não são os cretinos que...

— Porra, e eu andei vendendo a descoberto...

— Eu também! Que merda, vou comprar logo que a Bolsa abrir ou...

— Ou vou ficar a zero e...

Dunross viu que Sir Luís, Joseph Stern e Phillip Chen confabulavam, Gornt ainda a fitá-lo, o rosto imóvel. Então, viu Casey sorrindo para ele, feliz, e ergueu a taça num brinde. Ela retribuiu o gesto. Gornt viu isso e dirigiu-se para ela, e os que estavam perto estremeceram e ficaram calados.

— O First Central é o banco da Par-Con, não é?

— É, sim, Quillan — retrucou ela, sua voz soando pe­quenina, mas correndo por toda a sala, e novamente eles foram o alvo das atenções.

— Você e o Bartlett, foram vocês que fizeram isso? — perguntou Gornt, do alto da sua estatura.

Dunross apressou-se a dizer:

— Eu providencio os meus empréstimos. Gornt ignorou-o, apenas a fitava.

— Você e Bartlett. Vocês o ajudaram?

Ela lhe devolveu o olhar, o coração batendo forte.

— Não tenho controle sobre aquele banco, Quillan.

— Ah, mas você andou metendo sua colher na história — disse Gornt, friamente. — Não foi?

— Murtagh me perguntou se eu achava que valia a pena arriscar na Struan — disse ela, a voz controlada. — Eu disse que sim, e muitíssimo.

— A Struan está acabada — falou Gornt. Dunross acercou-se deles.

— A questão é que não estamos acabados. A propósito, Quillan, Sir Luís concordou em tirar as ações da Struan do pregão até o meio-dia.

Todos os olhos se voltaram para Sir Luís, que agüentou estoicamente, com Phillip Chen ao lado, depois retornaram para Dunross e Gornt.

— Por quê?

— Para dar ao mercado tempo para se adaptar à alta.

— Que alta?

— A alta que todos merecemos, a alta que o Velho Cego Tung previu. — Uma onda de eletricidade percorreu a todos, até mesmo Casey. — E também para se adaptar ao valor das nossas ações — falou Dunross, a voz áspera. — Abrimos a 30.

— Impossível — falou alguém, com voz abafada, e Gornt rosnou:

— Não pode! Fechou a 9,50, por Deus! Suas ações fe­charam a 9,50!

— E daí oferecemos as ações a 30, por Deus! — rosnou Dunross de volta.

Gornt virou-se bruscamente para Sir Luís.

— Vai topar esse assalto a mão armada?

— Não há nenhum, Quillan — disse Sir Luís, calmamen­te. — Concordei, com a aprovação unânime do comitê, em que é melhor para todos, para a segurança dos investidores, que haja um período de calma... para todos poderem se preparar para a alta. Pareceu-nos justo até o meio-dia.

— Justo, hem? — falou Gornt com aspereza. — Você tem um bocado de ações que vendi a descoberto. Agora vou recomprar tudo. A que preço?

Sir Luís deu de ombros.

— Tratarei do assunto ao meio-dia de amanhã, no próprio edifício da Bolsa.

— Eu tratarei do assunto com você neste momento, Quillan — disse Dunross, asperamente. — Quantas ações ven­deu a descoberto? Deixarei que as recompre a 18, se você vender o controle majoritário da AH Ásia Airways a 15.

— A Ail Ásia Airways não está à venda — falou Gornt, furioso, a mente berrando que a 30 ele estaria liquidado.

— A oferta é válida até a abertura da Bolsa, amanhã.

— Dane-se você, amanhã e os seus 30! — Gornt virou-se bruscamente para Joseph Stern. — Compre ações da Struan! Agora, de manhã ou ao meio-dia! É o responsável!

— A... a que preço, sr. Gornt?

— Basta comprar! — Gornt fechou a cara e virou-se para Casey. — Obrigado — disse-lhe, e saiu furioso, batendo a por­ta atrás de si.

Então, as conversas explodiram, e Dunross viu-se cercado, gente lhe batendo nas costas, assoberbando-o de perguntas. Ela ficou sozinha na porta da varanda, chocada pela violência que presenciara. Distraidamente, confusa, viu Plumm se afastar apressado, com Roger Crosse atrás, mas nem lhes prestou aten­ção, apenas observava Dunross, com Riko ao lado.

No pequeno dormitório dos fundos, Plumm meteu a mão na gaveta de uma cômoda que ficava perto do grande baú que seria despachado por mar. A porta se escancarou e ele se virou bruscamente; quando viu que era Roger Crosse, sua fisionomia se alterou.

— Que merda andou fazendo? Você deliberadamente... Com uma velocidade felina, Crosse atravessou o quarto e esbofeteou Plumm antes que este se desse conta do que estava acontecendo. Plumm soltou uma exclamação abafada e se pre­parou para saltar sobre Crosse, quando este o esbofeteou de novo e Plumm tropeçou de encontro à cama, caindo sobre ela.

— Mas que mer...

— Cale a boca e ouça! — sibilou Crosse. — Suslev vai entregar você!

Plumm fitou-o, boquiaberto, as marcas das bofetadas tor­nando-se escarlates. Sua raiva sumiu de pronto.

— O quê?

— Suslev vai denunciar você ao Sinders, e isso significa todos nós. — Os olhos de Crosse se estreitaram. — Está bem, agora? Puta merda, fale baixo.

— O quê? Sim... sim... Eu... sim.

— Desculpe, Jason, era a única coisa a ser feita.

— Tudo, tudo bem. Que diabo está acontecendo, Roger? Plumm saltou da cama, esfregando o rosto, um filete de sangue no canto da boca, agora totalmente controlado. Lá de fora vinham os ruídos de conversas indistintas.

— Temos que armar um plano — disse Crosse sombria­mente, e recapitulou sua conversa com Suslev. — Acho que o convenci, mas aquele sacana é escorregadio, não se pode saber o que fará. Sinders vai entregá-lo, não há dúvida, se Suslev não denunciar o Arthur... e se Sinders o entregar, Suslev não voltará a Hong Kong. Eles o manterão e arrancarão tudo dele. Então o...

— Mas, e quanto ao Dunross? — perguntou Plumm, de­salentado. — Sem dúvida o Dunross poderia ter-nos livrado dessa enrascada. Agora o Grigóri não vai deixar de falar. Por que me deteve?

— Tive que fazê-lo. Não houve tempo de lhe contar. Ouça, depois que deixei o Suslev, entrei em contato com o QG. Eles me contaram que Tiptop ajudara aqueles filhos da mãe a se safarem da armadilha com o dinheiro da China. Antes, eu sou­bera que o Ian tinha arranjado o seu empréstimo — mentiu Crosse. — Portanto, a corrida aos bancos acabou, o mercado vai ficar em alta, com ou sem Dunross. Mas, o que é pior, Jason, soube, por um informante da Divisão Especial, que Sin­ders triplicou a segurança em Kai Tak, a mesma coisa no cais do Ivánov, e que, neste momento, estão abrindo todo e qual­quer caixote, toda e qualquer sacola, revistando todo equipa­mento, todo cule que sobe a bordo. Se eles tivessem intercep­tado Dunross, e o fariam, o pessoal do sei é vivo demais, es­taríamos fritos.

O nervosismo de Plumm aumentou. Um estremecimento o percorreu.

— Mas, e quanto... E se entregarmos o Grigóri ao Sin­ders? — perguntou. — E se der...

— Fale baixo. Não está pensando direito, pelo amor de Deus! Grigóri nos conhece a todos. Sinders o meteria num re­gime de dormir-acordar-dormir, o enfiaria no Quarto Vermelho, e ele contaria tudo! Isso nos destruiria, destruiria a Sevrin, e atrasaria os soviéticos dez anos na Ásia.

Plumm sentiu um arrepio, e enxugou o rosto.

— Então, o que vamos fazer?

— Deixar o Grigóri embarcar e zarpar de Hong Kong, e torcer para que convença os seus patrões. Mesmo que ele deixe "vazar" seu nome para o Sinders, acho que estamos infiltrados tão fundo que poderemos nos safar. Você é britânico, não um estrangeiro. Graças a Deus temos leis para nos proteger... mesmo sob a Lei dos Segredos Oficiais. Não se preocupe, nada vai acontecer sem que eu saiba, e se algo acontecer, saberei imediatamente. Sempre haverá tempo para o Plano Três.

O Plano Três era uma fuga que Plumm arquitetara para tal eventualidade... com passaportes falsos, passagens aéreas vá­lidas, malas preparadas, roupas, disfarces e coberturas, incluin­do uma chave mestra para as áreas de espera dos aviões, sem ter que passar pela Imigração... o plano tinha noventa e cinco por cento de possibilidades de êxito, se fosse acionado com uma hora de antecedência.

— Meu Deus! — Plumm olhou para a mala que estivera à espera. — Meu Deus! — repetiu, depois foi até o espelho olhar para o seu rosto. A vermelhidão estava sumindo. Molhou um pouco o rosto.

Crosse o observava, imaginando se estaria convencido. Era o melhor que tinha podido fazer, dadas as circunstâncias. Detes­tava a improvisação, mas nesse caso não tivera opção. "Que vida levamos! Só eu próprio sou imprescindível, os demais, não: Suslev, Plumm, Sinders, Kwok, Armstrong, até o governador."

— O que foi? — perguntou Plumm, olhando para ele pelo espelho.

— Só estava pensando que estamos num ramo de negó­cio duro.

— A causa o torna válido. É a única coisa que conta. Crosse ocultou o seu desprezo. "Acho mesmo que você já deu o que tinha que dar, Jason, meu velho", pensou, depois dirigiu-se ao telefone. Não havia extensões naquela linha, e ele sabia que o aparelho não estava censurado. Discou.

— Pronto?

Reconheceu a voz de Suslev e deu a tossezinha seca do Arthur.

— O sr. Lop-sing, por favor. — Continuando o código numa imitação perfeita da voz de Plumm, falou com urgência: — Deu zebra. O alvo não apareceu. Cuidado nas docas. A vi­gilância foi triplicada. Não podemos entregar a mala. Boa sorte.

Desligou. O silêncio pesou.

— É o dobre de finados para ele, não é? — comentou Plumm, tristemente.

Crosse hesitou. Deu um débil sorriso.

— Antes a morte dele do que a sua, não é?

 

                 20h25m

Na ruidosa sala de estar do fim do corredor, Casey ter­minou sua bebida e pousou o copo. Estava se sentindo inquieta e muito estranha. Parte dela estava feliz por Dunross ter-se safado, e a outra parte estava triste porque agora Gornt es­tava enrascado. Era bem evidente para ela que, com todas as transações que estavam ocorrendo à sua volta, o preço inicial das ações da Struan no pregão seria bem alto. "Pobre Quillan", pensou. "Se ele não cobrir a sua posição, vai estar atolado na merda... e, falemos francamente, fui eu que o pus ali. Não foi?

"Claro, mas eu tinha que livrar a cara do Dunross, por­que, sem ele, o Gornt nos teria espremido até o bagaço... e talvez a todos os outros também. É, é bom não esquecer, não fui eu que dei início à incursão na Struan. Essa incursão foi do Linc, não minha. O Linc não disse sempre que não se deve misturar negócios e prazer? Não concordamos com isso?"

Linc. Sempre de volta ao Linc.

Casey não o vira o dia todo, nem tivera notícias dele. Deveriam ter se encontrado para tomar café juntos, mas havia um "favor não incomodar" na porta dele, e um "favor não incomodar" no telefone dele. Portanto, ela o deixara em paz e afastara a idéia de Orlanda do pensamento... "Será que Or­landa também estava Iá?" E, naquela noite, depois que voltara do passeio de barco, havia um recado: "Oi, divirta-se". Então, tomara banho, vestira-se, reprimira sua impaciência e viera para o coquetel. Não fora divertido no começo, todo mundo depri­mido e apreensivo, e depois das novidades e da saída violenta de Gornt, também continuara a não ser divertido. Logo depois da saída de Gornt, Dunross abrira caminho até onde ela estava e lhe agradecera de novo, mas quase imediatamente fora cer­cado por homens entusiasmados discutindo negócios e opor­tunidades. Ela os observava, sentindo-se muito sozinha. "Talvez o Linc já tenha voltado ao hotel agora", pensou. "Gostaria que... deixe para Iá, está na hora de ir para casa," Ninguém notou quando ela saiu discretamente.

Roger Crosse estava junto ao elevador. Segurou a porta para ela, depois apertou o botão de descida.

— Obrigada. Bela festa, não? — disse ela.

— É, foi, sim — replicou ele, distraidamente.

No térreo, Crosse deixou que ela passasse primeiro, e de­pois saiu, em largas passadas, pela porta da frente e colina abaixo. "Por que tanta pressa?", perguntou-se ela, dirigindo-se para o grupo que esperava pelos táxis, feliz por não estar cho­vendo de novo. Parou bruscamente. Orlanda Ramos, com os braços cheios de embrulhos, vinha entrando no saguão. Avis­taram-se ao mesmo tempo. Orlanda foi a primeira a se re­cuperar.

— Boa noite, Casey — disse, com seu melhor sorriso. — Como você está bonita!

— Você também — replicou Casey. E era verdade. Sua inimiga usava uma saia azul-clara e uma blusa que combinava perfeitamente com ela.

Orlanda derramou uma torrente de cantonense impaciente sobre o zelador amarfanhado que estava ali por perto. Pronta­mente, ele se aproximou e pegou os pacotes das mãos dela, res­mungando.

— Desculpe, Casey — disse ela, cortesmente, uma ponta de nervosismo na voz —, mas houve um pequeno desabamento logo ali abaixo, e tive que deixar meu carro Iá. Veio fazer al­guma visita?

— Já estou de saída. Você mora aqui?

— Moro, sim.

Novo silêncio entre elas, ambas se preparando. Então Ca­sey deu um boa-noite educado e dispôs-se a ir embora.

— Talvez devêssemos conversar — disse Orlanda, e Casey parou.

— Claro, Orlanda, quando você quiser.

— Tem tempo agora?

— Acho que sim.

— Quer me acompanhar até o meu carro? Tenho que ir apanhar o resto dos embrulhos. Você não vai conseguir um táxi aqui, Iá embaixo será mais fácil.

— Está bem.

As duas mulheres saíram. A noite estava fresca, mas Casey ardia, e Orlanda também, cada uma delas sabendo o que vinha pela frente, uma temendo a outra. Foram andando com cuidado pela rua, molhada da água que escorria morro abaixo. Havia um prenuncio de mais chuva para breve, o que se podia perceber pela cerração baixa e escura. Mais adiante, a uns cin­qüenta metros, Casey podia ver onde o aterro cedera, parcial­mente, jogando um monte de terra, pedras, vegetação e detritos no meio da rua. Não havia calçada. Do outro lado do desliza­mento, uma fila de carros se detivera, e manobrava impacien-temente para dar meia-volta. Alguns pedestres passavam com dificuldade por cima do aterro.

— Mora há muito tempo no Rose Court? — perguntou Casey.

— Há alguns anos. É muito agradável. Acho... Ah! Vo­cê estava na festa do Jason Plumm, na festa das Propriedades Asiáticas?

— Estava. — Casey viu o alívio no rosto de Orlanda, e aquilo a deixou com raiva, mas controlou-a e disse suavemen­te: — Orlanda, na verdade não temos nada a conversar, temos? Vamos nos dizer boa-noite.

Orlanda ergueu os olhos para ela.

— Linc está comigo. Está comigo no meu apartamento. Neste momento.

— Foi o que imaginei.

— Isso não a incomoda?

— Incomoda-me muitíssimo. Mas isso é problema do Linc. Não somos casados, como sabe, nem mesmo noivos, como sa­be... você tem o seu jeito, eu tenho o meu, portanto...

— O que quer dizer com isso? — indagou Orlanda.

— Que conheço o Linc há sete anos, você não o conhece nem há sete dias.

— Isso não importa — falou Orlanda, desafiadoramente. — Eu o amo, e ele me ama.

— Isso ainda pre... — Casey foi quase empurrada para o lado por alguns chineses que passavam apressados, tagare­lando ruidosamente. Outros vinham subindo a colina. Então alguns dos convidados da festa as rodearam, descendo o morro. Uma das mulheres era Lady Joanna, que olhou para elas com curiosidade, mas seguiu o seu caminho. Quando estavam so­zinhas de novo, Casey terminou: — Isso ainda precisa ser pro­vado. Boa noite, Orlanda — falou, com vontade de berrar para ela: "Você ganha o seu dinheiro deitada de costas, eu ganho o meu com meu trabalho, e todo esse amor de que você fala soletra-se dinheiro. Os homens são um bando de cretinos".

— É curioso, mas não culpo o Linc — continuou, mur­murando em voz alta, vendo a linha firme do queixo, os olhos faiscantes e determinados, o corpo perfeito, voluptuoso mas esbelto. — Boa noite.

Seguiu o seu caminho. "Agora meu plano tem que mudar", pensava, todo o seu ser concentrado. "Esta noite eu ia fazer amor com o Linc, mas agora tudo vai ter que mudar. Se ele está na cama dela, está enfeitiçado por ela. Meu Deus, ainda bem que descobri. Santo Deus, se eu tivesse me oferecido, ele teria que dizer não, e então... Agora posso... o que devo fazer?

"As Orlandas do mundo que vão à merda! É tão fácil para elas, têm o plano do jogo feito desde o primeiro dia. Mas, e quanto ao resto de nós?

"O que faço? Agüento firme até 25 de novembro e torço para que até Iá ele já esteja de saco cheio da Orlanda?

"Não dessa fulana. Ela é dinamite, e sabe que Linc é o seu passaporte para a eternidade."

O coração dela bateu mais depressa. "Eu sou páreo para ela", disse consigo mesma, confiante. "Talvez não na cama ou na cozinha, mas posso aprender."

Subiu numa pedra e desceu dela, xingando a lama que estragava os seus sapatos, e pulou para o outro lado da barreira de terra. O Rolls de Dunross, com o seu chofer, estava no co­meço da fila.

— Com licença, senhorita, o tai-pan ainda está Iá?

— Está, sim.

— Ah, obrigado.

O chofer trancou o carro e subiu rapidamente a colina, passando pela barricada na estrada. Casey virou-se e ficou olhan­do para ele. Seus olhos se fixaram em Orlanda, que se aproxi­mava, e ficou com vontade de empurrá-la na lama. A idéia a divertiu, e ficou parada ali, vendo a inimiga se aproximar, deixando que ficasse imaginando o que Casey faria. Viu os olhos dela ficarem mais duros, e não havia medo no rosto de Orlanda, apenas um meio sorriso muito confiante. Orlanda passou por ela, sem medo, e um tremor de apreensão percorreu Casey, um tremor que ela conseguiu dominar. "Talvez você tenha tanto medo de mim e do meu poder quanto eu do seu", pensou, os olhos agora fitos no Rose Court, uma torre brilhante de luz, imaginando qual a luz que cercaria Linc, ou qual janela escurecida...

Quando Orlanda avistara Casey no saguão, imediatamente chegara à conclusão de que ela fora ao seu apartamento e con­frontara Bartlett... "É o que eu teria feito", disse com seus botões. E mesmo sabendo agora onde Casey estivera, o medo a percorreu de novo, à vista da sua rival. "Será que ela tem poder sobre ele através da Par-Con?", perguntou-se, trêmula.

"Será que pode controlar o Linc através das ações? Se a pri­meira mulher de Linc quase o destruiu financeiramente, e Casey o salvou tantas vezes quanto ele contou, aposto que ela o tem bem amarrado. Eu o faria, se fosse ela, claro que faria."

Involuntariamente, Orlanda olhou para trás. Casey ainda estava observando o Rose Court. Atrás dela, Dunross e outros (Riko, Toxe, Phillip e Dianne Chen entre eles) saíram do sa­guão e começaram a descer o morro. Ela os ignorou, e a tudo o mais, exceto a questão de como lidar com Linc quando vol­tasse. Devia contar-lhe sobre o encontro com Casey ou não? Atordoada, pegou os outros embrulhos de dentro do carro. "De uma coisa eu sei", repetiu para si mesma, inúmeras vezes. "O Linc é meu, e com ou sem Casey, vou me casar com ele, custe o que custar."

Casey tinha visto Dunross sair do saguão e ficou olhando para ele, apreciando a sua aparência, alto, elegante, dez anos mais jovem do que quando o conhecera, e ficou muito satisfeita por ter podido ajudá-lo. Então, quando já ia se virando, ouviu que ele a chamava:

— Casey, Casey, espere um momento! — Ela olhou para trás. — Que tal ir jantar conosco? — convidou.

Ela fez que não com a cabeça, sem a menor disposição, e respondeu:

— Obrigada, mas tenho um encontro! Até amanhã... Naquele momento, a terra desabou.

 

                       20h56m

A avalancha começara mais acima na encosta, do outro lado da Po Shan Road, e varrera a rua, atingindo uma garagem de dois andares. Sua massa e velocidade eram tão grandes que o prédio da garagem rodopiou e tombou sobre o terraço ajar­dinado, escorregou por uma curta distância, depois caiu de vez. A avalancha ganhou impulso, passou sobre um outeiro às escuras, atravessou a Conduit Road e atingiu a casa de dois andares de Richard Kwang, destruindo-a. E então, carregando consigo esses prédios, a avalancha, agora com duzentos e seten­ta metros de comprimento por sessenta de largura — cinqüenta toneladas de terra e pedras —, continuou sua trilha descenden­te através da Kotewall Road e atingiu o Rose Court.

O deslizamento de terra durara sete segundos.

Quando o Rose Court foi atingido, pareceu estremecer, e depois o prédio se afastou dos seus alicerces e se moveu para diante na direção do porto, tombou e se quebrou mais ou menos no meio, como um homem que se ajoelha e depois cai.

Enquanto caía, os andares superiores atingiram e arranca­ram um canto dos andares superiores do Sinclair Towers, abai­xo. Depois o edifício se desfez e se desintegrou em entulho. Parte do deslizamento e do prédio demolido continuaram o seu caminho e caíram numa obra mais abaixo na montanha, depois pararam. As luzes se apagaram quando o prédio desmoronou numa nuvem de pó. E agora, por toda a Mid Leveis, havia um silêncio imenso e atordoado.

E então os gritos começaram...

No túnel por baixo da Sinclair Road, Suslev sufocava, meio enterrado no entulho. Parte do teto do túnel fora arran­cada, e agora a água entrava pelos canos e ralos, enchendo o túnel rapidamente. Ele se levantou às tontas e abriu caminho para o ar livre, sua mente confusa e impotente, sem saber o que estava acontecendo, apenas que, de alguma forma, fora cap­turado, drogado e agora estava num pesadelo de acordar-dormir, no Quarto Vermelho. Olhou ao seu redor, alucinado pelo pânico. Todos os prédios estavam às escuras, a força, desligada, uma pilha monstruosa de escombros que gemiam e se mexiam a cercá-lo. Então, suas glândulas o dominaram, e ele fugiu desabaladamente pela Sinclair Road...

Bem Iá acima, na Kotewall Road, os que ficaram do outro lado da barragem estavam a salvo, embora paralisados de cho­que. Os poucos que ainda estavam de pé, Casey entre eles, não podiam crer no que haviam testemunhado. A vasta avalancha havia arrancado toda a estrada, até onde seus olhos alcançavam. A maior parte da encosta, que até há pouco estava cheia de prédios, era agora uma inclinação ondulante e feia de lama, terra, rochas; as ruas soterradas, os prédios desaparecidos, e Dunross e o seu grupo carregados inclinação abaixo.

Casey tentou gritar, mas não tinha voz. Então o grito saiu da sua boca:

— Ah, meu Deus! Linc!

Seus pés se moveram, e antes que se desse conta do que estava acontecendo, estava indo aos trancos e barrancos, caindo, tateando, na direção dos escombros. Agora a escuridão era ter­rível, os gritos terríveis, vozes começando, gritos de socorro por toda parte, a pilha incrível e retorcida de entulho ainda se movendo aqui e ali, pedaços ainda caindo e sendo esmagados. Subitamente, a noite foi iluminada pelas linhas de força explo­dindo, enviando cascatas de bolas de fogo pelos ares, entre os escombros.

Desesperadamente, correu para onde antes estivera o sa­guão. Estirada Iá embaixo, bem Iá embaixo, quase totalmente envolvida pela escuridão, estava a massa retorcida de entulho, blocos de concreto, vigas, sapatos, brinquedos, panelas e frigi-deiras, sofás, cadeiras, camas, rádios, televisores, roupas, peda­ços de corpos, livros, três carros que estavam estacionados do lado de fora, e mais gritos. Então, à luz das linhas de força que explodiam, viu os escombros esmigalhados do que fora o eleva­dor encosta abaixo, pernas e braços sobressaindo da sua carcaça.

— Linc! — berrava ela em altos brados, repetidamente, sem saber que estava chorando, as lágrimas lhe escorrendo pelo rosto. Mas não havia resposta. Desesperadamente, foi escalando o entulho perigoso, quase caindo e tateando até passar para o outro lado. À sua volta, homens e mulheres berravam. Então ela ouviu um débil gemido de terror próximo, e parte do entulho se mexeu. Ela agora estava de joelhos, as meias rasgadas, o vestido rasgado, os joelhos feridos; ela afastou alguns tijolos e encontrou uma pequena cavidade, onde estava uma criancinha chinesa de três ou quatro anos, alucinada de terror, tossindo, quase sufocando, presa sob uma pilha vasta de escombros no meio da poeira do entulho.

— Ah, Deus, pobrezinha!

Casey olhou à sua volta, desesperada, mas não havia nin­guém que pudesse ajudá-la. Parte do entulho mudou de posição, gemendo e gritando. Um pedaço de concreto, deixando visível a armação de ferro, quase se soltou. Sem ligar para a própria segurança, Casey tentou retirar os escombros, os dedos sangran­do. Novamente os escombros mudaram de posição acima dela, enquanto mais alguns pedaços rolavam encosta abaixo. Aluci­nadamente, ela abriu um espaço com as mãos e agarrou o braço da criança, ajudando-a a safar-se, depois tomou-a nos braços e correu para a segurança, enquanto aquela parte dos escombros desabava. Ela ficou em pé, sozinha, a criança trêmula e incólu­me nos seus braços, agarrada a ela com força...

Quando a avalancha fez tombar o prédio de apartamentos e arrancou fora a maior parte da estrada e do parapeito, Dunross e os outros que estavam no seu limiar foram arremessados pela encosta íngreme, aos trambolhões, com os arbustos e a vegeta­ção rasteira amortecendo em parte a sua queda. O tai-pan se levantou na semi-escuridão, tateou-se, atordoado, atônito por ver que podia ficar de pé e não estava ferido. De perto dele vinham gemidos baixos de agonia. A encosta era íngreme e esta­va toda enlameada e ensopada, enquanto ele tentava chegar até Dianne Chen, que estava semiconsciente, gemendo, uma das pernas retorcidas brutalmente sob o corpo. Parte da sua tíbia projetava-se através da pele, mas, pelo que ele podia ver, não havia artérias cortadas nem sangramento sério. Com o maior cuidado, endireitou a mulher e sua perna, mas ela soltou um uivo de dor e desmaiou. Sentiu alguém por perto, e ergueu os olhos. Riko estava parada ali, o vestido rasgado, sem sapatos, descabelada, um filete de sangue escorrendo pelo nariz.

— Meu Deus, você está bem?

— Eu... estou — disse, trêmula. — É... foi um ter­remoto?

Naquele momento, houve outra explosão ruidosa de fios elétricos entrando em curto-circuito, e a área foi momentanea­mente iluminada por bolas de fogo.

— Oh, meu Deus — exclamou ele, com voz abafada. —

É como Londres durante a Blitz. — Foi então que notou Phillip Chen, largado como um monte inerte em volta de um arbusto, de ponta-cabeça encosta abaixo. — Fique aqui com Dianne — ordenou, e foi descendo a encosta com dificuldade. Apavorado, virou Phillip de barriga para cima. Seu representante nativo ainda respirava. Dunross tremeu de alívio. Ajeitou-o da melhor maneira que pôde, e olhou à sua volta, na penumbra. Outros também estavam se levantando, entre eles Christian Toxe, que sacudia a cabeça, tentando desanuviá-la.

— Puta que o pariu! — murmurava, sem parar. — Deve haver umas duzentas pessoas morando ali. — Depois de ergue­rem-se com dificuldade, escorregou na lama e soltou mais um palavrão. — Tenho... tenho que achar um telefone. Dê-me uma mão, tá? — Toxe praguejou quando escorregou outra vez. — É o meu tornozelo, acho que torci um pouco o desgraçado.

Dunross ajudou-o a se pôr de pé, e depois, com Riko a apoiá-lo do outro lado, subiram desajeitadamente até o que restava da rua. Ainda havia gente paralisada, outros subindo pelo primeiro deslizamento para ver se podiam ajudar, alguns dos inquilinos desesperados e gemendo. Uma mãe estava sendo contida, o marido já correndo, caindo, escalando as ruínas, os três filhos deles e a amah ali embaixo, em algum lugar.

No momento em que chegaram ao chão plano, Toxe saiu mancando pela Kotewall Road, e Dunross correu para o carro, para buscar a lanterna elétrica e a maleta de socorros de emer­gência.

Não enxergou Lim em lugar algum. Então lembrou-se de que o seu chofer estava junto com eles quando foram atingidos pela avalancha. Enquanto pegava as chaves para destrancar a mala do carro, forçava a memória. "Quem estava conosco? Toxe, Riko, Jacques (não, Jacques já tinha ido embora), Phillip e Dianne Chen, Barre... não, deixamos Barre na festa. Santo Deus! A festa! Tinha me esquecido da festa! Quem ainda estava Iá? Richard Kwang e a mulher, Plumm, Johnjohn (não, ele saiu mais cedo), Roger Crosse (não, espere um minuto, ele também não saiu?)".

Dunross abriu a mala do carro e achou duas lanternas elé­tricas, a maleta de pronto-socorro e um pedaço de corda. Voltou correndo para junto de Riko, sentindo agora dor nas costas.

— Quer voltar e cuidar de Dianne e Phillip até eu poder conseguir alguma ajuda? — Sua voz estava deliberadamente firme. — Tome. — Entregou-lhe uma lanterna elétrica, algu­mas ataduras e um vidro de aspirina. — Pode ir. Dianne que­brou a perna. Quanto ao Phillip, não sei. Faça o que puder e fique com eles até que chegue uma ambulância ou eu volte. Certo?

— Sim, sim, está certo. — Os olhos dela mostraram um lampejo de medo enquanto olhavam para cima. — Será que... há perigo de novo desabamento?

— Não. Você estará perfeitamente segura. Vá depressa! A força de vontade dele afastou o medo dela, que começou a descer a encosta com a lanterna elétrica, andando com muito cuidado. Foi só então que ele notou que ela estava descalça. Depois lembrou-se de que Dianne também estava descalça, e Phillip. Esticou-se para aliviar a dor nas costas. Suas roupas estavam rasgadas, mas nem ligou para isso, e correu para a bar­ricada. À distância, ouviu as sirenes da polícia. Seu alívio foi quase nauseante, enquanto começava a correr.

Foi então que notou Orlanda no começo da fila de carros. Olhava fixamente para o local onde estivera o Rose Court, a boca se movendo, pequenos espasmos fazendo tremer o rosto e o corpo, e ele se lembrou da noite do incêndio, quando ela estivera igualmente petrificada, e prestes a abater-se. Rapida­mente, dirigiu-se para ela e sacudiu-a com força, esperando po­der tirá-la do colapso causado pelo pânico que havia testemu­nhado tantas vezes durante a guerra.

— Orlanda!

Ela despertou do seu semitranse.

— Oh... oh... o que... o que...

Muitíssimo aliviado, notou que agora os olhos -dela esta­vam normais, agonia normal, e as lágrimas escorriam normais.

— Você está bem. Não há com que se preocupar. Contro­le-se agora, Orlanda, você está bem! — falou, a voz bondosa mas muito firme, e deixou-a encostada ao capo de um carro, afastando-se.

Os olhos dela entraram em foco.

— Ah, meu Deus! Linc! — Depois gritou atrás dele, em meio às lágrimas: — Linc... o Linc está Iá!

Ele parou bruscamente, voltou-se.

— Onde? Onde ele estava?

— Está... no meu apartamento. É no oitavo andar... é no oitavo andar!

Dunross saiu correndo de novo, e a lanterna elétrica era o único facho de luz no atoleiro.

Aqui e ali havia gente tateando às cegas, enterrada até os tornozelos na terra ensopada, as mãos em concha sobre fósforos, dirigindo-se para as ruínas. Quando chegou mais perto da ca­tástrofe, seu coração se confrangeu. Podia sentir o cheiro de gás. A cada segundo o cheiro ficava mais forte.

— Apaguem os fósforos, pela madrugada! — urrou ele. — Vão nos mandar a todos pelos ares! Foi então que viu Casey...

O carro da polícia que seguia o de bombeiros subiu cor­rendo a colina, as sirenes uivando, o tráfego denso, e ninguém saindo do caminho. Dentro do carro, Armstrong cuidava dos chamados pelo rádio:

— Todas as unidades policiais e carros de bombeiros para a Kotewall Road! Emergência, emergência, emergência! Novo desabamento de terra nas vizinhanças da Po Shan e da Sinclair Road! Os informantes avisam que o Rose Court e dois outros prédios de doze andares desabaram.

— Mas que coisa ridícula! — resmungou Armstrong, de­pois. — Cuidado, puta merda! — berrou para o motorista, que passara para a contramão, escapando por pouco de bater num caminhão. — Vire à direita aqui, depois atravesse a Castle e entre na Robinson e na Sinclair por aquele lado — ordenou. Estava indo para casa, depois de outra sessão de reconstituição com Brian Kwok, a cabeça doendo, exausto, quando escutara o chamado de emergência. Lembrando-se de que Crosse morava na Sinclair Road e que dissera que passaria na festa de Jason Plumm depois de ir com Rosemont verificar uma pista, resol­vera ir dar uma espiada. "Porra", pensou sombriamente, "se ele foi atingido, quem vai assumir o sei? E devemos ainda soltar o Brian, ou prendê-lo, ou o quê?"

Uma nova voz veio pelo rádio, firme, sem pressa, a estática forte:

— Aqui fala o vice-chefe dos bombeiros, Soames. Emer­gência Um! — Armstrong e o motorista soltaram uma excla­mação abafada. — Estou na junção da Sinclair, Robinson e Kotewall Road, onde instalei um posto de comando. Emergên­cia Um, repito, Um! Informem imediatamente ao comissário e ao governador. É um desastre de enormes proporções. Avi­sem todos os hospitais da ilha para ficarem de prontidão. Orde­nem a todas as ambulâncias e enfermeiros que venham para a área. Vamos pedir imediata ajuda do exército. Não há eletrici­dade nenhuma, precisamos de geradores, cabos e luzes...

— Santo Deus! — murmurou Armstrong. Depois, viva­mente: — Despache as informações, puta que o pariu, e ande depressa!

O carro da polícia aumentou a velocidade...

— Oh, Ian! — disse Casey, nem conseguindo mais chorar, a criança apavorada nos braços. — Linc está Iá embaixo, em algum lugar.

— É, eu sei, eu sei — disse ele, acima da confusão insana de berros e gritos de socorro que vinham do meio do rangido agourento que os escombros faziam enquanto ainda se acomo­davam. As pessoas andavam a esmo, cegamente, sem saber onde procurar, onde começar, como ajudar. — Você está bem?

— Estou... mas o Linc! Não... — Interrompeu-se. Logo adiante, encosta abaixo, perto dos restos do elevador, uma vasta pilha de vigas retorcidas e fragmentos destroçados de concreto cedeu ensurdecedoramente, dando início a uma rea­ção em cadeia que desceu a encosta. Quando ele focalizou sua lanterna elétrica no fenômeno, viram uma massa solta de entu­lho atingir violentamente o elevador, soltá-lo e fazê-lo descer aos trambolhões, deixando corpos no seu rastro. — Ah, Deus! — choramingou Casey. A criança apavorada agarrava-se a ela.

— Volte para o carro, estará a salvo...

Nesse exato momento, um homem alucinado de ansiedade veio correndo até junto deles, espiou a criança nos braços dela, depois agarrou-a, apertando-a ao peito, murmurando graças a Deus e a ela.

— Onde... onde a encontrou? Casey apontou o local, entorpecida.

O homem olhou para o local indicado, atordoado, depois sumiu dentro da noite, chorando de alívio, abertamente.

— Fique aqui, Casey! — disse Dunross, com urgência, as sirenes se aproximando de todas as direções. — Vou dar uma espiada rápida.

— Por favor, tome cuidado! Meu Deus, sente cheiro de gás?

— Sinto, e muito.

Usando a lanterna elétrica, começou a abrir caminho com cuidado sobre, sob e através dos escombros, escorregando e deslizando. Era perigosíssimo, toda a massa instável rangendo. O primeiro corpo era de uma chinesa que ele não conhecia. Cerca de dez metros mais abaixo estava um europeu, a cabeça esmagada, quase destruída. Rapidamente ele iluminou o cami­nho à frente com a lanterna, mas não viu Bartlett entre os outros mortos. Mais abaixo havia dois corpos, ambos chineses. Engolindo a sua náusea, foi abrindo caminho sob uma saliência perigosa, até chegar junto do europeu. Então, segurando a lan­terna com cuidado, revistou os bolsos do morto. A carteira de motorista dizia: Richard Pugmire.

— Meu Deus! — gemeu Dunross. O cheiro de gás era muito forte. O estômago dele se revirou quando, mais Iá em­baixo, outras linhas de força soltaram fagulhas. "Iremos todos para o beleléu se aquelas malditas fagulhas chegarem aqui", pensou. Cuidadosamente, saiu de baixo do entulho e ficou ereto, respirando agora com mais facilidade. Um último olhar para o corpo de Pugmire, e voltou a descer a encosta. A poucos passos dali, ouviu um débil gemido. Levou algum tempo para localizar a fonte, mas finalmente o fez e desceu, o coração batendo com força. Com muito cuidado, enfiou-se nas profundezas sob uma saliência monstruosa de vigas e alvenaria. Os dedos dele segu­raram firme. Usando toda a sua força, inclinou o concreto que­brado e afastou-o para o lado. Viu a cabeça de um homem Iá embaixo.

— Socorro — disse Clinker, debilmente. — Deus o aben­çoe, companheiro...

— Agüente firme um segundo. — Dunross podia ver que o homem estava preso por uma imensa viga, que também im­pedia que o entulho acima o esmagasse. Com a ajuda da lan­terna, procurou até achar um pedaço quebrado de cano. Usan­do-o como alavanca, tentou erguer a viga. Uma pirâmide de entulho mudou de posição, ameaçadora. — Pode se mexer? — perguntou, ofegante.

— São... são as minhas pernas, estão machucadas, mas posso tentar. — Clinker estendeu a mão e agarrou um pedaço de ferro engastado. — Estou pronto quando você estiver.

— Como se chama?

— Clinker, Ernie Clinker. E você?

— Dunross, Ian Dunross.

— Oh! — Clinker moveu a cabeça dolorosamente e olhou para cima, o rosto e a cabeça sangrando, o cabelo empastado, os lábios em carne viva. — Obrigado, tai-pan. Estou pronto quando o senhor estiver.

Dunross colocou todo o seu peso e força na alavanca im­provisada. A viga se deslocou cerca de dois centímetros e meio. Clinker se espremeu, mas não conseguiu se mover.

— Um pouquinho mais, companheiro — ofegou, em meio à forte dor. Dunross fez mais força. Sentiu os tendões dos braços e pernas reclamando do esforço. A viga se levantou uma fração. Um pouco de cascalho entrou na cavidade. Mais alto ainda.

— Agora! — disse, com urgência. — Não consigo agüen­tar mais...

O velho agarrou o pedaço de ferro com mais força e veio se arrastando, centímetro por centímetro. Mais cascalho se mo­via enquanto ele se deslocava. Agora, metade do seu corpo estava para fora. Depois que o tronco dele ficou livre, Dunross deixou a viga voltar ao lugar, muito suavemente, e quando ela estava de novo acomodada, agarrou o velho e puxou-o até liber­tá-lo. Foi então que viu o rastro de sangue, o pé esquerdo faltando.

— Não se mexa, velho — falou, compassivamente, en­quanto Clinker jazia ofegante, semi-inconsciente, tentando con­ter os gemidos de dor. Dunross abriu uma atadura e amarrou um tosco torniquete logo abaixo do joelho.

Depois ficou em pé no pequeno espaço e olhou para a saliência perigosa acima dele, tentando decidir o que fazer a seguir. "Bem, primeiro tenho que tirar esse desgraçado daqui", pensou, sentindo-se mal com o confinamento. Foi então que ouviu o ronco e o rangido do entulho em movimento. A terra balançou e ele se abaixou, os braços protegendo a cabeça. Uma nova avalancha começara.

 

                 21h13m

Fazia apenas dezesseis minutos desde que o Rose Court fora atingido, mas por toda a vasta área de destruição havia gente se mexendo. Alguns haviam conseguido abrir caminho e sair dos destroços. Outros eram salvadores, e bem Iá embai­xo, perto do posto de comando instalado no entroncamento, havia carros de polícia, quatro carros de bombeiros e unidades de salvamento, suas luzes móveis iluminando a encosta, bom­beiros e policiais trabalhando desesperadamente nos escombros. Um pequeno incêndio começou e foi logo apagado, todos cons­cientes do perigo do gás. Uma ambulância com os mortos e feridos já fora despachada, e mais vinham chegando.

Estava caótico na escuridão, toda a iluminação da rua des­ligada, a chuva recomeçando. O oficial do Corpo de Bom­beiros chegara fazia um momento, mandara chamar os técnicos da companhia de gás e organizara outros peritos para inspecio­narem os alicerces de outros prédios de apartamentos e cons­truções próximos, para o caso de precisarem ser evacuados... as três fileiras de edifícios da Kotewall, da Conduit e da Po Shan Road sob suspeita.

— Puxa vida — murmurou, abismado —, vamos levar semanas para escavar e limpar tudo isso. — Mas ficou parado ao ar livre, externamente um modelo de calma. Outro carro-patrulha freou, guinchando. — Oh, alô, Robert! — falou, quando Armstrong se juntou a ele. — É... — comentou, vendo o choque do outro. — Sabe Iá Deus quantos estão enterrados Iá...

— Cuidado! — gritou alguém, e todos correram para se abrigar quando um bloco de concreto reforçado veio caindo desabaladamente dos andares superiores mutilados do Sinclair Towers. Um dos carros de polícia virou sua luz para cima. Agora podiam ver os restos dos aposentos abertos para o céu. Uma figura minúscula se equilibrava na beirada.

— Mande alguém Iá para cima ver que diabo está acon­tecendo...

Um bombeiro saiu correndo...

Na escuridão, junto à barricada da Kotewall Road, haviam-se reunido moradores dos prédios próximos, todos apavorados com a possibilidade de novo desabamento, os inquilinos deses­perados, sem saber se deviam evacuar os prédios ou não. Orlan­da ainda estava encostada ao carro, atordoada, a chuva no seu rosto se misturando às lágrimas. Outro grupo de reforço de policiais passou sobre a barricada e espalhou-se em leque no atoleiro, iluminando o terreno com lanternas elétricas poten-tíssimas. Um deles ouviu um grito de socorro vindo de baixo e dirigiu o facho de luz para os arbustos, depois mudou rapida­mente de direção ao ver Riko acenando e gritando, com duas figuras inertes ao lado.

No entroncamento da Kotewall Road, o carro de Gornt freou bruscamente. Ignorando as ordens do policial atribulado que ali estava, ele enfiou as chaves na mão dele e subiu corren­do a colina. Quando chegou perto da barreira e viu a extensão do desastre, ficou atordoado. Havia poucos momentos estivera ali, bebendo e flertando com Casey, tudo acertado, tudo certo com Orlanda. Depois toda a sua vitória virará de ponta-cabeça, ele esbravejando com Dunross. Mas algum milagre o mandara embora a tempo, e agora talvez todos os outros estivessem mor­tos e enterrados para sempre. Meu Deus! Dunross, Orlanda, Casey, Jason, Barre...

— Saia do caminho! — berrou o policial. Mais enfermei­ros com maças passaram apressados, seguidos por bombeiros com machados, indo para o outro lado da barreira de lama, pedras e árvores, em direção às ruínas. — Desculpe, senhor, mas não pode ficar aqui.

Gornt se afastou para o lado, respirando pesadamente devido à corrida que dera.

— Alguém conseguiu se safar?

— Ah, sim, claro, estou certo de que...

— Viu Dunross, Ian Dunross?

— Quem?

— O tai-pan, Dunross?

— Não, desculpe, não vi.

O policial se virou para interceptar e acalmar alguns pais atormentados.

Os olhos de Gornt voltaram-se para o desastre, ainda atur­dido pelas suas proporções.

— Meu Deus! — murmurou uma voz americana. Gornt se virou. Paul Choy e Vênus Poon faziam parte de um novo grupo que vinha subindo com dificuldade. Todos fitavam, abes-talhados, a escuridão. — Deus!

— O que está fazendo aqui, Paul?

— Oh, alô, sr. Gornt! Meu... meu tio está ali — disse Paul Choy, quase sem conseguir falar. — Santo Deus, olhe só para isso!

— Quatro Dedos?

— É. Ele...

Vênus Poon interrompeu-o, imponentemente:

— O sr. Wu está me esperando para discutir um contrato cinematográfico. Vai ser produtor de filmes.

Gornt ignorou a mentira patente enquanto sua mente fun­cionava a mil por hora. Se pudesse salvar Quatro Dedos, talvez o velho o ajudasse a se safar do desastre da Bolsa que o aguar­dava.

— Em que andar ele estava?

— No quinto — disse Vênus Poon.

— Paul, dê a volta pela Sinclair Road e tente subir por este lado da encosta. Vou descer para ir encontrá-lo! Mexa-se!

O rapaz saiu correndo antes que Vênus Poon pudesse detê-lo. O policial ainda estava distraído. Sem hesitar, Gornt correu para a barricada. Conhecia bem o apartamento do quinto andar de Plumm... Quatro Dedos devia estar próximo. Na escuridão, não notou Orlanda do outro lado da rua.

Logo que ultrapassou a barreira, moveu-se o mais rápido que podia, os pés afundando na terra. Às vezes tropeçava.

— Heya, Honrado Senhor! — gritou em cantonense, para um carregador de maca próximo. — Tem uma lanterna elétrica sobrando?

— Tenho, sim, tome! — disse o homem. — Mas cuidado, o caminho é traiçoeiro. Há muitos fantasmas aqui.

Gornt agradeceu-lhe e saiu apressado, agora ganhando tempo. Chegando perto de onde ficaria o saguão, parou. Encos­ta acima, até onde seus olhos enxergavam, estava a fenda feia do desabamento, com cerca de cem metros de largura. Nas beiradas dessa fenda ficavam outros edifícios e prédios de apartamentos, um deles em construção, e a idéia de ficar preso num deles o deixou nauseado. A Conduit Road inteira sumira, árvores arrancadas, parapeitos desaparecidos. Quando olhou para baixo, estremeceu.

— É impossível — murmurou, lembrando-se do tamanho de prédio, e da alegria que o Rose Court lhe dera ao longo dos anos. Então viu as luzes dardejando no topo do Sinclair Towers, o prédio que sempre odiara. Odiara Dunross ainda mais por tê-lo financiado e ser dono dele, por estragar a sua maravilhosa vista. Quando notou que o canto superior estava faltando, sen­tiu uma onda de prazer percorrê-lo, que logo se transformou em fei, ao se lembrar do seu próprio apartamento de cobertura, que ficava no décimo segundo andar do Rose Court, e de todas as horas boas que passara com Orlanda, Iá no oitavo andar, agora cheios de entulhos e morte. — Meu Deus! — falou em voz alta, abençoando a sua sorte. Depois, prosseguiu...

Casey estava sentada num monte de entulho, esperando, sofrendo. A equipe de salvamento espalhava-se por toda a en­costa, trabalhando na semi-escuridão, andando com cuidado so­bre superfícies perigosas, gritando e ao mesmo tempo tentando ouvir os gritos dos que estavam presos. Aqui e ali, alguns cava­vam desesperadamente, afastando os escombros enquanto outro infeliz era encontrado.

Nervosa, ela se levantou e espiou pela encosta, buscando Dunross. Ele havia desaparecido rapidamente de seu campo de visão, nos escombros, mas de quando em vez ela enxergava o brilho de sua lanterna elétrica. Agora, havia minutos não via nada. A ansiedade dela aumentava, os minutos demorando a passar, e cada vez que os escombros se acomodavam de novo, ela morria de medo. "Linc, Linc está ali, em algum lugar", ecoava no seu cérebro. "Tenho que fazer alguma coisa, não posso ficar sentada. Não, é melhor ficar sentada, esperar e rezar, esperar, esperar pela volta do Ian. Ele vai encontrá-lo..."

Numa súbita onda de pavor, ela se pôs de pé. Um grande pedaço na metade da encosta se havia soltado, dispersando os salvadores, que correram para não morrer. Dali a um momento a reação em cadeia cessou, e tudo ficou quieto de novo, mas o coração dela continuava a bater violentamente. Não havia o facho móvel da luz de Dunross para tranqüilizá-la.

— Ah, Deus, permita que ele esteja bem!

— Casey? Casey, é você? — perguntou Gornt, saindo de dentro da escuridão e subindo para junto dela.

— Ah, Quillan! — começou ela, pateticamente, e ele a abraçou, sua força dando-lhe ânimo. — Por favor, ajude o Linc...

— Vim tão logo soube — falou ele rapidamente, inter­rompendo-a. — Ouvi pelo rádio. Santo Deus, estava apavorado de que você estivesse... nunca esperei que... Fique calma, Casey!

— Eu... estou bem. O Linc está... Iá, em algum lugar, Quillan.

— O quê? Mas como? Ele e...

— Estava no apartamento da Or... da Orlanda, e Ian...

— Pode ser que você esteja enganada, Casey. Ou...

— Não, Orlanda me contou.

— Hem? Ela também se salvou? — perguntou Gornt, numa voz abafada. — Orlanda se salvou?

— Salvou-se. Ela estava comigo, perto de mim, Iá atrás. Vi tudo acontecer, Quillan, vi toda a terrível avalancha, e o prédio inteiro desabar, e depois corri para cá, o Ian veio ajudar, e o Linc está Iá...

— Dunross? Ele também se salvou? — indagou ele, um gosto amargo na boca.

— Salvou-se, sim. Está Iá embaixo, agora. Um pedaço do prédio mudou de posição, e o elevador, o elevador está cheio de corpos. Ele está Iá embaixo, nalgum lugar, procurando... procurando...

A voz dela foi sumindo.

Viu que Gornt passava a concentrar a atenção na encosta.

— Quem mais se salvou?

— Jacques, os Chens, aquele jornalista, não sei... — não conseguia enxergar o rosto dele. Portanto, não podia ver o que se passava nele. — Lamenta que... que o Ian esteja vivo?

— Não. Pelo contrário. Para onde ele foi?

— Para ali. — Pegou a lanterna dele e mostrou a direção. — Ali, junto daquele afloramento. Ele... faz tempo que não o vejo, mas foi por ali. Está vendo os restos do elevador? Ali perto.

Agora podia enxergar melhor o rosto dele, os olhos es­curos, o rosto barbudo e bem-feito, mas ele nada deixava trans­parecer.

— Fique aqui — mandou ele. — Aqui estará a salvo. Pegou a lanterna elétrica e se dirigiu para os escombros, e logo foi engolido por eles.

A chuva agora estava mais forte, cálida como a noite, e Gornt cuspiu o fei da boca, feliz porque seu inimigo estava vivo, odiando isto, mas desejando-o vivo mais ainda.

O terreno estava muito escorregadio, e ele descia com cui­dado. Uma laje oscilou e caiu. Ele tropeçou, arranhou a canela e soltou um palavrão, depois seguiu em frente, a lanterna elé­trica buscando a segurança onde ela não existia. "Quer dizer que o maldito Ian Dunross se safou antes do desabamento", pensava. "Aquele sacana tem sete vidas! Porra, mas não se esqueça de que os deuses também estavam do seu lado. Não se esqueça de que..."

Deteve-se. Ouvia débeis gritos de socorro que vinham de algum lugar próximo. Prestou muita atenção, mas não pôde identificar a direção. Chamou:

— Onde está você, onde está? — prestando atenção de novo. Nada. Hesitando, reexaminou o caminho à sua frente. "Essa joça amaldiçoada pode deslizar mais uns trinta metros de uma hora para outra", pensou. — Onde está você?

Nada ainda. Então continuou cautelosamente, o cheiro de gás muito forte.

Quando chegou perto do que restava do elevador, olhou para os corpos, sem reconhecer nenhum. Continuou e dobrou uma esquina, abaixando-se sob uma saliência. Subitamente, foi cegado pelo facho de uma lanterna elétrica.

— Que diabo está fazendo aqui, Quillan? — perguntou Dunross.

— Procurando você — disse Gornt, sombriamente, jo­gando a luz sobre ele. — Casey me contou que você estava brincando de esconde-esconde.

Dunross estava descansando em cima de um pouco de en­tulho, recobrando o fôlego, os braços feridos e sangrando, as roupas em farrapos. Quando aquela parte dos escombros mu­dara de posição, o caminho de entrada fora fechado. Enquanto corria para a segurança, a lanterna fora derrubada da sua mão, e quando a avalancha parou, estava preso junto com Clinker. Fora preciso toda a sua força de vontade para não entrar em pânico na escuridão. Pacientemente, vasculhara a área, os dedos tateando, procurando a lanterna elétrica. Centímetro por centí­metro. E quando já estava quase prestes a desistir, seus dedos se fecharam sobre ela. Tendo luz novamente, o medo o deixara. A luz indicara uma nova saída. Fitou Gornt, sorrindo apenas superficialmente.

— Está triste porque não morri?

Gornt deu de ombros e abriu o mesmo sorriso repulsivo.

— Estou. Joss. Mas não vai demorar a acontecer. — A saliência acima deles gemeu e mudou ligeiramente de posição, e ele a iluminou. Os dois homens prenderam a respiração. Ela se acomodou. — E vai demorar menos ainda se não dermos o fora daqui rapidinho.

Dunross levantou-se, e gemeu quando sentiu uma ponta­da de dor nas costas.

— Não está ferido, espero — disse Gornt.

Dunross riu e se sentiu melhor, o medo do sepultamento se dissipando.

— Não. Dê-me uma mão, sim?

— O quê?

Dunross apontou sua lanterna para os escombros. Então Gornt pôde ver o velho.

— Fiquei preso Iá embaixo tentando salvá-lo. — Imedia­tamente, Gornt foi ajudar, agachando-se, tirando do lugar o entulho que podia para abrir algum espaço. — O nome dele é Clinker, suas pernas estão uma tristeza, e perdeu um pé.

— Meu Deus! Deixe que eu faço isso. — Gornt pegou mais firme na laje, afastou-a, e saltou para dentro da cavidade. Dali a um momento, voltou-se e ergueu os olhos para cima, para Dunross. — Infelizmente, o desgraçado está morto.

— Ah, Deus! Tem certeza?

Gornt levantou o velho como se fosse um boneco, e o pôs ao ar livre.

— Pobre coitado!

— Joss. Ele falou onde estava no prédio? Em que andar? Havia alguém com ele?

— Resmungou algo sobre o zelador, e estar sob o prédio, e algo sobre..., acho que falou Mabel.

Gornt iluminou tudo à volta com sua lanterna.

— Ouviu alguém ou alguma coisa?

— Não.

— Vamos tirá-lo daqui — disse Gornt, em tom decisivo.

Carregaram-no. Quando estavam ao ar livre, e relativa­mente seguros, pararam para recobrar o fôlego. Havia alguns carregadores de maças por perto. Dunross os chamou.

— Nós o levaremos, Honrado Senhor — disse um deles. Colocaram o corpo numa maca e se afastaram rapidamente.

— Quillan, antes de voltarmos para Casey, ela disse...

— O Bartlett? É, contou-me que estava na casa da Orlan­da. — Gornt o observava. — O apartamento dela ficava no oitavo andar.

Dunross olhou pela encosta abaixo. Havia mais luzes do que antes.

— Onde teria ficado o andar?

— Ele não pode deixar de estar morto. O oitavo andar?

— É. Mas em que altura? Gornt examinou a encosta.

— Daqui não consigo ver. Poderia reconhecer alguma coi­sa, mas duvido. Estaria Iá, Iá embaixo, quase na Sinclair Road.

— Ele poderia estar vivo, numa bolsa de ar. Vamos dar uma espiada.

O rosto de Gornt se retorceu num sorriso curioso.

— Precisa dele e do seu negócio, não é?

— Não, agora não.

— Não, porra nenhuma! — Gornt subiu num afloramen­to. — Casey! — gritou, fazendo concha com as mãos. — Va­mos descer! Volte para a barricada e espere Iá!

Ouviram a resposta débil dela.

— Está bem, tomem cuidado! Então, Gornt falou com azedume:

— Está certo, Gunga Din, se vamos brincar de herói, é melhor fazermos a coisa direito. Eu vou na frente — falou, saindo.

Com igual azedume, mas precisando dele, Dunross acom­panhou-o, sentindo a raiva crescer. Os dois homens saíram dali com esforço. Tendo conseguido se safar, começaram a descer encosta abaixo, penosamente. De vez em quando viam um corpo, ou parte de um corpo, mas ninguém que reconhecessem. Passaram por alguns sobreviventes desesperados, ou parentes de desaparecidos, escavando pateticamente ou tentando escavar com as mãos, com um pedaço quebrado de madeira... com qualquer coisa que pudessem encontrar.

No fundo da encosta Gornt parou, examinando com muito cuidado os destroços com a lanterna elétrica.

— Viu alguma coisa? — perguntou Dunross.

— Não.

Gornt reparara numas cortinas sujas de lama que poderiam ser da casa de Orlanda, mas fazia quase dois anos que não ia ao apartamento dela. O facho da sua lanterna hesitou.

— O que foi?

— Nada. — Gornt começou a subir, buscando pistas do apartamento dela ou das Propriedades Asiáticas, no quinto an­dar, — Aquilo ali podia ser parte do mobiliário de Plumm — disse ele. Õ sofá estava rasgado no meio, as molas aparecendo.

— Socorro! Socorro em nome de todos os deuses!

O débil grito em cantonense vinha de alguma parte do meio daquela seção. Prontamente, Gornt moveu-se com esforço em direção ao som, achando que reconhecera Quatro Dedos. Dunross seguiu logo atrás, subindo, passando por cima e por baixo do entulho. No centro de um monte de escombros estava um velho chinês, enlameado, coberto de poeira. Estava sentado no meio dos destroços, olhando perplexo ao seu redor, aparen­temente incólume. Quando Dunross e Gornt se acercaram dele, fez uma careta, apertando os olhos contra a luz.

Eles o reconheceram imediatamente, e agora ele os reco­nhecia. Era Ching Sorridente, o banqueiro.

— O que aconteceu, Honrados Senhores? — perguntou, seu cantonense com forte sotaque, os dentes salientes.

Gornt contou-lhe em breves palavras, e o homem soltou uma exclamação abafada:

— Por todos os deuses, mas é impossível! Estou vivo? Estou vivo de verdade?

— Está. Em que andar estava, Ching Sorridente?

— No décimo segundo... estava na minha sala de estar, vendo televisão. — Ching Sorridente vasculhou a memória, e seus lábios se abriram noutra careta. — Acabara de ver a Fali-nha Macia, Vênus Poon, e então... então houve um barulho atordoante vindo da direção da Conduit Road. Não me lembro de mais nada, a não ser de acordar aqui, há poucos minutos.

— Quem estava no apartamento com você?

— Minha amah. A Primeira Mulher saiu para jogar mah-jong! — O velho miúdo levantou-se com cuidado, tocou os membros, e soltou uma casquinada. — Ayeeyah, por todos os deuses, é uma porra dum milagre, tai-pan e segundo tai-pan! É óbvio que os deuses me favorecem, é óbvio que vou recupe­rar meu banco e ficar rico de novo, e ser um administrador no Turf Club! Ayeeyah! Que sorte!

Testou novamente os pés e as pernas, depois subiu em direção à segurança.

— Se esta mixórdia fazia parte do décimo segundo andar, o oitavo deve estar mais ou menos ali — disse Dunross, indi­cando o lugar com a lanterna.

Gornt concordou, o rosto tenso.

— Se aquele velho filho da mãe pôde sobreviver, Bartlett também pode estar vivo.

— Talvez. Vamos dar uma olhada.

 

                 23h05m

Um caminhão do exército veio chegando em meio à forte chuva, espalhando lama por todo lado, e parou perto dos pos­tos de comando. Soldados irlandeses do corpo de guarda, com roupas de faxina e capa de chuva, alguns com machados de incêndio, saltaram do caminhão. Um oficial os esperava.

— Suba, sargento! Trabalhe lado a lado com o subtenen-te regimental O'Connor! — Era um homem moço, e apontou com o seu bastão para o lado direito do desabamento, sua capa de chuva do uniforme, as botas e as calças cobertas de lama. — Não se pode fumar, ainda há um maldito vazamento de gás por aí, espalhe a notícia!

— Onde está a Companhia Alfa, senhor?

— Lá na Po Shan. A Delta está na metade do caminho. Temos uma estação de socorro na Kotewall. Estou controlando o canal 4. Podem ir andando!

Os homens fitaram a devastação.

— Glória a Deus! — resmungou alguém. Saíram apressa­dos, atrás do seu sargento. O oficial voltou para o posto de comando e apanhou o telefone de campanha.

— Companhia Delta, aqui fala o comando. Faça-me um relatório.

— Recuperamos quatro corpos, senhor, e dois feridos aqui em cima. Estamos agora na metade da encosta. Um dos feridos é uma mulher chinesa chamada Kwang, fraturas múlti­plas, mas está bem, e o marido dela, só um pouco abalado.

— Em que parte do prédio eles estavam?

— No quinto andar. Achamos que as vigas mestras os protegeram. Os dois feridos estão sendo levados para a nossa estação de socorro na Kotewall. Dá para se ouvir alguém soter­rado no fundo, mas, infelizmente, senhor, não podemos chegar até ele... os bombeiros não podem usar os cortadores de oxia-cetilênio. O gás está forte demais. Nada mais na nossa área, senhor.

— Continue o trabalho. — O oficial se virou e falou viva­mente com um ordenança: — Vá atrás daqueles sujeitos da companhia de gás e veja por que diabo estão demorando tanto! Diga a eles que venham trabalhar!

— Sim, senhor. Trocou de canal.

— Estação de socorro da Kotewall, aqui fala o comando. Qual o número de baixas?

— Catorze cadáveres até agora, capitão, e dezenove feri­dos, alguns em estado grave. Estamos conseguindo seus nomes com a maior rapidez possível. Sir Dunstan Barre, nós o desen­terramos, apenas quebrou um pulso.

— Continuem o bom trabalho! A polícia instalou uma estação de pessoas desaparecidas no canal 16. Dê-lhes todos os nomes dos mortos, feridos, de todos, o mais rápido possível. Há um bocado de gente ansiosa por aqui.

— Sim, senhor. Corre o boato de que vamos evacuar toda essa área.

— Isso é o que o governador, o comissário e o chefe do Corpo de Bombeiros estão decidindo neste momento.

O oficial esfregou o rosto, cansado, depois correu para interceptar outro caminhão que chegava com guardas do Corpo de Engenheiros, passando pelo governador, pelo comissário e pelo chefe do Corpo de Bombeiros, que estavam no posto de comando central, sob a saliência do saguão do Sinclair Towers. Um engenheiro vistoriador do Departamento de Obras Públicas saltou de um carro e dirigiu-se rapidamente até eles.

— Boa noite, senhor — disse, ansiosamente. — Já per­corremos todos os prédios, agora, desde a Po Shan até aqui. Recomendo que evacuemos dezenove prédios.

— Santo Deus! — explodiu Sir Geoffrey. — Quer dizer que todo o raio da encosta vai desabar?

— Não, senhor. Mas se esta chuva continuar, poderia começar outro desabamento. Esta área inteira tem um histórico de desabamentos. — Ele apontou para dentro da escuridão. — Em 41 e 50, foi ao longo da Bonham, em 59 foi aquela tragédia da Robertson, da Lytton Road, a lista é interminável, senhor. Recomendo a evacuação.

— Quais os prédios?

O homem entregou ao governador uma lista, depois ace­nou para os três níveis, dentro da escuridão.

— Infelizmente, afetará mais de duas mil pessoas. Todos soltaram exclamações abafadas. Todos os olhos se voltaram para o governador. Ele leu a lista, lançou um olhar à encosta da montanha. O desabamento dominava tudo, a massa da montanha impressionante acima deles. A seguir, falou:

— Pois bem. Faça-o. Mas, pelo amor de Deus, diga aos seus rapazes para fazerem uma retirada ordeira. Não desejamos pânico.

— Sim, senhor — disse o homem, afastando-se rapida­mente.

— Não podemos arranjar mais homens e equipamento, Donald?

— Infelizmente, no momento, não, senhor — replicou o comissário de polícia. Era um homem de rosto enérgico, na casa dos cinqüenta anos. — Já estamos usando o máximo de gente possível. Há uma enorme avalancha em Kowloon, outra em Kwun Tong... oitenta barracos de favelados foram atingi­dos, já temos quarenta e quatro mortos só ali, vinte crianças.

Sir Geoffrey olhou fixo para a encosta da montanha.

— Deus! — murmurou —, com Dunross obtendo para nós a cooperação de Tiptop, pensei que nossos problemas ti­vessem acabado, pelo menos por esta noite.

O chefe do Corpo de Bombeiros sacudiu a cabeça, o rosto tenso.

— Infelizmente, parece que estão apenas começando, se­nhor. Nossos cálculos sugerem que pode haver uma centena ou mais ainda soterrados naqueles escombros — acrescentou, pesadamente. — Vamos levar semanas para vasculhar aquilo tudo, se não mais.

— É. — Novamente o governador hesitou. Depois, disse com firmeza: — Vou subir até a Kotewall. Controlarei o canal 5. — Dirigiu-se para o seu carro. O ajudante-de-ordens abriu a porta, mas Sir Geoffrey se deteve. Roger Crosse e Sinders estavam voltando da grande fenda da Sinclair Road, onde a parte de cima do bueiro subterrâneo fora arrancada. — Tive­ram alguma sorte?

— Não, senhor. Conseguimos entrar no bueiro, mas ele desabou a uns cinqüenta metros da entrada. Jamais conseguiría­mos entrar no Rose Court por ali — explicou Crosse.

Quando o Rose Court desabara e arrancara a lateral dos quatro andares superiores do Sinclair Towers, Crosse estava próximo do seu prédio de apartamentos, a cerca de setenta me­tros de distância. Logo que recobrara o controle, seu primeiro pensamento fora para Plumm, o segundo para Suslev. Suslev estava mais próximo. Quando chegou ao saguão às escuras do Sinclair Towers, moradores apavorados já vinham saindo aos borbotões. Afastando-os para o lado, ele abrira caminho aos em­purrões e palavrões escada acima até o andar superior, iluminando o caminho com uma lanterna de bolso. O apartamento 32 tinha praticamente desaparecido, a escada de serviço adja­cente fora derrubada ao longo de três andares. Enquanto Crosse olhava, boquiaberto, para a escuridão, pensou que, se Suslev tivesse ficado preso ali, ou com Clinker, estava morto... o único meio possível de fuga seria o bueiro subterrâneo.

De volta ao térreo, mais uma vez, dera a volta pelos fun­dos e metera-se na entrada secreta do túnel. A água embaixo era uma torrente efervescente. Rapidamente, correra para a rua, onde o cimo do túnel fora arrancado. A água extravasava do buraco. Bastante satisfeito, pois agora estava certo de que Suslev estava morto, fora até o telefone mais próximo, dera o alarme, depois mandara chamar Sinders.

— Sim? Oh, alô, Roger!

Contara ao Sinders onde estava, e o que acontecera, acres­centando :

— Suslev estava com o Clinker. Meu pessoal sabe que ele não saiu. Portanto, está soterrado. Os dois devem estar soterrados. Nenhuma chance de que possam estar vivos.

— Droga! — Uma longa pausa. — Irei imediatamente. Crosse saíra de novo e começara a organizar a evacuação do Sinclair Towers e das tentativas de resgate. Três famílias haviam se perdido com o desabamento dos andares superiores. Quando os policiais uniformizados e os bombeiros chegaram, a contagem dos mortos chegava a sete, incluindo duas crianças e quatro moribundos. Quando o governador e Sinders chega­ram, eles haviam voltado para a parte aberta do túnel, para ver se conseguiam ter acesso.

— Não há jeito de se entrar por aí, Sir Geoffrey. O buei­ro inteiro desabou, eu diria que para sempre, senhor.

Crosse estava adequadamente solene, embora intimamente radiante com a solução divina que se apresentara. Sinders estava azedíssimo.

— Uma grande pena! É, um azar incrível. Perdemos um agente valioso.

— Acha mesmo que ele lhe teria contado quem é esse de­mônio do Arthur? — perguntou Sir Geoffrey.

— Sem dúvida. — Sinders estava muito confiante. — Não concorda, Roger?

— Sim. — Crosse teve que se controlar para não sorrir. — Tenho certeza de que sim.

Sir Geoffrey soltou um suspiro.

— Vai haver o diabo ao nível diplomático quando ele não voltar para o Ivánov.

— Não é culpa nossa, senhor. É um ato de Deus — disse Sinders.

— Concordo, mas sabe como os soviéticos são xenófobos. Aposto o que quiserem que acreditarão que o estamos manten­do trancafiado e sob interrogatório. É melhor que o encontre­mos, ou o seu cadáver, e bem depressa.

— Sim, senhor. — Sinders ergueu mais a gola para prote­ger-se da chuva. — E quanto à partida do Ivánov?

— O que sugere?

— Roger?

— Sugiro que entremos em contato com eles imediata­mente, senhor, contemos ao Boradinov o que aconteceu e diga­mos a ele que adiaremos a sua partida, se assim o desejar. Mandarei um carro para apanhá-lo, e a quem mais ele quiser trazer para ajudar na busca.

— Ótimo. Estarei Iá na Kotewall, por algum tempo.

Ficaram olhando enquanto Sir Geoffrey se afastava. De­pois puseram-se ao abrigo do prédio. Sinders fitava a confusão organizada.

— Não há chance de que ele tenha escapado com vida, há?

— Nenhuma.

Um policial atribulado se aproximou, correndo.

— Eis a última lista, senhor, dos mortos e dos que se salvaram. — O rapaz entregou o papel a Crosse e acrescentou, rapidamente: — A Rádio Hong Kong vai colocar Vênus Poon no ar a qualquer momento, senhor. Ela está Iá em cima, na Kotewall.

— Está certo, obrigado. — Rapidamente, Crosse correu os olhos pela lista. — Santo Deus!

— Acharam o Suslev?

— Não, só um bocado de conhecidos mortos. — Entre­gou-lhe a lista. — Vou cuidar do Boradinov, depois voltarei para a área do Clinker.

Sinders fez que sim com a cabeça, olhando para o papel. Vinte e oito salvos, dezessete mortos, nomes que nada signifi­cavam para ele. Entre os mortos estava Jason Plumm...

No cais em Kowloon onde o Ivánov estava atracado, havia cules subindo e descendo as escadas de embarque, carregados com equipamento e carga de última hora. Por causa da emer­gência, a vigilância policial fora reduzida a um mínimo, e agora havia somente dois policiais em cada escada. Suslev, disfarçado sob um imenso chapéu cule e usando bata e calças de cule, descalço como os outros, passou por eles sem ser notado e subiu a bordo. Quando Boradinov o viu, guiou-o apressadamente para o seu camarote. Tão logo a porta se fechou, exclamou:

— Khristos, camarada comandante, quase pensei que o tínhamos perdido. Devemos zarpar...

— Cale-se e escute! — Suslev ofegava, ainda abaladíssi-mo. Virou a garrafa de vodca e engoliu a bebida, engasgando-se um pouco. — Nosso equipamento de rádio já foi consertado?

— Sim, parte dele já foi, exceto o aparelho de interfe­rência de máxima segurança.

— Ótimo. — Com voz trêmula, relatou o que se passara. — Não sei como saí, mas quando me dei conta já estava na metade da montanha. Continuei descendo até achar um táxi e vim para cá. — Tomou outro gole, a bebida ajudando-o, o assombro da sua fuga da morte e do Sinders envolvendo-o. — Ouça, no que diz respeito a todos os demais,, ainda estou Iá, no Rose Court! Estou morto, ou desaparecido, supostamente morto — falou, o plano vindo de estalo à sua mente.

— Mas, câmara... — começou Boradinov, fitando-o.

— Comunique-se com o quartel-general da polícia e diga que não voltei... pergunte se pode adiar a nossa partida. Se disserem que não, ótimo, zarparemos. Se disserem que pode­mos ficar, ficaremos por um dia simbólico, depois iremos em­bora, pesarosamente. Compreendeu?

— Sim, camarada comandante, mas por quê?

— Depois explico. Entrementes, certifique-se de que to­dos a bordo pensem que estou desaparecido. Compreendeu?

— Sim.

— Ninguém deve entrar neste camarote, até estarmos se­guros em águas internacionais. A garota está a bordo?

— Sim, no outro camarote, como o senhor ordenou.

— Muito bem. — Suslev pensou no caso dela. Poderia devolvê-la a terra, já que ele estava "desaparecido", e assim continuaria. Ou se ater ao plano. — Continuamos com aquele plano. É mais seguro. Quando a polícia avisar que estou desa­parecido (o pessoal do sei me seguiu, como sempre, portanto sabe que estou com o Clinker), basta dizer a ela que nossa partida foi adiada e para ficar no camarote "até eu chegar". Pode ir andando.

Suslev trancou a porta, dominado pelo alívio, e ligou o rádio. Agora, poderia desaparecer. Sinders não poderia trair um homem morto. Agora, poderia facilmente persuadir o Centro a permitir que ele passasse suas tarefas na Ásia para outra pessoa, assumisse uma identidade diferente e obtivesse uma missão diferente. Poderia dizer que os diversos "vazamentos" de segurança documentados nos papéis de Alan tornavam necessário que alguém novo começasse com Crosse e Plumm... "Se é que algum deles ainda está vivo", pensou. "Melhor que estejam ambos mortos. Não, o Roger não. O Roger é valioso demais."

Mais feliz e confiante do que se sentia havia anos, entrou no banheiro, achou uma navalha e um pincel de barba, enquanto cantarolava uma música dos Beatles, junto com o rá­dio. "Talvez eu deva requerer uma colocação no Canadá. O Canadá não é uma das nossas posições mais importantes e vitais... equiparando-se ao México em importância?"

Sorriu amplamente para a sua imagem no espelho. Novos lugares para onde ir, novas missões a cumprir, um novo nome e promoção, quando algumas horas antes via apenas o desastre à sua frente. "Talvez leve a Vertinskaia comigo para Ottawa."

Começou a se barbear. Quando Boradinov voltou com a permissão policial para adiar a partida, mal reconheceu Grigóri Suslev sem o bigode e a barba.

 

                 23h40m

Bartlett estava a seis metros sob uma cama-de-gato de vigas que impediam que os escombros o esmagassem. Quando a avalancha o atingira, fazia quase três horas, ele estava de pé na porta da cozinha, bebericando uma cerveja supergelada e fitando a cidade. Tinha tomado banho, acabara de se vestir, e sentia-se ótimo, à espera de que Orlanda voltasse. E então, de repente, estava caindo, o mundo inteiro errado, fantástico, o chão vindo ao seu encontro, as estrelas Iá embaixo, a cidade em cima. Tinha havido uma explosão cegante, monstruosa, silen­ciosa, e todo o ar fora expulso de dentro dele, que caíra naquela cova para sempre.

A volta à consciência fora um longo processo para ele. Es­tava escuro, na sua tumba, e ele sentia dores pelo corpo todo. Não conseguia imaginar o que acontecera nem onde estava. Quando despertou de vez, olhou ao seu redor tentando enxergar onde estava, as mãos tocando coisas que não compreendia. A escuridão o deixava nauseado, e ele se pôs de pé, em pânico, batendo a cabeça contra um pedaço de concreto saliente que fizera parte da parede externa, e caiu de costas, atordoado, sen­do protegido na queda pelo que restava de uma poltrona. Dali a pouco sua mente clareou, mas a cabeça lhe doía, os braços lhe doíam, o corpo lhe doía. Os números fosforescentes do seu relógio de pulso chamaram sua atenção. Olhou para eles. Mar­cavam vinte e três horas e quarenta minutos.

"Lembro-me... do que me lembro?"

— Qual é, puta que o pariu! — resmungou —, ande com isso! Controle-se. Onde diabo eu estava? — Seus olhos percor­reram a escuridão com horror crescente. Formas vagas de vigas, concreto quebrado e os restos de uma sala. Pouco podia ver e nada reconhecia. A luz que vinha de algum lugar rebrilhou numa superfície lustrosa. Era um forno destruído. Sua memória voltou de roldão. — Eu estava na cozinha — exclamou, em voz alta. — É isso, e Orlanda tinha acabado de sair, fazia uma hora, não, menos, meia hora. Então deviam ser umas nove, quando... quando aconteceu aquilo, seja Iá o que for. Foi um terremoto? Ou o quê?

Cuidadosamente, tateou os membros, o rosto, uma ponta­da de dor no ombro direito cada vez que se movia.

— Merda! — murmurou, sabendo que estava deslocado. O rosto e o nariz estavam ardendo e feridos. Tinha dificuldade em respirar. Todo o resto parecia estar funcionando, embora cada junta parecesse ter sido estirada num instrumento de tor­tura e a cabeça lhe doesse terrivelmente. — Você está legal, pode respirar, pode enxergar, pode... — Interrompeu-se, ta­teou ao seu redor, achou um pedacinho de entulho, ergueu a mão com cuidado, depois largou-o. Ouviu o ruído que o entu­lho fez ao cair, e seu coração bateu mais forte. — E pode ouvir. Bem, mas que diabo aconteceu? Meu Deus, é como aquela vez em Iwo Jima!

Recostou-se para conservar as forças.

— Isso é o que têm a fazer — o velho primeiro-sargento lhes dissera —, recostem-se e fiquem de papo pro ar se forem apanhados numa escavação ou soterrados por uma bomba. Pri­meiro certifiquem-se de que podem respirar direitinho. Depois cavem um buraco, mas respirem do jeito que puderem. É a primeira coisa a fazer. Depois testem os membros e a audição. Porra, é claro que já saberão que podem enxergar! Mas depois recostem-se e controlem-se, e não entrem em pânico. O pânico os matará. Já desenterrei caras depois de quatro dias, e pare­ciam uns porquinhos num monte de merda. Contanto que pos­sam respirar, ver e ouvir, poderão viver uma semana, fácil. Porra, quatro dias é fichinha. Mas outros caras que a gente desenterrava em uma hora tinham-se afogado em lama, bosta ou no seu próprio vômito de pavor, ou esmagado a cabeça baten-do-a contra um pedaço de ferro quando a gente estava a poucos metros dos imbecis, e se eles tivessem ficado deitadinhos como eu falei, na maciota, de papo pro ar, teriam nos ouvido e teriam gritado. Merda! Qualquer um de vocês, seus filhos da mãe, que entrar em pânico quando estiver soterrado, pode se considerar um homem morto. Claro. Só eu já estive soterrado cinqüenta vezes. Sem pânico!

— Sem pânico, sim, senhor — disse Bartlett, em voz alta, e sentiu-se melhor, abençoando o sujeito. Certa vez, durante a época difícil de Iwo Jima, o hangar que ele construíra fora bombardeado e explodira, e ele ficara soterrado. Quando tirara a terra dos olhos, da boca e dos ouvidos, o pânico o dominara. Ele se arremessara contra a tumba, e depois se lembrara: Não entre em pânico, e se forçara a parar. Descobrira-se tremendo como um cachorro amedrontado ante a ameaça de uma surra, mas dominara o terror. Depois que o terror passara, ele estava inteiro, olhara ao seu redor com cuidado. O bombardeio fora durante o dia, portanto ele podia enxergar bem. Então perce­bera o começo de uma saída. Mas esperara, cautelosamente, lembrando-se das instruções. Dali a pouco ouvira vozes. Cha­mara, tomando cuidado para não perder a voz.

— Esta é outra coisa danada de óbvia, não percam a voz, tá? Não gritem até ficar roucos da primeira vez que ouvirem que o socorro está perto. Sejam pacientes. Porra! Alguns caras que conheci ficaram tão roucos berrando que estavam mudi-nhos da silva quando a gente chegou perto, e os perdemos. Enfiem isso em suas malditas cabeças, temos que ter ajuda para encontrá-los. Não entrem em pânico! Se não puderem gritar, batam, usem qualquer coisa, façam qualquer tipo de barulho, mas dêem-nos um sinal e nós os tiraremos fora, con­tanto que vocês possam respirar... uma semana é fácil, sem grilos. De qualquer modo, bem que vocês estão precisando fazer dieta, seus filhos da mãe...

Agora, Bartlett estava usando todas as suas faculdades. Podia ouvir os escombros mudando de posição. Pingava água por perto, mas nenhum sinal de pessoas. Depois, muito de longe, uma sirene de polícia que sumiu. Reconfortado pela possibilidade de ajuda a caminho, esperou. O coração estava controlado. Recostou-se e abençoou aquele velho primeiro-sar-gento. Seu nome era Spurgeon, Spurgeon Roach, e era negro.

"Deve ter sido um terremoto", pensou. "Será que o pré­dio inteiro desabou, ou foi apenas o nosso andar e o de cima? Quem sabe um avião nos atingiu e... Pombas, não, eu teria ouvido o barulho se aproximando. É impossível um prédio de­sabar, não com os regulamentos de construção. Mas estamos em Hong Kong, e ouvi dizer que alguns construtores nem sempre obedecem aos regulamentos, tapeiam um pouco, não usam aço ou concreto de primeira. Porra, se eu sair, não, quando eu sair..."

Essa era outra regra inviolável do velho.

— Nunca se esqueçam, enquanto puderem respirar, vocês sairão, sairão...

"Claro. Quando eu sair vou achar o velho Spurgeon e agradecer-lhe condignamente, e depois vou processar alguém até tirar-lhe as calças. Casey, sem dúvida... ah, Casey, puxa, como estou feliz por ela não estar metida nesta merda, nem a Orlan­da. As duas... Meu Deus, será que Orlanda ficou presa quan­do..."

Os escombros começaram a se acomodar de novo. Esperou, o coração batendo forte. Agora, podia enxergar um pouquinho melhor. Acima dele havia uma massa retorcida de vigas de aço e canos meio enfiados em concreto quebrado irregular­mente, panelas, frigideiras e móveis quebrados. O piso em que estava deitado estava igualmente quebrado. A tumba era pe­quena, mal havia espaço para ele se pôr de pé. Estendendo o braço bom, não conseguiu tocar o teto improvisado. De joelhos, tentou de novo, depois ficou de pé, tateando, o pequenino espaço claustrofóbico.

— Não entre em pânico — falou em voz alta. Tateando e esbarrando nos afloramentos, circunavegou o espaço em que se encontrava. — Cerca de um metro e oitenta por um e meio — disse em voz alta, o som da sua voz encorajador. "Não te­nham medo de falar em voz alta", dissera Spurgeon Roach.

Novamente a luz que se refletia no forno o atraiu. "Se estou perto do forno, ainda estou na cozinha. Vejamos, onde estava este forno, em relação ao resto?" Sentou-se e tentou re­constituir o apartamento, mentalmente. O forno fora embutido numa parede oposta à grande mesa de cortar, oposto à janela, perto da porta, e a grande geladeira estava ao lado da porta e do outro lado da...

"Porra, se estou na cozinha, tenho comida e cerveja, e posso passar facilmente uma semana! Deus, se eu tivesse algu­ma luz! Será que há uma lanterna elétrica? Fósforos? Fósforos e uma vela? Ei, espere aí, claro, havia uma lanterna na parede junto à geladeira! Ela falou que os fusíveis viviam queimando, e às vezes faltava luz e... e claro, havia fósforos na mesa da cozinha, montes deles, quando ela acendeu o gás. Gás."

Bartlett parou e farejou o ar. O nariz dele estava ferido e entupido, e ele tentou limpá-lo. Farejou de novo. Nenhum cheiro de gás. "Ótimo, ótimo", pensou, reconfortado. Orien-tando-se a partir do forno, tateou ao seu redor, de centímetro em centímetro. Não achou nada. Depois de mais uma meia hora seus dedos tocaram em algumas latas de comida, depois de cerveja. Logo estava com quatro latas. Ainda estavam geladas. Abrindo uma delas, sentiu-se bem melhor, bebericando-a, pou-pando-a... sabendo que talvez tivesse que esperar durante dias, achando o lugar muito lúgubre, na escuridão, o prédio rangendo, sem saber exatamente onde estava, o entulho caindo de quando em vez, sirenes de quando em vez, a água pingando, sons estranhos e apavorantes vindos de toda parte. Abrupta­mente, um vergalhão próximo gemeu, atormentado pelas mi­lhares de toneladas acima dele, e baixou dois centímetros e meio. Bartlett prendeu a respiração. O movimento cessou. Sor­veu de novo a sua cerveja.

"E agora, espero ou tento sair?", perguntou-se, inquieto. "Lembra como o velho Spurgeon era sempre evasivo na res­posta? 'Depende, cara, depende', diria ele."

Mais rangidos acima. O pânico começou a aflorar, mas ele o conteve. Começou a falar em voz alta, para se tranqüilizar.

— Vamos recapitular. Agora tenho provisões para dois, três dias com facilidade. Estou em boa forma e posso durar três, quatro dias, fácil. Mas você, seu filho da mãe — disse para o entulho acima dele —, o que pretende fazer?

A tumba não lhe deu resposta.

Outro rangido de gelar a espinha. Depois uma voz fraca, bem acima e à direita. Recostou-se e fez concha com as mãos.

— Socoooorro! — gritou com cuidado, e esperou. As vozes ainda estavam Iá. — Socoooooorro!

Esperou, mas agora havia um vazio imenso. Esperou. Nada. O desapontamento começou a envolvê-lo.

— Pare com isso e espere!

Os minutos se arrastavam lentamente. Havia mais água pingando, muito mais do que antes. "Deve estar chovendo de novo", pensou. "Meu Deus! Aposto que foi um desabamento de terra! Claro, não se lembra das fendas nas ruas? Mas que merda de desabamento! Quem mais será que ficou preso? Deus, mas que confusão filha da puta!"

Arrancou um pedaço da camisa e deu-lhe um nó. Agora, poderia contar os dias. Um nó para cada dia. Seu relógio mar­cava vinte e duas e dezesseis quando sua cabeça desanuviara, agora eram vinte e três e cinqüenta e oito.

Novamente, toda a sua atenção se concentrou. Vozes fra­cas, porém mais próximas. Vozes chinesas.

— Socooooorro!

As vozes pararam. Então, muito de longe, ouviu:

— Onde você estáááá, heya?

— Aqui embaixo! Está me ouvindoooooo? Silêncio, depois mais longe ainda:

— Onde você estáááá?

Bartlett soltou um palavrão, agarrou a lata vazia de cer­veja e começou a bater com ela numa viga. Parou de novo e escutou. Nada.

Voltou a sentar-se.

— Talvez tenham ido buscar ajuda. — Estendeu os de­dos e tocou noutra lata de cerveja. Dominou o desejo urgente de abri-la. — Não entre em pânico e seja paciente. A ajuda está próxima. O melhor que posso fazer é esperar e...

Naquele momento toda a terra se retorceu e subiu ante a pressão com uma cacofonia atordoante de ruídos, as vigas protetoras acima deixando de ser seguras, o entulho descendo em avalancha. Protegendo a cabeça com as mãos, agachou-se e encolheu-se, cobrindo-se da melhor maneira possível. O movi­mento ruidoso pareceu durar uma eternidade. Depois cessou. Mais ou menos. Seu coração agora batia fortemente, o peito apertando, um gosto amargo de poeira na boca. Cuspiu-a fora e procurou uma lata de cerveja. Tinha sumido, junto com todas as outras latas. Soltou um palavrão, depois, cuidadosamente, ergueu a cabeça e quase bateu com ela no teto alterado da tumba. Agora, podia tocar o teto e as paredes sem se mexer. Facilmente.

Foi então que ouviu o sibilar. Sentiu o estômago se retor­cer. Esticou a mão e sentiu a leve aragem. Agora podia sentir o cheiro do gás.

— É melhor tratar de ir-se mandando daqui, meu velho — resmungou, apavorado.

Orientando-se da melhor maneira possível, saiu daquele espaço. Agora que estava em movimento, em ação, sentia-se melhor.

A escuridão era opressiva, e era muito difícil fazer pro­gressos. Não havia uma linha reta. Às vezes tinha que se des­viar e descer de novo, para a esquerda, e depois para a direita, subir um pouco, descer um pouco sob os restos de uma ba­nheira, sobre um cadáver ou parte de um cadáver, gemidos, e uma vez vozes muito distantes.

— Ondeestávocêêêêêê? — berrou, e esperou e depois foi se arrastando, de centímetro em centímetro, sendo paciente, não entrando em pânico. Depois de algum tempo, chegou a um espaço onde podia ficar de pé. Mas não ficou de pé, ficou dei­tado ali por um momento, ofegante, exausto. Ali havia mais luz. Quando sua respiração se normalizou, olhou para o relógio. Reuniu forças e continuou, mas seu caminho para cima estava novamente bloqueado. Outro caminho, mas ainda bloqueado. Deslizou sob uma pilastra quebrada e, ultrapassando-a, começou a rastejar para cima. Outro impasse. Com dificuldade, recuou e tentou outro caminho. E outro, sem nunca haver lugar sufi­ciente para ficar de pé, agora completamente desorientado, sem saber se estava se aprofundando mais nos escombros. Depois parou para descansar e deitou-se na umidade da sua tumba, o peito estourando, o coração estourando, dedos sangrando, cane­las sangrando, cotovelos sangrando.

— Não tem grilo, meu velho — falou em voz alta. — A gente descansa, depois recomeça...

 

               Segunda-feira, 00h45m

Soldados gurkhas com lanternas de mão caminhavam pa­ciente e cuidadosamente por essa parte da superfície perigosa, inclinada, quebrada, chamando "Tem alguém aí?", depois pa­rando para escutar. Além e ao redor, subindo e descendo a encosta, soldados, policiais, bombeiros e pessoas desesperadas faziam o mesmo.

Estava muito escuro. Os holofotes instalados Iá embaixo não conseguiam iluminar essa área, mais ou menos na metade dos escombros.

— Tem alguém aí? — chamou um soldado. Escutou aten­tamente, depois adiantou-se alguns metros. Lá para o lado es­querdo da fila, um deles tropeçou e caiu numa fenda. Aquele soldado estava muito cansado, mas riu com seus botões e ficou parado um momento, depois chamou para dentro da terra:

— Tem alguém aí? — Começou a se levantar, depois imobilizou-se, escutando. Mais uma vez ele se deitou e gritou para dentro dos escombros: — Está me ouvindo? — e prestou muita atenção.

— Siiiiim!... — Veio a resposta débil, muito débil. Excitado, o soldado se pôs de pé.

— Sargento! Sargento!

A uns cinqüenta metros de distância, na beira das ruínas, Gornt estava junto com o jovem tenente que dirigia as opera­ções de salvamento naquele setor. Escutavam o noticiário num pequeno transistor.

"...deslizamentos por toda a colônia. E agora, outro bo­letim direto da Kotewall Road." Houve um curto silêncio, de­pois entrou no ar a voz bem conhecida, e o rapaz sorriu con­sigo mesmo. "Boa noite. Aqui fala Vênus Poon, ao vivo, sobre o maior desastre a atingir a colônia." Havia um tremor maravi­lhoso na voz dela, e lembrando-se da maneira corajosa e impres­sionante com que ela descrevera o incêndio de Aberdeen, em que também estivera envolvida, a excitação dele aumentou. "O

Rose Court, na Kotewall Road, não existe mais. A grande torre de luz de doze andares, que toda a Hong Kong podia enxergar como um marco, sumiu numa pira impressionante de escom­bros. Meu lar não existe mais. Hoje, o dedo do Todo-Poderoso abateu a torre e todos os que ali residiam, entre eles a minha devotada gan sun, que me criou desde que nasci..."

— Senhor — chamou o sargento, do meio do desaba­mento —, tem um aqui!

Imediatamente o oficial e Gornt correram em sua direção.

— É homem ou mulher?

— Homem, sah! Acho que ele falou que se chamava Bar-ter, ou coisa parecida...

Lá no alto da barricada da Kotewall Road, Vênus Poon estava se divertindo. Era o centro de todas as atenções sob luzes das equipes móveis de rádio e tv. Continuou a ler o roteiro que fora enfiado em suas mãos, modificando-o aqui e ali, baixando um pouco a voz, erguendo-a, deixando as lágrimas correrem (mas não o bastante para estragar a maquilagem), des­crevendo o holocausto de tal modo que todos os seus ouvintes sentiam que estavam com ela na encosta, sentiam arrepios de horror, e agradeciam sua sorte, que a morte os tivesse ignorado, dessa vez, e que eles e os seus estivessem vivos.

— A chuva ainda está caindo — sussurrava ela ao micro­fone. — Onde o Rose Court arrancou parte dos andares supe­riores do Sinclair Towers, já foram contados sete mortos, quatro crianças, três chinesas, uma inglesa, mais ainda soterrados...

Agora as lágrimas escorriam dos seus olhos. Ela parou, e os que a observavam também prenderam a respiração.

No começo ela quase arrancara os cabelos à idéia de ter perdido o apartamento, todas as suas roupas, as jóias e seu novo vison. Mas, depois, lembrou-se de que todas as suas jóias boas estavam no joalheiro, sendo reformadas — presente do seu ve­lho admirador, o Banqueiro Kwang —, e que o seu vison estava no alfaiate, sendo consertado. E quanto às roupas, qual, Quatro Dedos teria prazer em substituí-las!

"Quatro Dedos! Ai, ai, espero que aquele bode velho tenha se salvado como o Ching Sorridente", rezara fervorosamente. "Eeee, que milagre! Se um, por que não o outro? E sem dúvida nenhum prédio desabando será capaz de matar Ah Poo. Ela vai sobreviver! Claro que vai! E o Banqueiro Kwang a salvo! Não chorei de alegria quando soube que ele se salvara? Oh, que dia de sorte! E agora o Choy Lucrativo, um rapaz tão elegante, bonitão, interessante. Agora, se tivesse dinheiro, dinheiro de verdade, seria o homem para mim. Chega daqueles sacos de peido com os seus yangs moles para o yin adorável, o mais adorável..."

O produtor não podia esperar mais. Saltou em direção ao microfone e disse com urgência:

— Continuaremos o boletim tão logo a srta. Vênus... Imediatamente ela acordou do seu torpor.

— Não, não — disse ela bravamente —, o espetáculo deve continuar! — Enxugou as lágrimas dramaticamente e con­tinuou lendo e improvisando: — Descendo a encosta, membros dos nossos gloriosos gurkhas e guarda irlandesa, arriscando he­roicamente suas vidas, estão desenterrando Irmãos e Irmãs...

— Meu Deus! — resmungou um inglês. — Que coragem! Ela merece uma medalha, não acha, meu velho? — Virou-se para o vÍ2Ínho e ficou encabulado ao ver que o homem era chinês. — Ah, desculpe-me.

Paul Choy mal o escutou, a atenção voltada para as maças que retornavam dos escombros, os carregadores escorregando e deslizando sob as lâmpadas de arco voltaico que haviam sido erigidas poucos minutos antes. Acabara de voltar da estação de socorro instalada na bifurcação da Kotewall Road, sob um toldo improvisado onde parentes desesperados, como ele próprio, ten­tavam identificar os mortos ou feridos, ou dar os nomes dos desaparecidos que, supunha-se, ainda estavam soterrados. A noite toda ele tinha ido e vindo, para o caso de Quatro Dedos ter sido encontrado noutro lugar e estar vindo de outra direção. Havia meia hora um dos bombeiros atravessara uma massa de escombros e chegara na área do quinto andar desabado. Fora então que haviam tirado Mai-ling e Richard Kwang de Iá, depois Jason Plumm, com metade da cabeça faltando, depois outros, mais mortos do que vivos.

Paul Choy contou as maças. Quatro. Três tinham cobertas sobre os corpos, dois muito pequenos. Estremeceu, pensando como a vida era fugaz, imaginando o que iria acontecer agora na Bolsa de Valores, amanhã. Será que eles a manteriam fecha­da, em sinal de respeito? "Santo Deus, se a mantiverem fechada a segunda inteira, sem dúvida a Struan chegará a 30 na abertura de terça... tem que chegar." Seu estômago roncou, e ele se sentiu tonto. Na sexta-feira, pouco antes de a Bolsa fechar, ele arriscara cinco vezes cada centavo que Quatro Dedos lhe em­prestara relutantemente, em compras futuras. Cinco vezes dois milhões de HK. Comprara ações da Struan, do Blacs, do Victo­ria e do Ho-Pak, apostando que, de algum jeito, naquele fim de semana o tai-pan transformaria o desastre em vitória, que os boatos de que se pedira dinheiro à China eram verdadeiros, e que o Blacs e o Victoria tinham um plano em andamento. Des­de o encontro com Gornt em Aberdeen, quando lhe apresentara sua teoria de um salvamento do Ho-Pak pelo Blacs ou pelo Victoria, e notara um lampejo por trás daqueles olhos astutos, estivera se perguntando se havia farejado alguma tramóia dos Figurões. "E, sem dúvida que são os Figurões! Mantêm Hong Kong segura pelos cabelos. Deus, como estão por dentro das transas!" E... ah, meu Deus, quando, nas corridas, Richard Kwang lhe pedira para comprar ações do Ho-Pak, e quase em seguida Havergill anunciara a compra de controle, ele fora ao banheiro para vomitar. Dez milhões em ações do Ho-Pak, Blacs, Victoria e Struan, comprados na baixa. E então, naquela noite, quando o noticiário das nove anunciara que a China estava adiantando meio bilhão em espécie, e que todas as corridas aos bancos tinham acabado, ele soube que estava multimilionário, multimultimilionário!

O rapaz não conseguiu controlar o estômago, correu para os arbustos ao lado da estrada e botou as tripas para fora, até pensar que ia morrer.

O circunstante inglês deu-lhe as costas e disse baixinho para um amigo:

— Esses chineses não têm mesmo muita garra, não é, meu velho?

Paul Choy limpou a boca, sentindo-se muito mal. O pensamento de sua provável fortuna, agora tão próxima, era demais para ele.

As maças iam passando. Atordoadamente, ele as acompa­nhou até a estação de socorro. Ao fundo, sob o toldo impro­visado, o dr. Meng fazia operações de emergência. Paul Choy ficou vendo o dr. Tooley erguer os cobertores. Uma mulher européia, os olhos abertos e fixos. O dr. Tooley soltou um suspiro e os fechou. O seguinte era um garoto inglês de dez anos, morto também. Depois, uma criança chinesa. A última maca trazia um chinês, sangrando e com muita dor. Rapida­mente o doutor deu-lhe uma injeção de morfina.

Paul Choy se afastou e vomitou de novo. Quando voltou, o dr. Tooley lhe disse, bondosamente:

— Não há nada que possa fazer aqui, sr. Choy. Tome, isso dará um jeito no seu estômago. — Deu-lhe duas aspirinas e um pouco de água. — Por que não espera num dos carros? Nós o avisaremos no instante em que soubermos algo do seu tio.

— Está bem, obrigado.

Vinham chegando mais maças. Uma ambulância encostou. Os carregadores das maças colocaram na ambulância os feridos etiquetados, e o veículo se afastou sob a garoa. Do lado de fora, longe do fedor de sangue e morte, o rapaz sentiu-se melhor.

— Alô, Paul, como vão indo as coisas?

— Oh, oh, alô, tai-pan! Bem, obrigado.

Ele havia encontrado o tai-pan anteriormente e lhe con­tara sobre Quatro Dedos. Dunross ficara chocado e muito preo­cupado.

— Nada ainda, Paul?

— Não, senhor. Dunross hesitou.

— Às vezes nenhuma notícia é boa notícia. Se o Ching Sorridente pôde sobreviver, vamos torcer pelo melhor, não é?

— É, sim, senhor.

Paul Choy ficou olhando Dunross subir apressado a rua na direção da barricada, sua mente repassando todas as permu-tações que imaginara. "Com a fantástica compra de controle da General Stores pelo tai-pan (que coisa mais inteligente!), e agora, escapando à armadilha do Gornt, as ações dele têm que chegar até 30. E com o Ho-Pak cotado a 12,50, no momento em que voltar a pregão terá que ir a 20. Agora, calcule, 17,5 por cento de dez milhões, vezes 50, são..."

— Sr. Choy! Sr. Choy!

Era o dr. Tooley chamando-o da estação de socorro. O coração dele parou. Correu com quantas forças tinha.

— Não tenho certeza, mas, por favor, acompanhe-me. Não havia como errar. Era o Wu Quatro Dedos. Estava morto, aparentemente incólume. No seu rosto havia uma calma maravilhosa, e um sorriso estranho e angelical.

As lágrimas começaram a escorrer pelas faces de Paul Choy. Agachou-se ao lado da maca, dominado pela dor. Cheio de compaixão, o dr. Tooley o deixou e foi para junto das outras maças, onde agora alguém gritava, outra mão desesperada agar­rando ao peito o corpo destroçado de um filho.

Paul Choy fitou o rosto, um rosto bom, na morte, quase sem vê-lo.

"E agora?", perguntou-se, enxugando as lágrimas, sem sentir realmente que havia perdido um pai, mas sim o chefe da família, o que, nas famílias chinesas, é pior do que perder o próprio pai. "Deus, e agora? Não sou o filho mais velho, por­tanto não terei que tomar as providências. Mas, mesmo assim, o que faço agora?"

Uns soluços chamaram sua atenção. Era um velho que soluçava por uma velha deitada numa maca próxima. "Tanta morte aqui, demais!", pensou Paul Choy. "É. Mas os mortos têm que enterrar os mortos, os vivos têm que continuar. Não estou mais ligado a ele. E sou americano."

Ergueu o cobertor como se fosse cobrir o rosto de Quatro Dedos, tirou habilmente o colar de couro com a meia moeda e enfiou-o no bolso. Certificando-se de novo de que não havia ninguém olhando, revistou os bolsos. Notas numa carteira, um molho de chaves, o carimbo de bolso pessoal. E o anel de dia­mantes na sua caixinha.

Levantou-se e dirigiu-se para o dr. Tooley.

— Com licença, doutor. Por favor, por favor, quer deixar o velho aí? Volto logo com um carro. A família, nós... Pode ser?

— Claro. Informem à polícia antes de o levarem, o setor de pessoas desaparecidas está instalado na barricada. Vou assi­nar a certidão de óbito amanhã. Desculpe, mas não há tem... — Novamente o bondoso homem teve a atenção voltada para outro lugar, e foi até onde estava o dr. Meng. — Pronto, deixe-me ajudar. É como na Coréia, não?

Paul Choy desceu o morro, sem ligar para a garoa, o coração leve, o estômago no lugar, o futuro definido. "Agora a moeda é minha", disse a si mesmo, certo de que Quatro Dedos não teria contado a ninguém, atendo-se à sua habitual reserva, confiando apenas naqueles de quem não podia prescindir.

"Agora que tenho o carimbo pessoal dele, posso carimbar o que quiser, fazer o que quiser, mas não vou fazer isso. Isso é trapacear. Por que devo trapacear quando estou levando van­tagem? Sou mais esperto do que qualquer dos outros filhos dele. Eles sabem, eu sei, e isso não é bancar o maluco. Sou melhor. É apenas justiça que eu fique com a moeda e todos os lucros dos dois milhões. Vou ajudar a família, modernizar tudo, equipar os barcos, fazer o que eles quiserem. Mas com o meu lucro vou dar início ao meu próprio império. Claro. Mas, pri­meiro, vou para o Havaí..."

No começo da fila de carros, perto do primeiro desliza­mento, Dunross parou ao lado do seu carro e abriu a porta do banco de trás. Casey despertou bruscamente do seu devaneio, e seu rosto perdeu a cor.

— Linc?

— Não. Ainda nada. Quillan tem quase certeza de que localizou a área. Os gurkhas estão revistando aquela parte ago­ra. Vou para Iá substituí-lo. — Dunross tentou parecer confiante. — Os peritos dizem que há uma chance muito boa de que ele esteja bem. Não se preocupe. Você está bem?

— Sim, estou, obrigada.

Quando ele voltara da primeira busca, mandara Lim ir apanhar café, sanduíches e uma garrafa de conhaque, sabendo que a noite ia ser muito comprida. Quisera deixar Casey com Riko, mas ela se recusara. E então Riko voltara para o hotel, no outro carro, com Lim.

— Quer um conhaque, Ian? — perguntou Casey.

— Obrigado. — Ele a observou enquanto ela o servia, notando que os dedos estavam firmes. O conhaque sabia bem. — Vou levar um sanduíche para o Quillan. Por que não põe uma boa dose de conhaque no café, hem? Levo isso também.

— Certo — disse ela, satisfeita por poder fazer alguma coisa. — Mais gente foi resgatada?

— Donald McBride... está bem, só abalado. Tanto ele quanto a mulher.

— Ah, que bom! Algum, algum cadáver?

— Ninguém que eu conheça — replicou, decidindo não lhe contar sobre o Plumm ou seu velho amigo Southerby, pre­sidente da junta diretora do Blacs.

Naquele momento, Adryon e Martin Haply apareceram intempestivamente, e Adryon abraçou-o com força, soluçando de alívio.

— Oh, papai, acabamos de saber, oh, papai, eu estava apavorada!

— Pronto, pronto! — disse ele, acalmando-a. — Estou bem. Santo Deus, Adryon, avalancha maldita nenhuma jamais tocará o tai-pan da Casa No...

— Ah, não fale assim! — suplicou ela, com um arrepio de pavor supersticioso. — Nunca fale assim! Estamos na China, os deuses escutam, não fale assim!

— Está bem, meu amor! — Dunross abraçou-a e sorriu para Martin Haply, que também estava cheio de alívio. — Tudo bem?

— Oh, sim, senhor, estávamos Iá em Kowloon, eu estava fazendo a cobertura do outro deslizamento quando soubemos da notícia. — O jovem estava aliviado. — Puxa vida, mas como estou contente por vê-lo, tai-pan! Nós... infelizmente amassa­mos um pouco o carro para chegar aqui.

— Não faz mal. — Dunross afastou Adryon de si um pouco. — Tudo bem, filhinha?

Ela o abraçou de novo.

— Tudo bem. — Foi então que viu Casey. — Oh, oh, alô, Casey, eu estava tão...

— Deixe de ser boba! Entrem e saiam da chuva! Os dois. Adryon obedeceu, Martin Haply hesitou, depois disse para Dunross:

— Se não se importa, senhor, vou dar uma olhada por aí.

— Christian se salvou — disse Dunross rapidamente.

— Eu sei, senhor. Liguei para o escritório. Obrigado. Não vou demorar muito, meu bem — disse para Adryon, e dirigiu-se para a barricada.

Dunross observou-o enquanto ele se afastava, jovem, du­rão e muito autoconfiante, depois enxergou Gornt descendo o morro, apressado. Gornt parou, bem longe do carro, e fez-lhe um sinal ansioso. Dunross lançou um olhar para Casey, o cora­ção batendo inquieto. De onde estava, ela não podia ver Gornt.

— Volto logo que puder.

— Cuide-se.

Dunross acercou-se de Gornt. O homem mais velho estava imundo, as roupas rasgadas, a barba empastada, o rosto tenso.

— Nós o localizamos — disse Gornt. — Bartlett.

— Está morto?

— Não, nós o encontramos, mas não conseguimos chegar até ele. — Gornt fez um gesto para a garrafa térmica. — É chá?

— Café com conhaque.

Gornt aceitou e bebeu, agradecido.

— Casey ainda está no carro?

— Está. A que profundidade ele está?

— Não sabemos. Fundo. Talvez seja melhor não contar a ela nada sobre ele, por enquanto.

Dunross hesitou.

— Melhor não tocar no assunto — repetiu o outro ho­mem. — A coisa parece preta.

— Está bem. — Dunross estava exausto de tanta morte e sofrimento. — Está bem.

A chuva tornava a noite mais imunda e o atoleiro ainda mais perigoso. À frente, para além da área do desabamento, a Kotewall Road seguia reto por quase setenta metros, subindo de modo íngreme, depois se enroscava na encosta da montanha, e sumia de vista. Os moradores já vinham jorrando dos prédios evacuados.

— Não há o que errar quanto ao Tiptop e ao dinheiro? — indagou Gornt, andando com cuidado, iluminando o cami­nho com a lanterna elétrica.

— De jeito algum. A corrida aos bancos acabou.

— Ótimo. Qual foi a permuta?

Dunross não lhe respondeu, apenas deu de ombros.

— Abriremos a 30.

— Isso é o que veremos — Gornt acrescentou sarcasti-camente. — Mesmo a 30 estou seguro.

— É?

— Perderei uns dois milhões de dólares americanos. Foi isso o que o Bartlett me adiantou.

Dunross sentiu uma alegria interior. "Isso ensinará o Bartlett a não tentar me passar a perna", pensou.

— Eu já estava sabendo disso. Foi uma boa idéia... mas a 30 você perderá uns quatro milhões, Quillan, os dois dele e dois do seu bolso. Mas aceitarei a Ail Ásia Airways.

— Jamais. — Gornt parou e olhou-o de frente. — Ja­mais. Minha companhia aérea ainda não está à venda.

— Você é quem sabe. A oferta é válida até a abertura da Bolsa.

— Que se danem os seus negócios!

Continuaram a subir pesadamente para o topo da encosta, aproximando-se agora da área do saguão. Passaram por uma maca que voltava. A mulher ferida não era conhecida de nenhum dos dois. "Se Dunross estivesse numa dessas maças", pensou Gornt, sombriamente, "isso resolveria os meus problemas direi­tinho..."

 

                   01h20m

O sargento gurkha dirigiu o facho de sua lanterna para baixo. Ao seu redor estavam outros soldados, o jovem tenente e bombeiros trazendo, apressados, um dos seus oficiais.

— Onde está ele? — perguntou o oficial Harry Hooks, do Corpo de Bombeiros.

— Ali embaixo, em algum lugar. O nome dele é Bartlett, Linc Bartlett.

Hooks viu a luz se infiltrar por uns poucos metros, depois parar, bloqueada pelo labirinto. Deitou-se no chão. Perto do chão o cheiro de gás era mais forte.

— Ei, aí embaixo, sr. Bartlett! Está me ouvindo? — berrou para dentro dos escombros.

Todos escutaram atentamente.

— Estou — veio a resposta longínqua.

— Está ferido?

— Não!

— Dá para enxergar a nossa luz?

— Não!

Hooks soltou um palavrão, depois berrou:

— Fique onde está, por enquanto!

— Está certo, mas o gás está muito forte! Ele se levantou. O oficial falou:

— Um sr. Gornt esteve aqui, e foi buscar mais ajuda.

— Ótimo. Espalhem-se todos, vejam se conseguem des­cobrir uma passagem até ele, ou onde possamos chegar mais perto.

Fizeram o que ele mandou. Dali a um momento, um dos gurkhas soltou um berro.

— Aqui!

Era um espaçozinho entre pedaços de concreto quebrado, pedaços de madeira, travessas quebradas e vergalhões de aço, talvez o suficiente para um homem entrar se arrastando. Hooks hesitou, depois tirou o seu equipamento pesado.

— Não — disse o oficial. — É melhor nós tentarmos. — Olhou para os seus homens. — Certo?

Prontamente, eles abriram um sorriso e se dirigiram todos para o buraco.

— Não — ordenou o oficial. — Sangri, você é o menor.

— Obrigado, sah — disse o homenzinho com um amplo sorriso, os dentes brancos no rosto escuro. Todos ficaram vendo enquanto ele se enfiava pela terra adentro, de ponta-cabeça, como uma enguia.

A uns seis metros e tanto mais abaixo, Bartlett forçava a vista na escuridão. Estava num buraquinho baixo, o caminho bloqueado por um bloco de piso, o cheiro de gás forte. En­tão, seus olhos perceberam um lampejo de luz adiante, para um dos lados, e conseguiu dar uma olhadela no que o cercava. Não conseguia ouvir nada, exceto o pingar da água e os escom­bros que rangiam. Com grande cuidado, foi se arrastando e se espremendo na direção de onde tinha visto a luz. Uma pequena avalancha começou quando afastou algumas tábuas. Logo parou. Acima havia outro espaço pequeno. Foi rastejando para cima, ao longo desse espaço, e chegou a um beco sem saída. Outro caminho, outro beco sem saída. Acima, sentiu algumas tábuas soltas no piso desabado. Deitou-se de costas e procurou afastar as tábuas, tossindo e sufocando com a poeira. Abruptamente, sentiu uma luz sobre si. Não muita, bem pouca, mas quando os seus olhos se adaptaram, foi o suficiente para ele enxergar al­guns metros. Sua euforia desapareceu ao se dar conta da exten­são da tumba. Estava bloqueado em todas as direções.

— Alô, aí em cima! Muito de longe:

— Estamos ouvindooooo!

— Agora estou vendo a luz! Depois de um momento:

— Que luz?

— Que diabo, como vou saber, puta merda! — falou Bartlett. "Não entre em pânico, pense e espere", quase ouviu Spurgeon dizer. Controlando-se, esperou, depois a luz que o banhava moveu-se um pouco. — Essa aí! — berrou.

Instantaneamente, a luz parou.

— Já o localizamos, fique onde está.

Bartlett olhou ao seu redor, examinando a área com muito cuidado. Uma segunda vez, ainda com o mesmo resultado: não havia saída.

Nenhuma.

— Terão que cavar e me tirar daqui — murmurou, o medo aumentando.

Sangri, o jovem gurkha, estava uns três metros abaixo da superfície, mas muito à direita de onde estava Bartlett. Não podia ir mais além. Sua passagem estava bloqueada. Contorceu-se para voltar, usou como ponto de apoio uma laje de concreto irregular e moveu-a ligeiramente. Imediatamente, essa parte dos escombros começou a ceder. Ele ficou imóvel e deixou a laje em paz novamente. Mas não havia outro caminho. Por­tanto, cerrando os dentes e rezando para que tudo não fosse desabar em cima de si, e de quem estivesse embaixo, afastou a laje de concreto para o lado. Os escombros não cederam. Ofegando, iluminou com a lanterna elétrica a cavidade, depois enfiou nela a cabeça, olhando ao seu redor.

Outro beco sem saída. Impossível prosseguir. Relutante­mente, recuou.

— Sargento — gritou, na língua do Nepal —, não dá mais para prosseguir.

— Tem certeza?

— Oh, sim, sah, absoluta!

— Volte!

Antes de ir embora, berrou para dentro da escuridão:

— Alô, aí embaixo!

— Estou escutando! — retrucou Bartlett.

— Não estamos longe! Vamos tirá-lo daí, sah! Não se preocupe!

— Certo!

Com grande dificuldade, Sangri começou a recuar, fazendo o caminho de volta arduamente. Uma pequena avalancha en­cheu-o de entulho. Sombriamente, continuou a subir.

Dunross e Gornt subiram por cima dos escombros para se unirem aos grupos de homens que formavam uma cadeia, retirando entulho e vigas onde era possível.

— Boa noite, tai-pan, sr. Gornt. Já o localizamos, mas não estamos perto. — Hooks apontou para o homem que segurava a luz com firmeza. — Está naquela direção.

— A que profundidade?

— Pelo som da voz, a uns seis metros.

— Meu Deus!

— É, só Deus mesmo. O pobre infeliz está numa pior. Olhe só para estas vigas! — Vigas mestras de aço, pesadas, bloqueavam o caminho para baixo. — Não ousamos usar os cortadores, há gás demais.

— Tem de haver outra passagem. Pelo lado? — indagou Dunross.

— Estamos procurando. O melhor que podemos fazer é arranjar mais homens e tirar do caminho o que pudermos.

Hooks olhou na direção de um grito encorajador. Todos correram para os soldados, entusiasmados. Por baixo de uma confusão de pisos arrancados que os homens haviam afastado, havia uma passagem tosca que parecia descer, retorcendo-se até se perder de vista. Viram um dos homens miúdos saltar para dentro do buraco, depois sumir. Os outros observavam com gritos encorajadores. O caminho era fácil durante cerca de um metro e oitenta, muito difícil durante os três metros seguin­tes, todo sinuoso, depois ficava bloqueado.

— Alô, aí embaixo, sah, está vendo a minha luz?

— Estou!

A voz de Bartlett estava mais alta. Quase não havia neces­sidade de gritar.

— Vou mexer um pouco com a luz, sah. Por favor, se ela chegar perto, por favor, me avise, direita ou esquerda, para baixo ou para cima, sah.

— Certo. — Bartlett podia ver uma fraçãozinha da luz acima e à direita através de uma massa de vigas, traves, verga-lhões e aposentos destroçados. Diretamente acima dele havia uma massa impenetrável de soalhos e traves. Uma vez ele per­deu o facho de luz, mas logo o achou de novo. — Um pouco à direita — chamou, a voz já meio rouca. Obedientemente, a luz se moveu. — Desça! Pare aí! Agora, suba uma fração. — Pareceu levar uma eternidade, mas a luz se centralizou nele.

— Pronto!

O soldado manteve o facho firme, fez um apoio para a lanterna com o entulho, depois afastou a mão.

— Tudo certo, sah?

— Tudo! Acertou na mosca!

— Vou buscar mais ajuda.

— Está bem.

O soldado recuou. Dali a dez minutos havia trazido Hooks consigo. O oficial, chefe dos bombeiros, calculou a trilha do facho e examinou meticulosamente o curso de obstáculos adiante.

— Puta merda, vai levar um mês de trabalho — mur­murou. Depois, contendo o seu terror, apanhou o compasso e mediu o ângulo cuidadosamente.

— Não se preocupe, meu chapa — falou Iá para baixo.

— Vamos tirá-lo daí fácil, fácil. Pode se aproximar mais da luz?

— Não, acho que não.

— Então fique onde está e descanse. Está ferido?

— Não, não, mas sinto cheiro de gás.

— Não se preocupe, meu rapaz, não estamos longe. — Hooks saiu com dificuldade da passagem. Novamente na superfície, mediu a linha no compasso e depois caminhou sobre a superfície inclinada. — Está abaixo daqui, tai-pan, sr. Gornt, num raio de um metro e meio, a seis metros de profundidade.

— Estavam a dois terços do caminho encosta abaixo, mais para perto da Sinclair Road do que da Kotewall. Não havia caminho de entrada visível pelos lados, a lama e a terra do desabamento mais densas à direita do que à esquerda. — A única coisa que podemos fazer é cavar — disse, em tom decidido. — Não po­demos trazer um guincho até aqui, portanto, tem que ser no muque. Vamos tentar primeiro aqui.

Hooks indicou uma área que parecia promissora, a três metros de distância, perto do buraco que os soldados tinham descoberto.

— Por que aqui?

— É mais seguro, tai-pan, para o caso de fazermos a coisa toda ceder. Vamos Iá, companheiros, ao trabalho. Mas cuidado!

E assim começaram a cavar e retirar tudo o que era remo­vível. Era um trabalho muito duro. Todas as superfícies esta­vam úmidas e traiçoeiras, os escombros com equilíbrio precário. Vigas, traves, soalhos, tábuas, concreto, gesso, panelas, rádios, televisões, cômodas, roupas, tudo numa montoeira absurda­mente desordenada. O trabalho parou quando descobriram ou­tro corpo.

— Mandem um médico para cá! — gritou Hooks.

— Ela está viva?

— Pode ser.

A mulher era velha, a bata que fora branca e as calças pretas estavam rasgadas e enlameadas, o cabelo comprido preso numa trança andrajosa. Era Ah Poo.

— A gan sun de alguém — comentou Dunross.

Gornt fitava incrédulo o local onde ela fora encontrada, um buraquinho dentro de um amontoado irregular, feio, quase sólido, de concreto reforçado e destroçado.

— Porra, como as pessoas sobrevivem?

O rosto de Hooks se abriu num sorriso, os dentes quebra­dos e marrons, manchados de fumo.

— Joss, sr. Gornt. Sempre há esperança enquanto a pes­soa puder respirar. Joss. — A seguir, berrou Iá para baixo:

— Mande uma maca para cá, Charlie, E bem depressa!

Ela veio depressa. Os carregadores a levaram embora na maca. O trabalho continuava. A cova ficava mais funda. Uma hora depois, cerca de um metro e vinte a um metro e meio mais para baixo, foram bloqueados por toneladas de vigas de aço.

— Vamos ter que nos desviar — disse Hooks. Pacientemente, recomeçaram. Dali a pouco, novo bloqueio. — Desviem para cá!

— Não podemos abrir caminho serrando?

— Ah, podemos, sim, tai-pan. Mas bastará uma fagulha e viraremos todos anjinhos. Vamos, rapazes. Aqui. Vamos ten­tar aqui.

Os homens se apressaram a obedecer...

 

                       04h10m

Bartlett agora podia ouvi-los nitidamente. De quando em vez, pó e sujeira desciam em cascata, trazendo atrás de si entu­lho ensopado, enquanto travessas, vigas e escombros acima eram removidos. Seus salvadores pareciam estar a uns dez metros de distância, pelo que ele podia calcular, ainda um metro e meio a um metro e oitenta acima dele, o fiozinho de luz tornando a espera mais suave. Sua própria fuga estava bloqueada por todos os lados. Um pouco antes, havia pensado em voltar para baixo daquele piso, depois mais para baixo ainda, para tentar encon­trar novo caminho e buscar uma segurança melhor por Iá.

— É melhor esperar, sr. Bartlett! — Hooks berrara para ele. — A gente sabe onde o senhor está!

E, assim, ele ficara ali. Estava ensopado pela chuva, dei­tado sobre algumas tábuas, não desconfortável demais, e bem protegido por vigas pesadas. A maior parte da sua linha de visão estava bloqueada a pouquíssima distância. Acima dele, havia mais soalhos retorcidos. Havia apenas lugar bastante para se deitar ou, com cuidado, se sentar. O cheiro de gás era forte, mas por enquanto não sentia dor de cabeça, e achava que estava bastante seguro, o ar bom o suficiente para durar para sempre. Estava cansado, muito cansado. Mesmo assim, forçou-se a ficar acordado. Do ponto onde estava, sabia que os outros iam levar o resto da noite, talvez parte do dia, para abrir uma fenda para ele passar. Aquilo não o preocupava nem um pouco. Estavam ali. E ele fizera contato. Uma hora antes, escutara a voz de Dunross próxima.

— Linc? Linc, é o Ian!

— Que diabo está fazendo aqui? — retrucara, alegre­mente.

— Procurando por você. Não se preocupe, não estamos longe.

— Claro. Escute, Ian — começara ele, sua ansiedade quase sufocante. — Orlanda, Orlanda Ramos, conhece-a? Estava esperando...

— Sim, sim, eu a vi logo depois que a avalancha atingiu o prédio. Ela está bem. Está esperando Iá na Kotewall. Ela está bem. E você?

— Porra, tudo bem — dissera ele, quase tonto agora, sabendo que ela estava em segurança. E quando Dunross lhe contara sobre sua própria evasão milagrosa, e que Casey tinha visto toda a catástrofe acontecer, ficou estarrecido à idéia de como todos os outros tinham estado tão próximos da tragédia. — Meu Deus, mais alguns minutos e vocês todos teriam sido atingidos.

— Joss.

Tinham batido papo por algum tempo, depois Dunross saíra do caminho para que o resgate pudesse continuar.

Pensando agora em Orlanda, outro arrepio o percorreu, e novamente agradeceu a Deus por ela estar a salvo, e Casey também. "Orlanda jamais sobreviveria embaixo da terra. Casey, talvez, mas Orlanda, não. Jamais. Mas isso não a desprestigia em nada."

Ajeitou-se mais confortavelmente, as roupas ensopadas arrepiando-lhe a pele, ouvindo berros e ruídos dos salvadores que se aproximavam, reconfortantes. Para passar o tempo, con­tinuou seus devaneios sobre as duas mulheres. "Nunca conheci um corpo como o da Orlanda, ou outra mulher agual a ela. É quase como se a conhecesse há anos, não uns poucos dias. Isso é uma verdade. Ela é excitante, desconhecida, fêmea, ma­ravilhosamente perigosa. Casey não representa perigo. Daria uma excelente mulher, uma grande sócia, mas não é tão femi­nina quanto Orlanda. Claro que Orlanda gosta de roupas boni­tas, presentes caros, e se o que o pessoal daqui fala for verdade, vai gastar dinheiro como se fosse água. Mas não é para isso que serve a maior parte do dinheiro? Minha ex-mulher está amparada, as crianças também. Não tenho o direito de me di­vertir e ser capaz de protegê-la dos Biltzmanns do mundo?

"Claro. Mas ainda não sei o que há nela, ou em Hong Kong, que mexeu comigo. É o melhor lugar em que já estive, e sinto-me mais em casa aqui do que nos Estados Unidos."

— Talvez, Linc, você tenha estado aqui numa vida ante­rior — Orlanda lhe dissera.

— Acredita em reencarnação?

— Claro que sim!

"Não seria uma maravilha", pensou ele, no seu devaneio, sem notar o gás, ou que agora o gás o estava afetando um pouco. "Ter mais de uma vida seria a coisa de mais sorte do mundo, e..."

— Linc!

— Oi, Ian, o que é que há?

A felicidade de Bartlett aumentou. A voz de Dunross esta­va bem perto, muito perto.

— Nada. Só vamos dar uma paradinha rápida. A barra está pesada, temos que fazer novo desvio, mas estamos apenas a poucos metros de distância. Pensei em batermos um papinho. Pelo que podemos calcular, estamos um metro e meio acima de você, vindos do oeste. Já dá para nos ver?

— Não. Há um soalho acima de mim, todo estropiado, e vigas, mas estou bem. Posso esperar aqui facilmente. Ei, sabe de uma coisa?

— O quê?

— Hoje foi a primeira vez que você me chamou de Linc.

— É? Não tinha notado.

"Não, porra nenhuma", pensou Bartlett, e riu consigo mesmo.

— O que você... — Os dois homens ficaram subita­mente gelados quando os escombros começaram a gemer, retor­cendo-se aqui e ali. Dali a um momento o barulho cessou, pelo menos a maior parte. Bartlett começou a respirar mais serena­mente. — O que vai fazer amanhã?

— Sobre o quê?

— A Bolsa de Valores. Como vai derrotar o Gornt? — Escutou com assombro crescente enquanto Dunross lhe contava sobre o dinheiro do Banco da China, a festa de Plumm, e o seu desafio ao Gornt, apoiado pelo seu novo fundo de cinqüenta milhões. — Fantástico! Quem está bancando você, Ian?

— Papai Noel. Bartlett achou graça.

— Com que então Murtagh salvou a pátria? Escutou o silêncio e sorriu de novo.

— Casey lhe contou?

— Não. Não, foi o que imaginei. Já lhe disse que a Casey é viva pra burro. Então você está completamente salvo. Pa­rabéns! — falou com um sorriso amplo, e com sinceridade.

— Pensei que o tinha pegado pelo pé, Ian. — Bartlett riu.

— Acha mesmo que suas ações vão abrir a 30?

— Estou torcendo.

— Se está torcendo, isso quer dizer que você e seus ami­gos já estão com tudo acertado. Mas o Gornt é sabido. Você não vai pegá-lo.

— Ah, vou, sim.

— Não vai, não! E quanto ao nosso acordo?

— A Par-Con? Continua de pé, é claro. Pensei que isso já estivesse definido.

Bartlett notou o tom de inocência seca.

— O Quillan deve estar quase tendo um troço!

— E está! Está aqui em cima, ajudando, também.

— Por quê? — perguntou Bartlett, surpreso. Houve uma pausa.

— O Quillan é um calhorda de primeira, de vinte e qua­tro quilates, mas... não sei. Talvez goste de você!

— Foda-se você também! — retrucou Bartlett, igualmente bem-humorado. — O que vai fazer quanto ao Quillan?

— Fiz-lhe uma proposta — falou Dunross, contando qual fora.

Bartlett soltou um resmungo.

— Quer dizer que os meus dois milhões entraram pelo cano?

— Naturalmente. Aqueles dois milhões. Mas sua parte na compra de controle da General Stores lhe dará cinco, talvez mais, e o nosso negócio Struan-Par-Con muito mais.

— Calcula mesmo cinco?

— Sim. Cinco para você, cinco para Casey.

— Ótimo! Sempre quis que ela tivesse o seu dinheiro do dane-se. — "O que será que ela vai fazer agora?", ele se per­guntou. — Ela sempre quis ser independente, e agora é. For­midável! O que foi? — perguntou, pois não escutara o que Dunross acabara de dizer.

— Disse: não quer falar com ela? É meio complicado, mas ela pode vir em segurança.

— Não — disse Bartlett, com firmeza. — Basta dizer-lhe um "oi"; falarei direito com ela quando sair.

— Casey falou que não vai se mexer até você sair. — Uma ligeira pausa. — A Orlanda também. E quanto a ela? Quer dizer um alô, ou coisa parecida?

— Não, obrigado. Haverá tempo de sobra mais tarde. Mande as duas irem para casa.

— Não irão. Ao que parece, você é muito popular. Bartlett riu, sentou-se e bateu com a cabeça. Uma dor lhe desceu pelas costas e ele gemeu, depois ajeitou-se mais confor­tavelmente, a cabeça quase tocando o teto.

Dunross estava apertado num espaçozinho não muito afas­tado, no fim da passagem sinuosa, odiando o abafamento, a claustrofobia nauseante, um suor gelado a ensopá-lo por causa dela. Não via sinal de Bartlett, mas notara que a voz dele soara forte e confiante. Hooks pedira-lhe para manter Bartlett conversando enquanto descansavam, para o caso de o gás o estar entorpecendo.

— A gente nunca sabe, tai-pan, o gás é traiçoeiro. Preci­samos dele alerta. Daqui a pouco vamos precisar da ajuda dele.

O tai-pan se contorceu, inquieto, pressentindo perigo. Al­guém vinha descendo, o entulho cascateando à sua passagem. Era Hooks. Parou a curta distância dele.

— Pronto, tai-pan. É melhor sair agora, vou mandar os meus rapazes voltarem.

— Já estou saindo, Linc! Fique acordado. Vamos re­começar.

— Certo, tudo bem. Escute, Ian, aceitaria ser padrinho de casamento?

— Sem dúvida — respondeu imediatamente, o cérebro gritando: "Qual delas?" — Seria uma honra.

— Obrigado — ouviu Bartlett responder, e por mais von­tade que tivesse de saber, sabia que jamais lhe perguntaria. Tinha certeza de que Bartlett iria dizer o nome. Mas tudo o que ele disse foi: — Obrigado. É, muito obrigado.

Sorriu, surpreso. "O Linc está aprendendo", disse com seus botões. "Será bom tê-lo como sócio... e como sócio votante do Turf Club. A Casey também..."

— Num instantinho o tiraremos daí! Enquanto ia se afastando, ouviu:

— Não seria ótimo se elas pudessem ser amigas? Será que é demais esperar isso?

Dunross não tinha certeza se as palavras tinham sido ditas para ele.

— O quê? — chamou.

— Nada — replicou Bartlett. — Puxa, Ian, temos um bocado de coisas para fazer esta semana! Ei, estou contente de que você tenha ganho do Gornt!

"É", falou consigo mesmo, satisfeito. "Vai ser bom ma­nobrar com você, vigiando-o atentamente, construindo a nossa Casa Nobre."

A uns oito metros de distância, e poucos metros acima, Dunross virou-se desajeitadamente e recomeçou a subir.

Quase uns cinco metros acima dele, Gornt e os outros esperavam junto à boca grandemente ampliada da cova. A auro­ra clareava o leste, uma nesga de céu aparecendo agora entre as nuvens. Por toda a encosta, homens cansados ainda cava­vam, procuravam, chamavam e escutavam. Exausto, Hooks arrastou-se para fora da cova profunda. Naquele momento, houve um barulho tremendo vindo Iá de cima, de perto da Po Shan Road. Todas as cabeças se viraram bruscamente. Então, bem acima e à esquerda, viram parte da encosta se mover. O barulho aumentou, então uma parede de água e lama apareceu por trás da curva da colina na Kotewall Road e, ganhando velo­cidade, correu para cima deles. Homens começaram a correr enquanto a crista do aluvião descia até onde estivera o saguão, e se derramava por sobre a encosta e os escombros, inundan-do-os, a imensa massa de lodo forçando a crista para a frente e para baixo. Gornt viu-a vindo e se agarrou a uma viga mestra; os outros se agarraram onde podiam. O lodo fétido chegou até eles e passou, Gornt enterrado até os joelhos, mas agarrando-se firme contra a sucção. A onda seguiu em frente, cobrindo tudo com centímetros de lama, Hooks e os outros safando-se do lodaçal, tudo o mais momentaneamente esquecido.

Gornt não se esquecera.

De onde estava podia enxergar a cova. Viu as mãos e a cabeça de Dunross emergirem do lodo. As mãos procuraram um apoio. Mais lodo entrava cova adentro, enchendo-a. As mãos de Dunross escorregaram, e ele foi sugado para baixo, mas lutou para sair de novo e agarrou-se precariamente.

Gornt observava. E esperava. E não se mexia. A lama continuava a jorrar. O nível aumentou mais.

Dunross sentiu-se cair, a sucção muito grande. Estava su­focando no lodo, mas manteve os dedos firmes, forçou os dedos dos pés para dentro de uma fenda e começou a subir. De algum jeito, conseguiu livrar-se da sucção e agora estava a salvo, agar­rado à borda, metade do corpo fora da lama, o peito ofegando, o coração disparando, com ânsias de vômito. Ainda meio em estado de choque, os joelhos trêmulos, limpou a lama dos olhos e da boca e olhou ao redor, atordoado. Então viu Gornt três metros acima dele, observando-o, encostado serenamente a um afloramento...

Por um instante todo o seu ser se concentrou, vendo o sorriso sarcástico e retorcido, o ódio franco e o enorme desa­pontamento, e sabia que, se ele tivesse estado Iá em cima, e o Gornt preso numa armadilha como ele estivera, também teria observado e esperado.

"Teria?

"Teria igualmente observado e esperado, e jamais esten­dido a mão para ajudar. Não para Gornt. E então, finalmente, a maldição de Dirk Struan teria terminado, teria acabado de vez, e aqueles que me sucedessem jamais seriam atormentados de novo."

E então o instante passou. Sua cabeça se desanuviou. Lem­brou-se de Bartlett e olhou para baixo, horrorizado. A passagem que antes havia era agora apenas um lago lamacento.

— Ah, Deus! Socorro! — gritou. Então houve um súbito pandemônio, e os outros correram para a cova, Hooks, os sol­dados e os bombeiros, arremessando-se impotentes contra o lodo com pás e mãos.

Dunross saiu Iá de dentro. Trêmulo, ficou parado na bei­rada. Angustiado. Gornt já se fora. Dali a pouco todas as ten­tativas cessaram. A poça permaneceu.

 

                   Terça-feira, 17h39m

Dunross estava de pé junto à janela panorâmica da sua cobertura no Edifício Struan, olhando para o portão. O pôr-do-sol era maravilhoso, a visibilidade sem limites, o céu limpo, exceto por alguns cúmulos matizados a oeste, na direção da China continental, avermelhado ali, a escuridão tocando o hori­zonte oriental. Mais abaixo, o porto estava movimentado como sempre, comum como sempre, Kowloon resplandecendo ao crepúsculo.

Claudia bateu à porta e abriu-a. Casey entrou. Seu rosto era a imagem da desolação, o cabelo fulvo como o pôr-do-sol. A dor tornava-a etérea.

— Alô, Casey.

— Alô, Ian.

Não havia necessidade de dizer mais nada. Tudo sobre Bartlett já tinha sido dito. Só no fim da noite anterior é que tinham conseguido resgatar seu corpo. Casey esperara na encos­ta por ele. Depois, voltara para o hotel. Pela manhã telefonara, e agora estava ali.

— Uma bebida? Chá? Café? Tenho vinho. Fiz martínis.

— Um martíni. Obrigada, Ian — disse ela, a voz monó­tona, a dor que havia nela machucando-o. — É, gostaria muito.

Ela se sentou no sofá. Ele serviu a bebida e pôs nela uma azeitona.

— Tudo pode esperar, Casey — disse, compassivamente. — Não há pressa.

— É, eu sei. Mas nós combinamos. Obrigada. — Aceitou o copo gelado e ergueu-o. — Joss.

— Joss.

Sorveu a bebida supergelada, todos os seus movimentos estudados, quase como que independentes dela, depois abriu a pasta e colocou um envelope de papel pardo na mesa dele.

— Aqui estão todos os papéis de John Chen sobre a Struan, e tudo o que ele nos ofereceu ou nos contou. Estas são todas as cópias que tenho aqui. As que estão nos Estados Unidos passarei pela máquina de retalhar. — Casey hesitou. — Estou certa de que já fez algumas modificações, a essa altura, mas, bem, está tudo aí.

— Obrigado. O Linc deu alguma coisa para o Gornt?

— Não, não creio. — Novamente a hesitação. — Por medida de segurança, eu consideraria parte da informação como tendo "vazado".

— É.

— A seguir, nosso acordo da Par-Con-Struan. — A pilha de documentos que ela lhe entregou era bem grossa. — Todas as seis cópias estão assinadas e carimbadas com o selo da com­panhia. Tenho o poder executivo para assinar. — Ela hesitou. — Tínhamos um acordo, Linc e eu. Eu lhe deixei em testa­mento o poder de voto de todas as minhas ações durante dez anos, ele fez o mesmo para mim. Assim, sou a chefe da Par-Con.

— Durante dez anos? — perguntou Dunross, arregalando ligeiramente os olhos.

— É — disse ela sem emoção, sem sentir nada, sem que­rer nada exceto chorar e morrer.

"Mais tarde posso ser fraca", pensou. "Agora tenho que ser forte e sábia."

— Durante dez anos. Linc... Linc tinha o controle da votação. Eu lhe enviarei uma confirmação formal quando for oficial.

Dunross concordou com um aceno de cabeça. Da mesa laqueada, tirou um maço equivalente de papéis.

— São os mesmos. Já os carimbei formalmente. Este — colocou um envelope sobre a pilha —, este é o nosso acordo particular, dando à Par-Con os títulos de propriedade dos meus navios como garantia.

— Obrigada. Mas, com o seu fundo, não será necessário.

— Mesmo assim, foi parte do nosso acordo. — Dunross a observava, admirando-lhe a coragem. Não houvera lágrimas no novo começo na encosta, apenas um aceno atordoado de cabeça e: "Eu espero. Espero até... eu espero". Orlanda se prostrara na hora. Ele a mandara para um hotel, e depois en­viara um médico para cuidar dela. — Foi parte do nosso acordo.

— Está certo. Obrigada. Mas não é necessário.

— A seguir: eis aqui a nossa carta de concordância refe­rente ao negócio com a General Stores. Eu lhe darei os do­cumentos formais dentro de dez dias. Vou precisar...

— Mas o Linc não adiantou os dois milhões.

— Adiantou, sim, por telegrama, no sábado à noite. Meu banco suíço confirmou a transação ontem, e o dinheiro foi devidamente entregue à diretoria da General Stores. Eles aceitaram, portanto o negócio está fechado.

— Mesmo com a morte de Pug?

— É. A viúva dele concordou com a recomendação da diretoria. É um negócio muito bom, a propósito. Muito melhor do que a proposta da Superfoods.

— Não quero esse dinheiro, nada dele.

— Quando eu estava Iá na cova, batendo papo com o Linc, ele me falou de como estava feliz de que o negócio da General Stores fosse se concretizar. As palavras exatas dele foram: "Ótimo! Cinco milhões? Sempre quis que ela tivesse o seu dinheiro do dane-se. Ela sempre quis ser independente, e agora é. Formidável!"

— Mas a que preço! — ela falou, o sofrimento aflorando. — O Linc sempre me advertiu de que o dinheiro do dane-se custa mais do que a gente está preparado para pagar. Custou. Não o quero.

— Dinheiro é dinheiro. Você não está raciocinando direi­to. O dinheiro era dele para dispor como bem quisesse, e deu-o a você. Livremente.

— Você o deu para mim.

— Está enganada, foi ele. Eu apenas a ajudei, como você me ajudou. — Sorveu a sua bebida. — Vou precisar saber para onde mandar os lucros dele. Você deve se lembrar de que não havia direitos de votação incluídos. Quem é o administrador dele?

— É um banco, o First Central. Sou a testamenteira dele, juntamente com um homem do banco. — Ela hesitou. — Acho que a mãe dele é a sua herdeira. Ela é a única citada no testa­mento dele... Linc, o Linc foi franco comigo a esse respeito. A ex-mulher dele e os três filhos estão bem amparados, e foram especificamente excluídos do testamento. O controle de votação ficou comigo, e o resto vai... o resto vai para a mãe dele.

— Então será muito rica.

— Isso não a ajudará. — Casey estava tentando ao máxi­mo manter a voz normal e não chorar. — Conversei com ela ontem à noite, e ela ficou chocada, a pobre senhora. Está... na casa dos sessenta anos, uma mulher simpática. Linc é seu único filho. — Uma lágrima escorreu, a despeito da sua força de von­tade. — Ela, ela me pediu para levá-lo de volta. No seu testa­mento ele diz que quer ser cremado.

— Escute, Casey — falou Dunross, rapidamente —, tal­vez eu pudesse tomar as providências...

— Não. Ah, não, obrigada, Ian. Tudo já está providenciado. Já cuidei de tudo. Queria cuidar. O avião está liberado e a papelada, pronta.

— Quando você parte?

— Às dez, hoje à noite.

— Ah! — Dunross ficou surpreso. — Vou Iá me des­pedir de você.

— Não, não, obrigada. O carro eu agradeço, mas não há necessidade...

— Insisto.

— Não. Por favor — pediu ela, com ar súplice. Depois de um momento, ele perguntou:

— Quais os seus planos?

— Nada de especial, Vou... vou me certificar de que todas as suas vontades sejam cumpridas, documentos, testa­mento, acertar os seus negócios. Depois vou reorganizar a Par-Con... tentarei reorganizá-la como ele gostaria. Depois... de­pois não sei. Tudo isso levará uns trinta dias. Talvez eu volte dentro de trinta dias para começar, talvez mande o Forrester ou outra pessoa qualquer. Não sei. Eu o avisarei em trinta dias. Até Iá, tudo está coberto. Tem os números dos meus telefones. Ligue para mim a qualquer hora, se houver problema.

Ela começou a se levantar, mas ele a deteve.

— Antes de você ir, há uma coisa que preciso lhe dizer. Não o fiz ontem à noite porque a hora não era apropriada. Talvez agora seja, não estou certo, mas pouco antes de eu sair o Linc me perguntou se eu aceitaria ser padrinho de casamento.

— Viu Casey ficar branca e continuou rapidamente: — Disse a ele que seria uma honra.

— Ele falou em mim? Disse que queria casar-se comigo? — perguntou, incrédula.

— Estávamos conversando sobre você. Não tem sentido?

— Ele não mencionou a Orlanda?

— Não naquele momento. Não. Anteriormente, estivera muito preocupado com ela porque estava no apartamento dela e não sabia o que lhe acontecera. — Dunross observava-a. — Quando lhe disse que ela estava a salvo, ficou muito aliviado, naturalmente. Quando lhe contei que você por pouco não fora apanhada pela avalancha, quase teve um enfarte. Então, quando eu ia me retirando, ouvi-o dizer baixinho: "Acho que seria demais esperar que as duas fossem amigas". Não tive certeza se aquelas palavras eram para meus ouvidos... enquanto caváva­mos ele falou muito sozinho. — Terminou a sua bebida. — Estou certo de que se referia a você, Casey.

Ela sacudiu a cabeça.

— Valeu a tentativa, Ian. Aposto que se referia a Orlanda.

— Acho que está errada. Novo silêncio.

— Pode ser. Amigas? — Olhou para ele. — Você vai ser amigo do Quillan?

— Não. Jamais. Mas isso não é a mesma coisa. Orlanda é uma boa pessoa. De verdade.

— Acredito. — Casey fitou a sua bebida, sorveu-a, mas não lhe sentiu o gosto. — E quanto ao Quillan? O que acon­teceu hoje? Infelizmente não soube de nada. O que fez com relação ao Quillan? Vi que fecharam a 30,01, mas... na verdade não notei muita coisa mais.

Dunross sentiu uma alegria íntima e repentina. Por causa da catástrofe da Kotewall, o governador ordenara que a Bolsa de Valores ficasse fechada na segunda-feira. E os bancos, em sinal de luto. Às dez daquela manhã, o dinheiro do Banco da China estava à disposição em todas as agências de todos os bancos, por toda a colônia. A corrida aos bancos terminara. Lá pelas três horas, muitos clientes estavam fazendo fila, voltando para depositar de novo o seu dinheiro.

Pouco antes da abertura da Bolsa às dez da manhã, Gornt lhe telefonara.

— Aceito — dissera.

— Não quer barganhar?

— Não quero clemência da sua parte, assim como você não pode esperá-la da minha parte. Os papéis estão a caminho.

O telefone emudeceu.

— E quanto ao Quillan? — perguntou ela novamente.

— Fizemos um acordo. Abrimos a 28, mas deixei que ele recomprasse a 18.

Ela o fitou, boquiaberta. Sem pensar, fez o cálculo rápido.

— Isso lhe custou cerca de dois milhões! Mas são os dois milhões do Linc. Então, o Quillan está salvo!

— Contei ao Linc a transação, e que isso lhe custaria os seus dois milhões, e ele achou graça. Ressaltei que, com os ne­gócios da General Stores e da Par-Con, sua perda de capital de dois milhões ia ser superada por um ganho de capital de vinte ou mais. — Dunross fitou-a, avaliando-a. — Achei justo que os dois milhões fossem confiscados, digamos assim.

— Não está me dizendo que deixou o Gornt livrar a cara a troco de nada?

— Não. Recuperei a minha linha aérea. O controle da AH Ásia Airways.

— Ah! — Casey sentiu um arrepio, lembrando-se da his­tória daquela noite de Natal em que Gornt e o pai foram inesperadamente até a Casa Grande. A tristeza dela estava quase extravasando. — Quer me fazer um favor?

— Claro. Desde que não seja para o Quillan.

Ia pedir a Dunross para deixar que o Gornt pudesse ser administrador, para que tivesse a sua tribuna. Mas não pediu. Sabia que teria sido uma perda de tempo.

— Que favor?

— Nada. Agora, nada. Já vou indo, Ian.

Exausta, muito exausta, pôs-se de pé. Seus joelhos tremiam. Ela inteira doía monstruosamente. Estendeu a mão. Ele a tomou e a beijou com o mesmo gesto gracioso de que ela se lembrava da noite da festa, da primeira noite na Galeria Longa, quando, assustada, vira a faca enterrada no coração do retrato. Subita­mente, a sua agonia chegou ao auge e ela teve ganas de gritar o seu ódio por Hong Kong e pelo povo de Hong Kong, que, de alguma forma, haviam causado a morte do seu Linc. Mas não o fez.

Depois, ordenou a si mesma, apegando-se ao limite das suas forças: "Não se descontrole. Não ceda. Seja auto-sufi­ciente. Precisa ser, agora. O Linc se foi para sempre".

— Até breve, Casey.

— Adeus, Ian — disse ela, e se retirou.

Ele ficou fitando a porta fechada por longo tempo, depois soltou um suspiro e apertou uma campainha. Dali a um mo­mento, Claudia apareceu.

— Boa noite, tai-pan — cumprimentou, com o seu cari­nho imenso. — Há alguns telefonemas que precisam ser resol­vidos. O mais importante é o do jovem Duncan, que quer pedir emprestados mil HK.

— Para que diabo quer o dinheiro?

— Parece que quer comprar um anel de diamantes para uma "senhora". Tentei arrancar-lhe o nome dela, mas ele não contou.

"Ah, Deus, a sheila", pensou Dunross, voltando-lhe à lem­brança o que o filho dissera sobre a sua "garota", Sheila Scragger, a enfermeira da Inglaterra, de férias com Duncan no rancho australiano de Paldoon.

— Bem, ele não vai comprar grande coisa com mil. Diga-lhe que tem que me pedir. Não, espere! — Pensou um momen­to. — Dê-lhe mil da "caixinha"... ofereça-lhe juros de três por cento ao mês, contra a sua garantia por escrito de que você pode tirá-los da mesada dele, à proporção de cem por mês. Se ele cair nessa, aprenderá uma bela lição. Senão, eu lhe darei os mil, mas só na próxima Páscoa.

Ela concordou com um aceno de cabeça, depois acrescen­tou com tristeza:

— Pobre srta. Casey! Está morrendo por dentro.

— E.

— Eis os seus telefonemas, tai-pan. O jovem Linbar ligou de Sydney. Por favor, ligue para ele quando tiver um mo­mento. Ele acha que já pôs a Woolara na linha de novo.

Dunross fitou-a.

— Puxa vida!

— O sr. Alastair ligou dando os parabéns, o seu pai, e a maioria dos membros da família. Por favor, ligue para o jovem Trussler em Johannesburg, é sobre os tórios. — Deu uma fun­gada. — A sra. Gresserhoff telefonou para se despedir.

— Quando vai partir? — perguntou Dunross, cautelosa­mente, já sabendo o vôo.

— Amanhã, no primeiro vôo da jal. Não foi horrível sobre o Travkin? Ah, como fiquei triste!

— É. — Travkin morrera durante a noite. Dunross visi­tara-o no Hospital Matilda várias vezes, mas o seu treinador não recobrara a consciência desde o acidente de sábado. — Já descobrimos algum parente dele?

— Não. Não tinha nenhuma namorada especial, ou... ou alguém. O jovem Jacques tomou todas as providências para o enterro.

— Ótimo. É, é o mínimo que podemos fazer por ele.

— Vai montar no sábado?

— Não sei. — Dunross hesitou. — Lembre-me de falar com os organizadores para darmos ao quinto páreo o nome de Travkin... um meio de agradecer-lhe.

— Sim, ah, seria maravilhoso! Gostava tanto dele, é, seria maravilhoso.

Dunross olhou para o relógio.

— O meu compromisso seguinte já está Iá embaixo?

Já.

— Ótimo — disse o tai-pan, a fisionomia se fechando. Desceu para o andar inferior, para o seu escritório.

— Boa tarde, sr. Choy, em que posso servi-lo? Já lhe mandara pêsames por Wu Quatro Dedos. Quando a porta se fechou, Paul Choy enxugou as mãos sem notar.

— Vim tratar do primeiro passo, senhor. Lamento termos tido que adiar de ontem para hoje, mas... as impressões na cera... encaixaram-se numa das suas duas meias moedas res­tantes?

— Primeiro, quero saber quem está com a outra metade, agora que Quatro Dedos é um ancestral.

— A família Wu, senhor.

— Quem na família Wu? — perguntou Dunross com aspereza, deliberadamente grosseiro. — A moeda foi dada a um indivíduo que a passaria adiante a um indivíduo. Quem?

— Eu, senhor.

Paul Choy devolveu o olhar do tai-pan, sem medo, muito embora seu coração estivesse batendo mais depressa do que nunca... até mesmo mais do que quando ele estava no junco, havia uma eternidade... o sangue jovem do Lobisomem nas mãos, o corpo semimorto e mutilado apoiado nele, e o pai gri-tando-lhe para jogar o homem ao mar.

— Terá que provar que o Quatro Dedos deu-a a você.

— Desculpe, tai-pan, não tenho que provar nada — re­plicou Paul Choy, Confiantemente. — Tenho apenas que apre­sentar a moeda e pedir o favor. Em segredo. Tudo em segredo, é o acordo. Se é a moeda verdadeira, a sua honra e o prestígio da Casa Nobre estão em jogo, e o fa...

— Sei o que está em jogo para mim. — Dunross fez a voz o mais áspera possível. — Você sabe?

— Senhor?

— Estamos na China. Muitas coisas curiosas acontecem na China. Acha que sou um idiota para ser logrado por uma lenda antiga?

O rapaz sacudiu a cabeça, a garganta apertada.

— Não, o senhor não é absolutamente nenhum idiota, tai-pan. Mas, se eu apresentar a moeda, o senhor concederá o favor.

— Qual é o favor?

— Primeiro acho que gostaria de saber se o senhor... se o senhor está convencido de que é uma das quatro. Eu estou convencido.

— Está mesmo?

— Estou, sim, senhor.

— Sabe que esta moeda foi roubada de Phillip Chen? Paul Choy fitou-o, depois recuperou-se rapidamente.

— Esta moeda é do Wu Quatro Dedos. Não sei nada de roubo algum. Ela veio do meu pai, é só o que sei. Era do meu pai.

— Devia devolvê-la a Phillip Chen.

— O senhor alguma vez a viu, esta moeda determinada, nas mãos dele?

Dunross já conversara com Phillip Chen sobre a moeda.

— Não há maneira de provar que ela é sua, Phillip? — perguntara-lhe.

— Nenhuma, tai-pan. Nenhuma — dissera o velho, tor­cendo as mãos.

Dunross mantinha os olhos fitos penetrantemente no jovem.

— Ela é de Phillip Chen. Paul Choy mexeu-se, irrequieto.

— Havia quatro moedas, tai-pan. A do sr. Chen deve ser uma das outras. Esta pertence... pertencia ao meu pai. Lem­bra-se do que ele disse em Aberdeen?

Dunross fitou-o, calado, tentando abalá-lo, lidando com ele à moda ocidental. Paul Choy vacilou, mas manteve o olhar firme. "Interessante", pensou Dunross. "Você é um Sacaninha durão, e bom. Será que é um emissário de "Wu Dente de Ouro, ou um ladrão, e está aqui por sua conta?" Deixou o silêncio pesar, usando-o para minar o seu oponente enquanto reconsi­derava sua posição. No minuto em que Paul Choy telefonara, na véspera, solicitando uma entrevista, soubera qual o motivo dela. Mas, como cuidar daquilo? "Quatro Dedos mal acabou de morrer e já tenho um novo inimigo", pensou, "forte, bem-treinado, com colhões às pampas. Mesmo assim, tem seus pon­tos fracos, como todo mundo. Como você. Gornt é um deles. Riko podia ser outro. Ah, Riko! O que há nela que o toca tanto?

"Esqueça isso! Como recobrar a meia moeda antes do favor?"

— Imagino que tenha a sua metade com você. Vamos agora ao avaliador — disse, levantando-se, testando Paul Choy.

— Não, senhor, desculpe, mas não. — Paul Choy sentiu que seu coração ia estourar, a tira de couro à volta do seu pescoço virando repentinamente um nó corredio, a meia moeda queimando sua carne. — Desculpe, mas não acho que seja uma boa idéia.

— Acho que é uma idéia muito boa — continuou Dunross bruscamente, pressionando-o. — Iremos buscá-la. Vamos!

— Não. Não, obrigado, tai-pan. — Paul Choy falou com uma polidez firme que impressionou Dunross. — Podemos fa­zê-lo na semana que vem, por favor? Digamos, na próxima sexta? Não há pressa.

— Não estarei em Hong Kong na sexta-feira.

— Sim, senhor. Estará no Japão. Poderia me dar uma hora durante a sua visita ao país? A hora que lhe for conve­niente. Para ir visitar um avaliador?

Os olhos de Dunross se estreitaram.

— Parece saber muita coisa, sr. Choy.

— Aqui é fácil descobrir qualquer coisa, senhor. O Japão seria melhor para ambos. Menos chance de uma... uma man­cada, e no Japão somos ambos iguais.

— Está sugerindo que aqui o senhor não será?

— Não, não, tai-pan. Mas, como disse, estamos na China, coisas estranhas acontecem na China. Quatro Dedos e seu gru­po também são bem relacionados. A moeda é jogada de pessoa para pessoa, tem que ser tratada dessa maneira. É o que eu acho.

Paul Choy agora estava suando, agradecendo a Deus pelo fato de que parte do favor era manter tudo em segredo. Desde que trouxera de volta o corpo de Quatro Dedos, estivera ma­nobrando para obter poder na família. Finalmente, conseguira exatamente o que desejara, a posição especialíssima (em termos da Máfia) de consigliere, assessor-chefe de Wu Dente de Ouro, o filho mais velho, agora o chefe titular dos Wu Marítimos. "É o que somos", pensou, o medo subindo à tona de novo. "Mafiosos chineses. Não há sangue em mim, também? Estava a bordo com o ópio. O que o Dente de Ouro sabe que eu não sei?"

— Pode confiar em mim, Dente de Ouro — dissera ao irmão, lutando pelo seu futuro.

— Infelizmente, tenho pouca escolha. Estou navegando em águas desconhecidas. Preciso de toda a ajuda que puder obter. Sua perícia será muito valiosa — dissera Dente de Ouro no seu inglês muito britânico, quando estavam nos estágios fi­nais da negociação.

— Calculo que possamos trabalhar juntos.

— Sejamos francos, Irmão. Ambos estudamos em univer­sidades, os outros não. Precisamos um do outro, e os Wu Marítimos precisam se modernizar. Não posso fazê-lo. Preciso de ajuda séria... meus anos dirigindo os Barcos do Prazer não me qualificam para o comando. Eu vivia pedindo, mas, bem, conhece o nosso pai. Santo Deus, não podia sequer mudar a taxa por hora de uma garota sem pedir a aprovação dele. Os quatro dedos dele estavam em todos os navios, em cada transa­ção da frota.

— Claro, mas agora, se os capitães dele toparem as mu­danças, daqui a um ano você terá a operação chinesa mais bem dirigida da Ásia.

— É exatamente o que desejo. Exatamente.

— E quanto ao ópio?

— Os Wu Marítimos sempre transportaram essa carga.

— E quanto às armas?

— Que armas?

— Ouvi boatos de que Quatro Dedos ia se meter em con­trabando de armas.

— Não estou sabendo nada de armas.

— Vamos nos livrar do tráfico de ópio e heroína. Vamos ficar bem longe dos narcóticos. Não é verdade que ele ia se unir àqueles dois palhaços, Yuen Contrabandista e Lee Pó Branco?

— Boatos. Vou pensar no que sugeriu. Mas que fique claro que agora sou o comandante da frota e o chefe dos Wu Marítimos. Minha decisão é definitiva. Vamos trocar idéias. Você será consigliere, com tudo o que isso implica, mas, se eu tomar uma decisão, será definitiva. Por exemplo, soube do gol­pe, o golpe da Bolsa, que você deu sem a permissão dele. Foi brilhante, sem dúvida, mas isso não pode mais acontecer... devo ser consultado, e saber com antecedência.

— De acordo. Mas, de agora em diante, também estou trabalhando por conta própria. Pedi demissão da Gornt. Poderei continuar quaisquer negócios particulares que tenha começado com Quatro Dedos.

— E quais são?

— Na sexta-feira ele me adiantou dois milhões para jogar na Bolsa. Meu trato com ele era 17,5 por cento dos lucros. Quero todos os lucros.

— Cinqüenta por cento.

— Noventa por cento. A partir de agora, não há nada que me prenda a Hong Kong. Mesmo a cinqüenta por cento, se vender as ações atuais, e, a propósito, só eu sei quais são, já estarei valendo uns três milhões de dólares americanos.

Haviam barganhado e concordado em setenta por cento, sendo que os trinta por cento de Dente de Ouro seriam deposi­tados numa conta numerada num banco da Suíça.

— Calculo que o mercado ainda vá subir por mais dois dias, depois vendo tudo. Minha decisão, certo?

— Certo. Lucrativo cai bem em você, Irmão Mais Moço, melhor do que Paul. Gostaria de ficar com Lucrativo. O que mais estava fazendo com o Quatro Dedos?

— Havia uma última jogada. Ele me fez jurar segredo, para sempre. Para sempre, com juramentos de sangue. Tenho que cumprir a vontade dele.

Relutante, Wu Dente de Ouro concordara, e agora, espe­rando que o tai-pan lhe respondesse sobre o Japão, a confiança do jovem estava transbordando. "Sou rico. Tenho todo o poder de Dente de Ouro, se precisar dele, tenho um passaporte ame­ricano e vou para o Havaí. No Japão há uma chance de eu passar a perna em Dunross... não, passar-lhe a perna, não, ele é bom demais para isso, mas quem sabe ali poderei ter uma avaliação justa para provar, definitivamente, que a minha moeda é verdadeira."

— O Japão seria conveniente para o senhor, tai-pan?

— Ouvi dizer que ganhou uma nota preta na Bolsa.

O jovem abriu um amplo sorriso, sem esperar a mudança de assunto.

— Sim, senhor. Estou com uns cinco milhões e meio de dólares americanos de lucro.

Dunross soltou um assobio.

— Nada mal para duas semanas de trabalho, Choy Lucra­tivo. Com quinze por cento de impostos — acrescentou, ino­centemente.

O jovem fez uma careta e caiu na armadilha.

— Que diabo, sou cidadão americano e estou sujeito aos impostos americanos, esteja onde estiver. — Hesitou. — Tenho umas boas idéias que... escute, tai-pan, podíamos fazer um negócio que seria bom para o senhor e bom para mim.

Dunross viu os olhos de Paul Choy se apertarem, e sua cautela aumentou.

— O meu Velho confiava no senhor — disse o jovem. — O senhor e ele eram Velhos Amigos. Talvez eu pudesse herdar isso... ser digno disso, algum dia.

— Devolva a moeda livremente, e eu lhe concederei todo tipo de favores.

— As primeiras coisas em primeiro lugar, tai-pan. Pri­meiro, vamos descobrir se a minha moeda é verdadeira. No Japão, certo?

— Não. Ou aqui, ou nada feito! — exclamou Dunross bruscamente, resolvendo arriscar.

Os olhos de Paul Choy se estreitaram ainda mais. Abrup­tamente, também tomou a sua decisão. Enfiou a mão sob a camisa, pegou a moeda e colocou-a sobre a mesa.

— Em nome de Jin-qua, peço um favor do tai-pan da Casa Nobre.

No silêncio, Dunross fitou a moeda.

— E então?

— Primeiro: quero status de Velho Amigo, igual ao do Quatro Dedos, com tudo o que isso implica. Segundo: quero ser nomeado diretor da Struan por um período de quatro anos, com um salário igual ao dos outros diretores... para manter as aparências comprarei um bloco de ações na Bolsa, fazendo as minhas ações chegarem a cem mil. — Sentiu uma gota de suor escorrer-lhe do queixo, no silêncio. — A seguir: quero uma joint venture, sociedade meio a meio, uma usina farmacêutica com a Struan, com um capital de seis milhões de dólares americanos... eu darei a metade dentro de trinta dias. Dunross fitou-o, perplexo.

— Para fazer o quê?

— O mercado para a farmacopéia em toda a Ásia é vasto. Poderíamos ganhar uma nota, com a sua experiência em fabri­cação, a minha em marketing. De acordo?

— Isso é tudo? Todo o favor?

— Três coisas mais. A...

— Só três? — perguntou Dunross, com sarcasmo evi­dente.

— Três. Primeiro, no ano que vem vou fundar outra Bolsa de Valores. Vou...

— Vai o quê? — perguntou Dunross, boquiaberto, real­mente desconcertado.

Choy Lucrativo sorriu largamente e enxugou o suor do rosto.

— Claro. Uma Bolsa de Valores para os chineses, dirigida por chineses.

Subitamente, Dunross riu.

— Você tem colhões, Choy Lucrativo. Ora, se tem! A propósito, não é uma idéia nada má. O que tem a nova Bolsa a ver comigo?

— Só quero a sua benevolente assistência de Velho Amigo para começar, para impedir os graudões de me bloquearem.

— Por cinqüenta por cento.

— Por condições internas muito favoráveis. Muito favorá­veis, garantidas. Depois — o jovem apegou-se à sua esperança —, quero que me apresente ao Lando Mata e diga-lhe que me está apoiando como parte do grupo do meu pai, para fazer um lance para o monopólio do sindicato de jogatina e ouro. Está certo?

— Você falou em três coisas. Qual a última?

— Daqui a três anos, um lugar de administrador no Turf Club. Durante esse período, garanto doar um milhão de dólares americanos para qualquer instituição ou instituições de cari­dade que o senhor indicar, apoiarei todas as causas dignas, e juro por Deus que tornarei a coisa o mais fácil possível para o senhor. — O rapaz enxugou o suor. — Acabei.

Dunross hesitou.

— Se a moeda for verdadeira, concordarei com tudo, exce­to com a parte sobre Lando Mata.

— Não. Isso faz parte do acordo.

— Não concordo.

— Não pedi nada ilegal, nada que não possa conce...

— Menos o Lando Mata!

O rapaz soltou um suspiro. Tirou a moeda da mesa, olhou para ela.

— Se ele está fora, todo o acordo está cancelado, e vou fazer o pedido de Wu Quatro Dedos em seu lugar. Ainda é a mesma moeda — disse, preparando-se para a última cartada.

— É?

— E isso o tornará ligado a narcóticos, armas, e tudo o que o senhor detesta, mas que terá que respeitar. Desculpe, tai-pan, mas estou jogando para ser um ancestral. — Largou a moeda de volta sobre a mesa. — O senhor decide.

Dunross ficou subitamente perturbado. O favor fora ex­presso inteligentemente. Nada ilegal, nada extravagante. Paul Choy se saíra muito bem contra ele. Bem demais. Quatro Dedos ele conhecia direitinho. "Mas esse aí, esse rebento do demônio? Não posso me arriscar com narcóticos... ele sabe disso."

Para dar-se tempo, Dunross tirou do bolso a sacolinha de seda e pôs a sua moeda sobre a mesa. Juntou a sua metade à outra. Encaixaram-se perfeitamente.

Sem sentir, os dois homens soltaram a respiração, fitando a moeda agora unificada que os prenderia um ao outro para sempre. Dunross sabia que era perda de tempo, mas iria ao ava­liador assim mesmo. Por um momento, segurou as duas metades na mão. "O que vou fazer com esse sacana atrevido?", per­guntou-se. "Ah, uma boa idéia! Entregar o problema a Phillip Chen."

— Muito bem, Choy Lucrativo — disse, colocando-o no topo de sua lista particular de pessoas suspeitas. — Concordo em conceder-lhe o favor... se a sua metade for verdadeira... exceto que pedirei ao Lando, não posso ordenar-lhe nada. Está bem?

— Obrigado, tai-pan, não vai se arrepender. — Molhado de alívio, Choy Lucrativo apresentou uma lista de nomes. — Eis aqui todos os peritos avaliadores de Hong Kong. Quer escolher um? Eu... bem... verifiquei, e todos ficam abertos até as sete horas.

Dunross deu um leve sorriso.

— Tem muita confiança em si mesmo, Choy Lucrativo.

— Só tento me manter à frente do jogo, senhor.

Casey saiu do Edifício Struan e foi até o Rolls que a espe­rava. Prontamente, Lim abriu a porta para ela. Recostou-se nas almofadas, sem sentir nada, sem saber de nada, exceto que sua angústia a estava consumindo, e que a qualquer momento ia desmoronar, nem mesmo notando que o Lim metera o carro no tráfego denso para se dirigir para a balsa.

As lágrimas estavam muito perto. "Tanto tempo ainda antes de partirmos!", pensou. "Todas as malas já feitas e envia­das para o avião. Já saí do hotel, paguei todas as contas, mas ainda resta tanto tempo!"

Por um momento, chegou a pensar em mandar parar o carro e sair andando a esmo, mas aquilo seria pior, nenhuma privacidade, nenhuma proteção, e ela se sentia tão arrasada! "No entanto, preciso sair, ficar sozinha. Preciso. Oh, Deus, Linc, pobre Linc!"

— Lim — disse, obedecendo a um impulso —, vá até o Pico.

— Senhorita?

— Siga até o topo do Pico, até o mirante. Por favor — pediu, tentando desesperadamente manter o tom de voz normal. — Eu, eu ainda não estive Iá. Quero ir antes de partir. Por favor.

— Sim, senhorita.

Casey recostou-se e fechou os olhos contra as lágrimas que jorravam, silenciosas.

 

               18h45m

O sol estava quase se pondo.

Lá em Lo Wu, a aldeia na fronteira entre a colônia e a China, os bandos costumeiros de chineses cruzavam a ponte nas duas direções. A ponte mal tinha cinqüenta metros de comprimento, e ficava sobre um riachinho lamacento, e no entanto, para alguns, aqueles cinqüenta metros eqüivaliam a um milhão de quilômetros. Nas duas extremidades havia casas de guarda e postos de controle da Imigração e da alfândega, e, no meio, uma pequena barricada removível. Dois policiais de Hong Kong e dois soldados da RPC montavam guarda ali. Dois trilhos de trem cruzavam a ponte.

Antigamente, os trens vinham de Cantão para Hong Kong, e vice-versa, sem parar. Mas agora os trens de passageiros para­vam de cada lado, e os passageiros atravessavam a pé. E os trens voltavam por onde tinham vindo. Os trens de carga vin­dos da China passavam sem problemas. Na maior parte dos dias.

Cada dia, centenas de habitantes locais cruzavam a fron­teira como cruzariam qualquer estrada. Seus campos de trabalho ficavam dos dois lados da fronteira, havia gerações. Essa gente da fronteira era vigorosa, desconfiada, odiando mudanças, odian­do interferência, odiando fardas, odiando especialmente a polícia e qualquer tipo de estrangeiros. Para eles, como para a maioria dos chineses, um estrangeiro era qualquer um que não perten­cesse à sua aldeia. Para eles não havia fronteira, jamais poderia haver fronteira.

A ponte de Lo Wu era um dos locais isolados mais sensí­veis em toda a China... ela e mais dois outros locais de cruza­mento. Um deles ficava em Mau Kam Toh, onde gado e legumes entravam diariamente por uma ponte desconjuntada sobre aque­le mesmo riacho, que marcava a maior parte da fronteira. O último, na extremidade oeste da fronteira, ficava na aldeia pesqueira de Tau Kok. Ali, a fronteira não era demarcada, mas, por acordo comum, acompanhava o curso da única rua da aldeia.

Esses eram os únicos pontos de contato da China com o Ocidente. Tudo era meticulosamente controlado e vistoriado... pelos dois lados. A tensão e as atitudes dos guardas eram um barômetro.

Naquele dia, os guardas do lado comunista de Lo Wu esta­vam nervosos. Por causa disso, o lado de Hong Kong também estava nervoso, sem saber o que esperar... talvez um fechamen­to repentino, talvez uma invasão repentina, como a do ano anterior, já que a colônia existia por capricho da China.

— E esse é um fato da vida — resmungou o inspetor-chefe Smyth. Naquele dia fora destacado para Lo Wu, serviço especial, e estava de pé, inquieto, perto da delegacia de polícia, que se situava discretamente a uns cem metros da fronteira real, para não ofender ou criar caso. "Porra", pensou, "criar caso? Um traque em Londres poderia dar início a uma marcha de milhões de refugiados para cá... se os poderosos do outro lado da fronteira decidissem que aquele punzinho era uma afron­ta à dignidade da China." — Vamos logo, puta que o pariu! — exclamou com impaciência, a camisa caqui grudada às costas, os olhos voltados para a estrada que levava a Hong Kong. Estava empoçada, e se enroscava a perder de vista. Então, na distância, viu o carro da polícia se aproximando. Muito aliviado, foi recebê-lo. Armstrong saltou. Depois Brian Kwok. Smyth saudou Armstrong com o seu bastão para disfarçar o choque. Brian Kwok estava à paisana. Tinha um olhar curioso, vago, apavorado. — Alô, Robert! — disse Smyth.

— Alô! Desculpe o atraso — disse Armstrong.

— São só uns minutinhos. Na verdade, disseram-me ao pôr-do-sol.

Smyth apertou os olhos na direção do oeste. O sol ainda não se pusera. Voltou a atenção para Brian Kwok. Era difícil não demonstrar o seu desprezo.

O chinês alto e bonitão pegou um maço de cigarros. Seus dedos tremiam ao oferecê-lo a Smyth.

— Não, obrigado — disse Smyth friamente. Armstrong aceitou um. — Pensei que tinha parado de fumar.

— Parei. Recomecei.

Brian Kwok soltou uma risada nervosa.

— Temo que seja por minha culpa. Robert vem tentando manter... manter o Crosse e os anjos dele longe do meu pé.

Nenhum dos homens achou graça.

— Vem mais alguém? — perguntou Smyth.

— Acho que não. Não oficialmente. — Armstrong olhou ao seu redor. Havia os habituais espectadores interessados, mas pareciam casuais. — Mas estão aqui. Em algum lugar. — Os dois homens sentiram os pêlos da nuca se arrepiarem. — Pode prosseguir.

Smyth pegou um documento formal.

— Wu Chu-toy, aliás Brian Kar-shun Kwok, você é for­malmente acusado de espionagem contra o governo de Sua Majestade, em favor de uma potência estrangeira. Com a auto­ridade da Ordem de Deportação de Hong Kong, ordena-se formalmente que seja expulso da colônia da Coroa. Se voltar, está formalmente avisado de que o fará por sua conta e risco, e que é passível de detenção e prisão, segundo a vontade de Sua Majestade.

Com ar sombrio, Smyth entregou-lhe o papel. Brian Kwok segurou-o. Parecia levar muito tempo para ver e ouvir, seus sentidos embotados.

— Agora... o que vai acontecer? Smyth falou:

— Você atravessa aquela maldita ponte e volta para os seus cupinchas.

— Hem? Acha que sou um idiota? Acha que acredito que estão, estão me soltando? — Brian Kwok virou-se bruscamente para Armstrong. — Robert, estou lhe dizendo que eles estão brincando comigo, com você, jamais me soltarão! Você sabe disso!

— Você está livre, Brian.

— Não... não, sei o que está acontecendo. No momento em que eu estiver... estiver quase Iá, eles me trarão de volta. É a tortura da esperança, não é? — Sua voz estava ficando estridente, um pouco de espuma se formando no canto dos lábios. — Mas, é claro! A tortura da esperança.

— Puta que o pariu, já lhe disse que está livre! Está livre para partir — disse Armstrong, a voz dura, querendo terminar tudo. — Vá, puta que o pariu! Não me pergunte por quê, mas eles o estão soltando. Vá!

Cheio de descrença, Brian Kwok limpou a boca, começou a falar, interrompeu-se.

— Vocês... é uma... é uma mentira, tem que ser!

— Va!

— Está bem, eu... — Brian Kwok deu um passo, depois parou. Eles não se tinham movido. — Estão... estão falando sério?

— Estamos.

Brian Kwok estendeu a mão trêmula para Smyth, que olhou para ela, depois para o rosto dele.

— Se dependesse de mim, você seria fuzilado. Um lampejo de ódio passou pelo rosto de Kwok.

— E quanto a você e à sua corrupção? E quanto à venda de proteção...

— Não vamos começar com isso! H'eung yau faz parte da China! — rosnou Smyth, e Armstrong concordou com um aceno de cabeça, inquieto, lembrando-se dos primeiros qua­renta mil que jogara no sábado. — Um tutuzinho por fora é um antigo costume chinês — continuou Smyth, tremendo de raiva. — A traição, não. Fong-fong foi um dos meus rapazes antes de ir para o sei. Vá tomar no eu e atravesse logo essa porra de ponte, antes que eu o faça atravessar a chicotadas!

Brian Kwok começou a falar, parou. Desoladamente, ofe­receu a mão a Armstrong, que a apertou, sem amizade.

— Isso é só pelos velhos tempos, pelo Brian que conheci. Também não aprovo os traidores.

— Eu... eu sei que fui drogado, mas obrigado.

Brian Kwok recuou, ainda suspeitando de um truque, de­pois se virou. De poucos em poucos segundos olhava para trás, apavorado de que estivessem vindo atrás dele. Quando seus pés indecisos chegaram à ponte, começou a correr desesperada­mente. A tensão atingiu o auge. A polícia na barricada não o deteve. Nem os soldados. Os dois lados, avisados com antece­dência, fingiram não notá-lo. As pessoas que atravessavam de cada lado dos trilhos, bicicletas, pedestres, carroças, a maior parte carregadas, não lhe deram nenhuma atenção. Do outro lado da barricada, Brian Kwok parou bruscamente e se virou.

— Vamos vencer, vamos vencer, vamos vencer, vocês sa­bem! — gritou para eles, o peito ofegando. — Vamos!

Depois, ainda suspeitando de um truque, ele se curvou e fugiu para a China. Perto do trem, Armstrong e Smyth viram um grupo indefinido de pessoas interceptá-lo, mas agora ele já estava longe demais para que eles pudessem enxergar com cla­reza. A tensão na ponte decresceu. O sol começou a se pôr.

Na pequena torre de observação em cima da delegacia, Roger Crosse observava com um binóculo de alta potência. Estava bem escondido. Ao lado dele estava um operador do sei com uma câmara telescópica, igualmente escondido. Sua fisio­nomia se fechou. Um dos homens que fora receber Brian Kwok era Tsu-yan, o milionário desaparecido.

O sol tinha quase se escondido sob os mares ocidentais. Casey estava no mirante do Pico, Hong Kong inteira espalhada Iá embaixo, as luzes acesas ao crepúsculo, parte da cidade e de Kowloon cor de sangue, parte já escura, com sombras profundas e luzes faiscantes. O sol desapareceu, e a noite, a noite de ver­dade, começou.

Mas ela não enxergava a beleza de tudo aquilo. Seu rosto estava molhado das lágrimas. Estava apoiada no gradil do canto mais afastado, indiferente. Os outros turistas e pessoas que esperavam nos pontos de ônibus próximos a deixaram em paz... todos preocupados demais com a própria vida.

— Por todos os deuses, ganhei uma fortuna hoje...

— Comprei logo cedo, e dobrei a porra do meu di­nheiro ...

— Ayeeyah, eu também, e passei a maior parte do dia negociando um empréstimo do Best Bank contra a minha car­teira de ações...

— Graças aos deuses que o Reino Médio salvou a pele daqueles demônios estrangeiros estúpidos...

— Comprei Casa Nobre a 20...

— Soube que desenterraram mais dois corpos em Ko­tewall, e que agora o total atingiu sessenta e sete mortos?...

— Joss! Não é uma maravilha a alta da Bolsa? A previsão do Velho Cego Tung deu certo de novo...

— Soube da minha irmã, a Terceira Arrumadeira Fung, do Grande Hotel? Ela e o seu grupo compraram na pior hora, e agora é milionária...

Casey não ouvia nada, não via nada, o sofrimento domi-nando-a completamente. Gente que ia e vinha, alguns namora­dos. Os únicos europeus eram turistas com as suas máquinas fotográficas. Casey se escondeu deles da melhor maneira que pôde.

— Posso ajudar em alguma coisa? — um deles perguntou.

— Não, não, obrigada — replicou, a voz monótona, sem olhar para ele, impotente para deter as lágrimas.

"Tenho que parar", pensou. "Tenho que parar. Tenho que começar de novo. Tenho que começar de novo, ser forte e viver, por mim e pelo Linc. Tenho que protegê-lo, e ao que é dele, tenho que ser forte, ser forte.

"Mas como?"

— Não vou me largar — disse para si mesma, em voz alta. — Não vou. Tenho que pensar.

"Tenho que pensar no que o tai-pan disse. Não no casa­mento, oh, Linc, nisso não. Tenho que pensar em Orlanda. 'Será demais esperar que elas sejam amigas?' Será que ele disse mesmo isso?

"O que fazer com relação a ela?

"Enterrá-la. Ela tirou o Linc de mim. É. Mas isso estava dentro das minhas regras, as regras que estabeleci. O Ian tem razão. Ela não é como o Quillan, e foi o Linc... foi ele que gamou por ela, que saiu com ela. Ela não é como Quillan Gornt."

Quillan. E quanto a ele? Fora ao hotel naquela tarde, oferecendo-lhe novamente qualquer ajuda de que precisasse. Ela lhe agradecera e recusara.

— Estou bem, Quillan. Tenho que resolver isso por mim mesma. Não, por favor, não vá se despedir de mim. Por favor. Talvez daqui a trinta dias eu esteja de volta. Estarei melhor, então.

— Vai assinar com a Struan?

— Vou. É o que quero fazer. Desculpe.

— Não há por que se desculpar. Já foi avisada. Mas isso não a impede de jantar comigo na primeira noite em que chegar. Certo?

— Certo.

"Oh, Quillan, o que vou fazer com você?

"Nada durante trinta dias. Linc precisa dos próximos trin­ta dias. Totalmente. Tenho que protegê-lo dos abutres."

Seymour Steigler, por exemplo. Pela manhã fora à suíte dela.

— Ei, Casey, providenciarei o caixão e...

— Está providenciado, tudo já foi feito.

— Não diga! Formidável. Escute, já fiz as malas. Jannelli pode levá-las, e estarei no aeroporto com tempo de sobra para poder...

— Não. Vou levar o Linc para casa sozinha.

— Mas que diabo, Casey, temos um bocado de coisas para conversar. Há o testamento dele, os negócios da Par-Con. Agora temos tempo de resolvê-los direitinho. Podemos adiar, e quem sabe ganhar uns pontinhos. Nós...

— Tudo isso pode esperar. Vejo você em Los Angeles. Tire uns dias de folga, Seymour. Esteja de volta na segunda-feira.

— Segunda? Pela madrugada, há um milhão de coisas a serem feitas! Os negócios do Linc vão levar um ano para se desembaraçarem. Temos que arranjar orientação depressa. Claro, a melhor da cidade. Vai ser a primeira coisa que farei, arranjar o melhor. Não se esqueça da viúva e dos filhos dele. Ela vai entrar na justiça em nome deles, claro que vai... e além disso, existe você! Que diabo, você tem direito a uma gorda fatia! Nós também vamos entrar na justiça, pois você não foi uma mulher para ele durante sete anos...

— Seymour, está despedido! Suma daqui e...

— Que diabo deu em você? Só estou pensando nos seus direitos legais e...

— Não escuta bem, Seymour? Está despedido!

— Não pode me despedir. Tenho direitos. Tenho um contrato!

— Você é um filho da puta. Vai ganhar o máximo para liquidar o seu contrato, mas se sair atrás de mim ou do Linc ou dos negócios do Linc, cuidarei para que não ganhe nada. Nada. Agora, suma daqui e vá para o inferno!

Casey enxugou as lágrimas, lembrando-se da sua raiva ex­plosiva. "Bem, ele é um filho da puta. Nunca tive certeza antes, mas agora tenho. Que bom que o despedi! Aposto qualquer quantia que ele sairá farejando como uma hiena. Claro. Aposto que irá procurar a ex-sra. Bartlett, se já não ligou para ela, e atiçá-la para representar a prole dela num ataque contra a Par-Con e o Linc. Claro, aposto qualquer quantia que o verei nos tribunais, de uma maneira ou de outra.

"Bem, que Deus me ajude, juro que ele não vai me derro­tar. Protegerei o Linc, custe o que custar.

"Esqueça aquele filho da mãe, Casey. Esqueça as batalhas que vai ter que lutar, concentre-se no agora. E quanto a Orlan­da? Linc, Linc gostava dela... amava-a, talvez. Amava? Não sei ao certo. E jamais saberei.

"Orlanda.

"Devo ir vê-la?"

 

                   20h05m

Orlanda estava sentada na escuridão do seu quarto no Hotel Mandarim, fitando a noite. Sua dor se esgotara.

"Joss o que houve com o Linc", disse a si mesma pela décima milésima vez. "Joss. Agora tudo está como era antes. Tudo tem que recomeçar. Os deuses riram de mim de novo. Talvez haja uma nova chance... claro que vai haver uma nova chance. Há outros homens... Ah, Deus! Não se preocupe, tudo vai continuar como era. Quillan disse para eu não me preocupar, que a minha mesada vai continuar..."

O telefone tocou, sobressaltando-a.

— Pronto?

— Orlanda? É Casey. — Orlanda sentou-se ereta, de cho-fre, atônita. — Vou partir hoje à noite, mas queria vê-la antes de ir embora. Seria possível? Estou aqui embaixo.

Sua inimiga lhe telefonando? Por quê? Para se vangloriar? Mas as duas tinham perdido.

— Está bem, Casey — disse, hesitante. — Quer subir? Aqui ficaremos mais à vontade. 363.

— Certo, 363.

Orlanda acendeu a luz e correu para o banheiro para dar uma olhada no rosto. Viu tristeza e lágrimas recentes... mas não viu sinais de velhice. Ainda não. Mas a velhice vinha vin­do, pensou, sentindo um arrepio de apreensão. Passou um pente nos cabelos e pintou um pouco os olhos. Não precisava de mais nada. Por enquanto.

"Pare com isso! A velhice é inevitável. Seja asiática! Man­tenha-se consciente."

Calçou os sapatos. A espera parecia longa. Seu coração doía dentro do peito. A campainha tocou. A porta se abriu. Cada uma percebeu na outra a própria desolação.

— Entre, Casey.

— Obrigada.

O quarto era pequeno. Casey notou duas pequenas valises encostadinhas junto à cama.

— Também vai partir? — perguntou, a própria voz lhe soando tão distante.

— Vou. Vou me hospedar na casa de amigos dos meus pais. O hotel é... bem... é um pouco caro. Meus amigos disseram que posso ficar com eles até achar outro apartamento. Sente-se, por favor.

— Mas está coberta pelo seguro? Orlanda piscou.

— Seguro? Não, não, acho que não. Nunca... não, acho que não.

— Quer dizer que perdeu tudo? — indagou Casey, com um suspiro.

— Joss. — Orlanda alçou ligeiramente os ombros. — Não faz mal. Tenho um dinheirinho no banco e... estou bem. — Viu o sofrimento no rosto de Casey, e sentiu compaixão. — Casey — falou rapidamente —, sobre o Linc. Não estava ten­tando prendê-lo numa armadilha, não para nada de ruim. É verdade que o amava, e é verdade que teria feito qualquer coisa para casar com ele, mas isso é apenas justo, e acredito sinceramente que teria sido uma mulher maravilhosa para ele, teria me esforçado muito para ser a melhor, sinceramente. Eu o amava mesmo e... — Novamente o ligeiro alçar de ombros.

— Você sabe. Sinto muito.

— É, eu sei. Não há necessidade de se desculpar.

— A primeira vez que a vi, em Aberdeen, na noite do incêndio — Orlanda continuou, rapidamente —, pensei que o Linc era tolo, que talvez você fosse tola por não... — Soltou um suspiro. — Talvez você tenha razão, Casey, não há nada para conversarmos. Principalmente agora.

As lágrimas recomeçaram. E as lágrimas dela, a sua rea­lidade, trouxeram lágrimas aos olhos de Casey.

Por um momento ficaram ali sentadas, as duas mulheres. Depois Casey pegou um lenço de papel, secou os olhos, sentin­do-se péssima, sem ter resolvido nada, desejando agora terminar rapidamente o que havia começado. Pegou um envelope.

— Aqui tem um cheque no valor de dez mil dólares americanos. Acho...

Orlanda soltou uma exclamação abafada.

— Não quero o seu dinheiro! Não quero nada de...

— Não é da minha parte, é do Linc. Ouça um momento.

— Casey contou-lhe o que Dunross dissera sobre Bartlett. Tudo. Repeti-lo a destroçava novamente. — Foi o que o Linc disse. Acho que era com você que queria se casar. Pode ser que eu esteja errada. Não sei. Mesmo assim, ele gostaria que você tivesse algum dinheiro do dane-se... alguma proteção.

Orlanda sentiu que seu coração ia estourar ante a ironia daquilo tudo.

— Linc falou "padrinho de casamento"? De verdade?

— Foi.

— E para sermos amigas? Queria que fôssemos amigas?

— Queria — disse Casey, sem saber se estava fazendo a coisa certa, o que Linc teria querido. Mas, sentada ali, vendo a beleza juvenil e terna, os olhos grandes, a pele exótica que não precisava de maquilagem, o corpo perfeito, novamente não pôde culpá-la. Nem ao Linc. "A culpa foi minha. Não dele e nem dela. E sei que o Linc não a teria deixado abandonada. Sendo assim, também não posso. Por ele. Queria que fôssemos amigas. Talvez possamos ser." — Por que não tentamos? — perguntou. — Escute, Hong Kong não é lugar para você. Por que não tenta outro lugar?

— Não posso. Estou presa aqui, Casey. Não sei fazer nada. Não sou nada. Meu diploma não vale nada. — As lágri­mas voltaram. — Sou... ficaria louca marcando relógio de ponto.

Seguindo um impulso repentino, Casey disse:

— Por que não tenta os Estados Unidos? Talvez eu possa ajudá-la a arrumar um emprego.

— Como?

— É. Quem sabe no mundo da moda... não sei exata­mente o quê, mas posso tentar.

Orlanda a fitava, incrédula.

— Você me ajudaria, de verdade?

— Sim. — Casey colocou o envelope e seu cartão em cima da mesa, e levantou-se, o corpo todo doído. — Vou tentar.

Orlanda dirigiu-se para ela e abraçou-a.

— Oh, obrigada, Casey, obrigada.

Casey devolveu o abraço, as lágrimas das duas se mis­turando.

A noite agora estava escura, com pouca luz vindo da lua pequena, que aparecia de vez em quando por entre as nuvens altas. Roger Crosse caminhou em silêncio até o portão meio oculto nos muros altos que cercavam o Palácio do Governo, e usou a sua chave. Trancou o portão atrás de si, caminhou rapi­damente pela trilha, mantendo-se nas sombras. Perto da casa, fez um desvio e foi para o lado leste, desceu alguns degraus até a soleira de uma porta e usou outra chave.

A porta se abriu, também silenciosamente. O sentinela armado, um gurkha, mantinha o rifle em posição.

— A senha, senhor!

Crosse deu a senha. A sentinela bateu continência e se afastou para o lado. No fundo do corredor, Crosse bateu à porta, que foi aberta pelo ajudante-de-ordens do governador.

— Boa noite, superintendente.

— Espero não tê-lo feito esperar.

— Não, de modo algum.

O homem foi na frente, seguindo, por porões que se co­municavam, até uma porta espessa de ferro instalada numa caixa de concreto toscamente construída no meio do porão principal, uma adega, com prateleiras de vinhos próximas. Pe­gou a chave única e destrancou-a. A porta era muito pesada. Crosse entrou sozinho e fechou a porta atrás de si. Depois de entrar e trancar a porta, relaxou. Agora estava totalmente pro­tegido de ouvidos e olhares indiscretos. Ali era o Santuário dos Santuários, uma sala de conferência para conversas muito particulares, a sala de concreto e centro de comunicações cons­truídos laboriosamente por oficiais de confiança do sei, britâni­cos apenas, para assegurar que não houvesse dispositivos de escuta inimigos inseridos nas paredes (a estrutura inteira era testada semanalmente por peritos da Divisão Especial), para o caso de haver elementos infiltrados.

Num dos cantos ficava o complicado transmissor, altamen­te sofisticado, que fornecia os sinais para o aparelho, que os misturava num código indecifrável para os inimigos, daí para o complexo de antenas no topo do Palácio do Governo, daí para a estratosfera, daí para Whitehall.

Crosse ligou-o. Ouviu um zumbido reconfortante.

— O ministro, por favor. Aqui fala Asiático Um. Sentia grande prazer em usar seu codinome interno.

— Sim, Asiático Um?

— Tsu-yan era uma das pessoas que foi receber o espião, Brian Kwok.

— Ah, então podemos cortá-lo da nossa lista.

— Os dois, senhor. Agora estão isolados. No sábado, o desertor Joseph Yu foi visto atravessando a fronteira.

— Diabo! É melhor designar uma equipe para vigiá-lo. Temos pessoal no centro atômico deles em Siankiang?

— Não, senhor. Contudo, corre um boato de que Dunross vai encontrar-se com o sr. Yu em Cantão, dentro de um mês,

— Ah, e quanto ao Dunross?

— É leal... mas jamais trabalhará para nós.

— E quanto ao Sinders?

— Atuou bem. Não o considero um risco de segurança.

— Ótimo. E quanto ao Ivánov?

— Zarpou ao meio-dia. Não achamos o corpo de Suslev... vamos levar semanas para vasculhar todos aqueles escombros. Com a morte do Plumm, teremos que reconsiderar a Sevrin.

— É um estratagema bom demais para deixar morrer, Roger.

— Sim, senhor. O outro lado vai pensar a mesma coisa. Quando o substituto de Suslev chegar, verei o que eles têm em mente, depois podemos formular um plano.

— Ótimo. E quanto ao De Ville?

— Vai ser transferido para Toronto. Por favor, avise à Polícia Montada. A seguir, sobre o porta-aviões nuclear: cinco mil e quinhentos oficiais e marinheiros, oitenta e três mil tre­zentos e cinqüenta toneladas, oito reatores, velocidade máxima de sessenta e dois nós, quarenta e dois Phantons II F-4, com capacidade nuclear, dois Hawks Mark V. Curiosamente, sua única defesa contra um ataque é uma fileira de SAM a boreste...

Crosse continuou a fazer o seu relatório, muito satisfeito consigo mesmo, adorando o seu trabalho, adorando estar dos dois lados, de três, lembrou a si mesmo. É, agente triplo, com dinheiro de sobra, os dois lados sem confiar nele completamen­te e, no entanto, precisando dele, rezando para que estivesse do lado deles... não dos outros.

"Às vezes, até eu mesmo me pergunto de que lado estou", pensou, com um sorriso.

No terminal de Kai Tak, Armstrong estava encostado pe­sadamente ao balcão de informações, vigiando a porta, sentin­do-se podre. Como sempre, o terminal estava fervilhando. Para sua surpresa, viu Peter Marlowe chegar com Fleur Marlowe e as duas filhas, carregando bonecas e valises. Fleur estava pálida e abatida. Marlowe também. Estava carregado de malas.

— Alô, Peter — cumprimentou Armstrong.

— Alô, Robert. Está fazendo serão?

— Não, só vim trazer a Mary. Partiu para a Inglaterra para um mês de férias. Boa noite, sra. Marlowe, lamento o que aconteceu.

— Ora, obrigada, superintendente, estou bem...

— Vamos para Binkok — interrompeu a menina de qua­tro anos, solenemente. — Fica no cotinete.

— Que é isso, sua boba? — falou a irmã. — É Bunkok, no continente. É a China — acrescentou, com ar importante. — Também vamos tirar férias. Mamãe esteve doente.

Peter Marlowe sorriu com ar cansado, o rosto vincado.

— Bangkok durante uma semana, Robert. Umas férias para Fleur. O velho dr. Tooley disse que era importante para ela ter um descanso. — Interrompeu-se ao ver que as duas meninas estavam discutindo. — Quietas, as duas! Querida — disse para a mulher —, vá confirmar as nossas passagens. Da­qui a pouco eu vou.

— Claro. Vamos indo. Ora, comportem-se, vocês duas! Afastou-se, as duas meninas saltítando à sua frente.

— Infelizmente, as férias não vão ser Iá grande descanso para ela — disse Peter Marlowe. A seguir, baixou a voz. — Um dos meus amigos pediu-me que passasse adiante a informa­ção de que a reunião em Macau da turma dos narcóticos será nesta quinta-feira.

— Sabe onde?

— Não. Mas parece que o Lee Pó Branco é um deles. E um americano. Banastasio. É o que dizem.

— Obrigado. E?

— É só.

— Obrigado, Peter. Faça uma boa viagem. Ouça, há um sujeito na polícia de Bangkok que você deve procurar. Inspetor Samanthajal... diga a ele que fui eu que o mandei.

— Obrigado. Uma desgraça o que houve com o Linc Bartlett e os outros, não? Santo Deus, e eu também fui convidado para aquela festa.

— Joss.

— É. Mas isso não o ajuda, nem aos outros, não é? Pobres coitados! Até a semana que vem.

Armstrong ficou vendo o homem alto se afastar, depois voltou para o balcão de informações e se apoiou nele, continuan­do a sua espera, desolado.

Seus pensamentos voltavam-se inexoravelmente para Mary. Na noite anterior tinham tido uma briga dos diabos, principal­mente por causa de John Chen, mas também por causa dos últimos dias, Brian e o Quarto Vermelho e o fato de pegar o dinheiro, apostando-o todo em Pilot Fish, esperando agoniado, depois ganhando e devolvendo os quarenta mil à gaveta da mesa de trabalho — sem precisar mais tocar num só centavo —, e pagando suas dívidas e comprando uma passagem para ela, para casa, e depois outra briga, e ela dizendo:

— Esqueceu o nosso aniversário de casamento! Não é tão importante assim para ser lembrado, é? Oh, odeio este maldito lugar, e os malditos Lobisomens, e o maldito tudo. Não me espere de volta!

Desanimado, acendeu um cigarro, detestando o gosto, e no entanto apreciando-o. O ar estava úmido de novo, desagra­dável. Então, viu Casey entrar. Apagou o cigarro e foi inter­ceptá-la. O andar pesado dela entristecia-o.

— Boa noite — cumprimentou, sentindo-se muito can­sado.

— Ah, alô, superintendente. Tudo bem?

— Tudo. Vou acompanhá-la.

— Ah, quanta gentileza!

— Lamentei à beça o que houve com o sr. Bartlett.

— É. É, obrigada.

Continuaram a andar. Ele sabia que não devia mais falar. O que havia para se dizer? Uma pena, pensou, gostando dela, admirando-lhe a coragem, provada no incêndio, provada na en­costa, provada agora, mantendo a voz firme quando estava com­pletamente destroçada.

Não havia alfândega para quem partia. O funcionário da Imigração carimbou o passaporte dela e devolveu-o com uma cortesia fora do comum.

— Por favor, faça boa viagem e volte logo. A morte de Bartlett fora manchete.

Seguiram pelos corredores até a sala vip. Armstrong abriu a porta para ela. Para surpresa de ambos, Dunross estava Iá. A porta de vidro para o portão 16 e a pista estava aberta, o Yankee 2 logo além dela.

— Oh, oh, alô, Ian! — disse ela. — Mas eu não queria que você...

— Tive que vir, Casey. Desculpe. Tinha umas coisinhas a acertar com você, e vim esperar um avião. Meu primo está vindo de Formosa... foi arranjar os locais das fábricas, depen­dendo da sua aprovação. — Dunross lançou um olhar para Armstrong. — Boa noite, Robert. Tudo bem?

— O mesmo de sempre. — Armstrong estendeu a mão para Casey e deu-lhe um sorriso cansado. — Já vou indo. Faça uma boa viagem. Tudo estará liberado logo que subir a bordo.

— Obrigada, superintendente. Quero... obrigada. Armstrong cumprimentou Dunross com um gesto de ca­beça e começou a se retirar.

— Robert, aquela mercadoria foi entregue em Lo Wu? Ele fingiu pensar.

— Sim, creio que sim — disse, vendo o alívio do outro.

— Obrigado. Pode esperar um momentinho? Gostaria de saber mais detalhes.

— Pois não — retrucou Armstrong. — Estarei esperando Iá fora.

Quando estavam a sós, Dunross entregou a Casey um enve­lope fino.

— Este é um cheque administrativo no valor de setecentos e cinqüenta mil dólares americanos. Comprei ações da Struan para você a 9,50 e vendi a 28.

— Como?

— Bem, eu comprei logo para nós... a 9,50, como prometi que faria. Sua parte do negócio foi três quartos de um milhão. A Struan ganhou milhões. Eu também ganhei milhões, assim como Phillip e Dianne; deixei que soubessem cedo, também.

Ela não conseguia aceitar.

— Desculpe, não estou entendendo.

Ele sorriu e repetiu o que dissera, depois acrescentou:

— Há também outro cheque... no valor de um quarto de milhão de dólares americanos pela sua participação na com­pra de controle da General Stores.

— Não acredito — disse ela, soltando uma exclamação abafada.

Um sorriso fugaz passou pelo rosto dele.

— É. Daqui a trinta dias, outros três quartos de milhão estarão à sua disposição. Daqui a sessenta dias poderemos adian­tar mais meio milhão, se for necessário.

Atrás dela, na cabine do Yankee 2, Jannelli acionou o primeiro motor a jato, que deu sinal de vida, ruidosamente.

— É o bastante para você ir levando? — perguntou. Ela mexeu a boca, sem emitir som. Depois disse:

— Um quarto de milhão?

— É. Na verdade, chega a um milhão... os dois cheques juntos. A propósito, não se esqueça de que agora é a tai-pan da Par-Con. Esse foi o verdadeiro presente do Linc para você. Tai-pan. O dinheiro não é importante. — Deu-lhe um amplo sorriso e um súbito abraço brusco. — Boa sorte, Casey. Até daqui a trinta dias. Certo?

O segundo motor começou a funcionar, ruidosamente.

— Um milhão de dólares americanos?

— É. Mandarei que Dawson lhe envie alguns conselhos fiscais. Como o seu lucro é dinheiro de Hong Kong, estou certo de que haverá meios legítimos de evitar, não sonegar, os im­postos.

Mais outro motor acordou uivando. Ela o fitava, sem poder falar. A porta da sala vip se abriu, e um homem alto entrou animadamente.

— Alô, Ian! Disseram-me que poderia encontrá-lo aqui.

— Alô, David! Casey, este é David MacStruan, meu primo.

Atordoada, Casey olhou para ele, deu um meio sorriso, mas na verdade não o notou.

— Alô. Mas, Ian, falou... falou a sério?

— Naturalmente. — O último motor começou a funcio­nar. — É melhor subir a bordo. Até o mês que vem.

— Como? Oh, oh, mas eu... é, até.

Tonta, enfiou o envelope na bolsa, virou-se e foi embora. Eles ficaram olhando enquanto ela subia a escada.

— Quer dizer que essa é a famosa Casey — comentou David MacStruan, pensativo. Era tão alto quanto Dunross, porém alguns anos mais moço, ruivo, de olhos curiosamente amendoados, quase asiáticos, embora verdes, o rosto muito can­sado, a maior parte dos três dedos menores da mão esquerda faltando, esmagados pelas cordas do seu pára-quedas.

— É. Essa é Kamalian Ciranoush Tcholok.

— Espetacular!

— Mais do que isso. Pense nela como a Bruxa. MacStruan soltou um assobio.

— É tão boa assim?

— Poderia ser, com o treinamento apropriado.

A bordo do avião, Svensen fechou a porta da cabine e trancou-a.

— Quer alguma coisa, Casey? — perguntou bondosamen­te, muito preocupado com ela.

— Não — retrucou, desalentada. — Só quero ficar sozi­nha, Sven. Eu... eu chamo se precisar de alguma coisa, está bem?

— Certo — disse ele, saindo e fechando a porta. Agora, estava sozinha. Entorpecida, amarrou o cinto e olhou pela janelinha. Em meio às lágrimas, viu Dunross e o outro homem de cujo nome não se lembrava acenando. Acenou também, mas eles não viram.

As nuvens cobriram a lua. Os motores aceleraram, o avião foi taxiando, tomou posição e alçou vôo ruidosamente para o céu negro, subindo bem inclinado. Casey não notou nada, as palavras de Dunross ainda martelando no seu cérebro, sem parar, destroçando-a e recompondo-a de novo.

"Tai-pan. Esse foi o verdadeiro presente do Linc para você", dissera ela. "Tai-pan, o dinheiro não é importante."

Era verdade, mas...

Mas...

O que foi que o Linc dissera naquela primeira vez, naquele primeiro dia na Bolsa? Fora:

"Se o Gornt ganhar, ganharemos. Se o Dunross ganhar, ganharemos. De um jeito ou de outro, tornamo-nos a Casa Nobre... e é para isso que estamos aqui".

A escuridão abandonou-a. Sua mente se desanuviou. As lá­grimas pararam.

"Era isso o que ele queria, realmente queria", pensou, sua excitação aumentando. "Queria que fôssemos a Casa Nobre. Claro. Quem sabe é isso o que posso fazer por ele, fazer deste o seu epitáfio... a Casa Nobre.

— Oh, Linc! — exclamou, alegremente. — Vale a pena tentar. Não vale?

O avião a jato furou as nuvens altas, continuando sua decolagem impecável. A noite estava quente e muito escura, a lua crescente, o vento suave.

Lá embaixo estava a ilha.

Dunross entrou velozmente na Peak Road, dirigindo-se para casa, o tráfego calmo e o motor roncando gostoso. Obede­cendo a um súbito impulso, mudou de direção, parou no miran­te do Pico e ficou parado junto à grade, sozinho.

Hong Kong era um mar de luzes. Lá em Kowloon, outro jato decolou da pista iluminada. Algumas estrelas apareciam, por entre as nuvens altas.

— Meu Deus, como é bom estar vivo! — falou.

 

                                                                                James Clavell  

 

                      

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