Criar uma Loja Virtual Grátis
Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


CAVALO MARINHO NO CÉU / Edmund Cooper
CAVALO MARINHO NO CÉU / Edmund Cooper

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                   

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

Parecia o cenário do Dia da Ressurreição. Talvez fosse apenas um pesadelo irracional em plena luz do dia — com um toque de Brueghel, uma pincelada de Dali e uma pitadinha de Peter Sellers. O conjunto provocava uma vontade irresistível de dar gargalhadas, ou chorar ou fazer outra coisa qualquer. De repente, as pessoas começaram a rir e a chorar — e a fazer outras coisas mais. De fato, não existe nada que possa perturbar, ou desnortear ou incomodar mais do que a total ignorância de onde, como, por que e quem. O primeiro a sair de seu "caixão" foi Russell Grahame. Teve muita sorte. Quase no mesmo instante lembrou-se que era Russell Grahame, Membro do Parlamento, eleito em Middleport North, no condado de Lancashire. Sabia quem era, mas continuou ignorando onde, como e por que. Também faltava-lhe a noção de quando. Deduziu que isso provava tratar-se de algum sonho maluco, e não demoraria em acordar pela voz de alguém dizendo: "Apertem seus cintos, por favor, e apaguem os cigarros. Em mais ou menos dez minutos estaremos aterrissando no aeroporto de Londres". Percebeu que não poderia acordar, pois já estava acordado, e o pesadelo era real. Saíra de um "caixão" que parecia feito de plástico verde. Era o último de uma fila de caixões idênticos, ordenadamente dispostos no meio da rua, entre um prédio que ostentava o letreiro "Hotel" de um lado e outra construção que ostentava o letreiro "Supermercado" do outro. A rua parecia ter uma largura de dez metros e um comprimento de cem. Começava e terminava num mato espesso de gramas e arbustos. Era um minúsculo oásis urbano numa grande savana verde. Em frente ao hotel havia um táxi. Via-se um carro parado ao lado do supermercado. Não se via gente nenhuma — fora as pessoas que estavam emergindo dos caixões verdes. Uma moça de pele escura chutou com violência a tampa de seu caixão, levantou-se, emitiu um grito estridente e desmaiou. Pareceu o sinal que desencadeou uma algazarra completa. Logo emergiram um homem e uma mulher. Ambos eram brancos. Lançaram olhares assustados em volta, encontraram-se, e se lançaram um contra o outro, abraçando-se com tanta força que parecia não quisessem mais se soltar. Dois homens saíram de dois caixões que se encontravam lado a lado, esbarrando um no outro e caíram ao chão; atracaram-se quase que no mesmo instante, começando a lutar. E pararam de súbito. Três moças aterrorizadas estavam rindo e chorando, sentindo-se estranhamente mais seguras compartilhando do mesmo terror. Finalmente dezesseis pessoas, após saírem de dezesseis caixões, começaram a fazer um barulho cujo tamanho poderia ser suficiente para acordar até os mortos, ou pelo menos chamar a atenção de qualquer um que se encontrasse no interior do hotel ou do supermercado. Mas parecia que se houvesse alguém morando no hotel ou fazendo compras no supermercado, já estivesse acostumado com a bagunça provocada pela ressurreição no meio da única rua à vista, para não ter nenhuma curiosidade a respeito. Ninguém apareceu. A algazarra parecia não querer chegar ao fim; as pessoas falavam, gritavam, gesticulavam ou balbuciavam coisas sem nexo. Pareciam confusas, traumatizadas, como se tivessem passado por alguma experiência terrível. E na realidade era isso que acontecera com elas. Aliás, continuava acontecendo.

.
.
.

.
.
.

Russell Grahame, que por algum motivo estranho se sentia completamente alienado daquela absurda confusão, passou repetida e mecanicamente sua mão pelos cabelos, num gesto muito característico que lhe valera, entre seus poucos amigos na Casa dos Comuns, o apelido de "Massagista de cérebro". Não demorou muito em perceber que sua cabeça não tinha a forma costumeira. Descobriu um galo próximo ao cérebro. O galo era de proporções respeitáveis, liso e redondo, com algo que lembrava tecido cicatricial em seu topo. Os cabelos por cima do galo pareciam muito mais curtos que os outros em sua volta. Russell Grahame, Membro do Parlamento, passou a língua sobre os lábios e percebeu de repente que estava se sentindo muito abalado. Precisava de um trago. Precisava muitíssimo de um bom trago. Observou o hotel e começou a andar devagar e com muita cautela em sua direção. Não era admissível que um Membro do Parlamento — mesmo em se tratando de um que finalmente decidira se afastar daquele manicômio em que a euforia de massa era salpicada continuamente por expressões abstratas — caminhasse e fosse cair ao chão no meio da rua. O saguão do hotel estava deserto, a não ser por uma montanha de malas empilhadas logo ao lado da porta giratória. Não havia ninguém atrás do balcão da recepção. Bateu três vezes na campainha, mas ninguém apareceu. Viu na parede um letreiro: "Cocktails-Bar" e uma seta que indicava um curto corredor. Foi para o bar. Também estava deserto. Refletiu por alguns instantes, em seguida dirigiu-se atrás do balcão e despejou uma dose de whisky num copo. Engoliu um bom trago da bebida. Procurou os cigarros com dedos trêmulos. Teve a impressão que a algazarra do lado de fora começava a se acalmar um pouco. Tocou o galo na parte traseira da cabeça e tomou mais um trago de whisky. Começou a se sentir um pouco mais à vontade. Ouviu alguém bater na campainha da recepção. Não provou vontade nenhuma de chegar até lá e dar informações. Que chegassem até onde ele estava se quisessem. Aconteceu assim mesmo. Uma pessoa apareceu. Os outros demoraram mais um pouco para achar o caminho. O homem que apareceu tinha de vinte e cinco a trinta anos — era alto, loiro, de olhos azuis, bastante bem apessoado e com uma aparência extrovertida, do tipo continental. Logo que o viu, Grahame começou a sentir-se muito britânico e bastante idoso por ter quarenta anos. "Uma vodka, das grandes! E que raio aconteceu com o serviço?" o moço alto perguntou agressivo. Grahame encheu um copo de vodka. "Saúde. Não tem serviço por aqui." "Quem é você?" O inglês olhou seu whisky, pensativo, e tomou mais um trago. "Eu também sou um dos mortos ambulantes. Meu nome é Russell Grahame". Sentiu a necessidade de acrescentar: "Inglês... E você?" O moço abriu a boca, fechou-a de novo e colocou o copo de vodka no tampo do balcão com dedos que tremiam. Dava a impressão de estar muito confuso. "Tome todo o tempo que quiser" falou Grahame com simpatia. "Tenho a impressão que não vai faltar tempo. Estou com o palpite que teremos a nossa disposição todo o tempo que quisermos." "Norstedt", anunciou o moço e sua voz parecia conter um curioso tom de dúvida. "Sou Tore Norstedt... sueco. Muito prazer em conhecê-lo." Esticou a mão direita e Grahame apertou-a com toda a cerimônia. "Ótimo, agora sabemos quem somos. Tome mais um drinque. Eu vou tomar mais um." Sorriu. "Acho que são por conta da casa."
"Sim. Muito obrigado." Norstedt também sorriu. "Acredito que talvez a vodka seja o remédio indicado." Num gesto inconsciente apalpou a nuca. Grahame percebeu o gesto. "Não se preocupe", disse. "Eu também estou com um galo. Parece que isso faz parte da operação." Norstedt bateu o copo sobre o balcão com tanta violência que despejou um pouco de vodka. "Que operação? Onde é que nós estamos? Que diabo está acontecendo?" "Fique calmo. Eu também não sei de nada. Após bebermos o suficiente para acalmar a tremedeira, poderemos tentar encontrar algum nexo em tudo isso... Aliás, deixe que o diga: seu inglês é excelente." Norstedt sacudiu a cabeça. "Sueco. Estou falando sueco e você também está falando sueco." Grahame encolheu os ombros. "Como quiser. Mas para seu governo, eu não falo sueco — ou, pelo menos, não falo muita coisa." Teve uma idéia súbita. "Arlanda!" "Sim! Sim, Arlanda!" Norstedt repetiu excitado. "Isso mesmo!" Um primeiro pedacinho do puzzle encontrou seu lugar certo. "O aeroporto de Arlanda", continuou Grahame "O vôo da tarde, de Estocolmo para Londres... Foi aí que eu vi você — foi no aeroporto. Você estava logo a minha frente. Você... você estava com excesso de bagagem. Dez kronor... Agora me lembro que fiquei especulando se me sobrava dinheiro suficiente para pagar meu próprio excesso." "Estou me lembrando! Estou me lembrando!" A voz de Norstedt era quase um grito. "Não consegui achar um táxi. Fiquei pensando que ia perder o avião!" "Fiquei observando os movimentos de seus lábios", falou Grahame e sua voz estava tensa. "Você está falando sueco, por Deus! Mas as palavras que ouço são inglesas!" "Estive fazendo a mesma coisa", confirmou Norstedt. "Os movimentos de seus lábios não são suecos — mas as palavras que eu ouço, sim." Enquanto trocavam essas impressões Grahame percebeu repetidamente o som da campainha da recepção e vozes de pessoas falando alto no saguão do hotel. As vozes se tornaram mais nítidas enquanto seus donos se aproximavam do bar. "Todos os caminhos levam a Roma", observou com voz soturna. "Amigo Norstedt, tenho a impressão que teremos uma reunião bastante interessante."
A reunião foi deveras interessante. E deixou todo mundo frustrado e desnorteado. Russell Grahame preferiu ficar atrás do balcão. Descobriu ser um barman muito eficiente. Isso levou-o à amarga reflexão que parecia mais dotado quando servia bebidas de que quando atuava na política. Quem sabe o que poderia ter acontecido se vinte e cinco anos antes tivesse se submetido a um teste de aptidões profissionais. Poderia agora ser um barman de primeira categoria num hotel de cinco estrelas, em vez de um político de terceira categoria, reduzido a pó entre as mós de um agonizante sistema bi-partidário. Apresentara um pedido de demissão do Partido Trabalhista Parlamentar na mesma hora em que o Partido estava a ponto de excluí-lo de suas fileiras. Enquanto passava suas férias na Suécia decidira, com o mesmo extraordinário senso de oportunidade, apresentar sua demissão do Parlamento na mesma hora em que chegasse em casa. Se chegasse em casa... Os fatos que estavam emergindo na reunião pareciam relegar essa perspectiva para um futuro bastante remoto...
De qualquer forma, durante algum tempo esteve ocupado demais e não teve tempo para reflexões: ficou atendendo aos pedidos de seus companheiros de desventura. Ninguém contestou seu direito de monopolizar o balcão. Muito ao contrário, parecia até que todo mundo pensava que ele era um barman excelente. Já era alguma coisa. Considerando a quantidade de whisky consumida por ele mesmo, começou a lamentar sempre mais de nunca ter feito o tal teste vocacional. Praticamente, a totalidade das pessoas presentes estava tomando uma ou outra bebida alcoólica. O álcool parecia muito apropriado, considerando a situação em que se encontravam. Todas as dezesseis pessoas estavam no bar, após ter abandonado os malucos caixões no meio da maluca rua daquela maluca cidade-fantasma, que parecia ser o centro daquele maluco não-cosmo em que se encontravam a contragosto. As apresentações aconteceram de forma caótica e até espasmódica, todas as vezes que as pessoas conseguiam finalmente lembrar-se de seus nomes. A última a recuperar sua identidade foi uma moça esguia e atraente das Índias Ocidentais que usava o incrível nome de Selene Bergere. Lembrou desse fato interessante enquanto bebia uma coca-cola fartamente temperada com rum, e seu corpo admirável cor de chocolate se encolheu todo num montinho cheio de graça. Ela parecia ser a mais jovem do grupo e fora a última em se lembrar. Russell observou rapidamente os outros e julgou ser o mais velho de todos. Era evidente que fora o primeiro a recuperar sua identidade. Ficou a especular se esses fatos tinham alguma importância. Sem dúvida, o tempo era de especulações. Especulações fantásticas... Entretanto decidiu que antes de se deixar submergir por estranhas fantasias, ou antes de ficar bêbado, ou antes de ambas as coisas ao mesmo tempo, seria preferível passar em resenha os fatos apurados até aquele instante. Primeiro fato: havia dezesseis pessoas na mesma desagradável situação. Oito homens e oito mulheres. Possivelmente o equilíbrio entre os sexos não era uma mera coincidência. Segundo fato: Ninguém sabia por que, como, quando e onde. Os relógios de todos estavam parados, incluindo um, acionado por uma pilha, o qual, como sua dona russa explicou em perfeito inglês, sueco ou outro idioma que fosse, tinha garantia para funcionar um ano inteiro.
Terceiro fato: Todos tinham galos e tecido cicatricial na parte traseira da cabeça. A mais, o grupo era absolutamente internacional, mas todos pareciam capazes de falar corretamente inglês, sueco, francês, hindu e russo, apesar de cada um estar aparentemente falando sua própria língua. Quarto fato: Todos estavam a bordo do mesmo jato que saíra de Arlanda, em Estocolmo, em direção a Heathrow, em Londres. Era interessante notar que os mais moços do grupo levaram algum tempo e precisaram de um pouco de ajuda para chegarem a se lembrar disso. Quinto fato: As malas de todo mundo estavam empilhadas no saguão do hotel — e Russell Grahame só não tinha percebido isso porque, assim refletiu, estava preocupado demais em encontrar o bar. Por sinal, tinha visto todas aquelas bagagens, mas não as tinha ligado com sua própria pessoa e com as pessoas suas companheiras de desterro. Sexto fato: A cidade não era uma cidade, aliás, não era sequer uma aldeia. Havia só o hotel, o supermercado e algumas construções menores nos dois lados de um trecho de rua que começava em lugar nenhum e terminava em lugar nenhum. Dava quase a impressão de ser o cenário para uma fita. Por isso, apresentava possibilidades para uma série de suposições — a começar de um show humorístico para a televisão, e daí por diante. Sétimo fato: Não havia gente. Não havia ninguém, a não ser dezesseis criaturas humanas — pré-embaladas por mãos que não poderiam ser humanas. Isso sem dúvida era muito importante, e ao mesmo tempo pro¬vocava uma certa inquietação. Oitavo fato: Era tudo verdadeiro. Não havia a menor demagogia em tudo aquilo. Era a mais horrível e maldita realidade. "Reuni oito fatos", Grahame anunciou a um homem que acabava de depositar no balcão uma bandeja com oito copos vazios. "Alegro-me muitíssimo, meu velho. Parabéns", exclamou Mohan das Gupta, que tinha vinte e oito anos e era executivo de uma companhia de petróleo hindu. "Que tal, você deixar por enquanto seus fatos na geladeira, e me dar uma cerveja, um gin com limão, um conhaque bem grande e um Bloody Mary?" "Podemos tirar um certo número de conclusões." "Tire todas as conclusões que quiser, mas não seja pão-duro com o conhaque, sim?" Grahame preparou docilmente as bebidas sentindose dominado por uma imensa frustração. Todos pareciam falar a não mais poder — com certeza apresentando as mais desencontradas e fantásticas teorias a respeito de quando acontecera e porquê. Mas o inquérito, toda aquela atividade, faltavam totalmente de coordenação. Não havia disciplina nenhuma. Não havia coesão. Assim, dessa forma ninguém ia chegar a qualquer maldita conclusão. Era o momento de Russell Grahame, Membro do Parlamento, entrar em cena. Realmente suas reuniões constitucionais sempre se revelaram modelos de mediocridade e exemplos de ineficiência, a ponto de deixar todas às vezes seus co-partidários de Middleport North completamente estarrecidos. Mas afinal, que diabo, alguém precisava fazer alguma coisa. "Senhoras e senhores", começou com voz vibrante. "Senhoras e senhores, podem me dar sua atenção por alguns minutos?" "Porque?" Alguém já estava num pileque avançado. "Sua própria atenção não lhe basta mais?" "Porque", continuou Grahame paciente, "me repugna ser parte de um sonho que não é um sonho. Isso me dá enxaqueca. E porque gostaria de voltar a Londres qualquer dia desses — se isso for possível." "Apoiado", disse uma voz masculina, muito britânica. Os rostos se viraram para Grahame com expressões esperançosas e ele começou seu pequeno discurso. "Não vou me demorar em considerações sobre a maneira em que chegamos aqui. Tenho certeza que todos nós vamos nos lembrar disso por algum tempo. Nem pretendo insistir no fato — e vou agradecer a todos se guardarem para mais tarde qualquer observação humorística a respeito — que alguma coisa muito esquisita aconteceu na parte traseira de todas as nossas cabeças. Não possuímos qualquer dado com referência ao tempo; ninguém entre nós tem lembranças que digam respeito ao nosso vôo de Estocolmo a Londres, e acredito que não há ninguém entre nós que tenha a menor idéia sobre o lugar em que nos encontramos." "América do Sul", alguém sugeriu. "Hollywood", disse uma outra voz. "Por favor", Grahame levantou uma mão. "O que eu quis dizer é que não temos o menor indício para adivinharmos onde estamos. Tenho certeza que existem muitas teorias confusas e desencontradas, e teremos todo o tempo de discuti-las mais adiante. Acontece que as únicas provas que possuímos mostram a evidência do absurdo. Chegamos dentro de objetos que não posso descrever de forma diferente: são caixões; estamos numa cidade que comprovadamente não é nenhuma cidade; estamos saboreando bebidas num hotel completamente vazio; e aparentemente, todos ganhamos o dom de entender e expressarmos em muitos idiomas. Pareceme portanto que quem quer que seja — ou qualquer coisa seja — que provocou essa situação, sem dúvida interessante, teve que fazê-lo por algum motivo muito sério. Considerando que nossa bagagem também foi transportada para cá, presumo logicamente que nossa estada aqui não será muito breve." "Conclua, meu velho, conclua", gritou das Gupta com aquele seu jeito muito pessoal. "A conclusão é essa, minha gente", retrucou Grahame com ênfase. "Vamos ter que começar a nos organizar, e já. Caso contrário, poderíamos mais tarde chegar à conclusão que desperdiçamos um tempo precioso torcendo as mãos e chorando dentro dos nossos gin-tônicas." "Com sua licença, sim? O que é que você sugere?" A voz era de uma mulher de cabelos escuros, de uns trinta e cinco anos, mais interessante do que propriamente bonita. Grahame observou-a com satisfação. "Antes de mais nada, acho boa a idéia de nos identificarmos perante todo mundo, assim mais tarde saberemos quem está falando a respeito de que. Eu sou Russell Grahame, Membro do Parlamento... britânico, é claro. E a senhora?"
"Anna Markova, jornalista... russa. Qual é sua linha política, senhor Grahame?" "Isso é importante?" "Poderia ser." "Está bem. Sou socialista — ou pelo menos, uma espécie de socialista." Anna Markova encolheu os ombros. "Poderia ter sido pior." Alguém bateu palmas. "Respondendo à sua pergunta, senhorita Markova, acredito que devíamos nos dividir em grupos. Um grupo poderia vistoriar o hotel e escolher as acomodações — e aposto que vamos precisar disso. Um outro grupo precisaria ver o que há ao redor — o que existe da cidade e a área em volta. Um terceiro grupo poderia ver se há alguma possibilidade de encontrar alimentos. Um quarto grupo, finalmente, poderia ver se conseguimos encontrar um sentido qualquer em nossa situação, além de ajudar os outros em suas tarefas." Um homem alto e magro, de idade aproximada à de Grahame, ou talvez um pouco mais novo, levantouse. "Sou Robert Hyman, funcionário público, inglês. Acredito que as propostas do senhor Grahame são muito sensatas." Mais um homem falou. Era loiro, de constituição pesada. "Gunnar Rudefors, professor, sueco... O senhor Grahame está certo. Precisamos fazer alguma coisa." Uma moça tomou a palavra. Parecia ter uns dezenove anos e estava sentada junto a mais duas moças. Estava muito nervosa e quase não deu para ouvir o que ela estava dizendo. "Chamo-me Andrea Small. Sou estudante e inglesa. Francamente, estou muito assustada. Estou tão assustada que não sei o que fazer. Minhas amigas também... Precisamos de alguém que nos diga o que fazer." "Estou de acordo — e acredito que a maioria de nós também concordará com isso." As palavras vieram de um homem de grandes proporções e cabelos claros. A seu lado estava uma mulher loira, atraente e rechonchuda. O homem continuou: "Meu nome é Paul Redman. Sou um agente literário americano." Acenou para sua companheira: "Esta é minha esposa Marion. Desde que o senhor Grahame é o primeiro entre nós que tenta tomar uma atitude construtiva, achamos que pelo menos por esse motivo, devia ser ele a pessoa que comanda as operações." Tore Norstedt levantou o copo em direção a Grahame. "Senhor, acho que não lhe resta mais nada a fazer, senão aceitar." Olhou rapidamente em volta e acrescentou: "Oh, eu sou Tore Norstedt, oficial radiotelegrafista, sueco."
Grahame bebeu mais um pouco de whisky. "Antes de confessar que eu sou bastante idiota em aceitar essa responsabilidade, gostaria de saber se há objeções? Ou talvez alguém queira sugerir um outro nome?" Todos ficaram calados. Grahame sorriu. "Muito bem. A idéia foi vossa. De qualquer forma, toda a minha experiência demonstra que nunca se consegue nada quando existem muitas discussões. Por isso, desejo estabelecer um regulamento simples à salvaguarda minha e dos outros. Parágrafo primeiro: minha autoridade deve ser absoluta. Parágrafo segundo: Se quatro ou mais pessoas objetam contra minhas ordens, vou ceder essa autoridade a outrem... Vamos votar? Por favor, levantem as mãos." Observando seus companheiros Grahame refletiu que era essa a primeira e única vez em que uma proposta dele era aceita por unanimidade. O choque aconteceu alguns instantes mais tarde. Um homem de estatura baixa, sem características especiais levantou-se. "Meu nome é John Howard. Sou inglês e professor." Indicou a mulher sentada a seu lado que estava movimentando nervosamente seu copo de whisky aguado. "Essa é minha esposa Mary. Ambos ensinamos física, e acredito que percebemos algo que provavelmente ninguém entre vocês percebeu." Hesitou por um instante: "A coisa é bastante estarrecedora... Talvez seria melhor se eu falasse a respeito com o senhor Grahame em particular." Grahame sacudiu a cabeça. "Não sou a favor de segredinhos, senhor Howard. Acho que posso adivinhar seus motivos. Suas revelações poderiam ser alarmantes. Mas nossa situação comum já é bastante alarmante e acredito que cada um de nós tem o direito de conhecer todas as informações. Assim, acho melhor o senhor falar agora." John Howard sorriu um pouco sem jeito. "Receio que a coisa seja um pouco negativa... Quando o senhor começou a falar, alguém aqui sugeriu que poderíamos estar na América do Sul. Sinto muito, mas preciso afirmar que essa possibilidade e as outras devem ser excluídas." "Nesse caso, o senhor talvez saiba onde estamos?" Grahame perguntou com um surto de esperança. "Não. Só sei onde não estamos." "Como assim?" "Não estamos na Terra", Howard declarou com tristeza. Suas palavras foram seguidas por um silêncio geral e prolongado. Todos os rostos se viraram para ele.
Grahame passou a língua nos lábios. "Como é que o senhor pode afirmar isso?" "Quando saí daquele — hum — daquele caixão, eu pulei. Foi uma coisa involuntária, pelo menos a primeira vez. Em seguida, quando consegui me controlar melhor, pulei de propósito. Para experimentar." Sorriu. "Mary fez a mesma coisa, logo que parou de chorar." "Vocês deram pulos?" Grahame repetiu sem conseguir compreender. "Isso mesmo. Estou surpreso que ninguém tenha percebido nada. Acho que vocês iam ter percebido. Estamos com menos de um G. A força de gravidade desse planeta parece ser somente três quartos da força de gravidade da Terra... Experimentem um pouco. Mas cuidado, para não bater com a cabeça no forro." Uma meia dúzia de pessoas começou a pular com expressão compenetrada. Subiram no ar até três, quatro, cinco e também seis pés. Quando desciam, isso acontecia vagarosamente. Os rostos se tornaram pálidos e tensos. Ninguém desmaiou. Um homem, porém, e três mulheres começaram a chorar.
Russell Grahame despejou uma boa dose de whisky em seu copo e chegou à conclusão que precisava dizer alguma coisa. Sem perder tempo.
O resto da tarde — pois pela posição e o movimento do sol conseguiram estabelecer que era de tarde — passou num claro-escuro, alternando momentos de tensão dramática com outros totalmente absurdos. O sol não parecia diferente daquele outro sol que todos se acostumaram a ver desde que nasceram, apesar de ninguém conseguir olhar para ele de forma direta. Mas todos perceberam que ele parecia se movimentar um pouco mais rápido no arco do céu. Todos conseguiram repor em movimento seus relógios, com exceção do relógio que estava precisando de uma pilha nova — e fazendo um cálculo por alto, viram que esse dia estranho teria um comprimento de aproximadamente vinte horas da Terra. Antes de formar os grupos para compor uma aparência de ordem naquilo que por enquanto parecia o caos, Grahame fez a chamada do que ele, num surto de humor negro, apelidou sua legião estrangeira. A primeira medida foi de simplesmente anotar seus nomes, idades, nacionalidades e profissões, para ter uma idéia de quem poderia fazer o que. Prometeu a si mesmo de pedir mais detalhes em seguida e, que sabe, descobrir aptidões que fossem de utilidade para todos. Entretanto, ele pensou, havia uma necessidade urgente de mandá-los fazer algo o mais rápido possível — não fosse por outro motivo, para dar-lhes a ilusão que não estavam completamente desamparados e vítimas de uma situação extremamente esquisita. Ninguém conseguia lembrar quantas pessoas estavam no jato de Estocolmo para Londres, mas parecia certo que o total dos passageiros, superava largamente dezesseis pessoas. Mais tarde poderiam especular a respeito do destino dos pilotos, dos comissários e do resto. Por enquanto, parecia mais sensato concentrar todos os esforços em avaliar a situação presente e torná-la o quanto mais possível segura, considerando as circunstâncias. Os ingleses compunham a exata metade da legião estrangeira de Grahame. Refletindo, chegou a conclusão que a proporção não era extraordinária para um vôo entre Estocolmo e Londres no fim da estação turística. Escreveu cuidadosamente seu próprio nome, encabeçando a lista, e depois anotou os nomes dos outros desterrados ingleses. A seguir anotou dois americanos, dois suecos, um hindu, uma russa, uma francesa e a moça das Índias Ocidentais.
Antes de formar os grupos estudou a lista com o maior cuidado. Era a seguinte: Russell Grahame, Membro do Parlamento, 39 anos, inglês Robert Hyman, 39 anos, inglês, funcionário público Andrew Payne, 28 anos, inglês, ator de TV John Howard, 31 anos, inglês, professor e Mary Howard, 27 anos, inglesa, professora, sua esposa Janice Blake, 20 anos, inglesa, estudante de economia doméstica Andrea Small, 20 anos, inglesa, estudante de economia doméstica Marina Jessop, 20 anos, inglesa, estudante de economia doméstica Paul Redman, 40 anos, americano, agente literário e Marion Redman, 32 anos, americana, dona de casa, sua esposa Gunnar Rudefors, 35 anos, sueco, professor Tore Norstedt, 25 anos, sueco, oficial rádiotelegrafista Mohan das Gupta, 28 anos, hindu, relações públicas (companhia petrolífera) Anna Markova, 33 anos, russa, jornalista de modas Simone Michel, 23 anos, francesa, artista Selene Bergere, 21 anos, das Índias Ocidentais, modelo Examinando a lista, Grahame percebeu que a profissão do ensino estava bem representada, mas isso não era nada fora do comum. Nesses tempos os professores estavam sempre viajando para um ou outro lado. Suspirou. Um médico, um cientista de um tipo qualquer e quem sabe, dois ou três braçais marrudos seriam, nas circunstâncias atuais, de muito maior utilidade que pessoas como o ator de TV, o agente literário, o relações públicas e as moças que tinham escolhido uma carreira. De qualquer forma, uma coisa parecia bastante clara: as criaturas ou coisas ou o que mais fosse, que tinham planejado o seqüestro, o rapto, a transferência — não existia uma palavra única para descrever o ato — não tiveram nenhuma preocupação em compor um grupo equilibrado. Isto é, sem considerar o equilíbrio dos sexos, e este fato em si já era suficiente para despertar bastante curiosidade... De qualquer forma, essa circunstância poderia ser estudada mais adiante. Por enquanto era necessário tomar uma atitude a respeito de assuntos mais importantes.
Dividiu as pessoas em quatro grupos de quatro, como já pensara antes. O estado-maior, que ele também definiu como o grupo auxiliar de reserva, era formado por ele mesmo, Gunnar Rudefors e Paul e Marion Redman. Dois outros grupos eram compostos de duas mulheres e dois homens cada — eram os grupos de exploração — e o quarto grupo, cuja tarefa era de procurar alimentos, era composto pelo radiotelegrafista sueco e as três estudantes inglesas. O estado-maior elegeu por sede o bar e os outros foram cumprir suas tarefas. Logo, e aos poucos, começaram a chegar informações interessantes. A primeira e mais importante foi a de que não havia sinal de criaturas vivas dentro de um raio de cerca de um quilômetro. A cidade era composta unicamente pelo hotel, o supermercado, um pedaço de rua e algumas pequenas construções equipadas com máquinas simples de oficina. A rua começava num mato baixo que poderia ser definido como uma savana, e também terminava na savana. O taxi estacionado ao lado do hotel parecia ser um Mercedes. Faltava-lhe o motor e a bateria. O carro estacionado ao lado do supermercado era um Saab: também faltavam a bateria e o motor.
O supermercado estava cheio de alimentos. Tore Norstedt e suas três assistentes femininas, que a esse ponto estavam adorando, encontraram carrinhos providenciais que foram carregados de alimentos e empurrados para o hotel do outro lado da rua. Durante esse tempo dois do grupo auxiliar — Gunnar Rudefors e Paul Redman — retiraram os caixões de plástico verde do meio da rua, empilhando-os de forma ordenada atrás de um dos barracos. Examinaram demoradamente os caixões. O plástico era muito leve, mas assim mesmo duríssimo, tanto que foi impossível sequer arranhá-lo com a ponta de um canivete de aço. Internamente eram forrados com um material esponjoso que podia ser cortado a faca: mas não descobriram mais nada além desses dois fatos. O hotel tinha vinte quartos, dez de casal e dez de solteiro. Além disso, possuía uma cozinha perfeitamente equipada, completa de uma geladeira e uma máquina para lavar louça. Todos os quartos tinham água corrente quente e fria. A iluminação era elétrica e funcionava perfeitamente. De fato, era um típico pequeno e confortável hotel, desses que a gente poderia encontrar em qualquer parte da Europa. A água encanada e a iluminação elétrica deram a Grahame algumas idéias a serem elaboradas mais adiante. Decidiu que, caso não houvesse distrações de outra espécie, não acontecessem aparições e não fossem interrompidos de outro jeito, poderia ser interessante descobrir a origem do encanamento e da força. Alguém, ou então alguma coisa, estava se esforçando muito para que dezesseis criaturas da Terra encontrassem um lar longe de seus lares. O crepúsculo aconteceu de repente, de maneira espetacular — como acontece na Terra nas regiões tropicais e equatoriais — e todos se reuniram no bar para fazer seus relatórios. Parecia óbvio que não existia nenhuma outra alternativa e seriam obrigados a passar a noite no hotel — quem sabe, até uma longa sucessão de noites — e Grahame pediu a Anna Markova, que parecia uma mulher muito eficiente, de distribuir alojamentos. As três estudantes de economia doméstica foram mandadas para a cozinha para pôr em prática as teorias aprendidas. Não demorou e todo o grupo foi se sentar na sala de jantar para saborear uma refeição que poderia ser servida até no Savoy — com a única diferença que todos os alimentos eram enlatados. Quando chegaram ao café e ao conhaque, Grahame decidiu começar um inquérito sobre o total dos acontecimentos e sua seqüência, e lançou a pergunta que interessava a todos. A teoria que mais adeptos tinha e que sem dúvida era devida ao ter assistido a um sem número de filmes e peças de televisão baratas, e à leitura de um número infinito de histórias em quadrinhos, era de que os dezesseis eram vítimas de um seqüestro perpetrado por Marcianos, Venusianos ou qualquer outra raça solar parecida que, com a ajuda de discos voadores, tinham capturado o grupo dentro do jato saído de Arlanda, antes de destruir o avião. John Howard, o professor inglês, foi o primeiro a invalidar essa teoria. Aproximou-se das porta-janelas da sala de jantar, abriu uma e saiu para o terraço. A noite era clara e fria. Convidou o resto do grupo a sair também. As estrelas visíveis no céu não pertenciam a ne¬nhuma das constelações que eles conheciam antes, quando estavam em casa. Também não eram estrelas de constelações do hemisfério austral. Eram estrelas desconhecidas num céu desconhecido. Brilhantes, gélidas e longínquas. E eram terríveis, porque eram estranhas. Grahame percebeu de forma aguda a angústia, a solidão e o desespero dos outros e convidou-os rapidamente a voltar à sala de jantar. Foram sentando com expressão soturna em volta da mesa e começaram mais uma vez a saborear seus cafezinhos. As conversas pararam. Ninguém estava com vontade de discutir as impressionantes e horríveis possibilidades que se apresentavam às suas mentes. Não havia ainda possibilidade de medir o tempo com certeza ou de prever a duração da noite. Era, porém evidente que todos estavam esgotados pelo cansaço — por causa do esforço, do medo, do desespero e dos pensamentos. Duas estudantes já estavam cochilando, sentadas em suas cadeiras. Os acontecimentos foram demais. Um número excessivo de possibilidades assustadoras se apresentavam ao cérebro humano, que não estava em condições de lidar com todas elas. Todo mundo estava precisando descansar. Grahame, porém, decidiu que nem todos poderiam descansar — ou pelo menos, nem todos ao mesmo tempo. Dividiu os oito homens em patrulhas noturnas compostas de dois homens cada, para vigiar em turnos de uma hora. Teriam que cuidar que ninguém invadisse o hotel e que ninguém se machucasse. Mandou também que, como medida de precaução, todas as portas dos quartos ficassem escancaradas.
Durante a noite não aconteceu nada de estranho — a não ser os acessos de choro e alguns brandos ataques histéricos das mulheres e dos homens também, que porém, foram muito mais discretos. Quando o dia voltou a clarear, uma pequena patrulha saiu do hotel para controlar se tudo se encontrava nas mesmas condições do dia anterior, e fez uma descoberta muito interessante. Os caixões empilhados tinham desaparecido.
Antes que chegasse a noite do segundo dia, foram feitas mais descobertas interessantes. Tore Norstedt, o jovem oficial rádio-telegrafista sueco, foi o primeiro a descobrir que com toda probabilidade, o grupo estava sendo observado. Fizera essa constatação logo após terminar seu turno de patrulha, enquanto estava deitado em sua cama, no escuro, procurando dormir. Vira então quatro minúsculos pontos esverdeados, que emitiam uma luz fraca nos cantos do quarto, onde as paredes se encontravam com o forro. Após acender o abajur da mesa de cabeceira — de um tipo muito comum e terrestre, com lâmpada de sessenta watts — examinara os cantos com cuidado. Com a luz, a fraca reverberação esverdeada desaparecera por completo: mas no canto em que as paredes e o forro se encontravam, descobrira quatro lentes, uma em cada canto do quarto, invisíveis a um examinador superficial. As lentes eram diminutas, mais ou menos do tamanho da cabeça de um fósforo, mas não podia haver dúvidas a respeito: eram mesmo lentes. Ficou especulando se seria conveniente raspar a massa da superfície da parede, para expor uma porção maior de equipamento, mas refletiu que talvez fosse preferível deixar as coisas na condição em que estavam. Cedo de manhã quando encontrou-se com Grahame e enquanto tomavam seu desjejum, contou-lhe a respeito. Uma busca aprimorada revelou que todos os quartos eram providos de quatro lentes, e que o mesmo tipo de lentes podia ser encontrado até nos corredores. Grahame ficou muito perturbado com a descoberta. Pediu que Norstedt não falasse com ninguém a esse respeito, pelo menos por algum tempo. A situação de todos já era bastante complicada e não achava necessário piorá-la com a noção da mais total perda de qualquer intimidade. Tore Norstedt disse que estava com vontade de arrancar parte daquele equipamento para examiná-lo, e talvez, em seguida, destruí-lo: mas Grahame optou pelo contrário. Sua experiência na política sugeriulhe uma solução bastante inteligente. Quando todos tivessem abandonado seus quartos, Norstedt teria que passar por todos, colando pequenos pedaços de papel sobre as lentes. Em qualquer outro lugar do hotel as lentes ficariam no estado em que estavam. Grahame achou que dessa forma os observadores compreenderiam que seus espécimes não se recusavam a serem observados, pelo menos em princípio, mas que desejavam resguardar uma parte de suas vidas particulares. Logo após o desjejum organizou uma investigação mais apurada das cercanias — o que não fora possível ou aconselhável no dia da chegada. Dessa vez o grupo que partiu para uma missão de reconhecimento era composto só de homens, comandados por John Howard, o professor inglês, que já tinha comprovado ser uma pessoa dotada de espírito de observação e muito equilíbrio. As instruções foram simples. Teriam que marchar em direção norte durante uma hora, e depois disso voltariam novamente ao hotel. O norte foi determinado tomando por leste a direção em que surgia o sol. Se encontrassem uma elevação qualquer, ela teria que ser usada para observar o terreno em volta. Recomendou que evitassem, em geral, qualquer contato com a vida animal indígena; a menos que fossem atacados e tivessem que se defender, teriam que evitar qualquer ato que poderia eventualmente ser interpretado como uma ação hostil. A questão da necessidade de defesa era uma questão bastante delicada. Grahame sentia uma grande repugnância em mandar que os homens fossem para uma missão que poderia se revelar perigosa sem que eles tivessem qualquer meio de defesa. Uma busca no supermercado, que continuava vazio de compradores, levou a duas descobertas importantes. Em primeiro lugar, todos os mantimentos levados do supermercado no dia anterior, já estavam substituídos por outros do mesmo gênero. Em segundo lugar, descobriram uma seção de ferragens em que, no dia anterior, ninguém reparara. Os quatro homens que compunham a patrulha encontraram na seção de ferragens facas e machadinhas. A temperatura estava se tornando bastante elevada e o sol resplandecia num céu sem nuvens: todos retiraram as roupas mais pesadas. Com as mangas das camisas arregaçadas, as facas no cinto e as machadinhas nas mãos, o grupo se apresentava como um temível bando de assaltantes. Todo mundo saiu do hotel para cumprimentá-los enquanto partiam para aquela volta no interior. Caminhando pela rua que não levava a parte alguma, empunhando suas armas de fortuna e tentando não parecer confusos, eles começaram a perceber de forma aguda o absurdo daquela situação. Grahame também, apesar de sentir que todas as preocupações desse estranho mundo estavam pesando em seus ombros, não conseguiu controlar o riso. O grupo expedicionário se parecia de forma vaga com um ensaio de uma cena de "ópera-buffa".
Voltaram pontualmente duas horas e dez minutos mais tarde. Todos estavam perfeitamente bem. Nenhum deles tinha corrido o menor risco. Mas o relatório não concorreu em nada para aliviar a sensação geral de angústia e insegurança. John Howard relatou em primeiro lugar os fatos que todos concordaram terem observado. Pela sua estimativa, a marcha fora de aproximadamente oito quilômetros por uma planície que não apresentava nenhuma característica especial, a não ser estranhos arbustos, pequenas flores, plantas que se pareciam com samambaias de porte excepcional e capim muito alto. Descobriram que havia um rio e não longe dali viram uma seqüência de colinas de elevação moderada. Mas o grupo, em sua totalidade, não tinha encontrado espécime nenhum de vida animal de qualquer tipo. Houve, porém, dois relatos particulares. O primeiro foi de Paul Redman, o agente literário americano. Ele explicou que enquanto caminhavam em meio a grandes touceiras de capim cuja altura poderia ser estimada em metade da altura de um homem de estatura média, parara para enxugar o suor da testa. Fazendo isso, levantara os olhos para o céu.
Redman afirmou que por um instante vira a passagem de um grupo de criaturas voadoras, brilhantes e extraordinárias. Disse que elas pareciam ter compridos cabelos dourados e rostos diminutos que se pareciam com rostos humanos. Explicou que por quanto estranho pudesse parecer, a única maneira de descrever as criaturas era dizer que tinham a aparência esquisita de fadas. O segundo relato foi feito por Gunnar Rudefors, o professor sueco. Os quatro homens marchavam em fila, cada um a uma distância de uma dúzia de passos do outro. Concordaram que essa era a maneira mais segura de caminhar, considerando que não conheciam nada a respeito da região a ser explorada. O lugar do que encabeçava a patrulha era, claramente, a posição mais perigosa e por isso todos se alternaram como batedores. A vez de Gunnar Rudefors chegou quando já estava quase se esgotando o tempo estabelecido, para a primeira parte da marcha: a patrulha teria que começar o regresso dali a pouco. Estava desejoso de fazer o máximo possível durante aquela primeira expedição e por isso acelerou o passo e acabou precedendo os outros muito mais do que devia. Caminhando desse jeito, emergiu de uma zona cheia de altas samambaias, viu por um instante algo que ele insistiu ser um cavaleiro medieval, coberto por uma estranha e reluzente armadura, a uma distância que julgou ser vinte passos. Gunnar Rudefors não se deixou abalar por observações irônicas e nem por um cerrado interrogatório: a descrição continuou a mesma. O cavaleiro usava uma espécie de visor e seu rosto estava quase que totalmente coberto. Levava também uma arma que parecia uma es¬pécie de espada ou de lança. Estava montado num animal com chifres galhados, e cujo porte era menor do de um cavalo, mas maior do que o de um gamo. O cavaleiro e Gunnar Rudefors se defrontaram durante um momento. Em seguida o cavaleiro resmungou uma palavra, parecida com: "Adiante!" virou sua cavalgadura puxando-a pelos chifres e, trotando, desapareceu entre um grupo de árvores. Quando os outros homens chegaram perto do sueco que parecia petrificado pelo que vira, o cavaleiro já não estava mais lá. John Howard, que era o segundo da fila, admitiu ter ouvido algo parecido ao estalar de cascos e uma espécie de grito, que pensou tivesse sido emitido por Rudefors. Mas não viu coisa nenhuma.
Grahame, após ouvir os relatos dessa expedição, percebeu que estava precisando urgentemente de um drinque. Um drinque bem grande, e já. Não foi o único que sentiu essa necessidade.
Não foi feito nenhum contato com as pessoas ou criaturas responsáveis pelo seqüestro de dezesseis passageiros do vôo Estocolmo-Londres, todavia alguns fatos interessantes aconteceram nos dias seguintes e dois desses fatos tiveram um desfecho trágico. A primeira tragédia foi o suicídio de Marina Jessop, estudante inglesa, com vinte anos. Aconteceu na noite do mesmo dia em que Paul Redman viu as fadas e Gunnar Rudefors viu o cavaleiro medieval. Naquela noite Russell Grahame, Membro do Parlamento e comandante da legião extraterrestre, resumiu após o jantar os fatos conhecidos e comunicou sua interpretação provisória dos mesmos. Não conseguiu evitar fazer um discurso, mas fez o possível para que fosse o mais objetivo possível, consciente da forte tensão emocional que dominava a todos e que sem dúvida continuaria a existir até a situação ficar esclarecida. "Senhoras e senhores", começou, olhando penalizado para o grupo abatido e nervoso, "fiquei pensando um bocado — como também vocês já fizeram — em tudo o que aconteceu conosco. Apesar de estarmos vivendo dentro de um absurdo pesadelo e apesar da irritante falta de informações, acho necessário tentar tirar alguma conclusão do que sabemos, para tranqüilizar minha própria consciência. Evidentemente, estou brincando! Mas preciso ver se tudo isso tem algum sentido. É possível que minha interpretação dos fatos seja totalmente errada, mas vou apresentá-la pelo que vale. Se, após eu terminar, alguém pretende apresentar alguma explicação mais válida, gostaria muito de ouvi-la. Entretanto, aqui vai a minha." Esperou por um instante. "Quero partir da suposição que quanto aconteceu conosco foi feito por razões sérias e não à-toa. Pelo que vimos, fomos todos raptados e levados de um avião a jato em vôo internacional, fomos todos submetidos a uma cirurgia e agora estamos num mundo estranho, que talvez se encontra a uma distância incrível da Terra. Parece-me que toda essa operação, que eu considero abaixo de qualquer crítica, só poderia ter sido efetuada por pessoas ou criaturas cuja civilização está tão mais adiantada que a nossa, como a nossa é adiantada a respeito da Idade da Pedra. "Parou mais uma vez, vendo a tristeza estampada em todos aqueles rostos e acrescentou em tom de brincadeira: "É claro que estou me referindo à Idade da Pedra terrestre. Se podemos acreditar no que diz o senhor Redman, esse planeta poderia ter uma préhistória muito mais colorida." Estava esperando que alguém sorrisse, mas ninguém mudou de expressão. Continuou rápido: "O esforço e os meios usados nessa operação estão além de nossas imaginações baseadas no século vinte. Dizer que foram colossais poderia ser insuficiente. Isso me leva a concluir, minhas senhoras e meus senhores, que fomos trazidos para cá por razões muito sérias. Acredito que o objetivo é de descobrir como somos nós, os da Terra." Teve a absurda impressão de estar pronunciando a palavra com uma letra capital. "Não consigo adivinhar se em seguida seremos levados de volta ou não. Estou, porém convencido que durante nossa estada aqui teremos todos os confortos necessários." "E as fadas?" alguém perguntou. "E que tal o cavaleiro medieval?" observou um outro. Grahame encolheu os ombros. "Existem muitas coisas que ainda não tem resposta. Outras, aliás, que talvez nunca terão resposta. Só podemos concentrar todos os esforços em tentar adivinhar... Eu estou adivinhando, senhoras e senhores, quando digo que estamos sendo observados como espécimes de jardim zoológico. Se realmente existem fadas e cavaleiros circulando por aí, só posso imaginar que eles também não passam de espécimes recolhidos e trazidos para cá. Não tenho a mais pálida idéia de onde possam ter chegado. Poderiam até ser indígenas desse planeta. De qualquer forma, não podem ser eles os responsáveis do que aconteceu conosco. Acho que precisamos fazer logo duas coisas, ambas absolutamente necessárias. Precisamos descobrir o mais possível a respeito do mundo em que nos encontramos e precisamos fazer o impossível para estabelecer um contato direto com as pessoas que nos trouxeram para cá, sem provocar animosidade. Sem dúvida, em comparação com eles, podemos parecer débeis mentais ou bichos. Mas se o grau de progresso ético deles está em alguma relação com seu progresso tecnológico, poderíamos talvez convencê-los a mandar-nos para nossas casas — após um certo período de estudo." Seguiu-se uma pequena discussão, mas ninguém conseguiu oferecer uma explicação melhor ou mais plausível: de fato, todos estavam ainda por demais traumatizados para conseguir pensar com clareza. Aos poucos os casais e os desacompanhados foram se deitar.
Grahame percebeu que as ligações sexuais já estavam começando. No grupo já havia quatro pessoas casadas, mas percebia-se que pelo menos mais quatro tinham assumido uma condição de casados temporários, então achou que isso fosse um mau sinal. Se havia alguém que conseguia encontrar algum conforto no sexo ou em simples companhia, ótimo. Possivelmente conseguiria se manter racional durante um período mais demorado. Marina Jessop estava sozinha num quarto. Suas duas colegas partilhavam outro e a convidaram a ficar com elas. Marina, porém, sempre tivera uma preferência pela solidão e não gostava de interferências na sua intimidade. Subiu para seu quarto e escreveu uma notinha. Em seguida foi tomar banho. Só foi encontrada na manhã seguinte. Um aquecedor elétrico portátil, que parecia ter sido puxado de propósito para dentro da água, resolvera todos seus problemas. A notinha era para Grahame, pessoalmente.
Querido senhor Grahame, Sinto muito por estar desertando. Sou muito covarde mesmo e não agüento mais. Andrea e Janice poderão confirmar que eu sempre fui muito tímida. Tenho medo do escuro e me assusto até com sombras. O que aconteceu conosco é a pior sombra que eu já vi. Estou tão aterrorizada que não consigo mais continuar fingindo que tudo está normal. O senhor precisa me perdoar. Precisa mesmo. Três dias atrás eu estava voltando para minha casa e minha família após lindas férias na Suécia. Estava feliz de voltar para a faculdade. Mas sei — e o senhor também está sabendo — que ninguém entre nós jamais voltará para casa. Esse pensamento me deixa desesperada. Não posso me transformar numa heroína. Não tenho forças suficientes para agüentar ser uma prisioneira, longe de todas as pessoas que eu amo. Seria terrível se eu tivesse que enlouquecer e dar muito trabalho a todos vocês. Por favor, compreenda isso e me perdoe. Se por um acaso o senhor conseguir voltar de alguma maneira, fale com meus pais. Eles moram em Stockport, na Eden Street, 71, no Cheshire. Por favor, diga-lhes que eu fui vitima de um acidente. Tenho também um gato chamado Floco de Neve, mas acho que não adianta dizer a ele que eu sofri um acidente. Acredite, por favor, que eu não seria de nenhuma utilidade para o senhor ou para qualquer um. Lembranças de sua Marina Jessop Grahame chorou após ler a cartinha. Esperou ficar sozinho e chorou. Lembrou-se que o rosto de Marina Jessop estava pálido — muito, muito pálido. Seus cabelos eram lisos, negros e compridos e tivera um olhar distante e perdido. Parecia uma personagem de uma fábula de Hans Andersen. Marina fora a primeira vítima. Ficou especulando quantas mais haveria. Mas a vida tinha que continuar — dentro dos limites do possível. Marina foi sepultada antes do meio-dia atrás do hotel, a uma distância de cinqüenta metros, num trecho em que o terreno era plano e limpo. Anna Markova, que declarava abertamente seu ateísmo, cantou para ela o Salmo 23 com sua belíssima voz de contralto. Mohan das Gupta, um hindu, fabricou uma cruz. E a vida continuou. Durante a tarde Grahame chamou a todos e pediu que fizessem um inventário de tudo o que possuíam, excluindo roupas e artigos de toalete. Achava boa idéia saber quais eram os recursos com que poderiam contar. A lista que resultou continha em sua maioria os costumeiros apetrechos de turistas — máquinas fotográficas, pequenos objetos de vidro ou aço produzidos na Suécia, alguns radinhos de pilha e livros.
Havia, porém alguns objetos de grande valia, como por exemplo um compasso que mostrou que o planeta estava provido de pólos magnéticos — dois pares de binóculos, duas caixas de pronto-socorro bem equipadas, uma boa quantidade de pílulas e até duas máquinas de escrever portáteis. Grahame, em parte para afastar os pensamentos cio pessoal da morte de Marina e em parte porque achava que isso seria de alguma utilidade, estava planejando uma exploração de uma certa envergadura. O grupo encarregado teria que ir para o sul. Sairia ao clarear do dia seguinte e só voltaria ao crepúsculo do segundo dia. Grahame calculava que dessa forma o grupo poderia avançar durante um dia inteiro — percorrendo de vinte e cinco a trinta quilômetros antes de acampar durante a noite — e teria um dia inteiro para voltar. Passar a noite a céu aberto poderia talvez ser perigoso, mas era evidente que tornava-se necessário correr alguns riscos, se eles quisessem apreender fatos importantes. Pediu voluntários. John Howard, que já dirigira a expedição anterior, se ofereceu junto com sua mulher. Gunnar Rudefors também disse que iria. A quarta pessoa que fez questão de ir foi a moça francesa, Simone Michel.
Grahame ficou meio preocupado, não sabendo se era oportuno deixar que mulheres tomassem parte numa empresa desse tipo. Acabou se convencendo que preconceitos e inibições à maneira antiga não iriam ajudá-lo em nada. Anna Markova explicou que as mulheres tinham uma resistência diferente, mas não inferior à dos homens, e a presença delas poderia exercer uma influência estabilizadora. Com certeza elas não deixariam que os homens se arriscassem de forma desnecessária. Os voluntários então foram mandados descansar enquanto o resto do grupo preparava tudo quanto era necessário. Quatro deles, inclusive as duas estudantes inglesas, receberam a tarefa de confeccionar uma tenda completa de piso, feita de lençóis e capas de chuva de plástico. Robert Hyman, que era funcionário público, revelou possuir um talento secreto e muito útil: era um arqueiro amador bastante habilidoso. Ofereceu-se para fazer dois arcos e uma dúzia de flechas e de ensinar aos homens como deviam ser usados. Tore Norstedt começou a construir um transmissor primitivo, feito de pedaços de metal e fio de arame de cobre insulado, encontrados numa das oficinas. O transmissor seria útil de duas maneiras. O grupo de exploradores poderia levar radinhos de pilha e manter assim um contato unilateral com o resto da turma, e haveria também a possibilidade de estabelecer qualquer contato radiofônico com as criaturas responsáveis pela situação ou com qualquer outro grupo de seres humanos que se encontrasse numa situação parecida à deles. Tudo estava pronto às primeiras luzes do dia seguinte, e todos se levantaram para desejar boa sorte ao grupo que ia fazer uma "exploração profunda". O transmissor poderia ser de até quarenta quilômetros. Estava parara um simples código telegráfico. Já fizera testes de transmissão e tinha certeza que o alcance do transmissor poderia ser de até quarenta quilômetros. Estava usando a força do hotel, modificando a corrente direta em alternada. Havia, porém uma dificuldade: no grupo ninguém entendia sinais Morse. O transmissor de Norstedt não servia para a irradiação da linguagem falada, e isso fazia necessário reduzir os sinais a um mínimo muito simples. SOS queria dizer, "voltem com toda urgência". OK queria dizer, "continuem segundo os planos". As emissões seriam irrradiadas de hora em hora. Grahame estava desapontado pela impossibilidade de comunicação mútua. Tore Norstedt explicou que a construção de um transmissor portátil com as poucas coisas que tinha à disposição, levaria muito tempo e muitos testes. Considerando as circunstâncias, a expedição estava bastante bem equipada. Tinha lanças de fabricação caseira, facas, machados, dois arcos e uma dúzia de flechas. Tinha também uma tenda e rações enlatadas. A mais, um compasso, um binóculo e uma máquina fotográfica. Apesar disso, Grahame ficou acenando para eles com o coração pesado. A expedição anterior não chegara muito longe antes que o grupo descobrisse aparições que se pareciam com fadas e um cavaleiro. Este grupo iria muito mais longe ao interior. Não estava com muita vontade de pensar nas notícias que trariam, quando voltassem — se por acaso fossem capazes de voltar. Seus temores não eram sem fundamento. O grupo voltou ao crepúsculo do dia seguinte. Ou melhor, três pessoas do grupo voltaram. Gunnar Rudefors que estava agindo de batedor durante o último trecho da jornada, caíra num buraco dissimulado. Foi transpassado pelas estacas pontiagudas fincadas no fundo.
Russell Grahame estava sentado na cama, em seu quarto, refletindo amargamente sobre a morte de dois de seus companheiros durante os últimos três dias. Trouxera do bar uma meia garrafa de whisky e estava acabando-a de forma sistemática. Nunca antes achara agradável beber sozinho. Aliás, continuava não achando o fato agradável. Estava simplesmente usando o whisky da mesma forma em que um homem com uma perna quebrada usa uma muleta. Explicou a si mesmo que se continuasse a beber as mesmas quantidades consumidas durante aqueles últimos dias, conseguiria bater todos os recordes de velocidade em se tornar alcoolizado. Era ótimo que os fornecedores invisíveis continuassem a suprir todos os mantimentos. Mas era completamente incompreensível como conseguissem fazê-lo. Colocara um turno de guardas para vigiar o supermercado, mas ninguém conseguiu ver nada. Apesar disso, todas as manhãs os mantimentos levados por eles se encontravam mais uma vez nas prateleiras. Era um mistério e tanto. Porém o que representava mais um maldito mistério num lugar tão cheio de mistérios?
Estava se sentindo desesperadamente só. As razões eram mais do que óbvias. Possivelmente a situação não seria tão desagradável se ele não tivesse se colocado de forma egocêntrica à disposição dos outros, aceitando o comando e com isso todas as responsabilidades. Todos os outros dependiam dele e continuavam a fazer perguntas, como se ele soubesse todas as malditas respostas. Raios, ele nem sequer sabia as perguntas certas. Um belo chefe, realmente! Despejou mais whisky no copo. Por ter aceito a responsabilidade, estava agora sentindo mais profundamente pela perda da moça inglesa e do jovem sueco. Salud, Marina. Salud, Gunnar! Que seus despojos e seus espíritos descansem em paz nessa terra estranha, tão longe dos verdes campos da Terra... Esforçou-se em se concentrar nas informações trazidas pelos sobreviventes da segunda expedição. Eram muito mais alarmantes do que o insignificante relato da primeira expedição. De fato, todos os integrantes dessa vez concordavam a respeito do que viram. Ainda por cima, tinham fotografias para prová-lo. O acontecimento mais desconcertante, a não se considerar a morte de Gunnar, fora a descoberta de outras criaturas humanas — as que eles agora estavam chamando de o Povo do Rio. A primeira a vê-los foi Simone, a jovem artista francesa. Poderiam também ter passado despercebidos com a maior facilidade, porque naquele instante a expedição estava a cerca de vinte quilômetros de "casa", caminhando em direção quase paralela ao rio, mas a mais ou menos dois quilômetros do próprio. Simone começou a perseguir algo que acreditou ser uma enorme e linda borboleta, que parecia ter se assustado com o progresso do grupo entre as árvores bastante aproximadas. A borboleta começou a se movimentar lentamente — quase como querendo ser perseguida, a moça observou mais tarde. Talvez, fosse isso mesmo. O grupo já estava perto da margem da floresta e, sempre seguindo a borboleta, ela saiu para o terreno descoberto e subiu por uma leve elevação, de onde se podia ver o rio. A esse ponto perdeu de vista a borboleta. Simone, porém, estava carregando o binóculo e começou a observar distraidamente as margens do rio. Algo que num primeiro momento parecia uma espécie de ponte, resultou não ser uma ponte quando ela começou a observá-la com mais atenção. Aliás, era sim uma ponte, mas feita de choças primitivas construídas sobre palafitas. A fumaça estava saindo dos buracos no topo. Os moradores das choças estavam evidentemente em casa. O grupo de exploradores começou a se aproximar cautelosamente do pequeno agrupamento de choças, usando de bastante bom senso. Chegaram a não mais de quinhentos metros e desse ponto fizeram suas investigações com os binóculos. Havia algumas pessoas na margem. O povo do rio tinha uma aparência primitiva: seus cabelos eram emaranhados e estavam cobertos com peles de animais. John Howard explicou que, pela sua aparência, eles davam a impressão de serem remanescentes da Idade da Pedra. Estavam armados com machados e tacapes, que aparentemente eram feitos com pedaços de pedra, e com lanças com pontas também de pedra. Tinham também canoas que pareciam feitas com troncos de árvores. John Howard decidiu, com muito bom senso, não insistir mais nas investigações. Achou que era muito mais importante levar de volta à base as informações que já possuíam. Dedicou, porém algum tempo a estudar não só os movimentos do Povo do Rio, mas também o terreno em volta. Viu a uma certa distância, do outro lado do rio, algo que conseguiu descrever somente como uma espécie de alta muralha de névoa ou neblina. Parecia estar a cinco ou seis quilômetros de distância e julgou sua altura em aproximadamente duzentos metros. O grupo voltou para a floresta para acampar, e passaram a noite ali com duas pessoas de guarda e duas dormindo, se alternando a cada hora. Ouviram ruídos alarmantes feitos por animais selvagens, mas não viram nada. No dia seguinte, quando estavam a apenas sete ou oito quilômetros da base, Gunnar Rudefors caiu na armadilha. O buraco não era muito grande, mas estava situado de maneira astuciosa ao longo de uma trilha quase invisível — possivelmente a trilha feita por animais que iam ao bebedouro — e o grupo estava seguindo-a talvez de forma inconsciente. As estacas pontiagudas o mataram rapidamente. Estavam dispostas de maneira tal que só provocariam um prejuízo mínimo na presa. Gunnar foi duas vezes mal-afortunado. Em primeiro lugar, porque naquela hora era a sua vez de servir de batedor, e em segundo lugar porque não percebeu que o capim mais em frente era murcho e amarelado... Russell Grahame ficou examinando todos os acontecimentos desde o instante que saíra de seu caixão e entrara no hotel. Chegou à conclusão que estava totalmente despreparado para ser um chefe. Chefe, pois sim! Não seria capaz de dirigir um grupo de escoteiros... Se tivesse um pingo de bom senso, teria inventado uma porção de tarefas para todo o mundo, e então Marina teria ficado cansada demais para ter vontade de pensar em suicídio. Se ele tivesse um pingo de bom senso não teria permitido a um grupo sair em exploração sem ter antes um treinamento adequado. Se ele tivesse um pingo de bom senso... Um chefe, pois sim! O responsável pelas decisões, pois sim! Por Deus, ainda estava em tempo de renunciar ao cargo, antes que os outros se cansassem de sua incompetência e o mandassem embora! Alguém bateu e a porta se abriu. "Posso entrar?" Anna Markova entrou sem esperar a resposta. "Olá, Anna." "Olá, Russell." Todo mundo já passara a usar o primeiro nome. Era ridículo insistir em formalidades quando todos estavam num lugar a quem sabe quantos anos-luz de um livro de etiqueta. Também era estranho, realmente muito estranho, que com a possibilidade de todo mundo entender a língua de todo mundo, as nacionalidades já não tinham importância nenhuma.
Anna espiou o whisky. "Você gosta de beber sozinho?" "Não." Ela sorriu. "Então me ofereça um pouco também." "Desculpe-me. Não queria ser malcriado... Você não se importa de beber num copo comum, que está no banheiro, ou prefere que eu busque um copo para whisky no bar?" "O copo comum vai ser ótimo, muito obrigada." Ela sentou na beira da cama e pulou um pouco, como testando. "Acho que essa cama é mais confortável que a minha." "Vá se queixar com a gerência", ele respondeu com um pálido sorriso. "Ou então, se você assim preferir, podemos trocar de quarto." Ela mudou rapidamente de assunto. "Russell, você está muito triste. É uma coisa muito natural sentir tristeza por aqueles que morreram, mas ninguém devia ficar sozinho nessas circunstâncias. E isso, ela acrescentou indicando o whisky que estava em sua mão, "não pode ajudar como você está esperando que faça." "Amém", ele respondeu levantando o copo. "Amém", repetiu Anna bebendo também. "Essa é a primeira vez que consigo falar a sós com você. Vou dizer-lhe o que eu penso e depois você me dirá o que pensa. Está bem assim?" "Perfeito." "Muito bem", ela continuou. "Parece-me óbvio que estamos numa espécie de zoológico. Na Terra, nos zoológicos mais modernos", disse com um sorriso nos olhos, "ou pelo menos nos mais modernos zoológicos tia Rússia, tentamos proporcionar aos animais um ambiente o mais possível parecido com seu ambiente natural. Parece-me que os que nos capturaram fizeram isso mesmo conosco. Foi por isso que nos deram um hotel para morar, por isso temos um supermercado para nossos suprimentos e por isso existem carros na rua." "Os carros não funcionam." "Claro que não. Também não há estradas por onde dirigi-los. Mas os que cumpriram essa façanha sabem que estamos acostumados com essas coisas e fizeram o possível para que nos sentíssemos à vontade." "Eu apreciaria muito mais toda essa delicadeza conosco se eles nos mandassem para casa", ele respondeu de cara amarrada. "Mas eles não pretendem fazer isso", disse Anna. "Por que não?" "Somos — ou melhor, éramos — oito homens e oito mulheres."
"Daí?" Anna ficou a observá-lo com um olhar ao mesmo tempo triste e divertido. "Mas é tão óbvio, Russell. Fomos trazidos para cá para nos multiplicarmos... Você não acha?" Ele não respondeu e nem olhou para seu lado. "Estou vendo que você também chegou a essa conclusão. É muito melhor enfrentar a realidade, não é mesmo? Fomos trazidos para cá para nos multiplicarmos. Com essa premissa, acho quase que impossível que algum dia sejamos devolvidos à Terra." Russell levantou o olhar e ficou admirado pela calma que leu no rosto dela. "Você parece não estar aterrorizada por esse pensamento." Ela foi sacudida por um calafrio. "Precisa encarar a realidade e saber como aceitá-la. A vida então pode continuar. Aliás, a vida deve continuar. O que aconteceu conosco é horrível e ao mesmo tempo é extraordinário. Não podemos permitir que se torne inútil." "O que é que você quer dizer com isso?" "Quero dizer que vamos nos multiplicar. Em nosso grupo há casais e outros estão se formando." Deu uma gargalhada quase cruel. "Russell, acho que naquele supermercado tão cômodo e cheio de coisas, não há nenhum estoque de anticoncepcionais."
Ele apanhou a mão dela num gesto impulsivo e ficou segurando-a. "Anna, você já reparou que essa gente ou essas criaturas nos apanharam da mesma maneira em que os biólogos recolhem espécimes? Para eles, nós não passamos de material experimental, e quando a experiência terminar..." Não terminou a sentença. "Você quer dizer que o material para experiências não terá mais nenhuma utilidade para eles?" Russell acenou com a cabeça. "Isso é possível", refletiu Anna. "Mas não acredito que seja provável. De qualquer maneira, é importante agirmos como se não estivéssemos pensando nisso. De outra forma — de outra forma tudo se tornaria insuportável." "Ainda não é insuportável?" "Não." Ele riu. "Acho que você tem uma personalidade muito forte." "Isso é possível. Mas só vou poder me manter forte se Russell, você me acha atraente?" "Acho que você é muito atraente, Anna." "Você deixou uma esposa ou uma família na Inglaterra?"
"Não. Fiquei tão ocupado sendo um péssimo socialista que não tive tempo de me dedicar a algo assim — criativo." Ela sorriu. "Então agora você poderá ter uma oportunidade. Eu sou uma péssima comunista, mas sou uma mulher muito prática. Não sou virgem, e aprendi a não esperar muito dos homens... Por isso, vou morar com você e vamos aprender a proporcionar um pouco de calor um ao outro. Acho que ambos poderíamos achar agradável a parte sexual, mas não vamos deixar que isso se torne simplesmente uma obrigação. Afinal, existe algo muito mais importante — por exemplo, a amizade. Você concorda?" Olhou para ela em silêncio por alguns instantes, com as sobrancelhas arqueadas. Em seguida disse em tom solene. "Anna Markova, eu estou um pouco bêbado, e você é uma mulher extraordinária." "Então, estamos de acordo. Se por acaso não conseguirmos nos adaptar um ao outro, nossa relação pode ser facilmente desfeita. Não estou me referindo à amizade, é claro." Russell ergueu o copo. "Deus abençoe Karl Marx." Anna se levantou, erguendo seu próprio copo e anunciou, de maneira um pouco misteriosa: "À Rainha!" Bebeu seu whisky e saiu para apanhar suas coisas.
Russell Grahame descobriu de repente que já não se sentia mais deprimido e que mais uma vez estava se sentindo confiante. Levou alguns instantes para descobrir como isso tinha acontecido. Então percebeu que já não estava mais sentindo o peso da solidão.
Segue um trecho do diário de Robert Hyman: É a décima quinta noite de nossa estada num mundo que Russell achou engraçado chamar de Erewhon. Não acredito que ele tenha lido o livro de Samuel Butler, mas isso não tem importância. O nome é bastante apropriado por muitas razões. Em relação ao resto da raça humana, nós realmente estamos no meio do nada. Alguns entre nós, sem dúvida, irão fazer muita falta e provocar um luto profundo. Para mim é um conforto saber que esse não vai ser meu caso. Eu estava sozinho na Terra e acho que vou continuar sozinho aqui. Afinal, esse é o privilégio de quem é homossexual, mas ao mesmo tempo não tem a coragem de suas próprias convicções. Por algum tempo tive esperanças que Andrew — o coitado do Andrew, o magro e insípido herói daquele péssimo seriado de espionagem da TV — fosse aflito, abençoado com as mesmas tendências. Mas não é assim. O coitado do menino não passa de um macho levemente afeminado. Aliás, do jeito que está agora, só Deus sabe se alguma vez será de alguma utilidade. Nesse momento parece até bastante calmo e quem sabe, daqui a algum tempo estará em condições de sair da camisa de força que tivemos que improvisar para ele. É claro que não poderíamos continuar indefinidamente a cuidar dele. Estou pensando que teria sido melhor para ele se tivesse conseguido cortar sua própria garganta de maneira mais eficiente. Todo mundo está enervado pelas suas frases desconexas a respeito de grandes aranhas metálicas. Pelas poucas coisas coerentes que conseguiu dizer, parece que se levantou durante a noite para dar alguns passos no único pedacinho de rua calçada de nossa minicidade-fantasma. Ele afirma ter visto essas criaturas indo para o supermercado, carregadas de suprimentos — apesar da turma de patrulha não ter percebido nada. Só sabemos com certeza que encontramos Andrew no chão, pouco antes do dia clarear, deitado na rua rígido como uma tábua, e de olhos arregalados. Tivemos que forçá-lo para que se movimentasse. Quando conseguimos isso, ele se fechou como uma ostra e não quis falar mais nada. Quando lembramos mais uma vez dele, vimos que estava trancado em seu banheiro, berrando como um louco e tentando cortar a garganta com uma lâmina. Conseguiu arrumar uma bela confusão. Acho que temos muita sorte que Marion Redman entenda um pouco de enfermagem. Andrew não conseguiu se prejudicar muito, mas parecia que ia morrer de hemorragia. E agora o coitadinho está sentado ali, com suas ataduras e dentro da camisa de força, girando os olhos arregalados em todas as direções e murmurando a respeito de aranhas carregadas de pacotes de detergente e alimentos enlatados. De qualquer forma, é um verdadeiro mistério de que maneira nossos suprimentos chegam ao supermercado. Mantemos constantemente guardas, mas ninguém viu nada, a não ser Andrew. John Howard se saiu com uma teoria pela qual estaríamos condicionados a não ver. Tore tem uma teoria ainda mais maluca, pela qual nossos guardiões conseguem nos "desligar" todas as vezes que acharem conveniente. Ele acha que eles simplesmente esqueceram de "desligar" Andrew. Assim mesmo, ainda não demos algum passo para nos aproximarmos à solução dos mistérios que nos envolvem. Talvez não estamos fadados a resolvêlos... Essa noite fiz minha confissão. Não sei porque fiz isso. Achei, porém, muito importante agir assim. Talvez seja porque todos parecem estar se juntando em casais e em trios. Tore Norstedt levou Janice e Andrea para seu quarto. Parece que ninguém está ligando. E por que deviam? Mohan das Gupta está tendo um caso violento e tempestuoso com Simone. Parece que ela pretende pintá-lo, enquanto ele só quer fazer amor. A coitada pequena Selene Bergere — céus, que nome impossível! — está cobiçando humildemente e à distância nosso respeitado chefe. John e Mary continuam calmos e mutuamente devotados e Paul e Marion só brigam quando pensam que ninguém está ouvindo. Gosto muito do Russell. Talvez foi por isso que confessei. Ele é a primeira pessoa após Sammy — e o coitado e querido Sammy morreu há tanto tempo que quase não consigo me lembrar de seu rosto — a quem eu realmente falei no assunto. Pensei que talvez Russell estivesse admirado por eu não tentar querer "consolar" uma das moças. Mas não foi por isso que eu falei. Estava simplesmente com vontade de falar. Ele não ligou a mínima. Só disse, "Robert, meu velho, você está entre amigos. É uma lástima que as coisas não possam ser um pouco mais fáceis para você." Entendi perfeitamente o que ele quis dizer com isso. De qualquer forma, estou acostumado com a solidão. Apesar de duas mortes e de um colapso, e apesar de relatos a respeito de fadas, cavaleiros medievais e selvagens, ainda não sabemos realmente nada de mais positivo a respeito de nossa situação, desde a hora em que chegamos aqui. A teoria do zoológico é a mais aceita. Também acho que é a mais razoável. De qualquer forma é inquietante não saber quem está dirigindo esse zoológico! Anna parece estar convencida de que eles querem que nos multipliquemos. Ela é metódica como todos os russos e parece que a idéia não a deixa indignada. Aliás, está ameaçando de presentear Russell com meia dúzia de filhos — tendo o tempo necessário de produzi-los. Tentamos explorar mais um pouco, é claro. Pelo menos, assim fizemos até que Andrew encontrou as tais aranhas. Mas não fomos muito longe, porque Russell insiste para ficarmos todos juntos. Segurança devida à união, e coisas assim. Se os diretores do zoológico possuem um eficiente sistema de observação, devem estar às gargalhadas quando nos vêem sair para "treinamento no campo", armados de arcos e flechas, lanças e tacapes rudimentares. De fato, acredito que Russell não está muito interessado em "explorações", mas simplesmente em treinar-nos e dar-nos mais segurança. Acho que ele deve ter algum plano.
Eram três horas da tarde, hora de Erewhon. O calor era estafante. Os dias pareciam estar ficando mais compridos e mais quentes. Havia estranhas sementes plumadas de capins altos que esvoaçavam pela rua, amontoando-se de maneira desordenada, e todos os sinais deixavam concluir que era pleno verão. Russell Grahame estava sentado sobre os degraus de acesso do hotel com uma fotografia na mão, observando distraidamente as sementes que se empilhavam contra a inútil Mercedes e a igualmente inútil Saab. Tentou calcular quanto tempo levaria até que ambos os carros ficassem completamente cobertos. As sementes vinham voando em grandes nuvens da savana verde. Algumas pessoas ficaram brevemente afetadas por uma aguda febre de feno, mas parecia que não provocavam outros inconvenientes. Pelo jeito, em alguns dias a estrada toda ficaria coberta por uma camada de duas ou três polegadas de sementes. Russell perguntou a si mesmo se não seria oportuno constituir uma equipe para limpar a rua. Mas estava inquieto, como todos os outros; chegou à conclusão que seria mais oportuno varrer as sementes quando não houvesse mais chegando da savana. Russell não estava sozinho. Andrew Payne, já sem camisa de força, mas ainda cheio de ataduras, estava sentado ao seu lado junto com a morena e infantil Selene Bergere, cuja aparência era curiosamente etérea. Selene contara a todos que seu verdadeiro nome era Jojane Jones. Mas ninguém conseguia pensar nela como Jojane. O nome Selene parecia muito mais apropriado. Desde a malograda tentativa de suicídio de Andrew, ela estava cuidando dele. Apesar dele estar quase completamente recuperado, ela continuava se preocupando com ele; parecia que entre ambos estivesse se desenvolvendo um comovente relacionamento fraternal. A volta de Andrew a um estado quase normal, após dias de ausência alternados com ataques histéricos, era devida em grande parte à fotografia que Russell estava segurando. A fotografia fora obtida com a ajuda de flash. A câmera ficou apontada para a porta de entrada com o obturador ligado a um barbante esticado entre duas prateleiras. Paul Redman emprestara a máquina e a colocara em posição. Felizmente estava com dois rolos de filme e uma meia dúzia de bulbos de flash ainda sem uso. Tore Norstedt deu o toque final, ligando o barbante do obturador a uma campainha de despertador arrumada para a ocasião. Dessa forma foi possível estabelecer exatamente a hora em que foi batida a foto: mais ou menos às duas e trinta da madrugada. A foto mostrava — infelizmente sem muitos detalhes — a silhueta de uma aranha metálica carregando uma caixa cheia de mantimentos, possivelmente para repor o que estava faltando. Dessa forma as palavras de Andrew foram confirmadas e a vista daquela fotografia teve mais efeito do que o melhor dos remédios. Russell observou mais uma vez a foto — talvez fosse até pela vigésima vez. O corpo da aranha parecia não ser maior do que uma bola de futebol, com uma espécie de pequeno copo invertido — possivelmente o mecanismo sensor colocado no topo da esfera. Parecia estar caminhando com quatro pernas providas de muitas juntas, e usando mais quatro braços, também com muitas juntas, para suspender a caixa de mantimentos acima de sua cabeça ou corpo. A máquina — porque evidentemente tratava-se de uma máquina — não parecia ter uma altura superior a um metro. "O que é que você acha?" perguntou Andrew, olhando com algo que se parecia com carinho para a foto que o ajudara a encontrar mais uma vez sua sanidade mental. "Você acredita que essa coisa é inteligente?" "Isso é possível", admitiu Russell. "Mas na minha opinião há maiores probabilidades disso ser um robô com controle remoto... O que realmente atrapalha é que somos condicionados por conceitos humanos ortodoxos. Afinal, não podemos sabê-lo, mas esse brinquedinho poderia ser até o senhor e dono desse planeta, que poderia ter dominado seus criadores que eram talvez seres biológicos. Assim mesmo, a minha impressão é que se trata simplesmente de um robô — o executor das ordens de um dono elusivo e invisível." Selene estremeceu e se aproximou mais de Andrew que colocou um braço em volta dos ombros dela, com ar de protetor, dando a Russell um motivo de divertimento. "Eu me assusto com muita facilidade, senhor Russell", ela disse. Apesar dos protestos de Grahame, Selene sempre o chamava de senhor Russell, sendo ele o chefe reconhecido do grupo. "Realmente sou muito assustadiça. Que tal se tivesse legiões dessas coisas, só esperando para atacar-nos?" Russell deu uma gargalhada. "Se eles quisessem nos atacar, Selene, já o teriam feito antes. Ao contrário, você mesma precisa reconhecer que até agora eles cuidaram de nós — ou pelo menos, cuidaram para que nada nos faltasse. Fizeram isso de maneira muito eficiente. Pessoalmente acho que a principal tarefa deles é cuidar para que —" Parou. Mohan das Gupta acabava de sair do supermercado e atravessou a rua correndo. "Não tem um maldito cigarro sequer", anunciou. "Como assim?" "Ontem havia pacotes e pacotes de cigarros, e hoje não há nenhum." Grahame refletiu por um instante. "Você tem certeza que ninguém foi buscar cigarros antes de você?" "Hoje é o meu dia de ir buscar mantimentos e coisas", explicou Mohan. Sorriu. "Quem sabe, alguém está querendo me pregar uma peça." "Acho que não", retrucou Russell. "Faz calor demais para qualquer um estar com vontade de brincadeiras." "Retaliação", disse Andrew de repente. "É isso: estão retaliando." "Como assim?" Por um momento Russell pareceu não entender. "É simples: as aranhas — ou quem as está controlando — não gosta de gente curiosa", explicou Andrew. "Eu vi uma e acabei tendo um caso de loucura temporária, e tentando me suicidar. Você poderia dizer que eu estava assustado, é claro — e eu estava mesmo! — mas não consigo me livrar da suspeita que alguém me ajudou um pouquinho para que meu cérebro realmente parasse de funcionar... Agora conseguimos fotografar uma dessas aranhas. Elas não conseguiram que a máquina fotográfica tivesse acessos, e por uma razão qualquer deixaram de destruí-la. Em conseqüência estão tentando desencorajar-nos deixando de nos dar algo que consumimos em grande quantidade." "A teoria não deixa de ser interessante", concordou Russell. "Mas as provas são apenas circunstanciais... De qualquer forma — é bastante plausível..." "Pode também ser que a resposta seja ainda mais simples, meu velho", sugeriu Mohan com um sorriso. "Talvez simplesmente eles estão sem estoque. Talvez lá na base deles ninguém estava pensando que todos nos tornaríamos fumantes." Teve um engraçado estremecimento. "Mas que dia mais infernal! É uma caminhada e tanto até o mais próximo charuteiro." "Temos uma possibilidade de averiguar isso", Russell disse lentamente. "Bastaria colocar mais uma vez a máquina e ver se Andrew está certo." Os olhos de Mohan brilharam em seu rosto escuro. Levantou as mãos num gesto de horror. "Devagar, meu caro, devagar! Dessa maneira eles seriam capazes de cortar nosso suprimento de gin!" Selene segurou o braço de Andrew sacudindo-o: "Olhe!" gritou, apontando para o fim da rua. "Oh, meu Deus, meu Deus! O que é isso?" Uma figura estranha aparecera de repente, destacando-se do verde brilhante da savana que lhe servia de pano de fundo. Começou a caminhar cambaleando como um bêbado, aproximando-se pelo curto trecho de rua que os estava separando. "Agora estou pronto para acreditar em qualquer coisa", disse Russell com a voz tensa. "Gunnar estava certo. No fundo de nosso jardim realmente há fadas e cavaleiros."
A criatura que aparentava ser um cavaleiro se encontrava visivelmente em péssimas condições. Estava usando somente uma couraça sobre o peito, que parecia ser de bronze, calções de couro e um jaleco. Parecia ter perdido seu capacete com visor e também não havia sinal de sua cavalgadura. O rosto que parecia composto de traços mongóis e negróides estava manchado de sangue. O calção e o jaleco embaixo da couraça metálica estavam molhados e vermelhos. Era claro que estava bastante machucado. Tinha, porém forças suficientes para segurar com a mão direita uma espécie de espada. O pequeno grupo nos degraus do hotel ficou imóvel, como que petrificado. O cavaleiro continuou a cambalear em direção a eles. Mantinha os olhos arregalados e imóveis, mas sem enxergar nada em sua volta. Talvez estivesse preocupado com coisas que só ele estava conseguindo ver. Apesar de estar sentado e imóvel, à espera do que pudesse acontecer, o cérebro de Grahame estava trabalhando com a rapidez de um relâmpago. Tudo parecia estar acontecendo em câmera lenta, tanto assim que conseguiu registrar todos os menores detalhes da aparência do cavaleiro. Viu os rasgos na roupa de couro, os hematomas, os fragmentos de terra e os fios de capim grudados nas roupas, na armadura e no rosto. Teve a impressão de estar vendo o sangue jorrar dos ferimentos ocultos — e até de estar ouvindo as batidas dolorosas do coração do homem ferido. O cavaleiro continuava avançando em direção ao hotel. A cada três ou quatro passos esboçava um gesto com a mão que segurava a espada, como querendo atingir um inimigo invisível. De repente, sem saber se já tinha passado meio século ou só dez segundos, Grahame se controlou, levantou-se e caminhou em direção à estranha criatura. O cavaleiro percebeu sua presença. Estacou e ficou ondulando, como quem está prestes a cair. Com um esforço terrível conseguiu focalizar Russell, mas o que viu pareceu não inspirar-lhe nenhuma confiança. Tentou erguer a espada, quase perdeu o equilíbrio e fez logo outra tentativa. Mas foi inútil. Murmurando um palavrão entre os dentes apoiou a ponta da espada na superfície do calçamento e usou a arma como se usa uma muleta.
Tossiu com evidente esforço e cuspiu em direção de Russell. Com um último e penoso esforço conseguiu erguer a espada. "Adiante", pronunciou com voz sufocada, mas em excelente inglês. "Para trás, demônio, papão, duende, diabo, bruxo, espírito do Mal. Eu o ordeno, em nome da Rainha branca e da Rainha preta! Volte para as entranhas da terra que são seu reino!" Russell ficou imóvel. Compreendeu que a situação era idiota, mas conseguiu pensar e dizer só uma única palavra: "Paz." "Paz!" berrou o guerreiro com desdém. "Paz! Estás querendo zombar de mim porque estou fraco! Pois morrerás, miserável, sabendo que Absumes Marur está muito ferido, pois de outra forma não terias a honra de ser transpassado com a espada!" O cavaleiro tentou investir contra ele e Russell deu um passo para o lado. Foi um movimento inútil porque o arremesso do cavaleiro não poderia chegar até o fim. Era evidente que a estranha aparição já não tinha mais um pingo de energia. Sem emitir mais um som caiu, batendo o rosto no chão. Russell virou-o delicadamente. Em sua extrema palidez, o rosto do homem parecia quase branco. E era muito jovem.
Absumes Marur, senhor do clã Marur, gonfaloneiro das torres ocidentais, auriga das caravanas da pimenta vermelha, guardião do falcão real e suzerano eleito das terras desconhecidas, ficou inconsciente durante dois dias num dos quartos do hotel que Mohan das Gupta chamava zombando de Erewhon Hilton. Seus ferimentos eram profundos, mas nenhum deles era mortal. Se ele fosse uma criatura terrestre, possivelmente teria morrido de choque, infecção e hemorragia. Mas, qualquer que fosse sua origem, Absumes Marur não era um homem da Terra. No fim da tarde do terceiro dia a febre baixou e ele abriu os olhos. Marion Redman cuidara dele durante quase todo aquele tempo. Limpara os ferimentos, colocara compressas frias sobre sua testa que ardia pela febre e fizera o possível para que ele se sentisse confortável. Durante todo esse tempo John Howard e Tore Norstedt foram para o norte, o sul, leste e oeste, agindo como batedores, para ver se era possível travar contato com os companheiros do homem ferido. Mas não acharam ninguém. Grahame ainda por cima não queria que se afastassem mais do que três ou quatro quilômetros de cada vez, por razões que eram mais do que óbvias. Se os amigos — ou talvez os inimigos do cavaleiro quisessem aparecer de repente e tivessem uma disposição à truculência, o problema poderia se tornar muito sério. Grahame estava no quarto quando Absumes Marur recobrou os sentidos. "Não se mexa", Grahame disse com voz calma. "Aqui ninguém quer lhe fazer mal algum. Você esteve quase à morte. Quando você estiver melhor e tiver descansado o suficiente, vamos acompanhá-lo até sua casa — se você assim o quiser... Naturalmente, se formos capazes de descobrir onde você mora." O homem deitado na cama virou os olhos e estremeceu. Apalpou o peito, procurando sua couraça, mas Marion já a havia tirado no primeiro dia, cortando as correias que a firmavam. Procurou sua espada, mas também não a achou. Grahame percebeu que ele não estava à vontade, e pensou que talvez se sentisse nu sem toda aquela parafernália. Teve um rasgo de intuição e tirou a espada do armário onde se encontrava, colocando-a sobre a cama, de forma que o cavaleiro pudesse apoiar a mão sobre o cabo. Recebeu um olhar cheio de gratidão.
"Não sei se você é homem, fantasma ou demônio", o homem falou em seguida, de maneira curiosa. "Gostaria porém de saber seu nome, sua linhagem e seus títulos. Deitado aqui, cheio de vergonha perante si mesmo e perante vocês, está Absumes Marur, senhor do clã Marur." "Muito prazer", respondeu Grahame cauteloso. "Meu nome é Russell Grahame." "Você é o senhor de seu clã?" "Não estou entendendo." Absumes Marur ainda estava muito fraco e estava começando a se cansar de maneira evidente. Estava porém decidido a saber o mais possível a respeito das circunstâncias em que se encontrava. "Essa mulher", continuou em voz fraca, "ela é sua mulher?" "Não. Ela não é minha mulher." O cavaleiro suspirou. "Nesse caso não pretendo falar com você. Chame o senhor de seu clã." Marion foi a primeira a entender o que ele queria. "Russell, ele só quer saber se você é nosso líder. Pelo amor de Deus, tranqüilize o coitado antes que sua febre volte a subir." "Eu sou o líder eleito de meu povo", disse Grahame. "Espero que você compreenda isso. Nós não temos um clã, como você acredita, mas talvez você entenda que eu sou o chefe entre os meus companheiros e amigos." Absumes Marur teve um breve sorriso. "Pois então você é o senhor de seu clã. Fique sabendo que suas armas poderão se cruzar condignamente com as minhas, quando estarei mais uma vez em condições de erguer minha espada." "Não tenho a menor intenção de lutar com você", disse Grahame. "Nem agora e nem nunca." "Mas é sua obrigação!" "Não é minha obrigação coisa nenhuma. Minha obrigação é levar você até sua casa quando estiver mais uma vez em condições de viajar." O cavaleiro estremeceu mais uma vez. Fez um esforço violento para se controlar. "Sou gonfaloneiro das torres ocidentais, auriga das caravanas da pimenta vermelha, guardião do falcão real e suzerano eleito das terras desconhecidas", anunciou com bastante orgulho. "Quem tiver a ousadia de me espezinhar poderia, quando chegar a hora, precisar de muitos esquadrões de lanceiros para defendê-lo." "Ninguém está querendo espezinhar você", Grahame explicou com muita paciência. "Meus companheiros e eu só queremos ajudá-lo... Se for preciso lutar, então lutaremos; mas preferimos viver em paz. Queremos ser seus amigos. Queremos também que você e seu povo sejam nossos amigos. Agora descanse, Absumes Marur. Ninguém vai lhe fazer mal algum." O cavaleiro estava respirando com dificuldade e sua testa estava coberta de suor. "Qual é sua linhagem?" perguntou. "Não tenho linhagem nenhuma." Absumes Marur soltou um gemido. "Pelo amor de Deus, Russell!" protestou Marion. "Diga alguma coisa! O coitado está quase fundindo a cuca pela angústia." "Mas minha querida", retrucou Grahame, "não foi mesmo Oscar Wilde quem disse que estávamos separados pela barreira de um idioma comum? Esse sujeito parece estar falando inglês — mas nós sabemos que não é assim, e seus lábios se mexem de forma diferente. Acredito que ele também teve a sua cabeça manipulada, da mesma forma que nós. Estamos nos comunicando, mas a dificuldade consiste no fato que os conceitos dele são completamente estranhos — medievais, suponho eu." "Sua linhagem!" berrou Absu mes Marur desesperado. Russell encolheu os ombros. "Está bem. Lá vai." Virou-se para o cavaleiro. "Sou Russell Grahame, Membro do Parlamento", anunciou solenemente. "Sou a Voz do Povo da Rainha, autor dos decretos reais, condecorado com a estrela de 1939-1945 e sócio do Real Automóvel Clube." Absumes Marur acenou com a cabeça, cheio de entusiasmo, mas era evidente que não estava entendendo nada. "Então é verdade que você é o senhor de seu clã?" "Pois assim seja. Eu sou o senhor de meu clã... Mas você e eu chegamos para cá de mundos diferentes. Tente compreender isso. Meu povo e eu chegamos de um mundo que se encontra além das estrelas e do outro lado do sol. Chegamos aqui de uma forma que eu..." Absumes Marur que o estava fitando de olhos arregalados soltou um grito agudo e mergulhou mais uma vez no conforto proporcionado pela perda da consciência.
Passaram-se vários dias antes que os ferimentos de Absu mes Marur se cicatrizassem o suficiente para ele conseguir se levantar da cama. Durante esse tempo Russell Grahame e Absumes Marur conversaram muito, trocando uma grande quantidade de informações a respeito deles próprios e a respeito dos mundos muito diferentes dos quais vinham. Grahame se encontrava numa posição de vantagem, pois fora criado numa sociedade tecnológica e emocionalmente muito sofisticada. Podia, por isso, compreender idéias e conceitos que estavam fora do alcance do outro, cuja cultura poderia ser comparada mais ou menos, pelo que Grahame estava vendo, à do período do escurantismo europeu. Russell Grahame e seus companheiros não conseguiam, porém, se conformar com o fato surpreendente de Absu ser indiscutivelmente humano. Apesar de sua familiaridade com os inícios da exploração espacial e com os preparativos para viagens interplanetárias que estavam sendo feitos na Terra, Grahame nunca pensara muito nas possibilidades extraordinárias que essas viagens poderiam proporcionar. Imaginara que esse tipo de jornada teria que ser necessariamente limitada ao sistema solar, pois as distâncias entre as estrelas eram tão vastas que não poderiam ser superadas com métodos "convencionais" de locomoção. Ele e seus companheiros, porém, receberam de forma bastante dramática a confirmação de que as viagens interplanetárias eram possíveis e podiam ser feitas com uma certa facilidade. Entretanto, os terrestres estavam inconscientes durante seu seqüestro, e não tinham por isso a possibilidade de saber quanto tempo tinham levado para chegar em Erewhon. Poderiam ter ficado em seus caixões plásticos durante alguns minutos — ou durante séculos, submetidos a alguma espécie de suspensão temporária de vida. Talvez algum dia seus seqüestradores poderiam decidir revelar suas identidades e explicar o mecanismo e o propósito do seqüestro, mas por enquanto nada havia de positivo; estavam só fazendo todo tipo de conjeturas. Após um grande número de discussões ficou claro que os terrestres não eram os únicos a se encontrar, confusos e isolados, longe do mundo que conheciam. Absumes Marur e quinze companheiros chegaram em Erewhon de maneira muito parecida à deles. A diferença estava no fato deles não terem sido seqüestrados de um avião em pleno vôo, mas de uma caravana em movimento, composta de mercadores, guerreiros, mulheres e animais de carga que transportavam a preciosa pimenta vermelha desde o Reino de Ullos até o Reino Superior e ao Reino Inferior de Gren Li. Grahame tinha certeza absoluta que esses reinos descritos por Absu com fartura de pormenores não podiam existir em parte nenhuma de planeta algum dentro do sistema solar. Sabia o suficiente a respeito do sistema solar para ter certeza que somente a Terra, o terceiro planeta, apresentava condições favoráveis à evolução da vida humana. Assim mesmo, Absumes Marur, cujo planeta de origem devia pertencer a uma estrela desconhecida, era definitivamente humano. Na Terra sua aparência daria a impressão dele ser o resultado de uma mistura de sangue asiático e africano. Ele, porém não era da Terra, e nem do sistema solar. E assim mesmo, era humano. Quanto mais tempo passava, mais Grahame se convencia que Absumes Marur e seu povo acabariam por se revelar também geneticamente compatíveis com os homens e as mulheres da Terra. Lembrou-se, preocupado, da promessa de Anna Markova de dar-lhe filhos. Se os acontecimentos continuassem a se desenrolar satisfatoriamente — ou talvez insatisfatoriamente — dentro dessa situação deveras fantástica, a pobre Anna e as outras mulheres do grupo talvez tivessem que encarar a possibilidade de ter que enfrentar coisas que ninguém, no momento presente, poderia imaginar. Absu não foi de muita ajuda no que dizia respeito a suas origens. Apesar do horror e da vergonha que manifestara no começo, e que deviam ser a resultante de estranhos tabus e costumes esquisitos, ele acabou confiando em Grahame e aceitando sua amizade. "Vamos conversar, Absu", falou Grahame uma manhã, vendo que o cavaleiro estava bem disposto e capaz de se sentar na cama e se concentrar. "Acho que precisamos discutir um certo número de coisas." "Estou disposto a conversar com o sir Grahame", respondeu Absu calmo, "se o sir Grahame me declarar, com suas mãos cruzadas sobre a testa e sobre o coração, jurando pelo manto sagrado, que não haverá engano ou traição em suas palavras." Grahame, sentindo-se bastante ridículo, colocou as mãos sobre a testa e sobre o coração. "É assim que você quer?" Absumes Marur acenou com a cabeça: "Este é o costume." "Eu juro", proferiu Grahame em tom solene, "pelo manto sagrado, que não há engano e não há traição nas minhas palavras. Juro também que eu e meus companheiros não alimentamos qualquer inimizade pelo sir Absumes Marur e seu povo." "É um juramento muito generoso, sir Grahame." "Meu primeiro nome é Russell, e acho que o seu é Absu. Você acha apropriado que em nossas conversas nós nos chamemos dessa forma?" "Sim, mas só após estabelecermos o vínculo." "De que forma vamos estabelecer este vínculo?" Absumes Marur sorriu: "Com uma espada, uma lança ou uma adaga colocada sobre nossas gargantas. Entre senhores de clãs é mais apropriado usar uma espada." "Não tenho nenhuma espada, mas desejo estabelecer este vínculo." Olhou para a espada deitada sobre a cama de Absu e que estava ali desde o momento em que ele mesmo a colocara. "Você não acha que poderíamos fazer isso com uma única espada?" "Essa modalidade já foi usada", admitiu o cavaleiro. "Mas só aconteceu nos campos de batalha." "Meu amigo", observou Grahame sério, "acho que na situação em que nos encontramos, podemos considerar-nos num campo de batalha." "Assim seja", disse o cavaleiro. "E que o sangue jorre agora!" Com um movimento de agilidade surpreendente num homem ferido e deitado numa cama, Absumes Marur agarrou a espada, inclinou-se para frente e apoiou levemente a ponta na garganta de Grahame. Grahame percebeu que um filete de sangue estava a lhe escorrer pelo pescoço. Olhou ao longo da afiadíssima lâmina e encontrou os olhos ferozes do homem que com um leve movimento de sua mão poderia terminar sua vida para sempre. Não se mexeu. Absumes Marur rosnou: "Aqui está alguém que eu não posso matar. Aqui está alguém que poderá me ver de costas. Aqui está alguém em cuja presença eu poderei dormir. Aqui está alguém que poderá conversar com minhas mulheres. Se eu esquecer disso, possa eu morrer de uma morte vergonhosa. E que assim seja, pelo manto sagrado." Colocou a espada sobre a cama e com um gesto convidou Grahame a pegá-la. Grahame apanhou-a, segurando-a com cuidado. Temia não saber como manejá-la e estava apavorado em colocá-la na garganta de Absumes Marur. "Faça jorrar sangue!" convidou-o Absu secamente. Grahame relutava. Então Absu comprimiu sua própria garganta contra a ponta da espada e um filete de sangue escorreu da picada. "Agora repita a fórmula do vínculo!" Grahame fitou os olhos de Absu acima da lâmina e repetiu as palavras, que achou comoventes.
Estranhou sua própria reação. Mas as palavras equivaliam a um poderoso encantamento, elas podiam impedir que dois homens se matassem. Terminou e colocou a espada em seu costumeiro lugar. "Isso significa que não precisamos mais nos matar um ao outro?" perguntou. "Significa que jamais poderemos nos enfrentar no campo de batalha." "Muito bem, Absu. Vamos acrescentar a este seu costume, mais um que é válido no meu país." Estendeu a mão e mostrou a Absu como apertá-la. "Estou lhe oferecendo minha mão em amizade... E agora, se você não estiver muito cansado, quero contar-lhe a respeito de meu país e a respeito da maneira em que eu e meus companheiros fomos trazidos para cá. Em seguida, você me contará tudo a respeito de sua terra." Começou a descrever da maneira mais simples a civilização tecnológica dos países industrializados da Terra. Quando começou a descrever as máquinas voadoras que podiam ir rapidamente de um ponto ao outro, sobrevoando terras e mares, e as máquinas para comunicar à distância, viu que a compreensão e capacidade de acreditar de Absu tinham chegado ao limite extremo. Terminou rapidamente com o relato da chegada em Erewhon dentro dos caixões de plástico e as tentativas de explorar a região em volta. "Então vocês são uma raça de mágicos?" perguntou Absu com ar desconfiado. "Não, Absu. Não somos mágicos. Acho que a diferença principal entre vocês e nós consiste no fato que meu povo dedicou-se por muito mais tempo ao manuseio e desenvolvimento de metais — muito mais que vocês. Os homens mais espertos em nosso meio descobriram como construir máquinas que poderiam fazer melhor o trabalho que antes era feito por homens e animais... Agora, conte-me sua história. Vamos ter tempo bastante para refletir sobre estas coisas." Absu começou a falar, mas como supunha que Grahame tivesse muito mais conhecimentos de seu mundo do que ele realmente tinha, deixou Grahame com a cabeça quase estourando. Relatou a viagem da caravana da pimenta vermelha marchando do Reino de Ullos para o Reino Superior e o Reino Inferior de Gren Li. Absu estava comandando a escolta de quase trinta guerreiros; havia também nove ou dez mercadores, cerca de quinze mulheres e mais de trinta pulpuls — um animal que parecia um cruzamento entre um cavalo e um cervo — que estavam carregados de especiarias e de outras mercadorias. Absu não conseguia compreender quando o ataque — como ele o definia — começou, e de que maneira se passou. A esse respeito as recordações de Absu e de seus companheiros eram confusas e nebulosas quanto as dos terrestres. Absu só tinha certeza de que a caravana já tinha saído de Ullos fazia cinco dias, procedendo através da elevada e extensa cordilheira que separava Ullos do Reino Superior e do Reino Inferior. A chegada em Erewhon foi muito parecida à dos terrestres, com a diferença que em lugar de haver um hotel esperando por eles, havia uma alta e sólida torre de madeira, e em vez de um supermercado havia um rebanho de pulpuls. Mais curioso ainda era o fato que Absu tinha se ferido no mesmo lugar em que Gunnar morrera — quem sabe, talvez na mesma armadilha cheia de estacas afiadas. Por muita sorte, Absu, durante sua cavalgada de exploração estava montado num pulpul que ficou empalado nas estacas. E por ironia da sorte, os ferimentos de Absu foram provocados pelo pulpul, enquanto este se contorcia na agonia. Provavelmente Absu perdera os sentidos por algum tempo, mas finalmente conseguiu se colocar de pé sobre a carcaça do pulpul e sair da armadilha.
Quase louco pelas dores e pelo choque, tentou então encontrar o caminho que o levaria de volta à sua torre, mas acabou chegando a um lugar muito diferente e que, a seus olhos, parecia mais apropriado para ser a morada dos mortos. Os rostos brancos das pessoas que viu — aparentemente ele não reparara em Selene — somente serviram a confirmar sua primeira impressão de estar entre demônios ou fantasmas. "Pois você não está no meio de mágicos, demônios ou fantasmas", respondeu Grahame quando ele terminou. "Você está entre gente parecida com você, Absu. Realmente nossa pele é mais clara que a sua, mas muitos entre nós tem a pele escura. Somos mais altos e vivemos de maneira diferente, mas também somos homens e mulheres. Como aconteceu com você, nós também fomos levados de nosso mundo e trazidos para cá. "De seu mundo?" interrompeu Absu. "Você está querendo dizer, de seu país, não é mesmo?" "Não, estou querendo dizer de nosso mundo." Absu mes Marur deu uma gargalhada. Seu rosto expressou alívio. "Isso mostra que vocês, os mágicos, não sabem mesmo tudo", exclamou satisfeito. "Pois então, meu amigo Russell, fique sabendo que só existe um único mundo. Este mundo é o centro de qualquer outra coisa, e o sol é sua luz... Você já disse algumas coisas sem sentido a respeito de um mundo além das estrelas e do outro lado do sol. Mas isso é impossível, porque a Terra é o que ela sempre foi — o jardim dos deuses." Grahame por um instante sentiu-se confuso. "Você está falando da Terra?" "Isso mesmo, da Terra, o palco de todas as nossas façanhas, onde nascemos e onde iremos morrer. Russell, a Terra é o único lugar em que podemos viver. O único, dentro da fartura de todos os outros lugares criados pelos deuses." Grahame ficou a observá-lo, curioso. "Qual é a forma que você imagina a Terra tem?" Absu deu mais uma gargalhada. "A que valem as grandes máquinas e a grande sabedoria dos mágicos? Acredito que você sempre viveu perto da beirada, e por isso perto das trevas que se encontram em seu exterior... Até as crianças sabem que a Terra é achatada e redonda como um pires, e que suas dimensões são muito vastas. Ela está repleta de países e gentes estranhas, gentes com costumes também estranhos. Não existem dúvidas a respeito disso. Mas ambas as nossas raças, Russell, pertencem à Terra. Somos todos filhos da Terra."
"Então diga-me uma coisa", perguntou Russell sem mais saber o que dizer, "o que aconteceria se um homem chegasse até à mais longínqua beirada da Terra?" "Acabaria caindo", respondeu Absu. "Cairia nas trevas e ninguém poderia vê-lo; nunca mais. Seria o justo castigo pela sua loucura." "Absu, meu amigo", suspirou Russell, "receio que ambos temos muitas coisas a aprender."
A torre de Marur encontrava-se a apenas quinze quilômetros a noroeste. A capacidade de recuperação de Absu era realmente extraordinária, comparado à capacidades dos terrestres, e quando melhorou, Russel e Anna o acompanharam em sua volta para casa. Russell queria acompanhar Absu sozinho. Estava preocupado que os residentes no Erewhon Hilton pudessem ficar expostos a outras surpresas. Por exemplo, o Povo do Rio poderia aparecer em grande quantidade; pelo que se sabia a respeito deles, eram gente bastante feroz. Por isso Russell era contrário a diminuir o que ele chamava de as forças defensivas. Anna, porém, não era da mesma opinião. Asseguroulhe que alguém teria que acompanhá-lo de qualquer jeito, não fosse por outro motivo, para lhe fazer companhia na volta. Absu explicou que seu povo lhe daria uma escolta no retorno. Mas não estava acostumado a discutir com mulheres e vendo que Russell, apesar de ser o senhor de seu próprio clã, não estava se saindo muito bem, aceitou a opinião dela com toda a elegância possível num senhor e guerreiro de uma cultura definitivamente machista. Quer dizer, daquele momento em diante, ignorou a presença dela e endereçou qualquer palavra somente a Russell. Durante seus últimos dias em companhia dos terrestres Absumes Marur convenceu-se mais ainda de estar em companhia de mágicos. Conheceu o milagre da iluminação elétrica, os relógios de pulso, o encanamento moderno, máquinas fotográficas, binóculos e constatou um fato extraordinário: era permitido a uma mulher caminhar em frente de um homem. Ficou bastante intrigado pela insistência de Russell que continuava a lhe explicar que o povo dele chegara de um outro mundo, completamente diferente, mas que eles também chamavam de Terra. Ficou admiradíssimo porque todos eles aparentavam ser capazes de falar fluentemente a idioma de Gren Li Superior e Inferior, apesar de seus lábios estarem se mexendo de forma diferente. A coisa que mais o deixou admirado foi o comportamento e as atitudes tão diferentes das de um povo guerreiro. Após muito especular, chegou à conclusão que um povo destes possivelmente guerreava com a força das mágicas e não com armas honestas, e felicitou- se consigo mesmo por ter estabelecido um vínculo de sangue com o senhor desse estranho clã. Se os senhores dos clãs eram proibidos de se defrontar em combate, seus povos também não podiam guerrear um contra o outro. A coisa era ao mesmo tempo desagradável e vantajosa. A paz era uma condição enfadonha, mas era de longe preferível a uma guerra contra gente que con¬seguia aparecer à vontade uma luz branca e que comia servindo-se de uma peça de metal recôncava. Russell nomeou John Howard seu vice pela duração de sua ausência. Em caso de não mais voltar, John Howard teria que assumir a responsabilidade de forma permanente, a menos que não fosse deposto pela maioria e um outro nomeado em seu lugar. Simone Michel, que tinha a incumbência de buscar mantimentos, fez uma descoberta agradável bem cedo na manhã do dia em que iriam para a Torre de Marur. Ela descobriu que os pacotes de cigarros estavam mais uma vez à disposição nas prateleiras do supermercado. gra evidente que o castigo pela curiosidade — se fora um castigo, e não uma simples distração — chegara ao seu fim. A viagem em si foi perfeitamente normal. Durou quase o dia inteiro, em parte porque Absu ainda estava fraco demais para viajar depressa, e em parte porque uma ou duas vezes ele perdeu o caminho, e isso acrescentou alguns quilômetros à marcha. Quando já estavam no fim, ele parecia se dirigir quase que exclusivamente pelo faro.
Quando Russell perguntou a Absu qual era o cheiro que ele estava seguindo, aprendeu que Abus estava tomando as trilhas recentemente usadas por pulpuls selvagens ou então montados. Não fazia nenhuma diferença, porque todos os pulpuls sempre ficavam num rebanho perto da Torre, e os pulpuls que estivessem montados deviam obrigatoriamente estar indo ou vindo da Torre. Russell então tentou farejar também todas as vezes que via Absu dilatar as narinas. Mas não conseguiu distinguir cheiro nenhum — talvez porque não saiba qual fosse o cheiro que tentava distinguir. Chegou à conclusão que o pulpul tinha, para o povo guerreiro dos Reinos Superior e Inferior de Gren Li, a mesma importância do que o búfalo para os índios americanos e a rena para os Lapões. Era um meio de transporte pessoal e também um animal de carga. Fornecia a carne para a alimentação e seu couro servia para fazer roupas. As tripas eram usadas para a fabricação de amarras e cordas para arcos. Seus chifres podiam ser usados para a confecção de utensílios, adereços, colheres, agulhas e facas. Seus cascos tinham fama de afrodisíacos, sua cauda era usada como uma proteção contra os espíritos malignos e seu nariz, seco e curtido, confortava as mulheres quando os guerreiros estavam ausentes.
A Torre de Marur estava situada no topo de uma pequena elevação, a cerca de duzentos metros acima da planície que a contornava. Não ficava distante de um regato ao qual se chegava por uma trilha bem pisada pelas mulheres que diariamente iam buscar água. A Torre era de madeira e protegida por uma alta paliçada. O Teto da Torre apresentava ameias, à maneira das fortalezas primitivas e se encontrava a vinte e cinco metros do solo. Havia nele duas sentinelas que perceberam a aproximação de Absu e das duas pessoas que o acompanhavam quando eles ainda se encontravam a mais de dois quilômetros de distância, e um pequeno grupo de guerreiros fez uma surtida para investigar. Os três guerreiros do grupo saíram da Torre montados em seus pulpuls e atravessaram a vegetação composta de capim alto a uma velocidade extraordinária, evitando as pequenas árvores e os outros obstáculos com excepcional habilidade. Quando Absu percebeu a aproximação deles começou a caminhar com passo mais elástico e um porte mais austero. Antes que chegassem a vista da Torre ficara caminhando tranqüilamente entre Russell e Anna, mas quando chegaram perto, tomou a dianteira e começou a marchar a três ou quatro passos à frente dos outros dois.
Anna começou a não se sentir mais à vontade. "Acredito que nosso amigo estrangeiro está passando por uma mudança espiritual", ela murmurou para Russell. "Quem sabe, teria sido melhor deixar que ele terminasse o último trecho sozinho. Que tal se essa gente decidir que seria boa coisa pedir mais reforços?" Russell segurou a mão dela e mostrou-se mais confiante do que estava. "Absu tem um profundo sentimento de honra", disse. "Ainda por cima, ele e eu agora somos algo parecido com irmãos de sangue, não se esqueça disso. Não acredito que seria capaz de renegar sua própria palavra, e trair o vínculo." "Russell, você é confiante demais. — Isso é uma fraqueza tipicamente ocidental." "E você é excessivamente cínica — que também é uma reação tipicamente oriental..." Sorriu com alegria. "É por isso que você e eu nos damos tão bem." A conversa foi interrompida pela chegada dos guerreiros Gren Li, montados em seus pulpuls, segurando firmemente os chifres dos animais, o que era bastante cômico porque dava a impressão que estivessem segurando o guidão de uma bicicleta. Vinham com tanta velocidade e apontando diretamente para Absu que davam a impressão de querer atropelá-lo. Mas a habilidade de parar de repente dos pulpuls era muito superior à dos cavalos ou dos cervos. A um sinal do líder do grupo, os três animais pararam juntos. "Os filhos de Absumes Marur apresentam saudações", falou um dos cavaleiros. "Absumes Marur saúda seus filhos", respondeu Absu em tom amável. "Sir, temíamos sua morte." "Cheguei tão perto da morte que senti seu gosto, mas me recuperei graças aos inimigos de meus inimigos." "Sir — uma lança descreve um semi-círculo e parou apontando para o estômago de Russell, "esses estrangeiros são suas presas?" "São meus amigos. Foram eles que me devolveram à vida. Se alguém ousar chamar isso de fraqueza, lance agora seu repto segundo nosso antigo direito."
Os três homens começaram a murmurar entre eles. Em seguida o que parecia o líder dos outros virou-se para Absumes Marur. "Não duvidamos da valentia e sabedoria de nosso sir. Afirmamos isso, pelo manto sagrado."
"Também não duvido de vossa sabedoria", respondeu Absu. "Apeem agora, meus filhos, e deixem meus hóspedes cavalgar." Russell protestou, mas de nada valeu, e ele e Anna foram levantados para o lombo dos pulpuls. Mostraram-lhes como segurar os chifres. Era bastante fácil cavalgar um pulpul porque os animais costumavam manter as cabeças eretas, proporcionando aos cavaleiros um apoio firme. Percorreram o que restava do caminho até a Torre em poucos minutos. Os pulpuls procediam a passo lento e sacudido e os "filhos" de Absumes Marur corriam ao lado. Quando subiram para a elevação em que se encontrava a Torre ouviram as notas de alguma tuba ou trompa, cujo som era agradável até aos ouvidos de criaturas terrestres. A Torre de Marur, construída por mãos desconhecidas como o Erewhon Hilton e o supermercado, já existia quando seus ocupantes chegarem — e Russell descobriu que isso aconteceu mais ou menos na mesma época da chegada dos terrestres. Como já fora o caso com o hotel e o supermercado, quem quer que fosse que levantara a Torre, tomara o maior cuidado para se certificar que ela seria uma réplica perfeita das construções às quais seus moradores estavam acostumados.
Vista de fora, a Torre dava a impressão de uma construção sombria, com um certo número de pequenas janelas triangulares em cada andar. Em seu interior, e pelo menos acima do rés-do-chão, era surpreendentemente confortável. Peles de pulpul costuradas umas às outras cobriam o chão de madeira e havia montes de peles e até almofadas cobertas de fazenda para sentar e deitar. Armas e troféus enfeitavam as paredes e lâmpadas fumacentas de óleo de pulpul propiciavam uma luz trêmula, mas agradável, iluminando o ambiente escuro. O rés-do-chão parecia uma combinação de mata¬douro, forno, sala de armas e oficina. Degraus de madeira levavam ao andar superior, onde havia uma porta trancando o apartamento das mulheres, e dali subia para os alojamentos dos mercadores e dos guerreiros, terminando no apartamento do senhor do clã, logo abaixo do adarve. Absu instalou seus hóspedes ali mesmo, mas não sem antes apresentá-los a todos os seus outros "filhos". Essa apresentação era um ritual imprescindível numa sociedade em que a própria aparência de pessoas estranhas era o suficiente para provocar reações violentas. Durante sua estada com os terrestres, Absu fora obrigado a ingerir leite evaporado e estranhos mantimentos em conserva. Foi a vez dos terrestres: tiveram que aceitar comidas esquisitas. Receberam em primeiro lugar algo que se parecia e tinha o paladar de abacate picado, mas que resultou ser miolos crus de pulpul — o prato mais requintado daquele povo. Seguiram coração de pulpul brasado, algumas verduras de paladar bastante agradável e a famosa pimenta vermelha, a especiaria na qual Russell ouvira falar com tanta fartura. Pelas descrições de Absu, Russell imaginava que essa especiaria fosse uma pimenta vermelha qualquer. Isso era certo — mas também era errado. Era muito mais ardida do que qualquer outra pimenta conhecida, e as gotas de suor começaram a brotar em sua testa.
Além disso, a tal pimenta embriagava, mas somente se quem a comesse também bebesse água. Com sua surpresa, Anna conseguiu comer a pimenta vermelha sem aparente dificuldade. Observando o que Absu fazia, viram que era comida com colheirinhas minúsculas (feitas de chifres de pulpul) de uma vasilha que se encontrava no centro da mesa, alternada com porções de coração de pulpul, muito resistente e amargo. Russell bebeu bastante água, que lhe era oferecida a toda hora por uma mulher diminuta, morena e quase nua que ficou agachada a seu lado, mantendo as mãos nos ombros dele com um gesto bastante familiar. A mulher chamava-se Yasal e era belíssima até pelos padrões terrestres. Nenhum outro membro do clã de Absu tomou parte no repasto. Quando terminaram de comer, Russell estava num pileque total. Sabia de estar bêbado e se sentiu muito ridículo. Absumes Marur fitou-o com ar solene: "Esperava que essa noite falaríamos mais uma vez nos problemas que nos preocupam a ambos, Russell". Lançou um olhar à vasilha de pimenta vermelha. "Receio, porém que a jornada nos proporcionou um cansaço que é diferente para cada um de nós. Vamos adiar nossa troca de pensamentos graves para a hora em que levantaremos juntos com o sol e já descansados. Entretanto, sendo isso nosso costume, minha mulher aquecerá as peles de sua cama e sua mulher aquecerá as peles da minha." Apesar da névoa que estava invadindo seu cérebro, Russell percebeu que a hospitalidade desse senhor de clã medieval incluía costumes bastante surpreendentes. Olhou para Anna, que por sua vez observava Absumes Marur com expressão impassível. Falou então para o amigo, "Absu, meu irmãozinho... temos um problema." Parou um instante, procurando as palavras mais apropriadas. "Na minha terra não costumamos... trocar de mulheres... Bem, pelo menos não muito... entre amigos..." Absu sorriu. "Nós também não costumamos fazer isso, Russell, meu amigo — com uma exceção: a primeira noite da primeira visita. Assim é o costume das torres, quando existe um vínculo. Sempre foi assim. Sem dúvida, assim sempre será... Pessoalmente, não sinto muito entusiasmo por uma mulher tão alta e com aparência de fantasma, e que não conhece a maneira certa de expressar respeito na presença de seu senhor. Mas os costumes das torres são sagrados, e receio que você passará bem melhor do que eu." Anna Markova não era mulher que pudesse ser intimidada por um autocrata medieval estrangeiro, tosco e atrasado. Tomou um grande gole de água após a última colheirinha de pimenta vermelha, para ter o tempo de pensar numa resposta apropriada. Aquele gole de água chegou em péssima hora. Os vapores misteriosos da pimenta vermelha reagiram imediatamente e de seu estômago subiram-lhe na mesma hora para o cérebro, tornando-se candentes e impedindo qualquer pensamento racional. "Ouça e fique sabendo, Absus mes Marur", disse com a língua enrolada", que toda livre mulher russa vale dez destas bruacas não emancipadas que sua gente acredita serem fêmeas. Não é do meu feitio deitar com pigmeus sedentos de sangue, mas no interesse do relacionamento internacional — perdão, quero dizer interplanetar, vou aquecer as peles de sua cama de tal maneira, que você não vai esquecer essa noite pelo resto de sua vida." Russell ficou assustado, os olhos de Yasal se arregalaram pela surpresa e Absu começou a dar tantas gargalhadas que os outros começaram a temer que fosse se sentir mal. "Pelo manto sagrado, pela rainha branca e pela rainha preta, essa mulher-fantasma tem um brio extraordinário", disse a Russell. "Mas, meu amigo, fique sabendo que ela está contando muita vantagem. O calor do sangue dela está muito longe do calor de suas palavras." Anna levantou-se, com alguma dificuldade, e olhou com desdém para o sir de Gren Li. "Bárbaro", ela proferiu, procurando insultos mais apropriados. "Selvagem. Imperialista. Fascista. Vou lhe ensinar a respeitar os que lhe são moral e intelectualmente superiores, nem que seja a última coisa que..." Seus olhos se fecharam. Esforçou-se desesperadamente para mantê-los abertos, mas suas pálpebras não lhe estavam mais obedecendo. Ondulou levemente e depois, sem dizer mais nada, caiu ao chão e ficou imóvel. Absumes Marur gargalhou. "É como eu disse que ia ser, Russell. Você passará muito melhor do que eu." Agarrou Anna por um traço e pelos cabelos e arrastou-a com alguma dificuldade até um monte de peles. "Ainda bem que dessa maneira ela não vai me importunar muito." Mas Russell, tentando virar para o outro lado, também caiu e ficou imóvel. Absumes Marur lançou a Yasal, a preferida das suas companheiras noturnas, um olhar perplexo. "Eles são meus amigos, mas não conhecem nossos costumes. Você sabe o que deve fazer, minha filha. Façao."
No fim da tarde do dia seguinte, Russell e Anna com as cabeças ainda doendo um pouco, começaram a viagem de volta para casa, escoltados por dois guerreiros de Absu — e estranhando um pouco o fato de terem começado a pensar no Erewhon Hilton como "casa". Os quatro estavam montados em pulpuls e a viagem foi rápida e sem incidentes. Enquanto procediam saltitando, segurando firmemente e de maneira um pouco ridícula os chifresguidão, ladeados pelos guerreiros Gren Li, Russell ficou revolvendo em sua mente a conversa com Absu naquela mesma manhã — logo após tomar grandes copos de água, acompanhados por estranhos flocos de uma substância que resultou ser pão ázimo, para acabar com os efeitos da ressaca. No grupo de seqüestrados da caravana da pimenta vermelha encontrava-se um homem que Absu chamava de descobridor de caminhos. No Reino Superior e no Reino Inferior, onde o comércio dependia de rotas seguras para as caravanas, em terreno difícil e que freqüentemente mudava de característica, a arte de encontrar trilhas era uma profissão muito antiga e respeitada, limitada a algumas poucas famílias que eram conscientes e ciumentas de tanta honra. O descobridor de caminhos de Absu era também um explorador e sabia fazer mapas. Logo após a chegada do grupo à Torre de Marur, o homem foi mandado para o norte onde a região parecia cheia de colinas que poderiam ser mais agradáveis que a planície. Absumes Marur e seu povo em geral preferiam as colinas, se a região não revelasse sérias dificuldades, estavam preparados a se mudar para lá, abandonando a Torre de Marur e construindo uma outra num local mais apropriado. O descobridor de caminhos saiu sozinho e ficou ausente durante três dias. Quando voltou trouxe algumas informações curiosas. Ao norte havia fartura de animais selvagens, o que mostrava que aquelas terras eram ótimas para caçar. Explicou, porém, que alguns animais que vira poderiam se constituir numa ameaça para os pulpuls. Isso era um obstáculo muito sério, porque qualquer ameaça contra os pulpuls se transformava numa ameaça contra a própria existência do grupo. O descobridor de caminhos explicou também ter visto selvagens e algo que ele descreveu como um enxame de demônios providos de asas, cujos rostos pareciam cobertos por longos cabelos dourados. Não tivera a oportunidade de estudá-los em todos os detalhes e mais demoradamente, porque os demônios estavam voando baixo, mas a grande velocidade e por isso desapareceram rapidamente. O descobridor devia ser um homem muito corajoso porque, apesar dessa experiência, não deixou de transpor as colinas que agora estavam em sua frente. Do outro lado viu uma planície levemente ondulada onde a vegetação, ao contrário da região do outro lado das colinas, era muito pobre e se constituía, sobretudo, de capim. A planície parecia o segmento de um vasto círculo e estava limitada em sua extremidade por algo que se assemelhava a uma muralha imóvel de névoa ou vapor. O descobridor de caminhos tinha enorme orgulho de sua profissão e isso o ajudou a superar a tentação de virar as costas e voltar rapidamente para trás. Atravessou a planície a pé, deixando o pulpul amarrado num arbusto. Fora obrigado a isso porque o pulpul, que normalmente é um animal dócil e obediente, recusou-se a continuar. O homem não levou muito tempo para alcançar a muralha de névoa. Ele estava convencido que, em se aproximando, aquela estranha barreira perderia seu aspecto de muralha. Mas estava enganado. Havia uma leve brisa soprando, mas assim mesmo a barreira de vapor continuou imóvel, mantendo sua forma rígida. A curiosidade do descobridor de caminhos mostrouse mais forte do que seu pavor na presença daquele estranho fenômeno. Esperava poder passar de alguma maneira por aquela esquisita muralha de nevoeiro branco e descobrir o que havia do outro lado. Mas antes de tentar penetrar nela, ficou parado por algum tempo, observando aquela névoa e reparando em alguns curiosos pormenores. A "superfície" da muralha não era fofa ou irregular como seria lógico em qualquer condensação de neblina produzida pelo solo ou pelo mar. O vapor não parecia se misturar ou se agitar na atmosfera, e dava quase a impressão de estar contido na mesma posição por alguma película rígida e invisível. Aos dois lados do descobridor de caminhos, aquela parede se estendia na distância e ele conseguiu ver que a curvatura era absolutamente regular. Sendo um homem inteligente e cheio de iniciativa, começou logo a fazer alguns cálculos complicados baseados na possibilidade que a curvatura fosse constante e que a parede não tivesse um fim. Nesse caso, ele raciocinou, ele, seu clã, e a terra em que se encontravam, estariam dentro de um círculo com um diâmetro de talvez cinqüenta ou sessenta "varaks". (Durante uma troca de explicações com Absu, Russell conseguiu estabelecer que um quilômetro era mais ou menos equivalente a um varak e meio). Após examinar todas as implicações contidas nessa possibilidade, o descobridor de caminhos chegou ã conclusão que era seu dever tentar penetrar névoa adentro. Era corajoso, mas também cauteloso— como, aliás precisava ser em sua profissão — e antes de penetrar na névoa com todo o corpo, começou enfiando sua mão. A mão desapareceu como se tivesse sido cortada na altura do pulso. O homem manteve sua mão na névoa por algum tempo e começou a sentir um estranho formigamento nos dedos. Quando finalmente retirou a mão, percebeu que ela estava bastante mais fria que o resto de seu corpo. Por algum tempo o descobridor de caminho ficou meditando sobre suas descobertas. Elas nada tinham que pudesse encorajá-lo a continuar. Se a névoa era tão opaca que a mão desaparecia completamente à vista, como poderia ele se orientar dentro da névoa, quando já estivesse dentro dela? Uma pedra-ímã fazia parte de seu equipamento normal, mas além dela também levava um rolo de corda, feita de pelo de pulpul, longa um quarto de varak.
Prevendo a possibilidade de uma falha no funcionamento da pedra-ímã — e ninguém poderia prever o efeito daquela esquisita névoa sobre uma simples pedra-ímã — o descobridor de caminhos plantou firmemente sua lança no solo, amarrou uma ponta da corda na lança e a outra ponta em sua própria cintura. Todas essas precauções resultaram inúteis. Não conseguiu penetrar profundamente dentro do nevoeiro, e foi muito fácil encontrar o caminho para voltar. Não conseguiu penetrar muito, porque a cada passo que dava a temperatura se tornava mais baixa, de forma evidente e desagradável. Após meia dúzia de passos sentiu o gelo se formando sobre a pele; três passos mais adiante não conseguiu mais mexer os dedos; com mais dois passos sua boca imobilizada por uma camada de gelo e sentiu que seus olhos estavam se congelando também. Foi muito fácil encontrar a saída. Bastou procurar a temperatura mais quente. O descobridor de caminhos era profundamente consciente de seus deveres com o senhor do clã, e por isso tentou penetrar na muralha por um outro lugar. Como da primeira vez, teve que desistir por causa do frio intenso. Tentou pela terceira vez, e mais uma vez teve que voltar. Sendo um homem de bom senso, não insistiu mais. Voltou ao lugar onde deixara seu pulpul e tomou o caminho da Torre de Marur para fazer seu relatório e desenhar um mapa primitivo da região explorada. Russell ouviu toda essa história de Absu, após se recuperar de sua ressaca de pimenta vermelha. Pediu para falar pessoalmente com o descobridor de caminhos, mas o homem saíra a procura de Absu antes da volta deste e ainda não aparecera. Russell ficou pensando no significado do relatório do descobridor de caminhos enquanto voltava com Anna e os dois guerreiros para o Erewhon Hilton. Supondo que a hipótese do zoológico estava certa, e supondo que a muralha de névoa continuava até formar um amplo círculo, chegava-se à conclusão que apesar da área da reserva ser muito vasta (e poderia chegar a ter quase novecentos quilômetros quadrados), os donos do zoológico não mostravam a menor intenção de permitir que seus "animais" escapassem. Por outro lado, as conclusões do descobridor de caminhos poderiam ser erradas, e a névoa poderia não passar de um fenômeno local. Russell lembrou-se, porém, do relato de John Howard após a segunda expedição, e achou que o descobridor de caminhos de Absu interpretara de maneira correta o propósito da barreira de névoa.
Enquanto Howard estava observando o Povo do Rio com seu binóculo, percebeu uma alta muralha de névoa na distância, que ficava completamente imóvel, do outro lado do rio. Era de se supor que essa muralha e a do descobridor de caminhos eram a mesma. O descobridor de caminhos fora para o norte, enquanto a expedição de John Howard fora para o sul; isso servia para reforçar a hipótese de que a muralha era um círculo bastante grande. Nesse caso, poderiam ser deduzidas várias e interessantes possibilidades... Russell percebeu de repente que Anna estava tentando lhe falar. "Estamos perto de casa agora, Russell. Acredito que nossos amigos guerreiros não precisam chegar conosco até nossa base" — e lançou um olhar significativo aos dois cavaleiros impassíveis. — "Talvez seria mais interessante se andássemos a pé. durante o último trecho, de um ou dois quilômetros." "Acho que você está certa", respondeu Russell compreendendo o que ela estava pensando. Absumes Marur conhecia perfeitamente o Erewhon Hilton, mas não havia razões para deixar que seus belicosos guerreiros vissem com seus próprios olhos até que ponto o prédio era indefensável do ponto de vista militar. Isso poderia dar-lhes idéias.
Parou seu pulpul e falou aos guerreiros. "Meus amigos, o sir Absu generosamente permitiu que vocês nos escoltassem até nossa própria terra. Sentimo-nos muito agradecidos. Desejamos, porém, terminar nossa jornada caminhando. Devolvemos com agradecimentos os pulpuls que estamos cavalgando. Digam ao seu senhor que apreciamos muito a companhia de tão valentes guerreiros durante a viagem, e que agradecemos a ele e a vocês a proteção que recebemos durante o caminho." Desceu com muito cuidado de seu pulpul, percebendo que se caísse do animal perderia o respeito dos guerreiros, e ajudou Anna a desmontar. "Sir Russell," falou um dos guerreiros, "ouvimos suas palavras e estamos prontos a obedecer. Você sabe, porém, que o senhor de nosso clã nos ordenou a leválos seguramente até sua torre. Se alguma coisa acontecer com você, seremos castigados por não ter cumprido nossa missão." "Nada poderá nos acontecer," respondeu Russell. "Podem dizer ao sir Absu que eu lhes dei ordens para voltar daqui mesmo." Os guerreiros saudaram à sua maneira, batendo a mão espalmada na lâmina da espada. "Assim seja, pelo manto sagrado. Boa viagem."
"Em nome da Rainha branca e da Rainha preta," replicou solenemente Russell, tentando se manter dentro das fórmulas daquele estranho povo. Desejo-lhes uma volta tranqüila." Os guerreiros viraram suas montarias e os dois pulpuls sem cavaleiros os seguiram obedientes; o grupo se afastou galopando pela mesma trilha seguida, até aquele ponto. Russell e Anna começaram a caminhar de mãos dadas. Era uma tarde quente e ainda faltava bastante até o crepúsculo. Não havia necessidade nenhuma de se apressar. Após algum tempo sentiram-se cansados pelo verde da savana e pelo ar quente e parado. Encontraram um lugar em que o capim parecia relativamente baixo e sentaram para descansar. Finalmente deitaram e ficaram olhando para o céu em que navegavam algumas pequenas e fofas nuvens, cuja aparência era absolutamente normal. Anna foi a primeira a interromper o silêncio. "Russell... durante a noite passada... você acabou fraternizando-se com aquela pequena e atraente selvagem?" Ele a encarou com expressão perplexa. "Quer saber de uma coisa? Juro que não consigo me lembrar. Você não acha esquisito?"
Anna sorriu. "Pensei que ela não poderia ser facilmente esquecida." "Assim mesmo, não consigo me lembrar... Aquela pimenta vermelha misturada com água tem um efeito poderoso. Em comparação, uma vodka polonesa de 140° parece limonada... E você, Anna? Você — hum — fraternizou-se com Absu?" O rosto dela permaneceu calmo. "Eu também não lembro de nada... Mas tive a impressão... Não sei, não. Mas penso que talvez... Aquela pimenta vermelha é potente!" Russell deu uma gargalhada. "A última coisa que eu me lembro é que você o xingou com uma porção de nomes feios e logo depois caiu no chão." Anna enrubesceu. "Estou tentando falar seriamente", respondeu um pouco seca. "Afinal, se qualquer um de nós se fraternizou, isso poderia acarretar um certo número de possibilidades genéticas." Russell prorrompeu em mais uma gargalhada. "Não faça assim, estou ficando com desejo de você... Desculpe, meu bem. Vou tentar me manter sério." "O assunto não me parece merecer gargalhadas," ela observou. "Eu sei. Mas está fazendo muito calor, passamos por uma aventura maluca, estamos perto de casa e você é muito desejável. "Colocou uma mão sobre o seio dela.
Ela torceu o nariz. "Você está querendo fraternizar?" perguntou com ar solene. "Minha querida, vamos fazer isso mesmo." Sem sentir necessidade de mais palavras, fizeram amor em meio ao grande silêncio verde da savana. Em seguida se levantaram e começaram a caminhar lentamente em direção ao Erewhon Hilton. Era um dia que não poderiam esquecer.
Russell organizou uma reunião geral naquela mesma noite, na sala de jantar. Contou a seus companheiros tudo o que acontecera, omitindo somente o pequeno e agradável interlúdio com Anna no fim da jornada. Todos ficaram confusos e ao mesmo tempo divertiram-se pelas experiências do casal. Antes que pudessem começar a discutir seriamente o assunto, ambos tiveram que agüentar um bombardeio de perguntas e comentários maliciosos. Quando isso terminou, John Howard dirigiu a conversa para um nível mais construtivo. "Acredito que você pensa que precisamos considerar nossa situação à luz dessas recentes revelações," falou. Russell assentiu. "Continuamos sabendo muito pouco, e o que sabemos ainda não dá para tirarmos qualquer sentido. Apesar disso acho que devíamos pensar no assunto e ver se chegamos a alguma dedução razoável. Se eu não me engano, pela aparência das coisas teremos que ficar aqui por um tempo imprevisivelmente longo. Nossa sobrevivência — e, aliás, qualquer coisa que nos diga respeito — pode depender de nossa maneira de reagir em base às informações que recebemos hoje." Marion Redman perguntou "Você acha realmente que essas criaturas são seres humanos?" Russell encolheu os ombros. "Qual é a maneira de definir um ser humano, Marion? Trata-se de criaturas que vivem exclusivamente na Terra — e assim dizendo, quero dizer a nossa Terra? Nesse caso Absumes Marur e seu povo não são seres humanos. Mas a aparência deles e meu instinto afirmam que eles são, sem nenhuma dúvida, seres humanos. Evidentemente, humanos extraterrestres, mas assim mesmo humanos. E a resposta vai além de sua pergunta." "É possível que Anna possa nos dar uma resposta mais certa daqui a nove meses," sugeriu Mohan das Gupta com ar solene. "Isso é possível." Russell piscou para Anna. "Mas o que vai acontecer se o neném se parecer com um político inglês esquerdista?" Simone Michel saiu-se com uma idéia nova. "E que tal se eles não existem?" perguntou. "Não podemos supor que estamos sendo vítimas de uma alucinação em massa? Ou qualquer outra coisa parecida?" "Pois sim. Podemos até supor que ainda estamos no avião que nos leva de Estocolmo a Londres," observou John Howard seco. "Estamos todos tomando parte num sonho comunitário bem confortável, mas logo logo teremos que enfrentar a alfândega em Heathrow... Assim não vai. Se começamos a admitir esse tipo de estranho raciocínio, podemos chegar a toda espécie de teorias do tipo mais extravagante." "Mas isso é possível," insistiu Simone, sacudindo seus longos cabelos escuros. "Eu sei que é uma loucura. Por outro lado, tudo o que aconteceu conosco é uma verdadeira loucura. Daí, é possível." "As idéias de Simone," observou Paul Redman. "Transmitidas com admirável lógica gaulesa, que pode ser facilmente destruída," acrescentou John. "Infelizmente, acho que no meio de tantos elementos imponderáveis, somos obrigados a levar em conta o princípio que reza que a explicação mais simples é possivelmente a explicação mais correta. Em suma... Fomos fisicamente removidos de um avião a jato em pleno vôo, estamos num lugar que é real, as coisas que aconteceram conosco são reais. Não podemos esquecer que Gunnar e Marina morreram. E não podemos esquecer que as pessoas que encontramos também são reais. Partindo dessas premissas, podemos começar a deduzir, para chegar às conclusões." "Não podemos esquecer o Povo do Rio," disse Robert Hyman.
"E as aranhas metálicas," acrescentou Selene Bergere, estremecendo. "E as fadas de Paul," disse Nore Norstedt. "Por favor, quem levou minha garrafa de whisky?" "Um pouco de ordem, senhoras e cavalheiros, por favor. Essa discussão está indo água abaixo... John, você tem a expressão de alguém que está em ponto de falar. Que tal? Você poderia nos dar sua interpretação dos fatos." John sorriu. "Isso vai levar muito menos tempo do que vocês pensam, porque devo confessar que estou perplexo como todos vocês. Temos, porém alguns fatos e algumas teorias interessantes, e talvez chegou o momento para nos arriscarmos em algumas especulações. Até não conseguirmos algo melhor, a teoria do zoológico parece-me a mais plausível de todas. Vamos aceitá-la por enquanto. Mas quem é que dirige esse zoológico? Não sabemos nada a esse respeito. Sabemos que há robôs envolvidos nisso, porque temos provas positivas. Mas não consigo acreditar que esses robôs sejam mais do que instrumentos a serviço das pessoas ou criaturas que nos trouxeram até aqui. É possível que as aranhas-robôs sejam controladas por máquinas mais complexas, como também é possível que toda essa operação seja controlada por computadores sofisticados a um ponto que não podemos sequer começar a imaginar. Todavia, prefiro a explicação mais simples, ou seja que todo esse projeto é obra de uma espécie biológica e não de uma espécie eletro-mecânica, se é assim que podemos defini-la." "Acredito que as fadas que eu vi são realmente nossos amos", falou Paul Redman muito sério. A observação suscitou um coro de gargalhadas. Mas eram gargalhadas nervosas. "Vou falar nas fadas daqui a um minuto", disse John. "Pessoalmente não penso que a idéia seja tão louca como a maioria de vocês parece estar pensando. Mas procurem seguir meu raciocínio por mais um pouco. Sabemos que estamos sendo observados, mas não temos contato nenhum com os observadores. Isso poderia significar que eles são naturalmente misteriosos, ou que um contato direto conosco poderia invalidar a experiência ou a operação, ou então que eles temem ser vistos ou finalmente que pensam que poderíamos ficar assustados vendo-os. Pode ser qualquer uma dessas possibilidades e cada um pode escolher a que acha mais plausível. Pessoalmente acredito que eles pensam que um contato conosco poderia afetar a operação. Temos uma única certeza: eles estão muito preocupados com o nosso conforto, porque chegaram aos requintes mais extremos paranos proporcionar um ambiente agradável e o tipo de alimentação que é normal para nós." "Existe mais uma possibilidade", observou Robert Hyman seco. "É possível que todo esse projeto não seja mais do que uma variante do sistema de engorda de gansos na época do Natal." "Canibalismo?" gritou Selene, arregalando seus olhos enormes. "Não, não acredito que possamos tomar isso ao pé da letra", retrucou John de uma forma um pouco misteriosa. "Sim, Robert, existe realmente a possibilidade de sermos considerados cobaias — mas não acredito que seja para fins de vivissecção, ou outros métodos para averiguar nossa resistência à destruição... O que realmente sabemos, até agora? Sabemos que há pelo menos dois grupos sociais diferentes, isto é, estranhos a este planeta — o nosso e o do povo de Gren Li. Não temos a menor idéia de onde apareceu o contingente de Gren Li, porque eles ainda pensam estar em seu próprio mundo — eu suponho que esta seja uma possibilidade remota — que eles acreditam seja plano e o centro do cosmos. Sabemos que eles, como nós, foram submetidos a uma manobra incrível que não nos permite estabelecermos comunicação, no que concerne a linguagem. Também sabemos — ou assim pensamos — que eles são humanos... E, ainda que não tenhamos estabelecido contato com o Povo do Rio, estou convencido de que eles também tenham compartilhado dessa experiência comum e que aparentemente possam falar inglês, sueco, ou a linguagem de Gren Li, conforme a ocasião." "Eles parecem muito hábeis com estacas pontiagudas e buracos profundos," observou Andrew Payne severo. "Certamente. Provavelmente a caça é seu objetivo mais importante. Parece que os buracos são originalmente feitos para animais e não para humanos... Agora que formulamos hipóteses sobre o Povo do Rio, temos aqui três grupos sociais completamente diferentes, de mundos diversos, capazes de se comunicar entre si e cercados na mesma área. Como o guia de Absumes suspeitou, creio que a muralha de névoa se estende num círculo completo e representa, de fato, as barras de nossa enorme gaiola... Dentro desta gaiola temos amostras da cultura da Idade da Pedra, da cultura medieval e da cultura tecnológica. Talvez alguém só quer ver o que acontece... O que me leva de novo às fadas de Paul ou, se vocês preferem, aos demônios alados do guia de Absu." "John", disse Mohan das Gupta, "você é um bom sujeito, mas caiu do cavalo. Por que invocar essas fadas ou demônios, ou o que quer que seja?"
"Porque", disse John Howard comovente, "obviamente, eles são as únicas criaturas, até agora encontradas, que podem atravessar a muralha."
Durante alguns minutos a discussão se tornou confusa, pois todo mundo queria dar ao mesmo tempo sua opinião a respeito da existência da natureza, do propósito ou do potencial das assim chamadas fadas, que também tinham o apelido de demônios. Russell viu que não seria possível chegar a qualquer conclusão pelo simples fato de não existirem provas objetivas que pudessem ser discutidas de maneira construtiva. Paul só vira as criaturas durante um instante, e a mesma coisa acontecera com o descobridor de caminhos de Gren Li. Era até possível, mas não provável, que cada um deles tivessem visto criaturas aladas de natureza diferente. Até que aqueles seres não fossem visíveis de perto ou durante um tempo mais prolongado, ou em ambas as circunstâncias juntas, qualquer conversa a respeito não passava de extravagante conjetura. As criaturas aladas existiam e possivelmente eram capazes de sobrevoar e transpor a muralha. Mas isso não provava nada, apesar das convicções de John Howard a respeito. Se as fadas ou os demônios que fossem, eram observadores inteligentes, eram também muito discretos em sua tarefa.
Por isso Russell continuou bebericando sua gin-tônica e esperou que todo mundo se acalmasse. Finalmente julgou ter chegado o momento de sua própria contribuição. "Posso dizer algumas palavras a respeito?" começou. "John fez uma série de observações bastante sensatas, mas por enquanto não nos levou a lugar nenhum. Gostaria que vocês voltassem comigo para a Terra, ou pelo menos para nosso pequeno zoológico de Erewhon. Vamos supor que o Povo do Rio está exatamente na mesma situação em que estamos, e em que também se encontra o povo da Torre de Marur. Dessa forma, como John sugeriu, temos três tipos de cultura na mesma jaula — e todas elas humanas, já que não temos uma palavra melhor para defini-las. Quem quer que seja que organizou tudo isso, está interessado em saber o que vamos fazer uns com os outros — e eu também estou muito interessado. Tenho certeza de uma coisa: nós não poderemos nos isolar. Teremos que unir nossas forças, nossos recursos e nossa experiência até com o povo da Idade da Pedra, se isso for possível." "Tenho a impressão que aquele pessoal é muito tosco", comentou Paul Redman com ar preocupado. "Em se tratando de tipos da legítima Idade da Pedra, devem estar apinhados de toda espécie de tabus e provavelmente sedentos de sangue, e ainda por cima xenófobos. A primeira pessoa que se atrever a estender-lhe a mão em sinal de amizade poderá levar de troco uma boa bordoada na cabeça." "Isso é possível", admitiu Russell. "Mas nesse caso teremos que aprender o mais possível a respeito deles antes de tentar qualquer aproximação. Teremos que observá-los durante muito tempo à distância, e coisas assim. Se for preciso, poderemos pedir ajuda a nossos amigos medievais... Mas existe mais um projeto que precisaríamos discutir e, na minha opinião, é um assunto muito importante." "De que se trata?" perguntou Mary Howard. "Evasão", disse Russell. "Uma evasão de Erewhon?" "Uma evasão do zoológico. Temos suficiente espaço e realmente poucos motivos para nos queixarmos. Acontece que eu não aprecio a idéia de estar preso e ainda mais, gostaria de saber o que é que há do outro lado dessa barreira que parece impenetrável." "Se podemos acreditar no que dizem os medievais, o tal descobridor de caminhos passou por uma experiência angustiante", observou Robert Hyman. "Acho que pessoalmente não desejo sentir meus olhos se congelarem."
"Eu já pensei a respeito disso", continuou Russell. "Acredito que existe uma maneira de sairmos e também de entrarmos à vontade, sem muito perigo... Sabemos que há um rio passando por nossa pequena reserva e..." "Mas é claro!" gritou John Howard. Russell riu. "Por favor, John, deixe que eu mesmo explique minha idéia. O rio em questão tem um tamanho razoável e estou pronto a apostar que ele não nasce entre aquelas pequenas colinas que conhecemos. Teremos que averiguar isso, mas acredito que o rio atravessa a muralha de névoa em dois pontos diferentes. Existe uma entrada e uma saída. Assim, se construirmos um barco ou uma balsa, poderíamos sair do zoológico usando somente a força da corrente." "E o que você faria a respeito da rápida queda de temperatura?" perguntou Tore Norstedt. "Isso sem dúvida é um problema", concordou Russell. "Mas não acho que seja insolúvel. O descobridor de caminhos de Absu não estava preparado para enfrentar o que achou. Nós sabemos o que teremos que enfrentar, e por conseqüência poderemos pensar em como nos proteger de forma mais eficiente. Se for necessário, acho que até poderíamos pensar em fechar totalmente o barco e em nos cobrir com montanhas de roupas. Se minha teoria estiver certa e a barreira de nevoeiro não for muito larga, poderíamos atravessá-la antes de sentir realmente os piores efeitos do frio." "Existe um meio bastante seguro para averiguá-lo", interrompeu John Howard muito excitado. "De que forma?" "Precisamos encontrar o lugar em que o rio entra debaixo da barreira de névoa. Teremos que medir a temperatura ali, e depois compará-la com as temperaturas à jusante. Se medirmos a rapidez da corrente e tomarmos medições de temperatura a diferentes profundezas, podemos ter uma aproximação bastante correta sobre a espessura da barreira, ou pelo menos quanto tempo um barco levaria para atravessá-la." "Deus seja louvado por todos os professores de ciências", falou Russell em tom reverente. "Se o projeto é viável, teremos um bocado de coisas a fazer. Em primeiro lugar precisamos entrar em contato com o Povo do Rio e assegurá-los de nossas intenções amistosas, pois nosso barco terá que atravessar o território deles. Precisamos encontrar os lugares em que o rio entra e sai debaixo da barreira. Em seguida teremos que fazer os planos para o barco e construílo, além de equipar os valentes exploradores, se é que teremos voluntários."
"Para o diabo com isso", falou Mohan molemente. "Por que não esquecemos de tudo e ficamos esperando até que alguma coisa aconteça? Afinal, mais cedo ou mais tarde alguma coisa terá que acontecer. Os caras que nos trouxeram para cá, qualquer dia desses vão se cansar de nos mandar suprimentos. Mais cedo ou mais tarde irão querer ver os resultados do investimento." "E é com isso que eu estou me preocupando", retrucou Russell. "Sendo eu declaradamente um pseudointelectual ocidental e decadente", piscou para Anna, "eu também prefiro de longe o conforto e a segurança. Mas ao mesmo tempo gostaria de descobrir — se isso for possível — qual é o intuito de tudo isso, antes que alguém decida de repente mudar de canal." "E que tal se atrás daquela maldita barreira não há nada mais do que outras malditas planícies, cheias de capim, e florestas e colinas a perder de vista?" "Acho que até esse tipo de informação poderia ser muito útil." "E que tal se uma ou mais pessoas acabam se machucando ou morrendo na tentativa de evasão?" Russell encolheu os ombros. "Vamos ter que correr esse risco. Gostaria que a eventual expedição não tivesse mais do que duas pessoas e eu seria uma delas."
Mohan sorriu e encheu o copo. "Russell, você tem a desgraça de ser um maldito herói. O arquétipo britânico — o que gosta de condecorações." "A minha desgraça", disse Russell, "é que eu, como o Filho do Elefante, tenho uma curiosidade sem limites."
Durante as semanas que se seguiram aconteceram numerosas coisas interessantes e algumas também assustadoras. Russell percebeu que o moral de seus treze companheiros melhorara de maneira visível desde sua sugestão de concentrar todos os esforços para vencer a barreira e sair da reserva, para explorar o mundo que se encontrava além dela. Até aquele dia todo mundo tivera a impressão de estar à mercê de uma situação incompreensível e irremediável. Agora, porém todos tinham um alvo — um alvo real, apesar de ser limitado. Era o suficiente para vencer a letargia mental que tinha se apossado deles sorrateiramente, desfalcando suas energias e sua força de vontade. Uma das coisas que aconteceram e que em seguida acabou se tornando importante foi obra de uma das estudantes inglesas. Janice Blake conseguiu criar frangos. Ela crescera numa pequena granja da Anglia Oriental e tinha uma enorme saudade de casa. Um dia lembrou-se que talvez alguns dos ovos que eram pontualmente entregues no supermercado pelas incansáveis aranhas metálicas noturnas poderiam ser férteis. Fabricou então uma caixa cheia de palha, acondicionando-a com uma lâmpada fraca que, envolvida em panos, ia providenciar o calor necessário para a incubadeira. Colocou a caixa cheia de palha num dos quartos vazios do Erewhon Hilton. Todas as manhãs acrescentava dois ovos aos que já se encontravam na caixa, tirando-os de uma remessa diferente do supermercado. No vigésimo terceiro dia teve sua recompensa: um pintinho furou a casca. Mais um apareceu no trigésimo quarto dia, e dois no quadragésimo dia. Mais tarde ela descobriu que um dos pintinhos era um galo, e no fim a experiência de Janice revelou-se muito útil, trazendo benefícios imprevistos. Entretanto, Robert Hyman elegeu-se sozinho armeiro oficial. Já fizera arcos para os homens, mas re¬sultou que nem todos tinham talento suficiente para ser arqueiros. Ninguém sabia usar o arco de maneira eficaz, a não ser o próprio Robert. Então ele decidiu projetar uma besta simplificada, que lançasse um dardo curto e pesado. A besta foi construída de tal forma que poderia ser usada de maneira eficaz até pelas mulheres, e quando encontrou a melhor combinação entre eficácia e facilidade de manejo, começou a produzir as bestas em larga escala. Passava quase a totalidade dos dias numa das pequenas oficinas ao lado do hotel, fabricando uma dúzia de bestas e uma grande quantidade de dardos. À noite, antes do jantar, o grupo inteiro treinava tiro ao alvo, instruído por ele. Após algum tempo até as mulheres se demonstraram capazes de atingir um alvo do tamanho de um homem a trinta passos de distância. Quando se convenceu que todo mundo seria capaz de usar as bestas de maneira eficiente, Robert começou a trabalhar num projeto muito mais ambicioso. Começou a desenhar uma balista grande, mas que pudesse ser transportável. Falara a esse respeito com Russell. Bestas, machados e facas eram armas ótimas para combate corpo a corpo ou proteção pessoal; mas poderia surgir uma ocasião, como, por exemplo, uma séria divergência com os guerreiros da Torre de Marur, em que uma arma ofensiva de longa distância seria muito útil. A balista que Robert pretendia construir poderia ser servida e transportada por três homens, sendo capaz de lançar um projétil de dez libras a uma distância de meio quilômetro. Poderia, em suma, servir contra um alvo grande que fosse fora do alcance de tiro das bestas. Russell lembrava-se de sua visita à Torre de Marur e tinha certeza absoluta de que o povo de Gren Li só usava armas leves. Estava, porém, a favor de uma arma que poderia conferir alguma vantagem estratégica, e considerava a balista uma espécie de seguro.
Esperava, de fato, que a amizade e o vínculo que o ligavam a Absumes Marur poderiam evitar qualquer divergência de maior envergadura, mas não sendo um ingênuo, não confiava completamente nisso. Afinal, alguma coisa poderia acontecer com Absu, e seu sucessor poderia não se achar obrigado a respeitar o vínculo. O povo de Gren Li estava condicionado a ser feroz e belicoso pelo próprio ambiente em que vivia. Se acontecesse alguma briga corpo a corpo, eles dominariam facilmente os terrestres. Foi por isso que a balista começou a ser construída. Quase ao mesmo tempo John Howard fez uma descoberta importante. Por um acaso encontrou uma vasta extensão de terreno naturalmente saturado de salitre. Dedicou-se durante vários dias ao árduo trabalho de extraí-lo do solo, fazendo uma solução e, finalmente, evaporando o líquido para recolher os cristais; após muito cavocar, lavar e separar conseguiu cinco quilos de salitre quase puro. Foi bastante fácil encontrar o enxofre. Estava no supermercado, na seção farmacêutica. Estava-lhe faltando somente o carvão, que poderia ser obtido aquecendo a madeira dentro de um recipiente fechado. A primeira mistura de pólvora foi grossa demais e só chegou a emitir algumas fagulhas. Em seguida Mary conseguiu moer o carvão com o enxofre até obter um pó muito fino — essa realmente era a parte mais difícil da fabricação — e com esse pó John conseguiu produzir uma pólvora bastante eficaz. Era uma pólvora que poderia até servir para fabricar granadas de tipos simples. As granadas, como a balista, eram um seguro adicional. Na realidade, no grupo, não predominavam só as atividades bélicas. Com método e com muito cuidado foram organizadas explorações especialmente para o sul e em direção ao território do Povo do Rio. Russell não achava que os tempos já fossem propícios a um contato com um povo tão primitivo. Pensava que eles iriam lutar primeiro e fazer perguntas depois. Queria, por isso, ter certeza absoluta de que os terrestres estariam prontos a lidar com uma agressão antes de se arriscar a oferecer a mão em sinal de amizade. Mas isso não excluía a observação. O Povo do Rio era sem dúvida mais forte e mais acostumado a lutar na floresta, e por isso mais perigoso onde havia muita vegetação; mas se os terrestres ficassem em terreno descoberto e fizessem uso de binóculos, os riscos de um encontro de surpresa poderiam ser reduzidos ao mínimo. Paul e Marion Redman, Andrew Payne e Selene Bergere treinaram juntos e formaram uma força- tarefa semi-permanente de exploração. Paul e Andrew se aperfeiçoaram bastante com as bestas e Selene, que tinha uma escassa inclinação para tudo que era mecânico ou semi-mecânico, desenvolveu sua própria arma. Era uma derivação das bolas sulamericanas — duas pedras de bom tamanho unidas por um metro de corda. Selene aprendeu a lançá-las com surpreendente habilidade, e chegou a derrubar com elas um homem correndo a até quarenta metros de distância. Dessa maneira a força-tarefa armada de bestas, bolas e machados para se proteger contra homens e animais acabou fazendo três expedições coroadas de sucesso para observar o Povo do Rio. Como da primeira vez que avistaram o Povo do Rio, mantiveram-se a prudente distância, espionando-os somente com os binóculos. Pelo que foi possível ver, calcularam que havia dez adultos e quatro crianças crescidinhas. O Povo do Rio andava de cabelos tão emaranhados, que era praticamente impossível distinguir homens de mulheres. Durante o dia mantinham-se ao redor da ponte feita de choças, ocupados em tarefas simples, descansando ou dormindo, e às vezes até ocupados com brincadeiras. Era evidente que se tratava de caçadores — e quase certamente caçadores noturnos. Era de se assumir que estivessem comendo também todo tipo de frutas e verduras do mato que eram comestíveis, mas o alimento principal parecia ser a carne verde. Durante a segunda expedição os terrestres conseguiram ver um dos animais apanhados pelo Povo do Rio. Enquanto estavam observando a ponte de choças de uma elevação bastante próxima, ouviram uma violenta movimentação num bosque que se sobressaía da floresta perto do rio. Paul e Andrew decidiram investigar. Encontraram um animal que se parecia muito com um javali extremamente feroz. O bicho estava suspenso na rede de uma armadilha esticada entre duas árvores novas. O javali — se era mesmo um javali — tinha uma companheira que estava grunhindo e pulando, tentando alcançar o macho. Quando percebeu a aproximação dos dois terrestres, investiu diretamente contra eles e só parou porque foi atingida por um tiro certeiro da besta de Paul. O dardo desapareceu completamente no peito do animal, que assim mesmo não morreu e os dois homens tiveram que acabá-lo com os machados. Selene Bergere descobriu de uma forma bastante assustadora que o Povo do Rio não era de hábitos exclusivamente noturnos. Aconteceu durante a terceira expedição. Afastou-se um pouco do grupo para atender a necessidades pessoais e encontrou uma pequena clareira onde achou que poderia estar à vontade. A floresta era muito silenciosa e foi provavelmente esse detalhe, junto ao fato que no chão havia uma grande quantidade de folhas secas, que salvou a vida de Selene. O homem da Idade da Pedra chegou correndo atrás das costas dela com uma velocidade muito maior da de qualquer terrestre. Selene, porém ouviu o farfalhar das folhas secas e teve só o tempo suficiente para se virar e lançar suas bolas. A corda enrolou-se nas pernas do homem que caiu emitindo um grunhido. Selene fugiu aos berros. Quando os outros chegaram perto dela, e isso só demorou poucos segundos, voltaram todos juntos para a pequena clareira. Não havia mais sinal nenhum do homem e nem das bolas. Enquanto os outros estavam ocupados com ativi¬dades excitantes, Tore Norstedt estava construindo um barco bastante sólido e de fundo achatado, para ter o mínimo de calado. Poderia levar quatro pessoas no máximo, e seria impulsionado por remos curtos, tipo pás. Em águas tranqüilas e para percursos demorados os remos convencionais seriam mais eficientes. Mas o rio e suas características eram ainda desconhecidos. Com certeza haveria secas e corredeiras, e as pás poderiam ser mais práticas. Tore lembrou-se que o barco ia carregar sua tripulação através da barreira de névoa, cuja espessura e temperatura mínima também eram desconhecidas. Fabricou então uma pequena cabine desmontável cujas paredes internas seriam revestidas com palha e cobertores. Enquanto trabalhava na construção do barco, Tore um belo dia teve uma idéia que até aquele momento não ocorrera a ninguém. Ou talvez alguém já pensara nisso, mas rejeitara o plano por ser demais arriscado. Como todo mundo sabia, o supermercado era freqüentemente visitado pelos robôs que traziam os mantimentos que estavam em falta. Ninguém conseguira ver essas máquinas, apesar do patrulhamento contínuo, até a noite em que Andrew Payne encontrou sem querer uma das aranhas. Em seguida as "grandes aranhas" descritas por Andrew foram fotografadas — e os terrestres foram punidos pela sua curiosidade com uma temporária falta de cigarros no supermercado. A ausência de cigarros foi a única medida punitiva. Não houve castigos drásticos. Desde aquele tempo o patrulhamento noturno continuava. Mas ninguém mais viu as aranhas metálicas. Esse detalhe parecia a Tore a confirmação de sua primeira teoria a respeito, ou seja, que os donos do zoológico tinham um meio de "desligar" os terrestres de uma maneira qualquer toda vez que assim quisessem.
Tore imaginou que as aranhas eram obrigadas a trazer os mantimentos atravessando de uma forma qualquer a barreira de névoa — a menos que não tivessem algum armazém subterrâneo. Pensou que se fosse possível segui-las após sua saída do supermercado, seria talvez possível encontrar uma fácil saída do zoológico. Imaginou então uma armadilha como daquela vez com a máquina fotográfica. Dessa vez, porém, o despertador não ia ficar no quarto de Tore, mas estaria junto com ele no supermercado, e a corda amarrada à sua cintura. O despertador só serviria para o caso de ele adormecer em seu esconderijo. Da outra extremidade da corda estariam laços múltiplos. As aranhas tinham quatro pernas e quatro braços. Tore tinha certeza que poderia colocar os laços de tal maneira que seria praticamente impossível que um dos robôs não ficasse com pelo menos uma de suas pernas presa. Se isso acontecesse, Tore poderia seguir a aranha para qualquer lugar que ela fosse, também numa noite escura e em terreno difícil. Essa era a teoria de Tore. Ele preferiu não falar do assunto com Russell e nem com outra pessoa qualquer. Estava com uma vontade louca e um pouco infantil de poder chegar perto de todo mundo, na hora do desjejum, e dizer com ar indiferente: "Ah, meus queridos, antes que eu esqueça... descobri de onde vem os robôs, e vi que existe uma maneira muito cômoda para atravessar a barreira de névoa." Fabricou com muito cuidado sua corda de fio de arame bem resistente, confeccionou os laços, e uma noite, numa hora já bastante avançada, inventou uma desculpa para Janice e Andrea, dizendo que tinha que fazer um serviço de guarda especial. Janice e Andrea viviam com ele, e parecia que o triângulo amoroso estava se desenvolvendo de maneira muito satisfatória para todas as partes interessadas. Em seguida atravessou a rua, entrou no supermercado e colocou a armadilha. Ficou esperando escondido discretamente atrás de uma prateleira de cereais. Na hora em que saiu do hotel, trocou algumas palavras com Anna Markova que estava voltando de um breve passeio. Esta foi a última vez que alguém o viu vivo.
Absumes Marur e seu descobridor de caminhos, um homenzinho magro, de pele mais escura e de traços mais mongóis do que seu amo, chegaram ao Erewhon Hilton com os despojos de Tore Norstedt. Vieram montados em seus pulpuls, no fim de uma tarde, enquanto uma brisa agradável movimentava os montinhos de pequenas sementes acumuladas na rua, apesar das freqüentes tentativas de varrê-las. O corpo quase irreconhecível, muito machucado e quase cortado em dois pedaços de Tore Norstedt estava jogado no lombo do pulpul do descobridor de caminhos, atrás do cavaleiro. Janice foi a primeira a vê-lo e felizmente desmaiou logo, após lançar um grito lancinante. Todos os terrestres saíram correndo do hotel e Absu falou: "Russell, meu amigo, mande suas mulheres se afastarem. O que eu estou trazendo, cheio de tristeza, é demais até para os olhos e para o estômago de um homem." John Howard já estava providenciando a levar as mulheres para dentro. "Temos um lugar em que já enterramos uma nossa companheira", disse Russell fazendo um esforço para olhar os despojos de Tore. "Eu lhe seria muito grato, Absu, se pudéssemos levar o corpo de nosso amigo para lá. Acho que vamos querer enterrá-lo o mais rápido possível." Absu e o descobridor de caminhos apearam e seguiram Russell e John Howard até o lugar em que estava enterrada Marina; o descobridor de caminhos conduziu o pulpul com sua carga triste e horrível. As sementinhas voadoras da savana tinham quase coberto o túmulo de Marina. Só a ponta da cruz aparecia acima da massa fofa e esbranquiçada. Russell teve dificuldade em achar o túmulo. Pensou tristemente que talvez estivesse chegando a hora de demarcar um cemitério regular. Andrew Payne, carregando duas pás, juntou-se ao grupo. Debaixo do braço tinha um lençol. Abriu-o no chão e Tore foi deitado em cima dele. Absu falou: "Sir Russell, meu criado Farn zem Marur descobriu o corpo desse seu guerreiro. Cumprimente-o, para que ele possa contar como foi." Em seguida virou-se para o descobridor de caminhos. "Saúde o sir Russell Grahame", disse solenemente. "Membro do Parlamento, Voz do Povo da Rainha, Criador de Decretos Reais e homem de muitas honrarias em sua própria terra."
Farn zem Marur ajoelhou-se, apanhou uma adaga dentro de seu jaleco, colocou a ponta em seu próprio peito e ofereceu o cabo a Russell. "Sir Russell Grahame, sou Farn zem Marur, descobridor de caminhos e guerreiro, se minha vida for requisitada." "Seja bem-vindo", disse Russell, sem saber o que fazer. "Você trouxe uma triste carga, mas assim mesmo seja bem-vindo." Estendeu a mão para apanhar o cabo da adaga e devolvê-la ao descobridor de caminhos. Sabia que Absu fazia muita questão de cerimônias e esperava estar fazendo a coisa certa. Mas não estava. "Não toque naquela arma", avisou Absu, "a menos que você não queira matá-lo. Ele só quer saber se você vai requerer a vida dele." "Levante-se, Farn zem Marur", falou Russell muito sério. "Não estou querendo sua vida." O descobridor de caminhos levantou-se com expressão de alívio. "Sir, posso falar?" "Pode falar." "Sir, descobri o corpo de seu guerreiro a muitos varaks ao norte da Torre de Marur. O senhor de meu clã ordenou-me de desenhar todas as terras em que vivemos agora, para que os desenhos fossem copiados e entregues a você... Sir, não sei o que dizer a respeito da morte de seu guerreiro. Em volta dele não havia nenhum rastro e nenhum cheiro de animais selvagens. Ele não mostrava ferimento nenhum que pudesse ter sido ocasionado numa luta... É possível que pereceu por ser um joguete dos demônios." "Meus companheiros e eu gostaríamos de nos defrontar com estes demônios", Russell falou entre dentes cerrados. "Palavras valentes", comentou Absu. "Mas um homem não pode pensar em se defrontar com demônios, Russell... Se estes demônios, porém, por acaso, forem de carne e osso, as lanças da Torre de Marur estarão prontas e alegres por entrar em combate!" "Sir", disse o descobridor de caminhos, "o corpo deste homem, quando eu o achei, estava coberto por moscas e por outros pequenos animais. Deduzi que a morte não era recente. Procurei encontrar a pista de quem o poderia ter matado, mas nada achei. Estava enfiado entre duas rochas de tal maneira que retirálo daquele lugar foi bastante difícil." Enquanto o descobridor de caminhos falava, John Howard esforçou-se para observar o corpo de Tore. Apanhou algo que levantou, e olhou para Russell, tremendo. "O que você acha disso?"
Russell observou o fio de arame retorcido e ensangüentado. Viu o ponto em que parecia penetrar no corpo quase cortado a meio. "Isso explica como aconteceu que quase foi cortado em dois pedaços", observou Russell com dificuldade. "Algum bastardo o estava arrastando. Ficou preso entre as duas rochas, e quem estava na outra extremidade do fio de arame fez de conta que não estava percebendo." "Ou talvez não estava equipado para poder perceber", observou John num rasgo de intuição. "Russell, a última vez que alguém viu Tore vivo, foi naquela noite em que contou às moças que tinha um turno de guarda especial." "Mas nós sabemos que isso não era verdade." "Certo. Ele pretendia fazer alguma coisa que só poderia ser feito à noite... você não adivinha o que foi?" Andrew Payne estremeceu e sua mão tocou a cicatriz do pescoço. "Aranha", ele disse. "Isso mesmo. Tore queria colocar uma nrmadilha para as aranhas. Talvez quisesse seguir umas telas para ver em que direção iria. Como seria possível perdê-la de vista por causa da escuridão, Tore achou um meio para ficar amarrado à maldita coisa." Russell fez um esforço para examinar mais de perto aqueles despojos ensangüentados. "Os outros ferimentos podem ter sido provocados pelo fato de ter sido arrastado, eu acho... Talvez tropeçou e não conseguiu mais se levantar. Ou então aquele maldito robô estava andando muito depressa e ele não conseguiu se desamarrar." "Acho que foi assim mesmo!" "Eu também acredito que sim... Vamos enterrar o coitado do Tore. Não há mais nada que possamos fazer por ele. Acho que os outros gostariam de se despedir dele, mas é melhor que essa parte fique para amanhã." Virou-se para Absu. "Permita-nos de enterrar agora nosso companheiro. Estaremos mais aliviados após colocá-lo no lugar de seu último descanso, como é o nosso costume. Em seguida poderemos conversar e oferecer-lhes refrescos." "Por que vocês não o queimam?" perguntou Absu. "Em Gren Li costumamos queimar nossos mortos. Dessa forma seus espíritos podem voltar ao ar que os vivifica." "Em nosso país também às vezes queimamos os mortos", respondeu Russell. "Mas aqui, nesse mundo tão estranho, achamos que é mais fácil enterrá-los." "Seus costumes admitem a presença de estranhos?" "Sua presença é bem aceita." "Dessa forma nosso vínculo se tornará mais estreito", comentou Absu. Observou os movimentos de Andrew que estava começando a remover a terra com uma pá, enquanto Russell e John envolviam o corpo na mortalha improvisada. Viu a outra pá e acenou para o descobridor de caminhos. "Farn zem Marur, trouxemos um motivo de luto para esse clã e para o senhor desse clã. Cave um buraco bem fundo para que o amigo de nossos amigos, e a grande dor provocada por essa morte possam ficar para sempre escondidos da vista dos outros homens."
O senhor do clã Marur e seu descobridor de caminhos deixaram suas armas perto da entrada em sinal de confiança e sentaram em volta de uma mesa do bar no Erewhon Hilton, olhando com admiração para a quantidade de luzes elétricas. Ambos tomaram os primeiros goles da primeira gin-tônica de suas vidas com o devido respeito. Onze terrestres também estavam no bar. Janice e Andrea que amavam Tore e partilhavam alegremente suas atenções, estavam sozinhas em algum lugar para poder chorar a vontade e se consolar mutuamente nos limites do possível. Farn zem Marur desenrolou sobre a mesa uma pele de pulpul curtida e acamurçada. Era mais escura e mais áspera do que pergaminho, mas servia muito bem aos desenhos e às escritas do povo de Gren Li. Farn pintara sobre a pele um mapa pictórico de todo o zoológico. Russell achou muita graça quando percebeu que a Torre de Marur estava retratada em todos os seus detalhes. Também estavam muito bem reproduzidas as choças do Povo do Rio, formando uma ponte. Mas o Erewhon Hilton e o que estava em sua volta eram representados por três círculos concêntricos, nos quais se viam letras miúdas que pareciam árabes. "O que é que isso quer dizer?" perguntou Russell. Absu sorriu e espirrou. Não estava acostumado com as bolinhas da água tônica. "Isso significa: Aqui moram os mágicos. Vocês provaram que são mesmo mágicos." Russell suspirou. "Absu, nossas capacidades são limitadas. Você viu que não foram suficientes para evitar a morte de nosso amigo." "Todos os homens são mortais", retrucou Absu. "Os mágicos também. O destino não escolhe... O que você acha da obra de meu descobridor de caminhos?" "Acho que ele desenhou um mapa excelente." Russell virou-se para o lado de Farn. "Você esteve pessoalmente em todos os lugares que você desenhou?" "Sim, sir Russell Grahame. Eu vi tudo o que eu desenhei aqui. Quando voltei à Torre de Marur e descobri com muita alegria que meu senhor, cujo rastro eu estava procurando, já voltara antes do que eu mesmo, recebi a ordem de sair mais uma vez. Meu senhor Absu queria um mapa completo das terras em que vivemos, dentro do círculo de vapor. Foi uma longa jornada e passei por alguns perigos; perdi meu pulpul e quase perdi minha vida." "O que foi que aconteceu?" perguntou Russell.
"Eu estava atravessando a floresta que se encontra perto do povo que mora sobre o rio. Parei e apeei do meu pulpul para poder marcar meu progresso sobre essa pele que estava comigo... Sir, foi bom eu ter desmontado. No mesmo instante minha montaria caiu morta, transpassada por uma tosca lança. Pelo manto sagrado, foi um arremesso poderoso! Não tive porém o tempo de pensar nisso, porque a criatura que arremessara a lança chegou gritando e agitando um machado e minha espada saiu de sua bainha. A situação pareceu-me desesperada porque o guerreiro, apesar de maltrapilho e mal armado, era muito grande e mostrava ter bastante coragem. Felizmente possuo alguma habilidade no manejo das armas. Caso contrário, meu senhor Absu poderia ficar contrariado com minha definitiva ausência." "Então você matou o estranho?" O descobridor de caminhos sorriu. "Sir Russel] Grahame, a verdade é que o estranho matou a si mesmo. Não sei se ele menosprezou minha arma, ou se estava decidido a morrer. Correu e ficou transpassado pela minha espada, parecendo estupefato quanto eu pelo acontecido. Não posso dizer qual de nós dois ficou mais admirado. Em seguida caiu de joelhos e a morte começou a se apoderar dele, enquanto ele falava. Mais uma vez fiquei admirado, ele falava meu próprio idioma — como você também fala, sir, e os outros mágicos do clã — mas os movimentos dos lábios dele eram estranhos e muito feios." "O que foi que ele disse?" perguntou Russell. "Sir, as palavras eram no idioma de Gren Li, mas não tinham sentido nenhum. Não consegui entendê-las." Absu falou severamente, "Descobridor de caminhos, não seja negligente. O sir Russell Grahame fez uma pergunta. Sacuda sua memória e repita as palavras que o estranho pronunciou em sua agonia. É uma ordem." Farn zem Marur pareceu infeliz. "Sir, eram pa¬lavras sem sentido de um homem que estava à morte." "Pois fale, se não quiser chegar à mesma condição." O rosto de Farn zem Marur mostrava que ele não se sentia à vontade. Começou a falar hesitando: "Sir, o guerreiro falou assim: Ele-coisa-aguda-dura-aguda. Ele-coisa-não-pedra. Ele-faz-sono-escuro. Escuroescuro-escuro." O descobridor de caminhos encolheu os ombros como para se desculpar. "Sir Absu, eu obedeci. As palavras foram essas, mas foram ditas por um homem com a morte nos olhos." "Foi boa coisa você ter se lembrado", Absu disse calmo.
Seguiu-se um breve silêncio. Todos estavam pensando na estranha seqüência de palavras do selvagem que correra em cima da espada do descobridor de caminhos. De repente John Howard falou com uma certa excitação: "Mas é claro! O Povo do Rio foi submetido à mesma cirurgia como nós. Mas é um povo ainda primitivo, e seus pensamentos e conceitos são primitivos. Isso explica as seqüências de palavras e o sentido obscuro ... O coitado nada sabia a respeito de metais e enquanto estava morrendo, tentava encontrar uma descrição da coisa que o matara. Devia ser um cara muito inteligente dentro dos limites de sua cultura." "Isso me lembra a maneira de falar dos Pápuas", disse Paul Redman. "Vocês sabem, a maneira em que os aborígenes australianos juntam várias palavras quando no idioma deles não existe uma palavra que possa expressar corretamente o que eles querem dizer... Pensando bem, o Povo do Rio possivelmente está no mesmo nível de cultura dos Pápuas." "Sem dúvida o assunto que seus companheiros estão discutindo deve ser muito interessante", observou Absu com ar condescendente. "Mas essas criaturas que você chama o Povo do Rio não são muito melhores que os animais na floresta. Não só atacaram meu descobridor de caminhos, mas infligiram um vexame a uma das mulheres da Torre que foi imprudente e se afastou muito sem escolta. A mulher não tem nenhuma importância, mas acho que meu clã foi gravemente in¬sultado. Por isso, proponho atacar esse povo. É possível que os guerreiros sejam corajosos, mas seu número não é maior que o dos nossos. Acredito que poucos terão a sorte de poder contar a seus filhos a respeito das lanças do clã Marur." "Absu", disse Russell tomando muito cuidado em escolher as palavras, "sei que você tem boas razões para achar que o Povo do Rio é seu inimigo, e sei também que você muito se orgulha de observar da forma mais correta seu próprio código de honra. Mas confesso que eu ficaria muito triste se você destruísse o Povo do Rio antes que tivéssemos uma oportunidade de oferecer-lhes amizade." "Amizade!" explodiu Absu. "Amizade! Russell, eu sei que vocês os mágicos são pessoas cheias de truques. Mas nem mágicos poderiam oferecer amizade a animais selvagens. E estes que você chama de homens não passam de animais." "Deixe que eu tente explicar meu pensamento", respondeu Russell com muita paciência. "Vamos supor que entre você e eu não exista nenhum vínculo.
Vamos supor também que eu o ofendi. O que é que você faria?" "Pela Rainha branca e pela Rainha preta", exclamou Absu, "eu resolveria o assunto com a máxima urgência, usando a lança, a espada e a adaga." "Certo. Mas vamos supor", continuou Russell, "que durante nossa luta estejamos cercados por uma matilha de lobos — ou seja, animais que se alimentam de carne humana. O que é que você faria nesse caso?" Absu sorriu. "A lei do manto sagrado prevê um caso desse gênero. Você e eu, Russell, teríamos que declarar um armistício até matarmos ou escorraçarmos essas criaturas que você chama lobos. Em seguida poderíamos reassumir nosso combate." "Pense bem, agora", continuou Russell. "Você não acha possível que estejamos cercados por lobos?" "Como assim?" Russell acenou para a pele de pulpul em que se encontrava o mapa. "Todos nós aqui, e vocês da Torre de Marur e, eu acredito, o Povo do Rio, fomos levados de nossos mundos — quero dizer de nosso países. Estamos vivendo num lugar que, como seu descobridor de caminhos marcou naquele mapa, está completamente cercado por uma alta barreira de névoa. Nossa prisão — porque estamos vivendo numa prisão — tem um diâmetro de mais ou menos sessenta varaks, ou pelas nossas medidas, quarenta quilômetros... Quem pode nos dizer, Absu, de que maneira chegamos aqui? Quem poderá dizer se estamos ou não cercados por lobos? Acho que seria loucura arriscar de reduzir o número de nós todos, até descobrirmos se estamos ou não cercados por lobos, ou demônios ou fadas." Absu continuou bebericando com expressão pensativa. Quando esvaziou o copo, Marion Redman trouxe-lhe outro cheio. Ele o aceitou sem tomar conhecimento da presença dela. "Você fala com uma língua muito ágil, mágico", disse friamente. "Como você já ouviu, ninguém poderá passar pela barreira. Por isso essa terra em que vivemos deve ser a nossa terra, até que os Poderes das Trevas nos tirem desse estranho desterro. As coisas estão assim, e por isso pretendo atacar o Povo do Rio, pois sei que pela lei do vínculo, você não poderá barrar o meu caminho." "Não pretendo nem tentar, Absu. Aliás, se você chegasse a concordar com o meu ponto de vista, eu e mais alguns de meu povo poderíamos acompanhar você. Mas em primeiro lugar preciso dizer-lhe que nós, os mágicos, pensamos que existe um meio de transpor aquela muralha de névoa. A mais, fabricamos algumas armas muito poderosas, para o caso que alguém tentasse barrar nosso caminho." Russell levou algum tempo para explicar a maneira em que John Howard pretendia realizar as medições de temperatura no rio, e como poderia chegar a uma estimativa da espessura e da temperatura mínima da barreira de névoa, comparando essas medições com outras tomadas mais à jusante, junto a cálculos sobre a rapidez da corrente. Absu acabou entendendo os termos e a extensão do problema depois de algum tempo. Ao contrário, o descobridor de caminhos compreendeu muito depressa. Ele e John Howard estavam estudando o mapa na pele de pulpul, discutindo os problemas práticos envolvidos na realização da experiência. Quando Absu finalmente entendeu direito, Russell levou-o a ver o barco, quase terminado por Tore Norstedt antes de seu encontro fatal com a aranharobô. Era o começo da noite e a rua em frente ao Erewhon Hilton estava iluminada por uma fileira de lâmpadas elétricas colocadas ali algum tempo antes, para providenciar uma iluminação noturna. Absu e seu descobridor de caminhos ficaram admirados mais uma vez pela habilidade dos mágicos de conseguir luz sem chamas. Insetos noturnos estavam esvoaçando em volta das lâmpadas acesas, o pedaço de rua, o supermercado deserto, os dois carros inúteis, as folhas secas e as sementes levadas pelo vento continuavam a dar a impressão de se tratar do cenário abandonado de algum filme. O resto dos terrestres ficou no hotel para estudar o mapa, discutir a maneira em que Tore tinha morrido e tudo quanto fora dito antes. Russell, John Howard. Absu e Farn zem Marur olharam atentamente o leve barco chato construído por Tore com muito cuidado. Estava numa das oficinas debaixo de uma forte lâmpada desprotegida, com as ferramentas e pedaços de madeira em volta, exatamente como Tore o deixara. Olhando para todos aqueles sinais de uma atividade recente, Russell achou muito difícil se convencer de que o jovem sueco nunca mais voltaria para terminar sua tarefa. "O barco parece bastante sólido", admitiu Absu. "Em nosso clã Marur não temos muitos conhecimentos a respeito da maneira de viajar sobre a água, porque todas nossas viagens sempre são por terra. Mas acho que esse barco parece bastante sólido para navegar rio abaixo — se vocês forem bastante fortes para atravessar a névoa... O que você acha, descobridor de caminhos?"
"Meu senhor, o barco é forte, mas a névoa é muito fria. É possível que passem, mas que o preço da passagem seja a morte." Absu sorriu com ironia. "Os mágicos sem dúvida devem saber como aquecer um homem enquanto passa pelo gelo da morte." Virou-se para Russell: "Meu amigo, você falou em armas poderosas. Se nossa prisão estiver realmente cercada por lobos, é possível que essas armas se tornem necessárias. Mostre-as." John Howard trouxe uma de suas granadas — feita com uma pequena garrafa repleta de pólvora, e envolvida por fio de arame. Absu pegou-a na mão. "Essa coisa não parece feita para assustar um homem ou um animal." "Vamos para fora, Absu", disse Russell, "e não se deixe impressionar por aquilo que vai ver e ouvir. Quando, porém eu lhe disser de se jogar ao chão, faça-o sem demora." Quando chegaram a um ponto bastante afastado dos prédios, John Howard acendeu o curto pavio e jogou a granada na savana escura. "Para o chão!" gritou Russell. Os quatro homens caíram de bruços. Por um instante nada aconteceu e Absu estava começando a se mexer para se levantar quando houve um clarão e um estrondo. A terra estremeceu e Russell ficou muito satisfeito com o barulho. Absu mostrou pela sua expressão que estava profundamente impressionado. Ficou mudo. Farn zem Marur continuou deitado, cobrindo a cabeça com as mãos e murmurando desconjuros contra os maus espíritos. Russell pensou que aquele era realmente um momento histórico — dois guerreiros medievais acabavam de conhecer os efeitos da pólvora. Finalmente Absu recuperou a palavra. "É verdade", disse. "Essa arma pode provocar muito terror e muita destruição. Pelo manto sagrado, Russell, estou muito satisfeito que você e eu sejamos unidos pelo vínculo. Um homem pode enfrentar armas de metal com coragem e alegria; mas não poderia se não correr desse raio com trovão, e assim perderia muito de sua honra." "Se ele não correr", falou Russell com toda seriedade, "ele e sua honra poderiam morrer juntos... Já é muito tarde, Absu. Você e seu descobridor de caminhos ficarão conosco durante a noite. Vou também explicar a você que apesar de ser muito fácil destruir o Povo do Rio, eu acho que precisamos atacá-los não para matá-los, mas para fazer prisioneiros, se isso for possível."
A expedição contra o Povo do Rio foi efetuada dez ou doze dias após aquele em que Absu mes Marur e seu descobridor de caminhos trouxeram os despojos de Tore Norstedt e viram pela primeira vez na vida o terrível poder dos explosivos. A expedição foi coroada pelo êxito. Não houve derramamento de sangue e o Povo do Rio caiu em sua própria armadilha — ou pelo menos duas pessoas caíram. O ataque foi precedido por uma missão de reconhecimento de três dias, efetuada por John Howard e Farn zem Marur. John mostrou ao descobridor de caminhos como usar os binóculos, e em se alternando, conseguiram manter uma observação quase que ininterrupta. Tiveram a confirmação do relato de Paul Redman e seu grupo a respeito dos hábitos noturnos do grupo primitivo. Descobriram também que toda vez que um deles se afastava da ponte de choças para ir até a floresta num ou no outro lado do rio, sempre tomava o mesmo caminho. Isso permitiu que o ataque fosse levado a termo mediante uma estratégia simples e óbvia. Ficou estabelecido que seria ao meio dia, quando o Povo do Rio estaria presumivelmente mais descontraído e também mais sonolento. Só participariam seis homens, divididos em dois grupos. Russell e Andrew Payne serviriam para iniciar o ataque e o grupo encarregado de tomar prisioneiros estaria composto de John Howard, Farn zem Marur e mais um guerreiro Gren Li, sob o comando de Absu. O barco construído por Tore foi acabado e testado na água, onde se portou de maneira satisfatória. O barco era necessário à operação. Teria que transportar as grandes e pesadas redes que as mulheres da Torre de Marur levaram muitos dias para confeccionar e serviria também a Russell e Andrew para atravessar o rio a cerca de dois quilômetros da montante das choças, num ponto em que o rio era muito largo. No dia escolhido para o ataque, Russell e John sincronizaram seus relógios. As duas partes do grupo saíram logo quando clareou. Russell e Andrew começaram a remar, levando o barco carregado de redes para o ponto de encontro a jusante, enquanto Absu, completamente armado e couraçado, parecendo um São Jorge mongol de pele queimada, guiava um pequeno bando de pulpuls do Erewhon Hilton através da savana para a floresta mais ao sul. A corrente do rio era um pouco mais rápida do esperado e Russell e Andrew chegaram ao ponto de encontro um pouco antes de Absu e dos outros.
Descarregaram as redes, vistoriaram as granadas, colocaram os pavios e logo em seguida Absu chegou. O plano era simples. Russell e Andrew atravessariam o rio e, procurando fazer o menos barulho possível, tentariam chegar até cinqüenta ou sessenta metros da ponte feita de choças sem ser percebidos. A esse momento o comitê de recepção já estaria em seu lugar na margem oposta. Quando tudo estivesse pronto, Russell e Andrew fariam o máximo de barulho e lançariam suas granadas o mais perto possível da ponte sem provocar danos. Em teoria o Povo do Rio teria que ficar tão aterrorizado por algo que interpretariam como uma manifestação de forças supernaturais que se retirariam o mais depressa possível, como era de se esperar — para a outra margem do rio onde Absu e seu pequeno grupo estariam à espreita. Felizmente a teoria e a prática coincidiram. As granadas deram um estrondo duplo muito satisfatório, dando a impressão que o céu estava vindo abaixo e também lançaram para o ar uma grande quantidade de pedras e terra solta. Como o tempo era bastante seco, isso levantou uma grande nuvem de poeira, dando aos moradores das choças a impressão que a noite estava calando ao meio dia.
A manhã tinha sido ensolarada, quente e tranqüila. De repente ouviram-se aqueles dois terríveis estrondos, seguidos por uma chuva de terra e pedregulho e urros aterrorizantes. Em circunstâncias idênticas até pessoas civilizadas teriam ficado tomadas pelo pânico. O Povo do Rio perdeu a cabeça e correu. Por um reflexo instintivo se afastaram depressa da aparente fonte de destruição e barulho e foram diretamente para as redes esticadas por Absu e seus companheiros entre as árvores que beiravam a costumeira trilha na floresta. Se uma das redes não tivesse enguiçado quando sua corda foi puxada, vários componentes da colônia do Povo do Rio teriam sido apanhados. Mas aconteceu que quando Farn zem Marur e John Howard puxaram as cordas, dois primitivos caíram ao chão, gritando e esperneando. O resto, vendo que criaturas estranhas desciam das copas das árvores, e Sem dúvida aterrorizados pela aparição de Absu, com armas e couraça, sentado no lombo de um pulpul, fugiram gritando pela floresta. Quando conseguiram se acalmar, os atacantes e seus prisioneiros já tinham sumido, deixando para trás duas pequenas crateras na outra margem do rio, como prova e lembrança dos poderes mágicos envolvidos.
Os prisioneiros pareciam ter uma reserva inexaurível de energia e se recusaram ficar quietos, até depois de amarrados e imobilizados. Farn zem Marur, com muito bom senso, aplicou-lhes uma bordoada na cabeça. Em seguida cada um deles foi jogado no lombo de um pulpul para serem levados dessa maneira ao Erewhon Hilton. Só quando perderam os sentidos e foram amarrados em cima dos animais, descobriu-se que uma das criaturas era, sem dúvida nenhuma, uma mulher. Estava coberta por peles de animais iguais à de seu companheiro, seus cabelos eram longos e emaranhados da mesma maneira e suas feições eram só um pouco mais suaves e mais limpas. Viram que era uma mulher quando seu busto cheio apareceu entre as dobras das peles abertas enquanto se debatia na rede. A pequena expedição, tendo conseguido seus prisioneiros, procedeu em direção norte o mais rápido possível atravessando a floresta. Absu teria preferido ficar e lutar, se por acaso o inimigo assustado se recuperasse de sua confusão, mas prometera a Russell que evitaria matar se isso fosse possível. E Absu podia ter muitos defeitos, mas sempre mantinha a palavra dada. Entretanto, Russell e Andrew estavam trabalhando duramente. Descer pelo rio era fácil e dependia, sobretudo do uso das pás para dirigir o barco. Subir contra a corrente era mais difícil, e requeria um esforço muito duro para conseguir resultados mínimos. A noite estava chegando quando amarraram o barco na margem no ponto mais próximo ao Erewhon Hilton. Caminharam os poucos quilômetros até o hotel e quando chegaram Absu e seu grupo já estavam confortavelmente instalados e seus prisioneiros, que sem dúvida deviam estar com uma desagradável enxaqueca, já tinham recuperado os sentidos e estavam esperando, mudos e soturnos.
A iluminação elétrica, os utensílios de vidro, os móveis modernos e as roupas à moda do século vinte, que deixavam estupefatos o povo de cultura medieval, estavam aterrorizando profundamente as duas criaturas da Idade da Pedra, que se encontravam agora num ambiente completamente além de sua compreensão. Foram levados para a sala de estar do Erewhon Hilton onde estavam sendo observados por treze terrestres e três guerreiros da Torre de Marur. Suas mãos e seus pés continuavam atados, mas assim mesmo estavam colocados sobre duas poltronas da forma mais confortável possível. Davam a impressão de estarem mais assustados das poltronas que de qualquer outro dos fantásticos objetos que os cercavam. Talvez estivessem temendo estar em cima de algum altar sacrificial, ou então de alguma coisa que os engoliria de repente. Era patético ver como tentavam se aproximar um do outro para sentir um pouco de conforto. Russell interpretou corretamente aquelas tentativas inúteis e mandou que as poltronas fossem colocadas lado a lado.
"Eu-não-correr, você-não-correr, eu-você-ver-nãodor, não-frio-dor", o homem rosnou com bastante coragem. "Eu-não-frio-dor", gemeu a mulher. "Frio-dor-vem. Não-correr, não-comer, não-tocar-abraçar-forte. Frio-dor-vem." Ele tentou colocar um braço em volta dela, lembrouse que não podia fazer isso, e tentou lamber-lhe o rosto. Mas isso também estava fora do alcance. Conseguiu então colocar a testa sobre o peito dela. A mulher pareceu se acalmar pelo contato. "Não-frio-dor-vem", murmurou inseguro. "Não-friodor-vem. Eu-você-rir-comer. Não-frio-dor-vem." Russell ficou ouvindo e observando por algum tempo. Era bastante fácil entender aquela maneira de falar, porque eram pensamentos simples. Frio-dor obviamente significa morte. "Não-frio-dor-vem", Russell disse a título de experiência. "Você-ela, não-frio-dor-vem." O homem estremeceu, bateu as pálpebras e rosnou descobrindo os dentes como um animal. A mulher gemeu. "Você-ela, fiquem quietos, descansem", continuou Russell com voz suave. "Não-dor. Você-comer, elacomer, não-dor."
O homem rosnou mais uma vez, mas não parecia muito feroz. Estava olhando confuso para a multidão de rostos em sua volta. Levantou os olhos para as luzes acesas e estremeceu. "O coitado está completamente arrasado por tudo isso", falou Russell sem olhar para ninguém em especial. "Acho que aqui tem gente demais e as luzes devem estar incomodando-os bastante. Será que temos algumas velas? Acho que eles poderão entender melhor a luz produzida por uma chama." "Eu pessoalmente também apreciaria muito mais uma iluminação feita com chamas, em vez dessas esferas incandescentes", declarou Absu em tom solene. "Vocês, os mágicos, têm bastante truques para confundir gente civilizada, Russell. Imagine só, essas criaturas embrutecidas!" Marion Redman trouxe quatro velas e as acendeu. Robert Hyman desligou as lâmpadas ao mesmo tempo e a súbita mudança deixou as duas criaturas da Idade da Pedra assustadas, se mexendo e gemendo na tentativa de se libertar de suas amarras. Mas logo pareceram se acalmar. "Absu e Anna, fiquem comigo", disse Russell. Virouse para os outros: "Gostaria muito se todos vocês fossem tomar um drinque ou qualquer coisa assim. Vamos ter bastante tempo para observar nossos prisioneiros, se conseguirmos não matá-los de susto." "Sir", Farn zem Marur falou a Absu, "qual é sua ordem para mim e para Grolig, seus fiéis vassalos?" Absu acenou com a cabeça. "Descansem, meus filhos, mas fiquem ao alcance de minha voz. Acho que não vou precisar de suas espadas." "Russell, você não acha que devíamos dar alguma comida a esse pessoal?" perguntou Simone. "Talvez... Precisaria ser alguma coisa muito simples. Uma carne assada e água fresca para beber, eu acho." Absu, Anna e Russell finalmente ficaram a sós com os prisioneiros. "Não-dor", disse Russell. "Nós-vocês-não-dor." Virou-se em direção a Absu: "Que tal você cortar as cordas que seguram as mãos da mulher? Vamos ver o que ela vai fazer." Quando o homem viu Absu apanhar sua adaga e se aproximar da mulher, começou a se remexer como um louco. Russell falou-lhe suavemente, mas sem nenhum efeito. Enquanto Absu estava cortando as cordas que imobilizavam a mulher, seu companheiro conseguiu tomar impulso, dobrando-se sobre si mesmo e depois eslanchando-se, como impulsionado por uma mola, e afundou os dentes no braço de Absu.
Absu deixou cair a adaga e com a mão livre aplicoulhe um pescoção que o deixou tonto. Pegou mais uma vez a adaga e acabou de cortar as amarras. A mulher gemeu, olhou para seu companheiro e logo começou a acariciar sua cabeça. O homem viu que os braços dela estavam livres e que ninguém a estava atacando; logo, os olhares que lançava em sua volta se tornaram menos ferozes. "Não-dor", repetiu Russell. "Nós-você-não-dor. Fazmão-mexer. Não-dor." Absu se aproximou do homem da Idade da Pedra e começou a cortar as cordas. O homem voltou a rosnar, mas ficou quieto até que sentiu os braços livres. Então, com um gesto improviso, agarrou a lâmina da adaga, urrou, e largando-a olhou com espanto para o sangue em sua mão. "Cristo!" exclamou Russell. "Vai ser uma noite muito longa e muito trabalhosa."
A noite realmente foi longa e difícil, mas os resultados foram satisfatórios. Conseguiram finalmente estabelecer uma espécie de comunicação com os dois prisioneiros e dar-lhes um mínimo de tranqüilidade. Russell conseguiu, mediante um procedimento complicado, saber os nomes deles e explicar como cada um se chamava. A mulher se chamava Ora e o homem Ireg. Mais tarde Russell percebeu que o fato de todo mundo se chamar pelo nome tinha provocado a esperada mudança psicológica. Até aquele momento Ora e Ireg ficaram agindo como se cada instante fosse o último de suas vidas. Tornaram-se um pouco mais calmos quando receberam carne recém-assada. Comeram avidamente. Mas foi um erro oferecer-lhes copos cheios de água. Ora ficou segurando o dela com expressão estupefata, sem compreender que devia ser usado para beber. Anna apanhou o copo e mostrou como devia ser feito. Logo em seguida Ireg levantou o dele, aplicou uma vasta mordida e passou os próximos cinco minutos cuspindo sangue misturado a lascas de vidro. Finalmente trouxeram uma bacia cheia de água e os prisioneiros começaram a beber apanhando a água nas mãos fechadas em concha, sugando-a ou lambendo-a como gatos. Russell não demorou em descobrir que Ora e Ireg não faltavam de inteligência. Tinham uma extraordinária capacidade de aprender. Russell pensou que num certo sentido, poderia se comparar o nível intelectual deles ao de um garoto inteligente de aproximadamente dez anos de idade, que não tivesse sido educado, ou tivesse crescido num lugar selvagem. Lembrou-se que muito tempo antes, ainda na Terra, ouvira a respeito de crianças perdidas em florestas e que conseguiram sobreviver. Mas essas duas criaturas não eram mais crianças. Eram adultos amadurecidos, membros de uma pequena tribo numa fase ainda primitiva de desenvolvimento. Por isso, se fosse possível instruí-los, se fosse possível aumentar seu reduzido vocabulário ao ponto de transmitir-lhes pensamentos mais complicados, poderia até ser possível elevá-los de seu nível de cultura da Idade da Pedra até o ponto em que aprenderiam os rudimentos da ciência e da tecnologia. Seria realmente uma tarefa fascinante! O primeiro problema a ser superado era o da comunicação. Russell começou a se convencer que era menos difícil do que imaginara. Após as apresentações dos nomes, Absu acabou cortando as cordas que imobilizaram as pernas de ambos. "Não-corre", avisou Russell. "Você-ela-caminha, olha, ver-coisas. Não-corre. Você-come, ri, descansa. Russell fala, Ora fala, Ireg fala. Todo mundo fala." Ora ficou confusa, mas Ireg sorriu. "Você-homemcoisa-boa", falou incerto. "Russell-homem-coisa-boa, Ireg-homem-coisa-boa. Não-dor." Ireg levantou-se devagar e com muito cuidado, para mostrar que não tencionava correr ou lutar. Em seguida estirou-se, e todos os músculos de seu corpo imponente se contraíram e se relaxaram. Absu falou em tom solene: "Você-homem-coisagrande. Duro-grande. Duro-faz-frio-dor. Bom." Russel ficou olhando para ele, surpreso. "Não precisa ficar tão surpreso assim", disse Absu seco. "Eu também preciso aprender a falar usando esse estranho grupo de palavras. Pode acontecer que no fim Ireg e Absu acabem por se compreenderem muito bem. Afinal, cada um de nós, à sua maneira, é um guerreiro." Soltou uma gargalhada. "Pensei muito em você, Russell, e em seus mágicos. Uma vez você me disse que vinha de um mundo além das estrelas e do outro lado do sol. É muito difícil para mim acreditar nisso, porque eu sei que o mundo é achatado e que além do fogo e do sol e da luz das estrelas nada mais existe que um homem possa compreender, sem antes receber o dom da loucura — ou talvez o dom de uma grande sabedoria. Mas estou convencido de que você nunca me enganaria e que estranhas coisas devem ter acontecido para que todos nos encontrássemos aqui, vindos de terras tão diferentes. É possível que Ireg e seu povo também foram trazidos para cá de uma terra distante. Nesse caso você não acredita que podemos nos considerar todos irmãos na desgraça? Existem muitas coisas que eu preciso tentar compreender." Russell falou: "Absu, meu amigo, eu já sabia que você era um homem muito valente. Agora estou vendo que você também é muito sábio." Entretanto, Ora também se levantou e começou a andar pela sala examinando curiosamente todos os objetos grandes e pequenos. Apanhou um cinzeiro de vidro e emitiu sons que pareciam os de uma criança satisfeita ao ver a luz das velas refletidas no objeto. Quando colocou mais uma vez o cinzeiro em seu lugar, usando muito cuidado, Anna o apanhou e ofereceu-o a ela. "Isso-você-fica." falou Anna. "Anna-dar-Ora-essacoisa-fica. Essa-coisa cinzeiro." "Ora-essa-coisa-fica", disse a mulher sorrindo. "Toma-fica. Olha-ri... Cinzeiro."
Ireg olhou para o cinzeiro com inveja. "Ireg-coisafica", falou. "Ireg-essa-coisa-fica. Olha-ri." Anna olhou em volta. Numa mesa baixa havia um cinzeiro de aço polido. Deu-o a Ireg. Ele o examinou com manifesta alegria, mas o deixou cair quando viu seu próprio rosto refletido na superfície. Anna apanhou o cinzeiro no chão e o devolveu ao homem. "Não-dor", falou com voz macia. "Iregtoma-fica. Olha-ri. Não-dor." Russell percebeu de repente que estava cansadíssimo. Sem dúvida os outros também deviam se sentir exaustos. Ora e Ireg eram na verdade criaturas acostumadas a uma vida noturna, mas muitas coisas tinham contecido com eles durante as últimas horas. Suas mentes deviam estar confusas pelas muitas experiências sem dúvida assustadoras e aparentemente inexplicáveis. Achou que seria uma coisa ótima se todo mundo descansasse um pouco. A situação evidentemente tinha seus problemas. Falou com Anna e Absu. "Acho que todo mundo precisa descansar um pouco, mas não penso que seria oportuno deixá-los sozinhos. Eles poderiam ficar tomados pelo pânico e acabar destruindo tudo, ou então tentar fugir e se machucar — ou então machucar alguém. Também me repugna a idéia de amarrá-los mais uma vez."
Sorriu. "Acho que eles se sentiriam muito infelizes. O que é que vocês pensam?" "Podemos deixar alguém de guarda", disse Anna. Russell refletiu um pouco, mas acabou sacudindo a cabeça. "Eles estão começando a se acostumar conosco. Alguém ficando de guarda — especialmente se fosse uma pessoa armada — poderia parecer uma provocação." "Nesse caso, me parece que só existe uma solução: teremos que dormir todos juntos aqui", falou Absu "Não fique preocupado, Russell. De fato, eu também estou um pouco cansado porque hoje vi muitas coisas interessantes. Mas eu costumo ter o sono muito leve, como todo guerreiro deve ter. Não acredito que nossos amigos selvagens poderão fazer qualquer movimento sem que Absu mes Marur o perceba." "Confesso que eu também pensei na mesma coisa", disse Russell. "Só espero que seja possível explicar a coisa a Ora e Ireg." Ireg já estava acostumado com a sua própria imagem refletida no cinzeiro de aço polido. Parecia até estar bastante satisfeito com ela, e começou a experimentar uma série de expressões ferozes ou cômicas. A luz das velas suas feições toscas e um pouco achatadas pareciam mais suaves, ao ponto que, não fosse pelos cabelos ásperos e suas roupas feitas de peles de animais, poderia se parecer — pensou Russell — com alguns dos mais relaxados espécimes masculinos do século vinte que perambulavam na King's Road em Chelsea. Só que contrariamente ao que acontece com os típicos freqüentadores da King's Road, os olhos de Ireg expressavam sentimentos humanos. Russell sentiu-se invadido por um estranho sentimento de simpatia por esse inocente, jogado por acaso ou de propósito num mundo que talvez nunca chegasse a compreender. "Ireg, você-dormir. Ora-dormir. Russell e Anna dormir. Absu dormir. Descansar. Coisa-boa-dormir. Dormir-feliz." "Dormir?" perguntou Ireg. "Dormir? Como-dormirvocê-mostrar?" Russell sentou numa das poltronas, fechou os olhos e tentou roncar. "Assim-dormir. Faz-bom-forte. Fazfeliz." Ora riu. "Quente-escuro-bom. Faz quente-escurobom. Ora-Irega deita-quente-bom." "Isso mesmo", falou Anna. "Olha Anna-dormir. Russell-dormir. Não-dor. Quente-escuro-bom". E sentou-se numa outra poltrona. As velas estavam encurtando e a sala estava repleta de sombras suaves e móveis. Ireg tentou sentar numa poltrona, mas não gostou. Tomou a mão de Ora e deitaram juntos no chão. Absu sentou-se de pernas cruzadas um pouco mais adiante e deixou cair a cabeça.
Ireg, porém, parecia ter idéias bem claras a respeito da forma correta de dormir. Quando Ora ficou deitada ao seu lado, a mão dele se posou sobre o seio nu da mulher. Segurou o bico e o apertou delicadamente entre os dedos. Ora não abriu os olhos, só mexeu o corpo. Ireg insistiu mais um pouco. Ora continuou de olhos fechados, mas seu corpo se estirou mostrando seu agrado, e uma espécie de gorgolejo começou a lhe sair da garganta. Russell, Anna e Absumes Marur estavam fingindo dormir, mas não perdiam um único gesto. As carícias de Ireg eram rudes, mas demonstravam um evidente carinho. Ora continuou de olhos fechados, mas quando seu corpo mostrou que estava completamente descontraído, Ireg se jogou em cima dela, fazendo amor de maneira enérgica e ao mesmo tempo alegre, sem se importar com as outras pessoas que estavam fazendo o possível para ocultar que estavam observando. Ora rolava de um lado para o outro, estremecia e fingia querer resistir, tudo isso mantendo os olhos firmemente fechados. Gemeu e riu um pouco. Em seguida o casal da Idade da Pedra adormeceu estreitamente abraçado. Nenhum deles tinha pronunciado uma única palavra durante aquele ato breve e vigoroso. Enquanto ficava a observá-los com olhos semi-cerrados, Russell refletiu que assim deviam ter se passado as coisas no Paraíso. Olhou para Anna e viu que ela o estava observando. Ele a queria. Estava excitado por ter assistido a cópula de dois selvagens, e agora a queria. Ela parecia compreender os pensamentos dele, e ele percebeu que ela também estava excitada. Mesmo assim não fizeram amor. Só ficaram a se olhar. Não fizeram amor porque não estavam sozinhos. Já quase adormecido, Russell refletiu que isso estava a demonstrar a diferença entre a inocência e a experiência. Ora e Ireg faziam tudo o que queriam, todas as vezes que ficaram com vontade de fazê-lo, sem se preocupar com nada. Eles ignoravam o que era a moral, a sofisticação e a intimidade. Só conheciam suas próprias necessidades. E talvez fossem felizes. Pensando bem, talvez estas eram as únicas coisas realmente importantes...
Ora e Ireg ficaram no Erewhon Hilton como "hóspedes" durante seis dias. Em seguida foram acompanhados até um ponto próximo à ponte de choças e soltos. Durante o tempo em que ficaram no hotel não fizeram nenhuma tentativa de fugir, e Russell esforçou-se em dar-lhes um curso intensivo de expressão lingüística. Também aprenderam um monte de outras coisas, mas sem um considerável aumento de vocabulário ou capacidade de entender e lembrar fatos e conceitos estaria muito limitada. Durante aqueles seis dias de estada no hotel, foram obrigados e ajudados a conseguir um progresso intelectual que os homens da Idade da Pedra na Terra levaram milhares de anos para conseguir. Só que os homens da Idade da Pedra na Terra não tiveram professores. Russell ficou estupefato em constatar a inteligência daquelas duas criaturas primitivas. Estava muito além de quanto esperava. Ora era brilhante e conseguia entender o sentido de uma palavra nova ou de um conceito muito antes de Ireg. Por outro lado, Ireg era mais lento, mas também mais metódico. Quando conseguia apreender algo, logo percebia como aplicar este novo conhecimento de maneira mais eficiente do que Ora. No terceiro dia a conversação já era muito menos difícil para todos. À medida que o vocabulário aumentava a necessidade de juntar palavras para expressar um conceito diminuía sempre mais. Frio-dor, por exemplo, foi traduzido com a palavra "morte". Deitar-abraçar-escuro-perto-rir-chorar, virou simplesmente "fazer amor". E frio-dor-não-dorcomer-dor, virou "fome". Absu ficou somente durante o tempo necessário para observar o que os mágicos estavam fazendo com os prisioneiros e voltou em seguida para a Torre de Marur para se ocupar de todos aqueles problemas domésticos que são da competência de um suzerano feudal. Deixou Farn zem Marur no Erewhon Hilton como observador, mas levou consigo o outro guerreiro Gren Li. Explicou a Russell que voltaria dali a alguns dias para constatar o progresso conseguido e para continuar as discussões a respeito de uma tentativa de atravessar a muralha de névoa. Russell, Anna, John Howard e todos os outros se dedicaram com entusiasmo à instrução de Ora e Ireg. Farn zem Marur ficou a observar com seus olhos brilhantes e inteligentes. Ele também estava aprendendo muitas coisas, e estava começando a compreender a respeito dos mágicos muito mais coisas do que eles poderiam imaginar. Uma tarde Russell estava sentado nos degraus de entrada do hotel — um de seus lugares favoritos para meditar — junto a Ireg e ao descobridor de caminhos Gren Li. Ora estava no interior do hotel em companhia de Andrea e Janice que a estavam instruindo a respeito das roupas e da maquilagem da mulher moderna. Para as duas jovens estudantes isso não passava de uma brincadeira divertida, mas para Ora tudo pareceu uma sucessão de extraordinários milagres. Durante algum tempo os três homens ficaram em silêncio. Tinham almoçado bem — e Ireg parecia capaz de comer qualquer tipo de alimento e estavam satisfeitos, cada um seguindo seus próprios pensamentos. O descobridor de caminhos Gren Li estava usando sua adaga para esculpir um pequeno símbolo de fertilidade em madeira, que pretendia oferecer ao senhor do clã dos mágicos em sinal de respeito. Ireg estava praticando fazer contas com dez pedrinhas. Russell estava com seus pensamentos a uma distância de milhares de anos-luz, alimentando sua saudade com lembranças de Londres na hora do rush numa cinzenta tarde de novembro.
De repente Ireg disse: "Russell-amigo dar palavras a Ireg. Ireg não dar. Não dar nada. Ireg muita-dor, escuro-dentro." Russell já estava bastante familiarizado com a maneira de falar de Ireg para compreender todos os detalhes. Traduziu para si mesmo as palavras de Ireg dessa maneira: "Você está me ensinando, mas eu não posso ensinar nada a você. Não sei porque você está me ensinando e estou triste porque não posso lhe oferecer nada." Russell pensou um pouco a este respeito e disse: "Ireg dar grande coisa a Russell-amigo. Ireg dar sua mão-atira-pedra." Estendeu sua própria mão e ficou esperando. Ireg, visivelmente surpreso, esticou sua própria mão, aquela que mais usava para caçar e lutar. Russell a apertou, sacudindo-a com muita solenidade. Aquela mão cheia de calos e asperidades mais parecia a pata de algum animal gigante. Quando os dedos de Ireg começaram a apertar, Russell soltou um gemido de dor. Ireg percebeu, compreendeu e soltou a mão. "Apertar a mão", explicou Russell, "quer dizer Ireg não machuca Russell, Russell não machuca Ireg. Nunca, nunca machuca. Ireg-amigo e Russell-amigo. Ora e todo povo de Ireg amigo. Anna e todo povo de Russell amigo. Nunca, nunca dor. Essa coisa grande Ireg dar... "Para dar mais ênfase, acrescentou: "Russell rir, muito feliz, muito bom. Aperta mão, calor fica, Russell Ireg faz grande coisa boa." "Grande coisa", repetiu Ireg compreendendo de forma vaga. Não entendia porque um povo que lutava de maneira tão terrível com todos aqueles estrondos, as redes, as cordas e objetos lustrosos muito mais aguçados do que pedras, fazia questão de não querer lutar com ele e com seu povo. Mas a vontade dos deuses é misteriosa. Se era assim que aquelas criaturas de cheiro estranho se sentiriam felizes, assim seria. "Nunca, nunca dor. Grande coisa. Povo Ireg, povo Russell, nunca, nunca dor." Sua expressão se tornou alegre. "Isso Ireg dar?" Havia uma interrogação em seus olhos. "Isso Ireg dar", confirmou Russell. "Coisa grande boa. Coisa maior do que palavras que Russell dar a Ireg" Ireg levantou-se e começou a bater em seu próprio peito. "Grande coisa Ireg dar!" gritou em direção à rua deserta, como se quisesse comunicar seu pensamento à savana. "Nunca, nunca dor. Grande coisa boa Ireg dar!" "Sir", disse Farn zem Marur parando de esculpir, "é direito que um senhor de clã estabeleça um vínculo com um selvagem?"
"É direito", respondeu Russell calmo. Em seguida perguntou em tom quase indiferente: "O que é que eu sou, um homem ou um animal?" O descobridor de caminhos sorriu. "Você é o senhor de um clã de mágicos." "Homem ou animal?" insistiu Russell. Farn zem Marur ficou desnorteado: "Sir, um homem — pelo menos assim eu acredito. Talvez até mais do que isso." "E você, Farn, e seu senhor Absu — vocês são homens ou animais?" Farn voltou a se sentir mais seguro. "Pessoalmente, posso dizer que sou um homem... Mas meu senhor Absu lança uma sombra muito grande, toda vez que se defronta com alguém pelas armas." "Assim mesmo, ele é um homem?" "Ele é muito homem." "E que tal o Ireg? Ele é um homem ou um animal?" Farn zem Marur lançou um olhar de especulação à criatura da Idade da Pedra. "Sir, não sei se ele é um homem com o coração de um animal, ou um animal com o coração de um homem... De qualquer forma, acho que prefiro tê-lo a meu favor a tê-lo como inimigo. Ele é muito forte e à sua maneira mostra ter muita coragem."
"Eu afirmo, descobridor de caminhos", disse Russell, "que você eu e ele pertencemos à espécie dos homens. Além daquela barreira de vapor que você conhece muito bem e que nos cerca, podem existir entidades que conseguem grandes feitos, e que assim mesmo não poderíamos chamar de homens ou de animais. Poderá chegar a ocasião em que essas entidades desejem nos liquidar, ou em que nós mesmos desejemos nos defrontar com elas." "Sir", disse Farn zem Marur, "nesse caso seremos todos do mesmo clã." Russell sorriu. "Dê mais um passo, Farn zem Marur", falou. "Em qualquer caso, somos todos do mesmo clã." Ireg sorriu para ambos. "Coisa boa grande", anunciou satisfeito.
Era o começo da tarde. O sol ainda brilhava alto num céu salpicado de pequenas nuvens, mas apesar disso o ar parecia frio. Talvez não fosse o ar, pensou Russell sentindo um arrepio. Talvez o frio estivesse dentro dele — o frio do medo. Anna, sentada ao seu lado no barco, estava remando com aparente tranqüilidade. Russell pensou que ela era linda. Nunca antes reparara o quanto ela era linda. Mas refletiu que facilmente as pessoas não repararam o óbvio, até o momento em que começam a ter consciência da morte próxima. Os compridos cabelos de Anna Markova estavam amarrados na nuca com um pouco de barbante. Estava vestindo só uma camisa aberta e uma calça comprida bastante gasta. Todas as roupas pesadas estavam guardadas cuidadosamente na pequena cabine desmontável que Tore Norstedt construiu antes de morrer. No teto da cabine estavam amarrados três pares de rodas de madeira e duas longas varas. Eram obra de John Howard e serviriam para transformar o barco numa carroça-miniatura para ser puxada em terra firme. Se chegassem a ter necessidade de viajar em terra firme, pensou Russell preocupado. Agora que a viagem de exploração estava em ato, seu otimismo estava desaparecendo, começava a se convencer de que a façanha terminaria numa catástrofe. A cabine estava bem ao centro do barco, separando o banco em que Russell estava com Anna do outro banco à proa em que estava Farn, mostrando-se muito eficiente em remar à maneira dos índios, sua pá cortava continuamente a água de um lado e do outro do barco. Felizmente não precisava de muito esforço para movimentar o barco bastante carregado, porque estavam descendo o rio ao sabor da corrente. As pás serviam, sobretudo para manter o barco afastado das margens e para evitar eventuais obstáculos no centro do rio. Em alguns trechos a corrente que se movimentava sem pressa não era mais larga do que sete ou oito metros, mas em alguns pontos o leito se alargava bastante, apresentando bancos de areia. Algumas vezes o fundo, apesar do pouco calado, passou raspando sobre a areia. Russell observou os ombros sólidos e os movi¬mentos eficientes de Farn zem Marur e sentiu-se satisfeito por Absu ter permitido ao seu descobridor de caminhos de acompanhá-los naquela jornada. Absu só não tinha se oferecido pessoalmente porque acreditava que sua obrigação mkis importante era cuidar de seu clã. Por esse mesmo motivo não aprovava a participação de Russell. Cuidou, porém, de não manifestar seus sentimentos, pois reconhecia que os costumes dos mágicos eram diferentes dos costumes das outras pessoas. Num primeiro momento Russell pensou em levar consigo Mohan das Gupta. Mas Anna o convenceu do contrário. Argumentou que se por uma qualquer mal-afortunada circunstância a expedição tivesse que terminar de maneira catastrófica, o Erewhon Hilton se encontraria numa desagradável situação de desequilíbrio de sexos. Dois homens, Gunnar Rudefors e Tore Norstedt já estavam mortos. Marina Jessop também estava morta, mas a eventual perda de mais dois homens poderia levar a complicações que poderiam destruir de forma definitiva o resto do pequeno grupo — e, sobretudo diminuiria seu poder defensivo. Russell estava decidido a ir — e sabia que na eventualidade de um fracasso da expedição, John Howard, seu vice, saberia lidar com os assuntos da comunidade tanto quanto ele, ou talvez melhor. Anna proclamou ser a companheira óbvia para este tipo de viagem. De fato, em muitas coisas Anna Markova valia praticamente tanto quanto um homem, mas Russell sabia que consentira por motivos puramente egoísticos. Realmente, ele desejava que Anna o acompanhasse. Agora, apesar de se sentir feliz em sua companhia, já estava muito arrependido por essa fraqueza. Teria preferido saber que ela estava em companhia dos outros, em relativa segurança. Absu prometera manter regularmente contato com John Howard durante todo o tempo em que Russell estaria ausente — e quem sabe quanto tempo isso seria. Em caso de complicações e dependendo da conveniência, estava previsto que o clã Marur se instalaria no Erewhon Hilton ou os terrestres iriam para a Torre de Marur. Russell não conseguia imaginar quais circunstân¬cias poderiam ocorrer para fazer essa união obrigatória, mas antes de iniciar a viagem pareceu-lhe oportuno fazer planos tentativos. Afinal, toda aquela situação parecia ridícula; não seria por demais surpreendente se as aranhas-robôs noturnas de repente tivessem algum curto-circuito em seus transistores, ou se as "fadas" repetidamente avistadas, mas que continuavam a se manter fora do alcance, decidissem se aproximar dos prisioneiros do zoológico com intenções sinistras. Lançou mais um olhar em direção de Anna e viu que ela estava sorrindo. Ocultou seus temores e sorriu também. O desespero poderia se espalhar. A situação requeria uma atitude de indiferente otimismo. Anna parou de remar por um instante e deu-lhe um beijinho sobre a orelha. Depois murmurou: "Estou feliz por estarmos juntos, Russell, mas continuo com muito medo... Você não tem medo nenhum?" Russell enxugou o suor da testa — era suor frio — e esboçou uma carícia no ombro dela. "Você não está realmente esperando que um inglês à maneira antiga admita frente a uma mulher russa emancipada que ele está com medo?" "Mas se for a verdade!" "Minha querida", respondeu em tom de brincadeira, "você tem que me permitir um mínimo de hipocrisia. Um cavalheiro nunca se mostra assustado na presença de uma dama." Anna riu. "Você já conseguiu me reanimar. É engraçado como poucas palavras podem ter um efeito tão importante." "É verdade. É engraçado", concordou Russell "Você está lembrada da hora em que passamos debaixo da ponte feita de choças? Todo mundo estava pulando e gritando, e por um instante fiquei assustado e pensei que Ora e Ireg não tivessem conseguido convencer seu povo de nossos sentimentos de amizade — ou que então Ireg tivesse decidido que não estava precisando delas." "Foi realmente assustador", disse Anna. "Parece que já passou muito tempo, mas suponho que só fazem três ou quatro horas." "Até menos, eu acho", respondeu Russell. "Eu estava começando a acreditar que acabaríamos dentro de um caldeirão da Idade da Pedra, especialmente quando Ireg nos seguiu em sua canoa, falando palavras desconexas e segurando o machado na mão." Anna sorriu. "E ele deu-lhe seu melhor machado de presente." "Pois é. Você está lembrada de suas palavras? Ele disse: Ireg dar a Russell-amigo coisa boa grande. Pedra coisa pequena, mas leva coisa boa grande. Segura forte, Russell-amigo. Vá depressa. Volta depressa. Depois Ireg-amigo e Russell-amigo pode rirdor, comer-dor." Anna voltou a remar. "Acho que foi um discurso muito complicado para Ireg. Possivelmente o mais comprido que ele já fez." Russell apanhou o machado de pedra no fundo do barco e ficou olhando-o curiosamente. "Não sei porque", disse, "mas me senti bastante orgulhoso... Acho que ter conseguido a amizade de um homem como Ireg é um belo feito."
O barco estava num ponto em que o rio era bastante largo. As margens eram baixas e arenosas. De ambos os lados havia uma grande planície desprovida de árvores. A região era bastante diferente. Não se via mais o alto capim da savana e nem as árvores da floresta. A grama que cobria o terreno era tão curta e fechada que parecia aparada há pouco. Um pouco mais adiante Russell viu ao longe um rebanho de animais pastando. Apanhou o binóculo na cabine e os observou demoradamente. Não fosse pelo único chifre que brotava no meio da testa, os animais poderiam parecer pacíficas vacas. Lembrou-se que conhecia muito pouco da fauna indígena — se é que aqueles animais eram indígenas. A não ser pelos pulpuls, importados para uso do povo da Torre de Marur, os animais selvagens pareciam se concentrar sobretudo na floresta, em proximidade do Povo do Rio. Quem sabe, até os animais selvagens eram importados, em benefício do Povo do Rio. E talvez aquele rebanho pastando pacífico podia ter sido importado para servir a mais outro grupo. Havia muitas perguntas que pediam respostas. Havia muitas circunstâncias curiosas a serem esclarecidas. Havia tantas coisas à saber! Russell passou distraidamente sua mão no pequeno galo perto da nuca — era tudo o que sobrava de uma operação milagrosa que parecia ter colocado todo mundo em condições de entender todo mundo. Também era estranho constatar como todos estavam se adaptando ao novo ambiente, aprendendo a aceitar tudo que era milagroso, louco, grotesco e absurdo. Talvez isso não passava de um prolongado e maluco pesadelo. Talvez Anna, aparentemente real e viva durante o dia, e deliciosamente quente e excitante durante a noite, não passava de uma projeção de sua mente — uma ilusão de vida, que respirava e pulsava somente dentro de seu próprio cérebro. Talvez até Absu, a Torre de Marur, os pulpuls, o povo da Idade da Pedra, as aranhas-robôs e todo o resto não passavam de fantasias — resquícios de loucura ou restos de um sonho que estava se acabando. Talvez o avião que ia de Estocolmo a Londres tinha caído, e naquele instante Russell Grahame, Membro do Parlamento, estava na mesa de cirurgia, suspenso entre a vida e a morte, protegido contra a dor pelos anestésicos e por um pesadelo de sua própria invenção. "Sir Russell", falou Farn zem Marur interrompendo todas aquelas reflexões. "Acho que estamos a poucos varaks da barreira de névoa — não mais do que nove ou dez. Não seria melhor se parássemos agora para descansar, comer e nos refrescar um pouco antes de arriscar nossos corpos dentro do gelo da barreira?"
"É uma sábia sugestão, descobridor de caminhos. Vamos nos aproximar da margem e fazer nossos preparativos. Precisamos também tirar as roupas pesadas da cabine para poder vesti-las." Russell lembrou-se das medições comparativas de temperatura feitas por John Howard alguns dias antes, muito mais ao norte. Pelos cálculos de John, a barreira de névoa devia ter uma espessura máxima de cinqüenta metros. John, porém o prevenira que os cálculos eram muito relativos, pois faltava-lhe um dado importante: não sabia qual era a temperatura mínima da névoa em seu ponto mais central. Por motivos que Russell não entendia muito bem, John se baseara na presunção que a temperatura mínima não poderia ser inferior a cinqüenta graus abaixo de zero. Partindo desse pressuposto avaliou que a redução de temperatura do rio no ponto em que passava debaixo da barreira para entrar no zoológico indicava uma espessura mínima de trinta metros, e uma máxima de cinqüenta. Mas John poderia estar tragicamente errado. E se estivesse errado, o preço do erro seria daqui a breve, três corpos solidamente congelados. Enquanto Farn zem Marur dirigia o barco para a ribanceira esquerda, Russell observou mais uma vez a planície sem árvores com seu binóculo. Na distância, em direção sul, uma muralha curva dava a impressão de se levantar tanto que em alguns pontos tocava as nuvens mais baixas. Era difícil estimar sua altura, mas Russell achou que a barreira de névoa devia ter pelo menos duzentos metros de altura e talvez chegasse até um máximo de quatrocentos. Sendo tão alta, parecia impossível que tivesse somente uma espessura de cinqüenta metros. Sentiu o coração apertado, e seu sangue esfriou ainda mais. Não precisou mostrar a barreira de névoa a Anna e Farn zem Marur. Apesar de estarem sem binóculos, ambos já estavam vendo a alta e distante muralha branca que marcava os limites da prisão.
O rio continuava largo. A barreira de névoa estava imóvel e apavorante a aproximadamente meio quilômetro como um enorme penhasco de gelo. A largura do rio reduzia o risco do barco encalhar numa das margens com seus três tripulantes congelados antes de ter transposto a barreira de gelo — se é que isso aconteceria. Mas o rio sendo largo, aumentava o perigo dos bancos e das secas, porque a água era pouco profunda. Russell observou a grande barreira e sentiu o suor a lhe escorrer pelo corpo. Sentia-se frio por dentro, mas externamente transpirava visivelmente. Estava vestido com duas camisas, três pulôveres, duas calças, três pares de meias e segurava na mão uma comprida echarpe de lã que pretendia enrolar em volta da cabeça. Anna e Farn zem Marur estavam embutidos quase da mesma maneira. Observando-os, Russell lembrou-se de repente de um jogo que fizera num Natal, quando criança. Não conseguiu se lembrar de todos os detalhes, mas sabia que vestira uma grande quantidade de roupas velhas, e tentara comer um tablete de chocolate com garfo e faca enquanto alguém jogava repetidamente os dados tentando um duplo seis. A lembrança provocou uma gargalhada involuntária. Farn e Anna olharam para ele estupefatos. "'Sir Russell", disse Farn, "acho que o que está em nossa frente não pode ser motivo de risos. O frio é tão intenso que nunca em minha vida provei nada igual. Se passarmos por aquela barreira e ficarmos com vida, acho que nunca mais vou querer repetir a experiência." "Sinto muito, Farn", disse Russell arrependido. "Pela maneira em que estamos vestidos lembrei-me de uma brincadeira de meu tempo de criança... A cabine está completamente vazia?" "Sir, coloquei tudo no topo da cabine, obedecendo à sua ordem." "Está bem. A cabine mal tem espaço para nós três." Observou a pilha de apetrechos que estavam agora em seu teto. Todas as armas estavam juntas — a espada, a adaga e a curta lança do descobridor de caminhos, as facas, as bestas, os carcases com os dardos, as granadas de pólvora de Anna e Russell. Ao lado das armas havia caixas de alimentos enlatados e garrafas cheias de água de torneira do hotel, que Russell e Ana preferiam à água do rio. Lá estavam também o binóculo, a pedra-ímã de Farn zem Marur, dois rolos de corda, uma caixa de curativos e a máquina fotográfica polaroid. Que estranha mistura de objetos, pensou Russell. Alguém que organiza uma expedição desse gênero com dois homens, uma mulher e aquele mísero montinho de bugigangas deve ser meio louco ou meio candidato suicida, ou então ambas as coisas. Mesmo presumindo que conseguissem passar com vida para o outro lado da barreira de névoa (o que era muita presunção), não havia possibilidade de saber o que estava do outro lado. Que tal se o zoológico, a prisão fosse um refúgio, uma reserva no meio de uma selva repleta de animais rapaces? Ou no meio de um deserto? Ou se aranhasrobôs, ou qualquer outro tipo de cão de guarda estivessem esperando, com a ordem de destruir a todos que tentassem fugir? Era possível fazer um sem número de suposições desse gênero... "Russell, me abrace", disse Anna que parecia uma gorda boneca de pano. "Abrace-me forte." Russell olhou para a alta muralha de vapor que se erguia a não mais de cem metros. Imaginou que o frio já estava encrespando a pele de seu rosto. "Vou abraçá-la quando estivermos na cabine", disse. "Vou abraçá-la o mais forte que puder." Virou-se para Farn zem Marur: "Descobridor de caminhos, vou dar-lhe minhas ordens. Na hora que eu o mandar, todos entraremos na cabine, deitando muito perto um do outro, cobrindo nossas cabeças, e usando nossa respiração para nos aquecer. Se ficarmos conscientes durante nossa viagem na névoa, como eu espero, e se o barco por acaso encalhar, pois a água é muito baixa, tentaremos deslocá-lo em primeiro lugar balançando com os nossos corpos. Se isso não der resultado, você sairá da cabine e tentará empurrá-lo com um remo. Você não poderá abrir seus olhos. Se não conseguir, vou sair também para ajudá-lo. Se ambos não conseguirmos, a dama Anna virá ajudar-nos. Mas se os três não conseguirem, nossa viagem estará terminada." "Sir", respondeu o descobridor de caminhos, "ouvi suas palavras e estou satisfeito." A grande barreira branca já estava a apenas vinte metros. Iluminada pelos raios brilhantes do sol, era ofuscante, hipnótico e ao mesmo tempo já mostrava toda a intensidade de sua temperatura gelada. Russell olhou pela última vez para se certificar que o barco estava no centro do rio e seguindo em linha reta. O resto já estava na mão dos deuses. "Vamos entrar na cabine agora", convidou. "A dama Anna ficará entre nós dois... Fique bem perto dela, Farn zem Marur, pois não há falta de respeito nisso." Beijou Anna nos lábios. "Entre você primeiro, meu amor. Pelo amor de Deus, mantenha aquela camisola ou o que seja, em cima de sua cabeça." Finalmente acrescentou em tom de brincadeira, "Espero que você não estranhe muito que dois cavalheiros tomem essas liberdades com você." "Acho que eu amo você", disse Anna. "Espero que assim seja. O momento não é muito oportuno para você mudar de idéia." Ficou a observá-la enquanto ela se espremia dentro da cabine, e com um gesto mandou que Farn zem Marur entrasse rastejando. "Sir Russell", falou o descobridor de caminhos, "vamos esperar que essa seja uma façanha que poderá ser contada aos filhos de nossos filhos. Qualquer coisa que aconteça, saiba que me sinto muito honrado de estar em sua companhia." "Vá andando, filho da mãe. Vamos viver para podermos nos embriagar até cairmos debaixo da mesa." A voz de Russell era alegre apesar da névoa que começava a envolvê-lo. Os primeiros cristais de gelo começaram a se formar em volta de seus lábios. O barco já estava entrando na barreira branca e opaca quando ele se espremeu dentro da cabine, atrás de Farn, e abraçou o monte informe de roupas que envolvia Anna, mantendo-a imóvel num enérgico abraço.
A penetração do frio foi como uma mordida. Tiveram a impressão que um enorme animal cego estava abocanhando-os com bilhões de dentes aguçados como agulhas. Era como um fogo e como a morte. Suas cabeças estavam cobertas, os olhos fechados e os corpos rígidos pelo súbito e terrível ataque. Cristais de gelo começaram a se formar sobre os rostos; as lágrimas congelaram antes de poder escorrer, soldando as pálpebras de maneira tão firme como se fossem lacradas com aço. A umidade nas narinas começou a congelar, diminuindo a capacidade de inspirar o ar que chegava aos pulmões como lâminas de facas. O êxito era muito duvidoso, Russell pensou com esforço. Se o frio não os matasse primeiro, morreriam sufocados por ter as narinas e a boca congeladas. Tentou abraçar Anna com mais força, mas seus músculos não lhe obedeceram. A cabeça dela estava perto da sua e ele imaginou ouvir um gemido profundo vindo do corpo dela. Por um instante teve desejo de ver-lhe o rosto. Logo em seguida, sentiu-se feliz por não poder.
Havia um ranger surdo em algum lugar. A superfície do rio no centro da barreira de névoa devia ser coberta por uma sólida camada de gelo, e as águas mais quentes deviam estar passando por baixo dela. Nesse caso, o barco tão diminuto ficaria encalhado para sempre. Não tinha pensado nessa possibilidade antes da expedição. Ele devia ter pensado em muitas outras coisas. Devia ter se lembrado que apesar de todas as dificuldades, a vida era muito boa ao lado de Anna e na companhia dos outros. Devia ter-se lembrado que existiam coisas que era preferível não conhecer — e coisas que era melhor não tentar. Por exemplo, era melhor não cair na loucura de querer transpor uma barreira criada por seres superiores, donos de uma ciência claramente superior, com o claro intuito de manter os prisioneiros confinados num certo lugar. Sentiu o início da sonolência, seus pensamentos começaram a ficar confusos, e a dor diminuiu porque seu corpo congelado estava começando a ficar insensível. Teve a impressão que as imagens que se formavam em seu cérebro também estavam começando a congelar, e não havia mais nada a não ser o frio sono da eternidade. Desejou, já quase adormecido, ter falado com Anna que estava tão perto dele na escuridão, e ao mesmo tempo tão distante, presa dentro dos limites de seu próprio universo de sofrimentos. Desejava muito ter falado com ela. Mas o que poderia dizer-lhe? Sinto muito, meu amor, pensou desesperado, sinto muito ter levado você para essa... Em seguida não sobrou mais pensamento nenhum. Estava num limbo gelado, suspenso no tempo... De repente, o céu rasgou-se, o milagre aconteceu, o mundo — mas seria o mesmo mundo? — estava berrante de cores, de calor, de cheiros e de sons. A volta dos sentidos e o vertiginoso carrossel de sensações explodiram em seu cérebro como uma bomba. Abriu os olhos, gritou de dor, fechou-os e os abriu mais uma vez. Viu o rosto de Anna acima do seu próprio, e atrás dela o azul intenso do céu. Tentou mexer os dedos. Mexiam. Tentou mexer os braços. Também se mexiam, mas com dificuldade, com uma estranha rigidez. Sentou-se e começou a rir. Logo percebeu o som histérico de sua gargalhada e esforçou-se a controlá-la. "Estamos vivos", observou admirado. "Sim, Russell, estamos vivos. Descanse um pouco, quero ver o que posso fazer por Farn. Receio que ele esteja muito pior do que nós." Farn zem Marur não demorou para sentar-se e sem dúvida devia estar provando com a volta dos sentidos as mesmas fantásticas sensações que Russell provara. Russell olhou em volta. Estava apoiado num dos bancos. Anna era mesmo uma mulher notável. Devia ter arrastado ambos os homens para fora da cabine. Ficou estupefato pensando em sua capacidade de resistência. O barco tinha sido levado ou dirigido contra a margem. A barreira de névoa se erguia agora a duzentos metros à montante, continuando num arco regular aos dois lados do rio. Após passar através dela, continuando vivo, dava-lhe a impressão de que ela era ainda mais apavorante. Russell sentiu se arrepiar pensando que de acordo com o plano original, eles teriam que empurrar o barco transformado em carroça ao longo do perímetro da barreira até o ponto em que o rio entrava debaixo dela no norte, para poder mais uma vez voltar à prisão. Farn zem Marur voltou com muito barulho à terra dos vivos, gaguejando agradecimentos e desconjuros e invocando o manto sagrado, a Rainha branca e a Rainha preta e outras entidades de Gren Li que Russell ainda desconhecia. Continuava estupefato por Anna ter sido capaz de se recuperar mais rápido do que ele e Farn zem Marur.
"Se você é uma representante típica da mulher soviética", falou sorrindo, "acho que a Rússia está fadada a dominar o mundo. Talvez vou ter a sorte de não mais estar aqui quando isso acontecer... Como foi que você conseguiu se recuperar tão depressa? Ou será que você tem algum meio secreto?" Ela assentiu. "O cavalheirismo, meu amor. Fiquei cavalheirescamente amassada entre dois homens que se sentiram na obrigação de proteger o sexo mais fraco. Vocês ambos são ótimos isolantes." Sorriu maliciosamente. "É também possível que você ainda não reparou que possuo uma camada de gordura muito mais espessa do que qualquer um de vocês." "Louvado seja São Lenin e a Santa Mãe Rússia por uma graça recebida", Russell respondeu piamente. "Sir", disse Farn zem Marur. "Estávamos como mortos e agora vivemos. Em verdade, acontecem coisas muito curiosas. É possível que os filhos de nossos filhos possam ainda ouvir falar dessa façanha." "Amem", disse Russell. "Agora que conseguimos sair da prisão, seria melhor descobrirmos que espécie de mundo é esse em que estamos. Uma coisa parece certa: deste lado da barreira de névoa devem existir muitas coisas estranhas que não existem do outro lado. Caso contrário não haveria razões pela sua existência."
Assim dizendo lançou um olhar ao redor, vendo que em aparência o terreno se parecia muito com o que havia do outro lado da barreira. Foi assim que descobriu a coluna. Estava muito longe, talvez a uns dez quilômetros e reparou nela, sobretudo porque os raios do sol que já estava se deitando, se refletiam em sua superfície, transformando-a numa fina e reluzente lâmina de fogo. Era óbvio que a coluna devia ser muito alta. Em seu topo havia algo que se parecia com uma grande bolha verde e transparente. Russell continuou a olhar, durante um instante, como fascinado. Em seguida esfregou os olhos e começou a procurar o binóculo.
A tarde já estava muito avançada e o sol não ia demorar a desaparecer atrás da planície a oeste, deixando o mundo de Erewhon no crepúsculo logo que se transformasse em escuridão. Por causa da recente traumática passagem através da barreira de névoa e também porque o dia já estava se acabando, Russell achou que seria imprudente tentar qualquer exploração até que os três não tivessem descansado. De qualquer forma, viajar por uma terra desconhecida durante a noite, seria arriscado demais. Por isso aproveitaram da última claridade do dia para puxar o barco sobre a areia da ribanceira, descarregar todo o equipamento, e colocar debaixo dele dois pares de rodas e as duas varas para puxá-lo, de maneira a estarem prontos a partir bem cedo na manhã seguinte. Quando a noite chegou, Russell explicou que duas pessoas poderiam dormir no barco enquanto a terceira ficaria de guarda. Se ninguém dormisse até muito tarde, considerando que ainda tinham que preparar o jantar, comê-lo e terminar uma série de pequenas tarefas, poderiam em seguida se alternar em turnos de guarda de duas horas até o clarear do dia. Antes de acampar, Russell aproveitou a última claridade para vistoriar o terreno logo em volta deles e observar a misteriosa coluna com o binóculo. O terreno em volta deles era plano e sem características, e não parecia oferecer esconderijos a animais selvagens ou outras criaturas. De fato, não se via animal nenhum nas duas margens do rio. Pela aparência do terreno, pareciam estar com sorte por ter achado um lugar ideal para passar a noite. Vista através do binóculo, a coluna e sua bolha translúcida eram ainda mais misteriosas e tentadoras do que a olho nu .O binóculo aumentava doze vezes, e por isso a coluna parecia a apenas um quilômetro dali. Russell avaliou sua altura em possivelmente setecentos ou oitocentos metros — e logo em seguida achou ridícula sua própria estimativa. Com essa altura, o diâmetro da bolha devia ser de, pelo menos, cento e cinqüenta metros. Uma construção desse tamanho não seria fantástica demais? Por outro lado, todas as coisas acontecidas até agora no absurdo mundo de Erewhon não estavam também além de qualquer imaginação racional? Então porque não poderia haver até uma floresta inteira de bolhas de cento e cinqüenta metros de diâmetro, situadas no topo de torres de oitocentos metros de altura? Pelo que era dado ver, a coluna era metálica, circular e lisa. A essa distância, porém, os binóculos não seriam suficientes para distinguir qualquer decoração ou enfeite da superfície, a menos que não fossem muito grandes. Na base da coluna havia algo parecido com uma aglomeração de construções; por outro lado, poderiam ser também formações de rochas. A luz era fraca demais para ver direito. A parte mais extraordinária de todo aquele conjunto era a bolha. Era perfeitamente esférica; Russell podia — ou pensou que podia — ver através dela, percebendo formações indistintas de nuvens que se encontravam do outro lado. Não podia ter certeza se ela era transparente, mas via que era translúcida, iluminada e penetrada pelos raios do sol que estava deitando. Sobretudo, sua aparência dava a impressão dela ser levíssima, quase incorpórea — ao ponto que uma súbita rajada de vento poderia levá-la, ou então que poderia explodir e sumir para sempre como uma bolha de sabão. Quando a noite chegou o ar ficou mais fresco e os três exploradores foram obrigados a vestir mais uma vez uma parte das roupas usadas para atravessar a barreira de névoa. Precisavam também de uma refeição porque já se tinham passado muitas horas desde a última. Além das caixas de alimentos enlatados, o barco levava também alguns feixes de gravetos, que deviam servir, sobretudo para acender uma fogueira. Mas não havia árvores por perto cujos galhos pudessem ser cortados e Russell decidiu usar três feixes de gravetos para aquecer a refeição e alegrar um pouco o ambiente Foi um jantar muito simples, de feijão e sopa. Comeram em silêncio, mas logo em seguida Russell começou a falar na estratégia da exploração. Era óbvio que para voltar teriam que caminhar dando a volta da barreira de névoa até atingir o ponto ao norte em que o rio entrava por baixo da barreira para a zona que era sua prisão. Essa marcha seria uma verdadeira façanha por si mesma, pois Farn zem Marur estimava que a distância entre a entrada e a saída do rio era de cinqüenta varaks, ou seja, trinta e cinco quilômetros. Considerando a curvatura da barreira de névoa, o barco-carroça teria que ser puxado ou empurrado por mais ou menos quarenta e cinco quilômetros em terreno desconhecido, antes de poder voltar mais uma vez para o rio. Essa era a distância calculada no caso em que os exploradores se mantivessem muito perto da barreira, o que limitaria muito as possibilidades de descobrir alguma coisa. A curiosa e gigantesca estrutura avistada à distância, e que não podia deixar de ser obra de criaturas inteligentes e tecnologicamente avançadas, levou Russell a sugerir uma mudança de planos. "Se tivermos que levar o barco conosco em toda parte", ele explicou, "vai ser muito difícil investigar de maneira eficiente antes de acabarmos todas as nossas rações e nossas energias. Seria melhor, em minha opinião, deixá-lo aqui, enquanto investigamos durante dois dias, e em seguida caminhar em direção norte, mantendo-nos perto da barreira. Aqui pelo menos sabemos que existe algo que vale a pena ser visto... O que é que você acha, Farn?" "Sir, a grande torre que vimos é realmente maravilhosa. Já enfrentamos algum perigo para chegarmos até aqui. Se não podemos enfrentar mais um pouco de perigo, todo nosso esforço será inútil. Viemos para aprender, pois então deixe que aprendamos, nem que o preço a pagar seja alto." "Muito bem falado... E você, Anna? O que é que você acha? Deixando o barco aqui, existe o risco de ser destruído. Se o levarmos conosco teremos que ficar perto da barreira e só poderemos avançar de maneira muito vagarosa."
"Concordo com você e com Farn. Já arriscamos o bastante para chegar até aqui. Estou disposta a arriscar mais um pouco para satisfazer minha curiosidade... Acredito que a torre faz parte de uma cidade. Se for assim, talvez consigamos nos defrontar finalmente com nossos seqüestradores", ela disse rindo, "nem que eles nos joguem logo a seguir num panelão. Ser prisioneira sem saber porque e sem conhecer quem guarda as chaves da prisão me deixa muito frustrada." "Então, está decidido. De manhã tentaremos encontrar uma maneira de esconder o barco. Em seguida vamos levar os alimentos e as armas que podemos carregar sem que nos atrapalhem, e vamos sair para ver de perto aquela enorme planta de feijão." "Planta de feijão?" Farn zem Marur perguntou surpreso. "Na minha terra", explicou Russell, "contam às crianças uma fábula a respeito de uma planta de feijão muito alta em cujo topo morava um gigante muito feroz." Percebeu a expressão alarmada de Farn zem Marur e acrescentou rapidamente: "Não acredito que na bolha haja gigantes. É possível que seja simplesmente uma grande máquina para captar energia radiante... Desculpe Farn, estou falando a respeito de coisas que você não pode entender."
"Sir, não há nada a desculpar. Estou muito orgulhoso que um grande mágico não despreze a companhia de um humilde descobridor de caminhos Gren Li numa jornada como essa. Já aprendi muitas coisas e sem dúvida, pela graça do manto sagrado, vou aprender muito mais." A minúscula fogueira que servira para aquecer os alimentos já estava se apagando. No céu claro acima deles a grande profusão de estrelas — constelações estranhas que começavam a se tornar familiares — anunciava uma noite bastante fria. "Farn", disse Russell, "está na hora de descansarmos. A dama Anna ficará de guarda para o primeiro turno. Eu vou rendê-la, e em seguida você vai me render, ficando com o último turno de guarda até clarear. "Você acha melhor eu ficar com uma arma?" Anna perguntou em tom de brincadeira. "Sim. Acho melhor que você fique com uma besta e uma granada... De qualquer forma, se chegassem visitas mal intencionadas, não tome nenhuma atitude no sentido de iniciar algo que não teríamos capacidade de levar a termo." Farn e Russell foram descansar na cabine e Anna Markova começou seu silencioso turno de guarda. Fazia muito frio, mas não havia vento. Nenhum som dentro da noite provocou nela o menor alarme. De vez em quando dava uma breve volta. Às vezes procurava penetrar a escuridão, olhando em direção da torre, imaginando ver a imensa silhueta. Uma vez, quase no fim do turno, teve a impressão de vislumbrar uma intensa reverberação esverdeada, mas antes que seus olhos conseguissem registrá-la a paisagem voltou a mergulhar na escuridão. Quando chegou a hora foi substituída por Russell, que por sua vez acordou Farn zem Marur a aproximadamente duas horas e meia antes do levantar do sol. A noite passou sem incidentes. Parecia que os três estavam completamente a sós nesse estranho planeta.
O que parecia uma cidade, mas que poderia ser também uma espécie de estação científica, era pequena e estranha, além de qualquer imaginação. Era parecida com uma cidade-fantasma — mas apesar disso dava a impressão de ser muito limpa, de estar sendo usada, e também a de ter sido recentemente ocupada. Sobretudo transmitia a sensação de estar esperando por algum acontecimento. Russell tinha certeza que algo aconteceria — algo fantástico, ou maravilhoso, ou terrível. Havia muitos indícios. Os três exploradores tinham a sensação desagradável de estar sendo observados; aliás, os três sabiam que sua aproximação à grande coluna tinha sido vigiada. A coluna era muito mais alta, mais impressionante e mais inexplicável do que Russell esperava. Situava-se ao centro da cidade-fantasma/estação científica, elevando-se para o céu por quase um quilômetro e sustentando a imensa e reluzente bolha verde que parecia uma flor monstruosa sobre um caule rígido de metal. Os acontecimentos daquela manhã passaram rápidos pela mente de Russell enquanto observava pasmado a coluna, convencendo-se sempre mais que ele próprio, Anna e Farn zem Marur eram os protagonistas principais (ou as vítimas?) de um drama que estava prestes a começar. Tomaram seu desjejum logo ao clarear, procurando em seguida um local apropriado para deixar o barcocarroça. Encontraram-no a poucas centenas de metros adiante, onde havia uma pequena depressão suficientemente profunda para ocultar o barco de olhos curiosos. Farn zem Marur se enfiou debaixo da canga afixada nas duas varas e arrastou o barco até o esconderijo. Em seguida, ele e Russell o desceram com muito cuidado pelo lado da ravina. Estava quase invisível a dez passos de distância e seria difícil de achar até do lado do rio. Escolheram com cuidado os alimentos e o equipamento que iriam levar. Seria loucura levar uma carga pesada demais, mas também seria bobagem viajar sem comida suficiente ou sem as armas necessárias. Russell percebeu que deviam ter trazido mochilas ou pelo menos malas — no Erewhon Hilton havia bastante. Mas, pelo plano original, eles pretendiam arrastar o barco para qualquer lugar que visitassem. Assim, fizeram embrulhos com cobertores. Farn zem Marur, além de algumas roupas, levou sua espada, uma adaga e um embrulho com comida. Anna levou sua besta e algumas garrafas com água, bem embrulhadas para que não quebrassem batendo uma contra a outra. Russell levou sua besta, duas granadas, um rolo de corda, o binóculo e algumas latas de comida que enfiou nos bolsos. Era uma linda manhã. O sol enviava seus raios quentes de um céu azul e sem nuvens. Quando ficaram prontos, o pequeno grupo começou a se locomover indo em direção à alta coluna que parecia ainda mais curiosa à luz do dia e, sobretudo, dava a impressão de estar estranhamente viva. Russell percebeu o primeiro movimento meia hora depois do início da caminhada através da planície coberta de grama. Parava à cada poucos minutos, sistematicamente, para observar a paisagem com o binóculo; durante uma dessas paradas percebeu uma reverberação irregular a dois ou três quilômetros de distância, como se a luz do sol estivesse se refletindo em algo lustroso. Passou o binóculo para Anna. Anna em seguida cedeu-o a Farn. Qualquer coisa que estivesse provocando os lampejos estava se dirigindo a grande velocidade para o rio e à barreira de névoa. A descoberta era bastante interessante e Russell achou a ocasião propícia para um breve descanso. Os três deitaram sobre a grama para poder observar sem ser percebidos. Mas o grupo já tinha sido avistado. Os lampejos se tornaram mais fortes e pareciam estar se dirigindo diretamente para eles. Farn zem Marur segurou o cabo de sua espada, Anna enfiou um dardo na besta e Russell ficou segurando seu isqueiro a gás numa mão e uma das granadas de pólvora na outra. Não demoraram em descobrir o que estava provocando toda aquela reverberação. Era um pequeno grupo de aranhas-robôs, e a luz do sol se refletia nas pequenas esferas metálicas em que se encontravam os mecanismos sensores e de controle. Era a primeira vez que Anna e Russell viam as aranhas-robôs em ação em plena luz do dia e era a primeiríssima vez que Farn zem Marur estava se defrontando com elas. Russell sentiu-se aliviado quando percebeu que o descobridor de caminhos não se deixou dominar pelo pânico, nem quando as aranhas-robôs chegaram a cinqüenta passos. "Tanto vale ficarmos de pé", observou Russell. "Elas sabem que estamos aqui... Vamos descobrir logo se elas têm ordens ou instruções a nosso respeito." "Sir", disse Farn zem Marur entre dentes cerrados, "uma espada não me parece a melhor arma para enfrentar esse gênero de criaturas."
Russell olhou para a granada que estava segurando. "Não, descobridor de caminhos, mas o que eu tenho aqui pode nos ajudar. Se os robôs tentarem atacarnos, algumas delas precisarão de peças sobressalentes mais tarde." Havia cinco aranhas-robôs, e cada uma carregava uma caixa com seus quatro braços cheio de juntas. As caixas pareciam conter suprimentos, provavelmente para o Erewhon Hilton. Os cinco robôs chegaram a uma distância de vinte passos dos três humanos, pararam durante um instante, viraram de repente como se tivessem recebido instruções suplementares. Russell ficou a observá-los enquanto se apressavam em direção à barreira de névoa que estava a dois quilômetros de distância e que na luz forte do sol parecia uma muralha de gelo compacto. Estava curioso de saber se os robôs passariam diretamente pela barreira de névoa gelada ou se havia um lugar especial para entrar e sair. Teria sido uma informação útil de descobrir, mas até estando decidido a voltar atrás e segui-los, viu logo que seria impossível manter a mesma velocidade. Apanhou a besta e o rolo de corda e acenou para os outros para que voltassem a caminhar. De repente percebeu que o suor estava a lhe escorrer pelo rosto e reconheceu que estivera muito assustado.
Observou Anna e Farn e sentiu uma satisfação perversa em notar os sinais do medo em seus rostos pálidos e em seus olhos arregalados. "Quando a gente percebe o perigo", observou, "parece muito mais difícil de agüentar quando nada acontece." Deu uma gargalhada. "Parece, pelo menos, que não seremos castigados prematuramente por evadir-nos da prisão... Vamos até aquela torre para descobrir o que é afinal." Voltaram a caminhar em silêncio, cada um deles preocupado com suas próprias dúvidas e angústias. De vez em quando Anna chegava perto de Russell e caminhava por um trecho segurando a mão dele, como para se certificar de sua presença ou para se reconfortar e receber mais forças através desse simples contato. Russell calculava que estavam terminando a primeira metade do percurso entre o rio e a coluna quando viram as "fadas". Não conseguiam ainda distinguir qualquer detalhe da coluna ou da bolha verde além do que já tinha visto, mas seu tamanho enorme, a maneira com que dominava completamente a paisagem ao redor deixava-os deprimidos e ao mesmo tempo excitados. Já dava para ver que as formas em volta da base eram prédios de alguma espécie. Esse detalhe aumentou a esperança e ao mesmo tempo o medo de Russell que finalmente encontrariam a raça que era responsável pela remoção que todos sofreram de mundos que agora estavam muito distantes. Farn zem Marur percebeu as "fadas" — na realidade, ele chamava aquilo de "demônios" — e ficou horrorizado demais para poder falar. Limitou-se a indicálas com a mão trêmula. As "fadas, que eram nove ou dez, estavam voando rapidamente a uma altura de cem metros. Pareciam se dirigir para a bolha verde, emitindo um curioso zunido baixo e persistente. Russell lembrou-se de um pião com assovio do qual se orgulhara nos dias de sua alegre infância. Não houve tempo de observar e formar uma opinião, porque as "fadas" desapareceram de repente. Estavam em pleno vôo e sumiram, como se alguém, à distância, tivesse de repente desligado um interruptor. Russell esfregou os olhos, piscou e sentiu seus joelhos amolecendo. Arrependeu-se amargamente não ter trazido uma garrafa de conhaque. "Você as viu?" perguntou a Anna, mas já sabia a resposta antes dela falar. "Eu vi." A voz dela estava trêmula. "Eu vi... Russell, Russell, quero voltar para trás." A voz se fez estridula. "Por favor, leve-me de volta para perto de nossos amigos. Por favor, por favor, leve-me de volta! Se continuarmos em frente vamos todos ficar loucos... Vamos morrer e depois..." Russell deu-lhe um bofetão e a torrente de palavras estancou. Anna controlou-se. "Obrigada", disse simplesmente. Quando ficou um pouco mais calma disse com um leve sorriso: "Estou me lembrando que uma mulher russa também só é mulher." "Eu a machuquei?" "Só o necessário." Russell virou-se para Farn zem Marur. "Descobridor de caminhos, vimos o que vimos. Você quer continuar apesar de ser possível vermos coisas mais estranhas ainda?" A voz de Farn zem Marur não era muito firme. "É meu desejo e meu dever seguir o Sir Russell Grahame, para não ser desonrado perante o senhor de meu clã e perante mim mesmo." "Então, vamos. É possível que mais adiante encontremos a resposta das coisas misteriosas que vimos." "Sir, não eram demônios?" "Não, Farn, não eram demônios."
"E também não eram fadas", disse Anna. "Lembreime de algo... lembrei-me de grandes libélulas... É possível que sejam somente grandes insetos." "Insetos que podem desaparecer de repente", comentou Russell seco. "Agora entendo porque Paul Redman pensou que fossem fadas. As asas brilhantes, os cabelos dourados..." Anna riu, meia trêmula. "Não eram fadas. Não tinham varinhas de condão. Mas tive a impressão que tinham quatro pernas." Quando o sol já andava alto no céu chegaram perto do primeiro grupo de construções que se encontravam a mais ou menos um quilômetro da grande coluna. Eram construções baixas, sem janelas, em forma de iglu, feitas aparentemente de um plástico parecido ao dos "caixões" de onde Russell e os outros saíram em seu primeiro dia em Erewhon. Aproximaram-se com cuidado da primeira construção. Estavam ouvindo um zunido rítmico, como o que sai de maquinárias muito poderosas. Perceberam a vibração primeiro nas solas dos sapatos, mas quando se aproximaram tiveram a impressão que o ar em volta estava como carregado de grandes impulsos de energia. Não estavam muito animados, mas nem que o quisessem, não tiveram a possibilidade de investigar a fonte da vibração. Protuberâncias parecidas com túneis, altas um metro e largas um metro, e que deviam servir de acesso, estavam fechadas. As portas eram metálicas e não se via nenhum meio para abrilas. O próximo grupo de construções, de tamanho e forma muito parecidas, estava, porém aberto. Russell deixou seus companheiros do lado de fora e entrou no primeiro, viu que era uma espécie de armazém. Havia prateleiras baixas e compridas, carregadas de forma organizada de objetos de metal, plástico e cerâmica. Alguns desses objetos pareciam partes sobressalentes de alguma máquina, enquanto outros pareciam vasilhas. Examinou as prateleiras, mas não entendeu nada. No segundo prédio, cuja porta estava aberta, descobriu um laboratório ou oficina em plena operação, sob o controle de aranhas-robôs. Russell viu que sua presença não passara despercebida, mas elas continuaram ignorando-o, indo e vindo no cumprimento de suas tarefas sem ligar a mínima. Ele ficou por algum tempo, tentando adivinhar o que estavam fazendo. Mas seus movimentos e o equipamento que estavam usando não faziam nenhum sentido.
Finalmente, quando ouviu a voz angustiada de Anna chamando-o, saiu para contar-lhe o que tinha visto. Mas foi somente quando tentou explicar o interior do prédio a Farn zem Marur, que percebeu não ter visto nenhuma fonte de luz. Assim mesmo, tudo estava iluminado e claramente visível como se toda a estrutura fosse feita de vidro transparente e os iglus iluminados pela luz do dia. O tempo estava passando e o sol já tinha transposto seu ponto mais alto. Russell começou a ficar impaciente para chegar perto da coluna com a grande bolha verde e translúcida no topo, enorme e impressionante, e ao mesmo tempo tão incorpórea que parecia no ponto de levantar vôo com a primeira brisa. Antes, porém de alcançar a coluna, viram mais um grupo de construções completamente diferentes das primeiras. Eram cinco ao todo, cônicas e parecendo feitas de pedra ou de concreto. Tinham uma altura de aproximadamente trinta metros, com pequenas aberturas em V nas paredes perto da base. Russell rastejou através de uma delas — pois não era suficientemente grande para deixá-lo passar ereto — e viu que o interior estava na penumbra. Quando seus olhos começaram a distinguir, viu que não havia mais nada do que uma série de varas de plástico, cravadas horizontalmente nas paredes, em ângulo reto e paralelas ao chão. Se todas as varas, que tinham um diâmetro de dez ou doze centímetros, tivessem um comprimento maior, iam se encontrar ao centro do prédio, como os raios de uma roda, cujo aro seria formado pela parede. Mas cada vara só tinha um comprimento de quatro ou cinco metros... E havia muitas. Demais, para poder contá-las... Isso também chamava-lhe algo à memória, mas não conseguiu se lembrar de que, até que saiu mais uma vez para fora, à luz do sol, e contou a Anna e Farn zem Marur o que vira. Foi então que se lembrou. Aquelas varas pareciam poleiros num galinheiro. Não sabia se só estava imaginando a coisa, mas pareceu-lhe ter visto também traços de excrementos de cheiro adocicado no chão. Refletindo, sentiu que tivera estranhamente consciência de uma presença recente, mas afastou o pensamento, achando que era muito fantasista — possivelmente estava sugestionado pelo fato das varas se parecerem com poleiros. Finalmente chegaram à base da grande coluna que se erguia até uma altura vertiginosa no céu, sustentando aquela enorme inflorescência surrealística e verde que lançava uma estranha penumbra sobre o terreno em volta. Russell passou em resenha os acontecimentos daquela manhã e percebeu duas coisas. A primeira era que, fora uma breve aparição das "fadas" ou "demônios" que fossem, até aquele instante não tinham encontrado uma única criatura viva. A segunda era que em todas as tangíveis provas de civilização vistas até aquele momento não era, por enquanto, possível encontrar nenhum sentido. Estava desanimado. Já não sentia mais medo nenhum, estava simplesmente desanimado. Não sabia o que realmente tinha esperado encontrar. Com certeza, não esperava encontrar indiferença e vazio. Estava começando a pensar que teriam que voltar ao barco sem ter descoberto nada de interessante e que pudesse lhes oferecer a oportunidade de estabelecer contato com seus seqüestradores, ou que pudesse explicar de uma forma qualquer o mistério da situação em que se achavam. A coluna e a bolha eram maciças, silenciosas, imperscrutáveis. Tinham que ser algo mais do que um monstruoso e estranho cenotáfio, Russell pensou com amargura. Seria mesmo uma brincadeira de muito mau gosto se tivessem chegado até aqui só para encontrar um vasto monumento aos mortos de uma raça desconhecida! Mas o que significariam nesse caso os armazéns, as aranhas-robôs e os poleiros? Percebeu que estava com enxaqueca e também muito cansado. Olhou para Anna e Farn zem Marur. Seus rostos também estavam marcados pelo cansaço e a decepção. "Não estamos chegando a lugar nenhum", disse. "Não conseguimos descobrir nada. Acho que talvez seria melhor comermos alguma coisa e tentarmos voltar até o barco antes do crepúsculo, se isso for possível. Chegando lá, estaremos precisando de uma boa noite de sono." Naquele instante, enquanto estavam se virando para ir embora, ouviram um violento trovejar na distância. Em seguida uma voz que parecia encher o mundo veio rolando pelo céu e falou com eles. "Saudações!" falou a voz. "Saudações dos Vruvyir aos seus filhos!" De repente, tudo em volta deles se transformou em luz e em movimento e o ar ficou repleto de asas iridescentes.
Russell compreendeu de forma nebulosa que os Vruvyir não eram fadas e nem demônios e nem libélulas. Eram gente. Tinham corpos flexíveis, como de serpentes, com ventosas em suas caudas, que costumavam firmar no chão, nos poleiros ou em qualquer outra parte em que quisessem se apoiar. Tinham ainda dois pares de bracinhos curtos, dois pares de asas transparentes, e brilhantes e lustrosas gavinhas douradas, que caíam farta e desordenadamente em seus rostos. E os rostos se pareciam de forma esquisita aos de solenes cavalos marinhos. Apesar disso eram gente. Eram gente, pois tinham uma sociedade e uma cultura — e também uma ciência e uma tecnologia que as criaturas simples que constituíam a humanidade não poderiam sonhar em alcançar. Mas eram gente, sobretudo porque tinham uma linguagem — e o dom de conhecer todos os idiomas. Por conseqüência, estava claro que era gente formidável. Russell não sentiu medo nenhum. Sentiu-se cheio de um enorme respeito. Pareciam ter-se materializado no ar ao redor deles. Agora estavam pousados em volta da base da coluna, apoiados em suas caudas, imóveis, de vez em quando agitando aquelas asas maravilhosas e olhando com serena ternura as três criaturas humanas que as estavam defrontando. Farn zem Marur encarava-os com olhos arregalados num rosto cinzento e a espada na mão. Anna segurava sua besta com mãos trêmulas. Russell olhou para a granada em suas próprias mãos, sorriu e colocou-a no chão. A voz que parecia encher o mundo veio mais uma vez rolando pelo céu e falou novamente. Russell olhou para os Vruvyir. Os rostos pareciam máscaras, os lábios do cavalo-marinho estavam imóveis. Assim mesmo a voz estava falando num inglês impecável, e imaginou que também estivesse falando russo impecável e Gren Li impecável — e a voz era real. O som parecia sacudir a própria terra em que estavam pisando. "Os Vruvyir saudaram seus filhos e agora perguntam: Por que vieram para esse lugar?" Russell passou a língua nos lábios. Os rostos sem expressão e a voz que parecia vir de toda parte o enervavam. Quando falou, sua própria voz parecia um murmúrio. Não conseguia ouvir a si mesmo, mas estava convencido de que todas aquelas estranhas criaturas o estavam ouvindo perfeitamente.
"Porque existem muitas coisas que desejamos saber. Porque precisamos compreender." Uma gargalhada rolou pelo céu. "Crianças! Crianças! Vocês precisam compreender?" "Sim, nós precisamos compreender", afirmou Russell. "Precisamos saber porque fomos tirados de nossos respectivos mundos. Precisamos saber porque fomos presos atrás de uma barreira de névoa. Precisamos saber que futuro pode haver para nós num mundo que não é o nosso." Uma nova gargalhada rolou pelo céu. "Crianças! O ratinho em sua gaiola precisa saber o propósito do cientista? A minhoca precisa compreender o equilíbrio ecológico? A ameba precisa saber a respeito da divisão das células?" Russell sentiu os olhos arderem pelas lágrimas e percebeu quando começaram a rolar pelas faces. De maneira absurda, sua mente estava muito longe. Estava atormentado por imagens. Lembrou-se de Absumes Marur estabelecendo o vínculo. Lembrouse de Tore Norstedt construindo o barco. Lembrou-se de Ireg dando-lhe seu machado de pedra de presente. Como alguém poderia comparar pessoas como essas a ratinhos? "Nós não somos ratinhos, minhocas e amebas", berrou. "E não somos crianças. É possível que nossa sabedoria e nossos feitos sejam pouca coisa, comparados com os seus. Mas temos orgulho, temos dignidade, temos curiosidade. Sabemos o que é a amizade, e não faltamos de coragem. Vocês podem nos destruir, mas não podem nos derrotar." "Bem falado, sir", murmurou Farn zem Marur. "É um privilégio para mim morrer em sua companhia. Basta uma palavra sua e minha espada responderá." "Russell', murmurou Anna. "Estou feliz por termos tido o tempo de nos conhecer. Valeu a pena fazer essa viagem." A gargalhada voltou a rolar pelo céu. "Nós somos os Vruvyir. Vocês são nossos filhos — e vocês nos agradam muito." Russell sentiu-se cheio de fúria. Os Vruvyir estavam brincando com suas vítimas. Atrás daqueles rostos inexpressivos de cavalos marinhos percebeu a gozação — estavam se divertindo à custa deles, por alguma extraordinária e esquisita brincadeira. Estava com vontade de quebrar algo, de apagar a idéia do divertimento em seus cérebros. Olhou para a granada a seus pés. Tocou o isqueiro no bolso. "Então vocês são a raça dos dominadores!" berrou. "E nós somos os bárbaros que vocês atormentam por divertimento! Pois a brincadeira acabou. Nosso senso de humor é muito diferente. Vamos ver quem é que vai se divertir agora!" Fez um sinal a Anna e Farn zem Marur. Em seguida fez um gesto para apanhar a granada. "Parado!" trovejou a voz. "Crianças, não se destruam a si mesmas! Vocês vieram para compreender. Assim seja. Mas o que vai acontecer se vocês não forem capazes de arcar com o peso do conhecimento?" Quando a voz falou em tom de mando Russell descobriu que não podia mexer seu braço, seu corpo ou suas pernas. Teve a impressão de estar dentro de um invisível bloco de gelo. Com muita dificuldade virou a cabeça — a única parte que podia mexer — e olhou para seus companheiros. Farn e Anna também estavam rígidos e imóveis. Sabia que seu próprio olhar estava idêntico ao deles: a estupefação e o choque, misturados com uma estranha resignação. Virou de novo a cabeça e olhou mais uma vez o grupo dos Vruvyir. Enquanto respondia, percebeu que não havia mais de cinqüenta daquelas estranhas criaturas. Algo continuava a voltar à sua memória, algo que... Afastou o pensamento insistente por achá-lo sem importância. "Somos nós que temos que decidir se poderemos arcar com o peso do que vocês chamam de conhecimento", ele disse calmo. "Vocês podem nos destruir, como eu já disse. Parece até que a tarefa será fácil, porque somos poucos e vocês são muitos. Vocês também tem poderes que nós nunca tivemos. Mas até que estejamos vivos, pretendemos exercer o direito de pensar, o direito de investigar e o direito de descobrir a verdadeira natureza da situação em que estamos." "Palavras valentes!" disse a voz que enchia o céu. "Palavras cheias de soberba, pronunciadas com o orgulho que nasce da ignorância. O animal carnívoro domina até encontrar o caçador, o caçador domina até encontrar o guerreiro, e o guerreiro domina até se defrontar com outro guerreiro mais poderoso... Assim é a vida. Crianças, vocês andam na floresta, mas não conhecem os perigos da floresta. Nós, os Vruvyir, dizemos a vocês: o conhecimento pode destruir, a compreensão pode destruir, Vocês ainda querem conhecer e compreender?" Russell esperou um instante e depois disse: "Sabemos o que significa destruição. Sabemos que é uma parte da vida... Mas é melhor ser destruído ao limite do desconhecido do que viver numa prisão feita de ignorância e medo." Dessa vez a gargalhada foi mais suave. Era possível que nos olhos audaciosamente colocados naqueles solenes rostos de cavalos-marinhos houvesse uma nova expressão? Era compaixão? Russell ficou a olhá-los e sentiu medo. A voz continuou a trovejar. "Minhas crianças, meus filhos, ouçam o que eu vou dizer e que vocês poderão compreender só vagamente, se é que conseguirão... Pensem no tempo. Mas não meçam o tempo num sentido pessoal, porque vocês são como as borboletas que vivem somente durante uma breve estação. Não pensem no tempo biológico, porque a vida, a simples vida, é passageira. Não pensem no tempo geológico, porque até a existência das rochas nada significa quando comparada à fusão das estrelas. Pensem no tempo cósmico. Pensem no nascimento da galáxia, nos grandes rodopios dos gases que se transformaram em mil, milhões de sóis. Foi num tempo assim, no tempo que não é tempo, na demorada e poeirenta criação galáctica que a vida absoluta nasceu... Não começou em nenhum oceano planetário primitivo. Começou a se manifestar como uma chama, nascida dos filhos do fogo, de poderio incandescente, cheio de promessa... As estrelas vivem, meus filhos. E às vezes sonham... e às vezes dão a luz... Quando o mundo que vocês chamam Terra ainda não era nada, nem um calombo no ventre de uma estrela que era jovem demais para sonhar, já existiam milhões de planetas que envelheciam, nascidos de fogos mais rápidos e mais brilhantes. Os Vruvyir originais não nasceram de um desses planetas, meus filhos. Também não nasceram dentro do esquema normal do tempo. Eles nasceram de uma estrela que estava para morrer, consolidaram-se do fogo e tomaram forma em vórtices de energia pura. Eram pássaros de fogo sensitivos, o produto direto de uma procriação estelar. Eles dançavam e viviam, mudando de forma em continuação, movidos só pela alegria de produzir novas formas. Finalmente soltaram-se da estrela-mãe, lançando-se contra as trevas e o frio e contra a vagarosa erosão da entropia, que é o destino de todas as coisas nascidas do fogo. Chegaram num planeta onde começaram a sofrer com paciência, passando fome de calor para se acostumar à temperaturas incrivelmente baixas, assumiram formas permanentes e aprenderam os segredos da simples vida biológica. Estes, que foram os grandes, os nossos antepassados, congelaram-se propositalmente dentro do demorado ciclo da existência planetária até compreenderem que a forma escolhida estava à altura da tarefa a que eles se propunham. Qual era essa tarefa, meus filhos? Eles seriam a fonte da vida à baixa temperatura."
A voz silenciou durante alguns instantes — e foi o suficiente para Russell perceber que sua cabeça estava doendo, seu cérebro andava à roda e sua imaginação estava paralisada. Olhou em direção de Anna. Estava pálida e desfigurada, com os olhos arregalados e sem expressão. Sentiu vontade de tocá-la, de consolá-la, mas não conseguiu se mexer. Olhou para Farn zem Marur que estava rígido e como ausente. Sentiu-se cheio de compaixão. A mente medieval de Farn zem Marur estava retrocedendo — e talvez, dali a pouco tempo, as mentes mais sofisticadas dos dois terrestres do século vinte também chegariam a ficar entrevadas. Sem prestar atenção; a imensa voz continuou. "A galáxia era um jardim, mas o jardim ainda não estava plantado. Os Vruvyir traziam a semente e se espalharam entre as estrelas férteis, alguns falharam em sua tarefa e foram destruídos pelo fogo ou pelas trevas, e outros levaram movimento e padrões biológicos para mundos que até aquele instante permaneciam estéreis e onde a química da vida ainda não subvertera a vagarosa física da estagnação. Meus filhos, eles chegaram num planeta. Aconteceu há dois milhões de anos, e o planeta era o terceiro planeta de uma estrela de tamanho médio. Viram que aquele mundo era desprovido de vida, mas que tinha um grande potencial. Os Vruvyir se estabeleceram e aceleraram o planeta. A aceleração se produziu simplesmente enquanto eles defecavam nos oceanos ricos e despovoados. Foi assim, meus filhos, que a vida começou no planeta que vocês chamam Terra. Os Vruvyir se afastaram e um período de tempo imensamente longo se passou. Menos de um milhão de anos-Terra atrás eles voltaram àquele minúsculo recanto do jardim. Regozijaram-se vendo que a vida estava florescendo. Ficaram muito animados observando a forma de vida que estava destinada a predominar — um bípede ereto que usava apetrechos, que estava começando a compreender a utilidade do fogo e que não receava sonhar. Foram apanhadas amostras para serem distribuídas entre os mundos nos quais a aceleração original ainda não produzira uma forma de tamanho potencial. Essas amostras foram ali deixadas para que se desenvolvessem. Agora, neste mundo, foram reunidas amostras da cultura original e também amostras das amostras, mantendo cada uma no ambiente do seu próprio microcosmo familiar, para que os Vruvyir possam observar suas crianças e cogitar de seus destinos, e para que as crianças possam se conhecer umas às outras... pois por esse conhecimento elas poderão forjar seus próprios destinos ... De fato, como costuma acontecer entre crianças, cada uma se desenvolveu de maneira e em medida diferente. Para algumas já começou a chegar a alvorada do conhecimento, enquanto outras ainda vivem à espera do anúncio da claridade... Dessa forma, os Vruvyir concedem o fardo do conhecimento. Façam dele o que quiserem." Fez-se o silêncio. O silêncio era tão absoluto que parecia mais clamoroso que a voz que rolara pelos céus. Russell olhou para as fileiras dos Vruvyir. Suas asas estavam imóveis, seus rostos de cavalos-marinhos desprovidos de expressão. Não eram tão numerosos como Russell pensava — talvez só quarenta. Pareciam muitos, mas na realidade seu número era reduzido. Havia algo nos recessos de sua mente. Era algo importante. Se ao menos tivesse a possibilidade de pensar... Se pelo menos suas faculdades não fossem embotadas e inutilizadas pelo impacto daquele encontro fantástico e daquela revelação esmagadora! De repente, de forma irracional e intuitiva, Russell teve um rasgo de lucidez. Os poleiros vazios, a cidade silenciosa, a insignificância e a majestade... Tudo indicava uma única e desvairada solução.
Olhou para Anna e Farn que estavam esgotados pela estupefação, traumatizados pelo conhecimento. Pensou em todos os seus companheiros do zoológico, arrastados para esse mundo e mantidos prisioneiros por um capricho dos Vruvyir, a raça dominante, a fonte da vida, os senhores da galáxia. Arriscou-se e jogou. Era uma idéia louca. Mas, afinal, o que é que poderia ser definido de são dentro daquele pesadelo? Só o absurdo poderia ter alguma ligação com a realidade. Então falou. "Vocês disseram que somos seus filhos. Se há alguma verdade nessa afirmação — e por quanto ela pareça estranha, ela tem o som da verdade — vocês devem compreender que crianças às vezes tropeçam sem querer na verdade e encontram a resposta a perguntas que não foram feitas." Ouviu-se mais uma vez aquela imensa gargalhada. A voz voltou a encher o céu. "Qual é a resposta à pergunta que não foi feita?" Russell olhou aqueles rostos inexpressivos que estavam em sua frente. Respirou fundo. "Vocês nos chamam de amostras — e vocês nos trouxeram para cá, para que nos encontrássemos, porque o tempo está se esgotando. Vimos sua cidade. É uma cidade de fantasmas... Os Vruvyir estão morrendo." Era uma suposição louca, baseada em muitas coisas — a falta de qualquer contato anterior, o número de "poleiros" naquele estranho galinheiro, a sensação de vazio originada pela paisagem que cercava a cidade... A gargalhada pareceu sacudir o céu. Mais uma vez ouviu-se a voz dos Vruvyir, a voz do mundo. "Uma suposição válida, meu filho. Uma premissa interessante — mas fundamentalmente errada. Os Vruvyir não estão morrendo. Eles já morreram."
"Olhem para cima, meus filhos", a voz continuou. "Olhem para a última Esfera da Criação dos mundos conhecidos. Ela não é maravilhosa?" Havia um torvelinho na mente de Russell. Não tinha mais consciência da presença de Anna e Farn zem Marur. Era como se nunca tivessem existido — ou como se não passassem de espectros de um sonho quase esquecido. Estava completamente só num mundo estranho. Estava sozinho com os cavalosmarinhos, com as fadas, os demônios, as libélulas e o segredo de todas as eras. Compreendia que se encontrava às raias da loucura, e a consciência disso proporcionava-lhe uma calma anormal. Era como se alguém tivesse mergulhado seu cérebro em água gelada. Como se alguém — ou alguma coisa — tivesse se apoderado do controle de sua vontade, de suas emoções, de seu raciocínio, de sua capacidade de aceitar e acreditar. Era como se alguém o estivesse segurando para não deixá-lo cair. Olhou para a grande coluna, lisa, hipnótica, imponente, maravilhosa. Olhou para a enorme bolha verde e translúcida mais acima, para a Esfera da Criação que parecia lançar uma penumbra esverdeada sobre o mundo inteiro. "É maravilhosa", sussurrou Russell, sem saber que estava sussurrando. "Acredito que é a mais maravilhosa entre todas as coisas." "Esta é a última das grandes máquinas", continuou a voz, "e ela é o último refúgio dos Vruvyir. Quando a cinética falhar, os espectros dos espectros desaparecerão aos poucos, e os Vruvyir somente poderão viver dentro daqueles que virão em seguida... Receiem, meus filhos, mas não receiem demais. O conhecimento é um fardo muito pesado." Russell fez um esforço para controlar seus pen¬samentos desordenados. "Você diz que os Vruvyir estão mortos. Mas nós os vimos — ou pelo menos vimos os que sobraram. Eles — vocês — estão falando conosco, explicando-nos a mais estranha história da criação. Vocês se apresentam como deuses, mas também afirmam que os deuses estão mortos." Russell ouviu mais uma vez a imensa gargalhada, mas percebeu que havia nela uma infinita tristeza. "Meu filho, somos fantasmas que falam com outros fantasmas. Você chegou até aqui. Há só mais um pouco de caminho a fazer. O preço desse caminho será pago em tempo biológico. Você está disposto a pagar esse preço?" "Nós queremos saber", gritou Russell num tom quase histérico. "Queremos saber. Aturamos muito, arriscamos a morte para descobrir porque estamos aqui e para saber como são vocês, nossos guardiões... Queremos saber! De que forma chegamos aqui? Por que você diz que nós também somos fantasmas?" "Crianças, vocês ousaram fazer conjeturas, mas suas conjeturas são interessantes. As respostas que vocês estão procurando estão na Esfera da Criação. Vá buscá-las e fiquem satisfeitos." Por um instante e de súbito o mundo escureceu. Em seguida a escuridão começou a regredir. Cedeu o lugar a uma luz verde e suave que se afirmou em meio a um zunido macio de energias. A claridade se manifestou dentro da Esfera da Criação. Russell estava caindo ou flutuando ou nadando. Não tinha mais sentido de direção, não tinha noção de tempo e só lhe sobrava muito pouca consciência de sua identidade. Estava num oceano verde, ou numa nuvem verde, ou num vácuo verde. Não sabia se estava só ou se havia mais alguém. Só tinha certeza de estar existindo. Não conseguia ver suas próprias mãos, seus braços, seu corpo. Não conseguia vislumbrar seus companheiros. Só tinha certeza de que estava existindo. A luz verde aumentou de intensidade. Tornou-se uma luz azul. O azul tornou-se mais forte. Transformou-se em escuridão negra. Havia estrelas — e eram estrelas conhecidas. Eram as constelações visíveis da Terra. Em seguida as constelações ficaram obliteradas por um enorme disco — que parecia preto na sombra, mas era fulgurante no sol — e que deslizou silenciosamente no espaço. Russell estava no interior do disco que não era um disco, mas uma nave espacial de dimensões extraordinárias, cheia de enormes e estranhos compartimentos. Estava numa câmara em que esquisitas máquinas pareciam produzir um zunido modulado e melancolicamente musical. Nessa câmara aranhasrobôs estavam se movimentando atarefadas, parecendo ignorar sua presença invisível e desprovida de substância. De repente o chão da câmara se transformou em vidro — ou pelo menos em algo parecido com vidro. Lá embaixo, imóvel e colorido como um mapa em relevo estavam a Europa setentrional, o Mar do Norte e as ilhas britânicas.
O disco caiu como uma pedra. O Mar do Norte pareceu subir para engoli-lo, mas a fantástica precipitação parou sem nenhum choque ou vibração. Cem metros abaixo do chão transparente havia um avião de passageiros que parecia estar suspenso do disco por fios invisíveis. O mar parecia estar escorrendo e o avião parecia estar parado. As velocidades estavam sincronizadas. O chão transparente se abriu sem barulho nenhum. As aranhas-robôs arrastaram e colocaram em sua posição um tubo sobre uma armação que se parecia de maneira esquisita com um pequeno telescópio astronômico. O tubo foi ajustado sobre essa armação até que ficou apontando diretamente para o avião. Russel reconheceu o avião. Era o avião de passageiros que fazia o serviço entre Estocolmo e Londres. Uma irradiação esverdeada em forma de tubo, que parecia tão sólida quanto um tubo de cristal, desceu em direção ao avião, ficou dançando em volta dele e acabou por envolvê-lo. O avião ficou preso dentro de uma bolha verde. A bolha cresceu, aumentou seu brilho e cresceu mais ainda. A esfera transformou-se numa espécie de ovo. O ovo começou a ficar apertado ao centro, como se tivesse uma cintura. A cintura continuou se afinando.
Então se produziram duas bolhas translúcidas que se tocavam, uma colocada em cima da outra. Estranhas bolhas formadas acima do mundo dos homens. Na bolha inferior estava aprisionado o avião, imóvel. Na bolha superior havia... um vórtice de luzes, um torvelinho de energia, uma dança satânica de sombras, um estremecimento de linhas de contorno, uma ondulação de formas, um endurecimento de matérias. Um ato de recriação. Agora havia dois aviões idênticos contidos em duas grandes bolhas verdes. As aranhas-robôs começaram então a descer lentamente, com propulsores a jato contidos em seus pseudo-membros, escrevendo breves mensagens de vapor no céu e se colocaram sobre o invólucro do segundo avião. Estavam rebocando dezesseis caixas de plástico verde que se assemelhavam a lingüiças surrealistas. As caixas eram do tamanho de um homem. As aranhas-robôs abriram a porta do avião. Duas entraram. Após um instante começaram a apresentar à porta bonecas de tamanho humano, rígidas e imóveis. As bonecas foram colocadas nas caixas com muito cuidado. As caixas, cada uma delas acompanhada por uma aranha-robô, foram retiradas da bolha verde e levadas para o grande disco que estava suspenso sobre o mundo. Dezesseis caixas e dezesseis aranhas-robôs entraram no disco. Nesse instante a bolha superior explodiu, implodiu, desapareceu. Não havia mais nenhum segundo avião. Mais nada. Então a bolha inferior estourou suavemente. O avião que fazia serviço entre Estocolmo e Londres continuou normalmente seu vôo. A abertura do chão da grande nave espacial se fechou silenciosamente e o disco subiu em direção às estrelas. As estrelas acabaram se dissolvendo e Russell mais uma vez se encontrou perdido dentro do imenso espaço da Esfera da Criação. Não estava vivo e não estava morto... Não passava de um pensamento verde numa penumbra verde — um fio de consciência no profundo e impossível silêncio da não-essência. O fio estremeceu e o movimento se revestiu de um murmúrio... "É assim que os espectros criam outros espectros. Foi assim que conseguimos as cópias. O que aconteceu com o avião que de Estocolmo estava se dirigindo a Londres, também aconteceu com a caravana da pimenta vermelha que estava saindo do Reino de Ullos para ir ao Reino Superior e Inferior de Gren Li. O mesmo procedimento foi aplicado no caso da colônia daqueles que vocês chamam de o Povo do Rio. Eles, como seus companheiros, foram englobados em Esferas de Criação projetadas. As cópias foram feitas enquanto os originais não percebiam nada do que estava acontecendo. As cópias foram confeccionadas molécula por molécula, batida de coração por batida de coração, pensamento por pensamento... Por isso, Russell Grahame, Membro do Parlamento eleito em Middleport North, voltou para Londres e pediu demissão do Partido Trabalhista Parlamentar. Anna Markova, que de vez em quando desfruta do privilégio de viajar de Moscou para Londres, continua publicando seus artigos na imprensa soviética. E Farn zem Marur continua servindo a Absu mes Marur, gonfaloneiro das torres ocidentais numa terra distante, em nome da Rainha branca e da Rainha preta..." "O conhecimento é um fardo muito pesado, não é mesmo?" continuou a voz murmurante. "Meu filho, como você vai encarar o fato que você e seus companheiros não passam de cópias daqueles que nunca duvidaram que seus corpos e suas mentes estavam sendo copiados, para ir povoar um mundo desconhecido? Russel Grahame está num outro lugar, Anna Markova está num outro lugar, Farn zem Marur está num outro lugar. Todos que vivem atrás da barreira de névoa são os duplos de outros que continuam existindo num outro lugar. Esses duplos só têm uma modificação mínima na área que diz respeito à fala. São duplos que recebem suprimentos duplicados, que têm animais duplicados e moradias duplicadas. Você poderá dizer agora que os Vruvyir arrancaram vocês de seus próprios mundos? Está demonstrado que eles nunca fizeram isso. Eles criaram vocês. E por isso, com certeza, podem considerar vocês como suas propriedades?" Seguiu-se o silêncio, um silêncio verde. O tempo parecia ter sumido. Os minutos, as horas, os dias, os anos, os séculos se dissolviam no oceano verde e opaco que enchia a Esfera da Criação. A criatura que sempre pensara ser Russell Grahame quase se dissolveu também. Mas ainda havia, em algum lugar, algo parecido com um grito de desafio, uma valente ação a salvaguardar da sanidade, um surto de afirmação. "Mas eu sou!" gritou uma voz incorpórea. "Eu sou eu mesmo! Eu existo! Eu penso! Eu lastimo! Eu espero! Eu não sou propriedade de ninguém! Eu sou um homem!"
O murmúrio se manifestou mais uma vez: "Criança, o que é isso? É magnificência ou é loucura? Você viu o que viu." "Eu sou eu mesmo!" urrou a voz. "Deixe então que eu seja destruído por quem é capaz de fazê-lo! Ninguém poderá me possuir!" "Filho", afirmou o murmúrio, "você realmente está vivo. Você tem permissão para saber disso. Você está vivo e tem a capacidade de produzir novas vidas. Por essa sua faculdade você supera os que atravessaram os anos-luz para modelar você na imagem de um homem. Os Vruvyir estão mortos. Preencheram seu papel desde a alvorada da criação. Mas agora estão mortos. Você é a imagem viva de um homem e pode criar. Eles não passam de espectros de outros espectros, duplicados da mesma forma em que você o foi — porém não do original, mas pela imagem da imagem de uma imagem, durante épocas sem fim. Eles chegam a você do passado. Sua magnificência e suas capacidades estão quase que esgotadas. Você e sua espécie — verdadeiros filhos deles — são um ato de fé, uma oferenda ao futuro... Filho, amanhã, ou no dia seguinte, ou no ano seguinte, ou no século seguinte, ou no milênio seguinte, a mnemônica falhará, a cinética falhará e a última Esfera da Criação não passará de uma lenda nas mentes das crianças.
Deixe que os filhos dos filhos de seus filhos vivam para provar que os Vruvyir, lançando-se para longe de sua estrela original, não cometeram um ato inútil... Descanse agora, porque o fardo é muito pesado. Descanse, e se prepare para pagar o preço por ter insistido em querer mergulhar nas profundezas." A atmosfera verde tremeu, tornou-se mais verde. Nada mais existia, dentro de toda a eternidade, a não ser a vertigem do cansaço absoluto. Nada mais existia, dentro de toda a eternidade, a não ser o mais completo e negro esquecimento.
A luz do dia foi avançando vagarosamente pela grande savana verde e revelou dois caixões plásticos plantados no meio da rua, entre o hotel e o supermercado. Um guerreiro da Idade da Pedra, vestido de forma absurda com um casaco de peles de animais, calças de tecido rústico e sandálias trançadas, com um machado de aço em uma das mãos e meia dúzia de frangos depenados seguros pelo pescoço e jogados por cima do ombro, saiu com passo decidido da savana e começou a caminhar pela rua em direção ao Erewhon Hilton. Reparou nos caixões e parou. Parou no mesmo instante em que os ocupantes dos caixões empurravam as tampas para cima. Russell saiu primeiro. Olhou em volta, piscou, cambaleou e levou a mão à cabeça. Foi então que ouviu o gemido de Anna que ainda estava deitada a seus pés. Inclinou-se e ajudou-a a se levantar. Abraçaram-se por um instante, apertando um ao outro, sem dizer uma única palavra — pois tinham coisas demais a dizer. Olharam estupefatos para o hotel silencioso e finalmente repararam no guerreiro da Idade da Pedra.
O guerreiro soltou um grito, largou o machado e os frangos e correu para perto deles. Enquanto corria ouviu mais um grito que vinha do Erewhon Hilton. "Russell, meu amigo!" disse Ireg. "Anna! Quanto tempo! Vocês vivem! Isso basta! Meu coração está transbordando." Passou a abraçá-los. Russell e Anna ficaram a olhá-lo, desnorteados. Durante o último encontro o vocabulário de Ireg não superava o de um selvagem muito primitivo. "Quanto tempo?" perguntou ansiosamente Russell. Ireg abriu a boca num largo sorriso. "Tempo bastante para eu aprender muitas coisas. Minha cabeça está zunindo de tanto aprender." Antes que Russell conseguisse insistir para que ele se explicasse melhor, o pessoal começou a sair correndo do Erewhon Hilton. Eram rostos conhecidos. Vozes conhecidas. Assim mesmo... Assim mesmo havia uma diferença. Estavam mais magros e mais vigorosos. Seus rostos estavam enrugados pelo sol e pelo vento. Seus corpos eram musculosos pelo exercício e eretos pela confiança. Mas a maior diferença estava na idade. Os cabelos de John Howard eram cinza-prateados. Marion Redman estava na última fase da gravidez. Robert Hyman tinha perdido um braço e o coto estava cicatrizado. Selene Bergere estava carregando um neném no colo. Mohan das Gupta estava cego. Todos os outros apresentavam mudanças, nem que fossem mudanças sutis. Russell passou a língua sobre os lábios. Olhou para Anna. Ela estava cambaleando. Estendeu o braço para sustentá-la. Em volta deles as pessoas estavam falando, rindo, chorando, perguntando. Ele não ouvia nada, só o pensamento que rolava em seu cérebro e que parecia continuar trovejando: "Mas só foi anteontem... só foi anteontem..." Olhou para John Howard, reparou que os lábios dele estavam se mexendo e não conseguiu se concentrar o suficiente para entender as palavras. Antes das explicações, antes dos apertos de mão, antes dos beijos e dos abraços, precisava de uma resposta para aquela única, terrível e urgente pergunta. Russell olhou para John Howard e interrompeu a torrente de palavras. "Quanto tempo? Quanto tempo faz, John?" A algazarra parou. "Muito tempo", John respondeu com cuidado. "Muito, muito tempo... Pensamos que vocês tivessem morrido." "Quanto tempo?"
"Tenha calma, Russell", ele respondeu. "Você não sabe?" "Por Deus, estou perguntando!" "Três anos e meio — do nosso tempo." John Howard sorriu. "E quanto foi — no seu tempo?" Mas Russell não chegou a responder porque teve que segurar Anna que estava desmaiando. Ao mesmo tempo John estava se recuperando do choque recebido. "Vamos, minha gente", disse em tom enérgico. "Vamos levá-los para dentro para que possam se recuperar. Não vai demorar, e todos vamos ficar sabendo o que foi que aconteceu. E vamos tirar aqueles malditos caixões dali. Eles trazem à tona um excesso de memórias." Russell e Anna logo se encontraram instalados em duas cômodas poltronas da sala de estar do Erewhon Hilton. O desmaio de Anna foi muito breve. A cor estava voltando ao seu rosto, enquanto bebia vagarosa¬mente um copo de água. John pediu para todo mundo se afastar da sala, com exceção de lreg e Marion Redman que com o passar do tempo tinha se transformado na médica oficial do grupo. John teria preferido que Ireg saísse também, mas Ireg não se deu por entendido. Russell e Anna não eram amigos dele? Não era ele quem os vira primeiro? John Howard achou mais prudente não insistir muito frente a um guerreiro da Idade da Pedra, só parcialmente civilizado, e que pesava mais de duzentas libras. Marion perguntou, "Você está se sentindo melhor? Já é ruim chegar aqui, dentro de um caixão uma vez — mas chegar dessa maneira duas vezes..." Lançou a ambos um olhar carregado de compaixão. "Estou bem agora", disse Anna. "Foi uma reação muito boba. Já estou bem. É que —" Pareceu procurar a expressão apropriada. Russell apanhou a mão dela, apertando-a. "Não tem pressa", disse John Howard. "Realmente, não tem pressa. Vocês gostariam um resumo por pontos altos do que aconteceu aqui, do nosso lado? Em seguida, quando estiverem com vontade de falar, vocês poderão contar aos poucos o que foi que aconteceu com vocês. E podemos deixar todos os detalhes para mais tarde." Russell respirou fundo. "Gostaríamos muito disso". Sorriu. "Mas faço questão de não sermos os únicos a ficar desnorteados. Acho que é mais do que justo que você saiba que nós temos a impressão de que nossa ausência demorou somente dois dias." John olhou para Russell, boquiaberto. Russell logo se sentiu melhor. "Tome um gole de água", sugeriu.
"Tenho a impressão que você está precisando de um." "Touché", disse John. "Há choques para todos. Vou tentar controlar minha curiosidade até que vocês tenham ouvido nossa história... Mais ou menos dez dias após sua valente partida dentro daquele barquinho, começamos a ter sérias dúvidas. Após um mês, a maioria de nós estava pensando que vocês tinham sucumbido... A propósito, onde está Farn? Está vivo?" Russell e Anna se entreolharam estupefatos. Russel disse: "Não sabemos. Estou porém pronto a apostar que foi entregue por pacote registrado à Torre de Marur, mais ou menos da mesma maneira em que nós chegamos aqui... Espero que esteja vivo. Daqui a um pouco vou contar tudo o que aconteceu — ou pelo menos tudo que nós pensamos que aconteceu. Você ainda tem a palavra." "Pois não, desculpe. O que é que eu estava dizendo? Sim, acabamos por acreditar que vocês tivessem morrido. Ficamos muito tristes. Mas a vida continua. Tínhamos que fazer alguma coisa, tínhamos que fazer planos, não fosse por outro motivo do que evitar de ficarmos todos neuróticos. Mas nossos planos não incluíam nenhuma nova tentativa de passar pela barreira de névoa, pelo menos no começo, e não até sabermos mais e sermos mais equipados... Então decidimos um plano de fortalecimento e de educação. Isso não incluía somente nós", olhou para Ireg, "mas qualquer outro ser humano na nossa mesma situação. Sentíamos que precisávamos encontrar uma base de compreensão e de aceitação mútuas. Pareceu-nos um projeto de valia." "É muito mais do que isso", Russell disse sério. "É a nossa única esperança de sobrevivência e sanidade mental." "Você está lembrado que Janice começou a criar frangos?" perguntou John. Russell sorriu. "Como se tivesse acontecido ontem." "Quando tudo começou não tínhamos a possibilidade de sabê-lo, mas a coisa se tornou extremamente importante. Trouxe uma revolução social e histórica." Anna interrompeu. "Frangos nunca provocaram revoluções", observou em tom cáustico. "Precisa de pessoas — pessoas muito especiais." "Pois nesse caso, ambos resultaram indispensáveis", disse John. "Em três anos nossos amigos da Idade da Pedra —" virou-se para Ireg: "Você não se importa se o chamamos Povo da Idade da Pedra?" "Não se preocupe, John", Ireg disse rindo. "Nós chamamos vocês de Povo do Alimento Enlatado."
"Muito apropriado, Ireg, velho amigo", e Russell começou a rir. "Pois bem, dentro de três anos", continuou John, "Ireg e seu povo se transformaram em granjeiros de grande sucesso. Isso acabou por modificar as atitudes e toda a economia deles. Acharam um substituto local para o trigo — é um daqueles capins altos e duros. As sementes tem um paladar que lembra milho temperado com vinagre. Também descobriram uma espécie de couve brava, e algo que parece e tem o paladar de um cruzamento entre a batata e a cebola. Para encurtar a história, eles agora têm uma cultura agrícola." "E como foi que isso aconteceu?" "Janice — essa mulher notável que merece todo o meu respeito — foi morar com eles. Ireg e Ora vinham nos ver com bastante regularidade e depois de algum tempo ela decidiu ir morar com eles, levando uma dúzia de galinhas e um galo. Num primeiro tempo foi simplesmente para demonstrar-lhes como lidar com as galinhas e produzir ovos e frangos. Ficou na colônia do rio durante quinze dias mais ou menos. Então voltou para cá. Mas não conseguiu se acostumar. Tinha achado sua missão na vida. Por isso, voltou para a colônia do rio, e desde aquele tempo continua lá. Ensinou aos homens como cultivar a terra e às mulheres como praticar a economia doméstica. E agora, que Deus nos ajude, está ensinando a eles como ler e escrever." "ABCDEFGHIJ", falou Ireg muito satisfeito. "Uma vez dois igual a dois, duas vezes dois igual a quatro, três vezes dois igual a seis, quatro vezes dois igual a oito, cinco vezes dois igual a dez. Eu tenho dez dedos e dez artelhos e isso é igual a vinte. O que é que você acha, Russell?" "Eu acho", disse Russell muito solene, "que você, Ireg, é um grande homem." Virou-se para John: "E que tal nossos amigos da Torre de Marur?" John sorriu. "É muito mais difícil lidar com eles do que com o Povo da Idade da Pedra. O fato é que eles tem alguma sofisticação e alguma educação, e ao mesmo tempo uma tendência a ficar rigidamente presos à sua própria ortodoxia. Absu parece incapaz de compreender que não somos mágicos. Graças a Deus isso não lhe é um obstáculo e sempre coopera nos empreendimentos mais importantes. Mas continua acreditando que fazemos tudo com algum truque de espelhos." "Que empreendimentos?" "Nosso projeto número um é a construção de um planador." "Um planador?" Anna ficou estupefata.
"Um planador que possa acomodar um homem", explicou John. "Pensávamos que vocês tivessem morrido. Imaginamos que tivessem ficado congelados no centro da barreira de névoa. Calculamos então que se era impossível atravessar a névoa, poderíamos tentar passar por cima dela. Nessa nossa prisão temos fartura de bons ventos ascendentes. A pele de pulpul é muito mais leve e mais resistente de que madeira compensada, quando recebe um tratamento adequado. Fizemos pequenos modelos em escala e mostramos na prática a Absu como funciona o princípio do mais-pesado-que-o-ar. Dessa maneira agora estamos trabalhando juntos na construção de um planador para duas pessoas. Acho que poderá ficar pronto daqui a um ou dois meses." "E como você se propõe de levantá-lo para o ar?" "Grupo de pulpuls. Sabem correr como o vento quando é necessário." Houve um breve silêncio. Russell sentia-se zonzo. Havia muitas perguntas que ele queria fazer, e havia muitas coisas que ele queria contar. "Escute aqui", disse John calmo. "Temos tantas coisas a contar que vamos levar dias até contá-las todas. Como você deve ter reparado, já começamos a inaugurar a segunda geração. Tivemos alguns incidentes — Robert perdeu o braço cortando uma árvore e Mohan quase morreu numa explosão — mas vamos continuar com isso quando você estiver mais descansado, e depois de você ter contado o que foi que aconteceu pelo seu lado." Russell suspirou. Quantas coisas aconteceram no tempo que ele e Alma tinham perdido. Mas também aconteceram muitas coisas no tempo só por eles conhecido. Eram muitas coisas, coisas assustadoras. E ao mesmo tempo, coisas maravilhosas. Continuava a ouvir o eco de um murmúrio: "O conhecimento é um fardo muito pesado, não é mesmo?" Realmente era um fardo pesado — o fardo maior era saber que não passava de. uma cópia. Seria justo partilhar esse conhecimento e talvez destruir, em seus amigos, o sentimento de individualidade, imprescindível para a sobrevivência? Nem ele e nem Anna tinham conseguido ainda assimilar de fato ou aceitar os conhecimentos recebidos. Ambos ainda estavam em estado de choque. Talvez, mais tarde, eles não mais se importariam que Anna Markova, Mark I, estava em alguma parte da Europa, escrevendo seus artigos, ou que Russell Grahame, Mark I, tinha abandonado a carreira política e estava, quem sabe, se acabando na bebida nas províncias ou então ganhando rios de dinheiro com uma indústria.
Interrogou Anna com os olhos, perplexo. Anna respondeu ao olhar com um sorriso. A resposta estava nos olhos dela. Sentiu, por instinto, que era a resposta certa. Sentiu, por instinto, que não poderia arcar com a responsabilidade e a injustiça de esconder esses conhecimentos dos outros. Russell falou primeiro com Ireg. "Ireg, meu amigo, perdoe-me. Estou lhe pedindo agora de deixar-nos sozinhos. O que eu preciso dizer, vai ser difícil de dizer até ao meu próprio povo. Qualquer dia vou contar tudo a vocês também. Mas nesse momento os pensamentos são pesados demais e não poderia encontrar as palavras apropriadas." Ireg despediu-se com dignidade. "Russell, é bom você ter voltado para ficar conosco. Eu — eu compreendo. Janice diz que somos filhos dela e eu sei que há coisas que as crianças não podem saber. Vamos nos encontrar breve?" "Vamos conversar muito breve." Ireg, um pouco acanhado, apertou a mão de Russell. Quando saiu, Marion perguntou: "Você tem certeza que você está querendo falar agora? Vocês ambos estão muito abatidos." "Acho melhor falar agora", respondeu Russell. "Mais tarde poderia ser tarde demais, porque já agora estou começando a duvidar um pouco de que tudo aconteceu ... Só quero perguntar uma coisa antes de começar. Vocês tem tido outros encontros com as "fadas"? "Foram vistas, mas já faz algum tempo." disse John. "E sempre foram vistas voando. E todas as vezes que alguém repara nelas, elas desaparecem." "Elas tem rostos iguais aos dos cavalos-marinhos", disse Russell. "Cavalos-marinhos?" "Cavalos marinhos com uma expressão muito solene." "Que espécie de criaturas são essas?" "Espectros. São nossos amos. Mas também são os espectros de espectros." John Howard respirou fundo. "Você não poderia começar pelo começo?" "Claro, eu poderia", respondeu Russell. "O começo foi a barreira de névoa." Enquanto falava, sentia o cansaço desaparecer. Sabia que mais tarde voltaria dobrado. Mas enquanto falava, sentia algo novo, sentia compaixão. Compaixão pelos Vruvyir — a raça dos dominadores condenados que saíram das estrelas para semear a vida, pagando por ela com sua própria mortalidade. Percebeu que estava começando a compreender os Vruvyir. Sentiu que estava começando a ouvir a música deles. Ou tudo não passaria de uma ilusão? Porque, afinal, agora sabia que eles mesmos não passavam de meros fantasmas. Contou a John e Marion a respeito da experiência de passar pela névoa. Falou no instante em que pela primeira vez avistou a grande coluna e a enorme bolha verde e translúcida que era a esfera da Criação. Falou no encontro com as aranhas-robôs e da caminhada até a cidade que não passava de um complicado mausoléu. Em seguida tentou descrever a aparição/ materialização/projeção dos Vruvyir. Finalmente, atropelando as palavras, procurando as expressões mais apropriadas sem achá-las, desejando transmitir a imagem certa, tentou descrever sua própria experiência dentro da Esfera de Criação. Quando terminou, Russell sentiu-se exausto. Quan¬do terminou, John e Marion estavam boquiabertos. Quando terminou, Anna estava chorando. Enfim John perguntou: "Então nós também somos só espectros?" "Espectros vivos", retrucou John. "Doppelgaengers, com a habilidade de procriar. Nós podemos criar a realidade. Os Vruvyir não podem. Eles podem duplicar-se, mas não podem procriar. Suas energias já estão esgotadas."
"E você está me dizendo que os Vruvyir criaram a vida sobre a Terra e em seguida semearam os outros planetas?" "Foi isso que eles nos explicaram", disse Russell encolhendo os ombros. "Não estou pedindo que você acredite em nós, John. Estou simplesmente contando, talvez de uma maneira um pouco confusa, o que aconteceu entre nós e os Vruvyir e o que eu assisti dentro da Esfera da Criação." "Minha experiência pessoal foi a mesma que a de Russell", disse Anna. "Foi um acontecimento totalmente subjetivo. Pode perfeitamente ser uma alucinação. Mas para mim, isso realmente aconteceu." John Howard suspirou. "Isso tudo contraria frontalmente meu treinamento científico, mas apesar disso, acredito no que vocês ambos estão dizendo. Acredito até nas coisas que os Vruvyir disseram ou revelaram a vocês. Acredito, porque é fantástico. "Soltou uma gargalhada soturna. "Se você tivesse me dado uma explicação mais ou menos racional para a nossa situação, acho que não teria acreditado em uma só palavra." "O que é que eles querem de nós?" Marion perguntou de repente. "O que é que essas terríveis criaturas estão querendo de nós?"
"Existe uma sentença que ficou gravada em meu cérebro", respondeu Russell em voz baixa. "Deixe que os filhos dos filhos de seus filhos vivam para provar que os Vruvyir, lançando-se para longe de sua estrela original, não cometeram um ato inútil." "Na Terra", Anna disse, "existem armas nucleares suficientes para destruir a humanidade dezessete vezes. Talvez os Vruvyir saibam como tudo isso poderá acabar. Talvez eles desejem salvar alguma coisa — se há alguma coisa que vale a pena salvar... Talvez eles querem que cresçamos." John franziu a testa e passou a mão nos cabelos prateados. "Então nós, os da Torre de Marur e o Povo da Idade da Pedra somos do mesmo sangue?" "Sempre foi assim", respondeu Russell, "caso você não tivesse reparado antes." "E como vai ser o futuro?" "O futuro é nosso, não pertence aos Vruvyir... Parece que aqui estamos e aqui ficaremos — para viver e para morrer. Qualquer dia não haverá mais Vruvyir. Acredito que qualquer dia não haverá mais nenhuma barreira de névoa, e as aranhas-robôs, tão cômodas, não entregarão mais nossos mantimentos. Teremos que fazer tudo sozinhos. Somos os herdeiros." "E o que é que vamos fazer? Vamos construir uma nova sociedade? Vamos nos integrar? Criar Utopia em Erewhon?" Soltou uma gargalhada amarga. "Resta ainda a pergunta clássica: Você gostaria que sua filha se casasse com um selvagem da Idade da Pedra?" Russell estava cansado. "Já existe a resposta clássica: Gostaria que minha filha se casasse com um homem... Vamos tentar fazer tudo da melhor ma¬neira. Não podemos fazer mais do que isso." "Agora eles precisam descansar", interveio Marion com energia. "Eles estão no limite da resistência e precisam -urgentemente de descanso. Temos todo o tempo necessário para falar nesse assunto numa outra ocasião. Agora eles estão precisando ficar em paz." Enquanto ela falava, Anna fechou os olhos. Russell colocou uma mão sobre o peito dela e também fechou os olhos. Dormiram durante o dia todo. Naquela mesma noite, um pouco antes do crepúsculo, Absumes Marur chegou cavalgando ao Erewhon Hilton. Ficou muito surpreso de encontrar Russell e Anna aparentemente normais. "Farn zem Marur, descobridor de caminhos e guerreiro bastante valente, também voltou ao seu clã", explicou Absu. Acrescentou de forma um pouco misteriosa: "Por isso, alegro-me muito de encontrar meus amigos como estão."
"Como está Farn?" perguntou Russell. "Está bem? Descansou bastante?" Absu respondeu à pergunta com outra pergunta. "Sir Russell", disse com a maior cerimônia. "Preciso saber como meu descobridor de caminhos se portou. Ele fez alguma coisa que possa redundar em desonra para seu clã?" Russell ficou abalado. "Farn zem Marur, seu vassalo e nosso amigo e companheiro, é um homem valente. Ele aturou muito, mostrando grande coragem." "Estão não há dívida a ser resgatada?" Russell não conseguia entender. "Que dívida?" Absu não escondeu seu alívio. "Não faz mal, Russell. A pergunta fazia parte de minhas obrigações. Estou satisfeito em saber que o descobridor de caminhos se portou como um homem. Isso é suficiente." "Como é que ele está?" "Está morto." "Morto!" "Ele voltou atormentado por visões", explicou Absu. "Falou num sol verde e nas vozes de dragões. Ele disse muitas coisas que eu não consegui compreender, e que, aliás, faço questão de não compreender. Finalmente teve um rasgo de lucidez e viu que estava doente, e então empalou-se sobre sua própria lança. Talvez seja melhor assim. Não poderia aturar de vê-lo tão aflito." "Absu", disse Russell, "Farn zem Marur não era louco. Foi um companheiro valente, e não tenho dúvidas de que ele disse a verdade a respeito do que viu e ouviu. É muito difícil encontrar as palavras certas, mas quero explicar a você tudo o que aconteceu."
Quando Russell terminou seu relato Absu ficou em silêncio durante muito tempo. Estava sentado com Russell e Anna nos degraus da entrada do hotel, olhando para as estrelas que revolviam, estranhas e distantes num céu ainda desconhecido. "Parece-me evidente", disse Absu, "que os Vruvyir são grandes mágicos." Sorriu. "Mas vocês também são um clã de mágicos. Dessa maneira têm algumas boas possibilidades." Russell sacudiu a cabeça. "Não haverá nenhuma guerra, Absu. Não é uma questão de medir lanças com mágicos." "Eu sei disso, meu amigo. Temos uma tarefa. Nossa tarefa é mostrar que somos homens." "Nossa tarefa", disse Anna, "é mostrar que somos todos da mesma raça." "Sobretudo", disse Russell, "precisamos crescer. Precisamos realmente crescer."
Mas foi Absu mes Marur, o duplo de Absu mes Marur, senhor do clã Marur, gonfaloneiro das torres ocidentais, auriga das caravanas de pimenta vermelha, que resumiu tudo numa só sentença. "Está escrito", disse suavemente, "que se a semente for fértil e o tempo for certo, a colheita será farta. Assim está escrito na terra. Assim está escrito no céu."
No ano 741 D.V., o primeiro foguete orbital estava pronto sobre sua plataforma de lançamento em Port Grahame. O invólucro externo do foguete era um pirotitânio. De um lado estava pintado seu emblema: um cavalo-marinho alado vermelho. A dois quilômetros de distância, dentro de uma casamata de concreto, construída no local onde antigamente havia um hotel, um homem e uma mulher estavam controlando a contagem regressiva. Jansel Guptiregson tinha cabelos loiros compridos e um rosto lindíssimo que não deixava transparecer seus brilhantes dotes de matemática. Van Graymark era calvo, baixo e muito viril. Era o técnico em telecomunicações. Eles se amavam. Além disso, gostavam de muita gente. "Noventa segundos", disse Varn. "Todos os sistemas estão operando. O que poderia parar-nos agora? Aquele velho e maldito cavalo-marinho vai levantar "Varn, os cavalos-marinhos não existem. Não entendo por que você insistiu tanto em tê-lo por símbolo. Por que você não quis um pulpul alado? Ou uma lança alada?" "'Você não leu o livro de Howard?"
"Sessenta segundos. É claro que eu li o livro de Howard. Continua sendo matéria obrigatória nas escolas médias. O que eu não entendo é por que eles não dedicam um pouquinho mais de tempo a religiões comparadas." "No livro de Howard", disse Varn, "há a história da Criação. Você deve estar lembrada, com certeza, do encontro do Sir Russell com o cavalo-marinho alado no Globo da Vida." "Daí?" "Daí gostei da idéia. É absurda, é linda. Eu gosto... Quarenta e cinco segundos." "Mas por que um mito? Por que não algo real. algo prático?" Varn Graymark deu uma risada. "Logo você, uma matemática, fazendo pouco de mitos. O que mais você vai inventar?" "Trinta segundos", disse Jansel. "Mito ou não, vou admitir que é uma criatura linda. Possivelmente seu fascínio está em ser tão absurda." Varn riu mais uma vez. "Minha mãe continua acreditando que o Sir Russell foi o primeiro homem que conseguiu sair do Jardim de Erewhon. Todas as noites ela reza para o fantasma dele." "Você acredita em fantasmas?"
"Vinte segundos. Não, eu acredito em gente. Mas acho que todo mundo deveria ter a capacidade de ter alguma extravagância espiritual." "Quinze segundos, disse Jansel. "E qual é a sua extravagância espiritual?" Varn riu. "Quero encontrar um lugar que não existe", disse. "Foi por isso que senti atração pelos foguetes. Quero encontrar um planeta chamado Terra. A morada dos deuses." "Dez", disse Jansel. "Você é maluco." "Nove. Sou mesmo." "Oito. Quero um filho de você." "Sete. Com muito prazer." "Seis. Como é que vamos chamá-lo?" "Cinco. Absu." "Quatro. Por quê?" "Três. Porque sim." "Dois. Não é resposta." "Um. Você me entendeu." "Zero. Entendi." "Saiu!" berrou Varn entusiasmado. "Está subindo e se afastando! O primeiro estágio da jornada. Um cavalo-marinho de fogo lançando-se entre as estrelas." Olhou pela janela de vidro triplo, ouvindo o rugido modulado dos motores do foguete. Era como a vibração de uma enorme corda musical aumentando no céu. Por um instante o cavalo-marinho vermelho pareceu estar sentado majestosamente sobre sua cauda de chamas. Em seguida, como tendo tomado uma decisão, elevou-se com uma aceleração macia descrevendo o amplo arco que o levaria à sua elipse orbital. Varn Graymark ficou pensando e, como costumava fazer, seus pensamentos se expressavam em imagens. Naquele dia uma chave estava abrindo uma fechadura. Naquele dia estava se escancarando uma porta. Naquele dia estava aparecendo o começo de uma escada. Sem dúvida, a ascensão às estrelas seria demorada e cheia de perigos. Mas, também sem dúvida, era da própria natureza do homem se arriscar nessas jornadas, da mesma forma que era da própria natureza do homem querer realizar um sonho.

 

 

                                                                  Edmund Cooper

 

 

              Voltar à “Página do Autor"

 

 

                                                   

O melhor da literatura para todos os gostos e idades